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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A Espada e a Chama / Bernard Cornwell
A Espada e a Chama / Bernard Cornwell

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A Espada e a Chama

 

A diabólica ameaça que pende sobre o reino de Mensadore a perigosa demanda empreendida por Quentin, um dos jovens acólitos do templo do deus Ariel.

Quentin reina agora como Rei Dragão, e é confrontado com a investida mais violenta de todas: o insidioso ataque do mal que cresce dentro de si mesmo. Como um jovem acólito do deus Ariel, ele empreendera alegremente uma viagem que o afastaria dos velhos deuses, levando-o ao encontro do Altíssimo. Desta vez já não é apenas a sua vida, ou a sobrevivência do reino que se encontram em jogo. Nimrood tem em seu poder, como refém, o próprio filho de Quentin. O Rei Dragão perdeu a sua espada e perdeu o seu rumo. Irá também trair o seu voto solene com o Altíssimo?

 

A figura curvada subia penosamente a trilha sinuosa, apoiando-se pesadamente no seu cajado. Parava muitas vezes para descansar e olhava para baixo, para as calmas planícies, desviando a vista para oeste, na direcção de Askelon. Era um ancião de idade incalculável e envergava as vestes e o capuz de um sacerdote. Tinha as feições envoltas em densas sombras e, embora o dia estivesse quente e o sol brilhasse, seguia o seu caminho coberto dos pés à cabeça. Visto à distância, parecia um escaravelho preto a subir um montículo de terra, carregando consigo a pesada carapaça.

Quando chegou ao cimo do planalto, sentou-se numa pedra, por baixo de uma velha árvore gasta pelo vento, que lançava os seus poucos ramos rugosos no caminho. já muitos peregrinos se tinham sentado naquela pedra, elevando aos deuses as suas preces, na esperança de que estes lhes enviassem algum oráculo. Mas este viandante não era peregrino nem ia ali rezar.

Em vez disso, deixou-se ficar sentado, contemplando a região de olhos franzidos, Os trinados dos pássaros enchiam o ar, que tremeluzia com as ondas de calor que se elevavam da terra. Apesar da neblina azul em que a distância a envolvia, a sua apurada visão de águia conseguia distinguir os contornos verde-escuros da floresta de Pelgrin, que se estendia para oeste como um vasto mar verde. Lá em baixo, no vale, os camponeses trabalhavam nos campos, por entre as searas novas. Os gritos que lançavam aos bois preguiçosos subiam a encosta do monte como súplicas a um deus que não as ouvia.

O ancião desviou o rosto da paisagem calma, que, por baixo do céu azul, límpido e imperturbável, lançava reflexos verdes e dourados. Olhou para o templo branco e silencioso como um túmulo, que se elevava lá em cima. Depois, voltou a pôr-se pesadamente em pé, pegou no cajado e continuou a andar.

Quando chegou ao átrio do templo, parou e encostou-se durante muito tempo ao cajado, como se esperasse um sinal ou como se, apesar de ter ido até ali, não conseguisse decidir se havia de acabar o que tinha começado. Passado algum tempo, virou o rosto para leste, na direcção das montanhas, que pareciam gigantescos ombros encimados por poderosas cabeças, Acima dos cumes longínquos, viu nuvens escuras formando-se e sendo empurradas pelo vento para oeste.

O velho monge fez que sim com a cabeça e atravessou o átrio de pedra até às escadas do templo. Subiu os degraus, ergueu a argola de ferro da grande porta de madeira e bateu várias vezes. Passados uns momentos, a porta abriu-se e a cabeça de um homem de capa vermelha espreitou para fora:

- O templo não está aberto a esta hora. - O homem olhava para o velho monge com ar de poucos amigos. - Se queres preces ou algum presságio, volta aqui na sétima hora.

- Não vês que sou sacerdote? - perguntou o ancião. - Vim falar com o sumo sacerdote de Ariel.

- Ele não fala com ninguém - replicou o guardião do templo. - Está em retiro.

- Está mesmo? Mas este é um assunto da maior urgência. Tem de falar comigo.

O guardião olhou para o velho e encarquilhado sacerdote com um ar zangado. No seu rosto estava estampado que aquele velhote e o seu cajado eram um grande aborrecimento.

Mas antes de poder responder, o velho sacerdote falou novamente:

- Não te cabe a ti decidir. Chama alguém com autoridade. Senão o sumo sacerdote, então o segundo sumo sacerdote ou o sacerdote de dia.

O guardião do templo rogou uma praga silenciosa ao ancião e fechou a porta. O velho sacerdote ficou uns momentos à espera, de cabeça baixa. Mesmo quando ia erguer outra vez a argola, ouviu passos do outro lado da porta. Um sacerdote jovem de capa cinzenta e cara picada das bexigas espreitou pela abertura. Atrás dele, o guardião esperava, de sobrolho franzido.

- O que queres? - perguntou o jovem sacerdote.

- Quero falar com o sumo sacerdote. Suponho que é permitido. O assunto que aqui me traz é importante.

- Ele não fala com ninguém que não tenha sido anunciado - retorquiu rapidamente o sacerdote.

- Então quero ser imediatamente anunciado - disse o ancião suavemente. Os seus olhos desmaiados endureceram até parecerem duas pedras.

- O sumo sacerdote Pluell está em retiro. Não pode ser incomodado. Sou o sacerdote de dia. Posso ajudar-te.

O ancião sorriu manhosamente.

- Duvido muito. No entanto, vais ajudar-me. Anuncia-me. Vê-se bem que és um homem suficientemente esperto para arranjares maneira de o fazer.

O jovem contorceu o rosto num esgar temível e inspirou, para melhor poder gritar ao ancião que se fosse embora. Mas antes de ele falar, o sacerdote mais velho levantou a mão e disse:

- Faz o que te digo. - Falou com simplicidade, mas as suas palavras não podiam ser mais autoritárias. O sacerdote mais novo sentiu-as como uma bofetada e fechou a boca instantaneamente.

- Espera ali - murmurou o sacerdote de dia, apontando para um banco de pedra que ficava debaixo de uma árvore, encostado ao muro, do outro lado do átrio do templo.

- Eu espero - disse o ancião, virando-se e começando a descer lentamente os degraus do templo.

- Que nome lhe digo? - perguntou-lhe o jovem sacerdote, elevando a voz.

O ancião parou, encostou-se ao cajado e pareceu ponderar cuidadosamente na questão que lhe fora posta.

- Então? - inquiriu o sacerdote de dia.

- Diz-lhe - começou por fim o ancião - que chegou um amigo das bandas do sol-nascente. - Uma mão encarquilhada desapareceu por entre as pregas das suas vestes. - E dá-lhe isto. - Retirou a mão e estendeu-lhe um objecto escuro e brilhante.

O jovem saiu de dentro do templo e pegou no talismã, que pôs na palma da mão e examinou com curiosidade.

O objecto era uma medalha redonda e achatada, feita de pedra preta, fria, e tinha inscritos estranhos símbolos, que ele não reconheceu. Enquanto segurava o talismã, percorreu-o uma sensação estranha e agoirenta: parecia que a condenação se juntava à sua volta, como as altas nuvens escuras que se formavam no céu, Sem mais palavras, virou-se e voltou a entrar no templo. O ancião continuou a descer as escadas e avançou lentamente para o banco que ficava debaixo da árvore. Acomodando-se à sombra, ficou à espera.

O dia foi progredindo preguiçosamente. Ao meio-dia, uns poucos peregrinos solitários chegaram ao templo. O sacerdote de dia foi ao seu encontro e aceitou as suas oferendas. Os peregrinos ficaram à espera e, depois, foram admitidos no templo, onde iam ouvir o seu oráculo. Saíram passado algum tempo e afastaram-se, cavaqueando alegremente, felizes com as boas novas que os sacerdotes lhes tinham anunciado. Nenhum deles reparou no ancião quieto como um ídolo, sentado debaixo da árvore que ficava ao lado do muro.

O crepúsculo chegou, e com ele uma brisa fria, soprando de oriente, perfumada com o doce cheiro almiscarado da chuva. Quando o Sol carmesim e muito brilhante se pôs para lá dos campos dourados do vale que ficava abaixo do templo, apareceu um sacerdote empunhando um tição, com o qual acendeu a tocha do pilone de pedra que se erguia no meio do átrio do templo.

O sacerdote, de costas para o ancião, ergueu o tição, acendeu a tocha e, sentindo-se observado, virou-se lentamente, perscrutando as sombras na direcção do ancião, ainda sentado no banco. À luz da tocha, dois olhos brilhantes cintilaram na escuridão. O sacerdote deu um salto para trás e quase deixou cair a tocha. Depois, virou-se e entrou a correr no templo. A grande porta de madeira fechou-se atrás dele com estrondo, e o som do barulho que fez ecoou pelo átrio vazio.

O ancião não se mexeu; limitou-se a fechar outra vez os olhos e continuou à espera.

As nuvens altas, voando rapidamente ao vento como velas esfarrapadas, escondiam a Lua que nascia por cima do vale. A brisa começava a soprar em rajadas e, muito ao longe, ouvia-se o estrondo abafado dos trovões. Umas poucas folhas secas esvoaçavam às cambalhotas pelas lajes de pedra do átrio, assemelhando-se a ratos a correr. O vento brincava com a tocha do pilone fazendo-a crepitar.

Sentado, de cabeça baixa, o ancião aconchegou-se mais nas suas vestes e continuou à espera.

À meia-noite, o átrio estava escuro e silencioso. As nuvens cobriam o céu e o distante resmonear do trovão parecia cada vez mais perto. O vento frio soprava ininterruptamente de oriente inclinando a chama da tocha e fazendo as sombras saltarem e dançarem em volta do pilone.

Então, no outro lado do templo, apareceu o brilho fraco de outra luz bruxuleante, que se aproximou balouçando na mão que a segurava, acompanhada do ruído abafado de sandálias batendo nas pedras. O ancião levantou a cabeça e sorriu na escuridão. O recém-chegado parou diante da figura sentada. Erguendo a lanterna, abriu uma portinhola, para deixar sair mais luz. Ao brilho amarelo da lanterna, o sacerdote examinou o visitante.

- Quem és tu? - perguntou.

- Por fim, vieste, Pluell.

- Como sabes quem sou?

- És o sumo sacerdote, não és? O sumo sacerdote não tem um nome?

- Tenho e tu sabe-lo. Gostaria de saber o teu.

- Creio que o sabes, senhor.

O sumo sacerdote olhou para o velho rosto e aproximou a lanterna.

- Nunca te vi... nunca. - Depois, acrescentou lentamente: - Ou vi?

O ancião abanou a cabeça.

- Não, talvez não. Há muito que não passo por estes lados.

- Embora andes com esse hábito, não és sacerdote - afirmou Pluell. - Se não passas por aqui há muito tempo, como queres que saiba o teu nome?

- Não recebeste o meu talismã?

- Recebi. - Estendendo a mão, mostrou a pedra preta. O ancião pegou nela e segurou-a ao alto. - É uma peça muito curiosa.

- Muito curiosa mesmo. - O ancião fê-la desaparecer dentro do hábito.

Nessa altura, o céu foi despedaçado por um relâmpago, que iluminou as duas figuras com uma luz pura e irreal.

- A trovoada está mesmo em cima de nós - disse o ancião.

- Quem és tu? - perguntou o sumo sacerdote.

- Já te disse que sabes.

- Ora! Não vou perder mais tempo contigo. Tiraste-me da cama. - Lançou ao ancião um olhar zangado. - Não devia ter vindo.

- E, no entanto, vieste. Porquê?

O sumo sacerdote abriu a boca para falar, pensou melhor e tornou a fechá-la.

- Eu digo-te porquê - entoou suavemente o ancião. - Vieste porque tinhas de vir. Não podias deixar de vir para veres com os teus próprios olhos se era mesmo verdade.

O sumo sacerdote não disse nada. O vento soprava em rajadas e a tocha bruxuleava. Os ramos da árvore estalavam e gemiam ao vento.

- Vieste porque eu te convoquei.

- Velho mentiroso! - retorquiu Pluell. - Quem pensas que és?

- Vieste porque sabes que se aproximam tempos atribulados e que eu posso ajudar.

- És louco. A nossa conversa acabou aqui. Vai-te embora! - gritou.

- Muito bem - replicou calmamente o ancião, levantando-se devagar, como se fosse partir imediatamente. Ao pôr-se em pé, o capuz caiu-lhe da cabeça, pondo à mostra finos caracóis compridos de cabelo branco, que emolduravam um rosto tão sulcado e enrugado como um campo lavrado. Os seus olhos pretos e cortantes brilhavam-lhe no rosto devastado. - Eu vou, mas houve tempos em que o nome Nimrood infundia respeito.

Ao ouvir este nome, o sumo sacerdote recuou involuntariamente.

- Nimrood! - ofegou. - Não pode ser!

- Vês? Afinal conheces-me.

- Mas... tu morreste! Há anos... ainda eu era rapaz... ouvi dizer... que tinhas sido morto na batalha com o Rei Dragão...

- Como vês, não fui - replicou o ancião.

- Nimrood! Nem acredito no que vejo!

- Acredita, senhor! Sou mesmo o Nimrood.

Os relâmpagos atravessavam o céu, libertando trovões que ressoavam por todo o vale. Começaram a cair pesadas gotas de chuva, que ressaltavam ao baterem nas pedras do átrio do templo.

- Esses tempos atribulados de que falaste... o que são? Como podes ajudar?

Nimrood ergueu o rosto para o céu.

- A tempestade veio com toda a força. Não preferes ir para os teus aposentos privados? Parece-me que talvez tenhamos muito que discutir.

O sumo sacerdote Pluell ficou momentaneamente indeciso. Pensando no assunto, lançou a Nimrood um olhar penetrante. A chuva salpicava-lhe o rosto. A tocha do pilone crepitava na escuridão, sibilando como uma serpente.

- Como queiras. Segue-me - disse Pluell, dirigindo-se para a entrada lateral, pouco usada, e deixando o átrio do templo entregue à chuva e à noite.

 

Bria deixou-se ficar ouvindo o gotejar da chuva no torreão que ficava do lado de fora dos seus aposentos. As portas estavam escancaradas, deixando entrar a suave brisa de Verão, que transportava com ela o cheiro limpo e fresco do ar lavado pela chuva. Passarinhos azuis chilreavam na balaustrada, enchendo a manhã com o seu alegre canto.

A rainha virou-se e estendeu o braço para o lado, descrevendo um círculo. A sua mão tacteou os lençóis vazios onde o seu marido devia estar, mas já não estava. Abrindo então os olhos preguiçosamente, murmurou:

- Mas tu nunca descansas, Quentin?

Bria levantou-se e enfiou um roupão. Imediatamente entrou uma serva a correr, envergando um vestido fresco de Verão, de samito azul-celeste, com um cinto de ouro finamente trabalhado.

- Dormistes bem, senhora? - perguntou a jovem.

- Dormi, obrigado, Glenna. Não está um dia lindo?

- Está, senhora. Lindo. - Ao sorrir, os seus olhos brilharam. - Quase tão lindo como vós.

- As tuas lisonjas são trinados de pássaros. - Bria soltou uma gargalhada e o quarto ficou mais claro. - Viste o rei?

- Não, senhora. Quereis que chame o mordomo-mor?

A rainha encolheu os ombros:

- Não é preciso. Sei muito bem onde é que ele foi.

A serva ajudou a sua rainha a vestir-se e, depois, começou a arrumar o quarto. Bria saiu dos aposentos reais e dirigiu-se às cozinhas.

Percorrendo O corredor com ligeireza, desceu O lance de escadas que dava para o salão dos banquetes. Logo que pôs os pés no salão, ouviu gritos e sentiu uma súbita agitação à sua volta.

- Mãe! Ouviste? Oh, já sabes a novidade? - Duas meninas saltitaram para ela, agarraram-lhe as mãos e puxaram-na até à mesa do desjejum.

- E que novidade ouvistes, minhas queridas? - perguntou ela, sorrindo e afagando-lhes as cabeleiras louras.

A mais nova das duas meninas, a princesa Elena, que tinha o cabelo comprido dividido em dois e entrançado com fio dourado, o que fazia brilhar e cintilar de cada vez que ela dançava com os seus pezinhos metidos em chinelas, sorriu alegremente para a mãe, com os olhos verdes luzindo de satisfação por ter um segredo. A irmã, a princesa Brianna, delicada como um rebento de Primavera e vestida de azul-vívo como a mãe, apertou a mão da rainha e disse:

- Anda sentar-te aqui connosco, mãe! Temos tanto para te contar!

A princesa Elena abanou a cabeça vigorosamente.

- Temos, temos tanto para te contar!

- Muito bem - respondeu Bria, instalando-se no banco que estava junto da mesa. - Quais são as vossas novas? Dizei, quero saber já!

A menina mais velha olhou para a irmã e ambas desataram a rir.

As suas gargalhadas eram de pura alegria. Enfeitiçados pela felicidade das princesinhas, vários ajudantes de cozinha pararam a olhar e a sorrir.

- Então, não dizeis nada à vossa pobre mãe? Já não aguento mais! - Bría pegou-lhes nas mãos e apertou-as.

As palavras saíram-lhes ainda no meio de risos:

- A Esme está quase a chegar! A Esme! Não é maravilhoso? - gritaram. - A Esme chega hoje à noite!

- Que novas tão boas! - retorquiu Bria, abraçando as filhas.

- Oh, mas não digas nada ao nosso pai - pediu Brianna.

- Queremos ser nós a dizer-lhe, está bem?

- Está. Será uma surpresa vossa.

- Vamos Procurá-lo! - gritou Elena.

As duas meninas teriam logo largado numa correria se a rainha não as tivesse chamado:

- O rei não está cá, meus amores, Foi de manhãzinha para o templo.

- Também podemos ir? Deixa, mãe - suplicaram ansiosamente.

- Primeiro, vinde comer o desjejum. Depois, veremos. - Bria lançou um olhar rápido pela divisão. - Onde está o vosso irmão?

- Ainda na cama? O Sol já vai alto!

- Oh, não! Pegou num pão de sementes e saiu há muito tempo. Foi às cavalariças encontrar-se com o Toli. Vão os dois passear a cavalo.

- A cavalo! Sempre a cavalo! Não me admirava nada que lhe crescessem cascos e uma crina!

As raparigas soltaram risinhos abafados. A rainha suspirou. Não lhe agradava a ideia de um rapazinho tão pequeno montar cavalos tão grandes. “No entanto, enquanto estiver com o Toli, não lhe acontecerá nada de mal”, pensou.

- Bem, comei o desjejum. Temos muito que fazer para nos prepararmos para a visita da Esme!

Sentaram-se para comer, mas, com a excitação, as raparigas só conseguiram depenicar a comida, Por fim, a mãe deixou-as ir e elas saíram do salão a correr e a rir. Vendo-lhes as tranças a balançar, Bria sorriu.

“Então, a Esme vem cá. Que bom!”, pensou ela. “Como é que as minhas filhas teriam sabido? Bem, não interessa. Já não vinha a Askelon há tanto tempo! Há tempo de mais! Tenho saudades dela.”

Quentin encontrava-se de pé junto da mesa grosseiramente talhada, colocada no meio de um grande rectângulo de pedra. Com a cabeça inclinadas examinava um enorme rolo de pergaminho, preso nas pontas com uma pedra.

- Vê aqui - disse, apontando para o plano. - Se levantarmos esta parede numa semana, poderemos começar a pôr as traves. O que dizes a isto, Bertram?

O velho mestre mação, de cabelo grisalho, olhou de través para o dedo apontado do rei, levantou a cabeça e coçou o queixo hirsuto, acenando com a cabeça para a parede que tinha à frente.

- É possível, Majestade - replicou diplomaticamente. - Mas primeiro têm de se ajustar as bases de apoio, que ainda não estão prontas. E as armações também não.

- Hum - disse o rei, franzindo o sobrolho.

- Mas, daqui a pouco, já estará levantada, Majestade. A sério. Podeis contar com isso. Daqui a pouco - reafirmou, acenando com a cabeça e chamando um dos seus pedreiros. - Com licença, Majestade. Tenho de...

- Claro, vai lá. Eu voltarei já para o castelo.

- Bom dia, Vossa Majestade. - Bertram fez uma vénia e foi-se embora.

Quentin ainda ficou de mãos na cintura, a observar os trabalhos que decorriam à sua volta. A manhã estava clara e límpida, e a erva comprida ainda molhada da chuvada da noite. Os pedreiros e os seus ajudantes labutavam com vigor. Os cabouqueiros despejavam os seus carrinhos cheios de pedra nos montes que se erguiam de ambos os lados do rectângulo, de onde outros trabalhadores a escolhiam, transportando-a, depois, para as paredes. os homens que faziam a argamassa e os seus ajudantes mexiam os montes de lama e punham argamassa fresca em placas que levavam aos pedreiros, que estavam sempre a reclamar mais. No meio desta confusão organizada, as paredes do novo templo, o templo do Altíssimo, iam-se erguendo devagar e quase imperceptivelmente. A obra já ia no seu sexto ano e, às vezes, parecia a Quentin que nunca mais terminaria.

O rei esperava ansiosamente que o templo estivesse acabado, pois o fim dos trabalhos inauguraria a nova era. E seria naquele templo que ele presidiria à adoração do novo deus de Mensandor. O templo simbolizaria o amanhecer da nova era.

Então, Quentin proclamaria a morte dos velhos deuses e exortaria os seus súbditos à adoração do novo deus, do Altíssimo, que tudo criara e tudo governava.

Logo que a construção começara, a novidade espalhara-se rapidamente por toda a terra. Não havia uma única casa em todo o reino onde não se soubesse do Templo do Rei, como lhe chamavam. Mas já tinham passado seis anos e ainda seriam precisos, pelo menos, mais quatro. Até lá... bem, até lá havia muito trabalho pela frente.

Quentin ouviu um tilintar de campainhas atrás de si e, virando-se, viu Blazer abanando impacientemente a cabeça. O grande cavalo já pastara toda a erva a que chegava e estava pronto para partir. Por isso, abanava a cabeça desassossegadamente, fazendo tilintar as pequenas campainhas que tinha entrançadas na crina e na brida de prata, como se dissesse: “Vamos embora! O Sol já vai alto e o dia está bonito. Vamos cavalgar!”

Quentin sorriu e, encaminhando-se para o animal, pousou-lhe a mão no focinho largo.

- Estás impaciente... e eu também, velho amigo. Muito bem - disse o rei, pondo o pé no estribo -, vamos embora. Já incomodei suficientemente estes bons homens.

Com estas palavras, ergueu-se facilmente para a sela e abanou as rédeas, Blazer levantou do chão as patas dianteiras e deu meia volta. Quentin levantou a mão para Bertram, que lhe retribuiu o aceno, e Blazer saltou para a frente. Esquivando-se dos carros de bois com comida e provisões para os trabalhadores, cavalgaram pela estrada que descia a larga encosta da colina. Depois, sentindo o sol a bater-lhe no rosto e com a beleza do dia enchendo-lhe o coração, o rei guiou Blazer para fora da estrada e deixou-o descer a ladeira à vontade e cavalgar livremente pela planície que se estendia abaixo de Askelon.

o castelo erguia-se na sua rocha e brilhava como uma jóia à luz da manhã. As suas mil espiras tinham pendurados pendões azuis e vermelhos, que esvoaçavam e se retorciam ao vento. Torreões e barbacãs encimavam as ameias altas, fortes e seguras. Quentin gostava de sentir a força do animal que tinha debaixo de si e o coração parecia saltar-lhe do peito ao galopar pela terra ainda húmida, que as patas de Blazer levantavam e lançavam para o ar.

Por fim, chegaram a um grande cenotáfio de pedra que se erguia solitário no meio da planície. Ao aproximarem-se, Quentin pôs Blazer a trote. Depbis, pararam à frente do cenotáfio e Quentin desmontou. Caminhou até ao monumento e ajoelhou-se.

As palavras que Quentin sabia de cor estavam escritas em pedra dos dois lados da lápide. No entanto, leu-as mais uma vez. Diziam o seguinte:

Aqui, neste campo, os guerreiros de Mensandor combateram e derrotaram a hoste de bárbaros de Nin, chamado o Destruidor.

Aqui caiu Eskevar, Rei Dragão, Senhor do Reino, e muitos dos seus bravos, para nunca mais se levantarem. Conquistaram a paz com o seu sangue, e a liberdade com as suas espadas.

Depois de ler as palavras que já lera tantas vezes, Quentin levantou-se, tornou a montar e voltou para Askelon.

 

Toli e o príncipe Gerin cavalgavam juntos num prado orlado por carvalhos antigos, escondido de olhos curiosos, situado a leste da cidade.

- Tenta outra vez, príncipe - disse Toli, virando Riv, que seguia a galope, para um carreiro de terra muito batida, onde se encontrava caído um grande tronco de árvore.

O príncipe, um robusto rapaz de nove anos, com uma cabeleira despenteada castanho-escura, estudou atentamente o obstáculo que tinha à frente, semicerrando os olhos verdes e vivos e apertando os lábios. Com as faces vermelhas de excitação, Gerin avançou o queixo com toda a seriedade. O seu gesto foi uma paródia tão exacta ao rei que Toli, para não desatar às gargalhadas, abafou o riso com a mão.

Então, abanando as rédeas e apertando os calcanhares nos flancos do seu pónei, o príncipe precipitou-se para a frente, descendo de novo o carreiro que ia dar ao tronco caído.

No último instante, o príncipe atirou as rédeas para a frente e inclinou-se contra o pescoço do cavalo. O pónei levantou as patas, saltou facilmente por cima do obstáculo e aterrou do outro lado com uma pancada surda. O jovem cavaleiro balançou para a frente e oscilou para o lado, mas conseguiu manter-se sentado na sela.

- Muito bem! - gritou Toli. - Excelente! É isso mesmo! Agora anda cá descansar um bocadinho. - Sorrindo para o príncipe, baixava a cabeça em sinal de aprovação.

- Só mais uma vez, Toli. Por favor! Não quero esquecer-me desta sensação. - Virando novamente o cavalo, começou a cavalgar em direcção ao tronco.

Toli puxou as rédeas a Rív, desmontou e pôs-se a observar o príncipe cuidadosamente. Desta vez, ao aproximar-se do obstáculo, o animal hesitou, sem saber bem o que o seu cavaleiro queria. Por isso, saltou tarde de mais e desajeitadamente, atirando-se para cima do obstáculo. O príncipe Gerin deslizou para o lado, agarrou-se à sela e tentou desesperadamente parar o cavalo; mas não conseguiu: a mão falhou-lhe e caiu ao chão com um baque. O pónei castanho continuou a galopar sem cavaleiro.

- Uf! - O príncipe deu uma cambalhota na terra macia.

Toli correu para ele.

- Magoaste-te? - perguntou, levantando o rapaz e sacudindo-o. O príncipe tinha lama no queixo e nos cotovelos.

- Estou bem. Não é a primeira vez que caio. Disso, pelo menos, já tenho bem o gosto.

- Tenho muita pena, mas também não será a última vez - ri Toli. - Mas, se não voltas a casa inteiro, o teu pai dá-me cabo da cabeça!

O príncipe ergueu o olhar para o seu instrutor e carregou o cenho, enrugando consternadamente a testa lisa:

- Achas que vou conseguir?

- Claro que sim, com o tempo...

- Mas faltam menos de quinze dias para a caçada!

- Não te preocupes. Estás a fazer progressos. Prometo-te que irás a cavalo na caçada. E o teu pai vai ter uma surpresa. Tudo a seu tempo. Mas primeiro tens de aprender a não hesitar quando te aproximas de um obstáculo. Isso confunde o cavalo, que salta mal.

- Posso tentar outra vez?

- Temos de nos ir embora. Tenho muito que fazer.

- Vá lá, Toli. Só mais uma vez... para não acabar a lição do dia com uma queda.

- Está bem. Mais um salto e vamos embora bem depressa.

O príncipe foi a correr para a sua montada, Tarky, que parara a pastar no fim do carreiro, Toli voltou para junto de Riv e tornou a montar.

- Pensa no que estás a fazer! - gritou Toli. - Concentra-te!

O rapaz subiu para a sela com uma expressão de extrema determinação estampada no rosto, fitou o obstáculo, calculando a distância, sacudiu as rédeas e esporeou o cavalo.

Cavalo e cavaleiro partiram pelo carreiro e, num abrir e fechar de olhos, estavam lançados em direcção ao tronco. O príncipe Gerin inclinou-se muito na sela, levantou as mãos e o cavalo voou por cima do tronco com a graciosidade e a leveza de um veado. Depois, puxou as rédeas e, com um viva de triunfo, fez o pónei dar meia volta e galopou para as árvores que ficavam do outro lado do prado.

- Muito bem, príncipe Gerin! - gritou Toli. - Muito bem! - Depois, esporeando também a sua montada, passou as árvores e entrou na estrada que levava a Askelon.

Chegaram os dois à estrada lado a lado e foram a rir e a fazer corridas até ao castelo. O Sol ia alto no céu límpido e azul e ambos sentiam a alegria da vida correndo-lhes nas veias.

A mesa de trabalho de Durwin estava atafulhada de rolos poeirentos e de livros encadernados a pele. o eremita, debruçado sobre a mesa, sentado num banco alto, com o queixo apoiado na mão, ia murmurando para si próprio à medida que lia. já tinha o cabelo comprido quase completamente branco, mas os seus olhos continuavam vivos e os seus braços e pernas bem firmes. Parecia ter metade da idade que tinha.

De repente, levantou a cabeça e farejou o ar.

- Ah! - gritou, pondo-se em pé de um salto e correndo imediatamente para um pequeno fogareiro de carvão, onde fervia um pote preto de ferro que, ao transbordar, fizera erguer colunas de fumo negro para as vigas do tecto. Durwin pegou numa comprida colher de pau e estava a mexer o pote quando uma voz disse, à entrada da porta:

- Fiu! Bom eremita, que fedor prodigioso é esse? Cheira mesmo mal!

Durwin ergueu o olhar e viu a rainha-mãe de pé à entrada da porta larga, observando-o e retorcendo o nariz, numa exibição de pura repulsa.

- Alinea! O quê? Não vos agradam as minhas cataplasmas? São um remédio poderosíssimo contra as dores das articulações.

- Pois a mim parece-me e que as dores talvez sejam mais agradáveis.

- Garanto-vos que os meus doentes não se importam com as suas propriedades aromáticas.

- Os teus doentes?

- Chamo-lhes doentes, senhora. Isto é para o Toli.

- De certeza que o Toli não precisa disso.

- Precisam os cavalos dele, senhora. Estou a fazer isto para os cavalos, mas, em qualquer caso, também não faria mal ao cavaleiro, se houvesse necessidade.

- E se o nariz aguentasse! - replicou ela, rindo. - Mas o meu não aguenta. Deixa um bocadinho o teu trabalho, eremita. Apetece-me passear com alguém no jardim.

Durwin sorriu e fez uma vénia:

- Com todo o prazer, Era mesmo do que precisava. Se não estivesse demasiadamente embrenhado nestes vapores, teria eu próprio pensado nisso.

Saindo juntos, atravessaram o castelo, passaram pelo grande salão do Rei Dragão e dirigiram-se para os degraus do jardim.

- Vê como o sol brilha! - exclamou Alinea. - Vê como as flores estão bonitas!

Depois, desceram os degraus e entraram no jardim, no meio da fragrante dádiva das rosas de todas as espécies. Já não havia flores da Primavera, mas os botões do Verão estavam a desabrochar, e os olhos enchiam-se de cor para onde quer que se olhasse.

- Ah! Estar aqui é a própria paz - suspirou Durwin, virando-se para observar a sua companheira, O passar dos anos não a marcara muito. Tinha o cabelo comprido entrançado e preso. já havia muitos fios prateados nas tranças castanho-aloiradas e tinham-se formado rugas em volta dos seus lindos lábios e dos olhos, que continuavam verdes como lagos da floresta. A sua voz tinha o timbre da água a cantar.

“Sim”, pensou Durwin, “o passar dos anos não foi duro para nenhum de nós. Não os trocaria por outros. O Deus Altíssimo é bom e abençoou a nossa terra. Temos muitas graças a dar-lhe.”

- Em que pensas, meu amigo? - perguntou Alinea baixinho.

- Que estes anos têm sido felizes e plenos, minha rainha. Sinto-me satisfeito. - Depois de uma pausa, a sua voz adquiriu um tom melancólico: - Mesmo que morresse amanhã, não teria nada a lamentar. Absolutamente nada.

- Eu poderia dizer a mesma coisa - replicou Alinea. - Mas não falemos mais da morte, que sabe olhar bem por si.

- Pois é, pois é - volveu Durwin, baixando lentamente a cabeça. Depois animando-se perguntou: - Dizei-me, que novas tendes? Ouvi dizer que chegou um mensageiro hooje de manhã. Trouxe boas notícias?

- Trouxe. Ia mesmo agora dizer-te. Veio de Hinsenby...

- De Hinsenby? Do Theido?

- De Hinsenby? Do Theido? - Da Esme, que vem a caminho e deve chegar hoje à tardinha. O dia está bom para viajar.

- Ah, a Esme! Parece-me que não a vejo há muitos anos.

- Todos temos saudades dela. E o facto é que ninguém sentiu tanto a sua ausência como ela própria.

- Uma coisa terrível. Muito triste. Faz-nos recordar que as vidas de alguns de entre nós não são tão isentas de dor como as nossas. De certeza que se ela tivesse sabido teria feito outra escolha.

Alinea ficou silenciosa durante algum tempo. Entretanto, passeavam pelos carreiros do jardim, cada um sentindo o calor do dia e da amizade que tinham um pelo outro.

- Não sei se algum de nós faria as escolhas que fez se adivinhasse o futuro.

- Talvez não. Mesmo assim, é uma bênção. Os fardos do presente já são suficientemente pesados; não aguentaríamos carregar também com os do futuro.

- Tens razão. Como és sensato, eremita! Sim, vai ser bom voltar a ver a Esme. Talvez possamos ajudá-la a sarar velhas feridas.

Nessa altura, ouvindo os trinados felizes de vozes infantis, ergueram a cabeça e viram a princesa Brianna e a princesa Elena correndo na sua direcção o mais depressa que as suas perninhas magras podiam. Atrás delas, seguia Bria, num passo mais vagaroso.

- Avó! Avó! - gritaram as rapariguinhas. - Temos um segredo! Um segredo muito grande!

- Um segredo? O que será?

- Tens de adivinhar, avó! - berrou Brianna.

- Sim, adivinha! Adivinha! - gritou Elena.

Alinea juntou as mãos e encostou-as aos lábios.

- Deixa ver - disse ela, com os olhos a brilhar à vista das suas lindas netas. - Ides viajar?

As duas cabecinhas abanaram de um lado para o outro, fazendo as tranças voarem.

- Não? - continuou a avó. - Então, aprendestes um jogo novo e vieste mostrar-nos como é!

- Não! - gritaram elas, rebentando em risinhos abafados.

- A Esme vem aí! Chega hoje à noite! - As duas raparigas começaram a dar saltinhos.

- Que boas novas! - disse Alinea.

- Ouviste, Durwin? - gritaram. - Ela chega hoje à noite.

- Depois, ao ocorrer-lhes uma ideia nova e ainda melhor, entreolharam-se. - Talvez ela nos traga prendas! - exclamou Brianna.

- Claro, prendas!

Batendo palmas, fugiram para a fonte por entre as roseiras.

- Parecem colibris - murmurou Durwin.

- Pronto, mãe - disse Bria, aproximando-se. - já vi que vos contaram o segredo.

- Pois contaram, querida. Deves estar muito contente.

- Estou quase tão animada como elas... se é que isso é possível! - replicou ela a rir, seguindo com os olhos as raparigas que corriam. - Bom dia, Durwin. Ainda bem que a mãe te arrastou do teu antro malcheiroso. Começava a pensar que nunca mais saías cá para fora.

- Tudo a seu tempo. Quando esta velha cabeça tem uma ideia, não desiste dela assim muito facilmente. - Fez um sorriso aberto. - É por isso que vos tenho às duas para cuidardes de mim. Sei que não me deixareis ficar muito tempo sozinho e agradeço-vos por isso.

- Há outra pessoa que gostaria de persuadir assim tão facílmente - comentou Bria.

- O Quentin?

Bria sorriu um tanto tristemente e assentiu com a cabeça:

- Oh, bem sei que ele anda muito ocupado. Está preocupado com o templo. Mas sai de manhã à noite quase todos os dias, para se fechar com os operários e os arquitectos. Nunca pára. Quase nem o Vejo.

Alinea olhou ansiosamente para a filha:

- Com um rei, é sempre assim. Não te esqueças, meu amor, de que ele não pertence a si mesmo nem à sua família. Pertence ao reino, ao povo. Este templo é um fardo muito pesado para o Quentin. Os costumes antigos custam a morrer, e ele está a procurar seguir à risca o mandamento do deus.

Bria deixou cair a cabeça:

- Eu sei que devia ser mais paciente, mas ele tornou-se um estranho na sua própria casa.

- O Quentin foi escolhido para grandes feitos. Muitos prodígios serão realizados através dele.

- Pois é - concordou Durwin. - Mas a minha senhora Bria tem razão. Ele também tem de olhar pela sua casa. É a primeira responsabilidade de um homem, quer seja rei quer não. Os pequenos feitos satisfazem tanto o Altíssimo como os grandes. Penso muitas vezes que ele deve preocupar-se menos com templos do que com a força de uma família. - Fez uma pausa e olhou para Bría: - Se quiseres, falarei com ele.

- Não, obrigado. Eu espero. Sei que o templo é importante. Talvez voltemos a ter tempo para nós próprios quando estiver acabado. Até lá, ficarei à espera. - Sorrindo docemente, lançou um olhar à sua mãe: - As mulheres da nossa família estão habituadas a esperar. Sabemos fazê-lo muito bem.

 

Ao contrário dos sacerdotes que dirigia, o sumo sacerdote Pluell vivia no esplendor, rodeado de todos os luxos. Enquanto as celas dos sacerdotes menos importantes eram humildes e despidas de adornos e ornamentos, contendo apenas os objectos necessários a um mínimo de conforto (uma cama com colchão de palha, um banco, uma mesa grosseira, uma escudela e uma vela de sebo), os aposentos do sumo sacerdote tinham tapeçarias penduradas nas paredes, cadeiras esculpidas e uma grande mesa sempre posta com toalhas caras e pratas finas. Nos castiçais dourados ardiam velas feitas com cera de abelhas perfumada. O seu leito de dossel era alto, e o colchão de penas.

Tudo isto, como ele dizia a si próprio, não era mais do que o devido, constituindo apenas os proventos da sua posição, as recompensas da sua alta estirpe.

O sumo sacerdote Pluell e o seu visitante já estavam a conferenciar havia muito tempo, O sumo sacerdote fitava o vazio, com os olhos vermelhos por causa da falta de sono. Tinha a testa muito enrugada, o que lançava uma sombra sobre as suas feições arrogantes.

De onde estava sentado, o velho Nimrood estudava-o atentamente, com as mãos nodosas juntas por baixo do queixo pronunciado. A sua imagem era a de um mercador astuto que acaba de descobrir um negócio extremamente proveitoso. O esboço de um sorriso encurvava-lhe os lábios finos e exangues.

- Então está combinado? - perguntou Nimrood por fim, quebrando o silêncio.

Pluell levantou lentamente a cabeça; tinha a boca retorcida num sorriso escarninho:

- Tenho outro remédio? Claro que está combinado! Farei como dizes.

- Se fizeres, tudo correrá bem. Salvarás o templo e, além disso, terás nas tuas mãos poder sobre esta terra. O reino será teu, e o rei teu servo. Pensa nisso!

- É arriscado e eu não gosto de correr riscos.

- Quem não arrisca não petisca, meu amigo. E, como tu próprio disseste, não tens outro remédio. já te disse que este rei arrogante quer acabar com o Grande Templo e expulsar os sacerdotes. O Templo do Rei cresce a cada dia que passa; quando ficar acabado, o teu será destruido.

- Não sei se ele se atreveria a tanto. O povo levantar-se-ia contra ele... eu encarregar-me-ia disso.

- Ele atreve-se a tudo em nome do seu deus. Temos de o travar imediatamente. já te escondeste tempo de mais debaixo do teu hábito. Se continuares à espera, depois será tarde.

- Sim, sim. É verdade. - Pluell fitou o seu convidado com um olhar penetrante. - Não gosto nada deste rei nem tenho medo dele. A santidade e a autoridade do Grande Templo têm de ser preservadas. Quando e onde começamos?

Nimrood exibiu um sorriso aberto:

- Eu escolherei a altura e o lugar. Deixa tudo por minha conta. Vou precisar de seis guardas do teu templo... seis guardas que saibam obedecer e ficar calados.

- Tê-los-ás. E que mais?

- Por agora, mais nada. - Nirmood levantou-se devagar. - Só um sítio para descansar e qualquer coisa para comer. Depois, ir-me-ei embora.

- Muito bem. Diz o que queres ao sacerdote que está lá fora. Ele tratará de tudo. Eu vou escolher os homens que te acompanharão.

Nimrood baixou a cabeça e saiu. O sumo sacerdote ainda se deixou ficar sentado na cadeira, fitando as sombras com um olhar vazio. Depois, ao ser percorrido por um arrepio, pois o aposento arrefecera muito, aconchegou-se melhor nas suas vestes.

O Sol da tarde, com um brilho dourado e enevoado, punha-se por trás das colinas verdes e arborizadas. A estrada descia para vales baixos, mergulhados numa sombra fria. O pequeno grupo de viandantes parou no cimo de um outeiro.

- Askelon fica ali, senhora, e é uma linda vista - disse Wilkins, um dos companheiros de viagem de Esme.

Esme encheu os olhos azul-claros com o cintilante cenário que tinha à frente. O castelo de Askelon, cujas torres e torreões eram alvejados pelos raios dourados do sol-poente, cintilava como uma jóia. As grandes muralhas, fortes e impenetráveis, pareciam vermelhas à luz desvanecente. Com um arrepio, recordou o tempo em que estivera montada num cavalo exactamente naquele lugar, contemplando o castelo à luz de outro pôr do Sol, havia muito tempo. “Nada mudou”, pensou. “Oh, que loucura! Claro que tudo mudou... sobretudo eu.”

- Sim - disse por fim, mas tão baixinho que os que estavam com ela não perceberam as suas palavras. - É uma linda vista. Estive longe tempo de mais. Mas, agora, regressei.

Sem dizer mais nada, Esme pegou nas rédeas e começou a descer a colina em direcção ao vale. Pressentindo a proximidade de comida, água e uma baia quente, o seu cavalo seguiu pela estrada, primeiro a trote e, depois, a galope. Os outros juntaram-se-lhe na corrida, e dali a pouco estavam todos a voar para Askelon, enchendo os valezinhos arborizados com as suas vozes rejubilantes.

Quase sem abrandarem, chegaram à aldeia situada abaixo das muralhas e os cascos dos cavalos matraquearam nas suas ruas. Depois, passaram a ponte levadiça, atravessaram a casa da guarda e pararam no pátio, onde os escudeiros se precipitaram para tomar conta dos cavalos e os conduzir até às cavalariças.

- Esme! Chegaste! - ouvindo aquele grito atrás de si, Esme virou-se e viu Bria saindo de uma porta situada do outro lado do pátio, Dois rostos pequeninos, com os olhos a brilhar, espreitaram de ambos os lados das saias dela.

Esme ajoelhou-se e abriu os braços.

- Vinde cá, minhas queridas! - disse, instantaneamente abafada por risadinhas e beijos. - Estais tão grandes! - exclamou, espantada. - Tive tantas saudades vossas! - Cingiu a si as duas rapariguinhas e beijou-as. Depois, levantou-se e abraçou a mãe delas. - Bria! Que bom ver-te outra vez!

As duas mulheres ficaram abraçadas durante muito tempo e, depois, recuaram para se observarem mutuamente.

- Esme, estás lindíssima! A sério! É... - No canto de um olho de Bria surgiu uma lágrima. - Tive tantas saudades!

- Eu também. Não sabes como é bom estar finalmente aqui.

Quis vir muitas vezes, mas...

Bria pegou-lhe nas mãos e puxou-a, dizendo:

- Anda! Temos muito que falar. Deixa aí as tuas coisas, que eu mando levá-las para os teus aposentos. - Virando-se, dirigiu-se aos outros membros da comitiva de Esme: - Sois muito bem-vindos. Descansai à vontade da vossa longa jornada. Se quiserdes, podereis jantar connosco esta noite, no salão dos banquetes. Ou, se preferirdes, mandar-vos-ei comida aos vossos aposentos, Wilkins fez uma vénia profunda:

- Vossa Alteza, a minha senhora falou-nos tanto sobre vós e sobre este lugar que estamos ansiosos por ver tudo. Juntar-nos-emos a vós logo que nos tenhamos lavado e tirado o pó da estrada. Eu, pelo menos, quero conhecer o Rei Dragão. O seu nome é conhecido em toda a terra. - Os outros concordaram, baixando a cabeça.

- Tenho a certeza de que o meu marido vai ficar muito agradado com as novas que trazeis. Vou mandar o mordomo-mor conduzir-vos aos vossos aposentos.

- Chloe, podes ficar comigo - disse Esme. Uma jovem morena e esbelta, com traje de montar, como o de Esme, avançou timidamente, fez uma vénia à rainha e estendeu dois pacotes à sua ama.

- É verdade, ia-me esquecendo! - exclamou Esme, pegando neles. - Trouxe uma coisa para as minhas amiguinhas.

As princesas guincharam de prazer.

- Prendas! - gritaram. Esme deu a cada uma um pacote atado com uma fita de seda brilhante. - Oh, obrigada! Obrigada! - As meninas beijaram-na e foram a correr abrir os presentes.

- São uns tesouros, Bria. Uns tesouros.

- Lá isso são. Mas anda, deves estar exausta. Os teus aposentos estão prontos e à tua espera. - Afastando-se com Esme, sorriu para Chloe, que as seguiu silenciosamente. - Podeis descansar as duas antes o jantar.

A rainha conduziu-as do pátio para o corredor da cortina interior, e daí para dentro do próprio castelo. Durante o caminho, falaram da jornada e de tudo o que os viajantes tinham visto. Quando, por fim, chegaram aos aposentos da rainha, Bria anunciou:

- Tu ficas aqui, Esme. Quero-te perto de mim. Agora, descansai e refrescai-vos. já tendes água lá dentro. Voltarei daqui a pouco para vos levar a jantar.

- És muito amável, Bria. Obrigada. Mas, agora que cheguei, parece que o cansaço desapareceu. Só quero sentar-me e conversar contigo.

- E conversaremos, Esme. Temos muitas conversas a pôr em dia até eu me dar por satisfeita. - Depois de uma pausa acrescentou, num tom de voz mais sombrio: - Tenho pensado muito em ti.

- Obrigada. E eu em ti. Pois é, temos muito que conversar.

Quentin e Toli estavam junto de Wilkins, mesmo ao pé das largas portas abertas do salão dos banquetes. As outras pessoas, um pouco afastadas e acanhadas pela presença do próprio rei, cavaqueavam entre si. Entusiasmado, Wilkins narrava a viagem até Askelon e relatava as novas que ouvira durante o caminho.

Quentin, que estava contente por ter convidados, pois havia algum tempo que não se via gente de fora no castelo, não largava o amável homem, que se apressava a dar-lhe todas as informações que o rei lhe pedia.

- Quando regressais? - perguntou Quentin. - Claro que ficareis para a caçada, não é?

- Já ouvi falar da Caçada do Rei! - exclamou Wilkins. - Na verdade, esperava ser convidado. Falaram-nos da caçada em muitas das aldeias por onde passámos quando vínhamos para aqui. A maior parte das pessoas descreveu-a como um acontecimento excepcional.

- É mais um festival do que uma caçada - explicou Toli. - Haverá jogos de habilidade, menestréis e um circo. Dedicamos-lhe três dias de celebrações. As pessoas vêm de todo o Mensandor, tanto para participarem como só para assistirem.

- A que se deve o festival? - indagou Wilkins.

- Não sei. - O rei soltou uma gargalhada. - A razão jaz enterrada no passado. Segundo a tradição, a caçada começou no tempo de Celbercor, que a usou como um meio de recrutar cavaleiros para o seu serviço. Diz a lenda que, se um homem conseguisse matar três javalis num dia sem desmontar nem mudar de cavalo, era feito cavaleiro antes do pôr do Sol!

- A caçada não se fez nos anos em que o rei Eskevar esteve na guerra. Mas nós recuperámos a tradição - acrescentou Toli.

- É verdade, foi tudo obra do Toli! - continuou Quentin. - O que ele queria era exibir os seus cavalos e, para isso, nada melhor do que uma caçada!

Wilkins assentiu com um ar conhecedor:

- Os cavalos... também ouvi falar deles. Até no distante Elsendor se têm os cavalos do rei em muita consideração.

Nessa altura, houve um movimento à porta. Quando Quentin levantou a cabeça, viu a rainha Bria e a dama Esme entrando no salão. Ambas envergavam vestidos de cendal leves, de Verão: o de Bria era cor-de-rosa e o de Esme castanho-avermelhado.

O rei fez um sorriso aberto e aproximou-se delas:

- Boa noite, meu amor - disse, beijando a esposa. - Esme, estou muito contente por teres vindo. É bom ver-te de novo. - Pegando-lhe nas mãos, deu-lhe um beijo na face, - Sê bem-vinda. Espero que fiques muito tempo connosco.

- Obrigado, Quentin. Estás em forma, como sempre. A Bria disse-me que os trabalhos do templo estão a andar bem. - Os olhos dela desviaram-se momentaneamente dos dele.

- É verdade - replicou Quentin. - Os trabalhos vão andando. Mas podemos falar disso mais tarde. Suponho que gostarias de cumprimentar... - Virando-se, lançou para trás um olhar rápido, - Para onde é que ele foi assim tão de repente? Estava aqui mesmo agora.

- Quem?

- O Toli. Estava... - Com um aceno, indicou o lugar onde Toli e Wilkins tinham estado. Mas ambos haviam desaparecido.

- Bem, ele continua tão tímido como o veado com o qual cresceu. Tenho a certeza de que, mais tarde, quererá saudar-te em privado.

Pelo outro lado do salão entraram ajudantes de cozinha com enormes bandejas de comida: carne de veado e de porco, assados de aves e de caça, legumes acabados de apanhar e pães redondos e castanhos, ainda quentes do forno.

- Sentemo-nos - disse Bria. Os bancos de ambos os lados da mesa comprida e baixa já estavam a ser ocupados. A comitiva de Esme encontrara amigos entre os cortesãos do rei. Um bardo errante, que fora convidado a assistir à refeição, andava entre os convivas cantando rimas sem sentido e recolhendo pedidos de histórias para contar depois do jantar, Os risos perseguiam-no para onde quer que se virasse.

No grande salão, reinava a animação e o bom humor.

- Estás a ver o que a tua chegada fez? - gritou Quentin, guiando-as para a mesa mais alta. - Não vejo tanta alegria há... bem, há muito tempo. És muito amável, Quentin, mas é bem sabido que a alegria corre sempre ligeira na graciosa mesa do Rei Dragão. - Esme olhou em volta e no seu rosto desenhou-se uma expressão mais leve. - Está tudo como eu recordo... como esperava que estivesse.

Bria apertou-lhe a mão e arrastou-a para uma cadeira. Durwin entrou e aproximou-se, pedindo muitas desculpas pelo atraso, e saudou Esme com um abraço caloroso. Enquanto conversavam, Quentin procurou Toli, que costumava sentar-se ao seu lado, em frente da rainha.

Encontrou o jher sentado na ponta da mesa alta, de frente para Wilkins. Achavam-se os dois embrenhados na conversa, esquecidos do que se passava à sua volta. Quentin olhou para a mesa mais baixa; todos os olhos estavam postos nele, à espera de que começasse. Estendendo a mão, pegou num bocado de pão, partiu-o, pousou-o no seu trincho de prata e baixou a cabeça para os seus convivas, que começaram a comer imediatamente. Passaram-se bandejas, encheram-se taças e a conversa começou a correr alegremente. Enquanto comiam, o bardo aproximou-se da mesa alta, fez uma vénia ao rei e disse:

- Vossa Majestade, quereis ouvir alguma balada? Dizei... o Canção da Cotovia está às vossas ordens.

- Qualquer coisa apropriada para a boa disposição que reina nesta noite de Verão - declarou Quentin. - Deixa a bravura dos cavaleiros e os seus feitos ousados para outra ocasião, Esta noite quero ouvir uma balada mais leve, que alegre o coração.

- Se quereis animação, Majestade, já sei o que posso cantar-vos! - Fazendo outra vénia, rematou: - Com licença. Tenho de me retirar para ir compor a letra.

“Ser rei é uma honra tão grande!”, pensou Quentin, “Na verdade é uma honra muito grande. Fui mesmo abençoado.”

Depois, baixou o olhar para os seus convidados e participou no seu divertimento e bom humor. A vida era boa em Mensandor; tudo ia bem no reino. Invadiu-o tanta alegria que sentiu o coração encher-se de felicidade e quase estourar dentro do seu peito.

 

A Lua pálida erguera-se no céu, lançando para baixo os seus raios prateados. Toli estava sozinho no torreão do salão dos banquetes sobranceiro a uma parte do jardim. Os risos saíam do salão pelas portas abertas e as luzes bruxuleantes das tochas batiam nas pedras, transformando-as em ouro.

O bardo Canção da Cotovia cantava as suas baladas, para gáudio de todos os que se encontravam lá dentro. Toli ouvia a sua voz forte, mas não conseguia perceber as palavras, constantemente abafadas por gargalhadas. No fim de cada canção ou história, ouvia-se uma onda de aplausos e gritos de bis.

Mas Toli não estava muito interessado no que se passava lá dentro. Como começara a sentir-se pouco à vontade, esquivara-se silenciosamente. Queria estar sozinho e pensava que ninguém o vira sair. Naquele momento, aspirava o doce ar da noite e pensava no que faria quando estivesse com ela.

Não teve de pensar muito tempo. Ouvindo um suave roçagar, virou-se e viu-a de pé no umbral da porta, com a luz desenhando-lhe os contornos e brilhando à sua volta. Sentiu-se trespassado por uma dor aguda e virou-se de costas. Mas ela pôs-se ao seu lado e ele cheirou o seu perfume delicado, quente e agradável. A sua proximidade queimava-o como brasas.

- Ah - suspirou ela -, aqui está tudo tão calmo e fresco! O salão, com todas as luzes e risos, ficou abafado. - Falava suavemente. Ele não respondeu. Então, ela tocou-lhe no braço e ele sentiu-se atravessado por uma chama viva. - Olá, Toli - sussurrou ela. - Vi-te sair do salão.

Ele virou-se para ela.

- Esme... - Não lhe ocorria nada para dizer. Esme, com o luar, nos olhos e brilhando-lhe nas tranças Compridas e escuras, estava ainda mais bonita do que ele se recordava. E ela voltara. Esme pousou-lhe as pontas dos dedos nos lábios. Tinha as mãos frescas.

- Chiu! Não precisas de falar. Eu também me sinto pouco à vontade.

Toli fitou a mulher que amara. Porquê? Apetecia-lhe gritar: “Porque me deixaste? O que te fez partir? Porque voltaste ao fim de tantos anos?”

Mas não disse nada e voltou-lhe novamente as costas. Esm sentiu a distância entre eles como uma presença física: uma muralha de emoções à flor da pele, na qual não conseguia abrir nenhuma brecha. De repente, tudo o que encerrara no coração durante tanto tempo surgiu em ondas avassaladoras. Sentiu um nó na garganta. As mãos tremeram-lhe. Inclinou a cabeça e as lágrimas começaram a cair.

Houve um movimento ao seu lado.

- Toli, eu... - começou, levantando o rosto. Ele fora-se embora.

Dentro do salão, o Canção da Cotovia tinha os seus ouvintes enfeitiçados. Em excelente forma, inclinava-se perante as ovações, com o rosto largo e bem-disposto sorrindo debaixo do chapéu grande e baixo, com uma comprida pena verde. Mais uma vez, esperou que as palmas troassem pelo salão e, quando começaram a desvanecer-se, levantou as mãos a pedir silêncio e começou a cantar:

 

No lindo Mensandor,

Numa noite de Verão,

Com todas as colinas vestidas de verde,

Ouvi, senhoras e senhores,

A história que vou contar...

Do destemido Quentin e da sua rainha!

 

Foi saudado com risos e muitos vivas, pois agora o rei ia ser cantado para diversão dos que se achavam ali reunidos. O Canção da Cotovia fez uma profunda vénia e começou a contar a história com a sua voz cristalina. Era uma canção sobre um rei que queria casar com a mulher mais bonita do reino, a qual, no fim, veio a descobrir ser a filha do seu inimigo.

Claro que a canção era muito antiga e todos a conheciam, mas o Canção da Cotovia cantou-a bem e inventou versos novos, nos quais incluiu os nomes de Quentin e de Bria e os conhecidos acontecimentos das suas vidas. Cativados, os ouvintes escutaram-no em êxtase do princípio ao fim.

Quando, finalmente, o Quentin da história conseguiu a mão da sua noiva e fez as pazes com o seu inimigo, o salão foi atravessado por aplausos estrondosos.

- muito bem! - gritaram os convivas. - Mais! Mais! Canta outra vez! - Embora já se fosse fazendo tarde, toda a gente gritava e pedia mais. Mas o Canção da Cotovia tirou o chapéu e, inclinando-se, agradeceu aos que estavam ali reunidos.

- Obrigado! Obrigado! Muito obrigado! - Fez uma vénia ao rei. - Por hoje, as minhas canções acabaram. Posso voltar outra vez?

- volta! Volta amanhã! - gritaram todos.

O Canção da Cotovia fitou o rei com uma interrogação no olhar. Quentin fez um gesto de cabeça em sinal de assentimento e todos os seus convivas se lhe juntaram. Depois, relutantemente, pois fora um serão maravilhoso, as pessoas começaram a sair. Quentin levantou-se:

- Até me dói o corpo de tanto me rir! Que noite! Que noite! - Olhou em volta. - Para onde foi o Toli? Quero falar com ele.

- Creio que está ocupado - replicou Bria. - Anda. Falarás com ele amanhã.

- E a Esme?

- Quem mais querias que fosse? Anda. - Bria pegou-lhe no braço e afastou-se com ele. Quando saíram, os servos começaram a apagar as tochas, entregando o grande salão aos cuidados da noite.

Mal chegaram aos seus aposentos, ouviram bater à porta.

- Quem será? - admirou-se Quentin, indo abrir e dando com a companheira de Esme, Chloe, retorcendo as mãos e o avental.

- Vossa Majestade, eu... - Fitou Bria, que estava atrás dele. - Não sei o que hei-de fazer, senhora.

Bria avançou uns passos:

- O que é, Chloe? O que se passa?

- Senhora... - disse, fazendo uma vénia. - Eu... podeis vir comigo?

- O que foi? - inquiriu Quentin.

- Meu marido, vai ver as crianças - interrompeu Bria. - Diz-lhes boa noite por mim. Eu irei vê-las mais tarde. Agora, vai. Eu tratarei disto. - Passando por Quentin, fechou a porta atrás de si.

- Onde é que ela está?

- Nos seus aposentos. Desde que voltou, há algum tempo, que está a chorar, Eu não posso fazer nada por ela. Oh, senhora! Nunca a vi assim, nem quando o meu senhor Rathnor estava zangado com ela. Tenho medo...

- Acalma-te, minha querida. Vai ficar tudo bem, garanto-te.

Quando entraram na antecâmara de Esme, Bria ouviu alguém a soluçar no aposento seguinte.

- Fica aqui, Chloe. Eu vou lá dentro - disse suavemente, dirigindo-se à porta, à qual bateu baixinho. Como não houve resposta, abriu-a e entrou.

Esme encontrava-se deitada na cama de rosto para baixo, com os ombros tremendo, devido aos soluços, que saíam do mais profundo do seu ser. Bria sentou-se no grande leito, ao seu lado, Sentindo instintivamente a profundidade do sofrimento da amiga, pousou-lhe a mão no ombro.

- Esme, estou aqui. Estou aqui contigo. Diz-me o que aconteceu.

Ainda demorou algum tempo até Esme conseguir falar. Mas, por fim, Bria conseguiu que ela se levantasse, enxugasse os olhos e lhe contasse o que acontecera.

- Oh, Bria! - fungou ela, com os olhos ainda molhados, torcendo nas mãos um lencinho húmido. - Ele odeia-me! Despreza-me! E não o culpo. Não devia ter vindo com esperanças de que... Oh, nunca devia ter vindo!

- Vá, vá. O Toli não te odeia. - Adivinhando o que acontecera, Bria pronunciou o nome dele. - Tenho a certeza de que não. Não sabes como ele é?

- Ele fugiu de mim. Eu fui ter com ele, e ele deixou-me sem uma palavra! - Tinha os lábios a tremer e parecia à beira de outra torrente de lágrimas, mas inspirou profundamente e conteve-se. - Oh, Bria, devo tê-lo ferido tanto! Pensava... pensava... Oh, não sei o que pensava. Fiz mal em vir. Não nasci para ser feliz.

- Que disparate! Não fales assim! - ralhou Bria. - És muito bem-vinda; não pode ser um erro vires para um sítio onde és amada. Quanto ao Toli, talvez não devesses ter-te aproximado dele tão abertamente. É óbvio que teremos de planear cuidadosamente a maneira de ele se reaproximar de ti. Mas, a não ser que me engane muito, ele não te odeia, Nunca digas isso! Se pudéssemos olhar para dentro do coração dele, veríamos que o seu amor por ti nunca diminuiu.

Esme fungou tristemente. Bria rodeou-a com os braços e cingiu-a a si.

- Sofreste muito, Esme. E, no entanto, apesar da tua dor, nunca te queixaste. - Vendo o olhar de interrogação de Esme, acrescentou: - A Chloe contou-me. Mas porquê? Preferia ouvi-lo da tua boca.

Esme fitou as mãos, que tinha juntas sobre os joelhos.

- Estraguei tanto a minha vida, Bria! Como podes continuar a chamar-me amiga? - Pousou as mãos nas de Bria. - Mas sempre foste muito melhor do que eu...

- Que disparate!

- Não, é verdade.

Bria cingiu Esme mais a si, e ambas as mulheres ficaram caladas. Quando, por fim, se virou novamente para a sua amiga, viu que Esme estava a dormir profundamente. A rainha estendeu uma manta por cima dela e saiu do aposento sem fazer barulho, Chegada à porta, parou e olhou para trás.

- É preciso tempo para sarar as feridas, Esme. Fica connosco.

De sobrolho carregado, Quentin, sentado a uma mesa grande, estudava os esboços do seu templo. Em cima da mesa encontravam-se duas dezenas de desenhos, dúzias de planos, inúmeras listas de inventários e materiais de construção, vários modelos de barro e de pedra da estrutura acabada, um grande fio de prumo, três níveis de pedreiro, uma caixa de couro com pergaminhos e uma pedra do estaleiro, que servia de pesa-papéis.

- Estás cansado - disse Bria, surgindo por trás dele, pousando-lhe as mãos nos ombros e esfregando-lhe levemente o pescoço. - Olhas para esse desenho como se não o visses.

O rei levantou a cabeça da folha que tinha à frente e esfregou os olhos com os punhos fechados.

- Tens razão, meu amor. Estou cansado. Há muito que fazer...

- Mas nada que não possa esperar até amanhã. Anda para a cama.

Quentin pousou as mãos abertas na cama e, ao levantar-se, afastou os desenhos. Depois, olhou para a esposa, sorriu docemente e perguntou:

- A nossa hóspede está bem?

- Como era de esperar, as viagens cansaram-na muito. Mas creio que ela ainda sofre com a recordação de um casamento sem amor e que carrega essa dor consigo.

- Mas ele já morreu há dois anos.

Bria assentiu:

- Mas as feridas profundas demoram a sarar. E nós não sabemos a crueldade com que ela foi tratada.

- Ela não fala disso contigo?

- Nem comigo nem com ninguém. Mas é muito claro que as coisas não estão bem. Há muita gente que não conhece uma felicidade como a nossa, e a Esme é uma daquelas pessoas que percorreu um caminho muito difícil.

- Creio que, a seu tempo, ela nos contará tudo... quando estiver em condições de o fazer. - Quentin bocejou e espreguiçou-se, e o rei e a rainha seguiram juntos até ao leito real.

Quentin ainda ficou a fitar a escuridão do aposento, pensando nos acontecimentos do dia que passara e do que estava para vir. Adormeceu com os olhos cheios de uma visão do templo acabado e sonhou com o dia da sua consagração, durante o qual conduziria os seus súbditos na adoração do Altíssimo.

 

O dia da Caçada do Rei amanheceu com uma relutância melancólica; nuvens baixas e lúgubres cobriam a planície de Askelon e um nevoeiro cinzento encobria as copas das árvores. Os que estavam acampados e os que se hospedavam na cidade e no castelo ainda recearam que a chuva estragasse o dia. Mas, quando o Sol amarelo e deslavado subiu na abóboda celeste, pareceu reunir forças, ficou mais brilhante e os seus raios queimaram as nuvens e aqueceram o ar. Os viandantes e os habitantes da cidade saíram para as ruas e iniciaram o percurso até ao campo. Os que ainda estavam deitados no castelo de Askelon acordaram e foram a correr preparar-se para as festividades do dia. os senhores e as suas damas (vindos de lugares tão distantes como Endonny, Woodsend e tudo o que ficava pelo meio) envergavam os seus melhores atavios. Os cavaleiros vestiam roupas de montar de couro e vigiavam o tratamento dos seus cavalos, que tinham as caudas e as crinas entrançadas com fitas douradas e prateadas e sininhos ou envergavam caparações de cores vivas: vermelho e azul, dourado e verde, cor de violeta e amarelo.

Por todo o lado, dos aposentos do rei às tendas montadas na planície de Askelon, o entusiasmo fervilhava, rebentando em gargalhadas, canções e jogos improvisados. Carroças e carrinhos de mão saíam das torres do castelo carregados de comida e provisões, que transportavam até às cozinhas montadas no campo, debaixo de toldos de um amarelo vivo.

Os coloridos pavilhões vermelhos e prateados, com a insígnia real (o serpenteante dragão vermelho), começaram a encher-se por todo o campo. O fumo das fogueiras onde se cozinhava subia preguiçosamente para o céu sem vento, na forma de fios de seda. Um observaddor colocado nas ameias do castelo de Askelon teria a impressão de que acampara ali um exército ousado e colorido, cujas fileiras iam engrossando à medida que cada vez mais gente chegava ao campo.

- Pai! Pai! Anda cá depressa! Olha! - gritaram as crianças, correndo, agarrando nas mãos de Quentin e puxando-o para o torreão que ficava do lado de fora dos seus aposentos. - Olha! A caçada está quase pronta! Vê as pessoas! Nunca vimos tanta gente junta!

- Podemos entrar nos jogos, pai? - perguntou a princesa Brianna.

- Claro que sim - respondeu Quentin. - Haverá jogos para vós - rematou ele, estendendo a mão e afagando-lhe a cabeça.

- E podemos ver o circo? - acrescentou a princesa Elena.

- Sim, sim! - riu Quentin.

O jovem príncipe Gerin não pediu nada, pois considerava-se muito crescido para prazeres tão infantis. Por isso, limitou-se a olhar para a cena que se desenrolava lá em baixo com um sorriso aberto e o rosto corado de excitação.

- E tu, meu filho? O que vais fazer hoje?

 O príncipe Gerin virou-se e sorriu misteriosamente:

- Depois verás. É segredo! Surpresa!

- Está bem - retorquiu Quentin. - Se tenho de esperarar... Mas não demores muito a dizer-me, pois não consigo aguentar tanta curiosidade durante muito tempo! - Rindo-se outra vez, puxou o rapazinho para si e esfregou-lhe os ombros afectuosamente.

- Ah, estais aí! - disse Bria, saindo para o torreão. - Quanto mais cedo tomarmos o desjejum mais cedo nos juntaremos aos outros para o festival começar!

As princesas carregaram o cenho, em sinal de desaprovação. O príncipe Gerin girou nos calcanhares e correu para a porta.

- Não posso comer agora! - gritou. - Tenho de ir à procura do Toli! - E antes de a mãe poder protestar já tinha desaparecido.

- Hoje, o desjejum é indesejável - disse Quentin - Além disso, vai haver muito que comer e muito tempo para o fazer.

Se hoje alguém ficar com fome, será por sua culpa e de mais ninguém.

Bria suspirou, fez as raparigas seguirem à sua frente e desceram todos para comerem uma refeição apressada antes de partirem para a caçada.

Havia vários dias que os habitantes do castelo andavam numa grande azáfama. Tinham de organizar as comidas e as bebidas, de montar os pavilhões que estavam dobrados e guardados e de preparar o campo. Os menestréis e os saltimbancos, alguns com cães e ursos treinados, haviam começado a chegar à cidade. Os mercadores preparavam os produtos que iam oferecer às multidões e os vendedores de comida faziam os seus acepipes especiais. Toli e o príncipe Gerin tinham preparado a sua surpresa, treinando vezes sem conta os saltos mais difíceis. Ao cabo de muitos dolorosos trambolhões, o príncipe aprendera, por fim, a guiar o seu cavalo com mãos de mestre e a saltar com habilidade.

- Muito bem! Excelente! - gritara Toli no último dia. - Estás pronto para a caçada. Já te ensinei tudo o que sei!

- Achas que sim, Toli?

Toli assentira solenemente:

- É difícil encontrar no reino melhor cavaleiro do que tu. Estás pronto. Se não te esqueceres de tudo o que treinámos, estarás entre os melhores.

- A sério?

- A sério.

- O pai vai ficar surpreendido! - gritara o príncipe. - Não vais dizer-lhe...

- Nunca! Também quero ver a surpresa dele.

Aqueles últimos dias tinham sido difíceis para o príncipe, o qual tentava desesperadamente guardar um segredo que o queimava por dentro e que ameaçava sair-lhe de cada vez que abria a boca. Mas o facto era que conseguira aguentar-se: o segredo estava seguro.

Naquele momento, precipitando-se para as cavalariças à procura de Toli e do seu cavalo, corria com a velocidade do seu coração desenfreado. Encontrou Toli ajaezando a sua montada e examinando minuciosamente cada peça que ia pondo no cavalo, Ao aproximar-se, o príncipe abrandou. Tarky relinchou baixinho quando o rapaz estendeu a mão e lhe afagou o focinho lustroso.

- Vens montado ao meu lado, não vens, Toli?

- Claro que sim. Irei sempre ao teu lado. De que outra forma poderia acompanhar-te?

- Achas que vamos encontrar algum troféu?

- Temos tantas hipóteses como os outros. Nalguns casos, a mais. Talvez encontremos um troféu.

Os caçadores podiam caçar animais mas, para maior recompensa do seu esforço, também havia prêmios escondidos na floresta: troféus de ouro e prata, cálices, taças e outros objectos de valor, que animavam a competição e tornavam a caçada mais apetecível. Muitos dos caçadores nem sequer levavam armas, pois preferiam concentrar-se apenas na procura dos valiosos objectos. Era também esta a ideia do principe Gerin, que queria encontrar um troféu para completar a surpresa que faria ao pai. Quando o cavalo ficou pronto, o príncipe içou-se para a sela, com o coração batendo-lhe desenfreadamente dentro do peito. Depois, Toli e Gerin cavalgaram até às portas do castelo, onde se juntaram aos outros.

- Muito bem - disse Nimrood, envolto em sombras. - Sabeis o que haveis de fazer. Já o vistes bem. Não pode haver enganos.

Os seis homens reunidos à sua volta assentiram silenciosamente. Embora nenhum deles tivesse muito estômago para o que ia acontecer, não haveria enganos, pois todos eles receavam muito Nimrood e não queriam arriscar-se a desapontá-lo.

- Então, dispersai-vos com cuidado. Eu esperarei aqui. Não vos esqueçais do sinal e estai atentos. Sim, meus rapazes, estai bem atentos! Não é preciso recordar-vos que este nosso jogo é muito perigoso. Muito perigoso! - sibilou, fitando penetrantemente cada um dos homens. - Agora, ide. E estai a postos!

Com o vestuário escuro desaparecendo por entre as folhas verdes e as sombras densas da floresta de Pelgrin, os seis homens, escolhidos de entre os melhores dos guardas do templo, afastaram-se silenciosamente.

As feições cruéis de Nimrood enrugaram-se num riso maldoso.

- A minha vingança - sussurrou guturalmente para si próprio. - Por fim, terei a minha vingança.

 

Quando o rei reuniu a família e os amigos, o pátio interior encontrava-se numa grande azáfama. Bria e as princesas iriam para o campo numa carruagem alegremente engalanada. Quentin e o filho conduziriam os cavaleiros, seguidos de Durwin, Toli e tantos nobres visitantes quantos os que ainda não tinham partido para o campo. No entanto, Esme não estaria entre eles.

Quando tudo estava pronto, o armeiro surgiu a correr com um escudeiro de cada lado. Um dos rapazes transportava o escudo do rei, polido como um espelho, e o outro uma comprida almofada de cetim com a espada do rei, a Zhaligkeer, a Brilhante. O armeiro ajoelhou-se e estendeu as armas ao rei. Quentin assentiu e os escudeiros ajudaram o seu amo a ajustar a grande espada e, depois, entregaram-lhe o escudo, que Quentin pendurou ao ombro.

Havia muito que a fama da brilhante espada se espalhara por toda a terra. Não existia um único camponês que não soubesse como fora forjada nas minas perdidas dos Ariga, localizadas na montanha, com o lendário minério cintilante, o lantbaníl. As histórias da Brilhante e do poderoso Rei Sacerdote, que chegara ao trono por meio de um feitiço estranho e maravilhoso, contavam-se muito para lá das fronteiras de Mensandor. Os que, naquele momento, o viram com uma aparência tão forte e intrépida acreditaram nessas histórias mais fervorosamente do que nunca.

Montando Blazer, o corcel de um branco leitoso que dançava de lado, ansioso por partir, Quentin levantou a mão enluvada, as portas do pátio interior abriram-se de par em par, e o cortejo pôs-se em movimento para o pátio exterior, atravessou a casa da guarda, passou sobre a enorme ponte levadiça e desceu a rampa que ia dar à cidade. Embora muitos dos seus habitantes já tivessem partido para o local do festival, tinham ficado outros tantos a ladear as ruas e a acenar, saudar e dar vivas ao seu rei. As pessoas, muito contentes, iam ocupando os seus lugares atrás do cortejo que passava em direcção ao campo.

Sentindo-se orgulhoso e importante, o príncipe Gerin, com o coração esvoaçando dentro do peito como um pássaro cativo, olhava boquiaberto para tudo o que o rodeava. Naquele dia, a caçada parecia diferente; nada se assemelhava àquilo de que se lembrava. Tudo mudara e se tornara mais colorido, excitante e arrepiante do que nunca, pois ele ia participar na caçada!

O rapaz virou-se na sela e lançou um olhar conspirador a Toli, que seguia atrás de si. Toli estava a falar com Durwin, mas reparou no olhar do príncipe e piscou-lhe o olho.

Gerin virou-se para o que o rodeava. Os malabaristas atiravam facas e arcos ao ar e apanhavam-nos habilmente; um homem com um urso treinado por uma corrente exibia o animal a fazer o pino; os acrobatas revoluteavam e rodavam no ar, lançados uns pelos outros; uns rapazinhos, que tinham feito um par de andas com os ramos das árvores, tentavam aguentar-se em cima delas; os vendedores gritavam acima dos berros e dos risos, apregoando as suas mercadorias: fitas, jóias e caixinhas facadas.

O mundo estava cheio de som e cor. Aqui e ali, nos locais onde os menestréis reuniam público para ouvir as suas canções mais recentes, a música fazia-se ouvir mais alto; os cavalos galopavam e relinchavam, abanando as cabeças e fazendo tocar os guizos; as crianças corriam e riam, saltitando pela erva com os pés descalços.

O cortejo entrou no campo e Gerin voltou a sua atenção para a competição, Em volta do comprido rectângulo do campo alinhavam-se tendas e pequenos pavilhões, em cujas entradas se viam estandartes com as bandeiras dos senhores ou dos cavaleiros que os ocupavam. Alguns cavaleiros encontravam-se cá fora, tratando dos últimos preparativos relativos às suas montadas ou às armas. Alguns cães de caça estavam deitados na erva, esperando que a perseguição começasse, e outros, pressentindo a aproximação do momento em que seriam libertados, ladravam ansiosamente, esticando as correntes que os prendiam.

Gerin observava os pavilhões, lendo as divisas e procurando aquelas que conhecia: o carvalho verde dentro dos limites de um campo azul-celeste e dourado pertencia ao senhor de Grenfell, o javali e a lança num fundo vermelho ao senhor de Bossit e a lança e o escudo prateados sobre quadrados brancos e pretos era o brasão de Hedric de Bellavee. Via-se também a águia prateada e azul de Benniot, o touro vermelho num fundo preto de Rudd e a luva fechada sobre relâmpagos brancos de Fincher.

Havia mais que ele não conhecia... veados e cães, punhos com cota de malha e morriões, punhais e aves de rapina... mas não viu por lado nenhum os estandartes que mais queria ver: o falcão preto em fundo vermelho e a luva cinzenta fechada sobre o maço e o malho cruzados.

- Onde está o Theido, pai? E o Ronsard? Não os vejo - disse o príncipe, olhando em volta do perímetro do campo.

- Chegarão antes de a caçada acabar. O Theido mandou uma mensagem a dizer que chegará amanhã, e o Ronsard também. Eles não faltarão à caçada. Não te preocupes; os teus amigos hão-de vir.

Quando chegaram ao pavilhão do rei, desmontaram. As filas de bancadas já estavam cheias a transbordar, mas havia sempre mais gente a chegar. Na fila da frente, por trás de um balaústre, encontravam-se as cadeiras destinadas à família real e ao seu séquito. Sorrindo e acenando a todos quantos a saudavam, a rainha ocupou o seu lugar, e as princesas sentaram-se ao seu lado. O rei, imediatamente rodeado de pessoas que lhe queriam bem, avançou devagar para junto da sua cadeira, onde permaneceu de pé para fazer um sinal ao arauto.

O toque longo e límpido da trombeta convocou os cavaleiros, que entraram no campo, dispondo-se em filas à frente do pavilhão do rei. Quando todos estavam a postos, o rei fez um sinal de cabeça para um homem com um cinturão largo de couro, do qual pendia uma trombeta de caça.

Tratava-se do chefe da caçada, que conduziu o seu cavalo baio para a frente das fileiras e começou a recitar em voz alta as regras de conduta. Quando acabou, Quentin olhou para a multidão e gritou:

- Jurais submeter-vos às leis da Caçada do Rei?

- Juramos! - gritaram os cavaleiros em coro.

- Muito bem! - berrou Quentin. - Que a caçada comece!

Os caçadores soltaram um grande viva e todos os espectadores se reuniram em volta do campo. O chefe da caçada levou a trombeta aos lábios e já ia a soprar quando alguém ergueu a voz:

- O nosso rei podia conduzir-nos!

- O rei! - gritou mais alguém.

- Sim! O rei! - ecoaram os restantes cavaleiros. - Queremos o rei Quentin a conduzir a caçada!

Quentin sorriu e lançou um olhar à sua rainha.

Oh, tens de ir, pai! Tens de ir! - gritaram as princesas Brianna e Elena.

- É verdade - concordou Bria. - Vai com eles, meu marido.

- Está bem. Eu vou! - disse Quentin, preparando-se para abandonar o pavilhão e montar Blazer. A multidão soltou outro viva.

- O rei virá connosco! - gritaram todos. De facto, Quentiin ia com eles todos os anos, mas era sempre costume os participantes pedirem-lhe que os conduzisse. Normalmente, seguia com eles apenas durante um bocado, regressando depois para presidir aos outros jogos.

- Também vens, Durwin? - perguntou Quentin, descendo do pavilhão.

- Estou a ficar velho de mais para partir o pescoço. Deixo isso para os mais novos. Esperarei aqui o teu regresso.

- Durwin! - gritou a multidão. - Que o Durwin venha connosco!

- Durwin! Durwin! - entoaram os cavaleiros.

- Vês? Querem-te, Durwin. Vais desapontá-los?

- Está bem, eu vou - concordou, descendo para o campo atrás de Quentin.

Enquanto montavam e se preparavam para partir, Quentin olhou para o lado e viu o filho sorrindo-lhe, com o rosto brilhando de ansiedade.

- O que é isto?

- Eu também vou, pai. É esta a tua surpresa!

Antes que Quentin dissesse alguma coisa, Toli, que se achava ao lado do príncipe, explicou:

- Há semanas que andamos a treinar. O teu filho tornou-se um excelente cavaleiro.

- A sério? - indagou, fitando o filho.

O rapaz rompeu em gargalhadas:

- Se visses as nódoas negras que fiz, saberias que falamos a sério!

Sem saber o que havia de dizer, Quentin lançou um olhar a Bria, que, com uma expressão preocupada, assistia à cena do seu lugar, Quentin coçou o queixo e pareceu prestes a condenar a situação. Fitando Toli, perguntou:

- Achas que não há perigo? - O principe Gerin mordeu o lábio.

- Eu nunca o permitiria se achasse que ele corre algum perigo. Não te preocupes, que ele sabe tomar conta de si e da sua montada. Aliás, eu estarei sempre ao lado dele e não o deixarei afastar-se nem por um instante.

Quentin assentiu, com os olhos postos no rapaz. A intensa esperança que o jovem tinha dentro dele queimava-o como fogo.

Seria possível recusar-lhe uma satisfação tão grande?

- Então, como queiras - disse Quentin, abrindo o rosto num grande sorriso quando viu o que a sua aprovação significava para o filho, - Podes vir. E espero que encontres o maior troféu!

- Para ti, pai. Quero encontrar um troféu para ti!

- Toli, toma conta dele. E tu, senhor, vê se obedeces ao Toli!

Todos juntos, avançaram por entre os outros cavaleiros até à ponta do campo. O rei seguia à frente, com Durwin de um lado e o príncipe Gerin e Toli do outro. Quando ocuparam as suas posições, o rei levantou a mão e o chefe da caçada tocou a trombeta.

- Para a caçada! - gritaram todos, fazendo os cavalos darem imediatamente um salto em frente e atravessarem a planície a galopar, na direcção da floresta de Pelgrin.

O tropel dos cascos dos cavalos na planície parecia o rufar de um tambor. Ao passarem velozes como o vento, as pessoas soltavam vivas aos caçadores. Uma vez chegados aos limites exteriores do bosque, Quentin abrandou o passo e deixou os outros passarem-lhe à frente. Os que perseguiam a caça avançaram primeiro, com as lanças em riste, procurando pegadas entre os ramos escuros. Atrás deles seguiram os que buscavam troféus, e que se espalharam para continuarem sozinhos até aos locais secretos onde esperavam encontrar o seu prêmio.

- De que estás à espera? - gritou Quentin para o filho, que hesitou quando chegou aos limites do bosque. - Continua!

O jovem abanou as rédeas e Tarky desatou a galopar. Toli seguiu mesmo atrás dele.

- Ele está a crescer - disse Durwin junto ao ombro de Quentin.

- Às vezes penso que depressa de mais. - Sorriu no rasto do filho. - Olha para ele!

- Faz-me lembrar um outro jovem que conheci... foi assim há tanto tempo? Se não me engano, tinha uma égua castanha.

- Mas, se não me engano, não montava assim tão bem.

- Pois é! Mas tinha muita força de vontade e um coração determinado.

- Quer dizer, teimoso - riu Quentin. - Como mudámos, velho amigo!

- Sim, um bocadinho... mas ainda és muito como eras dantes. - O eremita sacudiu as rédeas. - Anda. Vamos ver como se sai. Se conseguires, acompanha-me! - Com estas palavras, lançou-se a galope.

- Isso é maneira de falares com o teu rei, velho eremita? - gritou-lhe Quentin, esporeando Blazer e precipitando-se para dentro do bosque verde e frio.

 

- O dia está tão bonito, senhora! Não quereis ir ter com os outros para assistir ao festival? - perguntou Chloe, aproximando-se silenciosamente de Esme, que olhava sem ver para a planície, onde tinham florido dezenas de tendas coloridas. - A caçada já começou.

Ficaram as duas a contemplar a fila de cavalos e cavaleiros, que galopavam pela planície de Askelon numa linha sinuosa e comprida. Passado um instante, Esme respondeu distraidamente:

- Se quiseres, podes ir, Chloe. Eu ficarei...

- Oh, vinde, senhora. Ides gostar. A sério, sei que sim.

- Ah - suspirou Esme. - Eu vou, se isso te dá prazer.

Como o dia estava bom, decidiram ir a pé pelas ruas vazias até ao campo do festival. Falando deste ou daquele pormenor que notara na casa do Rei Dragão, e comparando-o com o que conhecia de outras casas reais, Chloe não se calou nem um bocadinho durante todo o caminho.

Esme ouvia distraidamente a sua serva e deixava-a chilrear como um pardal, sentindo-se satisfeita por não ter de pensar. A melancolia da noite anterior voltara com a manhã. E, por mais que tentasse dominar-se, não conseguia libertar-se daquele estado de espírito. Por isso, sem esperanças de afastar o desespero que sentia e sem forças para o combater, entregava-se-lhe, deixando-se ir ao sabor da corrente.

“O que hei-de fazer?”, pensava. “O que hei-de fazer?”

Com a morte do marido, herdara vastas extensões de terra. Tinha sob a sua protecção várias aldeias pequenas, assim como um castelo e uma residência de Verão, com criados, feitores e servos. O seu tesouro era um dos maiores de Elsendor. Mas daria tudo de bom grado se isso lhe garantisse nem que fosse um vislumbre de esperança de ser feliz.

- Não ponhais essa expressão tão carregada, senhora - pediu Chloe.

- O quê? - Esme arrancou-se aos seus pensamentos sombrios.

- Prometei-me que ides tentar ter um dia agradável.

Esme sorriu:

- Vou tentar. Sei que não é próprio de uma dama carregar o cenho como um falcão. - Suspirou de novo. - Oh, Chloe, o que hei-de fazer?

Uma vez chegadas ao local do festival, abriram caminho entre os pavilhões às riscas amarelas e brancas, naquela aaltura devassados pela curiosidade da populaça. Enquanto seguiam para o pavilhão do rei, paravam, de vez em quando, a ver os acrobatas e os malabaristas ou a provar os doces dos vendedores.

- Esme! Esme! - chamou uma voz. Quando se virou, viu as duas princesinhas correndo na sua direcção. - Estamos tão contentes por teres vindo! Oh! - exclamou Brianna, quase sem fôlego. - Há tanto para ver!

- Tanto para ver! - repetiu Elena. - Anda connosco!

- Queres ver-nos num jogo? - perguntou Brianna.

- Por favor, tens de ver! - pediu Elena.

- Gostaria muito - disse Esme.

Rápidas como gafanhotos, as raparigas precipitaram-se para uma enorme roda de gente, reunida em volta de um jogo da laranjinha.

- Ainda bem que mudaste de ideias, Esme. - Bria foi pôr-se ao seu lado.

Esme baixou os olhos para o chão:

- Foi ideia de Chloe... - disse ela lentamente. Bria apercebeu-se do tom de desespero que tinha na voz. - Ontem à noite, devo ter tagarelado como uma peixeira.

- O que são umas tagarelices entre amigas? Ainda bem que confias em mim. Comigo podes falar à vontade.

Esme voltou a não falar durante algum tempo. As duas mulheres continuaram a caminhar lado a lado, em silêncio.

- É estranha, não é? - disse, por fim, Esme.

- O quê?

- A vida. - Esme lançou um olhar à amiga e, depois, desviou rapidamente a vista. - Ainda ontem tínhamos tanto à nossa frente... tantas esperanças para o futuro, tantos sonhos, tanta alegria... Bons tempos!

- Voltarão a ser bons tempos.

- Para os outros talvez, mas não para mim. Parece que tenho o destino traçado. Nunca fui...

- Todos nascemos para ser felizes, Esme, só que tu viste muita dor e sofrimento, e essas feridas demoram tempo a sarar. Não esperes que desapareçam num dia.

- Pensei que as coisas seriam diferentes ao vir para aqui, mas afinal, trouxe o sofrimento comigo.

- Então, faremos o que for possível para te libertar dele... mas também tens de ajudar.

- Tentarei, Bria. Tentarei... por ti.

- Por mim não, boa amiga. Por ti.

Os caçadores movimentavam-se pelos caminhos cheios de mato da floresta de Pelgrin, que vibrava com as suas vozes ou com o som das trombetas sempre que algum animal era apanhado ou algum troféu encontrado. Ao atravessarem uma clareira, pela qual passava um cintilante regato, Quentin e Durwin pararam para os cavalos beberem.

- Já estás cansado? - perguntou Durwin. Outros cavaleiros entraram no prado, pararam ao pé da água e seguiram caminho.

- Tenho de voltar ao festival para arbitrar os jogos. - Escutando o barulho que cavalos e cavaleiros faziam ao pisarem o matagal e sentindo o sol quente no rosto, acrescentou: - A caçada está muito boa, não está?

- Pois é! Não me lembro de nenhuma melhor do que esta.

Mas vai-te embora. Eu ainda fico mais um bocadinho. Quero ver o príncipe a montar. É uma alegria olhar para ele, Vou tentar encontrá-los.

Quentin fez rodar Blazer, começou a atravessar novamente o prado, acenou para Durwin e afastou-se a galopar.

Durwin dirigiu-se para o outro lado da clareira, onde havia um carreiro que entrava no bosque. Conhecia bem a floresta e desconfiava que sabia onde poderia encontrar Toli e Gerin, pois vira-os seguindo para sul mesmo antes de entrar no prado com o rei.

“Há quanto tempo não vivo na floresta?”, pensou. “Ah! Há tempo de mais! Até me esqueço desta paz, deste cheirinho, desta beleza... Talvez eu devesse deixar o castelo e voltar para a minha antiga casa. Talvez. Mas fico contente por estar onde o rei quer que eu esteja. Sim, fico contente.”

Estes e outros pensamentos ocupavam-lhe o espírito enquanto percorria os carreiros cheios de folhas da floresta. As sombras verdes eram frias; a luz amarela do Sol penetrava por entre as abertas do dossel de folhas, salpicando o carreiro de luz em movimento. Durwin saboreava a solidão do bosque e sentia o coração erguendo-se nos céus como um falcão.

De repente, o ar estremeceu com um grito de espanto, um berro súbito e agudo, que se prolongou por algum tempo e que, depois, foi silenciado. Como a floresta abafou o som, Durwin não conseguiu distinguir a sua origem, mas pareceu-lhe que viera de muito próximo.

Sem querer saber dos ramos que lhe embaraçavam o caminho, esporeou a sua montada. Ouviu-se outro grito, desta vez mais próximo.

Durwin atirou as rédeas para o lado e o cavalo seguiu pelo matagal. As urtigas picavam-lhe as pernas. Baixando-se para evitar os ramos, incitava o cavalo a andar mais depressa. Mesmo à sua frente, viu um movimento por entre as árvores e, por um breve instante, descortinou um cavalo a recuar e formas escuras, como sombras, fugindo pelo bosque.

Passando as árvores, cavalgou até uma parte mais larga do carreiro, e viu Toli e o príncipe Gerin montados a cavalo, rodeados por três homens com roupas escuras e espadas curtas, tentando encurralá-los. Só os faiscantes cascos de Riv mantinham os assaltantes à distância.

Sem pensar, Durwin soltou um grito e lançou-se para a frente. Ouvindo o seu berro, os homens viraram-se para a nova ameaça que caía sobre eles. O círculo desfez-se quando um dos inimigos foi ao encontro do eremita.

Mas antes de o homem poder levantar a espada, Toli fez girar Riv, e o ombro do cavalo de guerra atirou-o ao chão. Ao cair, o homem gritou e os seus dois viraram-se e fugiram a correr, voltando a fundir-se com a floresta.

O homem que estava no chão olhou para cima. o medo retorcia-lhe o rosto enfarruscado. Tinha um golpe no lábio. Cuspindo uma vez, pôs-se de pé e lançou-se por entre os cavalos em direcção aos limites do carreiro. Depois, embrenhou-se no matagal e desapareceu.

- Quem eram? - perguntou Durwin, sentindo o coração batendo-lhe depressa no peito.

- Não sei - respondeu Toli, - Parámos aqui para decidirmos por onde havíamos de seguir... e eles atacaram-nos num abrir e fechar de olhos.

- Estás bem, jovem príncipe? - indagou o ermita.

O príncipe Gerin assentiu lentamente, com os olhos muito abertos.

- o que achas que queriam?

Toli semicerrou os olhos na direcção dos assaltantes em fuga.

- Isso é o que eu tenciono saber. - Lançou um olhar rápido do príncipe para Durwin. - Fica aqui com o Durwin. Ele tomará conta de ti. Volto já.

O príncipe fez menção de protestar, mas fechou a boca e obedeceu.

- Tem cuidado; Toli. Não tens nenhumas armas.

- Voltai já para o campo - ordenou Toli. - Eu irei lá ter convosco. - Com estas palavras, embrenhou-se com Riv no matagal, atrás dos homens misteriosos.

 

- Há maldade no ar - observou Durwin em voz baixa. - Sinto-a. o mal ronda aqui por perto.

O príncipe Gerin fitou intensamente o eremita. Depois, cerrou os dentes e olhou para a frente com uma expressão sombria. Este gesto fez lembrar a Durwin um outro jovem que sempre enfrentara o perigo com a mesma determinação silenciosa. Como o jovem príncipe era parecido com o pai!

Iam eles pelo carreiro que Toli e o príncipe tinham percorrido em sentido contrário, quando Durwin levantou a mão e parou.

- Escuta! - sussurrou. Puseram os dois a cabeça de lado e ouviram um roçagar nos arbustos que ficavam atrás deles, ao lado do carreiro.

- Talvez seja o Toli - sugeriu o príncipe.

Durwin sentiu-se ainda mais rodeado pela escuridão, cuja presença e força desesperada eram quase palpáveis. Nessa altura, ocorreu-lhe que, havia muito tempo, já dera com uma força assim tão maligna... exactamente da mesma maneira.

- Temos de fugir! - murmurou asperamente. Gerin reagiu depressa e sem perguntas. Com um agitar de rédeas, os dois cavalos deram um salto em frente e começaram a percorrer o serpenteante carreiro da floresta, em direcção à segurança da planície. Mas ainda não tinham ido muito longe quando viram no carreiro dois homens com as mesmas roupas escuras dos que haviam encontrado antes. Os homens agitaram as suas espadas em frente dos cavalos e gritaram com ferocidade. Os animais pararam e viraram-se. Durwin fez girar a sua montada e Gerin imitou-o, mas, quando iam a retirar, apareceram mais dois bandidos no carreiro, atrás deles.

- Para ali! - gritou Durwin, apontando o matagal. O eremita hesitou, deixou que o príncipe passasse por ele como um relâmpago e lançou-se atrás dele.

Mas o pónei ficou emaranhado nas silvas e tropeçou, O príncipe Gerin gritou ao deslizar pelo pescoço do cavalo. Com um grunhido, aterrou no chão.

- Depressa! - berrou Durwin. - Monta outra vez! Depressa!

O rapaz pôs-se em pé de um salto e agarrou as rédeas penduradas no pescoço do cavalo, que tentava levantar-se. Ainda antes de o animal o conseguir, já o príncipe estava de novo sentado na sela.

- Foge! - gritou Durwin. - Foge!

O eremita baixou o olhar, viu várias mãos tentando chegar-lhe, fez das rédeas chicote e ouviu alguém praguejar. Ainda esporeou a montada para seguir atrás do príncipe, mas sentiu que lhe agarravam o braço. O cavalo cambaleou para a frente e Durwin foi atirado da sela, debatendo-se enquanto caía.

Aterrou de costas nos limites do carreiro. Ao ver um clarão na sombra e ouvir o ar assobiando por cima da sua cabeça, lutou para se pôr de joelhos e sentiu um golpe agudo de lado. Quando se virou e se atirou de costas para o carreiro, ouviu o sopro do ar por entre dentes cerrados e viu um arco de luz baixando sobre si. O golpe atingiu-o nas costas. Os seus joelhos dobraram-se e ele caiu no carreiro.

Durwin pôs a mão de lado e sentiu um calor molhado impregnando-lhe o vestuário. Quando a retirou, a semiobscuridade da floresta não o impediu de ver as gotas vermelhas que dela pingavam. O ferimento queimava-o; as chamas percorriam-no, vindas da dor palpitante que sentia mesmo abaixo das costelas. Tentou Levantar-se, mas caiu outra vez: tinha as pernas entorpecidas e insensíveis. Houve um movimento rápido ao lado dele, um grito na floresta, um pouco para a frente, e o estalar de ramos. Depois, outro grito mais afastado e o silêncio.

O tempo enrolou-se, abrandou e pairou imóvel. A mente de Durwin parecia um furacão. Fora atingido por uma espada invisível. Em vez de acabarem com ele, os atacantes haviam ido atrás do príncipe Gerin. Tinha de avisar Toli. Mas como? Tentou gritar, mas o esforço que fez custou-lhe uma dor abrasadora. Tossiu e cuspiu. Tinha a saliva raiada de sangue. “A ferida é grave”, pensou, “mas não interessa.” Encostou-se para trás, ofegante. Tinha de chamar Toli. O santo eremita da floresta de Pelgrin fechou os olhos e começou a rezar:

 - Deus Altíssimo, ouvi o vosso servo nesta hora de necessidade. Trazei o Toli até nós para nos salvar. Trazei-o depressa, antes que seja tarde. Salvai o príncipe. Que não lhe aconteça nada de mal...

Foi envolvido por uma névoa negra, que se apoderou dele. Lentamente, os seus lábios deixaram de se mexer. jazia de costas na erva musgosa e macia do carreiro da floresta, e por baixo dele ia-se espalhando uma feia mancha vermelha.

Quentin já passara os limites de Pelgrin e começara a atravessar a planície, quando hesitou. Aquilo que ouvira era um grito? Parou e ficou imóvel como uma pedra.

O ar estava calmo e quente; uma brisa muito leve soprava preguiçosamente, levantando as folhas e a erva que o rodeavam. Ali perto, uma cotovia chilreava a sua canção para o Sol.

Apesar de tudo, pareceu a Quentin que o brilho dos céus diminuíra de intensidade, que uma nuvem passara em frente do Sol, tapando o seu rosto por um breve instante. Depois, tudo ficou como dantes, mas o rei sentiu um formigueiro que lhe alertou os sentidos para um perigo desconhecido.

Por isso, virou imediatamente Blazer para a floresta e, deixando-se guiar pelos seus instintos, foi avançando por um carreiro que dava para sul, pois sentia que era dessa direcção que viera o grito que imaginara ouvir. Os troncos das árvores, bandas de luz e sombra, iam-se esborratando à medida que Quentin avançava por este obscuro corredor de Pelgrin. Com o coração batendo-lhe fortemente no peito, incitava Blazer a andar cada vez mais depressa na direcção que apenas os instintos lhe ditavam.

Ao atingir uma pequena clareira, parou. À sua frente, no carreiro, viu uma trouxa. Era um corpo?

Quentin deslizou da sela, correu até lá, ajoelhou-se e fez rolar o corpo nos braços.

- Durwin!

O rosto do eremita estava da cor da cinza. Com um estremecimento das pálpebras, focou o amigo com os seus olhos enevoados:

- Ah, Quentin...

- O que aconteceu? Quem te fez isto?

- O príncipe... o teu filho. Levaram-no...

- Quem? Deixa-me ajudar-te...

- Não, não. Deixa-me. Vai procurar o teu filho. Eles foram por ali. - Debilmente, fez um gesto de cabeça.

- Quantos?

- Três ou quatro. Não os vi muito bem. Talvez sejam mais.

O Toli... ah! - A dor contorceu-lhe as feições; os seus braços e pernas estremeceram e, depois, descontraíram.

- Cuidado. Havemos de encontrá-los. Agora, descansa - disse Quentin, esforçando-se por permanecer calmo.

- Sim, vou descansar. - A voz do eremita era fraca, mas os seus olhos fitavam intensamente os de Quentin. - Percorremos juntos um longo caminho, hã? - Tossiu e fechou os olhos com força - É verdade, e ainda temos outro tanto para percorrer. - Quentin apertou-o com mais firmeza.

- Acho que o percorrerás sozinho. Mas estou satisfeito... não tenho medo de morrer.

- Tu não estás a morrer! - gritou Quentin desesperadamente, com um nó formando-se-lhe na garganta. - Vais sobreviver. Já vem aí quem te ajude.

- Temo que venha tarde de mais. - Tornou a fitar Quentin.

- Não censures o Toli. A culpa não é dele.

- Não compreendo - retorquiu Quentin.

- Sê forte, Quentin. Lembra-te de que és o rei. Tens de governar o teu reino. Esta vai ser a tua prova mais amarga, o teu dia mais sinistro.

- Não! - Quentin via a vida a fugir do amigo. - Tu nunca morrerás!

- Pois é! O espírito nunca morre... nunca. Voltaremos a encontrar-nos, bom amigo. Esperarei por ti. Nem dor nem medo...

- Não me deixes! - gritou Quentin.

O corpo do eremita foi atravessado por um leve estremecimento e imobilizou-se. A sua respiração soltou-se num suspiro. Durwin morrera.

 

- Loucos! Imbecis! - praguejou Nimrood. - O que fizestes? - Rodava em volta do círculo, apontando o dedo nodoso para os rostos sérios que tinha à frente. - Pagá-lo-eis com as vossas vidas!

- Só fizemos o que nos ordenastes - disse o chefe dos guardas do templo. - Como havíamos de saber que ele ia deixar o príncipe? Eles estavam juntos.

- Silêncio! Deixai-me pensar! - Parou para fitar furiosamente o príncipe Gerin, que, por sua vez, o observou com uma expressão de desafio. - Mandei-vos apanhar um homem e trazeis-me um rapazinho!

- já disse que ele é. o príncipe! - teimou o homem.

- Isso é verdade? - perguntou Nimrood, pousando os olhos no rapaz, - Como te chamas?

- Gerin - respondeu ele firmemente, - Quem és tu?

- Descarado! - O velho estendeu a mão e esbofeteou-o, deixando-lhe uma marca vermelha na face.

- O meu pai diz-te - ameaçou o príncipe. - Solta-me.

- Não - retorquiu lentamente Nimrood, com uma ideia formando-se-lhe no espírito. - Aqui está uma coisa que posso usar em meu favor. - Sorriu astutamente, - Claro, claro. - Deu uma risadinha para si próprio e ordenou: - Trazei-o!

Começaram a caminhar, embrenhando-se mais profundamente na floresta. Dois homens muito grandes empurravam o príncipe para a frente. Quando Gerin caía de gatas, eles levantavam-no pela gola e tornavam a empurrá-lo. Um outro guarda conduzia Tarky pelas rédeas.

- Vós os dois - disse Nimrood, apontando para os dois homens que seguiam na retaguarda -, ficai para trás. Se vier alguém na nossa peugada, acabai com ele. Ouvistes?

Os dois homens entreolharam-se com um ar preocupado, mas assentiram e deixaram-se ficar para trás. Dali a pouco, Nimrood, o príncipe e os outros estavam perdidos no meio da densa vegetação da floresta. Os dois guardas ficaram a ver os seus camaradas a desaparecer.

- Isto não me agrada nada - murmurou um deles para o outro. - Nem um bocadinho, por Ariel! Nós somos guardas do templo, e ele transformou-nos em raptores e assaltantes de estrada!

- Não te ouvi queixares-te - replicou o outro num tom de voz desagradável. - Agora que estamos metidos nisto, não temos outro remédio senão continuar.

- Pois sim, mas onde irá isto tudo dar? Isso é que eu gostava de saber. Cheira-me a morte. A morte, ouves? Isto ainda vai ser a desgraça do templo.

- Está calado! já temos preocupações que cheguem. Para sairmos disto vivos, temos de nos manter alerta e de deixar de miar como gatos doentes.

- Ele levou o príncipe! Por Ariel...

- Cala-te! Estamos tão metidos nisto como ele. Não vale a pena continuarmos a choramingar. Anda, vamos embora.

Tomando a direcção seguida pelos outros, afastaram-se os dois, escutando nervosamente os sons da floresta e esperando, contra todas as esperanças, que ninguém fosse atrás deles.

Toli entrou no carreiro, avançou para a clareira e, ainda antes de ver as formas que estavam no chão, percebeu que se passava qualquer coisa. A terrível apreensão que se apoderou dele fez o seu coração dar um salto e bater-lhe fortemente dentro do peito. Desmontando rapidamente, correu para o sítio onde Quentin se encontrava segurando o corpo de Durwin nos braços.

- Senhor! Oh! - Percebendo o que acontecera, estacou e ajoelhou-se.

Quentin levantou lentamente a cabeça. Tinha o rosto molhado de lágrimas.

- O Durwin morreu - disse baixinho. - Morreu. Toli, eu... - A voz tremeu-lhe e ele tornou a cingir o corpo, com os ombros sacudidos pelos soluços que o assolavam.

Toli sentiu-se como se lhe tivessem cortado o coração ao meio. Sentando-se nos calcanhares, ergueu o rosto para o céu, cuja tonalidade azul-clara se via por entre as árvores. Dali a pouco, ouviu-se na clareira verde e calma o delicado som da voz de Toli, entoando o antigo cântico jher para os mortos:

 

Whinoek brea faro lleani,

Falleí sensi nessina wea.

 

As palavras eram simples, e Quentin percebia-as. Toli cantava: “Pai da Vida, recebei o nosso irmão. Dai-lhe a paz na vossa morada.”

Para o delicado povo jher, que não tinha nenhuma habitação permanente e que vagueava pelas florestas do norte, a morada de Whinock significava alegria, segurança, paz e conforto eterno, o que representava a satisfação do seu maior desejo.

Passado algum tempo, a canção acabou e desvaneceu-se docemente no ar. Quentin pousou cuidadosamente o corpo do eremita no chão e, com a ajuda de Toli, arranjou-lhe os braços e as pernas, afastou uma madeixa de cabelo do rosto largo do homem que amara e beijou-lhe delicadamente a testa alta. Depois, levantou-se devagar.

- Hão-de amaldiçoar o dia em que nasceram - murmurou. - Vou atrás deles.

- Não, deixa-me ir a mim. Eu...

- Eu vou. Vai ao castelo buscar um ataúde e, depois, leva-o para lá. Irei ter contigo quando encontrar o meu filho.

- Mas... - objectou Toli, levantando-se e aproximando-se do rei.

- É tudo - cortou Quentin friamente. - Faz o que te digo.

Quando acabares, e se eu ainda não tiver voltado, vai atrás de mim com alguns cavaleiros.

- O que vais fazer? - Toli estava assustado com a expressão do seu amo.

- Vou buscar o príncipe. - Com estas palavras, virou-se e encaminhou-se para o local onde Blazer esperava pacientemente.

Pegando nas rédeas, saltou para a sela e olhou novamente para o corpo do eremita, estendido no chão. - Adeus, velho amigo - disse simplesmente, erguendo a mão devagar, numa saudação final. Depois, afastou-se.

- Porque se demorarão tanto? - interrogou-se Bria em voz alta. - já deviam ter regressado.

Esme, sentada ao lado da rainha no pavilhão real, esticou o pescoço e olhou para a floresta:

- Não vejo vir ninguém. Mas sabes como são os homens e as suas caçadas. Não me admirava nada que se tivessem entusiasmado e esquecido do resto.

- Tens razão. De certeza que foi isso que aconteceu - Apesar destas palavras, Bria, no seu íntimo, estava pouco convencida. Mas virou outra vez o olhar para os usuais pantomineiros que actuavam à sua frente e cujos fatos brilhantes cintilavam ao sol.

As duas princesinhas soltavam risadas e batiam palmas de alegria. Bria tentou mostrar interesse pela actuação, mas, de vez em quando, ao ver que Quentin, Durwin e os outros não regressavam, os seus olhos desviavam-se para a floresta. Mas, como nunca descortinava ninguém, acabou por se obrigar a concentrar-se no espectáculo.

- Olha! - sussurrou Esme. - Um cavaleiro!

A rainha levantou os olhos e fitou o ponto indicado por Esme, conseguindo distinguir apenas a forma de um cavaleiro atravessando a planície.

- Oh! Só um! - Uma seta de temor trespassou-lhe o coração. - Aconteceu alguma coisa!

- Não sabemos - retorquiu Esme, dando pouca importância ao assunto. - Vamos esperar até ouvirmos o que ele tem para nos dizer. Talvez seja só um mensageiro a informar-nos de que o rei se atrasou... coisa que já sabemos. - Riu-se, mas sem qualquer alegria na voz.

- Quem é? Consegues ver? - Bria levantou-se.

- Não, ainda não.

Esperaram. A tensão esticou-se como a corda de um arco.

Enquanto o cavaleiro se aproximava, a rainha Bria retorcia nas mãos a parte da frente do vestido.

- É o Toli! - gritou Esme.

- Pois é, estou a vê-lo! - Bria afastou-se da sua cadeira, - Anda! Não aguento mais tempo aqui. Ficai com a Chloe - disse às filhas. - volto já.

- Eu olharei por elas, senhora - respondeu Chloe.

As duas mulheres precipitaram-se para o campo, espalhando actores, que se afastaram para as deixar passar e que, depois, continuaram a sua actuação.

Encontraram-se com Toli nos limites do recinto das festividades.

- O que foi? - perguntou a rainha, cuja intuição já lhe dava a pior resposta possível.

Toli fitou-a com gravidade. Não olhou para Esme, Bria sentiu uma fina lâmina de terror deslizando-lhe por entre as costelas.

- O rei... - murmurou. - O rei não...

Toli pegou na mão da rainha.

- Senhora, o rei está bem - disse suavemente, perscrutando-lhe o olhar em busca de força para continuar.

- Sim, diz. - Bria fitou-o com firmeza.

- O Durwin morreu.

- Como? - arquejou Bria.

- Uns raptores assaltaram-nos na floresta. Ele morreu a proteger o príncipe.

- E o príncipe? Está são e salvo? - indagou Esme.

- Desapareceu, Levaram o príncipe...

- Não! - murmurou Bria. O som das vozes e o tinido dos guizos que os rodeavam desvaneceu-se, dando à rainha, que cambaleou sob a força de um golpe mortal, a sensação de que o mundo se esborratava perante os seus olhos.

- Onde está o rei? - perguntou Esme, esforçando-se por manter a voz firme.

- Estava com o Durwin quando o encontrei. Foi atrás do príncipe, - Lançou um olhar breve a Esme, como se reparasse nela pela primeira vez. - Venho buscar um ataúde para trazer o Durwin para o castelo e depois regressarei com alguns cavaleiros para junto do rei.

- Nós trataremos do ataúde. Tu tens de ir imediatamente reunir os cavaleiros, como o rei ordenou. Vai depressa.

Toli hesitou, pois não tinham sido aquelas as instruções do rei. Bria voltou a si:

- Concordo. Não desperdices nem um momento. Vai. - Bria pousou-lhe a mão no braço. - Vai depressa, por favor.

Toli continuou hesitante:

- Eu devia ter lá estado - disse. - Nunca devia tê-los deixado sozinhos.

- Não - retorquiu Esme. - Não há tempo. O que está feito está feito.

- Vai. Ele precisará de ti com ele - acrescentou Bria.

- Muito bem. O Durwin está numa clareira do carreiro que vai para sul. Mandarei alguém para vos guiar. - Toli inclinou a cabeça, voltou a montar e partiu outra vez para a floresta, onde poderia encontrar os cavaleiros de que precisava, pois estavam quase todos na caçada.

Bria virou-se para a amiga e tentou falar, mas da sua boca não lhe saiu qualquer palavra.

Esme passou-lhe um braço à volta dos ombros.

- Anda. Há muito que fazer. Temos muito com que nos ocupar enquanto esperamos. E rezemos para que a espera não seja muito longa.

- É verdade, temos de rezar pelo Quentin e pelo Gerin, que bem precisarão das nossas orações.

 

Uma vez em Pelgrin, Toli meteu pelo primeiro carreiro que ia dar ao coração da floresta. Os caçadores tinham-se embrenhado no bosque e haviam-se dispersado muito. Para encontrar pistas ao longo do carreiro e ouvir os sons produzidos pelos caçadores, Toli teria de manter os olhos e os ouvidos alerta. Quando chegou a um local onde um regatozinho cantava por entre os grandes troncos de carvalhos antigos, viu, nas suas margens, várias pegadas de cascos, as quais indicavam que numerosos cavalos haviam ali parado para beber, antes de prosseguirem caminho. Sem pensar duas vezes, saltou o regato e embrenhou-se na floresta atrás deles.

Dali a pouco, foi recompensado com o som de uma trombeta.

A nota longa e límpida chegou de longe, mas, como permaneceu uns instantes no ar, deu a Toli as indicações de que ele precisava. Alerta a todos os sinais indicativos da passagem dos caçadores, Toli seguiu-os sem hesitar, através do matagal denso e emaranhado, Riv avançava de cabeça baixa e orelhas puxadas para trás. O cavalo, que respondia sempre até à mais subtil das ordens do seu dono, passava como um jogo de luz e sombra por entre as árvores e os ramos estendidos no caminho.

De súbito, Toli ouviu vozes um pouco à frente e deu uma palmada na garupa de Riv, que saltou um tronco caído e foi aterrar no meio de um carreiro muito usado.

- Eh! - gritou um dos homens ao ver Toli. - O Toli! Olhai! - Os que estavam com ele levantaram a cabeça. Eram quatro: Galen, Bossit, Hedric e Dareth. Estavam a esquartejar um javali que tinham acabado de matar. Toli deu graças ao Altíssimo por encontrar estes homens valentes e corajosos em primeiro lugar.

- Meu senhor Galen... meus senhores... - saudou Toli, puxando as rédeas de Riv, que relinchou alto. Quando os outros viram os flancos do animal cobertos de espuma, perceberam que Toli tinha alguma missão urgente.

- O que se passa, senhor? - perguntou Bossit. Uma expressão de preocupação toldava-lhe as feições.

- O ministro do rei foi abatido e o príncipe raptado - disse Toli, quase sem fôlego, devido à cavalgada que fizera.

- Pelos deuses! - explodiu Hedric, pondo-se em pé de um salto.

- Como?

- Quando?

Toli inspirou profundamente:

- Fomos atacados pelos assassinos no bosque, não muito longe daqui... mesmo há bocadinho. Eu fui atrás deles, mas eles recuaram e caíram sobre o príncipe. O Durwin tombou ao querer protegê-lo.

- O eremita morto? o herdeiro desaparecido? - Entreolharam-se sombriamente.

- Montai imediatamente e vinde comigo - continuou Toli. - Vamos ter com o rei, que segue no seu encalço.

- Por Zoar, esses patifes pagarão caro este ultraje! - jurou Galen. - Estamos às tuas ordens, senhor!

 Com estas palavras, os cavaleiros abandonaram a sua presa, montaram os seus cavalos e fizeram fila atrás de Toli, que avançou até ao sítio onde enfrentara os assaltantes. Seguindo o mais depressa que podiam, chegaram, por fim, à clareira, onde reinava a tranquilidade e a frescura. Borboletas amarelas esvoaçavam por entre as folhas, entrando e saindo de raios de luz que caíam obliquamente através das árvores. Um tordo cantava nas copas altas, lançando para o ar um som límpido, líquido e cristalino, impregnado de pureza e doçura.

A clareira parecia encantada, e ninguém se atrevia a quebrar o feitiço daquele lugar.

Durwin ainda jazia onde o tinham deixado. Achava-se tão imóvel e tranquilo que parecia estar apenas adormecido. A estranheza da cena fez com que, ao princípio, ninguém falasse.

O eremita jazia morto, mas parecia tão em paz que os que o olhavam só conseguiam fitá-lo com temor. A sua presença fazia-se sentir fortemente; cada um deles teve a sensação de ser tocado por Durwin.

- Devia ficar alguém com ele - disse Bossit. - Eu fico.

- Não - replicou Toli em voz baixa. - Ele está em segurança aqui na floresta. Agora, já nada lhe pode fazer mal. Vai ao castelo e indica o caminho aos outros. A rainha traz um ataúde. Trata de tudo.

- Como queiras, senhor. - E partiu imediatamente.

- O rei foi para sul - indicou Toli, virando Riv e tomando o carreiro que ia nessa direcção. Os outros cavaleiros seguiram-no sem uma palavra.

Quentin passou a pente fino uma vasta extensão da floresta, primeiro avançando por um caminho durante meia légua ou mais e, depois, virando para outro, Mas, apesar do seu cuidado e vigilância, não conseguiu descobrir nenhum sinal dos assassinos em fuga.

No entanto, continuava a avançar sempre para sul, pois, embora soubesse muito bem que os raptores podiam ter tomado outra direc-ção, tinha o pressentimento de que fora aquela a que eles haviam escolhido. A floresta era imensa; para a cobrir toda, seriam necessárias dezenas de homens e muitos meses de buscas diligentes, Enquanto cavalgava, Quentin tentava dominar a crescente sensação de futilidade e desespero que o invadia e crescia dentro dele como um caldo preto e nojento fervendo ao lume.

Parava periodicamente para se pôr à escuta, mas só detectava os sons normais e preguiçosos do bosque. Depois, continuava.

De repente, sem qualquer aviso, Blazer desceu uma encosta curta e inclinada, e Quentin encontrou-se na estrada que ia para sul, na direcção de Hinsenby, e que, depois, curvava para sudoeste ao longo da costa. Por um momento, deixou-se ficar imóvel na sela, perscrutando ambos os lados da estrada. Como não viu nada de extraordinário, virou-se mais uma vez para sul e prosseguiu a sua jornada.

Um Pouco mais à frente, chegou a um valezinho arborizado, onde a estrada mergulhava de encontro às margens rochosas de um ribeiro. Foi aqui que encontrou a sua primeira pista: na poeira da estrada, junto às margens do ribeiro, descobriu várias pegadas feitas por homens e pelos cascos de um cavalo.

As pegadas pertenciam a alguém que saíra da floresta naquele ponto, depois de ter seguido o ribeiro até este se encontrar com a estrada. Havia mais pegadas do outro lado do regato. Blazer chapinhou na água e Quentin inclinou-se na sela para as examinar. Era difícil saber qualquer coisa a partir daquelas pegadas, pois havia mais ao longo da estrada.

“A caçada!”, pensou Quentin. “Como sou tolo! Todas estas pegadas pertencem às pessoas que foram ao festival.” De repente, a sua esperança, que renascera tão depressa, morreu Mas não inteiramente. De todas as marcas impressas na poeira, só umas poucas se dirigiam para sul. As outras apontavam para norte, na direcção de Askelon.

Agarrando-se a uma prova tão ténue, Quentin voltou a incitar o robusto Blazer a prosseguir. Enquanto o cavalo voava pela estrada larga, o rei procurava quaisquer sinais da passagem do seu filho.

- Escuta! - disse um guarda do templo para o outro. - Vem aí alguém. Pararam os dois a examinar a parte da estrada que tinham deixado para trás e ouviram o tilintar de pequenos guizos... dos que os cavalos usavam nos arreios.

- Sai da estrada. Se pararem, puxa da espada e está a postos - ordenou o primeiro guarda.

- Mas... - protestou o outro. As mãos tremiam-lhe ao tocar na arma que tinha escondida de lado, por baixo da capa.

- Depressa! Eu ficarei aqui e tentarei desviar-lhes a atenção.

- Porque fomos escolhidos para esta amaldiçoada tarefa? - resmungou o outro.

- Faz o que te digo! Depressa! Eles estão quase aqui!

O assustado guarda lançou um olhar sombrio ao camarada e desapareceu no matagal que crescia ao lado da estrada. Dali a pouco, o primeiro guarda viu cavaleiro e cavalo aproximando-se rapidamente.

- Tu aí! - gritou Quentin. O nervoso cúmplice virou-se e pestanejou, fingindo não saber bem se era a ele que se dirigiam, e deu com os olhos no alfinete de ouro trabalhado que prendia a capa do cavaleiro: um terrível dragão serpenteante, o brasão real.

Ao reconhecer Quentin, o homem foi percorrido por um arrepio e a cor esvaiu-se-lhe do rosto.

- Com que então, conheces o teu rei, não é?

O homem humedeceu os lábios e retorquiu:

- Estou às vossas ordens, Majestade. - Os seus olhos esquivavam-se constantemente.

- Há quanto tempo estás nesta estrada? - inquiriu Quentin.

- Bem, nós... eu... há pouco... quer dizer...

- Para onde vais?

- Para Hinsenby, Majestade.

- Vais sozinho? - Quentin bem via que o homem estava aflito com as suas perguntas.

- Vou, Majestade. - Os olhos do homem voltaram a esquivar-se.

- Viste alguém no caminho?

Depois de pensar por um momento, o homem replicou:

- Vi. Ainda há pouco. Ali atrás, ao pé do ribeiro. Um grupo de viandantes. Suponho que eram mercadores.

- Quantos eram?

- Cinco ou seis. Pareceu-me que iam para Askelon.

Quentin virou-se na sela e olhou para trás. Não, as pegadas apontavam para o outro lado. Nessa altura, viu as marcas que se afastavam da estrada. Voltou-se novamente para o homem, mesmo a tempo de o ver olhar rapidamente para o lado.

- Mercadores?

- Suponho que sim, Majestade.

- E tu também és mercador? - perguntou o rei com um ar desconfiado.

- Eu sou... - o homem hesitou - peregrino, Majestade.

- Dizes que iam para Askelon? Ia algum rapaz com eles? Um rapaz a cavalo?

O falso peregrino abriu a boca, mas as palavras colaram-se-lhe à língua.

- Responde depressa, amigo! Tens uns modos muito estranhos.

O viandante corou:

- Não, não ia nenhum rapaz com eles. Eu, pelo menos, não vi nada.

- Mentiroso! - gritou Quentin, carregando furiosamente o cenho. - Perto da água, vi pegadas de cavalo que continuam nesta direcção.

O guarda do templo olhou muito sério para o rei e não disse nada.

- Mentir ao rei é uma ofensa grave - continuou Quentin, em voz tensa mas controlada. - Vou dar-te mais uma oportunidade. Para onde é que eles foram?

- Não sei, Majestade. Por favor... não é...

- Estás conluiado com eles? - berrou Quentin. - Responde!

Nesse momento, ouviu-se um roçagar entre os arbustos que cresciam à beira da estrada. Quentin voltou-se na altura em que outro homem, vestido como o primeiro, com uma túnica escura e uma capa comprida, apesar do calor que fazia, saltou do seu esconderijo, de espada na mão. Este segundo homem, com os olhos abertos de terror, precipitou-se desajeitadamente para a frente, gritando:

- Ataca!

Quentin virou-se e viu uma lâmina na mão do primeiro peregrino.

A Zhaligkeer cantou ao ser desembainhada. A sua lâmina comprida luziu com o brilho frio que lhe vinha do intenso fogo interior, Quentin fez girar a temível espada por cima da cabeça.

- Vós matastes o Durwin! - berrou.

Os dois homens viram a terrível espada e recuaram assustados.

- Assassinos! - gritou Quentin. - Cobardes!

- Piedade! - implorou o primeiro assaltante. - Piedade...

suplico-vos!

A cólera atravessou o espírito de Quentin como metal derretido; a sua fúria selvagem invadiu-o com uma força cega.

- Piedade? - gritou. - Serei tão piedoso convosco como vós fostes com o Durwin!

Antes de o homem ter tempo para se virar e fugir, a Brilhante silvou no ar e descreveu para baixo um cintilante arco mortal. O assassino em potência levantou rapidamente a espada acima da cabeça, na tentativa de aparar o golpe, mas a lâmina estilhaçou-se na sua mão e os pedaços caíram ao chão. Com o som de uma morte certa assobiando atrás de si, o homem guinchou e caiu de joelhos.

- Piedade! - gritou. - Perdoai-me! - A brilhante Zhaligkeer encheu-lhe os olhos horrorizados com a sua luz etérea e ele pôs as mãos à frente do rosto. O golpe atingiu-o na nuca, interrompendo-lhe o último grito de remorsos. O homem caiu para a frente. Já estava morto ao tocar no chão da estrada.

Um fino fio vermelho escorria pela lâmina da Zhaligkeer.

Quentin rodou na sela para encarar o segundo vilão, que atirou a arma para o chão e mergulhou de cabeça nos arbustos, desaparecendo na floresta.

A raiva que queimara tanto as veias de Quentin desapareceu tão depressa como se incendiara. O rei contemplou o desgraçado morto na poeira, depois a espada que tinha na mão, e o coração gelou-lhe dentro do peito. A temível lâmina da Zhaligkeer, que mostrava um brilho baço à luz desvanecente do fim da tarde, parecia agora feita de um qualquer metal vulgar.

A viva chama branca da Brilhante desaparecera.

 

Em silêncio, as mulheres entraram na clareira, que pouco mais era do que um sítio onde o carreiro se alargava. Esme e Bria saltaram dos seus cavalos. Bossit mandou parar a pequena carroça de duas rodas que transportava o ataúde. Ao imobilizarem-se, as rodas de madeira chiaram, produzindo o único som que se ouvia naquele lugar.

- Oh! - arquejou Bria ao ver o amado eremita. Avançando devagar mas com firmeza, a rainha ajoelhou ao lado do corpo. As lágrimas começaram a correr-lhe silenciosamente.

Esme aproximou-se e passou o braço à volta dos seus ombros.

- Adeus, doce amigo - murmurou Bria, estendendo os dedos para tocar nas mãos cruzadas e já frias de Durwin. Depois, virou-se para Bossit, respeitosamente de pé ali perto. - A minha mãe está à espera, Vamos levá-lo.

Bossit fez um sinal de cabeça ao condutor da carroça, e os dois homens içaram o corpo para o ataúde.

Quando soubera da tragédia, Alinea não dissera nada, mas ficara com as mãos a tremer. Depois, quando falara, fizera-o em voz baixa mas firme: já dominara a dor ou, pelo menos, pusera-a de lado.

- Sim - dissera. - Tendes de ir buscá-lo imediatamente.

Levai-o para os seus aposentos. Prepararemos lá o corpo. Esperarei o vosso regresso e, enquanto espero, rezarei... pelo príncipe Gerin, claro, mas também pelo Quentin e por todos nós. Agora, ide, e que o Altíssimo vos acompanhe.

Esme ficara maravilhada com a força e a serenidade da rainha-mãe, que acalmara os que a rodeavam, consolando-os da dor daquela notícia tão amarga, e recordara um outro dia sombrio: o dia em que Eskevar tombara na batalha. Uns dias depois do funeral do rei, Esme perguntara à rainha como conseguira manter-se tão forte, consolando os que a rodeavam, sem parecer precisar ela própria de ser consolada.

- Não, eu não sou forte - dissera-lhe Alinea. Encontravam-se sentadas no jardim, entre as primaveras. Também estava lá Durwin, que fora a companhia constante da rainha durante aqueles dias atribulados. - Embora seja verdade que o sofrimento não me é estranho, ninguém faz amizade com a dor. Mas aqui o Durwin mostrou-me o caminho da esperança. Esta esperança que trago dentro de mim torna-me o fardo mais leve e ajuda-me a consolar os que não a têm.

- Então, dizei-me, senhora, que quero saber: como poderei obter essa vossa esperança? Onde posso encontrá-la? - perguntara Esme, que ainda se lembrava das palavras de Alinea.

Mas também se lembrava das de Durwin:

- A esperança que procuras nasce da fé no Altíssimo, no Deus Único e Verdadeiro - afirmara ele. - Procura-o e encontrá-lo-ás. Ele está sempre de mão estendida para os que desejam conhecê-lo verdadeiramente.

- O que tenho de fazer? Onde é o seu templo?

Durwin rira-se:

- Ele não é como os outros deuses. Não tem nenhum templo e não aceita oferendas de prata ou de ouro nem sacrifícios de criaturas indefesas.

- Não? - Esme ficou muito admirada.

- Não. - Durwin rira-se outra vez. - Ele quer-te a ti toda, de alma e coração. Quer o teu amor, a tua adoração, tudo... não se contentará com menos.

- Serves um deus muito exigente, eremita.

- É como dizes: ele é exigente. Mas as bênçãos que concede aos que dele se aproximam não têm preço. O que ele dá é nada menos do que a vida.

Nessa altura, Esme reflectira muito naquelas palavras, que lhe tinham parecido estranhas e completamente diferentes das que alguma vez ouvira da boca de um sacerdote, Lembrava-se bem de quanto o coração lhe batera dentro do peito ao ouvir o eremita falar. “Ah!” pensou, “mas eu era mais nova. Tão nova! No entanto, queria acreditar na verdade das palavras do Durwin. Querer acreditar será o mesmo que acreditar? Apesar de tudo, o tempo passou e, até hoje, nunca mais pensei nisso. Porquê agora? Será tarde de mais?”

Esme despertou do seu devaneio e deu com os olhos de Bria, que a observava.

- Estás perdida nos teus pensamentos - disse Bria. Tinham chegado aos limites da floresta e estavam a começar a atravessar a planície. Askelon cintilava à luz do sol-poente, lançando uma grande sombra na sua direcção.

- Estava a pensar noutra altura também muito triste - replicou Esme. - Na morte do rei Eskevar.

- Tenho pensado muitas vezes nesse dia horrível. Quando o Gerin nasceu, como desejei que ele pudesse ver o neto! Sei que teria ficado muito orgulhoso. Tanto como se visse as netas. - Fez um esgar de angústia. - Oh, Esme! Tiraram-me o meu filho! O que hei-de fazer?

- O rei anda à procura dele e o Toli vai ajudá-lo. Eles encon-trá-lo-ão e trá-lo-ão são e salvo.

- É tão pequeno! Tenho medo que lhe... - Não conseguiu completar a frase.

- Não penses nisso! Ninguém se atreveria a fazer mal ao príncipe. Ninguém. Ele está bem. - Esme afivelou um sorriso forçado. - Claro que não serias uma mãe a sério se não te preocupasses com o teu filho, mas o Quentin vai encontrá-lo.

Bria assentiu com a cabeça. Passado algum tempo, disse:

 - Ainda bem que estás aqui, Esme. Vou precisar de uma boa amiga durante os dias que se avizinham.

- Serei sempre tua amiga.

Percorreram em silêncio o resto do caminho até ao castelo, cada uma perdida nos seus próprios pensamentos, mas sempre sentindo o calor da presença da outra.

Espantado, Quentin pestanejou para a espada que tinha na mão. Bastara um golpe impiedoso para o fogo da lâmina de lantbanil branco se extinguir. O terrível significado do que acontecera atingiu-o como um relâmpago. E, mais uma vez, ouviu as palavras proferidas na altura da unção da espada:

 “Nunca por maldade, nunca por ódio, nunca em prol do mal será esta lâmina erguida, mas na rectidão e na justiça brilhará para sempre.”

 Era a promessa da Brilhante e ele, num clarão de fúria e ódio, quebrara esse voto. E, ao quebrá-lo, o Altíssimo retirara dele a sua mão. Sentia-se esmagado pelas dimensões do seu crime.

- Não! - gritou. A sua própria voz, que o condenava, soou-lhe a falso.

A força escapou-lhe do braço e largou a espada. A lâmina girou e caiu na poeira da estrada, a menos de um passo do corpo do miserável que matara.

Assassino!, gritou-lhe a voz do morto. Assassino! Depois, vozes acusadoras ecoaram na floresta. O rei é um assassino! Faltou à sua palavra! Assassino! Onde está agora o teu Altíssimo? Assassino!

Para não ouvir as vozes, Quentin tapou os ouvidos com as mãos, mas elas tinham-lhe entrado dentro da cabeça. Não conseguia calá-las. Horrorizado, contemplou a Brilhante, caída na poeira, e o corpo enrolado que jazia ao seu lado. A repulsa deu-lhe volta ao estômago; um espasmo fê-lo balançar para trás na sela.

- Não! - gritou novamente, no mais completo desespero. - Não!

Depois, fez Blazer virar-se, enterrou profundamente as esporas nos flancos do cavalo e afastou-se a galopar.

- O que é aquilo ali à frente? - perguntou Galen.

Toli levantou rapidamente os olhos. Tinham parado no regato, para os cavalos beberem um pouco de água antes de prosseguirem. De modo a ver melhor o sítio para onde o cavaleiro apontava, semicerrou os olhos.

Com a sua visão de águia, reconheceu uma forma vagamente humana.

- É um corpo - disse, subindo para a sela.

Quando os outros lá chegaram, Toli já se achava debruçado sobre o cadáver. Ao virá-lo, a cabeça tombou obscenamente: fora quase decepada ao nível dos ombros. Os pedaços da espada do homem encontravam-se por baixo dele.

- Quem lhe deu um golpe assim queria vê-lo mesmo morto - comentou Galen.

- Quem teria sido? - indagou Dareth. - Nesta floresta não há ladrões.

Nem os salteadores lhe teriam feito nada. Não vedes como está vestido? - replicou Hedric. - Se calhar, houve alguma rixa entre ladrões.

- Ou raptores - disse Toli lentamente. - Se não me engano, ainda hoje encontrei este homem na floresta. Ou um outro muito parecido com ele.

- Mas matá-lo na estrada... porquê? - Dareth abanou a cabeça. - Não faz sentido. Deviam saber que havíamos de encontrá-lo.

Toli fez uma busca rápida na zona mais próxima, vasculhando as marcas confusas impressas na poeira, em busca de uma pista que lhe dissesse o que acontecera. Mas não ganhou muito com os seus esforços. Havia muitas pegadas, o que tornava impossível dizer quantos homens tinham passado ali e quem ia a cavalo ou a pé. No entanto, contou as pegadas de, pelo menos, dois cavalos. Aparentemente, um dos cavaleiros tomara parte na luta que acabara com a vida do raptor.

- Parece-me que o rei passou por aqui - observou Toli, olhando para sul.

- Achais que este infeliz atacou o rei? - perguntou Galen com incredulidade. - Devia ter alguma razão para isso, mas foi um mau passo que deu.

Toli assentiu pensativamente e lançou um olhar para o céu. O Sol Projectava sombras compridas através da estrada:

- Temos de o enterrar depressa, Já estamos a ficar sem luz e quero avançar o mais possível.

A um sinal de Toli, os cavaleiros começaram a abrir um buraco pouco profundo nos arbustos que ladeavam a estrada, servindo-se, para isso, das suas espadas, Toli e Galen examinaram as roupas da vítima, em busca de alguma pista que lhes dissesse quem era ou de onde viera.

Depois de enterrarem o cadáver, partiram novamente os quatro. O Sol ia muito baixo e as primeiras estrelas já piscavam no céu. Quando escureceu, o ar arrefeceu muito. No entanto, sem ligarem ao cansaço nem à fome que começava a roer atrás das fivelas dos seus cintos, os cavaleiros seguiram em frente.

“De certeza que o Quentin esteve lá atrás”, ia pensando Toli enquanto cavalgava. “Senti-o. Mas também senti outra coisa. Uma coisa muito poderosa... mais poderosa do que a morte daquele infeliz. Mas o quê? O que seria?”

 

- Olha, Tip - disse o homenzinho redondo -, um sítio bom para descansares os ossos, vês? Ou andamos ainda mais um bocadinho?

A cadela olhou para o dono e abanou a cauda.

- Pronto, está bem. Hoje já andámos muito. Não vale a pena afastarmo-nos muito da estrada. Tens razão. - Com um tinido e um bater de latas, Pym, o amolador, começou a desembaraçar-se dos seus fardos, largando os pacotes, sacos, potes, panelas e ferramentas várias que carregava as costas.

Mas pousou um dos pacotes cuidadosamente no chão e encostou-o direito a uma pedra. Depois, com os olhos vivos cintilando de alegria e esfregando as mãos de satisfação, disse:

 - Agora, Tipper, vamos arranjar lenha! - Bateu palmas. - É disso que precisamos, não? Daqui a pouco escurece. Vamos buscar lenha para fazer uma fogueira.

Dali a pouco, o pequeno amolador e a cadela estavam enroscados à frente de um lume acolhedor, comendo a sua sopa e observando as estrelas que surgiam no céu à medida que a noite se instalava pacificamente sobre a terra. De vez em quando, o homem olhava furtivamente para o pacote esguio, embrulhado em trapos, que encostara à pedra.

- Vês aquilo, Tip? É a nossa fortuna - dizia, soltando uma risadinha para si próprio.

Quando acabaram de comer o caldo, rapando o último restinho com pedaços de pão seco, o amolador pegou no pacote e pousou-o sobre os joelhos.

- Olha, Tip. O velho Pym encontrou a nossa fortuna. É verdade. Eu bem te disse que havia de encontrar. Olha, olha!

Com os dedos a tremer, afastou cuidadosamente os trapos. A luz bruxuleante da fogueira revelou uma grande espada, comprida e fina, cuja superfície macia e imaculada se afunilava até formar uma ponta mortal. O punho brilhava como se tivesse sido talhado de uma pedra preciosa.

É uma beleza - disse em voz baixa e respeitosa. - Não é uma espada vulgar, ai isso é que não. Aqui o Pym bem vê que não. Sabes, sei um bocadinho de espadas, e aposto que esta é de rei. Ai é, é. - Os seus dedos contornaram a fina lâmina, mal ousando tocar-lhe. À vista da arma, os seus olhos encheram-se de admiração.

A grande cadela preta observava o dono com a cabeça pousada nas patas, escutando o som da sua voz. - Esta espada é mesmo uma beleza - continuou ele. - Não foi feita para mãos vulgares. Há-de haver alguém que dê bom ouro por ela... uma fortuna, sabes. O que eu pedir. Olha, Tip, vamos ter que chegue para comprarmos uma carroça. Ah!, e outra pedra de amolar... redonda e com pedal. Assim, posso amolar facas, tesouras, arados e... e tudo o que precisar de ser amolado. Posso, posso, Tip. Era a nossa fortuna!

O amolador contemplou a espada com satisfação, ainda sem acreditar bem na sorte que tivera. Depois, ao lembrar-se de como encontrara a espada, foi percorrido por um arrepio.

- Tive pena do corpo, Tip. Muita pena. Mas não tive nada a ver com isso. Já o encontrei assim... na estrada. Pareceu-me que não estava morto há muito tempo. Tu viste-o primeiro, não foi, Tip? Pois foi. Quando rosnaste, percebi logo que se passava alguma coisa. Tu não rosnas sem razão, e aquilo era mesmo razão que chegasse. Um homem morto na estrada. Terrível! Com a cabeça quase cortada e esta... esta espada no chão ao seu lado.

Pegando na espada com a mão, avaliou-lhe a força. O seu rosto luziu de admiração.

- O velho Pym sabe o que é um trabalho de mestre. Há-de haver alguém a dar bom ouro por isto... o que eu pedir. O suficiente para uma carroça e uma pedra de amolar.

De repente, ocorreu-lhe um pensamento. E se o homem morto na estrada fosse o proprietário da espada? Nesse caso, quem lhe daria o ouro?

Carregando o sobrolho, virou a espada à luz da fogueira e abanou a cabeça.

- Não, aquele nunca teve nenhuma espada assim - concluiu por fim. - Não. Nem ele nem ninguém... talvez só um rei.

Ao ser assaltado por um outro pensamento, os seus olhos abriram-se de medo. E se pensassem que a roubara? E se pensassem que fora o velho Pym que matara o homem e lhe ficara com a espada?

- Não! Eu nunca mataria um homem nem lhe roubaria a espada. O velho Pym é um homem pacífico. Toda a gente sabe disso. Encontrei a espada na estrada. Como lá foi parar, é que não sei. Mas, agora, tenho de ter cuidado. Muito cuidado. Há muita gente que não se importaria de roubar isto a um amolador pobre e velho. E então o pobre Pym perdia a sua fortuna. - Olhou tristemente para o seu trofêu. Depois, o seu rosto voltou a iluminar-se. - Temos de a esconder, Tip! É isso que vamos fazer: escondê-la. Vamos embrulhá-la num pano e escondê-la onde ninguém a possa encontrar. Depois, vamos andar alerta para ver se sabemos alguma coisa desta espada. Temos de a esconder bem, Tip. E vamos esconder!

 Nas profundezas da floresta, a noite tornara-se uma cortina preta que só deixava ver o brilho ocasional de uma ou outra estrela atravês dos ramos entrelaçados. Como a Lua ainda não se erguera no céu, era difícil seguir os atalhos. O príncipe Gerin, que se arrastava de cabeça baixa, exausto por aquela prova tão dura, só ansiava por se estender a descansar debaixo de uma árvore, deixando que o sono lhe apagasse a lembrança daquele dia tão terrível.

- Vamos parar aqui durante umas horas - disse Nimrood aos outros, - Por esta altura, já devem estar desorientados, Não nos encontrarão, mas precisamos de ter cuidado para não sermos vistos.

Os homens estavam cansados de mais para falar. Muito fatigados, encontravam-se de pé olhando em volta e pensando vagamente como seria que o ancião que os chefiava encontrava forças para continuar.

- É o ódio que não o deixa parar - sussurrou um guarda para o outro. - Olha para ele: tão velho, e fresco que nem uma alface! Por ele, caminhávamos toda a noite!

- Por ele, talvez, mas por mim, não - respondeu o homem que estava ao lado.

- Vós aí! - invectivou Nimrood. - Deixai-vos de segredinhos e tratai do prisioneiro. Revezai-vos para o guardar. Não vos esqueçais de que perderás a cabeça se o deixardes fugir.

O principe Gerin só ouviu parte do que foi dito. No momento a seguir, estava a ser meio arrastado, meio atirado para uma árvore próxima, à qual foi atado com uma corda. Nem tentou resistir; estava com muito sono.

- Pronto - disse o seu guarda. - Porta-te bem e não nos dês trabalho, menino. Não queremos fazer-te mal, mas não tentes fugir... isso é que pode ser muito doloroso.

Gerin limitou-se a olhar sonolentamente para o homem, bocejou e encostou-se à árvore. Dali a pouco, estava a dormir profundamente.

- Olha para ele - comentou um guarda. - Não há neste mundo nada que o preocupe.

- É o príncipe, por Ariell Ninguém se atreveria a levantar a mão contra ele - respondeu-lhe o companheiro.

- Fala baixo! - avisou o outro. - Que o Barba Comprida não te ouça!

- Ah, o Barba Comprida! É frio como o gelo. Uma fonte de sarilhos... eu bem disse. Olha o que aconteceu: um morto e o príncipe raptado. É o suficiente para destruir o templo!

- Chiu! Ele está a olhar para nós' Não te esqueças de que estamos a tentar salvar o templo.

- Isto não é bom... nada bom... - resmongou o guarda, bocejando e preparando-se para dormir.

O outro, que estava de vigia, sentou-se numa pedra, apoiou o queixo na mão e passeou o olhar pelos que já dormiam, e cujo ressonar zumbia suavemente no ar da noite. Bocejou, espreguiçou-se e sentiu-se invadido pelo torpor.

“O Ervis tem razão”, pensou. “Isto não é nada bom. É bem possível que acabe por destruir o templo. Mas eu não tenho culpa. Só estou a cumprir as ordens do sumo sacerdote. Não tenho outra saída.”

Voltou a bocejar e cruzou os braços por cima do peito, cabeceou e, dali a pouco, estava a dormir como os outros.

Quentin sentia os olhos a arder e doíam-lhe as costas; andara todo o dia na sela e não estava habituado a isso. Sentia os músculos doridos ficando mais rígidos à medida que o frio da noite se lhe ia entranhando nos ossos. Mas, fazendo orelhas de mouco ao corpo, que lhe gritava para parar e descansar, agasalhou-se melhor na capa curta e continuou a avançar penosamente.

Havia horas que a escuridão caíra sobre o carreiro, não o deixando ver nada. Mesmo assim, Quentin continuava em frente, esperando que um milagre o fizesse atravessar no caminho dos raptores. Só a ideia de que o filho estava algures na escuridão, assustado, feito prisioneiro, o fazia continuar a andar.

Com o coração despedaçado, entorpecido pela tristeza e pelo desespero, só apetecia a Quentin atirar-se ao chão e chorar a sua desgraça. Apenas algumas horas atrás, a luz estava do seu lado, o reino seguro e o futuro era uma promessa brilhante. Agora, só havia escuridão. No espaço de meio dia, perdera o filho, o melhor amigo e, o que era pior, a graça do Altíssimo. A cabeça andava-lhe à roda com a enormidade da sua desgraça, o coração doía-lhe de pesar e o corpo palpitava-lhe de sofrimento e exaustão. Como era possível? Como pudera tudo acontecer tão rapidamente? Porque não tivera nenhum aviso, nenhum sinal do que ia suceder? Só conseguia abanar a cabeça e cismar.

Por um instante, imaginou que só precisaria de pôr Blazer novamente a caminho de casa e que tudo voltaria a ser como dantes, que uma vez de regresso a Askelon encontraria Durwin vivo e o príncipe na cama, são e salvo, e a espada nos seus aposentos, pousada nos suportes, abaixo da divisa real, com a chama intacta e o deus ainda com ele.

Mas tudo não passava de um sonho e a lúgubre realidade permanecia inalterada. Combatendo o desespero, Quentin decidiu que, não sabia como, havia de endireitar tudo novamente. Podia fazê-lo: era O Rei Dragão. Havia de endireitar tudo. Assim determinado, esporeou Blazer. O cavalo, de cabeça baixa, seguiu em frente, sem grandes pressas.

 

- Estão aqui, senhora. Chegaram. - A serva aproximou-se sem fazer barulho, para não perturbar a vigília da sua rainha.

- O quê? O Quentin voltou? Voltou? - Pôs-se em pé de um salto, com uma luz fugaz iluminando-lhe os olhos verdes. Depois, ao ver o olhar da serva, a luz apagou-se, - Oh!

- Não, o rei ainda não voltou - respondeu, abanando a cabeça e acrescentando: - Mas os meus senhores Theido e Ronsard estão aqui. Vós pedistes-me para vos chamar logo que chegassem. Estão à espera no salão.

A rainha Bria desceu imediatamente ao encontro dos seus velhos amigos.

- Senhora! - disse Ronsard, quando a viu aproximando-se do outro lado do salão. Excepto alguns servos que preparavam as mesas para o desejum, que seria servido dali a pouco, eram as únicas pessoas que lá se encontravam. - Estás lindíssima! - observou o cavaleiro, sorrindo afectuosamente.

- Mesmo como a tua mãe - acrescentou Theido. - Como está a rainha-mãe?

- Theido, Ronsard, ainda bem que estais finalmente aqui.

Perdoai-me por vos tirar tão cedo das vossas camas quentes. A minha mãe está bem. Estou certa de que quererá receber-vos, mas, primeiro, quero falar convosco.

Reparando nas sombras que lhe escureciam o sorriso, Theido percebeu que- a rainha os convocara por qualquer razão muito urgente.

- Talvez este não seja o lugar mais apropriado para discutirmos assuntos importantes - disse ele. - É melhor irmos para um sítio mais privado.

- Tens razão - concordou Bria. - Segui-me. - Saindo do salão, a rainha atravessou um corredor largo e entrou numa divisão pequena, uma sala de conselho que continha uma mesa pesada com bancos dos dois lados e várias cadeiras de costas altas dispostas num canto mais afastado. Depois de terem entrado os três,fecharam a porta sem fazer barulho e sentaram-se de frente uns para os outros.

- Bem - começou Theido docemente -, o que aconteceu?

Bria olhou de um cavaleiro para o outro. Eram homens que toda a vida conhecera. Leais amigos dos seus pais, várias vezes haviam servido o trono do Rei Dragão, e estavam sempre a postos para voltarem a servi-lo. A firme devoção deles e a sua própria aflição foram mais fortes do que ela, que, deixando-se ir abaixo, desatou a chorar.

- Nem sei por onde hei-de começar - disse, com as lágrimas correndo-lhe dos olhos.

Sentindo a profundidade da sua dor, os dois cavaleiros entreolharam-se, sem saberem o que fazer.

- As palavras saem-me com dificuldade, bons amigos. - Fungando, a rainha esforçou-se por conter as lágrimas. Os cavaleiros esperaram que ela continuasse. - O Durwin morreu - disse por fim.

- Pelos deuses! Não! - exclamou Ronsard. - Não digas isso!

Theido levantou a mão. Bria continuou:

- E o meu filho foi raptado.

- Quando é que isso aconteceu? - perguntou Theido. - E como aconteceu?

A sua voz grave ajudou Bria a acalmar-se e a começar a falar com mais facilidade:

- Foi ontem, durante a caçada. O príncipe iaacompanhar a caçada... estava tão orgulhoso! Era a primeira vez... o Toli ia com ele. O Quentin e o Durwin também iam, mas depois regressariam para se juntarem às festividades. - Fungou outra vez, mas manteve a voz firme. - O rei demorou tanto tempo a voltar que pensámos que decidira juntar-se à caçada. Então... então o Toli apareceu e... contou-nos o que tinha acontecido... Oh... - Fez uma pausa para reunir forças e continuou: - Foram atacados e afugentaram os assaltantes. o Toli seguiu-Os, mas perdeu-lhes o rasto. Quando voltou a juntar-se ao Durwin e ao Gerin, eles... o Durwin estava morto e o príncipe tinha desaparecido. O Quentin mandou o Toli buscar ajuda. isto passou-se ontem. Nunca mais os vi.

Theido não disse nada, mas os seus olhos escuros e o seu rosto carregado mostravam bem o que estava a pensar.

Ronsard bateu com o punho cerrado no braço da cadeira:

- Quem será que se atreveu a fazer uma coisa destas? É um ultraje!

- No entanto, temos de organizar imediatamente uma busca... para ser franco, julgo que já passou tempo de mais. Se os raptores estavam a cavalo, podem ter ido até bem longe.

- Mas se o que querem é um resgate, talvez não tenham ido nada longe - contrapôs Ronsard. - Aliás, até podem estar muito perto.

Theido baixou vivamente a cabeça, em sinal de assentimento:

- Sim, pode ser que tenhas razão. De qualquer modo, temos de nos apressar. Senhora, na ausência do rei, permites-nos comandar um destacamento de cavaleiros?

- Tudo o que quiserdes.

- Excelente! - disse Ronsard. - Conheço bem aqueles que serviram sob as minhas ordens. Podemos começar por eles.

- Vai - interveio Theido. - Reúne-os e certifica-te de que levam os trajes apropriados. Eu já irei ter convosco.

Ronsard levantou-se e fez uma pequena vénia à rainha. Depois, afivelando um sorriso constrangido, disse:

- Coragem, senhora. Havemos de encontrar o príncipe. - Com grandes passadas, saiu da sala.

- Há mais alguma coisa que possas dizer-nos? - perguntou Theido a Bria.

- Sei tão pouco... não... já contei tudo o que sei. O Toli podia contar mais, mas não está cá. Talvez o Bossit saiba alguma coisa. - Estendendo a mão, pegou na de Theido. - Encontra-o, bom antigo. Salva o meu filho, tal como uma vez salvaste o meu pai.

Theido apertou-lhe a mão, fazendo-a sentir a confiança dele fluindo para ela.

- Sei que, de uma forma ou de outra, havemos de encontrá-lo. Não sei o tempo que vai demorar, mas havemos de o trazer são e salvo. Podes acreditar que sim... tens de acreditar que sim.

- E acredito. Quero acreditar. Rezo para que assim seja - replicou ela.

- Isso, reza. A tua mãe ensinou-me o poder das preces das mulheres. Creio que o deus escuta melhor o coração da mulher.

- Então, escutou o meu durante esta noite. - Inclinando a cabeça, continuou: - Oh, Theido, se lhe acontecer alguma coisa, não sei...

- Havemos de o trazer são e salvo - acalmou-a ele. - Verás. - Levantou-se devagar. - Agora, tenho de ir procurar o Bossit. Quanto mais cedo partirmos, melhor.

- Pois, vai. Theido... obrigado por teres vindo. Nem sabes o que isso significa para mim.

- Só queria que a ocasião fosse mais alegre, senhora. Mas estes dias hão-de passar depressa e tudo voltará a ser como dantes. - O cavaleiro alto e magro baixou-lhe a cabeça e saiu.

Nas últimas horas da noite, quando toda a terra esperava silenciosamente o novo dia, Quentin parara ao lado da estrada para descansar e adormecera debaixo de um laricio, com a capa estendida por cima de si. O sono não lhe proporcionou nenhum alívio ou conforto; o seu descanso, irregular e irrequieto, foi perturbado por sonhos de perseguições inúteis e de recontros violentos com um inimigo invisível. Embora dormisse, abateu-se sobre ele uma sensação desesperada,de medo e perda, que lhe trespassou o coração com a crueldade de um punhal envenenado, fazendo-o gemer de dor, Acordou pior do que quando se deitara e levantou-se fatigadamente, Tinha os músculos doridos da cama dura entre as raízes da árvore. À luz vermelha e crua da madrugada, Quentin esfregou os olhos pisados e preparou-se para voltar a pôr a sela em Blazer.

- Quentin! - O rei virou os olhos na direcção do grito e perscrutou a semiobscuridade do carreiro da floresta. O Sol ainda não nascera completamente e a estrada ainda estava envolta em sombras, mas Quentin conseguiu descortinar as formas dos cavaleiros que se aproximavam. Passado algum tempo, reconheceu Toli, que saía da escuridão cavalgando na sua direcção.

“Por fim, encontrámos-te!” - As feições do jher estavam marcadas por uma noite de insónia, mas os seus olhos mostravam-se tão apurados e vivos como sempre.

- Viste alguma coisa? - perguntou Quentin.

- Não. Isto é, nada a não ser o corpo de um desgraçado caído na estrada - Os olhos de Toli examinaram cuidadosamente o rei.

- Sim - retorquiu Quentin inexpressivamente, virando-se, pondo o pé no estribo e voltando a montar, - Também o vi.

De momento era melhor não tocar mais no assunto. Por isso, Toli não insistiu, os outros juntaram-se-lhes, ansiosos por poderem desmontar e esticar os músculos doridos. Ninguém falou directamente ao rei, cuja aflição lhes paralisava a língua.

Só Toli teve a temeridade de o puxar para o lado e de lhe falar abertamente:

- O que queres que façamos, Kenta? - perguntou, usando o afectuoso nome de outrora.

- Encontrai o meu filho! - retorquiu Quentin asperamente, com a disposição tão crua como a nova manhã.

Sensatamente, Toli ignorou o seu comentário:

- Devíamos ir buscar mais homens ao castelo; assim, poderíamos organizar melhor as buscas. Precisamos de cavalos frescos e de mantimentos.

- Faz o que quiseres - replicou o rei, firmando bem o queixo. - Continuarei a busca sozinho.

- Para onde vais?

- Para sul.

- Porquê sul? Eles podem ter saído do carreiro em qualquer ponto. À noite, seria fácil não lhes vermos as pegadas.

- O que queres que faça mais? - gritou Quentin. Os outros olharam para ele, obrigando-o a baixar a voz. - Não tenho outro caminho melhor.

- Volta connosco para Askelon, onde poderemos descansar e preparar-nos para uma busca a sério. Podemos mandar mensageiros a todas as cidades e vilas, alertando-as para os patifes. Podemos...

- O meu filho foi raptado, Toli! - Quentin fez um gesto largo na direcção da grande floresta. - Não voltarei sem o encontrar. Não posso regressar até ele estar a salvo.

Toli perscrutou o rosto daquele que conhecia tão bem e que, no entanto, naquele momento, parecia um completo desconhecido “Alguma coisa mudou o meu Kenta”, pensou. “Isto não é nada dele. A morte do Durwin e o rapto do filho atormentaram-no, afligiram-no.” Sim, mas havia mais qualquer coisa. De repente, viu a bainha vazia pendendo da cintura de Quentin, e compreendeu tudo.

- volta cormosco, Kenta - disse docemente. - Ontem, ainda tínhamos hipóteses de os encontrar rapidamente, mas agora... agora já tiveram tempo para apagar as pistas, para voltarem atrás... quem sabe onde estarão? Para os encontrar, precisamos de ajuda e de quem nos comande. Tu és o rei. Quem nos comandará senão tu?

- Qualquer um! - retorquiu Quentin asperamente. - Qualquer um melhor do que eu. Comanda tu a busca, Toli! - Os olhos do rei brilharam selvaticamente e a sua boca contorceu-se num esgar de ódio. - O sangue do Durwin pesa sobre ti... assim com o do meu filho, se lhe acontecer alguma coisa, Eles estariam agora connosco se não os tivesses deixado sozinhos. És tu o responsável... a culpa é tua!

Sem conseguir falar, Toli fitou o seu amo e amigo. Quentin nunca lhe levantara a voz, nunca se zangara com ele. “Mas” pensou, “o rei tem razão. A culpa é minha. Sou eu o responsável por esta situação. Nunca devia tê-los deixado sozinhos e expostos ao perigo. A culpa é minha.”

- Perdoa-me - começou Toli. - Perdoa-me...

- Encontra o meu filho! - gritou Quentin numa voz quase esganiçada. - Ou o encontras ou que eu nunca mais volte a ver-te! - Com estas palavras, o Rei Dragão bateu com as rédeas no pescoço do cavalo e fê-lo dar meia volta. Blazer sacudiu a elegante cabeça branca e Quentin olhou colericamente para Toli:

- Encontra-o - disse baixinho, num tom de voz ameaçador. - Só quero que o encontres.

Toli ficou de pé na estrada a ver o seu rei afastando-se.

Só quando uma curva do caminho o fez desaparecer de vista é que se voltou para montar Rív e avançar na direcção de Askelon. Ninguém falou. Não havia nada para dizer.

 

Nimrood cismava, sentado numa rocha, curvado como uma velha raiz arqueada, torcido pela idade e deformado pelas forças ocultas que tinha dentro de si. Esperava que a noite caísse para iniciar a última parte da jornada, pois tinham chegado aos limites orientais da floresta e o resto do caminho até ao templo teria de ser feito a descoberto. Como não queria arriscar-se a viajar de dia, fizera uma paragem. Por isso, naquele momento, todos esperavam com impaciência o fim do dia.

O príncipe Gerin, atento a todos os que o rodeavam, estava seguro de que não lhe fariam mal; e, uma vez que não corria nenhum perigo imediato, podia esperar pelo momento mais adequado para fugir... se não o salvassem primeiro. Também via muito claramente que os seus raptores não mostravam grande entusiasmo pela missão que lhes fora confiada. Mas precisava de ter cuidado com o mais velho, o do cabelo branco e desgrenhado e do rosto tão enrugado e sulcado como couro velho.

Quem seria? O que quereria e para onde o levariam? Estas perguntas ocupavam o jovem cativo, sentado no chão, debaixo de uma árvore, constantemente vigiado por dois guardas.

Mexeu-se, tentando afrouxar as cordas que lhe prendiam os braços. Um dos guardas olhou-o com desconfiança e fez um ar zangado, nas não disse nada.

“Quando o meu pai vier buscar-me”, pensou Gerin, “arrepender--vos-eis muito do que fizestes. Espero que venha depressa; de contrário, perderei o resto da caçada.”

No espírito do jovem príncipe não havia dúvidas de que o rei iria buscá-lo e salvá-lo. Só precisava de esperar.

Ouviu-se um SOM vindo do bosque: aproximava-se alguém rapidamente, a pé, fazendo muito barulho ao roçar nos ramos e ao pisar os galhos que estavam no chão. Pondo-se em pé de um salto, Nimrood sussurrou asperamente:

- Encontraram-nos! Empunhai as armas!

Os homens saltaram e puxaram as espadas, mas, antes de terem tempo para se porem em posição de ataque, o intruso apareceu aos tropeções.

- O quê? - exclamou, surpreendido, - Não, esperai! - Caindo para trás, deu com o rabo no chão.

- Tu! - disse Nimrood. Era um dos homens que tinham ficado para trás a cobrir-lhes a fuga.

Pondo-se em pé de um salto, o guarda olhou rapidamente em volta com uma expressão aterrorizada.

- Não fui seguido! - gritou. - Guardai as espadas!

- É melhor que não tenhas sido; de contrário, faço-te em bocadinhos e dou-te a comer aos pássaros. Onde está o teu amigo? - inquiriu Nimrood, afastando os outros.

- Morto... - O homem lançou um olhar aterrorizado para trás, como se esperasse que a qualquer momento a sua própria morte saísse dos bosques e carregasse sobre ele.

- Como? - De mãos nas ancas, Nimrood fitava penetrantemente o desgraçado que tinha à frente.

- Ele encontrou-nos na estrada e adivinhou tudo.

- Quem?

- O rei! Sabia de tudo!

- Tretas! - A atitude de Nimrood tornou-se ameaçadora. O guarda tremeu de medo. - Vós é que falastes de mais!

- Juro por todos os deuses que não! Não lhe dissemos nada. Ele é que sabia... como, não sei. Nem nos deu hipóteses.

- Quantos estavam com ele?

- Sua Majestade... o rei... estava sozinho. Eu escondi-me nos arbustos para o caso de termos de o atacar. - E? - Nimrood aproximou-se mais. Fazendo um esgar, o guarda apressou-se a continuar a história.

- O Carlin fingiu ser um peregrino, mas o rei não acreditou. Ainda tentámos enfrentá-lo, mas...

- Éreis dois contra um. O que aconteceu?

OS olhos do homem encheram-se de terror:

- Ele tinha a espada dele... a Brilhante! Não há homem ou exército que consiga vencê-la! Havíeis de tê-la visto faiscar! Os clarões cegavam-nos e tapei os olhos com as mãos. Quando olhei outra vez, o Carlin estava morto. A espada... Mudando abruptamente de comportamento, Nimrood começou a falar num tom apaziguador:

- Sim, estou a ver. Fizeste bem em vir aqui dar-me essa notícia. - Pousando a mão pálida no ombro do homem: - Mas conta-me mais coisas dessa tal espada, da espada do rei... como lhe chamaste?

- A Brilhante... toda a gente sabe que é uma espada encantada.

- É? Como? - Nimrood fez um sorriso fino, astuto e viperino- - Creio que não me lembro de nada relativo a uma espada encantada. Mas também estive muito tempo longe de Mensandor. Conta-me o que sabes.

Ansiosamente, os homens falaram a Nimrood da Zhaligkeer, a maravilhosa espada do rei, do seu brilho ardente, das minas mágicas onde fora forjada, dos seus poderes estranhos e terríveis e do modo como Quentin, ainda jovem, saíra das montanhas com a espada e, sozinho, esmagara a invasão do horrível Nin, transformando a derrota certa numa vitória estrondosa no momento em que a Brilhante apagara o fogo da Estrela do Lobo.

As lendas relativas à espada encantada e ao rei que a empunhava já se tinham espalhado por toda a terra, tornando-se mais famosas a cada ano que passava. Dizia-se que a espada tinha um poder sagrado. Que fora encantada por um deus a que chamavam Altíssimo. Que a sua chama era o símbolo da presença do deus no rei. E por aí fora.

Nimrood escutava atentamente as várias histórias sobre a espada, deixando os guardas do templo contarem-lhe o que sabiam. Entretanto, o velho feiticeiro pensava de si para consigo: “Isso, do que eu preciso é mesmo da espada encantada.”

- O que dizeis é muito interessante - observou, por fim. - Muito interessante. - Virando-se para o homem que acabara de se lhes juntar, disse: - Tens mais alguma coisa para me dizer?

Ansioso por agradar ao perverso Nimrood, o sacerdote pôs-se a pensar.

- Oh! - O seu rosto iluminou-se. - Tenho. O rei disse que o Durwin... aquele a quem chamam o eremita... tinha sido morto.

- Ah sim? - O coração de Nimrood esvoaçou-lhe dentro do peito. - Como?

- Não sei. Ele só disse: “Vós matastes o Durwin!”

- A nossa intenção não era matá-lo, senhor - explicou um guarda do templo que lá estivera, - Foi um acidente. Ele meteu-se entre nós e o príncipe.

“Isto está a ir melhor do que eu esperava!”, pensou Nimrood com uma alegria malévola. “O Durwin morto! O maldito do eremita já não me estorva mais. A minha vingança será total.” Com um ar de aprovação, fez que sim com a cabeça para os que o rodeavam:

- Paciência, os acidentes acontecem. Mas, de futuro, deveis contar-me tudo. Eu tenho de saber tudo: nunca me escondais nada.

- Pensávamos que ficaríeis zangado - murmurou un guarda junto dele.

- Zangado? Porque havia de ficar zangado? Sou assim tão pouco razoável? - Nimrood tornou a sorrir e os lábios finos dividiram-lhe o rosto enrugado em dois. - Não, vereis que é muito fácil trabalhar comigo, desde que me digais logo tudo. Sei ser muito razoável. - Batendo as palmas, ordenou: - Agora, descansei. Temos muito que andar hoje à noite. Quero chegar ao Grande Templo amanhã logo de manhãzinha.

Todos se instalaram para descansar, preparando-se para a viagem nocturna. O príncipe Gerin também se enroscou todo, embora não tivesse sono. Mas fê-lo para esconder as lágrimas dos que o rodeavam, pois não queria que os seus captores o vissem chorar pelo seu amigo Durwin.

Ao meio-dia, Toli e os cavaleiros que estavam com ele chegaram a Askelon. Quando entraram no pátio interior, viram ali reunidas cerca de duas dezenas de cavaleiros, cavalos e escudeiros, que corriam de um lado para o outro com provisões e equipamentos.

- O que é isto? - perguntou Toli, deslizando da sela e correndo para um grupo de homens que se encontrava no centro de toda esta actividade. Quando o jher se aproximou, a roda abriu-se.

- Theido! Ronsard! - gritou ao vê-los.

Os dois homens fizeram um sorriso aberto e bateram-lhe nas costas.

- Tínhamos esperanças de te encontrar antes de partirmos. E o rei... - Theido fez uma pausa e semicerrou os olhos. - Viste-o?

- vi - replicou Toli abruptamente, - Não regressará tão cedo.

- Percebo - Theido franziu o sobrolho. - De qualquer forma, temos de nos reunir em conselho e de traçar um plano. Não podemos estar com muitas demoras.

- A rainha deu-nos permissão para partirmos imediatamente - acrescentou Ronsard.

- Pois, tendes de partir muito em breve. Juntar-me-eI a vós depois de me lavar e de comer.

- Mandarei levar comida à câmara do conselho - sugeriu Ronsard, afastando-se para tratar disso. Os que tinham cavalgado com Toli durante toda a noite também se retiraram.

 

Theido e Toli afastaram-se uns passos, para poderem falar mais à vontade. No pátio, à sua volta, a azáfama continuava. Theido encostou-se à grande muralha e cruzou os braços. Havia muitos fios prateados no seu cabelo preto e nas suas sobrancelhas, mas os anos não lhe tinham suavizado as feições; pelo contrário, a idade dera-lhe uma aparência ainda mais autoritária.

- Há qualquer desentendimento entre vós, hã? - indagou Theido calmamente.

Olhando para a actividade que ia pelo pátio sem ver nada, Toli assentiu com a cabeça.

- O que'aconteceu?

- Ele... o meu amo culpa-me da morte de Durwin e da perda do filho - respondeu Toli com toda a simplicidade.

- Estou a perceber. - Tentando consolar Toli, Theido continuou suavemente: - Com certeza que sabes que essas são as acusações de um homem enlouquecido e assustado.

- Não - contrapôs Toli, abanando a cabeça -, é verdade.

A culpa é minha. Deixei-o sozinho. Depois do primeiro ataque, fui atrás dos assaltantes. Não devia ter ido. Nunca devia ter deixado o príncipe.

- Fizeste o que achaste melhor. O que mais se pode pedir?

O Durwin sabia tomar conta de si próprio. O perigo não lhe era estranho. Tenho a certeza de que fizeste o que era melhor.

Toli virou os seus olhos assombrados para o alto cavaleiro:

- O Durwin era um velho e o Gerin uma criança indefesa.

Digo e repito: fracassei.

- Não! Pensa no que estás a dizer. O que aconteceu, aconteceu, e nada o pode mudar. A morte do Durwin não é culpa tua. Ninguém podia adivinhar. Se tivesses ficado, talvez houvesses sido tu a apanhar o golpe e a morrer.

- Antes eu do que ele!

- Nunca digas isso! - Theido pousou a mão no ombro de Toli.

- Não te cabe a ti decidir isso, meu amigo. Estamos todos nas mãos do deus, que é quem dirige os nossos passos. O Durwin sabia-o tão bem... não, melhor do que qualquer um de nós.

Toli esfregou o rosto com as mãos. Sentia a fadiga abater-se sobre ele e cobri-lo como uma capa bem pesada.

- Estou cansado.

- Vai-te lavar e comer. Descansarás depois do nosso conselho. Quanto a nós, partiremos para dar início às buscas.

- Não, irei convosco. Devo ir.

- Precisas de descansar. Ou me engano muito ou ainda teremos buscas que cheguem para todos. Descansa enquanto podes. Além do mais, gostaria que fosses com a rainha e com a Esme.

Toli levantou rapidamente o olhar:

- A rainha? A Esme? Para onde vão?

- O Durwin vai ser enterrado amanhã na floresta. Eu iria, mas, já que estás aqui, o melhor é eu e o Ronsard conduzirmos as buscas.

- Tinha-me esquecido do funeral - retorquiu Toli pesarosamente. - Tens razão. Deve ir alguém com elas. Muito bem, seguirei a tua sugestão.

Virou-se para partir, hesitou e voltou-se para trás.

- Há outra coisa. - Theido ficou à espera. o jber baixou a voz e disse: - Quando encontrei o rei, ele tinha a bainha vazia. A Brilhante não estava lá.

 

Seguido pela cadela de focinho cinzento, Pym caminhava ruidosamente pela estrada que conduzia a Askelon. Enquanto andava, só pensava numa coisa: na magnífica espada que escondera nessa mesma manhã. Embrulhara a Zhaligkeer nuns farrapos e metera-a dentro de uma grande aveleira velha e oca, cujo coração havia muito fora destruido pelos relâmpagos. A árvore era oca, mas ainda estava viva. Depois, assinalara o local com um pequeno monte de pedras e pusera-se a olhá-lo longamente de todas as direcções, de modo a lembrar-se dele quando ali voltasse. Reunira então os instrumentos, atravessara a floresta a tilintar e entrara na estrada, pondo-se novamente a caminho de Askelon. Mas sentia-se inquieto. Vacilava a cada passo que dava.

- Se calhar, não devia tê-la deixado ficar - murmurava para Tip. - Se calhar, devia ir buscá-la. Podem encontrá-la e roubá-la ao velho Pym. Nesse caso, não haveria ouro, nem carroça, nem pedra de amolar. Oh, o que hei-de fazer? O que hei-de fazer?

Ao Meio-dia, parou num recanto ensombrado de ramos de tília, para comer alguma coisa. Tinha com ele uma côdea de queijo duro, que cortou com uma faca, dando metade a Tip. Depois, beberam um pouco de água e comeram uma maçã que Pym levava num saco.

Já estavam a preparar-se para voltarem à estrada, quando ouviram alguém aproximando-se.

- Escuta, Tipper. Vem aí alguém, ouves? Quem será? O melhor é sentarmo-nos quietinhos e ver quem é.

Passado algum tempo, o som transformou-se em vozes: muitas vozes, que murmuravam como uma corrente de água. Pertenciam a uma verdadeira multidão, que se afastava de Askelon, deslocando-se para sul.

As primeiras pessoas passaram, olharam para o amolador e continuaram a andar. Atrás delas seguiam cerca de vinte viandantes. Eram famílias inteiras: homens, mulheres e crianças. Enquanto caminhavam todos juntos, tagarelavam uns com os outros ou interpelavam-se em voz alta.

Pym avançou para a estrada:

- Mas que coisa, Tip! Para onde irá esta gente toda?

Chamando o viandante mais próximo:

- Eh! Tu aí! - O homem parou e olhou para ele. Pym aproximou-se. - Para onde ides? Porque é esta confusão toda?

- Não sabes? Onde tens estado, homem? A dormir? O mundo está de pernas para o ar! - Outras pessoas também pararam, metendo a sua colherada.

- Terrível! - exclamou uma.

- Os deuses estão zangados! - acrescentou outra.

- Há dois dias que andamos nesta estrada - explicou Pym. - Não encontrei ninguém que me pudesse contar nada.

- Foi o príncipe! O príncipe Gerin. - replicou o primeiro homem.

- O nosso jovem senhor foi assaltado e levado à força! - gritou alguém lá atrás.

- Não me digas! - gritou Pym. - Quando é que isso aconteceu?

- Ontem de manhã, durante a caçada. Os ladrões levaram-no e mataram o conselheiro do rei!

- Oh! Ohl - Pym abanou a cabeça consternadamente.

- Eram cinquenta homens! - disse um homem baixo com uma verruga.

- Eu ouvi dizer que eram cem! - gritou outro. Todos fizeram que sim com a cabeça.

- Viste alguém? - perguntou o primeiro com um ar desconfiado. O velho Pym empalideceu.

- Eu? Não. Não senhor. Nem ouvi nada. Se fossem cem homens, havíamos de os ver. Mas, até agora, não vimos nada.

Mataram o ministro do rei?

- Está morto e bem morto. Oh, os deuses estão furiosos com o rei, por ele ter arranjado este novo deus, este Altíssimo. Estão zangados, e mostram a sua ira! Ele há-de ver!

Pym murmurou taciturnamente:

- Este é um dia sombrio. Muito sombrio.

- Pois é - concordaram todos, apressando-se a prosseguir viagem.

Pym também recomeçou a andar. De caminho, foi encontrando vários grupos, que lhe contaram a mesma coisa. Era uma história triste, que andava na boca de toda a gente e que, ao perturbar tanto o festival, seria, com certeza, tema de conversas durante algum tempo - Que coisa horrível, Tip - disse Pym, prosseguindo viagem na direcção de Askelon, Todas as pessoas que encontravam seguiam no outro sentido, deslocando-se para sul, de volta às suas aldeias e vilas, onde espalhariam aquela notícia. Dali a uma semana, não haveria em Mensandor uma única alma que não soubesse o que acontecera. - Sim, horrível!

 Quentin seguia inexoravelmente em frente. Ainda cedo, deixara a estrada e começara a passar a pente fino os caminhos laterais, seguindo primeiro por um lado e, depois, por outro, na esperança de dar com alguma pista dos assassinos. Mas não encontrava nada e, a cada légua que percorria, mergulhava mais fundo num tormento e numa angústia como nunca conhecera. Às vezes, parecia-lhe que o seu espírito se rasgava em dois, que o mais profundo de si próprio estava a ser destruído e torturado.

“Porquê?”, pensava continuamente. “Porque é que isto me aconteceu? Acudi ao vosso servo, Altíssimo. Ajudai-me. Porque não me respondeis? Porque me sinto só? O deus abandonou-me, não quer nada comigo.”

Este pensamento, que, por si só, já chegaria para o esmagar, mais o medo pelo filho e a dor que sentia por Durwin, chegaram a fazê-lo pensar que o coração lhe rebentaria dentro do peito.

No entanto, forçava-se a continuar, a ir em frente, e só parava de vez em quando, para Blazer poder descansar e para beber. Depois, prosseguia para sul. Pela tardinha, ao sentir na brisa o cheiro da água salgada do mar, percebeu que devia estar a aproximar-se da costa.

Quando a noite começou a cair, saiu da floresta e subiu uma falésia arenosa sobranceira ao mar. Escuro, da cor do vinho, Gerfallon espraiava-se ao pôr do Sol. No céu, um banco de nuvens escarlates deslizava para a costa, empurrado pelo vento que soprava na direcção da terra. Por trás, juntavam-se nuvens mais escuras; no dia seguinte ia chover.

Quentin desmontou e deixou Blazer pastar a erva verde e comprida que crescia na falésia. Hinsenby ficava a ocidente, mas não se via; a oriente, o caudal escuro do Sipleth deslizava para o mar, com as suas águas frias devido ao degelo dos altos Fiskills. Em frente, saía do meio da água a grande e escura ilha a que chamavam ilha Sagrada. Misteriosa e pouco convidativa, havia gerações e gerações que dava origem a muitas histórias e especulações. A ilha, verde devido à vegetação e escura por causa das suas florestas antigas, era desabitada. Em tempos mais recuados, houvera quem tentasse edificar ali o seu lar, erguendo construções que, no entanto, numca duravam muito: no máximo, uns anos. Depois, desapareciam. Havia quem dissesse que a ilha era habitada por alguns deuses locais, que não queriam partilhá-la com os mortais.

Os boatos locais afirmavam que a fantasmagórica ilha fora, em tempos, local de culto dos primeiros habitantes de Mensandor, os Shoth, amantes da guerra e sanguinolentos, que praticavam a sua religião brutal, feita de torturas e sacrifícios humanos, dentro das suas florestas abrigados, onde bebiam o sangue das suas vítimas e comiam a sua carne. E havia muito quem acreditasse que ainda existiam seguidores da religião dos Shoth e que, de vez em quando, ainda se realizavam secretamente rituais estranhos. De noite, ouviam-se vozes vindas das costas da ilha e, às vezes, via-se a luz vermelha de sangue de fogueiras acesas à meia-noite.

A ilha Sagrada também passava por ser um lugar onde existia muito poder, que ficara do tempo em que os deuses andavam entre os homens, na altura em que o inexplicável, os sonhos, os desaparecimentos, as aparições e os milagres não passavam de lugares-comuns.

À luz do crepúsculo que se adensava, a ilha parecia fazer sinal a Quentin. A sua forma curva erguia-se do mar plano como a cabeça e os Ombros de alguma majestosa criatura marinha, que contemplava a terra com uma paciência infinita. “Anda”, dizia. “Anda ver o que há aqui. Sentes o meu poder? Tens medo? Não te atreves a vir?”

Quentin mexeu-se e começou a descer a encosta da falésia virada para o mar, sem tirar os olhos da ilha, que ficava a menos de meia légua de distância. Encontrando na duna um carreiro que levava à praia, seguiu-o sem pensar em mais nada: o cansaço guiava-lhe os passos. As forças abandonavam-no à medida que ia avançando aos tropeções; não comera durante todo o dia e descansara pouco. Sentia-se estonteado e fraco, como se fosse uma casca oca, quebradiça e leve, pronta a ser levada ao sabor do vento.

No entanto, embora esgotado de corpo e de espírito, deixou que os pés o levassem pelo sinuoso caminho que descia até ao mar. Na praia rochosa, as ondas marulhavam docemente. As aves riscavam os céus em busca de um poleiro para passarem a noite e pousavam em ninhos e buracos abertos na face da falésia, soltando gritos agudos que retiniam no ar parado. O vento que soprava do mar arrefeceu e as nuvens escureceram gradualmente, até adquirirem um tom violeta. Qual mortalha a desencorajar olhares curiosos, a névoa nocturna cobriu as partes mais altas da ilha. No alto da duna, Blazer relinchou baixinho, mas Quentin, que parecia hipnotizado pela ilha, não despregou os olhos dela.

Sem saber bem o que fazia nem para onde ia, seguiu pela praia fora. Só tinha um pensamento na cabeça: ir para onde quer que os seus pés o levassem.

Às tantas, viu uma forma regular e arredondada que, àquela luz fraca, só se distinguia por ser um objecto escuro recortado num pano de fundo ligeiramente menos escuro. Enquanto avançava aos tropeções, formou-se-lhe no espírito a imagem do desgraçado que abatera na estrada. Tremendo com a ideia de dar novamente com esse cadáver, aproximou-se lentamente. Quando lá chegou, parou e estendeu a mão. Pêlo!

Encolheu-se todo. Seria algum animal morto que o mar atirara para a costa?

Mas, por baixo do pêlo, sentira uma coisa dura nada parecida com carne, nem mesmo carne morta. E nenhum animal que conhecesse tinha aquela forma. Estendendo novamente a mão, esfregou-a na superfície dura e hirsuta. Depois, empurrou o objecto, que bateu nas rochas com um som oco. Nessa altura, percebeu o que se tratava.

Quentin inclinou-se, agarrou-lhe na borda e deu-lhe uma volta. O barco de pele de boi, construido segundo as normas em vigor havia bem mil anos, baloiçou na quilha; o remo, amarrado por uma tira de couro ao assento grosseiro que ficava no meio da embarcação, fez um som parecido com o rufar de um tambor. Quentin agarrou na proa do barco, empurrou-o para o mar por cima das pedras e, com a água a bater-lhe nas botas, trepou lá para dentro. Depois, pegou no remo e começou a remar em direcção à ilha.

O mar estava calmo. O único som que se ouvia era o do remo mergulhando e rodopiando na água. Uma profumda tristeza brotou de dentro de Quentin. Sempre estivera lá, mas, naquele momento, o cansaço não o deixou abafá-la por mais tempo e ela surgiu à superfície como uma fonte. Quentin olhou para a água azul e profunda, tão silenciosa, tão calma... Como seria repousante deslizar pela borda do barquinho e deixar-se ir para baixo, sempre para baixo... para além do pensamento, da dor, da lembrança...

Mas o rei continuou a remar e, à medida que deixava a terra para trás, ainda contornada pelo azul de ferro do céu, a noite foi-o tapando com as suas vestes de veludo. Dali a pouco, sentiu um arranhão no fundo do barco. Depois, uma sacudidela fê-lo saber que chegara à costa da ilha Sagrada.

Quentin içou-se para fora do barco, puxou-o bem para cima avançou para a floresta, que chegava mesmo até à beira da água, seguindo um carreiro antigo, que passava por entre as árvores e os arbustos.

Não sabia nem lhe interessava saber o tempo que andou.

As suas pernas mexiam-se por vontade própria, fazendo-o deslocar-se ritmada e lentamente. Não havia pressa; não ia para lado nenhum. O seu espírito, entorpecido pela fadiga, derrapava preguiçosamente e funcionava cada vez mais devagar, sem lhe dar nenhuma ideia, nenhum pensamento mais consistente.

Tinha os olhos postos em frente, mas não via nada. Estava muito escuro para se ver mais do que os ramos das árvores mais próximas. Só ouvia a sua respiração e o bater do seu coração, pois a ilha estava silenciosa como um túmulo e como um túmulo cheia de presenças invisíveis.

Quentin começou a sentir que também ele não passava de uma coisa feita de vapores sem substância, de um espectro sem existência corpórea, condenado a vaguear de noite e a desaparecer à luz da manhã, de uma presença vaga e arrastada, confinada a um mundo de sombras onde só sombras caminhavam, envoltas em tormentos privados, sós e abandonadas por toda a eternidade. Qual olho brilhante e pouco amigável, a Lua elevou-se acima das árvores. A sua luz era fraca. O cansaço envolveu os ombros de Quentin como uma peça de vestuário de chumbo, despertando nele uma dor surda que o trespassava a cada passo que dava.

“Tenho de descansar”, pensou. “Tenho de parar e descansar. Estou cansado. Tão cansado!” Mas continuou a andar, sem saber para onde.

Passado algum tempo, chegou a um sítio onde deixava de haver árvores; à sua frente, estendia-se um relvado que brilhava com a luz prateada da Lua e que descia suavemente para um lago. NO ponto em que o relvado se encontrava com a água, formava-se um crescente: uma lua cintilante que espalhava a do céu.

Quentin desceu até à beira do lago e parou a observar a superfície lisa como vidro. Aqui e ali, a água cintilava com a luz reflectida de uma ou outra estrela. Baixando os olhos para a água, Quentin viu o seu olhar devolvido por um rosto desamparado e desfeito.

Junto da água crescia um salgueiro, cujos ramos compridos pendiam, roçando ao de leve a superfície do lago. As folhas dos ramos formavam lágrimas que caíam no lago em intermináveis cascatas, que o alimentavam como uma fonte de sofrimento.

Quentin foi até ao velho salgueiro e deixou-se cair por baixo dos seus ramos pendentes. Era um local seco e escuro. Encostando a cabeça ao tronco áspero e cheio de nós, enrolou-se melhor na capa. Então, o sono chamou-o. Não sentiu os olhos a fecharem-se-lhe, nem deu por ter entrado nos escuros domínios do sono. Para Quentin, era tudo igual.

 

Embora houvesse muito que só se ouviam vozes abafadas no castelo e o cortejo fúnebre fosse sair de manhã bem cedo para a floresta de Pelgrin, Toli continuava acordado. Deitado na cama, com as mãos atrás da cabeça, fitava o tecto, onde se projectava a sombra bruxuleante do mastro do seu leito. Em espírito, regressava vezes sem conta ao doloroso encontro que tivera nessa manhã com Quentin e voltava a ouvir as suas terríveis palavras: “A culpa é tua... És tu o responsável!” As palavras torturavam-no como um chicote penetrando na carne, e não conseguia escapar ao seu feroz julgamento. No meio da sua angústia, ouviu distintamente baterem levemente à porta.

Levantou-se, foi silenciosamente até à porta e abriu-a.

- Pronto, pronto. Quem... Esme! - Disfarçando a sua surpresa abriu mais a porta para a deixar entrar.

- Toli, eu... - começou ela, com os olhos suplicantes. - É a Bria.

Recuando, puxou Toli para o corredor.

- O que aconteceu? O que se passa?

 - Ela está lá fora, no torreão, e não quer vir para dentro. Só olha em frente, como se estivesse hipnotizada. Não sei o que hei-de fazer nem como posso tirá-la de lá.

Com as sombras esvoaçando ao seu lado na parede grosseira, apressaram-se a percorrer sem barulho o largo corredor que ia dar aos aposentos reais.

- Há quanto tempo é que lá está? - perguntou ele.

- já lá estava quando lhe levei o jantar, que me disse para deixar ficar. Quando voltei há bocadinho, para ver se estava a dormir, vi que ainda tinha a cama feita e que não tocara na comida.

Toli assentiu com a cabeça, mas não disse nada até chegarem aos aposentos reais. Esme abriu a porta e entrou sem fazer barulho. Toli seguiu atrás dela. Depois de atravessarem vários aposentos, saíram para o varandim, onde Bria, imóvel como uma pedra esculpida, contemplava a noite iluminada pelo luar.

Observando-a longamente, Toli virou-se para Esme:

- Vai procurar a rainha Alinea - disse baixinho. - Talvez ela possa ajudar.

Esme fez que sim com a cabeça e saiu. Toli voltou-se e saiu para o torreão. A noite estava fresca e calma; os grilos cantavam por entre as trepadeiras que cresciam ao longo dos muros.

- Senhora, já é tarde e temos muito que fazer amanhã - disse docemente.

A rainha não se mexeu nem deu qualquer sinal de ter ouvido as palavras de Toli ou de haver sequer reparado na sua presença. Era como se tivesse sido enfeitiçado e não pudesse ser tocada por nada do mundo que a rodeava.

Toli estendeu a mão e pegou-lhe no braço, que estava frio. Embora Bria não resistisse, também não se mexeu.

- Senhora - insistiu Toli -, tens que descansar.

Nesse momento, ouviu-se um roçagar nas pedras do varandim, e Alinea aproximou-se com um xaile debaixo do braço.

- Bria, querida, ouve a tua mãe. - Pegando no xaile e passando-o por cima dos ombros da filha, continuou numa voz reconfortante: - Anda, minha querida.

Alinea lançou um olhar a Toli e a Esme. Toli afastou-se, fez sinal a Esme para o seguir e foram os dois para outro aposento. Quando ficaram a sós, Alinea passou os braços à volta da filha e apertou-a contra si.

- Querida Bria - suspirou -, imagino o que deves sentir.

O corpo da mulher mais nova foi atravessado por um arrepio. Alinea continuou a consolá-la. Por fim, Bria soltou um suspiro e virou para a mãe uns olhos vítreos devido àquela longa vigília.

- Ele está ali, mãe - disse, numa voz onde se notava o sofrimento. - O meu pequenino, o meu filho, o meu menino. Foi-se. Nunca mais voltarei a vê-lo. Sei que não. Nunca... mais... Oh, mãe!

As lágrimas brotaram-lhe imediatamente dos olhos e começaram a deslizar-lhe pelo rosto claro. Bria tapou o rosto com as mãos. Alinea cingiu-a muito a si e acariciou-lhe as tranças castanho-aloiradas.

No aposento seguinte, ouvindo os longos soluços agonizantes, Toli e Esme afastaram-se, embaraçados, e, sem fazerem barulho, foram esperar para o corredor.

O silêncio existente entre eles estava a tornar-se incómodo; embora ambos soubessem que alguém tinha de falar, nenhum dos dois conseguia dizer nada. Esme fitou Toli, que lhe devolveu o olhar. Depois, ela baixou os olhos e ele desviou o rosto.

Por fim, o silêncio tornou-se insuportável. Toli abriu a boca e gaguejou:

- Esme, eu... eu...

A porta que tinham ao lado abriu-se e Alinea apareceu. Os seus olhos, de um verde profundo, reflectiam bem o seu pesar, mas a sua voz era calma e reconfortante:

- Creio que agora dormirá - disse com simplicidade, depois de ter conseguido o que só uma mãe consegue. - Vós os dois também tendes de descansar. Os dias que se aproximam não serão fáceis para ninguém.

- Obrigado, senhora - agradeceu Esme. - Desculpai...

- Chiu! Não digas mais nada. Ainda virei aqui antes do nascer do dia, mas tenho a certeza de que ela dormirá como uma pedra.

- Boa noite - despediu-se Toli, afastando-se imediatamente. As duas mulheres ficaram a vê-lo ir-se embora.

- Aquele carrega nos ombros o peso da aflição - comentou Alinea. - Gostava que o Quentin estivesse aqui, pois o rei sabe lidar com ele. Mais ninguém pode aconselhá-lo.

Sem falar, Esme lançou um olhar pesaroso à rainha-mãe.

- Há tanta dor neste mundo! - continuou Alinea. - A nossa felicidade é tão frágil! Quando não a temos, parece que nunca a tivemos nem nunca mais a teremos. Mas tudo o que há na Terra obedece à vontade do Altíssimo. Não acontece nada que ele não veja.

- Que consolo há nisso? - perguntou Esme numa voz consternada. - Oh, nunca entenderei o vosso Altíssimo.

Alínea fitou bondosamente a mulher que tinha ao lado. Depois. rodeando-a com o braço, como fizera a Bria apenas uns momentos atrás, conduziu-a pelo corredor, de volta aos seus aposentos.

- Ah, Esme, eu também pensei que nunca o entenderia, mas o Durwin dizia-me assim: “É o entendimento que emana da fé e não o contrário.” Lembro-me de passar horas a cismar nestas palavras.

- O que significam?

- Que existem muitas coisas sobre o Altíssimo que só a fé pode ver. Já aprendi que não é toda a razão nem todo o pensamento de todo o mundo que nos aproximam da fé. A fé tem de vir do coração.

Esme abanou lentamente a cabeça. Tendo chegado à porta dos seus aposentos, virou-se para Alínea e pegou-lhe nas mãos:

- Este deus é muito diferente dos que conheço. Os outros não exigem nem fé nem entendimento. Só presentes e oferendas.

É muito mais simples!

Alinea sorriu:

- Tens razão, os velhos deuses são mais simples, mas não lhes interessa o que acontece aos homens. Fazem o que lhe apetece. Mas, ao Altíssimo, isso interessa-o muito... muito mais do que pensas.

- Pelo menos, vale a pena acreditar nisso. - virando-se para entrar, rematou: - Boa noite, senhora. Obrigado pelas vossas palavras. Boa noite.

Os viandantes deslocavam-se rapidamente, a coberto do véu escuro da noite. Seguindo para leste, avançavam o mais possível pela estrada, mas davam grandes voltas para evitarem as aldeias que iam encontrando pelo caminho, de modo a não serem detectados.

Embora permanecesse alerta para qualquer possibilidade de fuga, o príncipe Gerin caminhava pesadamente, de cabeça baixa.

Ouvira um dos guardas dizer que chegariam de manhã ao seu destino. Por isso, pensara que, se ia fugir, seria melhor tentá-lo mais cedo do que mais tarde.

Reflectira em pouco mais o dia todo, pois cansara-se de esperar que alguém fosse salvá-lo. “Porque não vêm?”, perguntava-se. “Porque se demorarão? Devem andar à minha procura. De certeza que sabem para onde vou. Se calhar, não me encontram, É isso! Oh, este velho Barba Comprida é manhoso! Baralhou tanto a nossa písta que ninguém consegue encontrar-me. Portanto, tenho de fugir hoje à noite.”

Estava decidido. Os guardas seguiam um de cada lado do príncipe; um terceiro conduzia o seu pónei. Fugiria mal eles se distraíssem ou afrouxassem a vigilância. Não o apanhariam. Montado a ovalo, correria mais do que eles. Era este o seu plano. Só lhe restava esperar pelo momento oportuno.

Este deu-se quando chegaram a uma bifurcação. Uma das estradas virava para norte, em direcção às aldeiazinhas espalhadas ao longo do Arvin; a outra continuava em frente e elevava-se gradualmente à medida que avançava para oriente, direita aos montes Fiskills. A cidade de Narramoor ficava mesmo em frente; ligeirammente a nordeste, erguia-se o Grande Templo, que, do cimo do seu planalto, contemplava o vale e toda aquela região do reino.

Pararam.

- Iremos para sul, rodearemos a cidade e, depois, seguiremos para o templo - disse Nimrood.

- Mas há um caminho mais curto para norte - protestou um guarda. os outros assentiram com a cabeça.

- Talvez seja mais curto - sibilou Ninirood -, mas teremos mais olhos curiosos a seguir-nos.

- Sabemos de um caminho... - começou o guarda.

- Silêncio! - ordenou Nimrood, dando um passo ameaçador em frente. - Faremos o que estou a dizer! - Apontando o dedo ao rosto do homem: - Quem manda sou eu!

O homem deu um passo atrás, tropeçou numa pedra e caiu na estrada. Momentaneamente distraídos, os outros guardas observavam-no.

Era tudo do que o príncipe Gerin precisava. Com a rapidez do raio, saltou para a sela, arrancou as rédeas da mão do espantado guarda, fez Tarky dar meia volta e começou a afastar-se.

- Fazei-o parar! - guinchou Nimrood. - Fazei-o parar, imbecis!

Os guardas do templo deixaram imediatamente de estar distraídos. Os dois que estavam mais próximos mergulharam de cabeça, mas o cavalo esquivou-se e eles aterraram na estrada, com um grunhido. Um outro tentou apanhá-lo de lado e Gerin chicoteou-o com as rédeas. O homem soltou um grito e pôs as mãos no rosto.

- Imbecis! - gritou Nimrood. - Ele vai fugir!

 O jovem príncipe inclinou-se muito na sela e apertou os calcanhares contra as costelas do cavalo, incitando-o a andar mais depressa. Os guardas correram para ele de ambos os lados. As silhuetas escuras pouco mais eram do que sombras. Vendo este movimento pelo canto do olho, o cavalo assustou-se e deu um pinote. Gerin agarrou-se com toda a força. Na esperança de espantarem o animal, os guardas cercaram-nos, abanando as mãos e gritando.

Muito assustado, o cavalo escoiceou, empinou-se e sacudiu a cabeça. Fazendo tudo para permanecer na sela, Gerin agarrou-se à crina do pónei e apertou mais as pernas. O cavalo relinchou de medo, recuou e tentou escoicear as formas que dançavam à sua volta.

Às tantas, Gerin viu uma abertura. Puxando as rédeas para o lado com toda a força, pôs o cavalo de frente para a brecha aberta no círculo formado pelos guardas. O cavalo também viu aquela oportunidade e precipitou-se instantaneamente para a frente.

No momento seguinte, Gerin só viu as estrelas e a Lua rodando loucamente à sua frente; então, sentiu-se cair e deslizar pelos quadris do cavalo. Bateu no chão com tanta força que até ficou sem ar.

Sem conseguir respirar, deixou-se ficar como um saco de grão tombado na estrada. Mãos ásperas pegaram nele, puseram-no de pé e abanaram-no; o ar voltou a entrar-lhe nos pulmões. Muito tonto, olhou em volta e viu Tarky escapulindo-se sozinho pela estrada. Dois guardas corriam atrás dele. Houvera algum clarão? Algum barulho? Ainda tinha nos ouvidos o som do trovão.

O que seria que aparecera tão de repente no seu caminho?

O que seria que fizera o cavalo recuar e atirá-lo ao chão? Lembrava-se de ter visto o velho levantar as mãos... nessa altura, o céu e a terra haviam trocado de posição... por que força ou poder, era coisa que não sabia.

Ainda lhe balançavam à frente dos olhos ardentes bolas de luz violeta; Gerin abanou a cabeça, mas não adiantou nada. As bolas só foram desaparecendo lentamente.

- o rapazinho tem garra, que deve pôr ao nosso serviço - entoou Nimrood. - Menino, se quiseres continuar vivo e inteiro, não penses mais em fugir. - Nimrood inclinou-se tanto que o seu hálito nojento bateu em cheio no rosto do príncipe, - De contrário, quando vierem buscar-te, não encontrarão nada que valha o resgate.

Um guarda apareceu a arquejar:

- O maldito bicho fugiu. Não conseguimos apanhá-lo.

- Idiotas! Outro erro! - Semicerrando os olhos, que brilhavam cruelmente, o ancião lançou um olhar furioso aos rostos desgostosos que o rodeavam. A sua barba branca e comprida luzia ao luar como uma cascata gelada. - Comunicarei a vossa incompetência ao sumo sacerdote, que, estou certo, vos castigará devidamente.

Nimrood virou-se abruptamente e começou a caminhar. Os guardas ficaram parados a olhar para ele.

- Trazei-o. - Falou em tom monocórdico e duro. Os guardas apressaram-se a obedecer. O príncipe Gerin foi agarrado por baixo dos braços e arrastado. Os seus pés mal tocavam no chão.

 

A Lua pálida lançava os seus raios de prata derretida para dentro do lago. A água parecia dura e preta, como vidro deixado ao fumo de uma fogueira. As folhas em forma de lágrimas do salgueiro encontravam-se perladas de orvalho, No céu negro, estrelas diamantinas lançavam centelhas, pontos de luz frios e duros como gelo.

Com um sobressalto, Quentin despertou de um sono de pedra e olhou estonteadamente em volta. “Onde estou?”, pensou. “Como cheguei aqui?”

De repente, lembrou-se: remara até à ilha, palmilhara léguas sem fim e adormecera. Embora o seu espírito fosse uma confusão de pensamentos meio formados e de fragmentos de sonhos inacabados, teve a estranha certeza de que fora arrastado para ali e acordado pela mesma força que o convocara.

Os seus sentidos ficaram alerta. Aquele lugar parecia estar cheio da presença dos deuses; se escutasse com muita atenção, quase poderia ouvi-los murmurando uns para os outros, enquanto percorriam as distantes costas da noite.

Ao sentir a proximidade destes seres, o sangue correu-lhe mais rápido nas veias. Os deuses tinham-se reunido junto de si e observavam-no de cada sombra como se estivessem por trás de cortinas de veludo. Quentin imaginou-se tocado pelos seus olhos desapaixonados.

Com os músculos rígidos, devido ao esforço que fizera, levantou-se, cruzou os braços e pôs-se a olhar para o lago. Como vapor, a nevava-se da água calma, adensava-se, enrolava-se e, quais dedos tacteantes, deslizava em colunas para o relvado em forma de crescente. Quentin avançou até à beira da água e ficou à espera. Aproximando-se cada vez mais, a fantasmagórica névoa branca flutuava, pairava e deslocava-se no ar ao sabor de correntes invisíveis. Quentin esperava, de músculos tensos, com o frio da noite penetrando-lhe na carne e quase não aguentando tanta ansiedade. O sangue corria-lhe veloz pelas veias; até o ouvia batendo-lhe ritmadamente nos ouvidos. A sua volta, o silêncio era mortal.

Parado junto do lago prateado, Quentin observava as nuralhas de renda que os vapores iam erigindo sobre a superfície espelhada. De repente, a névoa enrolou-se e dividiu-se, e apareceu uma forma escura, que atravessava o lago e deslizava lentamente na sua direcção. Quentin percebeu que se tratava de um pequeno barco, que saía silenciosamente do redemoinho de vapores.

A embarcação não era movida por nenhum remador nem guiada por nenhum piloto. De casco largo e baixo, aproximou-se mais e, por fim, embateu suavemente na margem coberta de erva e parou aos pés do rei.

Como se pensasse que o barco ia desaparecer outra vez no nevoeiro, Quentin levantou cuidadosamente o pé e meteu-se lá dentro. Mas a misteriosa embarcação era bastante sólida e ele foi sentar-se mesmo no meio. Então, tão silenciosamente como chegara, o fantasmagórico barco afastou-se da costa, levando-o através do lago pelo mesmo caminho que percorrera anteriormente.

Sentado muito direito no banco de madeira, Quentin viu o seu barco entrar na névoa. O mundo sólido desapareceu de vista, e o rei foi engolido inteiro por um outro mundo de nuvens e vapores sem substância. O barco avançava com tanta leveza e suavidade que Quentin nem sabia se estava a flutuar se a voar. Nem uma ondulação marcava a sua passagem. Apesar de apurar os ouvidos e de perscrutar o vazio, não conseguiu ver nem ouvir nada.

Passado algum tempo, a névoa rarefez-se e dividiu-se e o pequeno barco deslizou para uma laguna pouco profunda, rodeada por grandes pedras erectas.

Havia magia naquele lugar; Quentin sentia-a formigando por cima dele e lambendo-lhe o rosto e o corpo com o seu fogo subtil. Nessa altura viu um vulto.

À sua frente, à beira da água, estava um homem com um manto comprido e branco, que luzia ao ser tocado pelos brilhantes raios da Lua, O homem fez-lhe sinal para que o seguisse e, mal o barco tocou na costa, Quentin saiu e apressou-se a ir atrás dele. Atravessaram o relvado em direcção às gigantescas pedras, passaram por elas e entraram num círculo de pedras mais pequenas, muitas das quais se encontravam inclinadas ou caídas. Em tempos, estas pedras, tal como outras que Quentin já vira em Mensandor, erguiam-se ao lado umas das outras, formando círculos nos locais de adoração dos antigos. Os círculos eram erigidos em sítios de poder, onde se dizia que os deuses tocavam a Terra.

Quando entraram neste círculo sagrado de pedra, Quentin viu as chamas vivas de uma fogueira, onde assavam espetadas de carne. O homem de vestes brancas sentou-se numa das pedras tombadas, que se encontrava coberta de musgo verde, salpicado de líquenes brancos, sorriu calorosamente e fez sinal a Quentin para se instalar. Embora ainda nenhum deles tivesse falado, o rei não sentiu medo e percebeu que era bem-vindo. Enquanto o homem vigiava os espetos, aproveitou para o examinar.

O desconhecido era alto, bem proporcionado e estava em forma. As suas feições largas não eram grosseiras nem pesadas.

Notava-se a sua força no contorno do maxilar e do queixo. Tinha o cabelo comprido e escuro atado atrás da cabeça com uma tira de couro, à maneira dos profetas ou dos videntes. Enquanto, com as suas mãos fortes, ia ajeitando a carne assada, os seus olhos escuros pareciam tições que cintilavam à luz da fogueira.

O lume crepitava e estalava, projectando sombras grotescas nas pedras erguidas. Embora a sua cabeça fervilhasse com mil perguntas, Quentin permaneceu silencioso. Naquele lugar, nenhuma palavra parecia apropriada. Por isso, deixou-se ficar à espera, sentado dentro do círculo quente de luz.

Por fim, o desconhecido pegou num jarro e encheu uma taça de madeira, que ofereceu a Quentin.

- Tens fome?

- Tenho! - respondeu Quentin, espantado por o homem falar.

- Ainda bem! - Soltou uma gargalhada profunda e ressonante, produzindo um som terrestre... um som de florestas, colinas e regatos correndo para o mar.

Fascinado pelo prazer daquela voz, Quentin também se riu.

- Como pensei que talvez tivesses fome, arranjei-te alguma coisa para comer - explicou o seu misterioso anfitrião. - A tua viagem foi longa... percorreste uma grande distância.

- Como sabes?

Ele sorriu e disse:

 - Sei muita coisa sobre ti.

Havia naquele homem qualquer coisa de familiar, de assombrosamente familiar; Quentin sabia que já ouvira a sua voz e vira aqueles gestos. Mas onde? Não se lembrava.

- Há muita gente que pode dizer o mesmo - retorquiu Quentin. - O meu nome é bastante conhecido.

- Boa resposta - volveu o homem, com a alegria dançando-lhe nos olhos. - Tu és o Rei Dragão de Mensandor e na verdade, há muito quem saiba o teu nome. Mas eu sei muito mais.

- Continua, por favor - pediu Quentin. Quem seria aquele homem?

- Sei que és um homem honrado e que tens muitos amigos.

E que perdeste recentemente um amigo, que te era muito querido. Também sei que corres o perigo de perder outra pessoa que te é ainda mais querida.

- É tudo?

- Por agora, creio que chega. Toma, a carne já está pronta. - Estendendo a Quentin um espeto, ficou com outro para si, pegou na sua taça de madeira e bebeu.

Quentin também bebeu, pensando que nunca saboreara uma água tão fresca e boa, Sempre observando o desconhecido que tinha ao lado, arrancou um pedaço de carne do espeto.

- Como te chamas? - perguntou.

- Chama-me amigo, pois sou teu amigo.

- Amigo? Mais nada?

- E que mais é preciso?

Quentin comia pensativamente. Quem seria aquele amigo? E porque lhe pareceria tão familiar? Depois de beber mais um gole indagou:

- Onde estou? Que lugar é este?

Em vez de responder, o homem fez uma pergunta:

- Vês estas pedras?

Quentin assentiu com a cabeça.

- Quando aqui foram postas, ficaram de pé durante muitas centenas de anos. Mas, agora, jazem tombadas e abandonadas, Os deuses aos quais foram erguidas já não vêm aqui. Porque achas que é assim?

Depois de pensar por um momento, Quentin respondeu:

- Será porque os velhos deuses estão a morrer ou porque nunca sequer existiram? Há quem diga que entrámos numa nova era e que um novo deus está a dar-se a conhecer.

- E tu... o que pensas tu?

- Eu acredito... - começou Quentin devagar, escolhendo cuidadosamente as palavras - acredito que os tempos mudam e que umas eras se sucedem às outras, mas que só existe um deus, que é deus de tudo e de todos. Mas se há ou nunca houve outros deuses, é coisa que não sei.

- Palavras estranhas vindas de um acólito - comentou o desconhecido. O seu sorriso dissimulado sugeria que guardava para si qualquer segredo.

Quentin ficou estarrecido. Havia muito tempo que ninguém lhe chamava acólito. Aliás, já quase se esquecera de que servira no templo; tinham passado tantos anos!

- Eu era só um rapazinho - replicou.

- Como disseste, os tempos mudam, mas os velhos costumes custam a morrer, não é?

Quentin não disse nada. O homem olhou em volta do círculo de pedras caídas.

- Porque- pensas que os homens erguem aos seus deuses monumentos de pedra?

- Porque a pedra dura muito - retorquiu Quentin.

- Sim mas, como vês, no fim, até a pedra cai. O que fica depois de a pedra se ter desfeito em pó?

Quentin reconheceu nestas palavras uma pergunta que o seu velho professor Yeseph, ancião de Dekra, lhe fizera havia muito tempo, quando fora seu aluno. O velho Yeseph morrera e fora enterrado anos atrás.

- Fica o espírito do homem - disse Quentin, dando a resposta que Yeseph o levara a dar.

- E o amor - acrescentou o homem com toda a simplicidade. - Não terá mais sentido oferecer ao deus amor em vez de templos feitos de pedra?

Uma pontada de culpa trespassou novamente o rei. Quem seria aquele homem?

- Quentin, não tenhas medo - disse ele docemente.

- Não tenho... - começou Quentin. O homem levantou a mão e interrompeu-o.

- E não te entregues ao desespero. Os teus inimigos querem humilhar-te e troçar do deus que serves. Confia no Altíssimo, que te erguerá de novo.

Levantando-se, o homem voltou a sorrir:

- O barco levar-te-á outra vez para o outro lado.

Quentin pôs-se em pé de um salto:

- Não te vás embora! Por favor...

- Tenho de ir. O meu tempo aqui acabou. Só queria ver-te mais uma vez e despedir-me de ti.

- Não! - gritou Quentin, pondo-se de joelhos. - Fica comigo. Quero ouvir-te falar mais! - Não pode ser. Mas havemos de voltar a estar juntos. Tenho a certeza. - Sorrindo docemente, pousou a mão na cabeça de Quentin.

O rei sentiu-se invadido por uma onda de calor e deixou de estar em pânico.

- Da outra vez, não pude dizer-te adeus como gostaria. - Levantando Quentin, envolveu-o num abraço. Passado um momento, pousando as mãos nos ombros do amigo e afastando-o de si, rematou: - Adeus, meu amigo. - Adeus - retorquiu Quentin, vendo o homem virar-se, passar entre duas grandes pedras como se por uma porta e caminhar para o bosque.

Desapareceu quando a névoa surgiu, tapando a visão de Quentin.

 

O cortejo fúnebre partiu de madrugada e atravessou as ruas de Askelon com o corpo do amado eremita metido num ataúde coberto de panos pretos, puxado por dois dos melhores cavalos brancos de Toli, seguindo para norte, na direcção do ponto de encontro da floresta de Pelgrin com a planície, o que correspondia a uma distância de cerca de uma légua.

 

O dia estava bonito e quente. As copas das árvores tinham um tom cor-de-rosa dourado devido ao brilho do Sol, que subia na grande abóbada celeste, azul e sem nuvens. No ar suave e parado pairava a doçura das flores silvestres, que cresciam em cachos espalhados pela planície: lírios cor-de-rosa e amarelos, rainúnculos, botões azuis, folhas-de-renda brancas e minúsculas chinelas-de-dama cor de púrpura.

Toli seguia à frente, montando Riv; atrás iam Esme e Bria e, depois, uma carruagem, com Alinea ladeada pela princesa Brianna e pela princesa Elena. O cortejo era formado por senhores e damas, cavaleiros, escudeiros, servos e habitantes da cidade. Todos eram amigos do eremita, que tanto acolhia bem as pessoas de posição elevada como as de nascimento inferior.

Mas, embora a sua missão fosse bem triste, o dia estava tão bonito e a vida corria com tanta intensidade que nenhum dos acompanhantes do cortejo poderia permanecer verdadeiramente pesaroso.

- Que estranho! - comentou Bria, pensando nisto mesmo. - Sinto-me como que lavada, como se os dias que passaram fossem um pesadelo que desapareceu ao amanhecer.

- Também me sinto assim - concordou Esme. - No entanto sei que não mudei... o mundo inteiro é que parece ter acabado de nascer.

Continuaram a falar assim. Atrás delas, na carruagem, as princesinhas crivavam a avó de perguntas. A princesa Elena nunca fora a nenhum funeral e a princesa Brianna só assistira ao de Yeseph; mas como, na altura, tinha menos de um ano de idade, não se lembrava de nada.

- Avó, o que vai acontecer ao Durwin?

- Nada de mau, minha filha. Agora, o corpo dele vai descansar na terra - respondeu Alinea.

- Mas ele não terá frio? - chilreou Elena.

- Não, nunca mais terá frio.

- Eu sei o que vai acontecer - interpôs Brianna, dando-se ares de importante. - Ele vai transformar-se em ossos!

- Que horror! - gritou a pequena Elena, com os olhos faiscando perante o mistério de tudo aquilo. - Eu também vou transformar-me em ossos?

- Só daqui a muito tempo, minha querida. Sabes, toda a gente morre e se transforma em ossos e pó. - Acho que não vou gostar nada disso - replicou Elena pensativamente.

- Eu cá vou! - anunciou Brianna, decidida a tirar o melhor partido de qualquer situação.

- Não me parece que alguma vez saibas o que te aconteceu nem que isso te interesse muito, pois começarás uma vida nova e maravilhosa num outro lugar.

- Onde? Oh, conta-nos, avó - pediram.

- Está bem. Muito longe daqui, há um grande reino.... o reino do Altíssimo. Quando morrerdes, ireis para lá viver com ele. É um sítio prodigioso e bonito como nunca vistes nenhum. Deixareis aqui o vosso corpo, do qual já não precisareis, porque tereis um novo, e vivereis felizes para sempre.

- O Durwin foi para lá?

- Foi, foi para lá. Foi ter com o Altíssimo.

- Quando lá chegarmos, voltaremos a ver o Durwin. - indagou Elena.

- Claro que sim. Ele estará à nossa espera.

- E o avô Eskevar também? - quis saber Brianna.

- O avô também. - Alinea sorriu. As crianças eram tão confiantes, crédulas e inocentes! As suas netas acreditavam no que ela lhes dizia sem precisarem de provas nem de garantias. A fé delas era simples e tolerante: dava lugar a muitas perguntas mas poucas dúvidas.

- Oh! - exclamou Brianna, muito decidida. - Então, irei já. Costava muito de ver o avô.

- Se fosses já, ficaríamos muito tristes, minha querida - respondeu Alinea, acariciando-lhe o cabelo. - É que, nesse caso, nunca mais te veríamos. Fica connosco mais algum tempo, por favor.

- Està bem - concordou Brianna -, eu fico. - Aninhando-se mais: - Não gostaria nada de te deixar, avó.

De todos os que seguiam no cortejo, só Toli não via a beleza do dia. Seguindo silenciosamente com os olhos postos em frente, mas sem ver nada, só pensava naquilo que lhe rasgava o coração e que o fazia ter vontade de gritar: “Fracassei, meu amo. Desgracei-me e desgracei o rei. Ele tem razão: a culpa foi toda minha e só minha. Sim, o sangue do Durwin mancha as minhas mãos. O responsável sou eu... nunca devia tê-los deixado sozinhos. Assim, o Durwin ainda estaria vivo e o príncipe são e salvo. Nunca nada disto teria acontecido. Faltei ao meu dever e já não sou digno de ser chamado servo. Tenho de desfazer o que fiz. Tenho de o desfazer, ainda que isso me custe a vida. A vida... para que me serve agora?”

Quando chegaram, levaram o ataúde para a campa que fora preparada no dia anterior e que já ficava dentro da floresta, numa margem sobranceira a um laguinho ensombrado. Tratava-se do lapinho onde Durwin patinhara tantas vezes, à procura das suas plantas medicinais.

Alínea escolhera aquele lugar porque se lembrara de como gostava de ir para ali apanhar plantas ou só sentar-se a pensar. Encontrava-o muitas vezes estendido na margem e sentava-se a ouvi-lo falar desta ou daquela erva ou a reflectir sobre o Altíssimo.

- O Quentin e o Gerin deviam estar aqui - disse Bria. - Gostavam tanto do Durwin! Quem me dera que estivessem aqui! - A rainha já ultrapassara o trauma da noite anterior; de facto, até nem se lembrava de que lhe acontecera a si. Achava que pertencia ao sonho, ao pesadelo que se desvanecera com o novo dia.

- Tenho a certeza de que virão aqui muito em breve. - Esme examinou a amiga, em busca de algum sinal do mal que a atingira.

Reparando na sua atenção, Bria sossegou-a:

- Sinto-me muito melhor, - Fazendo uma pausa e lançando um olhar à campa: - É que não me parece certo, sem o Quentin aqui.

- Sabes muito bem que, se pudesse, estaria aqui. Mas o primeiro dever do Quentin é encontrar o príncipe e trazê-lo são e salvo. O rei não pode descansar até o seu filho e herdeiro estar em segurança.

- Tens razão. - Depois de uma pausa, acrescentou: - Mas olha para o Toli. É uma dor de alma vê-lo assim.

Esme observou o jher silencioso e esbelto e assentiu tristemente. Também o lamentava muito. Só queria poder chegar-se ao pé dele e consolá-lo; aliás, se não fosse o medo de ser rejeitada, tê-lo-ia feito.

Pela sua parte, Toli só falara a Theido das duras palavras de Quentin, que achava terem sido bem merecidas. Sem pensar mais nisso, fez sinal a vários senhores e cavaleiros, que logo se encaminharam para o ataúde, pegaram na tábua comprida sobre a qual descansava o corpo e a puseram aos ombros. Bria, Esme e Alinea também se aproximaram, pegaram nos ramos de flores que, nessa manhã, tinham sido colocados na carroça funerária e seguiram o corpo até à campa.

Os homens baixaram o corpo do eremita para dentro da cova aberta na terra escura e rica. A luz do Sol iluminou a cova e caiu sobre o rosto pálido. Durwin parecia satisfeito e em paz. Mas mudara; já não era o mesmo homem que tinham conhecido. Na morte, parecia-se tão pouco consigo que nenhum dos acompanhantes do cortejo poderia olhar para ele naquele momento e dizer: “Este é o homem que conhecemos em vida.” Durwin, a verdadeira essência do homem que tinham amado, desaparecera, deixando apenas um invólucro sem valor.

Alinea foi até à sepultura, ajoelhou-se e pousou as suas flores no chão. Bria e Esme juntaram-se-lhe. De pé junto da cova aberta, Toli observava tudo silenciosamente, com os olhos duros como pedra polida.

Os outros também se aproximaram da sepultura, parando brevemente a prestar as suas últimas homenagens. Aqui e ali brotava uma lágrima, mas não houve os soluços, nem as lamentações, nem as exibiÇões de dor que normalmente se vêem em tantos funerais. Todos os que ali estavam sabiam que aquele enterro era diferente, pois tratava-se da sepultura de um dos mais fiéis servos do Altíssimo. E nenhum dos que contemplavam o corpo sentia que o homem deixara de existir. O seu espírito estava presente entre eles. seria errado considerar que o santo eremita da floresta de Pelgrin mergulhara numa não-existência sombria, no mundo subterrâneo dos deuses. Até os que nunca tinham ouvido falar do Altíssimo nem do seu grande e maravilhoso reino acreditavam que Durwin fora para um lugar muito diferente e muito melhor.

No seu íntimo, todos os que o viam na sua campa desejavam sua própria morte fosse assim: segura, digna e em paz. E, a partir daquele dia, foram muitos os que passaram a acreditar que Durwin tinha razão no que dizia sobre o Altíssimo, pois também eles queriam ir para onde o eremita fora.

A princesa Brianna e a princesa Elena foram as últimas a pôr flores na campa. Quando, por fim, todos prestaram as suas homenagens ao corpo, Toli e cinco cavaleiros encheram a cova de terra. Depois, um a um, os acompanhantes do cortejo pegaram em pedras, que colocaram no túmulo.

- O Quentin teria gostado que ele fosse enterrado na Roda dos Reis - comentou Bria, enquanto se pousavam as pedras em címa do túmulo -, mas este sítio é melhor, mais adequado.

Pois é - concordou Alinea. - O lugar dele é aqui, entre as árvores que amava, onde vivem os seres selvagens.

Então, viraram-se e partiram na direcção do castelo, deixando a tristeza para trás. Só Toli ficou depois de todos se terem ido embora. Sem se mexer, contemplou a sepultura durante muito tempo. Por fim, montou Riv e partiu. Mas não foi para o castelo de Askelon com os outros.

- Onde está o Toli? - perguntou Esme, rodando na sela à sua procura e não o vendo entre os que seguiam atrás dela.

- Que estranho! - disse Bria, virando-se também. - Não o vejo por lado nenhum. Pensei que tinha vindo com os outros.

Esme olhou para a campa, mas não viu nada. Toli desaparecera.

 

- O príncipe... aqui? Pelas barbas do deus! É um erro. Um erro terrível. Tu implicaste o Grande Templo nas tuas intrigas. Não admito! Ouviste? Não admito!

Encolerizado, o sumo sacerdote Pluell arrancava os cabelos e passeava para trás e para diante nos seus aposentos. Encapuçado e sem dizer nada, Nimrood observava sentado a fúria de Pluell. Passado um tempo, o sumo sacerdote postou-se de mãos nas ancas em frente do ancião de barba branca.

- Agora, o templo corre perigo por tua causa, e isso não estava no nosso acordo. Nunca me disseste que tencionavas raptar o príncipe. Não o admito!

Por fim, pareceu a Nimrood que ouvira que chegasse. Levantando-se, lançou um olhar fulminante ao sumo sacerdote e caminhou para a porta em passos largos.

- Espera! O que vais fazer? Onde vais?

- Vou-me embora. É óbvio que perdeste a coragem. Não me serves para nada. Adeus.

- Não! - gritou Pluell. - Não podes fazer isso! E o príncipe? O que lhe faço?

- O que quiseres. Que me interessa? Talvez fosse um bom acólito, mas parece-me que o pai dele teria alguma coisa a dizer-te.

- Pára! Anda cá. Não podes ir-te embora assim. Eu nunca tive nada a ver com isto!

Com a mão já no ferrolho da porta, Nimrood parou.

- Nunca tiveste nada a ver com isto? Ah! - Virou-se de repente, com os olhos a faiscar. Vendo aquela mudança, Pluell recuou, boquiaberto. Nimrood avançou para ele, parecendo crescer a cada passo que dava.

- A ideia foi minha?

- De quem foi então? Estás a sugerir que foi minha?

- Foi tua e só tua. Eu só te falei do perigo que o templo corria se não agisses imediatamente. Foram os teus homens que raptaram o rapaz. O erro foi deles. És o sumo sacerdote... portanto, o responsável.

- Não! Tu enganaste-me! Eu disse-te para... para...

- Exactamente! Disseste-me para fazer o que fosse preciso. Não estaríamos agora aqui se os estúpidos dos teus homens tivessem feito as coisas em condições. Pela minha parte, nunca planeei as coisas assim.

- Tens de me ajudar! - gemeu Pluell. O choque e a cólera que sentira pelo que Nimrood lhe fizera haviam sido substituídos pelo medo de ter de enfrentar sozinho o rei ultrajado. Se soubesse do ataque ao filho, o Rei Dragão havia de o desfazer em pedacinhos! - Desculpa. Não estava a ver as coisas com clareza. Fica e ajuda-me a pensar no que havemos de fazer.

Nimrood cofiou a barba, parecendo estar a cismar no que tinham de fazer. “Ah!”, pensou de si para consigo. “Foi muito fácil! Apanhei o peixe na rede. Ele não tem coragem nenhuma. Merece bem o seu destino. Mas ainda pode servir-me; portanto, vou salvá-lo. Isto está a correr muito melhor do que eu esperava.”

- Está bem, ficarei. Mas tens de deixar de te lamentar e de fazer o que eu disser. Tenho um plano. Um plano muito simples. E, se tudo correr bem, dentro em breve terás o rei na palma da tua mão gorducha.

Partindo do sítio onde o príncipe fora visto pela última vez, Theido, Ronsard e um grupo de cavaleiros passavam a floresta a pente fino, descrevendo círculos com o centro nesse ponto central e penetrando cada vez mais profundamente no coração de Pelgrin. Os cavaleiros vasculhavam os carreiros ensombrados e os atalhos mal iluminados e Theido e Ronsard encontravam-se com eles nos locais previamente combinados, onde conferenciavam e comunicavam uns aos outros as últimas novas.

Mas nunca havia grandes novidades. Ninguém conseguia descobrir sinais dos raptores.

- Parece que desapareceram da face da Terra - disse Ronsard, quando se encontraram para a última conferência do dia.

- Eu também não tenho nada a comunicar. - Theido contemplou o céu. As nuvens tingiam-se de cor de laranja à medida que o Sol ia baixando por trás das árvores. - Daqui a pouco anoitecerá e ficará muito escuro para prosseguirmos as nossas buscas.

Ronsard espreitou o céu através dos espaços abertos entre as folhas das árvores.

- Malditos sejam! Pelo deus, esperava dar hoje com a pista deles. - Fitou Theido, cujo olhar parecia distante. - Em que estás a pensar?

- Em nada... em nada.

Ronsard abanou a cabeça:

- Não penses que me enganas, senhor. Conheço-te muito bem. Diz lá.

Theido assentiu lentamente:

- Estava a pensar no que o Toli disse sobre a espada do Quentin.

- Também ainda não consegui entender. O que significará?

- Nada de bom, podes ter a certeza. Estava mesmo agora a pensar que pressagia uma desgraça ainda maior do que o desaparecimento do príncipe, que por si só já é desgraça que chegue.

Ronsard olhou para o amigo com um ar entendido:

- Tens razão, ninguém se separaria da Brilhante de ânimo leve. Sempre pensei que o Quentin lutaria até à morte antes de desistir dela.

- Tiraste-me as palavras da boca. No entanto, quando o Toli o encontrou na estrada, ele nem falou de nada. Porquê? - Theido lançou novamente um olhar para o céu e acrescentou: - Um problema de cada vez, não te parece? Recomeçaremos as buscas mal o dia nasça.

- Tens razão, amanhã... é o último dia que nos resta. As pistas, se é que estão por aí, vão começar a desaparecer.

Theido virou o cavalo e fez menção de se afastar:

 - Adeus, Ronsard. Encontrar-nos-emos amanhã à mesma hora.

Se ainda não tivermos dado com a pista nessa altura, bem... reza para que a encontremos.

Ronsard levantou a mão em despedida e ficou a ver o cavaleiro alto e magro afastando-se, cavalgando em sentido contrário ao que antes percorrera. “O Theido tem razão”, pensou. “Está a acontecer qualquer coisa que pressagia a nossa desgraça. O quê, aposto que descobriremos muito em breve.”

Suspirando, embrenhou-se nas sombras que se adensavam para ir ter com os seus homens mais uma vez, antes de se enrolar na capa e dormir. À sua volta, o bosque estava calmo e silencioso, como se contemplasse a chegada da noite. Ronsard sentiu que das sombras saía um frio acompanhado de um presságio tão sinistro como havia anos não experimentava. Arrepiando-se todo por dentro, prosseguiu o seu caminho.

- Mãe, se não achais sensato, ou se tendes um plano melhor, dizei-me. - Bria olhou para a mãe com toda a atenção e quase sem respirar. De repente, tivera uma ideia, e fora imediatamente aos aposentos da mãe, discuti-la com ela.

- Não digo que seja insensato - retorquiu Alinea devagar e muito concentrada -, mas tenho as minhas dúvidas.

Bria franziu as sobrancelhas, mas a mãe continuou:

- No entanto, lembro-me que, aqui há uns anos, o Durwin traçou o mesmo plano. Nessa altura, também parecia arriscado, mas acabou por dar certo, embora nem o próprioDurwin pudesse adivinhar o resultado. - Sorriu para a filha, e Bria viu-lhe os olhos verdes iluminando-se. - Parece que os destinos de Askelon e de Dekra estão sempre a encontrar-se. Sim, minha querida. Vai para Dekra. Eu também irei.

- A sério, mãe? Ireis?

- Porque não? Ainda posso viajar. E agora que a Estrada do Rei já vai até Malmarby, a jornada é quase toda ela muito fácil. Mas temos de partir imediatamente. - Lançou um olhar rápido à filha. - O que se passa?

- Falastes de dúvidas. Quais são elas?

- É que, entretanto, pode chegar a Askelon alguma nova sobre o príncipe. Se não estiveres aqui para a ouvir... - Não acabou a frase.

- Estou a perceber. O que hei-de fazer?

- Não sei. Tal como qualquer mãe, faz o que o coração te ditar.

- Então, irei a Dekra falar com os anciões. A sua sabedoria já nos foi útil muitas vezes e as suas orações podem ser bem eficazes. - Fitou a mãe nos olhos. - Mas gostava tanto que o Quentin estivesse aqui - O Quentin regressará em breve. Vamos deixar-lhe uma carta a contar-lhe os nossos propósitos. De qualquer modo, ele ia querer ficar aqui e participar nas buscas.

- E a Brianna e a Elena? Tenho medo de as deixar...

- Virão connosco. Porque não? Há tanto tempo que pedem para ir a Dekra! E vão gostar da viagem... Não me parece que fosse sensato deixá-las cá. Iremos de carruagem e, para maior segurança, levaremos connosco um destacamento de cavaleiros.

Sentindo-se melhor por ter falado com a mãe, Bria sorriu:

- É verdade... tendes razão, claro.

- Até é melhor termos alguma coisa para fazer. Parece-me que não seria nada bom ficarmos só à espera. Se as novas tardassem... bem, iremos. Vamos pensar só no bem-estar do Gerin. Os anciões de Dekra ajudar-nos-ão.

Olhando para a mãe com um ar de admiração, Bria lançou-lhe os braços ao pescoço:

- Obrigada. Eu bem sabia que me daríeis a resposta mais acertada.

Alinea deu umas palmadinhas nas costas da filha:

- Coitado do Quentin! Rezemos para que esta espera não o aflija muito. Sentir-me-ia melhor se o Toli estivesse aqui. Talvez ele volte em breve.

- Quando partimos?

- Logo que os cavalos e os mantimentos estejam prontos.

- Então, amanhã de manhã. Descansaremos melhor nas nossas camas hoje à noite e partiremos amanhã bem cedinho.

Alinea fez um gesto de assentimento com a cabeça. Bria inclinou-se, beijou a mãe e apressou-se a sair, com a cabeça já cheia de dezenas de pormenores de que teria de tratar antes de partir. Alinea ficou a vê-la afastar-se, pensando no tempo em que também ela planeara aquela viagem. Depois, sorriu, assentiu com a cabeça e voltou às suas orações.

 

Quentin deu rédea livre a Blazer e deixou que o animal o conduzisse de regresso a casa. A estrada era fácil de seguir e o cavalo sabia o caminho para Askelon. Quentin nem sabia nem lhe interessava saber para onde iam e Blazer seguia direitinho para casa.

À medida que o caminho através de Pelgrin foi mergulhando cada vez mais nas sombras azuis e frescas projectadas pelo verde das folhas, Quentin, entorpecido pela falta de sono, sentiu-se recuando ao estranho encontro que tivera na ilha.

Não tinha dúvidas de que fora especificamente convocado para a ilha Sagrada. Por que artes mágicas fora arrastado até ao lago e aí ficara à espera até o barco chegar para o levar até ao círculo de pedras? Por feitiçaria, de certeza. Mas com que fim?

Quentin não sabia. E quem seria o homem, o misterioso desconhecido que lhe falara, que o tratara pelo nome e que sabia quem ele era? Inexplicavelmente, parecia-lhe que o conhecia havia muito tempo, embora nunca o tivesse visto.

Ou teria?

Era como se um amigo tivesse partido para uma longa viagem num país distante e houvesse voltado muito mudado, passados vários anos. Embora, no íntimo, continuasse basicamente a mesma pessoa, era esta mudança que lhe dissimulava a identidade. “Chama-me teu amigo, pois é isso que sou”, dissera o homem. Quentin pensou que bem precisava de um amigo. Desesperadamente.

Sentiu apoderar-se dele uma solidão que havia muito não sentia; não experimentava o peso esmagador daquela solidão extrema desde que fora acólito no Grande Templo. Os seus pensamentos recuaram até esse tempo, e ele voltou a ser o rapazinho assustado agarrado à crina do temível cavalo de guerra Balder, partindo numa missão que não podia ter êxito, mas não deixando de ir por causa disso.

Que esperanças, que cegueira!

“Quem me dera voltar a ser esse rapaz tão confiante!”, pensou Quentin, sentindo o peso dos anos, provando a saudade agridoce desses tempos mais simples e melhores e deixando-se percorrer por ondas de saudade e de solidão.

Quando despertou da sua meditação, viu que o Sol, estava a baixar sobre a estrada e que já se encontrava quase fora da floresta. Quando regressara da ilha, encontrara Blazer à sua espera na outra margem, puxara o barco de pele de boi para a praia e cavalgara todo o dia sem parar. Por isso, naquele momento, sentia o cansaço apoderando-se dele e envolvendo-o com a sua mão de ferro. Tinha a cabeça a palpitar.

Saindo da floresta, desceu uma colina pouco íngreme e entrou num vale bastante largo, onde se encontravam as quintas de camponeses e pequenos proprietários, que vendiam os seus produtos no mercado de Askelon. Um pouco à frente, Quentin viu o gradeamento de vime da casa de um lavrador. Observou-o a ele a recolher dos campos uma parelha de bois e à mulher a tirar água do poço e decidiu parar um bocado para limpar da garganta o pó da estrada e para o cavalo poder descansar, Mas seria só um bocado, pois queria estar em Askelon ao cair da noite.

- Boa tarde! - gritou Quentin, entrando no pátio, onde várias galinhas debicavam, cacarejando, - Boa tarde! - repetiu, sentando-se à espera que o lavrador se mostrasse.

Numa janela escura surgiu de relance um rosto, que logo desapareceu. Passado um momento, o lavrador apareceu do outro lado da casa, levando na mão uma forquilha de dois dentes.

Fitando Quentin prudentemente, mas com um certo respeito, saudou:

- Santas tardes, senhor. - O seu rosto tisnado examinou francamente o visitante. Se havia nele alguma desconfiança, era apenas a desconfiança normal que todas as pessoas simples mostravam relativamente aos desconhecidos que estavam obviamente acima deles. Quentin sorriu-lhe e disse:

- Está um dia quente para viajar, mas bom para as searas.

o lavrador fitou o céu pelo canto do olho e pareceu perder-se entre as nuvens que deslizavam velozmente para o horizonte. Ao cabo de algum tempo, volveu novamente o olhar para Quentin e retorquiu:

- Viajar faz muita sede.

- Já que falas nisso, dás-me água? - perguntou Quentin.

- À vontade - respondeu o lavrador, acenando com a cabeça na direcção do poço.

Quentin desmontou devagar e foi até ao poço, sentindo nos ossos cada solavanco da estrada. Instalando-se na beira de pedra, pegou na cabaça, fez descer a corda entrançada, encheu a cabaça e levou o recipiente cheio até à borda ao seu cavalo...

Blazer, com o brilhante pêlo branco sujo de pó cinzento e castanho, mergulhou o focinho largo na água e bebeu longamente. Enquanto segurava na cabaça, Quentin reparou num movimento à porta da casa. A mulher do lavrador juntou-se ao marido, e o rei sentiu o seu olhar examinador. Depois, ouviu uns sussurros atrás de si. O que estaria a mulher a dizer ao marido? Percebeu-o quando se virou, pois viu desabrochar nas suas faces coradas uma expressão de temor respeitoso: a expressão que o acompanhava sempre que aparecia em público e que lhe lembrava que era o Rei Dragão.

Olhou para eles e ambos se curvaram com um ar desajeitado e envergonhado.

- Ponde-vos direitos, meus amigos - ordenou suavemente.

- Eu... não sabia que éreis vós, Majestade - tartamudeou o lavrador. - Sou um vosso humilde servo.

Quentin começou a dar palmadinhas nas roupas cheias de pó.

- Como havias de saber, bom homem? - Cada palmada era acompanhada por uma nuvem de pó. - Pareço mais um salteador do que um rei.

A mulher do lavrador, magra como um espeto, acotovelou o marido, que imediatamente deu um salto para a frente, pegando na cabaça:

- Com licença, Vossa Majestade.

Quentin ia protestar, mas, pensando melhor, não tirou ao homem o prazer de passar anos a falar aos amigos e parentes do dia em que deu de beber ao cavalo do rei.

Sentando-se novamente na borda do poço, Quentin reparou no aspecto grosseiro da casa, que, embora fosse uma construção simples, feita do material mais barato (uma estrutura de madeira constituída por paus entrelaçados, coberta de lama e com um telhado de colmo), estava limpa. No pátio, também tudo se encontrava em ordem. Era uma habitação igual a tantas outras que podiam ver-se de uma ponta à outra de Mensandor, desde Wilderby a Woodsend.

Como viu pelo canto do olho uma sombra fugaz a fugir e a desaparecer na esquina da casa, ficou a olhar para lá durante algum tempo. Dali a pouco, um par de grandes olhos escuros e uma testa clara voltaram a espreitar.

Quentin sorriu e levantou a mão, fazendo sinal ao dono dos olhos para se mostrar e se aproximar. Um rapazinho sujo apareceu hesitantemente na esquina, com as costas encostadas à casa, e avançou devagarinho para o desconhecido, com a timidez de uma criatura selvagem da floresta. O menino de olhos escuros envergava uma túnica comprida, sem dúvida herdada e adaptada de uma do pai. As pontas estavam puídas e esfiapadas, e os fios esvoaçavam ao sabor da brisa como borlas. O rapazinho fitava o recém-chegado com uma curiosidade e uma admiração que não procurava disfarçar, espreitando tanto o cavaleiro como o grande cavalo de guerra que bebia da cabaça que o pai segurava.

- Anda cá, rapaz.

A mãe do miúdo correu para ele e limpou-lhe o rosto com o avental sujo, esfregando-lhe saliva nas faces e no queixo. Quando o rapaz ficou apresentável, ela empurrou-o para a frente. Envergonhado perante o rei, o miúdo resistiu.

Quentin acenou com a cabeça e sorriu. O rapaz era um pouco mais velho do que o príncipe Gerin e, embora fosse mais franzino, tinha o mesmo cabelo castanho escuro e desgrenhado.

- Este senhor é o rei! - sussurrou-lhe a mãe asperamente ao ouvido. - Vê se tens maneiras!

Não se percebeu se o moço escutou ou não o nome de quem estava à sua espera. Aos seus olhos, qualquer um que montasse um cavalo como o que estava no pátio pertencia de certeza à realeza.

A mãe empurrou-o para a frente de Quentin, onde ficou a olhar para os pés descalços, fazendo riscos na poeira com o dedo grande. Quentin pousou-lhe as mãos nos ombros magros:

- Como te chamas, rapaz?

A resposta demorou a chegar:

- Rermy, Vossa Majestade. - A sua voz mal se Ouviu.

- Renny, tenho um filho como tu - disse Quentin, sentindo uma faca espetar-se-lhe no coração àquelas palavras, pois elas fizeram-no lembrar-se de que o seu filho desaparecera. - Chama-se Gerin - continuou, obrigando-se a sorrir -, e tem mais ou menos a tua idade.

- Tem algum cavalo? - perguntou Renny.

- Não - respondeu Quentin. Era verdade, pois, embora Gerin pudesse escolher qualquer cavalo do estábulo do rei para montar, não possuía nenhum só para si. - Mas gosta de montar.

E tu?

O rosto do rapaz entristeceu de repente:

- Eu... nunca montei, Vossa Majestade. - Quando a terrível verdade lhe saiu da boca, o rapaz sentiu-se melhor, pois o seu rosto iluminou-se instantaneamente quando anunciou: - Mas quando for grande hei-de ter um cavalo e hei-de ser cavaleiro!

A segurança daquela voz quase infantil fez Quentin dar uma risadinha:

- De certeza que sim! - concordou ele. - Gostarias de montar o cavalo de um rei?

Os olhos escuros abriram-se muito e procuraram a aprovação do progenitor mais próximo.

- É o que ele sempre quis - afirmou o lavrador. - Só fala nisso.

- Então, hoje O teu desejo será realizado, senhor! - rematou Quentin, dando-lhe a mão e levando-o até Blazer, que esperava calmamente. O cavalo pareceu crescer à medida que se aproximavam, e Quentin sentiu a mão de Renny apertando muito a sua. - Este cavalo está muito bem treinado. Não faz mal nenhum ao seu cavaleiro.

Com estas palavras, Quentin levantou o rapaz e pô-lo na sela. A expressão estonteado do miúdo mostrava bem a sua incapacidade de abarcar toda a sorte que tivera ou de se aperceber das várias sensações que o assaltavam naquele instante miraculoso.

O rei estendeu-lhe as rédeas e pousou-as nas suas mãos.

Depois de Renny se ter ambientado, Quentin pegou na brida de Blazer e começou a andar com ele à volta do pátio. De pé, agarrados um ao outro, o lavrador e a mulher sorriam muito contentes ao verem o filho montar o cavalo do rei.

Ao sentir a sua alegria, Quentin riu alto. Era bom rir. Começara a pensar que nunca mais se riria.

Pela sua parte, Renny comemorava o acontecimento com toda a pompa e solenidade que o seu corpo de rapaz conseguia reunir. Rigidamente sentado na sela, com as costas direitas como uma lança, os olhos postos em frente e os ombros para trás, era a verdadeira imagem de um cavaleiro partindo para a batalha, cheio de coragem, seguro da vitória perante o inimigo. Depois, Quentin ensinou-lhe a puxar as rédeas para um lado ou para o outro, para o cavalo virar, e a fazê-lo parar e andar. Reiany assimilou estas informações com um ar grave e judicioso.

- Consegues lembrar-te de tudo?

 - Claro - assentiu o rapaz.

- Então, condu-lo à vontade. Monta sozinho, jovem senhor. - Quentin recuou uns passos e Renny, lançando aos pais um olhar simultaneamente preocupado e exultante, apertou os flancos de Blazer com os calcanhares, levantou as rédeas e conduziu o cavalo à volta do pátio.

Blazer, campeão na batalha, corajoso e veloz como o vento na planície, comportou-se tão docilmente como qualquer cavalo dos campos. Dando passos ligeiros em volta do pátio, rodeava os três espectadores, abanando a cabeça e relinchando de vez em quando, para gáudio geral.

Quando, por fim, o passeio acabou, Blazer parou em frente do seu dono. Antes de Quentin ter tempo para levantar a mão, Renny passou a perna por cima da sela e deslizou para o chão com a perícia de um cavaleiro experiente. A sua expressão era de triunfo e deslumbramento, e parecia dizer: “Montei o cavalo do rei! Vou ser cavaleiro!”

- Muito bem, senhor! - gritou Quentin, dando uma palmadinha nas costas do rapaz. - Muito bem!

Os pais de Renny correram a abraçá-lo, tão contentes com a sua sorte como se esta tivesse sido a realização do seu sonho. Quentin sentiu-se comovido com a demonstração do amor existente entre os membros daquela família tão simples e entregou-lhes o seu coração.

- Obrigado, Vossa Majestade - disse a mulher do lavrador, pegando-lhe na mão e beijando-a.

- Orgulho-me muito deste dia - exultou o lavrador, com lágrimas de alegria cintilando-lhe nos cantos dos olhos. - O meu filho encarrapitado no cavalo do rei... - Não havia palavras que descrevessem o orgulho que sentia.

- Não foi nada de mais - replicou Quentin. - E também eu gostei.

- Tendes de ficar para a ceia, meu senhor - afirmou a mulher, pestanejando imediatamente de espanto ao perceber o que dissera. Acabara de convidar o rei para cear! Na sua cozinha!

Quentin começou a desculpar-se, mas interrompeu-se e virou-se para a estrada. As sombras da tardinha já se estendiam pela terra. O Sol transformara-se numa grande bola de fogo com chamas vermelhas, que tocava o outro lado do horizonte. Estava cansado e, naquele momento, não lhe apetecia nada voltar a montar e ir até Askelon.

- Madame - começou Quentin, dirigindo-se-lhe do modo como o faria à esposa de qualquer nobre -, é uma honra partilhar convosco a refeição da noite.

A mulher esbugalhou os olhos e abriu a boca; virando-se, fitou o marido que se limitou a devolver-lhe o olhar com a mesma expressão de absoluto espanto. Depois, pegando nas saias, correu para casa a preparar a refeição. Ao vê-la ir, Quentin sorriu.

- Senhor, permiti-me cuidar do vosso cavalo - disse o lavrador quando ela desapareceu de vista. - Depois de terdes viajado tanto, deveis ter fome.

- Obrigado, és muito amável.

O lavrador conduziu Blazer para o pequeno estábulo construído ao longo da parte de trás da casa. Pressentindo que ia comer, o cavalo quase voou. O pequeno Renny ficou a vê-lo ir, com os olhos ainda cintilando como estrelas. Já revivera cem vezes em pensamento o seu portentoso passeio.

Quentin voltou a sentar-se na borda do poço e cruzou os braços por cima do peito. Se calhar, não devia ter aceite o convite, para não se demorar ainda mais. Mas, naquela altura, já não podia voltar com a palavra atrás. Além disso, se partisse no dia seguinte ainda antes da madrugada, chegaria cedo a Askelon. Ali, comeria, dormiria e talvez conseguisse esquecer os seus problemas durante algum tempo.

- Porque estais triste? - trinou uma vozinha ao seu lado.

Quentin mexeu-se, ergueu o olhar e deu com Renny estudando-o atentamente.

- Estava a pensar, miúdo.

- A pensar no vosso filho? É o príncipe! - informou Renny.

- Julgo que sim. Pois, é o príncipe...

- E vós andais à procura dele - interrompeu-o Renny, completando os seus pensamentos. - Uns homens maus levaram-no, e nós temos de estar muito atentos para ver se sabemos alguma coisa dele.

Quentin sorriu tristemente. “As más novas têm asas”, pensou. “Sim, todos sabem o que aconteceu.” Por aquela altura, já devia saber-se em toda a Mensandor. A sua dor não era tão privada como supunha. Nada do que lhe dissesse respeito era privado. Para o povo, a vida do Rei Dragão era motivo de conversas, lendas e canções.

O que pensariam quando soubessem que ele perdera a espada chamejante, a Zhaligkeer, a Brilhante, símbolo da sua autoridade e investidora divina? O que diriam então dele?

- Não vos preocupeis, Vossa Majestade - disse o rapaz. - Haveis de encontrar o príncipe! Não sois o Rei Dragão? Vós podeis fazer o que quiserdes!

- É verdade - retorquiu Quentin com um ar ausente, passando a mão pelo cabelo escuro do rapazinho -, havemos de encontrá-lo. Oxalá o encontremos!

Acabando de tratar de Blazer, o lavrador regressou e postou-se à frente do rei, sem se atrever a falar para não lhe interromper os pensamentos. Por isso, ficou calado, à espera. Ouviu-se chamar de dentro de casa. Como Quentin não se mexeu, o lavrador anunciou:

- Vossa Majestade, o jantar está na mesa.

O céu da tardinha luzia com o pôr do Sol; as nuvens brancas e macias estavam tingidas de cor-de-rosa e de cor de laranja. Os grilos cantavam na erva que crescia junto à estrada e as andorinhas esvoaçavam e riscavam o ar azul.

O mundo parecia pousado num fino fio de seda, perfeitamente equilibrado entre o dia e a noite. Quentin suspirou e levantou-se. O fio partiu-se e o mundo rolou para a noite.

Em silêncio, encaminharam-se para dentro de casa, mergulharam as mãos numa bacia pousada num banco arrumado perto da porta e entraram para jantar.

 

Bem no coração verde de Pelgrin, Toli parou ao lado de uma nascente de água, que caía em fio de um montículo de pedra branca para um laguinho cristalino. Depois de deslizar da sela, deu de beber a Riv, ajoelhou-se e pôs as mãos em concha para levar a água aos lábios. No seu caminho para ocidente, o Sol tingia o céu com as cores da tardinha, dourado poeirento e violeta claro, pegava fogo à vegetação do bosque e dava um brilho de bronze aos troncos dos gigantescos castanheiros e dos espinheiros.

Dali a pouco, a noite cobriria a floresta com as suas asas escuras, e ele teria de procurar um buraco abrigado ou um matagal seco para passar a noite. Mas havia alguma coisa que o arrastava, que o empurrava docemente, incitando-o a avançar só mais um bocado.

“Não pares”, sussurravam-lhe os galhos de folhas de um verde dourado, agitadas pela brisa da tardinha. “Continua em frente”. Por isso, depois de beber mais uma vez a água do laguinho, Toli içou-se para a sela e avançou, com os sentidos alerta, em busca de uma pista... um som, um clarão de cor, um cheiro no ar... de qualquer coisa que lhe revelasse o que lhe espicaçara o instinto e o empurrava para a frente.

“Há Muito tempo que não ando assim”, pensou. “As minhas aptidões estão embotadas. E quando mais preciso delas... Como vou encontrar o príncipe?”

Sempre avançando, ia curvando aqui e ali, penetrando mais nas sombras que se adensavam. De repente, parou e conteve a respiração... o que fora aquilo?

Nada. Levantou as mãos para mandar Riv avançar, mas hesitou.

Lá estava outra vez: era um chilrear suave, fraco como asas de insecto esvoaçando ao sabor da brisa. Toli ficou à espera de o ouvir outra vez. Quando isso aconteceu, não teve dúvidas do que se tratava.

“Há quanto tempo não ouço este som?”, pensou. Então, pondo a mão no canto da boca, respondeu ao chamado com um som não tão suave e hábil, mas notavelmente semelhante ao que se ouvira. Depois de repetir o chamado duas vezes, desceu da sela e ficou à espera, com o coração batendo-lhe nas costelas.

Então, eles surgiram de um ajuntamento de faias novas e esguias, avançando sem barulho por entre os ramos baixos: eram três jher, vestidos de peles e com bolsas de pele de veado à cintura. Hesitaram quando viram Toli, mas, como este não se mexeu, os habitantes da floresta avançaram.

- Calitba teo bealla rinoab - disse Toli, quando se aproximaram dele. Na sua língua nativa, a frase significava: “Viestes muito para sul nesta estação.”

- Os veados... - respondeu o jher que ficara mais à frente, na língua cadenciada do seu povo. - A floresta do norte tem estado muito seca. - Fazendo uma pausa, fitou Toli sagazmente. - Chamo-me Yona.

- E eu Toli.

Os três jher entreolharam-se, com o entusiasmo estampado nos olhos líquidos, de um castanho profundo.

- Sim - retorquiu o chefe. - Nós sabemos. Temos estado a observar-te e reconhecemos-te. Toda a gente sabe quem é o Toli.

- Quantos sois? - perguntou Toli.

- Quarenta homens, mais as mulheres e as crianças - replicou Yona. - No norte, está tudo muito seco.

- Aqui no sul - acrescentou um dos outros -, os veados são gordos e correm pouco. Temos três tribos connosco.

- Há lugar para mais um na vossa fugueira?

Os três jher entreolharam-se, mostraram os dentes num enorme sorriso e assobiaram, espantados com tanta sorte. Depois, quase se atropelaram uns aos outros para serem os primeiros a conduzir Toli ao acampamento jher.

As fogueiras estavam acesas e, por cima das chamas, nos espetos, assava-se carne de veado, que largava um aroma picante que pairava por entre as árvores e as habitações em forma de cúpula, feitas de pele de veado, casca e galhos. Toli, que havia muitos anos não se cruzava com ninguém da sua raça, entrou no acampamento jher como se percorresse o caminho de volta ao passado. Nada mudara. A vida daquele povo nómada da floresta permanecia exactamente a mesma. O vestuário de pele de veado, as refeições preparadas nas fogueiras, os cintilantes olhos escuros que espreitavam por todo o lado, as crianças tímidas agarradas às pernas das mães, os velhos agachados junto das chamas, ensinando aos rapazinhos a ciência dos bosques... estava tudo precisamente como se lembrava, como sempre fora. Os seus guias conduziram-no até ao centro do acampamento. Vários jher já se haviam reunido para verem o desconhecido. Aquele príncipe jher, vestido com as roupas finas dos homens de pele clara, dava lugar a murmúrios, exclamações, dedos apontados timidamente e discussões. Alguns, que sabiam de quem se tratava, disseram aos outros, e todos puderam ver que ali estava um jher, mas tão mudado que quase não se reconhecia. Nunca nenhum deles vira uma tal transformação.

Dali a pouco, houve uma agitação nos limites exteriores da roda de curiosos, que se abriu para dar passagem a um ancião muito encarquilhado, que tinha na mão um bordão feito de um freixo muito novo, na ponta do qual estavam os chifres de um gamo. Apoiando-se pesadamente no bordão, o ancião avançou com passo inseguro e parou à frente do visitante. Com o seu aparecimento, todos os outros jher se calaram, à espera de verem o que o seu chefe ia fazer.

Pela sua parte, Toli ficou à espera de ser recebido pelo venerando chefe, com as mãos caídas ao longo do corpo e os olhos baixados em sinal de respeito.

O ancião aproximou-se, fez um esforço para se endireitar e fitou-o com uns olhos rápidos e perspicazes.

- Toli, meu filho - disse por fim, servindo-se da fórmula usada para um velho se dirigir a um homem mais novo -, eu sabia que havias de voltar para nós.

Toli esbugalhou os olhos ao perceber quem estava à sua frente:

- Hoet? - Quando se recompôs, acrescentou: - É bom ver-te de novo, meu pai.

O ancião deixou cair o bordão, rodeou Toli com os braços e apertou-o ao peito. Nesse momento, os outros jher, que observavam tudo em silêncio, avançaram e começaram a abraçar Toli, agarrando-lhe as mãos e os braços e dando-lhe palmadinhas na cabeça e nas costas, numa grande demonstração de afecto. Toli, o herói de muitos dos seus contos mais conhecidos e apreciados, regressara. Naquela noite ia haver festa.

Fez-se uma grande fogueira no centro da aldeia, desenrolaram-se e dispuseram-se em volta tapetes de pele de veado e de palha entrançada e pousou-se em cada tapete uma taça de madeira cheia de fruta. Toli e Hoet foram conduzidos ao lugar de honra,onde se agacharam nos seus tapetes, enquanto lhes passavam os melhores bocados de carne assada. Os outros jher ocuparam os seus lugares em volta da fogueira. As crianças corriam pela aldeia, gritando e imitando o canto das aves para impressionarem o visitante real.

Hoet, acocorado ao lado do seu hóspede, fitava-o pensativamente e, de quando em quando, dava-lhe uma palmadinha no braço ou no joelho, como se quisesse certificar-se de que era mesmo verdade, de que Toli regressara.

Quando a fome foi apaziguada, todos os olhos se viraram para Toli e Hoet. Então, começou a ouvir-se um cântico, primeiro devagar e baixinho, mas que rapidamente encheu o ar de vozes jher.

- Thia secia! - gritavam. - Queremos uma história!

Conta-nos uma história!

Na qualidade de hóspede de honra, alimentado e acarinhado com uma atenção cerimoniosa, era a vez de Toli lhes retribuir os favores, contando-lhes uma história. Por isso, seguindo a tradição dos melhores contadores de histórias, levantou-se e ergueu as mãos a pedir silêncio.

Mas antes de poder começar, Hoet também se pôs em pé e, pousando a mão no ombro de Toli, disse:

- Quero ser eu a contar a primeira história em honra do nosso irmão.

Os jher reunidos em volta da brilhante fogueira assentiram e soltaram gritos de concordância. Toli sentou-se e Hoet levantou as mãos e começou a falar:

- Um dia, há muito tempo, na estação das neves, quando toda a floresta dorme envolta em mantas brancas e o frio torna a pele do veado felpuda e quente, chegaram à floresta homens de raça branca, montados nos seus cavalos. Corriam à desfilada por entre as árvores e faziam muito barulho, pois os veados fugiam à sua passagem e nós ouvíamo-los de muito longe... não tinham pés para andarem na floresta.

“Embora sem o saberem, aproximaram-se do sítio onde passávamos o Inverno. Nós observávamo-los de longe e, uma noite, rodeá-mo-los quando eles estavam sentados ao calor da sua fogueira imperfeita. - Aqui, todos os ouvintes soltaram exclamações bem-humoradas perante o descuido dos viajantes brancos. - Quando o fogo de Whinoek voltou a encher a terra de luz, aproximámo-nos dos brancos, e um deles tentou falar a nossa língua. - Hoet deu uma gargalhada e os outros também se riram. Embora já todos tivessem ouvido esta história vezes sem conta, escutavam cada palavra como se ela fosse pronunciada pela primeira vez.

“O tal Rosto de Arbusto falou-nos de um grande perigo na floresta. Os maldosos Shoth perseguiam-nos com facas e aves de caça com veneno nos espigões. Pediu ajuda. Nisto, o Rosto de Arbusto mostrou ser sensato, pois de certeza que os brancos teriam caído no seu sono de morte antes de mais uma noite passar.

à menção do nome do inimigo odiado, todos os jher deram estalidos com a língua e alguns bateram com as mãos na terra.

- Perguntei-me a mim próprio se devíamos ajudá-los. A resposta não era simples: dava-me voltas na cabeça como um gamo de roda de um lago na floresta. Afinal, tratava-se de homens brancos, que cortam árvores, matam muitos veados e fazem habitações de pedra na terra. Mas os Shoth são nossos inimigos, tal como são inimigos de todos os povos civilizados. Por isso, decidi ajudá-los, pois o Rosto de Arbusto era um homem que tinha nele muito poder e estava com ele uma mulher, uma kelniki (a palavra significava esposa do chefe), cujo cabelo brilhava como línguas de fogo. Eu não queria que os malditos Shoth pendurassem nas suas lanças um cabelo tão bonito. Além disso, estava com eles um rapazinho, em cujo olhar vi a expressão dos que são escolhidos para grandes feitos. Sabia que tinha de os ajudar. Mas como?

Toli ouvia atentamente a sequência dos acontecimentos que tinham mudado a sua vida para sempre, e pareceu-lhe que voltava a ser o jovem jher que tantas vezes se sentara à frente da fogueira, escutando as histórias dos seus antepassados e os feitos dos heróis da sua raça. Lembrava-se bem do dia em que os brancos haviam ido ao acampamento de Inverno; com os seus olhos de rapaz, vira-os enregelados, assustados e extremamente desajeitados.

Mas tinham cavalos. Oh, como queria montar a cavalo! Ainda se recordava do arrepio que sentira ao ver os animais de perto; eram tão belos, graciosos e fortes! No seu coração de rapaz, jurou que havia de dar tudo para montar a cavalo. Por isso, quando Hoet o olhara, ele dera um salto de enho e oferecera-se para guiar os brancos através da floresta, até ao Muro de Pedra. Hoet deixara-o ir. O resto transformara-se em lenda entre o povo da floresta. Depois, viera a conhecer Rosto de Arbusto como Durwin, Nariz de Falcão tornara-se o seu amigo Theido, e Cabelos de Fogo era a linda Alinea. Quanto a Kenta, o rapaz cheio de glória, escolhera-o para seu amo. E Quentin viera a ser o Rei Dragão.

Aos olhos dos da sua raça, Toli, ao servir um homem célebre, elevara-se à mais alta das posições. Embora Quentin fosse da raça branca, também era o chefe do seu povo, e isso, para os jher, conferia a Toli a maior das honrarias; não havia posição mais elevada a que um jher pudesse aspirar do que vir a ser servo de um grande chefe.

- ...E esta noite voltou para o meio de nós - dizia Hoet -, para o seio do seu povo. A glória dos seus feitos lança sobre nós os favores de Whinoek e confere-nos dignidade. - O velho chefe virou-se orgulhosamente para o seu hóspede.

“Se soubessem como falhei, ainda me receberiam com celebrações e festejos?”, pensou Toli. “Não, sentir-se-iam caídos em desgraça e evitar-me-iam; o meu nome deixaria de ser pronunciado e eu seria esquecido.”

Quando Toli se virou novamente para as pessoas que tinha à frente, encontrou todos os olhos postos nele. A fogueira crepitava e as centelhas saltavam bem alto na noite, brilhando em todos os olhos pretos que o observavam ansiosamente. Todos esperavam que Toli falasse. Hoet concedera-lhe a honra de ser o último a falar; seria a sua história, a dos homens da tribo jher, que os iria embalar, o que era uma honra normalmente reservada ao mais velho e sábio de todos eles, isto é, ao próprio Hoet. Toli levantou-se lentamente incapaz de exprimir por palavras aquilo que sentia naquele momento. “O que posso dizer-lhes?”, pensou. “O que posso dizer-lhes que eles sejam capazes de entender?”

 Os olhos escuros observavam-no; elevou-se um murmúrio, que percorreu a roda. Ele falará? O que irá dizer? De que está à espera? Fala ó grande!

O murmúrio transformou-se numa voz que lhe martelava os ouvidos: “Conta-lhes!”, gritava. “Conta-lhes como falhaste!”

Um silêncio incómodo espalhou-se pela multidão que estava à espera. Toli sentia todos os olhos pregados nele.

- Eu... - começou. Mas vacilou logo a seguir. - Eu... não posso. - Sem mais, afastou-se dos amigos e embrenhou-se na escuridão. O único som que se ouvia era o crepitar da fogueira.

 

- Nem penses que fico aqui! - Os olhos de Esme brilhavam à luz das velas. Lá fora, a oriente, o céu começava a ficar cinzento, adquirindo um tom rosa-pérola junto do horizonte, onde o Sol ia nascer.

Com a luz adoçando-lhe as feições, Bria sorriu.

- Na verdade, pensei que não estavas interessada em vir comigo, Esme. A viagem até Dekra ainda é longa e a minha missão bem incerta. Mas é uma coisa que sinto que devo fazer.

- E tens de a fazer sozinha?

- Não, a minha mãe vai comigo.

- E eu também. A Chloe já preparou as minhas coisas e, como vês - acrescentou, indicando a roupa de montar que tinha vestida - estou pronta para partir.

Bria riu-se e abraçou a amiga:

- Então, claro que virás. Devia ter-te convidado. Mas pensei que... Bem, iremos juntas. A tua companhia será muito bem-vinda.

Esme também sorriu:

- Assim, sentirei que posso servir para alguma coisa. Além disso, tenho de confessar que sempre senti uma certa curiosidade em conhecer Dekra, essa cidade tão misteriosa, sobre a qual se contam tantas histórias estranhas... a cidade é mesmo encantada?

- É, nas não como pensas. O feitiço provém do amor dos seus habitantes. Como vais ver, é um sítio notável.

- Já lá estiveste muitas vezes? - Esme entregou-se à tarefa de ajudar Bria a preparar-se para a jornada.

- Muitas não. Algumas. Antes de nascerem os nossos filhos, eu e o Quentin íamos lá de vez em quando. A última vez que lá fomos, aqui há uns anos, foi para o funeral do Yeseph. O Quentin falava muitas vezes em irmos viver para lá mas nunca mais tocou no assunto desde que o Yeseph morreu. Afinal, ele é o rei, e o rei deve ficar no seu trono, em Askelon. - Encolheu os ombros, e Esme acabou de lhe apertar os alamares das mangas. - Bem, vamos acordar as minhas filhas.

Quando as duas mulheres entraram no quarto das princesinhas, estas já se encontravam acordadas, palrando como esquilos. Chloe estava lá e, juntamente com a ama das crianças, metia as suas roupas nas arcas esculpidas usadas em viagem. Ao verem a mãe, as meninas deram um salto e esvoaçaram pelo chão para irem abraçá-la.

- Mãe, mãe, é verdade? Podemos mesmo ir convosco? - perguntaram. - Seremos boazinhas e portar-nos-emos bem. Prometemos.

Bria sorriu, beijou-as e ajoelhou-se para lhes falar.

- É verdade, minhas queridas. Vireis comigo. Mas não vos esqueçais de que a viagem é longa e de que ficareis muito cansadas. Tereis de fazer o que eu disser, pois vamos viajar depressa - Também vamos montadas a cavalo? - indagou Briana.

- Pois, cavalos? - repetiu Elena.

- Ireis numa carruagem com a avó, que precisará de alguém que lhe faça companhia.

- O pai também vai?

- Não - suspirou Bria. - O rei anda à procura do Gerin e não virá connosco, Agora, acabai de vos vestir depressa... não andeis com os pés descalços neste chão de pedra! Esperaremos por vós no pátio. A Chloe levar-vos-á lá quando estiverdes prontas. Vá, depressa!

As duas raparigas correram a acabar de se vestir. As duas mulheres enfiaram novamente pelos corredores silenciosos do castelo de Askelon e desceram para o salão, onde as esperava um desjejum muito simples. Alinea também lá se encontrava. Ainda esbelta, envergava uma túnica bordada verde por cima das calças e tinha umas botas altas de montar. Na cabeça de Bria surgiu a imagem da mãe exactamente assim, dizendo-lhe adeus. Por um momento imaginou que tudo aquilo já acontecera antes.

- Bom dia, mãe. - Fez uma pausa. - Eu já alguma vez vos vi com essa roupa? - perguntou, examinando-a cuidadosamente.

- já. Parece-me que sim - riu Alinea. - Mas admira-me que ainda te lembres.

Nessa altura, Bria lembrou-se:

- Como poderia esquecer-me? Íeis partir para salvar o pai... vestida assim. Tivestes de vos esgueirar sem ninguém do castelo vos ver.

- Apeteceu-me experimentá-la e... bem, como me serve... Gostas?

- Como podia não gostar? - Bria abraçou a mãe e sentaram-se todas a comer antes de partirem. Falaram pouco, pois cada uma delas estava embrenhada nos seus próprios pensamentos sobre a jornada que iam empreender. Quando acabaram de comer, apressaram-se a dirigir-se ao pátio, onde já as esperavam a carruagem e os cavalos; o cocheiro estava a atar o último saco de provisões na parte de trás da carruagem.

- Wilkins! - exclamou Bria, quando o reconheceu.

- Senhora - respondeu ele, fazendo uma vénia -, quando a minha senhora Esme me falou do vosso desejo de ir a Dekra, achei melhor acompanhar-vos.

- Se preferes outro... - acrescentou Esme.

- Não, é uma excelente ideia, que elogio e agradeço.

- Às vossas ordens. - Wilkins fez outra vénia e tocou no punho da espada, obrigando Bria a lembrar-se de que a sua jornada não seria um passeio.

O guarda, um homem de cabelo curto e grisalho e olhos cinzentos, cujos tendões pareciam feitos de cordel de chicote, atravessou o Pátio e aproximou-se:

- Senhora, não concordo com esta jornada. - Falou francamente, sem desperdiçar palavras.

Bria sorriu:

- Eu sei, Hagin, mas não te preocupes.

- Não me preocupo? O vosso filho foi raptado e quereis que não me preocupe? - O homem olhou-a com uma expressão de sincera desaprovação. - Se vos deixar partir, o rei manda-me esfolar e prega a minha pele àquela ponte levadiça.

- Não há perigo nenhum - insistiu Bria. - Viajaremos com uma escolta de cavaleiros e as estradas do rei são bastante seguras.

- Então, também irei - anunciou ele.

- Não, prefiro que fiques aqui à espera do rei.

O guarda resmungou, mas achou preferível calar-se. Bria e Esme foram ajudadas a subir para a sela e Alinea para a carruagem. Depois, os cavalos foram conduzidos através do pátio até à casa da guarda, onde esperavam dois cavaleiros, já montados e prontos. Quando lá chegaram, pararam, e Chloe e as princesas foram a correr meter-se na carruagem. Alguns servos do castelo tinham-se reunido ali perto para desejarem aos viajantes uma jornada veloz e segura; as princesinhas acenaram e atiraram beijos a todos eles, até entrarem no túnel escuro da casa da guarda e deixarem de se ver.

Hagin, o guarda, sobrinho de Trenn, ficou pregado ao chão até terem desaparecido, altura em que se afastou, abanando a cabeça.

Askelon ficava apenas a duas léguas de distância. Se andasse depressa, o amolador chegaria ao meio-dia, comeria e começaria a dar as suas voltas. Havia certos clientes que visitava sempre que ia à cidade. Milcher, da Albergaria do Ganso Cinzento, por exemplo, precisava sempre de um pote novo ou que lhe arranjasse uma panela, e dava-lhe sempre de jantar. Sim, era um dos seus melhores clientes. Mas havia outros: a mulher do talhante, a irmã do fabricante de sabões, o padeiro e tecelão.

De facto, todos os mercadores precisavam uma vez por outra dos seus serviços. Até o pessoal das cozinhas do rei lhe comprava alguma coisa de vez em quando.

- É só mais um bocadinho, velha Tip - disse Pym à cadela.

- Depois, pararemos um pouco em Askelon. Que tal? Hã? Um rico ossinho para ti, Tipper, e um pastel de carne quente para mim... a mulher do estalajadeiro faz as melhores empadas de carne de Mensandor. É verdade, Tip. As melhores. só de pensar nelas, já fico com água na boca.

Tip ouviu tudo isto com uma expressão benévola e pensativa, abanou o rabo com o devido entusiasmo e lá continuaram os dois estrada fora, tinindo e matraqueando. Quando já tinham o castelo de Askelon no horizonte, ouviram o som de cascos martelando a estrada atrás deles. Pym virou-se, desviou-se para a berma da estrada e esperou que o cavaleiro passasse. Dali a pouco, viu avançar o cavalo branco com o seu cavaleiro real.

Pym saudou-o, erguendo a mão, e o atento cavaleiro baixou a cabeça sem parar. O amolador seguiu o cavaleiro com o olhar e prosseguiu o seu caminho.

- Há-de chegar o dia em que também viajaremos a cavalo! Uma carroça e uma pedra de amolar com pedal... vais ver! - Baixou manhosamente a cabeça para a cadela. - Encontrámos a nossa fortuna!

 Contemplando o cavaleiro que desaparecia ao longe, continuou: - Sabes? Acho que aquele que passou por nós mesmo agora era o rei. Não tenho bem a certeza, mas podia ser. Cá para mim, era o rei. Não achas, Tipper? Hã? Bem, bem. Parecia um rei. Talvez fosse o rei.

Pym lançou um olhar triste à cadela preta.

- Que os deuses estejam com ele, coitado! Terrível! Terrível! O filho raptado sem mais nem menos! Terrível... que coisa mais abjecta! Eu não disse, Tip? Uma coisa abjecta! - o amolador elevou a voz e gritou para o cavaleiro, que não passava de um ponto na distância: - Que os deuses estejam convosco, Vossa Majestade!

Depois, olhou de lado para o Sol, na tentativa de avaliar as horas. A manhã estava limpa e clara e o céu mostrava-se muito alto, amplo e azul. Nos campos verdes, os lavradores trabalhavam as suas terras, para que os grãos crescessem melhor do solo. De vez em quando, o amolador saudava um deles com um aceno de mão e ele respondia-lhe do mesmo modo.

A cidade foi-se aproximando lentamente, à medida que o Sol subia no céu.

- Tipper, temos de nos despachar para não chegarmos atrasados ao jantar. Vá, anda.

Baixando a cabeça e levantando as tiras dos sacos, Pym estugou o passo e lá seguiram tinindo e matraqueando na direcção de Askelon.

- Não estás a falar a sério, pois não? - perguntou o sumo sacerdote, fitando o ancião como se fosse incapaz de compreender as suas palavras.

- Claro que estou - respondeu, lançando-lhe um olhar colérico e frio. A sua língua parecia uma cobra espreitando por entre os lábios finos.

- Mas porquê? Para quê arriscarmo-nos a ser descobertos?

Não é nada sensato.

- Nada sensato. Atreves-te a falar de sensatez diante de Nimrood? - A sua voz venenosa estralejou como uma trovoada.

O sumo sacerdote Pluell empalideceu e pôs as mãos à frente do rosto.

- Não! Não é isso. Nunca. - Apressou-se a explicar: - É que pensava... isto é, aqui estamos em segurança. Agora temos tempo para pensar bem e traçar o nosso plano. Deves concordar que temos de ser muito cuidadosos.

- Já decidi - retorquiu Nimrood em tom monocórdico. - Não quero mais discussões. Eu digo-te o que hás-de fazer. A partir de agora, serei eu a tomar todas as decisões.

“Não terás nada a temer se cumprires a tua parte no acordo e fizeres com que os estúpidos dos teus sacerdotes também a cumpram. Deixa o resto por minha conta. - O velho feiticeiro fitou o sacerdote com uma alegria maldosa. - Queres ou não humilhar o usurpador daquele rei? Vejo no teu rosto que sim. Tu queres que toda a Mensandor o veja curvado, a ele e ao seu Deus Altíssimo. Nessa altura, terás o reconhecimento geral e o poder do Grande Templo aumentará muito.

O sumo sacerdote não resistiu a sorrir perante esta perspectiva.

- Bem, então, não faças nada... estás a ouvir? Espera por mim. Regressarei em breve para podermos começar.

Pluell observou o ancião. Temia-o e odiava-o, mas o desejo de ter poder sobre o trono esmagava qualquer resistência que pudesse oferecer a Nimrood. Sim, para humilhar o orgulhoso rei e reafirmar o poder do templo sobre os assuntos do reino valia bem a pena aturar Nimrood, o maçador ancião de barba comprida. Valia a pena correr o risco.

- Muito bem - disse o sumo sacerdote. - Será como dizes.

Nimrood assentiu com a cabeça, pestanejou e fez o seu horrível sorriso:

- Isso é bom. Se fizeres o que eu disser, tudo correrá bem. Agora, vou-me embora.

O sumo sacerdote sentou-se na sua elegante cadeira e ficou a ouvir o som dos passos de Nimrood afastando-se no templo. “Quando tudo estiver terminado, expulsarei este velho abutre”, pensou. “Só tenho de o aguentar mais um pouco.”

 

Os cascos de Blazer bateram como trovões nas grandes tábuas da ponte levadiça e as suas ferraduras arrancaram centelhas às lajes de pedra do caminho para a casa da guarda.

- O rei vem aí! Abri os portões! O rei está aqui! - Voando à sua frente, estes gritos sobressaltaram os guardas, fazendo-os dar um salto.

Cavalo e cavaleiro pararam bruscamente no pátio interior.

Os escudeiros precipitaram-se a ir cuidar da montada coberta de espuma do rei. Sem uma palavra, Quentin foi direito para dentro do castelo, atravessou o salão de banquetes, cheio de gente que ainda saboreava a refeição do meio-dia, e entrou na sala do trono.

Voando pelas escadas do Trono do Dragão acima, despiu a capa suja e deixou-se cair no trono. Depois, chamou colericamente pelo ministro-mor. A sua voz parecia um trovão ecoando no silêncio da sala do trono deserta. A resposta ao seu grito foi um agitar de passos, mas nem sinais de Toli.

Quentin fervilhava por dentro. Levantara-se tarde, mais tarde do que planeara, e já o Sol ia bem alto quando iniciara a sua jornada para Askelon, o que o pusera de muito mau humor. Assim, o caminho parecera-lhe muito comprido e chegara a Askelon atormentado e impaciente.

Dormira bastante bem, enrolado na sua capa, na cama do lavrador, cuja mulher fizera questão de que o rei dormisse na sua cama, e acordara sentindo-se muito melhor do que nos últimos dias. Mas o atraso e a lembrança sombria do que o esperava em Askelon cedo tinham destruído a frágil paz que conseguira.

Por isso, naquele momento, estava furioso com a falta de respeito pela sua pessoa e com a pouca atenção prestada aos seus interesses.

- Onde está o ministro-mor? - berrou. A sua voz ecoou do outro lado da sala vazia.

Não houve resposta.

Quentin afundou-se mais na melancolia. Gritou novamente e, desta vez ouviu passos.

- Então? - Ao olhar para baixo viu Hagin, o guarda, aproximando-se resolutamente.

Quando chegou ao palanque, o homem fez uma vénia e disse simplesmente:

- Regressastes, meu senhor.

- Pois regressei - retorquiu Quentin com brusquidão. - Onde está toda a gente? Fala depressa, antes que te arranque a língua.

Hagin não se deixou perturbar. Os seus olhos cinzentos e claros fitaram Quentin sem pestanejar. Era muito homem para as más disposições de qualquer monarca.

- Foram-se embora, Majestade - informou com toda a simplicidade. - Foram-se todos embora.

- Todos? Que todos?

- Toda a gente.

Quentin fitou o homem com um ar muito sério.

- O que estás para aí a dizer? Manda-os chamar imediatamente.

- Não posso, senhor.

- Onde está a rainha?

- Sua Alteza, a rainha-mãe, as meninas e a minha senhora Esme não estão em Askelon. Foram para Dekra.

- O quê? - Não esperava uma resposta daquelas. - Para Dekra? Porquê? Quando partiram?

- Mesmo antes de o Sol nascer.

Quentin bateu com o punho no braço esculpido do trono.

Enquanto mandriava na estrada, a esposa deixara o castelo. Se não tivesse parado, se houvesse continuado a cavalgar para Askelon, teria chegado a tempo de a deter. Se ele estivesse lá, ela não teria ido.

- Onde está o ministro-mor? - resmungou Quentin.

- Desapareceu, Majestade.

Outra resposta inesperada.

- Hã?

- Foi visto pela última vez no funeral do eremita, Majestade. Depois do enterro, desapareceu. Não voltou para o castelo. julgo que se esgueirou sem ninguém dar por nada, quando o cortejo fúnebre regressava a Askelon. Desde essa altura que ninguém o vê nem sabe nada dele.

Toli desaparecera? Era o melhor que fazia. Se o príncipe não fosse encontrado, seria bom que nunca mais regressasse.

Quem faltava?

- o Theido e o Ronsard já chegaram?

- Já, Majestade, mas encarregaram-se logo das buscas. Não estão cá.

Então era isso. Não tinha ali nenhum daqueles que mais precisava de ver. Estava sozinho.

A solidão imensa que sentira na estrada assaltou-o novamente. Era verdade; todos aqueles de quem gostava tinham partido. Sentiu uma solidão maior do que a que experimentara no templo. Nesse tempo, não conhecia nenhum tipo de vida diferente, mas agora... Havia anos que não se sentia tão abandonado. Todos os dias estava rodeado pelos seus amigos mais chegados e pelos entes queridos... Todos os dias. Pensava que esta proximidade nunca acabaria, que o amor duraria para sempre. Mas, infelizmente, enganara-se. Em três dias, que, no entanto, já lhe pareciam uma eternidade, o seu mundo fora estilhaçado e desfeito em pedaços, espalhados por um destino cruel. Naquele momento, nada restava da felicidade que havia ainda pouco possuíra.

- Majestade? Quentin mexeu-se. O guarda observava-o com um ar estranho.

- Perguntei-vos se não queríeis mais nada, Majestade.

- Não, não quero mais nada, Podes retirar-te. Deixa-me só. - Quentin ficou a ouvir os passos de Hagin afastando-se da sala. Fechou-se uma porta e ecoou um estrondo, como um pressagio de juízo final.

Ali, na semiobscuridade da sua sala do trono, o rei entregou-se ao desespero, deixando-se abater cada vez mais pelo peso esmagador do sofrimento.

Toli estava sentado num tapete de palha entrança, do lado de fora da cabana de Verão de Hoet, com uma taça redonda de madeira presa entre os joelhos. Os jher andavam por ali nas suas tarefas diárias, mas Toli estava consciente dos seus constantes olhares de esguelha, que mostravam que o seu povo ainda pensava muito nele. Nunca ninguém lhe perguntaria o que acontecera na noite anterior, quando ficara de pé à frente da fogueira, sem conseguir falar, pois isso seria muito indelicado. No entanto, era natural que os amáveis jher se interrogassem e que o observassem quando pensavam que ele não estava a olhar. Por isso, consciente do seu exame, Toli fazia de conta que não reparava em nada e ia metendo lentamente a mão na taça, levando à boca as amoras que constituíam o seu desjejum.

Encontrava-se ele agachado à luz do Sol, escutando os chilreios e os trinados que anunciavam o nascer do dia na floresta, ouvindo o leve sussurro dos ramos agitados pela brisa e inalando o perfume bafiento da terra, da casca das árvores e das plantas a crescer, quando uma sombra caiu sobre si. Toli ergueu o olhar para o vulto que parara à sua frente.

- Vais-te embora outra vez - observou Hoet.

- Tem de ser - assentiu Toli.

- Eu sabia que não tinhas voltado para ficar. É preciso, porque há problemas na terra.

Toli fitou o velho chefe de esguelha:

- Sabes da aflição dos brancos?

- A aflição não é só dos brancos; quando a escuridão cai, cobre tudo. Sim, nós sabemos que a terra corre perigo. O vento é um mensageiro veloz e a floresta não tem segredos para os jher.

- Então sabes que o rei que eu sirvo precisa da tua ajuda. O seu filho foi-lhe tirado à força.

Hoet fez um gesto de assentimento com a cabeça e encostou-se mais ao bordão. Por fim, replicou:

- E diz que a culpa é tua.

Toli desviou o olhar:

- Como sabes?

- Porque não estás com o teu amo quando ele precisa de ti. Ou ele te culpa, ou tu te culpas a ti próprio, e é por isso que andas sozinho.

- É verdade - retorquiu Toli baixinho. - O teu espírito é tão sagaz como os teus olhos, ó sábio.

- Soube-o quando não foste capaz de falar ontem à noite... mas adivinhei-o quando te vi chegar sozinho ao nosso acampamento.

- Então sabias porque não consegui falar.

- Anda comigo - disse Hoet, afastando-se.

Toli levantou-se, pousou a taça e seguiu o velho chefe jher, que foi atravessando a aldeia por entre as árvores. Os olhares dos da sua raça seguiam-no enquanto caminhava pelo acampamento, em direcção ao local onde o seu cavalo esperava, já arreado, pastando num tufo de trevos.

- O teu lugar não é aqui, Toli. Vai.

Toli sentiu o sangue subindo-lhe ao rosto; a vergonha queimava-o por dentro.

- Tens razão em me mandar embora. Desonrei o meu povo.

- Não estou a mandar-te embora por causa da desonra - disse Hoet docemente. Os olhos de Toli viraram-se rapidamente para o ancião. - Que admiração é essa? Desonra seria abandonares o teu amo. Não, estou a mandar-te embora por ti próprio. Vai, meu filho, vai procurar o filho do chefe branco. A tua vida não te pertencerá até o encontrares.

Toli sorriu e apertou o braço do ancião:

- Obrigado, meu pai. A faca que trago cravada no coração já não me dói tanto.

- Vai, mas volta um dia, para nos sentarmos a partilhar a carne.

Toli pegou na corda que prendia o animal, agarrou as rédeas e içou-se para a sela com toda a facilidade. Ansioso por partir, Riv relinchou.

- Irei mais depressa se me abençoares.

- Não posso abençoar-te mais do que Whinoek já te abençoou. - Fazendo uma pausa, Hoet contemplou o homem esbelto que tinha à frente. - Diz-se que o rei está a construir um templo ao Altíssimo.

- É verdade - respondeu Toli. - O Pai da Vida não é muito conhecido entre os brancos. o meu amo tenta que o nome do Deus Altíssimo seja conhecido por todos os homens que vivem sob os grandes céus, para eles poderem adorar o deus ünico e verdadeiro.

- Ainda bem. - retorquiu Hoet. - Mas a este velho parece que onde há um templo não pode haver outro. Não tenho razão?

Toli fitou o velho chefe por um momento. De repente, percebeu o que Hoet quisera dar a entender.

- Sim, tens razão, ó sábio. Gostaria de ouvir o que mais tens a dizer.

Hoet encolheu os ombros e ergueu o bastão com os chifres:

- Fui informado de que houve muitas marchas nocturnas na floresta, feitas por homens vindos de oriente, que, depois, regressaram pelo mesmo caminho. Como não os vi, não sei, mas o grande templo de Ariel fica a oriente, não é?

- Sabes muito bem que sim - respondeu Toli com um grande sorriso. - Obrigado, meu pai, por abençoares o teu filho desta maneira. - Virou Riv para a floresta e parou antes de entrar no carreiro ensombrado para erguer a mão num gesto de despedida.

Hoet levantou o bordão e disse:

- Vai em paz. - Depois de Toli desaparecer, ainda permaneceu muito tempo a fitar a floresta, antes de se virar e de voltar à aldeia jher no seu passo arrastado.

 

Pensando na sua sorte, Nimrood ria com uma alegria maldosa, enquanto percorria os corredores sombrios do Grande Templo. A capa preta esvoaçando como asas atrás de si fazia-o parecer um morcego gigante. Que golpe de sorte! Os deuses tinham mandado aquele jher metediço até aos degraus do templo.

“O ridículo do sumo sacerdote queria mandá-lo embora!”, pensou Nimrood. “E tê-lo-ia mandado! Mas eu estava lá para o impedir, e antes de o cão ter podido escapar, ordenei que o prendessem, que lhe batessem e que o atirassem para a cela do choramingas do príncipe. Ah, ah! Ah, ah!”

Ao princípio, o feiticeiro tivera de combater o impulso para acabar o que fora começado na floresta de Pelgrin, no dia da caçada, isto é, para liquidar imediatamente o jher. O velho ódio ainda lhe aquecia o sangue ralo, mas o prêmio em jogo obrigara-o a adiar a apetecida vingança contra aquele que lhe tirara o poder, a sua preciosa magia, e que por pouco não lhe acabara também com a vida.

A imagem desse dia ainda ardia no espírito negro de Nimrood: Durwin, um feiticeiro muito inferior a si, ficara de pé à sua frente, sem sequer tentar proteger-se nem levantar um dedo para convocar os poderes de que dispunha... embora isso não o tivesse salvo. “Não”, pensou Nimrood, “nada poderia tê-lo salvo.”

Então, quando Nimrood levantara o bastão para desferir o golpe mortal e transformar os ossos do maldito eremita em pó... a flecha! Saíra não sabia de onde e penetrara-lhe na carne, fazendo-lhe voar o bastão. Depois, vira o jher metendo outra flecha no arco. O feiticeiro suplicara-lhe que lhe poupasse a vida, e aquela miserável súplica ainda lhe ecoava no crânio. “Não me mates!”, gritara. Desde esse dia que estas palavras troçavam dele. Humilhara-se perante o arco do jher, mas, afastando a piedade, o jovem guerreiro atirara outra flecha ao coração do seu inimigo.

Nimrood utilizara a última centelha de poder para se transformar num corvo e voar para lugar seguro. Passara muito tempo até conseguir assumir outra vez a forma humana, pois nem sequer ficara com poder suficiente para voltar a transformar-se num ser mortal: por isso fora obrigado a esperar que o feitiço se desfizesse por si.

Fora um exílio bem amargo, durante o qual, preso naquele corpo emplumado, vivera segundo os caprichos dos elementos, alimentando-se de pedaços de carne morta, em putrefacção. Recuperara apenas uma fracção do seu antigo poder, isto é, os rudimentos de uma simples criança: a capacidade de fazer barulho e luz. Mesmo assim, voltara para se vingar, equipado com uma arte mais antiga e perniciosa: a traição.

O nome de Nimrood, o necromante, podia já não estar na memória dos homens; não fazia mal. Tinha a certeza de que as suas mentiras fariam o que a feitiçaria não conseguiria levar a cabo. Sim, por fim teria a sua vingança.

Oh, os deuses eram instáveis e velhacos! Era preciso muita astúcia para lhes levar a melhor. Nimrood fizera-o toda a vida. E, naquele momento, eles tinham finalmente depositado a vitória nas suas mãos. Sim, sim! Em breve, aquele rei acólito, desagradável e arrogante, sofreria como ele, Nimrood, fora obrigado a sofrer durante tantos anos.

Nimrood permitiu-se soltar um grito de alegria demente à iminente realização dos seus sonhos. Sim, o Rei Dragão seria destituído e, juntamente com ele, o seu bárbaro deus, o animal do Altíssimo.

O velho feiticeiro encarquilhado cerrou os punhos e desatou às gargalhadas, atirando a cabeça para trás e deixando o som sair da sua garganta maldosa. Era um som que faria gelar o sangue, de quem quer que passasse por ali. Mas ninguém o ouviu; estava sozinho e, com o coração negro inchado e exultante, saboreou ao máximo aquele momento.

Parecido com um monte ambulante de tiras de metal, ferramentas, sacos, trouxas e tralhas suficientes para dois amoladores, Pym encontrava-se parado à frente da tabuleta do Ganso Cinzento, A tabuleta pintada à mão, representando um ganso cinzento, gordinho e de patas e pescoço compridos, baloiçava na corrente. As janelas da albergaria estavam escuras, e embora a porta se achasse aberta, não se ouvia nenhum barulho vindo lá de dentro.

- Amolador! - gritou. - Amolador!

Ficou à espera, piscando o olho para Tip, que pestanejou. Dali a pouco, ouviu os passos atravessando o soalho na sua direcção. Depois, apareceu um rosto redondo e corado e a forma gorducha de Emm, a mulher do estalajadeiro, que, ao vê-lo, lhe acenou com o avental, exclamando:

- Pym! Bons olhos te vejam! Com que então voltaste! Dá cá um abraço!

A mulher lançou-lhe os braços ao pescoço, e ele ao dela.

Eram velhos e bons amigos.

- Que bom ver-te, Emm! Sabes como é... tenho andado cá com uma daquelas vontades de comer uma das tuas empadas! Tinhamos de vir logo que acabássemos o nosso trabalho lá para o sul.

- Tiveste saudades da comida da Emm, hã? Bem, entra, entra. Vamos lá pôr um garfo e um trinchador na mesa.

Tinindo a cada passo que dava, Pym seguiu a matrona lá para dentro.

- Milcher! - chamou ela. - Otho! Temos visitas! Vinde ver quem é!

A cabeça redonda e careca de Milcher espreitou por trás de uma pipa que ele estava a fazer rolar pela sala.

- Oh, oh! É o Pym! Oh, oh! Pym, bons olhos te vejam, amigo! Vieste visitar-nos hã? Fizeste bem! Fizeste bem! - Chamou por cima do ombro: - Otho! Despacha-te! Temos uma visita!

Um homem alto, de rosto infantil, entrou na sala com uma pequena barrica debaixo de cada braço. Fazendo um grande sorriso para o amolador, pousou as barricas e foi até à pipa que o pai estava a empurrar. Depois, o desmesurado Otho pôs a pipa no lugar com toda a facilidade.

- O Pym e a Tipper! - Sorriu com uma expressão infantil.

Milcher limpou o rosto suado com a manga:

Bolas! Desde manhãzinha que não faço outra coisa! - Apertou a mão do amigo. - Anda cá sentar-te ao pé de mim. Vamos beber um copo e encher a pança.

- Não vos incomodeis por nossa causa - disse Pym. Tip abanou a cauda amistosamente, pois sabia que naquele lugar costumavam dar-lhe umas guloseimas e uns ossos saborosos. Por isso, ansiosa pelos seus petiscos, ladrou uma vez.

- Está bem, Típ - riu Otho, parando para lhe dar uma palmadinha. - Não vamos esquecer-nos de ti, cadelinha.

Pym desembaraçou-se das trouxas e das tralhas e atirou-as para um canto. Depois, sentou-se com o estalajadeiro e Emm serviu-lhes pão e um pouco de guisado. Otho foi buscar canecas de barro cheias de cerveja com muita espuma e juntou-se a eles. Falaram de tudo o que acontecera desde a última vez que Pym lá estivera e de todos os clientes que iam precisar dos seus serviços. Dali a pouco, no entanto, a conversa centrou-se no assunto que ocupava o espírito de toda a gente e que andava na ponta de todas as línguas, em todos os locais de reunião de Askelon.

- Incrível! - exclamou Enun, dando um estalido com a língua.

- Incrível! Não posso imaginar quem pode querer fazer mal ao pobre príncipe Gerin, um rapaz tão lindo!

- Nem quem é suficientemente louco para enfrentar o Rei Dragão. Isso é que é um mistério - acrescentou Milcher, assentindo com uma expressão de entendido. - A ele e à espada dele, que ainda por cima é encantada.

Todos abanaram a cabeça, desconcertados pelo que acontecera ao seu rei.

- Tu andavas na estrada - continuou Milcher. - Não viste nada?

Pym limitou-se a encolher os ombros:

- Acho que cheguei tarde de mais. - Sentiu-se inclinado a falar-lhes do homem morto que encontrara na estrada e da espada, mas pensou melhor e, embora estivesse entre amigos. achou por bem guardar segredo dessa parte da história. - Foi antes de termos cheggado a Pelgrin. Na estrada, encontrámos muita gente que nos contou o que tinha acontecido.

- Realmente, lá falar, fala-se muito - concordou Milcher -, a maior parte do que se diz são só asneiras. Uns dizem que quem raptou o príncipe foram os Harrier. Outros que foram alguns daqueies porcos covardes do Nin, que têm andado escondidos nas montanhas estes anos todos. Tretas! Esses foram todinhos empurrados para o mar pela ponta das lanças.

- Mas é estranho que ninguém tenha visto sinais de quem o raptou. Parece que a terra se abriu para os engolir. Ninguém viu nada - disse Otho.

- Eu vi o rei hoje de manhã na estrada - afirmou Pym. - Pelo menos, acho que era o rei. Pareceu-me um rei.

- É possível, é possível - respondeu Milcher, batendo com a mão aberta na mesa. - O Ham, o talhante, disse que o rei regressou hoje de manhã. Há dias que anda por fora como um fantasma.

- Ele tinha a espada quando o viste? - indagou Otho, virando-se para Pym.

- Que pergunta! - gritou Milcher. - Claro que tinha! O Rei Dragão nunca vai a lado nenhum sem a espada. É ela que o torna invencível.

Otho não desistiu:

- Não foi isso que me disseram. - Embora só eles estivessem ali, baixou a voz e inclinou-se para a frente, de modo a não ser ouvido por mais ninguém. - A Glenna que é criada da rainha, contou-me...

- A Glenna é a namorada dele - interrompeu a mãe de Otho com um sorriso entendido. - Trabalha na cozinha real.

Otho lançou um olhar de aviso na sua direcção e apressou-se a continuar:

- ...que no castelo se diz que o rei perdeu a espada!

 - Que perdeu a espada? - arquejou Milcher, fitando o filho com os olhos esbugalhados. - Tretas!

- Não pode ser! - exclamou a mãe em voz baixa. - Que perdeu a Brilhante? Não pode ser!

Otho fez um gesto de assentimento com a cabeça e semicerrou os olhos:

- Ele saiu com ela no dia da caçada. Toda a gente de Mensandor a viu, pois o seu grande punho dourado cintilava na bainha. Todos a vimos. - Para frisar bem as suas palavras, pôs o dedo no ar: - Mas ninguém a viu quando ele regressou.

- O que lhe aconteceu? - perguntou Pym, com o coração batendo-lhe mais depressa dentro do peito.

Otho humedeceu os lábios.

- Ninguém sabe. - A sua voz não passava de um murmúrio. - Mas o que se diz é que a Zhaligkeer desapareceu, então o reino está condenado.

- Ora! - exclamou o pai com uma certa inquietação. Isso não é verdade!

- Pode muito bem ser - teimou Otho. - Pode muito bem ser!

- Mas o rei continua a ser rei, não é? - Emm lançou ao filho um olhar apreensivo.

- Continua, se tiver a espada. A espada é o poder dele. Sem ela, está desgraçado.

- Desgraçado? - inquiriu Pym.

- Sim, e tu também. Há quem diga que ele não tem direito a ser rei, porque não tem sangue real.

- Pelos deuses, mas ele foi escolhido! - gritou Milcher.

- Pois foi, mas com o apoio da espada. - Otho inclinou a cabeça com uma expressão de conspiração. - É obra dos deuses, que estão zangados com o novo templo e nada contentes com a adoração dele pelo tal Altíssimo. Os velhos deuses vão humilhá-lo, para que o reino inteiro aprenda a lição e volte à verdadeira adoração, com oferendas e súplicas.

Com a expressão presunçosa de quem está convencido de que tem toda a razão, Otho cruzou os braços compridos e encostou-se para trás. Os outros entreolharam-se sem saberem o que fazer. Quem poderia contestar o que acabavam de ouvir?

Se era uma questão entre os deuses, quem poderia interceder em favor dos mortais? Quem poderia enfrentar os deuses?

Outrora, existira um jovem decidido com uma espada chamejante, guiado pela mão de um deus. Era forte e nvencível. Mas também ele mostrara ser humano, sujeito às feridas e aos erros da carne.

Como os deuses eram instáveis! Haviam-no deixado prosperar e agora exigiam O seu tributo, e até o Rei Dragão teria de se curvar perante eles. Com ou sem espada chamejante, tencionavam obter o que lhes era devido, e o rei não podia recusar-se a fazê-lo.

Afinal de contas, os deslumbrantes sonhos do Rei Sacerdote e da sua maravilhosa Cidade da Luz não passavam de fumo. Os homens eram apenas os brinquedos dos deuses.

Sempre tinha sido assim e sempre assim seria.

 

Se não fosse a urgência da sua missão, Bria teria apreciado a jornada até Dekra. Os dias envergavam as vestes verde-douradas do Verão; a paz envolvia a terra e parecia florescer em cada galho. Os sinistros acontecimentos de apenas havia alguns dias recuavam no passado e afastavam-se a cada légua percorrida. Só aquela dor palpitante no coração lhe lembrava que as coisas não iam muito bem, que lhe tinham tirado o filho e que o seu mundo só voltaria a ser o mesmo quando ele lhe fosse devolvido.

De dia, seguia com os outros, mantendo-se animada, falando, cantando ou deixando-se embalar pela beleza que a envolvia. De noite, rezava; as suas orações não eram por si, mas pelo filho e pelo marido, para que o Altíssimo os protegesse onde quer que estivessem. E, às vezes, à noite, quando ninguém podia vê-la, chorava.

Wilkins e os outros dois cavaleiros iam tomando conta da rainha e do seu séquito, que não estavam habituados aos rigores da estrada, proporcionando-lhes todo o conforto possível. E, dado o bom estado da Estrada do Rei, avançavam com rapidez para o seu destino.

- Hoje passaremos a Muralha de Celbercor - declarou Alinea, quando pararam para o desjejum e para deixarem as princesas colherem flores silvestres. Embora o Sol tivesse nascido havia pouco tempo, já se encontravam a várias léguas do local onde tinham acampado na noite anterior.

- Já? - perguntou Esme, um tanto surpreendida. - Pensava que a jornada ia demorar muito mais.

- Antes da Estrada do Rei, demoraria. Ao alargar a estrada a esta parte do reino, o Quentin tornou as viagens muito mais fáceis e rápidas.

“Se nos despacharmos, chegaremos a Dekra amanhã à tardinha - continuou Alinea, apontando para leste e sul, onde as montanhas erguiam as suas cristas para as nuvens. - A Muralha de Celbercor vai do mar até àqueles montes de rocha. Depois dela, Dekra fica apenas a dois dias de viagem.

- Então, vamos depressa! - gritou Esme. - Sempre quis ir a Dekra. Falastes-me tanto de Dekra que estou ansiosa por lá chegar.

- É uma cidade notável - concordou Bria, contemplando a distância como se esperasse ver as suas torres altaneiras erguendo-se acima do horizonte. - Os Ariga eram um povo nobre e belo. Como a cidade deles não há outra.

- É verdade, e mudou muito desde a primeira vez que a vi - observou Alinea, começando a contar-lhes os acontecimentos da sua primeira visita: a fuga para Dekra em pleno Inverno com Theido, Durwin, Quentin e Trenn, a cavalgada nocturna até à muralha com os Harrier atrás deles, a ferida quase fatal de Quentin, feita por um falcão de espigões envenenados, pertencente aos Harrier, a sua ansiosa vigília quando ele caiu num sono de morte mal chegou à antiga cidade em ruínas e o extraordinário amor e devoção dos Curatak que o curaram.

Quando acabou, nas adoráveis feições de Esme estava estampada uma expressão de encantamento.

- Nunca tinha ouvido a história toda... só um bocado aqui e outro ali, Mas ouvi-la agora assim... - Lançou a Alinea um olhar cheio de admiração. - Fostes muito corajosa, senhora. Vós e os outros. A vossa história foi lindíssima. Agora, ainda tenho mais vontade de conhecer Dekra.

Prosseguindo viagem, foram avançando pela estrada e atravessando colinas arborizadas e planícies muito agradáveis, a que o sol avivava o verde e o perfume. Por vezes, encontravam lavradores com carros de bois e outros viandantes: mercadores a pé ou em carroças e cavaleiros ocupados em missões apressadas a regiões distantes do reino. Mas, normalmente, tinham a estrada para si durante longos estirões.

A Muralha de celbercor, essa singular e duradoura construçãoo, falta de força e destreza, ia crescendo à medida que se aproximavam. De início, era apenas uma linha fina, cinzenta na distância, que cruzava as colinas com a substância de um banco de nuvens baixas. Mais de perto, com o sol batendo em cheio na sua superfície inexpressiva e austera, erguia-se das cristas alta e firme, com uma força sólida.

A estrada curvava ao longo da superfície da muralha, na direcção da enseada de Malmar. Os viajantes desceram a longa encosta arborizada até à praia rochosa da enseada, onde pararam para dar de beber aos cavalos. Depois, ficaram à espera.

- Como sabe o barqueiro que tem de nos vir buscar? - perguntou Esme.

- Olha - advertiu Bria. Um dos cavaleiros avançou pela praia para uma vara alta de pinho segura por um monte de pedras, atou uma bandeira vermelha a uma corda amarrada à vara e içou-a até cima, onde ficou a abanar ao sabor da brisa. - Estás a ver? Só temos de esperar um bocadinho. Quando o barqueiro vir o sinal, virá imediatamente.

- Que boa lembrança!

- Foi ideia do Quentin, que, quando viajava muito entre Askelon e Dekra, costumava ter dificuldades em encontrar barco deste lado da enseada. Por isso, na esperança, creio, de que as viagens para Dekra aumentassem muito, resolveu estabelecer este sistema.

Sentaram-se nas pedras quentes, escutando os gritos das aves marinhas que cruzavam os céus e o marulhar da água lambendo as rochas que tinham aos pés. Dali a pouco, viram aproximar-se um barco largo e chato.

- Bons dias, senhoras - saudou o barqueiro, depois de conduzir o barco para dentro do estreito canal de paredes rochosas que fora aberto na praia. - Está um dia bom para viajar, ides para Dekra? - Observou-os a todos, com uma curiosidade bem-humorada.

- Vamos - respondeu Alinea.

- Permiti-me levar-vos primeiro. Voltarei depois a buscar a carruagem e os cavalos.

- Obrigado, Rol - agradeceu Bria.

Ele virou-se e observou-a com atenção:

- Senhora? Eu... pois é! Perdão, Vossa Alteza! Não vos reconheci! - Corando de embaraço, apressou-se a curvar-se. As princesas abafaram o riso.

- já há algum tempo que não nos vemos - riu Bria - e as minhas vestes não são propriamente de rainha.

- Pois não, senhora. - Rol fez uma reverência com a cabeça e atirou-se ao trabalho, sem dizer mais nada. Dali a pouco, os passageiros estavam sentados nos bancos largos da proa. Wilkins ficou à espera com os animais e a carruagem.

Manejando o comprido remo com as suas mãos grandes e fortes, Rol conduziu lentamente o barco para o canal mais profundo, fazendo-o flutuar ao encontro da corrente que ia transportá-los para o outro lado.

Em Malmarby, a sua chegada foi saudada por um rebanho de crianças descalças que se tinha juntado na doca para ver os forasteiros. Como haver viandantes ainda não era um acontecimento assim muito vulgar, normalmente estes despertavam risos de curiosidade nos jovens e olhares amistosos nos mais velhos.

- Fiquei muito aflito ao saber o que aconteceu ao jovem príncipe Gerin - disse Rol, enquanto as conduzia pelas pranchas de uma comprida rampa acima.

- Se já sabes, também percebes porque vamos para Dekra - retorquiu Bria.

- Toda a gente sabe, senhora. Foram pessoas daqui à caçada. Eu estava lá quando... nós sabemos o que deveis sentir. Mas tenho a certeza de que o Rei Dragão encontrará os patifes que o levaram.

- Rezamos constantemente pelo príncipe - disse Alinea.

- Sim, senhora - volveu Rol. - Talvez as orações sejam de alguma ajuda em Dekra, onde há muito poder.

- Obrigado, Rol - agradeceu Bria.

Com licença, senhora. - Fazendo outra vénia, Rol empurrou novamente o barco para a enseada. Num abrir e fechar de olhos, estava de volta com a carruagem e os cavalos.

A rainha e o seu séquito voltaram a ocupar os seus lugares e puseram-se em movimento.

- Estarei aqui quando regressardes - gritou Rol, que levantou os braços e bateu palmas, berrando e enxotando as crianças amontoadas à sua frente como galinhas.

Os viandantes atravessaram Malmarby e entraram nas planícies pantanosas. A região de Obrey era mais selvagem, livre e aberta. Ao vir-se do outro lado da enseada, notava-se uma mudança imediata na paisagem, que se tornava ma. hostil, levando o viandante a sentir que deixara para trás o mundo hospitaleiro e entrara numa terra indornada e imprevisível, onde tudo poderia acontecer.

- A carruagem não pode avançar mais - anunciou Wilkins.

A pouuco mais de uma légua de Malmarby, a estrada desaparecera por completo, Wilkins acabava de ir ver o estado do caminho mais à frente. - Nem a cavalo será fácil.

- Já me tinha esquecido de como esta terra é inóspita - comentou Bria. - O que pensas que devemos fazer?

- Deixar a carruagem - replicou o condutor. - Um dos vossos guardas pode montar um dos cavalos da carruagem e eu o outro. A rainha Alinea irá na montada do cavaleiro e as princesas seguirão comigo.

- Deixai-me levar uma, pelo menos - sugeriu Esme.

- E eu a outra - opinou um dos cavaleiros.

Desmontando, o outro cavaleiro ofereceu a sua sela a Alinea, que a aceitou:

- Obrigado. Há muito tempo que não monto sem sela e não me parece que conseguisse fazê-lo agora.

Wilkins e o primeiro cavaleiro desatrelaram os cavalos e deram um novo arrumo à bagagem, distribuindo os artigos indispensáveis pelos cavaleiros e abandonando o resto com a carruagem, que esconderam num caramanchel de carvalhos novos e de hera silvestre. Depois, todos voltaram a montar, continuando a sua jornada alegremente, ainda que mais devagar.

- Majestade - disse o camareiro suavemente, batendo na Porta ao de leve -, os meus senhores Theido e Ronsard chegaram e pedem para ser recebidos imediatamente.

Quentin encontrava-se sentado na sua grande cadeira, fitando as cinzas frias da lareira. Tinha os olhos vermelhos devido à falta de sono, o cabelo em desalinho e as feições duras e desleixadas.

- Manda-os embora - resmungou. - Não quero ver - Mas, Majestade, eles insistem!

- Quantas vezes tenho de dizer que não quero ver ninguém?

- gritou o rei, agarrando numa taça de prata que estava na mesa colocada perto de si e apontando-a à cabeça do camareiro que logo se retirou. A taça bateu na porta salpicando a madeira trabalhada em relevo e o chão de manchas de vinho tinto, parecidas com sangue.

Quentin ouviu vozes na antecâmara, seguidas de passos rápidos. A porta abriu-se de par em par e Theido entrou, com Ronsard mesmo atrás de si.

- Queremos falar contigo - disse Theido sobriamente.

- Não é bom enclausurares-te assim, sem receber ninguém - acrescentou Ronsard.

- Parece que não me dais outra hipótese - retorquiu Quentin, sem sequer olhar para eles, continuando a fitar as cinzas, como se estas fossem as cinzas da sua própria vida.

- Isto nem parece teu, Quentin - disse Theido, pronunciando deliberadamente o nome do rei.

Estas palavras só serviram para fazer aflorar-lhe aos lábios um sorriso sem alegria:

- Vedes? A verdade é que não sou rei nem nunca fui. Só fiz de conta que era rei e os meus amigos entraram na brincadeira para me fazerem a vontade. - Soltou uma gargalhada sofrida e oca. Depois, virando o rosto para eles, perguntou: - Onde está o meu filho?

Ao darem com os olhos na temível expressão do amigo, ambos os homens se sobressaltaram interiormente... Quentin mudara tanto desde a última vez que o tinham visto! Desaparecera o jovem cheio de vigor, força e rapidez, perspicaz e alerta, sempre penetrante como a ponta de uma lança, vivendo cada momento da vida com a destemida vitalidade da águia que voa acima das nuvens só pela alegria de voar.

O homem que tinham à frente parecia haver vivido nas trevas durante anos, sem esperança e alquebrado pelo sofrimento. Bastaria uma palavra mais imprópria para ele poder debulhar-se em lágrimas ou entregar-se a uma cólera cega.

- Os nossos homens estão a passar a pente fino os morros e as aldeias que ficam para lá de Pelgrin. Havemos de o encontrar. - Theido foi o primeiro a recuperar a fala. Embora o afligisse ver o seu rei assim tão perturbado, tentou parecer muito firme.

- Nós teríamos vindo mais cedo... - começou Ronsard, mas a voz faltou-lhe e ele virou-se.

- Ide-vos embora - ordenou o rei.

- Queremos falar contigo como amigos. - Theido avançou um passo na sua direcção. - Por favor, ouve-nos. Peço-te como amigo.

- Amigos - resmoneou Quentin. Nos seus lábios, aquela palavra era uma maldição. Depois de passar a mão pelos olhos, tornou a perguntar: - Onde está o meu filho?

 - Havemos de encontrá-lo. Podes ter a certeza de que havemos de encontrá-lo.

O Rei Dragão lançou um olhar colérico aos dois cavaleiros:

- A certeza! Com que então, posso ter a certeza de que o meu filho será encontrado! - A sua voz aumentava de volume à medida que a cólera o incendiava como uma chama. - A certeza, hã? Em quem queres que confie? Em ti? No Altíssimo? Ah! Não há nada em que um homem possa confiar. No fim, fica abandonado. A juventude desaparece, o amor arrefece e o que ele fez com as suas mãos desintegra-se... ou é deitado abaixo pelos seus inimigos!

O rei levantou-se da cadeira, pegou no comprido atiçador de ferro que estava junto da lareira e começou a andar de um lado para o outro.

- Os deuses, meus amigos, os deuses! Antes confiar no tempo, que é menos instável do que eles. os deuses insultam o homem e fazem as coisas de modo a poderem rir dele quando o atiram para baixo das rodas da desgraça. Grande diversão! Vede como se contorce e arranca a própria carne! Vede como o seu coração se revolve! Vede como a dor o devora!

Theido e Ronsard estavam especados a olhar para aquele louco furioso.

- O Altíssimo! - continuou o rei. - Não me faleis no Altíssimo, que é mais subtil e maldoso do que os outros, torturando as suas vítimas com sonhos e visões de glória, profetizando, prometendo, entregando o inimigo nas suas mãos e elevando-as muito acima do seu devido lugar.

“E depois, tira-lhes tudo. Tira-lhes o coração, despoja-os de tudo o que lhes é querido na vida e atira-os, sangrando para as trevas! É este o Altíssimo, deus dos deuses! E é louco quem confiar nele!

Ditas estas palavras, Quentin atirou com o atiçador, que foi cair na mesa , derrubando uma bandeja de comida fria, na qual não tocara. Os utensílios de prata caíram ao chão, fazendo muito barulho.

Quentin cambaleou e, exausto, deixou-se cair na cadeira. Pairou na sala um silêncio perplexo e semelhante a um pano mortuário. Ronsard tocou no braço de Theido, acenou em direcção à porta e saíram os dois fechando-a silenciosamente atrás deles.

 

- Nunca o vi assim. - Ronsard fez um gesto para a sala de onde tinham acabado de sair. Falava num sussurro atónito. - Ele está fora de si.

e saíram os dois silenciosamente, fechando-a atrás deles.

- o peso dos seus sonhos caiu em cima dele e está a esmagá-lo. - Theido abanou tristemente a cabeça.

- Sonhos... pode ser, mas ele parece ter endoidecido!

- Se a sua dor é mais profunda do que a dos outros, é porque também confiou no Altíssimo mais do que os outros.

- Quanto mais alto se sobe, maior é o tombo, hã? Quem me dera que o Durwin estivesse aqui! Esse é que saberia o que havia de fazer. - Ronsard suspirou ruidosamente. - Tenho saudades do velho ermita.

- Eu também. Mas temos de fazer o melhor que pudermos.

Parece-me que o reino depende disso.

- O que havemos de fazer? - Ronsard encolheu os ombros.

- Parece-me que nada, até encontrarmos o príncipe.

- Não concordo - retorquiu Theido lentamente. - Pressinto que a tortura dele não se deve apenas ao desaparecimento do príncipe.

- Nem à morte do Durwin?

- Nem à morte do Durwin. Embora sendo duas coisas que o afligem muito, creio que conseguiria ultrapassá-las se não fosse o facto de ter perdido a fé no Altíssimo.

- O que podemos fazer quanto a isso?

- Encontrar a espada. - Theido olhou bem nos olhos do amigo. - Encontrar a espada e devolver-lha antes que alguém fique com ela.

- Estou inteiramente de acordo. Diz-me o que hei-de fazer, que eu faço.

- Podes ter a certeza de que to diria, se soubesse. Mas só sei que temos de recuperar a espada... e depressa. - Pousando o queixo na mão, Theido ficou muito pensativo durante algum tempo. Ronsard pôs-se à espera a observá-lo.

- Ronsard, tens de ir sozinho começar as buscas - disse por fim.

- E tu?

- Ficarei aqui junto do rei, que talvez precise de un companheiro decidido ao pé dele.

- Como queiras, Theido. Por onde hei-de começar?

- Esse é o ponto fulcral da questão... mas tenho um plano que talvez nos seja útil. Estás disposto a tentar?

- Farei o que for preciso.

- Então, anda comigo. Não há tempo a perder.

Quando recuperou os sentidos, sentiu logo uma coisa fria escorrendo-lhe pelo pescoço abaixo. Sangue? Erguendo a mão, apalpou o lado da cabeça de onde saía o fiozinho de sangue.

O gesto provocou-lhe uma dor tão viva na cabeça que lhe arrancou um gemido.

- Toli? Estás vivo?

A voz abafada chegou-lhe de perto. Com cuidado, abriu os olhos, mas voltou a fechá-los rapidamente, pois a luz a atravessou-lhe o cérebro na forma de chamejantes bolas de fogo.

- Ahhh!

- Deixa-te estar deitado. Não te mexas - sugeriu a voz, que Toli tentou reconhecer.

Quando, passado algum tempo, a dor de cabeça acalmou um pouco, Toli abriu os olhos, protegendo-os com a mão. A divisão de pedra nua estava mergulhada na semiobscuridade. A luz caía obliquamente num único raio brilhante de uma janela estreita situada na parte de cima da parede e ele encontrava-se deitado num enxergão de palha pousado no chão, em frente da janela. Toli virou a cabeça. Apesar de a vista se lhe enevoar, conseguiu reconhecer a forma que se encontrava agachada ao seu lado, de joelhos dobrados.

- Príncipe Gerin! Au! O que me fizeram à cabeça?

- Atiraram-te para aqui. Tive medo de que estivesses morto.

- Quando foi isso? - Toli soergueu-se lentamente, apoiando-se nos cotovelos. Cada gesto, por mais pequeno que fosse, provocava-lhe uma dor na cabeça semelhante a uma punhalada.

- Não te lembras? - perguntou o príncipe, voltando a estender-lhe um pano molhado, que já antes pusera na cabeça de Toli.

O jher aceitou-o e apertou-o contra a testa.

- Não me lembro de nada - respondeu. - Não... lembro-me de chegar ao templo e de pedir para falar com o sumo sacerdote. Creio que o vi e que falei com ele. Depois... acordei aqui.

- O sumo sacerdote?

- Sim.

- Estamos no templo?

- Devemos estar - retorquiu Toli, olhando em volta da cela e para a porta, que, embora não sendo a porta das masmorras de um castelo, era de carvalho maciço e suficientemente forte para não poder ser arrombada por nenhum prisioneiro que quisesse escapar-se. - Não sabias para onde foste trazido?

- Não. Estava escuro. Além disso, puseram-me uma venda.

Pareceu-me que andámos dias a fio. Depois, atiraram-me para aqui já há alguns dias. Foi essa venda que tens aí. - Gerin indicou o trapo molhado.

- Estou a ver. Há quantos dias? - Toli examinou o príncipe cuidadosamente, em busca de sinais que indicassem que fora mal-tratado.

- Creio que três... talvez quatro. Sim, quatro. Dois dias antes de chegares.

- Estou aqui há dois dias? - Parecia-lhe impossível.

- Hoje é o segundo. Como te sentes?

- VivO. - Toli estendeu a mão e deu umas palmadinhas no ombro do jovem príncipe. - Portaste-te bem, senhor. Folgo muito em te ver vivo, Como te têm tratado?

- Bastante bem. Como da comida deles e bebo água em boas condições. - Gerin olhava ansiosamente para o amigo. Embora se encontrassem os dois presos, sentia-se contente por ter junto de si alguém que conhecia. - Toli, o que aconteceu?

- Nem eu sei bem. - Abanou a cabeça devagar. “Como lhe digo?” pensou.

- Sei o que aconteceu ao Durwin, mas tenho andado preocupado com o pai.

- Ele está bem. Anda à tua... à nossa procura. E o Ronsard e o Theido também.

- Coitado do Durwin - disse Gerin, com as lágrimas nos olhos. - Ob, coitado do Durwin.

- O teu pai estava com ele quando morrew Morreu em paz.

Tentando abafar o sofrimento, Gerin fungou. Mas havia tanto tempo que se mostrava corajoso! Agora, com um amigo ali, bem podia dar largas à dor. Os soluços subiram-lhe do peito e as lágrimas correram-lhe pelo rosto.

Toli passou o braço pelos ombros esguios do menino.

- Chora à vontade. Ele era teu amigo. Não é vergonha chorar-se de pesar.

Quando o príncipe Gerin já não conseguia chorar mais, Toli cingiu-o mais a si e falou suavemente:

 - Não sei porque é que isto aconteceu, mas podes ter a certeza de que a maldade ronda aqui. Os sacerdotes não saem do templo para assassinar e raptar os inocentes... pelo menos, nunca o fizeram. Por que razão começaram agora, é coisa que não sei dizer. - Olhando atentamente para Gerin, continuou: - Mas temos de descobrir qual é o plano deles. Ora pensa: o que viste?

Depois de ficar calado durante algum tempo, o príncipe ergueu os olhos para Toli e respondeu:

- Eram seis homens: cinco espadachins e mais um... o chefe. Ouvi-os falar dele.

- O que disseram?

- Não gostam muito dele. É tudo. - Pensando por um momento, acrescentou: - E o que contou o que tinha acontecido ao Durwin... disse que o rei tinha matado um deles na estrada. - Fitou Toli com uma interrogação no olhar.

- É verdade. A dor e a raiva levaram o teu pai a liquidar um dos raptores na estrada, o que também lhe pesa no coração. - Toli calou-se. Passado um momento, acrescentou: - Bem, está feito. Talvez venhamos a descobrir nisto alguma boa intenção. Esperemos que sim.

Continuaram os dois a conversar e a reconfortar-se um ao outro.

A faixa oblíqua de luz foi atravessando o chão e subindo pela parede oposta da cela, indicando-lhes que o dia se ia alongando. Lá para o fim da tarde, apareceu um sacerdote com duas taças de água e um grande trincho de comida, que num instante abriu a porta, empurrou os alimentos para dentro e voltou a pôr o ferrolho.

- É sempre assim que trazem a comida? - perguntou Toli.

- Todos os dias. Creio que têm medo de que eu tente fugir.

- Tu já tentaste fugir?

o príncipe fez que sim com a cabeça:

- Uma vez... na estrada. O Tarky recuou e eu ou caí ou fui agarrado. Depois, ele fugiu. Não foi muito longe daqui.

- Um cavalo com o sentido de orientação do Tarky encontra depressa o caminho de casa. Ou então, alguém há-de apanhá-lo e ir entregá-lo ao rei. Seja como for, penso que alguém há-de pensar em procurar-nos por aqui; o rei vai encontrar-nos, verás.

Gerin assentiu com a cabeça, mas não disse nada.

Dando-lhe umas palmadinhas no ombro, Toli acrescentou:

- Não temas, jovem senhor. Não deixarei que nada de mal te aconteça. - As palavras quase lhe ficaram entaladas na garganta. “Não tornarei a falhar, nem que isso me custe a vida”, pensou.

 

- O que mandas, amigo? - Milcher limpou as mãos rechonchudas ao avental encharcado e fez um sorriso aberto e bem-disposto ao desconhecido. - És novo em Askelon?

O homem ruivo, envergando as roupas de um trabalhador normal (um justilho de couro por cima de uma túnica castanha e calças castanhas e largas), encostou-se ao balcão:

- Uma caneca de tinto, se faz favor - pediu. - És o dono da albergaria?

- Sou - respondeu Milcher, - Eu sou o guarda e a minha mulher a patroa. - Piscou o olho. - Há quem diga que o meu tinto é o melhor que há em Mensandor. Eu cá também o prefiro.

O estalajadeiro afastou-se um momento para encher a caneca, e o homem aproveitou a ocasião para examinar o interior da albergaria. Naquela noite, o Ganso Cinzento estava cheio. Ouvia-se um zumzum normal que, no entanto, se sobrepunha a uma certa corrente de excitação. A atmosfera de expectativa era tão densa como o fumo dos cachimbos dos fregueses, que se encurvava para o tecto de traves baixas. As canecas de cerveja tiniam e os homens bebiam e conversavam em voz tensa e nervosa.

Logo no momento em que entrara, Ronsard sentira aquele formigueiro provocado pela ansiedade. Era como se toda a gente se tivesse reunido ali à espera de que acontecesse algo, sabendo que aconteceria alguma coisa e querendo que ela acontecesse.

Com aquele disfarce de camponês, havia poucas hipóteses de ser descoberto; como, normalmente, não frequentava albergarias e já não vivia em Askelon, era pouco provável que encontrasse alguém conhecido. Assim, Ronsard virou-se novamente para Milcher, que estava a pousar a caneca de peltre no balcão.

- Isto está estranho, não?

- Está... há duas noites. - Milcher assentiu dissimuladamente com a cabeça.

- Porquê?

- Tens estado fora do país, homem? O rapto! A perda da espada do rei! - Milcher revirou os olhos e inclinou-se para a frente. - Há por aqui muita maldade, meu amigo. Temos é que tratar de nós, percebes?

- Já ouvi falar do rapto - volveu Ronsard, levando a caneca à boca -, mas o que é que se passa com a espada do rei? Não sei de nada.

- Oh! - exclamou Milcher, inclinando-se outra vez, com o ar de um homem que revela um segredo que o queima por dentro. - A espada do rei desapareceu. Ninguém sabe dela. Diz-se que o rei vai ser destronado. Sem a espada, não consegue manter-se no trono.

- Então a Brilhante...

- Essa mesmo! Tal e qual! Que outra espada havia de ser? - Virando-se para o outro homem que trabalhava ao balcão: - Otho! Anda cá!

O enorme Otho aproximou-se e fitou Ronsard com um olhar examinador e benévolo:

- Sim?

- Otho, conta aqui a este amigo o que sabes da espada encantada do rei.

Desde que ouvira a história, Otho pouco mais fizera do que contá-la; mesmo assim, não estava cansado de exibir os seus conhecimentos e, portanto, foi com entusiasmo que desfiou os escassos pormenores que sabia, embelezando-os de modo a dar-lhes um outro colorido.

- Sim, estou a ver. - Ronsard assentiu solenemente com a cabeça quando Otho terminou a sua narrativa. - Isso pode ser mau. Mesmo muito mau. Ainda bem que não sou o rei!

- Que está bem arranjado! Não me parece que vá continuar a ser rei durante muito tempo. já se fala muito contra ele.

- Não ouvi nada.

- Está a começar. Ontem à noite esteve aqui um tipo de barba branca, vindo do norte, de Obrey, que disse que as pessoas de lá estão con medo do novo deus do Rei Dragão... do tal Altíssimo, e que andam a armar-se para proteger os seus templos.

- Para proteger os seus templos? De quê?

- Do rei! O Rei Dragão mandou arrasar os templos. - Otho baixou a cabeça com um ar de entendido. O seu rosto redondo luzia com o prazer de ter à frente um ouvinte tão tapado e pouco informado.

- Eu também tenho ouvido dizer isso - interpôs Milcher.

- Quem é esse homem... o que anda a dizer essas coisas?

- Esteve aqui ontem à noite e contou-nos tudo. Se esperares um bocadinho, talvez ele apareça. Parece-me que ele disse que voltaria aqui hoje à noite se ainda estivesse em Askelon. - Milcher passeou o olhar pelas pessoas que enchiam os bancos e que se encontravam debruçadas nas mesas do seu estabelecimento.

- Agora não estou a vê-lo, mas pode ser que chegue mais tarde.

Pegando na caneca, Ronsard disse:

- Nesse caso, esperarei, Quero ouvir o que tem a dizer. Indica-me quem é quando chegar.

Ao pôr do Sol, chegaram à cidade em ruínas, com os seus delicados pináculos e finas torres erguendo-se para os céus de um azul pòofundo. A pedra vermelha de Dekra cintilava como rubis à luz carmesim do entardecer. Parecia que a cidade aparecera por magia, que caíra do céu para aquela região inóspita, qual criação enfeitiçada.

- Dekra... - disse Esme. - Nunca vi nada assim. É tão...

tão diferente.

- Tem uma beleza estranha - acrescentou Bria. - É muito diferente das cidades que construímos. Os Ariga tinham métodos de construção que desconhecemos.

- Fez-se muito desde a última vez que pus os olhos nesta cidade - comentou Alinea. - Também isso foi há muito tempo.

Mas O Quentin disse-me que os trabalhos avançam rapidamente. É verdade, fez-se muito.

Avançaram até às portas de Dekra, já fechadas por causa do aproximar da noite. Contudo, quando chegaram às enormes portas de azulejos, apareceu um rapaz, que meteu a cabeça no postígo aberto de um dos lados do painel e que voltou a desaparecer, rápido como um raio. A sua voz chegou-lhes do outro lado:

- Visitantes! Abri as portas! Visitantes!

Depois de esperarem um momento, ouviram o rangido feito pelas portas ao abrirem-se. O homem de ombros curvados que saiu ao seu encontro sorriu e mandou-os entrar, dizendo:

- Desculpai ter-vos fechado cá fora. Não esperávamos visitas esta noite; de contrário, teria deixado as portas abertas. Entrai, entrai. Bem-vindos a Dekra!

Os viajantes desmontaram, satisfeitos por se verem livres das selas. O homem voltou a fechar as portas e apressou-se a juntar-se-lhes:

- Vindes de longe, boa gente?

 - De Askelon - replicou Alinea.

- Espero que esteja tudo bem em Askelon, É uma viagem longa. Deveis estar muito cansados. - Satisfeito por ver aqueles visitantes, que deviam trazer novas do resto do reino, examinou-os com uns olhos amáveis: - Mandei o rapaz chamar um ancião, que, tenho a certeza, quererá receber-vos condignamente.

Nesse momento, ouviram-se vozes. Quando ergueram o olhar, viram o rapazinho seguido de um homem de manto comprido, avançando rapidamente na sua direcção. Atrás deles seguiam várias outras pessoas, que tinham largado o que estavam a fazer para irem saudar os visitantes.

- Ah! Almea! Bria! Que bom ver-vos de novo! Que surpresa tão agradável! Olhai - gritou para os que o rodeavam -, a rainha veio cá! E a rainha-mãe também!

Alinea observou o homem, tentando recordar-se dele. Precisamente nessa altura, Bria aproximou-se mais:

- Mãe, deveis lembrar-vos do ancião Jollen...

- Claro! Claro que me lembro muito bem! Passou muito tempo. Admira-me que ainda te lembres de mim!

- Também não foi tanto como isso... e olhai para vós: estais na mesma. Continuais tão bonita como dantes. - O ancião inclinou-se graciosamente perante as senhoras. - Bria, se a tua mãe não estivesse aqui ao teu lado, juraria a pés juntos que eras ela. Sois tão parecidas como flores do mesmo botão. E por falar em flores... - Piscou o olho para as princesas, que soltaram risinhos abafados.

- Estás a exagerar, senhor.

- Não estou nada, minha rainha. É verdade. - os seus olhos viraram-se para Esme, que se encontrava ali perto. - E tu deves ser a adorável Esme, de quem se diz tanto bem.

- As tuas palavras tocam-me bem fundo, senhor, pois tenho a certeza de que nunca nos encontrámos.

- Pois não, mas não é difícil adivinhar a tua identidade. Lembro-me de a Bria me ter falado da sua amiga uma ou duas vezes. Logo que te vi, calculei que devias ser quem és. Sê bem-vinda. - Virando o olhar para Wilkins e para os cavaleiros: - Bem-vindos, bons amigos. - O ancião Jollen fez uma pausa, fitou atentamente os visitantes e acrescentou: - Que encontreis em Dekra aquilo que procurais.

Durante um momento, fez-se silêncio. Depois, o ancião bateu palmas e disse:

- Bem, o Palácio do Governador está à vossa disposição.

A minha esposa disse-me que hoje jantareis connosco. Mas não vos apresseis; retemperai-vos da viagem. Irão convosco alguns jovens que vos ajudarão a arrumar tudo.

- Obrigado, Jollen - agradeceu Bria. - já me sinto reviver só por ter chegado a Dekra. Iremos ter convosco daqui a pouco.

- Excelente! Agora, ide. Com tua licença, vou convidar os outros anciões para se juntarem a nós depois da refeição... concordas?

- Claro que sim. Ia sugerir-te isso mesmo. É o melhor.

- É tão bom estar aqui outra vez! - comentou Alinea. - Já me havia esquecido de quanto esta cidade me faz bem. Tinha muitas saudades e não sabia de quê.

- Então, ainda bem que viestes. Talvez possais ficar bastante tempo, senhora. - Jollen fez um sorriso aberto para os seus fatigados hóspedes. - Sim - repetiu -, ainda bem que viestes.

Os visitantes foram imediatamente levados pelos felizes habitantes de Dekra, que os conduziram até ao antigo palácio do governador, no coração da zona restaurada da cidade, formando um cortejo através das ruas estreitas e pavimentadas das velhas ruínas. Os curatak que iam encontrando ao longo do caminho ou paravam para os saudarem entusiasticamente ou se juntavam à multidão que os acompanhava.

Esme maravilhava-se com tudo o que via, e que lhe parecia distante, estranho. Os azulejos coloridos que revestiam as paredes dos edifícios, e que eram mosaicos da vida dos antigos Ariga, brilhavam, incendiados pelo sol-poente. Os grandes arcos e colunatas, formadas por graciosas colunas em espiral, esculpidas na mesma pedra vermelha e reluzente, davam a ideia de uma raça majestosa e exaltada. As linhas simples e extensas da sua arquitectura eram o testemunho de um povo grandioso e nobre.

Era um efeito estranho. Tão simples e tão correcto! Sim, a palavra era essa. “Há aqui rectidão, totalidade...”, pensou ela. Que totalidade? Ainda não sabia. Só depois de se ver e de se sentir Dekra se percebia que faltava qualquer coisa de muito intenso no resto do mundo.

À sua volta, os curatak, contentes por os verem, por terem visitas, tagarelavam como crianças felizes. Esme sentiu-se lavada pela sua satisfação, que, como um aguaceiro de Primavera, a foi fazendo reviver e aquecendo por dentro... e o grande cubo de gelo que havia tanto tempo se achava enterrado no seu coração começou a derreter.

“Oh!”, pensou, “que sítio maravilhoso, fantástico. Ainda bem que vim.” Por alturas da chegada ao palácio do governador, estava ela a pensar: “Em verdade, esta é a cidade dos deuses. Nunca mais quero sair daqui.”

 

Para Pym, o interior do castelo de Askelon era extrema e inexprimivelmente remoto, como um castelo dos deuses nas distantes montanhas. Sempre que via os altos muros que se erguiam na grande rocha sobre a qual assentava o castelo, pensava como seria o seu interior.

Claro que já atravessara as portas uma vez por outra, por ocasião das suas visitas às cozinhas, onde fazia negócio com a criadagem do rei, mas nunca fora convidado a entrar no castelo propriamente dito, e aquela proximidade, mais do que diminuir, servia para aumentar a sua curiosidade.

Mas, naquele momento, parecia que iam permitir-lhe atravessar as portas interiores, entrar nas salas e câmaras e, quem sabe!, penetrar no grande salão do Rei Dragão. Por isso, despediu-se relutantemente de Tip, que foi forçado a deixar no pátio interior, virou-se e ficou à espera do camareiro que ia conduzi-lo lá para dentro. Resolvera ir ali à noitinha, depois de acabado o seu dia de trabalho, pois achava que os reis trabalhavam de sol a sol como os outros homens e que teria mais hipóteses de ser recebido quando o rei terminasse os seus afazeres quotidianos.

Normalmente, Oswald, filho de Oswald, o Ancião, que morrera alguns anos depois de Eskevar, nem sonharia em deixar entrar o pequeno amolador, que mandaria imediatamente para as cozinhas. Mas facto era que andava desesperado com o rei, que, cada vez mais deprimido, não saía da sua sala abafada, que mantinha fechada e escura como um túmulo.

Oswald receava pelo rei. Nem Theido conseguira qualquer mudança de comportamento em Quentin. Portanto, valia a pena tentar fosse o que fosse... até deixar entrar um amolador, que chegara às portas insistindo em ver o rei e afirmando que tinha informações importantes, que só o próprio Rei Dragão podia ouvir.

- Sou o Oswald, camareiro do rei - explicara. - O que queres?

Pym, que estava sentado num banco de pedra, mesmo por baixo da arcada da entrada principal do castelo, levantou-se rapidamente e avançou uns passos:

- Senhor, por favor, levai-me junto do rei. Temos um assunto urgente a comunicar a Sua Alteza.

- O rei nunca recebe ninguém que não me diga qual o assunto que o traz aqui - retorquiu Oswald friamente, esperando que o homem lhe desvendasse alguma coisa.

Pym coçou o queixo:

- Não posso dizer nada, senhor. Só ao rei. - Inclinando-se para a frente, confiou: - Mas posso dizer-vos...

- Sim? - Oswald fitou-o com um ar colérico, mas ele pareceu nem notar.

- ... que é muito, muito importante. Mesmo muito.

- E com que tem a ver essa informação tão importante?

- Só posso dizer ao rei, senhor. A mais ninguém.

Oswald percebeu então que o homem não arredaria pé sem ser recebido pelo rei. Além disso, parecia inofensivo e, quem sabe?, o amolador até talvez possuísse alguma informação que pudesse ser útil ao seu amo, embora isso fosse muito improvável. No entanto, havia sempre uma possibilidade e, nos tempos que corriam, não se podia descartar nem uma oportunidade, por mais remota que fosse.

- Como te chamas, senhor? - perguntou Oswald.

- Pym, senhor. Chamo-me Pym.

- Muito bem, Pyrn. Embora não devesse deixar-te entrar assim, vou fazê-lo. Mas se fizeres o rei perder tempo com disparates sem sentido ou com os boatos que se ouvem aí pelas aldeias, mercados e albergarias, mandar-te-ei expulsar imediatamente. Percebes? Nunca mais serás bem-vindo a Askelon! - Olhando severamente para o amolador: - Bem, ainda queres ser recebido por Sua Majestade?

- Quero, senhor - respondeu Pym, engolindo em seco.

- Continuas a afirmar que a informação que possuis só pode ser ouvida por ele?

- Continuo, senhor.

- Anda comigo.

Com estas palavras, Oswald, o jovem, girou nos calcanhares e afastou-se. Pym hesitou.

- Então? - perguntou Oswald. - Vens ou não?

 Pym assentiu com a cabeça e apressou-se a seguir o camareiro ao longo de um corredor largo e muito limpo, por onde andavam vários criados, cumprindo os seus afazeres. As paredes de pedra lisa e os tectos de traves de carvalho pareciam a Pym coisas de origem encantada. Até o mobiliário mais comum pelo qual ia passando o maravilhava, pois tratava-se de um mobiliário real. Aquela era a casa do Rei Dragão e aqueles os bens do Rei Dragão.

Passaram por inúmeras arcadas, entraram em salas com grandes portas esculpidas, atravessaram galerias onde se encontravam pendurados gigantescos tapetes cheios de arabescos e subiram e desceram escadas, penetrando cada vez mais no coração do castelo. PyM ficava mais excitado a cada passo que dava. Ia ver o rei!

Por fim, pararam num corredor curto com painéis de carvalho: os aposentos reais. Oswald dirigiu-se para uma porta que tinha esculpida a figura de um dragão terrível e serpenteante, lacada a vermelho. O camareiro pousou a mão no trinco e disse:

- Espera aqui. Vou anunciar-te.

Pym limpou o suor das palmas das mãos à parte de trás das calças e apoiou-se primeiro num pé e depois no outro. Se calhar fazia mal... talvez fosse melhor dizer tudo ao camareiro e deixá-lo decidir se o rei deveria ou não ouvir a sua história. Sim, sem dúvida. O camareiro que decidisse.

Mas antes de Pym ter tempo para mudar de ideias, o camareiro tornou a aparecer e puxou-o para dentro. Oswald fê-lo atravessar a primeira sala, onde havia cadeiras e uma mesa grande e comprida cheia de rolos com planos de edifícios e uma luzidia armadura pendurada no seu suporte, até uma porta que ficava do outro lado, e que dava para os aposentos privados do rei.

Oswald bateu levemente, abriu a porta e empurrou Pym para dentro.

- Majestade, está aqui o Pym, o amolador. - A porta fechou-se rápida e silenciosamente atrás de si, cortando-lhe a única saída que tinha.

Pym avançou vacilantemente, com os joelhos a tremer, os olhos ainda não habituados à escuridão e a cabeça estonteada com a temível lembrança de que estava na presença do poderoso Rei Dragão. Era quase mais do que conseguia aguentar.

Com a aproximação da noitinha, a albergaria encheu-se de gente, que conversava cada vez mais animadamente. No meio do tinido das canecas de cerveja, Ronsard, com o seu disfarce de trabalhador, observava e ouvia tudo o que se passava na sala enevoada e sombria.

Sentia que havia qualquer coisa no ar. Aliás, todos os que se encontravam reunidos no Ganso Cinzento também o sentiam. Pairava no ar a impaciência, uma inquietude em efervescência. A expectativa, ao princípio normal, intensificara-se tanto que zumbia como a corda de um arco. A ansiedade fazia tremer as vozes e dançava em todos os olhos.

Naquela noite, ia haver sarilhos.

Ronsard já vira estados de espírito daqueles em muitos homens. No campo de batalha, podia fazer com que destacamentos inteiros se enfurecessem de tal modo que só descansavam quando punham o inimigo em fuga. Mas essa fúria também podia virar-se contra si própria e acender chamas de medo, fazendo com que até os veteranos mais experientes se deixassem apoderar de um terror mortal, abandonando as suas armas. O desenrolar da situação para um ou outro lado dependia sempre do comandante.

Quem será o comandante?”, pensou. Seria o viandante de barba branca que o estalajadeiro mencionara?

Ronsard andava disfarçadamente de mesa em mesa, escutando o que se dizia e tentando determinar não só a causa daquele estado de espírito mas também o rumo que tomaria quando chegasse o momento da explosão.

- Estou-te a dizer que os deuses estão zangados - dizia um homem.

- A culpa é do rei. Não é preciso ser-se muito esperto para se ver isso - comentava outro.

- Não vale a pena ir-se contra eles. Não vale de nada.

- É mas é perigoso! Perigoso!

- Temos de fazer alguma coisa!

- A espada perdeu-se, sabias? A Zhaligkeer perdeu-se!

- Vai haver sarilhos. Isto tudo só nos trouxe problemas. Antigamente é que era bom!

- Também acho! Pelos deuses!

- A Brilhante desapareceu? O que quererá dizer isso?

- Que o reino não tem rei! É isso!

As conversas continuavam neste tom. De tudo o que Ronsard ouvia, havia uma coisa que o preocupava mais do que o resto: já se sabia que a espada desaparecera. E, se já não o sabiam, os inimigos do rei em breve o saberiam... nessa altura, começariam as escaramuças.

Quentin conseguiria aguentá-las? Normalmente, sim, mas não naquele momento, não no estado em que se encontrava.

Ronsard instalou-se num banco de trás e pôs-se a observar a sala como alguém olhando para um caldeirão prestes a levantar fervura. O forasteiro, o tal Barba Comprida, iria aparecer? E se não aparecesse... o que aconteceria? Ah, e o que aconteceria se aparecesse? Esta última hipótese era mais de temer.

Ronsard levantou-se e já ia pôr no balcão a caneca de cerveja que havia muito tinha esvaziado quando o Barba Comprida entrou. Ronsard não o viu nem o ouviu, mas soube que ele aparecera pela tensão que cresceu subitamente na sala, pelo arrepio que perpassou o ar cheio de fumo e desagradavelmente húmido e frio.

As vozes diminuíram de intensidade.

- Ele está cá! - disse uma voz ali perto.

- Está ali aquele de quem te falei.

- Sim, está aqui.

- Agora vamos saber o que havemos de fazer.

- O Barba Comprida vai-nos dizer o que havemos de fazer!

Os sussurros redemoinhavam em volta do velhote encarquilhado, como folhas secas em redor de uma árvore velha e curvada. O Barba Comprida comportava-se com todo o à-vontade. Se percebia a sensação causada pelo seu súbito aparecimento, não dava disso quaisquer sinais exteriores.

Ronsard observou-o a andar até ao meio da sala, abrindo caminho para o balcão. A albergaria encontrava-se num silêncio total. Todos os olhos estavam postos no velhote de barba e cabelo brancos e esvoaçantes. Observando. Esperando.

De repente, ouviu-se um grito:

- Barba Comprida! Estiveste com ele?

“Com quem?”, pensou Ronsard.

O Barba Comprida virou-se para o sítio de onde viera a voz e, falando normalmente, mas de modo a que todos o pudessem ouvir, replicou:

- Estive. Vim agora mesmo dos seus aposentos.

Um homem que se achava de pé ao seu lado, perguntou:

- Ele muda de ideias?

- Não. - O Barba Comprida abanou a cabeça lentamente, cheio de uma enorme tristeza. - Ele não muda de ideias.

- Então, temos de ser nós a resolver o assunto - gritou alguém do outro lado da sala.

- Diz-nos o que havemos de fazer - disse outra pessoa.

O Barba Comprida levantou as mãos:

 - Não me cabe a mim dizer-vos o que haveis de fazer. Sou um homem simples, como vós. Não sei nada de deuses nem de reis.

A compreensão daquelas palavras atingiu Ronsard como o golpe da parte lisa de uma espada. O rei! Ele estava a falar do rei! O “ele” que o Barba Comprida mencionara era Quentin.

Mas como era possível? Era muito improvável que aquele velho forasteiro de barba branca tivesse sido autorizado a ir à presença do rei. O Rei Dragão fechara-se nos seus aposentos e não recebia ninguém... nem sequer os seus melhores amigos, como Ronsard muito bem sabia. No entanto, o Barba Comprida dera claramente a entender que estivera com o rei e que este não mudaria de ideias. Não mudaria que ideias? Que jogo seria o daquela velha raposa? O que quereria ele?

“Tenho de falar a sós com ele”, pensou Ronsard. “Não sei como, mas tenho de o tirar daqui e de falar com ele sem ser ouvido por mais ninguém. Aqui está gente de mais e a situação pode ficar fora de controlo.”

Mas antes de Ronsard poder traçar o seu plano, um homem gritou:

- Arrasemos o Templo do Rei!

- Sim por todos os deuses! Arrasemo-lo - volveu outro.

Fizeram-se ouvir outras vozes, que gritaram a sua concordância. Os bancos viravam-se à medida que os homens se punham em pé de um salto. Num abrir e fechar de olhos, toda a gente estava em pé e, de punho no ar, clamava pela destruição do Templo do Rei.

“Então, esta é a centelha que acende a chama”, pensou Ronsard. “Mas tem de haver maneira de a apagar.” Olhando em volta, viu uma mesa vazia ali perto e saltou lá para cima.

- Amigos! - gritou no seu tom de voz mais severo e autoritário. - Amigos, ouvi-me! - O clamor que abanara a albergaria acalmou um pouco. - Escutai-me! - Levantando as mãos a pedir silêncio, passeou o olhar pelos rostos voltados para cima. Agora, já tinha a atenção de todos.

“Amigos, o que quereis fazer está errado. Além disso, é muito perigoso. Podeis ser feridos... muito feridos... ou até mortos. Não é de ânimo leve que se vai contra o rei. Pensais que ele não vai defender o seu templo? Quantos de vós quereis que as vossas mulheres sejam viúvas hoje à noite?

Ronsard reparou que alguns olhos se desviaram dos seus. “Que bom”, pensou. “Está a dar resultado. Mas, agora, tenho de lhes dar alguma coisa em troca.”

- Em vez disso, vamos mandar uma petição ao rei - sugeriu o cavaleiro. - Vamos exigir-lhe que nos explique a construção do templo. A petição pode ser a nossa voz.

Ouviram-se murmúrios de aprovação. As cabeças quentes arrefeciam face à lógica moderadora de Ronsard, que passou a manga pelo rosto, para limpar o suor.

- Por favor, por vós e pelas vossas famílias - continuou, num tom de voz mais razoável -, vamos sentar-nos todos e escrever a petição.

- Quando? - indagou alguém ali perto.

- Imediatamente... aqui e já!

- E depois? - perguntou a mesma voz.

- Depois, levá-la-ei pessoalmente ao rei. - “Sim, está a dar resultado”, pensou Ronsard. “Consegui evitar o desastre.”

Mas logo que acabou de o pensar, chegou-lhe um grito vindo do outro lado da sala. Quando levantou o olhar, viu o velho Barba Comprida em cima de uma mesa, apontando para ele.

- Mentiras! - berrou o Barba Comprida. - Mentiras! - Antes de Ronsard poder falar, o ancião gritou: - Algum de vós conhece este homem?

A multidão resmungou que não.

- Estais a ver? - guinchou o Barba Comprida. - É um homem do rei. Eu vi-o quando fui ter com o rei. Ele estava lá.

O rei mandou-o espiar-nos!

- Não, não é verdade! Só quero ajudar-vos.

- Homem do rei! - gritou atrás dele um camponês corpulento.

- É verdade, sou amigo do rei. Mas também sou vosso amigo. E aviso-vos: é melhor não irdes contra ele. Não tomeis...

Antes de Ronsard conseguir acabar de falar, sentiu a mesa sobre a qual estava de pé erguer-se e inclinar-se.

- Mentiras! Mentiroso! Já vais ver!

A mesa virou-se e Ronsard caiu ao chão. Ao tombar de lado, ficou quase sem ar. Arquejante, rodou sobre si e pôs-se de joelhos. Uma bota atingiu-o nas costelas. Um punho esmurrou-o atás da orelha. Ronsard tentou pôr-se em pé.

A sala começou a rodopiar. Custava-lhe respirar aquele ar pesado. Vozes altas zumbiam-lhe nos ouvidos, mas não conseguia ouvir o que diziam. Pés e punhos esmagavam-no.

Para se proteger, Ronsard enrolou-se todo e pôs os braços em cima da cabeça. Perto dele, caiu uma mesa, espalhando canecas de cerveja por todos os lados. Depois, a luz explodiu atrás das suas pálpebras cerradas. Os seus braços e pernas estremeceram convulsivamente até ficarem imóveis.

 

A refeição fora simples e alimentícia: pão, queijo branco, carne estufada, legumes e fruta. Esme, fascinada com Dekra, achara cada prato um acepipe e saboreara cada bocado que comera. Durante a refeição, falara pouco, mas escutara com atenção tudo o que se dissera à sua volta. As vozes pareciam cantar e retinir no ar, produzindo uma música fraca mas nítida, que lhe aquecia a alma. Depois de terem chegado aos seus aposentos, situados na ala dos hóspedes do Palácio do Governador, haviam tomado banho com água aquecida pelo sol. Aceitando as roupas limpas e novas que haviam posto à sua disposição, tinham envergado vestidos brancos com leves mantos de Verão azuis, que apertavam na cintura com fitas azuis e compridas. Depois, tinham descansado em camas limpas de penas e acordado muito frescas quando os seus jovens guias as tinham ido chamar.

Ao chegarem a casa do ancião Jollen, já as estrelas começavam a iluminar o crepúsculo e ouvia-se o som de música e risos vindo do pátio adjacente à sua habitação. Estavam lá muitas pessoas de Dekra, que tinham sido convidadas para darem as boas-vindas àquelas visitas tão importantes. Viam-se lanternas com velas no cimo dos muros e penduradas nas árvores. Umas pessoas encontravam-se sentadas numa mesa comprida que tinha sido trazida cá para fora e outras achavam-se instaladas em almofadas ou bancos dispostos ao longo do muro. Depois de terem comido, havia-se cantado e os anciões tinham contado histórias, para gáudio geral.

O serão passara como um sonho de felicidade e luz, de plenitude e paz. Para Esme, era uma paz que corria como um rio. Não se tratava apenas da ausência de preocupações, mas de uma confiança mais profunda e absorvente na rectidão última das coisas. Era como um rio que corre no seu leito, seja este rochoso ou liso, sem deixar que as pedras lhe estanquem o curso, inundando tanto as profundezas como os baixios, cobrindo tudo e continuando a correr.

Esme recebera tudo isto apenas olhando e escutando: olhando para os que a rodeavam e escutando o seu coração.

Quando, por fim, ficaram a sós com os anciões, e as princesinhas, dormindo a sono solto, foram levadas para a cama, Bria começou a contar a razão da sua vinda. Esme estava cheia de curiosidade de ver como os anciões recebiam as notícias e o que fariam a seguir.

“Estes anciões são homens invulgares”, pensava, ao vê-los assentirem gravemente com a cabeça. “A sua presença invoca uma aura de sabedoria e confiança.” Ainda uns momentos atrás, tinham estado a contar histórias engraçadas e a rir mais alto do que os outros. Sentavam-se ou andavam entre a sua gente sem quererem saber da elevada posição que ocupavam; aliás, faziam-no mais como servos do que como guias. Mas, naquele momento, solenemente sentados em conselho, escutavam com empatia e compreensão os acontecimentos que Bria lhes descrevia. Ouviam com toda a atenção, não como juízes, mas como amigos, umas vezes assentindo e outras abanando tristemente a cabeça. Por fim, a rainha acabou de falar:

- ...E foi por isso que viemos ter convosco. Não sabíamos o que mais havíamos de fazer - rematou Bria.

O ancião Orfrey, que fora o escolhido para substituir Yeseph, respondeu docemente:

- Fizestes bem. Ajudaremos em tudo o que pudermos.

- Ah, as formas que o mal assume! - exclamou o ancião Patur. - As trevas são muito inventivas no seu combate com a luz.

- Mas, no fim, impotentes - acrescentou o ancião Clemore.

- Sim, desde que o homem se recuse a entregar-se-lhes - interpôs o ancião Jollen.

- A batalha trava-se em todas as frentes e os homens são arrastados para a refrega, quer queiram quer não - disse Patur. - Pelos vistos, a batalha chegou mais uma vez a Askelon e ao rei. Mas é sempre assim: assim: as trevas temem os sítios onde a luz arde com mais brilho e, por isso, querem destruí-los.

- O que se pode fazer? - indagou Bria. Também Esme se perguntava o mesmo.

- Isso é com o Altíssimo - respondeu Clemore. - Vamos pedir-lhe que nos guie.

- Através da oração?

- Sim, através da oração - assentiu Patur. - Vamos fazer uma vigília pelo Quentin, pelo jovem Gerin, pelo Toli e pelos outros. Quanto ao Durwin, embora choremos a sua morte, alegrar-nos-emos pela sua entrada no reino do Altíssimo e rezaremos para que a sua recompensa seja grande. Vamos começar imediatamente.

Assim, os homens deram as mãos às mulheres e todos começaram a rezar. Esme, que nunca rezara daquela maneira, sentiu-se um pouco desajeitada ao princípio, mas, depois, descontraiu-se e concentrou-se nas orações dos anciões. Enquanto as escutava, sentiu qualquer coisa dentro de si; o ritmo do seu coração acelerou-se em resposta àquelas palavras, mas também a mais qualquer coisa: a uma presença invisível mas distinta. Era como se o Altíssimo tivesse ido sentar-se entre eles e participasse na sua oração.

Este pensamento fez Esme arrepiar-se toda. Um deus que andava entre o seu povo! Que estranho! Os deuses, distantes e desinteressados, viviam nas suas montanhas ou nos seus templos, eram servidos pelos homens, mas nunca os serviam, e tanto prejudicavam como ajudavam, segundo os seus caprichos.

Nesse momento, entregou-se ao Deus Altíssimo, pensando:

“Não conheço os vossos desígnios como os outros; mas, Altíssimo, se me receberdes, seguir-vos-ei, pois também eu quero conhecer-vos e servir-vos.”

Em resposta, teve Esme uma ligeira sensação de elevação, como se a sua alma estivesse a ser erguida. E soube assim que a sua oração fora ouvida e aceite. Apertando com mais força as mãos das pessoas que tinha ao lado, sentiu a vida gotejando-lhe novamente pelo coração, que estava seco havia tanto tempo.

Pym encontrava-se de pé, na escuridão dos aposentos do rei. Ouvia-o respirar devagar, ritmadamente, como um animal na sua toca, “Falo ou espero que ele se me dirija?”, perguntou-se.

O silêncio prolongou-se e tornou-se incómodo, mas o rei permaneceu calado. Pym pigarreou hesitantemente e continuou à espera.

- Então? - Da escuridão saiu uma voz que arranhava como a voz de um velho. - O que queres.

- Vim... - começou Pym.

Mas, antes de poder continuar, o rei gritou-lhe:

- Não me interessa porque vieste! Vai-te embora e deixa-me em paz!

De repente, o amolador viu o enorme vulto que tinha à frente pôr-se em pé e cambalear na sua direcção. Assustado, Pym recuou um passo.

- Vossa Majestade, não foi por mal! Não foi...

- Põe-te a andar! Não vês que quero estar sozinho?

Pym fez um gesto em direcção à porta.

- Não! Espera! Tens novas do meu filho? - perguntou o Rei Dragão, aproximando-se, agarrando nos ombros do amolador e respirando-lhe para cima da cara.

Pym encolheu-se todo, tanto devido àquele abraço como ao hálito repulsivo do rei.

- Não! Não trago novas dessas - tartamudeou Pym.

- Ora! - gritou o rei, largando-o com um empurrão que o fez voar.

Pym estatelou-se contra a porta e ficou petrificado. Com certeza que o rei não ia matá-lo, pois não?

- O que é? - berrou o rei selvaticamente. - Então? Desembucha! Perdeste a língua?

Antes de Pym ter tempo para responder, alguém bateu apressadamente à porta, que se abriu de repente, atirando o amolador pelo ar.

- Majestade! Vinde depressa! Vinde ver o que está a acontecer, Vossa Majestade! Depressa!

À luz que vinha da porta aberta, Pym viu o rei, com o rosto da cor da cinza, círculos negros por baixo dos olhos e as faces descaídas e chupadas. Parecia um espectro saído do túmulo e não um homem de carne e osso, com sangue quente correndo-lhe nas veias. Aquilo era o grande Rei Dragão?

Sem querer saber de mais nada, o rei passou por ele e saiu pela porta. Pym pôs-se em pé e espreitou pela abertura. Ouviam-se outras vozes retinindo nos corredores, mas Pym não lhes prestou atenção. Só queria ir imediatamente para bem longe, antes que o rei regressasse e voltasse a encontrá-lo ali.

Por isso, esgueirou-se da sala, voltou a atravessar os corredores agora desertos do castelo e, por fim, chegou à entrada, saindo para a noite fria e estrelada. Tip esperava-o deitada, com a cabeça metida entre as patas.

- Vamos para casa, Tipper - disse Pym ainda abalado pelo que lhe acontecera. Tip abanou a cauda. - Vamos já direitinhos para o Ganso Cinzento.

Lançando um último olhar para trás, atravessou o pátio interior, passou o portão, entrou no pátio exterior e dirigiu-se à casa da guarda. As grandes portas estavam fechadas, mas encontrava-se um guarda perto de uma mais pequena, ainda aberta dentro das maiores.

Sem dizer nada, Pym apressou-se a continuar, atravessando o túnel da casa da guarda, iluminado pela luz das tochas, em direcção à imensa ponte levadiça. Só abrandou o passo quando chegou à rampa. Sentia-se como um malfeitor escapando das masmorras do castelo para a liberdade. Depois, foi caminhando pelas ruas. AO virar para a albergaria, ouviu um ribombar semelhante ao som de um trovão distante, transportado pelo vento. Parando, pôs-se à escuta.

Aí uns dez homens dobraram a esquina aos gritos, segurando tochas gordurosas e fumarentas, passaram por ele de raspão e afastaram-se pela rua estreita abaixo. Ao entrever os seus rostos descompostos e contorcidos, Pym percebeu logo que não iam com intenções de fazer bem a ninguém.

Enquanto os observava, desaparecendo por uma rua lateral, estremeceu todo. Lá ao longe, nas ruas vazias, ecoaram gritos. Consternado, Pym abanou a cabeça.

- É verdade, passa-se qualquer coisa, Tip. O camareiro Oswald tinha razão. Anda, menina. Não está noite para andarmos cá fora.

Apressaram-se a voltar ao Ganso Cinzento. Na distância, ainda se ouvia um ribombar intermitente. Já não se tratava de trovões, mas sim de tambores rufando antes do embate inevitável.

 

Quando Theido chegou ao local, com um pequeno destacamento de cavaleiros, a destruição era quase total. Já tinham caído três paredes e a quarta vacilava sob a pressão das cordas e dos varapaus empunhados por dezenas de habitantes da cidade, tomados de um enorme frenesi.

- Senhor, chegámos tarde de mais - disse o cavaleiro postado à direita de Theido. O seu rosto bruxuleava à luz brilhante das tochas. - Quereis que os dispersemos?

Theido olhou para os homens que berravam e corriam, tomados da raiva da destruição. Nesse momento, a camada superior de pedras da última parede cedeu e caiu ao chão com tanta força que o solo abanou e vibrou como um tambor.

- Não, ainda não, porque pode haver feridos - replicou Theido. - Não quero ninguém morto. O mal já está feito.

- Devíamos fazer alguma coisa - insistiu o cavaleiro. - O Templo do Rei... - Deixando a frase por acabar, apontou desesperadamente para os escombros.

- O que queres que façamos? - inquiriu Theido em voz zangada. - O mal já está feito! Não serão umas quantas cabeças rachadas que salvarão seja o que for! Olha para ali... a cidade inteira enlouqueceu! - Theido fitou a multidão. As cordas serpenteavam no ar e os varapaus empurravam as pedras. Quando caiu mais uma secção inteira de parede, os gritos transformaram-se num cântico ululante. Ouviu-se uma aclamação, semelhante ao grito de um animal.

Theido ordenou com um ar fatigado:

- Manda os nossos homens cercarem-nos. Depois, que os dispersem. Não podemos admitir que esta loucura se espalhe. Diz-lhes que não hesitem em usar a parte lisa das espadas... mas não quero ferimentos desnecessários. Entendido? - O cavaleiro fez que sim com a cabeça. - Então, vai tratar disso. Eu regressarei imediatamente ao castelo.

Das ameias mais altas, Quentin, tomado de uma agonia muda, observava o assalto ao seu templo. A colina na qual estava a ser construído ardia com a luz das tochas e, embora ainda ficasse a alguma distância do castelo, chegavam-lhe distintamente aos ouvidos os gritos dos habitantes da cidade. O rei viu a massa agitada que rodeava as paredes e viu as pedras do seu grande templo caírem ao chão.

Os que estavam com ele não diziam nada, pois tinham medo de falar e do que ele poderia fazer. A luz fria e artificial que lhe iluminava o rosto desfeito dava-lhe um aspecto feroz, quase selvagem. Com os músculos tensos, os membros rígidos, as veias do pescoço e da testa salientes e os olhos quase saltando das órbitas de horror, parecia pronto a galgar as ameias a qualquer momento ou a esquartejar quem quer que se aproximasse dele.

Imóvel como uma pedra, Quentin via o seu sonho desmoronar-se perante os seus olhos. Cada pedra que caía por terra era um pedaço de si que lhe arrancavam. Mas não podia fazer nada. Só olhar e sentir a ferida que tinha na alma aprofundando-se com cada secção de parede que ruía.

Quando a última tombou nos escombros, com um grande estrondo, virou-se e, sem dizer uma palavra, voltou aos seus aposentos, onde Theido o foi encontrar, sentado às escuras.

Tirando uma vela do seu castiçal na antecâmara, o robusto cavaleiro aproximou-se do rei. Deslocando-se sem fazer barulho, como se temesse perturbar a meditação do seu monarca, acendeu as velas que estavam na mesa e as que se encontravam em suportes espalhados pela sala.

Quando acabou, pôs a vela que tinha na mão num castiçal pousado em cima da mesa e foi postar-se à frente do rei. Quentin não olhou para ele; estava muito longe dali.

- Não pudemos fazer nada - disse Theido docemente. - Agora, serão dispersados e mandados para casa.

O Rei Dragão não falou durante muito tempo. Theido ficou à espera, sem saber se o rei o ouvira. o silêncio esticava-se entre eles como uma teia.

- Porquê? - perguntou Quentin por fim. Tinha a voz rouca imensamente infeliz.

Theido fitou o amigo, sabendo que ele estava a ser devorado por dentro. Quando a dor se tornou insuportável, o cavaleiro desviou o olhar. Não tinha nada para dizer que pudesse aliviar o sofrimento do rei.

- Antes, houve sempre um sinal - disse Quentin, falando mais para si próprio do que para Theido. - Antes, o caminho foi-me sempre mostrado claramente... quando eu mais precisei que mo mostrassem. Sempre, - À luz das velas, os anos pareceram recuar do rosto do rei, que voltou a ser o jovem acólito do templo que Theido conhecera na cabana do eremita, havia muitos anos. Até a sua voz foi perpassada pelo tom lamentoso de um rapazinho perdido: - Onde está ele agora? Onde está o sinal? Porque é que ele me abandonou? - As palavras pairaram no silêncio, sem resposta.

“Sabes, Theido, eu vi-o. - Quentin olhou para o amigo como se só naquela altura tivesse dado por ele. As palavras seguintes saíram-lhe de sopetão: - Vi-o quando a Zhaligkeer atingiu a estrela e a luz da nova era pegou fogo à terra, afastando as trevas.

- Viste o quê? - perguntou Theido, falando como a uma criança.

- O templo, A Cidade da Luz que eu ia construir. O Altíssimo mostrou-me a sua Cidade Santa. Eu senti a sua mão sobre mim... - Fazendo uma pausa, lançou a Theido um olhar de abandono. - Mas acabou-se. Ele deixou-me. Estou condenado.

- Condenado? Quem pode condenar-te? Cumpriste sempre com o teu dever perante o deus. Mais do que os outros, viveste sempre de acordo com os seus desígnios. O Durwin disse que foste escolhido.

- Quer dizer, marcado! Marcado para o fracasso. O Durwin morreu e o deus abandonou-me. Se fui condenado, a culpa é minha. Eu matei-o, Theido. Matei-o. Eu, o Rei Dragão, abati-o como se abate um cão raivoso. Matei-o, e o Altíssimo castigou-me com o meu fracasso.

Theido só podia pensar que Quentin estava a referir-se a Durwin.

- Claro que não o mataste, Como podes pensar isso?

- É verdade! juro que é verdade! - gritou Quentin, levantando-se de repente. - Matei-o, e a chama apagou-se! Apagou-se na minha mão! A luz desapareceu, Theido. Desapareceu.

Sem perceber nada, Theido deixou-se ficar a olhar para o rei, confundido, por esta explosão, que pensou não passar do delírio incoerente de um louco.

Quentin tapou o rosto com as mãos. Os seus ombros começaram a elevar-se e a baixar-se, mas, ao princípio, não saiu nenhum som. Depois, Theido ouviu os soluços.

- Trevas! - disse ele a chorar. - Só trevas!

 - Ooh! - gemeu Ronsard, tentando abrir os olhos. Mas só um se abriu; o outro estava inchado e fechado devido ao pontapé que levara. Tinha o corpo todo magoado e, de cada vez que respirava, sentia-se atravessado por pontadas de dor.

- Calma... calma, Não te levantes muito depressa - disse-lhe uma voz ao ouvido.

Ronsard virou o olho bom na direcção de onde viera o som e viu o rosto de Milcher, o estalajadeiro, que, inclinado sobre ele, lhe segurava os ombros.

- A minha mulher já foi buscar um pano frio para pores na cabeça. Não te preocupes. Deixa-te estar aí sentado.

Ronsard olhou em volta. Os bancos encontravam-se caídos e as mesas tombadas, mas não se via nem uma das muitas pessoas que lá estavam antes.

- onde estão eles? Para onde foram?

- Não sei nem quero saber. - Milcher pegou numa caneca e levou-a aos lábios de Ronsard. - Bebe um pouco para limpares as teias de aranha que tens na cabeça.

Ronsard agarrou na caneca e bebeu um gole de cerveja fresca, qie sentiu picar-lhe na língua. A bebida retemperou-o um bocado, aclarando-lhe as ideias.

- Quem é ele?

- Senhor? - Milcher pestanejou.

- Sabes... o Barba Comprida, Quem é? De onde veio? - Ronsard fez menção de se levantar, mas o esforço custou-lhe uma explosão de dor na cabeça. - Ooh!

- Cuidado. - Milcher segurou-o por baixo dos braços e ajudou-o a pôr-se em pé.

A rechonchuda mulher de Milcher regressou, mandou o cavaleiro sentar-se numa cadeira e comprimiu-lhe o pano fresco contra a cabeça magoada. Ronsard bebeu mais uns goles de cerveja.

- Que confusão! - exclamou ela indignada, dando um estalido com a língua.

- O que aconteceu aqui? - perguntou outra voz. Erguendo o olhar, Ronsard viu o amolador entrando na albergaria e caminhando na sua direcção.

- Houve uma desordem - explicou Milcher. - Ficaram todos num tal frenesi! Nunca vi uma coisa assim.

Emm carregou o cenho:

- E mesmo na altura em que virei as costas! - Disse-o como se o marido tivesse culpa do que se passara na sua ausência. - Este senhor - indicou Ronsard - tentou fazê-los ver as coisas... e vê o que aconteceu: partiram-lhe a cabeça.

Pym limitou-se a assentir tristemente. Típ inclinou a cabeça e ganiu.

- Bem, não é a primeira vez que me partem a cabeça quando estou ao serviço do rei e, verdade seja dita, também não deve ser a última - replicou Ronsard.

- O quê? - perguntou Milcher com um ar desconfiado.

Lembrando-se do seu disfarce. Ronsard encolheu os ombros e retorquiu:

- Sou um homem do rei. Chamo-me Ronsard.

- O comandante-chefe! - arquejou Milcher. - Lembro-me de vós.

- Já não sou... mas ando ao serviço do rei. Não quis prejudicar ninguém com o meu disfarce. Como queria saber o que se diz pela cidade, vim aqui assim porque achei que as línguas se soltariam mais se não houvesse nenhum nobre por perto. - Fitando Milcher com um olhar severo: - E o Barba Comprida?

Conta-me tudo o que sabes dele.

- Não sei nada que já não tenhais ouvido, senhor. Chegou aqui como qualquer forasteiro, bebeu pouco, falou com algumas pessoas e foi-se embora, dizendo que talvez voltasse. Como vos contei, afirmou que tinha uns assuntos a tratar em Askelon.

- Então, o que é que eles - com um gesto de cabeça, indicou a multidão inexistente - queriam dizer quando lhe perguntaram: “Estiveste com ele? Ele mudou de ideias?” Aposto que se referiam ao rei.

- Não sei, senhor. Só sei o que vos contei. Os estalajadeiros não são responsáveis por todas as conversas que se travam dentro das suas paredes. A minha casa tem bom nome.

- Não duvido disso - replicou Ronsard. Milcher estava a ficar zangado e não havia razão para o irritar ainda mais; a tensão dos acontecimentos da noite anterior afectava-os a todos. - Irei saber mais do Barba Comprida noutro sítio. Mas, se souberes mais alguma coisa, tens de me informar.

- Assim será - anuiu Emm sombriamente, ajudamdo Ronsard a levantar-se. - Estai descansado. Eu tratarei disso.

- Desculpai... - começou Ronsard.

- Não houve estragos. Pelo menos, não houve nada que não se possa arranjar. Ide para a cama descansar a cabeça - disse Milcher, acompanhando-o até à porta.

O cavaleiro saiu para o ar fresco da noite. A rua estava vazia e muito calma. Mas pareceu-lhe que se tratava de uma calma pouco natural. Ronsard sabia que a violência andava à solta no mundo; sentia-a bem dentro de si, tão intensamente como sentia os ferimentos que recebera. Quando começou a afastar-se pela rua, lembrou-se de que deixara o cavalo no estábulo de Milcher, situado atrás da albergaria.

 

Bria acordou muito antes de o Sol se elevar acima das montanhas verdes que rodeavam Dekra. Depois de se vestir sem fazer barulho, saiu para o varandim, onde ficou na madrugada líquida, já de um dourado pálido a oriente.

“Outro dia”, pensou. “Que prodígio! Algures, o meu filho também despertará do seu sono. Altíssimo, não o abandoneis. Reconfortai-o e dai-lhe forças. E ao meu marido também. Obrigado. Muito obrigado.”

Bria sentiu, com uma certeza inabalável, que a sua oração fora ouvida e atendida. “Aqui em Dekra”, reflectiu, “é fácil acreditar que as orações são sempre atendidas.” Nunca nada de mau atingia Dekra, que permanecia sempre a salvo dos problemas do mundo.

Tinham ficado muito tempo a rezar com os anciões. Haveria mais súplicas nesse dia e nos dias seguintes... enquanto fosse preciso. Sentia-se grata por isso e pelo amor que sentia da parte dos amáveis Curatak.

Mas parecia-lhe estranho estar ali naquela cidade, na cidade de Quentin, sem Quentin. Sempre tinham ali ido juntos. Sorriu ao lembrar-se da primeira vez que ele a levara a Dekra, a correr de um lado para o outro, contando-lhe o que estava a fazer, revelando-lhe os seus projectos e mostrando-lhe tudo o que via. Nessa altura, eram jovens, estavam apaixonados e iam casar-se em breve. Quentin fora coroado havia pouco tempo e os sonhos que tinha para o reino ardiam nele com tanta intensidade que nem por um momento conseguia ficar quieto.

Nos primeiros tempos, iam lá muitas vezes. As viagens tinham acabado com o nascimento do primeiro filho. Um filho, depois outro e mais outro... Apesar de já ser mais fácil, visto as crianças estarem crescidas, havia muito tempo que não pensavam em ir à antiga cidade em ruínas.

Mas Quentin também tinha o templo. A sua construção obcecava-o tanto que se atirara de cabeça e esquecera Dekra. Aliás, teria abandonado completamente a sua cidade se não fosse a morte de Yeseph. Que tempos tão tristes! Sem Durwin, Bria não sabia o que Quentin teria feito. O funeral do ancião curatak fora simples e nada triste... nada parecido com o que é vulgar nos enterros. Tal como no funeral de Durwin, houvera uma certa sensação de alívio, quase de alegria. Ali estava um servo do Altíssimo, que finalmente fora libertado para se apresentar perante o seu tribunal, para caminhar com o seu Criador e glorificar a sua presença. Que tristeza poderia haver nisso?

No entanto, para Quentin tinham sido tempos muito confusos, principalmente porque a morte de Yeseph fora inesperada. Haviam-no encontrado à sua mesa de trabalho, na grande biblica que amava tanto, com a cabeça pousada num manuscrito, como se estivesse apenas a descansar. No dia anterior, falara com todos os seus melhores amigos, como se soubesse que ia morrer e quisesse despedir-se de cada um deles em particular.

Mas Quentin não estava lá. Yeseph morrera sem voltar a vê-lo, e fora talvez este o facto que Quentin mais lamentara.

- Eu devia ter estado com ele - repetira Quentin vezes sem conta. E por mais que Bria lhe houvesse dito que ele tinha deveres e assuntos de Estado a tratar em Askelon e que não podia adivinhar o que ia acontecer, Quentin ficava carrancudo e respondia que nunca quisera Askelon.

Bria dera um grande suspiro de alívio quando Quentin começara a construção do novo templo, pois o antigo fogo voltara-lhe quase de um dia para o outro. Mas também nunca mais mencionara Dekra, pelo menos não como dantes.

- Este sítio é mesmo diferente? - A voz que ouviu atrás de si arrancou-a do seu devaneio. Esme aproximou-se e sentou-se ao seu lado no parapeito. - Não te ouvi chegar! Estava a sonhar acordada - respondeu Bria com um ar ausente. Suspirando, sorriu à amiga.

- Nada de triste, espero.

- Triste? porquê?

Esme encolheu os ombros.

- A tua expressão pareceu-me triste, mas aqui nunca ninguém deve andar triste. - Virou os olhos castanho-escuros para a rainha, que notou um brilho novo nas suas profundezas.

- É, é um sítio diferente - retorquiu Bria. - Diz-se que é um dos últimos lugares de poder da Terra, mas julgo que tem menos a ver com isso do que as pessoas pensam.

- Sim? - Pousando o queixo na mão, Esme olhou sonhadoramente para a luzidia vertente da montanha. O orvalho começava a cintilar aos primeiros raios de luz da manhã. - Então o que é responsável pelo que sinto aqui? Há um encanto que entrança a sua magia com a alma.

- É fácil - replicou Bria. - Diz-se numa só palavra.

- Então, diz qual é, que quero ouvi-la.

- Amor.

- Amor?

- Sim. Há aqui um amor que raramente se encontra na Terra. Talvez se veja nas famílias, decerto que, às vezes, se verifica entre marido e mulher, mas quase nunca existe no mundo em geral. Aqui, o amor governa tudo. Tudo. O amor e a presença continuamente praticada do Altíssimo.

Esme lançou à amiga um olhar de interrogação.

- O Yeseph explicou-mo uma vez. Disse que, na verdade, o Altíssimo está sempre presente junto da sua criação, de nós. Mas, se não praticarmos a sua presença, esquecemo-lo muitas vezes... afastamo-nos dele. isto é, precisamos de o ter sempre connosco, tanto nos nossos pensamentos como nas nossas acções.

“Pois não é o Altíssimo que nos esquece; somos nós que o esquecemos a ele. Somos feitos assim, o que é, talvez, um defeito, que torna a fé necessária. E a fé é a maior dádiva do Altíssimo. Portanto, até nisso ele nos salvou.

- Estou a perceber: salvou-nos de nós próprios. - Esme contemplou a luz do dia subindo no céu e as sombras da noite retirando-se das planícies arborizadas como o afastar de um véu fino e transparente. - É o amor que dá às coisas mais comezinnhas, como àquele nascer do Sol, uma beleza assim tão grande? É o amor que me faz sentir que, até agora, vivi na sombra?

- É, é o amor e o conhecimento do Altíssimo.

- Mas eu sei muito pouco do Altíssimo. Como posso sentir-me assim?

- Conhece-lo no teu coração. O Durwin costumava dizer que todos os homens nascem com o conhecimento do Altíssimo nos seus corações. O que temos é de passar mais tempo a lembrar e menos a esquecer o que já sabemos.

- De hoje em diante, passarei o tempo a lembrar-me disso - afirmou Esme resolutamente.

Quentin cavalgou até aos escombros do templo logo que houve luz suficiente para se ver alguma coisa. O céu estava escuro: as nuvens cinzentas e baixas formavam uma capa dura sobre a terra, impedindo a entrada da luz do Sol. Caía uma chuva miudinha que salpicava tudo.

Embora já soubesse o que ia encontrar quando chegasse ao local da construção, Quentin ficou estarrecido com a dimensão da destruição.

Nem uma pedra ficara em cima de outra. As paredes tinham sido empurradas para dentro e haviam tombado umas sobre as outras... eram secções inteiras caídas, esmigalhadas, quebradas pela força da pedra batendo na pedra. Os andaimes de madeira e os suportes das paredes não passavam agora de cavacos para o lume. Aqui e ali, via-se uma trave partida espetada nos escombros, que parecia um galho que estalara ao ser pisado. Os escombros branco-acinzentados formavam uma grande pilha, semelhante a um túmulo... o túmulo do Altíssimo. Ou o túmulo de um rei.

Passando por cima das pedras caídas, Quentin caminhou para os escombros e subiu a pilha de cascalho. Intactas entre os destroços, encontravam-se espalhadas várias ferramentas: um martelo de canteiro, uma pá de pedreiro, um nível... o facto de não estarem estragados devia querer dizer alguma coisa, mas não sabia o quê.

Quando chegou ao centro da pilha, pôs-se a examinar os estragos. Só ficara de pé uma única coluna, da altura de um homem, que marcava um canto exterior do templo. Avançando até este solitário vestígio do seu sonho, Quentin observou-o tristemente, pôs-lhe as mãos em cima e acariciou a superfície fria e lisa. Como estaria ainda de pé? Como escapara? O mais provável era que, com a febre da destruição, ninguém tivesse reparado nele. Quentin encostou-se à coluna e empurrou-a com toda a força, até ela ranger, dar de si e cair para o monte de escombros. As pedras partiram-se, rolaram com um barulho surdo e imobilizaram-se.

“Pronto”, pensou Quentin. “Agora, a destruição é total.” Afastando-se, caminhou para o sítio onde deixara o cavalo e subiu imediatamente para a sela, sem olhar para trás. Enquanto descia o outeiro a galope começou a chover. Era uma chuva miudinha e triste. Parecia que os deuses queriam ridicularizá-lo, vertendo uma falsa compreensão sobre os destroços da sua antiga e gloriosa visão.

Quando a faixa oblíqua de luz começou a atravessar o chão da cela, Toli levantou-se e pôs-se a andar de um lado para o outro. O príncipe Gerin ainda dormia sossegadamente, como se estivesse na sua cama, no castelo do seu pai. Toli observou-o e sorriu ao pensar como era maravilhoso ser criança e possuir apenas a tolerância limitada das crianças. “Mas será a sua tolerância que é limitada ou, pelo contrário, aguentarão mais do que os adultos?”, pensou. “Seja como for, as crianças não se deixam dominar pela aflição durante muito tempo. Desembaraçam-se dela como de uma capa indesejável num dia quente de Verão. Quando seria que aprendemos a usar essa capa sufocante?”

Depois de acordar, Toli pensara num plano. Por isso, naquele momento, dava voltas à cabeça, examinando-o de todos os ângulos, até ter a certeza do que queria fazer. Quando, por fim, se resolveu, foi até à pesada porta de carvalho da cela e bateu várias vezes com a palma da mão. Depois de uns momentos de espera, bateu novamente.

Dali a pouco, ouviu alguém dirigindo-se apressadamente para a cela.

- O que é? Está quieto - disse uma voz do outro lado.

- Quero falar com o sumo sacerdote!

- Não! Está quieto... tenho as minhas ordens.

- Quero falar com o sumo sacerdote! Como seu prisioneiro, tenho esse direito! - Toli começou a bater outra vez.

- Não faças barulho! Vais arranjar-nos sarilhos aos dois.

Cala-te! - ordenou o homem numa voz assustada.

- Quero falar... - começou Toli, calando-se ao ouvir o ferrolho a deslizar na porta.

A porta rangeu nos gonzos de ferro. Um guarda do templo enfiou a cabeça pela abertura. Os seus olhos inchados de sono fitaram colericamente o prisioneiro.

- Cala-te! Queres acordar o templo inteiro e meter-me num sarilho?

Com a rapidez de um gato, Toli deu um salto em frente e fechou a porta, entalando a cabeça do guarda entre esta e a ombreira.

- Au! - exclamou o guarda, quando a porta lhe apertou o pescoço.

- Agora, cala-te tu e ouve! - ordenou Toli firmemente. - Se tens amor à cabeça, faz o que te digo. Quero falar imediatamente com o sumo sacerdote. Vai tratar disso, estás a ouvir?

- Ui... e se eu não for? - arquejou o homem.

Toli apertou-lhe mais a porta contra o pescoço e ouviu as mãoos do homem arranhando do outro lado, em busca de um apoio.

- Nesse caso, estarei à tua espera quando cá voltares com a comida - respondeu. - E, da próxima vez, esmagar-te-ei a garganta com esta porta.

- Bolas! - resmungou o homem. - Solta-me... farei o que queres.

- Ainda bem. É melhor que o faças, senão... - Deixou a ameaça pairando no ar.

O guarda fez um esgar e Toli foi fazendo menos força, ao mesmo tempo que se afastava da porta. O homem não perdeu tempo libertou logo a cabeça, bateu com a porta e correu o ferrolho Ouvindo os seus pés descalços batendo na pedra enquanto se afastava depressa, Toli sentiu que ganhara a partida. Sim, o quarda era um cobarde e faria o que o jher lhe havia ordenado. Disso não tinha dúvidas. Quanto ao sumo sacerdote, a história era outra, pois não se deixaria persuadir assim tão facilmente. Tratava-se de um homem tão untuoso como a pedra sagrada que os sacerdotes diligentemente ungiam. Toli teria de o levar de uma maneira completamente diferente: não com ameaças, mas com promessas. E ele bem sabia o que havia de lhe prometer.

 

- É como temíamos - disse Theido. - Vieram em força.

- Quantos são? - perguntou Ronsard, com a face de um preto arroxeado, devido a uma escoriação que tinha por baixo do olho esquerdo. Estava muito direito, pois doíam-lhe os músculos todos.

- Seis. E, ao que parece, viajaram toda a noite. - Embora a porta que dava para a câmara do conselho estivesse fechada e os que se encontravam lá dentro não o pudessem ouvir, o alto cavaleiro falou baixinho.

- Não perderam tempo - fungou Ronsard. - Parecem aves de rapina, Theido... abutres que vieram alimentar-se da carne dos que sofrem. - Lançando um olhar colérico através da parede de pedra aos que tinham acabado de chegar e que esperavam lá dentro: - O que havemos de fazer? O rei não pode recebê-los.

No estado em que se encontra, isso está fora de questão.

- Talvez não - replicou Theido pensativamente.

- Não deves estar a falar a sério! Queres deixar o rei enfrentá-los?

- Talvez lhe faça bem, Uma boa briga com estes chacais até pode arrancá-lo do desespero em que se encontra.

- E também pode acabar com a razão que lhe resta.

Theido assentiu gravemente:

- Talvez, mas não sei o que mais havemos de fazer. Não podemos deixá-los ali eternamente à espera. Mais tarde ou mais cedo, verão o rei. Não podemos nada contra isso. Suponho que o Quentin não tem outro remédio senão enfrentá-los.

- Pode sucumbir...

- Não por causa deles. - Theido fez um gesto de cabeça na direcção da porta da câmara do conselho. - Não assim. Mas eles têm o poder de convocar um Conselho de Regentes. Se conseguirem mais cinco votos para a sua causa podem fazê-lo.

Ronsard fez gravemente que sim com a cabeça:

- Isso já alguma vez aconteceu?

- Aconteceu há muito tempo... uma ou duas vezes. Dariam o rei por interdito...

- O que não seria difícil...

- E teriam de unir as suas forças e apoiar um dos seus. Pô-los todos de acordo quanto a quem deveria ser o novo rei é que era capaz de ser mais difícil. Há por aí muitos senhores orgulhosos que acham que são a única escolha acertada.

- Então, temos a vaidade por aliada... graças ao Altíssimo!

Theido assentiu com a cabeça e passou a mão pelo cabelo, com o ar de um homem a quem não agrada nada dar o próximo passo, necessário mas, possivelmente, fatal, para atravessar uma cheia de armadilhas.

- Vai lá - incitou Ronsard. - Tem de ser. Eu ficarei aqui e tê-los-ei debaixo de olho até tu regressares.

- E reza, Ronsard. Reza para que o rei consiga defender-se deste ataque.

Pym caminhava mais rapidamente do que o costume, devido à falta da sua habitual bagagem. Mas o tinir e o martelar dos seus potes e ferramentas faziam-lhe falta, pois constituíam o seu acompanhamento musical para onde quer que fosse. Às tantas, limpou a humidade do rosto. Pelo menos, a chuva parara e o céu parecia estar a querer ficar mais limpo; aliás, já estava mais azul para oriente.

- Vês, Tip? - disse o amolador. - Daqui a pouco, já teremos sol. Sim senhor. já não teremos de andar à chuva, hã?

A cadela preta levantou a cabeça para o dono e ladrou uma vez, mostrando o seu contentamento por andar novamente na estrada.

- Foi horrível, Tip. Horrível. Havias de ter visto o rei. Estava sombrio e desfeito... parecia mais um monstro do que um homem. Nunca vi ninguém assim! Não senhor. Ai não, não. Ali fechado, como um prisioneiro... E isso: um prisioneiro.

Pym abriu muito os olhos ao recordar a audiência que tivera com o Rei Dragão.

- O que faz um homem ficar assim, Tip? O quê? Pois eu digo-te: a espada! É, a sua perda enlouqueceu-o. Ai foi, foi. Não achas, Tip? Ter perdido o filho e a espada pô-lo louco como um cão mordido por uma vespa. É, é. Temos de levar a espada ao rei, Tip. A espada que encontrámos deve ser dele... se não for, talvez sirva na mesma. Temos de lha levar, Tip.

O amolador e a cadela tinham saído do Ganso Cinzento depois de um dos deliciosos desjejuns de Emm e posto o pé na estrada que seguia para sul, na direcção de Pelgrin e do lugar onde Pym escondera a espada que encontrara.

- O rei precisa de uma espada, Tip. E nós vamos dar-lhe uma, não vamos? Ai vamos, vamos - dizia, enquanto caminhava.

Quando ouvira dizer na albergaria e por toda a cidade que o rei perdera a espada, convencera-se que a que encontrara na estrada pertencia ao Rei Dragão. Pym percebera que se tratava de uma arma valiosa logo que a vira a brilhar na poeira. Agora, tencionava retirá-la do seu esconderijo e levá-la ao rei; fora isto mesmo que quisera dizer a Sua Alteza. - Mas o rei estava num tal estado, Tip! Nem consegui falar com ele... estava doido varrido. Depois, o camareiro Oswald apareceu a dizer que havia sarilhos e eu vim-me embora. Pus-me logo a andar dali para fora, Tip. Aquilo não é lugar para um amolador como eu. Ai não é, não. Vim-me embora todo contente. E havia mesmo sarilhos! Ontem à noite, deitaram abaixo o Templo do Rei, Tip. Atiraram as paredes ao chão. É por isso que temos de ir buscar a espada, Tip. O rei precisa dela. Precisa mesmo muito.

Na sua simplicidade, Pym atribuía a responsabilidade dos lamentáveis acontecimentos do reino à perda da espada do rei. Achava que, quando a devolvesse, tudo se endireitaria. Ao acreditar nisto, não era diferente do resto da população de Mensandor, que pensava que o poder do rei estava na Brilhante e que era a posse da chamejante espada que lhe dava o direito de governar.

Havia muito que o facto de o próprio Eskevar ter escolhido Quentin para seu herdeiro e sucessor deixara de ter qualquer significado na imaginação do povo. Era a Zhaligkeer, a espada encantada, que fazia de Quentin rei. Sem a espada... bem, quem sabia o que poderia acontecer?

 De costas voltadas para a porta da cela, Toli observou a mancha oblonga de luz atravessando o chão e começando a subir pela parede oposta. Nessa altura, ouviu os passos do guarda, que regressava. O príncipe Gerin encontrava-se sentado no canto da cela que fazia as vezes de cama, com um ar muito deprimido, de queixo pousado nas mãos e os ombros elevando-se e baixando ao ritmo da respiração.

- Voltarei daqui a pouco... talvez com a liberdade - disse Toli.

O ferrolho deslizou, os gonzos rangeram e o guarda enfiou o pé pela abertura da porta.

- Para trás - avisou. Toli afastou-se. - Assim é melhor. Ele vai receber-te. Segue-me... já sabes, se tentares alguma coisa, tenho ordens para te deter por qualquer meio. Ouviste? - O guarda do templo esfregou o pescoço dorido, que tinha uma mancha vermelha no sítio onde a porta o apertara.

- Ouvi - respondeu Toli. - Leva-me até ao sumo sacerdote.

O guarda fez um gesto de cabeça a Toli para que seguisse à frente, esperou que ele saísse para voltar a aferrolhar a porta e conduziu-o aos aposentos de Pluell. juntou-se-lhes um outro guarda, com ordens para os acompanhar, não fosse Toli tentar fugir.

Os guardas empurraram Toli pelos corredores frios. escuros e húmidos como masmorras, pois havia mil anos que a luz do sol não entrava no templo, e pararam em frente de uma porta larga, em arco. O guarda bateu uma só vez com a argola de ferro que estava presa na porta.

- Entrai - disse uma voz lá de dentro.

O guarda abriu a porta e empurrou Toli à sua frente. Pluell estava à espera, sentado numa cadeira de costas altas, envergando uma túnica de sacerdote de veludo e com as mãos modestamente pousadas no colo.

- Queres falar comigo? - perguntou. Parecia que estava apenas a dirigir-se a um dos seus sacerdotes, que fora ter com ele em busca de orientação espiritual.

- Não penses que estás acima desta traição, sacerdote - replicou Toli, falando, firmemente e com autoridade e vendo a pele em volta dos olhos do sumo sacerdote repuxar-se toda.

- Deixai-nos sós - ordenou Pluell aos guardas que os observavam. - Esperai lá fora, mas não vos afasteis. - Depois de eles saírem, mediu Toli com um longo olhar. - Com certeza não estás a pensar que eu tenho alguma coisa a ver com isto.

- Víbora! - exclamou Toli. - O teu disfarce não me engana; por isso, bem podes abandoná-lo. Não és nenhum instrumento inocente do teu deus. Tens as mãos tão manchadas com o sangue do ermita como os que o assassinaram!

Depois de um silêncio taciturno, Pluell levantou-se da cadeira como se esta tivesse ficado muito quente de repente.

- Tu não sabes - gritou. - Se ele soubesse que estou a falar contigo... - Interrompendo-se abruptamente, o sumo sacerdote olhou em volta, como se receasse ter sido ouvido.

- Quem está metido nisto contigo? - inquiriu Toli, dando um passo na direcção do sacerdote.

Pluell ergueu rapidamente as mãos, como se fosse defender-se de alguma pancada.

- Não... eu... ninguém.

- Então, a responsabilidade é tua e só tua.

- Não! - Lançando um olhar dissimulado ao prisioneiro que tinha à frente, pareceu lembrar-se de quem era. - Esqueces-te da posição em que estás - continuou, em voz mais baixa. - Eu sou o sumo sacerdote e tu estás aqui sob a minha protecção.

- Protecção! - explodiu Toli. - Atreves-te a raptar o príncipe e a prender o ministro-mor e chamas a isso protecção?

- Não tive nada a ver com isso - retorquiu o sumo sacerdote Pluell. - Foste maltratado? E o príncipe! Não! Vês... eu protegi-vos.

- Deixa-nos ir embora! - Uma intensa chama interior iluminou os olhos de Toli.

Pluell virou-lhe as costas e encaminhou-se lentamente para uma das tapeçarias que estavam penduradas, como se quisesse examiná-la.

- Já deves saber que a fúria do rei contra os que o enganaram vai sendo maior a cada momento que passa. É um fogo que consumirá tudo o que encontrar no caminho.

Sem responder, Pluell continuou a observar a tapeçaria.

- Pensa! Ainda podes desviar uma parte da fúria do rei e diminuir a severidade do seu julgamento.

- Como? - perguntou Pluell em voz suave e débil.

- Solta-nos - disse Toli com toda a simplicidade. - Deixa-nos ir imediatamente embora.

- Para ires dizer ao rei onde estiveste e quem te predeu?

Não. Não sou nenhum louco. Isto já foi longe de mais.

- Ainda não. Deixa-nos partir. julgas que o rei não vai saber onde o filho está escondido? Os homens dele já andam a vasculhar os montes e as aldeias que ficam para lá da floresta e acabarão por chegar ao templo, como eu. - Fez uma pausa, esperando que as suas palavras causassem efeito. - Liberta-nos. o sumo sacerdote pareceu à beira de tomar uma decisão, mas depois arrependeu-se.

- Não - repetiu, - Não me atrevo a libertar-vos.

- Então, ao menos solta o príncipe. Eu ficarei no seu lugar. Será um ponto a teu favor, que apaziguará muito o rei.

Pluell considerou este pedido, mas hesitou.

Toli insistiu:

- Liberta o rapaz. Deixa-o ir antes que o rei saiba onde está e venha aqui em força com os seus cavaleiros. Solta o príncipe. Eu ficarei; não me interessa o que me possa acontecer, desde que o rapaz esteja a salvo.

O sumo sacerdote Pluell virou-se novamente para Toli; tinha tomado uma decisão. Mas, quando abriu a boca para dar o seu acordo ao plano de Toli, ouviu-se uma voz áspera vinda da porta:

- Um lindo discurso para um cão jher!

Toli e o sacerdote giraram nos calcanhares; nenhum deles ouvira ninguém entrar no aposento, mas estava ali um ancião encarquilhado, com o rosto enrugado e sulcado como a casca de um carvalho, de cabelo branco e com uma comprida barba branca que lhe chegava ao peito magro.

- Verme! - gritou o ancião para o sacerdote, atravessando o aposento com um ar ameaçador. - Com que então ias soltar o principezinho, hã?

- Não! Isto é, eu...

Toli viu o misterioso ancião avançar para o sacerdote, que se encolheu todo. Quem seria aquele homem que tinha tanto poder sobre o sumo sacerdote?

Como se lesse os seus pensamentos, o desconhecido parou, virou-se e fez um esgar de arrepiar.

- Pelos vistos não estás a reconhecer o teu velho inimigo. Também é verdade que nunca pensaste voltar a ver-me, pois não? Olha para mim!

O reconhecimento atingiu Toli como o coice de um cavalo, fazendo-o recuar e pondo-o tonto.

- Nimrood!

- Sim, sou o Nimrood! Ah, ah! O Nimrood voltou para ajustar contas. E tu vais pagar pelos tormentos que me infligiste, jher. Não tenhas dúvidas. Devias ter-me matado quando, aqui há muito tempo, tiveste oportunidade para isso. Pois eu tenciono matar-te... mas não antes de Mensandor aprender a temer o meu nome!

- O rei não te deixará fazê-lo. Vais fracassar.

- Oh, tenho planos para o rei. Grandes planos. os seus súbditos hão-de vê-lo de joelhos aos meus pés. o mundo inteiro há-de ver a sua humilhação. Sim, o teu valente rei lamberá o pó das minhas botas e reconhecerá o meu poder perante o seu reino. - Atirando a cabeça para trás, Nimrood desatou às gargalhadas. Depois, gritou: - Guardas!

Dois guardas do templo irromperam no aposento, quase tropeçando na pressa de obedecerem ao chamado.

- Levai o prisioneiro - ordenou Nimrood. - Por agora, não preciso mais dele, Levai-o!

Agarrando nos braços de Toli, os guardas puxaram-no para fora do aposento e arrastaram-no pelos corredores do templo. Toli ainda ouviu atrás de si as gargalhadas loucas do maldoso feiticeiro, ecoando nas salas vazias.

“O Nimrood!”, pensou Toli, ainda atordoado. “O Nimrood voltou!”

 

Apesar da dor que o roía por dentro e do seu desinteresse total pelos deveres oficiais, Quentin ainda tinha tino suficiente para exigir que os nobres fossem recebidos na sala do trono e não na câmara do conselho, onde já estavam reunidos. Assim, lembrar-lhes-ia subtilmente que ainda era o rei; seriam eles a ir ter com Quentin, sentado acima deles, no seu assento real de autoridade, e teriam de discutir de uma posição inferior.

- Com que então, vieram - comentou Quentin, quando Theido lhe disse. - Está bem, recebê-los-ei, mas não ja. Primeiro que esperem.

- Eles têm estado à espera - replicou Theido.

- Que esperem mais! - rugiu, acrescentando num tom mais calmo: - Sabes porque vieram, Theido? - Estudando o cavaleiro:

- Claro que sabes... mas até tu tens medo de o dizer na minha cara. Vieram tirar-me a coroa. Pois que assim seja!

- Com certeza não estás a pensar em dar-lha, pois não?

- Não lhes darei nada! - murmurou Quentin sombriamente.

- Se querem a minha coroa, terão de ma tirar à força.

“Isto já é mais do Quentin que conheço”, pensou Theido.

- Quais são as tuas ordens?

- As minhas ordens? - Quentin cuspiu estas palavras e fitou colericamente o amigo. Depois, acrescentou: - Recebê-los-ei, mas não em conselho. Trá-los antes para a sala do trono, Se têm garra suficiente para esta luta, então ficarão de pé, pois eu não me sentarei com eles a ouvi-los denunciarem-me.

Fazendo uma vénia, Theido saiu dos aposentos do rei, pensando: “É bom voltar a ver nele algum fogo. Afinal de contas, talvez até nem vá sair-se muito mal.”

Quando, passado algum tempo os nobres foram mandados entrar para a sala do trono, encontraram à sua espera o Rei Dragão, que, embora com um aspecto doentio, cansado e desfeito, tinha o rosto muito carregado e os olhos coléricos. À medida que entravam, Quentin ia pronunciando os seus nomes:

 - Kelkin... Denellon... Edfrith... - entoava friamente - Lupollen, claro!... Gorloic... Ameronis, eu devia calcular que também estivesses aqui!

Os senhores entreolharam-se, sentindo-se pouco à vontade. Com certeza que as informações que possuíam relativamente ao estado do rei não eram falsas, mas o comportamento do Rei Dragão chocava-os e enervava-os. Que estaria a preparar? Saberia a razão da sua vinda?

Ao chegarem à frente do trono do rei, os nobres puseram um joelho em terra. Quentin deixou-os ajoelhar e disse:

- Oh, não façais de conta que estais a prestar vassalagem ao vosso rei... Ah, não é ao rei que prestais homenagem, mas sim à coroa! - Com estas palavras, tirou a coroa da cabeça e segurou o fino círculo de ouro à frente dos olhos. - Quem quer ser o primeiro a roubar-ma? Então? Qual de vós a cobiçará mais?

Os senhores ali reunidos entreolharam-se com um ar culpado. O primeiro a recuperar a voz foi Ameronis, que se levantou e afirmou:

- Senhor, parece que não estais a perceber a razão da nossa audiência. Quando soubemos as novas, viemos...

- Viestes ver com os vossos próprios olhos a melhor maneira de enterrardes o vosso rei, não foi?

- Não, senhor - replicou Ameronis com suavidade. - Viemos pôr-nos à vossa disposição para o que precisardes.

- Mentira! - troou Quentin, apertando os braços do trono, pronto a saltar sobre eles. - Conheço-vos muito bem! No tempo do rei Eskevar, quisestes dar o golpe e fracassastes. Agora, quereis tentá-lo comigo.

Esta explosão arrancou um murmúrio dos nobres, que se atreveram a lançar olhares espantados ao seu chefe implícito.

No entanto, Ameronis, imperturbável, falou no tom de voz de um físico que argumenta calmamente com um doente relutante:

- Julgais muito mal os nossos motivos, senhor. A vossa saúde preocupa-nos. - Olhou para os amigos, em busca de apoio, e estes assentiram sombriamente. - Ouvimos boatos, Majestade...

- Boatos. Há sempre boatos.

- Diz-se que estais doente, que fostes enfeitiçado. É natural que isso nos preocupe.

- Claro - replicou Quentin sarcasticamente.

- Portanto, pensámos em vir a Askelon o mais cedo possível, para averiguarmos a verdade por nós próprios.

- Cala-te! - gritou Quentin, saltando do trono e começando a descer as escadas. Ao chegar a meio caminho, parou e apontou um dedo acusador para Ameronis. - Cala-te. Sei muito bem porque viestes. Julgais que o vosso rei é cego e idiota? Sei muito bem porque estais aqui: para assistirdes aos delírios de um louco e para disputardes a sua coroa entre vós! - Apontou o dedo para cada um deles em particular; depois, dobrou-o e fechou a mão, abanando desafiadoramente o punho à frente dos seus rostos. Quando tornou a falar, fê-lo numa voz sussurrada: - Não usareis esta coroa, nobres amigos. Nenhum de vós a usará. - Virando costas, voltou a subir ao trono.

Como se fossem retirar-se, todos os senhores recuaram um passo. Só ficou no mesmo sítio Ameronis, que era mais ambicioso e determinado do que os outros.

- Ficai onde estais! - ordenou aos seus pares. - Ainda não chegamos ao âmago da questão. - Virando-se para Quentin: - Diz-se por toda a terra que perdestes a vossa espada. Estou a ver que não a trazeis convosco.

- Isso - cuspiu amargamente o Rei Dragão. - Agora é que vamos ao âmago da questão.

- Respondei. Onde está?

- Não te devo nenhuma satisfação, Ameronis.

- Negais que não a tendes?

- Não nego nada. - O rei fitou penetrantemente o ambicioso nobre.

- Então, é verdade. já não possuis a Brilhante. - As suas palavras eram uma acusação. - Se estou enganado, mostrai-nos a espada.

O Rei Dragão apertou os lábios, formando uma linha fina e dura, e não disse nada.

Ameronis virou-se para os amigos:

- Muito bem, todos vós sois testemunhas de que ele se recusa a responder e de que não quer mostrar a espada. Para mim, os boatos são verdadeiros: ele não a tem! Portanto, quem encontrar a espada e a empunhar será, por direito, o Rei Dragão de Mensandor!

Sem esperar resposta, Ameronis baixou ligeiramente a cabeça e girou nos calcanhares. Os outros, que tinham estado calados, fizeram uma vénia. Recuperando a palavra, Edfrith disse:

- Com a vossa permissão, Majestade. - Parecendo regressar à vida, os restantes senhores apressaram-se a pedir licença para saírem e retiraram-se, deixando o rei novamente sozinho.

- Sim, ide-vos embora, cães! lde! Segui o vosso chefe etentai encontrar a espada! - gritou-lhes Quentin. A porta maciça fechou-se atrás deles com um estrondo e o som encheu a sala quase vazia do trono como as trombetas do Juízo Final ou o ruído do machado caindo sobre a cabeça de um rei deposto.

Enquanto Esme, Bria e Alinea falavam com Morwenna, mulher do ancião Jollen, uma jovem curatak levantava a mesa da sua refeição do meio-dia. Falara-se durante toda a refeição do trabalho dos Curatak em Dekra e dos progressos por eles feitos no sentido de restituírem à cidade em ruínas a sua antiga glória.

Esme falava pouco, mas achava a conversa fascinante. Escutando com muita atenção, passeava os olhos pela cidade, que se via da varanda onde estavam sentadas. Quase conseguia imaginar como fora, pois do amontoado de pedras e pilares erguiam-se maravilhosos edifícios, saídos das mãos experientes de pedreiros e carpinteiros, que trabalhavam a partir de desenhos antigos, encontrados na grande biblioteca dos Ariga.

- Tendes de ver a biblioteca - disse Morwenna. - Tenho a certeza de que a achareis muito interessante.

- Gostaria muito de a visitar - respondeu imediatamente Esme. - Sinto-me arrebatada por tudo o que vi nesta cidade magnífica.

- Se quiserdes ir lá agora, terei muito gosto em acompanhar-vos.

Antes de Bria ter tempo para responder, Esme exclamou:

- Acompanhas-nos? Não haveria nada que me desse mais prazer!

- Também gostaria de a ver outra vez - concordou Bria, fazendo menção de se levantar. Esme já estava de pé. - Temos de nos apressar, Morwenna, senão ainda é a Esme que nos guia a nós - riu Bria.

Partiram juntas, percorrendo as ruas de pedra, largas e serpenteantes de Dekra. A erva, muito verde, crescia em tufos no meio das pedras e as rosas-musgos cor-de-rosa e amarelas espreitavam por entre as fendas abertas no pavimento. Aves de penas azuis saltitavam ao longo dos telhados de azulejo ou, alvoroçadas pela passagem das damas, esvoaçavam da rua para as goteiras.

- A biblioteca é tão grande como se diz? - perguntou Esme, quando dobraram uma esquina e passaram por baixo de um arco que se erguia à frente de um pátio estreito, ladeado de portas que se abriam para uma zona comum, salpicada de árvores muito bem aparadas e de banquinhos de pedra.

- Isso é uma coisa que tens de ver por ti própria - respondeu Morwenna. - Não sei o que se diz da biblioteca dos Ariga, mas sei que eles gostavam muito de livros e que eram grandes académicos. - Fazendo com a mão um gesto que incluía o pátio inteiro: - Há aqui milhares de livros.

Esme pestanejou e olhou em volta.

- Aqui onde? Não estou a ver nenhum edifício capaz de conter uma centena de livros... quanto mais milhares!

Morwenna sorriu e Bria explicou:

- Estás em cima da biblioteca, Esine, que é subterrânea.

- A entrada fica ali. - Morwenna apontou para o outro lado do pátio, na direcção de uma larga entrada em arco, guardada por duas faias delgadas. Depois de atravessarem a zona comum, entraram numa grande sala circular, de mármore branco e reluzente. Nas paredes viam-se murais representando imponentes figuras de túnica, que observavam os visitantes com os seus olhos grandes, escuros e sérios.

- Pensamos que estes são alguns dos chefes mais famosos dos Ariga ou, talvez, os curadores da biblioteca.

- Onde fica a entrada?

- Por baixo daquele arco - retorquiu Morwenna, - Vinde.

- Acompanhando-as até ao ponto em que as escadas de mármore desciam para o subsolo, apontou a escuridão: - É ali Esme, queres ir à frente? Esme espreitou desconfiadamente para a escadaria às escuras, mas pôs o pé no primeiro degrau com um ar muito divertido. As escadas iluminaram-se instantaneamente de ambos os lados.

- Oh! - gritou, surpreendida.

- Eu também tive a mesma reacção quando o Quentin me trouxe aqui - riu Bria. - Parece magia!

- Parece mesmo! - gritou Esme, que já estava a saltitar pelos degraus abaixo.

Quando a rainha e Morwenna chegaram ao pé de Esme, encontraram-na parada ao fundo das escadas, observando boquiaberta as intermináveis filas de prateleiras, cada uma com dezenas de manuscritos. Vários jovens andavam por entre as prateleiras com os braços carregados de livros, tirando rolos de pergaminho ou voltando a colocá-los no lugar.

- São os nossos acadêmicos - explicou Morwenna. - Estamos a traduzir os livros, Devemos aos nossos académicos tudo o que sabemos sobre o Altíssimo. Os livros contêm os ensinamentos dos Ariga.

- Então, os vossos acadêmicos são sacerdotes?

 - São, mas não como pensas, Esme. Os Ariga acreditavam, tal como nós, que o Deus Altíssimo habita entre o seu povo e que está sempre presente. Portanto, não há necessidade de um sacerdócio específico... cada homem pode ser o seu própric sacerdote.

Um tanto baralhada, Esme pôs a cabeça de lado:

- Isso deve ser muito confuso.

- Não é nada confuso, mas claro que é preciso que as pessoas se responsabilizem por aprender os desígnios do deus e por viver de acordo com eles. É por isso que temos anciões, que nos ajudam, instruem e ensinam a adorar o Altíssimo, Whist Orren.

Começaram as três a caminhar ao longo das filas de prateleiras da imensa sala subterrânea. Esme, que esperava encontrar um lugar escuro e bafiento, parecido com uma masmorra, ficou surpreendida ao descobrir como a grande biblioteca era seca e agradável. Enquanto as outras duas conversavam, vagueava sozinha por entre os livros, parando aqui e ali a folhear algum manuscrito mais interessante ou a tentar perceber as palavras escritas na fita que cada um deles tinha pendurada e que os identificava. Apesar de não conseguir ler nada, aquela escrita tão graciosa encantava-a e fascinava-a.

Às tantas, chegou a um recanto forrado de mais prateleiras em forma de favos de mel, com pergaminhos muito grandes enrolados em fino couro vermelho. Dentro do recanto, viu um banco baixo de madeira. Sentindo-se convidada a entrar ali, Esme avançou, retirou um manuscrito e instalou-se no banco para o desenrolar.

Como ainda ouvia Bria e Morwenna conversando ali perto em voz baixa, pensou em dar uma rápida vista de olhos pelo livro, só para satisfazer a curiosidade. Desatando a tira de couro que o prendia, retirou-lhe cuidadosamente a capa, pondo à mostra um fino pergaminho branco, com as pontas amarelecidas pelo tempo, mas impecável apesar da idade. Com os dedos a tremer, Esme pegou na ponta de madeira esculpida da vareta, começou a desenrolá-lo e susteve a respiração, pois tinha à frente dos olhos os desenhos mais bonitos que vira na vida.

Os desenhos deviam ser ilustrações que acompanhavam o texto, pois por baixo de cada uma via-se uma coluna dupla de belíssimos caracteres dos Ariga. Cada ilustração fora feita com tintas delicadamente coloridas. Apesar de haver muito tempo que o artista passara o seu pincel por elas, as cores estavam muito pouco debotadas. Eram delicadas representações de minúsculas aves coloridas e de animais da floresta, imagens da vida quotidiana nas ruas de Dekra e de um rio cheio de peixes de muitas espécies diferentes e de curiosos barquinhos de pescadores, que tentavam pescá-los com redes, e muitas outras figuras deliciosas.

Extasiada, Esme contemplava o manuscrito, sentindo-se uma criança a quem tinham dado de presente um livro raro e precioso, vindo de uma terra distante. Quando era menina e vivia em casa do pai, tivera muitos livros com figuras dos quais gostava muito, que passava a vida a pedinchar às amas para lhe lerem. Naquele momento, entrou mais uma vez nesses tempos muito especiais. Tudo o que a rodeava foi desaparecendo, e Esme voltou a ser a menina transportada para um tempo e um lugar distantes.

 

Quando regressou aos seus aposentos, Quentin encontrou Oswald, o Jovem, à sua espera na antecâmara, e bastou-lhe ver a palidez de morte do seu servo para perceber que acontecera alguma coisa de terrível.

- O que se passa? - inquiriu o rei. Nesse momento, Theido entrou atrás dele, e Oswald, aliviado por não ter de suportar sozinho o mau humor do seu monarca, respirou mais à vontade. Depois, lançou um olhar preocupado ao cavaleiro magro, que lho devolveu com um assentir de cabeça, como se quisesse dizer “continua”.

- Estou à espera - disse Quentin. - Desembucha! - Nessa altura viu o pacote liso e dobrado que o camareiro tinha na mão e arrancou-lho.

- Chegou mesmo há bocadinho - informou o camareiro, com a voz cava de medo. - Foi um mensageiro que trouxe isto, Magestade.

- Um mensageiro de quem? - Levantando o pacote, Quentin examinou o selo... - Do sumo sacerdote?

- Não disse, Majestade. Pensei que era de algum nobre, mas... quando vi o selo, já ele se tinha ido embora.

O sinete que Quentin conhecia tão bem estava gravado a cera verde na dobra da mensagem. Tratava-se da taça encimada por línguas de fogo, símbolo do Grande Templo, usado pelo sumo sacerdote.

O rei quebrou o selo, abriu o pacote e desdobrou-o, pondo à mostra um anel de cabelo, um pedaço de tecido azul e uma carta. Theido aproximou-se e Quentin, fitando os objectos que tinha na mão, estendeu-lhe a carta:

- Toma, lê-a!

Theido pegou na mensagem e desdobrou-a, Fazendo um esforço para manter a voz firme, começou a ler:

 Por enquanto, o vosso filho está bem. O que possa acontecer-lhe a seguir, é coisa que está nas vossas mãos. Temo-lo preso no Grande Templo, e estamos prontos a libertar tanto o príncipe como o ministro-mor Toli em troca da vossa espada Zhaligkeer, à qual chamam a Brilhante. Se não trouxerdes pessoalmente a espada ao Grande Templo, ao meio-dia do último dia deste mês, o príncipe e o ministro-mor serão mortos na mesma altura.

- É tudo? - perguntou Quentin em voz dura e monocórdica.

- Não está aqui nenhuma assinatura - respondeu Theido.

- Disseste que o mensageiro se foi embora?

- Disse, Majestade. Foi-se embora antes de eu o conseguir deter. - Oswald olhou desesperadamente para Theido, que observava o rei com muita atenção, com medo do que ele pudesse fazer a seguir. - Mandei um guarda atrás dele. Eu...

- Temos de o encontrar... põe mais homens no seu rasto. - Quentin virou-se, com uma expressão distante no olhar. - Agora, deixai-me. Os dois.

- Eu preferia ficar - replicou Theido. - Deixai-me ajudar...

- Não! Se queres ajudar, vai atrás da víbora desse mensageiro... Sai!

Sem mais uma palavra, Theido e Oswald saíram da antecâmara, fechando silenciosamente a porta atrás de si.

- O que vamos fazer? - sussurrou Oswald a medo.

- O que ele disse - respondeu Theido com um ar ausente, pois ja estava com o inesperado aparecimento do pedido de resgate às voltas na cabeça. - Procura o mensageiro, que não pode ter ido longe. Mandar-te-ei alguns homens imediatamente.

- O que ides fazer, senhor?

Theido levantou rapidamente o olhar:

- Não te preocupes comigo! Vai-te embora! Depressa!

Oswald abriu a boca para falar, pensou melhor, fechou-a novamente, com um estalido, e largou a correr.

- Oswald! - gritou-lhe Theido. - Não fales a ninguém do pedido de resgate. ouviste? Não repitas a ninguém o que ouviste na presença do rei. - Oswald assentiu com a cabeça e continuo a correr o mais depressa que podia.

“Agora, ao trabalho”, disse Theido de si para consigo, tirando mais uma vez a carta dobrada da mão onde a escondera. “O Ronsard tem de ver isto.”

 - Que ninho de víboras! - exclamou Ronsard, dando novamente uma rápida vista de olhos pela carta com o pedido de resgate. - Que arrogância e sangue-frio! Devíamos arrasar aquele ninho de serpentes e atirá-lo para cima das suas cabeças!

- E para cima das cabeças do Toli e do príncipe? - volveu-lhe Theido. - Não, sem dúvida que eles tiveram isso em conta meu amigo. Sabem muito bem que, enquanto tiverem o filho do rei preso dentro das suas paredes, não se pode fazer nada contra eles.

- Então o que podemos fazer? - perguntou Ronsard, levantando uns olhos desesperados da mensagem amarrotada que tinha na mão fechada.

- Procurar a espada - retorquiu Theido.

- Pois, procurar a espada. Daqui a pouco, todo o reino vai andar à procura da Brilhante... se é que não anda já!

- Rezemos para que sejamos os primeiros a encontrá-la, senhor... e depressa. Viste a data? Só faltam cinco dias.

- Muito pouco para passar o reino inteiro a pente fino... é mais fácil encontrar uma agulha num palheiro!

- Então, estamos a perder tempo a dar à língua. Reúne os homens imediatamente... todas as casas de Askelon e todas as aldeias circundantes têm de ser revistadas.

- Se O fizermos, toda a gente ficará a saber que o rei perdeu a espada.

- E se não o fizermos perderá o filho e o servo. De qualquer modo, toda a gente o ficará a saber muito em breve. O Ameronis encarregar-se-á disso!

Ronsard assentiu tristemente com a cabeça:

- Temos de rezar para que ainda haja gente leal ao Rei Dragão. Creio que podemos contar com o povo para nos ajudar.

Theido virou-se para partir e replicou:

- Não te esqueças de que o povo destruiu o Templo do Rei ainda não há duas noites. Talvez seja difícil convencê-lo agora a ajudar-nos. Mas vamos fazer o que pudermos.

Esme continuava sentada com o pergaminho no colo, enchendo os olhos com os maravilhosos desenhos coloridos do livro dos Ariga. Enquanto examinava os mais pequenos pormenores de cada ilustração, começou a ficar com sono. Bria e Morwenna ainda conversavam ali perto, mas Esme não as via do seu recanto e as suas vozes começaram a chegar-lhe aos ouvidos como o zumbido de abelhas carregadas de pólen num dia preguiçoso de Verão.

Bocejou. A súbita necessidade de dormir abateu-se sobre ela como se a tivessem tapado com uma manta de lã grossa.

Bocejando outra vez, pôs o pergaminho no chão, estendeu-se no banco e pousou a face no braço. Os olhos fecharam-se-lhe e adormeceu instantaneamente.

Logo que os seus olhos se fecharam sobre este mundo, pareceu a Esme que entrava num outro, pois deu consigo no cimo de um planalto, numa terra escura e incaracterística.

Virando-se, viu vários homens que trabalhavam ali perto, transportando às costas pesados fardos, passando por ela e caminhando até à extremidade do planalto. Seguindo-os de longe, chegou ao pé de uma grande praia; os homens, que carregavam molhos de lenha, atiraram-nos para o monte e foram pôr-se à volta dele.

Ao lado da pira, encontrava-se um homem com uma tocha na mão que, depois de todos terem arremessado a sua lenha para a pilha, a atirou para o meio da madeira. Mas, embora as chamas da tocha saltassem e lambessem os toros, estes não se incendiaram. Então, o homem retirou-a e, com uma grande frustração, gritou:

- Mais lenha! - Os trabalhadores partiram em busca de mais madeira, deixando Esme sozinha com o homem da tocha.

- O que estás a fazer, senhor? - perguntou ela.

- Uma fogueira, para que as pessoas do vale possam ver a sua luz - respondeu o homem da tocha -, pois viajam na escuridão, sem nenhum sinal a guiá-las.

- Então, porque não a acendes?

- Eu bem tento, mas a lenha é velha e está húmida... Não pega - explicou o homem tristemente. - já pedi mais, mas de certeza que também vem toda molhada.

Assombrada por tanta futilidade, Esme afastou-se. A paisagem mudou imediatamente. A terra escura desapareceu e ela deu consigo num penhasco perto do mar, onde as ondas se enrolavam continumente, atirando-se contra as rochas e banhando a costa com um suspiro. Ao olhar em frente, viu uma torre rodeada por andaimes cheios de trabalhadores, que assentavam camadas de pedra, aumentando a sua altura.

Aproximando-se, observou os pedreiros colocando camada de pedra sobre camada de pedra, enquanto os seus ajudantes iam empilhando mais no chão. As tantas, sem aviso, uma secção de parede inclinou-se para fora e separou-se do resto da torre. Os homens dos andaimes gritaram de terror quando as pedras começaram a chover.

A torre inteira estremeceu e começou a desfazer-se aos bocados; saltando dos andaimes, os trabalhadores largaram a correr para longe das paredes que se desfaziam com estrondo e das pedras que caíam, algumas delas mergulhando no mar.

Quando a catástrofe ficou completa, Esme aproximou-se dos escombros e perguntou a um trabalhador:

- Porque é que a torre caiu?

Ele abanou a cabeça e apontou com o dedo:

 - Sabes, os alicerces são velhos e moles; por isso, desfazem-se quando construímos alguma coisa em cima deles.

- Se os alicerces velhos não prestam, porque não construís uns novos? - Embora percebesse pouco do assunto, era uma coisa que lhe parecia óbvia.

Mas o trabalhador ergueu as mãos e lamentou-se:

- Não temos ninguém que nos ensine a construir alicerces novos!

- Onde está o mestre dos pedreiros? - Esme olhou em volta, mas não viu ninguém que lhe parecesse capaz de orientar os trabalhadores. Por seu lado, o homem não respondeu limitando-se a encolher os ombros e a abanar a cabeça. Então, Esme disse-lhe: - Procurarei um mestre pedreiro que vos ensine a construir em condições e trá-lo-ei... - Calou-se, pois o trabalhador e a torre tinham desaparecido como fumo ao vento, encontrando-se ela, não num penhasco perto do mar, mas num mercado movimentado, onde os lavradores vendiam os seus produtos e os mercadores os seus artigos.

O mercado fervilhava de actividade, com compradores e vendedores elevando as vozes e regateando os preços e a qualidade do que era comprado e vendido. Ao passar pela tenda do talhante, viu-o a desfazer uma carcaça, cortando aos bocados a carne de um grande osso. Piscando-lhe o olho, o talhante, que envergava vestes escuras e compridas, pegou no osso e atirou-o para fora da tenda, onde foi instantaneamente abocanhado pelos cães esfomeados que saíram a correr de todos os cantos do mercado. Cindo sobre o osso os cães começaram a lutar pela sua posse, abocanhando-o à vez. Quando um deles conseguia prendê-lo nas mandíbulas, logo vinha outro cão maior, que lho tirava.

Reuniu-se uma multidão a observar o combate. Rosnidos selvagens enchiam o ar.

- Parai! - gritou Esme. - Que alguém acabe com isto, por favor!

Mas os espectadores não lhe deram ouvidos e os cães continuaram a lutar, cada vez com mais ferocidade. Esme enterrou o rosto nas mãos e virou costas, mas os terríveis sons aumentaram de intensidade e, quando voltou a olhar, não viu um pedaço de osso comprido e limpo mas sim um quadrado de tecido. Cada um dos cães puxava e sacudia o canto do pano que tinha preso entre os dentes, num esforço furioso para o arrebatar aos outros. Esme viu uma insígnia estampada no tecido: um dragão vermelho e serpenteante.

- Parai! - gritou. - Parai!

 

- Mas que coisa, Tip, não me lembrava de que era assim tão longe! Mas é isso! Quando se está com pressa, parece que é sempre mais longe. É isso. - Espreitando o céu, Pym avaliou pelo Sol a altura do dia. - É quase meio-dia, Tip. Ai é, é, e estou com fome. Devíamos ter trazido qualquer coisa para comer. Um bocado de pão da Emm acabado de cozer e uma caneca de tinto vinham mesmo a calhar, hã? E uma sopa de ossos para ti, Tipper. Isso.

Ao som da voz do dono, a cadela abanou a cauda e continuou a andar ao seu lado, levantando as orelhas quando, à sua passagem, algum coelho ou esquilo agitava as folhas dos arbustos de azevinho que cresciam à beira da estrada. Mas Tip não os perseguia, contentando-se em caminhar pacificamente ao lado do dono, encostando-lhe a cabeça à mão de vez em quando, para ele lhe dar uma palmadinha amorosa ou a coçar entre as orelhas.

Por fim, chegaram a uma zona da estrada que o amolador pensou reconhecer:

- Alto, Típ. Aposto que é aqui. O que te parece? Acho que é aqui, hã? Ai acho, acho. - Pym lançou uma rápida vista de olhos para ambos os lados da estrada, para ver se fora seguido ou se estava prestes a ser visto por algum outro viandante.

Como se encontravam sozinhos, avançou depressa para a floresta e atravessou um bosque de teixos até um local onde o arvoredo era menos denso e havia um carreiro que serpenteava por entre os troncos das árvores.

- É aqui, Tip? Olha que não sei. Pensei que era, mas agora não tenho a Certeza. - Depois de passar algum tempo a vaguear por entre as árvores, Pym chegou à conclusão de que, afinal, não era ali. Por isso, voltou outra vez à estrada e recomeçou a caminhada.

- Ah! - gritou um pouco mais à frente. - Deve ser aqui!

Pois é, como pude esquecer-me? - Entrando mais uma vez na floresta, não tinham ainda ido muito longe quando voltaram a ficar desorientados. - Não senhor - disse Pym, de mão na anca, levantando o pescoço para as árvores altas que o rodeavam. - Não é aqui. Nunca foi aqui. Vamos embora.

Enquanto caminhavam novamente pela estrada de terra batida, o sol do meio-dia brilhava através dos ramos entrelaçados, lançando sobre eles um jogo de sombras frescas. Quanto mais andavam menos certezas tinha o amolador. - Acho que nunca mais vou dar com o sítio, Tip. Não me lembro de onde é... Não me parece nada que seja por aqui. - Parando, olhou em volta. - Não sei o que hei-de fazer, Tip. Precisávamos de um sinal. Sim senhor. De um sinal!

Pym ficou tão entusiasmado com a ideia de um sinal que juntou logo as mãos, erguendo-as para o céu.

- Ouvi-me, ó deuses! - Pensando melhor, acrescentou: - Especialmente o deus que o Rei Dragão adora. Aposto que estais preocupado com o rei; por isso, ouvi-me, seja lá qual for o vosso nome.

Aqui, Pym fez uma pausa, para pensar como havia de prosseguir, assentiu com a cabeça e continuou: - Sabeis, o rei perdeu o filho, que foi raptado. E precisa da espada para o reaver. Bem, não tenho a certeza de que a espada que encontrámos pertence ao rei, mas talvez sirva... é uma espada muito bonita.

“Ora, eu escondi a espada num lugar seguro - explicou Pym com todo o cuidado. - O problema é que não consigo lembrar-me onde. Não dou com o sítio... eu, que ando nesta estrada há umas dezenas de anos. É por isso que vos peço ajuda. Preciso de um sinal que me mostre o caminho para a espada... isto é, para o sítio onde a deixei.

O amolador baixou as mãos, pensou um pouco, ergueu-as novamente e acrescentou:

 - Sabeis, não é por mim, é pelo rei, que está numa grande aflição e deve precisar da espada. Como sois o deus dele, talvez possais dar-me um sinal. Isto é, se estais interessado nas aflições dos mortais...

Pym calou-se e baixou as mãos.

- Bem, Tipper... - começou. Mas antes de ter tempo para acabar, a grande cadela preta desatou a ladrar. - Chiu! O que é, menina? Hã, Tip? O que é?

Um veado preto surgiu de um enorme matagal de giestas. Tip ladrava furiosamente, mas o animal, que se deslocava lenta e majestosamente, com a cabeça levantada e as armações luzindo como prata ao sol, permaneceu calmo e imperturbável. O gracioso veado atravessou a estrada, passando a cerca de uma dezena de passos deles, e parou a olhar o homem e a cadela que o observavam.

Tip ladrava, com a língua pendendo-lhe de lado, as patas muito direitas e o pêlo todo eriçado. Pym deitou-lhe a mão à coleira. O veado voltou a avançar pomposamente para a floresta, parou para fitar os espectadores uma última vez, como se quisesse dizer “Segui-me, se sois capazes”, ergueu as patas da frente, saltou por cima de um arbusto de baga de loureiro e afastou-se, abanando o rabinho branco atrás de si.

Tip não conseguiu ficar mais tempo quieta. ladrando furiosamente, sacudiu a cabeça, libertando-se da mão do dono. A caça começara!

- Tip! anda cá! - gritou Pym para a cadela, que corria em disparada. Chegando ao arbusto de baga de loureiro, Tip parou, latiu uma vez para o dono, meteu-se pelos ramos e foi atrás do veado.

- Pelas barbas dos deuses! - resmungou Pym. - Não sei o que deu àquela cadela. - O amolador ouvia Tip ladrando entusiasticamente e pisando o matagal, atrás da sua peça de caça. Sabendo que a cadela nunca apanharia o veado, mas que também não desistiria facilmente, Pym suspirou e avançou para o bosque, com a intenção de a ir buscar.

Atravessou o matagal, entrou aos tropeções no carreiro e apressou-se a seguir os sons da caçada improvisada. O carreiro ia-se alargando até um sítio onde cresciam velhas árvores muito altas, que não deixavam que outras rebentassem por baixo dos seus ramos arqueados. Eram gigantescas aveleiras. Sem parar a contemplar as árvores, Pym continuou a caminhar depressa, de cabeça baixa, sempre chamando Típ.

ÀS tantas, sem aviso, a cadela calou-se. Pym desceu uma encosta baixa, passou por umas trepadeiras de hera, olhou para cima e viu que estava numa depressão isolada.

À sua frente, Tip, sentada nas patas traseiras, abanava a cauda e ofegava. Um pouco mais longe, de cabeça bem levantada, suportando a coroa formada pelas armações tão majestosamente como qualquer rei, o veado contemplava-os calmamente, com os seus grandes olhos escuros e líquidos. Com o amolador a observá-lo, o animal levantou uma pata e bateu numa pedra branca que se encontrava num pequeno monte de pedras brancas.

- Tipper - sussurrou Pym, mal conseguindo respirar -, olha para ali! O veado trouxe-nos até à espada!

O animal virou-se, fitou-os casualmente mais uma vez, baixou a cabeça, partiu com ligeireza, misturando a silhueta ondulante com a floresta que o rodeava, e desapareceu de vista.

Pym arrastou-se até ao sítio onde o veado parara.

- Sim senhor. É aqui, Tip. Olha, estão aqui as pedras que deixámos a marcar este sítio e está aqui a aveleira. - Depois de levantar a cabeça para contemplar a majestosa árvore, deu a volta até ao buraco aberto no seu tronco oco. Inspirando profundamente, meteu a mão lá dentro e fechou-a.

Só apanhou ar rarefeito. O seu coração deu um salto. “Desapareceu”, pensou. “Levaram-na!” Enfiou mais o braço no espaço oco e esticou os dedos, apalpando o interior macio e húmido da árvore. Nem sombras de espada! Num frenesi, tornou a meter a mão, vasculhando as profundezas do espaço escondido, mas não deu com nada a não ser madeira esponjosa e podre.

- Desapareceu, Tip! - gritou desesperadamente. - A espada desapareceu!

Mesmo na altura em que ia retirar o braço, as pontas dos seus dedos tocaram numa coisa dura.

- O que é isto? - disse, enfiando o braço até ao ombro, pondo-se em bicos de pés e esticando-se tanto que ficou com o rosto coberto por gotas de suor, que lhe escorreram pelo pescoço. A sua mãofechou-se sobre um objecto frio e duro. Engoliu em seco. Seria? Sim, era a espada! O amolador retirou lentamente a mão, e a árvore oca largou o seu troféu: um embrulho comprido e estreito, envolto em farrapos.

- Cá está, Tip! Encontrámos a espada! Sim, sim! Olha, Tip, cá está finalmente! - exclamou, embalando o embrulho. Depois, para se certificar, espreitou por entre as dobras dos farrapos e viu o brilho baço do metal e parte de uma inscrição gravada na lâmina. - É mesmo a espada, Tip. É a que escondemos. Ai é, é. - Lançando um olhar culpado em volta, como um avarento que tem medo de ser descoberto com o seu tesouro: - Mas não vamos ficar aqui. Isso é que não. Vamos direitinhos para Askelon entregar a espada ao rei.

Com estas palavras, o amolador tirou um pedaço de cordel do bolso das calças, enrolou-o à volta do punho tapado da espada e fez um laço, através do qual passou o braço. Depois, pondo a poderosa arma a tiracolo, começou a sua caminhada para o castelo de Askelon, onde ia dar o seu presente ao Rei Dragão.

Também na estrada que ia dar a Askelon, mas um pouco mais à frente, no ponto em que Pelgrin rareava, dando lugar às terras de cultivo, um pónei castanho vagueava sozinho por um campo de milho novo, parando de vez em quando para mordiscar as extremidades tenras das plantas da altura dos ombros de um homem. Esta intromissão não passara despercebida: o animal fora visto à distância Por um par de olhos rápidos e penetrantes, e o rapaz a quem pertenciam avançava pelo campo fora muito devagar, cuidadosamente, com o fito de interceptar o cavalo.

Renny obrigava-se a esgueirar-se caule por caule e fila por fila, mas o coração gritava-lhe que corresse a capturar a maravilhosa criatura que tinha à frente. Um cavalo! Era inacreditável! Um cavalo vagueando à solta no campo do seu pai! Se conseguisse apanhá-lo... não havia de apanhá-lo, e teria um cavalo só para si! Estava perto, muito perto. Sem dar pela presença do rapaz, o pónei continuava a mordiscar as folhas novas. Renny aproximou-se e parou. O cavalo castanho avançou uns passos e parou a mastigar umas espigas de milho verdes, que brotavam do caule.

- Chiu. - disse o rapaz, tão baixo como um suspiro. -Pronto, pronto. Chiu...

Estendeu a mão para agarrar a brida do animal, mas, ao ver o seu gesto, Tarky sacudiu a cabeça muito depressa e recuou, relinchando.

- Pronto, pronto - sossegou-o Renny. - Pronto... Não te faço mal. Não tenhas medo. Não te faço mal. - À medida que se aproximava devagar, o pónei ia recuando, sacudindo teimosamente a cabeça.

Renny avançava, sussurrando palavras carinhosas. Mas Tarky, assustadiço devido aos dias que passara à solta na floresta não se deixava apanhar. Por fim, cansado daquele jogo, virou-se e fez menção de se afastar. Percebendo que era agora ou nunca, o rapaz atirou-se ao animal, mergulhando de cabeça. Assustado, Tarky relinchou e esquivou-se, mas o jovem, com a rapidez do desespero, conseguiu agarrar as rédeas com as suas mãos ágeis.

O cavalo relinchou de medo e recuou, sacudindo a cabeça, mas já fora apanhado por um jovem mestre muito determinado, que se recusava a largar o seu achado. Muito excitado com o coração a bater-lhe dentro do peito, Renny pôs-se em pé e pegou nos arreios.

Depois, como se toda a vida não tivesse feito outra coisa, o filho do lavrador conduziu o seu troféu pela encosta inclinada abaixo, em direcção a casa. Tarky, que se acalmara às mãos do rapaz, deixou-se guiar sossegadamente.

Quando chegaram à tosca casa, Renny soltou um viva tão alt que fez os pais saírem para o pátio.

- Vede o que tenho aqui - orgulhou-se Renny.

- Onde o arranjaste? - perguntou-lhe o pai, quando se recompôs do choque que tivera ao ver o filho com um cavalo excelentemente aparelhado no seu próprio pátio.

- Onde? - ecoou a mãe.

- Encontrei-o a comer milho no nosso campo - respondeu Renny.

Sem conseguir falar, o lavrador fitou a mulher, que lhe devolveu um olhar igualmente espantado. Não ficariam mais surpreendidos se o cavalo se materializasse à sua frente. E ali estava o seu filho, sangue do seu sangue e carne da sua carne, conduzindo aquele animal... Era inacreditável!

Para que não houvesse mal-entendidos quanto às suas intenções Renny anunciou:

- É meu. Fui eu que o encontrei... pertence-me e vou ficar com ele.

O pai aproximou-se, levantou a mão e acariciou o flanco do pónei:

- Não há dúvida de que é um cavalo muito bonito... mas o lugar dele não é aqui.

- Agora, é meu. - Renny apertou mais as rédeas e firmou o queixo, num gesto de determinação. - Vou ficar com ele - repetiu com um ar decidido.

- Este cavalo deve ser de um nobre - comentou o lavrador, examinando o couro da sela e dos arreios. - O lugar dele não é aqui.

Com o lábio inferior a tremer, o rapaz olhou brevemente para a mãe, como a pedir-lhe ajuda. A bondosa mulher aproximou-se e pousou a mão no ombro do filho:

 - O que o teu pai quer dizer, Renny, é que este animal tem de ser devolvido ao seu legítimo dono.

- E quanto mais cedo melhor - acrescentou o lavrador.

- Agora, o dono dele sou eu - teimou Renny, com os olhos marejados de lágrimas. - É meu.

- Não, filho - retorquiu docemente a mãe, dando-lhe uma palmadinha nos ombros delgados e afastando-lhe um anel de cabelo dos olhos. - Devem andar à procura dele. Se ficas com ele, tiram-to na mesma.

- E à força. Não pode ficar aqui.

- Mas... fui eu que o encontrei! - choramingou Renny.

Aquel injustiça doía-lhe amargamente. Tirarem-lhe tão depressa o cavalo, mesmo no momento do seu triunfo... era de mais!

O lavrador franziu o sobrolho e afastou-se muito direito.

Renny soluçava e a mãe acalmava-o, tentando aliviar a sua dor.

- Já sei o que hás-de fazer! - exclamou ela, animando-se.

- Leva o cavalo a Askelon... lá devem saber quem é o dono. Cá para mim, se o devolveres depressa, talvez te recompensem.

Ao ouvir a palavra recompensa, Renny parou de fungar e esfregou os olhos com os pulsos:

- Uma recompensa?

- Talvez.

Virando-se, o pai acrescentou:

- Ora aí está a solução! Leva-o a Askelon e pede uma recompensa. Um animal assim tão bonito é capaz de te render uma ou duas moedas. Acho que devem ficar muito gratos por o recuperarem e talvez te dêem uma boa recompensa.

- Posso ir montado nele até Askelon? - perguntou Renny,a apalpar terreno.

O lavrador lançou um olhar à mulher e coçou o queixo:

- Bem, Rermy, não...

- Eu sei montar! - interrompeu Renny rapidamente. - Já te esqueceste de que foi o próprio Rei Dragão que me ensinou?

- Pois foi! - concordou o pai. - Mas ainda é longe e terás de voltar a pé sozinho.

- Quero lá saber! - gritou Renny. - Posso ir montado nele?

- Pergunta à tua mãe - esquivou-se o pai.

Vendo a luz que bailava nos olhos do filho, a mulher não teve coragem para a apagar. Por isso, assentiu lentamente com a cabeça.

- Vou arranjar um farnel, para não teres fome durante o caminho, - Virando-se, entrou na casa baixa.

- Irei montado nele mesmo até Askelon! - alegrou-se Renny. - E pedirei uma recompensa!

 

- Esme! Esme, acorda! - exclamou Bria, abanando o braço da amiga adormecida.

- O quê? Oh! - disse Esme, despertando com um sobressalto. - Tive um sonho... - Virando-se, fitou Bria e Morwenna, que estavam debruçadas por cima de si, e levou a mão tremente à têmpora. - Devo ter adormecido... mas era tudo tão real! Nunca tive nenhum sonho assim.

- Tu gritaste. - Bria olhou para Morwenna, que assentiu com a cabeça e apertou nas suas a mão de Esme.

- Não sabíamos para onde tinhas ido, minha querida - explicou Mowrenna. - Quando nos virámos, já não estavas connosco. Andávamos à tua procura quando te ouvimos gritar. Como te sentes?

Esme abanou lentamente a cabeça, mas as imagens do sonho permaneceram tão nítidas como anteriormente.

- Creio que estou bem. Estava a ver as imagens e fiquei com sono. Encostei a cabeça ao banco e tive um sonho muito estranho e inquietante.

- Se quiseres, conta-nos o teu sonho - sugeriu Bria. - Lembras-te dele?

Esme assentiu vigorosamente:

- Nem vou esquecê-lo tão cedo. Ainda o vejo como se tivesse acontecido aqui. - Fez uma pausa; os seus olhos atravessaram-nas e entraram outra vez no mundo do seu sonho. - Estava nun, planalto... começou, Mas Morwenna levantou a mão:

- Espera, senhora. Há um de nós que sabe muito de sonhos e do seu significado. Anda, vamos já ter com ele, para ele ouvir o teu sonho.

Esme pôs-se de pé:

- É importante? Foi só um sonho.

Morwenna parou e pegou nos braços de Esme:

- Whist Orren fala com os seus filhos de muitas maneiras.

Os sonhos, que constituem uma das formas mais importantes de ele se revelar, não são tratados de ânimo leve em Dekra. - Sorrindo brevemente, acrescentou: - Mas anda, vamos ouvir o que o nosso leitor de sonhos tem para nos dizer.

Passando entre as altas filas de prateleiras em forma de favos de mel e pelas mesas cheias de pergaminhos, as três mulheres voltaram a subir as escadas e a atravessar o pátio estreito que dava para a rua. Morwenna conduziu-as até um arco de azulejos azuis, construido num muro branco, feito de tijolos,abriu o portão e mandou-as entrar para um jardim muito verde, cheio de muitas espécies de arbustos em flor.

- Que lindo jardim - observou Bria. - Quem vive aqui? - perguntou, indicando uma casinha que ficava junto ao muro, do outro lado do jardim.

- Já vais ver - respondeu Morwenna, levantando a mão para um grande sicômoro muito largo, que se erguia no meio do pátio. Por baixo, encontrava-se alguém reclinado numa cama alta e ampla, ao lado da qual se achava uma mulher, debruçada sobre o leito. Bria reconheceu esta última como sendo a sua mãe.

- Mãe, que fazeis aqui? - perguntou Bria, um pouco surpreendida, quando se aproximaram. Nessa altura, olhou para a pessoa que estava deitada debaixo dos lençóis frescos e brancos. - Biorkis! Oh, perdão, eu tencionava vir cá mais cedo - afirmou corando de embaraço. - Desculpa-me por ter fugido assim de um velho amigo.

Biorkis, careca como uma maçaneta, mas com a barba mais comprida e branca do que nunca, semicerrou alegremente os olhos e replicou:

- Deixa-te disso! Já sei que andas muito ocupada desde que chegaste. Uma rainha não pode dispor do tempo como quer. A rainha Alinea transmitiu-me as tuas saudações e já conheci as tuas filhas,que são umas criaturas adoráveis. Exactamente como a mãe.

- Mandei-as mesmo agora brincar com as outras crianças - disse Alinea. - Eu e o Biorkis estávamos a falar de... - hesitou - do que se passa no reino.

Biorkis inclinou-se para a frente:

- O perigo não me é desconhecido; por isso, não há necessidade de me protegerdes dele. Já vivi o suficiente para saber que não adianta atormentar-nos com ele. - Fazendo uma pausa, fitou cada uma delas com um longo olhar de apreciação. - Sim, estais aqui. E, embora fosse o perigo a trazer-vos, ainda bem que viestes minhas amigas! Há muito tempo que não vos via.

- Há tempo de mais - concordou Bria. - Desculpa. Às vezes, só quando voltamos a ver os nossos amigos é que nos lembramos do muito que eles significam para nós. - - Não tenhas pena deste velho texugo! - protestou o sacerdote. - Eu não tenho pena de mim e não deve lamentar-se ninguém que seja amado e tratado como eu sou aqui. Olha! como já sou velho e já não posso andar, o que me fazem? Trazem-me a cama cá para fora! Em troca, conto-lhes histórias e leio-lhes livros antigos. Como, segundo dizem, isso lhes agrada, é-me permitido ficar aqui.

Morwenna sorriu e instalou-se na borda da cama:

- Estimamos muito este servo do Altíssimo.

Desfazer-nos-íamos mais depressa de um ancião do que do Biorkis. Há muito tempo que é nosso desejo fazer dele um ancião, mas ele nem quer ouvir falar nisso.

Com uma alegria dissimulada, Biorkis replicou:

- Que disparate! O antigo sumo sacerdote do templo de Ariel? Nem pensar! Não, estou muito satisfeito assim. Mas, senhoras, sentai-vos. Vou mandar trazer mais cadeiras.

- Não é preciso - volveu Bria, empoleirando-se no braço da cadeira da mãe. Esme sentou-se na cama, ao lado de Morwenna.

- O rei... o Quentin... havia de gostar de te ver. De certeza que teria vindo connosco, mas...

Biorkis levantou as mãos:

- A tua mãe já me contou o que aconteceu. As minhas orações são por todos vós. Também eu sinto muito a perda do Durwin. Imagino o que será para o Quentin! Isto, para não falar do rapto do teu filho, senhora. Mas, como irei juntar-me ao Durwin muito em breve, a minha dor não é tão profunda como a de um homem mais novo. Não consigo deixar de pensar que o velho patife do eremita já deve ter em mente alguma grande obra, na qual trabalharemos quando eu lá chegar. Por isso, demorar-me-ei a descansar por aqui um pouco mais.

O velho sacerdote falara tão firmemente e com uma convicção tão calma que Esme observou:

- Parece que ele só foi a casa, à floresta de Pelgrin.

- E foi mesmo! - gritou Biorkis. - Mas não partiu para um lugar tão humilde como Pelgrin. Não, senhora, Foi juntar-se à corte do Altíssimo, Senhor de Tudo. Se me sinto triste, é só pela maneira cruel como foi abatido. O Durwin, que era tão bom, devia ter acabado os seus dias como eu, rodeado de amigos e amado por todos.

Morwenna sorriu e deu uma palmadinha na mão pálida que descansava no lençol:

- Ainda bem que decidiste ficar connosco durante mais algum tempo.

Biorkis assentiu alegremente. Os seus olhos claros dançavam ao verem as mulheres reunidas à sua volta:

- Se pudesse estar sempre rodeado de tanta beleza, até ficaria eternamente. - Fazendo uma pausa, olhou em volta e acrescentou num tom mais solene: - Mas, embora muito agradável, esta visita tem um objectivo mais urgente do que o de mimar um velho pateta. O que vos traz aqui?

Morwenna foi a primeira a falar:

- Um sonho. Gostávamos que o ouvisses e que nos dissesses o seu significado.

- Ah! Um sonho! - Assentindo com um ar entendido, virou-se e interpelou Esme directamente: - Então, conta-me o teu sonho, senhora, e veremos o que ele nos diz.

Esme ficou de boca aberta.

- Como sabes que sou eu?

Biorkis semicerrou os olhos:

- Percebi-o logo que te vi e disse para mim próprio: “Esta mulher tem a capa da visão.”

- Consegues perceber isso?

- Estes olhos velhinhos não perderam perspicácia; pelo contrário, até ganharam alguma. O véu que separa este mundo do outro vai ficando cada vez mais transparente. Na verdade, ultimamente não me é fácil contentar-me só com a visão deste mundo. De facto, quando entraste no jardim, vi a aura do teu sonho ainda agarrada a ti. Deve ter sido um sonho muito poderoso. Uma visão!

- Achas? - Pensando nisto, Esme continuou: - É verdade que raras vezes tive um sonho tão forte e invulgar. Talvez fosse mesmo uma visão. - Pareceu abalada pela ideia.

- Conta-me tudo e logo se vê - incitou Biorkis delicadamente.

Em silêncio, todos observaram Esme a pôr as ideias em ordem, a fechar os olhos e a entrar mais uma vez no sonho que tanto a impressionara.

Ao começar a falar, voltou a ver os acontecimentos do sonho desenrolando-se com toda a nitidez, só que, desta vez, embora as imagens lhe dançassem à frente dos olhos como anteriormente, não estava a dormir. Esquecendo-se do jardim e dos que a rodeavam, Esme narrou o seu sonho do lugar alto e solitário, onde os homens lotavam em vão para acender a pira encharcada, da torre construídaem alicerces que se desfaziam e não lhe suportavam o peso, do osso atirado para a praça, que se transformou numa bandeira do rei...

- Estou a ver - disse Biorkis suavemente, quando Esme abriu os olhos. Exceptuando o débil zumbido dos insectos por entre as plantas, reinava o silêncio no jardim. “Quanto tempo terei estado sob o feitiço do sonho?”, perguntou-se ela.

Ao ver as expressões ansiosas estampadas no rosto dos amigos, Esme percebeu que o sonho os perturbara tanto como a inquietara a si.

- Achas que quer dizer alguma coisa... Alguma coisa de importante?

- Sem dúvida que sim! Como te disse, é um sonho com muito poder. Tem no seu âmago sementes de verdade... - Hesitando, continuou baixinho: - Mas ainda não sei dizer qual é essa verdade, - Franzindo o cenho: - Não, preciso de tempo para pensar e descobrir o seu significado.

- Mas é muito claro - retorquiu Esme, que logo ficou chocada com o seu próprio atrevimento. - Desculpa, senhor. Não quis faltar-te ao respeito.

Biorkis olhou-a de esguelha:

- Fala, senhora. Talvez o deus já te tenha revelado o seu significado.

Esme humedeceu os lábios:

- A terra escura deve ser a nossa terra, por onde os homens vagueiam sem a verdadeira luz a guiá-los.

- Eu também diria que sim. Concordo.

- A fogueira não pode ser acesa sem o combustível apropriado... a chama não se aguenta...

- A chama da verdadeira fé não se pode acender com o combustível da velha religião... eu devia saber - observou Biorkis. - Mas continua, por favor. Estás a ir muito bem.

Esme franziu a testa:

- A seguir, vem uma parte mais difícil. Não sei o significado da torre que não se mantém de pé.

- Oli, mas essa é a parte mais fácil - explicou o antigo sacerdote. - É frequente o deus apresentar a mesma mensagem de maneiras diferentes. - Como Esme carregou o sobrolho, ele tentou esclarecê-la: - A torre do novo deus não será construída sobre os antigos alicerces da anterior religião. Não se pode construir de novo sem se arrasar o velho.

- Percebo - assentiu Esme. - Mas ainda não entendo o significado da última parte.

- É muito claro - replicou Biorkis.

- Porquê? - perguntou Bria, que estava muito calada desde que Esme narrara o seu sonho.

- Ah, creio que já sabes, senhora. Claro que sim - volveu Biorkis. - Não percebes? Esta parte do sonho significa exactamente o que diz! A Esme poupou-me o trabalho de a examinar de muito perto; de contrário, teria passado a noite a pensar nela e não chegaria a nenhuma conclusão! Assim, creio que não precisamos de procurar mais do que o que já foi revelado.

- Queres dizer que esta parte do sonho quer dizer isso mesmo? - indagou Esme.

- Creio que sim. O seu significado está nos acontecimentos que descreve: o osso da discórdia atirado por um homem vestido de sacerdote...

- O talhante?

- Disseste que o homem envergava roupas escuras... então, ou era um sacerdote ou um homem que se disfarça de sacerdote para fazer o seu trabalho.

- O osso transformou-se num estandarte real, que os cães esfizeram em pedaços - cismou Alinea.

- O reino! - arquejou Bria. - O reino está a ser dilacerado. Pode-se fazer alguma coisa? - Os seus olhos verdes suplicavam uma resposta.

- Claro que sim. Precisamos de ter a esperança de que os acontecimentos pressagiados na visão da Esme serão evitados. - Levantando um dedo no ar: - Essa é sem dúvida a razão por que a visão nos foi oferecida.

- Então, temos de regressar imediatamente para avisar o rei - disse Bria.

- Pois temos - concordou Alinea. - Mas diz-me uma coisa: porque será que o príncipe não entrou no teu sonho?

- Não sei - retorquiu Esme, com uma expressão confusa.

- A não ser que... - lançou um olhar a Biorkis, que assentiu com a cabeça, encorajando-a a prosseguir - a não ser que não haja o perigo de o Gerin não estar bem.

- Excelente! - exclamou o velho sacerdote. - Eu próprio não faria melhor. Senhora, tens talento para interpretar sonhos. Temos de falar mais sobre isso antes de te ires embora.

- Agora, vamos - sugeriu Morwenna. - Se a visão da Esme for verdadeira, é natural que os anciões a queiram saber imediatamente.

- Sim, sim, ide - disse Biorkis. - Tendes de falar com eles. Sem dúvida que descobrirão qualquer coisa que nos falhou por completo, Ia sugerir isso mesmo.

Bria levantou-se:

- Com licença, bom Biorkis. É melhor irmos. Mas espero tornar a ver-te - Se tiveres tempo, volta cá. Mas, se não puderes, não te preocupes. Percebo perfeitamente. Ide-vos embora todas. Tenho de fazer a minha sesta. Rua! - Sorrindo abertamente, o ancião cruzou as mãos por cima da barriga e fechou os olhos.

Inclinando-se, Bria beijou-lhe a careca e todas se afastaram devagarinho, deixando o jardim entregue ao seu ocupante solitário e deixando-o a ele entregue ao sono.

 

- Chegaremos ao castelo lá pela noitinha, Tipper. Ou, pelo menos, pouco depois. Mas ainda temos que andar. Quase de mais para estas duas pernas. Mas não me importo, Tip. - Sentado num cepo de nogueira que ficava ao lado da Estrada do Rei, o amolador deu uma palmadinha à cadela e acariciou-lhe o pêlo atrás das orelhas.

O sol da tarde ia descendo a ocidente, por cima dos campos de cereais. Já tinham deixado Pelgrin para trás. Quando haviam saído dos bosques ensombrados, tinham-se sentado a descansar, no calor do dia. De momento, a espada encontrava-se encostada ao cepo; o seu peso havia feito com que o fino cordel penetrasse no ombro do seu portador.

- Ah, que dia, Tip, hã? Olha para aquela nuvem de pó. Vem aí alguém... e parece que vem depressa. Não é só um. Devem ser dois ou três ou mais. É melhor ficarmos aqui. Como vão passar por nós, veremos de quem se trata. - Pym observou a nuvem de poeira ocre erguendo-se da estrada, do outro lado da colina mais proxima.Dali a pouco, ouviu cascos martelando a estrada de terra, produzindo um ruído surdo, e viu os cavaleiros subindo a colina e avançando na sua direcção.

Observando a maneira como montavam e as suas roupas finas, Pym soube que se tratava de cavaleiros ou de senhores. Os arreios dos cavalos tiniam ao ritmo do seu andamento.

Os cavaleiros da frente, que seguiam lado a lado, aproximaram-se do tosco cepo de nogueira onde estava sentado. Com os olhos postos em frente, sem olharem para a esquerda nem para a direita, passaram por ele como um relâmpago. Atrás deles seguiam outros três. Um destes últimos levantou a mão enluvada, num gesto de saudação, e um dos seus companheiros lançou um olhar ao amolador e baixou a cabeça, continuando a galopar.

Pym levantou-se, pegou na espada e avançou para a estrada. Estava ele a pô-la mais uma vez ao ombro, com os olhos postos nas costas dos homens que se afastavam, quando se aproximou um sexto cavaleiro, que chegou ao pé dele antes de Pym ter tempo para pensar ou fazer qualquer movimento. O amolador deu um salto para trás e deixou cair a espada; por sua vez, o cavaleiro puxou as rédeas com força, fazendo o cavalo bater com os cascos no chão e parar, no meio de uma nuvem de pó.

- Sai do meu caminho, idiota! - rosnou o zangado cavaleiro. - Se não vês por onde andas, afasta-te da estrada! Da próxima vez, passarei por cima de ti!

Pym ergueu as mãos:

- Desculpai, senhor! Perdão! Oh! - Afastou-se aos tropeções, pois o cavaleiro mal-humorado e a sua inquieta montada tinham-se aproximado. Então, lembrando-se da espada, o amolador virou-se rapidamente, inclinou-se e apanhou-a.

- Eh! Pára! - ordenou o cavaleiro. - O que tens aí?

Pym ergueu uns olhos assustados e abriu a boca, mas as palavras demoraram algum tempo a sair:

- N... nada, senhor - conseguiu tartamudear por fim, com as feições contorcidos pela angústia.

- Espera, camponês! Se soubesses quem se te dirige, saberias que é melhor seres honesto.

O amolador baixou os olhos e não disse nada, mas pôs a espada embrulhada atrás das costas, na tentativa de a esconder dos olhares curiosos do senhor que tinha à frente.

Nesse momento, Pym ouviu um som atrás de si. Ao verem um dos seus parado na estrada, os outros cavaleiros tinham voltado atrás para se inteirarem do que se passava e aproximavam-se os cinco por trás de Pym.

- O que aconteceu, Ameronis? - perguntou um dos recém-chegados, fitando desconfiadamente Pym e as suas roupas esfarrapadas.

- Este patife apareceu-me à frente e quase me fez cair - replicou o irascível Ameronis. - De certeza que não fez por mal - disse Edfrith, que era quem baixara a cabeça a Pym ao passar por ele. - Reparei nele ali no cepo ainda há bocado. Deixa-o em paz, Vamos embora. - O nobre fez menção de se afastar, mas nenhum dos amigos o seguiu.

- O que tens aí? - perguntou Ameronis outra vez, em voz fria e ameaçadora. - Quero ver antes de me ir embora.

Com o coração prestes a saltar-lhe pela boca, Pym fitou os rostos que o rodeavam.

- Eu... eu... Não é nada, senhor. - Apertou a espada contra si. - Não sou mais que um pobre amolador. Deixai-me ir, por favor.

- Deixa-o, Ameronis - disse o que falara antes, - Ele não tem nada que nos interesse.

- Mesmo assim, quero ver! - troou Ameronis. - Se não é nada não faz mal eu ver. - Os seus olhos penetrantes observaram Pym com uma intensa determinação. - Mas - continuou _manhosamente -, se o que está ali embrulhado naqueles farrapos é uma espada, então quero saber onde é que este amolador a arranjou.

Estas palavras arrancaram murmúrios dos outros cavaleiros.

- Então? - impacientou-se Gorloic. - Mostra lá. Também quero ver.

- De facto, parece-me distinguir a forma de uma arma por baixo daqueles farrapos - acrescentou Lupollen, o melhor amigo de Arneronis. - Mostra lá, amolador. Temos o direito de ver.

- Não! - gemeu Pym desesperadamente. - Não posso! - A cadela preta baixou as orelhas e rosnou. Um cavalo bateu com o casco no chão e relinchou.

- Dá cá! - ordenou Ameronis, estendendo a mão.

Pym apertou o seu troféu contra o peito e recusou-se a entregá-lo.

- Vinde - sugeriu Edfrith -, vamos tratar do que nos diz respeito.

- Vai! - gritou Lupollen. - Não precisamos de ti. Como isto me interessa, ficarei até ao fim.

Edfrith puxou as rédeas, a sua montada recuou, deu meia volta e afastou-se a galope.

- Não tenho mais nada a ver com este plano imprudente - gritou por cima do ombro.

- Por favor, senhor Não fiz nada - implorou Pym, com o suor a escorrer-lhe pelo pescoço e a manchar-lhe a camisa. - Deixai-nos ir em paz. Por fa...

- Silêncio! Cala essa boca insolente! - Com estas palavras, Ameronis inclinou-se na sela e agarrou o pacote.

Aterrorizado, Pym não o largou e foi levantado do chão. Ameronis esbofeteou-o com a luva tachonada, tirou o pé do estribo e deu-lhe um pontapé na barriga. Pym largou a espada e caiu ao chão, contorcendo-se de dor. Tip ladrou e rosnou ao agressor do seu dono.

Ameronis rasgou os trapos, deixando cair farrapos de tecido.

- Não! - gritou Pym, rolando e pondo-se novamente de pé.

- Por favor! - Pediu ajuda com os olhos aos outros nobres, mas só lhes viu os rostos frios e impassíveis. Todos eles estavam do lado de Ameronis. - Peço-vos, senhor! Dai-me isso! - Atirou-se para a espada, mas não foi suficientemente rápido. O altivo Ameronis levantou a bota e deu um pontapé em cheio no queixo do amolador, atirando-o de costas para o pó da estrada.

- Estou em dívida para contigo, amolador - comentou Ameronis, arrancando o último farrapo. - Acabas de me entregar o meu troféu! - Levantou a espada bem alto. - E a coroa também!

- Por todos os deuses! - arquejaram os nobres. - É a Zhaligkeer, a Brilhante!

- Vou recompensar-te por este serviço, amolador - disse Ameronis, com os olhos iluminados pela cobiça. - Que tal?

Horrorizado e sem dizer nada, Pym fitava a espada na mão do usurpador.

- Poupar-te-ei a vida inútil - continuou Ameronis, rompendo em gargalhadas, Os outros senhores, ainda espantados por terem encontrado a espada, também riram com nervosismo. - É que de certeza que roubaste esta espada, amolador - rematou o senhor, erguendo a espada e abanando-a. Sentiu com prazer a sua força fria e elástica, e apreciou a lâmina tão bem trabalhada que parecia viva. - Agora, põe-te de pé, canalha - ordenou.

Com a boca a sangrar e o rosto inchado e arroxeado, Pym levantou-se com esforço.

Ameronis levou a ponta da Brilhante à garganta do amolador:

- Não vais falar a ninguém do que se passou aqui, ouviste, amolador? Tenho ouvidos em toda a parte e, se falares, mandarei espetar a tua cabeça num mastro, por cima das portas do meu castelo. Percebeste?

Pym sentiu na carne o beijo frio da lâmina afiada. Sabia que o ambicioso Ameronis não hesitaria em matá-lo. O seu coração ardia de raiva e vergonha: deixara-os apoderarem-se da espada do rei! O que podia fazer? Como havia de os travar?

- Bem podeis matar-me já - retorquiu Pym sombriamente -, Pois não ficarei calado. - Uma vez pronunciadas aquelas palavras, manteve-se firme. - Tencionamos ir já dizer ao rei o que aconteceu.

- Tens assim tão pouco amor à vida, amolador?

- Tenho mais amor ao meu rei - replicou Pym. - Como muito bem sabeis, essa espada é dele. íamos levar-lha... estava perdida.

- Estou a avisar-te pela última vez - ameaçou Ameronis, erguendo a espada e preparando-se para desferir o golpe. Tip rosnou ferozmente e ladrou ao atacante do dono.

Pym não arredou pé e fechou os olhos. Se aquele era o seu último momento... muito bem, que fosse ao serviço do seu rei. Ficou à espera de ouvir o som da lâmina cantando no ar.

Em vez disso, ouviu um grito distante e agudo.

- Espera! - exclamou um dos outros. - Vem aí alguém!

Quando o som de cascos se ouviu atrás deles, Ameronis praguejou e afirmou:

- Mesmo assim, vou acabar com ele!

- Não sejas insensato! - interveio Lupollen, com a voz tensa. - já temos o que queremos. Vamos embora.

Pym entreabriu os olhos e viu o rosto roxo de fúria do violento senhor, que ainda se encontrava muito perto de si, com a espada erguida na mão. Os cascos aproximaram-se e ouviram outro grito. Erguendo o olhar, Ameronis ficou indeciso por um momento.

- Anda! - insistiu Lupollen, fazendo o cavalo dar meia volta. Os outros rodaram as montadas e começaram a afastar-se.

- O deus é testemunha de que foi um golpe de sorte que te salvou - murmurou Ameronis, com a voz empastada. - Mas, se tornarmos a encontrar-nos, tirar-te-ei a vida. - Pronunciadas estas palavras, esporeou o cavalo na direcção de Pym, que se desviou com um salto. Mas, como não foi suficientemente rápido, Ameronis ainda lhe deu na cabeça com o punho da espada. O céu escureceu, as estrelas desviaram-se do seu caminho e Pym tombou na estrada.

 

Montando o pónei castanho do príncipe, Renny seguia pela estrada que ia dar a Askelon. Sentado muito direito na sela, fingia ser um cavaleiro que regressava ao reino, vindo de missões e aventuras em terras distantes. imaginava que voltava ao serviço do rei, depois de uma longa ausência, e que ouvia o seu nome nas bocas de conterrâneos e pares e os seus feitos cantados nos salões grandes e pequenos de todo o reino.

“Ser um cavaleiro assim deve ser o maior sonho de qualquer homem”, pensou. Daria a vida por um momento passado com a armadura de um cavaleiro, na sela de um verdadeiro cavalo de guerra. Tarky trotava com suavidade e o castelo de Askelon, enevoado pela distância, já se via acima dos campos verdes. No calor do dia, o mundo parecia calmo e preguiçoso. Renny já não tinha esperanças de encontrar alguma aventura no caminho, pois o castelo e a sua cidade aproximavam-se a cada passo que dava.

De repente, quando cavalo e cavaleiro chegaram ao fundo de uma colina e começaram a subir a próxima, encontraram um outro cavaleiro, que passou por eles a galope. O desconhecido deixou-os para trás no meio de uma agitação de cascos, com a capa curta esvoaçando e a cauda do cavalo ondulando atrás de si. Com os olhos duros postos em frente, passou num ápice, sem sequer desviar a vista na direcção do rapaz.

- Deve ser um nobre - disse Renny ao pónei. - Parece que vai a fugir de qualquer coisa. Se calhar, de salteadores!

A sua jovem cabeça encheu-se imediatamente com as imagens de um feroz combate com um bando de implacáveis ladrões, no qual ele, Renny, o nobre, ganhava, mandando os rufiões para as Terras Selvagens, que era o lugar dos cobardes.

Deslumbrado por tais feitos heróicos e impossíveis, Renny incitou o pónei castanho a subir mais depressa a colina. Então, ao chegarem ao cimo, com a estrada espraiando-se novamente à sua frente, Renny viu a cena que acabara de imaginar: um grupo de rufiões ameaçando um viandante indefeso. A única diferença era que os salteadores estavam a cavalo e o pobre homem a pé. Soltando um grito selvagem, enterrou os calcanhares nos flancos de Tarky e galopou em frente, sem sequer se lembrar de que não tinha nenhuma arma e de que não saberia usá-la, mesmo que tivesse. Com visões de glória dançando à sua frente, Renny lançou-se para o meio da escaramuça.

Foi, mais ou menos, por esta altura, que Ameronis e os seus amigos ouviram o jovem salvador aproximando-se. Renny viu a espada levantada, prestes a descer, soltou outro grito de guerra e incitou Tarky a avançar mais depressa. Com os cotovelos a dar e as pernas muito abertas, desceu a colina a voar.

Neste preciso momento, os senhores, que tinham conseguido convencer o seu chefe a poupar o amolador e a limitar-se a retirar-se com a espada do rei, viraram-se e galoparam na direcção de Renny, que engoliu em seco, baixou a cabeça e avançou. Por alturas da colisão, Renny fechou os olhos com força. Depois, sentiu o ar esbofeteando-o no rosto quando os cavaleiros passaram por ele e ouviu atrás de si o som de cascos afastando-se.Ao abrir outra vez os olhos, deu consigo sozinho na estrada. Galopando desenfreadamente, os salteadores desapareciam por trás da colina. À sua frente, o caminhante jazia tombado à beira da estrada. Renny parou a montada, atirou-se da sela e correu a ajudar o homem, que fez rodar na poeira. O sangue escorria-lhe do corte que tinha na boca, e na sua face via-se uma escoriação roxa. Tip lambeu o rosto do dono, limpando-o de algum pó e sangue.

As pálpebras de Pym estremeceram e abriram-se debilmente.

- Ohh... - gemeu ele.

- Senhor, estás vivo? - perguntou Renny, com os olhos escancarados.

- Ohh... a minha cabeça. Au! Deram-me com força - lamentou-se, tentando pôr-se de pé.

- Cuidado - avisou Renny, ajudando-o a sentar-se. - Vim aqui ajudar-te.

Com os olhos lacrimejantes, devido às palpitações que sentia na cabeça, Pym olhou de esguelha para o seu jovem salvador:

- Quem és tu?

- Sou O Renny, senhor - respondeu, como se o seu nome já fosse conhecido e explicasse tudo. - Quando cheguei aqui, estavas a ser assediado por aqueles rufiões.

- Hã? - Pym virou a cabeça e viu que, na verdade, os seus atacantes tinham desaparecido. - Salvaste-me a vida! Eles iam dar cabo de mim. Ai iam, iam! Salvaste-me7 menino! Obrigado, oh, obrigado!

Renny ficou todo contente, Era verdade: salvara a vida daquele homem, como um cavaleiro. Apesar de desarmado, enfrentara um bando de assassinos, derrotara-os, pondo-os em fuga para as Terras Selvagens, onde iam esconder-se da sua justiça.

- Quem eram? - perguntou gravemente.

- Oh, gente muito má. muito má. Iam pôr a minha cabeça num mastro. Ai iam, iam. Até tu chegares, eu era um homem morto. Oh, obrigado.

- Roubaram-te alguma coisa?

O amolador começou a tremer:

- Ohh! Levaram a espada!

- A tua espada?

- Não era minha. Oh, não! Era a espada do rei! Um deles tirou-ma... um tal Ameronis... foi ele. Queria matar-me e espetar a minha cabeça num mastro.

- Ameronis? O senhor de Ameronis? já ouvi falar dele.

- Um homem mau... muito mau.

Renny pôs-se a pensar.

- Como é que tinhas a espada do rei? - perguntou, coçando a cabeça. - Era mesmo a Brilhante?

- Sem tirar nem pôr - assentiu Pym solenemente. - Encontrámo-la na estrada aqui há uns dias. Nessa altura, não sabia que era a Brilhante e escondi-a. Escondi-a numa árvore. Hoje de manhã, voltámos para a ir buscar e levar ao rei, que precisa muito dela.

Pesando o que Pym lhe contara, Renny estudou a situação com todo o cuidado.

- Bem - disse, por fim -, acho que o melhor que temos a fazer é ir já contar ao rei o que aconteceu.

- Concordo. - Pym levantou-se, vacilou e apoiou-se no ombro do rapaz.

- Consegues montar? O pónei é forte e não estamos assim muito longe do castelo.

- Acho que sim - assentiu Pym, cerrando os olhos de dor.

- Au! Ele deu-me bem forte! Gostava de lhe poder pagar da mesma moeda.

Com a ajuda de Renny, Pym subiu para a sela e estendeu a mão a içar o rapaz para trás de si. Depois de oscilarem hesitantemente, começaram a andar e, apesar de seguir de cabeça baixa, devido ao peso a mais, Tarky foi avançando resolutamente para Askelon.

Quando Theido e Ronsard reuniram os homens para começarem a procurar a espada, as sombras das ameias já atravessavam todo o pátio interior, que toda a tarde estivera num grande rebuliço, com cavaleiros e homens de armas preparando-se para uma busca como nunca houvera igual em Mensandor. Ronsard não dispensara ninguém que não servisse melhor noutra tarefa qualquer. Assim, aparelhavam-se cavalos e arranjavam-se provisões que chegassem para muitos dias na estrada.

- Guerra é guerra - disse Ronsard a Hagin, quando o guarda protestou contra a pilhagem que estavam a fazer nos seus armazéns. - Se falharmos, o Rei Dragão cairá. Não vejo razão para nos contermos... seria como se quiséssemos ser derrotados.

- Não fales de derrota - interrompeu Theido, que ouvira tudo. - As coisas já serão bem difíceis tal como estão. Disseste guerra? É pior do que a guerra, porque o nosso inimigo é o tempo e, no fim, é sempre o tempo que ganha.

- Esta batalha não, senhor - retorquiu Ronsard, sombriamente. - Esta batalha não.

Nesse momento, apareceu a correr um guarda do portão, que saudou Hagin e proferiu abruptamente uma mensagem:

- Estão ao portão dois homens que querem ser recebidos pelo rei. Eu disse-lhes que ele não quer ver ninguém, mas eles insistiram. Eu não queria incomodar, mas eles não se vão embora.

- O que querem?

- Não querem dizer, senhor.

- Então, expulsa-os com a ponta da tua espada, homem - ordenou Hagin.

Theido e Ronsard, que começavam a afastar-se, ouviram o guarda dizer:

- São dois homens num pónei castanho e...

Ronsard girou nos calcanhares:

- Um pónei castanho? - Os seus sentidos ficaram alerta.

- O que é, senhor? - perguntou Hagin.

- Trá-los cá... e ao pónei também. Imediatamente.

O guarda baixou a cabeça e, obedecendo às instruções, foi a correr buscar os visitantes.

- Aposto que tens qualquer razão para o que acabas de fazer - afirmou Theido. Hagin olhava-os com uma expressão de interrogação.

- Pode não ser nada - volveu Ronsard -, mas parece-me que alguém disse que, no dia da caçada, o príncipe montava um pónei castanho.

- É verdade. Era o seu preferido - retorquiu Hagin. - E depois? Só aqui nesta região deve haver dezenas de põneis castanhos.

- Pode ser que sim, mas se chegam dois homens ao castelo, moontados num pónei castanho, exigindo ser recebidos pelo rei, o caso deve ser urgente. - Percebo - assentiu Theido. Mas pensas que isso pode ter alguma coisa a ver cormosco?

- Veremos. - Fazendo um gesto de cabeça para o outro lado do pátio: - Vem ali o guarda com os nossos mensageiros.

Dali a pouco, o guarda parou com os visitantes à frente dos cavaleiros e de Hagin. Tratava-se de um rapaz magro e esgalgado e de um homem de ombros curvados.

- Aqui estão eles, como mandastes, senhores.

- Com que então, encontramo-nos outra vez, amolador! - exclamou Ronsard. - Hagin, queres examinar o cavalo? Parece-me que este animal é nosso conhecido.

- Nós não o roubámos, senhor - disse Pym. - Mas como me conheceis?

- Eu era o desgraçado com a cabeça partida que estava no Ganso Cinzento na noite em que o Templo do Rei foi arrasado.

Reconhecendo-o, Pym abriu muito os olhos e assentiu com um ar entendido:

- Aconteceu-me o mesmo ainda não há três horas.

- É a montada do príncipe... Não tenho dúvidas. - Hagin deu umas palmadinhas no pescoço do pónei. - E a sela e os arreios do príncipe. Este animal saiu dos estábulos do rei... com toda a certeza. Mas posso chamar o mestre das cavalariças, que o deve saber melhor do que ninguém.

- Não é preciso - respondeu Ronsard, olhando para os dois homens que tinha à frente. - Então? O melhor é contardes-nos tudo.

- Encontrei-o, senhor - explicou Renny, em voz tímida e temerosa. Custava-lhe a acreditar que estivesse ali, no pátio interior do castelo de Askelon, onde cavaleiros e cavalos, escudeiros e homens de armas se preparavam como se para a batalha. - Entrou no nosso campo, que fica perto da floresta, e eu apanhei-o.

- Ao pónei? - Ronsard sorriu, com os olhos a brilhar. - Estou a ver. E o que fizeste depois?

Antes de o rapaz poder responder, Pym meteu-se na conversa:

- Eu digo-vos o que ele fez: salvou-me a vida, foi o que foi. Nós...

- Tu e o rapaz?

- Eu e a Tip, senhor - respondeu Pym, indicando a cadela.

- Percebo. Continua...

- Vínhamos para Askelon quando fomos atacados por salteadores e rufiões... pelo menos, pensei que eram salteadores e rufiões.

- Salteadores? - inquiriu Theido. - Nesta parte de Mensandor?

Pym assentiu vigorosamente:

- Apanharam-me e levaram a espada.

- Levaram a tua espada? - perguntou Ronsard. - Para que é que um amolador precisa de espada?

- A espada não era minha, senhor - explicou Pym. - Era a espada do rei!

 

Theido foi o primeiro a reagir à notícia:

- Tu encontraste a espada do rei?

Pym assentiu solenemente, Renny fez que sim com a cabeça e Tip abanou a cauda.

- Encontrámo-la na estrada aqui há uns dias... - Ao lembrar-se do que mais tinham encontrado, calou-se.

- Ao lado de um corpo, não foi? - sugeriu Ronsard.

Pym fez que sim com a cabeça e levantou as mãos:

- Mas não tivemos nada a ver com isso! Nunca ergui um dedo contra nenhum homem em toda a minha vida. Não, isso não!

- Acreditamos em ti, amolador - disse Theido. - O que nos contaaste coincide com o que já sabemos. O que fizeste à espada depois de a encontrares?

- Escondi-a, senhor, Escondemo-la numa árvore oca... numa aveleira, na floresta. Mas, ao princípio, não sabíamos que era a espada do rei.

- E, quando soubeste, foste lá buscá-la, não foi? - Ronsard tinha uma ideia do que acontecera: o amolador encontrara a espada na estrada, ficara assustado, escondera a arma e, ao chegar à cidade, ouvira o que se dizia e decidira ir buscá-la. - Tencionavas devolvê-la ao rei?

- Tencionava, senhor. Foi isso que planeámos fazer... bem, de início talvez não. Mas, ao princípio, eu não sabia que a espada era do rei. Não, isso não sabia.

- Quem ta tirou? - perguntou Theido. - os salteadores de que falaste?

- Eram seis. Dois passaram enquanto estávamos a descansar ao lado da estrada. Depois, mais três... Não lhes prestei muita atenção. Mas o último quase veio contra mim... vinha num galope desenfreado. Só o vimos quando ele parou. Depois, viu a espada e tirou-ma. Eu agarrei-me a ela o mais que pude, mas ele deu-me um ou dois pontapés na cara. - Pym esfregou cautelosamente o rosto inchado. - Este aqui - indicou Renny - salvou a pele do velho Pym. Salvou-me... e é um miúdo. Mas tem coragem. Ai tem, tem! Muita coragem! Lançou-se para o meio deles e pô-los em fuga como um bando de cães tinhosos!

Ronsard estudou o rapaz com atenção:

- É verdade, senhor? Defendeste o amolador dos rufiões?

Sem conseguir falar, Renny assentiu.

- Bravo, rapaz - comentou Theido. - Muito bem. Não é toda a gente que enfrenta seis homens armados de mãos nuas. O que te levou a fazê-lo?

Renny abriu a boca e deixou sair a resposta:

- Eu vou ser cavaleiro, senhor. E os cavaleiros são corajosos e auxiliam os que precisam de ajuda.

- É verdade! - concordou Ronsard. - Mas não tiveste medo?

- Não, senhor. Só tive quando o Pym me disse quem eram.

- Sim? Sabes quem eram, Pym? - Theido inclinou-se para a frente.

- Ouvimos o nome do que me tirou a espada. Era...

- Deixa-me adivinhar - interrompeu Ronsard. - Ameronis?

- Esse mesmo! - gritou Pym. - Esse mesmo! E é muito mau, senhor. Mau como uma cobra. Ai é, é.

- Bem me parecia! - observou Ronsard. - Bem, já sabemos qual será a nossa batalha. Não tenho dúvidas do sítio para onde esse patife levou o seu troféu.

Theido coçou o queixo e olhou para lá do pátio:

- Para o seu retiro no Sipleth. - Virando-se para Ronsard: - Pronto, já sabemos: vamos preparar-nos para um cerco e não para uma busca!

 Depois de ter recebido o pedido de resgate, Quentin recolhera ao leito, de onde não saíra durante todo o dia. Paralisado pelo desespero, jazia como se tivesse sido atacado pela doença que transforma as pernas em pedras. Uma vez que já não possuía a Brilhante nem tinha tempo para a procurar, não podia dá-la aos raptores, assinando, assim, a sentença de morte do filho.

Por causa da transgressão que cometera, por causa do miserável que abatera na estrada, ia perder o seu filho e herdeiro e também o trono Mas que interessava? Já perdera os amigos em quem mais confiava: Durwin morrera, Toli fora capturado e até a rainha o abandonara, deixando-o entregue aos maiores tormentos. Mas, para além de tudo isto, a sua dor mais profunda era saber que o Altíssimo retirara dele a sua mão e estava a julgá-lo com toda a severidade.

E era um julgamento que não conseguiria aguentar.

Bateram levemente à porta do quarto. Embora Quentin não se mexesse nem respondesse, a porta abriu-se. Uma figura alta e magra entrou no aposento escuro e aproximou-se da cama.

- Está tudo a postos - anunciou Theido.

O rei não respondeu.

Theido deixou-se ficar a olhar tristemente para o amigo durante alguum tempo. Depois, disse:

- Estamos à espera de que nos comandes. - Na verdade, fora lá dizer que iam partir, mas o estado de Quentin chocara-o tanto que resolvera tentar animar o rei. Por um instante, pensou que o seu artifício talvez desse resultado.

Quentin virou a cabeça, que tinha pousada na almofada, e fitou o rosto de Theido.

- Vão matar o meu filho - pronunciou baixinho -, e a culpa é minha.

- Não é nada. Tenho boas novas: a espada foi encontrada. Vamos agora buscá-la. - A Zhaligkeer foi encontrada?

- O Ameronis roubou-a a um amolador que a encontrou na estrada, no dia do rapto do príncipe Gerin.

- Então, ganhou... nunca a devolverá.

- Sem luta, claro que não. Mas tencionamos dar-lhe uma luta como ele nunca viu até hoje. No fim, até devolverá a Brilhante de bom grado. É por isso que tens de vir comnosco.

- Já não há tempo, Theido. Não há tempo. Já é muito tarde.

- Não é, senhor. Mas será se te demorares.

- Então, vai. Faz o que puderes.

Theido já ia a concordar, quando hesitou e replicou:

- Não serei eu a dar essa ordem, Majestade. Tens de ser tu a fazê-lo. Além disso, para mostrarmos ao Ameronis e aos amigos que não toleraremos nenhuma traição neste reino, tens de seguir à cabeça das tuas tropas.

Quentin ficou novamente silencioso. Theido não sabia se as suas palavras estavam a atingir o alvo ou se o rei se encontrava tão entregue ao desespero que nem escutara o que lhe dissera. Em silêncio, o cavaleiro ergueu uma prece ao Altíssimo, para que ele entrasse novamente em acção.

- Defende o teu trono, senhor - pediu Theido. - Anda connosco. Comanda-nos.

Quentin suspirou e passou a mão pelos olhos.

- Não, eu não sou rei. Deixa-me em paz.

- Quem comandará as tropas?

- Comanda-as tu.

- Eu não.

- Então, o Ronsard ou qualquer outro, Não me interessa.

Nessa altura, Theido percebeu que fora derrotado e encaminhou-se para a porta. já com a mão no trinco, parou e acrescentou:

- Há quem dê a vida por ti e pelo teu trono e há quem enfrente seja que perigo for ao teu serviço... como o Durwin, o Toli e outros que nem conheces. E tu não mexes nem um dedo para te salvares? - Ditas estas palavras, fechou a porta.

O rei ouviu os seus passos diminuindo no corredor, e deixou-se ficar a contemplar as trevas do aposento às escuras. Não se mexeu.

- Então? - perguntou Ronsard, que já sabia a resposta, estampada nas rugas cinzentas e cansadas do rosto do amigo.

- Ele não virá. Creio que perdemos o nosso rei mesmo antes de ter sido desferido qualquer golpe.

- Se o nosso rei se entrega ao desespero, então o nosso reino está às avessas. Os chacais vão desfazê-lo aos bocados.

Theido inspirou profundamente.

- Pelo menos, isso é uma coisa que podemos evitar durante mais algum tempo. Vamos até Ameron-on-Sipleth, onde faremos o que pudermos. - Lançou um olhar ao céu. - Se viajarmos toda a noite, estaremos lá de manhã.

Quando a luz do crepúsculo começou a tingir o céu da cor do vinho tinto, o exército do Rei Dragão saiu de Askelon. Nunca, nem por altura das guerras, quando todos os homens de Mensandor tinham respondido ao chamado e marchado para a batalha, nem nos terríveis tempos em que o inimigo ameaçava e a paz só era conquistada com a lança e com a espada, houvera partida tão silenciosa como aquela.

As tropas atravessaram em fila o pátio interior e a casa da guarda, passaram pela grande ponte levadiça, sobre o fosso seco, desceram a comprida rampa e dirigiram-se para as ruas da cidade. À frente, seguiam os cavaleiros, com as armaduras embrulhadas em redes, colocadas atrás das selas dos seus escudeiros. Depois, iam os peões, que marchavam em longas filas e avançavam em Silêncio, pois espalhara-se o boato de que o Rei Dragão não tinha coragem para chefiar os seus homens. Atrás deles, seguiam as pesadas carroças carregadas de provisões e armas para os peões e para os cavaleiros; a retaguarda do cortejo era formada pelos carros dos ferreiros e dos cirurgiões, que levavam o necessário para tratar tanto de homens como de armas.

O silencioso exército atravessou as ruas da cidade como uma falange fantasmagórica dirigindo-se para uma batalha esquecida na névoa do tempo. Ninguém saiu a saudar a sua passagem, nem nenhum habitante o aclamou. Exceptuando uns quantos cães rafeiros, esfomeados e sarnentos, que correram a ladrar à frente dos cascos dos cavalos, as ruas permaneceram vazias.

Muito direitos nas suas selas e com os olhos postos em frente, Ronsard e Theido seguiam lado a lado à cabeça das tropas. Sem conversarem, avançavam perdidos nos seus próprios pensamentos, que os envolviam como capas que se vestem contra o frio.

E, embora a noite estivesse quente, havia uma atmosfera de melancolia e futilidade que gelava o ar e que era sentida por todos os que naquela noite, seguiam a bandeira do Rei Dragão.

É que, mesmo sem o inimigo ter erguido a espada contra o trono, Mensandor perdera o seu rei.

 

O ancião Jollen, sentado a cofiar a barba à luz da lareira, fitava as brasas incandescentes; ao seu lado, encontrava-se a sua mulher, Morwenna, e, depois, Alinea, Bria e Esme, instaladas à frente do estimado ancião, observavam-no atentamente, à espera do que ele iria dizer. As sombras bruxuleavam nas paredes e, num canto, um grilo cantava a sua canção da noite. Por fim, enchendo o peito de ar, Jollen ergueu o olhar e disse:

- Sim, concordo. Deveis regressar imediatamente. Como o Biorkis sugeriu, o sonho é um aviso para que regresseis... ou um sinal de que deveis estar presentes para testemunhar o acontecimento nele pressagiado e que terá lugar muito em breve. Seja como for, tendes de ir.

- Obrigado, ancião jollen. As tuas palavras dão força à decisão que o meu coração tomou - retorquiu Bria.

- Se quiserdes, posso discutir o assunto com os outros anciões, mas tenho a certeza de que eles dirão o mesmo que eu. Sim, ide. Bem sei que quase não tivestes tempo para descansar da vossa jornada, mas tendes de partir. Pediremos ao deus que vos dê forças.

- Detesto ter de partir - observou Esme. - Bastou-me o pouco tempo que passei aqui para me sentir tão bem como se este fosse o meu lugar.

Jollen fitou-a e fez que sim para si próprio, como se estivesse a ver naquela jovem qualquer coisa que mais ninguém via.

- Talvez o deus esteja a falar contigo, Esme. Pode ser que ele tenha um lugar para ti aqui, entre nós. Seja como for, serás sempre bem-vinda a Dekra. Volta quando puderes e fica o tempo que quiseres... deixa que o teu coração se encontre outra vez.

As últimas palavras do ancião surpreenderam Esme.

- A Bria falou-te dos meus... dos meus problemas?

Jollen sorriu com bondade.

- Não, senhora. Não precisei de palavras para saber que, ultimamente, a tua companhia tem sido a dor e a tristeza. Logo que entraste pelo portão, vi a criança perdida que há em ti.

Esme baixou os olhos e fitou as mãos, que tinha pousadas no regaço:

- Nota-se assim tanto?

- Não - retorquiu Bria.

- Não, não... nem toda a gente o vê - admitiu o ancião Jollen -, mas eu tenho o dom de ler a alma melhor do que os outros. Não falo para te envergonhar, Esme, mas sim para te dizer que conhecemos os teus males e que temos rezado por ti desde que aqui entraste.

- Agradeço as vossas orações. Nunca como aqui me senti tão em paz desde... - A voz embargou-se-lhe e ela deixou a frase por terminar.

Morwenna levantou-se e rodeou-a com um braço.

- Quando acabares o teu trabalho, volta e fica connosco. Seria uma honra ter-te aqui.

- O meu trabalho? - Esme olhou em volta. - O que significa “o meu trabalho”?

- Foste tu que tiveste a visão, Esme - explicou Alinea. - Foi contigo que o Altíssimo falou.

- Tenho algum papel a desempenhar em tudo isto?

O ancião Jollen soltou uma risadinha:

- É verdade que todos temos, mas o teu papel é muito especial. Whist Orren revelou-te a ti, e só a ti, uma parte de seu plano. Sim, ele pousou a sua mão sobre ti, Esme.

Depois, conversaram um pouco mais sobre banalidades e sobre os preparativos que se tinham feito para a sua partida, que seria no dia seguinte, bem cedinho. Mas, embora todos soubessem da poderosa revelação, que resultaria num grande feito, ainda imprevisto, e que era isso que levava as mulheres a apressarem-se a regressar, mais ninguém falou do sonho de Esme nem do seu possível significado. Quando, por fim, se levantaram relutantemente para se irem deitar, Morwenna acompanhou-as até à porta, dizendo:

- De manhã, levar-vos-ei o desjejum e despedir-me-ei de vós.

- Não te incomodes - replicou a rainha. - já fizestes tanto por nós... todos vós!

- Não me custa nada. - Morwenna afastou a preocupação de Bria com um aceno. - Só lamento não ter podido passar mais tempo com as tuas pequeninas. São encantadoras! Tens de vir cá outra vez com elas... e com o Quentin, que não nos visita há muito tempo.

- Se ele estivesse aqui, concordaria contigo. - Bria pegou nas mãos de Morwenna. Jollen foi pôr-se ao lado da mulher. - Reza por ele, por favor. Reza por ele e pelo meu filho.

- Podes crer que sim - respondeu jollen. - Temos rezado desde que aqui chegaste. E não pararemos até sabermos que está tudo bem outra vez. - Fazendo uma pausa, envolveu as mulheres num olhar longo e amigável. - Mas tende coragem - continuou abruptamente. - O que vos trouxe aqui, a vossa missão, foi cumprida, e o Altíssimo deu-vos a sua bênção. Vós fostes fiéis aos vossos corações, e as coisas que ele revelou já estão a acontecer. lide e testemunhai-as... e sabei que ele não falta a quem o segue.

Em silêncio, as visitantes abraçaram os seus anfitriões e saíram da sala quente e iluminada pela lareira para a fresca noite de Verão, onde cintilavam miríades de estrelas. Seguiam tão perdidas nos seus próprios pensamentos que se apressaram a ir para a cama sem falar. Apesar disso, sentiam-se muito próximas umas das outras, unidas pela força do amor e por um objectivo comum. E, embora pudessem vir a ser forçadas a atravessar as trevas do mal, nenhuma delas duvidava de que, no fim, haveria luz.

- Toli? Estás a dormir? - perguntou o príncipe Gerin, aproximando-se da silhueta encolhida que tinha ao lado.

- Não - replicou Toli, rodando sobre si. - O que é?

- Ouvi um barulho. Vem aí alguém.

- Também ouvi. É outra vez o guarda a certificar-se de que ainda estamos aqui e não desaparecemos pelas rachas das paredes.

- Nestes dois últimos dias, têm andado a vigiar-nos mais de perto... mais de perto do que antes. Porquê?

- Creio que, como já puseram tudo em movinento e estão à espera para ver o que acontece, não querem que nos aconteça nada até conseguirem os seus objectivos.

- Mas o que querem eles?

- Vingança. Uma vez, Nimrocid tentou apoderar-se do trono e...

Antes de Toli poder acabar, ouviu-se raspar e chiar e a porta abriu-se. A luz bruxuleante de uma tocha passou pela abertura e iluminou a cela. Toli rodou sobre si próprio e soergueu-se.

- O que queres? - perguntou quando o visitante entrou.

- Estais confortáveis, meus animaizinhos?

- Nimrood! - exclamou Toli sombriamente. - Com que então, arrastaste-te até aqui para escarneceres dos teus prisioneiros?

- Oh, não! Só vim cá dizer-vos o alto preço que pedi pelas vossas cabeças inúteis. O pedido de resgate já foi entregue e recebido. O rei só tem um remédio: ceder.

- O que fizeste, víbora?

- Apenas sugeri que libertaria os meus prisioneiros em troca de um certo objecto de valor para o rei. - Fazendo uma pausa, Nimrood riu com maldade. - Ah! Um objecto que, em breve, terá pouco valor para o rei!

- De que estás a falar? - Toli pôs-se em pé.

- Deixa-te ficar onde estás! - gritou Nimrood. Depois, em voz mais calma: - Assim é melhor. Que objecto? - Encolheu os ombros. A sua sombra negra, projectada pela luz da tocha, agigantava-se na parede. - não vejo razão para não vos dizer. O objecto que terei e a espada.

- A Brilhante! - arquejou o príncipe Gerin, que fora pôr-se ao lado de Toli.

- Sim, creio que é como lhe chamam. Nunca a vi, mas parece que é uma arma excelente.

- Não! - gritou Gerin. - O rei não pode desfazer-se da Brilhante!

- Isso, meu malcriado, é o que vamos ver.

- O príncipe tem razão. O Rei Dragão nunca entregará a Zhaligkeer. Ele nunca rebaixaria o trono a esse ponto.

- É pena - fungou Nimrood. - Mas talvez ele veja as coisas de um modo diferente. O trono vale mais do que a vida do seu único filho e herdeiro e do seu melhor amigo?

- Estou a perceber - disse Toli friamente. - Queres obrigá-lo a escolher. Mas esqueces-te de que um rei é rei em primeiro lugar e só depois homem. Portanto, tem de fazer o que é melhor para o reino.

- Seja como for, vai ser interessante. Daqui a pouco, já saberemos o que vai escolher. - Daqui a quanto tempo? - Cinco dias. Daqui a cinco dias, ao meio-dia, sereis levados para o átrio do templo e amarrados. Se o rei não trouxer a sua espada encantada, sereis mortos no altar de Ariel. Bem sei que, agora os deuses já não querem sacrifícios humanos. Mas, desta vez, creio que o sumo sacerdote insistirá nisso. O que fará o corajoso rei Quentin com as mãos manchadas com o vosso sangue? Como será que, daí para a frente, conseguirá viver consigo próprio? - Nimrood recuou um passo e levantou bem a tocha. - Agora, também ficareis a pensar nisso!

Imóvel como uma pedra, de punhos cerrados e músculos rígidos, Toli ficou a ver o velho feiticeiro desaparecer. A porta da cela fechou-se, o ferrolho arranhou no trinco e a cela voltou a ficar escura e silenciosa. Nimrood voltou ao seu ninho repugnante, arrastando-se pelo corredor e soltando risadinhas para si próprio.

- É verdade? - perguntou Gerin, quando o cacarejar do feiticeiro deixou de se ouvir. Tinha a voz a tremer.

- É - retorquiu Toli, rodeando-o com o braço e cingindo-o a si. - Lamento muito, mas é verdade. É possível que ele o tenha dito só para nos afligir, mas não me parece. Aquele abutre quis dar-nos a provar o veneno do medo... espera que isso apodreça em nós como uma ferida. Mas não podemos deixar que isso aconteça. Nem por um momento podemos deixar de ter esperança.

- Tenho medo, Toli. O que vai acontecer-nos?

- Não sei. Não está nas nossas mãos.

 

O dia cinzento e sem vida nasceu sobre Pelgrin, enchendo de neblina as águas lodosas e lamacentas do rio Sipleth. Na margem do rio, num ponto em que o solo se elevava, formando o despenhadeiro rochoso de uma falésia sobranceira à água cinzenta, erguia-se o castelo de Ameron. Abaixo do castelo, o Sipleth, correndo no seu leito rochoso, achatava-se e alargava ao curvar em volta da falésia, oferecendo a Ameronis duas barreiras naturais; a floresta, muito densa nesta parte de Mensandor, constituía uma terceira protecção. Portanto, o ataque só era possível pela frente. Além disso, o terreno inclinado e acidentado dificultava qualquer assalto.

Theido e Ronsard debruçaram-se nas suas selas e examinaram a fortaleza à luz caprichosa do novo dia. - Não me lembrava de isto ser tão rochoso e tão bem fortificado - disse Ronsard.

- Vamos pôr-nos ali e ali - indicou Theido, apontando com o dedo -, fora do alcance das flechas. Um homem como o Ameronis deve estar sempre preparado para combater. Não tenhamos ilosões de que o apanharemos desprevenido.

- Podemos fazer uma coisa antes de ele saber que estamos aqui. Vamos mandar os sapadores verem onde poderemos abrir uma mina por baixo das muralhas.

- Ordena que o façam imediatamente. Manda archeiros com eles, para o caso de o castelo acordar e dar luta.

Ronsard desmontou com um ar fatigado, dirigiu-se à orla de árvores onde o exército esperava e deu as suas ordens a vários cavaleiros, investidos das funções de comandantes-de-campo. Desmontando também, Theido pôs-se a percorrer o perímetro do bosque, estudando a configuração do terreno e a situação do castelo. Durante este exame, alguns homens envergando roupas grosseiras de pele saíram a correr da floresta para o castelo, com varas compridas e aguçadas nas mãos. Atrás deles seguiam os archeiros, com arcos compridos e aljavas às costas.

Quando chegaram à base das enormes muralhas, os homens dividiram-se em grupos de dois ou três e começaram a examinar o solo e as pedras das muralhas exteriores, espetando as varas no chão ou enfiando-as em fendas e brechas.

Passado algum tempo, Ronsard foi pôr-se ao lado de Theido, que observava a actividade dos sapadores.

- Provavelmente, ainda demorará um bocado. Sugiro que vamos tentar dormir, antes que o Ameronis acorde e descubra que está cercado. Já dei esta ordem às tropas.

Theido esfregou os olhos com os punhos e virou-se para o amigo:

- O meu coração não está nesta luta. Não me agrada levantar a espada contra um dos nossos, mesmo que se trate do Ameronis, que, apesar de tudo, ainda é um nobre do reino.

Ronsard encolheu os ombros:

- Deixou de ser um nobre de Mensandor quando, por vontade própria, desafiou o seu rei. Agora, é um renegado que tem de ser punido. A traição não é nenhum crime menor.

- Não discordo, mas gostava que não fosse assim.

- Ao guardar a espada para si, está ele próprio a prender o herdeiro do rei.

- Será que sabe disso?

- Achas que se comportaria de maneira diferente se soubesse?

- Talvez não, mas tratarei de que seja informado o mais cedo possível. Isso, pelo menos, fará com que pense duas vezes antes de prosseguir por este caminho.

Ronsard franziu as sobrancelhas:

- Ele não cederá. O Ameronis é muito orgulhoso e esperou muito tempo. O cerco vai começar. Rezemos para que não demore muito, pois temos pouco tempo.

Com estas palavras, viraram-se e foram vigiar o assentar do acampamento e procurar um sítio para se estenderem e passarem pelo sono, que já lhes era tão necessário.

No castelo de Ameron, Ameronis e os amigos dormiam em camas altas e fofas, feitas com finos lençóis, em quartos com requintadas tapeçarias bordadas a seda penduradas nas paredes.

Ameronis estava habituado ao melhor. A chama da ambição ardia nele com tanto calor que até vivia como um rei.

Naquele momento, dormia a sono solto na sua cama larga, sonhando com o dia em que subiria ao trono do Dragão, no salão do Rei Dragão. Era uma visão que havia muito alimentava e embalava no seu coração e que em breve se realizaria, pois agora possuía a famosa Zhaligkeer. Tinha a espada numa caixa fechada aos pés da cama. Nem no seu armeiro confiava; queria-a sempre consigo.

Na passagem da muralha que ficava do lado de fora da janela da torre do senhor, apareceram homens a correr e a gritar, batendo com os pés no pavimento de pedra. Arrancando Ameronis dos seus sonhos de glórias reais, os gritos despertaram-no.

- Camareiro! - gritou. Um homem delgado, de olhos de fuinha e dentes castanhos e podres, apareceu imediatamente.

- Senhor? - perguntou o servo, enfiando a cabeça pela porta.

- Por Zoar, O que se passa? Como se pode dormir com tanta algazarra? Tenho hóspedes em casa e não quero que os acordem.

- Há qualquer agitação fora do castelo, senhor, mas ainda não se sabe bem o que é.

- Bolas! Eu vou lá! - Atirando a manta para trás, Ameronis encaminhou-se para o torreão e subiu um lance de escadas que davam para as ameias. Os seus aposentos ficavam na torre mais avançada virada a ocidente e davam para os portões e para a floresta.

Uma vez completamente acordado, só precisou de uns instantes para determinar a causa da agitação que o tirara da cama.

- Por todos os deuses do céu e da terra! - gritou. - Estamos cercados!

Nessa altura, aproximou-se um jovem cavaleiro, comandante de Ameronis:

- Senhor estamos cercados.

- Isso vejo eu! Quantos são?

- Ainda não tivemos tempo para os contar. Estamos a fortificar as portas. O alarme só foi dado há pouco tempo, por uma das sentinelas colocadas nas ameias viradas a sul. Os sapadores andam à procura de algum ponto fraco que possam explorar senhor.

- São homens do rei?

- Não têm insígnias, senhor. Por mim, não vi nada.

- Muito bem. Mandai uma chuva de flechas para cima das suas cabeças tolas, para aprenderem a não andarem a farejar estas muralhas como cães!

- Já se mandaram archeiros para as ameias, mas os sapadores fugiram mal os viram.

Ameronis virou-se e olhou para o bosque onde se encontrava o exército do Rei Dragão.

- Com que então, a festa começou - murmurou para si próprio. Depois, gritou uma ordem por cima do ombro para o jovem cavaleiro: - Manda os archeiros estarem a postos e informa-me logo que eles se mostrarem novamente.

- Sim, senhor. - O comandante baixou a cabeça e Ameronis, descalço afastou-se pela passagem da muralha, voltou a descer as escadas, atravessou o torreão e entrou nos seus aposentos.

Chegado aí, vestiu-se à pressa e enfiou a túnica acolchoada, para o caso de precisar de pôr a armadura ainda antes de o dia chegar ao fim. Depois, correu para o depósito de armas, a ordenar que se pusesse tudo a postos; daí, foi falar com o guarda, para saber o estado das provisões do castelo: comida, água, cereais e rações para os cavalos; por fim, encaminhou-se para as portas, onde supervisionou pessoalmente o reforço da madeira maciça com cunhas e traves.

Ameronis fez tudo isto sem excitações nem ansiedade, e sim como um homem muito habituado à guerra e aos seus preparativos. Na verdade, toda a vida esperara por aquele dia. Se andava por ali com o ar desapaixonado do veterano bem treinado, era porque a ambição pelo trono o instruíra bem, tanto a si como ao pai, no uso do poder e na maneira de o atingir.

Por isso, jurou que havia de ser rei ou de morrer a tentá-lo.

Ao meio-dia, Ronsard acordou de um sono muito curto e fez a inspecção do acampamento, falando com os comandantes e com os soldados, que tinham andado atarefados a transformar os bosques que os rodeavam numa pequena aldeia... numa aldeia de guerreiros.

- Garth - disse Ronsard, chamando um cavaleiro de tendões grossos, que vigiava a construção de uma fila de correntes para prender os cavalos. - Há notícias dos sapadores que saíram hoje de manhã?

O grande homem encheu o imenso peito de ar e esvaziou as bochechas, fazendo o ar assobiar-lhe por entre os dentes.

- Boas, não. Aquele castelo é tão seguro como a rocha que tem por baixo. Os sapadores não encontraram nenhuma brecha nem nenhum bocadinho de solo mais mole em toda a volta... isto é, em três lados, porque o quarto é o rio.

Ronsard carregou o cenho:

- Não encontraram mesmo nada?

Garth abanou a cabeça:

 - O castelo tem fundações de pedra... duras como o coração do dono. Por baixo daquelas muralhas não há nenhum sítio onde possamos abrir um túnel.

Ronsard assentiu com a cabeça e afastou-se. “Está bem”, pensou. “Se não podemos passar por baixo das muralhas, passaremos por cima. Não temos tempo para um cerco prolongado. Precisamos de resolver este assunto em quatro dias, para chegarmos ao Grande Templo antes... Bem, de uma maneira ou de outra, chegaremos a tempo. Com a ajuda do verdadeiro deus, chegaremos a tempo.”

Nessa altura, ouviu passos atrás de si e virou-se, dando de caras com Theido.

- Este bocadinho de sono fez-te bem, meu amigo. já estamos a ficar velhos para andarmos toda a noite nas florestas, hã?

Embora Ronsard tentasse parecer animado, Theido continuou a sentir um peso no coração e falou em voz áspera:

- O castelo deu alguns sinais de vida?

- Nenhum. Ainda há pouco falei com o comandante das sentinelas, que me disse que as torres e as ameias continuam em silêncio... mas parece que apareceram lá alguns archeiros, que estão à espera.

- Ora! - resmungou Theido. - Então, enquanto esperam vou dar-lhes alguma coisa em que pensar. - Girando nos calcanhares, chamou um escudeiro, a quem ordenou que lhe trouxesse o cavalo.

- O que tencionas fazer? - indagou Ronsard, correndo atrás dele.

O escudeiro apressou-se a levar-lhe o cavalo. O alto cavaleiro pegou nas rédeas e pôs o pé no estribo. Ronsard pousou-lhe a mão no ombro:

- Não vás sozinho.

- Então, anda comigo. Tanto me faz, - Theido içou-se para a sela e fez rodar o cavalo.

- Espera! - gritou Ronsard, mandando o escudeiro buscar a sua montada.

Quando Ronsard apanhou o teimoso do seu amigo, já este se encontrava a meio da escarpa rochosa que ia dar ao castelo. O caminho era dificultado por afloramentos de granito que sobressaíam da ma musgosa. Os raios do Sol, que estava a pino, ricochateavam nestas superfícies rochosas, lançando uma luz ofuscante. O castelo de Ameron erguia-se à sua frente, no cimo da encosta. Enquanto se aproximavam, Ronsard estudava cuidadosamente as suas muralhas.

Quando ficaram ao alcance das flechas das muralhas, pararam. Levando a mão à boca, Theido gritou às sentinelas:

- Chamo-me Theido e sou amigo do rei. Quero parlamentar com o vosso amo. Trazei-o cá fora.

Os dois cavaleiros ficaram à espera que os homens das ameias debatessem este pedido, que acabaram por decidir que não podiam recusar. Um deles disse qualquer coisa, desapareceu uma cabeça das ameias e a primeira sentinela gritou:

- Já mandámos chamar o nosso amo, senhor.

Passou-se algum tempo. Os cavalos batiam com os cascos e relinchavam impacientemente, agitando a cabeça e sacudindo a crina. Mas a espera foi recompensada com o aparecimento de Ameronis nas ameias.

- Com que então, és tu, Theido! - berrou Ameronis lá para baixo. - E tu és o Ronsard?

- Quero falar contigo, Ameronis. Cara a cara.

- Lamento muito mas parece que as portas foram fechadas e fortificadas. Não posso abri-las. - Ameronis falou num tom bem-humorado, como se estivesse pronto a esquecer que as intenções dos homens que tinha à frente eram tudo menos amigáveis e benévolas.

- Então, antes que haja derramamento de sangue dos dois lados, deixa-me aproximar-me, pois quero dizer-te uma coisa.

- Estás a perder o teu tempo - murmurou Ronsard. - Este lobo só ouve o fio da lâmina.

- Eu sei - replicou Theido -, mas os que estão com ele não são da mesma laia. Talvez consigamos fazê-los vacilar. Vês? Lá estão eles.

Ronsard viu várias cabeças juntarem-se à de Ameronis e espreitarem por cima da muralha.

- Não estou a ver o Edfrith.

- Se calhar, teve o bom senso de não se deixar enredar mais nas tramas deste cobiçoso. Isso, pelo menos, mostra que o bando não está todo de acordo.

- Podeis aproximar-vos - gritou Ameronis para baixo. - Quero ouvir o que tendes a dizer.

 

- Isto não me agrada, Ameronis - disse Kelkin. - Se é verdade que temos o resgate do filho do rei, devemos devolvê-lo. Não quero ficar com as mãos manchadas com o sangue do príncipe.

Os amigos de Ameronis estavam reunidos com ele na câmara do conselho, uma sala que ficava na torre de menagem, por cima das masmorras. As janelas abertas permitiam que a brisa agitasse o ar parado e pesado da sala. Sentado num parapeito, Ameronis contemplava a escarpa para onde Theido e Ronsard se tinham retirado apenas uns momentos atrás.

- Se tiveste coragem para enfrentar o próprio rei e não te queixaste, não te percebo agora - retorquiu Lupollen. - Se é verdade que quem empunhar a espada é o rei... então, aqui está o nosso rei! - Fez um gesto na direcção de Ameronis, que se levantou, apoiando as mãos no parapeito, e se pôs de frente para eles. A sua silhueta recortava-se na janela estreita.

Dencilon murmurou por entre os dentes:

- Se ele é rei, porque nos escondemos atrás de portas aferrolhadas, à espera da batalha?

Ameronis ignorou este comentário:

- Não vedes que isto é exactamente o que eles querem?

Os outros lançaram-lhe olhares de interrogação.

- O quê? - inquiriu Gorloic. - Fala claramente. - Oh, mas é muito claro, senhor. É um truque deles para nos fazerem dar-lhes a espada sem uma única troca de flechas.

O Theido é uma velha raposa manhosa: como sabia que causaria desavenças entre nós, pôs-se a mentir descaradamente.

- Duvidas dele depois de tudo o que aconteceu em Askelon? - perguntou Denellon.

- Oh, não duvido de que o príncipe tenha sido raptado... isso é verdade. O mais provável é que tenha sido levado por simples salteadores, que só querem alguns ducados de ouro para o soltarem. Se calhar, o resgate já foi pago e o rapaz até já está livre. Não, esta história de que a espada é o resgate do príncipe, que está condenado se a Brilhante não for entregue daqui a quatro dias, é um estratagema... aliás, muito mal alinhavado.

Escutando este discurso de Ameronis, que falava calmamente e com segurança, os senhores carregaram o cenho... a sua astúcia não os convencera, mas conseguira abalá-los. Por fim, Kelkin levantou-se e disse:

- Creio que cometemos um erro grave, senhores, do qual nos arrependeremos durante muito tempo. Mas, já que estamos metidos nisto, temos de ir até ao fim, não é?

- É - concordaram os outros. - não temos outro caminho.

- É isso - assentiu Ameronis, como se também ele tivesse acabado por se deixar convencer pelas palavras de Kelkin. - Realmente, não temos outro caminho. Foram eles - apontou para fora da janela - que nos forçaram a isso... agora, temos de ir até ao fim.

- Que resposta lhes vais dar, Ameronis? - perguntou Lupollen. - É quase altura de voltarem para saberem a tua decisão.

- Que resposta lhes posso dar? - Ameronis abriu as mãos.

- Dir-lhes-ei que não podemos entregar a espada. E que, se se forem embora, lhes perdoarei a afronta que a sua presença fez à minha honra. De contrário... Não está nas minhas mãos.

Levantando-se, os senhores saíram em fila para as ameias.

Theido encontrava-se lá em baixo. Fora sozinho saber a resposta do seu pedido para que lhe entregassem a Zhaligkeer.

- Theido - chamou Ameronis -, antes de dar a minha resposta, quero fazer-te uma pergunta. - Os senhores que estavam com Ameronis entreolharam-se. O que estaria o astuto nobre a preparar agora?

- Então faz - respondeu Theido, inclinando-se e pousando o braço na parte mais alta da sela.

- Que garantias tenho de que,se te entregar a espada, não a usarás em proveito próprio, para reclamares o trono?

- Só um homem como tu pode pensar uma coisa dessas - volveu Theido colericamente. - Como não és leal a ninguém, pensas que todos são como tu.

Ameronis limitou-se a encolher os ombros:

 - Que garantias tenho? Theido fez um esforço para se controlar:

- Nenhuma, a não ser a minha palavra de honra, Mas se preferires, podes voltar connosco a Askelon e entregar pessoalmente a espada ao rei.

- Contigo e com os teus cavaleiros por escolta? - zombou Ameronis. - Seria abatido antes de avançar meia légua.

- Para mim, a palavra do Theido é suficiente - retorquiu Kelkin. - Vale tanto como a promessa selada de um rei.

- No fundo, está a dar-nos a oportunidade de mantermos a honra sem derramamento de sangue - acrescentou Denellon.

- Creio que devíamos considerar a sua proposta.

- O que ele está é a dar-nos a oportunidade de sermos esfolados como coelhos, meus amigos. Julgais que não tentaria castigar-nos logo que tivesse a espada em seu poder?

- Ele afirmou que o Ameronis podia entregá-la ao próprio rei - argumentou Gorloic. - Devíamos levar isso em consideração.

- Para irmos parar às masmorras de Askelon logo que a espada for devolvida? - indagou Lupollen.

- O Rei Dragão não faria uma coisa dessas - interpôs Kelkin. Gorloic e Denellon concordaram com ele, fazendo que sim com a cabeça. - Podemos pedir um salvo-conduto.

- Um salvo-conduto? Ora! o único que nos dariam seria um salvo-conduto para o cepo do carrasco! - Ameronis carregou o sobrolho, - Não, agora não nos atreveremos a entregar a espada. Os dados estão lançados e temos de ir até ao fim.

- Estou à espera - disse Theido. - Qual é a tua resposta?

- Aqui a tens: não entregarei a espada - afirmou Ameronis. - Se o Rei Dragão a quer, que venha cá tirar-ma!

- Sabes que isso é traição...

- Não me fales de traição, senhor! Quando eu for rei, a tua afronta será considerada traição... nessa altura, veremos quem ficará em maus lençóis! Sai daqui e leva os teus homens contigo!

- Fomos encarregados de recuperar a Brilhante e é o que faremos. Se o rei não te interessa, ao menos pensa na vida do seu filho.

- Um estratagema! Fora! Estou farto de falar contigo!

- Eu vou - replicou friamente Theido. - Da próxima vez que nos encontrarmos, será com a ponta da espada. És tu que nos obrigas a declarar o início do cerco. - Theido abanou as rédeas, fez o cavalo dar meia volta e voltou a descer a encosta a galope. Ronsard esperava-o nos limites do acampamento.

- Então? - perguntou o cavaleiro de cabelo cor de areia.

- Tinhas razão, meu amigo - replicou Theido acaloradamente. - Isto é mesmo um covil de chacais. Embora o Gorloic, o Kelkin e o Denellon pareçam inclinados a mostrar algum bom senso, deixam-se ir na sua conversa.

- Então, o cerco começou. - Ronsard contemplou o castelo que se erguia à sua frente. - Não será fácil abrir brechas naquelas muralhas. E também não podemos esperar que morram à fome. Temos de atacar por cima.

- Talvez acabe por ter de ser assim - replicou Theido, seguindo o olhar de Ronsard -, mas ainda não. Primeiro, quero examinar o quarto lado do castelo, a muralha que fica sobre o rio, virada a ocidente.

- Como tencionas fazê-lo?

 - Terá de ser hoje à noite, a coberto da escuridão.

- Muito bem. Arranjarei uma manobra de diversão que disfarce os nossos verdadeiros objectivos. Mas o que esperas encontrar?

- Uma poterna. Nunca estive em nenhum castelo que não tivesse qualquer entrada traseira. Um homem como o Ameronis deve ter alguma porta secreta... vamos ver é se a encontramos.

Assentindo com a cabeça, Ronsard acrescentou:

- Vamos ver se a encontramos a tempo.

Durante o resto da tarde e parte do crepúsculo, o acampamento fervilhou de actividade. Nos bosques próximos, ecoava o som dos machados abatendo árvores e cortando-lhes os ramos; vários homens passavam a floresta a pente fino, apanhando braçadas de caruma; a forja e os foles dos ferreiros lançavam para o céu, por entre as árvores, espirais de fumo preto.

Ao cair da noite, estava tudo pronto. Uma meia-lua pálida ergueu-se acima das copas das árvores, lançando uma luz fraca sobre a escarpa e tornando as muralhas do castelo e os afloramentos de granito brancos como os ossos de um morto.

- Está tudo pronto - anunciou Ronsard, pondo-se ao lado de Theido, que dava as suas instruções a um grupo de cavaleiros que escolhera para tomar parte na surtida nocturna.

- Muito bem. Aqui, também estamos prontos, - Theido mandou os homens embora, dizendo: - Agora, ide descansar. Chamar-vos-ei quando for altura de partirmos. - Os cavaleiros retiraram-se para a escuridão, deixando Theido e Ronsard sozinhos com as brasas de uma fogueira que se ia extinguindo lentamente. - Agora, temos de esperar. Daqui a pouco, a Lua começará a descer e ficará suficientemente escuro para não sermos vistos.

- Quando começarmos, nem uma alma do castelo de Ameron se lembrará de te procurar. Disso, podes ter a certeza.

- Por quanto tempo podes aguentar a manobra de diversão?

- Pelo tempo que quiseres. Estamos bem preparados.

- Ah, bem, então está tudo pronto - suspirou Theido. - Já agora, também podemos ir descansar. Temos de estar em forma para enfrentarmos o leão no seu covil.

 

Os dois grupos reuniram-se nos limites da floresta: um era constituído por duas dezenas de homens de armas e o outro por doze cavaleiros escolhidos a dedo. A Lua, que já atravessara o céu, descera para trás das árvores de Pelgrin, deixando a terra numa escuridão completa. Com a sua forma maciça e preta recortando-se num fundo ainda mais preto, o castelo erguia-se na encosta em frente. Se não fossem as estrelas, que brilhavam como as fogueiras do acampamento de uma hoste celestial, os sitiantes nem sequer teriam luz que chegasse para verem onde punham os pés.

- Dar-te-emos tempo para te pores em posição - disse Ronsard. - Julgo que, quando iniciarmos a manobra de diversão, darás logo por isso. Com sorte, todo o castelo acordará muito em breve.

Theido fez que sim com a cabeça:

- Estaremos a postos. Não te descuides e mantém-te fora do alcance das flechas. Não há necessidade de ninguém ficar ferido esta noite. Não te arrisques... pelo menos por enquanto.

- Os ferimentos não são coisas que nos agradem muito, meu amigo. Não tenhas receio... manter-nos-emos bem longe das setas.

Os dois homens separaram-se com estas palavras. Seguindo à cabeça dos seus cavaleiros, Theido dirigiu-se para a margem do rio, onde o lento e escuro Sipleth corria silenciosamente. Depois de atravessarem o bosque durante o que lhes pareceu uma eternidade, os cavaleiros chegaram à margem oriental do Sipleth. O som da água turbilhonando e rodopiando no seu leito, fez-lhes saber que a primeira fase da sua jornada estava completa.

Caminhando em silêncio, com as ferramentas e as armas embrulhadas para não fazerem barulho, o pequeno destacamento virou e seguiu em fila indiana ao longo da margem do rio, em direcção ao castelo. Ao curvar em volta da rocha do castelo, o rio alargava e a margem erguia-se, formando um penhasco sobranceiro às águas negras, que seria invisível se não fosse o piscar ocasional da luz das estrelas numa ou noutra ondulação da corrente.

Os cavaleiros avançaram pelo penhasco acima, abrindo caminho por entre silvados e tufos de urtigas, mas os seus esforços foram recompensados quando Theido parou finalmente, passando para trás uma palavra sussurrada:

- O castelo está mesmo à nossa frente. Vamos esperar.

Mesmo à beira do penhasco, erguia-se a muralha ocidental do castelo de Ameron. O grupo de atacantes ajoelhou-se no caminho e aguardou o sinal, que não demorou muito, pois, enquanto esperavam silenciosamente abaixo da muralha, ouviu-se un grito distante, vindo de cima.

- Disparar! - Esta ordem foi repetida muitas vezes, ao longo das ameias. Depois, enquanto o grito ia ecoando, os cavaleiros ouviram o bater de pés nas muralhas que ficavam directamente por cima das suas cabeças. - Disparar!

Theido levantou a mão, indicando aos homens que permanecessem quietos.

- Esperai! - sussurrou. - Dai-lhes mais tempo.

Naquele momento, os gritos de alerta já se ouviam nos pátios do castelo e nas ameias mais distantes. Mas não lhes chegou mais nenhum barulho de cima; por isso, Theido avançou furtivamente até à muralha ocidental, que ficava por baixo da torre, e percorreu-a toda, sempre olhando para cima.

Dali a pouco, voltou e anunciou:

- Parece que deu resultado. A sentinela retirou-se para o outro lado do castelo. Como não dispomos de muito tempo, temos de trabalhar depressa. Ide!

Os cavaleiros entraram imediatamente em acção, pegando em rolos de corda e espetando pesadas estacas no chão. Depois, amarraram as cordas às estacas e começaram a descer pela beira do penhasco, na direcção do rio. Theido e dois archeiros ficaram a proteger as cordas, enquanto os seus camaradas estavam vulneráveis.

Quando o último cavaleiro desapareceu pela borda, Theido disse:

 - Vamos esperar outra vez. Ficai bem encostados à muralha, não vá a sentinela da torre regressar, e mantende-vos bem atentos ao meu sinal.

Os dois cavaleiros fundiram-se com a escuridão que reinava por baixo da muralha da torre. Afastando-se também da beira do penhasco, Theido sentou-se com as costas voltadas para a imensa cortina de pedra, rezando para que as sentinelas não regressassem tão cedo.

Theido não precisava de se preocupar, pois naquele momento todos os homens que serviam Ameronis ou estavam a despejar baldes de água para apagarem os fogos que ardiam nos pátios ou a postar-se na muralha oriental com os seus arcos e flechas, de modo a impedirem que a força sitiante lhes atirasse mais bolas de fogo.

Quando o grupo de Theido partira, Ronsard e a sua força tinham esperado que ele se afastasse bastante e, depois, haviam-se deslocado para o campo de batalha, arrastando com eles as grosseiras catapultas que tinham sido construídas nesse mesmo dia. Tratava-se de duas máquinas pouco graciosas, feitas de madeira e de cordas, com robustas cunhas de pinho, que tinham varas compridas de freixo amarradas, com fisgas numa ponta e contrapesos de pedra na outra. Juntamente com as catapultas, seguiam duas carroças de fardos de caruma muito seca, às quais bastava uma centelha para pegarem fogo imediatamente.

As catapultas tinham sido puxadas por várias parelhas de cavalos, que as haviam colocado por baixo das duas torres que ladeavam a casa da guarda, fora do alcance do mais determinado dos archeiros. Uma vez em posição, os cavalos tinham sido desamarrados e levados novamente para o acampamento e as máquinas de guerra muito bem presas ao chão com cordas e estacas. A um sinal de @onsard, dois cavaleiros tinham saído a galopar do acampamento com tochas acesas, dando início à tempestade de fogo que assolava o castelo de Ameron.

As fisgas haviam sido carregadas com os primeiros fardos, as catapultas ajustadas e a tocha aplicada à caruma, que rompera imediatamente em chamas. Quando a catapulta se soltara fsshiu!, a bola de fogo riscara os céus, descrevendo um arco perfeito em direcção à muralha. Quase no mesmo momento, uma segunda bola de fogo voara do outro lado.

O primeiro míssil passou por cima da muralha e das ameias e caiu no pátio. O segundo bateu na parte superior da muralha de pedra e deslizou para o chão.

- Assume tu o comando, Ban. E continua a dar-lhes trabalho - ordenou Ronsard, correndo a ajudar a realinhar a segunda catapulta. Foi preciso algum tempo para mudar o contrapeso e alongar a vara de arremesso, mas, ainda antes, de o alarme se ter espalhado por todo o castelo, já a segunda catapulta lançava fogo através dos ares, com uma precisão mortal.

- Tomai esta! - comentou Ronsard orgulhosamente, observando a bola de fogo a cruzar os ares e a cair mesmo dentro do pátio interior. - Isto deve mantê-los ocupados durante grande parte da noite.

Os archeiros que apareceram nas muralhas disparavam chuvas de setas, que riscavam os ares em direcção aos vultos indistintos que se mexiam junto das catapultas. Mas Ronsard avaliara bem a distância e as flechas caíam no chão sem atingirem o seu alvo, o que arrancava gritos de desespero e frustração aos que estavam nas ameias e exclamações de júbilo aos que se encontravam no solo. Entretanto, os mísseis seguiam-se uns aos outros, iluminando a noite com as suas chamas.

Ameronis foi arrancado do leito logo que as primeiras chamas apareceram no pátio: caíra no telhado do estábulo uma bola de fogo que explodira, espalhando chamas pela palha e pelo feno. Assustados, os cavalos relinchavam e saltavam, enquanto os escudeiros e os peões enfrentavam as chamas, esforçando-se por porem os animais em segurança. Assim, todo o pátio interior estava transformado num mar caótico e agitado. Um outro fogo ardia perto das cozinhas.

De punhos nas ancas, Ameronis berrava ordens para os que o rodeavam, espumando de raiva por causa daquele ataque. Até momento, o ambicioso nobre tomara tudo como uma espécie de jogo, no fim do qual os despojos caberiam ao vencedor. Mas, ao ver que as forças do rei não estavam a brincar, o seu comportamento mudou abruptamente.

- Mais baldes! - berrou. - Trazei mais baldes! - De pé no meio da confusão, elevava a voz acima do barulho, enquanto os homens corriam, tentando salvar os estábulos.

Com o o fogo não era grande e fora atalhado a tempo, depressa ficou controlado. A ferver de fúria, Ameronis saiu do pátio interior e subiu às ameias.

- Que tal estão a sair-se os archeiros? - perguntou ao seu comandante, que se chamava Bolen.

O jovem cavaleiro virou-se, com o rosto corado à luz da tocha e de vários pequenos fogos que ardiam no pátio exterior.

- Mal, senhor. O inimigo está muito longe.

- Há estragos?

- No pátio exterior, não. Parece que o objectivo das bolas de fogo é só incomodar-nos. Não há feridos graves e os fogos apagam-se depressa.

- Não é bem assim! - resmungou Ameronis. - Se tivesses estado comigo no pátio interior, verias o “incómodo” que estes projécteis podem causar! - Olhou colericamente por entre os merlões para a luz das tochas, que marcavam a posição das catapultas. Nesse preciso momento, uma bola de fogo embateu no torreão da casa da guarda, deslizou pelo telhado inclinado e caiu na muralha, obrigando uma dezena de soldados a esquivar-se atirando com as armas.

- Posso mandar um contingente lá fora acabar com isto - sugeriu o jovem comandante. Os seus olhos cintilavam à luz bruXuleante com o entusiasmo de um homem pronto a enfrentar qualquer perigo para se distinguir ou para ganhar os favores do seu superior.

- O quê? E abrir-lhes as portas? É precisamente isso que eles querem! - gritou Ameronis. - Para que queres a cabeça, homem? Não! De maneira nenhuma! Vamos aguentar o ataque o melhor possível e esperar até ser de manhã.

- Desculpai, senhor - tartamudeou o jovem cavaleiro. - Pensei que...

- Espera! - exclamou Ameronis, olhando para um e outro lado das ameias. - Quem está de vigia nas outras muralhas?

 - Ninguém - respondeu hesitantemente o comandante. - Quando soou o alarme, devem ter vindo ajudar...

- Manda já as sentinelas para os seus postos! Quero que me comuniquem imediatamente tudo o que notarem de anormal.

Depressa! Quem sabe o que os cães dos homens do rei podem estar a preparar?

 - Descobriste alguma coisa? - Deitado de barriga para baixo na borda do penhasco, Theido falava com o homem que se encontrava pendurado na corda.

- Há uma faixa estreita de seixos ao longo da borda de água, senhor. Estende-se pela margem, por baixo do penhasco. Mandei alguns homens examinarem-na nos dois sentidos, mas ainda não se descobriu nada.

- Continuai à procura - disse Theido, pondo-se em pé. Nesse momento, ouviu-se uma voz vinda das ameias.

- Alto! Quem está aí?

O coração de Theido deu um salto.

Meio agachado, meio levantado, ficou imóvel como uma rocha, esperando que quem quer que estivesse lá em cima não pudesse vê-lo directamente, pois constituía um alvo fácil até para o pior dos archeiros.

- Eh! - chamou a voz. - Traze aqui a tua tocha! Parece-me que está alguém lá em baixo.

Theido ouviu os passos do segundo guarda, que corria a juntar-se ao primeiro com a sua tocha, e susteve a respiração. Estava mesmo à espera de ouvir uma seta assobiando na sua direcção. O seu coração bateu uma vez... duas... três. Depois:

- Não vejo nada lá em baixo - disse uma segunda voz saída das ameias. - Vês sombras e pensas que são soldados! Volta para o teu posto e não tornes a chamar-me a não ser que vejas mais do que uma sombra nas rochas.

O primeiro soldado resmungou e foi para o seu posto, na torre. Soltando a respiração, Theido recuou até à muralha, onde continuou à espera. De ambos os lados, de uma distância de menos de vinte passos, ouviu as passadas suaves dos seus archeiros, que se retiravam, e percebeu que, mal o guarda o descobrira, estes tinham assestado duas flechas e retesado os arcos. Se algum dos dois guardas tivesse começado a dar o alarme, teria morrido antes de conseguir acabar.

Theido estendeu a capa por cima de si e encostou-se à muralha. Dentro do castelo, ainda ecoavam alguns gritos ocasionais, mas já não se ouvia o frenesi inicial, provocado pela primeira revoada de bolas de fogo. A oriente, o céu começou a ficar mais claro, adquirindo uma tonalidade azul de ferro, estampada num pano de fundo preto.

“Depressa!” murmurou Theido de si para consigo. “Depressa! Já é quase de manhã. Em breve teremos de nos ir embora, para não sermmos descobertos. Depressa! O tempo é tão pouco!”

 

À medida que o céu ficava mais claro a oriente, as estrelas iam-se apagando. Ronsard e os seus homens ainda manejavam as catapultas, mas as bolas de fogo já eram menos frequentes.

- Estamos a ficar sem fardos de caruma - informou um dos homens. - Não poderemos lançar-lhes bolas de fogo durante muito mais tempo.

Examinando o céu, Ronsard disse:

- Os outros já deviam ter regressado. Aguentai o mais que puderdes. Com sorte, voltarão antes da primeira luz do dia.

“Depressa!” pensou ele. “Depressa, antes que eles descubram ...”

Por um brevíssimo momento, perguntou a si próprio: “E se já descobriram?” Mas logo afastou este pensamento, dizendo de si para consigo: “Se fosse assim, não sei como, mas teríamos sabido.”

O cavaleiro de cabelos cor de areia virou os olhos na direcção dos irregulares limites da floresta, que descia em declive até ao rio. Theido e o seu grupo regressariam daquele ponto. Mas não se via vivalma. Ninguém o chamava das árvores e não chegava nenhum mensageiro a informá-lo de que tinha corrido tudo bem e de que estavam todos sãos e salvos.

“Vã!”, murmurou Ronsard. “Daqui a pouco é dia!.

As catapultas faiscavam, lançando os seus mísseis em chamas para as majestosas muralhas do castelo, cujo brilho baço a luz fraca já deixava ver claramente. Mas o intervalo entre os projécteis era maior e, embora o inimigo continuasse nas muralhas e acudisse a apagar as bolas de fogo que iam surgindo, já não gritava nem se queixava, limitando-se a observar tudo com um interesse relativo, como se a duração do espectáculo o tivesse aborrecido.

Às tantas, ouviu-se um grito e um homem afastou-se a correr da segunda máquina, dizendo:

- Senhor. Não temos mais fardos nem mais nada que lhes possamos atirar. - Depois, ficou à espera das ordens de Ronsard.

- Temos de continuar um pouco mais. Manda alguns homens ao acampamento arranjarem mais fardos. Os que estão lá que os ajudem. Precisaremos de caruma que chegue para as duas catapultas. Entretanto, temos de atrair as atenções dos que estão na muralha; por isso, enquanto as munições não chegarem, ordena aos teus homens que ocupem novas posições. - Apontando para o outro lado do campo de batalha: - Ali... mais para o meio.

O soldado correu a cumprir as suas ordens. Ronsard cruzou os braços e franziu o sobrolho para o céu.

“Já devias ter voltado há muito tempo, Theido. Mando um destacamento à tua procura?”

Decidindo esperar um pouco mais, começou a andar para trás e para diante entre as catapultas, olhando de vez em quando para a orla da floresta, por onde esperava que o seu amigo aparecesse a qualquer momento.

O Sol aproximou-se do horizonte, incendiando o céu e dando-lhe uma tonalidade de um vermelho vivo, abaixo das nuvens cinzentas. Os contornos do castelo já se viam claramente. O fumo preto dos numerosos fogos acesos durante a noite era empurrado pelo vento que estava a levantar-se. “Pelo menos, demos-lhes que fazer e não houve feridos entre os nossos”, pensou Ronsard sombriamente.

Quando os homens voltaram com mais fardos de caruma, Ronsard ordenou que as tropas fossem rendidas. Assim, os soldados que tinham trabalhado toda a noite foram substituídos por outros, que lhes proporcionaram um descanso bem merecido. O novo contingente deitou mãos à obra com todo o brio e as catapultas continuaram a funcionar.

Cada vez mais angustiado com o atraso do amigo, Ronsard entregou o comando das máquinas a um subordinado e regressou ao acampamento, com a intenção de formar um destacamento para ir procurar Theido e o seu grupo. Uma vez os homens reunidos e armados, já se preparavam para tomar o carreiro seguido por Theido quando ouviram uma voz vinda da floresta:

- Eh! Ronsard!

O cavaleiro girou nos calcanhares e deu de caras com os homens de Theido, que se encaminhavam para eles através da floresta, com os rostos marcados pelo cansaço, mas dando-se ares de boa disposição perante os seus camaradas.

- Íamos mesmo agora à vossa procura. já devíeis ter regressado há muito tempo.

- Também pensei que nunca mais saíamos dali. As sentinelas voltaram para a muralha e para as torres e nós ficámos encurralados por baixo do penhasco. Tivemos de esperar que os vigias fossem rendidos.

- Então? Queres que adivinhe o resto?

- Encontrámos a poterna secreta, bom amigo. O Ameronis é esperto e tivemos de procurar toda a noite, mas encontrámo-la.

Ouvindo isto, Ronsard e a sua equipa de buscas irromperam em vivas, dando palmadinhas nas costas dos seus camaradas e apertando-lhes as mãos.

- Onde é? Conta-me tudo o que sabes.

Theido mandou os seus homens irem descansar e foi com Ronsard para a tenda que fora erguida para seu posto de comando e aposentos privados. Uma vez chegados lá dentro, sentaram-se a uma mesa tosca, de frente um para o outro.

- Ao princípio, pensámos que nunca encontraríamos nenhuma entrada, secreta ou não. O penhasco que fica por baixo da muralha virada a ocidente tem uma superfície lisa e desce muito abruptamente para a água. Mas tem por baixo uma faixa de seixos por onde se pode andar... - Calando-se e apontando para uma caneca: - Dás-me água?

Ronsard pegou nela e encheu uma taça, que estendeu a Theido.

- Vá, continua. O que descobriste?

- Que bom! - replicou Theido. - Bem... ah, o rio curva em volta da rocha do castelo. Seguindo sempre em frente, a praia alarga ao passar a rocha. Aqui - com os dedos, indicou os pontos na mesa - e aqui, a floresta desce até à água. Mandei os meus homens percorrerem toda esta margem baixa até ao ponto em que volta a aplanar até à água.

- Ao princípio, ninguém viu nada, mas, na segunda passagem pela margem, um dos homens descobriu uma caverna na parte de cima da superfície do penhasco... era pequena, mas dava para se passar. Como está escondida por arbustos de zimbro, é impossível vê-la quando se vem de norte, mas da direcção oposta detecta-se bem. Então, os homens subiram até à entrada e descobriram que, a cerca de meia dúzia de passos, a caverna se transforma num túnel.

- Não!

- É verdade - afirmou Theido. - O túnel, que é comprido e tortuoso como uma cobra, vai dar a uma grade de ferro, que tem atrás um portão.

- Que se abre para o coração da toca do Ameronis! Muito bem! Muito, muito bem! - Sorrindo abertamente para o amigo: - Foi uma noite bem passada. - A cabeça do cavaleiro começou imediatamente a fazer cálculos e planos para a campanha que ia seguir-se. - A grade de ferro pode ser cortada?

- Pode - respondeu Theido com um bocejo. - Não vi o portão nem tínhamos tochas para examinar o túnel em condições... teve de se explorar tudo às escuras... mas como o túnel não é grande, chegou-se facilmente à grade, que pode ser cortada... é uma questão de tempo. O ferro é espesso e parece bem temperado. Vai levar o seu tempo.

- Então, temos de começar imediatamente. - Vendo a expressão de Theido, perguntou: - Consegue-se chegar ao túnel de dia sem se ser visto?

- Não. - Theido abanou a cabeça, com um ar de cansaço.

- Pelo menos por terra, não. Mas se formos pela água e seguirmos sempre chegadinhos à margem que fica abaixo das muralhas, talvez consigamos lá chegar sem sermos detectados.

- A nado?

- É muito difícil, Nem poderíamos levar as ferramentas de que precisamos.

- Mas não temos barcos.

- Jangadas. Temos de construir duas jangadas suficientemente grandes para transportarem, cada uma, doze homens com equipamentos e armas.

Ronsard fitou-o por cima da mesa:

- Isso demora, pelo menos, um dia... até talvez dois.

- Não vejo outra solução melhor. O nosso último recurso é escalar as muralhas sem ajuda do interior. O inimigo está bem equipado e tem muito mais provisões do que nós; além disso, não temos tempo para esperar que o cerco os enfraqueça. Não, a porta secreta é a nossa única saída.

Sem dizer nada, Ronsard pôs-se a pensar no assunto. Por fim, reconhecendo que Theido tinha razão, disse:

- Nesse caso, não posso continuar aqui sentado a perder tempo. Vou mandar os carpinteiros começarem a construir imediatamente as jangadas. - Levantando-se para partir: - Estás com um ar cansadíssimo. Vai dormir; eu vigiarei a construção das jangadas e chamar-te-ei, se for caso disso. - Caminhou até à entrada, afastou a cortina, hesitou e acrescentou: - Havemos de ganhar, Theido.

A voz de Ronsard pedia a confirmação de Theido, sempre tão seguro, tão certo de que, no fim, era o bem que triunfava. Mas naquele momento o cavaleiro já não conseguia ter a mesma convicção. Parecia que, independentemente de tudo o que fizessem, nunca ganhariam, que o mal que envenenara tão rapidamente o reino já conseguira os seus intentos e que eram impotentes para evitar os seus efeitos.

Entretanto, a interrogação de Ronsard ainda pairava no ar. Theido elevou os ombros e suspirou:

- Quem me dera saber, bom amigo.

Entreolharam-se por um momento, cada um tentando ler os pensamentos do outro, sondando-lhes as profundezas para aí encontrarem alguma reserva escondida de segurança ou de esperança. Por fim, Ronsard desviou o rosto e olhou para o acampamento, mas não viu os homens que por ali andavam, cozinhando o desjejum ao lume da fogueira, transportando lenha e água e tratando das armas e dos cavalos. Com a luz batendo-lhe no rosto, Ronsard saiu da tenda de maxilares cerrados, deixando Theido entregue ao sono.

 

Quentin percorria as passagens das altas muralhas do castelo. Inquieto, sem conseguir dormir, palmilhava os torreões e as ameias, com a capa curta esvoaçando atrás de si como um par de asas e o cabelo desgrenhado caindo-lhe desordenadamente da cabeça. Quem o visse pensaria que o rei enlouquecera e dera em vaguear pelas alturas a meio da noite, como os infelizes espíritos que assombram os lugares mais desolados.

O próprio rei não tinha bem consciência do que andava a fazer. Só sabia que já não conseguia ficar quieto; tinha de se mexer, andar, ir e continuar a ir para não sucumbir ao peso das trevas que lhe haviam entrado no coração. Nos últimos dias, lutara com elas o suficiente para saber que não lhes podia ganhar. Prendiam-no num abraço mortal e acabariam por o arrastar para a poeira do esquecimento.

Por isso, para afastar o inevitável durante mais algum tempo, deanibulava à noite pelas muralhas, à luz pálida da Lua, como um animal enlouquecido pela dor. Quentin sentia a noite pesando-lhe nos ombros, envolvendo-o no seu abraço de veludo, consumindo-o. Olhando para oriente, viu a orla escura de Pelgrin marcando os limites da planície larga e lisa. Depois de Pelgrin, para nordeste, ficava Narramoor e o Grande Templo, que contemplava todo o reino do cimo do seu planalto de pedra.

Algures dentro daquele templo, o filho esperava que o fosse salvar... como ele, quando era rapaz, esperara que alguém o tirasse daquele lugar. E fora salvo... por um cavaleiro moribundo que lhe confiara uma missão que só ele poderia cumprir. Nesse tempo, fora fácil... fora fácil acreditar e seguir em frente sem necessitar de sinais ou, pelo menos, sem precisar constantemente deles.

Agora era muito mais difícil. Deixara de ser o acólito simples e confiante, sem lar nem família, que tinha pouco a perder. Agora era o Rei Dragão, comandante do seu povo, protector do reino. Infelizmente, não andava a ser um grande protector. Não fora capaz de impedir a morte de Durwin, nem o rapto do filho, nem nenhum dos muitos problemas que o afligiam. O deus retirara dele a sua mão e a sua bênção e abandonara-o, deixando-o sozinho e desesperado.

Que assim fosse. O deus retirara-se e abandonara-o, como é costume dos deuses. Não podia fazer nada contra isso; afinal, era apenas um homem. Aos deuses o que era dos deuses, cujas decisões não podiam ser influenciadas nem mudadas por simples mortais. E, embora Quentin tivesse acreditado em maravilhas, em prodígios do Deus Altíssimo, e lhe houvesse confiado a sua vida e as vidas dos que amava, o deus, como todos os deuses, dera-lhe a maior das desilusões.

No entanto, tinha duas opções: podia abandonar a sua fé no Altíssimo e reclamar a sua vida para si ou podia continuar a acreditar, a servir e a confiar, apesar de não haver razões para o fazer, apesar de o bom senso lhe dizer para arrancar de si a fé que durante tanto tempo o levava a confiar cegamente num deus que mentia ao afirmar que se interessava pelo destino dos seus filhos, Alguma vez houvera algum deus que se dera ao trabalho de fingir que se interessava pela sorte dos seus seguidores? Os velhos deuses, pelo menos aqueles dos quais lhe tinham falado no templo, de certeza que não estavam nada preocupados. Se os desígnios dos deuses ultrapassavam os homens, então fazia mais sentido acreditar no único que trazia consigo a esperança de alguma coisa maior do que os deploráveis rituais encenados pelos insolentes sacerdotes do Grande Templo.

Os velhos deuses? Aqueles antigos impostores etéreos? As formas vagas e caprichosas que os homens invocavam, adoravam e veneravam com o nome de deuses? Sabendo o que eram, como podia acreditar neles? Servira tempo suficiente na qualidade de acólito do templo para saber que eram os lábios mortais de um sacerdote, encostados a um buraco da pedra, que pronunciavam o oráculo do deus, cujas exigências também se deviam à sua ganância.

O Deus Altíssimo, pelo menos, não prodigalizava os seus favores nem distribuía oráculos em troca de objectos de ouro e prata. Quando falava, fazia-o directa e poderosamente. Sim, Quentin sentira esse poder. Mesmo já não o sentindo e talvez nunca mais voltando a senti-lo, lembrar-se-ia sempre do tempo em que não tivera dúvidas de que o deus lhe falara e o investira com os seus poderes.

Isto era mais do que palavras pouco claras, sussurradas através de um buraco escondido numa pedra. Aqui havia esperança, coisa que os velhos deuses da terra e do ar, das encruzilhadas e dos lugares altos, da água corrente e das estações, nunca poderiam dar. Quentin ainda se recordava do que era viver sem essa esperança, ainda se lembrava do doloroso desespero que se abatia sobre ele quando, em rapaz, deitado no enxergão de palha da sua cela, passava a noite a rezar para que a verdade lhe fosse mostrada. Depois esperava, escutava e esperava outra vez, mas só ouvia o eco das suas próprias palavras, que troçavam dele no vazio silencioso.

Não, tendo encontrado a esperança que procurara durante tanto tempo, nâo a abandonaria agora. Não poderia viver sem esperança pois, sem ela, não havia vida. Seria melhor uma vida sem vista, tacto, gosto ou qualquer outra coisa, incluindo o amor, do que uma vida sem esperança. Conhecia bem esse caminho e não queria voltar a percorrê-lo.

Em Dekra, vira a diferença pela primeira vez e apercebera-se do contraste existente entre a imitação barata da velha religião e a verdadeira fé. Ah, Delcra... com o seu povo carinhoso e bom e a sua serenidade. Ele não estaria destinado a viver os seus dias em paz, rodeado de amor e de beleza? Infelizmente, não. Quentin sabia que no destino que lhe fora traçado não havia lugar para Dekra.

Mas, de certa forma, chegava-lhe saber que existia um lugar assim na Terra e que, de vez em quando, poderia lá ir e reviver o seu espírito. Sim, isso bastava-lhe; era uma coisa que podia aceitar, pois, estivesse onde estivesse, teria sempre consigo uma parte de Dekra.

O deus queria estar com ele? Não queria? Que assim fosse.

Não podia mandar no Altíssimo... que deus permitiria que mandassem nele? Mas podia acreditar. Isso, podia, e nem sequer o Altíssimo seria capaz de o impedir. Podia acreditar e ter esperança, mesmo que isso lhe custasse a coroa e a vida!

Nesse momento, viu claramente a sua opção e deixou de lhe interessar o que o deus poderia fazer por ele. Acreditaria, mesmo que isso fosse a sua desgraça; continuaria a confiar, mesmo que o deus se mostrasse pouco digno de confiança. Ycseph acreditara e morrera acreditando. Durwin acreditara e também levara a sua fé para a sepultura. Muito bem: Quentin não faria menos do que os homens que amara e que lhe tinham ensinado aacreditar. Acreditaria e seguiria em frente com todas as forças que lhe restavam.

Uma vez tomada esta decisão, Quentin virou novamente os olhos para o Grande Templo. Embora a distância não lhe permitisse vê-lo, sabia que estava ali, empoleirado no seu planalto como uma ave de rapina aguardando o seu próximo festim de carne morta. Sim, dentro daquelas paredes, o seu filho esperava ansiosamente a sua chegada. Pois iria até ele. Poderia dizer-lhe “pai” se não fosse? Iria, mesmo que isso significasse separar-se da espada. Que rei seria ele se permitisse que o seu único filho, herdeiro do trono, fosse morto, enquanto tinha vontade e forças para o evitar?

 As duas grandes jangadas, feitas de troncos a marrados com cordas, deslizaram para as águas escuras do Sipleth, subindo para cada uma delas doze soldados armados e equipados com as ferramentas necessárias para forçar a grade de ferro e o portão que guardavam a entrada secreta do castelo de Ameron.

Depois de estarem carregadas e com os passageiros instalados no meio, dois homens com varas compridas empurraram as desgraciosas embarcações para a vagarosa corrente. Não seria fácil navegar contra a corrente, mas, como a água não tinha muita força perto da margem, os homens das varas lá iam conseguindo fazer as toscas jangadas subirem o rio.

Theido encontrava-se sentado com os seus homens no meio da embarcação da frente, que subia laboriosamente a corrente até ao local, situado abaixo das muralhas, em que a margem lhes dava espaço para desembarcarem e seguirem a pé para a entrada da caverna.

os carpinteiros tinham passado o dia a mourejar na construção das deselegantes jangadas, e Theido ficara muito aliviado ao descobrir que as plataformas grosseiras e pesadonas até flutuavam bastante bem. Como já estavam prontas à tardinha, ordenara que as pusessem na água, de forma a aproveitar a noite para melhor encobrir as suas actividades. Theido não tinha dúvidas de que seriam descobertos e todos os seus planos ficariam estragados se a sentinela colocada na muralha suspeitasse do mais pequeno som. Se Ameronis desconfiasse de que tinham descoberto o seu túnel secreto, defendê-lo-ia sem qualquer problema bastariam três archeiros para deter qualquer número de cavaleiros.

Naquele momento agachado com os seus cavaleiros, Theido escutava a água marulhando e chapinhando à medida que deslizavam ao longo das margens cobertas de matagal, esperando que ninguém os ouvisse nem os visse passando por baixo das muralhas. Os homens manejavam as varas, empurrando as jangadas para a frente, mas sempre mantendo-as o mais perto possível da margem. Depois do que lhes pareceu uma eternidade, chegaram ao ponto em que a rocha do castelo se erguia e o rio a rodeava, escavando o penhasco de pedra. Deslocando-se cuidadosamente e com uma lentidão exasperante, pois as torres, embora invisíveis, ficavam directamente acima delas, as jangadas foram avançando a pouco e pouco. Theido pôs-se a perscrutar a noite e a superfície do penhasco, em busca dos arbustos de zimbro que escondiam a caverna.

Ao descreverem a curva em volta da rocha, Garth, que na noite anterior também participara na descoberta do túnel e que chegara mesmo a estar lá dentro, levantou silenciosamente o braço e apontou para um ponto a meio do penhasco, que, para Theido, mal passava de uma marca escura gravada na pedra mais clara. Sem falar. fez que sim com a cabeça. Sim, estavam quase lá.

A primeira jangada encostou à faixa de seixos, arranhou docemente e imobilizou-se. Os homens mais próximos saltaram logo para terra e começaram a descarregar as armas e o equipamento, no que foram imitados pelos outros. A segunda jangada parou atrás da primeira e os que estavam a bordo fizeram menção de desembarcar, mas a ansiosa partida dos primeiros soldados desequilibrou-a perigosamente, fazendo-a inclinar-se e atirar para o rio com os restantes passageiros, no meio de um tremendo chapão.

Os que estavam em terra imobilizaram-se, com o coração batendo-lhes fortemente dentro do peito, enquanto os seus camaradas nadavam para terra e saíam da água o mais silenciosamente possível. Sustendo a respiração, cada um daqueles homens rezava para que ninguém tivesse ouvido o barulho.

Ficaram à espera.

Lá de cima, do alto da muralha, veio um grito e outro em resposta. As palavras não se distinguiam, mas Theido achava que era um dos vigias chamando o outro e perguntando-lhe o que seria aquela agitação. Depois, ouviram-se vozes: estava alguém debruçado nas ameias, tentando vislumbrar a causa do chapão.

Theido levantou a mão, indicando que toda a gente devia permanecer imóvel como uma pedra. Por um momento, tornou a viver a aventura da noite anterior, quando fora quase descoberto. Depois, ouviu-se um grito, que soou distintamente nos seus ouvidos:

- Não é nada - disse uma voz. Os homens amontoados lá em baixo deram um suspiro de alívio.

Theido fez-lhes sinal para retomarem o seu trabalho, e as jangadas, já descarregados, foram empurradas rio acima, até ao ponto em que a margem baixava e a floresta crescia mais perto da água, e escondidas entre o matagal. Os outros soldados formaram uma cadeia humana e começaram a passar o equipamento de mão em mão pelo penhasco acima, para dentro da abertura.

Garth e Theido subiram à caverna e rastejaram lá para dentro. Garth pegou numa pederneira e num fuzil e foi buscar uma tocha ao meio do equipamento que estava a ser empilhado à entrada. Dali a pouco, com a tocha ardendo intensamente na mão, disse:

- Agora é que vamos ver o que nos espera.

Segurando a tocha bem alto, embrenhou-se com Theido nas profundezas da caverna. Depois de percorrerem um corredor estreito, da largura de uma galeria, chegaram a uma parede, onde fora escavada uma abertura, de onde saía um túnel cortado na pedra mole.

- Há muito tempo atrás, o rio escavou esta caverna. Quando construíram o castelo, descobriram-na e ligaram-nos por meio desta passagem - explicou Garth, apontando para a superfície polida da pedra.

Depois, baixando a cabeça, passou pela abertura. Theido seguiu atrás dele. O túnel era mais estreito do que a caverna, tendo espaço apenas para um homem de cada vez. A medida que avançava para o castelo, a passagem secreta ia subindo lentamente. O chão era quase todo seco e poeirento, mas, quando chegaram ao portão, Theido reparou na água que escorria das paredes. Indicando-a com a tocha, Garth disse:

- Sem dúvida que estamos a passar por baixo da cisterna do castelo.

Por fim, chegaram a um sítio onde as paredes do túnel alargavam um pouco. Em frente, erguia-se a grade de ferro, que cintilava toscamente à luz da tocha.

- É aqui - anunciou Garth, colocando a tocha numa argola cravada na pedra, ao lado da grade. - Agora que tenho luz para a ver, parece-me muito mais robusta do que pensava - observou, passando a mão pelo ferro, para lhe avaliar a espessura e a dureza.

- Pois está muito bem feita, como seria de esperar do Ameronis e da sua raça. E parece em perfeitas condições.

- Não tem nem um pontinho de ferrugem, senhor.

- Os ferreiros vão ter muito que fazer, o que é mais uma razão para começarem já.

- Muito bem, senhor. - Garth virou-se e começou a percorrer outra vez o túnel, às escuras.

- Garth - chamou Theido -, manda trazerem as armas para aqui. Quero tê-las à mão. - O cavaleiro partiu e Theido voltou a examinar a barreira de ferro que tinha à frente. Conseguiriam forçá-la a tempo? E, uma vez o caminho desimpedido, o que encontrariam do outro lado?

 

Bria levantara-se muito antes de o Sol nascer e acordara os seus guardas, de modo a estes começarem a preparar a carruagem e os cavalos para a jornada do dia. Em dois dias tinham atravessado a charneca húmida que ficava entre as montanhas baixas de Dekra e Malmarby e, ao cair da noite, haviam chegado ao local onde tinham abandonado a carruagem e onde montaram o acampamento para passarem a noite.

Depois de terem deixado Dekra, a sensação de urgência apoderara-se da rainha. A cada passo que dava na direcção de Askelon, parecia-lhe ouvir uma voz lamentosa, que lhe sussurrava que fosse depressa, cada vez mais depressa, antes que fosse tarde. E Bria, atenta a este chamamento interior, incitara o grupo a estugar o passo.

Vendo a mudança operada na filha, Alinea perguntara-lhe no dia anterior, quando tinham parado no caminho para comer:

- O que é, querida? O que se passa?

Com os olhos verdes postos na direcção de Askelon, Bria confessara:

- O que se passa? Não sei, mas sinto que vai acontecer qualquer coisa e que tenho de estar lá para ajudar ou para impedir... não sei bem. Mas o coração diz-me para me apressar e sinto que devemos dar-lhe ouvidos. Não podemos ir devagar, mãe.

- É por causa do Gerin?

Bria pensara no assunto na qualidade de mãe. Mesmo que esteja longe, a mãe sabe sempre quando acontece alguma coisa ao seu filho.

- Não, não tem nada a ver com o Gerin. Estou descansada quanto a ele. Acho que tem mais a ver com o Quentin.

- Então, tem alguma relação com a visão da Esme?

- Deve ser isso... pelo menos, em parte. Mas não sei o que se espera de mim. No entanto, sinto que temos de andar depressa, para regressarmos a Askelon o mais cedo possível.

Naquele momento, na madrugada de um novo dia, Bria tinha uma sensação de urgência tão forte que fora acordar os outros, para mais rapidamente poderem levantar o acampamento. As princesinhas, ainda a bocejar e a esfregar os olhos sonolentos, salpicaram o rosto de água e divertiram-se a ver qual das duas ficava pronta mais depressa. Arrebanhando-as, Alinea não as deixou irem estorvar os homens que preparavam a carruagem. Bria entregou-se ao trabalho de tornar a guardar os acessórios usados durante a noite e de ajudar a acondicionar as provisões na carruagem.

Esme, por seu lado, também ajudou, mas com um ar um tanto ausente. Desde que tinham saído de Dekra que se retirara cada vez mais para dentro de si própria. Com as lindas feições enrugadas devido à concentração, mostrava-se meditabunda e contemplativa, entregando-se a longos períodos de silêncio. O que sentia no seu íntimo ou o que pensava com tanta intensidade, que a tornava tão taciturna e distante, era coisa que ninguém podia determinar, pois, quando Bria tentava despertá-la, respondia com toda a simplicidade:

- Estou um bocado preocupada, Desculpa. - Mas, logo depois de tentar conversar com os outros, voltava a deixar-se levar lentamente pelos seus intensos devaneios.

Quando, por fim, ficaram prontos, já o Sol espreitava por cima da crista das montanhas que ficavam a oriente, atrás deles. Virando-se, Esme lançou um olhar saudoso na direcção de Dekra e, depois, voltou-se abruptamente, montou a cavalo e seguiu a fila formada atrás da carruagem. Chegaram a Malmarby a meio da manhã, saudaram a aldeia inteira e pediram a Rol, o barqueiro, que os levasse ao outro lado da enseada, onde os esperava a Estrada do Rei que se estendia para lá da Muralha de Celbercor.

Primeiro. Rol atravessou a carruagem com os cavalos e dois guardas e, depois, foi buscar o resto dos passageiros. Esme sentou-se sozinha na proa do barco e virou-se, pondo-se a olhar para baixo. As águas da enseada de Malmar, muito funda e escura, eram silenciosas e límpidas. Contemplando-as Esme sentiu-se deslizar e flutuar naquela superfície espelhada, que se estendia até à grande muralha que, na outra margem, se erguia das profundezas.

“A muralha”, pensou. “A muralha tem qualquer coisa. Mas o quê?” Enquanto estava sentada a observá-la, a muralha pareceu mudar, crescer, espraiar-se por todo o reino e estender-se até rodear Mensandor com a sua superfície lisa e regular, feita de pedra preta. E cresceu, cresceu, até tapar a luz do Sol.

“Oh, não!”, arquejou. “Estamos encurralados! Daqui a pouco, não haverá luz.” Ao olhar novamente para lá, viu uns sacerdotes de túnica caminhando em cima da muralha, e percebeu que eram eles que a faziam crescer, que a incitavam a tornar-se mais comprida. Depois, a muralha mudou e formou paredes, pilares e um tecto de pedra... um templo... o Grande Templo. E havia uma multidão percorrendo a estrada em direcção ao templo, serpenteando ao longo do carreiro sinuoso que levava ao cimo do planalto onde se erguia o Grande Templo, Às tantas, ouviu o assobio de uma rajada de vento e viu colunas de fumo, que lhe taparam a vista; espreitando por entre o fumo, Esme já não viu um templo, mas um amontoado de pedras e escombros, um lugar ermo cheio de ervas e silvas, onde as corujas soltavam o seu piar solitário e espectral...

- Esme!

A princesa sobressaltou-se ao ouvir o seu nome. Virando-se, viu Bria sentada ao seu lado. Não ouvira a amiga aproximando-se.

- Esme! O que se passa?

Pegando nas mãos de Bria, Esme virou novamente os olhos para a muralha:

- Tive outra visão. O deus falou-me outra vez. - Contemplando a Muralha de Celbercor, forte e inacessível, arrepiou-se, como se tivesse frio, olhou para Bria e anunciou com um ar muito sério: - Temos de ir ao templo, Bria.

Bria examinou o rosto da amiga, procurando um sinal ou qualquer coisa que explicasse as suas palavras.

- Sim? Ao templo? Porquê?

Esme apertou mais as mãos de Bria:

- Sim. Não vamos para Askielon, Por favor. O templo...

vi-o claramente.

- E que mais viste?

- Só isso. A muralha mudou e transformou-se num templo...

E sacerdotes... vi sacerdotes duas vezes. É a confirmação da minha visão. Vai acontecer qualquer coisa no templo e temos de estar lá.

Assentindo com a cabeça, Bria respondeu:

- Eu também tenho andado muito inquieta desde que saímos de Dekra, como se estivesse a ser espicaçada para andar mais depressa. Mas o templo... e o Quentin?

Esme abanou a cabeça:

- Não sei. Não o vi, mas havia uma multidão reunida no átrio do templo e eu soube que nós devíamos estar com ela.

Bria mordeu o lábio e pôs-se a pensar.

- Por favor - pediu Esme, - Estou plenamente convencida da verdade do que vi. Sei que é um sinal do Altíssimo.

- Muito bem - retorquiu lentamente a rainha. - Faremos um desvio e dirigir-nos-emos para Narramoor e para o Grande Templo. E rezemos para que cheguemos a tempo de fazer o que o deus nos destinou.

- Será por isso que rezarei - rematou Esne.

Ronsard esperou todo o dia no seu posto, nos limites do campo de batalha, vendo o Sol elevar-se acima das copas das árvores, cruzar a abóbada celeste e começar a pôr-se. À tardinha, ainda não tinha notícias de Theido. Os cavaleiros e os guerreiros esperavam desassossegadamente, polindo as lanças e as espadas e tratando das armaduras, para que tudo estivesse em condições, pois, quando Theido desse o sinal, Ronsard iria com as suas tropas assaltar as muralhas do castelo.

Pelo seu lado, Theido e os seus homens deviam entrar no castelo pela passagem secreta, esgueirando-se por trás das tropas de Ameronis, para abrirem as portas aos seus camaradas. Mas como ainda não fora dado o sinal, o portão ainda não devia ter sido forçad