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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A FILHA DO POLACO - V.8 / Antonio Campos Junior
A FILHA DO POLACO - V.8 / Antonio Campos Junior

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

 

             TRÁGICAS JORNADAS.

A duas léguas de Moscovo o corpo de exército de Mortier fez alto à espera de Ottone e do seu punhado de artilheiros.

Viam-se dali os clarões e a fumarada do incêndio por cima do Kremlim.

As caleças de André Pulaski estavam junto do acampamento das bagagens. Dentro de uma delas, envolvida em pelicas, encontrava-se a Beauchamp, com o pequenino nos braços, adormecido.

Maria e o tio estavam a cavalo, à beira da estrada, esperando o regresso de Luís de Castro.

Os lances daquela situação excepcional tinham dado a Maria Pulaski uma energia nervosa admirável. O estrondo pavoroso da explosão sentira-se na estrada; a pobre senhora teve então um arrepio de terror, mas não fraquejou. Todavia correu um grande perigo. Os cavalos assustaram-se, tremiam como vimes e muitos deitaram

à desfilada doidamente. O que ela montava tomou o freio nos dentes, espavorido, e teria desfechado por ali fora numa loucura de pavor, se uns soldados de cavalaria portuguesa se lhe não houvessem atravessado no caminho.

- Jesus! que demora! - disse para o tio na sua voz enrouquecída.

- Ouvi que deviam sair uma hora depois de nós - volveu-lhe André Pulaski.

- Está a amanhecer. Se não chegar, volto para trás. Era uma solução de alma que o seu franzino corpo de mulher estava desmentindo numas tremuras de calafrio, que a faziam oscilar na sela.

As pelicas velavam-lhe o arfar violento do peito e, de quando em quando, voltava o rosto e enxugava furtivamente com a mão enluvada, para que o tio lhas não visse, umas lágrimas que já não podia represar.

Sentiram-se passos rápidos na estrada, do lado de Moscovo.

- Eles talvez!-disse Maria, metendo o cavalo pela estrada fora.

André Pulaski esporeou o seu e foi colocar-se a par dela.

- Tio, ele, o Luís! - disse num grito de desafogo. Era, efectivamente, o marido que vinha ao lado de

Ottone, na frente do punhado de intrépidos artilheiros de marinha.

Castro adiantou-se.

- Minha querida Maria!

- Que horror de demora! Mas estás salvo, e isso é tudo para mim!

- Perdi um dos meus amigos mais dedicados! Sacrifiquei-o!

- Qual?

- O João Luís!

- Mataram-no?!

- Não sei. Perdeu-se talvez nos subterrâneos ou teria

sido assassinado.

- Ainda por causa daquele infame Platow! -comentou André Pulaski!

Ottone adiantou-se com os seus homens para se ir apresentar ao marechal Mortier, e Castro foi fazer a sua apresentação ao general Pego e ao major Xavier, comandante efectivo dos duzentos e tantos portugueses que restavam do 1. 9. e 2. regimento de infantaria da Legião.

Tinha caído mais neve; a manhã gelava. Saíram à descoberta uns piquetes de lanceiros da Guarda e dos caçadores a cavalo do Marquês de Loulé.

Não encontraram indícios da aproximação do inimigo. Mortier mandou estabelecer bivaque, sob a protecção de grandes postos avançados.

Toda a noite de vela, os soldados precisavam de repouso. Acenderam fogueiras; estavam enregelados. Descansaram até ao meio-dia; era a ordem de Mortier.

Ao pé das caleças fez-se também um pequeno bivaque, muito aconchegado a uma fogueira. Em volta aquele grupo muito nosso conhecido. Cândido Xavier falava baixo, para Luís de Castro.

- A Rússia branca e lúgubre! - disse o marido de Maria Pulaski, apontando os pingentes da neve na coma alta dos bosques.

- Daqui a um mês - observou o velho polaco - horrorosamente mais branca e mais triste!

O pequenito galreava de mãos estendidas para a fogueira, os olhos num pasmo de júbilo.

- Não tem que estranhar quem já viveu na Sibéria. Não pode haver mais horror! -disse André Pulaski.

- Mas aqui estamos em guerra! -observou Cândido Xavier, baixo para Luís de Castro.

- E agora para onde? -volveu-lhe quase em segredo.

- Para uma retirada que pressinto desastrosa - respondeu Xavier no mesmo tom, tristemente.

Ouviram-se umas vozes de alvoroço.

- Onde está o nosso major Castro? - perguntaram alto à guarda das bagagens dos portugueses.

- Homem, ali mesmo.

- O João Luís! - exclamou Luís de Castro, erguendo-se num extremeção de júbilo.

Era ele efectivamente.

- Pronto, meu major! - disse o granadeiro, fazendo a continência.

Castro foi para ele.

- Houve alguma coisa extraordinária? Houve, decerto! Cheguei a supor que te tivesse sucedido algum desastre!

- Ia sucedendo, mas ainda tive Deus por mim,

- Platow?

- Creio que o terá levado o diabo.

- O artilheiro que ia contigo?

- Encheu-se de pavor, o maldito, e não chegou a pôr a mecha, por mais ameaças que eu lhe fiz!

- Pavor de quê?!

- Eu conto a V. S.A. Íamos pelo subterrâneo dentro, estendendo a corda da mecha, quando da banda da grade de ferro, que fecha o caminho para o arrabalde... V. S.a sabe...

- De S. Petersburgo, bem sei.

- Ouvimos gritos de muitos homens, gritos enfurecidos e vimos ao longe luzes de archotes. Percebi que eram cossacos.

- Depois?

- O artilheiro voltou logo para trás, cheio de terror. Eu queria por força que seguíssemos para diante. Os cossacos esbarravam com as grades fechadas, aquilo não eram varões que eles quebrassem às marradas e, enquanto esbravejavam contra elas, tínhamos nós tempo de ir levando a mecha até às barricas e voltar às escuras, surrateiramente.

Mas o demónio encheu-se de medo e deitou a correr para trás. Ainda o agarrei para o obrigar a voltar; ameacei-o, mas não houve de quê! Deitou para um canto o rolo da mecha, e fez-me cair a lanterna das mãos e fugiu como doido. Tive de voltar para trás e fui alcançá-lo à ponte grande. Ouvimos o tropel dos cavalos dos cossacos. Metemo-nos pela borda do rio e tivemos de dar uma grande volta, quase de rastos, porque os cossacos já andavam aos enxames em roda da cidade. Sentimos então o estrondo do palácio que foi pelos ares. Cheguei a julgar que se abria o chão! O de Almeida foi nada à vista daquilo! Os cossacos deitaram a galope, desnorteados, nuns gritos que pareciam berros de toiros. Eu e o outro tivemos de nos esconder numa cova enquanto passavam mais de mil daqueles malditos à desfilada. Só uma hora depois é que demos com a estrada para aqui!

- Platow escaparia?

- Tenho má sina com aquela alma do diabo! Antes V. S.a mo tivesse deixado matar assim que o aprisionámos, já que em Espanha a minha baioneta o tinha deixado com vida.

- Mas o Kremlim ficou arrasado?

- Quando me foi possível olhar para lá, já não tinha de pé os torreões; mas quis-me parecer que a igreja grande não tinha vindo abaixo.

- Demónio!

- V. S.a queira perdoar, mas eu fiz todas as diligências possíveis para cumprir as suas ordens.

- Obrigado, João Luís. Este acto de dedicação bastaria para me tornar amigo teu gratíssimo, se outros, ainda maiores, te não devesse.

--Nem merece a pena V. S.a falar nisso, meu major.

Tornara eu ter mais ocasiões de mostrar que sou capaz de lhe dar a vida. E mais pela senhora e o menino, se for possível.

- Raro coração de amigo o teu, João! - disse-lhe, abraçando-o comovidamente.

- E V. S.a a abraçar um soldado raso! - balbuciou enternecido, as lágrimas a saltarem-lhe dos olhos - O pior será se aquele malvado ainda escapa desta vez!

- O melhor para mim foi que tu te salvasses do perigo em que te meti.

- Mas eu cá vou, meu major. E não me parece que haja ocasião de tornar a pôr os olhos em riba daquele malvado. Estava bem amarrado e aquilo esbarrondou-se de vez.

- Salvo se os cossacos tiveram tempo de lhe acudir.

- Não era numa hora que eles partiam as grades e assim que ouvissem aquele tamanho estrondo por cima deles, bem lhes importaria a eles o Platow e fugiriam como cães.

- Sim... talvez assim fosse.

- Se V. S.a me desse licença, ia falar à senhora e ver o menino.

- Pois sim; vou eu contigo.

De súbito, um sinal de alarme nos postos avançados.

- Os cossacos! - veio avisar uma ordenança da cavalaria portuguesa.

- Os cossacos! - repetiram os soldados, correndo às armas.

- Jesus! O meu filho! - disse Maria num grito de alma, tomando o pequenino dos braços da Beauchamp.

- Não tenha susto, minha senhora - pediu-lhe o João Luís - Temos aqui duzentos portugueses do regimento do senhor major e cá estou eu para morrer na defesa do seu menino.

O Marquês de Loulé partiu logo para as avançadas com dois esquadrões. Tinha sido um alarme por engano. Dez cavaleiros polacos se tinham aproximado, trazendo por disfarce os gorros de peles de uns cossacos, batidos e mortos por eles. Eram portadores de despachos de Napoleão para o marechal Mortier.

Cerca do meio-dia voltou um ajudante de Mortier. Tinha partido de Moscovo para levar ao Imperador a notícia de que iam retirar sem terem sido atacados.

- Como se vai fazendo a marcha do exército? - perguntou-lhe Mortier.

- Pessimamente, senhor Marechal! Não deitam mais de três léguas por dia(1). A estrada está atulhada de bagagens e vai tudo numa confusão que nos pode ser funesta! Encontrei centenas de carros partidos atravancando o caminho e mais de três mil retardatários a guardar o que eles chamam as suas riquezas! Assim, será impossível tornear o exército de Kutusoff, intentando uma marcha ofensiva.

Mortier mandou levantar o bivaque. Seguiram para Wereia pela estrada de Mojaisk. Encontraram Napoleão; Mortier deu-lhe conta do que sucedera e acantonou. No dia seguinte (28) puseram-se em marcha. O Imperador saíra na véspera.

Em MaloJaroslaveitz encontraram os destroços horrorosos de uma batalha renhidíssima, que fora travada entre as tropas do Príncipe Eugênio e o exército de Kutusoff em 24.

Avisado a tempo, o generalíssimo russo pretendera tomar o passo a Napoleão. Foi repelido com grandes perdas,

 

*(1). Teotónio Banha refere aquele episódio nos seus Apontamentos.

 

mas ficara com forças bastantes para defender Kalouga.

A retirada do Grande Exército para Smolensko parecia inevitável. Os víveres já escasseavam, o inverno chegava desabrido, as tropas dificilmente poderiam intentar uma grande batalha ofensiva.

MaloJaroslaveits fora reduzido a cinzas; em volta da cidade tinham ficado pilhas de cadáveres.

Ali souberam por um extraviado do exército francês que, dias antes, Napoleão correra grande perigo de ser acutilado ou feito prisioneiro pelos cossacos do general Platow(1).

- Este nome odiado a recordar-nos o outro! - disse Luís de Castro para André Pulaski.

- O do infame sobrinho desse general.

Envolta em pelicas, Maria acompanhava o marido, a cavalo. Ao lado dela o tio André, a poucos passos a caleça em que ia a Beauchamp com o pequenito. Ao lado, o João Luís de arma ao ombro.

- E tu, Maria, sentes-te com ânimo para continuar a marcha a cavalo?

- Ânimo para tudo, por ti e pelo pequenito! - volveu-lhe resolutamente, esboçando um pálido sorriso,

- Como eu te admiro, minha querida! Depois, voltando-se para André Pulaski;

- E isto cada vez pior! Como nevou esta noite! Apontou a planície branca donde uns raios frouxos de

sol arrancavam rutilações de espelho. Ao longe, da copa das árvores e da ramaria alta dos pinheiros, daqueles pinheiros do norte, tão diferentes dos nossos, tristes como ciprestes, pendiam pedaços de neve, a lembrarem estalactites.

 

*(1). Aquela surpresa dos cossacos vem referida nas «Memórias» do General Rapp (pág. 239 a 241)

Faint relata o facto a pág. 250 e 251 do tomo II da sua obra.

 

Puseram-se em marcha tristemente. Os soldados já com dificuldade se arrastavam.

Quase de hora a hora uma investida selvagem dos cossacos, aos uivos como lobos(1). Então os corpos de infantaria formavam quadrado e a cavalaria do Marquês de Loulé caía sobre aqueles selvagens desesperadamente.

Os duzentos e tantos portugueses que restavam do regimento de Pego formavam então o seu minúsculo quadrado, metendo no centro a família de Luís de Castro. Maria apeava-se, tomando o filho nos braços, muito cingido ao peito, todo envolvido numa pele de marta.

E quando as descargas estrondeavam mais intensas e a onda dos cossacos rebramia com maior fúria contra o quadrado, mais o aconchegava a si, enternecidamente, a beber-lhe em beijos fervorosos as lágrimas de terror que ele chorava.

- O meu horroroso medo por ela e pela criança! - dizia Luís de Castro para o velho polaco - Creio que é coisa decidida a retirada sobre Smolensko, mas receio que cheguemos lá muito tarde nestas lentas marchas que os cossacos retardam constantemente! Daqui a pouco a fome nestes desabrigos gelados! Pobre mãe! Pobre criança!

- Vamos a ver se é possível chegar a Smolensko antes dos maiores rigores da invernia. Mediremos o nosso ânimo de homens por aquela resignação heróica de mulher! - disse o velho com os olhos rasos de lágrimas, indicando Maria Pulaski, a uma dezena de passos, debruçada para a caleça.

Foram seguindo. A estrada estava cheia de destroços de carros, de estropiados, de feridos ao desamparo, de gente que morria a chorar, e soldados que se enregelavam a rir.

Centenares, num espasmo de morte, ao abandono.

 

*(1) É a expressão empregada por Bourgogne nas suas «Memórias».

 

Já moribundas, senhoras e crianças que tinham saído de Moscovo, francesas, alemãs, italianas, tristes desamparadas que o frio gelava.

- As pobres mães!-soluçava baixo Maria Pulaski! - Nossa Senhora as salve a elas e vele pelo meu pequenino.

Nestas súplicas se esquecera de si.

A 2 de Novembro chegam a Mojaisk. Um horror! A linda cidadezita já não tinha de pé senão uns raros esqueletos de madeiras, negros como carvões, e a torre de uma igreja onde um relógio ia marcando as horas serenamente naquela cidade morta!.

Caía mais neve. Das tropas que iam para a frente apenas tinham ficado os que já não podiam marchar, alguns já meio envolvidos pelo lençol que o Inverno lhes dava por mortalha.

- Jesus! Como isto oprime! - murmurou Maria Pulaski.

Um vento, cortante como gumes de espadas, trazia de longe os gritos aflitivos dos desamparados e os uivos sinistros dos lobos e dos cossacos.

Reduzido já a metade da força com que saíra de Moscovo, o corpo de exército de Mortier bivacou sobre as cinzas geladas de Mojaisk.

Já não passavam de cento e cinquenta homens os dois regimentos unidos de Pego e Cândido Xavier.

Os soldados arrancavam os prumos carbonizados das casas para acender fogueiras. Ao menos, lume. Tinham vindo a meia ração; ali já não tinham que comer.

No bivaque dos regimentos franceses apareceu carne fresca. Era um achado. Tinham ido matar ao caminho uns poucos de cavalos caídos de cansaço e de fome. Assavam-nos às postas, comeram-nos mesmo sem sal e sem pão.

Alguns portugueses resolveram-se também a partilhar daquela refeição; muitos, porém, tiveram-lhe repugnância e foram procurar ervas e raízes para fazer caldo.

João Luís abalou com dois camaradas a buscar alguma coisa para a esposa do seu major. Era ela quem precisava de melhor alimento por causa do pequenino que amamentava.

Coitado! Voltou esmorecido, apenas encontrou umas raízes de couve, uma porção de linhaça e uns punhados de farelos e rolão que encontrou numa choupana abandonada, a um quarto de légua do bosque.

- Valha-nos Deus, minha senhora! Por mais voltas que dei, não me foi possível encontrar senão esta miséria!

- Então? Isso já dá um óptimo jantar - respondeu, sorrindo tristemente.

Apareceu o tenente de cavalaria Teotónio Banha e, assim que reparou nas provisões que o João Luís trouxera, disse, gracejando:

- Exactamente o que eu acabei de jantar agora. Papas de rolão e farelos, caldo de raízes de couve e linhaça torrada em guisa de sobremesa. Ofereciam-me carne de cavalo, mas enjoei-me e preferi as minhas papas e a minha linhaça.

Foi João Luís o cozinheiro daquele extravagante banquete.

Dali a instantes jantavam em volta do brasido. O Banha foi buscar uma garrafa de rum de Jamaica. Trouxera quatro de Moscovo; era aquela a segunda.

Luís de Castro e André Pulaski beberam uns goles; deram também ao João Luís. Para as senhoras trazia Luís de Castro, muito reservadas na caleça, umas três garrafas de vinho do Porto.

- Vamos lá, que ainda isto não está muito mau - gracejou o Banha - O pior é o frio; imensamente pior que os cossacos! - disse, metendo as mãos nas algibeiras das suas largas calças vermelhas, à mameluca, segundo o seu próprio dizer.

Na torre, única sobrevivente da cidade morta, o relógio deu 5 horas, lentas, agudas, num timbre que parecia de lástimas.

- Jesus! - dísse Maria Pulaski para a Beauchamp - A voz daquele sino! Dá as horas como se fossem ais!

- Não é do sino, minha rica filha. É de nós. Ouve-o a nossa alma como se ele tivesse voz para tamanhas amarguras! - observou-lhe André Pulaski.

Os homens passeavam apressadamente, esfregando as mãos para aquecer.

- Uma campanha perdida! Horrivelmente perdida!

- O exército vai por aí fora esbandalhado! Há regimentos que perderam já um terço do seu efectivo - interveio o tenente Banha - O meu está reduzido a trezentos homens, com pouco mais de duzentos cavalos.

- E o 2 de infantaria? Disse-me o major Xavier que não têm já senão 474 homens. Antes da batalha de Smolensko tinham ambos um total de 2.500; o 1, o meu, cerca de mil e duzentos, e já não tem oitenta!

- E daqui até Smolensko? O frio cada vez maior, toda essa gente nos desesperos da fome!

- Meu major - veio dizer o João Luís - não temos nada que dar aos cavalos, e mal se aguentam de pé!

- O pior é por causa dos cavalos da caleça!

- O meu soldado - informou Banha - foi àquelas choupanas e trouxe um braçado de palha podre dos tectos, para o meu cavalo. Foi o que se lhe pôde dar e lá a foi comendo, coitado.

- Pois então é o que eu vou fazer - disse João Luís. De repente, um sinal de clarim para a direita e uns

tambores para a retaguarda tocando.

- Os cossacos! Os cossacos!

- Maria! Beauchamp! Vamos! - exclamou Luís de Castro, indo para elas.

Banha correu para o bivaque da cavalaria.

Ouvia-se já o tiroteio dos postos de segurança e a gritaria selvagem dos cossacos.

Maria, com o filhito nos braços, a Beauchamp e André Pulaski entraram para dentro da miniatura de quadrado que os portugueses tinham formado.

Foi arremetida de alguns minutos.

A cavalaria miserável, como Napoleão chamava aos cossacos, não se aventurava a porfiados combates; limitava-se a inquietar e trazer em constante alarme aquele exército de famintos e de entorpecidos.

Morreram e ficaram feridos alguns homens de parte a parte. A cavalaria portuguesa aprisionou um cossaco de patente superior.

Procuraram um francês dos que residiam em Moscovo para que servisse de intérprete nos interrogatórios ao prisioneiro. O cossaco recusou-se a responder; fuzilaram-no.

Revistaram-lhe o fato e encontraram-lhe um papel impresso.

Deram-no a traduzir ao intérprete. Era uma ordem do dia, de Kutusoff, publicada em 31 de Outubro. Castro ouviu-a traduzir. Continha uma arrogante promessa de triunfos e um grito formidável de vingança, mas só este pequeno trecho lhe fez impressão: «Na sua raiva imponente os nossos inimigos quiseram destruir o Kremlim, mas ainda ali foi por nós a intervenção divina, dando-nos um sinal evidente da sua protecção. Preservou das explosões a catedral e os nossos santos templos. Persigamos o ímpio. Apagaremos as chamas de Moscovo no sangue dos nossos inimigos. Soldados da Rússia, Deus é por nós!»

«Se o maldito escapou também!» disse Castro consigo, apreensivo.

Absteve-se, porém, de amargurar mais a esposa com esta inquietadora suposição.

Anoitecia. Alguns soldados, que se tinham embriagado com a aguardente de uma cantina abandonada, lembraram-se de ir à torre do relógio tocar os sinos. Um deles fora sineiro e deu-lhe a bebedeira para o desastrado divertimento de tocar uns dobres. Foi um pavor no bivaque.

- Pelos finados do Grande Exército! - bradou lá de cima o ébrio, a rir, interrompendo o dobre - Pelos presentes e pelos futuros - acrescentou, e pôs-se outra vez a dobrar.

E os ecos das planuras brancas e dos bosques toucados de neve repetiam a toada numa repercussão longa, estranha, lúgubre!

- Jesus! Este horror de lembrança! - exclamou Maria,

apertando o filho para si.

Deitaram-se.

Sobre o chão branco, em volta do brasido das fogueiras, os soldados aconchegavam-se envolvidos nos capotes, ou em peles ordinárias e feixes de ramos pingando no descoalho dos seus pingentes de neve. Para os oficiais superiores apenas o grosseiro abrigo de alguns barrotes carbonizados a sustentarem um toldo de mantas, despojos dos cavalos mortos.

No pequeno bivaque de Luis de Castro serviu de quarto para as duas senhoras a caleça, recamada de peles. O velho polaco, Luís de Castro e o João Luís dormitaram sentados em volta do lume a extinguir-se; peles aos ombros, acamadas sobre os capotes.

Maria e a Beauchamp rezavam baixo, com o pequenino adormecido no meio delas.

- Nossa Senhora seja por ele e por nós.

O bivaque adormeceu. Caiu muita neve. Frio de 20° abaixo de zero. As sentinelas bebiam aguardente para resistir; alguns traziam aos ombros dois e três capotes dos que tinham morrido.

Ao luzir da madrugada tudo a pé. Tudo, não.

Dos seis mil homens a que estava reduzido o corpo de exército de Mortier, cerca de mil já nunca mais se levantavam dali. Ficavam para sempre no bivaque. Debalde para eles os clarins e os tambores tocavam a formar.

As sentinelas da madrugada cambaleavam, caíam e não se tornavam a erguer, tanta aguardente haviam bebido para combater o frio.

Em volta do brasido de uma fogueira, dois soldados portugueses estavam com os pés e as pernas queimadas, tanto se tinham acercado do lume no seu desespero de enregelados.

Foram formando os que ainda podiam mexer-se. Lívidos, extenuados, arrastando as espingardas como se fossem pesados bordões em mãos de octogenários. Um dó! Os cavalos, de olhar entristecido, cabeça pendente, o pêlo eriçado, o passo torcido, incerto, lá se iam arrastando a poder de esporadas e de azorrague.

Puseram-se em marcha como quem vai para uma morte inglória, obscura, fatal.

Levantou-se um clamor pavoroso. Era de alguns centos deles que já se não podiam levantar e ficavam ali ao abandono.

- Cada bivaque a lembrar o campo de uma batalha perdida! - disse Castro para André Pulaski, apontando-lhe o milhar de homens que ficava.

E lá se foram arrastando. O dia estava sombrio, o céu como se fosse uma cúpula de chumbo. Nem a esperança de uma réstia de sol para realentar aqueles desgraçados! O chão e os bosques numa alvura que fazia medo.

Já não encontravam pela estrada senão destroços; peças e viaturas abandonadas, feixes de espingardas partidas, cadáveres empilhados pelas orlas do caminho, ébrios a escabuchar o chão sem se poderem erguer, estropiados numa agonia de desesperos, soldados e oficiais antigos, que tinham humilhado impérios e derribado tronos, esmorecidos ao pé dos carros tombados, num choro convulsivo de crianças. Outros num entorpecimento de morte, olhos cheios de lágrimas, os lábios desfranzidos num sorriso idiota, que se imobilizara.

E ao abandono pelo caminho os despojos de Moscovo, a riqueza dos vencedores, quadros, estofos, candelabros, cristais, baixelas opulentas que já ninguém podia levar.

Mantos, arminhos imperiais, pelicas de duquesas, colares de jóias lucilantes caídos dos ombros e do colo das rameiras mortas de frio!

- O espólio da cidade santa dos czares ao abandono desse lúgubre exército que se vai sumindo! - disse Luís de Castro para o velho polaco num confrangimento de horror.

 

Estavam próximos do campo da batalha de 6 de Setembro e ali então o quadro era pavoroso! Ainda insepultos milhares de cadáveres da batalha travada havia cerca de dois meses, outros semi-desenterrados dos covais pelas chuvas e pelos lobos.

Por toda aquela extensão imensa, despojos de uniformes apodrecidos, canhões desmontados, quase cobertos de neve, dragonas doiradas que a humidade esverdeara.

E, por cima de tudo aquilo, nuvens de corvos grandes, irrequietos, grasnando desesperos contra aquela turba que os perturbava no seu repasto de cinquenta e oito dias.

- O cemitério daquela batalha de gigantes! Aqui ainda Napoleão julgou ver o sol de Austerlitz - lembrou Luís de Castro.

- Talvez para nunca mais o tornar a ver! - volveu-lhe André Pulaski sombriamente - Sinto que se apaga nesta retirada horrorosa a última esperança de ressurreição para a minha desventurada Polónia!

- Estes demónios esvoaçam em volta da gente como se já cheirássemos a mortos! - exclamou o João Luís, a ensarilhar com a espingarda no ar para espantar os corvos que voejavam em volta de Maria Pulaski - Parece que se juntaram aqui todos os que haviam na Rússia! Estão na engorda. Tantos como soldados teve o Grande Exército.

Era meio-dia e escurecera como se estivesse a anoitecer!

- Umas descargas sobre esses diabos! - gritou para a frente um coronel francês.

E daí a instantes estrondeavam umas poucas de descargas para afugentar aqueles bandos enormes de corvos, já a espicaçarem vorazmente os que tinham caído ali e ainda estrebuchavam.

Maria Pulaski fazia esforços enormes para impor ao seu corpo franzino e ao seu coração oprimido de pavores toda a abnegação e toda a coragem da sua alma heróica de esposa e de mãe.

Descansou-se um pouco. Os portugueses, já tão reduzidos que os dois regimentos mal davam para formar uma companhia, conseguiram acender uma fogueira com pedaços das viaturas da artilharia e coronhas partidas das espingardas dos corpos de exército que por ali tinham passado dias antes.

Maria percebeu que o pequenino tinha sede.

Do seu resguardo de peles, ao pé da Beauchamp, tomou-o nos braços e pô-lo ao peito.

- Jesus! - exclamou num extremeção de terror.

- Que é, minha filha?!

- Secou-se-me! Vai morrer-me de fome o meu querido filho!

- Nossa Senhora nos valha! Mas dá-se-lhe algum remédio.

Chamaram Luís de Castro e contaram-lhe os seus terrores.

Fez-se pálido aquele valente das maiores batalhas. Encheu-se-lhe de medo o seu coração de pai.

- Vou ver aí pelo bivaque se encontro com que o possamos alimentar. Ainda que me custe o dinheiro todo que temos. E pedirei como quem pede uma esmola.

- Sim, Luís. Custe o que custar. Pedirei eu também, se for preciso.

Castro afastou-se acabrunhado. Ela e a Beauchamp ficaram a chorar.

- Se houvesse água - disse Maria.

- Vai buscar-se - respondeu o tio.

- Vou eu - acudiu João Luís.

- O pequenino tem sede... e eu também.

- Pudera - disse a Beauchamp - Está a arder em febre.

- Não é febre; é excitação por tudo isto - respondeu Maria, a tranquilizar o tio.

João Luís foi para os lados de um ribeiro que se avistava dali.

- Pior é isto! Esta água só se fosse para envenenar a mãe e o filho!

O ribeiro estava quase atulhado de cadáveres de homens e cavalos, em completa putrefacção(1).

Perguntou a um francês que passava se não haveria outro ribeiro por alí. Indicou-lhe um, a coisa de um quarto de légua. O João deitou a correr para lá. Encontrou água capaz de se beber e voltou de corrida com o seu cantil cheio.

Castro foi muito mais feliz. Comprou por dez rublos um saquitel de arroz que lhe vendeu um lanceiro e,

 

*1. Dias antes também o sargento Bourgogne ali fora procurar água e encontrara o ribeiro cheio de cadáveres em putrefacção (Memórias, pág. 61).

 

mais ainda, encontrou uma cantineira francesa que na ante-véspera tinha dado à luz uma criança(1).

Maria ficou radiante, num alvoroço Imenso de júbilo; sentia-se outra.

- Nossa Senhora compadeceu-se de nós! - exclamou a Beauchamp, de mãos postas.

- É uma rapariga da Bretanha, robustíssima; pode amamentar as duas crianças: a dela e a nossa-informou Luís de Castro - Não queria remuneração, eu insisti.

- Terá com que viver desafogadamente no dia em que passarmos a fronteira da Rússia - disse André Pulaski para a sobrinha - Podes dizer-lhe que hei-de eu dar-lhe cem mil francos pela amamentação do pequenino.

- Agora é preciso ir lá ter com ela. Ainda lhe é difícil andar. Quando marcharmos, irá contigo na caleça. Cabem lá bem as três. Eu irei a cavalo enquanto for possível.

O frio cada vez mais intenso, a desgraça daquele exército cada vez maior!

Tinham-se quebrado todos os laços da disciplina e toda a solidariedade da confraternidade militar. Reduzido a um décimo do enorme efectivo com que, cinco meses antes, avançara pelo vale do Níémen, o Grande Exército ia fúnebremente esbandalhado pela estrada de Smolensko.

Em grupos, em magotes, esfarrapados, lívidos, arrastando-se numa tristeza lúgubre, sem sol e sem esperança, as bandeiras nuns trapos, as águias como insígnias funerárias, os generais confundidos com os soldados e com os tambores, nos mesmos agrupamentos e no mesmo desânimo,

 

*1. Bourgogne conta por esta forma um facto idêntico: «Uns instantes depois, M.me Dubois, nossa cantineira, mulher do barbeiro da minha companhia, sentiu-se doente e, volvidos momentos, enquanto a neve caía e o frio chegava a vinte graus, dava ela à luz uma robusta criança, etc. (Pág. 66)

 

deixando sobre o gelo de cada bivaque mais mortos do que no chão de uma batalha perdida, nem era preciso que as divisões de Kutusoff e os cossacos de Platow os combatessem; bastaria deixar que o Inverno e a fome acabassem de aniquilar aquele exército de dezasseis nacionalidades, enfeudado às maiores tradições militares dos tempos modernos e ao mais ambicioso e extraordinário batalhador de todos os tempos.

A artilharia pesada ficara pelo caminho ao abandono; de tempos a tempos uma explosão indicava que tinham deitado fogo a um cofre de munições, que já não era possível transportar; o número dos soldados que tinham deitado fora as armas por não as poderem levar era quase igual ao daqueles que ainda podiam opor as baionetas e as espadas às frequentes arremetidas dos cossacos.

E o frio das noites já a 25 e a 26 graus!

Gelavam-se a água e o sangue e parece que até os sentimentos de caridade e os mais vulgares instintos de piedade humana se haviam gelado também nos corações daqueles derrotados, que tinham vencido três grandes batalhas e ainda não haviam perdido nenhuma!

Como que não havia já amigos nem compatriotas naquela turba de alucinados! O egoísmo tocara os requintes da ferocidade. Matava-se um amigo de longos anos para lhe roubar um punhado de arroz ou uns goles de aguardente; estrangulava-se um camarada de dez campanhas, da mesma nação, do mesmo regimento, do mesmo sangue, para lhe tirar os farrapos de um capote ou para lhe usurpar o lugar em volta de uma fogueira!

Nem para as pobres mulheres, arrastadas com aquele exército perdido, nem para elas um generoso impulso de piedade!(1)

 

*1. «O que magoava a existência era ver o grande número de mulheres, entre elas muitas de rara beleza, cobertas de farrapos, perdidas de seus maridos ou amantes, divagarem pelos acampamentos pedindo, desfeitas em lágrimas, um pedaço de carne de cavalo que as restituísse à vida, que sentiam finar-se. Eram estas pobres infelizes tratadas com a maior brutalidade» (Apontamentos para a história da Legião Portuguesa, pelo tenente Teotónio Banha, pág. 75).

 

Havia, ainda assim, heróicas e consoladoras excepções e não era no punhado de homens da gente portuguesa que elas resplandeciam menos. Teotónio Banha dá conta de alguns actos de comovedora dedicação dos seus compatriotas durante aquela pavorosa retirada.

Estavam à vista de Smolensko. Era para eles a cidade santa da promissão. Encontrariam ali agasalho, descanso, o termo daquela fome torturante, aliada fúnebre do Inverno, que lhes amortecera todas as energias e quase todas as generosas dedicações.

Mas até essa miragem consoladora parecia fugir-lhes e não foram poucos os que só lograram vê-la para morrer!

A estrada de Mojaisk desce com áspera inclinação a pequena distância do planalto em que a velha Smolensko foi edificada, e toda ela estava coberta de gelo. Era descer por cima das lâminas de vidro húmido num declive resvaladiço, perigoso.

A cavalaria apeou-se, fustigou os cavalos e deixou-os ir por ali abaixo. Muitos rolavam e chegavam ao fundo da ribanceira com as pernas partidas, enovelados.

Os cavaleiros sentavam-se e deixavam-se escorregar, a infantaria fincava as baionetas no gelo e assim ia amortecendo por lanços a queda inevitável e perigosa. A pouca artilharia que restava ao corpo de Mortier foi de roldão por ali abaixo e quase todas as viaturas se espedaçaram.

Os doentes e os feridos ficaram em cima ao desamparo, em gemidos, em gritos que já ninguém ouvia.

E Maria Pulaski?

Com o filhito ao colo, porque nos piores lances o não confiava a ninguém, desceu penosamente; diante dela, para lhe dar amparo, o marido aferrando-se ao gelo com a baioneta de uma espingarda, que arrancara às mãos crispadas de um morto.

João Luís e André Pulaski seguiam-lhe o exemplo, amparando a Beauchamp e a cantineira bretã com o seu filhito ao colo.

Depois, para a encosta do planalto, uma subida fatigante, quase de rastos.

André Pulaski já não tinha caleça, nem criados, nem cavalos, A caleça fora abandonada no último bivaque, onde os criados e os cavalos tinham morrido enregelados.

Afinal uma angustiosa desilusão. Smolensko era ainda a cidade de carvões que a neve disfarçara. Ninguém a restaurara e não havia lá o grande depósito de abastecimento com que todos contavam; não se podia ficar ali. Os da frente já tinham continuado a marcha. De lá se viam, para além do Dnieper, os restos do exército e da velha Guarda.

Encontraram na cidade o general Gomes Freire e Visconde de Asseca. Receberam umas escassas rações e logo ordem para continuar a retirada(1). Era esmorecedor.

Luís de Castro ainda teve a fortuna de poder comprar um trenó e um cavalo, a certo mercador judeu que lhos vendeu por um preço escandalosamente exorbitante.

- Para a cantineira e para a Beauchamp - disse logo Maria Pulaski.

- E tu, Maria, Tu podes lá ir a pé!

- Posso, ao pé de ti, posso. Elas levam o pequenino.

 

*1. «Chegados à praça recebemos duas rações de pão, duas de arroz, um quartilho de aguardente e ordem de marcha para as duas horas da tarde do dia 14 de Novembro», etc. (Apontamentos de Teotónio Banha)

 

Se me sentir fatigada, revezar-me-ei com uma delas, aos poucos.

Afinal mudaram a hora da marcha e partiram mais cedo.

- Como angustiado Asaverus, caminhando sempre, este exército que se desfaz! - disse Castro para André Pulaski.

Chegaram à pequena cidade de Krasnoi. Estava atulhada de tropas, de soldados que já não tinham armas, numa confusão indescritível, discutindo colericamente as suas rações e o seu aquartelamento, travando rixas e brigas enfurecidas.

Felizmente, Napoleão estava ali e pôde contê-los. De mais a mais, os cossacos andavam perto, cobrindo a vanguarda do seu exército.

Em Kouthowo, aldeia a meia légua da cidade, já tinha havido um combate sangrento à baioneta.

Vão chegando grupos de retardatários, generais e soldados, na mesma camaradagem de infortúnios. Mas os reduzidos corpos de Davout e Ney ainda não tinham chegado e oitenta mil russos se estavam concentrando em volta de Krasnoi.

Era inevitável mais uma batalha. Aquela atmosfera de guerra sacudia o ânimo dos mais esmorecidos. É mil vezes preferível morrer nos lances desesperados de uma batalha do que torturado de frio e de fome.

Ao amanhecer do dia 17, Napoleão põe-se à frente dos seis mil homens que lhe restam da velha Guarda, e a pé diante deles, como no dia famoso d'Arcole, arroja-os contra o centro daquele exército de oitenta mil homens com que o feld-marechal Kutusoff o tem quase envolvido.

A artilharia troveja, os corações pulsam como nas horas gloriosas da epopeia napoleónica e, como por encanto, parecem ressurgidas as grandes abnegações que a retirada fizera esmorecer.

Combate de corpo do exército do Príncipe Eugênio; o do marechal Davout entra também em batalha; só falta o de Ney, que tem sustentado a retirada em prodígios épicos de esforço.

Mortier avança com os cinco mil homens que lhe restam e vai a pequena distância do Imperador. Na esquerda das tropas de Mortier combatem duzentos e tantos cavaleiros do regimento do Marquês de Loulé e os cento e tantos sobreviventes do 1 e 2 regimento da infantaria portuguesa.

Muito pálida, numa ansiedade opressora, Maria Pulaski ficou à retaguarda, com o pequenino nos braços. Ao pé dela, a Beauchamp e a cantineira. Como seus guardas, André Pulaski e o João Luís.

Pela uma hora da tarde uma nuvem de cossacos carregou sobre os portugueses. De lança em riste, a ulular ameaças, os cavalos num galope vertiginoso, vieram chochar de frente a cavalaria do Marquês de Loulé, pouco antes reforçada por dois esquadrões polacos.

Pego veio a galope juntar-se ao seu antigo regimento. Castro avançou com uma pequena companhia de cinquenta homens, relíquias dos granadeiros da 13.a meia brigada de Wagram. Cândido Xavier, muito doente, mal podendo arrastar-se, apoiava-o com o resto do regimento, pouco mais de noventa soldados.

A cavalaria do Marquês rebatera a investida dos cossacos; a infantaria atacava-os de flanco, fazendo sucessivas descargas e carregando à baioneta os que ousavam fazer-lhe frente.

Cândido Xavier, cada vez mais devorado de febre, já mal podia ter-se de pé. Luís de Castro tomou o comando de toda a infantaria, por indicação do general Pego.

De súbito destacaram-se da grande massa dos cossacos, já em confusa retirada, uns duzentos homens e precipitaram-se numa desenfreada carga contra a infantaria portuguesa.

- Soldados! Serenamente, como em Wagram e em Valontína. Fogo à minha voz.

E, quando a horda vinha a cinquenta passos, deu a voz de fogo. Estrondeou uma descarga uníssona como num campo de exercício.

- À baioneta!-gritou em seguida.

Os cossacos retiraram à desfilada apesar dos gritos de estímulo de um homem agigantado, que procurava arrastá-los para uma nova carga.

- Miguel Platow! -rouquejou Luís de Castro numa alucinação de surpresa e cólera - Fogo! Contra aquele mais alto!

Ouviram-se uns poucos de tiros; mas o chefe de gigantesca estatura lá ia aprumado no cavalo, seguindo o roldão de cossacos em fuga.

«Ainda desta vez escapou! -pensava -, Salvaram-no... ou antes, foi o meu estúpido plano de vingança que o salvou! Agora tenho de contar com ele para tudo! E o pior não é por mim! Um horror de previsões pelo dia de amanhã!

Eram duas horas e parecia noite. Meia hora depois cessava a batalha. A ala esquerda dos russos cedera, retirando para um bosque próximo.

Os franceses tiveram mil e duzentos mortos e feridos, mas a infantaria portuguesa, dois ou três pelotões de sobreviventes, já não excedia cem homens!

As forças de Napoleão ocuparam os seus acantonamentos de Krasnoi.

Os cem portugueses de infantaria aquartelaram-se no claustro de uma igreja, que servia de hospital de sangue. Já lá encontraram soldados dispersos de diferentes regimentos, que se podiam considerar extintos.

Luís de Castro aproveitou para seu quartel uma capela, num ângulo do claustro. Para não amargurar Maria, absteve-se de falar na aparição de Miguel Platow.

Já noite fechada, Castro foi ver os feridos portugueses. Maria quis acompanhá-lo e foi com ele. O pequenito ficava com a cantineira e com a Beauchamp, a uma centena de passos, protegidas pelos oficiais e soldados de Portugal.

Estavam lá também senhoras francesas na piedosa tarefa de ajudar a pensar os feridos. Maria Pulaski auxiliou misericordiosamente, com devotada coragem, o curativo dos portugueses golpeados pelos cossacos ou mutilados pela artilharia.

Encontrou ali uma senhora polaca e uma dama francesa que lhe prestaram sentida homenagem(1).

No dia seguinte era preciso marchar.

Partiram de Krasnoi. Os feridos tinham de ficar. Foi uma dor de alma ouvi-los! Alguns, a quem tinham amputado as pernas, arrastavam-se pela neve do caminho, gatinhando com as mãos, a escorrerem sangue, numa aflição, para ver se os levavam. Impossível. Já não havia cavalos para transportar feridos, e os homens que marchavam mal podiam consigo.

 

*1. O doutor Larrey, cirurgião em chefe, diz a pág. 95 do tomo II da sua obra já citada: «As próprias mulheres francesas, que nos tinham podido seguir, partilhando connosco os perigos e as privações, tiveram coragem para nos ajudar a pensar os feridos, mesmo debaixo do fogo da artilharia inimiga. Madame Aurora Barsay, directora do teatro de Moscovo, foi uma das mais notáveis pelos seus impulsos humanitários e por uma firmeza de ânimo pouco vulgar nas pessoas do seu sexo».

 

O frio era cada vez mais intenso. Oficiais e soldados faziam dó e metiam medo. Lembravam mendigos fugidos das cadeias pela sua magreza esquálida e pela sua farrapagem miserável: pareciam alienados foragidos, pelo olhar desvairado, de instante a instante aceso em súbitas cóleras, pelas bruscas impaciências com que deitavam a correr, ou a bailar numa dança trágica de tremuras, tarantela fúnebre que desfechava num riso de morte, com os olhos rasos de lágrimas!

Iam pelo caminho de Orcha, a dois e dois, esbandalhados, tropeçando em cadáveres de homens e de cavalos, em destroços de carros e de espingardas ao abandono.

Luís de Castro conseguira reunir consigo, em volta da bandeira clandestina de Amersdorf, hasteada na lança de um cossaco, os setenta que restavam dos cento e tantos sobreviventes de Krasnoi.

Com o uniforme roto, imundo, o resto escaveirado e pálido, a barba inculta, em que já luziam alguns cabelos brancos, as cãs dos seus vinte e seis anos, lá ia na frente daquele pelotão de portugueses, ao lado do trenó que levava a cantineira e a Beauchamp com as crianças.

Ao pé dele, carinhosamente, abordada a uma lança, Maria Pulaski, pálida como uma defunta, numa resignada coragem de santa.

O velho polaco e João Luís marchavam a dois passos do trenó, sentinelas devotadas do filhito de Maria.

Em uma volta da estrada depararam com um coronel francês de bigodes grisalhos, a chorar. Alguns soldados de sapadores tiravam de dentro de uma carruagem rica os cadáveres de umas mulheres para os sepultar num coval aberto a poucos passos.

- As pobrezinhas! - exclamou Maria Pulaski.

Castro interrogou um sargento francês, que assistia.

- Senhoras de Moscovo, que acompanhavam aquele coronel - respondeu-lhe -, Mãe e duas filhas. A mãe era formosa e teria pouco mais de trinta e tantos anos.

Era viúva. Parece que o coronel lhe prometera desposá-la em França.

Quatro sapadores levavam para a cova as duas pobrezitas, malogradas mulheres de catorze e dezasseis anos, louras, brancas, lindas, amortalhadas nos seus vestidos de seda e nas suas pelicas de marta-zibelina, guarnecidas de arminhos .

Mais adiante, um soldado de farda vermelha, lanceiro da Guarda Imperial, sentado ao pé de uma fogueira a descoalhar gelo dentro da marmita para cozer o fígado e o coração do seu cavalo, esquartejado por ele próprio a poucos passos dali!

Preparava o jantar e nem dava pelas botas a queimarem-se-lhe ao lume! De súbito soltou um grito lancinante, ergueu-se, deu uns passos, caiu, tornou a erguer-se, tornou a cair, e desatou a rir, com os olhos arrasados de lágrimas(1).

- Não posso aguentar o sono! - clamou um sargento dos portugueses, deixando-se cair a um lado da estrada.

Castro correu para ele e tentou levantá-lo.

- Meu Major... por amor de Deus! Deixe-me... dormir... deixe-me ficar.

- Para morrer!

- Deixá-lo... deixá-lo! A neve e a fome puseram-me quase cego! Deixem-me adormecer(2).

 

1) «O sintoma de morte para estes e outros infelizes - refere Teotónio Banha - manifestava-se por lágrimas, pelo monco que sempre se lhes via no nariz e por uma espécie de frenesi que os alienava; dois dias depois deixavam de existir. Os que por causa do gelo escorregavam e caíam de costas sobre as mochilas jamais se levantavam, nem mãos piedosas achavam que lhes desse socorro; outros, sentados nos grandes fogos que acendiam, não os podendo abandonar, ali perdiam o ânimo e também a existência, muitas vezes queimados por um lado e gelados por outro».

(2) O doutor Larrey diz nas suas Memórias que o enfraquecimento da vista era tal que mal se conheciam uns aos outros.

 

E cerrou os olhos a sorrir.

Não era surpresa para Luís de Castro. Ao enregelamento das extremidades sobrevinha a grangrena e só alguns tinham sido salvos amputando-lhes os dedos gelados.

- Está irremediavelmente perdido! - disse o Castro tristemente -, Para a frente.

Ali não se podia parar. Ali é que era absolutamente verdadeira a frase de um notável homem político do nosso tempo: Parar era morrer.

- Isto é um horror que nem sonhado se podia prever - disse André Pulaski.

- E ainda não temos visto o pior! Já ouvi que os soldados croatas têm chegado a devorar os cadáveres dos homens, numa voracidade feroz de antropófagos!

 

Estavam já nas proximidades de Orcha.

Um oficial português, ainda muito novo, cadete quando saíra de Lisboa, foi subitamente atacado de delírio e deitou a correr pela estrada fora, clamando:

- O sol! O sol! As casas brancas do Minho!

E de mãos estendidas para os edifícios de Orcha, cobertos de neve, gritava enrouquecido:

- Do Minho!... onde se não morre de frio! Onde nunca ninguém morreu de fome!

Cansado, caiu de bruços na estrada. Castro correu para ele.

- Então que é isto, Mendonça? - disse-lhe, levantando-o com o auxílio de dois soldados.

- Tanto sol!... Parece todo de oiro! Aquece como lume! Um regalo!

E a esfregar as mãos e a rir, com os olhos inundados de pranto, dizia como num sonho:

- Ângela, que luz carinhosa de noivado esta luz, meu amor! E a linda terra de flores que nós temos. Um regalo! Na Rússia é que se morre de frio! Os outros lá morreram! Todos! Todos!

Cerrou os dentes, esticou os músculos de repelão e caiu dos braços quase inertes dos soldados.

- Está morto! - disse um deles.

- Morre-se a rir neste desastre, principiado naquele carnaval grotesco e trágico de Moscovo a arder - rouquejou Luís de Castro para o velho polaco.

Entraram em Orcha. Ninguém sabia do marechal Ney e dos seus quatro mil homens, que tinham vindo a sustentar a retirada.

Haveria sido esmagado pelos russos? Prisioneiro, talvez morto? Ninguém tinha notícias dele. Napoleão prometia os duzentos milhões do seu tesouro das Tulherias a quem lho salvasse e trouxesse.

Era a 20 de Novembro. Pelas 10 horas da noite deu-se alarme nos postos avançados; mas logo correu de boca em boca a boa nova de que o marechal Ney aparecera enfim e vinha a marchas forçadas à frente do seu punhado de homens.

Sairam de Orcha todas as forças disponíveis para ir ao encontro do Duque d'ElchÍngen.

Foi a cavalaria portuguesa, e com ela os setenta e tantos que restavam do 1º e do 2º regimentos de infantaria.

Era Ney efectivamente. Marchara dias inteiros em coluna cerrada, ou em quadrado, constantemente investido por seis mil cossacos!

No dia seguinte tudo marcha para Orewa, depois na direcção de Borisow.

Cada vez maiores tormentos, mais intenso frio, mais depauperadas forças!

- Receio muito que Maria nos desfaleça pelo caminho! - segredou Luís de Castro a André Pulaski, no descanso de um dos bivaques.

- Também eu, e creia que não a supunha capaz de metade dos sacrifícios que ela tem suportado com admirável coragem! Dá-nos lição e excede-nos a todos por aquela sua alma heróica de mulher.

- Assim é, mas ainda falta muito para chegarmos à Polónia, para deixarmos a fronteira da Rússia, e tortura-me a ideia de que ela nos pode adoecer gravemente pelo caminho.

- Vamos a ver. Talvez não. Todos os cuidados e todas as solicitudes por ela e pelo pequenito. Ele então! Chega a parecer milagre o modo como ela e nós o temos podido salvar da morte!

- Ela como ninguém mais! Ela que tem sido aqui a mais intrépida vontade e a alma realentadora de todos nós!

 

               POBRE MÃE!

Aproximavam-se das margens do Berezina.

O grupo da infantaria portuguesa adiantara-se muito. Os nossos soldados eram ainda dos mais resistentes naquele estranho clima. Ali, as noites nevosas da Serra da Estrela, com sete ou oito graus abaixo de zero, haviam de parecer-lhes quase suaves, comparadas com as dos bivaques de Novembro em que o frio chegou a vinte e até a vinte e sete graus.

Perto de Borisow encontraram o estado-maior imperial. Na frente, como avançadas, uns generais a cavalo e a pé, cobertos de farrapagem bordada a oiro, e um pelotão de oficiais superiores apeados. Eram os sobreviventes do esquadrão e do batalhão sagrado, organizado no dia 22 com os generais que já não tinham divisões e com os coronéis e majores que já não tinham regimentos. Iam também famintos, transidos de frio; aquilo não era marchar, era arrastarem-se.

Depois, um esquadrão misto da soberba cavalaria da Guarda, couraceiros, hússares, guias, dragões, mamelucos, lanceiros vermelhos, numa tristeza de desbaratados, os cavalos esquálidos, numa tremura de fome.

A larga distância, atrás deles, mais pálido, a fronte enrugada, uma grande e mortificada energia a fulgir nos relâmpagos do seu olhar, Napoleão, o Grande, caminhava a pé, gorro de marta-zibelina, capote forrado de peles, de cajado como um pastor ou como um peregrino.

Por aquele seu calvário, plano e branco, adivinhava-se-lhe a cruz que levava aos ombros e ninguém via; o madeiro enorme do seu orgulho de triunfador naquele medonho desbarato que ninguém pudera sonhar; a cruz do seu remorso por aquele enorme exército que se desfizera e punha negrumes de luto nas almas e nos lares de quase todas as nações da Europa.

À direita do Imperador, aquele espectaculoso Murat das grandes cargas e das grandes plumas, envolvidas em peles de carneiro as suas esfarrapadas botas vermelhas de Moscóvia; à esquerda de Napoleão o Príncipe Eugênio, depois Berthier, Lefebvre, os marechais sem corpos de exército.

Fechava o cortejo uma coluna da velha Guarda, de todas as espécies de infantaria, levando na frente as águias dos regimentos mortos. Um ou dois sobreviventes de cada corpo com essas relíquias, nem eles sabiam bem para que funerário destino.

Águias de regimentos que tinham cruzado a Europa de extremo a extremo, vitoriosamente, águias viúvas que representavam ali o desaparecimento de trezentos mil homens, aniquilados pela guerra, mortos pelo frio e pela fome.

- Desfez-se a lenda! - disse baixo Luís de Castro para André Pulaski, apontando-lhe as águias viúvas.

- Morreu a derradeira esperança da Polónia!

- No dia em que transpuser essa fronteira, que já não está distante, considerar-me-ei desligado de todos os meus compromissos militares. O meu juramento de soldado quebra-se aqui neste pavor de infortúnios. Agora pode bem dizer-se que a Legião morreu. Cem ou duzentos portugueses do 3º regimento, que vêm com o corpo de Oudinot, já a não podem representar(1).

 

A única ponte que havia sobre o Berezina fora queimada pelas tropas do almirante Tchitchagoff.

Concentravam-se em Borisow os despojos do Grande Exército. Ali apareceu o Marquês de Alorna com a guarnição de Mohiloff e ali se reuniu Pamplona com as tropas com que defendera Polotsk.

Era preciso salvar aqueles restos do exército, passando o Berezina semigelado, orlado de pântanos, metido entre colinas e bosques.

Cento e quarenta mil russos, os exércitos de Kucusoff, de Wittgenstein e Tchitchagoff, reunidos para cercar aquele exército de desbaratados - quarenta mil homens que mal podiam com as armas e quarenta e cinco mil que as tinham perdido ou deitado fora.

Era o que restava. Faltavam mais de trezentos mil. Os cossacos e os corvos sabiam bem onde eles tinham ficado!

O Imperador ordenou a construção de três pontes; mas os materiais que havia não chegavam para as três e resolveu que se construíssem só duas, uma para a cavalaria, viaturas e bagagens, e a outra para as tropas apeadas.

A cavalaria de Corbineau transpôs o rio a vau, levando à garupa soldados de caçadores. Vão bater a larga distância os cossacos e uns piquetes do exército inimigo.

Depois do meio-día estava concluída a ponte para a infantaria.

 

*1. O 1º regimento era quase todo de prisioneiros espanhóis, com um núcleo de portugueses que lhe serviam de quadro.

 

Começa a passar o corpo de exército de Oudinot - nove mil e tantos homens (era o maior), franceses, polacos, suíços, croatas, portugueses e espanhóis do 3º regimento, muitíssimo poupado naquela campanha.

Está-se a 26 de Novembro. Há quem calcule que os oitenta e cinco mil sobreviventes, com uns milhares de veículos que ainda lhes restam, não levarão menos de três ou quatro dias a passar pelas duas pontes.

Ao meio da tarde estava pronta uma delas, a de cavaletes para os carros e bagagens. Deitaram por ela fora, precipitadamente, os cavaletes enterraram-se no lodo e a ponte foi-se abaixo.

Mas Napoleão apareceu, estimulou os sapadores e os marinheiros da Guarda, e lá se meteram no rio, devotadamente, a água semigelada a chegar-lhes às espáduas, para erguer a ponte.

 

Foi ali, ao pé dos pântamos de Berezina, que os soldados sofreram mais privações e a fome e o frio mataram mais mulheres(1).

A pobre Beauchamp adoecera gravemente. Foi um esmorecimento de angústias para Maria Pulaski e para Luís de Castro. Levaram-na para a melhor choupana de uma aldeia abandonada, um pouco distante da margem pantanosa, do rio.

Castro foi buscar um cirurgião francês, trouxe consigo nove soldados portugueses para lhe ajudarem a defender a choupana de alguma inesperada investida.

 

*1. Conta Bourgogne que até ali tinham sido as mulheres as pessoas que menos haviam sofrido moral e fisicamente. No Berezina morreram muitas afogadas.

Teotónio Banha escreveu nos seus Apontamentos: «As misérias e fomes experimentadas por tão grande número de homens, junto ao Berezina, neste dia, não serão acreditadas pelas gerações futuras, quando lerem as histórias». (Pág. 75).

 

- Parece-me que lhe fica por cá - disse o cirurgião à saída, baixo, para Luís de Castro.

- A minha querida Ana Beauchamp! A minha santa mãe adoptiva! - soluçou Maria numa angústia profunda, quando o marido lhe segredou o prognóstico do facultativo.

E nunca mais se apartou dela e do filhito. Durante a noite de 26 para 27 Beauchamp piorou muito.

- Morre-nos aqui, Luís! Coitadinha! Como se fosse outra mãe que eu perdesse!

- Manda-se chamar um médico. Não deixaremos ao desamparo quem foi, por tanto tempo, a nossa carinhosa protectora.

- Meu major - veio avisar o João Luís - as tropas do senhor marechal Mortier estão a passar para o lado de lá do rio e lá vão com elas os oitenta da nossa cavalaria e os sessenta e tantos do nosso regimento.

- Paciência. Ficaremos nós para ir com os últimos. Vou procurar um médico.

E foi, mas as esperanças de salvar Ana Beauchamp eram cada vez mais esmorecidas.

No dia 28 começou a artilharia a trovejar. Era o sinal de uma nova batalha numa e noutra margem do rio.

Efectivamente, Tchítchagoff atacava na margem direita os corpos de Oudinot, Ney e Morder; na margem esquerda as forças de Wittgenstein investiam as tropas do marechal Victor.

Duas batalhas à beira daquele rio a gelar-se e entre aqueles exércitos que se batiam desesperadamente, quarenta e seis mil pessoas, soldados sem armas, e doentes, feridos, estropiados, mulheres e crianças, que se enovelavam num pavor doido para alcançar as pontes, fugindo por elas.

- Está a fugir tudo para o lado de lá, meu major! - veio avisar um dos soldados.

- E a batalha?

- Cada vez mais renhida!

- Valha-me Deus, Luís, e aquela querida doente quase a agonizar! - disse-lhe Maria.

- Muitas tropas inimigas das bandas do bosque! - esclareceu João Luís.

- Sim, vamos lá fugir! - respondeu Luís de Castro sombriamente - Chama aí dois dos nossos para levarem em braços aquela nossa pobre doente.

- Vai morrer nos braços dos soldados! - murmurou Maria, com aflita mágoa.

- Mas velaremos por ela enquanto lhe restar um momento de vida.

Apareceu André Pulaski muito enfiado.

- Depressa! Ouvi d'além os brados de guerra dos cossacos tártaros!

- O meu querido filho! - gritou Maria, deitando a correr para a cantineira que lhe estava amamentando a criancita. Tomou-lha do colo e apertou-a muito para si.

- Vamos, Luís, depressa! - instou a tremer, pondo no marido um olhar de pavor - Agora tenho medo! Vamos.

E no seu egoísmo de mãe nem já se lembrava da pobre Beauchamp.

Chegaram os soldados. Dois deles tomaram nos braços a francesa, quase morta.

- Para a frente! -ordenou-lhes Luís de Castro. Deitaram a correr. Maria com o pequenito ao colo. Mas era medonho aquele mar de gente a esbravejar à embocadura das pontes! Oprimiam-se, atropelavam-se enraivecidos, num egoísmo de horrível ferocidade: os mais fortes estrangulavam os mais fracos; os mais ágeis pulavam por cima de todos os obstáculos, calcando doentes, mulheres, crianças, desalmadamente!

Para poder passar primeiro, para poder fugir mais depressa, a turbamulta bate-se às punhadas. Esganam-se e assassinam a proferir injúrias brutais!

A poucos passos, na terra lodosa de um pântano, um soldado de bigode branco a enterrar a águia do seu regimento, que se extinguira, a águia que ele não podia defender sozinho. A enterrá-la a chorar.

- Para que não a tomem os cossacos! - rouquejava. Mais adiante, uma cantineira moça a gatinhar no lodo uma cova para o pequenito, que o frio lhe matara. A abri-la e a soluçar:

- Para que os lobos o não levem!

- Morreu! - exclamou de repente um dos soldados portugueses.

Deixaram cair o corpo inerte de Ana Beauchamp.

- Minha querida mãe! Deus te pague o que foste para mim e perdoa-me tu, santa, perdoa-me que te deixe aqui pelo meu filhinho! - soluçou Maria Pulaski, e deitou a correr.

Estava feito nestas palavras o responso de Ana Beauchamp. Naquela hora de espavorido egoísmo nada mais era plausível esperar.

- Os cossacos! -gritaram.

- Os cossacos sobre nós!

Ouviram-se milhares de gritos de horror em quantas línguas tinha a Europa; até em inglês, porque havia irlandeses no Grande Exército e até em russo, porque iam ali umas desgraçadas aventureiras que tinham abandonado Moscovo.

- Aquela bateria arrasa tudo!

Efectivamente, uma bateria dos russos fazia fogo sobre os soldados desarmados, em fuga para as pontes.

Houve então um espantoso lance que se não descreve. Os que fugiam da metralha, enovelados, transidos de pavor, daquela metralha que abria brechas medonhas no corpo enorme da multidão, iam cair contra os peitos dos cavalos dos tártaros e morriam trespassados pelas lanças.

Na embriaguez do sangue, a cavalaria semi-selvagem bramia os seus dizeres de guerra em rugidos como de tigres sedentos.

E numa e noutra margem daquele rio fúnebre a batalha cada vez mais incendida e mais sangrenta(1).

De repente, vibram gritos aflitivos do lado de uma das pontes de Stoudziancka.

- Abateu a ponte!

--Um horror de gente no rio!

Maior revoltear naquele mar de gente angustiada! Correm uns para a outra ponte, outros metem-se doidamente ao rio. Mas os cavalos dos cossacos avançam sempre e os canhões dos russos não se calam.

E Luís de Castro e Maria Pulaski?

Não puderam romper pela multidão e foram afastados das pontes de Stoudziancka por um troço dos cossacos, a persegui-los numa fúria implacável.

Na orla de um bosque pararam; estavam quase extenuados.

André Pulaski fora ferido, arrastava-se penosamente.

Maria levava o seu pequenito envolvido numa pelica, muito seguro no braço esquerdo, arqueado contra o peito: na mão direita a lança que lhe servia de bordão. Ao pé dela a cantineira.

O João Luís e os nove soldados portugueses fizeram frente aos cossacos, desfechando as espingardas a coberto de umas grandes árvores.

Luís de Castro pensava ligeiramente o ferimento do velho polaco. Ofegante, a chorar silenciosamente, Maria vigiava o filhito, já nos braços da cantineira para o amamentar.

Os cossacos apearam-se e pareciam dispostos a atacar os portugueses nos seus abrigos do bosque.

 

*1. «Nas duas margens o combate ia mais encarniçado. Wittgenstein e Tchitchagoff mandaram avançar as suas reservas. Este último tinha sido reforçado pelos cossacos de Platow, etc». (Barão Faint, Manuscrito de 1812, tomo II, pág. 401).

 

João Luís percebeu à retaguarda deles um homem corpulento, que lhe pareceu Platow. Viu que se apeava também. Meteu a arma à cara e desfechou. Errou o alvo. Em vez daquele odiado inimigo foi a terra um tártaro que ía para ele como para receber ordens.

Notou então João Luís que o russo tomou consigo uns vinte homens e se afastou para a direita e que outros vinte seguiram para a esquerda. Em frente ficavam uns quarenta.

- Temos cerco - pensou João Luís - Aguentem-se vocês aqui, rapazes, que eu vou falar ao nosso major.

Deu uns passos para o interior do bosque. Ouviu um tiro e a dois passos dele, em frente, uma bala foi cravar-se no tronco de um pinheiro.

- Já se meteram cá dentro. E esta bala era para mim. Meu major! - gritou -, Miguel Platow está com os cossacos! Ressuscitou, o maldito! Apearam-se para nos cercar!

- Deixem-me! Fujam! - pedia André Pulaski sumidamente - Maria, adeus!... Fujam. O céu proteja o vosso filho, adeus!

- Tio como pai amantíssimo! Devo-lhe todas as venturas maiores, tudo!

- Foje! - rouquejou.

Maria Pulaski ajoelhou, beijou-o. Vibraram na floresta os gritos dos tártaros.

- Eles aí vêm! - bradou o João Luís.

- Nossa Senhora! O meu filho!

Num repelão de pavor, aos gritos, a cantineira deitou a correr para a clareira por onde tinha entrado, levando nos braços apenas o seu pequenito; o outro, o de Maria Pulaski, deixara-o envolto na pelica, ao pé da árvore.

Maria correu para ele, levantou-o; sorria-lhe num sorriso de anjo.

- Nossa Senhora! Faltam-me agora as forças! Antes morrer!

- Fogo! - mandaram numa língua estranha, a cem passos para a frente.

João Luís não entendera a ordem, mas vira apontar umas poucas de espingardas e abraçara consigo Luís de Castro, inclinando-o para trás de uma árvore.

- Fujam! - rouquejou André Pulaski, já num profundo extenuamento de forças -Deixem-me! Salvem-se!...

- Carreguem depressa! - bradaram da frente - Fogo àquele, a matar. Cuidado com a mulher; quero-a para mim.

Maria conheceu a voz e entendeu aquela ordem, pois que percebia o russo. Era a voz de Miguel Platow.

- O bandido! - rugiu Luís de Castro, engatilhando uma pistola e dando uns passos como para ir ao encontro de Platow.

Numa crise estonteadora de terror, Maria deu o pequenito ao João Luís e correu a abraçar o marido, cingindo-o a si de modo a ficar de costas para o grupo de tártaros que Platow trazia consigo. Escudava-o assim com o seu corpo, a maravilha de carne sofregamente cobiçada pelo cossaco.

- Não, Luís! Não deixo eu! - soluçava - Matavam-te!

- Não façam fogo! - gritou Platow - Mata-se depois. Maria ouviu e entendeu.

- Fujamos! - pediu ao marido.

- Fugir daquele miserável!

- Por mim! Pelo nosso filho! - e empurrava-o diante de si, pois bem percebia que os cossacos não faziam fogo contra o marido enquanto receasse feri-la a ela -, João, por sua mãe, defenda o meu filho! - suplicou ao granadeiro.

- Até à morte! - respondeu João Luís - Mas é preciso ir mais depressa. A mim, soldados de Portugal! - gritou num esforço supremo.

E foram retirando sempre apressadamente. Cinco minutos depois chegavam a correr os nove soldados.

- Vocês sustentam a retirada, fazendo fogo. Quantos cartuchos trazem? - perguntou-lhes João Luís.

- Quatro maços inteiros cada um.

- Vá, fogo sobre aqueles ursos! Estrondearam uns poucos de tiros.

- Eu vou para diante, meu major.

- Mas o pequenito, João Luís? É melhor dar-mo - disse-lhe Maria.

- Eu podia bem defendê-lo.

- Não, não; ia em maior perigo e embaraçava-o a si. Tomou-lho dos braços. O João Luís disse para os soldados:

- Sigam atrás de mim; eu sou o guia. Temos de dar uma grande volta para não ir esbarrar com os outros que nos cercam.

Outra descarga dos soldados e novamente os cossacos recuaram. Anoitecia. Vinham de longe os últimos ecos da batalha.

Iam já numa extrema do bosque, do lado do rio, quando o João Luís gritou:

- A mim, que os temos aqui deste lado!

- João! - respondeu-lhe Luís de Castro, correndo para ele, apesar dos esforços de Maria para o reter.

Da retaguarda correram cinco soldados para a frente; fizeram fogo, acirrou-se o tiroteio.

Do interior do bosque nada se ouvia agora como se os cossacos de Platow se tivessem sumido por encanto.

«O meu bem amado tio!» ia Maria soluçando no doloroso remorso de o terem abandonado moribundo,

- Dou quanto dinheiro levo, vinte rublos, a quem me for buscar um velho que ficou ali gravemente ferido - disse Maria para os quatro soldados que vinham na retaguarda.

- Vamos lá nós - disseram dois camaradas antigos.

E foram. Tinha escurecido muito. O tiroteio na frente estava mais renhido.

- Jesus! Como combatem! Vão ter com o vosso major.

Eu fico; não tenho medo - asseverou a pobre mãe aos dois soldados que estavam junto dela.

E cingiu a si o filhito numa tremura convulsiva. Mas também se oprimia no receio de que lhe pudessem matar o marido. Chamou por ele.

Respondeu-lhe serenamente, a carregar a espingarda de um soldado que havia caído mortalmente ferido.

- Meu Jesus, velai por ele! Antes eu, Senhor da minha alma. Antes.

Beijou o pequenino, aconchegou-o mais a si e esperou que os soldados voltassem com André Pulaski.

De súbito sentiu-se apertada por uns braços rudes, pesados, como se fossem de ferro. Cingiam-na pelas costas.

- Socorro! Acudam! - gritou.

Era um tártaro quem a segurava; um outro lhe arrancou a criancita dos braços.

- O meu filho, que mo roubam! - clamou num grito que parecia feito de todas as maiores dores e de todas as supremas energias da sua alma de mulher.

Castro correu para trás com o João Luís.

O tártaro que segurava Maria caiu atravessado por uma espada, mas o outro que arrancara a criança dos braços de Maria Pulaski, esse fugia a perder-se de vista.

- João, por misericórdia! O meu querido filho! Levam-mo! Levam-mo!

O granadeiro entendeu comovidamente esta sublime súplica de mãe.

- Senhora, ou volto com ele ou nunca mais volto! - respondeu-lhe já de corrida atrás do cossaco.

Era noite cerrada.

 

Ao outro dia, do lado de lá, quando as tropas se reuniam para continuar a retirada, verificaram que nos da infantaria portuguesa faltavam muitos homens. Já não chegavam a cinquenta.

- Falta o nosso major Castro! - informou um sargento.

- Desde ontem de manhã que não o tornámos a ver!

- Nem a ele, nem à senhora!

- Nem ao João Luís, que era o seu cão fiel.

- Ou os matou o frio ou ficaram ontem prisioneiros, ali, ao pé das pontes.

- Sim, talvez prisioneiros. Pelos modos, foi um horror deles(1).

 

Continuavam a retirar na direcção de Vilna. Maior desordem, maiores misérias e aterradoras perdas.

Em um dos bivaques, frio de vinte e oito graus! Gelava-se.

A retirada de quarenta mil espectros, restos de quatrocentos mil soberbos soldados que tinham passado o Vístula, altivos, brilhantes, no Verão daquele ano trágico!

Em Smorgoni, Napoleão recebeu os seus correios de Paris. Conspirava-se lá contra a sua autoridade imperial. Pensou que era preciso ir salvar o trono.

Foi. Embrulhado em peles, acompanhado pelo Conde de Lobau e pelo general Lefebvre-Desnouttes, dentro de um trenó à desfilada.

Entregara a Murat os despojos do Grande Exército. E nem um adeus, nem uma palavra de gratidão para aqueles pobres soldados, fanáticos da sua glória tantos deles!

Ia para salvar a coroa. O exército, esse estava irremediavelmente perdido.

Faltou o ídolo e então até os fanáticos esmoreceram. De tantos egoísmos que o infortúnio criara naquelas trágicas jornadas,

 

*1. O escritor russo Butturlin, historiador da campanha, diz que os cossacos e as tropas regulares reuniam nas margens do Berezina dois a três mil extraviados e fizeram dez mil prisioneiros do exército napoleónico.

 

aquele do Imperador era o mais duro, o mais desalmado, o que mais amargurava o coração dos velhos soldados, colaboradores de sangue em toda a sua obra de conquista.

Para evitar a peste, o governo de S. Petersburgo mandou queimar todos os cadáveres insepultos, desde o Moscova até Vilna. Um número que faz pavor: 243.712 homens; 123.382 cavalos!(1)

Mais de cinquenta mil homens tinham sido já enterrados nos campos de batalha ou devorados pelos lobos, e em poder dos russos caíram cerca de trinta mil prisioneiros, e destes ninguém podia calcular quantos haviam de sobreviver ao desterro na Sibéria.

Luto imenso para toda a Europa. A Legião Portuguesa acabara ali.

 

*1. Gazeta de Viena, de 21 de Novembro de 1813.

Só nas margens do Berezina queimaram os russos 30.106 cadáveres de homens e 27.316 cadáveres de solípedes.

 

 

                           SUPREMO RESGATE

 

                 LUTO PESADO.

Estamos em 1812. Entremos em Espanha e procuremos alguém muito do nosso conhecimento no exército português em operações.

Encontraremos as tropas aliadas de Lorde Wellington (ingleses, portugueses e espanhóis) já para cima da linha do Ebro, nas Vascongadas e na direcção da cidade de Vitória.

No dia 19 os aliados estavam em Bayaz. Encontraremos ali no estado-maior do generalíssimo inglês, como seu ajudante-de-campo, um coronel português que ainda não tem trinta anos e é muito das nossas relações.

É possível que tenha informações particulares a respeito das pessoas queridíssimas que vinham na lúgubre retirada da Rússia com os destroços do Grande Exército. Esse coronel chama-se Henrique de Castro e Albuquerque.

Talvez saiba alguma coisa daquele desventurado irmão seu, que deixámos nas margens do Berezina: dele e de Maria Pulaski, no seu lance aflitivo de esposa e de mãe. Mas antes de ir ter com o coronel Castro ao quartel-general de lorde Wellington, Marquês de Talavera e de Torres Vedras, Duque de Ciudad Rodrigo, generalíssimo dos exércitos espanhóis(1), ingleses e portugueses na Península, resumamos em brevíssimas palavras os factos capitais daquela enfurecida e interminável guerra da Espanha, desde o Verão de 1812.

Sabemos já que a batalha dos Arapiles abrira aos anglo-portugueses o caminho de Madrid.

A 12 de Agosto, Wellington entrara triunfalmente na capital da Espanha, à frente de uma parte dos seus ingleses, da divisão portuguesa do general Silveira, e das tropas espanholas dos generais Alava e D. Carlos de Espanha. Entraram com eles as «huert ilhas» dos famosos cabecilhas El Empecinado, El Medico, El Chaleco e El Abuelo. Os exércitos franceses tinham retirado para a linha do Ebro e o rei José Bonaparte fora abrigar-se para lá do último escalão de tropas, com a sua corte errante de espanhóis afrancesados.

No 1º de Setembro, Wellington saíra de Madrid, a 8 chegava a Burgos e ficou-se a perder tempo com o investimento do castelo da velha cidade de Cíd, defendido pelos franceses com heróica tenacidade. E enquanto corria o mês de Outubro naquelas operações desnecessárias, a disciplina e o moral das tropas francesas reconstituíam-se, ao passo que a embriaguez, a rapina e as insubordinações individuais,

 

*1. Por decreto de 22 de Setembro de 1812, as cortes de Cádis tinham-lhe dado o cargo de generalíssimo dos exércitos espanhóis.

 

até ao extremo da agressão brutal, enfraqueciam assustadoramente o carácter colectivo e as energias do exército inglês.

Tinham chegado da Rússia as notícias das batalhas de Smolensko, de Valontina, de Moscova; Napoleão avançava triunfante para a cidade santa dos czares.

Essas notícias reacendiam novos brios nos exércitos da França e quebravam muito os ânimos e as esperanças dos aliados. Foram os espanhóis os primeiros a esmorecer no sentido político da palavra. As suas Cortes de Cádis reataram negociações secretas com o rei José Bonaparte, para o firmar no trono espanhol, dando-lhe o apoio de todas as forças da Espanha, desde que ele se obrigasse a jurar a constituição e tomasse o compromisso de expulsar os ingleses de todo o território da Península, incluindo Portugal, que ficaria pertencendo à nova monarquia, conforme o sonho antigo da alma espanhola.

E deste modo o reflexo das vitórias de Napoleão nas margens do Dniepre e do Moscova fazia amortecer na Espanha o brilho daquela campanha de 1812, que dera aos aliados Ciudad Rodrigo e Badajoz e a soberba vitória dos Arapiles, a prefaciar a tomada de Madrid.

Naquele realentar de ânimos e contando com a fantasia espanhola, já a sonhar que batia os ingleses e conquistava Portugal pelo braço do seu Pepe francês, os exércitos do rei José tomaram a ofensiva, como que ciosos dos triunfos colossais dos seus camaradas na Rússia. Primeiramente, o corpo de exército do general Sonham, que substituíra Clausel, depois os exércitos combinados do rei José, comandados na realidade pelo marechal Jourdan, e do marechal Soult.

Wellington teve então de bater em retirada para Portugal, o seu campo entrincheirado. A inferioridade numérica das tropas que tinha em volta de Burgos era inquietadora em relação aos exércitos inimigos.

Em 15 de Novembro noventa mil franceses com cento e vinte canhões ocupavam as vizinhanças dos Arapiles. Esperavam uma batalha que fosse o desforço da outra, perdida em Julho, mas nem Wellington caía em a dar em tais desfavoráveis condições com um exército extenuado, nem Soult se dispôs a provocá-la(1).

Wellington foi ocupar os seus quartéis de Inverno em Portugal: um duro e angustioso esforço aquela retirada de Burgos.

Pelo mesmo tempo, noutro extremo da Europa, o Grande Exército retirava também, mas com o desgraçado êxito que já conhecemos.

É realmente curioso que a respeito da retirada de Burgos se levantassem queixas e indignações, não só da parte dos espanhóis e ingleses, e essas eram explicáveis, mas também da parte dos franceses, que ainda hoje a consideram uma nova e derradeira desgraça daquele ano de 1812, pois que 40.000 aliados tinham conseguido escapar-se a 90.000 franceses.

Em Dezembro, José Bonaparte reentrava em Madrid e Wellington ia a Cádis conferenciar com a Regência.

Teve lá uma recepção triunfal o vencedor dos Arapiles. É que diante deles os agentes ingleses haviam levado aos gaditanos as primeiras notícias, lacónicas, terríveis, chegadas da Rússia em meados de Novembro. Moscovo ardera, Napoleão retirava, ia já sobre a linha do Dniepre, o Grande Exército tão desbaratado como se houvesse perdido três grandes batalhas.

 

*1. Deplorando que se não houvesse dado ali uma batalha vingadora da outra de 12 de Julho, Guillon diz nas suas Guerres d'Espagne: «A planície estava ainda coberta de ossadas dos nossos soldados. Reconheciam-se bem os uniformes em farrapos dos nossos regimentos. A ideia de travar aí batalha de melhor fortuna que a outra, dava às nossas tropas impulsos e impaciências de ardente coragem». (Pág. 335).

 

A Inglaterra tinha agentes activíssimos na Rússia e os veleiros ingleses traziam as boas novas rapidamente do Báltico ao Mar do Norte, e de lá para a Espanha bastavam uns dias de vento favorável.

Como se vê, os acontecimentos da Rússia tinham agora uma influência militar e política importante na Península. Era uma como reciprocidade da acção de estímulo que haviam tido na Rússia as campanhas vitoriosas dos anglo-portugueses, de 1808 a 1812, e a resistência tenaz do povo português e das guerrilhas espanholas.

Wellington aproveitou o tempo admiravelmente. Restaurou e reforçou o exército aliado e empenhou-se em que a Espanha reorganizasse as suas forças militares.

Em Maio de 1813 tomava a ofensiva. Estava de há muito completamente conhecido o desastre assombroso de Napoleão, desde Novembro a Dezembro do ano anterior. Em 26 os aliados chegavam a Salamanca para tornear a linha francesa no vale do Douro (Espanha) e em 1 de Julho estavam em Toro.

Era intuito do generalíssimo inglês ir cortar a linha de retirada ao inimigo sobre a fronteira francesa.

O rei José Bonaparte saíra de Madrid pela terceira vez, com todos os seus cortesãos e todas as riquezas da sua corte de damas e Grandes de Espanha afrancesados. A princípio quis sustentar-se em Valhadolid, segundo indicações de Napoleão, mas o movimento ofensivo dos aliados forçou-o a retirar para Burgos e de lá para a linha do Ebro.

Os aliados tornearam os franceses nesta linha como os tinham torneado na linha do Douro. A sua ala esquerda passou o rio, combatendo eficazmente os esforços defensivos das tropas do general Reílle. José Bonaparte teve de retirar ainda para a margem esquerda doZadorra, já nas proximidades de Vitória.

Procuremos agora o coronel Henrique de Castro no quartel-general de Wellington, instalado numa vasta casa de campo de certo opulento fidalgo de Burgos.

Tinham chegado uns poucos de correios; uns vindos directamente de Lisboa, outros de Inglaterra por via de Santander, o belo porto cantábrico, já ocupado pelas poderosas esquadras inglesas.

Cerca de duas horas depois, Wellington mandava chamar Henrique de Castro por um dos seus particulares.

- Coronel, tenho informações que são para si e que sinceramente deploro.

- A respeito de meu irmão Luís, senhor General? - perguntou, enfiado, numa dolorida perturbação.

- Sim, a respeito dele. As informações que eu pedi vêm ao encontro das suas amarguradas desconfianças, Coronel!

- Morreu? É então certo!

- Tudo leva a crer que sim. Leia esta carta do Subsecretário de Estado dos Negócios Estrangeiros. Aí transcreve as informações colhidas durante três meses pela embaixada de Inglaterra em S. Petersburgo. Dentro dessa carta está uma relação dos oficiais portugueses que ficaram prisioneiros. Falta lá o nome do seu irmão. Um dos que ficou prisioneiro naquele desastre espantoso do Berezina declarou que ainda viu Luís de Castro com a esposa e uma meia dúzia de soldados portugueses, lutando com os cossacos tártaros. Para esse declarante é coisa segura que seu irmão sucumbiu entre os muitos milhares que lá ficaram. Coronel Castro, sabe o alto apreço em que o tenho e as provas de amizade com que o extremo entre os meus

íntimos...

- As mais subidas e honrosas provas, senhor General - disse-lhe numa tremura de voz - Tamanhas que até por elas ainda mais me pesa o remorso de uma vez ter falseado certa informação particular...

- A respeito do noivo daquela menina polaca... Perdoei-lhe o engano bem intencionado, disse-lho já. Parecem-me exagero da sua consciência esses remorsos. Disse-me quem era aquele seu desditoso irmão e eu estou já convencido de que, se alguns dos oficiais da Legião faltou aos seus deveres de patriotismo, formulo apenas uma hipótese, esse tal não podia ser Luís de Castro.

- Pela memória desse grande desditoso e por essas consoladoras palavras de justiça, conceda-me V. Ex.a, meu general, que lhe beije as mãos, numa sentida homenagem de reconhecimento. Meu glorioso chefe, meu grande e generoso amigo!

Dobrou-se diante dele, com os olhos afogados de lágrimas, as suas mãos trementes a buscarem as do generalísimo para lhas beijar.

Wellington levantou-o comovidamente nos seus largos braços e apertou-o contra o seu largo peito de homem forte.

- Coronel, dou-lhe assim os meus pêsames por esse infortúnio. Creia que avalio e deploro sinceramente a sua dor.

Enternecera-se aquele grande homem, habitualmente seco, serenamente frio.

Estavam humedecidos de lágrimas os seus olhos claros, brilhantes, de agudo olhar como os olhos das águias(1).

- Pode levar essa carta, coronel Castro. É um fúnebre doqumento, que eu lhe dou para as suas piedosas memórias de família.

- É quase uma certidão de óbito, meu general!

 

*1. Conta Brialmont que, mesmo depois de velho e no fim da vida, o olhar de Wellington era de tal modo penetrante que no seu castelo de Walmer (Dôver) descobria o farol de Calais. (História do Duque de Wellington, tomo III, pág. 239).

 

- Infelizmente! - respondeu Wellington, estendendo-lhe a mão.

Henrique de Castro despediu-se, envolvendo no seu olhar nublado de pranto aquela grande figura de homem, alto de fronte desassombrada e um ar de nobre altivez como de quem sente o que pode e o que vale.

Henrique foi para o seu quarto num estonteamento de mágoa.

«O meu desventurado Luís!» soluçava. «Aquela pobre mãe, velhinha e doente! Se eu posso ter ânimo para lhe mandar este desengano em que as últimas esperanças se perderam!»

Sentou-se à mesa. Leu a carta vinda de Inglaterra, depois a nota dos oficiais portugueses que tinham ficado prisioneiros e no final, como comentário horroroso, a indicação dos 30.106 cadáveres que o governo russo mandara queimar nas margens do Berezina e nas estradas convizinhas. - Talvez entre estes! - disse a chorar - Agora sem nenhuma esperança. Nenhuma!

Tirou da gaveta um número do Times em que vinha traduzido o célebre Boletim 29 do Grande Exército, o último; aquele em que Napoleão chegou a exagerar a imensidade dos seus próprios infortúnios(1).

A folha inglesa publicara-o cerca de um mês depois que os últimos restos do exército napoleónico

 

*1. Tinha 5 pés e doze polegadas de altura. Há precedentes daquela espécie de ebriedade moral que dá em alucinado orgulho das próprias desventuras. Alguma coisa semelhante à exposição exagerada dos pescadores e dos sofrimentos nas confissões daqueles penitentes para quem de todo se apagaram os sonhos do mundo.

Madame de Stael atribui aquele boletim, espécie de inventário fúnebre do Grande Exército, a uma singular vaidade de Napoleão, sempre na ânsia de se impor ao assombro do mundo, até pelos seus estupendos desastres.

Homem sempre no empenho de produzir violentas emoções, exagerava os reveses que não podia ocultar, para ir assim além dos outros homens.

 

haviam chegado à Polónia e tinham entrado em Varsóvia, já completamente dispersos, sem nenhum aspecto de tropas organizadas, como simples viajantes, segundo a expressão de Labaume.

No fim da tradução vinha este gélido comentário: «Na manhã de 13 de Dezembro apenas puderam passar o Niemen vinte mil dos quatrocentos mil que o haviam atravessado cinco meses antes. Ney, que em fins de Junho o transpusera à frente de quarenta e três mil homens, atravessou-o então só com os seus ajudantes-de-campo, de espingardas nas mãos, fazendo fogo contra os cossacos. Já não tinha soldados».

- Horrível, isto! - disse, dobrando a carta que lhe dera Wellington e metendo-a dentro do velho número do Times.

Atou o maço; guardou-o; chorava.

- Aquele meu querido irmão! Agora nenhuma dúvida. Chamou o criado.

- Hás-de ir tirar-me do baú aquela fita larga de crepe.

- Aquela que V. S.a comprou em Valhadolid quando recebeu a carta que falava do seu irmão?

- Sim... essa.

O criado referia-se a uma carta que o padre Diogo Martins escrevera de Viena, dando-lhe como coisa quase certa a morte de Luís de Castro na passagem do Berezína.

- Então recebeu agora V. S.a alguma notícia de certeza?

- Recebi - disse-lhe a custo.

No quartel-general falou-se logo naquelas informações a respeito do irmão de Henrique de Castro.

Foram nessa mesma tarde dar-lhe os pêsames os seus colegas de mais intimidade no quartel-general e alguns oficiais portugueses, seus amigos de Lisboa.

Despedia-se dele um dos últimos visitantes, o coronel Luís do Rego Barreto, um dos mais gloriosos oficiais daquelas campanhas, quando o criado veio trazer-lhe aviso de que o estava esperando um português na instância de lhe falar.

- Militar?

- Não parece, meu senhor. Vem à paisana e todo de luto.

- De Lisboa?

- Pelo que me contou, veio de Gilbraltar a bordo de um navio inglês, que entrou em Santander. Tem parecer de homem doente, traz barba crescida e parece ainda novo, apesar de ter já alguns cabelos brancos. Disse-me que deseja falar a V. S.a, a respeito do senhor seu irmão, que Deus haja.

- A respeito de meu irmão! Vai então dizer-lhe que posso recebê-lo aqui mesmo. Na sala de espera está só ele?

- Não, meu senhor. Estão lá muitos generais e ajudantes.

- Vai buscá-lo para aqui.

O criado saiu.

«Eu tinha lá ânimo para falar do Luís entre esses indiferentes! Haviam de oprimir-me com perguntas! Mas para me falar de Luís um português que veio de Gilbraltar a bordo de um navio inglês! Falar-me dele, a que propósito? E como soube que podia encontrar-me aqui? Algum conhecido meu, provavelmente. Surpreende-me!»

Anoitecia. O coronel ia acender a vela que tinha no quarto.

- Queira V. S.a entrar - convidou o criado entre a

porta.

Um homem alto, todo de preto, entrou e fechou a

porta.

O coronel acendeu a vela apressadamente e voltou-se.

- Meu Deus!-exclamou ele, levantando os braços numa tremura convulsiva - Luís, tu?! Ou é isto um engano dos meus olhos! Tu?

- Eu mesmo, Henrique! -disse, indo para ele e abraçando-o a chorar.

- O meu querido Luís! - soluçou o coronel.

- O mais desventurado homem que tu sejas capaz de imaginar!;

- Mas vives e tenho-te ao pé de mim!

- Homem para sempre enlutado!

- Tua esposa morreu?

- Não. Em tanta desgraça, ao menos, essa esmola misericordiosa de Deus.

- Por quem vestes este luto?

- Pelo meu filho, que me roubaram e julgo morto, e pelo tio de Maria, aquele nobre e generoso velho que tu conheceste em Lisboa. Luto que não acaba. Mas ainda mais pesado, imensamente maior, o outro luto de alma, Henrique! Ainda te não disse os mais que a morte me levou. Perdi também aquela francesa que foi a bondosa companheira de Maria, a sua mãe adoptiva, e o mais humilde e sublime dos meus amigos, aquele que tu também conhecias: o João Luís!

- Naquela pavorosa retirada da Rússia?

- Nas margens daquele rio fúnebre, como se fosse do país da morte, eternamente lúgubre na história das grandes desgraças humanas.

- O Berezina?

- Esse.

- Mas senta-te, Luís. Apesar de tudo, perdoa-me, esta hora é de júbilo para mim.

- E por quem é esse teu luto, Henrique? - perguntou, apontando o fumo que ele tinha no braço - Nossa mãe?

- Não. Há quinze dias vivia doente, numa velhice que as mágoas torturam, mas vivía. Dizia-mo numa carta sua que recebi antes de ontem! Este luto é de há duas horas... por ti, meu querido Luís - disse, arrancando o crepe do braço - O generalíssimo inglês deu-me uma carta que parecia confirmar completamente os meus receios de quatro meses. Ninguém sabia de ti e todos te supunham morto!

- Era de esperar; contava com isso. Se ainda estivéssemos em tempo de milagres, a salvação de Maria e a minha podiam bem atribuir-se a um milagre do céu!

- Há um oficial da Legião, um dos que ficaram prisioneiros, que ainda te viu com tua esposa...

- A minha santa e heróica esposa...

- E com uma dúzia de soldados, cercados por uma turba de cossacos.

- Ao anoitecer do dia 28 de Novembro. íamos retirando ao longo de um bosque; a poucos passos as águas semigeladas do Berezina. Com a alma alanceada pelo roubo do filho, naquela imensa dor de mãe, que nós mal podemos avaliar, Maria estava a meu lado, intrepidamente, e era ela que animava os sete soldados que nos restavam, uns bravos! As lágrimas a saltarem-lhe dos olhos, inexcedivel angústia de mulher, e nas suas mãos brancas, trementes, a bandeira clandestina de Portugal, a que ela bordara em 1807, a que eu erguera no combate de Baumersdorf...

- Eu vi num jornal inglês uma referência a esse lance da bandeira e à espantosa bravura da 13.a meia brigada portuguesa nesse combate e na batalha de Wagram.

- Providencialmente, um meio esquadrão de polacos, que ia transviado das forças principais, investiu com os cossacos para abrir passagem, e nós pudemos ocultar-nos nas profundezas de um bosque(1). Dois dias naquele horror,

 

*1. No dia 29 ainda o corpo de exército do marechal Victor, um punhado de homens, passou o Berezina e com ele uma louca multidão de extraviados que se atropelavam e matavam enfurecidos para atravessarem mais depressa a fúnebre ponte de Stoudyianka. A divisão Parthouneoux ainda se batia heroicamente com os russos em Borisow. (Barão Faint, Manuscrito de 1812, tomo II, pág. 407 e 408).

 

quase gelados, a cair de fome. A minha pobre Maria! Julguei que enlouquecia alí! Os meus soldados deram caça a um cavalo dos cossacos que andava espavorido pelo bosque. Mataram-no. Foi o nosso alimento. Para nos reanimar, bebíamos uns golos de aguardente que os soldados ainda traziam nos cantis. Havia uma coisa a que Maria e eu tínhamos horror maior do que à morte. Era o ficarmos prisioneiros dos cossacos. Andava com eles aquele torpe Miguel Platow, de quem te falei em algumas das minhas cartas. Ao terceiro dia as tropas do exército russo tinham avançado em perseguição dos franceses e foi então que nos pudemos salvar. Tínhamo-nos abeirado das águas geladas do Berezina, quando fomos surpreendidos por uns poucos de homens que vinham à frente de três grandes trenós.

- Russos?

- Não; criados de um inglês aventureiro, um excêntrico riquíssimo, que vinha na extrema retaguarda dos russos para colher relíquias dos campos de batalha e daqueles bivaques de morte que nós tivemos durante a retirada.

- É singular!

- Relíquias para o seu museu dos desastres napoleónicos. Dragonas, espadas, capacetes, farrapos de bandeiras e até umas águias da velha guarda que os soldados tinham enterrado, por já não poderem defendê-las, porque já não os podiam levar. Interrogou-nos, ficou radiante quando eu lhe falei em inglês. Condoeu-se de nós e salvou-nos piedosamente. Fez-me seu companheiro e insistiu porque lhe cantasse as minhas campanhas e as amarguradas aventuras de Maria. Deu-me um fato dos seus em troca da minha farda, que seria mais uma curiosidade para a colecção do seu museu, disfarçou os meus cinco soldados em criados seus e levou o requinte da generosidade até ao ponto de mudar o seu verdadeiro itinerário. Tinha um passaporte diplomático a dar-lhe extraordinárias faculdades e plena liberdade de acção. Tomou o caminho para Vilna e levou-nos a um pequeno porto do Báltico. Fretou um navio para Inglaterra, acompanhou-nos a Newcastle e obteve ali que nos dessem passagem a bordo de uma corveta que seguia para Gibraltar. Instou comigo para que lhe aceitasse um subsídio de quinhentas libras. Só lho aceitei a título de empréstimo. E deu-me uma carta para o general Wellington, de quem é amigo desde a juventude. Despediu-se de nós como se fosse um velho amigo íntimo e lá voltou à Rússia em busca de relíquias para o seu museu napoleónico. Uma grande e generosa alma, a daquele excêntrico!,

- Estimo que tenhas essa carta para lorde Wellington. Mas o desastre do Berezina foi nos fins de Novembro, a viagem para Inglaterra seria talvez um mês depois, quando muito...

- E estamos em Junho de 1813! Compreendo a estranheza. A má fortuna não nos tinha ainda abandonado! A corveta inglesa foi colhida por um temporal enorme e teve de arribar à ilha do Faial. Ali, Maria adoeceu gravemente e foi preciso desembarcá-la. A saudade do filho enlouquecia-a. Tive-a três meses doente, em perigo de vida! Uma enorme angústia, meu querido Henrique! Felizmente, a má fortuna teve dó de mim e Maria restabeleceu-se. Aportou ali um navio mercante americano que ia directamente para Gibraltar. Tomei passagem para a minha gente. Assim me ia aproximando de Portugal. Valeu-me para isto o empréstimo do inglês. Soube em Gibraltar largos pormenores das nossas gloriosas campanhas e lá me chegou a notícia de que o nosso exército já tinha avançado para o norte da Espanha. Jurara não desertar, mas também prometera resgatar isso a que em Lisboa chamavam iniquamente uma traição à Pátria. Soube que um navio americano estava a sair de Gibraltar para Santander, carregado de víveres para uma das esquadras inglesas. Não tinha desertado, como jurara, mas oferecia-se-me ensejo para o resgate supremo que prometera e era uma dívida santa da minha alma.

Consultei Maria; tanto e tão heroicamente sofrera que lhe reconhecia o direito de se opor a uma nova existência de perigos e aventuras.

- Resignou-se e ficou em Gibraltar?

- Não; aplaudiu e veio comigo. Cada vez maior admiração e mais intenso amor o meu por ela!

-? Mas então onde a deixaste?

- Em um lugarejo, a meia légua daqui, com a sua criada açoriana e sob a guarda dos cinco sobreviventes da minha companhia de Wagram.

- Mas vou então vê-la, apresentar-lhe as minhas homenagens.

- Sim, vamos. Vais estranhá-la. Estão a envelhecê-la as saudades do filho. Saudades que matam! Tem vinte e quatro anos e muitos cabelos brancos.

- Como tu. Mas olha, Luís, se queres, obtém-se-lhe transporte seguro para Portugal e vai para nossa casa. Será a santa companheira de nossa mãe.

- Pensei e falei-lhe nisso. Soluçou uma recusa que me fez dó.

- E tu, que destino queres seguir?

- Resgatar em defesa da bandeira de Portugal o esforço que empenhei pela honra do nosso nome em serviço de um estrangeiro.

- Mas de que modo? Wellington não se atreverá a receber-te no exército com a tua patente de major.

- Pode mandar-me receber como soldado raso em qualquer dos regimentos portugueses. A mim e aos meus cinco companheiros.

- Tu, como simples soldado! Um dos mais brilhantes oficiais da Legião!

- Seja como for. Não valho mais do que esses cinco valentes que liguei ao meu destino. Olha, na batalha de Moscova, o coronel Fabvier, um ajudante de Marmont, que levou a Napoleão o relatório da derrota dos Arapiles, combateu a pé, como um soldado voluntário, para mostrar ao Imperador que não era de cobardes o exército vencido na Espanha. Farei eu o mesmo, para ter o direito de dizer um dia que não era de gente vendida à França aquela Legião de 1808.

- Mas com o teu nome...

- O de um traidor condenado à morte, bem sei. Tomarei outro nome. O do grande e humilde amigo que eu perdi, como piedosa homenagem à sua memória. Serei simplesmente o soldado João Luís, um sobrevivente da catástrofe da Rússia, que logrou desertar.

- E tua esposa com que disfarce?

- Virá à retaguarda do exército. Não vêm com o exército outras senhoras?

- Wellington foi severíssimo para as mulheres que pretendiam acompanhar o exército. Não sucede aqui como no exército de Napoleão. Sei que, por concessão muito especial, a esposa de um coronel de caçadores, Jorge de Avilíez, tem acompanhado o marido. É uma senhora de admirável intrepidez!

- Há, pelo menos, esse exemplo.

- Que não podia aproveitar ao fingido soldado João Luís. Depois, há aí oficiais que te conhecem de Lisboa, amigos e companheiros teus. Reconhecer-te-iam como eu te reconheci.

- Se me supõem morto, como dizes, então com qualquer pequeno disfarce os poderia iludir.

- Não; o melhor será dizer a verdade a Wellington, dizer-lha lealmente. Não se atreverá a mandar-te reintegrar no exército, por causa da sentença promulgada em Lisboa; mas talvez te aceite os serviços por esse estímulo a que chamas o teu supremo resgate. Trazes uma carta para ele, e eu tenho a fortuna de viver na sua intimidade, como amigo a quem se dão especiais testemunhos de apreço; não será difícil conseguir que te receba e dê benévolo acolhimento, apesar da sentença mandada lavrar pela Regência do reino. Wellington tem razões de queixa dos homens que regem Portugal e, especialmente, do Principal Sousa, sempre a mover-lhe surdas hostilidades à frente de uma facção desafecta aos ingleses(1).

- Pois sim; seja desse modo - respondeu Luís de Castro, em cujo rosto as sombras de uma tristeza profunda, inconsolável, se não dissipavam, como se fossem de uma noite sem fim.

- São quase 9 horas. Vamos lá. Desejo ver tua esposa. Wellíngton é madrugador. Amanhã cedo lhe iremos falar, antes de avançarmos contra o exército do rei José Bonaparte, a concentrar-se no intuito de cobrir o caminho de Vitória para a fronteira francesa.

- Estamos então em vésperas de uma batalha?

- Estamos; para uns ou para outros provavelmente decisiva, e decerto, pelas forças combatentes, maior ainda que a dos Arapiles, como essa foi maior que a do Buçaco, a de Fuentes de Onoro e a de Albuera, pelas perdas de sangue do exército aliado. Se queres, vamos lá.

- Vamos, sim.

Uma linda e clara noite de Junho. Os dois irmãos tinham chegado defronte de uma casíta rústica, a poucos passos de certa aldeia, alcandorada nas espaldas de uma montanha.

À porta, cinco homens com trajes espanhóis cantarolavam umas trovas melancólicas de Portugal.

- Ali tens os bravos sobreviventes dos meus granadeiros de Baumersdorf, de Wagram, de Smolensko, de Valontina, de Moscóvia.

 

*1. Na correspondência de Wellington, volumosíssima, porque ele tinha a paixão da epistolografia, e na sua história pelo general Brialmont, encontram-se numerosas referências à má vontade do Principal Sousa.

 

Aproximaram-se. Os cantadores levantaram-se. Tinham reconhecido Luís de Castro.

- Nada de novo, não é isso, Manuel António?

- Nada, meu major.

Subiram. A criada veio alumiar.

- A senhora?

- No quarto, lavada em lágrimas - respondeu com o seu sotaque açoriano.

- Definha e envelhece naquela mágoa! -disse Luís para o irmão.

Entraram na casa da lareira, a um tempo cozinha, casa de jantar e sala.

- Espera aqui; vou chamá-la.

Foi para o quarto, um cubículo de tabique mal caiado, com uma janela alta e estreita sem vidraça, ombreiras de pedra tosca, enegrecidas.

- Maria - disse, tomando-a nos braços e beijando-a -, Nesta dor sem remédio, meu amor!

- Cada vez maior!

- O Henrique veio comigo. Está ali para te falar.

- Sim, eu vou - respondeu, enxugando os olhos - Têm tido notícias de Lisboa? Tua mãe?

- O Henrique recebeu há dois dias uma carta dela.

- Ainda bem.

Saíram do quarto. Henrique veio ao encontro de Maria, envolvendo-a num longo olhar de surpresa e de mágoa. Cabelos brancos naquela cabeça escultural e uns fundos traços de amargura no seu rosto, ainda formosíssimo. Ninguém diria que era uma mulher em plena mocidade. O vestido de luto pelo filho, pelo tio, pela mãe adoptiva, luto pesado que excedia todos os preceitos da pragmática, dava-lhe um realce lúgubre ao rosto de esmaecida alvura, de imensa tristeza como o rosto das lindas santas lacrimosas.

- Minha senhora, minha querida irmã, venho apresentar-lhe as homenagens da minha admiração, a igualar o meu pesar pelos seus imensos infortúnios - disse-lhe numa comoção de mágoa.

- De tamanha dor que nem eu sei dizê-los. Luto e saudade para sempre!

- Esposa estremecida, tão moça ainda, tão digna de um largo e radioso futuro, outros dias hão-de vir em que se lhe dissipe essa noite de alma.

- É noite para não acabar nunca, ainda que ma ilumine suavemente o amor de meu marido, que é tudo o que tenho no mundo de mais querido e santo. Mas a perda daquele filho pequenino, a sorrir-me nos maiores horrores daquelas jornadas... Nem sei como se pode resistir a uma dor assim!

- Perda enorme para se não esquecer, mas outros laços, igualmente amoráveis, hão-de prendê-la à vida outros sorrisos infantis, hão-de vir como auroras de novos dias para a sua mocidade, minha querida irmã.

- Ah! Mas aquele! E, no mesmo lance, morto o segundo pai amantíssimo que eu tinha, morta a mulher bondosa e querida que foi minha mãe adoptiva! E de meu pai nada sei! Talvez a morte mo levasse também! Quer parecer-me que nem há lágrimas que cheguem para esta imensa desventura, para uma perda assim, de tamanha dor!

- Podia haver perda ainda maior.

- Ah, sim, o Luís! Nisso, ao menos, teve Deus dó de mim. Mas, com as saudades do meu pobre pequenino, o remorso de o ter levado para aquela morte certa por um doido egoísmo do meu amor de mãe. Um remorso de angústias! Podia tê-lo deixado, devia tê-lo deixado em casa de meu tio com a minha querida Beauchamp e não mo levaria a morte!

- Luís contou-me que lho tinham roubado; mas não o viram matar!

- Foi como se o víssemos morrer. Pois para que mo haviam de roubar senão para o matar? Para que outro fim nas mãos de um cossaco selvagem! E ainda que não o matassem, morreria ele de frio e de terror sem mim, que o tinha trazido com tantos desvelos, com tantos carinhos, e já me parecia milagre que mo não tivesse roubado a morte! Tinham morrido de fome e de frio os filhitos de outras desditosas mães. VÍ-os eu ao abandono por aqueles caminhos! O meu, talvez, para outra morte pior, e sem eu lhe poder dar o derradeiro beijo! E, para salvá-lo, perdeu-se o mais dedicado amigo do meu marido!

- O pobre João Luís'. - rouquejou Luís de Castro - Correu como um doido atrás do tártaro que arrancara o pequenino dos braços de Maria e não tornou a aparecer. Morte certa entre a turba dos cossacos. Aquele nem por milagre lograria salvar-se.

- Minha querida irmã - observou-lhe Henrique, procurando fugir daquele assunto de amarguras - agora a mais santa coragem está em se resignar, e há-de tê-la quem se aventurou heroicamente aos perigos de maior horror na sua rara abnegação de esposa. Sei que o Luís, conta com a sua amorável cooperação nesse voto de patriotismo, a que ele chama um resgate de iníquas suspeitas.

- É a minha devoção e o meu dever - acudiu Maria resolutamente, como se a ideia daquela missão lhe houvesse incendiado o ânimo, por tantos sofrimentos quebrantado,

- Mas muito melhor o pode ajudar a sua resignação, seguindo-o sem lhe dar o receio de perigos prováveis, do que a sua intrepidez de ânimo acompanhando-o nos lances de campanha em que ele tenha de amedrontar-se pela esposa a seu lado, exposta aos mil acidentes funestos de uma batalha.

- Eu nunca ousei desobedecer-lhe, mas quando me falou do seu intento, dei-lhe o louvor sincero da minha alma, embora o coração se me confrangesse de receios por ele, e pedi-lhe com instância uma coisa a que acedeu amoràvelmente.

- Com sacrifício, bem sabes - interveio Luís de Castro.

- Eu sei, mas concedeste-me então a mercê que te pedi, e irei contigo para tão perto dos perigos que tu correres que me não seja difícil morrer, se tu morreres. Nem é coisa que deva causar estranheza - acrescentou, voltando-se para Henrique - Não tenho agora nada que me prenda à vida, a não ser meu marido. Veja se há coisa mais natural e mais vulgar do que, para o seguir, ir eu ao encontro de perigos, que outras mulheres, sem os mesmos estímulos e sem o mesmo desapego do mundo, afrontaram corajosamente. VÍ em Portugal a senhora do general Pamplona na campanha de há três anos, vi na Rússia algumas damas suportando sacrifícios e encarando horrores com que os homens esmoreciam. E não creio que na vida de alguém se possam ver duas vezes os lances medonhos que ali vi e às vezes recordo como pavorosas falsidades de um sonho!

- Minha querida irmã, lamento essa resolução, assim intransigente, e admiro-a com toda a fervorosa piedade da minha alma.

- Bem haja por essas carinhosas palavras. De sua mãe já tive notícias. Deu-mas o Luís. Hei-de escrever-lhe em algumas das minhas horas de maior resignação. O coração dela há-de entender o meu. Sua esposa, os seus filhinhos?

- Há quinze dias estavam bem.

- Estimo deveras. Hei-de escrever também à senhora D. Branca. Um dia breve.

- Por ela e por mim mil agradecimentos, minha querida irmã. Desejava acompanhá-los por mais tempo - disse, vendo o relógio - mas preciso de ir saber se há alguma novidade no quartel-general. Perdoem-me.

Despediram-se. Luís acompanhou-o até fora da porta.

- Como te pareceu? A envelhecer, não é assim?

- Qual! Meia dúzia de cabelos brancos a revelarem as suas profundas mágoas, mas que não passam afinal duma falsidade inverosímil naquela adorável mocidade. Os traços de amargura hão-de apagar-se de súbito no seu rosto, quando os sorrisos de outro filho lhe entrarem na alma como aurora bendita de um novo dia. Tens o direito de sentir orgulho por aquela esposa.

- E sinto.

- Santo e legítimo orgulho. Adeus. Se tiver ocasião, ainda esta noite falo de ti ao generalíssimo. De madrugada te mandarei aviso do que houver, ou eu mesmo venho dizer-to.

- Pois sim.

- Olha. Os teus homens que não digam por aí quem tu és. Aqui, estão longe dos acantonamentos, mas podem aparecer por aí alguns dos nossos soldados e...

- Estão prevenidos. Venho com outro nome, desde que desembarquei em Espanha.

- Até amanhã. Abraçaram-se.

 

           A DAMA DE CREPES.

Alta noite foi dada ordem para avançar. Henrique de Castro falara confidencialmente com lorde Wellington a respeito do irmão. O generalíssimo autorizou-o a ir-lho apresentar antes da marcha que devia começar às três da madrugada. Henrique foi ter com o irmão cerca das duas horas.

- Wellington ouviu-me com extremada benevolência. Repeti-lhe o que sabia a respeito da tua intrepidez na campanha da Áustria, o que em Lisboa tinha ouvido do padre Diogo Martins e os transes lúgubres da campanha da Rússia, que me resumiste ontem. Impressionou-se, entusiasmou-o aquele lance da bandeira clandestina, que Maria tinha bordado e tu arvoraste no combate de Beaumersdorf. Pareceu-me comovido quando lhe contei como tu tinhas assistido à batalha do Buçaco. Creio bem que podes contar com o seu alto valimento.

- Estimo isso sinceramente, meu querido Henrique.

- Agora vem daí comigo. Wellington quer falar-te

antes de marcharmos.

- Posso ir já.

Foi prevenir Maria e meteram-se os dois a caminho para o quartel-general.

- Vão então avançar?

- Vamos. Vieram, alta noite, informações de que o exército de José Bonaparte se concentrou para além do Zadorra e que a Corte errante do malogrado rei francês está em Vitória, com as suas damas espanholas, os seus fidalgos afrancesados, os seus coches, as suas bagagens, as suas riquezas.

- Que forças terá José Bonaparte?

- No quartel-general inglês supõem-lhe cinquenta e cinco a sessenta mil homens, concentrados nas imediações de Vitória, sendo nove a dez mil de cavalaria. Trazem talvez cem canhões de campanha. Mas isto é um cálculo muito falível, e se o marechal Suchet(1) o vier reforçar com o seu exército, Foy e Clausel(2) com as divisões do seu comando, José Bonaparte poderá meter em batalha oitenta a cem mil homens.

- E a força do exército aliado?

- Aproximadamente oitenta mil homens.

- Quantos do exército português?

 

*1. Assinalado em 1811 pela tomada de Tarragona e Valência. Depois de bater o general espanhol Blake, em 25 de Outubro, Suchet derrotou-o completamente, em 26 de Dezembro, numa batalha nas proximidades da lagoa Albufera; a 9 de Janeiro Valência capitulava, entregando aos franceses dezoito mil prisioneiros, entre os quais 23 generais e 800 oficiais, 21 bandeiras e 39 canhões.

Napoleão tinha agraciado Suchet com o título de Duque de Albufera.

  1. Foy estava em Bergara e Clausel em Logrono. Foy podia dispor de 15.000 homens e Clausel de 20.000; Suchet de 27.000.

 

- Uns vinte e seis mil homens. Ingleses, trinta e três a trinta e quatro mil; espanhóis, vinte mil de tropas regulares(1).

- Pequeno exército em relação ao nosso! A Espanha tem quatro vezes mais população e dez vezes mais recursos que Portugal, e a causa agora era principalmente dela!

- Esses mesmos vinte mil que aí vêm estão detestàvelmente organizados, apesar dos esforços dos oficiais ingleses, e são subsidiados pela Inglaterra. Só uma divisão merece plena confiança a Wellington: é a do general Murillo. Suponho que temos menos cavalaria e menos artilharia que os franceses. Se José Bonaparte consegue reunir as divisões que te indiquei e recebe auxílio de Suchet, corremos riscos de perder uma batalha, que pode ser funestíssima para a Península. Se a perdermos, meu caro Luís, a Inglaterra não mandará nem mais soldados nem mais subsídios, e Portugal tem dentro das suas fronteiras apenas uns vinte e tantos mil homens de primeira linha e quarenta a cinquenta mil milicianos, que não podem dar batalha campal aos exércitos napoleónicos. E a Espanha não tem quarenta míl soldados com disciplina para se apresentarem numa batalha,

 

*1. É curiosa a divergência de cálculo dos generais e escritores militares quanto aos efectivos dos dois exércitos beligerantes.

Belmas dá ao exército francês 55.000 homens e aos aliados 90.000 homens, sendo 40.000 ingleses, 23.000 portugueses e 25.000 espanhóis, além das guerrilhas.

Maxwell calcula aos aliados 80.000 homens (20.000 espanhóis) com 90 canhões, e aos franceses 90.000 homens com 150 canhões.

Sherer avalia o exército de José Bonaparte em 70.000 homens e o dos aliados em 74 a 75.000 homens, incluindo as três divisões espanholas dos generais Giron, Longa e Murillo.

José Bonaparte reduzia o seu exército a 35.000 homens numa carta para o general Clarke, ministro da guerra; mas o marechal Jourdan, seu chefe de estado-maior-general, confessa que no dia 20 de Junho havia em Vitória 55.000 franceses.

 

que não dê em desastre formal como as catorze maiores que tem perdido desde 1808.

- É realmente José Bonaparte quem comanda o exército inimigo?

- Como sempre, comandante apenas honorário, que só serve para estragar os planos do marechal Jourdan. Já ouvi dizer a um prisioneiro que o rei só exerce o comando para impor tolices que anulem alguma coisa razoável, planeada pelo seu chefe do estado-maior.

Tinham chegado ao quartel-general de Wellington.

- Sei que tem uma carta para mim - dizia o generalíssimo inglês a Luís de Castro.

- De sir George Murray.

- Um dos meus maiores amigos, desde os nossos tempos de rapazes.

- Foi meu generoso protector. Devo ao seu grande coração a vida de minha mulher, de cinco dos meus soldados e a minha, naquelas horas tenebrosas do Berezina - disse, apresentando-lhe a carta.

- Seu irmão já mo tinha contado. Abriu a carta e leu-a rapidamente.

- Muito bem. É uma apresentação honrosíssima e eu mostrarei a sir George Murray o alto apreço em que tenho o seu recomendado. Mas nem era preciso que ele me desse conta das suas qualidades e dos seus méritos. Seu irmão resumiu-me admiravelmente a sua história de soldado e de homem de bem. Sei o que fez em Beaumersdorf e em Wagram, e tenho informação do seu procedimento patriótico no Buçaco. George Murray diz-me em que aflitivas condições o encontrou na Rússia. Inspira-me simpatia e tem em mim um sincero admirador.

- Senhor Duque, de V. Ex.a é mercê consoladora e inexcedível para mim!

- Não posso consentir que dê o nome de mercê a umas palavras minhas, sinceramente justas. Mercês dão-nas os reis. Em que batalhas e combates entrou na Rússia?

- No combate de Krasnoi, nas batalhas de Smolensko, de Valontina e de Moscóvia. Na retirada, entrei no segundo combate de Krasnoi.

- Tem larga experiência da guerra. Disse-me seu irmão que deseja combater nas fileiras do exército aliado.

- É o meu maior desejo. Cumprirei assim o meu voto de patriota; será o resgate público do esforço e do sangue que fui obrigado a empenhar por uma causa que não era a do meu país, senhor Duque, ainda que seja entre soldados rasos de algum regimento português.

- Como oficial é que há-de ser. Que patente era a sua quando Junot entrou em Lisboa?

- Era tenente. Saí de Portugal em capitão.

- E qual era o seu último posto?

- Major.

- Bem. Com essa patente entrará na primeira batalha que tivermos. Pouco importa que lha desse Napoleão. O seu valor conquistou-lha. Major por distinção em Beaumersdorf?

- Não, senhor Duque. Ali desagradei ao Imperador e fui riscado da lista de promoções pela batalha de Wagram.

- Riscado... porquê?

- Porque foram dizer a Napoleão que eu levantara uma bandeira portuguesa, na hora esmorecedora em que os meus soldados hesitavam diante de forças imensamente superiores.

- Já sei. Maior título de recomendação para mim. Coronel Castro, procure um regimento português em que o major Luís de Castro não tenha conhecidos seus de Lisboa. Por ora ficará agregado a este regimento. O capitão Luís de Castro, obrigado a acompanhar o estado-maior de Massena, condenado à morte em Lisboa por traidor à Pátria, morreu oficialmente nas margens do Berezina.

O senhor é apenas um major da Legião, que não veio a Portugal na invasão de Massena e desertou agora de França para vir defender o seu país. Eu escreverei ao ministro da Inglaterra, em Lisboa, para ir preparando a sua reabilitação perante a Regência do Reino. Depois, se for preciso, escreverei também a Sua Alteza o Príncipe Regente, pedindo-lhe a anulação da sentença que o condenou e eu considero iníqua. Deseja mais alguma coisa?

- Beijar as mãos benfazejas de V. Ex.a e pedir-lhe outra mercê.

- Diga.

- Vieram comigo cinco dos meus soldados de Wagram. Se V. Ex.a os admitisse também nas fileiras do exército, poderiam passar por desertores como eu.

- Admito; coronel Castro, regule essas coisas em meu nome. São 3 horas. É preciso marchar.

- Que nome toma?

- O de João de Albuquerque.

- Seja. Estimarei que na primeira batalha esse falso nome valha o outro do valoroso oficial de Beaumersdorf

e Wagram.

- Agora, senhor Duque, João de Albuquerque vai combater por uma causa bem sua, profundamente querida!

Retiraram-se.

Rejeitando os planos de Jourdan, o rei José escolhera umas péssimas posições ao longo do Zadorra. A extensa linha de batalha tinha duas léguas e meia e ficava paralela à estrada de Baiona, a única por onde podia efectuar uma retirada segura. O flanco direito do exército estava muito afastado do centro e era precisamente por aquele lado que os aliados lhe podiam cortar o caminho para a

fronteira de França.

Para a retaguarda da cidade de Vitória tinham-se acumulado em desordenamento as bagagens, os trens da Corte, os parques de artilharia, mil coisas que atravancam o terreno e a estrada, embaraçando o movimento das tropas e tornando difícil uma marcha de retirada.

Alguns generais tinham aconselhado o rei a abandonar a estrada de Baiona e a retirar paralelamente à linha do Ebro até perto de Saragoça, ao encontro de Suchet, para cair então sobre o exército de Wellington, já a cento e cinquenta léguas da esquadra e dos seus depósitos de víveres. Jourdan era de parecer que se evitasse uma batalha imediata e fizesse de Baiona a sua base de operações, ou, ao menos, que retirassem para as alturas de Salinas e ali sustentassem uma batalha defensiva.

José Bonaparte não seguiu nenhum destes pareceres e ficou-se hesitante nas suas defeituosíssimas posições.

Wellington avançava, receoso de que o exército inimigo houvesse recebido reforços, mas nas alturas de Nanclares de la Oca teve aviso de que o general Clausel se deixara ficar tranquilamente com o seu corpo de exército em San Vicente e que o general Foy continuava muito ao longe do provável campo de batalha.

O generalíssimo dividiu então as tropas aliadas em três grandes colunas. A da direita, do comando do general Hill, devia atacar as alturas de Puebla; compunha-se da 2.a divisão inglesa, da divisão portuguesa do general Silveira (Conde de Amarante), da brigada ligeira de Alte, dos espanhóis de Murillo e de importantes forças de cavalaria e artilharia. A do centro, comandada pelo marechal Beresford, era formada pelas 3.a e 4.a divisões anglo-portuguesas e por uma forte reserva com artilharia e cavalaria. A da esquerda, sob o comando do general Graham, compreendia a 1.a e 5.a divisões, as brigadas portuguesas de Pack e Bradford, duas brigadas de cavalaria e os guerrilheiros de Longa.

A larga distância, de reserva, a divisão espanhola do general Giron.

Em 20, Wellington fizera um reconhecimento às posições inimigas; em 21, de manhã, os aliados deviam tomar a ofensiva. A coluna de Graham marchou toda a noite, para um movimento torneante sobre a estrada de Bilbau, por Apechuco e Camará Minor, no intento de cortar ao inimigo a retirada sobre Baiona.

Procuremos agora os nossos sobreviventes da catástrofe do Berezina.

Rompia a aurora do dia 21. Vamos encontrá-los na coluna do centro. À frente da 3.a e 4.a divisões vão cinco mil portugueses das brigadas de Power e Stubbs, formadas por infantaria 9 e 20, com caçadores 11, e por infantaria 10 e 23, com caçadores 7.

Com as quatro companhias de granadeiros do 9 e do 21 vai o major Luís de Castro sob o seu falso nome de João de Albuquerque, como oficial agregado, sem comando. Nas fileiras de uma das companhias, três soldados dos que Luís de Castro trouxera consigo, três granadeiros da 13.a meia brigada de Beaumersdorf e Wagram, bravos de Krasnoi, de Smolensko, de Valontina, de Moscóvia, condecorados por Napoleão em uma das grandes revistas do Kremlim.

Atrás, na primeira linha das ambulâncias, os dois restantes soldados de Luís de Castro, escoltando uma senhora de rara formosura, vestida de crepes, montada num soberbo alazão.

Desde a véspera que se falava com enternecimento e calorosa admiração daquela dama de singular afoiteza de ânimo, radiosa mocidade de cabelos brancos, pálida e triste como as santas. Era Maria Pulaski.

O coronel Henrique de Castro obteve permissão de Wellington para acompanhar o estado-maior da brigada de Power, mas, de quando em quando, metia o cavalo a galope desfechado, ora para a extrema vanguarda ao encontro do irmão, ora para a linha das ambulâncias para levar à cunhada informações do marido.

As três colunas deviam atacar num movimento simultâneo, mas a acção começou antes que as tropas do general Graham houvessem podido vencer a marcha de Murguia para as alturas de Abechuco.

Hill atacou brilhantemente as montanhas de Puebla, defendidas com admirável intrepidez pelos franceses de Gazan.

Os franceses tinham-se esquecido de cortar as pontes do Zadorra, e os espanhóis e os anglo-portugueses do flanco direito tomaram a aldeia de Sabijana de Alba.

Vinha daquele lado um ribombar enorme de canhões e um estrondear contínuo de descargas. O centro dos anglo-portugueses avançava contra o centro da linha francesa, onde o rei José tinha reunido a maioria das suas forças e grande parte da sua artilharia em baterias formidáveis.

Era dificílimo atacar de frente aquela parte da linha francesa, apesar de comprometida pelo ataque vigoroso de Hill sobre a esquerda.

As duas brigadas portuguesas que vinham na vanguarda, já ilustradas em outras batalhas, avançaram com singular denodo. Uma delas ficara célebre pela derrota que infligira aos lanceiros polacos, repelindo-os em linha na batalha de Albuera. Mas agora ali, excedendo-as a todas em arrogâncías de intrepidez, as quatro companhias de granadeiros do 9 e do 21.

Rompe estonteador o fogo das quarenta e cinco peças de artilharia dos franceses contra as massas anglo-portuguesas do centro e do flanco esquerdo de Hill.

Eram já consideráveis as perdas de parte a parte. Cai gravemente ferido o comandante de uma das companhias dos granadeiros portugueses da brigada de Power. Luís de Castro apeia-se e põe-se à frente dela, para substituir o capitão, que levaram para trás em braços.

- Soldados de Portugal, para a frente, pela glória da nossa terra!

E voltando-se para os três que trouxera das margens do Berezina:

- Por aquela bandeira - disse, apontando para uma das bandeiras regimentais - bem nossa agora, com maior esforço ainda do que em Wagram.

E arrojou-se com eles para a frente, num ímpeto de assombrosa bravura.

Entretanto, na primeira linha das ambulâncias os feridos eram numerosos. Maria Pulaski apeara-se e ajudava a pensá-los.

Chegou Henrique de Castro. Eram 9 horas.

- Que horrorosas perdas! - disse-lhe Maria.

- Enormes! Mas vamos ganhando vantagens sobre o inimigo.

- O Luís?

- Há instantes o vi como um bravo à frente de uma

companhia de granadeiros.

- Deus seja com ele!-murmurou, continuando a pôr as ligaduras a um soldado gravemente ferido -, Não tenha cuidado por mim - disse para o cunhado, sem interromper a sua misericordiosa tarefa - Peço-lhe que vá para junto dele... e que me não oculte a verdade... seja qual for.

- Prometo-lhe, minha querida irmã - respondeu o coronel comovidamente e deitou o cavalo para a frente à desfilada.

Na esquerda dos aliados o combate começara cerca das 9 horas. Graham atacara as posições que cobriam a entrada de Bilbau, valorosamente defendidas pelo general Sarrut, horas depois morto à frente da sua divisão.

Na ponte de Sabijana luta-se encarniçadamente. As tropas do marechal Beresford sete vezes investem à baioneta a ponte sobre a ribeira de Pizuerga, já atulhada de mortos. Por fim, os soldados entrincheiraram-se por detrás de rumas de cadáveres, lúgubres parapeitos de carne morta!

O general Reille sustenta a defesa admiravelmente com os seus dragões e quatro peças, na direita da linha francesa.

Hússares, dragões e caçadores a cavalo dos dois exércitos carregam pelas planuras fora sobre as massas de infantaria, furiosamente.

Hill avança pela estrada de Puebla de Arganzon; os espanhóis de Murillo batem-se na esquerda dos aliados com inexcedível intrepidez, resgatando brilhantemente a tradição deprimidora de todas as batalhas perdidas pelos seus camaradas desde 1808.

Eram já 3 horas da tarde. A direita dos franceses não fora batida pelos aliados do general Thomás Graham, mas as forças de Hill levavam de vencida a esquerda dos inimigos, e os anglo-portugueses do centro faziam recuar as grandes massas de tropas do rei José.

Uma divisão francesa hesita, desordena-se, retira esbandalhada. Hill ataca-a de flanco. Wellington leva já diante das suas quatro divisões de anglo-portugueses todo o centro da linha francesa, empurrada contra a cidade de Vitória.

A 3.a divisão aliada toma dezoito canhões. Cíta-se com espanto a bravura das suas brigadas portuguesas de Power e Stubs.

Num arranque heróico, o falso João de Albuquerque (Luís de Castro) atira com os granadeiros da companhia que tinha sob o seu comando para cima de uma bateria francesa e toma quatro canhões. Vem sobre ele um esquadrão de dragões, defende-se heroicamente, repele-os à baioneta e consegue ele próprio derribar o oficial que agitava nos ares um estandarte; arranca-lho das mãos e arremessa-o aos pés dos seus soldados como um troféu que lhes pertence.

Power felicita-o entusiasticamente. Dos três da Legião enfileirados na companhia, só um está de pé e esse chora de alegria, olhos parados para o seu capitão de Baumersdorf.

Mas o braço esquerdo de João de Albuquerque gotejava sangue. Fora ferido pela espada de um dragão.

- Retire para as ambulâncias - disse-lhe Power.

- Não vale a pena, General. Foi uma cutilada que não era para mim e só me feriu de raspão. Coisa de nada.

O irmão tinha-o visto. Aproximou-se dele e apertou-lhe a mão, dizendo baixo:

- Como um herói! Anulaste a tua sentença de morte!

- Maria?

- Está nas ambulâncias, ajudando a tratar os feridos, corajosamente.

- É melhor não lhe falar nisto. É um ferimento insignificante. No fim da batalha saberá que não é coisa de cuidado.

Fez-se um novo toque de avançar. Eram quatro horas. Os franceses da esquerda e do centro batiam já em retirada para além de Vitória.

 

335

 

Na direita, Reille sustentava-se admiravelmente. Sarrut tinha caído morto à frente dos seus bravos.

A cavalaria e as viaturas à desfilada tinham levantado densas nuvens de pó, sufocadoras, e mal deixavam descobrir de longe os movimentos das colunas. O calor agravara a fadiga das tropas; caminheiros medíocres, os soldados da infantaria inglesa marchavam a custo.

Com excepção das forças de Reille, que se batiam denodadamente para além de Mondragon, o exército do rei José ia já numa fuga desordenada, movida pelo terror pânico, extraordinário em tropas aguerridas. Eram aquelas então das melhores que restavam a Napoleão. Dos velhos soldados das grandes batalhas gloriosas eram aqueles as mais altivas relíquias(1)? Os outros tinham ficado sepultados nos gelos da Rússia; apenas umas escassas dezenas de milhares deles estavam então no exército de galuchos que Napoleão tinha na Alemanha para a sua campanha de 1813, contra os exércitos coligados da Rússia, da Áustria e da Prússia.

As tropas do Conde de Erlon retiravam diante da cavalaria anglo-portuguesa, já tão esbandalhadas como as do general Gazan diante das forças vitoriosas do general Hill(2).

 

*1. Dessas brilhantes legiões que tínhamos na Espanha, formadas pelos vencedores de Iena, de Eylau e de Wagram, apenas restavam oitenta mil homens, desgostosos daquela guerra tenacíssíma, ansiosos de repouso, etc». (Augusto Carel, Précis Historique, etc, pág. 150).

  1. Um dos mais ilustres escritores militares e dos mais insignes críticos das coisas de guerra que teve o século findo, o general Jomini, resume nestas linhas a última fase daquela batalha: «Na mais escandalosa desordem se emurcheceram naquela batalha os louros do exército da Espanha (o exército francês) sem outra causa que não fosse um terror pânico, ali quase semelhante ao dos austríacos no Marengo».

 

- Entrou com eles o pavor da derrota! - disse Luís de Castro para o irmão.

Iam já a pequena distância da cidade. Ouvia-se bem o alarido da populaça, o ruído cavo das viaturas, o rumor confuso de uma debandada de espavoridos.

Uns esquadrões de hússares ingleses entraram a galope na cidade e atrás deles umas forças da infantaria portuguesa.

Era agora coisa fácil a ocupação da capital da província de Alava(1).

Luís de Castro avançou ao longo de um dos arrabaldes, perseguindo uma pequena coluna de infantaria, já quase em debandada.

Ouviam-se gritos aflitivos e imprecações em francês, em espanhol, em italiano, que vinham do outro extremo da cidade, do lado da estrada de Pamplona, Castro não via, não podia perceber o que era. O ruído vinha de longe e os perseguidos fizeram meia volta, concentraram-se e desfecharam umas poucas de descargas contra os granadeiros portugueses.

Uma espantosa balbúrdia pela estrada fora, logo a pequena distância da cidade.

Pelas 4 horas, o rei José dera ordem para que o parque de artilharia, com as suas oitenta bocas de fogo, emudecidas, inúteis, junto de um terreno alagadiço, fosse levado dali a toda a pressa pelo caminho de Pamplona.

E com o parque, numa confusão inacreditável, mil e tantas viaturas, de formas e procedências diversas, desde a grosseira carroça de bagagens ao coche doirado dos paços reais,

 

*1. Guillon diz no seu livro As guerras de Espanha no tempo de Napoleão: e Drouet de Erlon, comandante do centro, teve de recuar diante da cavalaria inglesa, e abandonou Vitória, logo ocupada pelo inimigo. (Pág. 341).

 

desde o pesado carroção das longas viagens à ligeira e engalanada berlinda das jornadas principescas.

Estavam ali as riquezas e as rapinas do exército, a farrapagem opulenta da Corte do malogrado rei, as ambulâncias, as munições, a caixa militar, os arquivos, os salvados daquela Corte que fugia.

Começaram a rodar pela estrada fora as primeiras viaturas, mas logo na frente se voltou uma enorme carroça de bagagens, atravancando completamente o caminho.

Pragas, imprecações frementes dos condutores de artilharia, mas não era possível ir para diante sem afastar da estrada aquele imenso trambolho.

Havia cerca de mil e quinhentas viaturas entaladas ali e de instante a instante vinham chegando feridos e fugitivos que davam a batalha perdida. Um desespero.

Espanholas, fidalgas e mulheres do povo, damas da Corte do rei intruso ou amantes dos soldados invasores, filhas, esposas, Irmãs dos espanhóis afrancesadas que fugiam à vindicta dos seus compatriotas, pálidas, estarrecidas, saltavam dos veículos a suplicar um esforço que as salvasse ou vagueavam por entre as viaturas a solicitar aos soldados, nuns clamores de espavoridas, que as levassem consigo. Num medo de morte por causa dos guerrilheiros do seu país, mais ainda que das tropas inglesas, apesar da tenebrosa tradição dos seus ébrios e dos malfeitores(1).

 

*1. Houve um dia em que se sublevaram onze a doze mil homens, e na ebriedade não havia ferocidades de que não fossem capazes, chegando a espancar e ferir os próprios oficiais. Di-lo o próprio Wellington nas suas comunicações oficiais.

Outro inglês, Carlos Napíer, o mais ilustre dos historiadores da Guerra Peninsular, escreveu: Em Ciudad Rodrigo a embriaguez e a rapina desvairaram as tropas; em Badajoz, a luxúria e a ferocidade homicida deram as mãos à pilhagem e à embriaguez».

 

As guerrilhas matá-las-iam em requintes de vingança patriótica, numa ferocidade de tigres.

Alguns soldados de cavalaria apiedaram-se das mais formosas damas, puseram-nas à garupa e lá as levaram à desfilada. Pais e maridos, espanhóis amaldiçoados na pátria, alguns houve que num impulso de desespero tomaram nos braços os filhos e as esposas e deitaram numa fuga doida por aqueles campos fora, para se irem asilar nas brenhas das serranias, que se viam ao longe, como a esboçarem os primeiros relevos dos Pirenéus.

Mas ficaram muitas sem amparo, sem ninguém que as quisesse ou pudesse ouvir, algumas de criancitas ao colo, ofegantes, lavadas em lágrimas, numa dor de alma esmorecedora.

- Aí vêm já os ingleses! - gritou um dragão, passando à desfilada.

- Batem os nossos em retirada - clamou um granadeiro que fugia.

- As guerrilhas espanholas! D'além! - soluçou numa tremura de horror uma dama da Corte de Madrid que voltava da sua mal sucedida fuga(1).

Caiu arquejante, olhos pávidos, rasos de pranto.

Algumas balas de artilharia vinham cair quase frias contra aquele acampamento de espavoridos. Mais terror nas pobres mulheres, algumas delas lindas madrilenas que nunca tinham visto um acampamento, nem na sua regalada vida da Corte podiam sonhar sequer o que eram os horrores de um campo de batalha.

O rei José chegou à frente de uma parte do seu estado-maior.

- Ainda aqui! - bradou, enfiado.

Correram para ele algumas damas da nobreza espanhola, de mãos postas, suplicando amparo.

 

*1. Augusto Carel esboça no seu livro um quadro comovedor daquele aflitivo lance. (Pág. 155 a 160).

 

El-rei Pepe disse-lhes umas coisas banais e pôs-se a gritar contra os condutores e calaceros. Estava ali o tesouro do exército e o dele - cinco milhões e meio de dólares - os despojos dos paços reais, quadros magníficos dos museus, uma das mais soberbas telas de Corregio, baixelas opulentas, os arquivos do estado-maior e era tudo isto o que lhe estava dando mais cuidados.

Mas já tinham arredado da estrada a enorme carroça tombada e começavam a desfilar as primeiras viaturas do parque.

- Vamos a ver se é possível salvar tudo isto! - disse José Bonaparte para um dos seus ajudantes com uma impaciência nervosa que já parecia terror.

- A cavalaria inglesa! - gritou uma mulher espanhola numa angústia de pavor.

Efectivamente, vinham a um quarto de légua dois esquadrões de hussares ingleses a todo o galope.

Os caleceiros espanhóis abandonaram os veículos e deitaram a fugir como doidos, os condutores de artilharia cortaram os tirantes e meteram os cavalos à desfilada para se escaparem.

José Bonaparte meteu-se em uma das carruagens da Corte para fugir também.

- À desfilada - mandou.

- Abram caminho! É o rei.

Era tarde. O alarido das mulheres e das crianças ensurdecia. Os hussares ingleses já tinham chegado àquele ' acampamento em reboliço.

Um dos esquadrões atravessou a toda a brida para a estrada de Pamplona e alguns soldados rodeavam já a carruagem em que ia o frustrado rei bonapartista da Espanha e das índias. Cercavam-no sem o conhecer. Lívido, José Bonaparte abriu a porta e saltou para o cavalo de um soldado condutor, desfechando por ali fora a toda a brida(1).

Houve então uma cena ignóbil de rapina e de brutais violências.

Chegaram guerrilhas espanholas e maltrapilhos da cidade; foram assassinados alguns cortesãos do fugitivo monarca e roubadas algumas damas. A outras as levaram dali para as infamar. Arrombaram baús e cofres, estava o chão coberto de magníficos vestidos, de candelabros, de adornos preciosos, de estofos riquíssimos.

A caixa militar, um tesouro, ficou escancarada; já tinham desaparecido os seus cinco milhões e meio de dólares.

Na ânsia da presa, lutavam os soldados com os gatunos, cruzavam-se nos ares com as súplicas de piedade das mulheres e das crianças as imprecações dos roubadores, os seus gritos de cólera ou de júbilo, sinistros como uivos de lobos.

Até alguns oficiais se associaram àquela hedionda ladroeira(2).

Luís de Castro chegara à frente dos granadeiros. - Isto é uma infâmia! - bradou em inglês. E depois em espanhol: - Mando fuzilar os ladrões!

 

*1. «O próprio rei esteve para cair em poder de um esquadrão de hussares que o surpreendeu e lhe cercou a carruagem na estrada de Pamplona. Apenas teve tempo de abrir a portinhola e saltar para um cavalo da tropa, abandonando ao inimigo os seus papéis íntimos, a espada, um soberbo quadro de Corregio e o bastão do marechal Jourdan, troféus que ainda hoje se podem ver no palácio d'Aspley House, em Londres». Brialmont, História do Duque de Wellington, tomo II, pág. 109).

  1. «Viam-se até oficiais lutando com a populaça para se apoderarem daqueles infames despojos. (Carlos Napier, na sua História da Guerra Peninsular, tomo X, pág. 279).

 

Os guerrilheiros e a gentalha afastaram-se com tudo o que puderam levar da rapina. Umas dezenas de ingleses que se tinham aviltado daquela ladroeira sumiram-se como envergonhados.

- Temos de defender essas mulheres e essas crianças - disse para os soldados.

E foi indo para elas, a dizer-lhes palavras de dó.

- Não tenham medo. Estes soldados não roubam nem afrontam mulheres. Nós as protegeremos e às suas crianças.

Vibrou em volta dele um clamor de bênçãos e de agradecimentos.

Apareceu Maria Pulaski, acompanhada pelos dois granadeiros da Legião. Vinha ofegante, oprimida, de tal modo perturbada que se esqueceu completamente do nome de disfarce que o marido tomara.

- Luís! Meu Deus!

- O que tens?

- Disse-me um soldado português que tinhas sido acutilado.

- Exagero. Tenho apenas um leve ferimento: fez-se-Lhe uma ligadura com um lenço e nada me incomoda.

Ouviu-se um tropel de cavalos do lado da estrada de Pamplona.

- A cavalaria francesa! Volta sobre nós! - avisou um subalterno dos granadeiros.

Castro formou quadrado com duas companhias. No centro as mulheres espanholas e as crianças.

O esquadrão francês fez alto a duzentos passos e da sua frente um oficial se destacou sozinho. Vestia o uniforme de capitão de hússares; era alto, de formas gentis, com um rosto de mulher.

Avançou uns cem passos a trote.

- Soldados! - gritou Luís de Castro - Daqui ninguém faz fogo senão quando eu mandar.

- É cobardia aprisionar mulheres! - disse o oficial em espanhol, numa vibração de voz feminil.

- Aqui defendem-se. Defendem-nas soldados portugueses.

- É uma mulher! - disse Maria para o marido.

- É... percebe-se bem.

- Apelo para a sua honra de oficial, e peço-lhe que me deixe escoltar essas pobres fugitivas - disse o capitão de hússares, aproximando-se mais.

O uniforme não lhe velava completamente as formas feminis. Sem ser uma formosura, era realmente um belo exemplar de mulher espanhola, de grandes olhos negros, de longas pestanas, sobrancelhas arqueadas, uma expressão ardente de energia e de volúpia.

Vibraram clarins. Vinha sobre o esquadrão dos hússares franceses uma grande massa de cavalaria inglesa.

- Afastai-vos - gritou-lhe Luís de Castro - Podeis ficar prisioneira. Pela minha honra vos afirmo que protegerei a fuga destas mulheres e quantas quiserem seguir o exército vencido.

- Agradeço-vo-lo. Honrais a vossa farda - respondeu-Lhe, e deitou para a retaguarda a toda a brida, como se fosse o mais experimentado cavaleiro do exército francês.

Era tempo. O seu esquadrão abalara à desfilada. A cavalaria inglesa íajá sobre ele.

Mas quem era aquela destemida mulher a quem os franceses permitiam que usasse o uniforme de capitão de hússares e haviam confiado um esquadrão para aquele rasgo de paladino medievo?

Segundo o testemunho do chefe de batalhão Augusto Carel, aquela extraordinária mulher era conhecida no exército francês pela alcunha de Colegial. Ardente sonhadora de aventuras, sangue irrequieto de espanhola, intrepidez de cavaleiro andante, a Colegial fugira aos quinze anos do convento onde fora educada desde criança, ou antes, deixou-se raptar pelo cabecilha Martinez e foi sua amante.

Tornou-se então uma mulher extraordinária, uma figura de lenda, tão arrebatada e sensual amante como destemida campeadora. Quis uma companhia de guerrilheiros, deram-lha, e à frente deles combatia os franceses, a primeira sempre na investida, a última sempre na retirada.

Trazia o coração numa luta violenta de baixos desejos e de sublimes abnegações. Amava em arrebatamentos de cortesã e batia-se em doidas temeridades de paladino. Ainda sob a influência da sua educação monástica, mantinha nos acampamentos e na sua vida desregrada de insaciável amante as práticas religiosas da juventude; devota e supersticiosa como boa e legítima espanhola, recorria ao perdão misericordioso dos santos, sempre que os impulsos do seu temperamento a tinham levado com maior escândalo para o amor profano dos homens.

Pecava e rezava com igual fervor e ninguém sabia como viria a liquidar-se a conta corrente das suas loucuras de histérica e das suas penitências de devota.

Enfastiou-se do Martinez. Percebia que era um sórdido guerrilheiro, feroz como um tigre e avaro como um judeu, farsísta hipócrita que punha à sombra dos seus alardes de patriota a cobiça reles dos seus instintos de gatuno.

Abandonou-o e ofereceu os seus serviços aos franceses.

Di-lo deste modo Augusto Carel: «Foi oferecer os seus serviços ao rei José e logo se tornou notável à frente de um esquadrão. As mulheres francesas viam com assombro esta amazona com o seu uniforme de capitão de hússares, a guiar um cavalo com singular destreza e a manejar um sabre com a perícia igual à dos soldados de mais larga experiência.

Talvez outros amores a tivessem levado para o partido dos franceses; outro ou outros amantes havia de ter naquele exército que batia em retirada.

Anoitecia. Luís de Castro ficara de guarda com os granadeiros ao parque abandonado pelos franceses. Nomeara cinquenta soldados com um oficial para escolta das espanholas.

- O senhor alferes vai com estas senhoras. Toma por aquele caminho de carros e dá-lhe liberdade, logo que se tenha afastado daqui o bastante para elas poderem fugir, sem perigo provável de que as encontrem as forças inglesas. Estão aí umas dezenas de espanhóis, pais, maridos, irmãos que as acompanham. O máximo respeito e a mais generosa protecção para esses desventurados.

Foram. Cerca de uma hora depois o alferes estava de volta com a escolta.

- Deixei-as a meia légua daqui, num caminho escuro que vai dar a Salvatierra, segundo as informações de um camponês. Pareceu-me que a retaguarda dos franceses não ia muito longe,

- Agradeço este cavalheiroso serviço. As desventuradas poderão acolher-se à protecção do exército inimigo(1).

Chegou Henrique de Castro.

- Venho das avançadas. O generalíssimo dirige a perseguição aos franceses, mas as tropas aliadas não podem alcançar o grosso do exército vencido, porque estão extenuadas. Há divisões que perderam a noite,

 

*1. Referindo-se aos espanhóis fugidos, Carel diz a pág. 160 do seu livro: «Ao outro dia e nos dias seguintes, os desgraçados chegaram aos nossos bivaques; traziam os pés ensanguentados por causa da sua penosa jornada, contavam os seus infortúnios, as suas perdas, suplicavam aos soldados um quinhão dos seus alimentos.

 

dezasseis horas debaixo de armas; algumas tiveram de andar cerca de quatro léguas para chegar ao campo de batalha. Luís, é espantoso o desbarato do inimigo! Venceu-se a maior batalha desta guerra!

- Devem ter sido grandes as perdas.

- Pelo que se pode avaliar por alto, avultadas perdas de parte a parte(1). Trago um encargo honroso do generalíssimo, a quem um ajudante de Power contou à minha vista a sua intrépida e misericordiosa missão, minha cara irmã, e a tua heróica bravura, meu querido Luís. Encarregou-me de os felicitar a ambos e de lhes agradecer em nome do exército. Wellington deseja que te apresentes amanhã no seu quartel-general.

- Pois sim, e mandas-me tu aviso da hora a que ele me pode receber.

Horas depois, no seu quartel de Vitória, Luís de Castro dizia a Maria Pulaski, beijando-a enternecidamente:

- Cada vez mais querida e maior orgulho o meu por ti!

- Falta aqui o nosso pequenino, Luís! - soluçou, abraçando-o.

 

*1. Os franceses perderam 6.960 homens, mortos, feridos e prisioneiros e os aliados 5.176 homens. São estes os números que o general Brialmont considera mais próximos da verdade, em presença de documentos oficiais, serenamente examinados, quarenta anos depois da batalha.

Nos relatórios e nos livros dos escritores militares daquela época encontra-se uma grande divergência de cálculos. Nas Memórias do rei José, Du Casse dá um mapa com estas perdas do exército do rei, desde 27 de Maio a 1 de Julho: 214 oficiais c 6.746 soldados.

O historiador espanhol Conde de Toreno calcula em 8.000 mortos e feridos as perdas dos franceses e a dos aliados em 3.000 ingleses, 1.000 portugueses e 600 espanhóis.

Mas os mapas do quartel-general de Wellington dão 3.308 ingleses mortos e feridos, 1.049 portugueses e 533 espanhóis, não contando para estes cerca de trezentos que se extraviaram.

Como se vê, o sangue inglês nem era poupado nem se poupava.

 

   PARA A FRONTEIRA DA FRANÇA.

Entremos no quartel-general de lorde Wellington. O generalíssimo está em conferência com o marechal Beresford. Numa casa contígua ao seu gabinete esperam vários generais e oficiais superiores dos exércitos aliados. Ao pé do irmão, Luís de Castro aguarda ensejo para se apresentar a Wellington. - Aquele é o marido da senhora formosíssima que nos acompanhou na batalha de ontem, vestida de luto - disse um capitão num grupo de oficiais portugueses.

- Muito nova, muito linda, muito corajosa! -acrescentou outro.

- E já com alguns cabelos brancos! - acudiu um

terceiro.

- Ouvi que lhe tinham roubado um filhito e que na retirada da Rússia sofreu profundos desgostos e espantosas inclemências.

- E o marido já nós sabemos bem quem é. O tal disfarce do major João de Albuquerque pouco durou.

É o major Luís de Castro. Conheci-o eu em Lisboa, era ele tenente. Está muito mudado!

- Um valente! Disseram-me que fez prodígios na Áustria e na Rússia.

- E ontem.

- Mas foi condenado à morte em Lisboa, por ter acompanhado o estado-maior de Massena há três anos, dizem que obrigado.

- Estou com curiosidade de saber como Wellington tenciona justificar-se de o ter recebido no exército!

- Ora, Wellington pode muito e há-de fazer o que muito bem lhe aprouver. Basta que ele escreva para o Rio de Janeiro ao Príncipe Regente para que logo se anule a sentença. E, depois, Luís de Castro tem o irmão muito chegado ao generalíssimo.

-Ele próprio ganhou ontem o direito de ser perdoado.

Entretanto, Henrique de Castro perguntava ao irmão:

- Conheces aquele general de altivo aspecto?

- Não; não me lembro.

- O mais bravo e o mais glorioso dos generais que tem o nosso exército. Tens ouvido falar dele. Foi um dos mais denodados inimigos que teve Massena, se te recordas de uma carta minha, muito longa, em que te dava notícia da brilhante defesa da ponte de Amarante.

- Ah! Já sei. O general Silveira.

- Aquele tenente-coronel Francisco da Silveira, que foi uma vez a nossa casa nos princípios de 1807.

- Recordo-me, sim. Olha cá quem é aquele tenente-coronel, tão novo, que está agora a falar com o Silveira?

- É João Carlos de Saldanha, que nós conhecemos em Lisboa, muito rapazito. Tem 22 anos. Aos 19 era major. Esteve no Buçaco. Uma bela figura! Ali tens ao pé dele um dos mais valentes que tem o exército, o coronel Luís do Rego Barreto. À esquerda dele aqueles dois coronéis, dois bravos do Buçaco, o Souto Maior e Jorge de Avilez.

O brigadeiro Power veio falar a Henrique de Castro.

- Já sabe, Coronel, os importantes despojos que nos ficaram?

- Ouvi dizer que tomámos muita artilharia de campanha.

- Cento e cinquenta e um canhões de bronze. Além disto, muitas bandeiras, todas as viaturas do parque, mil e quinhentos veículos, o arquivo do estado-maior, o bastão do Marechal Jourdan, a espada de honra de José Bonaparte, a que lhe fora oferecida pela cidade de Nápoles, e todos os papéis particulares do rei(1).

- Admiráveis troféus! Se temos tropas folgadas para uma perseguição insistente, o desbarato seria completo e nem vinte mil franceses lograriam chegar às gargantas dos Pirenéus.

Um ajudante de Wellíngton veio chamar o coronel Castro e o irmão.

 

*1. O historiador francês E. Guillon indica assim, a pág. 342 do seu livro A Terra de Espanha no tempo de Napoleão, os despojos que ficaram aos aliados: «Cento e vinte canhões, muitas bandeiras, todo o material dos depósitos de Madrid, Valladolid e de Burgos, os arquivos do estado-maior, a caixa militar e mais de 1.500 viaturas caíram em poder do inimigo.

Referindo-se ao rei, Guillon diz que ele deixou aos ingleses os seus papéis, a sua espada, um belo quadro de Corregio e o bastão do marechal Jourdan.

No seu relatório da batalha, o próprio general francês Gazan escreveu: «Os franceses perderam todas as suas equipagens, todos os seus canhões, todo o seu dinheiro, todas as suas provisões e todos os seus papéis, de modo que ninguém podia provar o que lhe era devido. Generais e oficiais, todos, enfim, ficaram reduzidos ao que levavam em cima de si e a quase todos faltava até o necessário».

 

- Felicito-o pela sua extraordinária bravura - dizia o generalíssimo inglês a Luís de Castro - e pela admirável coragem e insigne caridade de sua esposa. O senhor Luís de Castro confirmou ontem, na maior e mais decisiva batalha que as tropas aliadas têm travado na Península, os seus créditos de oficial valoroso, conquistados na Áustria e na Rússia.

- Senhor Duque, mercê generosa de V. Ex.a.

- Soube assinalar-se à frente dos granadeiros de uma das mais gloriosas brigadas do Exército de Portugal. E já é muito, como título de honra, que um oficial consiga tornar-se notável à frente de tantos valentes. De dia para dia, de batalha para batalha, vai o exército do seu país dando mais notáveis provas da sua inexcedível firmeza e intrepidez de ânimo. Regala-me vê-los em combate. São os galos batalhadores do exército(1).

- Na boca de V. Ex.a que é já o maior general da Europa de quantos se têm oposto a Napoleão, nenhum louvor de mais alta significação e de mais envaidecedora honra.

- Agradeço. Fui profeta no dia do Buçaco. Estava realmente no exército de Portugal uma das maiores esperanças da libertação da Península. Das excelentes qualidades nativas dos soldados portugueses fez o sr. marechal, Marquês de Campo Maior, um admirável exército,

 

*1 The figthing cocks of the army: os galos batalhadores do exército. É uma frase histórica, e assim na Guerra Peninsular eram os nossos soldados designados pelos ingleses, grandes apreciadores da bravura arrogante dos galos. Di-lo sir Herbert Maxwell na sua obra Vida de Wellington, admirável repositório de informações que eram ainda desconhecidas e de documentos absolutamente inéditos.

 

que me ufano de ter ao lado dos melhores soldados do meu país.

Tinha indicado o marechal Beresford. Luís de Castro saudou numa inclinação de cabeça o inflexível disciplinador.

- Na Áustria tive eu ocasião de ouvir falar de S. Ex.a e dos seus assinalados serviços à causa das nações aliadas.

- Valem por batalhas vencidas os seus beneméritos serviços de organizador - disse o Generalíssimo -, Major Castro, falei no seu caso ao sr. Marquês de Campo Maior. Ficou resolvido que continui como oficial agregado, mas com o seu nome. Eu escreverei para Lisboa e para o Rio de Janeiro a pedir a anulação da sentença. Espero consegui-lo. Logo que venha resolução favorável de Sua Alteza Real, terá colocação definitiva em um dos regimentos portugueses e será promovido a tenente-coronel.

- Senhor Duque, fico devendo a V. Ex.a uma inexcedível mercê, que não devo nem posso esquecer nunca.

- Ganhou-a numa batalha que vai agitar a Europa e influir talvez nos destinos políticos das grandes potências(1).

Logo que soube do desastre do rei José, o general Foy retirou com a sua divisão para Tolosa, que pôs em estado de defesa para conter as tropas aliadas de Graham. Depois meteu pelo caminho de Irum para a linha do Bidassoa.

 

*1. Resumindo as consequências políticas daquela acção, o general Brialmont escreveu a pág. 110 do tomo II, da sua obra aqui citada: A batalha de Vitória dissipou as dúvidas e venceu as repugnâncias da Áustria; provocou a dissolução do Congresso de Praga, que estava disposto a entrar em negociações de paz com Napoleão e preparou a batalha de Lípsia, causa fundamental da libertação da Alemanha e da queda do império francês.

Depois de bosquejar a derrota de 21 de Junho de 1813, Guillon diz: Tais foram as peripécias dessa lamentável batalha, que foi para nós,, como se disse, a Lipsia do Meio-dia.

 

Clausel retirou a toda a pressa com os seus 20.000 homens para Logrono, desceu o Ebro até Saragoça e de lá meteu pelas gargantas dos Pirenéus para França. O marechal Suchet, Duque de Albufera, esse teve de abandonar Valência, assim que recebeu notícia daquela derrota.

Mas o exército batido, esse então, numa retirada que os próprios generais franceses confessam humilhadora, passou esbandalhado por diante das muralhas de Pamplona, cuja guarnição reforçou e transpôs os Pirenéus pelo desfiladeiro de Roncesvales, para se acolher ao território francês(1).

De cento e trinta mil franceses que havia ainda na Península quando principiou a campanha de 1813, apenas tinham ficado em território espanhol uns escassos milhares nas guarnições de São Sebastião de Biscaia e Pamplona e o corpo de exército de Suchet, inactivo e disperso nas costas da Catalunha.

Uma só batalha atirara para além dos Pirenéus cerca de cem mil franceses, esfarrapados, batidos, sem a coesão da disciplina, mas antigos soldados endurecidos nas campanhas, constituindo ainda, como diz Guillon, o melhor exército da França.

Wellington destacou do exército duas fortes colunas para irem sitiar as praças de São Sebastião e Pamplona.

Seria necessário descer os Pirenéus sobre o território francês e era preciso tomar aqueles padrões da conquista napoleónica.

A 22 o quartel-general em chefe estava em Salvaterra.

 

*1. A 24 chegou a Pamplona (o exército do rei José), mas em tal estado de desordem que o governador daquela praça não quis dar entrada senão às tropas absolutamente necessárias para a sua defesa. (Brialmont, História do Duque de Wellington, tomo II, pág. 111).

 

Dali expediu Wellington a sua correspondência oficial para Londres, Lisboa e Cádis, relatando a batalha.

Henrique de Castro veio do quartel-general para o aquartelamento do irmão.

- Que trazes de novo? - perguntou-lhe Luís.

- Coisas de supremo envaidecimento! Imagina. Assisti às combinações de Wellington com Beresford a respeito da ordem do dia relativa ao exército português. Depois ouvi ler ao próprio generalíssimo alguns trechos de um ofício que vai expedir para o Conde Bathurst. Meu caro Luís, afianço-te que nunca vi aquele seco e áspero inglês que é Beresford tão caloroso e expansivo e com tal desvanecimento pela sua obra reorganizadora do exército português! Todas as informações são honrorosíssimas para os nossos soldados e é o próprio Wellington quem os honra com mais vivo entusiasmo(1). Beresford não pode ainda publicar a sua ordem do dia a respeito da batalha, porque quer ver e avaliar todos os relatórios dos comandos das divisões e brigadas. É demora para uma semana. Mas já indicou ao generalíssimo os regimentos que vai louvar em especial. Destes me lembro eu: o 1 e o 16 com caçadores 4 e um batalhão do 8, o 7 e o 11, o 3 e o 15, o 13 e o 24 com caçadores 5; mas, muito particularmente, o 9 e o 21, o 11 e o 23 com caçadores 7 e 11, cuja firmeza e valor considera inexcedíveis(2). E não se limita a isto!

 

*1. Referindo-se às duas brigadas portuguesas do centro, as de Power e Stubbs, Wellington dizia no seu ofício ao Conde Bathurst: marcharam na frente com uma firmeza e galhardia que jamais foi excedida em alguma ocasião.

Acerca do ataque sobre a direita dos franceses escrevia no mesmo ofício: «as tropas portuguesas e espanholas se comportaram admiravelmente.

«Os batalhões 4 e 8 de caçadores se distinguiram por modo particular.

  1. A ordem do dia de 1 de Julho dizia daquelas brigadas: «O Ex.mo sr. marechal-general, duque de Vitória, e o sr. Marechal, presenciaram a brilhante conduta destas duas brigadas, cuja firmeza, boa ordem e valor não se podem exceder; e S. Ex.a o Marechal-general mostrou por tal comportamento a maior admiração.

 

Promete escrever ao Príncipe Regente, pedindo-lhe uma distinção para estes últimos regimentos; bandeiras de honra para os caçadores(1) e algum distintivo ou legenda excepcional para as bandeiras glorificadoras.

- Fosse eu o Príncipe Regente ou algum dos seus conselheiros, e bem sabia a soberba distinção que lhes havia de conceder.

- Qual?

- Mandava-lhes bordar a ouro nas bandeiras uns versos dos Lusíadas, os mais vibrantes de orgulho nacional que o Camões lá tem.

- Parece-me bem essa tua ideia.

- Nenhum distintivo de glorificação maior! E olha, até me estão a lembrar dois versos de admirável altivez patriótica, sem dúvida os mais arrogantes de todo o poema. Estes:

E julgareis qual é mais excelente

Se ser do mundo rei, se de tal gente.

- Ficavam bem àqueles soldados e, sobretudo aos granadeiros, que vão ter louvor especial na Ordem do dia. Deixa estar que já hoje, no quartel-general, hei-de insinuar esse teu alvitre.

- Provavelmente, Beresford não se atreve a indicar ao Regente a distinção a conceder.

- Na proposta ou na petição oficial, decerto, mas há uns meios indirectos de o indicar e uns trâmites extra-oficiais

 

*1. Os batalhões de caçadores não tinham bandeira e só por especial distinção lhes era concedida.

  1. «A conduta do comandante das quatro companhias de granadeiros dos regimentos de infantaria números 9 e 21 merece ser mencionada com particularidade, assim como a das mesmas companhias» (Ordem do dia de 1 de Julho de 1813).

 

para o fazer chegar ao conhecimento de Sua Alteza.

- Aqueles ou outros versos dos Lusíadas, mas escusas de falar de mim, salvo o caso de acharem demasiado arrogantes os dizeres do poeta. Neste caso, podas afirmar-lhes que vi como se batiam os mais intrépidos da Hungria e da Áustria, os mais valentes que tinha o Czar e os mais arrojados que tinha a Polónia, e pela minha honra te afianço que os dessas brigadas igualaram o que eu presenciei de mais admirável em coesão de forças e em arrojos de ânimo.

- Pois hei-de dizê-lo e há-de ser ao próprio Beresford que eu o hei-de dizer. Até para que ele se não esqueça da promessa(1) e faça o pedido ao Príncipe Regente(2).

- Fazes bem. E agora que me dizes a esta deplorável moleza de operações?! Que demónio! Com algum esforço, ter-se-ia completado o desbarato dos franceses.

- Isso é bom de dizer, mas o generalíssimo não pode contar com os seus ingleses para muito longas marchas e menos então em dias de vitória: Metade deles embebedam-se em acção de graças e a outra metade tresmalha-se para a conquista. Em Ciudad Rodrigo chegaram a espancar os oficiais e a desfechar as espingardas contra os que procuravam pôr cobro

 

*1. «O sr. marechal assegura a estas brigadas que não faltará a pôr com particularidade na presença de sua alteza real, o príncipe regente, nosso senhor, a sua conduta e a pedir a sua alteza um distintivo de honra especial para os corpos que as compõem».

(Da citada ordem do dia).

  1. Só o pôde fazer em 13 de Julho, do quartel-general de Ernani, em carta remetida ao Regente, por intermédio do secretário da guerra em Lisboa, D. Miguel Pereira Forjaz.

Beresford pedia uma pequena bandeira de honra para os batalhões de caçadores usarem em parada, e para os regimentos de infantaria solicitava uma distinção que se una às suas bandeiras e que nelas se conserve como sinal de honra, etc.

Quanto à espécie do distintivo, nenhum alvitre propunha na sua carta de selo volante.

 

à saturnal hedionda em que eles andavam. Por cima das suas fardas vermelhas, hábitos de frades que haviam assassinado, capas de monjas que tinham violado, todos lambuzados de sangue e de vinho! O próprio Wellington escreveu para Inglaterra que se lhe queimava o rosto na vergonha de comandar aquela canalha. Pois em Badajoz ainda pior, e sempre por causa da bebedeira! Morriam na brecha como leões, morrem nos campos de batalha com uma serenidade de ânimo assombrosa, mas não resistem ao vício da embriaguez! Queres saber quantos estão ainda ausentes do exército desde as últimas horas da batalha, entretidos na pilhagem ou estropiados pelas bebedeiras? Vais pasmar! Cerca de treze mil!(1)

- Parece incrível! E os nossos?

- Não nos têm dado grande razão de queixa; são mais dóceis, mais sofredores. Há entre eles ladrões, ébrios, insubordinados, mas em muito menor número do que no exército inglês, por causa do vício de origem de uma parte dos seus contratados, e do que no exército espanhol, onde enxameiam bandoleiros das antigas guerrilhas. O que há pior da parte dos soldados é a mácula das deserções. Aperta com eles a nostalgia da sua aldeia, do seu lugarejo, o caminho para Portugal está seguro, e lá vão.

Veio procurar Henrique de Castro um oficial inglês do estado-maior. Queria fazer-lhe as suas despedidas.

Ia partir para o bloqueio de São Sebastião de Biscaia.

- E, depois, chegará a nossa vez de invadirmos a França? - perguntou o coronel Castro.

- Por ora, não - volveu-lhe o oficial inglês - O generalíssimo limitar-se-á a consolidar a situação do exército

 

*1. O próprio Wellington escreveu: «Dezoito dias depois da batalha, 12.500 homens (quase todos ingleses) estavam ainda ausentes e, a maior parte, na pilhagem das montanhas...» (Brialmont, pág. 145, do tomo II, da História do Duque de Wellington).

 

em toda a região dos Pirenéus ocidentais, na espectatíva de próximos acontecimentos políticos na Europa. Veio de Inglaterra notícia de se estar negociando um armistício entre Napoleão e os exércitos coligados da Prússia e da Rússia, que o Imperador conseguiu bater com os seus galuchos nas batalhas de Lutzem e de Bautzem, durante o mês passado.(1)

- Do que não será ainda capaz aquele extraordinário homem! - observou Luís de Castro.

- Compreendem bem - continuou o inglês - que, se esta nossa batalha vitoriosa não realentar os vencidos de Bautzem e não levar a Áustria a entrar na coligação, a paz assinar-se-á entre a Prússia, a Rússia e a França, e Napoleão poderá cair sobre nós com duzentos a trezentos mil homens. Seria um desastre medonho! A Península perdia-se, e então é que nós éramos atirados ao mar. Estamos numa espectativa de crise, talvez na conjuntura de maiores perigos para os exércitos aliados, e por isso Wellington se quer firmar nas posições dos Pirenéus à espera do efeito político da nossa última batalha, que de algum modo poderá ser na Europa a contra-pancada da outra de Bautzem.

- Perfeitamente sensato esse plano.

- Agora, por despedida, a notícia deplorável das imprudências farronqueiras dos espanhóis. No dia 9 deste mês o Duque Del Parque, de combinação com o general Elio, empreendeu um movimento ofensivo contra os franceses do general Haríspe.

- Estou a ver o desfecho.

- Ora! Uma desgraçada derrota em Aleira, nas margens do Xucar!

- Não se querem convencer de que não basta o

esforço individual para vencer batalhas!

 

*1. A batalha de Lutzem a 2 de Maio, a de Bautzem (28.000 mortos e feridos de uma e outra parte) a 19 e 20 daquele mês.

 

- E que não é com a disciplina e os generais que eles têm que elas deixam de se perder. De modo que não sabe a gente o que mais admirar, se a insistência incansável com que eles organizam exércitos, se a facilidade singular com que os deixam sumir?

No 1 de Julho Napoleão recebia em Dresda a notícia oficial da batalha de Vitória. Era talvez a perda da Península para as suas águias e poderia ser um poderoso incentivo de resistência para as nações coligadas, já dispostas a tratar a paz num congresso em Praga.

Aquela vitória de Wellington vinha pôr uma grande sombra nas suas gloriosas batalhas de Lutzem e Bautzem e talvez lhe anulasse os efeitos políticos.

Num dos seus arrebatamentos de cólera formidável, Napoleão verberou em baixas apóstrofes de caserna a inépcia do irmão José e do marechal Jordan e exonerou-os das suas funções militares. Deu ao marechal Soult o comando em chefe dos exércitos da Península e ordenou-lhe que marchasse sem delonga para a fronteira dos PIrenéus.

Em 12 de Julho, Soult chegava a Baiona e dez dias depois redigiu uma proclamação jactanciosa, em que punha o rei José pelas ruas da amargura e dava à retirada de Vitória a denominação de vergonhosa fuga. Prometia e afirmava como coisa segura a próxima reconquista de Espanha.

Soult empenhou-se devotadamente na reorganização daquele exército esbandalhado, fez maravilhas de energia, e em meados de Julho já tinha concentrados em frente dos Pírenéus cerca de cem mil homens.

Contava ainda preparar melhor as suas forças para ir esmagar os aliados nos desfiladeiros, nas estreitas planuras, nas ásperas montanhas da cordilheira pirenaica, entre Pamplona e São Sebastião; mas Napoleão não lhe deu tempo de completar o seu plano orgânico e mandou-lhe ordem terminante para tomar a ofensiva imediatamente. Justificava-se esta pressa de Napoleão. Sabia já da profunda impressão que tinha causado nas cortes de S. Petersburgo e Berlim o desbarato de Vitória e começava a recear que a Áustria entrasse na coligação e de todo se rompessem as negociações de paz com a Rússia e a Prússía.

Uma grande batalha vitoriosa na Península conteria a Áustria e prenderia a um tratado de paz os vencidos de Lutzem e Bautzem.

Soult tinha a esquerda da sua linha em Saint-Jean-de-Pied-Port, constituída pelo corpo de exército de Clausel, o centro nas alturas de Espellete de Ainlhoé, sob o comando de Drouet, a direita, comandada pelo general Reille, sobre as montanhas de VerárO general Villatte comandava a reserva na linha do Bidassoa, entre o mar e Irum.

Em 16 Soult tomou a ofensiva com o objectivo de desbloquear Pamplona e cair depois em massa sobre o centro dos aliados, ameaçando a retaguarda das tropas anglo-lusas que cercavam São Sebastião.

O exército aliado ocupava então umas posições demasiado extensas e de difícil comunicação interior, sem nenhum largo campo à retaguarda para a concentração das grandes massas de tropas. Era uma linha de vinte léguas de montanhas e desfiladeiros.

A direita dos aliados defendia o passo de Roncesvalles, tendo por apoio e reserva as divisões dos generais Cole e Picton, com algumas brigadas portuguesas, e entre elas as duas gloriosamente assinaladas em Vitória.

O general Hill ocupava o vale de Bastan, com uma parte da segunda divisão inglesa e a divisão do general Silveira, formada pela brigada de Campbell (infantaria 4 e 10 com caçadores 10) e pela brigada do Algarve (infantaria 2 e 14), comandada pelo brigadeiro Hipólito da Costa.

A divisão ligeira e a sétima inglesa defendiam as alturas de Santa Bárbara, Vera-Echalar, a sexta divisão formava a reserva em Santesteban.

Os espanhóis de Murillo estavam em Roncesvalles e os de Longa mantinham as comunicações entre as tropas anglo-portuguesas de Graham e as do general espanhol Giron, que cercavam San Sebastian; os do Conde Abísbal bloqueavam Pamplona.

Estamos a 24 de Julho. Vamos ter com Luís de Castro à retaguarda do passo de Roncesvalles. Comanda as duas companhias de granadeiros do 9, isoladas, na embocadura de um desfiladeiro, entre Viscarett e Olague. A umas centenas de passos atrás, num planaltozito, Maria Pulaski, acompanhada pelos dois granadeiros da 13-a meia brigada de Wagram.

O marido foi ter com ela.

- Sentes-te com ânimo?

- Sinto. Já combatem ali para a frente.

- Em Roncesvalles. Tiroteio das avançadas. Recomendo-te muito que te retires para Olague, logo que a acção se empenhe para este lado, ou eu tenha de avançar com as minhas companhias.

- Podes ficar tranquilo - respondeu com aparente serenidade.

Castro reparou-lhe na palidez e numas tremuras nervosas, que ela debalde procurava disfarçar.

- Até logo.

Castro voltou para junto dos granadeiros.

«Como a sua alma heróica de mulher procura dominar as fraquezas daquele corpo franzino, que os nervos atraiçoam em tremuras de medo por mim; principalmente por mim, bem o percebo! - pensava enternecidamente.

Na frente, o fogo tornara-se intenso. Trinta mil franceses investiam a famosa garganta de Roncesvalles. O próprio marechal Soult dirigia o ataque.

Ouviram-se também descargas e tiros de artilharia do lado do vale de Bastan. Os treze mil homens do general Drouet atacavam impetuosamente os aliados no Porto de Maya.

E no pequeno planalto atrás de Viscarret, Maria Pulaski, a fingir-se tranquila, rezava mentalmente pelo homem bem-amado umas orações que se contavam pelo rosário de lágrimas que ela quebrava, de instante a instante, enxugando-as recatadamente, para que lhas não vissem os soldados.

«Este valor de mulher, que nem pode chorar!» dizia consigo num amargo desdém pelas suas fraquezas. «Nossa Senhora o proteja e tenha dó de mim».

Levou toda a manhã o ataque; de parte a parte com igual coragem naquela famosa garganta de Roncesvalles. - Jesus! Que tamanhas horas! Traziam já muitos feridos para a retaguarda. Maria apeou-se para ir ajudar a pensá-los. Assim, naquela misericordiosa tarefa, talvez pensasse menos nos perigos a que o marido estava exposto.

Mas o ruído das descargas afrouxava e logo se extinguiu. Maria desceu.

«Talvez o combate acabasse», pensava consoladamente. Ao fundo da montanha encontrou o marido.

- Acabou? - perguntou-lhe.

- Parece que os franceses desistiram da investida por este lado; mas, para além - disse, indicando o vale distante de Bastan - o combate prossegue renhidíssimo. Para onde ias?

- Para a minha tarefa de mulher: auxiliar o tratamento dos feridos.

- Pois sim; vai.

E foi. Não durou muito a interrupção do combate em Roncesvalles. Ao princípio da tarde recomeçou com muito maior impetuosidade. Soult atirou contra o desfiladeiro a maior parte das forças com que saíra de Saínt-Jean-de-Pied-Port. Carregavam com furiosa audácia os velhos batalhões de Iena, de Friedland, de Wagram.

As forças dos generais Dole e Picton avançam a reforçar as tropas inglesas de Byring e as espanholas de Murillo.

Surpreendida pelo súbito estridor do combate, Maria corre das ambulâncias para o desfiladeiro numa tortura enorme de receios.

- O nosso major já lá vai para a frente - disse um dos soldados da Legião.

- Pois vamos nós também - volveu-lhe numa tremura de voz.

Apenas lhe foi possível avançar meia légua. Batiam já em retirada algumas colunas dos aliados, que a iam levando de roldão contra o desfiladeiro. Os dois granadeiros da sua escolta afastaram-se então com ela, quase exausta de forças, para a quebrada de uma montanha.

- Minha senhora, não pode ír para diante, que vem tudo em retirada.

- Mas, por favor, vão saber onde está meu marido! - suplicou.

- Vou eu já saber, minha senhora - disse um deles. E deitou a correr para uma das colunas. Era de portugueses.

- Quem me diz onde está o senhor major Luís de Castro com os granadeiros do 9?

- Ficou com as forças que estão a sustentar a retirada - respondeu-lhe um oficial -, Porquê?

- A senhora está ali aflita, sem saber dele.

E as tropas seguiram a marche-marche. Começava a escurecer. Repercutiam-se lugubremente pelas escarpas das montanhas as descargas e os gritos enfurecidos dos atacantes.

Das bandas do vale de Bastan vinha a toda a brida um ajudante-de-campo. Era o coronel Henrique de Castro.

Encontrou o granadeiro português que viera pedir

informações.

- A senhora?

- Está além, meu coronel - respondeu, indicando com a mão uma quebrada a meio quarto de légua.

- O teu major?

- Disseram-me que vem ali com as forças que sustentam a retirada.

Ouviam-se já muito perto os estridores da fuzilaria e os gritos convulsos de alarde nas cargas de baioneta. Henrique de Castro meteu a galope direito à quebrada da montanha.

- Minha querida irmã, sofremos um revés; é preciso sair daqui.

- E Luís! Sem rodeios, o que é feito dele?

- Vem aí, cobrindo a retaguarda. Rogo-lhe que me siga. O seu cavalo?

- Deixei-o nas ambulâncias.

- Está aqui o meu - disse-lhe, apeando-se - Como for possível, mas é preciso fugir daqui.

Ajudou-a a sentar-se no selim, numa posição incómoda, contrafeita, mas não havia ali outro recurso.

- O mais depressa possível! Soldados, a marche-marche!

Logo a pequena distância encontraram a extrema retaguarda dos aliados retirando, fazendo fogo, repelindo à baioneta as cargas dos franceses.

- Viva o Imperador! Viva a França vencedora!

- Ainda é cedo para esses brados - rouquejava Luís de Castro com o uniforme em farrapos, o braço esquerdo suspenso ao peito, a espada a voltear alto como um sinal de concentração, como um estímulo para os seus granadeiros.

- Rapazes, é ter mão neles! Pela honra da nossa terra, pela glória do nosso regimento!

Maria conheceu-lhe a voz.

- Luís! - exclamou num grito de alma, convulso, de supremo júbilo.

Não era ainda uma acção perdida, mas os aliados tinham sido compelidos a abandonar as suas posições do passo de Roncesvalles e do Porto de Maya, retirando-se para Zubiri e Irurita. Custaram muito sangue os dois combates daquele dia. As tropas do general Hill tiveram dois mil mortos, feridos e prisioneiros e perderam 4 canhões.

Os franceses tomavam o caminho da praça de Pamplona, que estava sendo bloqueada por onze mil espanhóis do seu general ODonnel.

Surpreendido naquela mesma noite pela notícia do revés, Wellington mandou concentrar as suas forças sobre a direita, pelo vale de Lanz, cobrindo Pamplona.

Henrique de Castro foi levar ao generalíssimo inglês informações circunstanciadas a respeito do movimento de concentração das divisões Cole e Picton.

- Coronel - disse-lhe Wellington a meia voz, num tom de comovida intimidade - estamos numa hora de crise gravíssima! A batalha de Vitória sacudiu a Europa esmorecida: mas se não vencermos agora outra batalha decisiva, a Rússia e a Prússia vencidas submeter-se-ão ao triunfador, a Áustria continuará sob a soberania napoleónica e Napoleão voltará à Península com trezentos mil homens para nos esmagar. Um perigo enorme! Dependem agora do nosso esforço os destinos da Europa, ligados aos destinos da Inglaterra, de Portugal e da Espanha.

- Faremos todos o nosso dever, senhor Duque. Wellington deu-lhe umas ordens para ele ir comunicar ao general Cole e meteu-se a caminho para a aldeia de Sauroren, acompanhado apenas por um oficial do estado-maior.

Na manhã de 27, já nas proximidades da aldeia, descobriu numerosas forças francesas que desfilavam pelas cristas das montanhas dos lados de Zabaldica. Era o corpo do exército de Clausel.

- Vão envolver os nossos no vale de Lanz! - disse

para o oficial do estado-maior.

Refreou o cavalo, apeou-se sobre o parapeito da ponte de Sauroren e escreveu uma ordem para que todas as divisões concentradas no vale de Lanz marchassem a tomar posições para a direita.

Deu ordem a Fitzrou-Sommerset, que logo partiu a toda a brida e ele meteu para o caminho das montanhas.

Não tardou que encontrasse um batalhão português que ia em marcha. Os soldados saudaram-no em gritos entusiásticos de aclamação, que se percutiram por aqueles montes fora e se repetiram de coluna para coluna.

Subiu à crista de uma montanha. Dali o viam bem as suas tropas e as do inimigo.

Henrique de Castro voltou para lhe assegurar que a sua ordem estava sendo cumprida.

- Senhor Duque, ali, naquela montanha fronteira, o marechal Soult!

- É ele efectivamente. Talvez não perdesse ainda o seu sonho de rei da Lusitânia. Vem aqui ganhar a coroa e salvar o império de Napoleão. Veremos se alcançamos nós defender nestas montanhas, com a vida de Portugal e da Espanha, a paz e a independência da Europa.

- V. Ex.a pode contar com a intrepidez heróica dos seus ingleses, com a bravura patriótica dos espanhóis e com...

- O arrojo inexcedível dos vossos portugueses, os meus galos batalhadores.

- É isso. Amanhã o aniversário da acção decisiva. Havemos de celebrá-lo condignamente. E celebraram.

Na manhã de 28, Soult mandou atacar as posições fortíssimas dos aliados, nas proximidades da aldeia de Sauroren. Nessas posições de montanhas aspérrimas, de massas de rochedos como redutos de ciclopes, estavam então somente 16.000 homens dos aliados. Soult confiara o ataque a 20.000 dos seus melhores soldados.

Foi uma batalha sanguinolenta, em que as baionetas fizeram maior destroço que as balas.

- E é hoje, senhor Duque(1), o aniversário do primeiro dia da batalha de Talavera.

Em uma altura, na esquerda da linha dos aliados, erguia-se uma velha ermida de Nossa Senhora do Pilar (Virgen del Pilar). Um quarto de légua para trás, no colo do valezito, fora estabelecido um posto da primeira linha de ambulâncias.

Um batalhão português defendia a ermida. Era caçadores 7. Quatro companhias de granadeiros lhe serviam de suporte. Eram também de portugueses; comandava-as Luís de Castro.

Maria Pulaski ficara a poucos passos dos granadeiros. Tinha-se apeado.

Da aldeia de Sauroren saíam colunas enormes do exército francês, que se desenvolviam em pequenas linhas sucessivas e se arrojavam às penedias da montanha aos gritos e aos vivas ao Imperador, em arremessos leoninos, os tambores a baterem febrilmente o passo de carga.

 

*1. Já tinha sido agraciado pela Regência espanhola com o título de Duque de Vitória. Duas vezes duque em Espanha, que já o era de Ciudad Rodrigo.

 

E eram para o alto da ermida as arremetidas mais furiosas e mais insistentes.

Engatinhavam pelas quebradas, aferravam aos penedos e lá chegavam acima de baioneta calada, num ímpeto formidável, mas as descargas certeiras e as baionetas dos ingleses e portugueses logo os dizimavam e lhes opunham um esforço heróico, baldeando com eles afinal pela montanha abaixo.

Três cargas assim contra os defensores da ermida.

Caçadores 7 batia-se com admirável denodo, mas tinha já sofrido enormes perdas.

- Maria, retira-te daqui; peço-te!

- Aqui não corro perigo; deixa-me ficar.

- Não. Os franceses insistem em tomar estas alturas, e num dos seus ímpetos podem chegar até aqui. Exijo que te afastes. Para as ambulâncias têm ido muitos. Não esqueças a tua piedosa tarefa de Vitória e de Roncesvalles, vai.

Uma corneta de caçadores 7 deu o sinal do regimento 9 e o toque de avançar para o cume. Vinham da crista do monte brados do comando e estímulo dos portugueses, gritos vibrantes de vitória franceses. Correu para os granadeiros, mandou calar baioneta e avançar a passo de carga. Abalaram por ali acima, os tambores a rufar a marcha.

Como se um doloroso pressentimento a retivesse ali, Maria não se afastou.

Lá em cima a gritaria era pavorosa.

- Granadeiros! Sobre eles, como em Vitória! - clamava Luís de Castro.

E à frente dos soldados, numa arremetida brilhante, levou diante de si contra as penedias e depois pela montanha abaixo um regimento, cuja bandeira fora condecorada com a Legião de Honra em Friedland.

Mas outro regimento francês o veio socorrer e com mais arrojada investida galgou a montanha, fazendo recuar os granadeiros, apesar dos esforços de Luís de Castro.

Depois de uns instantes de hesitação, Maria Pulaski fora subindo para junto da ermida.

Viu o redemoinho da carga, a trágica cintilação das baionetas, ouviu os gritos de fúria e os gritos de dor, os franceses subindo, os granadeiros de Portugal recuando; eles e os soldados escuros, os caçadores.

Levantou para a imagem de pedra da Senhora do Pilar, na frontaria vetusta da ermida, um olhar afogado de lágrimas. E, de mãos postas, suplicou-lhe:

«Senhora, tende piedade! Bem bastou que eu perdesse o meu pequenino! Senhora misericordiosa dos que padecem, não o abandoneis».

E murmurou uma promessa, tão baixo, que ela própria mal pôde talvez ouvi-la.

Um dos granadeiros da sua escolta exclamou entusiasticamente.

- O nosso major! Arrebanhou os granadeiros e já deitou outra vez sobre os franceses pela montanha abaixo. Camaradas! Foi assim que ele fez na Áustria!

Ouviram-se os brados triunfais dos portugueses. Os tambores batiam o passo de carga com maior frenesi. As cornetas dos caçadores vibravam como se fossem vozes de muitos corações em gritos de vitória.

E Maria, de mãos postas, numa opressão aflitiva de ruins pressentimentos.

- Ai, o nosso major! - rouquejou um dos soldados.

- Que é? Que foi?! Onde o vê? -perguntou Maria numa angustiada súplica.

- Além... A minha senhora tenha ânimo... Trazem-no aqueles dois granadeiros.

- Senhora! Que me não ouvistes! - exclamou num brado de suprema dor, volvendo um olhar de mágoa indefinível para a imagem de pedra, enegrecida pela invernia das montanhas.

E correu para baixo, desvairada, numa tremura como nunca tivera, nem mesmo na trágica noite do Berezina.

- Luís! Meu querido Luís!

- Maria!-respondeu-lhe sumidamente-Não te aflijas... Não é coisa de perigo.

Era uma piedosa mentira. Tinha levado duas baionetadas, uma no ombro esquerdo e outra num quadril. Eram ferimentos graves e vinha deixando atrás de si um largo rasto de sangue.

Maria pediu a um dos granadeiros que lhe cedesse o lugar e encostou a si o corpo do marido, amparado da direita por outro granadeiro.

- Luís!-soluçou baixo -, O coração adivinha... o meu estava a pressentir isto!

Iam subindo muito lentamente. Apesar da coragem da sua alma, em tantas conjunturas admirável, Maria fizera-se lívida, tremia como se fosse uma criança espavorida. Tinha visto nas ambulâncias feridos horrorosamente mutilados, apiedara-se deles, tivera ânimo para os socorrer; mas aquele era imensamente diferente, como se fosse do seu próprio coração, pelo dobro, o sangue que ele derramava. Não podia nem queria viver senão por aquela vida talvez em perigo de se perder!

- Tu não podes, Maria! - murmurou Luís.

- Verás que posso. Tu é que vais confrangido de dores.

- Dá-me lenitivo a tua voz. Tenho-te ao pé de mim...

Maria!!

Iam a meia encosta. Revoavam pelos ares os gritos de vitória dos caçadores e granadeiros portugueses.

Foi preciso parar. Luís de Castro tinha perdido muito sangue e já não podia chegar lá acima, nem mesmo amparado.

- Não podes, Luís!

- Arma-se aqui uma maca - lembrou um dos granadeiros.

- Leva a gente nos braços o nosso major - propôs um dos granadeiros da 13.a meia brigada de Wagram -, Minha senhora, levamo-lo nós que somos os seus soldados mais antigos...

- Obrigado - murmurou o ferido - Esperem... quero saber se vencemos.

- Ah, isso vencemos, meu major. Os franceses lá vão a bater em retirada.

- Então... levem-me. Maria... tu agora não te apartes... de mim.

- Eu, Luís?! -disse num soluço alagado em lágrimas - Só se fosse preciso morrer por ti.

Luís agradeceu-lhe num olhar amortecido.

Os antigos granadeiros de Beaumersdorf tomaram nos braços, carinhosamente, num movimento de piedade filial, o seu glorioso capitão de 1809.

Maria caminhava ao lado dele, numa tremura violenta, numa palidez mortal.

- Agora, depressa - pediu aos soldados -, Tem perdido muito sangue!

E só para si numa suprema angústia: «Amor da minha vida, o teu sangue!» Quando chegaram à primeira ambulância, Luís de Castro ia quase desfalecido.

- Por piedade, depressa! - suplicou Maria a um cirurgião de caçadores 7 -, Para lhe acudir, que está a desfalecer! Depois basto eu. É o meu marido.

- Vou já, minha senhora - volveu o cirurgião -, é só concluir o curativo de um pobre caçador, crivado de baionetadas.

- Mas, por amor de Deus! - instou - Eu ajudo em qualquer coisa, eu fico aqui... Mande-me... mas para ir já vê-lo a ele, sem demora. Por alguém a quem mais queira no mundo, ouça-me, tenha piedade de mim, salve-mo!

Disse-lhe estas últimas palavras de mãos postas, numa convulsão de choro.

O cirurgião chamou um soldado da ambulância e indicou-lhe o que era preciso fazer ao ferido, cujo curativo tinha quase concluído.

- Vamos, minha senhora.

 

A batalha de Sauraren estava terminada com perdas relativamente grandes, de parte a parte.

As baionetas fizeram uma chacina horrorosa! Os aliados (16.000 homens) tinham tido 2.600 mortos e feridos; os franceses (20.000) tiveram 1.800 mortos e feridos.

Os exércitos ficaram frente a frente como duelistas extenuados.

Passou o dia 29 sem se dar um tiro, mas de um e doutro lado aproveitaram o tempo concentrando forças para outra batalha.

O Duque de Vitória conseguiu reunir dezasseis mil homens aos treze mil que restavam da batalha de Sauraren, mas o exército francês fora reforçado com dezoito mil homens do corpo de exército do Conde de Erlon.

A superioridade numérica estava ainda do lado do inimigo.

Todavia, Soult compreendeu que não era fácil tomar as posições dos aliados e resolveu empreender uma marcha de flanco, para ir descercar a praça de San Sebastian ou assegurar a concentração das suas forças sobre o caminho de Irursum a San Sebastian e Tolosa. Era uma operação arrojada e de graves riscos.

Wellington percebeu-lhe o intento e ordenou ao general Híll que torneasse a direita dos franceses. Foi mal sucedido este movimento. Clausel atacou Hill em Buenza, tomou-lhe as posições e envolveu-lhe o flanco esquerdo.

Começava este novo combate por um desastre para os aliados, mas o generalísimo inglês viu claramente onde podia anular as vantagens alcançadas pelo inimigo, e mandou a Picton que torneasse a esquerda dos franceses pela estrada de Roncesvalles; a Dalhousie que investisse uma posição à direita do inimigo e a Cole que atacasse de frente.

Estas operações, intrepidamente realizadas, deram aos aliados uma situação preponderante e obrigaram Soult a abandonar as suas posições, batendo em retirada.

A divisão do general Foy (8.000 homens) foi cortada do grosso do exército (35.000 homens) em marcha pelo desfiladeiro de Dona Maria.

No dia 31 os aliados ocuparam as montanhas que dominam a estrada de Elizondo a Santesteban.

Os franceses iam a pequena distância, já esmorecidos, entalados num vale estreito e profundo. Wellington dispunha-se a cortar-lhes a retirada para França, mas três ingleses que andavam na pilhagem deram alarme aos franceses e todo o seu exército se meteu a caminho, precipitadamente, numa confusão enorme, para alcançar a fronteira.

Perderam então quase todas as bagagens e não perderam também toda a artilharia porque Soult a mandara meter ao caminho de Roncesvalles para Saint-Jean-de-Pied-Port, durante o combate do dia 28.

No dia 2 de Agosto os aliados bateram os franceses de Causei em Echallar e Invantelli.

Estava terminada aquela curta e áspera campanha dos Pirenéus, que durou nove dias e deu dez combates. Os aliados perderam 7.800 oficiais e soldados, os franceses mais de 13.000.

Entremos agora no quartel-general de Wellington.

- Cada vez estou mais satisfeito com os portugueses - dizia o generalíssimo para o coronel Henrique de Castro - Batem-se admiravelmente. Eu vi algumas das soberbas cargas de baioneta que eles deram. Brilhantes!(1) E seu irmão?

- Está em tratamento numa quinta das imediações de Sauraren.

- Mas não corre perigo de vida?

- Os cirurgiões afiançaram-me que está livre de perigo, salvo qualquer imprevista complicação. Mas muito fraco, mal ainda pode falar. A perda de sangue foi enorme. Nem talvez daqui a três ou quatro meses esteja em condições de entrar em campanha.

 

*1. Os portugueses, segundo as notas do quartel-general inglês, tiveram 1.839 mortos e feridos, tendo entrado em combate cerca de 18.000. Uma parte do nosso exército estava então no cerco da praça de San Sebastian.

(-) Nas suas comunicações oficiais, Wellington louva calorosamente o valor entusiástico das tropas portuguesas e, entre os oficiais que lhe mereceram as honras de citação especial, designa o capitão de infantaria 11 Joaquim Teles Jordão, vinte anos depois tristemente assinalado durante as nossas guerras civis.

Na Ordem do dia de 13 de Agosto, Beresford faz calorosos elogios às tropas portuguesas, especialmente a valorosa brigada do Algarve (infantaria 2 e 14), a do 4 e 10 com caçadores 10, a do 7 e 10 com caçadores 2, a do 11 e 23 com caçadores 7, infantaria 4, 6, 12 e 18 e caçadores 6 e 9.

 

- Tem licença para o ir visitar quando quiser.

- Senhor Duque, é uma cativante mercê de V. Ex.a.

- Felicite-o em meu nome. Há-de ser promovido por distinção. Foi um dos bravos da batalha do dia 28. Coronel, está agora perdida a candidatura real de Nicolau Soult - disse-lhe, sorrindo -, Nunca será o rei francês da Lusitânia. Dos três pretendentes ao trono do seu país era o único ainda perigoso. Andoche Junot morreu.

- Morreu?

- Posto de parte pelo Imperador, retirou-se para a sua casa de Montbard. Vi no Times que estava louco e num acesso febril se suicidara, atirando-se de uma janela abaixo. André Massena, esse vive na obscuridade da sua desgraça. É como se tivesse acabado para o Império, como se estivesse morto para a História. Esta campanha de nove dias anulou o menos desditoso dos três pretendentes e, provavelmente, arrojará contra Napoleão a Europa coligada. Batemos o melhor exército que ainda tinha a França e, à frente dele, o mais brilhante dos marechais de Austerlitz.

 

             NO MÊS DO NATAL.

Tinham passado mais de quatro meses. Era em 19 de Dezembro.

Luís de Castro estava ainda em uma quinta de certo fidalgo das Vascongadas, a cerca de meia légua daquela ermida do campo de batalha de Sauroren, onde a luta foi mais enfurecida.

O curativo tinha sido lento e por duas vezes o intrépido oficial estivera em perigo de vida. Um dos ferimentos agravar a-se-lhe logo ao quinto dia depois da batalha e Castro estivera em risco de ficar para sempre inutilizado para a guerra, pois que o cirurgião espanhol, seu assistente, insistia em lhe amputar a perna em que lhe tinham dado uma baionetada. Mas a isso se opusera ele energicamente, apesar da sua extrema fraqueza.

Amorável enfermeira, de inexcedível dedicação, Maria Pulaski opôs-se também com inabalável firmeza e bem pode dizer-se que foi ela quem salvou o marido de uma amputação inútil, que lhe daria talvez a morte pela imperícia de cirurgião sertanejo.

Luís de Castro estava agora a terminar a sua longa convalescença, mas, ainda fraco, confrangiam-no muito aqueles ásperos invernos da serra.

O irmão por várias vezes o fora visitar, mas desde 2 de Novembro que lá não pudera voltar. Estava longe com o exército, que em princípios de Outubro passara o Bidassoa e travara vários combates no território da França.

Por sinal que da sua última visita Henrique de Castro trouxera umas oprimidoras impressões.

Fora encontrar Maria e Luís na ermida da Senhora do Pilar, de joelhos, a orarem os dois, a chorarem ambos. Era o dia de finados. Oravam por André Pulaski, pela Beauchamp e pelo João Luís, os queridos mortos que, um ano antes, tinham ficado sobre as neves do Berezina. Mas era ainda pelo pequenino que eles mais choravam; por esse então numa tamanha mágoa de saudades que não podia ter lenitivo.

O seu lindo filho, o primeiro, o único. Maria, então, com um remorso horroroso por o ter levado para aquela trágica desgraça nos egoísmos do seu amor de esposa.

Rompera calmo e lúcido aquele dia 19; era bem o primeiro dia lindo daquele Inverno. O sol refulgia sobre as cristas nevadas das montanhas como sobre lágrimas de esplêndido cristal. Ao longe os píncaros e as cumiadas abruptas dos altos Pirenéus davam a impressão de enormes nuvens brancas que houvessem caído rasgadas do céu.

- Vamos hoje à ermida, queres, Luís?

- Vamos, sim. Já me sinto bem.

- Ainda fraco, bem se percebe.

- Um pouco, mas daqui a uma ou duas semanas vou apresentar-me no exército.

- Como tu quiseres - volveu-lhe tristemente. Foram para a ermida. Estavam na quinta com eles os dois granadeiros sobreviventes de Wagram e um deles ofereceu-se para os seguir, para qualquer coisa que fosse

preciso.

Iam devagar: subiram a montanha lentamente.

- Olha aquela enorme águia! Como sobe.

Maria seguiu a indicação do marido, mas logo se sobressaltou ouvindo em cima, do lado da ermida, uma voz roufenha, que dizia em francês:

- Brinca aí, sim? Eu volto já!

- Está alguém lá em cima! - disse Maria -, Um francês ou quem fala francês como se fosse de França.

- Ouviste? Não saias daí - disseram em cima em

francês.

- Pois vamos a saber quem é. Duvido que um francês se atrevesse a aparecer por aqui.

Foram subindo. Assomou uma cabra a um ângulo da ermida e logo atrás dela, arrastando uma grosseira véstia de pele de carneiro, um pequenito que não teria mais de quatro anos.

- É singular! -exclamou Castro.

- Vamos falar àquele pequenito - propôs Maria num grande alvoroço.

Subiram um pouco mais depressa.

- Meu pequenino - disse-lhe Maria em francês – esta cabrinha é tua?

- É... e do papá - respondeu o pequenito no seu francês entaramelado.

- És daqui?

- Sou do papá.

- E onde está o teu papá?

- Lá - respondeu, apontando para a ermida.

Maria acarinhava-o, fazendo-lhe perguntas, com os olhos velados de pranto.

Estava a lembrar-se do outro, o seu lindo filho, perdido, morto, imagem gravada pelas suas lágrimas naquela saudade que nunca mais podia acabar.

Luís de Castro deu a volta e entrou na ermida.

Um homem de cabelos brancos, com um traje de montanhês dos Pirenéus, todo em farrapos, estava ajoelhado diante da imagem da Senhora.

Parecia rezar.

- Deus vos guarde - disse-lhe Luís de Castro em francês.

O homem voltou-se de repelão, muito pálido, sobressaltado, e correu para a porta.

- O meu filho, o meu pequenino! - disse em espanhol, detestàvelmente pronunciado.

- Não tem porque fugir. Ninguém aqui lhe quer mal. O pequenino está ali fora com minha mulher.

De olhar fito para ele, como se estivesse a recordar-se de alguém, o velho disse-lhe em espanhol:

- Queira perdoar. Ia buscar o meu rapazinho,

- Não tenha cuidado por ele. Olhe, ali o tem com minha mulher.

Maria chegava com o pequenino pela mão.

- Luís, lembras-te daquela criancita do Sobral que vimos em Tomar, aquela que foi salva por um soldado francês e era amamentada por uma cabra?

- Lembro-me, sim.

- Pois este pequenino, que é um tagarela encantador, também se chama Fanfan como o outro!

Castro olhou mais atentamente para o velho.

- Estou a lembrar-me de ter visto alguém muito parecido consigo - disse-lhe em francês - Recorda-me um granadeiro que eu vi e abracei em Tomar. Levava uma criança à qual chamavam Fanfan, mas tinha o nome de Napoléon Lagloire. Eu sou oficial português e acompanhava então o estado-maior do marechal Massena. O senhor pronuncia o espanhol como se fosse um francês. Não receie falar-me francamente. Está sob a minha protecção.

Iluminou-se em fulgores de júbilo o amortecido olhar do velho.

- Tive o céu por mim! - disse em francês, volvendo para o pequenito um olhar carinhoso - Também eu me estava a lembrar de o ter visto. Abraçou-me e deu-me dinheiro para acudir a esta criancita. Estava com o senhor um general que também me abraçou e deu dinheiro.

- É então o velho soldado de Austerlitz que salvou o pequenito do Sobral, o Napoléon Lagloire?

- O meu pobre Fanfan, coitadito, que tanto tem sofrido comigo! Eu sou, sim, senhor, o velho granadeiro do 19 de linha, a quem abraçou e deu dinheiro.

- Mas porque anda neste disfarce, perdido dos seus, no perigo de ser assassinado pelos montanheses?

- Por minha desgraça! Fiquei prisioneiro dos espanhóis na batalha de 30 de Julho. O que passei! O dó que eu tive deste pequenino! Mas quis Deus que encontrássemos um oficial português, um coronel. Condoeu-se de mim, fez-me perguntas a respeito do pequeno e eu contei-lhe a verdade. Pediu por mim, deu dinheiro ao guerrilheiro espanhol que me guardava, e deixaram-me fugir com este vestuário que eu troquei pelo meu uniforme. Mas perdi-me nos caminhos e andei escondido pelos montes. O Fanfan, coitadinho, adoeceu e tive-o à morte num covão de uma montanha, que fica a uma légua para trás desta ermida. Pedi por ele a Nossa Senhora e ela salvou-mo. Aqui está porque eu vim.

A cabra entrou na ermida a berrar, mas, assim que viu o pequeno, deu dois pulos para ele e pôs-se a lamber-lhe a cara.

- Que encanto, este animal! - disse Maria Pulaski.

- Foi quem nos matou a fome na montanha, ao Fanfan e a mim. O pequeno chama-lhe a mãe-cabra.

- Pois, meu caro granadeiro, tem para se acolher, com o pequenito, a casa onde eu vivo.

- Oh, meu senhor! Mas isso é a salvação desta criança!

- E daqui a uma ou duas semanas o poderei levar a si para França, no disfarce de meu criado particular, e lá o porei a salvo. De onde é natural?

- Da cidade de Tolosa. Chamo-me Bernardo Tricard, para o servir e para me não esquecer nunca de tamanha generosidade.

- Bem. Fica em nossa casa e irá comigo como criado que eu tivesse ao meu serviço.

- Mas eu queria beijar-lhe as mãos - disse o granadeiro a tremer, com os olhos rasos de lágrimas.

- Não, eu é que o abraço, ainda com maior fervor e admiração do que, há cerca de três anos, em Tomar.

- E havemos de dar ao pequenino todo o amparo que for possível dar-lhe - prometeu Maria enternecidamente.

Voltaram para casa com o granadeiro e o Fanfan, muito contente, escarranchado na cabra, que o levava regaladamente como se também lhe tivesse amor.

- E a sua Legião de Honra de Austerlitz, perdeu-a?

- Não, meu senhor - respondeu Bernardo Tricard -, trago-a aqui escondida no peito, como minha mãe, que Deus haja, trazia a relíquia de uma santa da sua maior devoção.

E o Bernardo Tricard entreabriu a camisa e deixou ver a Luís de Castro, com o enternecido orgulho de um fanático, a cruz gloriosa que Napoleão lhe pusera ao peito no dia épico de Austerlitz.

Esperava-os em casa outra surpresa ainda maior e muito mais comovedora.

Um dos granadeiros portugueses veio dizer, logo à porta, a Luís de Castro:

- Saberá V. S.a que está aqui o senhor coronel e mais um senhor idoso, que é tio de V. S.a.

- Meu irmão! Meu tio! Só se for o tio Manuel de Albuquerque - disse para Maria -, Vamos depressa.

Vocês - acrescentou para os soldados - vão dizer à criada que dê um quarto a este velho e a este pequenino; são pessoas de minha estima. Bernard Tricard, peça lá dentro tudo o que lhe for necessário, como se estivesse em sua casa.

- Oh, meu senhor!

- Não tem que agradecer. Até logo.

Tomou o braço de Maria e encaminhou-se para a sala, apressadamente.

- Tio Manuel! -saudou Luís, abrindo os braços,

- Ora venha cá o meu rapaz, meu herói! - exclamou o velho Manuel de Albuquerque, indo para ele.

Abraçaram-se comovidamente.

- O meu glorioso tio!

- Qual glorioso, nem qual história! Um crivo das balas francesas é que eu tenho sido. Parece que me conhecem, as malditas! Ao pé de ti não valho nada, meu rapaz. Um valente ao lado de Napoleão, para honrares o teu nome e a tua raça, e agora, já sei tudo, um brilhante oficial pela glória da nossa bandeira! Agora, sim! A tua espada é por aquele palmo da santa e gloriosa terra de Portugal.

- O traidor quer ver se resgata deste modo o esforço que empenhou por uma causa que foi obrigado a servir.

- Muito bem, meu rapaz! Ai, mas deixa-me cumprimentar a tua esposa, a quem só muito de relance tive o prazer de falar no dia em que ela esteve em Pêro Negro.

Maria conversava com Henrique de Castro.

Manuel de Albuquerque acercou-se dela.

- Minha senhora, minha extremecida sobrinha, queira perdoar-me por quem é. Aquele sobrinho é os meus pecados! Ando tão envaidecido por ele que até me esqueço dos meus mais gratos deveres.

- É envaidecimento que eu bendigo e me consola, senhor Manuel de Albuquerque. A senhora D. Matilde, o senhor Jerónimo de Castro?

- Lá vão indo como pessoas velhas, raladas de saudades pelos seus ausentes.

- De D. Branca e dos pequeninos já eu tive notícias - disse, olhando para o cunhado.

- Trago aí umas cartas de minha cunhada e de minha sobrinha Branca e uma encomenda de saudades tamanha que nem sei como hei-de dar conta dela! Mas não quero retardar a minha homenagem ao seu raro ânimo, à sua admirável constância, minha querida sobrinha.

- Deu-me Deus alento para cumprir um dever, mas para as dores de alma é que as forças me faltaram! - disse numa evocação de mágoa.

Manuel de Albuquerque reparou-lhe então no vestido de luto e recordou-se da enorme desgraça daquela mãe. O sobrinho Henrique tinha-lhe resumido os lances aflitivos de Maria Pulaski na Rússia e a perda enorme que sofrera.

- Dor inexcedível, eu sei!-observou-lhe comovido -, Deus lhe dê a resignação que merece, e não esqueça na sua imensa misericórdia quem de tal modo tem sofrido com a mais sublime abnegação de esposa e de mãe de que em minha vida tenho tido notícia!

Tomou-lhe a mão e beijou-lha enternecidamente. Luís estivera lendo uma carta da mãe, que o irmão lhe trouxera.

- A nossa querida e santa mãe! - declarou, dobrando a carta, profundamente comovido.

Para interromper a conversa amargurada de Maria com o tio Manuel a respeito da morte do filho, Henrique de Castro aproximou-se dela.

- Mil perdões, minha querida irmã. Vinha pedir-lhe licença para os deixar. O Luís está ansioso para que eu lhe conte novidades da guerra.

- Mas também a mim me interessam por causa dele e também eu desejo ouvi-las.

- Tanto melhor e com imenso gosto.

- E até eu ouvirei pela terceira ou quarta vez essas coisas que regalam, como caturra incorrigível que sou por tudo o que enobrece a minha terra portuguesa.

- A pátria adoptiva da minha alma - disse Maria.

- Não vou descrever batalhas; levaria muito tempo - preveniu Henrique de Castro.

- De duas ouvi eu aqui falar muito por alto ao cirurgião espanhol que me tem tratado e de uma delas me deste notícia na tua última carta.

- A de Nivelle, em 10 do mês passado. Mas há seis dias travou-se outra muito mais porfiada e sangrenta, nas margens do Nive, Durou cinco dias.

- Tinha acabado a batalha quando eu cheguei - disse Manuel de Albuquerque - Uma mortandadde espantosa! O marechal Soult deve estar esmorecido.

- Não está e promete defender passo a passo o território da França. Tem consigo o melhor exército do Império e, apesar de vencido já em três batalhas, é ele agora o mais ilustre dos marechais de Napoleão. Fez de Baiona a base de um grande campo entrincheirado. Na linha do rio Nivelle ocupava excelentes posições, cuja frente era protegida por entrincheiramentos e redutos; mas conseguimos nós batê-lo, obrigando-o a retirar para a linha do rio Níve.

- Havia desproporção de forças? - perguntou Luís.

- Havia. Soult teria 60.000 homens, não incluindo a cavalaria e a divisão do general Foy, que não entrou na batalha. O exército aliado não contaria menos de 90.000 homens, mas os franceses estavam entrincheirados. Apesar dos esforços admiráveis das nossas tropas, não conseguiríamos batê-los, se nas suas linhas não houvesse um ponto fraco e Soult não cometesse o erro de deixar afastada a divisão Foy.

Os franceses tiveram mais de quatro mil mortos, feridos e prisioneiros. Tomámos-lhes cinquenta e uma bocas de fogo e todos os depósitos que tinham em São João da Luz e Espelette. Nós perdemos quase três mil homens.

- Foi então uma vitória importante?

- Foi, mas a de Níve teve ainda mais importância. No dia 9 deste mês passámos o rio e atacámos as posições dos franceses. Era uma operação de flanco, arriscadissima, que nos podia custar um enorme desastre, se o marechal Soult tem aproveitado em seu favor aquele erro de temeridade. Mas não aproveitou e a maior imprudência da vida militar de Wellington deu em completa vitória para nós, graças à espantosa audácia das tropas aliadas. Foi, como já disse, uma batalha de cinco dias: no último dia sanguinolentíssima! Nós tivemos cerca de cinco mil mortos e feridos; os franceses nove a dez mil(1).

- Enormes perdas!

- Relativamente às forças combatentes, superiores talvez às que Napoleão teve na maior das suas batalhas perdidas.

- Qual?

- A de Lípsia, em Outubro.

- Não sabia! Não me tinhas dito nada.

- Só o soube em meados de Novembro, por um jornal inglês que me veio parar às mãos. Como te disse na minha carta dos princípios do mês passado, estive em serviço,

 

*1.) Segundo Guiwood, citado por Brialmont, os aliados tiveram 4.557 mortos e feridos e 506 extraviados nos cinco dias, 9 a 13.

À sua parte, os portugueses tiveram quase metade daquelas perdas, pois foi de 2.413 o número dos seus mortos, feridos e extraviados.

Thibaudeau avalia as perdas dos franceses nas batalhas de Nive em 12.000 homens, mas Lapine reduz este número a 10.000. afastado do quartel-general de Wellington, durante duas semanas.

- Batalha decisiva, essa de Lípsia?

- Tão decisiva que os exércitos coligados estão já a caminho da fronteira francesa. Duzentos mil franceses contra trezentos mil russos, prussianos e austríacos.

- Os austríacos também?!

- Também. Depois de Vitória, a Áustria decidiu-se a entrar na grande aliança do norte contra Napoleão. A batalha dos Pirenéus incitou-a a romper completamente as negociações de paz no congresso de Praga. As nossas vitórias anularam os efeitos políticos dos triunfos de Napoleão em Lutzen, Bautzen e Wurtschen. Em Lípsia(1) os dois exércitos beligerantes perderam 50.000 homens. Vinte mil franceses ficaram prisioneiros. O exército de Napoleão retirou de noite, numa desordem enorme, segundo as informações inglesas.

- E aí está então como esta nossa guerra tem sacudido a Europa, já abatida e resignada ante a autocracia militar de Napoleão! - comentou Luís de Castro.

- Muito perto agora de uma queda formidável, se as minhas previsões me não falham - volveu-lhe o irmão.

- Já não é sem tempo - acudiu Manuel de Albuquerque -, Por causa desse sujeito tenho eu na pele uns poucos de rasgões. Mas bem empregados, pois que entram no ajuste de contas que nós temos todos com esses senhores franceses.

- E o tio desde o Rossilhão!

- E olha que senti saudades desses tempos quando tornei a ver os Pirenéus! Tornar a ver não é verdade, que estas serranias aqui das bandas do mar não são as que eu vi há vinte anos ao norte da Catalunha.

 

*1. A batalha de Lipsía, de 16 a 18 de Outubro de 1813, foi denominada pelos alemães a Batalha das Nações e é considerada pelos escritores franceses como um golpe mortal no poderio de Napoleão.

 

- Como o tio se aventurou a esta viagem, longa e incómoda!

- Pudera! Há mais de dois anos, arreliado, sem combates, a enferrujar-me ao canto da lareira, estava desesperado por fazer uma das minhas. E tinha saudades de ti, Luís, e vontade de os ver, aos dois e à minha encantadora sobrinha. Assim que o Henrique me deu notícia de que tinhas ficado ferido, logo disse com os meus botões: pois vou ver aquele meu valente; irei fazer-lhe companhia, matar saudades e ficarei por lá para assistir a alguma batalha como simples mirone, já que o cabeçudo do Beresford me não quis reintegrar no exército por estar velho e por Wellington ter uma certa má vontade aos guerrilheiros. Estava-me a fazer falta o cheiro da pólvora e sentia um certo desejo de entrar também em França com meus ares de invasor. Mas voltemos ao que tem importância. Senhor coronel - disse, gracejando - queira informar seu irmão a respeito dos louvores que a nossa gente mereceu ao Wellington, ao Beresford, e a não sei a quantos mais.

- Louvores unânimes, honrosíssimos! - corroborou Henrique de Castro - Numa só palavra resumiu Wellington o seu juízo a respeito da nossa gente nas duas batalhas: admiravelmente. Vi eu, li este advérbio glorificador em uma das suas comunicações oficiais. Beresford, o frio e ríspido Beresford, deu ao general Mousinho uns apontamentos em inglês, para a ordem do dia que há-de ser redigida em português. Vi-os eu. Calorosos louvores, que parecem escritos por um meridional! Chega a dizer que a nação portuguesa nem precisa de recordar o seu glorioso passado, tendo um exército assim assinalado por tão distintos feitos, e de dia para dia cada vez mais notável! E todos os generais das divisões inglesas, em que estão incorporados regimentos dos nossos, dizem maravilhas do que eles fizeram, atribuindo-lhes uma grande parte do glorioso êxito da batalha de Nive.(1) Posso afirmar-lhes que a um dos batalhões portugueses se deve, em grande parte, a nossa boa fortuna naquela batalha, que tivemos quase perdida. A divisão AUen tinha sido destroçada e a esquadra dos aliados retirava em desordem; então o nosso punhado de bravos avança pela estrada denodadamente, torneia um bosque e vai cair sobre os franceses. Um regimento inglês, que estava na extrema esquerda e ia já também em retirada, vê o nosso batalhão, dá meia volta e une-se aos portugueses; carrega o inimigo ao lado dos nossos e a coluna francesa, até ali vitoriosa, retrocede, desordena-se, deixando muitos mortos e prisioneiros.

- Ah, tio Manuel! - exclamou Luís, comovidamente - Que excelente povo esse que dá semelhantes soldados!

- Mal empregado nas mãos de tantos idiotas, de tantos sabujos, de tantos patifes que o têm governado. Tivesse tido outras cabeças e outras consciências na direcção do Estado e outra havia de ser a sua categoria na Europa. Os nossos soldados batalhariam ao lado dos ingleses,

 

*1. O general Andrew Hay, comandante da 5.a divisão, diz no seu relatório que a brigada de Luís do Rego Barreto, infantaria 3 e 15, se distinguiu, assinalando-se aquele regimento por um dos mais belos ataques que ainda tinha visto, sobre a estrada de Baiona.

O tenente-coronel Stwartt diz não ter dúvida em atribuir o sucesso que coroou os esforços do corpo aliado em 13 do corrente ao comportamento verdadeiramente valoroso das tropas portuguesas, etc.

Nem nos diferentes exércitos da Europa, em que tenho servido durante esta guerra ou a passada, eu me achei com tropas em cujo nobre espírito Pudesse confiar tanto, sendo bem dirigido. (Palavras textuais da tradução portuguesa oficial).

 

mas sem precisarem da tutela deprimidora dos oficiais da Grã-Bretanha, embora estivessem subordinados ao comando desse general insigne que é Wellington. E hão-de ver que se perde esta grande lição, se outros chupístas, outros bandalhos, nos vierem governar. Oh, minha excelente senhora, por quem é, perdoe-me este rude desafogo! Dóí-me o coração quando me lembro destas coisas, deste amargo contraste entre o que somos e o que podíamos ser! Era nação para muito, na paz ou na guerra, se tivesse tido governantes que prestassem para alguma coisa! Mas, ao menos, este consolo de ver o muito de que ainda somos capazes. Estiveste tu, Luís, com os da Legião, entre homens de raças diversas...

- De dezasseis nacionalidades na campanha da Rússia.

- E o punhado de homens que vocês eram alcançou assinalar-se pelo esforço, pela consciência, pelo honrado procedimento! Nesta guerra estão os nossos ao lado dessa raça altiva, superior, que fez a grandeza da Inglaterra ao lado dos soldados dessa Espanha, que já foi quase senhora da Europa, em frente desses velhos soldados de Napoleão, os melhores que tem tido a França, os mais ilustres que tem tido o mundo, e pelo valor se igualam aos mais arrojados e pela honrada conduta os excedem a todos. Até pelo honesto proceder, e teu irmão que te dê o testemunho insuspeito de que me falou a mim em São João de Luz.

- Wellington tem punido severamente as extorsões e as violências da soldadesca - informou Henrique -, Mandou enforcar uns poucos de soldados ingleses por ladrões, incendiários e violadores. Dos espanhóis do general Sousa, antigos guerrilheiros, muitos têm sido enforcados por ordem do generalísimo, mas dos nossos nenhum ainda foi justiçado. A prova oficial está em uma das ordens do dia de Beresford, agradecendo ao exército português o seu honrado comportamento, realce do valor com que se têm assinalado nos campos de batalha. Chega a dizer que a Europa verá e honrará as virtudes da nação portuguesa no seu exército.(1) Contrasta isto com o que Wellíngton se viu obrigado a fazer aos espanhóis. Sei que escreveu ao general D. Manuel Freyre, dizendo-lhe que era preciso pôr cobro à pilhagem, pois não entrará em França, depois de ter perdido vinte mil homens nos campos de batalha, para roubar os franceses e tolerar o saque das suas povoações. E vendo inúteis estas reprimendas e os exemplos de severa repressão, o generalíssimo mandou retirar do território francês vinte mil espanhóis, quase todos eles rapinantes das antigas guerrilhas.

- Pois sim - objectou Luís de Castro - mas o pior exemplo veio dos ingleses em Ciudad Rodrigo e em Badajoz, como tu me contaste.

- Aí foi um horror! A crueldade homicida dos bêbedos excedeu espantosamente a fúria doida dos saqueadores! E, infelizmente, já houve coisa ainda pior!

- Onde?

- Na praça de São Sebastião, defendida por um punhado de franceses com admirável heroicidade. Horrível o que eu ouvi contar! As torpezas e atrocidades apagaram ignominiosamente os arrojos de bravura Ínexcedível das tropas aliadas em nove assaltos e no fogo infernal da grande brecha! Aquilo foi hediondo e heróico! Um dos nossos batalhões atravessou um vau do Uromêa, com as patronas à cabeça, debaixo de um fogo vivíssimo. Muitos dos nossos oficiais e soldados se ofereceram para assaltar a grande brecha. Cinco mil ingleses e portugueses morreram ou ficaram feridos e dentro da praça havia menos de dois mil franceses!

 

*1. Ordem do dia relativo à batalha de Nivelle.

E entre os outros trechos honrosos encontra-se este daquele ríspido e inflexível disciplinador:

«Os soldados portugueses não têm mostrado menos ao exército francês a sua superioridade no campo de batalha e em virtudes militares, do que mostram presentemente aos habitantes da França quanto excedem aos soldados da sua nação em moral, humanidade e boa conduta.» (3) John Jones.

 

Mas assim que os ingleses entraram na cidade, sobreexcitados por aquela espantosa luta, o pavor das atrocidades foi imensamente maior que o pavor dos combates(1). Assassinaram metade da população e destruíram quinhentas e noventa casas!

- Monstruoso! - exclamou Luís de Castro.

- Deus meu, que ferocidade de homens e que horrível coisa a guerra - murmurou Maria Pulaski.

- Glória sem mácula só a dos defensores, os mil e oitocentos franceses do heróico general Rey(2).

Vieram chamar Maria Pulaski. O almoço estava na mesa.

- Tu demoras-te, não é assim?-perguntou Luís de Castro ao irmão.

- Não posso; tenho de partir amanhã.

- Desejava que passasses aqui o dia de Natal.

- Se não houver probabilidades de alguma nova batalha, voltarei, aproveitando a mala-posta, para estar aqui no dia 25.

- Pois sim. Está dito. Então já eu poderei meter-me a caminho e iremos todos. Estou com inveja de vocês. Mas o tio fica até ao Natal?

- Fico, sim.

- Olhem, querem ver uns hóspedes que nós cá temos? - interveio Maria, chamando-os para uma janela que dava para o pátio.

 

*1. Os companheiros de Átila não teriam cometido maiores atrocidades. Os oficiais que tentaram pôr termo àquela cena horrível foram insultados, perseguidos, e alguns deles assassinados pelos seus próprios soldados. (Brialmont).

  1. O castelo da Praça do monte «Orgulho» só capitulou a 8 de Setembro.

Entraram nos assaltos à Praça os batalhões de caçadores 1, 3, 4, 5 e 8 e infantaria 1, 3, 11, 13, 15, 16, 17, 23 e 24.

 

Queria mostrar-lhes o velho Tricard a brincar com o pequeno Fanfan, escarranchado na cabra.

- Mas eu salvei dos guerrilheiros espanhóis um velho soldado francês que trazia consigo um pequenito como aquele e uma cabra muito semelhante àquela!

- Pois ali tens o velho granadeiro Bernardo Tricard, do 19 de linha, com o pequeno Napoléon Lagloire do Sobral de Monte Agraço. E agora fico sabendo que és tu o coronel português que o livrou dos guerilheiros espanhóis.

E contou-lhe como conhecera Tricard em Tomar e naquela manhã fora dar, de surpresa, com ele na ermida da Senhora do Pilar.

Mandaram chamar o granadeiro. Foi um lance comovedor. Bernardo Tricard reconheceu no coronel aquele oficial misericordioso que os livrara, a ele e ao pequenito, da fúria homicida dos guerrilheiros espanhóis e tomou-lhe as mãos para lhas beijar numa convulsão de choro.

O Fanfan entrara também. Maria acarinhava-o enternecidamente. E enquanto Tricard resumia ao coronel a sua vida de campanhas na Península, a pobre mãe enlutada dizia baixo ao marido, numa dor de alma enorme:

- Só o nosso pequenino não teve quem o pudesse salvar! De pouco mais idade que o nosso, como este, coitadinho, teve a boa fortuna de resistir!

- Naquele país de gelos, naquela guerra de horrores, era impossível salvar-se! O João Luís seria capaz de todas as abnegações, mais ainda que este velho granadeiro, mas certamente o mataram os cossacos.

- Assim foram sempre os caprichos da boa ou da má fortuna! Este, sem mãe, abandonado como um farrapo inútil, e encontrou quem dele tivesse dó, abençoado dó. Não o digo por inveja, não. Coitadinho, ainda bem, e, se o soldado quiser, tomá-lo-emos nós para lhe dar amparo. Mas a saudade e a mágoa pelo nosso pequenino, essas, Luís, não se acabam nunca. Nunca!

Inclinou-se para o Fanfan, muito pasmado para ela, e abraçou-o a soluçar.

 

         COMO SE FOSSE MILAGRE.

O coronel Henrique de Castro voltou com licença de uns dias, passou com eles o dia de Natal, dia lutuoso, de clandestinas lágrimas para Maria Pulaski e de mal disfarçadas tristezas para Luís de Castro.

Faltavam ali a Beauchamp e André Pulaski, faltava naquela casa o grande e dedicado amigo que foi o João Luís, faltava-lhes, para maior saudade e mais alanceadora dor, o sorriso e o olhar angélico do pequenino morto.

Deram lugar à mesa ao velho Tricard; Maria sentou ao pé de si o pobrezito do Napoleão do Sobral, já sem acanhamentos, palrador, com uns fulgores de ingénua alegria nos seus grandes olhos negros.

Quanto mais o pequeno ria e entaramelava palavras francesas, a fazer carícias àquela sua linda protectora, mais o coração de Maria se torturava na saudade do outro, o seu, vê-lo na alma como ele foi, a sonhá-lo como ele podia ser. Quase do tamanho de Fanfan, a tagarelar como ele, na mesma buliçosa alegria e mais lindo do que ele, de mais suave olhar, de mais cândida meiguice... se vivesse.

Se vivesse! Nestas duas palavras, que drama horrível de amarguras na alma daquela mãe!

Em 27 partiram todos para França. O tio Manuel como que a substituir André Pulaski, no empenho de dissipar os pesares de Maria; o Fanfan muito devotado à sua mamã bonita, como ele chamava à esposa de Luís de Castro; o granadeiro Tricard no disfarce de criado particular do heróico oficial de Wagram.

E, como escolta de honra, os dois granadeiros da antiga companhia de Luís de Castro, na Legião.

Tinha chovido muito, os caminhos estavam quase intransitáveis, mas, ao menos, a mala-posta lá os ia levando rapidamente, em solavancos medonhos, para o território da França.

Foram para São João de Luz, onde estava o quartel-general de Wellington.

- Além, Baiona - disse Luís para Maria Pulaski - Parece antigo o que nós ali sonhámos e sofremos!

Estava-se nos fins de Fevereiro de 1814.

Por causa da invernia e da escassez de recursos para sustentar o exército, Wellington estivera por muito tempo imobilizado diante de Baiona e da linha do Adour, onde o exército do marechal Soult se havia fortificado.

Descrevendo um semicírculo, os aliados bloqueavam Baiona, tendo o flanco esquerdo apoiado no mar, o centro em Ustrarritz e Villefranque, a direita entre o rio Nive e o alto Adour. Por falta de forragens, a maior parte da sua cavalaria retirara para além dos Pirenéus.

Os franceses formavam um grande arco de círculo, entre a embocadura do Adour e Saint-Jean-de-Pied-Port. O seu centro cobria-se com os gaves na confluência com o Adour.

Torrentes, levadas das serranias.

Nos meados de Fevereiro o tempo melhorou e as torrentes das montanhas dos Pirenéus diminuíram de volume. Wellington recebeu recursos e pôde mandar vir das planuras do Ebro o grosso da sua cavalaria.

Era preciso tomar a linha do Adour e bater novamente as tropas de Soult, para auxiliar daquele lado as operações dos exércitos coligados do norte e do centro da Europa, já a caminho de Paris, apesar dos esforços admiráveis de Napoleão, em batalhas que podiam ombrear com as mais brilhantes da sua epopeia.

Luís de Castro obtivera uma casa encantadora nos arredores de São João de Luz. Com a anuência de Beresford, o generalíssimo inglês concedera a Luís de Castro todo o tempo de licença que fosse preciso para se restabelecer completamente. Iria apresentar-se em um dos regimentos como agregado, logo que as operações prosseguissem. Não lhe daria colocação definitiva enquanto não chegasse o perdão solicitado ao Príncipe Regente por Wellington e Beresford. Nem a demora era para admirar, pois que o pedido tinha ido para Lisboa em fins de Junho e de lá seguiria para o Rio de Janeiro, quando houvesse navio a partir.

Era naquele tempo uma viagem de larga duração. Nas melhores condições, entre ida e volta, não menos de cinco ou seis meses, incluindo a indispensável demora na baía do Rio de Janeiro.

Entremos em casa de Luís de Castro. O céu desanuviara-se e aquela manhã de Fevereiro tornara-se linda.

Henrique chegara do quartel-general e fora ter com o irmão e com o tio Manuel a uma saleta onde os dois tinham ficado a conversar.

Maria andava muito atarefada no empenho de completar umas roupitas para o Fanfan. Estava então com o pequeno e uma costureira francesa no quarto que tinha reservado para os trabalhos de costura.

Henrique de Castro disse para o irmão:

- Vamos sair desta inactividade de dois meses. Tens de te apresentar amanhã.

- Estimo. Vamos então atacar os franceses na linha do Adour?

- Vamos. Parece que Wellington recebeu de Inglaterra importantes comunicações oficiais a respeito das operações dos exércitos coligados. Os austríacos, os russos, os prussianos e os bávaros têm avançado muito no território francês. Bem pode dizer-se que toda a Europa está agora

contra Napoleão.

- Espantoso, até neste ocaso da sua prodigiosa estrela de triunfador!

- Ainda vence batalhas e enfeixa troféus! Não há jornais mais bem informados do que os de Inglaterra e eu trago aqui um que dá interessantes pormenores dessa campanha em que o Imperador está defendendo o seu trono, os seus troféus de vinte campanhas, a coroa e o

futuro do filho.

- Esse infantil rei de Roma, cuja realeza anda aos baldões pelos campos de batalha - observou Luís de Castro.

- Olha, aqui tens este jornal para leres quando tiveres paciência.

Deu-lho para a mão. Luís passou-o rapidamente pelos olhos.

- Fica para mais demorada leitura - disse, dobrando-o.

- Wellington está disposto a auxiliar daqui, energicamente, a campanha dos coligados. Fomos nós os primeiros a invadir a França; há três meses que passámos o Bidassoa e há pouco mais de um mês que os exércitos alemães e austríacos passaram o Reno, mas estou a ver que entram em Paris sem que nós tenhamos a honra de lá entrar com eles.

- Nem admira... trazem talvez o triplo ou quádruplo das forças que Napoleão lhes pode opor.

- Pois tenho pena - disse Manuel de Albuquerque, - Nunca vi Paris e consolava-me agora acompanhar até lá os soldados vitoriosos da nossa terra. Para a desforra ser completa, só isto nos falta. Ver nas praças de Paris as bandeiras dos regimentos portugueses do Buçaco e de Fuentes de Onoro, de Albuera, de Arapiles, de Vitória e dos Pirenéus, do Nivelle e do Nive, já que tive o desgosto de ver há sete anos, nas ruas de Lisboa, as bandeiras dos regimentos de Junot, e há cinco anos, no Porto, as águias do Marengo, de Austerlitz, de Friedland.

- Meu major! Meu major! -rouquejou à porta, num afogueamento de pasmo, num alvoroço de enlouquecido, um dos soldados da Legião, o mais idoso dos que Luís de Castro trouxera consigo.

- Que há? Que loucura é essa?

- V. S.a perdoe-me, mas até parece engano dos meus olhos!

- Engano o quê?!

- Todo coberto de farrapos, escaveirado, a barba como um porta-machado!... Tiveram de o sentar, deram-lhe água, a desfalecer!

- Homem, depressa! Quem?

- O João Luís!

- Endoideceste! - gritou, fazendo-se muito pálido.

- Isso julguei eu, meu major! Mas eu falei-lhe! Parece desenterrado, mas é ele, o granadeiro da nossa companhia, o João Luís, com o menino nos braços, muito enfezadito, coitadinho!

- Isso há-de ser desvario teu! - objectou, a tremer -, Mas onde está? Onde? Depressa!

- Luís! Luís! -soluçava Maria Pulaski, entrando como louca, numa convulsão violenta.

Caiu de joelhos ao pé duma cadeira, o peito numas convulsões de alucinada. Correram para ela o marido, o cunhado e Manuel de Albuquerque. O Fanfan tinha vindo atrás a chorar.

- Um soldado - referiu, arquejante - foi dizer-me que tinha visto...

Mas não pode ser! É engano para maior dor!... O João Luís com o nosso pequenino! Se pode ser!... Se pudesse ser!. Mãe de Deus, que tamanha esmola a vossa!

- Minha senhora, meu major! - disse da porta uma voz tremente - Aqui está o menino, louvado seja Deus!

- O meu querido filho! - exclamou Maria num grito de alma, levantando-se de repelão.

E foi cair de joelhos diante do João Luís, lívido, tremente, desfigurado.

O granadeiro pôs-lhe nos braços o pequenito, a tremer de pavor, a chorar de olhos cerrados.

- João Luís, abençoado seja! - soluçou a pobre mãe -, Mas és tu, és sim, meu amor! Abre para mim os teus lindos olhos, filho! Não tenhas medo. Sou a tua mãe! Meu pequenino, lembra-te!

E beijava-o sofregamente, a chorar por o ver assim definhado e a cingi-lo muito a si como se os seus braços fossem asas protectoras como as asas brancas dos arcanjos das lendas.

O velho Tricard apareceu à porta. A comoção imobilizara Henrique de Castro e Manuel de Albuquerque. Luís ficara como alguém mal desperto de um sonho. Sacudiu-o afinal a evidência daquela realidade, aproximou-se de Maria, dobrou o joelho, beijou a criança com os olhos afogados de lágrimas.

- Coitadinho! - tornou Maria - Lê-se-lhe no rosto e no olhar o muito que sofreu!

- Ai, minha senhora, como ninguém é capaz de adivinhar! - respondeu-lhe o granadeiro, cujo fato desbotado e em farrapos lhe dava o aspecto de um mendigo.

- João! -disse-lhe Castro com a voz a quebrar-se-lhe em soluços - As tuas mãos, homem de rara nobreza de alma, que me dás honra deixando que eu as aperte nas minhas.

- Oh, meu major! Tudo o que eu fiz não passou de uma obrigação que era da minha alma.

--Tão heróica abnegação que por ela te abraço, amigo que nenhum outro excede, irmão queridíssimo para eu não esquecer nunca, para eu amar sempre, eu tão inferior a ti pelo que a tua alma vale, pelo muitíssimo que na minha vida te devo.

Abraçou-o demoradamente.

- Mas eu sou um soldado raso, meu major!

- Como se fosses o maior dos meus superiores!

- Valha-me Deus! Até me envergonho disto - asseverou, muito enleado, lágrimas enormes a desfiarem-se-lhe pela barba longa e inculta.

E amparou-se a uma cadeira.

- Estás fatigado, exausto de forças?

- Se V. S.a desse licença, ia ali para fora sentar-me um bocado. Estão as pernas a vergar-se-me.

- Mas sentas-te aqui-disse-lhe, puxando uma cadeira.

- Estão aqui o tio de V. S.a e o senhor coronel...

- O coronel pede-lhe que se sente, e quer abraçá-lo também.

- E eu, meu valente - acudiu Manuel de Albuquerque.

E ambos o foram abraçar.

- Deus do céu! Parece que fiz eu uma coisa nunca vista! - declarou enternecidamente, levantando-se.

- Devo-te a vida do meu filho! Nada de maior valia para mim. Senta-te. Estou a imaginar o que padeceste, o milagre de esforço, de constância e de boa fortuna que foi preciso para te salvares com o pequenino.

- Em eu podendo... deixe-me V. S.a descansar um bocado... e eu lhe contarei tudo, meu major. Parece que foi milagre! Devo a vida a um oficial da nossa Legião, um que ficou prisioneiro. Se não fosse ele, não deitava cá.

- Depois contarás. Agora precisas de repouso... de alimento. Tens tempo, João.

Tricard ficara à porta. Não entendia as palavras, mas percebia a grandeza dramática daquele lance.

Umas poucas de vezes levara aos olhos as suas grandes mãos grosseiras, a tremerem muito.

Maria ficara-se na embevecida contemplação do filho, a beijá-lo freneticamente, a pedir-lhe que abrisse os olhos para ela, a perguntar-lhe se queria dormir, se tinha fome, a instar por uma palavra das que ele soubesse dizer.

Mas o pequenito mal descerrava os olhos em cujas pálpebras tremeluziam lágrimas; respirava ofegante, parecia emudecido, ficara numa imobilidade inquietadora.

- Filho! Valha-me Nossa Senhora! Nem me olhas e não me dizes nada, como se ainda não soubesses falar! Mais desmaiado, cada vez mais! João - perguntou numa angústia de receios, voltando-se para o granadeiro -, este esmorecimento será de fome? Não se mexe, não me ouve, nem sequer abre os olhos!

- Fome não é, minha senhora - volveu o João Luís, levantando-se, inquieto -, Esta manhã, no caminho, pedi de esmola um copo de leite para ele; deram-mo com um pedaço de pão. Foi o seu almoço. Não o queria, mas tanto lhe pedi que o comeu.

- Meu amor! Mas vinha doente?

- Teve uma grande doença e umas poucas de vezes julguei que me acabava nos braços, coitadinho.

- Está a arder em febre! Luís, vê.

- Tem muita febre - confirmou Luís de Castro, sobressaltado, tomando o pulso do pequenito -, Vou mandar chamar um médico.

- Eu mesmo o vou buscar - sugeriu Henrique de Castro, saindo.

Muito entristecido, o Fanfan debruçou-se para o filhito de Maria, deu-lhe um beijo e foi a correr para Bernardo Tricard. Pediu-lhe na sua língua de trapos que fosse buscar a mamã-cabra para dar leite àquele menino.

- Vou arranjar-lhe uma camíta.

E nem Maria sabia bem o que havia de fazer-lhe na angústia de o ver assim.

- Talvez isto seja só quebramento de forças pelo que padeceu. Agora tem a respiração mais serena. Parece que está a dormir, não é verdade, Luís?

- Está... é o que parece - disse por dizer.

- Dormiu pouco talvez? - perguntou ao João Luís.

- Passou a noite muito inquieto e tivemos de abalar logo de madrugada.

- Nossa Senhora permita que seja só por isso que ele está assim. Mal olhou para mim e nem uma palavra! Ele já há-de saber dizer alguma coisa.

- Fala, sim, minha senhora. Diz umas palavras que eu lhe ensinei, entarameladas, mas lá as diz de maneira que a gente lhas entende.

- A magreza, a cor que ele tem! Jesus, mas este abatimento é que me dá cuidado! Vou mandar que tragam um caldo e levo-o para a minha cama. O tempo está frio: quero ver se o reanimo.

E envolvia num olhar de mágoa os farrapos de peles grosseiras em que ele vinha embrulhado.

- Se o médico entender que não há perigo, dou-lhe um banho.

- Ontem à noite lhe dei eu um banho na pousada que me deram de esmola. Quis Deus que muita gente tivesse dó dele e de mim. Essa camisita lha deram por caridade. Pedi-a eu, porque a outra, que lhe lavava quase todas as noites, enquanto ele dormia, estava feita num trapo.

- O meu querido filho! - exclamou Maria num confrangimento do coração, beijando-o.

E levantou para o granadeiro, num doce olhar de gratidão, os seus belos olhos turvos de pranto.

- E teve cuidados e solicitudes de mulher carinhosa - dizia Luís, baixo, para o tio-este soldado que eu vi destemido como um leão nos campos da batalha!

O Fanfan voltou outra vez para junto de Maria e beijou-a.

- Fanfan, este é o meu filhinho doente - disse-lhe em francês - Hás-de dar-lhe algumas das camisitas e do fato que eu fiz para ti. Queres?

O Napoleão do Sobral respondeu num gesto afirmativo e deu um beijo no rosto esmaecido daquele que havia de partilhar as suas camisas.

O coronel entrou com o médico. Foi um alvoroço de júbilo e uma opressão de receios para Maria Pulaski. Acudiria ao pequenito, mas qual seria a opinião dele a respeito do seu estado?

Que palavras de consolo ou que sentença de morte na boca daquele homem?

O médico examinou a criança detidamente e fez perguntas a respeito dos antecedentes. Resumiram-lhos.

Maria não despegava os olhos dele. Viu-lhe um franzir de testa que lhe fez o abalo de uma lúgubre profecia.

O médico receitou. Voltou-se para Maria Pulaski e disse-lhe:

- É a mãe, não é assim, minha senhora.

- Sou - respondeu-lhe doloridamente, com os olhos nele, numa tremura de susto -, É doença grave? Eu tenho ânimo... para saber a verdade.

- Não está bem, mas não suponho impossível salvá-lo. Indicou o modo de fazer o tratamento, fez umas recomendações e despediu-se com a promessa de voltar à noite.

Maria correu para o quarto a soluçar, com o filhinho nos braços.

- Henrique, vou acompanhar Maria. Faze tu o favor de mandar que dêem alimento, quarto e roupas, ao meu pobre João Luís.

- Pois sim, vai descansado.

- Não tenha V. S.a cuidados por mim, meu major. Agora o que se quer é que o menino melhore. Não havia de querer Deus que...

E não completou a frase, como se um repelão de terror lha tivesse trancado nos lábios.

Luís de Castro foi ter com Maria. Estava despindo o filhito. Dizia consigo numa angústia inexcedível:

«Nossa Senhora não há-de querer que te trouxessem para eu te ver morrer, meu filho, meu amor, minha vida!»

Percebeu a chegada do marido.

- Luís, agora ainda mais horrorosa dor... se a morte o levasse!;

Dissera-o em soluços e as últimas palavras tão afogadas que o marido lhas não ouviu, mas adivinhou-lhas.

Pelas 10 horas da noite voltou o médico. O perigo não tinha passado, mas a febre diminuíra um pouco, o que já era sintoma consolador.

- O mesmo tratamento e os mesmos cuidados - disse o médico, um dos mais notáveis de São João de Luz.

- E salva-se, doutor?

- Se não sobrevier alguma complicação, se lhe não faltarem solicitudes, poderemos salvá-lo.

- Daqui a muito tempo?

- Não sei dizer-lhe, minha senhora; mas ainda que, daquí a duas ou três semanas o tenhamos livre de perigo, nem um mês será bastante para a sua melindrosa convalescença.

Maria confrangeu-se. Se os aliados fossem batidos, como havia ela de sair dali com o pequenito e se fossem eles os vencedores, avançariam certamente para o interior da França, e teria então de abandonar o marido, para ficar ali com aquele pobre filho, tão cedo perseguido de infortúnios.

O médico saiu. Pelas 11 horas o sono do pequenito parecia um pouco mais tranquilo. Na saleta contígua ao quarto o tio Manuel, Luís de Castro e o João Luís, já um pouco recobrado de forças, falavam a meia voz.

- Porque se não vão deitar? - perguntou Maria, assomando à porta.

- Eu não tenho sono - afirmou o tio Manuel.

- Esperamos que o Henrique volte - acudiu Luís de Castro.

- Mas o João Luís há-de ter precisão de descansar.

Tem, decerto.

- Não, minha senhora. Dormi de tarde umas folgadas três horas e posso bem perder a noite. Estou aqui para o que for preciso.

- O pequenino agora parece menos inquieto – opinou Maria, e voltou para dentro.

- João, estou morto por saber o milagre da tua aparição aqui. Todos te julgavam morto!

- Ah, meu major, bem empregados trabalhos; mas se me dissessem que os havia de passar, não acreditava!

- Se não estás fatigado, se podes, dize-mos resumidamente, como puderes, e um dia nos contarás tudo largamente.

- Eu vou dizer como souber. Maria tornou a aparecer.

- Dorme?-perguntou-lhe o marido.

- O remédio deixou-o mais sossegado. Tem ainda bastante febre, mas, ao menos, repousa.

- O João Luís vai resumir-nos o milagre da sua abnegação.

- Sim! Também eu desejo ouvir. Ouço mesmo daqui, para não perder o pequenino de vista. Só à meia-noite é que eu tenho de lhe dar outra colher de remédio.

- Vamos lá, João. Tu foste pelo bosque dentro atrás do cossaco...

- Que arrancara o menino dos braços da senhora.

Eu ia a perceber que o malvado trazia incumbência de o roubar. Seria para o levar ao tal Platow. O pobrezinho chorava de pavor, num choro que cortava o coração! E eu a correr atrás do roubador. Umas poucas de vezes parei e pus a arma à cara para lhe meter uma bala no corpo, mas até o coração se me apertava no receio de matar o menino! A bala podia varar os dois ou errar o caminho e ir bater na cabeça do Joãozinho, que o malvado tinha posto ao ombro, como se fosse uma criaturínha morta. Já o não ouvia chorar. Lembrou-me que teria perdido os sentidos, o pobrezinho! Apertei mais a carreira sobre o cossaco, mas foi então que me julguei perdido, pois que de todos os lados do bosque vinham gritos dos cossacos, gritos daqueles almas do diabo, que pareciam rugidos de feras! «Matam-me aqui», disse comigo, «e não posso salvar o filhinho do meu major, do protector da minha velhita e da minha irmã entrevada». O malvado pôs-se a dar uns uivos que pareciam de sinal para os outros, E eu a apertar com ele. Ouvi muitos tiros da banda do bosque. Tinha escurecido. Julguei que fossem contra mim, mas percebi logo que era combate, certamente com os franceses que tinham ficado. Quis Deus então que o cossaco caísse num covão, talvez alguma armadilha para os lobos. Então sim. Galguei mais de trezentos passos enquanto se diz uma ave-maria e caí-lhe em cima a deitar os bofes pela boca fora.

- E o pequenino? - indagou, da porta, Maria Pulaski, numa grande agitação nervosa.

- Tinha caído dos ombros; ficou desmaiadito em cima da neve. O cossaco estava já de pé e desfechou contra mim uma pistola. Fez má pontaria. A bala passou-me de raspão por um ombro. Ia o malvado para deitar a mão ao menino, mas então desfechei contra ele e varei-lhe o peito. Estava bem morto. Despi-lhe o capote de peles, e fui levantar o menino, para o levar à senhora. Tinha prometido salvar-lho. Estava que parecia gelado! Esfreguei-o muito com a aguardente que trazia no cantil e começou a voltar a si.

Amimei-o, ele já me conhecia, aconcheguei-o muito no capote do cossaco e deitei-o no chão enquanto carregava a espingarda para o que desse e viesse. Depois peguei nele ao colo e ala. Parecia que estavam ainda a batalhar ali perto. Ouvia descargas e tiros de artilharia. Tinha andado coisa de meio quarto de légua quando senti muitos passos e vozes atrás de mim. Estava perdido, se era gente dos cossacos. Depois outros passos e gritos de sinais da direita e da esquerda. «Apanham-me!» disse comigo. «Fazem fogo sobre mim, se deito a correr». Escondi-me atrás do tronco de um grande carvalho. Pus-me de rojo, arma engatilhada, o Joãozinho deitado entre os meus cotovelos, a dormir dentro do capote do cossaco. O mato cobria-nos. Passaram mais de quarenta cossacos apeados. Um deles, o mais alto, levava uma lanterna de furta-fogo e ia observando tudo, assim como se buscassem alguma coisa perdida. Encobri-me ainda mais com o mato, e o homem alto da lanterna esteve a dois passos de mim! Se o menino chorasse, ficávamos perdidos, ele e eu! Estivesse eu ali sozinho e teria desfechado a espingarda, ainda que depois me fizessem em postas. Deus sabe o sacrifício que fiz! Queria matar aquele lobo danado! Eram contas atrasadas, contas de sangue, por V. S.a e por mim.

- Miguel Platow?!

- Era ele, meu major!

- Jesus! Se os descobrisse! - murmurou Maria, ainda entre a porta.

- Mas não deu por nós. Foi uma noite de pavores! Aqueles cães não abandonavam o bosque! De madrugada percebi que havia outra escaramuça com os franceses. Por entre o arvoredo apareceram uns atiradores; eram de França. Apresentei-me a eles e contei o que me tinha sucedido. Saímos do bosque. Que horror! Da banda de lá do maldito rio ainda batalhavam. As pontes estavam em cavacos. As pobres mulheres, que não tinham podido fugir, faziam um alarido de cortar o coração. Mulheres e criancinhas! íamos ficar em poder dos russos. Uma divisão dos franceses tinha resistido até à última; ficou toda prisioneira(1) e com ela os estropiados e os doentes aos milhares. Lá topei camaradas do nosso regimento e do 3, que tinha andado para outras bandas com o marechal Oudinot. Foi misericórdia de Deus encontrá-los!

- Mas ficaram todos prisioneiros, disseram-no os jornais de Inglaterra, e prisioneiros em miseráveis circunstâncias.

- É verdade, meu major, e se não fosse um tenente da nossa gente portuguesa, eu não estaria aqui.

- Um tenente? Como se chama?

- Manuel de Melo. Mas eu conto como foi. Assim que saímos do bosque, encontrei uma vivandeira francesa com um filhito. Pedi-lhe por amor de Deus que matasse a fome ao menino, e ela, coitada, logo lhe acudiu muito caridosa. Cansei-me a perguntar por V. S.a e pela senhora. Dei todos os sinais e ninguém me dava notícias! Pouco tempo foi, porque logo ficámos prisioneiros. Por mercê de Deus, a vívandeira foi connosco e era ela quem amamentava o Joãozinho, Foram-nos levando lá para dentro daquele maldito país. Um horror de frio! Eu não sei como a criancinha me não morreu nos braços! Chegámos a Smolensko. Ia connosco Nossa Senhora para salvar aquele inocente! Tinha contado as nossas desgraças ao tenente Melo e ele compadeceu-se e fazia-me o bem que podia. Em Smolensko encontrou um fidalgo riquíssimo, que lhe deu boa guarida e pediu por ele ao general russo que comandava a leva dos prisioneiros. E o caso foi que logo o trataram como se não fosse prisioneiro de guerra. É bem certo o ditado: quem bem faz bem merece.

- Mas porque era esse tratamento de excepção para o tenente Melo?

 

*1).Era a heróica divisão do general Parthouneaux, que se bateu denodadamente durante toda a noite de 27 para 28 de Novembro de 1812.

- Porque, quando foi da retirada, a soldadesca bêbeda de um regimento francês atacou o palácio daquele fidalgo, que ficava nos arrabaldes de Smolensko. O homem não tinha podido fugir por ter uma filha à morte. Aquela canalha de bêbedos não quis saber de tamanha dor do pobre pai e, enquanto uns lhe iam deitar fogo ao palácio, outros lhe queriam violentar a filha mais nova. Mas foi então que o nosso tenente Melo apareceu, com meia dúzia dos seus soldados, e se opôs àquela grande malvadez. E com tal coragem, meu major, que os bêbedos retiraram, mas o tenente Melo ainda apanhou uma baionetada no braço. Ora o tal fidalgo reconheceu-o logo, quando entrámos na cidade, e aqui tem V. S.a porque o nosso tenente Melo teve tratamento à parte(1).

 

*1. Citemos um facto semelhante da vida do tenente Carlos Damasceno Rosado, um dos bravos da Legião.

Marchando com uma força por um dos arrabaldes de Moscovo, deparou-se-lhe uma opulenta casa de campo, que a soldadesca francesa tinha assaltado. Às violências do roubo iam seguir-se as torpezas de ebriedade sensual. Vinham lá de dentro gritos de pavor e de súplica. Damasceno Rosado entrou à frente dos seus soldados, e foi ignóbil o que ele viu. A soldadesca tentava infamar a esposa, e a filha do dono da casa, quase diante dele, numa angústia inútil de protestos.

Damasceno Rosado toma cavalheirosamente a defesa das pobres senhoras, impõe-se intrepidamente aos infamadores, pela ameaça e pela força, leva-os diante de si, escorraça-os dali e forma com os seus soldados a escolta que vai levar a um seguro refúgio o dono da casa e as pobres damas ultrajadas.

Tempo depois Damasceno Rosado é feito prisioneiro dos russos. Vai na leva dos desterrados, mas é reconhecido pelo homem a quem salvara a honra de sua filha. Num impulso de gratidão, o moscovíta, pessoa de valimento na corte imperial, toma-o sob o seu patrocínio e apresenta-o ao Czar, contando-lhe o feito nobilíssimo do oficial português.

Alexandre I oferece-lhe um lugar nos seus exércitos e toma-o ao seu serviço com a patente que tinha. Em 1820, Damasceno Rosado voltou a Portugal e, em 1822, prestou ao seu país assinalados serviços na Baía.

Faleceu sendo major reformado.

 

- E foi ele quem te deu amparo?

- Pelo tamanho dó que tinha do menino. O fidalgo oferecia-lhe meios para ele se escapar, dava-lhe fuga, mas o tenente Melo - bom coração de homem! - disse-lhe que só aceitava se me desse também protecção para eu fugir, por causa do pequenino. E contou-lhe o que tínhamos passado. O fidalgo respondeu que sim; deu dinheiro ao nosso tenente e lá arranjou as coisas de maneira que fomos ter à costa e lá embarcámos.

- E o tenente Melo onde ficou?

- Morreu! Deus o tenha consigo. O navio em que havíamos embarcado deu à costa debaixo de um medonho temporal e quase toda a gente morreu.

- Jesus! - exclamou Maria.

- Felizmente, eu sabia nadar bem e ainda tive Deus por mim. Aquilo é que foi uma hora de terror. Mas, enfim, o menino salvou-se. Um barco de pesca tomou-nos a bordo e fomos para uma terra dos ingleses. Ali estivemos no hospital, o menino e eu. Foi então que eu julguei que de lá o não podia trazer. Tive-o quatro meses entre a vida e a morte. Melhorou e saímos do hospital. Por lá andei a viver com ele, de esmolas. O que seria feito da senhora e de V. S.a? Ia já para dez meses que tinha sido aquela tamanha desgraça do Berezina! Um dia encontrei um mercador que tinha vindo de Lisboa e ouvi-lhe dizer que o exército de Portugal já trazia os franceses de batida contra os Pirenéus. Contei-lhe a minha desgraça. Fez-lhe dó; deu-me uma esmola avultada e arranjou-me passagem a bordo de um navio mercante inglês, que vinha para Espanha. A Lisboa é que eu queria chegar, para entregar o menino à avozinha e ver se lá me davam notícias de V. S.a e da senhora. Mas, enfim, cá vinha para mais perto. Em Santander me disseram que o exército da nossa terra já estava para estas bandas. Trazia uns restos de dinheiro, mas a viagem era tamanha dali até Lisboa! Lembrei-me então que talvez o irmão de V. S.a estivesse com o exército e com certeza me daria auxílio para ir até Portugal. Se não estivesse, os outros senhores oficiais da nossa terra me dariam alguma coisa. Meti-me a caminho, mas, em Ernani, tive outra vez o menino muito mal. Mais uns vinte dias de atraso! Ai, meu major, que alegria tive quando avistei esta linda terra de São João de Luz! E, daí a pouco, alegria ainda maior quando fui dar ao quartel-general e encontrei quem me ensinasse onde eu podia procurar o meu glorioso major! Vivos ambos, a senhora e V. S.a!

Maria veio para ele de surpresa, tomou-lhe a mão e beijou-lha a chorar.

- Pelo meu filhinho, João Luís!

- Oh, minha querida senhora! - exclamou o granadeiro, pondo-se de pé -, Era o filho do meu major; não era preciso mais.

- João! - disse-lhe Luís, abraçando-o enternecidamente - Nem eu sabia avaliar bem o muitíssimo que te devia! Nenhum amigo que te iguale. Nem consinto nem quero que sejas soldado. És da minha casa, da minha família, um meu irmão. Não quero preceitos de disciplina que nos separem nem graduações militares que nos separem. Faze de conta que tiveste baixa naqueles pavorosos dias do Berezina.

- Oh, meu ma... meu querido amigo! Mas V. S.a está aqui com o exército da nossa terra, a bater-se pela bandeira de Portugal, e não quer então que eu entre também nalguma batalha, sem ser por conta dos estrangeiros!

Ouviu-se um chorar brando da criança.

- Ai, que está acordado! - exclamou Maria perturbando-se.

Correu para dentro.

Luís foi também, mas voltava instantes depois.

- A febre pouco diminuiu, mas o remédio outra vez o deixou adormecido, num sono aparentemente tranquilo.

Entrou Henrique de Castro.

- O pequenito? - perguntou ao irmão.

- Não vai pior. Estou a perceber que trazes novidade. O que há?

- Estamos em vésperas de outra batalha, que será o desfecho das operações parciais, intentadas desde os meados do mês em Paris, em Saint-Palais, no Gave de Mauléon, em Bidouse e nas margens do Bidassoa, em combates que dão uma totalidade de esforços e de perdas importantes. Prepara-se um movimento geral contra as posições do marechal Soult. Tem-se apertado mais o cerco de Baiona.

- Então vou apresentar-me amanhã.

- Wellington combinou com o marechal Beresford a comissão que te haviam de dar. Infantaria 9 já tem um major a mais, um que foi promovido por distinção e ficou agregado ao regimento.

- E então para onde vou?

- Para o estado-maior de Beresford, como adjunto.

- Diacho! Preferia comandar soldados.

- Não te faltará ocasião de prestar assinalados serviços, arriscando a vida. Encontrarás excelentes companheiros no estado-maior do marechal. O Conde de Vila Flor, por exemplo, um tenente-coronel novo como o João Carlos Saldanha e bravo como ele. Conheces?

- Não; sei apenas que é de preclara nobreza.

- De remota origem real por São Fernando, rei de Castela e Leão.

- Conheço-lhe a genealogia menos remota, a outra profundamente portuguesa, a do seu sétimo avó, D. Sancho Manuel, que defendeu Elvas gloriosamente e derrotou os espanhóis na batalha do Ameixial(1).

 

*1. Uma das grandes batalhas da Guerra dos vinte e oito anos (8 de Junho de 1663). Os espanhóis de D. João de Áustria perderam muitas bandeiras, nove bocas de fogo, armas, munições, duas mil viaturas; tiveram mais de quatro mil mortos e deixaram seis mil prisioneiros. Perderam quase metade da força toda com que entraram em acção!

Igual a esta batalha, naquela guerra, só a de Montes Claros, a 17 de Junho de 1665.

Aquele sétimo Conde de Vila Flor, tenente-coronel em 1814, era, vinte anos depois, marechal do exército e tinha o título de Duque da Terceira, vencedor de batalhas.

 

- Olha lá, Henrique - disse Manuel de Albuquerque - vê se obténs licença de Wellington para eu entrar como voluntário na primeira batalha que tiverem. Está-me a seduzir a ideia de arriscar a pele numa batalha em terras de França. Assisti a três invasões da nossa terra; sinto vontade de ser também invasor.

- O tio já pagou à Pátria um grande e glorioso tributo de sangue.

- Deixa lá. Vê se me alcanças licença. Trago ali no baú o meu uniforme de tenente-coronel. Não quero comandar ninguém. Vou com o primeiro batalhão que tiver de avançar. Salvo se o Luís me ceder os seus três granadeiros de Baumersdorf e eles quiserem ir comigo, porque então eu terei muita honra em fazer de cabo de esquadra à frente deles.

- Tio, eu não quero contrariá-lo, mas iria muito mais tranquilo para a batalha se o tivesse junto de minha mulher.

- Fica o João Luís, que não está ainda em termos de se meter em combates.

Maria tinha chegado à porta e ouviu o pedido de Manuel de Albuquerque e as palavras do marido.

- Esperam outra batalha? - perguntou numa ligeira tremura de voz.

- Esperamos. Amanhã vou apresentar-me.

- E eu?

- Tu ficas onde é dever ficar. À cabeceira do teu filho doente, para o defender da morte.

Em consequência de um movimento geral ofensivo do exército aliado, Soult abandonou as posições em que protegia Baiona e concentrou as suas tropas nas imediações da pequena cidade de Orthez, depois de ter destruído as pontes do gave de Pau. Em 24 daquele mês de Fevereiro tinham os aliados atravessado o gave de Oléron, em Monfort, e o vau de Villenave; no dia seguinte, a cavalaria de Cotton e a infantaria de Picton, passaram o gave de Pau, acima de Bereux, enquanto as tropas de Beresford o passavam entre Puyto e Peyrehorade.

Era grave a situação do duque de Dalmácia. Os aliados ameaçavam tornear-lhe um dos flancos, o direito apoiado nas alturas de Saint-Boés, e por Orthez, apoio do seu flanco esquerdo, não tinha senão um caminho para retirar, acanhado, difícil, em terrenos alagadiços. Se os aliados conseguissem cortar-lhe a ponte de Sault de Navailles, o seu exército estava irremediavelmente perdido.

Pelas 9 horas da manhã do dia 27, Wellington ordenou ao Marechal Beresford que atacasse a direita dos franceses, torneando-os, para se apoderar do desfiladeiro de Navailles e forçá-los a retirar pela estrada de Pau.

Picton recebeu ordem de avançar, flanqueando o centro e a esquerda do inimigo; Hill com uma divisão portuguesa e a divisão inglesa de Lecor atravessaria o gave de Pau por Souars, para um largo movimento envolvente pela esquerda, de modo a cortar a retirada das tropas francesas pela estrada de Pau.

Os franceses ocupavam fortemente a linha de alturas de Saint-Boés a Orthez.

Na direita o bravo general Reille, ao centro o conde d'Erlon, na esquerda Clausel.

Começara a trovejar a artilharia de um e outro lado. É na direita que se combate mais enfurecidamente. Luís de Castro está com o estado-maior de Beresford.

Para a aldeia e alturas de Saint-Boés só se pode avançar por ásperas ravinas e desfiladeiros, que a metralha e a fuzilaria dos franceses podem bater de alto, por larga distância.

Ingleses e portugueses estavam fazendo prodígios, mas a posição era admiravelmente defendida pelo intrépido Reille com as suas divisões Taupin, Roguet e Paris.

Repetidas vezes os aliados investiram os franceses e outras tantas foram repelidos. Chegou-se à luta corpo-a-corpo nos desfiladeiros, aos gritos, à baionetada, numa febre de desespero que fazia horror.

- Major - disse Beresford para Luís de Castro - vá dizer ao general da 4.a divisão que mande avançar outra vez a 9.a brigada.

Era a brigada gloriosa de Albuera, do assalto de Badajoz, de Vitória, dos Pirenéus, de Nive - o 11 e o 23 de infantaria com caçadores 7.

Luís de Castro deitou a cavalo à desfilada e foi comunicar a ordem do Marechal.

Dali a pouco a 9.a brigada assaltava as alturas de Saint-Boés, contra a primeira linha da divisão Taupin.

Caiu ferido um dos majores e Luís de Castro, que acompanhava a brigada, tomou o comando de um batalhão.

- Soldados! Como em Vitória e nos Pirenéus! - bradou-lhes, e levou-os atrás de si numa investida formidável. A primeira linha da divisão Taupin recuou em desordem. A 4.a divisão aliada avançava para reforçar a brigada portuguesa.

Mas Soult, que viu daquele lado o perigo maior da batalha, mandou reforçar as posições de Saint-Boés e a heróica brigada foi repelida com grandíssimas perdas.

Toda a divisão teve de retirar.

Era esmorecedora aquela encarniçada luta de sete horas.

- Têm a batalha perdida! - disse o marechal Soult das alturas de onde observava os lances do combate -, Enfim! Agora venço eu.

Mas Wellington percebera o perigo e logo modificou o seu plano de batalha, arrojando as divisões do general Picton e a divisão ligeira de Alten contra as alturas, à esquerda de Saint-Boés.

Luís de Castro foi levar a Wellington uma comunicação do marechal Beresford, que ia outra vez investir a aldeia.

Um regimento inglês, o 52 de infantaria, avançou debaixo de fogo, por um terreno alagado, com espantosa intrepidez. A pouca distância, para a frente dele, quatro homens isolados, de fardas escuras, a contrastarem com as fardas vermelhas dos ingleses, iam numa carreira louca para a frente.

- Luís de Castro, - disse o generalíssimo - vá ter mão naqueles doidos!

- Eu sei quem são.

- Mas não sei eu.

- Peço desculpa para eles, senhor Duque. São os meus granadeiros da Rússia, levados por aquele meu tio, que meu irmão teve a honra de apresentar a V. Ex.a.

- Ah! o tenente-coronel, o das campanhas de Rossilhão, o chefe da guerrilha negra de 1810. Mas quem lhes deu as espingardas?

- Provavelmente as apanharam por aí dos tantos que têm morrido.

- Vá levar-lhe ordem para retirar. Na frente daquele regimento não quero aventureiros - disse secamente.

Castro partiu a galope. Quando alcançou a retaguarda do 52, caiu sobre ele uma saraivada medonha de balas.

Meteu para a frente à desfilada e por maravilha nem uma

bala lhe tocou.

- Tio! Por ordem de Wellington, queira voltar para

a retaguarda.

- Ordem terminante?

- Sim.

- Obedeço e irei apresentar-lhe as minhas desculpas. Já mostrei a esses valentes ingleses que havia quem fosse adiante. Mas repara que as balas francesas já me não dão importância, como noutro tempo! Procuravam os teus granadeiros de Wagram! Olha: dois deles feridos. Vamos levá-los para as ambulâncias. Boa fortuna e até logo.

Estavam já na crista das alturas de Saint-Boés as tropas de Beresford, de Picton e de Alten.

Hill, com doze mil ingleses e portugueses, tinha atravessado o gave acima de Orthez e ia cortar a retirada de Soult por Saint-Sever.

As tropas do Duque de Dalmácia batiam já em retirada. Estava perdida para elas aquela batalha.

A marcha dos vencidos foi a princípio admirável, rápida, firme, em perfeita ordem, mas os anglo-portugueses do general Hill começaram a batê-los mais energicamente e então os soldados noviços perderam o ânimo e debandaram, deitando fora as espingardas. O contágio do terror dominou também os velhos soldados de Austerlitz e de Friedland, e as corridas tresmalharam-se numa corrida doida pelo caminho fora(1).

Cerca de quarenta mil franceses tinham sido completamente batidos por uma força igual de anglo-portugueses.

Soult perdeu 12 canhões e teve 7.000 homens mortos,

 

*1. O escritor francês Beauchamp escreveu: «O marechal Soult teve então a mágoa de ver transformada em derrota aquela retirada tão bem empreendida a princípio. Os conscritos atiravam fora as armas e fugiam em debandada».

 

feridos, prisioneiros e extraviados. Os aliados perderam 2.000 homens.

Segundo o marechal Beresford, a 9.a brigada portuguesa sofreu grandes perdas naquela batalha.

No dia seguinte, Luís de Castro obteve licença para ir a São João de Luz ver o filho doente. Devia voltar a Saint-Sever no prazo de quarenta e oito horas.

O tio Manuel ficou a velar pelos dois granadeiros feridos e em tratamento numa casa de Saínt-Boés.

Luís meteu à desfilada por aqueles caminhos para São João de Luz. Chegou lá de noite.

Encontrou o João Luís logo na casa de entrada.

- Louvado seja Deus! Ia meter-me a caminho para saber de V. Ex.a!

- O menino?

- Para melhor, mas a senhora, coitadinha, é que está lá dentro cheia de receios! E a nossa gente venceu?

- Vencemos, sim, meu João. O inimigo retirou completamente batido.

. - Ora, valha-nos, ao menos, esse consolo!

Luís foi para o quarto. De joelhos, ao pé da camazita do filho, a mãe murmurava:

- Estás melhor, meu amor. Estás. Eu bem percebo. Já me escutas e olhas para mim. Nossa Senhora ouviu-me, filho! Assim ela me tenha ouvido também o que eu lhe tenho pedido por teu pai. Meu Deus! Se o João Luís já terá ido! Eu volto já, filhinho.

Levantou-se, mas logo soltou um grito de júbilo! O marido assomara à porta: - Luís!

Correu para ele, cingiu-o nos braços e beijou-o fervorosamente, a soluçar e a sorrir.

- Tenho-te aqui, e, sabes, o nosso filho melhora!

- Mãe! - chamou a criança dèbilmente.

- Aqui me tens, meu amor. Olha, sabes quem aqui está... Repara. Uma pessoa que te quer muito, tanto como eu... o teu pai, minha vida. Abre para ele os teus lindos olhos. Assim.

E ninguém seria capaz de fazer a conta dos beijos que

eles lhe deram.

 

               O ULTIMO TIRO.

Ainda sem colocação definitiva, simples agregado ao estado-maior ou a qualquer regimento como combatente voluntário nas grandes acções, numa situação de favor, que não mudaria sem que do Brasil chegasse a mercê do Príncipe Regente, Luís de Castro facilmente obtinha de Wellington ou Beresford umas curtas licenças para ir a São João de Luz ver o filho doente.

Desamparado pelos franceses o caminho de Bordéus, determinou o generalíssimo inglês que o marechal Beresford fosse ocupar aquela cidade à frente de doze mil homens. Wellington satisfazia deste modo as instâncias do Duque d'Angoulême e os desejos de muitos realistas que havia na cidade.

Bordéus tinha uma escassa guarnição militar de soldados novos, conscritos recentemente alistados, que não podiam opor-se às aguerridas tropas de Beresford.

O general comandante militar da cidade retirou sem ter dado um tiro e o marechal inglês entrou lá com os seus portugueses por entre as aclamações e homenagens triunfais dos realistas.

A França sentia-se cansada e exausta de tantas lutas. Quase não havia lar onde não houvesse entrado o luto durante os vinte anos das campanhas napoleónicas. A epopeia era realmente prodigiosa, mas boiava num dilúvio de sangue. A Europa coligada, e agora vitoriosa, invadira a terra francesa pelos Pirenéus e pelo Reno, e, apesar de todos os assombros de que ainda foi capaz, Napoleão era agora, evidentemente, um desamparado da boa fortuna.

A nação francesa já não tinha forças com que sustentasse aquele homem fenomenal, que não podia viver senão na atmosfera dos campos de batalha e precisaria agora de meio milhão de soldados para lhe aguentarem o trono diante dos exércitos vitoriosos da Europa.

Isto explica em parte a recepção triunfal feita às tropas de Beresford na grande cidade mercantil da França.

A perda da batalha de Orthez fora mais um repelão formidável a completar a derrocada do Império.

Os quarenta mil velhos soldados vencidos ali haveriam talvez salvado a França napoleónica, se o Imperador os pudesse ter consigo no vale do Sena(1).

Chegara o mês de Abril. Tinha havido uma série de combates até às imediações da antiga cidade de Tolosa, desde Saint-Sever, em 28 de Fevereiro, até Blaye, em 5 de Abril. Haviam sido importantes os de Aire e Tarbes, a 2 e 20 de Março.

Com o filhito já em plena convalescença, Maria Pulaski fora para as imediações de Saint-Gaudens, no vale do Garona,

 

*1. «Depois da batalha de Orthez já não havia ponto onde as nossas tropas se pudessem firmar até ao Garona. Bordéus ficara a descoberto e assim ficava comprometido aquele grande interesse político, ao qual Napoleão havia sacrificado quarenta mil homens que nas margens do Sena teriam salvado o Império». (Thiers, História do Império, tomo IV, pág. 43).

 

para ficar assim mais próxima do exército aliado. Acompanhavam-na Manuel de Albuquerque, o João Luís, o Bernardo Tricard com o seu Fanfan e dois dos granadeiros sobreviventes da companhia de Luís de Castro na 13.a meia brigada, Os outros dois haviam morrido dos ferimentos graves que tiveram na batalha de Orthez.

Em 6 de Abril, Luís de Castro foi ver a esposa e o filho, a Saint-Gaudens.

Levava-lhe notícias que tinha recebido de Lisboa e uma carta da Áustria, do padre Diogo Martins, atrasadíssima de uns poucos de meses, que estivera retida em Bordéus e de lá lha trouxera, na véspera, um oficial português das tropas de Beresford.

Maria tinha perdido a esperança de receber cartas da Áustria e estava na amargurada suposição de que o pai houvesse falecido e o padre Diogo Martins lho não tivesse querido mandar dizer.

- Aqui tens a melhor lembrança que eu podia trazer-te - disse-lhe o marido, dando-lhe a carta.

- Ainda bem... se não traz a má nova que eu há muito ando a recear! Mas lê-a tu - disse, entregando-lha.

Castro abriu-a e passou-a pelos olhos rapidamente.

- Bem! Estou a ler-te no rosto que traz boas notícias.

- Excelentes! Teu pai vive. A tua carta para o padre Diogo fez o milagre de o salvar. Estão liquidando a questão do testamento do tio André. Pede aqui uns documentos, que são indispensáveis para tomares posse dos bens de teu tio.

- Depois se pensará nisso. Mais há-de valer para o nosso filho essa riqueza enorme, do que para nós, e até o Fanfan terá um dotezito, se tu estiveres de acordo.

- Perfeitamente de acordo. Mas olha, aqui, no fim, temos nós a melhor nova. Teu pai quer ir para Lisboa esperar-nos. O padre Martins está disposto a acompanhá-lo.

- Oh! mas essa é que é realmente a maior fortuna! Terei ao pé de mim o meu querido cego, naquela mesma linda terra onde os nossos amores começaram. Assim esta guerra acabe cedo... e algum perigo não venha perder estes nossos planos!

- A guerra pouco poderá durar. Vi esta manhã nos jornais ingleses, por via de Bordéus, que os exércitos da Rússia e da Prússia têm batido os marechais de Napoleão, já reduzidos a umas dezenas de milhares de homens. Segundo uma informação de há poucos dias, estavam quase nas imediações de Paris. Napoleão cai, é quase certo, e o marechal Soult está reduzido às suas posições de Tolosa, onde talvez não seja difícil vencê-lo.

- Ainda outra batalha?!

- Provavelmente, a última, mas, se nos escapar, iremos sobre ele e entraremos também em Paris.

- Mas pode ele vencer!

- Pode, mas de pouco lhe servirá a vitória, se os grandes exércitos coligados tiverem Napoleão reduzido à cidade de Paris.

- Outra batalha! Que imensa alegria a minha se viesse de Paris alguma notícia que tornasse desnecessário o sacrifício de mais vidas!

- Só se vier a participação de algum armistício por efeito da derrota decisiva e da queda do Imperador, sem a qual será impossível assegurar a paz da Europa.

- O senhor coronel chegou agora - veio dizer o João Luís.

- Alguma novidade o traz aqui!-comentou Luís.

Henrique de Castro entrou.

- Minha querida irmã, as minhas afectuosas felicitações pelas melhoras do pequenino. Encontrei-o agora na casa de entrada a brincar com o Fanfan e com o velho Tricard. O tio Manuel?

- Estava há pouco a escrever umas cartas para Lisboa - respondeu Luís - Olha, ali o tens.

- Ora viva o meu ilustre coronel,

- Tio Manuel...

- Então que novidades nos trazes?

- Que vamos ter outra batalha por estes dias.

- Vamos a isso. Onde?

- Em Tolosa.

-- Pois lá irei ver. Mas desta vez sozinho. Tenho remorsos pela morte daqueles dois valentes que levei comigo em Orthez. E quando atiram com Napoleão para o inferno?

- No quartel-general já correu o boato de que os coligados tinham tomado Paris, e um dos nossos oficiais, que chegou a Bordéus, contou-me que na cidade se dizia à boca cheia que o Imperador já fora destronado.

- Provavelmente, boatos inventados pelos realistas.

- Talvez tenham algum fundamento ou provenham de informações oficiais que não conhecemos e de algum modo justifiquem, pelo menos como previsão, o que os realistas dão como facto consumado. Wellington foi esta manhã informado da chegada a Bordéus de um oficial do Czar, com despachos para o Duque de Angouleme.

- Um oficial do Czar em Bordéus! - notou Luís de Castro.

- Sim, e explicavam que viera do Havre a bordo de um navio de guerra inglês. Viagem de quatro ou cinco dias, diziam.

- Mas isso indica então que os coligados já estavam no vale do Sena e talvez nas imediações de Paris(1).

 

*1. Em 21 de Janeiro já os austríacos tinham entrado em Chalon-sur-Saône e os Prussianos haviam passado o Mosa.

Em 29, Napoleão vencia a batalha de Brienne; em 7 de Fevereiro os coligados tomavam Troves, em 10 e 11 as batalhas de Champ-Aubert e Montmirail, e davam-se, depois de uma série de combates, as batalhas de Bar-sur-Aube, Graonne, Laon e Arcissur-Aube. A 25 de Março o combate de La Fere Champe-noise, desastroso para os franceses.

Restava Paris.

 

- Assim me parece, mas nada ouvi de crédito a esse respeito.

- Pois admira que Wellington não saiba as informações que o russo levava ao Duque de Angouleme, ou que este lhas não houvesse comunicado!

- Se as recebeu, calou-se com elas. Disseram-me que o oficial russo estivera a falar por largo tempo com o coronel de um dos nossos regimentos de guarnição em Bordéus e depois com o ajudante do corpo.

- Senhor coronel - disse da porta João Luís - chegou agora uma ordenança de dragões com esta carta para V. Ex.a.

- Dá cá. Que teremos de novo! Traz a nota de urgente! Dão-me licença?

- Pois não - disse Maria Pulaski. Henrique de Castro leu rapidamente.

- Parabéns, Luís! Toda esta carta se refere a tí. Chegou um correio oficial de Lisboa com o decreto que te dá reabilitado e manda receber-te no efectivo do exército, anulando a iníqua sentença e legalizando a tua apresentação como agregado no dia da batalha de Vitória.

- Bravo, meu rapaz! - exclamou o tio Manuel, abraçando-o.

- E a mim ninguém me dá os parabéns e sou eu quem mais os deseja - disse Maria Pulaski numa enternecida alegria.

- Pois serei eu quem tos dê - acudiu o marido, beijando-lhe a mão.

- Mas olhem que temos ainda mais por que o felicitar. Eu leio:

 

«O Duque e o marechal Beresford concordaram em promover seu irmão Luís a tenente-coronel por distinção, contando-se-lhe este posto desde a data da batalha de Orthez. São honrosíssimos, sendo apenas justos, os termos excepcionais em que se justifica a promoção. Tomando-lhe por legítima apenas a patente de tenente, pois que a de capitão lhe foi assinalada por Junot, o generalíssimo dá-Lhe como ganha a patente de capitão em Vitória, pelo seu extraordinário valor, e a de major na batalha dos Pirenéus, em que foi gravemente ferido durante uma carga de baioneta, comandada por ele com inexcedível bravura. Li há instantes o rascunho da ordem. Diga-lhe que vai ser colocado no 9 ou no 11 de infantaria. É uma colocação honrosa, como sabe».

 

- E é, realmente - confirmou Henrique, dando a carta ao irmão - Pertencem esses regimentos às duas brigadas mais brilhantes do nosso exército. A do 9, já distinta no Buçaco, a do 11, assinalada em Albuera e no assalto de Badajoz, ambas ilustres nos Arapiles, ambas gloriosíssimas em Vitória. Distintos em Nivelle, em Nive e em Orthez, bem sabes tu, Luís, os prodígios que fizeram o 11 e o 23(1).

- Estou-lhe com inveja, senhor tenente-coronel! - disse o tio Manuel, gracejando - Somos agora colegas, mas eu nunca fui capaz de alcançar tamanhas distinções e sou um tenente-coronel arruinado.

- A gracejar comigo o bravo da Montanha Negra! - respondeu-lhe Luís, a sorrir.

- E ainda por cima - continuou Manuel de Albuquerque,

 

*1. Wellington escreveu na sua participação oficial da batalha de Orthez: «Todas as tropas, tanto inglesas como portuguesas, se distinguiram».

Beresford assinala a 8.a brigada, caçadores 1 e 3 da divisão ligeira e disse na ordem do dia, a respeito da 9.a brigada (11 e 23 com caçadores 7) - «ela se mostrou neste dia benemérita com mais particularidade, porque, atacando uma posição das mais fortes e defendida por um número excessivamente superior de inimigos, ainda que foi mais de uma vez repelida, os seus soldados constantemente se continuavam a formar e voltavam ao ataque».

«Ser repelido, quando o inimigo tem a vantagem do terreno e é superior em número, sucede às melhores tropas; mas só as melhores tropas se tornam a formar e renovam com obstinação o ataque, etc».

 

- colocado em um dos regimentos que vão ter versos de Camões, versos dos Lusíadas, bordados a oiro nas suas bandeiras. Os dois últimos da estância X. Não é assim, Henrique?

- Exactamente. Assim o determinou o Príncipe Regente por decreto de Novembro, datado da real fazenda de Santa Cruz(1).

- Na sua capital do Rio de Janeiro; bem sei.

- Nas bandeiras do 9 e 31 e do 11 e 23.

- Pena foi que na Secretaria do Estado do Rio de Janeiro estropiassem os soberbos versos de Camões - disse Luís de Castro.

- É verdade que sim - confirmou o coronel.

- É que lá não estão fortes nos Lusíadas. Por isso eu queria que António de Araújo levasse aquele exemplar, que nós sabemos. Mas não quis, e deixou-o na lama do cais de Belém.

- Os versos deviam vir assim:

 

       E julgareis qual é mais excelente,

       Se ser do mundo rei, se de tal gente.

     «Mas no decreto vêm deste modo:

       Julgareis qual é mais excelente,

       Se ser do mundo rei ou de tal gente.

 

- Já se falou nisso no quartel-general, e então alguém explicou que nas bandeiras ficariam como legenda e não como versos - informou o Coronel.

- Tolice no caso! - objectou Manuel de Albuquerque -? Fica uma legenda rimada. Para não estragarem a ideia e o alto significado da distinção, mandassem bordar os versos como Camões os escrevera. Pouco importava aquela conjunção inicial,

 

*1. É datado de 13 de Novembro de 1813 e foi publicado na ordem do dia 14 de Março de 1814.

 

que suprimiram, errando o verso, provavelmente, para não prejudicar a autonomia gramatical da legenda. Mas estou a desconfiar que o erraram por não saberem bem. A modificação que fizeram no segundo verso abona esta minha desconfiança. Algum prosador da real fazenda de Santa Cruz entendeu que ficavam assím melhor com aquele arranjo(1).

Riram. Vieram avisar que o jantar estava na mesa.

No dia seguinte, Luís de Castro foi apresentar-se no quartel-general de Beresford. O tio Manuel quis por força acompanhá-lo, para ver como ainda se batiam os bravos do malogrado rei Nicolau da Lusitânia.

João Luís, Bernardo Trícard e os dois granadeiros de Wagram ficaram em Saint-Gaudens.

Na tarde do dia 8 apareceu nas imediações da casa de Maria Pulaski um homem grosseiramente vestido, que reparou muito em tudo e esteve a fazer perguntas ao Bernardo Tricard.

Falava-lhe em péssimo espanhol e vestia como os contrabandistas dos Altos Pirenéus.

- Andei quatro anos por Espanha e nunca por lá ouvi espanhol que me arranhasse tanto os ouvidos como o deste estafermo! - dizia consigo o francês, assim que o seu interlocutor se afastou -, Mas para que demónio este contrabandista, mais alto que o tambor-mor do meu regimento, queria saber quem era a dona da casa e quantos filhos tinha e onde estava o marido?! Para saber as coisas que lhe valeria a pena trazer aqui à venda,

 

 

*1. Para as bandeiras de honra de caçadores 7 e 11 a legenda era esta:

Distintos vós sereis na lusa história. pelos louros que colhestes na Vitória.

 

não lhe era preciso perguntar tanto! Pois se é ladrão em disfarce de contrabandista, vem bem encaminhado. Temos aí quatro espingardas que chegam para estoirar quatro como ele.

Mas eram talvez infundadas essas suspeitas do francês. Passaram dois dias e o contrabandista não voltou, nem em Saint-Gaudens apareceram pessoas suspeitas.

Tudo estava ali de tal modo tranquilo e naquela casa se vivia com tal confiada segurança que os dois granadeiros da Legião combinaram uma pescaria no Garona, para a tarde do dia seguinte. Até o João Luís prometeu aparecer por lá com o velho Tricard, Que nem o sítio escolhido ficava longe. Coisa de meio quarto de légua.

Em 19, de manhã, começara uma encarniçada batalha em Tolosa. Wellington tomava a ofensiva com 43.500 homens de infantaria, 7.000 de cavalaria e 64 bocas de fogo. A coberto de trincheiras e redutos, o marechal Soult defendia as suas formidáveis posições de Tolosa com 38.000 homens de todas as armas e 80 canhões.

Dos exércitos aliados estavam na acção com os ingleses 12.000 espanhóis e 14.000 portugueses.

Já nas operações preparatórias da batalha coubera ao marechal Beresford e às suas divisões a tarefa de maior risco. Chegou a estar isolado com os seus quinze mil homens em face das maiores forças do inimigo, cujas posições não era possível atacar de frente.

Se o marechal Soult não parecesse apostado a desmentir aqueles seus grandes créditos que vinham de Austerlitz, teria aproveitado a situação crítica de Beresford; caindo sobre ele com a melhor parte das suas tropas, tudo estaria decidido quarenta e oito horas antes com espantoso deSastre para os aliados.

Mas naquela batalha notabilíssíma as operações inumeráveis contrastavam com erros e imprevidências inexplicáveis de parte a parte, e agora até os generais em chefe pareciam transmudados! Wellington, no deslumbramento das suas sucessivas vitórias, a intentar temeridades contra as suas próprias tradições de prudência e os mais elementares princípios da guerra; Soult, no desânimo talvez por tantos reveses, seus e do Imperador, a cometer erros e a cair em inércías de comando que desdiziam de todo o seu brilhante passado!

Wellington empreendia uma marcha de flanco em direcção paralela às posições fortificadas do inimigo, por um terreno cortado de pontes e ribeiros, onde a sua cavalaria ficaria imobilizada e as grandes colunas do ataque dificilmente se poderiam apoiar.

Pelas 7 horas da manhã os espanhóis de D. Manuel Freyre atacaram as alturas de Calvinet, mas era tão escassa a solidez das suas colunas que logo à primeira investida se esbandalharam numa dispersão lamentável, e em carreira doida para a retaguarda. Acudiu-lhes a divisão ligeira do general Alten e lá puderam então formar-se.

Pícton foi também violentamente repelido no ataque a uma das pontes.

Logo de princípio a batalha parecia perdida para os aliados. Depois destes dois reveses, só Beresford com os seus quinze mil homens de infantaria poderia salvar o exército aliado, mas tinha de avançar por um terreno alagadiço e baixo, batido pelos fogos convergentes do inimigo.

Embora; foi avançando em direcção paralela às posições fortíssimas dos franceses, depois de ter alcançado as casas do Mont-Blanc. E diante das suas colunas fatigadas, batidas por intensos fogos, alteavam-se as escarpas do Monte Rave, chave e reduto da linha francesa. Era ali que a batalha se havia de decidir.

A artilharia de Beresford não pôde avançar pelos terrenos encharcados, entre o curso do Ers e o Monte Rave e os seus soldados caíam às dezenas sob os fogos cruzados dos franceses. Era realmente uma situação desesperadora. Soult percebeu-a. Beresford avança com 8.000 homens apenas, já separados do resto da sua coluna.

- General Taupin! -exclamou o Duque de Dalmácia - Ali os tendes, entrego-vo-los; são nossos(1).

Taupin carrega com a sua divisão, apoiada por uma brigada e um regimento de cavalaria; dois regimentos vão atacar a esquerda de Beresford.

Segunda vez a batalha parecia perdida. Mas o marechal inglês tem consigo soldados que já sabem como se podem repelir à baioneta os veteranos de Napoleão; tem ali os galos batalhadores do exército, como Wellington chamava aos portugueses e, depois das perturbações causadas pela investida formidável dos franceses, os aliados carregam sobre as colunas de Taupin e forçaram-nas a uma retirada em desordem. O general quer contê-las, voltar com elas à carga, mas vem uma bala e derruba-o mortalmente ferido. Então o desânimo das suas tropas toca as raias do terror.

Soult não avalia bem a situação, hesita e não empenha naquele lance quinze mil homens que ainda tem disponíveis e podiam esmagar aqueles audaciosos.

As tropas de Beresford sobem já por uma das vertentes do Monte Rave; recebem reforços, ocupam as alturas da direita dos franceses, assaltam e tomam o reduto de Sypére. Chega-lhes a artilharia, esperam que outras tropas secundem o seu ataque e vão investir e tomam os dois redutos principais daquelas alturas e as casas fortificadas do centro da linha.

Harispe, um dos mais bravos generais que tem Napoleão, ataca-os à baioneta, num esforço desesperado e retoma os redutos.

 

*1. São as palavras que lhe atribui um dos historiadores da campanha, o francês Lapéne, oficial de artilharia da divisão Taupin.

 

Mas os anglo-portugueses voltam à carga e novamente se apossam deles.

Outra divisão ocupa já as alturas à esquerda, os espanhóis avançam, e as tropas do general Hill estão diante da segunda linha da defesa dos franceses, no arrabalde de Saint-Cyprien.

São quatro e meia da tarde. Os aliados estavam já de posse de todas as posições do Monte Rave. Beresford com as suas tropas vencera a batalha. Os franceses retiravam para lá do grande canal do Linguadoque.

Os aliados tinham tido quatro generais e 4.639 oficiais e soldados mortos e feridos(1). Os franceses perderam cinco generais e 3.200 oficiais e soldados, mortos, feridos ou prisioneiros.

Anoitecia. Ouvia-se apenas o tiroteio das avançadas.

 

Vamos para Saint-Gaudens. Tinha escurecido. Maria estava já numa impaciência de temores.

- O que terá sido aquela batalha? Nossa Senhora o proteja! E nem o João Luís nem o velho Tricard! Como eles se demoram! Coitados! Já que não os deixam ir para a batalha, divertem-se.

Vieram ter com ela os pequenos, o Joãozito e o Fanfan. Acarinhou-os; pôs-se a brincar com eles.

Sentiu rodar uma carruagem e ouviu o tropel de cavalos. Sobressaltou-se. Lembraram-lhe umas coisas angustiadoras. Alguém ferido que viesse na carruagem: o marido, podia ser.

Escutou; pareceu-lhe que tinha parado à porta.

 

*1. Os portugueses perderam 607 homens, segundo os mapas do quartel-general. Os espanhóis perderam 2.000, por causa da fácil chacina que neles fizeram os franceses, logo no princípio da batalha, quando debandaram.

 

Maior sobressalto ainda. Deixou o brinquedo com os pequenos e foi para a porta, muito trémula. Apareceu a criada com uma luz.

- Uma carruagem para cá, minha senhora! Na alameda ficaram três a cavalo, talvez criados. Apeou-se um sujeito alto, envolvido numa capa. Há-de ser visita.

Maria empalideceu, sem saber bem porquê. Chegou a imaginar que fosse o tio André, milagrosamente salvo como o João Luís.

- Homem idoso? -perguntou numa tremura de voz.

- Isso é que eu não sei dizer-lhe, minha senhora. Só de relance o vi apear e já estava escuro.

Bateram mansamente à porta da escada.

- Acende aquelas velas e vai ver quem é.

A criada acendeu rapidamente as três velas de uma serpentina. Bateram segunda vez.

- Vai ver quem é.

Ficou entre a porta numa opressão inexplicável. Percebeu a criada perguntar quem era, pareceu-lhe que tinha ouvido uma resposta sumida, depois o ruído da porta que tivessem aberto rudemente e logo um gemido estrangulado.

- Filho! Meu rico filho! - soluçou, correndo para o pequenito e abraçando-se nele, muito pasmado, a chorar.

O Fanfan abraçou-se nela, a lamuriar, espavorido, nem ele sabia porquê.

- Maria Pulaski, enfim!-rouquejou da porta um homem de agigantada estatura, deitando para fora dos ombros uma longa capa à espanhola.

De olhos esgazeados, Maria olhou para ele num movimento de indescritível pavor. Conhecera-lhe a voz; conhecia-o bem. Era Miguel Platow.

- Luís! - disse num grito de alma.

- Está longe e alguém evitará que ele volte, se o não matarem na batalha. E tu podes ser uma linda amante, Maria Pulaski! - disse, acercando-se dela - Para a fome dos meus beijos, para esta sofreguidão de sete anos, para esta delícia de vingança que só o teu corpo pode agora dar-me.

Abria os braços para ela e envolvia-a toda num olhar de selvagem lubricidade.

As crianças choravam alto, a um canto, abraçadas, numa tremura, loucas de terror. Vinham dois homens atrás de Platow.

- Amordacem-nos - ordenou o russo.

- O meu querido filho! Esbofeteio-te! - rouquejou, repelindo-o num ímpeto supremo de todas as suas forças.

- E eu sufoco-te, nesta sede de beijos que há tantos anos me devora!

- Grito contra ti, bandido! -clamou, correndo para uma janela.

Tomou-lhe o passo e cingiu-a nos seus braços de atleta.

- Para mim ou para mais ninguém! Escuta-me. Escuta-me. Estrangulo-te, se gritas, e levo-te morta para me fartar de beijar-te.

- Grito, mata-me! Socorro! Socorro...

Cingiu-a mais a si, violentamente, e abafou-lhe a voz num beijo brutal, enorme, como se fosse de um louco.

Sentiu-a estremecer violentamente. Segurou-a mais com o braço esquerdo e amordaçou-a com a sua grande mão, pesada e firme, dura como uma garra de ferro.

- Estão amordaçados?-perguntou em espanhol aos dois homens, que tinham tomado conta das crianças.

- Estão - respondeu um deles, em espanhol.

Os pobres pequenitos estavam estendidos no chão em convulsões, os olhos espavoridos, parados, rasos de lágrimas.

- Ficarão para consolo do teu Luís - segredou Platow a Maria.

A desventurada deu-lhe um empuxão violento, num supremo esforço.

- Outra mordaça, depressa!... É preciso levá-la daqui. Ajudem-me.

Correram para ele os dois homens.

- Apertem-lha - mandou Platow.

Maria bracejou num arranque de desespero e deu com a mão na coronha de uma pistola, que o russo trazia à cintura. Estremeceu. Segurou-a. Iam para lhe amarrar a mordaça; deu outro empuxão, num ímpeto que parecia superior às suas forças, e deixou-se cair de joelhos.

A pistola arrancara-a ela do cinto de Platow, quando tentava afastá-lo de si, e apertava-a na mão, convulsivamente.

O cossaco não dera por semelhante coisa. Todo o seu empenho era segurar bem a cabeça de Maria para que os outros lhe apertassem a mordaça.

- Vamos.

Maria deixara de bracejar. Parecia que subitamente lhe tinham faltado as forças ou se havia resignado. Estava horrorosamente pálida, cerrara os olhos.

- Parece que perde os sentidos! - disse um dos auxiliares.

- Melhor - volveu-lhe Platow - Não lhe apertem

muito a mordaça. . E segurava-lhe melhor a cabeça com ambas as mãos.

- Ouço alteração na alameda! -avisou outro homem, que ficara de sentinela no corredor.

Platow perturbou-se.

O corpo de Maria agitava-se em convulsões, como se estivesse reagindo contra aquele súbito desfalecimento de ânimo. Os braços pendiam-lhe inertes, mas a sua dextra, branca e tremente, segurava ainda a pistola, arrancada do cinto do cossaco.

Estavam a cingir-lhe mais a mordaça; sufocavam-na. Esbugalhou numa expressão de horror aqueles olhos divinamente lindos e torceu-se toda num arranco mortal.

Nenhum dos bandidos pôde ouvir então um ruído seco, metálico, tal como se viesse do sobrado. E não o ouviram porque foi precisamente quando Platow disse freneticamente:

- Já! Depressa!

Ouviu-se a detonação de um tiro.

- Mataste-me! - regougou Platow.

De olhos esgazeados, o rosto descomposto, numa lividez mortal, o russo abriu os braços e o seu corpo de gigante caiu para trás num baque soturno e trágico.

Maria Pulaski disparara-lhe a pistola debaixo para cima e a bala entrara-lhe pela parte inferior do peito.

Os auxiliares do russo, guerrilheiros e bandidos espanhóis, largaram-na apavorados, correram para a janela, abriram-na, saltaram para a alameda contígua. O que estava à porta fugiu também, dando uns assobios de sinal, provavelmente para os que estavam na rua.

Maria fez um esforço enorme para arrancar a mordaça ou sequer deslocá-la. Não pôde e nem sequer teve forças para a erguer. Arrastou-se então pelo soalho, penosamente, em busca do filho, com o sentido nele e no outro, o pobre Fanfan.

Mas as sufocações produzidas pela mordaça estonteavam-na, punham-lhe nos olhos uma nuvem de sangue.

Arrastou-se ainda mais, em gélidos suores, o colo num arquejar violento, como se lho estivessem agitando ondas de soluços e o coração lhe quisesse fugir daqueles terrores que podiam enlouquecê-la. Mas na sua desorientação de pavor, como se estivesse demente e cega, em vez de se aproximar das crianças, mais se abeirava de Platow, o morto repugnante e odioso.

De súbito foi tocar com a face na mão grande e hirta do perseguidor, sentiu aquele frio horrível que só têm os mortos, e num repelão de terror, um grito enorme represado na mordaça, venceu de rastos, em convulsões como de epiléptica, mais alguns passos na direcção da porta, e desmaiou.

Na alameda, o ruído de uma carruagem à desfilada. E os pequenitos lá estavam deitados no soalho, de faces congestionadas, os olhos esbugalhados, num pavor de loucos.

João Luís e Tricard tinham querido vir mais cedo, mas dois malditos espanhóis, certamente da mesma quadrilha dos auxiliares de Miguel Platow, haviam-se metido na patuscada com os outros dois granadeiros, levaram-nos para uma taberna e conseguiram embriagá-los. João Luís tentara trazê-los consigo, porém, os espanhóis opuseram-se, altercaram e deu a contenda num conflito violento, em que o grande amigo de Luís de Castro se viu na necessidade de desancar uns dos falsos contrabandistas.

Quando vinha para casa com o Tricard, partiu a carruagem à desfilada e logo isto lhe causou estranheza. Encontrou as portas abertas e foi dar com a criada estendida no corredor.

- Meu Deus! Houve alguma desgraça nesta casa! Má raios me partam! -rouquejou, muito pálido.

Correu para dentro. Tricard ficara a desamordaçar a criada.

- Deus da minha alma! Que tamanha desgraça! - gritou João Luís à porta da saleta, num aturdimento dos sentidos - Malfeitores! - murmurou.

Debruçou-se para Maria Pulaski, sem reparar em mais nada, sem poder reflectir, de olhar desvairado, o cérebro entontecido por aquela surpresa, assim como se a ruína de um lar lhe houvesse desabado sobre o crânio. Desamordaçou-a, levantou-a nos braços, chamou-a a chorar, a pedir-lhe perdão pela sua falta.

Maria voltou a si; o granadeiro sentou-a.

- Mas o que se passou aqui, minha senhora?!

- Um horror! A minha má fortuna! - balbuciou -, João!... As crianças! - pediu-lhe sumidamente, indicando-lhas.

O granadeiro correu para os pequeninos e levantou nos braços o Joãozinho.

- Meu querido menino! - soluçava, a tirar-lhe a mordaça.

- Dê-mo... para aqui -? solicitou Maria, em tentativas inúteis para se levantar, a tremer numa angústia de pavor, a alma a fugir-lhe para o filho e os olhos a volverem-se-lhe pertinazmente para o cadáver repulsivo do cossaco.

João Luís foi pôr-lho no colo, meio desmaiado, arquejante, sem poder falar.

Tricard entrara em busca do Fanfan e tomou-o nos braços, numa aflição como de pai extremosíssimo.

- Não podes falar, meu querido amor! - soluçava Maria Pulaski, acarinhando o filho.

Como enlouquecido, os punhos contra os olhos, num desespero de remorso, João Luís deu uns passos hesitantes e tropeçou no cadáver.

Inclinou-se muito para ele como instintivamente, para o fixar bem.

- Guerrilheiro? Salteador? Não! Não! Disfarçado! A cara dele! Entendo agora! Entendo! O lobo danado! Platow!

E após estas palavras estonteadas, roucas, odientas, disse com uma grande expressão de rancor e de surpresa, batendo-lhe com o pé:

- Bem morto! Mas quem o matou, minha senhora? Em meia dúzia de palavras, entrecortadas de soluços, ainda oprimida de terror, lhe resumiu Maria Pulaski o modo como conseguira matar Platow.

- Maldito que eu sou! Quem o devia matar era eu, e eu faltei ao meu dever! Minha senhora, não sou digno de ficar nesta casa! Não sou!

Ouviu-se o tropel de cavalos. Maria levantou-se à sobreposse com o filho nos braços.

- João, não pense em disparates. Ajude-me a ter ânimo.

Filhinho, não tenhas medo. Estou eu aqui, meu amor.

Relanceou ainda um olhar de repulsão para o cadáver de Platow. Estava com o rosto hediondo, horrorosamente contraído, os olhos como se a tivessem fitado numa suprema expressão de ódio, o sangue a escorrer-lhe lentamente do peito.

- Deus me perdoe! - murmurou -, Não tinha outra defesa!!

João Luís acercara-se outra vez do morto.

- Ladrão! Ladrão! Ficas sendo o maior remorso da minha vida, porque não fui eu que te matei.

Ouviram-se passos apressados no corredor. Maria foi direita à porta, num andar hesitante, sempre a acarinhar o filho, a pedir-lhe que falasse.

- Maria! Maria!-chamavam. Era a voz do marido.

- Luís! - respondeu-lhe num fio de voz, transpondo a porta.

- Que houve aqui, Maria?! As portas de par em par, os meus dois soldados perdidos de bêbedos lá em baixo!. Mas tu, que palidez, que expressão de pavor!

O pequenino abraçara-se nela a chorar.

- Maria, fala! - insistiu Luís de Castro.

Manuel de Albuquerque e Henrique de Castro vinham com ele e aproximaram-se mais.

- A casa foi assaltada... por uns poucos de homens. Ladrões?!

- Não. Auxiliares de Miguel Platow. Vivia! Queriam levar-me... amordaçaram este pobrezinho, amordaçaram-me!

- Ele também?! - perguntou, desfigurado.

- Ali - disse, afastando-se.

Apontou o cadáver do cossaco, sem olhar para ele. Luís avançou como um desvairado, os punhos cerrados, o peito numa convulsão de ódio.

Lembrou-lhe esmagá-lo debaixo dos pés como um réptil asqueroso, mas de súbito lhe voltou as costas em repelões de horror e de nojo.

- Não! Apesar de tudo é um morto. Voltou-se para Maria e perguntou-lhe:

- Foi o João Luís quem o matou, adivinho?

- Não, meu Tenente-Coronel. Foi a senhora quem o matou. O miserável do João Luís faltou ao seu dever; acabou para V. S.a, merece que o escorrassem daqui a pontapés! - disse numa tremura de voz, as lágrimas a saltarem-lhe dos olhos em fio.

- Não lhe dês ouvidos, Luís. Ninguém podia sonhar com semelhante audácia e ele tinha saído com os outros.

E, ainda numa grande tremura nervosa, lhe contou rapidamente como as coisas se tinham passado.

Luís abraçou-a com enternecida admiração; beijaram-lhe a mão o tio e o cunhado.

- Como se fosse de uma santa ou de uma rainha esta mão vingadora - disse-lhe comovidamente Manuel de Albuquerque, dobrando o joelho.

- Foi então o último tiro deste dia do final desta campanha - observou Henrique de Castro.

- Acaba a guerra? - perguntou Maria num alvoroço de júbilo.

- Acabou.

Efectivamente, o generalíssimo inglês recebera um emissário com a notícia de Paris ter sido tomada pelos coligados. Napoleão fora deposto. Estava prisioneiro em Fontainebleau. Paris aclamava um rei Bourbon. Luís XVIII era rei de França.

Baqueara do mais soberbo trono épico erguido na Europa, esse que fora o mais assombroso conquistador que ainda viu o mundo.

- Ah, Luís! A paz, o regresso à tua pátria, que é também a minha por ti! O nosso lar, a nossa família, longe de todos estes horrores de sangue!

Instantes depois, por indicação de Luís de Castro, o João Luís rebuscava os bolsos de Miguel Platow.

Encontrou-lhe papéis dirigidos para Bordéus. Era ele, sem nenhuma dúvida, o oficial russo que levara despachos ao Duque de Angouleme. Entre as cartas havia uma de sir George Murray, o inglês que salvara Luís de Castro no Berezína. Dava-lhe pormenores a respeito do oficial português e aludia a um encontro que tivera com Miguel Platow no princípio de 1813, em Smolensko. Parecia que o russo, casualmente, ficara ao facto dos lances da vida de Luís de Castro, posteriores ao desastre do Berezina. Comprende-se agora o intuito com que Platow estivera falando com dois oficiais portugueses, havia um mês, em Bordéus. Colhia novas informações, provavelmente.

Eram já 11 horas da noite. Luís de Castro disse para o granadeiro:

- É preciso levá-lo daqui. -? Posso eu enterrá-lo.

- Sim, e nessa penitência repugnante resgatarás isso a que tu chamas a tua falta, já perdoada neste abraço. Meu irmão, meu devotado amigo! - disse, apertando-o contra o peito.

- Deus lhe pague tamanho consolo!-rouquejou o granadeiro.

Maria, o marido, o tio e o cunhado saíram da saleta.

- Vá, camarada, eu te ajudo - disse-lhe o velho Tricard, no seu detestável espanhol.

E ajudou-o a levar o morto. Fazia luar.

A pequena distância da casa, num pedaço de chão alagadiço, João Luís parou,

- Aqui, para apodrecer mais depressa.

Pousaram o cadáver, e o granadeiro português tomou o enxadão que Bernard Tricard trouxera ao ombro.

- Isto é penitência só para mim. Tem de ser uma cova comprida.

Arregaçou as mangas e as calças e pôs-se a cavar com ânsia. Escorria em suor.

- Pronto! - disse ao cabo de um quarto de hora. Saltou para fora da cova e rebolou para lá o cadáver. Sentiu em baixo um baque soturno. Puxou para dentro

com o enxadão a leiva húmida, negra, pegajosa.

- Para apodreceres depressa, de maneira que nem os lobos te queiram, malvado! Estão ajustadas as contas. Ao menos, fui eu o teu coveiro, já que não tive a fortuna de te matar!

Àquela mesma hora, sozinha no seu quarto, diante de uma imagem pequenina da Virgem, Maria Pulaski rezava, a tremer, suplicando perdão para si por aquela morte e misericórdia para a alma do seu implacável perseguidor.

 

         CONSOLADORAS JORNADAS.

Tinham mudado para Tolosa, uma grande e velha cidade de remotas tradições, admirável pelos seus templos, pela sua Universidade, pelos restos das suas construções medievas.

No dia 12 saía para Lisboa, com despachos de Wellington para D. Miguel Pereira Forjaz, o tenente-coronel Conde de Vila Flor, ajudante-de-campo de Beresford. O Conde oferecera-se a Henrique de Castro para levar notícias a D. Matilde, e levou, afinal, cartas de Manuel de Albuquerque, do Coronel, de Luís de Castro e de Maria Pulaski.

Vinham chegando novas informações de Paris e os jornais ingleses traziam largas notícias a respeito de Napoleão.

Em Tolosa, tal como em Dax, em Pau, em Bordéus e São João de Luz, os soldados portugueses eram exemplo de comedimento, de afabilidade e de inquebrantável disciplina.

Também por isso os habitantes timbravam em dar-lhe testemunhos de apreço, que chegavam até à intimidade afectuosa como de amigos. Os oficiais tinham entrada nas melhores casas e naquela velha cidade, terra clássica de poesia, até os poetas consagravam versos aos valentes soldados de Portugal. E na cidade de Pau, como em Bordéus e Tolosa, bailes e recepções entusiásticas.

A entrada das tropas anglo-portuguesas na velha cidade de Tolosa fora uma coisa triunfal, admirável de entusiasmos e de gratas recordações.

É preciso confessar que nestas singulares homenagens aos invasores colaborava em primeiro lugar a política dinástica, o fervor dos realistas pela sua causa vitoriosa; mas é também incontestável que a França cansara em vinte anos de aventuras militares, levada de batalha em batalha pela ambição insaciável de seu mais prodigioso general, e como que sentia agora uma impressão de alívio.

Estava-se nos primeiros dias de Maio. Henrique de Castro veio mais cedo do quartel-general. Trazia uns poucos de jornais ingleses e a cópia de alguns trechos da ordem do dia de Beresford.

- Venho carregado de notícias - avisou logo.

- Vamos a elas - disse o tio Manuel.

Estavam na casa de jantar. Maria Pulaski e Luís de Castro entraram naquela ocasião. Sentaram-se todos em volta do Coronel. No jardim, o Joãozito brincava com o Fanfan, vigiado pelo João Luís. O velho Tricard vivia em casa da filha, no enlevo dos seus dois netitos, mas ia todos os dias a casa do Tenente-Coronel com o Fanfan, o seu Napoléon Lagloire do Sobral de Mont'Agraço.

- Vamos por partes - disse o Coronel, abrindo um dos jornais ingleses - Não traduzo; resumirei o mais importante. E vai em primeiro lugar esta notícia de surpresa.

- Cá estamos à espera - disse o tio Manuel - Conta sem rodeios.

- Napoleão tentou suicidar-se e chegou a tomar uma porção de ópio.

- Ele, que tão severamente condenava o suicídio como supremo aviltamento da coragem humana! Chamava-lhe a maior prova de cobardia!

- Diz aqui este jornal que o moveu àquele acto de desespero a desconfiança de que as nações vencedoras o sujeitassem a insuportáveis humilhações.

- Mas salvou-se! - comentou Manuel de Albuquerque.

- Salvaram-no. Acudiu-lhe a tempo o dr. Yvan, precisamente o mesmo que, há pouco mais de um ano, durante a retirada da Rússia, lhe entregara uma porção de ópio, a mesma, para o caso de ser aprisionado pelos cossacos.

- Mas, que demónio! Era um veneno velho! - observou Manuel de Albuquerque.

- Que Napoleão guardou e trazia consigo.

- Pois perdeu uma excelente ocasião de o tomar no dia em que abandonou os destroços miserandos do Grande Exército(1).

- E que destino lhe dão agora?

- Mandam-no para a ilha de Elba com um batalhão da sua velha Guarda.

- Prisioneiro?

- Não; vigiado.

- Espécie de monarca honorário nessa ilhazita onde mal podem caber com ele as recordações e as saudades da sua espantosa vida de triunfador. Há quatro anos era um monarca omnipotente e os seus exércitos dominavam a Europa, do Vístula ao Coa!

- Foi no Buçaco, meu caro Luís, que esse poder sofreu o primeiro revés.

 

*1. Thiers refere largamente aquela tentativa de suicídio, de pág. 121 a 122, do tomo IV, da sua História do Império.

 

- Há nove días, diz aqui este jornal - continuou o Coronel - Napoleão saía de Fontainebleau com meia dúzia de amigos fiéis e o seu batalhão de veteranos da Guarda. Aclamavam Luís XVIII quando ele passava. Teve de jornadear de noite como um foragido! Alguns dos seus marechais tinham já reconhecido o novo rei. Marmont era um desertor, Ney, um renegado do Império, Berthier transigia; Augereau mandava publicar em Valence esta proclamação, que é a quinta-essência da doblez e da subserviência política.

Traduziu: «Soldados! Estais desligados do vosso juramento; desligou-vos dele a nação que representa a suprema soberania, e também a própria abdicação desse homem que, depois de ter imolado à sua cruel ambição milhões de vítimas, nem sequer soube morrer como um soldado!»

- É a verdade - disse Manuel de Albuquerque - mas isso podia dizer a Europa, nunca um marechal do Império, um colaborador dessas crueldades. Sempre a velha fábula do coice no leão decaído! Isso é vil!

- Em volta da carruagem desse homem, que por tantos anos foi o semideus triunfal que a França aclamava em arroubamentos de orgulho, quando ele lhe levava como troféus as bandeiras de tantas nações vencidas, em volta dele uma turba a gritar: Abaixo o tirano! Abaixo o tirano! Vivam os aliados! Mata-se! Dêem-nos para cá esse homem para o afogarmos no Ródano. E em Paris as janelas engalanadas de colchas e de flores, os sinos em repiques festivos, os salões e os teatros abertos de par em par, recamados de louros e fulgurantes de luz para as homenagens aos vencedores! Nas ruas, as mulheres galantes caem nos braços dos cossacos e nas Tulherias os académicos do Instituto de França dobram o joelho diante do czar Alexandre, e lêem-lhe a sua mensagem de felicitação, repugnante de humilhadoras blandícias! Aqui o diz este jornal inglês.

- Em todos os tempos e em todos os países a canalha é sempre a mesma! - disse Luís de Castro num impulso de revolta - E a canalha doirada e ilustre, por vezes ainda pior que a outra de esfarrapados e de famintos!

- Foram mais generosos os estrangeiros vencedores! - comentou Manuel de Albuquerque - Tão generosos, que lhe dão o refúgio de uma ilha, bem perto da França e a dois passos da Córsega! E talvez se arrependam. As águias não podem viver engaioladas, e a ilha é pequena gaiola para tamanha águia.

- Agora vamos às coisas que directamente nos interessam - disse o Coronel -, Wellington está radiante com esta nossa campanha. Ouvi-lhe eu dizer que pôde influir poderosamente nos destinos da Europa com os seus setenta mil ingleses e portugueses e com sessenta mil, para cá dos Pirenéus, fez relativamente mais do que as nações coligadas com o meio milhão de soldados que passou o Reno(1). E olhem que não é fanfarronada. Nem Wellington é homem para farroncarias. Pelas vitórias do Buçaco, de Fuentes d'Onoro e Albuera realentámos a alma espanhola, quase esmorecida, e agitámos o sentimento nacional da Rússia no período de maior poder que teve Napoleão. Com as batalhas dos Arapiles e Vitória evitámos que os espanhóis se congraçassem com o rei José, fazendo da Península um domínio suserano do Império; fizemos anular as negociações de paz na Alemanha,

 

*1. «Com 60.000 anglo-portugueses obteve Wellington) mais notáveis resultados no sul do que os monarcas aliados com meio milhão de soldados nas fronteiras do norte e este; e, todavia, em 10 de Novembro de 1813 o exército de Soult era mais forte que o de Napoleão na batalha de Brienne!» (General Brialmont, a pág. 141, do tomo II, da História do Duque de Wellington).

 

e contribuímos moralmente para a enorme derrota dos franceses em Lípsia. Com as batalhas dos Pirenéus, de Nivelle, de Nive e Orthez, concorremos para que novamente se frustrassem as negociações de paz entre os coligados e Napoleão.

- Perfeitamente de acordo - disse Luís de Castro - Mas para tudo isso perdeu Portugal dois terços das suas riquezas móveis, talvez trezentas mil almas da sua população e ficou devastado como se uma tempestade enorme o houvesse flagelado durante três anos!

- Bem sei. E o exército deixou pelos campos de batalha desta guerra de seis anos o sangue de vinte e quatro a vinte e cinco mil homens(1).

- Proporcionalmente, sofremos mais do que a Espanha e conseguimos mais do que ela(2).

- Mas nos ajustes diplomáticos hão-de ver que seremos nós os menos favorecidos - observou Manuel de Albuquerque - O esforço foi grande mas a nação é pequena.

- É possível e é talvez provável. Não são boas as cabeças que governam;

 

*1. Durante aquela dilatada guerra, as tropas portuguesas entraram em 15 batalhas campais, 211 combates, 14 sítios de praças, 18 assaltos, 6 bloqueios e 12 defesas de linhas estratégicas e fortalezas.

  1. «Quanto aos portugueses ainda se lhe não fez a justiça que merecem pela sua cooperação nas guerras da Península. Menos cruéis, muito mais disciplinados e de mais serena coragem que os espanhóis, constituíam no exército de Wellington muitas brigadas e divisões, que, sob o comando de oficiais ingleses, em nada eram inferiores às tropas britânicas; mas, menos enfatuados que os espanhóis, -pouco têm falado de si e dos seus feitos, e a fama não os celebrou tanto como a eles». (Memórias do general Barão de Marbot, tomo II, pág. 485).

Referindo-se à expulsão dos franceses da Espanha, o chefe de batalhão Guingret escreveu: «erradamente se atribui esta glória aos espanhóis; antes são eles que devem a liberdade da sua pátria, principalmente, aos esforços da Inglaterra e aos de Portugal. (Relation Historique et militaire, etc, 234).

 

a corte vai-se entretendo nas delícias do Brasil e, nas mãos de semelhante gente, ficaremos de rastos ante a Europa, apesar do muito que fizemos.

- Dizes bem - apoiou Manuel de Albuquerque - Os erros, os desleixos, a subserviência devoradora e reles dos que nos têm governado e governam, fizeram da aliança inglesa, não um pacto honrado e útil, pela reciprocidade dos esforços e dos interesses, mas um jugo insultante, cada vez mais pesado e mais deprimidor!

- Tem razão, tio. E por esse jugo não são os ingleses os mais culpados, apesar da sua natural altivez. Quem lhes estende o pescoço são os que nos governam.

- Ajoelham-se para que os montem como fazem os camelos. Querem eles próprios a tutela, vão provocá-la com a sua incapacidade, com a sua moleza inútil de frades comilões e pachorrentos, quando a não solicitam de rastos para evitar canseiras e esforços de mioleira que lhes estraguem a digestão. E algumas vezes tão de rastos que até os próprios solicitados lhes hão-de ter nojo.

- E até aqui no exército!

- E, todavia - comentou Luís de Castro - nenhuma aliança mais antiga, mais proveitosa e segura, nenhuma outra assim ligada por glória e interesses políticos, nenhuma que devesse considerar-se mais honradamente útil, se a não adulterassem miseravelmente nas chancelarias do Estado, por inépcia, por indolência, por acomodatícia cobardia! O povo fez o seu dever com uma abnegação que tocou as mais altas culminações da heroicidade, e o exército, filho insigne desse povo, tão alto levou as glórias épicas do país que podem voejar nas suas bandeiras os mais soberbos versos dos Lusíadas, como se para ele os houvesse escrito Camões!

- O nosso grande mal está, principalmente, nos sacripantas da corte e nos desavergonhados devoristas das secretarias de Estado.

- É bem verdade tudo isso - concordou o Coronel, - mas afastemos agora de nós esse assunto irritante e vamos a ver o que diz dos nossos soldados, em nome do inglês sír William Carr Beresford, esta recente ordem do dia.

Leu estes trechos:

«S. Ex.a o senhor marechal Beresford, marquês de Campo Maior, felicita outra vez a nação e o exército português pela nova prova de valor e disciplina que o dia 10 do corrente mês deu às tropas de sua Alteza Real, o Príncipe Regente, nosso senhor, ocasião comum».

- Sua Alteza - interrompeu Manuel de Albuquerque -, deve estar enternecídíssimo e num consolo que dura há seis anos naquela sua real fazenda de Santa Cruz do Rio de Janeiro. Pudera! Fartinho de ananases e goiabada, estou já fazendo ideia da sua ternura quando souber a sangueira final com que os seus soldados contribuíram para a queda desse caipora(1) de Napoleão.

Riram e até Maria Pulaski sorriu.

- Mas continua lá"-disse para o sobrinho - continua, que me sabe bem ouvir o que o inglês diz ao exército nessa arrevesada linguagem do quartel-general.

O Coronel continua a ler:

«As tropas portuguesas rivalizaram, como é do seu costume, em valente conduta com os seus irmãos de armas do exército britânico, e o último acto de guerra não foi para as tropas das duas nações o menos glorioso; e as de Sua Alteza, pela sua conduta na batalha de Tolosa, não só sustentaram até ao fim o seu carácter valoroso e de excelentes soldados, mas ainda aumentaram a sua glória e a da sua nação por este feito de armas. S. Ex.a experimenta a mais viva satisfação com a perspectiva que se apresenta a este valoroso exército de voltar para os seus lares, todo coberto de glória, e adquirido a admiração e estima dos seus aliados e da Europa... etc.

 

*1. Termo brasileiro que indica pessoa nefasta, prejudicial a outra.

 

- E quando será o regresso, ainda se não sabe? - perguntou Maria.

- Provavelmente, ainda aqui teremos demora.

- Oxalá que seja pequena - volveu Maria -, Isto aqui é belo, mas eu tenho saudades de Lisboa. Estou aqui a sonhá-la com o seu lindo céu, o seu grande rio, as suas montanhas tapizadas de flores.

E logo, baixo, para o marido:

- A terra dos meus amores.

Estava-se em fins de Julho. Wellington partira para Paris; Beresford ia com licença a Inglaterra.

Henrique de Castro entrou em casa num alvoroço de alegria.

- Alvíssaras, minha querida irmã.

- Vamo-nos embora, estou a adivinhar.

- Vamos. Chegou ordem para os ingleses embarcarem em Bordéus e Bolonha. Nós vamos por terra. Só os nossos doentes irão embarcados. Jornadas fatigantes por aquela Espanha dentro; um mês de viagem, bem puxado e, demais a mais, com estes intensos calores!

- Deixá-lo, deixá-lo - respondeu Maria - É para voltar a Portugal, para voltar a Lisboa; consoladoras jornadas.

- Mas agora não consinto que vás a cavalo; hás-de ir na carruagem - disse-lhe o marido.

- Como quiseres, mas não hei-de ir longe de ti. Apareceu o Bernardo Tricard com os dois netinhos e ao lado deles o pequeno João de Castro e o Fanfan.

Maria fez muitas festas aos netos do velho granadeiro de Austerlitz.

- Ainda bem que veio, meu caro Tricard - disse-lhe Luís de Castro -, Vamos regressar a Portugal e temos de falar a respeito do nosso Napoleão de Glória.

Sei que é pobre e receio que, apesar da sua boa vontade, lhe não seja possível tomar o encargo do pequeno, que é já um grande amigalhote do meu. Eu levo o Fanfan comigo, do melhor agrado, se o senhor Tricard entende que não pode ficar com ele.

- Eu tenho-lhe amizade, coitadito! - respondeu o ex-granadeiro comovidamente -, mas sou pobre como Job e não tenho o direito de impor ao meu genro o encargo de mais uma criança. Faz-me pena deixar o Fanfan, foi o companheiro das minhas últimas campanhas, há-de deixar-me muitas saudades; mas é com o sr. Tenente-Coronel que ele vai bem. Olhará pelo futuro do rapazito... É uma felicidade para ele.

Tinha os olhos rasos de lágrimas o velho soldado.

- Obrigado, Tricard - disse-lhe Luís de Castro, apertando-lhe a mão -, Se não fosse a sua filha e os seus netos, oferecia-lhe um lugar em minha casa.

- Muito agradecido, senhor Tenente-Coronel. Se houver de deixar Tolosa, esta minha terra de França, o meu caminho será para a ilha de Elba. Está lá aquele grande general que me abraçou no dia do Marengo e me pôs ao peito a cruz da Legião de Honra do dia de Austerlitz. É amizade de vinte anos, que não muda como a fortuna mudou. Já que os seus marechais o abandonaram...

- Compreendo e admiro-o, meu caro Tricard. Tinha já começado a marcha de regresso do exército

português. Agora todos os nossos batalhões e regimentos constituíam brigadas, sem nenhuma composição de unidades inglesas. E a maior parte das de infantaria já comandada por oficiais portugueses. O brigadeiro Brandão da Silva comandava a brigada do Algarve, a 2.a (infantaria 2 e 14); o coronel Luís do Rego a 3.a (infantaria, 3, 15 e caçadores 8); Xavier Palmeirim a 6.a (7, 19 e caçadores 2); Teles de Meneses a 8.a (9, 21 e caçadores 11); José de Vasconcelos a 9.a (11, 23 e caçadores 7); João Carlos de Montevideu

(1816-1819), cobriu-se de glória no cerco do Porto e nas Linhas de Lisboa (1832-1833), batendo o marechal Bourmont, general dos tempos de Napoleão que se assinalara na conquista de Argel e teve o comando do exército miguelista; venceu as batalhas de Pernes e Almoster (1834) e a de Torres Vedras (1846).

O Duque de Saldanha foi o maior talento estratégico que teve Portugal no século passado e o mais brilhante dos nossos marechais.

 

*1. Numa ampliação elucidativa dos Apontamentos de Teotónio Banha, memora o sr. general Cláudio de Chaby o regresso dos sobreviventes da Legião: Incorporando-se uns nas fileiras do nosso vitorioso exército, ainda no território da França em 1814; vindo outros depois dos acontecimentos de 1820, etc. (Pág. 141).

 

Mas não vinham todos os sobreviventes. Alguns se tinham deixado ficar em França por sua vontade, pouquíssimos. Outros ainda estavam prisioneiros na Rússia. O Marquês de Alorna falecera em 1813; Pamplona, Loulé, Cândido Xavier e alguns mais ficaram por lhes ser vedado voltar a Portugal. Obrigados a seguir Massena em 1810, estavam condenados por traidores e não podiam voltar senão quando obtivessem indulto ou anulação da sentença(1).

De Bordéus tinham pedido informações ao quartel-general inglês a respeito do coronel de cossacos Miguel Platow, que ali fora em missão especial e nunca mais aparecera, desde o dia da batalha de Tolosa. Procederam a investigações, mas ninguém soube dar notícias daquele oficial.

Ninguém o podia ter surpreendido no seu disfarce de espanhol e a cova que o João Luís lhe abriu era suficientemente funda para guardar o segredo daquele homicídio justiceiro.

 

*1. Alorna falecera a 2 de Janeiro de 1813 em Conisberga; Gomes Freire ficara prisioneiro por efeito da capitulação de Dresda; voltou a França em Junho de 1814 e em Outubro foi considerado fora de serviço, por decisão de Luís XVIII, com a anuidade de seis mil francos.

Carcome Lobo só foi demitido do serviço de França em Outubro de 1814; Pamplona exerceu comandos em França, foi agraciado com o título de barão em 1817 e nomeado tenente-general pelo rei de França, em Abril de 1822; o brigadeiro Pego foi demitido do serviço da França e autorizado a voltar a Portugal em Agosto de 1815; Saldanha e Albuquerque só voltaram em 1818; Loulé era reconhecido coronel por Luís XVIII em Dezembro de 1814; Cândido José Xavier somente em 31 de Dezembro de 1821 teve demissão do serviço da França. (Extracto das notas oficiais publicadas na obra do sr. Boppe).

 

Uma grande carruagem de posta ia subindo lentamente pela áspera estrada dos Pirenéus para Pamplona. Atrás dela as bagagens da 1.a brigada; um pouco à retaguarda os cento e tantos esfarrapados da Legião, relíquias dos nove mil que em 1808 haviam saído de Lisboa.

Ao lado da carruagem, Luís de Castro e o irmão; dentro, Maria, o tio Manuel, os dois pequenitos e uma criada. Luís de vez em quando metia o cavalo para a retaguarda e ia conversar com os seus gloriosos camaradas de Wagram e do Moscova.

- Tio, vou radiante! Com esses regimentos que ajudaram a destruir o Império, vejo também as relíquias dos outros, assinalados nas duas maiores batalhas que Napoleão venceu, Sinto-me orgulhoso à frente desse minúsculo batalhão de heróicos esfarrapados.

- E eu - acudiu Maria - vou lamentando os vagares desta jornada. Tanta vontade de me ver em Lisboa e sabe Deus quanto tempo ainda para lá chegar!

Estava uma linda manhã. O sol desfizera a neve pelas escarpas das serranias e só os píncaros, quase a topetarem as nuvens, branquejavam, ainda coroados de gelos, a rebrilharem ao sol como coruchéus de cristal.

Era um domingo. Dera-se ordem para as brigadas descansarem num larguíssimo panal, entre cabeços de rochas abruptas a semelharem linhas de alguma construção fantástica de ciclopes.

Pelo meio-dia houve missa campal em todas as brigadas. Uma coisa piedosamente grande e uma devoção de particular fervor em algumas brigadas.

Foi enternecedora e soberba aquela missa nos Pirenéus! Bandas marciais que tinham tocado hinos de guerra faziam agora vibrar os hinos da igreja; a esvoaçarem por cima dos regimentos vitoriosos, bandeiras gloriosamente envelhecidas em seis anos de combates.

À elevação da hóstia a artilharia troveja, vibram tambores e cornetas, as bandeiras inclinam-se e os bravos de tantas batalhas formidáveis ajoelham.

No batalhão dos heróicos esfarrapados de Wagram e de Valontina alguém erguera também uma bandeira de bordaduras a ouro e manchas de sangue.

- Esta bandeira é também de Portugal - disse Luís de Castro, erguendo-a - e não ficou menos gloriosamente assinalada, que as outras desses nossos compatriotas, vencedores dos exércitos de Napoleão.

E ouviram a missa a chorar os esfarrapados daquela 13.a meia brigada que, na frase de Foy, se cobrira de glória na véspera e no dia de Wagram.

Esvoaçava triunfal pelas quebradas da serrania o hino patriótico de Marcos Portugal.

E por cima dos píncaros nevados, no lúcido azul do céu, as águias enormes dos Pirenéus voavam serenamente.

Só em princípio de Agosto chegaram a Portugal. Pela fronteira de Trás-os-Montes entraram os corpos das guarnições do norte, pela Beira, os que tinham os seus quartéis ao sul do Douro.

A 1.a brigada chegou à capital a 25. Outros regimentos tinham entrado antes.

A cidade agitava-se numa loucura de festas. Toda a gente que podia mexer-se estava nas ruas e pelas janelas, repicavam os sinos de manhã até à noite e as iluminações tinham começado em 16. Das portas de Arroios a Alcântara nada menos de trinta arcos triunfais com alegorias, bandeiras, retratos e versos entusiásticos. Só na Rua Augusta seis arcos!

Mas por entre aqueles júbilos febris uma sombra fúnebre de tristezas, hinos cortados por gritos de amargura, um lutuoso orvalho de lágrimas sobre os troféus das campanhas!

Havia milhares deles que não voltavam, que nunca mais podiam voltar. Pobres mulheres as que eram mães, filhas, esposas, irmãs desses que não vinham! Quantos pais enlutados e quantos órfãos sem abrigo! Caríssimo preço de sangue por aquela tamanha glória!

Às portas de Arroios a multidão era enorme. O tenente-general Paula Leite, governador das armas da Corte, esperava ali as tropas.

Estrugiam vivas, os sinos repicavam doidamente, as janelas estavam engalanadas de colchas e lauréis; salvavam as baterias.

Antes de chegar às portas de Arroios, recebeu Luís de Castro uma ordem do comandante da brigada para mandar fazer alto aos repatriados da Legião. Só entrariam na cidade depois de ter passado a brigada.

- O senhor Brigadeiro encarregou-me de dizer a V. S.a - comunicou-lhe o ajudante de Champbell - que pode entregar o comando dos apresentados ao oficial mais graduado e antigo que vem com eles e acompanhar o seu regimento.

- Prefiro acompanhá-los a eles - volveu-lhe comovido.

E disse de si para si, tristemente:

«Não querem que os esfarrapados ponham uma sombra nesta marcha triunfal! Pois deviam ter orgulho por eles.»

Ficaram esperando tristemente. Alguns choravam.

- Como se a gente tivesse culpa de nos terem mandado para França! - comentou doloridamente João Luís - Nós cá então não podemos ter pressa de ver os nossos! Que eu, valha a verdade, até estou com receio de saber o que foi feito da minha pobre velhinha.

- Aqueles que têm família em Lisboa podem sair - afirmou Luís de Castro para a sua pequena coluna de desarmados, - Têm licença minha. Bastará que se apresentem à noite no quartel de Campo de Ourique. Ninguém saiu da forma.

- Vamos todos juntos com V. S.a - disse o sargento antigo, a quem Luís de Castro confiara a bandeira de Baumersdorf, presa ainda à mesma haste que lhe servira na missa campal dos Pirenéus.

Manuel de Albuquerque e Henrique tinham ficado ao pé da carruagem, umas centenas de passos à retaguarda.

- É melhor que vão indo para casa - foi dizer-lhes Luís de Castro - Eu lá irei, assim que tiver acompanhado a minha gente.

- Pois sim - respondeu Maria com mal disfarçado pesar.

A carruagem rodou vagarosamente para ir tomar a frente dos soldados. Já mal se ouviam as bandas da brigada; chegavam sumidas as vibrações triunfais do hino composto por Marcos Portugal; mas os repiques e os vivas esses revoavam ainda pelos ares intensamente.

- Aqui, vai em sete anos, vi eu entrar os mil e quinhentos estropiados de Junot - recordou Manuel de Albuquerque - Que tropel de acontecimentos e que mudança de tempos!

Vinham do lado oposto, vagarosamente, um coche e uma berlinda.

- Tio! -disse Henrique, sofreando o cavalo - Aquele é o coche de nossa casa! É a berlinda pequena! Vêm ali certamente para nos esperar.

Voltou-se para trás.

- Luís! A nossa família! -gritou.

Muito pálido, o irmão meteu a cavalo para a frente.

O coche e a berlinda pararam. Os dois e o tio Manuel apearam-se. Maria saiu da carruagem com o filho; o Fanfan ficou com a criada.

No coche vinha D. Matilde com D. Branca, os dois filhitos do coronel e uma velhinha muito mirrada.

Foi enternecedor.

- Os meus filhos! - soluçou D. Matilde de braços abertos para eles.

- Tu primeiro, Luís. Há seis anos que não a vês - disse-lhe o irmão.

- Mãe, minha santa mãe! - rouquejou o Luís, a chorar.

- Filho, agora já posso morrer! Tenho-te comigo! - soluçou a beijá-lo.

Depois Henrique beijou os cabelos brancos da mãe e foi abraçar a esposa e as criancinhas.

- Minha extremosa mãe! - exclamou Maria Pulaski, cingindo a si o peito arquejante de D. Matilde -, João, esta é a tua avozinha - disse, puxando o pequeno para os braços da comovida senhora.

E do fundo do coche uma voz sumida e trémula perguntou:

- E o meu filho não vem?!

Era a mãe de João Luís. D. Matilde tivera a piedosa lembrança de a trazer consigo.

Luís de Castro chamou alto pelo granadeiro.

- João, tens aqui a tua mãe.

- Ai, a minha querida velhinha! - exclamou o João, correndo para o coche.

E já àquele tempo três velhos se tinham apeado da berlinda. Um deles, mais robusto, ajudava os dois. A um deles faltava um braço, o outro tinha os olhos brancos, parados.

Quem os ajudava era o padre Diogo Martins.

- Jerónimo - disse-lhe Manuel de Albuquerque - aqui tens juntos os nossos dois valentes. Mar-e-Guerra, são dois bravos!

- Senhor João Pulaski! - exclamou Luís, tomando o velho nos braços.

- Maria?

- Aqui, pai da minha alma!-respondeu-lhe ela a chorar e a beijá-lo piedosamente.

Depois um lance enternecedor do cego a tactear o rosto do neto e a amimá-lo nuns requintes de pieguice infantil.

- Bem, até logo - disse Luís - Tenho de ir levar por esse caminho triunfal o meu punhado de esfarrapados.

Entraram no Rossio. Tinham já retirado as colchas das janelas e o povoléu fora atrás dos regimentos vitoriosos. Ninguém aclamava os bravos da Legião. Sob os seus farrapos alguns choravam. Na sua alma angustiada os repiques soavam como dobres, o eco das músicas distantes tinha para ela um significado de marcha funerária.

- Olhem aqueles sem armas! Que farrapagem!

- Parecem prisioneiros dos outros!

O sargento da bandeira levantou então os olhos tristemente para um dos arcos triunfais, o que tínha estes versos em letras douradas:

 

       A vossos pés tremeu vencida a França,

       Ante vós caminhou vitória e morte;

       Do jugo estranho libertais a Espanha,

       E exemplos destes de valor ao Norte(1).

 

- Não são versos para nós! - murmurou amargurado.

- Ora! - disse alto um velho artífice, desdenhosamente - Estes são os que andaram ao serviço do tirano francês.

- Estes foram os primeiros a mostrar à Europa que não era ainda de cobardes a nossa raça - volveu-lhe num grito de alma Luís de Castro,

 

 

*1. Vêm transcritos aqueles versos nos Excerptos históricos do general Cláudio de Chaby.

 

e deu a voz de alto - Estes igualaram, e algumas vezes excederam, os melhores soldados que tinha Napoleão, honrando o seu nome de portugueses! Sargento, mais alta essa bandeira, que é também da nossa terra! Os esfarrapados de Wagram e do Moscova saúdam a sua gloriosa terra de Portugal.

Ouviram-se os vivas convulsos dos legionários, o velho sargento levantou a toda a altura a bandeira clandestina de Baumersdorf, e um rosário de lágrimas se lhe desfiou pelo bigode embranquecido.

 

 

               EPÍLOGO

 

Depois de quatro meses de tranquilidade suavíssima no seu palacete de Xabregas, pediu Luís de Castro a concessão de licença ilimitada para ir ao estrangeiro liquidar a questão da herança de André Pulaski, avaliada em cerca de três mil contos.

Em princípios de Fevereiro de 1815 partiu com a esposa e o filho para Viena de Áustria. João Pulaski ficara em Lisboa em casa dos Castros.

Um congresso diplomático liquidava então, em Viena, a situação política da Europa e os direitos e restituições que competiam aos diferentes estados. Era a liquidação da guerra sobre o espólio napoleónico.

A despeito dos devotados esforços dos seus representantes no congresso, Portugal era talvez o único país lesado na partilha e nas restituições, apesar do enorme sacrifício de sangue e de interesses com que, esforçadamente, contribuíra para a queda de Napoleão. Naquela representação de grandes nacionalidades mesquinha sombra fazia a sua pequenez material e, à medida que os dias iam passando sobre as batalhas vencidas, mais a Europa se ia esquecendo de quem mais ajudara a vencê-las. Os nomes dos generais ingleses ofuscavam a massa anónima dos nossos soldados. O sangue dessora e some-se com o tempo; o oiro reluz sempre. Foi o oiro esterlino que sustentou metade do exército de Portugal, e foi de sangue o nosso maior tributo. E esse estava já ressequido nas ruas e nas montanhas da terra portuguesa, ou sumira-se de todo nos campos de batalha. Era uma coisa já prevista aquela injustiça.

Wellington fazia então parte do congresso. Luís de Castro devia-lhe cativantes favores que nós conhecemos, um justiceiro amparo que lhe deu a reabilitação e o regresso à pátria; não podia esquecê-lo e foi apresentar-Lhe as suas homenagens.

A 7 de Março, quando o congresso tinha quase concluída a sua liquidação política, rebentou em Viena, como se fosse uma granada capaz de abalar a Europa de lés a lés, esta espantosa surpresa de um despacho de lorde Brugherst para o feld-marechal, Duque de Vitória: Napoleão fugiu da ilha de Elba.

A seguir veio um despacho para o Príncipe de Metternich a confirmar aquele. No dia seguinte, outro. Napoleão tinha desembarcado em França; os velhos soldados aclamavam-no, juntavam-se-lhe; Ney perjurara outra vez, entregando-lhe Lião.

Volvidas umas semanas de hesitações e de assombros no congresso, novas informações fulminadoras.

Napoleão entrara triunfante em Paris e instalara-se nas Tulherias, na mesma noite em que Luís XVIII de lá fugira tremente.

Era outra vez a guerra da Europa contra aquele homem!

Em fins de Março corria em Viena que o congresso ia ser encerrado e que Wellington partiria para Bruxelas. Napoleão propunha a paz, mas a Europa desconfiou da sinceridade da proposta, talvez um estratagema para ganhar tempo, e votou pela guerra.

Luís de Castro foi visitar o glorioso general inglês.

- Outra guerra europeia - dizia-lhe Wellington -, é necessária e conto que será vitoriosa para nós. As potências fizeram há dias um novo tratado ofensivo e defensivo. Cada uma contribuirá com as melhores forças dos seus exércitos. Não foi esquecido o seu país. Espero ter outra vez sob o meu comando os valentes soldados portugueses do Buçaco e dos Arapiles, de Vitória e dos Pirenéus, do Nivelle e do Nive, de Orthez e de Tolosa. Vou pedir ao meu governo que solicite da Regência um corpo de quinze mil portugueses para reforçar o exército inglês nos Países Baixos. Os meus regimentos da Guerra Peninsular foram mandados para a América. Foi um erro. Terei agora muitos soldados inexperientes para opor a Napoleão e aos velhos soldados vencidos em Orthez.

- Então, senhor Duque, desisto da minha licença e regresso a Portugal para me apresentar.

- Não é preciso. Ultime os negócios da sua casa e vá ter comigo a Bruxelas. Tomá-lo-ei para o meu estado-maior, logo que cheguem as tropas de Portugal.

- Uma honra insigne, senhor Duque!

Castro foi logo dali preparar as suas coisas, mas nada contou a Maria Pulaski. Falou-lhe apenas de uma viagem a Bruxelas para negócios urgentes e prometeu levá-la consigo.

Na preparação da guerra, Napoleão fizera maravilhas. A trabalhar durante dezasseis horas por dia, em dois meses organizara quatrocentos mil homens e contava ter em Setembro setecentos mil. A França era um arsenal vastíssimo onde dia e noite se lidava com febril impaciência.

É verdade que, para além do Reno, um milhão de soldados se estava concentrando para invadir o território francês.

Wellington obtivera que o governo inglês pedisse à Regência de Portugal um reforço de quinze mil homens para incorporar no exército inglês, e neste sentido escrevera para o Rio de Janeiro ao Príncipe Regente, em 16 de Abril.

Chegara-se, porém, a meados de Junho e os portugueses não apareciam. Já então Blucher e Wellington tinham sob o seu comando 220.000 alemães, ingleses e holandeses e já os exércitos da Rússia e da Áustria vinham em marcha para invadir a França.

Afinal, o Duque recebeu deploráveis informações de Lisboa. Beresford tinha escolhidos e prontos a embarcar quinze mil dos melhores soldados e dos mais gloriosos regimentos da Guerra Peninsular, mas havia na Regência quem opusesse embaraços ao embarque, alegando umas certas faltas de formalidades diplomáticas e o próprio embaixador inglês em Lisboa, Canning, parecia empenhado em contrariar os desejos de Wellington(1).

Que seria preciso esperar do Brasil a autorização do Príncipe Regente, era, afinal, a alegação em que a Regência de Lisboa se firmava para não mandar meter os quinze mil homens a bordo dos transportes ingleses, já à espera deles no Tejo.

 

*1. Di-lo por outras palavras o general Brialmont e, como a justificá-las, transcreve este trecho de uma carta de Wellington: «Tenho comigo um exército detestável, (an infamous army), muito fraco, mal equipado e com um estado-maior de inexperientes». (A pág. 375, do tomo II, da História do Duque de Wellington).

 

É de crer que a estas relutâncias e demoras, movidas pelos homens da Regência, não fosse alheia a mágoa justificadíssima que em Lisboa produzira a ingratidão iníqua com que Portugal fora tratado no congresso de Viena, desamparado pelos diplomatas ingleses.

Se o esforço e o sangue de uma nação pequena não eram títulos que valessem nas chancelarias dos grandes estados, então era escusado levar mais aquele punhado de portugueses às chacinas europeias.

Mas Wellington sentia profundamente estas delongas. As primeiras batalhas não podiam tardar e o Duque punha grandes esperanças no experimentado valor daqueles soldados que não tinham deixado embarcar(1).

A 14 de Julho Luís de Castro chegou a Bruxelas, com Maria, o filho e o padre Diogo Martins.

Dois dias depois soube que já tinham começado as hostilidades. Em 15, Napoleão vencera o combate de Char-leroy e em 16 derrotara os cem mil prussianos de Blucher na batalha de Ligny. Era seu plano ir batendo em separado os exércitos coligados, já que as suas forças disponíveis não chegavam para os bater juntos.

Agora avançaria contra os cento e vinte mil ingleses, belgas e hanoverianos que Wellington comandava para os lados da floresta de Soignes.

Na tarde do dia 17, Luís de Castro foi apresentar-se ao generalíssimo inglês.

- Senhor Duque, venho pedir a V. Ex.a um lugar no seu exército.

 

*1. O general inglês atribuía a demora à malévola oposição do Principal Sousa (D. José António de Meneses e Sousa) um dos membros da Regência, irmão do Conde de Linhares. Já durante a terceira invasão se queixara da má vontade que sempre tinha encontrado naquele homem.

 

- Entre os meus ajudantes-de-campo.

- Serei o único de Portugal, já que os outros não puderam vir.

- Valendo por muitos.

- Sou de Portugal, senhor Duque, o homem que talvez mais deva a V. Ex.a. Traz-me aqui um acto de dedicação pessoal.

Repelido pelos franceses das suas posições de Quatre-Bras, o exército de Wellington foi forçado a retirar para Genappes, depois sobre Waterloo, concentrando-se e retomando posições em frente da floresta de Soignes.

Era intento de Napoleão bater os ingleses antes que os prussianos chegassem para os reforçar. Mas perdeu cinco horas à espera que o sol do dia 18 enxugasse e endurecesse os terrenos, transmudados em atoleiros pelas chuvas dos dias anteriores.

Eram 11 e meia. As divisões francesas de Jerôme, Foy e Bachaly atacam impetuosamente as posições inglesas no bosque e no castelo de Hougoumont. Foi uma luta sanguinosa. O castelo defendia-se heroicamente.

Passava do meio-dia. Os franceses tinham aprisionado um hússar prussiano, que trazia uma carta do general Bulow para Wellington. Comunicava-lhe que se aproximava com as suas tropas. Por determinação do Imperador, o marechal Soult expediu ordem a Grouchy para cair de flanco sobre o corpo de Bulow. Mas Grouchy estava a cerca de cinco léguas e não receberia o aviso a tempo de isolar o corpo inimigo e chegar a Waterloo antes da noite.

Era preciso decidir a batalha e os ingleses mantinham-se inabaláveis em Hougoumont. Importava batê-los sem delongas na esquerda e no centro.

Sessenta e dois canhões trovejavam contra o flanco esquerdo do exército de Wellington.

Eram duas horas.

Grandes massas cerradas de batalhões avançam do lado dos franceses. São as colunas do corpo de exército de Ney. Atrás delas a cavalaria de Millaud.

- Enfim! - exclamou Napoleão - Tenho nas mãos esses odiosos ingleses e em meu favor nove probabilidades contra uma.

Nas colunas cerradas dos franceses abrem os fogos inimigos brechas enormes, -mas ninguém ali hesita e a sua arremetida é soberba, como nos grandes dias de Austerlitz e de Wagram.

A primeira coluna derrota uma brigada holandesa, mas estaca dizimada pelos fogos de uma divisão inglesa, que se abrigara num relevo do terreno.

Combate-se de uma e outra parte enfurecidamente. Cai então morto um dos mais ilustres generais da Guerra Peninsular, sir Rowland Hill.

Avança outra coluna francesa a passo de carga, num arranque leonino, e os dragões ingleses de Pousoby carregam por Haie-Saint, passagem aberta sobre um dos flancos dos atacantes.

Reflui a primeira coluna contra a segunda, enovelam-se, desordenam-se as outras que lhe dão apoio e, na vertigem da carga, os dragões ingleses vão acutilando os artilheiros de Ney. Como nas cargas brilhantes do tempo de Murat, a cavalaria de Millaud e de Jaquinot arroja-se contra os ingleses.

A brigada de cavalaria ligeira da Guarda desbarata a primeira brigada inglesa e chega até à segunda em gritos de aclamação ao Imperador. Ney reforça o seu corpo de exército e ataca a posição de Haie-Saint, onde os ingleses mal lhe podem aguentar o ímpeto.

Na direita dos ingleses o castelo de Hougoumont está já envolto em chamas; espedaçam-no os grandes projécteis dos obuses franceses.

Wellington empenha na luta parte das suas reservas. A situação oprime-o. Aquela pode ser a sua primeira batalha perdida, tamanha batalha que anularia num dia todos os esforços da Europa durante seis anos!

De instante a instante assesta o seu óculo de campanha. Espera os prussianos de Blucher. Os seus ingleses já cediam terreno e começavam a esmorecer.

- Fazem-me aqui falta os caçadores negros dos Arapiles, os galos lutadores do meu exército de Vitória(1) - disse baixo para Luís de Castro.

- Senhor Duque, se mo permite, vou eu ver se os prussianos estão perto.

- Vá, sim.

Castro meteu a cavalo a toda a brida, debaixo de uma torrente de balas.

São 4 horas. Combate-se encarniçadamente nas posições do Mont-Saint-Jeari. No exército francês corria a notícia de que as tropas de Grouchy estavam já próximas do campo da acção. Seria um auxílio poderoso para decidir a batalha.

Wellington empenha desesperados esforços para reocupar Hougoumont e Haie-Saínt. Ney percebeu-lhe o enfraquecimento de centro, mas como não tem infantaria disponível para um ataque decisivo, arroja para a frente uma brigada de cavalaria. Na sua descomedida bravura, as outras brigadas avançam de moto próprio, todas naquele movimento imprudente, e vai com elas toda a reserva de cavalaria, a da própria Guarda! É um avalanche de aço, quinze mil espadas relampejam nos ares.

- Os ingleses fogem! - clamam os esquadrões na vertigem da carga.

Não se desmente ali a fria intrepidez de Wellington,

 

*1. Nos seus Excerptos Históricos o general Cláudio de Chaby alude a uma tradição, segundo a qual lorde Wellington teria lamentado, no lance mais difícil da batalha de Waterloo, a falta que lhe faziam ali os caçadores negros da Guerra Peninsular.

 

mas o vencedor do Buçaco e de Tolosa tinha os olhos rasos de lágrimas.

No auge daquela carníçaria horrorosa, Castro chega a toda a brida.

- Senhor Duque, os prussianos! O corpo do general Bulow lá se está batendo com os franceses. Blucher não tardará.

- Obrigado, Castro. Tomaremos agora a ofensiva. Passava das 6 horas. O sol ia inclinar-se no horizonte, arrancava fulgores dos peitos polidos dos couraceiros naquele quadro horroroso de morte.

Ainda mais furiosas arremetidas da infantaria francesa e mais impetuosas cargas dos couraceiros. Já estão na linha de fogo os batalhões da Guarda. Ney, a quem já tinham matado cinco cavalos, combate a pé, à frente de quatro batalhões.

E, enquanto Napoleão, pálido, febril, no olhar uma tristeza de lúgubres previsões, perguntava ainda por Grouchy, que não chegava, nas fileiras dos seus couraceiros já se dizia alto:

- Chegaram os prussianos!

Escurecia; vinha chegando o exército de Blucher. Os ingleses tomam a ofensiva. Mais cargas e maiores assombros de esforço.

Estão vencidos os franceses, mas dura ainda aquele último acto da tragédia napoleónica. Cerrou a noite: a batalha de fantasmas! Chamejam ainda as cargas dos soldados da Guarda. Revoa nos ares um ruído sinistro de vozes de comando, de interjeições de desespero, de gritos convulsos de morte.

E, de instante a instante, este brado rouco de pavor naquela altiva língua francesa, em que Napoleão proclamara na Europa as suas quarenta batalhas admiráveis:

- Salve-se quem puder!

Resistem heroicamente os quadrados da Guarda, cidadelas de heróis de onde sai ainda, num grito de alma convulsivo, o pregão triunfal que, cinco anos antes, espavoria a Europa: Vive l'Empereur!

- A Guarda morre, mas não se rende! - brada de dentro do seu quadrado o general Michel.

Napoleão tenta salvar, ao menos, de um sacrifício já inútil aqueles extraordinários soldados da sua Guarda.

Arquejantes, negros da pólvora, esfarrapados pelas espadas inglesas e prussianas, os quadrados retiram. Já cinco quadrados tinham caído mortos, como se tivessem uma só alma e um só corpo.

Mas logo de boca em boca os fugitivos foram dizendo amargamente:

- A Guarda retira! Até ela!

Noite mais densa. Firme, de pé, já não há senão um quadrado da guarda. É o do general Cambronne, como um reduto de morte.

Napoleão vai para ele, quer acabar dentro daquele quadrado, será aquele o seu túmulo épico.

Soult toma-lhe o passo.

- Sire, ainda resta a França; não aumenteis a fortuna dos nossos inimigos.

E em volta do último quadrado o mar revolto da cavalaria inimiga.

- Rendei-vos! Rendei-vos! - clamam-lhe, impacientes, os vencedores.

E do centro daquelas quatro muralhas de homens, arregoadas, sangrentas, negras de pólvora, Cambronne, descoberto, com a farda suja de sangue, o olhar numa expressão de louca heroicidade, punhos estendidos convulsivamente, repulsa-lhes a intimação num palavrão reles, próprio das casernas e das vielas.

Centenas de vozes gritam ainda comovidamente:

- Vive l'Empereur!

Mas a batalha estava acabada. O Império acabara também(1).

Às nove horas da noite, Castro acompanhava Wellington à entrevista que ele teve com Blucher em Belle-Alliance.

Ao outro dia de manhã o generalíssimo inglês dispensou-o do seu serviço com honrosíssimas palavras de reconhecimento, e Castro deitou à desfilada para Bruxelas, para ir tranquilizar Maria Pulaski.

Dias depois voltava com ela para Viena de Áustria.

Em Julho souberam lá que Napoleão abdicara no filho, o pobre rei de Roma, porém, que a França o repeliu de si e fora então entregar-se à generosidade da nação inglesa.

Os aliados tinham entrado em Paris em 6 de Julho; em 15 Napoleão embarcava no navio inglês Bellerophon. Em 6 de Agosto fora transferido para bordo da nau Northumberland, que o devia levar para o desterro na ilha de Santa Helena, rochedo inóspito que os navegadores portugueses tinham encontrado, havia três séculos, nas amplidões do Atlântico, e os ingleses possuíam havia largos anos.

Na Primavera de 1816, Luís de Castro viajou com a esposa, o filhito e Napoleão do Sobral pelas mais belas cidades da Itália.

 

*1. O general belga Brialmont, que estudou a batalha de Waterloo em presença de documentos e memórias insuspeitas, serenamente, como profissional, fora dos domínios da tradição romântica, calcula as perdas dos vencedores em 24.679 mortos e feridos. Os franceses tiveram 18.600 mortos e feridos, deixaram 7.800 prisioneiros e perderam 227 bocas de fogo. (História do Duque de Wellington, tomo II, pág. 41).

 

Em certa igreja de Florença teve um encontro de comovedora surpresa. Viu, entre uma turba de andrajosos e mães famintas, uma senhora alta, de esmaecida brancura, com uma grande expressão de mágoa, toda vestida de preto. Os mendigos ajoelhavam diante dela e as mulheres, com as criancinhas nos braços, queriam beijar-lhe a mão.

Maria Pulaski tinha ajoelhado diante de um altar de Nossa Senhora; orava fervorosamente com os pequenitos ao pé de si. O marido ficou a meio da igreja, de pé.

- Mas que semelhança, apesar da sua expressão de tristeza e daquele ar resignado e humilde que a Princesa não tinha! - pensava Luís de Castro.

A dama de preto saiu sem reparar nele; ia em volta dela a sua corte de maltrapilhos e de esfaimados.

Para saber se os seus olhos o não tinham enganado, Luís de Castro perguntou a uma das esfarrapadas que tinha ficado ao meio da nave acarinhando o filho:

- Quem é aquela dama? Conhece-a?

- Ai, meu senhor, se não hei-de conhecer! É a providência dos pobres de Florença, a linda santa que nos socorre!

- Mas não lhe sabe o nome?

- Ah! isso sei. Chamam-lhe a Princesa Borghèse. Pelo que tenho ouvido, é irmã daquele temido imperador que os ingleses levaram para a África(1).

- Obrigado. Deu-lhe uma esmola.

- Ainda admiravelmente formosa! - disse consigo.

 

*1. Paulina Bonaparte contava então 36 anos. Fizera companhia ao irmão na ilha de Elba e retirara-se para a Itália, depois da batalha de Waterloo.

Um dos seus biógrafos franceses escreveu: «Passou o resto da sua vida em Florença, numa tarefa de caridade inexcedível, que a tornou abençoada e querida de todos os desditosos. Ali faleceu em 1825, de uma doença que contraíra na ilha de São Domingos».

 

Em Julho foram a Paris. E ali então foi que eles encontraram muitas pessoas conhecidas.

Uma vez, ao pé dos Inválidos, a pequena marechala de 1810, levando pelo braço o decrépito leão de Rivoli quase cego.

Dos portugueses encontraram dois, muito das suas relações. O general Pamplona e Cândido José Xavier. Ia com eles o coronel Manuel de Castro Pereira de Mesquita, o primeiro historiador da Legião(1).

- Sabe que assisti casualmente ao fuzilamento de Ney - disse-lhe Cândido Xavier -, Morreu como um bravo,

sem consentir que o vendassem; de pé, altivo, deu ele próprio a voz de fogo. Parece que o estou a ouvir: Soldados! Bem direito ao coração.

- Eu vi-o em Waterloo. Ainda mais extraordinário que na campanha da Rússia!

- Ouvi que fez erros graves em Waterloo - disse o Pamplona -, Os imperialistas atribuem a perda da batalha aos erros do Duque d'Elchingen e à falta de Grouchy, a que dão o nome de traição.

- O Imperador contou de mais consigo e de menos com os prussianos de Blucher. A esperar que o solo enxugasse, perdeu cinco horas, que lhe teriam dado a vitória. Tinha de a perder, devia ser ali o epílogo do Império.

No dia seguinte, Maria Pulaski e o marido foram visitar D. Isabel Pamplona. Encontraram lá, também de visita, a viúva de Junot. Vivia com tantas dificuldades que já se tinha desfeito dos muitos diamantes que o marido lhe mandara de Portugal;

 

*1. Largos anos depois, e em períodos diferentes, Pamplona (Conde de Subserra), Cândido Xavier e Castro Pereira eram ministros de Estado em Portugal.

 

mas ainda recebia nas suas salas as grandes damas do Império e os requestadores que lhe levavam adulações e generosidades.

Em meados de 1816, Castro, a esposa e o filho estavam em Lisboa, no palacete de Xabregas.

Dos que ali conhecemos só tinha morrido, no definhamento da sua loucura mansa, a pobre Laura de Mendonça. Acabara no seu convento de Santarém.

As coisas do país corriam pessimamente. Uma lástima de governantes e ninguém que fosse capaz de restaurar as forças económicas da nação e metê-la resolutamente no caminho de uma vida nova de justiça e de progresso.

A Corte continuava nas suas deprimidoras comodidades do Rio de Janeiro e Portugal era bem uma colónia do Brasil, confiada à tutela dos ingleses.

Eram ferozmente perseguidos os raros sonhadores de uma era nova de Liberdade e de reconstituição social. Beresford tornara-se na realidade um duro ditador. Habituado a obedecer-lhe, o exército submetera-se. Gomes Freire voltara de França e já na Intendência da Polícia o traziam vigiado por suspeito pedreiro-livre, correndo de boca em boca a indicação de que era ele o grão-mestre da Maçonaria portuguesa, o que movia contra o brilhante general os ódios dos absolutistas intransigentes e do clero fanático, de mais grave risco para o indómito patriota do que as antipatías e as suspeitas de Beresford.

Em princípios de 1817 Luís de Castro teve uma discussão política, violenta, com um oficial superior, irmão de um dos membros da Regência. Desafiou-o, bateu-se com ele e feriu-o gravemente.

Estaria irremediavelmente perdido se o irmão e os tios o não tivessem instigado a deixar o país no próprio dia do duelo.

Emigrou para Inglaterra e lá foram ter com ele a esposa, o filho e o Fanfan com o inseparável João Luís, já com baixa do serviço, havia dois anos, e na intimidade daquela família como parente muito chegado e muito querido.

Dispondo de largos rendimentos, e eram avultados os da sua casa na Áustria, Luís de Castro resolveu fazer uma larga viagem ao Oriente, sonho seu desde os vinte anos. Seria uma como peregrinação patriótica aos países que os portugueses tinham descoberto e conquistado nos grandes séculos da sua preponderância no mundo. Iria procurar os vestígios da prodigiosa odisseia da sua raça.

Maria Pulaski aplaudiu-lhe o pensamento entusiasticamente. Ia também, iriam todos, mas, por causa dos Pequenos, o Joãozito e o Fanfan, evitariam os riscos das jornadas pelo interior, limitando-se a visitar o litoral dos países orientais onde os portugueses haviam tido mais assinalado e duradouro domínio.

Castro fretou por três anos um excelente veleiro inglês, um belo brigue, havia poucos meses saído dos estaleiros.

Não foi bem auspiciada aquela viagem. Nos mares do Senegal o brigue foi corrido por um temporal e teve de arribar a uma das ilhas de Cabo Verde; mas nas alturas da costa de Benguela é que a viagem esteve para desfechar em trágico infortúnio. O brigue foi arrojado por uma tempestade para o mar largo e só depois de uns dias angustiosos, em que esteve em risco de se perder, logrou arribar à ilha de Santa Helena, já com o pano rasgado, um mastro partido e o porão cheio de água.

Desde que Napoleão fora para ali desterrado as precauções eram tais que nenhum navio podia aproximar-se das costas da ilha, sem correr o risco de ser apresado pelos cruzeiros ingleses ou metido a pique pelas balas das baterias empoleiradas nos rochedos, altos, negros, a prumo, por detrás dos quais se divisavam as fardas vermelhas das sentinelas.

Receavam os ingleses que fossem ali roubar-lhe o seu assombroso prisioneiro.

A cinco milhas da ilha foi o brigue abordado por uma corveta de cruzeiro. O capitão apresentou os seus papéis ao comandante da corveta e mostrou-lhe as condições lastimosas em que arribava. Revistaram-lhe o navio todo, e Castro apresentou os seus documentos e uma carta aberta que trazia de lorde Wellington, Príncipe de Waterloo, recomendando-o às autoridades inglesas dos portos em que entrasse(1).

Ainda assim foi para bordo do brigue um oficial inglês, levando consigo nove soldados de infantaria da marinha.

- A Bastilha de rochedos em que encerraram Napoleão! - dizia consigo Luís de Castro, numa impressão de tristeza e de piedade.

Iam entre os enormes rochedos Rupert-Hill e Ladder-Hill. Já se via bem James-Town, única povoação importante da ilha, O brigue foi fundear em James-Bay, ancoradouro dos navios de guerra.

Maria ia doente. Era preciso desembarcá-la e procurar-lhe um médico. Mas para tudo isto se necessitava de uma autorização do tenente-general Hudson Lowe, o governador da ilha, o implacável carcereiro de Napoleão Bonaparte. Castro foi ter com ele a Plantation-Howe, casa de campo de excelente aspecto, com jardins e prados verdejantes, um dos raros trechos bonitos da ilha.

 

*1. Conde de Vimeiro e marquês de Torres Vedras em Portugal, Duque de Ciudad Rodrigo e de Vitória em Espanha, Duque de Wellington em Inglaterra, Wellesley fora agraciado em 1815, pelos Países Baixos, com o título de Príncipe de Waterloo.

 

No cais enxameavam lascaris e chineses e por toda a parte formigavam soldados ingleses.

Luís de Castro teve imensa dificuldade em vencer as suspeitas de Hudson Lowe, sempre no receio perturbador de que lhe viessem roubar o vencido de Waterloo. Valeu-lhe ainda, para desvanecer as suspeitas do fero carcereiro de Napoleão, a carta que trazia de Wellington.

Voltou a James-Town e teve ali a boa fortuna de encontrar quem lhe cedesse uma casa de campo, na encosta de uma montanha, a pequena distância de Planta-tion-Howe.

- Demore-se aqui o menos possível - recomendou-lhe o médico militar que foi ver Maria Pulaski -, A ilha é insalubérrima, o clima dos piores que tem a África.

- Só o tempo que for preciso para os concertos do navio.

- Aqui definha-se rapidamente; as biliosas matam em quarenta e oito horas. A estatística dos óbitos é pavorosa. Sua esposa estará restabelecida em três ou quatro dias... mas é preciso fugir daqui, quanto antes, por causa dela e das crianças.

- Logo que o navio esteja em estado de aguentar o mar.

No dia seguinte obteve Luís de Castro que Hudson Lowe lhe desse licença para ir ver Longwood, o recanto agreste e triste onde Napoleão fora encerrado.

Foi; levava consigo o filho e o Fanfan. Acompanhava-o um oficial inglês, seu conhecido da campanha dos Pirenéus.

Longwood era uma planura tristonha no topo de uma montanha, duas milhas acima do nível do mar.

De espaço a espaço encontravam piquetes de soldados ingleses e sentinelas, a quem era preciso apresentar o salvo-conduto do governador.

- Parece que vamos entrar num acampamento! - disse para o oficial inglês - Receiam que Bonaparte se possa evadir destes rochedos?

- Fala-se de um trama urdido na América e na França, com o intuito de vir assaltar a ilha e levar Bonaparte.

- Não passará, decerto, de um conto fantástico.

- Talvez. Olhe, ali tem a casa dele - disse o inglês, apontando-lhe a habitação mesquinha do soberbo imperador de Austerlitz.

- Com que amargura se não há-de lembrar ali das magnificências das Tulherias, dos seus soberbos dias de Fontaineblau, das horas triunfais em que entrou como senhor no palácio imperial de Viena, nos paços altivos de Berlim e de Madrid, nos salões opulentos do Kremlim?!

- Repare naquele talhão arenoso onde mal vicejam umas flôrezitas enfezadas.

- Um homem de costas, baixo e grosso, com um grande chapéu de palha. É o jardineiro de Bonaparte?

- É ele próprio.

- O homem espantoso que assombrou a Europa!

- Assim vai passando o tempo. Ora em casa, ditando as suas Memórias, lendo os livros dilectos, recordando glórias com os raros amigos que a desgraça lhe deixou, ora ali, a remexer o chão daquele simulacro de jardim onde as flores morrem logo à nascença.

- Vejo além duas senhoras!

- As esposas dos generais Bertrand e Montholon. Ali os tem a eles; conversam com o general Gourgaud.

- E poucos mais amigos fiéis?

- O Conde de Las Cases, dois padres da Córsega, o seu criado de quarto e os seus obscuros serventuários. A sua comitiva! Há seis anos, em Dresda, era de reis e príncipes reinantes, como vassalos seus!

- Ouvi que a irmã mais nova, Paulína Bonaparte, tem instado para que lhe consintam vir para aqui acompanhá-lo.

Foram caminhando para os lados do jardinzito. Napoleão voltou-se. Fulminou num olhar de ódio o oficial inglês; depois atentou muito em Luís de Castro, como se estivesse a recordar-se de alguém.

Castro descobriu-se respeitosamente. Napoleão veio para ele.

- Estou a lembrar-me dum oficial português da Legião que eu tive ao meu serviço. Percebe-se que não é inglês.

- Sire, sou o capitão Luís de Castro, da 13.a meia brigada de Wagram e do 1.o regimento da Legião Portuguesa na Rússia.

- E veio dar a esta ilha! - exclamou com os olhos rasos de lágrimas.

- Pela arribada do navio em que ia para a índia.

- Não sei como esse carcereiro brutal que eu aí tenho lhe deu licença para vir aqui! Quando regressou a Portugal?

- Depois do desastre na Rússia. Voltei ao exército de Portugal e combati contra os exércitos de Vossa Majestade.

Napoleão sentiu um certo consolo ouvindo aquele tratamento na boca de um estrangeiro. Hudson Lowe não o tratava senão por general Bonaparte.

- Tornou-se então meu inimigo?

- Sire, tinha de pagar uma dívida de alma ao meu país, ameaçado de morte pelos exércitos de Vossa Majestade.

Napoleão ficou um momento de olhos cravados nele.

- Fez bem - disse-lhe, e logo volveu um olhar melancólico para os pequenitos.

- Seus filhos?

- Sire, só este.

«E do meu - pensou Napoleão - nem sequer consentem que eu tenha notícias!»

- Este de mais idade - continuou Castro - era o filho adoptivo de um granadeiro do exército do Marechal Massena. Encontrou-o ao abandono, em certa povoação de Portugal, tomou-o para si e criou-o desveladamente durante as campanhas de 1811 a 1813. Fê-lo baptizar e pôs-lhe um nome em que se vinculava a dedicação do velho soldado por Vossa Majestade.

- Que nome?

- Napoléon Lagloire.

Estremeceu; encheram-se-lhe os olhos de pranto. Tirou do bolso uma moeda de ouro (um napoleão) e deu-a ao Fanfan, acarinhando-o.

- Pequeno, é para tu comprares um brinquedo. Vai então para o Oriente em comissão de serviço? - perguntou, voltando-se para Luís de Castro.

- Sire, como simples viajante; uma espécie de peregrinação aos lugares gloriosos do mais brilhante império que teve Portugal.

- Sei: o império das índias.

- Perdido pelas ambições insaciáveis e pelas invejas insubmissas de alguns dos seus heróis.

«Como esse que eu tive se perdeu!» - pensou. O general Bertrand acercou-se de Napoleão para lhe falar e disse-lhe baixo o quer que fosse de urgência.

- Tenho de o deixar - disse o grande exilado para Luís de Castro -, Se ainda se demorar alguns dias não se esqueça de vir conversar comigo, meu bravo legionário de Wagram, Olhe, amanhã de tarde, por exemplo, no valezito dos salgueiros. Qualquer pessoa lhe poderá dizer onde há-de encontrar-me lá depois das três horas. É um lugar tranquilo e melancólico, favorecedor de sonhos e de evocadoras recordações, de um passado irremediavelmente morto.

- Sire, agradeço comovidamente a honra insigne do vosso convite e não faltará lá o antigo capitão da 13.a brigada de Wagram.

Aprumou-se e fez-lhe a continência militar, como se estivesse na sala dos Marechais, uma das mais brilhantes das Tulherias, e aquele prisioneiro fosse ainda o omnipotente imperador e o supremo árbitro da Europa nos seus dias gloriosos de 1809.

Castro cumpriu a sua promessa e foi larga a conversa que teve com o vencido de Waterloo. No seu feitio de sacudido interrogador e na sua predilecção pelos assuntos históricos, Napoleão indagou minúcias das antigas conquistas e campanhas dos portugueses e dos seus mais assinalados homens de Estado e homens de guerra.

Falando-lhe dos nossos mais insignes batalhadores, Luís de Castro citou entusiasticamente aquele a quem os persas chamaram o novo Alexandre e os povos do Extremo Oriente denominavam o Leão dos Mares. Esse gigantesco Afonso de Albuquerque a quem um brilhante escritor francês dos nossos tempos cognominou o Napoleão da índia,

E com tal interesse o ia interrogando Bonaparte que o ilustre oficial lhe deu quantos pormenores sabia dos feitos e planos daquele a quem o soberbo sultão de Constantinopla chamava um grande capitão, embora o considerasse um dos maiores inimigos do poder maometano no Mar Vermelho e nas grandes índias.

Aludiu Napoleão aos planos que tinha ideado para conquistar a índía aos ingleses, pouco depois de ter conquistado o Egipto, e calorosamente lhe falou da sua predilecção por esses países indostânicos, remotos, opulentos, de maravilhosas lendas.

- Li já que Albuquerque fora um conquistador cruel.

- Sire, é uma injustiça em relação aos processos de guerra do seu tempo.

Foi o mais tolerante dos conquistadores que Portugal teve no Oriente. Inflexível, disciplinador é que ele era. Homem de guerra de assombrosa envergadura, era, ao mesmo tempo, um estadista e um organizador notável. Teve a peito criar e enraizar no Oriente uma raça indo-portuguesa. Tinha o soberbo plano de um grande império e foi o nosso primeiro colonizador.

- Não conhecia esses pormenores. E como realizar esse plano?

- Fazer, como fez, dos três grandes empórios do comércio que tinha então a Ásia os fortes pilares de um império português. Dominar o Malabar e anular o mouro em Goa, a mãe de toda a índia, como ele lhe chamava. Segurar e prender a si o persa no opulento empório que era Ormuz, dominando o Mar de Oman como dominou o Índico e o Mar da Arábia. Firmar-se na poderosa cidade comercial que foi Malaca, para avassalar os Mares da China e do Japão. Depois, em Adem, fechar o Mar Vermelho, bloqueando ali o turco e o mouro. Por este modo senhor de todos os mares do grande comércio da Ásia, tomaria por aliados seus os persas para ir contra os turcos da Ásia, e por seus auxiliares os abissínios para a abertura de um canal, que mudasse a corrente do Nilo.

- Esse audacioso projecto do Nilo para quê?! -perguntou com estranheza e interesse.

- Para que, depois de abater o turco e o mouro, tomando-Lhes as cidades santas de Medina e Meca, arrasando-lhes o túmulo do Profeta e atirando ao Mar Vermelho as ossadas de Maomé, pudesse ainda ferir mais profundamente o Sultão ovante de Constantinopla, empobrecendo-lhe o Egipto, viveiro dessa casta guerreira de mamelucos, que Vossa Majestade derrotou há vinte anos e os meus compatriotas tinham vencido há dois séculos. Se o rei, a cinco mil léguas, não desse ouvidos a invejosos e intrigantes da corte, negando-lhe o reforço de mais uns punhados de soldados e exonerando-o do governo da índia, Albuquerque teria ido de arrancada da cidade de Meca à cidade do Cairo.

- E depois? - perguntou Napoleão com mais intensa curiosidade.

- Se não pudesse aguentar-se lá, e não poderia provavelmente, mandaria talvez enterrar nos lodos do Nilo as múmias dos Faraós e morreria em face das Pirâmides, a sonhar que de lá o contemplavam os quarenta séculos que Vossa Majestade evocou ali há cerca de vinte anos.

Napoleão sorriu, mas o seu olhar tinha agora um extraordinário fulgor.

- Soberbo plano, provavelmente inexequível! Para o realizar com escassas forças do vosso país, seria preciso que Albuquerque principiasse a pô-lo em prática na idade em que eu comecei a comandar exércitos e a dar batalhas.

- Sire, e vencê-las aos vinte e sete anos. Mas não foi assim Albuquerque. Tinha mais de sessenta quando fez as suas conquistas dos reinos de Ormuz, de Goa e de Malaca. Entrou no Mar Vermelho, mas não pôde manter-se em Adem.

- Velho de músculos de aço, certamente.

- Velho de alma juvenil para os mais arrojados voos! Chamaram-lhe o novo Alexandre os árabes e os persas; leão dos mares o denominaram os malaios; o maior capitão do seu século lhe chamou o sultão de Constantinopla. No dia do seu funeral sentaram-lhe o cadáver em cima de um andor, como se fosse um triunfador antigo, e assim o levaram pelas ruas de Goa até à igreja em que foi enterrado. A aragem da tarde fazia-lhe ondear as longas barbas de neve e os índios, de olhos pasmados para ele, numa veneração supersticiosa, dobravam os joelhos, murmurando: «Não está morto! Vai comandar os exércitos do céu».

- Não há como o Oriente para essas grandes e singulares homenagens!

Entardecia. Napoleão estendeu a mão ao oficial português.

- Boa viagem, Luís de Castro - disse-lhe numa tremura de voz - Boa viagem. A minha acabará cedo aqui, nas torturas brutais que, dia a dia, está inventando esse sinistro Hudson Lowe, general carcereiro, o pior general e o maior verdugo que a santa aliança pôde encontrar na Inglaterra para me oprimir! Isto é pequeno de mais para caberem comigo as recordações do que fui, e para túmulo é enorme! Boa fortuna!

Afastou-se comovido.

Quatro dias depois o brigue saía de James Bay.

Da amurada, Luís de Castro envolveu num olhar de compaixão os rochedos vulcânicos da ilha.

A fantasia figurou-lhe lá em cima, em proporções colossais, olhos rasos de lágrimas cravados no mar imenso, aquele Napoleão, o Grande, que ele vira em Wagram e em Moscóvia.

- Sobre aquelas rochas como um Prometeu moderno, mas, a despedaçar-lhe o coração, o abutre da sua saudade pelo que foi e talvez dos seus remorsos pelo que fez.

Tinham passado dois anos. Maria Pulaski não se dera bem naquelas paragens e em Janeiro de 1821 sentira que lhe era urgente voltar à Europa, para que não a surpreendessem naqueles estranhos países os últimos incómodos da maternidade.

A viagem de Bombaim para o Cabo da Boa Esperança foi desastrosa. O brigue entrou de tal modo arrasado em Cap-Town que as reparações de que necessitava não levariam menos de dois meses.

Era demasiada demora.

Estava para levantar ferro um transporte inglês, que regressava a Inglaterra, tocando em Santa Helena, onde deveria desembarcar uns oficiais superiores que iam para a guarnição da ilha.

Graças aos bons ofícios de um brigadeiro, que fora do estado-maior de Wellington, Castro obteve concessão obsequiosa para ir a bordo do transporte com a esposa, os pequenos e o João Luís.

A 6 de Maio, de tarde, o transporte lançava ferro em James Bay. Uns oficiais ingleses que foram a bordo deram aos colegas esta impressionadora novidade:

«- Bonaparte faleceu ontem de manhã cedo. Fizeram-lhe hoje a autópsia. Sofreu muito nos últimos dois meses. Tinha dores horrorosas e sufocações enormes!»

«Como qualquer, aquele homem fenomenal!» -disse consigo Luís de Castro.

Era aquela a notícia espantosa que andava de boca em boca.

O transporte inglês tinha uma demora de quatro dias; Castro saiu de bordo e procurou hospedagem para todos os seus.

No dia 8 de manhã obteve licença para ir ver a câmara mortuária do prodigioso exilado, Maria quis ir também; apenas o vira uma vez de relance, na retirada da Rússia. Foram.

A câmara era acanhada, humilde. No seu leito de campanha, aquele em que dormira na véspera de Marengo e na véspera de Austerlitz, dormia agora o seu derradeiro sono esse que foi o mais omnipotente dinasta e o mais assombroso general dos tempos modernos.

Aos olhos de Maria Pulaski assomaram lágrimas de piedade por esse grande ambicioso cuja espada dominadora levara à morte centenas de milhares de homens.

Inclinou-se comovidamente à beira daquele leito mortuário.

- Luís, aquele busto de criança aqui, ao pé do leito! - disse Maria enternecidamente.

- O filho, o rei de Roma, o seu amor maior. Dobrando o joelho, Castro murmurou, como se estivesse segredando alguma coisa àquele morto:

«Conquistador, ajudou a travar-te o carro triunfal o braço de um pequeno povo. O meu, aquele cuja história tu denominaste uma escola de heroísmos. Não írão contigo para o futuro os ódios de sangue que os teus batalhões semearam. Vencido, duplamente vencido pelos homens e pela morte, sofreste, choraste, a tua figura parece agora maior, entre os quarenta séculos que evocaste nas Pirâmides! Fui um dos teus soldados de Wagram e fui um dos teus inimigos em Vitória. Sire, a conta de sangue liquidou-se. Dobro o joelho diante do teu cadáver».

Em 9 o funeral. O homem já não podia fugir, Hudson Lowe poderia dormir tranquilo. Fez mais: como que punha agora naquele derradeiro preito o cunho do seu remorso ou da sua livre iniciativa, se não tinha sido até ali mais do que um executor subserviente, e fazia um como acto de contrição na ordem em que dispunha honras fúnebres excepcionais para aquele detestado morto! O saimento descia de Longwood. Esperavam-no em alas três mil soldados ingleses, com aquelas fardas vermelhas que Napoleão odiava.

O caixão ia sobre uma viatura de artilharia; na frente o filho do general Bertrand e um padre, um médico militar inglês e o doutor Antomarchi, compatriota e médico de Napoleão; doze granadeiros ingleses ladeavam o féretro. Atrás um criado levando à mão um cavalo, coberto de crepes. Dois generais vão chorando - Bertrand e Montholon. Em carruagem descoberta madame Bertrand e a filha. A seguir almirantes, oficiais do estado-maior e o grupo dos humildes, os seus criados. Naquela homenagem póstuma até o próprio Hudson Lowe! E numa carruagem, vestidas de luto, Lady Lowe e a filha!

Foi descido ao túmulo nos braços de granadeiros ingleses.

- No delírio - contava o doutor Antomarchi a Luís de Castro - era o filho a sua ideia dominadora. Ouvi-lhe eu dizer: Para o meu filho o meu nome, nada mais que o meu nome. Mas na derradeira agonia foram para o exército e para a França as suas últimas palavras. Escutei-lhas, inclinado para ele: Cabeça... exército. Meu Deus... Nação francesa.

No dia seguinte de manhã o transporte inglês levantara ferro. Levava para a Europa Luís de Castro, Maria Pulaski e o filho, o João Luís e o Napoleão do Sobral do Mont'Agraço.

 

 

FIM DO OITAVO E ÚLTIMO VOLUME

 

 

                                                                  Antonio Campos Junior

 

 

                      

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