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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A FILHA SECRETA / Lisa Gardner
A FILHA SECRETA / Lisa Gardner

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

                     Setembro de 1977 Huntsville, Texas

Às seis da manhã, o Estabelecimento Prisional de Huntsville confinou todos os detidos às suas celas.

No exterior dos muros de tijolo, os manifestantes começavam a reunir-se em protesto contra a primeira execução em treze anos no Texas. Desumano, diziam os cartazes. Cruel e invulgar. Nunca deviam ter ido buscar a «faísca do Texas» ao seu retiro. A pena de morte era caprichosa e irresponsável.

Uma multidão igualmente grande manifestava-se no sentido contrário. Cruel e invulgar ainda era bom de mais para Russell Lee Holmes. Mandem-no para a cadeira eléctrica. Fritem-no. Valia a pena ir buscar a cadeira eléctrica para se executar o candidato número trezentos e sessenta e dois... ou melhor, deviam regressar aos enforcamentos.

No «corredor da morte», para onde fora trazido na noite anterior, Russell Lee Holmes acomodou o seu pequeno corpo mais confortavelmente no beliche solitário da cela e ignorou-os a todos. Tinha olhos azuis lacrimejantes, rosto afilado e corpo arqueado e magro. Depois de trinta anos a mascar tabaco e a beber refrigerantes, tinha os dentes tortos, manchados e meio podres. Gostava de os palitar com a unha. Não era, sem sombra de dúvida, um homem agradável ou brilhante. Tratava-se antes de uma criatura calada e, na maioria das vezes, indiferente. Por vezes, era difícil lembrar exactamente o que aquelas mãos pequenas e de ossos finos tinham feito.

 

 

 

 

Em Janeiro, quando o Utah chegara ao fim da moratória do Supremo Tribunal sobre execuções, atirando Gilmore para a frente do pelotão de execução, deixara de haver dúvidas de que o Texas restabeleceria a pena de morte. E deixara de haver dúvidas também de que Russell Lee Holmes seria o primeiro a abater.

Talvez porque, quando o juiz que ia pronunciar a sentença lhe perguntou o que tinha ele a dizer sobre raptar, torturar e assassinar seis crianças, Russell Lee tivesse dito: “Bem, Meritíssimo, para resumir, quem me dera ter outra à mão!”Disseram-me que correste com o padre. Bem me parecia que não pretendias seguir os caminhos do Senhor.

Não.

Nenhuma absolvição dos pecados de Russell Lee?

Não.

Vá lá, Russell Lee. Digger inclinou-se para a frente e fincou os cotovelos nos joelhos. Sabes o que quero ouvir. Hoje é o teu último dia. Sabes que não haverá perdão. Acabou-se. Última oportunidade de pores as contas em dia. Da tua boca para a primeira página.

Russell Lee acabou o frango, fez estalar os lábios engordurados e encetou os quiabos

Vais morrer sozinho, Russell Lee. Talvez isso te pareça bom agora, mas no momento em que te amarrarem à cadeira eléctrica não será a mesma coisa. Diz-me como se chamam. Posso mandar vir a tua mulher para junto de ti. E o teu bebé. Dar-te algum apoio, proporcionar-te a presença da tua família no teu último dia aqui na terra.

Russell Lee acabou os quiabos e mergulhou três dedos no meio do bolo de chocolate. Arrancou metade, abriu-lhe um buraco como se fosse uma escavadeira e, com o bolo na palma da mão, começou a lamber o recheio.

Até pago tudo isso prosseguiu Digger, num derradeiro e monumental esforço para um homem que recebia um salário de treta, facto que ambos conheciam. Vá lá. Sabemos que és casado. Vi a tatuagem e ouvi os boatos. Diz-me quem é ela. Fala-me da criança.

Que lhe interessa isso?

Só estou a tentar ajudar...

Quer trazê-los cá e chamar-lhes tarados, é isso o que você quer fazer.

Então, admites que existem...

Talvez sim. Talvez não. Russell Lee mostrou uma fiada de dentes cobertos de chocolate. Não digo nada.

És estúpido e teimoso, Russell Lee. Vão fritar-te, a tua mulher nunca receberá quaisquer benefícios e o teu filho será criado por um cão que o reclamará como seu. Provavelmente, tornar-se-á um fracassado como tu.

Ora, está tudo tratado, Digger. Está, está. A verdade é que cuidei mais do futuro do que você. Chamam a isso ironia, não é? Ironia. Que bela palavra, raios! Que bela palavra! Russell Lee concentrou-se novamente no bolo e calou-se.

Por fim, Larry Digger foi-se embora, irritado. Russell Lee atirou os restos de comida, incluindo a maior parte do bolo, para o chão de cimento. Em princípio, devia partilhar a sobremesa com os seus companheiros do corredor da morte, era esse o protocolo. Russell Lee esmagou o bolo no chão de cimento com o calcanhar do pé direito.

Deixem-nos partilhar isto! Ponham os sacanas a comer isto!

Abruptamente, um rangido sonoro ecoou pelo corredor. O ruído aumentou e subiu num crescendo assustador e irado. Parou, baixou, depois soou mais alto, passando de ganido a rosnado.

O carrasco estava a aquecer a cadeira eléctrica, a ensaiar o equipamento a mil e oitocentos volts, depois a quinhentos, a mil e trezentos e a trezentos.

De repente, o momento tornou-se muito real.

Como preferem o Russell Lee? soava ritmadamente no corredor. Assado, grelhado ou frito? Como preferem o Russell Lee? Assado, grelhado ou frito?

Russell Lee Holmes sentou-se calmamente na ponta do catre. Encolheu os ombros e pensou nas piores coisas em que podia pensar. Pescoços pequeninos e macios, grandes olhos azuis, gritos agudos de meninas.

Não direi uma palavra, bebé. Levo o segredo comigo para a sepultura. Porque, outrora, houve alguém que, pelo menos, fingia amar este “Lixo”.

 

Boston, Massachusetts

Josh Sanders atravessou com dificuldade os corredores fortemente iluminados. No seu primeiro ano de internato, encontrava-se na trigésima sétima hora de um turno que devia durar vinte e quatro horas no Serviço de Urgências e estava a funcionar automaticamente. Queria dormir. Tinha de encontrar um quarto vago. Sentia necessidade absoluta de dormir.

Chegou à porta do quarto número cinco. Não havia luzes acesas. Recordava-se vagamente de que no quadro de informações o cinco estava desocupado. Noite lenta no Serviço de Urgências.

Josh entrou no quarto e correu a cortina que rodeava a cama, pronto a mergulhar no sono.

Um queixume. Uma respiração ruidosa e difícil. Um gemido.

Apanhado de surpresa, o médico recém-licenciado apressou-se a ligar a luz do tecto. Como por magia, uma menina toda vestida jazia em cima da cama.

A menina agarrou-se à garganta, rolou os olhos e ficou completamente inerte.

O pessoal das execuções estava bem treinado. Três guardas prenderam Russell Lee Holmes com ferros nas pernas e uma corrente na cintura. Ele informou o guarda de que era capaz de ir sozinho e toda a gente se colocou em posição.

Os guardas rodearam Russell Lee. O Barbelas ia à frente. Percorreram os catorze metros do corredor, onde a porta verde que saudara semelhante ao de um búfalo. Então, o tubo encontrou a abertura e deslizou pela traqueia.

Consegui! exclamou, ao mesmo tempo que Sherry saía da sala com frascos para análises e detecção de drogas na urina.

O pulso está fraco disse Nancy.

Que avaliação fazes, Josh? perguntou o Dr. Chen.

Choque anafiláctico afirmou Josh imediatamente. Precisamos de uma ampola de epinefrina.

Zero vírgula um miligramas corrigiu-o o Dr. Chen. Dose pediátrica.

Não vejo sinais de picada de abelha reportou Nancy, empunhando a epinefrina e vendo o médico a administrá-la através do tubo de respiração.

Pode ser uma reacção a qualquer coisa murmurou o Dr. Chen, e ficou à espera do resultado da injecção de epinefrina.

Por momentos, permaneceram todos imóveis.

A menina parecia muito vulnerável, estendida no leito branco do hospital, com vários tubos, um deles introduzido numa veia, e outro, mais volumoso, para a respiração, a sair do rosto miúdo. Longos cabelos louros espalhavam-se sobre a cama e cheiravam ligeiramente a champô para criança. As pestanas eram espessas e o rosto estava manchado: círculos negros à volta dos olhos, pontinhos vermelhos brilhantes salpicando-lhe as faces rechonchudas. Por muitos anos que trabalhasse, Josh nunca se habituaria à visão de uma criança doente num hospital.

Os músculos estão a relaxar - anunciou Josh. A respiração está mais fácil. A epinefrina actuara rapidamente. Os olhos da menina agitaram-se, mas não focaram.

Olá! tentou o Dr. Chen. Consegues ouvir-me? Nenhuma resposta. O médico passou do modo verbal ao táctil, abanando-a levemente. A menina continuou a não responder. Nancy experimentou friccionar-lhe o esterno, carregando com os nós dos dedos no pequeno tórax com força suficiente para provocar dor. O corpo da menina arqueou-se, indefeso, mas ela continuou com os olhos vidrados.

Difícil de acordar relatou Nancy. A doente continua a não responder. Agora, todos franziam o sobrolho.

A porta abriu-se de rompante.

Porque é toda esta balbúrdia? O Dr. Harper Stokes irrompeu pelo quarto, usando botas verdes como se fossem sapatos de ténis brancos e com um ar quase irreal com o seu bronzeado profundo, olhos azuis vivos e rosto de actor de cinema. Entrara para o Hospital Civil de Boston como simples cirurgião cardiotorácico de sucesso, mas já percorria os corredores da instituição como Jesus em busca de leprosos. Josh ouvira dizer que era muito bom, facto de que o próprio tinha conhecimento. Sabem qual é a diferença entre um cirurgião cardiotorácico e Deus? Deus não julga que é cirurgião cardiotorácico.

Tudo sob controlo declarou o Dr. Chen com alguma irritação.

Pois, pois. O Dr. Harper Stokes debruçou-se sobre a cama. Depois, observou os tubos que saíam do corpo da menina e endireitou-se com ar sinceramente chocado. Meu Deus, o que aconteceu?

Um choque anafiláctico a um agente desconhecido.

Epinefrina?

Claro.

Dê-me a radiografia do tórax. O Dr. Stokes estendeu a mão ao mesmo tempo que olhava para a criança e lhe verificava o pulso.

Temos tudo sob controlo!

O Dr. Stokes ergueu a cabeça apenas o tempo necessário para fitar nos olhos o jovem médico.

Nesse caso, doutor Chen, por que razão a menina está aqui mais parecendo uma boneca de trapos? perguntou em tom sombrio.

O Dr. Chen rangeu os dentes.

Não sei.

 

Meia-noite. O médico entrou na sala do carrasco e encostou-se à parede do fundo com as mãos atrás das costas. O carrasco pegou no telefone ligado ao gabinete do governador.

Ouviu o som de linha.

Voltou a pousar o receptor. Contou sessenta segundos.

Olhou para Russell Lee Holmes, sentado no meio da câmara da morte com os lábios arrepanhados num esgar de idiota que lhe mostrava os dentes imundos.

Está demasiado atordoado para ter consciência do que se passa disse o médico.

Agora já não interessa respondeu o carrasco.

O relógio marcou um minuto depois da meia-noite. O carrasco pegou no telefone. Continuava a ouvir-se o sinal de linha.

Carregou no botão principal do indutor e a corrente eléctrica percorreu o corpo de Russell Lee Holmes.

As luzes enfraqueceram no corredor da morte. Três presos berraram e bateram palmas, ao passo que um outro se enrolou sob o catre e começou a balançar-se para a frente e para trás como uma criança assustada. Os parentes das vítimas olhavam estoicamente, a princípio, mas quando a pele de Russell Lee se tornou vermelho-clara e começou a fumegar, desviaram o rosto. Excepto Brian Stokes, que continuou a olhar como se estivesse petrificado, enquanto o corpo de Russell Lee Holmes se agitava violentamente. De súbito, os pés rebentaram-lhe. Depois, as mãos. Atrás de Brian, a mãe gritou. Russell Lee ainda não parecia morto.

E, então, tudo acabou simplesmente.

O médico entrou na câmara da morte. Untou o nariz com Vicks VapoRub para impedir o cheiro de lhe penetrar nas narinas. Não era suficiente e franziu o nariz ao inspeccionar o corpo.

Olhou para a janela do meio, para a sala do carrasco.

Hora da morte: cinco minutos depois da meia-noite.

 

- Tenho o resultado das análises em relação a drogas! Sherry entrou de rompante no quarto e Josh pegou no relatório uns segundos antes do Dr. Harper Stokes.

Resultados positivos de opiáceos exclamou Josh.

Morfina disse o Dr. Stokes.

Anti-histamínico pediu o Dr. Chen. Zero vírgula zero zero cinco miligramas por quilo! Tragam mais quantidade!

Sherry foi a correr buscar o medicamento.

Será alérgica à morfina? Perguntou a Josh o Dr. Chen. Terá sido morfina o que causou o choque anafiláctico?

Acontece.

Sherry regressou com o anti-histamínico e o Dr. Chen injectou-o rapidamente. Retiraram o tubo de respiração e aguardaram com uma segunda dose à mão. Aquele anti-histamínico podia ser administrado de dois em dois ou de três em três minutos, se necessário. O Dr. Stokes apalpou de novo o pulso e a seguir auscultou o coração da menina.

Está melhor anunciou. Está a estabilizar. Oh, esperem, cá vamos nós...

A menina movia a cabeça de um lado para o outro. Nancy puxou-lhe um lençol para cima do corpo. Toda a gente reteve a respiração. A menina pestanejou e centrou os olhos grandes de uma espantosa mistura de azul e cinza.

Estás a ouvir-me, pequenina? sussurrou o Dr. Stokes com uma voz estranhamente embargada, afastando o cabelo liso da testa transpirada. Sabes dizer-nos como te chamas?

A menina não respondeu. Observou os estranhos que pairavam por cima dela, o quarto muito branco, os tubos e os fios que lhe saíam do corpo. Gorducha e de aspecto esquisito, não era uma criança bonita, pensou Josh, mas, naquele momento, era totalmente deslumbrante. Pegou-lhe na mão e o olhar dela pousou de imediato no dele, o que o emocionou um pouco. Quem diabo teria drogado e abandonado a menina? O mundo estava podre.

Momentos depois, os dedos dela apertaram os dele. Um aperto agradável e forte, considerando a sua situação.

Está tudo bem murmurou Josh. Estás salva. Diz-nos como te chamas, pequenina. Precisamos de saber o teu nome.

Ela abriu a boca e a garganta ressequida fez um esforço, mas não saiu nenhum som. Pareceu ficar um pouco mais assustada.

Descontrai-te acalmou-a o médico. Respira fundo. Está tudo bem. Está tudo como deve ser. Tenta agora novamente.

A menina fitou-o, confiante. Desta vez, murmurou:

A menina do papá.

 

Vinte anos depois

Estava atrasada, estava atrasada, santo Deus, estava muito atrasada!

Melanie Stokes subiu as escadas a correr, fez a curva apertada para o vestíbulo, com o longo cabelo louro a bater-lhe no rosto. Vinte minutos em contagem decrescente. Nem sequer pensara ainda no que ia vestir. Bolas!

Irrompeu pelo quarto com a camisola meio puxada sobre a cabeça. Um pontapé estratégico fechou a pesada porta de mogno atrás de si, enquanto tirava a primeira camada de roupa. Arrancou os ténis e atirou-os para trás da cómoda de pinho que lhe ocupava uma parte importante do quarto. Uma grande quantidade de coisas acabavam a repousar debaixo da cómoda. Tencionava arrumá-la um dia. Mas não naquela noite.

Melanie desfez-se rapidamente das calças de ganga coçadas, atirou a camisa para a cama estreita e correu para o roupeiro. As tábuas largas do soalho eram frescas debaixo dos seus pés, que faziam um leve ruído ao caminhar.

Vamos resmungou, afastando a cortina de seda. Dez anos de compras compulsivas amontoadas num espaço reduzido. Qual é a dificuldade de encontrar um vestido para uma festa?

A avaliar pela desarrumação, bastante difícil. Melanie fez uma careta, depois deitou mãos à obra com resignação. Algures lá dentro estavam alguns vestidos decentes.

Aos vinte e nove anos, Melanie Stokes era baixa, decidida e uma diplomata nata. Fora abandonada em criança no Hospital Civil de Boston, sem se recordar de onde provinha, mas isso passara-se há muito tempo e presentemente não pensava muito no assunto. Tinha um pai adoptivo a quem respeitava, uma mãe adoptiva a quem amava, um irmão mais velho a quem venerava e um padrinho indulgente a quem adorava. Até há pouco tempo, considerava que a família era muito unida. Não eram mais uma família rica, mas sim uma família com laços muito estreitos. Dizia continuamente a si mesma que em breve voltariam a ser como dantes.

Melanie licenciara-se em Wellesley havia seis anos, sendo entusiasticamente aplaudida pela família. Voltara logo a seguir para casa para ajudar a mãe durante mais uma das suas “temporadas” e, de certo modo, todos acharam que seria mais fácil, se ela lá ficasse. Agora Melanie organizava eventos profissionalmente. Na maior parte das vezes, exercia essas funções ao serviço de organizações de caridade. Acontecimentos importantes, de fato de cerimónia, que faziam a nata social sentir-se social e nata, enquanto, ao mesmo tempo, lhe extraíam somas de dinheiro significativas. Montes de pormenores, montes de planos, montes de trabalho. Melanie saía-se sempre muito bem. Por sistema, os colunistas sociais gostavam de falar com entusiasmo dos eventos, descontraídos mas elegantes. Para não falar dos lucros.

Depois, havia as noites como a daquele dia. Era a sétima recepção anual da organização Donate-A-Classic for Literacy, que se realizava ali, na casa dos pais, aparentemente amaldiçoada, pois o fornecedor não conseguira arranjar gelo suficiente, os arrumadores de carros tinham dado parte de doente, o Boston Globe publicara erradamente a hora e o senador Kennedy estava em casa com uma virose, afastando consigo metade do corpo de imprensa. Trinta minutos antes, Melanie sentira-se tão frustrada que lhe haviam saltado as lágrimas. Não era nada próprio dela.

Porém, naquela noite, estava enervada por motivos que não tinham nada a ver com a recepção. Sentia-se agitada e, como costumava fazer, lidava com a questão mantendo-se ocupada. Melanie era muito boa a manter-se ocupada. Quase tão boa quanto o pai.

Quinze minutos. Bolas. Melanie encontrou o seu vestido preferido, de alças com franjas douradas. Mais animada, começou a procurar sapatos dourados.

Nos primeiros meses da adopção de Melanie, os Stokes tinham ficado tão entusiasmados com a nova filha que a cobriram com todas as prendas imagináveis. A suite principal do segundo andar, decorada com reposteiros de seda cor-de-rosa e com casa de banho enfeitada a ouro, onde precisava de um banco para conseguir ver o seu reflexo no espelho genuíno Luís XIV, pertencia-lhe. O quarto de vestir era do tamanho de um pequeno apartamento e fora recheado com todos os vestidos, chapéus e também luvas, alguns criações da própria Laura Ashley. Tudo isso e mais um pai e uma mãe, um irmão e um padrinho que acompanhavam cada movimento seu, que lhe ofereciam comida ainda ela nem pensava em ter fome, que lhe traziam brinquedos antes de conseguir aborrecer-se e que a cobriam de mantas antes de conseguir pensar em ter frio.

Fora um pouco estranho.

A princípio, Melanie conformara-se. Estava ansiosa por agradar, queria tanto ser feliz quanto eles a queriam fazer. Parecia-lhe que, se pessoas tão distintas, belas e ricas como os Stokes desejavam dar-lhe um lar e tê-la como filha, ela bem podia esforçar-se por aprender a ser filha deles. Por isso, todas as manhãs se vestia com folhos de renda e deixava pacientemente que a sua nova mãe lhe arranjasse os cabelos lisos em canudos. Ouvira com seriedade as narrativas dramáticas do seu novo pai, que arrancara doentes cardíacos às garras da morte, e as histórias do padrinho sobre lugares remotos, onde os homens usavam saias e as mulheres deixavam crescer pêlos nas axilas. Passou longas tardes sentada calmamente ao pé do novo irmão, fixando as feições elegantes e os olhos inquietos, enquanto ele lhe jurava reiteradamente que seria para ela o perfeito irmão mais velho, sem sombra de dúvida.

Tudo era perfeito, demasiado perfeito. Melanie deixou de conseguir dormir à noite. Em vez de dormir, dava consigo a descer as escadas às duas da manhã para se postar diante do retrato de outra menina loura: Meagan Stokes, de quatro anos, que usava folhos de renda e o cabelo em canudos. Meagan Stokes, de quatro anos, que fora a primeira filha dos Stokes antes de um monstro a ter raptado e decapitado. Meagan Stokes, de quatro anos, a verdadeira filha, que os Stokes haviam amado e adorado muito antes de Melanie surgir.

Harper chegava das cirurgias de emergência e levava-a outra vez para a cama. Brian passou a ficar atento ao som dos passos dela e conduzia-a pacientemente de novo para o quarto. Mas, mesmo assim, ela voltava a descer, obcecada pelo quadro da menina tão linda e a quem fora substituir, porque mesmo uma criança de nove anos consegue perceber isso.

Jamie O’Donnell acabou por intervir.

Oh, por amor de Deus, declarou, Melanie era Melanie. Uma menina de carne e osso e não uma boneca de porcelana para se brincar a vestir e despir. Deixassem-na escolher as roupas, o quarto e o estilo próprios, antes que as contas do psiquiatra começassem a subir descontroladamente.

Este conselho talvez os tenha salvo a todos. Melanie trocou a suite principal por um quarto soalheiro no terceiro andar em frente ao de Brian. Melanie gostava dos vãos das janelas e do tecto baixo e inclinado e do facto de o quarto nunca poder ser tomado por um quarto de hospital.

Descobriu numa feira de roupas, realizada na escola, que gostava especialmente de roupas em segunda mão. Eram muito macias e confortáveis e se Melanie as sujasse ou rasgasse ninguém reparava. Durante anos, foi a melhor cliente da chamada Feira da Boa Vontade. Depois, foram as idas às lojas de objectos em segunda mão, à procura de mobília. Gostava de coisas gastas e com marcas de uso. Coisas que vinham com um passado, apercebeu-se quando já era mais velha. Coisas que vinham com uma história, aquilo que ela não tinha.

O padrinho divertia-se com os gostos dela, o pai ficava horrorizado, mas a nova família não deixou de a apoiar. Continuavam a amá-la. Eram cada vez mais unidos.

Durante todos esses anos, Melanie gostava de pensar que todos tinham aprendido alguma coisa uns com os outros. A mãe, sulista bem-educada, ensinou-lhe quais os talheres a usar com os diferentes pratos. Em contrapartida, Melanie deu a conhecer à mãe, sujeita a depressões, a canção reggae Don’t Worry, Be Happy. Harper instilou na filha a necessidade de trabalhar laboriosamente, de construir uma vida de forma conscienciosa e activa. Melanie ensinou-o a parar e a cheirar as rosas de vez em quando, quanto mais não fosse para mudar de ritmo. O irmão ensinou-a a sobreviver na alta sociedade. E Melanie mostrou por ele um amor incondicional e que mesmo nos seus dias maus e Brian, tal como Patrícia, tinha muitos seria para ela um herói.

A campainha da porta soou precisamente quando Melanie desencantava os sapatos. Jesus, naquela noite era tudo mesmo à justa.

Cabelo e pintura, rápido. Pelo menos as feições pálidas e o cabelo louro e fino de bebé não exigiam mais do que um leve toque de cor e uma simples escovadela. Um pouco de cor nas faces, um pouco de sombra dourada nas pálpebras, e estava pronta.

Melanie respirou fundo e permitiu-se uma última avaliação diante do espelho. O evento ia decorrer do habitual modo informal. O pai oferecera-se para receber os convidados, o que era uma inequívoca manifestação do ambiente de paz, e a mãe ia aparecer mais composta do que Melanie esperara. As coisas estavam a resultar.

Vai ser uma grande noite assegurou Melanie ao seu reflexo no espelho. Temos patrocinadores ricos, uma sala para doação de sangue. Temos a melhor comida que o dinheiro pode comprar e uma pilha de livros raros para coleccionadores. A família está melhor e o senador Kennedy que vá para o diabo. Vai ser uma grande noite!

Sorriu para si mesma. Afastou-se do móvel e deu um passo para a porta. E, de repente, o mundo deu uma reviravolta e escureceu diante dos seus olhos.

Um vácuo negro, formas distorcidas. Uma sensação estranha de déjà vu. Uma voz de menina, suplicando no escuro.

Quero ir para casa. Por favor, deixe-me ir para casa...

Melanie pestanejou. Viu de novo o quarto atravancado, banhado pelo esbatido sol primaveril que penetrava pelo vão das janelas, e sentiu debaixo dos pés a solidez do soalho antigo. Descobriu que pressionava o estômago com as mãos e que tinha a testa coberta de suor. Olhou imediatamente em volta, como se se sentisse culpada, e na esperança de que ninguém tivesse reparado.

Ninguém no cimo das escadas. Ninguém soubera. Ninguém vira nem suspeitava de nada.

Melanie apressou-se a descer os degraus, onde ressoavam alegremente os sons das pessoas reunidas e o tilintar das taças de champanhe.

Quatro visões em três semanas. Sempre o vácuo negro. Sempre a mesma voz de menina.

Fadiga de origem nervosa, pensou, e caminhou de forma mais viva. Ilusões. Neuroses.

Nada, a não ser a recordação. Depois desse tempo todo, para que serviria isso?

 

O Boeing 747 aterrou desajeitadamente, saltando e resvalando na pista. Para começar, Larry Digger estava de mau humor e a aterragem atamancada não ajudou a melhorá-lo.

Digger odiava andar de avião. Não confiava em aviões, nem em pilotos, nem nos computadores instalados para imitarem os pilotos. “Não confies em nada”, era o lema preferido de Larry Digger. “As pessoas são estúpidas”, era o seu segundo lema preferido.

“Dê-me uma bebida”, era provavelmente o terceiro. Mas agora não ia dizê-lo.

O tempo não fora bondoso para com Larry Digger. A estrutura garbosa curvara-se à mesma velocidade com que a prometedora carreira de investigação se desvanecera. Algures ao longo do caminho, a boca adoptara o aspecto eternamente obstinado de um cão de caça, enquanto se haviam criado papos nas faces e o queixo era agora também demasiado papudo. Parecia dez anos mais velho do que realmente era e sentia-se outros tantos ainda mais velho.

Pelo menos, até três semanas antes, quando o telefone tocara. Em meia dúzia de dias, pusera no prego a aparelhagem de som para adquirir um gravador de primeira qualidade e vendera o carro para poder comprar um bilhete de avião e ficar com algum dinheiro para a viagem.

Era a grande oportunidade de Larry Digger. Vinte e cinco anos após ter começado a sua demanda do Santo Graal, estava em Boston... e ou ganhava ou perdia.

Fez sinal a um táxi. Levara uma semana a descobrir o endereço. Estendeu o pedaço de papel ao motorista de aspecto cansado e que prestava mais atenção ao jogo dos Red Sox transmitido pela rádio do que aos outros carros que circulavam na estrada.

Digger viajava com pouca bagagem, apenas umas mudas de roupa interior e algumas camisas brancas, o gravador e um exemplar do livro que publicara há quinze anos. Começara a escrevê-lo pouco depois da execução de Russell Lee Holmes, quando na maioria das noites acordava com o cheiro a carne queimada a poluir-lhe as narinas. Naquela noite, os outros tipos tinham ganho um adiamento. Fazer explodir um condenado dera aos liberais contrários à pena de morte as munições de que precisavam. O Texas vira-se obrigado a retirar novamente a velha cadeira eléctrica, não tendo recomeçado as execuções senão em 1982, quando o estado adoptara a injecção letal.

Mas tal não ajudara Digger. Julgara que Russell Lee seria a sua grande história, que finalmente o arrancaria do anonimato e o levaria para os noticiários nacionais. Mantiveram-no em Huntsville para fazer a cobertura da retirada da “Old Sparky” e dos debates em torno do assunto. Depois, teve de fazer a cobertura da instauração da injecção letal e, antes de se aperceber, estava novamente a ver homens morrer.

Começara a precisar de uma bebida antes de se deitar. Depois, passara a precisar de duas ou três. Muito provavelmente, percorria a estrada para a morte quando o telefone tocara.

Duas da madrugada, dia 3 de Maio. Exactamente três semanas antes. Larry Digger lembrava-se com toda a clareza. De procurar às apalpadelas o telefone, que tocava na mesinha-de-cabeceira. De praguejar devido ao som trovejante. De encostar o auscultador ao ouvido. De escutar a voz desencarnada na escuridão.

Você não devia ter desistido. Tinha razão quanto ao Russell Lee Holmes. Tinha mesmo mulher e um filho. Quer saber mais?

Claro que queria. Embora se desse conta de que devia ter desistido, embora a sua obsessão por Russell Lee Holmes lhe tivesse custado mais do que lhe proporcionara, fora incapaz de dizer que não. Quem lhe telefonara também sabia disso. Na realidade, o interlocutor rira-se, com um som estranho e matreiro, distorcido por uma máquina qualquer. Em seguida, desligara.

Dois dias depois, o interlocutor foi mais específico. Dessa vez, dera a Digger um nome. Idaho Johnson.

É um nome falso. O pseudónimo preferido do Russell Lee Holmes. Procure e verá.

Digger seguira a pista até chegar a uma certidão de casamento. Depois, encontrara o nome do marido e da mulher numa certidão de nascimento de uma criança registada com o apelido Johnson. Não existia qualquer referência nem ao sexo nem ao hospital, mas havia o nome da parteira. Digger encontrou-a através da Associação de Parteiras e veio a revelar-se uma mina de ouro.

Sim, lembrava-se de Idaho Johnson. Sim, o retrato era parecido com ele. Uma leve hesitação. Bem..., sim, soubera que o verdadeiro nome dele era Russell Lee Holmes. Não que o tivesse sabido na altura, disse a Digger com vivacidade. Mas quando a polícia detivera Russell Lee e os jornais publicaram a sua fotografia, apercebera-se disso. Depois, a parteira apertou os lábios. Não estava disposta a dizer nem mais uma palavra. O bebé Johnson era o bebé Johnson e ela não via razão para violar a privacidade e os direitos de uma criança simplesmente por causa do que o pai fizera.

Digger tentara descobrir o rasto da criança e da mãe pelos seus próprios meios, mas embatera contra uma muralha. O nome da mulher na certidão de casamento parecia igualmente um pseudónimo, porque não tinha número da segurança social, nem da carta de condução, nem referências a impostos que pudessem ser investigados. Digger vasculhara velhos arquivos, ficheiros antigos. Andara à caça de fotografias, de registos de propriedade, todo e qualquer tipo de documento que pudesse servir de pista. Nenhum sinal de Angela nem do bebé Johnson.

Digger voltou a falar com a parteira.

Implorou. Suplicou, argumentou e ameaçou. Ofereceu dinheiro que não tinha e glória que nunca conhecera. O melhor que conseguiu arrancar à mulher foi uma derradeira história contada de má vontade, um pequeno incidente que lhe acontecera depois da detenção de Russell Lee. De facto, não tivera provavelmente qualquer importância

Porém, para Larry Digger, tivera e muita. Segundos depois de ouvir a história da parteira, pensou que sabia exactamente o que acontecera à criança de apelido Johnson. E era uma história maior que a que se atreveria a imaginar qualquer jornalista envelhecido, desgastado e meio bêbedo.

Mas porquê trazer aquilo à superfície vinte anos depois?

Na verdade, pusera a questão ao seu interlocutor das três da madrugada e ainda se lembrava da resposta estranha e em tom agudo.

Porque temos o que merecemos, Larry. Temos sempre aquilo que merecemos.

O táxi abrandou e encostou. Digger olhou em volta.

Estava na Baixa de Boston. A um quarteirão do Ritz, a um quarteirão do mítico Cheers, limusinas por todo o lado. Era ali que os Stokes agora viviam? Os ricos iam mesmo ficando cada vez mais ricos.

Céus, como aquilo o irritava!

Digger meteu dez dólares na mão do motorista e esgueirou-se do táxi.

O céu estava limpo. Fungou umas quantas vezes e limpou a mão às calças amarfanhadas. O ar cheirava mesmo a flores. Ali não havia fumos. Os ricaços provavelmente não eram partidários desse tipo de coisas. Uma espécie de grande parque erguia-se atrás de si, cheio de cerejeiras, tulipas e, entre outras coisas, barquinhos pequenos com cisnes de madeira. Abanou a cabeça.

Afastou-se do parque e inspeccionou a fila de edifícios. Eram moradias de pedra, de três andares, estreitas. Velhas e majestosas. Aninhadas umas entre as outras, mas mesmo assim parecendo isoladas. Construídas por gente de sangue azul, calculou, há cem anos, quando a genealogia de toda a gente ainda recuava até ao Mayflower. Que diabo, se calhar ainda era assim.

Verificou os endereços. A casa dos Stokes era a quarta. De momento, estava tão iluminada como no 4 de Julho, com dois lacaios de casaca vermelha e empertigados como paus de fósforo a guardar a entrada. Enquanto observava, um Mercedes-Benz encostou e uma mulher saiu. Adornara o corpo rechonchudo com lantejoulas de cor púrpura e diamantes brancos e parecia uma uva já passada. O marido, igualmente corpulento, bamboleava-se no fraque como um pinguim. O casal entregou as chaves a um dos lacaios e passou vagarosamente pelas pesadas portas de nogueira.

Digger olhou para a gabardina velha e as calças amarfanhadas.

Oh, claro, só podia ir dar uma volta.

Dirigiu-se para o parque, sentou-se num velho banco de ferro sob um amplo ácer vermelho e contemplou uma vez mais a casa dos Stokes.

Enquanto jornalista que seguira Russell Lee Holmes de perto até à sepultura, Larry Digger acabara por conhecer todas as famílias das crianças assassinadas. Conhecera-as quando o desgosto era ainda uma ferida aberta e em carne viva e entrevistara-as posteriormente, quando o horror se dissolvera e deixara apenas o desespero. Por essa altura, os pais tinham um brilho de vingança nos olhos fundos. Apertavam os punhos e esmurravam a mobília quando falavam sobre Russell Lee Holmes. As mães, por outro lado, agarravam-se de forma obsessiva aos filhos sobreviventes e olhavam para todos os homens, até para os maridos, com desconfiança. Na altura em que o estado do Texas acabara por matar Russell Lee, a maior parte das famílias implodira.

Excepto os Stokes. Foram diferentes desde o princípio e desde o princípio as outras famílias se ressentiram disso. Com excepção de Meagan, as vítimas de Russell Lee viviam em bairros pobres. Os Stokes habitavam uma mansão num dos novos bairros para gente abastada de Houston. As outras famílias tinham o aspecto desgastado e indefinido típico das famílias em que ambos os pais têm de trabalhar. Os filhos exibiam roupas coçadas, dentes irregulares e rostos sujos de terra.

Os Stokes ficavam bem na capa da Better Homes and Gardens o marido, o forte e nobre médico, a esposa, esbelta, cheia de classe, antiga rainha de beleza, e dois filhos de ouro. Cabelos louros brilhantes, dentes brancos e perfeitos, faces rosadas.

Pertenciam ao tipo de pessoas a quem quase queremos que aconteça algo de mau, mas, quando acontece...

Digger teve de baixar os olhos para a relva. Imagens dessa época ainda o envergonhavam e confundiam.

O modo como os olhos azuis de Patricia Stokes se adoçaram ao falar da filha, tentando descrever aos jornalistas a menina perfeita que fora raptada à família, implorando-lhes que a ajudassem a encontrá-la... Depois, o modo como ficara com o rosto totalmente desfeito no dia em que o corpo de Meagan fora identificado! Os olhos azuis mostravam-se de tal forma vazios que, pela primeira vez na vida, Larry Digger se sentira capaz de abdicar de uma história. Que diabo! Larry Digger sentira-se capaz de abdicar da sua alma para devolver a filha àquela mulher perfeita.

Logo após a execução, quando Patricia ficara esmagada pela dor e pelo horror, Digger seguira-a até ao bar do hotel. O marido não viera. Trabalho, ouvira Digger dizer. Segundo os boatos que corriam, desde a morte de Meagan Stokes, o Dr. Harper Stokes não fazia mais nada senão trabalhar. O homem parecia ter a noção errónea de que salvando outras vidas Deus lhe devolveria a filha. Os ricos eram estúpidos.

Por isso, Brian, de catorze anos, acompanhara a mãe ao Texas. Seguira-a até ao bar, como se fosse dono de tudo, e, quando o empregado tentou protestar, o garoto deitou-lhe um olhar especial. Um olhar do tipo: “Não te metas comigo depois do que acabei de ver.” O empregado calou-se logo.

Credo, que tipo de garoto é que assistia a uma execução?

Mais ou menos por essa altura, Digger apercebeu-se de que os Stokes não eram afinal assim tão perfeitos e distintos. Havia algo ali, algo debaixo da superfície cuidadosamente mantida. Algo tenebroso. Sinistro. Durante todos aqueles anos, nunca conseguira desfazer-se dessa impressão.

Agora, ali estava ele, vinte anos depois. Os Stokes tinham uma nova filha e esta tivera a sorte de crescer. Mas, apesar de tudo, nem todos os demónios podiam ser aquietados, uma vez que alguém telefonara a Larry Digger e o convidara a jogar.

Alguém continuava a pensar que os Stokes não haviam tido o que mereciam.

Digger sentiu um calafrio.

Por fim, encolheu os ombros. Dedicou um derradeiro pensamento à outra filha, perguntando-se como seria ela, se encontrara alguma felicidade em Beacon Street. Decidiu que não ia preocupar-se com isso.

Era o seu furo e tencionava aproveitá-lo. Fizera a sua pesquisa. Tinha as suas informações. E, entretanto, aprendera a agarrar as oportunidades.

Preparada ou não, Melanie Stokes, aqui vou eu, pensou com indiferença.

 

Cerca das nove e meia da noite, os convidados enchiam, quais jóias faiscantes, a casa dos Stokes. Criados de casaco branco abriam caminho por entre a multidão vestida de roupas caras, oferecendo bandejas de prata carregadas de flutes de champanhe, camarões estaladiços temperados com alho e javali assado com mirtilos. Candelabros de cristal lançavam luzes brilhantes sobre os cabelos cuidadosamente penteados e captavam os sussurros de homens bem-parecidos dirigidos a belas jovens.

Descendo rápido a escada, Melanie acenou alegremente aos Weber, aos Braskamp e aos Ruddy, depois trocou cumprimentos de cabeça com os Chadwick e os Baumgartner. Advogados, decanos de universidades, cirurgiões-chefes e importantes consultores de gestão. Banqueiros e alguns políticos. Boston estava cheia de dinheiro novo e antigo e Melanie convidara-os a todos indiscriminadamente. Todos trouxeram um livro raro, doado a favor da alfabetização, e, se todos estivessem a competir para doar o melhor livro, para fazer a doação mais valiosa, tanto melhor. Quando se tratava de angariar fundos, Melanie não olhava a meios.

Trocou sorrisos com o pai, que estava de pé junto da porta, elegante no seu fraque de gola e virados de cetim. Com quase sessenta anos, olhos azuis e cabelos dourados, Harper parecia na flor da vida. Trabalhava como um escravo, corria todas as manhãs e era um praticante de golfe exímio que finalmente chegara a um handicap de nove. Mais importante ainda, a revista Boston nomeara-o o melhor cardiocirurgião de Boston, triunfo há muito merecido. Naquela noite, Melanie achou que o pai parecia mais feliz do que nos últimos meses.

Satisfeita, foi procurar a mãe. As festas descontraíam sempre Melanie, daí ter escolhido aquela profissão. Sentia-se reconfortada com o burburinho das multidões, com o murmúrio de múltiplas conversas. Na sua mente, o inferno era a reclusão solitária num quarto frio, despido e infinitamente branco. Por sorte, com a sua profissão, com o trabalho voluntário no Centro de Dadores de Dedham da Cruz Vermelha e com a família, não tinha muito tempo para se preocupar com o facto de estar sozinha.

Melanie descobriu finalmente a mãe do lado oposto da sala e dirigiu-se para ela.

Patricia Stokes estava escondida num canto, ao pé de uma bandeja de prata com sumos, e conversava com um dos criados. Era sinal de que estava nervosa. Loura, alta e atraente, conquistara os corações da maioria dos homens do Texas quando tinha dezoito anos. A mãe de Melanie tornara-se ainda mais bela com a idade. E quando estava assustada ou insegura, tinha tendência para migrar na direcção dos homens, uma vez que estes inevitavelmente lhe bebiam as palavras.

Melanie! Patricia descobrira a filha. Iluminou-se-lhe imediatamente o rosto e acenou com entusiasmo. Querida, aqui. Falei com o fornecedor e os sumos estão todos distribuídos.

Ena! exclamou o criado. A sua filha é parecidíssima consigo!

Claro! declarou Patricia com jovialidade. Melanie rolou os olhos. Parecia-se tanto com a mãe quanto um ranúnculo amarelo se parecia com uma rosa amarela.

Está a perturbar os empregados? perguntou ela à mãe.

De forma alguma. Aqui o Charlie estava só a servir-me uma bebida. Sumo de laranja. Simples. Achei que bastava para pôr a sala a murmurar. “Será que ela pôs vodca, será que não pôs?” “Pôs, não pôs?” Sabes que adoro ser o centro da festa.

Melanie afagou a mão da mãe.

Está a sair-se muito bem.

Patrícia limitou-se a sorrir. Sabia que as pessoas ainda segredavam coisas do género: Encontraram a primeira filha assassinada. Só tinha quatro anos, e cortaram-lhe a cabeça. Não é horrível? Consegues imaginar uma coisa destas?

Actualmente, acrescentavam: O filho acabou de lhes comunicar que é homossexual. Como sabem, ele sempre foi... bem, perturbado. E ouçam esta: ela começou novamente a beber. É verdade. Acabada de sair de uma desintoxicação...

Parece tudo muito bem afirmou Patricia com excessiva animação. Duas mulheres passaram e segredaram ostensivamente uma com a outra. Patricia apertou o copo de cristal com mais força.

Hão-de fartar-se disse-lhe Melanie num tom gentil. Lembre-se de que o primeiro aparecimento em público é o pior.

A culpa foi minha. Mostrava agora mais hesitação e um sincero remorso.

Está bem, mãe. Está bem.

Não devia ter sido tão fraca. Quinze anos sóbria... Às vezes, não me reconheço a mim mesma.

Mãe!

Sinto a falta do Brian.

Eu sei murmurou Melanie. Eu sei.

Patricia apertou a cana do nariz. As lágrimas ameaçavam correr-lhe e Patricia Stokes não chorava em público. Voltou as costas à sala até o pior passar.

O criado olhava para Melanie com ar reprovador, como se esta devesse fazer qualquer coisa. Melanie gostaria que tal fosse possível, mas, infelizmente, o atrito entre o pai e o irmão era antigo e pouco havia que pudessem fazer, ela ou a mãe. Harper parecia bem-disposto naquela noite e, portanto, talvez o fim estivesse próximo.

Estou... melhor agora dizia Patrícia. Recompusera-se e adoptara o sorriso firme que aprendera a fazer nalguma escola de boas maneiras muitos anos antes.

Pode subir quando quiser disse Melanie.

Que disparate! Só preciso de aguentar a primeira hora. Tens razão, o primeiro aparecimento em público é sempre o mais difícil. Bem, os oisbilhoteiros que falem. Decerto que já ouvi pior.

Vai ficar tudo bem, mãe.

Claro que vai. Patricia voltara a ostentar o seu sorriso deslumbrante, mas inclinou-se e deu à filha um abraço sincero. Os braços eram fortes em torno de Melanie e o aroma a Chanel N.o 5 e a. creme facial Lancôme reconfortante. Melanie rodeou com os braços a cintura demasiado fina da mãe, tal como fazia desde os nove anos, e deixou que o abraço durasse o tempo todo de que a mãe necessitava.

Quando se afastaram, ambas sorriam.

Tenho de ir à cozinha anunciou Melanie.

Precisas de ajuda? Não estou a fazer nada de especial, realmente.

Não. O espectáculo está a correr. Ia já a afastar-se, quando a mãe lhe agarrou com firmeza na mão.

O William vem? Melanie encolheu os ombros.

O William é o anestesista preferido do pai.

Nervosa?

Nunca. O que é um ex-noivo no meio de trezentas pessoas?

O William é um palerma disse a mãe com sinceridade.

E a mãe é a melhor pessoa do mundo. Melanie apertou a mão da mãe e depois mergulhou na multidão.

Um movimento súbito chamou-lhe a atenção. Voltou-se mesmo a tempo de ver a aba ondulante de uma gabardina castanha a desaparecer na cozinha. Era estranho. Quem andaria por ali de gabardina?

Preparava-se para ir verificar quando ouviu uma algazarra no exterior. Os lacaios discutiam sobre a quem cabia a vez de ir estacionar um Porsche. Depois de ter esclarecido tudo, a questão da gabardina ali deslocada varrera-se-lhe por completo da mente.

Uma hora mais tarde, Melanie verificou que ainda não visitara a sala de dadores de sangue que a sua amiga Ann Margaret montara na saleta da frente.

Desculpa! disse de imediato, entrando de rompante na sala com painéis de madeira, que agora apresentava quatro cadeiras de repouso para os dadores em vez dos sofás de couro habituais. Queria ver se precisavas de alguma coisa, mas tem estado tanta barafunda!

Totalmente compreensível respondeu Ann Margaret, enquanto acabava de esfregar iodo na pele exposta do braço de um homem e enfiava a agulha. Como podes ver, a vida aqui corre muito bem.

Olá, beleza saudou o homem. Já estava a perguntar-me onde te terias escondido.

Melanie fez um amplo sorriso.

Tio Jamie! Está aí! Devia ter calculado que o meu padrinho não deixaria de vir da Europa só para hibernar com uma bela mulher.

Não o posso evitar informou Jamie. É a vantagem de ser irlandês.

Melanie abanou a cabeça. Já ouvira aquilo antes, mas não se importava de voltar a ouvir. Amigo de longa data dos pais desde os tempos do Texas, Jamie O’Donnell era uma das pessoas a quem mais queria no mundo. Percorria o globo na pista de artigos raros para a sua empresa de importações/exportações; depois irrompia na cidade para estragar Melanie com mimos: chocolates importados, brinquedos exóticos e histórias intermináveis.

Agora, estava estendido no leito dos dadores de sangue, com ar de estivador, apesar do fraque de três mil dólares. Provavelmente devia-se isso ao diamante solitário que lhe tremeluzia na orelha esquerda ou ao ar malicioso do rosto.

Aceitam o seu sangue, tio Jamie? Não sei porquê, achava que com a vida que tem levado...

Ah, sou um santo, rapariga. Do tipo puro e angélico, juro-te.

Tal e qual! murmurou Ann Margaret, colocando um elástico em volta de um saco para sangue ainda vazio.

Melanie fitava ora o padrinho, ora a melhor amiga. Talvez fosse só impressão sua, mas ia jurar que havia um leve tom rosado no rosto de Ann Margaret, uma certa relutância em encontrar os olhos de Jamie. Muito interessante.

Melanie estendeu-se na cadeira de repouso ao lado da de Jamie e ofereceu o braço para dar sangue, enquanto ela e o padrinho punham a conversa em dia.

Jamie não perdeu tempo.

O Brian pensa realmente que é homossexual?

Não me parece que ele se limite a “pensar” que é. Jamie suspirou.

E o teu pai, progressista como é, deve ter-lhe dado um pontapé no rabo.

Melanie fez uma careta.

O Brian não ajuda muito a resolver as questões, usando aquele método para as anunciar. Quero dizer, estava o pai a servir pato com laranja ao chefe de cirurgia do hospital, quando o próprio filho dá um salto, berra que está farto de mentiras, que é homossexual e que é melhor que o pai se acostume à ideia. Acho que nunca vi o pai com uma perna de pato no ar durante tanto tempo. Se não fosse mesmo verdade, acho que podia ter tido graça.

O Brian deixa sempre as coisas irem longe de mais declarou Ann Margaret em tom conhecedor, visto ter acompanhado a saga da família nos últimos dez anos. Ele não andava a fazer psicoterapia?

Parou. Acho que o namorado é irmão do terapeuta, ou algo parecido.

Estás a brincar! Tanto Ann Margaret como Jamie conseguiram mostrar-se horrorizados.

Bem, diz-me ao menos que o teu irmão está bem pediu Jamie a Melanie.

Mas Melanie não sabia.

Não sei. O Brian... o Brian não fala comigo.

Não! Jamie abanou a cabeça. Que rapaz estúpido. Ele e o Harper sempre se chocaram... são ambos demasiado teimosos, esse é o problema... Mas o rapaz é louco por ti. Eu costumava brincar com os teus pais, dizendo que o Brian te considerava um cachorrinho, da maneira como andava sempre a dar-te brinquedos e bombons. Não tem nenhum motivo para descarregar o amuo em cima de ti.

Jamie fez uma pausa, depois, cuidadosamente, perguntou:

Não tem razões para estar zangado contigo, pois não, rapariga? Não te vejo a importares-te com a sua orientação sexual, ou lá o que lhe chamam nos dias de hoje.

Não me importo respondeu Melanie. Nem a mãe. Mas não sei... O Brian foi sempre muito temperamental. Tem as suas neuras, mais ou menos como a mãe, os seus períodos de neura, até períodos de raiva. Quando o ouvi gritar que era homossexual, uma parte do meu cérebro disparou. Pensei para comigo que era por isso. Mas agora sabemos, tudo se passa às claras e portanto tudo vai melhorar.

“Mas nada melhorou. Algo explodiu dentro dele. E quero mesmo dizer explodiu; de repente, parece que nos odeia. A todos. Não sei porquê.

O padrinho mostrava-se preocupado.

Tentaste conversar com ele?

Deixei seis mensagens, depois fui lá pessoalmente. Não me abriu a porta.

O miúdo está só a pôr a tua paciência à prova.

Provavelmente precisa de mais tempo.

Jamie não pareceu convencido.

Não devia precisar de tempo para saber que deve tratar a mãe e a irmã com respeito. Bem, o que está feito, está feito. O teu pai disse mais alguma coisa acerca disso?

Sabe que isto não é o tipo de assuntos sobre os quais ele fale.

O teu pai precisa de deixar de olhar para o umbigo Jamie reafirmou uma das suas opiniões preferidas acerca de Harper. No entanto, disse-o sem veemência. Os dois já se conheciam há demasiado tempo para se irritar agora com as suas diferenças.

O meu pai é conservador disse Melanie. Calculo que não devem ser muitos os velhos amigos republicanos do meu pai que tiveram de enfrentar um filho que lhes anuncia que é homossexual.

Um filho é sempre um filho.

Ann Margaret colocou dois dedos sobre o tampão de gaze que cobria a agulha no braço dele.

Assim fala o homem que não tem nenhum. Jamie corou.

Preocupa-te com os teus assuntos, sua metediça!

Ann Margaret retirou-lhe a agulha da veia. Jamie desenhou com os lábios um O silencioso e depois, imitando um menino bem-comportado, ergueu obedientemente o braço acima da cabeça e assim o manteve.

Estás a sair-te muito bem declarou Ann Margaret com jovialidade, e Jamie dirigiu a Melanie um olhar de sofrimento que significava que sabia que tinha encontrado a pessoa certa, mas ainda não queria ouvir falar disso.

Ann Margaret dirigiu-se a seguir a Melanie, retirou a agulha e colocou um penso rápido.

Penso que o meu pai cederá em breve confidenciou Melanie quando ela e o padrinho foram autorizados a sentar-se. Passou para a cadeira de repouso de Jamie, onde ficaram sentados lado a lado.

Achas?

Encontrei-o a chorar disse ela calmamente. A semana passada, já tarde, no sofá cá de baixo, quando julgava que não andava ninguém por perto.

Jamie olhou de relance para a porta, com ar perplexo. Após uns momentos, Melanie olhou para ele com curiosidade.

Que espera dele, Jamie? O meu pai é da geração de cinquenta, quando os homens eram homens, as mulheres eram mulheres e os homossexuais eram tarados. Não estou a dizer que isto está certo, mas é difícil modificar a maneira de pensar de toda uma vida.

Foste sempre uma boa diplomata, Mel.

Não se trata de política mundial, Jamie, mas da família. Mergulharam ambos em silêncio e, passado um momento, voltaram os olhos para a elegante multidão.

Melanie descobriu o pai. Estava agora no canto esquerdo da sala, na gargalhada com o rival do Hospital do Massachusetts. William chegara e colara-se aos calcanhares do pai. Como Harper, William Sheffield, médico, orgulhava-se da sua aparência perfeita. No entanto, nessa noite, tinha um ar cansado e bastante desgastado.

Talvez o esforço de manter três mulheres estivesse por fim a cobrar o seu imposto.

Melanie afastou de imediato o pensamento. Já não lhe dizia respeito nem o problema era seu.

Procurou a mãe e encontrou-a no canto da sala quase oposto ao do marido. Nas festas, os pais de Melanie raramente faziam companhia um ao outro e muito menos nos dias que corriam, com a situação de Brian a abrir uma brecha entre ambos.

Apesar disso, nunca discutiriam em público. Nem sequer discordavam um do outro diante dos filhos. As discussões aconteciam discretamente, noite dentro, quando pensavam que Brian e Melanie estavam a dormir, e, de manhã, emitiam uma decisão conjunta. Na maior parte das vezes, Melanie considerava que o casamento dos pais era sólido, embora sem novidades. Mesmo agora, não se preocupava com eles. Afinal, tinham administrado crises muito piores.

Naquele momento, Patrícia pousou o sumo de laranja e começou a andar. Passou mesmo junto de Harper. Melanie pensou que a mãe simplesmente continuaria a andar, mas o pai estendeu o braço e deteve-a com um toque da mão no cotovelo nu. Era difícil dizer qual ficara mais surpreendida com o contacto inesperado, se Patricia, se Melanie.

A disposição de Harper amenizara-se sem dúvida, porque, fosse o que fosse que tivesse dito à mulher, fê-la sorrir. Murmurou qualquer coisa mais, com os olhos azuis a cintilar, e a mulher riu-se realmente, parecendo admirada e satisfeita. Voltou-se para ele. Os longos dedos do cirurgião afloraram-lhe a clavícula antes de descansarem na cintura estreita, e Patricia inclinou-se para o marido de um modo que Melanie não via há muito, muito tempo.

Jamie surgiu ao lado de Melanie e esta apercebeu-se de que também ele estava a observar os pais, com uma expressão difícil de traduzir.

Vai ficar tudo bem murmurou Melanie com renovada confiança. Está a ver, o pior já passou.

A tua mãe está com excelente aspecto observou Jamie docemente. Atrás deles, Ann Margaret prendeu os sacos de sangue com mais vivacidade.

Está a frequentar assiduamente as reuniões dos Alcoólicos Anónimos. É forte, como sabe. Melanie olhou de relance para o relógio, depois saiu da cadeira de repouso. Fica cá uns dias?

Umas semanas, amor.

Chá no Ritz?

Não o perderia por nada neste mundo.

Está combinado. Trata bem dele, Ann Margaret. Mais tarde, venho ter convosco.

Melanie mal dera a volta pelo pátio das traseiras em direcção à cozinha quando embateu noutro convidado. Levantou os olhos para pedir desculpa e viu-se a olhar para um homem baixo e calvo, de roupa amarrotada. Melanie lembrou-se de que já vira antes aquela gabardina a dirigir-se para o pátio e a desaparecer na esquina.

Quem é o senhor? perguntou com rispidez. O homem sorriu, mas de modo pouco amistoso.

- Larry Digger, minha senhora. Dallas Daily. Não se vá embora, Miss Stokes. Estive a noite inteira à espera de a encontrar a sós. Raios, como a senhora anda ocupada!

O senhor não tem razão nenhuma para estar aqui. Isto é uma festa particular e se não se for embora imediatamente chamo a segurança.

Se eu fosse a senhora, não fazia isso.

Bem, mas não é replicou Melanie com firmeza. Abriu a boca para pedir ajuda. De repente, a mão do homem agarrou-a fortemente pelo pulso e o indivíduo fitou-a com uma intensidade que a deixou atónita. Melanie não conseguia respirar.

Algo se revolvia nos esconsos da sua mente. Murmúrios no vazio. Agora não. Agora não.

Sei tudo sobre o seu pai sussurrou o homem com intensidade.

O Ha... Harper Stokes?

Não, Miss Stokes. Sei tudo sobre o seu verdadeiro pai, o seu pai biológico.

O quê?

O indivíduo sorriu. Um sorriso de suprema satisfação.

Siga-me, Miss Stokes pediu calmamente. Vou contar-lhe uma história. Uma historiazinha sobre o Texas e um assassino em série chamado Russell Lee Holmes.

Larry Digger empurrou ligeiramente Melanie na direcção do átrio de entrada. Os Duvet, que se preparavam para sair, lançaram-lhes um olhar de curiosidade e os lábios de Melanie formaram um sorriso automático. Ainda revolvia na mente as palavras do jornalista.

Sei tudo sobre o seu verdadeiro pai... o seu pai biológico...

Digger afastou-se dos convidados e dirigiu-se para o pátio das traseiras, de cujas portas oscilantes irromperam dois empregados.

Credo, este lugar está superlotado! Quantas pessoas ricas é que a senhora conhece?

Quer dinheiro? É disso que se trata?

Digger puxou-a bruscamente para o pátio, mas também este estava cheio de convidados, que lhes lançaram olhares surpreendidos.

Bolas!

Desistiu por completo da casa e forçou-a a atravessar a rua, dirigindo-se para o jardim público.

A noite estava quente e húmida, o ar fragrante com o aroma de flores de cerejeira e jacintos, os suaves candeeiros a gás. Maio era um mês lindíssimo em Boston e as pessoas aproveitavam-no. Melanie viu casais de jovens aconchegados sob os áceres, casais mais velhos atrás dos filhos e outras pessoas a passearem os cães. O parque tinha gente e estava bem iluminado; portanto, Melanie não sentia medo.

Estava sobretudo confusa. Uma pulsação incómoda alojara-se atrás do seu olho esquerdo, enquanto pensava no nome: Russell Lee Holmes, Russell Lee Holmes. Por que razão o nome lhe parecia tão familiar?

Larry Digger parou debaixo de uma árvore, enfiou as mãos rechonchudas nos bolsos da gabardina e disse-lhe frontalmente:

O Russell Lee Holmes assassinou seis crianças. Alguma vez lhe disseram isso?

O quê?

Sim. Foi o que ele fez. Era um filho-da-mãe muito mau. Gostava de crianças pequenas e de cabelos louros encaracolados. Raptava quase sempre miúdas pobres, escória como ele mesmo. Levava-as para as lixeiras e deixava-as num estado inacreditável. Tenho fotografias.

O quê?

Vá lá disse Digger com impaciência. Não se faça de parva. Russell Lee Holmes. Matou a primeira filha dos seus pais. Violou-a e decapitou-a. Como é que ela se chamava?

Oh, céus, era por isso que ela conhecia aquele nome. Brian devia ter-lhe contado, ou então Jamie. Tinha a certeza de que os pais nunca lhe haviam falado daquele período.

M... M... Meagan balbuciou Melanie.

Isso, Meagan. Foi o caso pior. Foi mesmo. Quatro anos, linda como uma flor em botão. Os seus pais ofereceram um resgate de cem mil dólares, mas o que receberam foi um cadáver decapitado para sepultar. O suficiente para levar uma mãe a beber...

Cale-se! Melanie já ouvira o suficiente. Mas que raio é que quer, Mister Digger? É que, se julga que vou ficar aqui a ouvir os seus disparates contra a minha família, pode tirar daí o sentido.

Quero-a a si! Digger aproximou-se mais. Tenho andado a segui-la, Melanie Stokes. Há vinte e cinco anos que procurava provas da sua existência, que procurava descobrir se o Russell Lee Holmes tinha realmente mulher e filhos, porque o filho-da-mãe nunca disse a ninguém, nunca o disse sequer a mim no dia da execução, o maldito. Mas continuei a procurar. O Russell Lee Holmes foi notícia de primeira página quando o apanharam e foi notícia de primeira página quando lhe assaram o couro. E vai ser novamente notícia de primeira página quando eu anunciar que descobri a filha dele. Sabe uma coisa, Miss Holmes... herdou os olhos dele.

Ouça, não sei qual é a sua jogada, mas eu fui encontrada em Boston. Não tenho nada a ver com um tipo qualquer do Texas.

Eu nunca disse que foi criada no Texas, só que o seu pai morreu lá.

E tinha uma filha em Boston? Não me parece.

Mas parece-me a mim. Repare, o Russell Lee pode ter vivido no Texas, mas, depois de ter sido detido por assassínio, para a mulher e para a filha era certamente melhor saírem da cidade. Os jornais abarrotavam de histórias do que ele fizera, percebe, sobretudo à filha dos Stokes. Larry Digger balouçou-se sobre os calcanhares. Raptou-a mesmo do carro da ama, enviou um pedido de resgate e violou-a e matou-a enquanto os seus pais se esforçavam por arranjar o dinheiro. Muito engenhoso da parte dele, tem de admitir. Quero dizer, lá estava ele a conseguir maneira de ser pago pelo seu trabalho...

Caramba! Melanie sentia-se farta. Não sou filha do Russell Lee Holmes. O senhor, por outro lado, não regula bem da cabeça. Adeus.

Melanie deu um passo, mas Larry Digger agarrou-a com força pelo pulso e segurou-a firmemente. Pela primeira vez, Melanie teve medo. No entanto, ao voltar-se, o jornalista falou-lhe num tom calmo.

Claro que é filha do Russell Lee Holmes.

Largue-me o braço.

A senhora foi encontrada na noite em que o Russell Lee Holmes morreu continuou o jornalista, como se ela nada tivesse dito.. Alguma vez lhe comunicaram isso? Sim, o Russell Lee vai para a cadeira eléctrica no Texas e uma menina sem passado aparece subitamente no hospital do Harper Stokes. Horrível coincidência, se quer saber. E depois, perguntamo-nos, por que razão estava o Harper a trabalhar naquela noite? O homem que lhe matou a filha está a ser executado e ele fica a trabalhar? Bastante estranho, se quer que lhe diga. A menos que saiba que tem uma boa razão para andar pelo hospital.

Fui drogada e abandonada no Serviço de Urgências insistiu Melanie. O meu pai é cardiocirurgião. Que ele tenha descido as escadas foi meramente um feliz acaso...

Ou um bom cálculo.

Oh, por amor de Deus! Quantos homens morrem por dia nos Estados Unidos? Alguns milhares? Algumas centenas de milhar? Não me vai dizer que também sou filha deles?

Lançou ao jornalista um olhar exasperado e, ao mesmo tempo, soltou o braço. Digger pareceu não se preocupar e procurou um maço de cigarros amarrotado de onde retirou um.

Vá lá, Miss Holmes. Diga-me com honestidade: nunca se interrogou sobre o local de onde vinha? Não é minimamente curiosa?

Adeus.

O jornalista sorriu.

Conheço a sua família, Melanie. A sua mãe, o seu pai, o seu irmão. Cobri a história deles quando a Meagan foi raptada, e estava com a Patricia e o Brian na noite em que executaram o Russell Lee Holmes. Não quer ouvir-me, muito bem. Vá lá dentro e diga à sua mãe que o Larry Digger veio visitá-la. Não é verdade que acabou de sair da reabilitação? Compreendo que os nervos dela não sejam os mesmos desde a morte da primeira filha. Digger soltou uma baforada de fumo directamente para a cara de Melanie. O que acha?

Você não passa de uma criatura imunda!

Ah, querida, já me chamaram pior. Digger sacudiu a cinza da ponta do cigarro. E, como está o Brian? Lembro-me dele com a cara encostada ao vidro da sala das testemunhas, naquele dia, está a perceber? Quando fritaram o Russell Lee, foi arrepiante, de nos deixar doentes. Toda a gente fechou os olhos e tapou os ouvidos. Mas o Brian Stokes, de catorze anos, encostou o rosto ao vidro e fitou o Russell Lee enquanto este morria, como se quisesse gravá-lo a fogo no cérebro. A fogo, repare. Ouvi dizer que o Brian se tornou homossexual. Parece-lhe que ver uma pessoa morrer pode afectar as preferências sexuais de um homem? Pergunto por perguntar.

Este último comentário, tão cruel na sua indiferença, atingiu Melanie como um soco. Teve de fechar os olhos e a seguir sentiu-se tão encolerizada que não conseguiu falar. Tinha vontade de lhe bater. A intensidade do desejo fê-la apertar os punhos. Mas não era adversário à sua altura, gordo e sebento, e ambos o sabiam.

Quero-o longe da minha família declarou por fim. Seja o que for que tem para dizer, diga-o agora e aqui. Se, honestamente, tiver uma história para contar, tenho a certeza de que uma citação da filha do assassino já vale o bastante para lhe permitir conservar-se longe dela. De acordo?

Larry Digger fingiu pesar a questão. Tirou uma fumaça profunda do cigarro e olhou em redor do parque, mas os olhos redondos brilhavam, triunfantes.

Gosto de si disse Digger de súbito. Não gosto da maior parte das pessoas, Miss Holmes. Mas gosto de si. Não só tem os olhos do Russell Lee, como também a sua coluna vertebral.

Fico muito lisonjeada! cuspiu Melanie e Digger riu-se.

Sim, a senhora é de facto um achado! Diga-me, então, querida, como é de repente viver com tanto dinheiro?

Oh, é tão bom como você nunca sonhou nem sonhará.

Ah, sim? Que pena que vá estragar-lhe tudo! Larry Digger esmagou o cigarro no tronco da árvore e ficou sério. O hospital disse. Acho que é a chave. Mais de uma centena de hospitais nesta cidade e logo havia de ir parar ao do Harper?

Coincidência.

Talvez, mas, a certa altura, começamos a somá-las. Primeiro, temos a questão temporal, Miss Holmes. Acontece que a menina apareceu na noite em que o Russell Lee foi executado por matar crianças. Depois, a questão geográfica. Acontece que foi depositada no hospital do Harper e que este faltou a uma execução para estar no hospital. Em seguida, temo-la a si. Uma menina. Encontrada muito bem vestida e de boa saúde, mas que ninguém reclama. Ao longo destes anos todos, nem um simples pio das pessoas que devem ter cuidado de si durante nove anos, que lhe compraram roupa, que a alimentaram, que lhe deram um tecto e, que diabo, que se certificaram de que a menina fosse encontrada num hospital onde estaria em boas mãos. E, além disso, há a questão da sua amnésia. Uma menina saudável que não consegue lembrar-se de nada, nem de onde veio, nem do seu próprio nome. E depois destes anos todos, duas décadas depois, ainda não se lembra. Parece-me estranho que uma criança de nove anos possa surgir de nenhures, não se lembrar de nada e não ser reclamada por ninguém. Estranho. Ou planeado.

Conhece o ditado que diz que a realidade excede muitas vezes a ficção?

Oh, essa foi boa, Miss Holmes. O Harper alguma vez a levou a um hipnoterapeuta? E quanto a terapia de regressão, aromaterapia ou uma dessas charlatanices agora tão na moda?

Os médicos que me examinaram disseram que eu estava fisicamente bem e que me lembraria quando estivesse preparada para me lembrar.

Quer dizer que, nessa altura, Miss Holmes, o grande doutor Harper Stokes ouviu várias opiniões sobre o assunto. Podia tê-la levado a um hipnoterapeuta quando achasse por bem, que ninguém lhe faria perguntas. Que teria acontecido? A senhora ter-se-ia lembrado, eis o que teria acontecido. E a sua família, minha querida, não quer que se lembre.

Oh, mas que estupidez! Tudo aquilo que tem estado para aí a dizer são coincidências. E o seu argumentozinho tem buracos por onde se conseguiria passar com um camião. Em poucas palavras, os meus pais amavam a Meagan. Nem pensar que fossem adoptar conscientemente a filha do seu assassino. Isso não faz sentido.

Larry Digger fitava-a com curiosidade.

Acredita sinceramente nisso, não acredita?

Claro que sim. Que diabo quer dizer?

Hum. Assentiu para si mesmo como se Melanie tivesse respondido a uma pergunta importante. Melanie sacudiu a cabeça, começando a sentir-se mais confusa, como se estivesse no cimo de um precipício muito íngreme e tivesse dado o primeiro passo em falso.

A cabeça latejava-lhe cada vez mais. Abismos negros e desabitados surgiam-lhe diante dos olhos. Há anos que não sofria de enxaquecas graves, mas, naquele momento, tinha a sensação de que estava perigosamente prestes a vomitar.

Talvez a senhora tivesse de ver o Harper e a Patricia no Texas acrescentou Digger num murmúrio. Talvez tivesse de vê-los no seu rico palácio, que nenhum médico a fazer o internato do quarto ano poderia pagar. Talvez tivesse de vê-los no Texas com os dois filhos, a menina tão querida que toda a gente adorava, e o menino já tão perturbado que metade das mães do quarteirão não o deixava brincar com os filhos. Começo a ter a impressão de que há uma quantidade de coisas acerca da sua família que a senhora simplesmente desconhece.

Não é verdade. Não é verdade.

Ah, Miss Holmes! continuou Larry Digger com simpatia, quase com pena, o que a confundiu mais do que os anteriores comentários maldosos. Deixe-me dizer-lhe uma coisa, Melanie, para seu próprio bem. Não a encontrei graças aos meus esforços, garota. Deram-me uma pista. Um telefonema anónimo a meio da noite, é inútil dizer que os jornalistas não gostam de informações anónimas, nem mesmo as velhas criaturas imundas como eu. Brilharam-lhe os dentes e a seguir a voz tornou-se horrivelmente sinistra. Da segunda vez, descobri a pista do meu interlocutor, Miss Holmes. De Boston, precisamente. Massachusetts. De Beacon Street. Da sua casa.

Porque acha que isso acontece, Mel? Porque é que alguém da sua casa havia de telefonar-me a mim a propósito do Russell Lee Holmes?

Eu não... Isso não... Nada disso faz sentido.

De repente, o mundo rodopiou. Melanie sentou-se no chão e ouviu que murmurava:

Mas isso foi há tanto tempo... Larry Digger sorriu.

Temos o que merecemos, Melanie Stokes. Segundo as próprias palavras de quem fez o telefonema, temos o que merecemos.

Não...

Qual a parte do temperamento de uma pessoa que depende da genética, Melanie Holmes? Os cães danados já nascem assim ou tornam-se? A senhora é realmente tão educada e requintada como os seus bem relacionados pais adoptivos, ou debaixo dessa superfície espreita um bocadinho da escória do Texas? Já sei que pode ser dura de roer, mas... e quanto a violência? Alguma vez olhou para uma criancinha, Miss Holmes, e sentiu fome?

Não Não. Oh, meu Deus... Sentia a cabeça a explodir. Melanie agarrou-se às têmporas, pressionou a cabeça contra os joelhos e balançou-se na relva.

Ao longe, ouviu Larry Digger rir-se alto.

Tenho razão, não tenho? Vinte e cinco anos depois, estou por fim a conseguir... As suas palavras terminaram de súbito num ganido.

Melanie voltou-se lentamente. Uma figura branca aproximara-se deles no parque. Parecia ter a mão colada ao ombro de Larry Digger.

Ela pediu-lhe que se fosse embora disse calmamente o recém-chegado.

Larry Digger tentou empurrar o homem.

Eh, isto é uma conversa particular. Não tem aperitivos ou algo do género para servir?

Não, mas estou a pensar em afiar as facas.

O homem aumentou a pressão e Digger ergueu as mãos em sinal de rendição. Mal o outro o soltou, começou a recuar.

Pronto, vou-me embora. Mas não estou a mentir. Tenho mesmo provas, Miss Holmes. Tenho informações, não só acerca do seu pai, mas também da sua mãe biológica. Pensa nela algumas vezes, Miss Holmes? Aposto que ela podia dizer-lhe qual é realmente o dia do seu aniversário, para não falar do seu verdadeiro nome. Hotel Midtown, querida. Bons sonhos.

O outro indivíduo deu rapidamente um passo em frente perante o tom sarcástico de Larry Digger, que desapareceu a grande velocidade com a gabardina sebenta a esvoaçar atrás de si.

O estômago de Melanie deu uma reviravolta. Celebrou a partida de Larry Digger vomitando camarão em cima da relva e dos sapatos pretos de verniz do homem.

Bolas! exclamou ele, dando desajeitadamente um salto para trás. Parecia não saber o que fazer.

Nem um nem outro sabiam. Pelas faces de Melanie escorriam lágrimas. A cabeça latejava-lhe e surgiam-lhe imagens que acentuavam o estado caótico da sua mente. Vestido azul, cabelo louro, olhos suplicantes. Quero ir para casa agora. Por favor, deixe-me ir para casa.

Vai ficar bem? Uma mão afastou-lhe o cabelo para trás. Meu Deus, você está a arder. Deixe-me chamar uma ambulância.

Não! O medo de hospitais que Melanie sentia ultrapassava o medo da dor. Levantou a cabeça e cambaleou de imediato. Dê-me... um minuto.

O seu salvador não parecia impressionado.

Credo, minha senhora! Andar por aí na companhia de um estranho com ar de maltrapilho... Que ideia foi a sua?

Nenhuma, é óbvio. Melanie pressionou os pulsos contra os olhos. O homem tinha toda a razão e isso aborrecia Melanie. Sem outra escolha, arriscou-se finalmente a abrir os olhos.

Era difícil ver no escuro. O candeeiro captava apenas metade das feições do homem, iluminando um queixo quadrado, rosto magro e nariz que já fora quebrado vezes de mais. Cabelo escuro espesso, cortado curto, de modo conservador. Lábios apertados numa linha severa e obstinada. Reconheceu a farda. Óptimo, fora salva por um dos seus próprios criados.

Fechou de novo os olhos. Nada como ser apanhada no seu pior momento por alguém que podia espalhar a história.

Acha que sobrevive? perguntou-lhe abruptamente o criado.

É possível. Mas ajudava se você falasse mais baixo.

O indivíduo pareceu contrito por instantes, depois estragou a impressão com as palavras seguintes.

Não devia ter-se deixado arrastar desta maneira. Foi uma coisa estúpida. Ele queria dinheiro?

Quem não quer? Melanie pôs-se de pé, cambaleando, sentido necessidade de mexer-se, de apenas... mexer-se. Infelizmente, o chão deu uma reviravolta debaixo dos seus pés e as árvores balançaram.

O criado teve de agarrá-la pelo braço.

Se continuar a tentar pôr-se de pé, temos de montar vigilância contra suicídios. A vista?

Pontos brancos.

A audição?

O quê?

Medicamentos?

Em casa murmurou e tentou dar um passo. Dobraram-se-lhe as pernas. O criado amparou-a e Melanie caiu-lhe nos braços, subitamente sem se importar.

Por favor, por favor, deixe-me ir para casa!

Não, querida. Não podes ir para casa. Não é seguro...

O homem resmungou qualquer coisa sobre mulheres malucas e depois levantou-a nos braços. Melanie encostou-se ao ombro dele. Era sólido, firme e forte. Cheirava a Old Spice.

Melanie enterrou o rosto no pescoço dele e deixou o mundo afastar-se.

O agente especial David Riggs não se sentia feliz. Primeiro, porque não era dado a resgatar donzelas em perigo. Segundo, porque ia ter uma trabalheira por ter resgatado aquela donzela em especial.

Nesta fase, somos só olhos e ouvidos. É uma investigação delicada. Não estragues tudo.

Riggs tinha quase a certeza de que o agente supervisor Lairmore ia achar que observar, intervir e agora transportar Melanie Stokes era estragar tudo. A sua missão era seguir de perto o pai dela. Captar alguma confissão do Dr. Harper Stokes sobre fraudes no serviço de saúde, qualquer assunto relativo que ele abordasse casualmente durante a festa de cerimónia organizada pela filha, cheia de vodca com água tónica e amigos.

David acomodou Melanie mais confortavelmente nos braços e atravessou a rua. Era mais pequena do que calculara depois de a ter visto a percorrer a casa durante toda a noite como um veloz pirilampo. Nunca abrandara o ritmo e mal parecia ter necessidade de respirar. Observara-a a fazer de tudo, desde sopesar as caixas de mangas a limpar um respingo com a esfregona. Reparara também que voltara a passar pela sala uma dúzia de vezes para controlar discretamente a mãe.

Agora encostava a cabeça ao ombro dele de uma maneira que há muito tempo nenhuma mulher fazia.

Não sabia como contornar a situação; dirigiu o pensamento para o processo que organizara sobre a família Stokes e o pouco que esse processo lhe dizia sobre Melanie Stokes. Filha, adoptada com a idade de nove anos após ter sido abandonada no hospital onde trabalhava o Dr. Stokes. Umas tantas notícias nos meios de comunicação, que a retratavam como a órfã Annie dos tempos modernos. Licenciara-se em Wellesley em 1991 e participava activamente em várias organizações de caridade. Era uma dessas pessoas que acham que “devem dar algo de si aos outros”. Nove meses antes, ficara noiva do Dr. William Sheffield, braço direito do pai, mas acabara tudo apenas três meses depois sem apresentar nenhum motivo. Era do tipo de pessoas que acham que certas coisas só a elas dizem respeito. Ajudava a cuidar da mãe, que, como observara Larry Digger, nunca mais fora a mesma após o assassínio da primeira filha. Uma pessoa com um grande sentido de família, do género: Metem-se com a minha família metem-se comigo. Mais ou menos isso.

Nada nos ficheiros indicava que Melanie Stokes fosse filha de um assassino em série, embora David tivesse considerado bem interessante a lista de coincidências do jornalista. Por outro lado, David ficara sem saber o que pensar do indivíduo. Apesar da sua jactância, mais para o fim as mãos de Larry Digger tinham começado a tremer. Provavelmente, o homem eliminara a dose nocturna de uísque para fazer o contacto. Sem dúvida que estaria agora a afogar-se em bebida.

Melanie gemeu quando as luzes de casa os atingiram.

Não vomite outra vez em cima de mim resmungou David.

Espere...

Vai vomitar?

Espere. Agarrou-se ao casaco dele. Não... diga nada a ninguém murmurou com veemência. Não diga... à minha família. Eu pago-lhe...

Tinha os olhos claros. Grandes, com expressão séria e de uma cor espantosa, algo entre o azul e o cinzento.

Sim, bem, claro. Como queira.

Melanie recostou-se de novo nos braços dele, parecendo satisfeita. David entrou no vestíbulo e toda a gente deu por eles imediatamente.

O que se passa? Harper Stokes dirigiu-se logo para eles com William Sheffield atrás. Depois, surgiu Patrícia Stokes a correr, salpicando de sumo de laranja o vestido.

Oh, meu Deus, Melanie!

O quarto? perguntou David e, ignorando o sobressalto e as perguntas de todos, dirigiu-se para a escada. Disse qualquer coisa sobre uma enxaqueca.

Harper praguejou.

Ela deve ter Fionnal com codeína na casa de banho. Patrícia? Patrícia subiu rapidamente os três lanços e irrompeu da casa de banho da filha, com comprimidos e um copo de água na mão no momento em que David estendia Melanie na cama. A família apoderou-se logo dela. O Dr. Harper pegou, ansioso, na mão da filha e tomou-lhe o pulso. Segurou no copo e levou-o aos lábios pálidos da filha para que a água a ajudasse a engolir os comprimidos. Seguiu-se Patrícia, com uma toalha húmida, limpando o rosto da filha. Só ficava de fora William Sheffield, que se mantivera à porta, constrangido. David não entendia muito bem por que razão o ex-noivo estava sequer no quarto.

O que aconteceu? perguntou Harper. Voltou a tomar o pulso da filha, depois tirou a toalha à mulher e colocou-a na testa de Melanie. Onde estava a Melanie? Como é que o senhor acabou por dar com ela?

Encontrei-a no parque respondeu David. Aparentemente, a resposta pareceu a Harper tão vaga quanto parecera a David, porque o cirurgião fuzilou-o com os olhos. David devolveu o olhar.

De todas as pessoas que estavam no quarto, quem mais sabia sobre o Dr. Harper Stokes era David - passara as três últimas semanas a compilar um processo sobre o indivíduo. Considerado por muitos um cirurgião brilhante, fora recentemente classificado como o melhor cardiocirurgião numa cidade famosa pelos seus cirurgiões. Outros consideravam que ele era egocêntrico e vaidoso, e que o seu zelo profissional tinha mais a ver com o reconhecimento que isso lhe proporcionava do que com um genuíno interesse pelos doentes. Dada a crescente “hollywoodização” da cirurgia hospitalar, era uma aposta difícil. A maioria dos cardiocirurgiões da actualidade andava à procura de fama ou de fortuna. Afinal, havia atletas da NBA adulados menos agressivamente do que um bom cirurgião, com carisma, capaz de chamar dinheiro.

A única coisa diferente que David conseguia descobrir sobre o Dr. Harper Stokes era o seu passado. Na época em que a projecção da carreira de um cirurgião tinha início aos dezoito anos, com a entrada para uma faculdade da Ivy League, a carreira académica do Dr. Stokes era, no mínimo, medíocre. Acabara o liceu com notas médias. Não frequentara nenhuma das vinte principais faculdades de Medicina e tivera de contentar-se com a “faculdade de recurso” local, a Universidade Sam Houston. Ali, fora mais conhecido pelo guarda-roupa requintado e irrepreensível ética profissional do que pelo seu talento como cirurgião.

Estranhamente, o único acontecimento que pareceu transformar Harper Stokes de estagiário mediano em extraordinário cirurgião foi o rapto da filha. A sua vida pessoal desmoronara-se e Harper voltara-se para o trabalho. Quanto mais caótico se tornava o mundo dos Stokes, tanto mais tempo Harper passava no hospital, onde tinha realmente o poder de curar e resgatar e, que diabo, de fazer de Deus.

Russell Lee Holmes destruíra uma família, mas, de forma estranha, também criara um cirurgião de primeira água.

Recentemente, o FBI recebera na linha verde relativa a fraudes nos serviços de saúde três telefonemas sobre o cardiocirurgião número um de Boston. Alguém achava que as operações de Harper para colocação de pacemakers eram questionáveis. Naquele ponto da investigação, David não fazia ideia. Podia ser só um rival invejoso a tentar denegri-lo. Podia ser que o médico tivesse capitulado perante uma maneira de fazer mais uns dólares extras... Sem sombra de dúvida, o escalão de vida dos Stokes era bastante elevado.

Até ali, o único senão que David encontrara no indivíduo fora a sua inclinação para mulheres bonitas. Mas, mesmo isso, parecia ser um segredo bem guardado. Dava as suas escapadelas com uma ou outra jovem frívola e a esposa olhava para o outro lado. Imensos casamentos funcionavam assim.

Mas porque estava a Melanie no parque? perguntava Harper, franzindo a testa e olhando com ar desconfiado para David.

Melanie respondeu primeiro.

Queria apanhar ar fresco. Tencionava sair só por uns momentos.

Por acaso reparei que ela saíra de casa corroborou David. Como não tivesse voltado passado um bocado, resolvi ir ver se estava tudo bem. Ouvi o som de alguém a vomitar do outro lado da rua e encontrei-a.

Harper continuou de testa franzida, depois voltou-se para a filha num misto de genuína preocupação e censura.

Tens andado a exagerar, Melanie. Sabes o que a tensão te pode fazer. Tens de lembrar-te de controlar os teus níveis de ansiedade. Por amor de Deus, a tua mãe e eu ter-te-íamos ajudado mais se tivesses dito alguma coisa...

Eu sei.

Pões sobre ti demasiada pressão.

Eu sei.

Não é saudável, minha menina. Melanie sorriu de esguelha.

Acredita se lhe disser que herdei isso de si?

Harper pigarreou e pareceu sinceramente contrafeito. Olhou para a mulher e ambos trocaram um olhar que David não conseguiu interpretar.

Devíamos deixá-la descansar sugeriu Patricia. Dorme um bocadinho, meu amor, descontrai-te. O teu pai e eu tratamos de tudo lá em baixo.

É minha obrigação. Melanie tentou protestar, mas os comprimidos começavam a fazer efeito, obrigando-a a fechar as pálpebras. Tentou sentar-se, mas não chegou sequer a meio. Por fim, enrolou-se sobre si própria no meio da cama. Parecia agora mais frágil do que quando enfrentara o jornalista. Parecia...

Patricia cobriu-a com uma manta e depois mandou toda a gente sair em silêncio.

Reparou por acaso que a Mel ia a sair de casa afirmou William Sheffield quando David passou por ele.

Sim, reparei. E você? Também reparou? perguntou David calmamente.

O ex-noivo corou, olhou para Harper em busca de apoio e, como não tivesse nenhum, escapuliu-se.

Obrigada por ajudar a nossa filha, Mister... Patricia deteve-se por instantes à porta o tempo suficiente para colocar ligeiramente a mão no ombro de David.

Riggs. David Riggs.

Patricia conservou a mão no ombro dele.

Obrigada, Mister Riggs. Estamos de facto em dívida...

Não tem importância.

Ela sorriu com uma expressão triste.

Para mim tem.

Antes que pudesse ocorrer outra resposta a David, Jamie O’Donnell subiu as escadas a correr, exigindo saber o que acontecera à sua Melanie. Colada aos seus calcanhares, vinha uma mulher elegante, de cabelos grisalhos tipo esfregão de arame e uniforme branco de enfermeira.

Ann Margaret! exclamou Patricia.

David aproveitou a oportunidade para sair, depois parou no patamar do segundo piso e pôs-se à escuta. O’Donnell exigia peremptoriamente ser informado. Ann Margaret insistia em ver Melanie. Harper murmurou qualquer coisa em voz baixa e cortante. David não conseguiu captar, mas as quatro pessoas calaram-se de imediato. Não se ouviram mais conversas no piso de cima, apenas o som dos passos dos quatro a avançarem lentamente para o quarto de Melanie Stokes.

Os cabelos da nuca de David eriçaram-se. Há muito tempo que não sentia aquilo. Pelo menos desde um certo dia no consultório, quando estava à espera das últimas notícias e viu a expressão no rosto do médico quando este voltou a entrar na sala de exames. Nesse momento, David soubera que a vida tal como ele a conhecia, tal como o seu pai a conhecia, estava a chegar ao fim.

Não havia nenhuma razão válida para se sentir assim naquele momento. Até ali, tinha apenas um médico, uma família e um jornalista alcoólico. Nada de sinistro, nada de sugestivo como pista a investigar.

E contudo... Que dissera Larry Digger?

Recebera aquela informação sobre a alegada ascendência de Melanie Stokes de um informador anónimo que declarara que toda a gente tem o que merece.

Era estranho. Três semanas antes, quando o gabinete de Boston recebera uma informação anónima relativa às alegadas operações cirúrgicas ilegais do Dr. Stokes, o informador também batera na tecla de que toda a gente tem o que merece.

E David não acreditava em coincidências.

 

Três da manhã. O turno de Davis Riggs como criado da recepção terminou finalmente e libertou-o para as ruas de Boston. Coxeava, dorido, porque as suas costas se ressentiam do esforço, mais do que era normal. Fazer de criado era trabalho duro. Significava que tinha de servir bebidas, voltar a encher as travessas dos aperitivos, andar a correr para trás e para a frente, tentando ser ao mesmo tempo um criado solícito e um agente competente. Da próxima vez que Lairmore lhe pedisse para se disfarçar, Riggs indicaria Chenney. O principiante que se regalasse com a boa vida.

Beacon Street estava agora deserta e os ricos a dormir nas suas mansões. Porém, mais abaixo, ouvia-se o matraquear revelador de um carrinho de supermercado nos passeios da cidade. Nem todos os residentes de Boston eram abastados.

David continuou a andar, atravessou o jardim público, onde horas antes estivera a escutar Larry Digger e Melanie Stokes. Talvez devesse telefonar a Chenney, ver como se estava a aguentar o novato. O novo garoto da brigada de Boston que se ocupava das fraudes na saúde cultivava o corpo com seriedade, era um daqueles tipos que se parecem com um gigantesco naco de músculos. Grande cabeça quadrada em cima de um grande pescoço quadrado sobre um grande tronco quadrado. Quando andava, os braços salientes arqueavam-se para os lados, como um macaco. Era difícil tomá-lo a sério, principalmente quando se apresentava como ex-técnico oficial de contas.

David ainda não estava certo do que devia pensar acerca do rapaz. Não ajudava o facto de Chenney não ter formação. A academia dava aos candidatos a agentes umas simples seis semanas de formação básica nos chamados crimes de colarinho branco. O verdadeiro mergulho no mundo cheio de divertimento das receitas médicas, das organizações de prevenção de doenças, da separação de processos, da transferência de dados, das reivindicações da parte A contra a parte B não aconteceriam enquanto o orçamento e o tempo não permitissem que Chenney recebesse formação especializada através da Associação contra a Fraude na Saúde Pública. Até lá, era nadar ou morrer afogado, maneira preferida do FBI para saber de que eram feitos os candidatos a agentes.

Nessa noite, Chenney ficara de seguir o Dr. William Sheffield, mas David apanhara o anestesista a sair da festa depois das duas da manhã e Chenney não se via em parte alguma.

Ou era muitíssimo bom, ou dormia em serviço. David sabia o que a casa gastava.

Fez uma careta de dor, avistou um táxi de serviço e decidiu-se. Naquela fase da investigação, nada estava a acontecer que fosse muito urgente. De manhã, ele e Chenney recuperariam o tempo perdido.

A viagem até casa foi longa e, no final do percurso, David estava enroscado no banco, com as narinas cheias de odores rançosos a suor e tabaco, enquanto as costas se contraíam e retorciam inultilmente. Saiu do táxi assim que este parou junto do complexo de apartamentos de Waltham, atirou o dinheiro para a mão do motorista e cambaleou. Pôs-se a andar em volta do parque de estacionamento. Tinha de exercitar os músculos, fazê-los descontrair. O movimento era importante, o exercício era a única maneira de conservar a pouca flexibilidade que ainda mantinha.

As articulações do sacroilíaco estão inflamadas, Mister Riggs... A articulação onde a espinha se liga à bacia... E essa inflamação vai começar a espalhar-se pelas costas, causando cada vez mais desconforto. O remédio é o exercício, o gelo e os medicamentos anti-inflamatórios que não sejam à base de esteróides.

Eu era um atleta! Era considerado um dos principais lançadores da Liga! Sei como se trata, um inchaço com gelo. Sei o que é a dor!

Não há muito mais que lhe possamos dizer, Mister Riggs. Os sintomas da espondilite ancilosante variam enormemente de pessoa para pessoa e são sistémicos. Pode ter febre, cansaço e problemas digestivos e, às vezes, a espondilite ataca órgãos como os olhos, o coração ou os pulmões. Não podemos prever de que modo o afectará a si. O mais que podemos dizer é que a artrite é crónica e que as pessoas que lhe prometem curas milagrosas estão apenas a tentar enriquecer depressa. É claro que mesmo com espondilite ancilosante o senhor pode fazer uma vida satisfatória, Mister Riggs, e há muitas organizações para o ajudarem, mas terá de ser mais criativo. Pense no estilo de vida que melhor se adapta a si.

Não tenho vida. Não tenho estilo de vida. Estou cansado, exausto.

Por fim, os piores espasmos passaram. Mesmo assim continuou a andar, embora não soubesse bem porquê. Talvez porque, como estivera muitas horas sem dormir, se esquecera de como isso se fazia. Talvez porque acabara por recear a cama, onde começaria por dormitar e acabaria agarrado à garganta, ofegante e com falta de ar. Só há duas semanas é que sentira isso. Não sabia se era apenas uma fase ou se a artrite piorara.

E não perguntou, porque nunca sabia ao certo se queria saber a resposta.

Pensou no basebol e nos dias duros das suas dezasseis primaveras.

Aos sábados à tarde, jogava com o pai e o irmão mais novo, Steven, conversavam acerca do “espectáculo”, porque Bobby Riggs fora um jogador bastante bom no seu tempo, tivera êxito nos juniores e agora olhava esperançosamente para os filhos. Depois, de forma inesperada, fora diagnosticado um cancro da mama a Heather Riggs, e o marido e os filhos iam para o campo de jogos só para se afastar por instantes daquele sofrimento. A seguir, a jovem e bela Heather Riggs morrera de cancro e eles passaram a ir para o campo de jogos porque era tudo o que lhes restava.

Um pai e dois filhos a baterem bolas e a escorregarem em volta das bases, aprendendo a comunicar de cada vez que atiravam, batiam e apanhavam. O cancro podia levar uma mãe e esposa amantíssima e destroçar uma família. Mas o basebol nunca os abandonaria. O basebol era fiável como ouro.

E assim era o braço de David.

O braço de David fora o melhor entre os melhores. O braço de David podia levá-lo ao “espectáculo”.

Aos dezassete anos, fora lançador dos All-Star Massachusetts e os caçadores de talentos tinham começado a bater-lhe à porta. Ele e o pai ficavam acordados até tarde a conversar sobre os clubes mais importantes que tinham os melhores programas de lançamentos para ele e que lugar eles iriam escolher.

Pouco depois, a dor incómoda na base da coluna tornara-se constante. Tinha problemas ao correr. Uma distensão no tendão, pensaram. Talvez estivesse a esforçar de mais o braço e precisasse de parar um pouco. David teve de abrandar. Steven substituiu-o por uns tempos.

Todavia, as costas de David pioraram, o ombro também, e chegou o dia em que estava no consultório do médico a ouvi-lo dizer que as suas articulações estavam demasiado inflamadas para poder continuar a lançar a bola, enquanto Steven enfrentava o seu primeiro adversário.

Os homens da família Riggs nunca mais voltaram a ser os mesmos. David desistiu do basebol a sério - os caçadores de talentos não recrutam jovens estudantes com problemas de saúde - e foi para a universidade. Nunca mais voltou a jogar basebol. Deixou-o para Steven, que conseguiu uma bolsa de estudo para a universidade, mas nunca foi contactado pelos profissionais. Steven fazia um bom lançamento, mas não tinha o braço de Dama, e todos sabiam isso.

Steven, agora treinador adjunto de basebol na Universidade de Amherst, era feliz no casamento, e tinha dois filhos. E como David não pudera dar ao pai a felicidade de ser uma estrela como jogador, oferecera-se para agente federal. Poria fora de acção os criminosos, apanharia um assassino em série e iria semanalmente ao cinema. Quando fora destacado para o departamento de Boston, sonhara prender a máfia que operava na cidade. Trabalharia sob disfarce para desmascarar as grandes famílias do crime e confrontaria o principal “padrinho”.

No primeiro ano após a academia, um quiroprático diagnosticou finalmente que David sofria de espondilite ancilosante.As suas “costas fracas” nunca melhorariam.

O FBI transferiu-o para os crimes de colarinho branco, onde o maior perigo que corria em serviço era cortar-se no papel ao ordenar centenas de caixas de ficheiros de intimações. David era sempre bem classificado no fim do ano pela sua “capacidade de análise”, eufemismo do FBI para designar os adeptos da leitura rápida de grandes quantidades de palavreado enquanto mastigavam comida chinesa. Via os colegas da academia a desmantelarem redes de droga, a fazerem abortar conspirações terroristas e a serem promovidos em primeiro lugar. Eram os felizardos do FBI.

Sentia as costas muito melhores agora. Significaria que o iam deixar dormir? Quase cinco da manhã. Provavelmente, Steven tinha um jogo naquele dia. Devia meter-se no carro e ir assistir. Decerto o pai estaria lá.

Porém, o mais provável era David voltar para o trabalho. As limpezas em casa dos Stokes ainda não estavam acabadas e David precisava de uma desculpa para andar por lá. Dar-lhe-ia uma oportunidade de saber mais sobre o Dr. Harper Stokes e as estranhas afirmações de Digger sobre a filha adoptiva do médico.

David dirigiu-se para o apartamento quando os primeiros raios de sol começavam a iluminar o céu. Só duas fotografias decoravam as paredes. Fenway Park iluminado à noite. E o famoso Shoeless Joe Jackson. Nada de mais para o lugar a que chamava lar.

David tirou a roupa sem acender a luz e enfiou-se na cama. Mais duas horas até o despertador tocar. Precisava de dormir. Em vez de dormir, pôs-se a olhar para a fotografia de Shoeless Joe.

Lembra-me de que a vida não é justa murmurou para o seu ídolo. E diz-me que está tudo bem, caramba, que está tudo bem.

Shoeless Joe não respondeu. Momentos depois, David deitou-se de lado e fingiu que estava a dormir.

 

Às quatro da manhã, Melanie acordou abruptamente, com um grito preso na garganta e imagens a queimarem-me o cérebro. A pequena Meagan Stokes perseguia-a com uma cabeça ensanguentada. A pequena Meagan Stokes cantarolava “Russell Lee Holmes, Russell Lee Holmes. És filha do Russell Lee Holmes.”

Melanie saltou da cama. Respirava com dificudade e tremiam-lhe as mãos. Até conseguia sentir o gosto a sangue. Finalmente, apercebeu-se de que, no seu esforço instintivo para não fazer nenhum ruído, mordera a língua.

Esfregou as faces húmidas e respirou profundamente. Mais um minuto e mexeu os pés. Conseguia ouvir no piso de baixo o tiquetaque do relógio de sala. Fora isso, a casa de três pisos estava em perfeito silêncio.

Melanie moveu-se sem fazer barulho. Levada por um impulso que naquele momento não se deu ao trabalho de analisar, dirigiu-se para as escadas.

A sala estava deserta, a mobília de novo arrumada e todo o aposento ligeiramente iluminado pelo brilho suave dos candeeiros da rua.

Aproximou-se da lareira, sentindo-se sozinha.

Desde que rompera com William, tinha muitas noites assim, em que acordava no meio do silêncio e vagueava pela casa, em busca de algo a que não sabia dar nome.

Até William se declarar, nunca pensara verdadeiramente numa família própria. Tinha os pais de quem cuidar, o irmão com quem se preocupar. Uma vida bastante cheia. Mas depois William pedira-a em casamento. Nunca soubera ao certo porquê. Aceitara, também sem saber bem porquê. Talvez porque nesse momento a imagem que tinha de si mesma era a de uma Cinderela a viver feliz para sempre com o Príncipe Encantado e a visão seduzira-a.

Os duros factos da realidade depressa afloraram à superfície.

Porém, não sentia falta de William. Aquilo de que sentia falta, em sua opinião, era do sonho.

Deteve-se diante da lareira e voltou automaticamente o olhar para o enorme retrato a óleo da pequena Meagan Stokes.

Primeiro, temos a questão temporal, Miss Holmes. Acontece que a menina apareceu na noite em que o Russell Lee foi executado por matar crianças. Depois, a questão geográfica. Acontece que foi depositada no hospital do Harper e que este faltou a uma execução para estar no hospital. Em seguida, temo-la a si. Uma menina. Encontrada muito bem vestida e de boa saúde, mas ninguém reclama. Ao longo destes anos todos, nem um simples pio das pessoas que devem ter cuidado de si durante nove anos, que lhe compraram roupa, que a alimentaram, que lhe deram um tecto e, que diabo, que se certificaram de que a menina fosse encontrada num hospital onde estaria em boas mãos. E, além disso, há a questão da sua amnésia. Uma menina saudável que não consegue lembrar-se de nada, nem de onde veio, nem do seu próprio nome. E depois destes anos todos, duas décadas depois, ainda não se lembra.

Não sussurrou a Meagan. Não me lembro. Juro que

não.

No entanto, já não tinha tanta certeza. Os lampejos no seu cérebro, os repetidos buracos negros, a voz da menina. Quantas vezes já? Tentara fingir que não estava a acontecer, que a sua mente não começara a abrir-se e a mostrar-lhe coisas que não queria saber.

Já tinha uma família. Não queria saber de nenhum assassino em série, nem dos pais biológicos nem dos seus nove anos de idade. Nada disso interessava. A única coisa importante era que, quando fora abandonada num hospital sem sequer ter um nome, os Stokes haviam avançado e tinham-na salvo.

Por amor de Deus, ela não seria nada sem os Stokes. Nada.

Há vinte anos, fora uma menina que acordara sozinha nas urgências de um hospital. As paredes brancas, muito brancas. As agulhas e os tubos assustadores. Os rostos dos estranhos, desconcertantes e aterradores.

Toda a gente lhe garantira que ia ficar boa. Toda a gente lhe dizia que os pais apareceriam a todo o momento e que cuidariam de tudo. Estava bem alimentada, bem tratada. Alguém que não estava presente amava-a com certeza.

Passaram-se alguns dias. O tempo decorria na enfermaria pediátrica a ouvir os outros garotos a choramingar e os pais a consolarem-nos. Melanie revolvia-se na cama alta e branca do hospital e olhava para as paredes nuas, tentando desesperadamente imaginar a mãe que num dia próximo viria consolá-la.

Os Serviços Sociais encarregaram-se do caso e transferiram-na para um centro de acolhimento próximo. Não se falou mais do regresso dos dedicados pais. Agora, toda a gente murmurava sobre a possibilidade de encontrar uma boa família de acolhimento. E quanto à adopção? Uma coisa seria se ela fosse ainda bebé, ouviu alguém dizer, mas como não era...

Noite após noite, sozinha num quarto singelo, apercebendo-se a pouco e pouco de que ninguém viria magicamente à sua procura.

Ninguém a levaria para casa. Ninguém poderia sequer dar-lhe um nome.

Então, Patricia Stokes surgiu.

Apareceu à porta, num belo fato cor-de-rosa, dizendo que viera ler uma história a Melanie. Melanie não disse uma palavra. Olhou para aquela mulher linda e esbelta, com a sua voz triste e melodiosa, e pensou quase visceralmente: Eu quero-a.

Envolvera com os braços a linda senhora. Enterrara o rosto no pescoço perfumado. Diga-me que agora está tudo bem. Diga-me que tenho um lar.

A bela Mrs. Stokes lera-lhe uma história sobre uma princesa de conto de fadas. Por razões que Melanie não entendeu, a senhora, no fim, chorara. Depois, secara rapidamente as lágrimas, deitara a Melanie um olhar ansioso e saíra do quarto.

Mais tarde, uma assistente social explicara a Melanie que Mrs. Stokes perdera a filha de quatro anos, no Texas, uns anos antes. Fora uma grande tragédia. Agora, os Stokes estavam a recomeçar a vida em Boston e o Dr. Harper Stokes e a mulher encontravam-se entre as pessoas mais generosas da comunidade. Na realidade, eram um casal extremamente simpático. Fora muito triste o que acontecera, é claro, mas, às vezes, Deus escrevia direito por linhas tortas.

Melanie entendeu. Os Stokes sentiam a falta de uma menina, do mesmo modo que ela sentia a falta de uma família. Afastados, estavam todos sozinhos. Juntos, completar-se-iam.

Na vez seguinte em que Patricia apareceu, Melanie estendeu-lhe os braços e, numa fracção de segundo, Mrs. Stokes envolveu-a no seu abraço. Começou novamente a chorar. Desta vez, Melanie afagou-lhe as costas.

Agora está tudo bem murmurou com solenidade. Vou ser a sua menina e tudo ficará bem.

Patricia chorara ainda mais.

Seis meses depois, os Stokes levaram Melanie para casa.

Quando tinha doze anos, era Melanie a única pessoa que conseguia fazer rir o pai, assoberbado de trabalho. Era a única que compreendia Brian e os seus maus humores.

Depois, vieram as noites realmente negras, quando o irmão ficava fora até tarde, o pai trabalhava até tarde, Melanie descia as escadas e encontrava a mãe a fitar o retrato a óleo da filha de quatro anos que nunca voltaria para casa. A pequenina que Patricia trouxera ao mundo e perdera. A pequenina que Patricia nunca poderia esquecer, muito embora tivesse Melanie.

Nessas noites, Melanie encaminhava a mãe para as escadas e para a cama. Depois, sentava-se em silêncio e pegava na mão da mãe, tentando ajudá-la a ultrapassar o sofrimento.

Está tudo bem, mãezinha. Eu cuido de si. Hei-de cuidar sempre de si.

Cinco horas. O relógio da sala voltou a bater as horas, arrancando Melanie às suas recordações.

Ainda fitava Meagan Stokes, que, agarrada ao seu cavalinho de madeira preferido, se voltava para quem quer que a estivesse a observar. A pequena Meagan, com o perfeito vestido azul de folhos, grandes olhos azuis e cabelo em canudos dourados. A resplandecente Meagan, que, apenas três semanas depois de o quadro ficar pronto, estaria morta.

E, vinte anos depois, a família Stokes ainda continuava a tentar ultrapassar o acontecimento. Melanie entendia agora que havia feridas que nem mesmo uma nova filha cheia de zelo e ternura conseguia curar.

Por fim, voltou-se. Enroscou-se no sofá e sussurrou:

Mas eles também são a minha família, Meagan. Conquistei-os. Ganhei-os.

O homem murmurou por entre dentes no quarto escuro. Fazer uma lista, verificá-la duas vezes...

Vinte e cinco anos, esperara ele. Pensara no que havia de fazer, revolvera tudo na mente, apurara os factos até tudo bater totalmente certo. Três semanas antes, pusera a bola a rolar com um simples telefonema. Primeiro, pôr toda a gente na mesma cidade. Com a chegada de Larry Digger umas horas antes, chegara o último jogador. E agora, vamos começar o jogo!

Há vinte e cinco anos, tinham sido cometidos aqueles crimes, uns maiores, outros mais pequenos. Há vinte e cinco anos, haviam sido tolerados esses pecados, uns maiores, outros mais pequenos. Sempre pensara que a natureza humana, no fim, cuidaria de tudo. Alguém soçobraria, alguém falaria, talvez até mesmo Larry Digger juntasse finalmente todas as peças do quebra-cabeças.

Porém os anos seguiram-se uns aos outros e ninguém fizera absolutamente nada. Ninguém dissera nada, ninguém perguntara nada, ninguém se lembrara de nada, ninguém soubera de nada. Toda a gente escapara impune.

Ficara farto. Ia tratar das coisas pessoalmente. A começar pela lista - uma compilação integral dos crimes cometidos por cada um.

O crime de não dizer nada. O crime de não saber. O crime de não recordar. O crime do amor incondicional. O crime da inexorável cobardia.

O crime de nunca ser suficientemente homem.

Depois, o crime pior, um crime tão grande que não lhe ocorria um nome que conseguisse captar toda a sua natureza. Era hipocrisia, ganância e egoísmo, tudo misturado. Era tomar o que os outros tinham, pura e simplesmente porque tinham. Tratava-se de desumanidade e, pior: era estragar a vida das pessoas e não perder um segundo de sono.

Era esse o único “verdadeiro pecado”, porque muitas vezes pensara que a autêntica essência do mal era o desprezo.

Não conseguira decidir-se quanto ao preço desse pecado. Precisava de ser especial, precisava de ser simples e precisava de ser terrível.

Voltou ao que tinha. Velas, penas e arte antiga. Um brinquedo de criança e um vestido de criança. Línguas de vaca, corações de porco e uma grande quantidade de maçãs. Um objecto que nadava num frasco de vidro e que era tão macabro que nem ele suportava fitá-lo.

Um número de telefone.

Os seus preparativos estavam completos.

Era altura de abrir as prendas. Estudou a lista. Estudou a pilha. Tomou a sua decisão: Melanie, Melanie, que encontrara realmente a felicidade como a outra filha dos Stokes. Melanie, que, em todos aqueles anos, nunca lhe fizera o favor de se lembrar.

Foi buscar a faca de carniceiro. Afiou a lâmina.

Estava pronto.

Conhecem o crime perfeito? Eu conheço.

 

O domingo estava bonito, com um brilhante sol primaveril e pequenas aves que chilreavam alegremente. Melanie acordou e descobriu que estava deitada no sofá e que David Riggs, o criado, olhava para ela. Sentou-se de imediato.

Mas que diabo é que está a fazer na minha sala?

O meu serviço. Por que razão está a senhora a dormir aqui?

Não tem nada a ver com isso! Melanie pestanejou como uma coruja. Havia muita claridade. Demasiada claridade. E também muito barulho. Pneus de carros, berros de transeuntes, buzinas. De repente, teve um mau pressentimento.

Que horas são?

Uma e meia.

Oh, meu Deus! Melanie nunca dormia depois das oito. Nunca. E agora voltava-lhe tudo à memória. A cena com Larry Digger, David Riggs a transportá-la para casa, o pesadelo, a longa noite diante do retrato de Meagan Stokes. E agora outra vez David Riggs, que continuava a cheirar a Old Spice e a pô-la nervosa.

Trocara o casaco branco de criado por uma T-shirt velha dos Red Sox e calças de ganga. À luz do dia, viu que ele tinha cabelo castanho com tons avermelhados. Olhos castanhos profundos com laivos de verde. Um rosto mais perto dos quarenta do que dos trinta, curtido e anguloso. Intenso, pensou Melanie de imediato.

Afastou-se dela alguns passos e ela reparou que coxeava. Cambaleou, mas recuperou, comprimindo os lábios numa linha fina.

Deduzo que esteja aqui para trabalhar disse ela por fim.

Estamos a desmanchar os carrinhos dos sumos. É um instante.

Tenho a certeza que sim. Mas há alguma coisa em especial que o traga à sala?

Ferramentas. O Harry estava encarregado disso, mas só trouxe um martelo. Não é lá muito esperto, o Harry.

A caixa das ferramentas está num armário da cozinha disse Melanie secamente. Procure lá.

David limitou-se a enfiar as mãos nos bolsos de trás.

Já procurámos na cozinha. Não há nenhuma caixa de ferramentas. Mas há uma bela colecção de lâmpadas.

Oh! Franziu as sobrancelhas. Talvez o meu pai a tenha levado por qualquer motivo. Vá perguntar-lhe.

Não posso. O doutor Stokes saiu logo pela manhã.

Então e a Maria?

Refere-se à criada? Não a vi.

Bem, talvez a minha mãe saiba o que o meu pai fez com a caixa.

Mistress Stokes também não está. Não quis chegar atrasada ao ginásio.

Oh, esqueci-me. O domingo era o dia dos Alcoólicos Anónimos. A mãe não voltaria a estar em casa senão cerca das cinco horas. O que significava que era mesmo Melanie quem tinha de descobrir a caixa desaparecida.

Levantou-se, mas David não se mostrou disposto a afastar-se. De facto, parecia ter algo em mente. Melanie fitou-o com curiosidade.

Como se sente? perguntou-lhe David de forma abrupta.

Bem.

Passando a noite no sofá?

É um sofá muito confortável.

Com vista para o retrato da Meagan?

Vim por causa do sofá e não por causa da vista.

Pois. Só porque um homem apareceu a noite passada alegando que o assassino da Meagan Stokes era realmente o seu pai disse David. Que os seus pais adoptivos não são nem tão bondosos nem tão afectuosos como julgava...

Oh, meu Deus, você ouviu tudo! Pensara que ele chegara só quase no fim. Não se apercebera... Ele nunca dissera...

Melanie espetou-lhe um dedo no peito.

Como se atreve! Esteve a bisbilhotar a minha vida. Mas que diabo é que acha que estava a fazer?

Estava a ver se a senhora se encontrava bem...

Caramba, por que razão me seguiu a noite passada?

David abanou a cabeça e replicou num tom quase desdenhoso:

A senhora saiu porta fora a meio da sua própria festa com um homem suspeito fortemente agarrado ao seu braço e ainda me pergunta por que razão a segui? Por amor de Deus, até parecia que estava a preparar-se para morrer!

Sei cuidar de mim.

Minha senhora, vá contar essa história a outro!

Melanie corou. Bolas, vomitara para cima dele e, perante isso, era difícil discutir. Mas, de qualquer modo, antes que ela, pelo menos por uma questão de orgulho, pudesse dar qualquer resposta, ele declarou:

Tenho coisas a fazer. Quando encontrar as ferramentas, chame pelo Harry.

Está bem.

Óptimo.

David dirigiu-se para o corredor e Melanie respirou de alívio. Era tarde. Tinha de recuperar o tempo perdido. Então, um novo pensamento atingiu-a e fê-la chamá-lo:

Espere!

A meio do corredor, David parou, contrariado, e olhou-a com impaciência.

Uma vez que... uma vez que ouviu tudo...

Sim?

Que... que pensa do Larry Digger?

Penso que é, muito provavelmente, um bêbedo afirmou David, lacónico.

Melanie respirou mais à vontade. Sim, era a opinião que queria ouvir, a garantia de que Larry Digger não prestava para nada.

É uma história ridícula.

Cheia de buracos, como a senhora disse.

De facto. Melanie acenou com a mão, a dispensá-lo. Nenhum pai no seu juízo perfeito daria um lar à filha do assassino da sua própria filha. É ofensivo.

David voltou a assentir com um aceno de cabeça, mas, naquele momento, tinha o olhar velado e difícil de ler.

Provavelmente, anda à procura de dinheiro sugeriu ela. Obrigada, Mister Riggs. Já lhe levo as ferramentas.

Há uma questão interessante que ele suscita acrescentou David.

O quê? perguntou Melanie, empalidecendo.

Porquê agora? Se é por uma questão de dinheiro, por que razão o Larry Digger não a abordou a si ou aos seus pais há mais tempo?

Melanie teve subitamente um calafrio. Esfregou os braços para o afastar.

Deve ter precisado de muito tempo para inventar uma história. Ou talvez não precisasse de dinheiro antes.

O telefonema também é interessante. Porque é que ele havia de dizer que seguiu a pista até sua casa? Para quê acrescentar esse pormenor em especial?

Melanie não soube responder. Por que motivo Larry Digger ten- tara realmente ser exacto se queria apenas dinheiro? Os aldrabões podiam ser muito elaborados. Mas porquê naquela altura e não antes, quando ela estaria mais vulnerável e mais interessada no passado?

Ainda revolvia as perguntas na mente quando David sugeriu::

Eu podia ajudá-la neste assunto.

Perdão?

Já fui polícia, sabia? Contraí artrite, que me obrigou a sair da corporação, mas ainda tenho contactos. Se quiser, mando investigar o Larry Digger.

O coxear e as pontadas de dor que tentava esconder deviam ser da artrite. E o facto de ter sido polícia explicava por que a seguira na noite anterior. Tudo em Larry Digger desencadeara os seus instintos. E, por isso, seguira-a e protegera-a.

Melanie sentiu-se mais descontraída perante David Riggs. Mas, depois, abanou a cabeça.

Tudo bem, sei cuidar de mim.

Com todo o respeito, que sabe a senhora acerca de um homem como o Larry Digger?

Bem, para começar, sei que posso confirmar a história dele sobre a informação anónima verificando as nossas facturas de telefone.

David estreitou os olhos.

E quanto a uma investigação completa sobre o passado dele?

Telefono aos patrões. Os jornais do Texas.

Sabe quantos jornais há no Texas? Melanie sorriu-lhe docemente.

Então, o melhor é deitar-me ao trabalho, não lhe parece?

Não cede um milímetro, hein? Nunca pede ajuda?

Bem-vindo à família Stokes, Mister Riggs. Cuidamos de nós mesmos.

Ah, sim? David deitou-lhe um olhar duro. Então, porque é que, quando um jornalista velho e cansado a arrastou para fora da sua casa, um criado foi a única pessoa que deu por isso? Que lhe parece, Miss Stokes?

Melanie não teve resposta.

Duas chávenas de café depois, sozinha na sala de jantar e a observar o sol da tarde que penetrava pelos cortinados de renda, Melanie pegou num queque com passas.

Talvez tivesse de vê-los no Texas com os dois filhos, a menina tão querida que toda a gente adorava, e o menino já tão perturbado que metade das mães do quarteirão não o deixava brincar com os filhos. Começo a ter a impressão de que há uma quantidade de coisas acerca da sua família que a senhora simplesmente desconhece.

Por que motivo ela não sabia mais sobre Meagan Stokes ou sobre a vida da família no Texas? Apesar das palavras ousadas que dirigira tanto a Larry Digger como a David Riggs, o facto começava a incomodar Melanie.

Partira sempre do princípio de que era demasiado doloroso para os pais tocarem no tema de Meagan. Também não seria provavelmente um tópico de conversa que gostassem de partilhar com a filha adoptiva. Apesar do que as pessoas diziam, as famílias com filhos adoptivos tinham uma dinâmica diferente. O início não era nem natural nem fácil, assumia mesmo uma certa parecença com os primeiros encontros de namorados - todos punham as suas melhores roupas, usavam das melhores maneiras e tentavam não fazer nada que os levasse a parecer demasiado patetas. Depois vinha a fase da lua-de-mel, quando nem os pais nem a criança cometiam erros, uma vez que estavam todos muito felizes por se terem uns aos outros. Depois, se a adopção tivesse êxito, a família estabilizava por fim na fase madura do casamento. Confortável, bem adaptada, em que todos os membros da família conheciam os pontos fortes e as fraquezas uns dos outros e se amavam apesar de tudo.

Melanie gostava de pensar que a sua família atingira finalmente a fase do nirvana familiar, mas, agora, tinha de questionar-se. Se se sentiam tão bem uns com os outros, porque é que nunca falavam de Meagan? Por que razão Melanie não fizera perguntas? Mesmo que tivesse sido doloroso, isso seria há vinte anos. Decerto que duas décadas depois...

Trata-se do passado, disse para si mesma com firmeza. Não interessa.

Mas já não tinha tanta certeza. As insinuações de Larry Digger principiavam a lançar raízes. O jornalista começava a vencer.

Melanie desistiu do queque. Cruzou o vestíbulo em direcção ao escritório do pai, onde foi imediatamente saudada pela visão dos livros empilhados por todo o lado. Na secretária de cerejeira, na cadeira giratória de couro vermelho e no chão.

Segundo parecia, enquanto ela estivera a negociar com Larry Digger, o baile em prol da alfabetização fora um êxito. Podia catalogar os livros nessa tarde, prepará-los para avaliação pelo negociante de livros raros de Boylston Street. Havia muita coisa a fazer.

Melanie abriu o armário de mogno onde se guardavam os ficheiros e procurou o da companhia de telefones. A boa notícia era que o seu pai, meticuloso como era, conservava todas as facturas mensais. A má notícia era que ainda não tinham recebido a última factura referente às três semanas anteriores. No dia seguinte ia telefonar e pedir uma cópia.

Isso resolveria a questão de Larry Digger.

Mas... e quanto ao seu próprio passado? Por que razão os pais não tinham insistido em descobrir mais? A princípio, era provável que tivessem receio. Se encontrassem os seus verdadeiros pais, estes podiam tentar retirar-lhes a filha. Mas já se tinham passado vinte anos e nunca lhe perguntaram uma única vez se se lembrava de alguma coisa. Nem sequer a haviam questionado sobre se queria aprofundar o assunto. E quanto a hipnose ou terapia de regressão ou algo do género? Decerto que o pai, como médico, já pensara nisso.

Porém, nunca se falara em nada e Melanie sentiu-se incomodada com o pensamento de que, não obstante a grande união da família, havia uma estranha regra tácita: não insistas de mais, não fales de mais. Não olhes para trás.

Começo a ter a impressão de que há uma quantidade de coisas acerca da sua família que a senhora simplesmente desconhece.

E se lhes dissesse o mesmo, pensou Melanie com dureza, que responderiam? Ela não era melhor do que eles, também gostava da sua privacidade. Nunca contara à família os pormenores do que acontecera com William. Nunca falara do primeiro encontro, que fora perfeito, em que ele a levara a passear ao longo do rio Charles e tinham discutido com avidez, quase febrilmente, como era crescer sabendo que se fora abandonada pelos pais biológicos. Nunca referira o fim-de-semana três meses depois, o fim-de-semana perfeito, em que tinham feito amor até às quatro da manhã. Posteriormente, ao vestir-se, com o corpo lânguido e rosado, Melanie descobrira o sutiã de renda metido debaixo do colchão, um sutiã que não lhe pertencia. Voltou para casa sabendo que o compromisso tinha de acabar, mas nunca proferiu uma palavra sobre isso aos pais. Depois de tudo terminado, comunicou-lhes simplesmente que não resultara. Nem mais, nem menos. Eles pareceram compreender, embora percebesse que o pai ficara magoado. William fora ideia sua, afinal.

Ninguém voltou a falar no assunto e Melanie gostou que assim fosse.

Melanie tinha o seu passado, os pais, o deles. Quanto mais pensava nisso, menos sinistra considerava a situação e mais a classificava de natureza basicamente humana. Pequenos segredos, pequenos momentos de privacidade. Era tudo. Só porque as pessoas precisavam do seu espaço, isso não significava que tivessem conspirado para adoptar a filha de um assassino. Era absurdo.

Larry Digger era absurdo.

No dia seguinte, trataria de conseguir a factura de telefone, que revelaria que não havia chamadas para o Texas. Depois disso, todos podiam prosseguir com as suas vidas.

E os espaços em branco? A voz da menina e os pedidos para voltar para casa?

Melanie não possuía uma resposta fácil para isso. Tinha vinte e nove anos. Gostava do seu trabalho, apreciava a sua comunidade, amava a família. Ainda lhe importaria, realmente, saber de onde provinha?

O facto de não se saber constituiria sempre um problema?

Melanie suspirou. Não ia conseguir fazer muito no actual estado de espírito. Do que precisava era de uma boa caminhada.

Subiu as escadas e abrandou o passo ao ver a porta do quarto. Estava aberta de par em par; conseguia ver o reflexo de luzinfias tremeluzentes no painel de madeira. Depois, o cheiro embateu nela. A gardenias, espesso e enjoativo.

Melanie não possuía nada que cheirasse a gardenias.

Algo... algo começava a agitar-se novamente. Sombras a perpassarem-lhe pela mente. Ondulações no vácuo.

Empurrou a porta. Viu a cama. Deixara-a desfeita a meio da noite. Agora, os lençóis amarelos tinham sido esticados e a colcha azul e púrpura feita à mão estava perfeitamente lisa. A cama de Melanie nunca estava feita.

Maria? murmurou. Não houve resposta. Olhou para os pés da cama.

De repente, as imagens explodiram.

Menina com o pónei vermelho de madeira na mão. Menina no chão de madeira em bruto da barraca, apertando contra o peito o brinquedo preferido.

Quero ir para casa choramingou.

Dá-me o brinquedo, queridinha. Se me deres o brinquedo...

Quero ir para casa...

Meagan, pára de fazer birras.

P... p... por favor?

DÁ-ME o PÓNEI.

Quero ir para casa. Quero ir para casa. Quero ir para CASA. Não. Não. Não. NÁÃÃÃO!!!!

Melanie correu para o vestíbulo a chorar. Caiu de joelhos, encostando a testa ao chão e tentando afugentar as imagens. Não queria saber. Não queria ver.

Depois, voltou a sentir o perfume a gardenias e as imagens recomeçaram a correr.

Ouviu vagamente passos a subirem a escada.

Está aí alguém? Pareceu-me ouvir um grito... Melanie! Melanie não conseguiu levantar a cabeça. Não conseguiu dizer a

David Riggs que se afastasse. Não era nada com ele. Ninguém tinha nada a ver com aquilo, só ela.

Deixou-se estar com a cabeça pousada no chão, enquanto imagens distorcidas lhe surgiam na mente como lâmpadas.

Meagan, pónei, cabana. Meagan, pónei, cabana.

Quem está à porta? Quem está de pé junto da porta?

Que faço eu aqui?

Não quero saber. Não quero saber...

Meu Deus! exclamou David.

Melanie olhou para cima. David olhava para dentro do quarto com uma expressão no rosto que ela não conseguiu entender. Talvez fosse choque. Talvez fosse piedade.

Melanie tinha de ir para longe daquilo e murmurou então: Não deixe os meus pais verem. O meu irmão... o meu irmão sabe o que há-de fazer.

Voltou a fechar os olhos.

Quem está à porta? Quem está de pé junto da porta?

Não quero saber...

 

Brian Stokes sempre soube que estava destinado a uma vida difícil. Desde que se lembrava, os seus estados de espírito eram cínicos e desconfortáveis. A sua infância definira-se por intermináveis noites cinzentas, em que o pai estava sempre a trabalhar no hospital, enquanto a mãe permanecia rigidamente sentada no sofá, principesca na sua solidão. Às vezes, Brian fazia brincadeiras e encostava-se com ternura à mãe, oferecendo-lhe o seu sorriso mais encantador até que ela sorrisse e o puxasse para os braços perfumados. Noutras noites, era cruel, destruía objectos e mobília e corria aos gritos pela casa, até que a mãe rebentava em lágrimas, soluçando, chorando e suplicando-lhe que lhe dissesse por que razão a odiava tanto.

Aos seis anos, Brian não conhecia a resposta. Não sabia porque fazia a mãe rir ou porque a fazia chorar. Mas tinha perfeita consciência de uma sensação de culpa e de insegurança, de que algo na família não corria bem. Achava que todos acabariam por odiá-lo. O pai, a mãe e a irmã mais nova, Meagan...

Provavelmente, a única pessoa para quem ele se mostrara bondoso na vida fora Melanie, mas, por último, havia sido mau para ela. Ignorara os seus telefonemas e todas as tentativas de contacto. Retirara-se para o seu apartamento na zona sul de Boston, onde podia afiar como uma navalha de barba o desprezo que sentia por si próprio.

Três meses antes, estava deitado e a perguntar a si mesmo por que razão não cortava simplesmente os pulsos, mas, depois, pensara em Meagan. A preciosa e bela Meagan. O modo como estendia os braços e pedia cavalinho. À noite, Brian corria até ao quarto dela só para a ver dormir, para a guardar, embora não soubesse de quê. Pelo menos, até ser demasiado tarde.

Meagan, Meagan, perdoa-me.

Fora buscar um pacote de lâminas.

Depois, pensara em Melanie. A sua expressão na primeira vez em que a vira, o modo como o abraçara, o modo como o amara, com que pura e simplesmente, o amara.

Melanie trouxera de novo vida à família Stokes e Brian não podia decepcioná-la. Se não queria viver por si mesmo, então teria de viver por ela.

Entrou para um grupo de apoio. Ficou a saber que carregava demasiada raiva; que tinha opiniões que se revelavam “conflituosas” em relação à família e “problemas com a verdadeira intimidade”. Ficou a saber que precisava de definir de uma vez por todas quem queria ser. Não o que o pai queria, não o que a família queria, mas o que ele queria.

Brian Stokes precisava de aprender a gostar de si mesmo e começara a ganhar consciência de que isso tinha pouco a ver com a confusão que lhe causava a sua homossexualidade e muito mais com a culpa que sentia por causa da morte da irmã. Vinte e cinco anos depois, os tempos do Texas perseguiam-no subitamente em busca de vingança. Em certas noites, acordava ensopado em suores frios. Noutras, despertava aos gritos.

Então, uma noite, Brian sonhou com a morte dos pais e sentiu-se feliz. Presentemente, não confiava em si mesmo para ir a casa.

Depois, nessa manhã, Jamie O’Donnell telefonara. Melanie andava muito pálida e com os nervos à flor da pele, dissera Jamie, lacónico. Fora acometida por uma enxaqueca na noite anterior, e Melanie só tinha enxaquecas em condições de tensão extremas. Brian saberia que diabo estava a passar-se?

Não sabia. Ficou preocupado.

Depois, o telefonema às duas da tarde. Um homem que não disse como se chamava e que declarou concisamente que Melanie precisava dele. Brian não discutiu. Ignorou a afirmação categórica do pai de

que Brian Stokes já não era bem-vindo em Beacon Street e passou dois semáforos vermelhos na sua pressa de lá chegar.

Porém, não estava preparado para a cena no quarto de Melanie. Deu uma olhadela ao velho cavalinho vermelho de madeira e ao altar de velas votivas e disse:

- deixem a mãe ver.

Estás a brincar? Por amor de Deus, entra e fecha a porta. Brian entrou no quarto e fechou a porta. A irmã encontrava-se no meio do quarto, ainda de pijama, embora o dia já fosse muito avançado. Tinha os braços apertados em volta da cintura. Melanie nunca se assustava. Nunca.

Melanie... Deu um passo automático na direcção dela, depois hesitou. Melanie parecia insegura em relação a ele, consciente do abismo que se avantajara entre ambos. Era justo, pensou Brian. Ele mesmo estava ali no quarto e também se sentia inseguro.

Passou-se mais um momento de estranheza. Por fim, Melanie quebrou o silêncio:

Brian, apresento-te o David Riggs. Apontou para a outra pessoa que se encontrava no quarto e que andava de um lado para o outro com determinação. O David Riggs é um ex-agente da polícia explicou Melanie. Tem contactos...

Ex-agente da polícia?

Artrite proferiu David, lacónico. Brian acenou com a cabeça. Já reparara que o outro coxeava. Chamei um amigo, um detective no activo, alguém que sabe ser discreto. A sua irmã está verdadeiramente preocupada com a discrição.

Melanie olhava com expressão inquiridora para Brian. Este manifestou finalmente a sua aprovação. Não sabia o que pensar de David Riggs, mas também não sabia o que fazer. Nunca vira nada daquilo antes e não tinha conhecimentos nas forças da lei.

Credo, o que é isto? explodiu Brian por fim. Quero dizer... quem? Como? Porquê?

Ainda não sabemos respondeu o ex-polícia. Vamos começar pelo “quê”, que são quarenta e quatro velas votivas com perfume a gardenias. Um cavalinho vermelho de madeira, um farrapo velho de tecido azul, algumas manchas de sangue. Reparem na disposição das velas. Alguém está a enviar uma mensagem.

Brian voltou-se e olhou directamente para o arranjo. Caramba. As velas bruxuleantes formavam uma palavra: Meagan.

Uma recordação distante atingiu Brian. Meagan, bebé, no chão. Brian a agarrar na boneca e a rasgá-la de alto a baixo. Meagan a chorar, sem compreender. Brian a sacudir o recheio da boneca pelo chão. Tens de ser forte, Meagan, tens de ser forte.

A distância entre ambos abriu-se ainda mais.

Levantei-me a meio da noite disse Melanie com voz calma. Desci as escadas. Quando voltei... bem, estava isto aqui.

Levantaste-te a meio da noite? perguntou Brian secamente.

Melanie, há anos...

A senhora é sonâmbula? perguntou-lhe David Riggs. Mas Melanie fitava Brian e este viu nos olhos dela aquilo que mais temia: estava magoada. Ele magoara-a. Brian deveria estar ali para a ajudar quando ela se levantasse a meio da noite. Era sempre ele que acordava, que a seguia pelas escadas, vigiando-a enquanto ela fitava o retrato de Meagan. Era o irmão mais velho. Era obrigação dele.

Não sou sonâmbula respondeu Melanie passados uns instantes. Às vezes, estou só... inquieta.

Melanie...

Depois, Brian. Muito depois.

David Riggs pigarreou e voltou a atenção para Brian.

A sua mãe pode voltar a qualquer momento, portanto temos muito que fazer.

Sem esperar pela resposta, prosseguiu com brusquidão:

Vamos começar pelo cavalo. É o que está no retrato a óleo que se encontra lá em baixo, não é? O cavalo da Meagan.

A orelha partida... murmurou Brian. Fui eu que fiz isso. Atirei o cavalo contra a lareira. Estava... zangado. A Meagan tinha-o com ela no dia em que a raptaram, mas nunca foi recuperado. Na altura, a polícia disse que Russell Lee o conservara como... como é que eles disseram?... como um trofeu.

Nunca mais voltaram a ver o cavalo? Nem sequer quando prenderam o Holmes?

Não. Nunca.

E o tecido?

Não sei. Brian estudou o tecido por instantes, sem lhe tocar, observando-o apenas. Pode ser do vestido dela concluiu finalmente. É azul. Mas foi há muito tempo, percebe, e está... muito manchado, agora.

Ela foi encontrada vestida?

Brian olhou de soslaio para a irmã, hesitante.

Embrulhada numa manta.

David acenou com a cabeça. Meagan fora encontrada com uma manta apenas.

Como é que alguém conseguiu entrar? exclamou Melanie finalmente. Temos sistema de alarme.

Estava ligado? perguntou David.

É evidente que estava ligado! Melanie olhou-o com secura. Vá lá, está a lidar com uma família que sabe o que pode correr mal. É melhor acreditar que o meu pai liga o alarme todas as noites.

Pois. David remoeu a resposta por uns instantes. Quem estava cá durante a noite?

Eu, é claro respondeu Melanie. A minha mãe e o meu pai, e a Maria, a criada interna. Também tínhamos combinado que a Ann Margaret, minha amiga e chefe no Centro de Dadores da Cruz Vermelha, ficaria no quarto de hóspedes... É um estirão até Dedham, sobretudo àquela hora da noite. Calculo que ficou cá, mas temos de perguntar à Maria para termos a certeza.

O seu pai revista a casa antes de ligar o alarme?

Porque é que faria isso?

Vocês tiveram trezentas pessoas em casa na noite passada. Qualquer um podia ter-se esgueirado escada acima sem ninguém dar por isso e...

E esperar, pura e simplesmente. Melanie acabou a frase.

Bolas! exclamou Brian.

Deve haver uma ligação entre o Larry Digger e tudo isto disse Melanie. Talvez se tenha introduzido depois de termos falado. Talvez tenha encontrado isto quando andava a seguir o Russell Lee Holmes.

David abanou a cabeça.

Subtil de mais. Como é que um homem vestido como ele... e a cheirar como ele... se esgueirava pelas escadas sem ninguém notar?

Entrou em casa da primeira vez...

Esperem lá! exclamou Brian. O Larry Digger? O jornalista do Texas? O Larry Digger esteve em nossa casa a noite passada?

A irmã sorriu fracamente, sorriu com ar cansado e depois contou-Ihe.

Brian ouviu a história toda com uma expressão pétrea. Pensou que tinha de reagir. Mas não reagiu. A melhor reacção que poderia oferecer era de fatalismo, ao olhar para as quarenta e quatro velas dispostas a formar o nome da falecida irmã. O Texas já regressara aos seus sonhos e já lhe conturbava a mente. Não era possível fugirem, o problema era esse. Nenhum deles aprendera nunca a fugir e Russell Lee Holmes acabaria por apanhá-los. Teriam eles realmente pensado algo tão simplista como a possibilidade de Russell Lee Holmes ser vencido pela morte?

Brian? chamou Melanie calmamente. Brian, sentes-te bem?

Brian tocou nas faces. Bolas, estava a chorar.

E nem sequer me telefonaste a contar-me sussurrou.

Telefonei-te hoje.

As coisas mudaram assim tanto, Mel? Melanie olhou para o chão.

Foste tu que te afastaste, Brian. Foste tu que concluíste que nos detestavas a todos.

Melanie tinha razão. Brian tinha vontade de pegar-lhe na mão, acariciá-la e recordar-lhe os velhos tempos. Não foi capaz.

Esquece o Larry Digger declarou, arrebatado. Vou tratar de tudo, Mel. Juro.

Não! Não quero isso, Brian. Consigo lidar com a situação.

Não há qualquer situação! O Larry Digger era naquela altura um jornalista de meia-tigela e hoje continua a ser um jornalista de meia-tigela. Tu não és filha do Russell Lee Holmes e eu não vou tolerar que alguém aborde a minha irmã mais nova com este tipo de tretas. Isto não tem nem pode ter nada a ver contigo, Mel.

Os olhos de Melanie endureceram.

Nada a ver comigo? Porquê! Porque não sou uma verdadeira Stokes? Porque mesmo vinte anos depois ainda me tratam como convidada...

Caramba, não quis dizer isso. Conheces-me o suficiente para saberes que não, Mel.

Não, já não conheço! Portanto, o melhor é explicares o que queres dizer, Brian, porque, no que me diz respeito, todos os acontecimentos, ataques e ameaças à nossa família... à minha família... têm tudo a ver comigo!

Não, não têm! respondeu ele em voz tonitruante. Com todo o respeito, não fazias parte desta família quando a Meagan foi raptada. Sabes as vezes que surgem papéis a dizer: “Alguém viu esta pessoa?” Sabes que as agências de correio locais entregam gratuitamente centenas de milhares de exemplares de panfletos sobre uma criança desaparecida? E que as principais companhias aéreas os levam para os aeroportos de todos os Estados Unidos?

“Sabes o que se sente quando se entrega o dinheiro do resgate e depois se fica simplesmente à espera? Ou como é quando a polícia deixa de falar em recuperação e aparece com cães de busca de cadáveres? Ou melhor ainda, como é ir à morgue identificar os restos de uma criança? Não, Mel. Não sabes, porque a Meagan não tinha nada a ver contigo e é assim que queremos que as coisas permaneçam.

Tarde de mais! replicou Melanie com vivacidade.

A irmã afastou-se bruscamente dele e aproximou-se de David Riggs. Que diabo, era o irmão mais velho e devia ser-lhe permitido proteger a irmã se o quisesse. E não queria Melanie envolvida com Meagan.

Isto está a piorar, Brian disse-lhe a irmã. Comecei a ter imagens da Meagan Stokes e não me parece que essas imagens resultem de sonhos.

“Acho que estou finalmente a lembrar-me, Brian prosseguiu em tom calmo. E do que estou a lembrar-me é dos últimos dias de vida da Meagan Stokes. Quando a Meagan estava encafuada numa cabana de madeira. Quando ela se agarrava ao seu brinquedo preferido. Quando ela ainda acreditava que voltaria viva para casa.

“E só há uma maneira de eu poder saber disso, Brian: estando lá também. Se eu estivesse com ela. Se eu fosse filha do Russell Lee Holmes. Tenho muita pena, mas acho que Larry Digger pode ter razão.

De repente, Brian desatou a rir-se.

Claro, claro ouviu-se dizer em voz entrecortada. O mal nunca morre. Torna-se apenas parte da família. Bem-vinda à verdadeira família Stokes, Mel. Bem-vinda.

 

O bíper calou-se. Brian fez uma chamada e depois anunciou que tinha de ir ao “raio” do hospital ver o “raio” de um maldito doente. David interpretou isso como manifestação de uma certa irritação.

David e Melanie acompanharam-no até à porta da frente. Brian ia resmungando que estava tudo estragado, Melanie ia murmurando que tudo se resolveria e David perguntava-se quando é que Chenney pensaria em aparecer. Tinham acabado de levar Brian à porta com promessas de o manterem informado e juras de sangue de não dizerem nada à mãe, quando Chenney surgiu, subindo os degraus de pedra, fazendo malabarismos com quatro sacos para provas e parecendo disposto à acção.

Precisa de mudar de roupa declarou David bruscamente a Melanie.

Melanie consentiu com ar submisso. A troca de palavras com o irmão cobrara obviamente o seu tributo, roubando-lhe aos olhos o brilho ardente que divertira David havia apenas algumas horas e deixando-a com ar magoado. Dia duro para Melanie Stokes.

Vou buscar umas roupas e visto-me no quarto de hóspedes murmurou.

Desta vez, a voz de David saiu-lhe mais gentil, quase doce.

Bem, claro. De qualquer modo, não vamos já lá para cima. Percebe? Não se apresse.

Encolheu os ombros, sentindo-se esquisito sem motivo especial. Chenney fitava-o, incrédulo, enquanto Melanie lhe dirigia um sorriso de gratidão, que o enervou ainda mais. Não era assim tão irritadiço, ou era? Tinha maneiras. Até fora ensinado a bater antes de abrir uma porta, a puxar a cadeira a alguém que quisesse sentar-se e a mastigar com a boca fechada. Podia ser uma pessoa encantadora.

Carregou o sobrolho. Estava a perder a concentração.

Melanie desapareceu ao cimo das escadas e David voltou-se para Chenney.

Que vim cá fazer? perguntou rapidamente o jovem agente. Que tenho de dizer? Qual é o meu disfarce? Preciso de distintivo?

Credo, o que a academia fazia àqueles garotos!

Chenney, estás a passar por polícia. Usa o teu verdadeiro nome e Por amor de Deus, os procedimentos correctos ao recolheres Provas da cena do crime. Percebeste?

Chenney assentiu com a cabeça.

Põe luvas, usa os sacos, serve-te do estojo para as impressões digitais, aspira. Fica tudo limpo.

És impagável! É tudo? Só vou fazer isso?

Bem sei que não é como no nosso folheto a cores. Mas hás-de habituar-te.

Não percebo o que tem isto a ver com fraudes nos serviços de saúde resmungou Chenney.

É por isso que nos pagam bem.

O Lairmore sabe disto?

Ainda não respondeu David, com ar formal. Chenney olhou-o frontalmente, demonstrando a primeira centelha de inteligência que David lhe vira.

Ele não vai gostar disto. A tua posição começa a estar comprometida, agora apareço eu a personificar um polícia e nada disto parece pertinente para o caso. Se a coisa se sabe...

Terei o cuidado de dizer que nada disto foi ideia tua.

Não quis dizer isso protestou Chenney, parecendo honestamente ofendido.

Não interessa. Para cima, Chenney. Temos de ter tudo pronto antes que os pais dela voltem para casa.

Porquê?

Trabalha primeiro, pergunta depois. Disciplina militar. David mostrou-lhe o caminho, sabendo que o jovem tinha razão quanto a Lairmore e sentindo-se cada vez mais tenso. Devia conseguir que Melanie falasse da família, especialmente do Dr. Harper Stokes. Precisava de começar a juntar as peças todas para fazer uma análise satisfatória e nítida.

Atrás de si, Chenney arrastava o pesado aspirador e o estojo das impressões digitais.

As coisas melhoraram depois de subirem. David teve de dar algum crédito ao agente mais novo. Perante o altar com as velas agora apagadas e o brinquedo infantil, Chenney deteve-se, calçou um par de luvas de borracha e examinou todo o local. Quando Melanie entrou no quarto vestida com uma camisola de lã e umas calças de ganga coçadas, já ele começara a documentar a cena.

David fez as apresentações. Tinha consciência de como Melanie parecia jovem e fresca com o rosto sem maquilhagem e o cabelo louro comprido preso atrás. Puseram Chenney a par da situação. Chenney tornou muitas notas e depois atravessaram o corredor e foram ao quarto de Brian.

Parecia muito escuro, decorado em tons sombrios de verde e cor de vinho. Brian não vivia em casa havia dez anos, mas a grande cama tinha uma marca que indicava claramente que alguém se sentara nela.

Portanto, o indivíduo esgueirou-se para aqui depois da festa, pôs-se à vontade e esperou que as luzes se apagassem deduziu Chenney, mas, em seguida, estragou a imagem de profissional ao olhar para David em busca de aprovação.

Você é que é o polícia lembrou-lhe David com uma certa irritação. O jovem endireitou-se e depois olhou para Melanie Stokes.

Bem, pelo menos não pretendia fazer-lhe mal, minha senhora disse Chenney.

Melanie mostrou-se sobressaltada.

Que quer dizer?

Se o tipo esteve aqui a noite toda, podia ter ido ao seu quarto em qualquer altura, mas esperou que a senhora saísse para agir. Reparou nas velas. As velas votivas duram umas oito horas. Estavam quase gastas até à base por volta das duas da tarde, portanto, podemos partir do princípio de que ele entrou no seu quarto após as quatro da madrugada, depois de a senhora deixar o campo livre.

Graças a Deus pelas Suas pequenas bênçãos resmungou Melanie.

Chenney encolheu os ombros.

O criminoso não queria mesmo um confronto consigo, minha senhora. Nesta fase, só quer fazer as suas exibições. Portanto, imaginei que ele entrou quando a senhora saiu. Quarenta e quatro velas, o cavalinho e o tecido. Diria que ele precisou pelo menos de uma hora. Por isso, talvez se tenha ido embora por volta das seis...

Não podia ir-se embora interrompeu-o Melanie, abanando a cabeça. Dispararia o sistema de alarme. Qualquer porta exterior que se abra, quer de dentro quer de fora, activa o sistema.

Olharam todos novamente para a cama.

Portanto, ele dispôs tudo, acendeu as velas e voltou a esconder-se afirmou Chenney.

Esperou que alguém se levantasse e desactivasse o alarme acrescentou David compondo mentalmente a cena e não gostando do que via. Depois, saiu à vontade pela porta da frente.

Melanie parecia de novo abalada.

Há mais uma coisa a considerar prosseguiu David em voz alta. O indivíduo já estava dentro de casa. Ele, ou ela, podia ter escolhido qualquer quarto para montar a sua exposição, mas foi ao quarto da Melanie e não ao dos pais. Diria que isso faz de si o alvo, não os seus pais.

Chenney pareceu apanhado de surpresa por esta conclusão brusca, mas Melanie assentiu simplesmente com a cabeça. David calculara que ela não se ia importar. Tanto quanto podia deduzir, Melanie preocupava-se muito mais com a família do que consigo própria.

Está a fazer-se tarde disse Melanie, por fim. Estou admirada por a minha mãe ainda não ter vindo para casa. Por isso...

Chenney percebeu que Melanie estava a apressá-lo.

. Preciso de uma hora ou pouco mais. Comecem a pensar numa desculpa plausível para a minha presença. Vou de imediato trabalhar no local.

Obrigada, detective.

De nada, minha senhora! Chenney saiu.

De repente, Melanie e David viram-se sós. Melanie dirigiu-se para a grande fila de janelas que davam para o jardim público, onde as cerejeiras estavam em flor e casais de jovens namorados se passeavam de mãos dadas. Com a luz desmaiada do pôr do Sol a enquadrar-lhe o perfil em sombras, parecia simultaneamente vulnerável e pensativa. Adorável, pensou David. Depois, afastou o pensamento.

Temos algumas perguntas mais. Está pronta?

Fiz o meu irmão chorar.

Já é crescidinho. Consegue sobreviver.

Montaram um altar a uma criança assassinada no meu quarto. A voz subiu-lhe de tom. Está tudo na minha cabeça, David. Meu Deus, está tudo na minha cabeça!

Encostou a testa à janela, como se o contacto pudesse espantar as imagens que tinha na mente. Respirou fundo uma e outra vez. Tremiam-lhe as mãos. David viu-a dominar-se e não fez nenhum movimento. Após uns instantes, Melanie afastou-se da janela e endireitou os ombros.

Bem disse com vivacidade, naquele tom de voz que ele já conhecia bem, o que está feito, está feito. O detective Chenney toma conta de tudo. Que descobrirá ele?

Vai enviar as provas para laboratório. Ver o que daí resulta.

Como impressões digitais, não?

David ergueu uma sobrancelha.

Não vamos encontrar impressões digitais.

Você não sabe...

Então! O indivíduo que passou horas a encenar aquilo não ia cometer um erro tão óbvio.

Por instantes, Melanie pareceu desanimada, mas, com determinação, recuperou o ânimo.

Bem, o detective há-de descobrir alguma coisa.

Talvez. Olhe, se quer respostas, vamos começar já. O trabalho de laboratório não é tudo. A maior parte das informações é proveniente dos interrogatórios e nós temos algumas perguntas a fazer-lhe.

Quer dizer que o detective Chenney tem algumas perguntas a fazer-me, não?

Claro, pode esperar pelo Chenney, mas ele vai estar no quarto durante pelo menos uma hora. Por essa altura, serão seis horas e a sua mãe pode chegar a qualquer momento... Não me parece que, depois, queira ter esta conversa.

Pois...

David aproveitou a vantagem e não lhe deu tempo para pensar. Avançou bruscamente.

Vamos começar com as perguntas de rotina e chegamos ao fim num instante.

Melanie ainda parecia hesitante, mas, perante a sua concisa determinação, assentiu com a cabeça.

Temos uma ideia bastante clara sobre a maneira como a pessoa entrou em casa declarou David. Agora, precisamos de saber porquê e quem.

Melanie abanou a cabeça.

Para além do Larry Digger, não faço ideia de quem poderia relacionar a minha família com o Russell Lee Holmes, passados todos estes anos. Os meus pais não falam muito do Texas.

Porque não? Melanie lançou-lhe um olhar exasperado.

Imagino que os faça sofrer terrivelmente.

Vinte anos depois?

Ouça, Mister Riggs, se a sua filha for raptada e assassinada, o senhor não ultrapassa isso ao fim de vinte anos. Os meus pais nãol conseguiram.

David soltou um resmungo de quem fora bastante repreendido.

Bem. Vamos começar pelo altar, então, que nos diz umas quantas coisas. Para começar, trata-se de um acto intimista. Nãol acontece em sua casa, muito simplesmente, mas no seu quarto. Não apenas no seu quarto, mas aos pés da cama. Depois, os objectos! em si, o cavalinho e o pedaço de tecido que parecem ter pertencido a Meagan Stokes, a primeira filha. Sugerem uma atitude deliberadamente hostil para consigo, a segunda filha. Em seguida, a utilização de velas perfumadas. Sabe alguma coisa sobre o sentido do olfacto, Melanie?

Quer dizer, para além do cheiro?

Há bastante mais. O sentido do olfacto está ligado directamente ao sistema límbico, que é uma das partes mais antigas e também uma parte muito importante do cérebro. É a zona que nos permite amar e odiar. E... Fitou-a nos olhos. E que nos permite lembrar. Expor alguém a uma fragrância forte ligada a um certo período ou lugar é um dos modos mais eficazes de evocar uma lembrança.!

David viu que Melanie percebera logo o que ele queria dizer, porque se deixou cair na cama do irmão.

- As gardenias, as imagens de cenas passadas. Foi tudo planeado,! não foi? Meu Deus, era exactamente o que essa pessoa queria. De repente, mostrou-se furiosa. Não serei manipulada em minha própria casa. Não, e não!

David fitou-a com curiosidade.

Referiu-se a imagens de cenas passadas? Mais do que uma? Melanie pareceu em dificuldades.

Pronto, pronto... Comecei a ver umas coisinhas. Não muito. Um vácuo escuro, uma voz de menina. Nada de concreto.

Hum. Quando é que isso começou?

Não sei. Há seis meses.

Há seis meses. Claro.

Claro? Melanie franzira o sobrolho. Que quer dizer com “claro”?

Quero dizer que foi exactamente há seis meses que o seu irmão anunciou que era homossexual. Exactamente há seis meses que a família mais perfeita de Boston começou a desintegrar-se.

Como sabe tudo isso?

Coscuvilhice, pura coscuvilhice dos fornecedores de recepções improvisou David. Pense nisso. Os Stokes mudam-se para Boston, adoptam uma filha e nos vinte anos seguintes a vida corre sobre rodas, não é verdade? Surge então a declaração de Brian e as coisas começam a desmoronar-se. O seu pai não fala com ele, não é? A sua mãe fica perturbada com a situação e recomeça a beber. E a Melanie, de repente, põe-se a reviver imagens do passado.

Não foi assim protestou Melanie. Um filho que sai da normalidade estabelecida não provoca tudo isso.

Talvez não, na maioria das famílias disse David com objectividade, mas numa família com a história da família Stokes? Vá lá! A Melanie é uma pessoa inteligente, sabe perfeitamente somar dois mais dois. Os seus pais já perderam uma filha. A Melanie já perdeu toda a família. Quando o seu pai praticamente deserdou o seu irmão, não lhe parece que todos os gatilhos foram disparados? A Melanie, a sua mãe e talvez o seu querido e velho pai não começaram a achar que tudo se desmoronava de novo? As antigas inseguranças, os antigos medos...

A expressão de Melanie alterou-se.

Meu Deus! murmurou Porque é que simplesmente não me diz já tudo e me destrói o coração?

Não é minha intenção destruir-lhe o coração. Mas alguém está a tentar que a Melanie se lembre.

Mas porquê? Quem?

Alguém que sabe o que sucedeu à Meagan respondeu David. Alguém que conseguiu recuperar o brinquedo que ela tinha consigo no dia em que morreu. Alguém que sabe algo acerca de si, Melanie, o suficiente para perceber que o cheiro a gardenias desencadearia a lembrança da Meagan.

Melanie anuiu lentamente com a cabeça, seguindo-lhe a linha de pensamento.

O Larry Digger - disse ferozmente.

Não, o Larry Digger não sabe nada! Tivesse ele provas e já teria escrito e vendido a sua história a quem desse mais. Não andaria por aí a acender velas votivas.

O Russell Lee Holmes?

Executado e enterrado. Vamos, a Melanie sabe de quem estou a falar.

Melanie pôs-se imediatamente na defensiva.

Não, não sei! A minha família não tem nada a ver com isto!

O Larry Digger alegou que a sua família escondera muita coisa de si...

O Larry Digger é um bêbedo!

Larry Digger conheceu-os no Texas, algo que a Melanie não pode dizer. Porque é que o seu pai estava nas urgências do hospital no dia em que foi encontrada? Como é possível você lembrar-se da Meagan Stokes? Tem de ter uma ligação qualquer com Russell Lee Holmes e, segundo o Larry Digger, os seus pais sabem disso. Eles não adoptaram uma menina ao acaso, mas a filha do Russell Lee Holmes.

Isso não faz sentido! Melanie saltara da cama e quase encostara o rosto ao nariz dele, mas nenhum recuara. Os meus pais adoravam a Meagan! Não adoptariam a filha do seu assassino.

Como é que sabe? Como é que sabe?

David pensou que ela ia bater-lhe. Talvez Melanie tivesse imaginado que iria fazê-lo. A atmosfera tornara-se demasiado tensa. Depois, os olhos dela fitaram os lábios dele e outras emoções indesejadas misturaram-se de permeio. Melanie apertou os lábios e recuou, furiosa, dizendo em voz fria:

Muito bem, David. Vejamos as coisas à sua maneira. Os meus queridos pais conspiraram realmente para adoptar a filha do Russell Lee Holmes. De um modo doentio e perverso, talvez tenham achado que ele lhes devia uma filha. Eu fui drogada para não me lembrar de onde viera, o meu pai apareceu nas urgências e voilá, tudo correu como planeado. Eu arranjei uma nova família e eles uma nova filha. Todos ficaram muito felizes. Exacto?

Acha? lançou David em tom desconfiado. Nem por instantes pensou que Melanie acreditasse no que dizia.

Então prosseguiu Melanie, implacável, vinte anos depois, por artes mágicas, que fazem eles? Anunciam repentinamente a verdade? Ou, de um modo mais exótico ainda, pespegam com um altar no meu quarto, na débil esperança de que eu me recorde, descubra quem sou e o que eles fizeram? Vamos! Primeiro, você diz que eles conspiraram a fim de adoptar a filha de um assassino, depois diz que conspiraram para revelar a sua conspiração. Tenha dó!

David franziu a testa e concordou de má vontade.

Não faz muito sentido.

A quem o diz!

A menos que...

Não!

A menos que se trate de alguém que está apenas a tentar revelar a verdade. Pense nisso. Há seis meses, toda a sua família foi revirada do avesso. Criou-se um abismo entre o seu pai e o seu irmão, um abismo entre a sua mãe e o seu pai e até alguma tensão entre si e o Brian. Está a parecer-me que a lealdade e a dinâmica familiares estão a mudar de direcção enquanto falamos. Talvez seja essa a chave. Talvez os últimos seis meses tenham finalmente dado a alguém um incentivo para avançar com a verdade do que aconteceu há tantos anos. Pelo menos, incentivou alguém a telefonar ao Larry Digger. E esta?

Melanie parecia revoltada e não retorquiu de imediato. Os últimos seis meses tinham mudado tudo e ela sabia-o.

Temos de investigar todos os membros da sua família disse David.

Não.

Ou faz isso comigo, ou faz com o Chenney. A sua mãe pode chegar a casa a todo o momento.

Você consegue ser um verdadeiro filho-da-mãe, sabia?

Sim, mas sou o filho-da-mãe que reparou em si quando você estava a ser arrastada para fora da sua própria casa por um estranho de aspecto miserável. E sou o filho-da-mãe que veio a correr quando você desmaiou no corredor. Nada mau para um filho-da-mãe.

A voz de David soou de forma mais beligerante do que tencionara, e Melanie voltou-lhe as costas, parecendo perturbada.

Não, disse por fim, Você não é má pessoa.

David mudou o peso de um pé para o outro, ligeiramente apaziguado, mas também constrangido. Da sua descrição profissional não constava a popularidade. Os resultados, sim.

Somos uma família muito reservada observou Melanie passado um momento. Os meus pais já sofreram bastante. Não quero que pense neles como criminosos.

Estou ciente e prometo ter isso em atenção. Mas agora vamos começar pelo seu pai e pelo seu irmão. É do conhecimento geral que

O seu pai retirou o Brian do testamento. Terá isso enfurecido o seu irmão e ter-lhe-á fornecido uma arma para empunhar?

O Brian não faria isso. Não vou fingir que ele e o meu pai têm uma relação fácil, mas se o Brian quisesse ferir o meu pai não usaria a Meagan Stokes... Magoa-o demasiado a ele. Você viu quando Brian entrou no meu quarto. Ficou ainda mais abalado do que eu.

Por amor de Deus, o Brian acabou de ver o brinquedo que a irmãzinha tinha há vinte e cinco anos! A irmãzinha que, na sua própria opinião, ele não conseguiu proteger.

É uma pessoa de reacções intensas.

David, a irmã mais nova do Brian foi raptada e assassinada. Ele tinha nove anos quando isso aconteceu, idade suficiente para compreender o que se passa, mas não para fazer seja o que for. O assassínio da Meagan foi um capítulo traumático para esta família, está a perceber? Se estivessem todos bem ajustados depois disso, então é que pareceriam esquisitos.

David não comentou. Pessoalmente, achava que os Stokes eram um bocado mais do que esquisitos.

E quanto à sua mãe? Dá a impressão de que não se incomoda com o afastamento do filho por parte do marido. Mas recomeçou a beber...

Sim, e esse problema data da altura em que a Meagan foi raptada! A pessoa mais ferida com o assassínio da Meagan foi ela, David. Continua a tentar recompor a vida. Certas noites, encontro-a lá em baixo, a tocar no retrato a óleo como se pudesse sentir o rosto da filha. Vê-se nos olhos dela durante semanas a fio que pergunta incessantemente a si mesma o que poderia ter feito de maneira diferente ou como poderia ter sido melhor mãe. Sei que há vezes em que olha para mim e para Brian e fica aterrada. Não atire isto para cima da minha mãe, David. A minha mãe já pagou todas as dívidas.

Parece que toda a família está sempre a cuidar dela, uma adulta!

Amamo-la! Preocupamo-nos com ela!

E não ama o seu pai?

É diferente. O meu pai consegue cuidar de si próprio. A minha mãe...

Está perturbada, terminou David sem cerimónias. Depressão, bebida. Ataques de ansiedade. A Patricia Stokes pode ser uma grande mãe, até mesmo uma mãe extremosa, mas nunca ganhará o prémio da estabilidade.

A minha mãe é uma boa pessoa, David. Ama-nos muito. Só que... sente a falta da Meagan.

David arqueou uma sobrancelha e sustentou por um longo instante o olhar de Melanie. Portanto, ela acreditava realmente no que dissera acerca da mãe. David continuou a percorrer a lista.

E o seu pai? Como é que ele se sente com tudo isto?

Oh, o meu pai é o meu pai. Melanie descontraiu-se pela primeira vez. É muito viril: ri-se quando lhe apeteceria chorar e nunca iria a um hospital a menos que um osso lhe tivesse perfurado a pele. Leva muito a sério o papel de sustento da família, faz questão de cuidar do nosso bem-estar... Percebe? A responsabilidade masculina. Você entende-o provavelmente melhor do que eu.

Isso inclui deserdar o próprio filho? Melanie fez uma careta.

O meu pai tem dificuldade em admitir que está errado. Depois, prosseguiu num tom de voz mais baixo. O meu pai é médico, David. Trata de pessoas, trata de problemas. Infelizmente, é difícil tratar de emoções como o sofrimento, o remorso e a culpa. Sei que há muita coisa acerca da minha mãe que ele não compreende, e a declaração do Brian apanhou-o desprevenido. No mundo do meu pai, o primogénito não anuncia que é homossexual. O meu pai precisa de tempo para aceitar o facto. É realmente um bom pai.

Orgulha-se dos seus rendimentos.

Ele ganha muito bem.

Não sustenta demasiado bem a família?

Não sei o que quer dizer, replicou Melanie, franzindo as sobrancelhas.

David encolheu repetidamente os ombros.

Quanto custa uma casa destas em Beacon Street? Um milhão? Dois milhões? E depois há as mobílias, os automóveis, as casas de férias. Os objectos de arte, as antiguidades, os cortinados de seda. Espectacular, mesmo para um médico.

Melanie retraíra-se e fechara a expressão.

Não me parece que as finanças da minha família sejam relevantes.

A maioria dos crimes é cometida por amor ou por dinheiro. E Larry Digger comentou que no Texas os seus pais viviam melhor do que seria natural.

O Larry Digger tem inveja respondeu Melanie com firmeza. Nada mais.

David aguardou e deixou o silêncio instalar-se. Melanie não se moveu. Quem sabia como eram realmente os Stokes? Mas David concordou que tinham em Melanie uma filha combativa. Ou essa dureza seria cortesia de Russell Lee Holmes?

Caramba! David sentiu um arrepio ao pensar naquilo. Voltou aos membros e amigos da família Stokes.

E quanto ao William Sheffield? Como se conheceram?

O William trabalha com o meu pai. O meu pai trouxe-o cá a casa para jantar. Melanie curvou os lábios com secura. Oh, a conspiração!

Ouvi-o falar ontem à noite comentou David. Pareceu-me que era do Texas, o que fez com que haja muitos texanos nesta casa.

É verdade. Por isso é que ele e o meu pai começaram a dar-se um com o outro. Dois texanos expatriados num hospital de Boston. Se alguma vez fosse viver para o Texas, provavelmente faria amizade com a primeira pessoa de Boston que conhecesse.

Sim, mas casava a filha com ele? Melanie tornou-se rígida.

Isso é uma história antiga.

Isso quer dizer que foi ele e não a Melanie quem acabou?

O rompimento foi mútuo respondeu Melanie num tom gélido.

Mútuo até que ponto?

Encontrei-o na cama com outra mulher, David. Pareceu-me um aviso suficientemente bom.

David estava atónito. O fuinha do William Sheffield a enganar Melanie Stokes? Credo, era ainda mais estúpido do que parecia!

Ficou magoada? perguntou David com mais curiosidade do que pretendia.

Não. O fim era inevitável. Para começar, nunca devíamos ter ficado noivos.

Então, porque é que aceitou? Melanie encolheu os ombros.

Ele também é órfão. Pensei que isso nos daria algo em comum. Ou, então, foi simplesmente porque ele pediu e, quando se é abandonada uma vez, ouvir alguém dizer que quer passar o resto da vida connosco é irresistível. Apercebemo-nos do erro bastante a tempo, sobretudo quando ele começou a dizer-me que eu não contava como órfã.

O quê?

Fui adoptada afirmou Melanie secamente. Deram-me uma família, uma família rica. Passado pouco tempo, tornou-se claro que isso perturbava o William. De nós os dois, a vida fora mais injusta para com ele e, portanto, a vida, e eu em particular, devíamos-lhe algo. Diga-se de passagem que não aprecio nada dever seja o que for a alguém.

David quase sorriu. Sim, não conseguia imaginá-la a ceder às exigências de William Sheffield. O estúpido com ar de finório! Pigarreou, esforçando-se mais uma vez por se concentrar no que estava a fazer.

A noite passada, notou alguma coisa diferente no William? Pareceu-lhe cansado? Preocupado?

O William trabalha muito.

Ultimamente, tem trabalhado mais do que é normal? Melanie levou uns segundos a responder.

Acho que não. Em geral, é assistente do meu pai e o trabalho do meu pai não tem sido mais pesado do que é costume. Mas achei que o William, de facto, parecia ter qualquer coisa a aborrecê-lo.

Nesse caso, talvez a Melanie possa informar-se.

Não tem nada a ver com a Meagan...

O William, agora, está ligado à vossa família. Passa horas em vossa casa. Talvez tenha sabido alguma coisa junto do seu pai e espere retirar dividendos.

Melanie suspirou, mas não contrapôs. David podia ver que as dúvidas começavam a desgastá-la.

- E quanto ao irlandês que esteve cá? Jamie... Jamie.... Jamie O’Donnell. É o meu padrinho. Não pode ter nada a ver com isto.

Que ligação é que ele tem com a família?

Ele e os meus pais são do Texas. Conhecem-se há quarenta anos. Foi padrinho de casamento.

É sócio do seu pai?

Fazem alguns negócios de vez em quando. Para lhe dizer a verdade, não tenho a certeza de como é que o meu pai e o Jamie se conheceram. Sei que os pais do meu pai viviam nos subúrbios, ao passo que o Jamie cresceu praticamente sozinho... em casas feitas de papelão, como ele gosta de dizer. Ambos se fizeram a si mesmos, o Jamie como comerciante e o meu pai como cirurgião. Acho que respeitam isso um no outro.

E o O’Donnell conheceu a Meagan?

O olhar de Melanie adoçou-se. Tinha nitidamente uma ternura especial pelo padrinho.

A situação com a Meagan abalou-o até ao fundo da alma. Quer saber porque é que os meus pais gostam tanto dele? Porque foi ele quem foi ver os corpos, David. Contou-me isso. Quando desaparece uma criança, alguém da família tem de assumir a responsabilidade de ver os cadáveres que condizem com a idade e descrição geral da criança. Essa incumbência coube a Jamie. Foi de morgue em morgue por todo o Sul, examinando os restos mortais das meninas de quatro anos que condiziam com a descrição da Meagan Stokes.

“Um dia, contou-me que de vez em quando ainda sonha com todas aquelas meninas, e se interroga se elas terão afinal encontrado um lar, se foram sepultadas por pessoas que as amassem, ou se teriam simplesmente acabado num cemitério para indigentes, identificadas apenas por um número. Por vezes, acho que a perda da Meagan o afectou mais do que ao meu pai. Mas o mais provável é que cada um o demonstre à sua maneira.

E a outra mulher? pressionou David. Apareceu com ele e estava com o uniforme de enfermeira.

Oh, essa é a Ann Margaret.

Que, segundo a Melanie julga, também passou cá a última noite.

Sim. É minha chefe no Centro de Dadores de Dedham da Cruz Vermelha. Sou lá voluntária faz agora dez anos e por isso ela acabou por conhecer-nos a todos.

Pareceu-me que também tinha a fala arrastada do Texas.

Melanie rolou os olhos.

Sim, viveu lá há décadas e parece estar em Boston para ficar. Foi mero acaso. Nem sequer estaria cá em casa se eu não tivesse começado a fazer trabalho voluntário na Cruz Vermelha.

Pois. Passou-me pela cabeça que havia alguma coisa entre ela e o seu padrinho.

Melanie vacilou.

Na verdade, também me passou pela cabeça que podia haver alguma coisa. Têm-se encontrado muitas vezes nas várias recepções que tenho organizado. Podem estar... envolvidos, segundo me parece. Mas não percebo o que tem alguém a ver com isso a não ser eles mesmos.

Porque não lhe contariam, se andam a encontrar-se um com o outro? Que têm a esconder?

Melanie abanou a cabeça.

Desde quando é que o exercício do direito à privacidade significa esconder alguma coisa? A Ann Margaret é a pessoa que menos tem a ver com a Meagan Stokes. Nenhum dos Stokes a conhecia sequer nessa época. Não sejamos ridículos!

Estamos a ser ridículos? perguntou David num tom rude. Qual era exactamente a situação da Meagan Stokes? Sabemos o que de facto aconteceu há vinte cinco anos? Temos o cavalinho de madeira vermelho juntamente com um pedaço de tecido que, segundo o seu próprio irmão, já não devia existir. O Larry Digger afiança que recebeu telefonemas desta casa sobre o Russell Lee Holmes. Você está a começar a lembrar-se dos últimos dias da Meagan Stokes. Parece-me que devemos principiar do zero. Seja o que for que julgássemos saber sobre a Meagan Stokes, não sabemos. Seja o que for que você julgasse saber do seu passado, não sabe. E seja o que for que você julgue saber sobre os seus amigos e a sua família, não sabe.

O rosto de Melanie empalidecera.

Alguém deixou no seu quarto o brinquedo de uma menina assassinada. Não é boa altura para suposições.

Acredita em fantasmas, David?

De modo algum.

E quanto ao destino, ao carma ou à reencarnação?

Não.

Acredita nalguma coisa?

David encolheu os ombros. Tratava-se de uma questão em que não se detinha há muito, mas verificou que possuía realmente uma resposta.

Acredito que o Shoeless Joe Jackson devia estar no Pátio da Fama do basebol. E acredito que o que está a passar-se aqui não tem nada a ver com o Russell Lee Holmes. Pelo contrário, está relacionado com a sua família. E você, Melanie, tem de ser cuidadosa.

Melanie sorriu debilmente, puxando a beira da colcha da cama do irmão. Deu a impressão de que ia dizer alguma coisa, mas limitou-se a fechar a boca.

Momentos depois, olhou para ele.

Obrigada.

David não estava à espera de gratidão. Ficou sem saber o que dizer. Estudou o soalho. Antigo. Espesso. Sólido. Chenney provavelmente já se despachara, pensou. Tinham de sair ambos dali. Deixou-se estar no mesmo lugar. Depois, a anca deu sinal e David teve de mudar de posição e esfregou distraidamente a coluna.

Incomoda-o muito?

O quê? perguntou em tom ausente. Alguém informa confidencialmente o FBI de que o Dr. Stokes estaria a cometer fraudes no serviço de saúde e, ao mesmo tempo, alguém informa confidencialmente Larry Digger de que a filha adoptiva do Dr. Stokes deve ser a filha de Russell Lee Holmes. Qual é a ligação?

Temos o que merecemos.

Portanto, qual dos jogadores acha que os Stokes ainda não tiveram o que mereciam? E porquê resolver agora a questão?

A artrite.

Ha?

Estava a esfregar as costas...

Oh! Deixou cair imediatamente a mão ao longo do corpo; não se apercebera do que estava a fazer. Não sei. Encolheu os ombros, acanhado, apesar do olhar firme. Uns dias as costas estão bem, outros não.

Há alguma coisa que possa fazer para isso? Exercícios, medicação, gelo?

Às vezes.

Mas custou-lhe um sonho, não foi? perguntou Melanie suavemente. De ser polícia.

David não estava preparado para o facto de ela se aproximar tanto da verdade e sentiu-se atacado por algo semelhante a claustrofobia, uma necessidade súbita de espaço. A necessidade de se retirar. Diabo, esconder-se numa caverna qualquer, profunda e escura, onde ninguém pudesse fitá-lo tão de perto e ver que andava amedrontado. Amedrontado por tudo - pelo futuro, pela saúde, pela carreira e sentia-se envergonhado.

Tenho de voltar ao trabalho declarou enfaticamente. Sabe como são os fornecedores de comida para recepções. O trabalho nunca está feito.

Com certeza. Melanie levantou-se da cama. O quarto estava agora escuro como breu. A noite caíra sobre eles tão silenciosamente que nem sequer tinham pensado em acender a luz.

Melanie fitava-o com firmeza. Com demasiada firmeza, achou David.

David disse ela. Importa-se de me fazer um último favor?

-Julguei que não aceitava favores...

Quero encontrar-me com o Larry Digger. Amanhã de manhã. Bolas. David abanou a cabeça.

Não é uma fonte fiável.

Mas é a melhor que tenho e foi você mesmo que disse que devo começar a questionar tudo. Quero falar com ele, David. Se for necessário, vou sozinha. Voltou a falar naquele tom de voz. Aquele tom de voz não negociável.

Está bem respondeu David num tom duro. Às dez da manhã, à frente de casa.

Melanie sorriu. Atravessou o quarto. Esfregou-lhe rapidamente a mão num pequeno gesto de gratidão, nada mais. Depois, desapareceu! no corredor, onde o cheiro doentio a gardenias permanecia.

 

Às sete da tarde, David e Chenney tinham abandonado a casa dos Stokes e seguido em direcções diferentes. A noite caíra, quente e fragrante, uma perfeita noite primaveril, numa cidade que sofria invernos tão longos e frios que sabia apreciar a Primavera. Até ali, David estava a passar a sua bela noite de Primavera parado no extremo leste de Storrow Drive, à espera de que os petrificados turistas abrissem caminho para Faneuil Hall. Seguira em direcção a casa para tomar um duche e mudar de roupa. Lá, consultaria Shoeless Joe, que não tinha opiniões astrais. Shoeless era melhor em basebol e limpeza a seco. Fraudes na saúde, louras frias e casos de homicídio com vinte e cinco anos estavam fora do seu alcance.

David decidira fazer investigações adicionais ao caso Stokes no escritório. Não que tivesse grandes planos para uma noite de domingo. E não conseguia tirar da cabeça a imagem de Melanie Stokes.

O trajecto de vinte minutos transformara-se numa maratona de uma hora. Em Storrow Drive, as pessoas de fora da cidade estavam paralisadas, deitadas sobre os volantes com o ar nervoso de coelhos assustados. Os motoristas de táxi, por outro lado, ultrapassavam tudo e todos, carregando nas buzinas e transformando o congestionamento do trânsito nas quatro faixas numa barafunda ainda maior. Por alguma razão os taxistas de Boston eram apelidados de idiotas.

David podia ter arranjado um apartamento na Baixa. Os agentes ganhavam bem e não se preocupava em sustentar mulher, dois filhos e um labrador preto. Podia arranjar um lugar decente em Beacon Hill. Poupar-se a um trajecto que a maioria dos condutores de Boston transformava num desporto sangrento. Poder sair para o trabalho quando lhe apetecesse. Estar no escritório sempre que quisesse.

Oh, sim, por isso é que estava a viver nos subúrbios. Porque de outro modo estaria a viver em Center Plaza, no número um.

Um táxi atravessado em duas faixas decidiu-se finalmente a ceder uma e todos conseguiram avançar.

Os utilizadores de patins em linha continuavam na rua, os corredores igualmente. No parque para pedestres junto ao rio, ao longo de Storrow Drive, candeeiros de luz suave iluminavam estudantes universitários que, de calções, jogavam frisbee, enquanto yuppies bem vestidos passeavam os seus retrievers de pelagem dourada. Atrás deles, corria o rio Charles, que recebia as tripulações de Harvard, assim como muitos outros poluentes. Um ano, o anterior governador Weld mergulhara naquela água durante a corrida eleitoral para provar que não era tão má quanto parecia. Fizeram-lhe despistagens de cancro em muitos anos futuros.

Riggs precisou de outros vinte minutos para fazer os últimos três quilómetros até ao escritório. Mais uma bela noite passada a conduzir à moda de Boston.

O FBI situava-se no número um de Center Plaza na Baixa de Boston, ocupando do quarto ao oitavo andar. As visitas eram recebidas no sexto andar, e a brigada das fraudes relativas à saúde ia directamente para o apartamento de cobertura, no oitavo andar. A vista não era má de todo.

David percorreu um espaço de cor turquesa, que já fora remodelado mais vezes do que a maioria dos agentes poderia contar. As luzes da cidade brilhavam através das grandes janelas e era a única iluminação do espaço escuro e vazio. A carga de trabalho dos outros agentes devia ser muito reduzida, uma vez que David era o único ali presente no domingo.

Chegou finalmente junto dos interruptores, acendeu as luzes do tecto e piscou os olhos. Os bichos escuros metamorfosearam-se em secretárias com a forma de línguas junto às paredes. Os corcundas transformaram-se em computadores pousados em cima das secretárias. Os monstros tornaram-se pilhas e mais pilhas de processos para arquivar. Bem-vindos ao mundo de Riggs.

Dirigiu-se para a secretária, evitando automaticamente os buracos do chão, onde tinham sido arrancados canos noutra expansão do limitado espaço do escritório. A agência de Boston contava-se entre as de maior crescimento do FBI, e passara de escritórios antiquados para cubículos compactos e depois para o actual grande espaço único, com a alcatifa turquesa, onde todos poderiam aberta e livremente trocar ideias. Nos dias de pouco movimento, os agentes divertiam-se a atirar moedas pelos buracos dos antigos tubos e a ouvir a aterragem.

A luz do gravador de mensagens estava a piscar. David ergueu rapidamente o auscultador enquanto esfregava as costas e estabeleceu a ligação. Recebera duas mensagens desde o meio-dia.

“David, é o pai. Pensei que nos íamos encontrar hoje. Calculo que tivesses trabalho. A equipa do Steven saiu-se bem, ganhou por quatro a três, mas não foi com a ajuda dos lançadores. Má fornada, este ano. O Steven está pelos cabelos. Acho que ele devia pôr no banco o primeiro jogador... o rapaz é doido... e aproveitar o novo, o Jámes, que tem um braço soberbo. Este ano sofreriam as consequências, é claro, mas a longo prazo...”

David fez avançar a mensagem até chegar à segunda, deixada por Chenney.

“Estou no laboratório. Protestaram por não termos chamado uma equipa oficial de medicina legal e refilaram porque provavelmente contaminámos as provas. Disse-lhes que não se preocupassem com isso. Olha, temos de conversar. Este caso deixa-me um pouco confuso. Além disso, não cheguei a contar-te como correu a vigilância da manhã. Comecei no hospital a vigiar o Sheffield, como me pediste, mas o Sheffield foi-se embora, estava com gripe. Depois vi o Harper a sair do hospital com o Jamie O’Donnell... Primeiro tentei entrar em contacto contigo, Riggs, mas nunca consegui, percebes? Portanto, resolvi por mim, quer gostes, quer não. Telefona-me quando tiveres oportunidade.”

Bolas. David apostava que Chenney seguira Harper e Jamie O’Donnell porque vigiá-los lhe parecia mais interessante do que ficar à porta de um homem doente. O garoto ainda tinha muita coisa a aprender sobre o que constituía “verdadeiro” trabalho. Não é o espectáculo, Chenney, são os resultados.

Ligou para o telemóvel do jovem. Como não teve resposta, deixou uma mensagem para se encontrarem na Associação de Tiro do Massachusetts às dez da noite, o que dava a David noventa minutos para queimar.

Pediu uma cópia do processo de Meagan Stokes à filial de Houston do FBI. Depois, telefonou ao Departamento de Polícia, também de Houston, uma vez que este detinha a jurisdição sobre o caso, a pedir-lhes igualmente uma cópia do processo. O do FBI concentrar-se-ia nos aspectos do rapto e no papel do criminoso, se é que havia sido feito. O processo da polícia devia conter os pormenores sórdidos, incluindo o rasto das provas. David queria descobrir se o cavalinho vermelho da Meagan fora realmente recuperado e estivera fechado no armazém das provas durante todos aqueles anos. Isso não explicaria toda a magnitude do pedaço de tecido azul, mas David ainda não falara sequer sobre isso nem a Melanie nem a Brian. Queria dispor de mais tempo para pensar no assunto.

David desceu ao centro de investigações e pôs a máquina a funcionar. Foram precisos alguns minutos para o computador acordar para a vida. Usou esse tempo para estender desajeitadamente a perna sobre a secretária, inclinando-se sobre ela para alongar as costas. O FBI tinha pessoal capaz de procurar tudo aquilo que um investigador estivesse disposto a pôr por escrito nos impressos, mas David gostava de ser ele mesmo a fazer as coisas. Passar os olhos pelos ficheiros e fazer a triagem das buscas faziam-no pensar. E, às vezes, as informações de que precisava acabavam por não estar onde iniciara as buscas, mas no que fora encontrando durante esse processo.

Começou por procurar em Melanie Stokes. Setembro de 1977 era a data mágica. O Boston Globe trazia uma pequena história com interesse humano sobre uma menina com cerca de nove anos de idade que aparecera misteriosamente nas urgências do hospital da cidade. A criança fora drogada com morfina e sofrera uma reacção alérgica. Até à data, ninguém se apresentara a reclamá-la.

Uma semana depois, encontrou uma pequena actualização. A criança, que só conseguia identificar-se como a “menina do papá”, recebera alta e fora entregue aos Serviços de Protecção à Infância. Estava em boas condições de saúde e não apresentava sinais de maus tratos. Mas não se lembrava de nada e as muitas fotografias enviadas para todo o país não haviam começado a produzir resultados. Uma foto a preto e branco aparecia ao lado do texto. A jovem Melanie Stokes era gorducha, com o cabelo liso e pesado e tinha feições comuns. Decerto não era a mais linda criança do mundo, mas havia algo no seu rosto... uma espécie de ansiedade, pensou David.

Uns meses depois, surgiu uma história significativamente mais extensa. “A Órfã Annie da Vida Real Encontra Pai”. O Boston Globe publicava um artigo importante sobre o facto de a “menina do papá” ir viver com o Dr. Harper Stokes e a mulher, Patricia, que tinham dado início ao processo formal de adopção. Uma assistente social relatara que Patricia dera um novo nome à menina.

“A menina perguntou a Mrs. Stokes porque não tinha nome, e Mrs. Stokes disse-lhe que decerto ela tinha nome, só tinham de o descobrir. Então, a nossa queridinha pediu a Mrs. Stokes que lhe desse um nome. Mrs. Stokes ficou com os olhos rasos de lágrimas. Foi realmente comovente. E disse: ”Que tal Melanie? É o nome mais bonito que conheço e tu és também a menina mais linda que conheço.” Daí em diante, a ”menina do papá” só responde quando lhe chamam Melanie e por isso é o que lhe chamamos. Acho de facto maravilhoso ela finalmente ter nome. Como é evidente, Melanie quer agora um dia de aniversário.”

Outra fonte, que preferia permanecer anónima, discordava de que o nome Melanie fosse assim tão bom. “Pessoalmente, acho um pouco doentio. Quero dizer, é muito parecido com Meagan. Não pode ser saudável para nenhuma delas.”

David achou que a mulher tinha uma certa razão. Melanie arranjara nome, arranjara uma boa casa, mas também teria de crescer literalmente a olhar para o retrato da primeira filha. A filha assassinada.

Parecia-lhe um pouco sinistro.

David começou a procurar Russell Lee Holmes. Ali encontrou algumas informações que eram muito mais interessantes. Esteve a ler tão concentrado que quase se atrasou para o encontro com Chenney.

Porque nos encontramos num clube de tiro? perguntou Chenney, um pouco depois das dez, enquanto David destrancava as portas que davam para o interior cavernoso da carreira de tiro.

- Porque eu penso melhor a dar tiros. David abriu as portas

Para trás e entraram ambos na sala deserta.

Ah! exclamou Chenney, como se tivesse compreendido. Era viciado em levantamento de pesos, por isso talvez percebesse.

David fora membro durante a vida inteira do movimento de Rearmamento Moral, primeiro através do pai e depois por sua própria iniciativa. Durante a maior parte da infância, quando não se encontrava a jogar futebol, estava no salão do clube, ouvindo os polícias a falarem do sistema legal ultrapassado e da velha regra de atirar primeiro e perguntar depois, porque era melhor “ser julgado por doze do que enterrado por seis”. Por volta dos seus dezasseis anos, David sabia quase tanto sobre procedimentos policiais quanto de basebol e era igualmente quase tão bom com uma arma. No armário dos trofeus do clube havia algumas placas e distinções que lhe pertenciam.

Ena! exclamou Chenney quando David abriu o estojo da arma e começou a retirá-la. Disseram-me que o teu pai fabricava armas modificadas, mas não fazia ideia! Posso pegar-lhe?

David encolheu os ombros e estendeu a Beretta a Chenney, enquanto retirava a mira telescópica e uma caixa de munições. Tinham estado ali outras pessoas a atirar anteriormente. O ar era ácido devido ao cheiro a pólvora e óleo que nele pairava.

Meu Deus, esta beleza tem uma mira radioactiva! Só a conhecia de ouvir falar.

Foi o meu pai explicou David simplesmente, e colocou os óculos de protecção. A arma era um revólver modificado e melhorado, perfeito para uma troca de tiros contra vários senhores da droga armados de metralhadoras. David estava sempre a dizer ao pai que não era necessário modificar as armas, mas o pai ia dizendo “pois, pois” e continuava a fazê-lo na mesma.

Oh, meu Deus, tens... tudo! Chenney rodava a arma na mão. Vejam-me este quadriculado. Quarenta linhas por centímetro. Linda! O teu pai teve de usar uma lupa para fazer isto, não?

O meu pai é um artista.

Segurança ambidestra, silenciosa, mira personalizada. Espantoso! Chenney apontou a arma para a carreira de tiro e carregou no gatilho. Gatilho leve e exacto. Isto é que é uma arma! Chenney devolveu a semiautomática com relutância. Olhou para a sua própria arma com a expressão que os homens fazem quando vão à casa de banho e descobrem que o pénis do outro indivíduo é maior do que o deles.

Depois, pareceu recuperar. Ambos puxaram os carregadores e meteram-lhes munições.

Ah, é verdade disse Chenney passados uns segundos. O teu irmão era lançador, não era?

David deteve-se, depois empurrou a terceira munição para dentro.

Sim.

Sei que agora é treinador, mas ainda deve exercitar o braço.

Sim.

Óptimo. Faço parte de uma equipa, percebes? Um grupo de tipos, a maioria pessoal do FBI, burocratas. Para ser sincero, o nosso lançador não presta para nada. Se não arranjarmos outro tipo, este Verão estamos feitos. Mas ouvi a Margie contar que o teu irmão foi um grande lançador. Jogou pela Universidade do Massachusetts e levou-a ao título da divisão. Devia ser bastante bom... É uma divisão difícil.

David concentrou-se em introduzir a quarta munição.

É uma divisão difícil.

Queremo-lo a ele! exclamou Chenney. É precisamente o homem de que precisamos. Alguém que corra o suficiente para atacar uma molhada de polícias maduros que passam tempo de mais a comer donuts. Tratas-me disso?

Um corredor, é?

Sim, o melhor a lançar a bola.

Claro respondeu David. Trato disso.

David acabou de carregar a arma e empurrou o carregador para o seu lugar. Engoliu duas vezes. Depois, olhou pela mira aperfeiçoada.

Deixaste o Sheffield hoje, não deixaste? Hoje de manhã. Abandonaste o teu alvo por uma festa mais interessante observou David.

Chenney corou.

Devias estar satisfeito por isso. Consegui ouvir algumas coisas interessantes.

Chenney, nunca abandones o teu alvo. Se estiveres a seguir alguém, estás a seguir alguém...

Mas ele estava doente! Vi-o sair a cambalear do hospital, branco como a cal. A tremer e a suar. Disse ao chefe de turno que estava com gripe e mandaram-no fazer a trouxa. Confia em mim, depois de chegar a casa, o Sheffield não conseguiria ir a parte alguma.

Chenney repetiu David com firmeza, nunca abandones um alvo. Se estiveres a seguir alguém, estás a seguir alguém. Compreendido?

Sim, está bem. Chenney pôs os óculos de protecção com ar pouco feliz.

De comum acordo, colocaram os primeiros alvos à distância habitual de seis metros e prenderam-nos com um clipe.

O jovem agente disparava com agressividade. Apontava rapidamente, disparava também rapidamente e tinha no rosto uma expressão de que Clint Eastwood se orgulharia. Colocou a maior parte das munições nos dois círculos interiores, mas, quando aproximaram os alvos, Chenney apercebeu-se de que dificilmente conseguiria fazer passar um lápis pelo único buraco feito pelos dozes disparos de David.

A seis metros é demasiado fácil resmungou. A distância média para a solução de um conflito legal. Temos de estar preparados

Para tudo.

David encolheu os ombros, rasgou o papel e prendeu alvos novos.

Então, Chenney, o que descobriste? O que foi que te fez parecer tão interessantes o Harper Stokes e o Jamie O’Donnell?

Olha, está a passar-se qualquer coisa declarou imediatamente o jovem. Segui o Harper e o Jamie O’Donnell até um campo de golfe chique. Com algum encorajamento, o gerente deixou-me ficar pelo bar, onde podia ouvir tudo o que o O’Donnell e o Harper estavam a dizer por cima dos copos de limonada. O Harper bebeu um copo inteiro sem dizer palavra. Depois, voltou-se para o O’Donnell e disse, aparentemente sem motivo: “Recebi um bilhete.”

Um bilhete?

Sim, e contou a O’Donnell que de manhã o encontrara no automóvel. O bilhete dizia “Tens o que mereces”. Fitou o O’Donnell nos olhos de maneira bastante intensa e perguntou-lhe o que seria aquilo, em sua opinião. O O’Donnell ficou a olhar para ele durante um minuto, também muito calado, como se estivessem a jogar às cartas, e depois proferiu: “A Annie tem recebido telefonemas.”

“A Annie tem recebido telefonemas?”

Sim. Disse que alguém anda a ligar para essa tal Annie e que depois desliga. Ela partira do princípio de que se tratava de algum brincalhão. Mas não tinha muita certeza. Depois, o Harper disse: “O Larry Digger está cá.” O O’Donnell pareceu um pouco surpreendido. Encolheu os ombros. E o Harper prosseguiu: “O Josh telefonou-me. Parece que Digger o contactou e lhe fez algumas perguntas sobre Melanie. Porque será?” O O’Donnell encolheu os ombros e respondeu: “Quem sabe o que move o Digger? Talvez o uísque tenha acabado no Texas.” Depois, o Harper resmungou. Via-se que não estava convencido, mas não disse mais nada e o O’Donnell também não. Minutos depois, começaram a jogar golfe, mas afianço-te de que qualquer coisa não corria bem. Estiveram tensos e bastante calados durante todos os nove buracos. E jogavam com raiva, percebes o que quero dizer? Não pareciam dois tipos a gozarem descontraidamente um domingo de golfe. Iam atrás um do outro como se quisessem ver correr sangue. É uma relação bastante estranha, aquela. Não me parece que nos tempos mais próximos façam doação de rins um ao outro. Achas que isto tem alguma coisa a ver com a cena desta tarde no quarto de Miss Stokes?

David olhou para o jovem agente com incredulidade.

Sim. Acho que tem.

Eu sabia! Chenney mostrava-se radiante. Por conseguinte, não foi assim tão má ideia ter largado o Sheffield, pois não? Acabei por descobrir alguma coisa. Descobri mesmo. Chenney hesitou. Mas o que foi que descobri, Riggs? Que diabo se passa?

Não é essa exactamente a questão? murmurou David. Afastou os alvos para dez metros de distância, colocou os protectores dos ouvidos e os óculos, e começou a disparar. Instantes depois, Chenney juntou-se a ele.

As cápsulas gastas amontoavam-se no banco de disparo e saltavam para o chão. As armas de nove milímetros cospem um pouco de fogo pelos orifícios laterais, o que as aquece e torna pesadas. Chenney atirou-se ao alvo como se estivesse a perseguir o diabo. David era lento e ritmado, executando um movimento que fizera tantos milhares de vezes que já lhe era tão natural como respirar.

Harper e Jamie O’Donnell. E Annie? Ann Margaret, muito provavelmente. Ann Margaret a receber telefonemas, embora Melanie jure que ela não tem laços verdadeiros com a família. Qual é então o fio condutor de tudo isto? Que diabo se passa?

Surgiu-lhe nitidamente ao disparar a última munição. Ejectou a cápsula, abriu a câmara e pousou a arma com o cano voltado para a carreira de tiro. Enquanto tirava os protectores, Chenney recuperava os alvos.

A dez metros, o aglomerado de David expandira-se ligeiramente no centro. O alvo de Chenney começara a rasgar-se, porque, com a pressa, os últimos disparos tinham descaído. Enquanto Chenney franzia o sobrolho, David relatou-lhe calmamente os acontecimentos da noite anterior, começando por Larry Digger e pela sua alegação de que Melanie Stokes era filha de Russell Lee Holmes.

Isso é de doidos declarou Chenney no fim. Não há pai algum que adopte intencionalmente o filho de um assassino. E mesmo que o tivesse feito, não há motivo para virem agora chamar a atenção para o facto. Sabes o que me parece que é?

Até tenho medo de perguntar.

Uma campanha de difamação.

Uma campanha de difamação?

Sim, contra o Harper Stokes. Pensa nisso. Primeiro, recebemos uma informação anónima de que o Harper anda a cometer fraudes no serviço de saúde, colocando, alegadamente, pacemakers em pessoas saudáveis. Até agora, não encontrámos provas de nada, portanto, quem sabe? Depois, o Larry Digger recebe uma chamada, alegadamente de casa dos Stokes, dizendo que a filha do Harper é filha de um assassino. O Harper Stokes tem fama de ser arrogante e é um homem com êxito. Talvez algum subordinado lhe queira puxar o tapete, ou algum cirurgião rival. Estão a atacar o Harper onde dói mais... na sua reputação.

Não me parece.

Porque não?

Pela reacção do Harper ao bilhete. Não se limitou a dar-lhe a importância que lhe daria se se tratasse de alguma coisa ocasional encontrada no pára-brisas. Pelo contrário, falou sobre isso com o O’Donnell e este não tem nada a ver com o Harper como cirurgião. Depois, as palavras seguintes do Harper são para dizer que o Larry Digger está na cidade... O próprio Harper relaciona o bilhete com um jornalista que conheceu há vinte e cinco anos. E como reage o O’Donnell a isso? Comenta que a Annie tem recebido telefonemas.

Quem é a Annie?

Acho que é a Ann Margaret. A chefe da Melanie no Centro de Dadores de Dedham da Cruz Vermelha.

Que tem ela a ver com tudo isto?

É do Texas.

Do Texas?

O Texas é o denominador comum explicou David pacientemente. Toda esta gente é do Texas e sabemos o que aconteceu no Texas.

Sabemos?

A Meagan Stokes, Chenney, a menina de quatro anos. Era disso que o Harper Stokes e o Jamie O’Donnell estavam a falar. A primeira resposta do Harper: O Larry Digger está cá... a fazer perguntas sobre a Melanie. É a tentativa do O’Donnell de retirar importância a Digger, mas obviamente sem estar ele mesmo convencido dos motivos do Digger. Bern, o Larry Digger está na cidade em busca de algo sujo que tenha a ver com o que aconteceu há vinte e cinco anos. Independentemente das voltas que dermos, voltamos sempre ao homicídio de uma menina de quatro anos.

Mas esse caso está encerrado. Executaram o tipo. Fim da história.

Isso é o que tu pensas. Mas há uma novidade. Andei a recolher algumas informações sobre o Russell Lee Holmes antes de vir, e sabes uma coisa? O bom do Russell Lee Homes nunca foi condenado pelo assassínio da Meagan Stokes.

Como? Chenney estava confuso.

O Russell Lee foi condenado por matar seis crianças, mas a Meagan não era uma delas. A polícia não conseguiu provas materiais suficientes para instruir o processo. Só posteriormente ele admitiu ter morto a Meagan, numa confissão que fez ao jornalista de Huntsville, o Larry Digger.

Bolas! Não pensas que...

Ainda não sei o que pensar. Mas tenho muitas dúvidas sobre o que aconteceu à Meagan Stokes. E tenho também muitas dúvidas sobre quem exactamente anda a enviar estes bilhetinhos e o que será que quem os envia acha que toda a gente merece.

Já estamos para além da fraude no sistema de saúde, não estamos? pressionou Chenney. O brinquedo da Meagan, o pedaço de tecido, os bilhetes a dizerem que esta gente tem o que merece. Estamos a investigar um homicídio, não estamos? Um homicídio com vinte e cinco anos. Chenney não parecia mal-humorado, antes entusiasmado, com aquela evolução.

Sim murmurou David com menos entusiasmo. Talvez. Voltou a carregar a arma, com a mente ainda cheia de preocupações. Preparou-se para disparar e disse calmamente:

Reparaste nalguma coisa esquisita no pedaço de tecido que estava no quarto da Melanie, Chenney?

Realmente, não. Era antigo e estava manchado de sangue. Tinha talvez vinte e cinco anos. O laboratório confirmará.

O tecido pode ser antigo informou-o David. Mas aquele sangue não. De facto, diria que o sangue não tinha mais de oito horas.

Como? Isso não faz sentido.

David voltou-se para ele. As linhas duras do rosto pareciam ainda mais duras sob a luz fluorescente.

Costumas jogar, Chenney?

Sim, basebol, basquetebol e futebol.

Não, jogos de estratégia. Xadrez, brídege...

Bem, não. O jovem agente parecia atónito. Que tem isso a ver com o resto?

David voltou as costas aos alvos.

Neste momento, Chenney, estamos a jogar. O informador anónimo atraiu-nos com um objectivo que só ele conhece. Depois, atraiu o Larry Digger do mesmo modo. E agora aqui estamos todos, feito peões num tabuleiro, enquanto ele faz as jogadas. Envia bilhetes a uns, monta um altar a certa pessoa, telefona a outros.

Mas porquê?

Ainda não sei. Aposto que há vinte e cinco anos aconteceu mais qualquer coisa. Algo que afectou um grupo-chave de pessoas, algo que todos esconderam com grande afã. Mas este informador é alguém que agora se sente incomodado e farto de estar calado. Quer que toda a gente receba finalmente aquilo que merece e parece disposto aos maiores esforços para se certificar de que isso acontece.

Chenney ponderou em silêncio.

Estamos a falar de alguém meio maluco?

Não sei.

O altar... Parece obra de um tarado.

Talvez. Mas por que razão um tarado telefonaria ao FBI? E o que quereria ele de nós?

Um emprego sugeriu Chenney com um esboço de sorriso. Depois, prosseguiu em tom mais grave. Não me agrada esse telefonema para o FBI. Os doidos querem vingança, não justiça. Achas que esse informador está a dizer a verdade? Que o Harper Stokes anda a cometer fraudes e que ele e a mulher adoptaram a filha de um assassino em série sabendo o que faziam?

- Não sei.

Riggs, que diabo devemos fazer?

David colocou novamente os protectores dos ouvidos e os óculos.

Amanhã, a primeira coisa a fazer é ir buscar todos os ficheiros sobre o William Sheffield desde os tempos do Texas. Depois, fazer o mesmo com a Ann Margaret e o Jamie O’Donnell. Quero saber exactamente como é que cada uma destas pessoas se envolveu com os Stokes. Quero saber também como, ou se, conheceram a Meagan Stokes e se foram interrogadas pela polícia de Houston há vinte e cinco anos. Quero ver tudo o que respeite a finanças desde o mais remoto passado que conseguir encontrar. Tu tratas dos amigos e eu faço o mesmo com a família. Vamos sacudir a árvore com bastante força, alguma coisa há-de cair. E depois avançamos. David sorriu finalmente, mas de forma ameaçadora. Odeio jogos destes!

Pegou na arma. Colocou-se na posição de tiro e apontou para os anéis vermelhos a cerca de oito metros de distância. A mão tremeu-lhe ligeiramente; a de 9 milímetros era mais pesada do que a de calibre 22, que lhe conquistara a classificação de atirador especial nos tempos em que tudo aquilo em que tocava se transformava em ouro. Nos tempos em que não havia nada que o jovem e viril David Riggs não conseguisse fazer.

Pensou novamente em Melanie Stokes e no modo como esta lhe tocara na mão.

Pensou em Chenney, Ouvi a Margie contar que o teu irmão foi um grande lançador...

Pensou na dor nas costas, que ia piorando lenta mas inexoravelmente. Pensou naquela doença que não tinha cura.

Disparou três tiros com rapidez e leveza. Chenney puxou os alvos. O buraco único através da marca central era quase perfeito.

Caramba! exclamou Chenney, espantado.

David limitou-se a dar meia volta e começou a apanhar as cápsulas vazias.

 

Onze da noite. Enquanto David Riggs apanhava as cápsulas usadas na carreira de tiro, Melanie errava pelos três andares de casa, em busca de algo que pudesse dar-lhe paz de espírito. Abrira todas as janelas do terceiro andar e pusera uma ventoinha a trabalhar a fim de afastar o perfume enjoativo a gardenias. Limpara o quarto, pendurara roupas, tratara das plantas e arrumara as gavetas. Tomara um duche, deixando que a água lhe massajasse os músculos tensos do pescoço.

Quando saiu da casa de banho, facilmente se pensaria que aquela tarde não existira. O altar fora uma invenção da sua imaginação e as imagens que lhe surgiam no cérebro não passavam de um pesadelo particularmente mau.

Estava em sua casa. Era a filha bem-amada de Patricia e Harper Stokes. Nada podia tocá-la.

Melanie sentou-se à beira da cama e chorou.

Não era dada ao choro. Não chorara quando acabara o noivado com William. As lágrimas deixavam-na embaraçada, faziam-na sentir-se fraca, e Melanie não gostava disso. Era forte, era capaz e controlava a sua vida.

Porém, nessa noite, fartou-se de chorar. Desfizera finalmente o nó horrível que sentia na boca do estômago e a dor do peito abrandara. Ficou com a mente desanuviada e isso permitiu-lhe analisar com objectividade aquela tarde pela primeira vez.

Descobriu que, afinal, estava assustada e confusa. Não tinha medo do altar nem de uma pessoa propensa a actos tão sinistros. No entanto, sentia medo das consequências. E se ela na verdade fosse filha de Russell Lee Holmes? Se o pai afastara um filho biológico devido às preferências sexuais deste, o que não faria a uma filha adoptiva que se descobrisse ser filha de um assassino?

Afinal, ela mesma não era tão forte nem tão nobre, concluiu. Não escondia dos pais as afirmações de Digger para os proteger. Escondia-as para se proteger a si. Porque não fazia tenções de fazer fosse o que fosse que pudesse afastar a família. Porque mesmo aos vinte e nove anos, o tema do abandono era insuportável.

Por fim, Melanie desceu penosamente as escadas e entrou no universo estéril da cozinha de aço inoxidável, onde preparou uma chávena de chá de camomila. Juntou-lhe um pouco de mel e uma casca de limão e foi para a sala de jantar. O relógio da sala de estar deu uma badalada a assinalar a meia hora.

Onze e meia da noite. A mãe já devia ter voltado para casa. O pai também. David tinha razão. A família desintegrava-se o pai desaparecia cada vez mais, a mãe lutava contra a obsessão pela bebida e o irmão estava ausente em parte incerta. A quem tentava ela enganar? A família Stokes entrara em colapso.

Para o diabo que carregue isto tudo! pensou, e dirigiu-se para o escritório do pai. Lá estavam os livros. Tinha de os catalogar. Já o devia ter feito há várias horas. Estava a ser preguiçosa e desmazelada. Já era tempo de se concentrar, tempo de voltar ao trabalho.

Retirou uma folha da secretária do pai e deitou mãos à obra. Um livro despachado, outros cem à espera. Ergueu-se, foi à sala de estar e inspeccionou o alarme. Estava ligado e funcionava bem.

Regressou ao escritório, despachou mais cinco livros e depois foi verificar as janelas. O sistema de alarme dir-lhe-ia se quaisquer zonas fossem invadidas, é claro. Mas, mesmo assim, precisou de fazer a inspecção antes de se convencer a voltar para o escritório.

Acabou de tomar o chá de camomila e dispôs-se a trabalhar. Título, autor, editor, data de publicação. Número, catalogação, adiante. O trabalho era importante e Melanie era boa no seu trabalho.

Larry Digger. Porquê abordá-la agora? Que queria ele realmente? A história do ano ou dinheiro rápido?

O altar no seu quarto. Quem faria tal coisa? Que mensagem estaria a ser enviada? Que ela não era Meagan Stokes? Que não podia substituir a primeira filha dos seus pais? Mas Melanie sabia bem isso.

David Riggs. Criado de mesa, ex-polícia. Mãos fascinantes. Já reparara nelas antes. Longas, dedos hábeis. Palmas largas e calejadas. Mãos das quais se pode depender. No entanto, um rosto que precisava de aprender a sorrir.

Que vais fazer, Mel? murmurou para si mesma na casa deserta. Que vais fazer?

Não sabia. Quando aspirara pela primeira vez o perfume a gardenias e sentira a mente a explodir de imagens, estas pareceram-lhe tão reais, tão genuínas, que uma parte de si pensara: “É isso mesmo, sou filha do Russell Lee Holmes.” Mas, depois, achou mais fácil refugiar-se na dúvida. Podia haver outra explicação. Talvez apenas fizesse associações estranhas com gardenias. Talvez fosse simplesmente demasiado susceptível às insinuações de Larry Digger.

Contudo, o altar no quarto com o cavalinho de Meagan, o pedaço ensanguentado de tecido antigo e quarenta e quatro velas com perfume a gardenia colocadas de modo a formar o nome da criança morta...

Melanie não tinha explicação para isso. De acordo com o irmão, o brinquedo de Meagan já não devia existir. Segundo os seus próprios desejos, não podia ser capaz de lembrar-se de uma cabana habitada por uma criança assassinada. E segundo o seu mundo, um intruso não ficaria até alta noite à espera no quarto no outro lado do corredor simplesmente para lhe confundir a mente.

No entanto, o altar existia. Era real. Alguém estava a tentar enviar uma mensagem sobre alguma coisa e tinha de levar isso a sério. Podia fazer perguntas a Larry Digger, supunha. Investigar por conta própria. Ver o que a polícia descobria. Talvez alguém estivesse apenas zangado com ela e com os pais e tentasse estabelecer a confusão. Tinha de ir ao fundo da questão, se não pelo bem da família, então pelo seu próprio bem.

O sistema de segurança de casa emitiu um leve som de aviso. Melanie ficou hirta, mas depois ouviu o bipe denunciador de alguém a introduzir o código de entrada na caixa de alarme da frente. Outro bipe quando o alarme foi novamente ligado. Segundos depois, soaram passos no vestíbulo e, a seguir, a mãe enfiou a cabeça no escritório.

Patrícia usava um casaco preto, comprido e amplo, e um chapéu redondo. Tinha a pintura dos olhos esborratada e o ar de quem tivera um dia muito longo. Em geral, regressava das reuniões dos Alcoólicos Anónimos corada e revitalizada, armada com os seus doze passos e pronta a apoderar-se do mundo. Nessa noite, não.

Entrou no escritório fazendo girar nervosamente o primeiro botão do agasalho e evitando os olhos da filha.

Olá disse Melanie por fim. Chegou tarde a casa.

Olá, querida. A mãe esboçou um sorriso e continuou a mexer no botão de cima do casaco; finalmente conseguiu desabotoá-lo. Dobrou o casaco e pousou-o sobre uma pilha de livros junto da porta, equilibrou o chapéu por cima e, por fim, aproximou-se de Melanie e deu-lhe um beijo rápido no rosto. Tinha os lábios frios. Melanie captou o cheiro a fumo de cigarro misturado com Chanel N.” 5, e ficou hirta.

A mãe cheirava como se tivesse estado num bar.

Automaticamente e sentindo-se impotente, começou a procurar indícios. O cheiro a elixir, usado para esconder o do gim-tónico. Um leve cambalear. Olhos muito brilhantes, conversa ansiosa.

As mãos da mãe tremiam e a sua expressão era insegura. Para além disso, Melanie não podia ter a certeza. Podia ser apenas mais um daqueles dias maus da mãe, ou podia ser pior. Nos últimos seis meses, tornara-se muito difícil dizer.,

A mãe recuou e pareceu inspeccionar as pilhas de livros.

O teu pai já está deitado? perguntou em tom animado.!

Não está em casa.

Patrícia franziu as sobrancelhas e agarrou num livro antigo.

Bem, já é bastante tarde para estar fora num domingo. Provavelmente foi visitar algum doente importante.

Provavelmente.

A mãe pousou o livro. Pegou noutro. Continuava de costas para a filha.

Como vai a tua enxaqueca, querida?

Passou.

Um dia descontraído?

Claro, respondeu Melanie, calma. Claro.

Patricia voltou-se.

Atirou praticamente com o livro que tinha na mão, quase com ira, e a repentina demonstração de emoção mais uma vez fez soar em Melanie a campainha de alarme.

Patricia erguera o queixo. Os olhos azuis começaram a brilhar. Tinha um ar desafiador e isso provocou um baque no coração de Melanie. Oh, Deus, afinal, ela estivera fora...

A mãe muito simplesmente não era forte. A sua vida estava cheia de tantos demónios, tantos momentos tenebrosos...

E, então, Melanie perguntou-se porquê. Tinham-se passado vinte e cinco anos e, no entanto, a mãe continuava muito perturbada. Que tinha ela feito exactamente?

Não estou embriagada anunciou a mãe em tom abrupto. Ora, não te esforces por negá-lo, Melanie. Posso ver nos teus olhos que pensas que estive a beber. Pois bem, não estive. Foi só... foi só um dia difícil.

Quer dizer que só bebeu um copo em vez de quatro? A voz de Melanie saiu-lhe mais dura do que pretendia. Mordeu o lábio, mas já não podia recuperar as palavras.

Minha querida, já te disse, não bebi nada...

Então onde esteve o dia inteiro? É quase meia-noite!

Andei por aí.

Aí, onde? Vá lá, mãe, em que bar?

Patricia endireitou-se, altiva.

Não sabia que tinha de explicar-me perante a minha própria filha.

Não é essa a minha intenção...

Sim, é. Ficas preocupada e quando ficas preocupada tentas proteger-nos a todos. E esqueces-te de ti, não é verdade, Melanie? Estive a pensar nisso a noite passada. Como o teu pai e eu dependemos de ti para cuidares de tudo. Como eu dependo de ti. Por amor de Deus, permitimos que te esgotes ao ponto de teres enxaquecas terríveis. Que espécie de pais somos nós?

Patrícia atravessou o aposento, pegou nas mãos de Melanie e fitou-a com uma insistência tal que a deixou confusa e a apanhou desprevenida.

Meu Deus, Melanie exclamou a mãe. Se pudesses ver-te a ti mesma ontem à noite, tendo de ser carregada por um estranho para a nossa própria casa! Estavas tão pálida e tinhas um ar tão frágil que pela primeira vez tomei consciência do que te tenho feito. Ando tão perdida na minha confusão, no meu sofrimento por causa do Brian que nunca pensei no teu. Mas pareces tão forte que nem me lembro de tal. Assim, volto-me para ti e atiro tudo para os teus ombros e, como és uma excelente rapariga, nunca te queixas. Mas não é justo da minha parte e nesta idade já tinha obrigação de o saber. Por amor de Deus, quando é que penso começar a cuidar de mim?

Melanie abriu a boca. Tinha a sensação estranha de pisar areias movediças.

Eu... eu não me importo.

Mas devias.

Mas não me importo. Francamente, não.

E eu estou a dizer-te que devias! Melanie...

Melanie respirou fundo. Por instantes, pareceu impaciente e quase encolerizada. Depois, ficou com um ar assustado e, por fim, fatalista, como se tivesse acontecido alguma coisa, algo que não estava ainda preparada para partilhar, mas que no fim todos viriam a saber.

Mas qual seria o problema?

Mais calmamente, Patricia prosseguiu:

Melanie, alguma vez na vida passaste por um ponto de viragem? Sei que só tens vinte e nove anos, mas alguma vez sentiste que estavas numa encruzilhada, que de repente só havia trevas na tua vida, mas que, muito embora não conseguisses ver a paisagem nem soubesses ao certo para onde ias, sabias que tinhas de dar um determinado passo? E que esse passo seria importante? Que seria o “autêntico passo”?

Melanie pensou nas últimas vinte e quatro horas e respondeu:

Sim.

Ainda bem. A mãe apertou-lhe as mãos mais fortemente e os olhos começaram de novo a brilhar. Hoje passei por um ponto de viragem, Melanie. Já me aconteceu isso antes... afinal, tenho cinquenta e oito anos... e, para te dizer a verdade, falhei todos. De todas as vezes enveredei pelo caminho errado. Andei para trás, em vez de avançar. Mas julgo que finalmente fiz o que devia, Melanie. Porque pensei em ti.

Mãe?

Esta noite, vi-me num bar.

Oh, meu Deus, eu sabia! Porquê? O que aconteceu?

Isso não interessa. Fui a um bar. Ainda pensei em pedir uma bebida. Estava tão confusa, a pensar: porque não? Depois de caíres uma vez, já não te parece tão mau voltar a cair. Todos nós temos os nossos padrões de comportamento e o meu é este. Quando estou assustada, corro à procura de uma bebida. Se estou esgotada, triste ou deprimida, corro à procura da garrafa. Mas, depois, pensei em ti, Melanie. No teu aspecto a noite passada, aniquilada por uma enxaqueca e, mesmo assim, sem nos querer preocupar. Na quantidade de coisas que guardas dentro de ti e que não devias ter de o fazer. Em como me amas mesmo quando faço todas as palermices que faço. Em como nos amas tanto a todos nós, quando sei que há vezes em que merecemos tão pouco amor.

“E pensei... pensei que não podia tomar uma bebida e continuar a olhar-te de frente. Não podia, pura e simplesmente. A voz de Patrícia tornou-se mais suave. Melanie, ao menos sabes como te amo? Como te considero uma dádiva divina? Nos últimos seis meses, foste tu quem me manteve de pé. Acho que sem ti não o teria conseguido. Quero que saibas disso. Quero que saibas... que saibas realmente como me preocupo contigo.

Melanie sentia-se incapaz de falar. Pegou na mão da mãe, comovida, mas, e que Deus lhe perdoasse, também desconfiada. A mãe nunca falava daquela maneira. Nenhum deles o fazia.

Voltou a pensar em Larry Digger, perguntando-se se ele teria faltado à palavra e abordado a mãe, e se seria isso que a perturbara. Depois, pensou como era estranho estarem a ter uma conversa sobre quanto se preocupavam mutuamente quando ambas se encontravam de propósito a esconder para si mesmas uma enorme porção dos respectivos dias. Era como fazer elogios mútuos aos penteados quando estavam de chapéu.

Depois, Melanie perguntou-se que parte da vida da família Stokes se baseava nisso, nas mentiras por omissão, desde os tempos soalheiros do Texas.

A mãe largou as mãos de Melanie. Pegou num conjunto de livros e pousou-o no chão. Agora que dissera o que queria dizer, o rosto já não apresentava a mesma ansiedade. Parecia mais serena. Fosse qual fosse a sua necessidade, satisfizera-a, pelo menos momentaneamente.

Muito bem disse com firmeza. Agora que já te enchi a cabeça de demasiadas coisas, deixa-me ajudar-te. O pai tem razão, estás a trabalhar em excesso.

Mãe...

Sim, querida.

Também gosto muito de si.

Obrigada sussurrou docemente Patricia e sorriu-lhe com ar feliz. Melanie pegou num livro e retomou o trabalho.

Trinta minutos depois, a porta da frente abriu-se de rompante. O alarme emitiu o sinal. As duas mulheres deram um salto e depois coraram, envergonhadas, e partilharam um riso nervoso que nenhuma delas precisou de explicar. Harper entrou no escritório ainda com a bata verde do hospital, uma mão atrás das costas e a outra a tapar um bocejo. Parou de repente e fitou-as com curiosidade, obviamente por não esperar encontrá-las ainda acordadas.

Pareceu-me ver a luz acesa. Que estão as duas senhoras a fazer ainda a pé? Deu um beijo no rosto da mulher e depois abraçou a filha. Querida, sentes-te melhor?

Sã como um pêro respondeu Melanie. O pai apalpou-lhe a testa e o pulso. Depois das enxaquecas, tratava-a sempre como se fosse uma das suas doentes.

Melhor declarou por fim. Mas ainda tens de ir com cuidado. Toma, talvez ajude. Ia dar-te isto a ti e à tua mãe de manhã, mas como as minhas duas mulheres preferidas ainda estão levantadas...

Harper mostrou a mão escondida e apresentou um raminho de flores e uma caixa de bombons. Quatro girassóis tratados com um pigmento púrpura até ficarem com uma rica cor magenta. Surpreendentes... e adquiridos numa das mais elegantes floristas de Newbury Street. Estendeu as flores a Patricia e esta corou e olhou o marido de um modo quase tímido.

Sem dúvida que o pai estava a esforçar-se muito para se fazer perdoar por erros do passado, pensou Melanie, aprovadora. Nada mal. Melanie recebeu uma caixinha de trufas de chocolate Teuscher. Vindas da Suíça duas vezes por semana. Aprovou igualmente aquela oferta de paz e aceitou-a de imediato.

O pai fingiu tomar-lhe de novo o pulso e roubou-lhe um chocolate. Melanie teve de rir-se. Num impulso, abraçou outra vez o pai e, mais inesperadamente ainda, este prolongou o abraço.

Devias ir para cima disse-lhe um momento depois, com a voz um pouco rouca. Precisas de descansar, minha menina.

Porque não acabas isto amanhã? perguntou a mãe com ligeireza. Posso ajudar-te da parte da tarde e acabamos num instante.

Melanie estava fatigada, mas, depois, viu-se de novo a pensar no quarto. No quarto e no altar. O seu quarto, que fora invadido pela calada da noite enquanto o resto da casa dormia.

Melanie olhou ansiosamente para os livros.

O pai não quis saber. Sempre decidido, pegou-lhe no braço e conduziu-a a ela e à mãe pelas escadas acima.

Os rituais nocturnos surgiram naturalmente. O pai ligou o alarme no patamar do segundo andar. A mãe beijou-a no rosto. O pai deu-lhe um abraço. Melanie murmurou “boa noite”. O pai disse-lhe que não se levantasse cedo. Melanie retorquiu que tinha uma reunião às dez. O pai informou que faria uma cirurgia às onze, a mãe comentou que também tinha de estar às onze no hospital a ler para as crianças. O início de uma nova semana para a família Stokes.

Os pais desapareceram no interior do quarto. Melanie ainda ouviu o pai a perguntar à mãe como passara o dia. Patricia não mencionou pontos de viragem. Disse simplesmente: “Bem.” E como foi o teu? “Bem”, Imaginou-os a entrarem na cama cada um do seu lado, continuando com a mesma conversa educada até adormecerem.

Depois pensou em David Riggs e se ele se manteria sempre do mesmo lado da cama. Duvidava. Impressionara-a a sua maneira de ser, intensa e silenciosa. O sexo devia ser veemente, directo e ardente. Poucas palavras antes e depois, mas que cavalgada pelo meio! Algo se introduziu no seu estômago e fê-la suspirar. Ansiedade. Desejo. Pura frustração sexual.

Pensou que andava muito só e sorriu com ironia. Por que razão gastaria tanto tempo a tentar convencer-se de que tinha uma vida perfeita?

Melanie chegou ao terceiro andar. Da porta, inspeccionou o quarto vazio de Brian. Naquela noite não havia intrusos à espera. Só então, finalmente e com relutância, se foi deitar.

Os sonhos que teve foram os sonhos típicos da ansiedade. Estava no primeiro ano de Wellesley a fazer o exame final e apercebeu-se no derradeiro instante de que se esquecera de estudar. Não compreendia as perguntas. Oh, Deus, nem sequer sabia preencher o teste com o seu próprio nome.

Depois, estava no poço de um elevador e caía a pique.

A seguir, de repente, encontrava-se no lar onde estivera quando tinha nove anos, ansiosamente à espera de que os Stokes a levassem dali. Mas, desta vez, os Stokes passaram por ela, pegaram noutra menina com o cabelo penteado em canudos perfeitos e saíram.

Não! Não!, gritava no sonho. Vocês são a minha família, A minha família!

No último minuto, Brian Stokes, com catorze anos, olhou para ela.

“Honestamente, achaste que não podias ser substituída? Pergunta à Meagan.”

O lar desvaneceu-se. Corria no escuro, totalmente perdida, gritando sem parar para que alguém a visse e lhe dissesse como se chamava. Não conseguia suportar não saber como se chamava. E as trevas continuavam, mais e mais...

De súbito sentiu-se protegida num abraço quente. Braços sólidos, voz grave e gentil. Chiu, pronto, amor, pronto. Estou aqui ao pé de ti. Estarei sempre ao pé de ti. Mesmo que nunca te lembres...

Melanie mexeu-se. A dormir, murmurou um nome.

Nunca esteve tão perto da verdade senão quando já era tarde de mais.

 

Na segunda-feira de manhã, Patrícia observava o marido, que lia o Boston Globe. Após todos aqueles anos, sabia exactamente como é que Harper lia o jornal. Começava pela secção de economia, onde verificava as acções; nos dias bons, sorria, nos dias maus, franzia as sobrancelhas, mas nunca comentava nada porque guardava sempre para si as questões financeiras. Depois, passava às notícias locais, procurando artigos sobre si ou sobre hospital, e a seguir lia os artigos de fio a pavio. Depois das notícias sobre Boston, passava às nacionais, a seguir às internacionais, expandindo a pouco e pouco o seu círculo de interesses de forma a incluir as coisas que não eram imediatamente relevantes para si.

Dissera uma vez a Patrícia que era importante estar-se bem informado sobre todos os assuntos, de forma a poder-se ter conversas inteligentes no trabalho. Embora não fosse mais explícito, Patrícia compreendera tudo o que ficara por dizer. Harper provinha da camada social que fazia o trabalho braçal. Pessoas que não discutiam as notícias nacionais, não frequentavam festas chiques nem conviviam com os que conseguiam mover ou abalar governos. Pessoas cujo maior sonho era um dia arranjar um emprego na função pública que lhes proporcionasse uma pensão de aposentação suficiente para lhes permitir irem à pesca na velhice.

Harper sonhara mais alto, como é evidente. Logo desde o início adquirira as roupas certas, eliminara os calos das mãos e fizera os possíveis por parecer de uma classe social ainda mais elevada do que os que tinham nascido nessa classe. Embora tivesse sido um estudante de medicina com algumas dificuldades, ninguém questionara as suas origens.

Patricia desconfiava que Harper também achava que esta fachada era importante para ela, uma vez que crescera ao colo do luxo proporcionado pelo petróleo do Texas. Nunca permitiria que se dissesse que Patricia casara com uma pessoa de condição social inferior à sua ou que ele não lhe propiciava aquilo a que ela estava habituada. O amor e o dinheiro estavam iintrinsincamente ligados na sua mente.

Patricia respeitava isso. Admirava-o. Harper integrava-se no modelo de homem que conhecia bem: conservador, pragmático e firme. Supunha que era por isso que o amava tanto. Independentemente do que ele fizesse, era-lhe familiar. Os seus defeitos correspondiam aos defeitos do seu pai, as suas qualidades, às qualidades do seu pai. A maneira como mostrava o seu amor era a maneira como o seu pai mostrava o seu afecto. Nunca havia surpresas e, na idade madura, Patrícia apreciava isso.

Em tempos, quando não passava de uma criança, pensara que o casamento eram rosas, luz de velas e um interminável romance. O marido seria sempre fogoso e apaixonado. Ela seria sempre bela e jovem. seria bondosa com ela e ela nunca estaria só ou assustada.

Como era evidente, o casamento não funcionava assim. Às vezes, nos dias maus, quando até para abrir os olhos e pôr as pernas para fora da cama tinha de se esforçar, perguntava a si mesma o que ainda estava a fazer com Harper. Que espécie de mulher ficava com um homem que primeiro a perseguia obsessivamente e agora havia anos que não lhe tocava? Que espécie de mulher se mantinha ao lado de um homem que a olhava da maneira como Harper o fizera no dia em que o corpo de Meagan fora identificado, como se ela fosse a mais reles forma de vida no planeta, como se tivesse feito algo pior ainda do que matar a própria filha?

Contudo, nos dias em que se sentia mais forte, reconhecia que o casamento era apenas isso mesmo: perseverança. Ela e Harper tinham sobrevivido às exigências esgotantes da carreira de um cirurgião, mesmo quando os médicos internos colegas de Harper passavam por uma gigantesca onda de divórcios. Haviam resistido à perda da filha, embora a taxa de divórcios para tais casais fosse superior a setenta por cento. Muito depois de os amigos se terem voltado a casar e a divorciar-se pela segunda vez, tinham tomado a decisão de adoptar uma menina. Haviam criado juntos os filhos. Tinham-nos acompanhado até à universidade, e assistido ao seu empenho nas carreiras por eles escolhidas.

O seu casamento podia já não ser uma lua-de-mel. A palavra indicada talvez fosse companheirismo coisa que ela sabia que os filhos, e mesmo Melanie, não compreendiam, mas também era uma questão de possuírem uma história conjunta. Conhecerem-se muito bem um ao outro. Crescerem juntos. Aceitarem-se mutuamente.

Resistirem juntos aos temporais da vida. Resistirem, pura e simplesmente.

Sem dúvida que os últimos seis meses tinham posto à prova tudo isso. Desde a cena com Brian, Patricia vira-se transtornada de uma forma que não podia discutir com o marido ou mesmo com Melanie. Descobria-se deitada na cama a ouvir o leve ressonar de Harper e a pensar nas garrafas de gim que a chamavam da sala de estar, no suave esquecimento de que se lembrava muitas vezes como um sonho embriagador e extasiante. Outras vezes, apercebia-se de que descera as escadas e estava a olhar para o retrato de Meagan, a bela e feliz Meagan, que confiara que a mãe expulsaria os monstros que se escondiam debaixo da cama.

Depois, no breve período em que se entregara ao fascínio da bebida, chegara a um patamar diferente, em que funcionava mal permanentemente, em que podia acordar às quatro da manhã e correr para o quarto de Brian, convencida de que ele estaria ali, embora Brian já não vivesse lá em casa desde os vinte e quatro anos. Abria febrilmente as gavetas como se estivesse possessa, procurando roupas antigas que apertava contra si para sentir o cheiro da pele do filho. E quando deixou de encontrar vestígios dele no quarto, quando começou a parecer que Harper varrera o filho primogénito da face da terra, o pânico alçava a cabeça hedionda e, com o auxílio do álcool, devorava-a viva.

De repente, tentava desesperadamente encontrar Meagan. Meagan, minha querida, onde estás? Vem à mamã. Por favor, volta para casa.

A seu lado, no quarto às escuras de Brian, materializava-se um polícia. “Pelo menos não sofreu, minha senhora.”

Cortaram-lhe a cabeça! Sofreu!

A seguir, o agente do FBI, de fato azul, aproximava-se da janela. “Não há nada que pudesse ter feito, minha senhora.”

Não devia tê-la deixado com a ama. Por que motivo contratamos tanta gente para nos ajudar?

Por fim, o corpulento xerife deslizaria de debaixo da cama, mascando um grande pedaço de tabaco para encobrir o facto de que estivera doente. “Bem, minha senhora, agora, pelo menos, sabe. É melhor saber.”

A minha filhinha nunca mais voltará para casa. A minha filhinha não tem cabeça. Viram o que ele lhe fez às mãos? Oh, meu Deus, meu Deus, porque é que ainda estou viva? Porque não me matais? Por favor, por favor, matai-me...

Enroscada na cama do filho, vinte e cinco anos depois, via-se sentada nas ervas dos bosques onde os polícias trabalhavam. Ouvia o zumbido das moscas e sentia o cheiro enjoativo do corpo em decomposição. Abria a boca para gritar e, em vez de gritar, ria. Só ria, ria.

Hás-de melhorar, rapariga. Não sei como, mas hás-de melhorar. Jamie dissera-lhe isso.

Mas piorara. Nos cinco anos seguintes, a sua vida caíra em espiral.

Desde o fazer sair uma nova vida do seu corpo, até levar o caixãozinho branco num funeral de féretro fechado, porque não restava muito para ver da sua filha de quatro anos. De mãe activa a lunática chorosa e desvairada, afastando-se do filho, recusando-se a reconhecer a sua existência, porque os filhos só lhe davam desgostos. De esposa cumpridora, tornando-a um ser humano gélido e inconsolável, recusando as tentativas de aproximação de Harper, sabendo que ele a culpava pelo que acontecera à filha, mas que, apesar disso, Harper tentava voltar atrás e apercebendo-se de que já nada lhe interessava.

Caíra sobre ela um frio gelado. Deixara de pertencer a si mesma. Fechara-se, pegara na garrafa de gim e abraçara o nevoeiro que a envolvera como a mais doce das carícias. Vivera para o nevoeiro, adorara o nevoeiro. Era o melhor amante que já tivera e caiu-lhe agradecida nos braços, acariciando-o como se fosse espuma de sabão espessa sobre os seios nus e doridos. Deslizava langorosamente através dos dias, sem pensar, sem sentir, sem existir, porque a dor seria excessiva.

Matai-me, matai-me. Porque não morri?

O pai pedira-lhe que deixasse de beber. O marido internara-a numa clínica de recuperação, como sempre procurando uma solução científica para os males emocionais da mulher. Patricia não se importara com o que eles pensavam, nem com o que eles queriam; nem sequer a atingira o facto de o filho estar a transformar-se num adolescente soturno, duro e incapaz de sorrir. Não se importara com nada.

Depois, Harper, um Harper aturdido, esmagado e viciado no trabalho, fizera o inesperado. Mudaram-se todos para Boston, onde, em casa, as imagens de Meagan já não poderiam torturá-la a ela ou a Brian. E num momento único e esclarecedor, o tipo de momentos que lhe davam fé nele e esperança no seu casamento, Harper levara-a a ver a “menina do papá”.

Patricia lançara um olhar a Melanie, uma Melanie pequenina, séria e de olhos azuis, e tudo nela cedera.

Apaixonou-se de novo. O gelo quebrou-se, o nevoeiro recuou. Queria intensamente abraçar aquela menina, era uma dor física. Queria cuidar dos seus problemas, queria dizer-lhe que tudo se resolveria. Queria protegê-la a todo o custo.

Adorava a pequena Melanie por ser a pequena Melanie. Adorava o modo como enfrentava o desconhecido, o modo como tentava que as pessoas sorrissem. Era forte. Era intrépida. Era ponderada. Tudo aquilo que Patricia sempre quisera ser, mas nunca conseguira por completo. Era a heroína de Patricia Stokes.

Graças a Melanie, Patricia recompusera-se. Graças a Melanie, recomeçara a amar Brian e a dar-lhe a atenção de que ele desesperadamente necessitava: devolvera-lhe a mãe. Graças a Melanie, até voltara a amar o marido, porque, quando julgara que já nada restava entre ambos, ele lhe concedera o dom mais precioso: uma segunda filha e a oportunidade de agir correctamente.

Na noite em que Melanie fora para casa, Patricia despira lentamente as roupas e, pela primeira vez em cinco anos e meio, aninhara-se nos braços do marido. Harper até a aceitara, embora Patricia soubesse que, entretanto, tinha havido outras mulheres e que o coração dele não se adoçara totalmente como o dela.

109

Quando o breve contacto físico terminou, Patricia compreendeu. Harper nunca a amaria do mesmo modo que antes. Não a veneraria nem perseguiria como fizera logo no princípio. Não a olharia com a mesma paixão urgente.

Aceitá-la-ia. Cuidaria dela. Mas não perdoaria. No Texas, o perdão era coisa de mulheres.

Harper estava agora a ler a secção de economia. Procurou as notícias da cidade. Por instantes, Patricia olhou para o rosto que conhecia há trinta e oito anos, os olhos ainda igualmente azuis, o queixo ainda quadrado, o mesmo cabelo espesso e louro.

Mesmo aos cinquenta e oito anos, parecia-se com o homem que a afastara de Jamie O’Donnell e a arrebatara.

Cortou outro pedacinho de toranja.

Sem se fazerem convidar, as recordações surgiram as noites do Texas, quentes e húmidas, quando os três ainda julgavam que podiam conquistar o mundo, Jamie tão forte, Harper tão simpático e Patricia simplesmente tão bela.

O Harper não passa de um aperto de mão e um sorriso, rapariga. Está obcecado com a imagem, não com a substância. Consegues arranjar melhor do que ele.

Ele compreende-me, Jamie.

Porquê? Porque usa a roupa certa e tem uma boa manicura? Porque era capaz de vender a mãe a troco de um convite para a festa?

Exactamente, meu amor. Exactamente.

Lamento, Meagan disse, e meteu o pedaço de toranja na boca. Lamento muito.

O quê? interrogou Harper, baixando o jornal.

Estou preocupada com a Melanie. Harper pousou de imediato o jornal.

Tem andado a trabalhar de mais observou num tom grave. A saúde era o seu domínio e sempre se preocupara muito com Melanie, principalmente devido às suas enxaquecas. Tem de aprender a abrandar.

Tenho tentado ajudá-la disse Patricia, mas encolheu os ombros delicadamente. Não teria melhores resultados com a filha do que teria com o marido.

Como se lhe lesse a mente, Harper proferiu:

Que tal se fôssemos todos de férias?

Perdão?

Falo a sério, Pat. Inclinou-se para a frente e prosseguiu em tom sério. Há semanas que ando a pensar nisso. Bem, que diabo, não estou a ficar mais novo! Nenhum de nós está. Talvez seja finalmente tempo de cedermos a um impulso. Pegarmos nos filhos e percorrermos o mundo. Que dizes?

Patricia estava sem palavras. Com as mãos trémulas, pousou a colher de prata. Percorrer o mundo. Sem mais. Nem nos seus sonhos mais loucos o marido diria coisas daquelas.

Procurou-lhe os olhos, preocupada, em busca nem sabia de quê. Perguntou-se se o marido sabia que mesmo após todos aqueles anos ela o amava. Mesmo quando ele punha o trabalho antes da família. Mesmo quando ele saía com aquelas jovens patetas e sem interesse, e depois voltava para casa e a beijava secamente no rosto. Perguntou-se se ele sabia quão paciente e calma ela estava à espera do dia em que ele se aposentasse e voltasse a pertencer-lhe. Talvez então conseguissem alcançar de novo o que tinham partilhado tão brevemente naqueles primeiros dias quentes do Texas. Talvez então pudessem pôr para trás das costas todos os erros mútuos, os pecados mútuos e os remorsos mútuos e recomeçar do zero.

As pessoas não estão sempre a dizer que nunca é tarde de mais para se recomeçar?

Ias-te... embora do hospital?

Bem, não me ia embora, ia de licença.

Patricia baixou a cabeça para que ele não visse a sua decepção.

Umas férias, então? Uma ou duas semanas?

Mais. Talvez quatro meses, seis meses. Que diabo, talvez pudesse ser realmente ousado e tirar uma licença ilimitada.

Uma licença ilimitada. Isso voltou a despertar-lhe a atenção. Não sabia se devia ficar empolgada, se desconfiada. Fez os possíveis por parecer interessada.

Realmente? Quando?

Harper respondeu com naturalidade:

Estava a pensar na próxima semana.

No silêncio súbito do terraço, Patricia tinha a certeza de que o marido conseguia ouvir-lhe o bater do coração. Na próxima semana. Harper nunca se movimentava tão rapidamente. Nunca fazia nada tão drástico como tirar uma licença ilimitada da sua carreira.

Oh, Deus, afinal, não tinha a ver nem com Melanie nem com romance. Ele sabia. O seu marido sabia.

O bilhete ao sentar-se no carro depois da reunião dos Alcoólicos Anónimos. Dentro do Mercedes, fechado à chave e com o alarme ligado, no assento do condutor.

Cinco palavras recortadas numa revista. Simples. Experiente. De gelar até aos ossos.

Temos o que merecemos.

No momento gélido que se seguiu após ler o bilhete, com o coração aos saltos dentro do peito como um pássaro numa armadilha, Patricia passara por uma horrível sensação de presciência, em que o passado se misturava com o futuro e não havia maneira de ela o conseguir evitar. Não me magoem, implorou silenciosamente. Não magoem a Melanie. Desta vez, portei-me bem. Juro, juro que me tenho portado bem.

Pat? Vá lá, pensei que ias ficar contente.

Seis meses, murmurou, mantendo o olhar fixo na mesa. Num lugar distante. Levamos a Melanie?

Sim.

E... e levamos o Brian?

Harper hesitou, depois assentiu lentamente com a cabeça.

Mas nada de amantes. Estou a tentar, Pat. Sabe Deus que estou a tentar. Mas ainda não me sinto preparado para ir tão longe.

A família toda murmurou Patricia. Ir para longe. Para um lugar distante. Mas eles precisam de avisar com mais antecedência do que uma semana, querido. É muito em cima da hora.

Harper continuou firme.

Olha, se eu consigo arranjar maneira de sair do hospital, eles também conseguem.

Então, na próxima sexta-feira?

Sim. Na próxima sexta-feira.

Podia insistir, pensou. Pedir para saber porquê. Tinha demasiado receio da resposta.

Está bem, querido, está bem murmurou. Maria apareceu à porta.

O doutor Sheffield deseja falar como doutor Stokes.

Harper pareceu surpreso, mas levantou-se e deu um beijo no rosto da mulher. Patricia pusera os girassóis na mesa do terraço naquela manhã. Harper tocou numa das pétalas de cor magenta.

Vai correr bem disse-lhe docemente. Verás.

Saiu do terraço. Patricia ficou a sós com a toranja meio comida. Não sabia ao certo o que acabara de acontecer. As férias sob o impulso do momento e sem nenhuma razão especial. A sua própria e desesperada vontade de cooperar.

Segredos, pensou. Os seus. Os dele. E na noite anterior desconfiara que Melanie também os tinha. Houvera longas pausas no discurso da filha. Demasiadas barreiras nos seus olhos. Melanie sempre guardara muita coisa para si mesma. Acharia realmente que os pais não se apercebiam?

Temos o que merecemos. Temos o que merecemos.

Oh, Céus!

Patricia sentia-se exausta. Mal conseguia erguer a colher ou arranjar energia para comer. A sua vida estava de novo a cair em espiral. Respirava superficial e rapidamente. Um ataque de ansiedade. Na sua idade, já devia saber. Mas não.

Foi procurar a filha. Ajudaria, se pudesse ao menos ver Melanie, saber que a sua menina estava bem, que não fora raptada nem assassinada e que não estava morta. Se pudesse tranquilizar-se a si mesma e convencer-se de que aquilo era o presente e de que o passado era verdadeiramente o passado e há muito que estava morto...

Mas não se via Melanie em parte alguma. Às dez e meia da manhã, Patricia Stokes voltou a cair na cama.

Sabia que devia ser mais forte. Naquele dia, não era capaz.

Melanie voltou a acordar tarde e por isso teve de se apressar para estar pronta às dez. Enfiou um vestido pela cabeça enquanto telefonava a Ann Margaret para lhe dizer que naquele dia não iria ao centro de dadores. Não estava a sentir-se bem. Talvez uma ponta de gripe. Ann Margaret foi compreensiva.

Não te preocupes, querida. Descansa muito, querida. Bem sabes como nos preocupamos contigo.

Melanie desceu, sentindo-se muito envergonhada. Detestava mentir e andava a mentir muito nos últimos dias.

Saiu pela porta da frente às dez horas e oito minutos. David Riggs esperava do outro lado da rua, encostado a uma cerejeira, de pernas cruzadas e alguma impaciência manifesta no rosto de falcão. Tinha o ar de quem não dormira um segundo na noite anterior e, quando falou, foi em tom soturno.

Foi o William Sheffield quem entrou agora mesmo em sua casa? perguntou-lhe David à laia de cumprimento.

Foi. Deve ter alguma reunião com o meu pai. Lutava contra a alça da carteira, tentando mantê-la no ombro, mas, aparentemente, David já estava farto de esperar. Afastou-se da árvore e começou logo a andar.

Encontram-se sempre em vossa casa?

Bem, não, nem sempre.

Porquê esta manhã?

Não sei. Só apanhei o fim da conversa quando se dirigiam para o escritório, mas o William estava aborrecido. Deu-me a impressão de que a casa dele foi assaltada esta noite.

David parou abruptamente.

A casa dele foi assaltada? Como aconteceu com a sua na noite de anteontem?

Melanie apercebeu-se do curso dos pensamentos de David e abanou imediatamente a cabeça.

Tenho a certeza de que isso não tem nada a ver com a nossa casa. O William tem um leve problema de jogo de bingo, percebe? Se calhar passou um pouco da conta e alguns credores decidiram servir-se. Era o que o meu pai estava a resmungar quando o acompanhava ao escritório. “Bem, William, que esperavas?” Acho que o intruso até deixou um bilhete.

David agarrou-a pelo braço. A intensidade do olhar dele apanhou-a desprevenida.

Um bilhete? Que espécie de bilhete?

Eu... não sei. Não consegui ouvir.

Ouviu o William dizer que tinham levado mesmo alguma coisa? perguntou David. Queixou-se de lhe faltar dinheiro?

Melanie tentou recordar-se. Sinceramente, não prestara muita atenção.

Parece-me que negou e disse que tinha ganho ontem à noite. Mas o meu pai não acreditou nele. Afirmou que a história dele falava por si mesma.

E quanto ao bilhete?

Disse qualquer coisa do género: “Bem, se fosse só um credor, por que diabo deixaria um bilhete? Os credores levam dinheiro, não escrevem poemas.” Melanie fez uma pausa. Em resumo, o William estava aborrecido e o meu pai tentava acalmá-lo. Fim da história.

David continuava de testa franzida, mas, finalmente, largou-lhe o braço.

Gostava de saber o que dizia o bilhete.

Porquê! Que poderia ser de tão importante?

Temos o que merecemos adiantou David. Não foi o que o informador do Digger lhe disse?

Oh! Melanie esquecera-se disso. Pesou a questão por instantes e depois abanou a cabeça. O William é apenas um sócio do meu pai. Já tem problemas que cheguem.

David deixou cair o assunto. Recomeçaram ambos a andar.

A manhã estava luminosa e soalheira, não havia uma nuvem no céu nem qualquer espaço livre de turistas na rua ladeada por árvores. Homens de jaquetões olhavam para a montra da loja Armani, enquanto algumas estudantes universitárias com piercings no umbigo entravam no estabelecimento de Ann Taylor e nos cafés. Melanie e David foram abrindo caminho pelo meio da multidão. O hotel ficava só a quinze minutos de distância a pé.

Melanie olhou por fim para o companheiro silencioso. David arranjara-se para a ocasião com calças pretas e blazer. Da Brooks Brothers, palpitava-lhe. Ficavam-lhe bem. Muito bem.

Percorreram quatro quarteirões pela Newbury até que os nervos de Melanie não aguentaram mais aquele silêncio.

Teve uma noite descansada?

Esplêndida.

Hoje está a coxear menos.

Sorte a minha.

Não é de muitas conversas, pois não?

Cresci numa casa de homens. A hora das refeições era para comer.

Não duvido. Então, que aconteceu com a sua mãe?

Cancro.

Lamento.

Também ela.

Melanie recusou-se a ficar embaraçada.

Então, é só o seu pai e...

Um irmão. Mais novo, acrescentou. Steven. Actualmente casado, com dois filhos e treinador de basebol em Amherst. Bom lançador. Está melhor assim?

É um discurso normal tranquilizou-o ela, e pensou que ele podia ter sorrido.

Atravessaram Boylston Street, passaram pelo Pru Center, onde os Stokes faziam todas as suas compras, depois dobraram a esquina junto do Teatro Shari, onde Melanie assistira à reposição da trilogia A Guerra das Estrelas numa só tarde. O hotel estava quase à vista.

Não telefonou a Larry Digger, pois não? confirmou David.

É claro que não...

Óptimo. Quero apanhá-lo desprevenido, antes que tenha oportunidade de aperfeiçoar a história. Os seus pais? Que lhes contou ontem à noite?

Nada...

E o seu irmão? Soube mais alguma coisa dele?

Não.

Ele nem sequer telefonou? David parecia surpreso com isso. Nem parece de um irmão mais velho, tão protector.

O Brian é uma pessoa que precisa de muito espaço. Telefona quando estiver preparado. Mas telefona.

Sempre diplomata, não? Melanie fitou-o nos olhos.

Não critique aquilo que desconhece.

De acordo respondeu David. De acordo.

Passaram junto a uma instituição religiosa, apenas a um quarteirão do hotel. Melanie observou crianças ao gritos e a chapinhar na piscina longa e espelhada. Meu Deus, que dia bonito!

Um instante depois, seguiu David e entraram ambos no Hotel Midtown.

Não havia muita gente na recepção. Um homem estava escondido atrás de um jornal a um canto, enquanto uma mãe exausta tentava refrear duas crianças em correrias. Ao balcão atendia uma ruiva baixinha e de ar atrevido, cujos olhos se acenderam ao ver David. Conseguiu telefonar para o quarto de Larry Digger e, ao mesmo tempo, dirigir a David um olhar indubitavelmente sugestivo.

Melanie concluiu que não gostava muito da ruiva.

O próprio David mal pareceu dar por ela. Ao entrarem no hotel, David envolvera-se numa capa de mau humor. Tinha o rosto fechado, mas os olhos semicerrados eram observadores. A sua posição corporal parecia diferente, com os pés bem assentes e a perna esquerda recuada para se manter em equilíbrio. Estava alerta, deduziu por fim Melanie. Estudava o vestíbulo, os seus ocupantes, as saídas. Estava a preparar-se para Larry Digger.

A ruiva desligou o telefone com que contactara Larry Digger e apontou para o fundo do vestíbulo, oferecendo a David um último e generoso trejeito de lábios. David voltou-lhe as costas sem olhar para trás. Encontraram Larry Digger a aguardá-los à porta do quarto, com um ar muito cheio de si, que se esvaziou quando viu David.

Quem diabo é você? perguntou Digger.

Um criado ao seu dispor. Conduziu Melanie para dentro, depois fechou a porta com um pontapé e cruzou os braços no peito.

Bolas, você é o criado! Digger virou-se para Melanie. Por que diabo o trouxe? Isto é entre nós.

Quero ver as suas provas, Mister Digger. Mister Riggs ofereceu-se para me acompanhar. E, agora, quer falar ou vou-me embora? Sentou-se na beira de uma cadeira, tornando claro que estava pronta para se levantar em qualquer altura.

Digger fitou David com ar infeliz.

Ao menos pode esperar no corredor? David fez a Melanie o favor de responder:

Não.

Digger desistiu e pôs-se a andar de um lado para o outro no pequeno quarto. Usava as mesmas calças da última noite, mas uma camisa limpa. Não havia sinais de mala no quarto, só um saco de pano coçado e uma porção de blocos de apontamentos na mesinha-de-cabeceira. No meio da cama estava um gravador com a tampa aberta e à espera de fita.

Pode começar a falar a qualquer momento espicaçou-o Melanie. Isto é, se tiver algo de útil para dizer.

Digger deteve-se e lançou-lhe um olhar beligerante.

Oh, não, não é assim que isto vai funcionar. Se quer as suas provas, primeiro tem de responder às minhas perguntas. É assim que as coisas funcionam.

Porquê? Neste momento continuo a não ter a certeza de que você esteja a dizer a verdade. Talvez inventasse tudo isso por dinheiro.

E isso é um pecado assim tão grande? Meu Deus, que sabe você, que vive naquela mansão, que tem gente a satisfazer-lhe toda e qualquer necessidade, que lhe satisfaz todos os desejos? E que fez você na vida para merecer isso, minha querida? O que é que alguma vez fez para merecer a vida que leva?

Os lábios de Melanie estreitaram-se. Os comentários dele tinham-se acercado muito do alvo.

Tive sorte replicou de forma rígida. Até agora, muito mais sorte do que você alguma vez teve.

Bem, e isso não a torna especial? Olhe, para sua informação, já nem sequer preciso de si. Falei com o médico que a encontrou no hospital. Pus-me em contacto com a assistente social a quem foi entregue o seu caso...

E quanto ao Harper e à Patricia Stokes? perguntou David da porta. Também os contactou?

Ainda não, mas como a Melanie não está a cooperar... Larry Digger encolheu os ombros, mas o seu olhar continuava a ser sagaz. Debruçou-se sobre a secretária e fitou ambos. Calculo que consigo ter tudo isto por escrito no final da semana anunciou. Tenciono vender a história pela melhor oferta, com ou sem qualquer citação de Miss Holmes. Bem-vindos ao jornalismo dos anos noventa.

Então, é uma questão de dinheiro. Tudo bem esmiuçado, você anda simplesmente atrás de papel. Bem, isso responde à minha pergunta. Bom dia, Mister Digger, adeus e boa viagem! Melanie abanou a cabeça com repugnância e levantou-se.

Digger agarrou-a pelo braço. Gesto errado. David aproximou-se imediatamente dele.

Ora, o que está a fazer, seu coxo?

O rosto de David ficou petrificado e Melanie sentiu o cabelo eriçar-se-lhe na nuca. David Riggs estava furioso, com uma fúria que o tornava perigoso. Nesse momento, Melanie não teve dúvidas de que ele seria capaz de infligir tantos ou tão poucos danos quantos lhe apetecesse.

Feitas as contas, o jornalista não era estúpido. Muito lentamente, levantou as mãos.

Bom, bom, bom, estamos a afastar-nos do assunto. Todos nós queremos a mesma coisa. Tenho a certeza de que nos podemos entender.

David tentou descontrair-se, mas o seu olhar transmitia um aviso. Digger preferiu justificar-se perante Melanie.

Não é uma questão de dinheiro declarou em tom ácido. Não é.

Tenho a certeza de que é.

Caramba! Julga que também não estou farto do jornalismo da porcaria dos tablóides? Tenho uma pista verdadeira, Melanie Stokes, quer isso viole o seu pequenino e precioso mundo quer não. E tenciono escrever uma história verdadeira, quer você goste quer não.

Diga-me a verdade exigiu Melanie concisamente. Diga-me algo de convincente.

Digger dirigiu-se para a mesinha-de-cabeceira e retirou de lá um maço de papéis amarrotados.

Quer a sua verdade? Aqui está. Esta é a história do Russell Lee Holmes e da mulher que lhe deu um filho.

Como sabe? pressionou-o Melanie. Como sabe? Digger conservou-se em silêncio por instantes. Parecia estar a ponderar as suas opções. Talvez a ganância estivesse em conflito com o que parecia ser um orgulho genuíno no trabalho bem feito. Talvez só não soubesse ao certo até que ponto devia levar Melanie a sério. Depois, falou.

O Russell Lee Holmes tinha uma tatuagem no braço. Ficou tudo documentado quando foi preso. A tatuagem dizia: “Lixo ama Angel.” “Lixo” era a alcunha do Russell Lee. Nunca disse a ninguém quem era a Angel, só disse que não se tratava de nenhuma “virgem”. Mas, infelizmente para ele, o Russell Lee às vezes falava enquanto dormia. Costumava mencionar o nome de Angel. E, de vez em quando, tinha aquelas pequenas conversas com a criança... a sua própria filha.

“Mesmo antes de o levarem para a cadeira eléctrica, comecei à procura e a tentar encontrar a mulher e a criança. Queria saber como era ser casada com o Russell Lee. Sabe alguma coisa sobre pedófilos, abusadores de crianças, Miss Stokes?

Melanie abanou a cabeça.

Há vários tipos. Podem abusar sexualmente sempre de crianças... o que significa que na verdade preferem crianças... ou violadores ocasionais, o que significa que se voltam para as crianças se por acaso estiverem por perto, mas os adultos também servem. Faz sentido?

Melanie assentiu, embora não tivesse a certeza de que algo tão horrível pudesse fazer sentido. Larry Digger prosseguiu, agora mais entusiasmado, arrebatado pelo tema e satisfeito por exibir os resultados da sua investigação.

Na sua maioria, os violadores de crianças são delinquentes ocasionais continuou. Dividem-se em quatro categorias: reprimidos, moralmente indiscriminados, sexualmente indiscriminados e inadequados. Um tipo reprimido abusa dos seus próprios filhos, em vez de abordar outras pessoas. Não é só um filho-da-mãe tarado, é básicamente um degenerado sem carácter. O moralmente indiscriminado, por outro lado, é um verdadeiro monstro que aproveita todas as oportunidades. Viola os filhos, viola os filhos dos vizinhos, e, por cima disso tudo, viola a mulher e a mulher do vizinho. É totalmente destituído de consciência e o assédio de crianças faz apenas parte da diversão. Depois, temos o sexualmente indiscriminado. Também é um predador que ataca quem quer que seja, mas por um motivo diferente. Está sexualmente aborrecido, gosta de correr riscos, da sensação de aventura. Em sua opinião, o que é pior, Melanie? Violar os filhos porque se tem oportunidade ou violar os filhos porque não se tem nada de melhor para fazer?

Digger não deu a Melanie oportunidade de responder que uma situação era tão má como a outra. De repente, Melanie pressentiu onde o jornalista queria chegar: uma corrida directa para o inferno.

O quarto tipo é o inadequado anunciou Digger. É um solitário, provavelmente não tem nenhum relacionamento com um adulto que lhe preencha as necessidades e acaba por seduzir crianças que conhece ou a que tem acesso fácil, porque são inofensivas e ele sabe que é um fraco, capaz de pouca coisa. E cá estamos, quatro tipos de linquentes. Quer adivinhar a que tipo pertencia o Russell Lee Holmes?

Moralmente indiscriminado disse David sem hesitação. Não tem consciência nem senso de remorso no que diz respeito aos seus actos. Não se arrependeu nem sequer quando estava sentado na cadeira eléctrica.

Digger concordou. Fitou Melanie nos olhos.

Há uma outra característica que define o delinquente moralmente indiscriminado, uma pequena e simples peculiaridade que lhe gelará o coração. Esse delinquente não só assedia os próprios filhos como tem filhos só para ter a quem assediar. O que tem em casa pertence-lhe. Assim, tem todo o acesso a que uma criatura divina como ele tem direito. Quero encontrar a mulher do Russell Lee Holmes porque desejaria perguntar-lhe como foi perceber que estivera a ser usada pelo próprio marido para produzir a sua próxima vítima.

A voz de Digger tornou-se mais suave.

Já percebeu porque foi dada pela sua própria mãe, Miss Holmes? Porque pode ter sido afastada o mais longe possível do Texas? Por que razão a sua mãe biológica nunca fez qualquer tentativa para a recuperar ou para lhe dar a conhecer o seu passado? Já compreendeu por que motivo foi trazida a este mundo?

Melanie respirava com dificuldade. Atrás de um dos olhos, estava a enraizar-se uma enxaqueca. As sombras revolviam-se novamente na sua mente, revelando vislumbres de um tempo e de um lugar que não queria conhecer. A cabana de madeira. A menina, agarrada ao seu brinquedo preferido e olhando para Melanie, sem saber ainda qual seria o seu destino.

Você ainda não apresentou quaisquer provas protestou secamente. Apenas concluiu que o Russell Lee Holmes era um mau. Isso, eu percebi. Portanto, a mulher tinha motivos para entregar a filha para adopção. Também já percebi isso. Mas você ainda não disse nada que me convença de que eu sou essa filha. Vá lá, como é que uma pobre mulher do Texas conseguiria entregar a filha nas urgências de um hospital de Boston?

Francamente, não sei. Mas posso fornecer-lhe as ligações. Sabe, consegui descobrir a parteira que teve a honra de pôr nos braços precisamente do Russell Lee Holmes e da sua mulher um bebé do sexo feminino. É evidente que naquela altura não sabia quem eram. O que é bastante interessante é que o Russell Lee usava pseudónimos tanto para si como para a mulher, mesmo antes de começar a cometer os seus crimes sinistros.

“Quando as fotos do Russell Lee Homes se transformaram em notícia de primeira página, a parteira apercebeu-se. Mas, ainda a tentar decidir se deve ou não dizer alguma coisa, aparece-lhe um homem à porta.

“Oferece-lhe uma grande soma de dinheiro para que ela se esqueça de tudo sobre o bebé do Russell Lee Holmes. Diz-lhe que se ela disser uma palavra, sofrerá as consequências. Péssimas consequências. Vê que é melhor não se meter com aquele tipo de homem e, portanto, a parteira acede. Não aceita o dinheiro... naquela altura, possuía algum orgulho na sua profissão e nisso tudo... mas também não disse uma palavra. A identidade do bebé do Russell Lee continua guardada com ela muito depois de o Russell Lee Holmes ter ido para a cadeira eléctrica.

Digger sorriu e foi esse o único aviso que Melanie recebeu.

Olhe, Miss Holmes, o homem que abordou a parteira foi o Jamie O’Donnell. Ora, se isto não tem nada a ver consigo, por que motivo o seu padrinho se preocupou com o filho daquele estafermo? Porque se apresenta à porta de uma velha e insignificante parteira e a ameaça violentamente se ela não conseguir guardar um segredo? É capaz de me dizer?

O coração de Melanie sobressaltou-se. Não conseguiu responder.

Contactou com... contactou com o Jamie? Perguntou-lhe isso?

Com o Jamie O’Donnell? Você não regula bem! O homem é traficante de armas, por amor de Deus! Conhece gente, mata gente. Nem o diabo conseguia obrigar-me a aproximar-me dele.

O quê?

Larry Digger pestanejou perante o tom chocado de Melanie.

Você, não sabe nada sobre a sua família?

Melanie estava confusa. O padrinho importava pequenos artigos para brindes. Caixas de madeira da Tailândia, estatuetas. Viajava muito. Só isso.

E quanto a essa Angel? perguntou David. Encontrou-a? Digger abanou a cabeça.

Não. Como já disse, a mulher usou um pseudónimo e a parteira só sabia o nome falso. Pedi-lhe que a descrevesse, mas a descrição foi demasiado genérica para servir de alguma coisa. O Russell Lee não deixou para trás quaisquer documentos pessoais e nem o seu advogado abriu a boca. Levar para o túmulo o segredo profissional e toda essa treta.

Digger fitou Melanie.

Você deve ter vivido pelo menos alguns anos com a sua mãe biológica. Pois bem, sei que a sua memória sofreu um colapso, mas mãe é mãe, e tem de estar algures na sua mente. Um bocadinho de hipnose, de terapia de regressão, seja o que for, e consigo juntar mãe e filha. Que lhe parece desta história? Que diz, Miss Holmes? Quer encontrar a sua verdadeira mãe? Quer saber o seu verdadeiro nome? Será divertido.

Bateram à porta.

Já tinha pedido o pequeno-almoço explicou Digger. Nunca se metam entre um homem e os seus ovos estrelados.

David aproximou-se de Melanie. Digger abriu a porta. Ouviram-se dois sons, dois estalos rápidos, como sacos de batata frita a rebentarem. Digger caiu onde estava, com o sangue a sair-lhe do peito aos borbotões.

Melanie viu-se a olhar para um homem de cabelo escuro, vestido com uma farda de hotel mal amanhada e com uma arma muito grande.

O homem voltou a apontar.

Para o chão! rugiu David, saltando para junto dela e atirando-a para trás da cama. Outros dois estrondos. As balas passaram mesmo por cima das suas cabeças.

Enquanto Melanie olhava, David meteu a mão no interior do belo blazer e retirou uma arma.

FBI! bradou David Riggs. Largue a arma!

 

Da arma de David irrompeu subitamente um trovão. Seguiram-se três estampidos e uma bala passou de raspão junto da orelha de Melanie. Esta encolheu-se e a arma de David troou de novo.

Quando eu disser três ordenou David.;

O quê? Melanie não conseguiu ouvir nada devido à vibração que tinha na cabeça. Quando eu disser três, corra.

Sim...

Um. Dois. TRÊS! David saltou, disparando continuamente, Já, já, já!

Melanie arrastou-se uns metros antes de conseguir levantar-se.; Continuando a disparar com uma mão, David empurrou-a e Melanie saiu rapidamente de trás da cama.

O atirador ia a correr para o vestíbulo, levando consigo os apontamentos de Digger e deixando um rasto de sangue atrás de si.

Melanie correu na direcção oposta. David seguiu logo atrás dela.

Baixem-se! Atirador no edifício! Liguem o alarme, liguem o alarme!

As pessoas deitaram-se no chão. Duas mulheres gritaram. Melanie continuou a correr pelo vestíbulo e saiu para o azul brilhante do sol de Copley Street.

Melanie percorreu meio quarteirão antes que um braço forte se lhe enrolasse em volta da cintura e a forçasse a parar. Gritou, mas ele pôs-lhe a mão na boca e arrastou-a para a entrada de um edifício, Melanie começou a procurar atabalhoadamente o pulverizador de defesa pessoal.

Sou eu, caramba, sou eu. Calma! David estava pálido e tinha o cabelo eriçado devido ao suor. Melanie não lhe viu sinais de ferimento, mas ele respirava com dificuldade e parecia estar a sofrer muito. Talvez baixar-se e levantar-se e utilizar armas de fogo não fosse bom para as suas costas. Se tivesse de facto um problema nas costas. Se se chamasse realmente David Riggs.

Melanie tentou desembaraçar-se dele. Ele apertou mais ainda o braço em volta da cintura dela.

Quem diabo é você? Que diabo anda a fazer? vociferou Melanie, continuando a empurrá-lo com força.

Ando a tentar afastá-la da linha de fogo disse David em tom cortante. Julga que um tipo daqueles tem escrúpulos em atingi-la pelas costas?

Melanie quase conseguiu libertar-se, mas David voltou a agarrá-la.

Não sei o que julgo de um tipo “daqueles”. Nunca tinham disparado contra mim!

Bem, nem contra mim, portanto cale-se e deixe-me pensar.

Na rua irromperam ruídos. Gente a gritar. Carros a buzinar e a

travar ruidosamente. O atirador saíra talvez pelas traseiras do hotel. Momentos depois, David aliviou a pressão do braço e olhou para a rua.

Raios! Voltou-se para ela. Não sabe quem era ele?

Não! gritou Melanie. Aproveitou o facto de ele ter afrouxado o aperto do braço para se afastar dele. Caramba, solte-me!

Por amor de Deus! David quase a soltou, mas aproximou-se demasiado dela. Má ideia. Melanie mordeu-o. Desta vez, David libertou-a, mas chispavam-lhe os olhos.

Na rua, as sirenes cortavam o ar e dois carros da polícia surgiram a alta velocidade.

Era o tipo que estava a ler o jornal na recepção rosnou David. O tipo que nos viu subir para o quarto do Digger e que em vez de desaparecer foi atrás de nós. Pois bem, por que diabo alguém faria isso?

Você é mesmo do FBI?

Sou.

Mentiu-me!

Bem, mas já teve a sua vingança, porque o tipo não estava a disparar tiros de salva nem a atirar só para se exibir. Era bom que você começasse a responder a mais perguntas, apresentando-me a lista completa de todos os que a querem ver morta!

Mais tarde, David levou-a novamente para o quarto do hotel, que estava agora enxameado de polícia. Apresentou-se como agente especial David Riggs, do departamento de Boston do FBI, e lançou-se de imediato numa torrente de perguntas, como se fosse vulgar os fornecedores de comida transformarem-se diariamente em agentes do FBI.

Melanie tinha os olhos pregados em Digger, incapaz de desviar o olhar. Digger exibia um grande buraco no peito e havia sangue por todo o lado. Desprendia um odor quente e rançoso, sublinhado pelo cheiro a fezes e a urina. David explicou-lhe que a morte provocava o relaxamento dos intestinos, que soltavam o seu conteúdo. Melanie não sabia disso.

Um detective da Brigada de Homicídios de Boston chegou. Envolto num fato completo todo janota, com o cabelo preto como azeviche penteado para trás e o rosto acabado de barbear, apresentou-se como detective Jax. Procedia como se fosse representar um drama policial televisivo. Examinou Melanie rapidamente, ofereceu-lhe uma cadeira e um copo de água e depois atirou-se ao trabalho.

Nove milímetros disse o detective a David, retirando balas do estuque da parede com o canivete. Deitou-as para um saco de plástico.

Uma Beretta respondeu David. O som não engana. Jax apontou para o chão, onde um rasto de gotas de sangue escuro se dirigia para o corredor.

São dele?

Acertei-lhe na mão. Abrandou-o um pouco, mas não muito. Um filho-da-mãe resistente. Odeio essa característica nos assassinos.

Jax sorriu. Acabou de recolher as balas e examinou o saco de viagem de Digger, que estava aberto.

Duas mudas de roupa interior, ambas sujas. Duas camisas brancas, mais ou menos brancas. Três garrafas novinhas em folha de Jack Daniels. Estou a ver que era um homem de prioridades.

Não parecia assim tão mal quando falámos com ele. As análises contar-nos-ão a história. David apontou com a cabeça para a mesa-de-cabeceira. O atirador agarrou nos apontamentos do Digger antes de fugir. Não foi uma manobra fácil, com tiros por todo o lado e, portanto, desconfio que isso fazia parte do contrato. Dois mortos e todos os papéis do jornalista.

Dois mortos? balbuciou Melanie. Porquê dois? Só o Larry Digger é que foi baleado.

A recepcionista disse que o atirador esteve cá durante todo o dia de ontem respondeu-lhe David. Partiu simplesmente do princípio de que era amigo de algum hóspede. Depois, esta manhã, voltou a aparecer com o jornal. Por conseguinte, já era o seu segundo dia de vigia quando nós aparecemos. Viu que nos dirigíamos para o quarto do Digger e depois, segundo a recepcionista, levantou-se, fez um telefonema do telemóvel e desapareceu na cave, onde deve ter surripiado o uniforme.

Melanie abriu muito os olhos. O detective de Boston partilhava da sua preocupação.

O tipo foi até ao quarto com uma Beretta com silenciador, sabendo que lá estavam os três? perguntou Jax.

Ninguém sabia que eu era do FBI explicou David em tom desprendido. E ninguém sabia que eu vinha. Aposto que o telefonema foi sobre isso. Se o atirador devia continuar, mesmo com uma terceira e inesperada pessoa presente.

Em vez dos alvos originais, que eram o Larry Digger e a Melanie Stokes.

Devem ter dito ao atirador que seria só uma questão de tempo até a Melanie se encontrar com o Digger. Por isso, este aguarda... dois pelo preço de um. Os mestres em economia de Harvard já não são os únicos que se preocupam com a eficiência no local de trabalho.

O detective Jax abanou a cabeça, fazendo girar um palito ao canto da boca como se fosse o seu derradeiro cigarro.

O tipo deve ter ficado estupefacto quando percebeu que você era do FBI. Já não foi rápido nem fácil.

David permitiu-se finalmente um esboço de sorriso.

Espero que sim. Pode ser a única coisa boa deste dia. Piscou os olhos a Melanie e esta entendeu. O bom do David.

Riggs lamentava ter perdido o disfarce. Agora teria de explicar por que motivo um agente do FBI fingia ser fornecedor de comida. Seria uma conversa interessante. Melanie já estava a afiar as garras.

Bem, espero que não tenha planos de viagem, agente disse o detective Jax, porque isto cabe na nossa jurisdição e temos montes de perguntas a fazer-lhe.

Também vou pôr o meu caso em andamento.

Essa será a minha primeira pergunta...

Detective, não vale a pena.

Mais tarde ou mais cedo...

Então, falamos mais tarde.

Os dois trocaram olhares gélidos. Por fim, o detective Jax concedeu a David a primeira vitória daquela guerrilha, encolhendo levemente os ombros e mudando o palito para o outro canto da boca.

Resolveram reparar de novo em Melanie e conduziram-na para fora do quarto para que o fotógrafo pudesse gastar outro rolo de fotografia. Alguém de casaco branco estendia uma fita métrica entre o corpo de Digger e a porta aberta, enquanto o médico-legista chegava e dava início a um exame preliminar do local do crime. Melanie estava a descobrir que era necessária muita gente para averiguar um caso de morte.

Queremos que vá connosco à Baixa, minha senhora disse o detective Jax. Temos um artista que faz esboços e com quem gostaríamos que a senhora colaborasse, de forma a podermos pôr a circular um retrato-robô entre os médicos locais. Talvez o tipo vá procurar um pouco de amor e carinho para a mão.

Quero ir para casa disse Melanie em voz baixa. Os dois homens trocaram olhares.

Falamos disso na Baixa disse David, estendendo a mão para o braço dela.

Não me parece. Tanto quanto sei, não estou detida, senhor agente especial. Ô que significa que posso fazer o que me apetecer. E, neste momento, quero ir para casa.

Melanie, ouça-me por instantes...

Ouvi-lo? Ouvi-lo? Começava a perder o controlo. Nem sequer sei quem você é! Porque estava em minha casa no sábado à noite? Soube antecipadamente do Larry Digger? Achou que ele ia aparecer? Ou tudo isto tem a ver com mais qualquer coisa? Oh, meu Deus’. Quem é que você anda realmente a investigar? Usou-me!

David conseguiu agarrá-la pelos braços.

Na Baixa, Melanie.

Não, não tenciono...

David deitou a mão a uma gabardina, cobriu-lhe a cabeça e arrastou-a para um carro-patrulha. Subitamente, Melanie foi bombardeada pelos sons das câmaras e de quatro jornalistas de televisão em competição por uma história.

Senhor agente, senhor agente, já tem alguma pista?

Qual é o motivo? Está relacionado com a máfia?

Ela é testemunha? Ou é suspeita? Vá lá, faça uma declaração.

Baixe a cabeça ordenou David calmamente. Lá para dentro.

Empurrou Melanie para o banco de trás e segundos depois o carro pôs-se em movimento. As câmaras continuaram a gravar freneticamente as derradeiras imagens, que surgiriam no noticiário das onze.

Larry Digger realizara afinal o seu sonho, pensou Melanie. O velho jornalista era oficialmente notícia de primeira página.

 

Só preciso de mudar de roupa e apanhar as minhas coisas anunciou David quase cinco horas depois, entrando no apartamento e atirando as chaves para cima do sofá. Melanie ficou à porta, ainda tão zangada que não confiava em si mesma para abrir a boca. Apetecia-lhe esfolar David Riggs vivo. Apetecia-lhe prendê-lo a um formigueiro e cobri-lo de mel.

Se não estivesse tão furiosa, sentir-se-ia assustada.

A senhora é o alvo de um assassino a soldo, Miss Stokes. Além disso, viu o assassino e por isso não a deixarão ficar incólume. Nós não conseguimos garantir a sua segurança se voltar para casa nesta altura.

O agente especial Riggs, que parecia ter recebido lições de tacto de uma parede de tijolo, anunciara que ele mesmo a protegeria. Iam a casa dele buscar os seus pertences e depois comprar algumas coisas para Melanie. Levá-la-ia para um hotel para ali passar a noite. Problema resolvido.

O detective Jax nem sequer olhara para Melanie. Dissera que, se o FBI tinha recursos para isso, tanto melhor para ele. Era óptimo saber qual era afinal o seu lugar neste mundo.

Não é exactamente um hotel de primeira resmungava agora David, recolhendo várias peças de roupa espalhadas pelo chão. Não estou muito tempo em casa.

Não me diga! replicou Melanie em tom ácido.

Era difícil determinar qual a cor do apartamento de David, dado que a maior parte do espaço estava coberta de roupas, revistas e papelada. O soalho encontrava-se juncado de guardanapos feitos numa bola. Via-se uma pilha de correio por abrir em cima da mesa da sala de jantar. Imensa papelada quase obscurecia o tampo de uma velha secretária de carvalho. Não havia no local qualquer peça de mobiliário que parecesse nova, nem qualquer planta que precisasse de cuidados.

Pelo menos, tinha pendurado dois quadros. Um com a vista de Fenway Park à noite e o outro com a foto de um indivíduo num uniforme antiquado de basebol. Via-se também uma fila de bonés de basebol pendurados numa parede e pelo menos dois tacos. Depois, havia várias cassetes de vídeo no chão ao pé do leitor: Jogo a Três Mãos,

Um Homem fora de Série, Campo de Sonhos e outras também sobre o mesmo lema, o basebol.

Melanie fungou, desconfiada, e recuou para o corredor.

Espero aqui fora.

Não contava ter companhia replicou David com ar carrancudo, e depois apanhou do chão uma toalha. Feche a porta e dê-me um minuto. Não é tão mau quanto parece.

Duvido. Melanie voltou para a saleta e fechou a porta. Foi um erro. O aposento mergulhou imediatamente em escuridão. O estômago de Melanie revolveu-se. Afluíram-lhe à mente imagens de Larry Digger todo ensanguentado e, de repente, sentiu-se muito cansada.

Abriu as persianas, em busca da segurança da luz do Sol. David atravessou a sala e voltou a fechar as persianas.

Você não está a apreender realmente todo o conceito de vigilância de protecção, pois não?

Ali só há árvores.

Alguém pode subir a uma árvore e dar-lhe um tiro.

Abra as persianas, agente Riggs, ou vomito.

David fitou-a com um olhar penetrante, que depois se suavizou.

Sente-se bem? perguntou bruscamente como se não estivesse habituado a ser amável.

Pare com isso! ordenou-lhe Melanie. Não finja que é simpático.

Não estou a fingir...

Claro que está! Mentiu-me. Ainda não me disse o que se passa e está a impedir-me de ir para casa.

Mas o inimigo não sou eu! Eu só a ajudei a esquivar-se das balas!

A mim? Ah! Você tem andado a seguir-me intencionalmente durante todo este tempo! Espetou-lhe um dedo no peito, sentindo a cólera a aumentar. Dê-me algumas respostas, David Riggs. Porque estava em minha casa no sábado à noite? Quem era realmente o detective Chenney? Que diabo anda você a investigar e o que se passa.

Não sei, caramba! Não sei. Os olhos de David brilharam ameaçadoramente.

Melanie ignorou-o e inclinou-se mais para ele, levantando o queixo. Queria guerra, apercebeu-se. Queria mais qualquer coisa para além da impotência e do medo. E queria uma reacção da parte dele. Porque gostara de David, o criado. Parecera-lhe uma espécie de aliado e era lamentavelmente verdade que naquele momento Melanie não tinha muitos.

Se isto não tem nada a ver consigo, por que motivo o seu padrinho se preocupou com a primeira filha do dito “Lixo”?

David voltou-lhe as costas.

Quero mudar de roupa anunciou-lhe, conciso. Você provavelmente também precisa de fazer o mesmo. Em seguida vamos comer e depois conversamos.

Tenciona responder às minhas perguntas? indagou Melanie, atrás dele.

Só se você pedir com bons modos.

Reservo-me o direito de ser tão desagradável quanto me apetecer.

Deixe-se de gracinhas resmundou David e desapareceu no quarto. Dois minutos depois voltava à saleta, tendo trocado as calças e o casaco por calças de ganga e uma camisola cinzenta com as mangas arregaçadas. O cabelo escuro estava despenteado e David ostentava uma barba de um dia que ia bem com o seu ar soturno.

Já não lembrava um agente do FBI, era um homem bem-parecido e viril. Tinha pêlos escuros nas costas das mãos e tendões salientes nos antebraços. Peito largo e ancas estreitas, maxilar ameaçador. Um homem habituado a controlar. Um homem que fazia as coisas segundo os seus próprios termos. Poucos amigos. Poucos entes queridos.

E, caramba, era do tipo que ela conhecia bem de mais. O pai, que lhe controlava a vida, Brian, que tentava protegê-la, William, que lhe escondia os seus segredos. O padrinho também.

David deu um passo em frente e Melanie apercebeu-se de que ele tentava esconder que coxeava. Manteve uma expressão imperscrutável. David enclavinhou as mãos nas ancas. Mesmo com dores, não se expunha. Mesmo com dores, o agente especial David Riggs mantinha-a à distância.

David entregou-lhe um fato de treino.

Vá mudar-se que eu vou buscar uma piza.

Melanie assentiu com a cabeça e depois, para seu horror, desatou a chorar.

David comprou uma piza grande com pimentos e duas saladas no restaurante da esquina, o Papa Gino. Regressou ao apartamento menos de cinco minutos depois e sentaram-se ambos na mesa recentemente desocupada da sala de jantar.

Melanie parecia ter encolhido enquanto David estivera ausente e a sua estrutura miudinha quase fora engolida pelas calças pretas e camisola vermelha do fato de treino. Parecia pensativa.

O acesso de choro envergonhara-a obviamente e deixara David desarmado. Não sabia o que fazer quando as mulheres choravam. Que diabo, não sabia para onde olhar. Sentia-se fora do seu elemento, e essa sensação mantinha-se desde que conduzira Melanie ao apartamento e se apercebera de que já não se recordava da última vez em que levara uma mulher ali a casa. Fora há muito tempo. Na época em que conseguia dormir uma noite inteira sem que os músculos se contraíssem e o obrigassem a arquejar. O género de experiência que um homem não precisa realmente de partilhar.

Comeram em silêncio durante dez minutos.

Depois, Melanie disse:

Muito bem. Comece.

David acabou de mastigar calmamente um pedaço de piza.

Você pergunta. Eu vejo se posso responder.

Bem, bem, isto promete uma comunicação clara e coerente... David sorriu com ironia.

Sou detective federal. Somos famosos pela comunicação clara e coerente.

Melanie estreitou reprovadoramente os lábios.

Você é mesmo do FBI?

Sou.

Tem mesmo artrite?

David cerrou os maxilares, mas respondeu:

Tenho.

Melanie fitou-o com curiosidade.

E eles não se importam?

Consigo executar as obrigações que o cargo exige.

Mas não há esforços físicos...

Fui aprovado.

E os outros agentes não se preocupam por terem como parceiro alguém que...

Gosto de pensar que a minha personalidade esfuziante compensa largamente essas preocupações.

Melanie revirou os olhos.

Então, com que se ocupa?

Os chamados crimes de colarinho branco.

Como casos de fraude, finanças, lavagem de dinheiro?

Precisamente. A boa vida.

Percebo. Melanie olhou para ele com ar avaliador e, de repente, David viu nascer nos olhos dela uma espécie de instinto assassino. Portanto, aquela história de ter sido polícia e ter apanhado artrite... Foi só uma treta destinada a conquistar a minha simpatia e a tornar-me mais fácil de manipular? Foi assim?

Precisava de uma razão credível para você aceitar a minha ajuda...

Porque não a verdade? Ou os agentes também são famosos por mentirem?

Sim, minha senhora replicou ele em voz dura. Sem dúvida que somos.

Melanie inclinou-se mais para David.

E quanto ao detective Chenney? Também pertence ao FBI?

Pertence.

E todo aquele aparato no meu quarto, tudo metido em sacos? As velas, o cavalinho de madeira, as perguntas com que me atormentou...

Os sacos estão nos laboratórios da polícia e a informação está a ser tratada. Caramba, é uma verdadeira investigação. Estou a tentar ajudá-la.

Melanie quase desatou a rir-lhe na cara.

Então diga-me o que estava a fazer em minha casa, agente. Diga-me, finalmente, com toda a franqueza.

David tirou outro pedaço de piza e a seguir serviu-se de uma bebida.

Estava a investigar o doutor William Sheffield respondeu David, partindo do princípio de que a traição de William lhe teria granjeado a lealdade de Melanie. O seu problema com o bingo tem-no levado a pedir empréstimos a fontes muito duvidosas e isso despertou o nosso interesse.

Melanie parecia desconfiada.

Então, como é que acabou por seguir-me?

Você tem uma história com o indivíduo. Não podia saber ao certo até que ponto exactamente ainda ia o seu envolvimento com ele. Além disso, saiu da festa com alguém que, como era óbvio, não pertencia àquele meio.

Julgou que eu ia pagar alguma dívida de William? Oh, por favor, não lhe daria um copo de água no deserto.

É evidente.

Melanie recostou-se. David pensou que tinha ganho o primeiro assalto, porque o rosto de Melanie perdera a expressão de agressividade. Parecia confusa e perturbada.

Se a questão era com o William, porquê envolver-se com o meu caso?

Acho que a sua vida corre perigo.

Penso que tem razão. Mas porquê?

Comecei a investigar o Russell Lee Holmes. Também pedi o processo da Meagan Stokes, só por curiosidade. Ainda não recebi o processo completo, mas já comecei a ler artigos de jornal suficientes para perceber que há uma série de perguntas sobre a Meagan Stokes que não tiveram resposta. Por exemplo, sabia que o Russell Lee nunca foi condenado por assassinar a Meagan Stokes?

O quê?

O Russell Lee só confessou depois de ter sido condenado por seis crimes de homicídio premeditado. A polícia nunca o acusou porque nunca dispôs de quaisquer provas materiais que o ligassem ao crime. O seu irmão tem razão, aquele cavalinho, o pedaço de tecido no seu quarto... nunca foram encontrados há vinte e cinco anos. Por conseguinte, de onde vieram? Quem é que conservaria ainda um brinquedo que foi visto pela última vez com uma criança assassinada? Os olhos de Melanie, aqueles espantosos olhos azul-acinzentados, abriram-se desmesuradamente.

Acha que quem matou a Meagan Stokes foi outra pessoa?!

Talvez sim, talvez não. David encolheu os ombros, mas, depois, as suas suspeitas voltaram a levar a melhor e David inclinou-se para a frente. Houve um pedido de resgate no caso da Meagan, sabia? O Russell Lee não fez isso com mais ninguém e isso não se coaduna com ele, nem com o seu modo de actuação. Como é que um homem inculto, sem instrução, se lembra de usar um bilhete a pedir o resgate? Só isso já sugere que não foi ele, ou houve mais alguém envolvido. Um cúmplice. Talvez alguém próximo da família e que conhecesse os hábitos desta.

Acha que alguém da minha família ajudou o Russell Lee Holmes a raptar e a assassinar a Meagan Stokes?!

Acho que aconteceu alguma coisa realmente terrível há vinte e cinco anos e não foi por culpa do Russell Lee Holmes. O que eu acho é isso.

Deu a impressão de que Melanie ia bater-lhe, mas, a seguir, por momentos, pareceu simplesmente aterrorizada. Pegou no refrigerante e bebeu um longo trago, com as mãos a tremer.

David levantou-se e retirou da mesa a caixa da piza. Quando voltou a sentar-se, Melanie recompôs-se mais uma vez, com o rosto ainda pálido, mas os ombros erguidos e a expressão resoluta:

Muito bem, agente. Diga-me qual é a sua teoria. Diga exactamente o que pensa que está a passar-se.

E David assim fez.

Algo terrível aconteceu há vinte e cinco anos à Meagan Stokes, algo que envolveu mais do que o Russell Lee Holmes. Por isso, a polícia nunca encontrou outras provas materiais. Por isso, foi possível o brinquedo e o tecido do vestido da Meagan Stokes terem aparecido no seu quarto. E seja o que for que tenha acontecido, envolveu a sua família e os amigos. Durante vinte e cinco anos mantiveram-se em silêncio. Deixaram o Russell Lee Holmes ir para a cadeira eléctrica e para eles a vida continuou. Mas, agora, entrou em cena mais alguém. Alguém que de repente vem agitar as águas.

“Essa pessoa telefona ao Larry Digger com a informação de que pode finalmente encontrar a filha do Russell Lee Holmes. Essa pessoa monta o altar no seu quarto e envia-lhe a mensagem de que você está a tentar substituir a Meagan. Essa pessoa também anda a enviar bilhetes.

Que bilhetes?

David hesitou. Esquecera-se de que Melanie não sabia e receou ter dado um passo em falso.

Ah... o seu pai recebeu um bilhete.

Quando?

Na festa. Depois de você ter tido a enxaqueca. Ouvi o seu pai e o Jamie O’Donnell a conversar. O seu pai disse que encontrara um bilhete dentro do automóvel. Dizia a mesma coisa que o informador do Larry Digger disse: Temos o que merecemos.

Melanie fitava-o, incrédula.

O seu pai também sabia que o Larry Digger estava na cidade prosseguiu David rapidamente. Falou nisso ao O’Donnell, que disse que uma tal Annie andava a receber telefonemas. Quem lhe parece que seja essa Annie?

Ann Margaret? Pensa que ele se referia à Ann Margaret!

Ela é do Texas, tal como os restantes. Agora, estamos cientes de que o seu pai sabe de alguma coisa, o O’Donnell também, assim como a Ann Margaret. Quem mais é do Texas e quem mais mencionou ter recebido bilhetes?

O William murmurou Melanie.

Aí está. Isso deixa de fora apenas o seu irmão e a sua mãe. O seu irmão parecia tão chocado como você com o altar montado no seu quarto. Mas a sua mãe? Notou nela alguma coisa fora do vulgar?

Melanie suspirou. David considerou que era um sim.

A noite passada. Chegou tarde a casa, quase à meia-noite. Disse-me que tinha estado num bar, disse-me o quanto eu significava para ela. Mas... mas percebi que, na verdade, não estava a falar do que tanto a perturbava. E falava com urgência, como se de repente fosse extremamente importante eu perceber quanto ela se preocupava comigo. Percebe, da maneira como se fala quando se pensa que algo de mau está prestes a acontecer. Algo... definitivo.

David acenou com a cabeça.

Portanto, esta é a teoria número um. Qualquer coisa mais aconteceu à Meagan Stokes. De uma maneira ou de outra, envolve toda a família. Neste momento, mais alguém sabe de alguma coisa. Esse alguém está a chatear toda a gente e a revelar os segredos. O que nos leva à teoria número dois.

“Você é a teoria número dois prosseguiu calmamente. Seja o que for que tenha acontecido há vinte e cinco anos, quem tem a chave é você.

A minha amnésia. Aqueles nove anos perdidos...

Exactamente. O Larry Digger não conseguiu por si só encontrar a mulher do Russell Lee Holmes, mas calculava que você o podia ajudar. Se assumirmos que é filha do Russell Lee Holmes, pense no que pode estar encerrado aí na sua mente. Decerto que há alguém que parece pensar que você sabe de alguma coisa importante. Daí as velas perfumadas e os objectos colocados no seu quarto, objectos que você devia conhecer e que foram postos ali para desencadear uma reacção...

Mas não me recordo de nada nitidamente.

Ainda não, mas pode vir a lembrar-se. Por isso, você, à semelhança do Larry Digger, tornou-se uma ameaça.

O Larry Digger estava a chegar demasiado perto concluiu Melanie lentamente, juntando as peças do quebra-cabeças. Tinha, de facto, uma pista e estava a progredir e, por isso, alguém, que continua a tentar encobrir os vestígios, mandou matá-lo. Eu posso lembrar-me e, portanto, também sou um alvo. Mas isso não faz sentido. Se alguém está a empurrar as pessoas em direcção à verdade, para quê mandar assassinar o Larry Digger ou a mim?

Quem mandou matá-la a si e a Larry Digger não foi a mesma pessoa. Foi outra pessoa qualquer. A primeira quer desvendar a verdade, mas, por qualquer razão, não pode limitar-se a anunciá-la pessoalmente. Talvez não tenha credibilidade, talvez tenha vergonha ou seja uma pessoa mentalmente perturbada, não sei. Por conseguinte, tenta fazer as coisas de modo clandestino. No entanto, também assusta todos de morte. Pense nisso. A sua família e os amigos estão muito bem na vida. Se a verdade sobre o passado vier agora à superfície....

Deixou que as palavras se arrastassem significativamente e Melanie compreendeu.

Você pensa que alguém que eu conheço contratou aquele atirador. Contratou-o para matar o Larry Digger, roubar os resultados da investigação e eliminar-me também. Extinguir quaisquer pistas que possam estar encerradas na minha mente. Apagar, de uma vez por todas, quaisquer vestígios do que aconteceu à Meagan Stokes. Céus...

Melanie ficou em silêncio, com uma expressão alterada, e murmurou:

Trata-se de uma guerra, não é? Alguém está a tentar expor um segredo que mais ninguém quer ver exposto. E eu sou só a pessoa que está no meio, a filha adoptiva que pode possuir a chave para a verdade por trás do assassínio de uma menina há vinte e cinco anos. Oh, meu Deus, nesta altura, seja o que for que está dentro da minha cabeça, não quero saber!

Não me parece que tenha escolha.

Tenho sempre escolha replicou ela com firmeza. Levantou-se da mesa, apanhou as migalhas, lavou as mãos, andou de um lado para o outro e voltou a sentar-se.

Provavelmente, sou filha do Russell Lee Holmes murmurou. As recordações da cabana. Os bilhetes...

Podíamos conseguir a exumação do corpo do Holmes e fazer um teste de ADN. Solucionaria a questão de uma vez para sempre.

Mas há muitas inconsistências observou Melanie, acenando com a cabeça. Por que motivo adoptariam os meus pais conscientemente a filha do Russell Lee...

Talvez não soubessem. Talvez o Jamie O’Donnell tenha tratado disso.

Como? Despejando-me num hospital e partindo do princípio de que, por artes mágicas, a Patricia e o Harper me adoptariam?

De quem foi a ideia de a adoptar, Melanie? Alguma vez lhe disseram quem sugeriu isso primeiro?

A minha mãe respondeu Melanie de imeidato. Ela e eu... houve uma espécie de dique entre nós.

Aí está. Não foi despejada ao acaso. O seu pai trabalhava lá e estava no Serviço de Urgências. Parece-me lógico afirmar que o seu pai ouviu falar de si e resolveu conhecê-la pessoalmente e talvez levar lá a esposa vulnerável, que ansiava por uma menina...

Mas ainda fica muita coisa deixada ao acaso murmurou Melanie.

Pois bem. Vamos por outro lado. Os seus pais sabiam que você era filha do Russell Lee Holmes. Concordaram em adoptá-la por razões que ainda não compreendemos e tomaram as medidas necessárias. Na noite em que o Russell Lee foi executado, deixaram-na no hospital onde, por acaso, o Harper Stokes se encontrava de serviço enquanto o resto da família fora ao Texas para assistir a uma execução, que, em nossa opinião, também ele teria apreciado ver. Fez uma pausa. O Larry Digger tinha razão no que se refere a coincidências. Uma ou duas são simples acaso, mas três ou quatro?

Melanie baixou os olhos para a mesa, onde bateu várias vezes com os dedos. Depois, levantou os olhos e havia neles uma lucidez que David não esperava e que actua como um soco no plexo solar, tornando-o consciente do cabelo dourado, do perfume suave e daqueles olhos esplêndidos...

Melanie disse calma e firmemente:

Mas, mesmo assim... ainda não acredito, David. Não. Os meus pais não se limitaram a dar-me um lar, foram bons pais. Sem relutâncias, sem protestos. Tudo aquilo de que precisei, tudo o que desejei, eles mo deram. Se partirmos do princípio de que eles estavam “por dentro”, seja lá do que for, não teriam ressentimentos? A natureza humana não ditaria que, de cada vez que olhassem para mim, veriam o homem que lhes matara a filha? Não me interessa o que o maldito altar pretendia sugerir. Não sou uma filha de segunda categoria. Os meus pais nunca me fizeram sentir isso. Eles não são desse género, David. São a minha família. Tem de ser relevante que eu os ame tanto e que eles me amem.

Pois, família é família esforçou-se David. Claro que você gosta...

Algures, tenho uma mãe biológica interrompeu-o Melanie. Tenho um nome verdadeiro, uma data de nascimento verdadeira. Se acreditarmos no Larry Digger, posso estar no limiar daquilo com que todos os filhos adoptivos sonham: descobrir os pais biológicos. Mas, a mim, não me interessa. Desistiria de tudo, David, só para voltar a ter a minha família tal como era. Amo-os. Sempre os amei. Sempre os amarei. É assim que me sinto em relação à minha família. David não respondeu de imediato. Confrontado com a intensidade afectiva de Melanie, característica que ele próprio não possuía, estudou as marcas de desgaste do soalho devido às muitas e longas noites que passava a andar de um lado para o outro.

Estamos sempre a ver esposas amantíssimas a aceitarem maridos que as maltratam observou por fim, em tom calmo. São estranguladas em troca do seu amor. Ou pais carinhosos, que pagam a fiança para tirar os filhos da cadeia e dão-lhes uma segunda oportunidade. Depois, uma noite, levam com uma bala na cabeça enquanto dormem. Feitas as contas, o amor não tem nada a ver com isto. Não consegue salvar a vida a uma pessoa. Pergunte à Meagan. Tenho a certeza de que também ela amava os pais.

Dirigiu-se para a porta do quarto, decidido a ir buscar o saco de viagem, mas Melanie agarrou-lhe o braço. David deteve-se, mas não olhou para ela. Não queria ver lágrimas no rosto pálido. Apesar de todo o seu discurso, não seria capaz de o suportar e sabia-o. De repente, detestou o facto de parecer sempre tão duro.

Preparei um saco, resmungou. Devíamos ir. Melanie sussurrou:

A minha família é tudo o que tenho, David. Por favor, não os afaste de mim. Por favor.

David libertou o braço e afastou-se.

 

Depois de David ter desaparecido no interior do quarto, fechando ostensivamente a porta atrás de si, Melanie percorreu ao acaso a saleta, esfregando os braços. Desde que Larry Digger fora baleado, parecia que não conseguia aquecer.

Tinha agora a cabeça cheia de imagens que entravam em conflito com a possível realidade. O padrinho, alto e corpulento, a quem adorava. O pai, forte e silencioso, que sempre estivera presente. A mãe, frágil e trémula, a quem amava irracionalmente. Brian, o seu herói. Ann Margaret, a sua amiga.

Uma pessoa capaz de fazer mal a Meagan Stokes. Um anonimato de vinte e cinco anos.

Tentou dizer a si mesma que era tudo um erro disparatado. A lógica a falhar, a teoria louca da conspiração. Mas a sua mente estava demasiado racional para seu próprio bem. Não podia pôr de parte o altar e as provas encontrados no seu quarto. Não podia pôr de parte o corpo de Larry Digger e o atirador que apontara directamente para si. Também não podia pôr de parte a afirmação de David de que a polícia nunca encontrara provas materiais que relacionassem Russell Lee Holmes com Meagan Stokes.

Melanie não sabia o que fazer. Estava cansada, frustrada e abatida. Ansiava desesperadamente pelo conforto da sua própria casa e, pela primeira vez, temia-o também. Desejava ouvir a voz tranquilizadora da mãe. Não fazia ideia do que diria. Queria a sua família. Começava a sentir que todos eles eram estranhos.

De que tinham eles tanto medo?

Nove da noite de uma segunda-feira. Melanie não tinha respostas e, por isso, enveredou pelo caminho mais fácil e procurou distrair-se. O apartamento de David ostentava uma estante cheia de troféus de metal barato. Um tinha no topo um boneco de plástico que parecia apontar uma arma. A placa de bronze coberta de pó declarava que o proprietário era o “Campeão de Juniores de Tiro ao Alvo com Pistola”.

Apertada entre esse e outros seis troféus, via-se uma colecção de revistas sobre armas, muito manuseada, e emblemas e insígnias ainda nos embrulhos originais. “Atirador Especial, Especialista Distinto”, dizia um. Portanto, David Riggs era não só um solitário, como também um amante das armas. Não ficou surpreendida.

Porém, o maior trofeu acabou por não ter absolutamente nada a ver com armas. Fora empurrado bem para trás, como se David não conseguisse decidir se havia de orgulhar-se dele ou não. No topo, havia um jogador de basebol, com o bastão em posição sobre o ombro cheio de pó. A placa de latão de baixo estava gasta, como se um dedo lhe tivesse passado por cima vezes sem conta. As letras, meio apagadas, proclamavam: Campeão do All Star do Massachusetts.

Melanie aproximou-se da foto do jogador de basebol pendurada na parede. No canto inferior direito, alguém rabiscara Shoeless Joe Jackson. O nome pareceu-lhe vagamente familiar.

Olhou para a foto de Fenway Park, depois voltou para junto da estante e encontrou um álbum de recortes.

A primeira fotografia era antiga e tinha os cantos encarquilhados e uma cor amarelada. A mulher era jovem, de cabelo escuro muito encaracolado abaixo dos ombros e olhos calorosos e inteligentes que fitavam directamente a câmara. A mãe de David, percebeu Melanie; transmitira ao filho os olhos de uma intensa cor de avelã. Parecia uma mulher forte e sensível. Do género de ser capaz de governar o barco, mesmo em condições adversas.

Desaparecia muito cedo do álbum de recortes. A casa térrea, desnivelada, com a alcatifa cor de azeitona e linóleo castanho, desaparecia também e os retratos de família trasformavam-se em coisa do passado.

A mãe de David morrera e o álbum especializara-se em basebol.

David Riggs aos oito anos, envergando o equipamento da Little League. David aos dez anos, com toda a equipa. David com Steven e Bobby Riggs em pose no campo de basebol. Bobby Riggs a atirar bolas aos filhos, agora mais altos e mais esbeltos.

Apareceram certificados no álbum de recortes, anunciando feitos desportivos. Primeiro lançador. Menor número de lançamentos permitido numa época. Melhor corredor. Depois vinham os artigos de jornais: “Jovem e prometedor lançador em Woburn”, “Liceu de Woburn, um viveiro dos melhores de sempre”, “Os Caçadores da Major League Chegam à Cidade. Todos Sabem Que Estão de Olho no Jovem Riggs”.

E fotografias... Fotos do agente especial David Riggs que Melanie nunca julgara possíveis. Nem expressão soturna, nem rosto vincado. Inclinado, em fotos a cores, em pose entusiástica, de luva, em meio-campo. Brincava com a câmara. Piscava o olho à multidão. Era o herói da sua cidade natal e os fotógrafos documentavam incansavelmente o facto. O jovem David Riggs, que ia jogar como profissional e que tornaria Woburn orgulhosa.

O jovem David Riggs, arqueando-se para apanhar uma bola, o rosto muito sério, muito concentrado.

Foto seguinte: A bola na luva, o corpo a descer do céu e o rosto radiante de alegria.

Foto seguinte: David erguendo a bola, mostrando-a ao pai, que grita da linha lateral. “Para si, pai”, anunciava a expressão de David, e Melanie conseguia ler a resposta de Bobby Riggs na expressão exultante, nos lábios entreabertos. É o meu filho, bradava o pai. É o meu filho!

Melanie fechou apressadamente o álbum de recortes. Intrometera-se demasiado. Eram fotografias particulares de um tempo especial, que viera e passara. Era David com a família e David com o basebol, que parecia ser uma relação ainda mais pessoal. Não devia ter mexido. Toda a gente tem direito às suas muralhas.

Evidentemente, abriu o álbum e voltou a ver.

Meu Deus, David era magnífico quando estava feliz. A paixão, o fogo! Percebia como isso fazia dele um bom agente federal, mas como jogador de basebol... Ena!

Então, Melanie começou a alimentar a pior de todas as fantasias femininas: interrogou-se sobre se conseguiria fazê-lo sorrir assim, se conseguiria encher-lhe os olhos de uma alegria tão primitiva. Se seria capaz de curar um homem e fazê-lo sentir-se completo.

Desta vez, fechou o álbum com mais firmeza e voltou a colocá-lo no seu lugar na estante. As imagens que lhe vinham à mente eram exaltantes. Fez o melhor que pôde para as expulsar.

A porta do quarto continuava fechada. Melanie passou perto o suficiente para perceber que David falava com alguém. Um telefonema. Para quem? Depois, veio-lhe um pensamento à cabeça. O que David estava a dizer, fosse lá o que fosse, tinha provavelmente a ver com o caso dela. Logo, com a vida dela. Logo, dizia-lhe respeito, bolas!

Melanie encostou a orelha contra a porta. Conseguia ouvir palavra por palavra.

David estava a fazer a alguém um relatório completo.

O Sheffield não se limitou a ficar em casa a noite inteira, caramba. Disse ao pai da Melanie que tinha ganho a noite anterior, o que significa que saiu para jogar. E, segundo parece, enquanto estava fora a jogar, alguém lhe assaltou a casa. Nem sequer sabemos se lhe levaram alguma coisa, mas deixaram um bilhete. Pois bem, quero saber o que dizia o bilhete!

“Sim, Chenney. Percebes agora porque é tão importante colares-te ao teu alvo? Já meteste isso na cabeça? Só porque uma pessoa vai para casa doente não significa que fique em casa.

“Olha, nem eu sabia o que pensar disto exactamente, a princípio. O caso parecia algo forçado. Mas, nesta altura dos acontecimentos, já não pensamos em coincidências. Sabemos que o Harper Stokes recebeu um bilhete. A Melanie acha que é possível que a mãe também tenha recebido. Ora bem, não posso afiançar, mas inclino-me a crer que alguém fez uma jogada em casa do Sheffield igualmente. Precisamos de saber o que aconteceu com exactidão.

“Não, não lhe entres em casa. Rebusca no lixo dele. É muito mais simples.

“Tens razão, também é mais sujo, mas a vida é assim. O Sheffield trabalha esta noite, não é verdade?

“Sim, quero que o sigas. E desta vez não o largues, nem sequer no trabalho. Começo a ficar muito curioso quanto ao papel do hospital. Até agora, o informador anónimo parece saber exactamente do que está a falar, portanto é possível que tenhamos muito mais do que o caso de fraude em que pensávamos.

“Sim, sim, sim, sei que não sabes nada. Meu Deus, têm de começar a dar-vos mais formação. Bom, tens papel e lápis? Vou dar-te a lição do dia.

“Ora bem, imagina por momentos que o nosso informador está correcto e que eles andam a colocar pacemakers em pacientes saudáveis. Ora, nenhum simples médico ou profissional da saúde, por muito brilhante que seja, pode recomendar sumariamente um pacemaker. O cardiologista tem de emitir a sua opinião. O cirurgião também. Depois, há os médicos das urgências onde o doente foi admitido, as enfermeiras que assistiram o doente e o anestesista que acompanhará os sinais vitais do doente e administrará os medicamentos durante a operação. Todas estas pessoas examinam o paciente, actualizam a papeleta e sabem o que está a passar-se. E isto partindo do princípio de que o paciente nunca pede uma segunda opinião. Muitas pessoas fazem-no, o que significa todo um outro grupo de médicos a ler os relatórios e a dar opiniões.

“Em primeiríssimo lugar, não pode ser tão simples como falsificar um relatório de diagnóstico enganador. Os hospitais estão organizados precisamente para que esse tipo de situação não aconteça. Posto isto, os nossos suspeitos vão ter de encontrar alguém que, pelo menos, manifeste alguma sintomatologia. Provavelmente um doente que entre nas urgências com um relatório de admissão de ”dor no peito; elimina a possibilidade de enfarte do miocárdio”, o que significa uma pessoa que está com dores no peito e que os médicos querem certificar-se de que não é um enfarte do miocárdio. Um ataque de coração, Chenney. Enfarte do miocárdio é igual a ataque do coração.

“Ora bem, seguindo o protocolo, a maior parte dos médicos manda fazer ao paciente um electrocardiograma e uma radiografia ao tórax, bem como retira seis ou sete frascos de sangue para análise de enzimas cardíacas. Mas algumas dessas enzimas podem levar de doze a trinta e seis horas para aparecerem; por isso, mesmo que a radiografia e o electrocardiograma nada acusem, o hospital geralmente interna o doente por um ou dois dias para observação, sobretudo se existir na família uma história de problemas cardíacos e parecer uma pessoa de risco: excesso de peso, tensão arterial alta e assim por diante. Ora o Hospital Civil de Boston tem um laboratório de cateterismo notoriamente agressivo, por isso os médicos das urgências também mandam o doente para esse laboratório para exame das coronárias: procurar artérias bloqueadas.

“No laboratório de cateterismo, têm de introduzir um cateter na artéria femoral para injectar no paciente um fluido de contraste. O paciente recebe fortes sedativos para esse processo, depois enviam-no para os cuidados intensivos para recobro e acompanhamento, onde continuam a dar-lhe sedativos, porque não querem que acorde a meio da noite e arranque o cateter. Por conseguinte, é precisamente ali que temos a nossa primeira ”oportunidade” de actos menos correctos.

“À noite, nos cuidados intensivos, o pessoal de enfermagem é em

feral mais reduzido e concentra-se nos casos mais críticos. Têm um doente em recuperação, sujeito a fortes sedativos e que decerto não dá pelo que se está a passar. Alguém pode facilmente introduzir-se no quarto, injectar no paciente uma droga qualquer ou interferir no electrocardiograma e escapar sem ninguém dar por nada.

“Faz perguntas, Chenney. Alguém viu o doutor Sheffield a deambular frequentemente pela unidade de cuidados intensivos? Isso pode ser bastante significativo.

“Não, não percebo muito bem o que tem a ver a Meagan Stokes com as fraudes relacionadas com a saúde, a não ser que o nosso informador parece saber mais do que nós. Ainda não houve resposta do laboratório?

“Dois tipos de sangue? A sério? Meu Deus! David suspirou. Este caso está cada vez mais esquisito. Que outras descobertas?

“Sim, sei que ainda é cedo. Estou a ser optimista. Está bem, pede-lhes um teste de ADN. Calculo que um dos tipos de sangue seja o da Meagan Stokes. Quanto ao outro, não faço a mínima ideia. O processo da Meagan Stokes já chegou do departamento de Bouston?

“Que queres dizer com isso, que eles informaram que o processo não está disponível? É um processo encerrado há vinte e cinco anos. Deve estar depositado nos arquivos.

“Um processo não pode estar simplesmente ”fora”. O FBI não é uma biblioteca, por amor de Deus.

“Merda, alguém está a puxar-nos o tapete. Pronto, e quanto ao Departamento de Polícia de Houston? Mandaram algum faxe sobre o processo deles? Ah! Faz-me um resumo.

Seguro de vida. Para duas crianças. Um milhão para cada. Caramba. Que pais é que seguram os filhos por um milhão de dólares? Mas mais uma vez se explica a mansão na Beacon Street.

“Nunca se encontraram provas relativamente à Meagan? Sim, era o que eu pensava. Está bem, quando chegar ao hotel esta noite, telefono-te de novo e mandas-me o processo por faxe. Não te preocupes com o Lairmore. O agente responsável sou eu e, portanto, aguento as consequências. O mais provável é comer-me vivo amanhã de manhã, mas depois continuamos com as nossas vidas. Tens tudo preparado para esta noite com Sheffield nos cuidados intensivos?

“Sei que estás cansado, Chenney. Também eu. Infelizmente, quem quer que ande a fazer isto parece ter pressa em recuperar o tempo perdido. Tivemos o aparecimento do Larry Digger no sábado, o altar montado no domingo, e, na segunda-feira, surgiu-nos um assassino a soldo. Sabe Deus o que estará a acontecer precisamente neste momento. Temos de gerir isto durante uns tempos.

“Esta noite fico a vigiar a Melanie Stokes.

“Eu sei que obtenho sempre a melhor parte. Diverte-te a seguir o Sheffield. Adeus.

Melanie correu precipitadamente para o sofá. A porta do quarto abriu-se de rompante e David avançou para a saleta, de semblante carregado e ar preocupado.

O laboratório não teve tempo para análises mais aprofundadas declarou sem preâmbulo, mas já sabemos que há dois tipos de sangue no pedaço de tecido azul encontrado no seu quarto. Vão fazer mais uns quantos testes.

Melanie assentiu com a cabeça. David não lhe comunicou mais nada. Ficou de pé no meio da sala com as mãos nas ancas e a mente a um milhão de quilómetros de distância. Também estava cansado, percebeu Melanie. Tinha vincos recentes em volta da boca e dos cantos dos olhos e a pele estava muito tensa, dando-lhe um ar particularmente duro e severo.

Atravessou o aposento e aproximou-se do gravador de chamadas. A luz de mensagem estava a piscar e David pôs o gravador a funcionar. Depois, voltou ao quarto e foi buscar o saco de viagem enquanto o gravador enrolava a fita. Acabara de voltar para a saleta quando a primeira mensagem começou.

“Olá, David, aqui é o pai. Continuo sem notícias tuas. Calculo que estejas cheio de trabalho, não? Ando a ler sobre uns métodos novos para melhorar a precisão. Queres trazer cá a tua Beretta? Tenho umas coisas que gostava de experimentar.” A voz de Bobby Riggs extinguiu-se desajeitadamente. Melanie conseguiu ouvi-lo engolir. “Ah, bem, só pensei que podíamos encontrar-nos se estivesses em casa. Mas não faz mal. Telefona-me quando tiveres oportunidade. Arranjei bilhetes para os Red Sox, ou... ah, que diabo, já lá vão uns tempos, David. Ao menos telefona de vez em quando.”

Melanie olhou para David, cujo rosto continuava semelhante a uma máscara.

Surgiu a voz seguinte.

“Riggs, consulte o raio do gravador de chamadas. Recebi uma mensagem a dizer que você esteve envolvido num tiroteio. O chefe da polícia de Boston anda a falar-me de homicídio. Que diabo aconteceu ao sistema de só ver e só ouvir, Riggs? E que aconteceu aos procedimentos? Quando um dos meus agentes descarrega a arma, não espero ficar a saber disso através da polícia de Boston. Caso você continue a ignorar o gravador de chamadas, quero-o no meu gabinete amanhã às sete! E traga consigo o raio de um relatório!”

A chamada terminou abruptamente. David limitou-se a sorrir.

Era o meu chefe disse com displicência. Deve ter calculado que eu não passava pelo gabinete depois disto tudo.

Do gravador saiu uma voz metálica e profissional: “Fala o agente especial supervisor Pierce Quincy, de Quântico. Desculpe telefonar-lhe para casa, agente Riggs, mas fui notificado pelo departamento de Houston de que você requisitou o processo da Meagan Stokes. Gostaria de saber porque está a requisitar este processo específico. Pode contactar-me através do...” e matraqueou o número. Melanie fitou David com atenção, pois este ficara totalmente imóvel.

Bolas! exclamou momentos depois, e a seguir escrevinhou o número de telefone. Mas que diabo é que está a passar-se?

Ele disse que você requisitou o processo.

E requisitei. Mas, primeiro, de Houston dizem-me que o processo não está disponível, agora tenho uma chamada de Quântico para casa a responder ao meu pedido em menos de vinte e quatro horas. Porque será que, de repente, toda a gente se preocupa tanto com um processo encerrado? E, sobretudo, porquê o Quincy?

Melanie fitou-o inexpressivamente.

Não se importa de traduzir tudo isso para aqueles de nós que estão meramente em risco pessoal e não são profissionais experientes?

David abanou a cabeça. Ainda parecia confuso. Na realidade, dir-se-ia nervoso. Por fim, dirigiu-se para a cozinha, agarrou num saco de cenouras congeladas e colocou-o na região lombar.

Não ouviu o nome? Esteve envolvido no processo do Jim Beckett no Outono passado.

O assassino em série que fugiu de Walpole? Melanie ouvira falar do caso. Provavelmente, não havia ninguém na Nova Inglaterra que não tivesse aferrolhado as portas e janelas quando o ex-polícia e assassino de dez mulheres se evadira de Walpole. Durante o seu breve período de liberdade, Beckett conseguira ampla e violenta notoriedade. Melanie nem sequer se lembrava de quantas pessoas ele, no fim, matara. Tinham sido muitas.

O Quincy elaborou o primeiro perfil murmurou David. Prestou serviços de consultor junto do FBI quando a equipa do caso se reuniu e foi fundamental na elaboração da estratégia. O Beckett assassinou uma agente do FBI, como sabe. Houve algumas interrogações na altura quanto ao papel que ela desempenhou, mas o Quincy declarou que a agente morreu no cumprimento do seu dever e se o Quincy diz que ela morreu no cumprimento do seu dever, então, acredite em mim, todos os burocratas a colocam na lista dos que morreram no cumprimento do dever. Além de ajudar a apanhar o Beckett, é o perito oficial em estabelecer perfis psicológicos no caso de crimes violentos e politicamente quase tão intocável quanto é possível no FBI. Resumindo, quem acabou de telefonar por causa da Meagan Stokes foi o próprio Deus.

 

Por que motivo esse perito tão especial telefonaria por causa da Meagan Stokes?

Só há uma maneira de descobrir. David pegou no número. Melanie vacilou. Tinha o queixo erguido e os ombros direitos.

Por um lado, queria ser suficientemente forte. Era a sua família e faria tudo pela sua família. Devia-lhes isso.

Por outro lado, sentia-se magoada e abatida. Queria a verdade, mas também a receava. A verdade nem sempre nos liberta. Por vezes, prende-nos a factos tenebrosos e sangrentos e perdemos as pessoas que amamos.

Porque não vai para o quarto? sugeriu David. Pode descansar enquanto eu despacho o telefonema.

Não. Estou preparada.

Teve um dia longo.

Trata-se da minha família, David. Quero ouvir.

David ficou imóvel por um momento e depois encolheu os ombros. Mas tinha uma expressão diferente. Mais compreensiva, pensou Melanie, e isso abalou-a um pouco. Que o céu a ajudasse, mas se David Riggs agora se tornasse gentil o mais provável era ela não resistir.

David voltou-se antes que o momento se transformasse em algo com que nem um nem outro estavam preparados para lidar.

David colocou o altifalante na mesa da sala de jantar e sentaram-se ambos. Embora estivessem fora das horas de serviço, apanharam o agente especial Pierce Quincy à primeira tentativa.

Fala o agente especial David Riggs, em resposta à sua chamada. David carregou num botão na base do telefone. Para que saiba, estamos a falar em alta voz e a Melanie Stokes também está na sala.

Boa noite, Miss Stokes disse Quincy delicadamente. Por que motivo ela faz parte deste telefonema? prosseguiu, dirigindo-se a David.

Estou no meio de um caso que lhe diz respeito explicou David conciso. E foi por causa dela que pedi informações sobre a Meagan Stokes. Por que motivo o senhor está envolvido? Não é um caso encerrado?

Sim. E por isso fiquei igualmente surpreso ao verificar que um agente de Boston estava a pedir estas informações. De acordo com o seu ficheiro, você trabalha com crimes de colarinho branco.

David ficou tenso e Melanie teve a nítida sensação de que se encontrava no meio de uma espécie de guerrilha na qual as informações seriam fornecidas às pinguinhas como chumbo miúdo difícil de apanhar. Sendo o agente mais novo, David explicou-se primeiro.

O meu total envolvimento no caso é uma coisa que não quero discutir neste momento disse laconicamente. Mas, só para começar, a Melanie Stokes é filha adoptiva do Harper e da Patrícia Stokes. Há duas noites, um jornalista chamado Larry Digger...

O jornalista do Dallas Daily?

Esse mesmo. Apareceu e afirmou que Miss Stokes era filha do Russell Lee Holmes. Ontem, Miss Stokes encontrou uma espécie de santuário armado aos pés da cama. Continha um cavalinho de madeira vermelho, presumivelmente um brinquedo da Meagan Stokes, um pedaço de tecido azul, também presumivelmente do vestido da Mean Stokes, e quarenta e quatro velas perfumadas, com aroma a gardanias, a formarem o nome da Meagan. Hoje, o Larry Digger foi atingido a tiro e morto. Ora bem, porque é que o senhor tem consigo o processo da Meagan Stokes?

Quarenta e quatro velas? murmurou Quincy. Melanie ouviu o som de arranhar enquanto ele tomava notas. Confirmação sobre o brinquedo e o pedaço de tecido?

Estão agora no laboratório. O Brian Stokes, o irmão, fez uma identificação preliminar.

Que interessante! Não vejo qualquer menção ao facto de a polícia ter encontrado o cavalinho vermelho de madeira nem o tecido azul. Por outro lado, muita coisa pertencente a outras vítimas foi recuperada da cabana do Holmes.

Porque é que o senhor tem consigo o processo?

Calma, agente disse Quincy num tom ligeiro, o que fez com que David se tornasse outra vez carrancudo. Desculpe se a minha mensagem lhe pareceu demasiado premente, mas só comecei a investigar o Russell Lee Holmes enquanto parte de um projecto interno de desenvolvimento do nosso capital intelectual...

O que é isso? segredou Melanie a David.

Está a investigar o Russell Lee Holmes para juntar o perfil psicológico deste às informações da base de dados sobre crimes violentos traduziu David. O caso Becket deve ter sido excepcional, porque, em geral, o FBI só encoraja projectos internos quando conclui que um agente está prestes a entrar em parafuso.

Quanto mais lidamos com a morte, agente disse Quincy suavemente, mais aprendemos a parar e a dar valor ao perfume de uma rosa.

Melanie ficou com a impressão de que o agente mais velho dizia aquilo mais por desgosto do que por sabedoria. Começava a gostar do agente especial supervisor Quincy. Este continuou:

O agente especial Riggs está certo. Na divisão de crimes violentos, mantemos uma base de dados completa com informações que fomos reunindo sobre assassinos, violadores e toda essa gente que não convidaríamos para jantar em casa da nossa mãe. É através da análise e comparação desses casos, desses delinquentes, que temos sido capazes de extrair os traços e as características comportamentais comuns de que nos servimos para elaborar os perfis psicológicos.

“Como parte do meu projecto, propus que recuássemos e analisássemos casos famosos. No mês passado, voltei-me para o Russell Lee Holmes. Imagine a minha surpresa quando, a meio do processo, recebi um telefonema sobre um dos ficheiros.

Sabe muita coisa sobre o caso da Meagan Stokes, Miss Stokes?

perguntou Quincy.

Não é assunto sobre o qual a minha família fale.

Tem algumas teorias sobre o motivo por que o Larry Digger a abordou?

Fui encontrada num hospital quando tinha nove anos e não possuo quaisquer recordações sobre a minha origem. Isso transforma-me num alvo fácil.

Já investigámos essa vertente disse David com impaciência.

Há algumas razões para crermos nas alegações do Larry Digger. Não foi por isso que requisitei o processo da Meagan Stokes.

Então, por que razão o fez?

Porque não sou cego, nem surdo, nem mudo declarou David com brusquidão. Porque sei ler nas entrelinhas e, tal como o senhor provavelmente concluiu nestas últimas semanas, há uma boa quantidade de razões para duvidar que o Russell Lee Holmes tenha morto a Meagan Stokes.

Embora já anteriormente tivesse ouvido aquela teoria, Melanie continuava a considerá-la estranha. No entanto, a centenas de quilómetros de distância, Quincy não pareceu espantado.

Muito bem, agente. Passei duas semanas a tentar descobrir o que havia de fazer. Afinal, não há prescrição para homicídios e tenho quase a cem por cento a certeza de que o Russell Lee Holmes não matou a Meagan Stokes.

Estava inocente? perguntou Melanie.

Não diria que “estava” inocente corrigiu-a num tom calmo Quincy. Creio que matou realmente seis crianças. Duvido, porém, que tenha raptado e assassinado a Meagan Stokes.

O Russell Lee Holmes nunca foi julgado por causa da Meagan Stokes relembrou David. Foi condenado por matar outras seis crianças e só confessou o assassínio da Meagan posteriormente, depois de ter sido considerado culpado. Fez essa confissão ao Larry Digger.

Porque é que lhe parece que ele fez a confissão? perguntou Quincy a David como um professor a examinar um aluno.

Porque já fora condenado à morte. Que importância tinha mais um homicídio?

Espere lá protestou Melanie. Mesmo que não lhe custasse nada, porque havia o Russell Lee Homes de fazer um favor a alguém e confessar? Não era exactamente um indivíduo generoso.

Não me parece que o tenha feito a troco de nada disse David e, pela primeira vez, evitou os olhos dela. Estou convencido de que lhe fizeram uma oferta que ele não pôde recusar.

Melanie não compreendia. Tinham acabado de ter essa conversa. Por que motivo ele não lhe dissera aquilo nessa altura? Que nova e retorcida teoria aquela cabeça estaria a arquitectar?

Penso disse David lentamente que apenas fazemos uma ideia da razão por que os seus pais podem ter adoptado conscientemente a filha de um assassino. Este encobre o pecado deles.

Melanie parou de respirar. Tinha a sensação estranha de que o apartamento de David rodopiava e de que mergulhava de cabeça num abismo.

Melanie? chamou David com suavidade. Melanie conseguiu virar a cabeça. David olhava para ela com uma preocupação genuína. Ficou com os olhos dourados. Tanto a gentileza como a cólera os tornavam dourados. Porque nunca se apercebera disso antes?

De súbito, desejou que ele a abraçasse, desejou sentir os braços dele outra vez à sua volta, como fizera na primeira noite, quando a transportara para longe de Larry Digger e o perfume a Old Spice a levara a sentir-se segura.

Melanie baixou os olhos. Com esforço, tentou encher os pulmões de ar uma e outra vez. Lentamente, o nó que lhe apanhava o peito abrandou e a pressão começou a atenuar-se.

Porque é que não vamos com mais calma? perguntou Quincy num tom racional. Tirámos algumas conclusões interessantes, mas, para si, agente Riggs, este assunto é novo e ainda não possuímos todas as informações. Miss Stokes, tem a certeza de que quer participar nesta conversa?

Sim respondeu com voz rouca. Sim. Quincy começou, quase gentilmente.

Em mil novecentos e sessenta e nove, quando o Russell Lee Holmes raptou a primeira criança, o Howard Teten começara apenas a esboçar as técnicas a que chamamos agora análise de perfis psicológicos. Sem uma estrutura de abordagem de tais crimes, a polícia local e o FBI pegaram no caso do Russell Lee Holmes simplesmente como uma investigação de assassínio. Concentraram-se no modo como os crimes eram cometidos, na forma de actuação, em vez de procurarem saber o porquê de eles serem cometidos: que necessidade suscitava o comportamento do assassino. Trata-se de uma distinção importante, Miss Stokes, porque o modo de actuação de um assassino em série pode mudar com o tempo. Talvez deixe de amarrar e passe a drogar as vítimas, mas a necessidade de um assassino, o controlo e domínio das mulheres, não muda. Chama-se a isso a “assinatura” do criminoso. Será a mesma em todo e qualquer assassínio, do primeiro ao trigésimo, mesmo que tudo o resto nesses crimes pareça diferente.

“Porém, em sessenta e nove, a polícia não compreendia este princípio da ”assinatura” do criminoso. Atribuíram erradamente um assassínio a Russell Lee Holmes com base numa análise superficial do modo de actuação, uma vez que não dispunham dos instrumentos de análise dos traços mais profundos e mais significativos desta patologia.

“O Russell Lee Holmes odiava crianças brancas pobres. Isto ficou claro?

David assentiu com a cabeça. Melanie conseguiu proferir um sim abafado.

Quincy prosseguiu:

O Russell Lee Holmes nunca passou da quarta classe e era ignorante. Andou de emprego em emprego, trabalhos de baixa categoria, era conhecido pelo seu mau feitio e a folha do último emprego declarava simplesmente: “Gosta de cuspir.” O mais provável era o Russell Lee Holmes odiar crianças brancas pobres porque uma parte muito real e muito profunda dele próprio se odiava a si mesma. Agia incitado por esse ódio, de forma patológica, apanhando raparigas e rapazes pequenos e vulneráveis, porque, da maneira mais elementar, estava a tentar destruir as suas próprias origens. O Russell Lee Holmes não tinha problemas de consciência. Porém, possuía uma quantidade enorme de raiva.

“Ora, como era ignorante e sem qualquer especialização, Holmes não podia exercer a sua raiva de modo sofisticado. Os seis assassínios foram nitidamente ataques relâmpago. O Holmes entrava nas zonas pobres, que sem dúvida lhe eram familiares e onde podia passar despercebido, e pura e simplesmente apanhava a criança mais fácil. Mais tarde, a polícia identificou a cabana que usava para executar os seus piores crimes.

Ficava numa mata, não ficava? sussurrou Melanie. Uma única divisão. Compacta, sem correntes de ar. As janelas estavam cobertas de pó, não se conseguia ver nada para fora. A meio havia uma fresta. Vi uma aranha nessa fresta.

Miss Stokes interrompeu Quincy cuidadosamente. Por acaso, as fotos da cabana estão à minha frente, fotos a cores da cena do crime. Não tenho a certeza do que a senhora está a descrever, mas a cabana do Russell Lee Holmes não tinha janelas. Era uma estrutura simples e artesanal e asseguro-lhe que estava cheia de correntes de ar. Até havia várias tábuas levantadas no chão. Por baixo delas foi onde a polícia descobriu o esconderijo dos seus “troféus”. Melanie sentiu-se aliviada.

Não é... Não estou a descrever a cabana do Russell Lee Holmes?

De forma alguma. Melanie olhou para David.

Nesse caso, talvez... talvez eu não tivesse estado lá. Talvez eu não seja...

Ou talvez o Russell Lee Holmes mantivesse a Meagan noutro lugar sugeriu David.

Ou o Russell Lee Holmes não estivesse envolvido declarou Quincy.

Então, porque estaria eu no quarto e porque veria Meagan? perguntou Melanie, dirigindo-se a David.

Não sei. Talvez a Meagan fosse levada para um local diferente e você também lá tivesse estado, por qualquer razão.

Miss Stokes prosseguiu Quincy, quando diz que é capaz de descrever a Meagan Stokes, o que quer dizer exactamente?

Melanie não conseguiu que a resposta lhe saísse e olhou para David a pedir ajuda.

Miss Stokes começou a lembrar-se de coisas recentemente. Essa é uma das razões por que achamos que Larry Digger deve ter dito a verdade. A Melanie parece ter algumas recordações de ser fechada numa cabana de uma única divisão junto com a Meagan Stokes.

De que mais se recorda?

Só isso.

Mas ainda só começou a recordar-se, não é verdade? Pense nas imagens que podem estar no seu cérebro. Há muitas coisas que podíamos vir a saber através de si, em particular sobre o caso da Meagan Stokes. Importar-se-ia de vir cá? Conheço alguns especialistas em hipnotismo que podiam trabalhar consigo.

Melanie quase desatou a rir-se.

Oh, sim, todos parecem fascinados com o “potencial” do meu cérebro. Retorceu os lábios. Excepto eu, evidentemente.

Hipnotismo, Miss Stokes. Em ambiente controlado. Juro-lhe que cuidaremos muito bem de si...

Não, obrigada.

Miss Stokes...

Eu disse não, obrigada! Por amor de Deus, tudo aconteceu há vinte e cinco anos e não quero lembrar-me de crianças a morrer!

Quincy conservou-se em silêncio, talvez decepcionado.

Claro, claro anuiu por fim. Vamos então recapitular o que sabemos com base nos apontamentos da polícia. Portanto, o Russell Lee Holmes odiava crianças brancas pobres. Raptava-as, torturava-as na sua cabana e quando estava satisfeito estrangulava-as com as mãos nuas, outro símbolo de alguém que está a realizar um acto de violência profundamente pessoal. Desfazia-se dos corpos ao acaso, largando-os nus em valas, canos de esgoto e campos abertos. Também isto satisfazia a sua necessidade de humilhar as crianças, de as deitar fora como se fossem bonecas de trapos que nem sequer eram dignas de protecção contra os elementos.

“Em resumo, em cada acto executado, revelava o seu ódio à juventude, à pobreza e à fraqueza. Revelava o ódio que sentia por si mesmo. E agora chegamos ao processo da Meagan Stokes.

Não era pobre observou David. Houve um pedido de resgate. E o corpo foi enterrado numa floresta, não atirado fora. E foi decapitado.

A Meagan estava no carro da ama murmurou Melanie, que se encontrava estacionado diante da casa da mãe da ama. Pensei que fosse considerado um bairro pobre.

Era um bairro de classe média baixa explicou Quincy cuidadosamente, mas, apesar disso, ainda o consideraria acima dos habituais terrenos de caça do Holmes. Além disso, o perfil da vítima não se encaixa. A Meagan estava bem vestida, bem arranjada. Encontrava-se num bom carro e brincava com um brinquedo caro. Era inteligente e expressava-se bem. Se o que Holmes executava eram actos primários de autodestruição, não havia na Meagan Stokes nada que fizesse desencadear a sua sede de sangue. Não havia nela nada que lhe recordasse ele mesmo.

Pode ter sido uma vingança sugeriu Melanie. Ele odiava as outras crianças porque eram como ele. Matou a Meagan Stokes porque estava acima dele.

É possível, Miss Stokes, mas não provável. Seria uma nítida modificação na motivação e é raro ver-se uma modificação na patologia de um assassino em série. No entanto, em certos casos, um assassino pode deitar a mão a um tipo de vítima diferente porque o alvo desejado não está disponível. O assassino prefere jovens louras e de vinte e poucos anos, mas, quando a sede de sangue é demasiado premente, o assassino “contenta-se” com uma morena de trinta e tantos. Mas, nesse caso, a necessidade do assassino, fazer mal às mulheres, não era totalmente específica e, por conseguinte, acabou por ser satisfeita. Porém, com outros assassinos, o perfil psicológico da vítima está intrinsincamente ligado às suas assinaturas. Não querem só fazer mal às mulheres. Têm necessidade de fazer mal a mulheres “perdidas”, e portanto o assassino nunca substituiria uma prostituta por uma mãe de três filhos, ainda que a mãe de três filhos fosse mais conveniente. Este crime não satisfaria as suas necessidades. Para estes homens, encontrar o alvo certo é como apaixonarem-se. Contam que passam semanas, meses, anos, em busca da “pessoa certa”. Começam pelo físico, no caso de Holmes, jovens, subdesenvolvidas, sujas e pobres. E, a seguir, pura e simplesmente, olham para uma delas. A que de algum modo os comove no íntimo. A que os faz suar nas palmas das mãos. E sabem: essa é o alvo certo.

“O Russell Lee Holmes pertence a este grupo de homens e, analisando o perfil da vítima, não me convenço de que houvesse o que quer que fosse na Meagan Stokes, asseada, esperta e de classe alta, que despertasse o desejo de sangue no Russell Lee Holmes. Pondo a questão em termos coloquiais, a Meagan não era o seu tipo.

Há todos os outros factores interpôs David, olhando para Melanie. Por exemplo: como é que um homem quase analfabeto conseguiria elaborar um bilhete de resgate?

Excelente observação, agente disse Quincy em tom aprovador. Tenho à minha frente uma cópia do pedido de resgate. Como a polícia afirmava em mil novecentos e setenta e dois, é um bilhete muito rudimentar, com palavras recortadas de jornais e gramaticalmente incorrecto. Foi entregue por mão própria no hospital onde o Harper Stokes trabalhava, o que foi simples, mas inteligente. Tudo isto está de acordo com a imagem do Russell Lee Holmes. No entanto, se esmiuçarmos o bilhete, o argumento não se aguenta. As palavras estão colocadas de forma demasiado exacta para um homem ainda novo e sem instrução. Não escorreu cola das beiras, o que indica um elevado nível de exactidão. Finalmente, não há impressões digitais, nem carimbo de correio e nem sequer é usada saliva para colar o sobrescrito. Quem quer que tenha elaborado aquele bilhete foi paciente, inteligente e muito conhecedor dos procedimentos policiais. Nada disto combina com o que sabemos do Russell Lee Holmes.

Melanie levantou-se e, trémula, encheu um copo de água no lava-louça.

Nesse caso, como é que consigo descrever a Meagan na cabana? Se não foi raptada pelo Russell Lee Holmes, porque é que estaria lá?

Não tenho a certeza, Miss Stokes. Para falar honestamente, sinto uma enorme curiosidade quanto às suas “recordações” e ao significado que podem ter para o caso da Meagan Stokes. A minha impressão global é que foi um crime por imitação, deliberadamente realizado por alguém que sabia alguma coisa das actividades do Russell Lee Holmes e que resolveu copiá-las, não por uma questão de neurose, mas por um desejo racional de encobrir o seu próprio crime. Quando a Meagan foi raptada, já se suspeitava de que as crianças eram mantidas vivas e escondidas, e, por isso, talvez o assassino tenha arranjado uma cabana para assegurar a maior quantidade possível de “provas materiais” em relação àquele crime. Em mil novecentos e setenta e dois, decerto que foi o suficiente para induzir em erro a polícia local e o FBI.

“Mas, como disse anteriormente, a análise de perfis psicológicos permite-nos ultrapassar a mera imitação material de crimes e chegar às motivações e comportamentos subjacentes. Mais uma vez, o caso da Meagan Stokes não se ajusta à motivação do Russell Lee. O que me leva ao factor final e esmagador que tenho na mente: a maneira como se desfez do corpo.

“Todas as vítimas do Russell Lee Holmes foram despojadas das roupas e atiradas fora. Excepto a Meagan Stokes. Estava nua, mas o corpo fora envolvido numa manta. Não fora atirada fora, mas cuidadosamente enterrada. Também fora mutilada, tinha as mãos e a cabeça cortadas. Tem experiência de decapitação, agente Riggs?

O que quer dizer?

A decapitação acontece em geral por dois motivos. Um é lógico. Os criminosos mais inteligentes, geralmente psicopatas que buscam activamente maneiras de encobrir qualquer rasto, retiram a cabeça da vítima para dificultar a identificação do corpo. Também lhe cortam as mãos, em certos casos.

Mas já chegámos à conclusão de que o Russell Lee Holmes não é exactamente inteligente ou lógico contrapôs David. Então, qual é o segundo motivo?

Emocional. Às vezes, se um assassino se sente culpado em relação a uma vítima, ou tem remorsos ou vergonha, mutila a vítima eliminando-lhe a cabeça e as mãos para tornar o crime impessoal. A decapitação pode ser uma indicação de que a vítima era próxima do assassino.

Oh, meu Deus! murmurou Melanie, sabendo de antemão o que vinha a seguir.

Em conclusão disse Quincy em tom suave, o corpo foi escondido ou por alguém que era muito cuidadoso, ou por alguém que se preocupava verdadeiramente.

Os pais terminou David, e depois acrescentou quase selvaticamente: Por causa do dinheiro, não é verdade? O milhão de dólares.

Melanie olhou para ele, atónita.

O quê?

O Harper e a Patricia Stokes tinham apólices de seguros de vida de um milhão de dólares por cada um dos filhos informou Quincy calmamente. De facto, antes de o Russell Lee Holmes ter confessado, a polícia andava a investigar activamente o Harper Stokes. Os anos setenta foram muito duros para ele. Perdeu uma boa quantidade de dinheiro em vários negócios especulativos e sem esse seguro de vida podia ter sido obrigado a declarar falência.

Não se assassinam os próprios filhos por dinheiro! bradou Melanie. Nem... nem mesmo por um milhão de dólares! E se ambos tinham seguro, porquê a Meagan? Porque não o Brian? Oh, meu Deus, porque não o Brian? Inclinou a cabeça, mais horrorizada ainda. Era evidente: Brian já devia ter pensado nisso antes. Muito provavelmente, o seu temperamental irmão passara a maior parte dos últimos vinte e cinco anos a pensar “Porque não eu?” E para com o pai mostrara sempre resssentimento, quase ódio. Saberia? Desconfiaria? Oh, Brian...

Porque não forjariam apenas o rapto? exclamou. Não podiam ter forjado o desaparecimento da Meagan, pô-la numa cabana e receber o dinheiro do resgate no banco ou onde quer que fosse? Isso é que se coadunaria com aquilo que sei...

Só que isso não explicaria o dinheiro lembrou David suavemente. Se o Harper e a Patricia Stokes de repente aparecessem com um milhão de dólares, as pessoas desconfiariam. Porém, se tivessem perdido a filha e recebido o seguro de vida, então ficava tudo explicado.

Só que a filha está morta! Não fariam isso. Conheço-os, David. São meus pais e juro-lhe que não eram capazes de fazer uma coisa tão repugnante como matar a filha de quatro anos por dinheiro.

Miss Stokes interrompeu Quincy em tom sombrio. Sei que não quer ouvir isto, mas, com base no que vi hoje, acho que a Meagan Stokes foi decapitada por sentimento de culpa. Foi enterrada por remorsos. E embrulhada numa manta por amor. Miss Stokes, só noutros três casos vi um corpo de criança tão cuidadosamente enfaixado e sepultado. Em todos esses três casos, acabou por descobrir-se que o assassino fora a mãe da criança.

Oh, meu Deus!, meu Deus!

Os assassinos em série não sentem necessidade de agasalhar os cadáveres em mantas macias. Porém, proteger uma criança, mesmo quando já é tarde de mais, mesmo quando é por sentimento de culpa, é uma característica nitidamente maternal. Nessa altura, com base no que li, reabriria este caso, agente Riggs e Miss Stokes. Analisaria os membros da família com todo o cuidado. Examinaria os motivos de toda a gente e o que se estava a passar exactamente no Verão de mil novecentos e setenta e dois com a família, incluindo todos os amigos e parentes. E começaria pela Patricia Stokes.

 

As Suites Waltham eram um local decente. A habitação, com dois quartos, estava decorada em tons de azul e malva, com mobília a imitar cerejeira, o género que os hotéis da Nova Inglaterra preferiam. Um quarto ficava ao cimo da escada numa área de sótão, o outro em baixo, junto da pequena cozinha. David pousou o saco no quarto de baixo, mais perto da porta, enquanto Melanie percorria a saleta. Continuava com a pele branca como cal.

No armazém ao pé do apartamento de David tinham adquirido alguns produtos básicos de higiene, mas aquela cadeia de lojas não vendia roupas e por isso Melanie continuava metida no velho e grande fato de treino de David. Fazia-a parecer pequena, especialmente naquele momento, de pé junto da janela escura, com os braços em volta do corpo e o olhar fixo numa noite sem lua. Na rua, os carros percorriam rapidamente a estrada. Os faróis varriam por instantes o rosto de Melanie e iluminavam-lhe os olhos.

Bem disse David por fim, que lhe parece?

É bom.

David aguardou que Melanie dissesse mais qualquer coisa, mas ela não o fez. David não sabia bem como agir. Desde a conversa com Quincy, Melanie mergulhara dentro de si mesma cada vez mais profundamente. Os seus olhos haviam adquirido a expressão mortiça de um veterano de guerra e tinha os lábios comprimidos e exangues. David não conseguia prever o que iria passar-se e isso começava a assustá-lo.

Melanie ligou a televisão. Uma locutora muito bem vestida fitava sombriamente a câmara, enquanto relatava: “Rebentou hoje um tiroteio na Baixa de Boston.” Imagens do exterior do hotel encheram o ecrã. Ao pé da porta havia gente a olhar espantada. Alguns turistas tiravam fotografias. Pouco se sabia e a reportagem de dez segundos saiu do ar sem contar muito de coisa nenhuma.

Melanie desligou a televisão. Pegou numa revista, deu-lhe uma vista de olhos e voltou a pousá-la. A seguir, pegou num cinzeiro. Tremiam-lhe as mãos. Como estas eram pequenas. David não conseguia imaginá-la numa cabana com gente da laia de Russell Lee Holmes.

David pousou o computador portátil na mesa da sala de jantar. Tencionava trabalhar a maior parte da noite, investigar mais, despachar o trabalho burocrático. Às sete da manhã em ponto, ele e Chenney tinham de encontrar-se com o seu superior, o agente Lairmore. A discussão não ia ser bonita. Lairmore gostava das coisas metódicas e claras e que as investigações fossem conduzidas com exactidão matemática. Que os seus agentes destacados para investigar as fraudes nos serviços de saúde andassem agora a pesquisar um homicídio com vinte e cinco anos não o divertiria.

David dirigiu-se à cozinha, guardou no congelador os legumes que trouxera consigo e hesitou.

Doíam-lhe as costas. Bolas, latejavam.

Não dormia o suficiente e estava sob tensão. Andava novamente aos tiros e o coice da arma sempre lhe fizera mal. A verdade era que o FBI fizera o que estava certo ao transferi-lo para os crimes de colarinho branco. Não conseguia andar a correr rua abaixo no calor da refrega. Não podia andar aos saltos de telhado em telhado. Tinha realmente um problema de saúde e este piorava de dia para dia.

A sua vida resumia-se agora a três possibilidades, qual delas a mais ridícula: cenouras, couve-flor ou brócolos congelados?

Escolheu a couve-flor, enfiando dois sacos no cós das calças. Ao sair da cozinha, parecia um idiota e sabia isso.

Melanie já não se encontrava no sofá. Voltara para a janela e pressionava as mãos contra o vidro. Havia algo no seu perfil, acossado, hirto, resignado, que provocou em David uma vertigem.

Uma cena do passado relampejou-lhe na mente. Tinha nove anos e a mãe finalmente voltara do hospital para casa. Encontrava-se deitada no sofá da sala, e David, Steve e o pai estavam à sua volta. O pai e o irmão sorriam rigidamente. O pai explicara-lhes antes que a mãe estava a morrer. Não se podia fazer mais nada. Tinham agora de ser fortes por ela. Tão fortes quanto os mais fortes.

A mãe afagou-lhe o cabelo e a seguir acariciou o rosto de Steven como se este ainda fosse um bebé. Depois olhou para longe, com um olhar de aceitação tão firme e tão torturado de sofrimento que foi como um soco que deixou David sem fôlego.

Tentavam todos ser corajosos por causa dela, apercebera-se aos nove anos, quando na verdade quem era corajosa era a mãe. Tentavam ser heróis, quando ela já o era. Oh, Deus, a sua mãe era uma mulher magnífica!

E, pouco depois, o cancro levou-a.

David regressou ao quarto da casa alugada. Adulto, não mais criança. Legumes congelados presos às costas. A dor familiar a apertar-lhe a coluna.

Gostaria de exibir uma postura mais viril por causa de Melanie Stokes. Bolas...

Você devia dormir um pouco disse-lhe, lacónico. Melanie voltou para ele um rosto inexpressivo.

O que vai fazer?

Trabalhar. Amanhã tenho uma reunião com o meu chefe e depois vou ter com o detective Jax. Vai ser um dia muito ocupado.

Melanie franziu as sobrancelhas.

E o que devo eu fazer?

Ficar longe da vista, é claro. Descontraia-se um pouco. Recoste-se e aspire o perfume do café.

Recostar-me e aspirar o perfume do café? Arqueou uma sobrancelha, a voz tornou-se mais aguda e o rosto corado. Talvez ele não devesse ter sido tão irreverente. Recoste-se e aspire o perfume do café. Oh, claro. Nos dois últimos dias fiquei a saber que provavelmente sou a filha de um assassino sinistro, adoptada por outros dois assassinos sinistros que agiram de forma também sinistra. Claro, é evidente que posso descontrair-me e aspirar o perfume do café.

David recostou-se. Depois, a sua própria cólera explodiu. Não conseguia acertar nas palavras. Era apenas um homem. Um homem com excesso de trabalho, pouco apreciado e sexualmente frustrado.

Eu levava-a comigo para o escritório informou-a friamente, mas o FBI não tem infantário.

Melanie esbugalhou os olhos. O centro do pescoço começou a pulsar. As mãos fecharam-se em punhos e a frustração percorreu-lhe a coluna num longo e violento tremor.

De repente, David ficou sem fôlego.

Melanie queria luta, apercebeu-se. Queria vociferar, queria gritar, queria correr. David conseguia sentir tudo isso a arder e a enevoar-lhe os olhos.

Santa Melanie. Bondosa Melanie. Perfeita filha, perfeita irmã Melanie. Pela primeira vez, percebeu. Todos os pedacinhos dela - as partes furiosas, as ressentidas, as medrosas que ela engolia porque era a filha adoptiva e não podia permitir-se fazer ondas. Não podia permitir-se ser menos do que Meagan.

Caramba! De repente apercebeu-se de que queria beijá-la. Queria diminuir o espaço entre ambos, tomar-lhe os lábios e sentir as emoções explodirem dentro de si. A Melanie selvagem. A Melanie ferida. À verdadeira Melanie. Ele desejava honestidade e isso era a maior de todas as mentiras.

Quero estar sozinha disse ela abruptamente.

Ainda a esconder-se? Ainda a sorrir e a fingir que está tudo bem? - Deu um passo na direcção dela.

Olha quem fala! exclamou Melanie, levantando o queixo. Tentava parecer desinteressada, mas David percebia que estava furiosa. Tinha as faces vermelhas e os olhos excessivamente brilhantes. Linda.

David deu mais um passo e Melanie abanou a cabeça.

Não, disse com ferocidade. Não, não e não! Não quero saber do seu aspecto nem se cheira a Old Spice. Não quero saber se há meses não tenho vida sexual. Não quero saber se fazer sexo consigo seria muitíssimo melhor do que pensar no Russell Lee Holmes...

Então, pensou nisso! O tom dele era notoriamente triunfante e demasiado enfatuado. Melanie parecia revoltada.

Claro que sim. Você pegou em mim ao colo no primeiro dia. Transportou-me. Fez-me sentir segura. A voz faltou-lhe. Soltou um som melancólico que o atraiu e fez prender a respiração. Depois, Melanie apertou os lábios e recobrou a compostura. Mas não era verdade, pois não, David? De modo algum foi um acto de gentileza, mas um agente federal a cumprir a sua obrigação. E mentiu-me. Estou tão farta de que todos me mintam!

Cumpri a minha obrigação ao ocultar a minha identidade. Nem todas as mentiras são criadas à mesma imagem e semelhança.

Melanie riu-se roucamente.

Subtilezas, tudo se reduz a isso. Subtilezas. Oh, meu Deus, a minha mãe!

Sentou-se numa cadeira. David mandou tudo o que o afligia para o diabo e agarrou-a.

Melanie tornou-se rígida e resistiu. David passou um braço em volta dela, dizendo para consigo que se ela lhe batesse a culpa era dele. Mas Melanie não lhe bateu. Emitiu um som, um som de rendição, e depois a forte e competente Melanie Stokes enterrou-se nos seus braços.

Ah! Era tão pequena que quase cabia no côncavo do seu peito. Todo aquele cabelo louro e sedoso e o perfume suave! David queria mantê-la protegida. Que o Senhor o ajudasse, mas queria ser o seu herói.

Puxou-a para o colo e embalou-a de encontro a si.

Melanie não chorou. David pensara que sim, mas, em vez de chorar, Melanie agarrou-se à camisola dele e enterrou o rosto no seu pescoço. David encostou a face à cabeça dela e envolveu-a com as pernas.

Amo-os murmurou Melanie. São a minha família e amo-os. É tão mau assim?

Não, disse ele em tom rouco. Não.

Deram-me tudo aquilo que sempre quis. Brincaram comigo, gostaram das mesmas coisas que eu. Iam comigo às lojas de artigos em segunda mão, por amor de Deus! Os Stokes nesse tipo de lojas! De certeza que não podia ser tudo mentira, caramba.

Não sei. Não sei.

Melanie agarrou-se mais a ele. E, uma fracção de segundo depois, murmurou:

Tenho outra vez nove anos, estou a acordar no hospital com todos aqueles tubos e agulhas a saírem-me do corpo, e desta vez não há quem me leve dali para fora. Desta vez, não está lá ninguém.

Chiu. Chiu disse David repetidamente.

Melanie começou a chorar. Um minuto depois, David beijou-lhe o alto da cabeça. Depois, afastou-lhe o cabelo para trás e beijou-lhe as lágrimas do rosto. À seguir estava a beijar-lhe o pescoço, a testa, a curva das orelhas. Tudo, menos a boca. David sabia, sabiam ambos, que ele não devia beijar-lhe a boca. Não avances de mais, não, não o faças.

Melanie virou um pouco a cabeça e David aflorou-lhe o canto dos lábios, o queixo, a ponta do nariz, a cova da face.

Mais, murmurou Melanie. Mais.

Começou a aflorar-lhe o pescoço, com beijos pequenos e rápidos, como se fossem dois adolescentes com as hormonas em ebulição a acariciarem-se no sofá. David prendeu-lhe o lóbulo da orelha entre os lábios e sugou-o. Melanie suspirou e mexeu-se, impaciente, no colo dele. David mordiscou-lhe a orelha. Ela sentiu a erecção dele. Agora, ambos respiravam aceleradamente.

O pescoço dela. Tinha um pescoço longo e sensual. As faces, macias como seda. Percorreu-lhe a linha do maxilar e a seguir, como que arrastados por um íman, os lábios dele aproximaram-se novamente do canto da boca dela. Sentia-lhe a respiração pesada. Sentia-lhe a tensão, o momento raro de total antecipação. Uma ligeira mudança de posição de um ou de outro e o beijo aconteceria. Os lábios dela sob os dele. A boca dela a abrir-se, esfomeada. O sabor maravilhoso de Melanie Stokes.

David sentia-a estremecer. Céus, Melanie enlouquecia-o.

Lentamente, muito lentamente, David recuou. Suspiraram ambos, e foi o suficiente.

Ele era o detective que instruía um processo contra o pai dela. Ainda não lhe dissera toda a verdade e sabia perfeitamente que não estava correcto. Mesmo que não pudesse ser o jogador de basebol que o pai queria, podia continuar a ser um homem.

Está bem? murmurou ele passados uns momentos.

Melhor.

As ancas dela continuavam encostadas ao sexo dele. Parecia não se importar e, portanto, ele também não se moveu. Era uma das vantagens de se ser adulto, pensou David. Na verdade, podia-se abraçar simplesmente outra pessoa.

David enrolou na mão uma longa madeixa de cabelo. Tinha um cabelo lindo. Que também cheirava bem. Apeteceu-lhe mergulhar e passar nele ambas as mãos, mas Melanie suspirou.

A erecção tornou-se um pouco mais desconfortável e ele teve de mudar de posição.

Você usa Old Spice murmurou Melanie. Julgava que já ninguém usava Old Spice.

O meu pai, disse David em tom ausente e aproximou-se para examinar a curva da orelha pequena como uma concha.

É muito agarrado a ele, não é?

Era. Melanie Stokes... até as orelhas eram bonitas. Provavelmente também os dedos dos pés, pensou David.

Era? Melanie olhou para ele.

As coisas mudam. Acontece. ’

A artrite? Melanie estreitou os olhos sagazmente. O seu pai é tão bom comunicador como você?

Aprendi tudo com ele.

Ah! E a sua mãe já não está viva para poder interferir. Que pena.

Julgo que sim. David nunca pensara no assunto sob esse prisma, mas Melanie tinha provavelmente razão.

Fale-me da sua mãe pediu Melanie com veemência. Conte-me como foi crescer com pessoas que você sabia serem seus pais e que o amariam sempre.

David não conseguiu responder de imediato. O sofrimento oculto atrás daquelas palavras apertou-lhe demasiado a garganta.

Por favor! insistiu Melanie.

Não sei. Não me lembro de muita coisa. Sabe como são as crianças. Herdam o mundo e tomam tudo como certo.

A sua mãe fazia bolachas? Quando estava no hospital imaginava sempre uma mãe de avental branco de folhos a fazer bolachas de chocolate. Não sei por que razão a imagem era tão forte.

Sim, a minha mãe fazia bolachas. De chocolate. De aveia. Bolachas cobertas com glace de cor verde no Dia de São Patrício. Meu Deus, há que tempos não pensava nisto! Esfregou a testa. Hum, também nos lia histórias. E obrigava-nos a limpar o quarto. Ria-se com as histórias que o meu pai contava do trabalho. E era muito bonita, acrescentou David. Lembro-me de em pequenino achar que tinha a mãe mais bonita do quarteirão.

Devia ser maravilhosa!

Sim murmurou suavemente David. Era. Recordo-me... Recordo-me de ela e o meu pai voltarem do hospital para casa e de nos termos sentado. Lembro-me de que estavam de mãos dadas e de que o meu pai chorava. Nunca antes o vira chorar. Depois o meu pai disse “cancro”. Só “cancro”, como se isso explicasse tudo.

Não consigo imaginar como se comunica isso a uma criança.

Acho que nunca o fizeram. O meu pai disse-nos que a minha mãe ia precisar de mais ajuda em casa e por isso o Steven e eu limpámos tudo prontamente naquela primeira tarde. Na verdade, até tentámos limpar pela primeira vez as casas de banho para lhe fazer uma surpresa. Para que conste, o sabonete não limpa lá muito bem o aço inoxidável. Depois, havia de ver-nos com o aspirador! Céus!

Uma grande confusão?

Aspirámos metade dos reposteiros. Quem havia de pensar?

Melanie sorriu.

Mas foi amoroso, esforçarem-se ambos.

Sim. A minha mãe foi à quimioterapia e nós lavámos o chão da cozinha. O tratamento de radiações começou, lavámos as janelas. Ela teve uma recaída, limpámos os tapetes. Os vizinhos estavam sempre a passar por lá e deixavam guisados, tabuleiros de carne assada, essas coisas, porque decerto, com a mulher doente, o marido e os filhos morreriam de fome. Comentaram que a casa estava com um óptimo aspecto, e, aliás, o Steve e eu também. Que corajosos que deviam ser aqueles soldadinhos!

“A minha mãe voltou para o hospital. Arejámos as camas, encerámos os móveis, sacudimos panos, demos brilho às pratas e ela voltou para casa. Voltou para casa, deitou-se na nossa sala perfeitamente imaculada e morreu. Porque é o que o cancro faz. Mata, mesmo que essa pessoa tenha uns filhos pequenos perfeitos e um marido amoroso e perfeito, que fazem tudo o que sabem para a salvar.

Lamento muito, murmurou Melanie.

David encolheu os ombros, com ar acanhado. A voz soara-lhe mais amarga do que pretendera. Não conseguia arranjar uma resposta suficientemente superficial para quebrar o ambiente. Nunca pensava nessas coisas. E agora sentia-se demasiado vulnerável.

Afastou Melanie do colo, levantou-se e pôs entre ambos alguma distância. Sentiu que ela ficara um pouco magoada, mas não arranjava forças para voltar atrás.

Não é... não é fácil falar disto disse.

Eu sei.

Só... hum, só preciso de algum espaço.

David, eu sei.

Meu Deus, como uma família pode ter tão pouca sorte!

Desta vez, Melanie não disse nada e David respirou profundamente encolerizado. Tempo de controlar a situação, Riggs. Tempo de dominar as coisas. Pôs as mãos nas ancas e olhou em volta.

Está a fazer-se tarde, Melanie. Que diz?

Sim, acho que são horas de irmos para a cama. Subitamente, corou. Isto é, dormir. Cada um no seu quarto. Na sua cama.

Fique com o quarto de cima. Eu quero manter-me perto da porta.

Vai mesmo estar fora o dia inteiro?

Tenho de ir a uma reunião. O meu chefe está um pouco excitado por eu ter disparado a arma. Ao contrário do que possa pensar, não acontece todos os dias, principalmente quando se está a investigar fraudes.

Fez bem replicou Melanie com expressão impressionada. Salvou-me. Feriu o indivíduo.

David fez uma careta.

Depois de ter disparado tantas vezes contra alvos de papel, devia ter acertado como deve ser.

Era um ser humano, David. Não era papel.

Bem, veremos se ambos ainda pensamos dessa maneira quando ele voltar a aparecer. Vou tentar não estar muito tempo no escritório. Porque é que não vai dormir e depois manda vir um bom pequeno-almoço? Aproveite o dia para descontrair e recuperar o fôlego.

Talvez, disse Melanie. Devia telefonar à minha mãe.

Não...

Sim. Não posso simplesmente passar a noite fora sem sequerl um telefonema. Não faz ideia de como ela fica preocupada.

David fitou-a.

Não lhe conte o que está realmente a acontecer. Até sabermos quem está envolvido e porquê, é demasiado perigoso. Percebeu?

Digo que vou passar a noite em casa de uma pessoa amiga.

Não entre em pormenores. Os pormenores só lhe trazem sarilhos.

Assim fala o dono resmungou Melanie. Voltou-se para as escadas. No instante em que viu as sombras adensarem-se ao cimo das escadas, deixou descair os ombros.

Porque é que não deixa as luzes acesas? sugeriu ele.

Não é preciso. Já sou crescidinha. Tenho mais que fazer do que ter medo do escuro.

Sim, mas eu sou agente do FBI e, francamente, somos todos um bando de medricas. Não há detective vivo que não durma de luz acesa. Juro.

Melanie sorriu. Sentia-se tão grata que se lhe apertou o peito.

Obrigada, murmurou.

Melanie subiu as escadas. David ficou a vê-la, sentindo água gelada a escorrer-lhe pelas costas enquanto a couve-flor se derretia nas calças.

Dirigiu-se para o computador. Pegou no faxe enviado por Chenney nessa tarde. Começou a ler atentamente o processo com vinte e cinco anos, especial cortesia da polícia de Houston.

Sentia as costas a latejar e a vista desfocada de exaustão. Fez café instantâneo e prosseguiu.

Vou apanhar-te resmungou. Quem quer que sejas, depois do que fizeste à pequena Meagan, vou apanhar-te.

 

Patrícia estava a dormir quando o telefone tocou. Em sonhos, era outra vez Miss Texas e percorria a passadeira com o seu sorriso mais resplandecente e o vestido comprido. Olhem para mim, olhem para mim, olhem para mim.

E olharam. Os homens bradaram a sua aprovação. As mulheres gritaram por ver tanta beleza. Conquistara os corações do seu estado natal. O pai orgulhava-se dela e enquanto lhe colocavam a tiara de diamantes na cabeça desejava que tudo aquilo durasse para sempre.

Os contos de fadas nunca deviam acabar.

Dirigiu-se para os bastidores e Jamie O’Donnell envolveu-a nos seus braços.

Minha linda rapariga!

Patrícia riu-se e beijou-o apaixonadamente.

Olhou por cima do ombro dele e viu o corpo sem cabeça da filha.

A mãe é má, a mãe é má, A MÃE É Má!

Patricia acordou com um grito.

Escuridão, escuridão espessa. O telefone tocou pela segunda vez e Patricia procurou-o às apalpadelas. Agora já conseguia ver as horas. Pouco passava da meia-noite. Harper ainda não estava em casa.

Encostou o telefone ao ouvido.

Mãe?

Patrícia estava tão desorientada que quase gritou de novo.

É a Melanie continuou a voz, e Patricia, numa indizível confusão, apenas acenou com a cabeça. Depois, agarrou mais fortemente no telefone e dominou-se para falar com a segunda filha.

Sim, Melanie, meu amor? De onde estás a telefonar? Já passa da meia-noite... Estás bem?

Houve uma pausa, uma pausa demasiado demorada. Patricia sentiu o primeiro resquício de mal-estar.

Querida, está tudo bem?

Também encontraste um bilhete? Alguém se introduziu no teu automóvel? Ameaçou deitar-te a mão, matar-te? Oh, meu Deus, por favor, minha pequenina, por favor, minha pequenina, diz-me que está tudo bem. Juro que nunca tive a intenção...

Apenas tive um dia muito longo respondeu Melanie. Encontrei-me com uma amiga, fomos a vários bares e vou passar a noite aqui.

Patricia franziu o sobrolho. A filha nunca fazia coisas como encontrar-se com uma amiga anónima para umas bebidas e depois passar a noite fora.

Tens a certeza de que estás bem? Posso ir buscar-te. Não é incómodo. De verdade.

Estou bem.

Estás novamente com enxaqueca? O teu pai e eu temos andado preocupados contigo.

Têm? Melanie pareceu de facto surpreendida.

Claro. Melanie, não sei o que se passa. Telefonas-me a meio da noite e pareces alterada. Por favor, querida, se precisas de falar, se fizeste alguma coisa e agora precisas de um ombro para chorar...

A voz de Patricia apagou-se, suplicante, quase desesperada. Subitamente, sentiu no peito o mesmo aperto do dia em que chegara e vira a casa cercada pelos carros da polícia e um indivíduo que ela nunca vira antes lhe dissera calmamente que estavam a fazer tudo o que podiam para encontrar a filha.

Melanie? murmurou.

Lembra-se do primeiro dia em que foi ao hospital? perguntou-lhe inesperadamente a filha. Lembra-se da primeira vez em que me viu?

Claro que sim. Porque...

Quando olhei para si, mãe, lembro-me de ter pensado que era muito bonita, muito amorosa. Queria desesperadamente ser sua filha, nem sequer sei porquê. Queria apenas. O que pensou quando olhou para mim?

Eu... Lembro-me de ter ficado muito impressionada, Melanie. Eras uma criança tão pequena, abandonada, sem nome, sem recordações. Devias estar aterrorizada, mas não, sorrias corajosamente. Dizias piadas e fazias rir as outras pessoas. Parecias... parecias forte, Melanie. Parecias tudo aquilo que eu sempre quis ser.

Mas porquê adoptar-me? A mãe e o pai já tinham falado antes em adoptar uma criança?

Bem, não...

Então, porquê essa mudança? A voz de Melanie ganhara um tom de urgência. Porquê, de repente, adoptar uma menina de nove anos?

Não sei! Suponho que foi como disseste. No momento em que te vi, também te quis.

Porquê, mãe? Porquê?

Não sei!

Sabe, sim, caramba! Quero ouvir. Porquê eu?

Isso não interessa...

Interessa, sim! Bem sabe que interessa. Diga-me. Diga-me agora. Porque é que me adoptou?

Porque eras parecida com a Meagan! Percebeste? Estás satisfeita? Porque quando te vi pensei na Meagan e, depois, tinha de ter-te. Sentia que tinha simplesmente de ter-te... Patricia calou-se. Apercebeu-se do que dissera. O silêncio do outro lado confirmava-o. Meu Deus, que fizera?

Meagan disse a filha com calma. Olhou para mim e viu a Meagan.

Não, não foi isso o que quis dizer! Por favor, Melanie, deixaste-me confusa, pressionaste-me.

Melanie deu a impressão de não a ter ouvido.

Arranjei uma família porque me parecia com uma criança assassinada. O lar, o vosso amor... Durante todo este tempo, a mãe só queria recuperar a Meagan.

Não! exclamou Patricia. Não, não quis dizer isso...

Quis, sim, mãe. Finalmente, estamos a chegar à verdade. Porque é tão difícil na nossa família chegarmos à verdade?

Melanie, querida, escuta-me. Sou humana. A princípio... a princípio talvez eu estivesse confusa. Talvez visse aquilo que queria ver. Sei que não és a Meagan. Lembras-te de quando eu te vestia com vestidos de rendas e te arranjava o cabelo? Lembras-te de como te sentias? E eu percebi, Melanie. Vi que estava a magoar-te. E deixei-me disso. Apercebi-me de que, afinal, não andava à procura da Meagan. A Meagan desaparecera, mas, por bondade de Deus, arranjara outra menina, uma menina diferente, a Melanie Stokes, que gosta de roupa simples e de mobília comprada nas lojas de artigos em segunda mão. Descobri que amava sinceramente a Melanie Stokes. Curaste-me, meu amor. És a melhor coisa que me aconteceu e juro-te, Melanie, a tua vida não foi uma mentira. Amo-te. Verdadeiramente.

Não houve resposta. Apenas um silêncio gélido, que assinalava a dúvida da filha, a mágoa da filha.

Patricia fechou os olhos. Uma lágrima escorreu-lhe pela face. Não a limpou.

Melanie? murmurou.

Amava realmente a Meagan?

Oh, céus, minha filha! Mais do que à própria vida. Novamente o silêncio.

Eu... tenho de desligar agora.

Melanie, também te amo.

Boa noite, mãe.

Melanie...

Boa noite.

O telefone deu um estalido. Patricia ficou sozinha no escuro.

Recordou os dias quentes e soalheiros do Texas com a sua primeira filha, a quem tanto amara. Pensou no bilhete que encontrara no carro. No filho, que já não falava com o pai. Pensou em Jamie O’Donnell e em todos os pecados que nunca poderiam ser desfeitos.

Basta, Senhor desabafou. Esta família já pagou o suficiente.

O Dr. William Sheffield dormia numa cama vaga do hospital, como aprendera a fazer quando era interno. Depois, o ponteiro do relógio chegou às três horas da manhã e a campainha minúscula começou a vibrar.

Sentou-se agilmente, passando de um sono profundo para uma vigília instantânea de um modo que só um médico consegue. Sentiu um leve martelar na nuca. O uísque, evidentemente.

Trouxera antes uma garrafa para o hospital, arranjara um quarto afastado e passara horas a reforçar a sua coragem, manipulando a arma que agora usava sob a bata branca. Não pensava no que encontrara em casa na noite anterior pilhas de órgãos rosados e saudáveis e uma maçã vermelha brilhante em cima da cama, e no espelho da casa de banho as palavras “Temos o que merecemos” rabiscadas a sangue. O calor do uísque transportara-o para aquele lugar especial onde ele era o menino de ouro, o anestesista perfeito, o homem que ganhava sempre à mesa da roleta com o seu número da sorte, o oito.

Só mais algumas, dissera Harper várias vezes ao longo do dia.

É demasiado arriscado, insistira William.

Que disparate, retorquiu Harper com vivacidade, mas William percebia que também ele estava assustado. Nos últimos dias, o calmo e controlado Harper Stokes não parecera tão calmo nem tão controlado. William apanhara-o até a olhar para trás por cima do ombro de vez em quando, como se esperasse encontrar algo de mau atrás de si.

Mais três, no máximo, dissera Harper finalmente. Consegues tratar disso, William. Ficas com o cartão de crédito limpo de dívidas e podes recomeçar do zero, mas continuando a fazer o teu meio milhão como anestesista. Desde que não recomeces a jogar, tens a obrigação de levar uma vida óptima, sem que ninguém saia magoado nem te magoe a ti. Não é o que sempre quiseste?

Era o que William sempre quisera. Uma casa elegante, um carro elegante, roupas elegantes. Os símbolos do êxito a emanarem-lhe do pulso, dos pés, do corpo. Por conseguinte, William concordara. Tomara o seu uísque e, uma hora antes, dirigira-se para a Unidade de Cuidados Intensivos (UCI) e, diante dos olhos de Deus e de todos, injectara um frasco de propanolol no candidato.

Nesse momento, meteu a mão no bolso da bata e mexeu na segunda injecção.

Saiu para o átrio.

Às três da manhã, o hospital oferecia um ambiente calmo e sombrio. Tinham diminuído as luzes por causa dos doentes e as enfermeiras falavam mais baixo. As máquinas pulsavam ritmicamente. Não havia ninguém nos corredores quando William se introduziu na UCI.

O candidato fora admitido naquela manhã. Era assim que William os classificava mentalmente: candidatos.

O candidato dessa noite era um indivíduo do sexo masculino de sessenta e cinco anos. Saudável. Activo. História de doença cardíaca na família vira o pai cair morto de ataque de coração aos cinquenta anos e, por isso, ao primeiro sinal de dor no peito, o homem ligara para o 112 e fora levado para as urgências.

Passara por todo o processo médico, incluindo fluoroscopia, que revelara que não tinha artérias obstruídas. Estava agora na UCI debaixo de sedativos para impedir que arrancasse o cateter. O monitor cardíaco parecia estar bem. Ainda não haviam detectado quaisquer enzimas cardíacas perigosas e o mais provável era o paciente ter alta pela manhã quase como novo.

Só que, uma hora antes, o Dr. William Sheffield injectara-lhe o betabloqueador propanolol, que provocara uma falha cardíaca temporária e que só fora reversível porque a enfermeira lhe administrara meio miligrama de atropina. Fora o primeiro assalto. Era agora altura para o segundo assalto e a enfermeira, assoberbada de trabalho, estava novamente fora do quarto a assistir outra pessoa qualquer.

A culpa era dos cortes no orçamento, pensou William, com o espírito embotado. A culpa era das estúpidas das enfermeiras, que não protegiam de pessoas como ele os que lhes eram confiados. A culpa era dos paranóicos dos candidatos, que julgavam que podiam continuar a comer pizas e pão de alho sem sofrer as consequências.

A culpa era de toda a gente, menos sua. Ele era apenas um garoto solitário e abandonado, que tentava abrir caminho no mundo. Os outros que se cuidassem.

William pegou na válvula do tubo intravenoso e espetou a segunda agulha.

A pulsação cardíaca do candidato caiu para menos de trinta batidas por minuto e o monitor desatou a guinchar em alerta vermelho.

William correu para a porta. Preparava-se para sair quando vislumbrou a enfermeira a correr pelo corredor e uma outra a virar a esquina logo atrás da primeira.

Bolas, iam vê-lo. Como explicaria o facto de estar a sair do quarto? Que fazer?

Esconder-se. William atirou-se para o chão e rolou para debaixo de um contentor de lençóis sujos no exacto momento em que uma das enfermeiras entrava apressadamente no quarto.

Vamos, Harry, vamos dizia a enfermeira. Não me faças isto outra vez.

A segunda enfermeira entrou em cena.

Já tenho pulso.

Ainda respira. Qual é a tensão arterial?

O som irritante da bomba do aparelho de medir a tensão arterial. A enfermeira praguejou perante a leitura, enquanto o alarme do monitor continuava a apitar porque o coração de Harry se recusava a trabalhar mais depressa.

Precisamos de atropina declarou a primeira enfermeira. É a segunda vez esta noite. Vamos, Harry, que estás a tentar fazer connosco? Nós gostamos de ti, juro.

Correu para fora e voltou momentos depois. William ouviu-a bater levemente na agulha para eliminar bolsas de ar.

Atropina, calculou. Por favor, por favor, que ela não deixe cair a agulha e não tenha de inclinar-se para a apanhar.

Vamos, vamos, vamos murmurava a primeira enfermeira. Abruptamente, o sinal sonoro parou. A atropina estimulara com êxito e normalizara a pulsação do coração.

Bem, por agora estabilizou disse a primeira enfermeira com um suspiro.

Chamaste a doutora Carson-Miller?

Ainda não, mas vou dar-lhe uma telefonadela. É o segundo ataque de Harry em apenas três horas. Isto não é bom.

Precisas de mim para alguma coisa?

Não, está tudo controlado. Obrigada, Sally.

Às ordens. Lanche às quatro, certo?

Não falto por nada deste mundo.

Sally retirou-se. A primeira enfermeira pegou no telefone e ligou para a cardiologista de serviço.

Mais uma vez, tudo se passava como planeado.

Harper explicara-lho havia dois anos. Qual é a fraqueza de um hospital? O facto de tudo ter uma rotina. Toda a crise tem um processo. Tudo o que fazemos é planeado e previsível. No fim, a medicina é muito mais trabalho em série do que os médicos querem admitir, e nós podemos explorar isso.

Já por duas vezes entrou em bradicardia explicava a enfermeira à Dra. Carson-Miller, a quem sem dúvida acordara do seu sono noutro quarto vago do hospital. Administrei atropina de ambas as vezes para restaurar o ritmo.

William sabia qual era a resposta da cardiologista.

Duas vezes, hein? Mantenham o Harry sob observação. De manhã, chamamos novamente o médico dele para o observar e o doutor Stokes para uma consulta. Vejam como está o dia dele, está bem? Boa noite.

O telefone deu um estalido. William já conseguia respirar novamente. Estava tudo feito. Ainda se sentia nervosíssimo, mas não sabia ao certo a razão. Afinal, correra como sempre, sobre carris. Dar duas injecções e provocar dois episódios cardíacos no candidato. O cardiologista faz o que é mais sensato e recomenda a inserção de um pacemaker a fim de regular o coração, o Dr. Harper Stokes concorda e está feito.

Porque é que a enfermeira não se vai embora? William precisava que ela desaparecesse.

Ouviu passos, passos sonoros e ressonantes a percorrerem o corredor. Surgiram uns sapatos masculinos. Sapatos italianos de camurça castanha.

O senhor desculpe disse a enfermeira imediatamente, mas não pode entrar aqui.

Pois... disse o indivíduo. Eu sei... é só para a família...

Durante as horas de visita replicou a enfermeira com firmeza. Não são horas de visita.

Ah, sim, Pois, eu sei. Mas pertenço ao FBI...

William mordeu o lábio inferior.

Sou amigo deste indivíduo. Isto é, é um velho amigo da família. Soube que hoje teve dores no peito e foi levado para as urgências. Disseram-nos que não era nada, mas, depois, descobri que estava aqui. Prometi ao meu pai que vinha saber notícias. É claro que o meu trabalho não me permite vir nas horas normais. Só queria dar uma vista de olhos, mas a senhora que está à secretária disse que ele tinha tido problemas. Pode ao menos dizer-me o que está a acontecer?

Era evidente que o homem estava a mentir. Até uma criança de quatro anos podia dizer que o homem era um aldrabão. Um agente do FBI que aparece no hospital às três da manhã para saber de um “amigo”?

E, então, William compreendeu. Era isso o que o bilhete dizia: Temos o que merecemos. E os órgãos, é claro, os órgãos eram um símbolo daquilo que ele e Harper andavam a fazer. Alguém sabia. Alguém mandara o agente à sua procura. A qualquer momento, o agente fingiria que deixava cair a arma, inclinava-se e disparava contra William.

Foste um menino muito mau, muito mau, o Billy é mau.

Oh, meu Deus exclamou a enfermeira. O senhor, realmente, não pode estar aqui. Tenho de pedir-lhe que saia.

Mas ele está bem?

Lamento dizer-lhe que Mister Bóer teve uma noite complicada. O mais provável é ser operado pela manhã, mas só o médico dele pode dizer-lhe mais alguma coisa.

Precisa de uma cirurgia de coração aberto! O indivíduo parecia simultaneamente aflito e triunfante.

Bem, é possível.

Por favor, senhora enfermeira, diga-me exactamente o que aconteceu.

Os pés puseram-se em movimento. A enfermeira conduzia o homem para a porta, e, ao mesmo tempo, ia explicando.

William estava petrificado.

Temos o que merecemos.

Lentamente, levou a mão debaixo do braço e retirou a arma. Destravou-a.

Estava preparado, assegurou a si mesmo. Já não era nenhum garoto assustado e sem carácter. Aprendera muito ao crescer como rapaz franzino num orfanato do Texas.

Tempo de começares a pensar, William. Tempo de tomares o controlo.

Temos o que merecemos.

William tomou uma decisão. Se era assim que a coisa ia ser jogada, pois assim ele jogaria. O Dr. Harper Stokes podia considerar William um tipo inofensivo e talvez mesmo subserviente, mas o Dr. Stokes ainda não vira nada.

 

Na suite escura do Four Seasons, em frente do jardim público, mesmo do outro lado da mansão dos Stokes em Beacon Street, Jamie O’Donnell estava sentado num sofá de veludo azul, um balão de conhaque numa mão e o comando da televisão na outra.

Um bode velho como ele não devia andar a fazer zapping com as luzes apagadas. Devia desligar a televisão e ir deitar-se. Aconchegar-se com Annie e saborear o som suave da sua respiração. Uma bela mulher, Annie. A melhor coisa que já lhe acontecera.

Continuou diante da televisão, percorrendo os canais.

De muitas maneiras, Jamie considerava-se um homem simples. Trabalhara duramente a vida inteira, abrindo caminho com unhas e dentes para sair da pobreza. Matara e vira morrer. Fizera coisas de que se orgulhava e outras em que não queria pensar a altas horas. Faz-se o que se tem de fazer.

Chegara ao Texas com a inocente idade de treze anos. Começara a trabalhar nos campos de petróleo quando tinha apenas catorze anos. Aos vinte, desenvolvera os ombros largos e o pescoço musculoso de um trabalhador braçal. Tinha o rosto geralmente manchado de preto, assim como as unhas. Não era um rapaz bonito, definitivamente, mas não deixara por isso de ter as suas oportunidades.

Quando o Sol se punha, Jamie era sempre o primeiro a sair do campo em direcção aos duches, para depois ir até à cidade. Recintos universitários, era onde ele gostava de ir. Os recintos universitários, o local onde podia sonhar. E foi aí que conheceu Harper Stokes.

Apresentados por amigos comuns, avaliaram-se imediatamente. O perspicaz Harper reconhecera que Jamie não pertencia ao meio de modo algum - aquele homem entroncado e queimado do sol era um estudante. Por seu turno, Jamie vira que Harper também não pertencia ao meio de modo algum - aquele cão de caça esgalgado e espaventoso era um verdadeiro aristocrata. Eram intrusos e ambos sabiam disso. Portanto, passaram os meses seguintes em competição, a ver qual deles conseguiria penetrar na facção das famílias realmente ricas. Intrigavam um contra o outro, ridicularizavam-se mutuamente e acabaram por se tornar amigos.

Harper já então gostava de falar de dinheiro. Vivia obcecado com o que os outros rapazes vestiam, com os automóveis que os outros conduziam. Jamie compreendia. Já passara nos campos de petróleo tempo suficiente para saber que também ele queria um dia vir a ser alguém.

Harper estava constantemente a fazer-lhe sermões sobre o poder da educação e da maneira correcta de falar e vestir. Jamie achava que ele devia ter uma certa razão. Melhorou um pouco a aparência. Em seguida, ensinou Harper a dar um soco bem dado. Ora Bem, era uma coisa que todos os homens deviam saber.

Depois, às sextas-feiras à noite, a educação mútua enveredou por terrenos mais profundos. O instruído Harper, desesperado por encontrar a perfeita esposa da alta sociedade, nem sequer arranjava uma namorada. Jamie, pelo contrário, tinha dúzias de mulheres. Jamie adorava-as e elas de certeza que o adoravam também. Por isso, de vez em quando, tentava pôr uma no caminho de Harper. Parecia-lhe que era o mínimo que podia fazer.

Foi então que Patricia entrou na vida de ambos.

É irónico que as coisas que os homens são capazes de fazer por amor possam ser muito piores do que as que fazem por ódio.

A vida construía-se. Jamie agora sabia disso. De muitas maneiras, ele e o seu velho amigo tinham conseguido exactamente aquilo que queriam. Harper vivia numa mansão em Boston. Tinha a sua esplenorosa esposa, os seus filhos de ouro, a sua brilhante reputação. Presentemente, nenhum indivíduo de sangue azul de terceira geração questionaria o magnífico Dr. Stokes.

Jamie também não podia queixar-se. Percorrera o globo, construíra um império comercial. Ficava nos lugares certos, conhecia todas as pessoas certas. Evidentemente, nem todos os seus amigos pertenciam à alta sociedade. Mas, agora, Jamie tinha poder e ninguém estava a enriquecer à custa do suor do seu rosto.

Dois velhos. Conhecidos de muitos anos.

Depois de tudo, talvez a maior lição a tirar fosse a de que a familiaridade originava desprezo.

Uma hora antes, Harper falara com ele ao telefone, despertando-o do seu sono. A voz de Harper fora calma de mais. A sua cólera contida de mais.

Que andas a fazer, O’Donnell? Já lá vão vinte e cinco anos, cumpri a minha parte do acordo e já estamos velhos de mais para estas tretas.

Jamie bocejara.

Harper, são duas da manhã. Não sei de que estás a falar e não me apetece brincar às adivinhas...

O bilhete no meu carro, caramba. Esta vingançazinha contra o William. Invadir-lhe a casa para plantar uma pilha de órgãos de porco? Tem classe, O’Donnell. Tem muita classe!

Alguém deixou uma pilha de órgãos em casa do William? Jamie riu-se. O pobre do rapaz não ficou maldisposto? Aposto que sim. Pagava para ver, bem sabes. Sempre detestei aquele gajo sem carácter.

Oh, deixa-te de coisas! Quero saber por que razão andas a fazer isto. Caramba, todos nós temos muito a perder.

Estás muito enganado, rapaz. Não sei que diabo se passa nem quem anda a fazer isso, mas, desde esta noite, também faço parte do clube.

O quê?

Também recebi uma prenda. Entregue em mão ao porteiro. Muito bem embrulhada, devo dizer. As fitas até faziam aqueles caracolinhos lindos. Terias gostado, Hap, terias gostado.

E o que era? Harper parecia perplexo. Nunca gostara do inesperado, que lhe roubava o ímpeto da justa cólera.

Recebi um frasco de conserva. E nele, a flutuar, numa merda qualquer que não quero saber o que é, uma pila e respectivos tomates. Um pénis. Um pénis de conserva.

Houve um momento de silêncio horrorizado e depois Harper desatou a rir. Mas a voz era cada vez mais fria ao dizer:

Um pénis, que engraçado! Diz -me, Jamie, ainda sonhas com ela? Ainda desejas a minha mulher?

Por amor de Deus, Hap, vou repetir: não sou responsável pelo que se passa. Já decorreram décadas, homem. Já não estou nessa.

Ah, décadas, é claro. Calculo que nem mesmo as rainhas de beleza parecem as mesmas trinta anos depois...

És um idiota, Harper.

Isso querias tu. Mas quem conquistou a rapariga no fim fui eu, ou não? E sei que isso ainda te humilha, O’Donnell. Muito simplesmente, não consegues aceitar a ideia de que nunca compreendeste a Pat, assim como nunca me compreendeste a mim.

Hap, estás a fugir à questão.

Que questão?

Alguém sabe, Harper. Depois de todos estes anos, alguém sabe acerca da Meagan.

Harper calou-se. Voltou a atenção para o assunto e, em conjunto, recapitularam os factos. Não era encorajador. Harper recebera um bilhete. William um monte de entranhas e um bilhete e, agora, Jamie, um pénis de conserva. Além disso, havia as chamadas silenciosas recebidas por Annie. Finalmente, Larry Digger estava na cidade após todos aqueles anos.

Pode ser ele disse Jamie passados uns instantes.

Não tem imaginação para isso. Nunca teve.

Então e a Patricia? Recebeu alguma coisa?

Não me disse absolutamente nada.

Não diria nada, Harper, pelo menos a ti.

Harper não contestou a afirmação. Independentemente do que gostava de dizer, o seu casamento deixara de ser uma ligação de amor com o passar dos anos e ambos sabiam disso.

Mas diria a Brian salientou Harper por fim. E o Brian estaria zangado o bastante para me contar.

Ainda?

Penso que sabes tão bem quanto eu, O’Donnell, que o meu filho me odeia mais do que nunca. Julgava que isso te faria feliz.

Não disse Jamie com sinceridade. Não faz.

Harper pigarreou. Estava abalado por causa do filho. Geria mal a situação, na opinião de Jamie, mas sentia-se de facto abalado. Isso fez com que Jamie sentisse algo que não estava preparado para sentir depois de todos aqueles anos: pena.

Às vezes, odiava Harper Stokes. Via tudo o que Harper fazia e que a família ignorava, e nessas ocasiões pensava que Harper Stokes podia ser muito bem o demónio. Depois, havia momentos em que até Jamie ficava confuso. Harper parecia amar verdadeiramente o filho. Sentira-se deveras traído pela pequena proclamação de Brian.

A enxaqueca da Melanie disse Harper de súbito.

Que tem?

Parti do princípio de que se devia a tensão nervosa, mas... e se não for? A Melanie não tem enxaquecas há dez anos, nem sequer depois do rompimento com o William. Porquê, então, agora? Só se for mais do que tensão. Só se forem as suas recordações.

Pode ser. Pode ser.

Jamie não conseguia dizer mais nada e percebeu que Harper também estava assustado. A memória de Melanie era a cartada inesperada, a única coisa que podia desmontar tudo. No princípio, andavam constantemente obcecados com isso. Mas, após vinte e cinco anos, supunha que todos estavam mais descontraídos.

A verdade tem vida própria afirmou Jamie por fim. Talvez a única verdadeira surpresa seja ter levado tanto tempo a reencontrar-nos.

Quem diabo pode andar a fazer isto? explodiu Harper.

Não sei.

Então... e tu? Ou o Brian, talvez?

Que tínhamos nós a ganhar, meu velho? Qual seria o resultado? A Melanie odiar-nos-ia profundamente e talvez tu não te importes, mas eu sei que me importo. E tenho a certeza absoluta de que o Brian também. i

É tarde de mais, O’Donnell. Todos nós ganhámos muito para agora perdermos tudo. Vou levar a família para a Europa, e pronto.

Europa?

Oh, não te disse? A voz de Harper tomou um tom de inocência e Jamie sabia que o seu velho amigo preparava a estocada final.

Convidei a Pat esta manhã. Levamos a família toda, incluindo o Brian, de férias. Fazemos as malas e vamos, e o resto que vá para o inferno. Muito romântico, disse a Pat. Parece muito entusiasmada. Eu sei que estou.

Jamie não disse palavra. Agarrou simplesmente o telefone com mais força e ouviu.

Ainda não percebeste, meu amigo? A Patricia ama-me. Sempre me amou. Sei como fazê-la feliz, O’Donnell. Sou do tipo dela. Portanto, toma cuidado com essa pessoa, está bem? Ambos sabemos que quem tem tendência para o trabalho sujo és tu e não eu.

Harper desligou. Mas, apesar disso, Jamie murmurou para o telefone:

Sim, ela sempre te amou. Mas tu nunca te importaste, meu amigo! Arranjaste uma família perfeita e nunca, nunca te importaste

Bateu com o telefone. Depois, simplesmente, sentiu-se cansado.

Quatro da manhã. Surgiu uma curta apresentação das notícias locais. Jamie viu a reportagem de um tiroteio num hotel da Baixa. O jornalista Larry Digger morrera.

Jamie estacou. Harper não mencionara aquilo e ele mesmo não o mandara fazer. Que se passava?

Aumentou o volume de som. O atirador escapara. Um retrato robô relampejou no ecrã e Jamie reconheceu o rosto.

Atirou o comando pela sala e viu-o a desfazer-se em pedaços. Não era o suficiente. Bateu na mesinha de vidro e ouviu-a estilhaçar-se.

Seu sacana! Seu sacana medricas, merdoso e cobardolas! Como te atreves a trair-me assim? Como te atreves a trair-me!

A porta do quarto abriu-se. Ann Margaret deteve-se, envolvida num lençol branco e olhando para ele, confusa.

Jamie?

Vai para a cama.

Ann Margaret não se mexeu.

Jamie, qual é o problema?

Vai-te embora. Vai-te embora.

Ann Margaret aproximou-se mais e disse calmamente:

Que disparate, Jamie. Não há nada que possas fazer que eu não aguente. Amo-te, meu querido. Amo-te muito.

Jamie baixou a cabeça e gemeu.

Sabia que não devia. Mas fê-lo, ainda assim, chegando junto dela em três passadas, com o peito a doer e o corpo coberto de suor. Tomou-a nos braços, sentindo-se ao mesmo tempo maravilhado e humilde.

Aquela mulher tinha a sua própria espécie de beleza, a sua própria espécie de força. Possuía um espírito indomável e uma casca dura e sensível. Sem árvore genealógica, sem palavras extravagantes, sem falsas pretensões. Ann Margaret tinha razão. Fosse o que fosse que ele fizesse, ela conseguia aguentar. Um não era melhor do que o outro, mas também não era pior.

Amava-a por isso. Amava-a profundamente e era uma das poucas coisas da vida que o assustava.

Jamie desprendeu-se dos braços dela. Havia coisas que tinha de fazer e eram incumbências que se desempenhavam melhor no escuro.

A televisão continuava ligada, lançando na sala uma luz fantasmagórica. Impensadamente, Jamie deixara o frasco de conserva à vista. De repente, Ann Margaret viu-o.

Jamie! exclamou. Jamie fechou os olhos.

Chegou hoje explicou abruptamente. É a ideia doentia que alguém faz de uma brincadeira, calculo.

Tem a ver com ela, não tem?

Annie, já foi há tanto tempo...

Mas não o tempo suficiente, Jamie. Não foi há tanto tempo que alguém não se lembre ainda, que alguém não queira pagar para ver.

Jamie não conseguiu replicar.

Ainda a amas?

Não, Annie, não amo.

Ela recebeu um pénis de adúltero? Talvez um cinto de castidade? Jamie pegou-lhe no braço e obrigou-a a olhar para ele.

Annie, disse suavemente, isto não tem a ver com Patricia.

Como sabes? O que se passa?

O Harper recebeu um bilhete, informou Jamie com firmeza.

Que espécie de bilhete?

Da espécie que diz: “Temos o que merecemos.” Além do mais, o Larry Digger está na cidade, a Melanie recomeçou a ter enxaquecas e, Annie, o William também... também recebeu um bilhete. “Temos o que merecemos”.

Oh, meu Deus! A concha dura e sensível estilhaçou-se. Porque é que isto nunca mais acaba?

Não sei. Talvez as coisas sejam simplesmente assim, suponho. Uns têm uma boa vida, outros não.

Jamie prendeu a arma no cinto.

Não deixes ninguém entrar, Annie e não atendas o telefone.

Onde vais? O que vais fazer?

Ainda não sei.

Jamie...

Este dirigiu-se para a porta. Abriu-a. Deu um passo. Voltou-se de novo. Aproximou-se o mais possível para dizer o que lhe ia no coração.

Cuidarei de ti, Annie. De ti e da Melanie. Juro.

Brian Stokes acordou com um salto. Era a quinta vez em cinco horas e o namorado finalmente disse-lhe:

Queres falar sobre isso ou só preciso de ir buscar um pacote de lâminas de barbear?

Deixa-me em paz.

Estavas a sonhar. Ouvi-te dizer um nome. Brian rolou para longe.

Cala-te.

Nate sentou-se. Para além de Melanie, Nate era a única pessoa em quem Brian confiava. Insistia sempre e via sempre de mais. Agora, afastara as roupas e endireitara o pijama no corpo de meia-idade, sinal seguro de que se preparava para uma discussão séria.

Chamaste pela Meagan proferiu gentilmente. Brian, nem mesmo acordado dizes esse nome.

Brian pensou que ia desatar a chorar.

Vai-te lixar. Levantou-se, dirigiu-se para a janela e ficou a olhar para a cidade ainda adormecida. Mas só via as imagens que tinha na mente.

O funeral no dia cinzento e lúgubre. A mãe a desmaiar a meio da cerimónia religiosa devido ao sofrimento e ao gim. O pai, de rosto de pedra, fitando-a como se a odiasse.

O silêncio nos dias que se seguiram. A enorme casa vazia dos gritos agudos da menina.

Harper a gritar uma noite: “Onde diabo estiveste todo o dia? Se ao menos tivesses vindo para casa...”

A resposta da mãe: “Não tive intenção... Não sabia... Pensei que o Brian precisava de algum tempo sozinho comigo... Sabes como ele pode ser, principalmente perto dela.”

“Bem, agora tem-te só para ele, não tem? Pois bem, conseguiu isso.”

Desculpa. Nem sequer sei dizer-te porque era tão cruel.

Nate surgiu atrás dele.

Estás preocupado com a tua irmã, não estás? perguntou, esfregando os braços de Brian. Tens estado assim desde que a foste ver.

Não quero falar disso.

Claro que não, concordou amigavelmente Nate. Até quando vais odiar-te, Brian? E até quando vais odiar a Melanie por se atrever a preocupar-se contigo?

Eu não...

Ela veio pedir-te ajuda. Desde então, nunca lhe telefonaste.

Não compreendes.

Nate olhou-o de soslaio. Já vira Brian nos seus piores momentos, quando estava tão cheio de aversão por si próprio que mal conseguia rastejar da cama. Nate compreendia perfeitamente.

Então, explica-me pediu-lhe. Dá-me um motivo lógico para te afastares da tua pobre irmã.

Pouco à vontade, Brian mudou de posição.

Está melhor sem mim. Está mesmo.

Ah! exclamou Nate. A tua irmã adora-te. Ao primeiro sinal de problema, quem é que ela chama? O irmão mais velho, o Brian. Porque sabe que te preocupas com ela. Porque sempre olhaste por ela. Ela confia em ti. Ama-te. Porque te fazes tão difícil agora?

Brian rangeu os dentes.

É diferente.

A tua irmã precisa de ajuda. Não é lá muito diferente.

É complicado, percebes? A minha irmã não sabe nada sobre a Meagan. Ninguém sabe sobre a Meagan. Caramba, eu não quero saber nada sobre a Meagan!

Sabes disse Nate calmamente, és a única pessoa que conheço que desvendou o seu segredo, assumindo-se como é, mas que esconde um segredo ainda maior.

Eu não...

Andei várias vezes a rodear a questão. Conheço os sinais. Vi outros homens assumirem-se e não é fácil. Mas, em geral, há a seguir um momento de alívio. Mas tu não passaste por essa sensação de alívio, pois não, Brian? Seis meses depois, estás tão tenso e perturbado como antes. Porquê? Se estás finalmente em paz com aquilo que és, porque é que te sentes, de certo modo, mais zangado.

Brian não conseguiu responder, mas Nate não precisava da resposta.

Porque não era esse o segredo mais importante, pois não, Brian?

Brian não respondeu.

As cinco da manhã, a aurora começava a romper no horizonte, banhando as ruas de Boston de tons dourados. O nomem, por fim, afastou-se da janela. Estava cansado devido à noite, longa e difícil, mas também animada.

O jogo estava agora em pleno movimento, os jogadores ainda não se encontravam reunidos, mas moviam-se em torno do tabuleiro. Achava interessante que um grupo de pessoas que praticamente se odiavam umas às outras se tivesse mantido tão unido durante vinte e cinco anos. Tornava fácil segui-las.

Harper olhava por cima do ombro. William usava arma. Brian Stokes sofria longas noites de insónia. Os restantes esforçavam-se freneticamente por guardar os seus segredos.

Um atirador ficara à solta e registara-se a primeira morte.

E Melanie? Nem sequer tinha a certeza de onde ela se encontrava, mas partia do princípio de que estava em segurança. Se assim não fosse, teria sabido.

Melanie era o rei. Era o prémio do jogo, a única razão por que o jogo se desenrolava e a única coisa que ele tinha a ganhar. Vamos, Melanie. Agora tudo depende de ti. Tempo para lembrar, querida. Tempo para juntar os cacos. Tempo de voltar para o papá. Tempo de voltar para mim.

 

Muito bem disse Lairmore com vivacidade. O que se passa?

Às sete da manhã em ponto, o agente supervisor ostentava uma aparência irrepreensível. O fato cinzento de jaquetão era de um corte impecável, a camisa branca meticulosamente passada a ferro e o cabelo de corte militar de um penteado perfeito. Sentou-se à enorme secretária de castanheiro, tendo, atrás de si, o emblema azul do FBI, que proporcionava um halo de treze estrelas, e um estandarte branco com as palavras Fidelidade, Bravura e Integridade. Mesmo durante as reuniões internas, havia sempre e sensação de que Lairmore se encontrava numa conferência de imprensa.

Apesar disso, David gostava dele.

Com quase cinquenta anos, o chefe da brigada de Boston que investigava as fraudes relacionadas com a saúde sabia dizer o que significava cada cor e cada objecto no escudo do FBI. Além disso, iria para o túmulo jurando que Hoover nunca tocara sequer em roupas interiores femininas. Tudo não passava de um horrível mal-entendido. Era conservador, um burocrata, mas também considerava que as fraude nos serviços de saúde eram a pior epidemia de crime que varria os Estados Unidos desde o aparecimento do crime organizado - dez centimes por cada dólar desperdiçados, para não mencionar os tratamentos deficientes, os procedimentos desnecessários e os riscos para a vida humana e dava a vida para acabar com tudo aquilo. Era um homem que acreditava no que fazia. Segundo David, uma raridade nos tempos que corriam.

Lairmore fitava agora os dois agentes, que não tinham pregado olho.

Oh, por amor de Deus exclamou finalmente, ao menos não podiam ter tomado um duche e feito a barba? Não estamos numa festa de solteiros.

David e Chenney olharam um para o outro. Abanaram a cabeça.

Estive a vigiar o Sheffield explicou Chenney por entre dentes. Iluminaram-se-lhe os olhos. Descobri uma coisa importante!

A investigar a Meagan Stokes, disse David. A esquivar-me de balas. A falar com o agente especial supervisor Quincy.

Falou com o Quincy? De Quântico?

Sim, ontem à noite, já tarde. Também está sempre no gabinete. Que diabo se passa com esta profissão?

Chenney fitou David com espanto.

Fixe!

Por amor de Deus! Lairmore levantou-se da cadeira. Já para o corredor.

Saiu de rompante com os outros dois atrás. Meteu moedas na máquina de café e estendeu-lhes os copos fumegantes que a máquina cuspiu. Ambos aceitaram, balbuciando qualquer coisa. E depois seguiram obedientemente o mal-humorado chefe de volta ao gabinete, onde David ouviu um sermão pessoal por ter exorbitado das suas funções e perturbado uma investigação “muito importante, se não crítica”. David saboreou o resto do café e arrumou os pensamentos de forma a parecer inteligente quando tivesse oportunidade. Esta chegou mais cedo do que desejava.

Comecemos pelo caso da Meagan Stokes. Laimore bateu na secretária com a pasta do caso Harper Stokes/William Sheffield. Como diabo é que você acabou a trabalhar num homicídio resolvido há vinte e cinco anos?

David começou pelo princípio e acabou por afirmar a sua crescente certeza de que toda a família Stokes tinha segredos piores do que qualquer fraude.

Lairmore concordou em parte.

A maior parte dos delinquentes tem um padrão de fraudes menores no seu passado. Talvez começassem por intrujar no campo do seguro automóvel e depois refinavam-se na falsificação de facturas de farmácia. Mas em toda a minha vida, agente, nunca ouvi falar de uma pessoa que começasse por uma conspiração para assassinar a própria filha a fim de receber o dinheiro do seguro e depois descesse para os crimes de colarinho branco.

Nem sequer sabemos se o Harper Stokes anda a cometer qualquer fraude no serviço de saúde, quanto mais se teve algo a ver com a Meagan, disse David, sorrindo com expressão fatigada. Pessoalmente, o Quincy inclina-se para a mãe...

O Harper anda a fazer isso! explodiu Chenney. Descobri. Apanhei o Sheffield!

Chenney explicou a aventura da noite anterior num longo afluxo de adrenalina: Harry Boer tivera dores no peito e fora levado à pressa para as urgências. A noite, encontrava-se na UCI, sob o efeito de sedativos, mas parecendo estar bem. Então, pimba!, sofrera dois episódios de bradicardia no espaço de cinco horas e estava agora a ser submetido a uma operação para colocação de um pacemaker, realizada nada mais nada menos do que pelo Dr. Harper Stokes. E calhara William Sheffield ter sido avistado na enfermaria da UCI por várias vezes, horas depois de terminado o seu turno e sem ter pacientes seus naquela enfermaria. Andava só “por ali”. Convenientemente “por ali”, se se perguntasse a Chenney.

A primeira coisa que fiz hoje de manhã foi telefonar a uma amiga minha que é farmacêutica anunciou Chenney. Disse-me que se se quiser que se pense que alguém precisa de um pacemaker, há dois medicamentos que interferem eficazmente com a transmissão eléctrica do coração. São o propanolol e a digoxina. O propanolol é um betabloqueador, utilizado para tornar mais lento um coração acelerado. A digoxina também pode tornar mais lentos os ventrículos, mas também pode acelerar o coração a níveis letais.

“Portanto, concluiu Chenney com um floreado, o Sheffield introduz-se sorrateiramente nas enfermarias da UCI à noite, e é por isso que está tanto tempo no hospital. Uma injecção de propanolol causaria alguma preocupação, mas provavelmente não levava a que um cardiologista recomendasse de imediato uma operação. No entanto, se acontecessem uns quantos episódios seguidos...

Nesse caso, parece que os doentes têm problemas circulatórios e precisam de ser operados, concluiu David.

Brilhantemente simples, observou Lairmore. O Sheffield não devia precisar de mais de dois minutos para cada injecção. Depois, preparam-se todos para um acto médico que dura uma hora, com o qual Harper amealha dois mil dólares pela operação e quatro mil dólares de direitos, uma vez que usa os seus próprios pacemakers concebidos para cada cliente. Se fizerem algumas operações por semana...

O Sheffield não tem problemas em pagar as dívidas de jogo e o Harper pode gastar tudo o que lhe apetecer. David suspirou. Uma coisa estamos a aprender sobre o Harper Stokes: gosta de um bom nível de vida.

Lairmore ia anuindo pensativamente com a cabeça. Chenney voltara a parecer preocupado.

Mas, mesmo que consigamos provar que o Harper Stokes anda a ganhar dinheiro com operações ilegítimas, de que forma isso se relaciona ao que aconteceu à Meagan Stokes há vinte e cinco anos?

Era o que eu gostaria de saber. David inclinou-se para a frente, plantou os cotovelos nos joelhos e, apesar de se sentir cansado como um cachorro depois de uma noite passada a vasculhar documentos e a suportar os músculos doridos, entrou no assunto. Estudei o processo inteiro da polícia de Houston a noite passada e daí resultaram algumas descobertas-chave sobre o caso da Meagan Stokes. A primeira é que, em mil novecentos e setenta e dois, os Stokes estavam em maus lençóis em termos financeiros. Viviam numa casa grande, mas que fora um presente do pai da Patricia, não algo que o Harper pudesse proporcionar. O Harper era apenas médico interno, mal fazia dez mil dólares por ano e tinha de andar a pedir para manter o estilo de vida a que a mulher estava habituada. Fizera uma segunda hipoteca sobre a casa e já tinha três prestações em atraso quando a Meagan desapareceu. No fundo, e do ponto de vista financeiro, o assassínio da Meagan foi a melhor coisa que podia ter acontecido ao Harper e à Patricia Stokes.

Portanto, temos um motivo concluiu Lairmore. Mas Chenney não estava convencido.

Se fosse só uma questão de dinheiro, o Harper não podia ter pensado, já nessa altura, nas suas operações?

Não, os médicos internos recebem salário, não são pagos por acto médico. Uma operação de pacemaker por semana ou uma dúzia teria sido o mesmo para ele.

Agora, quem tinha uma objecção era Lairmore.

Mesmo assim, o doutor Stokes podia ter feito outras coisas: vender drogas do hospital, receber luvas dos delegados de informação médica. Todos nós sabemos que há muitas maneiras de os agentes de saúde, seja qual for o nível, abusarem das suas posições por dinheiro. Por conseguinte, creio que a objecção do Chenney tem razão de ser. Chegámos à conclusão de que o Harper e a Patricia Stokes precisavam do dinheiro, mas você ainda não me convenceu de que são do tipo de pessoas capazes de matar uma filha a sangue-frio para o arranjar.

Muito bem, tem razão. Isso leva-me à minha segunda descoberta-chave. Não só o Harper possuía um motivo, como praticamente toda a gente da família tinha problemas nessa altura. Não se contentando com um suspeito, em mil novecentos e setenta e dois a polícia tinha quatro: Harper Stokes, Patricia Stokes, Jamie O’Donnell e, acreditem ou não, Brian Stokes. David assentiu com a cabeça perante as expressões atónitas dos outros. Exactamente. Esta família não tem só esqueletos no armário, tem verdadeiros cemitérios. Portanto, se não gostam do Harper para o homicídio, olhemos para qualquer um dos outros.

“Patricia Stokes. Muito antes de conhecer o Harper, era rica. Nascida em berço de petróleo, criada por um pai moderadamente dominador e para quem ela era a menina dos seus olhos. Parece que o pai não gostava muito do Harper, achava que não era suficientemente bom para a filha; mas isso não o impediu de oferecer à sua menina um casamento de sonho e uma mansão no cimo da colina. Infelizmente, quando a Patricia deparou com o seu futuro como mulher de médico, descobriu que não gostava daquela vida. Ainda antes de o Brian ter largado as fraldas, já ela se mostrava inquieta e aborrecida. Desatou a gastar montes de dinheiro. Passava a vida em festas. E começou a estar mais tempo com o Jamie O’Donnell do que com o marido, ao passo que o marido parecia passar mais tempo com enfermeiras de vinte e poucos anos do que com a mulher.

“Segundo amigos da família, fizeram uma tentativa de reconciliação. O Harper começou a ir a casa mais vezes e tomaram a decisão de terem um segundo filho, a Meagan. Desta vez, parecia resultar. Com duas crianças em casa, a Patricia desistiu das festas e dedicou-se finalmente à maternidade. Entregou-se a actividades de beneficência e entrou para algumas organizações, mas, na maior parte do tempo, ficava satisfeita por adorar os filhos. De acordo com a governanta, ela e o Harper voltaram a partilhar o mesmo quarto, mas a governanta nunca teve de mudar os lençóis, se percebe a minha insinuação.

Muitos casamentos acabam assim comentou Lairmore suavemente. Se isso fosse sinal de actividade criminosa, teríamos de deter todos os maridos e mulheres casados há mais de cinco anos.

Exacto respondeu David, sorrindo, mas ainda não acabámos no que diz respeito aos Stokes. Portanto, agora temos a Meagan em cena. Há o Harper e a Patricia e os dois filhos, felizes daí em diante. Mas então, seis meses antes do assassínio da Meagan, a Patricia e o Harper começaram a discutir todas as noites. Uma criada parece ter contado algo a amigos da família e a Patricia despediu-a no dia seguinte. E, espanto dos espantos, o Jamie voltou a rondar.

Ele e a Patricia têm alguma coisa... disse Chenney.

Assim parece. A polícia não o conseguiu provar, mas ninguém acredita que ele ande a rondar a casa por causa da boa cozinha. E a Patricia já tinha começado a dar no gim. Toda a gente diz que foi o assassínio da Meagan que a fez passar dos limites, mas a polícia conseguiu descobrir que isso começou antes da morte da Meagan. Precisamente antes, o que significa que, fosse o que fosse que se estivesse a passar, pusera a Patricia num estado de espírito problemático. E quem sabe o que as mulheres fazem quando se encontram num estado de espírito problemático?

Lairmore assentiu lentamente, estendendo os lábios.

Interessante. Portanto, temos um médico materialista e viciado no trabalho, uma esposa infeliz e alcoólica e um triângulo amoroso com o amigo da família. Qual é exactamente a ligação do Jamie O’Donnell com os Stokes?

É um velho amigo do Harper dos tempos da universidade, o que não quer dizer que o O’Donnell a frequentasse. É apenas um autodidacta e um homem que se fez a si próprio. Começou a trabalhar nos campos de petróleo e foi daí que partiu. À superfície, ele e o Harper fazem um par inverosímil, mas são ambos lutadores. É evidente que seguiram caminhos totalmente diferentes para chegar ao topo. Harper é hoje um pilar da comunidade e da família, ao passo que o Jamie conhece gente. A Interpol tem um ficheiro sobre o indivíduo.

O quê? Aquilo despertara a atenção de Lairmore. David fez-lhe um sinal com a mão.

A Interpol tem andado desesperada para provar que ele trafica armas, mas nunca encontrou mais nada a não ser que tem companhias interessantes. Fora isso, dirige um negócio legal de importações, paga os seus impostos pontualmente e quando veste as calças enfia uma perna de cada vez como todos nós.

Nós não andamos todos a dormir com a Patricia Stokes proferiu Chenney com secura.

David encolheu os ombros.

Exacto. Portanto, até agora, temos o motivo do dinheiro e o triângulo amoroso. Talvez o Harper andasse tão furioso com a mulher que decidiu que matar a Meagan seria uma boa maneira de a castigar e também de resolver as atribulações financeiras. Ou talvez o Jamie O’Donnell pensasse que a Patricia nunca deixaria o Harper enquanto tivessem filhos juntos e por isso tenta remediar o caso. Ou se calhar num dia em que a Patricia estava demasiado tensa e tinha bebido um pouquinho mais, a Meagan tivesse escolhido essa altura para a irritar e bum!, adeus Meagan. Chegamos agora à possibilidade número três: o Brian Stokes.

Esta família está cada vez melhor resmungou Chenney.

Não são propriamente uns santos concordou David. O Brian, em especial, tem uma história muito perturbada. De acordo com o relatório da polícia de Houston, era frequente ele partir coisas em casa e era sabido que punha a mãe a chorar praticamente todas as noites. O detective que os interrogou escreveu que a ama tinha ordens estritas para não deixar o Brian sozinho num quarto com a Meagan. Segundo parece, destruíra propositadamente alguns dos brinquedos dela. Depois, para rematar em beleza, começou a fazer terapia em mil novecentos e setenta e dois. Penso que o Brian tinha já uma história de brincadeiras com fósforos.

Está a gozar comigo! Lairmore endireitou-se na cadeira. Não me diga que também molhava a cama e torturava animais!

Lairmore referia-se à violenta tríade desenvolvida pelos analistas criminais. Por qualquer razão, os assassinos em série tinham sempre no seu passado pelo menos dois lados deste triângulo. Mas Brian Stokes não.

Só umas fogueirinhas indicou David. Mas, para tornar as coisas ainda mais interessantes, ele e a Patricia não têm álibi para o dia em que a Meagan desapareceu. A Patricia disse à polícia que levara o Brian ao psiquiatra. A polícia confirmou, mas, às dez da manhã, a consulta já terminara. A polícia verificou a chamada que a ama fez às duas da tarde a dizer que a Meagan desaparecera do seu carro. As cinco, a Patricia e o Brian entraram em casa, onde aparentemente foram ambos surpreendidos pela notícia.

E quanto ao Harper Stokes ou ao Jamie O’Donnell? perguntou Lairmore. Têm álibis?

David abanou a cabeça.

O Harper alega que estava a trabalhar, mas nunca ninguém foi testemunha disso. O O’Donnell disse que esteve fora da cidade, mas nunca apresentou provas disso. Melhor ainda, a polícia nem sequer está convencida de que a ama estivesse a dizer a verdade sobre a hora em que a Meagan foi levada. Mal falava inglês, desviava os olhos quando respondia às perguntas e passou a maior parte do tempo a deslizar para junto do Harper. Pensaram que ela pudesse estar envolvida com ele até certo ponto ou, pelo menos, que queria ter a certeza de que ele aprovava o que ela estava a dizer. Com todas as probabilidades, a Meagan pode ter sido levada a qualquer altura de qualquer lugar. Naquele dia, a Meagan Stokes desapareceu pura e simplesmente. No dia seguinte, o bilhete de resgate surge no hospital onde o Harper trabalha e mais uma vez nada se viu nem ouviu do raptor. Depois, oito semanas mais tarde, o corpo da Meagan é encontrado por um homem que andava a passear o cão.

“O Quincy tem razão. Tudo no caso da Meagan Stokes cheira mal a quilómetros de distância e todo e qualquer membro da família está empestado com o mesmo cheiro. Se o Russell Lee Holmes não tivesse confessado, a polícia teria investigado os Stokes e o O’Donnell até ao tutano. E, enquanto a investigação estivesse em curso, a companhia de seguros não pagaria nada. Acontece é que a confissão de última hora do Russell Lee ao Larry Digger valeu à família o fim de uma investigação muito embaraçosa e um milhão de dólares.

Pois, murmurou Lairmore. Como foi conveniente o Russell Lee Holmes ter confessado!

Exactamente disse David. Exactamente.

O Quincy vai reabrir este caso? perguntou Lairmore.

Foi o que ele disse. Mas creio que não precisa de reabri-lo oficialmente. Estamos a investigar como parte do nosso caso.

Não, disse Lairmore.

Não!

Lairmore retribuiu o seu tom incrédulo com um olhar severo.

Com o devido respeito, agente, você está ligado aos casos de fraude nos serviços de saúde. Aqui o agente Chenney descobriu que temos uma alegação viável contra o doutor Harper Stokes e o doutor William Sheffield, se conseguirmos provar as suas actividades. Esse caso é trabalho seu. Esse caso precisa da sua concentração.

Mas o atirador, o Larry Digger...

Serão investigados pelo Departamento da Polícia de Boston, uma vez que cai sob a alçada deles. Tal como o caso da Meagan Stokes está em mãos muito capazes com o Quincy.

- Caramba! David saltou da cadeira, fitando o supervisor, incrédulo. Este caso é meu! Dei o couro e o cabelo para somar dois mais dois, tenho num hotel uma mulher aterrorizada que não sabe sequer se é seguro voltar para casa para junto da família, e descobri uma ligação directa com o caso em que já estou a trabalhar.

Você não descobriu ligação nenhuma ripostou Lairmore, lançando a David um olhar de aviso. David ignorou-o.

Ora essa! Com que então não descobri? Há vinte e cinco anos, os Stokes precisavam de dinheiro e a filha morreu e proporcionou-lhes um milhão de dólares. Agora, o Harper anda novamente a viver acima das suas possibilidades e arranjou outra maneira de conseguir dinheiro, operando gente inocente para conseguir lucros. É um padrão de comportamento.

Naquele momento, até Chenney olhava para David como se este tivesse enlouquecido.

Não há padrão nenhum. O assassínio de um filho nem sequer se aproxima remotamente da utilização ilegítima de pacemakers.

O primeiro é uma fraude em relação aos seguros, a segunda é uma fraude nos serviços de saúde.

O primeiro é homicídio! O segundo é crime, é certo, mas um pacemaker desnecessário nem sequer é perigoso. O pacemaker só é activado se a pessoa tiver um ataque cardíaco.

Pode correr mal e essa pessoa morrer na mesa de operações. É pôr imprudentemente em perigo a vida humana.

O que continua muito longe do assassínio de um filho.

O agente Chenney tem razão, observou Lairmore. Você demonstrou o motivo, agente Riggs, mas não demonstrou a personalidade. Sabemos que o Harper Stokes gosta do seu estilo de vida, talvez o suficiente para cometer fraudes, mas que provas temos de que ele fosse capaz de cometer um homicídio? O Harper Stokes tem uma história de violência?

Não.

Maus tratos aos filhos, maus tratos à mulher? Negligência?

Não.

Criou dois filhos saudáveis. Não houve correrias para as urgências, não houve discussões que os vizinhos relatassem. E, no seu primeiro relatório acerca do Harper Stokes, você não escreveu que ele tinha fama de ser um pai carinhoso e de que era bastante generoso com a mulher?

David rangeu os dentes.

Sim.

Quanto à Patricia Stokes. Sei que o Quincy levanta algumas questões acerca do corpo cuidadosamente embrulhado, mas, pergunto de novo, há alguma história de maus tratos ou negligência?

A Patricia Stokes tem um problema de alcoolismo.

Que voltou a surgir há seis meses. Houve relatos de violência nessa altura?

David viu-se obrigado a abanar a cabeça.

O que nos leva ao Jamie O’Donnell. Talvez tenhamos ali um passado criminoso. De acordo com o Larry Digger, o O’Donnell visitou a parteira no Texas, mas, também neste caso e segundo os relatórios, ama a afilhada e é íntimo da família.

“Isso só nos deixa o Brian Stokes prosseguiu Lairmore. Mas, como nós próprios admitimos, o Brian adora a segunda irmã e sempre a protegeu muito. Admita, agente, que este caso o ultrapassa. Os motivos estão lá, a oportunidade está lá, mas nenhum dos jogadores faz sentido, pelo menos aos nossos olhos. Por conseguinte, deixe isto para os peritos. Para o Quincy.

Estão relacionados insistiu David, obstinado, e dou-lhe uma última razão.

Lairmore e Chenney pareciam impacientes por ouvir a exposição e acabar com aquilo.

A pessoa que telefonou, declarou David. O informador anónimo que nos alertou para as fraudes nos serviços de saúde estava ao mesmo tempo a alertar o Larry Digger em relação à Melanie. A ordem do dia do informador parece ser a vingança da Meagan Stokes, certificar-se de que toda a gente tem o que merece. Logo, se ele nos mete nisto, é porque os casos estão relacionados, estão todos relacionados.

Lairmore continuava céptico, mas, por fim, suspirou.

Muito bem, agente. Dou-lhe uma última oportunidade. Comprove-me a personalidade de cada um. Traga-me uma prova qualquer de que o Harper, a Patricia ou o Brian Stokes são suficientemente cruéis ou frios, ou clinicamente instáveis, ao ponto de urdirem a morte da Meagan Stokes, de quatro anos, e eu deixo-o trabalhar no caso... nas suas horas de serviço. Neste momento, creio que as fraudes nos serviços de saúde são o único caso viável que os meus agentes têm.

Óptimo, anuiu David, conciso.

Como Lairmore não queria ouvir mais nada sobre homicídios com vinte e cinco anos, concentraram-se no ângulo da fraude que Chenney pusera a descoberto. Podiam provar o motivo - dinheiro e a oportunidade. Mas precisavam de provas materiais ou do depoimento de uma boa testemunha presencial. As testemunhas presenciais, infelizmente, eram muito difíceis de arranjar num ambiente hospitalar. Havia demasiados médicos e enfermeiros que nunca se afastavam de junto da maioria dos doentes e os médicos e enfermeiros tinham um código de silêncio. Não se traíam uns aos outros, nem mesmo quando viam sinais de um crime.

Por consenso, decidiram pôr Chenney no hospital disfarçado de auxiliar. Podia perambular pela UCI, fazer perguntas às enfermeiras e talvez até apanhar Sheffield em flagrante.

A David foi entregue a divertidíssima incumbência de elaborar a pista documental. Esquadrinhar as declarações de finanças para provar a necessidade da prática do delito. Procurar provas de transacção inexplicáveis de dinheiro entre Harper e Sheffield.

Depois, voltou a atenção para Melanie Stokes, onde iniciara previamente o seu trabalho. Mas, no fim do dia, apenas dera razão às objecções de Lairmore. Com excepção das enxaquecas, Melanie estava de perfeita saúde, não tinha um único osso partido, nem uma única contusão por explicar. Era descrita como uma pessoa feliz e bem adaptada, e que tinha as melhores festas de aniversário do bairro.

Tudo indicava que a família inteira seria capaz de dar a vida por ela.

 

Melanie acordou na manhã de terça-feira a pensar em Meagan e na família a quem tanto amava e por quem se considerava amada.

Levantou-se, pôs-se diante do espelho do roupeiro e olhou para o seu reflexo. Caramba, não se parecia com Meagan. Nem de longe era tão bonita.

Deu uma sapatada no roupeiro e depois desceu rapidamente a escada.

David não estava, mas deixara um bilhete na mesa da cozinha.

Fui a uma reunião. Volto depois das cinco. Lembre-se, não saia. D.

Pousou o bilhete e percorreu o aposento. Encontrou legumes no congelador e uma embalagem de café instantâneo no armário. Pôs água a ferver para ter alguma coisa que fazer. Enquanto a água aquecia, retirou a agenda da carteira e deu uma olhadela às marcações para aquele dia. Os livros já deviam ir a caminho do alfarrabista. Marcara um almoço com uma velha amiga de Wellesley, seguido de uma reunião à tarde com a comissão do baile de Inverno do hospital pediátrico. Estava-se quase em Junho e ainda tinham de organizar o programa das festas. Era tudo um desastre à espera de acontecer.

Melanie pegou no telefone e cancelou tudo. Estava com gripe, disse. Toda a gente foi compreensiva. Encorajaram-na a descansar. Claro que se arranjavam sem ela.

Desligou, sentindo-se decepcionada. Queria que ficassem desanimados; apercebeu-se, finalmente, de que desejava exclamações como: “Precisamos de ti, Melanie”, e “Nunca conseguiremos nada sem ti.”

És especial, Melanie. Indispensável. Não és a substituta de uma filha.

Caramba, como pôde a mãe dizer que queria Meagan de volta? Como pôde olhar para Melanie e ter visto Meagan?

Teve sempre só a ver com a Meagan?

Todos eles sentiam o mesmo? A mãe, o pai, o irmão, o padrinho. As pessoas que a tinham levado consigo e lhe haviam dado um lar. As pessoas em quem confiava e a quem considerava sua família.

Melanie resolveu afastar as perguntas e tentar descobrir as respostas.

Numa folha de papel desenhou um círculo e denominou-o como Meagan. Depois, em volta, desenhou círculos para a mãe, o pai, o irmão e Jamie. Em seguida, desenhou Russell Lee Holmes, Larry Digger e ela própria. Finalmente, acrescentou Ann Margaret. David parecia achar que ela estava envolvida e, naquela fase dos acontecimentos, Melanie não podia excluir quaisquer possibilidades. Assim sendo, desenhou também William Sheffield.

Nove pessoas diferentes, todos em redor de uma menina.

Desenhou linhas, unindo Meagan à mãe, ao pai, ao irmão e ao padrinho. Era uma coisa que a aborrecia... como ficar a saber que havia outra mulher na vida do amante. Mas era verdade. Meagan viera primeiro. Melanie acrescentou a relação de Larry Digger como jornalista. Não conseguia descobrir linhas directas para William Sheffield ou Ann Margaret.

Russell Lee Holmes era ainda mais perturbador. Queria escrever “assassino”, mas Quincy levantara dúvidas de mais. Russell Lee estava então ligado, não directamente a Meagan, mas às outras pessoas que a rodeavam.

Após um momento de hesitação, desenhou uma linha entre si mesma e Russell Lee Holmes. Pai e filha. Ali, preto no branco.

Depois disso, achou que o resto fluía mais facilmente.

Um pouco depois das cinco e meia, David bateu três vezes à porta e entrou. Trazia um saco de papel. Do sofá, Melanie arqueou interrogadoramente uma sobrancelha.

Trouxe comida chinesa anunciou David. Ergueu o saco, tentando avaliar a disposição dela.

Óptimo concordou Melanie. David dirigiu-se para a cozinha.

Carne de vaca picante com laranja e frango à general Tsao.

É bom.

Apesar dos receios de David, Melanie não estava zangada com ele. Passara o dia com o diagrama e este dera-lhe aquilo de que mais necessitava: uma prova conclusiva de que a sua família não podia ter morto Meagan Stokes. Isso deixara Melanie feliz.

Saltou do sofá e seguiu David até à cozinha.

David tirara o casaco, desapertara a gravata verde com cornucopias e enrolara as mangas da camisa até aos cotovelos. Estava a precisar de um corte de cabelo. Este exibia marcas nos locais onde David passara repetidamente os dedos e, aos cantos dos olhos, lá estavam novamente as mesmas rugas.

Tinha o ar de quem passara um dia difícil e, por momentos, Melanie sentiu-se tentada a pousar-lhe a mão no rosto. Perguntou-se se ele se afastaria quando lhe tocasse. Perguntou a si mesma se se aproximaria mais...

Melanie gostara da maneira como ele a abraçara na noite anterior.

As tigelas estão no armário, indicou ele.

Melanie tirou-as para baixo e serviram o jantar. Comeram em silêncio durante metade da refeição, até que David lhe perguntou:

Como foi o seu dia?

Estive a ver o Jerry Springer. Não preciso de dizer mais. E o seu?

David mergulhou no arroz frito.

Preferia ter visto o Jerry Springer. Conseguiu dormir alguma coisa esta noite?

Um bocadinho.

Não voltou a sonhar com a Meagan?

Uma mistura. A Meagan Stokes naquela cabana. Mas você também lá estava.

David olhou para ela, surpreso. Um bago de arroz decorava-lhe o lábio inferior e, sem pensar, Melanie retirou-o com o polegar. O movimento apanhou ambos desprevenidos e Melanie retirou rapidamente a mão.

Hum... Eu estava na cabana consigo e com a Meagan Stokes disse Melanie com uma leve falta de ar.

Comigo? David parecia desconcertado e estudava cuidadosamente a tigela. Que estava eu a fazer lá?

Limpezas.

O quê?

Melanie engoliu mais uma garfada.

A Meagan Stokes estava ao canto da cabana, agarrada ao cavalinho, e muitíssimo assustada. Então, você entrou na cabana e começou a limpar. Varreu o chão, tirou as teias de aranha e lavou as janelas. Oh, e também pendurou cortinados.

Eu pendurei cortinados? David parecia aflito. Isso é mais do que servir e proteger.

Eram cortinados muito bonitos disse Melanie. A Meagan estava contente.

De serviço como criada resmungou, empurrando para longe a tigela vazia. Dêem-me uma capa de governanta e o dia fica completo.

Suspirou, e Melanie ficou chocada com o cansaço do rosto dele.

Bem disse David com ar sério, quer ouvir o que fiquei a saber hoje?

Melanie afastou a tigela e endireitou os ombros.

Claro. Conte-me já. O que foi?

Nada proferiu David sem cerimónia. O grande agente do FBI não ficou a saber nada. Todo este caso muito simplesmente não faz sentido. Levantou-se e começou a limpar a mesa.

O atirador?

O Jax disse que perguntaram nos hospitais locais e regionais. Até agora, nem sinal.

E outras provas do quarto do Larry Digger? Os apontamentos?

Nada, nada de nada. David dirigiu-se para a cozinha e colocou as tigelas’ no lava-louça.

E quanto ao caso da Meagan? Voltou a falar sobre isso?

Claro, voltei a analisá-lo com o meu supervisor e com Chenney. Todos concordámos que o Quincy levantou excelentes questões. Eu de certeza não acredito que o Russell Lee o tenha feito. Isso deixa-nos com a sua família, como sabe. Têm realmente motivos.

O dinheiro, recordou Melanie em tom monocórdico e levantou-se. O assunto era demasiado doloroso para falar dele sentada. O seguro de vida de um milhão de dólares.

Melhor do que isso. Pensamos que a sua mãe e o Jamie O’Donnell deviam ter um caso naquela altura.

O quê?

Observações da polícia. O O’Donnell passava muito tempo lá em casa e os seus pais enfrentavam grandes dificuldades matrimoniais. Cenas de gritos, esse tipo de coisas.

Melanie abanou a cabeça.

Os meus pais não gritam um com o outro. Têm “discussões” atrás de portas fechadas.

Sim, bem, mas naquele tempo brigavam o suficiente para atrair a atenção de empregados e amigos. Parece que o seu pai não era muito fiel...

Gosta de seduzir... de flartar... Melanie ergueu uma mão e concordou. Talvez faça mais do que isso, mas, por estranho que pareça, acha que a minha mãe não se importa. Tive sempre a impressão de que ela aceita o trabalho e o estilo de vida do meu pai como uma prerrogativa masculina. Homens são homens.

O que é bom para mim...

Melanie franziu os lábios, não apreciando a afirmação. Mas, na verdade, parecia que eram mais as coisas que ela não sabia do que as que sabia acerca da família.

Aproximou-se da mesinha de apoio e pegou no bloco do hotel que revelava o seu trabalho do dia.

Chegamos, então, ao seu irmão disse David.

O Brian tinha nove anos!

E estava suficientemente perturbado para frequentar um psiquiatra. Além disso, a sua própria mãe dera ordens à ama para não o deixar sozinho com a Meagan. Parece que o Brian tinha muitos ciúmes dela e lhe destruía os brinquedos todos. Lembre-se de que ele disse que tinha atirado o cavalinho de madeira contra a lareira.

“Portanto, até agora, temos dinheiro, amor e instabilidade mental, tudo isto no seio da sua família. Mas há um senão. Verifiquei a fundo o passado de todos e não há absolutamente nada que sugira que são capazes de assassinar uma criança de quatro anos.

Melanie assentiu, determinada, com a cabeça e brandiu o bloco-notas.

Exactamente! Olhe. Escrevi o que o Quincy disse sobre a pessoa que cometeu o crime e fiz uma pequena análise por minha própria conta e risco. Tenho contestado que a minha família pudesse tê-lo cometido porque os adoro a todos. Mas, como isso não pesa nas investigações criminais, resolvi encarar a minha família da sua perspectiva.

Sentou-se no sofá e pousou o bloco-notas na mesinha. David sentou-se ao pé dela. Melanie sentia o calor do corpo dele junto à sua perna. Começou a falar mais depressa e manteve os olhos fixos no diagrama.

Aqui estão a Meagan e a minha família. Aqui, o que sabemos acerca das relações entre eles e aqui o que sabemos sobre cada um individualmente. Estive a pensar no que o Quincy disse sobre a análise de perfis psicológicos, que se procura a vertente subjacente ao comportamento. Não tenho a certeza de poder afirmar com objectividade se os meus pais são boas ou más pessoas, mas creio poder afirmar com objectividade se são pessoas dinâmicas, se são rigorosas ou se são desleixadas.

Muito bem, anuiu David, estudando o desenho. Até aqui, concordo consigo.

Aqui, está o que o Quincy disse acerca da pessoa que matou a Meagan Stokes. Essa pessoa é rigorosa e tem conhecimentos sobre as normas de actuação da polícia. Depois, essa pessoa tem de ser suficientemente esperta e credível para poder aproximar-se da Meagan. Além disso, desconfio de que a pessoa tem de ser bastante dura para lidar com gente da laia do Russell Lee Holmes. Porém, ao mesmo tempo, a pessoa é maternal, ou, pelo menos, preocupa-se e tem remorsos suficientes para embrulhar a Meagan numa manta e sepultar o corpo.Também tem de sentir-se culpada pelo que fez. Suficientemente culpada para... bem, para a decapitar.

Mesmo no papel, aquele aspecto do crime ainda a horrorizava. Engoliu em seco e, como não queria perder o impulso, uma vez que tinha claramente toda a atenção de David, raspou com a ponta do lápis contra o diagrama.

Ora bem, temos aqui uma combinação única de características. Nítida, não lhe parece? Portanto, vamos dar uma olhadela aos nossos jogadores. O meu pai, que é muito rigoroso e dinâmico. Mas, francamente, por muito que o ame, posso afirmar-lhe que não é paternal. Abraços e beijos pertencem ao departamento da minha mãe. Quanto a conhecimentos sobre procedimentos policiais, estou convencida de que em toda a sua vida o meu pai nunca teve sequer uma multa por excesso de velocidade. Não vê filmes policiais nem lê nada sobre crimes reais, por isso creio que neste aspecto é um fiasco total. Além disso, suficientemente duro para abordar e/ou intimidar o Russell Lee Holmes? Por favor, este homem não suporta passar uma semana sem ir à manicura. O Russell Lee comia-o vivo.

“Então, e quanto à minha mãe? Pois bem, enquadra-se, porque é maternal, cheia de remorsos e de sentimentos de culpa. Mas acha realmente que a minha mãe é uma pessoa rigorosa? Não viu como as mãos dela tremem? E apesar de a considerar uma mulher inteligente, não tem esse tipo de inteligência e muito menos conhece os procedimentos policiais. Também não há qualquer possibilidade de ela se aproximar sequer de um homem como o Russell Lee. Consegue imaginar isso? Por conseguinte, também não se enquadra.

“Agora, o meu padrinho... Vou ser franca. Tive sempre a impressão de que o Jamie sabe muito. Tem uma maneira de se mover, percebe? Se formos mulher e ele nos amar, é muito tranquilizador, é como estarmos junto do miúdo mais forte da escola. Resistiu a muitas dificuldades e calculo que conseguisse intimidar um homem como o Russell Lee Holmes. Também é provável que saiba alguma coisa sobre os métodos da polícia. Mas o Jamie não é rigoroso. Não tem papas na língua, é materialista e falta-lhe, digamos, polimento. No entanto, não consigo ver o Jamie a fazer mal a uma criança. No mundo dele, isso seria... desonroso, calculo. O Jamie seria capaz de ser cruel para quem ameaçasse alguém que ele amasse, mas cortaria a própria mão antes de fazer mal a uma criança. Na verdade, até se mostra um pouco paternal com as crianças. E sem dúvida é afectuoso e amoroso comigo e com o Brian. Não possui essa combinação de insensibilidade fria e rigorosa.

“Depois, temos o meu irmão.

É médico, interrompeu David. Portanto, deve ser rigoroso.

Com nove anos? E o que saberia ele de procedimentos policiais, David? E de que forma um garoto de nove anos convenceria o Russell Lee Holmes a confessar um crime que não cometera? Não está a ver? Melanie voltou-se e fitou-o com seriedade. Não há ninguém nesta folha de papel que se enquadre naquilo que o Quincy procura. Não sou perita, é verdade, mas, postas a este nível, as coisas não batem certo. O assassino não é, pura e simplesmente, da minha família. Ponto final.

Melanie descontraiu-se. Mas, então, David tirou o diagrama de frente dela. Pegou no lápis. Traçou algumas linhas. E com facilidade, tirou-lhe as ilusões.

Tem razão, Melanie disse com ar simples. Tem toda a razão. Por si só, nenhum indivíduo satisfaz todas as exigências. Mas é isso que nos tem vindo a dizer a mensagem e fui parvo em não me ter apercebido mais cedo. Não foi só uma pessoa a receber bilhetes, foram todas. E se as reunir a todas... David fitou-a nos olhos.

A sua mãe, o seu pai, o seu irmão ou o seu padrinho não poderiam ter cometido este crime. Mas esta família, pelo contrário...

Não, disse Melanie.

Sim, replicou ele. Lamento, Melanie. Mas, sim. Melanie teve de levantar-se do sofá. Percorreu a sala algumas vezes com os pensamentos em turbulência.

É a combinação murmurou David, tomando notas rápidas e parecendo falar consigo mesmo. Como indivíduos, falham. Mas, como grupo, cobrem todas as características e áreas de conhecimento de que precisavam para executar o crime. O Harper imaginou o pedido de resgate e surgiu com a ideia de forjar um crime. A sua mãe, cheia de sentimentos de culpa, cobre o corpo da Meagan. O seu padrinho desfaz-se do corpo, penso eu, e trata do negócio com o Russell Lee Holmes quando a polícia começa a fazer demasiadas perguntas. Consegue que o Russell Lee Holmes confesse o assassínio da Meagan em troca de um lar para a sua própria filha na sua actual família. Pense em como o Russell Lee deve ter gostado da ideia. Uma vida inteira a odiar a pobreza e, um dia, recebe uma oferta para levar a filha para a alta sociedade. Que negócio!

Mas... mas o assassínio protestou Melanie. Ninguém é suficientemente cruel para cometer o assassínio. Você mesmo disse que ninguém é suficientemente cruel para cometer o assassínio!

David olhou para cima com ar distraído. Sobressaltada, Melanie apercebeu-se de que aquilo para ele se transformara num exercício académico, num quebra-cabeças que o agente tinha de solucionar. Sentiu-se chocada.

- E se não tivesse sido um assassínio? Se fosse um acidente? Se o pequeno Brian Stokes, um dia, tivesse simplesmente ido longe de mais num acesso de ciúmes violento?

Oh, meu Deus! murmurou Melanie, horrorizada.

Pense nisso, Melanie. Brian aos nove anos. Ataca a Meagan, ou por ciúmes ou por raiva, e que fazem os pais? Já tinham perdido um dos filhos.

Não.

O seu padrinho também me parece leal para com ele. Além disso, faria tudo para evitar mais sofrimento à Patricia. Finalmente, temos uma situação que justifica que os três adultos ultrapassem as suas diferenças e trabalhem em conjunto.

Mas a decapitação, a mutilação.

Talvez se vissem obrigados. O Quincy disse que a decapitação também pode ter a ver com o encobrimento de um crime. Tentaram imitar um assassino que estrangula as suas vítimas. Mas se foi um acidente o que matou a Meagan? Pode ter caído pelas escadas, pode ter-se ferido na cabeça. Tinham de decapitá-la, ou descobrir-se-ia a verdadeira causa da morte. Se ela fosse atingida por um objecto contundente, podia haver partículas de tinta, fibra ou metal enterradas na ferida que podiam ser utilizadas para seguir a pista da arma do crime. Por conseguinte, preso por cem, preso por mil. Decapitam o corpo, tiram-lhe as mãos para esconder outros ferimentos ou provas materiais e inventam uma história a imitar um assassino em série qualquer, sobre o qual andaram a ler nos jornais. Melanie abanava a cabeça.

Mas a polícia não está convencida prosseguiu David. O Harper não sabe pormenores suficientes, portanto a sua tentativa de imitação falha. Depois, o Russell Lee é detido e por isso resolvem ir directamente à fonte. O Jamie. O Jamie faz-lhe uma visita. E chegam a acordo.

David fitou-a com ar sombrio.

Lamento, Melanie, mas este argumento tem solidez. Você é filha do Russell Lee Holmes e eles ficaram consigo na noite em que o Russell Lee morreu para encobrir o que aconteceu à Meagan cinco anos antes.

Está enganado, está enganado repetia Melanie. Apertava-se fortemente com os braços em volta do corpo e a voz

saiu-lhe num tom mais desesperado do que pretendia.

David levantou-se do sofá. Tinha nos olhos uma expressão que Melanie nunca vira anteriormente. Talvez ternura. Talvez compaixão. Pegou-lhe nas mãos e depois, num movimento que ela não esperava, puxou-a contra o corpo e encostou-lhe o rosto ao peito. Melanie apercebeu-se pela primeira vez de que estava a tremer de forma incontrolável. Depois, sussurrou-lhe roucamente contra a têmpora:

Talvez. Mas não há dúvidas de que o Larry Digger foi morto. Nem que dispararam contra si.

Melanie foi-se abaixo. Os joelhos cederam e teria caído se David não estivesse já a segurá-la. Agarrou-se à camisa dele para se apoiar. O seu corpo inclinou-se para ele e David agarrou-a com mais força.

Tudo isto vai passar murmurou-lhe junto do cabelo. Não consentirei que lhe façam mal. Não consentirei que ninguém lhe faça mal.

A minha família, a minha família... Amo-os. Enterrou o rosto no ombro dele e encostou-se mais.

A tempestade durou um pouco. Gradualmente, Melanie foi-se apercebendo de que David a conduzia para o sofá. Estendeu-se com ela, envolvendo-a com o corpo esbelto. Afagou-lhe o cabelo e as costas. Depois, os lábios dele afloraram-lhe a face e a curva da orelha. Terno. Suave.

Melanie voltou-se para ele com ardor, prendeu-lhe os lábios com os seus e beijou-o profundamente. Lábios contra lábios, respiração entrecortada. Melanie arqueou o corpo contra o dele, tentando enterrar-se no tacto, no sabor, na sensação. David apoderara-se totalmente dela, mergulhando a língua na sua boca, enchendo-a, tornando-a completa...

Porém, quando os seios dela incharam e os mamilos endureceram e todo o seu corpo ficou inquieto e contorcido, ele afastou-se. Melanie ouvia-lhe a respiração entrecortada e o coração a bater desenfreadamente. Viu que as mãos dele tremiam.

Mais não, disse ele em voz rouca.

Porque não?

Porque não estaria certo. Quero que as coisas sejam correctas. Levantou-se de imediato do sofá, apercebendo-se de que Melanie não estava com disposição para ser recusada e ele não estava em condições de vencer. A frente das calças sobressaía com a sua erecção e teve de fechar as mãos e enfiá-las nos bolsos de trás para evitar agarrar nela novamente.

Melanie pensou em forçar a situação. Ele desejava-a e ela precisava de ser desejada. Por alguém.

Mas David tinha razão. Melanie estava desesperada e mais tarde odiaria ambos.

Levantou-se do sofá e dirigiu-se à janela.

Nunca me fizeram mal, David. Foram muito bons para mim.

David não respondeu. Os minutos foram passando.

A polícia devia apanhar rapidamente o atirador disse David, por fim. Depois de lhe pormos as mãos em cima, é capaz de nos dizer uma ou duas coisas.

Como quem o contratou.

Exactamente.

E depois ficamos a saber.

Exacto.

Está bem, anuiu Melanie. Está bem.

David ergueu os braços acima da cabeça e alongou as costas.

Preciso de dormir um pouco.

Eu sei.

Fica levantada? Sente-se bem?

Sim, estou bem.

Vamos levar isto até ao fim acrescentou ainda David. Vamos mesmo.

Melanie sorriu simplesmente. Já não tinha tanta certeza. E perguntava-se se não haveria verdades que era melhor nunca conhecer.

David dirigiu-se para o quarto. Depois, parou e voltou-se, com uma expressão indecifrável nos olhos.

Sabe uma coisa? perguntou-lhe calmamente. Você não precisa deles tanto quanto pensa. Você é mais forte do que julga.

Que tem isso a ver com o facto de eu os amar?

David não encontrou resposta.

Melanie ficou levantada quase toda a noite. Sentou-se no sofá com os joelhos contra o peito e os braços em volta das pernas. Pensava nos pais, no irmão e no padrinho. No modo como a haviam sustentado, como a faziam rir, como a mimavam. No modo como lhe prodigalizavam o seu tempo e atenção, como se ela fosse o presente há muito aguardado e que afinal lhes pertencia.

Antes de adormecer, pensou: Se eu for realmente filha do Russell Lee Holmes, porque é que o Quincy diz que as minhas recordações acerca da cabana não correspondem à verdade? E se tudo tivesse sido feito para proteger o Brian, não se importariam com o facto de agora ele ter sido deserdado pela família?

O atirador, pensou Melanie, já meio tonta. O atirador falará.

Mas não teria essa sorte. Na manhã seguinte, ela e David acordaram com o telefone a tocar. Era o detective Jax. Encontrara o atirador, sim. Mas, infelizmente, o homem estava morto.

 

Não vai ser agradável avisou David.

Melanie limitou-se a assentir com a cabeça, mantendo os olhos afastados da janela do lado do passageiro, onde os camiões desciam vertiginosamente a Auto-Estrada 93 e fábricas distantes lançavam para o ar penachos de fumo. Estavam a aproximar-se da zona portuária de Boston. Sentiu o primeiro cheiro a maresia.

O Jax disse que ele estava dentro de água informou David. Isso fá-los sempre ter pior aspecto. Na verdade, Melanie, você devia esperar até que o corpo tivesse sido tratado. Pode identificá-lo por vídeo na morgue.

Mas só amanhã de manhã estaria pronto, não é?

O serviço de homicídios de Boston está um pouco sobrecarregado de trabalho.

Então, faço isso agora reafirmou com convicção, como vinha dizendo desde que haviam recebido o telefonema. Se for ele, e estiver morto, posso voltar para casa. Não faz sentido prolongar isto mais do que o necessário.

Não devemos tomar decisões precipitadas salientou David vagamente, o que foi o bastante para Melanie saber que David ia levantar objecções. Dirigiu-lhe um olhar rápido, mas David recusou-se a enfrentá-la. Era óbvio que não pretendia entrar em discussões naquele momento. Muito bem, podia esperar até ver o corpo. Não mudaria de ideias. Passara muito tempo a pensar na noite anterior e formara algumas opiniões muito suas.

Voltou-se para a janela do carro. A saída apareceu à direita e David cruzou três faixas de estrada para se dirigir para lá. Um turista buzinou. Ninguém mais pareceu reparar. O molhe surgiu à vista. Como caminho para o local do crime, era difícil de falhar.

Carros da polícia pretos e brancos enxameavam o local e a estrada estava cortada com fita amarela. Um agente da polícia musculoso adoptara uma posição agressiva no exterior do perímetro e fez sinal para que se afastassem até que David lhe apresentou as credenciais. Como se fosse o cartão de sócio de um clube restrito, as insígnias do FBI autorizavam-nos a ver o morto em primeira classe.

Estacionaram ao pé de dois carros pretos e de um velho calhambeque. David abriu-lhe a porta. Melanie apercebeu-se de que ele fazia sempre isso, até puxava para trás a cadeira para ela se sentar à mesa. Obra da mãe, pensou ela, e aceitou a mão dele para sair do carro. Porém, quando lhe ofereceu o braço, ela abanou a cabeça. Preferia fazer sozinha aquele caminho.

Aproximaram-se de um grupo de detectives vestidos informalmente e de um perito médico. O ar era desagradável devido ao cheiro a maresia, sublinhado pelo forte odor adocicado da decomposição. Aquela zona do porto de Boston não tinha nada de panorâmico e Melanie nunca passara ali muito tempo. Havia uma velha fábrica de conservas de peixe que já vira melhores dias. Na água estagnada, escura e oleosa, via-se peixe morto e gaivotas a boiar e, naquele dia, o cadáver de um homem. Apesar de todos os avisos de David, Melanie retraiu-se perante o cheiro.

O detective Jax voltou-se para os cumprimentar. Mais uma vez, tinha um palito entre os dentes. Deu um aperto de mão firme a David e dirigiu um sorriso simpático a Melanie.

Como está, Miss Stokes?

Ainda não levei nenhum tiro. Devo estar melhor do que na segunda-feira.

O detective Jax esboçou um sorriso e ostentou novamente um ar sério.

Só queria saber se está preparada, não é bonito.

O David avisou-me.

Tem a certeza de que não quer esperar pela gravação da morgue?

Como disse...

Pronto, pronto, já percebi. Está farta do FBI e quer ir para casa. Muito bem. Então aqui está a encomenda. Não precisa de o fixar nem nada. Dê-lhe só uma vista de olhos. Diga-nos se acha que é ele. Uma olhadela e pronto.

Ir para casa e esquecer tudo? murmurou ela; depois, seguiu o detective Jax até ao pé do corpo. David pousou-lhe a mão na cintura.

Não havia possibilidades de engano quanto ao morto. Estava de cara virada para cima no asfalto rachado. Uma cara intumescida, acinzentada e semelhante a borracha. Mãos inchadas por cima da cabeça, meio descarnadas por terem servido de alimento aos peixes. Fato escuro ensopado e coberto de algas. Buracos pretos na camisa branca onde duas balas se haviam alojado.

Desta vez não havia sangue. A água lavara-o.

Que lhe parece? perguntou o detective Jax.

É ele. Continuou a olhar para o cadáver. Não o conseguia evitar. Os mortos nunca tinham o aspecto que ela julgava. Com Digger, fora demasiado sangrento. Com este homem, era demasiado esquisito. A água transformara-o numa coisa parecida com uma boneca de cera.

Dá a impressão de que foi atingido duas vezes e à queima-roupa disse o detective Jax para fazer conversa. Provavelmente ontem. Vai levar algum tempo a identificá-lo, porque não tem documentos e não restam muitas pontas de dedos. Calculo que os peixes tiveram um verdadeiro banquete. Vamos enviá-lo para o laboratório para análise. A água torna tudo mais difícil, mas requisitei o Jeffrey Ames para fazer o trabalho. O Jeff é o melhor.

Conheço o Jeff interveio David. É bom.

Conhece o Jeff? O detective Jax passou o palito para o canto esquerdo da boca e fitou David com curiosidade.

Sou membro da Associação de Tiro do Massachusetts explicou David. O Jeff também treina lá.

Você é membro dessa associação? Um momento, David Riggs. É filho do Bobby Riggs?

David confirmou com a cabeça. O rosto do detective Jax iluminou-se.

Santo Deus, muito prazer em conhecê-lo. Adoro o Bobby. O homem faz um trabalho espantoso. Dê os meus cumprimentos ao seu pai, está bem? Oh, e diga-lhe que quero levar-lhe a minha arma. A danada da mira está a pôr-me doido.

Eu digo-lhe. Quando lhe parece que terá o relatório preliminar?

Talvez dentro de umas quarenta e oito horas. Vou apressá-los, mas estamos um pouco assoberbados actualmente. Por estes lados, a Primavera é complicada.

Sabem quem o matou? perguntou Melanie calmamente. O seu estômago começara a andar às voltas.

Não temos testemunhas, se é isso que quer dizer. Continuamos a revistar minuciosamente a zona, mas, até agora, nem armas, nem vestígios de sangue; portanto, foi provavelmente baleado noutro sítio qualquer. Talvez os rapazes do laboratório encontrem alguma coisa nos sapatos ou na roupa que nos auxilie a encontrar o local do crime. É espantoso o que uns poucos químicos bons são capazes de fazer nos dias de hoje.

E quanto aos apontamentos que ele levou? Os papéis que estavam no quarto do Larry Digger?

O detective Jax abanou a cabeça.

Nada. Palpita-me que ele se encontrou com o contacto, lhe entregou o que tinha e ficou à espera de ser pago. Mas talvez quem o contratou não tivesse ficado muito satisfeito com a confusão que ele provocou ou então o serviço ficou só meio feito. Portanto, encerrou o negócio pagando-lhe com chumbo. Entre ladrões não há honra.

Então, ainda não sabemos nada realmente murmurou Melanie. É certo que este indivíduo está morto, mas quem o contratou pode muito simplesmente contratar outro, e outro, e... A voz de Melanie subiu de tom. Afinal, aquilo abalara-a.

David e o detective Jax observavam-na com atenção. Melanie respirou fundo e concentrou-se na sensação quente e familiar da mão de David na sua cintura. Anuiu com a cabeça e todos se descontraíram.

Então, rapazes, tencionam começar a explicar-me as coisas, ou tenho de esperar até encontrar o próximo cadáver? perguntou o detective Jax.

Não sei replicou David. Quando é que está a planear encontrar o próximo cadáver?

Oh, santo Deus, trabalhar com agentes federais é um inferno! Jax cuspiu o palito. Ouça, vou investigar isto da melhor maneira, agente Riggs. Não tenho os recursos do FBI nem os seus técnicos, mas, que diabo, agrada-me pensar que nós, pobres patetas locais, conseguimos apresentar um espectáculo bastante bom. Ora bem, quer fornecer-me algumas pistas, ou tenho de andar a farejar como um cãozinho chihuahua?

Larry Digger disse que tinha provas sobre a identidade dos meus pais biológicos. Melanie decidiu lembrar esse pormenor. Parece que alguém não quer que eu saiba.

Porquê? Actualmente, toda a gente vai à procura dos pais biológicos. É uma coisa quase tão popular como consumir alimentos com baixo teor de gordura.

Porque o meu pai biológico talvez seja um assassino em série. E talvez fosse vergonhoso para a minha família se se descobrisse que tinha adoptado conscientemente a filha de um homem desses.

Dispunha agora da total atenção do detective Jax.

Bem, conte-me lá, isso muda as coisas. Então, esse Larry Digger afirmava que tinha provas das suas origens?

Era o que ele dizia. Nunca chegámos a vê-las, mas ele contou-nos uma boa parte da história.

E alegava que, mesmo assim, os seus pais conscientemente a adoptaram? Têm bom coração, ou quê? Não sabia que o pessoal de Beacon Street era capaz de ir procurar fora das boas famílias. Jax olhou de relance para Melanie. Miss Stokes, sou capaz de dançar tão bem como qualquer outro tipo, mas este tango é ridículo. Se quer que eu a ajude, conte-me tudo francamente. Verei o que posso fazer. Bem-vinda à “Escola de Justiça do Jax”. Entendido?

Inútil será dizer que há uma investigação em curso disse David suavemente. Ouça, detective, se quer ajudar, eis aquilo de que mais necessitamos: o nosso atirador morreu, mas ainda não sabemos quem o contratou e, uma vez que o trabalho não ficou completo da primeira vez, há uma boa possibilidade de existir um segundo contrato contra a vida da Melanie. Se souber de alguma coisa...

Creia que lho dou a saber. Jax voltou-se para Melanie, abanando a cabeça. Trabalharei nisto o mais que puder e, além disso, tem aqui um belo guarda-costas, mas estas coisas levam tempo. Só dentro de alguns dias é que disponho do primeiro relatório laboratorial, e isso partindo do princípio de que as análises iniciais produzem resultados abundantes. Com corpos que estiveram dentro de água, pode ser preciso mais tempo. Posso dizer desde já que as balas são de chumbo macio e portanto não devem ter estrias, o que significa que o laboratório terá de determinar o tipo de arma pela classe e não pelas características. Isso também leva mais tempo. A sério, minha senhora, vamos ter algumas semanas pela frente até começarmos a descobrir a primeira pista e, considerando que a senhora já está em perigo...

Ele tem razão concordou David, que acabara de encontrar um aliado para a sua causa. Levo-a novamente para aquela casa, Melanie. Compramos-lhe roupa e inventamos uma boa desculpa para os seus pais. Que diabo, pode dizer-lhes que precisou de algum tempo para pensar em si mesma. Não é totalmente mentira. E decerto é muito mais seguro...

Não.

Sim...

Não! Sei quem sou, David. Tenho vinte e nove anos, vivi os últimos vinte na casa dos Stokes, lá é que é o meu lugar.

Ora essa! Vai conseguir que a matem...

Você não sabe ainda nada! Não tem a mínima prova, só um ramalhete de teorias remotamente interligadas e que não justificam que me afaste. Para ser mais explícita, nunca havemos de passar das teorias se eu me fechar num quarto de uma casa alugada. Em última análise, pode considerar que a minha ida para casa é o meio mais eficaz para que a investigação avance.

Não quero que corra riscos por causa deste estúpido caso...

A escolha não é sua, David. É minha e vou para casa! Rodopiou e deu um passo em direcção ao carro, mas David agarrou-a pelo braço.

Não se meta na linha de fogo.

Não me farão mal insistiu Melanie, obstinada. Não farão.

Você é cega, teimosa e totalmente ignorante quando se trata dos seus pais. Está tão enfronhada na sua romântica noção do que a família significa que há-de conseguir que a matem!

Obrigada pelo elogio, David. Também eu confio na sua capacidade de discernimento e inteligência.

Libertou o braço com um puxão e dirigiu-se de imediato para o carro.

O detective Jax soltou um assobio fraco.

Creio que a fizemos zangar.

Ela não entende.

A rapariga está diante de um cadáver. Creio que entende perfeitamente.

Não, não entende. David voltou-se para Jax. Ainda não a compreendeu, detective. Ela foi abandonada e isso tolda-lhe o raciocínio. A família é perfeita. A família deve estar a precisar dela. É um sonho maravilhoso, um sonho compreensível. É que vai matá-la.

O detective Jax encolheu os ombros.

E se fosse a sua família, Riggs? Se estivéssemos a falar do seu pai? Quem seria o ingénuo nesse caso?

Oh, cale-se! ordenou David em tom sombrio, e foi ter com Melanie ao carro.

Dirigiram-se para a Baixa em silêncio, David tamborilando com os dedos no volante e Melanie a olhar resolutamente pela janela.

Você é mesmo casmurra! disse David por fim. Melanie esboçou um ligeiro sorriso.

Acho que é de família.

Sorriram ambos, e depois David explodiu:

Caramba, você não pode ignorar o facto de que alguém a quer ver morta!

Não estou a ignorá-lo.

Está a caminhar para a proverbial boca do lobo!

Não. Não estou! Vou para casa, que é um direito meu. Vou beijar a minha mãe no rosto, vou dar um abraço ao meu pai. Vou à caça do meu irmão para uma conversa séria de coração na mão e depois vou encurralar o meu padrinho para uma boa e longa conversa.

Porque está convencida de que, como por magia, eles lhe vão contar tudo? Baixou a voz para um tom sarcástico. Seja o que for que tenha acontecido à Meagan, mantiveram-no em segredo durante vinte e cinco anos. Agora, alguém foi mesmo ao ponto de contratar um assassino. Por conseguinte, não creio, que confessem pura e simplesmente. Nem mesmo à filha preferida.

Melanie fez uma longa inspiração de ar.

Eles não são maus.

Não tenho tanta certeza. Caramba, Melanie! De repente, David deu uma palmada no volante. Vai obrigar-me a dizê-lo?

Talvez.

Sou um agente. É irregular.

Diga-me então só entre nós, Mister Riggs.

David resmungou, mas Melanie não se compadeceu. Até ali, não se apercebera de como aquilo era importante para ela. Inclinou-se para David. Olhou-o intensamente. Acabara por precisar dele mais do que imaginara. Na verdade, também gostava de saber que ele se importava com ela. Que os últimos dias não tinham sido uma ilusão.

David falou apressadamente.

Importo-me, caramba! Você é importante para mim, Melanie, mais do que julga, e não quero vê-la magoada.

Eu sei.

E compreendo-a, percebe? Eles são a sua família e, embora eu decerto não ganhasse o prémio de filho do ano, a minha família também é importante para mim. Se estivesse em causa o meu pai ou o meu irmão, não sei se lidaria melhor com a situação.

Tenho de confiar neles, David. Eles sempre mostraram que gostam de mim.

É evidente que gostam de si, Mel. Você é a pessoa mais parecida com a Meagan Stokes que eles alguma vez conseguiriam.

Melanie encolheu-se. Sabia que David tentava provocá-la e conseguia-o. Ardiam-lhe os olhos. Estava à beira das lágrimas.

Não havia ninguém no mundo que não anseasse por ser amado simplesmente pelo que era. Não lhe parecia justo da parte dele afirmar que, fizesse ela o que fizesse, seria sempre a filha substituta, a “outra”.

Voltou-se e olhou pela janela.

David saiu da auto-estrada, seguiu pela zona comercial e emergiu em Beacon Street. Três quarteirões até casa. Abrandou a viatura. Melanie esforçou-se por se recompor, mas, quando David parou o carro, ainda não se sentia preparada.

Tenha cuidado disse-lhe ele em tom suave e já sem sombra de mau-humor. Parecia genuinamente preocupado e isso emocionou-a.

Obrigada respondeu, afagando-lhe a mão. David retirou a mão e abanou a cabeça.

Não quero a sua gratidão. Já passei das marcas o suficiente para fingir agora que se trata de cortesia profissional.

Pois, faz parte do seu encanto.

Não tenho qualquer encanto. Estou velho, sofro de artrite e sou de trato difícil. Metade do tempo tenho a personalidade de um porco-espinho. Não me diga que possuo algum encanto.

Mas é verdade, porque debaixo de tudo isso sei que bate um bom coração.

Fantasia feminina, resmungou.

Verdade.

David deu a impressão de que ia continuar a discutir, mas, depois, suspirou e, desta vez, foi ele quem lhe pegou na mão.

Melanie, por inúmeras razões que acho que conhece, não posso vir visitá-la, nem passar pela sua casa.

Já esperava isso.

Você vai estar realmente entregue a si própria.

Também sei.

E isso assusta-me terrivelmente.

Acredito.

Muito bem, então. Aqui tem o número do meu bíper, Escrevinhou num pedaço de papel o número. Se estiver em apuros, eu venho. Se tiver um pesadelo, eu venho. Se tiver uma recordação má, eu venho. Basta marcar o bíper, compreendeu? Cá estarei, Melanie. Cá estarei.

Melanie pegou no pedaço de papel.

Obrigada, agradeceu. E viu-o crispar-se de novo perante a sua gratidão. Tenho de ir agora.

Mel, espere.

Melanie não esperou. Saiu do carro. Começou a andar e não olhou para trás, nem sequer quando o carro arrancou e se afastou.

Depois, ficou só.

As flores de cerejeira ondulavam alegremente. O perfume dos jacintos tornava o ar vivo e fragrante. Um belo dia numa bela cidade.

Melanie olhou para a casa de tijolo de três pisos que era o seu lar. Viu as sólidas portas de nogueira, o pesado portão de ferro. Viu as janelas de sacada do seu quarto.

E, por um momento apenas, estremeceu de medo.

Depois, abriu a porta e entrou.

 

Maria, a empregada, cumprimentou-a com um aceno de cabeça amistoso. Olhou para as roupas amarrotadas e os cabelos em desalinho de Melanie, mas não manifestou estranheza. Os pais e o Senor O’Donnell estavam a almoçar no terraço das traseiras. Melanie queria comer alguma coisa?

Melanie recusou com a cabeça e dirigiu-se ao terraço.

Jamie vinha a sair da porta das traseiras e deteve-se ao vê-la, com uma expressão de surpresa no rosto.

Melanie? disse o padrinho com hesitação, abrindo os braços, como sempre, mas obviamente inseguro.

Melanie também o abraçou, apercebendo-se de que precisava daquele contacto mais do que julgara. Antes de ela se recompor, ele afastou-a a todo o comprimento dos braços e agarrou-a firmemente.

O que se passa, rapariga? Soube que desapareceste por dois dias sem dizer palavra. Porque é que preocupas assim a tua mãe? Nem parece teu.

Melanie não respondeu imediatamente. Confrontada pelo primeiro membro da família, descobriu que não tinha a certeza do que queria dizer. Ou talvez não tivesse a certeza do que queria ouvir. David tinha razão. Era mais difícil do que pensara. A primeira pergunta que fez até a ela apanhou de surpresa.

Gosta de mim?

É claro, rapariga! És a minha mulher preferida no mundo inteiro.

Porquê?

Porquê? O padrinho arqueou uma sobrancelha e fitou-a com ar mais sério. Estás maldisposta. Bem, não sei. Porque é que se gosta de alguma coisa, Melanie? Suponho que porque sim.

Será? Jamie, sempre esteve presente na minha vida. Na festa da minha recepção nesta casa, no meu primeiro dia de escola, nos meus anos, nos meus bailes de beneficência, tudo. É interessar-se muito pela vida de uma afilhada.

Bem, és uma afilhada especial.

Mas, porquê? Porque é que gosta tanto de mim, Jamie? Que quer de mim?

A voz de Melanie subiu de tom. O padrinho afastou-lhe de imediato a tristeza. Disse-lhe simples e calmamente:

Gosto de ti por seres tu. E a única coisa que quero de ti é que sejas feliz.

Melanie pensou que era uma das coisas mais bonitas que já ouvira e uma fracção de segundo depois soube que não acreditava numa única palavra. Pela primeira vez na vida, duvidava do padrinho.

Os momentos foram passando e o silêncio foi-se tornando cada vez mais constrangedor. A expressão de Jamie passou de terna a preocupada.

Se alguma coisa estivesse a passar-se contigo, contavas-me, não? perguntou-lhe Jamie finalmente.

Não sei. Se alguma coisa estivesse a passar-se consigo, contava-me, não?

Não, não contava.

Porquê? Tenho vinte e nove anos, estou preparada para ouvir...

E eu tenho cinquenta e nove, sou mais velho e sei mais do que tu.

Sabe mais sobre quê, Jamie? Sabe mais sobre um jornalista chamado Larry Digger, ou sobre a parteira da mulher do Russell Lee Holmes? Sabe mais sobre o Brian e a Meagan Stokes?

O padrinho estudou-a. Os olhos dele eram agora mais penetrantes, mais sabedores.

Não sobre o Brian respondeu ele. Mas sobre ti, rapariga. Sobre ti.

Jamie...

Este afastou-se, fingiu sacudir o pó da gabardina com um golpe súbito.

Vou estar na cidade por uns tempos, Melanie. Só te digo que o negócio navega a todo o pano. Por isso, se precisares de alguma coisa, é óbvio, fitou-a significativamente, telefona-me para o Four Seasons. De dia ou noite, cá estarei.

Jamie...

Conheci uma mulher, Mel, já te disse? Estou a pensar assentar, talvez ficar por cá. Que te parece? Consegues imaginar-me casado? Bah! Tens razão, tens razão. Que ideia a minha imaginar-me como homem de família? Isso é coutada do teu pai, como sabes. Estou outra vez a sonhar. Estou a ficar sentimental e ridículo com a idade.

Jamie...

No Four Seasons. É só marcares o número e o teu velho padrinho cá estará. Agora tenta dormir um pouco.

A seguir, desapareceu.

Um minuto depois, Melanie abriu as portas de vidro e saiu para o terraço.

Os pais estavam a almoçar sozinhos. Harper vestia a bata do hospital e lia o jornal; devia ter tido uma operação naquela manhã. Patricia, sentada à sua frente, cortava pedacinhos de toranja, que acompanhava com bocados de tosta. Desde que se lembrava, a mãe almoçava apenas toranja e tostas de trigo integral.

Patricia voltou-se ao som da aproximação de Melanie e. abriu muito os olhos. Fitaram-se desconfortavelmente, abrindo-se entre ambas as recordações de um telefonema. Melanie nunca se sentira embaraçada diante da mãe, mas, agora, era o que sucedia.

Por fim, Patricia sorriu tremulamente e estendeu os braços para enlaçar a filha.

Os joelhos de Melanie quase se dobraram. Era isso o que ela queria, apercebeu-se. Depois das últimas quarenta e oito horas, queria voltar para casa para junto da mãe. Queria aspirar os odores a Chanel TV” 5 e ao creme facial Lancôme que conhecera durante a maior parte da sua vida. Queria ouvir a mãe dizer, como dissera tantas vezes ao longo dos anos: “Está tudo bem, filha. Agora és uma Stokes e nós cuidaremos sempre de ti.”

Depois, Melanie pensou: “Meu Deus, que foi que esta gente fez à Meagan?”

Como foi a noite? perguntou Patricia num tom ligeiro.

Boa, respondeu Melanie. Olhou para o chão do terraço, depois tocou nas pétalas de uma roseira cor-de-rosa. Por fim, a mãe baixou os braços. Voltou-se para a toranja, abalada, e Melanie sentiu-se pior.

O pai baixou o jornal. Olhou para ela, depois para Patrícia, e novamente para ela. Franziu as sobrancelhas.

Melanie, estás bem? Há dias que não te vemos. Nem parece teu.

Só precisava de algum espaço.

De acordo, mas ainda tens família. Da próxima vez, vê lá se telefonas. Por simples delicadeza.

Claro, murmurou. Como... como vão as coisas por aqui?

Muito trabalho disse o pai com um suspiro. Parecia pálido e fatigado e o rosto revelava a idade. Fui chamado esta manhã para colocar mais um pacemaker. Aquele hospital nunca me dá descanso, juro.

O teu pai e eu estivemos a conversar interveio a mãe de súbito. Pensámos que era tempo de a família inteira ir de férias. O Brian inclusive.

Europa, anunciou Harper.

O quê? Melanie não podia estar mais surpreendida.

Sempre disse que devíamos fazer umas férias em família prosseguiu o pai em tom razoável. Finalmente disse à tua mãe que devíamos talvez fazer as malas e ir. Vamos passar seis meses a viajar por França, Inglaterra e pelo Mediterrâneo. Vamos divertir-nos imenso.

Melanie estava desconcertada.

Não quero ir para a Europa. Não agora.

Que disparate comentou a mãe. Melanie achou que a voz dela era excessivamente animada, como se estivesse a apaziguar uma criança. Precisas de férias, Melanie. Mereces. Vai ser maravilhoso. Descontraímo-nos e estendemo-nos ao sol.

Melanie abanou a cabeça. Olhou para os pais, mas estes não corresponderam ao seu olhar. Patricia retorcia as mãos no colo e rodava a aliança. Harper batia o pé, virando-se ligeiramente ora para a direita, ora para a esquerda, de um modo que Melanie nunca o vira fazer.

Não eram férias, apercebeu-se Melanie. Era uma fuga. Teriam recebido um altar? Ou talvez um telefonema a dizer-lhes que tinham o que mereciam. Estariam em pânico e a recorrer mais uma vez à fuga, tal como haviam fugido do Texas para Boston?

Eu não vou, anunciou Melanie.

Harper franziu as sobrancelhas.

Estamos a oferecer-te umas férias na Europa, Melanie. É evidente que vais.

Melanie abanou a cabeça. Tinha as mãos enclavinhadas contra as coxas e apercebeu-se de que a voz lhe subia de tom conforme falava.

Isto não tem nada a ver com férias. Vocês nunca vão de férias, pai. Podia pensar-se que o pai se transformaria numa estátua de pedra se passasse mais de dez minutos longe do seu precioso hospital.

O pai estreitou os olhos.

Não sei do que estás a falar, menina, e não gosto do teu tom de voz.

Estou a falar da verdade! gritou Melanie. Estou a falar do que aconteceu a uma pequenita chamada Meagan Stokes.

Sobre o terraço desceu um manto de silêncio. Melanie viu a mãe empalidecer. Depois, o silêncio foi quebrado pelo som de metal a raspar a pedra quando o pai empurrou a cadeira para trás e se pôs de pé num salto, com o rosto doentiamente avermelhado.

Não te atrevas, minha menina. Não te atrevas a trazer esse assunto à baila diante da tua mãe!

Porque não? Já se passaram vinte e cinco anos. Porque é que nunca falam da Meagan? Até parece que nunca pensam nela, ou que nunca encontro a mãe a olhar para o retrato dela, ou mesmo o pai a observá-lo por cima do copo de uísque. O Brian ainda chama por ela às vezes, Jamie costumava gaguejar sempre que tinha de dizer Melanie. A Meagan está aqui. Está dentro desta casa e faz parte da vida de todos nós. Porque nunca falamos dela? De que têm tanto medo?

Basta, minha menina. Não te admito que fales assim com os teus pais...

Os meus pais. Sim, os meus pais. Mais uma coisa que nunca mencionaram. Porque é que nunca procurámos os meus pais biológicos, pai? Por que razão nunca sugeriu sequer a hipnose ou a terapia de regressão, ou outra coisa qualquer que me ajudasse a descobrir a minha própria identidade? Porque é que estava no hospital naquela noite em vez de presenciar a execução do Russell Lee Holmes?

Melanie! arquejou a mãe. O que... que é isso?

Melanie não teve oportunidade de responder. Harper ergueu uma mão, silenciando imediatamente a mulher. Fitou a filha com uma expressão fria no rosto, expressão que Melanie nunca lhe vira dirigida a si.

Como te atreves! Os olhos queimavam ao olhar para ela como olhara para o irmão na noite em que Brian anunciara que era homossexual. Como te atreves a falar-me dessa maneira em minha própria casa. Depois de tudo o que fiz por ti! Caramba, trouxe-te para casa, pus um tecto sobre a tua cabeça. Fiz tudo o que se espera de um pai, cuidei da tua saúde, paguei a tua educação, orientei-te para a vida. Nunca te faltei com nada, minha menina. Nunca te tratei de forma diferente da do meu próprio filho, sua menina mimada, sua ingrata...

Que mais? espicaçou-o Melanie com suavidade. Sua filha de um assassino? É o que estava a tentar dizer? É o que realmente sente, Harper?

Sua cabra! Levantou o braço e esbofeteou-a com força. Melanie caiu no chão sem um murmúrio sequer. Como que de muito longe, ouviu o grito abafado de aflição da mãe.

Lentamente, Melanie ergueu a cabeça.

Não vai desaparecer, pai, murmurou. A verdade veio agora à luz e nem sequer o melhor cirurgião cardiologista de Boston consegue controlar esta história sórdida. Nem sequer o pai consegue que ela desapareça.

Não sabes do que estás a falar...

Parem! gritou Patricia. Parem com isso!

Ambos se voltaram para ela. Patricia cambaleava. O corpo ondulava-lhe tremulamente e tinha os olhos cheios de lágrimas.

Por favor sussurrou. Já chega. É a nossa filha, Harper. O Brian é o nosso filho. São tudo o que temos. O que estás a fazer?

Estou a tentar ensinar-lhe algumas regras sobre gratidão. Estás a ver o que acontece quando lhes damos tudo, Pat? Como ambos se voltam...

Patricia pousou-lhe uma mão no ombro.

Harper, por favor.

Harper afastou o braço bruscamente, com uma expressão muito zangada e magoada.

Tu também, Pat? protestou. Caramba, não aguento mais. Afinal, quem comprou esta casa, os carros que conduzes, as roupas que vestes e a comida que comes? Com certeza que não foste tu nem o teu pai, que deixou o dinheiro todo a obras de beneficência, lembras-te? Disse-nos que podíamos ganhar o nosso. Assim fiz. Vou para o hospital todos os dias, desgasto-me numa posição tão cansativa que nem conseguem imaginar, e que respeito recebo por isso? Que apreciação mereço por parte da minha própria mulher? Voltou-se rapidamente para Melanie.

E tu. O teu trabalho de beneficência é óptimo, mas como diabo é que isso paga a renda de casa? Que espécie de responsabilidade manifestas para connosco? Limitas-te a desaparecer por dois dias como se não tivesses de preocupar-te com nada nem ninguém.

“Ora bem, que aconteceria se eu fizesse o mesmo? Que aconteceria? Não percebem? Os meus próprios filhos dançam, divertem-se e frequentam espectáculos de anormais enquanto eu pago o raio das contas. A minha mulher faz compras e alimenta a autocompaixão, enquanto eu me levanto e vou trabalhar todos os dias sem falta, faça sol ou faça chuva ou não me apeteça. Meu Deus, Pat, a única coisa que sempre te pedi foi que fosses uma boa mãe. Mas a Meagan morreu e nem isso foste. Transformaste-te numa profissional a tempo inteiro do luto. Será de admirar que o Brian se tenha tornado um anormal? É evidente que tinha de voltar-se para os homens. Pois se nunca recebeu afecto das mulheres em toda a sua vida!

Patricia inspirou profundamente, mas o marido nem de longe mostrava ter terminado,

Portanto, não se ponham contra mim! Fitou Melanie directamente. Não me fales nesse tom de voz! Esta é a minha casa. Paga por mim, sustentada por mim, porque a minha vida é isso: tomar conta de todos, quer me apeteça quer não. Vocês divertem-se. Eu nunca tive esse luxo. Nem sequer quando a minha filha foi assassinada, sua egoísta, sua egocêntrica....

A voz de Harper soçobrou abruptamente. Estava quase a chorar, percebeu Melanie. Oh, Deus, levara o pai à beira das lágrimas.

Limpou o rosto com as costas da mão e recompôs-se de imediato, mas ainda se mostrava encolerizado.

Vou para o hospital. Enquanto isso, espero que ambas meditem nisto. E tu, Melanie. Quero um pedido de desculpas a mim e à tua mãe logo pela manhã. Depois, podes começar a fazer as malas, porque, quer gostes quer não, a família inteira vai de férias e ficaremos todos muito felizes se morrermos por isso!

Harper retirou-se para dentro de casa. Momentos depois, ouviram-no atravessar rapidamente o vestíbulo e bater com a porta da frente. A seguir, a casa ficou em silêncio.

Patricia olhava para Melanie, que tentava pensar em algo para dizer, algo para fazer. Viu-se a apalpar a cara. Ainda lhe ardia. Tinha dificuldade em acreditar. Nunca antes o pai fora violento.

Só precisa de algum tempo para se acalmar murmurou Patricia. Ultimamente tem estado sob uma grande pressão...

Melanie não disse nada.

Tudo isto passa prosseguiu a mãe, ainda mais ansiosa. As famílias são assim. Temos épocas, épocas más, mas ultrapassamo-las, Melanie. Todos nós as ultrapassamos e é isso o que nos torna fortes.

Talvez não devêssemos ultrapassá-las comentou Melanie em tom cansado. Talvez esta família precise realmente de separar-se.

Pôs-se de pé a cambalear. Sentia as pernas como se fossem feitas de borracha. Por trás do olho esquerdo, a dor começou a acumular-se. Mais uma enxaqueca que vinha a caminho.

Só tens vinte e nove anos observou a mãe. Só uma pessoa de vinte e nove anos diria uma coisa dessas. A verdade é que as famílias devem perdoar, Melanie, as família devem esquecer.

Porquê? Nunca nos esquecemos da Meagan. E é óbvio que a mãe e o pai nunca se perdoaram um ao outro. De outro modo como poderia ele ter dito metade sequer do que disse? Mas que fizeram vocês no passado? O que foi que fizeram?

Patricia voltou a empalidecer. Depois, baixou os ombros e Melanie supôs que conseguira por fim o que queria. A mãe fora vencida e parecia incrivelmente ferida e assustada.

Melanie concluiu que, afinal, isso não lhe dava qualquer satisfação.

No seu próprio quarto, as cores saudaram-na efusivamente. Vermelho, verde e azul. Amarelo e cor de laranja, e, meu Deus!, que desarrumação!

Deixou cair a roupa e entrou no duche. E ali, sob o jacto protector, chorou, simplesmente porque precisava de chorar.

Quando saiu do duche, toda a emoção desaparecera. Já não estava assustada, zangada ou desanimada. Sentia-se exausta.

Tomou um comprimido, aninhou-se na cama e, em segundos, adormeceu.

Acordou uma vez e viu o pai à porta, de mãos nas ancas e rosto ameaçador.

Mas foi de novo sugada pelas trevas, onde correu por densa vegetação rasteira, com os cabelos a prenderem-se aos espinhos e o cheiro a gardenias a tornar o ar sufocante.

Quero ir para casa. Quero ir para casa.

Corre, Meagan, corre!

O som de uma respiração entrecortada a aproximar-se... a, aproximar-se...

CORRE, MEAGAN, CORRE!

As gardenias, os ramos, os galhos, passos pesados cada vez mais peno...

Nããão.

Quando acordou, Patricia estava sentada à cabeceira e afagava-lhe

o cabelo.

Está tudo bem sussurrou a mãe. Não vou perder outra

filha. Não vou.

 

David trabalhou até tarde. Curvado sobre a secretária, alisou o cabelo com a mão e examinou minuciosamente resmas de papel. Tinha os olhos enevoados de cansaço, doíam-lhe os músculos do pescoço e sentia a região lombar rígida. Consumido pela noção de que não restava muito tempo, obrigava-se a continuar.

Chenney investigara o lixo de William Sheffield ao princípio da tarde e descobrira um saco cheio de entranhas de porco, roupa de cama manchada e uma maçã resplandecente. A menos que Sheffield tivesse adoptado um passatempo macabro, David inclinava-se a crer que o material fora deixado como uma espécie de exibição chocante.

Após vinte e cinco anos, um dos conspiradores ter-se-ia fartado finalmente? Ou havia uma pessoa que ainda tinham de identificar? E que outros tipos de mensagem poderiam ter sido entregues e que o FBI muito simplesmente desconhecia?

Esta era a questão que David mais detestava. Ficava com a total sensação de estar a ser manipulado e de que quem enviava as mensagens se movia não só com rapidez, mas também com competência. Carregava nos botões de toda a gente, movia-se e fazia moverem-se todos eles, através de uma espécie de jogo complexo para o qual já tinha em vista um fim.

Esse fim preocupava bastante David.

Que conseguiu? perguntou ao detective Jax às quatro da tarde.

Quarenta e dois casos e dois cadáveres por identificar. E você, como está?

Cheio de trabalho e mal pago. Conseguiu identificar o atirador?

Nada, a leitura das cartas do taro revelou-se inconclusiva. Agora estou a pensar em contactar um médium. Talvez consiga o nome do indivíduo e uma canção do Elvis Presley. Não sei se sabe, mas nós, da polícia local, não temos mais nada que fazer com o nosso tempo.

E quanto aos registos das facturas de telefone? Sabe com quem o Difford falou?

Ora, agente, espere sentado. Leva algum tempo a requisitar os registos de telefones e deitar mãos à obra, a menos, é claro, que você queira rebuscar nos papéis por mim.

O caso é seu disse David com secura.

De facto, é. Por isso, por que diabo ainda estou a falar consigo? O detective Jax desligou. Segundo parecia, quarenta e dois casos cobram o seu preço a um homem.

David ficou assolado pela frustração e de muito mau humor. Requisitar registos levava tempo. Ordenar os registos telefónicos da Baixa de Boston com o seu volume extraordinariamente elevado de chamadas levava ainda mais tempo.

David queria respostas naquele momento.

As sete da tarde chegaram.

Lairmore parou no caminho para a saída.

Em que ponto estamos?

Como de manhã, mas com mais um cadáver.

Lairmore mostrou uma expressão carrancuda. David ergueu interrogativamente uma sobrancelha.

Mau dia, Lairmore?

Má semana replicou o supervisor. David não insistiu. Os problemas de Lairmore pertenciam a Lairmore, assim como os seus só a si diziam respeito. A luz vermelha do telefone piscava com a terceira mensagem deixada pelo pai.

Momentos depois, Lairmore afastou-se.

David voltou ao processo aberto em cima da secretária. Estava rodeado por pilhas de processos, como se fossem peças de um quebra-cabeças gigantesco à espera de serem colocadas no lugar. Tinha um processo sobre as finanças dos Stokes, que compilava diligentemente para a reunião das sete da manhã seguinte com Lairmore. Ali, nada de revelador. O dinheiro entrava, o dinheiro saía. Alguém faria bem em dizer a Harper que nesta vida há mais coisas para além dos fatos Armani.

David suspirou. Deixara duas mensagens a Brian Stokes, mas nenhuma tivera resposta. Às oito da noite, fez uma visita à casa do filho exilado. Nenhuma luz acesa, ninguém em casa. A seguir, David tentou a clínica privada onde Brian trabalhava, mas só ficou a saber que o médico telefonara a dar parte de doente.

Quarenta e oito horas sem ninguém pôr a vista em Brian Stokes. David ainda não sabia ao certo o que aquilo significava.

Nove da noite. Seguiu para o laboratório. Não tinham ainda notícias conclusivas. Não havia impressões digitais. As velas eram de uma marca local, fornecidas por uma fábrica do Maine e vendidas em várias centenas de locais no estado. O cavalinho parecia realmente antigo. O mais interessante era o pedaço de vestido, que fornecera dois tipos de sangue. Tinham esperanças de conseguir os resultados das análises ao ADN no final da semana e consideravam isso trabalhar depressa. Era evidente que, para que os resultados do ADN fossem úteis, em geral era necessário que alguém os verificasse uma segunda vez.

De regresso ao mundo normal da investigação: apressa-te e espera.

Não podes fazer mais nada, Riggs. Estás a tentar ajudá-la, estás.

“Menti-lhe”, pensou David com remorsos, entregando-se finalmente ao sentimento de culpa. “Nunca lhe disse que andava a investigar o pai, nem que é provável que ponhamos um processo ao Harper por fraude nos serviços de saúde.”

E o teu trabalho. Tens de fazer o teu trabalho. É assim que a ajudas.

E se isso mudasse a situação? Se o facto de saber coisas acerca do pai lhe desse outra perspectiva e a ajudasse a manter-se em segurança?

Não o sabes, Riggs. Como o Chenney gosta de dizer, continua a existir um mundo de diferença entre pôr em perigo com a maior indiferença uma vida humana e contratar um homem para matar a filha adoptiva.

Finalmente, tomou o caminho de regresso a casa.

Enfiou uns calções e deixou-se cair na cama.

Adormeceu com o beeper encostado à cara e sonhou que estava numa cabana de madeira, mas com Melanie e não com Meagan Stokes. A fazer limpezas e esfregando furiosamente o chão como se disso dependesse a salvação de todos.

Porém, continuava a ver Melanie estendida no meio do chão e, por mais que esfregasse, ela não se movia.

À porta, de pé, Russell Lee Holmes ria-se.

Chenney estava cansado. Verdadeiramente cansado. Conseguira dormir uma sesta durante a tarde, mas, entre tentar descobrir o lixo de William Sheffield e a sua história num lar para rapazes no Texas, ia ainda um longo dia. Pelo menos, ficara com algumas informações interessantes. De acordo com uma das freiras, Sheffield fora um pequeno monstro naquele lar para rapazes. Até estava convencida de que Sheffield envenenara um dos rapazes mais crescidos, não o bastante para o matar, mas o suficiente para instilar no garoto algum temor a Deus e mantê-lo afastado de William. Decididamente, havia mais no elegante e ultradelicado anestesista do que se via à vista desarmada.

Chenney arrastava-se agora pelos corredores escuros do Hospital de Boston, empurrando um carrinho carregado de material de limpeza, um balde de lixo gigantesco e rolos e mais rolos de papel higiénico. Os corredores estavam desertos e fracamente iluminados. O carrinho ressoava no chão de linóleo e punha-o nervoso. Não gostava dos grandes espaços institucionais.

Quando a enfermeira da UCI se dirigira para outros doentes da enfermaria, Chenney conseguira deitar uma olhadela às papeletas. Não percebia nada de nada: aquilo era do departamento de Riggs.

Finalmente, concentrou-se em dois doentes mais idosos, ligados a monitores cardíacos e com tubos enfiados nas veias. Um dos doentes, uma mulher, parecia em bastante mau estado. Boca desdentada, aberta, sob a máscara de oxigénio. Pele que caía em pregas à volta do pescoço. Tom de pele quase cinzento. Chenney percebeu que, fosse qual fosse a doença, era real.

O outro, um homem, era mais novo, provavelmente na casa dos cinquenta. Bem tratado, na verdade. Cabelo bem cortado. Um belo bronzeado primaveril, alguns músculos nos braços e antebraços. Quando a enfermeira se aproximasse outra vez, perguntaria com delicadeza qual a doença do indivíduo.

Chenney virou a esquina e avançou penosamente, pensando que tinha mesmo de apressar-se com o caso da fraude nos serviços de saúde.

Oh, desculpe. Chenney ia tão imerso nos seus pensamentos que embatera contra um médico.

O homem voltou-se, igualmente espantado, e Chenney viu-se frente a frente com o Dr. William Sheffield.

Chenney agarrou-se ao carro com força para se equilibrar. Era um simples auxiliar, lembrou-se.

Vai ficar aí especado? perguntou Sheffield em tom desabrido. Chenney captou um leve bafo a uísque.

Desculpe. Chenney fez recuar o carrinho. Agora tinha de olhar para o chão, senão, tinha a certeza de que o rosto o denunciaria. Felizmente, Sheffield não estava com disposição para conversas. O anestesista ignorou-o, deu uma fungadela e continuou a percorrer o corredor.

Muito bem. E agora?

Chenney devia dar uma volta e regressar à UCI. Sheffield atacaria realmente duas noites a fio? Tudo era possível.

Chenney recomeçou a andar e não reparou que Sheffield se voltara com um último olhar de aborrecimento e que os olhos dele se tinham detido nos sapatos do auxiliar. William lançou uma olhadela aos sapatos italianos de camurça castanha que se afastavam, sentiu um baque no estômago e a boca seca.

Correu para a casa de banho mais próxima. Vomitou no lavatório. Tirou do bolso os dois frascos de propanolol, limpou-os muito bem com toalhas de papel e meteu-os no fundo do cesto do lixo.

Harper estava a tramá-lo, aquele filho-da-mãe. Aproveitara-se de um tipo cheio de problemas para poder navegar outra vez em direcção ao pôr do Sol.

Bem, Harper Stokes ia ter com que se preocupar, porque William não desistia sem dar luta. Principalmente, quando tinha conhecimento de uma ou duas pequenas coisas.

Temos problemas declarou Harper no outro extremo da linha.

Fazia-te mal deixares-me dormir? protestou Jamie O’Donnell com um bocejo, aborrecido por ter sido acordado por Harper duas noites seguidas. Jamie olhou para o relógio que refulgia junto da cama. Duas da madrugada. Que diabo! Espera. Jamie afastou a roupa da cama e saiu com todo o cuidado, consciente de que Annie dormia a seu lado. Jamie tocou-lhe uma vez na face, depois pegou no telefone e levou-o consigo para a saleta contígua, fechando a porta atrás de si de forma a não a incomodar.

O que se passa, rapaz? Acabaste de comprar os bilhetes para a Europa? Jamie voltou a bocejar. As férias na Europa ainda o irritavam. Harper a afastar-se a cavalo como o bom cowboy, de chapéu branco.

Que se lixe a Europa! exclamou Harper. É o William. Foi-se abaixo. Telefonou-me em pânico, disse-me que estava a ser perseguido por um par de sapatos italianos de camurça e que não ia permitir que eu me safasse desta. Depois desligou-me o telefone na cara. Tentei ligar-lhe por duas vezes, sem resposta. Fui a casa dele. Parece que passou por lá um tornado e tanto William como o automóvel desapareceram.

Tens razão. O garoto passou-se.

Por amor de Deus! explodiu Harper. Anda a arengar que o tramei. Não fiz tal coisa. Quem diabo está por detrás de tudo isto? Julgava que ias descobrir.

Estou a tentar. Na verdade, pensei em falar com o Larry Digger sobre o assunto, mas não pude. Parece que o nosso amigo Larry morreu.

O quê?

Oh, não te faças de parvo comigo, Harper. Sei que foste tu.

Não fui! exclamou Harper em tom estridente. Que diabo se passa? Alguém anda a tramar-me, Jamie. Tens de acreditar em mim. Alguém anda a gozar com isto tudo. Meu Deus, até a Melanie voltou para casa e acusou-me de ter feito alguma coisa à Meagan.

Por momentos, Jamie não respondeu. De facto, nunca antes ouvira o velho amigo tão descontrolado e tão assustado. Ficou à espera de alguma sensação de satisfação, mas esta não surgiu. Continuava a suspeitar de que também aquilo era encenado. Tratando-se de Harper, era sempre muito difícil de dizer.

Não trataste mesmo do Larry Digger?

Não!

Bem, eu não fui.

Mas, mas... Harper estava francamente baralhado. Quem?

Não sei.

Tens de remediar as coisas, Jamie. Está tudo a desmoronar-se. Não pode acontecer. Não... não, sobretudo depois deste tempo todo. Não faz sentido. Caso encerrado, fim da história.

Reabriste-o com as operações, Hap. Bem te avisei que conservasses as mãos limpas...

Pronto, pronto, vou acabar com as operações. Mas encontra-me o Sheffield. Resolve-me isto com ele.

Que te faz pensar que ele me ouvirá? Odeia-me tanto quanto odeia outras pessoas.

Porque, Jamie, ele é da tua laia. Lembras-te?

Jamie ficou em silêncio. Depois, teve de sacudir a cabeça. Não havia como Harper para escoucear mesmo quando estava em baixo. Restava no respeitável Dr. Stokes mais do que um simples resquício do brigão de rua.

Está bem anuiu Jamie finalmente, com relutância. Uma última vez, vou consertar as coisas. Dá-me só um ou dois dias. Oh, Harper acrescentou, como se lhe tivesse ocorrido uma ideia.

O que é?

Tens falado com o teu filho ultimamente?

Não. Tenho pensado em telefonar-lhe. Talvez amanhã.

Bem, nesse caso, desejo-te muita sorte, meu velho, porque há vinte e quatro horas que tento apanhá-lo, mas o Brian parece ter desaparecido. Pergunto a mim mesmo o que será que isso quer dizer, Hap. O que será...

 

Melanie acordou com a face ainda a latejar. Tacteou cautelosamente a equimose. Doía-lhe, mas nada que não passasse. Verificou que essa constatação caracterizava grande parte da sua vida ultimamente.

Quando desceu as escadas, a casa estava em silêncio. Nem Harper nem Patricia. Maria também não.

Telefonou ao irmão. Brian não estava em casa. Tentou encontrá-lo no trabalho. Continuava de baixa, informou-a a recepcionista. Qualquer coisa como um vírus de uma gripe de quarenta e oito horas. Melanie não acreditou. Se Brian estivesse doente, estaria em casa. Que fazer agora?

O telefonema, a informação anónima que saíra supostamente de sua própria casa. No caos dos últimos dias, nunca se preocupara em seguir a pista, por isso ligou para a companhia de telefones local e pediu que lhe enviassem uma lista das chamadas. Era um começo. Mas... até lá?

Melanie vagueou pelo rés-do-chão, sentindo-se estranha e incómoda na sua própria pele. A casa parecia-lhe agora o cenário de uma peça teatral, um pano de fundo cuidadosamente tecido. Sala forrada a seda cor-de-rosa, perfeita para reuniões sociais. Escritório na parte da frente, de mármore dourado italiano, perfeito para impressionar os administradores do hospital. Sala de jantar com a enorme mesa de nogueira para doze pessoas, perfeita para jantares de família e conversas longas e íntimas enquanto os Stokes recuperavam dos trabalhos do dia.

Terraço nas traseiras com os seus potes de barro com roseiras e mesa de ferro forjado, perfeito para um pai esbofetear uma filha.

Chegava. Melanie desceu à cave, onde jazia uma pilha de caixas que partilhavam o mesmo rótulo: MEAGAN STOKES 1968-1972.

Quando Melanie atingira os doze anos, Patricia apresentara uma proposta para transformar a cave numa sala de recreio para os garotos. Harper recusara. As famílias precisavam de espaço para esconder as velharias, insistira ele. As caves tinham muita serventia.

Podia ter feito sentido, só que os Stokes não tinham velharias. Não possuíam caixas de roupas velhas, livros velhos, quebra-cabeças ou jogos. Não tinham tapetes manchados nem mobília fora de moda. Harper era escrupuloso - todos os artigos que eram postos de parte eram catalogados, avaliados e enviados para o Exército de Salvação para poderem ser deduzidos nos impostos. Tudo correspondia a um valor. Excepto aquelas caixas, cujo conteúdo não tinha preço.

Melanie já anteriormente havia rebuscado naquelas caixas, quando criança de nove anos desesperada por saber mais acerca da vida dos novos pais. Passara as mãos de criança reverentemente sobre o vestido de baptismo, de renda, o vestido de veludo vermelho do Natal, a mantinha cor-de-rosa tricotada à mão. Examinara os sapatinhos moldados em bronze, a mãozinha minúscula impressa em barro, os primeiros trabalhos artísticos a lápis de cor. Observara as caixas sentindo-se simultaneamente culpada e entusiasmada, sabendo que devia manter-se afastada, mas consumida pelo desejo de saber mais.

Aquilo era tudo o que restava de Meagan Stokes e Melanie queria saber mais sobre o verdadeiro amor na vida da família.

Melanie começou pela caixa das fotografias.

Estas tinham início com os tempos do Texas. Jamie, Harper e Patricia num velho descapotável branco; Jamie e Harper de fatos às riscas, com ar de bandidos dos anos cinquenta; Jamie com os braços em volta de uma Patricia jovem e bela, inclinada para a máquina fotográfica; Jamie abanando a cabeça, enquanto um Harper jovem e fogoso beijava a futura esposa.

Fotos de casamento. Patricia e Harper na porta escancarada de uma catedral, de mãos dadas. Patricia vestia um autêntico vestido de princesa, metros e metros de tule branco a descair em cascata pela figura esbelta.

No exterior, de novo com Jamie, em pose num smoking branco debruado a preto, como padrinho de Harper. O padrinho continuava a sorrir, mas agora afastado de Patricia, muitas vezes quase cortado pela objectiva da máquina fotográfica. Apesar do que os três amigos pudessem ter dito, o casamento modificara as coisas.

De repente, fotos de um bebé. Brian Harper Stokes, vinte e cinco de Fevereiro de mil novecentos e sessenta e três, quatro quilos. Brian embalado nos braços triunfantes de Harper. Patricia sorrindo, cansada. Brian a gatinhar, Brian a andar. Brian aos três anos a tentar agarrar numa estatueta pousada fora do seu alcance num corredor. Brian aos três anos a olhar espantado para a estatueta agora quebrada. Anotação de Patricia: “Primeiro contacto do Brian com a arte. Quando é que ele aprende?”

Brian disfarçado de Satanás na Noite das Bruxas. “Brian ainda na sua ”fase de diabinho”. Pelo menos, é apropriado.”

Depois, Patricia grávida. Brian desaparecia de cena. A objectiva concentrava-se na alta e esbelta Patrícia, agora semelhante a uma radiosa flor desabrochada. Patricia acariciando o ventre. Patricia de perfil, olhando para longe, para algo que Melanie não conseguia ver. Patricia num piquenique, Brian a correr ao pé da manta. Patricia muito, muito grávida, agarrando num ursinho de pelúcia diante da câmara. O rosto de Brian mal visível atrás dela. Anotação de Jamie: “Pat, mil novecentos e sessenta e oito. Bela como sempre, rapariga.”

Melanie voltou a página. Meagan. Patricia embalando contra o seio a recém-nascida, esta de rosto avermelhado, rechonchudo e sonolento, e com a mãozinha minúscula a formar um pequeno punho igualmente minúsculo. Brian sentado ao pé da mãe e da irmã recém-nascida. Jamie a rir-se, de pé junto à cama do hospital, com o dedo grosso fortemente apertado pelo punhozinho cerrado da pequenina Meagan.

De repente, Brian e Meagan começavam a crescer muito depressa. Retrato de Brian a dar de comer a Meagan. Brian a ler para Meagan. Brian empurrando Meagan numa carrocinha vermelha, debruçado e com ar feliz.

Três celebrações da Noite das Bruxas mais tarde, Brian sempre disfarçado de diabo, mas Meagan agora a seu lado como Cinderela. Sorriam ambos. Na foto seguinte, Patricia, Brian e Meagan Stokes, agora com quatro anos, inclinados para a câmara, uma mãe bela e jovem e os seus dois filhos, incrivelmente felizes, incrivelmente belos e louros.

Melanie pousou o álbum. Tinha as mãos a tremer.

Sabia o que vinha a seguir. Um dia quente de Verão no Texas. Patricia e Brian tinham deixado Meagan com a ama uma manhã para irem ao médico. E algo ocorrera naquela tarde que fizera com que Meagan Stokes deixasse de existir à face da terra.

De facto, tinham sido uma família perfeita. Não havia qualquer menção a Russell Lee Holmes na caixa. Nem recortes de jornais acerca do caso, nem mesmo cartões de pêsames pelo funeral. Numa página, Meagan Stokes inclinava-se para a máquina fotográfica, na página seguinte desaparecera e nunca se ficaria a saber o fim da história.

Melanie voltou a folhear o álbum. Jamie, Harper e Patricia. Harper e Patricia. Brian em bebé. Brian mais crescido. Patricia grávida, Meagan em bebé. Meagan e Brian.

Algo lhe tilintou nos recessos da mente.

Patricia grávida, Meagan em bebé. Meagan e Brian.

Não conseguia lá chegar. Aquilo que queria perseguia-a, uma palavra na ponta da língua, mas não conseguia lá chegar.

Patricia grávida, Meagan em bebé. Meagan e Brian...

Oh, meu Deus! Onde estava Harper? Porque é que não existia uma única foto do pai com a filha recém-nascida?

Abruptamente, algo lhe soou ao cimo das escadas. A porta da frente a abrir-se e seguidamente a fechar-se com violência. Passos no soalho por cima da sua cabeça.

Estava alguém em casa. Melanie apressou-se a pôr no lugar o álbum de fotografias. As caixas de Meagan eram sagradas e ao ritmo a que as coisas presentemente se sucediam não queria ser apanhada a examiná-las.

Mais passos. Cruzando o vestíbulo em direcção à sala, percorrendo o corredor até ao escritório... Harper, nesse caso. Regressara do hospital e agora ia pôr os papéis em dia.

Melanie subiu silenciosamente a velha escada de madeira, abriu uma fresta da porta e, vendo que a costa estava livre, esgueirou-se para a sala de estar. Segundos depois, encontrava-se diante do espelho do corredor, sacudindo as mãos, os calções de ganga e a blusa azul e amarela.

Conseguia ouvir Harper a cirandar pelo escritório e pelo som percebeu que não estava de bom humor.

Observou o seu reflexo uma última vez e resolveu afoitar-se.

O pai nunca se mostrava generoso quando encurralado, mas era sabido que, às vezes, por si só, chegava à conclusão de que estava errado. Melanie podia começar por pedir-lhe desculpa e ver o que ele faria. Valia a pena arriscar.

Entrou no escritório do pai. Esperava encontrar Harper com a bata verde das operações, debruçado sobre a secretária.

Encontrou William Sheffield, remexendo em papéis e com uma arma na mão.

William estava a ter um dia mau, uma semana má, uma vida má. Mas havia de safar-se daquele sarilho a qualquer preço. Só precisava de provas. Decerto que Harper tinha algures quaisquer registos financeiros.

William? Uma voz feminina chamou-o da porta. Que estás a fazer aqui?

William imobilizou-se e depois voltou-se lentamente. Viu Melanie à porta, com as mãos enfiadas nos bolsos de trás. Os olhos dela pousaram na arma com expressão preocupada.

William? perguntou-lhe de novo.

Não devias estar aqui, Mel disse ele. Pensara que a casa estaria vazia. Imaginara que seria uma simples entrada e saída. Mas agora Melanie vira-o e a doce Melanie contava sempre tudo ao papá. Não podia permitir-se tal coisa.

Que estás a fazer, William?

A gozar da tua casa. Fez um gesto que abrangeu o aposento, com painéis dispendiosos e bem decorado. Só da casa. Sempre me interroguei como seria voltar para uma casa destas dia após dia. Quem diria que teria sido muito melhor se a minha mãe me tivesse drogado e largado nas urgências de um hospital?

Tens de sair proferiu Melanie com frieza. O meu pai não está cá neste momento, portanto não podes ficar no escritório dele.

Ora, ora. Sabes uma coisa? William aproximou-se rapidamente dela, apanhando-a desprevenida, o que a fez olhar de novo para a arma. Estou-me nas tintas para o que pensas. Não passas da filha adoptiva do Harper e não sabes nada de nada!

William...

Melanie tentou recuar. William sabia que ela nunca o considerara anteriormente uma ameaça... mas, desta vez, ele carregou sobre ela e teve a satisfação de ver-lhe os olhos esgazeados de medo. Tarde de mais. William prendeu-a contra a parede.

Afasta-te! disse ela.

Porquê, Mel? Já te vi toda, já te tive toda...

Por amor de Deus, William...

William agarrou-a pelos cabelos e deu-lhe um puxão. Melanie gritou, mas reprimiu as lágrimas. Sempre gostara de jogar duro, de jogar com ousadia. William decidiu que era tempo de uma pequena mudança. Tempo para finalmente se divertir à custa de Harper.

Ainda não percebeste, Melanie?

Não... sei.

Claro que não. Ouve, para uma mulher supostamente inteligente, não sabes nada sobre a tua família. Sim, é isso mesmo. Olhas para mim com esse ar de desafio e tentas pensar que és melhor do que eu. Mas não és, Mel. Só és mais ingénua. Afinal, vi logo quem era o teu pai em menos de cinco minutos e tu ainda não tens nenhuma pista depois de vinte anos. Quem é esperto agora?

Voltou a puxar-lhe cruelmente os cabelos. Desta vez, Melanie não conseguiu evitar uma exclamação de dor. William gostou disso.

O bom do teu paizinho julga que acabou comigo afirmou William em tom arrastado. Julga que consegue armar-me uma cilada para que seja eu a pagar por todas as suas operaçõezinhas ilegais e que eu seria estúpido de mais para perceber. Sim, também não sabes nada acerca disso, pois não, Mel? William abrangeu em círculo o escritório com o cano da arma. Vês tudo isto, minha querida? Manchado. O teu pai pode ser o melhor cardiocirurgião de Boston, mas não sabe nada de dinheiro. O homem enterra-se cada vez mais. E julgas que isso significa que ele corta nas despesas e que mantém a família com um nível de vida inferior? Oh, não, não o grande Harper Stokes.

“Forja simplesmente o plano de abrir velhotes ao meio e pespega-lhes com uns pacemakers no peito. ”Ninguém sai magoado”, é o que ele gosta de dizer. ”As companhias de seguros podem pagar isto.” Diz-me lá, Melanie, que achas desta classe? Que achas do teu querido paizinho?

Os lábios de Melanie tremeram. Mas, depois, fitou-o nos olhos e mostrou-lhe a expressão fria que ele tanto detestava.

Não sei do que estás a falar.

William correspondeu às suas palavras corajosas esbofeteando-a com força. Melanie não estremeceu, o que o decepcionou, mas o lábio inferior rebentou e surgiram gotículas de sangue. O lábio começou a inchar.

Bem, diz adeus ao teu paizinho, minha querida prosseguiu William, porque não faço tenções de voltar para casa e ter outra surpresa. Temos o que merecemos... uma ova. Descobri o agente do FBI no hospital. Sei muitíssimo bem o que ele anda a preparar e estou certíssimo de que não tenciono arcar com as culpas.

Oh, meu Deus, também recebeste um bilhete!

Um bilhete? Willian franziu as sobrancelhas, encolerizado. Não recebi nenhum bilhete. Recebi um raio de uma mensagem rabiscada a sangue no espelho. Quem diria que o teu pai era capaz disso?

Melanie abanou a cabeça e perguntou-lhe:

Mas que ligação tens tu com o Russell Lee Holmes? Conheceste a Meagan?

O quê? William não sabia do que ela estava a falar e não queria saber. Calou-a, pressionando o corpo contra o dela e vendo-lhe os olhos pestanejar mais freneticamente. Queres saber a verdade, Mel? Vou contar-ta sem rodeios, sua patetinha estúpida. O teu pai é um delinquente que antes quer cortar gente saudável do que admitir que está falido. A tua mãe é uma alcoólica instável que não consegue satisfazer o marido e o teu irmão é um raio de um mariconço que só o levanta com homens. E, para culminar, o teu padrinho pouco mais é do que um rufião bem vestido. E então, que tal, como retrato de uma boa família? Dois criminosos, uma alcoólica e um maricas. E o que é que tudo isto faz de ti, Melanie? Faz de ti uma marioneta. A maior marioneta do mundo, manipulada durante vinte anos. Gostas disso?

William sorria. O queixo de Melanie ergueu-se como se estivesse disposta a lutar. Mas William também conseguia ler-lhe nos olhos alguma dúvida e uma espécie de súplica, como se desejasse que ele retirasse o que dissera. O diabo é que retirava.

William inclinou-se para trás e, inesperadamente, esbofeteou-a.

Como te atreves a olhar-me dessa maneira, estúpida cadela!

Como te atreves a tratar-me desta maneira! exclamou Melanie, e tentou dar-lhe uma joelhada. William impediu-a facilmente. Depois, baixou a mão, agarrou-a pelo pulso e começou a apertá-lo.

Preciso do segredo do cofre, Melanie. Preciso de todos os documentos do Harper.

Não sei...

William soltou-lhe o pulso e bateu-lhe com a pistola. A cabeça dela embateu contra a parede. Melanie escorregou para o chão, com os olhos a piscar com dificuldade.

Larry Digger.

De que estás a falar? Quero o segredo do cofre!

O meu pai... o meu pai matou o Larry Digger?

William abanou a cabeça.

Nem sequer sei do que estás a falar. O negócio de Harper é dinheiro, não é assassínio. Vamos, quero esse segredo.

Que aconteceu à Meagan? murmurou Melanie. O que fizeram eles à Meagan?

Esquece a maldita Meagan. Dá-me o segredo ou mato-te. Enrolou o longo cabelo dela numa mão e com um sacão rápido

puxou-a para cima.

O resto aconteceu simplesmente.

A doce Melanie Stokes enfiou o ombro no estômago de William, cujos pulmões ficaram subitamente sem ar. Melanie deu-lhe com a mão em cutelo no esterno e pisou-lhe fortemente o pé.

Porra!

Recuou, praguejando, e finalmente conseguiu pôr a arma entre ambos.

Mas que porra! berrou William. Vou matar-te, cadela. Vou rebentar-te os teus malditos miolos...

Pára! arquejou Melanie, agarrando-se à mão dele e tentando controlá-lo.

A arma disparou com um estrondo. Ambos ficaram paralisados no meio do escritório revirado do avesso. Os olhos de William estavam esbugalhados de espanto. Melanie olhou para ele com igual choque, enquanto William deslizava lentamente para o chão.

Agora conseguia ver o buraco no estômago dele. Jorrava sangue por todo o lado. Havia sangue nas mãos dela, nos papéis, no chão. Como Larry Digger, pensou Melanie.

Dios mio! proferiu uma voz no silêncio.

Melanie voltou-se e deparou com Maria à porta, carregada de sacos da mercearia.

Não tive intenção... começou Melanie a dizer em voz fraca. Maria deu uma reviravolta e desatou a correr. Melanie apercebeu-

-se tarde de mais de que continuava com a arma nas mãos e tinha os braços salpicados de sangue.

A única coisa que sempre quisera fora uma família. Pessoas que a amassem. Pessoas que estivessem presentes quando ela precisasse. Um lugar que fosse finalmente um lar.

Mentiras e sangue. Mentiras e sangue.

O corpo de Melanie moveu-se independentemente da sua vontade.

Agarrou na carteira. Saiu de rompante pela porta da frente de casa. Desatou a correr e não parou.

 

Lairmore preparava-se para mimosear os seus detectives com novos adjectivos quando o bíper de David soou.

Tenho de atender disse David, calmamente, e abandonou a sala de reuniões. Lairmore resmungou algo desagradável, mas David ignorou-o.

O número que se encontrava no bíper não era conhecido de David, mas a sua chamada foi logo atendida. O ruído de fundo de trânsito e de vozes encheu a linha.

Aqui Riggs disse.

Houve um momento de silêncio, mas David percebeu de imediato que era Melanie.

Melanie?

Mentiu-me.

Melanie, onde está?

Disse-me que não andava a investigar a minha família. Disse-me que andava atrás do William. Aposto que dormiu bem naquela noite. O superdetective cumpriu o seu dever.

Melanie, escute-me. Estou a tentar ajudá-la...

Vá-se lixar, David Riggs. Como se atreve a mentir-me! Como se atreve a não me contar a verdade depois de tudo aquilo por que passámos!

Melanie..

O tiro foi acidental, só para que saiba. O William ia matar-me. Pode dizer isso à minha família, mas não sei se lhes interessa. Nesta altura, não sei o que lhes interessa. Calculo que tinha razão e que eu não os conhecia de todo.

Melanie, diga-me exactamente onde está. Vou para aí em minutos.

Não. Acabaram-se os jogos. Acabaram-se as manipulações. Desde o princípio, deixei toda a gente aproveitar-se de mim. Bem, agora vou fazer isto à minha maneira. Adeus.

O telefone deu um estalido. David praguejou, furioso, atraindo vários olhares. Lairmore saiu da sala de reuniões com Chenney atrás.

Riggs! admoestou o supervisor.

David agarrou-o pelo casaco.

Ponha o detective Jax em campo. Era a Melanie Stokes. Segundo ela, acabou de dar um tiro no William Sheffield.

A casa dos Stokes tornara-se subitamente um local muito popular. Duas ambulâncias e três carros da polícia barricavam a frente, luzes azuis relampejavam e agentes uniformizados circulavam pelo local. Duas estações de televisão tinham chegado com câmaras montadas em carrinhas; o representante local da ABC provavelmente não estava longe.

Entre jornalistas, vizinhos a espreitarem das portas e janelas e turistas a tirarem fotografias, nas quatro faixas da rua o trânsito acabara por parar.

David Riggs travou bruscamente a um quarteirão e correu a restante distância com Chenney a arquejar e a bufar atrás de si. Tentara telefonar a Melanie, mas sem êxito. Depois, apanhara o detective Jax o tempo suficiente para este lhe dizer que houvera realmente tiros e que o departamento de homicídios do FBI em Boston tinha algumas perguntas a fazer aos seus bons amigos.

David mostrou rapidamente as credenciais ao guarda. Chenney abriu caminho à força de músculos. Seguiram a corrente de fotógrafos e detectives da brigada de homicídios e polícias de giro que se dirigia para o escritório nas traseiras da casa. Patricia Stokes encontrava-se a um canto, com os braços delgados cruzados e uma mão coberta de jóias a conter a depressão da garganta. Parecia confusa e assustada, como se o mínimo som pudesse fazê-la em pedaços.

O marido estava no canto oposto, carrancudo e desgrenhado. Devia ter acabado de ser chamado de alguma operação. Tinha uma máscara verde ao pescoço e os braços nas ancas, em posição beligerante.

Jamie O’Donnell ocupava a entrada. Adoptara já uma expressão cuidadosa, simultaneamente de preocupação e incredulidade.

É claro que a Maria tentou limpar tudo dizia Harper, peremptório. É criada, é o trabalho dela.

Interferiu no local do crime observou Jax, postando-se diante de Harper, que encolheu os ombros.

Como pode esperar-se que saiba dessas coisas? Julgou que estava a fazer o seu trabalho.

David percebeu imediatamente onde Jax queria chegar. O sangue não se encontrava numa poça nítida nem numa mancha normal, pois fora espalhado por todo o chão, tornando difícil interpretar a cena. O sangue formara linhas estreitas e rectas a intervalos irrregulares, como se se tivesse espalhado sobre folhas de papel, mas tendo este desaparecido. Poder-se-ia interpretar a cena como William a ser abatido com documentos incriminatórios aos pés.

O detective Jax pareceu ter chegado também a essa conclusão.

Se eu descobrir que o senhor tem alguma coisa a ver com isto, doutor Stokes, selo-lhe o seu rico ninho por interferência numa investigação, alteração da cena do crime e cumplicidade. Para que saiba.

Harper sorriu com firmeza.

Faça isso, detective, e o meu advogado come-lhe as divisas ao pequeno-almoço.

Por favor interrompeu Patricia em voz trémula. Podem dizer-me o que aconteceu à Melanie? Onde está a minha filha? Ela está bem?

Continuamos à procura dela, minha senhora.

Tenho a certeza de que não fez isto de propósito continuou, desesperada. Não havia razão para ela atacar o William.

Não sabemos. Harper olhou de relance para a mulher com ar preocupado. Depois da cena de ontem? Patricia, tens de concordar que a nossa filha tem estado muito perturbada nestes últimos tempos. Talvez o fim do compromisso com o William lhe tenha custado muito mais do que qualquer um de nós julgou. Não sei.

Harper! exclamou Patricia.

Tem tido enxaquecas e não tem dormido bem! Anteontem, nem sequer veio dormir a casa. Não vou mentir a estas pessoas. Nem tu nem eu sabemos já grande coisa acerca da nossa filha.

David nem pensou. Um segundo antes estava ao lado de Chenney, ouvindo Harper incriminar a própria filha, no segundo seguinte encontrava-se do outro lado do aposento, agarrando Harper pela bata e esmagando o atónito cirurgião contra a parede.

Não a culpe por isto rosnou David. Você está-se nas tintas para esta investigação. A morte do William foi a melhor coisa que lhe aconteceu a si e às suas manigâncias. Meu Deus, isto para si não passa de um jogo, pois não? Podia ter feito com que ela fosse morta. Está a ouvir-me? Você quase matou a sua filha. Novamente!

Raios! exclamou Harper com voz atabalhoada. Largue-me!

Calma disse O’Donnell suavemente atrás de David. Calma, rapaz.

Pouco a pouco, David tomou consciência de que a única pessoa no aposento que se mostrava surpreendida com o que se passava era Patricia Stokes. Harper, que estava a ser estrangulado por um homem que só conhecera enquanto criado, não parecia surpreendido. Jamie O’Donnell enfrentava dois homens que nunca vira, mas também não parecia surpreendido.

Sabiam. Sabiam quem era David e quem era Chenney, e provavelmente sabiam mais sobre a investigação do que os agentes federais.

David soltou Harper. Recuou com vivacidade e dividiu o olhar entre Harper e Jamie.

Como? perguntou David.

Ambos lhe devolveram olhares inexpressivos.

Não, disse David, abanando a cabeça. Não acredito. E também não acredito que vocês os dois percebessem do que Sheffield era capaz de fazer quando demasiado pressionado. Aposto que o julgavam um borra-botas, como nós julgávamos. Mas surgiu com os seus próprios planos, não foi? Cometeu um erro e estragou tudo. De facto, a única pessoa que hoje tem mostrado algum bom senso é a Melanie, não é? Derrotou-vos. Derrotou-nos a todos.

Um músculo contraiu-se no maxilar de O’Donnell.

Não sei do que está a falar, rapaz.

Claro que sabe. Parabéns por ter posto a sua afilhada em perigo. Não é todos os dias que um homem quase leva à morte uma bela jovem. Mas, afinal, você já deve estar a habituar-se a essa sensação, O’Donnell, não é assim? Pelos meus cálculos, com esta são duas. Primeiro, o assassino a soldo e agora o seu lacaio a soldo. Parece que você está a ficar velho!

O olhar de O’Donnell tornou-se sombrio, confirmando o tiro no escuro disparado por David.

Cuidado, rapaz. Tenha muito, muito cuidado. David limitou-se a sorrir.

Digo o mesmo, rapaz, porque fico mais esperto de dia para dia e bastante mais próximo. Sabe que não há prescrição nos crimes de homicídio, não sabe? Especialmente de uma criança. Especialmente de uma pobre e indefesa menina que não fazia ideia do que você era capaz. Aposto que também ela amava a família. Tal como a Melanie.

Dirigiu-se rapidamente para a porta. Atrás de si, ouviu Patricia dizer:

De que está este homem a falar? O que aconteceu à Melanie? Alguém se lembrou de telefonar ao Brian?

Por Brian, quer dizer Brian Stokes? inquiriu Jax.

É claro disse Patricia, em tom ainda mais atónito.

O “amigo” dele preencheu há duas horas um impresso para pessoas desaparecidas. Parece que o Brian Stokes saiu para dar uma volta há dois dias e desde então não voltou a ser visto.

Aparentemente, as notícias foram de mais. Com um pequeno grito, Patricia desmaiou. O marido não a agarrou. Foi O’Donnell quem o fez.

Importas-te de me dizer o que se passa?

Chenney arquejava, mal conseguindo acompanhar o ritmo de David no exterior da casa. David dirigiu-se a passos largos para o passeio. As dores nas costas obcecavam-no, e já nem sentia o resto do corpo.

Temos uma fuga de informações. Nunca os vimos antes e no entanto eles sabiam quem éramos.

Bolas! exclamou Chenney. Achas que a Melanie lhes contou?

A Melanie não sabia que eu andava a investigar o pai. David chegou ao carro. Escancarou a porta do lado do condutor com mais força do que seria necessário e entrou. Chenney apressou-se a fazer o mesmo. De momento, não fales com mais ninguém a não ser com o Lairmore. As coisas estão apenas no princípio. Eles também não ficaram admirados com os meus comentários acerca da Meagan. Sabiam exactamente do que eu estava a falar.

Estão metidos no assunto.

Até às orelhas. David pôs o carro em andamento com um solavanco e depois franziu as sobrancelhas. Excepto a Patricia. Não fazia ideia do que se passava.

Ei, onde vamos?

Ao condomínio do Brian Stokes, é claro. Para que outro lugar havia a Melanie de ir?

David arrancou com um rugido. Passados uns instantes, Chenney disse:

Meteste-te em maus lençóis. Bastante maus. Quando Lairmore souber que trataste o Harper Stokes daquela maneira, suspende-te por um mês.

David não respondeu.

 

O condomínio de Brian Stokes lembrou a David um museu estéril. Ele e Chenney conseguiram que o encarregado da segurança do edifício os deixasse entrar; aparentemente, os seus serviços estavam contemplados nas despesas de condomínio. Uma vez no interior da residência de três pisos, viram-se confrontados com quatro aposentos recheados de cristais, estruturas cromadas e um sofá de couro preto.

Não há uma única foto da família na parede observou Chenney.

O Brian não aprecia assim tanto a família.

A filha adoptiva mostra-se grata aos pais murmurou Chenney, o filho mais velho anseia por ver-se livre deles.

Andaram de aposento em aposento. Nem um grão de pó, um fiapo de cotão ou uma peça de roupa desgarrada. O indivíduo podia ter dado lições a David e ao irmão no passado.

Só cerveja e iogurte no frigorífico relatou Chenney.

Não há mensagens no gravador disse David, franzindo as sobrancelhas. Consegues acreditar realmente que ao cabo de dois dias não haja mensagens no aparelho?

Talvez ele telefone e as ouça. Agora estes aparelhos permitem-nos fazer isso.

Sim, talvez.

Deram uma segunda volta pela casa. Brian parecia ser uma pessoa muito arrumada e que não apreciava extravagâncias. Um jovem perturbado, pensou David, porque nenhuma pessoa sã mantinha tudo tão ordenado.

O homem da segurança afirmou que não vira nenhuma loura a entrar no edifício naquele dia, mas também confessou o seu fraco pelas telenovelas diurnas. Não dera por Brian. Não que reparasse muito nos residentes do sexo masculino, disse com um encolher de ombros, puxando as calças para cima e esfregando o estômago saliente de cerveja. Alguns jogavam sem dúvida no lado errado do campo, se é que o entendiam, e não queria que lhes passassem ideias pela cabeça.

Chenney e David dirigiram-se para a saída. Tinham acabado de chegar ao carro quando uma voz os deteve.

Agente especial Riggs, Chenney.

Ambos os agentes se voltaram ao mesmo tempo e Chenney deitou a mão à arma. Brian Stokes saiu do umbral escuro de uma porta. Tinha o ar de quem não dormia havia dias.

Pode guardar a arma, Chenney proferiu David com secura. Não me parece que o Brian Stokes esteja aqui com más intenções.

Só quero conversar assegurou Brian.

Sabe onde anda a sua irmã? Brian abanou a cabeça.

Recebi apenas uma mensagem. A minha função na família é essa.

E também era essa a sua função há vinte cinco anos quando a Meagan desapareceu?

Brian fitou-o com curiosidade

Acha que sou eu o culpado pelo que aconteceu à Meagan comentou, a sorrir. Claro, não é nada que eu mesmo não tenha pensado.

Brian...

Venha comigo, agente. Há uma coisa que preciso de mostrar-lhe e outra coisa que devia ter-lhe dito. Que devia ter dito a todos há muito tempo.

Seguiram Brian Stokes a pé, passando por quarteirão após quarteirão de casas de tijolo, alinhadas como soldadinhos de chumbo. Algumas ruas depois, Brian conduziu-os a uma via estreita, ladeada por casas mais velhas mas ainda imponentes e caras. Entrou com chave na última. Um canteiro de flores cheio de narcisos amarelos acenou-Lhes quando passaram pela pesada porta de madeira, mas nenhum deles deu por isso.

O meu... amigo vive aqui disse finalmente Brian, conduzindo-os pela escada.

Refere-se ao seu amante.

Pode dizê-lo. Teoricamente, ninguém sabia o nome do homem com quem me encontro, nem o facto de passar com frequência a noite nesta casa.

Teoricamente?

Na manhã de terça-feira, recebi uma encomenda. Entregue em mão, em meu nome, aqui, nesta casa.

David e Chenney trocaram olhares.

E desde então você tem andado escondido? perguntou David.

Precisava de algum tempo para pensar.

E a comunicação do seu desaparecimento?

Pedi ao Nate que a fizesse. Para o despistar.

Para o despistar? Um “ele”?

Não sei, agente. Tinha esperança de que pudesse dizer-me.

Chegaram ao terceiro andar. Brian abriu a porta da frente e conduziu-os para dentro, desaparecendo quase imediatamente na cozinha. O apartamento privilegiava os soalhos de madeiras duras, uma parede de tijolo e pilhas e mais pilhas de almofadas de camurça e tapetes de lã macios: tudo aquilo que o apartamento de Brian Stokes não era.

O Nate está em casa? perguntou David. Uma questão resolvida. A casa de Brian era definitivamente aquela e a outra residência uma mera fachada.

Está a trabalhar. Também é médico.

E a Melanie? Quando foi que a viu?

Brian regressou da cozinha, transportando uma caixa de papelão e deitando a David um olhar impaciente.

Já lhe disse, não a vi.

Mas sabe que o William Sheffield foi morto a tiro.

Ouvi o meu gravador há meia hora. Duas mensagens. A primeira era da Melanie. Pareceu-me tão calma que quase pensei que se tratava de uma brincadeira. Disse-me que o William tentara disparar contra ela, mas que ela o atingira. Queria que eu soubesse que estava bem. Depois, mencionou o seu nome e que você andava a investigar o nosso pai, provavelmente por bons motivos. Depois disse... A voz de Brian vacilou. Disse que sabia que o Russell Lee Holmes não matara a Meagan. E depois declarou... A voz voltou a vacilar-Lhe. Pigarreou propositadamente. Declarou que me amava. E agradeceu-me pelos últimos vinte anos.

O olhar de Brian fixava a caixa que estava diante de si. Tinha os maxilares tensos e David apercebeu-se do espasmo de um músculo. Depois, compreendeu. Brian não sofria apenas de um pequeno problema de autoconfiança. Brian detestava-se. Detestava-se de verdade e responsabilizava-se por todo o mal que acontecia na família, incluindo o destino das irmãs.

Disse que tinha recebido uma segunda mensagem?

Do meu padrinho. Tem deixado três por dia. Também me falou de o William ter sido atingido a tiro. Disse que sabia que se passava algo e que precisávamos realmente de conversar. Parece que também ele recebeu um presente. Acho que todos receberam.

Todos receberam?

A minha mãe, o meu pai, o Jamie, a Melanie e eu. Todos os que estiveram envolvidos naquela época, embora uns se recordem mais do que outros. Deixe-me mostrar-lhe.

Retirou a tampa da caixa de papelão. Ali, pousada em papel branco, estava uma língua de vaca, enegrecida e engelhada. Brian olhou para ambos.

Chegou com um bilhete. “Temos o que merecemos”, mas sei do que se está a falar. Já perdi a minha irmã, percebe? Não queria perder também o meu pai.

David sentou-se. Pegou na agenda e numa caneta.

Vamos começar pelo princípio, porque estou ansioso por obter respostas e há muita coisa que queremos que nos explique. Onde estava você no dia em que a Meagan Stokes foi raptada? Que fizeram você e a sua mãe?

Brian respirou fundo e depois, olhando para a língua de vaca ressequida, começou.

Eu não era um garoto fácil, percebem? Se fosse hoje, naquela idade, provavelmente ter-me-iam diagnosticado um distúrbio de défice de atenção. Mas, naquela época, eu era simplesmente hiperactivo e nervoso e ninguém, muito menos a minha mãe, sabia o que fazer comigo. Para falar com franqueza, naquela altura, a nossa família também não era um modelo de carinho. Não sei como é que os meus pais começaram o casamento, mas, quando eu surgi, o meu pai parecia um viciado no trabalho, sempre ausente, que dava o seu melhor no consultório e a quem não sobrava nada para dar em casa. A minha mãe andava triste e taciturna metade do tempo e gastava dinheiro para se distrair, fazendo tudo para chamar a atenção. Acho que tinha uns oito anos quando percebi que era pior do que isso... que o meu pai nem sempre trabalhava até tarde, que a minha mãe sabia das outras mulheres e parecia decidida a tirar partido da situação. Não sei, tinha a sensação de ser criado por um robô e uma adolescente. Nunca nenhum falou mal do outro, mas a tensão quando estavam ambos no mesmo aposento... As crianças sabem simplesmente essas coisas, não é verdade?

Sim concordou Chenney em tom arrastado, o que lhe valeu um olhar surpreso, tanto de David como de Brian. Encolheu os ombros. Aparentemente, ele sabia.

Entretanto, veio a Meagan continuou Brian, passado um momento. Era muito meiga e estava sempre a sorrir. O que quer que acontecesse, inclinava-se e estendia os braços para nós. Todos a amavam. As mulheres nos supermercados, os vizinhos, os cães vadios. Quem tivesse sentimentos adorava automaticamente a Meagan Stokes e esta automaticamente também adorava as pessoas. Tenho a certeza absoluta de que nunca ninguém pensou em mim dessa maneira e, é verdade, tinha ciúmes. Ficava furioso. Mas... mas também eu não era imune a ela, agente. Mesmo quando sentia ciúmes dela, amava-a. Às vezes, esgueirava-me para o quarto dela durante a noite só para vê-la dormir. Tinha um ar tão calmo, tão feliz... Nunca compreendi como foi possível a minha família criar uma menina tão feliz.

“Mas, depois, comecei a ter cada vez mais medo. Pensava que os meus pais também a estragariam. Ela havia de amá-los tal como eu e eles fá-la-iam pagar por isso. O Harper abandoná-la-ia e a Patricia aborrecer-se-ia, e a Meagan, um dia, compreenderia que os pais eram duas pessoas egocêntricas com pouco para lhe dar. Comecei a partir-Lhe os brinquedos e a destruí-los. Pensava sempre que, se eu fosse suficientemente mau, ela se tornaria mais forte e aprenderia a proteger-se. Magoava-a, mas continuava a achar que estava a fazer-lhe um favor. Sorriu de viés. Bem-vindos à versão Stokes de família.

E naquele último dia? Que fizeram?

Diverti-me, agente. Gozei honestamente a vida por instantes e foi esse talvez o meu maior pecado. Naquele dia... naquele dia tinha

a minha quarta consulta de terapia. Depois, o psiquiatra pediu para Jekk falar a sós com a minha mãe. Não sei o que ele disse. Mas a minha mãe levou-me a comer um gelado, embora fossem só onze da manhã, Até ela comeu, e é uma mulher que há cinquenta anos ao pequeno-almoço só come uma toranja e tostas integrais. Saímos, agente. Não sei de que outro modo descrever o que fizemos.

“Passados uns momentos, a minha mãe disse-me que as coisas seriam diferentes. A família estava a enfrentar um período difícil e ela sabia que tinham andado a fingir que eu não sabia nada do que estava a passar-se. Ficaria mais tempo comigo. Ela e o meu pai resolveriam as coisas. Apercebia-se agora de que a família significava para ela mais do que qualquer outra coisa e estava preparada para fazer o que fosse necessário para a manter unida. Disse-me que me amava, que me amava realmente, e que tudo ficaria bem.

“Depois disso, fomos brincar para o parque. A minha mãe empurrou-me no balouço, embora eu já fosse demasiado crescido para me empurrarem, mas gostei. Lembro-me de pensar que me sentia quase feliz, o que foi uma sensação curiosa e estranha. Não tinha a certeza de alguma vez ter sido feliz.

“Depois, voltámos para casa e o agente da polícia disse-nos que a Meagan desaparecera. Assim mesmo. Você é fatalista, agente? Brian sorriu. Eu sou, sem sombra de dúvida.

Você esteve o dia todo com a sua mãe?

O dia todo.

Viu a Meagan entrar no carro da ama?

Não. Saímos antes disso.

Brian, está de facto convencido de que o Russell Lee Holmes raptou a Meagan Stokes?

Francamente, pensava que sim respondeu Brian. Insisto que, se o diabo tem um rosto humano, agente Riggs, seria parecido com o do Russell Lee Holmes.

David franziu as sobrancelhas. Acreditava em Brian Stokes. Portanto, se Brian e Patricia haviam estado juntos durante todo o dia e nada tinham a ver com a morte de Meagan Stokes...

E quanto à língua? perguntou, sentindo-se frustrado. Se

você não tem nada a ver com o rapto da sua irmã, porquê o “presente”?

Brian apertou os lábios.

Não tenho a certeza. O altar no quarto da Melanie apanhou-me desprevenido. Que ela possa ser filha do Russell Lee Holmes... Meu Deus, não sei! A única coisa que posso dizer é que houve certas coisas de que a polícia não tomou conhecimento naquela altura e que alguém parece decidido a pôr agora essas informações cá para fora. Por exemplo, há três noites atrás, o meu padrinho recebeu um pénis dentro de um frasco. Tem três tentativas para descobrir porquê.

Ele e a Patricia?

Sim. Apesar do que os outros possam pensar, nem todos os problemas dos meus pais foram provocados pelos hábitos de trabalho do meu pai. Brian encolheu os ombros e inspirou fundo. Quanto à língua... O meu pai, naquela altura, não tinha cem mil dólares em dinheiro para dar de resgate. Não passava de um médico interno, sobrecarregado de trabalho e a tentar pagar os empréstimos contraídos para os estudos, para não falar em manter o estilo de vida da minha mãe. Portanto, o Jamie emprestou o dinheiro. Eu estava lá quando o Jamie chegou com uma pasta recheada com os cem mil dólares em dinheiro vivo. E...

Brian levantou os olhos e encontrou os deles.

E estava lá para ver que o meu pai não levou aquela pasta para o local de entrega. Em vez disso, levou uma pasta dele. Vazia. Sei, porque quando descobri a pasta do Jamie debaixo da cama dos meus pais, puxei-a para fora e abri-a. Todo aquele dinheiro continuava exactamente no mesmo lugar. Estão a perceber? O meu pai não pagou o resgate. Era tão horrivelmente ganancioso que ficou com o dinheiro para si. E o Russell Lee Holmes... o Russell Lee Holmes matou a minha irmãzinha.

A respiração de Brian saiu-lhe entrecortada de raiva.

E eu nunca disse uma palavra. Nunca fui ter com a polícia, com o Jamie ou com a minha mãe, nem com ninguém. Limitava-me a fitar o Harper, noite após noite, observando-o a jantar e a afirmar à minha mãe que tudo se ia resolver. Noite após noite. Mentiu continuamente, vendeu a minha irmã por cem mil dólares e eu nunca tive a coragem de o acusar. Caramba, tanto que queria dizer e fui sempre incapaz. Simplesmente, fui incapaz

Brian varreu a caixa de papelão de cima da mesinha de carvalho. Não lhe serviu de nada. A língua saltou e depois ficou no chão à vista de todos.

Merda! exclamou momentos depois. Merda! repetiu. David concordava com Brian. Portanto, nem Brian nem Patrícia Stokes tinham feito mal a Meagan. A família não se apressara a tomar uma atitude de encobrimento a fim de proteger o filho. Se alguém fizera mal a Meagan, tinha de ser Jamie ou Harper, e tinha de tratar-se de um assassínio a sangue-frio.

De uma menina de quatro anos, com grandes olhos azuis e cabelos louros encaracolados.

Se lhe serve de consolo disse David, tenho noventa por cento de certeza de que o Russell Lee Holmes não raptou nem assassinou a Meagan Stokes, o que pode explicar por que motivo o seu pai não levou o dinheiro para o local da entrega. O seu pai já sabia que não tinha de fazê-lo.

Como assim?

David fitou Brian Stokes com expressão séria.

Não me parece que o seu pai quisesse cem mil dólares. Estou convencido de que ele queria um milhão.</