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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A ESPIÃ DA RAINHA - P.2 / Philippa Gregory
A ESPIÃ DA RAINHA - P.2 / Philippa Gregory

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A ESPIÃ DA RAINHA

Segunda Parte

 

Verão de 1548

Aos risos e muito excitada, a rapariga corria no jardim banhado de sol, fugindo do padrasto, mas não com rapidez suficiente para que ele não pudesse apanhá-la. A madrasta, sentada debaixo de uma latada com rosas em botão à volta, avistou a rapariga de catorze anos e o belo homem que corria atrás dela por entre os largos troncos no relvado plano e sorriu, decidida a ver apenas o que havia de melhor neles: a rapariga que educava e o homem que há anos adorava.

Ele agarrou a rapariga pela bainha do vestido esvoaçante e apertou-a por um momento contra o peito.

- Mereço uma prenda! - disse ele, o rosto moreno perto das faces afogueadas dela.

Ambos sabiam qual seria a prenda. Como mercúrio, ela esgueirou-se do seu abraço e afastou-se para o outro lado de uma fonte ornamental com um largo tanque circular. Carpas anafadas nadavam lentamente na água. Ao debruçar-se para zombar dele, o rosto corado de Elizabeth reflectiu-se na superfície.

- Não conseguireis apanhar-me!

- Claro que consigo.

Ela inclinou-se de modo que ele pudesse ver os seus pequenos seios pelo decote quadrado do vestido verde. Sentiu os olhos dele pousados nela e o rubor das suas faces aumentou. Ele observou-a, divertido e excitado, enquanto o pescoço dela avermelhava.

- Apanhar-vos-ei sempre que quiser - disse, pensando na caça ao sexo que termina na cama.

- Então tentai! - disse ela, sem saber ao certo para o que o estava a convidar, mas sabendo que queria ouvir os pés dele correr atrás dela sobre a relva, as mãos esticadas para a agarrar; e, mais do que tudo, a sensação dos seus braços à volta dela, puxando-a contra os fascinantes contornos do seu corpo, o arranhar do gibão bordado contra a sua face, a pressão da coxa contra as suas pernas.

Soltou um gritinho e voltou a fugir por uma álea de teixos, onde o jardim de Chelsea se estendia até ao rio. A rainha, sorrindo, ergueu os olhos do trabalho de costura e viu a sua querida enteada correr por entre as árvores e o seu belo marido a poucos passos atrás. Voltou a baixar os olhos e não o viu apanhar Elizabeth, rodopiá-la no ar, voltar a pousá-la junto do tronco vermelho do teixo e tapar-lhe a boca meio aberta com a mão.

Os olhos de Elizabeth faiscaram negros de excitação, mas não se debateu. Quando ele se certificou de que ela não gritaria, afastou a mão e aproximou a cabeça de cabelo preto.

Elizabeth sentiu os bigodes afagarem-lhe docemente os lábios e o perfume estonteante do seu cabelo e da sua pele. Fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás para oferecer os lábios, o pescoço e os seios à sua boca. Ao sentir os dentes afiados do homem aflorarem a sua pele, deixou de ser a menina brincalhona e tornou-se uma jovem no cio do seu primeiro desejo.

Ele afrouxou aos poucos a pressão na sua cintura e a mão subiu com firmeza pelo corpete acima até ao decote do vestido por onde enfiou os dedos para lhe tocar nos seios. Os mamilos endureceram, excitados, e ela soltou um miado de prazer que o fez rir, um riso rouco saído do fundo da garganta perante a previsibilidade do desejo feminino.

Elizabeth encostou-se toda contra o seu corpo, sentindo, em resposta, a coxa dele introduzir-se entre as suas pernas. Foi invadida por uma curiosidade irresistível e ansiou saber o que aconteceria a seguir.

Quando ele se afastou, como para a largar, ela enlaçou-o e puxou-o novamente contra ela. Sentiu, mais do que viu, o sorriso prazenteiro de Tom Seymour diante da culpabilidade dela quando os seus lábios voltaram a encontrar-se e a língua dele lhe lambeu, com a delicadeza de um gato, o interior da boca. Dividida entre o nojo e o desejo daquela sensação extraordinária, esticou a língua ao encontro da dele e sentiu a terrível intimidade do beijo indiscreto de um homem adulto.

De repente, aquilo excedeu-a e recuou, mas ele conhecia o ritmo desta dança que ela tão levianamente conjurara e que, agora, latejava nas suas próprias veias. Apanhou-lhe a bainha da saia de brocado e arregaçou-a até poder deslizar a mão hábil, por debaixo da roupa interior, pelas suas coxas cima. Instintivamente, ela fechou as pernas e ele roçou, com calculada gentileza, as costas da mão pelo seu sexo escondido. Ao excitante contacto dos nós dos dedos, Elizabeth desfaleceu e ele sentiu-a quase dissolver-se entre os seus braços. Teria caído se ele não a tivesse firmemente enlaçada pela cintura e, naquele momento, Tom Seymour deu-se conta de que podia ter possuído a filha do rei, a princesa Elizabeth, contra uma árvore no jardim da rainha. A rapariga era virgem apenas de nome. Na verdade, pouco mais era do que uma puta.

Uns passos ligeiros fizeram-no virar-se rapidamente; largou a saia de Elizabeth e colocou-se diante dela para a encobrir. A expressão extasiada de desejo no rosto da rapariga era evidente. Receou que fosse a rainha, a sua mulher, cujo amor por ele era insultado sempre que seduzia a sua pupila mesmo debaixo do seu nariz: a rainha a quem fora confiada a guarda da enteada, a princesa; a rainha Katherine que tinha estado à cabeceira do leito de morte de Henry VIII, mas que sonhava com este homem.

Mas não foi a rainha que surgiu diante dele no caminho. Era apenas uma criança com cerca de nove anos, grandes e solenes olhos escuros e uma touca branca espanhola atada debaixo do queixo. Trazia dois livros na mão e mirou-o com frio interesse objectivo, como se tivesse visto e compreendido tudo.

- Então, minha querida! - exclamou com jovialidade fingida. - Pregaste-me um susto. Apareceste assim tão de repente que cheguei a pensar que eras uma fada.

Ela franziu o sobrolho ao tom rápido e excessivamente alto das suas palavras e, a seguir, respondeu de forma pausada e com forte sotaque espanhol:

- Perdoai-me, senhor. O meu pai mandou-me entregar estes livros a Sir Thomas Seymour e disseram-me que ele se encontrava no jardim.

Estendeu os livros e Tom Seymour viu-se obrigado a avançar para os tirar das mãos dela.

- És a filha do livreiro - disse jovialmente. - O livreiro de Espanha. Ela assentiu curvando a cabeça sem perder a expressão de escrutínio grave estampada no rosto.

- Para onde estás a olhar, minha querida? - perguntou-lhe, consciente da presença de Elizabeth a compor apressadamente a roupa atrás dele.

- Estou a olhar para vós, senhor, mas vi uma coisa horrível.

- O quê? - perguntou ele. Temeu, por uns instantes, que ela dissesse que o tinha visto com a princesa de Inglaterra encostada a uma árvore como uma vulgar rameira de saias arregaçadas.

- Vi um cadafalso atrás de vós - respondeu a criança surpreendida e, depois, afastou-se como se tivesse acabado de dar um recado e não houvesse mais nada para ela fazer naquele jardim banhado pelo sol.

Tom Seymour virou-se para Elizabeth que tentava pentear o cabelo desgrenhado com dedos ainda trémulos de desejo. Estendeu imediatamente os braços para ele, querendo mais.

- Ouviste aquilo?

Os olhos de Elizabeth eram fendas escuras.

- Não - disse em tom dengoso. - Ela disse alguma coisa?

- Disse apenas que viu um cadafalso atrás de mim! - Estava mais assustado do que queria revelar. Tentou soltar uma gargalhada forçada, mas esta soou como um tremor de medo.

A menção de cadafalso alertou subitamente Elizabeth.

- Porquê? - retorquiu. - Por que razão haveria de dizer uma coisa dessas?

- Só Deus sabe - disse ele. - Bruxinha estúpida. Como é estrangeira, provavelmente confundiu a palavra. Provavelmente queria dizer trono! Provavelmente viu um trono atrás de mim!

Mas o gracejo não foi mais bem sucedido do que a sua raiva pois, na imaginação de Elizabeth, o trono e o cadafalso andavam sempre a par. A cor esvaiu-se do seu rosto, deixando-a pálida de medo.

- Quem é ela? - O nervosismo tomava-lhe a voz ríspida. - Para quem é que trabalha?

Ele virou-se para procurar a criança, mas a álea estava deserta. Avistou, ao fundo, a esposa avançando lentamente em direcção a eles, as costas curvadas pelo peso do ventre grávido.

- Nem mais uma palavra - disse rapidamente à rapariga ao seu lado. - Calai-vos quanto a isto, minha querida. Não quereis certamente inquietar a vossa madrasta.

Não havia necessidade de a avisar. Ao primeiro sinal de perigo, a rapariga mostrou-se prudente, alisando o vestido, consciente de ter sempre de representar um papel para sobreviver. Tom Seymour podia contar com a cumplicidade de Elizabeth. Ela podia ter apenas catorze anos, mas, desde a morte da mãe, fora treinada para ludibriar, há doze longos anos que era aprendiz na arte do logro. E era filha de um mentiroso - dois mentirosos, pensou ele desdenhosamente. Podia sentir desejo, mas o perigo ou a ambição alertavam-na mais do que a luxúria. Tom Seymour pegou-lhe na mão fria e conduziu-a ao longo da álea ao encontro de Katherine. Tentou fazer um sorriso despreocupado.

- Por fim lá a apanhei! - gritou. Olhou à volta, mas não viu a criança.

- Corremos que nos fartámos!

Eu era essa criança e foi essa a primeira vez que vi a princesa Elizabeth: húmida de desejo, a arfar de lubricidade e a esfregar-se como uma gata contra o marido de outra mulher. Mas foi a primeira e a última vez que vi Tom Seymour. Um ano mais tarde, morreu no cadafalso acusado de traição e Elizabeth negou por três vezes ele ter significado mais do que um simples conhecimento.

 

Inverno de 1552-1553

- Lembro-me disto! - disse toda excitada ao meu pai, virando-me da amurada da barcaça enquanto subíamos o Tamisa aos bordos. - Lembro-me disto, pai! Lembro-me destes jardins que desciam até ao rio, das grandes casas e do dia em que me mandaste entregar uns livros a um lorde inglês e eu o encontrei no jardim com a princesa.

Embora o seu rosto estivesse fatigado da nossa longa jornada, ele encontrou forças para me dirigir um sorriso.

- Lembras-te, filha? - disse calmamente. - Fomos muito felizes nesse Verão. Ela dizia...

Calou-se. Nunca mencionávamos o nome da minha mãe, mesmo quando estávamos sozinhos. Ao princípio, tinha sido uma precaução para nos proteger daqueles que a tinham matado e impedir que viessem atrás de nós, mas, agora, procurávamos refúgio tanto do pesar quanto da Inquisição; e o pesar era um perseguidor implacável.

- Vamos viver aqui? - perguntei-lhe cheia de esperança, contemplando os belos palácios e os relvados à beira rio. Após anos de viagem, ansiava por um novo lar.

- Em nenhum sítio tão imponente quanto este - respondeu-me docemente. - Temos de começar de forma modesta, Hannah. Numa pequena loja. Temos de refazer a nossa vida. E, logo que nos instalemos, poderás deixar de usar roupas de rapaz, voltar a vestir-te como uma rapariga e casar com o jovem Daniel Carpenter.

- E poderemos então parar de fugir? - perguntei baixinho.

O meu pai hesitou. Fugíamos há tanto tempo da Inquisição que era quase impossível esperar que tivéssemos chegado a um porto seguro. Fugimos na mesma noite em que a minha mãe foi acusada de ser judia - uma falsa cristã, uma marrana - pelo tribunal eclesiástico e há muito que tínhamos partido quando ela foi entregue ao tribunal civil a fim de ser queimada viva na fogueira. Fugimos dela como dois Judas Iscariotes desesperados por salvar a pele, embora o meu pai me contasse mais tarde, com lágrimas nos olhos e repetidas vezes, que nunca a poderíamos ter salvo.

Se tivéssemos permanecido em Aragão, também viriam buscar-nos e, então, teríamos morrido os três. Quando lhe jurei que teria preferido morrer a viver sem ela, ele explicou-me paciente e tristemente que eu viria a aprender que a vida era o bem mais precioso de todos e que, um dia, compreenderia que a minha mãe teria de bom grado sacrificado a sua vida para salvar a minha.

Atravessámos clandestinamente a fronteira portuguesa, ajudados por bandidos que levaram todo o dinheiro do meu pai e lhe deixaram apenas os seus livros e manuscritos porque, para eles, não possuíam nenhum valor. Apanhámos a seguir um barco para Bordéus debaixo de uma tempestade, fazendo a travessia no convés, expostos à chuva torrencial e às vagas, e apertando os livros mais preciosos contra o corpo como se fossem crianças que tínhamos de manter quentes e secas. Depois, fomos por terra até Paris fingindo ser quem não éramos: um mercador e o seu jovem aprendiz, peregrinos a caminho de Chartres, comerciantes itinerantes, um senhor rural e o seu pajem a viajar por prazer, um professor e o seu pupilo que se dirigiam para a universidade de Paris; tudo menos admitir que éramos cristãos-novos, um casal suspeito com o cheiro a fumo dos autos-de-fé ainda impregnado na roupa e os terrores da noite ainda agarrados ao nosso sono.

Fomos ter com os primos da minha mãe em Paris e eles enviaram-nos para Amesterdão ao cuidado de parentes que, por sua vez, nos dirigiram para Londres. Devíamos esconder a nossa raça sob o céu inglês e tornarmo-nos londrinos, cristãos protestantes. Acabaríamos por gostar. Eu tinha de aprender a gostar.

Os parentes - o Povo cujo nome não pode ser pronunciado, cuja fé é oculta, o Povo condenado a vaguear banido de todos os países da Cristandade - prosperavam em segredo tanto em Londres como em Paris ou Amesterdão. Todos nós vivíamos como cristãos e observávamos as leis da Igreja, os dias santos e de jejum, e os rituais. Como a minha mãe, muitos de nós acreditávamos piamente em ambas as fés, cumpríamos o sabat às escondidas, acendíamos uma vela, preparávamos a comida e não cumpríamos a lida da casa, de modo a respeitar o dia santo através de fragmentos de orações judias meio esquecidas e, depois, no dia seguinte, íamos à missa com a consciência tranquila. A minha mãe ensinou-me a Bíblia e toda a Tora de que se lembrava como uma única lição sagrada. Preveniu-me que as relações da nossa família e a nossa religião eram secretas, um segredo profundo e perigoso. Tivemos de ser discretos e confiar em Deus, nas igrejas a que tínhamos feito generosas doações e nos nossos amigos: freiras, padres e professores que conhecíamos tão bem.

Quando a Inquisição chegou, fomos apanhados como galinhas inocentes cujos pescoços deviam ser torcidos e não cortados.

Outros fugiram, como nós tínhamos feito; e voltaram a emergir, como no nosso caso, em outras grandes cidades da Cristandade para procurar refúgio e ajuda junto de primos distantes ou amigos leais. A nossa família ajudou-nos com cartas de recomendação aos Disraeli, instalados em Londres e que aí eram conhecidos por Car-penter, organizaram o meu casamento com o filho, emprestaram dinheiro ao meu pai para comprar uma impressora e arranjaram-nos alojamento por cima da loja perto de Fleet Street.

Nos meses a seguir à nossa chegada, aprendi a conhecer mais uma cidade enquanto o meu pai instalava a tipografia absolutamente determinado a sobreviver e a criar-me. O seu conjunto de textos encontrou imediatamente muita procura, especialmente os Evangelhos que trouxera escondidos na cintura das calças e que, agora, traduzira para inglês. Comprava livros e manuscritos que tinham pertencido a bibliotecas de casas religiosas - destruídas por Henry, o rei anterior ao jovem Edward. A erudição de séculos fora atirada ao vento pelo velho rei Henry, e todas as lojas em todas as esquinas tinham uma pilha de documentos que podiam ser comprados a peso. Era um maná para qualquer bibliógrafo. O meu pai saía diariamente e voltava com algo raro e precioso, o qual, depois de compilado e ordenado, toda a gente queria comprar. As Escrituras tinham muita procura em Londres. À noite, e mesmo cansado, ele compunha e imprimia cópias dos Evangelhos e de textos simples para os crentes estudarem, todos em inglês e bem impressos. Era um país decidido a ler pelo prazer da leitura e a viver sem padres, e, assim, ele podia pelo menos estar contente por isso.

Vendíamos os textos baratos, a pouco mais do que o preço de custo, para divulgar a palavra de Deus. Queríamos que se soubesse que acreditávamos em comunicar a palavra divina ao povo pois éramos, agora, protestantes convictos. Se a nossa vida dependesse disso, não poderíamos ser melhores protestantes.

E é claro que a nossa vida dependia disso.

Eu fazia recados, corrigia provas, ajudava a traduzir, compunha, lendo as letras escritas ao contrário na barra de composição, e cosia as páginas com a agulha afiada do encadernador. Nos dias em que não tinha que fazer na tipografia, punha-me à porta para atrair clientes.

Ainda me vestia com as roupas que usara na nossa fuga e, com as calças a esvoaçar contra as barrigas das pernas nuas, os pés enfiados em velhos sapatos e o boné de través, toda a gente me tomava por um rapaz preguiçoso. Encostava-me à parede da nossa loja como um vadio sempre que o débil sol inglês brilhava, enquanto observava ociosamente a rua. À direita havia outra livraria, mais pequena do que a nossa e com artigos mais baratos. À esquerda, uma editora de literatura de cordel, poesia e brochuras para cantores e vendedores ambulantes e, mais longe, um pintor de miniaturas, um fabricante de lindos brinquedos, um pintor de retratos e um iluminador de manuscritos. Nesta rua, todos trabalhávamos com papel e tinta e o meu pai dizia-me que devia estar grata por um ofício que não me endurecia as mãos. Devia sentir-me realmente grata, mas não me sentia.

Era uma rua estreita, de pior aspecto do que aquela em que tínhamos morado temporariamente em Paris. Cada casa apertada contra a outra e todas elas de esguelha até ao rio, com as janelas de empenas penduradas sobre a calçada em baixo e bloqueando o céu de tal forma que os pálidos raios de sol listavam as paredes como rasgões numa manga. Os cheiros eram tão fortes como no pátio de uma quinta e todas as manhãs as mulheres despejavam água suja pela janela e vazavam imundícies no meio da rua que se alastravam lentamente até à fossa que era o rio Tamisa.

Queria viver num sítio melhor do que este, algures como o jardim da princesa Elizabeth com árvores e flores e vista para o rio. Queria ser alguém melhor do que era e não a aprendiz de um livreiro, uma rapariga disfarçada de rapaz, uma mulher prestes a casar-se com um estranho.

Enquanto estava ali a aquecer-me ao sol como um gato espanhol preguiçoso, ouvi o tinir de esporas na calçada e abri os olhos com interesse. Um jovem que projectava uma longa sombra encon-trava-se diante de mim. Estava ricamente vestido, de chapéu alto na cabeça, uma capa aos ombros e uma espada de prata à cintura. Era o homem mais belo que jamais tinha visto.

Tudo isto era bastante surpreendente e apercebi-me de que o fitava como se ele fosse um anjo descido à terra. Atrás dele, encontrava-se outra pessoa.

Um homem mais velho, com cerca de trinta anos, a pele pálida de estudioso e olhos escuros encovados. Conhecia o género. Era como os indivíduos que visitavam a livraria do meu pai em Aragão, vinham ver-nos em Paris e eram amigos e clientes do meu pai aqui em Londres. Via pelas suas costas corcovadas que era um homem de estudos.

Um escritor. Reparei na mancha permanente de tinta no terceiro dedo da mão direita; e era algo mais do que isso: um pensador, um homem que procurava o oculto. Um homem perigoso: sem medo de heresias nem de perguntas, sempre a querer adquirir mais conhecimentos; um homem que procurava a verdade por detrás da verdade.

Tinha conhecido um jesuíta como ele. Viera à livraria do meu pai em Espanha e pedira-lhe manuscritos, manuscritos antigos, mais antigos do que a Bíblia, até mais antigos do que a palavra de Deus. Tinha conhecido um erudito judeu como ele que também viera à livraria do meu pai pedir livros proibidos, fragmentos da Tora, da Lei. O jesuíta e o erudito vinham comprar livros com frequência e, um dia, tinham deixado de aparecer. Neste mundo, as ideias são mais perigosas do que uma espada desembainhada, metade delas são proibidas e a outra metade leva um homem a questionar a localização da própria Terra no centro do universo.

Estes dois, o jovem como um deus e o homem mais velho como um padre, tinham despertado de tal modo a minha atenção que não me apercebera do terceiro. Estava todo vestido de branco e mal o conseguia ver por causa do reflexo do sol no seu manto resplandecente. Procurei o seu rosto, mas só vi o brilho de prata. Pestanejei e continuei sem vê-lo. Voltei a mim e percebi então que, quem quer que fossem, estavam a olhar para a livraria ao lado.

Um olhar de relance para o interior mostrou-me que o meu pai estava atarefado a misturar tinta fresca e não tinha reparado que eu não convidara os clientes a entrar. Amaldiçoando-me pela minha falta de atenção, travei-lhes o passo e disse em tom distinto no meu sotaque inglês recentemente adquirido:

- Bom-dia, meus senhores. Possuímos a mais excelente colecção de livros morais e de lazer de Londres, os mais interessantes manuscritos aos melhores preços e desenhos executados com grande arte e encanto...

- Procuro a loja do Oliver Green, o impressor - disse o jovem. Nesse momento, os seus olhos escuros cruzaram os meus e senti-me paralisada, como se todos os relógios de Londres tivessem subitamente parado e os seus pêndulos fossem apanhados em silêncio. Quis capturá-lo: ali mesmo no seu gibão vermelho sob o sol de Inverno, para sempre. Quis que ele olhasse para mim e me visse, a mim, como eu era realmente, e não um garoto da rua com o rosto sujo, mas uma rapariga, quase uma mulher. Mas o seu olhar passou indiferentemente por mim e pousou na nossa loja e eu, recomposta, abri a porta para os três entrarem.

- Esta é a loja do erudito fabricante de livros, Oliver Green.

Entrai, senhores — convidei-os, gritando para a escura sala interior - pai, estão aqui três distintos fidalgos à tua procura!

Ouvi-o arrastar o seu banco alto de tipógrafo e ele saiu a limpar as mãos ao avental, seguido pelo cheiro a tinta e papel prensado a quente.

- Bem-vindos - acolheu-os. - Sejam todos bem-vindos.

Vestia o seu fato preto do costume e os punhos da camisa estavam sujos de tinta. Por um momento, vi-o através dos olhos dos visitantes e vi um homem de cinquenta anos, o cabelo espesso embranquecido de mágoa, o rosto profundamente enrugado, a altura dissimulada pela corcova de erudito.

Fez-me um sinal com a cabeça e eu puxei três bancos de debaixo do balcão, mas os indivíduos não quiseram sentar-se e ficaram de pé a olhar à volta.

- Em que posso servir-vos? - perguntou o meu pai. Só eu podia perceber o quanto ele receava os três indivíduos: o belo jovem que tirou o chapéu e desviou o cabelo preto encaracolado do rosto, o mais velho discretamente vestido e, atrás deles, o silencioso senhor de branco resplandecente.

- Procuramos o livreiro Oliver Green - informou o mais jovem. O meu pai acenou com a cabeça.

- Sou Oliver Green - disse calmamente com forte sotaque espanhol. - E estou aqui para vos servir no que puder. Em tudo que seja conforme às leis do país e aos seus costumes...

- Sim, sim - atalhou bruscamente o jovem. - Ouvimos dizer que vindes de Espanha, Oliver Green.

O meu pai acenou novamente com a cabeça.

- Cheguei realmente há pouco a Inglaterra, mas partimos de Espanha há três anos, senhor.

- Sois inglês?

- Agora, sim - respondeu prudentemente o meu pai.

- O vosso nome é muito inglês.

- Era Verde - disse com um sorriso. - É mais fácil para os ingleses chamarem-nos Green.

- E sois cristão? Editor de teologia e filosofia cristã?

Reparei que, à perigosa pergunta, o meu pai engoliu em seco, mas que, ao responder, a sua voz era calma e forte.

- Certamente, senhor.

- E sois da velha tradição ou da reformada? - insistiu o jovem em tom sereno.

O meu pai não sabia que resposta queriam nem quais seriam as consequências. Para dizer a verdade, poderíamos ser enforcados, queimados ou presos por causa dela, dependendo do modo como, nesse dia, se tratavam os hereges neste país sob o reinado do jovem rei Edward.

- Reformada - respondeu de modo hesitante. - Embora baptizado em Espanha, sou agora seguidor da igreja inglesa. - Houve uma pausa. - Graças a Deus - acrescentou -, sou um bom súbdito do rei Edward e nada mais quero do que trabalhar no meu ofício, viver segundo as suas leis e rezar na sua igreja.

Sentia o cheiro do seu terror tão acre como o fumo, o que me assustava. Passei as costas da mão pelo rosto como para limpar as cinzas de uma fogueira.

- Está tudo bem. Tenho a certeza de que querem os nossos livros e não a nós - arrisquei a meia voz em espanhol.

O meu pai inclinou a cabeça para mostrar que me tinha ouvido, mas o jovem apercebeu-se do meu aparte.

- O que disse o rapaz?

- Disse que sois gente culta - menti em inglês.

- Vai lá para dentro, querida- disse apressadamente o meu pai. - Por favor, perdoai, o meu filho. A minha mulher morreu há três anos e a criança é tonta. Só serve para se ocupar da porta.

- O garoto tem razão - disse o homem mais velho em tom agradável. - Viemos em paz. Não há motivo para ter medo. Desejamos apenas examinar os vossos livros. Sou um homem de estudos, não um inquisidor. Só quero ver a sua biblioteca.

Aproximei-me da porta e o mais velho virou-se para mim.

- Mas porque falaste de três senhores? - perguntou-me.

O meu pai estalou os dedos mandando-me embora, mas o jovem disse:

- Um instante. Deixai o rapaz responder. Que mal faz? Somos apenas dois, meu rapaz. Quantos vês tu?

Olhei do homem mais velho para o belo jovem e vi que, de facto, eram só dois. O terceiro, o do manto branco tão brilhante como estanho polido, desaparecera como se nunca tivesse ali estado.

- Vi uma terceira pessoa atrás de vós, meu senhor - disse ao mais velho. - Na rua. Peço desculpa. Agora, já não se encontra aqui.

- É tonta, mas é boa rapariga - disse o meu pai, fazendo-me sinal para eu me retirar.

- Esperai - disse o jovem. - Julguei que era um rapaz. Uma rapariga! Porque é que se veste como um garoto?

- E quem era o terceiro homem? - perguntou-me o companheiro. Sob todas aquelas perguntas, o meu pai mostrava-se cada vez mais ansioso.

- Deixai-a ir-se embora, meu senhor - suplicou. - Não passa de uma pobre rapariga, uma moça desmiolada ainda em estado de choque por causa da morte da mãe. Vou mostrar-vos os meus livros. Também possuo excelentes manuscritos que talvez vos interessem. Posso mostrar-vos...

- Quero de facto vê-los - interrompeu-o firmemente o homem mais velho. - Mas, primeiro, desejo falar com esta menina. Posso?

Incapaz de recusar tal pedido a gente tão importante, o meu pai acabou por ceder. O mais velho levou-me pela mão para o meio da pequena loja. Um raio de sol que entrava pela janela iluminou-me o rosto e ele, pegando-me no queixo, virou-o de um lado para o outro.

- Qual era o aspecto do terceiro homem? - perguntou-me em tom sereno.

- Era todo branco - murmurei através dos lábios entreabertos -e resplandecente.

- Como é que estava vestido?

- Apenas vi um manto branco.

- E o que é que tinha na cabeça?

- Só consegui ver a brancura.

- E o rosto?

- A claridade da luz era tal que não consegui ver-lhe o rosto.

- Achas que tinha um nome, rapariga?

Embora não compreendesse, um nome veio-me à boca.

- Uriel.

A mão que me segurava o queixo não tremia. O homem fitou-me como se me pudesse ler como a um dos livros do meu pai.

- Uriel?

- Sim, meu senhor.

- Ouviste alguma vez esse nome?

- Não, senhor.

- Sabes quem é Uriel? Abanei a cabeça.

- Apenas pensei que era assim que se chamava a pessoa que vinha convosco. Mas, antes de pronunciar o seu nome, nunca o ouvira. Limitei-me a dizê-lo.

O jovem virou-se para o meu pai.

- Dizeis que ela é tonta por ter visões?

- Diz disparates - teimou o meu pai. - Nada mais. É boa rapariga e vai todos os dias à missa. Não deseja ofender ninguém, apenas fala. Não consegue ficar calada. É uma tonta, nada mais.

- E porque é que anda vestida à rapaz? - perguntou.

O meu pai encolheu os ombros.

- Oh, meus senhores, os tempos estão maus. Tive de atravessar a Espanha e a França com ela e, depois, os Países Baixos, sem uma mãe para a guardar. Tenho de mandá-la fazer recados e agir como se fosse meu empregado. Seria melhor para mim se fosse rapaz. Quando se tornar mulher, terei de lhe dar um vestido, mas não sei como hei-de tratá-la. Com uma rapariga, estou perdido. Mas, com um rapaz, lá me amanho. Como rapaz, ela é-me útil.

- Possui dons de vidência - murmurou o mais velho. -Louvado seja Deus. Vim à procura de manuscritos e encontrei uma rapariga que vê Uriel e conhece o seu nome sagrado.

Virou-se para o meu pai:

- Ela tem alguns conhecimentos religiosos? Leu mais textos do que a Bíblia e o catecismo? Lê os vossos livros?

- Juro por Deus que não - disse em tom sincero o meu pai, mentindo com convicção. - Juro-lhe, meu senhor. Eduquei-a para ser uma boa rapariga ignorante. Não sabe nada, garanto-lhe. Absolutamente nada.

O mais velho acenou com a cabeça.

- Por favor - disse-me docemente e, depois, virou-se para o meu pai. - Nada receiem. Podem confiar em mim. Esta rapariga é vidente, não é?

- Não - respondeu o meu pai com ousadia, negando a verdade para minha própria segurança. - Não passa de uma tola e de um fardo. Causa-me mais preocupações do que vale. Se tivesse um parente a quem a enviar... fá-lo-ia. Não merece a vossa atenção.

- Viemos em paz - disse o jovem. - Não estamos aqui para vos inquietar. Este senhor chama-se John Dee e é o meu tutor. E o meu nome é Robert Dudley. Nada tendes a recear de nós.

Ao ouvir os seus nomes, o meu pai ficou ainda mais ansioso e tinha motivos para isso. O belo jovem era filho do homem mais importante do país: Lord John Dudley, protector do próprio rei de Inglaterra. Se gostassem da biblioteca do meu pai, forneceríamos livros ao rei, um rei culto, e a nossa fortuna estaria feita. Mas, se encontrassem livros sediciosos, blasfémicos ou heréticos, demasiado contestatários ou com novas doutrinas, seríamos metidos na prisão, novamente exilados ou mortos.

- É muita bondade vossa, senhor. Desejais que leve os meus livros ao vosso palácio? A luz aqui é muito fraca para a leitura e não há necessidade de vos dardes ao trabalho de vir à minha humilde loja...

O mais velho continuava a segurar-me pelo queixo e a examinar-me.

- Tenho comentários sobre a Bíblia - prosseguiu em tom rápido o meu pai. - Alguns muito antigos em latim e grego, e também livros em outras línguas. Tenho desenhos de templos romanos com as proporções explicadas e tabelas matemáticas, mas é evidente que não possuo conhecimentos para as compreender. Tenho igualmente desenhos de anatomia traduzidos do grego...

Finalmente, o homem chamado John Dee largou-me.

- Posso ver a vossa biblioteca?

Notei a relutância do meu pai em deixá-los percorrer as estantes e os desenhos da sua colecção. Receava que alguns dos livros pudessem agora estar banidos por uma nova lei como hereges. Eu sabia que os livros de sabedoria esotérica em grego e hebreu se encontravam escondidos num compartimento secreto por detrás da estante, mas mesmo os que estavam expostos podiam, nestes tempos imprevisíveis, causar-nos sarilho.

- Quereis que os traga para aqui?

- Não, eu vou lá dentro.

- Claro, meu senhor - acedeu. - Muito me honra. Conduziu John Dee à sala interior. O jovem, Robert Dudley, sentou-se num dos bancos e mirou-me com curiosidade.

- Tens doze anos?

- Sim, meu senhor - menti prontamente, mas a verdade é que tinha quase catorze.

- E és moça, embora vestida de rapaz.

- Sim, meu senhor.

- Ainda não te arranjaram casamento?

- Não para já, meu senhor.

- Mas há noivado à vista?

- Sim, meu senhor.

- E quem é que o teu pai escolheu?

- Vou casar com um primo da família da minha mãe quando tiver dezasseis anos - respondi. - Mas não desejo particularmente isso.

- És moça — troçou. — E todas as moças dizem o mesmo. Lancei-lhe um olhar que demonstrava claramente o meu ressentimento.

- Oh! Ofendi-te, Dona Rapaz?

- Sei o que quero, meu senhor - disse calmamente. - E não sou uma moça como as outras.

- É evidente. Então o que é que desejas, Dona Rapaz?

- Não quero casar.

- E como é que vais viver?

- Gostava de ter a minha própria loja e imprimir livros.

- E julgas que uma rapariga, mesmo bonita e de calças, consegue viver sem marido?

- Tenho a certeza de que consigo — disse. — A viúva Worthing tem uma loja do outro lado da rua.

- Essa viúva teve um marido que lhe deixou a fortuna. Não se viu obrigada a ganhar dinheiro.

- Uma rapariga também pode fazer fortuna - disse intrepidamente. - Acho que uma rapariga pode comandar numa loja.

- E que mais pode uma rapariga comandar? - zombou. - Um navio? Um exército? Um reino?

- Haveis de ver uma mulher reinar, melhor do que ninguém no mundo antes dela - ripostei e, depois, olhei para ver o seu rosto. Tapei a boca com mão. - Não quis dizer isso - acrescentei baixinho.

- Sei que uma mulher deve ser sempre guiada pelo pai ou o marido.

Olhou para mim como se estivesse disposto a escutar-me.

- Achas, Dona Rapaz, que viverei para ver uma mulher governar um reino?

- Em Espanha, aconteceu uma vez - disse em voz tímida.

- A rainha Isabel.

Acenou com a cabeça sem fazer comentários, como afastando-nos a ambos da beira de algo perigoso.

- Conheces o caminho para o palácio de Whitehall, Dona Rapaz?

- Conheço, sim.

- Então, quando o Sr. Dee escolher os livros que deseja ler, podes levá-los lá, aos meus aposentos, está bem?

Acenei a cabeça.

- A loja do teu pai está a prosperar? - perguntou. - Vende muitos livros? Tem muitos clientes?

- Alguns - respondi à cautela. - Mas só agora começámos.

- O teu dom não guia o teu pai no negócio? Abanei a cabeça.

- Não é um dom. É mais loucura, como ele diz.

- Falas e vês o que os outros não conseguem?

- Às vezes.

- E o que viste quando olhaste para mim?

Falava em tom muito baixo, como para me convencer a sussurrar uma resposta. Ergui os olhos das suas botas, das suas pernas fortes e do seu belo casaco, até às pregas do seu colarinho rendado, à sua boca sensual e aos olhos escuros semicerrados. Sorria-me, como se compreendesse que as minhas faces, as minhas orelhas e até mesmo o meu cabelo escaldavam como se ele fosse o sol de Espanha a bater-me na cabeça.

- Quando vos vi pela primeira vez, julguei conhecer-vos.

- De quando?

- De um tempo futuro - disse desajeitadamente. - Pensei que vos conheceria nos dias que estão para vir.

- Não se és rapaz! - sorriu para consigo mesmo pelo atrevimento dos seus pensamentos. - Qual será então a minha condição quando me conheceres, Dona Rapaz? Serei um homem célebre? Governarei um reino enquanto tu mandarás numa loja?

- Espero, realmente, que venhais a ser célebre - disse secamente. Não diria mais nada, esta zombaria amigável não devia levar-me a pensar que era seguro confiar nele.

- O que pensas de mim? - perguntou-me docemente. Respirei fundo.

- Penso que uma jovem que não usasse calças ficaria perturbada convosco.

Riu-se estrondosamente.

- Acertaste em cheio, Deus seja louvado - disse. - Mas não temo sarilhos com raparigas. Os pais delas é que me metem medo.

Não pude conter-me e sorri-lhe. Havia algo no modo como os seus olhos dançavam quando ria que me fazia querer igualmente rir, que me fazia querer dizer algo extraordinariamente espirituoso e profundo de forma que ele me visse não como uma criança, mas como uma jovem mulher.

- Predisseste alguma vez o futuro e este realizou-se? - perguntou subitamente sério.

A pergunta em si era perigosa num país sempre alerta à feitiçaria.

- Não tenho quaisquer poderes - respondi rapidamente.

- Mas, sem exercer poderes - podes prever o futuro? Algumas pessoas possuem um dom sagrado que lhes permite vê-lo. O meu amigo, Mr. Dee, acredita que os anjos guiam o curso da humanidade e podem, por vezes, prevenir-nos contra o pecado. Do mesmo modo que a trajectória dos astros pode dizer-nos qual será o nosso destino.

Decidida a não lhe responder, abanei apatetadamente a cabeça perante esta perigosa conversa. Pareceu pensativo.

- Sabes dançar ou tocar um instrumento de música? Aprender um papel numa peça e dizer as tuas deixas?

- Não muito bem - respondi com ar inútil. Riu diante a minha relutância.

- Bem, havemos de ver, Dona Rapaz. Veremos o que sabes fazer. Fiz-lhe uma vénia à rapaz e deixei-me ficar calada.

No dia seguinte, carregada com um pacote de livros e manuscritos cuidadosamente enrolados, atravessei a cidade, passando pelo Tribunal e pelos campos verdes de Covent Garden, até ao palácio de Whitehall. Estava frio e caía uma chuva gelada que me obrigou a enfiar o boné por cima das orelhas e a baixar a cabeça. O vento que soprava do rio parecia vir da Rússia e empurrou-me pela King's Street acima até aos portões do palácio de Whitehall.

Nunca estivera dentro de um palácio real e tinha pensado que só teria de entregar os livros aos guardas da porta, mas, quando lhes mostrei o bilhete que Lord Robert garatujara com o sinete dos Dudley em baixo representando um urso e um bastão, deixaram-me entrar como se eu fosse um príncipe em visita e ordenaram a um homem que me acompanhasse.

No interior dos portões, o palácio era constituído por uma série de pátios, todos lindamente decorados com um enorme jardim ao meio e macieiras, arbustos e bancos. O guarda conduziu-me através do primeiro jardim sem me dar tempo para parar e contemplar as damas e os fidalgos elegantemente trajados, que envoltos em peles e veludo contra o frio, jogavam petanca no relvado. Para lá das portas, abertas por outros dois guardas, havia mais gente elegante numa grande câmara e, depois, outra grande sala e mais outra. O meu guia conduziu-me através de várias portas até chegarmos a uma longa galeria no fundo da qual se encontrava Robert Dudley. Fiquei tão aliviada ao vê-lo, o único homem que conhecia em todo o palácio, que corri os últimos passos chamando-o:

- Meu senhor!

O guarda hesitou, como se fosse impedir que eu me aproximasse mais, mas Robert Dudley mandou-o embora com um gesto.

- Dona Rapaz! - exclamou. Levantou-se e reparei então no seu companheiro.

Era o jovem rei, Edward, que contava quinze anos de idade e estava magnificamente vestido de veludo azul, mas tinha uma cara da cor de leite desnatado e era mais magro do que qualquer rapaz que eu alguma vez vira.

De joelho por terra, entreguei-lhe os livros do meu pai, tentando tirar o boné ao mesmo tempo, enquanto Lord Robert comentava:

- É esta a rapariga-rapaz. Não achais que daria uma actriz maravilhosa?

Não ergui a cabeça, mas ouvi a voz do rei, débil de sofrimento.

- Tens cada capricho, Dudley. Porque é que ela tem de ser actriz?

- A voz dela — disse Dudley. - Tão doce e com sotaque meio espanhol, meio londrino. Não me canso de a ouvir. E tem porte de princesa em roupas de mendigo. Não achais que é uma criança deliciosa?

Mantive a cabeça baixa para ele não se dar conta da minha expressão deleitada. Apertei as palavras contra o meu peito magro: "uma princesa em roupas de mendigo", "uma voz doce", "deliciosa".

O jovem rei fez-me voltar à realidade.

- Porquê, que papel representaria ela? Uma rapariga a fazer de rapaz a fazer de rapariga? Além disso, uma rapariga vestir-se de rapaz é contra a Sagrada Escritura - a voz dele arrastou-se numa tosse que o abalou como um urso podia abanar um cão.

Ergui os olhos e vi Dudley fazer um pequeno gesto em direcção ao jovem como para o segurar. O rei tirou o lenço da boca e vi uma mancha escura, mais escura que sangue. Voltou rapidamente a guardá-lo.

- Não é nenhum pecado - disse em tom doce Dudley. - Não é uma pecadora. É vidente. Viu um anjo a caminhar na Fleet Street. Podeis imaginar tal coisa? Eu estava lá.

O rei virou-se logo para mim, o rosto animado de interesse.

- Vês anjos?

Mantive o joelho em terra e baixei os olhos.

- O meu pai diz que sou tonta - disse espontaneamente. - Lamento, Majestade.

- Mas viste um anjo na Fleet Street?

Acenei que sim com a cabeça de olhos baixos. Não podia negar o meu dom.

- Sim, Majestade. Perdoai-me. Enganei-me. Não quis ofender...

- O que vês em mim? - interrompeu-me.

Levantei a cabeça. Quem quer que fosse podia distinguir a sombra da morte no seu rosto, na sua pele cerosa, nos olhos inchados e na magreza, mesmo sem a prova da mancha no lenço e o tremor dos seus lábios. Tentei mentir, mas, contra minha vontade, sentia as palavras a virem-me à boca:

- Vejo as portas do céu a abrirem-se.

Dudley fez novamente aquele pequeno gesto, como se fosse suster o rapaz, mas a mão caiu-lhe ao lado.

O jovem rei não se mostrou zangado. Sorriu.

- Esta criança diz a verdade enquanto todos os demais mentem - disse. - Vós andais por aí todos a inventar novas maneiras de mentir. Mas esta menina...

Perdeu o fôlego e sorriu-me outra vez.

- As portas do céu estão abertas desde o vosso nascimento, Alteza - disse docemente Dudley. - Quando da ascensão de vossa mãe. A rapariga não está a dizer nada mais do que isso - lançou-me um olhar irado. - Não estás?

O jovem rei fez-me um gesto:

- Fica na corte. Serás o meu bobo.

- Tenho de ir ter com o meu pai a casa, Majestade - disse tão suave e humildemente quanto podia, ignorando o olhar furibundo de Robert Dudley. - Só vim trazer estes livros a Lord Robert Dudley.

- Serás bobo e vestirás o traje da minha casa real - declarou o jovem rei.

- Robert, estou-te grato por ma teres encontrado. Não me esquecerei.

Fui mandada embora. Robert Dudley fez uma vénia e deu um estalido com os dedos na minha direcção, saindo da sala. Hesitei, querendo recusar, mas não havia mais nada a fazer senão curvar-me diante do monarca e correr atrás de Robert Dudley que atravessava a enorme antecâmara, afastando negligentemente dois cortesãos que tentaram detê-lo para ter notícias da saúde do rei.

- Agora não - disse-lhes.

Percorreu uma longa galeria em direcção a portas duplas guardadas por mais soldados com lanças que as abriram de par em par ao vê-lo aproximar-se. Dudley passou pelos guardas em sentido e eu corri como um galgo de estimação atrás do dono. Chegámos finalmente a um portão em que os soldados de guarda usavam a lihré dos Dudley e entrámos.

- Pai! - exclamou Robert Dudley, pousando um joelho em terra diante de um homem à lareira de uma grande sala a contemplar as chamas. Este virou-se e abençoou friamente o filho fazendo o sinal da cruz com dois dedos por cima da sua cabeça. Ajoelhei-me também e assim me mantive mesmo quando me apercebi de que Robert Dudley se tinha levantado.

- Como é que está o rei esta manhã?

- Pior - respondeu categoricamente Robert. - Teve um ataque de tosse e ficou sem fôlego, cuspindo fel escuro. Não pode durar muito, pai.

- É esta a rapariga?

- É a filha do livreiro e diz que tem doze anos. Eu diria que é mais velha. Veste-se como um rapaz, mas não há dúvida de que é uma rapariga. Na opinião do John Dee, possui o dom da vidência, levei-a ao rei, como me haveis ordenado, para ser o seu bobo sagrado. Ela disse-lhe que via as portas do céu abrirem-se para o receber. Sua Majestade apreciou e nomeou-a bobo.

- Óptimo - disse o duque. - Já lhe explicaste os seus deveres?

- Trouxe-a imediatamente aqui.

- Levanta-te, tonta.

Pus-me de pé e olhei pela primeira vez para o pai de Robert, o duque de Northumberiand, o homem mais notável do reino. Rosto magro e comprido como um cavalo, olhos escuros, calvície meio escondida por um gorro de veludo enfeitado com o seu brasão em prata: um urso e um bastão. Tinha barbicha à espanhola à volta da boca de lábios cheios. Fitei-o nos olhos, mas nada vi. Era um homem cujo rosto escondia os pensamentos, um homem cujos próprios pensamentos conspiravam para ocultar os pensamentos.

- Então? - perguntou-me. - O que vês com esses teus grandes olhos pretos, Maria-Rapaz?

- Bem, não vejo anjos atrás de vós - disse precipitadamente, sendo recompensada por um sorriso divertido por parte do duque e uma gargalhada por parte do filho.

- Excelente - disse ele. - Boa réplica. Como é que te chamas?

- Hannah Green, meu senhor.

- Escuta, Hannah, o rei nomeou-te bobo segundo as nossas leis e costumes. Sabes o que isso significa?

Abanei a cabeça.

- Pertences-lhe, como um dos seus cachorros de estimação ou um dos seus soldados. A tua tarefa, como cachorro e não como soldado, é seres tu mesma. Diz a primeira coisa que te vem à cabeça, faz o que te apetecer, para o divertir. Revelará diante de nós a obra do Senhor e agradará a Sua Majestade. Falarás a verdade nesta corte de mentirosos e serás a nossa inocente neste mundo iníquo. Percebes?

- Como devo proceder? - estava totalmente confusa. - O que desejais de mim?

- Porta-te como és. Fala como os teus dons te ordenarem. Diz o que quiseres. Presentemente, o rei não possui nenhum bobo sagrado e ele gosta de ter gente inocente na corte. Deu-te essa ordem e, agora, és bobo real. Serás paga por isso.

Aguardei.

- Compreendes, tonta?

- Sim, mas não aceito.

- Não podes. Foste nomeada bobo e não tens estatuto legal nem voto na matéria. O teu pai entregou-te a Lord Robert aqui presente, o qual te deu ao rei. És agora propriedade de Sua Majestade.

- E se eu recusar? - Sentia-me tremer.

- Não podes recusar.

- E se fugir?

- Serás punida de acordo com o desejo do rei. Chicoteada como um animal. Eras propriedade do teu pai, mas, agora és nossa. E nós demos-te ao rei e é ele o teu dono. Percebes?

- O meu pai nunca me venderia - insisti teimosamente. - Nunca se desembaraçaria de mim.

- Ele não pode opor-se a nós - declarou Robert em tom calmo atrás de mim. - E prometi-lhe que estarias mais segura aqui do que na rua. Dei-lhe a minha palavra de honra e ele aceitou. Tratámos do assunto enquanto encomendávamos os livros, Hannah. Acabou-se.

- Mas agora, e não como cachorro nem como bobo, terás outra tarefa a cumprir - continuou o duque.

Aguardei.

- Vais ser nosso vassalo.

Ao ouvir esta estranha palavra, olhei para Robert Dudley.

- Vais ficar às nossas ordens durante toda a vida - explicou-me.

- Nosso vassalo. Virás contar-me tudo o que ouvires ou vires. Tudo o que o rei desejar, tudo o que o fizer chorar, tudo o que o fizer rir, virás dizer-me, a mim ou a Robert. Vais ser os nossos olhos e os nossos ouvidos junto do rei. Compreendes?

- Tenho de ir para casa ter com o meu pai, meu senhor - disse, desesperada. - Não posso ser bobo do rei nem vosso vassalo. Tenho de trabalhar na livraria.

O duque franziu o sobrolho ao filho. Robert inclinou-se para mim e falou com muita serenidade.

- Dona Rapaz, o teu pai não se importa contigo. Disse isso à tua frente, lembras-te?

- Sim, mas, meu senhor, queria apenas dizer que lhe causo problemas...

- Dona Rapaz, creio que o teu pai não é bom cristão nem provém de uma boa família cristã, mas judeu. Julgo que foram expulsos de Espanha pelo pecado de serem judeus e, se os vossos vizinhos e bons cidadãos de Londres, soubessem que eram judeus, não ficariam muito tempo na vossa nova casinha.

- Somos marranos, a nossa família converteu-se há uma data de anos - sussurrei. - Fui baptizada e estou noiva de um jovem escolhido pelo meu pai com quem vou casar, um inglês cristão...

- No teu lugar, eu não diria isso - preveniu-me abruptamente. - Imagino que, se nos conduzisses a esse jovem, descobriríamos uma família de judeus a viver no centro de Inglaterra e daí... onde é que disseste? Amesterdão? E, a seguir, Paris?

Abri a boca para o desmentir, mas não consegui falar de medo.

- Todos eles judeus a fingir que são cristãos, a acenderem uma vela à sexta-feira, a não comerem carne de porco e a viverem com a corda ao pescoço.

- Senhor!

- Todos vos ajudaram a chegar até aqui, não ajudaram? Todos judeus praticantes, uma religião proibida exercida às escondidas, todos eles a ajudarem-se uns aos outros. Uma rede secreta, como os cristãos mais tementes o declaram.

- Meu senhor!

- Queres realmente ser a chave que conduzirá este soberano mui cristão a descobrir-vos? Não sabes que a igreja reformada pode acender uma fogueira tão incandescente como os papistas? Queres que a tua família e todos os teus amigos ardam nela? Já alguma vez sentiste o odor de carne humana queimada?

Tremia de medo e tinha a garganta tão seca que não conseguia pronunciar palavra. Apenas olhei para ele, sabendo que os meus olhos estavam pretos de medo e que ele podia ver o meu suor a escorrer pela testa abaixo.

- Eu sei e tu sabes que o teu pai sabe que não pode manter-te em segurança. Mas eu posso. Basta! Não direi mais nada.

Calou-se. Tentei falar, mas tudo o que consegui foi emitir um pequeno gemido de terror. Perante a minha cobardia, Robert Dudley limitou-se a acenar a cabeça.

- Agora, felizmente para ti, as tuas faculdades de vidente trouxeram-te ao lugar mais seguro com que podias sonhar. Serve bem o rei e a nossa família e o teu pai estará a salvo. Mas, se nos falhares na mais pequena coisa, ele será asfixiado até os olhos lhe saltarem da cabeça e casarás com um guardador de porcos que seja luterano beato de rosto vermelho. A escolha é tua.

Houve uma breve pausa e, a seguir, o duque de Northumberland, sem sequer esperar que eu escolhesse, mandou-me embora. Não precisava de ser vidente para saber qual seria a minha escolha.

- E tens de viver na corte! - confirmou o meu pai.

Estávamos a jantar, um pequeno empadão comprado na padaria ao fim da rua. O gosto pouco familiar da comida inglesa colava-se no fundo da minha garganta e o meu pai forçava-se a engolir o recheio temperado com toucinho.

— Tenho de dormir no alojamento das criadas - disse eu tristemente. - Vestir a libré dos pajens do rei e fazer-lhe companhia.

- É melhor do que poderia dar-te - disse o meu pai, tentando mostrar-se jovial. - A não ser que Lord Robert encomende mais livros, não teremos suficiente dinheiro para pagar a próxima renda desta casa.

- Posso mandar-te o meu salário - propus. - Vou ser paga. Fez-me uma festa na cabeça.

- És boa rapariga - disse. - Não te esqueças disso. E nunca te esqueças da tua mãe nem de que és uma das filhas de Israel.

Acenei a cabeça sem dizer palavra. Vi-o meter à boca uma colherada da comida contaminada e engoli-la.

- Devo ir para o palácio amanhã - murmurei. - Tenho de começar imediatamente a trabalhar. Pai...

- Irei ver-te ao portão todas as noites - prometeu. - E se fores infeliz ou te tratarem mal, fugiremos. Podemos voltar a Amesterdão ou ir para a Turquia. Havemos de encontrar um sítio, querida. Coragem, filha. És uma das escolhidas.

- Como é que vou conseguir cumprir os dias de jejum - perguntei repentinamente aflita. - Obrigar-me-ão a trabalhar no sabat. Como é que direi as minha orações? Vão obrigar-me a comer carne de porco!

Os seus olhos cruzaram-se com os meus e, depois, baixou-os.

- Seguirei a nossa religião aqui por ti - disse. - Deus é bom e compreende. Lembras-te do que aquele filósofo alemão disse? Que Deus permite-nos quebrar as leis para salvar a vida. Rezarei por ti, Hannah. E mesmo que estejas ajoelhada a rezar numa capela cristã, o nosso Deus há-de continuar a ver-te e a ouvir as tuas orações.

- Pai, Lord Robert sabe quem somos. Sabe porque partimos de Espanha.

- Não me disse nada directamente.

- Ameaçou-me. Sabe que somos judeus, mas disse que, desde que eu lhe obedecesse, guardaria segredo.

- Minha filha, não estamos em segurança em nenhum lado. E tu, pelo menos, estarás sob a sua protecção. Jurou-me que estarias segura em casa dele. Ninguém ousaria questionar um dos seus criados nem o bobo do rei.

- Como podes abandonar-me, pai? Porque aceitaste que eles me levassem?

- Como podia detê-los, Hannah?

Na sala caiada por debaixo dos beirais do telhado do palácio, revirei a pilha das minhas roupas novas e li o inventário redigido pelo mestre da casa:

Uma libré amarela de pajem. Um par de meias vermelho-escuras. Um par de meias verde-escuras. Um casaco comprido. Duas camisas interiores de linho.

Dois pares de mangas, um par vermelho e outro verde. Um chapéu preto.

Um manto preto para montar a cavalo. Um par de sapatos para dançar. Um par de botas para montar a cavalo. Um par de botas para passear.

Tudo usado mas limpo e remendado entregue ao bobo do rei, Hannah Green.

- Agora é que vou realmente parecer um bobo!

Nessa noite, meio dentro, meio fora do palácio, fiz um relato do meu dia em voz baixa ao meu pai quando ele veio visitar-me ao portão das traseiras.

- Já há dois bobos na corte, uma anã chamada Thomasina e um homem cujo nome é Will Somers que se mostrou muito amável comigo e me informou que eu deveria sentar-me ao seu lado. É espirituoso e fez rir toda a gente.

- E o que é que tu fizeste?

- Ainda não fiz nada. Não pensei em nada para dizer.

O meu pai olhou em redor. Um mocho ululou no meio da escuridão do jardim, quase como um sinal.

- Não conseguiste pensar em qualquer coisa? Não querem que penses em algo?

- Não posso forçar-me a ver coisas, pai. Não controlo o meu dom de vidência. Vem-me à cabeça ou não.

- Viste Lord Robert?

- Piscou-me o olho - encostei-me à pedra fria, envolvendo os ombros no meu novo manto.

- E o rei?

- Nem veio jantar. Estava doente e levaram-lhe a comida aos seus aposentos. Serviram um grande jantar como se ele estivesse à mesa, mas mandaram-lhe um prato pequeno. O duque ocupou o lugar de Sua Majestade à cabeceira da mesa. Só faltou sentar-se no trono.

- E o duque continua a vigiar-te?

- Nem pareceu reparar em mim.

- Esqueceu-se de ti?

- Ah, ele não precisa de olhar para ver quem está onde e o que está a fazer. Não há-de esquecer-se de mim. Não é homem para esquecer o que quer que seja.

O duque decidiu que haveria um espectáculo no dia da Candelária, anunciando-o como sendo por ordem do rei e, assim, todos tivemos de nos mascarar e aprender as réplicas. Will Somers, bobo do rei que viera para a corte há vinte anos com a mesma idade que a minha, tinha de apresentar a peça e marcar a cadência, o coro tinha de cantar e eu devia recitar um poema composto para a ocasião. O meu traje seria novo, especialmente feito para mim em amarelo, a cor dos bobos. A minha libré apertava-me no peito. Eu era um estranho ser andrógino, uma rapariga prestes a tornar-se mulher. Às vezes, quando virava a cabeça diante de um espelho sob uma certa luz, entrevia uma beleza estranha, e, noutras, parecia rasa como uma tábua. O mestre das festividades entregou-me uma pequena espada e mandou que Will e eu esgrimíssemos numa cena da peça.

Encontrámo-nos para praticar numa das antecâmaras. Mostrei-me desajeitada e sem vontade pois não queria aprender a combater com espadas como um rapaz

nem ser alvo de graças por ser batida em público. Ninguém na corte podia ter-me convencido a não ser Will Somers e, no decorrer das nossas lições, ele portou-se como se tivesse sido contratado para melhorar o meu entendimento de grego, como se fosse uma arte que eu tivesse de aprender e ele quisesse que eu me saísse bem.

Começou com a minha postura e, colocando as mãos nos meus ombros, endireitou-os docemente e levantou-me o queixo.

- Ergue a cabeça, como uma princesa - disse. - Viste alguma vez Lady Mary baixá-la? Viste alguma vez Lady Elizabeth deixá-la tombar? Não. Caminham como se fossem princesas de nascença e criação. Graciosas como bodes.

- Bodes? - perguntei, tentando erguer a cabeça sem baixar os ombros.

Will Somers sorriu do gracejo.

- Sobem e descem - disse. - Herdeiros um dia, bastardos no dia seguinte. No alto da montanha e cá em baixo outra vez. As princesas e os bodes são todos iguais. Tens de te mostrar como uma princesa e de dançar como um bode.

- Já tinha visto a princesa Elizabeth - informei-o.

- Ah, sim?

- Uma vez, quando era pequena. O meu pai trouxe-me em visita a Londres e tive de entregar uns livros ao almirante Lord Seymour.

Will pousou docemente a mão no meu ombro.

- Quanto menos se diz, mais depressa se emenda - aconselhou-me calmamente. De repente, deu uma palmada na testa e sor-riu-me jovialmente. - Cá estou eu a dizer a uma mulher para se calar! Sou um pateta!

A lição prosseguiu e ele mostrou-me a posição do esgrimista, uma mão na anca para se equilibrar e como deslizar em frente sem levantar os pés do chão para não escorregar nem cair e como mover-se por detrás da espada e recuar. A seguir, treinámos umas fintas e passes.

Will mandou-me atacá-lo, mas hesitei.

- E se te firo?

- Receberei uma cacetada e não um golpe mortal - fez-me notar. - São espadas de pau, Hannah.

- Então prepara-te - disse nervosamente, lançando-me para a frente.

Para meu espanto, Will esquivou-se e contra-atacou apon-tando-me a espada à garganta.

- Estás morta - disse. - Afinal de contas, não és tão boa a prever coisas.

Ri-me.

- Não sou boa nisto - admiti. - Tenta novamente.

Desta vez, ataquei com mais energia e apanhei a bainha do seu casaco quando ele se desviou.

- Excelente - disse, arquejante. - Outra vez.

Praticámos até eu conseguir atacá-lo de forma convincente e, a seguir, ele começou a lançar-me estocadas e a ensinar-me a esquivar para um lado ou para o outro. Desenrolou depois um espesso tapete no chão e mostrou-me como dar cambalhotas.

- É engraçado - disse ele, sentando-se direito com as pernas cruzadas como uma criança sentada a ler um livro.

- Não é lá muito.

- Ah, és uma vidente divina, não bobo - disse ele. - Não tens nenhum sentido de humor.

- Tenho, sim - respondi, picada. - Só que tu não tens graça nenhuma.

- Há quase vinte anos que sou o homem mais cómico de Inglaterra - insistiu. - Vim para a corte quando o rei Henry amava Ana Bolena e me puxou uma vez as orelhas por eu fazer pouco dela. Mas, mais tarde, quem pagou as favas foi ela. Antes de tu nasceres, já eu era o homem mais engraçado de Inglaterra.

- Que idade tens tu? - perguntei, olhando-o. As rugas provocadas pelo riso marcavam-lhe profundamente os cantos da boca e dos olhos. Mas era ligeiro e esbelto como um rapaz

- Sou tão velho como a minha língua e mais velho do que os meus dentes - respondeu.

- Não, a sério?

- Tenho trinta e três anos. Porquê, queres casar comigo?

- Nem por sombras. Obrigada.

- Casarias com o bobo mais espirituoso do mundo.

- Prefiro não casar com um bobo.

- Isso é inevitável. Um homem sensato é solteiro.

- Não consegues fazer-me rir - disse em tom provocador.

- És rapariga. As mulheres não têm sentido de humor.

- Eu cá tenho - insisti.

- É bem sabido que as mulheres, como não foram feitas à imagem de Deus, não têm conhecimento do que é engraçado e do que não é.

- Eu cá tenho! Tenho, pois!

- Claro que as mulheres não têm! - exclamou em tom triunfante. - Se o tivessem, não casariam com um homem! Já alguma vez viste um homem quando deseja uma mulher?

Abanei a cabeça. Will meteu a espada de madeira entre as pernas e pôs-se a correr de um lado para o outro.

- Não consegue pensar, falar ou controlar os seus pensamentos e desejos, corre atrás da picha como um cão a seguir o faro de uma peça de caça, tudo o que pode fazer é uivar. Auuuuu!

Fartei-me de rir ao ver Will a correr à volta da sala inclinado para trás como a tentar refrear a espada de pau. Acabou por parar e lançou-me um sorriso.

- É evidente que as mulheres não têm espírito - comentou. - Quando é que alguém com espírito teria um homem?

- Bem, eu cá não - disse.

- Deus te abençoe e te mantenha virgem, Maria Rapaz. Mas, se não tiveres um homem, como vais arranjar marido?

- Não preciso de nenhum marido.

- Então és realmente tonta. Pois, sem marido, como é que consegues viver?

- Cá me hei-de arranjar.

- És mesmo tonta, pois só podes ganhar a vida fazendo palermices. Isso torna-te triplamente tonta. Primeiro, porque não queres um marido, segundo, por tentar ganhar a vida sem ele, e, terceiro, porque a única maneira de ganhares a vida é através de palermices. Pelo menos, eu sou um simples bobo, mas tu és triplamente tonta.

- Não sou nada! - repliquei, acompanhando a cadência do seu discurso. - És bobo há anos, há duas gerações de reis, enquanto eu sou bobo há apenas duas semanas.

Riu-se e deu-me uma palmada nas costas.

- Tem cuidado, Maria Rapaz, senão, em vez de tonta divina, passas a ser tonta esperta. Deixa-me que te diga uma coisa, fazer palhaçadas e armar em bobo todos os dias é mais difícil do que dizer algo surpreendente uma vez por mês.

Ri-me ao pensar que o meu trabalho era dizer coisas surpreendentes uma vez por mês.

- De pé e toca a trabalhar! - disse Will Somers, puxando-me. - Temos de planear como irás matar-me de forma divertida na festa da Candelária.

Preparámos a nossa dança de espadas a tempo e pareceu-nos muito engraçada. Pelo menos, duas sessões de treino terminaram com ambos a rir a bandeiras despregadas pois sincronizávamos mal um ataque e chocávamos de cabeça ou, então, desviávamo-nos ao mesmo tempo e caíamos de costas um por cima do outro. Mas, um dia, o mestre das festividades veio espreitar-nos e disse:

- Parem com isso. Já não vai haver nenhuma festa. Virei-me com a espada ainda na mão.

- Mas já estamos prontos!

- O rei está doente - disse ele secamente.

- E Lady Mary ainda vem à corte? - perguntou Will, tapando-se por causa de uma corrente de ar que entrava pela janela.

- Disseram que sim - respondeu o mestre. - Desta vez, terá melhor alojamento e uma peça de carne melhor, não achas, Will?

Fechou a porta antes de Will ter tempo de responder e, assim, virei-me para ele e perguntei-lhe:

- O que quis ele dizer com aquilo? O rosto de Will tinha um ar grave.

- Quer dizer que aqueles que se aproximam do herdeiro e se afastam do rei irão fazer agora a sua jogada.

- Porquê?

- Porque as moscas voam para o monte de esterco mais fresco.

- O que estás para aí a dizer, Will?

- Ah, filha. A herdeira é Lady Mary e, se perdermos o rei, será ela a rainha. Deus o abençoe, pobre rapaz.

- Mas ela é herege...

- Católica - corrigiu-me docemente.

- E o rei Edward...

- O seu coração ficará destroçado por deixar o trono a uma católica, mas não há nada que possa fazer. Foi assim que o rei Henry decidiu. Que Deus lhe perdoe, deve estar às voltas no túmulo. Julgou que o rei Edward viria a tornar-se um homem forte e jovial, e pai de meia dúzia de princesinhas. Dá que pensar, não dá? Dois reis jovens e vigorosos: o pai de Henry e o próprio Henry, ambos belos como o sol e lascivos como pardais, e deixam-nos um rapaz fraco como uma rapariga e uma velha como herdeira!

Fitou-me e eu vi-o esfregar os olhos como se limpasse lágrimas.

- Nada significa para ti - disse-me com brusquidão. - Chegaste há pouco de Espanha, raio de rapariga. Mas se fosses inglesa, estarias aflita. Se fosses homem e sensato, mas és rapariga e ainda por cima bobo.

Abriu a porta e partiu pelo corredor fora nas suas pernas compridas, acenando a cabeça aos soldados que o saudavam prazenteiramente.

- Se o rei morrer e a irmã ocupar o trono, o que vai ser de nós? - sussurrei entre dentes trotando atrás dele.

Will lançou-me um sorriso de esguelha.

- Passaremos a ser os bobos da rainha Mary - disse simplesmente. - E se eu conseguir fazê-la rir, será realmente uma novidade.

Nessa noite, o meu pai veio ao portão na companhia de um jovem envolto numa capa de lã escura com caracóis pretos que lhe chegavam quase ao colarinho, olhos pretos e um sorriso juvenil e tímido. Levei uns instantes a reconhecê-lo: era Daniel Carpenter, o meu noivo. Era apenas a segunda vez que o via; fiquei embaraçada por não o reconhecer e extremamente envergonhada por ele me ver enfiada na minha libré amarelo-dourada de pajem. Embrulhei-me no manto para esconder as calças e fiz-lhe uma vénia desajeitada.

Ele tinha vinte anos e andava a estudar para ser médico como o pai, que tinha morrido no ano anterior. Os seus parentes tinham vindo de Portugal para Inglaterra há oitenta anos e faziam parte da família Disraeli. Mudaram o nome para o mais inglês que encontraram, ocultando a sua educação e origem estrangeira por detrás de um apelido que significava carpinteiro. Era típico do seu espírito satírico escolher a profissão do judeu mais famoso de todos -Jesus. Tinha falado com Daniel apenas uma vez-, quando ele e a mãe nos acolheram em Inglaterra com pão e vinho, e desconhecia quase tudo acerca dele.

Tinha tanta escolha neste casamento quanto eu e não sabia se ele ressentia isso da mesma maneira ou ainda mais. Tinham-no escolhido para mim porque éramos primos em sexto grau e a diferença entre as nossas idades não superava os dez anos, era tudo o que era preciso e melhor do que podia ter sido. Não havia suficientes primos, tios e sobrinhos em Inglaterra para uma pessoa se pôr com exigências e escolher com quem casar. Não havia mais de vinte famílias descendentes de judeus em Londres e outras dez espalhadas por toda a Inglaterra. Como devíamos casar-nos entre nós, tínhamos pouca escolha. Daniel podia ter cinquenta anos, estar meio cego e até meio morto, que eu ainda teria de me casar com ele aos dezasseis anos. O mais importante de tudo, mais importante do que riqueza ou sentimentos, era que seríamos unidos em segredo. Ele sabia que a minha mãe fora queimada como herege acusada de práticas judaicas e eu sabia que, por debaixo das suas elegantes calças, ele era circuncidado. Se ele acreditava piamente em Jesus e nos sermões pregados todos os dias, e duas vezes ao domingo, na sua igreja local era uma coisa que eu talvez viesse a descobrir mais tarde, assim como, com o tempo, ele deveria aprender coisas a meu respeito. O que nós sabíamos de certeza acerca um do outro era que a nossa fé cristã era nova, mas a nossa raça muito antiga, que tínhamos sido odiados na Europa há mais de trezentos anos e que os Judeus ainda estavam proibidos de entrar na maior parte dos países da Cristandade, incluindo este, esta Inglaterra a que gostaríamos de chamar a nossa pátria.

- O Daniel pediu-me para te ver a sós - disse desajeitadamente o meu pai, afastando-se um pouco para não nos ouvir.

- Ouvi dizer que foste contratada como bobo - disse-me Daniel.

Olhei para ele e vi o seu rosto corar até as orelhas ficarem a arder. Tinha um rosto moço de pele macia como a de uma rapariga e uma penugem no lábio superior que combinava com as sobrancelhas escuras e sedosas por cima dos olhos escuros e encovados. À primeira vista, parecia mais português do que judeu, mas as pálpebras pesadas traíam-no.

Era esbelto de ombros largos, cintura estreita e pernas compridas - um belo jovem.

- Sim - respondi laconicamente. - Tenho um lugar na corte.

- Quando fizeres dezasseis anos, terás de sair de lá e voltar para casa - disse ele.

Franzi o sobrolho a este jovem estranho.

- Quem me dá essa ordem? -Eu.

Deixei que um curto silêncio gelado se instalasse entre nós.

- Não creio que tenhas qualquer autoridade sobre mim.

- Quando for teu marido...

- Nessa altura, sim.

- Sou teu noivo. Foste-me prometida e tenho alguns direitos. Fiz um ar amuado.

- Quem manda em mim é o rei. E o duque de Northumberland. E o filho, Lord Robert Dudley. E o meu pai. O melhor é ires para a fila. Todos os homens de Londres julgam que podem mandar em mim.

Soltou uma risinho involuntário e o seu rosto iluminou-se, como o de um rapaz. Tocou-me gentilmente no ombro como se eu fosse um companheiro de brincadeiras. Sorri-lhe.

- Oh, pobre moça - disse ele. - Coitadinha. Abanei a cabeça.

- Um bobo, realmente.

- Não queres livrar-te de todos esses homens autoritários? Encolhi os ombros.

- É melhor viver aqui do que ser um fardo para o meu pai.

- Podias vir para casa comigo.

- Passaria, então, a ser um fardo para ti.

- Quando terminar os estudos e for médico, arranjarei uma casa para nós.

- E quando será? - perguntei-lhe com a crueldade contundente de uma rapariga. Vi novamente o seu rosto ruborizar.

- Daqui a dois anos - disse secamente. - Poderei manter uma mulher quando estiveres pronta para casar.

- Vem então buscar-me - disse com frieza. - Vem dar-me ordens nessa altura se eu ainda cá estiver.

- Entretanto, continuamos a estar noivos - insistiu. Tentei ler a sua expressão.

- Tanto quanto temos estado. As velhas parecem ter arranjado o casamento para satisfação delas, e não para a nossa. Querias mais?

- Gosto de saber com o que posso contar - disse teimosamente. - Esperei que tu e o teu pai viessem de Paris e, depois, de Amesterdão. Durante meses, ninguém sabia se estavam vivos ou mortos. Quando, por fim, chegaram a Inglaterra, pensei que ficarias contente... contente por... teres uma casa. E, mais tarde, ouvi dizer que tu e o teu pai se tinham instalado e não viriam viver comigo e com a minha mãe. Continuavas a andar vestida à rapaz e trabalhavas para ele como se fosses seu filho. Contaram-me, a seguir, que tinhas abandonado a protecção da casa do teu pai e, agora, encontro-te a trabalhar na corte.

Não foram as visões que me ajudaram a aguentar isto, mas a intuição de rapariga à beira de se tornar mulher.

- Julgaste que eu iria a correr ter contigo - disse-lhe em voz esganiçada. - Julgaste que serias o meu salvador e que eu seria uma rapariga assustada, ansiosa por me agarrar a um homem, desesperada por me lançar nos teus braços!

O repentino rubor que lhe escureceu as faces e o movimento contrariado que fez com a cabeça revelaram-me que tinha acertado em cheio.

- Bem, fica a saber, jovem aprendiz de medicina, que vi paisagens e viajei por países que não podes nem imaginar. Tive medo e corri vários perigos, mas nunca me passou pela cabeça atirar-me a um homem para ele me ajudar.

- Não estás... - Daniel não tinha palavras e engasgava-se na sua indignação. - Não estás a portar-te... como uma rapariga decente.

- Graças a Deus por isso.

- Não és... obediente.

- Graças à minha mãe.

- Não és... - a irritação apoderava-se dele. - Nunca serias a minha primeira escolha!

Isso calou-me e olhámos um para o outro simultaneamente, chocados pela distância que tínhamos percorrido em tão pouco tempo.

- Queres outra noiva? - perguntei-lhe, um pouco abalada.

- Não conheço mais ninguém - disse, amuado. - Mas não quero uma rapariga que não me queira.

- Não é de ti que não gosto - disse-lhe. - É do casamento em si. Não quero casar-me. Não é o casamento apenas a sujeição das mulheres que querem segurança a homens que nem sequer conseguem mantê-las seguras?

O meu pai olhou com curiosidade para nós e viu-nos, face a face horrorizados e em silêncio. Daniel desviou-se de mim, dando dois passos para o lado e eu encostei-me à pedra fria, perguntando-me se ele se iria embora e se seria aquela a última vez que eu o via. Perguntei-me até que ponto o meu pai ficaria descontente comigo se eu perdesse uma boa proposta por causa da minha impertinência e se conseguiríamos ficar em Inglaterra se Daniel e a sua família se considerassem ofendidos por nós, os recém-chegados. Podíamos pertencer à mesma família e ter direito à ajuda de parentes, mas os judeus de Inglaterra constituíam um pequeno mundo e, se decidissem excluir-nos, não teríamos outro sítio para onde ir.

Daniel dominou-se e aproximou-se novamente.

- Fazes mal em arreliar-me, Hannah Green - disse em voz trémula. - De qualquer modo, estamos prometidos um ao outro. A minha vida está nas tuas mãos e a tua nas minhas. Não devíamos discutir. O mundo é perigoso para nós. Devíamos manter-nos juntos para nossa própria segurança.

- Não existe segurança - disse eu friamente. - Se pensas que estaremos alguma vez seguros é porque vives há muito tempo neste país tranquilo.

- Podemos ter uma casa aqui - argumentou com convicção. - Tu e eu podemos casar-nos e ter filhos que serão ingleses. Não conhecerão mais nada a não ser esta vida e nem sequer teremos de lhes falar da tua mãe e da sua fé. Nem da nossa.

- Oh, hás-de dizer-lhes - vaticinei. - Dizes agora que não, mas, assim que tivermos um filho, não conseguirás resistir. E hás-de arranjar maneira de acender a vela nas noites de sexta-feira e de não trabalhar no sabat. Serás então médico, circuncidarás secretamente rapazes e ensinar-lhes-ás orações. Far-me-ás ensinar as raparigas a cozer pão ázimo e a escoar o sangue da carne. Logo que tiveres filhos teus, quererás ensinar-lhes as práticas judaicas. E assim há-de Continuar, como uma doença que passaremos uns aos outros.

- Não é nenhuma doença - murmurou apaixonadamente. Mesmo em plena discussão, nada nos faria elevar a voz. Estávamos sempre conscientes das sombras à volta do jardim, sempre alerta à possibilidade de que alguém nos ouvisse. - É um insulto chamar-lhe doença. É a nossa missão, fomos eleitos para manter a fé.

Teria argumentado com ele pelo prazer de o contradizer, mas isso contrariaria o meu amor pela minha mãe e os preceitos da religião dela.

- Tens razão - disse, rendendo-me à verdade. - Não é uma doença, mas mata-nos como se fosse. A minha avó e a minha tia morreram por causa dela. E a minha mãe também. E é isso que me propões. Uma vida inteira de medo, não como povo eleito mas maldito.

- Se não queres casar comigo, casa-te então com um cristão e finge que nada mais sabes - aconselhou-me. - Nenhum de nós te trairá. Eu deixar-te-ei partir. Podes negar a -religião pela qual a tua mãe e a tua avó morreram. Fala e eu direi ao teu pai que desejo ser dispensado do nosso compromisso.

Hesitei. Apesar de me gabar da minha coragem, não ousava contar ao meu pai que não aceitava os seus planos. Não ousava dizer às velhas que tinham combinado o casamento, a pensar apenas na minha segurança e no futuro de Daniel, que não desejava nada disto. Queria ser livre, mas não queria ser repudiada.

- Não sei - disse em tom suplicante. - Não estou preparada... Ainda não sei.

- Então deixa-te guiar por aqueles que sabem - disse secamente, vendo que eu me continha. - Olha, não podes lutar contra toda a gente. Tens de escolher o lado em que queres ficar e manter-te lá.

- É um preço muito elevado a pagar - sussurrei. - Para ti, é uma boa vida. Um lar à tua volta, filhos e tu sentado à cabeceira da mesa a ler as orações. Mas, para mim, significa perder tudo o que sou e posso fazer. Tornar-me-ei apenas a tua esposa e a tua serva.

- Isso não é por seres judia, mas sim rapariga - explicou. - Quer te cases com um cristão quer com um judeu, serás a sua serva. Que mais pode ser uma mulher? Queres negar o teu sexo assim como a tua religião?

Calei-me.

- Não és uma mulher fiel - disse ele lentamente. - Trais-te a ti mesma.

- Isso é uma coisa horrível de dizer - protestei.

- Mas verdadeira - insistiu. - És judia, jovem e minha noiva, mas negas tudo isso. Para quem trabalhas na corte? Para o rei? Os Dudley? És-lhes fiel?

Pensei que tinha sido feita vassalo, bobo e nomeada espia.

- Só quero ser livre - respondi. - Não quero pertencer a ninguém.

- Numa libré de bobo?

Vi o meu pai a olhar para nós. Apercebia-se de que não estávamos a namorar. Vi-o tentar aproximar-se para nos interromper, mas, depois, deteve-se.

- Devo dizer-lhes que não chegámos a um acordo e pedir-lhes que me dispenssem do nosso noivado? - perguntou Daniel em tom crispado.

Ia concordar de boa vontade, mas a sua calma, o seu silêncio e a sua paciente espera pela minha resposta fez-me olhar para ele mais atentamente. A luz desaparecia do céu e, na obscuridade, distinguia o homem que ele viria a ser. Seria belo com um rosto moreno expressivo, olhos vivos e observadores, boca sensual, nariz forte e direito, como o meu e cabelo preto espesso também como o meu. E seria um indivíduo sensato. Era um jovem sensato pois compreendera-me e contradissera o meu próprio ser, mas, contudo, aguardara. Dar-me-ia uma oportunidade, seria um marido generoso e gentil.

- Deixa-me agora - disse em voz fraca. - Nada posso dizer neste momento. Já falei de mais. Lamento ter falado e ter-te feito zangar.

Mas a sua ira tinha-o abandonado tão rapidamente como chegara e isso era a coisa que eu mais apreciava nele.

- Queres que venha ver-te outra vez?

- Está bem.

- Ainda estamos noivos?

Encolhi os ombros. Tinha demasiadas objecções.

- Não rompi o noivado - disse, encontrando a resposta mais fácil, - Ainda não.

Acenou com a cabeça.

- Preciso de o saber - preveniu-me. - Se não casar contigo, caso com outra. Quero casar-me dentro de dois anos, contigo ou com outra rapariga.

- Tens muitas para escolher? - provoquei-o, sabendo que ele não tinha.

- Há muitas raparigas em Londres - replicou. - Posso casar bastante bem fora do meu meio.

- Estou mesmo a ver permitirem-te fazer isso! - exclamei. - Terás de te casar com uma judia, não podes escapar. Vão mandar-te uma parisiense gorda ou uma rapariga da Turquia com pele cor de lama.

- Tentarei ser um bom marido mesmo com uma parisiense gorda ou uma turca - disse calmamente. - É mais importante amar e proteger a mulher que Deus nos dá do que correr atrás de alguma palerma que não sabe o que quer.

- É esse o meu caso? - perguntei com brusquidão.

Esperava que ele ficasse mais vermelho, mas, desta vez, não corou. Susteve o meu olhar e fui eu que o desviei.

- Acho que és uma palerma se recusares o amor e a protecção de um bom marido e preferires uma vida enganosa na corte.

O meu pai surgiu ao lado de Daniel antes de eu ter tempo para Responder e pôs-lhe uma mão no ombro.

- Então, vocês os dois estão a conhecer-se — disse com optimismo. — O que é que pensas da tua futura mulher, Daniel?

Esperava que ele se queixasse ao meu pai. A maioria dos jovens sentiria o seu amor próprio espicaçado, mas ele limitou-se a sorrir tristemente.

- Ultrapassámos a fase de falarmos delicadamente como estranhos e chegámos rapidamente a desacordo, não achas, Hannah?

- De forma meritoriamente rápida - concordei e fui recompensada pelo seu sorriso caloroso.

Conforme tinha sido planeado, Lady Mary chegou a Londres para a festa da Candelária; pelos vistos, ninguém lhe dissera que o irmão estava demasiado doente para se levantar da cama. Entrou pelo portão do palácio de Whitehall com uma grande comitiva atrás dela e foi saudada pelo duque e seus filhos, incluindo Lord Robert, e pelo conselho de Inglaterra que se inclinaram à sua passagem. Montada a cavalo, o seu pequeno rosto resoluto olhou para aquele mar de cabeças humildemente curvadas, e julguei ver um sorriso de puro divertimento bailar-lhe nos lábios quando ela estendeu a mão para ser beijada.

Tinha ouvido tanta coisa acerca dela, a filha adorada do rei que tinha sido afastada a pedido de Anna Bolena, essa meretriz. Esperava ver uma figura de tragédia pois ela era a princesa enlutada que fora reduzida a poeira e proibida de ver a mãe moribunda: tinha suportado uma vida que daria cabo da maior parte das mulheres, mas o que vi foi uma pequena e sólida lutadora com presença de espírito suficiente para sorrir à corte que se curvava à sua passagem pois, de repente, ela tornara-se a herdeira ao trono de Inglaterra.

O duque tratou-a como se ela já fosse rainha, ajudando-a a desmontar e conduzindo-a à sala de banquetes. Apesar de o rei se encontrar nos seus aposentos a tossir convulsivamente na sua pequena cama, o banquete teve lugar e vi Lady Mary olhar para todos aqueles rostos radiantes à sua volta como que compreendendo que quando uma herdeira estava em plena ascensão, um rei podia jazer doente e sozinho que ninguém se ralava.

Houve, a seguir, um baile, mas ela, embora marcasse a cadência com o pé e parecesse apreciar a música, não se levantou da cadeira. Will fê-la rir umas quantas vezes e ela sorriu-lhe como se ele fosse um rosto familiar num mundo perigoso. Tinha-o conhecido quando era bobo do pai, carregava o irmão às cavalitas e lhe cantava canções sem nexo jurando que eram espanholas. Quando olhava agora em seu redor para os rostos duros dos homens que tinham presenciado os insultos e as humilhações que recebera por parte do irmão mais novo, devia sentir-se aliviada por saber que, pelo menos, o bom humor de Will Somers não tinha mudado.

Não bebeu muito e comeu muito pouco; não era uma glutona famosa como o pai. A exemplo de toda a corte, observei esta mulher que podia vir a ser a minha próxima ama. Tinha trinta e sete anos, mas ainda possuía a compleição de uma rapariga: pele pálida e faces que se tornavam facilmente rosadas. Usava o capuz inclinado para trás revelando um rosto franco e o cabelo castanho escuro com os reflexos vermelhos dos Tudor. O sorriso era o seu maior encanto; surgia lentamente e os seus olhos eram afáveis. Mas o que mais me impressionou nela foi o seu ar honesto. Não se parecia nada com a imagem que eu fazia das princesas - tendo passado umas semanas na corte, julgava que toda a gente sorria com olhos duros, e dizia uma coisa, querendo dizer o oposto. Mas esta princesa dava a impressão de nada dizer que não pensasse, como se desejasse acreditar que os outros também eram honestos e quisesse seguir o caminho correcto.

Tinha uma expressão severa em repouso, mas tudo isso era redimido pelo sorriso: o sorriso de uma princesa adorada, a primeira dos filhos do pai, nascida quando este era novo e ainda amava a mulher. Tinha os olhos escuros e vivos da mãe, olhos espanhóis, que observavam rapidamente tudo o que se passava à sua volta. Mantinha-se direita na cadeira, a gola escura do vestido emoldurando-lhe o pescoço e os ombros. Usava uma grande cruz com pedras preciosas ao pescoço, como para ostentar a sua religião nesta corte protestante, e eu pensei que ela devia ser muito corajosa ou muito imprudente para fazer alarde da sua crença quando os homens do irmão queimavam hereges por menos. Mas reparei então no tremor da sua mão quando a estendeu para pegar no copo de ouro e percebi que, como muitas outras mulheres, ela tinha aprendido a mostrar-se mais valente do que era.

Quando houve uma pausa no baile, Robert Dudley disse-lhe algo ao ouvido e ela lançou-me um olhar, fazendo-me sinal para me aproximar.

- Ouvi dizer que vens de Espanha e és o novo bobo do meu irmão - disse-me em inglês.

Fiz uma vénia.

- Sim, Alteza.

- Fala em espanhol - ordenou Lord Robert e eu curvei-me novamente, dizendo em espanhol que me agradava viver na corte.

Quando levantei a cabeça, vi o seu ar radiante ao ouvir a língua da mãe.

- De que região de Espanha és? - perguntou impacientemente em inglês.

- Castela, Alteza - menti pois não queria que se fizessem inquéritos sobre nós e se viesse a saber que a casa de minha família tinha sido destruída em Aragão.

- E porque é que vieste para Inglaterra?

Esperava aquela pergunta. O meu pai e eu tínhamos decidido qual a resposta mais segura a dar.

- O meu pai é um homem de grande erudição - respondi. - E quis imprimir em Londres livros a partir dos manuscritos que possui por ser um centro famoso de cultura.

O seu sorriso desvaneceu-se imediatamente e o rosto endureceu.

- Suponho que imprime cópias da Bíblia para enganar as pessoas que não a compreendem - disse irritada.

Olhei para Robert Dudley que comprara uma das Bíblias do meu pai recentemente traduzidas para inglês.

- Trata-se de uma tradução muito pura do latim, Lady Mary, com muito poucos erros - explicou-lhe ele docemente. - Tenho a certeza de que a Hannah vos trará um volume, se assim o desejardes.

- O meu pai sentir-se-ia muito honrado - acrescentei. Acenou com a cabeça.

- E és a vidente do meu irmão - prosseguiu ela. - Tens algumas palavras de sabedoria a dizer-me?

Abanei desesperadamente a cabeça.

- Quem me dera ter visões quando desejasse, Alteza. Sou muito menos sábia do que vós.

- Ela disse ao meu tutor, Jonn Dee, que tinha visto um anjo a caminhar ao nosso lado - atalhou Robert.

Lady Mary olhou-me com mais consideração.

- E, depois, disse ao meu pai que não via anjos atrás dele. O rosto dela iluminou-se logo de riso.

- Não! É verdade? E o que disse o teu pai? Teve pena por não ter um anjo a acompanhá-lo?

- Não creio que ficasse muito surpreendido - disse Robert, sorrindo também. - Mas a Hannah é boa rapariga e creio que possui realmente um dom. Tem reconfortado muito o vosso irmão. Possui a faculdade de ver e falar a verdade e ele aprecia isso.

- Só isso já é uma faculdade rara nesta corte - comentou Lady Mary. Acenou-me gentilmente a cabeça, recuei e a música recomeçou a tocar. Observei Robert Dudley quando ele veio dançar com uma jovem após outra diante de Lady Mary e fui recompensada quando, passados uns minutos, ele olhou para mim e me lançou à socapa um sorriso aprovador.

Lady Mary não viu o rei nessa noite, mas, segundo os mexericos das criadas de quarto, quando foi visitá-lo no dia seguinte, saiu branca como um lençol. Só então se apercebeu de que o irmão mais novo estava tão perto da morte.

Depois disso, não havia motivo para ela permanecer mais tempo. Partiu como tinha chegado com uma grande comitiva atrás dela e toda a corte curvada o mais que podia para manifestar a sua lealdade; metade rogava silenciosamente a Deus que, quando o rei morresse e Lady Mary subisse ao trono, ela lhes perdoasse os padres que tinham queimado na fogueira e as igrejas que tinham despojado.

Eu observava esta pantomina de humildade de uma das janelas do palácio quando senti alguém puxar-me gentilmente a manga. Virei-me e deparei com Lord Robert a sorrir para mim.

-Julguei que estáveis com o vosso pai a despedir-vos de Lady Mary, meu senhor.

- Vim procurar-te.

- A mim?

- Para te pedir que me faças um favor.

Senti o rubor subir-me pelo peito acima.

- Estou ao vosso dispor... - gaguejei.

Sorriu.

- Trata-se de uma coisa de nada. Queres vir comigo aos aposentos do meu tutor ajudá-lo numa das suas experiências?

Acenei que sim e Lord Robert pegou-me na mão e, colocando-a no seu braço, conduzindo-me até aos aposentos privados do duque de Northumberland. As enormes portas estavam guardadas por soldados que, assim que avistaram o filho favorito da casa, se puseram em sentido, abrindo-lhe caminho. A grande sala da entrada estava deserta pois todos os membros da casa de Northumberland se encontravam no jardim de Whitehall a apresentar as suas homenagens a Lady Mary. Subimos uma grande escadaria e atravessámos longos corredores até aos aposentos de Lord Robert. John Dee estava sentado na biblioteca que dava para um jardim interior.

Levantou a cabeça ao ouvir-nos entrar.

- Ah, Hannah Verde! - exclamou.

Foi tão estranho ouvir o meu próprio nome que, por um momento, não reagi e só depois fiz uma pequena vénia.

- Sim, meu senhor.

- Ela concordou em ajudar-nos, mas não lhe expliquei o que queremos - disse Lord Robert.

Mr. Dee levantou-se da mesa.

- Possuo um espelho especial - disse-me. - Julgo que alguém com poderes de visão consegue ver raios de luz invisíveis para outras pessoas, estás a perceber?

Não percebia.

- Assim como é impossível ver um som ou um aroma, mas sabemos que está ali qualquer coisa, penso que os planetas e os anjos enviam raios de luz que podemos ver se tivermos o espelho certo.

- Oh! - exclamei inexpressivamente. O tutor sorriu.

- Não importa. Não é preciso que me compreendas. Pensei apenas que, assim como no outro dia viste o anjo Uriel, talvez também possas ver esses raios reflectidos no espelho.

- Se Lord Robert desejar, não me importo de tentar - aquiesci.

- O espelho está pronto. Vem.

Entrou numa sala interior cuja janela estava tapada com uma espessa cortina para impedir a entrada da luz invernal. Em frente havia uma mesa quadrada com as quatro pernas assentes em calços de cera. Um espelho extraordinário de grande beleza, com uma moldura de ferro forjado dourado, estava pousado em cima da mesa. Aproximei-me e vi a minha imagem reflectida em tons dourados, não como a rapariga-rapaz que eu era, mas como uma jovem mulher. Por uns instantes, pensei que era a minha mãe que me fitava com o seu sorriso encantador e o gesto que fazia quando virava a cabeça.

- Oh! - exclamei.

- Vês alguma coisa? - perguntou Dee. Notei a excitação da sua voz.

- Pensei ver a minha mãe - murmurei.

Ele não disse palavra durante um momento.

- Consegues ouvi-la? - perguntou em voz trémula. Aguardei uns instantes, esperando do fundo do coração que ela voltasse a aparecer-me. Mas vi apenas o meu rosto, os olhos dilatados e escuros por lágrimas não derramadas.

- Não está aqui - queixei-me. - Daria tudo para ouvir a sua voz, mas não consigo. Desapareceu. Julguei tê-la visto, mas é o meu próprio rosto.

- Quero que feches os olhos - disse ele - e que ouças com atenção a prece que vou ler. Quando disseres "ámen", podes voltar a abri-los e dizer-me o que vês. Estás preparada?

Fechei os olhos e ouviu-o soprar docemente as poucas velas que iluminavam a sala sombria. Estava consciente da presença de Lord Robert sentado atrás de mim. Fazia aquilo apenas para lhe agradar.

- Estou preparada - sussurrei.

Dee recitou uma longa oração em latim. Apesar do sotaque inglês, compreendi-a. Pedia que os anjos viessem proteger o trabalho que iríamos fazer. Murmurei "ámen" e, depois, abri os olhos.

As velas estavam todas apagadas e o espelho era um poço de escuridão. Não conseguia ver nada.

- Diz-nos quando morrerá o rei - cochichou John Dee atrás de mim.

Olhei à espera que algo acontecesse, os meus olhos fixos na escuridão. Nada.

- O dia da morte do rei - repetiu Dee em voz baixa.

Na verdade, nada conseguia ver. Nada surgia. E como podia tal acontecer? Não era nenhuma sibila no alto de uma colina grega, nenhuma santa a quem os mistérios eram revelados. Fitei a escuridão até sentir os olhos quentes e secos e me dar conta de que, longe de ser um bobo divino, era pura e simplesmente uma tonta a olhar para coisa nenhuma, para o reflexo de nada, enquanto o maior cérebro do reino aguardava a minha resposta.

Tinha de dizer algo. Não podia voltar para trás e dizer-lhes que as visões me vinham tão rara e inesperadamente que mais valia terem-me deixado na loja do meu pai. Sabiam quem eu era e tinham prometido dar-me santuário. Tinham-me comprado e, agora, esperavam ganhar qualquer benefício com o negócio. Tinha de dizer qualquer coisa.

- Julho - disse em voz baixa, uma resposta tão boa como qualquer outra.

- De que ano? - insistiu John Dee em voz melíflua.

Só o senso comum sugeria que o jovem rei não podia durar muito mais tempo.

- Este ano - disse de má vontade.

- Em que dia?

- O sexto - respondi, ouvindo o arranhar da pena de Lord Robert a registar a minha falsa profecia.

- Diz-me o nome do próximo soberano de Inglaterra - insistiu Dee.

Ia dizer Rainha Mary, ecoando o tom da sua própria voz em transe, mas, para minha surpresa, murmurei:

- Jane.

Virei-me para Lord Robert.

- Não sei porque disse isso. Lamento Imenso, meu senhor. Não sei...

John Dee agarrou-me o queixo e virou-me a cabeça para o espelho.

- Não fales! - ordenou. - Diz-nos apenas o que vês.

- Não vejo nada - disse, desesperada. - Lamento, meu senhor. Não consigo ver nada.

- O rei a seguir a Jane - exortou-me. - Olha, Hannah. Diz-me o que vês. A Jane tem um filho?

Teria respondido que sim, mas a língua não se mexia na minha boca seca.

- Não consigo ver - disse humildemente. - É verdade. Não consigo.

- Uma prece para concluir - disse Dee, segurando-me firmemente os ombros para me manter sentada. Pediu novamente em latim que o trabalho fosse abençoado, as visões verdadeiras e que ninguém neste mundo, ou em qualquer outro, sofresse por causa das nossas profecias.

- Ámen - disse, mais fervorosamente agora que sabia que isto era um trabalho perigoso e talvez até traiçoeiro.

Ouvi Lord Robert levantar-se para sair da sala e, desenvencilhando-me de John Dee, corri para ele.

- Correu como queria? - perguntei-lhe.

- Disseste-me o que julgaste que eu queria ouvir?

- Não! Disse o que me veio à boca - o que é verdade quanto ao nome Jane, pensei.

Olhou-me severamente.

- Prometes? Dona Rapaz, se falas para me agradar não nos és útil. A única maneira que tens de me agradar é ver e dizer a verdade.

- Foi o que fiz! - a minha ansiedade de lhe agradar juntamente com o temor que sentia do espelho eram de mais para mim e soltei um ligeiro soluço.

- Foi o que fiz, meu senhor.

A sua expressão não se modificou.

- Jura!

- Juro.

Pousou-me a mão no ombro. A minha cabeça latejava tanto que desejei encostar a face à frescura da sua manga, mas pensei que não devia. Mantive-me imóvel para ouvir o que ele tinha a dizer.

- Então portaste-te muito bem - disse. - Era o que eu queria. John Dee saiu da sala interior com ar radiante.

- Ela tem o dom da visão — proferiu. - Realmente. Lord Robert olhou para o tutor.

- Alterará isto o vosso trabalho?

O homem mais velho encolheu os ombros.

- Quem sabe? Somos todos filhos das trevas. Mas ela possui o dom da visão - fez uma pausa e, depois, virou-se para mim. -Hannah Verde, tenho de te dizer uma coisa.

- Sim, meu senhor?

- Possuis este dom porque o teu coração é puro. Por favor, por ti e pelo teu dom, recusa todas as propostas de casamento. Mantém-te pura.

Atrás de mim, Lord Robert soltou uma fungadela divertida. Senti-me corar do pescoço às orelhas.

- Não tenho desejos carnais - disse num sussurro sem ousar olhar para Lord Robert.

- Então, hás-de continuar a ver a verdade - declarou John Dee.

- Não compreendo - protestei. - Quem é Jane? Lady Mary é que subirá ao trono se Sua Majestade morrer.

Lord Robert colocou um dedo nos meus lábios e eu calei-me imediatamente.

- Senta-te - ordenou-me, empurrando-me para uma cadeira. Puxou de um banco e sentou-se ao meu lado, o seu rosto junto do meu. - Dona Rapaz, viste hoje duas coisas que, se viessem a ser conhecidas, seríamos enforcados.

O meu coração palpitou de medo.

- Credo, meu senhor!

- Só de olhares para o espelho puseste-nos a todos em perigo. Levei a mão à face como para limpar as cinzas de uma fogueira.

- Não deves falar disto a ninguém. É traição fazer o horóscopo de um rei e o castigo é a pena de morte. Hoje, previste o dia da sua morte. Queres que eu vá parar ao cadafalso?

- Não! Eu...

- Queres morrer?

- Não! - quase gritei em voz trémula. - Tenho medo, meu senhor.

- Então, nunca contes nada disto a ninguém. Nem sequer ao teu pai. Quanto a essa Jane...

Aguardei.

- Esquece-te do que viste, esquece que eu te pedi para olhares para o espelho. Esquece o espelho e a sala onde estivemos.

Fitei-o gravemente.

- Não tenho de fazer isso outra vez?

- Não, a não ser que o consintas. Mas, agora, tens de esquecer tudo isto - lançou-me o seu doce e sedutor sorriso. - Porque eu te peço - murmurou. - E peço-te como amigo. A minha vida está nas tuas mãos.

Senti-me perdida.

- Está bem - concordei.

A corte mudou-se para o palácio de Greenwich em Fevereiro e foi anunciado que o rei estava melhor. Mas nunca mais me mandou chamar, nem a Will Somers, não pediu música nem companhia e nem sequer veio jantar à grande sala de banquetes. Os médicos que tinham estado a examiná-lo em grande azáfama, aguardando em cada canto da corte a discutir uns com os outros e dando respostas prudentes a todas as perguntas, pareciam eclipsar-se discretamente à medida que os dias passavam e não havia notícias quanto às melhoras do rei; e nem sequer os vaticínios sobre a aplicação de sanguessugas para limpar o sangue do jovem monarca e a cuidadosa administração de veneno para dar cabo da doença soavam lá muito verdadeiros. Sentado à direita do trono vazio ao jantar ou à cabeceira da mesa do conselho todas as semanas, o pai de Lord Robert o duque de Northumberland, exercia todas as funções menos a de rei, dizendo a toda a gente que Edward estava em plena convalescença e que esperava abandonar o leito no próximo Verão, quando o tempo melhorasse.

Eu cá não dizia nada. Era paga como bobo para dizer coisas espantosas e impertinentes, mas não podia pensar em nada mais impertinente e espantoso do que a verdade - que o jovem rei era meio prisioneiro do seu protector, que estava a morrer sem companheiros nem carinhos e que toda a corte e todos os homens notáveis do reino pensavam na coroa e não no rapaz; e que era uma grande crueldade que um mancebo pouco mais velho do que eu, sem mãe nem pai para cuidar dele, fosse deixado a morrer sozinho. Olhava à minha volta para as pessoas que asseguravam umas às outras que o jovem de quinze anos, a tossir os pulmões às escondidas, estaria em condições de casar neste Verão, e pensava que seria realmente uma grande tonta se não percebesse que eram todos uma cambada de mentirosos e tratantes.

Enquanto o jovem rei vomitava fel escuro nos seus aposentos, os que andavam cá fora serviam-se tranquilamente do tesouro público e das rendas dos mosteiros, que encerravam por piedade e, depois, roubavam por ganância sem que ninguém proferisse palavra contra isso. Eu seria realmente uma louca se dissesse a verdade nesta corte de mentirosos; seria tão absurda como um anjo em plena Fleet Street. Portava-me, portanto, com muita discrição, sentava-me ao lado de Will Somers ao jantar e não piava.

Tinha um novo trabalho para fazer. O tutor de Lord Robert, John Dee, tinha vindo ter comigo e pedira-me que o ajudasse a decifrar uns manuscritos que o meu pai lhe enviara pois os seus olhos estavam cansados.

- Não leio lá muito bem - avisei-o prudentemente.

Ele caminhava adiante de mim numa das galerias ensolaradas que dava para o rio, mas, ao ouvir-me, virou-se e sorriu.

- És uma rapariga muito cautelosa - disse. - O que é bastante sensato nos tempos que correm. Mas estás em segurança comigo e com Lord Robert. Imagino que leias inglês e latim fluentemente, não tenho razão?

Acenei que sim.

- E espanhol, claro está. E, se calhar, francês? Mantive-me em silêncio. Era óbvio que falava e lia espanhol, a minha língua materna, e ele devia supor que eu aprendera um pouco de francês durante a minha estada em Paris.

John Dee aproximou-se e inclinou a cabeça para cochichar ao meu ouvido:

- Sabes ler grego? Preciso de alguém que saiba grego.

Se eu fosse mais velha e sensata, teria negado tais conhecimentos, mas tinha apenas catorze anos e orgulho nas minhas capacidades. A minha própria mãe ensinara-me grego e hebreu, e o meu pai chamava-me a sua professorinha, tão boa como um rapaz.

- Sim, sei ler grego e hebreu.

- Hebreu! - exclamou, interessado. - Deus meu, filha. O que leste em hebreu? A Tora?

Percebi logo que não devia ter dito nada. Se dissesse que tinha visto as leis e as orações dos judeus, identificar-me-ia, bem como ao meu pai, como judeu e, ainda por cima, praticante. A minha mãe costumava dizer que a minha vaidade haveria de meter-me em sarilhos e eu sempre julgara que ela se referia ao meu gosto por roupas elegantes e fitas para o cabelo. Agora, vestida como um rapaz numa libré de bobo, tinha cometido o pecado da vaidade e orgulhara-me dos meus estudos, o que podia resultar numa punição extrema.

- Mr. Dee... - murmurei, aterrorizada. Sorriu-me.

- Percebi que tinhas fugido de Espanha assim que te vi — disse docemente. — Percebi que eram conversos, mas não disse nada. E não faz parte da natureza de Lord Robert perseguir alguém por causa das crenças dos pais, especialmente uma crença que abandonaram. Vais à missa, não vais? E observas os dias de jejum? Acreditas em Jesus Cristo e na sua clemência?

- Oh, sim, meu senhor.

Não havia motivo para lhe dizer que não havia devoto mais devoto do que um judeu a tentar passar despercebido. John Dee fez uma pausa.

- Quanto a mim, aguardo o dia em que ultrapassaremos tais divisões e procuraremos apenas a verdade. Há gente que pensa que não existe Deus, Alá nem Iavé...

Quando ele pronunciou o nome do único Deus, soltei uma ligeira exclamação de surpresa.

- Sois do povo eleito, meu senhor? Abanou a cabeça.

- Acredito que haja um criador, um grande criador do mundo, mas desconheço o seu nome. Conheço os nomes que lhe foram dados pelo homem, mas por que haveria de preferir um nome a outro? O que desejo conhecer é a sua natureza sagrada, o que pretendo é a assistência dos anjos, o que quero é desenvolver a sua obra, para transformar o metal em ouro e sublimar o vulgar - calou-se. - Significa isto alguma coisa para ti?

Mantive-me impassível. Na biblioteca do meu pai em Espanha, havia livros que ensinavam os segredos da criação do mundo. Os eruditos tinham vindo consultá-los e os jesuítas tinham querido saber os seus segredos.

- Alquimia? - perguntei em voz baixa. Acenou com a cabeça.

- O criador deu-nos um mundo cheio de mistérios - disse. -Mas acredito que, um dia, os descobriremos. Agora, compreendemos um pouco, mas a igreja do papa, o rei e as leis da terra dizem que não devemos fazer perguntas. Não acredito, contudo, que seja essa a lei de Deus. Penso que ele criou este mundo como um glorioso jardim mecânico que funciona segundo as suas próprias leis e que, um dia, viremos a conhecê-lo. Será através da alquimia... a arte da transmutação... que havemos de o conhecer e, quando soubermos como as

coisas são feitas, poderemos fazê-las nós mesmos e possuiremos o conhecimento de Deus. Seremos então transubstanciados e transformados em anjos...

Fez uma pausa e, depois, acrescentou:

- O teu pai tem muitos livros de alquimia? Mostrou-me apenas os que tratam de religião. Tem textos sobre alquimia em hebreu? Queres lê-los para mim?

- Só conheço os livros autorizados - respondi prudentemente. - O meu pai não possui livros proibidos.

Nem mesmo este amável homem que me confiava os seus segredos podia levar-me a falar francamente. Tinha sido criada para guardar segredo e nunca perderia o hábito de uma duplicidade motivada pelo medo.

- Sei ler hebreu, mas não as orações judaicas. O meu pai e eu somos bons cristãos e ele nunca me mostrou livros de alquimia. Sou demasiado nova para os compreender e não sei se ele estaria de acordo em que eu vos lesse esse género de livros, meu senhor.

- Vou pedir-lhe autorização e tenho a certeza de que ele ta dará - disse, confiante. - Ler hebreu é um dom de Deus. Saber línguas é sinal de um coração puro. O hebreu é a linguagem dos anjos, a única forma de nós, mortais, podermos falar com Deus, sabias isso?

Abanei a cabeça.

- Claro que é - prosseguiu com entusiasmo. - Antes do pecado original, Deus falou com Adão e Eva no Paraíso. Eles devem ter falado em hebreu, deve ter sido nessa língua que se entenderam. Existe outra língua através da qual Deus fala com os seres celestes e que eu espero vir a descobrir. Mas, para lá chegar, terá de ser através do hebreu, do grego e do persa - reflectiu uns instantes. - Não falas nem lês persa, pois não? Ou árabe?

- Não - respondi.

- Não faz mal - retorquiu. - Virás ver-me todas as manhãs para ler comigo uma hora e havemos de fazer grandes progressos.

- Se Lord Robert o permitir - disse evasivamente. John Dee sorriu-me.

- Vais ensinar-me a compreender nada menos do que o significado de todas as coisas, minha menina. Existe uma chave universal cujo sentido estamos apenas a começar a entender. Há leis, leis imutáveis, que comandam o curso dos planetas, as marés e o destino dos homens, e eu sei que, de certeza absoluta, todas essas coisas estão interligadas: o mar, os planetas e a história humana. Com a ajuda de Deus e todo o nosso esforço, havemos de descobrir essas leis e quando as conhecermos... - fez uma pausa - saberemos tudo.

 

Primavera de 1553

Permitiram-me voltar a casa de meu pai em Abril e recebi o salário do trimestre. Fui vestida com a roupa de rapaz que ele me tinha comprado ao chegarmos a Inglaterra e dei-me conta de que as mangas estavam curtas e de que os meus pés não cabiam nos sapatos. Tive de cortar os calcanhares e atravessar a cidade a arrastar os pés.

- Vão ter de te dar um vestido em breve - comentou o meu pai. -Já és quase uma mulher. Que notícias trazes da corte?

- Nenhumas. Toda a gente diz que, com este tempo mais quente, o rei está melhor - não acrescentei que todos mentiam.

- Que Deus o abençoe e mantenha vivo - disse piamente o meu pai. Olhou para mim como se soubesse mais. - E tens visto Lord Robert?

Senti-me corar.

- De vez em quando.

Podia dizer-lhe a hora e o minuto exacto em que o vira pela última vez. Não tinha falado comigo, talvez nem sequer me tivesse visto. Estava montado a cavalo para ir caçar garças com falcões à beira-rio. Vestia uma capa preta e um chapéu da mesma cor com uma pena. Tinha um belo falcão empoleirado no punho e cavalgava com uma das mãos esticada para manter a ave equilibrada, segurando com a outra as rédeas do cavalo que escavava impacientemente o solo. Parecia um príncipe de conto de fadas e ría-se. Contemplara-o como podia ter contemplado uma gaivota a planar no vento que sopra ao longo do Tamisa: como algo tão belo que iluminava o meu dia. Contemplei-o, não como uma mulher que deseja um homem, mas como uma rapariga que adora uma imagem, algo fora do seu alcance mas perfeito.

- Vai haver um grande casamento - disse para encher o silêncio. - Arranjado pelo pai de Lord Robert.

- Quem é que vai casar? - perguntou o meu pai com curiosidade de mexeriqueiro.

Contei os casais pelos dedos:

- Lady Katherine Dudley e Lord Henry Hastings, e as duas irmãs Grey vão casar-se com Lord Guilford Dudley e com Lord Henry Herbert.

- E tu conhece-los todos! - exclamou com orgulho de pai. Abanei a cabeça.

- Apenas os Dudley. E nenhum deles me reconheceria sem a libré. Sou uma figura muito modesta na corte, pai.

Cortou uma fatia de pão para mim e outra para ele. Era pão seco do dia anterior. Tinha um pequeno bocado de queijo num prato e um naco de carne guardado no outro lado da sala para comermos mais tarde, o que era contrário ao costume inglês de colocar toda a comida em cima da mesa ao mesmo tempo: carnes, pães e até mesmo pudins. Pensei, contudo, que, por muito que fingíssemos, quem entrasse agora na sala veria que nos estávamos a preparar para jantar da maneira correcta: lacticínios e carne separados. Quem olhasse para a pele do meu pai e para os meus olhos escuros veria logo que éramos judeus. Poderíamos dizer que éramos conversos e que assistíamos à missa com tanto entusiasmo como Lady Elizabeth, mas quem nos conhecesse e necessitasse de um pretexto para nos roubar ou denunciar encontrá-lo-ia logo ali à mão.

- Conheces as irmãs Grey?

- Muito mal - respondi. - São primas do rei. Dizem que Lady Jane não quer casar pois vive apenas para estudar. Mas os pais bateram-lhe até ela consentir.

O meu pai acenou com a cabeça. Forçar uma filha não constituía nenhuma surpresa.

- E que mais? - insistiu. - E o pai de Lord Robert, o duque de Northumberland?

- Ninguém gosta muito dele - disse em voz baixa. - Porta-se como um rei. Entra e sai do quarto de Sua Majestade e, depois, ordena que se faça isto ou aquilo por ordem do rei. Não se pode fazer nada contra ele.

- Prenderam o Mr. Tuller, o pintor de retratos nosso vizinho, a semana passada. Disseram que era católico e herege. Levaram-no para ser interrogado e ainda não voltou. Há uns anos, pintou um quadro da Nossa Senhora. Revistaram-lhe a casa e encontraram-no escondido com a sua assinatura em baixo - disse, abanando a cabeça. - A lei não faz sentido - queixou-se. - Quando pintou o quadro era permitido fazê-lo e, agora, é proibido. Quando o pintou era uma obra de arte, agora é um crime. O quadro não mudou, mas a lei

sim e eles aplicam a lei a anos em que esta não existia e ainda nem sequer fora promulgada. Estas pessoas são selvagens. Falta-lhes a razão.

Ambos olhámos para a porta. A rua estava sossegada e a porta trancada.

- Achas que deveríamos partir? - perguntei em surdina, aper-cebendo-me pela primeira vez de que, agora, queria ficar.

Mastigou a fatia de pão, reflectindo.

- Ainda não - disse prudentemente. - Além do mais, para onde podemos ir que seja seguro? Prefiro viver na Inglaterra protestante do que na França católica. Agora, somos bons cristãos reformados. Vais à igreja, não vais?

- Duas a três vezes ao dia - assegurei-lhe. - É uma corte que cumpre as práticas religiosas à risca.

- Eu cá certifico-me sempre de que me vêem lá entrar. Dou esmolas e faço doações à minha paróquia. Não podemos fazer mais nada. Fomos ambos baptizados e ninguém pode dizer nada contra nós.

Não disse nada. Ambos sabíamos que toda a gente podia dizer o que quisesse contra toda a gente. Nos países que tinham transformado o ritual da igreja numa questão tão melindrosa, ninguém podia estar seguro de que não estava a cometer uma ofensa só pela direcção em que olhava enquanto rezava.

- Se o rei morrer - sussurrou o meu pai -, Lady Mary subirá ao trono. Achas que por ela ser católica romana, o país vai voltar também a ser católico?

- Quem sabe o que vai acontecer! - exclamei, lembrando-me de ter dito que a tal Jane seria a herdeira e de que Robert Dudley não se mostrara surpreendido. - Eu cá não apostaria um centavo em Lady Mary. Neste jogo há jogadores mais importantes do que tu e eu, pai. E não sei o que eles andam a tramar.

- Se Lady Mary herdar o trono e o país se tornar católico romano outra vez, lá terei de me livrar de alguns livros - disse ansiosamente o meu pai. - E nós somos conhecidos por livreiros luteranos.

Esfreguei a face, como se estivesse a limpar as cinzas de uma fogueira. O meu pai agarrou-me imediatamente na mão:

- Não faças isso, querida. Não te apoquentes. Toda a gente neste país terá de mudar, não seremos os únicos. Toda a gente ficará como dantes.

Lancei um olhar para a vela do sabat acesa por debaixo do jarro virado ao contrário, a luz escondida mas a chama a arder em honra do nosso Deus.

- Mas nós não somos como eles - disse simplesmente.

John Dee e eu líamos juntos todas as manhãs como estudiosos dedicados. A maior parte das vezes mandava-me ler a Bíblia em grego e a seguir, a mesma passagem em latim para poder comparar a tradução. Ele trabalhava na parte mais antiga da Bíblia, tentando deslindar o segredo da verdadeira criação do mundo a partir do discurso cheio de floreados. Sentava-se com a cabeça pousada na mão, garatujando notas enquanto eu escrevia, e fazia-me por vezes sinal para parar como se pensasse nalguma coisa. A tarefa era-me fácil. Podia ler sem compreender e, quando não sabia pronunciar uma palavra (o que me acontecia com frequência), limitava-me a soletrá-la e John Dee reconhecia-a. Não conseguia impedir-me de gostar dele, era um homem amável e gentil e eu tinha cada vez mais admiração pelo seu imenso talento. Parecia-me ter uma compreensão inspirada. Quando estava sozinho, estudava matemática, jogava com códigos e números, e criava acrósticos e charadas de grande complexidade. Correspondia-se e trocava teorias com os maiores pensadores da Cristandade, os quais ludibriavam a Inquisição papal que proibia as suas investigações.

Tinha inventado um jogo de xadrez a vários níveis que apenas ele e Lord Robert conseguiam jogar e que consistia em três tabuleiros de vidro colocados em planos diferentes em que se podia mover as peças para cima e para baixo bem como para os lados. Isso dificultava de tal modo o jogo que, por vezes, demorava semanas a terminar a mesma partida. Havia dias em que John Dee se retirava sozinho para o seu gabinete durante toda a manhã ou toda a tarde e eu sabia que ele estava a mirar o espelho, tentando ver O que se passava no além, no mundo dos espíritos que ele sabia existir, mas que só ocasionalmente vislumbrava.

No seu gabinete interior tinha uma bancada de pedra onde, numa zona escavada ardia uma pequena fogueira de carvão por cima da qual ele suspendia vários recipientes de vidro com ervas e água, ligados por um complicado sistema de tubos que escoavam o líquido de um lado para o outro. Por vezes, permanecia lá horas e tudo o que eu ouvia enquanto copiava páginas e páginas de números, era o tinir do vidro quando ele esvaziava o conteúdo de um recipiente para outro ou o ruído do fole quando ele ateava a fogueira.

À tarde, Will Somers e eu praticávamos esgrima, deixando de lado os truques cómicos e concentrando-nos na luta. Até que um dia, ele declarou que, para bobo, eu tinha-me tornado uma espadachim razoável e que, se alguma vez estivesse metida num sarilho, poderia bater-me como um orgulhoso hidalgo.

Embora me agradasse aprender uma arte útil, ambos pensámos que as lições não serviriam de nada porque o rei continuava doente. Mas, em Maio, houve um grande casamento na casa dos Durham, no Strand, e ordenaram-nos que participássemos nos festejos.

- Até parece que é um casamento real - alvitrou Will.

- Como assim? - perguntei. Levou um dedo aos lábios.

- A mãe de Jane, Francês Brandon, é sobrinha do rei Henry, filha da irmã dele. Portanto, Jane e Katherine são primas.

- Está bem. E depois?

- Jane vai casar com um Dudley.

- Sim... - disse eu, sem perceber.

- Quem é mais real do que os Dudley? - perguntou.

- As irmãs do rei - enumerei. - E a mãe de Jane. E há mais.

- Não em termos de cobiça - explicou Will. - Em termos de cobiça, não há ninguém mais real do que o duque. Adora tanto o trono que até se baba.

Era demasiado complicado para mim.

- Não compreendo - disse secamente.

- É muito sensato da tua parte fazeres-te de pateta - disse, dando-me umas palmadinhas na cabeça.

O nosso duelo de esgrima foi precedido por danças e por uma pantomina, e seguido por um número de acrobatas. Saímo-nos bem e os convidados fartaram-se de rir com as cambalhotas de Will, com a minha habilidade triunfante e com o contraste físico entre nós dois: Will, alto e desengonçado a manejar a espada a torto e a direito, e eu, impecável e determinada, dançando à volta dele, dando-lhe cutiladas com a pequena espada e aparando os seus golpes.

A noiva principal era tão branca como as pérolas bordadas no seu vestido dourado. O noivo sentou-se mais perto da mãe do que da noiva e nem ela nem ele falaram muito um com o outro. A irmã de Jane casara na mesma cerimónia e ela e o seu noivo brindaram e beberam ternamente da mesma taça. Mas, quando alguém brindou a Jane e Guilford, reparei que Lady Jane teve de fazer um esforço para erguer a sua taça de ouro à saúde do novo marido. Tinha os olhos vermelhos, olheiras negras de fadiga e marcas que pareciam de dedos à volta do pescoço. Como se alguém tivesse sacudido a noiva pelo pescoço até que ela concordasse em casar-se. Mal tocou na bebida nupcial e não a vi engolir.

- O que achas, Hannah, o bobo? - gritou-me o duque de Northumberland do fundo da sala. - Ela será uma noiva com sorte?

As pessoas que estavam perto viraram-se para mim e eu senti a habitual tontura que era sinal de uma visão. Tentei resistir pois esta corte era o pior sítio do mundo para se dizer a verdade, mas não pude conter as palavras que me vieram à boca.

- Nunca terá mais sorte do que hoje - proferi.

Lord Robert lançou-me um olhar de aviso, mas eu não podia retirar o que dissera. Tinha dito o que sentira, e sem a elegância de um cortesão. O sentido das minhas palavras era que Jane, que já tivera a pouca sorte de casar-se com nódoas negras no pescoço, iria ter ainda menos sorte. Mas o duque interpretou aquilo como um cumprimento e riu-se, erguendo a taça para me fazer uma saúde. Guilford, que pouco mais era do que um pateta, fez um sorriso radiante à mãe enquanto Lord Robert abanava a cabeça e semicerrava os olhos como se desejasse não estar ali.

Houve baile e as noivas deviam dançar no seu próprio casamemto, mas Lady Jane, teimosa como uma mula, permaneceu sentada. Lord Robert foi delicadamente convidá-la e eu vi-o dizer-lhe algo ao ouvido. Ela, então, estendeu-lhe a mão, sorrindo ligeiramente. Perguntei-me o que lhe teria dito para a alegrar. Quando os pares pararam, aguardando a sua vez na roda, a boca dele aproximou-se de tal modo da orelha dela que eu pensei que Lady Jane devia sentir o calor do seu hálito no pescoço nu. Observei-os sem inveja. Não desejava estar no lugar dela, com os longos dedos de Lord Robert a segurarem a minha mão e os seus olhos escuros fitos nos meus. Olhava para eles como se estivesse a contemplar um par num belo quadro, o rosto dele virado para ela como o perfil de um falcão, a palidez dela a colorir sob a gentileza do seu olhar.

Como se estes casamentos trouxessem grande alegria, toda a corte dançou até tarde e, depois, os três casais foram levados até aos seus aposentos sob uma chuva de pétalas de rosas. Mas era tudo encenação, mais falso do que o combate que Will e eu travámos com espadas de pau. Nenhum dos casamentos iria, ainda, ser consumado e, na manhã seguinte, Lady Jane regressou a casa em Suffolk Place com os pais enquanto Guilford Dudley acompanhou a mãe, queixando-se de dores de barriga, e Lord Robert e o duque se levantaram cedo para ir ter com o rei a Greenwich.

- Por que razão não vive vosso irmão com a mulher numa casa? - perguntei a Robert Dudley ao encontrá-lo à porta dos estábulos à espera do seu alazão.

- Bem, não é invulgar. Eu não vivo com a minha - comentou.

Vi o telhado da casa dos Dudley inclinar-se contra o céu e, cambaleante, tive de me encostar à parede até o mundo parar de rodopiar.

- Tendes mulher?

- Oh, não o sabias, minha pequenina vidente? Pensei que soubesses tudo.

- Não sabia...

- Pois, e casei quando ainda era rapaz. Graças a Deus...

- Porque a amais? - gaguejei, sentindo uma dor estranha entre as costelas.

- Porque se ainda não fosse casado, teria sido eu a casar-me com Lady Jane Grey e a dançar por ordem do meu pai.

- A vossa mulher nunca vem à corte?

- Quase nunca. Prefere viver no campo pois não gosta de Londres.-Não concordamos um com o outro e, assim, é mais fácil para mim... - interrompeu-se olhando para o pai que, montado num grande cavalo preto, dava ordens aos lacaios. Percebi logo que, sem a companhia da mulher cujo comportamento poderia traí-lo, era mais fácil para Lord Robert ser o espião do pai.

- Como se chama ela?

- Amy - respondeu casualmente. - Porquê?

Não tinha qualquer resposta a dar. Entorpecida, abanei a cabeça. Sentia uma impressão desagradável na barriga e, por uns instantes, pensei que Guilford Dudley me tinha contagiado. Queimava-me como fel.

- Tendes filhos?

Se ele tivesse respondido que tinha filhos, que tinha uma filha que adorava, julgo que teria vomitado a seus pés. Mas ele abanou a cabeça.

- Não - disse secamente. - Um dia, tens de me dizer quando terei um filho, um herdeiro. Podes fazer isso?

Fitei-o e, apesar do ardor na garganta, tentei sorrir.

- Creio que não.

- Tens medo do espelho?

- Quando estais ao meu lado, não - respondi, abanando a cabeça. Sorriu-me.

- Apesar das tuas capacidades de vidente, tens manha de mulher. Andas atrás de mim, não andas, Dona Rapaz?

Abanei a cabeça.

- Não, senhor.

- Não te agradou lá muito o facto de eu ser casado.

- Fiquei apenas espantada.

Lord Robert levantou-me o queixo com a mão enluvada de modo a obrigar-me a fitar os seus olhos escuros.

- Não sejas mulher, uma mulher mentirosa. Diz-me a verdade. Os teus desejos de virgem perturbam-te, minha pequenina Dona Rapaz?

Era demasiado nova para conseguir ocultá-lo. Senti as lágrimas virem-me aos olhos. Mantive-me quieta, deixando que ele me tocasse. Ele reparou nas lágrimas e percebeu o que significavam.

- Sentes desejo? Por mim?

Continuei sem dizer palavra, olhando taciturnamente para ele através da minha visão velada.

- Prometi ao teu pai que não deixaria que te acontecesse nenhum mal - disse em voz meiga.

- Já aconteceu - disse, revelando a verdade. Abanou a cabeça, fitando-me docemente.

- Oh, isso não é nada. É amor jovem, de uma moça pouco madura. O erro que cometi na juventude foi casar-me por um motivo tão pueril. Mas tu hás-de sobreviver. Hás-de casar com o teu noivo e terás muitos filhos de olhos negros.

Abanei a cabeça sem poder falar.

- Não é o amor que importa, Dona Rapaz, é o que decides fazer com ele. Que queres fazer com o teu?

- Servir-vos.

Pegou numa das minhas mãos geladas e levou-a aos lábios. Inebriada, senti a sua boca aflorar-me as pontas dos dedos, um toque tão íntimo como um beijo dos seus lábios. A minha boca entreabriu-se, como se ele fosse beijar-me ali mesmo no pátio à frente de todos.

- Sim - disse ele ternamente sem levantar a cabeça e sussurrando contra os meus dedos. - Podias servir-me. Uma serva afectuosa é um grande dom para qualquer homem. Queres ser a minha, Dona Rapaz? De alma e coração? E fazer tudo o que te pedir?

O bigode dele roçou na minha mão, macio como as penas do peito do seu falcão.

- Quero - respondi, sem alcançar a enormidade da minha promessa.

- Seja qual for o meu pedido?

- Sim.

Endireitou-se, subitamente decidido.

- Excelente. Então vou arranjar-te um novo trabalho.

- Na corte? - perguntei.

- Não.

- Haveis-me dado ao rei - lembrei-lhe. - Sou bobo dele.

A boca dele contorceu-se num momento de pesar.

- O pobre rapaz não sentirá a tua falta - disse. - Contar-lhe-ei tudo. Vem a Greenwich amanhã e dir-te-ei o que tens de fazer.

Riu-se para consigo mesmo, como se o futuro fosse uma aventura que ele desejasse começar imediatamente.

- Vem a Greenwich amanhã - repetiu, encaminhando-se para o seu cavalo.

O moço de estrebaria pôs as mãos em concha para ajudar o amo a montar e Lord Robert subiu para a sela. Viu-o virar o cavalo e sair a galope do pátio em direcção ao Strand e ao frio sol matinal inglês. O pai segui-o a trote e eu vi que, à sua passagem, todos os homens tiravam os chapéus e inclinavam a cabeça para manifestar o respeito que lhe era devido embora os seus rostos tivessem uma expressão amarga.

Cheguei ao pátio do palácio de Greenwich encavalitada num dos cavalos que puxavam a carroça das provisões. Era um belo dia de Primavera, os campos que se estendiam até ao rio pareciam um mar de narcisos dourados e prateados, e fizeram-me pensar na transformação do metal em ouro que John Dee queria levar a cabo. Quando parei, sentindo a cálida brisa no rosto, um dos servos dos Dudley gritou-me:

- És Hannah, o bobo?

- Sou.

- Vai já ter com Lord Robert e com o pai aos seus aposentos privados. Imediatamente, meu rapaz!

Assenti com cabeça e entrei a correr no palácio, passando por salas imponentes e outras em nada inferiores guardadas por soldados com a farda dos Dudley. Abriram-me as portas de par em par e entrei na antecâmara onde o duque costumava ouvir as petições do povo. Passei por várias portas atravessando salas cada vez mais pequenas e íntimas até deparar com Lord Dudley debruçado sobre uma secretária em cima da qual estava desenrolado um manuscrito. O pai, o duque de Northumberland, estava ao seu lado a olhar por cima do ombro do filho.

Reconheci imediatamente a letra de John Dee e reparei que se tratava de um mapa que ele fizera baseando-se em mapas antigos da Grã-Bretanha que o meu pai lhe emprestara e em cálculos a que ele mesmo chegara a partir de cartas náuticas. John Dee tinha preparado este mapa porque acreditava que a prosperidade de Inglaterra residia nos mares à volta da costa, mas a finalidade do duque era outra. Tinha colocado várias marcas em Londres e mais no mar pintado de azul. Outras, de cor diferente, agrupavam-se no Norte do país, "na Escócia", pensei, e outro pequeno grupo, como peões de xadrez, a Leste. Fiz uma grande vénia a Lord Robert e ao seu pai.

- Temos de fazer isto a toda a pressa - observou o duque com ar irritado. - Se o fizermos antes de alguém ter a possibilidade de protestar, poderemos, a seguir, lidar com o Norte com os espanhóis e com os aliados dela.

- E ela? - perguntou Lord Robert.

- Não pode fazer nada - respondeu o duque. - E, se tentar fugir, a tua pequena espia avisar-nos-á. - Fitou-me ao dizer tais palavras. - Hannah Green, vais servir Lady Mary como bobo até eu te chamar de volta à corte. O meu filho assegurou-me que sabes ser discreta, é verdade?

Senti a pele do pescoço arrepiada.

- Sei guardar um segredo - afirmei. - Mas não gosto de o fazer.

- E prometes não entrar em transe e prever eventos, traindo assim os nossos planos?

- Fui contratada para isso - lembrei-lhe. - Não tenho poder sobre as minhas faculdades.

- Isso acontece-lhe muitas vezes?- perguntou ao filho. Lord Robert abanou a cabeça.

- Raramente e nunca de forma despropositada. O receio dela é maior do que o seu dom. É suficientemente esperta e, além do mais, quem vai dar ouvidos a um bobo?

O duque soltou uma das suas estrondosas gargalhadas.

- Outro bobo - sugeriu. Robert Dudley sorriu.

- A Hannah não nos trairá. Pertence-me de coração e alma. O duque assentiu.

- Bem, então, conta-lhe o que se passa.

Desejei poder tapar os ouvidos, mas Lord Robert aproximou-se de mim e pegou-me na mão. Levantei a cabeça e fitei o seu olhar sombrio.

- Dona Rapaz, preciso que fiques com Lady Mary e me escrevas a contar o que ela pensa, aonde vai e com quem se encontra.

Pestanejei:

- Espiá-la? Hesitou.

- Fazeres-te amiga dela.

- Espiá-la, sim - atalhou bruscamente o duque.

- Farás isso por mim? - prosseguiu Lord Robert. — Seria um grande favor. É esse o serviço que peço do teu amor.

- Correrei perigo? - perguntei. Na minha cabeça, ouvia a Inquisição a bater à porta e o ruído dos seus passos a entrar pela sala adentro.

- Não - prometeu-me. - Sou o garante da tua segurança enquanto fores minha. Estarás sob a minha protecção e, pertencendo à casa dos Dudley ninguém ousará fazer-te mal.

- Que devo fazer?

- Vigiar Lady Mary e informar-me.

- Quereis que vos escreva? Nunca mais vos verei? Sorriu.

- Ver-me-ás quando te mandar buscar - disse. - E se acontecer qualquer coisa...

- O quê? Encolheu os ombros.

- Vivemos numa época instável. Quem sabe o que pode vir a acontecer? É por isso que necessito que me digas o que Lady Mary faz. Fazes isso por mim, Dona Rapaz? Para me proteger?

Aquiesci.

- Sim.

Meteu a mão no casaco e tirou uma carta. Era do meu pai para o duque a prometer a entrega de um certo manuscrito.

- Aqui está um enigma para tu desvendares - disse Lord Robert em tom doce. - Vês as primeiras vinte e seis letras da primeira frase?

- Sim - assenti.

- Serão o teu alfabeto. Usa-as quando me escreveres. A frase, ‘Meu Senhor', será o início do teu alfabeto. O M de 'meu' é o A. O E é o B, e assim por diante. Percebes? Quando uma letra se repetir, só a usarás uma vez. Usarás o primeiro conjunto de vinte e seis letras para a primeira carta que me dirigires, o segundo para a segunda carta e assim sucessivamente. Tenho uma cópia dessa carta e poderei decifrar as tuas mensagens.

Viu os meus olhos percorrerem a página. Procurava uma única coisa: durante quanto tempo é que este sistema funcionaria? Havia frases suficientes para codificar doze cartas, o que significava que a minha ausência duraria semanas.

- Tenho de escrever em código? - perguntei nervosa. A sua mão quente cobriu os meus dedos frios.

- É só para não haver mexericos - disse em tom tranquilizador. - De modo a podermos escrever em privado um ao outro.

- Quanto tempo tenho de ficar longe? - sussurrei.

- Oh, não muito tempo.

Responder-me-eis?

Abanou a cabeça.

- Só se precisar de perguntar alguma coisa e, se o fizer, utilizarei igualmente o mesmo método. A minha primeira carta usará o primeiro conjunto de vinte e seis caracteres, a segunda usará o conjunto seguinte. Não guardes as minhas cartas, queima-as depois de as leres. E não faças cópias das tuas cartas para mim.

Acenei a cabeça.

- Se alguém encontrar esta carta, dirás que é uma missiva que o teu pai me enviou e que tu te esqueceste de me entregar.

- Sim, meu senhor.

- Prometes seguir as minhas instruções?

- Sim - respondi tristemente. - Quando tenho de partir?

- Dentro de três dias - disse o duque de detrás da secretária. - Vamos enviar uma carroça com mercadorias a Lady Mary e tu poderás acompanhá-la. Montarás um dos meus póneis, rapariga, e podes guardá-lo para a tua viagem de regresso. Se acontecer alguma coisa que me ponha em perigo, ou a Lord Robert, qualquer coisa realmente grave, vem imediatamente avisar-nos, de acordo?

- O que pode vir a ameaçar-vos? - perguntei ao homem que governava Inglaterra.

- Isso é uma preocupação que só a mim diz respeito. Tu só terás de vir avisar e eu é que hei-de decidir o que me ameaça. Vais ser os olhos e ouvidos de Lord Robert em casa de Lady Mary. Ele diz-me que és de confiança, prova agora que isso é verdade.

- Sim, meu senhor - respondi obedientemente.

Lord Robert disse-me que eu podia mandar chamar o meu pai para me despedir e este veio ao palácio de Greenwich num bote de pesca, juntamente com Daniel. Tinham descido o rio na maré baixa.

- Tu! - exclamei sem entusiasmo ao vê-lo ajudar o meu pai a saltar do barco.

- Eu - replicou com um sorriso. - Sou persistente, não sou? Aproximei-me do meu pai que me abraçou.

- Oh, papá - disse-lhe ao ouvido em espanhol. - Quem me dera que nunca tivéssemos vindo para Inglaterra.

- Querida, alguém te fez mal?

- Tenho de partir para casa de Lady Mary, e viver lá assusta-me, assim como a viagem. Tenho medo de... - detive-me, sentindo o sabor das mentiras na minha língua e dando-me conta de que nunca poderia contar a verdade a ninguém. - Não é nada, estou apenas a portar-me como uma palerma.

- Vem para casa comigo, minha filha. Pedirei a Lord Robert para te dispensar. Fecharemos a loja e iremos embora deste país. Não quero que vivas encurralada aqui...

- Foi o próprio Lord Robert quem me pediu para ir ter com Lady Mary - expliquei-lhe simplesmente. - E eu prometi que ia.

A sua mão acariciou docemente o meu cabelo curto.

- Sentes-te infeliz, querida?

- Não - disse, forçando-me a sorrir. - Estou a ser palerma pois vou viver com a herdeira do trono e foi o próprio Lord Robert quem mo pediu.

O meu pai mostrou-se um pouco mais tranquilo.

- Se precisares de mim, irei ter contigo. Ou, então, mandarei o Daniel buscar-te. Não é, Daniel?

Virei-me nos braços do meu pai a fim de olhar para o meu prometido. Ele estava encostado ao corrimão de madeira que rodeava o cais. Esperava pacientemente, mas estava pálido e parecia ansioso.

- Preferia levá-la já.

O meu pai largou-me e deu um passo em direcção a ele. O bote balançava na água junto ao cais à espera deles. Reparei que a maré ia mudar e que poderíamos subir o rio num instante. Percebi que Daniel tinha planeado a possibilidade de uma fuga.

- Aceitei ir servir Lady Mary - disse-lhe baixinho.

- Ela é uma papista num país protestante - interrompeu-me. - Não podias ter escolhido um sítio onde a tua crença fosse mais posta à prova. Eu é que me chamo Daniel, tu não. Vais meter-te num covil de leões. E quais são os serviços que vais prestar a Lady Mary?

Aproximou-se de mim para podermos falar em voz baixa.

- Vou fazer-lhe companhia, servi-la como bobo - fiz uma pausa e decidi contar-lhe a verdade. - Vou ser espia de Lord Robert e do pai.

A cabeça dele estava tão próxima da minha que sentir o calor da sua face na minha testa quando se inclinou para me sussurrar ao ouvido:

- Espiar Lady Mary?

- Sim.

- E aceitaste? Hesitei.

- Sabem que eu e o meu pai somos judeus.

Calou-se por uns instante. O seu peito robusto estava encostado ao meu ombro. Passou-me o braço pela cintura, apertando-me de encontro a ele. Fui invadida por uma sensação de segurança e deixei-me ficar quieta.

- Achas que vão tomar medidas contra nós?

- Não.

- Mas, assim, vais ser refém deles.

- De certo modo. Mas parece mais que, assim como Lord Robert está a par do meu segredo, também confia em mim. Sinto-me ligada a ele.

Acenou com a cabeça. Estiquei o pescoço para olhar para o seu rosto mal-humorado. Ao princípio, pensei que estava zangado, mas, depois, vi que estava a reflectir.

- Ele sabe o meu nome? - perguntou. - Ou o da minha mãe e das minhas irmãs? Corremos algum perigo?

- Sabe que estou noiva, mas não sabe o teu nome. E nada sabe acerca da tua família - disse com orgulho. - Não te comprometi.

- Não, reservaste o perigo para ti - disse com um breve sorriso triste. - Se fosses interrogada, não guardarias um segredo durante muito tempo.

- Não te trairia - acrescentei apressadamente. Tinha uma expressão inquieta estampada no rosto.

- Ninguém que é torturado resiste, Hannah. A tortura da roda arranca a verdade à maior parte das pessoas - fitou o rio por cima do meu ombro. - Não devia deixar-te partir, Hannah.

Sentiu imediatamente o meu movimento contrariado.

- Não discutas comigo por tudo e por nada, pelas minhas palavras desajeitadas - disse-me. - Não estou a dar-te uma ordem. Suplico-te que não vás... É melhor assim? O caminho que estás a tomar é demasiado perigoso.

- Estou sempre em perigo, faça o que fizer. Mas, desta vez, Lord Robert irá proteger-me.

- Apenas enquanto lhe fores útil.

Aquiesci. Não podia dizer-lhe que me tinha oferecido voluntariamente para esta missão e que estava disposta a enfrentar perigos maiores por amor a Robert Dudley.

Soltou-me docemente.

- Lamento que estejas aqui desprotegida - disse. - Se me tivesses chamado, teria vindo mais cedo. Trata-se de um fardo que não deverias carregar sozinha.

Pensei nos terrores da minha infância, na minha terrível aprendizagem do medo, na nossa fuga através da Europa.

- É o meu fardo.

- Mas, agora, tens-me a mim - disse ele com o orgulho de alguém que se tornara chefe de família demasiado jovem. - Carregarei o teu fardo por ti.

- Eu encarrego-me disso - teimei.

- Já sei, és dona de ti mesma. Mas se condescenderes em chamar-me em caso de perigo, talvez então possa ajudar-te a fugir.

Ri-me.

- Prometo - estendi-lhe a mão num gesto adequado às minhas roupas de rapaz, mas ele puxou-me novamente contra o peito e bei-jou-me em cheio nos lábios. Senti a sua boca quente na minha.

Largou-me depois e afastou-se em direcção ao barco. Senti-me ligeiramente tonta, como se estivesse embriagada.

- Oh, Daniel! - suspirei, mas ele não me ouviu e subiu para o bote. Virei-me para o meu pai e apanhei-o a tentar ocultar um sorriso.

- Que Deus te proteja, minha filha, e te traga de volta a casa sã e salva - disse-me. Ajoelhei-me no cais para ele me dar a bênção e senti a sua mão pousar sobre a minha cabeça, acariciando-me o cabelo de modo familiar.

Depois pegou-me nas mãos e levantou-me:

- É um jovem atraente, não achas? - perguntou com um risinho. A seguir, embrulhou-se na capa e encaminhou-se para o bote de pesca.

Partiram e o pequeno barco afastou-se rapidamente sobre a água escura, deixando-me só no cais de madeira. A neblina pairava sobre o rio e só se ouvia o chapinhar dos remos e o estalar das for-quetas. A seguir, esse som também se desvaneceu e só ficou o ruído da maré a encher e o silvar do vento.

 

1553

Lady Mary encontrava-se na sua casa em Hunsdon, no condado de Hertfordshire. Demorámos três dias para lá chegar, cavalgando para norte de Londres, por uma estrada serpenteante através de vales lamacentos e subindo as colinas de North Weald. Percorremos parte do caminho com outro grupo de viajantes, e pernoitando, uma vez, numa estalagem e outra numa enorme mansão que fora outrora um mosteiro, mas pertencia agora a um homem que o tinha limpo de heresias com algum lucro.

Nesta altura, não oferecia quartos melhores do que uma arrecadação de palha por cima dos estábulos e o encarregado do nosso transporte queixou-se de que, noutros tempos, tinha sido um local habitado por monges generosos onde os viajantes encontravam um bom jantar, uma cama confortável e uma oração para os proteger ao longo do caminho. Permanecera aqui uma vez, quando o filho estava às portas da morte e os monges o tinham salvo com as suas poções sem lhe levar um tostão, dizendo que, ao servir os pobres, cumpriam a obra de Deus. A mesma história podia ser contada acerca de todos os grandes mosteiros e abadias à beira da estrada de; uma ponta à outra do país. Mas, hoje em dia, todas as instituições religiosas estavam na posse dos grandes senhores, os cortesãos que tinham feito fortuna advertindo que o mundo seria melhor se a riqueza da Igreja de Inglaterra estivesse guardada nos seus bolsos. Agora, a sopa dos pobres às portas dos mosteiros, a distribuição de remédios gratuitos nos hospitais dos conventos, a educação das crianças e os cuidados prestados aos idosos nas aldeias tinha seguido o mesmo caminho que as belas imagens, os manuscritos com iluminuras e as opulentas bibliotecas.

O condutor da carroça resmungou que, actualmente, isso acontecia por todo o país e que as grandes instituições religiosas, a coluna vertebral de Inglaterra, já não podiam contar com os homens e mulheres chamados por Deus para as servir. O bem público beneficiava o sector privado e nunca mais voltaria a ser público.

- Se o coitado do rei morre, Lady Mary subirá ao trono e mudará tudo isto - disse ele. — Será rainha do povo, uma rainha que restabelecerá a maneira antiga.

Puxei as rédeas do meu pónei. Estávamos na estrada e não havia ninguém que nos pudesse ouvir, mas receava tudo o que me cheirasse a intriga.

- E olha para estas estradas - prosseguiu ele, virando-se no assento da carroça para se queixar por cima do ombro. - Poeirentas no Verão e cobertas de lama no Inverno. Os buracos não são consertados e os salteadores não são perseguidos. Sabes porquê?

- Tens razão, a poeira é insuportável. Vou avançar para a frente -disse eu.

Acenou com a cabeça e fez-me sinal para passar. Mas o seu rol de queixas atrás de mim ainda me chegava aos ouvidos.

- Porque uma vez fechados os santuários não há peregrinos e, se não há peregrinos, não há ninguém na estrada a não ser a pior espécie de gente e quem a assalta. Nunca uma palavra amável, uma boa estalagem, uma estrada decente...

Deixei o pónei subir para uma pequena elevação onde o solo era mais macio por debaixo das suas pequenas ferraduras e seguimos o nosso caminho bem à frente da carroça.

Como não tinha conhecido a Inglaterra que o carroceiro dizia estar agora perdida, não me apercebia, como ele, de que o país estivesse em pior estado. Nessa manhã de início de Verão parecia-me excelente, as rosas entrelaçadas nas sebes e dúzias de borboletas a esvoaçar à volta das madressilvas. Os campos estavam cultivados em impecáveis sulcos como lombadas de livros e as ovelhas pastavam nas colinas como bolas de algodão branco contra o verde-vivo. Era uma paisagem tão diferente da que eu estava habituada a ver que não podia deixar de me maravilhar; as aldeias com casas de vigas brancas e pretas e telhados de colmo dourado, os rios que corriam tão lentamente que pareciam de vidro e se confundiam com a estrada. Era uma região tão húmida que não admirava que a vegetação dos jardins fosse tão viçosa, que as colinas estivessem salpicadas de margaridas que balançavam ao vento e que os telhados das casas mais antigas estivessem cobertos de musgo. Comparada com o meu país, era uma terra tão encharcada como a esponja de um impressor, húmida de vida.

Ao princípio, reparei nas coisas que faltavam. Não havia fileiras de vinhas nem oliveiras curvas e retorcidas. Não havia pomares de laranjeiras, limoeiros ou limeiras. As colinas eram redondas e verdes, em vez de agrestes e rochosas, e, por cima delas, o céu estava pintalgado de nuvens e não quente e azul como o do meu país. E havia revoadas de cotovias e não águias aos círculos.

Cavalguei espantada com uma terra tão luxuriante e tão verde; mas por entre toda aquela fertilidade havia fome. Vi-a no rosto de alguns aldeões e nas sepulturas recentes dos cemitérios. O carroceiro tinha razão, o equilíbrio que reinara na Inglaterra pacífica durante uma breve geração tinha acabado com o último rei, e o actual continuara o trabalho de arruinar o país. As grandes instituições religiosas tinham fechado e posto na rua os homens e as mulheres que lá trabalhavam. As grandes bibliotecas encontravam-se despojadas - vira suficientes manuscritos rasgados na livraria do meu pai para saber que séculos de erudição tinham sido atirados fora por causa do medo de heresias. Os sumptuosos objectos de ouro das igrejas tinham sido roubados e derretidos, as belas imagens, algumas com as mãos e os pés polidos por milhões de beijos de fiéis, e as obras de arte tinham sido destruídas. Uma grande vaga de destruição passara através de um país rico e pacífico, e levaria muitos anos para que a Igreja se tornasse novamente um porto de abrigo para os peregrinos e para os viajantes fatigados, caso isso voltasse alguma vez a acontecer.

Era uma tal aventura viajar tão livremente por um país estranho que tive pena quando o carroceiro me chamou com um assobio.

- Chegámos a Hunsdon.

Apercebi-me então que era o fim dos meus dias despreocupados e que tinha de voltar ao trabalho. Tinha, agora, duas tarefas: uma como bobo numa casa em que a crença e a fé eram essenciais e outra como espia numa casa onde a traição e a intriga constituíam a ocupação principal.

Com a garganta seca da poeira da estrada e também de medo, pus-me ao lado da carroça e entrámos juntos, como se procurasse abrigo por detrás das quatro rodas para escapar à curiosidade das janelas que pareciam espreitar a minha chegada.

Lady Mary estava nos seus aposentos a fazer um trabalho de costura, o famoso bordado espanhol a linha preta sobre linho branco, enquanto uma das suas damas lia em voz alta. A primeira coisa que ouvi, ao chegar à sua presença, foi uma palavra espanhola mal pronunciada e ela soltou uma alegre gargalhada quando me viu pestanejar.

- Finalmente! Uma rapariga que sabe espanhol! - exclamou, estendendo-me a mão a beijar. - Se soubesses também ler!

Reflecti um momento.

- Sei ler - acabei por dizer pois pareceu-me razoável que a filha de um livreiro soubesse ler a sua língua materna.

- Ah, sim? E latim?

- Latim, não - respondi, tendo-me dado conta de que era perigoso gabar-me da minha educação, depois do encontro com John Dee. - Apenas espanhol e ando também a aprender inglês.

Lady Mary virou-se para a dama de companhia.

- Deves estar contente por ouvir esta notícia, Susan! Agora já não terás de me ler à tarde.

Susan não pareceu nada satisfeita por ser substituída por um bobo de libré, mas sentou-se num banco junto a outras mulheres e pegou num trabalho de costura.

- Tens de me contar tudo o que se passa na corte - disse-me Lady Mary. - Talvez devêssemos falar a sós.

Um sinal de cabeça às damas e estas levantaram-se e foram sentar-se em círculo num sítio onde havia mais luz, falando em voz baixa para nos dar a ilusão de privacidade. Imaginei que todas elas estivessem de orelhas arrebitadas para ouvir o que eu ia dizer.

- Tens alguma mensagem do rei meu irmão para me dar? -perguntou-me, convidando-me com um gesto a sentar-me numa almofada a seus pés.

- Não, Lady Mary - respondi, reparando no seu desapontamento.

- Tinha esperança de que ele, agora que está tão doente, pensasse mais em mim - comentou. - Quando era rapazinho, cuidei dele ao longo de várias doenças. Esperava que ele se lembrasse disso e...

Aguardei que terminasse a frase, mas ela juntou as pontas dos dedos como para pôr fim às suas recordações.

- Não faz mal - continuou. - Tens outros recados?

- O duque envia-vos caça e legumes. Vêm na carroça com a mobília e foram entregues na cozinha. E pediu-me que vos desse esta carta.

Rompeu o sinete de lacre e alisou-a. Vi-a sorrir e, a seguir, ouvi o seu jovial risinho:

- Trazes-me muito boas notícias, Hannah - disse. - Enviam-me o pagamento que, segundo o testamento do meu defunto pai, me era devido desde a sua morte. Julguei que nunca mais o veria, mas a ordem de saque sobre um ourives de Londres por fim lá chegou. Já posso pagar as minhas dívidas e enfrentar novamente os comerciantes de Ware.

- Muito me apraz - felicitei desajeitadamente sem saber o que dizer.

- Sim. Seria de imaginar que, por esta altura, a única filha legítima do rei Henry já estivesse na posse do dinheiro que lhe é devido, mas atrasaram e retiveram o seu pagamento a tal ponto que julguei que me queriam matar à fome aqui. Estou de novo nas boas graças. Calou-se, pensativa.

- A questão que salta à vista é porque estou subitamente a ser tão bem tratada? - fitou-me de forma especulativa. - Também foi dada a Lady Elizabeth a sua parte da herança? Deves visitá-la para lhe entregar tal missiva?

Abanei a cabeça.

- Como posso eu estar a par disso, Alteza? Sou apenas um mensageiro.

- Não sabes nada? Ela não está agora em visita ao meu irmão na corte?

- Não se encontrava lá quando parti - disse com prudência. Acenou com a cabeça.

- E o meu irmão está melhor?

Pensei no discreto desaparecimento dos médicos que tinham indo tão cheios de promessas e que tinham partido sem terem feito nada excepto torturar o rei com os seus tratamentos. Na manhã em que partira de Greenwich, o duque tinha trazido uma velha para cuidar do rei, uma parteira que só sabia dar assistência a mulheres grávidas e “aterrar os mortos. Era evidente que o soberano não iria melhorar.

- Creio que não, Alteza - disse. - Esperava-se que o Verão lhe aliviasse o peito, mas Sua Majestade parece padecer tanto como dantes.

Inclinou-se para mim.

- Diz-me a verdade... O meu irmãozinho está a morrer? Hesitei, sem saber se era traição falar da morte do rei. Pegou-me na mão e eu fitei o seu rosto resoluto. Os seus olhos, escuros e honestos, cruzaram-se com os meus. Parecia uma mulher em quem se podia confiar, uma ama que se podia amar.

- Podes dizer-me. Sei guardar um segredo - insistiu. - Tenho guardado inúmeros segredos.

- Já que perguntais, vou dizer-vos. Tenho a certeza de que está a morrer - admiti em voz baixa. - Mas o duque nega que Sua Majestade esteja moribunda.

Acenou com a cabeça.

- E que tal correu o casamento? Hesitei novamente.

- Que casamento?

Fez um gesto de irritação.

- De Lady Jane Grey com o filho do duque, claro está. Que se diz na corte?

- Que ela não queria casar e ele também não.

- Então porque insistiu o duque?

- Porque tinha chegado a altura de Lord Guilford se casar? -arrisquei. Fitou-me com olhos afiados como lâminas.

- Não dizem mais do que isso? Encolhi os ombros.

- Que eu tenha ouvido, não...

- E tu? - perguntou-me, perdendo aparentemente interesse em Ladyjane. - Pediste para sair da corte real em Greenwich para te exilar aqui? Longe do teu pai? - o seu sorriso irónico indicava que achava isso pouco provável.

- Foi Lord Robert quem me mandou vir - confessei. - E o senhor seu pai, o duque.

- Disseram-te porquê?

Mordi os lábios para guardar segredo.

- Não, Alteza. Só para vos fazer companhia.

Lançou-me um olhar que nunca vira numa mulher. As mulheres espanholas tendem a olhar de lado, uma mulher modesta desvia sempre o olhar, enquanto as mulheres inglesas baixam os olhos. Um dos motivos pelo qual gostava das minhas roupas de pajem era porque, mascarado de rapaz, podia manter a cabeça erguida e olhar à minha volta. Mas Lady Mary tinha o olhar ousado que figurava no retrato do pai com os punhos nas ancas e o ar fanfarrão de quem fora criado para julgar que podia governar o mundo. Ela tinha a mesma expressão paterna: um olhar directo de homem que perscrutava francamente o meu rosto.

- De que tens medo? - perguntou-me bruscamente.

Fiquei tão desconcertada que, nesse instante, podia ter-lhe contado tudo. Tinha medo de ser presa, da Inquisição, da câmara de torturas e de ser morta como herege numa fogueira sem poder escapar. Tinha medo de conspirações e suspeitas, de trair outros, con-denando-os à morte. Esfreguei a face com as costas da mão.

- Estou apenas um pouco nervosa - murmurei. - Desconheço os costumes deste país e a vida na corte.

Deixou o silêncio prolongar-se e, depois, olhou com mais doçura para mim.

- Pobre criança. És muito nova para andares à deriva e sozinha nestas águas profundas.

- Sou vassalo de Lord Robert - expliquei. - Não estou sozinha. Sorriu.

- Talvez sejas boa companhia - disse finalmente. - Houve dias, meses e até mesmo anos em que veria com prazer um rosto alegre e ouviria uma voz animadora ao meu lado.

- Não sou um bobo engraçado - preveni-a. - Não sou especialmente alegre.

Lady Mary soltou uma estrondosa gargalhada.

- E eu não sou lá muito dada a rir - disse. - Talvez me convenhas às mil maravilhas. E, agora, vais conhecer as minhas companheiras.

Chamou as damas e apresentou-mas. Uma ou duas eram filhas de hereges resolutos que não tinham abjurado a fé e serviam uma princesa católica romana por orgulho, duas outras tinham o ar desanimado de jovens com dotes modestos cuja oportunidade de servirem uma princesa desfavorecida era apenas ligeiramente melhor do que o casamento que seriam forçadas a contrair se tivessem permanecido em casa. Era uma pequena corte onde pairava o desespero nos confins do reino, à beira da heresia e à beira da legitimidade.

Após o jantar, Lady Mary foi à missa. Devia ir sozinha pois era um crime para qualquer outra pessoa assistir ao serviço religioso; mas toda a sua comitiva a acompanhou, escondendo-se no fundo da capela, enquanto ela se ajoelhava à vista de todos.

Segui as damas até à porta da capela e, depois, fiquei por ali num frenesim sem saber o que fazer. Tinha garantido ao rei e a Lord Robert que o meu pai e eu pertencíamos à religião reformada, mas eles sabiam que a casa de Lady Mary era uma ilha de práticas papistas num reino protestante. Suava de medo quando uma simples criada passava por mim para ir rezar. Aterrorizava-me a hipótese de ser denunciada à corte como católica romana, mas como podia servir Lady Mary como íntegra protestante?

Acabei por me sentar à porta de onde podia ouvir o padre recitar as orações sem que ninguém pudesse acusar-me de assistir à missa. Permaneci todo o tempo ali acocorada, limpando constantemente a face como se sentisse as cinzas da fogueira da Inquisição a colarem-se-me à pele, pronta a fugir.

Depois da missa, Lady Mary mandou-me chamar aos seus aposentos para a ouvir ler a Bíblia em latim. Tentei não demonstrar que entendia as palavras e, quando no fim da leitura, ela me passou o livro para eu o arrumar, tive de lembrar a mim mesma não o abrir para verificar o nome do impressor. Pensei que não era uma edição tão boa como as que o meu pai imprimia.

Lady Mary foi deitar-se cedo. Atravessou o longo corredor sombrio com a vela a tremular diante dela, olhando pelas janelas da casa através das quais penetrava o vento, para a escuridão do descampado para lá das muralhas em ruínas do castelo. Todas as outras pessoas se foram também deitar, não havia nada por que esperar, nada mais iria acontecer. Não haveria visitas, mimos ou bailarinos, nem vendedores ambulantes atraídos pela riqueza da corte. Não admirava que Lady Mary não fosse uma princesa feliz. Se o duque queria mantê-la num sítio onde raramente era visitada, onde o seu coração e ânimo haviam certamente de esmorecer, e onde devia sentir frio e solidão todos os dias, não podia ter escolhido melhor.

A casa em Hunsdon era como tinha imaginado: um lugar melancólico habitado por marginalizados e governado por uma inválida. Lady Mary sofria de enxaquecas que a atacavam quase sempre à noite e lhe assombravam o rosto à medida que a luz se escoava do céu. As suas damas notavam o seu sofrimento, mas ela nunca se queixava das dores nem se deixava abater. Permanecia sentada na cadeira de madeira como a mãe lhe ensinara, de busto direito e cabeça erguida como uma rainha, mesmo quando a luz bruxuleante das velas a fazia encarquilhar os olhos. Discuti esse seu mal com Jane Dormer, dama de companhia e a sua melhor amiga, que me contou que as dores que eu agora notava não eram nada. Que quando estava naquela altura do mês, era vítima de cãibras tão dolorosas, como as de parto, que nada aliviava.

- De que padece? - perguntei. Jane encolheu os ombros.

- Nunca foi uma criança robusta - explicou. - Sempre teve uma constituição frágil e delicada, mas, quando o pai repudiou a mãe, foi como se a tivessem envenenado. Não parava de vomitar e não conseguia sair da cama, tinha de se arrastar pelo chão. Houve quem dissesse que ela tinha sido envenenada por essa bruxa, a Bolena. A princesa estava quase a morrer e não a deixaram ver a mãe, e a rainha não podia vir porque receava que não a deixassem voltar para a sua própria corte. A Bolena e o rei des-truíram-nas a ambas: a mãe e a filha. A rainha Catarina aguentou quanto pôde, mas a doença e o coração destroçado acabaram por matá-la. Lady Mary devia também ter morrido... sofria tanto, a pobrezinha... mas sobreviveu. Obrigaram-na a negar a sua religião bem como o casamento da mãe, e, desde então, ela é atormentada por estas dores.

- Os médicos não podiam...

- Não a deixaram sequer ver um médico durante longos anos - disse Jane irritada. - Podia ter morrido por falta de cuidados, não uma vez mas várias. A bruxa Bolena queria vê-la morta e juro que tentou envenená-la mais do que uma vez. Teve uma vida amarga: meio prisioneira, meio santa, sempre a engolir o pesar e a ira.

Os melhores momentos de Lady Mary eram de manhã. Depois de assistir à missa e de comer qualquer coisa, gostava de passear e escolheu-me muitas vezes para lhe fazer companhia. Num dia quente de fins de Junho, pediu-me para caminhar a seu lado para lhe indicar o nome das flores e falar do tempo em espanhol. Tinha de andar muito devagar para não passar à frente de Lady Mary e esta detinha-se com frequência levando a mão à ilharga e empalidecendo.

- Não vos sentis bem hoje, Alteza? - perguntei.

- Apenas cansada - respondeu. - Não dormi a noite passada.

Sorriu perante a minha preocupação.

- Oh, não é nada pior do que tem sempre sido. Devia aprender a ser mais serena. Mas não estar ao corrente... e ter de esperar... sabendo que ele está nas mãos de conselheiros com ideias já feitas...

- Falais do vosso irmão? - perguntei quando ela se calou.

- Desde que nasceu que penso nele todos os dias! - desabafou veementemente. - Um corpo tão frágil e espera-se tanto dele! Aprende tão depressa e... sei lá!... tem um coração tão frio quando devia ser caloroso. Pobre rapaz, pobre órfão! Nós três, juntos, e sem mãe e sem que um único de nós saiba o que irá acontecer.

"Tinha mais cuidados com Elizabeth do que com ele, claro está. E, agora, ela está longe de mim e nem sequer a posso ver. É evidente que me inquieto com ele e com o que estão a fazer à sua alma e ao seu corpo... e com o que estão a fazer quanto ao seu testamento - acrescentou em voz baixa.

- O seu testamento?

- Sim. Trata-se da minha herança - retorquiu em tom violento. - Se envias informações a meu respeito, como suponho que o faças, diz-lhes que nunca me esquecerei disso. Diz-lhes que é a minha herança e que nada a pode alterar.

- Não envio informações a vosso respeito! - quase gritei, chocada. E era verdade. Não enviara nenhum relatório, não havia nada acerca das nossas entediantes vidas e noites tranquilas que merecesse a pena ser contada a Lord Robert ou ao pai. Lady Mary era uma princesa doente, desesperadamente à espera, não uma traidora envolvida em conspirações.

- Quer o faças quer não - prosseguiu sem ligar aos meus protestos -, nada nem ninguém pode negar-me a sucessão. Foi o meu próprio pai que ma deixou. A herdeira sou eu e, depois, Elizabeth. Nunca conspirei contra Edward, embora me tenham pedido para, em nome da minha mãe, me opor a ele. E.sei que, por sua vez, Elizabeth nunca conspirará contra mim. Somos três herdeiros ao trono para honrar o nosso pai. Elizabeth sabe que eu sou a seguir a Edward, que é o primeiro por ser rapaz e eu a segunda por ser princesa, a primogénita legítima. Havemos de obedecer ao nosso pai e de suceder ao trono seguindo a ordem que ele destinou. Assim como Edward confia em mim, também confio em Elizabeth. Como prometes não me denunciar, podes dizer a quem te perguntar que este país é meu e que hei-de tomar posse da minha herança.

A sua fadiga desaparecera e as cores tinham-lhe voltado às faces. Olhou em redor do pequeno jardim murado como se pudesse avistar todo o reino, a recuperação da prosperidade e as mudanças que faria quando fosse rainha. Os mosteiros que restauraria, os conventos que fundaria, a vida que devolveria.

- Este país é meu - repetiu. - Sou a futura rainha inglesa e ninguém pode destronar-me.

A consciência do seu destino iluminava-lhe o rosto.

- É a finalidade da minha vida - continuou. - Ninguém voltará a humilhar-me. Verão que dediquei a existência a tornar-me a noiva deste país. Serei uma rainha virgem. Os habitantes de Inglaterra serão os meus filhos e eu a sua mãe. Não receberei ordens de ninguém e darei a vida pelo meu povo. É a minha vocação sagrada.

Afastou-se em direcção à casa e eu segui-a à distância. O sol matinal que dissolvia a neblina criava uma aura à volta dela e senti uma tontura ao compreender que esta mulher seria uma rainha notável, uma rainha que possuía uma visão real da Inglaterra e que lhe devolveria a riqueza, a beleza e as obras caridosas que o pai roubara às igrejas e à vida quotidiana. O sol era tão brilhante que a touca de seda amarela de Lady Mary parecia uma coroa e

eu tropecei num tufo de ervas e caí.

Virou-se e viu-me de joelhos no chão.

- Hannah!

- Sereis rainha - disse-lhe simplesmente, a visão falando através da minha voz. - O rei morrerá dentro de um mês. Viva a rainha. Pobre, pobre rapaz!

Precipitou-se para me ajudar a levantar.

- Que disseste?

- Sereis rainha - repeti. - Sua Majestade está a definhar.

Perdi os sentidos por uns instantes e, depois, voltei a abrir os olhos. Ela fitava-me, segurando-me.

- Não podes dizer-me mais nada? - perguntou-me docemente. Abanei a cabeça.

- Lamento, Alteza. Mal sei o que disse. Não falei conscientemente. Assentiu com a cabeça.

- É o Espírito Santo que te faz falar, para me transmitir essas notícias. Juras que manténs segredo?

Hesitei um momento, pensando nas complicadas teias de lealdade que me envolviam: o meu dever para com Lord Robert, o meu respeito para com o meu pai, a minha mãe e parentes, a minha promessa a Daniel Carpenter e, agora, esta mulher perturbada a pedir-me segredo. Acenei que sim com a cabeça. Não era deslealdade não dizer a Lord Robert algo que ele já devia saber.

- Sim, Alteza.

Tentei levantar-me, mas caí novamente de joelhos com uma tontura.

- Espera - aconselhou-me Lady Mary. - Não te levantes até te sentires bem.

Sentou-se ao meu lado na relva e deitou gentilmente a minha cabeça no seu colo. O sol da manhã era quente e ouvia-se o sonolento zumbido das abelhas e o longínquo chamado de um cuco.

- Fecha os olhos - disse-me.

Queria adormecer no seu regaço.

- Não sou espia - disse-lhe.

Os seus dedos afloraram os meus lábios.

- Cala-te! Sei que trabalhas para os Dudley e também sei que és boa rapariga. Quem melhor do que eu conhece as complicações da lealdade? Nada temas, pequena Hannah. Eu compreendo.

Senti-a tocar-me docemente no cabelo, enrolando os meus curtos caracóis num dedo. Fechei os olhos e os músculos das minhas costas e do pescoço relaxaram por saber que estava em segurança com ela.

Ela, por sua vez, encontrava-se distante a reflectir sobre o passado.

- Costumava sentar-me assim quando Elizabeth fazia a sesta - disse. - Pousava a cabeça no meu colo e eu entrançava-lhe o cabelo enquanto ela dormia. O seu cabelo era como bronze, cobre e ouro, tinha todos os tons dourados numa madeixa. Era uma criança tão bonita, possuía aquela inocência infantil. Eu tinha apenas vinte anos e fingia que ela era minha filha, que estava felizmente casada com um homem que me amava e que, em breve, teríamos outro filho... um rapaz.

Ficamos em silêncio durante longo tempo e, de repente, ouvi a porta da casa a abrir-se com estrondo. Sentei-me e vi uma das damas de Lady Mary sair a correr do interior sombrio e olhar desesperadamente à volta do jardim à procura dela. Era Lady Margaret. Quando ela se aproximou de nós, Lady Mary endireitou-se, preparando-se para as notícias que eu tinha profetizado. Iria deixar que a sua dama de companhia a encontrasse ali, simplesmente sentada num jardim inglês com o bobo a dormitar ao lado dela, e receberia as notícias da sua sucessão ao trono com palavras dos Salmos que tinha preparado. Proferiu-as em voz baixa:

- Isto é obra do Senhor e é admirável aos nossos olhos.

- Lady Mary! Oh!

A ânsia de dar a notícia tinha-lhe quase feito perder a fala e estava sem fôlego por ter corrido.

- Agora mesmo na igreja...

- Sim? O quê?

- Não rezaram por vós.

- Por mim?

- Sim. Rezaram pelo rei e pelos seus conselheiros, como de costume, mas não mencionaram a passagem que diz "e pelas irmãs de Sua Majestade".

O olhar brilhante de Lady Mary esquadrinhou o rosto de Lady Margaret.

- E também não mencionaram o nome de Elizabeth?

- Não!

- Tens a certeza?

- Tenho.

Lady Mary levantou-se de olhos franzidos pela ansiedade.

- Envia Mr. Tomlinson a Ware, diz-lhe para se informar junto de outras igrejas e para ir falar com o bispo Stortford se for necessário.

A dama fez uma vénia, apanhou as saias e voltou a correr para dentro de casa.

- Que significa isto? - perguntei, levantando-me a custo. Ela olhou para mim sem me ver.

- Significa que Northumberland começou a agir contra a minha pessoa. Primeiro não me informa sobre o estado de saúde do meu irmão e, agora, ordena aos padres que não mencionem o nome de Elizabeth e o meu nas suas orações. A seguir, vai mandá-los mencionar outro nome, o do herdeiro. E quando o meu pobre irmão morrer, vai prender-nos, a mim e a Elizabeth, e vai colocar um impostor no trono.

- Quem?

- Edward Courtenay - disse determinantemente.

- O meu primo. É a única hipótese de Northumberland pois nem ele

De repente, percebi. A festa de nem os filhos podem ascender ao trono.casamento, a palidez de Lady lane Grey, as nódoas negras no seu pescoço como se alguém tivesse querido incutir a sua ambição nela.

- Oh, mas ele pode lá colocar Lady Jane Grey - disse eu.

- A qual acabou de se casar com Guilford, filho de Northumberland - concordou Lady Mary. Fez uma pausa. - Nunca teria pensado que eles se atrevessem a fazer tal coisa. A mãe dela, minha prima, teria de abdicar em nome da filha. Jane é protestante e o pai do marido tem o reino nas mãos - soltou uma gargalhada rouca. -Deus meu! Ela é tão protestante que superou Elizabeth e isso não deve ter sido fácil. Por ser protestante, foi incluída no testamento do meu irmão, cometendo uma traição. Que Deus lhe perdoe... Vão destruí-la, pobre coitada. Mas, primeiro, vão destruir-me a mim. Omitir o meu nome das orações do meu povo foi a primeira coisa e, a seguir, vão prender-me, acusar-me e executar-me.

O seu rosto pálido empalideceu ainda mais e eu vi-a cambalear.

- Meu Deus! E que irá acontecer a Elizabeth? O duque vai ter de nos matar a ambas - murmurou. - De outro modo, tanto os protestantes como os católicos se revoltarão contra ele. Terá de se desenvencilhar de mim para se livrar dos defensores da verdadeira fé. E vai ter também de se desembaraçar de Elizabeth. Por que razão os protestantes hão-de seguir a rainha Jane e um pau mandado como o Guilford Dudley quando poderiam escolher Elizabeth como rainha? Se eu morrer, quem sucede ao trono é ela, uma herdeira protestante. O duque deve estar a planear forjar acusações de traição contra nós as duas e, dentro de três meses, Elizabeth e eu estaremos mortas.

Afastou-se uns passos de mim e, a seguir, voltou atrás.

- Tenho de salvar Elizabeth de qualquer maneira. Tenho de avisá-la para vir para aqui, em vez de ir para Londres. Não hão-de tirar-me o trono. Não cheguei tão longe nem suportei tanta coisa para eles, agora, me roubarem o país e o lançarem no pecado. Não lhes darei essa satisfação.

Encaminhou-se para casa.

- Vem, Hannah! - gritou-me. - Vem depressa!

Escreveu a avisar Elizabeth e a pedir conselho. Não vi nenhuma das cartas, mas, nessa mesma noite, utilizei a carta do meu pai que Lord Robert me tinha entregue e escrevi uma mensagem em código:

"M ficou alarmada por o seu nome não figurar nas orações. Acha que LadyJ será nomeada herdeira. Escreveu a Elizabeth para a avisar e ao embaixador espanhol a pedir conselho." Detive-me. Codificar todas as letras era uma tarefa dura, mas Queria escrever uma frase, uma palavra, para ele se lembrar de mim e fazê-lo chamar-me de novo à corte. Algo simples que o levasse a pensar em mim, não como espia nem bobo, mas como uma rapariga que prometera servi-lo de coração e alma, por amor.

"Tenho saudades vossas", escrevi, mas depois risquei a frase sem sequer me dar ao trabalho de a reverter em código.

A frase "Quando é que posso regressar a casa?", teve o mesmo destino.

"Estou assustada" foi a confissão mais honesta.

Acabei por nada escrever pois não conseguia pensar numa maneira de atrair a sua atenção numa altura em que o jovem rei estava a morrer e a própria cunhada de Lord Robert se preparava para subir ao trono de Inglaterra, conferindo, assim, poder absoluto aos Dudley.

Nada mais havia a fazer senão aguardar que a notícia da morte do rei chegasse de Londres. Lady Mary continuava a receber e a enviar mensagens particulares. Mais ou menos de três em três dias recebia uma carta do duque a falar do bom tempo e da convalescença do rei; a febre tinha baixado, sentia menos dores no peito e fora nomeado um novo médico que tinha fortes esperanças no restabelecimento do monarca em meados do Verão. Observava Lady Mary a ler estas missivas optimistas e via-a franzir incredulamente os olhos; guardava-as depois numa gaveta da escrivaninha e nunca mais voltava a olhar para elas.

Nos princípios de Julho, uma carta fê-la perder a respiração e levar uma mão ao peito.

- Como está o rei, Alteza? - perguntei-lhe. - Espero que não tenha piorado.

As suas faces ardiam.

- O duque diz que ele está melhor e que deseja ver-me - levantou-se e dirigiu-se para a janela. - Queira Deus que esteja realmente melhor - disse para consigo mesma. - Melhor e com vontade de restabelecer a nossa velha afeição, melhor e dando-se conta das intenções dos seus falsos conselheiros. Talvez Deus lhe tenha dado forças para perceber finalmente o que se passa à sua volta.

Ou, pelo menos, para pôr termo a estas intrigas. Oh, Virgem Santíssima, diz-me o que devo fazer.

- Desejais partir imediatamente? - perguntei. A ideia de regressar a Londres, de ver novamente Lord Robert, o meu pai e Daniel, e de voltar para junto das pessoas que poderiam proteger-me, tinha-me feito levantar.

- Se ele solicita a minha presença, é evidente que tenho de ir -disse ela, endireitando resolutamente os ombros. - Manda preparar OS cavalos. Partiremos amanhã.

Saiu da sala num restolhar de saias e ouvi-a chamar as damas de companhia para fazerem as malas. íamos todas para Londres. Os passos dela ressoaram no chão de madeira do andar de cima com a ligeireza dos pés de uma rapariga e a voz dela ecoou com excitação ao pedir a Jane Dormer para não se esquecer de levar as jóias pois, se o rei estava realmente melhor, haveria um baile na corte.

No dia seguinte, pusemo-nos a caminho com o estandarte de Lady Mary à frente e escoltadas por soldados; os aldeões saíam de casa evocando a benção divina para ela, e trazendo os filhos nos braços para eles a verem: uma princesa autêntica e, ainda por cima, sorridente.

A cavalo, Lady Mary era diferente da mulher meio prisioneira e pálida que eu vira pela primeira vez em Hunsdon. Cavalgando rumo a Londres com o povo inglês a aclamá-la, portava-se como uma verdadeira princesa. O vestido vermelho escuro realçava o brilho dos sews olhos escuros. Montava bem, com uma mão enluvada de vermelho a segurar as rédeas e a outra a acenar a quem a chamava, o rosto corado, a cabeça erguida, uma madeixa de cabelo castanho a escapar do chapéu; mostrava-se animada e os sinais de cansaço tinham desaparecido. Bem sentada na sela, orgulhosa como uma rainha e balançando-se ao ritmo do cavalo, seguia ao longo da grande estrada de Londres.

Cavalguei grande parte do tempo a seu lado no pónei castanho avermelhado que o duque me dera, esforçando-me por acompanhar o passo do cavalo de Lady Mary. Pediu-me para cantar árias espanholas da minha infância e, por vezes, reconhecia a letra ou a melodia, por ter ouvido a mãe entoá-las, e cantava juntamente comigo em voz trémula recordando a mãe que a tinha amado.

Aproximávamo-nos de Londres, passando a vau os ribeiros nos seus leitos de Verão e trotando quando o caminho era suficientemente macio. Ela estava ansiosa por chegar à corte a fim de saber o que se passava. Lembrei-me do espelho de John Dee e de como eu tinha previsto a data da morte do rei, 6 de Junho, mas não ousava dizer nada. Dissera o nome da próxima rainha de Inglaterra, e não era Lady Mary. Tinha mencionado o dia de 6 de Junho para agradar “a Lord Robert, mas o nome de Jane viera-me involuntariamente à cabeça - ambas as coisas podiam não ter qualquer significado. Mas, enquanto Lady Mary rumava para Londres esperando que os seus temores fossem infundados, eu esperava que os meus dons de vidência viessem a revelar-se absurdos e falsos.

De todo o séquito que acompanhava Lady Mary, eu era quem estava mais nervosa pois, se a minha profecia fosse verdadeira, ela não iria reconciliar-se com o rei, mas assistir à coroação de Lady Jane. Galopava rumo à sua própria deposição e todos nós partilharíamos o seu azar.

Viajámos toda a manhã e chegámos pouco depois do meio-dia a Hoddesdon, cansadas de montar; esperávamos comer um bom repasto e repousar antes de prosseguir viagem. Sem qualquer aviso, um homem saiu de uma porta e fez sinal a Lady Mary que pareceu reconhecê-lo e lhe acenou com a mão para ele se aproximar. O homem veio colocar-se junto do seu cavalo, segurando familiarmente nas rédeas, e ela inclinou-se para falarem em privado. A conversa foi muito breve e, embora eu me esforçasse, não consegui ouvir o que diziam. A seguir, o desconhecido afastou-se, desaparecendo nas ruas estreitas da pequena cidade e Lady Mary, saltando da sela tão depressa que o mestre da cavalariça mal teve tempo de a amparar, ordenou que parássemos. Entrou na estalagem mais próxima, gritando por papel e uma pena; deu ordem para que nos servissem de comer e beber, e tratassem dos cavalos, avisando-nos de que voltaríamos a partir dentro de uma hora.

- Por amor de Deus! Não aguento mais - queixou-se Lady Margaret quando a sua ama real passou por ela. - Estou demasiado cansada.

Lady Mary, que nunca era brusca, replicou:

- Então, fica aqui - o que nos fez perceber que algo corria terrivelmente mal.

Não me atrevi a escrever a Lord Robert. Não era fácil fazer chegar-lhe uma missiva às mãos e o estado de espírito da viagem tinha repentinamente mudado. O que quer que fosse que o desconhecido lhe dissera não fora certamente que o rei estava melhor e que queria convidá-la para um baile na corte. Estava pálida e tinha os olhos vermelhos, mas o pesar não a desencorajara. Tinha um ar resoluto e irado.

Enviou um mensageiro ao embaixador espanhol a pedir conselhos e a pedir-lhe que alertasse o imperador espanhol de que precisaria da sua ajuda para reclamar o trono. Chamou outro mensageiro de para enviar um recado verbal a Lady Elizabeth pois não ousava escrever-lhe nem dar a impressão de que as irmãs conspiravam contra o irmão moribundo.

- Fala apenas quando estiveres sozinho com ela - recomendou. — Diz-lhe para não ir a Londres. É uma armadilha. Diz-lhe para vir imediatamente ter comigo para sua própria segurança.

Enviou ainda outra mensagem ao próprio duque, afirmando sentir-se demasiado doente para se deslocar a Londres e que, portanto, ficaria a repousar em Hunsdon. A seguir, ordenou ao grosso da comitiva para se deixar ficar para trás.

- Margaret e a Hannah virão comigo - disse. Sorriu à sua favorita, Jane Dormer.

- Vem atrás de nós - disse-lhe, inclinando-se para lhe segredar ao ouvido o nosso destino. - Conduz esta comitiva. Nós vamos viajar demasiado depressa para toda a gente poder seguir-nos.

Escolheu seis homens para nos escoltar, despediu-se em breves palavras do seu séquito e fez sinal ao mestre de cavalariça para a ajudar a montar. Fez rodopiar o cavalo e conduziu-nos para fora de Hoddesdon pelo caminho por onde tínhamos vindo. Desta vez, rumamos a Norte, afastando-nos a galope de Londres. O Sol punha-se à nossa esquerda enquanto o céu ia perdendo a sua cor e uma Lua prateada surgia acima das silhuetas sombrias das árvores.

- Aonde vamos, Lady Mary? Está a escurecer - perguntou-lhe queixosamente Lady Margaret. - Não podemos cavalgar em plena escuridão.

- Kenninghall - retorquiu Lady Mary em tom crispado.

- Onde fica Kenninghall? - perguntei a Lady Margaret ao ver a sua expressão desolada.

- Em Norfolk - disse ela como se fosse no fim do mundo. - Deus nos ajude! Lady Mary está a fugir.

- Fugir? - gaguejei, a voz embargada pelo medo.

- Kenninghall fica perto da costa e ela vai certamente tomar um barco em Lowestoft, rumo a Espanha. O que quer que fosse que o homem lhe disse deve significar que ela corre perigo e que tem de abandonar o país a toda a pressa.

- Mas que perigo? - perguntei ansiosamente. Lady Margaret encolheu os ombros.

- Quem sabe? Foi provavelmente acusada de traição... Mas então, e nós? Se ela for para Espanha, eu voltarei para casa. Não quero ter uma traidora como ama. Tem sido suficientemente mau na Inglaterra, não vou agora exilar-me na Espanha.

Não proferi palavra. Dava febrilmente voltas aos miolos para pensar num lugar onde estaria mais segura: em casa do meu pai, com Lady Mary ou refugiada junto de Lord Robert.

- E tu? - perguntou-me Lady Margaret.

Abanei a cabeça, esfregando freneticamente as faces, pois o medo tinha-me feito perder a voz.

- Não sei, não sei - acabei por conseguir articular. - Suponho que devia regressar a casa, mas desconheço o caminho. Não sei o que o meu pai desejaria que eu fizesse. A situação é demasiado confusa.

Ela soltou uma gargalhada amarga, demasiado amarga para uma mulher tão jovem.

- Não é nada confusa - disse. - Há apenas vencedores e vencidos. E Lady Mary, com seis homens, comigo e com um bobo, contra o duque de Northumberland e o seu exército, a Torre de Londres e todos os castelos do reino, vai perder.

Foi uma cavalgada dura. Só parámos quando já era noite cerrada, na mansão de um fidalgo, John Huddlestone, em Sawston Hall. Pedi à governanta que me desse uma folha de papel e escrevi uma carta, não a Lord Robert, cuja morada não me atrevia a dar, mas a John Dee. "Meu caro tutor", escrevi, esperando que isto enganasse quem abrisse a carta. "Esta pequena charada talvez vos divirta." E, por baixo, redigi as letras de código em círculo para dar a impressão de um jogo que uma rapariga da minha idade enviasse a um amável homem de estudos. Dizia simplesmente: "Ela dirige-se para Kenninghall." E, a seguir, acrescentei. "O que devo fazer?"

A governanta prometeu enviá-la a Greenwich pela carroça que passaria no dia seguinte e eu só pude rezar para que chegasse ao seu destino e fosse lida pela pessoa certa. A seguir, meti-me na cama que tinham colocado ao lado do forno da cozinha, mas, apesar de me sentir exausta, não preguei olho, perguntando-me onde é que poderia estar a salvo.

Acordei penosamente cedo, às cinco da madrugada, e dei com o moço de cozinha a passar ruidosamente junto da minha cabeça com baldes de água e sacos de lenha. Lady Mary assistiu à missa na capela de John Huddlestone, como se não se tratasse de uma cerimónia proibida, desjejuou e tornou a montar na sela às sete da manhã, partindo de Sawston Hall muito bem disposta, com Huddlestone ao lado para lhe indicar o caminho.

Eu cavalgava atrás, pois o meu pónei estava demasiado cansado para acompanhar a dúzia de cavalos à minha frente, quando senti um odor horrível no ar. Cheirava a queimado. Não o apetitoso aroma a carne assada nem o inocente odor de folhas a arder, mas o cheiro a heresia, um fogo ateado com mão malévola para destruir a felicidade de alguém, a sua casa, a sua crença... Virei-me na sela e avistei um clarão de labaredas no horizonte onde a casa que tínhamos acabado de deixar ficava. Sawston Hall estava a ser incendiada.

- Lady Mary! - chamei. Ela ouviu-me e virou a cabeça, puxando depois as rédeas para deter o cavalo. John Huddlestone imitou-a.

- É a vossa casa! - disse simplesmente a Huddlestone.

Ele olhou por cima do meu ombro, encarquilhando os olhos. Não estava bem certo.

- Tens a certeza, Hannah? - perguntou-me Lady Mary. Acenei a cabeça.

- Sinto o cheiro - disse em voz trémula e esfregando o rosto como se as cinzas de uma fogueira estivessem a cair-me em cima. - A vossa casa está a ser incendiada, meu senhor.

Ele virou o cavalo como para dar meia volta e, então, lembrou-se da mulher cuja visita lhe tinha custado a casa e a fortuna.

- Perdoai-me, Lady Mary, mas tenho de regressar... A minha mulher...

- Vai - disse ela docemente. - E podes ficar ciente de que, quando eu entrar na posse da minha herança, serás recompensado. Dar-te-ei outra casa, maior e mais rica do que aquela que perdeste por me seres leal. Não me esquecerei de ti.

Mal a ouvindo por causa da sua grande aflição, John Huddlestone esporou o cavalo e partiu a galope em direcção à casa. O seu palafreneiro permaneceu ao lado de Lady Mary.

- Quereis que vos sirva de guia, Alteza? - perguntou.

- Quero - respondeu ela. - Podes conduzir-me a Bury St. Edmunds?

Ele voltou a pôr o chapéu na cabeça.

- Através de Mildenhall e da floresta de Thetford? Sim, Alteza.

Lady Mary fez sinal para continuarmos e voltou a partir sem olhar para trás. Eu pensei para comigo que uma pessoa que tinha a coragem de presenciar a destruição da casa onde passou a noite e de pensar apenas na luta que tinha pela frente e não nas ruínas deixadas para trás era realmente uma princesa.

Nessa noite ficámos em Euston Hall, perto de Thetford. Deitei-me no chão do quarto de Lady Mary, embrulhada na minha capa e completamente vestida à espera do sinal de alarme que eu tinha a certeza de que viria. Os meus sentidos mantiveram-se em estado de alerta durante toda a noite: o ruído de passos abafados, uma sombra, o cheiro a fumo de um archote. Pouco mais fiz do que dormitar, esperando ver a qualquer momento uma multidão de protestantes chegar e arrasar o nosso refúgio como tinha feito em Sawston Hall. Assustava-me muito ficar encurralada dentro de casa quando deitassem fogo ao telhado e às escadas. Não conseguia fechar os olhos com medo de ser acordada pelo cheiro do fumo e, assim, quase me senti aliviada quando, de madrugada, ouvi o barulho de cascos de cavalos na rua. Satisfeita por a minha noite de insónia ser recompensada, precipitei-me para a janela, fazendo sinal a Lady Mary quando esta acordou para se manter quieta.

- Consegues ver alguma coisa? - perguntou-me da cama, afastando os cobertores. - Quantos são?

- Apenas um cavaleiro com ar cansado.

- Vai ver quem é.

Desci apressadamente as escadas. O porteiro discutia pelo postigo com o viajante que parecia pedir guarida. Toquei no ombro do porteiro e ele afastou-se. Tive de me pôr em bicos dos pés para ver através do buraco da porta.

- Quem sois? - perguntei no tom mais grosso que consegui para dar a impressão de um à-vontade que não sentia.

- E vós? - retorquiu o viajante. Dei-me imediatamente conta de que tinha um sotaque londrino.

- É melhor que me digais ao que vindes - insisti. Ele aproximou-se do postigo e baixou a voz:

- Trago notícias urgentes a uma dama da corte. É acerca do irmão dela. Percebeis?

Não havia maneira de saber se ele era enviado ou não para nos apanhar. Corri o risco e fiz sinal ao porteiro.

- Deixa-o entrar e, depois, volta a trancar a porta.

Ele entrou e desejei que as minhas faculdades de prever o futuro funcionassem quando eu queria. Teria dado tudo para saber se havia um bando de homens lá fora que, neste preciso momento, cercava a casa preparando-se para deitar-lhe fogo. Mas não podia estar segura de nada a não ser de que o desconhecido estava realmente exausto e coberto de poeira.

- Qual é a mensagem?

- Só a direi à dama em questão.

Ouvi um restolhar de saias de seda e Lady Mary desceu as escadas.

- Quem és? - perguntou-lhe. A reacção dele ao vê-la convenceu-me de que o homem estava do nosso lado e que, de um dia para o outro, o mundo tinha mudado a nosso favor. Com a rapidez de um falcão, pôs um joelho em terra e tirou o chapéu da cabeça, fazendo-lhe uma vénia como diante de uma rainha.

Mas ela manteve-se impassível e estendeu-lhe a mão a beijar como se tivesse sido rainha de Inglaterra toda a sua vida. Ele bei-jou-a respeitosamente e, depois, olhou para ela.

- Chamo-me Robert Raynes e sou ourives em Londres. Fui enviado por Sir Nicholas Throckmorton para vos dar a notícia de que o vosso irmão Edward morreu, Alteza. Sois a rainha de Inglaterra.

- Deus o abençoe - murmurou ela. - Que a preciosa alma de Edward repouse em paz.

Houve um curto silêncio.

- Morreu na fé católica?

Ele abanou a cabeça.

- Morreu como protestante.

- E fui proclamada rainha? - perguntou em tom mais brusco. Ele voltou a abanar a cabeça.

- Posso falar livremente?

- Não fizeste uma longa jornada para me comunicar uma charada - observou ela secamente.

- O rei morreu com grande sofrimento na noite do dia seis -disse ele em voz baixa.

- A seis? - interrompeu ela.

- Sim. E, antes de morrer, alterou o testamento do pai.

- Não tinha direito legal para o fazer. Não pode ter mudado a sucessão.

- Não obstante, fê-lo. A sucessão foi-vos negada, bem como a Lady Elizabeth. E Lady Jane é a sucessora do rei Edward.

- Ele nunca teria feito isso de livre vontade - disse ela, empalidecendo.

O homem encolheu os ombros.

- Foi redigido pela sua mão e o conselho e os juízes concordaram e assinaram.

- Todo o conselho? - perguntou Lady Mary.

- Por unanimidade.

- E que me vai acontecer?

- Vim avisar-vos de que sois considerada traidora ao trono e que Lord Robert Dudley vem a caminho para vos prender e para vos levar para a Torre de Londres.

- Lord Robert vem aí? - perguntei sem poder conter-me.

- Irá, primeiro, a Hunsdon - tranquilizou-me Lady Mary.

- Escrevi ao pai dele a dizer que ficaria lá. Não sabem onde estamos.

Não a contradisse, mas sabia que John Dee lhe enviaria o meu recado nesse mesmo dia e que, graças a mim, ele saberia exactamente onde nos procurar.

- E Lady Elizabeth? - perguntou, manifestando a sua preocupação com a irmã.

O emissário voltou a encolher os ombros.

- Não sei. Talvez já tenha sido presa. Preparavam-se para ir igualmente a sua casa.

- Onde está agora Lord Robert Dudley?

- Também não sei. Levei o dia inteiro para vos encontrar. Segui a vossa pista desde Sawston Hall porque ouvi falar do incêndio e depreendi que havíeis lá estado. Lamento, Alteza.

- E quando foi anunciada a morte do rei? E Lady Jane já foi ilegalmente proclamada?

- Não até eu partir.

Lady Mary levou uns instantes a compreender e, depois, mostrou o seu desagrado.

- A morte dele não foi anunciada? O meu irmão jaz morto sem cerimónias religiosas e sem lhe prestarem honras militares?

- A sua morte ainda era segredo quando parti.

Ela mordeu os lábios para não acrescentar mais nada, os olhos repentinamente velados e prudentes.

- Obrigada por teres vindo - disse. - Os meus agradecimentos igualmente a Sir Nicholas pelos seus serviços, os quais eu não podia antecipar.

O seu sarcasmo era assaz evidente, mesmo para o mensageiro ajoelhado.

- Sir Nicholas disse-me que sois a verdadeira rainha - comentou ele espontaneamente. - E que ele e toda a sua gente estão ao vosso serviço.

- Sou, de facto, a verdadeira rainha - disse ela. - Sempre fui a verdadeira princesa e hei-de ter o meu reino. Podes dormir aqui esta noite. O porteiro vai arranjar-te uma cama. Volta para Londres amanhã de manhã e transmite-lhe os meus agradecimentos. Fez bem em informar-me. Sou a rainha e hei-de reaver o meu trono.

Virou-se e subiu as escadas. Hesitei apenas um segundo.

- Haveis dito o dia seis? - perguntei ao homem de Londres.

- O rei morreu a seis de Julho?

- Sim.

Fiz-lhe uma vénia e apressei-me a seguir Lady Mary. Assim que chegámos ao quarto, ela fechou a porta e desembaraçou-se da sua dignidade real.

- Arranja-me roupas de criada e acorda o palafreneiro de John Huddlestone - disse com urgência. - Vai depois aos estábulos e manda selar dois cavalos.

- Lady Mary...

- Trata-me por Majestade - interrompeu-me lugubremente. - Sou rainha de Inglaterra. Agora despacha-te.

- Que devo dizer ao palafreneiro?

- Que temos de chegar hoje a Kennighall. E que ele montará atrás de mim. Vamos deixar os outros aqui, mas tu vens comigo.

Acenei a cabeça e saí apressadamente do quarto. A criada que se tinha ocupado de nós na véspera estava a dormir com o resto da criadagem no sótão. Sacudi-a até ela acordar e, tapando-lhe a boca, sussurrei:

- Estou farta disto. Vou fugir. Dou-te um xelim de prata pela tua roupa. Podes dizer depois que ta roubei.

- Dois xelins - propôs imediatamente.

- Combinado. Dá-ma cá e eu trago-te já o dinheiro. Tirou o saiote e a camisa de debaixo da almofada.

- Só quero o vestido e a capa - disse-lhe, horrorizada perante a ideia de vestir a rainha de Inglaterra com roupa cheia de piolhos.

Fez uma trouxa e eu voltei ao quarto para a entregar a Lady Mary.

- Custou dois xelins.

Procurou as moedas na bolsa.

- Não trouxeste botas.

- Calçai, por favor, as vossas - roguei-lhe. - Já fugi muitas vezes e sei como é. Não ireis muito longe com botas emprestadas.

Sorriu-me.

- Despacha-te - foi tudo o que disse.

Corri pela escada acima para dar o dinheiro à criada; encontrei Tom, o palafreneiro de John Huddlestone, e mandei-o selar os cavalos. Fui à padaria que ficava mesmo ao lado da cozinha e, como esperava, encontrei pãezinhos no forno. Enchi os bolsos do casaco e das calças com meia dúzia deles, o que me fez parecer um burro com cestos aos lados, e, depois, voltei à sala.

Lady Mary encontrava-se lá vestida de criada com o capuz puxado sobre o rosto. O porteiro discutia com ela pois não queria abrir a porta dos estábulos a uma criada. Ao ouvir os meus passos ligeiros nas lajes de pedra, ela virou-se, aliviada.

- Abre lá - disse eu em tom aliciante ao porteiro. - É a criada de John Huddlestone e o palafreneiro está à espera. Combinámos partir para Sawston Hall ao raiar da aurora e seremos punidas se chegarmos atrasadas.

Ele barafustou acerca dos visitantes que vinham perturbar o sono de uma casa cristã à noite e das pessoas que viajavam demasiado cedo, mas acabou por abrir a porta e Lady Mary e eu saímos. Tom estava no pátio segurando dois cavalos pelas rédeas: um grande com duas selas para ele e para a minha ama, e um mais pequeno para mim - tinha de abandonar o meu pónei pois esta seria uma viagem dura.

Tom montou e levou o cavalo até ao escadote. Eu ajudei Lady Mary a sentar-se atrás dele. Ela agarrou-se bem a ele e puxou o capuz para baixo, escondendo o rosto. Também eu tive de trepar ao escadote para conseguir montar, pois o estribo estava demasiado alto para mim; uma vez em cima do cavalo, o chão parecia muito distante e o animal agitava-se nervosamente. Puxei as rédeas, fazendo-o levantar a cabeça e escorregar. Nunca montara um bicho tão grande e tive medo, mas nenhum cavalo mais pequeno aguentaria a jornada que tínhamos hoje de fazer.

Tom saiu à frente e eu seguiu-o com o coração a bater pois fugia mais uma vez e receava que estivesse metida num sarilho mais grave do que quando tivera de escapar de Espanha, de Portugal ou até mesmo de França. Desta vez, fugia com a pretendente ao trono de Inglaterra e Lord Robert Dudley vinha atrás de nós, sendo eu serva de confiança dele e judia, mas cristã praticante a servir uma princesa papista num país protestante. Não admirava, portanto, que tivesse o coração na boca e a bater desenfreadamente quando rumámos para leste em direcção ao Sol nascente.

Ao chegarmos a Kenninghall ao meio-dia, percebi porque tínhamos galopado a toda a brida para chegar aqui. O Sol estava bem alto no céu e a mansão fortificada parecia inexpugnável naquela paisagem plana. Aproximamo-nos e vi que não era nenhum castelo de brincar; tinha uma ponte levadiça e um gradeamento por cima que podia descer para selar a única entrada. Era feita de tijolo vermelho, o que lhe dava o desconcertante aspecto de casa acolhedora que, contudo, podia resistir a um cerco.

Como Lady Mary não era aguardada, os poucos criados que lá viviam para a manter em ordem acorreram surpreendidos para a saudar. A um sinal dela, participei-lhes as assombrosas notícias provenientes de Londres enquanto conduziam os nossos cavalos para os estábulos. Aclamaram-na ao ouvir que ascendera ao trono, ouxando-me da sela e dando-me palmadas nas costas como se eu fosse o rapaz que aparentava ser.

Soltei um grito de dor. A parte interior das pernas, dos tornozelos às coxas, estava em carne viva e eu mal podia mexer as costas. Tinha os ombros e os pulsos doridos pelos três dias que tinha passado a cavalo.

Lady Mary, uma mulher de quase quarenta anos e com pouca saúde, devia estar morta de fadiga, mas só eu reparei no seu esgar de dor quando a puseram no chão; o que os outros viram foi a inclinação do seu queixo quando gritaram vivas e o encantador sorriso dos Tudor quando os convidou a todos para jantar na grande sala. Recolheu-se uns instantes para rezar pela alma do irmão morto e voltou depois de cabeça erguida, prometendo-lhes que, assim como fora uma boa ama, seria uma boa rainha.

Tais palavras deram azo a mais aclamações e a sala começou a encher-se de gente, trabalhadores, lenhadores e aldeões, e a criadagem andava numa roda viva a servir canecas de cerveja, taças de vinho, pão e carne. Lady Mary sentou-se à cabeceira da mesa, sorrindo a todos como se nunca tivesse estado doente na vida; uma hora mais tarde, contudo, despediu-se muito risonha a pretexto de ter de mudar de roupa e retirou-se para os seus aposentos. Os criados tinham-se atarefado e feito a cama com lençóis de linho; não era a melhor das camas, mas, se ela estava tão cansada Como eu, poderia ter adormecido numa enxerga. Trouxeram-lhe uma banheira com água quente e colocaram em cima da cama uns vestidos antigos, que Lady Mary lá deixara quando da sua última visita, para ela escolher.

- Já podes ir embora - disse-me, atirando o manto para o chão e virando-se para a criada de quarto para a ajudar a despir. - Come qualquer coisa e vai-te deitar. Deves estar exausta.

- Obrigada, milady - disse, encaminhando-me para a porta a cambalear.

- Hannah...

- Sim, milady... Majestade.

- Apesar de não saber quem te pagava para ficares em minha casa, e o que esperava ganhar com isso, tens sido uma boa amiga e eu não o hei-de esquecer.

Detive-me, pensando nas duas cartas escritas por mim a Lord Robert que o fariam vir no nosso encalço, pensando no que aconteceria a esta ambiciosa e determinada mulher quando fosse apanhada, e pensando que ele nos apanharia aqui pois dissera-lhe exactamente onde nos encontrar, o que significava que ela seria certamente presa na Torre de Londres e provavelmente executada por traição. Eu tinha sido uma espia em sua casa e fora a mais falsa das amigas, fora desleal e, em parte, ela sabia-o; mas não podia imaginar que a falsidade se tinha tornado parte da minha natureza.

Se, nesse momento, pudesse ter-me confessado a ela, tê-lo-ia feito. Tinha as palavras na ponta da língua. Queria dizer-lhe que fora colocada em casa dela para a prejudicar, mas que, agora que a conhecia e amava, estava disposta a tudo para a servir. Queria expli-car-lhe que Robert Dudley era o meu amo e que seria sempre obrigada a fazer tudo o que ele quisesse. Queria dizer-lhe que tudo o que eu fazia parecia sempre cheio de contradições: branco e preto, amor e medo, tudo ao mesmo tempo.

Mas nada conseguia dizer. Tinha sido criada para guardar segredos debaixo da minha língua mentirosa e, assim, pus apenas um joelho em terra diante dela e baixei a cabeça.

Ela não me estendeu a mão a beijar, como uma rainha o teria feito. Pôs-me a mão na cabeça, como a minha mãe costumava fazer, e disse:

- Deus te abençoe, Hannah, e não te permita pecar.

Nessa altura, perante tal ternura, senti os olhos rasos de água; saí do quarto e fui deitar-me sem comer nem tomar banho para que ninguém me visse chorar, como a criança que ainda era.

Há três dias que nos encontrávamos em Kenninghall em estado de alerta, mas Lord Robert continuava sem aparecer. Os fidalgos das redondezas vieram ter connosco com os seus servos e parentes, alguns deles armados, outros acompanhados por ferreiros para fazer flechas e lanças, e afiar as espadas. Lady Mary proclamou-se a si mesma rainha na grande sala apesar do conselho dos mais prudentes e de uma suplicante carta do embaixador espanhol. Ele escrevera-lhe a dizer que o irmão tinha morrido, que o duque de Northumberland era imbatível e que ela devia entrar em negociações com ele enquanto o tio, em Espanha, faria o possível para a inocentar das acusações de traição e da sua mais que certa condenação. Essa parte da carta indispusera-a, mas ainda havia pior.

A carta prevenia-a de que Northumberland enviara barcos de guerra de Norfolk para impedir que os espanhóis a socorressem.

Não havia escape possível e o imperador não podia sequer tentar salvá-la. Tinha de se render ao duque, abandonando-se à sua clemência, e desistir das suas pretensões à coroa.

- Consegues prever alguma coisa, Hannah? - perguntou-me. Era de manhã cedo e ela acabava de chegar da missa; ainda tinha o rosário entre os dedos e a testa húmida da água benta. O seu rosto, por vezes iluminado e alegre de esperança, estava lívido e cansado. Parecia estar doente de medo.

Abanei a cabeça.

- Convosco, só tive uma vez uma visão, Majestade. Estava certa de que seríeis rainha... Mas, desde então, nunca mais tive quaisquer visões.

- Agora, sou realmente rainha - disse com uma ponta de sarcasmo. - Pelo menos, proclamei-me como tal a mim mesma. Quem dera que me tivesses dito quanto tempo duraria e se mais alguém concordaria comigo.

- Eu também - disse sinceramente. - Que vamos fazer?

- Os conselheiros em quem tenho confiado toda a vida aconselham-me a render-me - disse ela simplesmente. - Os meus compatriotas espanhóis, os amigos da minha mãe, todos eles me dizem que serei executada se continuar por este caminho... Trata-se de uma batalha que não poderei ganhar. O duque controla a Torre de Londres e o país, tem navios de guerra no mar, um exército de seguidores e tem a guarda real do seu lado. Tem todo o dinheiro do reino e as armas enquanto eu só possuo este castelo, esta aldeia, um punhado de homens leais e as suas forquilhas. E, algures lá fora, Robert vem ao nosso encontro com as suas tropas.

- Não podemos fugir? - perguntei-lhe.

Abanou a cabeça.

- Não podemos fugir suficientemente depressa nem ir para um lugar suficientemente longe. Se tivesse conseguido embarcar num navio de guerra espanhol, talvez... mas o mar entre a Inglaterra e a França está nas mãos do duque. Ele estava preparado para isto e eu não. Estou encurralada.

Lembrei-me do mapa de John Dee desdobrado no gabinete do duque e das pequenas bandeiras representando barcos com marinheiros e soldados à volta de Norfolk. Lady Mary tinha sido apanhada no meio deles.

- Tereis de vos render?

Julguei que ela estivesse assustada, mas, à minha pergunta, a cor voltou-lhe às faces e sorriu, como se eu tivesse sugerido um desafio, um jogo.

- Maldita seja se o fizer! — praguejou, soltando uma gargalhada como se fosse uma aposta que estava em jogo e não a sua vida. - Passei a vida a fugir, a mentir e a esconder-me. Por uma vez, só desta vez, devia cavalgar sob o meu próprio estandarte e desafiar os homens que me repudiaram, que negaram o meu direito, a autoridade da Igreja e de Deus!

O seu entusiasmo contagiou-me.

- Minha... Majestade! - gaguejei. Lançou-me um sorriso radiante.

- Porque não? Porque é que, por uma vez, não me bato como um homem e os desafio?

- Mas, podereis vencer? - perguntei com ar espantado. Encolheu os ombros, num gesto absolutamente espanhol.

- Oh! Não é lá muito provável! - sorriu-me como se estivesse realmente satisfeita com a desesperada escolha que tinha pela frente. - Ah, mas Hannah, fui humilhada por esses homens que escolheram uma plebeia, como Lady Jane, para colocar no meu lugar. Já uma vez colocaram Elizabeth à minha frente na sucessão e fizeram-me servi-la como aia. Mas, agora, tenho a minha oportunidade. Posso lutar contra eles em vez de me inclinar. Posso morrer combatendo-os em vez de rastejar a seus pés, suplicando que me poupem a vida. Dou graças a Deus por não ter outra escolha senão erguer o meu estandarte e lutar pelo trono do meu pai e pela honra da minha mãe, pela minha herança. E tenho de pensar igualmente em Elizabeth e assegurar a sua segurança. É minha irmã e sou responsável por ela. Escrevi-lhe para vir ter comigo a fim de a proteger, prometi dar-lhe guarida e hei-de bater-me pela nossa herança.

Lady Mary pegou no rosário com os seus dedos curtos e guar-dou-o no bolso do vestido, encaminhando-se depois para a grande sala onde o seu exército de fidalgos e soldados comiam.

- Partimos hoje - anunciou em voz alta para que todos a ouvissem. - Vamos para Framlingham que não fica a mais de um dia a cavalo daqui. Se conseguirmos lá chegar antes de Lord Robert, poderemos resistir ao seu cerco durante meses. Reunirei tropas e darei batalha aos nossos inimigos.

Houve um murmúrio de surpresa e, depois, de aprovação.

- Confiem em mim! - acrescentou. - Não vos decepcionarei. Proclamaram-me vossa rainha e ainda hão-de ver-me sentada no trono. Lembrar-me-ei então de quem estava aqui hoje e sereis generosamente recompensados por cumprir o vosso dever para com a verdadeira rainha de Inglaterra.

Ouviu-se um profundo rugido vindo daqueles homens que acabavam uma lauta refeição. Senti os joelhos a tremer perante a Voragem dela. Lady Mary dirigiu-se para a porta do fundo da sala e eu precipitei-me para a abrir.

- Onde é que ele se encontra? - perguntei sem ter de lhe dizer de quem se tratava.

- Oh, não deve andar longe - respondeu ela em tom lúgubre. - A sul de King's Lynn, disseram-me. Algo deve tê-lo atrasado. Se tivesse vindo imediatamente,

ter-nos-ia apanhado aqui. Mas não tenho informações fiáveis e não sei onde ele se encontra exactamente.

- Dar-se-á ele conta de que vamos para Framlingham? -insisti, pensando no recado que lhe tinha enviado a dizer que ela estava aqui.

Deteve-se na ombreira da porta e virou-se para mim.

- Há certamente alguém aqui presente que irá contar-lhe. Há sempre um espião, não concordas comigo, Hannah?

Por uns instantes, julguei que ela me tinha apanhado. Empalideci e olhei para ela, as minhas mentiras secas na garganta.

- Um espião? - gaguejei. Levei a mão ao rosto e esfreguei-o com força.

Ela acenou com a cabeça.

- Não confio em ninguém. Sempre soube que estava rodeada “ de espiões. E se tu tivesses passado pelo que eu passei, aperceber- te-ias da mesma coisa. Depois de o meu pai ter afastado a minha mãe de mim, não houve ninguém que não tivesse tentado persuadir-me de que Ana Bolena era a verdadeira rainha e de que o seu filho bastardo era o sucessor legítimo. O duque de Norfolk gritou à minha frente que, se fosse meu pai, bateria com a minha cabeça nas paredes até me rebentar os miolos. Obrigaram-me a rejeitar a minha mãe e a minha fé, e, a exemplo do que aconteceu com Thomas Moore e o bispo Fisher, homens que eu conhecia e amava, ameaçaram-me com o cadafalso. Tinha vinte anos e forçaram-me a declarar que era filha ilegítima e que a minha religião era uma heresia. "Depois de Ana morrer naquele dia de Verão, toda a gente se pôs a falar da rainha Jeanne e do filho, Edward, e a pequena Elizabeth deixou de ser minha inimiga, mas uma criança sem mãe, uma filha esquecida, como eu. A seguir, deram-me ordem para me curvar diante de três outras rainhas que vieram umas atrás das outras... - disse quase a sorrir. - E a tratá-las por mãe, mas não gostei de nenhuma delas. Aprendi a não acreditar na palavra de nenhum homem e a nem sequer escutar as mulheres. A última mulher que amei foi a minha mãe e o último homem em quem confiei foi o meu pai. E ele destruiu-a e ela morreu com o coração destroçado.

Que devo então pensar? Poderei alguma vez vir a confiar em alguém? Calou-se e fitou-me.

- O meu coração foi destroçado quando tinha pouco mais de vinte anos - prosseguiu, pensativa. - E sabes uma coisa?... Só agora começo a pensar que talvez haja uma vida para mim.

Sorriu.

- Oh, Hannah! - suspirou, fazendo-me uma festa na face. - Não fiques tão séria. Isso passou-se há muito tempo e, se triunfarmos nesta aventura, a minha história terminará bem. Restaurarei o trono de minha mãe e usarei as suas jóias. Honrarei a sua memória e, do alto dos céus, ela verá sentada no trono a filha que concebeu para o herdar. E considerar-me-ei uma mulher feliz, estás a perceber?

Sorri, pouco à vontade.

- Que se passa? - perguntou-me. Engoli em seco.

- Tenho medo - confessei. - Lamento, Majestade.

Acenou com a cabeça.

- Todos temos medo - disse francamente. - E eu também. Vai buscar um cavalo ao estábulo e calça um par de botas de montar. Hoje, seremos um exército em marcha. Deus nos permita chegar a Framlingham sem encontrar Lord Robert e as suas tropas.

Mary içou o seu estandarte no castelo de Framlingham, uma fortaleza comparável a qualquer outra em Inglaterra e, inacreditavelmente, surgiu uma enorme multidão, a cavalo e a pé, para lhe prestar juramento de fidelidade e combater os rebeldes. Acompanhei-a quando ela passou em revista aquela multidão e lhe agradeceu ter vindo em sua ajuda, prometendo que seria uma honesta e verdadeira rainha.

Recebemos, finalmente, notícias de Londres. Tinham anunciado a morte de Edward vergonhosamente tarde. Depois da morte do pobre rapaz, o duque mantivera o corpo escondido nos aposentos reais enquanto a tinta do seu testamento secava e os poderosos do país congeminavam sobre onde estariam os seus melhores interesses. Ladyjane Grey tinha sido arrastada à força para o trono pelo sogro; contava-se que chorara amargamente gritando que não podia ser rainha pois, como toda a gente sabia, Lady Mary era a herdeira legítima. Tudo isso, no entanto, não a tinha salvo do seu destino. Colocaram-lhe o manto real sobre os ombros caídos e serviram-na com um joelho em terra apesar dos seus lacrimosos protestos, e o astucioso duque de Northumberland proclamou-a rainha.

O país entrou em guerra, desencadeada contra nós, os traidores. Lady Elizabeth não tinha respondido aos avisos de Lady Mary nem viera juntar-se a nós em Framlingham. Tinha adoecido ao saber da morte do irmão e estava tão doente que nem sequer lia as cartas. Ao ser prevenida acerca de tal comportamento, Lady Mary tentou ocultar a sua dor. Tinha contado com o apoio dela, as duas princesas a defenderem a vontade do pai, e prometera a si mesma proteger a irmã. Saber que Elizabeth se escondia debaixo dos lençóis em vez de correr ao encontro dela, era um golpe contra o seu coração e contra a sua causa.

Informaram-nos de que o castelo de Windsor tinha sido abastecido e fortificado para resistir a um cerco, que os canhões da Torre de Londres estavam apontados para o interior do país, prontos a enfrentar o inimigo e que a rainha Jane se instalara nos aposentos reais da Torre cujo portão era trancado todas as noites para impedir a fuga de algum cortesão: uma rainha coagida, juntamente com toda a sua corte.

O próprio Northumberland, veterano endurecido por tantas guerras, tinha constituído um exército e vinha atacar Lady Mary que, Agora, fora oficialmente declarada traidora pela rainha Jane.

- Que grande rainha realmente! - exclamou, irritada, Jane Dormer. O conselho real tinha ordenado a prisão de Lady Mary por traição e a sua cabeça estava a prémio. Era proscrita em toda a Inglaterra. Era uma rebelde contra uma rainha proclamada. Nem Sequer o tio, o imperador espanhol, a apoiaria.

Ninguém sabia quantos homens Northumberland tinha sob o seu comando nem quanto tempo nós seríamos capazes de resistir em Framlingham. O duque iria juntar-se às tropas a cavalo de Lord Robert e, a seguir, ambos atacariam Lady Mary: um exército experiente, bem treinado e bem pago contra uma mulher e uma multidão caótica de voluntários.

E, no entanto, todos os dias chegava mais gente das redondezas que jurava defender a verdadeira rainha. Os marinheiros dos barcos de guerra ancorados em Yarmouth cujas ordens eram de atacar quaisquer navios espanhóis que surgissem ao largo para a socorrer, tinham-se revoltado contra os superiores e declarado que ela não devia sair do país: não porque lhe tivessem bloqueado a passagem, mas porque devia subir ao trono. Abandonaram os barcos e vieram em nosso socorro, entrando no castelo de Framlingham a marchar como tropas disciplinadas. Puseram-se imediatamente a ensinar os camponeses a combater segundo as regras dos campos de batalha: a carregar sobre o inimigo, a manobrar e a retirar em boa ordem. Ao assistir à sua chegada pensei, pela primeira vez, que Lady Mary talvez conseguisse escapar.

Foi nomeado um funcionário real para se encarregar de trazer provisões destinadas ao nosso exército de fortuna que, agora, acampava à volta do castelo, e uma equipa de pedreiros para consertar as muralhas; enviou-se gente à procura de armas e os batedores partiam ao nascer e ao pôr do Sol para detectarem a aproximação do exército do duque e do filho.

Todos os dias, Lady Mary passava as tropas em revista para lhes agradecer e prometer uma recompensa se resistissem; e, todas as tardes, percorria a impenetrável muralha que rodeava o castelo e olhava na direcção de Londres para tentar avistar a nuvem de poeira que lhe anunciaria a chegada de Northumberland, o homem mais poderoso de toda a Inglaterra.

Havia demasiados conselheiros a dizerem-lhe que ela não venceria uma batalha em campo aberto contra o duque. Eu costumava escutar as suas confiantes previsões e perguntar-me se não seria melhor fugir agora, antes do combate que terminaria seguramente numa derrota. O duque tinha conseguido dezenas de vitórias no campo de batalha e na câmara. Fizera uma aliança com a França e, se não nos derrotasse logo, podia pedir o envio de tropas francesas; os franceses combateriam em solo inglês, matariam ingleses, e a culpa de tudo isso seria atribuída a Lady Mary. Se esta não se rendesse, repetir-se-ia o horror da Guerra das Rosas, essa luta fratricida.

Mas, em meados de Julho, a posição do duque mudou radicalmente. Todas as suas alianças e tratados nada puderam contra a opinião geral de que Mary, filha do rei Henry, era a rainha legítima. Northumberland era odiado por muitos e tornou-se evidente que, assim como tinha governado através de Edward, também utilizaria Jane para governar a Inglaterra. A nação inteira, desde o cidadão mais nobre ao mais plebeu, manifestou-se contra ele.

O plano que maquinara foi revelado e houve cada vez mais gente a declarar publicamente o seu apoio a Lady Mary; cada vez mais gente abandonou a causa do duque e o próprio Lord Robert foi derrotado por um exército de homens ultrajados que pegaram em armas para defender a rainha legítima. Lord Robert desertou do pai e ofereceu os seus serviços a Lady Mary, mas, apesar de ter virado a casaca, foi capturado em Bury e acusado de traição. O duque, encurralado em Cambridge, com o seu exército a desvanecer-se como a neblina matinal, anunciou subitamente ser a favor de Lady Mary enviando-lhe uma mensagem para explicar que apenas tentara servir o reino o melhor que podia.

- Porque estais assim? Que significa isto? - perguntei-lhe ao ver a mão que segurava a carta tremer tão violentamente que ela mal a conseguia ler.

- Significa que vencemos - disse simplesmente. - Vencemos por direito e não

à custa de uma batalha. Sou rainha por escolha do povo. Apesar das manobras do duque, o povo pronunciou-se e quer-me como rainha.

- E o que vai acontecer ao duque? - perguntei, pensando em Lord Robert preso algures.

- É um traidor - respondeu ela friamente. - Que achas que me aconteceria se tivesse perdido?

Não disse nada. Esperei um momento, com o meu coração de rapariga a palpitar, e acrescentei num fio de voz:

- E que acontecerá ao filho?

Lady Mary virou-se para mim.

- É um traidor e filho de um traidor. Que achas que lhe vai acontecer igualmente?

Lady Mary montou no seu grande cavalo e partiu para Londres com dois mil homens a cavalo atrás dela e os homens destes, arrendatários, servidores e seguidores a pé. Lady Mary ia a frente de um poderoso exército apenas com as suas damas e eu, o bobo, ao seu lado.

Quando olhava para trás, via a poeira levantada pelos cascos dos cavalos e pelos pés de milhares de homens a pairar como um véu sobre os campos cultivados. Ao passarmos pelas aldeias, os homens saíam a correr das suas casas com forquilhas na mão e reuniam-se ao exército, acompanhando o passo dos soldados em marcha. As mulheres acenavam e gritavam, e algumas delas vinham trazer flores a Lady Mary ou atiravam rosas para a estrada à sua passagem. Lady Mary, com o seu velho trajo vermelho de montar e a cabeça levantada, cavalgava o seu grande cavalo como um cavaleiro a caminho da batalha. Montava como uma princesa de um conto de fadas a quem. no fim, tudo é concedido. Tinha conquistado a maior vitória da sua vida por pura coragem e determinação, e a recompensa era a adoração do povo que queria governar.

Toda a gente julgava que, com a sua subida ao trono, regressariam os anos prósperos, as boas colheitas, o tempo ameno e seria o fim das constantes epidemias de peste, suores e gripe. Todos pensavam que ela restauraria a riqueza da Igreja, a beleza dos santuários e a fé. Todos se lembravam da beleza e doçura da mãe que fora rainha de Inglaterra durante mais tempo do que ela tinha sido princesa de Espanha, que fora a mulher que o rei amara mais e durante mais tempo, e que tinha morrido abençoanclo-o, embora ele a tivesse repudiado. Todos estavam contentes por ver a filha a caminho do trono da mãe com o seu chapéu dourado na cabeça e um exército atrás dela. os seus rostos animados mostrando ao mundo que tinham orgulho em servir tal princesa e levá-la até à capital, que neste instante, a aclamava e fazendo tocar os sinos de todos os campanários para a receber.

Na estrada para Londres escrevi uma mensagem em código a Lord Robert que dizia o seguinte: "Sereis julgado por traição e executado. Fugi, por favor, meu senhor". Mas atirei-a depois para a lareira de uma estalagem e fiquei a vê-la a arder, reduzindo-a a seguir a cinzas com um atiçador. Era impossível fazer-lhe chegar a carta e, para dizer a verdade, ele não precisava de ser avisado.

Estava a par dos riscos que corria e devia ter-se apercebido disso quando fora derrotado e se rendera em Hury. Onde quer que se encontrasse, quer na prisão de uma pequena cidade a ser maltratado por homens que lhe teriam beijado os pés um mês atrás, quer já na Torre de Londres, sabia agora que estava perdido. Cometera traição contra a legítima herdeira do trono e o castigo era a morte; seria pendurado pelo pescoço até perder a consciência e voltaria a si com o choque da dor sentindo o carrasco a abrir-lhe a barriga e a arrancar-lhe as entranhas para ele as ver a palpitar; a seguir seria esquartejado, a sua bela cabeça enfiada numa lança para servir de exemplo e o resto do corpo espalhado pelos quatro cantos da cidade. Era uma morte bastante dolorosa, quase tão dolorosa como a fogueira e eu sabia isso melhor do que ninguém.

Não chorei por ele a caminho de Londres. Era ainda uma rapariga, mas vira bastantes mortes e conhecera suficientemente o medo para ter aprendido a não chorar. No entanto, não consegui dormir nessa noite, nem nas outras, a pensar onde Lord Robert estaria, se voltaria a vê-lo e se ele alguma vez me perdoaria por entrar na capital inglesa, sob as aclamações e bênçãos da multidão, ao lado da mulher que o tinha tão severamente derrotado e que o destruiria, bem como a toda a sua família.

Lady Elizabeth, demasiado doente para se levantar da cama durante os dias de perigo, conseguiu chegar a Londres antes de nós.

- Essa rapariga, onde quer que vá. é sempre a primeira a chegar- observou amargamente Jane Dormer.

Elizabeth veio receber-nos às portas da cidade à frente de mil homens, todos vestidos com as cores verde e branca dos Tudor. como se nunca tivesse estado a tremer de medo na cama. Veio como se fosse o lord Mayor de Londres entregar-nos as chaves da cidade por entre as aclamações dos londrinos que, com sinos a repicar, abençoavam as duas princesas.

Puxei as rédeas do meu cavalo a fim de me afastar um pouco para a ver. Desde que ouvira Lady Mary falar dela com tanto afecto e Will Somels chamar-lhe bode que ansiava revê-la. Lembrava-me da visão fugidia de uma saia verde e da inclinação provocante de uma cabeça ruiva contra o tronco de uma árvore - a rapariga que eu tinha visto a fugir do padrasto no jardim fazendo tudo para ser apanhada. Tinha muita curiosidade em ver como ela tinha mudado.

A jovem a cavalo estava longe de ser a criança inocente que Lady Mary tinha descrito e a vítima das circunstâncias imaginada por Will. mas também não era a sereia calculista que Jane Dormer detestava. Vi uma mulher a dirigir-se para o seu destino absolutamente confiante. Tinha apenas dezanove anos. mas era imponente. Percebi logo que, conhecedora do poder das aparências, ela tinha organizado esta cavalgada. O verde do manto fora escolhido para combinar com o vermelho flamejante do cabelo, que usava solto por debaixo do capuz como se desejasse ostentar a sua mocidade ao lado da irmã solteira mais velha. O branco e o verde eram as cores dos Tudor ostentadas pelo pai e ninguém que olhasse para ela podia pôr em dúvida essa paternidade. Os homens a cavalo que se encontravam mais perto dela tinham indubitavelmente sido escolhidos pela sua beleza. Não havia nenhum que não fosse notavelmente belo. Os outros, de aparência mais vulgar, encontravam-se mais atrás. Mas, com as damas que a acompanhavam, passava-se o contrário; não havia nenhuma que fosse mais bonita do que ela. Tratava-se de uma escolha inteligente que só uma coquete teria feito. Montava um grande cavalo branco, tão grande como um cavalo de guerra, e sentava-se nele como se fosse uma cavaleira nata, como se lhe desse prazer dominar a força do animal. Irradiava saúde, juventude e vitalidade, resplandecendo com o glamour do sucesso.

Em comparação com o seu aspecto radiante, Lady Mary, esgotada pela tensão dos dois últimos meses, tinha um ar apagado.

O séquito de Lady Elizabeth parou diante de nós e Lady Mary preparava-se para desmontar quando a irmã saltou do cavalo como se tivesse esperado toda a vida por este momento. O rosto de Lady Mary iluminou-se, como o de uma mãe ao ver a filha. Elizabeth precipitou-se para os seus braços e a rainha beijou-a carinhosamente. Ficaram abraçadas um momento, mirando-se, e quando o olhar encantador de Elizabeth se cruzou com os olhos honestos da minha ama, eu dei-me conta de que esta não se apercebia da notória falsidade dos Tudor.

A seguir, Lady Mary virou-se para os companheiros de Elizabeth e estendeu-lhes a mão, beijando-os na face para agradecer terem acompanhado a irmã e darem-nos esta grande recepção. Enfiou depois a mão de Elizabeth debaixo do braço e contemplou-a novamente para se certificar de que estava bem; a rapariga estava com excelente aspecto, mas, mesmo assim, ouvi-a fazer confidências de que sentia dores de cabeça, tonturas e a barriga inchada, vestígios da misteriosa doença que a mantivera na cama e incapaz de se mexer enquanto Lady Mary tinha enfrentado o medo sozinha, armado o país e lutado para conquistar o trono.

Elizabeth deu-lhe as boas vindas à capital e felicitou-a pela grande vitória.

- Uma vitória do coração. Sois a rainha dos corações do vosso povo, a única maneira de governar este país.

- A nossa vitória - retorquiu logo Mary com generosidade. -O duque de Northumberland ter-nos-ia morto a ambas. Ganhei o direito de recebermos as duas a nossa herança. Serás novamente uma princesa reconhecida, minha irmã e minha herdeira, e entraremos em Londres lado a lado.

- Vossa Majestade muito me honra - disse docemente Elizabeth.

- Mas que bastarda mais manhosa - rosnou Jane Dormer ao pé de mim.

Lady Mary fez sinal para partirmos e Elizabeth subiu para o cavalo ajudada por um palafreneiro, sorrindo-nos. Reparou então em mim vestida de pajem, mas ignorou-me totalmente. Não me reconheceu como aquela criança que, há muito tempo, a tinha visto com Tom Seymour no jardim.

Mas eu interessei-me por ela. Desde que a vira com as saias levantadas de encontro a uma árvore, como uma puta, que ela não me saía da memória. Havia algo nela que me fascinava. A minha primeira impressão dela era a de uma rapariga leviana e namoradeira, uma filha desleal, mas havia mais qualquer coisa nela do que apenas isso. Tinha sobrevivido à execução do amante e escapado a uma série de conspirações. Tinha aprendido a controlar os seus desejos e representado o papel de dama da corte com perícia, não como uma criança. Tornara-se a irmã favorita do rei, a princesa protestante, e não se envolvera nas intrigas da corte, mas sabia avaliar com precisão o preço de cada homem. O seu sorriso era despreocupado, o riso ligeiro como o trinar de um pássaro; mas os seus olhos eram tão penetrantes como os de um gato.

Eu queria conhecer tudo a seu respeito, descobrir o que fazia, dizia e pensava. Queria saber se costurava a sua própria roupa, quem engomava as suas rendas, quantas vezes lavava a sua cabeleira ruiva. Logo que a avistei no seu vestido verde e montada num enorme cavalo branco à frente daquele grupo de gente, vi uma mulher que, um dia, eu podia vir a desejar ser. Uma mulher orgulhosa da sua beleza e bela no seu orgulho; ansiava tornar-me uma mulher assim. Lady Elizabeth parecia ser alguém em quem Hannah, o Bobo, poderia tornar-se. Tinha sido uma rapariga infeliz e um bobo durante tanto tempo que não sabia como ser mulher - a ideia em si desconcertava-me. Mas, ao vê-la, resplandecente de beleza e confiança, pensei que era o tipo de mulher que eu gostava de ser. Nunca antes vira uma pessoa assim. Era uma mulher que não dava tréguas a uma modéstia virginal desvantajosa, era uma mulher que parecia poder reivindicar o chão que pisava. Mas, apesar de toda aquela cabeleira ruiva, o rosto risonho e gestos enérgicos, não era ousada de forma impudente. Exibia o pudor de uma jovem, com um sorriso furtivo ao homem que a ajudava a subir para a sela e um movimento malicioso da cabeça ao pegar nas rédeas. Parecia conhecer todos os prazeres de ser uma rapariga e não estar preparada para aceitar o sofrimento. Parecia uma rapariga que sabia o que queria.

Os meus olhos passaram de Elizabeth a Lady Mary, a ama que eu aprendera a amar, e pensei que seria melhor que ela casasse imediatamente a irmã e a mandasse para longe. Nenhum lar viveria tranquilo com esta provocadora por perto e nenhum país estaria em paz com uma herdeira tão fogosa ao lado de uma rainha a envelhecer.

 

Outono de 1553

Quando Lady Mary se instalou na sua nova vida preparando-se para se tornar a próxima rainha de Inglaterra, achei que devia falar com ela acerca do meu próprio futuro. Setembro chegou e o meu salário foi pago pela casa real como se fosse um músico, um pajem ou um dos servos da rainha. Era evidente que tinha apenas mudado de amo; o rei a quem fora dada como bobo tinha morrido, o senhor que me tinha tornado sua vassala estava preso na Torre, e Lady Mary, à custa de quem tinha vivido todo este Verão, era agora a minha ama. Num gesto contrário ao espírito dos tempos - pois todos os demais habitantes deste país vinham à corte com as palmas das mãos estendidas para assegurar a Lady Mary que, se não fosse pelos seus heróicos esforços, as aldeias em que viviam nunca se teriam declarado a favor dela - pensei que talvez tivesse chegado a altura de me demitir do serviço real e regressar a casa do meu pai.

Escolhi o momento devido com todo o cuidado, a seguir à missa quando Lady Mary voltasse da capela em Richmond num estado de exaltação tranquila. Para ela, a elevação da hóstia sagrada não era uma consagração desprovida de sentido, mas sim a presença de Deus ressuscitado, facto que se vislumbrava nos seus olhos e na serenidade do seu sorriso. Sentia-se elevada por isso de uma maneira que eu apenas vira naqueles que dedicavam a vida à religião. Ao voltar da missa, ela era mais abadessa do que rainha. Aproximei-me.

- Majestade?

- Sim, Hannah - sorriu-me. - Tens palavras de sabedoria a dizer-me?

- Sou um simples bobo - retorqui. - E só muito raramente as digo.

- Disseste-me que seria rainha e guardei isso no meu coração nos dias em que tinha medo. Aguardo ansiosamente que o Espírito Santo se manifeste em ti.

- Era sobre isso que vos queria falar - disse desajeitadamente. - Acabei de ser paga pelo vosso mordomo...

Ela ficou à espera.

- E foste lesada? - perguntou delicadamente.

- Não! De modo algum! Não é isso que queria dizer! - protestei, desesperada. - Não, Majestade. É a primeira vez que me pagais. Era paga Pelo rei vosso irmão, quando fui entregue para o servir como bobo pelo duque de Northumberland, o qual, depois, me enviou para junto de vós. Estava meramente a dizer que não sois obrigada... a guardar-me.

Chegamos, nessa altura, aos seus aposentos privados e ela soltou uma gargalhada.

- Não é, por conseguinte, obrigatório ter-te.

Dei por mim também a sorrir.

- Por favor, Majestade. Fui tirada ao meu pai por capricho do duque e, depois, dada como bobo ao rei. Tenho vivido desde então em vossa casa sem nunca terdes pedido a minha companhia. Quero apenas dizer-vos que me podeis dispensar. Sei que não fostes vós quem me mandou chamar.

A expressão de Lady Mary tornou-se imediatamente séria.

- Desejas regressar a casa, Hannah?

- Não especialmente, Majestade - disse hesitante. - Amo o meu pai, mas, em casa dele, não passo de uma empregada. Claro que é mais agradável e interessante viver na corte. - Não acrescentei - na condição de me sentir mais segura aqui -, mas pensei nisso.

- Estás noiva, não é?

- Sim - disse em tom displicente. - Mas só casaremos daqui a uns anos.

A infantilidade da minha resposta fê-la sorrir:

- Queres ficar comigo, Hannah? - perguntou-me docemente.

Ajoelhei-me a seus pés e falei com o coração nas mãos.

- Gostaria muito, mas não posso prometer-vos fazer profecias.

- Eu sei - disse. - É o dom do Espírito Santo que só sopra quando quer. Não espero que sejas a minha astróloga. Quero-te para me servires como minha amiguinha. Aceitas sê-lo?

- Sim, Majestade - disse e senti-a tocar-me no cabelo.

Ficou calada uns instantes com a mão pousada na minha cabeça enquanto eu permanecia ajoelhada diante dela.

- É muito raro encontrar alguém em quem se possa confiar, - acrescentou em voz baixa. - Sei que vieste para minha casa paga pelos meus inimigos, mas julgo que o dom que possuis vem de Deus e que foi Ele quem te enviou. E, agora, amas-me, não é verdade, Hannah?

- Sim, Majestade - disse simplesmente. - Creio que é impossível servir-vos e não vos amar.

Sorriu tristemente.

- Oh, é muito possível - comentou, e eu soube que ela estava a pensar nas mulheres que tinham trabalhado na casa real quando Lady Mary era criança e que tinham sido pagas para a humilhar e para amar a princesa Elizabeth. Tirou a mão da minha cabeça e sentia-a afastar-se. Olhei e vi-a aproximar-se da janela para contemplar o jardim.

- Vem agora comigo e faz-me companhia - disse-me em tom sereno. - Tenho de falar com a minha irmã.

Segui-a através das salas até à galeria de onde se avistava o rio. Os campos estavam nus e amarelos. As colheitas não tinham sido boas. Chovera durante as colheitas e se o trigo não pudesse secar, os grãos apodreceriam e não haveria reservas para chegar até ao fim do Inverno, o pão não seria suficiente e haveria fome. E, depois da fome, doenças. Para ser uma boa rainha em Inglaterra sob estes céus molhados, tinha de se controlar o clima e nem mesmo Lady Mary, que todos os dias rezava de joelhos durante horas a fio, conseguiria dominá-lo.

Ouviu-se o restolhar de uma saia de seda e olhei à minha volta. Vi que Lady Elizabeth tinha entrado na galeria pelo outro lado. A jovem reparou na minha presença e lançou-me um sorriso cúmplice, como se, de certo modo, fôssemos aliadas. Senti como se fôssemos duas miúdas que tinham sido chamadas à presença de um professor severo e dei por mim a retribuir-lhe o sorriso. Elizabeth conseguia sempre isso, podia obter a amizade de quem quer que fosse com um gesto da cabeça. A seguir concentrou a sua atenção sobre a irmã.

- Vossa Majestade sente-se bem?

Lady Mary acenou com a cabeça e, depois, disse friamente:

- Pediste para me ver.

A expressão do belo rosto pálido tornou-se grave e severa, e Elizabeth ajoelhou, os seus cabelos cor de cobre caindo-lhe à volta dos ombros ao baixar a cabeça.

- Receio que vos tenha desagradado, minha irmã.

Lady Mary não proferiu palavra. Vi-a refrear um gesto para erguer a meia-irmã e, em vez disso, manter-se distante.

- E então? - perguntou em voz fria.

- Não vejo como pude desagradar-vos, a não ser que Vossa Majestade suspeite da minha religião - disse Lady Elizabeth com a cabeça ainda baixa em penitência.

- Não vens à missa - observou severamente Lady Mary. A cabeça de cabeleira acobreada aquiesceu.

- Eu sei. É isso que vos ofende?

- É evidente - retorquiu Lady Mary. - Como posso eu amar-te como irmã se recusas a igreja?

- Oh! - suspirou Elizabeth. - Temi que fosse isso. Mas não me "compreendeis. Desejo assistir à missa, mas tenho medo. Não quero mostrar a minha ignorância. É patetice... mas... não sei como me portar - ergueu um rosto choroso para encarar a irmã. - Nunca ninguém me ensinou o que devo fazer. Não fui educada na religião católica como vós, em Hatfield, e, depois, vivi com Katherine Parr e ela era uma protestante convicta. Como podia eu ter aprendido o que vós haveis aprendido ao colo de vossa mãe? Por favor, minha irmã, não me culpeis pela minha ignorância. Quando eu era pequena e vivíamos juntas, não me haveis ensinado a vossa religião.

- Eu mesma fui proibida de a praticar! - exclamou Mary.

- Então não me culpeis pela forma como fui educada - justificou-se Elizabeth com convicção.

- Mas, agora, podes escolher - insistiu firmemente a irmã. Vives numa corte livre.

Elizabeth hesitou.

- Posso ser instruída? - perguntou. - Podeis recomendar-me

Obras que eu possa ler ou talvez autorizar-me a falar com o vosso confessor? Há tanta coisa que não compreendo... Poderá Vossa

Majestade ajudar-me e guiar-me ao longo do bom caminho?

Era impossível não acreditar nela. As lágrimas que lhe corriam pelas faces e o rubor no rosto eram verdadeiros. Lady Mary deu um passo em frente e estendeu gentilmente a mão para a colocar sobre a cabeça baixa de Elizabeth. A jovem estremeceu.

- Por favor, não vos zangueis comigo, minha irmã - ouvi-a balbuciar. - Estou sozinha no mundo. Só vos tenho a vós.

Mary colocou as mãos nos ombros de Elizabeth e levantou-a. Elizabeth era bastante mais alta do que a irmã, mas manteve a cabeça pesarosamente baixa de modo a ter de erguer os olhos para a rainha.

- Oh, Elizabeth - sussurrou Mary. - Ficaria tão feliz se te convertesses à verdadeira religião e confessasses os teus pecados. Tudo que desejo, tudo o que sempre desejei, é ver este país converter-se à religião católica. E se eu nunca me casar e tu me sucederes também como rainha virgem e católica, poderemos construir um grande reino. Hei-de restabelecer a verdadeira religião neste país e tu, como minha sucessora, hás-de saber mantê-lo sob o mando de Deus.

- Ámen - murmurou Elizabeth e, perante a alegre sinceridade da sua voz, pensei nas vezes em que eu tinha estado na igreja e murmurado igualmente "Ámen". Por muito doce que esse som fosse, nada significava.

Os dias não eram fáceis para Lady Mary. Preparava-se para a coroação, mas a Torre de Londres, onde os reis passavam normalmente a noite da coroação, estava cheia de traidores que, há apenas alguns meses, tinham pegado em armas contra ela.

Os conselheiros dela, sobretudo o embaixador espanhol, aconselharam-na a mandar executar imediatamente os responsáveis da rebelião. Vivos, seriam um foco de descontentamento, enquanto mortos, seriam esquecidos.

- Não quero manchar as mãos com o sangue dessa pobre rapariga - recusava-se Lady Mary.

Lady Jane escrevera à prima confessando que fizera mal em aceitar o trono, mas que tinha sido coagida.

- Eu sei - disse Lady Mary a Jane Dormer uma noite enquanto os músicos tocavam violino e a corte bocejava aguardando a hora de se ir deitar. - Conheço-a desde a infância, quase tão bem como conheço Elizabeth. É protestante convicta e passou a vida a estudar. É mais erudita do que mulher, desajeitada como um potro e rude como um franciscano nas suas convicções. Ela e eu não concordamos em assuntos de religião, mas ela não tem ambições materiais. Nunca tiraria o trono aos herdeiros nomeados pelo meu pai. Sabia que a rainha era eu e nunca se teria oposto. Quem pecou foi o duque de Northumberland com a cumplicidade do pai dela.

- Não podeis perdoar a toda a gente - retorquiu sem rodeios Jane Dormer. - Ela foi proclamada rainha e não podeis continuar a fingir que isso não aconteceu.

Lady Mary acenou com a cabeça.

- O duque tinha de morrer. Mas vou mandar soltar o pai de Jane, o duque de Suffolk. Quanto a Jane e o marido, Guilford, ficarão na Torre até à minha coroação.

- E Robert Dudley? - perguntei em voz tão baixa quanto possível. Ela olhou à sua volta e viu-me sentada nos degraus diante do trono, com o seu galgo ao meu lado.

- Oh, estás aí? - disse docemente. - Sim, o teu antigo amo será julgado por traição, mas não será executado até o podermos soltar com toda a segurança. Essa decisão agrada-te?

- Como Vossa Alteza desejar - disse obedientemente, mas o meu coração pulava de alegria.

- Mas não há-de agradar àqueles que vos querem ver a salvo -observou Jane Dormer. - Como podereis viver em paz sabendo que os tentaram destruir-vos andam à solta? Como podereis pôr termos às suas intrigas? Julgais que eles vos teriam poupado se tivessem ganho?

Lady Mary sorriu e pousou a mão sobre a da sua melhor amiga.

- Este trono foi-me dado por Deus, Jane... Ninguém pensou que eu sobrevivesse em Kenninghall nem que saísse de Fram-lingham sem ser disparado um único tiro. E, no entanto, entrei em Londres com a bênção do povo. Deus enviou-me a esta terra para ser rainha e eu demonstrarei a Sua clemência sempre que puder. Mesmo perante aqueles que a desconhecem.

Enviei um recado ao meu pai a dizer-lhe que chegaria no dia de São Miguel. Recebi o meu salário e pus-me a caminho. Percorri as ruas sombrias até casa sem medo, calçada com botas novas e com uma pequena espada à cintura. Vestia a libré de uma rainha amada e ninguém me provocaria. Caso o fizesse, e graças a Will, Saberia defender-me.

A porta da livraria estava fechada, mas vi a luz de uma vela através do postigo. A rua estava tranquila. Bati à porta e ele veio abri-la com toda a cautela. Era noite de sexta-feira e a vela do Sabat estava escondida debaixo de um jarro, iluminando com o seu clarão divino a escuridão.

Entrei e reparei na sua palidez. Tinha-o assustado. Mesmo quando o meu pai sabia que eu vinha, o seu coração saltava sempre que alguém batia à porta de noite. Sabia isso porque também se passava a mesma coisa comigo.

- Sou eu, pai - tranquilizei-o, ajoelhando-me para ele me dar a bênção.

- Pelos vistos, estás novamente ao serviço da corte real - disse-me. - Tens muita sorte, minha filha.

- A rainha é uma mulher maravilhosa. Por isso, a minha boa fortuna não se deve a mim. Ao princípio, teria escapado se tivesse podido, mas, agora, prefiro servi-la a ela do que a qualquer outra pessoa.

- Mesmo Lord Robert?

Lancei um olhar à porta fechada.

- É impossível servi-lo. Só os guardas da Torre o podem servir e peço a Deus que o tratem bem.

O meu pai abanou a cabeça.

- Lembro-me da sua vinda aqui naquele dia. Um homem que dava a impressão de vir a comandar meio mundo e, agora...

- Ela não vai mandar matá-lo - expliquei. — Agora que o duque está morto, mostrar-se-á clemente com todos.

- Os tempos que correm são perigosos. Mr. Dee comentou no outro dia que tempos assim anunciam mudança.

- Tem-lo visto?

O meu pai acenou com a cabeça.

- Veio ver se eu tinha as últimas páginas de um manuscrito que ele possui ou se podia encontrar outro exemplar. É uma perda terrível. Trata-se de uma receita para uma determinada operação alquímica, mas faltam três páginas.

Sorri.

- É para fazer ouro?

Ele também sorriu. Costumávamos dizer um ao outro a brincar que poderíamos viver como os grandes de Espanha se seguíssemos à risca o processo indicado pelos livros de alquimia para encontrar a pedra filosofal: as instruções para transformar metal em ouro e para descobrir o elixir da vida eterna. O meu pai tinha dúzias de obras sobre o assunto e, quando eu era miúda, pedia-lhe que mas deixasse ler para aprender o processo e enriquecer. Ele mostrou-me uma espantosa colecção de coisas enigmáticas, imagens, poemas, feitiços e rezas, mas, no fim, não fiquei mais sábia nem mais rica. Muitos homens, homens brilhantes, tinham comprado inúmeros livros para tentar decifrar as charadas habitualmente usadas para ocultar o segredo da alquimia e nenhum deles tinha voltado para nos dizer que descobrira o segredo e que, agora, poderia viver eternamente.

- Se existe alguém que venha a descobrir tal segredo e consiga fazer ouro, será John Dee - comentou o meu pai. - É um estudante aplicado e um grande pensador.

- Eu sei - disse eu, pensando nas tardes passadas a ler textos em grego e latim enquanto ele, rodeado pelos instrumentos do seu ofício, traduzia tão rapidamente quanto eu falava. - Mas acha que ele pode prever o futuro?

- Esse homem pode ver o que se passa do outro lado das esquinas, Hannah. Inventou uma máquina que vê por cima de prédios e à volta deles. Prediz o curso das estrelas e conhece o movimento das marés. Está a desenhar um mapa do país para se poder navegar ao longo da costa.

- Sim, eu vi-o - concordei, lembrando-me que a última vez que o tinha visto fora em cima da secretária dos inimigos da rainha. - Devia ter cuidado e certificar-se de quem utiliza os seus inventos.

- Os seus inventos devem-se aos seus estudos - disse o meu pai com firmeza. - Não o podem culpar pelo uso que outros fazem.

É um homem notável que será lembrado muito depois da morte do duque e de toda a família ser esquecida.

- Lord Robert não será esquecido - sentenciei.

- Até mesmo esse - afirmou o meu pai. - Vou dizer-te uma coisa, minha filha. Nunca conheci um homem que pudesse ler e compreender palavras, tabelas, diagramas mecânicos e até mesmo códigos mais depressa do que John Dee. Oh, já me ia esquecendo. Ele encomendou uns livros que têm de ser entregues a Lord Robert.

- Ah, sim? - disse, de repente atenta. - Queres que eu os leve à Torre?

- Logo que chegarem - disse gentilmente o meu pai. - E se vires Lord Robert...

- Sim?

- Tens de lhe pedir que te dispense do seu serviço, minha querida, e despedir-te dele. É um traidor e foi condenado à morte. “Chegou a altura de lhe dizeres adeus.

Teria discutido com o meu pai quanto a isso, mas ele ergueu a mão.

- Ordeno-te - insistiu. - Vivemos neste país como sapos debaixo de uma charrua. Não podemos pôr as nossas vidas ainda mais em perigo. Tens de te despedir desse traidor. Não podemos manter-nos asssociados a ele.

Baixei a cabeça.

- E o Daniel tem a mesma opinião que eu.

Levantei a cabeça ao ouvir tal coisa.

- Porquê? Que sabe ele sobre o assunto?

O meu pai sorriu.

O Daniel é um rapaz esperto, Hannah.

- Desconhece o que se passa na corte.

- Vai ser um grande médico - declarou o meu pai. - Vem cá muitas noites ler livros sobre ervas e remédios. Anda a estudar textos gregos sobre a saúde e as doenças. Não deves pensar que ele é ignorante só porque não é espanhol.

- Mas nada sabe sobre os conhecimentos dos médicos mouros - teimei. - Tu mesmo me disseste que eram os mais sábios do mundo, que tinham aprendido tudo o que os gregos tinham para ensinar e ido até mais longe.

- Sim - concedeu o meu pai. - Mas é um rapaz sensato e muito trabalhador. Tem jeito para os estudos. Vem cá ler duas vezes por semana. E pergunta sempre por ti.

- Ah, sim?

O meu pai acenou com a cabeça.

- Chama-te a sua princesa.

Fiquei tão espantada durante uns instantes que não consegui falar.

- A sua princesa?

- Sim - disse o meu pai, sorrindo do meu espanto. - Fala como um jovem apaixonado. Vem ver-me e pergunta, "Como está a minha princesa?" referindo-se a ti.

A data da coroação de Lady Mary foi marcada para o primeiro dia de Outubro e toda a corte, toda a cidade de Londres e todo o país passaram grande parte do Verão a prepararem-se para as festividades que, finalmente, colocariam a filha de Henry no trono. No entanto, nem toda a população se acotovelava nas ruas da capital pois os protestantes que não acreditavam nas sinceras promessas de tolerância por parte da rainha tinham fugido, exilando-se em França, tradicional inimiga de Inglaterra que se armava novamente contra os ingleses. E, na corte, o pai da rainha também se teria interrogado quanto ao paradeiro de alguns dos seus favoritos. Alguns deles estavam envergonhados pelo modo como tinham tratado Lady Mary, outros, igualmente protestantes, recusavam-se a servi-la e outros ainda tinham tido o bom gosto de ficar em casa. Os outros londrinos vieram aos milhares aclamar a nova rainha cujos direitos tinham defendido contra os pretendentes protestantes, a rainha católica cuja fé entusiasta conheciam, e que, não obstante, preferiam a todas as outras.

Foi uma coroação de contos de fadas, a primeira que eu via. Foi um espectáculo como que saído de um dos livros de histórias do meu pai. Uma princesa vestida de veludo azul debruado a arminho branco numa carruagem dourada que atravessava as ruas da sua cidade, enfeitadas com tapeçarias, que passava por fontes de onde jorrava vinho que inebriava o ar e as multidões aos gritos deleitadas por verem a sua princesa, a sua rainha virgem, e que se detinha diante de grupos de crianças a cantar árias em louvor da mulher que se batera para se tornar rainha e restabeleceria a antiga religião.

A princesa protestante ocupava a segunda carruagem, mas os gritos que a acolhiam não eram comparáveis aos rugidos que saudavam a minúscula rainha sempre que a sua carruagem virava uma esquina. Sentada ao lado de Elizabeth vinha a esquecida esposa do rei Henry, Anne de Cleves, mais gorda do que nunca e com um sorriso estampado no rosto. Ambas tinham o ar sabido de sobreviventes, pensei eu com os meus botões. A carruagem era seguida por quarenta e seis damas da cidade e da província com os seus melhores vestidos que iam a pé e que, quando o cortejo chegou à Torre de Londres, já vinham a arquejar um pouco.

Atrás delas, vinha o cortejo formado por funcionários da corte e pessoal menor, entre os quais eu. Desde que chegara a Inglaterra que eu sabia ser uma estranha, uma refugiada de um género de terror que tinha de fingir não temer. Mas, ao caminhar naquele cortejo ao lado de Will Somers, o bobo, de gorro amarelo na cabeça e um pau com guizos na mão, senti-me realizada. Era o bobo da rainha, o destino tinha-me conduzido para perto de Lady Mary desde o momento em que ela fora atraiçoada, ao longo da sua fuga e no dia da sua coroação. Tinha conquistado o trono e eu tinha ganho o meu lugar ao seu lado.

Não me importava que me chamassem bobo. Era conhecida por ser vidente e ter profetizado o dia em que Lady Mary seria proclamada rainha. Algumas pessoas até se benziam quando eu passava, reconhecendo o poder que me fora atribuído. Caminhava, assim, de cabeça erguida e não receava que todos aqueles olhos à minha volta reparassem na minha pele azeitonada, no meu cabelo preto e me chamassem espanhola ou ainda pior. Nesse dia, via-me como inglesa e, ainda por cima, leal, com um amor comprovado pela minha rainha e pelo meu país de adopção; e sentia-me feliz por isso.

Dormimos essa noite na Torre de Londres e, no dia seguinte, Lady Mary foi coroada rainha de Inglaterra e a primeira a ajoelhar-se para lhe prestar juramento de fidelidade foi a irmã, Elizabeth, encontrava-me no fundo da igreja à cunha tentando ver alguma coisa por cima do ombro de um fidalgo da corte. De qualquer modo, os meus olhos estavam velados de lágrimas por saber que a minha ama tinha subido ao trono e que a sua longa batalha para ser reconhecida tinha, finalmente, terminado. Deus (ou qualquer que fosse o Seu nome) tinha-a abençoado e ela vencera.

Por muito que a rainha e a irmã parecessem estar unidas, Ehzabeth continuava a ostentar o livro de orações do irmão preso por Uma pequena corrente à cintura, usava sempre vestidos discretos e raramente ia à missa. Não podia mostrar de forma mais flagrante ao mundo que era a alternativa protestante da rainha a quem tinha acabado de jurar lealdade eterna. Não havia, contudo, nada que a rainha pudesse especificamente criticar. Era mais o ar dela: o modo como sempre se mantinha ligeiramente à parte e o seu porte que parecia querer dizer que tinha muita pena, mas não podia aceitar a religião católica.

Passados uns dias, a rainha enviou-lhe uma mensagem comunicando que a aguardava para assistir à missa com o resto da corte nessa manhã. A resposta de Elizabeth chegou quando nos preparávamos para sair da antecâmara da rainha. Ao estender a mão para pegar no missal, Mary virou a cabeça e viu uma das damas da irmã.

- Lady Elizabeth pede desculpa, mas não se sente bem.

- Que se passa com ela? - perguntou a rainha em tom um pouco agressivo. - Ontem, estava lindamente.

- Dói-lhe muito o estômago - retorquiu a dama. - A sua dama de companhia, Mrs. Ashley, diz que ela está demasiado doente para assistir à missa.

- Diz a Lady Elizabeth que a espero na minha capela - disse calmamente Mary, voltando-se para tomar o missal das mãos da sua dama de companhia, mas eu reparei que as suas mãos tremiam ao folhear as páginas.

O guarda preparava-se para abrir a porta a fim de atravessarmos a galeria cheia de cortesãos, espectadores e gente que lhe vinha pedir favores quando outra dama de Elizabeth entrou por uma porta lateral.

- Majestade - sussurrou, estendendo-lhe uma missiva. A rainha nem sequer se virou.

- Diz à tua ama que espero vê-la sem falta na missa - repetiu, fazendo um sinal com a cabeça ao guarda. Este abriu a porta e ouvimos o suspiro de admiração que acolhia Mary onde quer que ela fosse. Todos se curvaram à sua passagem. Tinha duas manchas vermelhas no rosto, o que significava que estava zangada, e a mão que segurava o rosário de coral tremia.

Lady Elizabeth chegou atrasada à igreja e ouvimo-la soltar um queixume quando atravessou, dobrada em dois, a nave central. Houve um murmúrio de pesar pela rapariga que se torcia de dor. Sentou-se no banco atrás da rainha, dizendo a uma das suas damas em voz suficientemente alta:

- Martha, se eu desmaiar, segura-me.

Mary estava concentrada no padre que celebrava a missa de costas para ela. Para ela, bem como para o padre, era o único momento do dia que tinha verdadeiro significado, todo o resto era espectáculo mundano. Mas é claro que todos nós, pecadores, mal podíamos esperar que o espectáculo mundano recomeçasse.

Lady Elizabeth saiu da igreja na comitiva da rainha a segurar a barriga e a gemer. Mal podia andar e tinha uma palidez cadavérica, como se tivesse empoado excessivamente o rosto com pó de arroz. A rainha caminhava à frente com expressão lúgubre e, ao chegar aos seus aposentos, ordenou que fechassem as portas que davam para a galeria a fim de abafar os murmúrios inquietos dos presentes pelo estado de saúde de Elizabeth e pela crueldade de Mary que obrigara uma inválida a assistir à missa.

- A pobre rapariga devia deitar-se - disse uma mulher em voz forte quando as portas se fecharam.

- Realmente - disse a rainha para consigo mesma.

 

Inverno de 1553

Estava escuro como breu embora fossem apenas seis da tarde, a neblina pairava sobre o rio, frio como a mortalha negra de um cadáver. Sentia nas narinas o odor a desespero proveniente das maciças muralhas húmidas da Torre de Londres, certamente o palácio mais lúgubre que um monarca jamais construiu. Apresentei-me no portão e o guarda levantou o archote para me examinar.

- Um rapaz - concluiu.

- Trago aqui uns livros para entregar a Lord Robert - expliquei. Ele afastou o archote e a escuridão voltou a envolver-me.

A seguir, o guinchar das dobradiças indicou-me que o guarda abria o portão e, eu entrei.

- Deixa-me ver - disse ele.

Eram obras de teologia que defendiam o ponto de vista papista, reconhecidos pelo Vaticano e aprovadas pelo próprio conselho da rainha.

- Passa.

Atravessei a passagem de lajes escorregadias, depois um longo passadiço, com a lama fétida a brilhar à luz da Lua de ambos os lados, e subi um lance de degraus de madeira até à porta da torre branca. Se houvesse um ataque, ou uma tentativa para libertar um preso, bastava que os soldados que se encontravam lá dentro derrubassem as escadas exteriores. Ninguém poderia salvar o meu senhor.

Outro guarda que me aguardava à entrada bateu a uma porta interior e esta abriu-se para me deixar entrar.

Foi então que vi Lord Robert debruçado sobre uns papéis com uma vela ao lado, a luz dourada iluminando os seus cabelos escuros e a sua pele pálida. Lançou-me um lento sorriso radiante.

- Dona Rapaz! A minha Dona Rapaz! Pus um joelho em terra.

- Meu senhor! - foi tudo o que consegui dizer antes de desatar a chorar.

Ele riu-se, levantou-me e pôs um braço à volta dos meus ombros, limpando-me o rosto numa estonteante carícia.

- Então, filha, vá lá. Que se passa?

- Vós estardes aqui! - solucei. - E estais com um aspecto tão... - Não suportava dizer pálido, doente, cansado, derrotado, mas todas essas palavras eram verdadeiras.

- Prisioneiro - consegui finalmente gaguejar. - As vossas lindas roupas! E... agora, que vai acontecer?

Riu-se novamente como se nada disso tivesse importância e conduziu-me para junto da lareira. Sentou-se numa cadeira e puxou um banco para que eu me sentasse diante dele, como um sobrinho favorito. Inclinei-me timidamente e pousei as mãos nos seus joelhos. Tinha vontade de lhe tocar para me certificar de que ele estava ali em carne e osso. Tinha sonhado com ele tantas vezes e, agora, Lord Robert encontrava-se ali à minha frente; exceptuando rugas de desânimo e desapontamento que lhe marcavam o rosto, estava na mesma.

- Lord Robert... - cochichei.

O seu olhar cruzou-se com o meu.

- Sim, minha pequenina - disse-me docemente. - Foi um grande jogo e perdemos. O preço que teremos de pagar é pesado, Mas não és uma criança e sabes que o mundo não é fácil. Estou disposto a pagar pelo que fiz.

- Julgais que eles...? - não conseguia falar da morte que ele encarava com um sorriso destemido.

- Oh, penso que sim - disse jovialmente. - E muito em breve, se eu estivesse no lugar da rainha. Agora, conta-me novidades. Não ftemos muito tempo.

Aproximei um pouco mais o banco, concentrando os meus pensamentos. Não queria dar-lhe notícias, pois eram todas más. Queria olhar para o seu rosto fatigado e tocar-lhe nas mãos. Queria dizer-lhe que tinha tido saudades dele e que lhe escrevera carta após carta, no código que eu sabia que ele tinha perdido, e que as tinha queimado todas.

- Vá lá - disse-me com impaciência. - Conta-me tudo.

- A rainha tem estado doente - murmurei. - Já deveis saber que está a pensar se deve casar-se e já lhe propuseram vários noivos. O melhor partido é Filipe de Espanha. O embaixador espanhol disse-lhe que seria um bom casamento, mas ela tem medo. Sabe que não pode governar sozinha, mas não quer um homem a mandar nela.

- Achas que, no entanto, acabará por casar?

- Não sei ao certo, mas é provável que não. Fica doente de medo só de pensar nisso. Receia ter um homem na cama e teme perder o trono sem um.

- E Lady Elizabeth?

Olhei para a maciça porta de madeira e cochichei:

- Ultimamente, ela e a rainha não se têm dado bem. Ao princípio, davam-se lindamente e Sua Majestade queria ter a irmã sempre ao seu lado e chegou até a reconhecê-la como herdeira. Mas, agora, não são felizes juntas. Lady Elizabeth já não é uma menina e não acata os conselhos da rainha. Supera-a quando discutem. Tem o raciocínio rápido dos alquimistas. Sua Majestade detesta discussões sobre assuntos sagrados e a irmã tem argumentos para tudo e nada aceita. Olha para tudo com olhos duros... - Calei-me.

- Olhos duros? - questionou. - Tem uns belos olhos.

- Quero dizer que ela encara as coisas com dureza - expliquei.

- Não tem fé e não há nada que a faça sentir-se enlevada. Não é como a minha ama que fica comovida com a elevação da hóstia. Quer saber tudo de fonte segura e não crê em nada.

Perante esta descrição precisa, Lord Robert acenou com a cabeça.

- Pois. Foi sempre assim.

- A rainha obrigou-a a ir à missa - continuei - e Lady Elizabeth apareceu com as mãos na barriga a gemer de dores. E, a seguir, quando Sua Majestade voltou a insistir, disse-lhe “que se tinha convertido. A rainha queria saber a verdade e pediu-lhe para contar os segredos do seu coração: se acreditava no Santo Sacramento ou não.

- Os segredos do coração de Elizabeth! - exclamou, rindo-se.

- Que julga a rainha? A Elizabeth não revela os segredos do seu coração a ninguém. Nem quando era criança os dizia a si mesma.

- Bem, prometeu que comunicaria publicamente estar convencida dos méritos da religião antiga, mas não o fez. E só vai à missa quando tem de ser. Toda a gente diz...

- Que dizem por aí, minha pequena espia?

- Que se corresponde com os protestantes, que conta com o seu apoio e que os franceses estão prontos a pagar uma revolta contra a rainha. Que lhe basta esperar que a rainha morra para se apoderar do trono e, por conseguinte, pode deixar-se de. fingimentos e ser uma rainha protestante como agora é uma princesa protestante.

- Oh! - exclamou, fazendo uma pausa para assimilar todas estas informações. - E a rainha acredita nessas difamações?

Fitei-o, esperando que ele compreendesse.

- Julgou que Elizabeth se portaria como uma irmã. Entrou com ela em Londres no momento do seu maior triunfo e tinha-a ao seu lado no dia da coroação. Que mais podia fazer para mostrar que amava Elizabeth, que confiava nela e que a via como a sua sucessora? Mas, desde então, todos os dias ouve dizer que a irmã fez isto, ou disse aquilo, notando que ela evita assistir à missa embora prometa ir e que muda de ideias a seu bel-prazer. E Elizabeth... - detive-me.

- Elizabeth o quê?

- Esteve na coroação, foi colocada no lugar mais importante a seguir à rainha e participou no cortejo logo atrás desta - disse num sussurro irritado. - Fez parte do séquito real durante a coroação e foi a primeira a ajoelhar diante da nova rainha, jurando ser uma súbdita fiel. Prestou esse juramento de fidelidade perante Deus. Como pode, agora, conspirar contra Sua Majestade?

Ele recostou-se na cadeira, espantado pelo tom encolerizado das minhas palavras, e observou-me com interesse.

- A rainha está zangada com Elizabeth? Abanei a cabeça.

- Não, o que é ainda pior. Está desapontada. Sente-se sozinha, lord Robert. Queria a irmã ao seu lado. Escolheu-a por amor e respeito e, agora, mal pode acreditar que Elizabeth não gosta dela. Descobrir que a irmã conspira contra ela causa-lhe muito sofrimento. E, todos os dias, alguém vem contar-lhe uma nova intriga de Elizabeth.

- Existem provas?

- Suficientes para a prender uma dúzia de vezes - penso eu. - Há demasiados boatos para ela ser tão inocente como parece.

- E, mesmo assim, a rainha nada faz?

- Deseja promover a paz e não agirá contra Elizabeth a não ser que seja obrigada. Não quer mandar executar Lady Jane nem o vosso irmão... - não disse "nem vós", mas ambos pensámos na condenação à morte que pendia sobre ele. - Quer trazer a paz a este país.

- Ámen para isso - disse Lord Robert. - E Elizabeth vai passar o Natal na corte?

- Pediu para se ausentar. Diz que está de novo doente e que " precisa do sossego da província.

- E está realmente mal? Encolhi os ombros.

- Quem sabe? Estava muito inchada e tinha mau aspecto „ quando a vi no outro dia. Mas nunca ninguém a vê pois não sai dos seus aposentos. Só quando é obrigada. Ninguém lhe fala e as mulheres mostram-se antipáticas com ela. Todas dizem que ela não tem nada de grave, apenas inveja.

Ele abanou a cabeça perante a mesquinhez das mulheres.

- Tudo isso e a pobre rapariga ainda tem de ir à missa de rosário e missal na mão!

- Ela não é uma pobre rapariga - protestei. - É maltratada pelas damas da corte, mas só pode culpar-se a si mesma por isso. Só quando há visitas é que aparece falando muito baixinho e caminha de cabeça caída. Quanto à missa, toda a gente é obrigada a assistir. Cantam-se diariamente sete missas na capela da rainha e todos vão lá pelo menos duas vezes por dia.

Esboçou um sorriso ao ouvir que a corte se tornara devota.

- E Lady Jane? É verdade que não vai ser condenada por traição?

- A rainha nunca há-de mandar matar a prima, uma jovem -assegurei-lhe. - Vai permanecer aqui presa na Torre por uns tempos, mas, depois, quando o país estiver em paz, será solta.

Fez uma pequena careta.

- A rainha está a correr um grande risco. Se eu fosse seu conselheiro, dir-lhe-ia para acabar com ela, para acabar com todos nós.

- Sabe que Lady Jane não teve culpa. Seria uma crueldade puni-la e a rainha não é cruel.

- E a rapariga só tinha dezasseis anos - disse ele, meio para si mesmo. Levantou-se, mal se dando conta da minha presença. - Devia ter posto termo àquilo tudo e devia ter mantido Jane fora da conspiração maquinada pelo meu pai...

Olhou pela janela para o pátio às escuras onde o pai tinha sido executado pedindo piedade e prometendo dar provas contra Jane, contra os seus próprios filhos e toda a gente envolvida, se fosse poupado. Quando o ajoelharam diante do cepo, a venda que lhe tapava os olhos escorregou; voltou a colocá-la, arrastando-se de gatas e suplicando ao carrasco que esperasse até ele estar preparado. Foi um fim miserável, mas não tão miserável como a morte que dera ao jovem rei a seu cargo, o qual não tivera culpa de nada.

- Fui um louco - disse amargamente Robert. - A ambição cegou-me. Estou admirado por não teres previsto o que aconteceu. Os deuses deviam estar a rir-se a bandeiras despregadas com o orgulho dos Dudley. Quem dera que me tivesses prevenido a tempo.

Pus-me de pé com as costas viradas para a lareira.

- Quem me dera tê-lo feito - disse tristemente. - Teria feito tudo para vos salvar.

- E vou ficar aqui até apodrecer? - perguntou calmamente. - Consegues prever isso? Há noites em que ouço os ratos a correr no chão e penso que é tudo o que hei-de ouvir, e que o quadrado de céu azul através da janela é tudo o que jamais verei. Ela não mandará decepar a minha cabeça, mas vai aniquilar a minha juventude.

Abanei a cabeça em silêncio.

- Presto muita atenção ao que se diz e, uma vez, perguntei-lhe directamente. Ela respondeu que não queria derramar o sangue que podia ser poupado. Não vai dar ordem para que vos executem e, quando soltar Lady Jane, também vos libertará.

- Se fosse a ela, não faria tal coisa - disse em tom grave. - Se eu fosse a ela, livrar-me-ia de Elizabeth, de Jane, do meu irmão e de mim, e nomearia Maria Stuart, francesa ou não, como sucessora. Definitivamente. É a única maneira de este país voltar a ser papista e assim se manter. Ela há-de dar-se conta disso em breve. Tem de dar cabo de todos nós, esta geração de conspiradores protestantes.

Se não o fizer, terá de cortar cabeças umas atrás das outras e de ver outras erguerem-se.

Atravessei o calaboiço e pus-me atrás dele, pousando timidamente a minha mão sobre o seu ombro. Ele virou-se e olhou para mim como se se tivesse esquecido da minha presença.

- E tu? - perguntou-me docemente. - Sentes-te, agora, segura na corte?

- Nunca estou a salvo - respondi em voz baixa. - E vós sabeis porquê. Nunca poderei sentir-me em segurança. Amo a rainha e ninguém questiona quem sou nem de onde venho. Sou conhecida por bobo de Sua Majestade, como se tivesse estado com ela toda a minha vida. Devia sentir-me segura, mas tenho sempre a impressão de estar a caminhar sobre uma camada de gelo muito fina.

Acenou com a cabeça.

- Se for condenado, levarei o teu segredo comigo para o cadafalso - prometeu. - Nada tens a temer de mim. E nunca disse a ninguém quem és ou de onde vens.

Quando ergui a cabeça, ele observava-me carinhosamente com os seus olhos escuros.

- Cresceste, Dona Rapaz - notou. - Em breve serás uma mulher. Tenho pena de não te ver nessa altura.

Não sabia o que dizer e deixei-me ficar ali especada diante dele. Sorriu como se se apercebesse do turbilhão das minhas emoções.

- Ah, pequenina bobo, não devia ter-te tirado da loja do teu pai naquele dia e arrastado para isto tudo.

- O meu pai envia-vos cumprimentos.

- Obrigado. Agora, podes ir-te embora. Dispenso-te da promessa de me amares. Já não és meu vassalo.

Para Lord Robert, isso pouco mais era do que uma piada, mas ele sabia tão bem quanto eu que não se pode dispensar uma rapariga da promessa de amar um homem. Ou ela se livra sozinha ou fica unida a ele para sempre.

- Não sou livre - murmurei. - O meu pai disse-me para eu vos dizer adeus, mas não sou livre. Nunca o serei.

- Vais continuar a servir-me?

Acenei que sim com a cabeça.

Lord Robert sorriu e inclinou-se para mim, a sua boca tão perto da minha orelha que senti o seu hálito quente.

- Então presta-me um último serviço. Vai ver Lady Elizabeth e diz-lhe que se anime. Aconselha-a a estudar com o meu antigo tutor, John Dee. E, depois, vai procurar John Dee e comunica-lhe o seguinte da minha parte. Primeiro, que eu acho que ele devia contactar o seu antigo mestre, Sir William Pickering. Percebeste?

- Percebi. Sir William... Eu conheço-o.

- E segundo, diz-lhe para se encontrar também com James Crofts e Tom Wyatt. Penso que estão envolvidos numa experiência alquímica que John Dee há-de apreciar. Consegues lembrar-te de tudo?

- Sim. Mas não sei o que significa.

- Tanto melhor. Querem produzir ouro a partir do mais baixo dos metais e reduzir prata a cinzas. Diz isso a John Dee. Ele saberá o que significa. E diz-lhe também que, se ele me levar lá, eu participarei nessa operação.

- Onde? - perguntei.

- Lembra-te simplesmente da mensagem. Repete. Repeti-a, palavra por palavra, e ele acenou com a cabeça.

- E, finalmente, vem ver-me uma última vez para me contares o que vês no espelho de John Dee. Preciso de o saber. O que quer que me suceda, preciso de saber o que vai acontecer à Inglaterra.

Acenei com a cabeça, mas ele não me deixou partir logo. Pôs os lábios no meu pescoço, mesmo por baixo da orelha, o aflorar de um beijo, o bafejar de um pequeno beijo.

- És boa rapariga - disse. - Obrigado.

Depois, deixou-me ir embora e eu recuei de costas, afastando-me dele como se não suportasse virar-lhe as costas. Bati na porta atrás de mim e o guarda abriu-a.

- Deus vos abençoe e vos mantenha em segurança, meu senhor - disse. Lord Robert virou a cabeça e lançou-me um sorriso tão doce que destroçou o meu coração mesmo quando a porta se fechou, ocultando-o da minha vista.

- Deus te proteja, meu rapaz - retorquiu em tom calmo através da porta fechada. E, depois, fiquei ali na escuridão e ao frio, mais uma vez sem ele.

Uma vez na rua, desatei a correr para casa. De repente, um vulto saiu do vão de uma porta e barrou-me a passagem. Soltei uma exclamação alarmada.

- Cala-te, sou eu, Daniel.

- Como sabias que eu estava aqui?

- Fui à loja do teu pai e ele disse-me que tinhas ido levar uns livros a Lord Robert.

- Oh.

Pôs-se a caminhar ao meu lado.

- Agora, já não tens certamente de o servir.

- Não - disse. - Ele dispensou-me.

Desejava imenso que Daniel se fosse embora para poder pensar no beijo que Lord Robert me dera no pescoço e no seu hálito quente na minha orelha.

- Então não tens de voltar a prestar-lhe quaisquer serviços - disse Daniel em tom pedante.

- Eu só disse que não estou a servi-lo agora - ripostei. - Fui levar livros a pedido do meu pai. Por acaso são para Lord Robert. Nem sequer o vi. Entreguei-os ao guarda.

- Então quando é que ele dispensou os teus serviços?

- Há meses atrás - menti.

- Quando o prenderam?

- O que é que tens com isso - barafustei. - Fui dispensada do seu serviço. Agora, sirvo a rainha Mary. Que mais precisas de saber?

A minha resposta enfureceu-o.

- Tenho o direito de saber tudo o que fazes. Vais ser minha mulher e usarás o meu nome. Estás a correr riscos e a pôr-nos igualmente em perigo indo à Torre.

- Não corres nenhum perigo - retorqui.

- Que sabes tu disso?

- Nunca fizeste nada nem estiveste em nenhum lado. O mundo virou-se do avesso enquanto tu permanecias são e salvo em casa. Porque havias de estar em perigo?

- Não incitei um amo contra o outro. Não fingi, não espiei nem lançei falsos testemunhos, se é isso que queres dizer - disse com rispidez. - Nunca pensei que tais actos fossem admiráveis e nobres. Tenho-me mantido fiel à minha religião e enterrei o meu pai segundo os rituais da minha religião. Tenho cuidado da minha mãe e das minhas irmãs, e poupei dinheiro para quando me casar. O nosso casamento. Enquanto tu andas de um lado para o outro vestida de pajem por ruas sombrias, serves uma corte papista, visitas um traidor e me censuras por não fazer nada. Afastei a minha mão da dele.

- Não percebes que ele vai morrer? - gritei e, então, dei-me conta de que as lágrimas rolavam pelo meu rosto abaixo. Limpei-as, com a manga, irritada. - Não sabes que vão executá-lo e que ninguém o pode salvar? Ou, no melhor dos casos, vão deixá-lo lá preso à espera até ele morrer de tanta espera. Nem sequer pode salvar-se a si mesmo! Não vês que toda a gente que eu amo parece ser-me roubada? Não sabes que eu sinto falta da minha mãe todos os dias? Não percebes que sinto o cheiro a fumo todas as noites nos meus sonhos e, agora, este homem... este homem... - a minha voz foi embargada pelas lágrimas. Daniel agarrou-me pelos ombros, não num abraço, mas segurando-me firmemente de braços estendidos para poder ler o meu rosto com um olhar imparcial.

- Esse homem nada tem a ver com a morte da tua mãe - disse categoricamente. - Não tem nada a ver com uma pessoa que morre pela sua fé. Por isso, não tentes fazer passar a tua lubricidade por pesar. Tens andado a servir dois amos, inimigos figadais. Um deles estava destinado a ser preso. Se não fosse Lord Byron, seria a rainha Mary. Um deles estava destinado a triunfar e o outro a morrer.

Soltei-me dos seus braços, afastando-me do seu olhar colérico, e pus-me a caminho de casa. Ouvi-o vir atrás de mim.

- Estarias a chorar assim se fosse a rainha Mary a ser executada? - perguntou-me.

- Cala-te — ordenei por prudência. — É evidente que sim. Não acrescentou mais nada, mas o seu silêncio provava o seu cepticismo.

- Não fiz nada desonroso - disse eu em tom categórico.

- Duvido - ripostou ele tão friamente como eu. - Se te portaste de modo honroso foi apenas por falta de oportunidade.

- Filho da mãe - praguejei baixinho de forma a ele não ouvir. Daniel acompanhou-me até casa sem proferir palavra e separámo-nos à porta com um aperto de mão que não era propriamente uma despedida entre primos ou amantes. Deixei-o ir embora e teria tido muito prazer em atirar-lhe com um pesado volume à cabeça. Entrei em casa do meu pai perguntando-me quanto tempo demoraria Daniel a vir dizer-lhe que queria acabar com o nosso noivado e o que seria de mim então.

Como bobo da rainha, devia deslocar-me aos seus aposentos todos os dias. Mas, logo que pude ausentar-me uma hora sem chamar a atenção, aproveitei e fui à procura de John Dee. Bati à porta da antiga casa dos Dudley e um homem vestido de libré veio abrir-me, examinando-me com desconfiança.

- Julguei que a família Dudley morasse aqui - desculpei-me, intimidada.

- Já não - respondeu espevitadamente.

- Onde posso encontrá-los? Encolheu os ombros.

- A duquesa está alojada perto da rainha. Os filhos estão presos na Torre e o pai está no inferno.

- E o tutor?

Encolheu novamente os ombros.

- Partiu. Creio que regressou a casa do pai.

Voltei para os aposentos da rainha e sentei-me numa pequena almofada a seus pés. O cão, um galgo, tinha uma almofada semelhante à minha e ambos ficávamos ali, lado a lado, a olhar com a mesma incompreensão reflectida nos nossos olhos castanhos enquanto os cortesãos entravam e faziam vénias, solicitando terras, Cargos e outros favores; por vezes, a rainha dava palmadinhas no cão e, outras, em mim, e nem eu nem o cão dizíamos o que pensávamos desses católicos devotos que tinham mantido a chama da sua religião tão bem escondida durante tanto tempo. Bem escondida enquanto proclamavam a religião protestante e viam católicos ser queimados nas fogueiras, aguardando, como os narcisos silvestres na Primavera, o momento propício para florescerem. Pensar que havia tantos crentes no país e que, até agora, ninguém tinha dado por isso!

Depois de toda a gente se ir embora, a rainha aproximou-se de uma janela onde ninguém nos podia ouvir e chamou-me:

- Hannah!

- Sim, Majestade? - e fui logo ter com ela.

- Não achas que é altura de deixares de usar essa libré de pajem? Em breve serás mulher.

Hesitei.

- Se mo permitis, Majestade, prefiro andar assim vestida. Fitou-me com curiosidade.

- Não desejas um lindo vestido? E deixar crescer o cabelo? Não queres ser uma rapariga? Estava a pensar oferecer-te um vestido no Natal.

Pensei na minha mãe a enrolar o meu espesso cabelo negro entre os dedos para me fazer tranças e a dizer-me que eu viria a ser uma beldade e famosa pela minha beleza. Pensei nela a ralhar-me por gostar de roupas finas e em como eu lhe tinha suplicado que me desse um vestido de veludo verde para a celebração do Hannukah 1.

 

(1) O Hannukah, que significa o festival das luzes, celebra a reedificação do Templo de Jerusalém em 164 a. C. após Judas Macabeu ter derrotado os Sírios. (N. do T)

 

- Perdi o gosto por enfeites quando perdi a minha mãe -expliquei-lhe. - Sem ela para escolher os meus vestidos, ajustá-los e dizer-me que me assentam bem, não sinto nenhum prazer. Nem sequer quero ter cabelos compridos sem ela aqui para mos entrelaçar.

O rosto da rainha enterneceu-se.

- Quando morreu a tua mãe?

- Quando eu tinha onze anos - menti. - Foi morta pela peste. - Nunca arriscaria contar a ninguém a verdade e confessar que ela fora queimada como herege, nem mesmo a esta rainha que me olhava com tanto pesar.

- Pobre criança - disse ela docemente. - É uma perda que nunca se esquece. Pode-se aprender a suportá-la, mas nunca se esquece.

- Sempre que algo de bom me acontece, sinto vontade de lho participar. E sempre que me acontece algum mal, peço a ajuda dela.

- Costumava escrever à minha mãe, mesmo sabendo que nunca me autorizariam a enviar-lhe cartas. Embora nada contivessem que me pudessem recriminar. Não havia segredos, apenas a minha necessidade dela e o pesar por ela estar tão longe de mim. Queria unicamente dizer-lhe que a amava e que sentia a sua falta. E, depois, ela morreu e não me permitiram vê-la. Não pude sequer pegar-lhe na mão e fechar as suas pálpebras.

Levou as mãos aos olhos e pressionou as pálpebras com as pontas frias dos dedos como para conter as lágrimas. Clareou a voz.

- Mas isso não significa que nunca mais uses um vestido - disse em tom ligeiro. - A vida continua, Hannah. A tua mãe não quer que fiques triste. Quer que te tornes mulher, uma bela mulher. Ela não deseja certamente que a filha use roupas de rapaz para sempre.

- Não quero ser mulher - disse simplesmente. - O meu pai arranjou-me casamento, mas sei que ainda não estou preparada.

- Não podes querer ser uma virgem como eu - prosseguiu a rainha com um sorriso forçado. - Não é a sina que a maioria das mulheres escolheria.

- Não - concordei. - Não desejo permanecer solteira, mas é como se... - calei-me. - Como se eu não soubesse ser mulher - concluí, desconfortavelmente. - Observo-vos, bem como as damas da vossa corte... - por diplomacia, não acrescentei que observava sobretudo Lady Elizabeth que me parecia simbolizar a graciosidade de uma rapariga e a dignidade de uma princesa - e julgo que, com o tempo, hei-de aprender a ser mulher. Mas ainda não estou pronta.

Acenou com a cabeça.

- Compreendo. Eu não sei ser rainha sem um marido ao meu lado. Nunca conheci uma rainha sem um marido para a guiar e, no entanto, receio casar-me... - fez uma pausa. - Não creio que um homem possa alguma vez entender o temor que uma mulher sente em relação ao casamento. Particularmente uma mulher como eu que já não é jovem e não é dada aos prazeres da carne... Uma mulher que nem sequer é muito desejável... - levantou a mão para impedir que eu a contrariasse. - Eu sei, Hannah, não precisas de me lisonjear.

"E o pior de tudo é que não sou uma mulher que confia facilmente nos homens. Detesto ter de conviver com homens poderosos. Quando falam no conselho, o meu coração desata a bater, e tenho medo que a voz me trema quando for a minha vez de dizer qualquer coisa. No entanto, desprezo homens fracos. Como, por exemplo, o meu primo, Edward Courtenay, com quem o Chanceler do Reino deseja que eu me case. Só de pensar em tal "ideia dá-me vontade de rir. Ele não passa de um pateta vaidoso eu nunca poderia aviltar-me ao ponto de me pôr debaixo dele. Mas Se casasse com um homem habituado a dar ordens... - interrompeu-se. - Seria um horror - acrescentou em voz baixa - entregar o coração a um estranho! Que horror obedecer a um indivíduo que pode mandar-nos fazer o que lhe apetece! E prometer amá-lo até à morte... - calou-se. - Os homens nem sempre se consideram obrigados a cumprir tais promessas e, então, que acontece a uma boa esposa?

- Pensásteis que haveríeis de viver e de morrer virgem?" - perguntei.

Acenou com a cabeça.

- Quando eu era princesa, fiquei noiva muitas vezes. Mas depois de o meu pai me repudiar e dizer que eu era bastarda, nunca mais ninguém me propôs casamento. Afastei então, de uma vez por todas, a ideia de me casar e de ter filhos.

- Vosso pai repudiou-vos?

- Sim. Chegaram a obrigar-me a jurar sobre a Bíblia que aceitava a minha condição de bastarda - a voz tremeu-lhe e ela respirou fundo. - Nenhum príncipe da Europa se casaria comigo depois disso. Para dizer a verdade, fiquei tão envergonhada que não teria aceite nenhum marido. Não conseguia olhar para um homem honrado de frente. E, quando o meu pai morreu e o meu irmão foi coroado rei, pensei que me tornaria uma solteirona idosa, como uma velha madrinha, a irmã mais velha que o poderia aconselhar e cuidar dos seus filhos. Agora, contudo, tudo mudou e sou rainha, mas, mesmo assim, não consigo decidir-me - fez uma pausa. - Foi-me proposto casar com Filipe de Espanha, sabes...

Aguardei.

Fitou-me como se eu fosse mais sensata do que o galgo dela, como se eu pudesse aconselhá-la.

- Hannah, sou menos do que um homem e menos do que uma mulher. Não posso governar como um homem e não posso dar ao país o herdeiro que tem o direito de desejar. Não sou rainha nem rei.

- O país só necessita, certamente, de um governante que possa respeitar - disse hesitantemente. - E necessita de anos de paz. Cheguei há pouco a este país, mas até eu percebo que já não se sabe o que está bem e o que está mal. A igreja mudou e a população também tem de mudar. Há muita pobreza na cidade e fome na província. Não podeis dar de comer aos pobres e terra aos que não a têm? Dar trabalho aos homens e retirar os assaltantes e os mendigos das estradas? Restaurar a beleza da igreja e devolver as propriedades aos mosteiros?

- E depois de fazer tudo isso? - perguntou a rainha com uma estranha intensidade trémula na voz. - Que vai acontecer nessa altura? Quando a religião católica for restabelecida neste país, toda a gente estiver bem alimentada, os celeiros cheios e os mosteiros prósperos? Quando os padres viverem com pureza e a Bíblia for lida ao povo como deve ser? Quando for celebrada missa em todas as aldeias e os sinos repicarem todas as manhãs nos campos? Que acontecerá então?

- Então tereis cumprido a missão que Deus vos ordenou... -gaguejei.

Abanou a cabeça.

- Eu digo-te o que acontecerá. Serei vítima de uma doença, ou de um acidente, e morrerei sem filhos. E a bastarda de Ana Bolena e do tocador de alaúde, Mark Smeaton, virá clamar o trono... E logo que Elizabeth subir ao trono, arrancará a máscara e mostrar-se-á tal como é.

Mal a reconhecia, a sua voz silvava e havia um esgar de ódio no seu rosto.

- Porquê? Que fez ela para vos afligir tanto?

- Traiu-me - disse categoricamente a rainha Mary. - Enquanto eu combatia pela nossa herança, Elizabeth correspondia-se com o homem que queria a minha perdição. Só soube isso agora. Enquanto eu lutava, tanto por ela como por mim, Elizabeth fazia um acordo com ele que entraria em vigor quando eu estivesse morta. Tê-lo-ia assinado quando eu subisse ao cadafalso. Quando entrei em Londres com a minha irmã ao meu lado, a multidão aclamou a princesa protestante e ela sorriu-lhes. Quando enviei professores e eruditos para lhe explicar os erros da sua fé, ela também lhes sorriu, o sorriso manhoso da mãe, e disse-lhe que compreendia e que estava a receber a bênção da igreja católica. E, a seguir, veio à missa como se tivesse sido obrigada, Hannah! Quando eu tinha a idade dela, os homens mais notáveis de Inglaterra amaldiçoaram-me e -ameaçaram matar-me se eu não acatasse a nova religião. Tiraram-me a minha mãe que morreu com o coração destroçado, doente e sozinha, mas nunca se prostrou diante deles. Ameaçam-me com o cadafalso por traição! Ameaçaram-me com a fogueira por heresia! Queimavam homens e mulheres por tudo e por nada. Tive de me agarrar à minha religião com toda a coragem e não a renunciei até o imperador de Espanha em pessoa me dizer que o devia fazer pois, mantê-la, seria a minha sentença de morte. Ele sabia que me matariam se não renunciasse à minha fé. Mas tudo o que fiz a Elizabeth foi pedir-lhe que salvasse a sua própria alma e voltasse a ser a minha irmã!

- Majestade... - sussurrei. - Ela é demasiado nova. Há-de aprender.

- Ela já não é assim tão nova.

- Há-de aprender...

- Aprender... Então anda a escolher tutores errados. Conspira com o reino de França contra mim, tem um bando de homens às Suas ordens dispostos a tudo para que ela herde o trono. Todos os dias alguém vem contar-me outra intriga e todas as pistas vão dar Sempre a Elizabeth. Agora, quando olho para ela, vejo uma mulher afundada no pecado, como a mãe, essa envenenadora. Quase consigo ver a sua carne a enegrecer pelos pecados do seu coração. Vejo-a virar as costas à Santa Igreja e ao amor que tenho por ela, Vejo-a precipitar-se na traição e no pecado.

- Haveis dito que é a vossa irmãzinha - lembrei-lhe. - Que a amáveis como se fosse vossa filha.

- Amei-a realmente - disse com amargura. - Mais do que ela se lembra. Mais do que, sabendo o que a mãe dela fez à minha, devia tê-la amado. Amei-a de facto, mas ela já não é a criança que eu amei. Não é a menina que eu ensinei a escrever e a ler. Foi pelo mau caminho. Foi corrompida. Atulhou-se no pecado. Não posso salvá-la. É uma bruxa e filha de uma bruxa.

- É uma rapariga - protestei calmamente. - Não uma bruxa.

- É pior do que uma bruxa - acusou. - Uma herege. Uma hipócrita. Uma devassa. É tudo isso. Herege porque assiste à missa, embora seja protestante. Hipócrita porque nem sequer confessa a sua fé. Há gente corajosa neste país que enfrentaria a fogueira pela Sua crença, mas ela não é um deles. Quando meu irmão Edward ocupava o trono, ela era uma luz cintilante da religião reformada. Era a princesa protestante. De olhos postos no chão, vestidos escuros, rendas brancas e sem jóias... nem anéis de ouro nos dedos nem brincos nas orelhas. Agora que ele está morto, ela ajoelha-se diante do altar ao meu lado e benze-se, mas sei que é tudo a fingir. É um insulto à minha pessoa, o que não tem importância, mas também é um insulto à minha mãe, que foi posta de lado para dar lugar à mãe dela, um insulto à Santa Igreja e um pecado contra Deus. E, Deus lhe perdoe, é uma devassa por causa do que fez com Thomas Seymour. Todo o mundo estaria a par disso se aquela outra grande devassa protestante não o tivesse ocultado.

- Quem? - perguntei, simultaneamente horrorizada e fascinada, lembrando-me da rapariga no jardim e do homem que a segurava contra uma árvore, levantando-lhe as saias.

- Katherine Parr - silvou a rainha por entre os dentes. - Sabia que o marido, Thomas Seymour, fora seduzido por Elizabeth. Apanhou-os em flagrante no quarto dela. Katherine Parr desemba-raçou-se da minha irmã, mandando-a para a província, e fez frente aos mexericos, negando tudo. Protegeu-a... Bem, tinha de o fazer pois a miúda estava entregue aos seus cuidados. Protegeu igualmente o marido e, depois, morreu de parto. Era uma idiota.

Abanou a cabeça.

- Pobre mulher. Amava-o tanto que se casou com ele antes de o meu pai ter tempo para arrefecer na sepultura. Escandalizou a corte e arriscou a sua reputação. E ele agradeceu-lhe metendo-se com uma rapariga de catorze anos que vivia na casa da mulher E a minha irmãzinha Elizabeth saracoteava-se toda e dizia que morreria se ele voltasse a tocar-lhe, mas nunca trancou a porta do quarto, nunca se queixou à madrasta nem procurou melhor alojamento.

"Soube o que se passava. Meu Deus, houve tantos mexericos que até mesmo eu, escondida na província, os ouvi. Escrevi-lhe a convidá-la para vir viver comigo e ela respondeu-me a dizer que nada tinha acontecido e que não precisava de mudar de casa. E, durante todo esse tempo, continuava a deixá-lo entrar no quarto e a levantar-lhe a saia. Uma vez, Deus lhe perdoe, chegou a deixar que ele a despisse e ela ficou quase nua à sua frente. Embora Elizabeth soubesse que eu a acolheria, nunca pediu a minha ajuda. Era uma desavergonhada então e é uma devassa agora, e eu sempre o soube, que Deus me perdoe. Esperava que ela se emendasse e que, ao meu lado, se tornasse uma princesa. Pensei que uma meretriz principiante pudesse ser levada a arrepender-se, recomeçar de novo, ser ensinada a ser uma verdadeira princesa. Mas ela não consegue. Nem há-de conseguir. Verás como ela vai portar-se no futuro quando houver uma oportunidade e alguém voltar a fazer-lhe cócegas.

- Majestade... - estava impressionada por todo aquele seu rancor. Ela respirou fundo e virou se para a janela. Encostou a testa ao

vidro e eu vi-o embaciar-se com a sua transpiração. Estava frio lá fora. o insuportável Inverno inglês, e o tamisa para além do jardim cor de pedra parecia ferro cinzento sol-) um céu de estanho. Podia distinguir o reflexo do rosto da rainha no espesso vidro, como um camafeu afogado em água e a energia febril a pulsar através do seu corpo.

- Tenho de me livrar deste ódio - disse ela em voz baixa. - tenho de me livrar do sofrimento que a mãe dela me infligiu, tenho de a deserdar.

- Majestade... - repeti, mais docemente. Virou-se para mim.

- Se morrer sem herdeiro, ela será a minha sucessora - declarou.

Tudo o que eu alcançar será arruinado por ela, essa puta mentirosa... Tudo o que fiz na vida foi sempre destruído por ela. Era a única princesa de Inglaterra e a grande alegria do coração de minha mãe. Depois, num piscar de olhos, fizeram-me criada de Elizabeth e a minha mãe foi abandonada, morrendo a seguir. Elizabeth, a filha da puta, é a personalização da corrupção, tenho de ter um filho para a impedir de subir ao trono. É o maior dever que tenho para com este país. para com a minha mãe e para comigo mesma.

- Tereis de casar com Filipe de Espanha? Acenou que sim com a cabeça.

- Com ele ou com outro qualquer. Posso assinar um tratado com ele que dê resultado. Ele sabe, bem como o pai, como este país é. Poderei ser rainha e esposa com um homem como ele. Filipe tem a sua própria terra, a sua própria fortuna e não precisa da pequena Inglaterra. E, então, poderei ser rainha no meu país. sua mulher e mãe.

Houve qualquer coisa na maneira como disse "mãe" que me alertou. Tinha sentido o seu afago na minha cabeça, vira-a com crianças na rua.

- Desejais ter um filho! - exclamei.

Apercebi-me dessa necessidade nos seus olhos e ela virou-se novamente para a janela para mos ocultar.

- Sim - murmurou, fitando o jardim e o rio. - Há vinte anos que anseio por um filho. Foi por isso que amei tanto o pobre do meu irmão. O meu coração esfomeado até me fez amar Elizabeth quando era bebé. Talvez Deus na sua bondade me dê um filho... - olhou para mim. - És vidente. Terei um filho, Hannah? Terei o meu próprio filho para apertar nos braços e amar? Um filho que herdará o trono e fará de Inglaterra uma grande nação?

Concentrei-me um momento, tentando ter uma visão. mas tudo o que senti foi desespero e nada mais. Baixei os olhos e ajoelhei-me diante dela.

- Lamento, Majestade. Não prevejo o futuro quando quero. Não posso responder a essa pergunta nem a qualquer outra. As visões vêm-me ao espírito a seu bel-prazer. Não posso assegurar-vos que tereis um filho.

- Então vou eu predizer por ti - disse ela tristemente. - Desposarei esse Filipe de Espanha sem amor nem desejo, mas porque é o que o meu país necessita. Ele trar-nos-á a opulência e o poder de Espanha e a Inglaterra fará parte do seu império. Ajudar-me-á a restaurar a verdadeira Igreja e dar-me-á um filho, o qual será o divino herdeiro cristão que manterá a nação no bom caminho - fez uma pausa. - Devias dizer Ámen - lembrou-me.

- Ámen - obedeci. Era judia cristã, uma menina vestida de rapaz, uma jovem apaixonada por um homem e noiva de outro. Uma rapariga que chorava a mãe e nunca mencionava o seu nome. Passava a vida a fingir.

- Ámen!

De repente, a porta abriu-se e Jane Dormer fez sinal a dois homens, que transportavam uma moldura coberta com um pano, para entrar.

- Trago-vos uma coisa que ireis gostar de ver, Majestade! - disse com um sorriso maroto.

A rainha demorou a restabelecer-se da sua disposição pensativa. - O que é, Jane? Estou um pouco cansada.

Como resposta, Mistress Dormer esperou que os homens encostassem o seu fardo à parede e, depois, pegou numa ponta do pano, virando-se para a sua ama real.

- Estais preparada?

Sua Majestade acabou por sorrir.

- É o retrato de Filipe? - perguntou. - Não vou ser influenciada. Esqueces que sei que o meu pai casou com um retrato, mas, depois, divorciou-se do modelo. Disse que era a maior partida que podiam pregar a um homem. Um retrato é sempre enganador.

Jane Dormer puxou o pano. Ouvi a rainha soltar uma exclamação e vi as suas faces corarem e voltarem a empalidecer, dando um risinho infantil.

- Deus meu, Jane, isto sim é que é um homem! - murmurou. Jane Dormer desatou a rir, deixando cair o pano e precipitando-se para admirar o retrato.

Era realmente formoso. Jovem, na casa dos vinte enquanto a rainha tinha quarenta, barba castanha, olhos escuros sorridentes, boca sensual, boa figura, ombros largos e pernas esbeltas e fortes. Estava vestido de vermelho escuro com um gorro da mesma cor inclinado de modo ladino sobre o cabelo castanho encaracolado. Tinha ar de ser um homem capaz de sussurrar palavras de amor ao ouvido de uma mulher até esta sentir as pernas enfraquecerem. Parecia um belo malandro, mas, não obstante, havia uma firmeza à volta da boca e tinha um porte que sugeriam lealdade.

- Que achais, Majestade? - perguntou Jane.

A rainha não respondeu. Tinha os olhos fitos no retrato e, por uns instantes, a sua expressão fez-me pensar em qualquer coisa. De repente, lembrei-me. Era a minha própria expressão reflectida no espelho quando eu pensava em Robert Dudley. O mesmo ar espantado de olhos bem abertos, o mesmo meio sorriso inconsciente.

- É muito... agradável à vista - acabou por dizer.

Os olhos de Jane Dormer cruzaram-se com os meus e ela sorriu-me.

Queria também sorrir-lhe, mas sentia um estranho ruído dentro da cabeça, como um tilintar de campainhas.

- Que belos olhos escuros ele tem - observou Jane.

- Sim - suspirou a rainha.

- Usa a gola muito alta. Deve ser moda em Espanha. Vai trazer as últimas modas para a corte.

O ruído na minha cabeça aumentava. Pus as mãos nos ouvidos, mas o som ecoou ainda mais forte, era, agora, como um chocalhar.

- Pois - disse a rainha.

- E estais a ver? Tem uma cruz de ouro ao peito - arrulhou Jane. - Haverá, graças a Deus, outro príncipe católico em Inglaterra.

Eu já não aguentava. Era como se estivesse num campanário com os sinos a badalar. Contorci-me, tentando libertar-me do terrível barulho. E, então, gritei:

- Majestade! O vosso coração será destroçado! - e o ruído cessou imediatamente e fez-se silêncio, um silêncio de certo modo ainda mais ruidoso do que as badaladas. A rainha e Jane Dormer olhavam para mim e percebi que tinha falado inesperadamente, gritado como um bobo.

- Que disseste? - perguntou Jane Dormer, desafiando-me a repetir as minhas palavras e a estragar a alegre disposição de duas mulheres que apreciavam o retrato de um belo homem.

- O vosso coração será destroçado, Majestade - repeti. - Mas não sei porquê.

- Se não o sabes, mais valia não teres dito nada - repreendeu-me Jane Dormer, sempre apaixonadamente leal à sua ama.

- Não fiz por querer - desculpei-me desajeitadamente. Jane virou-se para a rainha.

- Não presteis atenção ao bobo, Majestade.

O rosto da rainha, tão alegre e animado há pouco, amuou subitamente.

- Saiam ambas - ordenou, curvando os ombros e virando-nos as costas. Através daquele gesto de mulher teimosa, apercebi-me de que ela tinha feito a sua escolha e que nenhumas palavras sensatas, nem sequer as de uma vidente, mudariam a sua opinião.

- Vão-se embora - repetiu. E quando Jane e eu nos preparávamos para cobrir novamente o retrato com o pano, deteve-nos. - Deixem-no ficar assim - disse-nos. - Talvez volte a olhar para ele.

Enquanto as longas negociações acerca do casamento decorriam entre o conselho da rainha, apreensivo com a ideia de um espanhol ocupar o trono de Inglaterra, e os representantes espanhóis, ansiosos por acrescentar outro reino ao seu império tentacular, eu consegui descobrir que o pai de John Dee morava numa casa modesta junto ao rio. Fui lá bater à porta um dia e, passado um momento, uma janela abriu-se e alguém gritou:

- Quem é?

- Venho à procura de Roland Dee - respondi. Como havia um pequeno telhado por cima da porta da frente, podiam ouvir-me, mas não conseguiam ver-me.

- Não está cá - ouvi então uma voz que reconheci imediatamente como sendo a de John Dee.

- Sou eu, meu senhor. Hannah, o bobo. É convosco que desejo falar.

- Fala baixo - ordenou-me, voltando a fechar precipitadamente a janela. Ouvi passos descer as escadas interiores de madeira e o ruído de fechaduras, e, a seguir, a porta abriu-se para um corredor sombrio.

- Entra depressa - disse ele.

Obedeci e ele bateu com a porta, trancando-a de novo. Ficámos diante um do outro no corredor às escuras, em silêncio. Fiz menção de falar, mas ele deteve-me, agarrando-me num braço. Fiquei quieta como uma estátua. Lá fora, ouvia-se o alarido habitual de uma rua londrina, gente a passar, os pregões dos vendedores e o ruído distante de um barco a descarregar nas margens do rio.

- Foste seguida? - perguntou-me. - Disseste a alguém que andavas à minha procura?

O meu coração pôs-se a bater com tanta pergunta.

- Porquê? Que se passa? - inquiri, assustada.

- Podiam ter vindo atrás de ti sem te dares conta?

Tentei reflectir, mas só me dava conta do coração a palpitar desenfreadamente.

- Não, meu senhor. Acho que não.

John Dee subiu então as escadas. Hesitei, mas, depois, segui-o, pensando que o melhor seria sair pela porta do fundo, correr para casa do meu pai e nunca mais voltar a vê-lo.

Ao chegarmos ao alto das escadas, fez-me sinal para entrar no seu quarto. Havia uma secretária encostada à janela onde se encontrava um belo e estranho objecto de cobre, e, ao lado, uma grande mesa de carvalho pejada de livros, réguas, lápis, penas, tinteiros e rolos de papel cobertos por minúsculos gatafunhos e muitos algarismos. Não podia satisfazer a minha curiosidade até saber que estava a salvo e perguntei-lhe:

- Sois procurado, meu senhor? Devo ir-me embora?

Ele sorriu, abanando a cabeça.

- Estou a ser cauteloso de mais - disse francamente. - O meu pai foi levado para ser interrogado, mas ele é membro de um grupo de pensadores protestantes. Ninguém tem nada contra mim. Assustei-me simplesmente ao ver-te.

- Tendes a certeza? - insisti.

Riu-se.

- Pareces uma gazela prestes a fugir, Hannah. Não fiques aflita. Estás em segurança aqui.

Acalmei-me e pus-me a olhar à minha volta. Ele reparou nos meus olhos fitos no objecto pousado à janela.

- O que julgas que isto é? - perguntou.

Abanei a cabeça. Era uma bela peça, mas não conseguia reconhecê-la. Era feita de cobre com uma esfera do tamanho de um ovo de pombo presa a uma haste no meio e um anel à volta, onde deslizava uma segunda esfera, tudo engenhosamente suspenso em duas outras hastes de modo a poder balançar e mover-se; havia uma série de outros anéis e outras esferas na parte de fora e a esfera mais afastada do centro era mais pequena.

- É um modelo do mundo - disse a meia voz. - Foi assim que o Criador, o grande mestre carpinteiro dos céus, fez o mundo e o pôs depois em movimento. Contém o segredo de como a mente de Deus funciona.

Inclinou-se e tocou ligeiramente no primeiro anel. Como por magia, todos começaram a girar lentamente, cada um a ritmo diferente, seguindo a sua própria órbita, por vezes ultrapassando-se uns aos outros. Tudo se movia excepto o pequeno ovo no meio.

- Onde está o mundo onde vivemos? - perguntei.

- Aqui - disse, apontando para o ovo dourado mesmo no centro. Depois, apontou para o anel com a esfera que rodava mais lentamente. - E esta é a Lua. - Apontou para o seguinte. - Este aqui é o Sol - Indicou os anéis a seguir. - Estes são os planetas e, mais longe, as estrelas, e este... - fez um gesto para um anel de prata diferente de todos os outros em que tinha tocado primeiro e que provocara o movimento do resto. - Este é o primum mobile que simboliza o movimento de tudo, o toque de Deus que iniciou o Universo. É o Verbo, a manifestação de "Faça-se luz".

- Luz - murmurei.

- Faça-se luz - repetiu. - Se soubesse o que fez isto mover-se, conheceria o segredo de todos os movimentos celestes. Com este modelo, posso desempenhar o papel de Deus. Mas, nos céus, qual é a força que faz com que os planetas se movam e que faz o Sol girar à volta da Terra?

Esperou que eu lhe desse uma resposta, mesmo sabendo que não podia. Ninguém sabia a resposta. Abanei a cabeça, entontecida pelo movimento das esferas.

Estendeu a mão e eu fiquei a ver os anéis abrandarem até pararem.

- O meu amigo, Gerard Mercator, construiu este sistema e ofereceu-mo quando éramos estudantes. Um dia, ele há-de vir a ser um grande cartógrafo. E eu... - calou-se. - Seguirei o meu caminho -acrescentou. - Aonde quer que ele me leve. Tenho de ter a cabeça lúcida, desembaraçar-me de quaisquer ambições e viver num país livre. Tenho de percorrer um caminho sem obstáculos.

Fez uma pausa e, a seguir, como se de repente se lembrasse da minha presença, perguntou:

- E tu, porque vieste cá? Que queres do meu pai?

- Não é com ele que quero falar, é convosco. Queria apenas perguntar-lhe onde poderia encontrar-vos. Tenho uma mensagem para vos entregar.

- De quem? - perguntou com impaciência.

- De Lord Robert.

Fez uma expressão decepcionada.

- Pensei, por uns instantes, que um anjo te tivesse aparecido com uma mensagem para mim. Que quer Lord Robert?

- Quer saber o que vai acontecer. Encarregou-me de duas tarefas.

Aconselhar Lady Elizabeth a contratar-vos como seu tutor e dizer-vos para contactar certas pessoas.

- Que pessoas?

- Sir William Pickering, Tom Wyatt e James Crofts. E disse-me ainda para vos comunicar o seguinte: que essas pessoas trabalham numa experiência alquímica para fazer ouro a partir de metal e reduzir prata a cinza. E que vós tendes de os ajudar. Edward Courteney sabe fazer uma determinada combinação química e eu tenho de ir ter com ele para lhe dizer o que vai acontecer.

John Dee lançou um olhar para a janela como se temesse que alguém estivesse no parapeito a ouvir-nos.

- Nos tempos que correm não é bom para mim servir uma princesa suspeita e um homem preso na Torre por traição. Bem como três outras pessoas cujos nomes talvez já conheça e de cujos planos talvez já duvide.

Lancei-lhe um olhar franco.

- Como quiserdes, meu senhor.

- Devias ser encarregue de missões mais seguras, rapariga -disse - Em que estava ele a pensar para te expor a tanto perigo?

- Obedeço às suas ordens - respondi com firmeza. - Dei-lhe a minha palavra de honra.

- Lord Robert devia dispensar-te - disse em tom mais doce. - Não pode exercer a sua autoridade metido numa prisão.

- Ele já me dispensou, mas tenho de ir vê-lo uma última vez para lhe contar quais são as vossas previsões para Inglaterra.

- Queres que consultemos o espelho agora?

Hesitei. Tinha medo do espelho sombrio e da sala às escuras, das coisas que podiam vir assombrar-nos através da escuridão.

- Da última vez, não tive uma visão verdadeira - confessei desajeitadamente.

- Quando previste a data da morte do rei? Acenei com a cabeça.

- Quando predisseste que a próxima rainha seria Jane?

- Sim.

- Mas as tuas respostas realizaram-se - observou.

- Limitei-me a adivinhar - expliquei. - Tenho muita pena, mas inventei-as.

Ele sorriu.

- Então faz isso outra vez. Já que Lord Robert o pede, adivinha apenas para mim e para ele.

Tinha sido apanhada e sabia-o.

- Então, está bem.

- Vamos fazer isso agora - disse ele. - Senta-te, fecha os olhos e tenta não pensar em nada. Vou preparar a sala para ti.

Fiz o que ele me disse e sentei-me num banco, ouvindo-o mexer-se na sala ao lado. O correr de uma cortina e o ligeiro silvo das velas a arder.

- Está tudo pronto - avisou-me. - Vem comigo e que os anjos nos guiem.

Pegou-me na mão e conduziu-me para uma pequena sala. O mesmo espelho que tínhamos usado estava encostado a uma parede com uma mesa em frente sobre a qual se encontrava uma placa de cera em que se viam sinais estranhos. Uma vela ardia diante do espelho e ele tinha colocado outra no lado oposto de modo que pareciam inumeráveis velas a desaparecer no infinito, para lá da Terra, do Sol e dos planetas, como o modelo que me mostrara; não até aos céus, mas em escuridão absoluta onde, finalmente, haveria mais escuridão do que luz de velas, nada mais do que escuridão.

Respirei fundo para afugentar o medo e sentei-me em frente do espelho. Ouviu-o murmurar as suas orações. Repeti "Ámen" e, depois, fitei a escuridão do espelho.

Ouvia-me falar, mas mal compreendia as palavras, e ouvia o arranhar da sua pena a assentar o que eu dizia. Ouvia-me citar uma série de números e palavras estranhas, como uma poesia com beleza e ritmo próprios, mas sem sentido. A seguir, ouvi a minha voz dizer muito distintamente em inglês:

- Haverá uma criança, mas nenhuma criança. Haverá um rei, mas nenhum rei. Haverá uma rainha virgem esquecida. Haverá uma rainha, mas que não é virgem.

- E Lord Robert? - sussurrou John Dee.

- Terá o estofo de um príncipe que mudará a história do mundo - murmurei. - E morrerá no seu leito, amado por uma rainha.

Quando voltei a mim, John Dee estava de pé ao meu lado com uma bebida que sabia a fruta, mas tinha um travo metálico.

- Estás bem? - perguntou-me. Assenti com a cabeça.

- Um pouco ensonada.

- É melhor voltares à corte - disse. - Vão dar pela tua ausência.

- Não ides ver Lady Elizabeth? Ficou pensativo.

- Quando tiver a certeza de que é seguro. Podes dizer a Lord Robert que o servirei, bem como a sua causa, e que também acho que a altura é favorável. Serei o conselheiro dela durante estes tempos de mudança. Mas tenho de ser prudente.

- Tendes medo? - inquiri, pensando no receio que tinha de ser espiada, no terror de que viessem bater-me à porta na escuridão.

- Não muito - disse em tom lento. - Tenho amigos que ocupam lugares de poder e planos para concluir. A rainha está a restaurar os mosteiros e as suas bibliotecas também precisam de ser restauradas. Deus deu-me a tarefa de encontrar obras e manuscritos para as suas estantes e espero ainda ver metal transformado em ouro.

- A pedra filosofal? Sorriu.

- É um enigma.

- Que devo dizer a Lord Robert quando for vê-lo à Torre? John Dee reflectiu.

- Diz-lhe apenas que há-de morrer no seu leito amado por uma rainha. Viste isso acontecer, embora não saibas o que viste. É a verdade, mas, agora, parece ser impossível.

Tendes a certeza de que ele não será executado?

Acenou com a cabeça.

- Tenho a certeza. Ele tem muita coisa para fazer e o aparecimento de uma rainha de ouro ainda está para vir. Lord Robert não é homem para morrer jovem sem ter terminado a sua missão. E prevejo que viverá um grande amor, o maior amor que jamais conhecerá.

Aguardei, mal conseguindo respirar.

- Sabeis quem ele amará? - perguntei num sussurro.

Nem por um instante pensei que fosse eu. Como poderia tal coisa acontecer? Era seu vassalo, ele chamava-me Dona Rapaz, ria-se da adoração que via estampada no meu rosto e até queria dispensar os meus serviços. Nem mesmo naquele momento em que John Dee lhe profetizava um grande amor, pensei que fosse eu.

- Uma rainha amá-lo-á - disse John Dee. - E ele será o maior amor da vida dela.

- Mas ela vai casar-se com Filipe de Espanha - comentei. Abanou a cabeça.

- Não consigo ver um espanhol no trono de Inglaterra. E muitos outros também não.

Foi difícil arranjar maneira de ver Lady Elizabeth sem que meia corte não notasse. Apesar de ela não ter amigos na corte e dar-se apenas com um pequeno círculo de gente da sua própria casa, parecia estar constantemente rodeada de pessoas, metade das quais eram pagas para a espiar. Havia espiões do rei de França em Inglaterra e o imperador espanhol também possuía a sua rede de espionagem. Todas as personalidades importantes tinham gente em casa umas das outras para detectar sinais de mudança ou de traição e a própria rainha tinha informadores a quem pagava. Tanto quanto eu sabia, alguém era pago para me espiar e só de pensar nisso ficava cheia de medo. Era um mundo de suspeita constante e amizade fingida. Fez-me pensar no modelo de John Dee, da Terra com todos os planetas a girar à sua volta. A princesa era a Terra no centro de tudo e todas as estrelas no firmamento a observavam com inveja, desejando-lhe o pior. Não admirava, portanto, que, à medida que o Natal se aproximava sem ninguém lhe manifestar a menor boa vontade, ela estivesse cada vez mais pálida e as suas olheiras mais fundas.

A inimizade da rainha aumentava de cada vez que Elizabeth entrava na corte de cabeça bem erguida e com o nariz no ar, sempre que virava a cara à estátua de Nossa Senhora na capela ou não trazia o rosário, mas sim um pequeno livro de orações preso por uma corrente à cintura. Todos sabiam que esse livro continha a oração do irmão moribundo: "Oh, meu Deus, defendei este reino dos papistas e fazei com que a verdadeira religião seja mantida." Usar isto, em vez do rosário de coral que a rainha lhe tinha oferecido, era mais do que um desafio público, era um exemplo vivo de desobediência.

Para Elizabeth, talvez fosse pouco mais do que um gesto de rebelião; mas, para a rainha, era um insulto que lhe trespassava o coração. Quando Elizabeth montava a cavalo vestida de cores vistosas, sorridente e a acenar com a mão, a população aclamava-a e dava-lhe vivas; e quando ficava em casa vestida de preto e branco, as pessoas vinham ao palácio de Whitehall para a ver jantar à mesa da rainha e comentar sobre a sua frágil beleza e a simplicidade do vestido, prova da sua devoção protestante.

A rainha reparava que apesar de Elizabeth nunca a ter abertamente desafiado, dava material aos mexeriqueiros que espalhavam boatos nos meios protestantes:

- Hoje, a princesa protestante estava muito pálida e não tocou na água benta.

- A princesa protestante pediu desculpa por não ter ido à missa, mas sentia-se novamente mal.

- A princesa, actualmente quase prisioneira da corte papista, mantém a sua religião o melhor que pode e aguarda a sua hora nas garras do Anticristo.

- A princesa protestante é uma mártir da sua fé e a irmã segue-a por toda a parte como um cão de caça, perseguindo a consciência pura da pobre rapariga.

A rainha, com as suas roupas opulentas e as jóias da mãe, parecia vistosa ao lado de Elizabeth, com o seu penteado simples, a sua palidez de mártir e o seu modesto vestido preto. Independentemente de como a rainha se vestia, Elizabeth, a princesa protestante, irradiava a juventude de uma rapariga à beira de se tornar mulher, enquanto Mary, com idade para ser sua mãe, tinha um ar cansado e oprimido pelo fardo que herdara.

Por conseguinte, era-me impossível ir simplesmente visitar Elizabeth aos seu aposentos. Mais valia anunciar-me ao embaixador espanhol que vigiava todos os passos que ela dava e que, a seguir, informava a rainha. No entanto, um dia em que caminhava atrás de Elizabeth ao longo da galeria, ela tropeçou e eu fui ajudá-la.

- Parti o salto do sapato - disse, agarrando-se ao meu braço. -Tenho de o mandar ao sapateiro.

- Deixai-me ajudar-vos até ao vosso quarto - propus, acrescentando num murmúrio. - Tenho uma mensagem para vós de Lord Robert Dudley.

Ela nem sequer pestanejou e tal controlo indicou-me logo que a princesa era uma conspiradora consumada e que a rainha tinha razão em temê-la.

- Não posso receber mensagens sem autorização de minha irmã - disse docemente Elizabeth. - Mas terei muito gosto em que me acompanhes ao quarto. Torci o tornozelo.

Inclinou-se e tirou o sapato. Não pude deixar de reparar nos lindos bordados da sua meia, mas achei por bem não perder tempo com tais futilidades. Desde sempre que tudo o que ela possuía e fazia me fascinavam. Dei-lhe o braço. Um cortesão que passava olhou para nós. Expliquei-lhe que a princesa tinha partido o salto do sapato e ele prosseguiu o seu caminho. Pelos vistos, não era ele que iria dar-se ao incómodo de a ajudar.

Tive de andar devagar porque Elizabeth coxeava ligeiramente, o que me deu tempo suficiente para lhe transmitir a mensagem que ela dissera não poder receber sem permissão.

- Lord Robert pede-vos para solicitar os serviços de John Dee como vosso tutor - disse baixinho. - Sem falta.

Elizabeth continuou a olhar em frente como se não me tivesse ouvido.

- Posso dizer-lhe que aceitais?

- Podes dizer-lhe que nada farei que possa desagradar à minha irmã, a rainha. Mas há muito tempo que desejo estudar com Mr. Dee e tencionava pedir-lhe que lesse comigo uns determinados livros. Estou particularmente interessada no ensinamento dos primeiros padres da Santa Igreja.

Lançou-me um olhar velado.

- Ando a tentar aprender os fundamentos da Igreja Católica. A minha educação foi muito negligenciada até agora.

Chegámos à porta dos seus aposentos e um guarda acorreu para a abrir. Elizabeth soltou o meu braço.

- Obrigada pela ajuda - agradeceu-me friamente, entrando. Quando a porta se fechou, vi-a inclinar-se e tornar a calçar o sapato. Claro que o salto estava em excelente estado.

A profecia de John Dee, de que os ingleses se revoltariam para impedir que a rainha se casasse com um espanhol, foi confirmada todos os dias através de dezenas de incidentes. Cantaram-se trovas contra o casamento e os pregadores mais corajosos insurgiram-se, manifestando a sua oposição a uma união tão desfavorável para a independência de Inglaterra. Desenhos grosseiros apareceram nas paredes caiadas da cidade e prospectos que difamavam o príncipe espanhol e insultavam a rainha por tomar em consideração tal casamento foram distribuídos de mão em mão. De nada serviu o embaixador espanhol assegurar a todos os nobres da corte que Filipe não estava interessado em tomar o poder, que fora o pai quem o persuadira e que, para dizer a verdade, o príncipe, um belo homem com menos de trinta anos, podia ter escolhido uma noiva que lhe daria maior prazer e lucro do que a rainha de Inglaterra, que era onze anos mais velha. Qualquer sugestão de que o sucessor ao trono de Espanha desejava aquele casamento era prova da cobiça e qualquer indicação de que ele podia procurar outra noiva, um insulto.

A rainha quase teve um ataque por causa dos conselhos contraditórios que lhe davam e do receio que tinha de perder a estima dos ingleses sem ganhar o apoio de Espanha.

- Porque disseste que o meu coração seria destroçado? - pergun-tou-me febrilmente um dia. - Foi porque previste que isto se passaria desta maneira? Com todos os meus conselheiros a dizerem-me para recusar o casamento e, depois, a pedirem-me para casar e ter um filho sem demora? Toda a população a dançar no dia da minha coroação e, meses mais tarde, a amaldiçoar o anúncio do meu casamento?

- Não - disse-lhe. — Não podia ter previsto isto. Acho que ninguém podia ter prevista uma tal reviravolta em tão pouco tempo.

- Tenho de me proteger - interrompeu-me ela como se falasse consigo mesma. - Tenho de obrigar todos os grandes lordes a obedecer-me cegamente. Mas passam o tempo a cochichar pelos cantos e a julgar-me.

Ergueu-se e encaminhou-se para a janela, virando-se depois e voltando para trás. Lembrei-me da primeira vez que a tinha visto em Hunsdon, na pequena corte onde ela raramente se ria e pouco mais era do que uma prisioneira. Era, agora, rainha de Inglaterra, mas continuava prisioneira da vontade do povo e ainda não se ria.

- E as minhas damas de companhia são piores do que a assembleia! - exclamou. - Discutem incessantemente na minha presença, mas não me dão um único conselho sensato. Querem todas coisas diferentes e todas me mentem. Os meus espiões trazem-me certas informações e o embaixador espanhol, outras. E sei que estão sempre a unir-se contra mim. Derrubar-me-ão do trono e colocarão Elizabeth no meu lugar por pura loucura. Serão impedidos de entrar no céu e irão para o inferno por terem lido livros hereges. Não querem dar ouvidos à verdadeira doutrina.

- As pessoas gostam de pensar por elas próprias... - sugeri. Virou-se contra mim.

- Não, não gostam. Preferem seguir uma pessoa que pense por elas e, agora, julgam que a encontraram. Thomas Wyatt... Oh, sim, sei quem é. É o filho do amante de Ana Bolena. De que lado julgas que está? Há homens, como Robert Dudley, à espera de uma oportunidade na Torre e têm uma princesa... Elizabeth, essa palerma que é demasiado jovem para saber o que quer, demasiado vaidosa para Se importar com os outros e demasiado cobiçosa para esperar, como eu tive de esperar dignamente durante todos esses anos de privações. Esperei num deserto Hannah. Mas ela nem sequer há-de esperar.

- Não tem de recear Robert Dudley - atalhei apressadamente. - Não vos lembrais de que ele se manifestou a vosso favor contra o próprio pai? Mas quem é esse Wyatt?

Pôs-se novamente a andar de um lado para o outro.

- Jurou que me seria fiel, mas privou-me de marido. Como se tal coisa pudesse ser feita. Diz que me retirará do trono e que, depois, mo entregará novamente.

- Ele tem muita gente do seu lado?

- Metade de Kent - murmurou. - E esse manhoso do Edward Courtenay como rei de serviço, se bem o conheço, e Elizabeth à espera de ser a rainha dele. Não duvido que haja dinheiro vindo de qualquer sítio para lhe pagar por esse crime.

- Dinheiro?

- Francos - disse com amargura. — Os inimigos de Inglaterra são sempre pagos em francos.

- Não podeis mandá-lo prender?

- Quando o encontrar, poderei. Ele é dez vezes traidor. Mas não sei onde está nem quando planeia agir.

Aproximou-se da janela e olhou lá para fora, como se pudesse ver para além dos muros do jardim, do Tamisa a cintilar à luz de Inverno, até Kent e até aos homens que conspiravam contra ela.

O contraste entre as nossas esperanças quando estávamos a caminho de Londres e as que tínhamos agora que ela fora coroada rainha impressionava-me.

- Ao entrarmos em Londres - disse-lhe - julguei que todos os nossos dissabores tinham terminado.

Virou-se para mim com uma expressão desvairada, os olhos encovados e a pele da cor de cera. Parecia muito mais velha do que no dia em que tínhamos entrado na capital à frente de um exército sob as aclamações populares.

- Eu também julguei - disse ela. -Julguei que era o fim da minha infelicidade e do pavor que senti durante toda a infância. Os pesadelos à noite e o horrível despertar todas as manhãs ao descobrir que eram verdade. Pensei que, depois de ser coroada rainha, me sentiria sã e salva, mas, agora, é pior do que dantes. Ouço todos os dias falar de outra conspiração contra mim, todos os dias vejo lançarem-me olhares desaprovadores quando vou à missa, ouço todos os dias comentarem com admiração a dignidade de Elizabeth ou a sua graciosidade. Todos os dias sei que alguém intrigou contra o embaixador francês, espalhou mexericos, contou mentiras ou sugeriu que vou entregar o trono numa bandeja a Espanha, como se eu não tivesse passado a vida, toda a minha vida, à espera do trono! Como se a minha mãe não se tivesse sacrificado, recusado quaisquer acordos com o rei para eu continuar a ser herdeira! Ela morreu sem mim ao seu lado, sem uma palavra bondosa do marido, numa casa fria e húmida em ruínas, longe dos amigos, para que, um dia, eu fosse rainha. Como se eu atirasse fora a sua herança por capricho, por um mero retrato! São loucos ao ponto de julgar que eu posso esquecer-me de quem sou? Não há nada, absolutamente nada mais precioso para mim do que este trono. Não existe nada que me seja mais precioso do que este povo. E, no entanto, não compreendem isso nem confiam em mim!

Ela tremia. Nunca a tinha visto tão perturbada.

- Majestade - disse eu - acalmai-vos. Tendes de parecer serena mesmo quando não o estais.

- Tenho de ter alguém a meu lado - murmurou como se não me tivesse ouvido. - Alguém que cuide de mim, que compreenda os perigos que corro. Alguém que me proteja.

- O príncipe Filipe de Espanha não... - comecei, mas ela levantou uma mão para me silenciar.

- Hannah, ele é a única esperança que me resta. Apesar de todas as difamações contra ele e do perigo que ambos corremos, espero que venha encontrar-se comigo. Apesar das ameaças de que hão-de matá-lo assim que ele puser os pés neste reino, peço a Deus que Filipe tenha a coragem de vir, de me fazer sua mulher e de me proteger. Não consigo governar este reino sem ele.

- Haveis afirmado que seríeis uma rainha virgem - lembrei-lhe. - Haveis dito que viveríeis como uma freira pelo vosso povo e que só ele seria o vosso marido e o vosso filho.

Ela afastou-se da janela, da vista do rio gelado e do céu cor de feno.

- Disse-o - concordou. - Mas não sabia então como seria. Não sabia que ser rainha me traria mais sofrimento do que ser princesa. Não sabia que ser rainha virgem, como sou, significava estar sempre em perigo, sempre perseguida pelo medo do futuro e sempre sozinha. E pior do que tudo, saber sempre que nada que eu faça irá durar.

A sombria disposição da rainha durou até à hora do jantar. Sentou-se à mesa cabisbaixa e de rosto triste. Um silêncio mortal abateu-se sobre a grande sala; ninguém podia estar contente com a rainha naquele estado e todos tinham coisas a recear. Se a rainha não se mantivesse no trono, quem poderia sentir-se seguro? Se ela fosse destronada e Elizabeth tomasse o seu lugar, então as pessoas que tinham restaurado as suas capelas e pagavam para serem ditas missas teriam de virar a casaca novamente. Toda a corte estava ansiosa e todos se entreolhavam. De repente, houve um movimento de interesse quando Will Somers se levantou, endireitou o gibão e se aproximou da mesa da rainha. Ao dar-se conta de que todos os olhares estavam fitos neles, fez uma elegante vénia e pousou um joelho no chão.

- O que é, Will? - perguntou ela distraidamente.

- Veno prrupor-vos maitrimonio - disse Will pronunciando mal as palavras, mas tão solene como um bispo. Toda a corte suspendeu a respiração.

A rainha fitou-o com um brilho sorridente nos olhos:

- Matrimónio, Will?

- Sou solteiro convicto - prosseguiu ele e ouviu-se um riso reprimido vindo do fundo da sala. - Como todos sabem. Mas, nesta ocasião, estou disposto a esquecer tal pormenor.

- Que ocasião é essa? - disse ela com voz trémula de riso.

- A ocaision da minha prruposta a Vossa Majestade. Tratava-se de terreno perigoso, mesmo para Will.

- Não estou à procura de marido - empertigou-se a rainha.

- Então, eu rretirro-la - disse muito dignamente Will. Levan-tou-se e começou a recuar. Toda a corte estava suspensa do seu gesto, e a rainha também. - Mas, agora que saibes que sou todo vossu, n'um penseis - acrescentou fazendo um compasso de espera digno de um músico, de um compositor de gargalhadas, e agitando um dedo ossudo para ela num aviso - em vos atirrar para os brai-ços do filho de um merro impeirador.

A corte desatou a rir a bandeiras despregadas e até a rainha se riu enquanto Will voltava no seu cómico andar desengonçado para o seu lugar e se servia de um grande copo de vinho. Olhei para ele e ele ergueu-o num brinde de um bobo para outro. Tinha feito exactamente o que devia: pegar num assunto delicado e penoso e transformá-lo numa graça. Mas Will fazia ainda melhor do que isso, tirava a ferroada, a parte que magoava, e, assim, até mesmo a rainha, que sabia estar a dividir o país por causa da sua decisão de se casar, podia sorrir e jantar prazenteiramente sem pensar, pelo menos durante uma noite, nas forças que se concentravam contra ela.

Deixei a corte a zumbir de mexericos e dirigi-me para casa do meu pai, atravessando uma cidade a fervilhar de revolta. Boatos de um exército secreto que se preparava para combater a rainha corriam por toda a parte. Todos sabiam de um ou outro homem que tinha saído de casa para ir juntar-se aos rebeldes. Contava-se que Lady Elizabeth estava pronta a casar de boa vontade com Edward Courtenay e que este prometera ocupar o trono logo que a rainha Mary fosse deposta. Os homens de Kent não permitiriam que um príncipe espanhol os subjugasse. A Inglaterra não era um dote que uma princesa meio espanhola, pudesse entregar a Espanha. Havia bons ingleses com quem a rainha podia casar, como, por exemplo, o belo jovem Edward Courtenay, que possuía linhagem real, e vários príncipes protestantes em toda a Europa, cavalheiros de criação e educação que dariam bons consortes. Ela tinha seguramente de casar, e o mais depressa possível, pois nenhuma mulher podia governar uma casa, quanto mais um reino, sem a orientação de um homem; a natureza da mulher não se ajustava ao trabalho, a sua inteligência não chegava para tomar decisões, a sua coragem não era suficiente para enfrentar dificuldades, não possuía firmeza que esistisse por um longo período de tempo. Era evidente que a rainha devia casar e dar um filho e herdeiro ao reino. Mas nunca, e nem sequer deveria ter pensado nisso, com um príncipe espanhol. A própria ideia constituía uma traição a Inglaterra e devia estar louca de amores por ele, como toda a gente dizia. Uma rainha a que a lubricidade fazia perder a sensatez não servia para reinar. Mais valia destronar uma velha rainha enlouquecida pelo desejo do que ter de suportar um tirano espanhol.

Havia gente na livraria do meu pai. A mãe de Daniel Carpenter estava empoleirada num dos bancos do balcão com o filho ao lado.

Ajoelhei para o meu pai me dar a bênção e, depois, fiz uma pequena vénia a Mrs. Carpenter e ao meu futuro marido. Tanto ela como o meu pai olharam para mim e para Daniel como gatos assanhados no muro de um jardim e tentaram, sem sucesso, ocultar o seu divertimento com a nossa zanga de namorados.

- Esperei por ti para me dares novidades da corte - disse Mrs

Carpenter. - E, evidentemente, o Daniel também queria ver-te.

O olhar que Daniel lhe enviou tornou bem claro que ele não desejava que a mãe se metesse na nossa vida.

- O casamento da rainha sempre se realiza? - perguntou o meu pai, servindo-me um copo de bom vinho tinto espanhol e puxando um banco para eu me sentar. Reparei que a minha profissão de bobo me tinha tornado uma personagem respeitável com direito a “ um banco e a um copo de vinho.

- Absolutamente - respondi. - A rainha deseja à viva força um companheiro e alguém que a ajude, e é natural que queira um príncipe espanhol.

Nada disse acerca do quadro que ela pendurara no quarto, na parede oposta ao oratório, e que consultava nos momentos difíceis, voltando o olhar da estátua sagrada para um quadro do seu futuro marido.

O meu pai lançou um olhar a Mrs. Carpenter.

- Queira Deus que não nos prejudique - resmungou. - Esperemos que não traga costumes espanhóis para o país.

Ela acenou com a cabeça, mas não se benzeu como devia e, em vez disso, deu uma palmadinha na mão do meu pai.

- Esqueça o passado - aconselhou-o. - Há três gerações que vivemos em Inglaterra. Ninguém vai pensar que não somos bons cristãos e bons ingleses.

- Se isto se tornar outra Espanha, não poderei ficar - disse o meu pai em voz baixa. - Queimavam hereges, por vezes às centenas de cada vez, todos os domingos e dias santos. Os que entre nós praticavam o cristianismo há anos eram julgados ao lado dos que andavam a fingir. E ninguém conseguia provar a sua inocência! Velhas que tinham faltado à missa por estar doentes, mulheres que tinham sido vistas a desviar o rosto quando a hóstia era levantada, qualquer pretexto servia... E quem denunciava eram sempre aqueles que tinham ganho dinheiro ou alcançado uma boa posição social e feito inimigos. Com os meus livros e a minha reputação de erudito, sabia que me viriam buscar um dia. Mas nunca pensei que levariam a minha mulher e a irmã dela antes de mim... Devíamos ter partido mais cedo.

- Não podíamos tê-la salvo, paizinho - reconfortei-o com as mesmas palavras que ele tinha usado quando eu começara a chorar dizendo que devíamos ter morrido ao lado dela.

- Isso são tempos passados - comentou em tom brusco Mrs. Carpenter. - A Inquisição não virá para aqui! Não para Inglaterra.

- Há-de vir, pois - garantiu Daniel.

Foi como se ele tivesse dito um palavrão. Fez-se imediatamente silêncio; e a mãe dele e o meu pai viraram-se ao mesmo tempo para ele.

- Um príncipe espanhol e uma rainha meio espanhola decidida a restaurar a Igreja Católica. Como melhor fazê-lo senão trazendo a Inquisição para acabar com a heresia? E a ideia da Inquisição há muito que entusiasma o príncipe Filipe.

- Ela é demasiado misericordiosa para o fazer - atalhei. - Ainda nem sequer mandou executar Lady Jane apesar de todos os conselhos que lhe dão. Lady Elizabeth vai contrariada à missa, ou nem lá aparece, e ninguém faz comentários. Se a Inquisição tivesse uma palavra a dizer, Elizabeth seria então condenada. A rainha acredita que a verdade das Sagradas Escrituras há-de ser revelada a todos e nunca mandará hereges para a fogueira. Sabe o que é ter medo e ser-se injustamente acusado.

- Casar-se-á com Filipe de Espanha, mas não lhe entregará o país. Nunca se sujeitará à sua influência. A exemplo da mãe, quer ser uma boa rainha e penso que restaurará a verdadeira religião neste país a bem. Metade da população já vai à missa com agrado e, mais tarde, os outros hão-de vir a fazer o mesmo.

- Assim o espero - disse Daniel. - Mas repito... devíamos preparar-nos. Não quero ouvir alguém bater à porta a meio da noite e dar-me conta de que é demasiado tarde para nos salvarmos. Não faço tenção de ser apanhado desprevenido e não me deixarei prender sem resistir.

- Para onde fugiríamos? - perguntei, sentindo a familiar sensação de terror na boca do estômago, a sensação de que em lugar nenhum eu estaria a salvo e de que, para sempre, teria de ficar à escuta de passos a subir as escadas sentindo o cheiro a fumo de fogueiras no ar.

- Primeiro para Amesterdão, e depois para Itália - disse ele com firmeza. - Tu e eu casamo-nos assim que chegarmos a Amesterdão e, a seguir, prosseguiremos o nosso caminho por terra. Viajaremos todos juntos. O teu pai, a minha mãe, as minhas irmãs e nós. Posso terminar os estudos de medicina na Itália e existem lá cidades que toleram os judeus e onde poderemos viver em paz praticando às claras a nossa religião. O teu pai pode continuar a vender os seus livros e as minhas irmãs encontrarão trabalho.

- Estão a ver como ele planeia tudo de antemão? - disse Mrs. Carpenter em tom aprovador ao meu pai que sorria a Daniel como se aquele jovem fosse a solução para todos os nossos problemas.

- A promessa de casamento é só para o próximo ano - interrompi. - E eu ainda não estou pronta.

- Oh, não vamos recomeçar... - resmungou o meu pai.

- Todas as raparigas pensam assim - tranquilizou-o Mrs. Carpenter.

Daniel não proferiu palavra. Deixei-me escorregar do banco.

- Podemos falar a sós? - perguntei.

- Vão para a sala da impressora - aconselhou o meu pai a Daniel. - A tua mãe e eu ficamos aqui a tomar mais um copo de vinho.

Serviu-a de mais vinho e eu surpreendi o sorriso divertido dela quando Daniel e eu nos dirigimos para a outra sala.

- Mr. Dee preveniu-me de que, se me casar, perderei as minhas faculdades de vidente - disse francamente. - Acha que é um dom divino que eu não devo rejeitar.

- Isso não são mais do que conjecturas - declarou categoricamente Daniel.

O que ele dizia assemelhava-se tanto ao que eu pensava que não podia discutir.

- Ultrapassa o nosso entendimento - teimei. - Ele quer que eu lhe prediga eventos. É alquimista e diz...

- Soa-me a feitiçaria e quando o príncipe Filipe cá estiver, esse John Dee será julgado como bruxo.

- Trata-se de um trabalho sagrado. Ele reza antes e depois das profecias. É uma tarefa espiritual.

- E, até agora, que aprendeste tu? - perguntou-me com sarcasmo. Pensei em todos os segredos que já sabia, a criança que não seria criança, a virgem mas não rainha, a rainha mas não virgem e a glória que caberia ao meu senhor.

- Há segredos que não posso revelar-te, o que constitui outro motivo para não me casar contigo pois não devem existir segredos entre marido e mulher.

Virou-se, soltando uma exclamação irritada.

- Não te armes em esperta comigo. Insultaste-me diante da minha mãe e do teu pai dizendo que não queres casar comigo. Não estejas agora aqui a tentar enganar-me e voltar com a tua palavra atrás. És tão manhosa que vais acabar por ser uma infeliz.

- Como posso ser feliz não sendo ninguém? - perguntei. - Agora sou a favorita da rainha e bem paga. Podia deixar-me subornar e ganhar centenas de libras. A rainha em pessoa confia em mim. O maior filósofo desta terra pensa que tenho um dom conferido por Deus para prever o futuro e julgas que a minha felicidade está em abandonar isto tudo para casar com um aprendiz de medicina?

Agarrou-me as mãos que eu torcia e puxou-me de encontro a si. Tinha a respiração tão entrecortada como a minha.

- Basta - disse irritado. -Já me insultaste o suficiente. Não tens de te casar com um aprendiz. Podes ser a concubina de Robert Dudley ou a assistente do seu tutor. Julgas que és a companheira da rainha, mas toda a gente te conhece como bobo. Fazes-te mais insignificante do que aquilo que eu tenho para te oferecer. Podes ser a mulher de um homem honrado que te ama, mas, em vez disso, preferes lançar-te na valeta para qualquer um te apanhar.

- De modo algum! - arquejei, tentando retirar as mãos.

De repente, abraçou-me pela cintura e a sua boca aproximou-se da minha. Sentia o odor do perfume do seu cabelo e o calor da sua pele. Encolhi-me apesar do desejo de me abandonar.

- Amas outro homem? - perguntou-me ansiosamente.

- Não - menti.

- Juras por tudo em que acreditas... seja lá o que for... que és livre para casar comigo?

- Sou livre para casar contigo - disse de modo suficientemente honesto pois Deus sabia tão bem como eu que ninguém mais me queria.

- Com honra - especificou.

Fiquei tão irritada que tive vontade de lhe cuspir.

- Claro que é com honra - disse. — Não te disse que o meu dom depende da minha virgindade? Não te disse que não quero correr o risco de o perder por causa disso? - tentei afastar-me, mas ele apertou-me ainda mais. Contra a minha vontade, o meu corpo abandonou-se a ele: à força dos seus braços, às suas coxas contra as minhas, ao seu odor e, por um motivo estranho, ao sentimento de segurança que ele me dava. Tive de fazer um esforço para não ceder. Apercebi-me de que queria moldar-me ao seu corpo, pousar a cabeça no seu ombro e deixá-lo apertar-me contra o seu peito, sabendo que estava segura - se ao menos o deixasse amar-me e permitisse amá-lo.

- Se a Inquisição se instalar neste país, teremos de partir - disse ele.

O seu abraço era cada vez mais forte. Sentia as suas ancas coladas ao meu ventre. Cessei de me debater em bicos dos pés e encos-tei-me a ele.

- Eu sei - murmurei, mal o ouvindo e sentindo-o com todo o meu corpo.

- Terás então de vir comigo como minha mulher. Só nessa condição é que te levarei, bem como ao teu pai, para um lugar seguro.

- Sim.

- Quer dizer, então, que concordas?

- Se tivermos de sair de Inglaterra, casar-me-ei contigo.

- E, em qualquer dos casos, casar-nos-emos quando fizeres dezasseis anos.

Assenti de olhos fechados. Senti depois a sua boca juntar-se à minha e o seu beijo derreter qualquer argumentação.

Largou-me e eu apoiei-me à impressora para me equilibrar. Sorriu como se soubesse que o desejo me tinha entontecido.

- Quanto a Lord Robert, quero que deixes de servi-lo - disse. - Foi condenado por traição e, procurando a sua companhia, pões-te a ti e a nós em perigo - o seu olhar tornou-se sombrio. - E não é pessoa a quem confiaria a minha noiva.

- Ele acha que eu não passo de uma criança e de uma palerma.

- Não és nem uma coisa nem outra - disse-me docemente. - E eu também não. Estás meio apaixonada por ele, Hannah, e eu não o suporto.

Hesitei, pronta a voltar a discutir, mas aconteceu-me então uma coisa muito estranha: a vontade de ser verdadeira com alguém. Nunca até então tivera o desejo de ser franca. Tinha passado a vida envolvida em mentiras: uma judia num país cristão, uma rapariga com roupas de rapaz, uma jovem apaixonada vestida de bobo e, agora, uma mulher noiva de um homem e apaixonada por outro.

- Ajudas-me se te contar a verdade?

- Farei o que puder.

- Falar contigo é como regatear com um fariseu, Daniel.

- E falar contigo, Hannah, é como pescar no mar da Galileia. Que queres dizer-me?

Virei-me para me ir embora, mas ele agarrou-me, puxan-do-me contra o seu peito. Senti-o endurecer e, de repente, percebi - uma rapariga mais velha já teria percebido há muito -que era a manifestação do desejo. Ele era meu noivo, desejava-me e eu desejava-o. Tudo o que tinha a fazer era contar-lhe a verdade.

- Daniel vou contar-te a verdade. Previ o dia em que o rei iria morrer. Previ que Jane seria coroada rainha. Previ que Lady Mary seria rainha mas que o futuro dela seria infeliz e o de Inglaterra é-me pouco claro. John Dee diz que possuo esse dom em parte por ser virgem e eu desejo honrar esse dom. Quero casar contigo e desejo-te, mas não tenho culpa de amar Lord Robert.

Disse-lhe isto tudo numa torrente de palavras com a cabeça encostada ao seu peito, os botões da sua jaqueta contra a minha testa. Tinha a inconfortável impressão de que, quando levantasse a cabeça, ele veria as marcas dos botões impressas na minha pele e eu deixaria de lhe parecer desejável, mas palerma. No entanto, mantive-me naquela posição enquanto ele considerava o que eu acabara de lhe dizer. Passando um momento afastou-me um pouco e fixou os meus olhos.

- Trata-se de um amor decente, de uma serva para com o seu amo? - perguntou-me.

Viu os meus olhos desviarem-se do seu olhar sério e levantou-me o queixo.

- Diz-me, Hannah. Vais ser minha mulher, tenho o direito de saber a verdade. É um amor honrado?

Senti o lábio tremer e lágrimas nos olhos.

- É tudo muito confuso - balbuciei. - Amo-o pelo que é... -calei-me perante a impossibilidade de transmitir o que tornava Robert Dudley desejável a meus olhos: o seu aspecto, a sua roupa, a sua riqueza, as botas, os cavalos... tudo isso ultrapassava o meu vocabulário.

- Ele é... maravilhoso - não ousei olhar Daniel nos olhos. -Amo-o pelo que poderá vir a ser... Será liberto, tornar-se-á um grande homem, o criador do príncipe de Inglaterra. E, agora, está preso na Torre à espera de ser executado e eu penso nele e penso na minha mãe, também à espera na manhã em que a levaram...

- perdi a voz. - Ele está preso como ela esteve. À beira da morte como ela. É evidente que o amo.

Manteve-me abraçada mais uns segundos e, depois, afastou-me friamente. Senti o ar frio da sala passar entre nós.

- Ele não tem nada a ver com a tua mãe - disse Daniel. - Não foi preso por causa das suas convicções religiosas. Não está a ser julgado pela Inquisição, mas por uma rainha que tu me asseguras ser justa e boa. Um homem que cometeu uma traição através de conspirações e intrigas não merece ser amado. Teria colocado Lady Jane no trono e mandado decapitar a ama que dizes amar, a rainha Mary. Não é um homem de honra.

Abri a boca para protestar, mas não havia nada que pudesse dizer.

- E tu estás envolvida com ele, com os seus planos traiçoeiros. Estás confusa por causa dos teus sentimentos por ele. Não digo que seja amor porque, se eu pensasse por um segundo que era algo mais do que um capricho de rapariga, iria dizer ao teu pai que já não quero casar contigo. Mas vou dizer-te uma coisa... Qualquer que tenha sido o futuro que previste para Robert Dudley, vais ter de abandonar o seu serviço. Tens igualmente de evitar ver John Dee e de renunciar aos teus dons. Podes servir a rainha até aos dezasseis anos, mas tens de te lembrar de que és minha noiva e de respeitar o nosso compromisso em todas as acções que tomares. E dentro de dezoito meses, quando completares dezasseis anos, casar-nos-emos e tu sairás da corte.

- Dezoito meses? - disse em voz baixa.

Levou a minha mão à boca e mordiscou a base carnuda do polegar, a parte que indica aos charlatães e bruxas de feira que uma mulher está pronta a amar.

- Dezoito meses - repetiu. - Ou juro que caso com outra rapariga e te deixo à mercê do futuro que o filósofo, o traidor e a rainha guardam para ti.

Foi um Inverno frio e nem mesmo o Natal trouxe alegria ao povo. Todos os dias a rainha recebia notícias de queixas mesquinhas e de levantamentos em todos os condados do país. Todos estes incidentes eram tão pequenos que mal mereciam ser considerados; tinham atirado bolas de neve ao embaixador espanhol, um gato morto fora pendurado na nave de uma igreja, uma mulher anunciara uma série de catástrofes num adro - nada que assustasse pessoalmente os padres ou os fidalgos, mas, todos juntos, constituíam sinais indubitáveis de um mal-estar geral.

A rainha celebrou o Natal em Whitehall, nomeou um Lord of Misrule2 e pediu que a corte fizesse uma festa à antiga, mas de nada serviu. Muitos dos convidados não assistiram aos festejos: Lady Elizabeth nem sequer visitou a irmã e ficou em Ashridge, uma casa na estrada do Norte excelentemente localizada para avançar sobre Londres quando alguém desse o sinal. Inexplicavelmente, meia dúzia de membros do conselho da rainha não compareceram; o embaixador francês estava mais ocupado do que seria de esperar na época natalícia de um bom cristão. Era evidente que se tramava qualquer coisa e que a rainha sabia e todos nós também.

Mary foi avisada pelo Chanceler, pelo bispo Gardiner e pelo embaixador espanhol que devia instalar-se na Torre e preparar o país para a guerra ou, então, sair imediatamente de Londres e preparar o castelo de Windsor para resistir a um cerco. Mas a faceta juvenil que eu notara nela quando tínhamos atravessado o país acompanhadas apenas por um palafreneiro para nos guiar reapareceu e ela jurou que não fugiria do palácio no primeiro Natal festejado no seu reino. Há menos de três meses que fora coroada rainha de Inglaterra e não queria ter o mesmo destino de Jane. Deveria trancar-se na Torre com a sua corte reduzida enquanto uma princesa mais popular do que ela reunia um exército para marchar sobre Londres? Mary jurou que ficaria em Whitehall até à Páscoa e desafiaria os boatos que corriam acerca da sua derrota.

- Mas não é lá muito alegre, pois não, Hannah? - confiou-me tristemente. - Esperei toda a vida por este Natal e, agora, parece que toda a gente se esqueceu de ser feliz.

Não estávamos sozinhas. Jane Dormer costurava sentada à janela para aproveitar os últimos raios de luz cinzenta do fim de tarde, uma dama tocava uma lúgubre ária no alaúde e outra bordava. O ambiente era tudo menos ser alegre. Dava a impressão de estarmos na corte de uma rainha moribunda e não prestes a casar.

- No próximo ano será melhor - disse eu. - Estareis casada e o príncipe Filipe far-vos-á companhia.

À menção do nome dele, a cor coloriu-lhe as faces.

- Cala-te - disse com uma expressão enlevada. - Faria mal em esperar isso da parte dele. Terá de visitar com frequência os seus outros reinos. Não há maior império no mundo do que aquele que vai herdar.

 

(2) Lord of Misrule - Mestre de diversões do Natal, na Inglaterra dos séculos XV e XVI. (N. do T.)

 

- Sim - concordei, pensando nas fogueiras dos autos-de-fé. -Sei bem como o império espanhol é poderoso.

- Claro que sabes - disse ela, lembrando-se da minha nacionalidade. - E temos de falar espanhol todo o tempo para melhorar o meu sotaque. Vamos começar imediatamente:

Jane Dormer ergueu a cabeça e riu-se.

- Ah, em breve teremos de falar espanhol.

- Ele não vai impor tal coisa - interrompeu-a apressadamente a rainha pois, até mesmo nos seus aposentos, receava que houvesse espiões. - Apenas deseja o que é o melhor para os ingleses.

- Eu sei - retorquiu em tom apaziguador Jane. - Estava apenas a brincar, Majestade.

A rainha acenou com a cabeça, mas a sua testa continuava franzida.

- Escrevi a Lady Elizabeth para que regresse à corte. Tem de vir para o Dia de Natal. Não devia tê-la deixado partir.

- Bem, não é que ela alegre muito a festa - comentou Jane.

- Não exijo a sua presença por causa da alegria que me dá - disse asperamente a rainha. - Mas pelo maior prazer de saber onde está.

- Se ela estiver demasiado indisposta para viajar, tereis de a desculpar... - observou Jane.

- Sim, mas se está demasiado doente para viajar porque se mudou de Ashridge para o castelo de Donnington? Por que razão uma rapariga doente de mais para vir a Londres, onde poderia ser tratada, se mete num castelo mesmo no meio de Inglaterra que é ideal para aguentar um cerco?

Houve um silêncio diplomático.

- O país há-de acabar por gostar do príncipe Filipe - disse amavelmente Jane Dormer. - E todas estas preocupações serão esquecidas.

De repente, bateram à porta com firmeza e esta foi aberta de par em par. O barulho assustou-me e pus-me de pé imediatamente com o coração aos saltos. Um mensageiro entrou nos aposentos. Vinha acompanhado pelo Chanceler e pelo soldado veterano Thomas Howard, duque de Norfolk, cujos rostos estavam lívidos.

Recuei, como para me esconder atrás da rainha. Estava certa de que tinham descoberto que eu era judia e de que vinham buscar-me.

Mas, depois, reparei que não estavam a olhar para mim, mas sim para a rainha, que tinha a cabeça erguida e uma expressão fria nos olhos.

- Oh, não! - murmurei.

Ela deve ter pensado que chegara o seu fim. Ergueu-se lentamente e fitou os dois homens. Sabia que o duque podia virar a casaca de um momento para o outro e que havia a possibilidade de o conselho ter maquinado rapidamente uma conspiração, como tinham feito contra Jane. Mas, manteve-se imperturbável e o rosto virado para eles era tão sereno como se tivessem vindo convidá-la para jantar. Naquele instante, amei-a pela sua coragem, pela sua determinação de rainha em não mostrar medo.

- Que se passa, meus senhores? - perguntou em tom amável, a voz firme embora eles se encaminhassem para ela e a olhassem com frieza. - Espero que, apesar de parecerem tão severos, me tragam boas notícias.

- Não são boas notícias, Majestade - declarou categoricamente o bispo Gardiner. - Os rebeldes marcham contra vós. O meu jovem amigo Edward Courtenay teve a sensatez de mo confessar e pede a vossa clemência.

Vi os olhos dela cintilarem. A sua rápida inteligência avaliou a situação, mas a sua expressão não se alterou. Ainda sorria.

- E que vos disse Edward?

- Que houve uma conspiração, que os revoltosos querem prender-vos na Torre e colocar Lady Elizabeth no trono. Temos os nomes de alguns dos conspiradores... Sir William Pickering, Sir Peter Carew, em Devon, Sir Thomas Wyatt, em Kent, e Sir James Crofts...

Pareceu-me que a rainha tinha, pela primeira vez, ficado abalada.

- Peter Carew que me ajudou em tempos de necessidade no Outono? Que levantou um exército em Devon para vir ajudar-me?

- Sim.

- E Sir James Crofts, o meu bom amigo?

- Sim, Majestade.

Permaneci meio escondida atrás dela. Eram os mesmos homens que o meu senhor nomeara e me tinha pedido para citar a John Dee. Eram os que estavam envolvidos numa experiência química para transformar prata em ouro. Percebia agora o que ele queria dizer. Percebia qual era a rainha de prata e qual era a rainha de ouro na sua metáfora. E via que, embora fosse a rainha que me pagava o salário, eu tinha-a traído novamente e não demoraria muito para que descobrissem quem era o catalizador desta intriga.

Ela respirou fundo para se acalmar.

- Há mais gente?

O bispo Gardiner virou-se na minha direcção. Tive um movimento de recuo, mas ele nem sequer me viu. Tinha de participar a pior notícia de todas à rainha.

- O duque de Suffolk não se encontra na sua casa em Sheen e ninguém conhece o seu paradeiro.

Vi Jane Dormer empertigar-se no seu assento junto da janela.

Se o duque de Suffolk tinha desaparecido, só podia significar uma coisa: estava a reunir homens para restaurar o trono da filha, Jane. Encarávamos agora uma insurreição a favor de Elizabeth e uma tentativa para repor a rainha Jane. Essas duas personagens podiam contar com o apoio de mais de metade da população e toda a coragem e resolução que a rainha Mary demonstrara até agora de nada valiam.

- E Lady Elizabeth sabe o que se está a passar? Ainda se encontra em Ashridge?

- Courtenay disse que ela ia casar-se com ele e que os dois tomariam o trono e governariam juntos. Graças a Deus, ele veio avisar-nos a tempo... Ela está a par de tudo e está preparada. O rei de França dar-lhe-á apoio e prometeu enviar um exército para a colocar no trono. É possível que, neste preciso instante, ela venha a caminho de Londres à frente dos revoltosos.

- Sim - confirmou categoricamente o duque. - Está comprometida nisto até às orelhas.

- Graças a Deus, Courtenay contou-nos tudo - interrompeu o bispo. - Ainda podemos ter tempo de escapar.

- Ficaria mais grata a Courtenay se ele tivesse tido a sensatez de não se envolver nisto - ripostou azedamente a rainha. - O vosso jovem amigo é um idiota, e um idiota fraco e desleal. - E, sem aguardar resposta, acrescentou:

- Então que havemos de fazer?

O duque deu um passo em frente.

- Deveis partir imediatamente para Framlingham, Majestade, onde haverá um navio à vossa espera para vos levar para Espanha caso seja necessário. É uma batalha da qual não podeis sair vencedora. Uma vez sã e salva em Espanha, talvez possamos reagrupar os... talvez o príncipe Filipe...

Vi-a fincar os dedos no espaldar da cadeira.

- Há apenas seis meses entrei em Londres vinda de Framlingham - proferiu. - Nessa altura, o povo queria-me como sua rainha.

- Preferiam-vos ao duque de Northumberland que manipulava a rainha Jane como um fantoche - lembrou-lhe brutalmente Norfolk. - Não em vez de Elizabeth. O povo quer a religião protestante e a princesa protestante. E, na verdade, até está preparado a morrer por isso. Não vos querem a vós com o príncipe Filipe como rei.

- Recuso-me a sair de Londres - teimou a rainha. - Esperei toda a minha vida pelo trono da minha mãe e, agora, não o abandonarei.

- Não tendes outra escolha - avisou-a. - Os rebeldes chegarão às portas da capital dentro de dias.

- Aguardarei até esse momento.

- Majestade - aconselhou-a o bispo Gardiner. - Retirai-vos, pelo menos, para o castelo de Windsor.

Mary encarou-o.

- Nem para Windsor nem para a Torre... Sou a soberana de Inglaterra e permanecerei aqui até me dizerem que já não me querem como rainha. Não me falem em partir pois não tomarei isso em consideração.

O bispo recuou perante o tom apaixonado da sua voz.

- Como vos aprouver, Majestade. Mas vivemos numa época conturbada e estais a pôr a vossa vida em perigo...

- A época pode estar perturbada, mas eu não - disse ela com altivez.

- Brincais com a vossa vida e com o vosso trono - quase lhe gritou o duque.

- Eu sei! Norfolk suspirou.

- Permitis que reúna a guarda real e as milícias da cidade para os chefiar contra Wyatt em Kent? - perguntou-lhe.

- Permito - respondeu ela. - Mas não quero que as vilas e as aldeias sejam cercadas ou pilhadas.

- Isso é impossível, Majestade - protestou o duque. - Não posso dar-vos tais garantias.

- As minhas ordens são essas - insistiu friamente. - Não quero que os campos de trigo sejam destruídos por batalhas, sobretudo nestes tempos de fome. Os rebeldes deverão ser esmagados como vermes, mas os inocentes, serão poupados.

E, perante a contrariedade de Norfolk, ela prosseguiu em voz persuasiva.

- Confiai em mim. Sou uma rainha virgem e os meus únicos filhos são o povo. É necessário que saibam que os amo e cuido deles. Não posso casar-me num banho de sangue inocente. Esta revolta tem de ser dominada com firmeza e de vez, mas gentilmente. Podes fazer isso por mim?

Ele abanou a cabeça.

- Não - respondeu sem perder tempo com amabilidades. -Ninguém o pode fazer. O inimigo conta-se às centenas, aos milhares... Essa gente compreende apenas uma coisa... A força. Compreende as forcas levantadas nas encruzilhadas e as cabeças espetadas em lanças. Não podeis governar os ingleses mostrando-vos clemente, Majestade.

- Estás enganado - ripostou Mary com tanta determinação - Cheguei ao trono por milagre e Deus não muda de dias. Havemos de reconquistar a estima desses homens por amor a Deus. Ordeno-te que o faças. Tem de ser feito segundo a vontade de Deus senão não haverá milagre. O duque fitou-a.

- São essas as minhas ordens - determinou a rainha. Ele acabou por encolher os ombros e fez-lhe uma vénia.

- Obedecer-vos-ei. Sejam quais forem as consequências.

Ela olhou para mim com uma expressão interrogadora, como a perguntar-me o que pensava. Curvei a cabeça. Não queria que ela Instasse que eu estava aterrorizada.

 

Inverno de 1554

Vim a desejar tê-la prevenido naquele momento. O duque de Norfolk foi a Kent enfrentar Wyatt numa batalha em que o devia ter derrotado num dia, mas, assim que os soldados do exército real que tinham jurado fidelidade à rainha viram o ar honesto e resoluto das forças do adversário, atiraram com os capacetes ao ar e puseram-se a gritar:

- Somos todos ingleses!

Nem um tiro foi disparado. Abraçaram-se como irmãos e viraram-se contra a rainha. O duque, desesperado, fugiu para Londres abandonando as suas tropas a Wyatt, o qual, mais decidido do que nunca, avançou até às portas da capital.

Unidos no seu ódio por Espanha e determinados a ter uma rainha protestante, os marinheiros dos barcos de guerra em Medway desertaram, juntando-se a Wyatt. Esse episódio fez-me lembrar quando eles tinham zarpado de Yarmouth para nos virem ajudar em Framlingham, alterando toda a situação a nosso favor. Apercebêramo-nos, então, de que a população estava do nosso lado e de que o povo unido não podia ser vencido. Agora, tinham-se novamente unido, mas, desta vez, contra nós.

Quando a rainha ouviu as notícias acerca de Medway, reuniu o seu conselho bastante reduzido numa sala onde pairava o odor ácido do medo e eu pensei se ela se daria conta de que estava perdida.

- Metade dos meus conselheiros refugiou-se em casa - comentou ela a Jane Dormer, olhando para os lugares vazios à volta da mesa. - E, agora, devem estar a redigir cartas a Elizabeth para lhe proporem os seus serviços e juntarem-se, assim, à facção vencedora.

Estava farta de ouvir conselhos. Aqueles que tinham permanecido na corte estavam divididos: uns aconselhavam-na a anular o casamento e a prometer escolher para marido um príncipe protestante; outros suplicavam-lhe que chamasse os espanhóis para debelar a revolta com exemplar brutalidade.

- E provar, desse modo, que não consigo governar sozinha! -vociferou a rainha, indignada.

O exército de Wyatt, engrossado por voluntários de todas as aldeias que havia ao longo da estrada para a capital, alcançou a margem sul do Tamisa numa vaga de entusiasmo, mas aí deparou com a ponte de Londres erguida para lhe cortar a passagem e com os canhões da Torre apontados na sua direcção.

- Não disparem - ordenou a rainha.

- Por amor de Deus, Majestade...

- Querem que eu abra fogo sobre Southwark, uma aldeia que me recebeu com tanta gentileza como rainha? Recuso disparar contra o povo de Londres.

- Os rebeldes estão acampados ao alcance dos canhões. Podíamos dar cabo deles com uma só salva de tiros.

- Terão de lá ficar até recrutarmos um exército que os expulse.

- Não temos exército, Majestade. Ninguém está disposto a combater por vós.

Mary empalideceu, mas não vacilou.

- Ainda não tenho exército, mas hei-de organizar um com a ajuda da boa gente de Londres.

Não aceitando conselhos e com as forças inimigas acampadas na margem sul a aumentar em número todos os dias, a rainha vestiu o seu traje de cerimónia e foi ao Guildhall encontrar-se com o Presidente da Câmara e com os representantes do povo. Jane Dormer, outras damas de companhia e eu acompanhámo-la na sua comitiva, vestidas tão imponentemente quanto podíamos e com ar confiante, muito embora desconfiássemos que íamos a caminho de uma catástrofe.

- Não sei por que vens também? - comentou cinicamente um dos velhos do conselho. - Já há suficientes bobos na comitiva da rainha.

- Mas eu cá sou um bobo inocente - respondi-lhe com impertinência. - E encontram-se poucos inocentes aqui. Creio que não sois um deles.

- Sou bobo por ter vindo - disse ele em tom amargurado. De todos os conselheiros da rainha e certamente de todas as suas damas de companhia, apenas Jane Dormer e eu esperávamos sair de Londres com vida; mas ambas tínhamos estado com Mary em Framlingham e sabíamos que ela era uma mulher em quem se podia apostar contra todas as hipóteses. Os seus olhos escuros revelavam agudeza de espírito e o seu porte era orgulhoso. Tínhamo-la visto colocar a coroa na pequena cabeça e sorrir ao seu reflexo no espelho. Tínhamos visto uma rainha não temerosa de um inimigo invencível, mas lutando pela sua vida como se fosse um jogo.

Tornava-se imparável quando ela e o seu Deus tinham uma situação desastrosa pela frente; com o inimigo às portas de Londres não se podia desejar outra rainha.

Mas, apesar de tudo, eu tinha medo. Vira homens e mulheres morrerem violentamente e sentira o odor de fogueiras a queimar hereges. Sabia, como poucas das suas damas de companhia sabiam, o que a morte significava.

- Vens comigo, Hannah? - perguntou-me prazenteiramente ao subir os degraus do Guildhall.

- Oh, sim, Majestade - respondi com os lábios gelados.

Tinham instalado um trono no Guildhall e meia Londres apareceu por pura curiosidade para ouvir a rainha defender a vida. Quando ela se levantou, uma pequena figura sob o peso da coroa, envolta no pesado manto real, pensei por uns instantes que ela não conseguiria convencê-los a aceitar a sua religião. Parecia tão frágil como uma mulher que fosse realmente governada por um marido. Parecia uma mulher em quem não se podia confiar.

Abriu a boca para falar, mas não saiu nenhum som.

- Fazei-a falar, meu Deus! - implorei. Pensei que ela tinha perdido a voz de medo e que Wyatt surgiria naquele momento para reivindicar o trono em nome de Lady Elizabeth pois a rainha não podia defender-se. Mas, então, a sua voz ecoou com tanta força como se estivesse a gritar cada palavra, mas tão clara e doce como se estivesse numa capela a cantar num coro no Dia de Natal.

Contou-lhes absolutamente tudo. Que era filha de um rei e que exigia o trono do pai e a lealdade da nação. Lembrou-lhes que era virgem sem filhos e que amava o povo como só uma mãe pode amar um filho, que os amava como uma amante e, por amá-los tão intensamente, não podia duvidar que eles a amassem com o mesmo amor.

Mostrou-se sedutora. A nossa Mary, a quem víramos doente, cercada, lamentavelmente sozinha e virtualmente presa em casa, enfrentou-os com paixão até eles arderem no fogo que dela emanava. Jurou-lhes que ia casar apenas para o bem deles, unicamente para lhes dar um herdeiro e, caso não achassem que era uma escolha judiciosa, então viveria e morreria virgem por eles; era a sua rainha e não se importava de ter marido ou não. O importante era o trono, que era dela, e a herança que caberia ao filho. Deixar-se-ia guiar por eles em relação ao casamento e a tudo o mais. Governá-los-ia como rainha sozinha, quer fosse casada quer não. Pertencia-lhes e eles pertenciam-lhe, e não havia nada que pudesse modificar isso.

Olhei em redor e vi o povo começar a sorrir e, depois, a acenar a cabeça. Era gente que queria amar uma rainha e que queria um país seguro; que uma mulher reprimisse os seus desejos e que quaisquer mudanças fossem contidas. Ela jurou que, se lhe fossem fiéis, ela ser-lhes-ia fiel e, depois, sorriu-lhes, como se tudo não passasse de um jogo. Conhecia aquele sorriso e aquele tom de voz; eram os mesmo que ela tinha usado em Framlinghton quando perguntara porque não havia de conduzir um exército contra forças superiores? Porque não havia de combater pelo trono? E, agora, mais uma vez, havia forças superiores contra ela: um exército popular acampado em Southwark, uma princesa protestante, os grandes poderes da Europa a serem mobilizados e sem aliados à vista. Mary lançou a cabeça para trás e os diamantes da pesada coroa cintilaram à volta da sala como flechas de luz. Sorriu à enorme multidão de londrinos como se cada um deles a adorasse e, nessa altura, eles adoraram-na.

- E, agora, meus bons súbditos, ganhem coragem e como verdadeiros homens enfrentem esses rebeldes sem temor pois asse-guro-lhes que eu não tenho nenhum medo deles!

A reacção da assistência foi tremenda. Lançaram os chapéus ao ar e aclamaram-na como se fosse a Virgem Maria em carne e osso. E saíram a correr para dar a notícia aos que não tinham conseguido entrar no Guildhall até toda a cidade zunir com as palavras da rainha que jurara ser uma mãe, uma amante, e amá-los tanto que, desde que eles também a amassem, só se casaria com quem lhes agradasse.

Mary enlouqueceu Londres. Os homens ofereceram-se em massa para lutar contra os rebeldes; as mulheres rasgaram a sua melhor roupa branca para fazer ligaduras e cozeram pão para os soldados levarem nas mochilas. Apresentaram-se centenas, milhares de voluntários e a batalha foi ganha, não quando o exército de Wyatt foi encurralado e vencido uns dias mais tarde, mas por Mary naquela tarde no Guildhall, quando em pé, de cabeça erguida e vibrando de coragem, lhes disse que, como rainha virgem, exigia que a amassem tanto como ela os amava.

A rainha aprendeu mais uma vez que manter o trono era mais difícil do que conquistá-lo. Após a vitória, passou dias a sós com a sua consciência, encarando a terrível questão: que fazer com aqueles que se tinham revoltado contra ela e sido tão espectacularmente derrotados. Deus protegia claramente o trono de Mary, mas não se podia zombar de Deus e Mary tinha também de se proteger a si mesma.

Todos os conselheiros que consultou insistiam em que o reino nunca haveria de conhecer a paz até a rede de rebeldes ser desmantelada, os seus chefes julgados por traição e executados. Não podia haver mais clemência por parte de uma rainha com coração terno. Até mesmo aqueles que tinham louvado a rainha por ter prendido Lady Jane e os irmãos Dudley na Torre, a exortavam agora a mandá-los matar. Pouco importava que Jane não tivesse comandado a revolta que a pusera no trono. Era a cabeça dela que teria sido coroada e, portanto, era a sua cabeça que deveria ser decapitada.

- Ela ter-vos-ia feito a mesma coisa, Majestade - murmuravam.

- É uma rapariga de dezasseis anos - defendia-se a rainha, comprimindo as têmporas doridas com os dedos.

- Houve tantos revoltosos do lado de Lady Elizabeth como do lado de Lady Jane. São ambas vossas inimigas, a vossa sombra negra. A existência delas significa que a vossa vida está perpetuamente em perigo. As duas têm de ser mortas.

Perante os seus impiedosos conselhos, a rainha procurou refúgio no seu oratório.

- A única culpa de Jane é a sua linhagem - murmurou de olhos fitos na imagem de Cristo crucificado.

Aguardou o milagre de uma resposta.

- E sabeis, como eu, que Elizabeth é realmente culpada - prosseguiu. - Mas como é que posso mandar a minha irmã e a minha prima para o cadafalso?

Jane Dormer lançou-me um olhar e ambas puxámos os nossos bancos para junto dela a fim de impedir que as outras damas de companhia a vissem e ouvissem. A rainha consultava o único conselheiro em quem realmente confiava e suplicava ao seu Deus que a guiasse nas decisões que tinha de tomar.

O conselho procurou provas da cumplicidade de Elizabeth com os rebeldes e encontrou suficientes para a enforcar várias vezes. Tinha-se encontrado com Thomas Wyatt e Sir William Pickering quando tinha sido dado o sinal da revolta e eu sabia que ela recebera uma mensagem entregue por mim com todo o à vontade de uma consumada conspiradora. Não havia quaisquer dúvidas no meu espírito, nem no da rainha, que, se a revolta tivesse sido bem sucedida - o que teria acontecido se Edward Courtenay não a denunciasse - quem estaria agora sentada a presidir ao conselho e a perguntar-se se devia, ou não, assinar a condenação à morte da meia-irmã e da prima, seria a rainha Elizabeth. Não duvidava que Elizabeth também passaria horas ajoelhadas, mas havia de acabar por assiná-la.

Um guarda bateu à porta.

- O que é? - perguntou Jane Dormer em voz baixa.

- Há uma mensagem para o bobo no portão lateral. Saí em bicos dos pés dos aposentos reais e atravessei a grande antecâmara onde houve um movimento de interesse por parte da pequena multidão que aguardava a rainha. Eram peticionários vindos de todas as partes do país: de Gales, de Devon e de Kent, locais que se tinham insurgido contra a rainha. Encontravam-se ali para pedir clemência a uma soberana que teriam destruído. Vi a sua expressão esperançada ao abrir a porta e não me admirei por ela passar horas de joelhos, tentando discernir a vontade de Deus. A rainha fora misericordiosa com aqueles que, outrora, tinham tentado tirar-lhe o trono; devia agora mostrar-se novamente clemente? E então quando chegasse a próxima vez? E a seguinte?

Não tinha de manifestar a esses traidores qualquer cortesia e, assim, abri caminho à cotovelada com ar zangado. Odiava-os por terem atentado contra a rainha não apenas uma vez, mas duas, e por agora virem à corte de cabeça baixa e retorcendo os chapéus nas mãos para suplicar que ela lhes permitisse regressar a casar a fim de poderem voltar a conspirar.

Passei por eles e desci as escadas de pedra até ao portão. Descobri que esperava encontrar Daniel e fiquei desapontada ao ver um pajem sem libré que não conhecia.

- Que desejas de mim? - perguntei-lhe.

- Trago-te isto para entregares a Lord Robert - disse-me simplesmente, pondo dois livros nos meus braços.

- Da parte de quem? Abanou a cabeça.

- Foi Lord Robert quem os pediu e disseram-me que tu terias muito prazer em ir levá-los - e, sem aguardar que eu lhe respondesse, desapareceu na escuridão, correndo meio curvado ao longo do muro.

Antes de voltar a entrar no palácio, verifiquei se não havia mensagens escondidas. Nada encontrei. Podia entregar-lhos se assim o desejasse, mas não sabia ao certo se queria fazê-lo ou não.

Decidi ir à Torre de manhã, em plena luz do dia, como se nada tivesse a ocultar. Mostrei os livros ao guarda e, desta vez, ele folheou as páginas e certificou-se de que não continham nada suspeito.

- Que língua é esta?

- Grego — disse. - E a outra é latim. Examinou-me da cabeça aos pés.

- Mostra-me o que trazes dentro do casaco e nos bolsos. Obedeci.

- És um rapaz, uma rapariga ou algo entre os dois?

- Sou o bobo da rainha. E é melhor que me deixes passar.

- Que Deus a proteja! - exclamou com repentino entusiasmo. - Bem como tudo com que ela decida distrair-se! - Conduziu-me ao longo de um relvado até outro edifício e eu desviei o rosto do sítio onde habitualmente levantavam a forca.

Entrámos por uma bela porta dupla e subimos uma escada de pedra em caracol. O guarda que se encontrava no cimo das escadas deixou-me passar.

Lord Robert estava de pé junto à janela a respirar o ar frio que vinha do rio. Virou a cabeça quando a porta se abriu e, ao ver-me, manifestou um prazer evidente.

- Dona Rapaz! Finalmente!

A cela onde ele se encontrava era maior e melhor do que a anterior. Tinha vista para um pátio sombrio e para a Torre Branca que brilhava contra o céu. O espaço era dominado por uma grande lareira de pedra coberta com os brasões, as iniciais e os nomes das pessoas que ali tinham permanecido tempo suficiente para os gravar com uma faca. O brasão dos Dudley, desenhado pelo irmão e pelo pai enquanto aguardavam a sentença, e os nomes gravados enquanto lá fora montavam o cadafalso também lá figuravam.

Os meses de prisão começavam a deixar marcas em Lord Robert. Estava pálido, de uma brancura invernal, pois desde a rebelião que não o deixavam passear no jardim, e tinha os olhos mais encovados do que quando era o filho favorito do homem mais poderoso de Inglaterra. Mas estava bem barbeado, o cabelo luzidio e sedoso, a roupa limpa, e o meu coração ainda batia ao vê-lo, mesmo sabendo que era um traidor à espera do dia da execução.

Apercebeu-se logo do que me ia na mente.

- Estás desagradada comigo, Dona Rapaz? - perguntou. -Ofendi-te em alguma coisa?

Abanei a cabeça.

- Não, meu senhor.

Aproximou-se e eu senti o perfume quente que emanava do seu casaco de veludo. Recuei. Ele levantou-me o queixo.

- Estás triste? Que se passa? Não é certamente por causa do teu namorado.

- Não - respondi.

- Então o que é? Tens saudades de Espanha?

- Não.

- Sentes-te infeliz na corte? - pôs-se ele a adivinhar. - Zangas entre raparigas?

Abanei a cabeça.

- Não querias vir aqui? - E, percebendo o estremecimento de emoção que passou pelo meu rosto, acrescentou rapidamente:

- Oh! Infiel! Mudaram-te as ideias, Dona Rapaz. Coisa que acontece com frequência aos espiões... Viraram-te contra mim e, agora, espias-me.

- Não - protestei. - Nunca. Nunca vos espiaria.

Ter-me-ia afastado, mas ele colocou as mãos à volta do meu rosto e segurou-o para ler nos meus olhos como se eu fosse um código a decifrar.

- Perdeste a esperança na causa que eu defendo e em mim e tornaste-te serva dela - acusou-me. - Amas a rainha.

- Não há ninguém que possa não amá-la - disse defensivamente. - É a mulher mais bondosa e corajosa que conheço. Debate-se todos os dias com a sua fé e com o mundo. Está em vias de se tornar uma santa.

Sorriu.

- És danada - riu-se de mim. - Estás sempre apaixonada por alguém. Então preferes a rainha a mim, o teu verdadeiro amo.

- Não - disse. - A prova é que estou aqui a fazer o que haveis mandado. Como me disseram. Embora tenha sido um estranho e eu não soubesse se era seguro.

Encolheu os ombros.

- Então diz-me lá, traíste-me?

- Quando? - perguntei, chocada.

- Quando te pedi para levares uma mensagem a Lady Elizabeth e ao meu tutor?

Viu o horror estampado no meu rosto só de pensar em tal traição.

- Valha-me Deus! Não, meu senhor. Obedeci-vos sem contar a ninguém.

- Então porque é que tudo correu mal?

Largou-me o rosto e afastou-se, pondo-se a andar de um lado para o outro. Foi até à janela, deu a volta à mesa que usava como secretária e dirigiu-se depois para a lareira. Devia ser o percurso que costumava fazer, quatro passos até à mesa, quatro até à lareira e quatro de volta à janela; um homem habituado a dar um passeio a cavalo ao acordar, a caçar todo o dia e a dançar com as damas da corte à noite, não podia, agora, ir mais longe do que estas quatro paredes.

- Edward Courteney falou da conspiração ao bispo Gardiner, meu senhor - disse em voz baixa. E o bispo avisou a rainha.

- O quê? - disse ele, dando meia volta. - Foi esse desgraçado?

- Toda a gente sabia que se andava a tramar qualquer coisa.

- O Tom Wyatt sempre foi indiscreto.

- Vai pagar por isso. Está a ser interrogado.

- Para descobrirem quem mais estava envolvido na conspiração?

- Para o obrigarem a nomear a princesa Elizabeth.

Lord Robert agarrou-se às grades da janela como se quisesse arrancá-las e voar dali para fora.

- Têm provas contra ela?

- Suficientes - disse eu amargamente. - A rainha suplica a Deus que a guie e, se chegar à conclusão de que a vontade de Deus é sacrificar Elizabeth, mandará executá-la imediatamente.

- E Jane?

- A rainha deseja salvá-la. Quer que ela abjure a religião protestante e se converta à verdadeira fé a fim de poder ser perdoada.

Ele soltou uma gargalhada breve.

- Disseste a verdadeira fé?

Corei.

- É assim que, hoje em dia, toda a corte fala, meu senhor.

- E tu também minha pequena conversa, minha cristã nova...

- Sim, meu senhor - disse, sustentando o seu olhar.

- Que arrogância fazer uma proposta dessas a uma rapariga de dezasseis anos... Pobre Jane. A fé da rainha ou a morte. Deseja Mary tornar a prima uma mártir?

- Quer salvar almas. Salvar Jane da morte e do inferno.

- E eu? - perguntou calmamente. - Vou ser salvo ou condenado a arder eternamente?

- Não sei, meu senhor. Mas se a rainha Mary seguir os conselhos que lhe dão, todos os homens cuja lealdade é suspeita serão enforcados. Já há rebeldes enforcados em todas as esquinas.

- Tenho, então, de ler estes livros depressa - observou secamente. - Talvez se faça luz no meu espírito. Que achas, Dona Rapaz? Fez-se luz no teu espírito? Tu e a verdadeira fé, como dizes.

Nesse momento, o guarda abriu a porta.

- O bobo tem de partir!

- Um instante - disse apressadamente Lord Robert. - Ainda não lhe paguei.

O guarda olhou-nos desconfiadamente, mas acabou por sair, voltando a trancar a porta. Houve um breve e doloroso segundo de silêncio.

- Não me atormenteis, meu senhor! - explodi. - Sou como sempre fui. Sou vossa.

Respirou fundo, lançando-me a seguir um sorriso.

- Sou um homem morto, Dona Rapaz - disse simplesmente. Devias chorar por mim e, depois, esquecer-me. Graças a Deus não estás pior por me teres conhecido. Coloquei-te na corte e a rainha que saiu vencedora gosta de ti. Fiz-te um favor e estou satisfeito por isso.

- Meu senhor - murmurei. - Não ireis morrer. O vosso tutor e eu consultámos o espelho e vimos a vossa fortuna. Não há quaisquer dúvidas, o vosso destino não termina aqui. Morrereis em segurança no vosso leito e vivereis um grande amor, o amor de uma rainha.

Franziu a testa ao ouvir-me e, depois, soltou um ligeiro suspiro Como um homem tentado por falsas esperanças.

- Há uns dias, teria pedido que me dissesses mais, mas, agora, é demasiado tarde. Tens de te ir embora. Dispenso-te da tua lealdade para comigo e a minha causa. O teu trabalho ao meu serviço terminou. Podes ganhar a vida na corte e casar com o teu noivo. Podes ser realmente o bobo da rainha e esqueceres-te de mim.

Aproximei-me um pouco.

- Meu senhor, nunca hei-de esquecer-vos. Lord Robert sorriu.

- Agradeço-te por isso e pelas orações que mandes dizer após a minha morte. Ao contrário da maioria dos meus compatriotas, não me interessa realmente saber quais serão. Sei que virão do fundo do teu coração e que tens um coração terno.

- Quereis que entregue uma mensagem vossa a alguém? - perguntei-lhe. - A Mr. John Dee? Ou a Lady Elizabeth?

Abanou a cabeça.

- Não há mensagens. Acabou-se. Penso que, muito em breve, verei todos os meus amigos no céu. Ou não, dependendo de qual de nós tem razão quanto à natureza de Deus.

- Não podeis morrer - solucei, desesperada.

- Não creio que tenha outra escolha. Não suportava a sua amargura.

- Lord Robert - sussurrei. - Não posso fazer nada por vós? Nada mesmo?

- Podes, sim - disse ele. - Vê se consegues convencer a rainha a perdoar a Jane e a Elizabeth. Jane porque é inocente de tudo, e Elizabeth porque é uma mulher que merece viver. Uma mulher como ela não nasceu para morrer jovem. Se soubesse que poderias cumprir essa missão com sucesso, morreria em paz.

- E por vós?

Levantou-me novamente o queixo, baixou a cabeça e beijou-me docemente nos lábios.

- Nada - disse baixinho. - Sou um homem morto. Este beijo, minha querida Dona Rapaz, é o último que alguma vez te darei. A minha despedida - afastou-se, dirigindo-se para a janela, e gritou pelo guarda para este abrir a porta. Não havia mais nada que eu pudesse fazer senão deixá-lo naquela cela fria e sombria à espera de ser enforcado. O carrasco aguardava-o.

Regressei à corte em silêncio, desorientada. Nos dias em que íamos à missa, ajoelhava-me e rezava piamente para que o Deus que tinha salvado Mary salvasse Lord Robert.

O meu estado de pessimismo exausto convinha à rainha. Não vivíamos numa corte triunfante numa cidade triunfante. Era uma corte suspensa por um fio, o da sua própria indecisão, e doente de aflições. Depois da missa, a rainha Mary passeava todos os dias à beira do rio, as mãos frias enfiadas na estola, com o vento a enfunar-lhe as saias, apressando-lhe os passos. Eu caminhava atrás dela com a minha capa preta à volta dos ombros e o pescoço enfiado na gola. Ainda bem que o meu traje de bobo era quente. Não me teria vestido de mulher naqueles dias de Inverno, nem por todos os príncipes do império espanhol.

Sabia que a rainha andava preocupada e, por isso, mantinha-me calada. Seguia-a a poucos passos de distância porque sabia que ela apreciava o conforto de uma companhia. Tinha passado tantos anos sozinha e dera tantos passeios solitários que gostava de saber que alguém a vigiava.

O vento que vinha do rio era demasiado frio para ela passear durante muito tempo, mesmo agasalhada com uma capa grossa e com uma gola de peles à volta do pescoço. Deu meia volta e eu, de cabeça baixa, quase esbarrei com ela.

- Perdão, Majestade - desculpei-me, desviando-me do seu caminho com uma pequena vénia.

- Podes caminhar ao meu lado.

Obedeci, sem proferir palavra, aguardando que ela falasse.

Manteve-se em silêncio até chegarmos à porta do pequeno jardim que um guarda abriu. No interior, uma criada esperava por ela para lhe tirar o manto e a calçar com sapatos secos. Pus a minha capa no braço e bati com os pés para os aquecer.

- Vem comigo - disse-me a rainha por cima do ombro subindo à minha frente a escada de pedra que conduzia aos seus aposentos.

Sabia porque ela tinha escolhido essas escadas. Se tivesse entrado pelo edifício principal, teríamos encontrado a sala e a antecâmara cheias de pessoas, metade das quais a suplicar pela vida de filhos ou irmãos que deviam acompanhar Tom Wyatt até ao cadafalso. A rainha Mary via-se forçada a passar por mulheres banhadas em lágrimas sempre que ia à missa ou que ia jantar. Estendiam-lhe as mãos e chamavam por ela, pedindo-lhe clemência, e ela tinha constantemente de recusar. Não admirava, portanto, que preferisse entrar no palácio por aquela passagem secreta.

A escada dava para uma pequena sala contígua aos aposentos privados da rainha. Jane Dormer estava a costurar junto da janela e meia dúzia de mulheres trabalhava a seu lado enquanto uma das damas de companhia lia o Livro de Salmos em voz alta. Vi a rainha esquadrinhar a sala como uma professora numa sala de aula e fazer um pequeno aceno de assentimento por os alunos se portarem tão bem. Quando Filipe de Espanha chegasse, iria deparar com uma corte devota e obediente.

- Vem, Hannah - disse, sentando-se à lareira e fazendo-me um gesto para me sentar num banco perto dela.

Sentei-me, dobrando os joelhos por debaixo do queixo, e olhei para ela.

- Quero que me prestes um serviço - disse-me bruscamente.

- Claro, Majestade - ia levantar-me para o caso de ser mandada nalgum recado, mas ela pousou a mão no meu ombro.

- Não preciso que entregues nenhuma mensagem. Quero que vejas uma coisa por mim.

- Ver uma coisa?

- Veres com o dom que Deus te deu, com a tua vista interior.

- Vou tentar, Majestade, mas sabeis que não depende de mim - hesitei.

- Mas já por duas vezes profetizaste o meu futuro. Disseste que eu seria rainha e avisaste-me de que teria um desgosto. Quero que me avises novamente.

- Avisar-vos a respeito de quê? - perguntei em voz tão baixa quanto a dela. Com a lenha a crepitar na lareira, ninguém na sala podia ouvir-nos.

- Trata-se de Elizabeth - murmurou.

Por uns instantes, não soube de o que dizer. Os meus olhos fitavam as brasas incandescentes por debaixo dos troncos de macieira.

- Há cabeças mais sensatas do que a minha para vos aconselhar, Majestade - disse com dificuldade. À luz do fogo, distinguia o cabelo flamejante da rainha e o seu sorriso confiante.

- Não há ninguém em quem eu confie mais. Ninguém que possua o teu dom.

- Lady Elizabeth vem hoje à corte? - indaguei. Mary abanou a cabeça.

- Não virá. Diz que está doente, que tem o ventre e os membros inchados. Está demasiado doente para se levantar do leito. Demasiado doente para ser transportada. Creio que é uma velha doença, mas só padece dela em certas ocasiões.

- Certas ocasiões?

- Quando tem muito medo - explicou Mary - e quando é apanhada em flagrante. A primeira vez que se sentiu assim tão mal foi quando executaram Thomas Seymour. E, agora, julgo que é por temer ser acusada de estar envolvida na conspiração. Vou enviar-lhe o meu médico e quero que também vás.

- Claro - aceitei, pois não sabia que outra coisa dizer.

- Senta-te com ela, lê para ela e faz-lhe companhia como a mim. E se ela se sentir suficientemente bem para vir à corte, viaja com ela para a animares ao longo da jornada. Se estiver a morrer, poderás reconfortá-la, mandar vir um padre e levá-la a pensar na salvação da alma. Não é demasiado tarde para que Deus lhe perdoe. Reza por ela.

- Mais alguma coisa? - perguntei num fio de voz e a rainha teve de se inclinar para me ouvir.

- Espia-a - ordenou categoricamente. - Tudo o que ela faz e toda a gente que vê, todo o pessoal da casa. São todos uns hereges e uns mentirosos. Assenta todos os nomes que ouvires, sobretudo os nomes dos amigos. Escreve-me todos os dias para me contares o que apuraste. Tenho de saber se ela anda a conspirar contra mim. Tenho de arranjar provas.

Agarrei os joelhos com força e senti-os tremer.

- Não posso espiá-la - murmurei. - Não posso trair uma jovem e ser a causa da sua morte.

- Sou agora a tua ama - lembrou-me em voz doce. - Northum-berland está morto e Robert Dudley encontra-se preso na Torre. Que outra coisa podes fazer senão obedecer-me?

- Sou o vosso bobo, não a vossa espia - protestei.

- Mas também tens de me dar conselhos e de me obedecer. E eu ordeno-te que sirvas Elizabeth como me serviste a mim e me informes de tudo o que vires e ouvires. Mas, mais importante ainda, espera que o teu dom se manifeste. Julgo que conseguirás ver através das mentiras dela e que serás capaz de me dizer o que se passa no seu coração.

- Mas se ela estiver doente e a morrer... Por uns instantes, as rugas à volta da boca e dos olhos suavizaram-se.

- Se ela morrer, perderei a minha única irmã - disse em tom sombrio. - Em vez de enviar inquisidores, deveria tê-la abraçado nos meus braços. Não me esqueço de que cuidei de Elizabeth quando ela era bebé e que aprendeu a andar agarrada aos meus dedos - fez uma pausa, sorrindo à recordação daquelas pequeninas mãos gorduchas agarradas às suas, mas, depois, sacudiu a cabeça como para se libertar do amor que sentia por essa criança ruiva.

- Tom Wyatt foi preso - prosseguiu. - O seu exército foi dizimado e Elizabeth mete-se na cama demasiado doente para me Escrever e responder às minhas cartas, demasiado doente para vir a Londres. São coincidências a mais. Também se sentiu doente quando Jane subiu ao trono e eu necessitava dela ao meu lado. Adoece sempre que há perigo. Conspirou contra mim e sofreu um revés, mas não mudou de ideias. Tenho de saber se podemos conviver como rainha e herdeira do trono, como irmãs, ou se aconteceu o pior e ela é minha inimiga, nada a detendo a não ser a minha morte - pousou o seu olhar franco em mim. - E tu poderás avisar-me caso ela me odeie. Não é nenhuma desonra. Podes trazê-la a Londres ou escrever-me para me confirmares se ela está realmente doente. Serás os meus olhos e os meus ouvidos à cabeceira dela e Deus há-de guiar-te.

Rendi-me às suas palavras.

- Quando quereis que eu parta?

- Amanhã de madrugada. Se assim o desejares, podes ir des-pedir-te do teu pai esta noite. Não tens de jantar na corte.

Levantei-me e fiz-lhe uma ligeira vénia. Estendeu-me a mão.

- Hannah... - disse em voz baixa.

- Majestade?

- Quero que consultes o teu coração e vejas se Elizabeth pode vir a amar-me e a converter-se à verdadeira religião.

- Espero ver igualmente isso - disse com fervor.

Os lábios da rainha tremiam, tentando conter as lágrimas.

- Mas se ela é desleal, tens de me avisar. Mesmo que isso destroce o meu coração.

- Assim farei - prometi.

- Se Elizabeth puder ser salva, então governaremos juntas. Terei a minha irmã ao meu lado e ela será a primeira entre os meus súbditos, a minha sucessora.

- Com a graça de Deus.

- Ámen - murmurou. - Tenho saudades dela. Quero-a a viver em segurança comigo. Ámen.

Enviei uma mensagem ao meu pai para o prevenir de que iria visitá-lo e que levaria o jantar. Quando bati à porta de casa, vi que ele ainda estava a trabalhar pois a sala da impressora ao fundo da loja estava iluminada. A luz passou para a loja quando ele veio abrir-me a porta com uma vela na mão.

- Hannah! Mi querida!

Num instante abriu o ferrolho e eu entrei, pousando o cesto de comida para o abraçar e, depois, ajoelhei-me diante dele para pedir a bênção.

- Trouxe o nosso jantar do palácio - disse-lhe. Soltou um risinho.

- Um festim. Vou comer como uma rainha!

- Olha que ela come bastante mal. Não é nada bom garfo. Se queres ficar gordo, tens de comer como um conselheiro!

Fechou a porta da entrada e gritou para a sala da impressora:

- Daniel! Ela já chegou!

- O Daniel está cá? - perguntei nervosamente.

- Veio ajudar-me com um texto para um livro de medicina e, quando lhe disse que vinhas, ficou à tua espera - disse alegremente o meu pai.

- Não há comida suficiente para ele - disse eu de má vontade. Não me esquecera de que nos tínhamos despedido zangados.

O meu pai sorriu perante a minha petulância, mas não fez comentários pois Daniel já entrava na sala com as mãos sujas e um avental manchado de tinta por cima das calças pretas.

- Boa noite - cumprimentou-me com ar sério.

- Boa noite.

- Então vamos lá! - exclamou o meu pai todo satisfeito pelo belo jantar e colocando três bancos altos à volta do balcão enquanto Daniel foi lavar as mãos ao pátio. Esvaziei o cesto. Um empadão de carne de caça, um pão ainda quente do forno, uns nacos de churrasco embrulhados em musselina, meia dúzia de costeletas de cordeiro e duas excelentes garrafas de vinho tinto das caves da rainha. Não trouxera legumes, mas roubara uma sobremesa da cozinha para depois da refeição. O meu pai abriu as garrafas enquanto fui buscar canecas e umas facas com cabo de osso ao armário.

- Então quais são as novidades? - perguntou o meu pai quando começámos a comer.

- Tenho de ir para casa da princesa Elizabeth que está doente. A rainha quer que eu lhe faça companhia.

Daniel levantou o rosto, mas não disse nada.

- Onde está ela? - perguntou o meu pai.

- Em Ashridge.

- Vais sozinha? - perguntou com ar preocupado.

- Não. A rainha vai enviar-lhe médicos e dois conselheiros. -Penso que vamos ser uns dez ao todo.

Acenou com a cabeça.

- Ainda bem. As estradas não são seguras. Muitos rebeldes fugiram e vão a caminho de casa. Estão enraivecidos e armados.

- Teremos uma boa escolta - disse, roendo uma costeleta. Lancei um olhar a Daniel e reparei que me observava, o que me fez perder o apetite.

- Quando voltas? - perguntou Daniel em tom calmo.

- Quando a princesa Elizabeth estiver em condições de viajar.

- Tens notícias de Lord Robert? - interrompeu o meu pai.

- Dispensou-me do seu serviço - disse friamente sem levantar os olhos do prato pois não queria que nenhum deles reparasse na minha dor. - Está a preparar-se para morrer.

- Tem de ser - disse simplesmente o meu pai. - A rainha já assinou a condenação à morte do irmão dele e de Lady Jane?

- Ainda não - disse eu. - Mas não vai demorar muito. Acenou com a cabeça.

- Os tempos estão maus - comentou. - Mas quem havia de dizer que a rainha conseguiria vencer os rebeldes?

Fez uma pausa para dar uma dentada num naco de carne e prosseguiu.

- Enquanto ela mandar no coração do povo, continuará a ser rainha. E pode até vir a ser uma grande rainha.

- Sabes alguma coisa do John Dee? - perguntei ao meu pai.

- Anda em viagem. A comprar manuscritos aos montes e a enviar-mos para eu os guardar. Faz bem em manter-se longe de Londres. A maioria dos rebeldes era amiga dele.

- Eram todos da corte - contradisse-o. - Conheciam toda a gente. A própria rainha dava-se com Edward Courtenay e, a certa altura, dizia-se que ela se casaria com ele.

- Ouvi dizer que foi ele quem denunciou os outros - disse Daniel. Assenti com a cabeça.

- Nem é um bom súbdito nem um bom amigo - opinou Daniel.

- Nem podes imaginar as tentações que esse homem tem -disse astuciosamente, pensando no Edward Courtenay que eu conhecia: fraco e de compleição vermelhusca, um rapaz, e nem sequer um rapaz agradável, a fingir que era homem. Um gabarolas a julgar que, cortejando a rainha Mary ou Lady Elizabeth, elevaria o seu estatuto social; ou que alguém o ajudaria a subir na vida.

- Desculpa - disse para o meu noivo. - Tens razão. Não é boa pessoa nem bom amigo. Nem sequer como rapaz é grande coisa.

Um sorriso adoçou-lhe o rosto; e a mim. Senti-me mais à vontade.

- Como está a tua mãe? - perguntei delicadamente.

- Esteve doente por causa deste tempo húmido, mas, agora, sente-se melhor.

- E as tuas irmãs?

- Estão bem. Quando voltares de Ashridge, gostaria que fosses a minha casa conhecê-las.

Acenei que sim com a cabeça. Não imaginava poder vir a conhecer as irmãs de Daniel.

- Há-de chegar o dia em que viveremos todos juntos - disse ele. - E é melhor que as conheças agora para se habituarem.

Não disse nada. Não nos tínhamos separado como um casal de noivos, mas era evidente que, a exemplo do que tinha acontecido em casos semelhantes, Daniel preferia esquecer aquela discussão. O nosso noivado mantinha-se. Sorri-lhe. Não podia imaginar viver em casa dele com a mãe a mandar-me fazer as coisas como sempre tinham sido feitas e as irmãs a tratá-lo como uma criança mimada: o filho rapaz.

- Achas que vão admirar o meu traje de bobo? - perguntei em tom provocador. Ele corou.

- Não especialmente - respondeu com secura, dando um pequeno gole no vinho. A seguir voltou-se para o meu pai e disse: - Acho que vou terminar aquela página - e levantando-se voltou a pôr o avental.

- Queres que te leve a sobremesa mais tarde? - perguntei-lhe. Fitou-me com dureza.

- Não. Não gosto de coisas que são simultaneamente doces e amargas.

Will Somers estava no pátio da cavalariça a contar piadas aos palafreneiros enquanto estes selavam os cavalos para a nossa viagem.

- Vens connosco, Will? - perguntei-lhe, esperançada. Mas ele abanou a cabeça.

- Nem pensar! Está demasiado frio para o meu gosto. Julgava que também não era coisa para ti, Hannah Green.

- A rainha pediu-me que perscrutasse o coração de Elizabeth - disse com uma careta.

- O coração dela? - repetiu em tom cómico. - Primeiro tens de o encontrar.

- Que mais podia fazer?

- Nada senão obedecer.

- E que devo fazer agora?

- A mesma coisa. Aproximei-me dele.

- Achas que ela estava realmente a conspirar para tirar a rainha do trono e ocupar o seu lugar?

- Não há quaisquer dúvidas, palerma. E ainda és mais palerma por perguntares - disse com o seu sorriso experiente

- Então, se eu informar a rainha de que ela está a mentir e a fingir-se de doente, será a sua condenação à morte.

Will anuiu com a cabeça.

- Não posso fazer uma coisa dessas a uma mulher como a princesa. Seria como matar uma andorinha com uma flecha.

- Então falha a pontaria - aconselhou-me.

- E mentir à rainha dizendo-lhe que a princesa está inocente?

- Tens o dom da vidência, não tens?

- Quem me dera não o ter.

- Chegou a altura de cultivares o dom da cegueira. Se não tiveres visões, não poderás ser responsabilizada. És um bobo inocente, tenta ser mais inocente do que bobo.

Acenei com a cabeça um pouco mais animada. Um dos lacaios trouxe o meu cavalo e Will pôs as mãos em concha para me içar para a sela.

- Estás a subir cada vez mais alto - disse. - Bobo e, agora, conselheira. Só uma rainha realmente muito solitária é que pede conselhos a um bobo.

Levámos três dias a percorrer os cinquenta quilómetros até Ashridge através do frio e de uma tempestade de granizo. Como os conselheiros conduzidos por Lord William Howard, primo de Lady Elizabeth, tinham medo que houvesse rebeldes na estrada, éramos obrigados a avançar ao passo dos guardas enquanto o vento soprava e o sol espreitava, amarelo-pálido, através das nuvens sombrias.

Chegámos a casa da princesa por volta do meio-dia, vendo com satisfação a espiral de fumo que saía das altas chaminés. Entrámos no pátio dos estábulos, mas não encontrámos palafreneiros que se encarregassem dos cavalos nem lacaios prontos a servír-nos. Lady Elizabeth mantinha pouco pessoal, um mestre da cavalariça e meia dúzia de rapazes, e não estavam preparados para receber uma comitiva como a nossa. Deixámos os soldados acomodarem-se como podiam e dirigimo-nos para a porta da frente.

Lord William Howard bateu à porta e tentou abri-la, mas estava trancada por dentro e ele teve de ir à procura do capitão da guarda. Foi nesse momento que percebi que as ordens dele eram muito diferentes das minhas. Eu estava aqui para descobrir o que se passava no coração da princesa e fazer com que ela voltasse a cair nas boas graças da irmã enquanto a missão dele era levá-la para Londres, viva ou morta.

- Batam de novo - ordenou ele irritado. - Se não abrirem, arrombem a porta.

A porta foi aberta de imediato por um par de criados pouco entusiasmados que olharam ansiosamente para os doutores com casacos de peles e para os homens armados atrás deles.

Entrámos na grande sala como inimigos, sem sermos convidados. O silêncio reinava no interior. Havia tapetes no chão que abafavam os nossos passos e pairava um odor a hortelã para purificar o ar. Uma mulher temível, Mrs. Kat Ashley, a governanta e protectora de Elizabeth, esperava-nos no fundo da sala com uma imponente touca na cabeça e com os braços cruzados sobre o peito opulento. Examinou a comitiva real dos pés à cabeça como se fôssemos um bando de piratas.

Os conselheiros e os médicos entregaram-lhe as suas credenciais. Recebeu-as sem olhar para eles.

- Vou dizer à minha senhora que estão aqui, mas ela está demasiado doente para ver quem quer que seja - anunciou friamente. - Vou mandar servir-vos o jantar que conseguirmos arranjar, mas não temos quartos para toda a gente.

- Ficaremos em Hillham Hall, Mrs. Ashley - disse Sir Thomas Cornwallis.

Ela franziu o sobrolho como se não tivesse grande opinião da sua escolha e saiu. Fui atrás dela e ela fez-me logo frente.

- Onde pensas que vais? Olhei-a com ar inocente.

- Vou convosco, Mrs. Ashley. Ver Lady Elizabeth.

- Ela não quer ver ninguém. Está demasiado doente.

- Então deixai-me rezar aos pés da cama - disse calmamente.

- Se Lady Elizabeth está doente, vai precisar das orações do bobo - disse alguém da sala. - Essa criança até anjos vê.

Apanhada nas malhas da desculpa que nos tinha contado, Kat Ashley fez um sinal de assentimento com a cabeça e deixou-me segui-la até aos aposentos privados de Elizabeth.

Um pesado reposteiro de damasco cobria a porta para abafar o ruído da antecâmara e havia cortinas da mesma cor nas janelas para impedir que a luz entrasse. O quarto estava iluminado apenas por velas e à sua luz bruxuleante via-se o rosto pálido da princesa deitada com o cabelo ruivo espalhado na almofada como uma hemorragia.

Percebi imediatamente que ela estava de facto doente. Tinha a barriga inchada como se estivesse grávida e as mãos pousadas na coberta bordada também estavam empoladas, os dedos tão grossos como os de uma velha. E o mesmo acontecia ao seu rosto encantador e até mesmo ao pescoço.

- Que tem ela? - perguntei.

- Hidropisia (1) - respondeu Mrs. Ashley. - A pior crise que já teve. Precisa de paz e repouso.

- Minha senhora - sussurrei.

Ela levantou a cabeça e olhou para mim através das pálpebras inchadas.

- Quem está aí?

- O bobo da rainha. Hannah. Os olhos velaram-se.

- Tens alguma mensagem para mim? - perguntou num fio de voz.

- Não — disse rapidamente. - Vim a mando da rainha. Enviou-me para vos fazer companhia.

- Agradeço-lhe - murmurou. - Podes dizer-lhe que estou realmente doente e que preciso de estar sozinha.

- Também enviou médicos para tratar de vós. Estão na sala à espera de poderem ver-vos.

- Estou demasiado doente para poder viajar - disse Elizabeth falando em voz mais forte.

Mordi os lábios para esconder um sorriso. Estava doente, ninguém podia fingir ter os nós dos dedos inchados para escapar ser acusado de traição. Mas usava a doença como um trunfo.

 

(1) Hidropisia (em desuso) - o mesmo que anasarca - edema generalizado que resulta numa acumulação de líquidos nos tecidos. (N. do T.)

 

- E conselheiros, assim como o vosso primo - preveni-a.

- Quem?

- Vosso primo, Lord William Howard, entre outros.

Vi os seus lábios inchados contorcerem-se num sorriso amargo.

- Deve estar muito determinada contra mim para enviar um parente meu prender-me - observou.

- Posso fazer-vos companhia durante a vossa doença? - sugeri. Virou a cabeça.

- Estou demasiado cansada - queixou-se. - Volta quando estiver melhor.

Levantei-me e recuei. Kat Ashley fez-me sinal com a cabeça para eu sair do quarto.

- E podes dizer a quem a Veio buscar que ela está a morrer - soluçou, a sua expressão tensa de ansiedade como a corda de alaúde. - Não podem ameaçá-la com o cadafalso porque ela já se encontra às portas da morte!

- Ninguém está a ameaçá-la - disse-lhe. Fungou com desconfiança.

- Vieram buscá-la, não vieram?

- Sim - concordei, contrariada. - Mas não trazem nenhuma ordem de prisão.

- Então, ela não há-de sair daqui - disse com ar irado.

- Vou dizer-lhes que ela está demasiado doente para viajar. Mas os médicos quererão examiná-la.

Fungou novamente e aproximou-se do leito para endireitar a colcha. Ao fazer novamente uma vénia para me despedir, notei que os olhos de Elizabeth brilhavam por baixo das suas pálpebras inchadas.

Não tivemos outro remédio senão esperar. Meu Deus, o que nós esperámos. Ela era perita absoluta em demoras. Quando os médicos chegaram à conclusão de que podia viajar, ela não conseguia decidir que vestidos queria levar, depois, as suas damas de companhia não os conseguiram emalar a tempo para partirmos ao raiar da aurora. A seguir, toda a roupa tinha de ser retirada outra vez porque ficávamos mais um dia e, depois, Elizabeth sentia-se tão cansada que recusava ver quem quer que fosse no dia seguinte. E a espera pela princesa recomeçava.

No decorrer de uma dessas manhãs, quando os baús estavam a ser carregados nas carroças, fui ter com Lady Elizabeth para lhe dar assistência. Estava deitada numa atitude de total exaustão.

- Está tudo pronto - disse-me. - E eu estou tão exausta que não sei se posso pôr-me a caminho.

O seu corpo já não estava tão inchado, mas era evidente que ela ainda não estava bem. Teria melhor aparência se não tivesse empoado o rosto com pó de arroz e enegrecido ainda mais as olheiras. Parecia uma mulher doente a fingir-se doente.

- A rainha quer que regresseis a Londres - preveni-a. - A liteira que vos é destinada chegou ontem e, se quiserdes, podereis viajar deitada.

Ela mordeu os lábios.

- Sabes se ela me acusará quando eu lá chegar? - perguntou-me em voz muito baixa. - Estou inocente. Não conspirei contra ela, mas há muita gente que falará mal de mim. São todos difamadores e mentirosos.

- Ela ama-vos - assegurei-lhe. - Penso que, mesmo agora, Sua Majestade vos acolherá de bom grado se aceitardes converter-vos à sua fé.

Elizabeth fitou-me com aquele olhar franco dos Tudor, igual ao do pai e ao da irmã.

- Estás a dizer-me a verdade? - perguntou. - És uma vidente ou uma vigarista, Hannah Green?

- Nem uma coisa nem outra - respondi, sustentando o seu olhar. - Fui dada ao rei como bobo por Lord Robert Dudley contra a minha vontade. Nunca quis ser bobo. Possuo o dom da vidência que não controlo e que, por vezes, me revela coisas que não entendo. E que, a maior parte das vezes, nem sequer se manifesta.

- Viste um anjo a acompanhar Robert Dudley - lembrou-me ela. Sorri.

- Pois vi.

- Como é que era?

Não me contive e soltei um risinho.

- Lady Elizabeth, fiquei tão impressionada com Lord Robert que nem reparei no anjo.

Ela sentou-se, esquecendo-se da sua pose de doente e riu-se comigo.

- Ele é muito... tão... é de facto um homem para quem vale a pena olhar.

- E só depois é que me dei conta de que havia um anjo ao pé dele - disse para me desculpar. - Na altura, fiquei transtornada pela presença dos três, Mr. Dee, Lord Robert e o terceiro personagem.

- E as tuas visões vieram a realizar-se, não foi? - perguntou, interessada. - Profetizaste eventos para Mr. Dee.

Hesitei com a sensação de que o mundo se abria por debaixo dos meus pés.

- Quem é que diz tal coisa? - indaguei prudentemente. Sorriu-me, um clarão de pequenos dentes brancos de raposa.

Não interessa o que eu sei. Estou a perguntar o que tu sabes.

- Algumas coisas que vi realizaram-se - disse de modo suficientemente sincero. - Mas, por vezes, o que eu preciso realmente de saber, as coisas mais importantes do mundo, não me vêm à cabeça e esse dom torna-se inútil. Se eu tivesse sido avisada...

- De quê?

- Da morte da minha mãe - disse, arrependendo-me imediatamente. Não queria falar do meu passado com esta arguta princesa que me fitava com intensa simpatia.

- Não sabia - disse ela docemente. - Ela morreu em Espanha? És espanhola, não és?

- Morreu de peste - disse, sentindo uma terrível dor por ter de mentir acerca da minha mãe, mas tinha medo das fogueiras da Inquisição e era como se já visse as suas chamas reflectidas nos olhos de Lady Elizabeth.

- Lamento imenso - disse ela com ar pesaroso. - É duro para uma menina crescer sem mãe.

Percebi que ela estava a falar de si mesma pois a mãe tinha sido acusada de ser bruxa, adúltera e prostituta, e morrera no cadafalso. Mudou de assunto:

- Mas o que te levou a vir para Inglaterra?

- Temos parentes aqui e o meu pai arranjou-me casamento. Queremos começar tudo de novo.

- O teu noivo sabe que vai casar com uma maria-rapaz? - perguntou com um sorriso?

- Não gosta do meu traje nem que trabalhe na corte - respondi amuada.

- E tu, gostas dele?

- Como primo, gosto o suficiente, mas não para marido.

- E tens alguma escolha?

- Não muita - disse.

Acenou com a cabeça com ar entendido.

- É sempre a mesma coisa - comentou com uma ponta de ressentimento na voz. - As únicas pessoas que podem escolher a vida que querem viver são as que vestem calças. Fazes bem em usá-las.

- Terei de me desfazer delas em breve. Comecei a usá-las ainda era criança, mas... - hesitei pois não queria fazer-lhe confidências. Esta princesa tinha o condão dos Tudor de levar os outros a falar de mais.

- Quando tinha a tua idade, julgava que nunca conseguiria aprender a ser mulher - disse ela, fazendo eco dos meus pensamentos. - Tudo o que queria era ser erudita. Tinha um tutor maravilhoso que me ensinou latim e grego, bem como outras línguas. Desejava muito agradar ao meu pai e julguei que, se eu fosse tão inteligente como Edward, ele teria orgulho de mim. Acreditas que lhe escrevia cartas em grego?... O grande terror da minha vida era ter de casar e de ir viver longe de Inglaterra. A minha esperança era tornar-me uma princesa culta e ser autorizada a permanecer na corte. Quando o meu pai morreu, pensei que ficaria sempre na corte. Que seria a irmã favorita do meu irmão e tia dos seus filhos para, juntos, completarmos a obra do meu pai.

Abanou a cabeça.

- Não desejaria realmente ser vidente como tu - acrescentou com ar pensativo. - Se soubesse que acabaria assim, vítima do desagrado da minha irmã, com o meu adorado irmão morto e o legado do meu pai perdido...

Calou-se e, depois, virou-se para mim com os olhos negros farejados de lágrimas. Estendeu a mão com a palma para cima e notei que ela tremia ligeiramente.

- Podes ler-me a sina? - perguntou. - Irá Mary perceber que eu não fiz nada de mal e acolher-me-á como irmã? Poderás convencê-la de que estou inocente?

- Se puder, fá-lo-ei. - peguei na sua mão, mas mantive os olhos fitos no rosto que tinha tão repentinamente empalidecido. Ela recostou-se nas almofadas ricamente bordadas. - Sei que a rainha deseja ser vossa amiga. Ficaria muito feliz de vos saber inocente.

Retirou a mão.

- Mesmo que o Vaticano me canonizasse, ela não seria feliz. E vou explicar-te porquê. Não é por causa da minha ausência na corte nem pelas minhas dúvidas quanto à sua religião. É a raiva que existe entre irmãs. Nunca me perdoará pelo modo como a mãe e ela foram tratadas. Nunca me perdoará por ter sido eu a filha predilecta do meu pai e o bebé da corte. Lembro-me de Mary jovem e, de um dia, ela estar sentada aos pés da minha cama a olhar para mim como se quisesse sufocar-me com uma almofada, embora estivesse a cantar uma canção de embalar. Confunde o amor com o ódio. E a última coisa que deseja na corte é uma irmã mais nova.

Não protestei, a sua interpretação era astuta.

- Uma irmã mais nova e mais bonita - prosseguiu. - Uma irmã que é pura Tudor e não uma mestiça espanhola.

Olhei-a.

- Não me insulteis, Alteza.

Elizabeth soltou uma pequena gargalhada selvagem.

- Ela mandou-te para o pé de mim para auscultares o meu coração, não foi? Tem fé em que Deus lhe diga como proceder, mas penso que o deus dela não lhe traz felicidade. A longa espera para subir ao trono e, no fim, um país em revolta. E, agora, um casamento, mas o noivo não tem pressa de vir ter com ela e, em vez disso, continua a conviver com as amantes. Que vês no futuro dela, bobo?

- Nada, Alteza. Não posso ver quando quero. E de qualquer modo, tenho medo de ver.

- Mr. Dee acha que podias ser uma grande vidente e ajudá-lo a desvendar os mistérios do céu.

Virei o rosto, temendo que a minha expressão revelasse a imagem repentina que me viera ao espírito. O espelho sombrio e as palavras a saírem-me pela boca fora dizendo quais as duas rainhas que governariam a Inglaterra. Uma criança, mas não criança, um rei, mas não rei, uma rainha virgem esquecida, uma rainha, mas não virgem. Não sabia quem podiam ser.

- Há meses que não falo com o Mr. Dee - disse prudentemente.

- Mal o conheço.

- Falaste uma vez comigo sem eu te dirigir a palavra e mencionaste o nome dele e de outros - murmurou Lady Elizabeth.

- Não, Alteza - atalhei. - O salto do vosso sapato partiu-se e eu acompanhei-vos até aos vossos aposentos.

Ela semicerrou os olhos e sorriu.

- Não és nada parva, Hannah.

- Sei distinguir um falcão de uma perdiz.

Houve um silêncio e, depois, ela sentou-se e pôs os pés no chão.

Ajuda-me a levantar.

Peguei-lhe no braço e ela apoiou-se em mim. Cambaleou ligeiramente ao endireitar-se e não era a fingir. Estava doente e eu senti-a tremer. Estava doente de medo. Deu um passo em direcção à janela e olhou para o jardim onde lágrimas de gelo pingavam das folhas das árvores.

- Não ouso ir a Londres - confessou num doce gemido.

- Ajuda-me, Hannah, não ouso ir. Tens notícias de Lord Robert? Não tens realmente nenhuma mensagem de John Dee para mim? Ou dos outros? Não há ninguém que me ajude?

- Juro-vos, Lady Elizabeth, que não há ninguém que possa socorrer-vos. Não existe nenhuma força que possa opor-se à Vossa irmã. Há meses que não vejo Mr. Dee e a última vez que vi Lord Robert foi na Torre, onde ele aguardava a sua execução. Não esperava viver muito mais tempo e dispensou-me do seu serviço - a minha voz soava trémula e respirei fundo para me acalmar. - A última coisa que me disse foi para eu pedir à rainha que perdoasse a Lady Jane - não acrescentei que ele também me pedira para eu interceder por ela. Não me pareceu que Lady Elizabeth precisasse de ser lembrada de que estava tão perto do cadafalso como a prima.

Fechou os olhos e encostou-se aos batentes de madeira.

- E pediste por ela? Será perdoada?

- A rainha é sempre misericordiosa. Ela olhou-me com olhos marejados de lágrimas.

- Assim o espero - disse gravemente. - Que me vai acontecer?

No dia seguinte, a princesa não resistiu. As carroças com os baús e a mobília já tinham partido pela estrada do norte. A liteira pessoal da rainha com almofadas e tapetes da lã mais quente, quatro mulas brancas atreladas e o muleteiro a postos esperava à porta. Lady Elizabeth, quase a desfalecer, teve de ser meio carregada, meio " arrastada pelos médicos até à liteira. Chorava como se tivesse dores, mas eu achava que era de medo pois ela sabia que ia ser julgada por traição e, depois, executada.

Viajámos lentamente. A cada paragem, a princesa tentava atrasar a partida queixando-se dos solavancos e demorando a entrar e a sair da liteira. O rosto, a única parte do corpo exposta ao vento invernal, foi ficando mais vermelho e inchado. Não estava bom tempo para viajar, sobretudo no caso de uma pessoa naquele estado, mas os conselheiros da rainha recusavam aceitar mais demoras. Com o seu próprio primo a exortar a comitiva a avançar, Elizabeth percebeu que, tão certo como se a condenação já tivesse sido assinada, estava destinada a morrer.

Ninguém se atreveria a ofender a sucessora ao trono como os homens da rainha se atreviam a tratá-la. Ninguém obrigaria a futura soberana de Inglaterra a subir para uma liteira ao raiar da aurora e a partir por uma estrada gelada cheia de buracos. Quem se atrevia a tratá-la agora assim decerto sabia que ela nunca seria rainha.

A jornada de três dias parecia durar há uma eternidade. A princesa levantava-se tarde todos os dias com demasiadas dores nas articulações para seguir viagem antes do meio-dia e, sempre que parávamos para jantar, ela ficava na mesa até tarde e mostrava-se relutante em voltar a subir para a liteira. Quando chegávamos à casa onde devíamos passar a noite, os conselheiros praguejavam de frustração e subiam furiosos para os quartos.

- Que pensais ganhar com estes atrasos, Alteza? - perguntei-lhe uma manhã em que Lord Howard me mandara pela décima vez ao quarto dela para lhe perguntar quando estaria despachada. - Não é mais provável que a rainha vos perdoe se a fizerdes esperar.

Lady Elizabeth estava de pé sem se mexer enquanto uma das suas damas lhe enrolava lentamente um lenço à volta da garganta.

- Ganho mais um dia - respondeu.

- Mas para fazer o quê?

Sorriu-me, embora os seus olhos estivesse escuros de medo.

- Ah, Hannah, nunca ansiaste viver tanto como eu se não sabes que outro dia é a coisa mais preciosa que existe. Faria agora tudo para ganhar outro dia e, amanhã, faria o mesmo. Cada dia que passa sem chegarmos a Londres é mais um dia que estou viva. Todas as manhãs em que acordo, todas as noites em que durmo, é uma vitória.

Ao quarto dia, veio um mensageiro com uma carta para Lord William Howard. Este leu-a e, de rosto subitamente grave, guardou-a dentro do gibão. Elizabeth esperou que ele desviasse o olhar e, depois, fez sinal para eu me aproximar. Conduzi o meu cavalo para o lado da liteira.

- Daria muito para saber o que está escrito nessa carta - disse-me. - Vê se sabes alguma coisa. Não reparam em ti.

A minha oportunidade surgiu quando parámos para jantar. Lord William e os outros conselheiros estavam reunidos a ver os seus cavalos serem levados para aos estábulos e eu vi-o tirar a carta. Detive-me ao seu lado, fingindo puxar as botas de montar.

- Lady Jane morreu - anunciou. - Foi executada há dois dias. E Guilford Dudley também.

- E Robert? - perguntei sem conseguir conter-me, a minha voz elevando-se acima do murmúrio dos comentários.

- Robert Dudley?

Perdoava-se muita coisa aos bobos e ele limitou-se a fazer um ar espantado pelo meu interesse.

- Não tenho notícias dele - disse. - Penso que deve ter sido executado juntamente com o irmão.

O mundo toldou-se à minha volta e percebi que estava prestes a desmaiar. Deixei-me cair num degrau e meti a cabeça entre os joelhos.

- Lord Robert - murmurei. - O meu senhor.

Era impossível ele estar morto, aqueles seus olhos brilhantes e vivos terem desaparecido para sempre. Era impossível pensar que o carrasco podia tê-lo decapitado como se ele fosse um vulgar traidor, que o seu encanto e o seu doce sorriso não o tivessem salvo. Quem podia ter assinado tal condenação? Quem se atreveria a matá-lo? E parecia ainda mais impossível depois da profecia favorável que eu fizera ao consultar o espelho. Tinha ouvido as palavras saírem da minha boca, cheirara o fumo da vela, vira a chama tremeluzente e o reflexo do brilho que se transformou em escuridão. Sabia que ele seria amado por uma rainha e morreria no seu leito. Tinha-me sido mostrado e as palavras tinham-me sido ditas. Se o meu Lord Robert estava morto, então, não só o grande amor da minha vida desaparecera como o meu dom não passava de uma quimera, uma ilusão. De uma machadada, estava tudo acabado.

Levantei-me e encostei-me a cambalear à parede de pedra.

- Sentes-te mal, bobo? - ouvi um dos homens de Lord Howard enquanto este me olhava com indiferença.

Engoli o nó que sentia na garganta.

- Posso anunciar a morte de Lady Jane a Lady Elizabeth? - perguntei-lhe. - Vai certamente querer saber.

- Podes - assentiu ele. - Penso que deve querer sabê-lo. Dentro de alguns dias, toda a gente estará ao corrente. Jane e os Dudley foram decapitados diante de centenas de pessoas. É um assunto público.

- E qual foi a acusação? - perguntei embora soubesse a resposta.

- Traição - respondeu em tom categórico. - Diz-lhe isso. E pretender ocupar o trono.

Sem mais nenhuma troca de palavras, todos se viraram para a liteira de onde Lady Elizabeth, com uma mão estendida para Mrs. Ashley e a outra agarrada à porta, descia com dificuldade.

- Assim morrem todos os traidores - acrescentou Lord Howard, olhando para o rosto pálido da princesa, sua própria prima e amiga de todos os que, agora, balançavam na forca. — Assim morrem todos os traidores - repetiu.

- Ámen - disse uma voz do fundo do grupo de soldados.

Esperei até ela jantar e, depois, sentei-me ao seu lado. Estava a lavar os dedos numa tina de água que o estalajadeiro lhe estendia.

- Então, a carta? - perguntou-me sem virar a cabeça.

- Lamento ter de vos dizer que a vossa prima, Lady Jane Grey, e o marido foram executados... E Lord Robert Dudley também.

As mãos que estendia a um pajem para este as secar mantiveram-se perfeitamente firmes, mas notei que os seus olhos escureciam.

- Quer dizer, então, que a rainha levou a dela avante - observou calmamente. - Arranjou coragem para mandar matar uma rapariga que conhecia desde criança - fitou-me. - Descobriu o poder do machado. Ninguém vai conseguir dormir. Graças a Deus que estou inocente.

Acenei com a cabeça, mas mal ouvi as suas palavras. Pensava em Lord Robert a caminhar de cabeça erguida para a morte.

Lady Elizabeth levantou-se da mesa.

- Estou muito cansada - disse ao primo. - Demasiado fatigada para seguir viagem. Tenho de repousar.

- Temos de continuar, Lady Elizabeth - insistiu ele.

- Não posso - recusou simplesmente. - Vou descansar agora e partimos amanhã cedo.

- Desde que seja bastante cedo - acabou ele por ceder. - De madrugada, Alteza.

Ela lançou-lhe um sorriso que passou dos lábios.

- Evidentemente - concordou.

A viagem, contudo, tinha de terminar e dez dias após a nossa partida chegámos, de noite, a casa de um fidalgo em Highgate.

Alojaram-me junto das damas de companhia de Lady Elizabeth, as quais se ocuparam dos preparativos da entrada da princesa em Londres até de madrugada, e vi, assim, roupa branca, corpetes e vestidos brancos virginais serem arejados e engomados. Lembrei-me do dia em que ela tinha vindo saudar a irmã às portas da capital com as cores brancas e verdes dos Tudor. Mas quando a liteira a veio buscar na manhã seguinte, ela apareceu, sem se atrasar e toda vestida de branco, como uma noiva mártir, diante da multidão que se juntara para a ver.

- É melhor fechar as cortinas da liteira - disse-lhe Lord Howard em tom brusco.

- Quero-as abertas - ripostou ela imediatamente. - O povo poderá ver assim em que condições estou depois de me forçarem a sair de casa e a viajar durante quinze dias com este tempo.

- Dez dias - corrigiu-a ele. - E podia ter durado apenas cinco.

Sem se dignar responder-lhe, recostou-se nas almofadas e fez-lhe sinal com a mão para se ir embora. Ouviu-o praguejar em voz baixa e depois, partir a galope. Aproximei o meu cavalo da liteira e a pequena comitiva pôs-se a caminho da capital.

Londres tresandava a morte. Havia cadáveres pendurados em forcas em cada esquina. Podia ver-se a cara dos mortos, como gárgulas, de lábios retorcidos e olhos esbugalhados fitos em nós. Quando o vento soprava, os corpos balouçavam com a roupa a esvoaçar à volta deles como se ainda estivessem vivos e o fedor espalhava-se pelas ruas fora.

Elizabeth olhava em frente sem virar o rosto para os lados, mas sentia a presença de todos aqueles cadáveres; muitos deles eram seus amigos e todos tinham morrido numa insurreição que, segundo se dizia, ela instigara. Ao entrar na liteira, estava tão branca como o vestido, mas, ao descermos King's Street, o seu rosto tinha adquirido a cor de leite desnatado.

Quando alguns populares a saudavam: "Deus proteja Sua Alteza!", ela erguia debilmente a mão. Parecia uma condenada à morte e tinha motivos para isso. Fora ela quem fomentara esta revolta e as quarenta e cinco forcas levantadas nas ruas constituíam a prova de que falhara. Elizabeth tinha, agora, de enfrentar a justiça que os mandara executar e ninguém duvidava de que também morreria.

Em Whitehall, assim que nos avistaram a aproximarmo-nos lentamente, os portões foram abertos de par em par. Elizabeth endirei-tou-se na liteira de olhos postos na grande escadaria do palácio. A rainha Mary não se encontrava lá para receber a irmã e também não se via nenhum membro da corte. Pairava um silêncio de desgraça. Apenas um escudeiro veio falar com Lord Howard, mas não com a princesa, como se ambos fossem seus carcereiros.

Lord Howard aproximou-se da liteira e estendeu-lhe a mão para a ajudar a descer.

- Foram-vos preparados aposentos - disse em tom seco. - Podeis escolher duas pessoas para vos acompanhar.

- As minhas damas têm de vir comigo - protestou ela imediatamente. - Não me sinto bem.

- Apenas duas - repetiu ele. - São as ordens que tenho.

A frieza com que a tinha tratado ao longo da viagem tornara-se mais exacerbada. Estávamos em Londres e ele era agora vigiado por cem olhos e cem orelhas. Não podia, portanto, manifestar nenhum tipo de gentileza com uma traidora.

- Escolhei.

- Mrs. Ashley e... - Elizabeth olhou à sua volta e os seus olhos pousaram em mim. Recuei pois, como qualquer outro, não desejava que me associassem a esta princesa condenada. Mas ela sabia que, através de mim, podia contactar a rainha.

- Mrs. Ashley e Hannah - disse. Lord Howard riu-se:

- Três bobos juntos - comentou em voz baixa, fazendo sinal ao escudeiro para nos conduzir aos aposentos de Elizabeth.

Não esperei até Lady Elizabeth se ter instalado e fui procurar Will Somers. Encontrei-o a fazer a sesta num dos bancos do salão embrulhado num manto que alguém devia ter-lhe posto por cima. Toda a gente gostava de Will.

Sentei-me ao lado dele, perguntando-me se o devia acordar ou não.

Falou sem abrir os olhos:

- Devemos parecer um bom par de bobos. Separados há semanas e nem sequer nos cumprimentamos - deu depois um pulo e abraçou-me.

- Julguei que estavas a dormir.

- Estava a fazer de conta - disse com ar digno. - Cheguei à conclusão de que um bobo a dormir é mais engraçado do que acordado. Principalmente na corte.

- Porquê? - perguntei.

- Ninguém se ri das minhas graças e, por isso, decidi verificar se riem dos meus silêncios. Como preferem um bobo silencioso, vão adorar um bobo a dormir. Mas, se estiver a dormir, não saberei se estão a rir ou não. E, assim, posso reconfortar-me com a ideia de que sou muito divertido. Sonho com as minhas graças e acordo a rir-me. É um pensamento engraçado, não é?

- Muito.

- A princesa já chegou? Acenei que sim com a cabeça.

- Doente?

- Realmente doente, julgo eu.

- A rainha pode curá-la instantaneamente de todas as dores. tornou-se cirurgiã, especializada em amputações.

- Deus queira que isso não venha a acontecer. Mas diz-me uma coisa, Will... Robert Dudley teve uma morte rápida?

- Contra todas probabilidades, continua vivo. Senti o coração pular-me no peito.

- Bendito seja Deus! Disseram-me que tinha sido decapitado.

- Calma - disse Will. - Vá lá. Mete a cabeça entre os joelhos. Ouvi a voz dele vinda de muito longe a perguntar-me:

- Sentes-te melhor, pequena? Endireitei-me.

- Agora estás a corar - comentou. - Com o sangue a subir-te à cabeça tão depressa ainda saltas das calças como um foguete.

- Tens a certeza de que está vivo? Disseram-me que tinha morrido...

- Deus sabe que devia estar morto. Viu o pai, o irmão e a pobre cunhada serem executados debaixo da sua janela e, no entanto, ele ainda cá está - disse Will. - Talvez tenha ficado com o cabelo branco por causa do choque, mas ainda tem a cabeça sobre os ombros.

- Tens a certeza absoluta de que está vivo?

- Por enquanto, está.

- Posso visitá-lo sem arranjar sarilhos? Riu-se.

- Os Dudley sempre arranjaram sarilhos.

- Quer dizer, sem ser suspeita.

- Esta corte anda sinistra - disse abanando a cabeça com tristeza. - Ninguém pode fazer nada sem ser suspeito. É por isso que durmo. Não posso ser acusado de conspirar durante o sono. O meu sono é inocente e tenho o cuidado de não sonhar.

- Quero apenas vê-lo - disse sem conseguir ocultar a ansiedade da minha voz. - Para ter a certeza de que está e há-de continuar vivo.

- Ele é como todos os outros homens - retorquiu Will. - Mortal. Posso assegurar-te de que, hoje, está vivo. Mas não posso, contudo, dizer-te por quanto tempo. Tens de te contentar com isso.

 

Primavera de 1554

Nos dias que se seguiram passei o tempo entre os aposentos da rainha e os de Lady Elizabeth, mas em nenhum deles me sentia confortável. Mary sabia que a irmã tinha de ser executada por traição, mas, não suportava a ideia de a prender na Torre. O conselho investigou o caso e tinha a certeza de que Elizabeth estava ao corrente da conspiração e maquinara parte do plano, a de reter Ashridge no Norte enquanto os rebeldes ocupavam Londres e pedir a ajuda da França, o que era o pior. Graças à lealdade dos londrinos, a rainha tinha mantido o trono e prendera a princesa.

Apesar da insistência de todos, Mary mostrava-se relutante em acusar a irmã de traição por causa dos tumultos que isso provocaria no país. O número de pessoas que se tinham aliado a Elizabeth no decorrer da rebelião consternara-a e ninguém podia prever quantas mais tentariam salvá-la. Recentemente, mais trinta homens tinham sido conduzidos a Kent para serem enforcados nas suas próprias cidades e aldeias, mas não havia dúvidas de que centenas deles estariam prontos a substituí-los se viesse a saber-se que a princesa protestante seria condenada.

E ainda pior: a rainha não podia contrariar a sua própria determinação. Tinha esperado que Elizabeth, ao perceber que Mary era a mais forte e que contava com o apoio da capital enquanto ela controlava apenas metade de Kent, chegasse à corte como penitente a fim de poderem reconciliar-se. Mas Elizabeth recusava-se a confessar e a rogar perdão. Orgulhosa e inflexível, continuava a clamar a sua inocência e Mary não suportava vê-la mentir. Passava horas ajoelhada diante do seu oratório, de mãos postas e olhos fitos no crucifixo, a rezar para que Deus lhe dissesse o que devia fazer com a traiçoeira da irmã.

- Lady Elizabeth ter-vos-ia mandado decapitar num abrir e fechar de olhos - disse-lhe brutalmente Jane Dormer quando ela se dirigiu para junto da lareira e, de cabeça encostada à pedra da chaminé, ficou a contemplar as chamas. - Teria cortado a vossa cabeça no momento em que colocasse a coroa na dela, sem se importar se éreis culpada ou não. Matar-vos-ia simplesmente por serdes a herdeira do trono.

- É minha irmã - retorquiu Mary. - Andei com ela ao colo, ensinei-lhe a andar... e vou, agora, mandá-la para o inferno?

Jane Dormer encolheu os ombros e retomou o seu trabalho de costura.

- Continuarei a rezar para que Deus me guie - murmurou a rainha. - Tenho de encontrar uma maneira de viver com Elizabeth.

Os dias tornaram-se mais quentes em Março e o céu clareava mais cedo de manhã e escurecia mais tarde. A corte continuava em bicos de pés para ver o que acontecia à princesa. Esta era interrogada diariamente pelos conselheiros, mas a rainha não queria vê-la frente a frente.

- Não consigo - disse-me, e eu soube que ela estava a arranjar coragem para a julgar e, depois, seria um curto passeio até ao cadafalso.

Tinham provas suficientes para a enforcar, mas a rainha continuava a protelar o dia da execução. Pouco antes da Páscoa, recebi com satisfação uma carta do meu pai a perguntar se me podia ausentar da corte durante uma semana para ir visitá-lo. Dizia que não se sentia bem e que precisava de alguém que abrisse e fechasse a loja, mas que eu não devia preocupar-me pois tratava-se apenas de uma febre passageira. Acrescentava que Daniel vinha vê-lo todos os dias.

A ideia de que Daniel ia lá constantemente irritou-me um pouco, mas levei a carta à rainha e, quando ela me autorizou a partir, fiz uma trouxa com outro par de calças e uma camisa limpa, e fui aos aposentos de Lady Elizabeth.

- Deram-me licença para ir visitar o meu pai - anunciei-lhe, ajoelhando-me diante dela.

Ouvi um barulho de louça vindo do andar de cima. A cozinha de Lady Margaret Douglas tinha sido instalada mesmo por cima do quarto da princesa e, aparentemente, os criados não tinham recebido ordens para trabalhar em silêncio. A julgar pelo barulho, tinham-lhes dado potes e panelas a mais para eles se entreterem a bater com eles. Lady Margaret, uma Tudor de ar rabugento, seria uma forte pretendente ao trono se Elizabeth morresse e, por conseguinte, tinha razões mais do que suficientes para levar a princesa ao desespero.

A cada ruído, Elizabeth estremecia.

- Vais-te embora? E quando voltas? - perguntou-me.

- Dentro de uma semana, Alteza.

Para minha surpresa, vi os seus lábios tremerem como se estivesse prestes a chorar.

- Tens mesmo de partir, Hannah? - perguntou com a voz embargada.

- Tenho, sim. O meu pai está doente com febre.

Ela afastou-se, esfregando os olhos com as costas da mão.

- Valha-me Deus, pareço uma criança de colo a despedir-se da ama.

- Que passa, Alteza? - perguntei, espantada. Nunca a tinha visto tão deprimida. Vira-a de cama, doente e inchada, mas, contudo, os seus olhos brilhavam de malícia. - Que tendes?

- Estou morta de pavor - disse ela. - Se o medo é frio e escuridão, estou então a viver nas estepes da Rússia. As únicas pessoas que vejo são aquelas que vêm interrogar-me. Ninguém me sorri. Fitam-me como se quisessem saber o que me vai no coração. Os meus únicos amigos foram exilados, presos ou decapitados. Tenho vinte anos de idade e estou completamente só. Sou jovem e, no entanto, ninguém me ama nem me trata bem. Só a Kat e tu é que me visitam e, agora, tu vais-te embora.

- Tenho de ir ver o meu pai - repeti. - Mas voltarei assim que ele estiver melhor.

O rosto que ela virou para mim não era o de uma princesa rebelde, a odiada inimiga protestante desta corte católica. Era o de uma rapariga sozinha, órfã de pai e mãe, e sem amigos. Uma rapariga a tentar ganhar coragem para enfrentar a morte que chegaria em breve.

- Vais voltar para mim, Hannah? Habituei-me a ti e só te tenho a ti e à Kat. Peço-te como amiga, não como princesa. Prometes que voltas?

- Sim - prometi. Peguei-lhe na mão e verifiquei que ela não exagerara dizendo que tinha frio, estava gelada como se já estivesse morta. -Juro que voltarei.

Os seus dedos suados retribuíram a minha pressão.

- Talvez julgues que sou cobarde - disse ela. - Mas juro-te, Hannah, que não posso ser corajosa sem uma face amiga ao meu lado. E penso que, em breve, precisarei de toda a coragem que consiga arranjar. Volta depressa.

Embora já passasse do meio-dia, a livraria do meu pai tinha os taipais fechados. Apressei o passo e, pela primeira vez, senti o medo apertar-me o coração à ideia de que ele era um simples mortal, como Robert Dudley, e que nenhum de nós podia dizer quanto tempo viveria.

Daniel trancava o último taipal e virou-se ao ouvir-me aproximar.

- Ainda bem que já chegaste - disse em tom seco.

- Ele está muito doente? - perguntei-lhe, pousando a mão sobre o seu braço.

Por um instante ele pousou a sua mão sobre a minha.

- Entra.

Não havia livros sobre o balcão e a oficina estava vazia. Subi as escadas pouco seguras do fundo da loja e olhei na direcção da pequena cama ao canto do quarto, temendo vê-lo lá estendido e demasiado fraco para se levantar.

A cama tinha um monte de papéis e uma pequena pilha de roupa em cima, e o meu pai estava em pé diante dela. Percebi logo que ele se preparava para empreender uma longa viagem.

- Oh, não! - exclamei. O meu pai virou-se.

- Chegou a altura de partirmos - disse. - Autorizaram-te a ausentares-te uma semana?

- Sim - respondi. - Mas esperam que eu volte. Vim o mais depressa que pude cheia de medo que estivesses doente.

- Quer dizer, então, que temos tempo suficiente para alcançar a França - comentou sem ligar às minhas queixas.

- Disseste que permaneceríamos em Inglaterra - protestei.

- Não é seguro - interrompeu Daniel, entrando no quarto. - O casamento da rainha vai realizar-se e o príncipe Filipe de Espanha vai trazer a Inquisição com ele. Já se vêem forcas nas esquinas e denunciantes em todas as aldeias. Não podemos ficar aqui.

- Disseste que podíamos passar por ingleses - disse eu ao meu pai. - E as forcas são para os traidores, não para os hereges.

- Hoje, ela enforca traidores, mas, amanhã, será a nossa vez - assegurou com firmeza Daniel. - Deu-se conta de que a única maneira de permanecer no trono é à custa de sangue. Mandou matar a própria prima e há-de fazer a mesma coisa à irmã. Achas que hesitaria um segundo por ti?

- A rainha quer ser clemente e Elizabeth não será executada. Não tem a ver com a religião, mas sim com a obediência. E nós somos súbditos obedientes e ela gosta de mim.

Daniel pegou-me na mão e levou-me até à cama coberta com rolos de manuscritos.

- Isto é tudo o que teu pai possui e também o teu dote. Mas, agora, esta sua grande biblioteca constitui uma prova contra ele. Que havemos de fazer? Queimar isto tudo antes que nos queimem a nós?

- Guardá-los até que os tempos melhores - alvitrei como boa filha de um livreiro.

Abanou a cabeça.

- Num país governado por Espanha, não existe nenhum lugar seguro nem para os livros nem para o seu dono. Temos de fugir e levá-los connosco.

- Mas para onde iremos? - gritei. Era o grito de uma criança que andava, há demasiado tempo, de um lado para o outro.

- Veneza - retorquiu. - Primeiro, França, depois, Itália, e, finalmente, Veneza. Estudarei em Pádua e o teu pai poderá abrir uma tipografia em Veneza. Viveremos lá em segurança. Os italianos apreciam a cultura, a cidade está cheia de eruditos, e o teu pai poderá voltar a vender textos.

Esperei que ele terminasse, sabendo de antemão o que viria a seguir.

- E, então, poderemos casar - disse ele. - Casar-nos-emos assim que chegarmos a França.

- E a tua mãe e as tuas irmãs? - perguntei-lhe. Receava tanto viver com elas como casar-me.

- Estão neste instante a fazer as malas.

- Quando partimos?

- Daqui a dois dias. No Domingo de Ramos de madrugada.

- Porquê tanta pressa? - perguntei em voz ansiosa.

- Porque eles já andam por aí a fazer perguntas.

Olhei para Daniel sem entender as suas palavras, mas sentindo-me apavorada por os meus piores temores estarem a começar a realizar-se.

- Vieram interrogar o meu pai?

- Vieram cá perguntar-me por John Dee - explicou o meu pai. - Sabiam que ele tinha enviado livros a Lord Robert e que vira a princesa. Sabiam igualmente que ele tinha previsto a morte do rei, o que é considerado traição. Queriam ver os livros que ele me pedira para guardar aqui.

Entretanto, eu torcia as mãos de angústia.

- Livros? Que livros? Escondeste-os?

- Estão em segurança na cave. Mas, se eles arrancarem as tábuas do chão, hão-de descobri-los.

- Porque guardas livros proibidos? - gritei-lhe com raiva frustrada. - Porque aceitaste fazer tal coisa por John Dee?

- Quando um país recorre ao terror, todos os livros se tornam proibidos - explicou docemente. - As forcas nas esquinas, a lista dos livros que não se podem ler, tudo isso ocorre, em geral, ao mesmo tempo. O conhecimento que John Dee, Lord Robert, Daniel e eu, e até mesmo tu, minha filha, procuramos foi, subitamente, declarado ilegal. Para impedir que continuemos a ler, eles têm de queimar todos os manuscritos, e, para impedir que pensemos, têm de nos cortar a cabeça.

- As acusações são por traição, não por pensamentos heréticos - teimei. - Lord Robert e John Dee ainda estão vivos, e a rainha é clemente...

- E o que irá acontecer quando Lady Elizabeth acabar por confessar? - interrompeu-me Daniel. - Quando nomear os seus cúmplices, não apenas Thomas Wyatt, mas também Robert Dudley, John Dee e, talvez, até mesmo tu?... Podes jurar que nunca levaste uma mensagem dela nem lhe fizeste um recado?

Hesitei.

- Ela nunca há-de confessar, sabe muito bem qual o preço que teria de pagar se confessasse.

- É mulher - disse Daniel. - Vão assustá-la e, depois, prometer-lhe perdão. Há-de acabar por confessar tudo e mais alguma coisa.

- Não sabes nada dela, desconheces o que se passa! - protestei, enraivecida. - Eu conheço-a, não é uma rapariga que se assuste facilmente. E, mais ainda, quando lhe metem medo, defende-se como uma gata furiosa. Não é pessoa para se pôr a choramingar e desistir.

- É mulher - repetiu ele. - E está envolvida com Dudley, John Dee, Wyatt e todos os outros. Eu avisei-te acerca disso... Disse-te que todos correríamos perigo se continuasses a desempenhar um papel duplo na corte. E, agora, trouxeste essa ameaça para a nossa porta.

A raiva cortou-me a respiração.

- Que porta? - explodi. - Não temos nenhuma porta. Temos a estrada à nossa frente, o mar entre nós e a França, e, depois, a travessia da França como uma família de mendigos porque tu, meu cobardolas, tens medo da tua própria sombra!

Julguei, por uns instantes, que Daniel me batesse. Ainda levantou a mão, mas, depois, deteve-se.

- Lamento que me tenhas chamado cobarde diante do teu pai -rosnou, quase cuspindo as palavras. - Lamento que tenhas uma opinião tão má de mim, teu futuro marido e o homem que está a tentar sal-var-vos, a ti e ao teu pai, de morrerem como traidores. Mas independentemente do que pensas sobre mim, ordeno-te que ajudes o teu pai e que te prepares para partir.

Respirei fundo, sentindo o coração ainda a bater de raiva.

- Eu cá não vou - disse-lhe categoricamente.

- Minha filha! - exclamou o meu pai, assustado. Virei-me para ele.

- Vai tu, pai, se quiseres. Mas não vou fugir de um perigo que não consigo ver. Sou uma das favoritas da rainha e não corro perigo com ela. Sou demasiado insignificante para atrair a atenção do conselho. E também não creio que tu corras perigo. Por favor, não largues o que possuis aqui e não nos obrigues a fugir novamente.

O meu pai abraçou-me, encostando a minha cabeça ao seu ombro. Senti-me segura encostada a ele e, por um momento, desejei ser a criança que procurava refúgio nos seus braços, sabendo que ele tinha sempre razão.

- Prometeste que ficaríamos aqui - sussurrei-lhe. - Disseste que este país seria a minha casa.

- Temos de partir, mi querida - disse em tom calmo. - Acredito de facto que eles hão-de prender os rebeldes, depois os protestantes e, finalmente, nós.

Levantei a cabeça e afastei-me dele.

- Não posso passar a vida a fugir, pai. Quero ter uma casa.

- Somos um povo sem lar, minha filha. Fez-se silêncio.

- Não quero pertencer a um povo sem casa - declarei. - Tenho um lar e amigos na corte. É lá o meu lugar. Não quero ir para França nem para Itália.

- Temia que dissesses isso. Não quero obrigar-te. Tens toda a liberdade para tomar as tuas próprias decisões, filha, mas o meu desejo é que venhas comigo.

Daniel afastou-se uns passos em direcção à janela do sótão, e, depois, virou-se e fitou-me.

- És a minha noiva, Hannah Verde, e ordeno-te que venhas comigo.

Encarei-o e respondi:

- Não.

- Então está tudo acabado entre nós.

O meu pai levantou uma mão em protesto, mas não proferiu palavra.

- Seja - disse eu, friamente.

- Desejas pôr fim ao nosso noivado? - perguntou-me Daniel novamente, como se não pudesse acreditar que eu o rejeitava. Tal arrogância ajudou-me a tomar uma decisão.

- É meu desejo acabar com o nosso noivado - declarei em voz tão firme quanto a dele. - Dispenso-te da tua promessa e peço-te que me dispenses da minha.

- É para já - disse ele, irritado. - Dispenso-te, Hannah, e espero que nunca tenhas motivos para te arrependeres dessa decisão. - Virou-me as costas e dirigiu-se para as escadas, mas, a meio caminho, parou.

- Mas ajuda o teu pai - disse ainda em tom de mando. - E, se mudares de ideias, podes vir connosco. Não me mostrarei vingativo. Podes vir como filha dele e uma estranha para mim.

- Não mudarei de ideias - disse orgulhosamente. - E não preciso que me digas para ajudar o meu pai. Sou uma boa filha e serei uma boa mulher para quem escolher.

- E quem é ele? - sorriu Daniel com ar desprezo. - Um homem casado e um traidor?

- Parem com isso - interrompeu o meu pai. - Já concordaram em separar-se.

- Lamento que me tenhas em tão má conta - disse-lhe com frieza. - Ajudarei o meu pai a partir e tomarei conta dele até lá.

Nos dois dias que se seguiram, trabalhámos em silêncio quase total. Ajudei o meu pai a embalar os livros, enrolámos os manuscritos e guardámo-los em barris e, depois, arrumámo-los debaixo da máquina tipográfica. Podia apenas levar a parte mais importante da sua biblioteca; o resto teria de seguir mais tarde.

- Quem dera que viesses também - insistiu. - És demasiado jovem para ficares aqui sozinha.

- Estou sob a protecção da rainha. E centenas de pessoas na corte têm a mesma idade que eu.

- És uma das pessoas escolhidas para prestar testemunho. Devias permanecer com o teu povo.

- Escolhida para testemunhar? - disse amargamente. - Fui mais escolhida para nunca ter uma casa. Escolhida para embalar os nossos bens mais preciosos e deixar o resto atrás? Escolhida para andar sempre um passo à frente da fogueira ou da corda do carrasco?

- Mais vale... - comentou o meu pai.

Trabalhámos durante toda noite da véspera da partida e, como ele não parou para comer, percebi que já chorava a minha perda. De madrugada, ouvi o guinchar de rodas na rua. Espreitei pela janela e vi a silhueta escura da carroça conduzida por Daniel e puxada por dois possantes cavalos a aproximar-se pesadamente da nossa casa.

- Chegaram - preveni o meu pai, começando a transportar as caixas de livros para a porta. A carroça parou e Daniel prontificou-se amavelmente a carregá-las.

- Eu trato disso - disse-me, levando as caixas às costas para dentro da carroça onde entrevi quatro faces pálidas, a mãe de Daniel e as suas três irmãs.

- Olá - saudei-as desajeitadamente, voltando depois para a livraria.

Sentia-me tão infeliz que mal conseguia transportar as caixas da sala até à carroça. O meu pai, com a testa encostada à parede da nossa casa, nada fazia.

- A prensa - disse-me em voz baixa.

- Não te inquietes. Será desmontada e guardada em segurança -prometi. - Bem como todo o resto. Quando decidires regressar, estará aqui à tua espera e poderemos recomeçar outra vez.

- Não voltaremos - disse determinantemente Daniel. - Como poderemos viver em paz aqui? Como poderás tu viver em paz?... O país vai tornar-se um domínio espanhol. Achas que a Inquisição não tem memória? Achas que o vosso nome não figura nos seus arquivos como hereges e fugitivos? A Inquisição vai entrar aqui em força e haverá tribunais por toda a parte. Achas que tu e o teu pai, recentemente chegados de Espanha e com o nome Verde, vão conseguir escapar? Acreditas realmente que, com o teu aspecto físico e o teu sotaque, poderás passar por uma rapariga inglesa chamada Hannah Green?

Levei as mãos ao rosto, pondo-as quase à volta das orelhas.

- Minha filha - disse o meu pai. Era insuportável.

- Está bem - disse, furiosa e desesperada. - Basta! Eu vou com vocês!

Triunfante, Daniel não fez quaisquer comentários, nem sequer sorriu. O meu pai balbuciou:

- Deus seja abençoado - e pegou numa caixa como se tivesse vinte anos, levando-a para a carroça. Em poucos minutos, estava tudo pronto e eu fechava à chave a porta de casa.

- Pagaremos a renda do próximo ano - disse Daniel. — E, mais tarde, poderemos vir buscar o resto das coisas.

- Vais transportar uma prensa através da Inglaterra, França e Itália? - perguntei maldosamente.

- Se tiver de ser... - retorquiu.

O meu pai subiu para a parte de trás da carroça e estendeu a mão para me ajudar. Hesitei. Os três rostos pálidos das irmãs de Daniel fitaram-me com hostilidade.

- Afinal ela também vem? - perguntou uma delas.

- Vem ajudar-me com os cavalos - atalhou apressadamente Daniel. Segui-o e agarrei as rédeas de um dos animais.

Conduzimo-los ao longo da calçadas escorregadia até Fleet Street e, depois, tomámos a direcção do centro da cidade.

- Para onde estamos a ir? - perguntei-lhe.

- Para as docas. Há um barco à nossa espera. Reservei a nossa passagem até França.

- Tenho dinheiro para comprar o meu bilhete - disse. Lançou-me um sorriso sombrio.

- Já o paguei por ti. Tinha a certeza de que acabarias por vir. Rangi os dentes de raiva por tamanha arrogância. Puxei as rédeas do cavalo com força como se o culpado fosse ele. Ao sentir o pavimento nivelado por debaixo das ferraduras, o andamento do animal tornou-se mais regular e eu saltei para o banco da carroça. Instantes depois, Daniel veio sentar-se ao meu lado.

- Não queria arreliar-te - desculpou-se. - Quis apenas dizer que sabia que tu acabarias por fazer a coisa certa. Não podias abandonar o teu pai e a tua gente, e decidires viver com estranhos para sempre.

Abanei a cabeça. À luz fria da manhã com o nevoeiro a pairar sobre o Tamisa, distinguia as silhuetas dos palácios em frente do rio com jardins que se estendiam até à beira de água. Tinha-os desfrutado a todos por fazer parte da comitiva da rainha. Entrámos na cidade que se preparava para começar o dia e vi o fumo que subia em espiral das chaminés das padarias; passamos pela igreja de St. Paul que cheirava a incenso e seguimos pela familiar estrada que conduzia à Torre.

Quando a sombra da sua muralha caiu sobre a carroça, Daniel percebeu que eu estava a pensar em Robert Dudley. Olhei para a grande Torre Branca que parecia um punho elevado contra o céu como a dizer que quem controlava a Torre controlava Londres, e que a justiça e a misericórdia nada tinham que ver com isso.

- Talvez ele consiga fugir - disse Daniel. Desviei o rosto.

- Vou-me embora, não vou? Isso devia bastar-te.

Havia luz numa das janelas, a pequena chama bruxuleante de uma vela. Pensei na mesa de Robert Dudley encostada à janela e na cadeira colocada em frente. Pensei nas suas noites de insónia a preparar-se para enfrentar a morte, chorando aqueles que ele tinha conduzido ao mesmo destino e temendo por aqueles que ainda aguardavam, como a princesa Elizabeth, a manhã em que lhes diriam que era o seu último dia. Perguntei-me se ele sentiria a minha presença ali na escuridão a afastar-me, ansiando estar com ele, mas traindo-o a cada passo dos cavalos.

- Fica - disse Daniel em voz baixa, como se eu tivesse feito menção de saltar do banco. - Não há nada que possas fazer.

Acalmei-me e fitei as espessas muralhas e os portões ameaçadores da entrada enquanto contornávamos a Torre para voltarmos, finalmente, ao caminho à beira do rio.

Uma das irmãs de Daniel espreitou da parte de trás da carroça.

- Já chegámos? - perguntou com voz esganiçada pelo medo.

- Quase - respondeu ele amavelmente, apresentando-ma depois.

- Esta é a Mary. Saúda a tua nova irmã, a Hannah.

- Olá, Mary - disse-lhe.

Fez-me um gesto de cabeça e pôs-se a olhar para mim como se eu fosse um ser esquisito na feira de S. Bartolomeu. Apreciou a opulência da minha capa, a fina qualidade da minha roupa e baixou os olhos para o brilho das minhas botas e para os bordados das minhas calças. E, depois, sem dizer uma palavra, voltou a desaparecer na parte de trás da carroça, cochichando com as irmãs. Ouvi os seus risos abafados.

- Ela é tímida - desculpou-a Daniel. - Não faz de propósito. Eu cá estava absolutamente convencida de que ela estava determinada a ser malcriada, mas não valia a pena dizer isso a Daniel. Embrulhei-me na capa e contemplei o curso sombrio da água enquanto percorríamos a estrada a caminho do cais.

Olhei para trás e vi uma coisa que me fez estender a mão para Daniel.

- Pára!

Mas ele não puxou as rédeas.

- Porquê? O que é?

- Pára, já te disse! - repeti com brusquidão. - Vi qualquer coisa no rio.

Deteve finalmente os cavalos e avistei o batelão real, mas sem estandarte içado. O batelão da rainha Mary, mas sem ela a bordo. Os tambores marcavam o ritmo dos remos; uma figura escura encontrava-se no convés e dois homens de capuz, um à popa e outro à proa, esquadrinhavam as margens do rio.

- Devem transportar Lady Elizabeth - alvitrei.

- É impossível saber - disse Daniel, lançando-me um olhar.

- De qualquer modo, não temos nada com isso. Mais cedo ou mais teriam de o fazer agora que Wyatt...

- Se virarem para a Torre é porque ela vai a bordo e a levam para ser executada. E Lord Robert também irá morrer.

Daniel fez menção de estalar as rédeas para que os cavalos avançassem, mas pus-lhe uma mão no pulso.

- Deixa-me ver, maldito sejas! - ordenei-lhe.

Ele imobilizou-se e vimos o batelão virar contra a corrente e dirigir-se para a Torre. Uma pesada ponte levadiça ergueu-se para o deixar passar, o que provava que a chegada da embarcação tinha sido preestabelecida. O batelão desapareceu e, à parte o chapinhar da água a deslizar ao nosso lado, reinava o silêncio. Era como se nada tivesse acontecido.

Saltei da carroça e encostei-me à roda da frente de olhos fechados. Podia imaginar a cena tão distintamente como se tivesse lá estado, Elizabeth a discutir e a debater-se para ganhar tempo enquanto a arrastavam para a cela. A sua luta por cada grão de areia numa ampulheta, como sempre fizera, como sempre o faria. E, finalmente, via-a na cela a olhar pela janela para o cadafalso onde tinham cortado a cabeça à mãe com a mais afiada espada francesa que tinham encontrado e onde ela também encontraria a morte.

Daniel veio pôr-se a meu lado.

- Tenho de ir ter com ela - disse-lhe, abrindo os olhos como se tivesse acordado de um sonho. - Prometi-lhe que voltaria a vê-la e, agora, ela está à beira da morte. Não posso trair a minha promessa.

- Vão achar que és cúmplice dela e dele - protestou veementemente. - Ainda acabas por ser enforcada.

Nem sequer lhe respondi. Havia algo que me preocupava.

- Que disseste a propósito de Wyatt? Corou e percebi que o tinha apanhado.

- Não me lembro - respondeu.

- Lembras-te, sim. Quando vi o batelão, tu disseste qualquer coisa acerca de Wyatt. O que era?

- Ele acabou por confessar e foi condenado à morte - disse com brusquidão. - E a confissão dele compromete Elizabeth.

- Tu sabias isso e não me contaste nada? Afastei-me dele, dirigindo-me para a parte de trás da carroça.

- Aonde vais? - perguntou Daniel vindo atrás de mim e agarrando-me pelo braço.

- Buscar o meu saco. Vou ter com Lady Elizabeth à Torre -respondi muito simplesmente. - Ficarei com ela até a matarem e, depois, irei à vossa procura.

- Não podes partir para Itália sozinha - disse ele, furioso. - Não podes estar sempre a contrariar-me. És minha noiva e já te expliquei o que vamos fazer. Põe os olhos na minha mãe e nas minhas irmãs... Todas me obedecem e tu tens de te portar da mesma maneira.

Rangi os dentes de raiva e fiz-lhe frente como se fosse realmente um rapaz e não uma rapariga de calças.

- Não te obedeço coisa nenhuma - disse-lhe de caras. - Não sou como as tuas irmãs e, mesmo que eu fosse tua mulher, não irias mandar em mim, E, agora, larga-me o braço. Não acato ordens de ninguém. Sou bobo da rainha e não podes tocar-me. Larga-me!

O meu pai saltou da carroça e Mary, a irmã de Daniel, saiu toda excitada atrás dele.

- Que se passa? - perguntou o meu pai.

- Acabaram de levar Lady Elizabeth para a Torre - expliquei.

- Vimos o batelão real entrar e tenho a certeza de que ela ia a bordo. Prometi-lhe que voltaria a vê-la. Ia quebrar essa promessa e partir convosco, mas, agora, que foi presa na Torre e pode vir a ser condenada à morte, não posso abandoná-la. Empenhei a minha honra e tenho de ir ter com ela.

O meu pai virou-se para Daniel à espera que ele decidisse.

- Isto não tem nada a ver com Daniel - barafustei, tentando não manifestar a raiva que sentia. - A decisão é minha, não dele.

- Vamos continuar o nosso caminho até França, como planeámos - disse Daniel em tom calmo. - Mas esperaremos em Calais por ti e, quando Elizabeth for executada, virás ter connosco.

Hesitei. Calais era uma cidade inglesa, tudo o que restava da antiga colónia de Inglaterra em França.

- Não receiam a Inquisição em Calais? - perguntei-lhes. -Se a Inquisição se instalar aqui, o seu poder também se estenderá até lá.

- No caso de isso acontecer, fugiremos para França - respondeu Daniel. - Prometes que vens ter connosco?

- Prometo - disse, sentindo a raiva e o medo abandonarem-me.

- Posso prometer que irei ter convosco quando Lady Elizabeth estiver morta ou salva.

- Virei buscar-te quando ela estiver morta - disse Daniel. - E, nessa altura, poderemos também levar a prensa e o resto dos papéis.

O meu pai pegou-me nas mãos.

- Virás ter connosco, mi querida? - perguntou-me docemente.

- Prometes?

- Amo-te, pai - sussurrei. - Claro que irei. Mas também amo Lady Elizabeth. Deve estar aterrada e prometi fazer-lhe companhia.

- Amas uma princesa protestante? - espantou-se.

- É a mulher mais inteligente que conheço, uma autêntica raposa. Amo igualmente a rainha, é impossível não a amar, mas a princesa é como uma labareda, ninguém lhe resiste. Está certamente apavorada por ter de enfrentar a morte sozinha e tenho de ir para junto dela.

- Mas que está esta rapariga agora a fazer? - ouvi a voz de uma das irmãs de Daniel perguntar da carroça.

- Dá-me a mala e deixa-me partir - disse a Daniel, dirigindo-me depois para a carroça para me despedir delas.

- Adeus!

Daniel pousou o meu saco na estrada.

- Virei buscar-te - lembrou-me.

- Eu sei - disse-lhe com um pouco de ternura na voz.

O meu pai beijou-me a testa e pousou a mão em cima da minha cabeça para me dar a bênção, subindo depois para a carroça sem proferir palavra. Daniel esperou até ele se instalar e, a seguir, abraçou-se a mim. Tentei afastar-me, mas ele puxou-me e beijou-me apaixonadamente na boca, um beijo tão cheio de desejo e raiva que me deixou a cambalear. Só quando ele me soltou bruscamente e voltou a saltar para o banco da carroça é que eu percebi que desejava aquele seu beijo e ainda mais. Mas era demasiado tarde. A carroça partiu e eu fui deixada sozinha naquela manhã fria apenas com um pequeno saco aos pés.

Aqueles dias e depois semanas na Torre com a princesa foram os piores da minha vida em Inglaterra e para ela também. Entrou numa espécie de transe feito de medo e sofrimento que não conseguiu superar. Sabia que ia morrer no mesmo sítio em que tinham decapitado a mãe, Ana Bolena, a tia, Jane Rochford, e as primas, Catherine Howard e Jane Grey. Uma grande quantidade de sangue da sua família já ensopava aquela terra. O local no interior das muralhas à sombra da Torre Branca que nenhuma lápide assinalava era o campo de morte de muitas das suas parentes e, sempre que dele se aproximava, Elizabeth sentia-se condenada. Tinha a certeza de que os seus olhos congestionados contemplavam o sítio onde iria ser morta.

O governador da Torre, alarmado com a chegada dramática da princesa - Elizabeth tinha-se sentado nos degraus do portão recusando-se a entrar e a sair da chuva - ficou ainda mais assustado quando ela caiu no desespero, que era mais convincente do que as suas atitudes teatrais.

Deixaram-na passear no jardim, mas, no primeiro dia da sua detenção, apareceu um rapazinho com um ramo de flores a espreitar pelas grades do portão e, no segundo dia, lá estava ele outra vez. Ao terceiro dia, os conselheiros da rainha decidiram, por medo e má fé, que não era seguro permitir-lhe dar esses passeios e ela foi confinada nos seus aposentos. Lady Elizabeth passava os dias a andar de um lado para o outro como um leão numa jaula ou, então, deitava-se a olhar para o tecto e sem proferir palavra durante horas a fio.

Julguei que se estava a preparar para enfrentar a morte e perguntei-lhe se desejava ver um padre. Lançou-me um olhar sem vida. Toda a sua vivacidade se tinha esvaído e tudo o que restava era pavor.

- Mandaram-te perguntar-me isso? - indagou num sussurro.

- É para me dar a extrema unção? Vão matar-me amanhã?

- Não! - exclamei, amaldiçoando-me por estar a piorar a situação.

- Não! Julguei apenas que quisésseis rezar pela vossa libertação?

Virou a cabeça para a estreita janela que lhe permitia ver uma nesga do céu e apanhar um pouco de ar fresco.

- Não, não com o padre que a rainha me mandaria. Ela torturou Jane por causa da religião, não torturou?

- Esperava que ela se convertesse - expliquei em tom conciliador.

- Ofereceu-lhe a vida em troca da fé protestante - disse ela com um trejeito de desprezo. - Não é o género de coisas que se faça com uma pobre rapariga. Mas ela recusou e é bem feito - os seus olhos voltaram a escurecer. - Não tenho essa coragem. Não penso assim. Prefiro viver.

Durante o tempo em que Lady Elizabeth aguardava ser julgada, fui duas vezes à corte buscar a minha roupa e tentar obter informações. A primeira vez, vi brevemente a rainha que me perguntou em tom frio como estava a prisioneira.

- Vê se consegues que ela se penitencie. Só isso poderá salvá-la. Diz a Elizabeth que, se confessar, eu perdoo-lhe e ela não será executada.

- Assim farei - prometi. - Mas poderá perdoar-lhe, Majestade? Ela levou os olhos marejados de lágrimas ao céu.

- No fundo do meu coração, não - murmurou. - Posso, contudo, salvá-la de ser condenada por traição. Não desejo ver uma filha do meu pai morrer como uma criminosa. Mas ela terá de confessar.

Na segunda visita à corte, a rainha estava reunida com o seu conselho, mas encontrei Will a afagar um cão.

- Não estás a dormir?

- Ainda não foste decapitada? - retorquiu.

- "Tive de ir fazer-lhe companhia. Foi ela mesma que me pediu.

- Esperemos que não sejas o seu último pedido e que ela não te coma antes de lhe cortarem a cabeça - disse secamente Will.

- Achas que vai ser executada? - murmurei.

- Certamente. Wyatt clamou do cadafalso que ela não era culpada, mas todas as provas que foram encontradas até agora a condenam.

- Mas Wyatt inocentou-a? - insisti cheia de esperança. Will riu-se.

- Inocentou toda a gente. Se calhar foi uma revolta conduzida por um só pessoa e nós é que imaginámos um exército. Até inocentou Courtenay que já tinha confessado! Não creio que a opinião de Wyatt tenha grande influência. E não havemos de ouvi-la novamente. De certeza que ele não volta a repeti-la.

- A rainha já tomou uma decisão contra ela?

- As provas é que decidiram - continuou. - Ela não pode mandar enforcar uma centena de homens e poupar o chefe. Elizabeth tresanda a traição. Não vale a pena enxotar moscas e deixar a carne a apodrecer ao relento.

- Daqui a quanto tempo é que Lady Elizabeth será executada? - perguntei, horrorizada.

- Faz essa pergunta a ti mesma... - calou-se e fez um gesto com a cabeça em direcção à porta da antecâmara que naquele momento se abria para deixar passar a rainha. Lançou-me um sincero sorriso de agrado ao ver-me e eu aproximei-me dela, dobrando um joelho.

- Hannah! - exclamou.

- Que prazer voltar a ver-vos, Majestade! O seu rosto assombrou-se.

- Vens da Torre?

- Como me haveis ordenado - disse precipitadamente.

- Não quero saber como ela está.

Notando a sua frieza, baixei a cabeça sem dizer nada. Pareceu satisfeita com a minha obediência.

- Podes vir comigo. Vamos andar a cavalo.

Juntei-me à comitiva. Havia dois ou três rostos novos de damas e cavalheiros, mas, para cortesãos, estavam vestidos com muita sobriedade e, para gente jovem, mostravam-se excessivamente reservados. A corte tinha-se tornado bastante convencional.

Esperei até todos estarem montados e saímos da cidade em direcção ao norte, passando pela bela Southampton House. Pus-me ao lado da rainha.

- Majestade, posso ficar com Lady Elizabeth até... - hesitei. -Até ao fim? - concluí.

- Gostas assim tanto dela? - perguntou azedamente. - Agora pertences-lhe?

- Não — respondi. - Tenho pena dela, como vós teríeis se a vísseis.

- Não desejo vê-la - disse com firmeza. - E não ouso ter pena dela. Mas podes continuar a fazer-lhe companhia. És boa rapariga, Hannah, e não me esqueço que entrámos juntas em Londres naquele dia.

Olhou para trás. Actualmente, as ruas de Londres estavam muito diferentes. Havia forcas em todas as esquinas com traidores pendurados pelo pescoço e corvos nos beirais dos telhados a engordar à custa deles. A cidade era varrida por um vento pestilento que tresandava a traição.

- Nessa altura, tinha grandes esperanças - prosseguiu, retomando o fio da conversa. - Sinto, contudo, que hão-de voltar.

- Tenho a certeza disso - concordei, mas eram palavras ocas.

- Quando Filipe de Espanha chegar, havemos de alterar certas coisas - assegurou-me. - Hás-de ver que tudo será muito melhor.

- O príncipe Filipe virá em breve?

- Ainda este mês.

Elizabeth seria executada nessa altura. O príncipe espanhol tinha jurado que não poria os pés em Inglaterra enquanto a princesa protestante estivesse viva. Só lhe restavam três semanas de vida.

- Majestade - disse hesitantemente. - O meu antigo amo, Lord Robert Dudley, ainda está preso na Torre.

- Eu sei... Juntamente com outros traidores. Não quero ouvir falar de nenhum deles. Os que forem considerados culpados devem morrer para manter o país em paz.

- Sei que sereis justa e clemente.

- Serei certamente justa. Mas alguns deles, entre os quais Elizabeth, não merecem a minha clemência. É melhor que ela reze para que Deus lha conceda.

E, dizendo isto, bateu com o pingalim na garupa do cavalo e toda a corte partiu a galope. Não havia mais nada a dizer.

 

                                                                                 Philippa Gregory  

 

                      

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