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A FILHA DAS RUÍNAS / Max Du Veuzit
A FILHA DAS RUÍNAS / Max Du Veuzit

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A FILHA DAS RUÍNAS

 

Lá no alto da penedia, no pequeno santuário de granito, construído para durar séculos e desafiar todas as tempestades, a Virgem Garrida, de misterioso sorriso, estende os braços acolhedores para o Oceano, para a multidão que se comprime a seus pés... para o futuro insondável!

Oxalá a lenda, tão bela e consoladora para as almas simples e tão temível para os corações perturbados, se perpetue ainda através dos séculos! Ilumina de esperança a alma dos apaixonados, assusta os hipócritas e mentirosos e enche de sonho a fantasia dos poetas. A sua influência é preciosa, mesmo que não passe dum mito maravilhoso...

 

Depois de uma noite passada no comboio, não hà para mim maior prazer do que despertar, de madrugada, numa paisagem desconhecida. O ar puro, o espaço, a velocidade, a surpresa, realizam sempre o milagre... é como que uma ressurreição. O peso esmagador das preocupações quotidianas parece mais fácil de suportar longe do cenário habitual.

Saindo ontem à tarde de Paris, após algumas horas de sono, constantemente sacudido pelos solavancos do comboio e interrompido a cada uma das suas paragens, eis-me transportado em plena Bretanha, à hora em que o sol, subindo no horizonte, acende milhares de cintilações deslumbrantes no orvalho nocturno que salpica os campos e os bosques.

Nunca visitei este cantinho da França e a passagem é para mim uma completa novidade.

Pequenas propriedades separadas por taludes cobertos de juncos e no meio dos quais se erguem algumas árvores enfezadas e cortadas à altura de um homem, dividem o terreno numa miríade de campos de pitoresco efeito, pois que, segundo a cultura, tomam diversos aspectos e tons, que vão desde o negro acastanhado da terra recentemente lavrada ao lourado dos trigos sazonados, ao vermelho intenso dos trevos ou ao verde prateado dos salgueiros que se debruçam na água.

O conjunto é variado. Vêem-se pequenos outeiros e depressões de terreno, colinas e planícies sulcadas por graciosos regatos que dão à paisagem um incomparável e encantador aspecto.

O comboio dirige-se agora para Morlaix; daqui a pouco entraremos na região de Brest e terei de tomar novo comboio que me conduzirá aos domínios dos elfos e druidas.

Encontrei excelente hospedaria.

Carmindo, o meu fornecedor de tintas, em Paris, aconselhou-me:

«-Visto desejar um ponto sossegado onde o deixem trabalhar em paz, vá para Voulch, senhor Marcos Abel... vá para Voulch. Fica no Finisterra, um pouco além de Ploudalmezeau... Conheço lá uma excelente mulher, Catarina Le Coz, que é dona de uma hospedaria onde será recebido de braços abertos e tratado como um príncipe... A costa, naquele ponto, é bastante perigosa e pouco procurada pelos turistas, mas a paisagem é grandiosa... própria para encantar um artista como o senhor, verá!... Por outro lado, Catarina cozinha à maravilha... com manteiga, sabe... daquela manteiga autêntica que se derrete e aloira na frigideira! Posso afirmar-lhe que para dirigir uma hospedaria e para tratar bem os seus hóspedes não há outra como Catarina...»

Segui, portanto, os conselhos de Carmindo e aqui estou, em Voulch, onde fui acolhido como um Deus, conforme as previsões do excelente homem.

Desconfio até que o bom do comerciante preveniu Catarina da minha chegada e me recomendou particularmente aos seus cuidados. Seja como for, a minha hospedeira è muito amável e cheia de atenções para comigo e apresenta-me refeições nas quais a abundância não prejudica a qualidade.

E será preciso mais para uma pessoa se considerar completamente feliz, quando se tem, como eu, vinte e sete anos, um apetite devorador e se se sente o coração completamente livre, enquanto no cérebro fervilham milhares de ilusões e os mais mirabolantes projectos?

A hospedaria de Catarina Le Coz está quase deserta. A sua freguesia actual compõe-se de algum raro caixeiro viajante que torceu um pouco o caminho por saber que em Voulch encontraria boa mesa.

Durante as refeições, Catarina e os seus hóspedes trocam comigo algumas impressões, mas o resto do tempo mostram-se discretos e deixam-me completamente livre para vaguear à vontade ou para me isolar beatificamente num delicioso devaneio.

Percorri já a região, fixando pontos de referência para o meu futuro trabalho ou tomando contacto com os habitantes do lugar.

Encontrei recantos encantadores que reproduzirei na tela com infinito prazer... cantinhos incultos, onde as giestas, os juncos e as estevas se confundem na mais harmoniosa desordem que um artista pode ambicionar.

Irei encontrar aqui o assunto para o meu quadro... esse quadro que marca na vida de um pintor... e lhe abre o caminho da glória?...

Sonho uma paisagem que traduza fielmente a nostalgia da minha alma ignorante e ávida de sensações... a menos que não seja uma composição grandiosa onde tentarei reproduzir com os meus pincéis uma síntese interessante e bela...

Um grande quadro... o meu quadro... a minha obra-prima!

- Pode ser!... Quem sabe?...

Desta costa afastada e ignorada pelos turistas para onde me impeliram os conselhos do meu fornecedor de tintas, emana, de facto, profunda melancolia...

Os rochedos graníticos, as penedias recortadas como rendas de pedra, as charnecas desertas, as planícies agrestes, os habitantes obsequiosos, mas pouco comunicativos, quase misteriosos, que falam uma língua gutural, áspera para os ouvidos pouco habituados e que ouvem sem compreender... toda esta atmosfera parece querer aproximar-nos de Deus e despertar a inspiração...

Hà dias que reina em Voulch certa animação e eu perguntei a Catarina Le Coz o que a motivava.

- É o domingo do Perdão, senhor Marcos!...

- O Perdão?...

- Sim, dia de festa, de procissão!

- Festa religiosa?

- Em parte. Nas nossas aldeias o Perdão è também uma festa profana... De manhã realizam-se as cerimónias religiosas: missa, procissão, bênção, etc... mas à tarde e à noite é a vez dos divertimentos campestres e por todos os cantos a rapaziada improvisa bailaricos...

Agradeci à boa Catarina as suas informações e a notícia, que me causou grande prazer.

Tenho ouvido falar muita vez nos Perdões da Bretanha e estou encantado por se me apresentar ocasião de assistir a um deles I

Finalmente, chegou o domingo!...

Nesta minúscula aldeia de Voulch celebrava-se o Perdão anual com festas ruidosas e solenes.

A curiosidade impeliu-me para a igreja, à hora da missa, à qual assistiam numerosos rapazes e raparigas, vindas das aldeias próximas.

Uma atmosfera grave e religiosa, quase comovedora, paira sobre a assistência; impressiona a atitude recolhida dos fiéis.

Depois, cá fora, desfilou uma procissão como nunca supus que se pudesse realizar ainda. As raparigas ostentavam trajos regionais, mas de cores claras, o que, segundo parece, não se usa nos outros pontos da Bretanha.

Os rapazes, na sua maioria, envergavam calça branca e jaqueta curta com múltiplos botões. Alguns, os que empunhavam estandartes esvoaçando ao vento, haviam-se julgado na obrigação de montarem a cavalo.

No meio de toda aquela suavidade exuberante notei uma rapariga completamente de branco: vestido, lenço, touca e calçado. O conjunto era encantador e aquela que adoptara o níveo trajo infinitamente bonita.

A procissão desfilou pelos campos dirigindo-se a pequeno santuário situado no outro extremo da região... là em baixo, num planalto varrido pelos ventos, no topo de uma colina que domina largos horizontes. Uma imagem da Virgem, vestida de seda branca, bordada a oiro, ergue-se ali num clarão deslumbrante produzido por centenas de velas acesas e no meio de uma montanha de ramos de imaculada alvura.

Misturado na multidão dos assistentes, procurando harmonizar o meu estado de espírito com o dos peregrinos para melhor sentir o profundo misticismo das populações armóricas, admirava, como artista, aquele altar iluminado, a crença tão sincera dos fiéis, a melodia grave dos cânticos entoados pelo sacerdote, toda essa comovente e religiosa simplicidade com que se venerava uma Virgem trajando galas, no seu minúsculo santuário de granito.

Uma única coisa me surpreendia: a imponência dessa procissão, na qual tomavam parte milhares de espectadores, número para admirar e bem pouco em relação com a resumida população de Voulch, lugarejo apenas composto de umas trinta casas mal abrigadas do vento do largo. Que poder milagroso atribuiriam nesse dia à Virgem, que, conforme vi depois, abandonam o resto do ano, solitária e triste, lá no alto do pequeno promontório?

Ao almoço interroguei Catarina Le Coz. Queria saber o que motivava a atitude piedosa da multidão, os trajos claros, que me pareciam uma infracção à tradição que nos apresenta as filhas da Bretanha vestidas de preto e, finalmente, qual a causa de tão grande afluência de peregrinos.

A boa mulher sorriu com orgulho.

- Tudo isto é em honra da Virgem Garrida - explicou, um tanto misteriosa.

- O quê? - exclamei, admirado - Extraordinário adjectivo!... Garrida!,.. Como pode a Virgem ser garrida?

- De onde lhe vem o nome, isso não sei... Apenas lhe posso afirmar uma coisa: è que a nossa Virgem é uma das mais belas da Bretanha. Diz a lenda que ela protege particularmente as raparigas em idade de casar e por isso nem uma só das pequenas da região deixa de lhe consagrar fervoroso culto.

- Muito me conta! Então a vossa Madona protege as raparigas solteiras?-comentei, um pouco duvidoso.

- Protege - confirmou a boa Catarina - A Virgem Garrida não deixa de conceder marido àquelas que vêm implorar-lho, em peregrinação, no dia da sua festa...

Esta lenda fez-me meditar.

«Eis uma crença curiosa... naturalmente, confirmada, no decorrer dos séculos, por superstições e narrativas populares» - pensei, mais positivo do que incrédulo.

E comentei em voz alta para Catarina:

- Compreendo agora a razão porque assistiu tanta gente à festa desta manhã... As raparigas, na sua maior parte, não eram cá da terra!

- Pois claro que não! - confirmou a minha hospedeira - Vêm de longe... de muito longe!... Se lhe parece I Qual é a pequena em idade de casar que não se dispõe a fazer esta caminhada, só para ter a certeza de arranjar um bom marido?

Comecei a rir.

Não obstante o meu respeito por todas as crenças, achei a ideia divertida!

Nesse caso, a atitude profundamente recolhida de todas essas raparigas, desde a mais novinha até àquela que atingiu a idade que se determinou chamar-se canónica, era apenas motivada pelo pensamento interesseiro de alcançar, no ano que ia decorrer, um rapaz que estivesse disposto a desposá-las!...

É sempre interessante para um homem verificar esse impulso instintivo que impele as raparigas a procurar um marido seja como for!... Muito antes de pensar no casamento, o homem gosta de conviver com a mulher. Esta, pelo contrário, desde muito nova só vê nele o futuro senhor a quem ficará ligada por laços indissolúveis, ainda que depois passe a vida a lamentar a sua escravidão!

- O diabo são as raparigas com a sua ânsia de casar, dê por onde der! - exclamei em tom jovial -, Lamento não ter conhecido a lenda esta manhã! Teria observado com divertida ironia as manobras de todas essas candidatas ao casamento.

Mas Catarina fulminou-me com olhar irritado. A boa mulher não admitia gracejos sobre certos assuntos.

- Não zombe da fé sincera das nossas pequenas, senhor Marcos - protestou, um pouco ofendida - E fique sabendo que os rapazes também vêm implorar à Virgem que lhes depare a esposa sonhada... aquela que será para eles a companheira fiel e a mãe carinhosa dos seus filhos... E não há um só filho da Bretanha, seja rapaz ou rapariga, que ponha em dúvida a lenda maravilhosa... tão cheia de promessas futuras e tão consoladora, nestes tempos em que são raros os casais bem unidos.

Sobre esse último ponto não podia deixar de concordar com Catarina, mas não consegui evitar uma leve ironia na minha aprovação:

- Tem razão. Para resolver certos conflitos conjugais, a intervenção divina não é para desprezar!

- E essa protecção existe, tenha o senhor a certeza! É nas nossas províncias, das quais a fé religiosa não desapareceu por completo, que se encontram ainda casais unidos pelo verdadeiro amor conjugal... A mocidade bretã não ignora este facto e, como todos eles desejam ser bons maridos ou boas esposas e excelentes pais, imploram à Virgem, com toda a confiança, que os auxilie a fundar um lar cristão e que resista às tempestades da vida.

Nada respondi, não tinha outro recurso... Qual seria o homem de sentimentos que ousaria meter a ridículo desejos tão nobres e sensatos?...

- E fazem muito bem! - concordei, portanto, de boa vontade, não querendo contristar a boa criatura... principalmente num assunto tão respeitável.

- De resto - prosseguiu a minha hospedeira, com todo o ardor - a nossa Virgem realizou já inúmeros milagres. Mais de um celibatário, estróina e pouco inclinado ao casamento, ou que, como o senhor, não queria acreditar na lenda, se apaixonou de um momento para o outro por forma terrível.

Uma espécie de terror supersticioso fez-lhe de súbito tremer a voz, como se o simples facto de recordar essas coisas fosse suficiente para desencadear terríveis catástrofes.

- Mau! -observei, um pouco perturbado - A dar crédito ao que me diz, que horríveis castigos ameaçam então os cépticos?

E foi num tom ao mesmo tempo ansioso de gracejo e incrédulo que prossegui nas minhas perguntas:

- Intriga-me... Por forma terrível, disse-me a senhora... Oh! Catarina, conte-me o que sabe I Eu só espero que me elucidem para acreditar!...

Mas a boa mulher fazia-se rogada.

- Prefiro não falar nessas coisas, principalmente hoje - afirmou -, De resto, com a afluência de fregueses que decerto vou ter esta tarde, não me sobeja tempo para conversas. Além disso, num dia de festa devem contar-se histórias alegres e não dramas. Basta-lhe ficar sabendo, senhor Marcos, que muitos rapazes, que se recusaram a desposar raparigas a quem haviam comprometido, se viram obrigados pelas circunstâncias a casar com elas, quer quisessem quer não... Outros que se eximiram ao cumprimento desse dever, foram bem castigados, posso afirmar-lhe!... A Virgem Garrida è muito boa para os rapazes sérios e sossegados, mas não perdoa aos maus.

Mais uma vez afirmei à excelente mulher que nunca tivera tenção de pôr em dúvida o soberano poder da Virgem Garrida. As minhas reflexões tinham apenas o fim de zombar inocentemente de todas as raparigas, - algumas das quais não passavam ainda de umas garotas - por desejarem com tanto ardor encontrar marido e casar.

Se a manhã tinha sido consagrada à Virgem Garrida da pequena aldeia de Voulch, o resto do dia, em compensação, foi destinado a todos os divertimentos habituais das festas regionais... o paganismo, posso classificá-lo assim, retomou os seus direitos, graças à dança, aos fonógrafos e ao brilhante conjunto das barracas ambulantes.

Em torno dalgumas delas, as que vendiam doces e as tômbolas, acotovelava-se uma multidão alegre e ruidosa, composta pelos piedosos peregrinos da manhã transformados em frequentadores impacientes e buliçosos desta espécie de festas populares.

Ocioso e um pouco isolado nesta turba meio aldeã meio turística, errava de grupo em grupo, ouvindo distraído os pomposos pregões dos saltimbancos ou seguindo interessado, com olhos e ouvidos, as diversas fases dos flirts entabulados entre rapazes e raparigas, que eram, segundo toda a evidência, devotos sinceros da Virgem Garrida.

- Está hoje bonita como um anjo, Filomena Lehuec! Se tomar a liberdade de lhe oferecer qualquer refresco, aceita?

- Não se pode recusar, Ivo Poven...

O parzinho dirigia-se para uma barraca de confeitaria, onde a rapariga escolhia um pão doce ou então um pacotinho de pastilhas, que o companheiro pagava. Em geral a despesa era de um franco.

Assim reunidos por esta troca de delicadezas, ficavam a conversar durante alguns momentos... até que novo pretendente oferecesse por sua vez.

- Olha!... Filomena Lehuec... é Joana Lebahu!... Venham comigo tomar qualquer coisa...

- Com muito prazer, Pedro Le Thy!

As algibeiras dos pequenos aventais, guarnecidos de veludo ou de rendas, enchiam-se com variadas guloseimas... as pequenas sorriam satisfeitas, enquanto os rapazes tomavam atitudes mais ou menos arrogantes e vaidosas, segundo o estado da sua bolsa lhes permitia obsequiar menor ou maior número de gentis raparigas e reunir, portanto, em volta de si, um enxame feminino.

Algumas vezes, porém, viam as suas amabilidades repelidas com indiferença ou até com zombaria:

- Ah! Muito agradecida, João Nicot. Comi hoje tanta guloseima que já estou enjoada... Além disso, è tarde e chegou a hora de ir para casa...

A menos que alguma pequena, mais travessa e cruel, não lhes retorquisse com um gracejo de mau gosto, como este:

- Agradeço a sua amabilidade, Ivo Maria Mornec; mas, graças a Deus, sou suficientemente rica para não precisar que outros me paguem aquilo que me apetecer!... Porque não oferece qualquer coisa a Maria Brauzet? Ninguém quer saber da pobrezita e o seu convite seria, com certeza, recebido com prazer!

Escusado será dizer que Maria Brauzet era alguma rapariga feia, de meter medo, desdenhada por todos, ou então uma pobre idiota de quem toda a gente escarnecia!

Estava neste ponto das minhas observações quando, num grupo de raparigas que se conservava um pouco afastado, descobri de repente a desconhecida vestida de branco e que me impressionara pela atitude piedosa e recolhida quando nessa manhã tomara parte na procissão, com as suas companheiras.

Que misterioso fluido actua sobre um desconhecido em vilegiatura numa terra onde não conhece ninguém para que este fixe uma pessoa determinada, confundida numa numerosa multidão? Sem dar por isso, sofri decerto a influência desse fluido, pois o meu gesto foi impulsivo e não ditado por qualquer pensamento reflectido.

E, sem reparar na figura ridícula que poderia fazer, eu, um Parisiense, ao pronunciar a frase usual e ingénua que pela primeira vez ouvira nessa tarde, articulei resoluto:

- Permite-me, mademoiselle tão linda no seu vestido branco, que lhe ofereça qualquer coisa?

Assim interpelada, a jovem voltou-se para mim, com um lampejo de surpresa brilhando no fundo dos grandes olhos azuis.

Um olhar penetrante... breve hesitação... e depois, sem afectação, com toda a simplicidade, consentiu que a acompanhasse até à confeitaria ambulante, em cujo tabuleiro me designou muito discretamente um pedacito de nogado.

- Oh! - protestei - Isso é uma insignificância... Escolha uma destas, antes.

E indicava-lhe as barras maiores, dispostas sobre obreia e embrulhadas em papel vegetal, permitindo um manuseamento mais fácil e asseado.

- Mas estas barras são muito grandes... não conseguirei, hoje, comer uma inteira.

- Tanto melhor!... Quando comer o resto amanhã pensará um pouco em mim.

Um olhar levemente trocista envolveu-me, rápido como um relâmpago.

- Seja, aceito. Mamie ajudar-me-à a comê-la... Agradeço a sua amabilidade...

Ia a retirar-se após algumas palavras afáveis como recompensa pelas minhas atenções, quando bruscamente, continuando a proceder sem reflectir, como até ali, pedi à desconhecida que fosse dançar comigo.

- Vê... além, debaixo daquele grande toldo, a um dos lados da praça, pagando uma pequena entrada, adquire-se o direito de dançar até à noite com a pessoa que nos encantou...

A gentil rapariga pareceu divertida com a minha proposta.

- Ora aí está uma coisa que nunca fiz - afirmou - A dança não é divertimento que me tente!

- Tudo tem um princípio, nesta vida - insisti - E encanta-me saber que sou o primeiro a quem concede semelhante honra.

Fitou-me e pareceu-me que nas lindas pupilas brilhava um raio de malícia.

Depois desviou o olhar, que foi procurar os pares enlaçados debaixo do toldo.

- É destes arredores? - perguntou.

- Não. Sou de Paris.

- Ah! - exclamou a jovem.

- Sim, vim em vilegiatura. Hospedei-me em casa de Catarina Le Coz e conto passar aqui as férias.

Como se conservasse calada, propus-lhe, cheio de entusiasmo e boa vontade:

- Quer saber quem sou?... Tenho tão grande empenho em ser seu cavalheiro durante uma parte da tarde...

Mais uma vez o seu olhar travesso procurou o meu.

- Na verdade? O empenho é assim tão grande? Lisonjeia-me, realmente!

- Sim, a minha ambição para que me conceda esse favor é tanto maior quanto é certo ter-me afirmado que nunca dançou num Perdão. Eu até hoje também nunca assistira a uma destas festas... Sou artista, pintor, e chamo-me...

Interrompeu-me, rindo:

- Não, não! Conserve o anonimato e disponha da minha companhia, visto dar-lhe tão grande prazer. Começam agora a tocar uma valsa.

Dançámos, correctamente enlaçados, conforme ordenava as conveniências.

Tentei arrancar alguns esclarecimentos sobre a sua pessoa, mas opôs-me o mais completo mutismo. Apenas nos olhos continuava a brilhar o tal clarão meio alegre, meio trocista.

Solicitei segunda dança, que foi concedida nas mesmas condições, nas quais se adivinhava um propósito malicioso e, ao terminar esta, estava tão adiantado como ao princípio...

Tínhamos compartilhado apenas o mesmo divertimento, com mútuo prazer, é certo, mas separar-nos-íamos completamente ignorantes das nossas respectivas personalidades.

Um agradecimento do meu lado, um sorriso encantador do seu, e assim terminou a nossa aproximação.

Via-a dirigir-se para dois homens que se apearam de um automóvel.

Sentindo-me de repente mais só do que nunca, comecei a errar de grupo em grupo, com o pensamento demasiadamente cheio, talvez com a imagem do meu encantador e enigmático par, cujo malicioso sorriso parecia zombar de mim.

A festa estava ainda bem longe do seu termo quando de novo avistei a desconhecida vestida de branco. Depois de se ter despedido das pessoas com quem estava e de ter apertado as mãos que se estendiam à sua passagem, partiu, como pessoa ajuizada, antes que anoitecesse de todo.

Com pesar, via afastar-se do local dos divertimentos.

Entre nós não fora pronunciada qualquer palavra que me permitisse esperar voltar a encontrá-la mais tarde... nem sequer sabia se ela era da região... contudo, a sua partida magoou-me profundamente e foi como se um vácuo se cavasse em volta de mim.

Dominou-me uma espécie de tristeza súbita e, como se uma afinidade secreta me impelisse, senti por minha vez o desejo imperioso de me ir embora.

A estrada que conduzia à hospedaria era a mesma que a desconhecida tinha tomado.

Involuntariamente, apressei o passo para a alcançar.

Conseguindo-o, cumprimentei-a e conservando-me dentro dos limites da mais estrita delicadeza, pedi-lhe licença, visto seguirmos o mesmo caminho, para a acompanhar, caso não lhe desagradasse conversarmos um pouco.

De princípio hesitou, talvez surpreendida por me encontrar mais uma vez a tomar-lhe o passo; depois, sorriu. De novo nos lindos olhos azuis brilhou o raiozinho de malícia... malícia que parecia ser característica, tanto das pupilas como da expressão silenciosa dos lábios expressivos.

Contudo, com voz harmoniosa acedeu à minha proposta:

- Seja! É preferível para uma rapariga ter como companheiro de estrada um homem bem-educado do que um rústico qualquer ou a obsessão de pensamentos dolorosos... Como não desejo nenhum destes dois últimos, seja bem-vindo a meu lado, senhor meu companheiro anónimo e meu par de há pouco.

- O seu primeiro par?

- O meu primeiro par num baile do Perdão - emendou graciosamente.

- Oh! É claro! Não pretendo maior exclusivo. O gracejo fez-nos rir.

E assim começou alegremente a conversa, que prosseguiu sobre as diversas peripécias do dia.

- Que esplêndido tempo!

- É verdade. Esteve um dia lindo!

- Todos quiseram tomar parte na festa: o sol, o brilho radiante do céu, a brisa marítima, o perfume do incenso e a beleza das mulheres... em conclusão, um delicioso conjunto.

- Sim - murmurou, sonhadora - Com efeito, o ambiente das coisas harmonizava-se com o piedoso recolhimento dos peregrinos... O mesmo fervor religioso unia o Homem e a Natureza... É belo, inebria a alma, quando assim acontece.

O sentido profundo da frase surpreendeu-me nos lábios de uma simples rapariga da aldeia. A linguagem era cuidada, sem pronúncia local, e falava com tão ardente convicção que por minha vez ergui os olhos e fitei-a com interrogativa surpresa.

Em que classe social devia colocá-la?

A fisionomia era meiga e um pouco grave: os olhos azuis não podiam negar a sua origem bretã, assim como a cútis muito clara e as linhas do rosto um pouco curto. O vestido era branco, elegante, mas sem enfeites de mau gosto; no pescoço, guarnecendo o decote, talhado em bico, via-se uma cruz antiga, de oiro. Tudo respirava simplicidade e modéstia, mas o decote, mais rasgado do que o das companheiras, que geralmente usavam vestidos afogados, fez-me supor que a minha desconhecida habitava na cidade.

- Acho-a tão diferente de todas as outras raparigas da terra... - observei - Já a tinha notado esta manhã, durante a procissão... vestida de branco e numa atitude tão recolhida, deu-me a impressão de uma pequenina santa encaminhando as suas companheiras para o paraíso.

A minha companheira sorriu com ar trocista.

- No entanto, não tenho nada de santa. E não vejo em que me distinga das outras raparigas daqui.

- Em primeiro lugar, pelo vestido.

- O vestido! Questão de cor ou de tecido, mais nada.

- Sim, evidentemente... mas, o seu ar sério, reservado... quase superior...

Não me deixou terminar.

- Superior?! Suponho não ter um ar pedante ou vaidoso e desejo ser em tudo semelhante às outras. E se não andasse vestida de branco, em cumprimento de uma promessa que minha tia fez quando eu era pequena, não teria notado qualquer diferença entre mim e as minhas companheiras.

- Não creio. Tenho, pelo contrário, a impressão de que não se assemelha a nenhuma delas... Não se ofenda com esta opinião: mas encanta-me ver em si uma gentil princesinha de lenda que uma fada maldosa obrigou a permanecer na terra.

A jovem tornou a sorrir, divertida com as minhas palavras.

- Mas que grande sonhador o senhor me saiu! Para que reveste os simples mortais com as imagens fantasiosas que o seu espírito cria?... Eu não sou nem uma pequenina santa nem uma princesa encantada, como lhe apraz imaginar... mas apenas uma aldeã, simples e ignorante.

- De facto, foi o que supus quando a vi esta manhã pela primeira vez.

- Acompanhou a procissão? - inquiriu para mudar de conversa.

- Acompanhei.

- Como simples curioso? -Não!... Como crente!

- Fala seriamente?

- E porque não?... Não tenho aparência disso?

- Em geral, os Parisienses ridicularizam os nossos hábitos religiosos... zombam deles! Da nossa crença sincera e ardente.

- Talvez para não deixarmos perceber a nossa emoção. Afirmo-lhe que os habitantes da capital são muito mais sensíveis do que em geral representam.., Os nossos templos, aos domingos, enchem-se de fiéis. Quanto a mim, gosto de sonhar na penumbra das grandes catedrais e muitas vezes entro na igreja simplesmente para encontrar ali o benéfico encanto do silêncio e da alma religiosa... Este facto deixará de a surpreender se lhe disser que fui educado por uma mamã profundamente crente e até um pouco severa... o que não a impede de ser uma mãezinha meiga e indulgente.

- Então esta manhã exprimiu, com certeza, os seus votos, como os outros...

- Votos?... Porquê?

- Visto que acompanhou como crente essa peregrinação tão célebre!

- Pois bem! Para ser sincero, confesso-lhe que não exprimi desejo algum.

- É lamentável!

- Porquê?

- Porque perdeu uma excelente ocasião de alcançar as graças do Céu.

- Nunca pensei transformar a minha presença no Perdão numa questão de interesse - repliquei, rindo - Admirei simplesmente, como artista, a encantadora harmonia dos cânticos litúrgicos e o pitoresco dos trajos regionais, destacando-se no conjunto um pouco rude dos campos...

Como a minha companheira se calasse, acrescentei, procurando talvez a sua aprovação:

- Julga, então, que a minha presença nas cerimónias religiosas e a emoção profunda que estas despertam em mim não bastam para me alcançar as bênçãos de Deus?...

- Longe de mim tal ideia!... Nunca tive semelhante pensamento... Apenas... talvez o ignore... as devoções à Virgem Garrida são quase sempre interesseiras.

- A minha amável hospedeira disse-me qualquer coisa a esse respeito, hoje de manhã - declarei alegremente, recordando os privilégios atribuídos ao culto da Virgem de Voulch - Mas a senhora Catarina elucidou-me um pouco tarde, na verdade, para que eu pudesse aproveitar essas vantagens, pelo menos este ano. Felizmente, não tenho o mais pequeno desejo de estender os pulsos às algemas matrimoniais, nesta ocasião... Por conseguinte, não lamento a minha ignorância, que não me acarretou prejuízo algum!

A minha afirmação pareceu diverti-la; mas, salvo a expressão risonha do olhar que não conseguiu ocultar, não lhe notei qualquer indício de aprovação.

Conversando familiarmente, seguíamos os meandros da estrada e passámos diante da hospedaria de Catarina Le Coz sem que eu pensasse em me despedir. Aproximàvamo-nos agora do santuário da Virgem, deserto àquela hora.

A desconhecida, que até então parecia ter aceitado com agrado a minha presença a seu lado, parou de repente, pondo ponto final à minha eloquente verbosidade.

A pequena capela distava de nós apenas uma dezena de metros.

- Meu caro senhor - disse-me, meio risonha, meio séria, mas num tom que deixava perceber não admitir a mais pequena contradição - ficar-lhe-ei muito agradecida se não continuar a acompanhar-me... Prossiga o seu caminho ou volte para trás, pois recuso terminantemente dar mais um passo a seu lado.

- Na verdade! - exclamei, admirado com a súbita resolução - Que aconteceu? Por que motivo a aborrece agora a minha companhia?

- Não me aborrece! Importuna-me! - replicou sem se comover com o meu protesto - Não avançarei mais um passo, repito, se teimar em me acompanhar.

Sem querer, o meu rosto traduziu o meu desapontamento. Aquela despedida categórica ofendia-me e feria o meu amor-próprio, visto ignorar-lhe as causas.

- Nesse caso, vou deixá-la - declarei em tom frio - Contudo - acrescentei - permite-me que lhe pergunte porque incorri tão repentinamente no seu desagrado?

- Oh! Não se trata de me desagradar... A lenda não me permite avançar mais um centímetro que seja, em sua companhia, mais nada.

Admirado, repeti:

- A lenda!... Que lenda?... Não compreendo?

- Com efeito, vejo que ignora tudo. E prefiro explicar-lho, pois parece-me desagradàvelmente surpreendido, e não desejo ofendê-lo.

- Sim, peço-lhe que me explique. Tenho o máximo empenho em conhecer as razões que motivam a sua mudança de atitude a meu respeito.

- Muito justificada, meu caro senhor! Oiça e verá...

Calou-se o tempo necessário para respirar e continuou:

- A lenda de Nossa Senhora de Voulch contém perturbadoras complicações... Não se limita a preces atendidas nem a graças concedidas... Tem-se notado... e por mais de uma vez o facto foi verificado, que todo o casal, rapaz e rapariga, que passam juntos diante da capela no dia da sua festa, casam um com o outro antes que decorra um ano... Como é de calcular, os que estão apaixonados empregam os maiores esforços por arrastar até aqui a pessoa que amam. E é por isso que, durante a procissão, se vêem muitos rapazes aproximarem-se das raparigas que pretendem para esposa... ou vice-versa, evidentemente!... Mas sucede muitas vezes, também, que dois entes que não desejam por forma alguma unir-se, se encontram aqui por desastroso acaso e então, com grande surpresa de todos, apaixonam-se um pelo outro.

- Essa agora!

- Não duvide. Quantos casamentos, e às vezes bem desgraçados, infelizmente, se têm realizado nessas condições. Ora, eu declaro-lhe que lamento, por muito que isso lhe desagrade, não desejar passar a vida junto de um homem que nem sequer conheço! E como, além disso, não tenho pressa alguma de me casar, deixo ao seu critério a resolução do assunto...

À medida que falava, o meu espanto transformava-se em aprovação, porque, por meu lado, partilhava por completo as suas opiniões. Não a conhecia e não tinha o mais pequeno desejo de desposar a primeira mulher que me aparecesse I

Portanto, curvei-me diante dela com toda a cortesia.

- Tem razão, mademoiselle. A lenda è perigosa para o nosso livre-arbítrio. Apresenta-nos perspectivas ameaçadoras que é bom evitar... Não pretendo expor-me a elas e partilho os seus receios!...

- Já calculava!

- E, portanto, vou deixá-la prosseguir sozinha o seu caminho. Boa viagem e feliz regresso.

A desconhecida cumprimentou-me, sorrindo, e recomeçou a andar, enquanto, prudentemente, e não tendo jà motivo para prosseguir o meu passeio naquele sentido, retrocedia, descendo a estrada que havia pouco subira.

Chegavam-me aos ouvidos os ecos da festa, parecendo convidar-me de longe para novas danças e prometendo-me novos encontros...

Não tinha ainda dado uns dez passos em direcção à aldeia quando o meu olhar foi atraído por um traço branco cortando a estrada no sentido da largura.

Não foi preciso muito tempo para identificar o objecto:

- É a écharpe de seda que a minha desconhecida de branco levava ao pescoço.

Apanhei o abafo rapidamente e, voltando para trás, chamei:

- Mademoiselle?... Minha gentil companheira do baile! Encontrei um objecto que lhe pertence, suponho eu!

Aquele complemento da sua toilette devia ter grande valor para ela, pois correu apressadamente a recuperá-lo.

Ao mesmo tempo que retrocedia, avançava eu para ela no intuito de lhe evitar parte da caminhada; por tal forma que, percorrendo ambos, de cada lado do santuário, uma distância pouco mais ou menos equivalente, nos encontrámos a meio caminho.

- Oh! Muito obrigada! - agradeceu-me a desconhecida com sinceridade - Ficaria desolada se tivesse perdido esta écharpe que pertenceu a minha mãe... É uma recordação, preciosa, que tem para mim valor incalculável!

- Sinto-me felicíssimo por a ter encontrado e poder restituir-lha.

Enrolou logo o apreciado abafo em torno do pescoço. Depois, para melhor me testemunhar o seu reconhecimento, estendeu-me a mão num gesto espontâneo:

- Mais uma vez obrigada!

As nossas mãos uniram-se numa cordial pressão... Justamente nesse momento, porém, os olhos da minha companheira ergueram-se e encontraram o portal da pequenina capela, que se encontrava aberto. A fisionomia exprimiu-lhe o mais vivo desagrado. Libertou os dedos com vivacidade e afastou-se bruscamente de mim.

- Que arrelia! - não pôde deixar de exclamar com voz alterada.

Ao reparar que as nossas mãos se tinham enlaçado diante do ponto perigoso, compreendi a mímica da minha gentil companheira.

Como um relâmpago, a famosa lenda acudiu-me à memória e por minha vez recuei instintivamente.

- Ah! Isso não! O nosso protesto é unânime, não é verdade?... Foi contra a nossa vontade, não vale!

O meu impulso irreflectido e a minha exclamação deviam ser muito cómicos, decerto. Contudo, a desconhecida aprovou-os, muito séria.

- Sim, foi contra nossa vontade! - concordou, visivelmente aborrecida - Foi tudo obra do acaso.

- Evidentemente! E portanto não deve ter valor!

- Esperemos que assim seja!

Este simples voto e o tom em que foi pronunciado demonstravam à evidência o temor supersticioso que a dominava.

Sem acrescentar palavra, afastou-se num passo rápido. Desta vez nem mesmo pensou em se despedir de mim, mas essa omissão não me ofendeu. Talvez que, enquanto desaparecia com tanta presteza, invocasse com toda a sua alma as forças susceptíveis de quebrarem a lendária decisão...

Quanto a mim, percorrendo o caminho que me conduzia a casa, encolhia os ombros com desprezo por todas aquelas crenças populares. No entanto, não deixei de resmungar:

- Tolices!... Não passam de umas superstições idiotas!... Idiotas e estúpidas, essas lendas que as pessoas de idade inventam para assustar os novos! E na verdade eu sou estúpido também em lhes dar crédito e preocupar-me com elas!... São histórias da Carochinha, boas para contar às crianças!... A Virgem e todos os Santos da corte do Céu têm bem mais que fazer do que casar as pessoas contra a própria vontade e sem estarem preparadas para isso.

Passei uma noite bastante agitada, não por efeito das ameaças da lenda, mas, provavelmente, pelas consequências de uma ceia copiosa e cujos apetitosos manjares serviram de desculpa para a absorção de numerosos copos de vinho.

O meu espírito, sobreexcitado e desenvolvendo uma actividade prodigiosa, deu-se ao luxo de uma reprodução cinematográfica, onde as imagens passavam confundidas umas com as outras e tão depressa me mostrava um turbilhão imaculado rodopiando contra mim, uma êcharpe esvoaçando no espaço, como o campanário de uma capela oscilando num precipício sem fundo, ou um vulto feminino despenhando-se num abismo de trevas ; isto é, uma infinidade de visões mais ou menos agradáveis accionavam o meu mecanismo cerebral e acabava por acordar sobressaltado precisamente no momento em que ia mergulhar num sono benéfico e reparador.

Pode alguém ser senhor dos seus pensamentos? Não creio... principalmente quando eles parecem dominar assim o subconsciente!

Só de madrugada consegui sossegar, quando tomei esta resolução:

- Amanhã - e esta manhã equivalia a um hoje, visto a hora matinal - hei-de saber quem è a minha desconhecida... Pelo menos, se ela constitui um perigo para mim, ficá-la-ei conhecendo!

Assente esta decisão, recuperei a serenidade e consegui dormir tranquilamente algumas horas.

E assim, mal saltei da cama e terminei a minha toilette, fui procurar Catarina Le Coz.

Logo em seguida à minha chegada a Voulch, tinha notado que a excelente mulher, sempre que os cuidados da sua profissão lhe permitiam, apreciava muito conversar.

Conhecia toda a gente e, conquanto não tivesse precisamente o que se chama má-lingua, nem fosse malévola nas suas apreciações, gostava de se fazer eco desses mil ditinhos que correm de boca em boca e que dão a conhecer as pessoas melhor do que as mais minuciosas explicações.

- Catarina, enquanto almoço queria pedir-lhe uma informação.

- Diga, senhor Marcos-redarguiu com amabilidade.

- Falou-me ontem no uso, na verdade gracioso, que permite às raparigas vestirem-se excepcionalmente de claro no dia do Perdão.

- Falei e até lhe expliquei o que motiva esse costume, entre nós.

- Não esqueci nada do que me disse... Contudo, no meio de toda essa mocidade, trajando os seus fatos festivos, vi uma jovem completamente de branco. Não podia deixar de a notar porque é muito bonita... Conhece-a?... É cá da terra?

- Uma pequena vestida de branco?

- Sim, dos pés à cabeça.

- Magrita, e que não tomava parte nos divertimentos gerais?

- Isso mesmo.

- Deve ser a sobrinha de Mariannick Guilherme, não pode ser outra.

- Quem è essa Mariannick? - informei-me imediatamente.

- Uma mulher já idosa que mora numa pequena propriedade chamada Ty Bianet... um tanto afastada da aldeia, no promontório... um pouco acima do santuário.

- E essa mulher tem uma sobrinha pouco mais ou menos com vinte anos, muito bonita e que se veste de branco?

- Tem - afirmou Catarina - Maria Clara deve ter essa idade e a tia fez voto de a trazer, desde pequenina, vestida de filha de Maria.

- Mas essa rapariga não vive habitualmente com a tia, não è assim?

- Engana-se, senhor Marcos! Desde que saiu do Pensionato, porque Maria Clara foi educada num colégio da cidade, não tornou a deixar a sua velha parenta... vivem as duas... um pouco como selvagens... não se dando com pessoa alguma e não permitindo a ninguém que se intrometa na sua vida. É isto que lhe digo!... E, depois, Ty Bianet fica bastante afastado da aldeia... Para aquele lado só existe a casa de Guillon, o tamanqueiro... e mais longe ainda a grande propriedade de Kermodu... É uma situação isolada que permite à tia e à sobrinha viverem à sua vontade.

- Que quer dizer com isso?

- Ora! Que fazem segredinho de tudo: das visitas que recebem, das vezes que saem... não aceitam conselhos dos outros... como se a opinião de estranhos pouca importância tenha para elas!...

- Parece-me que assim não incomodam ninguém - observei - e as más-línguas cá da terra nada têm a censurar-lhe por isso. com certeza.

- Ah! Pois não! - protestou a hospedeira - Também não é por isso que as censuram...

- Então que outras razões encontram para dizer mal delas?

- Apenas estas: aquela doida da Mariannick é tão pouco sociável e tão orgulhosa que nunca procede como as pessoas sensatas e de juízo! Tem pretensões não sei a quê, a pobre mulher! Reparou na elegância da sobrinha? Segundo parece, a marota está sempre ao corrente da moda, para andar tão bem posta!... Nós não estamos acostumados a tanta garridice, cá na aldeia, e achamos demasiado.

- Mas porquê? A pequena é tão engraçada!... Um verdadeiro amor!

- Pois sim! No entanto, pense bem! Aos vinte anos não há necessidade de tanta elegância!... Para mais, quando nem ela nem a tia têm fortuna!... Mariannick não devia habituar a sobrinha àquele luxo. Qual será o homem de juízo que vai escolher para sua mulher uma rapariga assim educada, e, para mais, sem dote?... Os seus meios não lhe permitem semelhante existência... Quando uma pessoa é pobre deve ser razoável!

- Talvez as duas mulheres tenham com que viver sem pedir nada a quem quer que seja.

- Decerto. Não pedem nada... E não têm qualquer dívida, até! Mas gastam muito, também!

- Gastam e pagam! Se é só isso que lhes censuram, não é muito grave!

- Não acha bastante afastarem-se propositadamente de toda a convivência?... De resto, é por afeição e no seu próprio interesse que todos nós desejaríamos vê-las encarar a vida por forma mais sensata!... Porque, quanto a honestidade e questões de conduta não há nada a apontar-lhes, bem entendido!

- Ah! Então, Maria Clara...

- ... É uma rapariga honesta... Ninguém tem nada a dizer-lhe!... É orgulhosa, talvez, mas sabe conduzir-se como deve!

- Bem! É o principal, nesse caso! Que exigem mais?

Instintivamente, defendi-a, eu, o Parisiense habituado à garridice um pouco ousada, mas agradável, das costureirinhas da capital.

Catarina não discutiu. Como hospedeira conhecedora do ofício, não queria, provavelmente, contrariar a minha convicção.

Contudo, todas essas informações, fornecidas de tão boa vontade, não bastaram para satisfazer a minha curiosidade.

- O que me admira - continuei, pensativo - è que uma rapariga, educada e apreciadora de luxo, viva contente em Voulch... Parece-me muito deslocada nesta solidão, essa pobre Maria Clara!

- Oh! Quanto a isso, a história é outra! - atalhou Catarina Le Coz, cuja verbosidade facilmente despertava - Não tinha falado ainda nela para não me chamarem maldizente; mas como toda a gente a conhece e, mais dia menos dia, a ficaria sabendo, tanto faz que seja eu ou outro quem lhe conte, não é assim?

- Pois com certeza! - afirmei -, Desperta-me a curiosidade, senhora Catarina.

- Pois bem! O caso è este. Mariannick teve, noutros tempos, uma irmã muito mais nova do que ela e razoavelmente bonita, como a filha, de resto! Essa irmã chamava-se Filomena... A beleza è prejudicial às mulheres I Leva-as a cometer tolices de que mais tarde se arrependem! Como è natural, muitos rapazes gostavam de Filomena e era ver quem mais rondava em volta dela para ser o preferido... Mas, um dia, a pobre pequena partiu para a capital!... E parece que levou ali uma vida muito acidentada!... Pelo menos, é o que se diz...

Catarina encolheu os ombros e abanou a cabeça, deixando o campo livre a todas as suposições, fossem elas as mais absurdas!

Depois de um profundo e significativo suspiro, continuou:

- Enfim!... Diz-se que a vida que levou em Paris lhe arruinava a saúde! E foi na capital, supõe-se, que a criança nasceu, mais tarde. Deus castigou-a pela sua vida desordenada e louca, e a pobre acabou, talvez, numa cama de hospital!

- Assim já se explica em parte a paixão que a pequena tem pelo luxo - observei, um pouco contristado, contudo, por saber que a criança ingénua, duma beleza ideal de Madona, que toda a noite povoara os meus sonhos, tinha semelhantes antecedentes.

- Sim - aprovou a minha interlocutora - A pequena deve instintivamente parecer-se com a mãe... ela não é responsável por essa hereditariedade!... Mas, Mariannick, que conhece o passado... que teve o exemplo da irmã para a ensinar, devia obrigar a sobrinha a um porte muito mais simples, em vez de lhe comprar vestidos caros!...

«Aquela velha tonta nunca devia esquecer as tristes recordações... O seu dever era procurar sufocar os maus instintos da pequena, se esta os tem, e não despertá-los e favorecê-los, como faz.

- A sabedoria fala pela sua boca, senhora Catarina - concordei para a lisonjear e provocar novas confidências - Mas em tudo isto noto um facto que me parece muito estranho: a indiferença de Mariannick Guilherme por esse passado... Estão confirmadas essas suposições sobre a mãe de Maria Clara?

- Estão confirmadas, senhor Marcos, e bem confirmadas! Existem, ainda, na aldeia, rapazes que conviveram com a irmã de Mariannick antes da sua partida... Foram eles os primeiros a dizer o que supunham e a contar o que tinham podido saber; tudo isso passou de boca em boca, de forma que toda a gente hoje conhece a verdade.

Não consegui evitar uma aprovação, cuja ironia, com certeza, a boa mulher não compreendeu:

- Sendo assim!... Não podem restar dúvidas!... Tudo é evidente e claro como água!... Pobre Maria Clara, tão linda e tão pura... Que infelicidade para ela ser vítima do passado da mãe! E, apesar de tudo, é, suponho eu, bastante cortejada. Deve, com certeza, suscitar muitas vezes a inveja das outras raparigas.

- Engana-se!... Os rapazes retraem-se!... De resto, ela conserva-os a distância e faz-lhes compreender que não têm probabilidades de êxito... E, depois, quem ousaria falar de amor a uma rapariga tão orgulhosazinha?

Sorri...

Com efeito, não se podia conceber a imagem de um desses rústicos ao lado da encantadora rapariga. Catarina fazia muito bem em repelir tal ideia.

- Aos nossos camponeses, deve desprezá-los, por

certo! - prosseguiu com acrimónia - Aspira a melhor!... E foi naturalmente por isso que escolheu um vestido tão elegante para assistir ao Perdão. Talvez pretenda atrair as atenções dalgum turista estranho à região... Sabe-se lá!

A esse respeito já havia formado a minha opinião pessoal, pois recordava a altiva reserva de Maria Clara e a frase pronunciada por ela, na véspera, quando passávamos juntos diante do santuário... Evocava também o seu movimento de cólera tão sincero quando reparou que havíamos trocado o aperto de mão precisamente em frente do local perigoso.

Não, a gentil loirinha, tomando parte na procissão deliciosamente vestida, não procurava, decerto, conquistar um marido... Ou, então, procedera assim pensando num ausente... um ausente que lhe era muito querido e para quem implorara as bênçãos da Virgem.

Era isto o que eu pensava: mas não julguei necessário transmitir a Catarina Le Coz as minhas conclusões. Devia ser difícil modificar as desagradáveis apreciações da boa mulher.

Limitei-me a sorrir da base errónea de tão malévolas suposições e a nossa conversa ficou por ali.

Retomei o hábito das minhas peregrinações quotidianas, na esperança de encontrar o ponto propício a acordar em mim a inspiração intensa que dá vida a uma obra de valor.

Reuni já no meu álbum de desenho diversos esboços... mas nenhum me satisfaz... nenhum possui o mais pequeno vislumbre dessa emoção profunda que exalta o artista e desperta nele o gosto criador.

E continuo a procurar...

Mas não encontro nada de notável neste cantinho da Bretanha... O mar, rochedos, campos... assuntos muito vistos e tratados por inúmeros artistas.

O acaso dos meus passeios solitários não me tornou a colocar ainda em presença de Maria Clara... Contudo, teria gostado imenso de encontrar no meu caminho o gracioso e gentil par... principalmente agora, que conheço um pouco a sua história. Maria Clara! Que nome tão lindo! Sem dar por isso, quantas vezes tomei pelo atalho que conduz à pequenina capela da colina... Quantas vezes também, seguindo em direcção oposta, depois de um largo rodeio, me encontrei no meio do promontório... como se obedecesse a uma atracção misteriosa e de origem desconhecida.

Agora todos estes sítios me são familiares e conheço o mais pequeno recanto do outeiro.

Como era de esperar, não deixei de solicitar às paredes do santuário, não que me desvendassem os segredos milhares e milhares de vezes confiados, mas que despertassem em mim uma emoção artística que me permitisse marcar-lhes um lugar na minha grande composição.

E inconscientemente dirigi à Virgem de Voulch uma exprobração amarga, por não fazer nascer em mim a centelha criadora e por não querer com a sua influência prestar-me qualquer auxílio.

Teria o Céu ouvido ontem as minhas censuras?

Tenho a impressão de que vejo hoje as coisas por um prisma diferente!...

Esta manhã saí muito cedo, disposto a uma nova viagem de descoberta.

A meus pés, o mar... por cima da minha cabeça, o firmamento deslumbrante e belo.

Observei o horizonte como se força desconhecida me impelisse a levar mais longe as minhas investigações... mais longe, para além do âmbito percorrido até então... fora do círculo habitual dos meus passeios.

Lá de cima, do alto do pequeno promontório, via as vagas ondularem brandamente, desfazerem-se em milhares de gotas prateadas, a espuma alvejante cintilando ao sol, o azul intenso do Céu reflectindo-se na água.

Mas não era ainda essa paisagem que eu sonhava reproduzir. Este era um assunto sem novidade e transmitido à tela centenas de vezes.

Abandonando, portanto, as costas recortadas e o oceano infinito, voltei as minhas atenções para os campos, para o interior da terra...

De súbito, estremeci!

Só então reparei numa coisa que até agora não havia notado...

Lá no fundo, para além da charneca silenciosa, uma linha de um verde-escuro destacava-se, misteriosa! E eis que, instintivamente, experimentei o desejo de me dirigir para lá... de transpor essa planície semeada de rochedos e de juncos bravios, que nunca me tentara... Senti-me como que atraído para essa massa de verdura, sombria, que me pareceu ser grande e espesso pinhal.

Pouco passava das nove horas da manhã. Tinha, por conseguinte, o tempo necessário para empreender essa excursão antes da refeição do meio-dia...

Apressadamente, dirigi-me para o oásis misterioso que, como se fosse poderoso íman, me atraía irresistivelmente...

Deve ser assim que se caminha ao encontro do nosso destino... bom ou mau... quando a Providência nos conduz pela mão.

Esta sensação de fatalismo foi tão intensa em mim que prossegui com a firme convicção de que iria encontrar o motivo para a composição havia tanto tempo sonhada. O receio de uma desilusão nem sequer me acudiu ao pensamento.

À medida que me aproximava, distinguia melhor a massa escura das árvores entrelaçadas. Era, como havia suposto, imenso pinhal, cortado ao fundo por grande mancha mais clara, que sobressaía por entre as árvores.

O meu olhar penetrante percorreu tudo, atento e investigador. Fiquei encantado quando descobri que a tal mancha mais clara não era outra coisa senão o cimo de uma torre desmantelada, cujas paredes estavam na sua maior parte em ruínas.

- Uma floresta silenciosa! Um castelo em ruínas!... Ó maravilha das maravilhas!... Não devo estar enganado! Encontrei o que desejava! - exclamei nesse instante.

E era ainda muito melhor do que eu sonhara...

Naquele local tão impressionante devia ter-se erguido noutros tempos uma fortaleza. Desta, só a torre de menagem, majestosa pela solidez e pela altura, se conservava ainda de pè, mas em que deplorável estado! O telhado e o sobrado dos diversos andares já não existiam, e das paredes interiores restavam apenas raros vestígios. Contudo, via-se ainda uma escada de pedra que se desenrolava até meia altura; daí para cima, porém, sucediam-se apenas simples degraus, que se chumbavam de um lado às paredes de granito e do outro se equilibravam horizontalmente no espaço.

Escada de pesadelo, que nenhum mortal ousaria subir e que decerto só os génios da charneca se atreveriam a escalar, por tal forma esses degraus perigosos se apresentavam vertiginosos e alucinantes.

Quanto a mim, nem sequer me acudiu a ideia de os subir e contentei-me simplesmente em admirar a suprema altivez desses restos de muralhas extraordinárias, erguidas para o Céu como um desafio às leis que presidem à gravidade, ou como uma tentação diabólica oferecida aos mortais que sonhassem suicidar-se.

Contudo, o que mais admirei ainda foi o artístico contraste dessas ruínas e da vegetação luxuriante que as rodeava.

A cor sombria das velhas pedras confundia-se com a da hera, das silvas e dos pinheiros, que apresentavam uma gama completa de tons.

Perante tal esplendor, comovido e perturbado, consegui apenas pronunciar esta palavra, que me brotou do coração e subiu maquinalmente aos lábios, num reconhecimento infinito pelo Céu que acolhera, com tal benevolência, a minha impiedosa censura da véspera:

- Obrigado!... Obrigado!

Porque, perante a comoção que me subjugava, perante o entusiasmo que sentia vibrar em todo o meu ser, eu não podia duvidar por mais tempo. Ou seria ali que pintaria o meu quadro... essa obra muito minha... a obra-prima, sonhada havia tantos anos... ou nunca chegaria a pintá-lo.

O meu quadro... a minha obra-prima, talvez!...

O acaso fora meu amigo naquela manhã.

O acaso?

«Um verdadeiro crente não admite o acaso» - costumava dizer meu pai.

No desejo imperioso que me impelira para a floresta sombria eu sentia a mão do Destino a encaminhar-me.

E, dominado por profundo reconhecimento, repeti mais uma vez, agradecendo a Deus:

- Obrigado! Mil graças vos dou, Senhor!

Finalmente!

Procedi esta manhã à minha instalação.

Consegui alugar uma bicicleta que me permite percorrer rapidamente o caminho à hora das refeições.

Encontram-se já aqui o meu cavalete, a caixa das tintas, o banco de tesoura, um guarda-sol, em conclusão, toda a minha bagagem de pintor.

Catarina afiançou-me que à hora do almoço posso deixar tudo à guarda de Deus, pois a gente da terra è tão escrupulosamente honrada, e a estrada principal, com os seus vagabundos de passagem, fica tão afastada do meu cantinho, que nenhum perigo ameaça os meus apetrechos.

A tela está preparada, os carvões aparados e esta tarde devo começar o meu primeiro esboço.

O campo apresenta-se agreste e deserto em toda a extensão da charneca. É a solidão na sua maior beleza e amplitude.

Suponho que não terei necessidade de transportar todos os dias o meu material. Prejuízos, só receio os que me causarem as intempéries, mas devo ter possibilidade de, nas ruínas, abrigar o meu quadro em qualquer parte. São de pedra e deve existir ainda um ponto coberto que o preserve da chuva.

É muito cómodo não ter de me preocupar com o transporte do material. Ontem à tarde arrumei-o a coberto de dois lanços de muralha que o preservam do tempo e de qualquer animal... o Céu pode abrir todas as cataratas, o vento desencadear as suas iras terríveis, que o meu quadro e tudo quanto me pertence, nada sofrerão.

O abrigo que descobri deve ter sido noutros tempos uma passagem ou um corredor. Hoje, mesmo desmantelado, basta para o que exijo dele: os meus tesouros ficam em segurança e nem mesmo um transeunte mal-intencionado poderia descobri-los com facilidade.

Procurei diversas posições antes de encontrar uma que me agradasse para começar o esboço definitivo.

Tudo por questão de harmonia entre o fundo e os primeiros planos, a que o artista deve atender e saber equilibrar antes de mais nada.

E, contudo, teria escolhido a perspectiva mais favorável?

À força de deslocar de um lado para outro o cavalete, de avançar e recuar umas poucas de vezes, tomei a resolução de me instalar sobre o próprio morro onde assentam as ruínas...

Fico assim mais perto... E, não sendo perfeito, é muito melhor, evidentemente.

Contudo, anseio por lançar-me ao trabalho e receio, com todas estas delongas, estar perdendo um tempo precioso.

A situação que escolhi agrada-me bastante... Parece-me que desta vez encontrei uma posição feliz...

Esta agora è formidável.

Toda a manhã trabalhei no esboço e estou certo de ter desenhado, aqui, deste lado, o grupo de pinheiros... mais além, a torre... em volta, as ruínas.

Mas alguém, durante a minha ausência, modificou tudo quanto havia feito momentos antes.

O próprio material não se encontra no ponto onde o fixei. Está um pouco mais afastado...

Às onze e meia fui almoçar, determinando de antemão a tarefa a realizar à tarde e que consistia em fixar, por um traço de tinta da China, diluída, o esboço a carvão que fizera de manhã.

Comi com todo o apetite, excitado por um ardor entusiástico, recordando o trabalho que me esperava... Um quarto de hora de caminho, porque a estrada è a subir e eu pedalo devagar, e eis-me de novo nas ruínas.

Mas que extraordinária surpresa me aguardava!...

O cavalete, a caixa das tintas e os pincéis encontravam-se dispostos como habitualmente os deixava todas as manhãs, quando ia almoçar...

Tudo estava na mesma disposição em que ficara... nada faltava... tudo completo!

Tudo, sim... mas em lugar diferente... a cinquenta metros do ponto onde me instalara!

Tinha disposto as coisas além, junto daquelas silvas. Lá estavam os sinais marcados, na terra húmida, pelos três pés do cavalete e também os outros deixados pelo banco. A erva ainda calcada no sítio onde colocara a caixa das tintas...

Se pudesse supor que a memória me enganava, bastariam estas provas materiais para me tirar todas as dúvidas...

Foi este exactamente o ponto onde trabalhei de manhã... e deste ângulo que esbocei o meu modelo...

Estou bem certo... e não só encontrei e verifiquei, como jà disse, os vestígios deixados na terra, como, caído na erva, vi também um fragmento de carvão, que, por ser muito pequeno e não me servir para nada, atirara fora. Não estava, portanto, enganado! Foi bem aqui que me instalei antes do almoço.

Mas então como explicar que na minha ausência alguém tivesse vindo aqui e deslocasse o meu atelier ambulante?

Se se tivessem limitado a transportar o material, ainda me teria calado... Tratar-se-ia talvez de uma brincadeira de mau gosto e teriam mudado o cavalete apenas para desorientar o pintor. Mas havia mais, e por tal forma inacreditável, que mal me atrevo a contá-lo às pessoas sensatas e razoáveis. Julgarão, talvez, que invento ou então que não estou no meu juízo perfeito.

«- O pobre homem está iludido ou talvez doido varrido!» - diriam.

Parece-me ouvir jà os sarcasmos que provocaria.

Mas enganam-se. O que afirmo é a expressão exacta da verdade.

Na tela, que mudou de lugar e na qual reproduzira, horas antes, a paisagem que tinha diante dos olhos, outro esboço substituiu o primeiro: a perspectiva das ruínas vista da nova posição.

Não suponham que exagero; apagaram o traço a carvão que representava o meu trabalho inicial. Desapareceu por completo; novo traço o substituiu, que mão desconhecida desenhou conforme o segundo ponto de vista.

E este facto è tão real, tão verdadeiro, que até um leigo poderia verificar que, pela sua forma, o segundo esboço difere totalmente do meu.

Não fui eu quem traçou aqui este desenho, quem fez nascer na tela estes tufozinhos de ervas e este amontoado de pedras... em geral não sou tão meticuloso e no esboço inicial costumo marcar apenas as linhas gerais, reservando os pormenores para depois.

Devo mesmo declarar, aqui, que, fosse quem fosse que me pregou esta partida, è mais artista do que eu. Não è pelo facto de reconhecer o talento de outrem que amesquinho o meu e verifico, portanto, que ao manejar o carvão em meu lugar o pintor teve mais delicadeza no traço, mais firmeza... maior talento, enfim!... Mesmo na escolha da perspectiva mostrou ser-me superior e a sua concepção dos diferentes planos è muito mais perfeita do que a minha; este frondoso carvalho, de um verde tão intenso, fará maravilhoso efeito junto do tom sombrio dos pinheiros e o caos das ruinas, que se distingue completamente agora, constituirá um primeiro plano magnífico.

Tenho apenas dois caminhos a seguir; apagar o excelente esboço traçado por mão desconhecida, mas hábil, ou adoptar as directrizes impostas por outrem. Que vou fazer?... Apagar ou aceitar?... Pois bem! Pensem o que pensarem, mas o mistério oculto atrás desta perturbante substituição não desperta em mim qualquer má vontade: o facto de um anónimo me haver dado uma discreta lição sobre pontos de vista não fere o meu amor-próprio, porque reconheço que teve razão.

Aceito a escolha feita por ele... A sua maneira de ver passará a ser minha, sem que o meu ardor esmoreça...

Pelo contrário, creio que a ideia do mistério me excita o zelo; è como se essa mão enigmática fosse a do Destino e me desafiasse a cumprir a tarefa indicada por ela...

O meu trabalho não será prejudicado, visto ter como fito o orgulho de igualar o mestre desconhecido... e talvez até o pensamento de uma intervenção sobrenatural estimule o meu desejo de triunfar.

Uma única coisa me preocupa; a pessoa que modificou o meu esboço não estará neste momento oculta em qualquer ponto perto daqui?

É testemunha da minha surpresa, da minha perturbação e emoção?... Assiste às minhas pesquisas, às minhas investigações... e viu-me, por fim, adoptar as suas sugestões?... Vai talvez rir-se de mim... ou, quem sabe, pode ser também que se sinta satisfeita verificando que não rejeito as suas directrizes ou se sinta comovida pela minha submissão aos seus conselhos anónimos...

Mas em vão percorri com olhar investigador os contornos da clareira e tentei penetrar o segredo dos recantos mais sombrios. Nenhuma daquelas moitas me pareceu própria para ocultar um ente humano: há por ali muitas ortigas e lianas entrelaçadas. Quanto às ruínas, não posso, é evidente, ser tão categórico e afirmar que ninguém se esconde nelas. É fácil encontrar abrigo atrás de um lanço de muralha ainda de pé e mesmo um simples amontoado de pedras pode ocultar um curioso que siga todos os meus gestos.

Contudo, nem o mais pequeno ruído me fere os ouvidos e sabe Deus quanto é difícil caminhar sobre aqueles escombros sem que todos esses pedregulhos rolem debaixo dos pés! Envolve-me o silêncio mais completo, que o zumbido apenas perceptível dos insectos e o pipilar suave dos passaritos parece tornar mais profundo ainda.

Nenhum ser humano, com excepção da minha pessoa, frequenta estes lugares.

Estava completamente só...

E, a esta hora, o artista misterioso, que visitou a charneca na minha ausência, já se encontra bem longe, por certo...

 

Trabalhei quatro horas sem que o mais pequeno ruído ou um único vulto humano viesse interromper o meu ardor.

Este caminho é quase deserto.

O campo desprovido de verdura, as raras flores e os próprios pinheiros, com os seus troncos contorcidos, parecem petrificados... A mais perfeita miragem da solidão!

Ontem à noite interroguei a minha hospedeira sobre as ruínas e o pinhal, dos quais nunca a ouvira falar.

Justamente nessa ocasião, na sala onde Catarina costumava servir-me, via-se uma das mesas ocupada por um grupo de camponeses, recém-chegados do mercado próximo.

O facto não me desagradava. Debaixo dos grandes chapéus bretões, com compridas fitas flutuantes, as fisionomias bronzeadas, enrugadas e expressivas, apresentavam um interesse artístico que não era para desprezar.

Contemplando-os, o meu espírito recordara um pequenino quadro de Meissonier: Uma partida de cartas, no qual a expressão rude dos parceiros era transmitida com vigorosa naturalidade.

Gostaria de reproduzir uma cena deste género... Mas enquanto não me disponho a pôr em execução este projecto, perguntei à boa Catarina:

- Diga-me cá, senhora Le Coz, por que motivo nunca me falou das ruínas que se erguem lá em cima, junto de um grande pinhal?

- Ah! As ruínas de Kèridec... Foi até lá?.., É um sítio pouco atraente!... É uma das tais coisas de que não gostamos de falar, cá na terra.

- Porquê?

- Há ali qualquer mistério... Eu jà lhe explico... Vou num instante dar uma vista de olhos pela cozinha e volto já.

- Não tenho pressa, senhora Catarina... Os seus fregueses estão em primeiro lugar. Quando tiver vagar conversaremos.

- Combinado... agradeço-lhe.

Às palavras: ruínas de Kéridec, os ocupantes da mesa próxima tomaram atenção. Depois observaram-me com curiosidade.

Quando Catarina desapareceu no burburinho da sala vizinha, o mais velho do grupo dirigiu-me a palavra:

- Então o meu jovem senhor - exclamou com grande sem-cerimónia - quer informações sobre as ruínas? Pois eu, que lhe falo, posso dizer-lhe qualquer coisa a esse respeito. E estes que aqui estão - continuou, designando os companheiros - poderão confirmar-lhe as minhas palavras. Catarina está bem informada, não há dúvida, mas não melhor do que nós. Além disso, è preferível, não é assim?... Compreende o que quero dizer...

Sorri, encantado com aquela boa vontade... Com efeito, um homem explica as coisas mais sucintamente e sem ligar, como as mulheres, dando crédito aos ditos e fantasias que lhes vão acrescentando.

- Sou todo ouvidos! - afirmei - E desculpem se continuo a comer, mas o passeio e o ar puro abriram-me por tal forma o apetite...

- A esta hora não é para admirar... Coma, coma, e enquanto come vá ouvindo... Eu começo... Existia outrora nos arredores de Voulch, um pouco afastado da estrada de Ploudalmézeau, num pequeno outeiro ou morro, um antigo solar, uma espécie de castelo... As suas fachadas olhavam os quatro pontos cardiais e na retaguarda alongava-se para o norte extensa mata de pinheiros. Os seus donos eram excelentes pessoas, descendentes de uma antiga família de choans e estimados por toda a gente!... Ora uma bela noite... durante a guerra... sem se saber como, nem porquê, declarou-se fogo no castelo. Uma edificação tão sólida, tão vasta, construída com pedra desde os alicerces até às águas-furtadas, não se compreende como pudesse ficar reduzida a escombros em poucos momentos. Parece uma coisa sobrenatural, não acha? Um edifício de granito que se incendeia e arde como um archote, até não restar pedra sobre pedra! Das construções, nem uma só ficou de pé, abateram todas... Não se lhe afigura extraordinário! Que pensa a este respeito?

Não podendo formular ainda uma opinião bem definida, achei, contudo, de boa política responder com uma vaga aprovação:

- Sim, de facto, é extraordinário!

- Bem... vejo que me compreende - replicou o velho camponês - Não é só extraordinário, é obra de feitiçaria!... E, senão, veja: habitavam o solar o castelão, a mulher, dois filhos e cinco ou seis criados... em conclusão, um razoável número de pessoas... pois desapareceram como fumo...

Catarina, enquanto me servia, prestava atenção à conversa. A certa altura interrompeu o narrador.

- Foi isso exactamente - aprovou-só o velho cocheiro e Mariannick Guilherme... a tia de Maria Clara, lembra-se... conseguiram escapar à catástrofe. E a pobre mulher, mesmo, encontrava-se em estado deplorável e tiveram de a internar num hospital da cidade para se tratar: o susto quase a enlouqueceu... E só assim se explica que eduque a sobrinha como eu lhe contei há dias, senhor Marcos.

- Sim, recordo-me, com efeito... mas... - continuei, não querendo desviar a conversa - não encontraram nada nas ruínas?... Qualquer vestígio... restos humanos?...

- Pois isso è o mais extraordinário ainda - explicou o velho-Não se encontrou coisa alguma!... Absolutamente nada!... Tinha-se evaporado tudo! Compreende como isso pudesse suceder?

- Nem a mais pequena coisa?

- Já lhe disse. Nem restos de móveis, nem de pessoas! Nada, numa palavra!... Foi como se em todos os pontos do castelo ateassem fogueiras infernais e as alimentassem com o que existia lá dentro.

- É espantoso! E depois?

-Depois, está bem de ver! As silvas invadiram tudo, a hera cobriu as muralhas e ocultou as sinistras ruínas. Aqui e ali ainda se vêem algumas manchas denegridas, vestígios do incêndio que noutros tempos destruiu o castelo... Parece um imenso mausoléu, como dizem na cidade... um túmulo onde a Natureza sepultou o passado: pessoas, bens e animais...

- Sim, sim! - suspirou Catarina - Já lá vão vinte anos... e durante tanto tempo ninguém apareceu a reclamar a herança... ou seja o que for... O produto do aluguer das herdades acumula-se nas mãos do notário... Para quem, pergunto eu? Diz-se... Mas deve ser história...

- História?! - bradou o velho - Conheço outros mais espertos do que a senhora Catarina e que são menos incrédulos!... Essa tal história pode muito bem acontecer que seja a pura verdade!...

Os outros Bretões aprovaram, aspirando vigorosamente o seu cachimbo e lançando grandes baforadas de fumo, como se quisessem dar-nos a imagem do mistério nas espirais fantásticas e caprichosas.

- Mas, finalmente, que dizem? - indaguei, cada vez mais intrigado, pois me acudiu à memória a aventura sucedida ao meu quadro e começava a perguntar de mim para mim se nas ruínas não habitaria qualquer pessoa que tivesse interesse em se ocultar.

O velho explicou:

- Ah! Jà agora quero dizer-lhe tudo. Afirma-se que o castelo, depois da destruição, ficou enfeitiçado. Encontram-se vestígios de passos, a erva calcada, as silvas arrancadas. Nas noites de luar, distinguem-se sombras no alto da torre... sombras que se agitam, que vagueiam e passam de um lado para o outro! É evidente que um ou mais fantasmas visitam o velho solar! Diz-se ainda que vêm procurar o oiro e as jóias desaparecidas... para visitarem os sobreviventes... para impedirem os herdeiros de se darem a conhecer... ou, quem sabe, talvez para velar pelas cinzas dos antigos proprietários, que não foram enterradas em chão sagrado.

Os outros camponeses aprovaram mais uma vez, com o mesmo cerimonial silencioso. E Catarina confirmou:

- Aí tem o senhor quanto se conta das ruínas. As informações enfermavam por falta de clareza e fundo de verdade, mas tive de me contentar com elas, pois compreendi que não obteria do meu interlocutor senão esses «diz-se» que andavam incessantemente de boca em boca. Aquela boa gente nada sabia de positivo, limitava-se a repetir o que ouvira, sem mesmo tentar profundar se era ou não plausível.

- Agradeço-lhe todas as informações que me deu - não deixei, contudo, de lhe dizer - Presentemente, o meu interesse pelas ruínas de Kéridec aumentou. Sem conhecer ainda a sua história, agradaram-me logo pelo seu carácter grandioso e pelo local em que se erguem... seduzem-me: atrai-me o mistério que paira em volta delas...

Desejo reproduzi-las e vou tentar imortalizá-las com os meus pincéis... Mas... sosseguem... Não vou provocar a cólera dos espectros, visto não ter o mais pequeno direito à herança dos desaparecidos.

As minhas últimas palavras foram acolhidas com uma gargalhada geral, visto aqueles camponeses não ligarem importância à pintura e não diferençarem a minha arte das tentativas de decoração que fazia nas tabuletas o pintor de prédios do concelho vizinho.

Quanto a mim, estava encantado por saber que o meu cantinho tinha uma história.

Poderia talvez contar a essa boa gente a mistificação de que havia sido vítima naquela tarde, mas nem mesmo me ocorreu essa ideia.

Pressentia que só lhes serviria para tirarem dela nova prova que justificasse as velhas superstições. Não alcançaria, por certo, qualquer utilidade das suas apreciações. Não lhes dei também mais pormenores sobre o trabalho projectado, visto não poderem compreender-me.

Continuaram, portanto, a conversar uns com os outros, repetindo os argumentos, completando-os, acrescentando-lhes novos e complicados floreados.

Uma lenda è tanto mais bela quanto mais remota, pois permite aos sucessivos narradores que a burilem e lhe dêem vida. Cada um deles transmite-lhe um pouco da sua personalidade, omitindo daqui, acrescentando dalém, como tinha acontecido naquela noite. Pessoalmente, a fábula, tal como a haviam narrado, agradava-me e teria escrúpulo de a aumentar com um pormenor tão vago como o incidente do meu quadro. Mais tarde, talvez, se chegasse a formar opinião definitiva sobre a aventura, seria então ocasião de a contar e de tirar dela as minhas conclusões.

Ontem, enquanto trabalhava, ouvi ladrar um cão... Não vi o animal, cujos ladridos ecoavam, segundo me pareceu, pelos quatro cantos da floresta, mas essa presença invisível de um animal, que parecia estar bem perto, tinha qualquer coisa de irritante.

No entanto, esses ladridos eram indício de vida e que outro ser, além do meu, se encontrava naquele cantinho deserto.

Contudo, como nada apareceu, nem homem, nem cão, senti um súbito mal-estar, como se na atmosfera pairasse qualquer coisa de irreal que influisse no meu nervoso.

As curiosas narrativas dos camponeses da hospedaria não eram, decerto, estranhas a este estado de espírito.

Se lhes confessar ainda que a recordação bizarra da deslocação do meu material de pintor e a não menos singular transformação do meu esboço me obsidiavam o pensamento, compreender-se-à porque nesse momento tudo tomava a meus olhos um aspecto de mistério e me exaltava a imaginação, que só pedia, como a das crianças, que a embalassem com contos da avozinha ou fábulas maravilhosas.

Era delicioso e ao mesmo tempo impressionante sentir-me envolvido nessa atmosfera impenetrável.

Procurava com o olhar observador e ardentemente ansioso um trama novo, sobre o qual pudesse bordar, por minha vez, extasiantes fantasias.

Aos ladridos repetidos do cão abandonei os pincéis e, na esperança de descobrir o animal, precipitei-me na espessura do bosque, por entre pedregulhos, silvas e moitas.

A presença de um cão indica quase sempre a de um ser humano... um precede ou segue o outro. Mas não vi ninguém. Debaixo da abóbada sombria dos pinheiros, por entre os seus troncos esguios e direitos, até onde a vista alcançava, nada vivia, se agitava ou gritava. Era a habitual solidão.

Pensei que talvez o eco, qualquer particularidade acústica, tivessem o dom de aproximar e amplificar os sons.

Aquele cão, cujo ladrido parecia soar tão perto de mim, estava, quem sabe, na estrada do lado oposto da charneca.

E este pensamento levou-me a concluir quanto o homem è distraído.

Uma borboleta passa voando e, sonhador, segue-a com os olhos... Um cão ladra e ele precipita-se como se o facto fosse o mais extraordinário do Mundo.

Vamos, cabeça tonta e estouvada, em vez de correres atrás de quimeras, regressa ao trabalho... ao trabalho e à razão também, visto que tudo quanto supões e desejas descobrir de fabuloso e de sobrenatural só existe na imaginação dos homens, únicos criadores das suas inevitáveis fantasias...

Hoje faltou-me disposição para prosseguir o meu trabalho, e, assim, depois do almoço, estendi-me em cima da relva, de costas, com as mãos cruzadas debaixo da nuca e, beatificamente, abandonei-me a ocioso devaneio.

Nessa posição, a torre erguia-se diante dos meus olhos, barrando-me o horizonte.

Numa semi-inconsciência, evocava a audácia e a energia daqueles que a haviam construído... elevando-a ali, nesse cantinho deserto, apenas pelo esforço do braço humano!

Não existiam nessa época os guindastes e tantas outras máquinas poderosas que presentemente auxiliam os operários e lhe tornam a tarefa menos dura... Verdadeira maravilha, o cérebro do homem que assim domina a matéria, a submete a todos os seus desejos, lhe imprime movimento para diminuir o seu próprio esforço!

Mas, de súbito, o pensamento ficou como que suspenso... o olhar imobilizou-se... Estremeci...

Là em cima, no ponto mais alto da torre orgulhosamente recortada no fundo negro dos pinheiros, uma silhueta esbelta destacava-se no azul luminoso do Céu. Levantei-me de um salto. Em presença da aparição inesperada, toda a minha preguiça se desvaneceu.

Hesitei, por momentos, não acreditando no que os meus olhos viam... Era tão alto, tão perigoso e o parapeito de pedras meio aluídas tão fraco apoio para um corpo humano!...

Eu via bem? Não seria uma simples ilusão da minha retina ofuscada pela luminosidade celeste? Um elfo, um duende?... A sua silhueta era tão delicada, tão subtil!...

No entanto, julguei distinguir - realidade ou quimera? - cabelos esvoaçando ao sopro da brisa... uma saia leve que a aragem enfunava...

Fada, deusa, feiticeira ou ente humano, fosse o que fosse, tomava o aspecto de uma garotita para me aparecer, lá tão alto... Talvez para não atemorizar aquele que a contemplava cà em baixo.

Vibrante de curiosidade, ansioso e encantado por ver enfim povoada a minha solidão, precipitei-me para a torre.

Tenho tanto que perguntar à desconhecida aparição!

O meu entusiasmo, contudo, logo esfriou. Emaranhadas moitas impediam-me de chegar até às muralhas. Ser-me-ia preciso, pelo menos, meia hora de trabalho para me desembaraçar dessa luxuriante e agressiva vegetação que as rodeava por todos os lados e me separava da sua base. Em compensação, do ponto onde me encontro distingo melhor o estranho ser que, sentado agora na crista da muralha vertiginosa, as pernas pendentes para o abismo, parece descansar tão despreocupado e com tanta serenidade como se se encontrasse sentado em cómoda cadeira, ao abrigo de uma casa solidamente construída...

Tem a aparência duma garotita... salvo se àquela distância eu sou vitima de uma ilusão de óptica; o vulto feminino, visto cá de baixo, afigura-se-me pequeno e franzino... Seja quem for, admiro a coragem de que dá prova esse entezinho débil, fantástico ou não, conservando-se assim tranquilamente empoleirado na borda de uma torre altíssima e perigosa, que dir-se-ia prestes a desmoronar-se.

Por muito tempo me inebriei com a contemplação daquele quadro inesperado.

Era tão belo, de um encanto tão delicado e de um efeito tão surpreendente ver essa criança graciosa, de cabelos soltos e os pequeninos pés nus e rosados balouçando, travessos, no vácuo!... Que magnífica realização, que quadro encantador não daria essa esplêndida visão!

A emoção artística adormeceu em mim, por momentos, a noção da realidade. No entanto, logo recuperei o sangue-frio e o meu instinto de homem forte que vê um ser débil em risco levou-me a apostrofar a criança.

Colocando as mãos em porta-voz tentei fazer-lhe compreender o perigo que a ameaçava.

- Ouve lá, pequena, tu não vês que podes cair?... É muito perigoso o que estás a fazer... se as pedras se soltassem, morrerias, com certeza!

Lá de cima, a extraordinária criaturinha respondeu-me apenas com uma gargalhada.

A cabecita delicada curvou-se para mim, agitando-se num movimento enérgico de negativa, enquanto com os braços inclinados para trás parecia amparar-se à parede para manter o equilíbrio.

Ao vê-la assim, debruçada para o abismo, redobraram os meus receios.

Cheguei até a estremecer quando vi que os meus brados a obrigavam a curvar-se para a frente e a arriscavam a uma queda mortal, que nem sequer podia amortecer com aquele caos de arbustos e ramos a impedir que me aproximasse.

E foi com maior doçura que de novo me dirigi a ela:

- Escuta, minha filha, não te inclines assim... ouve o que te digo e responde-me sem te mexeres... vens muitas vezes às ruínas?

- Sim - respondeu o movimento de cabeça, que se agitava de alto a baixo.

- Então, dize-me cà?... Nunca encontraste ninguém por estes sítios?... Alguém que viesse aqui na minha ausência e mexesse no meu quadro?

A cabeça fez um gesto negativo.

- Tens a certeza?... Não viste ninguém?

- Não.

- E, contudo, estou certo de que um destes dias

alguém andou por aqui.

Encolheu os ombros; não a perturbou a minha afirmativa.

De repente pôs as mãos junto da boca e desta vez a resposta chegou-me nitidamente aos ouvidos:

- Para estes lados não vem ninguém... Sou eu a única a visitar as ruínas.

- Sim? E vens aqui muita vez?

- Todos os dias, naturalmente!

- Então... o cão... acompanha-te? É teu?

Mas toda a sua complacência pareceu desaparecer de súbito. Retomou a atitude indiferente e ficou muda aos meus apelos. Não me atrevi a insistir. Compreendi que a posição era incómoda para manter uma conversa mais prolongada.

Para ir ter com ela e falar-lhe mais de perto tentei descobrir meio de subir. Talvez existisse, no ponto onde se encontrava sentada, algum lanço de muralha mais largo, formando plataforma, tornando-o mais confortável... e, principalmente, menos perigoso!

Não obstante o meu desejo de me aproximar da garota, nada encontrei.

- Vamos, pequena, desce depressa lá de cima. Preciso de falar-te - pedi-lhe numa nova tentativa.

Nem sequer deu sinais de me ouvir. Então contornei a torre.

Do outro lado, no ponto onde outrora se erguera o castelo, devia forçosamente haver passagem e tanto assim que, dias antes, tinha avistado os primeiros degraus de uma escada perdendo-se na sombra... Ficava exactamente do lado oposto e não me atemorizou toda aquela vegetação.

De resto, mal me aproximei da torre e da abertura que devia, noutros tempos, ser uma porta, um cão precipitou-se para mim, ladrando com fúria.

Era corpulento e ameaçador.

Recuei num movimento instintivo.

Atè que enfim, encontrei o animal tão procurado!... Foi ele certamente que ontem me ladrou... Acompanhava, talvez, a pequena, como hoje?... Devia ser também essa a abertura de que a garota se servia para trepar até lá acima, visto que o cão parecia guardá-la.

Com efeito, o animal continuava a mostrar-me os dentes e não demonstrava disposições de me deixar prosseguir e avançar, ainda que tentasse amansá-lo com palavras meigas.

- Então que è isso, meu velho!... Vamos, sossega!... Não vês que sou um amigo?

Contudo, o tom meigo e benévolo não obteve o resultado desejado. O cão não viu, por certo, em mim, o amigo inofensivo que eu lhe anunciava. Continuou a rosnar e a vigiar todos os meus gestos...

Aquela sentinela de quatro patas cumpria fielmente a obrigação de guardar a sua jovem dona. Não o contrariemos. É preferível não entrarmos em conflito com tão perigoso representante da raça canina.

Forçoso me foi, portanto, regressar ao ponto de partida, donde mais uma vez tentei convencer a criança, inconsciente do perigo.

- Então, minha filha, desces ou não? Queria fazer-te umas perguntas... Olha, dar-te-ei estas lindas moedas, novinhas em folha.

Mas era o mesmo que pregar no deserto. Aquela avezita de nova espécie, empoleirada tão perto do Céu, dava-me a impressão de nem sequer ouvir as minhas instâncias. Com os cotovelos encostados aos joelhos, apoiava o queixo nas duas mãos reunidas, e nessa atitude pensativa, com o busto inclinado para diante, imóvel como uma estátua de mármore, parecia sonhar, o olhar perdido nos campos banhados de sol.

Nessa posição graciosa, fez-me recordar a encantadora estátua de Rodin: Pensando.

O cão seguiu-me e, sentado a meu lado, parecia vigiar-me todos os movimentos.

- Queres ou não chamar o cão, pequena? Olha que se tenta morder-me não respondo pelo que acontecerá?

Não sei o que me levou a pronunciar esta ameaça, pois nem por sombras me acudiu ao espírito lutar com esse adversário de nova espécie.

Como eu fizesse alusão aos dentes do molosso, a graciosa cabeça da criança de novo se inclinou olhando cá para baixo. Percebi que nos observava, a mim e ao animal.

Ligeiro assobio fez afastar o cão, enquanto a pequena, desdenhosa, se endireitava a custo, retomando a sua imobilidade... Por meu lado, fiz um movimento de susto, aterrorizado com o seu gesto imprudente, que podia precipitá-la no espaço. E, visto as minhas palavras só servirem para multiplicar os perigos a que expunha a pobrezita, renunciei a convencê-la e, despeitado, voltei para junto do meu cavalete.

Quando peguei de novo nos pincéis, a imprudente, que lá em cima desafiava a morte com tanta inconsciência, tinha desaparecido.

Para mim foi um alívio, mas uma obsessão prevaleceu no meu espírito.

A meia luz não me deixara distinguir bem as feições, mas tenho a impressão de que era uma garota da aldeia... eu conheço a pequena... encontrei-a já em qualquer parte.

Sim, não há dúvida, recorda-me um rosto conhecido... alguém já entrevisto... Mas onde?... Quando?... Como?... Na minha memória foi como se de súbito se cavasse um abismo profundo, no qual se esbatem e confundem todas as linhas e contornos...

Quem?...

- Uma garota, diz o senhor?

- Sim, Catarina, uma pequena dos seus doze ou quinze anos, talvez. Não aparentava mais idade, asseguro-lhe.

- E trazia um cão?

- Trazia um animal possante... esplêndido... raça alsaciana ou alemã, não sei bem... uma espécie de cão-polícia e que nada tinha de manso.

- E afirma que são de Voulch?

- Quanto ao cão não tenho a certeza, porque foi a primeira vez que o vi. Mas, a dona, estou certo de ter já encontrado em qualquer parte aquela silhueta infantil... recorda-me um rosto conhecido, mas que não consigo determinar nem classificar.

- Com franqueza, não sei...

Havia dez minutos que interrogava a minha hospedeira sobre a criança das ruínas, mas em vão.

Todos os pormenores que lhe forneci não conseguiram elucidá-la.

- Na aldeia quase posso afirmar que não existe rapariguita que possua um animal como esse - observou, pensativa - Já o teria notado. O mais provável é que os dois visitantes nada tenham um com o outro, ainda que afirme o contrário.

- Mas já lhe assegurei que a pequena assobiou ao animal...

- Assobiou, assobiou! Isso è que ainda está por averiguar!... Se acaba de me dizer que não pôde distinguir-lhe bem o rosto, como pode ter a certeza de que foi ela quem assobiou? Andava por ali uma terceira pessoa, acredite. E foi ela quem chamou o cão quando o senhor o ameaçou.

- Pode ser... Se admitirmos a intervenção de um estranho... Mas, finalmente, existe cá na terra algum cão semelhante ao que vi, senhora Catarina?

- Não, que eu saiba não existe! Entre nós, os cães desse tamanho costumam estar presos... Lembra-me que o animal pertença a um Parisiense, de passagem... um viajante que tivesse deixado o automóvel na estrada... ou então o cão fazia parte dalguma caravana de ciganos...

- Não pode ser. Bem sabe que já hà dias o ouvi ladrar.

- Ah! Sim! Hà dias?... Hum! O caso complica-se!...

Pareceu hesitar, meneando a cabeça. Depois concluiu bruscamente:

- Pois bem! - exclamou com ar trágico - O senhor vai saber o que penso a esse respeito, eu que conheço toda a gente. À fé de Catarina Le Coz, tudo isso tem qualquer coisa de diabólico! Nenhuma das nossas pequenas se atreveria a subir à torre... as crianças da aldeia não visitam as ruínas... é um sítio pouco recomendável e as petizas sabem bem o que se conta dele para se arriscarem a ir até lá... Por outro lado, não sei que exista em Voulch um cão tal como o descreve!... Não um animal vulgar, certamente, mas sim um cão vindo das profundas do inferno... para ter o poder de atemorizar assim um homem como o senhor!... Bem podia dirigir-lhe frases amáveis, a esse bicho maldito, que ele não as compreenderia! Os nossos cães conhecem sempre quando um amigo lhes fala... Esse, porém, naturalmente nem sequer tinha orelhas para o ouvir... Quanto à tal pequena, que não se dignou responder-lhe e que se conservava lá em cima tanto à vontade como uma bruxa na sua vassoura, devemos acreditar também que não se trata de um ser real... Ou então o senhor Marcos tinha a vista turva... Estava ainda meio a dormir e tudo o que supôs ver não passou de um sonho!

- Engana-se, Catarina! Estava bem acordado.

- Então, tudo isso foi obra diabólica... ou malefícios de seres malfazejos, pelos quais um belo rapaz como o senhor não se deve vencer.

- Não fui vítima de qualquer malefício e suponho não ter corrido qualquer perigo.

- Não se fie muito!... Acredite, senhor Marcos, não é conveniente voltar ali. É um lugar perigoso. Não queira frequentá-lo. Nos arredores de Voulch encontrará outros pontos tanto ou mais bonitos do que esse... É esta a pura verdade e pode perguntar a quem quiser que todos na aldeia lhe dirão o mesmo.

Insistir era inútil. Visto que Catarina Le Coz tinha decidido que o cão e a pequena eram de essência diabólica, nada havia que a fizesse mudar de opinião.

De resto, tinha já obtido da boa mulher tudo quanto ela sabia e era provável que um inquérito feito noutro qualquer lado não me trouxesse informações mais completas.

A jovem visitante da torre e o seu companheiro de quatro patas não deviam ser de Voulch.

Talvez estranhos, de passagem nos arredores e que tivessem vindo até ali de passeio.

Contudo, ao recordar os minúsculos e rosados pezitos agitando-se no espaço, optava de preferência pela caravana de ciganos, segundo a sugestão de Catarina.

Portanto, dei por findo o meu interrogatório, mas não pude deixar de sorrir, recordando os receios supersticiosos da excelente hospedeira e todas as suas recomendações.

Se a boa Catarina estivesse ao facto da mudança do cavalete e da substituição do esboço, que diria então? Que novas fantasias teria imaginado a respeito dos espíritos malignos e das ruínas de Kéridec?

Hoje comecei a trabalhar, de manhã, muito cedo. O sol mal despontava no horizonte e uma luz suave, filtrando-se pelos ramos dos pinheiros e espalhando-se sobre as ruínas, despertou em mim o entusiasmo propício à inspiração. Julguei também que a insólita visita de anteontem se repetisse, mas hoje nada vi nem senti.

E, contudo, de ouvido atento e olhar observador, procurei, mas em vão, descobrir um vulto feminino recortando-se nas alturas da torre ou uma pelagem fulva surgindo no meio das silvas.

Mas, desde que cheguei, reina em volta de mim uma calma tão profunda e a solidão è tão completa neste recanto da charneca, que pergunto a mim próprio se Catarina não teve razão e se a visão que tive outro dia não passou de um sonho...

O cérebro concebe tantas fantasias quando se está meio adormecido...

Duma só coisa estou certo, e é que, se a minha mente imaginou toda essa história, quando verifiquei a desaparição da criança e do cão estava bem acordado junto do cavalete. Nesse momento encontrava-me tão só como na altura em que me estendi no chão... Nesse caso?...

Na verdade, não sei que pensar.

Não obstante, uma obsessão prevalecia: onde vi eu aquele rosto infantil?... E esta recordação não pode, por forma alguma, ser um sonho.

Neste momento, não sonho, com certeza! Estou acordado e bem acordado... E o novo mistério è evidente, não admite contestações.

Mais uma vez tocaram no meu quadro. Verifiquei o facto ao regressar do almoço. Mão desconhecida voltou a apoderar-se das minhas tintas e pincéis e acrescentou aqui, esbateu acolá, burilou, avivou, deu relevo a certos pormenores ou mais vida a tons pouco vincados.

Quem será esse ente que não vejo, mas que não pretende ocultar a existência? Essa pessoa que se permite ter comigo semelhantes liberdades?

Então cada um não è senhor de executar a sua obra conforme lhe apetece? Quem se atreve assim a impor-me as suas concepções?

Há dias submeti-me à colocação do quadro. Alguém escolheu por mim o ponto de vista, e, reconhecendo que essa escolha era judiciosa, não tive dúvidas em a aceitar.

Mas irá esse desconhecido, que se intromete no que não lhe diz respeito, levar mais longe a brincadeira? Assim parece, visto que na minha ausência se apossou da minha paleta, tintas e pincéis para modificar e retocar o meu trabalho.

É o cúmulo!

Descontente e irritado, no primeiro impulso de despeito senti desejo de raspar tudo. E, empunhando a raspadeira exteriorizei o meu mau humor:

- Estou farto disto! Vai ver, esse atrevido desconhecido, a importância que ligo aos seus conselhos... Ah! Já é audácia! Sempre tem um topete o tal cavalheiro!

Mas no próprio momento em que ia raspar essa pintura recente que desonrava o meu quadro, suspendi o gesto destruidor. É que, de facto, esses retoques não prejudicavam o trabalho. Não obstante o meu despeito, tenho de confessar que, pelo contrário são dos mais felizes!... Beneficiam-no... acentuam certos traços e põem em relevo a sucessão dos planos...

Esta mancha de sombra faz sobressair a luminosidade dos pontos mais claros e o contraste de tons dá mais vida ao conjunto.

Profundamente impressionado, imobilizei-me a contemplar o quadro... o meu olhar hostil reconheceu a mão dum artista nessas leves modificações... modificações quase imperceptíveis, mas cujos resultados são prodigiosos.

E não tenho coragem para anular impiamente esses retoques que transformam por forma maravilhosa a minha obra. Um escrúpulo me detém e sinto a nítida impressão de que cometeria um vandalismo se destruísse essas pinceladas de mestre.

Por muito tempo me conservei imóvel, irritado e cheio de admiração. O Homem revoltava-se contra esse concurso imposto num trabalho que era exclusivamente meu, mas o Artista sentia-se subjugado pelo talento desse colaborador desconhecido.

Finalmente, resolvi-me a deixar para depois a resolução do assunto. Mais tarde verei se devo conservar ou apagar esses retoques. De momento, uma única coisa me interessa: saber quem è!

É impossível que desconheça por mais tempo o artista que reside nestas paragens... Quanto mais talento lhe encontro, mais empenho tenho em o conhecer!... Se a senhora Catarina ignora quem ele é, irei à vila perguntar ao administrador, à polícia... Em conclusão, é preciso que saiba com que fim esse homem misterioso toma para comigo semelhante liberdade! Para me encorajar ou para me rebaixar? Quero saber!

E nesse intuito observo com atenção os mais pequenos recantos, procurando um olhar que me espie, uma boca que sorria, zombeteira, da minha perturbação.

A ideia de que estou servindo de bobo a qualquer pessoa oculta aqui perto torna-se-me profundamente desagradável e essa má disposição domina-me durante alguns instantes.

Depois, raciocinando melhor, pensei.

- Vamos, ninguém te espia, ninguém procura ridicularizar-te!... Quem possui semelhante talento, uma verdadeira alma de artista, não desce a acção tão mesquinha!

E porque esse desconhecido, tão divinamente dotado, essa paleta tão rica de tons, me encanta, suponho que possui uma alma digna e bela.

- Um mestre retocou o meu trabalho por amor à arte... Talvez, também, porque a ideia do espanto que ia provocar o divertisse, mas em seguida afastou-se, vivendo a fantasia do momento e preferindo, sem dúvida, idealizar a cena a presenciá-la oculto, como o faria um simples aprendiz...

E tentava visionar a alegre doçura do seu sorriso quando, em pensamento, evocasse o meu assombro.

Vamos, reconheço agora, a brincadeira não é malévola.

E parece-me até que a ideia desta colaboração com um ente misterioso aumenta o meu ardor. É tão extraordinariamente maravilhosa a aventura!

Uma colaboração?... Um ente misterioso?...

O meu ardor?... Uma aventura?

Certas palavras parecem evocadoras de sensações!... Durante alguns minutos estas imprimem-se-me no cérebro.

E agora já não sei muito bem o que é feito da minha recente indignação e chego mesmo à conclusão de que a aventura é engraçada!... Pelo menos è espirituoso, pois conseguiu intrigar-me. A minha cólera dissipou-se por completo e surpreendi-me a cantarolar alegremente:

«Que a vossa vontade se cumpra, espíritos protectores destes lugares sagrados...»

Sinto que recuperei o bom humor e manifesto-o por solilóquio, hábito que a minha mocidade ardente adquiriu para exteriorizar a sua satisfação.

- Creio bem que desta vez vou realizar uma verdadeira obra-prima!... O Céu protege-me!

E talvez um pouco de presunção, mas os meus vinte anos não pertencem a tal ponto ao passado que não me seja permitido esse pecadilho da mocidade.

- E por que motivo não obterei eu essa protecção? Serei por tal forma indigno dos favores do Céu?

Tudo em mim protesta contra essa afirmativa. Pelo contrário, sinto-me até um ente excepcionalmente favorecido. Artista de alma e coração, adoro o maravilhoso, o irreal... acredito em tudo quanto è fantástico, sobrenatural, fabuloso!... Possuo todas as crenças, todas as audácias!... Creio na beleza, no entusiasmo, na vida, enfim! Aspiro ao desconhecido e adopto todas as concepções!...

O meu acto de adoração abrange todo o Universo: - Continuai a ser-me propícios, Espíritos, Espectros, Fantasmas, reincarnados ou não!... Génio das ruínas, eu te saúdo!

Catarina pode á vontade atribuir ao diabo tudo quanto acontece de inesperado, eu, por mim, acho que são dons do Céu! E a vida è bela quando a contemplamos através de vidros cor-de-rosa...

Seres imponderáveis empregam a sua influência a meu favor... são-me propícios... benditos sejam, portanto!

E em vez de me assustar com os factos, faço deles uma síntese mística um pouco ridícula nas suas pretensões. Eu sou aquele que o Destino escolheu para assombrar o Mundo!... O meu quadro será a maravilha das maravilhas, visto que a mão invisível do Além conduz a minha e torna mais fácil a tarefa!

No fundo, não estou bem certo se o Além tem mãos invisíveis, mas frases como esta são sempre de grande efeito!

E começo a rir sozinho, com a melhor das vontades, encantado com a aventura e com as deduções que tirei dela. Os meus vinte e sete anos ignoram ainda as decepções e sentem-se felizes por exteriorizarem o seu ardor em tão loucas manifestações.

Passei uma noite péssima. Durante horas seguidas arquitectei planos, qual deles o mais disparatado.

Umas vezes resolvia desempenhar o papel de detective para descobrir o meu perseguidor... decidia puni-lo pela sua intrusão no meu trabalho...

Outras atribuía-lhe todos os poderes, todas as possibilidades, segundo a perspectiva do momento tornava-se anjo ou demónio e merecia as minhas bênçãos ou maldições...

Resultado: de manhã tinha a cabeça pesada e dorida como se tivesse bebido até cair!

E eu que supunha que só o álcoól embriagava!

Esta tarde houve novidade, na charneca.

Em volta de mim reinava o mais profundo silêncio, quando, de repente, uma voz feminina entoou, ou antes, murmurou uma canção nostálgica.

Subitamente interessado, apurei o ouvido. A canção era meiga, melancólica, e a voz que a cantava tão suave, harmoniosa e agradável de ouvir que despertou em mim um mundo de sensações íntimas.

A certa altura não resisti. Abandonei paleta e pincéis, depois, na ponta dos pés, para não assustar a invisível cantora, dirigi-me para as ruínas, das quais partia a voz feiticeira.

Infelizmente não é possível andar por cima de pedras soltas sem fazer barulho e por muito que me esforçasse em ser ágil e discreto, estas rolavam-se-me debaixo dos pés, revelando a minha presença. E, assim, quando já estava próximo da cantora desconhecida e já avistava um vulto branco, ouvi esta soltar um grito de surpresa e vi-a desaparecer num salto.

Escusado será dizer que me precipitei com igual rapidez em perseguição da fugitiva.

Seguiu-se, durante alguns minutos, uma correria sem nítidas vantagens a favor de qualquer de nós. Contudo, decorrido pouco tempo, tive a impressão de que ganhava terreno e o meu riso zombeteiro ecoava já numa nota triunfante, quando uma voz autoritária ordenou bruscamente:

- A ele, Taiaut! Vamos, meu bom cão! Detém-no!

Não tivera ainda tempo de compreender o sentido destas ordens bruscas e já o enorme animal que eu descrevera à minha hospedeira se erguia diante de mim, ameaçador, de boca aberta, deixando ver os dentes formidáveis e rosnando surdamente.

- Oh! Assim não vale! - protestei maquinalmente. Mas o meu entusiasmo arrefeceu. Naquele estreito

atalho, serpenteando entre silvas e limitado pelos restos da muralha meio derruída, não havia possibilidade de evitar o animal.

A vinte passos de distância, empoleirada num pequeno montículo, a proprietária do cão presenciava tranquilamente a cena.

- Detèm-no, Taiaut!... - repetia - Não o deixes avançar!

Com a maior estupefacção, reconheci Maria Clara na fugitiva.

E fiquei imóvel, assombrado.

- Não deixes, Taiaut! Não o deixes! Subitamente, senti crescer em mim uma onda de cólera e de irritação. Pois quê? O meu ex-par dava a impressão de não me conhecer! E, pior ainda, açulava o cão contra mim!

Por minha vez, pus de lado a atitude amável inicial e ripostei ao ataque com idêntica ameaça.

- Chame o cão! - bradei, apanhando grande pedra - Se me morde, não respondo por ele.

- Segura-o, Taiaut! - contentou-se em replicar - Não o deixes avançar, meu bom cão!

Maria Clara saberia bem o que fazia? Desviava propositadamente o olhar. Colocada mais acima, só tinha olhos para o animal e erguia-se na ponta dos pés para melhor lhe seguir todos os movimentos.

Tanto desdém irritou-me.

- Vamos lá a saber! Quando deixará de incitar o seu cão contra mim? Tome cautela, porque, se me morde, não sei o que acontecerá!

- Não o deixes avançar, Taiaut! - repetiu, imperturbável, sem despregar os olhos do molosso.

O rosnar surdo do animal tornou-se mais ameaçador, a cauda fustigava-lhe os flancos. A um passo meu saltar-me-ia em cima, com certeza.

A minha ira redobrou. Achava a situação humilhante.

A extraordinária rapariga parecia desafiar-me, segura pela defesa do cão. Suporia ela que eu ia desistir só porque o bicho me tolhia o passo?

- Se o cão continua a ameaçar-me, mato-o, fique sabendo. Quer ou não chamá-lo?... Vamos, tire depressa daqui este estúpido animal ou arrepender-se-á.

Uma gargalhada cristalina respondeu à minha intimação.

Furioso, levantei o braço. A pedra que segurava não era arma para desprezar.

- Suspenda, não seja imbecil! -bradou de súbito a jovem, que cessou de rir.

O epíteto foi para mim como se tivesse recebido uma bofetada.

- Chame o cão ou mato-o! - repeti fora de mim. De braço erguido, a execução do gesto de cólera ia seguir-se de perto à ameaça.

Mas a rapariga soltou um grito, assustada.

- Não ameace Taiaut ou não tarda que lhe salte ao pescoço!...

O grito teve como resultado fazer-me baixar imediatamente o braço.

- É preciso ser doido para querer lutar com semelhante animal - observou Maria Clara em tom de profundo desprezo.

Aí está a lógica feminina, atribuir-me as culpas quando fora ela a primeira a excitar contra mim o seu companheiro de quatro patas.

- Porque me açulou o cão?... Se não me atacasse queria lá saber desse estúpido animal!

Olhou-me desdenhosa e com um sorriso irónico.

- Não quer saber e é isso mesmo que lhe censuro. Pois devia apresentar-lhe até os seus agradecimentos. O tal animal estúpido, como lhe chama, com tanta amabilidade, acaba, muito simplesmente, de lhe salvar a vida. E, deixe-me dizer-lhe, não deve estar muito orgulhoso com o seu procedimento... o senhor, um ser racional e inteligente, encoleriza-se contra um pobre animal que cumpre o seu dever!

- Salvou-me a vida!... Salvou-me a vida, porquê?... Que fez ele em meu favor, esse maldito cão?

O meu espanto era sincero.

E como Maria Clara se limitasse a responder-me com um encolher de ombros desdenhoso, significando o maior desprezo, repeti a pergunta com maior violência:

- Vamos, diga! Que fez o seu terra-nova, para me salvar a vida?

- Não è terra-nova, mas è tão dedicado como eles, graças à sua inteligência e instinto - explicou -, Em compensação o seu cérebro não deve servir-lhe para muito, visto que... mas verifique com os seus próprios olhos... aí a três metros de distância... Taiaut impediu-o de cair numa antiga masmorra... mais nada, meu caro senhor!... E sem a inteligência do meu maldito cão todos os seus requintes de homem civilizado não o teriam livrado de ir despedaçar-se no fundo do abismo!...

- Uma masmorra! Instintivamente estremeci.

- Há por aí algum buraco? - inquiri com menos violência.

- Pior do que um buraco... Um desmoronamento de terras, formando uma espécie de funil, terminado por um poço que tem perto de trinta metros de profundidade... Se não fosse o meu estúpido animal, encontrar-se-ia agora lá em baixo feito em papas, provavelmente.

Um pouco perturbado pela perspectiva que as palavras evocavam, pus-me nos bicos dos pés e estendi o pescoço para a abertura designada.

- Contudo, você passou por ali? - observei, duvidando um pouco da existência do tal abismo ou, pelo menos, do número de metros que lhe atribuíam.

- Eu? Engana-se! Fiz um rodeio!... O senhor, porém, quis ser esperto e cortar caminho... Isto é, não se contentou em me perseguir e ainda procurou um ardil para me alcançar! Felicito-o, senhor!

- Oh! Como me irrita esta rapariga, na qual não reconheço a simpática Maria Clara do dia do Perdão. Emprega, para me falar, um tom mordaz que, na verdade, me arrepia os nervos... E a mania de me comparar ao cão I

Olhei-a de revés... Crescia em mim o desejo louco de a alcançar para lhe provar que não gostava que me desafiassem. E, não obstante a minha posição desvantajosa, procurei em volta passagem ou estreita fenda que pudesse galgar e me permitisse de um salto chegar junto dela.

Adivinharia ela o meu pensamento? Ouvia-a assobiar ao cão.

- O caminho está livre, meu caro senhor! -troçou ainda - Se lhe apetece saltar, ninguém o impede. Está prevenido. A caridade cristã não me obriga a mais!

- Espere, Maria Clara. Preciso de falar-lhe.

- E eu não tenho interesse algum em o ouvir. Boa tarde!

- Oh! Não parta ainda! Nós não somos dois inimigos... Venha conversar comigo na charneca, se não quer que eu vá ter consigo aí...

- Nem aqui, nem na charneca, já lhe disse!... Além disso, a ajuizar pela alegria que manifestou Taiaut quando o chamei, posso afirmar que não tem grande simpatia por si.

- Vejamos, oiça, Maria Clara...

- Hoje, não, meu caro senhor! Talvez outro dia... mais tarde, quando o estúpido animal tiver esquecido todas as injúrias com que o mimoseou. Mais uma vez, boa tarde!

E, sem querer continuar a ouvir-me, afastou-se, pulando de pedra em pedra com a agilidade de um gracioso cabritinho.

Não obstante o meu desejo de a seguir, não esbocei sequer um gesto para o fazer, pois bastou-me dar três passos em frente e logo avistei a abertura da tal masmorra, encoberta por alguns pés de cardo que a tinham encoberto até então.

Estava bem oculta e por isso tornava-se ainda cem vezes mais perigosa. Era evidente que, se Taiaut não me tivesse impedido de avançar, me encontraria agora no fundo do poço, porque no ímpeto da corrida não seria possível deter-me ou agarrar-me ao quer que fosse.

Um calafrio me percorreu a espinha. Por muito corajoso que seja, não se podem encarar certas perspectivas a sangue-frio.

Justamente, no outro extremo das ruínas, Maria Clara, prestes a desaparecer, voltou-se.

- Veja bem onde põe os pés! - bradou-me de longe, colocando as mãos em porta-voz, junto da boca - Nas ruínas há muitos pontos tão perigosos como esse, seria preferível não prolongar o seu passeio.

Dado o conselho, desapareceu por entre os negros pinheiros. Conforme dissera há pouco, a caridade cristã ordenava-lhe apenas que me prevenisse do perigo que corria. E confesso que a prevenção não foi inútil, porque, desprezando a lição acabada de receber, já me dispunha a escalar pedregulhos e muralhas, procurando o caminho mais curto para regressar ao ponto onde se encontrava o meu cavalete.

Assim, andei com precaução, contornando os obstáculos e examinando bem o chão onde ia pondo os pés.

Foi somente quando me encontrei no meu lugar habitual e sentado no banquinho, que medi bem o que acabava de me acontecer.

Tinha encontrado Maria Clara, mas com que desprezo me tratara! E essa rapariga, que da primeira vez me deixara tão gratas recordações, achava-a, agora que a conhecia melhor, antipática em extremo!

É verdade que, correndo atrás dela, fora eu o primeiro a hostilizá-la!

Não devia tê-la perseguido, nas ruínas, pois decerto achou a minha conduta pouco delicada.

Pouco delicada? Finalmente, porquê?

De princípio não se havia zangado e pensara apenas em me fugir... conhecia bem as ruínas e devia estar certa de me poder escapar... Fora apenas quando me irritei ao ver o cão tolher-me o passo que retribuiu no mesmo tom as minhas invectivas pouco amáveis. No fim de contas, quer queira, quer não, salvou-me a vida...

Sim, vendo bem, apesar do seu ar desdenhoso e desprezador, Maria Clara só pensou numa coisa: levar o cão a impedir-me de chegar à boca da masmorra... E - em paga - com todos os diabos!, dirigi-lhe frases desagradáveis, ameacei o animal, quando justamente ela tinha direito de esperar da minha parte melhor acolhimento.

- A rapariga teve razão - conclui - Procedi como um estouvado. O seu magistral imbecil foi pouco delicado, talvez, mas muito bem aplicado. Quando a encontrar, hei-de agradecer-lhe.

Estava mesmo indicado, pela mais elementar delicadeza, que os meus primeiros gestos tivessem sido de reconhecimento, mas, pelo contrário, os meus lábios só tinham proferido palavras de cólera e de despeito... Com que desdém aludira à minha correcção de civilizado!

Realmente, não tenho de que estar orgulhoso!

Este prolongado exame de consciência dispôs-me mal. Não gosto de dar causa a censuras e neste momento não me sinto satisfeito com o meu procedimento.

Enervado, afastei o cavalete: não me encontro com disposição para trabalhar e pressinto que hoje nada faria de jeito.

Guardei os meus apetrechos no lugar habitual e, durante duas horas, vagueei à toa pelo pinhal e seus arredores... Teria jantado com maior apetite e dormido melhor se pudesse encontrar de novo Maria Clara para lhe exprimir o meu pesar e o meu reconhecimento, não obstante ser mais natural que o tivesse feito mais cedo e espontaneamente.

A manhã não foi das melhores e o meu quadro não avançou nada. Reconheço que não trabalho com o costumado entusiasmo. Estou distraído... Ao mais leve estalar de ramos, suponho sentir passos, abandono os pincéis, levanto-me e corro a examinar a charneca e as ruínas, na esperança de divisar certo vulto feminino cuja recordação me obsidia desde ontem.

Não vi ainda ninguém, como è de calcular, mas esta inquietação basta para me enervar e tornar desajeitado: quando o pensamento está alheado è impossível ser bom pintor! E, assim, compreendendo que o trabalho da tarde seria tão bom como o da manhã, decidi-me a deixar dormir os tubos de tinta na caixa e fui dar um passeio.

A ideia foi excelente.

Depois do almoço, segui primeiro pelo caminho do costume, mas, chegado ao cimo, em vez de voltar à direita e de enveredar pela charneca, desejando passar diante da casa de Mariannick, a tia de Maria Clara, prolonguei o passeio até Kermodu.

E eis que numa volta da estrada, muito além da casa do tamanqueiro, no ponto onde o pinhal confina com a planície, avistei, por entre os juncos, um vestido claro, que o vento agitava e me fez estremecer.

O coração palpitou-me mais apressado. Aquele vestido azul como o firmamento não podia pertencer a outra rapariga que não fosse a Maria Clara.

Andei alguns passos e pude assim distinguir melhor a aparição. Sentada à beira do talude, com o cão estendido aos pés, era bem ela, como calculava. Fazia tricot e as agulhas de celulóide nacarado pareciam dançar nas pontas dos dedos esguios.

Ao avistar-me, o cão ergueu-se e rosnou surdamente.

- Deite-se, Taiaut! - ordenou sem voltar a cabeça para o meu lado.

Parei diante dela, esbaforido com a caminhada, mas satisfeito por ter alcançado os meus fins, visto tê-la encontrado.

- Bons dias, Maria Clara! - cumprimentei com amabilidade.

Não me respondeu. As agulhas continuavam o seu baixo cadenciado como se não me tivesse visto chegar ou não me ouvisse.

O chapéu de palha de grandes abas sombreava-lhe o rosto e não me deixava distinguir-lhe os olhos.

- Sinto-me feliz por a ter encontrado - continuei, apesar do rosnar cada vez mais acentuado do cão.

- Calado, Taiaut! Deite-se! - ordenou de novo a rapariga com a mesma impassibilidade.

- Segundo creio, o seu cão continua a não gostar da minha pessoa. A Maria Clara, no outro dia, açulou-o por tal forma contra mim que o animal julga tratar-se de um malfeitor.

Desta vez as mãos imobilizaram-se e levantou a cabeça.

- O senhor ter-me-ia encontrado, por acaso, alguma vez, nas baiucas que costuma frequentar?

- Não frequento baiucas - repliquei, melindrado e admirado com a pergunta.

- Realmente - continuou Maria Clara, imperturbável - ninguém o dirá ao ouvi-lo tratar-me pelo meu nome com tanta familiaridade como se tivéssemos guardado juntos os porcos de Kermodu.

Mordi os lábios. Aquela forma de me meter na ordem e recordar as conveniências não era muito lisonjeira para o meu amor-próprio de homem bem-educado, mas mais uma vez fui obrigado a reconhecer que ela tinha razão.

É que, segundo parecia, a mademoiselle não admitia que um homem a tratasse pelo nome próprio!

Continuava a fulminar-me com o olhar como se a ofensa tivesse sido das mais consideráveis.

E, vendo bem, quem sabe se, depois do nosso encontro involuntário diante do santuário da Virgem Garrida, eu me tinha tornado suspeito para ela... Existem simpatias inexplicáveis e injustificadas, mas que são instintivas e mais fortes do que a própria vontade.

Todos estes pensamentos me perpassaram rápidos pelo cérebro, enquanto Maria Clara continuava a fitar-me com olhar duro, como se desafiasse a minha audácia masculina...

Decorridos segundos dum silêncio constrangido, continuei, acentuando a minha atenciosa cortesia com o fim de lhe quebrar a atitude glacial e, principalmente, para demonstrar a minha liberdade de espírito.

- Não tive intenção de a ofender, mademoiselle. Tenho notado, porém, que os usos da Bretanha autorizam essa familiaridade entre gente jovem... e a mademoiselle è tão nova ainda...

- Sim, é hábito entre pessoas de baixa condição e da mesma classe tratarem-se por tu - ripostou sem abandonar a sua frieza - Contudo, talvez não achasse natural que eu tratasse assim sua mãe ou que os garotos da aldeia lhe pusessem uma alcunha.

- Não levemos tão longe as coisas! Nunca me ocorreu tal!

- Pois devia fazê-lo, visto não ter inato o respeito pela mulher.

- É um verdadeiro requisitório, segundo oiço! Irrita-se contra mim por uma ninharia.

Tentava levar o caso para a brincadeira, mas Maria Clara não me acompanhou nesse campo. Decididamente, não lhe caí em graça!

- Uma ninharia! - replicou - Vejo que è muito indulgente quando se trata de si.

- E a mademoiselle muito severa para comigo!

- Mas, enfim, reflicta... comparei Os seus camaradas das Belas-Artes, por exemplo, chamavam-lhe, possivelmente, grande farsante ou incomparável imbecil sem que o senhor se ofendesse por isso. Mas gostava de saber como acolheria esses epítetos da boca dum desconhecido qualquer.

- Muito mal, confesso - concordei, rindo daqueles exageros que achava deveras espirituosos - E naturalmente em relação a si estou no mesmo pè que o tal senhor desconhecido?

- Evidentemente... O senhor é um estranho que se permite perseguir-me, tratar-me por tu e proceder tão familiarmente comigo como se eu fosse uma rapariga com quem todas as ousadias pudessem ser permitidas.

Desta vez os argumentos atingiram o cúmulo do exagero.

Como podia Maria Clara denegrir assim os meus actos e sentimentos? E, acima de tudo, afirmar que lhe tinha faltado ao respeito. Era demais!... Começava a subir-me a mostarda ao nariz e a irritar-me com aquela camponesazita que exigia tantas atenções e acusava assim um homem que, como eu, tinha a consciência de ser bem-educado.

Não consegui dominar a minha indignação.

- Acho demasiado tanta injustiça! - exclamei, elevando o tom da voz -Tratei-a por tu? Quando, faz favor de me dizer? Gostava bem de o saber.

- Quando? Não foi há tanto tempo que já o esquecesse - ripostou com vivacidade - Há poucos dias, quando me viu no alto da torre, segundo me pareceu, não fez grande cerimónia para me gritar: «Anda cá, pequena! Vamos, desce, preciso de falar-te». Se isto não é tratar por tu, o que será então?

A notícia que recebia era tão inesperada que toda a minha cólera desapareceu de súbito.

Pois quê? A garota intrépida, cujos pequenos pés rosados balouçavam no espaço, era ela?

Estava assombrado! E eu não a tinha reconhecido! Pois se era por tal forma inverosímil!

Vista cá de baixo, afigurava-se-me tão franzina... tão delicada... que admiração eu tratá-la por tu!

A surpresa tornou-se mais uma vez impertinente. Esquecendo a mademoiselle que ela exigia tão imperiosamente, exclamei com uma espécie de espanto trocista:

- Pois quê, era a Maria Clara, a audaciosa pequenita que se empoleirava no alto?

- Era eu, sim, José! Sobressaltei-me:

- Que disse?... José? - repeti, surpreendido - Porque me chama esse nome?

Não me deu tempo a exclamações. Com o olhar cintilante de indignação, acrescentou com desdenhosa altivez:

- Visto que teima em chamar-me Maria Clara, não obstante ter-lhe manifestado o meu desejo em contrário, julgo ter também o direito de o tratar simplesmente por José.

Uma onda de sangue coloriu-me as faces.

- Não se zangue, desculpe - protestei, confuso com a minha distracção - Não reparei... tem pouca importância! Além disso, não me chamo José.

- Que me importa! Se prefere, chamar-lhe-ei Baptista ou Salsaparrilha.

Apesar da sua irritação, a ideia pareceu-lhe tão divertida que não conseguiu evitar um sorriso.

- Que diz? Agrada-lhe? -acrescentou com menos severidade - Salsaparrilha! Que lindo nome para um artista!...

Oh! Que pretensiosa garota e como conseguia irritar-me!

O meu olhar duro procurou o seu e, se pudesse, fulminá-la-ia.

- Tem, segundo vejo, o espírito da presunção ou da perseguição. Essa alcunha...

- É uma planta muito útil... e um nome perfeitamente adequado a um pintor, não acha?

- Não insista! Compreendo tudo!... A graça é velha... E è por isso que a acho horrível na sua boca...

Ardia de raiva. No entanto, dominei-me para não deixar perceber a minha irritação.

- Uma boca tão bonita! - acrescentei com brandura e tentando levar o assunto para o campo da galantaria.

- Que diz?

- Isto mesmo - continuei, com firmeza, porque a vi corar com o inesperado cumprimento - Uma boca tão linda não tem o direito de exprimir frases sem graça... e mesmo um pouco idiotas como essa!

Não obstante o meu desejo de manter a atitude delicada, a voz tremia-me contra vontade. Mais uma vez a discussão se ia azedar.

- Porte-se com correcção - observou com mau humor - e por meu lado não o hostilizarei!

- É que a sua animosidade não desarma... Pensa somente em ser agressiva, enquanto que eu reconheço-me apenas culpado por sentir um certo prazer... uma extraordinária doçura... em pronunciar o seu nome...

- Também eu gosto imenso de lhe chamar José ou Salsaparrilha... É engraçadissimo! E, visto que cada um de nós faz o que lhe apetece...

- Cale-se! Torna-se odiosa! - exclamei, sinceramente furioso desta vez - Não compreende que... nos meus lábios, o seu nome... representa uma homenagem, que o pronuncio com fervor... com respeito!... Insulta-se, por acaso, a Virgem, quando se lhe chama Maria?

Não percebo ainda bem como no meio da nossa estúpida questão experimentei de súbito a necessidade de exprimir tais sentimentos... sentimentos que estava bem longe de serem a expressão da verdade, visto naquele próprio momento me sentir irritadíssimo contra Maria Clara. As minhas palavras, porém tiveram como resultado perturbá-la intensamente. Abriu a boca para ripostar qualquer frase agressiva, mas de repente corou até à raiz dos cabelos, baixou a cabeça e num gesto maquinal retomou o trabalho.

Seguiu-se demorado silêncio, apenas interrompido pelo piar gárrulo dum pardalito. Ao longe, para o lado do mar, uma sereia fez ouvir o seu prolongado apito.

- Mas, finalmente, quem lhe disse o meu nome? - perguntou - Não me recordo de ter sido eu.

Desta vez o tom mantinha-se nas normas da mais estrita delicadeza, sem marcar, contudo, qualquer afabilidade.

- Perguntei... quis saber-respondi -Não pude olvidá-la... com o seu vestido branco... Era tão diferente das outras raparigas! Não esqueça que tive a honra de ser o seu primeiro par no Perdão, de Voulch... e... também o nosso encontro diante da capelinha da Virgem Garrida.

- Desagradável reminiscência!

- Evidentemente!... Preferia que o encontro não se tivesse dado... Fiquei desolado, pode crer.

Atrapalhava-me porque, na verdade, mentia. O incidente do santuário deixava-me completamente indiferente e há muito que o tinha esquecido. De resto, continuo a descrer dessas lendas inventadas pela fértil imaginação dos nossos aldeões, que não têm outros meios à sua disposição para utilizar o movimento cerebral das meninges ociosas.

As lendas são encantadoras, poéticas, mas, pondo de parte o lado pitoresco, não têm qualquer base sólida.

E julguei-me muito forte ao afirmar com energia:

- Enfim, que mais podemos fazer senão afirmar a nossa vontade de não nos submetermos ao irreparável.

- Fraca vontade!... Será melhor dizer: não nos queremos submeter na medida do possível.

Oh! Se Maria Clara subordina assim o nosso livre-arbítrio à lei duma força obscura, nunca mais saímos daqui!

Por momentos observo o rostozinho grave e pensativo. Acredita cegamente na realidade dessa lenda, é indiscutível.

O pensamento do perigo, que ela supõe, talvez, pairar sobre as nossas cabeças, restitui-me o bom humor.

E, esquecendo mais uma vez a correcção que ela exige de mim, ia proferir qualquer gracejo malicioso, quando uma circunstância me suspendeu nos lábios a frase irónica.

Maria Clara estava sentada enquanto eu me conservava de pé, nunca tivera ocasião de a examinar tanto à vontade. E, talvez por isso, só agora verifico a sua real beleza.

Os olhos erguidos para mim são enormes, luminosos e profundos, o oval do rosto perfeito, a boca graciosa, pequenina e rubra como uma cereja, a cútis deslumbrante de alvura, parece ter a transparência nacarada da pérola. Nunca, como naquele momento, tinha compreendido quanto esplendor, quanta sedução pode possuir uma rapariga de vinte anos!

Fiquei silencioso, a garganta subitamente contraída e de todo me passou o desejo de a contradizer e de zombar das suas crenças ridículas.

Pode ser até que, falando-lhe há pouco da doçura que experimentava ao pronunciar-lhe o nome, eu tivesse já sofrido, sem dar por isso, a influência dessa beleza.

Ao contemplar uns olhos tão lindos como os dela, que tolices não diria um rapaz da minha idade!

Maria Clara continuava a trabalhar.

De novo a sombra do chapéu me velou as pupilas luminosas e só lhe via as mãos esguias movendo as agulhas.

Fiquei-me a contemplá-la, perturbadíssimo pela recente descoberta e arrependido pelas palavras de cólera trocadas havia pouco, quando, provavelmente, o meu subconsciente aspirava já a outras muito mais carinhosas. Sentia-me desolado.

De cabeça esvaída e erma de pensamentos, não consegui pronunciar palavra.

Além disso, o sol caía a prumo sobre a estrada, pelos campos estendia-se pesado manto de vapores que anestesiavam energias, provocando uma espécie de mal-estar físico.

Decorrido algum tempo, porém, vendo que o tinir das agulhas não suspendia o seu monólogo mecânico e que não ganhava nada em estar diante dela em adoração, imóvel e mudo, decidi-me a quebrar o prolongado silêncio.

- Dirigindo para aqui o meu passeio, procurava encontrá-la, mademoiselle Maria Clara - declarei, sublinhando fortemente a tão discutida palavra mademoiselle.

Não pareceu notá-lo, contudo, cessou de se confinar no seu silêncio mais ou menos hostil.

- Procurava-me, a mim?-exclamou espontaneamente, sem deixar de trabalhar.

- Sim, porque ontem, aturdido com a aparição inesperada da tal masmorra, esqueci-me de lhe apresentar as minhas desculpas e de lhe agradecer a sua vigilante atenção, salvou-me a vida, posso afirmá-lo.

Encolheu os ombros com indiferença.

- São inúteis os agradecimentos, meu caro senhor. Como já lhe disse, o meu dever obrigava-me a preveni-lo do perigo que corria... Mas, falou-me também em se desculpar?...

- Falei. Corri atrás de si... persegui-a pelas ruínas, tentando alcançá-la e depois nem sequer pensei em justificar a minha conduta.

- Adivinho essa justificação! Um rapaz da sua idade acha sempre natural perseguir uma pobre rapariga sozinha... Para trocar com ela dois dedos de conversa ou para a assustar!

- Engana-se! Não corri atrás de si com desígnios tão tenebrosos.

- Não?...

- Afirmo-lhe! De princípio não a reconheci... Julguei tratar-se doutra pessoa. É verdade. Desde que me instalei nestes sítios, para pintar, procuro surpreender o visitante desconhecido que se permite brincar comigo na minha ausência.

- Um visitante?

- Sim... alguém a quem não consegui descobrir.

- É impossível! Uma terceira pessoa além de nós dois frequenta aquelas ruínas! Não acredito!

- Pode ter a certeza de que existe essa terceira pessoa - afirmei - Por diversas vezes alguém mexeu no meu quadro para o modificar ligeiramente.

As agulhas imobilizaram-se e a jovem ergueu para mim um olhar interessado.

- Estragaram-lhe o quadro?

- Felizmente, não estragaram. Contentaram-se em corrigir certos traços e acrescentar novos tons. E, por isso, ouvindo o rolar de pedras nas ruínas, calculei que fosse o meu mistificador e quis descobri-lo. Só a reconheci quando a vi no alto do montículo. E foi precisamente com o fim de lhe pedir desculpa pela inexplicável perseguição que a procurei hoje... Confesso que teve muita razão para me repreender como o fez há pouco. Devia ter-lhe parecido ontem um homem muito pouco correcto!...

Maria Clara fez um gesto vago.

- É preferível uma explicação sincera a um mal-entendido - replicou, sentenciosa.

- Então já não está zangada comigo, não é assim?

- Se o que me disse é a expressão da verdade, vá e não torne a pecar, como diria o senhor cura.

- Obrigado... E também não me conserva rancor pela nossa grande questão de ainda agora?

- Está na sua mão não tornar a fazer-me zangar. Nunca consentirei que um rapaz da sua idade me trate com menos respeito.

- Não falemos mais nisso... Procedi impensadamente e não tornarei a reincidir.

- Seja! Esquecerei o que se passou. Não quero a morte do pecador...

Seguiu-se novo silêncio. Talvez que se desse por satisfeita com as minhas explicações francas e sinceras. Quanto a mim, desejava mais. Queria, primeiro, quebrar a muralha de gelo que a recente altercação erguera entre ambos. Procurava que entre nós voltasse a estabelecer-se esse tom cordial, quase amigável, em que decorrera o nosso primeiro encontro. Tinha de confessar que essa gentil Maria Clara, que diziam tão reservada e ajuizada, me era em extremo simpática, e sentia-me desolado por a ter melindrado com o que ela tão severamente classificava de familiaridade incorrecta e de mau gosto. Apelo para todo o homem de coração a quem uma mulher bem-educada censurasse semelhante mal-ententido. Facilmente se compreende a sinceridade do meu pesar e o intenso desejo de reparação que me animava.

Além disso, desejava interrogá-la sobre o misterioso visitante, o pintor artista que se comprazia em me mistificar I Visto que a pequena confessava conhecer bem aquele cantinho, que visitava frequentes vezes, não obstante o terror que inspirava aos crédulos camponeses, podia talvez fornecer-me certos esclarecimentos úteis.

Mas o calor aumentava. O sol escaldava-me as costas. De pé, diante de Maria Clara, encontrava-me numa posição pouco cómoda para prosseguir a conversa.

Olhei em volta, procurando instalação mais confortável. A poucos passos, uma mancha de sombra parecia convidar-me ao repouso.

- Dá-me licença que me sente também no talude... ao abrigo destes juncos?... O sol está de respeito e desejava saber se me podia dizer qualquer coisa sobre o misterioso desconhecido que não consigo descobrir.

Enquanto falava, sentei-me à beira do valado, tendo o cuidado de deixar entre nós um espaço pelo menos de dois metros, a fim de que ela nada pudesse censurar na minha atitude.

Maria Clara, sem dizer palavra, seguia de revés todos os meus gestos.

Entretanto para não dar lugar a qualquer equívoco, recomeçou gravemente a trabalhar, e a lã voltou de novo a correr-lhe rápida entre os dedos ágeis, que maquinalmente prosseguiram a sua tarefa.

- Por diversas vezes, nestes últimos dias, ouvi ladrar um cão, nas ruínas... julgo que seria o seu... Devo concluir daí que frequenta assiduamente essas paragens sem que eu desse por isso?

- Antes da sua chegada costumava ali ir todos os dias.

- Valha-me Deus! E foi a minha presença que a afastou?

- Para não mentir, sou obrigada a responder com uma afirmativa.

- Estou desolado!... Sinto inexprimível prazer em reproduzir as ruínas, mas se assim o deseja não voltarei ali... pelo menos nas horas que me indicar.

Uma espécie de espanto perpassou nos olhos infantis da minha interlocutora e por momentos conservou-se calada. Depois, voltando-se para mim, observou-me com atenção.

- O senhor é um artista muito extraordinário - murmurou - Sempre julguei que um verdadeiro pintor colocasse a sua arte acima de todas as considerações.

- Não acima daquelas que devo a uma senhora - afirmei um pouco enfático, porque exagerava a minha delicadeza, sabendo que assim lhe lisonjeava a vaidade - Ainda há pouco me tratou com tal severidade... e ontem também, apesar de me haver evitado uma queda perigosa... que não desejo fazê-la zangar mais uma vez.

Abanou a cabeça e um sorriso malicioso lhe entreabriu os lábios.

- Com certeza não vai constranger-se a ponto de não proceder como entende.

- Palavra de honra... o receio de lhe desagradar...

- A minha opinião nada tem que ver com os seus projectos e trabalhos... Estou completamente à parte do assunto! Acabe o seu quadro.

Ficaria aborrecida se por minha causa interrompesse uma obra tão bem começada, segundo depreendo pelo que vi.

- O quê? Já viu o meu quadro! - exclamei com o sentimento de vaidade satisfeita que experimenta todo o artista quando lhe falam das suas criações.

Aquele elogio tão simples fez-me esquecer, nesse momento, todos os agravos que havia uma hora lhe atribuía.

- Sim, vi-o uma ou duas vezes, de passagem.

- E pareceu-lhe natural?

A minha pergunta ansiosa fê-la sorrir.

- Não passo de uma aldeã ignorante e nada conheço de pintura - desculpou-se modestamente - Contudo, tenho a impressão de que o seu quadro reproduz com exactidão o modelo. As ruínas destacam-se bem no fundo negro dos pinheiros, parecem viver batidas pelo sol do nosso agreste Armor. É tudo quanto sei dizer-lhe sobre o assunto.

- Isso me basta e não calcula como me sinto orgulhoso - retorqui, contente e lisonjeado - Tenho tanto empenho em que o meu quadro seja uma obra de valor! E este cantinho um pouco abandonado agradou-me imenso, mal o descobri.

Os grandes olhos pensativos afogaram-se em melancolia.

- Tem razão - murmurou lentamente - Não há outro igual... adoro-o! Estas velhas paredes arruinadas, a torre, as pedras, representam toda a minha infância... a minha vida inteira I O seu passado, o seu presente, o seu futuro limitam-me o horizonte... como se estas ruínas tivessem sido o meu berço e delas dependesse o destino da minha existência desamparada.

A respiração alterada por fugitiva emoção obrigou-a a calar-se por momentos, logo em seguida, porém, prosseguiu em tom mais brando:

- Parece-me às vezes que toda a paisagem me pertence... Sou filha das ruínas, na verdade... amo-as como se os outros não tivessem direito de as contemplar e apreciar a sua beleza! Chego a ter ciúmes daqueles que se atrevem a visitá-las!

- Como eu?

- Sim, como o senhor, que se instalou aqui quase como em sua casa.

- Nunca calculei que a minha presença pudesse vir perturbar a sua solidão... Em Voulch afirmavam-me sempre que ninguém se atrevia a passear por estes sítios...

- Por causa da sua má reputação, não è assim?

- Exactamente. Contaram-me coisas extraordinárias. Dizem-me que sou um temerário... e toda a gente pretende dissuadir-me de vir para os lados da charneca.

- De facto, nenhum dos habitantes da aldeia aqui vem.

- Mas, talvez, pessoas estranhas à terra?... Algum pintor, de passagem?

- Não creio.

- Conhece bem os arredores?

- Na perfeição, visto a casa de minha tia ficar perto.

- Bem sei. Mas tem a certeza de que fora da aldeia, noutro ponto da região, não habita qualquer Parisiense?

- Já há dias, quando me avistou no alto da torre, me fez a mesma pergunta.

- E compreende o sentido com que eu a fazia?

- Compreendi e repito hoje o que lhe disse: à charneca não vem ninguém... excepto na Primavera, quando a erva está tenra e que o pastor da herdade vizinha traz para aqui o rebanho a pastar. Mas no tempo quente quem encontraria prazer em passear pela campina crestada pelo sol e varrida pelos ventos fortes do Norte!

- Contudo, qualquer outro pintor podia achar, como eu, o sítio interessante...

Maria Clara baixou pensativamente a cabeça.

- Não, não julgo possível... de resto, tenho a certeza de que não se encontra em Voulch qualquer pessoa estranha. Às vezes, ao domingo, vem gente de Brest a fim de respirar o ar puro da nossa costa, mas a viagem è demorada e os autocarros chegam quase sempre sem ninguém... como de resto já deve ter notado, pois todos eles param diante da hospedaria de Catarina Le Coz.

- Sim, os visitantes são raros, com efeito... Mas não era bem isso que eu desejava perguntar... Existem nos arredores castelos e encantadoras vivendas que os proprietários habitam apenas uma parte do ano... É natural que durante o Verão recebam convidados. Pode ser que entre eles se encontre um pintor, um artista qualquer que casualmente resida na região.

Mais uma vez meneou negativamente a cabecita graciosa.

- Não, não me parece.

- E, contudo - afirmei de novo - alguém visitou as ruínas na minha ausência. Não há erro possível. Retocaram o meu quadro e quem o fez não é um profano.

- Se não lhe estragou o trabalho, é o principal.

- Evidentemente... mesmo assim, gostava de saber...

- Tudo quanto posso afirmar-lhe é que nunca vi ninguém encaminhar-se para aqui. Salvo se quer aceitar a possibilidade de uma intervenção sobrenatural. Estes sítios têm tão má reputação...

Não a deixei terminar:

- Ah! Isso não... mil vezes não!... Admitir semelhantes tolices, è impossível!

- Quanto a mim, não sou tão categórica - murmurou com um gesto de dúvida - Conta-se tanta coisa... Para todos, as ruínas são um lugar maldito.

- É preciso acreditar que essa gente não sabe o que diz. Acabou de me afirmar que todos os dias as visita e contudo nunca lhe aconteceu, segundo me parece, qualquer incidente desagradável.

- Sim, propriamente na charneca nunca me aconteceu nada de mau - replicou com o olhar de súbito ensombrado - Mas quem assegura que o génio protector destas paragens me tenha sido favorável, não obstante a predilecção que tenho por elas? Sou órfã, vejo-me só, sem família, sem apoio... todos os que amei morreram já... acha que sou feliz e que a minha sorte è digna de inveja?

- Infelizmente, quantas órfãs existem muito mais desgraçadas ainda... conquanto morem bem longe das ruínas de Kéridec.

- Sim - redarguiu Maria Clara, pensativa - Tudo é relativo!... Eu, por exemplo, nunca sofri privações!

Abandonando o trabalho, uniu as mãos num gesto piedoso, enquanto o olhar se perdia no horizonte.

Pareceu-me ver-lhe os lábios murmurarem muda oração.

- Nunca devemos lamentar e maldizer a nossa sorte, pois podemos ser castigados e sofrer pior destino - observou gravemente, passados momentos.

- A Deus compete mandar-nos alegrias ou sofrimentos - respondi com filosofia - Mas não se trata agora de vontade divina, à qual nos devemos submeter docilmente. Trata-se do Génio das ruínas, a quem nego a autoria de todos os malefícios que com tanta generosidade lhe atribuem.

- Porque até hoje o deixou sossegado...

- Não, não falo só por mim. Se avaliarmos bem, esse génio mostrou-se particularmente generoso consigo, ainda que nunca o tenha notado. Cumulou-a de benefícios.

- A mim?

Examinava-me sem poder compreender, supondo tratar-se de um gracejo. Logo em seguida, porém, expliquei-lhe o meu pensamento.

- Nunca notou os incomparáveis dons concedidos à filha das ruínas, como há pouco se classificou?

- Não sei a que se refere.

- Porque é cega ou não quer ver. Não reparou ainda quanto è bonita?... Olhos grandes, cheios de luz, a pele, alva e cetinosa como um lírio, a fronte pensativa, uma boca que entontece, cabelos anelados, que por certo todas as raparigas lhe invejam... É preciso mencionar ainda as mãozinhas pequenas, os pés de Cendrillon e o corpo airoso e esbelto?... Em resumo, a beleza mais completa e tão rara na Bretanha, onde o tipo predominante, mais desportivo do que apurado, nos apresenta raparigas com as faces de maçãs salientes, o rosto curto, quase quadrado e cheio de sardas.

A jovem soltou alegre gargalhada.

- Sim, senhor! Vejo que não è avaro de cumprimentos quando se dirige a uma rapariga. Felizmente que às minhas companheiras também caberá o seu quinhão, quando lhes chegar a vez.

- Oh! Nem pensar nisso!

- É injusto! Também têm os seus encantos e nada mais sedutor à vista do que uma graciosa Bretã de quinze anos. Pelo meu lado, posso afirmar-lhe que sou como elas Bretã, da mais pura Raça armórica e que nada tenho de sobrenatural. Quanto ao meu físico, tenho de o agradecer mais a meus pais do que ao Génio das ruínas. Portanto, todas as suas belas teorias caem pela base, meu caro senhor.

Levantou-se e enrolou o trabalho.

- São horas de regressar a casa. Prometi a minha tia passar-lhe a roupa a ferro. Os meus cumprimentos!

Com ar travesso, ergueu a saia com a ponta dos dedos e fez-me uma reverência.

- Uma sua criada, senhor lisonjeiro! Até outro dia!

- Oh! Sim! Prometa-me que voltará às ruínas... Gostava tanto que visse o meu quadro!

- Infelizmente, não percebo nada de pintura.

- Perdão! Será a minha inspiradora.

Maria Clara havia dado já alguns passos para se afastar. Ao ouvir as últimas palavras, voltou-se:

- Tome cautela, senhor pintor I Veja bem o que diz! Mais cuidado com suas palavras. Talvez o Génio das ruínas queira ser o seu único inspirador. E como parece interessar-se particularmente pelo seu quadro, será melhor evitar desagradar-lhe!

Estava já muito longe para que pudesse ripostar aos seus gracejos. Portanto, tive de guardar para mim a resposta.

- O Génio das ruínas!

Mais uma que supunha possível fazer-me acreditar semelhante patranha!...

Felizmente, ainda não estou doido I Sei muito bem que fantasmas, espectros, génios e duendes só existem na imaginação crédula dos camponeses!... Quanto ao meu quadro... Pois bem! Veremos se me satisfaço com tão estúpida explicação. Estou disposto a tudo, até a ficar de sentinela para descobrir o audacioso anónimo que assim zomba de mim... e depois o tal cavalheirinho há-de pagar bem caro os seus atrevimentos!... O Génio das ruínas!... Realmente, supõem-me deveras estúpido!

E, assim monologando, aborrecido, tomei o caminho da hospedaria.

Adiantei hoje bastante o meu trabalho e tenho a impressão de haver recuperado o tempo que ontem perdi.

A charneca continua deserta, reina ali, como de ordinário, a mais completa solidão e esta sensação de absoluto isolamento realizou para mim a plenitude da felicidade.

Contudo, mesmo contra vontade, apurava às vezes o ouvido, esperando sentir o rolar das pedras debaixo duns pezinhos ligeiros ou o roçar de um animal por entre os arbustos.

Atenção inútil! Vã expectativa! Maria Clara não tornou a aparecer.

Sempre o mesmo silêncio. As ruínas estão desertas e a mão sacrílega não voltou a manejar os meus pincéis.

Gozo a liberdade mais completa e o meu mistificador renunciou a perseguir-me. Mas vou agora lamentar o que tanto ambicionava? No entanto, esse silêncio parece pesar-me... Sem dar por isso, habituei-me a sentir em volta de mim presenças invisíveis.

Ou talvez a ideia de um génio protector e sobrenatural agrade inconscientemente ao espírito infantil, que nunca morre no mais íntimo da natureza humana.

O meu quadro avança, daqui a pouco tempo terminá-lo-ei.

Estou satisfeito com ele, realizou precisamente o que eu sonhava.

Lamento que Maria Clara não voltasse a aparecer, gostaria que o visse antes de lhe dar os últimos retoques.

É uma ideia absurda, evidentemente, visto a gentil rapariga não perceber nada de pintura! Mesmo assim, como diz adorar as ruínas que a viram nascer, é natural que a sua opinião seja sincera. A maneira de ver de um estranho è sempre útil... mesmo quando se trata de uma garota ignorante que para julgar o meu quadro dispõe apenas do seu amor exclusivo pela paisagem que ela representa.

Esta tarde, quando regressava a casa, uma única imagem me perseguiu, a duma rapariga altiva, de rosto de madona, tão meigo e tão sério ao mesmo tempo... com duas tranças... duas tranças infantis sem o mais pequeno intuito de garridice... duas tranças singelamente caídas pelas costas...

Chega a ser obsessão!

Isto não pode continuar!

Todo o meu entusiasmo desapareceu no momento do uf final.

Antes de colocar a assinatura no meu quadro, dei-me ao prazer de um dia de descanso. E fui passear pelos campos.

De manhã, segui a margem do ribeiro, até ao mar, e à tarde subi até ao santuário da Virgem Garrida. Experimento sempre uma espécie de religiosa emoção quando contemplo dali a imensidade das dunas e do oceano.

Essa contemplação durou uns bons dez minutos e depois retomei o caminho do Kermodu. Talvez que, sem ousar confessá-lo, seja a esperança de encontrar Maria Clara que me impele nessa direcção. Se a vir, aproveitarei a ocasião para lhe pedir que se dê ao trabalho de ir até às ruínas, a fim de ver pela última vez o meu quadro... Quando estiver a secar, no meu quarto, será mais difícil, pois Catarina Le Coz estranharia a visita da gentil Bretã. Tenho, por conseguinte, de lho mostrar antes de o levar para a hospedaria.

Aqui está justamente o ponto onde nos encontrámos há dias.

Maria Clara estava sentada na beira do talude e eu um pouco mais afastado...

A recordação è para mim muito agradável, mas devo confessar que a pequena me preocupa demasiado o pensamento!

Contudo, hoje, o lugar está deserto. Muito a propósito, porém, lembrei-me de que a casa fica mais acima, e vagarosamente prossegui o meu passeio.

Nunca tinha tido ocasião de visitar esta parte da região. A comprida fita branca, poeirenta, sem árvores, sem horizonte nem poesia, essa comprida estrada, atravessando a planície uniforme, nunca me tentou.

Desta vez segui-a cheio de coragem. Para obter o que desejo, arrostarei com a poeira, com o calor desse deserto sem sombra nem verdura!

Mas estava escrito que ainda não encontraria Maria Clara para esses lados. Tinha já andado bastante. Na minha frente alongava-se a estrada como um comprido e pardacento réptil, à esquerda e à direita estendia-se a charneca monótona.

Não descobri a casa de Maria Clara, que devia, conforme me tinham dito, ficar por ali, nem o atalho que cortava a planície... Só vi o deserto... o infinito...

Voltei para trás, um tanto desapontado pelas minhas pesquisas inúteis e para diminuir a extensão do regresso cortei à esquerda, pelos campos, direito ao pinhal, cuja massa sombria me devia separar do ponto onde se encontrava o meu material de pintor.

E foi justamente debaixo da fresca abóbada de verdura, no coração do pequeno bosque, que encontrei aquela que tanto procurava.

Estendida à sombra, com o cão deitado aos pés, Maria Clara lia.

Ao ver-me, uma pequenina ruga de contrariedade vincou a fronte pura, mas não lhe dei tempo a manifestar o seu descontentamento.

- Os meus cumprimentos, mademoiselle Maria Clara - disse-lhe logo - Procurava-a, justamente.

Arqueou as sobrancelhas e os lábios mimosos exprimiram leve desdém.

- Procurava-me?! - admirou-se - Tem ainda qualquer coisa a dizer-me... nada de importante, suponho?

- Perdão, para mim è tão importante que saí propositadamente para a encontrar.

- Que deseja então?

- O meu quadro está pronto.

Pela fisionomia passou-lhe como que um relâmpago, uma nuvem cuja expressão não consegui definir, e tão rápida que quase supus ter sido ilusão minha.

- Completamente pronto? - insistiu, admirada.

- Sim, mademoiselle.

- Ah!... E depois?

- E antes de o transportar para casa... para o meu quarto, quero dizer, para a hospedaria de Catarina Le Coz... desejaria que o visse...

- Eu?!

- Queria saber a sua opinião.

- Para quê? Não percebo nada de pintura...

- Fez-me há dias observações muito justas.

- Exprimi apenas o meu pensamento - declarou com modéstia e sem evidenciar o prazer vaidoso que outra qualquer profana não deixaria de demonstrar em idênticas circunstâncias.

- É por isso mesmo que tenho empenho em ouvir a sua opinião - continuei - Adora as ruínas, conhece-as sob os mais variados aspectos, gostaria de saber se traduzi bem toda a poética emoção que delas emana... o seu mistério, a sua sombria beleza, os seus múltiplos encantos, enfim!

- É a primeira vez que ouço um artista declarar que as observações de uma pobre aldeã ignorante lhe podem ser de qualquer utilidade - observou, sorrindo

- Sempre pensei que este encontraria em si próprio, na sua arte, a confiança na sua obra... em si próprio, unicamente, e às vezes essa confiança é inabalável.

- Exactamente - reconheci - O artista confia de mais, muitas vezes, no seu talento. A presunção cega-o! Aquele que duvida, aspira sempre a produzir melhor e trabalha na ânsia de se aperfeiçoar.

- Sim, talvez.

O meu tom tornou-se mais persuasivo no intuito de acabar de a convencer.

- Quanto a mim, garanto-lhe que nunca desprezei um conselho ou opinião... A sua ignorância, no campo da pintura, pode talvez levá-la a dizer coisas inúteis ou injustas...

- Ou até mesmo absurdas!

- É possível! Mas pode também acontecer que faça observações oportunas... de que tomarei a devida nota, afirmo-lhe, e que me abrirão talvez novos horizontes...

- Sinto-me lisonjeada e confusa.

- Está então combinado? - insisti - Acede a vir ver o meu quadro...

- Realmente, demonstra ter tanto empenho nisso...

- Enorme, visto que desde o meio-dia ando à sua procura...

Levantou-se, sorridente, mas não quis aceitar os meus cumprimentos por lisonjeiros:

- Compreendo que só o meu amor pelas ruínas o faz ligar tanta importância às observações... anão ser isso, qualquer garota da aldeia podia prestar-lhe idêntico serviço.

Enquanto falava, sacudia a saia com pequenas pancadinhas para fazer cair os bocadinhos de musgo que se tinham agarrado ao tecido.

E foi somente nessa ocasião que notei a elegância da minha interlocutora... Não andava de perna nua e nas minúsculas chinelinhas, de verniz brilhante como um espelho, agitavam-se, buliçosos, dois pezinhos bem moldados na meia de seda transparente.

Essas meias de seda fizeram-me acudir à memória as reflexões de Catarina Le Coz e passei a examinar com maior atenção o trajo da jovem Bretã.

O vestido era de tecido leve, modelando bem o corpo, o pequeno avental de crepe de seda, com rendas, as mãos, que dias antes faziam voar, ligeiras, as agulhas do tricot, eram brancas, bem cuidadas, com as unhas levemente coloridas, como usam as raparigas de Paris... verdadeiras mãos de fidalga.

Intrigava-me essa camponesa de ópera cómica, e o livro que tinha na mão, cujo título era O noventa e três, acabou por me desconcertar. Aquela pequena seria capaz de se interessar pelas lutas vendeanas que se seguiram á Revolução? Mesmo descrito por Vitor Hugo, esse período agitado era mais pungente do que alegre, e admirei-me como uma rapariga do campo encontrava prazer em tais leituras.

Neste meio tempo, após uns minutos de caminho alcançámos as ruínas.

Maria Clara dirigiu-se logo para o meu cavalete. Evitei pronunciar qualquer palavra que a incitasse a falar, contudo, os meus olhos fitos no seu rosto procuravam, antes de mais nada, descobrir nele as primeiras impressões.

Primeiro parou a um metro de distância do quadro e examinou-o em silêncio.

A fisionomia não deixava perceber os seus pensamentos, por vezes, semicerrava as pálpebras sobre as pupilas imóveis como se quisesse diminuir a intensidade da visão e abranger num só olhar todo o conjunto.

Por muito tempo se conservou assim. Nem uma só vez voltou os olhos para as ruínas a fim de confirmar qualquer pormenor, devia conhecê-las bem e não necessitava de termo de comparação.

Finalmente, avançou alguns passos e murmurou como se acordasse dum sonho:

- O senhor tem, na verdade, muito talento... Não só conseguiu uma reprodução rigorosa como soube apreender maravilhosamente a intensa melancolia que se desprende destas ruínas abandonadas...

O seu quadro reproduz a severa poesia e as suas velhas pedras falam à alma...

Ouvia-a, profundamente perturbado pela forma como se exprimia. Qualquer dos meus professores das Belas-Artes empregaria idênticas expressões, pondo nelas talvez mais afectado entusiasmo... Pelo contrário, Maria Clara falava com simplicidade, com convicção, como se achasse natural exprimir tais sentimentos, ou antes, como se os partilhasse comigo.

Catarina Le Coz dissera-me que Maria Clara possuía certa instrução, mesmo assim, louvava intimamente a natureza, que distribuía os seus dons com tanta imparcialidade por todos os indivíduos. Esta aldeã ignorante tem uma alma de artista e no que respeita a inteligência verifico que o Destino não lha concedeu inferior à minha.

Entretanto, Maria Clara aproximou-se da tela atè quase a tocar. E de súbito apontou a parte superior, onde a massa dos pinheiros formava como que uma abóbada sombria por cima da torre.

E sempre na mesma voz vagarosa, que parecia distante, observou:

- Preferiria ver aqui uma grande mancha clara, um farrapo de céu, sem nuvens, iluminado pelo sol radioso das onze horas da manhã... essa irradiação luminosa viria dar mais vida a este cantinho.

Atentamente, procurei com o olhar, na paisagem, o ponto a que a jovem se referia.

- Contudo, não noto qualquer claro no arvoredo!... Veja, o céu está totalmente oculto pela rama dos pinheiros.

- Bem sei - respondeu, sem mesmo seguir a direcção que lhe apontava - Presentemente não existe, é verdade. A Natureza, abandonada a si mesma, desenvolveu-se à vontade, tanto em altura como em espessura. No entanto, ainda há poucos anos, um farrapo de céu alegrava a floresta neste ponto... e afirmo-lhe que lhe dava mais vida, mais encanto.

A observação perturbava-me e rasgava-me novas perspectivas... muito mais do que previa.

E coube-me então a vez de ficar pensativo e de reflectir, pesando bem a sugestão.

- Terei de recomeçar todo este lado - murmurei, um pouco hostil à modificação.

- Oh! É tão pouco!... O verde-negro das árvores sobre um fundo claro destacar-se-á muito melhor. Essa mancha deslumbrante de luz tem, contudo, de ser pintada de manhã, antes de ir almoçar - continuou - Escolherá para o Céu um azul semelhante áquele que vê além, ao fundo da mata, entre as duas últimas árvores... Deve ser esse o tom conveniente! À tarde voltará para ajuizar, com outra luz, o efeito do retoque... Normalmente, ao cair do dia, todos os cambiantes se harmonizam, se fundem e se esbatem, cada tom concorda com o que lhe está próximo, para formar um conjunto perfeito e cheio de encanto para os olhos que o contemplam.

Não lhe respondi, tanto as suas sugestões e os termos que empregava me perturbavam.

Esta garota desorientou-me completamente pela compreensão que demonstra da Natureza e cujas sensações rutilam magicamente nos seus lábios numa graduação maravilhosa!

Que artista admirável se oculta nela! Estou assombrado...

E o lembrar-me que eu, um antigo aluno das Belas-Artes, tinha estudado tantos anos, antes de poder exprimir-me com tanta simplicidade como ela o fazia agora apenas por instinto, magoou-me um pouco. No entanto, não me recusava a dar-lhe razão e a reconhecer que as suas observações eram aceitáveis.

Mas, como continuasse calado para melhor pesar todas estas considerações, Maria Clara voltou-se para mim.

Adivinharia toda a perturbação que me dominava? Antes que pudesse exprimir-lhe uma aprovação mais ou menos franca, desculpou-se da sua audácia e vi-lhe a fisionomia perder a expressão inspirada para descer à realidade e reflectir profunda confusão.

- Falo sem saber - desculpou-se - Peço-lhe perdão por me haver atrevido a dar-lhe conselhos...

Manifestei apenas uma preferência minha... mas, naturalmente, não passa de uma tolice! Não faça caso, meu caro senhor, o seu quadro está óptimo! É a cópia fiel da paisagem actual. Um pintor de valor não deve, antes de mais nada, procurar obter a semelhança perfeita? Reproduzir exactamente o que viu?

- Não é bem assim! No pintor também vive o artista. O primeiro traduz, o segundo interpreta! Essa tal mancha luminosa que me aconselha, deve, na verdade, ser de esplêndido efeito, pois vem trazer um pouco de claridade a toda esta sombra.

- Não a fantasiei - repetiu docemente, como se quisesse alcançar perdão para a sua ousadia-Existia noutros tempos e não tenho qualquer mérito em a assinalar.

De novo o rostozinho grave se voltou para os pinheiros e retomou pensativa expressão como se a órfã revivesse um passado desaparecido e visionasse um mundo imaginário...

- Farei amanhã a modificação - declarei bruscamente - Julgo... sim, com toda a franqueza, julgo que tem razão!

Senti uma pontinha de orgulho por ter tido a coragem de confessar que o conselho era bom!

Mas, modificando o tom sério da conversa, perguntei mais expansivo:

- E à parte o pequeno pormenor, acha bom o meu quadro?

- Magnífico!

- Agrada-lhe?

- Creio que sim. É uma tela de valor.

- Sinto-me plenamente feliz, porque o pintei com amor. Estas ruínas encantam-me... são expressivas.

- Sim, falam à alma. Um verdadeiro artista como o senhor não podia deixar de lhe descobrir a severa beleza.

- Além disso - acrescentei com um volver de olhos trocista - O Génio das ruínas concedeu-me a sua protecção.

Este gracejo, que atingia as crenças populares cujo carácter imaginativo ela perfilhava, não pareceu perturbá-la.

- Sim, de facto, um génio benfazejo protegeu o seu trabalho - replicou simplesmente.

- Quer porventura afirmar que o bom êxito do meu quadro o devo em parte a ele?

- E porque não? A emoção sentida não será obra sua? Pelo menos, inspirou-lha! Não negue! Não tem bases para o fazer!

Encolhi os ombros. Ri! Concordo com todas as suas opiniões! Sinto-me imensamente feliz! Acabei o meu quadro e saí-me bem do trabalho! Com prazer, notei a emoção sofrida por Maria Clara quando o contemplou. A vida é bela! Que mais posso desejar?

Antes de nos separarmos, pedi-lhe para voltar no dia seguinte.

- Venha amanhã, à tarde, ver o efeito produzido pela modificação que me aconselhou. Conto com a sua visita, mademoiselle Maria Clara. Desejo que esteja presente quando assinar o quadro.

- Combinado!

Um franco aperto de mão confirmou a promessa. Desta vez desapareceram entre nós todas as desinteligências.

Na verdade, a gentil Bretã demonstrou compreender tão bem a minha arte que subiu muito no meu conceito. Agora considero-a uma boa companheira, uma excelente camarada, à altura de apreciar o meu esforço e o meu trabalho.

As sensações intensas do artista que criou uma obra, alegrias profundas da vitória, a minha alma exaltada glorificou-as e vibrou num canto de triunfo, que soou livremente pelos campos adormecidos, quando, sozinho, regressava alegremente à aldeia.

Esta manhã pintei um farrapito de céu azul, por cima das árvores que dominam a torre.

Indiscutivelmente, essa mancha clara dá mais luminosidade a tanta sombra!

Estou ansioso por saber quais serão as minhas novas impressões quando logo voltar a ver o meu quadro, depois de me ter afastado dele algumas horas. «O artista, em geral, tanto quer aperfeiçoar que se perde...» Espero que este ditado não se confirme no que me diz respeito.

Não tenho expressões que traduzam o meu desespero quando esta tarde tornei a ver o meu quadro: è de endoidecer.

De facto, julguei que enlouquecia ao notar as horríveis modificações que o meu perseguidor lhe introduziu.

Voltou esse anónimo que procede comigo por forma tão insólita! E desta vez excedeu todos os limites!

Quando recordo esse minuto, o momento em que verifiquei os retoques acrescentados, sinto ainda o sangue ferver-me nas veias.

Vou tentar narrar tudo com calma...

Primeiro, almocei; em seguida, vagarosamente, fumando um cigarro, dirigi-me de novo às ruínas, onde o meu quadro se encontrava no cavalete, tal como o deixava todos os dias quando ia almoçar.

Tudo quanto me pertencia estava no seu lugar, tudo parecia intacto... Lembro-me até de que esta manhã, antes de me afastar, limpei cuidadosamente os pincéis e os arrumei na caixa... Tudo na mesma...

Tudo menos a minha tela!

E desta vez era para fazer perder a cabeça!

Senão, oiçam, por cima das ruínas, a mão sacrílega - a tal mão desconhecida que teima em me perseguir - não tinha hesitado em acrescentar o contorno de um castelo... Isto mesmo! Um grande castelo da Idade Média, com os seus torreões pontiagudos, campanários e telhados de ardósia... um verdadeiro castelo, que não passava de um edifício translúcido... um contorno apenas esboçado... Um castelo imponente, mas fantástico e quimérico, com muralhas transparentes, livres da matéria... um ectoplasma de linhas vaporosas e imprecisas... Enfim, uma fantasmagoria diáfana, através da qual se distinguia a floresta com os seus múltiplos cambiantes de variados tons.

Perante esta adição que a odiosa personagem ousara infligir-me, saltaram-me dos olhos lágrimas de raiva e só tive forças para gemer e lamentar-me.

- É horrível! Tudo estragado! O meu trabalho perdido!... Oh! Como sou infeliz! Nunca terei a coragem de recomeçar!... De resto, posso garantir que à segunda vez seja tão feliz como à primeira? Isto è para endoidecer!

E, com efeito, durante alguns instantes, julguei perder a cabeça e não sei a que loucuras me levaria o desespero.

Dominava-me a mais intensa cólera e se o meu mistificador se encontrasse naquele momento ao meu alcance, julgo que lhe teria feito passar um mau quarto de hora.

- Cobarde! Miserável, que só se atreve a atacar-me pelas costas! Que lhe fiz eu? Que se apresente na minha frente, que venha dar-me explicações e veremos se lhe agradam os meus agradecimentos!

Em conclusão, perdi o sangue-frio e não conseguia dominar o meu furor.

Foi a voz de Maria Clara que me fez recuperar a serenidade.

- Então que é isso, senhor Marcos? Que lhe aconteceu? Desde que cheguei, oiço-o falar sozinho e vejo-o gesticular como se batesse num adversário invisível.

- Veja, veja! -respondi-lhe com voz abafada. Com o dedo trémulo apontava-lhe o acréscimo feito

na minha tela.

A rapariga aproximou-se rapidamente.

- Veja: o meu quadro está estragado!... Todo o meu trabalho perdido! Só me resta recomeçar!

- Perdido porquê? - exclamou Maria Clara, sobressaltada.

O olhar ansioso interrogava o meu.

- Seria, por acaso, o recanto de céu que ontem lhe aconselhei...

Não a deixei concluir.

- Não se trata agora dessa mancha de luz... Mas repare bem!... Não vê essa maldita justaposição I

A minha mão designou o malfadado castelo esboçado por cima das ruínas.

- O maldito pintor que me pregou semelhante partida è muito atrevido, na verdade!... Se conseguisse apanhá-lo, juro que lhe daria uma boa lição! Grande patife!... Refinado maroto!

Maria Clara não me respondeu. De testa franzida, muito calada, examinava com atenção a catástrofe.

- Então! Que diz a isto? Cala-se... Concorda que è irreparável?

Ergueu os olhos para mim e por momentos pareceu sensibilizada com a minha fisionomia transtornada, depois, sempre sem pronunciar palavra, voltou a examinar o quadro.

Tanta calma irritou-me! Queria ouvi-la partilhar a minha indignação.

E não pude deixar de lhe pedir, com certa aspereza, porque a minha exaltação não admitia delongas, que manifestasse ao menos as suas impressões.

Então, timidamente, levantou a mão, e o índex hesitante designou o fantasmagórico castelo que manchava a minha tela.

- É... este castelo que lhe desagrada?

- Se lhe parece!...

- Ah!

- Não acha que é medonho? Hesitou.

- Mas... não sei bem!... Não percebo nada de pintura...

- Enfim, mas não concorda que è horrível?

- Se è essa a sua opinião...

- Porquê? Não pensa como eu?

Maria Clara fez um gesto indefinido. A violência das minhas perguntas não lhe davam, provavelmente, tempo para exprimir as suas verdadeiras impressões.

Perante a sua hesitação, reparei na minha cólera e repeti a pergunta com mais brandura!

- Peço-lhe, mademoiselle, diga-me com toda a sinceridade: o que pensa desta adição?

- Não me atrevo a fazê-lo - confessou, sorrindo - Vejo-o tão irritado...

- Tem razão. Exaltei-me. Mas deve compreender quanto sou infeliz por ver o meu trabalho completamente inutilizado.

- É que, precisamente, não acho que esteja, como diz, inutilizado - observou com voz suave.

- O quê? Não acha que... - exclamei, assombrado.

- Estas ruínas?... Este... este velho castelo que parece surgir no seu antigo lugar?... A torre, cujas ameias se confundem com o irreal?

- Sim... e depois?

- ... depois... acho isto extremamente belo.

- Belo?

- Sim, é comovente!... Impreciso, mas esplêndido! O sonho que se confunde com a realidade. Não sei bem como dizer... nem explicar o que penso. É magnífico porque me sinto comovida até às lágrimas! É uma evocação ou uma ressurreição!... Deve ser a imagem do castelo tal como existia outrora... O passado erguendo-se imaterializado junto do presente adormecido... a alma destas velhas muralhas despertou... ou tomou forma!... O Génio das ruínas manifestou-se, enfim, confirmando todas as lendas... Eu... eu...

Calou-se e as lágrimas saltaram-lhe dos olhos.

- É esplêndido e terrível ao mesmo tempo! - terminou - Nunca supus que um simples quadro pudesse dizer tanto e comportar tanta emoção!...

Deixei-a falar, e ouvi-a, primeiro, revoltado com a inesperada apreciação, depois, perturbado pelas impressões que manifestava e que pareciam ressaltar do próprio quadro à medida que as ia expondo.

E talvez tivesse razão, por fim! É inacreditável! Da minha tela parecia emanar agora místico fluido que me comovia as mais ocultas fibras da alma... Esse castelo irreal, que nada ocultava da paisagem, visto não encobrir qualquer pormenor, tornou-se de súbito em extremo comovente... despertava-me múltiplas sensações... falava... acordava em mim emoções desconhecidas...

No primeiro movimento de surpresa não compreendera o novo estado de alma em que me colocava, mas agora, que Maria Clara retirara dos meus olhos a venda que ocultava a verdade, reconhecia toda a mística beleza da espectral composição e verificava a agitação muito especial em que mergulhava o meu subconsciente.

A tal ponto que, à força de contemplar o meu quadro assim transformado, senti a garganta contraída sob a acção de uma comoção profunda e inesperada.

Quase sem querer e sem que a minha vontade pudesse intervir a tempo, debaixo da influência deste sentimento desconhecido, inexplicável, os lábios repetiram inesperadamente as palavras da minha companheira:

- Sim, è esplêndido!... Terrível, mas maravilhoso!... Prodigioso!

E esta espantosa conclusão, seguindo-se à violenta cólera de há pouco, deixou-me desorientado por completo.

Passei, repetidas vezes, a mão pela testa, para despertar em mim o que eu chamava pensamentos mais razoáveis: seria, de facto, o meu eu artístico que encontrava beleza naquela adição? Que se comovia a ponto de a achar maravilhosa? Ou um hipnotismo súbito transtornaria todas as minhas faculdades?

Alguns minutos decorreram no mais completo silêncio, durante os quais me esforcei por recuperar o meu equilíbrio normal, depois, vi Maria Clara enxugar os olhos e ouvi-a desculpar-se, em tom constrangido, da sua recente comoção.

- É tolice chorar assim diante de um quadro, mas adoro a tal ponto as minhas ruínas, que ao vê-las debaixo deste aspecto... numa espécie de apoteose!... emocionou-me, na verdade.

- Não se desculpe. A Arte encerra beleza que nos impressiona tanto como o ficaríamos ao sentir a mais intensa alegria ou o mais íntimo desgosto. Confesso que eu próprio também...

Como não precisasse claramente o meu pensamento, mal disposto por ter deixado perceber a minha perturbação, observou-me:

- Foi uma ideia felicíssima a que teve, de acrescentar à paisagem este castelo extraordinário. Pode gabar-se de ter obtido um efeito artístico maravilhoso.

- Mas se já lhe disse que não fui eu quem pintou isto! - protestei um pouco confuso, mas demasiadamente leal para aceitar um elogio que não me era devido.

- Visionou-o assim e desejou pô-lo aqui, e maquinalmente a mão obedeceu.

- Nada disso!... Foi mais uma vez o meu misterioso mistificador que fez esta linda obra.

Voltou-se para mim um pouco inquieta.

- Chama-lhe linda obra por ironia?

- É claro.

- Então vai apagá-la? Encolhi os ombros.

- Posso, por acaso, fazê-lo sem inutilizar o resto? Se o quadro já estivesse seco, bastaria um pouco de terebintina. Mas com essa pintura tão fresca, que se confundiu com a minha, só raspando e fazendo tudo de novo.

- Antes assim - declarou com decisão - Dessa forma não poderá destruir a deliciosa visão do antigo castelo...

- Sim, mas esta imagem simbólica é afectada... boa para a época do romantismo.

- Acho-a muito mais bela do que o estilo cubista ou a arte decorativa moderna, com as suas linhas indefinidas.

- Questão de gosto.

- Prefiro o seu quadro, visto que nos sensibiliza e comove, despertando um mundo de sensações.

- Que hei-de fazer agora? Tinha pensado expô-lo no salão de Outono.

- E porque não expõe? Quem lho impede? Tudo é permitido à fantasia do artista, contanto que realize uma bela obra!... Ainda há pouco concordou comigo em que era maravilhosa!

- Sim, com efeito, concordei. Mas estava sob a influência de profunda comoção, como que hipnotizado.

- Os visitantes do Salão podem experimentar

comoção idêntica.

- Sim... è possível! Mas que nome darei agora ao quadro...? Miragem?... Fantasmas?

- Como tencionava chamar-lhe?

- As Ruínas de Kéridec.

- É muito frio para semelhante evocação, além de

que as ruínas passaram para segundo plano.

- Infelizmente!

- Chame-lhe O Génio das Ruínas, e acabou-se.

- Hum! Não vejo bem...

- Examine-o com atenção e verá... Estas velhas paredes têm alma, vivem pelo passado que na realidade viveram e por aquele que evocam. Na verdade, não è só a alma dos antigos habitantes, mas o próprio espectro do castelo que vagueia pela charneca. E visto que não aceita a possibilidade dos mortos perseguirem os vivos, porque não admite ao menos que estas pedras tenham um poder evocador e que neste cenário subsista a recordação do seu antigo esplendor?... Provém daí talvez a impressão indefinida que sentem os visitantes capazes de a compreenderem... O Génio das Ruínas! Este título diz tudo em poucas palavras!

De novo fiquei maravilhado com as sugestões da minha juvenil companheira. Aquela filha dos campos pronunciava palavras e manifestava impressões na verdade superiores à sua idade e condição!

- Mais uma vez tem razão - concordei, convencido - Será a madrinha do meu quadro! Em sua honra dar-lhe-ei o título que me propõe: O Génio das Ruínas. Que a alma destas velhas paredes, evocada por si com tanta convicção, o proteja e lhe dê o êxito que ambiciono.

- Será uma injustiça se não lhe conferirem o primeiro prémio, porque è uma obra de grande valor. Por mim, se fosse rica, comprar-lhe-ia o quadro... acho-o maravilhoso!

- Nesse caso -retorqui, lisonjeado com essa admiração ingénua - se quer dar-me um grande prazer e aceder ao que vou pedir-lhe em troca, prometo-lhe uma reprodução do quadro, que lhe oferecerei... e para que essa cópia tenha algum valor, garanto-lhe que será a única... nunca tirarei outra.

- Belo! - exclamou Maria Clara, encantada - Que excelente ideia... Aceito com o maior prazer essa reprodução... Mas - acrescentou com certo receio - falou-me de um pedido que vai fazer-me em troca... Qual é?

- Servir-me de modelo.

Uma sombra de desagrado passou pelas encantadoras feições.

- Quer pintar o meu retrato? - exclamou com instintiva desconfiança.

- Não è bem isso que desejo... eu explico. Acabei este quadro, mas penso começar outro... Até agora não tinha ainda decidido o assunto desse novo trabalho, há pouco, porém, enquanto falava, notei a expressão inspirada do seu rosto... um verdadeiro rosto de Madona! Essa expressão, misto de candura e gravidade persuasiva, que é única, muito sua... e que se manifesta tanto no sorriso ingénuo como no olhar sonhador. E então senti o desejo de a reproduzir.

- É o que eu digo: quer pintar-me o retrato! - repetiu, desconfiada.

- Não! Desejo pintar um quadro que seja o complemento do primeiro... Chamar-se-á Filha das Ruínas! E por muito pouco que consiga transmitir à tela a sua expressão, esse segundo trabalho não fará triste figura ao lado do outro.

Não me respondeu logo. O rostozinho infantil voltou-se para a torre e, muito calada, reflectiu na sugestão que acabava de lhe dar.

- A filha das ruínas! - murmurou, passados minutos - Sim, devia ser uma coisa bela! Contudo, seria preciso que o novo quadro não fosse a repetição do primeiro... as ruínas têm múltiplos aspectos e terá de escolher um, totalmente diferente do anterior.

- Procurá-lo-emos os dois, se o permitir.

- Seja! - decidiu-se de repente - Alegra-me poder ajudá-lo um pouco... Oh! - emendou, confusa – Bem sei que não estou à altura de prestar-lhe qualquer auxílio, mas divertir-me-á vê-lo trabalhar!

- Nesse caso, está combinado! Amanhã trarei a

nova tela e ambos decidiremos e escolheremos o ponto mais conveniente.

- Amanhã?... Amanhã não posso vir muito cedo.

- Basta que a encontre aqui depois do almoço.

- Assim está bem! À tarde tenho o tempo livre I

Cá estarei com o meu tricot.

- Muito bem! A filha das ruínas será uma gentil Bretã de pernas nuas, tamancos de madeira e um cão deitado aos pés. Agrada-lhe?

- Por enquanto, agrada.

- Pode conservar o vestido branco... a sua elegância não prejudicará o conjunto, visto ser habitual...

- Talvez prefira ver-me envergar o vestido esfarrapado da Mignon?... Com os cabelos soltos e a pequena touca usada pelas rapariguitas da terra?

- A ideia è excelente! Ficará melhor ainda.

À medida que combinávamos este projecto, parecia-me ver o meu futuro quadro esboçar-se, fixar-se na tela e o entusiasmo arrebatava-me.

E agora, que via já a imagem da jovem Bretã associada à minha obra, ser-me-ia muito doloroso renunciar a essa ideia.

- Verá, minha gentil amiga, será um quadro magnífico! E para recompensar o trabalho que lhe dou, além da reprodução que lhe prometi, oferecer-lhe-ei ainda uma prenda... o que quiser, à sua escolha!

Ao pronunciar esta oferta tão espontânea, pareceu-me ver um relâmpago de malícia iluminar os lindos olhos escuros que me fitavam.

Sorrindo, Maria Clara observou simplesmente:

- Aí está uma frase bem parisiense! Em Paris, segundo creio, usam conquistar as mulheres pela sua garridice...

- Meu Deus, suponho que também na Bretanha! Por exemplo... a mademoiselle.

- Eu?

- Sim! Vejo-a sempre elegantemente vestida: meias de seda, avental de rendas, unhas rosadas!... Atrever-se-á, porventura, a dizer que as Bretãs não gostam dessas futilidades como as outras raparigas da cidade?

Uma sombra velou a fronte infantil, e, um pouco bruscamente, Maria Clara observou:

- Contudo, posso afirmar-lhe que, na sua maioria, as raparigas Bretãs pensam mais na tarefa de cada dia do que nos adornos que hão-de usar ao domingo.

- Sim, talvez as outras... Mas a mademoiselle, tão linda, estou certo de que não pensa senão em obter um novo vestido para estrear.

Mais uma vez as belas pupilas tomaram uma expressão de dureza, mas eu dera largas à galantaria e em nada reparei. Um rapaz da minha idade julga-se sempre no direito de tomar certas liberdades quando vê uma rapariga usar trajos demasiadamente elegantes para a sua humilde condição. Além disso, sentia-me tão feliz por ver que ia estar de qualquer forma ligada a mim pelo meu futuro quadro, que me tornei mais familiar.

- Sabe, minha amiguinha, depois do nosso primeiro encontro tenho pensado muito em si...

Não tive, porém, ocasião para adiantar mais o meu ousado discurso!

Maria Clara levantou-se, hirta, um pouco pálida e mais hostil do que nunca.

Os lábios, vincados num jeito de ironia, atiraram-me, com o desdém com que se atiraria um osso a um cão, estas bruscas palavras de despedida:

- Boa tarde! Aproxima-se a hora do jantar e minha tia espera-me...

Sem parecer notar o meu ar contrito, afastou-se tranquilamente, depois de ter assobiado a Taiaut...

Nem mesmo me dirigiu uma palavra de cólera! Para ela, era como se não existíssemos, eu e as minhas galantarias intempestivas.

Desorientado pela brusca resolução, fiquei imóvel, como que pregado ao chão, vendo-a afastar-se na sua atitude altiva.

- E que tal está a garota? Nem ao menos se lhe pode dirigir um pequenino cumprimento!

Nesse caso, para que se veste com tanta elegância?

O seu desdém fustigou-me como uma chicotada, partia sem mesmo apressar o passo, como se nada tivesse a temer de ninguém - confiava na protecção do cão, é claro - E fui obrigado a reconhecer que, se o trajo era apurado de mais para a sobrinha duma humilde camponesa, a atitude e o porte, em compensação, eram irrepreensíveis.

- Que diabo de mosca lhe mordeu, então?

Alcunhei-me de idiota, de parvo, três vezes parvo, e de insolente. Que necessidade tinha eu de falar assim à pequena?... E se amanhã ela não aparecesse? Era bem feito e eu não teria mais do que merecia.

Um pouco triste, agora, dobrei o cavalete e fui guardá-lo com a caixa das tintas no sítio habitual. Depois, agarrei no quadro e tomei o caminho da aldeia.

O regresso foi pouco alegre. Subjugava-me um peso enorme, pouco justificado, na verdade, pois o facto de ter feito algumas apreciações lisonjeiras sobre o vestuário de Maria Clara não constituía, por certo, grande crime... Em geral, todas as mulheres gostam que os homens lhe admirem as toilettes. Além disso, a jovem não se mostrara zangada e limitara-se a deixar sem resposta os meus galanteios. Sim, mas partira... sem ao menos dizer «até amanhã», como era de esperar depois do nosso acordo!

O passeio não dissipou a minha má disposição.

E ainda por cima a atmosfera estava carregada de electricidade. Aproximava-se uma trovoada. O céu escurecera e as avezitas voavam baixo, piando aflitivamente, no horizonte apontavam pesadas nuvens, que corriam velozes, prestes a entreabrirem-se sobre os campos ressequidos.

Vendo que o aguaceiro não tardava, apressei o passo e ainda não tinha alcançado a hospedaria e já começavam a cair as primeiras gotas.

Catarina Le Coz não possui o delicado espírito de observação de Maria Clara. A excelente criatura admirou, como è natural, o meu quadro, mas logo em seguida falou-me do pintor de tabuletas que reside em Ploudalmezeau. Segundo parece, pinta paisagens admiráveis. Mal sabe a boa mulher o serviço que me prestou! As suas ingénuas apreciações moderaram-me o entusiasmo um pouco vaidoso que a emoção da jovem Bretã havia exaltado.

Reconheço agora que o meu quadro não é nem uma obra-prima, nem um borrão, mas apenas um trabalho razoável, o qual conseguirá produzir uma pontinha de emoção, visto que Maria Clara chorou ao vê-lo.

Mas que digo eu?

Consegui traduzir nele um pouco de emoção?... Que presunçoso!...

Foi o meu próprio trabalho que comoveu Maria Clara ou o castelo imaterial, que haviam acrescentado na paisagem?

Pergunta difícil e um pouco humilhante para o meu amor-próprio.

No meu quarto, mais uma vez examinei atentamente o quadro... O castelo acrescentado era muito vago, como se tivesse deslizado subtilmente por entre as árvores. Aquela composição estava, na verdade, bem feita, não obstante a tinta translúcida se limitar apenas a marcar ao de leve os contornos... Sim, não podia duvidar! Toda a emoção provocada pelo quadro era devida a essa evocação e o meu próprio trabalho não influía em coisa alguma para isso!

De repente, um pensamento rápido interrompeu-me o exame. Abandonando o quadro, corri a ver a lista das tintas que Carmindo, o meu fornecedor, me dera antes de sair de Paris...

Já calculava: entre elas não vi mencionado o cristal. Não costumo usá-lo e tenho a certeza de que não se encontra na caixa entre as tintas guardadas nas ruínas... Contudo, o artista misterioso empregou-o para acrescentar o meu quadro.

Portanto, tem à sua disposição uma outra colecção de tintas.

Esta conclusão mais me excita os pensamentos e estou ansioso porque chegue o dia de amanhã para poder examinar os meus pincéis, que deixei tão bem limpos esta manhã. Quem sabe se também dispõe de pincéis...?

Catarina Le Coz possui uma colecção completa de postais com vistas da região e que ela vende aos fregueses a um preço acessível a todas as bolsas. Entre eles vêem-se alguns bastante antigos, mesmo da época anterior à Guerra de 1914. Amarelecidos pelo tempo e até sujos, muitos deles não encontraram comprador, mas, mesmo assim, a hospedeira havia-os guardado.

Procurei, então, ver se descobria algum que representasse o antigo castelo de Kéridec.

Encontrei três que me apressei a comprar e, radiante com o meu achado, confrontei os postais com a enigmática silhueta.

Dois deles são idênticos! O desconhecido, para o pintar, copiou, portanto uma antiga reprodução: vêem-se, apenas esboçadas, as mesmas torres, construções e campanários e, o que é mais interessante ainda: existem pequenos pormenores que são rigorosamente exactos... demasiadamente exactos, mesmo... porque teria sido impossível pintá-los de memória.

Isto não quer dizer que o meu mistificador habite Voulch, mas não deve ser um estranho a estes sítios.

Conhecendo bem a região, lembrar-se-ia, talvez, do antigo castelo, e servira-se dum postal ilustrado semelhante áqueles que acabava de comprar a Catarina.

Interroguei a minha hospedeira, mas a boa mulher não se lembrava de ter vendido qualquer vista do castelo, havia muitos anos. Sou obrigado a informar-me na aldeia.

Tento circunscrever as minhas pesquisas a um círculo limitado, mas é difícil consegui-lo. Contudo, sinto a impressão de ter desvendado um pouco a personalidade do tal ente misterioso.

Esse homem, que emprega tintas que não possuo, não deve habitar muito longe das ruínas, visto que no curto espaço de duas horas pôde munir-se dos elementos necessários para sobrecarregar a paisagem... ou, então, seria preciso admitir que premeditava o facto e tomara de antemão as suas precauções... Nesta última hipótese, deveria ter-me espreitado para saber quando eu daria a tela por concluída...

É evidente que estas deduções são muito vagas e deixam margem a todas as suposições.

Um facto, porém, me parece singular: é que na aldeia ninguém soubesse da existência de um pintor na região, e que a própria Maria Clara, assídua frequentadora das ruínas, nunca o tenha encontrado. Seja dito de passagem que até agora o tal desconhecido aproveita para as suas visitas a hora em que me ausento para almoçar, a mesma também em que a jovem Bretã toma as suas refeições...

Ora aí está um cavalheiro que usa de grandes precauções para praticar uma acção bem pouco recomendável! O prazer que experimenta em me mistificar compensará, de facto, tantas preocupações?

Catarina Le Coz não está ao facto das diversas aventuras sucedidas no meu quadro.

Se lhas contasse, toda a aldeia as conheceria dentro em pouco e ririam de mim. Como é natural, seria mais um malefício atribuído às ruínas, o que iria aumentar-lhes a má reputação. Parece-me ouvir já a boa hospedeira declarar com trémulos na voz:

«- Eu bem o tinha prevenido, senhor Marcos! As ruínas estão enfeitiçadas. Vive ali um génio mau. Não volte lá, olhe que lhe acontece desgraça!»

Maria Clara, conquanto seja menos positiva do que Catarina, tem também má impressão das ruínas e acha sacrílego que se zombe do Génio que as habita!

É curioso como a velha hospedeira, cheia de preconceitos arcaicos, e a jovem e moderna camponesa, que é a sobrinha de Mariannick, se entendam, sob este ponto de vista.

Se estivessem ambas combinadas para me perturbar o espírito, não procederiam de forma diferente.

 

Está a chover e essa chuva miudinha, que cai sem descanso desde ontem, lança sobre os campos um véu de melancolia. Não posso sair da hospedaria e vagueio pela casa como uma alma penada.

Brr! São bem pouco alegres as planícies da Bretanha quando chove!

Esta manhã, apesar de continuar a chover, fui procurar, primeiro o prior de Voulch, e em seguida o administrador do concelho. Mas nem um nem outro souberam dar-me os esclarecimentos que desejava.

Ao cura contei toda a verdade, as mistificações de que havia sido vítima. Esse, pelo menos, não acreditava em intervenções sobrenaturais.

- A história é singular... zombaram de si, è evidente, e estou certo de que, mais dia menos dia, acabará por descobrir o autor da brincadeira...

O administrador empregou linguagem diferente.

- Não sei que exista qualquer pintor na região, nem mesmo perto daqui. Além disso, ninguém iria escolher, para pintar, o sítio de que me fala, já o previno. É um lugar perigoso, frequentado por espíritos maus... Por duas vezes uns homens que se atreveram a atravessar a charneca de noite, partiram uma perna e nunca conseguiram compreender como lhes acontecera tal desastre.

- Naturalmente estavam embriagados e tropeçaram nas pedras...

- Sim, é isso o que pretendem as más-línguas, mas os pobres diabos negaram sempre! Fosse como fosse, por mim, se estivesse no seu lugar, não tornaria a ir pintar para um sítio tão perigoso.

Agradeci os bons conselhos do administrador, mas não será a queda dos seus dois administrados que me fará acreditar em fantasmas!

Quando há festa na terra, raro è o homem que não se embriaga! Algum retardatário quis talvez encurtar caminho atravessando a charneca, e como esta se encontra semeada de pedregulhos e as pernas tinham pouca firmeza, era inevitável o choque... do qual resultou o acidente que atribuem aos Espíritos! Basta um pouco de reflexão para se concluir que só com o cérebro turvado por frequentes libações os sinistrados se atreveriam a atravessar a charneca a uma hora tardia da noite.

De dia e com a cabeça limpa dos vapores do álcool, os camponeses, eivados de crendices, não se arrojam a percorrê-la, quanto mais de noite! Estavam embriagados, não podia ser doutra forma, conforme tive a honra de o afirmar ao senhor administrador.

O merceeiro, que è também sapateiro e vende tabaco, não possui qualquer bilhete postal antigo. Declarou-me que há muitos anos tem o seu fornecimento esgotado e que por certo não conseguirei encontrar nenhum na aldeia...

Portanto, não foi em casa dele que o meu mistificador se documentou.

Em conclusão, só consegui obter informações negativas, fosse onde fosse que tentasse colhê-las...

Todos me enervam com as suas estúpidas histórias de fantasmas. Nunca ouvi dizer que um espectro pudesse fazer o trabalho dos vivos. Até aqui, a tarefa desses seres imaginários consistia em arrastar cadeias e passear os seus sudários alvejantes pelos pontos mais disparatados. E mesmo assim só o faziam em noites escuras e em sítios dos mais inacessíveis.

Mas à luz do dia... e em plena charneca!...

E não estou eu meio tonto, por minha vez? Se é razoável admitir sequer uma hipótese verosímil a semelhante fábula!

O que me faz enraivecer é não conseguir encontrar-lhe uma explicação sensata... um indício!... Nada, absolutamente nada!

Enfim, o sol surgiu e posso voltar a sair.

Já era tempo! Há dois dias que estou fechado, tendo por única companhia Catarina e as suas tagarelices, e já começava a estar farto...

Maria Clara não apareceu, mas depois de dois dias de chuva não podia supor que eu aproveitasse a primeira aberta para subir às ruínas.

Justamente, a terra está remexida, a erva molhada e a aragem bastante fresca, é impossível trabalhar hoje, tanto mais que tenho que principiar por escolher o ponto que há-de servir de fundo ao meu novo quadro e o solo não está favorável para isso. Em diversos sítios vêem-se grandes poças de lama que o sol não teve ainda tempo de secar e não me apetece andar a patinhar em cima delas. O meu material sofreu um pouco com a chuva. A caixa estava cheia de água. Os pincéis e a paleta não tinham tornado a servir depois da limpeza que lhes dei, conforme pude verificar, mas o facto não me surpreendeu, já o esperava. O outro possuía tudo quanto era preciso, tintas e pincéis.

Pela forma como Maria Clara se separou de mim no outro dia, receava muito que não voltasse a vê-la e estava já decidido a ir procurá-la e a apresentar-lhe mais uma vez as mais respeitosas desculpas.

Todavia, depois do almoço, fui encontrá-la nas ruínas, sentada numa pedra com o cão deitado aos pés. Esperava-me, fazendo o seu interminável tricot.

Experimentei profundo prazer ao vê-la.

Vamos, a rapariguita era susceptível, mas não tinha tão mau carácter como supunha... ou então a sua atitude não passava de uma comédia e, no fundo, os meus galanteios agradavam-lhe mais do que queria deixar perceber.

Contudo, devo confessar que está hoje pouco conversadora.

Conforme havíamos combinado, envergava um vestido muito simples e separara os cabelos em duas compridas tranças. Os pés nus dançavam dentro dos grosseiros tamancos de madeira, com os quais, via-se, tinha grande dificuldade em andar.

Este trajo, uniformemente azul e sem enfeites, tornava-a ainda mais nova e dava-lhe a aparência de uma pequenina filha do campo, primitiva e rude.

Felicitei-a pela escolha do vestuário. Respondeu-me com certa frieza:

- Costumo sempre cumprir o que prometo. Compete-lhe agora não me fazer lamentar a minha condescendência.

Fingi não compreender a alusão. Por momentos, acudiu-me a ideia de lhe responder com um gracejo um pouco atrevido. Depois, receando vê-la levantar voo mais uma vez, abstive-me de o fazer. Começa a aborrecer-me essa humilde camponesa, essa garota que ambiciona que a tratem como menina de sala e me exige delicadezas e atenções. Se não precisasse tanto dela como modelo, há quanto tempo e com que alegria a teria tratado como merece pelas suas ridículas pretensões! Sentiria até extraordinário prazer em a sacudir e magoar um pouco!... O vestido claro, sem uma nódoa, sem uma ruga, as tranças caindo simetricamente de cada lado do rosto, enervavam-me...

Oh! Sim! Sentir-me-ia feliz se conseguisse destruir a majestosa serenidade em que se envolve.

Inquiri:

- Que pensa da situação escolhida para o quadro?

- Muito boa! - declarou, sem levantar os olhos do trabalho.

- Como pode sabê-lo? Nem sequer se deu ao trabalho de a ver.

- Parece-lhe... Essa parede arruinada, à direita, a torre à esquerda e estas silvas a meu lado... Fica muito bem!

- Podia ter-se levantado para julgar do efeito, visto daqui.

- Não é preciso. De resto, desmancharia a minha posição e gostava que o esboço ficasse pronto hoje.

- Ora! Depressa a retomaria!

- A saia não cairia já em idênticas pregas e eu bem vi o tempo que levou há pouco para a dispor. É preferível não sair daqui.

Tinha razão! De facto, havia levado bastante tempo para lhe compor a saia... mas a verdade obriga-me a confessar que os delicados e brancos tornozelos e os pezitos rosados me tinham perturbado um pouco, contemplados assim tão de perto.

Ainda estou admirado como Maria Clara acedeu com tanta facilidade a servir-me de modelo.

Reconheço que não è pela simpatia que me dispensa, pois está sempre pronta a zangar-se ao mais pequeno cumprimento que lhe dirijo.

Ontem à tarde partiu mais cedo e numa atitude hostil, só porque lhe disse que devia ser muito cortejada pelos rapazes da aldeia!

Com franqueza, não havia razão para me lançar um olhar capaz de me fulminar, como o fez.

E assim, hoje, encontrando-a no seu lugar habitual, com um ar muito sisudo, preferi apresentar-lhe imediatamente as minhas desculpas, só para ver o sorriso voltar-lhe de novo aos lábios.

- Não tive intenção de a ofender. Em geral, os rapazes quando conversam com uma rapariga gostam de dirigir-lhes estes gracejos inofensivos. Pessoalmente, tenho por si o mais profundo respeito.

Maria Clara achou talvez que exagerava, porque voltou a cabeça para o meu lado, olhando-me com atenção.

Nas feições expressivas lia-se certo espanto, mas conservou-se calada, talvez porque a surpresa não deixava responder-me. Por fim, soltou alegre gargalhada.

- Ah! Não merece a pena desculpar-se... Não dei importância ao que me disse. Lamento ter de lhe confessar que não me interessam as suas opiniões.

- Sim?! - exclamei, surpreendido - porquê?

- Porque, para uma certa Maria Clara que conheço, um cavalheiro que, sem que lhe tenha dado ocasião para isso, se permite tratá-la com menos atenções, não lhe merece consideração... Só pretendo a estima das pessoas delicadas, fique o senhor sabendo. As outras são-me completamente indiferentes!

Estas palavras, que me atingiram como balas, foram pronunciadas num tom levemente trocista e numa voz suave, harmoniosa, cheia de encanto.

- Não se pode, com mais delicadeza, chamar pouco educada a uma pessoa - observei, mal disposto - Devia, pelo menos, ter notado que acabo de lhe assegurar o meu mais profundo respeito.

A jovem tomou um ar frio, distante.

- Não quero saber do seu respeito, nem das suas palavras ou desculpas... de nada que venha de si, meu caro senhor.

- É severa de mais para comigo!-observei, derrotado pela persistente hostilidade que Maria Clara parecia ter ainda prazer em exagerar.

- Não, sou apenas sincera! Para que serve enganar-mo-nos mutuamente por uma simples questão de delicadeza?... Somos completamente estranhos um ao outro e estranhos continuaremos a ser sempre. A sua insistência faz-me até arrepender por ter acedido a servir-lhe de modelo. Impeliu-me apenas uma questão de amor pela arte e, principalmente, pelas minhas queridas ruínas, porque me sinto feliz ao vê-las reproduzidas pelos seus pincéis.

- Não foi por paixão artística que dançou comigo no dia do Perdão.

- Ah! É verdade! Acedi a dançar consigo e consenti que me oferecesse um pouco de nogado... Não o teria feito se pudesse adivinhar que devia desconfiar de si e que se aproveitaria disso para me perseguir.

Extraordinária garota! Lançava-me estas frases com calma e num tom glacial, do qual eu compreendia toda a ironia. Dir-se-ia que procurava, de caso pensado, ser-me desagradável.

Tanta má vontade revoltou-me. Já alguma vez lhe tinha dado ocasião para desconfiar de mim?

As suas palavras eram agressivas! Eu, porém, não era homem para as aceitar sem protestos... além disso, o meu amor-próprio masculino impelia-me a vencer aquela hostilidade que me opunha como um escudo. E, assim, quando voltei a dirigir-lhe a palavra, adivinham em que tom exageradamente atencioso o fiz.

- Sinto-me felicíssimo por saber que não esqueceu o nosso encontro inicial. Precisamente, quer quisesse quer não, aceitando a minha insignificante oferta, deu-me nesse dia direito ao seu sorriso.

- Oh! Num Perdão o facto è muito natural! Os nossos hábitos cordiais permitem essas liberdades entre rapazes e raparigas.

- O que não impede que o sorriso recusado hoje o tivesse obtido nesse dia.

- Que quer dizer?

Súbito rubor se espalhou pelo rosto angélico, como se a recordação da sua anterior amabilidade se lhe afigurasse perigosa.

- Nesse momento não fui para si um estranho - expliquei, com brandura - Estabeleceu-se entre nós uma pequena corrente de simpatia.

- Não sei onde pretende chegar com isso! - balbuciou, sem protestar.

- Apontar o facto, nada mais... Concedeu-me sorrisos... Contra os seus hábitos, dançou comigo uma... duas vezes até! Isso prova que o desconhecido que eu era então para si lhe merecia alguma indulgência e não o desprezo que hoje me demonstra.

- Eu não o desprezo. Desejo simplesmente que as nossas relações fiquem por aqui.

- Mas porquê, santo Deus?

- Oh!... Ainda o pergunta? É preciso então refrescar-lhe a memória constantemente?

- Ficar-lhe-ia muito grato se o fizesse.

De novo o rostozinho infantil se ruborizou de confusão.

- Nunca esqueço o nosso encontro em frente do santuário - explicou, constrangida - Não se lembra de que fomos joguetes do Destino, no dia da peregrinação?... Oh!... Sem querer ofendê-lo, julgo que o mais sensato, para fugirmos ao que nos ameaça, será procedermos mutuamente como se fôssemos dois adversários... dois pestíferos!

Toda a minha alegria desapareceu de súbito. Sim, o receio dessa garota ingénua, supondo que um perigo oculto nos ameaça, talvez não fosse infundado. Contudo, se de facto os deuses se haviam conjurado contra nós para nos serem desagradáveis, afigura-se-me que, unidos e de acordo, melhor poderíamos vencer essas forças adversas.

E expus-lhe a minha opinião:

- Eu creio que, pelo contrário, será melhor não dar largas à nossa imaginação... A ausência e o afastamento contribuem muito para exaltar os cérebros. Por exemplo, a noite passada, o receio de que os meus gracejos a tivessem ofendido não me deixou conciliar o sono. Mas bastaram cinco minutos de conversa consigo para dissipar o mal-entendido... E verifico também que as nuvens que pareciam ensombrar a sua encantadora fronte desapareceram e o sorriso volta a entreabrir-lhe os lábios.

- Porque as suas atenções e delicadeza restabeleceram a minha confiança.

- Pois bem. Tenho a impressão de que essa confiança deve continuar a existir... E, assim, para que o incidente da Virgem Garrida não continue a ser para nós uma ameaça, vou expor-lhe imediatamente os meus projectos para o futuro... Conhecendo-os, verá que não dão lugar a qualquer equívoco.

- Oh! Não vejo a necessidade! - protestou Maria Clara - Não tenho o mais pequeno direito às suas confidências...

- Perdão! Um perigo comum nos ameaça e só de acordo podemos conjurá-lo... Para isso é indispensável a maior sinceridade. Sou filho único e tenho uma encantadora mãezinha que ambiciona para mim um futuro maravilhoso... Sei que me destina uma deliciosa Parisiense que há muito sonha ter por filha... Quanto a mim, resolvi que, só muito tarde, me casarei, mas quando tencionar fazê-lo não deixarei de seguir os conselhos de minha mãe... No que me diz respeito, a situação é esta... Como vê, nos meus projectos de futuro não há lugar para a influência da Virgem Garrida e o nosso encontro diante do seu santuário não pode constituir um perigo para a minha liberdade nem comprometer a sua...

- Vejo, principalmente, que não julga o Destino força suficiente para submeter a sua vontade e a de sua mãe.

- Sim, confesso que não creio isso possível, visto não estar decidido a desviar-me um ápice da linha de conduta que tracei... mesmo que tivesse de vencer uma atracção súbita e inesperada... caso que não se dá, confesso-lhe com a maior franqueza...

- Invejo-lhe tanta segurança. Por mim, também tenho os meus sonhos de futuro, mas não me atrevo a formulá-los. Todos nós somos instrumentos da Providência e seja qual for a nossa vontade, ver-nos-emos obrigados a seguir as suas directrizes... Que destino será o meu... não casar nunca? Quem sabe? Talvez, mais tarde, amar o marido que me couber em sorte... ou ser obrigada a desposar um homem que não corresponda em coisa alguma ao ideal que formei para o companheiro da minha vida?

- Também disse: mais tarde?...

- Sim! Mas o mais tarde possível!... Antes de pensar no casamento, tenho ainda muito que fazer! E è por isso que me aterroriza tudo quanto de perto ou de longe possa prejudicar os planos que arquitectaram para mim desde a minha infância.

- Pois bem! Não acha que depois destas explicações francas e sinceras nos transformamos de dois adversários em dois aliados, ambos ciosos das suas esperanças e projectos futuros?... Por mim, conto consigo como uma excelente camaradazinha que me auxiliará a conjurar o perigo que nos ameaça mutuamente e estou certo de que, por seu lado, se sente mais tranquila com as minhas afirmativas e as intenções bem definidas sobre o programa da minha vida futura.

- Sim, de facto... - concordou Maria Clara, pensativa.

As lindas pupilas tomaram uma expressão vaga, como se contemplassem longínqua visão.

- Sim... - repetiu - De facto, o Céu admite que a nossa vontade possa salvar-nos de muitos perigos... Contudo julgo preferível que entre nós não haja a sombra de um flirt, nada de galanteios inúteis...

A minha companheira pronunciou estas palavras com tal convicção que não pude deixar de zombar jovialmente da persistente superstição que deixavam adivinhar.

- Vejamos, minha amiguinha, não posso acreditar que tome assim tão a sério a lenda da Virgem Garrida.

- Não sei, não quero dizer nada! Tenho visto casos extraordinários. E afirmo-lhe que se contam factos singulares e maravilhosos a respeito do poder misterioso da nossa protectora.

- Conta-se... conta-se! Como muito bem se diz, não passam de contos!

- Não. Verdades que eu própria pude verificar... e por tal forma inesperadas que não me atrevo a negar-lhe origem sobrenatural.

- Ora!... O acaso realiza às vezes verdadeiros milagres. Profunde-os e verá.

- Como julga possível profundar uma lenda?

- Transportando-a para a vida real... para a actualidade.

- Como?

- Admitamos, por exemplo, que um lorde, um nobre fidalgo Inglês, solteiro, visitava a aldeia e que, por acaso, se encontrava consigo diante do santuário de Nossa Senhora... Voluntariamente ou não, chegavam até a trocar um amigável aperto de mão... Julga possível que, devido a esse encontro, estivesse destinada a ser lady, mulher de um Par de Inglaterra?

A comparação pareceu-lhe tão divertida que soltou uma gargalhada.

- Não, com efeito... Se o encontro è pouco provável, o casamento que dele resultaria é perfeitamente inadmissível.

- Pois bem! Posso apresentar-lhe dez, cem, milhares de exemplos como este... eu e a princesa herdeira de um país europeu?... Admite como possível que eu despose uma neta de Rockefeller? Ou a Maria Clara um bispo protestante ou um pope da igreja russa, e assim sucessivamente?

- Mas o senhor vai procurar os seus exemplos apenas nas classes elevadas, quando nós dois não passamos de simples mortais.

- Ah! Será então necessário concluir que o poder da vossa Virgem não atinge os grandes deste Mundo, mas simplesmente os pobres-diabos sem eira nem beira?... É prudente na sua solicitude, a tal Madona... Deixa os poderosos ocuparem-se sozinhos dos seus casamentos... receia meter-se com eles...

- Como se atreve o senhor a proferir tais blasfémias! - protestou a rapariga, horrorizada.

- É o que depreendo das suas palavras... Vamos, confesse! Isso é mais do que religião, chega a ser superstição.

- Valha-me Deus! O senhor tem uma tal maneira de demolir as nossas humildes crenças que pouco falta para que me queira convencer de que não tenho razão.

- E não tem... pelo menos, quando tenta fazer-me acreditar que a Virgem pode obrigar uma encantadora rapariga a desposar, por exemplo, um velho rabugento, que ela não conhece nem ama, só pelo facto de terem passado ao mesmo tempo diante do seu Santuário... Respeito todas as crenças e adoro as lendas, porque quase todas elas traduzem ingénua poesia: mas, graças a Deus, possuo o bom senso suficiente para discernir o que nelas existe de verdadeiro e de fantástico... A lenda da Virgem Garrida è deliciosa e acredito firmemente que a vossa Virgem possui tesouros de indulgência para os namorados... Mas, creia no que lhe digo, pessoa ingénua e crédula... Nunca conseguirá fazê-la desposar o rei de Inglaterra ou o bei de Tunes, mesmo que passassem os dois, de braço dado, diante do Santuário.

Enquanto trocávamos estas impressões, as suas agulhas voavam velozes e os meus pincéis iam estendendo as tintas.

Como continuasse calada e pensativa, depois do meu pitoresco protesto, prossegui num tom de afectuosa camaradagem:

- Vamos, não leve a mal as minhas palavras! Conserve as suas ilusões, visto serem belas e darem-lhe tanto prazer. Mas, por favor, quando se tratar de mim, esqueça um pouco a lenda e as suas ameaças... Conversámos bastante sobre o assunto... Os factos, analisados de perto, tomam aspecto diferente do que considerados de relance, a imaginação è uma grande mistificadora e quantas vezes uma alta montanha não passa, quando nos aproximamos dela, de um pequeno grão de areia.

- Sim, talvez tenha razão... e visto que temos ambos um fim a atingir, podemos unir as nossas vontades para resistirmos a influências misteriosas.

- Nesse caso, combinado... Ficamos camaradas?... Sem qualquer pensamento reservado?

- Está dito. Bons camaradas! Bem sinceramente. Um franco aperto de mão confirmou o nosso acordo. Já era tempo, porque, com franqueza, tornava-se

perfeitamente ridículo prolongar-se por mais tempo a hostilidade injustificada e agressiva que existia entre nós.

É espantoso como esta humilde camponesa sabe cumprir a sua palavra. Desde que combinámos ser dois bons camaradas, nunca mais me tratou com aspereza.

Verifico como é fácil duas pessoas entenderem-se quando há boa vontade de parte a parte.

Poucos dias antes, não passávamos de dois estranhos um para o outro. Sempre que me avistava, apresentava-me um ar hostil e eu tratava-a com uma delicadeza glacial bem pouco acolhedora.

Agora tenho a impressão de que somos dois bons amigos.

Chega à charneca, todas as tardes, pelas duas horas e instala-se a pouca distância de mim, num pequeno montículo e, enquanto o seu tricot avança a olhos vistos, eu prossigo o meu quadro.

A conversa mantèm-se num campo correcto e amigável. Falo-lhe dos meus estudos nas Belas-Artes e das dificuldades dos primeiros tempos. Conto-lhe as nossas partidas e brincadeiras de estudante. Às vezes divirto-me a fazê-la corar, falando-lhe das alegres companheiras das nossas ruidosas festas.

Por seu lado, descreve-me a sua vida regular, monótona, de órfã sem alegrias. Não há episódios excepcionais na existência modesta que até hoje foi a sua, e pouco tempo leva a enumerar-me as suas recordações: o pensionato de Brest, as férias passadas aqui, depois a escola de novo, e pronto!

É provável que a sua vida se mantenha neste círculo sempre igual, «a casa, a aldeia» até o dia em que se case.

Maria Clara casada!

Vejo-a pelo braço de um campónio rústico, que a obrigará a trabalhos rudes... rodeada por garotos lambuzados, filhos desse marido grosseiro!... Realmente, a existência que espera esta delicada flor dos campos não è muito auspiciosa.

Tenho reparado que todas as raparigas Bretãs gostam de fazer tricot. É uma mania, um hábito doentio, a menos que não seja a consequência de um voto colectivo, por tal forma esta ocupação absorve as atenções da mocidade feminina da região.

Maria Clara não abre excepção a este delírio. Sem mesmo fixar o trabalho, a lã corre-lhe pelos dedos e as agulhas parecem voar.

- Que prazer pode sentir uma mulher activa em fazer constantemente um trabalho tão insípido como o tricot? - observei certa vez.

- Ocupa as mãos sem interessar o espírito - respondeu - O pensamento conserva a liberdade, percorre o seu ciclo, é o melhor meio que conheço para se poder sonhar sem estar ociosa!

Evidentemente! Visto por esse prisma, o tricot è uma coisa excelente! Resta saber se esse desvaneio prolongado é higiénico, moral e fisicamente, para as mulheres que a ele se entregam...

Agora já estou tão habituado a ver Maria Clara no seu posto habitual, com o inseparável companheiro deitado aos pés, que fico desapontado quando chego primeiro e não distingo o seu vulto esbelto sentado nas ruínas.

Às vezes questionamos os dois... Oh! Simples brincadeiras para a arreliar, que não têm consequências e servem para passar o tempo. Essas pequenas escaramuças trazem-nos um pouco de animação, pois sem elas as nossas sessões de pose seriam às vezes muito aborrecidas e monótonas.

Hoje, porém, uma delas tomou um carácter mais sério. Felicitei Maria Clara por saber conservar-se perfeitamente imóvel sem estragar a pose. Não mexe um dedo, é maravilhoso!

- Dir-se-ia que nunca fez outra coisa, palavra de honra!

- Contudo, é a primeira vez que sirvo de modelo, mas sempre imaginei que seria muito difícil satisfazer um pintor: o silêncio é obrigatório e a imobilidade ainda mais.

- E por isso faz o possível para me contentar?

- E claro!... Para ganhar o que me prometeu.

A voz tinha uma acentuação trocista. Ergui os olhos.

- A prenda! - inquiri, malicioso, procurando descobrir-lhe no rosto a pequenina ruga do descontentamento que já notara diversas vezes quando me referia à elegância do seu vestuário.

Não pestanejou.

- Não esqueci ainda a reprodução do quadro - elucidou.

- Está combinado, mas há ainda a prenda.

- Evidentemente - replicou com simplicidade - Há ainda isso.

Fiquei radiante! A minha insistência forçou-a a desmascarar a sua garridice e tive a impressão de ter obtido sobre ela uma pequenina vitória.

Infelizmente, não me contentei com ela e foi tomando o ar mais sério possível que me informei:

- E pode saber-se, minha amiguinha, o que prefere?

- Um colar de autênticas pérolas - ripostou com placidez.

- Apre! - repliquei com ironia - Só isso?

- Sim! Não me ocorre outra coisa. Tenho tudo quanto desejo... só me falta esse colar.

Falava com tal seriedade que perguntei de mim para mim se estava zombando ou não.

Larguei a paleta e parei de pintar. Observei-a com insistência e, perante a fisionomia impenetrável de pequena esfinge, cujos olhares nem sequer se dirigiam para o meu lado, senti desvanecer-se toda a minha ironia.

- Diga-me, minha gentil amiga, é sincero o seu pedido? Deseja o colar de pérolas?

- Ao menos uma vez, quero ser franca! Desejo.

- Tem empenho nessa jóia?

- Tenho!... Como recompensa pela minha boa vontade em lhe servir de modelo para a Filha das Ruínas.

- Infelizmente, as suas sessões de pose não merecem que as pague por tal preço - declarei, tentando levar ainda o caso para a brincadeira.

- Oh! Já calculava que um pobre artista, como o senhor, não podia oferecer-me objecto tão caro.

Os meus olhos mergulharam nos seus.

- Não me desafie, garota endiabrada!

- Porque não é conveniente provocar os loucos, diz a Sabedoria das Nações.

- Justamente.

- Nesse caso não se fala mais nisso - resolveu em tom indiferente.

E, sem o menor pesar, acrescentou:

- Acabou-se, passarei sem o colar.

Isto foi dito em tom moderado, como usualmente.

O incidente parecia sanado, que demónio me impeliu a prolongá-lo?

É que, por momentos, se me afigurou ver brilhar-lhe nos olhos um lampejo malicioso e irónico... E, devido a isso, uma exaltação febril me obrigou a falar.

Então, prossegui estupidamente:

- E, contudo, os seus olhos são tão lindos, minha amiguinha... a boquita tão graciosa e vermelha!... Afigura-se-me que por um beijo seu seria capaz de roubar as pérolas de minha mãe.

- Está doido! - exclamou bruscamente - Que bicho lhe mordeu?

Por sua vez, parou de trabalhar e observou-me, admirada.

- Nem a brincar se dizem semelhantes blasfémias!... De resto - acrescentou com desdém - não me servem as pérolas das outras mulheres... Só gostaria das que fossem compradas para mim, em especial.

- Ah! Cale-se! Para que me tenta assim?

Sem bem reparar no que fazia, levantei-me e avancei para ela como um autómato.

- E concedia-me o beijo que lhe pedi, Maria Clara, se lhe oferecesse esse colar?

A voz vibrava-me numa exaltação mal contida que era apenas o reflexo da que me ardia no peito.

De pé, muito perto de Maria Clara, curvava-me para ela com o olhar um pouco desvairado.

Pelo semblante perpassou-lhe uma sombra de desagrado e as lindas pupilas fitaram-me com espanto.

Examinou-me um momento como se me visse pela primeira vez... como se medisse bem a minha perturbação! Depois, as pálpebras desceram e de olhos baixos falou ao cão, que dormia a seus pés.

- Ouves, Taiaut? Ouves, meu bom cão!... Detestas os tentadores, não è verdade, meu velho... esses senhores de Paris que oferecem a lua às pobres camponesas da Bretanha? Cautela com eles, Taiaut! São muito perigosos esses cavalheiros que só pensam em nos iludir!

Em que tom infantil e pueril falava ao animal! Dir-se-ia uma criança que ralhasse com as suas bonecas sem se preocupar que a ouvissem.

Quanto a mim, tinha o cérebro em fogo.

Contudo, ao ouvi-la, o cão levantou-se, espreguiçando-se, pronto a obedecer-lhe. E não foi preciso que lhe dissesse «Cautela», para se voltar para mim mostrando-me os dentes.

- Para que põe sempre o cão entre nós? - exclamei, raivoso, recuando um passo - Tem medo de mim ou receia não poder conservar a serenidade?...

Por que motivo vibrava na minha voz tão intenso rancor? Que tinha eu?

Maria Clara não respondeu e nem sequer parecia ter-me ouvido. O rosto tomou a imobilidade do mármore e dir-se-ia que, insensivelmente, todo o seu ser se havia ausentado. Era como se entre nós se levantasse de súbito uma barreira de gelo.

Impassível, viu as horas no pequeno relógio de pulso, porque também tem um, essa humilde camponesa que parece tão ajuizada e que serenamente pede aos rapazes um colar de pérolas! E como a hora indicada no mostrador não era certamente a que esperava, levantou o braço e encostou o relógio ao ouvido.

Todos estes gestos foram efectuados com uma fleuma imperturbável, sem se dignar olhar para mim. Era como se não existisse e não se preocupasse comigo nem com as minhas tolas e imbecis reflexões. Bem sabe que ao mais pequeno gesto o cão me saltaria à garganta.

Agora arruma as agulhas e enrola o trabalho. Que vai fazer? Deixar-me... como antigamente!... Esta ideia roubou-me toda a energia.

- Oh! Não faça isso, Maria Clara, não se vá embora! Era uma brincadeira... Veja, vou sentar-me e recomeçar a pintar.

Maquinalmente, enxuguei o suor que de súbito me cobriu a testa. E, ao regressar para junto do meu banco, tive a impressão física dum aniquilamento completo... O cérebro esvaído, oco de pensamentos!...

Que se passara?... Que tinha eu dito?... Não sabia!... Foi como que uma loucura súbita e inesperada! Estava completamente transtornado.

- Oh! Não calculei... não podia saber! Meu Deus! Acredite, Maria Clara, estava louco, não sei bem o que fiz nem o que disse!

Desculpas incoerentes, mas que são, contudo, sinceras e a expressão da verdade.

As mãos da jovem pararam de enrolar o malfadado tricot, que parece ser o termómetro das suas resoluções.

Fitou-me com ar severo, por momentos, o olhar imperioso pareceu querer penetrar as minhas pobres pupilas confusas e suplicantes. E de súbito soltou uma gargalhada alegre e prolongada.

- O mafarrico do sol! - exclamou, risonha - Julguei que tinha endoidecido, senhor Marcos.

Ri e fica!... Respiro! Parece-me ter recuperado num momento o meu equilíbrio moral.

- Sim, foi do sol! -repeti, maquinalmente-Sufoca-se!...

O calor tem as costas largas, mas visto que Maria Clara tomou tanto a bem este... alarme, digamos assim... estou um pouco irritado com ela por o ter, involuntariamente, provocado.

- Nunca mais torne a pedir um colar de pérolas a um homem, minha pequena! São coisas que despertam sempre pensamentos perigosos!

- Oh! - protestou - Pedi-lhe as pérolas como poderia ter pedido um castelo!... Falou-se de enfeites... então, mencionei uma jóia cara, que um pobre artista, como o senhor, não podia oferecer-me, visto que, além da reprodução que me prometeu, não desejo mais nada de si... Era uma brincadeira e o exagero do pedido devia ter-lho feito compreender.

O olhar muito puro e franco não dava lugar a equívocos e só eu fui culpado pela minha súbita perturbação.

Sorri... com um sorriso bem lastimoso... ao recordar todas as loucuras que me passaram pela cabeça durante alguns instantes! Vamos, compreendo bem agora que só a minha fatuidade masculina provocou o desagradável incidente...

Ainda bem que tudo acabou numa brincadeira... Contudo, intimamente, fiquei um pouco humilhado, o homem, em conclusão, não passa de um estúpido animal, e não tenho razão para me sentir orgulhoso com isso.

E por fim esta história grotesca transtornou-me a cabeça. Não me sinto hoje capaz de trabalhar e a mão recusa-se a fazer qualquer coisa de jeito!

Tenho de me libertar desta espécie de letargia: vim à Bretanha para pintar e não para estar ocioso!

Há um mês ainda, tudo quanto se referia às ruínas me entusiasmava e estava disposto a reproduzi-las debaixo de mil aspectos diferentes.

Agora, tudo me parece inferior ao meu sonho.

Maria Clara è uma encantadora companheira.

A pobre pequena, surpreendida com a minha atitude, segue-me com os olhos, admirada e inquieta talvez com as minhas hesitações.

O que ainda há mais para notar é não me fazer perguntas nem a mais leve observação. Dir-se-ia que compreende as perplexidades do artista, esse trabalho preliminar que precede a inspiração, as dúvidas deprimentes que parecem tornar momentaneamente inútil todo o esforço.

Quando há pouco cheguei à charneca não a vi, e a sua ausência desanimou-me tanto como se na paisagem faltasse da repente qualquer elemento essencial.

Daí a pouco tempo, porém, um canto dolente se fez ouvir por entre as ruínas.

Escuto, um pouco perturbado, a voz fraca mas harmoniosa, que me envolve, parecendo descer do Céu. Levantei os olhos.

Lá no alto, Maria Clara retomou o seu lugar no cimo da torre, estatueta graciosa recortada no azul do firmamento, os pés nus balouçando no vácuo, a imagem infantil mais uma vez ressuscita a meus olhos e mais uma vez experimentei o desejo imperioso de esboçar aquela atitude tão perigosa.

Não quero, contudo, encorajá-la a permanecer em tão arriscada posição.

- Maria Clara, desça imediatamente! Na sua idade é uma loucura expor-se assim.

- Olá! Como passou, senhor Marcos?

- Desce ou não, garota impertinente... Se não me obedece, vou eu buscá-la.

- Não creio! Não o julgo capaz de o fazer, meu caro senhor...

- Ah! Sim? Pois veremos...

- Não, não! Eu desço! Seria capaz de se matar! E ouvia-a resmungar:

- Que maçadores são os homens!... Nunca deixam as mulheres fazer a sua vontade... "Vir cá acima buscar-me! Como se fosse possível fazê-lo, este senhor Parisiense!

O seu tom desdenhoso despertou-me o desejo de lhe demonstrar que um homem da minha idade tem tanta agilidade como ela, para tentar seja que escalada for. Precipitei-me para ir ao seu encontro, mas, mal transpus os espessos silvados, apareceu-me o cão, mostrando-me os dentes como da primeira vez.

- Então, Taiaut, não vês que sou eu... deixa-me passar... tua dona corre perigo... vou buscá-la...

Mas o animal não estava disposto a condescendências!

Recebera ordens e como visse que eu tentava obrigá-lo a infringi-las, tornou-se ameaçador.

- Estúpido animal!... És teimoso, meu velho. Se a tua dona precisasse de auxílio, nem sequer me deixarias aproximar dela.

- Quando acabará de querer subornar o meu cão,

senhor Marcos?

Maria Clara estava diante de mim, rindo com ar trocista, e tão infantil com as suas tranças cor de oiro emoldurando-lhe o rosto, que, deslumbrado com o seu sorriso, me esqueci de lhe ralhar.

- Não torne a ir lá acima, sim? Asseguro-lhe que è perigosissimo.

- Ora! Já o fiz centenas de vezes.

- Bastava um passo em falso...

- Pode ser. Mas as raparigas da Bretanha nunca dão passos em falso.

Continuou a rir e todas as veleidades de censura se desvaneceram ao contacto da sua alegria.

«As raparigas da Bretanha nunca dão passos em falso...». Como ela dissera esta frase! Senti-me profundamente impressionado.

E por que razão a recordação da mãe me atravessou repentinamente o espírito... da mãe a quem atribuíam tanta história escandalosa?...

Sim, minha pequena Maria Clara! As jovens Bretãs dão às vezes maus passos... mas nunca o saberás por mim. Não quero que os teus olhos puros conheçam a maldade e a tristeza...

Decididamente, existem sempre duas naturezas diferentes num só homem, porque, ao mesmo tempo que estabelecia o paralelo entre Maria Clara e a mãe, ocorreu-me à ideia que as concepções severas da sociedade faziam recair sobre a filha o peso das culpas maternais.

Sob a influência destes pensamentos, não sei encarar a jovem com o olhar brilhante... Compreenderia Maria Clara o que se passava em mim? O caso è que mudou de expressão e cessou de sorrir.

- Vamos ao trabalho, senhor Marcos! - intimou com certa aspereza - Não tem tempo a perder. Receio não poder servir-lhe de modelo por muitos mais dias, é preciso adiantar o quadro se não deseja que fique por acabar.

A ameaça produziu-me o efeito estimulante duma chicotada.

- Por acabar, o meu quadro?

- Pois claro, se não o termina depressa.

- A pintura não è coisa que se faça por tarefa. Depressa, não conseguirei obra de jeito.

- Se não trabalhar, ainda menos a fará. Resmungando, retomei os pincéis e é preciso

acreditar que a admoestação me foi salutar, pois o quadro avançou bastante.

Desastre: choveu toda a noite e os aguaceiros sucederam-se todo o dia.

Aproveitei uma aberta, corri às ruínas e fui encontrar os pincéis nadando dentro do pequeno recipiente onde os tinha deixado e que a chuva enchera.

Regresso tão sombrio como o tempo, a alma triste... tão triste como a chuva, parece afogada em brumas... pesadas como as nuvens que vogam no firmamento.

Esta manhã, porém, surgiu o bom tempo. Voltou o sol, encontrei Maria Clara bem disposta e cheia de boa vontade e trabalhei com entusiasmo.

A minha gentil companheira anunciou-me a sua próxima viagem a Brest, com a tia. E nessa ideia começou uma linda camisola de lã branca.

- Para envergar com uma saia azul!-explicou-me.

Essa viagem afigura-se-me estar destinada a desempenhar um papel importante na vida de Maria Clara. É a segunda vez que me fala nela e a maneira porque o faz e os sumptuosos preparativos de vestuário que precedem a partida indicam indiscutivelmente que a visita à grande cidade bretã representa um interesse primordial para o meu modelo.

A tarde clara e luminosa vai, sem dúvida, permitir que adiante o meu trabalho.

Maria Clara evidencia sempre a mesma actividade. Decididamente, a viagem a Brest deve estar para breve. Irão terminar as nossas agradáveis sessões?... Tenho medo e tento em vão obter maiores informações. A minha companheira sorri, mas não me responde.

E todos estes pensamentos sobre o meu modelo, cuja vida e carácter conheço tão pouco, serão um obstáculo para não obter uma obra perfeita?

O caso è que não consigo harmonizar a expressão da boca e do olhar.

Contudo, é fácil de traduzir: os olhos perdidos no espaço parecem querer descobrir qualquer mistério, enquanto o sorriso estranho e muito pessoal exprime ironia e talvez um desafio à desventura.

É bem isto, mas não consigo transmiti-lo à tela. Será porque a sua alma é ainda, para mim, desconhecida?... Será preciso que estude melhor a psicologia da minha companheira!

- Não consigo fazer nada, hoje - confessei a Maria Clara.

- Contudo, vejo-o dar grandes pinceladas no conjunto da verdura e pedregulhos.

-Sim, não há dúvida. A paisagem não me oferece dificuldades e o fundo está quase concluído. Mas quando se trata, como agora, de fixar o seu rosto na tela, é necessário ter muito cuidado, a maior minúcia para conseguir reproduzir exactamente a expressão ingénua das feições, o contorno delicado da boca, o sorriso alegre e malicioso ao mesmo tempo, e os olhos... esses olhos, Maria Clara!

Ao mencionar as duas pedras preciosas encastoadas sob a fronte delicada, não fui senhor de ocultar a admiração que me subjugava. A jovem não deixou de o notar.

- Ah! - exclamou, um pouco aborrecida - Os meus olhos assustam-no?

- Quase! São tão profundos, tão perturbadores!... E, contra minha vontade, ao dizer estas palavras

baixei a voz e a mão deixou de manejar os pincéis. Contemplei-a e balbuciei em tom abafado:

- Os seus olhos... são capazes de condenar um santo!...

Esta resposta provocou-lhe o riso. Respondeu com ironia:

- Essa agora!... Mas o senhor não é santo, ninguém o pode tomar por isso... Quanto a estar condenado!...

- Pode afiançar que não estou?

- Se posso afiançar?... Meu caro senhor, os condenados não costumam ter tão boa aparência, segundo me parece! Devem apresentar o olhar desvairado, as feições transtornadas! Em conclusão, uma fisionomia que exprima todos os tormentos do inferno... enquanto que o senhor!... Ah! Sempre tem cada ideia!

O riso fresco ecoava numa sucessão de notas cristalinas e não pude evitar de sorrir ao ouvi-lo. Não deixei de afectar, contudo, um ar consternado e pesaroso:

- Lamento sinceramente, Maria Clara, não ter conseguido despertar-lhe um sentimento de generosa compaixão e o desejo de me confortar nas minhas mágoas. Será preciso, para o alcançar, tomar a aparência de um moribundo minado pela tuberculose ou de um pobre diabo condenado eternamente a arder nas chamas do inferno?

Riu com o maior gosto e protestou:

- Isso não!... Nem uma nem outra coisa. Pessoalmente, só aprecio as pessoas que são dotadas de excelente saúde.

Mais uma vez um demónio oculto, me impeliu a arreliá-la.

- E entre tantas existe talvez uma a quem admira mais particularmente!

As feições tomaram imediatamente uma expressão de dureza. Contudo, simulou não ter compreendido.

- Não percebo! Que entende por admiração particular?

- Quero eu dizer - repliquei, procurando termos que não pudessem magoá-la - na aldeia existem rapazes saudáveis e bem dispostos, gostando de fazer a corte às raparigas. É possível que entre eles haja um com quem simpatize mais e lhe desperte maior interesse...

Maria Clara encolheu os ombros.

- Hum! E porque há-de ser um só?... Simpatizo com todos, meu amigo! - acrescentou, trocista - Com todos, fique sabendo!... Sejam eles de Kèridec ou não... Os nossos rapazes da Bretanha, sólidos, robustos e saudáveis, despertam-me sempre admiração!

Nesse momento brilhou-lhe no olhar um raio de malícia e tive a impressão de que zombava de mim.

E então não insisti, porque compreendi que me estava tornando ridículo.

A nossa sessão foi hoje interrompida por uma trovoada extremamente violenta. Com empenho de aperfeiçoar um pormenor que ontem não consegui concluir, não dei por ela, e Maria Clara, talvez pelo receio de perturbar o meu trabalho, não me preveniu da ameaça atmosférica.

Onde tinha eu a cabeça?... Que me molhasse, vá!... Mas a minha gentil companheira, exposta à chuva com um vestido tão leve... era capaz de apanhar frio.

Seja como for, as consequências imprevistas deste dilúvio inesperado vieram confirmar a existência singular que rodeia Maria Clara. Tive ocasião de o verificar em Ty-Bianet onde o mau tempo me conduziu. Eis como o caso se deu:

Quando, muito absorvido, me entregava ao trabalho de retocar a parte inferior do rosto, procurando apreender as mais leves contracções do modelo a fim de não desprezar o mais pequeno traço, as nuvens abriram-se em verdadeiras cataratas que desabaram sobre nós.

Seguiu-se um «salve-se quem puder» mais demorado para mim devido a querer pôr a coberto o meu material, compreendendo o quadro e o cavalete.

Maria Clara, que conhece a fundo as ruínas e todos os seus recursos, alcançou um abrigo, formado por duas paredes coroadas por espessa abóbada de hera. Taiaut, que segundo parece não gosta de trovões nem de relâmpagos, ocultou-se atrás da dona para não os ouvir nem ver.

Enquanto eu me apressava a abrigar o melhor possível os meus apetrechos no seu reduto habitual, entalando-os com pedras a fim de que o vento não os arrebatasse nem rasgasse, a chuva, que caía em torrentes, encharcava-me até aos ossos. Os relâmpagos sucediam-se sem interrupção, iluminando com o seu clarão lívido as ruínas, que se destacavam sinistramente nesse céu de Apocalipse, enquanto o ruído dos trovões se prolongava num troar incessante.

- Felizmente, não sou muito atreito a constipações e o calor mantém-se não obstante a tempestade - pensei - não tenho um fio enxuto no corpo.

Voltei-me para Maria Clara, que seguia, assustada, todos os meus gestos.

De repente, um ribombar terrível fez-nos estremecer, e uivar Taiaut de terror.

- Venha depressa, senhor Marcos! Não permaneça assim à chuva! Este abrigo chega perfeitamente para dois - gritou-me com voz aflita.

Acabei de tomar todas as precauções necessárias e em dois saltos estava junto dela.

- Em que estado se encontra! O fato todo molhado! - observou com interesse.

- Não tem importância - respondi para a tranquilizar - A chuva neste tempo não é muito fria e o calor acabará por me enxugar.

- Engana-se. É preciso desconfiar das trovoadas, nesta região. Conheço-as bem. Estamos próximos do mar e daqui a pouco o vento vai soprar do largo, produzindo considerável abaixamento de temperatura. Pode fazer-lhe mal se continuar assim.

- E a Maria Clara?

- Por mim não há receio! Apanhei apenas uns pingos de chuva.

- Então não se preocupe comigo.

- Isso não! Não desejo que adoeça e deixe o quadro por acabar. Precisa de secar o fato e para isso temos de sair daqui, quanto mais depressa melhor.

- Mas para onde quer ir?... A aldeia fica longe e não sei que haja perto qualquer abrigo.

- Sei eu, felizmente. A casa de minha tia não fica longe. Acenderemos uma boa fogueira na chaminé e enxugará o fato em pouco tempo.

- Temos de percorrer o caminho atè lá.

- Evidentemente... Contudo, correndo pelo bosque há menos probabilidades de nos molharmos do que se ficarmos aqui. Além disso, o caminho estimulará a circulação e não nos deixará esfriar. Repare em Taiaut. Parece perguntar-nos porque esperamos para abandonarmos esta abóbada de verdura que daqui a pouco não bastará para nos abrigar da chuva.

- Com efeito, não dá sinais de abrandar.

- Assim parece!... Então, que resolve?... Partimos ou não?

- Se me garante que não vamos incomodar sua tia, aceito da melhor vontade.

- Minha tia, pelo contrário, ficará zangada se souber que nos arriscámos a apanhar uma constipação, tão perto de casa.

- Nesse caso, vamos. Se quer ter a bondade de me indicar o caminho, estou à sua disposição.

- Cortando pelo bosque fica a dois passos! Preocupa-me, contudo, o seu calçado leve. Por mim, com os meus tamancos, não receio a humidade, mas o senhor?...

- Paciência!... A caminho!

A perspectiva de poder secar o fato era-me extremamente agradável, mas não me sorria menos a ideia de ir enfim penetrar no ambiente onde vivia Maria Clara.

Atravessámos a charneca a correr, depois, contornando as ruínas e caminhando por entre a erva ensopada que nos encharcava até aos joelhos, alcançámos o bosque. As árvores resguardavam-nos das bátegas de chuva, mas em compensação experimentava desagradável sensação ao sentir caírem-me no pescoço os grandes pingos que se filtravam através da folhagem. Felizmente, bastaram dez minutos de corrida para avistar Ty-Bianet, que no decurso dos meus passeios nunca conseguira descobrir. Em breve lhe transpusemos os ombrais.

Na semiobscuridade da sala onde penetrámos, Mariannick Guilherme cosia a roupa com os óculos empoleirados na ponta do nariz. Ouvindo abrir-se a porta levantou os olhos. Ao ver-nos, um sorriso bondoso lhe iluminou as feições.

- Meus pobres pequenos! Como vêm encharcados! - exclamou, abandonando o trabalho começado.

Com uma autoridade que me causou certa surpresa, Maria Clara decidiu:

- Depressa, tia, uma braçada de sarmentos na lareira. Vou mudar de vestido, mas o meu companheiro não traz um fio enxuto e é necessário arranjar-lhe um fato para vestir enquanto o dele seca... Já conheces este senhor, não è verdade, Mariannick? É o pintor Marcos Abel, de quem te tenho falado muitas vezes... Está hospedado em casa de Catarina Le Coz... e interessa-se muito pelas ruínas de Kèridec...

- Bem sei, bem sei! - respondeu a tia, solícita - O factor também me falou várias vezes de si. Segundo me disse, o senhor é um grande artista e faz coisas maravilhosas... Mas dispa o casaco, depressa, deve estar gelado. Torça-o! Isso mesmo... aí à porta... não se preocupe se molhar o chão, com uma vassourada atira-se a água fora...

Segui-lhe os conselhos à letra e a velhota aprovava todos os meus gestos.

Enquanto falava, levantou com o forcado um molho de juncos que estava a um canto da casa e atirou-os para a vasta lareira que nunca deixa de existir em toda a casa bretã.

Em breve as labaredas subiam num alegre crepitar, acompanhadas por estalidos secos e pequenas explosões que projectavam cintilantes faúlhas, rápidos clarões logo extintos. E foi com beatitude que me aproximei da chaminé e estendi as mãos para as rubras chamas.

Maria Clara tinha desaparecido por pequena porta, ao fundo da casa, encoberta por um reposteiro. Um aparador antigo, um relógio rústico e comprida mesa enquadrada por cadeiras de espaldar, esculpidas, ocupavam o lado fronteiro, onde se abriam a janela e a porta da rua. Num dos extremos do vasto aposento erguia-se a chaminé monumental e encostada a ela a cama fechada, à bretã, no outro extremo, perto do reposteiro, segundo armário formava um recanto discreto para os trabalhos de limpeza e lavagens.

Era desse lado também que se encontrava a porta por onde desaparecera Maria Clara.

Em resumo, o mobiliário, elegante de mais para uma casa aldeã, causou-me certa admiração, um gosto delicado presidia ao seu arranjo. A mobília antiga, de carvalho escuro, brilhava como se fosse polida. Não pude deixar de pensar que qualquer antiquário de Paris daria bom dinheiro por todos esses móveis seculares... Porque afirmava, então, Catarina Le Coz que Mariannick era pobre? Alguns desses móveis valiam uma pequena fortuna, mormente o armário-cama, cujas portas delicadamente esculpidas representavam o baptismo de São João, e Jonas no ventre da baleia.

Devia ser ali que dormia a velha Bretã porque era essa a única cama que se via no vasto aposento. Era provável que o quarto de Maria Clara fosse ao lado, para onde se retirara a fim de mudar de roupa.

Gostaria bem de conhecer esse cantinho íntimo que lhe estava reservado. Mais do que qualquer outro elemento, ela me revelaria o carácter pessoal do meu enigmático modelo, tão ajuizada mas ao mesmo tempo tão garrida.

A jovem, porém, correra cuidadosamente o reposteiro e fechara a porta, e assim limitei-me apenas a visioná-la em pensamento.

Tinha-me sentado de costas para a lareira, no próprio degrau da imensa chaminé e enquanto prosseguia nas minhas observações, expunha o busto ao agradável calor a fim de secar a camisa. Maria Clara apareceu pouco depois.

- Oh! Assim não! - exclamou - O senhor Marcos não pode ficar com a roupa toda molhada!

E, voltando-se para a tia, apostrofou com o seu tom decidido que mais uma vez me surpreendeu:

- Vejamos, Mariannick, não tens para aí guardado qualquer fato de homem que possas emprestar ao senhor Marcos, enquanto o dele seca? Ele, assim, vai apanhar uma doença!

- Sim, julgo que conservo ainda os fatos do meu defunto marido - respondeu a velhota com toda a placidez.

- Nesse caso, porque esperas para lhos dar? Vamos, avia-te!

- É que... são tão pouco elegantes...

- E depois?... Dá-lhos depressa. Afirmo-te que o senhor Marcos vai achá-los muito melhores do que aqueles que tem vestido.

- Confesso que... mas custa-me dar-lhe tanto trabalho - acrescentei, um pouco aborrecido pelo modo um tanto brusco como Maria Clara tratava a tia.

Mariannick voltou-se para mim, sorrindo.

- Não se preocupe com isso. Vou já dar-lhe o fato... que de resto está perto... Aqui tem!... Ali, atrás do armário onde guardo as minhas caçarolas, pode vestir-se à vontade.

O programa realizou-se em poucos minutos e em breve reapareci, envergando o trajo bretão, com múltiplos botões e jaqueta bordada, tudo, porém, excessivamente largo para mim.

Ao ver-me, Maria Clara soltou uma gargalhada.

- Que bem lhe fica! - observou alegremente - Está magnífico! Lindamente mascarado!

- Pelo menos, estou quentinho! - agradeci, reconhecido, a Mariannick, não obstante a singularidade do meu trajo.

- Assim vestido, parece o meu avô. É evocador - zombou a rapariga, que estava de bom humor.

E apontou-me a mesa, sobre a qual se via estendido, à guisa de toalha, um grande guardanapo.

- Ande, sente-se ali, na minha frente, meu avozinho. Vamos brincar aos jantarinhos, como deveria ter sucedido algumas vezes também ao dono desse fato... Aí tem pão, manteiga e carne fria, vamos, coma, meu amigo. Entretanto, Mariannick vai-nos preparando uma chávena de café bem quente, o que acabará por nos restabelecer... Beba... vamos brindar por esse passado tão querido!

- Sinto-me, na verdade, envergonhado por lhe causar tanto incómodo, minha senhora - desculpei-me mais uma vez, dirigindo-me à velha aldeã, que parecia divertidíssima com as observações de Maria Clara - Quanto a brindar por alguém, como tão amávelmente me propõe sua sobrinha, começo por erguer o meu copo em sua honra, minha senhora, agradecendo-lhe de novo o seu carinhoso acolhimento.

Mas a velha Bretã deteve-me a mão que ia levar o copo à boca.

- Não - contrariou com ar grave - Desejo que o primeiro brinde feito por si nesta casa seja em honra de minha sobrinha...

- Em honra de Maria Clara?... Mas bebo à saúde de ambas, à sua e à dela, que me guiou para este refúgio benévolo e acolhedor.

- Não, não! À minha, não! - insistiu Mariannick - Apenas por ela... pela sua família... pelo seu passado... por todos aqueles que ela adora e que não se encontram presentes...

Surpreendido e admirado, encarei a boa mulher e depois a sobrinha, que se tornara pensativa. Porque me obrigaria ela a prestar essa espécie de homenagem a Maria Clara?

Porém, mesmo sem compreender, obedeci. Ergui o copo e toquei no da jovem.

- Por si, minha gentil amiga... aos seus olhos puros, ao seu futuro, que auguro maravilhoso... Finalmente, bebo por aqueles que adora, visto que sua tia assim o deseja.

- E por todos os ausentes - repetiu religiosamente Mariannick.

- Sim - balbuciou, com ar grave, Maria Clara, que parecia achar tudo muito natural! - Bebamos pelos meus queridos ausentes... e também pelo castelo de Kéridec... pelas suas ruínas... e pelo seu quadro - terminou com um pálido sorriso.

No amor-próprio do artista pintor existe sempre uma tão grande dose de inconsciente vaidade, que eu, a quem parecera singular o facto de me obrigarem a brindar em honra de pessoas desconhecidas e que já tinham morrido ou se encontravam ausentes, achei muito natural que homenageassem o meu quadro, que não era nem um ser vivo nem um objecto presente.

Eis um facto que vem transtornar todas as opiniões que formei a respeito de Maria Clara. Até hoje tem-me aparecido sob os mais diversos aspectos: a garota de branco, pura e imaculada, no dia da procissão, a rapariguita pretensiosa exigindo que os rapazes a tratem com o máximo respeito, a jovem audaciosa e imprudente empoleirada no alto da torre, a pequena aldeã sentada no talude da estrada com o seu tricot caído no regaço, o modelo de espantosas intuições artísticas - finalmente, a sobrinha muito querida e amimada de Mariannick.

Todas estas personalidades tão diferentes formam já um conjunto de múltiplas aparências muito difíceis de determinar, agora, porém, não sei... não sei que pensar!

Vejamos porquê:

Há dois dias que a chuva, miudinha e seguida, torna impossível todo o trabalho na charneca.

Fechado em casa, as horas pareceram-me horrivelmente compridas e por isso, hoje, depois do meio-dia, almocei depressa e, aproveitando uma aberta, saí, dirigindo-me rapidamente a casa de Mariannick.

- Devo-lhes uma visita de agradecimento - pensei para justificar o meu interesse em lá voltar -Tia e sobrinha acolheram-me e trataram-me com tanta bondade que não posso eximir-me a este simples e amigável acto de delicadeza e atenção.

E para isso engoli o almoço a correr a fim de aproveitar o curto intervalo que me concedera a chuva.

Quando cheguei a Ty-Bianet, as duas mulheres não tinham ainda almoçado e iam justamente sentar-se à mesa...

E logo começaram as surpresas.

Oh! Destacadas, não passam de factos insignificantes, sem importância, mas, reunidas, constituem uma longa cadeia de observações.

Primeiro, verifiquei mais uma vez que, sem existir arrogância de um lado e servilismo do outro, a velha Bretã trata a sobrinha com certa deferência. Por exemplo: enquanto Maria Clara se senta sozinha na comprida mesa de carvalho, Mariannick come sentada no degrau da chaminé, com a colher de pau e o prato de barro em cima dos joelhos.

Pelo contrário, a mesa para Maria Clara estava posta com elegância e certo gosto até: linda toalha, copo de cristal, talheres de prata e pratos de porcelana. A cidra foi servida não em simples garrafas, como è de uso nas pobres casas bretãs, mas sim num gracioso canjirão de louça. Estes requintes, tão raros nos interiores bretões que até hoje me foi dado ver, obrigaram-me a pedir desculpa pela minha inopinada visita. Podia supor que era eu a causa directa deste cenário sumptuoso se a mesa não estivesse já posta quando entrei.

No entanto, Maria Clara parecia estar perfeitamente à vontade. Todo esse luxo de que a rodeavam afigurava-se-lhe natural, é evidente, pela forma como se instalou comodamente diante desse único talher, numa cadeira antiga e de feitio bastante curioso.

Assim entronizada, parecia uma castelã ocupando o lugar de honra que lhe era devido. Com um gesto, como o faria a mais experimentada dona de casa, convidou-me a tomar lugar junto dela, à sua direita.

- Não tenho vontade de comer. Acabei agora de almoçar. Como sabe, em casa de Catarina Le Coz almoça-se sempre ao meio-dia.

- Bem sei... Também nós... Mas hoje atrasámo-nos um pouco. No entanto, para me fazer companhia, não recusará um copo de cidra e depois uma chávena de café. Será para mim mais agradável do que comer sozinha.

Aceitei com prazer, satisfeito por ter assim ocasião de estar junto dela, mas a palavra sozinha, que não se coibira de dizer diante da tia, dispôs-me mal.

O almoço começou em silêncio. Maria Clara servia-se muito simplesmente dos pratos que a tia lhe apresentava. Punha as travessas diante de si, escolhia o que mais lhe apetecia, e depois devolvia-as à sua parente sem se preocupar se esta comia por sua vez ou não. Estranhando o facto, observei:

- A senhora Guilherme não costuma participar das suas refeições? Ficaria desolado se a minha presença viesse transtornar em qualquer coisa os vossos hábitos.

Maria Clara olhou-me, admirada, e sem compreender.

- Por que motivo iria a sua presença privar a minha tia de comer! Não, ela assim está mais à vontade!

Não insisti, o tom da resposta marcava um espanto tão profundo e sincero! Além disso, recordei-me de que entre a gente do povo acontece muitas vezes as mães gostarem de servir assim as filhas, como se fossem suas criadas.

Lembrei-me também do que me tinha contado Catarina Le Coz, dessa sobrinha tão exageradamente amimada desde os seus tenros anos, dessa jovem superior às suas companheiras, não tomando parte nos seus divertimentos e folguedos senão por uma espécie de condescendência.

A atitude de Maria Clara e a resposta que me dera havia pouco justificavam todos os comentários. Não compreendia bem por que motivo a minha amiguinha, ordinariamente tão simples, aceitava com tanta facilidade que a velha tia se colocasse numa situação de inferioridade e no lugar de uma criada.

De mim para mim achava o facto digno de censura, mas ao mesmo tempo encontrava nele um estímulo para a minha audácia masculina... Quando se serviu o café, já eu admirava um pouco mais do que seria razoável os lindos olhos azuis, a alvura da cútis e a boquita risonha da minha companheira.

O vestido moldava-lhe o corpo e fazia sobressair as suas linhas de uma perfeição admirável.

A beleza daquela garota tão adulada era na verdade perturbante e desencadeavam-se-me no cérebro mil projectos loucos.

A certa altura, quando a tia estava de costas, vendo ao meu alcance, sobre a toalha, a mão muito branca e esguia, agarrei-lha. Mas os dedos ágeis libertaram-se rapidamente e Maria Clara repreendeu-me com ar severo:

- Tenha juízo, senhor Marcos!... Que ideia foi essa agora?

No estado de espírito em que me encontrava pouca importância dei a esta advertência e defendi-me o melhor que pude:

- A Maria Clara é tão bonita que não posso resistir ao desejo de lho dizer.

- Prefiro que guarde para si as suas apreciações.

- As verdades devem-se proclamar bem alto!

Os cantos dos lábios ergueram-se-lhe numa expressão trocista.

- Se não tem outras a contar será melhor calar-se.

- É impossível conservar-me silencioso quando me domina o imperioso desejo de entoar louvores em sua honra.

- Não me agradam lisonjas nem faço o menor empenho na sua admiração. Vá oferecer a outras a mercadoria, meu caro senhor!

Mordi os lábios, mais uma vez derrotado pelo tom sem réplica em que repelia as minhas veleidades de galanteio. Contudo, não me dei por vencido.

- E, no entanto... -insisti, com ardor - se eu estivesse verdadeiramente apaixonado por si, Maria Clara?

- Se... - repetiu, impassível - Felizmente, estamos ainda no campo das vagas hipóteses. Pois bem! Fique sabendo, meu amigo, se tal desgraça lhe acontecesse seria uma verdadeira catástrofe para si.

- Porquê? - inquiri, perdendo pouco a pouco a cabeça ao notar a sua fraca defesa.

- O senhor é insuportável! Quantas vezes é preciso repetir-lhe o que penso? Não me obrigue a fazê-lo mais uma vez, suplico-lhe! Contente-se com a boa camaradagem que nos une e não procure complicar a nossa existência com tolices que não servem senão para destruir a nossa agradável convivência!

- Tolices? - protestei, não querendo ceder perante argumentos tão fracos - Se eu fosse realmente sincero?... Vamos, Maria Clara, encare essa possibilidade!

- Oh! Meu Deus! Chega a fatigar-me, senhor Marcos - volveu com aborrecimento - Para que faz suposições desagradáveis?

Depois prosseguiu com animação:

- A situação è esta: há dias apanhámos uma molha e ofereci-lhe a minha casa para secar o fato e aquecer-se. Isso deu-lhe pretexto para nos fazer hoje uma visita de agradecimento... Mas fiquemos por aqui. Nestas quarenta e oito horas nada mudou, só pelo facto da chuva o ter introduzido nesta casa onde nunca havia posto o pè.

- Pinta tudo com cores muito severas, Maria Clara!... Como se eu não soubesse dar o apreço devido à grande honra que me fez recebendo-me em sua casa... Enfim, não posso deixar de a achar encantadora e de lho dizer.

- Encantadora, está dito, mas não passe daí! É uma sobremesa muito insípida, essa que me oferece, e vai perturbar-me a digestão... compreende?

A conversa decorrera em voz baixa, num tom abafado. Pouco a pouco, porém, Maria Clara foi elevando a voz, por tal forma que as últimas palavras de protesto chegaram aos ouvidos da velha tia. E logo esta, voltando-se para a sobrinha, interpelou-a no dialecto bretão, do qual nada compreendi. Ouvi, contudo, pronunciar muitas vezes o meu nome.

A voz gutural, de ásperas acentuações, fez-me supor severos comentários.

De resto, Maria Clara aprovou imediatamente:

- Tens razão, minha boa Mariannick, este cavalheiro è insuportável! Já lho tenho dito centenas de vezes! Apesar disso, teima em fazer-me a corte!

Voltando-se para mim, designou-me com o dedito afilado, cuja unha bem tratada logo notei:

- Que homem tão obstinado... ainda não compreendeu que mais dia menos dia a sua insistência me obrigará a suspender as nossas sessões de pose... ou até a fechar-lhe a minha porta, o que me custará imenso, mas não deixarei de o fazer se tanto for preciso!

- Seria uma injustiça! Expulsar um amigo unicamente pelo facto dele a achar bonita.

- Pouco me importa que me julgue bonita... desagrada-me apenas que mo diga.

- Preferia talvez que lhe dissesse que era feia e antipática?

- Seria a última palavra da amabilidade! Meu pobre amigo, não poderia, muito simplesmente, manter-se dentro das normas da simples cortesia e não dizer coisa alguma?

Começou a rir e acrescentou num comentário pouco lisonjeiro,

- Está provado que os homens são uns animaizinhos muito aborrecidos! Nunca estão contentes. Desejam sempre mais do que se lhes pode conceder. São insaciáveis por natureza e os seus apetites frenéticos conseguem estragar sempre o que há de melhor na convivência de duas pessoas educadas, mesmo de sexo diferente: a amizade e a confiança...

O tom reprovador e desdenhoso destas palavras fez-me encolher os ombros, contudo, não insisti nem tentei convencê-la, visto responder-me sempre com ameaças de repressão.

Enfim, porque se obstina em não me tomar a sério quando justamente me sinto cada vez mais sincero?

A chuva que cai sem interrupção impossibilita-me de ir ás ruínas terminar o meu quadro e esta inacção pesa-me a valer.

Tento dominar a minha impaciência, dizendo de mim para mim que è preciso encarar sorridentemente as contrariedades. E visto que não posso prosseguir o meu trabalho, resolvi ir a Brest, Justamente a minha provisão de tintas está quase esgotada e alguns dos pincéis reclamam substituição, aproveitemos, portanto, a ocasião para fazer novo sortimento.

A viagem no autocarro que estabelece a ligação da costa norte com a de oeste, atravessando toda a Bretanha, è verdadeiramente deliciosa. O encanto melancólico que emana das charnecas desertas e de rara cultura é pouco a pouco substituído pelo aspecto risonho dos vales sucedendo-se aos vales, onde abunda a mais luxuriante vegetação.

Brest é uma cidade alegre, cheia duma vida que nunca supus tão intensa. O que mais me admirou não foi tanto a beleza das largas avenidas e dos luxuosos estabelecimentos, como a animação que reina nas ruas, principalmente nas que descem para as docas e para o Arsenal.

Todo esse movimento me encanta subitamente, é uma antítese completa de Voulch e dos seus caminhos desertos.

Como tinha tempo, conclui todas as minhas compras antes do almoço. Em seguida e depois de ter restaurado as forças convenientemente, sentei-me no terraço dum café e, mergulhando em suave beatitude, observei, interessado, o constante vaivém dos transeuntes.

Os aspectos da multidão variada sucediam-se vagarosamente. Os uniformes dos marinheiros e oficiais da armada confundiam-se com os vestidos claros e garridos das mulheres e com os trajos modestos dos operários do Arsenal que retomavam as suas ocupações.

Era tão grande o número de pessoas que evolucionava debaixo dos meus olhos, que pensei se por acaso todos os habitantes de Brest não se encontrariam nas ruas áquela hora. Já uma vez na Bélgica, em Charleroi, experimentei impressão idêntica: a duma multidão ociosa deambulando sem motivo aparente pelas ruas e avenidas. Será talvez porque os habitantes das cidades manufactureiras sintam a necessidade invencível do movimento e que, finda a tarefa, se obriguem a um passeio quotidiano, digestivo e tonificante?

Não tive ocasião para profundar o problema. Sobressaltou-me inesperada visão.

Sonho ou enlouqueci?

Ao alcance da minha vista, deslizando por entre os grupos de passeantes, um soberbo automóvel rodava vagarosamente. Vinha do cais e subia em direcção à cidade alta. Ora dentro desse carro julguei ver um vulto e um rosto bem conhecido: Maria Clara!

A custo reprimi uma exclamação de surpresa, A jovem ia sentada ao lado de um homem novo, que ela ocultava em parte e cujas feições não consegui distinguir. Era bem Maria Clara, não estava equivocado! E mais perturbado fiquei ainda, pois não reconheci a Maria Clara de todos os dias, de loiras tranças e trajo de camponesa, na ocupante do automóvel que passava diante de mim. Não!... Era uma sua réplica, bem vestida, com chapéu e luvas, como a mais elegante Parisiense.

Pus-me de pé num salto e, sem mais reflexão, atirei para cima da mesa com uma moeda, e, sem me preocupar com o total exacto da despesa, precipitei-me para a rua e comecei a seguir o veículo.

Contudo, por muito devagar que este subisse a rua não consegui alcançá-lo. Se o motorista tinha dificuldade em avançar devido à afluência, por meu lado lutava com idêntico obstáculo ao querer caminhar com rapidez. No entanto, queria saber!... Se ao menos tivesse a sorte de arranjar um carro de aluguer...

Nada!

Impele-me febril excitação. Sem mesmo reparar no singular reflexo das minhas impressões, comecei a correr, o coração palpitante, alucinado pelo automóvel que se afastava.

Não notei que me tornava objecto de curiosidade para a multidão, que se admirava com a minha correria. É sempre cómico ver um homem a correr, a sua precipitação provoca comentários e ouvem-se risos de troça...

Mas, quanto mais corria, maior dificuldade encontrava em avançar por entre o povo que enchia as ruas. Era evidente que a distância que me separava do malfadado carro aumentava cada vez mais.

Em breve, este acelerou a marcha: vi-o afastar-se e por fim desaparecer, lá em cima, voltando a esquina duma rua.

O suor inundou-me afronte e, perante a inutilidade dessa perseguição, abrandei o passo instintivamente.

De repente senti-me muito desgraçado.

Não ter conseguido alcançar a minha juvenil companheira desolava-me... era para mim uma catástrofe!

- Meu Deus! Aquele homem!... Quem seria?... Que laços o unem a Maria Clara?

Todo o meu ser evocava o par entrevisto de relance... essa aproximação cruel da jovem e do desconhecido, num automóvel de luxo...

Como um cancro roedor, impunha-se a dolorosa certeza de que era para esse homem que Maria Clara se fazia bela... para ele que se guardava... e por causa dele que me desprezava! Atroz clarividência! Como se uma chama bem viva ardesse no mais íntimo da minha alma e sem que conseguisse definir bem a causa dessa imensa dor, brotaram-me dos lábios palavras de rancor:

- Pérfida! Quem tal poderia supor!... Zombava da minha sinceridade e ria-se da minha comoção!... E eu, tão cego, que não o compreendi... As horas corriam com tal suavidade na solidão da charneca imensa, debaixo desse céu tão puro, que me entreguei sem desconfiança à nossa camaradagem e amizade... Não suspeitava sequer da sedução aliciante que emanava dessa garota primitiva, mas encantadora.

Ás palavras de cólera sucedeu profundo enternecimento. Com a ponta dos dedos enxuguei raivosamente uma lágrima que me assomou às pálpebras e ao mesmo tempo foi como se espesso véu se rasgasse de repente diante dos meus olhos.

- Será possível? - bradei, desorientado - Que se passa em mim? Sofro, tenho ciúmes!... Nesse caso... Que loucura! Não, não amo Maria Clara!... Não passa duma camponesazita adorando o luxo... leviana, estouvada... e velhaca, talvez! Oh! Sim! E, acima de tudo, terrivelmente provocante.

Reconhecia agora certas coisas que não quisera ver então... certos factos cujo pensamento bastava para me fazer sofrer como se me queimassem com um ferro em brasa.

Compreendo agora para quem reservava os lindos vestidos... os adornos custosos! Já não encontro dificuldade em explicar a atitude de Marianick e da sobrinha, que conserva apenas a sua altivez e reserva aos olhos dos seus ingénuos conterrâneos?

Estas suposições eram tão verosímeis, mas ao mesmo tempo tão vexatórias, que por momentos supus poder recuperar o meu equilíbrio moral.

- Vamos! Um homem como eu não ama uma mulher como Maria Clara! Pode sentir, ao vê-la, uma certa perturbação, mais nada! A vida sossegada que levo há três meses, eu, o frequentador do Bairro Latino, fez-me lançar mão da primeira distracção que encontrei ao meu alcance...

Mais tranquilo pela orientação que tomavam os meus pensamentos, respirei melhor, e pálido sorriso me aflorou os lábios.

- É melhor assim, palavra de honra! Estava levando o caso para o lado do sentimento!... É menos perigoso agora!

E de mim para mim perguntava o que iria fazer para recuperar a minha despreocupação parisiense.

- Divertir-me, nada mais simples!... É até melhor passar aqui esta noite. A senhora Catarina, minha excelente hospedeira, não ficará com certeza em cuidado, se não me vir regressar no autocarro, compreenderá que é natural um rapaz da minha idade ficar uma noite em Brest. Vou ao teatro e até ao baile, se me apetecer! E, com todos os diabos, umas horas de alegria serão suficientes para me restituir a tranquilidade. Amanhã terei recuperado o equilíbrio moral. E que hei-de fazer até à hora do jantar? O cinema parece-me lindamente indicado. Vai desanuviar-me o espírito.

 

Fui ao cinema. O filme pareceu-me insípido! De resto, não conseguia prestar-lhe atenção. O pensamento estava longe, apesar dos meus esforços para lhe cortar o voo.

De repente, eram cinco horas, a meio da sessão, um impulso irresistível fez-me abandonar a minha cadeira e precipitar-me para a saída.

- É forçoso que parta imediatamente!

Preciso certificar-me se Maria Clara se encontra em Ty-Bianet ou não.

É que, subitamente, me ocorreu o pensamento de que talvez tivesse sido vítima de uma ilusão de óptica! Maria Clara, a quem atribuía tão negras acções, não estaria áquela hora muito sossegada, junto da tia? Com que prazer eu lhe apresentaria as mais calorosas desculpas se as minhas suspeitas fossem infundadas!...

Foi neste estado de espírito que, quase sem tomar fôlego, subi até à cidade alta. O autocarro estacionava na avenida fronteira à estação e a hora da partida devia estar próxima.

Contudo, calculei que, apressando o passo, ainda chegaria a tempo. A distância não era grande e, com efeito, precisamente no momento em que o veículo ia partir, alcancei-o, esbaforido, e tive a felicidade de poder subir para ele.

Sentado entre dois robustos camponeses que regressavam a penates, experimentei uma sensação de alívio.

Caso extraordinário! Sentia-me quase feliz por não ter levado por diante o projecto de ficar em Brest até ao dia seguinte. O cinema não me servira de distracção! Estava mal disposto e não consegui interessar-me pelo filme.

Que teria acontecido se tivesse de passar parte da noite em claro!

Decididamente, fiz bem em seguir o meu impulso!

No entanto, parecia-me que o autocarro não avançava. De manhã andava mais depressa. Foi o que observei ao cobrador.

- O senhor está enganado - protestou - Justamente à volta a estrada desce e por isso atingimos agora maior velocidade do que à vinda... ganhamos pelo menos um quarto de hora.

- É curioso... tive a impressão do contrário! Mas visto que o afirma...

- Se não acredita, pode verificar!

- Não insisti. O homem tinha razão, não o podia negar! Só à minha impaciência podia atribuir as culpas do erro.

E mais uma vez verifiquei que em todas as circunstâncias, entre as hipóteses admissíveis escolho sempre as mais desagradáveis, ou aquela que mais me fará sofrer.

Assim, à chegada, não teria sido mais razoável, da minha parte, recolher tranquilamente à hospedaria? Vou talvez adquirir em Ty-Bianet uma certeza dolorosa! Na dúvida existe sempre uma esperança! Para que preciso de saber, ponto por ponto, o que Maria Clara fez durante o dia?

Raciocínio esplêndido, mas que não me serviu para nada! Nunca o homem corre com tanta velocidade como quando pressente que uma desilusão o aguarda no fim dessa corrida.

E assim foi. Mal o autocarro parou na encruzilhada onde o esperara de manhã, já eu saltava para o chão e, percorrendo rapidamente o atalho, alcançava as ruínas e em seguida a espessura do bosque.

E foi quase a correr, com o calçado enlameado, de cabeça descoberta e carregado com os embrulhos, pois nem sequer me lembrara de os ir deixar na hospedaria, que entrei em casa de Mariannick.

- Onde está Maria Clara? - perguntei febrilmente à boa mulher, sem mesmo reparar no inconveniente tom de autoridade que tomara para a interrogar.

A velha Bretã voltou para mim o rosto calmo e examinou-me com curiosidade. Pareceu-me, contudo, que nessa ocasião o olhar não demonstrava a habitual franqueza.

A impaciência levou-me a repetir a pergunta.

- Onde está Maria Clara?

Mariannick fitou-me mais uma vez. Por fim decidiu-se a falar, mas fê-lo com a maior prudência.

- Minha sobrinha aproveitou o bom tempo para dar um passeio.

- Um passeio! - exclamei, estupefacto, porque esperava outra resposta - Maria Clara foi passear!... Valha-me Deus! Para que lado?... Vou tentar encontrá-la... Que caminho tomou ela, pode dizer-me?

Obtive, como única resposta, um vago gesto de ignorância.

- Foi à aldeia?

- Não sei. É possível.

- Ou talvez mais longe...

As minhas suspeitas aumentavam de momento a momento. Não acreditei uma palavra das que acabava de me dizer.

Justamente, Mariannick parecia hesitar, continuando a fixar-me sem que pudesse discernir o fundo do seu pensamento e tentou iludir:

- Porque iria ela mais longe? - inquiriu prudentemente - Não sei o que quer dizer!...

E a seguir, com impaciência mal contida, acrescentou, aborrecida:

- Não me lembrei de lhe perguntar onde ia! Se Maria Clara adivinhasse a sua visita, talvez me tivesse dito qualquer coisa... se, porventura, entendesse que devia dar-lhe satisfações dos seus actos... Mas naturalmente não lhe passou pela cabeça que o senhor viesse cá hoje.

- Sim, é provável que não esperasse a minha visita. Mas se calcula que não deve demorar-se, esperarei que volte, se me dá licença... Visto ter ido dar um pequeno passeio, como disse, não pode estar longe.

- Sim, se tem muito empenho nisso, pode esperar! - ripostou a velha Bretã sem demonstrar grande entusiasmo - Devo, contudo, lembrar-lhe que são quase horas de jantar e que Catarina Le Coz não gosta que os seus hóspedes cheguem atrasados. Sem querer dar-lhe ordens, julgo que seria preferível recolher-se a esperar aqui... Se assim o deseja, transmitirei o seu recado a Maria Clara, ou, então, venha o senhor mesmo dar-lho amanhã de manhã.

Experimentei súbito sentimento de desconfiança, porque era visível que a minha presença a incomodava... queria ver-me pelas costas. Salvo se desejava arrastar-me fosse como fosse... O passeio de Maria Clara não passava talvez de um estratagema com que procurava iludir-me.

A esta suposição senti crescer uma onda de raiva.

- Amanhã porquê? Não posso dar-lho hoje? - perguntei com impaciência.

Mariannick encolheu os ombros, resmungando.

Acha, com certeza, que falto a todos os deveres da discrição.

- Que demónio! O que tem a dizer a Maria Clara não pode ser, segundo me parece, de grande urgência. Fala com ela todos os dias... Amanhã de dia terá muita ocasião para a encontrar, enquanto que hoje, depois de jantar, è noite escura, não é a hora mais conveniente para falar a uma rapariga!

Se dispusesse do meu sangue-frio e estivesse mais calmo, teria, por certo, concordado com esta observação tão sensata e muito principalmente notaria as incorrecções que cometia havia momentos. Mas, infelizmente, não se dava esse caso. Encontrava-me muito enervado para poder contemporizar.

- Que me importa a hora! - repliquei com dureza - Desejo ver Maria Clara e esperarei o tempo que for preciso.

Com um gesto de resignação, a velha pareceu aceitar a decisão inevitável, os Bretões são fatalistas e não tentam lutar para deter o curso dos acontecimentos.

- Se o caso é assim tão urgente, faça como entender. Se o deseja, volte à noite... E, depois, talvez encontre Maria Clara pelo caminho... e poderá então fazer-lhe essa tal comunicação que não admite delongas...

Deixei-me embalar pela sugestão. Um encontro com Maria Clara era de facto possível.

Então, com impetuosidade idêntica à da chegada, abandonei a casa solitária e tomei o caminho da hospedaria.

Como era natural, não encontrei Maria Clara! E enquanto comia a sopa, pensava com raiva crescente que a tia estivera zombando de mim! A minha imaginação, sempre pronta a exagerar, sugeriu-me o pensamento de que a velha Bretã desejava afastar-me a fim de a sobrinha ter maior facilidade em entrar em casa com o namorado.

- Estúpido! Fui iludido e bem iludido! A tal Mariannick è sua cúmplice!

E porque esse procedimento me atingia directamente, achei-o muito censurávell... Talvez se ele me beneficiasse eu mudasse logo de opinião...

Esta lógica era detestável, evidentemente!... Não deixei de o notar e de me surpreender por isso.

- Porque razão, quando penso em Maria Clara, lhe atribuo sempre acções pouco recomendáveis? Sou odioso, na verdade!

Então, com toda a lealdade, substitui a palavra «namorado» por «companheiro».

De facto, nada me permitia, com o pouco que sabia, empregar outra expressão.,. Enfim, talvez Maria Clara regressasse no último autocarro, ou que, apesar das aparências, a tia falasse verdade, e não tivesse abandonado a região.

- Um passeio?... É um termo tão vago e de uma tal latitude!...

Indiscutivelmente, o meu espírito torturado vê tudo por mau prisma e supõe o mal onde ele não existe.

Muitas vezes, minha mãe, quando eu era pequeno, me fazia notar quanto era impulsivo. E se nesta ocasião estivesse junto de mim, não deixaria de verificar mais uma vez a facilidade com que me deixo arrastar pela exaltação...

«- Não fiques mais tempo na Bretanha, meu filho» - não deixaria de me aconselhar com a costumada prudência - «O isolamento não é salutar... A atmosfera em que vives é prejudicial para uma sensibilidade excessiva como a tua. Regressa depressa para junto dos teus companheiros de atelier! Uma cerveja tomada em alegre companhia torna-se mais proveitosa para ti do que essa vida austera de anacoreta retirado do Mundo, que actualmente levas».

E, evidentemente, a querida mãezinha teria toda a razão! Mas, segundo penso, no estado de espírito em que me encontro, sinto-me tão disposto a seguir os seus conselhos como há pouco a ser correcto e delicado com Mariannick.

Conclui a refeição com tal rapidez que Catarina Le Coz declarou que assim nem me fazia proveito.

- Tenho onde ir, minha boa Catarina - expliquei, reconhecido pelos seus cuidados quase maternais - Estou preocupado com o meu material... Vou examiná-lo... Espero que a noite esteja suficientemente clara para ver bem onde ponho os pés.

- Nesse caso, visto que comeu tão pouco ao jantar - disse-me a boa mulher - vou deixar-lhe uma ceia leve. Quando voltar talvez lhe saiba bem. Seja a que horas for, não se preocupe com isso. Sente-se tranquilamente e coma à sua vontade.

Tive o cuidado de não a fitar; a excelente criatura não teria adivinhado já o motivo do meu nervosismo?

É mulher e nada tola, a boa Catarina! Tenho-a interrogado tanta vez a respeito de Maria Clara que é capaz de já ter reparado sem eu dar por isso.

Com efeito, antes de sair obrigou-me ainda a tomar uma chávena de café e um bom cálice de Calvados. Segundo parece, em certos casos, os efeitos benéficos do álcool são indiscutíveis.

- Isto lhe dará mais forças, senhor Marcos. Quando o moral está abatido é preciso, pelo menos, não descurar o físico.

Os meus receios não eram infundados: Catarina não era cega.

 

Eis-me de novo em Ty-Bianet. O acolhimento que recebi de Mariannick, quando entreabri a porta e me viu no limiar, foi pouco entusiástico.

- Pois quê!... O senhor outra vez?

Esta simples exclamação teve o dom de me irritar.

- Maria Clara já voltou?

A voz vibrava-me em acentuações rudes e a mulher percebeu bem o meu estado de espírito.

- Minha sobrinha dorme. Está fatigada - respondeu com hostilidade - E, depois, salvo o devido respeito, senhor Marcos, acha próprio procurar uma rapariga a esta hora? Já à tarde lhe fiz compreender por meias palavras.

E sem mais cerimónias fechou-me a porta na cara.

Surpreendido com a repreensão, fiquei uns momentos imóvel, sentindo o desejo furioso de começar aos socos à porta. Talvez o barulho acordasse Maria Clara e pudesse assim falar-lhe.

«-Está a descansar!» - dissera Mariannick.

- Falar-lhe?

Seria um subterfúgio como outro qualquer ou Maria Clara teria de facto regressado?... Onde estava a verdade?

Com o cérebro em fogo, fiquei parado e hesitante diante da porta fechada, que para mim parecia tomar o aspecto de uma fisionomia agressiva e hostil.

Estou louco, com certeza. Faria melhor se me fosse deitar.

Assim me aconselhava a razão. Mas encontro-me por acaso em estado de ouvir a voz da razão?

É forçoso acreditar que não, visto que de súbito se desvaneceu toda a minha hesitação. Avancei para a janela que supunha ser a do quarto do meu modelo, guarnecida de persianas de madeira, nas quais bati violentamente, sem o menor rebuço.

- Maria Clara, sou eu!... Responda! Tenho de lhe falar com urgência, minha boa amiguinha!

A voz sonora ecoou pelos campos, mas, como era de prever, a janela continuou fechada e não obtive resposta!

Era de prever porquê? Nada natural, pelo contrário!... Se estivesse em casa, porque não responderia Maria Clara?...

Evidentemente, Mariannick mentira mais uma vez: a sobrinha estava ausente. Podia continuar a bater nessa maldita janela até o dia seguinte que não se abriria, com certeza.

De novo o bom senso me aconselhou a regressar a Voulch sem me preocupar mais com Maria Clara: nada tenho com o seu procedimento e não me assiste o mais pequeno direito de intervir na sua vida particular... Que lhe pode proporcionar o meu amor - se de facto existe? Oferecer-lhe o meu nome? Levá-la para casa de minha mãe? Fazer dela a mãe de meus filhos?

Não, não e não! Tudo em mim se revolta à ideia desse sacrilégio: essa garota provocante e pretensiosa tornada soberana do meu lar, a continuadora da minha Raça, a companheira da minha vida! Nunca, mil vezes nunca! Maria Clara não será minha mulher...

Nesse caso...

O rapaz digno que tenho sido até hoje tem o direito de continuar a perseguir assim uma rapariga?

- Não!...

Pois bem! Então seria melhor partir... voltar à hospedaria! É o mais sensato! Mas a pessoa ajuizada que eu julgava ser desapareceu para dar lugar a outro homem que a loucura domina. Nenhum argumento é capaz de me convencer... Só o instinto predomina. Não quero sair daqui. Hei-de descobrir o que Maria Clara pretende ocultar-me... Todo o meu ser se obstina e teima em conhecer uma verdade que vai por certo torturar-me.

E na minha demência, contudo, argumento logicamente:

- Se Maria Clara não está ainda, vai regressar com certeza; se pelo contrário se encontra em casa. Mariannick deve já estar deitada, conforme o hábito desta boa gente do campo que se levanta e deita com o sol e regula por ele o emprego do seu tempo. Não, não saio daqui quero ver como e com quem regressa Maria Clara, ainda que tenha de esperar toda a noite!

Concordo que procedendo como procedo me afasto cada vez mais do caminho da razão, mas, infelizmente, no estado de sobreexcitação em que me encontro, todo o raciocínio soçobra.

E, maldizendo o meu estúpido ciúme, reconhecendo que o meu modo de agir não é o de um homem digno, vou, contudo, ocultar-me entre os juncos, num ponto donde posso vigiar a estrada e ver a casa e onde fico abrigado da aragem fresca que sopra do mar. Sento-me no chão, com os cotovelos apoiados nos joelhos, a cabeça apertada nas mãos; e, amortalhado em profunda escuridão, de ouvido à escuta, assim vão passando minutos de sofrimento atroz.

Minutos?... Horas talvez, porque me recordo de ter vivido eternidades dolorosas, com o coração despedaçado e o cérebro perturbado pela visão de Maria Clara sentada, ao lado de um homem, num luxuoso automóvel que passava diante de mim, desaparecia, para voltar a surgir de novo. Quanto tempo? Ignoro-o. Sei que de repente estremeci. Ouvia ao longe um rumor surdo que ia aumentando pouco a pouco... o ruído de um motor que se aproximava... Automóvel?... Avião?... Não, o ruído não vinha do alto. Aliás, se em Paris é frequente ouvirem-se aviões voando de noite, não acontece o mesmo nesta costa longínqua tão afastada do Mundo.

De resto, em breve um foco luminoso varreu as trevas, passando-me por cima da cabeça. Era bem um automóvel que descia pela estrada e cujos faróis potentes verrumavam a escuridão da noite. O barulho aproxima-se; então, impelido por força misteriosa, levanto-me de um salto. Ansioso, com o coração palpitante de comoção dominado por intensa dor, espreitei a estrada que se desenrolava a meus pés.

Os faróis avançavam vagarosamente e a vinte metros de Ty-Bianet pararam. Nesse momento era tão grande a minha amargura por ver as minhas suspeitas confirmadas, que as pernas fraquejaram-me e julguei desfalecer.

Nenhuma dúvida me podia restar já.

Uma voz cristalina, alegre e bem timbrada, essa voz que reconheceria entre mil, soltou estas palavras, que ecoaram harmoniosamente no silêncio nocturno:

- Cá estamos, meu bom amigo!... Muito boa noite!

Do interior do carro alguém respondeu em tom firme e másculo, mas não consegui distinguir quem falava.

De resto, era escusado, pois logo identifiquei no homem invisível aquele que acompanhava Maria Clara no automóvel em Brest.

Trémulo de comoção, vi o carro recuar, dar a volta e retomar o caminho por onde tinha vindo.

Ao fazer a viragem, os faróis do veículo iluminaram Maria Clara e durante segundos vi-a, sorridente, sob o grande chapéu claro, elegante e infinitamente graciosa. Continuava a agitar a mão num gesto afectuoso de despedida. Depois, voltou a pesar a escuridão, enquanto o carro se afastava e Maria Clara penetrava rapidamente em casa.

A recém-chegada quis fechar a porta atrás de si. Mas o gesto ficou incompleto.

Em três saltos prodigiosos, precipitara-me para ela, e interpondo a perna direita entre o batente e a ombreira impedi que a cerrasse.

Um ah! de angústia brotou, num tom rouco, da garganta juvenil, enquanto no meu impulso a porta se abria, dando-me passagem.

- Oh!... O senhor Marcos!... Pois é o senhor?... Assustou-me!... Para que veio aqui a esta hora?... Que aconteceu?

Louco de ciúme, não medi bem as palavras.

- Aconteceu que chegou, finalmente! Mas a esta hora, com um homem e assim vestida! Maria Clara! Que eu colocava tão alto! Aconteceu ter passado todo o dia fora e em que companhia!... E fez semelhante coisa, Maria Clara!

Ao ouvir-me a jovem recuou três passos e, de súbito hostil, fitou-me com olhar sombrio! Depois, sem deixar de me fixar, tirou vagarosamente o chapéu e o abafo. Na sombra do armário-cama um vulto moveu-se e ouvi a voz indignada de Mariannick:

- Minha pobre filha!... Esse rapaz não me largou a porta em toda a noite. Queria entrar e esperar aqui o teu regresso. Mandei-o embora umas poucas de vezes. Não compreendo como se atreveu a tanto... O seu procedimento é atrevido!

A voz calma de Maria Clara contrastou com o tom irritado da tia:

- Explique-se, senhor Marcos. Que razões teve para proceder assim? Da sua parte admira-me! Julgava-o um homem bem-educado.

- Queria saber, fosse porque preço fosse - balbuciei, desorientado pelo tom firme da jovem, que parecia querer lançar sobre mim toda a responsabilidade desta cena nocturna.

- Quem o autorizou a semelhantes liberdades? - insistiu com altivez - Na verdade, estou surpreendida! Quem lhe concedeu o direito de espiar os meus actos e de os julgar?

A voz era tão glacial, que, impressionado, sentia a minha cólera desvanecer-se pouco a pouco.

- Maria Clara! Suplico-lhe: não me trate com tanta severidade! - pedi com desespero - Não me repila assim! Sou tão desgraçado!... Tinha-a em tal conta, que nunca a julguei capaz de fazer semelhante coisa!

- Mas que coisa?... Vamos, diga?

- Aquele homem!... Passar o dia com ele!

- E depois?

O olhar cintilante de orgulho fulminava o meu, onde se podia ler verdadeira alucinação.

Sem dúvida, compreendeu a minha desorientação. Teve dó de mim ou quis conciliar as coisas? Não poderia dizê-lo. Contudo, deixou-me entrar em casa e apontou-me uma cadeira.

- Sente-se aí, enquanto ceio... E agora fale; mas tome cautela no que diz, porque desde já o previno de que não lhe admitirei o mais pequeno ultraje! Ande, explique-se e diga-me qual foi a desgraça que tão brutalmente o atingiu hoje, para estar assim fora de si?... Não me agrada muito a presença de um homem em minha casa a esta hora. Mas, visto ter apelado para a minha compaixão, não quero pô-lo fora da porta, como devia.

Sentou-se na extremidade da mesa, no mesmo lugar que ocupara no dia em que a tempestade nos proporcionou a agradável refeição. Reparei mais uma vez na toalha rica, no talher de prata, no copo de cristal, e na ceia leve, mas delicadamente apresentada: carne fria servida num prato de porcelana, um açafate com fruta e o jarro de cidra.

Na realidade, estes pormenores, que ora recordo a distância, naquele momento apenas os notei de relance. Martelava-me o cérebro a frase pronunciada: Não me agrada a presença dum homem em minha casa a esta hora, cujo contraste era grande com a conduta que eu lhe atribuía.

Ao sentar-me na cadeira, perto dela, repetia-a ainda de mim para mim, com amarga ironia; e foi no mesmo tom que observei:

- É claro! Não lhe agrada muito a minha presença.

Preferia que ninguém suspeitasse do seu regresso a casa altas horas da noite, depois de passar todo o dia na cidade, acompanhada por um homem!

As faces de Maria Clara tornaram-se escarlates, sob o influxo da cólera, e, ao fitar-me, as pupilas despediam relâmpagos. Contudo, tentou ainda dominar-se e ordenou com impetuosidade:

- Vai retirar imediatamente essa frase, senhor Marcos, ou então queira sair! Nunca ninguém me dirigiu ofensa semelhante!

- Ofensa!... O que acabo de dizer não é a expressão da verdade?...

- Verdade ou não, retire a insinuação!... Não admito que se permitam julgar assim os meus actos. Vou onde quero, com quem me apetece, e não tenho de dar satisfações a quem quer que seja.

- Tem razão. Não passo de um selvagem - concordei dolorosamente - Mas há-de concordar, Maria Clara, que a nossa amizade e convivência criaram um laço entre nós... não deve, não pode esquecê-los... eu... tenho certos direitos.

- Direitos? Ah! Vai muito depressa! - ironizou - Quem lhos conferiu? Já alguma vez lhe dei ou reconheci o direito de criticar a minha conduta?

Pela forma como pouco a pouco ia erguendo a voz era visível que a sua irritação subia de ponto. Não podia admitir a minha intrusão na sua vida particular e as minhas censuras feriam-lhe a orgulhosa susceptibilidade.

Compreendi que, se não modificasse imediatamente a minha maneira de falar, Maria Clara me expulsaria de sua casa.

Acabrunhado, curvei a cabeça. Sentia-me infinitamente desgraçado, mas reconhecia não ter o direito de me insurgir contra a cólera. Porquê, se a jovem sempre repelira as minhas tentativas de galanteio?

Sombrio desespero me ditou esta resposta:

- Vejo bem que não me ama! Os meus protestos só lhe provocam risos e zombarias!

- Não costumo zombar de ninguém! - atalhou - Nem de si nem de qualquer outro! Defendo a minha independência, já lhe disse. De resto, não compreendo o motivo desta cena. Sempre lhe declarei que não queria casar, nem podia aceitar o amor de qualquer rapaz.

- Não tem compaixão de mim, Maria Clara - murmurei num lamento.

- Não tenho compaixão de si nem de ninguém. Quero conservar a minha liberdade e não admito que, seja quem for, me imponha os seus sentimentos. Compreendeu?... Ouviu bem?

- Ouvi bem, nem podia deixar de ouvir, gritando como grita - repliquei ironicamente.

Maria Clara encolheu os ombros, irritada com os meus ares mortificados. Depois de breve silêncio prosseguiu:

- Faz mal, senhor Marcos, em tomar para comigo essa atitude de namorado ciumento... de um apaixonado que se julga prejudicado nos seus projectos e esperanças! Alguma vez acolhi com agrado as suas tentativas? Aprovei e correspondi às suas declarações? Nunca lhe ocultei, segundo me parece, o desagrado que me provocavam os seus galanteios! Julguei, no entanto, que tudo isso não passasse duma brincadeira! Mas não ignora por certo que com o fogo não se brinca. Pior para si, se queimou os dedos.

- Em todo o caso, se por meu lado tomei a sério a brincadeira, vê-se bem que a minha sinceridade não conseguiu comovê-la... é de gelo!

Com um movimento de ira a jovem Bretã bateu com o cabo da faca na mesa.

- Que culpa tenho eu disso? - exclamou com cólera - Sou por acaso obrigada a corresponder a todos os imbecis que se lembrem de se apaixonar por mim,?

- Obrigado pelo imbecil! - agradeci, melindrado.

- Não posso classificá-lo doutra maneira, na verdade... Fui sempre franca para si, manifestando-lhe o desejo de conservar a minha liberdade e independência... Nunca o segui e tentei sempre detê-lo no caminho do sentimentalismo, no qual se embrenhava sem meu consentimento... Mas descanse, que a lição servir-me-á de proveito... Visto ter-lhe apetecido quebrar e ultrapassar a amigável convivência que tínhamos combinado manter entre nós, vejo-me na necessidade de lhe fechar a porta para sempre. A partir de hoje cessaram as nossas amizades! Não conte mais comigo para modelo do seu quadro. As condescendências que tive consigo não lhe davam direito a interpretações tão insensatas.

A indignação e a cólera tornavam Maria Clara mais bela ainda. Nunca a achei tão adorável como naquele minuto! Num relance, medi toda a extensão das minhas culpas e compreendi a razão que lhe assistia. Porque tinha cedido a impulsos espontâneos e irreflectidos?... A esse estúpido sentimento de ciúme que me colocava perante ela numa situação inferior?

Eu, o Parisiense requintado! O frequentador das noitadas... o artista conhecedor de todos os centros ruidosos e habituado às conquistas mais ou menos fáceis... sujeitava-me às humilhações dessa Bretã insignificante e pretensiosa que me fixava duramente com o seu ar altivo de princesa exilada.

Decididamente, o homem é um fraco e um louco por não saber reprimir certos impulsos que o precipitam do pedestal onde anos seguidos de educação o haviam conseguido colocar. Tinha a consciência de ter descido. E, descontente comigo mesmo, de testa enrugada e ar abatido, fiquei para ali aniquilado pela vergonha e pelo desgosto.

Provavelmente, contente com a sua vitória, Maria Clara recomeçou a comer.

Os minutos foram passando. Conservava-me calado e imóvel, alheio à sua presença. Dentro e em volta de mim só havia um vácuo horrível, mais nada...

Que se passou então no espírito de Maria Clara?... De repente, empurrou violentamente o prato e pôs-se de pé, como impelida por uma mola. Furiosa, fitou-me com o olhar, onde se podia ler a cólera elevada ao paroxismo.

- Não posso suportar isto! - bradou - Perante a a sua atitude submissa tenho por certo a aparência de uma megera! Isto não pode continuar, senhor Marcos! Não quero vê-lo assim! Vamos, diga alguma coisa!... Reconheça os seus erros. Desculpe-se!

No auge da irritação, começou a passear nervosamente, de cá para lá, na casa. Por vezes, num gesto maquinal e febril, apertava a cabeça com as mãos trémulas.

Ao mesmo tempo, comentava com raiva a situação:

- Se julga muito divertida uma cena como esta, altas horas da noite e provocada por um indivíduo que mal conheço... sim... porque eu quase não o conheço, não è verdade? E para quê, faz favor de me dizer?... Para lhe escutar censuras e dar-lhe explicações... É de mais!

Então, avançando para mim, inclinando para o meu o rosto irritado como se quisesse fazer-se compreender melhor, batendo com o pè para sublinhar as palavras, no auge do enervamento, despediu-me com a maior rudeza:

- Vá-se embora... vamos, desapareça!... Depressa!... Não percebeu ainda quanto estou enervada?...

Horrivelmente pálido, tendo a impressão de que todo o meu sangue se gelara nas veias, fiz um esforço para me pôr de pé.

Há minutos, na vida de um homem, que contam por anos; e eu vivia alguns deles e bem dolorosos, havia instantes. Contudo, o instinto de delicadeza inato em mim dirigiu maquinalmente todos os meus actos.

Prestes a retirar-me, desculpei-me numa voz cujo timbre nem eu próprio reconhecia:

- Tem razão, Maria Clara, o meu procedimento é imperdoável. Mas perante os acontecimentos nem sempre se consegue ser senhor dos nossos sentimentos e impulsos do coração!... Faço votos para que nunca conheça as horas angustiosas e emocionantes por mim vividas hoje... e sem esperar, pois esta manhã não podia supor semelhante coisa. Nem mesmo adivinhava o que se passava na minha alma. Sem estar preparado, tive a revelação de todo o sofrimento, que pode comportar o amor... Apesar de tudo, fique certa de que tenho por si o mais profundo respeito. Se as minhas censuras ultrapassaram os limites da delicadeza foi porque o golpe recebido me feriu tão fundo que não consegui ser senhor nem dos meus pensamentos nem das minhas palavras.

- Está bem! - replicou, agressiva - E agora retire-se. Esta cena já durou demasiado.

- Sim, vou retirar-me. Mas, antes, apelo para a sua generosidade e suplico-lhe me conceda o que lhe vou pedir; esqueça esta visita nocturna e tudo quanto lhe pude dizer de desagradável... Se pudesse penetrar no meu íntimo, veria quanto sofri e perdoar-me-ia, tenho a certeza.

Violento rubor coloriu o rosto irritado de Maria Clara. Depois, encolheu os ombros e acedeu: - Seja. Está perdoado.

- Obrigado!

Fiz uma pausa e em seguida, com voz alterada e comovida, pedi ainda:

- Seja generosa até ao fim, Maria Clara, e não diga que não vai amanhã às ruínas... é horrível... não posso pensar em semelhante coisa...

Vi que me envolvia num olhar estranho e em seguida desviava os olhos, procurando eximir-se ao meu exame, enquanto uma sombra fugitiva lhe velava o semblante.

Mais calma, acompanhou-me até à porta.

- Vá-se deitar, senhor Marcos. Se for possível, esqueçamos ambos esta cena. Até hoje nada tive a censurar no seu procedimento e seria intransigência minha conservar-lhe rancor por não ter podido ocultar-me a agitação que o dominava.

Abriu a porta, patenteando-me a escuridão que iria tragar-me em breve. Nesse momento, dolorosa angústia me contraiu a garganta. Teria de partir assim com a impressão de um adeus correcto e frio?

Estendi-lhe a mão, enquanto os meus olhos imploravam os seus.

Sorriu e não me recusou a sua, num gesto que confirmava o seu perdão. Os meus dedos gelados apertaram os dela, trémulos e febris; mas não me atrevi a prolongar o contacto nem a levá-los aos lábios, como tantas vezes costumava fazer. Contudo, essa amigável pressão parecia indicar que nos separávamos reconciliados.

- Boa noite, senhor Marcos! Durma bem! - desejou-me com amabilidade.

- Adeus, Maria Clara!... Até amanhã - respondi, não desesperando ainda, nesse minuto, de a tornar a ver no dia seguinte.

A porta, porém, estava já fechada.

Numa espécie de prostração, permaneci algum tempo encostado à ombreira, com o pensamento obsidiado por mil coisas que teria desejado dizer-lhe ainda e sem conseguir recuperar o meu equilíbrio moral.

Decorridos alguns momentos, encontrei, finalmente, forças para me pôr a caminho e regressei à hospedaria num passo de sonâmbulo.

Com o cérebro vazio de pensamentos e com a impressão de ter diante de mim um lago imenso onde iria soçobrar, alcancei o meu quarto.

E de nada mais posso recordar-me.

Passei uma noite horrível. Sentia-me muito próximo da loucura quando diante de meus olhos passava a imagem de Maria Clara sentada no automóvel ao lado do desconhecido. E então, com toda a força do desespero, amaldiçoava a pérfida criatura, causa da minha desgraça. Depois, passado este ímpeto de cólera, acudia a razão a defender a minha amiguinha. Não! A garota pura, cuja reserva altiva tivera ocasião de conhecer, era incapaz de um acto de leviandade... E, nesse momento, a primeira imagem era substituída por outra: a de uma rapariguita grave e comedida, sentada em frente do meu cavalete, sem nunca abandonar a sua atitude condescendente, mas correcta.

Assim me conservei nestas alternativas, passando dos pensamentos dolorosos a perspectivas mais apaziguadoras, até que de madrugada, vencido pela fadiga, acabei por adormecer.

É curioso como o sono dissipa as trevas do cérebro; acabo de o verificar mais uma Vez. Foi num estado de espírito perfeitamente calmo e lúcido, resultado talvez do excesso de emoções sofridas durante a dolorosa insónia, que acordei eram dez horas da manhã.

Não vou hoje às ruínas. Está decidido.

É melhor assim. Tenho a certeza de que não encontrarei ali Maria Clara. E então, para que vou procurar por minhas mãos novas desilusões?

Não será mais sensato evitar para o futuro encontrar-me com ela, visto nada poder esperar?

Maria Clara não me ama nem nunca me amará. A verdade è esta: o seu coração já está ocupado. Para que negá-lo? Portanto, é inútil prolongar este idílio que não tem futuro e não nos conduzirá a coisa alguma.. O meu próprio infortúnio me dará forças para não prolongar o sofrimento.

Tenho repetido centenas de vezes que a vida é muito estúpida, mas quanto somos cegos e desconhecemos os nossos próprios sentimentos!

Sem o encontro em Brest, ontem de manhã, ignoraria ainda o estado do meu coração!

Nada pressenti, nada adivinhei! Deixei o amor instalar-se como senhor e agora só me resta curvar-me sob a sua tirania. Que cegueira e que patetice a minha!

Patetice?... Não! Para que me estou caluniando? Tudo aconteceu sem que o tivesse desejado! A loucura ou a doença ataca-nos por nossa vontade? Somos, por acaso, responsáveis pelas tempestades desencadeadas lá no alto dos céus?

Joguetes do Destino, só nos resta submeter à sua lei!... o amor atacou-me como me poderia ter atacado uma febre perniciosa...

E de tudo é o mais horrível! Não poder arrancá-lo do coração, não conseguir libertar-me dele quando reconheço não me restar a mais pequena esperança... quando o amor é para mim uma terrível catástrofe!

Hoje julguei-me mais forte e escudado contra qualquer comoção sentimental. Então, corajosamente, dirigi-me para as ruínas e, na tarde luminosa e cheia de sol, recomecei a pintar.

Por felicidade, o quadro está muito adiantado e a figura de Maria Clara quase concluída. Só o resto da saia e os tamancos se encontram apenas esboçados. Mas, na falta do modelo escolhido... e único, qualquer outra rapariga da aldeia pode servir!

Foi como se recebesse uma punhalada em pleno peito ao voltar a encontrar na tela a minha amiguinha... sorrindo-me docemente. E ao ver deserto o lugar que habitualmente ocupava, senti-me dominado por invencível melancolia.

Tudo me falava dela.

Como os próprios objectos são por vezes cruéis!

E dizer que vim procurar tão longe o sofrimento! Mocidade irrequieta, a quem tudo sorria na vida, pardalito atrevido, ávido de liberdade, quis respirar ares diferentes dos de Paris.

E eis-me neste cantinho agreste da Bretanha! Passa uma procissão, surge um vultozinho branco... e dá-se o desastre!

No entanto, devia estar vacinado contra o amor! Quantas paixonetas até hoje, quantas gentis enamoradas embelezaram a minha mocidade? Companheiras de estudo, graciosos modelos, encontros de ocasião, todas elas me despertaram interesse e entusiasmo durante algumas horas ou semanas. Vinham trazer-me um grão de alegria e de imprevisto à monotonia dos meus dias sempre iguais e sem preocupações; essas belezas sucessivas, mas não diversas, iluminavam a minha alma de artista. E então nada mais pedia à vida...

Agora, parece-me que uma rajada violenta passou pela minha existência até aqui tão tranquila... uma tempestade que tudo devastou em mim, deixando-me nas garras de um sofrimento intenso a até hoje desconhecido.

Não consegui levar ao fim a sessão de pintura. Na charneca deserta tudo me recordava Maria Clara. Apressei-me a arrumar os pincéis com a certeza de que, se não me afastasse dali, acto contínuo começaria a chorar lamentavelmente, como criança que se perdeu e procura em vão junto de si um rosto conhecido.

À tarde, na hospedaria, alguém, pôs uma grafonola a trabalhar. No estado de espírito em que me encontrava, a música obrigou-me a contrair as maxilas e cerrar os dentes. Fiz um esforço supremo para opor uma barreira à música evocadora e obstar a que o pensamento retomasse um curso fatal. Á força de me concentrar, consegui abstrair-me e em breve os sons me chegavam aos ouvidos apenas como um murmúrio vindo de muito longe.

De repente, o meu subconsciente despertou com a impressão de qualquer coisa já ouvida... e essa espécie de receptividade fez vibrar todas as cordas musicais do meu ser com uma intensidade dolorosa que me fazia mal.

Era uma ária da Carmen, aquela em que D. José clama bem alto o seu amor.

Este canto nostálgico produziu em mim um desastroso efeito.

Estremeci dos pés à cabeça e, apoiando os cotovelos na mesa, ocultei a cabeça entre as mãos. Esmagava-me a alma atroz sofrimento.

A minha mente recordava a cena emocionante da ópera... e, o que ainda era pior, vivia-a!

Também ele era venturoso, o noivo de Micaela! Nesse país luminoso, tudo para ele eram sorrisos e alegrias. Conquistador feliz, os seus êxitos amorosos davam-lhe confiança e audácia! Um dia, porém, apareceu Carmen, a sua Carmen! Não foi preciso mais nada!

A minha vida, como a do herói de Merimèe, estava destruída para sempre... mas, ainda mais infeliz do que ele, eu nunca conheceria a reciprocidade do amor...

Com a garganta contraída e os punhos cerrados, substituía maquinalmente na canção o nome de Carmen pelo de Maria Clara e, numa inconsciência dolorosa, tomava o lugar do desventurado apaixonado. Era eu quem gritava a minha dor, era eu e não o dragão de Alcalá que tentava, mas inutilmente, reacender a chama do amor no peito da sua pérfida amada!

Cada nota da frase musical penetrava-me na alma como um punhal, como se fosse a própria expressão da dor humana, infinita e insondável:

«Sim, bastou que aparecesses... e sou todo teu!...»

O que experimentava era dilacerante, horrível.

Havia muito já que a grafonola se calara e ainda eu soluçava com desespero, diante do jantar, no qual não havia tocado.

A estrada, poeirenta e batida pelo sol ardente de Agosto, descia em curvas caprichosas para a planície, onde a aldeia se aninhava e parecia dormir ao abrigo dos telhados de ardósia vermelha.

Em passo maquinal e vagaroso caminhava abstracto, enquanto o cérebro continuava a revolver os mesmos pensamentos amargos e dolorosos.

De repente, à direita, surgiu o pequeno santuário, gracioso edifício de granito cinzento, recortando as linhas elegantes no fundo claro do horizonte vasto, onde, ao longe, se confundiam o mar e o céu num traço pouco definido; personificava a força imutável das coisas, opondo-se às nossas paixões e desejos.

Instintivamente, parei. A imagem de Maria Clara prendia-me a essa capela solitária.

Fora num dia de festa, em que a multidão alegre acorrera a Voulch para venerar a Virgem Garrida, que, pela primeira vez, eu a vi... A sua beleza impressionou-me logo... e provavelmente também o meu amor nasceu nesse momento sem o ter pressentido.

Havíamos percorrido juntos, mas em sentido contrário, o caminho que se desenrolava diante de mim. E a poucos passos dali nos tínhamos separado alegremente.

Uma recordação me ocorreu de repente: fora também nesse dia, depois de nos termos afastado um do outro, para não passarmos juntos diante da Virgem, cujas graças miraculosas não desejávamos, que circunstâncias alheias á nossa vontade nos tinham reunido de novo e obrigado a unir as mãos... justamente no ponto onde agora me encontro.

Recordação tão querida e ao mesmo tempo tão dolorosa.

- Oh!... A lenda ameaçadora!

Estremeci. Parecia-me que, naquele momento, dedos de ferro me apertavam a garganta, produzindo-me uma sensação angustiosa.

Estranha coincidência!

Tornara-se realidade a fábula que me provocava risos! Zombando da minha incredulidade, a Virgem usara do seu poder milagroso em meu favor...

Numa espécie de hipnose, aproximei-me da capela com andar pesado. Através da grade, o meu olhar ansioso fitou o rosto meigo da Madona, que sorria na penumbra pacificadora do altar.

- Ó minha Mãe! Fostes vós, Virgem Santa, que assim o quisestes?

No cérebro fatigado atropelavam-se pensamentos loucos e censuras dolorosas.

- Nada vos pedi, Virgem Garrida! Para que derramastes sobre mim as vossas graças terríveis? - prossegui num impulso irresistível - Os meus lábios não formularam qualquer desejo e, contudo, fui justamente o atingido pelo vosso poder... Não tivestes compaixão do vosso servo! Não, eu não merecia ser castigado tão cruelmente!

Que delírio me desvairava a razão para assim me fazer divagar?

Os lábios prosseguiam o seu movimento maquinal e pareciam murmurar uma ladainha, quando, afinal, só pronunciavam blasfémias inconscientes!...

De pé, junto da porta fechada, com a testa encostada às grades, de pálpebras cerradas, fiquei para ali, quebrado, uma onda de amargura tumultuando no coração.

Sentia-me desfalecer por inexplicável fraqueza que me tomava o corpo e a alma, num imperioso desejo de aniquilamento total.

Então, nesse naufrágio em que todo o meu ser parecia soçobrar, vago clarão surgiu de súbito... foi como uma luzinha redentora, um indício reconfortante... como uma tábua de salvação que mão invisível me estendesse no próprio momento em que ia submergir-me no mar proceloso do desespero.

- A lenda?... A lenda afirma que a Virgem une as pessoas a despeito da sua vontade.

Uni-las?... Quer dizer, associá-las, obrigá-las a casar mesmo sem o desejarem?

- Nesse caso?... Maria Clara e eu?... O casamento!... Ainda que ela não deseje!

A Virgem não podia ter feito nascer o amor para tormento de uma só alma! Os sentimentos que desperta costumam ter um desenlace normal e previsto... A lenda assim o assegura e a lenda não pode mentir, tratando-se da Rainha dos Céus!

A doçura pacificadora deste pensamento foi tal que me senti como que libertado de um peso enorme e lágrimas benéficas me humedeceram as pálpebras. Num minuto, a esperança, esse médico das almas, restituiu-me a coragem!

Seguiu-se uma série de deduções lógicas.

Por que razão supus ter sido rejeitado por Maria Clara? Deveria voltar a vê-la.

Depois de nos termos separado naquela noite com um amigável aperto de mão, nada obstava a que se mantivesse a nossa convivência... ou, pelo menos, impunha-se tê-la procurado mais uma vez, para de novo lhe apresentar desculpas pela cena da noite anterior.

Teria eu, por acaso, considerado o facto de erguer os olhos para ela como um crime tão grave que não merecesse perdão? Ou seria a descoberta dos seus singulares conhecimentos em Brest que me havia afastado dela?

Afigurava-se-me ter a alma afogada em fel e em desespero. O ciúme enlouqueceu-me e, sem dar por isso, fiz crer a Maria Clara que estava amuado com ela. Quem sabe até se a minha amiguinha cumprira a sua palavra e tinha comparecido nas ruínas conforme lhe pedira? Nos dias seguintes, è claro, julgando a sua presença inútil, pela minha ausência, não voltou ali. Nesse caso, a culpa era minha, exclusivamente minha!

E agora toda a revolta visa o meu próprio proceder! Acuso-me dos erros mais graves! Fui ciumento, orgulhoso e cheio de preconceitos!... Procedi como um insensato, apresentando-me em casa de Maria Clara áquela hora da noite... como um acusador rabugento é competente! Mais um pouco e teria invocado direitos e ditar-lhe-ia ordens e proibições... Como os homens são estúpidos, santo Deus.

A nossa boa camaradagem terminara porque eu assim o quisera.

Maria Clara, perante a minha atitude inconcebível, não podia responder às minhas ultrajantes insinuações, por uma questão de orgulho e altivez muito natural. E levei quatro dias para o compreender.

Todas estas reflexões me atravessaram o espírito como um relâmpago. E só me restava, depois de tão racionais deduções que me apontavam o meu dever, ser o primeiro a procurar Maria Clara, apresentar-lhe lealmente as minhas desculpas e reatar o fio das nossas agradáveis e afectuosas sessões de pintura.

Antes de me afastar do pequeno santuário, volvi à Virgem um olhar de reconhecimento. No estado de abatimento em que me encontrava, havia dias, o mais pequeno pormenor representava para mim uma esperança e nesse instante experimentei verdadeira alegria pensando que o Céu viera em meu auxílio, restituindo-me a paz de espírito e o bom senso.

Recomecei a andar, mas em sentido contrário: em vez de descer a Voulch subi em direcção da casa de Mariannick Guilherme.

Confesso, contudo, que ao bater à porta da casita onde pela última vez vira a minha gentil amiguinha, me sentia muito menos confiante. Temia ir defrontar um acolhimento frio; no entanto, uma esperança me animava: a de encontrar de novo o adorável sorriso da minha amada.

A porta pequena e baixa abriu-se e Mariannick apareceu no limiar. No seu rosto triste julguei ler uma advertência de mau agoiro.

A tia de Maria Clara parecia mais acabrunhada e envelhecida, como se qualquer acontecimento doloroso a houvesse ferido no breve período daqueles dias. A voz, que traduzia o aborrecimento experimentado por se ver em presença do importuno, soou-me ao ouvido um pouco chorosa:

- Que mais deseja? - perguntou-me sem afabilidade, depois de um seco «bom-dia».

- Queria ver sua sobrinha e falar-lhe. A velha teve ligeira hesitação.

- Não está em casa - declarou, meneando a cabeça.

Tanto a minha fisionomia como o tom de voz exprimiram incredulidade.

- Onde foi então? Passear... como há dias? Compreendi que Mariannick hesitava de novo antes de me responder.

- Não... não foi passear... Partiu.

Depois, como que resignada, acrescentou, menos agressiva:

- Entre! Estaremos melhor para falar... Visto mais dia menos dia ter de saber a verdade, será melhor conhecê-la já hoje.

Senti-me oprimido. Que significa este preâmbulo? Que mais me virá dizer aquela velha antipática? Novas mentiras ou dolorosas verdades?

Tive o presentimento de que me ameaçava uma desgraça.

A anciã fechou cuidadosamente a porta; depois designou-me o banco debaixo do alpendre da chaminé, que nas casas bretãs é de uso oferecer-se às visitas de consideração. Então, de pé, diante de mim, fitando-me com uma espécie de compaixão, deu-me a notícia que estava bem longe de esperar.

- Maria Clara partiu. Não tornará a vê-la, meu pobre senhor...

- Partiu! Partiu como? - balbuciei sem bem atingir - Que quer dizer com isso?...

- Partiu, sim - repetiu, com ar duro, a mulher, que parecia de súbito enervada com a minha incompreensão - É fácil de perceber! Abandonou Voulch e não voltará a Ty-Bianet!

Tive a sensação de que um jacto de água fria me corria pela espinha e que o coração cessava de bater.

- Maria Clara deixou esta casa?

- Há já algum tempo que lho estou dizendo.

De mãos cruzadas sobre o avental e a cabeça um pouco inclinada para a frente, a velha Bretã observava-me com certa curiosidade. Eu devia estar horrivelmente pálido, porque leve comiseração lhe suavizou as feições. Verificando que a minha dor era sincera, tornou-se compassiva e maternal.

- Então, senhor Marcos, não se apoquente assim. Não tinha compreendido ainda que Maria Clara não podia ficar aqui? Não adivinhou que ela não nasceu para passar a vida numa mísera choupana como esta?

Enquanto falava, um véu húmido tornou-lhe mais brilhante o olhar. Quanto a mim, estava como esmagado pela notícia imprevista que me comunicara. Contudo, o tom afectuoso que havia adoptado naquele dia, para me falar, servia-me de lenitivo.

- Porque se foi embora? Estava disposto a casar com ela! - declarei como para patentear toda a extensão do meu amor ou da minha generosidade.

Compadecida, Mariannick sorriu docemente, o que não a impediu de repelir a minha ideia.

- Pobre senhor! Como está iludido! Maria Clara também não nasceu para um casamento modesto. Esperam-na a riqueza e elevada posição.

Como eu a olhasse sem compreender, acrescentou, animando-se:

- Fique sabendo que a minha pequenina Maria Clara não é da nossa Raça... Está-lhe reservado um destino brilhante, no qual o senhor não pode acompanhá-la!

- Não sei porquê! Devia ter-me explicado... ser franca comigo.

- Não vejo a razão porque o faria. O senhor irritava-a constantemente com as suas familiaridades. Devia ter-se contentado com os sorrisos que lhe concedia, para poder transmiti-los à tela, visto ser esse o seu desejo! Já era muito! Para que exigir mais? Quem se aproxima do fogo corre o risco de se queimar.

Os seus grandes olhos continuavam a fitar-me com bondade. No entanto, tive a impressão de que essa compaixão nascia da sua própria dor.

- Segundo depreendo, a partida de Maria Clara causou-lhe profundo desgosto, Mariannick...

- É natural! Viveu vinte anos comigo, como uma filha muito querida - explicou lentamente, como num sonho - Bem sabia que essa felicidade chegaria ao seu termo e que a separação teria fatalmente de se dar, mais dia menos dia... Os anos passados a seu lado foram belos e felizes e eu não via, não queria ver a hora que se aproximava passo a passo... A criança cresceu!... E infelizmente essa hora soou!... O seu desgosto é grande, meu pobre senhor... e vejo bem agora quanto era sincero! Na sua idade leva-se tudo para o lado trágico. Mas o senhor ainda è novo. Encontrará em breve outra mulher que o consolará e o fará esquecer esta decepção. Quanto a mim... sou velha, e Maria Clara era tudo o que me restava da mocidade... perdendo-a, parece-me ter vivido o dobro, de repente... E vejo-me tão só!

Este queixume acordou novas suposições que me escaldavam o sangue. Fora de mim, bradei:

- Quer dizer com isso que Maria Clara a abandonou? Partiu sem a prevenir?

- Sem me prevenir - replicou a Bretã em tom de censura - Mas se lhe acabo de dizer que há muitos anos conhecia esta decisão!

- Sim... quero eu dizer... Maria Clara não partiu assim bruscamente de um minuto para o outro...

- É claro que não! Soara o momento da pobre avezita abandonar o ninho.

Abraçou-me, chorando, e declarou: «Chegou a minha hora de agir, bem sabes. Mas descansa que a seu tempo te escreverei para vires ter comigo...» Como vê, a querida pequena procurou suavizar o meu desgosto! Se me encontra triste e desolada com a sua partida, é porque na minha idade dificilmente se criam novos hábitos... O pesar provocado pela ausência de um ente querido è sempre profundo... é o passado, um pouco da nossa mocidade ainda e porque ele desaparece, verifica-se de súbito que se envelheceu sem se dar por isso!... Enfim, é a vida, sempre igual para todos!

Calou-se e enquanto limpava os olhos, um silêncio doloroso caiu entre nós. Por fim, a velhota suspirou e pareceu acordar para a realidade. O hábito ancestral da hospitalidade impelia-a aos ritos clássicos em toda a casa bretã.

Tirando pequeno copo do armário, pô-lo em cima da mesa.

- Bebe um pouco de cidra, não è verdade, senhor Marcos?

- Não, não me sinto com ânimo para isso.

- Beba sempre! Está tanto calor!

Encheu o copo do perfumado fermento de maçã e estendeu-mo delicadamente.

- Não é razoável afligir-se assim quando já não tem remédio. A minha pequenina não podia proceder doutra maneira.

- Bem sabe que o coração e a razão poucas vezes estão de acordo.

- Sim! Infelizmente assim é!...

- E, depois... partir assim... por forma tão inesperada...

- Tinha de ser - repetiu a velhota - A culpa não foi dela. Para mais, a querida pequena não se esqueceu de si.

- Que me diz? A Maria Clara...

- Sim, pensou em si antes de partir.

- Falou-lhe de mim? - insisti, ansioso.

- Fez-me uma quantidade de recomendações a seu respeito.

- Meu Deus! Conte-me tudo, Mariannick.

No meu rosto pálido os olhos imobilizaram-se angustiados enquanto a voz implorava:

- Diga-me tudo, sim? Não omita coisa alguma... se na verdade sua sobrinha se lembrou do meu nome...

- Porque motivo lho diria, se fosse mentira?... Maria Clara recomendou-me: «Se o senhor Marcos vier, recebe-o, fala-lhe. Consola-o no seu desgosto... Diz-lhe que não pense mais em mim... que me esqueça... não fomos destinados um para o outro... e sagrados deveres me chamam para longe...»

- Que mais?

«- Afirma-lhe que levo comigo minhas doces recordações dos nossos encontros nas ruínas... que não lhe conservo rancor... esqueci tudo! A culpa não foi dele, nem minha... ninguém é senhor dos seus sentimentos e Marcos não podia adivinhar que eu não era livre para dispor dos meus. Um pintor e uma jovem camponesa! Nada mais natural esse rapaz achar-se no direito de arquitectar projectos...»

- E quantos arquitectei!... E quase sem dar por isso! - murmurei sem que a mulher, toda entregue à sua narrativa, parecesse ouvir a minha exclamação.

- Maria Clara pediu-me ainda para lhe dizer quanto lhe estava reconhecida pelo prazer que lhe dera, reproduzindo as ruínas: «Recomendar-lhe-ás para me reservar o quadro - insistiu - Que não se separe dele... Prometeu-mo e algum dia lho irei reclamar». Segundo penso, não esqueci nenhuma das palavras pronunciadas a seu respeito, senhor Marcos.

Não respondi porque tudo parecia oscilar em minha volta. Vergava ao peso de uma doçura inesperada e de um sofrimento atroz. Maria Clara, antes de se afastar, pensara em mim. Não abandonara Ty-Bianet sem uma palavra de misericórdia para o amigo impertinente e apaixonado, sabendo que a sua partida lhe despedaçava a alma; mas, ao mesmo tempo, o adeus que a tia me transmitia não admitia vislumbre de esperança; mais uma vez confirmava que Maria Clara e eu não tínhamos nascido um para o outro.

Intenso desespero me desvairava o cérebro. Fechei os olhos e, com os cotovelos encostados aos joelhos, por muito tempo apertei a cabeça nas mãos febris. Não via, não ouvia nada... de real, só a dor que atormentava todo o meu ser.

Estava positivamente aniquilado.

E, creio que não é vergonha confessá-lo, o meu desgosto era tão profundo que as lágrimas me rolaram, pesadas, pelas faces. Mas os homens não sabem chorar e, quando o fazem, o pranto em vez de ser lenitivo parece aumentar-lhes o sofrimento.

Durante esse tempo, Mariannick não pronunciou palavra; talvez pensasse que mais vale deixar a certos pesares o desafogo das lágrimas do que tentar mitigá-las. Quando me viu mais calmo, foi ao armário buscar um sobrescrito fechado e entregou-mo.

- Aqui tem! - disse -, Maria Clara deixou-lhe estas linhas de despedida. É preferível para si acabar de vez com este assunto.

Com os dedos trémulos agarrei a carta e abri-a. As letras bailavam-me diante dos olhos, mas com um esforço de vontade consegui ler o seguinte:

 

«Não se aflija com a minha partida, meu amigo! Chegou a hora de cumprir o que julgo meu dever. Principalmente, não chore nem tenha pena de mim, porque tudo nos separava. Contudo, prometo-lhe que um dia nos tornaremos a ver. Contar-lhe-ei a minha vida e os imperiosos laços que me constrangem, e compreenderá então que para si poderia ser apenas uma boa amiga e nada mais.

       Maria Clara.»

 

Maquinalmente, tornei a dobrar a carta. Acabou-se o nosso lindo idílio! A minha gentil companheira colocou-lhe um ponto final sem me deixar a esperança de que um dia teria continuação.

Não podia, contudo, eternizar-me nessa dor improfícua. Ocorreu-me uma ideia.

- Senhora Guilherme, dê-me a direcção de sua sobrinha, peço-lhe - implorei - Desejo escrever-lhe para que não conserve de mim uma recordação dolorosa como essa que lhe deixou o nosso último encontro.

Mariannick abanou negativamente a cabeça antes de responder.

- Não; por enquanto é impossível. Ninguém deve saber onde se encontra. Se deseja escrever-lhe, entregue-me a carta que eu lhe farei chegar às mãos logo que tenha ocasião.

- É cruel, Mariannick! Porque se recusa a dizer-me onde está Maria Clara? Se soubesse quem sou, na realidade!... Está bem certa de que a vida nos separa? Se sua sobrinha tem altas ambições, quem lhe diz não poder eu satisfazer-lhas e oferecer-lhe a posição brilhante a que aspira?

- Não - respondeu com firmeza - Maria Clara tem uma missão a cumprir, já lho afirmou. Deixe-a seguir o seu destino. O senhor não tem o direito de lhe destruir os projectos.

- Mas não quero destruí-los; pelo contrário. Desejo até ampará-la, auxiliá-la. Quero partilhar os seus pesares, aplanar-lhe dificuldades, facilitar-lhe meios de agir...

E como a boa mulher se conservasse impassível, exclamei:

- Eu não me chamo Marcos Abel, fique sabendo. Esse nome não é mais do que um nome de fantasia, um pseudónimo que adoptei ao dedicar-me à pintura, para dispor de mais liberdade. Pertenço a uma família altamente colocada e muito rica...

Julgou talvez que eu mentia, porque se obstinou na sua recusa.

- Não e não!... De resto, mesmo que quisesse, nada podia fazer! Recebi ordens, e para bem de Maria Clara tenho de as cumprir.

- Pois se já lhe afirmei que a minha família tem excelentes relações! Estou, portanto, em circunstâncias de auxiliar eficazmente Maria Clara!

- Nesse caso, dê-me a sua direcção e o seu verdadeiro nome; enviar-lhos-ei.

- Quero dirigir-me directamente a ela.

- Escreva-lhe então, como já disse. Maria Clara

não deixará de lhe responder, para Paris, estou certa... creio poder afirmá-lo, porque ela estimava-o. É tudo quanto posso fazer por si.

Tinha que me submeter. Mas, no momento em que ia revelar-lhe a minha verdadeira identidade, desenhou-se-me diante dos olhos a imagem de minha mãe, Afigurou-se que me fitava com ar grave e triste e de tão infinita doçura que me sobressaltou a consciência, dilacerando-me o coração.

Que ia eu fazer, revelando o meu verdadeiro nome? Que compromisso ia tomar? Podia, na verdade, impor a minha mãe uma nora como Maria Clara? Confiar-lhe a honra do meu nome e do meu lar? E, por outro lado, procedia lealmente desviando a rapariga dos seus projectos e do caminho que havia escolhido, sem lhe poder oferecer em troca as compensações a que tinha direito?

Mais uma vez tive a impressão de que um abismo profundo e perigoso se abria a meus pés, e senti-me estremecer em face desse dilema de tão trágica resolução: o meu amor ou a dignidade do meu nome e da minha Raça?

Aguilhoado pelo desespero, fechei os olhos. Teria de perder a única probabilidade que se me apresentava para reconquistar Maria Clara! Decorridos segundos, decidido, enfim, pois toda a hesitação seria uma cobardia contra os meus princípios e contra mim próprio, agarrei no lápis e foi a direcção do meu atelier em Paris e o meu nome de empréstimo que escrevi e entreguei a Mariannick.

A velha Bretã agarrou o papel com certa desconfiança. Voltou-se para a janela, afastando-o dos olhos para poder ler melhor, julgando encontrar a revelação anunciada. Mas, desiludida, exclamou com ironia um pouco amarga:

- Os rapazes são todos os mesmos! Prometem mundos e fundos para alcançarem o seu fim, mas, quando se vêem entre a espada e a parede, recuam.

Calei-me. Que resposta, ao alcance da sua compreensão, poderia ter dado para me desculpar?

Tinha-me comprometido a ajudar Maria Clara, a colocar ao seu dispor relações poderosas capazes de secundarem os seus esforços e via-me finalmente obrigado a deixá-la na crença de que tudo isso não fora mais do que um pretexto para atingir os meus intuitos pessoais e egoístas. Nem por um segundo a velha suspeitou que eu pudesse ser sincero e verdadeiro!

E com este mal-entendido nos separámos, Mariannick couraçada num descontentamento hostil, eu profundamente infeliz por não ter ousado fazer o que me pedia o coração.

Pode calcular-se em que estado de espírito regressei à hospedaria: completamente desnorteado.

E eis que, no caminho, de novo fui obrigado a passar diante do santuário junto do qual, duas horas antes, recuperara a coragem.

Desta vez não me aproximei da capela. Uma onda de rancor me tumultuava no peito como se o Céu fosse responsável pelas desilusões que acabavam de me atingir.

Parei no meio da estrada e o meu olhar, um pouco duro, cravou-se na imagem da Virgem. Ah! Porque fizera Ela despertar no meu coração semelhante amor?... Um amor sem esperanças!... Uma paixão infeliz e desastrosa em todos os sentidos!...

...Realmente, a lição, se lição quisera impor-me, fora inútil e não atingira os seus fins!

Percorri os últimos oitocentos metros que me separavam da hospedaria de Catarina Le Coz numa espécie de torpor. O sangue fazia-me zumbir os ouvidos e a cabeça doía-me horrivelmente.

- Não sirva o jantar. Estou com uma enxaqueca terrível e vou já deitar-me - declarei à boa mulher, que me observava com inquietação.

- Isso não vai melhor, senhor Marcos?

- Não! Dói-me muito a cabeça... é talvez do calor... ou vai haver trovoada, segundo me parece...

Uma noite bem dormida e amanhã estou como se nada tivesse!

Caí na cama como uma massa, mas não consegui encontrar um sono reparador que me apaziguasse. Tremia de febre. Com os nervos excitados, os pensamentos atropelavam-se numa confusão indescrítível, e durante quatro dias delirei, aniquilado, sem forças, a cabeça em fogo e o cérebro em desordem.

Catarina tratou-me com maternal carinho, não entregando a ninguém o cuidado de me ministrar os remédios nem de me pôr as compressas na testa. Suponho que a excelente criatura, surpreendendo um nome constantemente pronunciado pelos meus lábios inconscientes, não quis que pessoas estranhas, ouvindo-o, pudessem fazer deduções mais ou menos desagradáveis. Fosse qual fosse a sua causa, a febre abandonou-me tal como me havia atacado: subitamente e sem complicações! Dessa doença física levantei-me mais forte, mais calmo, mais apto para suportar os meus sofrimentos morais. Pouco a pouco, viera a resignação, e se lá muito no íntimo da alma a ferida continuava a sangrar, pelo menos a revolta passara e já não acusava o Céu e a terra de terem feito a minha desgraça e despedaçado a vida.

Sobre o meu desgosto, como uma alvorada deslumbrante, a mocidade espalhava o seu calor luminoso e vivificador.

Acabei rapidamente o meu quadro. Uma garota da aldeia, que contratei, serviu de modelo para o resto do vestido e para os tamancos. De resto, eram pormenores insignificantes que poderia ter terminado no atelier, e não sei que ideia foi a minha! Sim, não sei bem. Sei apenas que ao ver uma estranha instalada no lugar da minha adorada amiguinha, numa atitude e posição que me eram familiares, o coração parecia estalar-me no peito.

Vamos! É preciso varrer esse passado tão próximo. Não sinto coragem para continuar aqui.

Vou regressar a Paris e recomeçar a minha vida doutros tempos. É forçoso esquecer estes três meses passados na Bretanha, que me fizeram tanto mal.

Levarei comigo os meus quadros. Não estou muito satisfeito com eles. Não são as obras-primas sonhadas por mim. No meu coração não brotou a centelha final, o raio de sol que iria reflectir nas pinceladas finais, dando ao meu trabalho a emoção que lhe falta.

Contudo, quando contemplo a imagem das ruínas, que os meus pincéis fixaram, logo o rosto meigo da minha amada me surge diante dos olhos, tornando mais cruciante o meu pesar.

Maria Clara, para que me fugiste? Ter-te-ia tornado tão feliz!... Partiste com outro homem sem pressentires tudo quanto de poderoso existia no meu amor!...

A minha partida está decidida.

Preveni Catarina Le Coz de que a ia deixar. Ficou desolada com a minha decisão... «muito brusca» conforme disse.

- Não tem bom parecer, senhor Marcos. Estava tão orgulhosa com a boa cara que trazia há quinze dias. Fez mal, talvez, em não continuar os seus trabalhos ao ar livre.

Sorri, não conseguindo ocultar-lhe a tristeza que bem contra a minha vontade podia ler-se na minha fisionomia, que examinava com atenção.

- Enfim - suspirou Catarina-quando o coração sofre, todo o corpo está doente. Se qualquer coisa o chama, é preferível partir, na verdade. Talvez assim recupere as boas cores!... Sim, essas cores que a cozinha da Bretanha não conseguiu restituir-lhe... Segundo parece, os ares de Voulch já não lhe fazem bem algum, agora!

Estas reflexões, meio filosóficas, meio gastronómicas, eram bem dignas da boa hospedeira, que sob considerações de ordem geral sabia muito bem ocultar o seu pensamento.

Nunca arriscou a mais pequena pergunta.

Nunca se permitiu fazer qualquer alusão ao interesse que manifesto por Maria Clara. Contudo, tenho a impressão de que a boa mulher está mais ao facto do estado do meu coração do que eu próprio.

Voltei a casa de Mariannick.

Queria despedir-me da velha Bretã antes de abandonar a Bretanha.

Acolheu-me sem entusiasmo, mas também sem desagrado. Pode ser que visse em mim a única pessoa com quem podia falar livremente da ausente sem que as más-línguas encontrassem nas suas palavras objecto de maledicência.

- Então vai deixar Voulch, senhor Marcos? Acho que faz bem. Em Paris voltará a encontrar os seus amigos... a família... e junto deles esquecerá.

- Não creio que o esquecimento chegue tão depressa. Pelo contrário, julgo que tão cedo não conseguirei recuperar a despreocupada alegria doutros tempos... Há em mim fibras despedaçadas que não voltarão a sarar!

- Junto de seus pais, contudo, conseguirá adaptar-se de novo ao ambiente familiar... Para se readquirir a nossa alma primitiva não há nada como adoptar de novo os hábitos antigos.

- Deus a oiça! Mas nada espero, infelizmente! A minha família compõe-se apenas de minha mãe... uma mãezinha muito boa, muito meiga, è certo! Desde que meu pai morreu estraga-me com mimos... adoramo-nos os dois... por sua causa tentarei, evidentemente, aparentar ser o rapaz alegre e despreocupado doutros tempos... Por sua causa, sim! Só Deus sabe os sacrifícios de que sou capaz, por minha mãe!

- Ora ainda bem! Até que falou com juízo! O amor de mãe é o mais sublime e completo... o único que não comporta desilusões... Ah! Se os rapazes que fazem sofrer as mães fossem mais sensatos e clarividentes, a quantos desgostos não seriam poupados!

A excelente Mariannick podia continuar a discorrer sobre este tema e a expor ideias, que de resto perfilhava completamente. Eu já não a ouvia havia alguns minutos.

Os meus olhos fitavam a porta do fundo que um reposteiro de reps ocultava às vistas profanas e ao mesmo tempo pensava que Maria Clara vivera ali vinte anos e que os objectos deviam conservar ainda vestígios da sua presença.

- Mariannick!... Antes de partir, provavelmente para sempre, quero fazer-lhe um pedido.

- Qual?

Apontei-lhe para a porta discreta.

- Deixe-me ver o quarto de Maria Clara... Tudo ali deve ainda falar dela.

- Ver o quarto da minha pequenina! - repetiu, surpresa, como se eu lhe tivesse pedido para visitar o Céu.

- Sim... queria vê-lo!... Não compreende porquê?... Desejo levar comigo a imagem desse cantinho onde Maria Clara viveu... E, visto que ela já aqui não está, nem è provável que volte...

- Mas o quarto é semelhante ao de qualquer outra rapariga!...

- Não!... Deve persistir nele o reflexo da sua alma... Muito melhor do que o poderiam fazer as suas palavras... esse cantinho recatado me saberá revelar tudo quanto ignoro dela... o fundo misterioso do seu pensamento... o seu mundo íntimo.

- Engana-se, senhor Marcos. O quarto de Maria Clara está arrumadinho e bem ordenado. Reflecte a alma recta e leal da querida garota! De resto, julgo não haver indiscrição em lho mostrar, visto o senhor sair da região para sempre, naturalmente.

- Sim, è de calcular que não torne aqui. Levo da Bretanha recordações muito dolorosas.

- Pois bem! Nesse caso... veja!

Correu o reposteiro e abriu a pequena porta que dava acesso ao aposento, cujas janelas estavam fechadas e as persianas corridas.

Por segundos, dominado por uma espécie de emoção religiosa, parei no limiar desse quarto virginal, com os móveis cor de marfim e cortinados claros.

No pequeno leito branco, coberto com uma colcha mimosa de artístico bordado da Bretanha, havia dormido Maria Clara... descansara numa poltrona forrada de veludo azul, sentara-se diante da linda secretária antiga; o espelho deste armário reflectira inúmeras vezes a sua imagem encantadora; nas prateleiras que guarneciam as paredes reunira escolhida biblioteca...

Mas o que de repente me feriu a vista foi a grande quantidade de quadros, pendurados por toda a parte, desde o tecto ao lambril. Havia-os de todas as qualidades e tamanhos: marinhas, paisagens, flores, naturezas mortas, etc. Um verdadeiro museu, no qual as velhas ruínas da charneca apareciam sob todos os aspectos.

E, rápida como um relâmpago, uma conclusão me atravessou o cérebro:

- Todos estes quadros são obra da mesma mão, e essa mão, esses pincéis foram os que retocaram o meu trabalho.

Como corolário deste pensamento inicial seguiram-se deduções imediatas e imperiosas.

- Nesse caso, Maria Clara conhecia o pintor que me mistificava... ou então estas telas foram pintadas por ela.

São tantas as acumuladas no quarto que é impossível terem-lhas oferecido ou serem compradas. Voltando-me para a tia apontei-lhe a colecção.

- Foi Maria Clara quem pintou tudo isto?

- Foi - declarou a velha com toda a naturalidade - Adorava a pintura!

- A pincelada não é de um leigo. Sua sobrinha estudou, com certeza!

- Frequentou durante cinco anos a Escola de Belas-Artes! Desde muito pequena demonstrou extraordinárias disposições para o desenho e para colorir. Um verdadeiro dom, diziam os professores do pensionato. E assim, quando declarou que desejava ser pintora não a contrariámos. Se era essa a sua vocação!

Não lhe respondi. Nova amargura me feria. Por que motivo me ocultara Maria Clara o seu talento e os seus estudos? Com a sua natural franqueza, como teria conseguido ouvir todas as minhas suposições, sem se trair e sem me declarar ser ela a pessoa desconhecida que retocava os meus quadros? Que significava esse silêncio?

Provavelmente, não havia outra causa para essa conduta senão possuir um fundo de dissimulação muito maior do que lhe supunha.

Paciência! Mais uma vez me mentiu!... Como sempre, de resto... A franqueza não era a sua virtude predominante I

Este pensamento foi-me extremamente doloroso, mas não o comuniquei a Mariannick Guilherme.

A pobre mulher ficaria desolada por ter traído a sua pequenina.

Antes de abandonar o quarto de Maria Clara quis ver as telas mais de perto. O exame levou-me a formular certas observações:

- Dir-se-ia que a maioria destas paisagens são feitas de memória... as ruínas, por exemplo, que conheço tão bem por as ter estudado a fundo... noto nelas não sei o quê... parecem-me pintadas no atelier.

- E não se engana - aprovou Mariannick - minha sobrinha detestava tudo quanto a tornasse notada e e raramente pintava ao ar livre... E foi por isso justamente que ficou contentissima quando o viu escolher as ruínas para motivo do seu quadro. Ah! Quando descobriu que o seu cantinho favorito ia ser imortalizado por um verdadeiro pintor, posso afirmar-lhe que a sua alegria e felicidade foram imensas!... O senhor nunca desconfiou, mas a querida pequena todos os dias me descrevia o seu trabalho, com ar radiante:

«-Tem muito talento - dizia ela - e as ruínas vão, finalmente, ser reproduzidas como merecem».

Deixei falar a velhota. Achava muito natural tudo quanto me contava de Maria Clara, cuja natureza entusiasta e exuberante eu conhecia. Não conseguia, porém, compreender, não obstante todas as explicações da tia, por que razão precisava Maria Clara que um artista estranho copiasse a sua paisagem favorita... A charneca conservava-se sempre deserta e, na verdade, poderia, sem ser notada, ter-se instalado ali com o seu cavalete, para copiar do natural essas velhas paredes tão queridas.

No entanto, não podia deixar de concordar que as reproduções feitas no atelier estavam excelentes.

- O talento de Maria Clara iguala, ou antes, ultrapassa o meu - reconheci com lealdade, pois a minha sinceridade não me permitia depreciar o valor artístico da sua obra - Tem pinceladas de uma luminosidade intensa que dão vida e alma às velhas e sombrias pedras... É um dom magnífico, esse que recebeu da Natureza, e, se quisesse, poderia, unicamente pela magia dos seus pincéis maravilhosos, alcançar a brilhante situação que ambiciona e tenta atingir por outros caminhos.

Leve sorriso iluminou o rosto enrugado de Mariannick.

- Não se preocupe com a pequena... O caminho que seguiu e que o senhor desconhece, nada tem de desonroso, posso afirmar-lho.

- Estimo-o imenso! - respondi com certa amargura, perante esse mistério que não me achavam digno de conhecer - Contudo, deve concordar que uma jovem pintora podia amar um pintor... de boa família e educado, sem se sentir diminuída. E se Maria Clara não viu, ou não quis ver, todas estas vantagens, é porque uma vida tranquila e normal junto de um homem que partilhasse os seus gostos e ideais, não bastava às suas aspirações.

A velha bretã, porém, não quis seguir-me neste terreno. Contentou-se em abanar a cabeça e com ar um pouco duro fechou a porta do quarto da ausente.

- Estão satisfeitos os seus desejos. Minha sobrinha não deve continuar a ocupar-lhe o pensamento; peço-lhe para esquecer tudo quanto lhe diz respeito. Nada temos com a sua vida nem com o seu futuro. Fiquemos por aqui e não me faça, com a sua obstinação, arrepender de o ter acolhido hoje com simpatia.

- Oh! Bem sei que nada mais conseguirei obter de si... Não me julgo digno das suas confidências...

- É muito melhor assim, pode crer! E agora, adeus, senhor Marcos!... Esqueça tudo isto... viva a sua vida e trabalhe para melhorar o seu próprio futuro, sem se preocupar com o dos outros.

A sentença não tinha apelo e não devia insistir.

Despedi-me de Mariannick e voltei à hospedaria.

De passagem, lancei um derradeiro olhar às ruínas: toda a poesia que envolvera esse cantinho selvagem parecia ter desaparecido para sempre: os meus olhos já não as viam pelo mesmo prisma ilusório. Diante de mim estendia-se agora uma planície árida e crestada pelo sol, semeada de pedras calcinadas, denegridas e poeirentas, e de tufos de urtigas e silvados.

- Que quadro tão triste!... Quanta reminiscência dolorosa!

Adeus, paisagem enganadora! Sois semelhantes, tu e a garota prática e positiva a quem atribuíra tanta inocência e perfeição: falta-lhes uma alma, a qualquer das duas.

Terra! Revestimos-te de um ideal belo, harmonioso, e não passas de uma miragem!

Mulheres! Julgamo-las relicários da beleza eterna e tudo nelas é decepção, hipocrisia.

Depois, dirigi ainda ao santuário da Virgem Garrida um protesto, nascido do pensamento de que a Senhora podia constranger a vontade e unir dois seres contra seu desejo.

Zombei da lenda. Hoje penso que ninguém pode fugir ao seu destino.

Irei, acaso, tornar-me fatalista ou supersticioso?

Então, dominado por uma espécie de rancor, lancei-lhe um desafio insensato, cujo fundo de incredulidade ímpia só agora reconheço.

- Rematai a obra, Virgem Garrida, já que tendes o poder de subjugar à vossa vontade os corações que se julgam invulneráveis! Vamos, concluí a tarefa começada!... Casai dois entes que voluntariamente se separaram!... Ou ides consentir que um deles possa duvidar e negar o Vosso poder, como eu o faço neste momento?...

O meu regresso a Paris fez-se em condições muito mais melancólicas do que a partida. O entusiasmo que semanas antes me animava, havia-se desvanecido por completo. Trazia no mais íntimo da alma uma ferida profunda que levaria muito tempo a cicatrizar.

Mal entrei no atelier para deixar a bagagem, tão grande era a ansiedade que me dominava de ver e abraçar minha mãe, em primeiro lugar porque a adorava com a mais intensa ternura e, em segundo, por mim também, talvez pelo desejo de recuperar junto dela um pouco da minha antiga tranquilidade.

Comovidos, ambos nos estreitámos num prolongado abraço. O seu olhar penetrante adivinhou, talvez desde o primeiro minuto, a dor que traduziam as minhas feições pálidas e desfiguradas. Com gesto afectuoso, passou-me o braço pelos ombros e examinou-me demoradamente.

- Que tens, meu filho? - perguntou-me num tom meigo e consolador que só as mães indulgentes sabem ter quando pressentem as fraquezas dos filhos.

Instintivamente, a sua sensibilidade impelia-a a derramar o bálsamo da sua ternura na ferida invisível que me fazia sangrar o coração.

De princípio retraí-me contra esse inquérito que pretendia sondar a minha chaga tão recente.

- Não tenho nada, minha mãe... Afirmo-lhe! Que havia de ter?

Meneou a cabeça.

- As mães não se enganam, meu filho... O teu olhar, tão brilhante noutros tempos, está velado. Vejo-te abatido, de feições transtornadas e sorriso forçado. Nada disso é normal... Vamos, desabafa. Que dolorosa provação te atingiu lá longe? Uma decepção, mentira ou desdém?

Arrastou-me para um pequeno divã e fez-me sentar junto dela, aninhado nas almofadas macias.

- Não me ocultes coisa alguma, meu filho... Não sou eu a tua melhor amiga, quase uma camarada?... Porque sofres?

A voz era tão meiga, vibrava numa ternura tão intensa, que benéfica comoção me contraiu a garganta. Como nos tempos da minha infância, encontrei de novo o refúgio maternal... essa doce afeição que sabia dulcificar-me as penas e dissipar as minhas dores.

- Oh! Mãezinha - balbuciei num desabafo angustioso - Como sou desgraçado!

Minha mãe permaneceu calada. Adivinhou a minha necessidade de expansão e não me interrompeu. Esperou as minhas confidências e para as encorajar prendeu-me as mãos nas suas, a fim de que eu sentisse bem quanto desejava amparar-me e reconfortar-me.

- Parti para a Bretanha tão feliz! - lamentei - E só fui encontrar ali a mais dilacerante dor!

Compreendeu.

- Trata-se de uma mulher?-perguntou a meia voz.

- Sim - confessei, um tanto ou quanto envergonhado.

- Enganou-te?

- Não, minha mãe... Não foi bem isso.

- Iludiu-te?

- Também não.

- Foste obrigado a fugir-lhe?

- Infelizmente não fui eu! Foi ela quem me repeliu e desapareceu.

Pareceu reflectir. Depois, continuando o interrogatório que me facilitava a difícil confissão, inquiriu:

- Conhecia os teus sentimentos? Aceitava-os?

- Quando lhos confessei já era tarde... antes disso nem eu próprio sabia o que se passava em mim.

- Amava outro?

- Suponho que sim... mas nunca mo confessou.

- Talvez tivesse razões particulares para rejeitar as tuas propostas.

- Talvez... mas nada sei!

E sublinhei esta declaração com um encolher de ombros. Mas, visto que já tinha avançado tanto, não consegui resistir ao desejo de lhe confessar tudo e, cheio de confiança, desvendei-lhe completamente o meu querido e doloroso segredo.

Minha mãe não teve uma palavra de desculpa ou de acusação, nem mesmo comentou a conduta da ausente quando lhe descrevi a horrível visão de Maria Clara no automóvel, ao lado do desconhecido, em Brest.

Quantas mães se teriam mostrado triunfantes e vitoriosas! A minha evitou qualquer reflexão ofensiva, e deixou-me prosseguir a narrativa até ao fim, sem tirar qualquer dedução dos factos que lhe descrevia.

Depressa concluí. Ficou sabendo como Maria Clara tinha partido, desaparecido da minha vida, sem me dar qualquer explicação da sua conduta. Compreendeu também que seria difícil resignar-me com essa ausência.

- É claro - observou como se o caso não sofresse discussão - Essa pequena era bem educada... em toda a acepção do termo?

- Nunca a vi cometer uma incorrecção ou uma acção equívoca - afirmei com ardor - Era uma garota ingénua e simples... uma verdadeira filha dos campos, mas sempre impecável até ao dia em que a vi em Brest...

- Bem, bem! - interrompeu minha mãe, que não desejava ver-me insistir nesse cruel pormenor.

Calou-se, parecendo reflectir.

Admitiria a possibilidade duma pressão estranha influenciando a minha amiguinha? Com efeito, e muito simplesmente, encarou essa hipótese.

- Talvez que essa rapariga não fosse livre de dispor da sua vida em teu favor, conforme logo te preveniu no início da vossa convivência...

- Sim, já tenho admitido estar Maria Clara sujeita à vontade de alguém com direitos a impor-lha.

- Um parente mais velho do que ela, por exemplo!...

- Esse parente, em todo o caso, nunca poderá ser Mariannick. Essa não tem grande autoridade sobre a sobrinha.

- Nós, porém, não sabemos se a mãe está ainda viva. É essa, talvez, a verdadeira causa de tudo.

Esta suposição fez-me estremecer.

- Sendo assim... o caso è diferente!

Não prossegui, como se encarar apenas essa possibilidade fosse um sacrilégio. Junto da minha mãe, afigurava-se-me que a extraordinária recusa de Maria Clara fora uma grande felicidade para mim.

Se essa mãe inquietante vivesse ainda, poderia, por acaso, dar o meu nome à filha?

Mais uma vez esta perspectiva esfriou o meu entusiasmo.

«Quantas loucuras um homem apaixonado é capaz de cometer - pensei, meditando no meu caso - «Não cheguei a oferecer a Mariannick casar com a sobrinha? Se a velhota tivesse tomado a proposta a sério, e que a terrível suposição se realizasse, que seria agora de mim? Que abismo de vergonha e de desilusão se abriria diante dos meus pés!»

A voz da minha mãe chamou-me á realidade.

- Desejo ardentemente que tornes a encontrar essa jovem, meu filho. Para teu sossego, seria conveniente teres com ela uma explicação... salvo se encontrares em ti força de vontade para procurar um derivativo bastante poderoso... o trabalho, por exemplo, que te traga o esquecimento.

- Tentarei - prometi corajosamente, pois continuava a pensar em Maria Clara.

Minha mãe pronunciou ainda estas palavras que em qualquer outra circunstância seriam para a minha alma um bálsamo infinitamente consolador, tanto elas demonstravam compreensão e ternura maternal:

- Lamento não ter conhecido essa Maria Clara. Visto que a julgas digna do teu nome, do nosso, talvez eu conseguisse obter a sua confiança e pudesse auxiliá-la. É órfã. A tia não poderá, talvez, ser para ela um amparo valioso. Enquanto que eu, com a minha experiência e animada pelo desejo de te ver feliz, teria empregado em seu favor todos os meios que proporciona a fortuna... e esse auxílio, vindo de uma pessoa do seu sexo, teria colocado a tua juvenil amiguinha numa posição mais favorável para encarar o futuro... e para te confiar com maior liberdade o que não ousou talvez confessar-te. Pelo menos, saberias com que contar e não te atormentarias tanto.

Sem lhe responder, mas profundamente comovido, beijei as mãos da santa senhora, cujos pensamentos não podiam conceber o mal.

E porque não repelira, indignada, a ideia do casamento do filho com essa desconhecida - essa desconhecida que não feria com a mais leve suspeita, quando no meu espírito se agitavam tantas dúvidas - porque não se alegrara ao ver esse idílio ter um desfecho tão rápido, e, principalmente, porque me demonstrava uma bondade sem limites e maternal indulgência, senti-me de súbito menos infeliz. Via o meu imenso desgosto admitido, partilhado e podia confiar-lhe todos os meus pensamentos a esse respeito.

Não fora propositadamente que havia escolhido minha mãe para confidente e no entanto confessei-lhe tudo sem evasivas nem reticências... numa necessidade invencível de não me encontrar sozinho em face do intenso pesar que me minava.

Agora estou um pouco envergonhado por não ter sabido calar-me. É melhor um homem suportar sozinho as suas penas de amor. Seja! Admitamos que tivesse sido uma lamentável fraqueza, mas confessar o meu desgosto fez-me tão grande bem! Portanto, não lamento esse impulso.

Foi como se, à medida que as confidências me fugiam dos lábios, com elas desaparecesse também parte do mal que me entenebrecia a alma. Mas que dizer da admirável compreensão da minha querida e indulgente mamãzinha? Ouviu-me, amparou-me, procurou restituir-me a coragem, e aceitou tudo sem uma palavra de censura, de severidade ou de pesar...

Que incomparável refúgio è o coração das mães!

Entreguei-me de novo ao trabalho. Dei os últimos retoques no castelo-fantasma e na cena das ruínas, não apurando muito o primeiro porque desejo deixar intacto o que ela pintou.

Ah! Quando penso que os seus dedos pegaram nestes pincéis, que os olhos, profundos como o mar, fitaram esta paisagem!

Oh! Maria Clara, porquê?...

Verifico agora que, desde o primeiro dia, a sua imagem nunca mais abandonou o círculo interior da minha visão, Quando pensava nela, parecia respirar melhor. Quando surgia, todo o meu ser se exaltava e a felicidade fazia-me repicar festivamente o coração no peito.

Mas o facto era por tal forma imprevisto que não podia supor o que se passava em mim... Só muito tempo depois o compreendi... mas então já era tarde!

Há pouco, examinei com atenção os pequenos desenhos que me diverti a esboçar durante as minhas excursões de acaso. São dos mais variados, mas a todos eles se liga uma recordação da minha amada...

Este pinheiro? Encostou-se a ele certo dia enquanto esperava por mim. Este amontoado de pedras esverdeadas sobre as quais dormita um lagarto cor de esmeralda, serviu-lhe uma vez de banco! Esta luz branda, este raio de sol brilhante que anima a paisagem, acariciava os cabelos da minha princesinha encantada... a loira fadazinha dos meus contos maravilhosos.

Esta manhã não sei que desejo febril me impeliu a fixar na tela o rosto de Maria Clara enquanto o tenho bem presente na memória.

Imagem imaculada, de poesia e de sonho! Que me resta dela, afinal? Apenas esta composição fantasiosa no meio das ruínas. Não è bastante, porque fiz um trabalho de conjunto e tratei a paisagem com tanto cuidado como a figura principal.

Quero fixar o rosto querido enquanto ele impera como senhor omnipotente no meu coração. Sim, tem de ser. E esse coração está por tal forma cheio da sua imagem que só tenho o trabalho de copiar as suas feições adoráveis.

Nunca comecei um quadro com tanto entusiasmo.

Será melhor que um retrato, conquanto só deseje possuir a cabeça... mas não quero um retrato parecido... a Maria Clara da charneca, da choupana ou de Brest... Grave, irónica ou frívola! Não; quero uma Maria Clara só minha... aquela que o meu sonho realizou: de uma beleza ideal, muito pura, sintetizando num só rosto as concepções da minha fantasia e do meu amor...

O homem que reconduziu Maria Clara a Ty-Bianet que direitos terá sobre ela? Que compromissos os unem?

Há momentos em que esse atroz enigma esteriliza por tal forma a minha alma que tenho de lutar para não deixar extinguir a centelha sentimental, alimento da minha inspiração.

Momentos terríveis, esses em que todas as suspeitas me assaltam...

- É forçoso que te conserves bela e imaculada para mim, Maria Clara... És a mulher soberana, a que acordou no meu ser sentimentos desconhecidos... a que sonhei escolher para companheira da minha vida... a jóia magnífica que me apareceu como um dom maravilhoso do Céu... a bem-amada... a eleita!...

No altar ardente do meu amor quero imolar todas as dúvidas... Para longe a sombra de um mau pensamento ou de desconfianças ofensivas!...

Sejam quais forem as aparências, Maria Clara, considero-te digna da minha afeição e da minha fidelidade.

Perante o encanto infinito do teu rosto angélico apagam-se todas as ímpias suspeitas... imortalizarei na tela as tuas feições adoráveis, os teus olhos cândidos e profundos, o divino mistério dos teus lábios e do teu meigo sorriso.

Rapariguita sedutora, do Perdão, criança delicada, nas ruínas, louca aparição no alto da torre.

Seja como for, idealizada pelo meu sonho... perturbadora, misteriosa... agora és minha, conservo-te para sempre... e amo-te!...

O Salão abre em breve.

Maria Clara prometeu-me ir visitá-lo.

«- Irei, a despeito de todos os obstáculos - afirmou - Quero ver o efeito que fazem os seus quadros no meio dos outros visitantes...»

A incompreensível garota será capaz de cumprir a promessa?

 

Aproxima-se a hora em que me será dado, talvez, ver de novo a minha amiguinha; é apenas uma questão de dias! Os meus quadros já se encontram no Salão! Aceitá-los-ão? Receio que, pelo menos, o que representa as ruínas não seja admitido. A vaga imagem do castelo, erguido sobre os campos como um fantasma, é, sem dúvida, comovente para mim... e mais ainda para Maria Clara, pois assim o desejou. Mas não irá provocar o assombro dos visitantes profanos que a contemplem? Compreenderão que representa um símbolo, nada mais? Pelo contrário, o segundo quadro está mais ao alcance de todas as inteligências, fala mais à alma!

A figura da filha das ruínas tem vida, está bem lançada! Essa jovem Bretã idealizada junto das velhas paredes desmoronadas, sorridente, sonhadora, tão natural que parece falar, vai, por certo, triunfar de todas as prevenções e obter simpatias.

Decididamente, esse conjunto tão expressivo parece-me excelente e o melhor. Contudo, cabe aos organizadores do Salão decidir.

Os quadros foram admitidos! Sinto-me feliz com isso. Prova que, se não são uma obra-prima, fiz, pelo menos, um trabalho apreciável.

Apresentei-me no Comissariado Geral do Salão para cumprir as disposições obrigatórias.

Agora tenho de mandar emoldurar as telas.

Está tudo pronto! Os quadros foram colocados num lugar excelente, com esplêndida luz que os realça, junto de larga janela que os inunda de claridade.

Tais como se encontram, satisfazem-me completamente.

Um pequeno pormenor que não quero deixar de mencionar. Oh! Não tem importância alguma, mas, mesmo assim, é divertido.

Perguntaram-me, no Comissariado, os preços atribuídos aos quadros, caso algum amador pretendesse comprá-los.

O pensamento de fixar uma quantia e de traduzir em algarismos o apego que tenho pelas minhas obras impressionou-me como um sacrilégio. Poderia alguém adivinhar que em cada pincelada eu pus nesse quadro o melhor de mim próprio, da minha alma?

Contudo, para obedecer à sugestão do empregado, fixei com ar indiferente um preço elevadíssimo: cem mil francos por cada quadro! Este expediente evita-me todas as explicações supérfluas.

Por muito tempo me recordei da expressão assombrada do homem.

Fitou-me com olhar espantado antes de tomar nota da quantia. Julgou-me louco, com certeza.

Um pintor desconhecido exigir tal exorbitância, quando grandes mestres avaliam em alguns milhares de francos, apenas, as suas obras expostas nesse mesmo Salão.

Era, de facto, para causar o maior espanto, mas não julguei necessário explicar ao bom do escrevente, que me dirigiu um sorriso de compaixão, as causas justificativas das minhas pretensões.

Abanou a cabeça e sem mesmo se dar ao trabalho de tentar fazer-me revogar a decisão, escreveu a seguir ao meu nome as duas somas fabulosas.

Evidentemente, estas ultrapassam os preços habitualmente pedidos, mas esses dois quadros têm para mim incalculável valor! Em primeiro lugar, um deles pertence a Maria Clara. Prometi-lho, é dela... Quanto ao outro... representa toda a minha razão de existir.

E, contudo, esse desejo de viver persistirá ainda amanhã, se não voltar a encontrar os teus grandes olhos, tão profundos, e o teu meigo sorriso, Maria Clara?

 

Hoje vernissage!

Tive o pressentimento de que veria Maria Clara e em todo o dia a esperei, examinando os grupos, encarando todos os visitantes.

E não veio!

Teria esquecido o meu desejo de expor os quadros? Ou não se encontrará em Paris...

Virá mais tarde, talvez...

Mas não apareceu ontem e hoje também não.

Esperarei mais um dia... com o mesmo resultado, naturalmente! Chegarei a convencer-me de que Maria Clara esqueceu a Bretanha, as ruínas de Kéridec e o humilde pintor que reproduziu as suas feições queridas com tanto entusiasmo.

Ninguém!... Sempre ninguém!... A minha prolongada expectativa será falaz.

Lentamente, passam os dias, uns após outros. A minha Madona de olhos cor do mar não apareceu!...

Desde a hora da abertura até fechar, não abandono a sala onde se encontram os meus quadros.

Mas em mim morreu a esperança de ver surgir aquela que o meu coração esperava com tanto ardor.

E estará ela em Paris, ao menos?

Julgo, pelo contrário, que se encontra em Brest ou próximo... Dolorosa suspeita!

Esta vigilância è fastidiosa e inútil: Maria Clara tem, por certo, mais com que se preocupar e esqueceu por completo o Salão e a data da sua abertura... E, quem sabe, talvez já nem recorde o meu nome...

Ontem, um telefonema urgente obrigou-me a correr para junto de minha mãe, que se encontra na nossa propriedade de Turena, aproveitando os últimos dias de Verão.

A minha querida mãezinha apanhou frio! As manhãs húmidas e as tardes enevoadas agravaram-lhe as tendências reumáticas e julgaram prudente chamar-me.

Assustado, parti sem demora. Felizmente, porém, não será nada de cuidado. O médico tranquilizou-me. De princípio receou qualquer coisa de mais grave...

Contudo, esta ausência forçada afastou-me de Paris nos dois últimos dias de exposição e não pude assistir ao seu encerramento.

Agora só me resta mandar retirar os quadros.

Quantas esperanças fantasiosas depositei neste certame... E nem sequer a que me era mais querida eu vi realizada... Em compensação, o meu amor-próprio deve estar satisfeito: os críticos notaram os meus quadros e teceram-lhe rasgados elogios.

Desejaria que Maria Clara lesse um desses artigos para lhe refrescar a memória.

Esta manhã, quando cheguei à galeria a fim de retirar os quadros, recebi uma notícia inesperada e terrível.

Tinha alugado uma camioneta para carregar a incomodativa bagagem, mas o guarda, logo que me viu aparecer, acolheu-me com esta alegre exclamação:

- Não vale a pena tanto trabalho. Os seus quadros já cá não estão!

- O quê? Não estão cá!

- Não. Parece que foram vendidos os dois e o comprador levou-os ontem.

Fiquei como petrificado com a espantosa notícia.

- Essa agora! Que significa isto? Com certeza está enganado. Não se trata de mim!

Ninguém daria pela obra de um pintor desconhecido a exorbitante quantia exigida.

- Não estou enganado, não, senhor. Certifique-se com os seus olhos. Veja, os seus quadros não estão aqui... de resto, fui eu quem os ajudou a tirar... Vá ao escritório e ali lhe confirmarão o que lhe digo.

Contudo, apesar das afirmativas do homenzinho, estava persuadido de que havia engano. Infelizmente, porém, era verdade. No último dia tinha aparecido um comprador que entregara logo um cheque em troca dos quadros, com a condição de os levar consigo, imediatamente.

- O senhor compreende. Aceitámos sem opor dificuldades. Semelhante probabilidade podia não se apresentar segunda vez e era necessário aproveitá-la... De resto, estávamos convencidos de que o senhor ficaria contentíssimo também.

- Sim, sim, com certeza!

Com grande esforço consegui ainda pronunciar esta aprovação; senti, contudo, que empalidecia assustadoramente e pareceu-me que o sangue se gelava nas veias.

Entretanto, em volta de mim só se ouviam felicitações:

- Foi uma verdadeira sorte, meu caro senhor! Não há memória de um caso idêntico... Evidentemente, os seus quadros são muito bons; mas sem desejar ofendê-lo, o seu nome é pouco conhecido... o comprador especula por certo com os seus futuros êxitos...

Eu, porém, não ouvia nada do que me diziam.

No meu cérebro fulgurava um nome: Maria Clara! A iniciativa da compra partira dela, è inegável! O homem que a acompanhava em Brest empenhara-se em adquirir o seu retrato para que não fosse parar a mãos estranhas... ou, quem sabe, talvez muito principalmente para não ficar nas minhas!

A compra do quadro das ruínas já não era tão fácil de explicar. Contudo, mais uma vez o nome da minha amiguinha se impunha: gostava muito do quadro; as ruínas representavam toda a sua infância: devia, portanto, ter sido ela quem insistira pela compra!

Esta conclusão atirou-me para o mais dramático desespero: Maria Clara viera ao Salão e eu não a tinha visto!... E, maior infelicidade ainda: a sua imagem adorada não voltaria a iluminar o meu atelier! A filha das ruínas havia desaparecido por completo da minha vida!... Atroz perspectiva!

Afigurava-se-me que para o futuro nunca mais voltaria a retomar o curso normal da existência. E subitamente foi a ideia da morte que se impôs ao meu espírito: se não conseguisse ser superior ao meu desgosto, não seria ela a grande consoladora, o único refúgio?

Pensamento ímpio! Como podia eu renegar assim as crenças poderosas da minha infância? Que aberração me conduziria áquele ponto?

Virgem Garrida, que misteriosos desígnios são os Vossos? Foi para me forçar a essa derradeira cobardia que me fizestes vergar ao peso infinito da antiga lenda?

Nesse dia, porém, não pensava na Madona.

Não obstante a minha aparente firmeza, estava perturbadíssimo e sentia-me próximo a soçobrar no mais sombrio desespero.

Exactamente neste momento entregavam-me o cheque... o preço dos meus dois quadros!

Horrorizado, quis rejeitá-lo.

Podia eu aceitar dinheiro em troca do rosto adorado? Ia declarar que renunciava à importante quantia a favor dos artistas pobres, quando, de repente, o pensamento de que talvez os dedos de Maria Clara tivessem aflorado esse papel me incitou a conservá-lo.

A única recordação que me restava dela! Esse papel tornou-se sagrado para mim I

E foi numa espécie de hipnose que perguntei o nome do comprador. Na minha perturbação só via os algarismos do cheque.

- O nome está indicado no cheque, com certeza. De resto, posso informá-lo: É um comerciante da rua Rivoli. Olhe, aqui está o seu cartão... Como vê, tudo correu com a maior legalidade.

- Um comerciante? - balbuciei.

- Sim, senhor.

- Sozinho?

- Evidentemente... calculou que fosse uma Sociedade?

- Não... não é isso! Quer dizer... Julguei que fosse um casal... Ou só uma senhora... sim, uma parente... ou mesmo uma senhora nova... o original do meu quadro.

- É assim tão rica, a pequena Bretã - exclamou o guarda que me havia seguido, para presenciar a minha surpresa.

Esta intervenção foi salutar. Chamou-me à razão; notei, de súbito, os olhares curiosos que me observavam.

A minha emoção devia despertar nos assistentes certa impressão de estranheza. Salvo se atribuíssem toda essa perturbação à alegria provocada pelo ganho inesperado.

O amor-próprio fez-me recuperar a calma.

- Mandarei um donativo para a caixa de socorros da Sociedade - decidi apressadamente, porque desejava partir quanto antes - Agradeço-lhe, meu caro senhor, a forma admirável como zelou os meus Interesses.

Despedi-me e afastei-me rapidamente, transtornado por completo, como se não compreendesse ainda muito bem o conjunto de circunstâncias de que tinha sido vítima, e a que eles chamavam uma grande sorte.

Entrei em casa como louco.

Uma vez sozinho, ia abandonar-me por completo ao desespero, quando um pensamento me atravessou o cérebro, rápido como um relâmpago.

«Idiota - pensei - Esqueces a direcção do comprador; vai ter com ele e interroga-o. É esse, talvez, o meio de saberes tudo».

De um salto, pus-me de pé e, decorridos dez minutos, estava na rua Rivoli, em casa do comerciante.

Recebeu-me com amabilidade, mas a minha visita causou-lhe certa surpresa: a fortuna que me bafejara era tão maravilhosa que não compreendia muito bem a razão das minhas perguntas.

Contudo, minutos depois, cheguei á conclusão de que o seu papel, no negócio, havia sido apenas o de um intermediário.

- Essas duas pessoas, um homem e uma senhora, ambos novos, vieram ter comigo - explicou - Desejavam comprar os dois quadros. Em vão lhes fiz notar que no Salão se encontravam muitos outros, melhores e mais baratos. Não modificaram os seus desejos: ou esses ou nenhum. Submeti-me à sua vontade, estranhando, contudo, que não quisessem ver o seu nome figurar na compra...

- E depois? - insisti, ansioso.

- Foi muito simples. Segundo as indicações recebidas, dirigi-me ao Comissariado. Em seguida, encaixotei cuidadosamente as telas e decorrida uma hora, depois de se encontrarem em minha casa, veio uma camioneta buscar a encomenda.

- Para a levar aonde?...

- Ah! Quanto a isso nada posso dizer-lhe.

- E o nome dessas duas pessoas? - insisti, suplicante - A sua direcção?

- Ignoro tudo isso... Entregaram-me o dinheiro de contado, o que bastante me admirou. No entanto, como tudo se passou regularmente, só podia exigir o que era devido.

- Então, não sabe mais nada? Não se recorda de qualquer indicação?

- Não... quer dizer, lembro-me de que o moço da camioneta me disse: «Venho buscar os quadros do senhor de Saint-Aubier».

- Saint-Aubier! - repeti, procurando na memória se esse nome se ligava a qualquer pessoa conhecida.

Tenho a certeza, porém, de que o ouvira pela primeira vez.

- É tudo quanto posso dizer-lhe - prosseguiu o comerciante - E lamento bastante, visto declarar estar Pronto a dar uma indemnização para recuperar os seus quadros. Se tivesse calculado...

E nada mais consegui saber. Era evidente que o homem não omitira nenhuma indicação que pudesse elucidar-me.

Como me despedisse, agradecendo-lhe a sua complacência, ouvi-o observar a meia voz:

- Mas que diabo têm esses quadros de extraordinário, para que toda a gente pretenda possuí-los? Por mim, não achei uma coisa por aí além!

Não obstante a minha decepção, esta observação fez-me sorrir.

Evidentemente! Os meus pobres quadros nada têm de sensacional!... E, mesmo por isso, ninguém tinha o direito de mos roubar.

O vago nome de Saint-Aubier, que não me recorda ninguém e, por mais que procurasse, não encontrei nos diversos Bottins, como indicação é pouco! E como endereço, muito menos ainda!

Mistério sobre mistério.

Contudo, estou certo de que só em Brest conseguirei encontrar a pessoa a quem pertence...

E assim não levei muito tempo a resolver partir para a Bretanha, a fim de proceder a um pequeno inquérito.

Sinto a impressão de ter sido colhido numa engrenagem, da qual desejaria libertar-me.

Quem há que não tenha experimentado o doloroso prazer de voltar ao local onde sofreu uma grande decepção? É como que uma obsessão que aumenta dia a dia, talvez para alimentar o nosso potencial de sofrimento quando este começa a esgotar-se...

Há quantas semanas alimento o desejo de partir para Brest, ideia que sempre repeli como insensata, para agora a pôr em prática ao mais pequeno pretexto...

Tenho pensado muitas vezes que a minha natureza impressionável de artista concorreu em grande parte para mais me exacerbar a paixão sentimental.

A minha imaginação sempre exaltada, ávida de ideal e de maravilhoso, não me impelirá a alcançar a felicidade que se recusa e a desprezar a que não apresenta dificuldades?

Amei Maria Clara talvez porque justamente o meu pensamento se alimentou com o mistério que a envolvia. O vestido branco, o seu porte tão diferente do das outras raparigas, a auréola de pureza, essa garota humilde tratada como rainha pela própria tia, essa pequena aldeã tão garrida e ao mesmo tempo tão reservada, com maneiras de fidalga; essa pequenita ingénua que frequentava a Escola de Belas-Artes, esse misto de falso e verdadeiro, de aparências enganosas e de inverosímeis realidades, enfim, toda essa anomalia despertou e alimentou a minha paixão ardente e funesta.

E hoje, neste comboio que me conduz à Bretanha, procuro ainda uma certeza que me arranque a venda dos olhos, como se não soubesse ser eu quem voluntariamente conserva essa venda fictícia, que me obstino numa ilusão e que sou cego porque não quero ver.

Antes de seguir para Brest quis voltar mais uma vez a Voulch, onde permaneci quarenta e oito horas.

Ty-Bianet continua fechado. Mariannick não regressou ainda e a esperança que alimentava de obter por ela notícias da sobrinha, desvaneceu-se.

Em compensação, tudo aqui me fala da ausente... O Céu, as ruínas, o horizonte, o ar que respiro, tudo parece recordar-ma!

Não irá Maria Clara aparecer-me na curva do caminho, tal como uma feiticeira do país do Amor, para enlouquecer os pobres mortais? Mas baldadamente aguardo essa aparição.

Ah! Fada ou simplesmente mulher, vem, minha Pequenina, minha adorada princesa! Enlouqueço sem a tua presença...

Não consegui chegar às ruínas, pois o atalho que ali conduz estava cheio de lama. Contudo, avistei de longe a torre mutilada, erguendo para o Cèu as suas velhas paredes decapitadas.

Lá em cima, num arrojo temerário, sentou-se Maria Clara... os seus pezitos rosados balouçavam no vácuo...

Essa recordação dolorosa quase me fez chegar as lágrimas aos olhos. Presentemente, afigura-se-me que sei dar todo o valor aos deliciosos momentos vividos nas ruínas ao lado da loira garota...

Sim, porque a minha gentil companheira, a princesinha misteriosa, não passava, de facto, de uma garota... uma garota adorável, ingénua, cheia de vida e de encanto!... E se pecou foi por desconhecer o mal e não devo acusá-la por isso.

E teria eu alguma vez coragem para a acusar?

Pobre de mim!

Voltei a cabeça ao passar diante do santuário da colina, porque senti os olhos enevoados de lágrimas.

Houve um dia, Virgem Garrida, em que acreditei cegamente no Vosso poder, mas a minha esperança foi vã...

Hoje desejava poder orar, pois essa oração ter-me-ia feito bem. Receio, porém, que, em vez de súplicas, os lábios, arautos fiéis da alma, soltem um brado de revolta contra a Rainha dos Céus, cuja força misteriosa recaiu tão tragicamente sobre mim.

E afastei-me, encontrando apenas forças para duvidar e gemer.

Catarina Le Coz, a minha excelente hospedeira, acolheu-me com alegria; mas também não soube dar-me notícias da ausente.

Em compensação, comunicou-me novidades sensacionais. A primeira dizia respeito às ruínas de Kéridec. Segundo parecia, tinham começado a fazer pesquisas no intuito de encontrarem certos objectos desaparecidos com o incêndio.

O arquitecto, director dos trabalhos, teria também declarado que os subterrâneos se encontravam em muito bom estado e os alicerces intactos. Em face desta solidez, pensava-se em reconstruir o edifício. Toda a aldeia estava alvoraçada.

Mais do que esta reconstrução, o que levou ao cúmulo a comoção dos habitantes de Voulch foi terem encontrado num barranco o cadáver de um desconhecido que poucos dias antes fora visto rondando por entre as paredes desmoronadas.

Esse estranho parecia muito intrigado com as escavações feitas e seguia atentamente os trabalhos.

Interessou-se, principalmente, pelos operários que removiam os escombros e os transportavam para os espalharem á entrada do bosque, sobre uma espécie de pântano, cujo solo húmido e lamacento não permitira que o pisassem até então.

Teria esse homem pretendido observar mais de perto as obras iniciadas, embrenhando-se pelas ruínas fora das horas do trabalho? Era o mais verosímil, conquanto não se compreendesse muito bem porque se interessava tanto pelos trabalhos começados.

Fosse como fosse, matou-o a curiosidade, sem que ninguém pudesse socorrê-lo!... Quando o cadáver foi encontrado, o homem devia já estar morto há dias.

O acontecimento, como é de calcular, deu que falar às línguas da terra. Embora ninguém o conhecesse, não faltou quem pretendesse que o desconhecido era um dos membros da família de Kéridec, desaparecidos por ocasião do incêndio.

Outros diziam ser um antigo criado da casa... isto é, cada um inventou o que melhor lhe pareceu.

- E calcule, senhor Marcos, o cão de Ty-Bianet nunca viu com bons olhos a presença desse indivíduo nas ruínas.

- Ah! Taiaut não gostava dele?

- Isso sim! Mostrava-lhe os dentes e atirava-se a ele, enraivecido.

- Mas como se explica que o cão de Maria Clara se encontre ainda aqui, quando as donas se foram embora?

- Quando necessitam de fechar a casa e se afastam de Voulch por qualquer motivo, são sempre os donos da quinta próxima de Ty-Bianet que ficam com o cão.

- E o animal não gostava do desconhecido?

- Quando o via, rosnava com tal força e perseguia-o com tanta insistência que o caseiro julgou mais prudente prendê-lo.

- É curioso, de facto - observei, não dando, contudo,

grande importância ao mau humor de Taiaut, que noutros tempos não me aceitava também com bom agrado.

Catarina, porém, tirava deste facto as suas deduções.

- Não me sai isto da cabeça, senhor Marcos - repetia muitas vezes - O cão conhecia o homem e adivinhou que não vinha por boa. Se têm deixado o animal à vontade, o impertinente curioso seria obrigado a abandonar a terra antes de encontrar aqui um fim tão triste!... Os animais, fique sabendo, vêem muito mais longe do que nós, os racionais, não obstante a nossa inteligência!

O que afirmava era sensato. A maioria das vezes o homem não pressente a desgraça, mesmo quando esta está prestes a cair sobre ele.

Taiaut, tinhas muita razão quando querias impedir-me de me aproximar da tua dona: o teu instinto fazia-te pressentir esse desgraçado amor que nasceu no meu coração.

O desconhecido foi enterrado no cemitério de Voulch. Obedecendo a obscuro impulso fui visitar-lhe a campa. O meu espírito estabeleceu entre esse homem, que me haviam descrito bem vestido e de mãos finas e bem cuidadas, e Maria Clara, uma certa aproximação. Haveria qualquer laço entre eles? E porquê, esse pensamento?

A minha amiguinha interessava-se pelas ruínas... Se estivesse em Ty-Bianet, com certeza não abandonaria a charneca, seguindo com interesse os trabalhos.

Pode ser que essa mesma circunstância me obrigasse a estabelecer o paralelo entre Maria Clara e o desconhecido.

Pensei depois que no posto policial deveriam ter conservado a fotografia da vítima, para facilitar um ulterior reconhecimento.

Decidi, portanto, ir ter com o chefe e pedir-lhe para me mostrar os documentos usuais, que em caso de necessidade permitiriam restabelecer a identidade do falecido.

Cheio de boa vontade, o chefe do posto repetiu-me o que eu já sabia.

No inquérito feito por ele e pelos seus subordinados haviam chegado à conclusão de que, como afirmara Catarina Le Coz, o defunto fora vítima da sua temeridade. No corpo não encontraram quaisquer sinais de violência ou crime, mas apenas as contusões produzidas pela queda.

Tinha sido impossível identificá-lo e nas algibeiras não se encontrou um único documento que pudesse orientar as investigações. Por outro lado, ninguém na região pôde fornecer qualquer indicação referente a esse estranho, conquanto um bufarinheiro tivesse afirmado não lhe ser desconhecida a sua fisionomia... Supunha tê-lo encontrado diversas vezes, mas não conseguiu precisar onde nem em que circunstâncias se tinham dado esses encontros. Por conseguinte, as suas declarações nenhuma luz lançaram no caso.

Como era de calcular, o exame das fotografias nada me disse. Nenhuma das minhas impressões mórbidas assentavam em base sólida.

O morto tinha um aspecto bastante duro, e devia andar pelos cinquenta anos. Era-me completamente desconhecido e com isso experimentei uma sensação de alívio. De resto, não creio agora que pudesse existir entre ele e Maria Clara qualquer laço.

Antes de deixar Voulch, escrevi a Maria Clara...

cartão com duas ou três linhas apenas, encerrado duplo sobrescrito, o primeiro com o seu nome, o segundo com o de Mariannick, e dirigido a Ty-Bianet, e com o pedido: «Fazer seguir».

Espero que o correio tenha indicações e saiba fazê-lo chegar ao seu destino.

Como disse, dirigi apenas estas palavras à mulher que me enche agora a alma e o pensamento:

 

             «Maria Clara,

«Esqueceu-se de mim por completo para não me escrever conforme me prometeu?

«Por mim, nunca a esqueço e tenho vivido horas terriveis desde a sua partida. Tenho a impressão de que a minha vida parou e suspendeu o seu curso normal precisamente no minuto em que deixei de a ver...

«Minha querida amiguinha, recorde-se, suplico-lhe....

                       Marcos.»

 

Fui a Brest, mas não obtive o mais pequeno esclarecimento, quer sobre Maria Clara, quer sobre a compra dos quadros.

O nome de Saint-Aubier é completamente desconhecido... e, contudo, interroguei numerosas pessoas, na administração, nas repartições públicas, notários,! advogados, todos os que, no desempenho das suasf funções, poderiam ter estado em contacto com um cliente desse nome.

Frequentei também, mas em vão, todas as salas de espectáculos e igrejas, procurando descobrir o vulto querido e o meigo rosto cuja imagem me persegue.

Se Maria Clara se encontra em Brest por certo se esconde, e só por acaso poderei vê-la.

Mas já não conto com isso!

Afigura-se-me avançar, sem que a minha vontade influa para isso, por um caminho traçado por mão invisível.

Desejaria parar... fugir... ou recuar!

E não posso! A mão do Omnipotente pesa sobre mim e obriga-me a prosseguir.

Por exemplo, tenho a impressão de que em Brest

me rodeia um ambiente hostil. O próprio aspecto da Natureza me parece agressivo, os acontecimentos são-me desfavoráveis como se a minha presença aqui transtorne os desígnios do Destino.

Anseio por ficar, continuar a procurá-la e sinto que não posso: sou obrigado a abandonar esta região que me è nefasta.

Disponho de elementos suficientes para afrontar as forças ocultas que me envolvem e me são contrárias?...

Julgo que não!

Regresso a Paris.

Apoderou-se de mim convulsivo tremor quando vi o sobrescrito que o meu criado de quarto me entregou esta manhã.

O coração parecia querer saltar-me do peito.

Uma carta!... Uma carta de Maria Clara! Era ela que o meu sobconsciente devia pressentir a distância quando Brest se me tornou odioso I

Agora sou feliz, divinalmente feliz!

Apalpo a bem-aventurada missiva, abro-a, percorro-a com os olhos e chego à assinatura. Não estou a sonhar, não! É bem uma carta de Maria Clara!

Fiquei tão transtornado que tenho de empregar grande esforço de vontade para começar a ler essas linhas e só o consigo chamando em meu auxílio a pouca calma que me resta.

Uma a uma, como gotas de delicioso licor, leio as palavras embriagadoras e inebriantes:

 

«Não lhe escrevi mais cedo, meu amigo, porque diversas circunstâncias me inibiram de o fazer; só há Poucos dias consegui libertar-me das preocupações de um terrível passado...

«Encontro-me em Paris e gostaria de lhe falar. Chegou a hora de cumprir a promessa que um dia lhe fiz. Quero revelar-lhe toda a minha vida, pela qual se interessava tanto noutros tempos. Compreenderá, então, tudo quanto lhe parecia obscuro.

«Contudo, como não é correcto ir procurá-lo a sua casa, nem recebê-lo na minha, estará disposto a esperar por mim, depois de amanhã, pelas três horas, no Museu do Louvre, Sala da Escola Italiana? Irei aí ter consigo.

               «Até breve.

                 Maria Clara.»

 

Num deslumbramento, pareceu-me que o Céu se entreabria e tudo irradiava em volta de mim. Sob o peso dessa esmagadora e inesperada felicidade que me inundava, cambaleei como um homem atacado de insolação.

Depois, veio a reacção. Ó ventura suprema! Maria Clara marca-me uma entrevista! Amanhã vou ter com ela!

E era tão intensa a alegria experimentada que a exteriorizei em gestos: dancei, cantei, gesticulei, como louco!

Vou vê-la, enfim!

Como são compridas as horas quando aguardamos um acontecimento feliz! E, contudo, procuro entretê-las o melhor possível.

Por três vezes passei revista ao meu guarda-roupa para escolher o fato que hei-de vestir amanhã.

É justamente em ocasiões como esta que se aprecia a vantagem de possuir fatos bons e bem feitos... como se o seu valor aumentasse a importância de quem os veste!

Aumentar a importância?... Não, não é bem isso! É vulgar dizer-se que o hábito não faz o monge!

Empresta-nos ou valoriza esse não sei quê capaz de seduzir as mulheres e aumenta a probabilidade de lhes agradar! É diferente, e assim è que está bem!

Em amor, um rapaz elegante vale dez vezes mais do que um homem mal vestido!

E é por isso que escolho com o máximo cuidado a camisa, a gravata e até os botões de punho que devo levar amanhã. Quero agradar a Maria Clara!

Mais umas horas e tornarei a ver a minha bravia flor dos campos, a minha princesinha da charneca, a perturbadora filha das ruínas...

Maria Clara! Vou ter com ela!

Aproxima-se a hora. Subjuga-me uma angústia nervosa, misto de alegria e de curiosidade... Parece-me viver um sonho magnífico, do qual receio despertar.

Às duas horas, num passo decidido, pus-me a caminho do Louvre, subindo pelas Tulherias.

Avançava como um sonâmbulo, sem reparar na minha precipitação: quando o coração se agita, o cérebro parece estar separado do mundo exterior por espessa barreira, e foi numa espécie de inconsciência que percorri corredores, subi escadarias e atravessei as salas umas após outras.

Em volta de mim, as Virgens de Leonardo de Vinci, de Corregio, de Rafael, ofereciam, numa generosidade angélica, os seus sorrisos puros e luminosos.

Olhava-os sem os ver, quando uma voz maravilhosa me arrancou à abstracção:

- Onde vai, senhor Marcos? Estou tão perto de si e não me vê?

Maria Clara encontrava-se na minha frente!

Vestida de preto, com uma gola branca, a cabeça coberta com grande capeline de feltro, levemente Pálida, mais magra e com um ar mais distinto adquirido nesses poucos meses vividos em Paris, achei-a idealmente bela!

Por momentos, tive a impressão de que pesado nevoeiro me envolvia. Esse primeiro encontro quase me fez desfalecer.

Estendi-lhe a mão num gesto de muda adoração.

- Maria Clara!... Minha pequenina, minha adorada Maria Clara!...

Só tive forças para lhe pronunciar o nome, enquanto um tremor nervoso, que não consegui evitar, me sacudia todo.

A jovem sorria-me com afabilidade e indulgência, e um pouco surpreendida, talvez, com essa comoção tão intensa que não soubera ocultar-lhe.

Então, num movimento gracioso e espontâneo, passou a mão pelo meu braço e encostou-se a ele com a maior familiaridade.

- Meu amigo... meu bom amigo! Porque está tão perturbado?

- Receava não a tornar a ver, Maria Clara.

- Contudo, tinha-lhe afirmado e prometido o contrário, e nunca falto ás minhas promessas.

Com a sua habitual simplicidade, não podia admitir que eu tivesse duvidado alguma vez da sua sinceridade.

- Não devia atormentar-se assim.

Adejou-me nos lábios um sorriso um pouco triste.

- Não me atrevia a alimentar qualquer esperança... a sua partida deixou-me aniquilado... e depois...

- Depois o quê?

- Devia ter ficado com péssima impressão a meu respeito... ofendi-a... a cena que lhe fiz foi absurda.

- Oh! Sim! - concordou, pensativa - Quantas vezes tenho recordado essa cena!...

- É preciso esquecê-la, Maria Clara... e perdoar-me!

Maria Clara fitou-me com olhar estranho e limitou-se a dizer com voz hesitante:

- Esquecer?... Talvez!

E bruscamente cingiu-se mais a mim, como se se sentisse muito feliz por se encontrar de novo a meu lado ou, pelo menos, quisesse fazer-mo acreditar.

- Meu bom amigo!

- Minha querida Maria Clara!

Era tudo quanto sabíamos dizer, mas essas simples palavras, pronunciadas com expressão enternecida, equivaliam aos mais eloquentes discursos.

Foi a jovem quem recomeçou a falar, mas fê-lo em tom diferente:

- Vamos - proferiu, tentando firmar a voz - nada de comoções! Sejamos fortes e aproveitemos estes felizes momentos que podemos passar juntos...

Em seguida, declarou com decisão:

- Vim para o pôr ao facto da minha vida... para o meu bom amigo poder compreender as razões da minha inesperada partida que tanto o surpreendeu e para não estar a supor coisas extraordinárias. E também para acabar com esse grande desgosto.

- Quando a vejo, Maria Clara, esqueço as horas terríveis que vivi... Sou tão feliz neste momento!... Minutos assim compensam todos os sofrimentos!

A minha amiguinha abanou a cabeça e, pensativa, observou:

- Sim, a hora presente è deliciosa, mas amanhã voltará a duvidar. Ora eu desejo, quando pensar em si, não ter de dizer: «É infeliz!...» E por isso estou aqui... para lhe explicar tudo e conseguir que me esqueça...

- Não me fale em esquecê-la, Maria Clara... - exclamei impetuosamente.

Uma contracção na garganta obrigou-me a calar. Seria possível que Maria Clara admitisse a possibilidade de nunca mais a ver?...

Seguimos, calados, na onda dos visitantes, e foi ainda a minha companheira que voltou a falar:

- Está muita gente nesta sala - observou após rápido volver de olhos em redor - Aqui, não poderei falar-lhe livremente como desejo. Não será melhor sairmos?

- De boa vontade! Nem sequer temos onde nos sentar. Os divãs estão todos ocupados.

- E cada vez chega mais gente! Vamos para o Palais Royal. Conheço ali uma pastelaria onde servem excelente chá. A sala do fundo deve estar sem ninguém a esta hora.

Aprovei a ideia. No estado de espírito em que me encontrava, não seria capaz, segundo me parecia, de decidir qualquer coisa com jeito.

Deixámos, portanto, o Louvre, e com certa precipitação, pois ansiávamos fugir à multidão dos visitantes.

Sentia no braço o suave calor da sua mãozinha e para não perder esse doce contacto teria seguido Maria Clara até ao fim do mundo.

Esses minutos que caminhámos lado a lado, meigamente unidos, foram inolvidáveis e desejaria que nunca mais chegássemos ao nosso destino.

Além disso, temia a conversa que íamos ter. Maria Clara havia dito: «Quero que saiba tudo» e esse tudo assustava-me terrivelmente.

Que iria eu saber? Que dolorosas confidências iria ouvir?

Nem me atrevia a fazer suposições, tão grande era o meu receio de ser atingido por novas desilusões.

Para mais, não podia encarar a perspectiva de a perder, de ter de renunciar a viver sem ela. E para evitar essa desgraça, aceitaria como boas todas as declarações, acreditaria em todas as revelações, contanto que não fosse privado da sua adorável presença.

Sentado numa cadeira, diante de Maria Clara, separado dela apenas por uma pequena mesa, esperei que ela falasse.

Pareceu-me, contudo, que a jovem evitava fitar-me. Sentia o meu olhar procurando o seu e, para fugir à minha observação, fingia analisar com atenção o tampo da mesa ou um determinado ponto da sala. Era assim tão difícil de exprimir o que tinha a dizer-me?...

- Fale, minha querida amiguinha - pedi, para a encorajar.

E ainda com o fim de não aumentar a sua perturbação, desviei dela as pupilas ávidas. E porque deixei de ver o seu encantador semblante, tive mais uma vez o doloroso pressentimento de que as suas revelações me iriam fazer sofrer.

A sua hesitação havia como que esfriado a minha alegria. Por fim, começou:

- Tenho, primeiro, de o pôr ao corrente do meu passado. Desconhece totalmente a minha verdadeira personalidade.

Não sou, como supõe, sobrinha de Mariannick.

Fiz um vago movimento de surpresa, pois logo recordei as maledicências de Voulch.

- Não é sobrinha de Mariannick Guilherme? - retorqui, admirado - Não é, então, filha dessa irmã de quem ouvi falar na Bretanha?

- Da pobre Filomena, cuja conduta nem sempre foi isenta de censuras? - precisou - Não, meu amigo, não sou. Essa mulher não è minha mãe! Nem sequer da minha família!... Mariannick é apenas minha ama... Graças a ela, desconheci a tristeza de ser órfã.

- Em Voulch diziam...

- Tolices!... Essa gente, quando não tem que fazer, diverte-se a inventar histórias. De resto, Mariannick nada disse que os desenganasse. Convinha até que me supusessem sobrinha dela. Ao abrigo desse parentesco, pude crescer em sossego e livre dos perigos que me ameaçavam.

- Mas, afinal, quem é, Maria Clara?

Um sorriso singular iluminou-lhe as feições, enquanto me envolvia num olhar malicioso, filtrado através das compridas pestanas. Pausadamente, como quem anuncia uma novidade que estava bem longe de ouvir, por mil suposições fantasiosas que o meu cérebro arquitectasse, declarou:

- Sou a última descendente da família de Kéridec, o mais novo e o único membro dessa família que escapou ao incêndio! Quando me chamava a filha das ruínas e quando eu lhe afirmava que estas eram domínio meu, nunca houve verdade mais certa.

- Era então uma criança quando a salvaram do incêndio?

- Sim! Uma pobre garotita, órfã, educada prudentemente por um notário amigo de meus pais, que me ocultou, receando para mim o mesmo destino que os vitimou! Marcos conhece-o... viu-o duas vezes comigo... A primeira em Brest, de tarde, e a segunda nessa mesma noite, quando me reconduziu a Ty Bianet, depois de importantes diligências que iriam modificar completamente a minha vida e obrigar-me a sair de Voulch.

Ouvia-a, extremamente surpreendido.

- Era ele!... Oh! Maria Clara, porque não mo disse logo? Nem pode calcular o que suspeitei...

A jovem sorriu, divertida.

- Posso, sim!... Pelo contrário, calculei muito bem... E muito admirada fiquei por verificar que suspeitava o pior!

- Perdoe-me, Maria Clara! Reconheço serem grandes as minhas culpas, mas o ciúme cegava-me. Esse homem pareceu-me mais novo do que na realidade é... e vi-a repelir-me tão desdenhosamente...

Uma nuvem ensombrou o rosto da minha amiguinha.

- Isso è outro caso - observou, pensativa - Entre mim e o senhor Marcos existem... mas deixemos isso, por enquanto. Continuo a contar-lhe a minha infância. Quando souber tudo, compreenderá.

- Então fale, Maria Clara - supliquei, ardendo de impaciência.

Encostei os cotovelos à mesa e, apoiando o rosto nas mãos, fitei-a com o olhar um pouco duro. Ia, enfim, saber o que a fizera afastar de mim... e que, provavelmente, nos separava ainda.

Maria Clara, contudo, não quis omitir qualquer pormenor.

- Como conseguiu a minha ama salvar-se e salvar o frágil bebé que eu era na ocasião do incêndio? Deixo a Mariannick o trabalho de lho contar. Parece-me, no entanto, que o Céu lhe facilitou a tarefa, pois nenhuma de nós foi atingida fisicamente, quando toda a gente do castelo pereceu no desastre. Devido a essa tão evidente protecção de Nossa Senhora, a minha ama consagrou-me à Virgem Garrida e passei a andar sempre vestida de branco ou de azul... Voltemos, porém, ao incêndio. O fogo propagou-se no castelo por forma tão inesperada e rompendo em tantos pontos ao mesmo tempo que se tornou evidente ser ateado por mão criminosa, e não casual. Factos diversos e incontestáveis provaram depois que um sobrinho, hóspede de minha família, fora o autor do crime.

- E qual o seu móbil?

- Porque esse homem desejava apoderar-se dos bens de meus pais... Da sua própria fortuna nada restava e precisava de outra. E para conseguir os seus fins, não hesitou em suprimir, não só aqueles de quem cobiçava a herança, mas também os seus herdeiros naturais. O incêndio vitimou meu pai, minha mãe e meu irmão mais velho. Segundo as previsões do miserável, toda a família devia desaparecer! E pouco faltou para que os seus projectos não tivessem completa realização. Felizmente, um generoso coração velou por mim e salvou-me! Adivinha agora porque foram tomadas tantas precauções a fim de me conservar a vida? Dissimularam o meu verdadeiro estado civil e deixaram supor em Voulch que eu era filha duma irmã de Mariannick.

- Não compreendo muito bem o que levou o seu tutor a mantê-la assim oculta... - observei.

- Julgo que receava ainda o sobrinho de meu pai.

- Não podia mandá-lo prender?

- As provas formais faltaram-lhe de princípio. Corninck... é este o nome do meu protector... só apreendeu toda a maquinação quando o miserável se apresentou no cartório para reclamar a herança.

- E depois?

- Meu tutor, como era de calcular, recusou aceder à sua imposição sob o pretexto de não ter aparecido entre os escombros o cadáver da filha mais nova dos castelões, sendo possível que tivesse sido salva, como muita gente afirmava. «Enquanto esse ponto não estiver esclarecido, a herança ficará suspensa» - declarava a lei, que o notário invocou. Em face da resposta, a odiosa personagem proferiu as piores injúrias e as mais terríveis ameaças. Em seguida, Corninck procurou com cuidado o caminho a seguir, tendo em vista os meus interesses. Fazer condenar esse homem, que usava um nome até então respeitado por todos, seria legar-me triste herança. Meus pais, se fossem vivos, teriam por certo recuado diante do escândalo. Não seria melhor educar-me às ocultas até ser maior? E foi por isso que Mariannick se transformou em minha tia e o senhor me encontrou em Voules.

- E o miserável contentou-se com essa solução?

- Isso sim! Fez todos os esforços para me encontrar, talvez para me impor a sua tutela! Somente, como me procurava junto de Corninck ou de qualquer das pessoas amigas de meu pai, não me encontrou. Nunca lhe passou pela cabeça que me tivessem deixado tão perto do local onde morreram os meus... Salvou-me a sua falta de perspicácia! Entretanto, eu ia crescendo... Rodeavam-me o carinho e a afeição do meu tutor e da minha ama, e, assim, nunca senti a impressão de ser uma órfã sem família. Depois, um dia disseram-me tudo... pouco a pouco, palavra a palavra, para não me ferirem a sensibilidade! Chegou a data da minha maioridade! Há seis meses que atingi a idade de ocupar o lugar que me competia e de tomar certas disposições. E deixei a Bretanha.

- Sem me prevenir - observei amargamente - Podia ter confiado em mim.

- Não, não podia. O meu tutor receava ainda qualquer ataque do traidor e exigia-me o silêncio mais absoluto.

- No entanto, hoje contou-me tudo.

- Porque o meu terrível primo morreu!

- Morreu?! - exclamei, porque a história contada por Maria Clara tinha por vezes a aparência duma completa ficção.

A jovem devia ter adivinhado a minha incredulidade, pois pormenorizou os factos.

- Esse homem foi morrer no próprio local do crime. Fique sabendo que, mal tomei posse dos meus bens, iniciei a reconstrução das ruínas de Kéridec. Quero erguer de novo o castelo e só serei feliz quando vir o velho solar, berço da minha família, renascer das suas cinzas. Na charneca trabalha actualmente numeroso grupo de operários...

- Estou ao facto disso.

- Também sabe que um homem, desconhecido na região, foi visto vigiando os trabalhos, examinando as terras misturadas com cinzas e as pedras calcinadas que transportavam para longe?

- Sim, também me disseram, mas afirmaram-me que ninguém pudera identificá-lo.

- Porque não se recordam do passado! A justiça de Deus, no entanto, manifestou-se em toda a sua omnipotência com a morte desse homem! Encontraram o corpo no fundo dum fosso, já sem vida! Corninck e Mariannick foram examinar o cadáver e logo o reconheceram. Se não revelaram às autoridades o que sabiam, foi por julgarem melhor não ressuscitar o assunto... Acharam muito justo que tal miserável fosse enterrado obscuramente no cemitério da aldeia, e eu, a única sobrevivente dessa família vítima do seu crime, não consenti que o nosso nome honrado fosse inscrito no túmulo do seu assassino...

Conservei-me pensativo por momentos.

- Fez bem - concordei por fim - Esse homem teve o castigo que merecia, se realmente era culpado de tão negros actos para com os seus.

Seguiu-se prolongado silêncio, durante o qual cada um retomou o curso dos seus pensamentos. O que a minha interlocutora acabava de me contar explicava tudo quanto me havia intrigado. Presentemente, compreendia todos os actos e gestos da minha amiguinha. Mas se o passado se tornava claro, o presente e o futuro continuavam a ser um enigma para mim. Que iria decidir agora?

Fiz-lhe a pergunta á queima-roupa:

- E agora que pensa fazer, Maria Clara?

- Reviver o passado, ressuscitar Kéridec - respondeu sem hesitação - Já examinei planos e orçamentos para a reconstrução do castelo. É uma tarefa difícil, mas à qual conto consagrar-me por completo.

- Sozinha?

- Sim, sozinha! Não tenho o direito de obrigar seja quem for às formidáveis despesas que conto fazer... actualmente, as obras custam muito dinheiro!

- Por isso mesmo! Um marido auxiliá-la-ia! Maria Clara abanou tristemente a cabeça e os lábios

vermelhos vincaram-se num jeito de amargura.

- Não. Um marido opor-se-ia aos meus desejos. De resto, não quero casar!... O meu tutor é de opinião que posso encontrar um partido honroso e rico... mas não me sinto com coragem para fazer um casamento de dinheiro... Além disso, tenho tempo antes de lançar mão de tal recurso.

Eu, porém, não me conformava com essa forma de decidir as coisas.

- Por que motivo apenas encara como possível um casamento de dinheiro? Esquece o amor ou quer aboli-lo da sua vida!

- Sim - repetiu mais uma vez, desviando o olhar - Um casamento de amor paralisar-me-ia... não me atreveria a prosseguir a realização dos meus projectos se visse que, devido a eles, o meu lar conheceria as privações e as dificuldades da vida.

Não pude deixar de encolher os ombros.

- Vejamos, Maria Clara - protestei, um pouco trocista - Não me parece que lhe caiba a si preocupar-se com o bem-estar do marido que escolher... A este compete, pelo contrário, proporcionar-lhe uma existência cheia de conforto e isenta de todas as preocupações.

O meu antigo modelo franziu a testa, fazendo-me compreender que o assunto lhe desagradava.

- Acabemos com isto - pronunciou com firmeza - Já lhe declarei que não queria casar; è inútil tentar modificar a minha decisão... Se deseja que continuemos amigos, senhor Marcos, não volte a repisar o assunto.

- Não vejo motivo para essa proibição - protestei com mau humor, provocado por esse senhor cerimonioso que de novo colocava entre nós - Será possível que não queira discutir lealmente um assunto que é para mim da maior importância!

- É inútil toda a discussão!

- Engana-se, Maria Clara... Essa explicação è necessária, pelo menos para mim!

E, exaltando-me, prossegui:

- Não compreende que, enquanto não conhecer os motivos que a fazem repelir qualquer acordo neste assunto, continuarei a atormentar-me?... Imaginarei os maiores absurdos e admitirei as piores hipóteses.

Quando lhe tiver dito: «Amo-a, Maria Clara. Quer ser minha mulher?» poderei então...

- Peço-lhe, meu amigo! - atalhou a jovem, com vivacidade, para me impedir de prosseguir - Se teima em falar-me nesse tom, vou-me embora!

Para não continuar a ouvir-me, pôs-se de pé num movimento assustado, pronta a fugir. Instintivamente, agarrei-lhe no braço e detive-a.

Empalideci de modo assustador. Era toda a minha felicidade que eu advogava naquele momento, e na minha fisionomia contraída podia ler-se súbita e terrível resolução.

- Oiça-me, Maria Clara, ou não respondo por mim

- pronunciei com voz surda e estrangulada - Só lhe peço para me ouvir. Se recusa e teima em partir, juro-lhe que ao sair aquela porta me lançarei sob as rodas do primeiro automóvel que passar... Ficará assim livre de mim, conforme deseja....

- Não diga tolices!

- Não sei se são tolices ou não! Garanto-lhe, porém, que estou disposto às piores resoluções.

- Vamos, Marcos, sossegue! - implorou, apertando-me a mão como se quisesse acalmar-me.

Provavelmente, nunca supusera que um homem pudesse atingir tal estado de excitação, e de repente teve medo. Que força inconsciente e perigosa representa um ente dementado pela paixão?

Levemente pálida também e subjugada enfim, retomou o seu lugar diante de mim, não se atrevendo a retirar a mão que eu conservava com autoridade entre as minhas.

- Sossegue, garoto terrível - disse, tentando sorrir

- Aqui estou para o ouvir. Onde quer chegar afinal?

- Amo-a loucamente, apaixonadamente, Maria Clara! - declarei, sem mesmo tentar dominar o meu ardor - Adoro-a a tal ponto que não desejo ao meu maior inimigo um sofrimento igual ao meu. Para a ter junto de mim, para que seja a companheira da minha vida, sinto-me capaz de praticar os actos mais disparatados e de cometer as maiores temeridades. Aceda ao meu desejo e consinta em ser minha mulher.

Juro-lhe que será amada... adorada como mulher alguma o foi até hoje... e essa missão sagrada que se impôs... ajudá-la-ei a cumprir... totalmente... lealmente... sem desfalecimento, até ao fim!

Para me ouvir com maior atenção, ou talvez para ocultar as suas impressões, Maria Clara tinha-se encostado à mesa, baixando um pouco a cabeça.

Quando acabei de falar, conservou-se na mesma posição, mas a respiração precipitada revelava-me a sua comoção.

- Não esteja triste, meu amor - balbuciei, intensamente comovido também - Não quero desgostá-la, mas amo-a e sinto-me muito infeliz... Responda-me e não me desespere.

Ergueu para mim o rosto transtornado.

- Já lhe declarei que não desejava casar! - exclamou quase suplicante.

- Mas porquê? - insisti, sem desanimar.

- Esqueceu os motivos que lhe expus?

- Não são admissíveis. Simples evasivas, mais nada. Confesse antes que não me ama!... Ama outro, talvez?

- Não! Não amo ninguém, juro-o!

O protesto foi feito num brado espontâneo, como se instintivamente tivesse de defender-se contra uma suposição injuriosa.

- Ninguém - insisti - Oh! Isso é bem verdade, Maria Clara?

- Porque renegaria sentimentos experimentados por outro? Não sou livre? Tenho contas a dar a alguém?

- E, no entanto, repele-me...

- Quanto a isso, o caso é diferente. Invadiu-me a alma amargo cepticismo.

- Já não tenho ilusões! Pode declarar a verdade. Antipatiza comigo.

- Disse alguma vez semelhante coisa?

- É evidente que lhe desagrado. Suponho não corresponder talvez ao seu ideal... Não pertenço à aristocracia!

- Nunca encarei a questão por esse prisma. Simplesmente, não admito a possibilidade do casamento.

Esbocei um sorriso incrédulo:

- Mesmo com outro que não seja eu?

- Sim! Mesmo com outro! Não acabei de lhe declarar que não amava ninguém?

- É muito bela para que possa acreditá-la.

- Não costumo mentir. Quando afirmo uma coisa è porque è verdade.

Experimentei súbito apaziguamento. Tinha a impressão de que uma lufada de ar puro me penetrara nos pulmões, fazendo-me respirar melhor.

A sensação era tão suave que a reacção produzida por ela me fez chegar as lágrimas aos olhos. É que, da afirmativa de Maria Clara, o meu amor tirava esta agradável dedução:

«Se tem o coração livre, nada se opõe a que o conquiste. A minha sinceridade conseguirá talvez, por fim, sensibilizar a minha amada».

A esperança da vitória despontou no meu horizonte sentimental.

E em voz alta comecei a analisar a questão.

- O seu tutor aconselhou-a a escolher marido rico. Se tivesse fortuna, amar-me-ia, Maria Clara?

- Cale-se, Marcos, suplico-lhe! A que resultado chegará com as suas perguntas, senão ao de aumentar o nosso pesar?

- Que diz? O nosso pesar?! Supunha ser eu o único a sofrer com a sua recusa! Se ao menos quisesse explicar-me as causas desta, poderia talvez remover os obstáculos que nos separam.

Sem responder, Maria Clara meneou a cabeça e apertou os lábios como se procurasse evitar qualquer palavra imprudente.

- A sua indiferença torna-me muito infeliz - insisti com tristeza - Não posso mais... Seja como for, tenho de pôr um ponto nesta situação.

Com ternura, pousei os lábios na mãozinha que conservava ainda entre as minhas e fiquei assim, de cabeça curvada diante dela, abandonando-me por completo a esse contacto tão doce e que Maria Clara não teve coragem de me recusar.

Minutos encantadores e ao mesmo tempo dolorosos!...

Minutos cuja breve duração eu não queria recordar...

Uma lágrima, que não consegui reprimir, foi cair na pequenina mão prisioneira entre os meus dedos.

A minha companheira estremeceu. Teve a súbita compreensão do meu estado de espírito e num gesto de afectuosa compaixão acariciou delicadamente, com a mão livre, os meus cabelos.

- Marcos! Marcos! - balbuciou, aflita - Não chore! É superior às minhas forças vê-lo chorar. Ama-me... e eu... não desejava vê-lo assim desesperado por minha causa! Mas, como já lhe disse, só daqui a muito tempo posso pensar em casar. Primeiro, quero reconstruir Kéridec, e isso levará meses... anos talvez, durante os quais me verei, provavelmente, obrigada a trabalhar para levar a cabo a obra começada. E quando, finalmente, o castelo se erguer de novo, quando o ninho estiver pronto, terei ainda de continuar a trabalhar para poder passar nele alguns meses em cada ano. Como vê, varri dos meus projectos todas as perspectivas de casamento e maternidade, porque os meus meios não me consentem admiti-las... Noutros tempos, talvez tivesse pensado e procedido por forma diferente; hoje, porém, quando a crise mundial me reduziu terrivelmente os rendimentos, a herança que recebi de meus pais não me permitia realizar um programa mais tentador. O presente resume-se para mim num só desejo: reconstruir Kéridec e poder viver ali alguns meses em cada ano. Mais tarde... quando eu desaparecer... como devo morrer celibatária e sem descendentes, legarei o castelo para nele estabelecerem uma colónia de férias para crianças pobres, que perpetuará o nosso nome... Como vê, não sou muito exigente, nem os meus projectos são ambiciosos, pois que, à parte a missão que me impus, não procuro obter um quinhão de felicidade pessoal.

Deixei-a falar sem a interromper porque compreendia que, sob o impulso da comoção, Maria Clara me desvendava o seu segredo... esse segredo tão casto, tão nobre e que parecia resumir-se com ardente entusiasmo na simples palavra: dever.

Como se calasse, por fim, com o rosto inundado de lágrimas, beijei mais uma vez a mãozinha, sobre a qual descansava ainda a minha fronte febril. Depois, contemplei-a, arrebatado... E nesse olhar de apaixonada expressão um ténue clarão de esperança começava a brilhar. Se o que acabava de dizer era rigorosamente exacto, e se, na verdade, os seus projectos de futuro se limitavam a tão pouco, estava agora certo de obter o seu amor.

Julgava-me de origem obscura e eu era tão nobre como ela! Considerava-me pobre e eu possuía já avultada fortuna herdada de meu pai. Minha mãe tinha também consideráveis rendimentos. Seria possível que, depois de a pôr ao facto da minha verdadeira personalidade, ela me repelisse ainda?

As suas hesitações, a sua comoção, os silêncios, tudo me indicava que não era tão indiferente ao meu amor como queria aparentar, ou mesmo como supunha ser. Só o desejo de realizar uma obra, verdadeiramente gigantesca para uma fraca rapariga, a afastava do amor. Esta conclusão deu-me novas energias para advogar a minha causa, vencer-lhe os escrúpulos e quebrar-lhe a resistência.

- Sim, minha adorada Maria Clara, reconheço estar disposta a todos os sacrifícios para reconstruir o tecto que a viu nascer. Mas já pensou, minha amiguinha, que, mesmo para honra desse nome que tanto preza, não tem o direito de limitar assim os seus projectos? Não são os filhos dos outros que devem habitar mais tarde Kéridec. São os seus próprios descendentes... os seus filhos. A eles compete honrar e perpetuar a Raça, o nome e a tradição... Filha de uma dessas antigas famílias das nossas províncias que conservam intacta a alma da Pátria, o património glorioso da nossa querida França, o velho sangue Gaulês que corre nas suas veias deve continuar a correr nas veias de seus filhos... não tem o direito de interromper essa cadeia sagrada. Também é um dever, Maria Clara... e tão imperioso como o outro!

- Precisamente por isso! Para criar família e educar os meus filhos segundo as minhas aspirações e conforme as tradições de um passado que não devo esquecer, é forçoso sentir-me à altura da missão que vou desempenhar... De momento, penso apenas em construir... mais tarde, se os meios o permitirem, povoarei o ninho.

- Para que esperar tanto tempo? Os pequerruchos não poderão crescer à medida que as paredes se ergam? Serão por acaso menos dignos se não nascerem debaixo dos tectos doirados de um castelo? Chama-se a isto orgulho, Maria Clara.

Esta censura tão directa fê-la corar de confusão.

- Eu? Oh! Não me creia orgulhosa!... Sou apenas uma pobre órfã que não pode recordar sem revolta as vidas que mão criminosa ceifou em plena mocidade... Não, não è orgulho! Afirmo-lho!... Parece-me dever à memória de queridos mortos esta reconstrução! É um resgate, uma compensação!... Hoje só resta deles um pouco de cinza e de ossos calcinados, mas se, como afirmam, eles me vêem lá do alto, creio que as suas almas repousarão mais tranquilas quando as torres do seu antigo solar se erguerem de novo para o Céu e o seu nome ecoar entre as velhas paredes reconstruídas... Se não compartilha as minhas crenças, ria se quiser... mas não me censure nem tente modificá-las, porque não saberia pensar e proceder doutra maneira.

- Eu não a censuro, minha amiguinha: os seus projectos são dignos do maior respeito! Censuro apenas que o seu orgulho não admita o auxílio de um marido... o meu auxílio.

Mais uma vez a fisionomia da minha interlocutora exprimiu aborrecimento. Percebi que se irritava comigo por não ter compreendido ainda, através dos seus rodeios, que não podia casar com um homem sem o amar, nem com um pobre, mesmo simpatizando com ele, porque iria dificultar-lhe a tarefa empreendida.

- Vamos, minha adorada pequenina - prossegui tranquilamente, pois começava a serenar - Consinta que compartilhe os seus projectos... com a condição, è claro, de não lhe ser pessoalmente antipático...

- Marcos, afirmo-lhe que a sua insistência è muito dolorosa para mim.

- Porque me julga pobre, meu amor! Olhe - acrescentei alegremente, tirando da carteira o cheque que me haviam dado em pagamento dos quadros - Vê que tenho dinheiro?... Não é muito mas chega pelo menos para levantar de novo uma das torres de Kéridec! Que diz a isto, Maria Clara!

A jovem contemplava o cheque, perturbada em extremo, e essa confusão dava-me enorme prazer.

- Não posso aceitar esse dinheiro - balbuciou, hesitante - É uma...

- Uma restituição, julgo eu! - terminei, desatando a rir.

- Oh! Marcos... eu...

A confusão fazia-a corar intensamente.

- Cabe-me agora a vez de dizer: «Não insista. Maria Clara!». Adivinhei logo donde vinha o dinheiro, E compreende, só me restava restituí-lo...

- Representa o preço dos seus quadros - desculpou-se, cada vez mais embaraçada - Desejava possuir as telas... Tinham um preço marcado... Realmente, tudo se passou com a maior correcção e não sei...

- Mau, mau! Bem vê que não posso aceitar esta esmola encoberta, feita por uma senhora... uma garota inexperiente... que não percebe nada de pintura, nem sabe avaliar o valor de uma tela. Se conhecesse alguma coisa dessa arte, minha amiga, nunca teria dado cem mil francos por semelhantes quadros!

- São lindos! Têm valor!

- Como pode afirmar isso, minha querida? Nesse assunto a sua ignorância é completa!... Ainda se fosse o misterioso e desconhecido pintor da charneca, tão certo do seu talento que se julgava no direito de corrigir o meu trabalho, o caso seria outro, evidentemente! Mas a minha Maria Clara, que nunca manejou pincel, que nunca esboçou um quadro e cuja sinceridade iguala a sua ingenuidade... ou a minha cegueira! Que devo pensar dessa compra caprichosa?

Falava com os olhos fitos nos seus e a onda purpurina que lhe cobriu o rosto indicava-me a sua perturbação.

- Julgo que está zombando de mim! - observou, finalmente - Não compreendo bem esssas insinuações sobre a minha ignorância... ou sobre o meu pedantismo! Mas, seja como for, negócios são negócios!

Eu, porém, interrompi com severidade, fulminando-a com o olhar:

- E esse negócio inclui o pagamento da sua colaboração? Já è ter arrojo, senhora minha camarada das Belas-Artes! Quando me lembro que durante semanas e semanas zombou de mim, iludindo a confiança cega que tinha em si, sinto desejos de lhe fazer pagar bem cara semelhante infracção a todos os usos estabelecidos entre leais companheiros!

Seguiu-se pequeno silêncio. Maria Clara parecia deveras atrapalhada, mas em breve tomou o seu partido.

- Então adivinhou? - inquiriu, rindo, para ocultar a sua derrota.

- Exactamente!... Adivinhei tudo, ouviu bem? Tudo! Não ignoro coisa alguma.

- Nesse caso deve ter compreendido o prazer intenso que experimentei ao vê-lo escolher as ruínas para modelo!... Á força de viver no meio delas sentia-me incapaz de reproduzir toda a sua beleza. Conhecia-as demasiado para as idealizar como sonhava. Um dia, porém, o Marcos apareceu... e sem qualquer sugestão empreendeu o trabalho que eu ambicionara fazer!... E como estava bem documentada sobre o antigo castelo, quis ajudá-lo, estimulá-lo... dando-lhe, com essa pontinha de mistério, novo atractivo.

- Compreendo! Uma partidinha de aprendiz, da qual não suspeitei... mormente vinda de si!

- Vai ficar zangado comigo, Marcos?... Se não tivesse constituído para mim uma grande alegria ver o seu trabalho e seguir-lhe os progressos, classificaria o meu acto de simples travessura...

- Exactamente! Uma travessura imperdoável...

- Mas cujo perdão me vai conceder imediatamente.

- Com a condição de não prolongar mais a brincadeira.

- Como?

Reflectia-se no olhar imperceptível receio.

- Restituindo-lhe o seu cheque, Maria Clara. Aceite-o e guarde os quadros... Ocuparão o seu lugar quando Kéridec estiver concluído.

- Mas, eu não posso... - teimava em dizer. Fi-la calar.

- Nem mais uma palavra, minha amiguinha! - ordenei - Fica assente que reconstituiremos ambos o ninho dos nossos filhos.

Acabava de descobrir que, tomando certos ares autoritários, engrossando a voz e lançando-lhe em rosto as minhas próprias culpas, a intimidava a ponto de não se atrever a resistir-me. E calcula-se com que ardor eu aproveitei esta vantagem.

- Mas que tagarela me saiu, Maria Clara. A tal ponto que não a julgo capaz de se conservar calada um só minuto.

- Pois o Marcos afirma...

- Outra vez! Decididamente, a Maria Clara é como todas as raparigas. Fala pelos cotovelos. E eu que a julgava isenta de defeitos, minha querida amiguinha!

- Sou muito mais ajuizada do que o senhor, e não é justo acusar-me assim! Mas para lhe provar que sou capaz de ouvir sem pestanejar todas as tolices que os homens costumam dizer, não pronuncio nem mais uma palavra.

- Se o conseguir, será maravilhoso... Pôs um dedo na boca.

- Pronto, está fechada!... Pode dizer todas as loucuras que entender...

- Então vou começar, minha adorada!

É de supor que o meu desafio lhe estimulasse o amor-próprio, pois nem pareceu ouvir o epíteto um pouco audacioso e além disso deixou-me falar sem tentar interromper-me e pude assim revelar-lhe a minha verdadeira identidade.

- Compreende agora, Maria Clara, porque me atrevi a oferecer-lhe o meu amor e o meu nome?...

O meu nascimento coloca-me em situação idêntica à sua, e casando comigo não faz um casamento desigual; finalmente, a minha fortuna pessoal permite-me assumir os encargos de família sem que me preocupe o receio de um dia ter de sujeitar a minha mulher e meus filhos a dificuldades e privações.

Como Maria Clara se mantivesse sempre na mesma atitude grave e silenciosa, tornei-me inquieto:

- Duvida da minha sinceridade, querida, para se conservar assim calada?

- Não! - redarguiu Maria Clara com firmeza - Creio plenamente que tudo quanto me acaba de dizer è a exacta expressão da verdade, mas não impede que me sinta realmente surpreendida...

- Surpreendida? Porquê?

- Vivia na Bretanha tão modestamente, convivendo com os camponeses com tanta simplicidade, que nunca poderia suspeitar o seu nascimento...

- Desagradam-lhe os meus hábitos simples?

- Isso sim! - protestou - pelo contrário. Sempre lamentei que as precauções e receios daqueles que me criaram não me permitissem conviver com as minhas companheiras de Voulch. A minha reserva era filha da prudência e não do orgulho. Espero atè poder demonstrar-lhes mais tarde que a Filha das Ruínas não esquece que a sua única família foram os bondosos habitantes da aldeia onde se criou.

- Nesse caso, porque ficou tão pensativa quando lhe confessei qual era a minha verdadeira posição?

Maria Clara hesitou ligeiramente e depois observou com ar grave:

- Porque, presentemente, mais do que nunca não posso pensar em ser sua mulher, Marcos. Até hoje tenho sempre repelido as suas ofertas. Se agora as aceitasse, dava-lhe o direito de pensar que só o interesse me movia.

- Nunca poderia pensar semelhante coisa...

- Era muito natural, no entanto.

- Não diga tolices, minha amiguinha... Se soubesse como a amo!

- Faço uma pequenina ideia - confessou, sorrindo e com graciosa confusão - Por muito que tentasse opor um dique às suas declarações, o Marcos encontrava sempre meio de me dizer mais do que eu desejava ouvir.

- Isso prova unicamente que me tratou sempre com excessiva severidade.

- Oh!

- O seu coração foi sempre para mim tão duro como um rochedo.

- Pensei que devia ser razoável por dois. Esqueceu o que há pouco lhe disse? Quando a reconstrução de Kéridec estiver concluída ficarei pobre e serei obrigada a trabalhar para viver.

- E eu respondi-lhe que o marido tem obrigação de sustentar a mulher.

- Que diria então se concordasse consigo e aceitasse as suas propostas?

- Diria que me tornava o mais feliz dos homens.

- Mais tarde, porém, pode vir a pensar que fiz um esplêndido negócio com este casamento...

Mas eu já não ouvia os seus argumentos. Maria Clara acabava de dizer: «Ficarei pobre!...» E uma onda de pensamentos me acudiu à mente.

- Sabe uma coisa, meu amor? - observei, com aspecto subitamente severo - Parece-me que administra muito mal a sua fortuna.

- Eu?!

- A Maria Clara, sim. Não acabou de dizer que talvez ficasse pobre?

E apontando-lhe o cheque caído em cima da mesa:

- Então isto?... Que significa?

- Não o compreendo...

- Este cheque representa uma pequena fortuna... e parece-me que a gastou com muita facilidade.

Corou intensamente.

- Julguei... proceder bem!

- Explique-se, por favor. Estou disposto a terríveis acusações! Dizia então?

- O caso è simples - acudiu com vivacidade - e não vale a pena tomar esses ares de inquisidor-mor. Calculei que fosse pobre... E disse comigo:

«O que falta muitas vezes aos principiantes é uma certa quantia para começo da vida...».

- E achou muito simples pôr essa quantia à minha disposição?

- Era apenas uma espécie de empréstimo. Conhecia o seu talento e estava certa de que alcançaria um belo êxito e teria brilhante futuro se conseguisse tornar-se conhecido.

- Admitamos que assim fosse... E depois?

Mais uma vez o semblante angélico se cobriu de rosada nuvem. Contudo, prosseguiu com toda a franqueza:

- Depois!... Enquanto o Marcos lutava para conquistar essa brilhante posição... eu reconstruiria Kéridec. E talvez, mais tarde... os nossos caminhos voltassem de novo a encontrar-se.

Ao ouvir a inesperada confissão, a mais intensa comoção me contraiu a garganta.

- Minha adorada Maria Clara, pois pensou semelhante coisa? - exclamei, dominado por esmagadora alegria - Meu amor! Repita, torne a dizer que admitia com prazer o pensamento de se tornar minha mulher!

Todo o meu ser se exaltava, transfigurado pela esperança. Maria Clara sorria, contente com essa felicidade que era obra sua e talvez também porque a compartilhava.

- Bem vê que fazia mais do que admitir esse pensamento, pois forjava projectos para o futuro... Acredite, meu bom amigo, era para mim muito doloroso repeti-lo!... Por exemplo, nessa célebre noite em que se apresentou em minha casa para me fazer uma cena de ciúme... lembra-se?

- Não a esqueço!... Depois de a ter visto em Brest!

- Exactamente. Pois bem! Até aí nem eu própria reconhecia quanto lhe queria; foi, de facto, a primeira vez que me declarou seriamente o seu amor.

- Porque me repeliu com tanta dureza? Maria Clara meneou a cabeça.

- Não fui dura para si - emendou com voz meiga!

- As suas palavras perturbaram-me terrivelmente.

Compreendi ser necessário resistir-lhe... repeli-lo... para me conservar livre, a fim de cumprir a missão que me tinha imposto! E por isso não quis deixar-lhe a mais leve esperança.

- E conseguiu-o, porque saí de sua casa desesperado, como louco.

- Passei também horas terríveis e preferi fugir de Kéridec no dia seguinte, a expor-me a encontrar-me de novo consigo.

- Mazinha! Merecia... nem eu sei o quê!

Não sabia bem o que dizia, louco, inebriado por uma felicidade sem limites, só encontrando forças para cobrir de beijos a mãozinha que escaldava nas minhas.

Tive nesse momento a completa revelação do que significava o amor partilhado e a mais perfeita comunhão de almas. Quanto a Maria Clara, continuava a sorrir docemente, como se vivesse um lindo sonho!

Quase com religioso fervor, a meia voz, observou:

- É então verdade! Sem o termos previsto, estamos noivos...

- E unidos para toda a vida, meu amor.

- Sim, a Virgem Garrida uniu-nos por toda a vida!... Já reparou, Marcos?

Estremeci. Bruscamente, surgiu-me no espírito a recordação da lenda.

Por minha vez, tornei-me pensativo.

- Tinha de ser - murmurei com convicção - Estávamos destinados um para o outro.

- Lembra-se?... As nossas mãos uniram-se precisamente diante do santuário...

- Ambos fizemos um movimento de recuo e tivemos idêntica apreensão.

- Estava certa de que a vida me impelia para caminhos opostos aos seus.

- E eu? Podia lá supor que essa rapariguita, encontrada tão longe do ambiente habitual, se iria apoderar do meu coração a tal ponto que sem ela a existência não me parecia digna de ser vivida?

- O Destino...

- O Senhor Omnipotente que dirige a vida de todos nós a despeito da nossa vontade e desejos.

Entregues a graves pensamentos, ficámos os dois silenciosos, elevando talvez, muito do fundo da alma, ao Altíssimo, fervorosas acções de graças.

- Maria Clara - lembrei - quando estivermos casados temos de ir a Voulch agradecer à Virgem Garrida.

- Já tinha pensado nisso! - respondeu a minha noiva, possuída de grande comoção.

Depois de ter atravessado horas terríveis, sou finalmente feliz! Não é um sonho, nem receio acordar de repente para a mais desoladora das realidades.

Maria Clara ama-me, somos noivos e muito breve usará o meu nome! É uma radiante e indescritível ventura, para a qual caminho com passo seguro e inebriado de amor!

Os factos sucederam-se como num ciclo mágico onde tudo se encadeia por forma maravilhosa. Ontem ainda, com a alma ardendo de ansiedade, o coração palpitando de comoção, dirigia-me ao Louvre, onde me esperava a mulher adorada e que dizia não gostar de mim.

Tudo parecia separar-nos. Debatia-me no meio de terríveis suspeitas e Maria Clara duvidava também; a querida pequenita vergava ao peso esmagador de sofismas, de falsos deveres e de inúteis escrúpulos, perante os quais, segundo parecia, só me restava um recurso: submeter-me; as nossas próprias almas recusavam unir-se; as nossas palavras e confidências aumentavam o desacordo que nos separava, em vez de o dissiparem. Era o antagonismo completo e irremediável! E eis que de repente as coisas se modificaram totalmente, como se mágica varinha influísse no assunto! Por forma inopinada, todas as dificuldades se aplanaram, os corações bateram em uníssono e uma alegria divina secou as lágrimas de tristeza e os amargos pesares...

Não compreendo ainda bem como se pôde realizar tão feliz milagre... no destino dos homens há sempre uma parcela de maravilhoso... parece que o Céu se compraz em frustrar todas as nossas previsões, apenas para nos tornar evidente a sua vontade omnipotente...

Pouco mais tenho a acrescentar a esta história, que em breve vai ter o epílogo. É meu o coração da única mulher que até hoje amei. Dentro de dias será minha para sempre e isso equivale para mim a possuir o mais valioso tesouro do Mundo.

Minha mãe acolheu maternalmente Maria Clara com o mesmo indulgente carinho com que escutara as minhas confidências. Concordou, sem pensamento reservado, em que não poderia ter escolhido melhor esposa do que a graciosa Bretã encontrada no Perdão de Voulch.

Quanto a Mariannick, recebeu, chorando de alegria, a notícia do nosso casamento.

- Oh! Já calculava que isto havia de acabar assim.

Quando partiu de Ty-Bianet, a minha pequenita ia tão desolada, fez-me tanta recomendação a seu respeito, senhor Marcos, que até se esqueceu de me beijar... vi bem que só pensava em si!

Sorri, feliz e encantado... e talvez também como um homem, quando é feliz, supus dever tudo aos meus dotes pessoais!

O amor è um estimulante que inspira todas as coragens, um farol brilhante que nos ilumina a estrada da vida, uma alavanca poderosa que derruba todos os obstáculos... E è essa a razão por que o homem è tão forte quando ama.

Lá no alto da penedia, no pequeno santuário de granito, construído para durar séculos e desafiar todas as tempestades, a Virgem Garrida, de misterioso sorriso, estende os braços acolhedores para o Oceano, para a multidão que se comprime a seus pés... para o futuro insondável!

Oxalá a lenda, tão bela e consoladora para as almas simples e tão temível para os corações perturbados, se perpetue ainda através dos séculos! Ilumina de esperança a alma dos apaixonados, assusta os hipócritas e mentirosos e enche de sonho a fantasia dos poetas. A sua influência é preciosa, mesmo que não passe dum mito maravilhoso.

Contudo, eu e Maria Clara acreditamos cegamente em Vós, Virgem Garrida!

Há muito tempo já que reconheci sinceramente o meu erro e é com toda a minha alma que Vos digo: Obrigado, Virgem Santa, mil vezes obrigado!

 

                                                                                Max Du Veuzit  

 

                      

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