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A FILOSOFIA PERENE / Aldous Huxley
A FILOSOFIA PERENE / Aldous Huxley

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A FILOSOFIA PERENE

 

Philosophia Perennis: a frase foi cunhada por Leibniz; mas a coisa —a metafísica que reconhece uma divina Realidade no mundo das coisas, vidas e mente; a psicologia que encontra na alma algo similar à divina Realidade, ou até idêntico a ela; a ética que põe a última finalidade do homem no conhecimento da Base imanente e transcendente de todo o ser—, a coisa é imemorial e universal. Podem achar-se rudimentos da Filosofia Perene nas tradições dos povos primiti­vos em todas as regiões do mundo, e em suas formas plenamente desenvolvidas tem seu lugar em cada uma das religiões superiores. Uma versão deste Máximo Fator Comum em todas as precedentes e subseqüentes teologias foi pela primeira vez escrita faz mais de vinte e cinco séculos, e após o inesgotável tema foi tratado uma e outra vez do ponto de vista de cada uma das tradições religiosas e em todos os principais idiomas da Ásia e Europa. Nas páginas que seguem reuni certo número destes escritos, escolhidos princi­palmente por sua importância —porque ilustravam eficaz­mente algum ponto determinado no sistema geral da Filosofia Perene—, mas também por sua intrínseca beleza e memorabilidade. Estas seleções estão dispostas sob diversos títulos e incrustadas, por assim dizê-lo, em meu comentário destinado a ilustrar e relacionar, a desenvolver e elucidar.

            O conhecimento é uma função do ser. Quando há uma mudança no ser do consciente, há uma mudança correspondente na natureza e a quantidade do conhecimento. Por exemplo, o ser de um menino se transforma pelo desenvolvimento e a educação no de um homem; entre os resultados desta transformação está uma mudança revolu­cionária no modo de conhecer e o valor e o caráter das coisas conhecidas. À medida que o indivíduo cresce, seu conhecimento toma uma forma mais conceitual e sistemáti­ca, e seu conteúdo factual, utilitário é enormemente aumentado. Mas estes valores se acham em contrapesos por certa deterioração na qualidade da apreensão ime­diata, por um embotamento e perda de poder intuitivo. Consideremos a mudança em seu ser que o cientista pode induzir mecanicamente por meio de seus instru­mentos. Equipado com um espectroscópio e um refletor de sessenta polegadas, um astrônomo chega a ser, no que concerne a sua visão, uma criatura sobre-humana; e, como naturalmente terá que supor, o conhecimento que se coloca esta sobre-humana criatura é muito diferente, tanto em quantidade como em qualidade, de que possa adquirir um simples contemplador de estrelas com seus olhos meramente humanos.

            E não são as mudanças fisiológicas ou intelectuais do ser consciente quão únicos afetam seu conhecimento. O que sabemos depende também do que, como seres morais, decidimos fazer de nós mesmos. "A prática —segundo as palavras do William James— pode mudar nosso horizonte teórico, e pode fazer de maneira dupla: pode conduzir à novos mundos e suscitar novos poderes. O conhecimento que nunca obteríamos per­manecendo o que somos, acaso seja acessível em conseqüências de poderes mais altos e uma vida superior, que possamos obter moralmente." Dizendo-o mais sucinta­mente: "Bem-aventurados os puros de coração, porque verão deus. "E a mesma idéia expressou o poeta sufi Jalal-uddin Rumí, em termos de metáfora científica: "O astrolábio dos mistérios de Deus é o amor."

            Este livro, repito-o, é uma antologia da Filosofia Perene; mas, sendo uma antologia, contém poucas entrevistas de escritos de literatos profissionais, e ilustrando uma filosofia, apenas nada dos filósofos de profissão. Isso obedece a uma razão muito simples. A Filosofia Perene se ocupa principalmente da Realidade una, divina, inerente ao múltiplo mundo das coisas, vidas e mente. A natureza desta Realidade é tal que não pode ser direta e imediatamente apreendida; mas sim por aqueles que decidiram cumprir certas condições fazendo-se amantes, puros de coração e pobres de espírito. Por que tem que ser assim? Não sabemos. É um desses fatos que temos que aceitar, gostemos ou não, e por mais implausíveis e improváveis que pareçam. Nada, em nossa experiência diária, dá-nos razão alguma para supor que a água está composta de hidrogênio e oxigênio; entretanto, quando submetemos a água a certo tratamento eficaz, manifesta-se o caráter de seus elementos constitutivos. Analogamente, nada, em nossa experiência diária, dá-nos muita razão de supor que a mente do homem sensual médio possua, como um de seus ingredientes, algo que se pareça com a Realidade inerente ao múltiplo mundo, ou que seja idêntico a ela; entretanto, quando essa mente é submetida a certo tratamento eficaz, o divino elemento, de que, pelo menos em parte, está composta, manifesta-se, não só para a mente mas também, por seu reflexo na conduta externa, para outras mentes. Só fazendo experimentos físicos podemos descobrir a natureza íntima da mate­ria e seu poder latente. E só fazendo experimentos psicológicos e morais podemos descobrir a natureza íntima do espírito e seu poder latente. Nas circunstâncias ordinárias da vida média comum, este poder continua latente, não manifestado. Se queremos despertá-lo, devemos cumprir certas condições e obedecer a certas regras, cuja validade demonstrou empiricamente a experiência.

            Relativamente a poucos filósofos e literatos profissionais existem provas de que fizessem muito por cumprir as condi­ções necessárias para o conhecimento espiritual direto. Quando poetas ou metafísicos falam do tema da Filosofia Perene, fazem-no geralmente de segunda mão. Mas em cada época houve alguns homens e mulheres que quiseram cumprir as únicas condições sob as quais, conforme o demonstra a crua experiência, pode obter-se tal conhecimento imediato, e alguns deles deixaram notícia da Realidade que assim puderam apreender, e tentaram relacionar em um amplo sistema de pensamento os dados desta experiência com os dados de suas demais experiências. À tais expositores, de primeira mão, da Filosofia Perene, os que os conheceram lhes davam geralmente o nome de "santo" ou "profeta", "sábio" ou "iluminado". E principalmente a estes, porque há boa razão para supor que sabiam do que falavam, e não aos filósofos ou literatos profissionais, fiz minhas seleções.

            Na Índia se reconhecem duas classes de sagradas escritu­ras: os Shruti, ou escritos inspirados, autorizados por si, pois são resultado de uma penetração imediata na Realidade última; e os Smriti que se fundam nos Shruti e tiram deles sua autoridade. "O Shruti —diz Shankara— se apóia na percepção direta. O Smriti faz um papel análogo à indução, pois, como a indução, tira sua autoridade de uma autoridade distinta de si mesmo." Este livro, pois, é uma antologia, com comentários explicativos, de passagens tiradas dos Shruti e os Smriti de muitas épocas e lugares. Infortunadamente, a familiaridade com os escritos tradicionalmente consagrados tende a criar, não precisamente desdém, a não ser algo que, para os efeitos práticos é quase tão mau: ou seja, uma espécie de reverente insensibilidade, um estupor do espírito, uma surdez interna ao significado das palavras sagradas. Por esta razão, ao escolher o material para ilustrar as doutrinas da Filosofia Perene, conforme se formularam no Ocidente, acudi quase sempre a outras fontes na Bíblia. Este Smriti cristão ao qual recorri se apóia no Shruti dos livros canônicos mas tem a grande vantagem de ser menos conhecido e portanto, mais vivido e, por assim dizê-lo, mais audível que eles. Além disso, grande parte deste Smriti é obra de homens e mulheres genuinamente Santos que ficaram em condições para saber de primeira mão do que falam. Em conseqüência pode considerar-lhe como uma forma de inspirado Shruti, válido por si, e isso em grau muito mais alto que muitos dos escritos atualmente compreendidos no cânone bíblico.

            Nos últimos anos fizeram-se várias tentativas para elaborar um sistema de teologia empírica. Mas, face à sutileza e força intelectual de escritores como Sorley, Omán e Tennant, o esforço só obteve um êxito parcial. Até em mãos de seus mais aptos expositores a teologia empírica não é especialmente convincente. A razão, a meu ver, deve buscar-se no fato de que os teólogos empíricos limitaram sua atenção mais ou menos exclusivamente à experiência daqueles que os teólo­gos de uma escola mais velha chamavam "os não regenera­dores" —isto é, a experiência de pessoas que não avança­ram muito no cumprimento das condições necessá­rias para o conhecimento espiritual. Mas é um fato, confirmado e reconfirmado durante dois ou três mil anos de história religiosa, que a Realidade última não é clara e imediatamente apreendida mas sim por aqueles que se fizeram amantes, puros de coração e pobres de espírito. Sendo assim, logo que surpreendemos uma teologia apoiada na teologia de pessoas corretas, ordi­nárias, não regeneradas seja tão pouco convincente. Esta espécie de teologia empírica está precisamente no mes­mo pé que uma astronomia empírica apoiada na expe­riência de observadores a primeira vista. A olho nu, podemos observar uma pequena, débil mancha na constelação do Órion, e não cabe dúvida de que poderia apoiar uma imponente teoria cosmológica na observação desta mancha. Mas tais teorias por mais engenhosas que fossem, nunca poderiam dizer tanto sobre as nebulosas galácticas e extragalácticas como o contato direto mediante um bom telescópio, a câmara fotográfica e o espectroscópio. Analogamente, nenhuma teoria acerca dos indícios que possam obscuramente espionar-se dentro da experiência ordinária, não regenerada, do múlti­plo mundo pode nos dizer tanto a respeito da divina Realidade como pode apreender diretamente um espírito em estado de desprendimento, caridade e humildade. A ciência natural é empírica; mas não se limita a experiência de seres humanos em sua condição meramente humana, não modificada. Deus só sabe por que os teólo­gos empíricos têm que acreditar-se obrigados a submeter-se a tal desvantagem. E, é obvio, enquanto confinem a experiência empírica nestes limites tão excessivamente humanos, estão condenados à perpétua frustração de seus melhores esforços. Do material que quis conside­rar, nenhuma mente, até brilhantemente dotada, pode inferir mais que um jogo de possibilidades ou, no melhor caso de enganosas probabilidades. A certeza, válida por si, da visão direta não pode, pela mesma natureza das coisas, ser conseguida mas sim por aqueles que estão equipados com "o astrolábio dos mistérios de Deus". Se a gente mesmo não for sábio nem santo, o melhor que podemos fazer, no campo da metafísica, é estudar as obras dos que o foram e que, por ter modificado seu modo de ser meramente humano, foram capazes de obter uma categoria e uma quantidade de conhecimento mais que meramente humanas.

 

                   ISSO É VOCÊ

            Ao estudar a Filosofia Perene podemos começar por baixo, com a prática e a moral; acima, com a consi­deração das verdades metafísicas; ou, finalmente, pelo meio, no ponto focal em que mente e matéria, ação e pensamento são citados na psicologia humana.

            A entrada inferior é a preferida pelos professores estritamente práticos, homens que, como Gautama Buda, não são dados à especulações e cujo principal cuidado é apagar no coração dos homens os horríveis fogos de cobiças, rancores e paixões. Pela porta superior vão aqueles cuja vocação é pensar e especular, os filósofos e teólogos natos. O aces­so do meio dá entrada aos expositores do que se chamou "religião espiritual", aos devotos contemplati­vos da Índia, os sufis do Islã, os místicos católicos do fim da Idade Média e, na tradição protestante, a homens como Denk, Franck e Castelio, como Everard e John Smith, os primeiros quaisquer e William Law.

            Por esta porta central, e precisamente por sê-lo, iniciamos nossa entrada na matéria deste livro. A psico­logia da Filosofia Perene tem sua fonte na metafísi­ca e desemboca logicamente em um modo de vida e um sistema ético característicos. Partindo deste ponto da doutrina, é fácil à mente mover-se em quaisquer de ambas as direções.

            Na presente seção limitaremos nossa atenção a um só rasgo desta psicologia tradicional —o mais importante, aquele em que mais enfaticamente insistem to­dos os expositores da Filosofia Perene e, poderíamos acrescentar, o menos psicológico. Pois a doutrina que se ilustrará nesta seção pertence à antologia mas bem que à psicologia; à ciência, não do eu pessoal, mas sim daquele eterno Eu que está no fundo dos eus particulares, individualizados, e que se identifica com a divina Base ou é pelo menos afim com ela. Fundada na experiência direta dos que cumpriram as necessárias condições de tal conhecimento, este ensino se expressa do modo mais sucinto na fórmula sânscrita tat tvam assim ("Isso é você"); o Atman, ou imanente eu eterno; é um com o Brahma, Princípio Absoluto de toda exis­tência, e a finalidade última de todo ser humano é desco­brir o fato por si mesmo, achar quem é ele realmente.

            Quanto mais Deus está em todas as coisas, tanto mais está fora delas. Quanto mais está dentro, tanto mais fora.

                                                                                                                                            Eckhart

            Só o transcendente, o completamente outro, pode ser imanente sem ser modificado pelo suceder daquilo em que reside. A Filosofia Perene ensina que é desejável e até necessário conhecer a Base espiritual de todas as coisas, não só no interior da alma, mas também fora, no mundo, e, mais à frente do mundo e a alma, em sua alteridade transcendente —"no céu".

            Embora Deus esteja presente em todas partes, só está presente a si na parte mais profunda e mais central de sua alma. Os sentidos naturais não podem possuir Deus nem se unir a Ele; até mais, suas internas faculdades de entendimento, vontade e memória só podem lançar-se para Deus, mas não ser o lugar de sua habitação em si. Mas existe uma raiz ou profundidade de si onde surgem todas estas faculdades, como linhas de um centro, ou como ramos do tronco de uma árvore. Esta profundidade é chamada centro base ou fundo da alma. Esta profundidade é a unidade, a eternidade —quase se diz a infinidade— de sua alma; pois é tão infinita que nada pode satisfazê-la ou lhe dar descanso a não ser a infinidade de Deus.

                                                                                                                                         William Law

            Este texto parece contradizer o que foi dito antes, mas a contradição não é real. Deus dentro e Deus fora —eis aqui duas abstrações que podem ser contempladas pelo entendimento e expressas em palavras. Mas os elaborados as quais estas noções se referem não podem ser advertidos e experimentados a não ser em "parte mais profunda e mais central da alma". E isto é certo não menos de Deus fora que de Deus dentro. Mas embora as duas noções abstratas têm que ser advertidas (para empregar uma metáfora espacial) no mesmo local, o caráter intrínseco da advertência de Deus dentro é qualitativamente di­ferente do de Deus fora, e cada um é a sua vez diferente da advertência da Base como simul­taneamente dentro e fora, como Eu de que percebe e ao mesmo tempo (nas palavras do Bhagavad Gita) como "Aquilo de que todo este mundo está infundido".

            Quando Svetaketu tinha doze anos, foi mandado a um professor, com o que estudou até cumprir os vinte ­quatro anos depois de aprender todos os Veda, retornou ao lar cheio de presunção na crença de que possuía uma educação consumada, e era muito dado à censura.

            Seu pai lhe disse:

            —Svetaketu, meu filho, você que está tão certo de sua ciência e tão cheio de censuras, procuraste o conhecimento pelo qual ouvimos o inaudível, e pelo qual percebemos o que não se pode perceber e sabemos o que não se pode saber?

            —Qual é este conhecimento, meu pai? —pergun­tou Svetaketu.

            Seu pai respondeu:

            —Como conhecendo um torrão de argila se conhece tudo o que é feito de argila, pois a diferença é só no nome, mas a verdade é que tudo é argila, assim, meu filho, é o conhecimento que, uma vez adquirido, faz-nos sabê-lo tudo.

            —Mas sem dúvida meus veneráveis Mestres ignoram este conhecimento, pois, se o possuíssem me teriam comunicado dê-me, pois, você, meu pai, este conhecimento.

            —Assim seja —respondeu o pai... E disse—. Traga-me um fruto da árvore de nyagrodha.

            —Aqui está, pai.

            —Rompe-o.

            —Quebrado está, pai.

            —O que vê aí?

            —Umas sementes, pai, muito pequenas.

            —Rompe uma.

            — Rompida está.

            —O que vê aí?

            —Nada.

            O pai disse:

            —Meu filho, na essência sutil que não percebe aí, nessa essência está o ser da enorme árvore do nyagrodha. Nisso está a sutil essência, tudo o que existe tem seu eu. Isso é o Verdadeiro, isso é o Eu, e você, Svetaketu, é Isso.

            —Por favor, pai —disse o filho—, diga-me mais.

            —Assim seja, meu filho —respondeu o pai, e disse—: Ponha este sal em água, e volta amanhã pela manhã.

            O filho cumpriu o mandado.

            À manhã seguinte, o pai disse:

            — Traga-me o sal que pôs na água.

            Buscou-o o filho, mas não pôde encontrá-lo, pois o sal, é óbvio, havia se dissolvido.

            O pai disse:

            —Prova a água da superfície da vasilha. Como é?

            —Salgada.

            —Prova do meio. Como é?

            —Salgada.

            —Prova do fundo. Como é?

            —Salgada.

            O pai disse:

            —Tira a água e volta.

            Assim fez o filho, mas o sal não se perdeu, pois o sal existe para sempre.

            Então disse o pai:

            —Aí igualmente, nesse teu corpo, meu filho, não percebe o Verdadeiro, mas aí está realmente. Nisso que é a essência sutil, tudo o que existe tem seu eu. Isso é o Verdadeiro, isso é o Eu, e você, Svetaketu, é Isso.

 

Do Chandogya Upanishad

            O homem que deseja conhecer o "Isso" que é "Você" pode ficar à obra de uma de três maneiras.

            Pode começar dirigindo o olhar para dentro, a seu eu particular e, por um processo de "morrer para o eu" —eu no raciocínio, eu na vontade, eu no sentimento— chegar por fim ao conhecimento do Eu, o interno Reino de Deus. Ou pode começar com os eus que existem fora dele e tentar advertir sua essencial unidade com Deus e, Deus mediante, um com outro e com seu próprio ser. Ou, finalmente (e esta é sem dúvida a melhor maneira), pode procurar abordar o Isso último de dentro e desde fora, de modo que chegue experimentalmente à advertência de Deus como de uma vez o princípio de seu próprio você e de todos outros vocês, animados e inanimados. O ser humano completamente iluminado sabe, com o Law, que Deus "está presente na parte; mais profunda e mais central de sua alma"; mas é também, e ao mesmo tempo, um daqueles que, nas palavras de Plotino, vêem todas as coisas, não em processo de suceder, a não ser no Ser, e se vêem si mesmos no outro. Cada ser contém em si mesmo todo mundo inteligível. Daí que Tudo está em todas partes. Cada um é Tudo, e Tudo é cada um. O homem, tal qual é agora, cessou de ser o Tudo. Mas quando deixa de ser um indivíduo, eleva-se de novo e penetra o mundo inteiro.

            Na mais escura intuição da unidade que é a base e princípio de toda multiplicidade, tem a filosofia sua fonte. E não só a filosofia, mas também deste modo a ciência natural. Toda ciência, segundo a frase de Meyerson, é redução de multiplicidades a identidades. Adivinham­ um dentro e além dos muitos, achamos uma intrínseca plausibilidade em qualquer explicação do diverso em termos de um só princípio.

            A filosofia dos Upanishads reaparece, desenvolvida e enriquecida, no Bhagavad Gita, e foi finalmente sistematizada, no nono século de nossa era, pela Shankara. O ensino da Shankara (simultaneamente teórica e prática, como o é a de todos os verdadeiros expositores da Filosofia Perene) está resumida em seu tratado em verso Viveka-Chuda-mani ("Penacho de Jóias da Sabedoria"). Todas as passagens seguintes são tiradas desta obra convenientemente breve e não técnica.

            O Afanan é aquilo de que está penetrado o universo, mas que nada penetra; que faz brilhar todas as coisas, mas que todas as coisas não podem fazer brilhar...

            A natureza da Realidade una deve conhecer-se pela clara percepção espiritual da gente mesmo; não pode conhecer-se mediante um pandit (homem douto). Analogamente, a forma da lua só pode conhecer-se pelos olhos da gente mesmo. Como poderia conhecer-se­ por outro?

            Quem, a não ser o Atman, é capaz de tirar as ligadu­ras da ignorância, a paixão e a ação egoísta?

            A liberação não se pode alcançar, mas sim pela percepção da identidade do espírito individual com o Espírito universal. Não pode alcançar-se nem pelo Ioga (adestramento físico) nem pelo Sankhya (filosofia es­peculativa), nem pela prática de cerimônias religiosas, nem pelo simples estudo...

            A enfermidade não se cura pronunciando o nome de medicina, mas tomando remédio. A liberação não se alcança repetindo a palavra "Brahma", a não ser experi­mentando diretamente o Brahma...

            O Atman é o Testemunho do espírito individual e de seu obrar. É o conhecimento absoluto...

            O sábio é o que compreende que a essência do Brahma e do Atman é Consciência Pura e adverte sua completa identidade. A identidade do Brahma e Atman é afirmada em centenas de textos sagrados...

            Casta, credo, família e linhagem não existem no Brahma. Brahma não tem nome nem forma, transcende o mérito e o demérito, está mais à frente do tempo, o espaço e os objetos da experiência sensorial. Tal é Brahma, e "você é Isso". Medita esta verdade dentro de sua consciência.

            Supremo mais à frente do poder expressivo das palavras, Brahma, contudo, pode ser apreendido pelos olhos da pura iluminação. Pura, absoluta e eterna Realidade, tal é Brahma, e "você é Isso". Medita esta verdade dentro de sua consciência...

            Embora Um, Brahma é a causa de muitos. Não existe outra causa. E com todo Brahma é independente da lei de casualidade. Tal é Brahma, e "você é Isso". Medita esta verdade dentro de sua consciência...

            A verdade do Brahma pode ser compreendida intelectualmente. Mas (até nos que assim a compreendem) o desejo de separação pessoal está muito enraizado e é potente, pois existe antes do tempo começado. Cria a idéia: "Eu sou o autor, eu sou quem experimenta." Esta idéia é a causa da servidão à existência condi­cional, nascimento e morte. Pode ser apartada só pelo ansioso esforço por viver constantemente em união com o Brahma. Pelos sábios, o desarraigar desta idéia e do anseio de separação pessoal é chamado Liberação.

            É a ignorância que nos faz identificarmo-nos com o corpo, o eu, os sentidos ou algo que não seja o Atman. Sábio é o homem que vence esta ignorância por devoção ao Atman...

            Quando um homem segue o caminho do mundo, o caminho da carne, ou o caminho da tradição (isto é, quando acredita nos ritos religiosos e a letra das escrituras, como se fossem intrinsecamente sagrados), o conhecimento da Realidade não pode surgir nele.

            Os sábios dizem que este triplo caminho é como uma cadeia de ferro, que ata os pés daquele que aspira a escapar do cárcere deste mundo que se liberta da cadeia alcança a Salvação.

 

Shankara

            Nas formulações taoístas da Filosofia Perene insiste-se, com não menor força que nos Upanishads, o Gita e os escritos da Shankara, na imanência univer­sal da transcendente Base espiritual de toda existência. O que segue é um extrato de um dos grandes clássicos da literatura taoísta, o Livro do Chuang Tse, que em sua maior parte parece ter sido escrito entre o quarto século e terceiro a. C.

            Não pergunte se o Princípio está neste ou naquele; está em todos os seres. Por esta razão lhe aplicamos os epítetos de supremo, universal total... ordenou que todas as coisas sejam limitadas, mas Ele é ilimitado, infinito. No que corresponde à manifestação, o Princípio causa a sucessão de suas fases, mas não é esta sucessão. É o autor de causas e efeitos, mas não é as causas e efeitos. É o autor de condensações e dissipações (nascimento e morte, mudança de esta­do), mas não é de condensações e dissipações. Tudo procede Dele e está sob seu influxo. Está em todas as coisas, mas não é idêntico aos seres, pois não está diferenciado nem limitado.

 

Chuang Tse

            Do taoísmo passamos ao budismo mahayânico que, no Extremo Oriente, chegou a associar-se estreitamente com o taoísmo, dando e tomando até que os dois se fundiram finalmente no que se conhece como o Zen. A Lankavatara Sutra, da qual tomamos a seguinte citação, é a sagrada escritura que o fundador do budismo do Zen recomendava expressamente a seus discípulos.

            Os que inutilmente raciocinam sem compreender a verdade se perdem na selva dos Vijnanas (as diversas formas do conhecimento relativo), correndo daqui para lá e tentando justificar sua opinião sobre a substância do eu.

            O eu advertido em sua mais íntima consciência aparece em sua pureza; esta é o Tathagata-garbha (literalmente, seio da Buda), que não é o reino dos que se entre­gam ao mero raciocínio...

            Puro em sua própria natureza e livre da categoria de finito e infinito, o Espírito Universal é o imacula­do seio de Buda, erroneamente apreendido pelos seres sensíveis.

 

Lankavatara Sutra

            Uma Natureza, perfeita e penetrante, circula em todas as naturezas; uma Realidade, que tudo abrange, contém em si todas as realidades.

            A lua singular se reflete em qualquer lugar que exista uma capa de água, e todas as luas das águas são abrangidas dentro da Lua.

            O corpo-Dharma (o Absoluto) de todos os Budas entra em meu próprio ser.

            E meu próprio ser se acha em união com os seus...

            A luz interior está mais à frente do elogio e a censura; como o espaço, não conhece     limites; mas está aí, dentro de nós, retendo sem­pre sua serenidade e plenitude.

            Só quando a persegue a perde; não pode agarrá-la, mas igualmente não pode desembaraçar-se dela; e não podendo fazer você nenhuma de ambas as coisas, ela segue           seu próprio caminho.

            Você cala e ela fala, você fala e ela emudece; a grande porta da caridade está totalmente aberta, sem nenhum obstáculo a frente.

                                                                                                            

Yung-chia Lha-shih

            Não é este o lugar de discutir as diferenças doutrinais entre budismo e hinduísmo, nem sou eu competente para isso. Basta assinalar que, quando insistia em que os seres humanos eram por natureza "não Atman", o Buda fala­va, evidentemente, do eu pessoal e não do Eu universal. Os polemistas Brahmânicos, que aparecem em alguns dos textos pali, nem tão somente mencionam a doutrina vedântica da identidade do Atman e a Divindade; assim como a não identidade do eu e Atman. O que sustentam e Gautama nega é o caráter firme e a persistência eterna da psique individual. "Como o homem pouco inteligente busca a residência da música no corpo do alaúde, assim espera encontrar uma alma dentro dos sandhas (os agregados materiais e psíquicos, de que se compõe o corpo mental individual)." Sobre a existência do Atman que é Brahma, como sobre a maior parte de outras maté­rias metafísicas, o Buda recusa falar, alegando que tais discussões não inclinam à edificação ou progre­sso espiritual entre os membros de uma ordem monástica, como a que embasou. Mas, embora ofereça perigos, embora possa chegar a ser a distração mais absorvente, por ser a mais séria e nobre, a especulação metafísica é inevitável e finalmente necessária. Até os hinayanistas o descobriram e, posteriormente, os mahayanistas tinham que desenvolver, em relação com a prática de sua religião, um esplêndido e imponente sistema de pensamento cosmológico, ético e psicológico. Este sistema fundava-se nos postulados de um idealismo estrito e professava prescindir da idéia de Deus. Mas a experiência moral e espiritual era muito forte para a teoria filosófica e, sob a inspiração da experiência direta os redatores dos sutras mahayânicas se encontraram empregando todo seu engenho para explicar por que o Tathagata e os Bodhisattvas desdobram uma caridade infinita para seres que não existem realmente. Ao mesmo tempo estiravam o marco do idealismo subjetivo para fazer sítio à Mente Universal; suavizavam a idéia do inanimismo com a dou­trina de que, uma vez purificada, a mente individual pode identificar-se com a Mente Universal ou seio de Buda; e, enquanto sustentavam o ateísmo afirmavam que este ensino Mente Universal é a consciência íntima do eterno Buda e que a mente de Buda está associada com "um grande coração compassivo" que deseja a liberação de todo ser sensível e concede a divina graça a todos os que fazem um sério esforço por alcançar a finalidade última do homem. Em uma palavra, apesar de seu pouco propício vocabulário, os sutras mahayânicos contêm uma formulação autêntica da Filosofia Perene —uma formulação que, em alguns aspectos (como veremos ao chegar à seção "Deus no mundo") é mais completa que nenhuma outra.

            Na Índia, como na Pérsia, o pensamento maome­tano veio enriquecer-se com a doutrina de que Deus é imanente, a mais transcendente, enquanto que às práticas maometanas se adicionavam as disciplinas morais e os "exercícios espirituais" por meio dos quais a alma se prepara para a contemplação ou conhecimento unitivo da divindade. É um fato histórico significativo que o poeta-santo Kabir seja considerado correligionário tanto pelos muçulmanos como pelos hindus. A política daqueles cujas metas estão mais à frente do tempo, é sempre pacífica; são os idólatras do passado e do futuro, da lembrança reacionária e o sonho utópico, os quais desencadeiam as perseguições e as guerras.

            Vês só Um em todas as coisas; é o segundo o que te desencaminha.

                                                                                                                                      

Kabir

            Que esta penetração na natureza das coisas e a origem do bem e do mal não está limitada exclusivamente aos Santos, mas sim é obscuramente reconhecida por todo ser humano, prova-o a estrutura mesma de nossa linguagem. Pois a linguagem, como Richard Trench o assinalou faz tempo, é com freqüência "mais sábio, não só que o vulgo, mas também até que os mais sábios dos que o falam. Às vezes encerra verdades que em outro tempo eram bem conhecidas, mas que se esqueceram. Em outros casos, contém os gérmens de verdades que, embora não fossem nunca claramente discernidas, eram indícios da genialidade de seus inventores em um afortunado momento de adivinhação". Por exemplo: quão significativo é o que, nos idiomas indo-europeus, como o assinalou Darmsteter, a raiz que significa "dois" indique dano! O prefixo grego dys (como em dispepsia) e o latino dis (como em desgosto) são ambos derivados de "duo". O afim bis dá um sentido pejorativo à certas modernas palavras francesas como bévue "desonesto" (literalmente "duas vistas"). Rastros disso "o segundo que te desencaminha" podem achar-se em "duvidoso", "dúvida" e Zweifel —pois duvidar é ter dois pensamen­tos. Bunyan tem assim o Sr. Dupla Face, e o moderno "slang" norte-americano tem a seus two-timers. Grave e inconscientemente sábio, nossa linguagem confirma a experiência dos místicos e proclama a essencial maldade da divisão-palavra, digamos de passagem, em que nosso velho inimigo "dois" faz outra aparição decisiva.

            Pode observar-se aqui que o culto da unidade no plano político é só um ersatz idólatra da genuína religião da unidade nos planos pessoal e espiritual. Os regimes totalitários justificam sua existência mediante uma filosofia de monismo político, segundo o qual o Estado é Deus na Terra, a unificação sob a planta do divino Estado é a salvação, e todos os meios tendentes a tal unificação, por mais perversos que intrin­secamente sejam, são justos e podem empregar-se sem escrú­pulos. Este monismo político conduz na prática à privilégios e poder excessivos para uns poucos e à opressão para a maioria, o descontentamento no país e a guerra com os países estrangeiros. Mas o poder e os privilégios excessivos são perpétuas tentações para o orgulho, a cobiça, a vaidade e a crueldade; a opressão se transforma em medo e inveja, a guerra engendra o ódio, a angústia e o desespero. Tais emoções negativas são fatais à vida espiritual. Só os puros de coração e pobres de espírito podem chegar ao conhecimento unitivo de Deus. Daí que a tentativa de impor nas socie­dades mais unidade daquela para a qual estão preparan­do seus membros, faz que seja psicologicamente quase impossível para esses indivíduos o advertir sua unidade com a divina Base e uns com outros.

            Entre os cristãos e os sufis, a cujos escritos volta­mos agora, há principalmente a preocupação pelo espírito humano e sua essência divina.

            Meu Eu é Deus, e não reconheço outro Eu que meu Deus mesmo.

                                                                                                              

Santa Catalina de Gênova

            Naquilo em que a alma é distinta de Deus, tam­bém é distinta de si mesmo.

                                                                                                                 São Bernardo

            Eu fui de Deus em Deus, até que exclamaram dentro de mim: "Oh! Tu Eu!"

                                                                                                                

Bayazid de Bisutún

            Duas das registradas anedotas a respeito deste santo sufi merecem ser citadas aqui. "Quando perguntaram ao Bayazid que idade tinha, respondeu: 'Quatro anos.' Dijéronle: 'Como pode ser isto?' Respondeu: 'Estive se­parado de Deus pelo véu do mundo durante setenta anos, mas Lhe vi nos últimos quatro anos. O período durante o qual se está velado não pertence à vida de alguém." Em outra ocasião alguém bateu na porta do santo, exclamando: "Está Bayazid aí?" Bayazid con­testou: "Está alguém aqui salvo Deus?"

            Para medir a alma, devemos medi-la com Deus, pois a Base de Deus e a Base da Alma são uma e a mesma. Eckhart

            O espírito possui a Deus essencialmente na natureza descoberta, e Deus ao espírito.

                                                                                                                                   Ruysbroeck

            Pois embora se afunde na unidade toda da divindade, não alcança nunca o fundo. Pois está na essência mesma da alma o que não possa sondar as profundidades de seu criador. E aqui já não se pode falar mais da alma, pois perdeu sua natureza lá, na unidade da essência divina. Ali não é já chamada alma, mas ser imensurável.

                                                                                                                                         Eckhart

            O consciente e o conhecido são um. Os simples imaginam que deveriam ver Deus, como se O estivesse ali e eles aqui. Não é isto. Deus e eu, somos um no conhecimento.

                                                                                                                                           Eckhart

            "Vivo, mas não eu, a não ser Cristo em mim." Ou possivelmente seria mais preciso empregar o verbo transitivamente e dizer: "Vivo, mas não eu; pois é o Logos quem vive em mim" —vive como um ator vive seu papel. Em tal caso, é óbvio, o ator é sempre imensamente superior ao papel. No que concerne à vida real, não há personagens shakespearianos; há só Cartões addisonianos ou, com mais freqüência, tias de Carlitos que acreditam ser Julio César ou o Príncipe da Dinamarca. Mas, por misericordiosa dispensa, cada perso­nagem dramático pode sempre fazer que seus vis, estúpi­dos versos sejam recitados e sobrenaturais transforma­dos pelo divino equivalente de um Garrick.

            Oh, Meu Deus! Como é, neste pobre e velho mundo, que, sendo Tu tão grande, ninguém Te encontre; que, chamando-Te com voz tão forte, ninguém Te ouça; que, estando Tu tão próximo, ninguém Te sinta; que Te dando a todos, ninguém saiba Teu nome? Os hom­ens fogem de Ti e dizem que não Te podem achar; voltam as costas e dizem que não Te podem ver; tampam os ouvidos e dizem que não Te podem ouvir.

                                                                                                                                    

Hans Denk

            Entre os místicos católicos dos séculos quatorze e quinze; ou quaisquer do dezessete se abre um largo abismo de tempo que é horrível, no qual à religião respeita, as guerras e perseguições entre seitas. Mas este abismo tem uma ponte formada por uma sucessão de homens que Rufas Jones, na única obra inglesa acessível dedicada à suas vidas e ensinos, chamou "reformadores espirituais". Denk, Franck, Castelio, Weigel, Everard, os platônicos de Cambridge; pese ao assassinato e a loucu­ra, a sucessão apostólica não se rompe. As verdades ditas na Theologia Germânica —esse livro que Lutero declarava amar tanto e do qual, a julgar por sua conduta, tinha aprendido tão pouco— eram pronunciadas uma vez mais por ingleses durante a guerra civil e sob a ditadu­ra de Cromwell. A tradição mística, perpetuada pelos reformadores espirituais protestantes, difundiu-se, por assim dizê-lo, na atmosfera religiosa da época em que George Fox teve sua primeira grande "abertu­ra" e soube por experiência direta: que Todo Homem era iluminado pela Divina Luz de Cristo, e a vi brilhar em todos; e que os que acreditavam nela saíam da Condenação e entravam na Luz da Vida e tornavam-se Filhos deles; e os que a odiavam e não acreditavam nela eram condenados por ela, embora fizessem profissão de Cristo. Isto vi nas puras Aberturas de Luz, sem ajuda de nenhum homem, e tampouco sabia então onde achá-lo na Sagrada Escritura, até­ que depois, procurando nelas, encontrei-o.

                                                                                                                            

Do Jornal do Fox

            A doutrina da Luz Interior alcançou uma formulação mais clara em quaisquer escritos da segunda geração. "Existe —escrevia William Penn— um pouco mais próximo a nós que à Escritura, ou seja, o Verbo, do coração de onde procedem todas as Escrituras." E um pouco mais tarde Robert Barclay queria explicar a experiência direta do tat tvam asi em termos de uma teologia agostiniana que, é obvio, tinha que ser consideravel­mente estirada e polida para que se ajustasse aos fatos. O homem, declarava em sua famosa tese, é um ser cansado, incapaz para o bem, a não ser que esteja unido à Divina Luz. Esta Divina Luz é Cristo dentro da alma humana, e é tão universal como a semente do pecado. Todos os homens, tanto os pagãos como os cristãos, acham-se dotados da Luz Interior, embora possivelmente nada saibam da história externa da vida de Cristo. A justificação corresponde àqueles que não resistem à Luz Interior e assim permitem em si mesmo um renascimento de santidade.

            A bondade não precisa penetrar na alma, pois já está nela, embora não se perceba.

                                                                                                                      

Theologia Germânica

            Quando as Dez Mil coisas se vêem em sua unidade, voltamos para Origem e ficamos onde estivemos sempre.

                                                                                                                      

Sen T'sen

            Por não saber Quem somos, por não advertir que o Reino do Céu está em nós, conduzimo-nos de modo geralmente tolo, freqüentemente insano, às vezes criminal, tão caracteristicamente humano. Somos salva­dos, somos libertados e iluminados, ao perceber, até então inadvertida bondade que já está em nós, ao voltar para nossa eterna Base para ficar onde, sem sabê-lo, estivemos sempre. Platão se expressa no mesmo sentido quando diz na República, que "a virtude da sabedoria contém, mais que qualquer outra coisa, um elemento divino que permanece sempre". E no Theaetetus tira a conclusão, em que tão freqüentemente insistem os que praticaram a religião espiritual, de que só fazendo-nos semelhantes a Deus podemos conhecê-lo —e fazer-se semelhante a Deus é identificar-se com o elemento divino que, de fato, constitui nossa natureza essencial, mas que preferimos não advertir em nossa ignorância, involuntária em sua maior parte.

            Estão no caminho da verdade os que apreendem a Deus por meio do divino, a Luz pela luz.

                                                                                                                                    

Filón

            Filón era o expositor da helenística religião de misté­rios que se desenvolveu, como o mostrou o professor Goodenough, entre os judeus da Dispersão, aproxima­damente entre o ano 200 a. C. e o ano 100 d. C. Reinterpretando o Pentateuco em termos de um sistema metafísico derivado do platonismo, neopitagorismo e es­toicismo, Filón transformou o Deus do Antigo Testamento, completamente transcendental e quase antropomorficamente pessoal, na Mente Absoluta, imanente-transcendente, da Filosofia Perene. Mais até que dos ortodoxos escribas fariseus dessa crítica centúria que presenciou, junto com a disseminação das doutrinas de Filón, o começo do cristianismo e a destruição do Templo de Jerusalém, até os guardiães da lei, surgem expressões significativamente místicas. Hilel, o grande rabino cujos ensinos sobre a humildade e o amor de Deus e o homem parecem uma versão anterior, menos polida, de alguns dos sermões do Evangelho, pronunciou, conforme se diz, as palavras seguintes ante um grupo reunido nos pátios do Templo: "Se estou aqui [é Jehová quem fala pela boca de seu profeta], todos estão aqui. Se não estou aqui, nada está aqui."

            O Amado é tudo; o amigo meramente Lhe vela; o Amado é tudo o que vive; o amigo, uma coisa morta.

                                                                                                                      

Jalal-uddin Rumi

            Há um espírito na alma, não tocado pelo tempo nem a carne, que flui do Espírito, permanece no Espírito e é totalmente espiritual. Neste princípio está Deus, sempre viçoso, sempre florescente em toda a alegria e a glória de seu Eu real. Às vezes chamei a este princípio Tabernáculo da alma, às vezes Luz espiri­tual; outras, digo que é uma Faísca. Mas agora digo que está mais exaltado sobre isto e aquilo que não está no céu sobre a terra. Agora, pois, designo-o de um modo mais nobre... Está livre de todo nome e isento de toda forma. É um e simples, como Deus é um e simples, e nenhum homem pode de modo algum contemplá-lo.

                                                                                                                                        Eckhart

            Toscas formulações de algumas das doutrinas da Filosofia Perene podem achar-se nos sistemas ideológi­cos dos povos não civilizados, chamados primitivos, do mundo. Entre as maiores, por exemplo, todo ser humano é considerado como um composto de quatro elementos —um divino princípio eterno, conhecido pelo toiora; um eu, que desaparece na morte; uma sombra espectral, ou psique, que sobrevive à morte, e finalmente um corpo. Entre os índios Oglala o elemento divino é chamado sican, e considera-se idêntico ao ton, ou divina essência do mundo. Outros elementos do eu são: o nagi, ou personalidade, e o roya, ou alma vital. Depois da morte o sican reúne à divina Base de todas as coisas, o nagi sobrevive ao mundo espectral dos fenômenos psíquicos e o niya desaparece no universo material.

            Em relação a nenhuma sociedade "primitiva" do século vinte, podemos descartar a possibilidade de empréstimo ou influxo de alguma cultura superior. Não temos, pois, direito a inferir o passado do presente. Pelo fato de que muitos selvagens contemporâneos tenham uma filosofia esotérica que é monoteísta com um monoteísmo que é, às vezes, da variedade do "Isso é você", não estamos autorizados a deduzir sem mais que os homens neolíticos ou paleolíticos mantiveram opiniões semelhantes.

            Mais lícitas e mais intrinsecamente plausíveis são as inferências que podem fazer-se do que sabemos de nossa própria fisiologia e psicologia. Sabemos que as mentes humanas se demonstraram capazes de tudo, da imbecilidade à teoria dos quantos, do Mein Kampf e o sadismo à santidade de Felipe Neri, da metafísica às palavras cruzadas, a política de força e a Missa Solemnis. Também sabemos que a mente humana está de algum modo associada com o cérebro humano, e temos boas razões para supor que não houve mudanças consideráveis no tamanho e a conformação do cérebro humano durante muitos milhares de anos. Por conseguinte, parece razoável inferir que a mente humana, no remoto passado, era capaz de tantos e tão variados graus e classes de atividade como o é atualmente.

            Entretanto, é certo que muitas atividades empreendidas pela mente humana nos presentes dias não o eram, no remoto passado, por nenhuma mente. Isso pode explicar-se por várias óbvias razões. Certos pen­samentos são virtualmente impensáveis, salvo em ter­mos de uma linguagem apropriada e dentro do marco de um apropriado sistema de classificação. Onde não existem estes necessários instrumentos, os pensamentos em questão não se expressam nem mesmo se concebem. E não é isto tudo: o incentivo para desenvolver os instrumentos de certas classes de pensamento não está sempre presente. Por longos períodos de história e pré-história, pareceria que homens e mulheres, embora perfeitamente capazes de fazê-lo, não desejavam prestar atenção a problemas nos quais seus descendentes acharam um interesse absorvente. Por exemplo, não há razão para supor que, entre os séculos treze e vinte, a mente humana sofresse nenhuma classe de mudança evolutiva, comparável à mudança, digamos, na estrutura física da pata do cavalo em um espaço de tempo geológico incomparavelmente mais longo. O que ocorreu foi que os homens desvia­ram sua atenção de certos aspectos da realidade à outros aspectos. O resultado, entre outras coisas, foi o desenvolvimento das ciências naturais. Nossas per­cepções e nosso entendimento são dirigidos, em grande parte, por nossa vontade. Advertimos e medita­mos as coisas que, por uma ou outra razão, desejamos ver e compreender. Onde há vontade, há sempre um meio intelectual. As capacidades da mente humana são quase indefinidamente grandes. Algo que queiramos fazer, seja chegar ao conhecimento unitivo da Divindade, seja a manufatura de lança-chamas automoto­res, somos capazes de fazê-lo, com a condição sempre de que a vocação seja bastante intensa e sustentada. Está bem claro que muitas das coisas a que os homens modernos quiseram dedicar sua atenção eram passados por cima por seus predecessores. Em conseqüência, os mesmos meios para pensar clara e frutiferamente sobre tais coisas permaneceram sem inventar, não meramente durante os tempos pré-históricos, mais até o começo da Idade Moderna.

            A falta de um vocabulário apropriado e um adequado marco de referência, e a ausência de todo desejo realmente forte e sustenido de inventar esses necessários instrumentos de pensamento — eis aqui duas razões sufi­cientes para explicar por que tantas das quase ilimitadas possibilidades da mente humana permaneceram tão longo tempo sem realizar-se. Outra razão que, em seu próprio plano, é igualmente convincente, é a que segue: grande parte do pensamento mais original e proveitoso do mundo se realiza por pessoas de pobre físico e de espírito justamente o contrário de prático. Por causa disto e de que o valor do pensamento puro, seja analítico ou integral, foi em todas partes mais ou menos claramente reconhecido, toda sociedade civilizada tomava, e ainda toma, medidas para proteger até certo ponto aos pensadores das dificuldades e angústias ordinárias da vida social. A ermida, o monastério, o colégio, a academia e o labora­tório de investigação; a terrina do mendigo, as donativos, o patrocínio e a concessão de subvenções pú­blicas; tais são os principais meios que usaram os ativos para a conservação dessa estranha ave, o contem­plativo religioso, filosófico, artístico ou científico. Em muitas sociedades primitivas as condições são duras e não há excedente de riqueza. O contemplativo nato tem que encarar desprotegido a luta pela existência e o predomínio social. O resultado, em muitos casos, é que morre jovem ou está tão desesperadamente atarefado por só manter-se vivo que não pode dedicar sua atenção a nada mais. Quando isto ocorra, a filosofia dominante era a do duro, extrovertido homem de ação. Tudo isto arroja alguma luz —débil, certamente, e meramente sem conexão— sobre o problema da perenidade da Filosofia Perene. Na Índia, as Escrituras eram consideradas, não como revelações feitas em um momento dado da história, mas sim como evangelhos eternos, existentes sempre até sempre, tanto os coletados do homem, ou até de qualquer outra classe de ser, corpóreo ou imaterial, que estivesse provido de razão. Opinião semelhante é expressa por Aristóteles, que considera as verdades fundamentais da religião como eternas e indestrutíveis. Houve elevações e quedas, períodos (literalmente "caminhos ao redor" ou céus) de progresso e retrocesso; mas o grande feito de Deus como Primeiro Motor de um universo que participa de Sua divindade foi sempre reconhecido. À luz do que sabemos do homem pré-histórico (e o que sabemos não vai além de umas pedras picadas e algumas pinturas, desenhos e esculturas) e dos quais podemos legitimamente inferir de outros campos, melhor documentados, do conhecimento. Que devemos pensar destas doutrinas tradicionais? Minha opinião é a de que por acaso sejam verdadeiras. Sabemos que os contemplativos, tanto na esfera do pensamento analí­tico como na do pensamento integral, apareceram em apreciável número e a intervalos freqüentes no curso da história documentada. Que muitas dessas pessoas morreram jovens ou não puderam exercer suas faculdades, é coisa segura. Mas algumas delas sobreviveram. Sobre este ponto, é muito significativo que, entre muitos primitivos contemporâneos, achem-se duas tramas de pensamentos —uma trama esotérica para a maioria não filosófica, e uma trama esotérica (freqüentemente monoteísta, com crença em um Deus não meramente de poder, mas sim de bondade e sabedoria) para os poucos inicia­dos. Não há razão para supor que as circunstâncias fossem mais duras para os homens pré-históricos do que o são para muitos selvagens contemporâneos. Mas se um monoteísmo esotérico da classe que parece ser natu­ral ao pensador nato é possível em sociedades selvagens modernas, a maioria de cujos membros aceitam a dita filosofia politeísta que parece ser natural aos homens de ação, uma doutrina esotérica semelhante pode ter sido corrente nas sociedades pré-históri­cas. Certo que as doutrinas esotéricas modernas acaso procedam de culturas superiores. Mas fica o significati­vo fato de que, embora tal seja sua procedência, tinham com todo seu sentido para certos membros da sociedade primitiva e eram consideradas bastante valiosas para serem cuidadosamente conservadas. Vimos que muitos pensamentos são impensáveis fora de um apropriado vocabulário e marco de referência. Mas as idéias funda­mentais da Filosofia Perene podem ser formuladas com um vocabulário muito simples, e as experiências às quais as idéias se referem podem e, realmente, devem ser imediatamente, e além de tudo vocabulário. Estranhas aberturas e teofanias são outorgadas à meninos pequenos, que freqüentemente são profunda e perma­nentemente afetados por tais experiências. Não há ra­zão para supor que o que agora acontece à pessoas com escasso vocabulário não acontecesse na remota anti­güidade. No mundo moderno (como Vaughan, Traherne e Wordsworth entre outros, disseram-nos) o menino tende a desenvolver-se a partir de seu ensinamento direto da Base-una das coisas; pois o hábito do pensamento analítico é fatal às intuições do pensa­mento integral, seja no plano "psíquico" ou no espiri­tual. As preocupações psíquicas podem ser um dos grandes obstáculos no caminho da autêntica espiritualidade. Nas atuais sociedades primi­tivas (e, conforme pode presumir-se, no passado remoto) existe muita preocupação pelo pensamento psíquico e difundidas faculdades para seu exercício. Mas algumas pessoas podem ter aberto caminho através da experiência psíquica até a genuinamente espiritual —da mesma maneira como, até nas modernas socie­dades industrializadas, algumas pessoas conseguem sair da dominante preocupação pela matéria e dos domi­nantes hábitos do pensamento analítico e alcançar a experiência direta da Base espiritual das coisas.

            Tais, pois, brevemente expostas, são as razões para supor que as tradições históricas da antigüidade oriental e nossa própria antigüidade clássica acaso sejam verdadeiras. É interessante saber que ao menos um distinto etnólogo contemporâneo está de acordo com Aristóteles e os vedantistas. "A etnologia ortodoxa —escreve o Dr. Paul Radin em O homem primitivo como filósofo— não foi mais que uma tentativa entusiasta e ausência de crítica para aplicar a teoria darwiniana da evolução aos fatos da experiência social." E acrescenta que "não se conseguirá nenhum progresso em etnologia até que os doutos se desembaracem de uma vez por todas da curiosa idéia de que tudo tem história; até que se dêem conta de que certas idéias e certos conceitos são tão finais para o homem, enquanto um ser social, como determinadas reações fisiológicas são finais para ele mesmo, enquanto um ser biológico". Entre estes conceitos finais, na opinião do Dr. Radin, está o do monoteísmo. Tal monoteísmo, com freqüência, não é mais que o reconhecimento de um só Poder obscuro e numinoso no governo do mundo. Mas, às vezes, pode ser genuinamente ético e espiritual.

            A mania do século dezenove pela história e o utopismo profético tendia a cegar os olhos até de seus mais agudos pensadores aos fatos sem tempo da eterni­dade. Assim achamos T. H. Green falando de união mística como se fora um processo evolutivo e não, como todos os dados parecem demonstrar, um estado que o homem, como homem, teve sempre a seu alcance. "Um organismo animal, que tem sua história no tempo, gradualmente se converte no veículo de uma consciência eternamente completa, que em si mesmo não pode ter história, a não ser uma história do processo mediante o qual o organismo animal chega a ser seu veículo." Mas, no fato, só com respeito ao conhecimento periférico houve um autêntico desenvolvimento histórico. Sem muito espa­ço de tempo e muita acumulação de habilidades e informação, só pode haver um conhecimento imper­feito do mundo material. Mas o ensinamento direto da "consciência eternamente completa" que é a base do mundo material, é uma possibilidade, de vez em quando, realizada por alguns seres humanos em quaisquer dos estados de seu desenvolvimento pessoal, da infância à velhice, e em qualquer período da história da raça.

 

                   A NATUREZA DA BASE

            Nosso ponto de partida foi a doutrina psicológi­ca "Isso é você". A pergunta que agora se apresenta naturalmente é metafísica: "O que é o Isso ao qual você pode descobrir afinal?"

            A isto, a Filosofia Perene plenamente desenvolvida deu em todos os tempos e em todos os locais a mesma resposta. A divina Base de toda existência é Um Absoluto espiritual, inefável em termos do pensamento discursivo, mas (em certas circunstâncias) sus­cetível de ser diretamente experimentado e absorvido pelo ser humano. Este Absoluto é o Deus sem forma da fraseologia mística hindu e cristã. A última finalidade do homem, a razão final da exis­tência humana, é o conhecimento unitivo da divina Base —o conhecimento que pode chegar tão somente aos quais decidiram "morrer para o eu" e de tal modo a fazer local, por assim dizê-lo, a Deus. De qualquer geração de homens e mulheres, muito poucos poderão alcançar a finalidade última da existência humana; entretanto, a oportunidade para chegar ao conhecimento unitivo será, de um ou outro modo, continuamente oferecida até que todos os seres sensíveis advirtam Quem são realmente. A Base Absoluta de toda existência tem um aspec­to pessoal. A atividade de Brahma é Ishvara, e Ishvara se manifesta também na Trindade hindu e, em grau mais distante, nas outras deidades ou anjos do panteon hindu. Analogamente, para os místicos cristãos, a inefável Divindade sem atributos se manifesta em uma Trindade de Pessoas, das quais é possível afirmar certos atributos humanos tais como a bondade, sabe­doria, misericórdia e amor, mas em grau eminentís­simo.

            Finalmente, há uma encarnação de Deus em um ser humano, que possui as mesmas qualidades de caráter que o Deus pessoal, mas que as exibe sob as limitações necessariamente impostas pelo confina­mento dentro de um corpo material nascido no mundo em um dado momento do tempo. Para os cristãos houve e, ex-hypothesi, só pode haver uma encarnação divina; para os índios pode haver e houve muitas. Na cristandade, como no Oriente, quão contemplativos seguem o caminho da devoção concebem a encarnação, e, em realidade, percebem-na diretamente, como um fato da experiência, cons­tantemente renovado. Cristo está perpetuamente engendrado dentro da alma pelo Pai, e o drama de Krishna é o símbolo pseudo-histórico de uma eterna verdade da psicologia e da metafísica —o fato de que, com relação a Deus, a alma pessoal é sempre feminina e passiva.

            O budismo mahayânico ensina estas mesmas doutri­nas metafísicas em termos dos "Três Corpos" de Buda: o absoluto Dharmakaya, conhecido também pelo Buda Primitivo, ou Mente, ou a Clara Luz do Vazio; o Sambhogakaya, que corresponde a Ishvara ou ao Deus pessoal do judaísmo, o cristianismo e o Islã; e final­mente o Nirmanakaya, o corpo material, no qual o Logos é encarnado na Terra como um vivente, histórico Buda.

            Entre os sufis, Al Haqq, o Real, parece ser considera­do como o abismo da Divindade em que descansa o Alá pessoal, enquanto que o profeta é tirado da história e visto como a encarnação do Logos.

            Alguma idéia da inesgotável riqueza da natureza divina pode obter-se analizando, palavra por palavra, a invocação com que emprega o “Pai Nosso”: "Pai nosso que estais nos céus". Deus é nosso —nosso no mesmo sentido íntimo em que nossa conciência e vida são nossas. Porém, tanto como imanentemente nosso, Deus é também transcendentemente o Pai, que ama suas criaturas e a Quem estas devem por sua vez amor e fidelidade. "Pai nosso que estais": quando che­gamos a considerar o verbo reconhecido, percebemos que o Deus pessoal imanente-transcendente é também a imanente-transcendente Unidade, a essência e princípio de toda existência. E finalmente o ser de Deus está no céu; a natureza divina é outra das criaturas em que Deus é imanente, e incomensurável com ela. Por isto podemos alcançar o conhecimento unitivo de Deus unicamente quando estamos em certo grau semelhantes à Deus, unicamente quando deixamos que o reino de Deus venha, fazendo que nosso reino de cria­turas mortais se vá.

            Deus pode ser adorado e contemplado em qualquer de seus aspectos. Mas persistir em adorar só um aspecto com exclusão de todos outros é expor-se a um grave perigo espiritual. Assim, se nos aproximarmos de Deus com a idéia preconcebida de que 'O' é exclusivamente o pessoal, transcendental, todo-poderoso regente do mun­do, corremos o risco de ficar encetados em uma religião de ritos, sacrifícios propiciatórios (às vezes de caráter mais duvidoso) e observâncias legais. É assim indevidamente, pois se Deus é um inabordável poten­tado que está lá fora, dando ordens misteriosas, esta recusa de religião é inteiramente apropriada à situação cósmica. O melhor que pode dizer do legalismo ritualista é que melhora a conduta. Recentemente, entretanto, por alterar o caráter e nada em si para modificar a consciência.

            As coisas caminham melhor quando o transcendente, onipotente Deus pessoal é cuidadoso também como um Pai amante. O culto sincero a tal Deus muda também o caráter, assim como a conduta, e algo faz por modificar a consciência. Mas a completa transformação da consciência que é "esclarecimento", "liberação", "salvação", chega só quando se pensa em Deus como a Filosofia Perene afirma que é —assim imanente como transcendente, assim supra-pessoal como pessoal— e quando as práticas religiosas estão adaptadas a esta concepção.

            Quando Deus é considerado como exclusivamente imanente, o legalismo e as práticas externas são aban­donadas e há uma concentração na Luz Interior. Os perigos são então o quietismo e o anti-nominativo, modificação parcial da consciência que é inútil e até danosa, porque não vai acompanhada pela transformação do caráter que é o necessário requisito prévio de uma transformação da consciência, total, completa e espiritualmente frutífera.

            Finalmente, é possível considerar Deus como um ser exclusivamente suprapessoal. Para muitas pessoas, esta concepção é muito "filosófica" para proporcionar um adequado fundamento para fazer algo prático a respeito de suas crenças. Daí que, para eles, não tenha nenhum valor.

            Seria um engano, naturalmente, supor que aqueles que veneram um aspecto de Deus com exclusão de todos outros devam, inevitavelmente, cair nas diferentes classes de desgosto descritos antes. Se não forem muito obstinados em suas crenças, se se submeterem com docilidade ao que lhes acontece no curso de seu culto, o Deus que é por sua vez imanente, transcendente, pessoal e mais que pessoal, pode revelar-se em sua plenitude. Contudo, fica o fato de que nos é mais fácil alcançar nossa meta se não nos estorvar um jogo de crenças errôneas ou inadequadas sobre o reto modo de chegar a ela e a natureza do que estamos procurando.

            Quem é Deus? Não me ocorre melhor resposta que "Aquele que é". Nada é mais apropriado à eternidade que é Deus. Se chamas a Deus bom, ou grande, ou bendito, ou sábio, ou qualquer outra coisa de tal classe, está tudo incluído nas palavras "Ele é".

                                                                                                                                  

São Bernardo

            A finalidade de todas as palavras é ilustrar o significado de um objeto. Quando se ouvem, deveriam permitir ao ouvinte compreender este significado e isso segundo as quatro categorias de substância, atividade, qualidade e relação. Por exemplo, vaca e cavalo correspondem à categoria de substância. Cozinhar ou orar correspondem à categoria de atividade. Branco e negro correspondem à categoria de qualidade. Ter dinheiro ou possuir vacas corresponde à categoria de relação. Agora bem, não há classe de substância, não há gênero comum ao qual corresponda Brahma. Não pode, pois, ser designado por palavras que, como "ser" no sentido ordinário, significa uma categoria de coisas. Tampouco pode ser designado pela qualidade, porque não tem qualidades, nem tampouco pela atividade, porque não tem atividade; "descansa, sem papel nem atividade", segundo as Escritu­ras. Tampouco pode ser designado pela relação, porque "não tem segundo" e não é o objeto de nada mas sim de si mesmo. Portanto, não pode ser definido por palavra nem idéia; como diz a Escritura, é Aquele "ante o qual retrocedem as palavras".

                                                                                                                                           Shankara

            Do inominado surgiram o Céu e a Terra; o nominativo não é mais que a mãe que cria as dez mil criaturas, cada uma segundo sua espécie. Na verdade, "só aquele que para sempre se livra do desejo pode ver as Essências Secretas".

            Quem nunca se livrou do desejo só pode ver os Resultados.

                                                                                                                                    

Lao Tse

            Um dos maiores favores concedidos à alma nesta vida é a faculdade de ver distintamente e sentir profundamente que não pode compreender a Deus de modo algum. Essas almas se parecem aos santos do céu, onde os que O conhecem com mais perfeição, percebem claramente que Ele é infinita­mente incompreensível, pois aqueles que têm uma visão menos clara não percebem, tão claramente como esses outros, quão grandemente transcende sua visão.

                                                                                                                  

San Juan de la Cruz

            Quando saí da Divindade à multiplicidade, todas as coisas proclamavam "Existe um Deus" (o Criador pessoal). Isto não pode me fazer venturoso, por isso advirto que sou uma criatura. Mas na penetração sou mais que todas as criaturas, não sou Deus nem criatura; sou o que era e continuarei sendo, agora e para sempre jamais. Aí recebo um impulso que me leva mais alto que todos os anjos. Por esse impulso chego a ser tão rico que Deus não é suficiente para mim, assim que O é somente Deus em suas obras divinas. Pois em tal penetração, percebo que Deus e eu somos um. Aí sou o que era. Aí nem cresço nem minguo. Pois aí sou imóvel que move todas as coisas. Aqui o homem ganhou de novo o que é eternamente e será sempre. Aqui Deus é recebido na alma.

                                                                                                                  

Eckhart

            A Divindade cedeu tudo a Deus. A Divindade é pobre, está nua e vazia como se não fora; não tem, não quer, não deseja, não trabalha, não obtém. É Deus quem tem em si o tesouro e a noiva; a Divindade é tão vácua como se não fora.

                                                                                                                    

Eckhart

            Podemos compreender algo do que está além de nossa experiência considerando casos análogos que se acham dentro dela. Assim, as relações subsistentes entre o mundo e Deus e entre Deus e a Divindade pare­cem ser análogas, em certo grau pelo menos, as existentes entre o corpo (com o que o rodeia) e a psique, e entre a psique e o espírito. À luz do que sabemos sobre as segundas —e o que sabemos não é, infortunadamente, muito— acaso somos capazes de formar algumas noções, não demasiado inadequadas das primeiras.

            A mente afeta o corpo de quatro modos: sub­conscientemente, mediante a inteligência fisiológica, incrivelmente sutil, que Driesch, em hipótese, nomeou de ficção; conscientemente, por atos premedi­tados da vontade; subconscientemente também, pela reação, no organismo físico, de estados emotivos que não têm nada a ver com os órgãos ou processos sobre os quais reagem; e, seja consciente ou sub­conscientemente, em certas manifestações "supra-normais". Fora do corpo, a matéria pode ser influenciada pela mente de dois modos; primeiro, por meio do corpo e, segundo, por um processo "supra-normal", recém estudado em condições de laboratório e descrito como "o efeito PK". De modo similar, a mente pode estabelecer relações com outras mentes, ora indiretamente, ordenando a seu corpo empreender atividades simbólicas, tais como, falar ou escrever; ou "supra-normalmente", pela via direta da leitura do pensa­mento, telepatia, percepção extrasensorial.

            Consideremos estas relações algo mais detalhadamente. Em certas esferas, a inteligência fisiológica trabalha por iniciativa própria, como quando dirige, por exemplo, a incessante função respiratória, ou por assimilação. Em outras, atua sob o comando da mente consciente, como quando temos a vontade de cumprir alguma ação, mas não atuamos, nem podemos atuar os meios muscu­lares, glandulares, nervosos e vasculares que levam ao fim desejado. O ato, aparentemente simples, da imitação, ilustra bem o extraordinário caráter dos fatos realiza­dos pela inteligência fisiológica. Quando um papagaio (utilizando, recordemo-lo bem, bico, língua e garganta de ave) imita os sons produzidos pelos lábios, dente, paladar e cordas vocais de um homem que articula palavras, o que é o que precisamente acontece? Respon­dendo de algum modo, ainda inteiramente incompreendido, ao desejo da mente consciente, de imitar algum acontecimento recordado ou imediatamente percebido, a inteligência fisiológica põe em marcha grande número de músculos e coordena seus esforços com tão formosa des­treza que o resultado é uma cópia mais ou menos perfeita do original. Agindo em seu próprio plano, a mente consciente, já não de um papagaio, mas sim do ser humano melhor dotado, achar-se-ia completamente desconcertada ante um problema de complexidade comparável.

            Como exemplo do terceiro modo em que nossas mentes afetam a matéria, podemos citar o familiar fenô­meno da "indigestão nervosa". Em certas pessoas fazem sua aparição sintomas de dispepsia quando a mente consciente está turvada por emoções negativas como temor, inveja, ira ou ódio. Estas emoções vão dirigidas aos acontecimentos ou pessoas do ambiente externo; mas de algum modo afetam adversamente a inteligência fisiológica, e esta desarrumação traz por resultado, entre outras coisas, a "indigestão nervosa". Descobriram que, da tu­berculose e a úlcera gástrica; as enfermidades do coração; e até cárie dental; numerosas doenças físicas estão estreitamente relacionadas com certos indesejáveis esta­dos da mente consciente. Reciprocamente, todo médi­co sabe que um paciente tranqüilo e animado tem mais probabilidades de repor-se que o que se sente agitado e deprimido.

            Finalmente, chegamos às ocorrências tais como a cura pela fé e a levitação —ocorrências "supra-normais" estranhas, entretanto, apoiadas por muitas testemunhas que é difícil descartar com­pletamente. Ignoramos como a fé cura enfermidades (seja em Lourdes ou no despacho do hipnotizador) ou como São José de Cupertino pôde prescindir das leis da gravitação. (Mas recordemos que nossa ignorância não é menor a respeito da maneira como mente e corpo estão relacionados nas mais ordi­nárias atividades cotidianas.) Do mesmo modo, não podemos formar idéia alguma do modus operandi que o professor Rhine chama o efeito PK. Entretanto, o fato de que a queda dos dados pode ser influenciada pelos estados mentais de certos indiví­duos, parece estabelecido já fora de toda possi­bilidade de dúvida. E se o efeito PK pode demonstrar-se em laboratório e medir-se por métodos estatísticos, é óbvio que a credibilidade intrínseca das pulverizadas provas anedóticas da influência direta da mente sobre a matéria, não somente dentro do corpo, mas fora, no mundo externo, são por isso notavel­mente aumentadas. O mesmo ocorre com a percepção extrasensorial. Aparentes exemplos desta apresentam-se constantemente na vida ordinária. Mas a ciência é quase impotente para ver como caso parti­cular, o exemplo isolado. Elevando sua inépcia metodológica à ordem de critério da verdade, cientistas dogmáticos estigmatizaram tudo o que se encontra além da esfera de sua limitada competência como irreal e até impossível. Todavia quando as provas das PES (percepção extra sensorial) podem repetir-se em condições regulares, a matéria entra na jurisdição da lei de probabilidades e obtém (contra apaixonada oposição!) certo grau de respeitabilidade científica.

            Breve e sucintamente expostas, são as coisas mais importantes que sabemos da mente a respeito de sua capacidade para influenciar a matéria. Baseados neste modesto conhecimento sobre nós mesmos, o que temos direito a concluir a respeito do divino objeto de nossa quase total ignorância?

            Primeiro, quanto à criação: se uma mente humana influencia diretamente à matéria, não somente den­tro de seu corpo, mas também fora dele, pode presumir-se que uma mente divina, imanente no universo ou transcendente a ele, será capaz de impor formas que preexistam ao caos da matéria amorfa, ou até, possivelmente, de dar, com seu pensamento, existência à substância, assim como às formas.

            Uma vez criado ou divinamente formado, o universo tem que ser sustentado. A necessidade de uma contínua recreação do mundo manifesta-se conforme Descartes: "quando consideramos a natureza do tempo, ou a duração das coisas; pois esta é de tal caráter que suas partes não são mutuamente dependentes e nunca são coexistentes; e, portanto, o fato de sermos agora não quer dizer, necessariamente, que seremos depois; não sairmos de alguma causa, ou seja, a que primeiro nos produziu, vá, por assim dizê-lo, nos reproduzindo constante­mente, isto é, conserve-nos". Parece que temos aqui um tanto análogo, no plano cósmico, à inteligência fisiológica que, nos homens e nos animais inferiores, realiza vigilantemente a tarefa de fazer que nossos corpos funcionem como é devido. De fato, a inteli­gência fisiológica pode plausivelmente considerar-se como um aspecto especial geral Logos recriador. Na fraseologia da China é o Tao segundo se manifesta no plano dos corpos viventes.

            Os corpos dos seres humanos são afetados pelo bom ou mau estado de suas mentes. De modo análogo, a existência, no coração das coisas, de uma sereni­dade e boa vontade divinas pode considerar-se como uma das razões pelas quais a enfermidade do mun­do, embora crônica, não resultou fatal. E se, no universo psíquico, houvesse outras consciências, mais que humanas, obcecadas por pensamentos de maldade, egoísmo e rebelião, isso explicaria possivelmente algumas das mais extravagantes e improváveis perversidades da conduta humana. Os atos que querem nossas mentes cumprem-se, seja por meio da inteligência fisiológica; o corpo ou, muito excepcionalmente em limitada extensão, por meios diretos supranormais da variedade da rede PK. Analogamente, as situações físicas desejadas por uma Providência divina podem ser dispostas por uma Mente perpetuamente criadora que sustenta o universo —e neste caso a Providência cumprirá sua tarefa por meios completamente naturais; ou em outro caso, de modo muito excepcional, a divina Mente pode atuar em forma direta sobre o universo do lado de fora, por assim dizê-lo— e neste caso as obras da Providência e os dons da graça aparecerão como milagres. De modo análogo, a divina Mente pode decidir comunicar-se com mentes finitas, seja manipulando o mundo dos homens e as coisas, de maneira que a mente particular que tem que ser alcançada naquele mo­mento encontrará significado; ou, em outro caso, poderá haver comunicação direta um pouco parecido à transmi­ssão de pensamento.

            Segundo a frase de Eckhart, Deus, o criador e perpétuo recriador do mundo, "chega e retorna". Em outras palavras, O é, até certo ponto ao menos, no tempo. Um Deus temporário poderia ter o caráter do tradicional Deus hebreu do Antigo Testamento; ou poderia ser uma deidade limitada da classe descrita por certos teólogos filosóficos do presente século; ou um Deus emergente, partindo, não espiritualmente, do Alfa e fazendo-se gra­dualmente mais divino no decorrer das idades para Ômega hipotética. (Não se sabe realmente por que o movimento deva ser para mais e melhor e não para menos e pior, para cima, mas também para baixo, ou em ondulações; para frente, mas também em círculos. Parece não haver razão alguma para que um Deus que é exclusivamente temporal —um Deus que meramente sucede e não está apoiado na eternidade— não esteja tão completamente a mercê do tempo como a mente indi­vidual, considerada além do espírito. Um Deus que sucede é um Deus que também transforma, e a evolução pode prevalecer em último termo, de modo que o estado final da deidade emergente pode ser pior que o primeiro.)

            A base na qual se enraiza a psique ligada ao tempo, é um ensinamento simples, sem tempo. Fazendo-nos puros de coração e pobres de espírito podemos descobrir este ensinamento e nos identificar com ele. No espírito não somente temos, mas somos, o conhecimento unitivo da Base divina. Analogamente, Deus no tempo se apóia no eterno agora da Divindade sem modo. É na Divindade onde as coisas, vidas e mentes têm seu ser; através de Deus têm seu acontecer, circunstâncias cujas metas e intuitos são: voltar para a eternidade da Base.

            Entretanto, rogo-lhes pela verdade eterna e imperecível, e por minha alma, considerem: compreendido o inaudito. Deus e a Divindade são tão distintos como o céu e a terra. O céu está mil milhas acima da terra, e assim está a Divindade sobre Deus. Deus sucede e transforma. A quem compreender esta doutrina, desejo-lhe bem. Mas, mesmo que aqui não houvesse ninguém, deveria pregar à urna dos pobres.

                                                                                                                                      Eckhart

            Como Santo Agustín, Eckhart foi até certo ponto vítima de seu próprio talento literário. O Le style c'est l'homme. Sem dúvida. Mas o recíproco é também par­cialmente certo. L'homme c'est le style. Por ter certo dom para escrever de certo modo, convertemo-nos, até algum ponto, em nosso modo de escrever. Mol­damo-nos a semelhança de nossa marca particular de eloqüência. Eckhart foi um dos inventores da prosa alemã e se viu tentado, por sua recém achada maestria na expressão vigorosa, a comprometer-se em posições extremas; a ser doutrinariamente a imagem de suas poderosas e enfáticas frases. Uma afirmação como a precedente nos levaria a acreditar que desprezava o que os vedantistas chamam o "conhecimento inferior" de Brahma, não como a Base Absoluta de todas as coisas, mas sim como o Deus pessoal. Em realidade Eckhart, como os vedantistas, aceita o conhecimento inferior como conhecimento genuíno e considera a devoção ao Deus pessoal como a melhor preparação para o conhecimen­to unitivo da Divindade. Outro ponto que deve recordar-se é que a Divindade sem atributos do Vedanta, o budismo mahayânico, o misticismo cristão e o sufi é a Base de todas as qualidades possuídas pelo Deus pessoal e a Encarnação. "Deus não é bom, eu sou bom", diz Eckhart em seu modo violento e excessivo. O que realmente queria dizer era: "Eu sou humanamente bom; Deus o é eminentíssimo; a Divindade é, sua 'esidad' (istigkeit, no alemão de Eckhart) contém bondade, amor, sabedoria e todo o resto em sua essência e princípio." Em conseqüência, a Divindade não é nunca, para o expositor da Filosofia Perene, o mero Abso­luto da metafísica acadêmica, a não ser algo mais puramente perfeito, que deve ser adorado mais reverentemente ainda que o Deus pessoal ou sua encarnação humana; um Ser para o qual é possível sentir a mais intensa devoção e com respeito ao qual é necessário (se quer chegar a esse conhecimento unitivo que é a finalidade última do homem) praticar uma disciplina mais árdua e inflexível que qualquer que possa ser imposta pela autoridade eclesiástica.

            Há distinção e diferenciação, segundo nossa ra­zão, entre Deus e a Divindade, entre ação e repouso. A natureza frutífera das Pessoas trabalha sempre em diferenciação vivente. Mas o simples Ser de Deus, segundo sua natureza, é um eterno Repouso de Deus e de todas as coisas criadas.

                                                                                                                                    Ruysbroeck

            Na Realidade unitivamente conhecida pelo místico, não podemos falar já de Pai, Filho e Espírito Santo, nem de nenhuma criatura, a não ser só de um Ser, que é a substância mesma das Pessoas Divinas. Ali fomos todos um antes de nossa criação, pois esta é nossa super essência. Ali a Divindade está em simples essência sem atividade.

                                                                                                                                      Ruysbroeck

            A Santa luz da fé é tão pura que, comparada com ela, as luzes particulares não são mais que impurezas, e até as idéias dos Santos, da bendita Virgem, e a vista de Jesus Cristo em sua humanidade são obstáculos no caminho da visão de Deus em Sua pureza.

  1. J. Olier

            Vindo, como vem, de um devoto católico da Contra-reforma, esta afirmação pode parecer algo cho­cante. Todavia, devemos recordar que Olier (que foi um homem da Santa vida e um dos professores religiosos mais influentes do século XVII) fala aqui de um estado de consciência que poucas pessoas alcançam. Aos que se acham nos planos ordinários do ser, recomenda-lhes outros modos de conhecimento. A um de seus penitentes, por exemplo, aconselhou que lesse, como corretivo à San Juan da Cruz e outros expositores de pura teologia mística, as revelações da Santa Gertrudis a respeito dos aspectos encarnados, e até fisiológicos, da deidade. Na opinião de Olier, como na da maioria de dirigentes de almas, sejam católicos ou índios, era pura loucura reco­mendar o culto de Deus sem forma à pessoas que se encontram em condições de compreender somente os aspectos pessoais e encarnados da Base divina. É esta uma atitude perfeitamente sensata e justifica-se adotar uma linha de conduta de acordo com ela, sempre que recordarmos claramente que sua adoção pode acompanhar certos perigos e desvantagens espirituais.

            A natureza destes perigos e desvantagens será ilus­trada e discutida em outra seção. No momento, bastará citar as palavras de advertência de Filón: "que pensa que Deus tem alguma qualidade e não é o Um, não molesta a Deus, a não ser a si mesmo."

            Deve amar a Deus como não Deus, não Espírito, não pessoa, não imagem; deve amá-lo como é, o puro Um absoluto, separado de toda dualidade e em quem devemos eternamente nos fundirmos de nada em nada.

                                                                                                                          

Eckhart

            O que Eckhart descreve como o puro Um, o absoluto não Deus em quem devemos nos fundir de nada em nada, chama-se no budismo mahayânico a Clara Luz do Vazio. O que segue é parte de um enunciado dirigido pelo sacerdote tibetano a uma pessoa no ato da morte.

            Oh bem nascido, chegou para ti a hora de procurar o Caminho. Sua respiração vai cessar. No passado seu Mestre te colocou face a face com a Clara Luz; e agora estás a ponto de experimentá-la em sua Realidade no estado Bardo (o "estado intermediário", que segue imediatamente à morte, em que a alma é julgada —ou melhor, julga a si mesmo escolhendo, de acordo com o caráter formado durante sua vida na terra, que classe de outra vida tem que ter). Neste estado Bardo todas as coisas são como o céu sem nuvens, e o puro, imaculado Intelecto é como um vazio trans­lúcido sem circunferência nem centro. Neste momento, Conhece-te a ti mesmo e permaneces nesse estado. Também eu, nesta hora, ponho-te cara a cara.

                                                                                                        

Livro dos Mortos tibetano

            Retrocedendo até mais no passado, achamos em um dos primeiros Upanishads a clássica descrição do Um Absoluto como Super Essência; Não Entidade.

            O significado de Brahma é expresso por neti neti (não assim, não assim): pois além disto, dizem que não é assim, já não há nada. Seu nome, entretanto, é "a Realidade da realidade". Quer dizer, os sentidos são reais, e o Brahma é sua realidade.

 

Brhadaranyaka Upanishad

            Em outras palavras, há uma hierarquia do real. O múltiplo mundo de nossa experiência cotidiana é real com uma realidade relativa que é, em seu próprio plano, indiscutível; mas esta realidade relativa tem seu ser dentro; e por causa da Realidade absoluta, a qual, pela incomensurável alteridade de sua natureza eterna, jamais podemos ter a esperança de descrevê-la embora nos é possível apreendê-la diretamente.

            A passagem que segue é de grande importância histórica, pois principalmente através da "Teologia mística" e os "Nomes divinos" do autor do quinto século que escrevia com o nome de Dionisio o Areopagita a cris­tandade medieval estabeleceu contato com o neoplatonis­mo e assim, com vários graus de distância, com o pensamen­to metafísico e a disciplina da Índia. No nono século, Escoto Erígena traduziu os dois livros ao latim; desse tempo em diante seu influxo nas especulações filosó­ficas e a vida religiosa do Ocidente foi extenso, profun­do e benéfico. Era Areopagita a autoridade a qual apelavam dos expositores cristãos da Filosofia Perene, sempre que se viam ameaçados (e a cada momento o eram) por aqueles cujo principal interesse estava no rito, legalismo e organização eclesiástica. E como Dionisio era erroneamente identificado com o primeiro converso ateniense de São Paulo, sua autoridade era consi­derada como quase apostólica; portanto, segundo as re­gras do jogo católico, a apelação a tal autoridade não podia ser facilmente desconhecida, até por aqueles para quem os livros significavam menos que nada. Apesar de sua enlouquecedora excentricidade, os homens e mulheres que seguiam o caminho de Dionisio tinham que ser tolerados. E uma vez deixados em liberdade para produzir os frutos do espírito, certo número deles chegava a um grau tão conspícuo de santidade que se fazia impossível, até para os chefes da Inquisição espanhola, condenar a árvore de onde tais frutos tinham brotado.

            Os simples, absolutos e imutáveis mistérios da Verdade divina estão ocultos na luminosa obscuridade desse silêncio que revela secretamente. Pois essa obscuridade, embora da mais profunda escuridão, é contudo radiantemente clara; e, embora fora do alcance do tato e da vista, enche até transbordar nossas cegas mentes com esplendores de transcendente beleza... Desejamos ardentemente morar nessa translúcida obscuridade e, por meio de não ver nem conhecer, ver aquele que esta além da visão e do conhecimento —pelo fato mesmo de não lhe ver nem lhe conhecer. Pois isto é na verdade ver e conhecer; mediante o abandono de todas as coisas, enaltecer Àquele que está mais à frente e por cima de todas as coisas. Pois isto não é dissemelhante à arte dos que esculpem na pedra uma imagem com aparência de vida; tirando em volta dela tudo o que impede uma clara visão da forma latente, revelando sua oculta beleza apenas lapidando. Pois é, acredito eu, mais adequado exaltar tirando que atribu­indo; pois lhe atribuímos atributos quando partimos dos universais e descendemos, pelos intermediários, aos particulares. Mas aqui nos separamos de todas as coisas, subindo dos particulares aos universais, para poder conhecer abertamente o incognoscível, que está oculto em e sob todas as coisas que possam conhecer-se. E contemplamos a obscuridade que está mais à frente do ser, escondida sob toda luz natural.

                                                                                                                    

Dionisio o Areopagita

            O mundo, conforme aparece ao sentido comum, consiste em um número indefinido de acontecimentos sucessivos e, conforme se presume, relacionados casualmente, os que envolvem um número indefinido de coisas, vistas e pensa­mentos separados, individuais, constituindo em conjunto um cosmos presumivelmente ordenado. Para descrever, discutir e dirigir este universo do sentido comum, desenvolveram-se as linguagens humanas.

            Quando queremos, seja qual for a razão, desejamos pensar sobre o mundo, não conforme se apresenta ao sentido comum, mas sim como um contínuo, encontramo-nos com nossa sintaxe e nosso vocabulário tradicionais são completamente inadequados. Daí que os mate­máticos se viram obrigados a inventar sistemas de símbolos radicalmente novos expressamente a tal objeto. Mas a divina Base de toda existência não é meramente um contínuo; está também fora do tempo, e é diferenciada, não somente em grau, mas em espécie, de todos os mundos para os quais a linguagem tradicional e a matemática são adequadas. Desde aí, em todas as exposi­ções da Filosofia Perene, a freqüência da contradição, da extravagância verbal, às vezes até da aparente blasfêmia. Ninguém inventou ainda um Cálculo Espiritual, em cujos termos possamos falar coerentemente acer­ca da Base divina e do mundo concebido como sua manifestação. Por hora, pois, devemos ser pacientes com as excentricidades lingüísticas daqueles que se vêem obrigados a descrever uma ordem de experiência em termos de um sistema de símbolos, cuja pertinência o é de fato de outra ordem completamente distinta.

            Até agora, pois, no que concerne a uma expressão plenamente adequada da Filosofia Perene, existe um problema de semântica decididamente insolúvel. É um fato que deve ter continuamente presente tudo o que decifrar em suas formulações. Só deste modo poderemos remotamente compreender do que se fala. Considere­mos, por exemplo, essas negativas definições da trans­cendente e imanente Base do ser. Em afirmações como as de Eckhart, Deus é igualado a nada. E em certo sentido a equação é exata; pois Deus é certamente não entidade. Na frase usada por Escoto Erígena, Deus não é um quê; é um Isso. Em outras palavras, pode denotar a Base como estando aí; mas, não definir-se como tendo qualidades. Isto significa que o conhecimento discursivo a respeito da Base não é meramente, como todo conheci­mento inferido, uma coisa à um grau, ou até à vários graus, de distância da realidade do trato imediato, é e tem que ser, a causa do caráter mesmo de nossa lin­guagem e das tramas típicas de nosso pensamento, um conhecimento paradoxal. O conhecimento direto da Base não pode obter-se, senão pela união, e a união só pode obter-se pelo aniquilamento abstraído do eu, que é a barreira que separa o "você" do "Isso".

 

                   PERSONALIDADE, SANTIDADE, ENCARNAÇÃO DIVINA

            Em inglês, as palavras de origem latina tendem a trazer ressonâncias de refinamento intelectual, moral e estético; ressonâncias que não trazem, por regra geral, seus equiva­lentes anglo-saxões. "Maternal" por exemplo, significa o mesmo que "motherly", "intoxicated" que "drunk", mas com que sutilmente importantes matizes de diferença! E quando Shakespeare necessitou um nome para um perso­nagem cômico, foi Sir Toby Belch o que escolheu, não Cavalier Tobias Eructation.

            A palavra "personality" procede do latim, e suas melhores parciais são respeitáveis em muito alto grau. Por alguma estranha razão filológica, o equivalente saxão de "personalis­ta" apenas se usa. E é uma lástima. Pois se se usasse —tão correntemente como "belch" se emprega por "expelir"— haveria tão reverencial escrúpulo a respeito do denotado como recentemente fizeram filósofos, moralistas e teólogos de fala inglesa? Asseguram-nos constantemente que "personality" é a mais elevada forma da realidade com que tenhamos trato. Mas sem dúvida se pensa­ria muito antes de aceitar esta afirmação se, em vez de "personality", a palavra empregada fosse sinônimo teutônico, "selfness". Pois "selfness", embora virtualmente signifique o mesmo, não traz nenhuma das refinadas ressonâncias que acompanham a "personality". Ao contrário, sua significação principal nos chega envolta, por assim dizê-lo, em dissonâncias, como o som de uma campainha alternando. Pois, conforme repetiram constantemente os expositores da Filosofia Perene, a obsessiva consciência que o homem tem de si mesmo e sua insistência em ser um eu separado, constituem o último e mais formidável obstáculo para o conhecimento unitivo de Deus. Ser um eu é, para eles, o pecado original, e morrer para o eu, em sentimento, vontade e intelecto, é a virtude final e que tudo abrange. É a lembrança destas afirmações o que evoca as desfavoráveis ressonâncias com que se asso­cia a palavra "selfness". As excessivamente favoráveis ressonâncias de "personality" são evocadas em parte por sua intrinsecamente grave latinidade, mas também por reminiscências do que se disse sobre as "pessoas" da Trindade. Mas as pessoas da Trindade não têm nada em comum com as pessoas de carne e osso de nosso cotidiano —nada, quer dizer, exceto esse Espírito íntimo, com o que deveríamos nos identificar, mas que a maior parte de nós prefere desconhecer em favor de nosso eu separado. Que a este antiespiritual egoísmo, eclipsado de Deus, deu o mesmo nome que se aplica ao Deus que é um Espírito é, por não dizer mais, desafortunado. Como todos os enganos desta classe é provavelmente voluntário e tem um fim, de algum modo obscuro e subconsciente. Amamos a nosso eu; desejamos uma justificação de nosso amor; portanto, batizamo-lo com o mesmo nome que os teólogos aplicam ao Pai, Filho e Espírito Santo.

            Mas agora me perguntas como destruirias esse despojado conhecer e sentir de teu próprio ser. Pois por ventu­ra pensas que, caso se destruísse, todos outros estor­vos ficariam destruídos, e se assim pensas, pensas muito corretamente. Mas a isso respondo dizendo que, sem uma plena graça especial concedida pela liberta vontade de Deus e também uma plena capacidade de tua parte para receber esta graça, esse notório conhecer e sentir de teu ser não pode em nenhum modo ser destruído. E esta capacidade não é nada mais que um forte e profundo pesar espiritual... Todos os homens têm motivos de pesar, porém, mais especialmente os têm o que conhece e sente que ele é. Todos os outros pesares, em comparação com este, não são senão como elementos em jogo com relação à seriedade. Pois pode te pesar seria­mente ao que conheces e sentes não só o que é, mas também é. E ao que nunca sentiu tal pesar, sinto-o já; pois ainda nunca sentiu um pesar perfeito. Este pesar, quando se tem, limpa a alma, não só de pecado, mas também da dor que mereceu por seu pecado; e deste modo faz à alma capaz de receber o gozo que arranca do homem todo conhecer e sentir de seu ser.

            Este pesar, se for corretamente concebido, está cheio de santo desejo; de outro modo o homem jamais poderia nesta vida suportá-lo. Pois se não fora a alma sustentada de consolo por seu reto obrar, não poderia o homem suportar a dor que tem no conhecer e sentir de seu ser. Pois tantas vezes como quisesse alcançar um verdadeiro conhecer e sentir de seu Deus em pureza de espírito (como aqui se pode) e logo sentisse que não pode —por encontrar sempre seu conhecer e sentir ocupado e repleto, por assim dizê-lo, por um sujo e hediondo Culto de si mesmo, o qual deve ser sempre odiado, desprezado e descartado, se quer ser per­feito discípulo de Deus, ensinado pelo mesmo nos moldes da perfeição—, tantas vezes se veria a ponto de enlouquecer de pesar...

            Tal pesar e tal desejo, toda alma deve ter e senti-lo em si mesmo (deste ou outro modo), conforme condescenda Deus a ensinar a seus discípulos espirituais segundo a boa vontade Dele e a correspondente capacidade deles, em corpo e alma, em grau e disposição, para o tempo em que possam ser perfei­tamente unidos a Deus em perfeita caridade —conforme pode alcançar-se aqui, se Deus o outorgar.

                                                                                                        

A Nuvem do Desconhecer

            Qual é a natureza desse "vulto hediondo" do eu ou personalidade, de que alguém deve arrepender-se tão apaixo­nadamente e morrer tão completamente para ele, antes que possa haver nenhum "verdadeiro conhecimento de Deus em pureza de espírito"? A hipótese mais fraca e menos com­prometedora é a de Hume. "A humanidade —diz— não é mais que um maço ou coleção de diferentes percepções, que acontecem com inconcebível rapidez e estão em perpétuo fluxo e movimento." Uma resposta quase idêntica dão os budistas, cuja doutrina do anatta é a negação de toda alma permanente, existente depois do fluxo da experiência e as várias psicofísicas skandhas (que se correspondem estreitamente com os "maços" de Hume), que constituem os elementos mais duradouros da perso­nalidade. Hume e os budistas dão uma descrição sufi­cientemente realista do eu em ação; mas não acertam ao explicar como, ou por que os presos chegam a converter-se em atados. Juntaram-se espontaneamente os átomos de experiência que os constituem? E, se isso for assim, por que, ou por que meios e dentro de que classe de universo não espacial? Dar a estas perguntas uma resposta plausível em termos do anatta é tão difícil que nos vemos forçados a abandonar a doutrina em favor da noção de que, depois do fluxo e dentro dos atados, existe alguma classe de alma permanente, pela qual a experiência é organiza­da e a qual, por sua vez, faz uso desta experiência organizada para converter-se em uma personalidade particu­lar e única. Este é o parecer do hinduísmo ortodoxo, do qual se separou o pensamento budista, e de quase todo o pensamento europeu desde antes do tempo de Aristóteles até nossos dias. Todavia, enquanto a maior parte dos pensadores contemporâneos tentam descrever a natureza humana em termos de uma dicotomia de psique e físico com recíproco influxo, ou uma inseparável totalidade destes dois elementos dentro de particulares eus encarnados, todos os expositores da Filosofia Pe­rene fazem, de uma ou de outra forma, a afirmação de que o homem é uma espécie de trindade composta de corpo, psique e espírito. A personalidade é um produto dos dois primeiros elementos. O terceiro elemento (esse quidquid increatum et increabile, como Eckhart o chamava) é afim ao Espírito divino que é a Base de todo ser, ou até idêntico a ele. A finalidade última do homem, o intuito de sua existência, é amar, conhecer e unir-se a imanente e transcendente Divindade. E esta identificação do eu com o espiritual não eu, só pode conseguir-se "morrendo para" o eu e vivendo no espírito.

            O que poderia começar a negar o eu, se não houvesse no homem algo diferente do eu?

                                                                                                                                      William Law

            O que é o homem? Um anjo; um animal, um vazio, um mundo, uma nada rodeado Por Deus, falta de Deus, capaz de Deus, pleno de Deus, se assim o desejar.

                                                                                                                                            Bérulle

            Separada a vida da criatura, em oposição à vida em união com Deus é só uma vida de diversos apetites, fomes e necessidades e não pode ser outra coisa. Deus mesmo não pode fazer que uma criatura seja em si mesmo, ou em sua própria natureza outra coisa que um estado de tolice. A vida mais elevada, enquanto seja natural e da criatura, não pode elevar-se além disto, pode ser tão somente uma direta capacidade de bondade e não pode ser uma vida boa e feliz; a não ser, que a vida de Deus esteja nela e em união com ela. E esta é a dupla vida que, de toda necessidade, deve unir-se em toda criatura boa, perfeita e feliz.

                                                                                                                                

William Law

            As Sagradas Escrituras dizem dos seres humanos que existe um homem externo e, junto com ele, um homem interno.

            Ao homem externo correspondem-lhe aquelas coisas que dependem da alma, mas estão associadas com a carne e mescladas com ela, e as funções cooperati­vas dos diversos membros, tais como os olhos, os ouvidos, a língua, as mãos e assim sucessivamente.

            As Escrituras chamam a tudo isto o homem velho, o homem terreno, a pessoa externa, o inimigo, o servente.

            Dentro de todos nós está a outra pessoa, o homem interno, ao qual as Escrituras chamam o homem novo, o homem celeste, o jovem, o amigo, o aristo­crata.

                                                                                                                                          Eckhart

            A semente de Deus está em nós. Como um inteli­gente lavrador, prosperará e crescerá até Deus, cuja semente é, e por entre seus frutos serão da nature­za de Deus. As sementes de pêra se transformam em pereiras, as de noz em nogueiras, e as de Deus em Deus.

                                                                                                                                       Eckhart

            A vontade é livre e estamos em liberdade para identifi­car nosso ser exclusivamente com nosso eu e seus inte­resses, considerados como independentes de Espírito interior e Divindade transcendente (e neste caso seremos passivamente condenados ou ativamente diabólicos), ou exclusivamente com o que tem de divino dentro e fora de nós (e neste caso seremos Santos), ou finalmente com o eu, em um momento, ou em um contexto (e neste caso seremos cidadãos médios, muito teocêntricos para ser completamente condenados, e muito egocêntricos para alcançar a iluminação e a salvação total). Como o desejo humano não pode ser nunca satisfeito, a não ser pelo conhecimento unitivo de Deus e como o corpo mental é capaz de uma enorme variedade de experiências, estamos em liberdade para nos identificar com um número quase infinito de objetos possíveis —com os prazeres da gula, por exemplo, ou a intemperança, ou a sensualidade; com o dinheiro, poder ou fama, com nossa família, considerada como uma posse ou realmente uma extensão e projeção de nosso próprio eu; com nossos bens e efeitos, nossas afeições, nossas coleções; com nossas faculdades artísticas ou científicas, com algum ramo favorito do conhecimento, com alguma fasci­nadora "especialidade"; com nossas profissões, nossos partidos políticos, nossas igrejas; com nossas dores e enfermidades; com nossas lembranças de êxito ou infortúnio, nossas esperanças, temores e projetos para o futuro; e finalmente com a eterna Realidade, em que e pela qual todo o resto tem seu ser. E estamos em liberdade, é obvio, para nos identificar com mais de uma destas coisas simultânea ou sucessivamente. Daí a assombrosa e improvável combinação de traços que entram na formação de uma personalidade complexa. Assim um homem pode ser a um tempo o mais ardiloso dos políticos e enganar-se com sua própria verbosidade, pode sentir uma paixão por aguardente e pelo dinheiro, e uma paixão igual pela poesia do George Meredith, por garotas menores de idade e por sua mãe; pelas corridas de cavalos e as novelas policiais e o bem de sua pátria, tudo acompanhado por um oculto temor ao fogo do inferno, o ódio à Spinoza e uma impecável assistência domini­cal à igreja. Uma pessoa nascida com uma classe de constituição psicofísica se verá tentada a identificar-se com uma série de interesses e paixões; enquanto que outra pes­soa com outra classe de temperamento se verá tentada a entrar em identificações muito diferentes. Todavia, embora estas tentações são extremamente poderosos se a tendência constitutiva é muito marcada, não é inevitável su­cumbir à elas; há pessoas que podem resistir e resistem; que podem negar-se, e o fazem, a identificar-se com o que para eles seria facílimo e natural ser; podem fazer-se melhores e bem outras que seu próprio eu, e o fazem. A este respeito, o seguinte breve artigo sobre "Como se conduzem os homens em momentos críticos" (publicado em um número recente do Harper's Magazine) é muito significativo. "Um jovem psiquiatra, que tomou parte como observador médico em quatro vôos de combate da Oitava Força Aérea, na Inglaterra, diz que, em momen­tos de grande tensão e perigo, os homens tendem a reagir de modo bastante uniforme, embora, sob cir­cunstâncias normais, difiram amplamente em persona­lidade. Tomou parte em um vôo, durante o qual o avião B-17 e sua tripulação estavam tão severamente danificados que parecia impossível sua salvação. O médico havia estu­dado já 'no chão' as personalidades da tripulação e tinha visto que representavam uma grande diversidade de tipos humanos. De sua conduta nos momentos de crise disse o seguinte:

            "Suas reações eram notavelmente parecidas. Durante o violento combate e suas agudas vicissitudes se mostraram todos tranqüilamente precisos no interfone e decididos na ação. O artilheiro da cauda, o do centro direita e o navegante foram gravemente feridos ao começar a luta, entretanto, os três continuaram sua tarefa com eficácia e sem interrupção. O mais pesado da tarefa recaiu no piloto, o maquinista e o artilheiro de torre, e todos atuaram com rapidez, destra eficácia e sem gestos inúteis. As decisões mais importantes durante o combate e especialmente depois deste, recaíram essencialmente no piloto e, para detalhes secundários, no co-piloto e o bombardeiro. As decisões, tomadas com cuidado e rapidez, cum­priram-se sem discussão uma vez tomadas e resultaram exce­lentes. No período em que se esperava, de um momento a outro, o desastre, os diversos planos de ação foram expostos claramente e sem outro pensamento que a segurança de toda a tripulação. Todos em tal momento se mostravam tranqüilos, quietamente animados e dispos­tos a tudo. Não houve em nenhum momento paralisia, pânico, pensamento turvo, critério defeituoso ou confuso, ou egoísmo em nenhum deles.

            "Ninguém poderia inferir em sua conduta que este era um homem de humor instável ou que aquele era um homem tímido, quieto, introspectivo. Todos se mostravam externamente tranqüilos, precisos no pensar e rápidos no trabalho.”

            "Tal ação é típica de uma tripulação de homens que conhecem intimamente o que é o medo de modo que podem empregar, sem ser turvados por isso, seus concomi­tantes fisiológicos; que estão bem adestrados, de modo que podem dirigir sua ação com clareza; e que possuem a confiança mais que pessoal inerente a uma equipe unificadora."

            Vemos, pois, que, ao apresentar crise, cada um destes jovens esqueceu a personalidade particular, que edificara com os elementos subministrados por sua herança e o meio ambiente em que cresceram; que um resistiu à tentação, normalmente irresistível, de identificar-se com seu humor do momento, outro a tentação de identificar-se com seus particulares sonhos, e assim sucessivamente outros, e que todos eles se conduziram do mesmo modo, surpreendentemente similar e completamente admirável. Era como se a crise e o preliminar adestramento para a crise os tivesse tirado de suas divergentes personalidades e os tivesse elevado a todos ao mesmo nível superior.

            Às vezes a crise sozinha, sem nenhuma instrução preparató­ria, basta para fazer que um homem se esqueça de ser seu acostumado eu e se converta, por aquele tempo, um pouco completamente diferente. Assim as pessoas de quem me­nos acreditaria isso se convertem temporariamente, sob a in­fluência de um desastre, em heróis, mártires, abnegados trabalhadores para o bem de seus semelhantes. Às vezes também, a proximidade da morte produz resulta­dos semelhantes. Por exemplo, Samuel Johnson conduziu-se de um modo durante quase toda sua vida e de um modo bem diferente durante sua última enfermidade. A personalidade fascinantemente complexa, em que se deleitaram tantas gerações de boswellianos —o douto tosco e glu­tão, o bondoso fanfarrão, o supersticioso intelectual, o cristão convencido, que era um fetichista, o homem bravo a quem aterrava a morte—, converteu-se, quando estava morrendo, em uma pessoa singela, singular, serena e centrada em Deus.

            Embora pareça paradoxal, para muitas pessoas é muito mais fácil conduzir-se abnegadamente em tempo de crise que quando a vida segue seu curso normal em imperturbável tranqüilidade. Quando tudo caminha facil­mente não há nada que nos faça esquecer nosso precioso eu, nada (exceto nossa vontade de mortificação e o conhecimento de Deus) que distraia nossa mente das distrações com que quisemos nos identificar; temos perfeita liberdade de mudarmos nossa personalidade a nosso gosto. E como nos derrubamos! Por esta razão todos os Mestres da vida espiritual insistem tanto na importância das pequenas coisas.

            Deus requer o fiel cumprimento da menor bagagem que nos dê para fazer, melhor que a mais ardente aspiração à coisas a que não somos chamados.

                                                                                                                  

São Francisco de Sales

            Não há ninguém no mundo que não possa chegar sem dificuldade à perfeição mais eminente cumprindo com amor deveres obscuros e comuns.

                                                                                                                          

  1. P. de Caussade

            Há gente que mede o valor das boas ações somente por suas qualidades naturais ou sua dificuldade, dando a preferência ao que é conspícuo ou brilhante. Essas pessoas esquecem que as virtudes cristãs, que são inspirações de Deus, devem olhar-se do lado da graça, não do da natureza. A dignidade e dificuldade de uma boa ação certamente afeta o que tecnicamente se chama seu valor acidental, mas todo seu valor essencial vem do amor sozinho.

 

Jean Pierre Camus

(citando a São Francisco de Sales)

            O santo é aquele que sabe que cada momento de nossa vida humana é um momento de crise; pois em cada momento nos chama a tomar uma muito importante decisão —escolher entre o caminho que leva a morte e a treva espiritual e o caminho que leva a luz e a vida; entre nossa vontade pessoal, ou a vontade de alguma projeção de nossa personalidade, e a vontade de Deus. Para preparar-se a resolver as dificuldades de seu modo de vida, o santo empreende uma educação apropriada de sua mente e corpo, assim como o faz o soldado. Mas enquanto que os objetivos da instrução militar são limitados e muito simples, ou seja, fazer aos homens valentes, serenos e cooperativamente eficientes na arte de matar a outros homens, com os quais, pessoalmente, não têm questão alguma, os objetivos da educação espiritual estão muito menos estreitamente especializados. Aqui o fim é principalmente levar os seres humanos a um estado no qual, por já não haver nenhum dos obstáculos que eclipsam a Deus entre eles e a Realidade, podem advertir continuamente a divina Base de seu ser e de todos outros seres; secundariamente, como meio para este fim, tratar todas as circuns­tâncias, até as mais corriqueiras, da vida cotidiana, sem malícia, cobiça, desejo de impor-se ou ignorância vo­luntária: antes bem, conseqüentemente, com amor e compreensão. Como que seus objetivos não são limitados; como que, para o que ama a Deus, cada momento é um momento de crise, a educação espiritual é incompara­velmente mais difícil e penetrante que a instrução mili­tar. Há muitos bons soldados; poucos Santos.

            Vimos que, em uma crise, os soldados especial­mente adestrados para encarar esta classe de coisas tendem a esquecer a idiossincrasia inata e adquirida com que normalmente identificam seu ser e a conduzir-se, transcen­dendo seu eu, do mesmo modo unitendente, melhor que pessoal. O que ocorre com os soldados ocorre também com os Santos, mas com uma importante diferença, a de que o fim da educação espiritual é fazer os homens abnegados em toda circunstância da vida, enquanto que o fim da instrução militar é fazê-los abnegados só em certas circunstâncias muito especiais e com relação à só certas classes de seres humanos. Não poderia ser de outro modo; pois tudo o que somos, e queremos, e fazemos depende, em última instância, pelo que acreditam que é a Natureza das Coisas. A filosofia que racio­naliza a política de força e justifica a guerra e a instrução militar é sempre (qualquer que seja a religião oficial dos políticos e fazedores de guerras) alguma loucamente irrealista doutrina de idolatria nacional, racial ou ideológica, que tem, por inevitáveis corolários, as noções de Herrenvolk e "as castas inferiores fora da lei".

            As biografias dos Santos testemunham inequivocadamente o fato de que a educação espiritual conduz a uma transcendência da personalidade, não meramente nas circunstâncias especiais de uma batalha, mas em todas as circunstâncias e com respeito a todas as criaturas, de modo que o santo "ama a seus inimigos" ou, se for budista, nem sequer reconhece a existência de inimigos, e trata a todos os seres sensíveis, os sub-humanos como os hu­manos, com a mesma compaixão e desinteressada boa vontade. Os que penetram até o conhecimento unitivo de Deus empreendem a marcha dos mais diversos pontos de partida. Um é homem, outro mulher; um nato homem de ação; outro, um contemplativo nato. Não há dois deles que herdem o mesmo temperamento e constituição física, e suas vidas se passam nos meios mate­riais, morais e intelectuais que são profundamente distintos. Entretanto, assim que são Santos, assim que possuem o conhecimento unitivo que os faz "perfeitos como seu Pai que está no céu é perfeito", todos são assombrosamente iguais. Seus atos são uniformemente abnegados e eles estão constantemente recolhidos, de modo que em todo momento sabem quem são e qual é sua verdadeira relação com o universo e sua Base espiritual. Até da ordinária gente média pode dizer-se que seu nome é Legião —muito mais das personalidades excepcionalmente complexas, que se identificam com uma ampla diversidade de humores, desejos e opiniões. Os Santos, pelo contrário, não são indecisos nem indiferentes, a não ser puros e, por maior que sejam seus dotes intelectua­is, profundamente simples. A multiplicidade de Legião cedeu lugar à unitendência; não a uma dessas malignas unitendências da ambição ou a cobiça, ou a sede de poder e fama, nem tão somente a uma das unitendências, mais nobres mas ainda muito hu­manas, da arte, a erudição e a ciência, consideradas como fim em si mesmos, a não ser a unitendência suprema, mais que humana, que constitui o ser mesmo dessas almas que, consciente e conseqüentemente, perseguem a última finalidade do homem, o conhecimento da eterna Realidade. Em uma das Escrituras palis há uma significa­tiva anedota sobre o brâmane Drona que, "vendo o Bem-aventurado sentado ao pé de uma árvore, perguntou-lhe: "É um deua?" E o Excelso respondeu: 'Não o sou.' 'É um gandharua?' 'Não o sou.' 'É um yaksha?' 'Não o sou.' 'É um homem?' 'Não sou um homem.'" Ao perguntar-lhe o brâmane o que poderia ser, o Bem-aventurado respondeu: "Essas influências malignas, esses desejos, cuja não destruição me teria individualizado como deua, gandharua, yaksha (três tipos de ser sobrenatural), ou como homem, hei-las completamente aniquilado. Sabe, pois, que sou Buda."

            Podemos observar aqui de passagem que só os unitendentes são verdadeiramente capazes de adorar a um só Deus. O monoteísmo como teoria pode ser abri­gado até por uma pessoa cujo nome é Legião. Mas quando acontecer a teoria à prática, do conhecimento discursivo sobre o Deus um ao imediato trato com Ele, não pode haver monoteísmo sem pureza de coração. O conhecimento está no consciente segundo o modo do consciente. Quando este é polipsíquico, o universo que conhece por experiência imediata é politeísta. O Buda recusou fazer nenhuma declaração com respeito à final Realidade divina. Só quis falar do Nirvana, que é o nome da experiência que ocorre aos totalmente abnegados e unitendentes. A esta mesma experiência outros deram o nome de união com o Brahma, com Al Haqq, com a imanente e transcendente Divindade. Mantendo, nesta questão, a atitude de um estrito pragmático, o Buda quis falar só da experiência espiritual, não da entidade metafísica que os teólogos de outras religiões como também do budismo posterior, supõem ser o objeto e (pois na contemplação do consciente, conhecido e o conhecimento são um) ao mesmo tempo o sujeito e a substância dessa experiência.

            Quando o homem carece de discernimento, sua vontade vaga em todas direções, depois de inumeráveis objetivos. Os que carecem de discernimento podem citar a letra da Escritura, mas em realidade estão negando sua íntima verdade. Estão cheios de desejos mundanos e ávidos das recompensas do céu. Usam belas figuras retóricas; ensinam laboriosos ritos que, conforme se supõe, dão prazer e poder aos que os praticam. Mas, em realidade, não compreendem nada, exceto a lei do Carma, que encadeia os homens a renascer.

            Aqueles cujo discernimento se perde em tais bate-papos ficam profundamente afetados ao prazer e ao poder. E por isso são incapazes de desenvolver a unitendente concentração da vontade que conduz ao homem à absorção em Deus.

                                                                                                                          

Bhagavad Gita

            Entre os cultos e mentalmente ativos, a hagiografia é agora uma forma muito impopular de literatura. O fato não é nada surpreendente. Os cultos e mentalmente ativos têm um insaciável apetite pela novidade, diver­são e distração. Mas os Santos, por dominantes que sejam suas atividades profissionais, estão todos incessante­mente preocupados com um só tema: a Realidade espiri­tual e os meios pelos quais eles e seus semelhantes podem chegar ao conhecimento unitivo dessa Realidade. E quanto a seus atos, são tão uniformemente monótonos como seus pensamentos; pois em toda circunstância se conduzem com abnegação, paciência e infatigável cari­dade. Não é maravilha, pois, que as biografias de tais homens e mulheres fiquem por ler. Por cada pessoa bem educada que saiba algo a respeito de William Law, há duzentas ou trezentas que têm lido o livro de Boswell sobre a vida de seu douto contemporâneo. Por que? Porque, até o momento em que jazia moribundo, Johnson se compôs em fascinantes múltiplas personalidades; enquanto que Law, com toda a superioridade de suas faculdades, era quase absurdamente simples e ingênuo. Legião prefere ler a respeito de Legião. Por esta razão, em todo o repertório da poesia épica, o drama e a nove­la, há apenas representações de Santos realmente teocêntricos.

            Oh Amigo, tenha esperança Nele enquanto vive, conhe­ce enquanto vive, compreende enquanto vive, pois na vida está a salvação.

            Se suas ataduras não forem rotas na vida, que espe­rança de salvação haverá na morte?

            Só vão sonho é pensar que a alma se unirá com Ele não mais que por ter abandonado o corpo: se Ele é encontrado agora, é encontrado então; senão, só vamos residir na Cidade da Morte.

                                                                                                                                      

Kabir

            Esta figura em forma de sol (esta é a descrição da gravura frontispício da primeira edição da regra de perfeição) representa a vontade de Deus. Os rostos colocados aqui no sol representam almas que vivem na vontade divina. Estes rostos estão dis­postos em três círculos concêntricos, que mostram os três graus desta divina vontade. O primeiro grau, o mais externo, significa as almas da vida ativa; o segundo as da vida de contemplação; o terceiro, as da vida de supereminência. Fora do primeiro círculo há muitas ferramentas, tais como tenazes martelos, que denotam a vida ativa. Mas em volta do segundo círculo não colocamos nada, para signifi­car que nesta classe de vida contemplativa, sem nenhuma outra especulação nem prática, deve segui-la guia da vontade de Deus. As ferramentas estão no fundo e na sombra, por quanto as obras externas estão de por si cheias de escuridão. A estas ferramentas, entretanto, dá-lhes um raio de sol, para mostrar que as obras podem ser esclarecidas e iluminadas pela vontade de Deus.

            A luz da vontade divina brilha pouco nos rostos do primeiro círculo; muito mais nos do segundo; enquanto que os do terceiro, o mais interno, são res­plandecentes. Os rasgos brilham claríssimos no primeiro, menos no segundo, apenas no terceiro. Isto significa que as almas do primeiro grau estão muito absortas; as do segundo grau, menos em si mesmos e mais em Deus; as do terceiro grau são quase nada em si mesmos e tudo em Deus, absortas em sua vontade essencial. Todos estes rostos têm os olhos fixos na vontade de Deus.

                                                                                                                  

Benet de Canfield

            Em virtude de sua absorção em Deus e precisamente porque não identificou seu ser com os elementos, ina­tos e adquiridos, de sua personalidade privada, o santo pode exercer sua influência, inteiramente inativa e por índole inteiramente benéfica, em indivíduos e até em sociedades inteiras. Ou, para ser mais exato, por haver-se ele purgado do eu, pode a divina Realidade usá-lo como leito de graça e poder. "Vivo, mas não eu, e sim Cristo —o eterno Logos— vive em mim." Certo para o santo, isto deve ser a fortiori certo para o Avatar, ou encarnação de Deus. Era assim que santo, São Paulo era "não eu", indubitavelmente Cristo era "não eu"; e falar, como o fazem tantos eclesiásticos liberais, de adorar "a perso­nalidade de Jesus" é um absurdo. Pois é óbvio que se Jesus se contentou meramente tendo perso­nalidade como o resto de nós, nunca teria exercido a classe de influência que, de fato, exerceu, e nunca lhe teria ocorrido a ninguém considerá-lo como uma encar­nação divina e identificá-lo com o Logos. Chegando a ser Cristo devia-se ao fato de que tinha passado mais à frente do eu e se converteu no leito corporal e mental através do qual fluía no mundo uma vida mais que pessoal, sobrenatural.

            As almas que chegaram ao conhecimento unitivo de Deus são, segundo a expressão de Benet de Canfield, "quase nada em si mesmos e tudo em Deus". Este minguante resíduo do eu persiste porque, levemente, ainda identificam seu ser com alguma inata tendência psicofísica, algum adquirido hábito de pensamento ou sentimento, alguma convenção ou não analisado prejuízo corrente no me­do social. Jesus estava quase inteiramente absorto na essência vontade de Deus; mas, apesar disso, possivelmente retivesse alguns elementos do eu. Até que ponto houvesse algum "eu" associado com o mais que pessoal, divino "não eu", é muito difícil julgá-lo sobre a base dos testemunhos existentes. Por exemplo, interpretou Jesus sua experiência da Realidade divina e suas próprias espontâ­neas inferências dessa experiência em termos das fascinantes idéias apocalípticas correntes nos círculos judeus contemporâneos? Alguns eruditos eminentes arguiram que a doutrina da dissolução iminente do mundo é o núcleo central de seu ensino. Outros, igual­mente doutos, sugerem que foi atribuído pelos autores dos Evangelhos sinópticos e que Jesus mesmo não identificou sua experiência nem seu pensamento teológico com opiniões populares locais. Qual partido tem ra­zão? Deus sabe. Nesta questão, como em tantas outras, os testemunhos existentes não permitem uma resposta certa, sem ambigüidades.

            A moral de tudo isso é clara. A quantidade e a qualidade dos documentos biográficos existentes são tais que não há modo de saber como era realmente a perso­nalidade residual de Jesus. Mas se os Evangelhos nos dizem muito pouco sobre o "eu" que era Jesus, compensam esta deficiência nos dizendo muito por inferência, nas p­arábolas e sermões, sobre o espiritual "não eu", cuja manifesta presença no homem mortal era a razão pela qual seus discípulos o chamavam o Cristo e o identificavam com o eterno Logos.

            A biografia de um santo ou avatar é valiosa somente assim que arroja luz sobre os meios pelos quais, nas circunstâncias de uma determinada vida humana, foi eli­minado o "eu" para dar lugar ao divino "não eu". Os autores dos Evangelhos sinópticos não quiseram escrever tal biografia, e não há quantidade de crítica textual ou engenhosa presunção que possa fazê-la surgir. No curso dos últimos cem anos se empregou uma enor­me soma de energia procurando fazer que os documen­tos dessem mais prova que as que realmente contêm. Por lamentável que seja a falta de interesse biográfico dos sinopsistas e quaisquer que sejam as objeções que possam fazer-se às teologias do Paulo e João, não cabe dúvida alguma de que seu instinto foi essencialmente justo. Cada um a seu modo escreveu sobre o eterno "não eu" de Cristo, melhor que do histórico "eu"; cada um a seu modo recalcou o elemento da vida de Jesus em que, por ser mais que pessoal, todas as pessoas podem partici­par. (A natureza do eu é tal, que uma pessoa não pode ser parte de outra pessoa. Um eu pode conter ou ser contido por algo que é menos ou mais que um eu; nunca poderá conter nem ser contido por um eu.)

            A doutrina de que Deus pode encarnar-se em forma humana se encontra nas principais exposições his­tóricas da Filosofia Perene —no hinduísmo, no budismo mahayânico, no cristianismo e no maome­tismo dos sufis, por quem o Profeta era igualado ao eterno Logos.

                                   Quando a bondade decai,

                                    quando o mal aumenta

                                   faço para mim um corpo.

                                   Em cada época volto

                                   para libertar aos Santos,

                                   para destruir o pecado do pecador,

                                   para estabelecer a retidão.

                                   que conhece o caráter

                                   de minha tarefa e meu santo nascimento

                                   não renasce

                                   quando abandona seu corpo;

                                   vem para Mim.

                                   Fugindo do temor

                                   da concupiscência e a ira,

                                   esconde-se em Mim,

                                   refúgio e segurança dela.

                                   Depurados na chama de meu ser

                                   muitos acham em Mim o lar.

                                                                            Bhagavad

 

Gita

            Então o Bem-aventurado falou e disse: "Sabe Vasetha, que de tempo em tempo nasce um Tathagata ao mundo, um completamente Iluminado, bendito e digno, copioso em sabedoria, e bondade, feliz com o conhecimento dos mundos, insuperado como guia para mortais errantes, Mestre de deuses e homens, um bem-aventurado Buda. Compreende cabalmente a este universo, como se o visse cara a cara... A verdade proclama assim na letra como no espírito, amável em sua origem, amável em seu progresso, amável em sua consu­mação. Uma vida superior se dá a conhecer em toda sua pureza e em toda sua perfeição.

                                                                                                                                   Tevigga Sutta

            Krishna é uma encarnação de Brahma; Gautama Buda, pelo que os mahayanistas chamam a Dharmakaya, Talidad, Mente, a Base espiritual de todo ser. A doutrina cristã da encarnação da Divindade em forma hu­mana difere da da Índia e o Longínquo Oriente assim que afirma que houve e só pode haver um Avatar.

            O que fazemos depende em grande parte do que pensamos, e se o que fazemos é mau, há uma boa razão empírica para supor que nossas tramas de pen­samento são inadequadas à realidade material, mental ou espiritual. Por acreditar quão cristãos só houve um Avatar, a história cristã se viu desonrada por mais e mais sangrentas cruzadas, guerras sectárias, perseguições e imperialismos catequizadores que a história do hinduísmo e o budismo. Doutrinas absurdas e idólatras que afirmavam a natureza quase divina dos Estados sobera­nos e seus regentes conduziram os povos orientais, não menos que os ocidentais, a inumeráveis guerras políticas; mas, por não acreditar em uma revelação exclusiva em um só instante, nem na quase divindade de uma organização eclesiástica, os povos orientais se mantiveram notavelmente limpos do assassinato em massa por causa da religião, que foi tão freqüente na cristandade. E enquanto, a este importante respeito o nível da morali­dade pública foi inferior no Oeste que no Este, os níveis de santidade excepcional e de ordinária moralidade individual, até onde pode julgar-se pelas provas disponíveis, não foram superiores. Se a árvore se conhecer realmente por seus frutos, o lugar retirado, por parte do cristianismo, da norma da Filosofia Perene pareceria ser filosoficamente injustificável.

            O Logos passa da eternidade ao tempo com o único propósito de ajudar aos seres cuja forma corporal toma com o passar do tempo à eternidade. Se a aparição do Avatar no cenário da história é enormemente importante, isso se deve a que com seu ensino assinala, e por ser leito de graça e divino poder é, realmente, o meio pelo qual os seres humanos podem transcender as limitações da história. O autor do quarto Evangelho afirma que o Verbo se fez carne; mas em outra passagem acrescenta que a carne não aproveita nada; nada, isto é, em si mesmo, mas muito, é obvio, como meio para a união com o imanente e transcendente Espírito. A este respeito é interessante con­siderar o desenvolvimento do budismo. "Sob a forma das imagens religiosas ou místicas —escreve R. E. Johnston em seu a China Budista—, o Mahayana expressa o universal, enquanto que o Hinayana não pode livrar do domínio dos fatos históricos." Nas palavras de um eminente orientalista, Ananda K. Coomaraswamy, "O crente mahayanista é advertido —precisamente como o adora­dor de Krishna é advertido, nas Escrituras vaishnavitas, de que o Krishna Lila não é uma história, mas um processo que se desenvolve perpetuamente no coração do homem— das quais as questões de realidade histórica não têm importância religiosa" (salvo, devemos acrescentar, assim que assinalem ou elas constituam em si mesmas os meios —remotos ou próximos, políticos, éticos ou espirituais— pelos quais os homens possam conseguir libertar do eu e da ordem tem­poral) .

            No Ocidente, os místicos avançaram um pouco no caminho de liberar o cristianismo de sua desafortunada servidão aos fatos históricos (ou, para ser mais exato, dessas várias mesclas de registro contemporâneo com posteriores deduções e fantasias, que, em diferentes épocas, foram aceitas como expressão de fatos históricos). Dos escritos de Eckhart, Tauler e Ruysbroeck, de Boehme, William Law e outros quaisquer, seria possível extrair um cristianismo espiritualizado e universalizado, cujos rela­tos se referissem, não à história tal como foi, ou como alguém posteriormente pensou que tinha que ser, mas a "processos que se desenvolvem perpetuamente no coração do homem". Todavia, infortunadamente a influência dos místicos não foi nunca bastante poderosa para produzir uma radical revolução mahayanista no Ocidente. Apesar deles, o cristianismo continuou sendo uma religião em que a pura Filosofia Perene foi recoberta, ora mais, ora menos, de uma idólatra preocu­pação com acontecimentos e coisas no tempo; acontecimentos e casos considerados, não meramente como meios úteis, mas sim como fins, intrinsecamente sagrados e realmente divinos. Além disso, as melhoras que se fizeram na história no curso de séculos foram, imprudentemente, tratadas como se também elas fossem parte da história —procedimento que pôs uma arma potente em mãos dos polemistas protestantes e, mais tarde, dos racionalistas. Quanto mais prudente seria admitir o fato, perfeitamente confessável, de que, quando a severidade de Cristo o Juiz fora indevidamente recalcado, homens e mulheres sentiram a necessidade de personificar a divina compaixão em uma forma nova, com o resultado de que a Virgem, mediadora com o mediador, adquiriu maior proeminência! E quando, no curso do tempo, a Rainha do Céu infundiu muito temeroso respeito, a compaixão foi personificada na familiar figura de São José, que assim se converteu em mediador ante a mediadora com o mediador. Exatamente do mesmo modo ocorreu com os fiéis budistas que o histórico Sakyamuni, com sua insistência no reco­nhecimento, o discernimento e a morte total para o eu, como meio principal de salvação, era muito seve­ro e muito intelectual. O resultado foi que o amor e a compaixão que Sakyamuni também tinha inculcado foram personificados no Budas; tais como, Amida e Maitreya, caracteres divinos completamente separados da história, por quanto sua passagem temporária se achava situada em algum local do longínquo passado ou do longínquo futuro. Aqui pode observar-se que o grande número de Budas e Bodhisattvas, de que falam os teólogos mahayanistas, está proporcional à amplitude de sua cosmologia. O tempo, para eles, é sem começo, e os inumeráveis universos, cada um deles suporte de seres sensíveis de todas as variedades possíveis nascem, desenvolvem-se, de­caem e morrem, só para repetir o mesmo ciclo, uma e outra vez, até a final consumação, inconcebivelmente longínqua, em que todos os seres sensíveis de todos os mundos conseguiram libertar do tempo para entrar na eterna Talidad ou condição de Buda. Este fundo cosmológico do budismo tem afinidades com a pintura do mundo que nos oferece a astronomia moderna —especialmente a versão dada na recém publicada teoria do Dr. Weiszácker em relação à formação de planetas. Se a hipótese de Weiszácker é correta, a produção de um sistema planetário seria um episódio normal na vida de cada estrela. Há quarenta mil e milhões de estrelas só em nosso sistema galáctico, e mais à frente em nossa galáxia, outras galáxias indefinidamente. Como não podemos deixar de acreditar, as leis espiri­tuais que governam o estado de consciência são unifor­mes em todo o universo criador de planetas e, presumi­velmente, sustentador de vida; não cabe dúvida de que sobrou espaço para essas inumeráveis, redentoras en­carnações da Talidad cujas brilhantes multidões en­cantam aos mahayanistas; e, ao mesmo tempo, a mais angustiosa, desesperada necessidade delas.

            De minha parte, acredito que a razão principal que incitou ao invisível Deus a fazer-se visível na carne e a tratar com os homens foi conduzir aos homens carnais, que só são capazes de amar de forma carnal, o saudável amor de Sua carne e depois, pouco a pouco, ao amor espiritual.

                                                                                                                        

São Bernardo

            A doutrina de São Bernardo sobre "o amor carnal de Cristo" foi admiravelmente resumida pelo professor Étienne Gilson em seu livro A teologia mística de São Bernardo. "O conhecimento de si mesmo, já dilatado no amor carnal social do próximo, tão parecido com a gente mesmo em suas angústias, é dilatado uma segunda vez no amor carnal de Cristo, modelo de misericórdia, pois por nossa salvação se converteu em Homem das Dores. Eis aqui o lugar ocupado no misticismo cisterciense pela meditação sobre a visível Humanidade de Cristo. Só é um começo, mas um começo absolutamente necessário... A caridade, é óbvio, é essencialmente espiri­tual, e um amor desta classe não pode ser, a não ser seu primeiro momento. Está muito ligado com os sentidos, de não ser que saibamos usa-lo com prudência e nos apoiar nele tão somente com o conhecimento de que é algo que deve superar-se. Ao expressar-se assim, Bernardo meramente codifi­cava os ensinos de sua própria experiência; pois sabe­mos por ele, que era muito dado à prática deste amor sensitivo no começo de sua 'conversão'; mais adiante tinha que considerar um avanço o acontecido mais à frente; não, certamente, havê-lo esquecido, mas acrescentado-lhe outro que o superava, como o racional e espiritual supera o carnal. Entretanto, este começo é já uma culminação.

            "Este sensitivo afeto por Cristo, apresentava-o sempre São Bernardo como um amor de ordem relativamente inferior. É assim precisamente por causa de seu caráter sensi­tivo, pois a caridade é de essência puramente espiritual. Em justiça, a alma deveria poder entrar diretamente, em virtude de suas faculdades espirituais, em união com um Deus que é puro espírito. A Encarnação, além disso, deveria considerar-se como uma das conseqüências da queda do homem, de modo que o amor pela Pessoa de Cristo está, de fato, ligado com a história de uma queda que não era necessário que ocorresse, nem deveria ocorrer. São Bernardo assinala ademais, em diversos locais, que este afeto não pode subsistir sozinho sem perigo, e tem que ser sustentado pelo que ele chama 'ciência'. Tinha ante si, exemplos das separações em que pode cair até a mais ardente devoção quando não está dirigida por uma sã teologia."

            As numerosas teorias fantásticas, mutuamente incom­patíveis, que foram enxertadas na doutrina cristã da encarnação divina, podem considerar-se elementos indispensáveis de uma "sã teologia"? Acho difícil imaginar, como qualquer um que examine a história destas idéias, tal como as expuseram, por exemplo, o autor da Epístola aos Hebreus, Atanasio e Agustín, Anselmo e Lutero, Calvino e Grocio, possa plausivelmente responder esta pergunta afirmativamente. A este respeito, bastará chamar a atenção para uma das mais duras e amargas ironias da história. Confiasse o Cristo dos Evangelhos, os juristas pareciam estar mais longe do Reino do Céu, ser mais incuravelmente impenetráveis à Realidade que quase toda outra classe de seres humanos, exceto os ricos. Mas a teologia cristã, especialmente a das igrejas ocidentais, foi produto de mentes imbuídas de legalismo judeu e romano. Em excessivo número de casos as penetrações imediatas do Avatar e o santo teocêntrico foram racionalizadas em um sistema, não por filósofos, mas sim por especulativos advogados e metafísicos juristas. Por que seria tão extremamente difícil o que o abade John Chapman chama "o problema de conciliar (não meramente unir) o misticismo e o cristianismo"? Simplesmente, porque o pen­samento romano e protestante, foi de igual modo elabora­do por esses mesmos letrados a quem Cristo considerava como especialmente incapazes para compreender a verda­deira Natureza das coisas. "O abade (Chapman se refere aparentemente ao abade Marmion) diz que San Juan de la Cruz é como uma esponja cheia de cristianismo. Pode tirar-se tudo espremendo-lhe e fica a plena teoria mística (em outras palavras, a pura Filosofia Perene). Em conseqüência, por uns quinze anos, detestei San Juan de la Cruz e o chamei budista. Amava Santa Teresa e a li uma e outra vez. Primeiro é cristã; só em segundo termo mística. Logo vi que perdera quinze anos, assim que concernia à prece."

            Vejam agora o sentido destas duas asserções de Cristo. O primeiro: "Ninguém chega a meu Pai, senão por mim", quer dizer, através de minha vida. O outro: "Ninguém chega a mim, se não o atrair meu Pai", isto é, não toma sobre si minha vida e me segue, a não ser quando é movido e atraído por meu Pai, isto é, pela Bondade Simples e Perfeita, da qual São Paulo diz: "Quando o que é perfeito chegar, o que é em parte será descartado."

                                                                                                                    

Theologia Germânica

            Em outras palavras, deve haver uma imitação de Cristo antes de que possa haver identificação com o Pai; e deve haver uma essencial identidade, ou parecido entre o espírito humano e o Deus que é Espírito para que a idéia de imitar a conduta terrena da Divindade encarnada passe pela mente de alguém. Os teólogos cristãos falam da possibilidade da "deificação", mas negam que haja identidade de substância entre a Realidade espiri­tual e o espírito humano. No budismo vedântico e mahayânico, como também entre os sufis, considera-se que espírito e Espírito são a mesma substância; Atman é Brahma; Isso é você.

            Quando não iluminados, os Budas não são outros que os seres ordinários; quando há iluminação, os seres ordinários se convertem ao ponto dos Budas.

            Todo ser humano pode assim chegar a ser um Avatar por adoção, mas não só por seu esforço. Tem que lhe mostrar o caminho e tem que ser ajudado pela divina graça. Para que homens e mulheres possam ser assim ins­truídos e ajudados, a Divindade assume a forma de um ordinário ser humano, que tem que ganhar a salvação e iluminação do modo prescrito pela divina Natureza das Coisas; ou seja, pela caridade, por um total morrer para o eu e um total, unitendente advertência. Assim iluminado, o Avatar pode revelar à outros o caminho da iluminação e ajudá-los a chegar a ser real­mente o que já são em potência. Tel qu'en Lui-même enfin l'éternité le change. E, é obvio, a eternidade que nos transforma em Nós mesmos não é a expe­riência de uma mera persistência após a morte corpo­ral. Não haverá experiência de Realidade sem tempo, se não houver o mesmo, ou similar conhecimento dentro do mundo do tempo e da matéria. Por meio de precei­to por exemplo, o Avatar ensina que este conhecimento transformador é possível, que todos os seres sensíveis são chamados a ele e que, mais cedo ou mais tarde, de um ou outro modo, todos devem chegar a ele finalmente.

 

                    DEUS NO MUNDO

            "Isso é você": "Vejam um só em todas as coisas"; Deus dentro e Deus fora. Há um caminho para a Realidade, na alma e através dela, e há um caminho para a Realidade, no mundo e através dele. É duvidoso que a meta final possa alcançar-se seguin­do um destes caminhos com exclusão do outro. O terceiro caminho, o melhor e mais áspero, é o que conduz à divina Base simultaneamente no arrecadador e no qual é percebido.

            A Mente não é outra que Buda, e Buda não é outro que ser sensível. Quando a Mente assume a forma de um ser sensível, não sofreu a míngua; quando se tornou um Buda, não acrescentou nada a si mesmo.

                                                                                                                          

Huang Po

            Todas as criaturas existiram eternamente na essência divina, como em seu modelo. Assim que con­corda com a divina idéia, todo ser, antes de seu criação, foi um com a essência de Deus. (Deus cria para o tempo o que era e é na eternidade.) Eternamente, todas as criaturas são Deus em Deus... Assim que são em Deus, são a mesma vida, a mesma essência, o mesmo poder, o mesmo Um, e nada menos.

                                                                                                                                        Suso

            A imagem de Deus se acha essencial e pessoalmente em toda a humanidade. Cada um a possui completa, inteira e indivisível, e todos juntos não mais que um sozinho. Deste modo todos somos um, intimamente unidos em nossa eterna imagem, que é a imagem de Deus e a fonte em nós de toda nossa vida. Nossa criada essência e nossa vida estão ligadas a ela sem mediação quanto a sua causa eterna.

                                                                                                                                     Ruysbroeck

            Deus, em sua simples substância, está todo, igualmente, em todas as partes; entretanto, na eficácia está nas criaturas racionais de modo diferente que nas irracionais, e nas criaturas racionais boas de outro modo que nas más. Está nas irracionais de modo que não é compreendido por elas; por todas as racionais, entretanto, pode ser compreendido pelo conhecimento; mas só pelas boas pode ser compreendido também pelo amor.

                                                                                                                                

São Bernardo

            Quando está o homem em mero entendimento? Respondo: "Quando o homem vê uma coisa além de outra." E quando está o homem por cima do mero entendimento? Vou lhes dizer isso: Quando o homem vê Tudo em todos, então está o homem mais à frente do mero entendimento."

                                                                                                                                          Eckhart

            Há quatro classes de Dhyana (disciplinas espirituais). Quais são? São: primeiro, a Dhyana praticada pelos ignorantes; segundo, a Dhyana dedicada a examinar o sentido; terceiro, a Dhyana cujo objeto é a Talidad; quarto, a Dhyana dos Tathagatas (Budas).

            O que quer dizer a Dhyana praticada pelos ig­norantes? É aquela a qual recorrem os iogues que se exercitam nas disciplinas de Sravakas e Pratyekabudas (contemplativos e "Budas solitários" da escola hinayânica), os quais, percebendo que não existe substância do eu, que o corpo é uma sombra e um esqueleto transitivo impuro e cheio de sofrimento, aderem-se com persistência a estas noções, que são consideradas assim e não de outro modo, e, partindo delas, avançam por etapas até alcançar a cessação, onde não há pensamentos. Esta é a que se chama Dhyana dos ignorantes.

            Qual, pois, é a Dhyana dedicada ao exame do sentido? É a praticada por aqueles que, foram além da inexistência do eu nas coisas, além do individual e geral, além do inadmissível de idéias tais como "eu", "outro" e "ambos", defendidas pelos filósofos, procedem a examinar e seguir o significado de diversos aspectos da condição de Bodhisattva. Esta é a Dhyana dedicada a examinar o sentido.

            Qual é a Dhyana com a Tachata (ou Talidad) por objeto? Quando o iogue reconhece que a distinção das duas formas de inexistência do eu é mera imaginação e que quando se estabelece na realidade da Talidad não surgem distinções, temos o que eu cha­mo a Dhyana com a Talidad por objeto.

            Qual é a Dhyana do Tathagata? Quando o iogue, entrando na etapa da Tathagatidade e vivendo na tripla bem-aventurança que caracteriza o advertir de si mesmo alcançado por nobre sabedoria, dedica-se, por amor a todos os seres, ao cumprimento de obras incompreensíveis, temos o que eu chamo a Dhyana do Tathagata.

                                                                                                                       Lankavatara Sutra

            Quando os seguidores do Zen não conseguem ir mais à frente do mundo de seus sentidos e pensamentos, todos seus atos e movimentos carecem de importância. Mas quando os sentidos e pensamentos são aniquilados, impedem todos os passos ao Espírito Universal e não há então entrada possível. A Mente original deve reconhecer-se durante o funcionamento de senti­dos e pensamentos; mas não pertence a eles nem, tampouco, é independente deles. Não construa suas opiniões sobre seus sentidos e pensamentos, não uma sua compreensão em seus sentidos e pensamentos; mas ao mesmo tempo não procure à Mente longe de seus sentidos e pensamentos, não tente agarrar a Realidade rechaçando seus sentidos e pensamentos. Quando não está ligado a eles nem desprendido deles, então goza de perfeita liberdade inobstruída, então tem sua sede de iluminação.

                                                                                                                                     Huang Po

            Todo ser individual, do átomo ao mais organizado dos seres viventes e a mais exaltada das mentes finitas, pode considerar-se, segundo a frase do Rene Guénon, como um ponto em que um raio da Divindade primitiva encontra uma das diferenciadas caricatas emanações da energia criadora dessa mesma Divindade. A criatura, como criatura, pode estar muito longe de Deus, no sentido de que carece da inteligência necessária para descobrir a natureza da Base divina de seu ser. Mas a criatura em sua eterna essência —como lugar de encontro entre sua condição de criatura e a Divindade primitiva— é um do infinito número de pontos em que a Realidade divina está inteira e eternamente presente. Por isso os seres racionais podem alcançar o conhecimento unitivo da Base divina, os seres não racionais e os inanimados podem revelar aos racionais a plenitude da presença de Deus dentro de suas formas materiais. A visão do poeta ou o pintor do divino na natureza, a consciência que o adora­dor tem de uma presença sagrada no sacramento, símbolo ou imagem, não são inteiramente subjetivos. Certo que tais percepções não são possíveis a todos os preceptores, pois o conhecimento é uma função do ser, mas o conhecido é independente do modo e caráter do consciente. O que o poeta e o pintor vêem, e tentam registrar para nós, está ali realmente, esperando ser apreendido por alguém que tenha as faculdades adequa­das. Analogamente, na imagem ou o objeto sacramental a divina Base está totalmente presente. A fé e a devo­ção preparam o espírito do fiel para que perceba o raio de Divindade em seu ponto de intercessão com o concreto fragmento de matéria que tem diante de si. Incidentalmente, por serem adorados, tais símbolos se convertem em centros de um campo de forças. Os desejos, emoções e imagi­nações dos que se ajoelham e, durante gerações, ajoelharam-se ante o altar, criam, por assim dizê-lo, um duradouro vórtice no meio psíquico, de modo que a imagem vive como uma secundária, inferior vida divina, projetada nela por seus adoradores, além da primária vida divina que, em comum com todos outros seres animados e inanimados, possui em virtude de sua relação com a Base divina. A experiência religiosa dos sacramentadores e adoradores de imagens pode ser perfeitamente genuína e objetiva, mas não é sempre ou necessariamente uma experiência de Deus ou da Divindade. Pode ser, e possivelmente na maioria dos casos, realmente seja, uma experiência do campo de força engendrado pelas mentes de passados e presentes adoradores e projetada no objeto sacramental, ao qual se adere, por assim dizer, em uma condição que poderia chamar-se de objetividade de segunda mão, esperando ser recebida por espíritos adequadamente afinados a ela. Em outra seção vamos discutir até que ponto é realmente desejável esta classe de experiência. Basta dizer aqui que o desdém do iconoclasta pelos sacramentos e símbolos, por consi­dera-los mera festa de máscaras de pau e pedra, é completa­mente injustificado.

                        Duvidavam os operários enquanto isso de me fazer aguadeiro de jumento e, enfim,                 resolveram por um santo. Por isso ao grande Loyola represento.

            O protestantismo satírico esqueceu que Deus não está menos no aguadeiro que na imagem convencionalmente sagrada. "Levanta a pedra e me encontrará —afirma a mais conhecida das Oxyrhíncou Lógia de Jesus—, fende a madeira e ali estou." Os que pessoal e imediatamente advertiram a verdade deste dito e, junto com ela, a verdade do "Isso é você" do bramanismo estão completamente libertos.

            O Sravaka (literalmente "ouvinte", nome dado pelos budistas mahayânicos aos contemplativos da escola de Hinayana) não consegue perceber que a Mente, tal como é em si mesmo, não tem etapas, nem obedece a casualidade. Disciplinando-se na causa, alcançou o resultado e mora no samadhi (contempla­ção) do Vazio por incontáveis idades. Por mais iluminado que de tal modo seja, o Sravaka não está no caminho adequado. Do ponto de vista do Bodhisattva, isto é como sofrer a tortura do inferno. O Sravaka se enterrou no Vazio e não sabe como sair de sua quieta contemplação, pois não chega a penetrar na nature­za mesma de Buda.

                                                                                                                                        Mao Tsu

            Quando a Iluminação é cabal, o Bodhisattva se acha livre da servidão das coisas, mas não procura livrar-se das coisas. O Samsara (o mundo do suceder) não é odiado por ele, nem amado o Nirvana. Quando brilha a Iluminação perfeita, não é servidão nem liberação.

                                                                                                                

Prunabuddha-sutra

            O toque da Terra é sempre refortalecedor para o filho da Terra, até quando procura um Conhecimento suprafísico. Até poderia dizer-se que o suprafísico só pode ser dominado em sua plenitude —sempre podemos alcançar seus ápices— quando mantemos os pés firmemente no físico. "A Terra é Seu escabelo"—diz o Upanishad, sempre que imagina o Eu que se mani­festa no Universo.

                                                                                                                                

Sri Aurobindo

            "Sempre podemos alcançar seus ápices." Para aque­les dentre nós que ainda agitam-se no limo inferior, a frase tem um tom irônico. Entretanto, até a luz de um remoto vislumbre dos picos e a plenitude, é possível compreender o que quer dizer seu autor. Descobrir o Reino de Deus exclusivamente dentro da gente mesmo é mais fácil que descobri-lo, não só aí, mas também no mundo exterior das mentes, coisas e criaturas viventes. É mais fácil porque os cumes interiores se revelam àqueles que estão dis­postos a excluir de seu alcance tudo o que está fora. E embora esta exclusão possa ser um processo doloroso e mortificante, é sem dúvida menos árduo que o processo de inclusão, pelo qual chegamos a conhecer, não só as alturas, mas também a plenitude da vida espiritual. Quando há exclusiva concentração nas culminações interiores, evitam-se as tentações e distrações e há negação e supressão gerais. Mas quando se espera conhecer deus inclusivamente, advertir a divina Base assim no mundo como na alma, as tentações e distrações não devem evitar-se, mas sim terá que as sofrer e as usar como ocasiões de adiantamento; não devem suprimir atividades dirigidas para fora, mas sim devem transformar-se de tal modo que se convertam em sacramentais. A mortificação se volta mais pene­trante e mais sutil; é necessário um incessante alerta e, nos planos do pensamento, o sentimento e a conduta, o exercício um pouco parecido ao tato e bom gosto do artista.

            Na literatura do budismo mahayânico, e especial­mente do Zen, achamos a melhor exposição da psico­logia do homem para o qual Samsara e Nirvana, o tempo e a eternidade são uma e a mesma coisa. Mais sistemática, possivelmente, que nenhuma outra religião, o bu­dismo do Extremo Oriente ensina o caminho que conduz ao conhecimento espiritual assim em sua plenitude como em suas alturas, assim no mundo e através dele, como dentro e através da alma. A este respeito, podemos assinalar um fato muito significativo, ou seja, que a incomparável pintura de paisagens da China e o Japão era essencial­mente uma arte religiosa, inspirado no taoísmo e o budismo Zen; na Europa, pelo contrário, a pintura de paisagens e a poesia do "culto da natureza" foram artes seculares que surgiram quando o cristianismo de­clinava e achavam pouca ou nenhuma inspiração nos ideais cristãos.

 

                                               "Cego, surdo, mudo!

                                               Imensamente fora do alcance

                                         de todo traço imagina­tivo!"

 

            Nestes versos Seccho demonstrou tudo diante de nós; o que vêem junto com o que não vêem, o que ouvem com o que não ouvem, e o que falam junto com o que não podem falar. Tudo isto é tirado, e assim alcançam a vida do cego, surdo e mudo. Aqui todas as imaginações, traçados e cálculos terminam de uma vez por todas. Aqui está o ponto mais alto do Zen, aqui temos a verdadeira cegueira, a verdadeira surdez e a verdadeira mudez, cada uma em seu aspecto simples e ineficaz.

            "Por cima dos céus e por debaixo dos céus! Quão ridículo, quão desencorajador!"

            Aqui Seccho levanta com uma mão e abaixa com a outra. Digam-me o que acha ridículo, o que sente desencorajador. É ridículo que este mudo não seja mudo, no final das contas, que este surdo não seja, ao fim e ao cabo, surdo; é desencorajador que aquele que não é nada cego seja cego entretanto, e que aquele que não é nada surdo, seja, contudo, surdo.

            "Li-lou não sabe distinguir acertadamente a cor."

            Li-lou vivia no reinado do imperador Huang. Diz-se que era capaz de distinguir a ponta de um fino cabelo à distância de cem passos. Sua vista era extraordinária. Enquanto o imperador Huang fazia uma viagem de recreio pelo rio Ch'ih, caiu na água sua preciosa jóia e disse ao Li que a buscasse. Mas Li fraca­ssou. O imperador fez que a buscasse Ch'ih-Kou, mas este também fracassou. Mais tarde mandou Hsiang-wang que a buscasse e este a encontrou. Portanto:

            "Quando Hsiang-wang abaixa, a preciosa gema dá seu melhor brilho; mas quando passa Li-lou, as ondas se elevam até o céu."

            Quando chegamos nestas esferas superiores, até os olhos de Li-lou são incapazes de distinguir acertadamente a cor.

            "Como pode Shih-kuang reconhecer a misteriosa to­nada?"

            Shih-kuang era filho de Ching-kuang de Chin, da província de Chiang, sob a dinastia Chou. Seu outro nome era Tzu-yeh. Podia distinguir claramente os cinco sons e as seis notas; até chegava para ouvir as formigas que lutavam do outro lado de uma colina. Quando Chin e Ch'u guerreavam, Shih-kuang podia distinguir, só tendo brandamente as cordas de seu alaúde, que o combate seria sem dúvida desfavorável ao Ch'u. Em que pese a sua extraordinária sensibilidade, Seccho de­clara que é incapaz de reconhecer a misteriosa toada. Depois de tudo, um que não é nada surdo é realmente surdo. A nota mais prazerosa das esferas superiores está fora do alcance do ouvido de Shih-kuang. Diz Seccho: não quero ser um Li-lou nem um Shih-kuang; pois:

            "Que vida pode comparar-se com esta? Sentado tranqüilamente junto a minha janela,

            vejo cair as folhas e abrir as flores, enquanto as estações passam."

            Quando se alcança esta etapa de ensinamento, ver é não ver; ouvir, não ouvir; pregar, não pregar. Esfomeado, come; cansado, dorme. Caiam as folhas, abram as flores quando quiserem. Quando as folhas caem, sei que chegou o outono; quando floresce, sei que é a primavera.

            Depois de varrê-lo tudo ante vós, Seccho abre caminho, dizendo:

            "Compreendem ou não?

            Uma barra de ferro sem buraco algum!"

            Fez tudo que pôde por nós; está exausto, só capaz de dar a volta para dar-lhe de presente esta barra de ferro sem buraco. É uma expressão muito significativa. Olhem e vejam com seus próprios olhos! Se vacilarem, erram o branco para sempre.

            Yengo (o autor deste comentário) levantou então sua vara e disse:

            "Vêem?"

            Golpeou logo sua cadeira e disse:

            "Ouvem?"

            Abaixan­do a cadeira disse:

            "Falou-se de algo?"

            Qual é precisamente o significado dessa barra de ferro sem buraco? Não pretendo sabê-lo. O Zen se especializou sempre no sem sentido como meio de estimular a mente a avançar para o que está além do sensato; possivelmente, pois, a ponta da barra está em sua falta de ponta e em nossa turvada, desconcertada reação diante desta falta.

            Na raiz a Sabedoria divina é toda Brahma; no caule é toda Ilusão; na flor é toda Mundo; e no fruto, toda Salvação.

                                                                                                                                

Tantra Tattwa

            Os Sravakas e os Pratyekabudas, quando alcançam a oitava etapa da disciplina do Bodhisattva, embriagam-se de tal modo com a felicidade da tranqüilidade mental que deixam de advertir que o mundo visível não é nada mais que a Mente. Acham-se ainda no reino da individuação; sua penetração não é ainda pura. Os Bodhisattvas, por outra parte, estão alerta para seus votos originais, valorizando o amor, que tudo abrange, de seu coração. Não entram no Nirvana (como estado separado do mundo do suceder); sabem que o mundo visível não é mais que uma manifestação da Mente mesma.

                                                                                              

Condensado do Lankavatara Sutra

            Só um ser consciente compreende o que se expressa pelo movimento;

            para os que não estão dotados de consciência, o movi­mento é incompreensível.

            Se te exercitares na prática de manter imóvel tua mente, a imobilidade que ganhas é a do     que não tem consciência.

            Se desejas a verdadeira imobilidade, a imobilidade se encontra no movimento mesmo, e esta imobilidade é a realmente imóvel.

            Não há semente do Talidad onde não há consciência.

            Observa bem quão variados são os aspectos do imó­vel, e sabe que é imóvel a primeira             realidade.

            Só quando esta realidade é alcançada compreende-se a verdadeira operação da Talidad.

                                                                                                                                    

Hui Neng

            Estas frases sobre o imóvel primeiro propulsor nos recordam Aristóteles. Mas entre Aristóteles e os expositores da Filosofia Perene, dentro das grandes tradições religiosas, existe esta grande diferença: Aristóteles se ocupa principalmente de cosmologia, os perenes filósofos se ocupam principalmente de salvação e iluminação; Aristóteles se contenta sabendo sobre o imóvel motriz de fora e teoricamente; o objeto dos perenes filósofos é chegar a adverti-lo diretamente, conhecê-lo unitivamente, de tal modo que eles e outros possam realmente chegar a ser o Imóvel. Este conhecimento unitivo pode ser conhecimento nas alturas, ou na plenitude, ou simultaneamente nas alturas e a plenitude. O conhecimento espiritual exclusivamente nas alturas da alma foi rechaçado pelo budismo mahayânico como inadequado. A similar recusa do quietismo dentro da tradição cristã será considera­da na seção "Contemplação e Ação". Enquanto isso, é interessante ver que o problema que levantou tão acre disputa por toda a Europa do século XVII, surgiu para os budistas em uma época muito anterior. Entretanto, na Europa católica o resultado da batalha em torno de Molinos, Mme. Guyon e Fénelon foi pratica­mente a extinção do misticismo por quase dois séculos, na Ásia os dois grupos foram bastante tolerantes mesmo diferindo. A espiritualidade hinayânica continuou explorando as alturas interiores, enquanto que os Mes­tres mahayanistas sustentavam o ideal, não do Arhat, mas sim do Bodhisattva, e indicavam a via para o conhecimento espiritual assim em sua plenitude como em suas alturas. O que segue é uma exposição poética, por um santo Zen, do século XVIII, do estado dos que obtiveram o ideal de Zen.

                        Morando no não particular que está nos particulares, indo ou voltando, permanecem para sempre imóveis.

                        Agarrando o não pensamento que está nos pensamen­tos, em cada um de seus atos ouvem a voz da Verdade.

                        Quão ilimitado o céu da contemplação!

                        Enquanto a Verdade se revela em sua eterna tranqüilidade, esta nossa terra é o País do Lótus da Pureza, e este corpo é o corpo do Buda.

                                                                                                                                              Hakuin

            A intenção da Natureza não é o comer, nem o beber, nem o vestir, nem nada daquilo em que Deus fica fora. Goste ou não, saiba ou não, secretamente a Natureza procura, persegue e tenta descobrir o rastro pelo qual se possa achar a Deus.

                                                                                                                                         Eckhart

            Uma pulga assim que é em Deus é mais nobre que o mais alto dos anjos em si mesmo.

                                                                                                                                         Eckhart

            Meu homem interior gosta das coisas, não como criaturas, mas sim como dom de Deus. Mas para meu homem mais íntimo não têm sabor de dom de Deus, senão a sempre jamais.

                                                                                                                                       Eckhart

            Os porcos comem bolotas, mas nem consideram o sol que lhes deu vida, nem a influência dos céus pela qual se nutriram, nem a raiz mesma da árvore de onde sur­giram.

                                                                                                                        

Thomas Traherne

            Seu gozo do mundo não é nunca justo até que cada manhã desperta no Céu, vê-se no palácio de seu Pai, e considera o céu, a terra e o ar como gozos celestiais, tendo tal reverente estimação de tudo como se estivesse entre os Anjos. A desposada de um monarca, na câmara de seu marido, não tem tais causas de deleite como você.

            Nunca goza do mundo retamente até que o mesmo mar flui em suas veias, até que lhe vestem os céus e coroam as estrelas, e percebe que é o único herdeiro de todo o mundo, e mais que isso, porque há homens nele, e cada um deles é herdeiro único assim como você. Até que pode cantar e alegrar e deleitar com Deus como o fazem os ava­ros com o ouro, e os reis com seus cetros, nunca podem gozar o mundo.

            Até que seu espírito enche o mundo inteiro, e as estrelas são suas jóias; até que familiarize com os modos de Deus em todas as épocas como com seu andar e sua mesa; até que trate intimamente esse obscuro nada de que se fez o mundo; até que ame aos homens de tal modo que deseje sua felicidade com avidez igual zela a sua; até que deleite em Deus por ser bom para todos, nunca goza do mundo. Até que o sente mais que sua propriedade particular, e está mais presente no hemisfério, consi­derando suas glórias e belezas, que em sua própria casa; até que recorda quão pouco faz que nasceu e a maravilha de ter nascido nele, e regozija mais com o palácio de sua glória que se criasse nesta manhã.

            E além disso, nunca gozou o mundo retamente, até que ama tanto a beleza de gozá-lo, que sente a cobiça e o desejo de persuadir a outros a que o gozem. E tão perfeitamente odeia a abominável corrupção dos homens que o desprezam, que prefere sofrer as chamas do inferno a ser voluntariamente culpado de tal engano.

            O mundo é um espelho de Beleza Infinita, mas ninguém o vê. É um Templo de Majestade, mas ninguém o olha. É uma região de Luz e Paz, se os homens não o inquietassem. É o Paraíso de Deus. É mais para o homem, desde que caiu, que não antes. É o lugar dos Anjos e a Porta do Céu. Quando Jacob despertou de seu sonho, disse: Deus está aqui, e não sabia. Quão pavoroso é este lugar! Não é outro que a Cara de Deus e a Porta do Céu.

                                                                                                                          

Thomas Traherne

            Antes de passar a discutir os meios pelos quais é possível alcançar tanto a plenitude como a altura do conhecimento espiritual, consideremos brevemente a experiência dos que tiveram o privilégio de "contemplar ao Um em todas as coisas", mas não se esforçaram em percebê-lo dentro de si mesmos. Grande quantidade de interessante material sobre o tema pode encontrar-se em Consciência Cósmica de Buck. Só preciso aqui dizer que tal "consciência cósmica" pode vir sem procurá-la e tem o caráter que os teólogos católicos chamam "graça gratuita". Pode possuir uma graça gratuita (a faculdade de sanar, por exemplo, ou de reconhecer) estando em pecado mortal, e o dom não é necessário nem suficiente para a salvação. No melhor caso, esses súbitos acessos de "consciência cósmica", tais como os descritos por Buck, são meramente insólitos convites a novo esforço pessoal em direção assim à altura interior como à plenitude externa do conhecimen­to. Em muitos casos o convite não é aceito; o dom é apreciado pelo prazer enlevado que oferece; sua aparição é recordada com nostalgia e, se o receptor for um poeta, comenta com eloqüência —como escreveu Byron, por exemplo, em uma esplêndida passagem do “Childe Harold” e Wordsworth em “A abadia de Tintern e O prelúdio”. Nestas matérias nenhum ser humano pode atrever-se a fazer juí­zos definitivos sobre outro ser humano; mas será pelo menos permitido dizer que, fundando-se nos testemunhos biográficos, não há razão para supor que nem Wordsworth nem Byron fizessem seriamente algo a respeito das teofanias que descreveram, nem há tampouco nenhuma prova de que estas teofanias fossem por si só suficientes para transfor­mar seus caracteres. Esse enorme egocentrismo de que De Quincey, Keats e Haydon dão testemunho, parece acompanhar Wordsworth até o fim. E Byron foi tão fascinador e tragicomicamente byroniano depois de contemplar ao Um em tudo como o era antes.

            Sobre este ponto, é interessante comparar Wordsworth com outro grande amante da natureza e homem de letras, São Bernardo. "Seja a Natureza seu Mestre", diz o primeiro, e continua afirmando que:

                        Um impulso do bosque vernal dirá mais sobre os homens, sobre o bem e sobre o mal moral, que todos os sábios juntos.

            São Bernardo fala de um modo que parece similar. "O que sei das ciências divinas e das Sagradas Escritu­ras, aprendi-o nos bosques e campos. Não tive outros Mestre que os carvalhos." E em outra de suas cartas diz: "Escuta a um homem de experiência: aprenderá mais nos bosques que nos livros. Árvores e pedras lhe ensinarão mais do que possa adquirir por boca de um mestre." As frases são parecidas; mas seu interno signi­ficado é muito diferente. Segundo a expressão de São Agustín, só deve gozar-se a Deus; as criaturas não devem ser gozadas, senão usadas —usadas com amor e compaixão e uma estimativa desprendida, interrogante, como meio para o conhecimento do que pode gozar.

            Wordsworth, como quase todos outros adoradores lite­rários da Natureza, prega o gozo das criaturas, melhor que seu uso para o lucro de fins espirituais —um uso que, como veremos, impõe ao usuário muita disciplina de si mesmo. Bernardo, raro, é já sabido, que seus correspondentes praticam ativamente esta disciplina e que a Natureza, embora amada e escutada como Mestra, é só usada como meio para chegar a Deus, não gozado como se fora Deus. A beleza das flores e as paisagens não tem que ser meramente apreciada "vagando soli­tária como uma nuvem" pela campina, não tem que ser só agradavelmente recordada descansando "em vácuo ou pensativo humor", estendido no sofá, na biblioteca, depois do chá. A reação deve ser algo mais esforçada e intencionada. "Aqui, meus irmãos —diz um antigo autor budista—, há raízes de árvores, há lugares vazios; meditem." Na verdade, é obvio, que o mundo é só para os que o mereceram; pois, segundo palavra de Filón, "embora um homem seja incapaz de fazer-se digno do criador do cosmos, contudo deveria tentar fazer-se digno do cosmos. Poderia fazer passar seu ser humano à natureza do cosmos e transformar-se, se assim posso dizer, em um pequeno cosmos". Para os que não mereceram o mundo, seja fazendo-se dignos do Criador (isto é pelo desprendimento e um aniquilamento total de si mesmos) ou, menos arduamente, fazendo-se dignos do cosmos (pondo ordem e certo grau de unidade à múltipla confusão da indisciplinada personalidade humana), o mundo é, espiritualmente falando, um lugar muito perigoso.

            Que Nirvana e Samsara são um é um fato a respeito da natureza do universo; mas é um fato que não pode ser plenamente advertido nem diretamente experi­enciado, salvo por almas muito avançadas espiritualmente. Para gente ordinária, correta, não regenerada, acei­tar esta verdade ouvida e obrar segundo ela na prática é meramente expor-se ao desastre. Toda a triste histó­ria do antinomianismo está aí para nos lembrar o que ocorre quando homens e mulheres fazem aplicações práticas da teoria meramente intelectual, inexperiente, de que tudo é Deus e Deus é tudo. E pouco menos deprimente que o espetáculo do antinomianismo é o da "elíptica vida", intensamente respeitável, dos bons cidadãos que obram o melhor que sabem para viver em sacramento, mas de fato não têm nenhuma convivência com o que a vida sacramental real­mente representa. O Dr. Omán, em seu O natural e o sobrenatural, escreve longamente sobre o tema de que "a conciliação com o evanescente é a revelação do eterno"; e em um volume recente, A ciência, a religião e o futuro, o cônego Raven aplaude o Dr. Omán por apresentar os princípios de uma teologia na qual não poderia haver antítese final entre natureza e graça, ciência e religião; no qual de fato, os mundos do cientista e do teólogo devem ser um e o mesmo. Tudo isto lembra plenamente o taoísmo e o budismo Zen e com ensinos cristãos como o ama et fac quod vis de São Agustín e como o conselho do padre Lallemant aos contemplativos teocêntricos, de sair ao mundo a atuar, pois seus atos são os únicos capazes de fazer algum bem real ao mundo. Mas o que nem o Dr. Omán nem o cônego Raven põem suficientemente as claras, é que natureza e graça, Samsara e Nirvana, perpétuo perecer e eternidade, são real e experiencialmente um só para pessoas que cumpriram certas condições. Fac quod vis no mundo temporário, mas só quando tiver aprendido a arte imensamente difícil de amar a Deus com todo seu espírito e seu coração e ao próximo como a si mesmo. Se não aprender esta lição, será um antinomiano excêntrico ou criminal ou, em todo caso, um homem respeitável de vida "arredondada", dos que não se deixam tempo para compreender nem a natureza nem a graça. Os Evangelhos se expressam com perfeita claridade sobre o único procedimento pelo qual o homem pode adquirir o direito de viver no mundo extensamente: deve fazer total negação de si mesmo, submeter-se a uma mortificação completa e absoluta. Em um período de sua vida, Jesus mesmo parece submeter-se à austeridades, não só da mente, mas também do espírito. Há relação de seus quarenta dias de jejum e sua afirmação, evidentemente tirada da experiência pes­soal, de que alguns demônios não podem ser expulsos, salvo pelos que jejuaram muito, além de orar. (O Cúria D'Ars, cujo conhecimento dos milagres e a penitência corporal estava apoiado em experiências pessoais, insiste na estreita relação entre severas austeridades do corpo e o poder de fazer que as orações petitórias sejam satisfeitas de modos que às vezes são supranormais.) Os fariseus reprovavam Jesus o que "viesse comendo e bebendo" e se relacio­nasse com "os publicanos e pecadores"; passavam por cima, ou ignoravam, o fato de que este profeta aparentemente mundano havia em outro tempo emulado as austeridades físicas de João, o Batista, e praticava as mortificações espirituais que conseqüentemente pregava. A trama da vida de Jesus é essencialmente similar a do sábio ideal, cuja trajetória está traçada nas "Pinturas de Bois", tão populares entre os budistas Zen. O boi silvestre, símbolo do eu não regenerado, é apanhado, obrigado a mudar de direção, logo domado e gra­dualmente transformado de negro em branco. A regene­ração vai tão longe que por um tempo o boi se perde completamente, de modo que não fica nada a pintar, a não ser, a lua cheia, que simboliza a Mente, a Talidad, a Base. Mas não é esta a última etapa. Ao final, o pastor volta para mundo dos homens, montado em seu boi. Por já amar até identificar-se com o divino objeto de seu amor, pode fazer o que lhe agrade; pois o que lhe agrada é o que agrada a Natureza das Coisas. O vê em companhia de bêbados e açougueiros; ele e eles são convertidos todos em Budas. Para ele, tem completa conci­liação com o evanescente e, através desta conciliação, a revelação do eterno. Mas, para ordinárias pessoas corretas, não regeneradas, a única conciliação com o evanescente é a da complacência nas paixões, a submissão às distrações e seu gozo. Dizer à tais pessoas que evanescência e eternidade são o mesmo, sem restringir imediatamente tal afirmação, é positivamente fatal, pois, na prática, não são o mesmo, a não ser para o santo; e não há perseverança de que ninguém chegasse nunca à santidade que não se conduzisse, no início de sua trajetória, como se evanescência e eternidade, natureza e graça fossem profundamente diferentes e, em muitos aspectos, incompatíveis. Como sempre, o caminho da espiritualidade é um fio entre abismos. De um lado há o perigo da mera rejeição e escapamento; de outro, o perigo da mera aceitação e gozo de coisas que só deveriam usar­-se como instrumento ou símbolos. A lenda em verso que acompanha a última das "Pinturas de Bois" diz como segue:

                        Até além dos limites finais se estende uma passagem, pela qual ele retorna aos seis reinos da existência.

                        Todo assunto mundano é agora uma obra budista, e em qualquer lugar que vá encontra o ar caseiro.

                        Como uma gema surge até na lama, como ouro puro resplandece até no forno... Ao longo da via sem fim (do nascimento    e a morte) embala, suficiente a si mesmo.

                        Em toda circunstância se move tranqüilo e despren­dido.

            Os meios pelos quais se pode alcançar o fim último do homem serão descritos e ilustrados por extenso na seção sobre "Mortificação e desprendimento". Esta seção, entretanto, ocupa-se principalmente da dis­ciplina da vontade. Mas a disciplina da vontade deve acompanhar-se de uma não menos completa discipli­na da consciência. Deve haver conversão, súbita ou de outro modo, não somente do coração, mas também dos sentidos e da mente arrecadadora. O que segue dá breve conta desta metanóia, como a chamavam os gregos, desta total e radical "mudança de espírito".

            É nas formulações hindus e extremo-orientais da Filosofia Perene onde este tema é tratado do modo mais sistemático. O que se prescreve é um proce­sso de discriminação consciente entre o eu pessoal e o Eu idêntico com Brahma, entre o eu individual e o Seio de Buda ou Mente Universal. O resultado desta distinção é, mais ou menos, súbita "reação" da consciência, e o ensinamento de um estado "não men­tal", que pode descrever-se como liberação do apego perceptivo ou intelectual ao princípio do eu. Este estado "não mental" existe, por assim dizê-lo, sobre um fio, entre o descuido do homem sensual médio e o tenso, excessivo desejo do fanático em busca de salvação. Para obtê-lo, deve avançar-se delicadamente e, para mantê-lo, deve apreender a combinar a mais intensa vigilância com uma passividade tranqüila e abnegada, a decisão mais indomável com uma submissão perfeita às indicações do espírito. "Quando o estado não mental é procurado por uma mente —diz Huang Po—, isto é fazê-lo obje­to particular do pensamento. “Há só testemunho de silêncio; vai mais à frente do pensamento." Em outras palavras: nós, como indivíduos à parte, não devemos tentar pensá-lo, a não ser deixar que sejamos pensados por ele. Analogamente, Sutra Diamante lemos que se um Bodhisattva, em sua tentativa para advertir a Talidad "retém o pensamento de um eu, uma pessoa, um ser separado, ou uma alma, já não é um Bodhisattva, em sua tentativa". Al Ghazzali, o filósofo do sufismo, sublinha também a necessidade de humildade e docilidade intelec­tuais. "Se o pensamento de que está apagado do eu ocorre a um que está en/ana (termo que correspon­de aproximadamente a 'não mente', omuskin, do Zen), isto é um defeito. O estado mais alto é estar apagado do apagamento." Há um enlevado apagamento do apagamento nas alturas internas do Atman-Brahma; e há outro, mais pormenorizado, não só nas alturas ínti­mas, mas também no mundo e através do mundo, no desperto, cotidiano conhecimento de Deus em sua ple­nitude.

            O homem deve fazer-se realmente pobre e tão livre de sua própria vontade de criatura como o estava quan­do nasceu. E digo-lhe, pela eterna verdade, que enquanto deseje cumprir a vontade de Deus e tenha alguma ânsia de eternidade e Deus por tanto tempo não é realmente pobre. Só tem uma verdadeira pobreza espiritual aquele que não quer nada, não sabe nada, não deseja nada.

                                                                                                                                            Eckhart

                                   O Perfeito Caminho não conhece dificuldades, salvo em que recusa ter preferências.

                                   Só quando está livre de ódio e amor revele-se plenamente e sem disfarce.

                                   A diferença de um décimo de polegada, e céu e terra estão à parte.

                                   Se deseja vê-la ante seus olhos, não tenha pensamentos fixos a favor nem contra.

                                   Elevar o que agrada contra o que desloque, eis aqui a enfermidade do espírito.

                                   Quando não se compreende o profundo sentido do Caminho, turva-se sem proveito a paz do espírito...

                                   Não persiga os laços de fora, não morre no vazio interior; permanece sereno na unidade das coisas, e o dualismo se desvanecerá por si só.

                                   Quando, detendo a emoção, esforça-se por ganhar a quietude, a assim ganha quietude se acha em movimento perpé­tuo.

                                   Enquanto se demore em tal dualismo como pode advertir a unidade?

                                   E quando a unidade não é totalmente agarrada, a perda sofrida é de dois modos: a negação da realidade exterior é sua afirmação e a afirmação do Vazio (o Absoluto) é sua negação...

                                   As transformações que ocorrem no vácuo mundo que nos enfrenta parecem ser reais por causa da Ignorância.

                                   Não se esforce em perseguir a Verdade, cessa só de acariciar opiniões.

                                   Os dois existem por causa do Um; mas nem mesmo a este Um adira.

                                   Quando o espírito não está turbado, as dez mil coisas não ofendem...

                                   Se os olhos não dormirem nunca, por si cessam todos os sonhos; se a Mente retiver seu absoluto, as dez mil coisas são de uma substância.

                                   Quando o profundo mistério de uma Talidad se sonda, repentinamente esquecemos os laços externos; quando as dez mil coisas se olham em sua unidade, voltamos para origem e ficamos onde sempre estive­mos...

                                   Um em todos, todos em Um... Com apenas advertir isto, terminou toda preocupação sobre o não ser perfeito!

                                   Quando o Espírito e cada espírito crente não estão divididos, e indivisos são cada espírito crente e o Espírito, então falham as palavras, pois não é coisa do passado, presente nem futuro.

                                                                                                    

O Terceiro Patriarca do Zen

            Faz o que faz agora, sofre o que agora sofre, para fazer tudo isto com santidade, não precisa que nada troque em nossos corações. A santidade consiste em querer o que nos acontece por ordem de Deus.

                                                                                                                            

de Caussade

            O vocabulário francês do século XVII é muito dife­rente do chinês do século VII. Mas o conselho que nos dão é fundamentalmente parecido. Conformidade com a vontade de Deus, submissão, docilidade para com as indi­cações do Espírito Santo; na prática, se não mentir, são o mesmo que conformidade com o Caminho Perfeito, recusar o ter preferências e acariciar opiniões, manter os olhos abertos de modo que possam cessar os sonhos e revelar-se verdade.

            O mundo habitado por gente ordinária, correta, não regenerada é geralmente aborrecido (tão aborrecido que devem distrair sua mente, para não adverti-lo, por toda classe de "entretenimentos" artificiais), às vezes breve e intensamente agradável, em ocasiões, ou freqüentemente desagradável e até angustiante. Para os que mereceram o mundo fazendo-se aptos para ver Deus nele assim como em suas próprias almas, apresenta diferente aspecto.

            O grão era trigo resplandecente e imortal, que nunca devia secar-se, nem foi nunca semeado. Pensei que estava ali sempre para sempre. O pó e as pedras da rua eram preciosos como o ouro. As portas, ao princípio, eram o fim do mundo. As verdes árvores, quando pela primeira vez as vi por uma das portas, transportaram-me e encantaram; sua doçura e insólita beleza fizeram palpitar meu coração, quase louco de êxtase, tão estranhos e maravilhosos eram! Os Homens! Oh, quão veneráveis e reverentes criaturas pareciam os velhos! Querubins imortais! E os jovens, resplandecentes, deslumbrantes anjos! E as donzelas, estranhas, seráficas amostras de vida e beleza! Meninos e meninas, pulando, jogando na rua, eram jóias moventes. Não sabia que tivessem nascido ou tivessem que morrer. Mas sim todas as coisas moravam eternamente onde se achavam, em seus lugares próprios. A eternidade se manifestava à luz do dia, e algo infinito aparecia detrás de cada coisa; o que correspondia ao que eu esperava e movia meu desejo. A cidade parecia elevar-se ao Éden ou construída no Céu. As ruas eram minhas, o templo era meu, a gente era minha, seus vestidos e ouro e prata eram meus, assim como seus resplandecentes olhos, clara pele e ro­sado rosto. Meus eram os céus, e o sol, a lua e as estrelas, e todo mundo era meu; e eu o único espectador e gozador disso... E assim foi que com muito trabalho fui corrompido e me fez aprender as sujas mutretas do mundo. O que agora desaprendo e me torno, por assim dizê-lo, como um menino pequeno, para poder entrar no Reino de Deus.

                                                                                                                          

Thomas Traherne

            Portanto, dou-te ainda outro pensamento, que é até mais puro e mais espiritual: No Reino do Céu tudo está em tudo, tudo é um, e tudo é nosso.

                                                                                                                                            Eckhart

            A doutrina de que Deus está no mundo tem um importante corolário prático: a santidade da Natureza e a culpabilidade e loucura dos presunçosos esforços do homem por ser seu dono, melhor que seu inteligentemente dócil colaborador. As vidas infra-humanas e até as coisas devem ser tratadas com respeito e compreensão, não brutal­mente oprimidas para servir nossos fins humanos.

            O regente do Oceano meridional era Shu, o regente do Oceano setentrional era Hu, e o regente do Centro era o Caos. Shu e Hu se encontravam continua­mente no país do Caos, que os tratava muito bem. Consultaram-se sobre o modo como poderiam correspon­der a suas bondades e disseram: "Todos os homens têm sete orifícios com o objetivo de ver, ouvir, comer e respirar, enquanto que unicamente este regente não tem um sozinho. Procuremos fazê-los para ele." Em conseqüência, fizeram-lhe cada dia um orifício. Ao cabo de sete dias, o Caos morreu.

                                                                                                                                

Chuang Tse

            Nesta parábola, delicadamente cômica, o Caos é a Natureza no estado de wu-wei —não asserção ou equilí­brio. Shu e Hu são o vivo retrato dessas laboriosas pessoas que pensaram melhorar a Natureza converten­do secas pradarias em trigais e produziram desertos; que orgulhosamente proclamaram a Conquista do Ar e logo descobriram que tinham derrotado a civilização; que destruíram imensos bosques para prover às impressões exigidas pela leitura universal que devia fazer seguro o mundo para a inteligência e a democracia, e obtiveram erosão em grandes quantidades, revistas sensacionais e os órgãos de propaganda fascista, comunista, capitalista e nacio­nalista. Em poucas palavras, Shu e Hu são devotos da apocalíptica religião do Progresso Inevitável e seu credo é o de que o Reino do Céu está fora de ti e no futuro. Em troca Chuang Tse, como todo bom taoísta, não tem nenhum desejo de forçar à Natureza a servir mal acon­selhados fins temporários, em contradição com o objeto final do homem conforme se formula na Filosofia Perene. Seu desejo é trabalhar com a Natureza de modo que se produzam condições materiais e sociais em que o indivíduo possa obter o Tao em todos os níveis, do fisiológico ao espiritual.

            Comparada com a dos taoístas e os budistas de Extremo Oriente, a atitude cristã para a Natureza foi curiosamente insensível e freqüentemente francamente dominadora e violenta. “Levando ao pé da letra” uma desafortunada observação da Gênese, os moralistas católicos consideraram os animais como meras coisas que os homens fazem bem em explorar para seus próprios fins. Como a pintura de paisagens, o movimento humanitário na Europa foi assunto quase completamente secular. No Extremo Oriente, ambos eram essencialmente religiosos.

            Os gregos acreditavam que a húbris era sempre seguida pela nêmesis, que se a gente ia muito longe recebia um cabeçada para que recordasse que os deuses não toleravam a insolência por parte de homens mortais. Na esfera das relações humanas, o espírito moderno compreende doutrina da húbris e a considera certa em ge­ral. Desejamos que o orgulho sofra uma queda, e vemos que, com muita freqüência, cai.

            O ter excessivo poder sobre seus semelhantes, o ser muito rico, violento, ambicioso, tudo isso atrai o castigo, e notamos que, ao longo, um castigo de uma ou outra classe chega devidamente. Mas os gregos não se deti­nham aqui. Considerando à Natureza, de certo modo, divina, pensavam que devia ser respeitada e estavam con­vencidos de que uma hubrística falta de respeito à Natureza seria castigada por uma vingadora nêmesis. Nos Persas, Ésquilo dá as razões —as razões finais, metafísicas— da derrota dos bárbaros. Jerjes foi castigado por duas culpas: arrogante imperialismo dirigido contra os atenienses e arrogante imperialismo dirigido contra a Natureza. Tentou escravizar a seus semelhantes, e tentou escravizar o mar, construindo uma ponte através do Helesponto.

ATOSSA: De borda em borda construiu uma ponte sobre o Helesponto.

ESPECTRO DE DARIO: Como? Pôde encadear ao poderoso Bosforo?

ATOSSA: Assim é, com ajuda de algum deus em seu propósito.

ESPECTRO DO DARIO: Algum Deus poderoso que conseguiu turvar seu entendimento.

            Reconhecemos hoje e condenamos a primeira classe de imperialismo; mas a maioria de nós ignora a existência e até a possibilidade mesma do segundo. E, entretanto, o autor de Erewhon não tinha nada de tolo, e agora que estamos pagando o horrível preço de nossa bombardeada "conquista da Natureza", seu livro p­reze mais que nunca de atualidade. E Butler não foi o único cético oitocentista com respeito ao Progresso Inevitável. Uma geração ou mais, antes que ele, Alfred de Vigny escrevia a respeito da nova maravilha técnica de seus dias, a máquina de vapor; escrevia em um tom muito diferente dos entusiastas rugidos e estridentes de seu grande contemporâneo Victor Hugo.

            Sur le taureau de fer, qui fume, souffle et beugle, l'homme est monté trop tôt. Nul ne connaît encor quels orages en luí porte ce rude aveugle, et le gai voyageur lui livre son trésor.

            E algo mais adiante, no mesmo poema, acrescenta:

            Tous se sont dit: "Allons", mais aucun n'est o maître d'um dragam mugissant qu'um savant a fait naître. Nous nous sommes joués à plus fort que nous tous.

            Olhando atrás, para a matança e devastação, pode­mos ver que Vigny tinha toda a razão. Nenhum daqueles alegres viajantes, entre os quais Victor Hugo era o mais estrepitosamente eloqüente, tinha a mais fraca noção de aonde aquele primeiro, ridículo Resfolegar, estava-os levando. Ou, melhor, tinham uma idéia muito clara, mas resultava ser inteiramente falsa. Pois estavam convencidos de que o Resfolegar os conduzia a toda velocidade para a paz universal e a irmandade dos homens, e de que os periódicos, que tão orgulhosos estavam de poder ler, enquanto o trem retumbava para seu utópi­co destino, a não mais de uns cinqüenta anos de distância, eram a garantia de que a liberdade e a razão logo triunfariam em todas partes. O Resfolegar se converteu agora em um bombardeiro quadrimotor carregado de fós­foro branco e grandes explosivos, e a imprensa livre é em todas partes servida de seus anunciadores, de um grupo co-acionado ou do Governo. E, contudo, por alguma inexplicável razão, os viajantes (já não alegres) aferram-se ainda à religião do Progresso Inevitável, que é, afinal de contas, a esperança e a fé (contra toda experiência humana) de que se pode obter algo por nada. Quan­to mais sensata e realista é a opinião grega de que toda vitória se paga e, para algumas vitórias, o preço é tão alto que pesa mais que qualquer vantagem que possa obter-se com elas! O homem moderno já não considera divina em nenhum sentido à Natureza e se sente em completa liberdade para tratá-la como um arrogante con­quistador e tirano. O saque do recente imperialismo tec­nológico foi enorme; mas enquanto isso a nêmesis se encarregou de que tivéssemos os desgostos com os gostos. Por exemplo: a possibilidade de viajar em dez horas de Nova Iorque à Los Angeles, deu à raça humana um prazer superior à dor produzida pelo lançamento de bombas e fogo? Não há método conhecido para com­putar a quantidade de felicidade ou bondade pulverizada pelo mundo. O que é óbvio, entretanto, é que as vantagens obtidas por recentes adiantamentos tecnológicos —ou, segundo a fraseologia grega, por recentes atos da húbris dirigidos contra a Natureza— vão geralmente acom­panhadas de correspondentes desvantagens, que as ganâncias em uma direção têm aparelhadas perdas em outras direções, e que quando obtemos algo é sempre por algo. Nunca podemos determinar se o resultado nítido destes laboriosos assentos de débito e crédito é autêntico Progresso em virtude, felicidade, caridade e inteligência. Por não poder determinar-se nunca a realidade do Progresso, os séculos XIX e XX tiveram que tratá-lo como um artigo de fé religiosa. Para os expositores da Filosofia Perene, a questão de se o Progresso for inevitável, ou até real, não é assunto de primeira importância. Para eles, o impor­tante é que o indivíduo alcance o conhecimento unitivo da Base divina, e o que lhes interessa com respeito ao meio ambiente social não é seu progressividade ou não progressividade (qualquer que seja o significado desse termo), mas o grau em que ajuda ou estorva ao indivíduo em seu avanço para a finalidade última do homem.

 

                   A CARIDADE

            Aquele que não ama não conhece Deus, pois Deus é amor.

                                                                                                                    João, I, 4

            Pelo amor pode Ele ser havido e retido, mas pelo pensamento nunca.

                                                                                                              

A Nuvem do Desconhecer

            Quem quer que se esforce em alcançar a contem­plação (isto é, o conhecimento unitivo) deveria utilizar inquirindo estreitamente em si mesmo quanto ama. Pois o amor é a força motriz da mente (machina mentis), que a saca do mundo e a leva a altura.

                                                                                                            

São Gregório, o Grande

            O astrolábio dos mistérios de Deus é o amor.

                                                                                                  

Jalal-uddin Rumi

                                               Céus, continuem o tratamento!

                                               Sinta o homem supérfluo, alimentado

                                               por suas paixões que escraviza

                                               seu regulamento, que não vê

                                               porque não sente, logo seu poder.

                                                                                                                  

Shakespeare

            O amor é infalível; não tem enganos, pois todos os enganos são faltas de amor.

                                                                                                                      

William Law

            Só podemos amar o que conhecemos, e nunca pode­mos conhecer completamente o que não amamos. O amor é um modo de conhecimento, e quando o amor é bastante desinteressado e bastante intenso, o conhecimento se converte em conhecimento unitivo e assim adqui­re a qualidade de infalibilidade. Onde não há amor desin­teressado (ou, dito de outro modo, caridade) há só ten­dencioso amor próprio e, em conseqüência, só um conhecimento parcial e deformado, assim do eu como do mundo das coisas, vistas, mente e espírito externos ao eu. O homem alimentado por suas paixões "escraviza a orde­nança do Céu", quer dizer, subordina as leis da Natu­reza e do espírito a seus próprios desejos. O resultado é que "não sente" e por isso se faz incapaz de conhecimento. Sua ignorância é, em último termo, voluntária; se não poder ver, é porque "não quer ver". Tal ignorância voluntária tem indevidamente sua recompensa negativa. A nêmesis segue a húbris, às vezes de modo espetacular, como quando o homem cego por si mesmo (Macbeth, Ótelo, Lear) cai na armadilha que lhe prepa­rou sua própria ambição, cobiça ou petulante vaidade; às vezes, de modo menos óbvio, como nos casos em que o poder, prosperidade e reputação duram até o final, mas a custa de uma crescente impenetrabilidade à graça e a iluminação, uma crescente incapacidade para escapar, agora ou depois, da sufocante prisão do egotismo e a separação. Quão profunda pode ser a ignorância espiritual com que são castigados tais "escravizadores do regulamento do Céu", indica-o a conduta do cardeal Richelieu em seu leito de morte. O sacerdote que o atendia insistia ao grande homem a preparar sua alma para sua próxima prova perdoando a todos seus inimi­gos. "Nunca tive inimigos —respondeu o cardeal com a tranqüila serenidade de uma ignorância que longos anos de intriga, avareza e ambição tinham feito tão absoluta como o fora seu poder político—, salvo só os do Estado." Como Napoleão, embora de diferente modo, estava "sentindo o poder do Céu", porque havia recu­sado sentir a caridade e portanto recusava conhecer toda a verdade a respeito de sua alma ou de qualquer outra coisa.

            Aqui na terra o amor de Deus é melhor que o conhecimento de Deus, enquanto que é melhor conhecer as coisas inferiores que as amar. Conhecendo as elevamos, em certo modo, até nossa inteligência, enquanto que as amando nos ajoelhamos para elas e podemos ficar subordinados como o avaro a seu ouro.

                                                                                                

São Tomás de Aquino (paráfrase)

            Esta observação parece, a primeira vista, ser incompatível com o que a precede. Mas em realidade São Tomás distingue aqui meramente entre as várias formas de amor e conhecimento. É melhor conhecer Deus mediante o amor que saber de Deus sem amor, pela leitura de um tratado de teologia. O ouro, em troca, não deveria ser nunca conhecido com o amor do avaro ou, melhor, sua concu­piscência, a não ser abstratamente, como o conhece o inves­tigador científico, ou com o desinteressado amor e conhecimento do artista em metal, ou do espectador, que conhece e ama a obra do ourives, não por seu valor em moeda, nem pelo gosto de possui-la, a não ser somente porque é bela. E o mesmo convém a todas as coisas, vidas e mentes criadas. É mau conhecê-las pelo amor, com afeto e cobiça egoístas; é algo melhor conhecê-las com desentusiasmo científico; é melhor completar o abstrato conhecimento sem cobiça com um conhecimento de amor realmente desinteressado, com a qualidade do deleite estético, ou da caridade, ou dos dois combinados.

            Fazemos um ídolo da verdade mesma, pois a verdade, separada da caridade, não é Deus, a não ser sua imagem e ídolo, que não devemos amar nem adorar.

                                                                                                                                  

Pascal

            Por uma espécie de acidente filológico (que provavelmente não é nenhum acidente, a não ser uma das mais sutis expressões da arraigada vontade de ignorância e obscuridade espiritual do homem), a palavra "caridade" veio, em inglês moderno, a ser sinônimo de "dádiva", e não é quase nunca usada em seu sentido original, que significa a mais alta e divina forma do amor. Por causa deste empobrecimento de nosso já sempre muito inadequado vocabulário de termos psicológicos e espi­rituais, a palavra "amor" teve que assumir uma carga adicional. "Deus é amor", repetimos voluvelmente, e que devemos "amar a nossos semelhantes como a nós mesmos"; mas "amor" significa tudo, do que ocorre quando, na tela, chocam extasiados os dois primeiros termos até o que ocorre quando um John Woolman ou um Pedro Claver se preocupam com os escravos negros, porque são templos do Espírito Santo; pelo que ocorre quando multidões gritam e cantam e agitam bandeiras no Sport-Palast ou o Plaza Roja até o que ocorre quando um contemplativo solitário fica ab­sorto em preces de simples veneração. A ambigüidade no vocabulário conduz a confusão de pensamento; e, nesta matéria do amor, a confusão de pensamento serve admiravelmente o propósito de uma natureza hu­mana, sem regenerar e dividida, que está decidida a tirar proveito de ambos os mundos; a dizer que serve a Deus, quando em realidade está servindo ao Mammón, Marte ou Príapo.

            Sistematicamente ou breve aforismo e parábola, os Mestres da vida espiritual descreveram a natureza da verdadeira caridade e a distinguiram das outras, inferiores, formas do amor. Consideremos, por ordem, suas principais características. Primeiro, a caridade é des­interessada, não procura recompensa, nem se permite diminuir quando recebe mal por bem. Deus deve ser amado por Si mesmo, não por seus dons, e pessoas e coisas devem ser amadas por amor de Deus, porque são templos do Espíri­to Santo. Além disso, sendo a caridade desinteressada, necessariamente, deve ser universal.

            O amor não procura nenhuma causa além de si mesmo, nem nenhum fruto; ele é seu próprio fruto, seu próprio gozo. Amo porque amo; amo para poder amar... De todos os movimentos e afetos da alma, o amor é o único mediante o qual a criatura, embora não em termos iguais, pode tratar com o Criador e devolver um pouco parecido ao que recebeu... Quando Deus ama, só deseja ser amado, sabendo que o amor fará felizes a todos os que Lhe amam.

                                                                                                                                

São Bernardo

            Pois como o amor não tem fins secundários não quer nada, a não ser seu próprio incremento, assim tudo é azeite para sua chama, tem que ter o que quer e não pode sofrer decepção, porque tudo (inclusive o des­amor por parte do amado) ajuda-lhe naturalmente a viver a seu próprio modo e a levar adiante sua obra.

                                                                                                                                     William Law

            Os que falam mal de mim são realmente meus bons amigos. Quando, caluniado, não abrigo inimizade nem preferência, cresce dentro de mim o poder do amor e a humildade, que nasce do inato.

                                                                                                                            

Kung-chia Ta-shih

            Alguns querem ver Deus com seus olhos como vêem uma vaca, e amá-lo como amam a sua vaca —pelo leite, queijo e proveito que lhes traz. Isto ocorre com os que amam a Deus por causa de externa riqueza ou interno bem-estar. Não amam retamente a Deus, ao fazê-lo por seu próprio bem. Na verdade lhes digo que qualquer objeto que tenham no pensamento, por bom que seja, será uma barreira entre vós e a íntima Verdade.

                                                                                                                              

Eckhart

            Mendigo sou, Senhor. Venho a Ti pedir mais do que mil reis pudessem. Cada um algo quer e Te pede isso. Eu peço que dê a mim Tu mesmo.

                                                                                                                            

Ansari de Herat

            Não quero saber nada de um amor que seria Por Deus ou em Deus. É este um amor que o puro amor não pode sofrer; pois o puro amor é Deus mesmo.

                                                                                                        

Santa Catalina de Gênova

            Como uma mãe, até com risco de perder sua própria vida, protege a seu filho, seu único filho, assim haja boa vontade sem medida entre todos os seres. Prevaleça a boa vontade sem medida em todo mundo, em cima, abaixo, em torno, sem regular, sem mescla de nenhum sentimento de interesses diferentes ou opostos. Se um homem permanecer neste estado de espírito todo o tempo que está acordado, então se realiza o dito: "Até neste mundo se achou a santidade. Metía Sutta

            Aprende a olhar com olhos iguais a todos os seres vendo o Eu um em todos.

                                                                                                                      

Srimad Bhagavatam

            A segunda marca distintiva da caridade é que, diferentemente das formas inferiores do amor, não é uma emoção. Começa como um ato da vontade e se consuma como um ensinamento puramente espiri­tual, um unitivo amor-conhecimento da essência de seu objeto. Entendam todos que o verdadeiro amor de Deus não consiste em choros, nem naquela suavidade e ternura que usualmente desejamos, só porque nos consolam, a não ser em servir a Deus na justiça, fortaleza de alma e humildade.

                                                                                                                            

Santa Teresa

            O amor não consiste em sentir grandes coisas, a não ser em ter grande nudez e padecer pelo Amado.

                                                                                                          

San Juan de la Cruz

            Por amor não entendo nenhuma ternura natural, que se encontre mais ou menos na gente segundo sua consti­tuição, mas sim entendo um princípio mais amplo da alma, baseado na razão e a piedade, que nos faz tenros, bondosos e amáveis para com todos nossos semelhantes como criaturas de Deus, e por Seu amor.

                                                                                                                    

William Law

            A natureza da caridade, ou amor-conhecimento de Deus, é definida pela Shankara, o grande santo e filósofo vedantista do século IX, no trigésimo segundo dístico de seu Viveka-Chudamani:

            Entre os instrumentos de emancipação é a devo­ção o supremo. A contemplação da verdadeira forma do Eu real (o Atman que é idêntico ao Brahma) diz-se que é a devoção.

      Em outras palavras, a forma mais elevada do amor de Deus é uma intuição espiritual imediata, pela qual "consciente, conhecido e conhecimento se fazem um". Os meios para alcançar este supremo amor-conhecimento do Espírito pelo espírito e suas primeiras etapas são descritas pela Shankara nos precedentes versos de seu filosófico poema e consistem em atos de uma vontade dirigida para a negação do eu em pensamento, senti­mento e ação, para o abandono de desejos e o des­prendimento ou (para usar o correspondente termo cristão) "Santa indiferença", para uma alegre aceitação da aflição, sem lástima de si mesmo nem pensamen­to de retribuir mal com mal, e finalmente para uma vigilante e unitendente atenção à divindade, que é a um tempo transcendente e, por transcendente, imanente em todas as almas.

 

Está claro que nada distinto de quantos podem gozar a vontade é Deus. E por isso, para unir-se com Ele, tem-se que esvaziar e separar de qualquer afeto desordenado de apetite e gosto de tudo o que distintamente pode gozar-se, assim acima como abaixo, temporário ou espiritual, para que, purgada e podada de quaisquer gostos, gozos ou apetites desorde­nados, toda ela com seus afetos se emprenhe em amar a Deus. Porque se de alguma maneira a vontade pode compreender a Deus e unir-se com Ele não é por algum meio apreensivo do apetite, mas sim pelo amor; e com o deleite e suavidade e qualquer gosto que pode cair na vontade não seja amor, segue-se que nenhum dos sentimentos de prazer pode ser meio proporcionado para que a vontade se una com Deus, a não ser a operação da vontade, porque é muito distinta a operação da vontade de seu sentimento: pela operação que se une com Deus e termina Nele, que é amor, e não pelo sentimento e apreensão de seu apetite, que se assenta na alma como fim e arremate. Só podem servir os sentimentos de motivos para amar, se a vontade quer acontecer adiante, e não mais...

            E assim muito incipiente seria o que, lhe faltando a suavi­dade e deleite espiritual, pensasse que por isso lhe falta Deus, e quando o tivesse, gozasse e deleitasse pen­sando que por isso tinha Deus. E mais incipiente seria se fosse procurar esta suavidade em Deus e se gozasse e detivesse nela; porque dessa maneira já não iria procurar a Deus com a vontade fundada em vazio de fé e caridade, a não ser o gosto e suavidade espiritual, que é criatura, seguindo seu gosto e apetite...

            É coisa impossível que a vontade possa chegar à suavidade e deleite da divina união, nem abraçar nem sentir os doces e amorosos abraços de Deus, a não ser que seja em nudez e vazio de apetite em todo gosto particular, assim acima como abaixo...

                                                                                                      San Juan de la Cruz

            O amor (o amor sensível das emoções) não unifica. Certo que une no ato; mas não une na essência.

                                                                                                                              

Eckhart

            A razão por que o amor sensível, até do objeto mais elevado, não pode unir a alma a sua divina Base em essência espiritual é a de que, como todas as demais emoções do coração, o amor sensível intensifica o eu que é o obstáculo final no caminho de tal união. "Os malditos estão em eterno movimento sem nenhuma mescla de repouso; nós, os mortais, que ainda nos acha­mos nesta peregrinação, temos ora movimento, ora repouso... Só Deus tem repouso, sem movimento." Em conseqüência, só se morarmos na paz de Deus que supera toda compreensão, podemos morar no conhecimento e amor de Deus. E à paz que supera toda compreensão devemos ir pelo caminho da humilde e muito ordinária paz que todos podem compreender —a paz entre nações e dentro delas (pois as guerras e revoluções violentas têm por efeito o eclipse mais ou menos completo de Deus para a maioria dos envolvidos nelas); paz entre indivíduos e dentro da alma indivi­dual (pois as disputas pessoais e os temores, amores, ódios, ambições e confusões particulares são, em seu mesquinho modo, não menos fatais para o desenvolvimento da vida espiritual que as calamidades maiores). Devemos querer a paz que está a nosso alcance obter para nós mesmos e outros, para poder ser capazes de rece­ber essa outra paz que é fruto do Espírito e a condição, conforme deixava entender São Paulo, do unitivo conhecimento-amor de Deus.

            Por meio da tranqüilidade de espírito pode transmutar este falso espírito de morte e renascimento no claro Espírito Intuitivo e, ao fazê-lo, advertir a primeira e iluminadora Essência do Espírito. Disto deveria fazer seu ponto de partida para as práticas espirituais. Tendo harmonizado seu ponto de partida e sua meta, poderá, com a adequada prática, alcançar seu verdadeiro fim de perfeita Iluminação.

            Se desejas tranqüilizar seu espírito e restabelecer sua pureza original deve proceder como o faria se ti­vesse desencardido um jarro de água lamacenta. Primeiro a deixa repousar, até que o sedimento se deposita no fundo e a água fica clara, o que corresponde ao estado do espírito antes de ser turbado por manchas de paixões. Logo, cuidadosamente, penetra a água pura... Quando o espírito se tranqüilizou e concentrado em uma perfeita unidade, ver-se-ão todas as coisas, não em sua separação, mas em sua unidade, onde não há lugar para que entrem as paixões e está em plena conformidade com a misteriosa e indescritível pureza do Nirvana.

                                                                                                                            

Surangama Sutra

            A identidade a partir do Um, por volta do Um e com um é a fonte, manancial e fornecedora do resplande­cente Amor. Eckhart

            O progresso espiritual, como tivemos ocasião de descobri-lo em vários outros aspectos, é sempre espiral e recíproco. A paz por liberação de distrações e agitações emotivas é o caminho para a caridade, e a caridade, ou unitivo amor-conhecimento, é o caminho para eleva-la à paz de Deus. E o mesmo ocorre com a humildade, que é o terceiro sinal característico da caridade. A humildade é uma condição necessária da forma mais alta do amor, e a forma mais alta do amor faz possível a consumação da humildade em um total arrebatamento.

            Queres ser peregrino no caminho do Amor? A primeira condição é que te humilhes como pó e cinza.

                                                                                                              

Ansari de Herat

            Não tenho a não ser uma palavra dizer-te sobre o amor por teu próximo, ou seja: que nada salvo a humil­dade pode te conformar a isso; nada, a não ser a consciência de tua própria debilidade, pode te fazer indulgente e compassivo para com outros. Contestarás: Já compreendo que a humildade deve produzir benevolência para outros, mas como tenho que adquirir primeiro a hu­mildade? Duas coisas combinadas o conseguirão, não deves separa-las nunca. A primeira é a contemplação do profundo abismo de onde a mão todo-poderosa de Deus te tirou e sobre a qual te mantém sempre, por assim dizê-lo, suspenso. A segunda é a presença desse Deus que penetra tudo. Só contemplando e amando a Deus se pode aprender o esquecimento de si mesmo, medir devidamente um nada que nos deslumbrou e acostumar-se agradecido, a decrescer sob a grande Majestade que absorve tudo. Amas a Deus e serás humilde, amas a Deus e jogarás de ti o amor de ti mesmo, amas a Deus e amarás tudo o que Ele te dá a amar por amor Dele.

                                                                                                                                      Fénelon

            Os sentimentos, como vimos, podem servir como motivo de caridade; mas a caridade como caridade tem seu começo na vontade; vontade de paz e humildade na gente mesmo, vontade de paciência e bondade para os semelhantes, vontade do desinteressado amor de Deus que "não pede nada nem recusa nada". Mas a vontade pode ser fortalecida pelo exercício e confirmada pela perseverança. Isto fica bem manifestado pela exposição seguinte —deliciosa em seu vividez boswelliana— de uma conversação entre o jovem bispo de Belley e seu amado amigo e Mestre Francisco de Sales.

            Uma vez perguntei ao bispo de Genebra o que se deve fazer para obter a perfeição.

            —Deve amar a Deus com todo seu coração —conte­stou— e ao próximo como a ti mesmo.

            —Não perguntei no que está a perfeição —disse eu—, mas como alcançá-la.

            —A caridade —disse ele—, eis aqui, a um só tempo o meio e o fim, o único caminho pelo qual podemos alcançar a perfeição, que não é, depois de tudo, mas a caridade mesma... Como a alma é a vida do corpo, assim a caridade é a vida da alma.

            —Sei tudo isto —disse—. Mas eu quero saber como terei que fazer para amar a Deus com todo o coração e ao próximo como a si mesmo.

            Mas ele voltou a responder:

            —Devemos amar a Deus com todo nosso coração e ao próximo como a nós mesmos.

            —Não adiantou nada —repliquei—. Diga-me como adquirir tal amor.

            —O melhor modo, o mais rápido e fácil para amar a Deus com todo o coração é amá-lo total e cordialmente.

            Não quis dar outra resposta. Entretanto, por fim disse-me o bispo:

            —Há muitos outros que querem que lhes exponha métodos, sistemas e modos secretos para chegar a ser perfeito, e só posso lhes dizer que o único segredo é um cordial amor de Deus, e o único modo de obter esse amor é amando. Aprende-se a falar falando, a estudar estudando, a correr correndo, a trabalhar trabalhando; e do mesmo modo se aprende a amar a Deus e ao homem amando. Todos os que pensam em aprender de outro modo, enganam-se. Se deseja amar a Deus, ama-o cada vez mais. Começa como um mero aprendiz, e o poder mesmo do amor o conduzirá a ser Mestre na arte. Os que foram mais adiante, estarão continuamente apressados, e nunca acreditarão que chegaram ao final; pois a caridade deve aumentar até que exalemos o último suspiro.

                                                                                                                  

Jean Pierre Camus

            A passagem que São Bernardo chama o "amor carnal" da sagrada humanidade; ao amor espiritual de divindade; do amor emotivo que só pode unir amante e amado no ato à caridade perfeita que os unifica na substância espiritual, reflete-se na prática religiosa; como a passagem da meditação, discursiva e afetiva, à contemplação infusa. Todos os escritores cristãos in­sistem em que o amor espiritual da divindade é superior ao amor carnal da humanidade, que serve de introdução e meio para o fim último do homem no unitivo amor-conhecimento da Base divina; mas todos insistem com não menos força, em que o amor carnal é uma introdução necessária e um meio indispensável. Os escritores orientais concederão que isso é certo para muitas pessoas, mas não para todas, pois há alguns contemplativos natos que são capazes de "harmonizar seu ponto de partida com sua meta" e embarcar-se diretamente no Logos do Conhecimento. Do ponto de vista do contemplativo nato escreve o maior dos filó­sofos taoístas na seguinte passagem:

            Esses homens que, de modo especial, consideram o Céu como Pai e sentem, por assim dizê-lo, um amor pessoal por ele, quanto mais deveriam amar como Pai o que está por cima do Céu! Outros homens, de modo especial, consideram melhores que eles a seus governantes e, por assim dizê-lo, morrem pessoalmente por eles. Quanto mais deveriam morrer pelo que é mais verdadeiro que um governante! Quando se secam as fontes, ficam os peixes sobre o chão. Então se dão mutuamente sua umidade e se mantêm molha­dos em seu limo. Mas isto não deve comparar-se ao mútuo esquecimento em um rio ou lago.

                                                                                                                            

Chuang Tse

            O limo do amor pessoal e emotivo é remotamente similar à água do ser espiritual da Divindade, mas de qualidade inferior e (precisamente porque o amor é emotivo e, por excelência, pessoal) insuficiente em quantidade. Fazendo, por sua ignorância, mal obrar e mau ser voluntários, que se sequem as fontes divinas, os seres humanos podem fazer algo para mitigar os horrores de sua situação "mantendo-se mutuamente molhados com seu limo". Mas não pode haver felicidade nem segurança no tempo nem salvação para a eternidade, até que deixem de pensar que o limo basta e, abandonando-se ao que em realidade é seu elemento, procurem a volta das águas eternas. Aos que primeiro procuram o Reino de Deus, lhes dará todo o resto além disso. Aos que, como os modernos idólatras do progresso, procuram primeiro todo o resto na espe­rança de que (depois da domesticação do poder atômico e da quarta revolução futura) lhes acrescentará o Reino de Deus, tudo lhes será tirado. E, entretanto, continuamos ­confiando no progresso, considerando que o limo pessoal é a forma mais elevada de umidade espiritual e preferindo uma angustiosa e impossível existência no chão ao amor, gozo e paz em nosso natal oceano.

            A seita dos amantes é distinta de todas as demais; os amantes têm religião e fé próprias.

                                                                                                                            

Jalal-uddin Rumi

            A alma vive no que ama, antes que no corpo que anima. Pois não tem sua vida no corpo, mas sim melhor a dá ao corpo e vive no que ama.

                                                                                                          

San Juan de la Cruz

            A moderação é amor que se entrega inteiramente Àquele que é seu objeto; o valor é amor que o sofre com alegria tudo pela causa Daquele que é seu objeto, a justiça é amor que serve só Àquele que é seu objeto e, por excelência, governa retamente, a prudência é amor que estabelece sábias distinções entre o que se estorva e o que se ajuda.

                                                                                                                                

São Agustín

            Os sinais distintivos da caridade são o desinteresse, a tranqüilidade e a humildade. Mas onde há desinteresse não existe cobiça de vantagens pessoais nem temor de perda ou castigo pessoal; onde há tranqüilidade não existe ânsia nem aversão, a não ser uma firme vontade de conformar-se ao divino Tao ou Logos em todos os planos da existência e um firme ensinamento da divina Talidad e o que deveriam ser as relações da gente mesmo com ela; e onde existe humildade não há espírito de censura, nem glorificação do eu, nem de nenhum proje­tado alter ego a custa de outros, aos que se reconhece como seres que têm as mesmas debilidades e faltas, mas também a mesma capacidade para as transcender no conhecimento unitivo de Deus. De tudo isto se segue que a caridade é a raiz e substância da moralidade, e que onde haja pouca caridade haverá muito mal inevitável. Tudo isto foi resumido na formulação de Agustín: "Ama, e faz o que te agrade." Entre as elaborações posteriores do tema agostiniano podemos citar a seguinte, tirada dos escritos do John Everard, um daqueles espirituais teólogos do século XVII cujos ensinamentos caíam nos surdos ouvidos de facções opostas e nos ainda mais surdos dos clérigos da Restaura­ção e seus sucessores da época augusta. (Da surdez de tais ouvidos podemos julgar pelo que Swift escrevia a respeito de seus amados e moralmente perfeitos houyhnhnms. Os temas de suas conversações, como os de sua poesia, consistiam em coisas tais como "a amizade e benevolência, as manifestações da natu­reza ou as antigas tradições; os marcos e limites da virtude, as infalíveis regra da razão". Nem uma vez ocupam sua mente as idéias de Deus, a caridade ou a salvação. O que mostra claramente o que pensava o decano St. Patrick da religião com que ganhava seu dinheiro.)

            Soltem o homem que encontrou Deus vivo dentro de si e lhe deixem logo descuidar o externo se puder! Do mesmo modo que se poderia dizer ao homem que ama meigamente a sua esposa: "Liberdade tem para lhe pegar, para machucá-la ou matá-la, se assim o desejar."

                                                                                                                        

John Everard

            Disso se segue que, onde há caridade, não pode haver coação.

            Deus não força a ninguém, pois o amor não pode constranger, e o serviço de Deus, portanto, é uma coisa de liberdade perfeita.

                                                                                                                        

Harts Denk

            Mas precisamente porque não pode constranger, a caridade tem uma espécie de autoridade, uma força não coativa, mediante a qual se defende e obtém que se faça no mundo sua benéfica vontade —nem sempre, é óbvio, não inevitável ou automaticamente (pois os indivíduos e, ainda mais, as organizações podem estar impenetravelmente armadas contra a influência divina), mas sim em um número de casos surpreendentemente elevado.

            O Céu arma de piedade aos que não quereria ver destruídos.

                                                                                                              

Lao Tse

            "Insultou-me, pegou-me, derrotou-me, roubou-me"; nos que abrigam tais pensamentos nunca cessará o ódio.

            "Insultou-me, pegou-me, derrotou-me, roubou-me"; nos que não abrigam tais pensamentos o ódio cessará.

            Pois o ódio não cessa nunca pelo ódio, é esta uma antiga regra.

                                                                                                                  

Dhammapada

            Nossas atuais disposições econômicas, sociais e internacionais estão apoiadas, em elevada proporção, em uma organizada falta de amor. Começamos carecendo de amor para a Natureza, de modo que, em vez de procu­rar cooperar com o Tao ou o Logos nos planos inanimados ou infra-humanos, procuramos dominar e explorar, des­perdiçamos os recursos minerais da terra, arruinámos seu solo, assolamos seus bosques, enchemos de lixo seus rios e de vapores venenosos seu ar. Da falta de amor em relação à Natureza avançamos à falta de amor respeito à arte, uma falta de amor tão extrema que matamos efetivamente todas as artes fundamentais ou úteis e estabelecemos em seu lugar várias classes de produção em massa por meio de máquinas. E, natural­mente, esta falta de amor respeito à arte é ao mesmo tempo uma falta de amor em relação aos seres humanos que têm que realizar as tarefas a prova de tolos e de graça, impostas por nossos mecânicos sucedâneos da arte e pelo interminável trabalho de papelaria relacionada com a produção e a distribuição em massa. Com a produção e distribuição em massa vai o financiamento em massa, e os três conspiraram para expropriar um número sempre crescente de pequenos proprietários de terra e os equipamentos de produção, reduzindo assim a soma de liberdade entre a maioria e aumentando em uma minoria o poder de exercer um controle coativo sobre as vidas de seus semelhantes. Esta minoria que controla pela coação está com­posta de capitalistas privados ou burocratas governamentais ou de ambas as classes de amos obrando em colaboração —e, é óbvio, o caráter coativo e, por excelência, essencial­mente falta de amor é o mesmo, sejam os amos chamados "diretores de companhia" ou "funcionários do Esta­do". A única diferença entre estas duas classes de gover­nantes oligárquicos é a de que a primeira obtém mais poder de sua riqueza que de uma posição dentro de uma hierarquia convencionalmente respeitada, enquanto que a segunda obtém mais da posição que da riqueza. A este pequeno fundo uniforme de relações sem amor, se super­põem outras, que variam amplamente de uma sociedade a outra, segundo as condições locais e os hábitos de pensar e sentir. Eis aqui alguns exemplos: desdém e exploração das minorias de cor que vivem entre maiorias brancas, ou de maiorias de cor governadas por minorias de imperialistas brancos; ódio aos judeus, católicos, maçons, ou a qualquer minoria cuja linguagem, costumes, aspecto ou religião difiram dos da maioria local. E a super es­trutura que coroa a falta de caridade é a organizada falta de amor das relações entre Estados soberanos, uma falta de amor que se expressa na axiomática pressu­posição de que é justo e natural que as organizações nacionais se comportem como ladrões e assassinos, arma­dos até os dentes e dispostos, na primeira ocasião favorável, a roubar e matar. (Quão axiomática é esta pressu­posição sobre o caráter da nacionalidade, mostra-o a história da América Central. Enquanto os arbitrariamente delimitados territórios centro-americanos se chamavam pro­víncias do Império colonial espanhol, houve paz entre seus habitantes. Mas em princípio do século XIX os diversos distritos administrativos do Império espanhol romperam seus laços de fidelidade para a "mãe pátria" e decidiram converter-se em nações segundo o modelo europeu. Resulta­do: imediatamente ficaram a guerrear entre si. Por que? Porque por definição, um Estado nacional soberano é uma nação que tem o direito e o dever de obrigar a seus membros a roubar e matar em maior escala possível.) "Não nos deixe cair em tentação" deve ser o princí­pio guia de toda organização social, e as tentações de que terá que guardar-se e que, até onde seja possível, terá que eliminar mediante apropriadas disposições eco­nômicas e políticas, são tentações contra a caridade, quer dizer, contra o desinteressado amor a Deus, a Natureza e o homem. Primeiro, a disseminação e aceitação ge­ral de qualquer forma da Filosofia Perene contribuirá a preservar homens e mulheres da tentação do culto idolátrico das coisas no tempo —culto da Igreja, do Estado, revolucionário culto do futuro, humanístico culto de si mesmo, todos eles essencial e necessariamente opostos à caridade. Logo viria a descentralização, grande difusão da propriedade privada de terras e meios de produção em pequena escala, obstáculos ao monopólio pelo Estado ou as corporações, divisão do poder econômico e político (a única garantia, como não se cansava Lorde Acton de insistir, da liberdade civil sob a lei). Estes reajustes sociais contribuiriam em muito a impedir que indivíduos, organizações e governos ambiciosos caíssem na tentação de conduzir-se tiranicamente, enquanto que as cooperativas, organizações profissio­nais controladas democraticamente e as assembléias mu­nicipais liberariam às massas do povo da tentação de fazer muito áspero seu individualismo. Mas, é óbvio, nenhuma destas reformas intrinsecamente desejadas pode levar-se a cabo enquanto se considere justo e natural que os Estados soberanos se preparem para guerrear uns contra outros. Pois a guerra moderna não pode sustentar-se, mas sim por países com uma indústria enor­memente desenvolvida; países em que o poder econômico é esgrimido seja pelo Estado ou por umas poucas corpora­ções monopolistas que facilmente se podem submeter a impostos e, se for necessário, nacionalizar temporariamen­te; países onde as massas trabalhadoras, carentes de pro­priedade, não têm abrigo, são facilmente transferíveis de um lugar a outro e estão bem arregimentadas pela disciplina fabril. Qualquer descentralizada sociedade de pequenos proprietários livres, não coagidos, com uma economia adequadamente equilibrada, terá que estar, em um mun­do belicoso como o nosso, a mercê de outra sociedade cuja produção esteja muito mecanizada e centralizada, cujo povo careça de propriedade e seja portanto, facilmente coercível e cuja economia esteja desequilibrada. Por isso o único desejo de países não desenvolvidos industrialmente, como o México e a China, é chegar a ser como a Alemanha, Inglaterra ou os Estados Unidos. Embora subsista a organizada falta de amor da guerra e a preparação bélica, não pode mitigar-se, com amplitude nacional nem mundial, organizada a falta de amor de nossas relações econômicas e políticas. A guerra e a preparação bélica são tentações permanentes a fazer as atuais disposições da sociedade, mais e eclipsadoras de Deus, progressivamente piores, à medida que a tecnologia se faz progressivamente mais eficaz.

 

MORTIFICAÇÃO, DESPRENDIMENTO, VIDA RETA

            Este tesouro do Reino de Deus foi oculto pelo tempo, a multiplicidade e as mesmas obras da alma, isto é, por sua natureza de criatura. Mas na medi­da em que a alma pode separar-se desta multiplici­dade, até tal ponto revela em si mesmo o Reino de Deus. Aqui a alma e a Divindade são uma.

                                                                                                                                  

Eckhart

            "Venha nosso reino" é o necessário e inevitável corolário do "Venha Seu reino". Pois quanto mais haja do eu, menos terá de Deus. A divina, eterna plenitude de vida só pode ser obtida por aqueles que premeditadamente perderam a parcial, separadora vida da cobiça e o interesse próprio, do pensar, sentir, desejar e atuar egocêntricos. Mortificação, ou deliberado morrer para o eu, é inculcada com incon­dicional firmeza nos escritos canônicos do cristianismo, hinduísmo, budismo e na maior parte das demais religiões, maiores ou menores, do mundo, e por todos os Santos teocêntricos e reformadores espirituais que tenham vivido e exposto os princípios da Filosofia Perene. Mas esta "anulação de si mesmo" não é nunca (pelo menos por ninguém que saiba do que está falando) considerada como um fim em si mesmo. Possui meramente um valor instrumental, como algo indispensável para outra coisa. Nas palavras de um a quem tivemos ocasião de citar em seções anteriores, é-nos necessário a todos "aprender o verdadeiro carác­ter e valor de todas as abnegações e mortificações".

            Quanto a sua natureza, considerada em si mes­ma, não têm nada de bondade ou santidade, nem são parte alguma real de nossa santificação, não são o verdadeiro alimento ou nutrição da Vida Divina em nossas al­mas, não têm em si poder de urgência, de santificação; seu único valor consiste em que tiram os impedimentos à santidade, quebram o que se levanta entre Deus e nós e abrem passagem ao avivador, santificador espírito de Deus para que atue em nossas almas, operação de Deus que é quão único pode fazer surgir a Vida Divina na alma, ou ajudá-la para o menor grau de real santidade ou vida espiritual... Desde onde podemos apreender a razão de por que tantas pessoas não só perdem o benefício de suas mortificações, mas também até ficam pior por elas. Ocorre assim porque se equivocam a respeito de seu caráter e valor. Praticam-nas por elas mesmas, como coisas boas em si mesmas, acreditam que são parte real da santidade, e assim descansam nelas e não olham mais à frente, mas sim se enchem de estimativa e admiração de si mesmos por seu progresso nelas. Isto os faz suficientes, ariscos e severos juízes de todos os que não alcançam à suas mortificações. E assim suas abnegações obram com eles como a benevolência para si obra com outros: detêm e estorvam a operação de Deus sobre sua alma, e em vez de ser realmente abnegações, fortale­cem e mantêm o reino do eu.

                                                                                                                                

William Law

            A derrota e destruição das paixões, que é um bem, não é o bem final, o descobrimento da Sabe­doria é o bem supremo. Quando se achar este, todo o povo cantará.

                                                                                                                                

Filón

            Vivendo em religião (e posso falar disso por experiência), se não seguir um adequado curso de rezas e outros exercícios entre Deus e nossa alma, nosso caráter se faz muito pior do que nunca tivesse sido se tivéssemos vivido no mundo. Pois o orgulho e o amor próprio, arraigados na alma pelo pecado, encontram meios para fortalecer-se sobrema­neira em religião, se a alma não estiver em um leito que possa ensiná-la e lhe procurar verdadeira humildade. Pois pelas correções e contradições da vontade (que não podem ser evitadas pelo que vive em uma comunidade religiosa) acho que meu coração se tornou, poderia dizer, duro como uma pedra; e nada teria podido abrandá-lo a não ser o havê-lo posto em um leito de prece, pela qual a alma tende para Deus e aprende a lição de humilhar-se verdadeira­mente.

                                                                                                        

Dame Gertrude More

            Uma vez, quando resmungava por ver-me obrigada a comer carne e não fazer penitência, ouvi dizer que às vezes havia em tal pesar mais amor próprio que desejo de penitência.

                                                                                                                    

Santa Teresa

            Que os mortificados são, sob alguns aspectos, freqüentemente muito piores que os não mortificados, é um lugar comum da história, a novela e a psicologia descritiva. Assim, o puritano pode praticar todas as virtudes cardeais —prudência, fortaleza, moderação e castidade— sem deixar de ser completamente mau, pois, em muitos casos, estas virtudes acompanham-se, e de fato estão casualmente relacionadas, com os pecados de soberba, inveja, ira crônica e uma falta de caridade levada às vezes ao nível da crueldade ativa. Confundindo os meios com os fins, o puritano se acreditou santo porque é estoicamente austero. Mas a austeridade estóica é meramente a exaltação do lado mais reputado do eu a custas do que o é menos. A santidade, pelo contrário, é a total negação do eu separado, em seus aspectos reputados não menos que vergonhosos, e o abandono à vontade de Deus. Até onde há apego ao "eu". "minha", "meu", não há enlace com a Base divina nem, portanto, conhecimento unitivo dela. A mortificação deve levar-se ao extre­mo do desprendimento ou (na frase de São Francisco de Sales) "Santa indiferença"; em outro caso, só trans­fere a obstinação de um lugar a outro, não meramente sem diminuir o volume total de obstinação, mas, ao contrário, às vezes, com um verdadeiro aumento. Como costuma ocorrer, a corrupção do melhor é a pior. A diferença entre o estóico mortificado mas ainda arrogante e egocêntrico, e o não mortificado hedonista, consiste nisto: o último, brando e negligente, no fundo, envergonhado de si mesmo carece de energia e atividade para fazer muito dano exceto a seu próprio corpo, mente e espírito; o primeiro, por ter todas as virtudes secundárias e olhar com desdém aos que não são como ele, está moralmente equipado para desejar e poder fazer mal em maior escala e com a consciência perfeitamente tranqüila. Tudo isto é óbvio; entretanto, no jargão religioso corrente, a palavra "imoral" se reserva quase exclusivamente aos que sentem prazer carnal. Mesquinhos e ambiciosos, os malvados respeitáveis e os que cobrem sua avidez de poder e posição com o tipo adequa­do de hipocrisia idealista, não somente ficam imunes de censura, mas até são apresentados como modelos de virtude e santidade. Os representantes das igrejas organizadas começam pondo auréolas sobre à cabeça das pessoas que mais contribuíram para a explosão de guerras e revoluções; logo, insignificantemente queixosos, admiram-se de que o mundo se encontre em tão tremenda confusão.

            A mortificação não é, ao que parece, o que muitos ima­ginam, uma questão, em primeiro termo, de severas austeridades físicas. É possível que, certas pessoas em determinadas circunstâncias, a prática de severas auste­ridades físicas as ajude a avançar para o fim último do homem. Na maioria dos casos, entretanto, parece­ria que o que se obtém com tais austeridades não é a liberação, mas algo completamente distinto: a aquisição de faculdades "psíquicas". A faculdade de obter resposta à rezas petitórias, de sanar e obrar outros milagres, a habilidade de prever o futuro e ler a mente alheia estão, ao que parece, freqüentemente em alguma sorte de relação causal com os jejuns, as vigílias e a imposi­ção própria de dor. A maior parte dos grandes santos teocêntricos e Mestres espirituais admitiram a existência de faculdades supranormais, mas só para as deplorar. Pensar que tais siddhis, como os chamam os hindus, tenham algo que ver com a liberação é, dizer, uma ilusão perigosa. Estas coisas são, ou impertinentes ao principal problema da vida ou, excessivamente aprecia­das e cultivadas, um obstáculo no caminho do adiantamento espiritual. E não são estas as únicas objeções às austeridades físicas. Levadas ao extremo, podem ser peri­gosas para a saúde —e sem saúde a firme persistência de esforço requerida pela vida espiritual é de muito difícil adquirir. E sendo difíceis, dolorosas e geralmente cons­pícuas, as austeridades físicas são uma tentação perma­nente à vaidade e ao espírito de competência na superação de marcas. "Quando te entregaste à mortifi­cação física foste grande, admirado." Assim escreve Suso sobre suas próprias experiências —experiências que o levaram, como levaram Gautama Buda muitos séculos antes, a abandonar sua regra de penitência corporal. E Santa Teresa observa quanto mais fácil é impor-se grandes penitências que sofrer com paciência, caridade e humildade; as ordinárias moléstias cotidianas da vida de família (o que não lhe impediu, digamos de passagem, prati­car, até o dia de sua morte, as formas mais penosas de auto-tortura. Não há modo de determinar se estas austeridades ajudaram-na, realmente, a alcançar o conhecimento unitivo de Deus ou se as apreciava e persistia por causa das faculdades psíquicas que contri­buíam a desenvolver).

            Nosso amado Santo (Francisco de Sales) desaprovava o jejum imoderado. Costumava dizer que o espírito não podia suportar um corpo farto, assim como um corpo débil não podia suportar o espírito.

                                                                                                                    

Jean Pierre Camus

            Quando a vontade, logo que sente o gosto do que ouve, vê e trata, levanta-se a gozar em Deus e é motivo e força para isso, muito bom é; e então não só não se têm que evitar tais moções quando causam esta devoção e oração, mas podem se apro­veitar delas, e até devem, para tão santo exercício... porque então servem os sensíveis para o fim que Deus os criou e deu que é para ser por eles mais amado e conhecido.

                                                                                                    

San Juan de la Cruz

            O que não sente liberdade de espírito nas coisas e gostos sensíveis, senão que sua vontade se detém nestes gostos e se servem deles, causam-lhe danos e deve apartar-se de usá-los. Porque embora com razão queira servirem-se deles para ir a Deus; ainda, assim quanto o apetite goste deles segundo o sensual, e conforme o gosto; sempre o efeito mais causa estorvo que ajuda; causa mais danos que proveitos.

                                                                                                  

San Juan de la Cruz

            Podemos declarar que não se pode jejuar; mas podemos declarar que não se pode amar a Deus? Outro pode afirmar que não pode preservar a virgindade, nem vender todos os seus bens para dar o produto aos pobres; mas pode me dizer que não pode amar a seus inimigos? Só é preciso examinar seu próprio coração, pois o que Deus quer de nós não se encon­tra à grande distância.

                                                                                                                    

São Jerônimo

            Aquele que deseja fazê-lo pode encontrar toda a mortifi­cação que deseje, e até mais, nos incidentes do viver ordinário, cotidiano, sem recorrer jamais à ásperas penitên­cias corporais. Eis aqui as regras estabelecidas para Dame Gertrude More pelo autor de Sabedoria Sã.

            Primeiro, que fizesse tudo o que lhe correspondia fazer por qualquer lei, humana ou divina. Segundo, que devia abster-se de fazer aquelas coisas que lhe estavam proibidas pela lei humana ou divina, ou pela divina inspiração. Terceiro, que levasse com a maior paciência ou resignação possível todas as cargas e con­tradições a sua vontade natural, que fossem infligi­da pela mão de Deus. Tais, por exemplo, eram a aridez, tentações, aflições ou dor corporal, ataques e enfermidades; ou também, a perda de amigos ou a falta de coisas necessárias ou comodidades. Tudo isso devia ser suportado pacientemente, tanto se a cruz vinha diretamente de Deus como por meio de suas Criaturas... Estas eram realmente mortificações sofridas por Dame Gertrude, ou para qualquer outra alma, e não havia necessidade de que ninguém aconselhasse ou impusesse outras.

                                                                                                                  

Augustine Baker

            Resumindo, a melhor mortificação é a que conduz à eliminação da obstinação, o egoísmo e o pensar, desejar e imaginar concentrados na gente mesmo. Não é provável que as austeridades físicas extremas obtenham esta classe de mortificação. Mas a aceitação do que nos acontece (fora, naturalmente, de nossos próprios peca­dos) no curso do viver cotidiano é provável que produza resultado. Se se empreenderem exercícios determi­nados de abnegação, deveriam ser não conspícuos, não competitivos nem danosos para a saúde. Assim, se for questão de dieta, a maioria da gente achará mortificante o abster-se de comer todas as coisas que os peritos em alimentação condenam como não saudáveis. E no que concerne às relações sociais, a abnegação deveria tomar a forma, não de exibições de suposta humildade, mas sim de domínio da língua e os humores: abster-se de dizer coisas pouco caridosas ou meramente frívolas (o que significa, na prática, abster-se de cinqüenta por cento da conversação ordinária) e conduzir-se com calma e quieta alegria quando as circunstâncias externas ou o estado de nossos corpos nos predis­põem à ansiedade, melancolia ou júbilo excessivo.

            Quando se pratica a caridade para renascer no céu, ou por fama ou recompensa, ou por medo, tal caridade não pode obter efeito puro.

                                                                

Sutra sobre a Distinção e Amparo do Dharma

            Quando o príncipe Wen Wang fazia uma excursão de inspeção em Tsang, viu um velho que pescava. Mas sua pesca não era verdadeira pesca, pois não pescava para obter pescado, a não ser para divertir-se. Wen Wang, pois, desejava empregá-lo na administração do governo, mas temia que seus próprios ministros, tios e irmãos se opusessem. Por outro lado, se pensava em deixar o velho, não podia suportar a idéia de que o povo se visse privado de tal influência.

                                                                                                                    

Chuang Tse

            Deus, se Te adorar no temor do inferno, me queimes no inferno. E se Te adorar na esperança do paraí­so, me excluas do paraíso. Mas se Te adorar por Sua própria causa, não me prives de Sua eterna Beleza.

                                                                                                                          

Rabi' a

            Rabi'a a Santa sufi, fala, pensa e sente em termos de teísmo devoto; o teólogo budista, em termos da impessoal lei moral; o filósofo chinês, com característico humor, em termos de política; mas os três insistem na necessidade de desapego ao egoísmo, insistem nela com tanta força como Jesus quando censurava aos fariseus por sua egocêntrica piedade, como Krishna do Bhagavad Gita quando diz a Arjuna que cumpra seu dever, divina­mente ordenado, sem desejo pessoal nem medo dos frutos de seus atos.

            Perguntou-se uma vez à Santo Ignácio de Loyola quais seriam seus sentimentos se o Papa dissolvesse a Compa­nhia de Jesus. "Um quarto de hora de reza —respondeu— e não pensaria mais nisso."

            Esta é, possivelmente, a mais difícil de todas as mortificações: alcançar uma "Santa indiferença" para o êxito ou fracasso temporário da causa à qual dedicou suas maiores energias. Se triunfa, bem; se é derrotada, também está bem, embora seja de modo que, para uma mente limitada e atada pelo tempo, é aqui e agora inteiramente incompreensível.

            Por um homem sem paixões entendo aquele que não permite que o bem ou o mal perturbe sua economia interna, todavia, melhor se advém ao que ocorre e não aumenta a soma de sua mortalidade.

                                                                                                                              

Chuang Tse

            A disposição adequada para a união com Deus não é o entender da alma, nem gostar, nem sentir, nem imaginar Deus, nem de outra coisa; mas a pureza e amor, que é nudez e resignação perfeita de um e de outro só Por Deus...

                                                                                                  

San Juan de la Cruz

            A inquietação é sempre vaidade, porque não serve a nenhum bem. Sim, embora o mundo inteiro caísse em confusão, com todas as coisas que há nele, a inquie­tude por esta causa seria vaidade.

                                                                                                    

San Juan de la Cruz

            Suficiente não só para o dia, mas também para o lugar, é o mal que há nela. A agitação sobre acontecimentos que não podemos modificar, seja que não tenham ocorrido ainda, seja que ocorram a uma inacessível dis­tância de nós, só consegue a inoculação ao aqui e ao agora do mal remoto, ou pressentido, que é objeto de nossa angústia. Escutar quatro ou cinco vezes ao dia as notícias radiadas e seu comentário, ler o jornal da manhã e todos os semanários e mensais é chamado atualmente "tomar um inteligente interesse na política". San Juan da Cruz o teria chamado sentir prazer em ociosa curiosidade e no cultivo da inquietação pela inquietação.

            Necessito muito pouco e desejo muito pouco o que necessi­to. Logo que tenho desejos; mas, se tivesse que nascer de novo, não teria nenhum. Não deveríamos pedir nada nem recusar nada, a não ser nos entregar aos braços da divina Providência sem perder tempo em nenhum desejo, exceto o de querer o que Deus quer de nós.

                                                                                                  

São Francisco de Sales

                                               Empurra bastante para o Vazio

                                               agarre, com força bastante, à Quietude,

                                               e das dez mil coisas não há nenhuma sobre a que não

                                               possa obrar.

                                               Eu as vi, para onde retornam.

                                               Olhe, tudo, seja qual seja o modo de seu florescimento,

                                               volta para a raiz de onde partiu.

                                               Este retorno à raiz é chamado Quietude;

                                               a Quietude é chamada submissão ao destino;

                                               o que se submeteu ao destino volta-se parte do

                                               sempre assim;

                                               conhecer o sempre assim é estar iluminado;

                                               não conhecê-lo significa partir cegamente ao desastre.

                                                                                                                          

Lao Tse

            Desejaria poder me unir aos "Solitários" (da Ilha do Caldey) em vez de ser Superior e ter que escrever livros. Mas não desejo conseguir o que desejo, por su­posição.

                                                                                                            

O abade John Chapman

            Não devemos desejar outra coisa que o que acontece de momento a momento; mas nos exercitando sempre na bondade.

                                                                                            

Santa Catalina de Gênova

 

            Na prática da mortificação, como na maioria de outros campos, o avanço se cumpre ao longo de um fio. De um lado espreita a Escila da austeridade egocêntrica; do outro a Caribdis de um descuidado quietismo. A santa indiferença inculcada pelos expositores da Filosofia Perene não é estoicismo nem mera passividade. É bem mais uma resignação ativa. Renuncia-se à obstinação, não para que haja férias totais da vontade, mas sim para que a vontade divina possa servir-se da mente e o corpo mortificados como seu instrumento para o bem. Ou poderíamos dizer, com Kabir, que "o buscador devoto é o que mescla em seu coração as duplas correntes do amor e o desprendi­mento, como se mesclam as correntes do Ganges e do Jumna". Até que coloquemos um fim aos efeitos particula­res, não pode haver amor de Deus com todo o coração, mente e força, nem caridade universal para todas as cria­turas por amor de Deus. Daí as duras palavras dos Evangelhos a respeito da necessidade de renunciar aos próprios­ laços de família. E se o Filho do Homem não tem lugar onde descansar a cabeça, se o Tathagata e os Bodhisattvas "têm seus pensamentos despertados à natureza da Realidade sem residir em coisa alguma", isso é porque um amor verdadeiramente divino que, como o sol, reluz igualmente para justos e injustos, é impossível para um espírito aprisionado em preferências e aversões privadas.

            A alma que tem afeto em alguma coisa, embora mais virtude tenha, não chegará à liberdade da divina união: Porque tanto faz que uma ave esteja agarrada a um fio magro como a um grosso; porque, embora seja magro, tão agarrada estará a ele como ao grosso, tanto que senão quebrar não voará. Assim a alma, sujeita pelos laços dos afetos humanos, por mais leves que sejam estes, não pode, enquanto durarem, encaminhar-se a Deus.

                                                                                                    

San Juan de la Cruz

            Há alguns que estão recém libertos de seus pecados, e assim, embora resolvidos a amar a Deus, são ainda noviços e aprendizes, brandos e débeis... Amam muitas coisas supérfluas, vãs e perigosas, ao mesmo tempo que a Nosso Senhor. Embora amem a Deus sobre todas as coisas, continuam sentindo prazer em muitas que não amam segundo Deus, a não ser a seu lado —coisas tais como leves desarrumações de palavra, gesto, vestido, passatempos e frivolidades.

                                                                                                

São Francisco de Sales

            Há almas que têm feito algum progresso no amor divino e cessaram no amor que sentiam por coisas perigosas; entretanto, ainda têm amores peri­gosos e supérfluos, porque amam o que Deus quer que amem, mas com excesso e com um amor muito tenro e apaixonado... O amor a nossos parentes, amigos e benfeitores está em si mesmo de acordo com Deus, mas podemos amá-los excessivamente; como também nossas vocações, por mais espirituais que sejam, e nossos exercícios de devoção (que, contudo, devemos amar muito) podem ser amados desmedidamente quando os pomos acima da obe­diência e do bem mais geral, ou os consideramos como um fim, quando são só um meio.

                                                                                                  

São Francisco de Sales

            Os bens de Deus, que estão fora de toda medida, só podem ser contidos em um coração vazio e solitário.

                                                                                                  

San Juan de la Cruz

            Supondo que um barco está cruzando um rio e que outro barco, vazio, está a ponto de se chocar com ele. Até um homem irritável não se zangaria. Mas supondo que houvesse alguém no segundo barco. Então o ocu­pante do primeiro lhe gritaria que se mantivesse afastado. E se não ouvisse a primeira vez, nem mesmo quando o chamasse três vezes, mais palavras seguiriam inevitavelmente. No primeiro caso o barco estava vazio, no segundo estava ocupado. E assim ocorre com o homem. Se pudesse cruzar vazio a vida, quem poderia danificá-lo?

                                                                                                                      

Chuang Tse

            Quando o coração chora pelo que perdeu, o espírito ri pelo que encontrou.

                                                                                                                

Anônimo aforismo sufi

            Perdendo a vida egocêntrica salvamos a vida, até então latente e oculta, que, na parte espiritual de nosso ser, compartilhamos com a Base divina. Esta vida recém achada é "mais abundante" que a outra e de classe diferente e mais alta. Sua posse é liberação para o eterno, e liberação é beatitude. É assim necessariamente; pois Brahma, que é um com o Atman, é não só Ser e Conhecimento, mas também Bem-aventurança e, depois do Amor e a Paz, o fruto final do Espírito é a Alegria. A mortificação é dolorosa, mas esta dor é uma das pré-condições da bem-aventurança. Este fato da experiência espiritual é às vezes obscurecido pela linguagem com que é descrito. Assim, quando Jesus diz que no Reino do Céu só podem entrar os que são como meninos pequenos, inclinamos a esquecer (tão emo­cionantes são as imagens evocadas pela singela frase) que um homem não pode fazer-se parecido a um menino se não se decidir a empreender um esforçado e penetrante curso de abnegação. Na prática o mandamento converter-se em um menino pequeno é idêntico ao de perder a própria vida. Como Traherne o esclarece na formosa passagem chamada na seção sobre "Deus no mundo", não se pode conhecer a Natureza em toda sua beleza, essencialmente sagrada, a não ser que primeiro se desprendam os sujos ardis da humanidade adulta.

            Visto através dos óculos, cor de esterco, do egoísmo, o universo se parece singularmente a um mon­tão de esterco; e como, pela longa proximidade, os óculos se pegaram aos globos oculares, o processo de "limpar as portas" da percepção, pelo menos nas primeiras etapas da vida espiritual, é freqüentemente, muito dolorosamente, parecido a uma operação cirúrgica. Certo que, mais adiante, até o próprio desalento pode estar penetrado da alegria do Espírito. Sobre este ponto, a passagem seguinte da Escala de Perfeição, do século XIV é luminoso.

            Muitas vezes o homem tem as virtudes da humildade, paciência e caridade para seus semelhantes só na razão e na vontade; e não encontra deleite espiritual, nem amor nelas; pois freqüentemente sente má vontade, desgosto e amargura em obedecer, mas, entretanto o faz, embora só impulsionado pela razão por temor de Deus. Este homem possui estas virtudes na razão e na vontade, mas não o amor delas nos afetos. Mas quando, pela graça de Jesus e o exercício espiritual e corporal, a razão se torna em luz e a vontade em amor, então possui virtudes nos afetos; pois de tal modo há roído a amarga casca ou quebrada a noz, que a quebrou por fim e já remói até a medula; isto é, as virtudes que era ao princípio difícil de praticar se converteram em verda­deiro deleite e sabor.

                                                                                                                            

Walter Hilton

            Enquanto eu seja isto ou aquilo, ou tenha isto ou aquilo, não sou tudo, nem tenho tudo. Faça-se puro até que não seja, nem tenha isto ou aquilo; então será onipresente e, não sendo isto nem aquilo, será tudo.

                                                                                                                          

Eckhart

            O ponto tão dramaticamente sublinhado por Eckhart nestas linhas é um ponto em que insistiram os moralistas e psicólogos da vida espiritual. Só quando renunciamos nossa preocupação com o "eu", "meu", "minha" podemos possuir realmente o mundo em que vivemos. Tudo é nosso, com a condição de que não olhemos nada como nossa propriedade. E não só tudo é nosso; é também de todos outros.

            De escória e argila difere o bom amar em que nele dividir não é igual a tirar.

            Não pode existir comunismo completo salvo nos bens do espírito e também, até certo ponto, da mente, e só quando estes bens são possuídos por homens e mulheres em estado de desprendimento e abnegação. Algum grau de mortificação, terá que adverti-lo, é indispensável requisito prévio para a criação e gozo até de bens meramente intelectuais e estéticos. Os que escolhem a profissão de artista, filósofo ou homem de ciência, escolhem, em muitos casos, uma vida de pobreza e de duro e não recompensado trabalho. Mas não são estas em modo algum as únicas mortificações que têm que em­preender. Quando contempla o mundo, o artista deve negar sua ordinária tendência humana a pensar a respeito das coisas em termos utilitários, egoístas. Analogamente, o filósofo crítico deve mortificar seu sentido comum, entretanto, o investigador deve resistir firmemente às tentações da simplificação excessiva e o pensamento con­vencional e deve fazer-se dócil às indicações do misterioso Feito. E o que ocorre com os criadores de bens estéticos e intelectuais, também pode dizer-se dos que gozam tais bens uma vez criados. Que estas mortificações não são em nenhum modo corriqueiro se mostrou repetidamente no curso da história. A gente pensa, por exemplo, no intelectualmente mortificado Sócrates e na cicuta com que seus não mortificados compa­triotas o recompensaram. A gente pensa nos heróicos esforços que tiveram que fazer Galileo e seus contemporâneos para romper com a convenção aristotélica do pensamento; e nos esforços, não menos heróicos, que tem que fazer hoje qualquer cientista que acredita que no universo há mais do que pode descobrir-se empregan­do as receitas de Descartes, consagradas pelo tempo. Tais mortificações acham sua recompensa em um estado de consciência que corresponde, em um nível mais baixo, à beatitude espiritual. O artista — o filósofo e o homem de ciência também são artistas— conhece a bem-aventurança da contemplação, o descobrimento e a desinteressada posse estéticos.

            Os bens do intelecto, as emoções e imaginação são bens reais; mas não são o bem último, e quando os tratamos como fins em si mesmos, caímos na idolatria. A mortificação da vontade, desejo e ação não é o bastante; tem que haver também mortificação nos campos do conhecer, pensar, sentir e imaginar.

            As faculdades intelectuais do homem estão, pela Queda, em estado muito pior que seus apetites animem e necessitam de uma abnegação muito maior. E quando a própria vontade, o próprio entendimento e a própria imaginação vêem sua força natural adulada e agradada, e são aparentemente enriquecidos e honrados com os tesouros adquiridos no estudo da literatura, ajudarão tanto ao pobre homem cansado a pensar como Cristo, como a arte culinária, devidamente estudada, possa aproximar de um professor do Evangelho ao espírito e a prática da abstinência cristã.

                                                                                                                          

William Law

            Por ser alemã e escrever-se com K, Kultur foi objeto, durante a Primeira guerra mundial, de zombador menospre­zo. Tudo isto mudou. Na Rússia, a literatura, a arte e a ciência se converteram nas três pessoas de uma nova Trindade humanista. E não está o culto da Cultu­ra confinado à União Soviética. É praticado por uma maioria de intelectuais nas democracias capitalistas. Jornalistas preparados e endurecidos, que escrevem sobre todas as demais coisas com o condescendente cinismo de gente que sabe tudo a respeito de Deus, o Homem e o Universo, e decifraram toda a absurda trama, caem de espanto, de admiração assim que lhe chega o turno à Cultura. Com um ardor e um entusiasmo que são, nas circunstâncias, indescritivelmente ridículos, convidam-nos a compartilhar suas emoções, positivamente religiosas, ante a Arte Supe­rior, conforme se representa nas últimas pinturas murais ou centros cívicos; insistem em que enquanto Mrs. X continuar a escrever seus inimitáveis novelas; e Mr. E suas críticas mais que coleridgianas, o mundo, em que pese a todas as aparências em contrário, tem sentido. A mesma super valorização da cultura, a mesma crença de que a Arte e a literatura são fins em si mesmos e podem florescer isolados de uma razoável e realista filosofia de vida, chegaram a invadir escolas e colégios. Entre os educadores "avançados" há muita gente que parece acreditar que tudo irá bem, enquanto se permita aos adolescentes "expressar­-se a si mesmos" e se inspire aos garotinhos a ser "criadores" na classe de trabalhos artísticos. Mas, ai!, a plastilina e a expressão de si mesmo não resolverão o problema da educação. Tampouco resolverão a tecnologia e a orientação profissional, nem os clássicos, nem as Cem Obras Mestras. As seguintes críticas à educação fize­ram-se mais de dois séculos e meio atrás, mas são tão pertinentes hoje como o foram no século XVII.

            Não sabe nada como deveria sabê-lo aquele que pensa conhecer algo sem ver seu lugar e o modo como se relaciona com Deus, os anjos e os homens, e com todas as criaturas da terra, o céu e o inferno, o tempo e a eternidade.

                                                                                                                    

Thomas Traherne

            Entretanto, algumas coisas eram defeituosas também (em Oxford, sob a República). Não houve nunca um professor que ensinasse abertamente a Felicidade, embora esta seja a Rainha de todas as demais ciências. E nenhum de nós estudou, senão como estranhas, essas coisas que teríamos que estudar como gozos pró­prios. Estudávamos para formar nosso conhecimento, mas não sabíamos para que fim estudávamos. E por falta de apontar a determinado fim, errávamos na maneira.

                                                                                                                      

Thomas Traherne

            No léxico de Traherne "felicidade" significa "beatitude", que se identifica na prática com a liberação, a qual, por sua vez, é o conhecimento unitivo de Deus nos ápices internos e na plenitude, tanto externa como interna.

            O que segue é uma relação das mortificações intelectuais que devem praticar aqueles cuja principal preocupação é o conhecimento da Divindade nas culminações internas da alma.

            Feliz é o homem que, num contínuo apagar de todas as imagens; mediante a introversão e a elevação de seu espírito a Deus, por fim esquece e deixa atrás de si todos esses estorvos. Pois só por este meio opera interiormente, com seu intelecto e afeiçoados desapegos, puros, simples, sobre o mais puro e simples objeto, Deus. Procura, pois, que todo seu exercício em Deus dentro de si se apóie completa e unicamente nesse intelecto, afeto e vontade. Pois na verdade este exercício não pode ser executado por nenhum órgão corporal, nem pelos sentidos externos, a não ser só pelo que constitui a essência do homem —entendimento e amor. Se, pois, desejas firmes degraus e breve atalho para chegar à meta da verdadeira felicidade, com acirrada mente e fervoroso desejo aspira a uma constante limpeza de coração e pureza de espírito. Acrescenta a isto uma constante calma e tranqüilidade dos sentidos, e a lembrança dos afetos do coração, notando-os continuamente no alto. Esforce-se em sim­plificar o coração para que, imóvel e em paz, isento de todo vão fantasma invasor, possa permanecer sempre firme no Senhor que está consigo, em grau tal como se sua alma tivesse entrado já no agora, sempre presente, isto é eternidade, no esta­do da deidade. Subir a Deus é penetrar em si mesmo. Pois aquele que assim ascende e penetra e alcan­ça mais acima e além de si mesmo ascende real­mente até Deus. A mente deve pois, elevar-se por cima de si e dizer: "Aquele que sobretudo preciso, está sobre tudo o que conheço." E assim levada às trevas da mente concentrando-se nesse bem sufi­ciente, aprende a permanecer em casa e com todo seu afeto se adere e fica habitualmente fixo no supremo bem interior. Continua assim, até que seja imutável e alcance a verdadeira vida que é Deus mesmo perpetuamente, sem nenhuma vicissitude de espa­ço ou tempo, descansando nessa interior quietude e secreta mansão da deidade.

                                                                                                                    

Alberto Magno [?]

            Alguns amam o conhecer e discernir como a melhor e a mais excelente de todas as coisas. Eis aqui então o conhecer e discernir vêm em ser amados mais que o discernido; pois a falsa luz natural ama seu conhecimento e faculdades, que são ela mesma, mais que aquilo que se conhece. E se fosse possível que esta falsa luz natural compreendesse a simples Verdade, como é Deus e na verdade, não perderia, contudo, seu proprie­dade, isto é, não poderia apartar-se de si mesmo e de suas próprias coisas.

                                                                                                                    

Theologia Germânica

            A relação entre a ação moral e o conhecimento espiritual é circular, por assim dizê-lo, e recíproca. A con­duta desinteressada faz possível um acesso ao conheci­mento, e o acesso ao conhecimento faz possível a execução de novas ações mais genuinamente desinte­ressadas, as quais, por sua vez, exaltam a capacidade do agente para o conhecimento e assim sucessivamente, se tudo for bem, há perfeita docilidade e obediência, indefinidamente. O processo é resumido em umas poucas linhas do Maitrayana Upanishad. Um homem empreende uma ação reta (o que inclui, é óbvio, a reta memória e a reta meditação) e isto lhe permite ter uma observação do Eu em que descansa sua individualidade separada. "Tendo visto seu próprio eu como o Eu, separa-se do eu (e, portanto, obra abnegadamente) e em virtude de sua abnegação deve conceber-se como incondicionado. Este é o mistério mais alto, que anuncia a emancipação; mediante a abnegação, não toma parte em prazer ou dor (em outras palavras, entra em um estado de desprendimento ou santa indiferença), mas alcança o absoluto" (ou, segundo o exemplo de Alberto Magno, "chega a ser imutável e alcança a verdadeira vida que é Deus mesmo").

            Quando a mortificação é completa, seu fruto mais característico é a simplicidade.

            Um coração simples ama tudo o que é mais precioso na terra, marido ou mulher, pai ou filho, irmão ou amigo, sem que perca sua simplicidade, as coisas externas não lhe atraem, a não ser, assim que conduzem as almas à Ele; todo exagero ou irrealidade, afetação e falsidade se desvanecem junto a tal coração como se seca a umidade sob o sol. O único impulso é agradar a Deus, e daí surge uma total indiferença para o que outros dizem e pensam, de modo que palavras e ações são perfei­tamente simples e naturais, como somente a Sua vida. Tal simplicidade cristã é a perfeição mesma da vida interior: Deus, Sua vontade e prazer, seu só objeto.

                                                                                                                          

  1. Grou

            E eis aqui uma relação mais extensa por um dos grandes Mestres da análise psicológica.

            No mundo, quando se chama simples a alguém, geralmente quer indicar-se que é uma pessoa tola, ignorante e crédula. Mas a simplicidade real, muito longe de ser tola, é quase sublime. Todos os homens bons encontram gosto nela e admiram-na, dão-se conta de que pecam contra ela, observam-na em outros e sabem o que envolve; entretanto, não poderiam defini-la com precisão. Eu diria que a simplicidade é uma retidão de alma que impede a consciência de si mesmo. Não é quão mesmo a sinceridade, que é uma virtude muito mais humilde. São sinceras muitas pes­soas que não são simples. Não dizem nada, senão o que acreditam ser certo, e não tentam aparecer distintas do que são. Mas estão sempre pensando em si mesmas, pesando cada uma de suas palavras e pensamentos, e detendo-se em si mesmos com a apreensão de ter feito pouco ou muito. Estas pessoas são sinceras, mas não são simples. Não se encontram ampliadas com outros, nem outros com elas. Não há nada plano, franco, desembaraçado ou natural nelas. A gente sente que agradariam mais outras pessoas menos admiráveis não com tanta rigidez.

            Ser absorvido pelo mundo que nos rodeia e não voltar nunca o pensamento ao interior, cega condi­ção de alguns que são arrastados pelo agradável e tangível, é um extremo do oposto à simplicidade. E achar-se pensativo em toda matéria, seja esta o dever para com Deus ou para com o homem, é o outro extremo, que faz a uma pessoa sábia em seu próprio conceito —reservada, consciente de si, molesta ante a menor coisa que turve sua própria interior complacência. Essa falsa sabedoria, em que pese a sua gravidade, é apenas menos vã e néscia que a loucura dos que se mergulham de cabeça nos prazeres mundanos. Um se embriaga com o que o rodeia exteriormente, o outro com o que acredita fazer interiormente; mas ambos se acham em estado de embriaguez, e o último é pior estado que o primeiro porque parece ser pru­dente, embora não o é em realidade, e assim não procura curar-se. A simplicidade real se acha em um justo meio, igualmente livre de ligeireza e afetação, em que a alma não é afligida pelo externo, de tal modo que não seja capaz de refletir, nem tampouco entregue a intermináveis refinamentos, que a cons­ciência de si mesmo induz. A alma que olhe aonde vai perder tempo discutindo cada um de seus passos ou olhando perpetuamente para trás, é a que possui a verdadeira simplicidade. Tal simplicidade é real­mente um grande tesouro. Como a alcançaremos? Daria tudo o que possuo por ela; é a custosa pérola da Sagrada Escritura.

            O primeiro passo, pois, é que a alma desligue-se das coisas externas e olhe ao interior para conhecer seu interesse real; até aqui tudo é justo e natural; isso é só um amor próprio prudente, que procura evitar a embriaguez do mundo.

            No passo seguinte, a alma deve acrescentar à contem­plação de Deus, a Quem teme, a si mesmo. Esta é uma débil aproximação à sabedoria verdadeira, mas a alma está ainda muito absorta: não se contenta temendo a Deus; quer estar segura de que lhe teme e teme não lhe temer, e assim roda em um perpétuo círculo abstrato. Toda esta inquieta deten­ção no eu está muito longe da paz e a liberdade do amor verdadeiro; mas este está, entretanto, a distância, a alma deve necessariamente passar por um período de prova, e se se visse subitamente submergindo em estado de calma, não saberia como utilizá-lo.

            No terceiro passo, cessando na inquieta contemplação de si mesmo, a alma começa a deter-se em Deus e gradualmente se esquece nele. Repleta de Deus, deixa de nutrir-se em si mesmo. Uma alma assim não está cega ante suas próprias faltas nem é indiferente a seus próprios enganos; tem mais consciência deles que nunca, e uma luz crescente os mostra mais distintamente, mas este conhecimento de si mesmo lhe vem de Deus e por excelência, não é inquieto nem aborrecido.

                                                                                                                                        Fénelon

            Quão admiravelmente agudo e sutil é isto! Uma das vaidades mais extraordinárias, pelo gratuito, do século XX é a hipótese de que ninguém sabia nada de psicologia antes dos dias de Freud. Mas a autêntica verdade é que a maioria dos psicólogos modernos entendem menos aos seres humanos que os mais aptos de seus predecessores. Fénelon e La Rochefoucauld sabiam tudo referente à racionalização superficial de motivos profundos, vergonhosos, residentes no subconscien­te, e advertiam plenamente que a sexualidade e a vontade de poder eram, com muita freqüência, as forças efetivas que obravam sob a máscara cortês da perso­na. Maquiavel tinha esboçado a distinção de Pareto entre "resíduos" e "derivações" —entre causas reais, egoístas, da ação política e as caprichosas teo­rias, princípios e ideais em cujos termos tal ação é explicada e justificada ante o crédulo público. Como a de Buda e São Agustín, a opinião que Pascal tinha da virtude e da racionalidade humanas não podia ser mais realisticamente baixa. Mas todos estes homens, até La Rochefoucauld, até Maquiavel, davam-se conta de certos fatos que os psicólogos do século XX preferiram passar por cima —o fato de que a natureza huma­na é tripartida, consistente em espírito, como em mente e corpo; o fato de que vivemos nos confins entre dois mundos, o temporal e o eterno, o físico-vital-humano e o divino; o fato de que, embora nada em si mesmo, o homem é "um nada rodeado por Deus, falta de Deus, capaz de Deus e pleno de Deus, se assim o desejar".

            A simplicidade cristã, de que falam Groa e Fénelon, é o mesmo que a virtude tão admirada por Lao Tse e seus sucessores. Segundo estes sábios chineses, peca­dos pessoais e os desajustes sociais se devem todos ao fato de afastarem os homens de sua divina fonte e vivido de acordo com suas próprias vontades e idéias e não segundo o Tao —que é o Grande Caminho, o Logos, a Natureza das Coisas, segundo se manifesta em todos os planos, do físico, subindo pelo ani­mal e o mental, até o espiritual. A iluminação vem quando abandonamos nossa obstinação e nos faze­mos dóceis ao obrar o Tao no mundo que nos rodeia e em nossos próprios corpos, mente e espíritos. Às vezes os filósofos taoístas escrevem como se acreditassem no Nobre Selvagem de Rousseau e (sendo chineses e estando, portanto, muito mais preocupados com o concreto e prático que com o meramente especulativo) se comprazem em prescrever métodos mediante os quais os gover­nantes poderiam reduzir a complexidade da civilização e preservar assim a seus súditos das corruptoras influências das convenções de pensamento, sentimento e ações feitas pelo homem e, portanto, eclipsadoras do Tao. Mas os governantes que têm que cumprir esta tarefa para as massas devem ser também sábios, e para alcançar a sabedoria terá que desembaraçar-se de toda a rigidez, da não regenerada idade adulta e voltar-se de novo como um menino. Pois só o que é brando e dócil vive realmente; o que vence e sobrevive a tudo é o que se adapta a tudo, o que sempre procura o lugar mais baixo; não a rocha dura, a não ser a água que gasta os montes perduráveis, a simplicidade e espontaneidade do sábio perfeito são fruto da mortificação —mortificação da vontade e, pelo recolhimento e a meditação, da mente. Só o artista mais altamente disciplinado pode reco­brar, em um plano mais elevado, a espontaneidade do menino com sua primeira caixa de pinturas. Nada é mais difícil que ser singelo.

            —Posso perguntar —disse Yen Hui— em que consiste o jejum do coração?

            —Cultiva a unidade —respondeu Confucio—. Ouça, não com os ouvidos, a não ser com a mente; não com a mente, a não ser com sua alma mesma. Deixa que seu ouvir se detenha em seus ouvidos. Deixa que o obrar de sua mente se detenha em si mesmo. Então a alma será uma existência negati­va e responderá passivamente ao externo. Nessa negativa existência só pode residir o Tao. E esse estado negativo é o jejum do coração.

            —Logo —disse Yen Hui— a razão por que não pude alcançar o uso deste método é minha própria individua­lidade. Se pudesse alcançar seu uso, minha individualidade se teria ido. É isto o que expressas com o estado negativo?

            —Exatamente —respondeu o Mestre—. Deixe-me explicar. Se pode entrar nos domínios deste príncipe (um mal governante a quem Yen Hui tinha a ambição de reformar) sem ofender seu amor próprio, alegre-se e ouça, passivo se não; sem ciência, sem drogas, simplesmente vivendo ali em estado de completa indi­ferença, estará perto do êxito...

            Olhe essa janela. Por ela uma estância vazia, luz com a paisagem; mas a paisagem fica fora. Neste sentido pode usar seus ouvidos e seus olhos para comuni­car com o interior, mas fecha toda sabedoria (no sentido de convencionais máximas livrescas) fora de sua mente. Este é o método para regenerar toda a criação.

                                                                                                                    

Chuang Tse

            A mortificação pode considerar-se, neste aspecto, como um procedimento de estudo, pelo qual aprende­mos por fim a ter reações não estudadas ante os fatos —reaja em harmonia com o Tao, a Talidad, a Vontade de Deus. Os que se fizeram dóceis à divina Natureza das Coisas, os que respondem às circunstâncias, não com avidez e aversão, a não ser com o amor que lhes permite fazer espontaneamente o que lhes agrada; os que na verdade podem dizer: Não eu, a não ser Deus em mim, tais homens e mulheres são comparados pelos expositores da Filosofia Perene aos meninos, aos parvos e simples, e até às vezes, como na seguinte passagem, aos ébrios.

            Um ébrio que cai de uma carreta, embora sofra, não morre. Seus ossos são como os de outros; mas sofre o acidente de diferente modo. Seu espírito se acha em uma condição de segurança. Não se dá conta de que viaja em uma carreta, tampouco de que cai dela. As idéias de vida, morte, temor e outras parecidas não podem penetrar seu peito, e por isso não sofre com o contato da existência objetiva. Se tal segurança po­de obter do vinho, quanta mais não poderá obter-se de Deus?

                                                                                                                            

Chuang Tse

            Por longa obediência e duro trabalho obtém o artista a não forçada espontaneidade e a maestria consumada. Saben­do que nunca poderá criar nada por sua própria conta, das camadas superiores, por assim dizê-lo, de sua consciência, submete-se obedientemente ao funcionamento da "inspira­ção"; e sabendo que o meio em que trabalha tem seu próprio caráter, que não deve ser desconhecido nem violenta­mente atropelado, converte-se em seu paciente servidor e, deste modo, obtém uma perfeita liberdade de expressão. Mas a vida é também uma arte, e o homem que queira ser também no viver artista consumado deve seguir, em todos os planos de seu ser, o mesmo procedimento mediante o qual chega o pintor ou escultor, ou qualquer outro artífice, a sua própria, mais limitada, perfeição.

            O cozinheiro do príncipe Hui estava esquartejando um boi. Cada golpe de sua faca, cada esforço de seus ombros, cada passo de seus pés cada pedaço de carne rasgada, cada toque de sua faca estavam em perfeita harmonia —rítmicos como a Dança do Soto dos Morais, simultâneos como os lembra Ching Shou.

            —Bravo! —exclamou o Príncipe—. Grande é sua habilidade!

            —Senhor —respondeu o cozinheiro—, sempre me consagrei ao Tao. É melhor que a habilidade. Quando comecei a esquartejar bois, só via ante mim bois inteiros. depois de três anos de prática já não vi animais inteiros. E agora trabalho com a mente e não com os olhos. Quando meus sentidos mandam deter-me, mas minha mente insiste que continue, apóio-me em princípios eternos. Sigo as aberturas ou cavi­dades que possa haver, segundo a natural constituição do animal. Não tento cortar as articulações e até menos os ossos grossos.

            "Um bom cozinheiro muda sua faca uma vez ao ano, porque corta. Um cozinheiro ordinário, uma vez ao mês, porque talha. Mas eu tive esta faca por deze­nove anos, e embora haja talhado muitos milhares de bois, seu fio está como recém passado pela pedra de amolar. Pois nas articulações sempre há in­terstícios, só faz falta introduzir a ponta da ­tábua delgada em tais interstícios. Deste modo o interstício se alarga, e a lâmina encontra local de sobra. Assim conservei minha faca durante dezenove anos, como recém passada pela pedra de amolar.

            "Contudo, quando me encontro com uma parte dura, em que a lâmina encontra dificuldade, sou todo cautela. Fixo minha vista nela. Detenho minha mão e aplico a lâmina brandamente, até que com um juah a parte cede como terra que cai esmiuçada. Então reti­ro a lâmina e me endireito e miro em torno; e por fim limpo minha faca e a guardo cuidadosamente."

            —Bravo! —exclamou o Príncipe—. Das palavras deste cozinheiro aprendi como cuidar minha vida.

                                                                                                                                

Chuang Tse

            Nos primeiros sete ramos de seu Óctuplo Caminho, o Buda descreve as condições que devem cumprir-se por aquele que deseja chegar a reta contemplação, que é o ramo oitavo e final. O cumprimento destas condi­ções leva consigo o seguir um curso da mais pene­trante e completa mortificação —mortificação do inte­lecto e a vontade, desejo e emoção, pensamento, fala, ação e, finalmente, dos meios de vida. Certas profissões são mais ou menos completamente incompatíveis com o lucro do fim último do homem; e existem certos modos de ganhar a vida que causam tanto dano físico e, sobretudo, tanto dano moral, intelectual e espi­ritual que, embora pudessem ser praticados com espírito de desprendimento (o que geralmente é impossível), deveriam contudo ser evitados pelo que se dedique à tarefa de libertar, não só a si mesmo, mas também a outros. Os expositores da Filosofia Perene não se contentam evitando proibir a prática de profissões criminais, tais como explorar lupanares, cobrar barato, falsificar e outras parecidas; também evitam, e põem em guarda contra eles, certos modos de viver usualmente tidos por legítimos. Assim, em muitas sociedades budistas, a manufatura de armas, a destilação de bebidas alcoó­licas e a provisão em grandes quantidades de carne não eram, como na cristandade contemporânea, premiadas com a ri­queza, títulos nobiliários e influência política; eram de­plorados como negócios que, conforme se acreditava, faziam especialmente difícil para seus praticantes, e para outros membros das comunidades em que se praticavam, o alcançar a iluminação e liberação. Analogamente, na Europa medieval estava proibido aos cristãos ganhar vida emprestando a interesse ou monopolizando. Como Tawney e outros nos mostraram, só depois da Reforma o cortar cupons, a usura e a especulação com valores ou gênero se fizeram respeitáveis e receberam a aprovação eclesiástica.

            Para outros quaisquer, a tropa é uma forma errônea de vida; pois a guerra é, a seus olhos, anticristã, nem tanto por causar dos sofrimentos, quanto porque propaga o ódio, dá recompensa à fraude e a crueldade, infecta sociedades inteiras de ira, temor, orgulho e falta de caridade. Tais paixões eclipsam a Luz Interior, e por excelência, as guerras, que as provocam e intensificam, devem ser consideradas, seja qual for seu resultado político imediato, como cru­zadas para assegurar ao mundo às trevas espirituais.

            Viu-se, por experiência, que é perigoso estabelecer regras detalhadas e inflexíveis para o reto viver; perigoso, porque muita gente não vê nenhuma razão para muita retidão e, em conseqüência, responde, à disposição de um código muito rígido, com a hipocrisia ou a franco rebelião. Na tradição cristã, por exemplo, se estabelece uma distinção entre os preceitos obrigatórios para todos e os conselhos de perfeição, obrigatórios somente para aqueles que se sintam atraídos para uma total renúncia do "mundo". Os preceitos incluem o código moral ordinário e o mandamento de amar a Deus com todo o coração, força e espírito, e ao próximo como a si mesmo. Alguns dos que fazem um sério esforço para cumprir este último mandamento, o maior de todos, vêem que não podem fazer de todo coração, sem seguir os conselhos e romper todos seus laços com o mundo. Entretanto, é possível para homens e mulheres o lucro dessa "perfeição", que é liberação no conhecimento unitivo de Deus, sem abandonar o estado de matrimônio e sem vender tudo o que têm para dar o produto aos pobres. A pobreza efetiva (não possuir dinheiro) não é em modo algum sempre pobreza afetiva (ser indiferente ao dinheiro). Pode-se ser pobre, mas estar desesperadamente preocupado com o que pode comprar com dinheiro, cheio de desejos, de inveja e de amarga compaixão de si mesmo. Outro pode ter dinheiro, mas nenhum apego ao dinheiro nem às coisas, poderes e privilégios que podem comprar com dinheiro. A "pobreza evangélica" é uma combinação das pobrezas efetiva e afetiva; mas uma autêntica pobreza de espírito é possível até nos que não são efetivamente pobres. Vê-se, pois, que os problemas do reto viver, assim que ficam fora da jurisdição do código moral comum, são estritamente pessoais. O modo como um problema determinado se apresenta e o caráter da solução apropriada dependem do grau de conhecimento, sensibilidade moral e penetração espiritual obtida pelo indivíduo em questão. Por esta razão não podem formular-se regras universais exceto em termos mais gerais. "Eis aqui meus três tesouros —diz Lao Tse— Guarda-os bem! O primeiro é a piedade, o segun­do a frugalidade, o terceiro a negativa a ser primeira de todas as coisas sob o céu." E quando um estranho pede à Jesus que arrume uma disputa, entre seu irmão e ele, sobre uma herança, Jesus recusa ser juiz na causa (pois não conhece as circunstâncias) e pronuncia uma advertência geral contra a cobiça.

            Ga-san ensinava a seus fiéis um dia: "Os que falam contra o matar e desejam deixar salvas as vidas de todos os seres conscientes, estão certos. Bom é proteger até os animais e os insetos. Mas, o que diremos das pessoas que matam o tempo, quanto as que destroem a riqueza e das que assassinam a economia de sua sociedade? Não deveríamos passar por cima. E também, o que diremos daquele que prega sem esclarecimento? Está matando o budismo."

                                                                                              

De "Cento uma história do Zen"

            Uma vez Ibrahim, ocupando seu trono, ouviu um clamor e ruído de gritos sobre o teto e pesados passos acima em seu palácio. Disse: "De quem são estes pés tão pesados?" Apareceu à janela e gritou: "Quem vai lá?" Cheios de confusão, os guardas se inclinaram dizendo:

            "Nós somos, que fazemos ronda em busca." Ele disse: "O que procuram?" Disseram: "Os camelos." Disse: "Quem procurou alguma vez camelos sobre o teto?" Disseram: "O exemplo que você nos dá seguimos, pois a união com Deus procura, ocupando seu trono."

                                                                                                                  

Jalal-uddin Rumi

            De todos os problemas sociais, morais e espirituais o do poder é o mais cronicamente urgente e o de solução mais difícil. O anseio de poder não é um vício do corpo e, em conseqüência, não conhece nenhuma das limitações impostas por uma fisiologia cansada ou sacia­da à gula, a intemperança e a lascívia. Crescendo com cada satisfação sucessiva, o apetite de poder pode manifestar-se indefinidamente, sem interrupção por fadiga ou enfermidade corporal. Além disso, a natureza da so­ciedade é tal que quanto mais se eleva um homem na hierarquia política, econômica ou religiosa, tanto maiores são suas oportunidades e recursos para exercer o po­der. Mas a ascensão da escala hierárquica é ordinaria­mente um processo lento, e os ambiciosos raramente al­cançam o pico até que estão já muito avançados na vida. Quanto mais velho é, tantas mais probabilidades tem o que ama o poder para sentir prazer no pecado que o acossa, quanto mais continuamente é submetido a tentações, e mais fascinadoras são essas tentações. A este respeito, sua situação é profundamente distinta da do libertino. O último possivelmente nunca voluntariamente abandone seus vícios, mas pelo menos, ao carregar-se de anos, encontra-se com que seus vícios o abandonam, o primeiro nem abandona seus vícios nem é abandonado por eles. Em lugar de outorgar ao amador de poder uma piedosa pausa de seus apegos, a velhice, melhor inclina à intensificá-los facilitando-lhe a satisfação de suas ânsias em maior escala e de modo mais espetacular. Por isso, segundo as palavras de Acton, "todos os grandes homens são maus". Podemos, pois, nos surpreender de que a ação política, empreendida, em muitos casos, não pelo bem público, a não ser somente, ou pelo menos principalmente, para satisfazer a avidez de poder de homens maus, resulte tão freqüentemente embrutecedora ou francamente desastrosa?

            "Létat c'est moi", diz o tirano; e pode dizer-se, é óbvio, não só do autocrata situado no vértice da pirâmide, mas também de todos os membros da minoria gover­nante através da qual aquele governa e que são, de fato, os verdadeiros governantes da nação. Além disso, enquanto a política que satisfaz as ânsias de poder da classe governante tenha êxito, e enquanto o preço do êxito não seja muito alto, até as massas de governados sentirão que o Estado são eles —vasta e esplêndida projeção do eu intrinsecamente insignificante do indivíduo. O pequeno homem pode satisfazer sua avidez de poder delegadamente, mediante as atividades do Estado impe­rialista, do mesmo modo que o faz o homenzarrão; a dife­rença entre eles é de grau não de classe.

            Não se idealizou nunca um método infalível para con­trolar as manifestações políticas do anseio de poder. Como o poder é, por sua essência mesma, indefinidamente expansivo, não pode deter-se, a não ser em choque com outro poder. Daí que toda sociedade que estime a liberdade, no sentido de governo pela lei, mas bem que por interesse de classe ou decreto pessoal, deve procurar que o poder de seus governantes esteja repartido. A união nacio­nal significa servidão nacional a um só homem e a oligarquia que o apóia. A desunião organizada e equili­brada é a condição necessária da liberdade. A Leal Oposição de sua Majestade é a seção mais leal, por ser a mais autenticamente útil, de toda comunidade que ame ser livre. Além disso, como o apetite de poder é puramente mental e, portanto, insaciável e imune à enfermidade e à velhice, nenhuma comunidade que aprecie a liberdade pode permitir-se dar a seus governantes longos prazos no cargo. A ordem dos cartuchos, "nunca reformada, porque nunca deformada", devia sua longa imunidade à corrupção ao fato de que seus abades eram escolhidos por períodos de só um ano. Na antiga Roma o grau de liberdade segundo a lei estava em razão inversa ao tempo que durava o cargo dos magistrados. Estas regras para controlar o anseio de poder se formulam muito facilmente, mas é muito difícil, segundo a história mostra, fazê-las cumprir na prática. É especialmente difícil fazê-las cumprir em um período como o presente, em que o meca­nismo político, consagrado pelo tempo, está ficando antiquado, a causa da rápida mudança tecnológica, e em que o saudável princípio da desunião organizada e equilibrada requer que a encarne em novas e mais apropriadas instituições.

            Acton, o douto historiador católico, opinava que todos os grandes homens são maus; Rumi, o poeta e místico persa, pensava que procurar a união com Deus enquanto se ocupa um trono era uma empreitada um pouco menos sensata que ir procurando camelos pelos telhados. Uma nota ligeira­mente mais otimista nos dá São Francisco de Sales, cujas opiniões sobre a matéria foram recolhidas por seu boswelliano discípulo, o jovem bispo do Belley.

            —Mon Père —lhe disse um dia—, como é possível que os que ocupam um cargo elevado pratiquem a virtude da obediência?

            Francisco de Sales repôs:

            —Têm modos maiores e excelentes para fazê-lo que seus inferiores.

            Como não compreendia eu esta resposta, continuou dizendo:

            —Os que estão ligados pela obediência se acham usualmente sujeitos a um solo superior... Mas aqueles que já são superiores têm campo mais extenso para a obediência, até enquanto estão mandando: pois se recordarem que é Deus quem os colocou por cima de outros homens e lhes dá o mando que têm, exercerão por obediência a Deus e assim, até mandando, obedecerão. Além disso, não há posição tão alta que não esteja sujeita a um superior espiritual em que concerne à consciência e a alma. Mas existe um ponto até mais elevado de obediência ao qual todos supe­riores podem aspirar, aquele a que se refere São Paulo quando diz: "Embora seja livre para com todos os homens, faço-me servente de todos." Por esta univer­sal obediência a todos convertemos em "tudo para todos", e servindo a todos por amor de Nosso Senhor, consideramo-los a todos nossos superiores.

            De acordo com esta regra, observei freqüentemente que Francisco de Sales tratava a todos, até às mais insignificantes pessoas que se aproximassem como se ele fora seu inferior, não rechaçando nunca a ninguém, não recusando nunca entrar em conversação falar ou escutar, não demonstrando nunca o mais leve sinal de cansaço, impaciência ou irritação, por importuna ou in­oportuna que fosse a interrupção. Aos que per­guntavam por que desperdiçava assim seu tempo, sua constante resposta era: "É a vontade de Deus; é o que Ele exige de mim; que mais tenho que pedir? Enquanto faço isto, não me exige que faça outra coisa. A Santa Vontade de Deus é o centro de onde tudo tem que irradiar; todo o resto é só fastidioso e excitação."

                                                                                                                          

Jean Pierre Camus

            Vemos, pois, que um "grande homem" pode ser bom — bom até para aspirar ao conhecimento unitivo da Base divina— sempre que, enquanto exerce o poder, cumpra duas condições. Primeiro, deve negar-se todas as vantagens pessoais do poder e deve praticar a paciência e o recolhimento, sem os quais não pode haver amor nem do homem nem de Deus. E, segundo, deve advertir que seu poder temporário não lhe dá autoridade espiritual, que pertence só aos videntes, vivos ou mortos, que obtiveram uma penetração direta na Natureza das Coisas. Uma sociedade em que o amo seja bastante louco para acreditar-se profeta é uma sociedade condenada à destruição. É viável uma sociedade em que aqueles que se puseram em condições para ver, indiquem os objetivos a que deve apontar, enquanto aqueles cuja tarefa é governar respeitem a autoridade e escutem o conselho dos videntes. Em teoria, pelo menos, tudo isto era bem compreendido na Índia e, até a Reforma, na Europa, onde "não havia posição tão alta que não estivesse sujeita a um superior espiritual no que concerne à consciência e a alma". Desafortunada­mente, as igrejas tentaram combinar ambos os mundos —a autoridade espiritual e o poder temporário, dirigidos diretamente ou através do trono. Mas a autoridade espi­ritual só pode exercer-se por aqueles que são perfeitamente desinteressados e cujos motivos estão, portanto, acima de qualquer suspeita. Uma organização eclesiás­tica pode chamar-se a si mesmo Corpo Místico de Cristo; mas se seus prelados possuem escravos e governam Estados, como o faziam no passado, ou se a corporação é um capitalista em grande escala, como acontece hoje em dia, nenhum título, por honorífico que seja, pode ocultar o fato de que, quando julga, o faz como parte interessada, com segundas intenções política ou econômica. Certo que, em matérias que não afetam diretamente os poderes temporários da corporação, os clérigos podem ser individualmente, e alguns o demonstraram, perfeita­mente desinteressados —e portanto podem possuir e possuíram uma genuína autoridade espiritual. São Felipe Neri é um caso a propósito. Não possuindo absolutamente nenhum poder temporário, exerceu entretanto uma prodigiosa influência na Europa do século XVI. Pode duvidar-se que, sem essa influência, os esforços do Concílio de Trento para reformar a Igreja romana de dentro tivessem muito êxito.

            Na prática, quantos grandes homens cumpriram jamais, ou é provável que cumpram, as condições in­dispensáveis para que o poder seja inócuo para o gover­nante e os governados? É óbvio que muito poucos. Exce­to para os santos, o problema do poder é finalmente insolúvel. Mas com uma autêntica autonomia é possível só em grupos muito pequenos, as sociedades em escala nacional ou supranacional serão sempre governadas por minorias oligárquicas, cujos membros alcançam o poder porque estão movidos pelo anseio do mesmo. Isto signi­fica que o problema do poder se apresentará sempre e, não podendo resolver, a não ser por pessoa como Francisco de Sales, causará sempre perturbações. E isto, por sua vez, significa que não podemos esperar que as sociedades em grande escala do futuro sejam muito melhores do que foram as sociedades do passado durante os breves pe­ríodos em que melhor se comportaram.

 

                   A VERDADE

            O que está conversando a respeito de Deus? Algo que você Dele diga é falso.

                                                                                                                              

Eckhart

            Na literatura religiosa a palavra "verdade" é em­pregada sem discriminação em pelo menos três distintos e muito diferentes sentidos. Assim, às vezes é tratada como sinônimo de "feito", como quando se afirma que Deus é a Verdade, significando que é a Realidade primitiva. Mas claramente não é este o sentido da palavra em uma frase tal como "adorar a Deus no espírito e a verdade". Aqui, evidentemente, "verdade" significa apreensão direta do Fato espiritual, em distinção com o conheci­mento de segunda mão a respeito da Realidade, formula­do em frases e aceito por proceder de uma autoridade ou porque uma argumentação, a partir de postulados previa­mente aceitos, resultou logicamente convincente. E fi­nalmente há a acepção mais ordinária do vocábulo, como em tal frase como "Esta afirmação é a verdade", com que nos propomos expor que os símbolos ver­bais de que se compõe a afirmação correspondem aos fatos a que se refere. Quando Eckhart escreve: "Algo que você diga de Deus é falso", não afirma que todas as afirmações teológicas são falsas. Até onde possa haver alguma correspondência entre símbolos humanos e Feito divino, algumas afirmações teológicas são tão verdadeiras como nos é possível fazer que o sejam. Como teólogo, Eckhart haveria sem dúvida admitido isto. Mas, além de teólogo, Eckhart era místico. E, sendo místico, compreendia muito vivamente o que o moderno semântico tão industriosamente (e, também, com tão pouco êxito) tenta inculcar nas mentes contemporâneas; ou seja, que as palavras não são quão mesmo as coisas e que um conhecimento de palavras a respeito de feitos não é em modo algum equiva­lente a uma apreensão direta e imediata dos fatos mesmos. O que Eckhart realmente afirma é isto: qual­quer coisa que possa dizer-se a respeito de Deus não pode ser nunca, em nenhuma circunstância, a "verdade", nos dois primeiros sentidos desta maltratada e ambígua palavra. Igualmente, São Tomás de Aquino dizia exatamente o mesmo quando, depois de sua experiência da contemplação infusa, recusava continuar com sua obra teológica, declarando que tudo o que escrevera até então era uma simples palha comparado com o conhecimento imediato que lhe fora outorgado. Duzentos anos antes, em Bagdad, o grande teólogo maometano Al Ghazzali havia analogamente descuidado a consideração de verdades a respeito de Deus pela contemplação puramente e apreensão direta da Verdade-Feito, a disciplina puramente intelectual dos filósofos pela disciplina moral e espiritual dos sufis.

            A conseqüência moral de tudo isto é óbvia. Sempre que ouvirmos ou lermos algo a respeito de "a verdade", devemos nos deter, nos perguntar em qual dos três sentidos mencionados antes a palavra é, naquele ­momento, empregada. Tomando esta simples precaução (e tomá-la é um ato, genuinamente virtuoso, de honradez intelectual), economizaremo-nos muita confusão mental, perturbadora e completamente desnecessária.

            Querendo tentar aos cegos, soltou o Buda em jogo palavras de sua boca de ouro; céu e terra estão repletos, desde um enredo de sarças.

                                                                                                                  

Dai-o Kokushi

            Não há nada verdadeiro em nenhum local, em nenhum local se encontra a Verdade. Se você disser que vê a Verdade, esta visão não é verdadeira.

            Quando a Verdade é deixada a si mesmo, não há nada falso nela, pois é a Mente mesma.             Quando a Mente em si mesmo não é libertada do falso, não há nada verdadeiro; em nenhum local se encontra a Verdade.

                                                                                                                                

Fugi Neng

            A verdade, realmente, não foi nunca pregada pelo Buda, pois cada um deve descobri-la em si mesmo.

                                                                                                                             Sutralamkara

            Quanto mais se viaja, menos se sabe.

                                                                                                                              

Lao Tse

            —Ouçam, ouçam! —gritou Macaco—. Após toda a moléstia que aqui veio na China, e depois de ter ordenado, você especialmente, que tinham que nos dar as Escrituras, Anan-da e Kasyapa cometeram uma entrega fraudulenta de gê­neros. Deram-nos exemplares em branco para que os levássemos. Eu pergunto: "Para que vai servir isto?"

            —Não há necessidade de gritar —disse o Buda sorrindo—. De fato, são esses cilindros em branco as verdadeiras Escrituras. Mas já vejo que a gente da China é muito simples e ignorante para acreditar nisto, de modo que não há mais remédio que lhe dar exemplares com algo escrito neles.

                                                                                                          

Wu Ch'êng-ên

            Os filósofos são fartamente avisados, mas falta-lhes prudência; outros, ou são ignorantes ou pueris. Acreditam que o punho vazio contém algo real e que o dedo que assinala é o objeto famoso. Agarrando-se ao dedo como se fora a Lua, todos seus esforços se perdem.

                                                                                                                      

Yoka Daishi

            O que se conhece por ensino do Buda não é o ensino do Buda.

                                                                                                                    

Sutra Diamante

            —Qual é o ensino final do budismo? —Não compreenderá até que o possua.

                                                                                                                            

Shih-t'ou

            O tema da Filosofia Perene é a natureza da Realidade eterna, espiritual; mas a linguagem em que deve formular-se foi desenvolvida para tratar fenômenos tem­porais. Por isso, em todas estas formulações achamos um elemento de paradoxo. A natureza da Verdade-Feito não pode descrever-se por meio de símbolos verbais a que não lhe correspondem adequadamente. No melhor caso, só pode aludir-se a ela em termos de non sequitur e contradição.

            À estes inevitáveis paradoxos, alguns escritores espiri­tuais quiseram lhes acrescentar premeditadas e calculadas enormidades de linguagem —duras, exageradas, irônicas ou humorísticas extravagâncias, destinadas a sur­preender o leitor e arrancar a complacência de si mesmo, que é o pecado original do intelecto. Com esta segunda classe de paradoxo estavam especialmente afeiçoados os Mestres do taoísmo e do budismo Zen. Em realidade, os últimos fazem uso do paralogismo, e até do disparate, como meio para "forçar o reino do céu". Os aspirantes à vida de perfeição eram estimu­lados a praticar a meditação discursiva segundo alguma forma completamente ilógica. O resultado era uma espécie de redução ao absurdo de todo o processo discursivo centrado em si mesmo e no mundo, um súbito sair da "razão" (segundo a linguagem da filosofia escolástica) fazia o "intelecto" intuitivo, capaz de autêntica penetração na divina Base de todo ser. Este método nos parece estranho e excêntrico; mas fica o fato de que obrava até o ponto de produzir em muitas pessoas a final metanóia, ou transformação da consciência e do caráter. O uso pelo Zen de extravagâncias quase cômicas para sublinhar verdades filosóficas que considerava importan­tíssimas se mostra bem na primeira das entrevistas prece­dente. Nem sequer imaginamos seriamente que um Avatar prega para dar um divertimento à raça humana. Mas enquanto isso o autor conseguiu nos tirar de nossa complacência habitual com o universo verbal de confecção caseira em que normalmente passamos a maior parte de nossa vida. As palavras não são fatos, e ainda menos o Fato primitivo. Se tomarmos com excessiva seriedade, perderemos nosso caminho em um bos­que de sarças trapaceiras. Mas se, pelo contrário, não tomarmos com bastante seriedade, ficaremos sem dar-­nos conta de que há um caminho que perder, ou uma meta a qual chegar. Se os Iluminados não pregassem, não haveria salvação para ninguém. Mas, como as mentes e linguagens humanas são o que são, esta pregação, necessária e indispensável, está rodeada de perigos. A história de todas as religiões se parece em um ponto importante; alguns de seus fiéis são esclarecidos e liber­tados, porque souberam reagir apropriadamente ante as palavras que os fundadores deixaram cair; outros alcançam uma salvação parcial com uma adequação par­cial; outros, enfim, machucam-se a si mesmos e a seu próximo reagindo de um modo totalmente inapropriado, seja fazendo caso omisso dessas palavras, ou tomando muito a sério e tratando-as como se fossem idênticas com o Fato a que se referem.

            Que as palavras são indispensáveis e, em muitos casos, fatais foi reconhecido por todos os expositores da Filosofia Perene. Assim, Jesus disse de si mesmo que trazia para o mundo algo pior que sarças, uma espada. São Paulo distinguia entre a letra que mata e o espírito que vivifica. E ao longo dos séculos que seguiram, os Mestres da espiritualidade cristã acreditaram necessário insistir uma e outra vez sobre um tema que nunca foi antiquado porque homo loquax, o animal falante, deleita-se ainda ingenuamente em sua principal habilidade, ainda vítima de suas próprias palavras tão desam­paradas, como quando se estava construindo a Torre de Babel. Anos recentes viram a publicação de nume­rosas obras sobre semântica e de um oceano de propagan­da nacionalista, racial e militarista. Nunca tantos escritores capazes, advertiram à humanidade o perigo dos enganos verbais, e nunca se empregaram as palavras tão temerariamente pelos políticos nem foram tomadas mais a sério pelo público. Este fato é sem dúvida prova suficiente de que, sob formas cambiantes, os velhos problemas continuam sendo o que sempre foram —urgentes, não resolvidos e, segundo todas as aparências, insolúveis.

            Tudo o que a imaginação pode imaginar e o entendimento receber e entender nesta vida não é nem pode ser meio próximo para a união de Deus.

                                                                                                                      

San Juan de la Cruz

            Áridas e estéreis especulações podem abrir as pregas da vestimenta da Verdade, mas não podem desco­brir seu amável rosto.

                                                                                                              

John Smith, o platonista

            Em todos os rostos se mostra o Rosto dos rostos, velado e em enigma. Seja como for, sem véu não se vê, até que, sobre todos os rostos, entra o homem em secreto e místico silêncio, onde não há conhecimento nem conceito de rosto. Esta névoa, nuvem obs­cura, ou ignorância, na qual entra aquele que busca sua Face, quando vai além de conhecimento e concei­to, é o estado sob o qual seu Rosto não pode achar­-se, a não ser velado; mas essa mesma obscuridade revela que seu Rosto está ali além de todo véu. Por onde observo quão necessário é para mim o entrar na escuridão e admitir a coincidência de contrários, fora de todo alcance da razão, e procurar a Verdade ali onde a impossibilidade vem a nosso encontro.

                                                                                                                    

Nicolás de Cusa

            Como a Divindade não tem nome e todo nomear é alheio a Deus, assim a alma não tem nome; pois é aqui quão mesmo Deus.

                                                                                                                                      Eckhart

            Olhe que, pois Deus é inacessível, não repare assim que suas potências podem compreender e seu sentido sentir, porque não se satisfaça com menos e perca sua alma a ligeireza conveniente para ir a Ele.

                                                                                                                    

San Juan de la Cruz

            Achar ou conhecer Deus na realidade por provas externas, ou algo salvo Deus mesmo manifes­tado e evidente em si, não ocorrerá nunca aqui nem mais à frente. Porque nem Deus, nem o céu, nem o inferno, nem o demônio, nem a carne podem ser de outro modo cognoscíveis em si ou por si, mas sim por sua própria existência ou manifestação em si. E todo pretendido conhecimento de alguma destas coisas, além desta evidente sensibilidade de seu nascimento em si, ou sem ele, é só um conhecimento dele tal como o cego o tem da luz que nunca penetrou nele.

                                                                                                                              

William Law

            O que segue é um compêndio, devido a um eminente erudito, das doutrinas hindus referentes ao jnana, o libertador conhecimento do Brahma ou divina Base.

            Jnana é eterno, é geral, é necessário e não é um conhecimento pessoal deste ou aquele homem. Está aí, como o conhecimento Atman mesmo, e está aí oculto sob toda avidya (ignorância); imutável, embora possa ser escurecido; improvável, porque evi­dente por si; sem necessidade de prova, porque é ele quem dá todas as provas a base de possibilidade. Estas frases se aproximam do "conhecimento" de Eckhart e ao ensino de Agustín sobre a Eterna Verdade na alma que, sendo por si imediatamente certa, é a base de toda certeza e uma posse não de A ou B, mas sim da "alma".

                                                                                                                                

Rudolf Otto

            A ciência da estética não é quão mesmo a prática e apreciação da estética, nem mesmo um meio imediato para chegar a ela. Como pode aprender-se a ter bom olho para as pinturas ou a chegar a ser um bom pintor? Não, certamente, lendo Benedetto Croce. Aprende-se a pintar pintando, e se aprende a apreciar as pinturas visitando os museus e olhando-as.

            Mas isto não quer dizer que Croce e seus colegas tenham perdido tempo. Teríamos que lhes agradecer o trabalho empregado em construir um sistema de pensamento por meio do qual a importância e valor, imediata­mente apreendidos, da arte podem ser aquilatados à luz do conhecimento geral, relacionados com outros fatos da experiência e de tal modo e até tal ponto, "explicados".

            O que ocorre com a estética ocorre também com a teologia. A especulação teológica é valiosa assim que permite aos que tiveram imediata experiência de diversos aspectos de Deus formarem idéias inteligíveis acerca da natureza da divina Base e de sua própria experiência da Base em relação com outras experiências. E quando se elaborou um sistema coerente de teologia, é útil assim que convence aos que estudam de que não há nada inerentemente contraditório no postulado da divina Base e de que, para os que estão dispostos a cumprir certas condições, o postulado pode converter-se em um Fato advertido. Em nenhuma circunstância, entretanto, pode o estudo da teolo­gia ou o assentimento mental a preposições teológicas ocupar o lugar do que Law chama "o nascimento interior de Deus". Pois teoria não é prática, e as palavras não são as coisas que representam.

            A teologia, tal como a conhecemos, foi forma­da pelos grandes místicos, especialmente São Agustín e São Tomás. Muitos outros grandes teólogos —espe­cialmente São Gregório e São Bernardo, e mais para cá até Suárez— não teriam tido tal penetração sem supra-conhecimento místico.

                                                                                                                

O Abade John Chapman

            Contra esta opinião devemos pôr a do Dr. Tennant; ou seja, que a experiência religiosa é algo real e único, mas não acrescenta nada ao conhecimento do que a experi­menta sobre a Realidade final e deve ser sempre interpre­tada em termos de uma idéia de Deus tirada de outras fontes. Um estudo dos fatos indicaria que ambas as opiniões são corretas até certo ponto. Os fatos da penetração mística (junto com os fatos do que se toma por revelação histórica) são racionalizados em ter­mos de conhecimento geral e chegam a ser base de uma teologia. E, reciprocamente, uma teologia existente em termos de conhecimento geral exerce uma profunda influência nos que empreenderam a vida espiritual e faz, se for baixa, que se contentem com uma forma baixa de experiência; se é elevada, que rechacem como inadequa­da toda forma de realidade que tenha características in­compatíveis com as do Deus descrito nos livros. Assim, os místicos fazem teologia, e a teologia faz místicos. Uma pessoa que dá seu assentimento a um dogma falso, ou toda sua atenção e fidelidade a um só dogma verdadeiro de um sistema pormenorizado, enquanto descuida os outros (como muitos cristãos se concentram exclusivamente na humanidade da Segunda Pessoa da Trindade e olvi­dam ao Pai e ao Espírito Santo), corre o perigo de limitar adiantado sua apreensão direta da Reali­dade. Em religião, como em ciência natural, a experiência se determina só pela experiência. É fatal prejulgá-la, obrigá-la a encaixar no molde imposto por uma teoria que, ou não corresponde aos fatos, ou corresponde só a alguns dos fatos. "Não se esforce em procurar o verdadeiro —escreve um Mestre Zen—; cessa só de abrigar opiniões." Só há um meio de curar os resul­tados da crença em uma teologia falsa ou incompleta e coincide com o único modo conhecido de passar da crença na teologia mais verdadeira ao conhecimento do Fato primitivo —abnegação, docilidade, abertura aos dados da Eternidade. As opiniões são coisas que nós fazemos e podemos, portanto, compreender, formular e discutir. Mas "reparar no que as potências podem compreender e os sentidos sentir" segundo as palavras de San Juan de la Cruz, "é satisfazer-se com o que é menos que Deus". O conhecimento unitivo de Deus é possível só àqueles que "cessaram de abrigar opi­niões", até opiniões tão verdadeiras como é possível ser o de abstrações verbalizadas.

            Eleve, pois, nobre alma! Calce as botas de sal­tar, que são intelecto e amor, e salta por cima do culto de suas potências mentais, salta por cima de seu entendimento e entra no coração de Deus, em seu recôndito onde você está oculto a todas as criaturas.

                                                                                                                                    Eckhart

            Com a luz da palavra e o discernimento deve-se ir além da palavra e do discernimento e entrar no caminho do ensinamento.

                                                                                                                          

Lankavatara Sutra

            A palavra "intelecto" é usada por Eckhart no senti­do escolástico de intuição imediata. "Intelecto e razão —diz Tomás de Aquino— não são duas faculdades, a não ser distintas como o perfeito do imperfeito... O intelecto significa uma íntima penetração da verdade, a razão, investigação e discurso." Seguindo, e logo abandonan­do, o caminho racional e emotivo de "a palavra e o discernimento" pode um entrar no intelectual ou intui­tivo "caminho de ensinamento". E contudo, face às advertências dadas por aqueles que, através da abne­gação, passaram da letra ao espírito e da teoria ao conhecimento imediato, as igrejas cristãs organiza­das persistiram no hábito fatal de tomar os meios pelos fins. As afirmações verbais das mais ou menos adequadas racionalizações teológicas da experiência tomaram-se com excessiva seriedade e tratando com uma reverência que só se deve ao Fato que que­rem descrever. Imaginou-se que as almas se salvam se se dá assentimento ao que loucamente se considera a fórmula correta e que se perdem se se nega. As duas palavras, filio-que, possivelmente não foram só causa do cisma entre as igrejas do Oriente e Ocidente; mas são indubitavelmente o pretexto e casus belli.

            A super valorização de palavras e fórmulas pode con­siderar-se como um caso especial dessa super valorização das coisas do tempo que é tão fatalmente característi­co do cristianismo histórico. Conhecer a Verdade como Fato e conhecê-la intuitivamente "no espírito e na verdade como apreensão imediata"; isto é a salvação e nisso "está nossa vida eterna". Familiari­zar-se com as verdades verbalizadas, que simbolicamente correspondem à Verdade como Fato assim que pode conhecer-se na verdade como apreensão imediata, ou a verdade como revelação histórica, ou inferir-se dela; isto não é a salvação, a não ser meramente o estudo de um ramo especial da filosofia. Até a mais ordinária expe­riência de uma coisa ou acontecimento no tempo nunca pode ser completa, nem adequadamente descrita com palavras. A experiência de ver o céu ou ter nevralgia é incomunicável; o melhor que podemos fazer quer dizer "azul" ou "dor", com a esperança de que, os que nos ouvem, tenham experiências similares às nossas e assim possam dar sua própria versão do significado. Deus, entretanto, não é uma coisa, nem acontecimento, no tempo, e as palavras temporariamente limitadas que não podem fazer justiça; nem as coisas temporárias, pois, são ainda mais inadequadas à natureza intrínseca e a nossa própria experiência unitiva do que pertence a uma ordem incomensuravelmente distinta. Supor que a gente pode salvar-se estudando e assentindo fórmulas é como supor que pode chegar-se ao Tombuctú cansando­-se a vista sobre um mapa da África. Os mapas são símbolos, e até os melhores símbolos são inexatos e imperfeitos. Mas, para qualquer um que realmente deseje alcançar um lugar determinado, um mapa é indispensavelmente útil para indicar a direção que o viajante deve seguir e os caminhos que deve tomar.

            Na filosofia budista dos últimos tempos, as palavras são consideradas como um dos principais fatores determinantes na evolução criadora dos seres humanos. Nesta filosofia se reconhecem cinco categorias do ser: Nome, Aparência, Discernimento, Reto Conhecimento e Talidad. As três primeiras estão relaciona­das para o mal; as últimas para o bem. As aparências são discernidas pelos órgãos dos sentidos, logo refeitas pela nominação, de modo que as palavras se tomam por coisas e se usam símbolos como medida da realidade. Segundo este modo de ver, a linguagem é uma fonte principal do sentido de separação e a blasfema idéia da auto-suficiência individual, com seus inevitáveis corolários de cobiça, inveja, avidez de poder, ira e crueldade. E destas más paixões surge a necessidade de uma indefinidamente dilatada e repetida existência separada sob as mesmas, perpetuadas condições de ânsia e presunção. O único escape é através de um ato criador da vontade, assistida pela graça búdica, o qual conduz, pela abnegação, ao Reto Conhecimento, que consiste, entre outras coisas, em uma adequada estima de Nomes, Aparências e Discernimento. No Reto Conhecimento e por meio dele se emerge da enfatuada ilusão do "eu", "meu", "minha" e, resistindo à tentação de negar o mundo em um estado de êxtase prematuro e unilateral, e de afirmá-lo vivendo como o homem sensual médio, chega-se por fim ao transfigurador ensinamento de que samsara e nirvana são um, a apreensão unitiva da pura Talidad —a Base última, que só pode ser indicada, nunca adequadamente descrita com símbolos verbais.

            Em relação ao ponto de vista mahayânico de que as palavras desempenham um papel importante, e até criador, na evolução do caráter humano não regene­rado, podemos mencionar os argumentos de Hume con­tra a realidade do princípio de casualidade. Estes argu­mentos partem do postulado de que todos os aconteci­mentos estão "soltos e separados" e prosseguem com perfeita lógica até uma conclusão que converte em um absurdo todo o pensamento organizado ou ação inten­cionada. A falácia, como o assinalou o professor Stont, está no postulado preliminar. E quando nos perguntamos o que foi que induziu Hume a fazer esta hipótese, tão estranha e pouco realista, vemos que sua única razão para desconhecer os fatos da experiência imediata é o estar das coisas e dos acontecimentos simbolicamente representados por essenciais, verbos e adjetivos, e estas palavras estão, com efeito, "soltas e separadas" de um modo como, evidentemente, não estão os acontecimentos e coisas que representam. Tomando as palavras como medida das coisas, em vez de usar as coisas como medida das palavras, Hume impôs a pauta discreta e, por assim dizê-l­o, suscetível da linguagem sobre o contínuo da expe­riência real —com os impossíveis resultados paradoxais que todos conhecemos. A maior parte dos seres huma­nos não são filósofos e não lhes preocupa nada a conseqüência do pensamento ou da ação. Assim, em algumas circuns­tâncias dão, é óbvio, que os acontecimentos não estão "soltos e separados", mas sim coexistem, ou seguem dentro do campo organizado e organizador de um todo cósmico. Todavia, em outras ocasiões, em que a opinião oposta está mais de acordo com suas paixões ou interesses, adotam, bem inconscientemente, a posição de Hume e tratam os acontecimentos como se fossem tão indepen­dentes entre si e do resto do mundo como as palavras que os simbolizam. Isto pode aplicar-se geralmente a todas as ocorrências que correspondem ao "eu", "meu", "minha". Retificando os nomes "soltos e separados", consideramos as coisas como também soltas e separadas —não sujeitas à lei, não envoltas na rede de relações, pelas quais, em realidade, estão evidentemente ligadas com seu ambiente físico, social e espiritual. Consideramos como absurda a idéia de que não há um processo causal na natureza, nem conexão orgânica entre acontecimentos e coisas nas vidas de outra pessoa; mas ao mesmo tempo aceitamos como axiomática a noção de que nosso sagrado eu está "solto e separado" do universo, e é ele sua própria lei por cima do dharma moral e até, em muitos aspectos, por cima da lei natural da casualidade. Assim no budismo como no catolicismo, monges e monjas eram estimulados a evitar o pronome pessoal e falar de si mesmos com circunlocuções que claramente indicavam sua verdadeira relação com a realidade cósmica e as demais criaturas. Eram uma precaução prudente. Nossas reações ante palavras familiares são reflexos condicionados. Trocando o estímulo, pode-se fazer algo para mudar a reação. Sem a campainha de Pavlov, não há salivação, não insistindo em palavras como "meu" e "minha", evita-se um egoísmo puramente auto­mático e irrefletido. Quando um monge fala de si, não dizendo "eu", a não ser "este pecador" ou "este inútil servi­dor", tende a deixar de dar, é óbvio, seu "solto e separado" eu e se obriga a advertir sua real orgânica relação com Deus e seus semelhantes.

            Na prática, as palavras são usadas para outros fins que fazer afirmações sobre fatos. Muito freqüentemente se empregam retoricamente, para despertar as paixões e dirigir a vontade para alguma rota de ação que se considera desejável. E também, às vezes, são usadas poeticamente; isto é, são usadas de modo tal que, além de fazer uma afirmação a respeito de coisas e acontecimen­tos reais ou imaginários, e além de influir retoricamen­te na vontade e nas paixões, fazem que o leitor advirta que são belas. A beleza na arte ou na natureza é questão de relações entre coisas que não são em si mesmas intrinsecamente belas. Não há nada belo, por exemplo, em vocábulos como "tempo" ou "sílaba". Mas quando se empregam em uma frase como "até a última sílaba do registrado tempo", a relação entre o som das palavras componentes, entre nossas idéias das coisas que representam e entre as ressonâncias de associação com que cada palavra e frase estão carregadas, é apreendida como bela por intuição direta e ime­diata.

            Sobre o emprego retórico das palavras não é necessário dizer muito. Há retórica para boas causas e retóri­ca para causas más; retórica que é toleravelmente fiel aos fatos uma vez que comove, e retórica que é inconsciente ou premeditadamente uma mentira. Aprender a distinguir entre as diferentes classes de retórica é uma parte essencial da moralidade, e a moralidade intelectual é uma pré-condição da vida espiritual, tão necessária como o é o domínio da vontade e a vigilância do coração e da língua.

            Devemos agora considerar um problema mais difícil. O emprego prático das palavras, como deveria relacio­nar-se com a vida do espírito? (E, é óbvio, o que convém ao uso poético das palavras pode aplicar-se igualmente ao emprego pictórico de pigmentos, ao musical de sons, à escultura de argila ou de pedra; em uma palavra, a todas as artes.)

            "Beleza é verdade; verdade, beleza." Mas, infortu­nadamente, Keats deixou de concretizar em qual de suas principais acepções usava a palavra "verdade". Al­guns críticos supõem que a empregava no terceiro dos sentidos mencionados ao princípio desta seção, e por isso descartaram o aforismo por disparatado. SO4H2 + Zn = SO4Zn + H2. Esta é uma verdade no terceiro sentido da palavra —e, manifestamente, esta verdade não é idêntica com a beleza.

            Mas não é menos manifesto que Keats não falava desta classe de verdade". Empregava a palavra principal­mente em seu primeiro sentido, como sinônimo de "fato", e em segundo lugar com significado que lhe dá na frase de João, de "adorar a Deus na verdade". Sua expressão, pois, leva dois sentidos. "A Beleza é o Fato Primitivo, e o Fato Primitivo é a Beleza, o princípio de todas as belezas particulares"; e "a Beleza é uma experiência imediata, e esta experiência imedia­ta identifica isso com a Beleza como Princípio, a Beleza como Feito Primitivo". A primeira destas afirmações está completamente de acordo com as doutrinas da Filosofia Perene. Entre as trindades em que se mani­festa o Inefável há a trindade do Bom, o Verdadeiro e o Belo. Percebemos beleza nos intervalos harmo­niosos entre as partes de um todo. Neste aspecto a divina Base poderia paradoxalmente definir-se como Puro Intervalo, independente do que é separado e harmoni­zado dentro da totalidade.

            Com a afirmação de Keats em seu sentido secundário, os expositores da Filosofia Perene estariam sem dúvida em desacordo. A experiência da beleza em arte ou na natureza acaso seja qualitativamente afim à experiência imediata, unitiva da Base divina ou Divindade; mas não é quão mesmo essa experiência, e o fato-beleza particular experiente, embora participe em certo modo da natureza divina, está vários graus de distância da Divindade. Ao poeta, ao amante da natureza, ao esteta lhe outorgam apreensões da Realidade análogas às concedidas ao abnegado contemplativo; mas, por não se preocuparem em fazer-se completamente abnegados, são incapazes de conhecer a Beleza divina em sua plenitude, tal como é em si mesmo. O poeta nasce com a capacidade de dispor as palavras de tal modo que algo da qualidade das graças e inspirações que recebeu possa fazer-se sentir a outros seres humanos nos espaços brancos, por assim dizê-lo, que ficam entre seus versos. É este um grande e precioso dom; mas se o poeta se contenta com este dom, se persistir em adorar a beleza na arte e na natureza sem ir mais à frente fazendo-se capaz, pela abnegação, de apreender a Bele­za tal como é na Base divina, então é só um idólatra. Certo que sua idolatria se acha entre as mais elevadas de que os seres humanos são capazes; mas nem por isso deixa de ser idolatria.

            A experiência da beleza é pura, manifesta em si, composta igualmente de gozo e ensinamento, livre de mescla de qualquer outra percepção, irmã gêmea da experiência mística e sua mesma vida é maravilha supra sensível... Gozam-na, os que são com­petentes nisso, em identidade, como a forma de Deus é ela mesma o gozo com que é reconhecida.

                                                                                                                                  Visvanatha

            O que segue é a última composição de uma monja do Zen, que em sua juventude tinha sido uma grande beldade e uma poetisa consumada.

                                   Sessenta e seis vezes viram estes olhos as cambiantes

                                   cenas do outono. Falei bastante já sobre a luz da lua; não me

                                   perguntem mais. Atendam só à voz dos pinheiros e cedros, quando

                                   nenhum vento se agita.

                                                                                                                            

Ryo-Nen

            Em silêncio sob árvores sem vento é o que Mallarmé chamaria um creux néant musicien. Mas, enquanto a músi­ca a que o poeta atendia era meramente estética e imagi­nativa, era a pura Talidad a que o contemplati­vo, aniquilado em si, expor-se. "Está decaído e sabe que sou Deus."

            Esta verdade é para ser vivida, não só para ser emitida com a boca...

            Não há realmente nada que argüir sobre este ensinamento;

            todo argumento iria sem dúvida contra sua intenção.

            As doutrinas liberadas à controvérsia e a disputa conduzem por si ao nascimento e à morte.

                                                                                                              

Hui Neng

            Fora, pois, as ficções e trabalhos da razão discursiva, seja a favor ou contra o cristianismo! É só caprichoso espírito da mente, quando desco­nhece a Deus e é insensível a sua própria natureza e condição. A morte e a vida são as únicas coisas em questão: a vida é Deus vivente e operante na alma; a morte é a alma vivente e operante segundo o sentido e a razão da carne bestial. Assim esta vida como esta morte crescem por si, surgem de sua própria semente em nós, não conforme a atarefada razão diz e ordena, a não ser segundo o coração se volta para uma ou outra.

                                                                                                                    

William Law

            Posso explicar ao Amigo sobre alguém para quem não é Ele Amigo?

                                                                                                                    

Jalal-uddin Rumi

            Quando uma mãe diz ao menino que amamenta: "Vêem, meu filho, sou sua mãe!", responde o menino: "Mãe, me dê uma prova de que acharei consolo ao tomar seu leite"?

                                                                                                                        

Jalal-uddin Rumi

            As grandes verdades não acham lugar no coração das massas. E agora, estando todo mundo no engano, como guiarei eu, embora conheça o bom caminho? Se souber que não posso fazê-lo com êxito e, contudo, intento obtê-lo, darei só ocasião a outra fonte de engano. Melhor, pois, desistir e não esforçar-se. Mas, se não me esforço, quem o fará?        

 

Chuang Tse

            Entre as pontas do dilema de Chuang Tse não há outro caminho que o do amor, a paz e a alegria. Só aqueles que manifestam possuir, embora seja em pequena propor­ção, os frutos do Espírito, podem persuadir outros de que a vida do espírito merece ser vivida. Argumento e controvérsia são quase inúteis; em muitos casos, realmente, são positivamente danosos. Mas isto, é óbvio, é uma coisa que os homens hábeis em silogismos e sarcasmos encontram especialmente difícil de admitir. Milton, sem dúvida, genuinamente acreditava que estava trabalhando pela verdade, a retidão e a glória de Deus quando estalava em correntes de doutas procacidades contra os inimigos de seu ditador favorito e sua marca favorita de dissidência. De fato, naturalmente, ele e outros polemistas dos séculos XVI e XVII não fizeram senão dano à causa da verdadeira religião, pela qual, em um ou outro grupo, lutaram com igual ciência e engenho e com a mesma suja destemperança de palavra. As sucessivas controvérsias continuaram, com algum intervalo de lucidez, durante uns duzentos anos —papas discutindo com antipapas, protestantes com outros protestantes, jesuítas com quietistas e jansenistas. Quando terminou finalmente o ruído, o cris­tianismo (que, como qualquer outra religião, só pode sobreviver se manifesta os frutos do Espírito) estava quase morto; a verdadeira religião da maioria dos euro­peus educados era já a idolatria nacionalista. Durante o século XVIII este passo à idolatria pareceu (depois das atrocidades cometidas por Wallenstein e Tilly em nome do cristianismo) ter sido uma melhora. Aconteceu isto por­que as classes governantes estavam decididas a que não se repetissem os horrores das guerras de religião e procura­ram deliberadamente temperar a política de força com a fidalguia. Sintomas de fidalguia podem ainda obser­var-se nas guerras napoleônicas e da Crimea. Mas os Moloc nacionais estavam devorando implacavelmente o ideal do século XVIII. Nas duas primeiras guerras mundiais presenciamos a eliminação total das velhas cercas e contenções. As conseqüências da idolatria política se exibem agora sem a menor mitigação, seja de honra e etiqueta humanistas ou de religião transcendental. Por suas sangüinárias brigas sobre palavras, forma de organização, dinheiro e poder, o cristianismo histórico consumou a obra de autodestruição a que sua excessiva preocupação com as coisas temporárias o havia, desde o começo, tão tragicamente entregue.

            Vende sua astúcia e compra assombro; astúcia é mera opinião, maravilha é intuição.

                                                                                                                                

Jalal-uddin Rumi

            A razão é como um oficial quando aparece o rei; o oficial perde então o poder e se oculta. A razão é a sombra projetada por Deus; Deus é o sol.

                                                                                                                        

Jalal-uddin Rumi

            As criaturas irracionais não olham adiante nem atrás, mas sim vivem na animal eternidade de um presente perpétuo; o instinto é sua graça animal e constante inspi­ração; e nunca se vêem tentadas a viver de outro modo que de acordo com seu próprio dharma ou lei imanente. Graças à suas faculdades de raciocínio e à linguagem, ins­trumento da razão, o homem (em sua condição mera­mente humana) vive nostálgica, apreensiva e esperançosa no passado e no futuro assim como no presente; não tem instintos que lhe digam o que terá que fazer, deve confiar em sua habilidade pessoal, melhor que em uma inspiração recebida da divina Natureza das Coisas; encontra-se em uma condição de crônica guerra civil entre paixão e prudência e, em um superior nível de cons­ciência e sensibilidade ética, entre o egoísmo e o indício de espiritualidade. Mas esta "pesada condição da hu­manidade" é o indispensável requisito prévio do esclare­cimento e da salvação. O homem deve viver no tempo para poder avançar para a eternidade, não já no plano animal, a não ser no espiritual; deve ter consciência de si mesmo como de um eu separado, para poder transcender conscientemente esta separação; deve dar a batalha ao eu inferior para poder chegar a identificar-se com esse Eu superior que está nele e que é afim ao divino NÃO-EU; e finalmente deve fazer uso de seu talento para ir, além de seu talento, até a visão intelectual da Verdade, o conhecimento imediato, unitivo da divina Base. A razão de suas obras "não são nem podem ser um meio ime­diato de união com Deus". O meio imediato é o "inte­lecto", no sentido escolástico da palavra, ou espírito. Em último termo o uso e finalidade da razão é criar as condições internas e externas favoráveis a sua própria transfiguração pelo espírito e em espírito. É a luz mediante a qual acha o caminho para ir além de si mesmo. Vemos, pois, que como meio para um meio imediato para um Fim, o raciocínio discursivo tem enorme valor. Mas se, em nosso orgulho e loucura, tratamo-lo como um meio imediato para o Fim divino (como muita gente religiosa tem feito e faz ainda), ou se, negando a existência de um Fim eterno, considera­mos de uma vez como um meio para o Progresso e como sempre recuo da meta no tempo, o talento se converte em inimigo, em uma fonte de cegueira de espírito, mal moral e desastre social. Em nenhum período da história foi o talento tão altamente valorizado nem, em certas direções, tão ampla e eficientemente educado como no tempo presente. E em nenhum tempo a visão intelectual e a espiritualidade foram menos estimadas, nem o Fim para o qual são o meio imediato menos ampla e ansiosa­mente procurado. Porque a tecnologia adianta, imaginamos que fazemos um correspondente adiantamento ao longo de toda a linha; porque temos considerável poder sobre a natureza inanimada, esta­mos convencidos de que somos donos de nosso desti­no e capitães de nossa alma; e porque o talento nos deu tecnologia e poder, acreditamos, em que pese todas as provas contrárias, que só devemos continuar sendo cada vez mais talentosos, de um modo ainda mais siste­mático, para obter a ordem social, a paz entre as nações e a felicidade pessoal.

            Na extraordinária obra Mestra de Wu Ch'êng-ên (tão admiravelmente traduzida ao inglês por Arthur Waley), há um episódio, ao mesmo tempo cômico e profundo, no qual Macaco (que, na alegoria, é a encarnação do talento humano) chega ao céu e causa ali tanta perturba­ção, que ao fim Buda tem que ser chamado para arrumar as coisas. Termina assim:

            —Farei uma aposta contigo —disse Buda—. Se for realmente tão preparado, salta fora da palma de minha mão direita. Se consegue fazê-lo, direi ao Imperador de Jade que deva viver comigo no Paraíso Ocidental, e você terá seu trono sem mais palavras. Mas, se fracassar, voltará para a terra e ali fará penitência durante muitas kalpas antes que volte a ir para mim com seu bate-papo.

            "Este Buda — disse Macaco — é um perfeito néscio. Sou capaz de dar um salto de cento e oito mil léguas, enquanto que sua mão não terá um largo superior a oito polegadas. Como poderia deixar de sair dela com um salto?"

            —Está seguro de que está em condições de fazer isto por mim? —perguntou.

            —Claro que estou —disse Buda.

            Estendeu sua mão direita, que parecia ter o tamanho de uma folha de lótus. Macaco pôs seu porrete detrás de sua orelha e saltou com toda sua força. "Tudo pronto — disse—. Já estou fora." Zumbia tão rápido que era quase invisível, e Buda, que o observava com os olhos da sabedoria, viu precipitar uma simples mentira.

            Macaco chegou ao fim à cinco colunas cor de rosa, erguidas no ar. "Isto é o fim do mundo —disse Macaco —. Não há mais a fazer que voltar para Buda e reclamar meu objeto. O Trono é meu."

            "Espera um momento — disse logo —. Melhor será deixar aqui algum sinal, se por acaso tenho alguma confusão com Buda." Arrancou-se um cabelo e soprou sobre ele com mágico fôlego, exclamando: —Troca! — Trans­formou-se num minuto em um pincel de escrever carregado de densa tinta, e ele escreveu na base da coluna central: "O Grande Sábio Igual ao Céu alcançou este lugar." Logo, para assinalar sua falta de respeito, aliviou a natureza ao pé da primeira coluna e de uma cambalhota voltou para local de onde tinha vindo. De pé na palma de Buda, disse:

            —Bom, fui e já estou de volta. Pode ir dizer ao Imperador de Jade que solte para aqui os palácios do Céu.

            —Símio hediondo —disse Buda—, esteve todo o momento na palma de minha mão.

            —Equivoca-te —disse Macaco—. Cheguei até o fim do Mundo, onde vi cinco colunas cor de carne que se elevavam para o céu. Escrevi algo em uma delas. Levar-lo-ei ali para lhe mostrar isso se quiser.

            —Não há necessidade —disse Buda—. Olhe para baixo.

            Macaco olhou com seus ardentes, arregalados olhos, e lá na base do dedo médio de Buda viu escritas as palavras: "O Grande Sábio Igual ao Céu alcançou este lugar." E da curvatura entre o polegar e o índice subia um odor de urina de Macaco.

                                                                                                                                  

De Macaco

            E assim, depois de urinar triunfalmente na oferecida mão da Sabedoria, o Macaco que há em nós dá as costas e, cheio de presunçosa confiança em sua própria onipotência, empreende a tarefa de transformar o mundo dos homens e as coisas em um pouco mais próximo ao desejo de seu coração. Às vezes suas intenções são boas; às vezes, conscientemente más. Mas, sejam quais forem suas intenções, os resultados da ação empreendida até pelo talento mais brilhante quando não está iluminado pela divina Natureza das Coisas, são geralmente maus. Que a humanidade em geral o compreendeu sempre claramente, provam-no os usos da linguagem. "Preparado" e "vivo" se usam freqüentemente como sinônimos de "inteligente" e ambos os adjetivos indi­cam uma opinião moralmente mais ou menos desfavorável a respeito daqueles a quem se aplica. De um comerciante ou advogado "ardiloso" se diz com freqüência que é "muito safado", de modo duvidoso completo. Quando se diz de alguém que "sabe viver" não se indica precisa­mente que leva uma vida "sábia" no melhor sentido da palavra. Por outra parte, com freqüência aos parvos lhes chama "inocentes".

            "Este uso de inocente —diz Richard Trent— supõe que ferir ou prejudicar é o principal emprego que os homens dão a suas faculdades intelectuais; que, quando são sábios, o mais freqüente é que o sejam para fazer o mal." Enquanto isso, não terá que dizer que o talento e o conhecimento acumulado são indispensáveis, mas sem­pre como meio para um meio imediato e nunca como meio imediato ou, o que é ainda pior, como fim em si mesmos. Quidfaceret eruditio sine dilectione? —diz São Bernardo—. Inflaret. Quid, absque eruditione dilectio? Erraret. O que faria a ciência sem amor? Inflaria. E o amor sem ciência? Desencaminhar-se-ia.

Como são os homens, tal lhes parecerá ser Deus mesmo.

                                                                                                              

John Smith, o platonista

            A mente dos homens percebe as segundas cau­sas, mas só os profetas percebem a ação da Primeira Causa.

                                                                                                                

Jalal-uddin Rumi

            A quantidade e classe de conhecimento que adquirimos depende, primeiro, da vontade e, em segundo lugar, de nossa constituição psicofísica e das modificações impostas nela pelo meio ambiente e nossa própria eleição. Assim, o professor Burkitt assinalou que, no que concerne aos descobrimentos tecnológicos, "o desejo do homem foi o fator importante. Assim que se deseja concretamente uma coisa, uma e outra vez se produziu em um tempo extremamente curto... Em troca, nada ensinará aos bosquímanos do África do Sul a plantar e apascentar. Não têm nenhum desejo de fazê-lo". O mesmo pode dizer-se dos descobrimentos éticos e espirituais. "É tão santo como desejas sê-lo", era a divisa que Ruysbroeck dava aos estudantes que iam visitá-lo. E teria podido acrescentar: "Pode, pois, conhe­cer da Realidade tanto como deseje conhecer" —pois o conhecimento é no consciente segundo o modo do consciente, e o modo do consciente, em muitos importantes aspectos, está sob o domínio do mes­mo. O liberador conhecimento de Deus vai aos puros de coração e pobres de espírito; e embora tal pureza e pobre­za sejam de lucro enormemente difícil, são, entretanto, possíveis para todos.

            Ela disse, além disso, que se quer alcançar a pureza mental é necessário abster-se totalmente de julgar ao próximo e de todo vão falatório a respeito de sua con­duta. Nas criaturas sempre deveria buscar-se unica­mente a vontade de Deus. Com grande força dizia: "Por nenhuma razão devem julgar as ações das cria­turas nem seus motivos. Mesmo que vejamos que é realmente um pecado, não deveríamos julgá-lo, a não ser ter santa e sincera compaixão e oferecê-la a Deus como prega­ria humilde e devota."

            Do Testamento de Santa Catalina de Siena, escrito por Tommaso di Petra

            Esta abstenção total de julgamentos sobre nossos semelhantes é só uma das condições da pureza interior. As outras foram já expostas na seção dedicada à "Mortificação".

            O aprender consiste em acrescentar dia a dia à provisão que alguém possui. A prática do Tao consiste em subtrair dia a dia: subtrair e voltar para subtrair até que se alcançou a inatividade.

                                                                                                                                      

Lao Tse

            É a inatividade da obstinação e o talento egocên­trico o que faz possível a atividade dentro da alma, esvaziada e purificada, da eterna Talidad. E quando a eternidade é conhecida nas cúpulas interiores, tam­bém é conhecida em plenitude de experiência, fora no mundo.

            Distinguiu alguma vez uma gloriosa eternidade em um dado momento do tempo? Viu alguma vez um brilhante infinito na estreita ponta de um objeto? Pois já sabe o que o espírito significa —o arremate em agulha, ao qual todas as coisas ascendem harmoniosa­mente, no qual todas se encontram e descansam contentes em uma insondada Profundidade de Vida.

                                                                                                                                

                   A RELIGIÃO E O TEMPERAMENTO

            Neste ponto, parece indicado voltar atrás, por um momento, da ética à psicologia, em que um problema muito importante nos espera —um problema ao que dedicaram muita atenção os expositores da Filosofia Perene. Qual é precisamente a relação entre a cons­tituição e o temperamento individuais por uma parte, e a classe e grau de conhecimento espiritual por outra? Não há material disponível para uma resposta afinada e com­preensiva a esta pergunta —salvo possivelmente na forma dessa ciência incomunicável, apoiada na intuição e uma longa prática, que existe na mente dos "diretores espirituais" experimentados. Mas a resposta que po­de dar-se, embora incompleta, é muito significativa.

            Todo conhecimento, segundo já vimos, é função do ser ou, para expressar a mesma idéia em termos escolásticos, a coisa conhecida é no consciente segundo o modo do consciente. Na Introdução se fez referência ao efeito que têm sobre o conhecimento as mudanças do ser ao longo do que poderia chamar-se seu eixo vertical, no sentido da santidade ou seu oposto. Mas também há variação no plano horizontal. Congenitamente, por nossa constituição psicofísica, cada um de nós nasce em certa posição neste plano horizontal. É um território vasto, ainda imperfeitamente explorado, um continente que se estende da imbecilidade até o gênio, da tímida debilidade à força agressiva, da crueldade à benevolência pickwickiana, da sociabili­dade que se revela à misantropia taciturna e o amor da solidão, de uma quase frenética lascividade a uma quase não tentada continência. Desde qualquer ponto desta enorme extensão de possível natureza humana, um indivi­duo pode mover-se quase indefinidamente acima ou abaixo, para a união com a divina Base de seu próprio ser e todos outros seres, ou para os últimos, os infernais extre­mos de separação e egoísmo. Mas, quanto ao movi­mento horizontal, há muito menos liberdade. É impossível que uma classe de constituição física se transforme em outra classe; e o temperamento particular associado com uma determinada constituição física só pode modificar-se dentro de estreitos limites. Com a melhor boa vontade do mundo e o melhor meio ambiente social, o máximo que pode aspirar é tirar o melhor partido possível de sua congênita constituição psicofísica; o trocar as tramas fundamentais da constituição e o temperamento está fora de seu alcance.

            No curso dos últimos trinta séculos se tentou muitas vezes elaborar um sistema de classificação para medir e descrever as diferenças humanas. Por exemplo, há o antigo método hindu de classificar às pessoas segundo as categorias psico-físico-sociais das castas. Há as classificações principalmente médicas, associadas com o nome de Hipócrates, classificações em termos de dois "hábitos" principais —o físico e o apoplético— ou dos quatro humores (sangüíneo, colérico, fleumático, bilioso) e as quatro qualidades (quente, fria, úmida e seca). Mais recentemente houve os vários sistemas fisionômicos do século XVIII e princípios do XIX; a tosca e meramente psicológica dicotomia de introversão e extro­versão; as mais completas, mas ainda inadequadas, classificações psicofísicas propostas por Kretschmer, Stockard, Viola e outros; e finalmente o sistema, mais pormenorizado, mais flexivelmente adequado a complexidade de quão feitos todos os que lhe precederam, elaborado pelo Dr. William Sheldon e seus colabora­dores.

            No Ocidente, a tradicional classificação católica dos seres humanos se apóia na anedota evangélica de Marta e Maria. O modo de Marta é o de salvação pela ação; o de Maria é o modo pela contemplação.

            Seguindo Aristóteles, que nesta como em muitas outras matérias estava de acordo com a Filosofia Perene, os pensadores católicos consideraram a contem­plação (cujo mais alto termo é o conhecimento unitivo da Divindade) como a última finalidade do homem, e por isso sustentaram sempre que o de Maria era real­mente o melhor modo.

            É bastante significativo o que, em termos essencialmente similares, o Dr. Radin classifique e (por inferência) avalie os seres humanos primitivos no que têm de filósofos e devotos. Para ele não cabe dúvida de que as formas monoteístas superiores da religião primitiva são criadas (ou terei que dizer, como Platão, descobertas?) por pessoas pertencentes à primeira das duas grande­s classes psicofísicas de seres humanos —os homens de pensamento. Aos pertencentes à outra classe, aos homens de ação, deve-se a criação ou descobrimento das classes de religião inferiores, não filosóficas, politeístas.

            Esta simples dicotomia é uma classificação das dife­renças humanas que é válida até onde alcança. Mas como todas essas dicotomias, sejam físicas (como a hipocrática divisão da humanidade nos de hábito físico e os de hábito apopléctico), sejam psicológicas (como a classificação de Jung em termos de introverti­do e extrovertido), este agrupamento dos religiosos nos que pensam e os que atuam, os que seguem Marta e os que seguem Maria, é inadequado aos fatos. E, é óbvio, nenhum pastor de almas, nenhum chefe de organização religiosa fica, na prática, contente com este sistema, excessivamente simples. Sob os melhores escritos católicos sobre a prece e a melhor prática católica no reconhecimento de vocações e atribui­ções de deveres, sentimos a existência de uma implícita, informulada classificação de diferenças humanas mais completa e mais realista que a explícita dicotomia de ação e contemplação.

            No pensamento hindu as linhas gerais desta classificação mais completa e mais adequada estão claramente indicadas. Os caminhos que conduzem à libertadora união com Deus não são dois, e sim três: o das obras, o do conhecimento e o da devoção. No Bhagavad Gita, Sri Krishna instrui à Arjuna sobre os três caminhos: liberação pela ação sem apego; liberação pelo conhecimento do Eu e a Base Absoluta de todo ser com a qual se identifica; e liberação pela intensa devoção ao Deus pessoal ou encarnação divina.

            Faz sem apego o trabalho que tem que fazer; pois o homem que faz seu trabalho sem apego alcança na verdade a Meta Suprema. Pela ação sozinha, homens como Janaka obtiveram a perfeição.

            Mas também há o modo de Maria.

            Livres de paixão, temor e ira, absortos em Mim refugiados em Mim, e purificados pelos fogos do conhecimento, muitos chegaram a ser um com meu Ser.

            E também:

            Aqueles que dominaram completamente seus sentidos e são equânimes abaixo de qualquer condição, e assim contemplam o Imperecível, o Inefável, o Imanifesto, o Onipresente, o Incompreensível, o Eterno —consagrados ao bem-estar de todos os seres, eles sozinhos, e ninguém mais, Alcançam-me.

            Mas o caminho da contemplação não é fácil.

            A tarefa daqueles cuja mente aponta ao Imanifesto é o mais difícil; pois, para aqueles que são no corpo, o ensinamento do Imanifesto é difícil. Mas os que consagram todas suas ações a Mim (como Deus pessoal ou como Encarnação divina), que Me consideram como a Meta suprema, que Me veneram e meditam sobre Mim com mente concentrada; para aqueles cuja mente está assim absorta em Mim, não demoro para ser seu Salvador do oceano de mortalidade do uni­verso.

            Estes três modos de liberação estão precisamente rela­cionados com as três categorias em cujos termos Sheldon elaborou a que é, sem dúvida alguma, a melhor e mais adequada classificação de diferenças huma­nas. Os seres humanos, segundo ele nos mostrou isso, variam continuamente entre os extremos viáveis de um sistema tripolar; e podem idear-se medidas físicas e psico­lógicas mediante as quais qualquer indivíduo pode situar-se exatamente em relação com as três coor­denadas. Ou, expressando-o de outro modo, podemos dizer que qualquer indivíduo dado é uma mescla, em propor­ções variáveis, de três componentes físicos e três componentes psicológicos estreitamente relacionados. A força de cada componente pode medir-se segundo proce­dimentos determinados empiricamente. Aos três componentes físicos Sheldon dá os nomes de endomorfia, mesomorfia e ectomorfia. O indivíduo com elevado grau de endomorfia é predominantemente brando e arredondado e pode facilmente chegar a ser muito gordo. O mesomorfo acentuado é duro, ossudo e musculoso. O ectomorfo acentuado é magro e tem ossos peque­nos e músculos flexíveis, débeis, não aparentes. O endomorfo tem um intestino enorme, um intestino que pode ter mais do dobro, em peso e longitude, que o do extremo ectomorfo. Pode dizer-se que realmente seu corpo está construído em torno de seu conduto digestivo. O fato centralmente significativo do físico mesomórfico, em troca, é a potente musculatura, enquanto que o do ectomorfo é o sistema nervoso supersensível e (posto que a razão de superfície corporal a massa é mais alta nos ectomorfos que em qualquer dos outros tipos) relati­vamente indefeso.

            Com a constituição endomórfica está estreitamente relacionada uma trama temperamental que Sheldon chama viscerotonia. Entre os traços viscerotônicos, são signifi­cativos a afeição a comer e, caracteristicamente, a comer em companhia; a afeição às comodidades e os luxos, a afeição às cerimônias; uma amabilidade que não distin­gue e afeição às pessoas como tal, temor à solidão e desejo de companhia; inibida expressão das emoções; amor às crianças, em forma de nostalgia para o próprio passado e gozo intenso da vida familiar; desejo de afetos e apoio social, e necessidade dos outros em momentos de apuro. Ao temperamento relacionado com a mesomorfia lhe chama samatotonia. Nesta os traços dominantes são amor à atividade muscular, agressividade e avidez de poder; indiferença à dor; insensibili­dade em relação aos sentimentos alheios; afeição à luta e à competição; grau elevado de bravura física; sentimento nostálgico, não pela infância, mas sim pela juven­tude, o período de máxima potencialização muscular; necessidade de atividade em momentos de apuro.

            Pelas antecedentes descrições se vê quão inadequada é a concepção junguiana da extroversão, como simples antítese da introversão. A extroversão não é simples; é de duas classes radicalmente diferentes. Há a extroversão emotiva, sociável do endomorfo viscerotônico —a pessoa que está sempre procurando companhia e dizendo a todo mundo precisamente o que sente. E há a extroversão do musculoso somatotônico —a pes­soa que olha o mundo como lugar onde pode exercer seu poder, onde pode driblar às pessoas a sua vontade e dar forma às coisas segundo o desejo de seu coração. Alguém é afável a extroversão do corredor de comércio, o afável, o liberal clérigo protestante. A outra é à extroversão do engenheiro que desafoga seu apetite de poder nas coisas, do esportista e do soldado profissio­nal, do ambicioso diretor comercial e o político, do ditador, seja no lar ou à frente de um Estado.

            Com a cerebrotonia, o temperamento relacionado com o físico ectomórfico, deixamos o afável mundo de Pickwick, o mundo forçosamente competidor de Hotspur, e passamos a uma classe de universo inteiramente diferente e algo inquietante: o de Hamlet e Ivan Karamazov. O cerebrotônico extremo é o super atento, super sensível introvertido, mais preocupado pelo que ocorre detrás de seus olhos —pelas construções do pensamento e a imaginação, pelas variações do sentimento e a consciência— que pelo mundo externo, ao qual, seus diferentes modos, o viscerotônico e o somatotônico emprestam sua principal atenção e comemoração. Os cerebrotônicos não sentem, ou sentem pouco, desejo de dominar, nem sentem tampouco o indistinto afeto do visce­rotônico às pessoas como gente; pelo contrário, querem viver e deixar viver, e sua paixão por seu retiro é intensa. O confinamento solitário, o mais terrível castigo que possa infligir-se à pessoa branda, arredondada e afável, não é para o cerebrotônico nenhum castigo. Para ele, o horror final é a escola de internos e os quartéis. Em companhia, os cerebrotônicos se sentem nervosos e tímidos, tensamente inibidos e de humor imprevisível. (É signi­ficativo que nenhum cerebrotônico extremo nunca fosse um bom ator.) Os cerebrotônicos detestam o dar golpes ou levantar a voz e sofrem aguçadamente com os desen­freados mugidos e barulhos do somatotônico. Conduzem-se com contenção e, quando têm que expressar seus sentimentos, são extremamente reservados. O jorro emo­tivo do viscerotônico lhes choca ofensivamente superficial e até insincero, e se impacientam com as cerimônias do viscerotônico e seu amor ao luxo e a magnificência. Não formam hábitos facilmente e lhes é difícil adaptar sua vida às rotinas, a que tão naturalmente se prestam os somatotônicos. Por causa de sua super sensibilidade, os cerebrotônicos são freqüentemente extremamente, quase insana­mente sexuais; mas poucas vezes sentem a tentação da bebida —pois o álcool, que eleva a natural acometimento do somatotônico e aumenta a relaxada amabilidade do viscerotônico, meramente lhes faz sentir-se moles e deprimidos. Cada um a seu modo, o viscerotônico e o somatotônico estão bem adaptados ao mundo em que vivem; mas o introvertido cerebrotônico é em certo modo incomensurável com as coisas, gente e instituições que o rodeiam. Em conseqüência, uma proporção notavelmente elevada de cerebrotônicos extremos não têm êxito como cidadãos normais e pilares da sociedade. Mas se muitos fracassam, muitos também chegam a ser anormais da parte superior ao médio. Em universidades, monastérios e laboratórios de investigação —em qualquer lugar que se dêem condições proteto­ras para aqueles cujos débeis músculos e pequeno ven­tre não lhes permite abrir-se passagem, brigando ou comendo, por entre a ordinária luta— a percentagem de cerebrotônicos que sobressaem por seus dotes é quase sempre muito elevado. Dando-se conta da importância deste tipo extremo de ser humano, super revolucionário e apenas viável, todas as civilizações têm provido de um ou outro modo seu amparo.

            À luz destas descrições podemos compreender mais claramente a classificação que faz o Bhagavad Gita dos caminhos de salvação. O caminho da devoção é o que segue naturalmente a pessoa em que é elevado o componente viscerotônico. Sua inata tendência a exteriorizar as emoções que espontaneamente sente em relação às pessoas pode ser disciplinada e represada de tal modo que uma tendência meramente animal a andar em manada e uma benevolência meramente humana se transformem em caridade —devoção ao Deus pessoal e à boa vontade universal e compaixão para todos os seres sensíveis.

            O caminho das obras é para aqueles cuja extrover­são é da classe somatotônica, aqueles que em toda circunstância sentem a necessidade de "fazer algo". No somatotônico não regenerado este desejo de ação vai sempre associado à agressividade, afirmação de si mes­mo e avidez de poder. Para o Kshatriya, ou governante guerreiro nato, a tarefa, como Krishna explica a Arjuna, consiste em desembaraçar-se desses fatais acompanha­mentos do amor à ação, e obrar sem pensar nos frutos do obrar, em um estado de completo desapego ao eu. O qual, é óbvio, como todo o resto, diz-se muito mais facilmente que se faz.

            Finalmente, há o caminho do conhecimento, mediante a modificação da consciência, até que deixa de ser egocêntrica e chega a centrar-se na Base divina e a unir-se com ela. Este é o caminho ao que o cerebrotônico extre­mo se sente naturalmente atraído. Sua disciplina especial consiste na mortificação de sua nata tendência à introversão por ela mesma, ao pensamento, imaginação e a própria análise como fins em si mesmos, melhor que como meios para a final transcendência da fantasia e o raciocínio discursivo, no ato atemporal da intuição intelectual pura.

Dentro da população geral, a variação, como vimos, é contínua, e na maior parte de pessoas os três componentes estão mesclados em proporções iguais. Entretanto, apesar de sua raridade, a teologia e a ética, pelo menos em seu aspecto teórico, foram princi­palmente dominadas pelas tramas ideológicas desses indivíduos extremos. A razão de que isto ocorra é singela. Qualquer posição extrema é mais intransigentemente clara e, portanto, mais facilmente reconhecida e compreendida, que as posições intermediárias, que são a natural trama ideológica da pessoa em que os compo­nentes constitutivos da personalidade estão equilibra­dos. Deve notar-se que estas posições intermediárias não contêm nem conciliam em nenhum sentido as posições extremas; são meramente outras tramas de pensamento acrescentadas à lista dos sistemas possíveis. A Construção de um sistema completo de metafísica, ética e psico­logia é uma tarefa que nunca poderá ser realizada por um só indivíduo, pela suficiente razão de que é um indiví­duo com uma classe particular de constituição e tempera­mento e, portanto, capaz de conhecer só segundo o modo de seu próprio ser. Desde aí as vantagens inerentes ao que poderia chamar o modo antológico de abordar a verdade.

            O sânscrito dharma —uma das palavras chave das formulações hindus da Filosofia Perene— tem dois sentidos principais. O dharma de um indivíduo é, acima de tudo, sua natureza essencial, a lei intrínseca de seu ser e desenvolvimento. Mas dharma significa também a lei da retidão e piedade. As inferências que podem tirar-se deste duplo sentido são claras: o dever de um homem, como deveria viver, o que deveria acreditar e o que deveria fazer com suas crenças — estas coisas estão condiciona­das pela sua natureza essencial, sua constituição e temperamento. Indo muito além do que vão os católicos, com sua doutrina das vocações, os hindus admitem o direito dos indivíduos com diferentes dharmas a ado­rar diferentes aspectos ou conceitos do divino. Desde aí a quase total inexistência, entre hindus e budistas, de perseguições sangrentas, guerras religiosas e proselitismo im­perialista.

            Deveria, entretanto, notar-se que, dentro de sua própria classe eclesiástica, o catolicismo foi quase tão tolerante como o hinduísmo e o budismo mahayânico. Nominalmente uma, cada uma destas religiões consiste, em realidade, de várias religiões muito distintas, que abrangem toda a gama do pensamento e da conduta, do fetichismo, passando pelo politeísmo, pelo monoteísmo legalista, pela devoção à sagrada humanidade do Avatar, à profissão da Filosofia Perene e a prática de uma religião puramente espiritual que busca o conhecimento unitivo da Divindade Absoluta. Estas toleradas religiões dentro da religião não são, é óbvio, consideradas como igualmente valiosas nem igualmente verdadeiras. O culto politeísta pode ser nosso dharma; entretanto, fica em pé o fato de que a finalidade última do homem é o conhecimento unitivo da Divindade, e todas as formulações históricas da Filosofia Perene concordam em que todo ser humano deveria alcançar este fim, e possivelmente, de um ou outro modo, consiga alcançá-lo. "Todas as almas —escreve o padre Garrigou-Lagrange— recebem um remoto chamado geral à vida mística e se todas evitassem fielmente, como deveriam, não somente os pecados mortais, mas também os vênias; se fossem, cada uma segundo sua condição, dóceis ao Espírito Santo e vivessem o tempo suficiente, chegaria um dia em que receberiam a imediata e eficaz vocação a uma alta perfeição e à vida mística propriamente dita." Nesta afirmação concordariam provavelmente os teólogos hindus e budistas; mas acrescentariam que toda alma alcançará finalmente esta "alta perfeição". Todos são chama­dos, mas em qualquer geração dada, poucos são os escolhidos, porque poucos se escolhem a si mesmos. Mas a série de estoque conscientes, corpóreas ou imateriais, é indefinidamente longa; cada um tem, pois, tempo e oportunidade para aprender as lições necessárias. Ade­mais, sempre haverá auxiliadores. Pois periodicamente ocorrem "descendências" da Divindade em forma física; e em todos os tempos há futuros Budas dispostos, a bordo da reunião com a Luz Inteligível, a renunciar à beatitude da liberação imediata para voltar como salvadores e Mestre, uma e outra vez, ao mundo do sofri­mento, o tempo e o mal, até que por fim todo ser sensível chegue a libertar-se na eternidade.

            As conseqüências práticas desta doutrina são bastante claras. As formas inferiores da religião, sejam emotivas, ativas ou intelectuais, não são nunca aceitas como definitivas. Certo que cada uma delas ocorre natural­mente em pessoas de certa classe de constituição e tem­peramento; mas o dharma ou dever de qualquer indiví­duo dado, não é o permanecer complacentemente fixo em uma religião imperfeita que lhe venha bem; é melhor transcendê-la, não por uma impossível negação dos modos de pensamento, conduta e sentimento que lhe são naturais, a não ser fazendo uso deles de tal maneira, que pelos meios da natureza possa ir além da natureza. Assim o introvertido usa do "discernimento" (segundo a expressão da Índia) e aprende a distinguir as ativi­dades mentais do eu, da consciência principal do Eu, que é afim à divina Base, ou idêntico a ela. O emotivo extrovertido aprende a "odiar a seu pai e a sua mãe" (em outras palavras, a abandonar seu egoísta apego aos prazeres, indistintamente, amar e ser amado), concentra sua devoção no aspecto pessoal ou encarnado de Deus, e chega por fim a amar à Divindade Absoluta por um ato, não já do sentimento, mas sim da vontade iluminada pelo conhecimento. E finalmente há essa outra classe de extrovertido, cuja preocupação não é pelos prazeres de dar ou receber afeto, mas sim pela satisfação de sua avidez de poder sobre as coisas, acontecimentos e pessoas. Usan­do sua própria natureza para transcendê-la, deve seguir o caminho descrito no Bhagavad Gita para o desconcer­tado Arjuna —o caminho do obrar sem apego aos frutos do obrar, o caminho que São Francisco de Sales chama "Santa indiferença", o caminho que conduz, pelo esquecimento do eu, ao descobrimento do Eu.

            No curso da história aconteceu freqüentemente que uma ou outra das religiões imperfeitas foi tomada muito a sério e considerada como boa e verda­deira em si mesmo, em vez de como meio para o fim último de toda religião. Os efeitos de tais enganos são com freqüência desastrosos. Por exemplo, muitas seitas protestantes insistiram em que é necessária, ou pelo menos extremamente desejável, a conversão violenta. Mas, como o fez notar Sheldon, a conversão violenta é um fenômeno limitado quase exclusivamente a pessoas com alto grau de somatotonia. Tais pessoas são tão inten­samente extrovertidas, que não se dão conta do que ocorre nas camadas inferiores de sua mente. Se por algum motivo volta sua atenção para dentro, o resultante conhecimento de si mesmo, por causa de sua novidade e estranheza, apresenta-se com a força e a qualidade de uma revelação, e sua metanóia, ou mudança mental, é repentina e estremecedora. Esta mudança pode dirigir-se para a religião ou para uma coisa distinta; por exemplo, para a psicanálise. Insistir na necessidade da conversão violenta como único meio de salvação é aproximada­mente tão sensato como insistir na necessidade de ter cara larga, grandes ossos e potentes músculos. Aos naturalmente sujeitos a esta classe de transtorno emotivo, a doutrina que faz depender a salvação da conversão lhes dá uma complacência que é fatal para o desenvolvimento espiritual, enquanto que os que são incapazes dela se enchem de não menos fatal desespero. Facilmente poderiam citar-se outros exemplos de teologias inadequadas, apoiadas na ignorância psicológica. Recorda-se, por exemplo, o triste caso de Calvino, o cerebrotônico que tomou suas próprias construções intelectuais tão a sério, que perdeu todo sentido da realidade, tanto humana como espiritual. E, logo, aí está nosso protestantismo liberal, essa heresia predominantemente viscerotônica, que parece ter esquecido a existência mesma do Pai, o Espírito e o Logos e igualmente, o cristianismo com o apego emotivo à humanidade de Cristo ou (para usar uma corrente expressão popular) "a personalidade de Jesus", adorada com idolatria como se não houvesse outro Deus. Até dentro do monopolista catolicismo, ouvimos constantemente queixa a respeito de ignorantes e egocêntricos diretores de almas, que impõem às que têm a seu cargo um dharma religioso completamente inadequado a sua natureza —com resultados que escritores como San Juan de la Cruz descrevem como completamente perniciosos. Vemos, pois, que é natural que atribuamos a Deus as qualidades que nosso temperamento tende a nos fazer perceber; mas, a não ser que a natureza encontre o modo de transcender-se por meio de si mesmo, estamos perdidos. Em último termo, Filón está certo ao dizer que os que não concebem a Deus pura e simplesmente como um, danificam, não a Deus, é óbvio, a não ser a si mesmos e, junto com eles, a seus semelhantes.

            O caminho do conhecimento convém naturalmente às pessoas cujo temperamento é preponderantemente cerebrotônico. Não quero dizer com isso que é fácil para o cerebrotônico seguir este caminho. Os pecados que especialmente lhe assediam são tão difíceis de vencer como os que assediam o somatotônico, ávido de poder, e ao viscerotônico extremo, com sua gula e sua ânsia de comodidades e aprovação social. Sendo assim, quero dizer que a idéia de que tal caminho existe e pode seguir­-se (seja pelo discernimento, ou o obrar sem apego e a devoção unitendente) lhe ocorre espontaneamente ao cerebrotônico. Em todos os níveis de cultura ele é o monoteísta natural; e este monoteísta natural, como os exemplos de teologia primitiva do Dr. Radin o mostram claramente, é freqüentemente um monoteísta da escola do tailandês tvam asi, da luz interior. As pessoas destinadas por seu temperamento a uma ou outra das duas classes de extroversão são politeístas naturais. Mas aos politeístas naturais lhes pode convencer, sem muita dificuldade, da superioridade teórica do monoteísmo. A natureza da razão humana é tal, que acha uma plausibilidade intrínseca em toda hipótese que procure explicar o variado em termos de unidade, reduzir uma multiplicidade aparente a uma identidade essencial. E par­tindo deste monoteísmo teórico, o semi-convertido politeísta pode, se assim o quiser, continuar (mediante práticas adequadas a seu temperamento) até o real ensinamento da divina Base de seu ser e todos outros seres. Pode, repito, e às vezes realmente o faz. Mas, com muita freqüência, não o faz. Existem muitos monoteístas teóricos cuja vida inteira e todos seus atos provam que em realidade continuam sendo o que seu temperamento os inclina a ser —politeístas, adoradores, não do Deus único de que às vezes falam, mas sim de muitos deuses, nacionalistas e tecnológicos, financeiros e familiares, aos que na prática rendem toda devoção.

            Na arte cristã, El Salvador foi quase invariavel­mente representado como um homem magro, de ossos pequenos e músculos pouco aparentes. Os Cristos grande­s e forçudos são uma mais chocante exceção de uma muito antiga regra. Sobre as crucificações de Rubens, William Blake escreveu desdenhosamente:

            Eu entendia que Cristo era carpinteiro; não moço de cervejeiro, meu senhor.

            Em uma palavra, vê-se o Jesus tradicional como um homem físico predominantemente ectomórfico e portan­to, por inferência, de temperamento predominantemente cerebrotônico. O núcleo central da doutrina cristã primitiva confirma a correção essencial da tradição iconográfica. A religião dos Evangelhos é o que deveria esperar-se de um cerebrotônico —não, por suposição, de qualquer cerebrotônico, mas sim de um que tinha usado as peculiaridades psicofísicas de sua própria natureza para transcender a natureza, que seguia seu dharma particular até sua meta espiritual. A insistência em que o Reino do Céu é interior; o não fazer caso dos ritos, a levemente desdenhosa atitude para o legalismo, para as rotinas cerimoniosas da religião organizada, por volta dos dias e lugares Santos; a geral qualidade extraterrena; a ênfase posta na contenção, não só na ação declarada, mas também no desejo e a não expressa intenção; a indiferença para os esplendores da civilização material, e o amor à pobreza como um dos maiores bens; a doutrina de que o desape­go deve levar-se até a esfera das relações familiares de que até a devoção aos mais altos fins dos ideais meramente humanos, até a retidão dos escribas e fariseus, podem ser separações idólatras do amor de Deus — todas estas idéias são caracteristicamente cerebrotônicas, tais que nunca lhe ocorreram espontaneamente ao extrovertido ávido de poder nem ao igualmente extrovertido viscerotônico.

            O budismo primitivo não é menos predominantemente cerebrotônico que o cristianismo primitivo, e também o é o Vedanta, a disciplina metafísica que enche o coração do hinduísmo. O confucionismo, pelo contrário, é um sistema principalmente viscerotônico —familiar, cerimo­nioso e completamente mundano. E no maometismo achamos um sistema que incorpora elementos fortemente somatotônicos. Daí a negra história do Islã quanto às guerras santas e perseguições —história com­parável a do cristianismo posterior, depois que esta religião transigiu com a não regenerada somatotonia até o ponto de chamar a sua organização eclesiástica "a igreja militante". Assim que corresponde ao lucro do objetivo final do homem, é tão desvantajoso o ser um extremo cerebrotônico ou viscerotônico como o ser um somatotônico extremo. Mas, enquanto que o cerebrotônico e o viscerotônico não podem fazer muito dano, a não ser a si mesmos e aos que estão em contato imediato com eles, o somatotônico extre­mo, com sua natural agressividade, causa estragos em socie­dades inteiras. De um ponto de vista, a civilização pode definir-se como um complexo de dispositivos religiosos, legais e educativos para impedir que os somatotônicos extremos façam muito dano, e para dirigir suas irreprimíveis energias a leitos socialmente desejáveis. O confucionismo e a cultura da China procuraram alcançar este fim inculcando a piedade filial, boas maneiras e um amável epicurismo viscerotônico —todo reforçado, algo incongruente, pela espiritualidade e as restrições cerebrotônicas do budismo e o taoísmo clássico. Na Índia, o sistema de castas representa uma tentativa para subordinar o poder militar, político e financeiro à autoridade espiritual; e a educação dada à todas as classes insiste ainda com tanta força em que a finalidade última do homem é o conhecimento unitivo de Deus, que ainda atualmente, até depois de perto de duas­ centenas de anos de europeização gradualmente acelerada, há ali prósperos somatotônicos que, na metade da vida, abandonam sua riqueza, posição e poder para termi­nar seus dias como humildes aspirantes ao esclarecimento. Na Europa católica, como na Índia, houve um esforço para subordinar o poder temporário ao espiritual; mas como a Igreja mesma exercia poder temporal por meio de prelados políticos e magistrados homens de negócios, o esforço não teve nunca mais que um êxito parcial. Depois da Reforma, até o piedoso desejo de limitar o poder temporário por meio da autoridade espiritual foi completamente abandonado. Henrique VIII fez de si mes­mo, segundo as palavras de Stubb, "o Papa, todo o Papa, e algo mais que o Papa", e seu exemplo foi seguido após pela maioria de chefes de Estado. O poder limitado só por outros poderes, não por uma apelação aos primeiros princípios segundo a interpretação dos que, moral e espiritualmente, estão qualificados para saber do que falam. Enquanto isso, o interesse na religião declinou em todas partes, e até entre os cristãos crentes da Filosofia Perene foi em grande parte substituída por uma metafísica de inevitável progresso e um Deus evolutivo, por uma apaixonada preocupação, não pela eternidade, mas sim pelo tempo futuro. E quase subitamente, dentro do quarto último de século, consumou-se o que Sheldon chama uma "revolução somatotônica", dirigida contra tudo o que é caracteristicamente cerebrotônico na teoria e na prática da cultura cristã tradicional. Eis aqui alguns sintomas desta revolução somatotônica.

            No cristianismo tradicional, como em todas as grande­s formulações religiosas da Filosofia Perene, era um axioma o que a contemplação é o fim e propósito da ação. Hoje a grande maioria até de cristãos declarados consideram a ação (dirigida para o progre­sso material e social) como o fim, e o pensamento analíti­co (não se trata já de pensamento integral, ou contemplação) como meio para tal fim.

            No cristianismo tradicional, como nas demais formulações da Filosofia Perene, o segredo da felicidade e o caminho de salvação não deviam buscar-se no ambiente externo, a não ser na situação espiritual do indivíduo em relação ao ambiente. Hoje o que mais importa não é a situação espiritual, mas a situação do ambiente. A felicidade e o progresso moral dependem, conforme se pensa, de maiores e melhores mecanismos e de um mais alto nível de vida.

            Na educação cristã tradicional, os bons moldes desterravam toda expressão de prazer na satis­fação de apetites físicos. "Pode amar uma ave voan­do, mas não quando a estão assando", tais eram os versos com que se instruía aos meninos faz só cinqüenta anos. Hoje em dia, os jovens proclamam incessantemente quanto "adoram" distintas classes de alimento e bebida; os adolescentes e adultos falam dos "estremeci­mentos" que os causa o estimular sua sexualidade. A popular filosofia da vida deixou de apoiar-se nos clássi­cos da devoção e as regras da boa criação aristocrática, e é moldada agora pelos redatores de avisos, cuja única idéia é a de persuadir a todo mundo a ser o mais extrovertido e mais inibido possível quanto a avareza, pois, naturalmente, só os ávidos de possuir, os inquietos, perturbados gastam dinheiro nas coisas que os anúncios desejam vender. O progresso tecnológico é em parte produto da revolução somatotônica, em parte produtor e mantenedor dessa revolução. A atenção extrovertida dá por resultado descobrimentos tecnológicos. (É bastante significativo o que um alto grau de civilização material esteve sempre associado com a prática, em grande escala e com sanção oficial, do politeísmo.) Por sua vez, os descobri­mentos tecnológicos conduziram à produção em massa; e é óbvio que a produção em massa não pode manter-se funcionando a plena carga; a não ser persuadin­do a toda a população que aceite a somatotônica Weltanschauung e a que obre em conseqüência.

            Como o progresso tecnológico, com o qual está, de muitos modos, tão estreitamente associada, a guerra moderna é, de uma vez por todas, causa e resultado da revolução somatotônica. A educação nazista, que era concretamente educação para a guerra, tinha dois objetivos principais: inspirar a manifestação da somatotonia nos mais ricos neste componente da personalidade, e fazer que o resto da população se sentisse envergonhada de sua franca amabilidade ou de sua íntima sensibilidade e sua tendência à contenção e à delicadeza de espírito. Durante a gue­rra, os inimigos do nazismo se viram obrigados, é óbvio, a copiar da filosofia educativa dos nazistas. Por todo mundo, milhões de homens e até de mulheres jovens são educados para serem "duros" e apreciar a "dureza" por cima de qualquer outra qualidade moral. Com este sistema de ética somatotônica associa-se a idólatra e politeísta teologia do nacionalismo, sendo a religião muito mais forte atualmente para o mal e a divisão, que não é o cristianismo, ou qualquer outra religião monoteísta para a unificação e o bem. No passado, a maior parte das sociedades tentaram de modo sistemático desalentar a somatotonia. Era esta uma medida em defesa própria; não queriam ser fisicamente destruídas pela agressividade, ávida de poder, de sua minoria mais ativa, e não queriam ser espiritualmente cegas por um excesso de extroversão. Durante os últimos anos tudo isto mudou. Qual, podemos pensar com apreensão, será o resultado do comum e universal transtorno de uma política social imemorial? Só o tempo nos dirá isso.

 

                   O CONHECIMENTO DE SI MESMO

            Em outras criaturas viventes, a ignorância de si é natureza; no homem, é vício.

                                                                                                                                     Boecio

            O vício pode definir-se como uma linha de conduta em que a vontade consente e que tem resultados que são maus, primeiro por ser eclipsadores de Deus, e em segundo termo, porque são física e psicologicamente danosos às pessoas ou à seus semelhantes. A ignorância de si mesmo é algo que corresponde a esta descrição. Em suas origens, é voluntária; pois, pela introspecção e escutando os julgamentos alheios sobre nosso caráter, pode­mos todos, se o desejarmos, alcançar um perspicaz conheci­mento de nossas taras e fraquezas e dos motivos reais de nossas ações, que não são sempre os con­fessados e anunciados. Se a maioria de nós ignora, isso é porque o conhecimento de si mesmo é doloroso e preferimos os prazeres da ilusão. Enquanto às conseqüências de tal ignorância, são males segundo todo critério, do utilitário ao transcendental. Porque a ignorância de si mesmo leva a uma conduta irrealista, com o que ocasiona toda classe de transtornos para todos os interessados; e mais ainda, porque, sem o conheci­mento de si mesmo, não pode haver verdadeira humanidade; nem, portanto, efetivo desânimo; nem, mesmo, conhecimento unitivo da divina Base que está debaixo do eu, ordinariamente eclipsada por este.

            A importância, a indispensável necessidade do conhecimento de si mesmo foi sublinhada pelos santos e doutores de todas as grandes tradições reli­giosas. Para nós os ocidentais, a voz mais familiar é a de Sócrates. Mais sistematicamente que Sócrates, os expositores hindus da Filosofia Perene insistiram no mesmo tema. Aí está, por exemplo, o Buda, cuja dissertação sobre "O estabelecimento da atenção" expõe (com esse esgotamento positivamente inexorável, característico das Escrituras pali) toda a arte do conhecimento de si mesmo em todo os seus ramos —conhecimento do corpo, dos sentidos, dos senti­mentos, dos pensamentos próprios. Esta arte do conhecimento de si mesmo é praticada tendo em vista dois objetivos. O objetivo imediato é o de que é "um irmão, por isso o que faz ao corpo, continua conside­rando o corpo de tal modo que permanece fervoroso, sereno e atento, sem ânsia nem melancolia. E o mesmo quanto a sentimentos, pensamentos e idéias; continua considerando-os de modo que permanece fervoroso, sereno e atento; vencido o anseio e a melan­colia comuns no mundo". Mediante esta desejável condição psicológica e além dela, encontra-se a finalidade última do homem, o conhecimento do que jaz sob o eu individualizado. Em seu próprio voca­bulário, os escritores cristãos expressam as mesmas idéias.

            O homem tem em si muitas peles que cobrem as profundidades de seu coração. O homem sabe muitas coisas; mas não se conhece si mesmo. Trinta ou quarenta peles ou couros, como de boi ou de urso, grossas e duras, cobrem a alma. Entra em seu próprio terreno e aprende ali a se conhecer a si mesmo.

                                                                                                                                

Eckhart

            Os néscios consideram-se despertos agora, tão pes­soal é seu conhecimento! Pode ser como príncipe, pode ser como pastor; mas todos tão seguros de si mesmos!

                                                                                                                      

Chuang Tse

            Esta metáfora do despertar dos sonhos apresenta-se, uma e outra vez, nas diversas exposições da Filosofia Perene. Em tal contexto, a libertação poderia definir-se como o despertar das necessidades, pesadelos e prazeres ilusórios do que ordinariamente se chama vida real, no ensinamento da eternidade. A "serena certeza da beatitude do despertar" — essa maravilhosa frase com que Milton descreveu a experiência da mais nobre classe de música — chega, suponho, tão perto da iluminação e salvação como podem fazer as palavras.

            Você (o ser humano) é o que não é. Eu sou o que sou. Se perceber esta verdade em sua alma, jamais lhe enganará o inimigo; escapará de todos os seus laços.

                                                                                                            

Santa Catalina de Siena

            O conhecimento de nós mesmos nos ensina de onde viemos, onde estamos e onde vamos. Viemos de Deus e estamos no desterro; e porque nosso poder de afeto tende para Deus, advertimos esta condição de desterro.

                                                                                                                                Ruysbroeck

            O progresso espiritual se obtém mediante o crescente conhecimento do eu como nada e da Divindade como a Realidade que abrange tudo. (Tal conhecimento, é óbvio, não tem valor se for meramente teórico; para ser eficaz, deve advertir-se como uma experiência intuitiva imediata, e se deve obrar em conseqüência.) Sobre um grande mestre da vida espiritual, escreve o professor Etienne Gilson. "O deslocamento do temor pela caridade mediante a prática da humildade; eis aqui no que consiste toda a ascese de São Bernardo, seu começo, seu desenvolvimento e seu término." Temor, preocupação e ansiedade formam o núcleo central do eu individualizado. O temor não pode eliminar-se pelo esforço pessoal, mas, só pela absorção do eu em uma causa maior que seus próprios interesses. A absorção em alguma causa desem­baraça a mente de alguns de seus temores, mas só a absorção no amor e conhecimento da Base divina pode desembaraçar de todo temor. Pois quando a causa é inferior a mais alta, o sentimento de temor e ansiedade é transferido do eu à causa, como quando o heróico sacrifício pela pessoa ou a instituição amada é acompanhado pela ansiedade em relação àquilo por que se faz o sacrifício. Enquanto que se o sacrifício é feito por Deus, e por outros, pelo amor de Deus, não pode haver temor nem ansiedade permanente, pois nada pode ser ameaça para a divina Base, e até o fracasso e o desas­tre devem aceitar-se como de acordo com a vontade divina. Em poucos homens e mulheres é o amor de Deus bastante intenso para eliminar estes projetados temor e ansiedade por pessoas e instituições amadas. A razão terá que procurá-la no fato de que poucos homens e mulheres são bastante humildes para ser capazes de amar como deveriam. E carecem da necessária humildade, porque carecem do conhecimento, plenamente adver­tido, de seu próprio nada pessoal.

            A humildade não consiste em ocultar nossos talentos e virtudes, em nos considerar piores e mais ordinários do que somos, mas em possuir um claro conhecimento de tudo o que falta em nós e em não nos exaltar pelo que temos, posto que Deus nos deu isso generosa­mente e que, com todos Seus dons, nossa importância é ainda imensamente pequena.

                                                                                                                            

Lacordaire

            À medida que a luz aumenta, vemos que somos piores do que pensávamos. Assombramo-nos de nossa anterior cegueira ao ver surgir de nosso coração toda uma corja de maus sentimentos, como sujos répteis que saem a rastros de escondida cova. Mas não devemos nos assombrar nem nos turvar. Não somos piores do que fomos; pelo contrário, somos melhores. Mas, enquanto nossas faltas diminuem, a luz mediante a qual as vemos se faz mais brilhante, e nos enchemos de horror. Enquanto não há sintoma de coração, não advertimos a profundidade de nosso mal, achamo-nos em um estado de cega presunção e dure­za, vítimas do próprio engano. Enquanto seguimos a corrente, não temos consciência de seu rápido curso, mas, quando queremos resisti-la, embora seja muito pouco, ela se faz sentir.

                                                                                                                                

Fénelon

            Minha filha, constrói duas celas. Primeiro uma cela real, para que não ronde e fale muito, a não ser que seja necessário, ou possa fazê-lo por amor a seu próximo. Logo, construa uma cela espiritual, que sempre poderá levar contigo, e é esta a cela do verdadeiro conhecimento de si mesmo; encontrará aí o conhecimento da bondade de Deus para consigo. Aqui há realmente duas celas em uma; e se viver em uma delas, também deve viver na outra; em outro caso, a alma se desesperará ou será presunçosa. Se residisse só no conhecimento de si mesma, desesperaria; se residisse no conhecimento de Deus sozinho, veria tentada à presunção. Uma deve ir com a outra, e assim alcança­rá a perfeição.

                                                                                                    

                   A GRAÇA E O LIVRE-ARBÍTRIO

            Para a liberação terá que sair do tempo para a eternidade, e isto se obtém por obediência e docilidade à eterna Natureza das Coisas. Nos deu o livre arbítrio para que pela vontade eliminemos nossa obsti­nação, e assim cheguemos a um contínuo viver em "estado de graça". Todas nossas ações devem dirigir-se, em últi­ma instância, a nos fazer passivos em relação à atividade e o ser da Realidade divina. Somos, por assim dizê-lo, harpas eólicas, dotadas da faculdade de expor-se ao vento do Espírito ou de fechar-se ao seu embate.

                                               O Espírito do Vale nunca morre.

                                               Chamem-lhe a Fêmea Misteriosa.

                                               E a soleira da Fêmea Misteriosa

                                               é a base de onde surgem o Céu e a Terra.

                                               Está aí, dentro de nós, todo o tempo.

                                               Extrai dela tanto como queira; jamais se esgota.

                                                                                                                                 

Lao Tse

            Em toda exposição da Filosofia Perene, a alma humana é considerada feminina com respeito à Divi­ndade, o Deus pessoal e até a Ordem da Natureza. A húbris, que é o pecado original, consiste em conside­rar ao eu pessoal como confidencialmente masculino com respeito ao interno Espírito e à externa Natureza, e em atuar em conseqüência.

            São Paulo traçou uma útil e luminosa distinção entre a psyché e o pneuma. Mas esta última palavra não conseguiu nunca fazer-se popular, e o termo psyché, incuravelmente ambíguo, veio a usar-se para designar indiferentemente a consciência pessoal e o espírito. E por que, na Igreja ocidental, deram os escritores devotos em falar da humana anima (que para os romanos significava a alma inferior, animal) em vez de empregar a palavra tradicionalmente reservada à alma racional, isto é, animus? A resposta, conforme suspeito, é que estavam muito ansiosos de sublinhar por todos os meios em seu poder a feminilidade essencial do espírito humano em suas relações com Deus. Pneuma, que é gramaticalmente neutro, e animus, que é masculino, consideraram-se menos adequados que anima e psyché. Considerem este exemplo concreto: dada a estrutura do grego e do latim, seria muito difícil, para os que falavam estas línguas, identificar algo que não fora uma alma gramaticalmente feminina com a heroína do Can­tar dos Cantares —figura alegórica que, por longas centúrias, representou o mesmo papel, no pensar e sentir cristãos, que as Gopis na teologia e devoção dos hindus.

            Toma nota desta verdade fundamental. Tudo o que obra na natureza e na criatura, exceto o pecado, é operação de Deus na natureza e na criatura. A criatura não tem em seu poder a não ser o livre uso de sua vontade e seu livre-arbítrio não tem outro poder que o de concorrer com a operação de Deus na natureza, ou resistir a ela. A criatura, com seu livre-arbítrio, não pode trazer nada à existência, nem fazer nenhuma alteração na operação da natureza; só pode trocar seu próprio estado ou lugar na operação da natureza, e assim sentir ou achar algo em seu estado que não sentia ou achava antes.

                                                                                                                    

William Law

            Definida em termos psicológicos, a graça é algo que nos ajuda, distinto de nosso eu pessoal consciente de si mesmo. Temos experiência de três classes de ajuda: graça animal, graça humana e graça espiritual. A graça animal vem quando vivemos em pleno acordo com nossa própria natureza no plano biológico —não danificando nosso corpo com excessos, nem estorvando o funcionamento de nossa interna inteligência animal com ânsias e aversões conscientes, a não ser vivendo saudavelmente e nos abrindo à "virtude do sol e o espírito do ar". A recompensa de estar assim em harmonia com o Tao ou o Logos em seus aspectos físico e fisiológico é uma sensação de bem-estar, um ensinamento de que a vida é boa, não por razão alguma, mas somente por ser vida. Não há caso quando nos achamos na condi­ção de graça animal, de propter vitam vivendi perdere causa; pois neste estado não há distinção entre as razões de viver e a vida mesma. A vida, como a virtude, é então sua própria recompensa. Mas, é óbvio, a plenitude da graça animal está reservada aos animais. A natureza do homem é tal que este deve levar uma vida consciente de si mesmo no tempo, não em uma devota eternidade sub-racional entre o bem e o mal. Em conseqüência, a graça animal é algo que conhe­ce só espasmodicamente em poucas freqüentes invocações da consciência de si mesmo, ou como acompanha­mento de outros estados, em que a vida não é sua própria recompensa, mas sim tem que ser vivida por uma razão externa a ela.

            A graça humana nos vem de pessoas ou de grupos sociais, ou de nossos próprios desejos, esperanças e ima­ginações, projetados fora de nós e de algum modo persistentes, no meio psíquico, no estado do que poderia chamar-se objetividade de segunda mão. Todos tivemos experiência dos diferentes tipos de graça humana. Há, por exemplo, a graça que, durante a infância, vem da mãe, do pai, da ama ou do professor querido. Em uma etapa posterior experimentamos a graça dos amigos; a graça de homens e mulheres moralmente melhores e mais prudentes que nós; a graça do guru ou diretor espiritual. Logo há a graça que nos vem por causa de nosso afeto à pátria, partido, Igreja ou outra organização social —uma graça que ajudou até aos indivíduos mais débeis e tímidos a realizar coisas que, sem ela, seriam impossíveis. E finalmente há a graça que obtemos de nossos ideais, sejam altos ou baixos, concebidos em termos abstratos ou incorporados em personificações imaginá­rias. A este último tipo pertenceriam, ao que parece, muitas das graças experimentadas pelos piedosos fiéis das diversas religiões. Podemos pensar que, freqüentemente, a ajuda recebida pelos que devotamente adoram ou rogam a algum santo, deidade ou Avatar pessoal, não é uma graça genuinamente espiritual, a não ser uma graça humana, que volta para adorador do vórtice de força psí­quica criado por repetidos atos (deles e de outros) de fé, desejo e imaginação.

            A graça espiritual não pode ser recebida continuamente nem em sua plenitude, salvo por aqueles que mediante a vontade eliminaram sua obstinação até o ponto de poder dizer com verdade: "Não eu, mas Deus em mim." Existem, entretanto, poucas pessoas tão irremediavelmente auto-condenadas à prisão dentro de sua própria personalidade, que sejam totalmente incapazes de receber as graças que de momento em momento são oferecidas a toda alma. Espasmodicamente a maioria de nós consegue esquecer, embora seja só parcialmente, nossa preocupação pelo "eu", "meu", "minha", e assim chega a ser capazes de receber, embora só seja parcialmente, as graças que, naquele momento, oferecem-nos.

            A graça espiritual tem sua origem na divina Base de todo ser, e é concedida com o propósito de ajudar ao homem a conseguir sua finalidade última, que é sua volta, do tempo e do eu, à essa Base. Parece-se com a graça animal em proceder de uma fonte completamente outra que nossos eus humanos conscientes de si mesmos; no fato, é o mesmo que a graça animal, mas manifesta-se em um nível mais alto da ascendente espiral que conduz da matéria à Divindade. Em qualquer caso dado, a graça humana pode ser totalmente boa, assim que ajuda ao receptor na tarefa de alcançar o conhecimento unitivo de Deus; mas, por causa de sua origem no eu individualizado, sempre é um pouco suspeita, e em muitos casos, é óbvio, a ajuda que dá, dirige-se ao lucro de fins muito diferentes do verdadeiro fim de nossa existência.

            Toda a bondade que temos é emprestada e Deus a tem por própria obra; Deus e sua obra é Deus.

                                                                                                      

San Juan de la Cruz

            A inspiração perpétua é tão necessária à vida de bondade, santidade e felicidade como a perpétua respiração é necessária à vida animal.

                                                                                                                

William Law

            Reciprocamente, é evidente, a vida de bondade, santidade e beatitude é uma condição necessária da inspira­ção perpétua. As relações entre ação e contemplação, ética e espiritualidade, são cíclicas e recíprocas. Cada uma é por sua vez causa e efeito.

            Foi ao declinar o Grande Caminho quando surgiram a bondade e a moralidade humanas.

                                                                                                                                

Lao Tse

            Os verbos chineses carecem de tempos. Esta afirmação a respeito de um hipotético acontecimento histórico refere-se ao mesmo tempo ao presente e ao futuro. Significa simplesmente que, com o surgir da consciência de si mesmo, a graça animal já não é suficiente para a conduta da vida e tem que se comple­tar com eleições conscientes e premeditadas entre o bem e o mal —eleições que têm que se fazer à luz de um código ético claramente formulado. Mas, como os sábios taoístas não se cansam de repetir, os códigos éticos e escolhas deliberadas feitos pela vontade superficial são melhores só em um segundo lugar. A vontade individualizada e a inteligência superficial têm que se usar com o propósito de recuperar a velha relação animal com o Tao, mas em um plano mais elevado, espiritual. A meta é uma inspiração perpétua procedente de fontes situadas além do eu pes­soal; os meios são a bondade e a moralidade humanas, que conduzem à caridade, que é conhecimento unitivo do Tao, ao mesmo tempo Base e Logos.

            Senhor, despe meu ser de tal natureza, que conti­nuamente possa aumentar sua capacidade de receber Sua graça e Sua bondade. E este poder, que tenho do Senhor, do qual tenho uma imagem viva de Sua onipotência, é o livre-arbítrio. Por ele posso alargar ou restringir minha capacidade para Sua graça.

                                                                                                            

Nicolás de Cusa

            Shun interrogou ao Ch'eng dizendo:

            —Pode um alcançar o Tao de modo que o tenha para si?

            —Seu mesmo corpo —respondeu Ch'eng— não é seu. Por que o seria o Tao?

            —Se meu corpo —disse Shun— não é meu, me diga: de quem é?

            —É a delegada imagem de Deus —respondeu Ch'eng—. Sua vida não é sua. É a delegada harmonia de Deus. Sua individualidade não é sua. É a delegada adaptabilidade de Deus. Sua posteridade não é sua. É delegado passo de Deus. Move-se, mas não sabe como. Está em repouso, mas não sabe como. Gosta, mas não sabe a causa. Estas são operações das leis de Deus. Como, pois, alcançaria o Tao de modo que o tivesse para si?

                                                                                                                              

Chuang Tse

            Está em minha faculdade o servir a Deus ou não lhe servir. Servindo-lhe aumento meu próprio bem e o bem de todo o mundo. Não lhe servindo, renuncio a meu próprio bem e privo ao mundo desse bem que eu podia criar.

                                                                                                                              

León Tolstoi

            Deus não o privou da operação de seu amor, mas você lhe privou de sua cooperação. Deus não o rechaçaria nunca, se você não rechaçasse seu amor. Oh, muito bom Deus, você não abandona senão for abandona­do, você não aparta seus dons até que aparta­mos nosso coração!

                                                                                                          

São Francisco de Sales

            Ch'ing, o mestre carpinteiro, esculpia madeira desti­nada ao sustento de instrumentos musicais. Quando terminou, a obra apareceu, a todos os que a viram, como de execução sobrenatural e o príncipe Lu o interrogou dizendo:

            —Que mistério há em sua arte?

            —Nenhum mistério, Alteza —replicou Ch'ing—. E entretanto há algo. Quando me disponho a fazer tal sustento, guardo-me de toda diminuição de meu poder vital. Primeiro reduzo minha mente a uma quietude absolu­ta. Três dias nesta condição, e esqueço-me de toda recompensa que possa ganhar. Cinco dias, e olvi­do-me de toda fama que possa adquirir. Sete dias, e perco consciência de minhas quatro extremidades e de minha estrutura física. Logo, sem nenhum pensamento da Corte em minha mente, minha destreza se concentra, e desapareceram todos os elementos perturbadores de fora. Entro em algum bosque de montanha, procuro uma árvore apropriada. Contém a forma requerida, que depois é elaborada. Vejo o sustento em minha mente e me ponho à obra. Fora disto, não há nada. Ponho minha capacidade natural em relação com a da madeira. O que se acreditava ser a execução sobrenatural em meu trabalho era devido somente a isto.

                                                                                                                                   Chuang Tse

            A inspiração do artista pode ser uma graça humana ou espiritual, ou uma mescla de ambas. Uma elevada realização artística é impossível sem, pelo menos, as formas de mortificação intelectual, emotiva e física apropriadas à classe de arte que se pratica. Além disso e por cima desta mortificação, que poderíamos chamar profissional, al­guns artistas praticaram a classe de desalentar si mesmos que é a pré-condição indispensável do conhecimento unitivo da Base divina. Fra Angélico, por exemplo, preparava-se para seu trabalho por meio da oração e a meditação; e pela precedente entrevista de Chuang Tse vemos quão essencialmente religioso (e não meramente profissional) era o modo como o artífice taoísta abordava sua arte.

            Aqui podemos observar de passagem que a mecanização é incompatível com a inspiração. O artesão podia fazer, e freqüentemente fazia, um trabalho completamente mau. Mas, como Ch'ing, o mestre carpinteiro, estimava sua arte e estava disposto a todo o necessário para fazer-se dócil à inspiração, seu trabalho podia ser, e às vezes era, tão bom que parecia "como de execução sobrenatural". Entre as muitas e enormes vantagens de uma eficaz maquinaria automática, há esta: é completa­mente a prova de tolos; mas, precisamente por ser a prova de tolos, é também a prova de graça. O homem que atende tal máquina é impenetrável a toda forma de inspiração estética, seja de origem humana ou genuinamente espiritual. "A indústria sem arte é brutalidade." Mas, de fato, Ruskin calunia aos brutos. O industrioso pássaro ou inseto está inspirado, quando trove­ja, pela infalível graça animal do instinto —pelo Tao segundo se manifesta no plano imediatamente superior ao fisiológico. O operário industrial, junto a sua máquina a prova de tolos e de graça, faz seu trabalho em um universo, feito pelos homens, de pontuais automaticamente; um universo que se acha inteiramente fora da esfera do Tao em qualquer nível, animal, humano ou espiritual.

            Neste aspecto podemos mencionar essas súbitas teofanias que são às vezes outorgadas à crianças e, às vezes, à adultos, que podem ser poetas ou mercenários, doutos ou ingênuos, mas que têm em comum o não ter feito nada para preparar-se para o que lhes aconteceu. Estas graças gratuitas, que inspiraram muito a arte literária e a pictórica, algum esplêndido e algum (quando a inspiração não se viu fecundada pelo talento nato) patetica­mente inadequado, parece em geral pertencer a uma ou outra de duas classes principais: súbita e profundamente impressões da percepção da Realidade final como Amor, Luz e Beatitude, e uma não menos impressionante percepção da mesma como um Poder obscuro, pavoroso e inescrutável. Em memoráveis forma, Wordsworth re­gistrou sua experiência de ambos os aspectos da divina Base.

            Houve um tempo em que rio, bosque e prado,

            a terra e o que nela se via,

            tudo me parecia

            de celestial luz embelezado.

            e assim sucessivamente. Mas não era esta a única visão.

            Com vigor

            o remo afundava no calado lago

            e, ao me elevar na remada, o bote

            sulcava a água como um cisne;

            logo, depois do rugoso escarpado, limite

            da vista até então, um enorme

            pico negro, ao parecer infuso

            de força voluntária, sua tremenda

            cabeça levantou. E enquanto remava,

            remava eu, crescendo ainda

            aquela horrenda, turva forma erguia-se

            entre mim e as estrelas...

            Mas depois de ter visto espetáculo tal, por

            muitos dias

            envolveu meu cérebro um indeciso,

            nebuloso sentimento de ignotos

            modos de ser; sobre meus pensamentos

            cerne de uma escuridão, chamem

            vácuo abandono, solidão.

            É significativo que as mentes primitivas pareçam mostrar-se, principalmente, receptivas para com este segundo aspecto da Realidade. O formidável Deus a quem Job se submete finalmente é um "ignoto modo de Ser", cujas criações mais características são Behemot e Leviatã. É a classe de Deus que reclama, segundo a frase de Kierkegaard, "teleológicas suspensões da moralidade", principalmente em forma de sacrifícios de sangue, até sacrifícios humanos. A deusa hindu, Kali, em seus aspectos mais terríveis, é outra manifestação do mesmo ignoto modo de Ser. E por muito selvagens con­temporâneos a Base Subjacente é apreendida e teo­logicamente racionalizada como puro Poder não mitiga­do, que tem que ser aplacadoramente adorado e, se for possível, dirigido à usos proveitosos por meio de uma magia compulsiva.

            Considerar Deus como mero Poder, e não, de uma vez, como Poder, Amor e Sabedoria, é ocorrência natural na mente humana ordinária, não regenerada. Só os totalmente desapegados de seu eu estão em condições de saber experimentalmente que, apesar de tudo, "tudo estará bem" e, de algum modo, já tudo está bem. "O filósofo que nega a divina providência —diz Rumi— é um estranho à percepção dos Santos." Só aqueles que têm a percepção dos Santos podem saber durante todo o tempo e por experiência imediata que a divina Realidade se manifesta como um Poder que é amante, compassivo e sábio. O resto que não nos achamos ainda em posição espiritual de fazer mais que aceitar crédulos suas conclusões. Se não fora pelos testemunhos que eles deixaram, inclinaríamo-nos mais a estar de acordo com Job e os primitivos.

            As inspirações nos acautelam, e até antes de que se pense nelas se fazem sentir; mas, depois de sentidas, depende de nós o consentir nelas, para as secundar e sentir sua atração, ou o dissentir e rechaça-las. Fazem-se sentir sem nós, mas não po­dem nos fazer consentir sem nós.

São Francisco de Sales

            Nosso livre-arbítrio pode estorvar o curso da inspiração, e quando o favorável vendaval da graça de Deus assoprar as velas de nossa alma, po­demos nos negar a consentir e, por isso, estorvar o efeito à favor do vento; mas, quando nosso espí­rito navega e viaja prosperamente, não fazemos mais que o vendaval da inspiração sopre a nosso favor, nem tampouco que nossas velas se enchem com ele, nem damos movimento ao navio de nosso coração, mas simplesmente recebemos o vendaval, consentimos em sua emoção e deixamos que nosso navio navegue a seu favor, não estorvando com nossa resistência.

                                                                                                          

São Francisco de Sales

            A graça é necessária para a salvação, e o livre-arbítrio igualmente —mas a graça para dá-la, e o livre-arbítrio para recebê-la. Portanto, não devería­mos atribuir parte da boa obra à graça e parte ao livre-arbítrio; é realizada em sua totalidade pela comum e inseparável ação de ambos, totalmente pela graça, totalmente pelo livre-arbítrio, mas brotan­do na primeira para voltar ao segundo.

                                                                                                                              

São Bernardo

            São Bernardo distingue entre voluntas communis e voluntas propria. Voluntas communis é comum em dois sentidos; é a vontade de compartilhar e é a vontade comum ao homem e a Deus. Para fins práticos é equiva­lente à caridade. Voluntas propria é a vontade de obter e reter para si, e é a raiz de todo pecado. Em seu aspecto cognitivo, voluntas propria é quão mesmo sensum proprium, que é a própria opinião, acariciada porque é própria e, portanto, sempre moralmente errônea, embora possa ser teoricamente correta.

            Dois estudantes da Universidade de Paris foram visitar o Ruysbroeck e lhe pediram que lhes dissesse uma breve frase ou divisa que pudesse lhes servir como regra de vida.

            “Vós estis tam sancti sicut vultis, respondeu Ruysbroeck. "Sois tão santos como queirais."

Deus está obrigado a obrar, a verter-se em ti, enquanto te encontres disposto.”

                                                                                                                                         Eckhart

            A vontade é o que tem todo o poder; faz o céu e faz o inferno; pois não há inferno a não ser onde a vontade da criatura se separa de Deus, nem há céu a não ser onde a vontade da criatura obra com Deus.

                                                                                                                                    William Law

            Homem, considere-te a ti mesmo! Eis aí na ansiosa, perpétua luta do bem e do mal; toda a natureza trabalha constantemente para produzir a grande redenção; toda a criação sofre e se agita em dores de parto para libertar-se da vaidade do tempo; e estarás dormido? Tudo o que ouves ou vês não te dizes nada, não te mostras nada a não ser o que a eterna luz ou a eterna trevas produziu pois, como o dia e a noite se repartem a totalidade de nosso tempo, assim o céu e o inferno repartem nossos pensamentos, palavras e atos. Move-te como quei­ras, fazes ou propões o que queiras, deves ser agente de um ou de outro. Não podes permanecer quieto porque vives no perpétuo obrar da natureza temporária e eterna, se não atuares com o bem, o mal que há na natureza te arrastas consigo. Tens a altura e a profundidade da eternidade em ti e, portanto, algo que faças, seja em gabinete, campo, loja ou igreja, estas semeando o que cresce e deves colher na eternidade.

                                                                                                                                

William Law

            Deus espera uma só coisa de ti: que saias de ti mesmo, assim que és um ser criado e deixes a Deus ser Deus em ti.

                                                                                                                                         Eckhart

            Para os que gozam em especulações teológicas apoiadas em textos de Escrituras e postulados dogmáticos, existem milhares de páginas de controvérsia católica e protestante sobre a graça, as obras, a fé e a justificação. E para estudantes de religião comparada existem doutos comentários sobre o Bhagavad Gita, as obras de Ramanuja e os posteriores vaishnavitas, cuja doutrina da graça tem surpreendente semelhança com a de Lutero; há histórias do budismo que devidamente, seguem o desenvolvimento dessa religião da doutrina hinayânica de que a salvação é fruto de esforçada ajuda de si mesmo até a doutrina mahayânica de que não pode obter-se sem a graça de Buda Primitivo, cuja interna consciência e "grande coração compassivo" constituem a eterna Talidad das coisas. Para o resto de nós, parece-me que as precedentes entrevistas de escritores compreendidos dentro da tradição cristã e dos primeiros taoístas proporcionam uma exposição adequada dos fatos observáveis da graça e da inspiração e sua relação com os fatos obser­váveis do livre-arbítrio.

 

                   O BEM E O MAL

            O desejo é o primeiro dado de nossa consciência; ao nascer entramos na esfera da simpatia e da antipatia, do desejo e da vontade. Inconscientemente no princípio, logo conscientemente, avaliamos: "Isto é bom, aquilo é mau." E um pouco mais tarde descobrimos a obrigação. "Isto, que é bom, deveria fazer-se; aquilo, que é mau, não deveria fazer-se."

            Todas as avaliações não são igualmente válidas. Corresponde-nos julgar o que nossos desejos e aver­sões afirmam ser bom ou mau. Com grande freqüência descobrimos que o veredicto do tribunal superior dife­re da decisão tomada tão rápida e ligeiramente pelo tribunal de primeira instância. À luz do que sabemos sobre nós mesmos, nossos semelhantes e o mundo em geral, descobrimos que aquilo que em princípio parecia bom pode, ao longa e em um maior contexto, ser mau; e o que em princípio parecia mau pode ser bom quando nos sentimos sob a obrigação de cumprir.

            Quando dizemos de um homem que possui uma aguda penetração moral, queremos dizer que seu critério sobre a escala de valores é sólido; que sabe bastante para poder dizer o que é bom, afinal de contas, e no contexto máximo. Quando dizemos de um homem que tem um forte caráter moral, queremos dizer que está disposto a atuar segundo as conclusões de seu progresso moral, mesmo que estas conclusões difiram de modo desagradável, e até muito penoso, de suas primeiras, espon­tâneas avaliações.

            Na prática, o progresso moral não é nunca uma questão estritamente pessoal. O juiz administra um sistema legal e é guiado pelos precedentes. Em outras palavras, todo indivíduo é membro de uma comunidade, que possui um código moral apoiado em passados descobri­mentos do que em realidade é bom, ao final das contas, e no mais amplo contexto. Na maior parte das circunstâncias, a maioria dos homens de qualquer sociedade dada, deixa-se guiar pelo código moral geralmente aceito; uns poucos rechaçam este código, seja em sua totalidade ou em parte; e uns poucos decidem viver segundo outro código, mais elevado e exigente. Segundo a fraseologia cristã, há os poucos que persistem em viver em pecado mortal e ilegalidade anti-social; há os muitos que obede­cem às leis, tomam por guia os Preceitos da Moral, arrependem-se dos pecados mortais quando os come­te, todavia, não fazem grande esforço por evitar os pecados venais; e finalmente há os poucos cuja retidão "supera a retidão dos escribas e fariseus", que se guiam pelos Conselhos de Perfeição e têm inteligência suficiente para perceber os pecados venais e até as imperfeições, e caráter suficiente para evitá-los.

            Filósofos e teólogos procuraram estabelecer uma base teórica para os códigos morais existentes, me­diante os quais os indivíduos julgam suas avaliações espontâneas. De Moisés ao Bentham, de Epicuro ao Calvino, das filosofias cristãs e budistas do amor universal às lunáticas doutrinas do nacionalismo e a superioridade racial —a lista é longa e o trecho de pensamento enormemente extenso. Todavia, afortunada­mente, não há necessidade de que consideremos estas diversas teorias. Devemos nos ocupar somente da Filosofia Perene e o sistema de princípios éticos que usaram os que acreditam nela, ao julgar as próprias e alheias avaliações. As perguntas que temos que fazer nesta seção são bastante simples, assim como, simples são as respostas. Como sempre, as dificuldades aparecem só quando passam da teoria à prática, do princípio ético à aplicação particular.

            Concedido que a base da alma individual é afim à divina Base de toda existência, ou idêntica com ela, e concedido que esta Base divina é uma inefável Divindade que se manifesta como Deus pessoal, ou até como o Logos encarnado, qual é a natureza final do bem e do mal, e qual o verdadeiro intuito e último fim da vida humana?

            As respostas a estas perguntas podem dar-se em grande parte com as palavras de William Law, esse surpreendente fruto inglês do século XVIII. (Que estranho é nosso sistema educativo! Os estudantes de literatu­ra inglesa se vêem forçados a ler o gracioso jornalismo do Steele e Addison, e se espera deles que saibam tudo a respeito das novelas menores de Defoe e as miúdas elegâncias de Matthew Prior. Mas podem aprovar seus exames summa cum lande sem ter olhado sequer os escritos de um homem que não só era um mestre da prosa inglesa, mas também um dos pensadores mais interessantes de sua época e uma das figuras mais simpaticamente santas de toda a história do anglicanismo.) Nosso extraordinário esquecimento de Law é até outra das muitas indicações de que os educadores do século XX cessaram de preocupar-se com questões de verdade ou do significado final e (fora do mero adestramento profissional) interessam-se so­mente na disseminação de uma cultura sem raízes, nem pertinência e no fomento da solene tolice do douto por amor ao douto.

            Nada arde no inferno a não ser o eu.

                                                                                

Theologia Germânica

            Arde a mente, ardem os pensamentos. A consciência mental e as impressões recebidas pela mente, e as sensações que brotam das impressões que a mente recebe —estas também ardem.

            E qual é o fogo em que ardem? O fogo da cobiça, o fogo do rancor, o fogo da paixão; ardem de nascimento, velhice e morte, de pena e lamentação, de pesar e desespero.

                                                                                                  

Do Sermão do Fogo, de Buda

            Se não vir o diabo, olhe a seu próprio eu.

                                                                                                        

Jalal-uddin Rumi

            Seu próprio eu é seu Caim que assassina a seu Abel. Pois cada ato e moção do eu tem o espírito do Anticristo e assassina à vida divina dentro de si.

                                                                                                                  

William Law

            A cidade de Deus está feita pelo amor de Deus levado a desprezo do eu; a cidade terrestre, pelo amor do eu levado a desprezo de Deus.

                                                                                                                

Santo Agustín

            A diferença entre um homem bom e um homem mau não está em que um quer o que é bom e o outro não, a não ser somente, em que um concorda com o vivente, inspirador espírito de Deus que há nele, e o outro resiste, e pode ser acusado de maldade só porque resiste.

                                                                                                                                

William Law

            A gente deveria pensar menos no que deve fazer e mais no que deve ser. Com que seu ser fosse bom, resplandeceriam suas obras. Não imagine que pode fundar sua salvação em seus atos; deve descan­sar no que é. A base em que descansa o bom caráter é quão mesma dá valor à obra humana, ou seja, uma mente plenamente dirigida para Deus. Na verdade, se assim fosse sua mente, poderia pisar uma pedra e fazer com isso uma melhor obra que se, só em seu próprio proveito, recebesse o Corpo do Senhor, care­cendo de desprendimento espiritual.

                                                                                                                                      Eckhart

            O homem é feito por sua crença. Conforme acredite, assim é.

                                                                                                                          

Bhagavad Gita

            É a mente o que dá às coisas sua qualidade, fundamento de seu ser. A quem quer que fale ou obre com mente impura, o pesar lhe segue, como a roda segue os passos do boi que arrasta a carreta.

                                                                                                                            Dhammapada

            A natureza do ser de um homem determina a de seus atos; e a natureza de seu ser se manifesta acima de tudo na mente. O que anseia e pensa, em que acredite e sente —isto é, por assim dizê-lo, o Logos por cujo meio o caráter fundamental de um indivíduo realiza seus atos. Estes atos serão belos e moralmente bons se o ser está centrado em Deus, maus e feios se está centrado no eu pessoal. "A pedra —diz Eckhart— faz seu trabalho sem cessar, dia e noite." Pois, até quando não está caindo, a pedra tem peso. O ser de um homem é uma energia latente dirigida para Deus ou em sentido contrário: e por esta energia latente será tido por bom ou mau —pois é possível, segundo as palavras do Evangelho, cometer adultério e assassinato no coração, até permane­cendo irreprochável nos atos.

            Cobiça, inveja, orgulho e ira são os quatro elemen­tos do eu, ou natureza ou inferno, todos eles inseparáveis dele. E a razão de que deve ser assim e não pode ser de outro modo é que a vida natural da criatura surge para participar de algum alto bem sobrenatural do Criador. Mas não poderia ter disposição, nenhuma possível aptidão para receber tal bem, se não fora de por si uma vez um extremo de necessidade e um extremo de desejo de algum alto bem. Quando, pois, esta vida natural vê-se privada ou afastada de Deus, não pode ser por si, a não ser um extremo de necessidade que constante­mente deseja e um extremo de desejo que constante­mente necessita. E sendo assim, toda sua vida não pode ser outra coisa que uma praga e um tortura de cobiça, inveja, orgulho e ira, todo o qual é precisamente natureza, eu, ou inferno. E a cobiça, orgulho e raiva não são três coisas diferentes, mas só três nomes distintos do inquieto operar de uma e da mesma vontade ou desejo. A ira, que nasce em quarto lugar, desses três, não pode cobrar existência até que um deles ou todos são contraditos ou lhes faça algo contrário à vontade. Estas quatro propriedades engendram sua pró­pria tortura. Não têm causa externa, nem nenhum poder interno para alterarem a si mesmos. E, portanto, todo eu, ou natureza, tem que achar-se neste estado até que algum bem sobrenatural chegue a ele ou nele se engendre. Enquanto o homem vive entre as vaidades do tempo, sua cobiça, inveja, orgulho e ira acaso se achem em um estado passível, acaso o mantenham em uma mescla de paz e tribulação; podem ter às vezes suas satisfações como suas torturas. Mas quando a morte pôs fim à vaidade de todos os enganos terrestres, a alma que não renasce da sobrenatural palavra e Espírito de Deus, tem que ver-se indevidamente devorada ou encerrada em sua própria cobiça, inveja, orgulho e ira, insaciáveis, imutáveis, torturantes.”

                                                                                                                                    William Law

            É certo que um não pode expressar adequada­mente o grau de sua perversidade; mas isto é assim por ser impossível, nesta vida, representar os peca­dos em toda sua verdadeira fealdade; e não os conhecermos nunca como realmente são, exceto à luz de Deus. Deus dá às almas uma impressão da enor­midade do pecado, mediante a qual lhes faz sentir que o pecado é incomparavelmente maior do que parece. Tais almas têm que conceber seus pecados como a fé os representa (isto é, como são em si mesmos), mas devem contentar-se descrevendo-os com as palavras humanas que sua boca é capaz de pronunciar.

                                                                                                                    

Charles de Condren

            Lúcifer, quando se erguia em sua natural nobreza como Deus o criara, era uma pura e nobre criatura. Mas quando teve a si mesmo, quando se possuiu a si mesmo e a sua natural nobreza como uma propriedade, caiu e transformando-se de anjo em demônio. Assim ocorre com o nome. Se permanecer em si mesmo e se empossar de sua natural nobreza como de uma propriedade, cai e transforma-se de homem em demônio.

                                                                                                        

O Seguimento de Cristo

            Se um deleitoso, fragrante fruto tivesse a faculdade de separar do rico espírito, fino gosto, aroma e cor que recebe da virtude do ar e o espírito do sol, ou se pudesse, ao começo de seu desenvolvimento, apartar do sol e não receber dele nenhuma virtude, falaria então em seu primeiro nascimento de ira, agrura, amargor, adstringência, tal como ocorre aos demônios que voltaram para sua própria, obscura raiz e rechaçaram a Luz e o Espírito de Deus. De modo que a infernal natureza de um demônio não é nada mais que suas primeiras formas de vida retiradas ou separadas da Luz e o Amor celestiais; assim como a agrura, amargor e adstringência de um fruto não são outra coisa que a primeira forma de sua vida vegetal, antes que alcance a virtude do sol e o espírito do ar. E como se um fruto tivesse sensibilidade própria, encontrar-se-ia cheio de tortura assim que se achasse encerrado nas primeiras formas de sua vida, em sua própria adstringência, agrura e agudo amargor, assim os anjos, quando retornaram a estas primeiras formas de sua vida e afastado-se da Luz e o Amor de Deus, converteram-se em seu próprio inferno. Não se fez nenhum inferno para eles, não lhes sobrevieram novas qualidades, não caiu sobre eles nenhuma vingança ou castigo do Senhor do Amor; só se acharam nesse estado de lugar retirado e separação do Filho e o Santo Espírito de Deus, que por sua própria moção fizeram para si. Não havia nada neles, a não ser o que tiveram de Deus, as primeiras formas de uma vida celestial; mas, tinham-nas em um estado de tortura, porque se separaram ao nascimento do Amor e a Luz.

                                                                                                                              

William Law

            Em toda a possibilidade das coisas só há e pode haver uma felicidade e uma aflição. A aflição é a natureza e a criatura deixadas a si mesmos, a felicidade é a Vida, a Luz, o Espírito de Deus, manifestados na natureza e na criatura. Este é o verdadeiro significado das palavras de Nosso Senhor: Só um é bom, e este é Deus.

                                                                                                                      

William Law

            Os homens não estão no inferno porque Deus esteja irado com eles; acham-se eles na ira e em trevas porque fizeram, ante a luz que imensamente flui de Deus, como faz, ante a do sol, o homem que arranca seus próprios olhos.

                                                                                                                        

William Law

            Embora a luz e o presente mundo externo protegem, até aos piores homens, de uma constante e forte sensibilidade para com a natureza irada, ar­dente, obscura e torturante, que é a essência mesma de toda alma caída, não regenerada, a todo homem, no mundo, lhe dão sinais mais ou menos freqüentes e fortes, de que assim lhe ocorre na mais íntima camada de sua alma. À quantas invenções não tem que recorrer certa gente para afugentar certa inquietação íntima que lhes assusta e não sabem de onde vem? Há neles um espírito cansado, um obscuro e doloroso fogo que nunca teve seu adequado alívio, tenta descobrir-se e gritando socorro cada vez que cessa o gozo mundano.

                                                                                                                                  

William Law

            Na tradição hebreu-cristã, a Queda segue à criação e se deve exclusivamente ao emprego egocêntrico do livre-arbítrio, que deveria permanecer centrado na divina Base e não em um eu separado. O mito da Gênese encerra uma verdade psicológica muito importante; porém, não chega a ser um símbolo eternamente satisfatório, porque deixa de mencionar, e não explica em modo algum, o fato do mal e o sofrimento no mundo não humano. Para ser adequado à nossa expe­riência, o mito teria que modificar-se de dois modos. Em primeiro lugar, teria que pôr em claro que a criação, o incompreensível passado do Um imanifestado à manifesta multiplicidade da natureza, da eter­nidade ao tempo, não é meramente o prelúdio e condição necessária da Queda; até certo ponto é a Queda. E em segundo lugar, teria que indicar que algo análogo ao livre-arbítrio pode existir abaixo do nível humano.

            Que o passo da unidade da existência espiritual à multiplicidade da temporal é uma parte essencial da Queda se expõe claramente nas versões hindu e budista da Filosofia Perene. A dor e o mal são inseparáveis da existência individual em um mundo do tempo; e, para os seres humanos, há uma intensificação desta dor e mal inevitável quando o desejo se volta para o eu e os muitos, melhor que para a Base divina. A isto poderíamos acrescentar especulativamente a opinião de que possivelmente até as existências infra-humanas podem estar dotadas (tanto individual como coletiva­mente, como classes e espécies) um pouco parecido à faculdade de escolher. Há o extraordinário fato de que "o homem está sozinho" —de que, até onde possamos julgá-lo, toda outra espécie é uma espécie de fósseis vi­ventes, capazes somente de degeneração e extinção, não de novo avance evolutivo. Na fraseologia do aristotelismo escolástico, a matéria possui apetite pela forma, não necessariamente pela melhor forma, mas sim pela forma como tal. Olhando em torno de nós no mundo das coisas viventes, observamos (com enfeitiçada mara­vilha, embora tentada, às vezes, devemos admiti-lo, de interrogadora angústia) as inumeráveis formas, sempre belas, freqüentemente extravagantemente estranhas e algumas vezes até sinistras, em que encontrou satisfação o insaciável apetite da matéria. De toda esta matéria vivente só a que está organizada em seres humanos conseguiu encontrar uma forma capaz, pelo menos pelo lado mental, de novo desenvolvimento. Todo o resto está agora encerrado em formas que só podem continuar como estão, ou piorar se mudarem. Parece como se, na prova de inteligência cósmica, toda a matéria vivente, exceto a humana, tivesse sucumbido, em um ou outro momento de sua carreira biológica, à tentação de assumir a forma não finalmente melhor, a não ser imediatamente mais proveitosa. Por um ato parecido ao livre-arbítrio, cada espécie, exceto a humana, escolheu os rápidos benefícios da especialização, o presente êxtase de ser perfeito, mas perfeito em um sub-nível do ser. O resultado é que todas se acham ao extremo de evolutivos becos sem saída. A inicial Queda cósmica da criação, a múltipla manifestação no tempo, acrescentou o equivalente, obscuramente biológico, da Vo­luntária Queda do homem. Como espécie, preferiram a imediata satisfação do eu à capacidade de reunião com a divina Base. Por esta equivocada eleição, as formas não humanas da vida são castigadas negativamente, sendo privadas de advertir o bem supremo, do qual só é capaz a forma humana, não especializada e, portanto, mais livre, mais altamente consciente. Mas deve recordar-se, é óbvio, que a capacidade para o bem supremo se obtém só ao preço de voltar-se também capaz de sua maldade. Os animais não sofrem de tantos modos nem, podemos estar bastante seguros disso, no alto grau como os homens e mulheres. Além disso, são comple­tamente inocentes dessa perversidade literalmente diabó­lica que, junto com a santidade, é um dos signos distintivos da espécie humana.

            Vemos, pois, que, para a Filosofia Perene, o bem é a conformidade do separado eu com a Base divina que lhe dá a vida, e seu final aniquilamento nela; o mal, a intensificação da separação, a negação de conhecer que a Base existe. Esta doutrina é, é óbvio, perfei­tamente compatível com a formulação de princípios éti­cos como uma série de divinos mandamentos negativos e positivos, ou até em termos de utilidade social. Os crimes proibidos em todas partes procedem de estados de espírito que em todas partes se condenam como equivocados; e estes estados de espírito equivoca­dos são, como questão empírica, absolutamente incom­patíveis com esse conhecimento unitivo da divina Base que, segundo a Filosofia Perene, é o bem supremo.

 

                   O TEMPO E A ETERNIDADE

            O universo é uma perpétua sucessão de acontecimen­tos, mas sua base, segundo a Filosofia Perene, é o agora sem tempo do Espírito divino. Pode achar uma exposi­ção clássica da relação entre tempo e eternidade nos últimos capítulos da "Consolação da Filosofia", onde Boecio resume os conceitos de seus predecessores, espe­cialmente de Plotino.

            Uma coisa é ser levado através de uma vida sem fim e outra abranger junto toda a presença de uma vida sem fim, o que é manifestadamente próprio da Mente divina.

            O mundo temporário parece emular em parte o que não pode plenamente obter ou expressar, ligando-se a qualquer presença existente neste exíguo e fugaz momento —uma presença que, pois conduz certa imagem dessa duradoura Presença, dá ao que parti­cipa dela a qualidade de parecer que tem ser. Mas, pois não podia permanecer, empreendeu uma infinita viagem de tempo; e assim aconteceu que, indo, continuou essa vida cuja plenitude não podia abranger permane­cendo.                     Boecio

            Posto que Deus tem sempre um estado eterno e presente, Seu conhecimento, que ultrapassa as idéias do tempo, permanece na simplicidade de Sua presença e, compreendendo o infinito do passado e o porvir, considera todas as coisas como se estivessem no ato de ser cumpridas.

                                                                                                                                      Boecio

            O conhecimento do que acontece agora não determina o acontecimento. O que ordinariamente se chama precognição de Deus é em realidade um atual conhecimento sem tempo, que é compatível com a liberdade da vontade da criatura humana no tempo.

            “O mundo manifesto e tudo o que é movido de alguma sorte tomam suas causas, ordem e formas da estabilidade da Mente divina. Isto determinou múltiplos modos de fazer coisas; estes modos, conside­rados na pureza do entendimento de Deus, chamam-se Providência; mas, referidos à essas coisas que move e dispõe, chamam-se Fado... A Providência é a mesma Razão divina, que dispõe todas as coisas. Mas o Fado é uma disposição inerente às coisas variáveis, pela qual a Providência conecta todas as coisas em sua devida ordem. Pois a Providência igualmente abrange todas as coisas juntas, embora diversas, embora infinitas; mas o Fado põe em movimento todas as coisas, distribuídas por locais, formas e tempos; de modo que o desdobrar da ordem temporária, unido na precisão da Mente divina, é a Provi­dência, e o mesmo, unindo e sendo digerido e desdobrado no tempo, é chamado Fado... Como um operário que concebe a forma de algo em sua mente, empreende sua obra e executa segundo ordem do tempo o que previsse simplesmente e em um instante, assim Deus por sua Providência dispõe o que terá que fazer com simplicidade e estabilidade, e pelo Fado efetua por múltiplos modos e na ordem do tempo essas mesmas coisas que dispõe... Tudo o que está sob o Fado está também sujeito à Providência. Mas algumas coisas que estão sob a Providência estão acima do curso do Fado. Pois são essas coisas que, estando estáveis e fixas em virtude de sua proximidade à primeira divindade, superam a ordem da mobilidade do Fado.”

                                                                                                                                           Boecio

            A idéia de um relógio envolve toda a sucessão do tempo. Na idéia a sexta hora não é anterior à sétima nem à oitava, embora o relógio nunca dá a hora, salvo quando a idéia o pede.

                                                                                                                              

Nicolás de Cusa

            De Hobbes em diante, os inimigos da Filosofia Perene negaram a existência de um eterno agora. Segundo estes pensadores, o tempo e a mudança são funda­mentais: não há outra realidade. Além disso, os aconteci­mentos futuros estão completamente indetermináveis, e nem Deus pode ter conhecimento deles. Em conseqüência, Deus não pode ser descrito como o Alfa e a Ômega —meramente como o Alfa e a Lambda, ou qualquer outra letra intermediária do alfabeto temporário que se ache agora em curso de soletração. Mas as provas anedóticas reconhecidas pela Sociedade de Investigação Psíquica e as provas estatísticas acumuladas durante muitos anos de experimentos de laboratório em percepção extra-sensorial assinalam inegavelmente a conclusão de que até as mentes humanas são capazes de precognição. E se uma consciência finita pode saber qual carta se voltará em três segundos, ou que naufrágio ocorrerá a semana próxima, não há nada impossível nem mesmo intrinsecamente im­provável na idéia de uma consciência infinita que possa saber agora acontecimentos indefinidamente remotos no que, para nós, é o tempo futuro. O "enganoso presente" em que vivem os seres humanos pode ser, e acaso seja sempre, algo mais que uma breve seção de transição do conhecido passado ao ignoto futuro, conside­rada, pelo vivido de nossa lembrança, como o instante que chamamos "agora"; pode conter, e acaso contenha sempre, uma porção do imediato, e até possivelmente do relativamente distante, futuro. Para a Divindade, o espe­sso presente possivelmente seja precisamente essa interminabilis vitae tota simul et perpetua possessio, de que fala Boecio.

            A existência do eterno agora é, às vezes, negada ale­gando que uma ordem temporária não pode coexistir com outra ordem não temporária, e que é impossível que uma substância cambiante se una a uma substância que não muda. É óbvio que esta objeção seria válida se a ordem não tempo­ral fosse de natureza mecânica, ou se a substância imutável possuísse qualidades espaciais e materiais. Mas, segundo a Filosofia Perene, o eterno agora é uma consciência; a Base divina é espírito; o ser de Brahma é chit ou conhecimento. Que um mundo temporário seja conhecido e, ao ser conhecido, sustentado e perpetuamente criado por uma consciência eterna, é uma idéia que não contém nada que se contradiga.

            Finalmente chegamos aos argumentos dirigidos con­tra os que afirmaram que a eterna Base possa ser conhecida unitivamente por mentes humanas. Esta ale­gação é considerada absurda porque envolve a assertiva: "ora sou eterno, ora sou no tempo". Todavia, esta afirmação é absurda somente se o homem for um ser de dupla natureza, capaz de viver em um só plano. Porém se, como mantiveram sempre os expositores da Filosofia Perene, o homem não é só corpo e psique, mas também espírito, e se puder, à vontade, viver seja no plano meramente humano ou em harmonia, e até em união, com a divina Base de seu ser, então a afirmação é perfeitamente sensata. O corpo é sem­pre temporário, o espírito é sempre eterno, e a psique é uma criatura anfíbia obrigada pelas leis da existência do homem a associar-se até certo ponto com seu corpo; mas capaz, se o desejar, de experimentar seu espírito e identificar-se com ele e, mediante seu espírito, com a Base divina. O espírito continua sempre como eter­namente é; mas o homem está constituído de tal modo que sua psique não pode estar sempre identificada com o espírito. Na afirmação: "Ora sou eterno, ora sou no tempo", o sujeito é a psique, que passa do tempo à eternidade quando se identifica com o espírito e volta da eternidade ao tempo, seja voluntariamente ou por necessidade involuntária, quando quer identificar-se com o corpo ou é obrigada a isso.

            "O sufi —diz Jalal-uddin Rumi— é filho do presente." O progresso espiritual é um avanço em espiral. Partimos como crianças, na eternidade animal da vida no momento, sem ansiedade pelo futuro nem pesar pelo passado; crescemos até a condição especificamente humana dos que olham adiante e atrás, dos que vivem em grande parte, não no presente, a não ser em lembrança e espera, não espontaneamente, mas com norma e prudência, com arrependimento, temor e esperança; e podemos continuar, se o desejarmos, subindo e avançando, em magnífica volta, até um ponto corre­spondente a nosso ponto de partida na animalidade, mas incomensuravelmente mais alto. Uma vez mais a vida é vivida no momento; a vida, agora, não de uma criatura infra-humana, mas sim de um ser no que a caridade eliminou o temor, a visão substituiu a esperança, a abnegação terminou com o egoísmo positivo da reminiscência aduladora e o egoísmo negativo do remorso. O momento presente é a única abertura pela qual a alma pode acontecer do tempo à eternidade, pela qual a graça pode passar da eternidade à alma, e pela qual a caridade pode passar de uma alma no tempo a outra alma no tempo. Por isso o sufi e, com ele, qualquer outro expositor prati­cando a Filosofia Perene, é ou procura ser filho do presente.

            Passado e futuro ocultam a Deus a nossa vista; queimam com fogo. Até quando lhe dividirão estes segmentos, como um cano?

            Enquanto o cano está dividido, não conhece segredos nem responde vocalmente ao lábio nem ao fôlego.

                                                                                                                      

Jalal-uddin Rumi

            Este esvaziar da memória (embora não se seguisse dele tão bem como é ficar em Deus), por só ser causa de livrar-se de muitas penas, aflições e triste­zas, além das imperfeições e pecados de que se livra a alma, é grande bem.

                                                                                                        

San Juan de la Cruz

            Na idealista cosmologia do budismo mahayânico, a memória desempenha o papel de um demiurgo bastante malé­fico. "Quando a tripla palavra é examinada pelo Bodhisattva, percebe este que sua existência é devida à memória que foi acumulada do passado sem começo, mas interpretada erroneamente." (Lankavatara Sutra) A palavra traduzida aqui por "memória" significa literalmente "perfumar". O corpo mental levava consigo o inerradicável aroma de tudo o que se pensou e fez, desejou e sentiu, ao longo de seu passado racial e pessoal. Os chineses traduzem o termo sânscrito mediante dois símbolos, que significam "hábito-energia". O mundo é o que (a nossos olhos) é, por causa de todos os hábitos recordados consciente ou inconscientemente e fisiologicamente, adquiridos por nossos antepassados ou por nós mesmos, seja em nossa vida atual ou em existências prévias. Estes recordados maus hábitos nos fazem acreditar que a multiplicidade é a única realidade e que a idéia do "eu", "meu", representa a verdade final. O Nirvana consiste em "ver a morada da realidade tal como é", e não a realidade quoad nos, como nos parece. É óbvio que isto não pode obter-se enquanto exista um "nos" para o que a realidade pode ser relativa. Daí a necessidade, recalcada por todo expositor da Filosofia Perene, da mortificação, de morrer para o eu. E não deve ser só uma mortificação dos apetites, dos sentimentos e da vontade, mas também das faculdades racionais, da consciência mesma e o que faz de nossa consciência o que é —nossa memória pessoal e nosso hábito-energias herdadas. Para obter a libertação completa, a conversão que faz abandonar o peca­do não é o bastante; deve haver também uma conversão da mente, um paravritti, como os mahayanistas o chamam, ou reação nas profundidades mesmas da consciência. Como resultado desta reação, os hábito-energias da memória acumulada são destruídas e, junto com elas, o senti­mento de ser um eu separado. A realidade não é já percebida quoad nos (pela suficiente razão de que não há já um nos que a perceba), mas sim como é em si mesma. Segundo as palavras de Blake: "Se as portas da percepção fossem limpas, tudo se veria como é, infinito." Por aqueles que são puros de coração e pobres de espírito, Samsara e Nirvana, aparência e realidade, tempo e eterni­dade, são experimentados como um e o mesmo.

            O tempo é o que impede que a luz nos alcance. Não há maior obstáculo para chegar a Deus que o tempo. E não só o tempo, mas também as temporalidades; não só os afetos temporários, mas também a mácula e o aroma mesmos do tempo.

                                                                                                                                

Eckhart

            Alegre-se em Deus todo o tempo, diz São Paulo. Alegra-se todo o tempo quem o faz por cima do tempo e livre do tempo. Três coisas privam ao homem de conhecer Deus. A primeira é o tempo, a segunda é a corporalidade, a terceira é a multiplicidade. Para que Deus possa entrar, estas coisas devem sair — a não ser que as tenha de um modo mais elevado, melhor: a multidão resumida em um em si.

                                                                                                                                  

Eckhart

            Sempre que se pensa em Deus como sendo inteira­mente no tempo, há uma tendência a considerá-lo melhor como um ser "numinoso", que como um ser moral; um Deus de mero moderado Poder, mais que um Deus de Poder, Sabedoria e Amor; um inescrutável e perigoso potentado que terá que aplacar com sacrifícios, não um Espírito que terá que adorar em espírito. Tudo isto é bastante natural; pois o tempo é um perpétuo perecer e um Deus que é inteiramente no tempo é um Deus que destrói tão rapidamente como cria. A Natureza é tão incompreensivelmente aterradora como bela e dadi­vosa. Se o Divino não transcender a ordem temporária em que é imanente, e se o espírito humano não transcende sua alma ligada ao tempo, não há então possibilidade de "justificar a conduta de Deus para com o homem". Deus, segundo se manifesta no universo, é o irresistível Ser que fala com Job do torvelinho e cujos emblemas são Behemot e Leviatã, o cavalo de batalha e a águia. É este mesmo Ser o descrito no apocalíptico capítulo onze do Bhagavad Gita. "Oh, Supremo Espírito —diz Arjuna, dirigindo-se à Krishna que ele sabe encarnação da Divindade—, desejo ver sua forma Ishvara"; isto é, sua forma como Deus do mundo, a Natureza, a ordem temporária. Krishna responde: "Verá o universo inteiro, com todas as coisas animadas e inanimadas, dentro deste meu corpo." A reação da Arjuna ante a revelação é de assombro e temor.

            Ah, Meu deus, vejo todos os deuses dentro de seu corpo; cada um em seu grau, a multidão de criaturas; vejo Brahma sentado sobre seu lótus, vejo os sábios e as serpentes sagradas. Forma universal, vejo sem limite, infinita em olhos, braços, bocas e ventres; vejo, e não acho fim, meio nem começo.

            Segue uma longa passagem, que se estende sobre a oni­potência e o absoluto alcance de Deus em sua forma Ishvara.

            Logo troca a qualidade da visão, e Arjuna adverte, trêmulo e temeroso, que o Deus do universo é um Deus assim de destruição como de criação.

            Agora, com terríveis presas, chiam suas bocas, chamejantes como os fogos matutinos do dia final... Norte, sul, leste e oeste parecem confundir-se... Senhor dos devas, morada do mundo, tenha misericór­dia!...

            Rápidos como rios correndo para o oceano, precipitam-se os heróis em suas faces de fogo, como mariposas que procuram a chama de sua destruição. De cabeça se mergulham em si e perecem...

      Diga-me quem é e foi do começo, você, o de aspecto sombrio. Oh, Deus de deuses mostra sua graça!

            Recebe minha comemoração, Senhor. De mim se ocultam seus mo­dos. "me diga quem é." A resposta é clara e inequívoca.

            Vim como Tempo, o assolador dos povos, disposto para a hora que amadurecer sua ruína.

            Mas o Deus que vem tão terrivelmente como Tempo também existe sem tempo como a Divindade, o Brahma cuja essência é Sat, Chit, Ananda, Ser, ensinamento, Beatitude; e dentro e além da psique do homem, temporalmente torturada, está seu espírito, "incriado e que não se pode criar", como diz Eckhart, o Atman que é afim ao Brahma, ou até idêntico a ele. O Gita, como todas as demais formulações da Filosofia Perene, justifica a conduta de Deus para o homem afirmando —e a afirmação se apóia na observação e a experiência imediata— que o homem pode, se o desejar, morrer para seu separado eu pessoal e assim chegar à união com o eterno Espírito. Afirma, do mesmo modo, que o Avatar vem a encarnar-se para ajudar aos seres humanos a obter esta união. Faz-o de três modos: ensinando a verdadeira doutrina em um mundo cego pela ignorância voluntária; convidando às almas a um "amor carnal" de sua humanidade, não como um fim em si mesmo, mas sim como meio para um espiritual amor-conhecimento do Espírito; e finalmente, servindo como leito de graça.

            Deus que é Espírito só pode ser adorado em espírito e por sua própria causa; mas Deus no tempo é normal­mente adorado por meios materiais com o propósito de obter fins temporários. Deus no tempo é manifesta­mente assim o destruidor como o criador; e por isso pareceu apropriado adorá-lo com métodos que são tão terríveis como as destruições que ele inflige. Desde aí, na Índia, os sacrifícios de sangue à Kali, em seu aspecto de Natureza destruidora; daí essas oferendas de meninos ao Moloc, censuradas pelos profetas hebreus; daí os sacrifícios humanos praticados, por exemplo, pelos fe­nícios, os cartagineses, os druidas, os astecas. Em todos estes casos, a divindade a quem se sacrificava era um deus no tempo, ou uma personificação da Natureza, que não é outra coisa que o Tempo mesmo, o devorador de seus filhos; e em todos os casos o objeto do rito era obter um benefício futuro ou evitar um dos enormes males que o Tempo e a Natureza têm sempre em reserva. Para isso, acreditava-se que valia a pena pagar um alto preço nessa moeda do sofrimento que o Destruidor tão evidente­mente apreciava. A importância do fim temporário justifi­cava o uso de meios que eram intrinsecamente terríveis, por sua intrínseca semelhança com o tempo. Rastros sublima­dos destas antigas tramas de pensamento e conduta podem achar-se ainda em certas teorias da Expiação e na concepção da Missa como o sacrifício perpetuamente repetido, do Deus Homem.

            No mundo moderno, os deuses a quem se oferece sacrifícios humanos não são personificações da Natu­reza, mas sim dos ideais políticos da própria fabricação do homem. Estes, é óbvio, referem-se todos a acontecimentos no tempo —acontecimentos reais do passado ou o presente, imaginados acontecimentos do futuro. E aqui deveria notar-se que a filosofia que afirma a existência e a imediata advertência da eternidade está relacionada com uma classe de teoria e prática políti­ca. Isto foi claramente reconhecido por certos escri­tores marxistas, que assinalam que, quando o cristianismo se preocupa principalmente por acontecimentos no tempo, é uma "religião revolucionária", e que quando, sob influências místicas, insiste no Evangelho Eterno, de que os fatos históricos ou pseudo-históricos narrados nas Escrituras não são mais que símbolos, volta-se politi­camente "estático" e "reacionário".

            Esta explicação marxista do assunto é excessivamente simplificada. Não é completamente certo o dizer que todas as teologias e filosofias cuja principal preocupação é o temporal, mais que o eterno, são necessaria­mente revolucionárias. O objetivo de todas as revoluções é fazer o futuro radicalmente distinto do passado e melhor que este. Mas algumas das filosofias que pade­cem a obsessão do tempo se preocupam principalmente pelo passado, não pelo futuro, e sua política está inteira­mente dedicada a preservar ou restaurar o status quo e voltar para os bons tempos de antigamente. Mas os retros­pectivos adoradores do tempo têm uma coisa no comum com os revolucionários devotos do futuro melhor e maior; estão dispostos a usar de ilimitada violência para obter seus fins. Aí descobrimos a diferença essen­cial entre a política dos filósofos da eternidade e a dos filósofos do tempo. Para os últimos, o bem final se encontra no mundo temporário —em um futuro em que todos serão felizes porque todos farão e pensarão algo inteiramente novo e sem precedentes, ou algo antigo, tradicional e consagrado. E como o bem final está no mundo, acham justificado o emprego de qualquer meio temporário para obtê-lo. A Inquisição queima e tortura para perpetuar um credo, um rito e uma organização ecle­siástica-política-financeira considerada para a salvação eterna dos homens. Protestantes adoradores da Bíblia lutam em longas guerras e selvagens para assegurar no mundo o que eles apaixonadamente imaginam que é o autêntico cristianismo antigo dos tempos apos­tólicos. Jacobinos e bolcheviques estão dispostos a sa­crificar milhões de vidas humanas pela causa de um futuro político-econômico suntuosamente distinto do presente. E agora toda a Europa e a maior parte da Ásia tiveram que ser sacrificadas à visão da prosperidade e o Reich milenar que descobriu um vidente em sua bola de vidro. Dos anais da história parece surgir com abundante claridade que a maioria de religiões e filosofias que tomam o tempo muito a sério estão relacionadas com teorias políticas que inculcam e justificam o uso da violência em grande escala. As únicas exceções são essas simples fés epicuristas em que a reação ante um tempo muito real é "Comam, bebam e alegrem-se, porque amanhã morreremos". Não é esta uma moralidade muito nobre, nem sequer muito realista. Mas parece muito mais sensata que a ética revolucionária: "Morram (e matem), porque amanhã outros comerão, beberão e se alegrarão." Na prática, é óbvio, a perspectiva da futura alegria alheia é extremamente precária. Porque o processo do morrer e matar cria condições materiais, sociais e psicológicas que virtualmente garantem à revolução contra o lucro de seus benéficos fins.

            Para aqueles cuja filosofia não os obriga a tomar o tempo com excessiva seriedade, o bem final não deve bus­car-se no social apocalipse progressista do revolucionário nem no passado reavivado e perpetuado do reacionário, a não ser em um eterno e divino agora, que os que desejam suficientemente este bem podem advertir como um fato de experiência imediata. O mero ato de morrer não é em si mesmo um passaporte para a eternidade; nem pode uma matança em grandes quantidades fazer nada para trazer a liberação, seja aos matadores ou aos mortos, ou a sua posteridade. A paz que excede toda compreensão é o fruto da salvação na eternidade; mas, em sua forma cotidiana ordiná­ria, a paz é também a raiz da liberação. Pois onde existem paixões violentas e prementes distrações, este bem final não pode jamais ser advertido. Eis aqui uma das razões por que a política correspondente às filosofias de eternidade é tolerante e não violenta. A outra razão é que a eternidade, cujo advento é o último bem, é um interno reino do céu. Você é Isso; e embora Isso é imortal e impassível, a matança e tortura de "seus" individuais é coisa de importância cósmica, assim que impede a relação normal e natural entre as almas indivi­duais e a divina Base eterna de todo ser. Toda violência é, sobre e acima de tudo, uma rebelião sacrílega contra a ordem divina.

            Passando agora da teoria ao fato histórico, vemos que as religiões cuja teologia se preocupou menos pelos acontecimentos temporários e mais pela eternidade foram constantemente as menos violentas e as mais humanas na prática política. Diferentemente do judaísmo primitivo, o cristianismo e o maometismo (todos eles com a obsessão do tempo), o hinduísmo e o budismo não foram nunca fés perseguidoras, não praticaram quase nenhuma guerra Santa e se abstiveram desse imperialismo religioso catequizante, que deram às mãos com a opressão política e econômica dos povos de cor. Durante quatrocentos anos, desde o começo do século XVI ao princípio do XX, a maior parte das nações cristãs da Europa dedicaram boa parte de seu tempo e energia a atacar, conquistar e explorar a seus semelhantes não cristãos de outros continentes. No curso destes séculos, muitos eclesiásticos fizeram individualmente tudo o que puderam para aplacar as conseqüências de tais iniqüidades; mas nenhuma das igrejas cristãs maiores as condenou oficialmente. O primeiro protesto coletivo contra o sistema da escravidão, introduzido pelos ingleses e espanhóis no Novo Mundo, foi feita em 1688 pela Assembléia dos Quakers de Germantown. Este fato é muito significativo. De todas as seitas cristãs do século XVII, os quakers eram os que menos padeciam a obsessão da história, os menos viciados na idolatria das coisas no tempo. Acreditavam que a luz interior existia em todos os seres huma­nos e que a salvação chegava àqueles que viviam conforme com essa luz e não dependia da profissão de fé em acontecimentos históricos ou pseudo-históricos, nem da execução de certos ritos, nem do apoio a determinada organização eclesiástica. Além disso, sua filosofia de eternidade os preservava do apocalipticismo materialista desse culto do progresso que em tempos recentes justifi­cou toda classe de iniqüidades, da guerra e a revolução ao abuso contra o trabalhador, à escravidão e a exploração de selvagens e meninos, e a justificou com a razão de que o bem supremo está no futuro, e qualquer meio temporário, por intrinsecamente horrível que seja, pode usar-se para obter esse bem. Por ser a teologia quaker a forma da filosofia da eternidade, a teoria política quaker rechaçava a guerra e a perseguição como meios para fins ideais, atacava a escravidão e proclamava a igualdade racial. Membros de outras denominações tinham trabalhado bem em favor das vítimas africanas da capacidade do homem branco. A gente pensa, por exemplo, em São Pedro Claver de Cartagena. Mas este heroicamente caridoso "escravo dos escravos" nunca levantou a voz contra a instituição da escravidão nem o comércio criminal que a sustentava; tampouco, por isso possa ver-se nos documentos existentes, tentou, como John Woolman, persuadir aos donos de escravos a que dessem a liberdade a seu gado humano. A razão, pode supor-se, é a de que Claver era jesuíta, obrigado por um voto de perfeita obediência e constrangido por sua teologia a considerar determinada organização política e eclesiástica como o corpo místi­co de Cristo. Os chefes desta organização não se declararam contra a escravidão nem o tráfico de escravos. Quem era ele, Pedro Claver, para expressar um pensamen­to não aprovado oficialmente por seus superiores?

            Outro corolário prático das grandes filosofias de eternidade históricas, tais como o hinduísmo e o budismo, é uma moralidade que inculca a bondade para os animais. O judaísmo e o cristianismo ortodoxo ensinavam que os animais podem usar-se como coisas, para a realização dos fins temporários do homem. Até a atitude de São Francisco para os brutos não era inteiramente inequívoca. Certo que converteu a um lobo e pregou sermões aos pássaros; mas, quando o irmão Junípero mutilou a um porco vivo para satisfazer o desejo de patas fritas de um doente, o santo se limitou a censurar o destemperado zelo de seu discípulo ao doar uma valiosa peça de propriedade particular. Até o século XIX, em que o cristianismo ortodoxo perdera já grande parte de seu influxo nos espíritos europeus, não começou a abrir passagem à idéia de que possivelmente fora bom conduzir-se huma­namente com os animais. Esta nova moralidade relacionava-se por um novo interesse na Natureza, que estimularam os poetas românticos e os homens de ciência. Por não se basear em uma filosofia de eternidade, em uma doutrina que considere à divindade morando em todos os seres viventes, o movimento mo­derno em favor da bondade para os animais era e é perfeitamente compatível com a intolerância, espírito de perseguição e crueldade sistemática para os seres huma­nos. Aos jovens nazistas ensinam-lhes a ser doces com os cães e gatos e implacáveis com os judeus. Isto ocorre por ser o nazismo uma típica filosofia do tempo, que considera o bem final como existente, não na eternidade, a não ser no futuro. Os judeus são, por hipótese, obstáculos no caminho da realização do supremo bem; os cães e gatos, não. O resto segue logicamente.

            O egoísmo e a parcialidade são qualidades muito desumanas e baixas até nas coisas deste mundo, mas nas doutrinas da religião são de natureza mais baixa. Este é o maior mal que produziu a divisão da Igreja; faz surgir em cada comunhão uma ortodoxia egoísta, parcial, que consiste em defen­der corajosamente tudo o que tem e condenar tudo o que não tem. E assim cada campeão é adestrado na defesa de sua própria verdade, sua própria ciência e sua própria Igreja, e o maior mérito e máxima honra pertence a quem o aprova e defende tudo entre os seus e não deixa nada por censurar nos que são de uma comunhão diferente. Mas como podem ser a bondade e verdade, a união e religião mais feridas que por tais defensores? Se perguntas por que o grande bispo de Meaux escreveu tantos doutos livros contra todas as partes da Reforma, é porque nasceu na França e foi criado no seio da Mãe Igreja. Se tivesse nascido na Inglaterra, se sua Alma Mater fosse Oxford ou Cambridge, acaso rivalizasse com nosso grande bispo Stillingfleet, e escrito tantos doutos fólios como ele contra a Igreja de Roma. E, contudo, ousarei dizer que se cada Igreja pudesse produzir um homem que tivesse a piedade de um apóstolo e o impar­cial amor dos primeiros cristãos da primeira Igreja de Jerusalém, um protestante e um papista de tal templo não necessitariam nem meia folha de papel para assentar seus artigos de união, nem passaria meia hora antes de que fossem de uma mesma religião. Se, pois, dissesse-se que as igrejas estão divididas, saudosas e inimigas entre si por uma ciência, lógica, história, crítica em mãos da parcialidade, dir-se-ia o que cada Igreja particular muito prova ser certo. Pergunta por que até os melhores católicos receiam tanto aceitar a validade das ordens de nossa Igreja, isso se deve a que temem eliminar qualquer prevenção contra a Reforma. Pergunta por que nenhum protestante, em nenhum local, fala do benefício ou a necessidade do celibato nos que estão separados dos negócios do mundo para pregar o Evangelho; isso se deve a que pareceria que se diminui o engano de Roma ao não permitir o matrimônio em seu clero. Pergunta por que até os mais dignos e piedosos entre os sacerdotes da Igreja estabelecida temem afirmar a suficiência da Luz Divina, a necessidade de procurar só o guia e a inspiração do Espírito Santo, isso se deve a que os quakers, que se separaram da Igreja, fizeram desta doutrina sua pedra fundamental. Se amássemos a verdade como tal, se a procurássemos por sua própria causa, se amássemos ao próximo como a nós mesmos, se não quiséssemos de nossa religião a não ser ser aceitos a Deus, se igualmente desejássemos a salvação de todos os homens, se temêssemos o engano tão somente por sua natureza daninha para nós e nossos semelhantes, então nada de tal ânimo acharia lugar em nós.

            Existe, pois, um espírito católico, uma comunhão de Santos no amor de Deus e de toda bondade, que ninguém pode aprender do que se chama ortodoxia nas igrejas particulares, mas sim só pode obter-se mediante um completo morrer para as opiniões mundanas, um puro amor a Deus e uma descendência de unção tal que liberte a mente de todo egoísmo e lhe faça amar a verdade e a bondade com igualdade de afeto em cada homem, seja cristão, judeu ou gentil. Se quiser adquirir este divino e católico espírito neste desorde­nado, dividido estado de coisas, e viver em uma parte dividida da Igreja sem participar de sua divisão, deve fixar três verdades profundamente em sua mente. Primeiro, que o amor universal, que dá toda a força do coração a Deus, e nos faz amar a todos os homens como amamos a nós mesmos, é o mais nobre, o mais divino, o estado da alma semelhante a Deus, e é a máxima perfeição a que a mais perfeita religião possa nos elevar; e que nenhuma religião faz nenhum bem a nenhum homem, a não ser assim que lhe procura esta perfeição. Esta verdade nos mostrará que a verdadeira ortodoxia só pode encontrar-se em um puro, desinteres­sado amor a Deus e a nosso próximo. Segundo, que neste atual estado de divisão da Igreja, a verdade mesma está rasgada e dividida, e que, portanto, só pode ser verdadeiro católico quem tem mais verdade e menos engano dos que abrange qualquer das dividi­das partes. Esta verdade nos permitirá viver em uma das partes divididas sem que nos danifique sua divisão e nos manterá em uma verdadeira liberdade e em disposição de ser edificados e assistidos por tudo quão bom ouçamos ou vejamos em qualquer outra parte da Igreja... Em terceiro lugar, deve ter sempre presente esta grande verdade: que é glória da Justiça Divina o não respeitar partidos ou pessoas, a não ser permanecer igualmente disposto para o que é justo ou injusto tanto no judeu como no gentil. Aquele, pois, que aprove como Deus aprova e condene como Deus condena não deve ter olhos de papista nem de protestante; não deve amar menos nenhuma verdade por ser Ignacio de Loyola ou John Bunyan quem mostrasse grande zelo por ela, nem ter menos aversão a nenhum engano por ser o Dr. Trapp ou George Fox quem o revelasse.

                                                                                                                                      William Law

            O Dr. Trapp era autor de um folheto religioso intitulado "Do caráter, loucura, pecado e perigo de ser excessivamente reto". Um dos escritos polêmicos de Law era uma resposta a esta obra.

            Benarés está para o Este, Meca para o Oeste, mas explora seu coração, pois aí estão os dois, Rama e Alá.

                                                                                                                                               Kabir

            Como uma abelha que recolhe mel de distintas flores, o homem prudente aceita a essência das distintas Escrituras e vê só o bom de todas as religiões.

                                                                                                            

Do Srimad Bhagavatam

            Sua Sagrada Majestade o Rei rende comemoração à homens de todas as seitas, sejam ascéticos ou donos de casa, mediante dons e diversas formas de respeito. Sua Sagrada Majestade, contudo, não dá tanta importância aos dons ou à veneração externa como ao desenvolvimento da essência da matéria em todas as seitas. O desenvolvimento da essência da matéria assume várias formas, mas sua raiz é a contenção nas palavras, isto é, não deve um venerar sua própria seita nem menosprezar a alheia sem razão. O desprezo deveria ser tão somente por razões concretas, pois as seitas dos de­mais merecem todo respeito por uma ou outra razão... que rende homenagem à própria seita, enquanto despreza as de outros inteiramente por apego à sua, com a intenção de elogiar a glória de sua própria seita, em realidade, com tal conduta, inflige o dano mais severo a sua própria seita. É pois, meritória a concórdia, isto é, atender, e atender de bom grado, à Lei de Piedade, conforme a aceitam outros.

                                                                                              

Decreto de Asoka

            Seria difícil, infortunadamente, encontrar um decreto de um rei cristão que pudesse comparar-se com o de Asoka. No Ocidente, a velha e boa norma, o simples plano, era a glorificação da própria seita, o desprezo e até a perseguição das demais. Recentemente, entretanto, os Governos mudaram sua política. O zelo catequizador e perseguidor fica reservado às pseudo-religiões políticas, tais como o comunismo, fas­cismo e nacionalismo; a não ser que se pense que impedem o avanço para os fins temporários professados por tais pseudo-religiões, as diversas manifestações da Filosofia Perene são tratadas com uma indiferença desdenhosamente tolerante.

            Os filhos de Deus são muito caros, mas muito estranhos; muito lindos, mas muito mesquinhos.

                                                                                                                      

Sadhu Sundar Singh

            Tal foi a conclusão a que teve que chegar o mais famoso dos conversos hindus depois de alguns anos de associação com outros cristãos. Há muitas honradas exceções, é óbvio; mas a regra geral, até entre protestantes e católicos doutos, é certo provincia­nismo, brandamente presunçoso, o qual, se não constituísse tão grave ofensa contra a caridade e a verdade, seria hilarantemente cômico. Faz uma centena de anos quase não se sabia nada de sânscrito, pali ou chinês. A ignorância dos eruditos europeus era uma razão suficiente para seu provincianismo. Nestes dias, em que se pode dispor de bom número de traduções mais ou menos corretas, não só não há razão, mas também tampouco há desculpa. Entretanto, a maior parte dos autores europeus e americanos de livros sobre religião e metafísica escrevem como se ninguém pensasse nunca sobre tais temas salvo os judeus, os gregos e os cristãos da concha do Medite­rrâneo e a Europa ocidental. Esta exibição do que, no século XX, é uma ignorância inteiramente voluntária e deliberada, não só é absurda e vergonhosa; é também socialmente perigosa. Como qualquer outra forma de im­perialismo, o imperialismo teológico é uma ameaça con­tra a paz mundial permanente. O reinado da violência não terá nunca fim até que, primeiro, a maioria dos seres humanos aceitem a mesma, verdadeira filosofia da vida; até que, segundo, esta Filosofia Perene seja reco­nhecida como o máximo fator comum de todas as religiões mundiais; até que, terceiro, os fiéis de cada reli­gião renunciem às idólatras filosofias temporárias com que, em sua fé particular, foi recoberta a Perene Filosofia de eternidade; até que, quarto, haja um repúdio de alcance mundial de todas as pseudo-religiões políticas, que colocam o supremo bem do homem no futuro e, portanto, justificam e recomendam a comissão de toda sorte de iniqüidade presente como meio para tal fim. Se não se cumprirem estas condições, não há planos políticos por numerosos que sejam, não há projetos econômicos por engenhosamente traçados que estejam, que possam impedir a recrudescência de guerras e revoluções.

 

                   SALVAÇÃO, LIBERAÇÃO, ESCLARECIMENTO

            Salvação, mas do que? Libertação, de que determi­nada situação e para qual outra? Os homens deram muitas respostas a estas perguntas e, como os tempe­ramentos humanos são de classes tão profundamente distintas, como as situações sociais são tão variadas e os modos de pensar e sentir tão prementes enquanto durem, as respostas são muitas e incompatíveis entre si.

            Há acima de tudo o salvamento material. Em sua forma mais simples é meramente a vontade de viver expressa em um formulado desejo de escapar à circunstâncias que ameaçam a vida. Na prática, o eficaz cumprimento de tal desejo depende de duas coisas: a aplicação da inteligência a determinados problemas econômicos e po­líticos, e a criação e manutenção de uma atmosfera de boa vontade, em que a inteligência possa fazer sua obra do melhor modo possível. Mas os homens não se contentam sendo meramente bondosos e inteligentes dentro dos limites de uma situação concreta. Aspiram a referir suas ações, as idéias e sentimentos que os acompanham, a princípios gerais e uma filosofia em escala cósmica. Quando esta filosofia reitora e explicativa não é a Filosofia Perene, toma a forma de uma pseudo-religião, um sistema de idolatria organizada. Assim, o simples desejo de não morrer de fome, a bem fundada convicção de que é muito difícil ser bom, prudente ou feliz quando se está desesperadamente faminto, devem ser trans­formados, sob o influxo da metafísica do Progresso Inevitável, em um utopismo profético; o desejo de escapar à exploração e à opressão chega a ser explicado e guiado pela crença em um revolucionismo apocalíptico, combinado, não sempre em teoria, a não ser invariavelmente na prática, com um culto, parecido ao do Moloc, à nação como ótimo bem. Em todos estes casos se consi­dera a salvação como uma liberação, mediante uma variedade de artifícios políticos e econômicos das misé­rias e males relacionados com más condições materiais, para passar a outra série de futuras condições materiais tão melhores que as presentes que, de um ou outro modo, farão que todo mundo seja perfeitamente feliz, prudente e virtuoso. Oficialmente promulgada em todos os países totalitários, sejam da direita ou da esquerda, esta confissão de fé é ainda só semi-oficial no mundo, nominalmente cristão, da democracia capita­lista, onde massacram na mente popular, não os representantes do Estado ou a Igreja, mas os moralistas e filósofos mais influentes, isto é, os redatores de anúncios (os únicos autores, em toda a história da literatura, cujas obras são lidas diariamente por todos os membros da população).

            Nas teologias das diversas religiões, a salvação é também considerada como uma liberação da loucura, mau e miséria, para passar à felicidade, bondade e sabedo­ria. Todavia, os meios políticos e econômicos se consideram subsidiários com respeito ao cultivo da santidade pessoal, a aquisição de mérito e a manutenção da fé em algum divino princípio ou pessoa, que pode, de um ou outro modo, perdoar e santificar à alma individual. Ade­mais, o fim que se procura alcançar não se considera exis­tente em algum utópico período futuro, que comece, por exemplo, no século XXII, ou até possivelmente um pouco antes, se nossos políticos favoritos continuarem no poder e legislarem adequadamente; o fim existe "no céu". Esta última expressão tem dois sentidos muito diferentes. Para os que provavelmente constituem a maioria dos que profe­ssam as grandes religiões históricas, significa, e significou sempre, uma feliz condição póstuma de indefinida sobre­vivência pessoal, concebida como uma recompensa pelas misérias inseparáveis da vida em um corpo. Mas para os que, dentro das diversas tradições religiosas, aceitaram a Filosofia Perene como uma teoria e têm feito todo o possível para vivê-la na prática, "o céu" é outra coisa. Aspiram a ser libertados do eu separado no tempo e para a eternidade conforme se adverte no conhecimento unitivo da Base divina. Como a Base pode e deveria ser unitivamente conhecida na vida presente (cuja finalidade e intuito últimos não é outra coisa que este conhecimento), "o céu" não é uma condição exclusivamente póstuma. Só é completamente "salvo" o que é libertado aqui e agora. Quanto aos meios de salvação, são simultaneamente éticos, intelectuais e espirituais e foram resumidos com admirável clareza e economia no Óctuplo Caminho de Buda. A liberação completa está condicionada ao seguinte: primeiro, Reta Crença na óbvia verdade de que a causa da dor e do mal é a avidez de existência separada, egocêntrica, com o corolário de que não pode haver liberação do mal, seja pessoal ou coletivo, a não ser desembaraçando-se de tal avidez e da obsessão do "eu", "meu", "seu"; segundo, Reta Vontade, a vontade de libertar-se a si mesmo e a outros; terceiro, Reto Falar, dirigido pela compaixão e caridade para todos os seres sensíveis; quarto, Reta Ação, com o propósito de criar e manter a paz e a boa vontade; quinto, Retos Meios de Vida, ou a eleição tão somente de profissões não daninhas, em seu exercício, para nenhum ser humano ou, se for possível, para nenhuma criatura vivente; sexto, Reto Esforço para o domínio de si mesmo; sétimo, Reta Atenção ou Recolhimento, que deve praticar-se em todas as circunstâncias da vida, de modo que nunca façamos o mal por mera falta de reflexão, porque "não sabemos o que fazemos"; e, oitavo, Reta Contemplação, o conhecimento unitivo da Base, ao qual dão acesso o recolhimento e o ético abatimento prescrito nos seis primeiros ramos do Caminho. Tais são, pois, quão meios está ao alcance do ser humano empregar para obter a última finalidade do homem e "salvar-se".

            Dos meios que emprega a divina Base para ajudar aos seres humanos a alcançar sua meta, o Buda das Escrituras palis (um Mestre cuja antipatia pelas "questões sem base" não é menos intensa que a do mais severo físico experimental do século XX) recusa falar. Só está disposto a falar do "pesar e seu término" —o enorme feito brutal da dor, do mal e de outro feito, não menos empírico, de que existe um método pelo qual o indivíduo pode livrar do mal e fazer algo por dimi­nuir a soma do mal no mundo que o rodeia. Só no budismo mahayânico se discutem os mistérios da graça algo parecido à plenitude de tratamento conce­dido ao tema nas especulações das teologias hindu e cristã, nesta última especialmente. O ensino primitivo, himayânica, sobre a liberação é simplesmente uma elaboração das últimas palavras registradas de Buda: "A decadência é inerente a todas as partes componentes. Obrem com diligência sua própria salva­ção." Como na bem conhecida passagem seguinte, toda a insistência está no esforço pessoal.

            Assim, pois, Ananda, sede luzes para vós mes­mos e sede um refúgio para vós mesmos. Não mudais nenhum refúgio externo. Ansiais fortemente à Verdade como luz; ansiais fortemente à Verdade como refúgio. Não procurais refúgio em ninguém fora de vós. E aqueles, Ananda, que agora ou depois de minha morte serão luzes de si mesmos e não mudaram a um refúgio externo, mas sim, agarrados fortemente à Verdade como tua luz e agarrados fortemente à Verdade como teu refúgio, não procurarão refúgio em ninguém fora de si mesmos —eles alcançarão o Cume mais alto. Mas devem ter ânsia de aprender.

            O que segue é uma passagem traduzida livremente do Chandogya Upanishad. A verdade que este pequeno mito destina-se a ilustrar é que existem tantas concepções da salvação como graus de conhecimento espiritual e que a classe de liberação (ou escravidão) obtido por qualquer alma individual depende do ponto até o qual essa alma queira dissipar sua essencial voluntá­ria ignorância.

            Esse Eu que está livre de impurezas da velhice e morte, do pesar, da sede e da fome, cujo desejo é verdadeiro e cujos desejos se realizam —esse Eu é o que tem que ser procurado e inquirido, esse Eu é o que tem que ser percebido.

            Os Devas (deuses ou anjos) e os Asuras (demônios ou titãs) tiveram notícia desta Verdade. Pensaram: "Procuremos e percebamos este Eu, de modo que possa­mos obter todos os mundos e o cumprimento de todos os desejos."

            Assim, pois, Indra, dos Devas, e Virochana, dos Asuras, aproximaram-se de Prajapati, o famoso Mestre. Viveram com ele como alunos durante trinta e dois anos. Logo Prajapati perguntou-lhes:

            —Por que razão vivestes aqui todo este tempo?

            Responderam eles:

            —Ouvimos dizer que aquele que percebe o Eu obtém todos os mundos e a realização de todos seus desejos. Vivemos aqui porque queremos que nos ensine o Eu.

            Prajapati disse-lhes:

            —A pessoa que se vê nos olhos: essa é o Eu. Essa é imortal, sem medo, e é o Brahma.

            —Senhor—perguntaram os discípulos—, quem se vê refletido na água ou em um espelho?

            —Ele, o Atman —foi a resposta—. Ele realmente se vê nesses. —Logo Prajapati acrescentou—: Olhem a vocês mesmos na água, e tudo o que não compreendam, venham e digam-me.

            Indra e Virochana examinaram seu reflexo na água, e quando lhes perguntou o que tinham visto do Eu, responderam: —Senhor, vemos o Eu, vemos até o cabelo e as unhas.

            Então Prajapati ordenou-lhes a colocarem seus mais ricas vestimentas e voltarem a olhar seu "eu" na água. Assim o fizeram, e quando lhes voltou a perguntar o que tinham visto, responderam:

            —Vemos o Eu, exatamente como nós, bem embelezado e com nossos mais ricas vestimentas.

            Então disse Prajapati:

            —O Eu se vê realmente nesses. Esse Eu é imortal e sem medo, e esse é o Brahma. —E os alunos se foram com o coração agradecido.

            Mas, olhando como se afastavam, Prajapati se lamentou deste modo:

            —Os dois partiram sem analisar nem distinguir, e sem compreender ao verdadeiro Eu. Quem ­quer que siga esta falsa doutrina do Eu deve perecer.

            Satisfeito de encontrar ao Eu, Virochana voltou junto aos Asuras e começou a ensinar-lhes que só deve adorar-se ao eu corporal, que só ao corpo tem que servir-se, e que quem adora ao eu e serve ao corpo ganha ambos os mundos, este e o seguinte. E esta, com efeito, é a doutrina dos Asuras.

            Mas Indra, quando retornou junto aos Devas, advertiu a inutilidade deste conhecimento. "Como este Eu —refletiu— parece estar bem adornado quando o corpo está bem adornado, bem vestido quando o corpo está bem vestido, assim também será cego se o corpo for cego, coxo se o corpo coxeia, disforme se o é o corpo. Mais até. Este mesmo Eu morrerá, quando o corpo morrer. Não vejo bem algum em tal conhecimento." Indra, pois, voltou junto ao Prajapati em busca de nova instrução. Prajapati o obrigou a viver com ele por espaço de outros trinta e dois anos; e logo ficou a lhe ensinar passo a passo, por assim dizê-lo.

            Prajapati disse: —que se move em sonhos, gozan­do e glorificado: esse é o eu. Esse é imortal e sem medo, e é o Brahma.

            Com o coração agradecido, Indra voltou a partir. Mas, antes de reunir-se com os outros seres angélicos, advertiu também a inutilidade daquele conhecimento. "Certo é —pensava— que este novo Eu não é cego se o corpo for cego; nem coxo ou ferido, se o corpo for coxo ou ferido. Mas até em sonhos o Eu tem consciência de muitos sofrimentos. Não vejo, pois, bem algum neste ensino."

            Assim, pois, voltou junto ao Prajapati em busca de nova instrução, e Prajapati o fez viver com ele durante trinta e dois anos mais. Ao término desse tempo, Prajapati ensinou-lhe do modo seguinte:

            —Quando uma pessoa dorme, descansando em perfeita tranqüilidade, não sonhando sonhos, então recebe o Eu. Esse é imortal e sem medo, e esse é o Brahma.

            Satisfeito, Indra partiu. Mas, até antes de chegar a seu lar, compreendeu também a inutilidade de tal conhecimento. "Quando a gente dorme —pensou— não se conhece si mesmo como 'Isto sou eu'. No fato, não se tem consciência de nenhuma existência. Esse estado é quase aniquilamento. Tampouco vejo bem algum neste conhecimento."

            Indra, pois, retornou de novo em procura de ensinamento. Prajapati o reteve junto a si outros cinco anos. Ao fim desse tempo, Prajapati ensinou-lhe a verdade mais alta do Eu.

            —Este corpo —disse— é mortal, sempre nas garras da morte. Mas em seu interior reside o Eu imortal e sem forma. Este Eu, quando associado ao consciente com o corpo, está sujeito a prazer e dor; e enquanto dura tal associação, ninguém pode livrar-se de dores e prazeres. Mas quando a associação chega a seu término, terminam também dor e prazer. Levantando­-se acima da consciência física, conhecendo eu como distinto dos órgãos dos sentidos e a mente, conhecendo-o abaixo esta luz verdadeira, alguém se alegra e é livre.

                                                                                                  

Do Chandogya Upanishad

            Depois de receber seu próprio eu como o Eu, o homem alcança a abnegação; e em virtude da abne­gação deve conceber-se como incondicionado. Este é o mistério mais alto, que anuncia a emancipação; mediante a abnegação não participa de prazer nem dor, mas sim alcança o absoluto.

                                                                                                        

Maitrayana Upanishad

            Deveríamos assinalar e conhecer a verdade de que nenhuma classe de virtude e bondade, nem mesmo o Eterno Bem, poderá jamais fazer virtuoso, bom ou feliz ao homem, enquanto se encontre fora da alma, isto é, enquanto o homem apegar-se à coisas externas mediante seus sentidos e sua razão e não se retire dentro de si para aprender a compreender sua própria vida, quem e o que é.

                                                                                                                

Theologia Germânica

            Realmente, a verdade salvadora não foi nunca pregada pelo Buda, posto que a gente tem que percebê-la dentro de si mesmo.

                                                                                                                      

Sutralamkara

            No que consiste a salvação? Não consiste em nenhuma fé histórica, em nenhum conhecimento histórico de algo ausente ou remoto; em nenhuma variedade de restrições, regras e métodos para praticar a virtude; em nenhuma formalidade de opinião a respeito da fé, das obras, do arrependimento, perdão dos pecados, ou justificação e santificação; em nenhuma verdade ou retidão que possa obter de si mesmo, dos melhores homens e livros, a não ser única e inteiramente da vida de Deus, ou o Cristo de Deus, avivada e renascida em si; em outras palavras, na restauração e união perfeita da primeira vida dupla na humanidade.

                                                                                                                            

William Law

            Law usa aqui a fraseologia de Boehme e outros "reformadores espirituais", a quem os protestantes ortodoxos, luteranos, calvinistas e anglicanos convinham (era este um dos pouquíssimos pontos em que conseguiam estar de acordo) em desconhecer ou perseguir. Mas está claro que o que ele e eles chamam o renascimento de Deus dentro da alma é essencialmente o mesmo feito de experiência que os hindus, mais de dois mil anos antes, descreviam como o ensinamento do Eu como interior e, entretanto, transcendentalmente outro que o eu indivi­dual.

            Nem os preguiçosos, nem os néscios, nem os que não discer­nem alcançarão o Nirvana que é o desatar de todos os nós.

                                                                                                                                  

Iti-vuttaka

            Isto parece suficientemente óbvio. Mas a maioria de nós acha prazer na preguiça; não podemos nos mo­lestar em estar constantemente recolhidos e, contudo, desejamos apaixonadamente nos salvar dos resultados da preguiça e falta de ensinamento. Em conseqüência, houve um difundido desejo de salvação e uma difundi­da crença em Salvadores que entrem em nossa vida, sobretudo na hora de seu término e, como Alexandre, cortem os nós gordianos que nossa preguiça não nos deixou desatar.

            Mas Deus não é burlado. A natureza das coisas é tal, que o conhecimento unitivo da Base, dependente do lucro de uma total abnegação, não pode em nenhum modo alcançar-se, até com ajuda externa, pelos que não são ainda abnegados. A salvação obtida pela crença no poder salvador da Amida, por exemplo, ou Jesus, não é a liberação total descrita nos Upanishads, as Escrituras budistas e os escritos dos místicos cristãos. É algo diferente, não meramente em grau, mas em classe.

            Fala tanta filosofia quanto lhe agrada, adora tantos deuses como quer, observa todas as cerimônias, canta devotos louvores a quantos seres divinos lhe pareçam —a liberação não chega jamais nem ao final de uma centena de idades, sem o ensinamento da Unidade do Eu.

                                                                                                                                     Shankara

            Este Eu não é apreendido pelo estudo, nem mesmo pela inteligência e a erudição. Este Eu revela sua essência unicamente àquele que se aplica ao Eu. Quem não abandonou os caminhos do vício, que não pode domi­nar-se, que não possui a paz interior, cuja mente está turvada, não pode nunca advertir o Eu, embora esteja repleto de toda a ciência do mundo.

                                                                                                                  

Katha Upanishad

            O Nirvana é ali onde não há nascimento nem extin­ção; é a visão do estado da Talidad, que absolu­tamente transcende todas as categorias construídas pela mente; pois é a consciência interior do Tathagata.

                                                                                                                      

Lankavatara Sutra

            As falsas ou, no melhor caso, imperfeitas salvações descritas no Chandogya Upanishad são de três classes. Há primeiro a pseudo-salvação relacionada com a crença de que a matéria é a Realidade última. Virochana, o demoníaco ser que é a apoteose da extrovertida somatotonia, afeiçoada com a força, encontra perfei­tamente natural o identificar-se com seu corpo, e retorna junto aos outros titãs em busca de uma salvação puramente material. Encarnado no presente século, Virochana seria um ardente comunista, fascista ou nacionalista. Indra vê o engano da salvação mate­rial e lhe oferece então a salvação onírica, libertação da existência corporal em um mundo intermediário entre a matéria e o espírito — esse universo psíquico, fascinantemente estranho e excitante, do qual os milagres e predições, as "comunicações de espíritos" e percepções extra-sensoriais fazem suas surpreendentes irrupções na vida ordinária. Mas esta classe, mais livre, de existência individualizada é ainda muito pessoal e egocêntrica para satisfazer uma alma cons­ciente de sua incompleta condição e ansiosa de comple­tar-se. Indra, pois, vai mais à frente e é tentado a aceitar a indiferenciada consciência do sonho profundo, do falso samadhi e o êxtase quietista, como liberação final. Mas ele recusa, segundo as palavras de Brahmananda, confundir tamas e sattuas, a preguiça e o subconsciente com a serenidade e a supra-consciência. E assim, pelo discernimento, chega à percepção do Eu, que é o esclarecimento da obscuridade, que é ignorância, e a liberação das conseqüências mortais dessa ignorância.

            As salvações ilusórias, contra as quais nos previ­nem as outras entrevistas, são de distinta classe. A ênfase é aqui posta na idolatria e superstição —sobretudo o culto idólatra da razão analítica e suas noções, e a supersti­ciosa crença em ritos, dogmas e confissões de fé como se, de algum modo, fossem magicamente eficazes. Muitos cristãos, como o deixa entender Law, foram culpados de tais idolatrias e superstições. Para eles, a liberação completa para a união com a divina Base é impossível, seja neste mundo ou postumamente. O melhor que podem esperar é uma vida meritória, mas ainda egocêntrica, no corpo e alguma classe póstuma, feliz "longevidade", como a chamam os chineses, alguma forma de sobrevivência, talvez paradisíaca, mas ainda envolta em tempo, separação e multiplicidade.

            A beatitude em que se liberta a alma iluminada é algo completamente distinto do prazer. Qual é pois, sua natureza? As entrevistas que nos seguem dão, ao menos, uma resposta parcial. A bem-aventurança se apóia na abnegação e o desprendimento, e assim pode goza-se sem reação nem saciedade, é uma participação na eternidade e, portanto, permanece como é sem míngua nem flutuação.

            Diante, do verdadeiro Brahma, faz-se (o espírito liberto) perfeito e outro. Seu fruto é o desatar de laços. Sem desejos, alcança a eterna e imensurável beatitude, e aí reside.

                                                                                                              

Maitrayana Upanishad

            Deus tem que ser gozado; as criaturas, só usadas como meio para Aquele que tem que ser gozado.

                                                                                                                                

São Agustín

            Entre os prazeres espirituais e corporais há a diferença de que os corporais engendram desejo antes de que se obtenham e, depois de obtidos, desagrado; e os espirituais, pelo contrário, não suscitam cuidado quando não se têm, mas são desejados quan­do se têm. São Gregório

            Quando o homem se acha em um destes dois estados (beatitude ou noite escura da alma) todo caminha bem para ele, e está tão seguro no inferno como no céu. E enquanto, como homem está na terra, é-lhe possível passar freqüentemente de um ao outro; sim, até no espaço de um dia e uma noite, e tudo sem seu próprio obrar. Mas quando o homem não está em nenhum destes dois estados, tem trato com as criatu­ras, vacila daqui para lá e não sabe que modo de homem é.

                                                                                                                

Theologia Germânica

            Grande parte da literatura do sufismo é poética. Às vezes, esta poesia é bastante forçada e extravagante; às vezes bela com luminosa simplicidade, às vezes obscura e quase inquietantemente enigmática. A esta última classe pertencem as preferências do Niffari o egípcio, santo muçulmano do décimo século. Eis aqui o que escrevia sobre o tema da salvação:

            Deus me fez ver o mar, e vi as naves afundando-se e as pranchas flutuando; logo também se inundaram as pranchas. E Deus me disse: "Os que viajam não se salvam." E me disse: "Os que, em vez de viajar, jogam-se no mar, arriscam-se." E me disse: "Os que viajam e não se arriscam perecerão." E me disse: "A superfície do mar é um brilho que não pode alcançar-se. E o fundo é uma escuridão impenetrável. E entre os dois há grandes peixes, que têm que temer-se."

            A alegoria é bastante clara. As naves que conduzem aos individuais viajantes através do mar da vida são seitas e igrejas, coleções de dogmas e organizações religiosas. As pranchas, que também se afundam ao fim, são todas as boas obras que não chegam à abnegação total e toda fé menos absoluta que o conhecimento unitivo de Deus. A liberação para a eternidade é o resultado de "lançar-se ao mar"; segundo as palavras dos Evangelhos, alguém deve perder a própria vida para salvá-la. Mas lançar-se ao mar é arriscado —no entanto, por su­posto, como viajar em um vasto Queen Mary, provido das últimas novidades em comodidades dogmáticas e or­namentos litúrgicos rumo ao caixão de Davy Jones ou, no melhor caso, a um porto equivocado; mas, contudo, bastante perigoso. Pois a superfície do mar —a divina Base segundo se manifesta no mundo do tempo e a multiplicidade— brilha com um resplendor refletido não mais fácil de agarrar que a imagem da beleza em um espelho; enquanto que o fundo, a Base conforme é eternamente em si, parece meramente escuridão à mente analítica, quando esta espiona para as profundidades; e quando a mente analítica decide unir-se à vontade, no necessário mergulho final para o aniquilamento, deve encarar o desafio, enquanto se afunda, dessas devoradoras pseudo-salvações descritas no Chandogya Upanishad —salvação onírica nesse fascinante mundo psíquico, onde o eu sobrevive ainda, mas com uma classe de vida mais feliz e menos grave, ou a salvação do sonho do falso samadhi, de unidade no subconsciente em vez de unidade na supra-consciência.

            A apreciação de Niffari a respeito das probabilidades de que um indivíduo alcance a finalidade última do hom­em não passa de excessivo otimismo. Mas o certo é que nenhum santo ou fundador de religião, nenhum expositor da Filosofia Perene foi jamais otimista. "Muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos." Os que não escolhem ser escolhidos não podem esperar nada melhor que alguma forma de salvação parcial sob condições que lhes permitam avançar para a liberação completa.

 

                   IMORTALIDADE E SOBREVIVÊNCIA

            A imortalidade é a participação no eterno agora da divina Base; a sobrevivência é a persistência em uma das formas do tempo. A imortalidade é resulta­do da liberação total. A sobrevivência é a sorte daqueles que se acham parcialmente libertados em algum céu, ou que não estão libertados, mas se encontram, pela lei de sua própria natureza não transcendida, obrigados a escolher uma servidão de purgatório ou encarnação ainda mais penosa que a que acabam de abandonar.

            A bondade e a virtude fazem os homens conhecer e amar, acreditar e deleitar-se em sua imortalidade. Quando a alma é purgada e esclarecida pela verdadeira santidade, é mais capaz destas divinas irradiações, pelas quais se sente em conjunção com Deus. Sabe que o todo-poderoso Amor, porque vive, é mais forte que a morte. Sabe que Deus não abandonará nunca Sua própria vida, que Ele suscitou na alma. Esse respirar e ofegar por uma eterna participação nele não é mais que a energia de Seu próprio fôlego em nós.

                                                                                                              

John Smith, o platonista

            Sustentei antes e ainda sustento que já possuo tudo o que me concede na eternidade. Pois Deus na plenitude de sua Divindade reside eternamente em Sua imagem —a alma.

                                                                                                                                      Eckhart

            Turvada ou quieta, a água é sempre água. Que diferença pode produzir a encarnação ou desencarna­ção para os libertados? Na calma ou a tormenta, a identidade do Oceano não sofre mudança.

                                                                                                                               Yogavasistha

            À pergunta: "Onde vai a alma quando o corpo morre?", Jacob Boehme respondeu: "Não tem necessidade de ir a nenhuma parte."

            A palavra Tathagata (um dos nomes de Buda) significa um que não vai a nenhum lugar nem vem de nenhum local; e por isso é chamado Tathagata (Assim-foi), santo e plenamente iluminado.

                                                                                                                      

Sutra Diamante

            Vendo-lhe sozinho, transcende-se a morte, não há outra maneira.

                                                                                              

Suetasvatara Upanishad

                                   Morri mineral e me converti em planta.

                                   Morri planta e me levantei animal.