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A FORCA DO ABADE / Michael Jecks
A FORCA DO ABADE / Michael Jecks

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A FORCA DO ABADE

 

A maior parte dos leitores ficará surpreendida ao ver a cidade de Tavistock descrita como uma cidade portuária. Tavistock fica situada a muitos quilómetros das costas Norte e Sul de Devon, e o Rio Tavy não é suficientemente profundo para permitir que navios grandes naveguem até tão longe - e tão-pouco o era em 1319.

Contudo, naqueles dias, um porto não era uma cidade costeira, mas qualquer lugar para onde os mercadores pudessem trazer as suas mercadorias para negociarem, e viver num porto conferia atractivos direitos ao habitante da cidade. Este era, invariavelmente, livre, numa época em que era costume os homens prestarem serviço feudal ao seu senhor, e, muitas vezes, podia fazer bom dinheiro com ocupações secundárias: alugar quartos a visitantes ou vender comidas e bebidas. Ao mesmo tempo, os habitantes do burgo estavam isentos do pagamento de portagens, e, assim, podiam participar nos lucros do mercado ou feira sem terem de pagar por esse privilégio.

É certo que em Tavistock os cidadãos enriqueciam à custa de cidades mais antigas como, por exemplo, Lydford e Chagford, e os seus deveres como habitantes da cidade eram mínimos. Os homens do porto podiam ser chamados para prestarem serviço como burgomestres (um género de cruzamento entre um governador da cidade e um magistrado) ou para qualquer outro cargo; tinham de ir ao Tribunal de Cidade quando fossem chamados; tinham de usar o moinho da Abadia; tinham de pagar renda à Abadia - mas nada mais do que isso. Em troca, deixavam de ser obrigados a ir trabalhar para os campos da Abadia, o que deve ter sido um alívio enorme, já que, muito frequentemente, as pessoas tinham de deixar as suas próprias colheitas a definharem nos melhores dias para a fazerem, porque o seu senhor esperava que a dele fosse feita primeiro.

A contrabalançar todos os aspectos positivos, havia poucos negativos. Os cidadãos de Tavistock gostavam de ser homens livres de uma cidade portuária.

O leitor moderno poderá também considerar o sistema legal medieval um pouco confuso em comparação com o nosso processo jurídico contemporâneo.

Sempre foi problemático recolher informação suficiente para não se errar ao condenar alguém, para se saber se esse “alguém” é a pessoa certa ou não. Hoje em dia temos o Ministério Público, que examina minuciosamente todas as provas disponíveis e tenta determinar se existe material suficiente para uma condenação antes de se incorrer na despesa de se levar o caso a tribunal. Se os solicitadores do MP considerarem que não existe, o caso não é apresentado, o que justifica o facto de se encontrarem agentes da polícia em bares a murmurarem taciturnamente para os seus uísques sobre o facto de ter de se julgar cada caso antes mesmo de este ser apresentado perante um júri, e, se incitado por outro uísque, eles geralmente continuam, perguntando quanto custa o próprio MP, quanto custa mandar a polícia preparar casos para o MP, e quantos mais polícias poderiam ser pagos com essa quantia.

No século XIV, tal seria incompreensível. Naquela altura, o conceito de justiça consistia em que os homens do júri eram as únicas pessoas que podiam determinar a culpa ou a inocência de um homem. Essa era a abordagem antiga, aceite, compreendida e justa. Naquele tempo, as pessoas tinham fé no julgamento dos seus pares. O processo da justiça não era complexo. Embora não fosse consistente em todo o país, era, pelo menos, compreensível para a pessoa comum, quer fosse homem livre ou camponês, o que é mais do que pode ser dito sobre o nosso sistema actual.

Por exemplo, se ocorresse uma morte súbita, esperava-se que o homem que encontrasse o corpo levantasse um clamor público. Muitas vezes isso pouco mais significava do que gritar por ajuda. Normalmente, o homem que descobria o cadáver, o primeiro descobridor, seria então implicado, ou detido, até que pagasse uma caução para garantir que apareceria em tribunal. Os quatro vizinhos mais próximos seriam também implicados, assim como quaisquer parentes que se pudessem encontrar; todos eles teriam de atestar sob juramento a cidadania inglesa do morto - o facto de que ele era inglês - em tribunal. Entretanto o clamor público percorreria o país.

Em teoria, o homem acusado de um crime seria preso, e o tribunal local julgá-lo-ia perante um júri de dez ou vinte homens (o número variava de zona para zona) formado por homens livres locais e outros, e o assunto seria encerrado. Tristemente, a vida real raramente é tão clara.

Por exemplo, se o suspeito conseguisse chegar a um conhecido santuário, podia aí ficar durante algum tempo. O magistrado local podia exigir que ele se rendesse, e alguns faziam-no. A maior parte dos que o faziam não eram considerados culpados de homicídio, mas de matarem em legítima defesa ou por acidente - o que nos leva a supor que o grupo acusador devia ter começado por agir sob a tensão do momento, e, uma vez tomado um conselho mais calmo, até os habitantes locais mais irritados podiam aceitar o depoimento do suspeito.

O segundo caminho oferecido pelo magistrado local era o de abjurar o reino. A justiça, nessa altura, como agora, era cara. Era, de longe, preferível que um criminoso compensasse o reino por ter perturbado a paz do Rei pagando, e partindo depois para sempre. A um criminoso podia ser poupada a vida, mas perdia tudo o resto: casa, dinheiro, propriedade - tudo.

Um abjurante tinha de deixar o reino pela estrada mais curta. Era levado para a porta de uma igreja afastada do centro da cidade, e, perante o magistrado local, era obrigado a fazer um juramento sobre os Evangelhos, segundo o qual deixaria tudo para trás (indo a maior parte dos seus bens para o senhor local ou para o Rei), e faria a sua viagem vestido de branco e carregando às costas uma cruz de madeira para demonstrar a sua penitência. O funcionário dizia-lhe que estradas podia tomar, onde podia pernoitar e para que porto devia ir, e, caso ele não o fizesse, podia ser instantaneamente executado. Se deixasse a estrada, se permanecesse demasiado tempo a caminho, se alguma vez regressasse ao reino, podia ser decapitado, e os homens que executassem o castigo estariam livres de acusação.

Por último, era muitas vezes difícil encontrar testemunhas de confiança suficientes em relação a qualquer crime, e, tal como hoje necessitamos de delatores, a acusação dependia, por vezes, do facto de os criminosos denunciarem os companheiros. Agora chama-se a isso testemunhar contra os próprios cúmplices; naquela altura chamava-se denunciar os cúmplices. Um denunciante era um homem que concordava em confessar e em denunciar os cúmplices em troca da sua vida. Em seguida teria de abjurar o reino; não necessariamente pelo simples motivo de que a lei o exigia - um homem assim não era universalmente popular na zona.

Têm-me perguntado se alguma das personagens dos meus livros existiu realmente. Na generalidade, a resposta tem de ser “Não”, pela simples razão de que os cronistas não se interessavam pelas classes mais baixas. Os camponeses não mereceram qualquer comentário na maior parte dos registos.

Relativamente às personagens mais importantes, tentei incluir algumas cujas vidas estivessem documentadas. Assim, Walter Stapledon foi Bispo de Exeter; era um homem poderoso que contribuiu para a construção da Catedral de Exeter, que esteve envolvido com os Ordenadores, e que, mais tarde, ajudou a criar o Partido do Meio, que fundou o Stapledon Hall em Oxford (agora chamado Colégio de Exeter), e que deu início a um liceu em Exeter. Mais tarde, tornar-se-ia lorde tesoureiro-mor, até ser assassinado pela multidão de Londres em 1326.

De forma semelhante, O Abade Champeaux foi um homem real, notável pelos seus êxitos na promoção da sua Abadia. É descrito como um homem amável e benevolente, conhecido pela sua piedade, e, de acordo com os registos, parece ter-se dedicado ao passatempo de caçar (estava continuamente a ser repreendido por caçar ilegalmente na charneca), compreensivo no trato com os seus monges mais caprichosos, e generoso.

O facto de ser sensato pode ser provado pela sua capacidade para aumentar a riqueza da Abadia. Quando foi eleito Abade em 1285, herdou dívidas e teve de contrair um empréstimo de 200 Libras, uma vasta quantia; quando morreu, em 1324, o tesouro da Abadia adquirira 1200 Libras. Tal baseou-se no seu êxito em despojar-se de terras que não eram lucrativas e de responsabilidades dispendiosas, em fazer empréstimos astutos à Coroa para financiar guerras, e em comprar cargos, como, por exemplo, administrador das minas de estanho e superintendente das minas de prata. Os lucros daí provenientes eram enormes, como pode deduzir-se do facto de Champeaux ter pago 100 Libras por ano só pelos lucros da administração.

Mas estes homens, tal como aparecem nos meus livros, são personagens fictícias. As crónicas proporcionam-nos apenas os factos crus - nem sequer há imagens destes dois homens, tanto quanto sei - por isso tive de os inventar como penso que eles teriam sido. O mesmo se aplica à Abadia e à sua feira.

A Abadia de Tavistock nunca recuperou a sua proeminência após a morte de Champeaux. Passou por um período sem Abade, e, em seguida, Robert Bónus foi imposto aos relutantes monges, um homem que teve de ser destituído, em 1333, por “insolência e comportamento descomedido”. John de Courtenay tomou posse, mas era presunçoso, viciado na caça e desportos campestres, e um gastador. A Abadia entrou em declínio, ao mesmo tempo que a peste assolava a nação, e nunca recuperou. Esta, como tantas outras abadias, foi varrida pela Reforma. Agora há pouco para ver da importante instituição que em tempos foi. (1)

 

(1) Para aqueles que desejarem saber mais sobre Tavistock, o Abade Champeaux e sobre a história da feira e da cidade, recomendo o livro de H.P.R. Finberg Tavistock Abbey (Cam-bridge University Press, 1951).

 

 

O Sol era quase insuportavelmente quente, a viagem nitidamente desconfortável. Arthur Polé limpava o rosto à bainha do manto para remover o pó fino que se levantava da estrada em esparsas nuvens, à medida que os cascos dos cavalos e as rodas da carroça o agitavam.

- Ainda falta muito, Arthur?

Marion, a esposa, seguia alguns metros atrás dele, na sua égua nova. Uma amblere, estava treinada para proporcionar a uma senhora uma viagem suave, balançando primeiro as patas de um lado do corpo, depois do outro, movimentando sempre as esquerdas juntas, depois as direitas. Fora ruinosamente cara, pois era difícil treinar um cavalo a andar dessa maneira, mas o presente foi necessário para a compensar por ter de fazer esta viagem no pino do calor húmido do Verão.

-Já não é longe, querida - respondeu ele. - Gostarias de parar para descansar e comer alguma coisa? Temos vinho, se...

- Pai, se lhe deres mais vinho, a mãe não vai ser capaz de se aguentar no cavalo - gritou a filha, animada.

Arthur reprimiu um sorriso ao mesmo tempo que a esposa olhava para trás com uma expressão irritada. Após dois dias de viagem desde Exeter, onde ele estivera ocupado em negócios, doía-lhe o traseiro, mas a excitação fazia-o querer continuar. Havia dois meses que ele e a família tinham saído de sua casa junto à costa, tendo empreendido a viagem para Exeter para se encontrarem com um camareiro do Rei, e levava no bolso uma autorização escrita para comprar vinho em nome da casa real para quando o Rei Eduardo II lá se deslocasse em visita ainda nesse ano. Agora encontrava-se a caminho da feira de Tavistock para adquirir o melhor vinho disponível, e o seu lucro seria suficiente para abastecer outro navio de lã para ser vendida na Flandres. Com alguma sorte, não teria de visitar mais feiras durante dois ou três anos, podendo descansar em casa e viver dos rendimentos.

A filha interrompeu-lhe estas cogitações, colocando-se a seu lado com a criada, e ele viu que ela tinha o olhar fixo mais à frente na estrada.

- Estás ansiosa por chegar, minha querida?

- Claro que estou. É a primeira feira a que vou em cinco anos, pai.

- Só espero que justifique o teu entusiasmo.

- Oh, com certeza que sim! Sempre me disseste que Tavistock tem a melhor feira do país.

- A tua mãe insistirá para que eu te compre o melhor, também.

- Não sejas tão rabugento! - disse ela, a rir. - Não haverias de querer que eu me vestisse como uma mendiga, pois não?

- Claro que não, especialmente no teu casamento.

Os seus sentimentos pela filha eram profundos. Em parte vinham da comparação com a esposa. Enquanto Marion podia ser brusca, Avice era dócil; enquanto a sua esposa era cuidadosa com o dinheiro, Avice era generosa; enquanto a esposa procurava os erros dele para os corrigir, Avice felicitava-o sempre pelos seus êxitos. Numa palavra, para Arthur Polé, a mulher mais importante da sua vida era a filha, e ele moveria o céu e a terra para lhe agradar, fosse qual fosse o preço - e, no entanto, queria assegurar-se de que a esposa não ficava desconcertada. Se ela estava preocupada, ele era sempre o primeiro a ouvir, e não tinha qualquer desejo de a ver perturbada em relação ao assunto do casamento da filha. Ela estabelecera no seu coração que a filha, a sua única filha, casaria com um escudeiro e faria parte de uma família nobre e de bem. Era o seu único desejo, e ele amava realmente a esposa e respeitava os seus anseios.

As palavras dele fizeram com que Avice se calasse por um momento. Ela sempre fora uma filha obediente, mas a ideia de se casar com John de Hatherleigh não a entusiasmava. John era filho de um cavaleiro, mas o objectivo do casamento era as vantagens que daí podiam advir, não o amor: John era parente dos de Courtenay.

A família era a mais poderosa de Devon, e qualquer ligação com ela só podia reflectir-se em Arthur de forma positiva, e, tal como Marion sublinhara, com o dote, Arthur podia garantir que Avice não precisaria de se preocupar com os rendimentos de John. Contudo, ela preocupava-se, cada vez mais, quando pensava nos lábios grossos dele e nas fartas sobrancelhas, nos ombros poderosos e na sua arrogância pedante. John parecia o género de homem que podia ter prazer em bater na esposa.

Avice afastou a ideia da cabeça. O Sol brilhava, ela ia a caminho de uma feira, e o casamento pertencia ao futuro. Não valia a pena preocupar-se. Tal como Marion dissera, era provável que ele a ouvisse, tal como Arthur se aconselhava com a mãe dela. Era assim o casamento, no qual a esposa ordenava todas as coisas na casa, enquanto que o marido tratava das suas obrigações no exterior. De qualquer forma, tanto quanto ela sabia, fazia parte do papel da filha aceitar o noivo que escolhessem para ela.

- Pai, essa casa onde vamos ficar, é perto da feira?

- Sim, fica na cidade, mas apenas a uma curta distância a pé do recinto da feira. Já lá fiquei de outras vezes, em anos anteriores, e há bastante espaço.

- Foi sorte teres encontrado uma casa - disse ela. Avice sabia com que rapidez as propriedades seriam arrendadas. Uma das melhores oportunidades que as pessoas da cidade tinham de fazer dinheiro advinha da venda de espaço para dormir a visitantes enquanto a feira durasse.

- Não foi sorte. O dono ficou bastante contente em concordar - disse Arthur. A quantia que ele oferecera garantira-o, mas ele não lamentava a despesa. A sua margem de lucro justificaria à vontade os custos. - De qualquer maneira, eu não queria chegar contigo e a tua mãe e ter de andar à caça de uma miserável cabana por todo o lado.

- A mãe não iria gostar!

- Hum, pois não.

Avice olhou por cima do ombro. A mãe seguia suficientemente confortável, com a criada a seu lado. Atrás seguia Henry, o moço de estrebaria do pai, enquanto que o camareiro de Arthur seguia na carroça, à retaguarda. Era a primeira vez que Avice acompanhava os pais numa viagem tão prolongada, e estava surpreendida com a eficiência militar da operação. A carroça levava o baú de Arthur, cheio de dinheiro e documentos importantes. Para a eventualidade de uma emergência, Arthur trouxera também várias chapas de peltre, que podiam ser usadas quer como entretenimento, quer para serem trocadas por dinheiro. A comitiva, com eles os três, duas criadas, o camareiro e um moço de estrebaria, era a maior de que Avice alguma vez fizera parte, e ela estava cheia de orgulho pelo facto de o pai poder fazer uma figura tão vistosa.

A rapariga vislumbrou uma nesga de pó lá muito atrás da carroça.

- Pai, parece que há mais alguém a dirigir-se para a feira.

- Hã? - Arthur virou-se e espreitou para trás. O seu primeiro pensamento foi de que estavam prestes a ser atacados de surpresa, mas a sua suspeita não tinha fundamento. Havia apenas três cavaleiros a galope atrás deles.

Os fora-da-lei ainda eram demasiado comuns, especialmente em estradas movimentadas como esta que vinha de Exeter. A fome de 1315 e 1316, a que ainda se fazia referência com horror e respeito, tinha forçado muita gente a deixar as suas terras quando a chuva destruiu as colheitas e deixou comunidades inteiras a morrer à fome, e bandos errantes de homens desesperados e sem casa roubavam à-von-tade em todas as principais estradas do reino, mas poucos podiam dar-se ao luxo de ter um cavalo. Os homens que se aproximavam deviam ser mercadores.

- Bom dia, senhores - gritou ele, à medida que os homens se aproximavam.

O primeiro era um homem sólido de quarenta e muitos anos, barrigudo e de rosto corado. Os olhos eram cinzentos-claros, e formaram rugas de prazer quando ele retribuiu a saudação do mercador com bastante cortesia. Arthur pensou que ele devia vir de uma das cidades dos Estados Pontifícios, ou talvez de Florença ou Veneza; o seu sotaque era estranho quando retribuiu a saudação:

- Bom dia. Também ides a caminho da feira?

- Sim. Tenho de comprar vinho. E vós?

- O meu filho Pietro e eu vamos visitar o Abade de Tavistock.

Estas palavras foram ditas com uma grandeza calma, e Arthur aceitou a sua posição subserviente. Se o italiano podia visitar um Abade, um homem que se equiparava a um fidalgo, devia ser importante. Uma vez que Avice estivesse casada com John, um pouco da importância daquela grande família reflectir-se-ia sobre ele, mas até lá Arthur sabia que não passava de um mercador, alguém que podia ser rico, mas que era insignificante comparado com um homem de Deus ou até com o membro mais pobre da nobreza. A classe era importante, e Arthur sabia qual era o seu lugar na sociedade. Podia muito bem ser um dos homens mais abastados do Sul de Devon, no entanto, para um cavaleiro ou barão ele era um simples homem do povo, e, como tal, insignificante.

Arthur mediu o homem de alto a baixo. Não restava qualquer dúvida na sua mente de que o desconhecido gozava de prosperidade. A túnica que usava era cara, de lã delicadamente fiada, e os sapatos eram de couro vermelho macio. Trazia uma espada à cintura, e, por um momento, Arthur perguntou-se se poderia tratar-se de um cavaleiro, mas, embora trouxesse os arreios, havia algo a destoar. Nem ele nem o filho exibiam um escudo; nenhum deles tinha armas heráldicas bordadas nas roupas. O criado deles, que levava pelas rédeas duas bestas carregadas de mercadorias e uma grande caixa, apresentava-se pobremente vestido, exibindo uma túnica grosseira com uma camisa de linho por baixo e umas vulgares calças justas, ao passo que o escudeiro de um cavaleiro teria demonstrado a opulência do seu amo ao usar uma farda dispendiosa para evidenciar a sua classe e a sua posição. Este criado não se apresentava melhor vestido do que o moço de estrebaria de Arthur.

A qualidade dos seus cavalos também destoava. Embora os animais estivessem ornamentados segundo a última moda, com sinos pendurados dos arreios e um caro trabalhado nas selas e nos cabrestos, os animais em si eram de baixo nível, não sendo bons palafréns, mas póneis de aspecto doentio. Tal fez com que Arthur pestanejasse de surpresa, à medida que olhava de um para o outro.

O filho, Pietro, era bem constituído - alto, de cabelo preto asa-de-corvo e os olhos escuros e brilhantes do Mediterrâneo. Estava vestido de uma forma extravagante: as calças eram justas, e usava uma túnica de veludo matizada de vermelho e verde. Arthur atirou um olhar à filha. Para seu prazer, viu que Avice mantinha uma digna falta de interesse, olhando para a frente na sua ansiedade por vislumbrar a cidade.

Enquanto seguiam a cavalo, Arthur ocupou o homem mais velho em conversa à toa, e descobriu que o nome dele era António da Cammino. Era mercador e oriundo de Veneza. A julgar pelo seu discurso, Cammino era mais rico do que Arthur teria suposto. Falava de uma frota de galés que comerciavam entre as cidades de Itália, indo até à Palestina e Bizâncio.

- Falais muito bem inglês - elogiou-o Arthur respeitosamente.

- Há muitos anos que negoceio aqui - interesso-me por alguns negócios bancários. E agora estou aqui para falar com o Abade.

- Negócios?

O veneziano acenou com a cabeça.

- Enquanto existir inimizade entre o vosso Rei e o Rei de França, há oportunidades para fazer dinheiro.

Arthur acenou com a cabeça. O Rei Eduardo II estava mais uma vez envolvido numa longa disputa com os franceses. O Rei francês insistia no seu direito de ouvir os apelos dos vassalos do Rei inglês na Gasconha, mas, para os ingleses aceitarem esse facto, teriam de aceitar a soberania da coroa francesa, e tal era impossível enquanto os territórios da Gasconha rendessem mais do que a Inglaterra. Eduardo II não se podia dar ao luxo de ver as suas terras diminuídas, pois tinham para ele uma importância crucial. Assim, pretendia estabelecer que conservava a Gasconha como um alódio, sob completa soberania, mas os franceses queriam que ele se submetesse ao tratado de 1259, que conferia à Coroa francesa direitos de vassalagem sobre o Rei inglês.

Se o Rei fosse forte, poderia haver uma forma de negociar uma colonização respeitável, mas Arthur sabia tão bem como qualquer outra pessoa que Eduardo era fraco. Não se interessava por política. Corriam rumores de que se interessava mais por certos cortesãos seus favoritos do que por assuntos de estado, e a sua reputação como chefe militar fora esmagada juntamente com os soldados ingleses no desastre de Bannockburn. Dificilmente consideraria a hipótese de uma guerra contra a França. Como poderia a pequena Inglaterra alguma vez esperar vencer uma guerra contra um inimigo tão grande e poderoso?

Mas Cammino tinha razão: havia sempre uma maneira de fazer dinheiro, até numa guerra. Um mercador como ele, com a sua própria frota, podia importar vinhos da Gasconha, ou ajudar a aprovisionar um exército, ou simplesmente emprestar dinheiro a um barão ou a um Rei que precisasse. E enquanto as hostilidades permaneciam verbais, um homem habilidoso podia aumentar as suas reservas para os tempos em que fossem precisas, e obter um lucro considerável.

Pietro, o filho de Cammino, ouvia com indiferença os dois homens a falar sobre os seus negócios, mas deu com a sua atenção a perder-se na filha de Arthur.

Avice Polé era elegante para os seus quinze anos. Tinha a pele pálida, as feições finamente moldadas, com olhos suaves de corça e um nariz ligeiramente arrebitado à ponta. O sobrolho era alto, conferindo-lhe um ar maduro e inteligente, e o cabelo, daquilo que ele podia ver sob o pequeno mas elegante toucado, era castanho-avelã. Tinha um ar sereno e confiante na sua túnica verde ornamentada com um bordado na bainha e junto ao pescoço.

Pietro estava desesperado por entabular conversa com ela, mas tinha pouca experiência de falar com mulheres. Toda a sua vida fora uma viagem constante, com poucas oportunidades para namoriscar, e não fazia ideia que assunto a interessaria. Era essencial que a voltasse a ver, intolerável que, uma vez chegados a Tavistock, tal nunca acontecesse. À medida que o pequeno grupo começava a descer uma colina, ele torturava o cérebro para divisar um estratagema para se encontrar com ela, mas a solução foi oferecida pelo próprio Arthur.

- Foi agradável passar o dia na vossa companhia, senhor. Teríeis a gentileza de aceitar tomar uma caneca de vinho comigo? Vai levar algum tempo até que a minha carroça seja descarregada esta noite, mas há uma taberna em Tavistock. Talvez possamos encontrar-nos lá à hora das completas.

- Teria muito prazer, e tendes de trazer a vossa encantadora esposa e a vossa filha - disse ele, fazendo uma graciosa vénia, e Pietro relaxou, atirando um olhar rápido a Avice. Para sua surpresa, ela lançava-lhe um olhar coberto pelo canto do toucado, e, quando ele sorriu, teve a certeza de que ela lhe retribuiu o sorriso.

Foi à ponta de um bosque que fazia fronteira com a planície da cidade que ouviram pela primeira vez o frade.

- Sabeis, por acaso, o que estais a fazer? Apercebeis-vos do perigo mortal que correis? Tudo o que fazeis é contra os ensinamentos de Cristo!

Para Luke, o criado de Cammino, o homem parecia um vulgar mendigo errante: magro, curvado como se um peso enorme o vergasse, de olhos azuis brilhantes, quase fanáticos. O cabelo, o que restava abaixo da tonsura, era grisalho da idade, e a pele tão bronzeada como a de um camponês, como se vivesse toda a sua vida ao ar livre. Não gritava nem pregava, mas falava num tom triste, como se estivesse convencido de que a sua mensagem era essencial, se ao menos as pessoas a ouvissem.

A seu lado reunira-se um pequeno grupo de pessoas, a maior parte delas a divertir-se às custas do clérigo, e as crianças brincavam atrás.

No entanto, alguém parecia estar a ouvir com interesse - um homem de aspecto duro: de meia-idade, cabelo grisalho, peito largo, e a estatura pesada de um agricultor.

- Meus amigos, nunca ouvistes as palavras de Santo Agostinho? Ele disse-nos que o negócio em si é obra do demónio. O dinheiro é o demónio: mancha a vossa alma imortal. Não vades à feira para ter lucro; o lucro é o demónio! Ides comprar roupas e tecidos novos? Eles são as armadilhas do demónio, conduzindo ao pecado da soberba. Por que quereis ostentar roupas dispendiosas e vestir as vossas esposas de ouro e jóias? Se comprardes coisas de que não precisais, sois culpados do pecado da avareza. A terra é abundante, há comida suficiente para todos...

Os frades seleccionavam muitas vezes indivíduos para discursarem e darem ênfase aos seus pontos de vista, e foi com alívio que Luke viu os olhos do homem caírem sobre António e não sobre si.

- Senhor, estais aqui para vender mercadorias? António baixou para o frade o olhar aborrecido.

- Não, estou aqui para visitar o senhor Abade.

- Mas sois mercador. Amigo, desisti da vossa vida de perversidade! São Jerónimo disse-nos que um mercador raramente pode agradar a Deus. Está errado fazer dinheiro quando não se faz nada para isso.

- Eu trabalho muito para obter o dinheiro que faço - disse António, corando perante o insulto à sua dignidade.

- Comprar mercadorias por grosso e vendê-las por um preço mais elevado sem fazer nada para as melhorar é imoral, meu filho. É condenado pelo direito canónico. Meu filho, deixai de viver a vossa vida de pecado! - Agarrara o freio do cavalo de António, e estava especado, implorativamente, os olhos fixos nos do veneziano.

Com um puxão, António libertou a cabeça do seu cavalo e praguejou baixinho.

- A minha vida não é de pecado. Ganho o meu dinheiro, e são pessoas como eu que vos dão esmolas, a vós e aos vossos irmãos, para que possais pregar-nos. Aqui tendes... - tirou algumas moedas do bolso e atirou-as para o chão - ... pegai no dinheiro, se é que não vos suja a carne! Agora deixai-me em paz!

Metendo esporas ao cavalo, continuou a viagem, e os outros seguiram-no. Luke ouviu Arthur dizer, em tom de consolo:

- Estes frades são um aborrecimento, mas não deixeis que ele vos perturbe. Ele não percebe nada de negócios.

- Ainda bem que ele não sabe que eu também concedo empréstimos - disse António, soltando um riso abafado. - Podeis imaginar o que ele teria dito se tivesse ouvido dizer que eu era um... maldito usurário!

 

Frei Hugo acompanhou com o olhar o pequeno grupo que descia a encosta. Havia alturas em que sentia que a luta para salvar almas era de mais para ele. As pessoas não tinham qualquer interesse pela vida futura; estavam demasiado ligadas às suas pequenas vidas seculares e não conseguiam, ou não queriam, levantar os olhos para o céu.

Sabia que, em grande parte, a culpa era de homens da igreja corruptos. Desde que o Papa se mudara para Avinhão, o seu único interesse eram as finanças. Vendiam-se nomeações onde quer que fosse na igreja. A simonia abundava, com bispos a pagarem o rendimento de um ano pelos seus privilégios e passando depois o custo através da hierarquia, afectando - ou infectando - todos, desde abades a padres e a frades.

E isso não era o pior. Os próprios frades não viviam como São Francisco queria. Hugo sabia que o Santo previra os problemas; quando um noviço lhe pedira um livro de salmos, São Francisco recusara-lho, dizendo que, primeiro, ele queria um livro de salmos, depois haveria de querer um breviário, e depois haveria de estar sentado numa cadeira, como um importante prelado, e pediria a outro irmão para lho ir buscar. Para São Francisco, a posse de um único artigo podia levar à avareza e ao desejo de autoridade sobre outras pessoas.

Agora os frades viviam em grandes casas, a comida e o alojamento garantidos. Tinham imensos edifícios, e alguns nem sequer usavam os seus hábitos e vestiam-se como burgueses, ignorando a tonsura, deixando crescer o cabelo e a barba. Sabia-se que muitos tinham filhos. Levavam consigo cães pequenos, quando iam ao estrangeiro, para tentarem as mulheres a conversarem com eles, e depois violá-las.

Mas Hugo levava a sério a sua vocação. Rejeitava o mundo do dinheiro, da influência, dos bens mundanos. Era seu dever - um dever solene, santo - salvar as almas dos pecadores que encontrava todos os dias.

- Irmão?

Hugo virou-se. Era o homem que estivera a seu lado quando ele pregava. O frade esboçou um vago sorriso. Se, pelo menos, alguém estivesse preparado para ouvir, já era alguma coisa.

- Sim?

- Está correcto que um homem aceite dinheiro de outro quando não precisa dele?

- Cristo ensinou-nos que o dinheiro é o demónio. Está correcto que um homem que crie um barril seja recompensado pelo seu trabalho, o mesmo se aplicando a um homem que faça uma tapeçaria, ou uma roda de moinho, mas fazer dinheiro a partir de dinheiro é pecado. Se um homem aceitar dinheiro que ele próprio não ganhou com o seu trabalho, é culpado de avareza, e a avareza é um pecado.

Uma parte da multidão regressara, esperando que o frade fosse o alvo do ridículo. Um rapazinho picou Hugo na ilharga com um pau, e Hugo passou levemente a mão de arrepio pela cabeça do rapaz.

- Há demasiada ânsia por riquezas neste mundo. Olhai para este rapaz - não se importa com dinheiro. Não precisa de campainhas nem de jóias nem de ouro. Está satisfeito. Se não houvesse ganância por dinheiro, o mundo estaria livre de grande parte da discórdia que nele existe.

Ao som de passos, virou-se novamente para a estrada que atravessava os bosques.

- Meus amigos, arrependei-vos dos vossos pecados. Apercebeis-vos do perigo que correis? São Jerónimo disse...

- Calai-vos, padre. Não precisamos que os da vossa laia nos dêem sermões - o homem que falara era alto e moreno, com a pele queimada do vento e do sol. Seguia à cabeça de um grupo de quatro, todos vestidos com túnicas e calças baratas, e todos armados de bastões e espadas como escudeiros. - Sabemos quanto vós e os vossos irmãos sois religiosos, comendo carne todos os dias e tomando qualquer mulher que vos atraia.

- Meu filho, como pouca carne, apenas algum peixe. A minha barriga, por acaso, mostra que eu vivo de carne e vinho? Mas a vossa alma, se vindes à feira para encherdes os bolsos, estará a devorar a comida do demónio. Se vindes para conseguir lucros com o trabalho de outros homens, será...

- Calai-vos, velho louco. - O homem empurrou Hugo para fora do caminho. - Não temos tempo para ouvir os vossos disparates.

- Vamos, deixai-o em paz, ele não está a fazer mal nenhum. - Hugo foi agarrado pelos cotovelos e afastado da estrada. O homem que o interpelara encontrava-se agora entre ele e os quatro outros homens. - Ele está apenas a tentar ajudar as pessoas.

- Não precisamos desse tipo de ajuda - disse o porta-voz. - Somos guardas - de Denbury - e estamos aqui para manter a ordem, e se vos interpuserdes no nosso caminho, não vereis a feira senão através das grades da cadeia.

- Bem, caso não me encontreis, o meu nome é Roger Torre. Ficaria contente por vós por me tentardes levar agora para a prisão, mas... - espetou um dedo em direcção à cidade - ... poderíeis achar difícil terdes de carregar comigo até tão longe. Sou pesado.

Hugo ouviu o tom de graça da voz de Torre, mas a sua posição traía o seu estado de prontidão. O guarda franziu o lábio em sinal de desdém, mas não estava com disposição para lutar após ter já caminhado mais de quinze quilómetros naquele dia. Pôs o bastão ao ombro.

- Sou Jack Grande. Se vos atravessardes no meu caminho, asseguro-vos que o lamentareis.

- Duvido - disse Torre alegremente, e ficou para trás para os deixar passar.

Lá continuaram, e Hugo observou-os a desaparecer encosta abaixo.

- Obrigado, meu amigo, por me terdes defendido, mas não vos coloqueis em perigo para me protegerdes.

- Penso que precisais de alguém que cuide de vós, irmão. Mas basta! Vinde comigo, e oferecer-vos-ei uma caneca de cerveja. Quero falar convosco sobre dinheiro.

 

De todas as estradas por onde ele viajara desde os homicídios, esta, com as recordações indesejadas a insinuarem-se-lhe na mente, parecia a mais sinistra.

As árvores uniam-se por cima da cabeça dele, os ramos a confundirem-se para toldarem a luz e criarem uma caverna de crepúsculo por baixo. Aqui, na obscuridade, ficava a estrada. No calor opressivo e sufocante do final de Agosto, os cascos e os arreios dos cavalos soavam monótonos. Debaixo dos pés, a relva macia amortecia-lhe os passos errantes. O ruído surdo e prolongado das rodas da carroça, o rangido dos eixos e das correntes, o chocalhar oco das panelas a baterem umas nas outras, tudo lhe parecia morto, como se ele cavalgasse num sonho em que as imagens eram distintas mas em que todo o barulho tivesse sido silenciado. Há muitos anos atrás, este meio envolvente dera-lhe paz. Agora representava apenas perigo.

À medida que o caminho começava a subir, ele recordou aquela última viagem com tanta nitidez como se tivesse acontecido na semana passada, e não há anos atrás. Era como se a estrada o estivesse a levar de volta ao seu passado, e era com uma mistura de medo e esperança que ele avançava aos solavancos. Ambos tentavam dominá-lo, mas ele mantinha o rosto impassível. Os companheiros de viagem não podiam imaginar as suas emoções.

Foi há quase vinte anos, recordava ele. Contudo, passado tanto tempo, os cheiros e os sons ainda lhe eram familiares. Este era o local em que nascera. Estes eram os cheiros da sua infância: ervas, fornos de carvão, o cheiro forte e penetrante do gado nas cercas, o fedor almiscarado das pessoas. Até o odor intenso e desagradável da estrumeira era estranhamente acre.

Agora, a sobrepor-se ao ranger e ao ruído rouco e prolongado das carroças, ele ouvia outros barulhos. Havia martelar e gritos, o raspar de serras pela madeira, e pancadas que ecoavam à medida que os machados cortavam remos de árvore. Eram os barulhos da sua infância, a cacofonia do trabalho tal como podia ser ouvida em qualquer cidade próspera, mas, neste meio circundante, eles transmitiam-lhe uma sensação de liberdade, como se ele, finalmente, estivesse a ser libertado do seu isolamento.

Veio para o Sol e estendeu o olhar pelo vale. A vista era a que ele mantivera fixa na sua mente ao longo de todas as centenas de quilómetros desde que conseguira fugir. O seu nariz captou no ar um leve cheiro a carvão, e ele absorveu a brisa com um prazer impaciente, como um spaniela farejar a caça, antes de as outras recordações voltarem de novo à sua mente e o seu rosto adquirir a sua habitual dureza impassível.

O vento era bem-vindo. Estava-se quase na festa de São Rumon, no fim de um Verão quente, e as suaves rajadas eram agradáveis, arrefecendo o suor no corpo do viajante, à medida que ele olhava os companheiros. Poucos entre eles podiam saber o quanto aqueles mesmos ventos seriam traiçoeiros e mortíferos no pino do Inverno. Ele sabia: vira como o vento frio do Inverno podia matar homens nos terrenos pantanosos.

Mas os seus pensamentos não se inclinavam para o tempo atmosférico. A cada centímetro e a cada metro que cobria, ele sentia as recordações a regressarem para o engolirem: o rosto dela, a gritar; o machado ensanguentado; os gritos de sarcasmo e escárnio, à medida que ele se afastava, a correr - e, mais tarde, o não poder acreditar que era ele o acusado, aquele que foi preso para o julgamento inevitável, o homem a ser enforcado.

Via a forca pelos olhos do espírito: uma forma rígida entre as árvores que se agitavam suavemente de ambos os lados. Era crepúsculo quando ele a vira pela primeira vez, e, quando passara por ela com o pai, ela rangera em sinal de protesto contra o vento, e fê-lo estremecer. Era um som arrepiante e agoirento. Em anos posteriores, ele raramente a olhara - havia tantas por todo o país - no entanto, ao regressar de Oakhampton, ele ouviu-a a ranger e a gemer perante as rajadas de vento, e, quando olhou, as árvores agitavam os seus ramos numa dança sinuosa, como se lhe acenassem. Ele ficara paralisado de súbito terror, como se a forca o chamasse só a ele.

Naquela altura, ele deveria ter a idade de Hankin. Lançou um olhar ao rapaz. Hankin estava sentado na carroça, as rédeas frouxas nas mãos, acenando sonolentamente com a cabeça sob os efeitos do Sol quente e do litro de boa cerveja que bebera ao almoço. Hankin era órfão de um mercador inglês de Bayonne, e, quando mais ninguém queria tomar conta do rapaz, ele aceitara-o como aprendiz. De certa forma, Hankin preenchia a falta deixada pela sua esposa, que morrera de uma hemorragia quando estava grávida do seu primogénito, e ele gostava de pensar que o seu próprio filho teria sido muito parecido com este rapaz, rápido a aprender e autoconfiante.

Encontravam-se agora a sair dos bosques, e ele abrandou o passo, para descontentamento bem audível dos homens e das mulheres que seguiam atrás, à medida que olhava lá para baixo, para a cidade.

Pela tarde velha de um dia de Verão, era uma cena de perfeita tranquilidade. Visto daqui, o vale parecia um largo disco de terra. O rio era uma faixa brilhante que cortava a paisagem como uma fita de aço coleante. O fumo elevava-se das casas e os lugarejos ponteavam em volta da pequena planície, e os blocos cinzentos de granito da igreja e da Abadia distinguiam-se um pouco mal na névoa do crepúsculo. As torres erguiam-se, aparatosas, magras e ousadas na sua simplicidade cinzenta. Pouca coisa se podia comparar à sua acentuada forma quadrada; a sua própria regularidade era testamento do seu santo desígnio. Nas proximidades, os edifícios eram anões.

Os campos de pastagem eram delimitados por árvores, que subiam pelas encostas dos pequenos outeiros. Parecia que os prados e as tiras dos campos estavam isolados e rodeados de bosques que avançavam, ao passo que, na realidade, as árvores estavam a ser sempre forçadas a retroceder, à medida que as terras da Abadia se expandiam. Todos os anos, os monges, os agricultores e os burgueses mandavam cortar mais troncos grossos para os transformarem em lenha ou mobiliário, deixando espaço para ser colonizado por ovelhas e vacas. O processo estava mais ou menos completo, com a franja das árvores tão empurrada para trás que apenas as pontas dos ramos do topo se podiam discernir por cima das colinas onduladas. O cavalo dele deslocava-se nervosamente, à medida que as carroças passavam, com-pletamente carregadas, e ele desmontou e afastou-se um pouco do caminho, sentando-se e fixando o olhar no vale.

Parecia estranho estar mais uma vez a ver o local em que vivera. Era o seu lar, e a imagem trouxe consigo um aperto na garganta, como se uma bola de comida tivesse encalhado. Tentou engolir, mas a bola não desapareceu; sentia uma necessidade de se apressar a continuar, como se os anos que entretanto tinham passado se dissipassem e ele regressasse à sua juventude quando chegasse à cidade. Para olhos habituados a cidades estrangeiras que lhes eram estranhas, tratava-se de uma cena que, curiosamente, em nada se distinguia de tantas outras, um panorama banal que ele conhecia bem; contudo, estava também carregada de perigo; e ele tinha consciência da ameaça latente que representavam os amontoados de casas de campo.

Olhando aquela paisagem, os músculos do rosto entraram mais uma vez na máscara que lhes era familiar. A repugnância pelas pessoas que o tinham forçado a deixar esta terra e lhe tinham destruído a vida agitou-se-lhe novamente no peito.

Com uma determinação que não sentia, voltou a subir para o cavalo e galopou brandamente para junto da carroça de Hankin. Sentiu alívio ao juntar-se aos viajantes. Entre eles sentia-se protegido, obscurecido pela sua numerosidade - apenas mais um mercador a caminho de uma feira. Não fazia sentido demorar a chegada; já esperara de mais. Agora tudo o que queria era apressar-se a chegar, para ver o homem que viera de tão longe, e correndo tamanho risco, para ver. Com esse pensamento, sorriu e continuou a descer a planície em direcção à Abadia.

Jordan Lybbe regressara.

O telhado estava a ser desmantelado, peça a peça, enquanto David Holcroft observava, o desagrado a contorcer-lhe as feições, à medida que os quadrados de madeira podre eram atirados, a girar, para se juntarem à pilha que se encontrava à sua frente. De cada vez que ouvia um estrondo, estremecia.

A pequena barraca era essencial à feira. Era aqui que os mercadores pagariam a portagem pelo privilégio de venderem as suas mercadorias. A feira de Tavistock atrairia gente de toda a parte até Castela, e era responsabilidade sua, como burgomestre, certificar-se de que ficaria pronta.

Holcroft sabia que não havia necessidade de ter tantos homens, mas, se libertasse um, os outros defenderiam os seus próprios casos, e em breve não teria ninguém. Espalhavam-se por todo o local, atrapalhando-se uns aos outros e quebrando ripas que ainda não estavam inutilizadas. Cada uma estava equipada com um par de cavilhas que se prendiam a outras ripas que, por sua vez, corriam ao longo das traves, e, à medida que os homens trabalhavam ao longo da inclinação, ele via a madeira a lascar nos locais em que as cavilhas estavam fixas. Teriam sorte se conseguissem resgatar alguma, da forma como estes cretinos estavam a trabalhar.

- Senhor? O Abade pergunta...

David Holcroft virou-se, desconfiado. A seu lado encontrava-se um jovem sorridente. O funcionário do Abade mantinha a voz baixa e calma, mas, para o rapaz, era suficientemente claro que Holcroft controlava com esforço a sua frustração.

- Sim, sim. O Abade quer saber quando teremos esta tarefa terminada para que ele possa assegurar-se de que ganha o máximo, e mandou-te ver como estou a organizar tudo. Bem, diz-lhe que o informo de que estou aqui a certificar-me de que estes inúteis avançam com as coisas, e que, quanto mais interrupções houver, mais devagar os trabalhos andarão!

- Lamento, senhor, só me pediram que...

- Que viesses aqui e me infernizasses a vida. Olha, já é suficientemente difícil manter estes preguiçosos longe das tabernas sem ter o Abade Robert a enviar os seus mensageiros de cinco em cinco minutos. O que pensa ele que estou a fazer, heim? Que estou sentado numa taberna a bebericar cerveja? Ele pediu-me que assegurasse que a barraca estaria pronta, e é exactamente isso que estou a fazer. Mas quando lhe fores dar notícias, podes dizer-lhe que há outras coisas de que tenho de me ocupar, como seja certificar-me de que os matadouros estão prontos a ser usados, verificar os pesos e as medidas. Nem sequer o travessão ainda foi verificado.

Lançou um olhar aos homens, desejando estar longe dali. O travessão era a enorme viga usada para pesar bens. Teria de ser testado para verificar se se encontrava em ordem, e essa era mais uma tarefa que teria de executar quando este disparate estivesse terminado. Foi com alívio que viu que as ripas estavam todas empilhadas no chão, e que a maior parte dos homens tinha descido do telhado. Apenas dois continuavam sentados nas paredes, a removerem os painéis da estrutura com os martelos.

Porque é que não fiz isto antes?, perguntava ele agora a si próprio.

- Há tanta coisa a fazer ao longo do ano, senhor. Coisas como esta são sempre esquecidas até ao último minuto - disse o mensageiro, como encorajamento.

- Deveria ter sido feito por Andrew no ano passado - resmungou David, mas sabia que o trabalho deveria ter sido feito por si próprio. Ele é que era o burgomestre.

Muitos olhavam o cargo como uma sinecura. Durava apenas doze meses, sendo uma nomeação anual do camareiro do Abade, sendo o burgomestre escolhido de dois ou três nomes avançados pela comissão de jurados da cidade, e, juntamente com a atribuição de alguns xelins, havia a isenção dos impostos anuais. Mas, passados quase doze meses, as obrigações de David deixavam-no exausto.

O burgomestre era o homem que organizava a realização das feiras e mercados. Tinha de juntar todos os pequenos pormenores e certificar-se de que tudo corria bem, de forma a que o Abade lucrasse. O burgomestre devia ser testemunha de todas as grandes transacções, assegurar que os guardas se comportavam, registar todas as quantias em dívida, informar o bedel das multas a cobrar... em suma, era responsável por qualquer problema que surgisse, independentemente da ocasião em que pudesse ocorrer.

Não havia por que culpar Andrew, o responsável pelo cargo do ano anterior, por não ter reconstruído a barraca. Estava a cair quando Andrew fora eleito, no ano passado, no dia de São Miguel, e agora estava-se quase no dia de São Rumon. Desde o final de Setembro até agora, final de Agosto, ele nunca encontrara tempo para a sua renovação.

De facto, escapara-se-lhe completamente da mente, até que o Abade o lembrou na noite anterior. Estava com o camareiro do Abade a ultimar os planos para a disposição dos currais do gado, quando o Abade entrara.

- David, havia só mais uma coisa que eu queria perguntar - dissera ele, entrando calmamente, quando David estava quase a ir-se embora, e o burgomestre sentira o coração cair-lhe aos pés.

- Sim, meu senhor?

Não era que o Abade fosse um amo severo - não era mesmo -, mas tinha uma forma de fazer com que um homem se sentisse como se não correspondesse aos elevados padrões que dele se esperavam.

O Abade Robert Champeaux era uma pessoa com quem era difícil lidar: era verdadeiramente honrado e justo. Os olhos dele pestanejaram perante o tom de voz do burgomestre.

- Servi-vos de mais vinho, meu amigo. É apenas uma pequena questão, relativa à barraca das portagens na estrada de Brentor. Parece um pouco abandonada.

- Oh... Sim, acho que sim.

- Está bastante degradada. O telhado apodreceu, e as paredes estão encharcadas. Receio que possa ruir.

O último painel caiu ruidosamente como um pano molhado atirado contra uma rocha, e David abanou a cabeça, bem-humorado. Como de costume, o Abade tivera razão: a madeira estava tão molhada a ponto de não servir para nada. Contudo, tudo valia dinheiro durante a feira de três dias. As ripas seriam levadas por alguém que necessitasse de algo barato para substituir partes de um barracão ou anexo - Roger Torre já se mostrara interessado -, e dos painéis podia aproveitar-se suficiente madeira em bom estado para fazer andaimes ou uma cabana no campo. A gente pobre das quintas estaria disposta a pagar por sobras de material.

Os trabalhadores tinham painéis novos amontoados junto à barraca, e estavam agora a pregar as tábuas no lugar, enquanto que outros voltavam a subir rapidamente ao telhado e começavam a pendurar as novas ripas de madeira de castanheiro.

Virando as costas à pequena construção, o burgomestre ficou ligeiramente surpreendido ao reparar que o mensageiro tinha partido. Olhou na direcção do terreno da feira. A vala fora limpa e formava agora os limites do terreno. A área de relvado estava cheia de tendas. Ao ver os homens a darem a volta corrigindo eventuais defeitos nas tendas e nas bancas, David sentiu-se a relaxar. Tudo valeria a pena uma vez que a feira começasse: o acontecimento anual seria novamente um êxito.

Olhou para cima e semicerrou os olhos. Passava do meio-dia; em breve teria de se ocupar das outras mil e uma coisas que ainda tinham de ser organizadas. Esperou até que os homens tivessem quase completado a segunda parede lateral e metade do telhado antes de se encaminhar ao longo da rua estreita em direcção à azáfama da cidade.

Num dia normal, o centro estaria cheio de talhantes, peixeiros e merceeiros no exercício dos seus ofícios, mas agora não. Em vésperas de feira, muitos tinham sido transferidos dos seus locais habituais. Cozinheiros, negociantes de galinhas e ferreiros foram excluídos da cidade e deviam continuar a exercer os seus ofícios fora do recinto da feira. Era demasiado perigoso permitir que fossem ateados fogos com tantos visitantes, especialmente com o número que tinha tendência a embriagar-se. O gado era igualmente mantido no exterior, numa tentativa para conservar as ruas moderadamente limpas, mas não eram só os animais que bloqueavam as ruas estreitas, e, à medida que caminhava, David ia reparando em quem se permitira juntar lixo. Cada um receberia uma multa, se não o limpasse; outra obrigação do burgomestre consistia em assegurar que aqueles que permitiam que se acumulassem obstruções fossem castigados.

A um canto, quase ao fundo da estrada de Brentor, no local em que esta se aproximava da Abadia, ele parou de repente e abanou a cabeça.

Numa rua pequena e estreita entre um talho e uma loja de comida, havia uma pilha de lixo. Sobras de tecido rasgados, sacos velhos e meio podres, ripas quebradas e outras coisas e restos inúteis juncavam o chão. Pedaços de objectos de cerâmica e ossos de galináceos esmagavam-se-lhe debaixo dos pés, e, sem querer, ele deu um pontapé num pote que se quebrou contra a parede. Um cão magro alimentava-se dos restos, enroscado no escuro da rua estreita, antecipando um pontapé ou uma pedra arremessada. Holcroft ignorou-o. Marchando em direcção à porta da loja de comida, bateu à porta.

- Elias? Elias, sei que estás aí! Abre esta porta! - Voltou a bater na madeira e gritou, e, quando não houve resposta, deu um passo atrás, olhando pensativamente para cima. A pequena janela sem vidros, por cima, tinha as bandeiras abertas. David apanhou do chão uma tábua quebrada, avaliou-a, tomou-lhe o peso, e atirou-a pela abertura.

Quase de imediato, ouviu-se um grito agudo, seguido de uma praga. Rapidamente, David afastou-se um pouco da casa, antes que a tábua que arremessara lhe fosse devolvida, ao mesmo tempo que o cozinheiro aparecia à janela, segurando a tábua como uma moca.

- Quem diabo...?

- Bem sabes quem. Sou eu!

- Tu, burgomestre?! Desculpa, David, bateste à porta? Não ouvi, tenho estado ocupado com os preparativos para a feira, bem sabes. De qualquer forma, o que pensas que estás a fazer, atirando pedaços de madeira pelas janelas das pessoas? Podia ter sido perigoso, podias ter ferido alguém...

- Cala-te, Elias! A feira abre amanhã, e deixaste o teu lixo todo aqui na rua. Disse-te ontem que o tirasses daqui, mas não fizeste nada. Se amanhã ainda aqui estiver, eu terei pessoalmente muito prazer em te multar. Com esta quantidade toda, valerá uns bons seis pennies.

- Seis pennies? - O cozinheiro estava boquiaberto de consternação. - Não posso pagar uma multa dessas, David. Olha, não posso apenas pô-lo lá mais atrás na rua? Ninguém o verá se eu o colocar um pouco para lá da esquina.

- Não, Elias. Leva-o para a estrumeira.

- E se eu...

A porta do talho abriu-se, e David acenou ao proprietário, Will Ruby. Era um homem nédio, e, ao ver o burgomestre, encostou-se à ombreira da porta e lançou um olhar ao vizinho.

- Bem te disse que tinhas de o tirar daí, seu teimoso, não disse? Não é nada bom para o meu negócio que os meus clientes tenham de passar pelo teu lixo todas as manhãs. Duvido que isso seja também bom para ti.

- Cala-te, Will. Por que não continuas a tratar da tua tenda? Estou a falar com o burgomestre.

- Sim, bem, para já, se me tivesses dado ouvidos, não terias de estar agora a falar com o burgomestre, pois não?

- Seis pennies, Elias - repetiu David. - É o que terás de pagar amanhã, e, uma vez que vou agora visitar o Abade, dir-lhe-ei que conte com o teu dinheiro.

O cozinheiro deixou cair a cabeça, desconsolado. Abriu a boca para falar, mas, quando o fazia, David ouviu uma palavra pronunciada entre-dentes. O cozinheiro olhou rapidamente para trás de si, e o burgomestre espreitou com interesse. Will aproximou-se e espetou-lhe um cotovelo de lado, falando pelo canto da boca.

- É aquela rapariga, Lizzie. Ele levou-a lá para cima para o quarto, depois de ter bebido com ela na taberna - riu alto, e caminhou em direcção à feira.

- Elias, conheces todas as regras da feira, não é verdade? Tens todas as tuas coisas no recinto da feira, não tens? - O rosto por cima dele apressou-se a acenar em sinal de assentimento. - Óptimo. - Então, David acrescentou calmamente: - Não te esqueças, também, de que as prostitutas são proibidas durante a feira. - Como em todas as feiras, para impedir os comportamentos lascivos ou devassos e a doença, as prostitutas e os leprosos eram considerados fora-da-lei. Os leprosos deviam ficar atrás das suas portas, e as prostitutas não podiam exercer o seu ofício.

Fértil em expedientes, o cozinheiro evitava olhá-lo nos olhos. O homem procurava algo de inócuo para dizer, e David sentia uma irresistível necessidade de rir, enquanto o cozinheiro se mostrava embaraçado, mas, antes que Elias pudesse pensar num comentário prudente, os olhos arregalaram-se-lhe subitamente. Foi impelido para trás e desapareceu, para ser substituído por uma jovem mulher de cabelo castanho solto que se lhe enrolava em volta dos ombros.

- Bem, David, queres que eu seja banida desta casa? Para onde é que eu poderia ir? Dar-me-ias tu um quarto para dormir?

O burgomestre tentou manter um ar de dignidade, mas, quando a rapariga abriu e cerrou as pestanas numa súplica trocista e exibiu o polegar e o dedo indicador a alguma distância um do outro, abanando a cabeça em sinal de aparente aversão, ele teve de ceder, relaxando as feições rígidas.

- Não, Lizzie, por muito que me agradasse, penso que a minha mulher se zangaria. Mas lembra a Elias que Nick Turgys foi multado em doze pennies o ano passado por ter prostitutas em casa durante a feira. Se Elias não pode pagar seis pennies por causa do lixo, duvido que possa pagar mais doze - assim como os teus honorários.

À medida que recomeçou a caminhar em direcção à Abadia, era dominado por uma disposição contemplativa. Quando estava quase lá, parou por um momento para ver os últimos feirantes que chegavam. Uma longa fila de mercadores aproximava-se, vinda das portas ocidentais, e ele via que traziam as carroças cheias. Reconheceu um rosto: Roger Torre, que caminhava ao lado de um frade. Roger ganhava apenas o indispensável para viver extraindo estanho na charneca. Aumentava os seus rendimentos apanhando coelhos, e arrendava terra ao Abade para cultivar legumes e ervas. Não prosperava, mas não era tão pobre como alguns dos homens que habitavam os pequenos barracões de pedra na charneca. Apenas os mineiros mais importantes pareciam fazer bom dinheiro.

David acenou-lhe e continuou. Torre estava sempre disposto a beber e a trocar histórias, e o burgomestre estava decidido a terminar o seu trabalho e a juntar-se ao homem da charneca na taberna. Precisava de um companheiro que não lhe falasse de lixo, nem de feiras, nem de prostitutas.

Outro homem observava Torre e o frade. Encontrava-se um pouco afastado do burgomestre, parcialmente ocultado por tapeçarias penduradas para celebrar a feira.

Fora há tantos anos, pensara que estaria seguro aqui, mas agora o pior que imaginara tornava-se realidade, à medida que observava o clérigo e o amigo a encaminharem-se para a feira. Se fosse visto e reconhecido, correria perigo de vida - mas que podia ele fazer? Já antes tentara escapar, e esses seus esforços tinham acabado em desastre.

Talvez até esse fracasso lhe pudesse mostrar como evitar de novo a justiça. Se se atrevesse a ser mais uma vez ousado, ainda podia ser capaz de se afastar. Preferia continuar escondido, mas, se não tivesse alternativa, agiria, decidiu ele, e escapuliu-se por uma rua.

 

Elias enfiou as calças e deixou Lizzie no seu quarto. Lá fora na rua, parou a observar a pilha de lixo com desespero. Era uma loucura esperar que as pessoas tirassem tudo só porque ia haver uma feira. Comprimindo os lábios numa expressão azeda, deixou-se ficar por uns momentos, avaliando quantas idas de carrinho de mão seriam precisas. Tinha a certeza de que seriam mais de dez, e a estrumeira ficava situada na extremidade ocidental da cidade. Isso queria dizer que tinha pela frente pelo menos duas horas de trabalho duro.

- Por Deus! Gostaria de o despejar todo na casa daquele maldito burgomestre.

A ideia era tentadora, mas pô-la de parte por razões de natureza prática. David saberia certamente de onde teria vindo todo aquele lixo, e durante a última ou as duas últimas semanas demasiadas pessoas tinham reparado naquela imundície; se ele a levasse da sua rua para junto da casa de outra pessoa, levaria pouco tempo a ser descoberto. Pegou morosamente nas ferramentas e, com uma forquilha, começou a tirar o lixo do cimo para o carro de mão. Quando estava cheio, encostou a forquilha à parede e começou a dirigir-se para a estrumeira.

A tarde ia a meio, e o calor do Sol era concentrado pela cal branca das casas de ambos os lados. As paredes brilhavam com tanta intensidade que ele tinha de semicerrar os olhos. Avançando relutantemente, sentia o suor a jorrar-lhe da pele. Formava um fio por baixo da camisa, escorrendo-lhe pela espinha e encharcando-lhe os fundilhos das calças. Junto à igreja paroquial, consagrada, no ano anterior, pelo Bispo Stapleton a Santo Eustácio, descansou por um momento, cuspindo para as mãos e esfregando-as. Estava acostumado a levantar sacos de farinha ou carcaças, mas, com aquele calor, era cansativo caminhar a puxar o carro de mão de madeira. Tendo chegado à estrumeira, esvaziou a carga para o buraco malcheiroso. Em seguida, endireitando resignadamente os ombros, encaminhou-se em direcção a casa.

Ia no quarto carregamento, quando ouviu os sinos da Abadia, e resmungou ao ver as sombras que se alongavam. Já eram as vésperas, e ele ainda não tinha chegado a meio do monte de lixo. A irritação tornou-o descuidado. A roda do carro de mão entrou num sulco e ele gelou, os olhos escancarados, a boca comprimida numa fina linha branca, ao mesmo tempo que agarrava os sólidos varais de madeira, lutando desesperadamente para manter o carro direito. Em seguida a roda embateu traiçoeiramente numa pedra e toda a carga nauseabunda escorregou do carro virado.

Elias transbordava cólera. De punhos cerrados, aplicava pontapés no carro, numa fúria vã. Ao ouvir um homem rir por entredentes, estava prestes a praguejar, quando viu que se tratava de um monge. Elias observou atentamente até que a figura desapareceu através do grande portão da Abadia antes de deixar escapar uma praga murmurada. Não queria outra multa.

Era quase escuro, quando completou o quinto caminho, e, ao regressar à rua estreita, soltou um gemido. À luz que minguava, a pilha parecia tão grande como quando ele começara. Passou uma mão pelo sobrolho.

- Amanhã acabo isto - resmungou, demasiado cansado para prosseguir. Estava com fome, mas a barriga pedia-lhe cerveja. A sua atenção foi atraída para um ponto mais à frente na estrada, onde podia ver o ramo pendurado para dentro da rua a anunciar a taberna. A preparar-se para a feira, a proprietária da taberna fizera quatro vezes a quantidade habitual de cerveja, e Elias sabia que ela ficaria contente por deixá-lo prová-la em troca de uma quantia razoável.

Levantou os varais do carro de mão e empurrou-o rua acima, dobrando a esquina em direcção ao pátio atrás da sua loja. Em seguida encaminhou-se para a taberna, abrindo a porta com o ombro e entrando na sala através das cortinas.

Em tempos esta taberna fora uma casa de quinta, mas fora alterada ao longo de muitas décadas. No local onde o agricultor devia ter abrigado as ovelhas e as vacas, agora os clientes sentavam-se em mesas assentes sobre suportes, em bancos toscos, enquanto que as meninas da proprietária andavam à volta, parando por momentos junto às mesas para distribuir cerveja, passando, em seguida, para a próxima, como borboletas a bebericarem em flores. Uma fogueira brilhava ao centro do chão de terra batida, pronta a ser avivada à medida que a temperatura descia.

Quando ele entrou, a taberna já estava apinhada. Homens e mulheres conversavam de pé, uma ou duas crianças dormiam, embrulhadas em mantos junto às paredes, e um par de cães alimentava-se de migalhas entre a agitação. Viu Lizzie ao canto mais afastado, e pensou que, depois daquela tarde, ela podia servi-lo, mas quando tentou chamar-lhe a atenção, a rapariga não reparou. Havia poucos lugares sentados livre, e Elias hesitou à entrada, antes de ver alguém que reconheceu: Roger Torre.

- Chega-te para lá, Roger.

- Elias? Senta-te. Este é um amigo meu, Frei Hugo. Tem uma loja de comida.

- Que a paz esteja contigo - gaguejou Hugo num soluço, feliz, escorregando pelo banco para arranjar espaço.

- E contigo, irmão - respondeu Elias automaticamente, acenando a Agatha, a proprietária da taberna.

- Então, Frei Hugo - disse Torre, continuando a conversa -, se o Abade quiser exigir dinheiro de mim, está certo?

Hugo bebera várias canecas de boa cerveja, mais do que era costume, e a boa disposição tomara conta dele. Bateu com a ponta do dedo no nariz, de lado, em jeito de conspiração.

- Os abades e os bispos não merecem o vosso dinheiro, nem o de qualquer outra pessoa. Muitos nem sequer merecem respeito. Veja-se o Bispo de Durham - não sabe ler. Atrapalhou-se na sua própria consagração: não foi capaz de pronunciar a palavra metropolitanas, e resmungou: “Tomemo-la como lida!” E quando presidia a uma ordenação, praguejou quando chegou à palavra aenigmate, ou seja, “através de um vidro escuro”, dizendo, “Por São Luís, quem quer que tenha escrito esta palavra não era certamente homem cortês!” Quando temos prelados como ele, como é que alguém pode respeitar a vocação divina?

- Quer dizer que pensais que eu não devo pagar, frei Hugo?

- Penso que... Penso que já bebi bastante! - Hugo levantou-se vacilante e passou por cima do banco. - Preciso de ir à privada.

- Onde é que o apanhaste? - perguntou Elias, ao ver o clérigo vestido de cinzento a cambalear em redor da sala em direcção à porta, uma mão sempre a tocar a parede para se apoiar.

Mas Torre foi distraído antes de poder responder. À medida que Agatha se apressava a colocar ruidosamente uma caneca à frente de Elias, Torre fez sinal em direcção à entrada.

- Cuidado com eles, senhora.

A proprietária da taberna manifestou desprezo.

- Com os guardas de Denbury? Eles não me incomodam. Torre ergueu afavelmente a sua cerveja em direcção ao homem cujo nome era Jack Grande, e soltou um riso abafado quando o seu gesto de boas vindas foi ignorado.

- Vou certificar-me de que o meu frei não se perdeu - disse, levantando-se.

Saíra havia apenas alguns momentos, quando Elias viu Holcroft à entrada. O cozinheiro escondeu o rosto, mas foi demasiado lento, e o burgomestre caminhou vagarosamente em direcção a ele.

- Vejo que o teu lixo ainda lá está.

- Amanhã acabo de o tirar, prometo.

Holcroft sentou-se no lugar de Torre e acenou à proprietária da taberna.

- Vê se cumpres. - Como era costume na altura da feira, muitos dos rostos eram-lhe desconhecidos. Mas reconheceu os guardas. Estavam a beber muito, de pé junto a um canto perto da lareira, e ele esperava que não estivessem sempre embriagados. Na verdade, sabia que tinham percorrido a pé todo o caminho desde Denbury, por isso deviam estar com sede.

Todos os anos havia queixas sobre eles. Sentiam que, uma vez que se encontravam em Tavistock para proteger as pessoas, deviam poder exigir remuneração por parte dos feirantes. Por vezes um mercador queixava-se, mas depois podia descobrir que as suas mercadorias tinham sido danificadas, ou que a sua tenda podia inexplicavelmente cair, ou talvez o mercador acordasse na manhã seguinte na valeta com um braço fracturado. David soubera tudo isso no ano anterior através de Andrew e tentara, desta vez, arranjar outros homens que viessem de Denbury, mas, como de costume, mais ninguém mostrou disponibilidade. Olhando para as figuras corpulentas, ele pensou que os seus rostos podiam ter sido esculpidos de placas de granito. Sabia por que motivo é que outros não se inscreviam. Homens como estes sabiam como dissuadir voluntários.

Apareceu outro grupo, dois homens ricos e o criado, conduzidos por um jovem monge. Holcroft ouvira falar na chegada prevista dos venezianos, quando se encontrara com o camareiro do Abade anteriormente, e presumiu que estes fossem os Cammino. Se as caras roupas estrangeiras que usavam não os denunciasse, o facto de serem levados à taberna por um monge noviço era prova suficiente. O Abade só pedia aos seus monges que guiassem visitantes quando se tratava de pessoas importantes.

Agatha passou-lhe uma caneca e acenou com a cabeça a Elias.

- Há uma pessoa que quer falar contigo.

De bom grado, Elias deixou Holcroft e seguiu-a. A um canto escuro da parede encontrava-se uma figura de estatura imponente, de barba espessa, vestida com uma jaqueta vermelha de couro por cima do gibão e da camisa, que, com olhos brilhantes, observou Elias a aproximar-se.

- Viva, Elias.

O cozinheiro estacou, de olhos esbugalhados, quase deixando cair a caneca.

- Pelo sangue de Cristo! Jordan!

Luke, o criado dos Cammino, puxou um banco para o seu amo e acenou ao monge.

- Continuai, sentai-vos, irmão.

- Não, eu... devia regressar. - Peter era novo na cidade de Tavis-tock, e, embora o seu Abade lhe tivesse pedido que levasse os visitantes até à taberna quando estes explicaram que tinham de encontrar-se com os seus companheiros de viagem, não se sentia à-vontade num recinto em que se bebia. Havia demasiado humor obsceno e demasiada cantoria, e a visão das raparigas que serviam à mesa fazia com que ele se sentisse pouco à-vontade. - É tarde, tenho obrigações...

- Oh, sentai-vos, irmão - disse António. - Podemos precisar de ajuda mais tarde para encontrarmos o caminho de volta à Abadia. Tomai uma caneca de vinho.

Luke descansava agradavelmente em cima do banco e pegou numa das canecas que a proprietária da taberna levava. Era bom relaxar, esticar as pernas e beber boa cerveja inglesa. Passara demasiados anos com o seu amo em Castela e na Gasconha, e estas últimas semanas em Inglaterra tinham sido como umas férias. Era bom estar novamente de volta ao seu país.

Filho de um sapateiro remendão, nascera a norte de Londres, perto de Huntingdon. Mas vira mais do mundo do que o pai alguma vez sonhara, especialmente desde que trabalhava para Cammino. O veneziano salvara-lhe a vida; quando António o encontrara, Luke estava quase sem dinheiro, e havia poucas hipóteses de poder ter vindo a ganhar mais. As corporações na Gasconha, onde ele então vivia, eram muito fortes, e, como estrangeiro, encontrar trabalho era tudo menos impossível. Cammino tomara conta dele, alimentara-o e vestira-o, e Luke sabia que tinha para com o seu amo uma dívida incomensurável.

A praga que Luke murmurara fez com que António se virasse abruptamente para a porta. Aí, ligeiramente desequilibrado, um sorriso benevolente fixo no rosto, estava novamente o frade.

- Oh, Deus me valha!

Hugo sentia-se em paz com o mundo.

- Meu amigo, posso falar convosco por um momento?

- Não, tenho negócios a tratar. Não preciso de outro sermão.

- Mas eu quero...

- Basta, frei! Deixai-nos em paz.

O frade abriu a boca para continuar, e isso fez com que António se decidisse. Levantou-se.

- Venham, Pietro, Luke.

- Pai! - protestou o filho. - E Arthur e a filha?...

Era tarde de mais, o pai já caminhava a passo largo em direcção à porta. Luke levou Pietro pelo braço.

- Vinde, menino Pietro, vê-la-eis de outra vez. - O jovem afastou-lhe a mão, irritado, mas seguiu o pai.

À porta houve uma cena burlesca. Torre regressava, e, no momento exacto em que eles chegavam à porta, barrou-lhes o caminho. António passou por ele de rompante, e Torre virou-se, os braços estendidos, como que a exigir as razões de tanta rudeza. Passado um instante, Pietro tentou também empurrá-lo para o lado.

Mas um mineiro de estanho não era assim tão fácil de empurrar. Torre rodou devagar para examinar o jovem. Lendo a ameaça nas suas feições, Pietro deu um passo atrás e deixou cair a mão sobre a adaga, tacteando para a tirar da bainha. Seria aviltante recuar perante tal campónio. Torre olhou desdenhosamente o punhal, roçou por eles ao passar e caminhou de volta à sua mesa, sentando-se ao lado de Holcroft.

Tinham deixado para trás o desconcertado noviço, que se encontrava de pé junto ao frade igualmente confuso.

Torre bebeu um gole da sua cerveja.

- O que lhes encheu as velas de vento, hem? - Viu, então, o monge e murmurou: - Pela cruz, é um deles! - Tu aí, - vem cá!

O monge ficou assustado, e Holcroft viu-o estremecer de surpresa perante a hostilidade na voz de Torre.

- Eu?

- Sim, claro que és tu! Quem mais poderia ser? - Torre exibiu um sorriso de escárnio, à medida que o jovem, relutante, se aproximava. - Como te chamas?

- Peter.

- Bem, Peter. O que estás aqui a fazer? Foi aquele teu Abade sanguessuga que te mandou cá para espiares os trabalhadores comuns?

- O meu Abade...

- É um ladrão tão grande como aqueles que roubam o sustento de um homem!

Holcroft transferiu o olhar do companheiro para as feições coradas do monge.

- Roger, em nome de Cristo, de que estás a falar?

- Não ouviste? O Abade Champeaux decidiu roubar-me, agora que tem o poder. Está a exigir dinheiro pelo direito de ficar onde estou, e, se eu não concordar em pagar, tira-me a terra.

- Ele certamente não faria isso.

- Eu trato da terra só como servo. Agora o Abade quer alterar as coisas para dar a terra de arrendamento. Quer que eu lhe dê doze xelins por ano apenas para ficar na minha própria terra.

- E podes?

- Pagar doze xelins? Não, claro que não posso. A extracção de estanho pouco me dá, e tenho de pagar imposto quando está pesado. A terra que cultivo para o Abade é pobre. Mal produz para me manter vivo.

- Podias queixar-te.

- A quem - ao administrador das Minas de Estanho? Agora é o Abade, ou ainda não sabias, burgomestre? Ele vai roubar-nos e forçar-nos a abandonar as terras cobrando-nos de mais. Isso é roubo, puro e simples. Ele é desonesto, como todos os políticos.

- Não, não é - declarou calorosamente o monge chamado Peter.

- O Abade Champeaux é um homem justo. Se falardes com ele e lhe explicardes...

- Falar com ele? Ele é político, mentiroso e ladrão. Se eu fosse falar com ele, seria atirado para a prisão.

- O Abade é uma pessoa razoável, senhor - protestou novamente o monge. - Sempre protegeu os interesses dos mineiros de estanho.

- Dizes isso porque não estás a sofrer por causa da ganância dele. Holcroft viu o rosto do monge empalidecer de raiva, e o rapaz deu um passo em frente.

- Oh não... - resmungou, colocando-se rapidamente entre eles.

- Irmão, penso que isto é algo que não podemos resolver pacificamente, e tenho a certeza de que não haveríeis de querer ser arrastado até à presença do Abade por vos terdes envolvido numa rixa de taberna. Ide, por favor, e eu tratarei de manter este homem calado.

- Ele insultou o Abade sem razão. É infame! Ele mentiu - disse o monge, indignado.

- Sim, mas lutar não seria adequado à dignidade do vosso hábito, pois não? Vinde, esqueçamos o assunto. Era apenas a cerveja a falar; toda a gente sabe que o Abade é generoso e honrado. - Resmungando, o jovem recuou, virou costas e saiu da sala, batendo com os pés.

Holcroft suspirou de alívio.

- De que vale picar um jovem que ainda nem barba tem? Torre lançou-lhe um olhar irónico.

- Com que então queres proteger a tua posição de burgomestre, não é verdade? O cargo é tão importante a ponto de esqueceres os amigos e de os trocares por mais alguns dias no poder?

- Roger, para dizer a verdade, estou sinceramente enjoado do cargo, e quem quer que seja eleito para o ocupar é bem-vindo.

- Sim, é com prazer que vais desistir do dinheiro, da isenção de renda e do direito de prender e deter pessoas que te incomodem.

- Só posso fazer o que me mandam - disse com franqueza. - E é bem pouco, Deus sabe. Mas preferia ver-te livre para ires à feira amanhã a seres preso por difamares o Abade.

- Ficarias do lado dele contra os teus velhos amigos.

- Não. Mas ficarei contente por me ver livre de toda esta responsabilidade e poder chegar a casa a horas decentes, como dantes.

- E talvezentão Hilaryfosse mais simpática para mim, pensou. Desde há muito que a mulher era fria e indiferente, era-lhe difícil lembrar-se da última vez que a mulher fora para ele uma verdadeira esposa.

- Oh, sim! Ficarás feliz por perderes todos os privilégios do teu trabalho, não há dúvida.

Holcroft abanou a cabeça. O que Torre não podia compreender era a pressão dos intermináveis registos, das horas tardias passadas a verificar portagens com o prior e os outros, o planeamento e a administração.

- Não posso estar aqui sentado contigo. Tanto quanto sei, estás a registar tudo o que eu digo para contares ao próprio Abade! - declarou Torre, levantando-se.

- Roger! - pediu Holcroft, fazendo um gesto. - Vá lá, senta-te. Queria ver-te para relaxar.

- Relaxa com outra pessoa. Vou-me embora. - Torre afastou-se, batendo os pés.

- Viva, burgomestre, meu senhor. Quereis cerveja? Bom trabalho, separar Torre e o monge. Dali teria vindo muito aborrecimento.

- Agatha, senhora, não sei por que me dei ao trabalho - disse ele, pegando, grato, numa cerveja fresca. Reparou que Elias estava sentado com alguém que lhe era desconhecido. Tirando o cozinheiro da cabeça, Holcroft presumiu que o amigo de Elias era alguém que tinha chegado para a feira.

Agatha baixou para ele um olhar solidário. Sabia que David andara a trabalhar loucamente durante as últimas semanas, e estava prestes a oferecer-lhe algumas palavras de conforto, quando viu que chegavam rostos novos.

Arthur espreitou lá para dentro, à procura dos Cammino.

- Então? Eles estão aí? - perguntou a esposa.

- Ainda não, querida, mas tenho a certeza de que vão estar - assegurou-lhe Arthur. Foi à frente em direcção ao banco que os venezianos tinham acabado de deixar livre. Fora um erro ter trazido a mulher com ele. Ela quisera ficar a supervisionar a decoração na casa que tinham alugado, mas Arthur desejava que ela recuperasse da longa viagem a cavalo, e esperava que uma caneca ou duas de vinho lhe melhorassem a disposição.

Em casa, ele estava habituado a render-se à vontade dela. Marion era filha de um cavaleiro, e se não tivesse sido a necessidade urgente que o pai dela tivera de dinheiro e o facto de Arthur se ter mostrado disposto a disponibilizar um empréstimo, eles poderiam nunca ter casado. Contudo, em questões de negócios, ele podia insistir na ajuda dela, e tinha a certeza de que Cammino podia ser útil. Deviam ser encorajados quaisquer contactos com estrangeiros ricos, e a menção de uma frota, juntamente com a evidência de ser relacionado com um Abade, significava que Cammino detinha algum poder. A presença de Marion podia ser útil.

- Vem, querida. Queres um pouco de vinho?

Avice estava decorosamente sentada à ponta do banco, aceitando um cálice de vinho. O homem de Veneza parecera tão arrasador nas suas roupas estrangeiras, pensou ela, como um escudeiro da corte de um Rei. Enquanto os pais falavam, os olhos dela não deixavam a entrada.

Depois de os servir, Agatha recuou e observou o seu domínio. Quando viu Torre a falar com Lizzie, viu a mão dele no braço dela e a forma como ela soltava risinhos e acenava com a cabeça, os olhos da proprietária da taberna pregaram-se em Holcroft. Agatha reparou na dor dele quando viu Lizzie a sair com Torre. Não era a primeira vez que um homem se apaixonara por Lizzie, e não seria a última, mas Agatha tinha um fraco pelo burgomestre, e a consternação dele entristecia-a.

Ouviu um leve arroto a seu lado, e virou-se para ver o frade com o olhar pensativo perdido na distância. De início, Agatha pensou que ele estivesse simplesmente embriagado, mas, quando o homem reparou na presença dela, disse, desculpando-se:

- Desculpai, eu não estava a pensar, pensei ter reconhecido alguém.

Lizzie endireitou as saias e alisou-as antes de se sentar na extremidade da sua enxerga para apertar as tranças e arranjá-las.

- Vamos, Roger, tenho de regressar à sala, senão Agatha manda-me embora.

- Só mais um momento - murmurou ele, estendendo-lhe a mão. Ela levantou-se, soltando um riso abafado, evitando nitidamente a mão dele.

- Não! Tenho de ir trabalhar. Especialmente agora, com a feira quase a começar. Na verdade, eu nem devia ter feito isto esta noite. E se o Abade souber?

- Deixá-lo! Por que é que eu me devo preocupar com isso?

- Podes não ter de te preocupar, mas eu tenho. Ele pode mandar expulsar-me. Já aconteceu antes.

Ele levantou para ela os olhos, onde se via um brilho de raiva.

- Pensas que o burgomestre te denunciaria por isto? Lizzie abanou a cabeça.

- Não, ele gosta de mim. David nunca me denunciaria, mas outra pessoa pode fazê-lo.

- Ele gosta de ti? - Torre rolou para cima de um cotovelo, e o seu rosto adquiriu uma expressão séria. - Não fazia ideia. Ele deve ter-nos visto sair da sala juntos.

- E depois? - Ela afagou os cabelos e escondeu uma madeixa rebelde. - Ele não tem mais direitos sobre mim do que tu. Eu vivo como quero, e homem nenhum é dono de mim. De qualquer forma, ele nunca me tocou. Penso que não sabe como fazê-lo.

Torre franziu o sobrolho na direcção dela, depois na direcção da porta.

- Talvez, mas eu não gostaria de lhe magoar os sentimentos.

- Mas ali ficaste muito contente em fazê-lo - disse ela, num tom mordaz.

- Isso foi diferente: apenas uma discussão. Mas conheço David. É um homem decente. Não gostaria de o ofender.

Por um momento, Lizzie gelou, à medida que o sino da Abadia tocava as Completas.

- Escuta, está a fazer-se tarde - disse ela, acabando de se arranjar à pressa. - Olha, se não queres perturbá-lo, não voltes à sala e vai directamente para os teus aposentos. Se ele não te vir comigo, acreditará quando eu lhe disser que te foste embora há bocado. Está bem assim?

- Boa ideia. - Pôs-se em pé e vestiu as calças largas, que apertou com força, a camisa e o gibão e, por fim, o casaco vermelho.

Ela observava-o com satisfação. Ele tinha uma boa figura, pensou ela, efora amável e dócil Com sorte, voltaria mais tarde, e, se assim fosse, ela não se importaria de lhe prestar novamente os seus serviços. Esperou até que ele se vestisse e saiu depressa, terminando em seguida a sua própria toilette. Um sapato fora atirado para longe, e ela teve de procurá-lo, encontrando-o parcialmente escondido debaixo do cobertor que caíra da cama, antes de seguir o homem. Fechando a porta, ela virou-se e parou. Encostado à ombreira da porta da taberna estava Holcroft. Olhou-a durante o que lhe pareceu muito tempo, virou-se sem dizer uma palavra e afastou-se.

Ela soltou um suspiro, esperando que ele não fosse directamente ao Abade acusá-la, regressou à sala e começou a encher canecas de cerveja. Quando passou por Agatha, enfiou a moeda na mão da proprietária da taberna. Esta recebia sempre a sua quinta parte pelo quarto e pelo dinheiro que ela fazia.

Ele curvou o lábio perante o cheiro que provinha da pilha de lixo. Tresandava a putrefacção e a podre, uma mistura repugnante. Encostado à parede, esperou até que o ritmo cardíaco abrandasse e acalmasse.

Fora fácil preparar-lhe uma cilada; mais fácil do que ele sonhara. A figura corpulenta era instantaneamente reconhecível, até no escuro, sem quaisquer lanternas ou candeeiros - não eram permitidos durante a feira por causa do perigo que constituíam - e embora ele tivesse visto o homem pacientemente à espera, nada mais fizera do que esconder a cabeça e desenhar um vago sinal da cruz.

O assassino tocou no cadáver com o pé, a experimentar. Era quase um anticlímax, agora que ele estava morto. A acção de o apunhalar foi tão rápida, e o exalar do seu último suspiro e a sua queda tão súbitos, que ele mal podia acreditar que conseguira. Não houvera qualquer gemido, qualquer grito por socorro, apenas um breve e dorido suspiro, e em seguira caíra como uma árvore abatida. Dava ao seu assassino uma sensação de imenso poder, saber que podia matar tão rápida e facilmente com impunidade.

Mas não podia deixar aqui o corpo, completamente à vista, à espera que qualquer estróina o descobrisse. Agarrou-lhe nos pés e arrastou a figura para trás, para a rua. A pilha de estrume seria um esconderijo ideal - ninguém haveria de querer aproximar-se no escuro, para não pisar algum dos seus componentes. Ouviu um breve arranhar, à medida que arrastava o corpo e olhou em redor com repugnância. Ratazanas!

Deixando cair os pés, ficou por um momento a fixar o cadáver, antes de atirar lixo da pilha para cima do corpo, numa tentativa de o esconder. Satisfeito com os seus esforços, apressou-se a seguir rua fora, o hábito a bater-lhe nos calcanhares, à medida que ele caminhava. Junto à estrada, abrandou, enfiou as mãos nas mangas por cima do peito, numa atitude de contemplação, e entrou na estrada. Quando viu Arthur Polé com a mulher e a filha, ficou secretamente encantado por ver que todos baixaram respeitosamente a cabeça e lhe ofereceram uma boa noite.

 

Era a manhã da feira, e David Holcroft encaminhou-se para a Abadia com alívio. A noite anterior fora tão má quanto ele esperara: após todo o seu trabalho, ele teria gostado que a mulher mostrasse algum interesse pela feira e consideração pelos seus esforços. Em vez disso, ela foi reservada e pouco comunicativa. Mal tinham trocado dez palavras, e ela fora cedo para a cama, alegando que lhe doía o estômago.

Ao fundo do campo da feira, David virou-se e olhou para trás: tudo estava no seu devido lugar e organizado, e ele tinha a certeza de que o Abade não poderia ter motivos para se queixar. Aos primeiros raios da aurora, as cores sobressaíam com uma clareza surpreendente. Havia uma leve neblina no ar, que conferia a tudo um brilho prateado como se tudo estivesse mergulhado num intenso luar. Das suas hastes, pendiam bandeiras que se agitavam, desalentadas, ao ar calmo, e por todo o local pairava uma sensação de irrealidade, como se se tratasse de uma miragem fantasmagórica. Em breve tudo aquilo se dissiparia, quando os clientes chegassem e a feira fosse declarada aberta. Instantaneamente, aquele seria um local barulhento onde a desordem imperaria, à medida que as vozes se levantassem para argumentar e regatear por cima das bancas em que as mercadorias estavam expostas. David já via pessoas que subiam o caminho, vindas da cidade, dispostas a serem as primeiras a ver os artigos mais recentes de todo o reino e de outras paragens mais longínquas.

Quando soaram as primeiras batidas do martelo, ele acenou com a cabeça a si próprio. As fornalhas dos ferreiros foram acesas, e ele viu as pálidas serpentinas de fumo a erguerem-se como espectros cónicos, apenas para se dissiparem mal subiam mais alto. Este era o verdadeiro início da feira, sentia ele sempre, quando os negociantes e os artesãos começavam os seus rituais matinais.

E, como o chamamento decidido dos sinos de uma igreja, ele viu que o tilintar e o ruído metálico das bigornas lançava a sua própria magia sobre a congregação da feira. O fio de pessoas que subiam para o recinto transformava-se numa torrente mesmo à frente dos olhos dele, e, pouco depois, havia um rio contínuo de compradores, bufarinheiros, mercadores e saltimbancos, todos a subirem o caminho que vinha da cidade. Não podia deixar de ficar sempre admirado com a quantidade de estrangeiros que a cidade podia albergar na altura da feira.

Caminhava com a calma satisfação de que a feira seria um êxito, mas a disposição alterou-se-lhe gradualmente à medida que se aproximava dos portões da Abadia. Aqui teve de esperar um momento antes de ser conduzido ao interior, para a grande sala quadrada ao lado dos próprios portões.

Deviam encontrar-se com ele dez agentes da autoridade e vinte e nove guardas, o complemento vindo das povoações em redor, cada homem a ganhar dois pennies. Ele já passara revista aos homens a cavalo na tarde anterior. Estes, oito ao todo, estavam posicionados ao longo das estradas, nos locais em que os bosques eram mais espessos, para protegerem dos fora-da-lei os viajantes que vinham à feira. Os bandidos assaltavam muitas vezes os mercadores: eram presas fáceis quando se encontravam cansados após uma longa viagem.

O burgomestre sabia que os homens a cavalo eram sempre os melhores. Eram aqueles que podiam comprar cavalos, o que os colocava necessariamente acima dos guardas comuns; era essa a razão por que ganhavam seis pennies por dia. Não era somente a despesa acrescida de cuidar de um cavalo que justificava o dinheiro; era o facto de serem simplesmente homens melhores.

Acenando com a cabeça ao funcionário que executava os registos dos pagamentos feitos aos homens, assim como de todas as eventuais multas, deixou-se ficar de pé, enquanto os homens formavam fila. Ao ver os agentes da autoridade, ele fechou os olhos, num desespero silencioso, oferecendo ao alto uma rápida oração antes de os voltar a abrir com resignação.

O primeiro que surgiu foi Daniel, o filho do agricultor de Werrington. Daniel irradiava generosidade e boa vontade, com o sorriso aberto do homem patologicamente de confiança. Dava a impressão de uma falta de jeito e de uma inteligência bovinas, e o burgomestre meditou sombriamente sobre os perversos negociantes da feira. Todos tentariam atirar terra para os olhos deste aqui.

Ao lado dele encontravam-se os quatro guardas de Denbury, liderados por Jack Grande. David lançou-lhes um olhar azedo.

- Vamos lá então vê-las. - O burgomestre olhou as armas que tinham sido estendidas para que ele as inspeccionasse. - O que é isso!

Daniel ficou magoado.

- É a espada do meu pai.

- Do teu pai? Tens a certeza de que não é do teu bisavô? Não vejo metal nenhum para a ferrugem comer! - disse David, incrédulo. Pegou na espada e mirou-a. Era tão velha que o punho de couro estava gasto, e o cabo de madeira por baixo lhe arranhava a mão. O metal da lâmina junto ao punho era cortante e o botão do punho caíra. Numa luta, o punho podia virar-se e apanhar a pele. Experimentou a lâmina com o polegar, a expressão do rosto a reflectir o seu desagrado.

- Um penny.

- Uma multa de um penny! Mas...

- Se não estás contente, posso subi-la para o que ganhas num dia. Por agora, leva essa coisa ao ferreiro e vê se ele lhe pode pôr um fio qualquer e um punho novo. Isto não é só para que a feira tenha um bom aspecto, é para proteger as pessoas - e para que te possas proteger a ti próprio. Como podes preservar a paz do Rei com um velho pedaço de ferrugem como esse? O que tens andado a fazer com ela, a desbastar sebes?

O guarda, constrangido, mudou de posição, e resmungou um pedido de desculpas. David abanou a cabeça. Qualquer ferramenta existia para ser usada, na mente dos camponeses da zona, e uma velha arma não era mais do que um bom utensílio agrícola cortante. Tinha mais poder de corte do que uma podadeira de árvores, e era mais leve e mais fácil de transportar para uma sebe do que um machado pesado. Enquanto o guarda corava, David avançou até ao homem seguinte. Este tinha uma moca e uma navalha galesa com uma boa e longa lâmina de mais de trinta centímetros de comprimento. David atribuiu-lhe de má vontade um aceno de cabeça e continuou ao longo da fila, certificando-se de que todas as lâminas eram fortes e afiadas, os bastões sólidos e sem rachas. Estavam quase todos em bom estado, especialmente os que pertenciam aos homens de Denbury, que pareciam ter boas adagas novas e boas maças de carvalho.

David acompanhou-os com um olhar sem brilho quando eles se afastaram.

- Não sei o que sentem as pessoas em relação aos fora-da-lei e aos ladrões - disse ele ao funcionário, à medida que o último se afastava -, mas, pessoalmente, aquele grupo assusta-me mais do que todos os criminosos da cadeia.

Will Ruby cortou rapidamente a pele, produzindo um longo corte em redor do ânus, e enfiou dois dedos no capão, retirando-lhe as entranhas e deitando-as para o cesto do lixo que tinha aos pés. Tac-teando no interior com os dedos em círculo, localizou os rins atrás das costelas, e retirou-os. Cortou a carne do pescoço e expôs os ossos por baixo antes de retirar a cabeça. Também ela foi para o cesto.

A carcaça foi atirada para a pilha que crescia, à medida que ele procurava o seguinte. A seu lado, a mulher e o filho estavam sentados em bancos, rodeados por uma nuvem que se elevava suavemente, ao mesmo tempo que depenavam furiosamente as aves, enfiando as penas em sacos. O aprendiz dele ia buscar as outras carcaças à carroça parada junto ao campo da feira, pendurando-as nos ganchos ou colocando-as em cima das tábuas onde os clientes as poderiam inspeccionar. Will estava contente ao ver que o rapaz aprendera a esconder as piores partes de qualquer pedaço de carne, e a expor os cortes da forma mais vantajosa. Não havia razão para dar ao cliente oportunidade de regatear um preço mais baixo. Will acenava aprovadoramente com a cabeça. O rapaz afastara-se novamente, enquanto ele inspeccionava as mercadorias, e, quando Will passou uma vista de olhos, viu que não havia ainda mais galinhas prontas para serem arranjadas. A mulher o filho ainda se encontravam a depená-las.

O cesto do lixo estava quase cheio, e ele começava a sentir calor à medida que o Sol subia no firmamento. Por este andar, precisaria de mais do que aquele cesto. Um gole de cerveja também o ajudaria a refrescar.

- Vou despejar isto - disse à mulher. Ela mal levantou o olhar, limitando-se a acenar com a cabeça, enquanto ele limpava as mãos ao avental ensanguentado e se afastava ao longo das tendas, levando o cesto na mão.

Havia outra boa razão para ir dar um passeio: olhar para a forma como as outras tendas tinham apresentado as mercadorias ao mundo. Sendo talhantes, não havia qualquer benefício em não ter competição exterior, porque o Abade prometeu-lhes o monopólio, mas Will sabia que todos teriam comprado um fornecimento extra de mercadorias, e queria ver qual o aspecto que tinham.

A alguma distância, parou e olhou para trás. A sua própria tenda era brilhante e cheia de cor, com o seu toldo vermelho e amarelo. Escolhera estas cores porque sobressaíam entre os verdes e os azuis das outras tendas. A banca estava quase cheia a transbordar, e, escondida por trás, em barris e caixas, ele tinha carne suficiente para fornecer um senhor e a sua comitiva. Sentindo-se satisfeito, continuou, deitando um olho à direita e à esquerda à medida que passava, avaliando a forma como os outros estavam a fazer.

A estrumeira ficava à extremidade mais longínqua do campo da feira, e, pelo caminho, ele passou pelo novo posto de portagem. Uma longa fila de mercadores vindos de fora da cidade estava ali, à espera. Todos tinham mercadorias para vender, e, juntos, queixavam-se dos custos.

- Meio penny por uma carroça de trigo? Uma roubalheira, é o que é.

Um camponês de rosto corado insistia em que devia ter livre acesso porque vinha de uma antiga propriedade arrendada, na charneca, e não devia ter de pagar, enquanto que os seus gansos estendiam os pescoços e se bamboleavam a andar ali por perto, um cão magro e sarnento a recolhê-los sempre que se afastavam de mais.

Will passou de rompante pelos homens que discutiam. Era tudo muito parecido a qualquer outro ano. Os preços eram mais elevados, mas tinham vindo a subir desde as desastrosas fomes de há quatro ou cinco anos atrás; pelo menos as pessoas podiam esperar ter lucro. Havia boas razões para um criador de gansos querer evitar pagar, porque em cada catorze gansos que ele trouxesse, um devia ser dado como portagem, e esse era um preço elevado.

Assobiando desafinadamente, o talhante chegou à estrumeira. Aquelas primeiras horas da manhã, não era tão violenta para o nariz como viria a ser mais tarde, mas havia fedor suficiente para fazê-lo apressar-se. De futuro, decidiu ele, viria outra pessoa deitar o lixo fora.

Esvaziou o cesto e partiu de volta para a sua loja. Seria preciso mais um cesto ou dois, e ele podia ir agora buscá-los - especialmente uma vez que a viagem o faria passar pela taberna.

Não precisou de muito tempo para passar pelos portões da cidade e dirigir-se à sua loja, para onde entrou imediatamente, retirando os cestos de reserva de debaixo da bancada. Ainda assobiava quando bateu com a porta atrás de si e se encaminhou para a taberna, mas, ao entrar na rua, estacou.

Abanando a cabeça, observou a pilha. Estava mais pequena, viu ele, mas isso não deixaria o burgomestre satisfeito. David Holcroft era tolerante em relação a muitas coisas, mas o Abade era o seu senhor, e o Abade Robert era conhecido por detestar os hábitos de sujidade dos habitantes da cidade. De certeza que ele exigiria que Elias fosse multado. Will manifestou censura para si próprio, e estava prestes a ir bater à porta de Elias, quando parou, os lábios comprimidos, preparados para assobiarem. Ele só conseguia distinguir a forma de uma bota velha e gasta, e a imagem que tinha à sua frente estava estranhamente deslocada. Elias não era do tipo que atirasse fora uma bota velha: era mais provável que a levasse a arranjar. Will pestanejou, perscrutando a escuridão, depois avançou depressa, os cestos a oscilarem e a girarem na estrada atrás dele. Debaixo do monte de lixo, viu a forma de uma perna.

Agarrando a bota e esgaravatando apressadamente em volta dela, ele parou com a percepção e o horror de que de que havia um corpo escondido por baixo do monte. Pegando no tornozelo, Will puxou com força, reparando sinistramente que a carne estava tão fria como qualquer carcaça com que ele lidava na sua loja. Quem quer que esta pessoa fosse, não estava viva. O monte deslocou-se, trapos e pedaços de bolos e de ossos a caírem, à medida que ele libertava o corpo. Apareceu um joelho, e uma coxa. As calças estavam encharcadas e franziram-se enquanto ele puxava. Mais lixo deslizou para o lado com um barulho repugnante, e agora ele via a outra perna. Com cuidado, ele agarrou-a e recuou. Um músculo deu-lhe um estalido no ombro, mas, mesmo assim, ele puxava, e, por fim, o corpo libertou-se com um leve sacão, e ele caiu para trás, sobre as nádegas.

- Oh, meu Deus!

Levantando-se, esfregou o traseiro, depois o ombro, e deu uns passos em frente para olhar para o cadáver vestido de couro vermelho.

De olhos escancarados de horror, ele voltou a praguejar, agora mais suavemente, e engoliu com dificuldade.

 

Sir Baldwin Furnshill estremeceu quando uma rajada de vento lhe atirou pó para os olhos, e pestanejou furiosamente.

- É melhor que esta feira corresponda às tuas expectativas, Margaret - disse ele, ao mesmo tempo que os olhos lhe lacrimejavam. - Após termos viajado de tão longe, primeiro de Crediton para Lydford, e agora para Tavistock, tudo o que desejo ver é um assento confortável e um bom tabuleiro de estufado.

- Baldwin, é claro que irás gostar - disse ela, num tom animado. O cabelo loiro agitava-se-lhe ao vento, livre do toucado, e ela era forçada a estar sempre a puxar para trás as tranças rebeldes.

- Decididamente, senhora, não quereis saber das minhas dores nem do meu aborrecimento. Não! Desde que possais sentir a qualidade dos tecidos à venda, desde que possais experimentar as luvas mais modernas, os melhores sapatos, e comprar as mais requintadas especiarias de todo o mundo, estareis satisfeita.

- Não - resmungou o marido. - Ela não ficará feliz ao sentir o toque de peças de tecido nem ao experimentar sapatos; ela não ficará feliz enquanto não tiver comprado tudo.

Baldwin limpou o rosto.

- E eu não ficarei feliz enquanto não tivermos chegado e eu tiver finalmente descansado um pouco.

- De qualquer forma, marido, pareço lembrar-me de que foste o primeiro a sugerir que viéssemos à feira, para poderes comprar louça e talheres novos de ouro ou prata.

- Isso é muito diferente. Precisamos de louça e talheres de ouro ou prata para quando tivermos de receber fidalgos - disse Simon. Não se tinha apercebido de quantas festas se esperaria que ele desse como beleguim do Castelo de Lydford. Para ser sincero, ele também admitia que a ostentação de um bom conjunto de louça e talheres só poderia servir para engrandecer a sua reputação.

- E precisamos de cortinados novos e roupas novas para as nossas recepções - acrescentou Margaret com doçura.

Baldwin soltou uma gargalhada grosseira. Margaret, uma mulher alta e elegante com o aspecto fresco de alguém que vivera toda a sua vida na charneca, começara gradualmente a engordar. As linhas de tristeza que tinha na testa e a faixa negra debaixo dos olhos tinham desaparecido, e recuperara o sentido de humor. Após a morte do filho, seguida das recentes provações por que passara em Crediton, ela emagrecera com alarmante rapidez. Baldwin preocupara-se com o facto de ela poder estar a definhar. Ele vira outras mulheres que tinham simplesmente perdido o desejo de viver quando os filhos tinham morrido. Felizmente, reflectia ele, Margaret não tinha só Simon, mas também Edith, a filha. A rapariga obrigara a mãe a concentrar-se na vida, pois Edith ainda precisava dela.

Chegaram ao cimo de uma colina, e, à esquerda deles, havia uma forca. Parecia nova a Baldwin. Ele nunca era mais feliz do que quando se encontrava em casa, na sua pequena propriedade perto de Cadbury, mas, na sua qualidade de Defensor da Paz do Rei, tinha muitas vezes de assistir à morte de criminosos. Esta forca fora construída de sólidos toros de madeira, muito melhor do que o antigo instrumento de Crediton, que o trazia sempre preocupado, não fosse cair sobre os guardas e os carrascos. Era sobretudo preocupante quando os carrascos saltavam para agarrarem os corpos, ficando pendurados a eles até que a vítima morresse. Nessa altura os olhos do Defensor da Paz iam sempre para a barra horizontal, receando que esta se quebrasse.

Um burguês sugerira, numa ocasião, que ele devia impedir que os carrascos cumprissem esse acto final, e ele ficara tão irritado que quase batera no homem. Os carrascos apressavam a morte: não era mais do que generosidade cristã parar o sofrimento. Mas o burguês estava profundamente envolvido no jogo de azar que rodeava os enforcamentos, com apostas a serem feitas relativamente ao tempo que cada um dos homens viveria. Ele preferia vê-los durar mais tempo, para que pudessem ser feitas mais apostas.

Baldwin ainda considerava alguns aspectos da vida civil difíceis de aceitar, pois nem sempre fora um cavaleiro secular. Fora um “Pobre Soldado de Cristo e do Templo de Salomão” - um Cavaleiro Templário - e vivera segundo a Lei destes, jurando obediência, pobreza e castidade. Após ter visto os seus amigos morrerem desnecessariamente nas fogueiras quando a Ordem fora traída por um Rei maldoso e ambicioso, ele sentia aversão pela dor desnecessária. Não nutria qualquer simpatia por jogadores que pretendiam prolongar a agonia de outrem unicamente por lucrarem com isso.

Desviou e baixou o olhar para a cidade. A esta hora do dia, a meio da manhã, muitas cidades estariam em sossego, enquanto as pessoas almoçavam, mas hoje Tavistock dava início à sua feira, e as suas ruas estavam apinhadas de visitantes.

- Ainda bem que o Abade nos convidou para ficarmos hospedados em sua casa - observou ele. - Parece que não haverá muitas camas para alugar.

Simon conduziu o cavalo para junto do de Baldwin e seguiu o olhar deste.

- Daqui pode ver-se o quanto a feira é grande, não é verdade? - disse ele, espantado.

- Sim. Faz com que a de Crediton pareça pequena - observou Baldwin.

Simon acenou com a mão, abrangendo o cenário à frente deles.

- Isto vai ser um problema. Todos os anos recebo queixas após a feira de Tavistock porque a de Lydford diminui, enquanto que esta cresce. Todos os mineiros de estanho têm tendência a vir cá. É uma viagem mais fácil do que subir até Lydford, e o Abade toma sempre providências para que haja mais víveres.

- Quer dizer que já estás preocupado com esta feira? - gracejou Baldwin.

- Preocupado? Não, tenciono espiar, para ver o que eles fazem aqui que atrai mercadores de Lydford - disse Simon com firmeza. Não mencionou a sua verdadeira preocupação: ia encontrar-se com o seu novo senhor.

Como beleguim de Lydford, Simon era responsável pela Lei e pela ordem nas minas de estanho. Tinha de certificar-se de que ninguém fazia contrabando de estanho; todo o estanho devia ser pesado, marcado e tributado, nas cidades de Tavistock, Lydford, Chagford e Ashburton, produtoras de estanho. Tinha também de acalmar as incessantes querelas entre mineiros de estanho e proprietários rurais, manter a prisão no Castelo de Lydford e assegurar que ninguém perturbava a paz do Rei. Estava subordinado ao administrador das minas de estanho, e o cargo acabara de ser concedido ao Abade. Simon nunca se encontrara antes com o seu novo senhor, e a perspectiva intimidava-o.

Baldwin viu a sua expressão pensativa, mas interpretou mal o pensamento que se encontrava por detrás dela.

- Já estás a preocupar-te com o facto de que Tavistock seja um êxito estrondoso, mesmo antes de chegares! O teu marido, Margaret, nunca está feliz a não ser que tenha alguma coisa a preocupá-lo.

Ela sorriu perante a piada.

- Ainda no outro dia estava ansioso porque a filha não tinha suficientes amigos jovens em Lydford, e depois ficou preocupado porque ela estava a crescer demasiado rapidamente e teria em breve um marido.

- Isso não é justo - protestou Simon. - Eu estava apenas a dizer que...

Margaret ouvia os gracejos deles só com um ouvido. Estava contente por Simon ter recuperado da sua negra depressão. Sabia que, em grande parte, tal se devia a Baldwin. A cura de Baldwin para um homem com tamanho peso de infelicidade era fazê-lo rir, e funcionara melhor do que qualquer medicamento. O marido envelhecera desde a morte do filho: antes parecia cinco anos mais novo do que a sua idade real de trinta e cinco anos, mas agora parecia mais velho. As rugas tornaram-se-lhe mais profundas na testa e de ambos os lados da boca. Embora o cabelo dele ainda fosse quase preto, começara a recuar na testa, conferindo-lhe uma aparência distinta.

Olhando para Baldwin, ela não podia deixar de reparar na gordura que se lhe acumulara na cintura. O peso era agora o principal inimigo de Baldwin. Quando ela o conhecera, ele passara muitos anos como um cavaleiro andante, sem dinheiro e sem senhor. Naqueles tempos, ele e o seu escudeiro, Edgar, tinham sido obrigados a viver do que conseguiam recolher para si próprios, ao que acrescentavam alguns legumes ou pão que arranjavam nalguma quinta. Desde que herdou do seu falecido irmão os bens dos Furnshill, ele podia comer bem, e a barriga crescia-lhe.

De resto, era uma afigura atraente, pensou ela. Era alto, e embora o cabelo castanho estivesse salpicado de prata, a barba negra que lhe seguia a linha do maxilar não revelava sinais de cinzento. Mas não era a imagem perfeita de um cavaleiro moderno. A maior parte dos homens escanhoavam-se, como o marido. O velho Rei, pai do Rei actual, tinha aversão a barbas e, nos dias do seu reinado, poucos usavam sequer bigode. Embora os tempos tivessem mudado desde a sua morte, a decoração do rosto era ainda rara. Era uma concessão que Baldwin fazia ao seu passado de Templário; os cavaleiros sempre tinham usado barba.

Mas as vestes de Baldwin não impressionavam. Usava uma velha túnica, manchada, gasta e fora de moda. As suas botas mal tinham biqueira e não seguiam a tendência de pontas alongadas, tão em voga na corte. O facto de que ele era capaz de lutar provava-se pela cicatriz da face, que se estendia da têmpora até ao maxilar; mas essa era a única prova ainda existente de um passado agitado.

Margaret olhou-o com afecto. Era um bom amigo, honesto, leal e cortês. Só era triste que ainda fosse solteiro. Ela tinha a certeza de que ele queria encontrar uma esposa, mas até ao presente não tivera êxito. Quando ela tentava interessá-lo por mulheres que ela conhecia, as suas tentativas deparavam-se com o fracasso. Nenhuma o tentava, nem sequer Mary, a jovem aia de Edith, que se insinuara escandalosamente quando o conhecera.

Isso fez com que os pensamentos dela regressassem à filha. Edith estava agora a tornar-se mulher, e era um alívio ter encontrado uma aia que parecia compreendê-la e que estava disposta a ceder à paixão dela de andar a cavalo pelos terrenos da charneca. Mary era reservada quando viera viver com eles, mas agora a rapariga de catorze anos tornara-se a melhor amiga de Edith - depois de Hugh, o criado de Simon. Ele ainda conservava um lugar especial no coração caprichoso de Edith.

- O que é, Margaret? - perguntou Baldwin.

- Estava a pensar que devia comprar-te algum tecido. Essa túnica está demasiado velha.

Ele fixou-a por um momento, as sobrancelhas levantadas, e havia alarme na sua voz, quando disse:

- Velha? Mas está óptima.

- Está velha e gasta, Baldwin; está também demasiado apertada em volta da barriga.

- Hum... mas é confortável.

- Lá confortável até pode ser. Estou surpreendida por Edgar não te ter convencido a comprar uma nova.

Baldwin lançou um olhar sombrio por cima do ombro. Edgar era o seu escudeiro desde que, juntos, se tinham reunido aos Templários. Todos os cavaleiros operavam como uma equipa com os seus homens, treinando com eles e dependendo deles para se protegerem, tal como um cavaleiro moderno o faria com o seu escudeiro. Edgar provara ser um eficiente camareiro e soldado, mas tinha o amor pela ostentação, típico do criado. Se o amo exibisse grandeza, alguma dela reflectia-se no criado.

E agora Edgar queria exibir magnificência. Havia algum tempo que Baldwin se apercebera de que o seu criado conquistara os corações de várias mulheres de Crediton, embora agora evidenciasse paixão apenas por uma, uma rapariga que servia na estalagem.

Edgar olhou serenamente para trás, e Baldwin enfrentou Margaret - Foi ele que te meteu essas coisas na cabeça, Margaret? Ele pediu-te que me convencesses a comprar coisas novas? Se pediu, vai ter de procurar um novo emprego.

- Estás a sugerir que eu não sou capaz de formar as minhas próprias opiniões sobre uma túnica cansada e puída? - perguntou ela, mordaz. - Não, não, claro que não. É que Edgar ultimamente tem sido pior do que uma esposa aborrecida, a dizer-me...

- Bem, eu penso que está na hora de comprares uma túnica nova. Tens dinheiro para isso.

- Simon, ajuda-me aqui!

- Não - disse Simon, deliciado. - A minha esposa está a dar a sua opinião, e eu vou-me arrepender se me intrometer no caminho dela por causa disto: se ela te levar à feira para te encontrar uma túnica nova, isso quer dizer que terá menos tempo para gastar o meu dinheiro. Meg, continua. Certifica-te de que ele compra calças novas, chapéus, luvas, camisas, mantos, cintos, botas e tudo o mais que leve tempo a comprar e que te mantenha longe das tuas tendas preferidas!

Tinham descido para os arredores da cidade, e continuaram pela rua, em direcção à Abadia, passando pelo mercado.

- O que se passa ali? - perguntou-se Baldwin, vendo um ajuntamento.

- Uma agitação qualquer - disse Simon, desinteressado. - Provavelmente é só um ladrão ou coisa do género. Os ladrões de bolsas vêm sempre às feiras. Sabem que podem roubar com impunidade no meio da multidão.

- Talvez. - Baldwin reparou nos guardas fortemente armados, e na figura corpulenta de um homem curvado para a frente. Um grupo de pessoas murmurava ali perto. Foi então que viu o corpo no chão. - Viva! Está alguém ferido?

O homem que se encontrava curvado endireitou-se devagar.

- Pode-se dizer que sim.

Baldwin examinou-o. Apesar de todo o cansaço presente na sua voz, tinha um ar de autoridade, que era enfatizado pela sua figura algo imponente. Que era próspero, era óbvio, a julgar pela qualidade do seu manto e do chapéu, e Baldwin presumiu que ele devia desempenhar um cargo oficial qualquer.

- Posso ser útil? - ofereceu-se. - Sou o Defensor da Paz do Rei em Crediton. Precisais de ajuda?

- Ele certamente não precisa - disse um dos guardas, reprimindo o riso.

- Cala-te, Jack Grande - disse o homem com brusquidão. Baixando o olhar, Baldwin viu aquilo a que o guarda se referia.

O corpo era de um homem baixo mas forte, pobremente vestido, com umas calças azuis desbotadas e um gibão esburacado e manchado. De que o homem estava morto, não restavam dúvidas. Baldwin ouviu Margaret sobressaltar-se. O corpo não tinha cabeça.

Descendo do cavalo, Baldwin olhou em redor, para os homens que ali se tinham reunido.

- Alguém informou o Abade?

- Eu. Sou o burgomestre, David Holcroft.

Baldwin acenou com a cabeça e baixou o olhar para o cadáver.

- Sou Sir Baldwin Furnshill, e estou aqui para visitar o Abade Champeaux. Já chamaram o magistrado local?

- Já se mandou um homem buscá-lo, mas levará pelo menos três dias a trazê-lo até cá - disse Holcroft.

- Porquê tanto tempo?

- Houve um naufrágio. Ele foi chamado para a costa.

- Compreendo. Estas pessoas, quem são?

- Os vizinhos. Assim que foi levantado o clamor público, mandei-os chamar todos.

- Estão aqui todos?

- Quase. Só o cozinheiro Elias não está presente. Está provavelmente a tratar dos seus bens na feira. - Holcroft apontou para outro homem. - Ele foi o primeiro a encontrar o corpo: Will Ruby, o talhan-te. Foi ele que descobriu o corpo e que levantou o clamor público.

Simon saltou do cavalo e passou as rédeas a Hugh, que permaneceu na sua montada, olhando com repugnância para baixo, para o cadáver. O beleguim colocou-se ao lado de Baldwin. Os vizinhos estavam todos de pé, nervosos, enquanto Baldwin os examinava. Simon sabia o que ele estava a pensar: se o magistrado local levasse três dias a regressar, o assassino poderia já estar longe nessa altura. Se o assassino fosse um dos estrangeiros e não um habitante da cidade de Tavistock, poderia nunca ser encontrado. Contudo, Baldwin não tinha qualquer direito legal de investigar; esse direito pertencia ao magistrado local.

Os homens tinham todos um aspecto amargo. Quando um cadáver era encontrado, os vizinhos mais próximos deviam ser implicados, mantidos sob promessa de uma caução, antes de serem formalmente libertados. Era a única forma de garantir que pagariam definitivamente a sua multa por terem perturbado a Paz do Rei.

Olhando para as lojas de ambos os lados da rua, Baldwin perguntou:

- Sois vós o talhante? Will assentiu, sorumbático.

- Sim, meu senhor. Aquela é a minha loja.

O primeiro a encontrar o cadáver interessou Baldwin. Will Ruby era um homem baixo de aspecto forte, com bicípites maciços e uma barriga a condizer. Uma espessa cabeleira castanho-avermelhada, curta e encaracolada, cobria-lhe o crânio grande e redondo. A julgar pelo aspecto do sobretudo de lã, o cavaleiro viu que o talhante desfrutava de um negócio rentável.

- Como foi que o encontrastes?

Will explicou a volta que ia dar para ir buscar os cestos do lixo.

- Vi-lhe o pé a sair da pilha e puxei-o.

Baldwin ouvia atentamente, enquanto olhava o corpo atentamente.

- Tendes alguma ideia sobre quem possa ser? Holcroft respondeu por Will.

- Com essas roupas, não. Não parece ser cá do porto - estas coisas são estrangeiras. - Franziu o sobrolho, fixando o corpo. -Já vi alguém que usava roupas como estas, embora não me lembre onde.

- Pensais que era alguém que se encontrava de visita à feira?

- Parece provável. Simon coçou o queixo.

- Então onde está a cabeça dele?

- Isso gostaria eu de saber - respondeu Holcroft.

- O quê? - perguntou Baldwin. - A cabeça não está aqui?

- Pelo menos não está no monte de lixo nem aqui por perto. Procurámos na rua e em toda a parte, mas não há sinais dela.

- Estranho - Baldwin aproximou-se da pilha e olhou-a por um momento, antes de regressar para junto do corpo. - Encontrastes alguma faca?

- Faca?

- A bainha dele está vazia. Holcroft abanou a cabeça.

- É estranho que a cabeça dele tenha sido separada do corpo - murmurou Baldwin. - Por que é que alguém faria uma coisa dessas, pergunto-me eu? E porquê levar depois a faca dele?

- Simon, pensas que podemos continuar, se Baldwin vai...

- Margaret, desculpa - disse o cavaleiro, colocando-se em pé. - Isto não tem nada a ver comigo. Estou aqui para descansar. Nós estamos aqui para ver a feira. As minhas desculpas. Foi imperdoável da minha parte fazer-te esperar aqui com um cadáver. Vem, partiremos imediatamente.

Simon subiu para o cavalo e esperou até que Baldwin tivesse montado o seu antes de se dirigir para a Abadia. O beleguim sabia que os crimes intrigavam sempre o amigo, e ficou surpreendido com a velocidade com que Baldwin desistiu do interrogatório. Em seguida Simon viu os olhos de Baldwin regressarem ao corpo e fixarem-se nele. O cavaleiro apercebeu-se da expressão de Simon e encolheu pesarosamente os ombros.

- Não, estamos aqui para o dia de São Rumon.

 

O Abade de Tavistock encontrava-se no seu salão, os braços abertos em sinal de boas-vindas. Um animado clérigo de estatura média e rosto corado, a toasura não precisando ser aparada, pois a sua cabeça usava apenas uma escassa tira de cabelo grisalho que lhe chegava às têmporas de ambos os lados. Toda a cabeça, desde a testa até à nuca, era calva.

- Beleguim, bem-vindo! E a vossa senhora também. Por favor, sentai-vos. Vós deveis ser Sir Baldwin Furnshill. É um prazer conhecer-vos finalmente. Vinde, por favor, sentai-vos.

O entusiasmo do Abade Champeaux era contagioso. Levou-os até um aparador cheio de loiça cara, e sobre o qual se encontrava um jarro de vinho e uma série de taças, todos cuidadosamente executados em liga de estanho. Baldwin pegou numa e examinou-a. Tinha uma cena de caça gravada em volta. O Abade, decidiu ele, não era avesso a exibir a sua prosperidade.

Enquanto Simon, com o saco ao ombro, conversava com o seu novo senhor, Baldwin sentou-se e observou em seu redor. A sala estava mobilada com conforto, com tapeçarias nas paredes e coxins almofadados nos assentos das cadeiras. Uma sólida lareira de granito ocupava uma grande parte da parede oriental. Do local onde estava sentado, com as costas viradas para a lareira, ele podia olhar pelas janelas envidraçadas, por cima dos viveiros de peixe e dos jardins. Os terrenos cultivados ocupavam uma vasta área, estendendo-se até aos campos nus. Dali via o movimento preguiçoso do rio, à medida que este se afastava da cidade a serpentear.

Quando viu um brilho castanho-avermelhado, ele adquiriu uma Pose mais rígida. Era perto da beira da água, e ele endireitou-se na cadeira para espreitar.

O Abade reparou na sua concentração e virou-se para ver o que atraíra o interesse do seu convidado.

- Ah, Sir Baldwin, tendes bom olho - disse, a rir por entredentes.

- Parece um bom animal.

- Sim. Temos a sorte de ter mais de quarenta veados no nosso parque, embora, por vezes, tenhamos dificuldades.

- Que tipo de dificuldades? - perguntou Margaret.

O Abade sorriu jovialmente, e havia um brilho nos seus olhos.

- Por vezes, eles conseguem fugir do parque quando tentamos apanhá-los. Já fui repreendido por perseguir os meus veados até à charneca. Nós bem tentamos assegurar-nos de que os nossos cães apanham os animais antes que saiam do parque, mas de vez em quando um deles consegue sair, e que nos resta então fazer? É difícil manter as valas e as sebes em bom estado.

Baldwin não conseguiu reprimir um sorriso. O facto de um abade ousar vaguear pelos terrenos de caça de Dartmoor para caçar furtivamente, e depois confessá-lo com tanta alegria, era único na sua experiência.

- Gostaria de ver a vossa matilha - disse ele, e o Abade assentiu, deliciado.

- Será um prazer. Talvez possa também tentar-vos para que vos junteis a mim numa caçada...

- Eu não poderia recusar um convite tão amável. Simon afagava o seu saco.

- Gostaríeis de tratar dos assuntos das minas de estanho agora?

- Oh, não, Simon. Tivestes uma viagem cansativa até chegardes aqui. Por favor, descansai! Podemos falar de negócios mais tarde. Sou aqui Abade há trinta e quatro anos e, enquanto que o Senhor pode decidir não me deixar prosseguir por mais trinta e quatro, espero ter ainda mais uns anos pela frente! Há tempo para discutirmos trabalho mais tarde.

Baldwin recostou-se na cadeira. O Abade era um bom anfitrião, conversando com Simon e a esposa e colocando ambos à-vontade. Baldwin conhecera muitos homens da igreja, mas este, Robert Champeaux, parecia usar o seu poder a e a sua autoridade com leveza.

E ele tinha mesmo autoridade. Baldwin passara algum tempo a informar-se sobre o seu anfitrião junto de Peter Clifford, o deão da Igreja de Crediton, e dera o tempo por bem empregue. Como Champeaux disse, era Abade há mais de trinta anos. Quando tomara conta do cargo, a abadia tinha dívidas, mas agora, após a sua cuidadosa administração, dizia-se que era uma das mais sólidas instituições do condado.

O Abade Robert atraíra dinheiro ao melhorar as feiras e os mercados, negociando com Chagford e Lydford, e reinvestindo o dinheiro para comprar cargos lucrativos. Fora nomeado controlador de todas as minas de prata de Devon em 1318, e Baldwin compreendeu que ele estendera recentemente a sua administração das minas em troca de um considerável empréstimo para ajudar na guerra contra a Escócia. Este ano, 1319, tornara-se Administrador das Minas de Estanho de Devon, e defensor do porto de Dartmouth, ambos cargos altamente lucrativos, no entanto, estava satisfeito por se encontrar sentado a discutir a qualidade dos tecidos do mercado com a esposa de um dos seus beleguins. Isso demonstrava uma humildade e generosidade de espírito que muitos outros padres fariam bem em emular.

Ouviu-se alguém bater à porta e um jovem monge entrou, executando uma pronunciada vénia.

- Meu senhor, o burgomestre gostaria de falar convosco.

- Manda-o entrar, por favor. Ah, Holcroft, mandastes chamar o magistrado local, segundo me informaram.

- Sim, meu senhor. E impliquei os quatro vizinhos e Will Ruby, o primeiro a encontrar o corpo.

- O clamor público foi levantado, é claro, por isso pouco mais há a fazer. Onde está o corpo?

- Não podia deixá-lo ali, meu senhor. - Normalmente, um corpo seria deixado no local onde fora encontrado até que o magistrado local o pudesse observar. - Seria impossível, com tanta gente em redor. Mandei levá-lo para a estalagem. Há lá um alpendre onde o magistrado o pode observar.

- Óptimo.

Baldwin inclinou-se para a frente.

- E os parentes do homem?

- Enquanto não encontrarmos a cabeça, não há nada que possamos fazer. Afinal, não sabemos quem é.

Simon acenou interrogativamente com a sua taça.

- Ninguém participou o desaparecimento de um homem? Uma esposa reconheceria o corpo do marido, afinal. Tendes a certeza de que se trata de alguém de fora?

- Sim, meu senhor, ele não deve ser de Tavistock. Ninguém participou o desaparecimento de homem algum.

- Isso não quer dizer nada - disse Baldwin. - Enquanto a feira durar, as pessoas passarão o tempo nas tabernas. Quantas mulheres ficariam surpreendidas se os maridos aparecessem tarde ou não aparecessem mesmo todas as noites durante a feira? Este homem poderia muito bem ser um habitante da cidade cuja esposa pensa que ele está a passar a ressaca numa taberna.

- Não é só isso, SirBaldwin - disse Holcroft. - As roupas parecem-me familiares, mas não me lembro de onde. Não são daqui. Não conheço ninguém em Tavistock que use estas coisas.

- Isto não é nada bom - disse o Abade. Olhou melancolicamente pela janela em direcção ao seu parque de veados. Simon adivinhou que aquela conversa sobre cadáveres lhe desagradava - ele preferia estar a discutir os seus cães ou falcões. - Terá de ser o meu tribunal a resolver tudo isto, e não quero um grupo inteiro de homens da cidade penalizados quando não fizeram nada.

Baldwin acenou com a cabeça, pensativo. O procedimento habitual era que o primeiro a encontrar o corpo e os vizinhos fossem detidos contra a apresentação de uma caução, para garantir que fossem a tribunal. Se não se conseguisse descobrir o assassino, todos eles seriam multados.

- Ouvi dizer que Sir Baldwin e o beleguim descobriram muitos outros assassinos - sugeriu Holcroft, hesitante.

- Quereis que vos ajudemos? - perguntou Simon, atirando um olhar a Baldwin. O cavaleiro encolheu os ombros.

- Senhor, não posso fazer nada - disse Holcroft, em tom de lamentação. - Raramente temos assassinos no porto, e há apenas um ano que ocupo este cargo. Não sei proceder a um inquérito nem coisa que se pareça.

- Isso é com o magistrado local - observou Baldwin.

- Sim, meu senhor; mas o assassino pode estar a léguas daqui antes que o magistrado chegue.

Robert Champeaux acenou com a cabeça pensativamente, olhando de Simon para Baldwin.

- Estaríeis a prestar-me um grande serviço, cavalheiros. Ser-vos-ia possível investigar esta morte? Essa deve ser a função do magistrado, mas esta terra é minha, e o assassino estava dentro da jurisdição do meu tribunal. No interesse da justiça, sinto que tenho justificação para a investigar rapidamente. Baldwin levantou-se.

- Vinde, burgomestre, senhor, regressemos ao local em que o corpo foi encontrado.

- Um momento - Champeaux caminhou até à porta. Teve uma breve conversa com outro monge antes de regressar. - Tudo deve ser anotado, caso o magistrado queira ver exactamente o que foi dito ou feito. Levai aqui o jovem Peter. Ele pode escrever tudo para o relatório.

À medida que o jovem entrava, Holcroft abanou a cabeça. Reconheceu o noviço que acompanhara os Cammino à taberna na noite anterior. As coisas já estavam suficientemente más, pensou ele, sem um monge agressivo atrelado.

Holcroft conduziu-os através do grande pátio da abadia, até saírem pelo portão do mesmo - um bloco de pedra quadrado e imenso, suficientemente grande para albergar uma pequena capela. Daí seguiram rua fora, para Norte, até chegarem à ruazinha estreita.

Baldwin estava satisfeito por tentar ajudar o Abade, especialmente porque estava fascinado pelo mistério da cabeça desaparecida, mas Simon sentia uma certa dose de irritação por terem sido tão rapidamente envolvidos na caça a um assassino. Ele só esperava que as investigações depressa ficassem concluídas. Deixara Hugh a ajudar Margaret a instalar-se no quarto que o Abade Champeaux lhes destinara. Baldwin não se deu ao trabalho de pedir a Edgar que ficasse. Ele não deixaria o amo sozinho numa cidade desconhecida. Quando serviam juntamente com os Cavaleiros Templários, o seu lugar fora ao lado do seu amo, e ele levava a sério a sua responsabilidade. Quando se encontrava longe de casa, Edgar raramente tirava os olhos de cima do amo.

A expressão do criado traía apenas aborrecimento. Baldwin tinha a certeza de que o seu entusiasmo em vir à feira se devia, em grande parte, ao seu desejo de comprar uma peça de bom tecido para a namorada. Era um conforto para Baldwin ver que o seu criado se estava a concentrar em Cristine, uma rapariga da estalagem. Antes Edgar perseguira um grande número de mulheres, e Baldwin começara a preocupar-se com o facto de que os pecadilhos do criado pudessem prejudicar o respeito que era tão importante para o cargo do cavaleiro.

Quando chegaram à ruazinha estreita, as pessoas tinham desaparecido. Uma vez que tinham apresentado cauções, os guardas já não se interessavam por elas. O corpo fora levado, e apenas uma pequena poça de sangue seco indicava o local em que estivera estendido.

Baldwin baixou o olhar para a poça, abanou a cabeça e caminhou até ao monte de lixo. Encostada à parede estava um vasculho com o cabo partido, e ele usou-o para espalhar fastidiosamente o lixo e examinar o conteúdo.

- Não há nada aqui - disse ele, atirando o vasculho para o chão, e regressando para junto da poça de sangue. - Por que é que alguém levaria a cabeça?

- Boa pergunta - respondeu Simon.

- Calculo que o morto fosse alguém de fora - disse Holcroft - que apenas veio cá para comprar ou vender alguma coisa. Tudo leva a crer que não conhecia cá ninguém.

- Se assim for, devemos descobrir em breve quem ele era - disse Baldwin. - A tenda dele deverá estar vazia, e alguém participará disso, mais que não seja o homem a quem ele alugou o espaço.

- Enviei guardas para verificarem se há alguma tenda vazia, mas vai levar tempo, com tantas tendas a visitar. E muitas têm mais do que um homem a servir os clientes, por isso podem não descobrir nada.

- Bem, vejamos se conseguimos descobrir alguma coisa a partir do cadáver. Tendes a certeza de que o homem não era daqui?

- Com aquelas roupas, não. Deve ter vindo de fora, e foi assassinado por alguém que conheceu na estrada. Discutiram; ele morreu.

- Se foi alguém que ele conheceu na estrada, ele teria sido morto na estrada - disse Simon. - Por que motivo é que o seguiriam até à cidade, onde há guardas, quando poderia ter sido apunhalado e ter sido deixado no campo? Nenhum assassino correria tal risco.

- Talvez ele tivesse atacado o homem que o matou, e o tivesse deixado pensando que estava morto, depois a vítima recuperou e veio até aqui reclamar vingança.

- Nesse caso, porquê separar-lhe a cabeça do corpo? - perguntou Baldwin.

- Para esconder a identidade do homem? - sugeriu Holcroft, encolhendo os ombros. Em seguida os olhos escancararam-se-lhe. - Talvez fosse para mostrar quem era! Talvez alguém quisesse este homem morto, e tivesse pago a um assassino profissional para o fazer, mas quisesse a cabeça como prova da sua morte! Simon lançou-lhe um olhar de espanto.

- Que raio vos faz pensar que alguém pediria uma cabeça como prova de um assassínio?

- Aconteceu a São João - interrompeu o jovem monge, com ansiedade.

Simon fixou-o. Mal reparara em Peter antes. O monge parecia ter dezassete ou dezoito anos, certamente que ainda não chegara aos vinte. Tinha o rosto chupado e pálido, como se recuperasse de uma febre, e insípido cabelo loiro.

- Eu sei - respondeu-lhe Simon. - Mas é uma teoria um pouco convoluta para explicar isto. Não considero essa explicação muito convincente para uma tarde de Verão inglês.

- Nem eu - concordou Baldwin. Olhou para o burgomestre.

- Onde está o corpo agora?

O mal-humorado Holcroft levouos rua acima até entrarem numa taberna. Atravessando as cortinas, Baldwin lançou um olhar à sala principal através da porta aberta.

- Um lugar pequeno mas movimentado - observou.

- Sim, meu senhor. E simpático. Eu próprio estive aqui ainda ontem à noite, e nunca pensei cá voltar por estes motivos.

E conduziu-os para as traseiras. Entraram num pátio rodeado por um muro de madeira, com galinhas a esgaravatarem na terra. Um guarda estava sentado num banco, guardando o alpendre onde o corpo fora colocado, com um litro de cerveja ao lado, e uma velha lança enferrujada encostada ao muro. Ao ver Holcroft, o homem levantou-se, agarrando a haste da lança com ambas as mãos.

No interior, Simon foi apanhado pelo aroma. Havia um delicioso odor a maçãs, e, quando olhou, viu um grande espremedor. Barris dispostos ao longo do muro emanavam um maravilhoso cheiro a levedura, e, a julgar pela potência do odor, ele adivinhou que uma forte sidra estava a fermentar.

O corpo estava colocado sobre tábuas estendidas sobre barris levantados. Baldwin aproximou-se e deixou-se ficar de pé ao lado do corpo. Na presença da morte, ele sentia uma curiosa deslocação da sua vida normal. Esta figura vazia lembrava-o de que a vida era transitória. Era também prova de um assassínio brutal, e Baldwin sabia que, se fosse meticuloso, podia, a partir do cadáver, descobrir muita coisa que o ajudaria a apanhar o assassino.

O corpo ainda se encontrava completamente vestido. Baldwin chamou o guarda para o ajudar a testemunhar o exame depois da morte, e começou a despi-lo, puxando a jaqueta de couro vermelho e o gibão, depois a camisa. Os braços estavam hirtos com a rigidez da morte, mas ele persistiu. Pouco depois, o gibão saiu, e as calças, depois a camisa, e Baldwin pôde examinar a figura suja de um homem, um homem com braços e coxas fortes, que tinha várias cicatrizes e marcas menores no tronco.

- Não foi morto esta manhã - declarou ele. - Deve ter morrido ontem à noite, pois o corpo está frio como granito.

- Mais alguma coisa? - perguntou Simon.

Baldwin levantou-se, uma mão enrolada em volta do peito, a outra a cobrir-lhe o queixo enquanto olhava o corpo.

- É estranho que não tenha bolsa. Um salteador poderia ter-se atrapalhado e ter-se envolvido numa luta, imagino... - ficou em silêncio por um momento, pegando depois no cinto e examinando-o. A bainha da faca, vazia, despertou-lhe o interesse. - É estranho, isto. Continha uma única faca vulgar, de um só fio, com uma lâmina de quase quatro centímetros de largura e de cerca de dezassete centímetros de comprimento.

- Não vejo onde poderá estar o interesse - observou Simon. - Olha para a qualidade do trabalho em couro. É muito boa, e há uma marca, um brasão gravado em relevo.

- Reconheces o brasão?.

- Não, receio que não. Isso tornar-nos-ia a vida demasiado fácil, não é verdade? - Acenou com a cabeça a Edgar, e, juntos, viraram o corpo. - Ah!

- O quê?

- Isto significa que a minha teoria sobre o salteador a atrapalhar-se numa simples emboscada está errada. Um ladrão poderia ter-lhe batido na cabeça para facilitar a sua tarefa, mas não o teria apunhalado. Peter, tendes aí os vossos papéis? Então anotai isto. Evidencia uma punhalada nas costas. A ferida tem um pouco mais de dois centímetros e meio de largura, a cerca de cinco centímetros para a esquerda da espinha. - Interrompeu-se e estendeu a mão para pegar na camisa. Examinando-a minuciosamente, deixou-a cair e olhou para o gibão e para a jaqueta.

- O que é? - perguntou Simon.

- Foi apunhalado, mas não há qualquer corte correspondente na camisa, apenas uma mancha. Foi assassinado quando estava de peito nu, ou tinha outra coisa cqualquer vestida, e, por qualquer razão, vestiram-lhe a camisa depoiss. Qual poderia ser a razão para isso?

- Por que motivo seria ele apunhalado? - disse Holcroft. - Eu pensaria que ele morreu quando lhe cortaram a cabeça.

- Nenhuma vítima ficaria quieta o tempo suficiente para permitir que a cabeça lhe fosse a. rrancada dos ombros - disse Baldwin, incisivo. - Foi-lhe tirada a cabeça depois de ele ter morrido. Foi apunhalado e morto, e depois, por qualquer razão, tiraram-lhe a cabeça e vestiram-lhe a camisa.

- Com que objectivo? - perguntou Holcroft.

- Boa pergunta. - Baldwin ficou durante algum tempo a observar o corpo. - Que idade te parece que ele tem, Simon?

O beleguim colocou a cabeça de lado.

- É difícil dizer. Sem uma cabeça e um rosto, não sei.

- É difícil - concordou Baldwin. Era difícil dizer fosse o que fosse de um homem sem cabeça. Tinha os músculos bem treinados, mas isso significava simples mente que, provavelmente, não era padre. Qualquer outra pessoa estaria exercitada do trabalho, quer fosse cavaleiro, talhante, mineiro ou criado. Baldwin estava desanimado. O que poderia um homem descobrir do cadáver de outro, quando a identidade era um mistério? Forçou-se a concentrar-se. Independentemente do quanto pudesse ser difícil, ele devia fazer o seu melhor para descobrir a verdade. Quem quer que o homem fosse, merecia que o seu assassínio fosse vingado.

Não tinha muito cabelo no corpo, mas Baldwin conhecera homens de cinquenta e tal anos que tinham menos.

- Não era abastado: tem as mãos sujas de pó de carvão, e muitos calos, por isso não é provável que fosse mercador. Tem a barriga bastante grande, o que o faz parecer mais velho, por isso não era um camponês pobre: tem comido demasiado bem ao longo da vida. A pele não é macia como a de um jovem, é áspera. Certamente que deve ter mais de vinte anos. Talvez esteja mais perto dos quarenta, a julgar pelo aspecto do estômago.

- Por que dizeis isso? - perguntou Holcroft.

- Se ele fosse mais jovem, para poder encher-se de comida e bebida, teria de ser abastado, no entanto, este homem trabalha ainda com as mãos, por isso não parece rico. Não, eu diria que este homem teria perto de quarenta anos. Não menos.

Simon desviou os olhos. A visão de cartilagem e sangue, ossos e músculos deu-lhe vontade de vomitar. O cheiro forte a maçãs não ajudava. A doçura almiscarada da fruta misturava-se com o cheiro fresco de carne humana, como carne de porco crua; a associação fez o beleguim engolir rapidamente e colocar-se mais perto da porta.

Baldwin não reparou. Alguma coisa neste homem morto lhe poderia dizer quem era o assassino, ou, se não pudesse, podia, pelo menos, apontar-lhe o assassino, e ele estava decidido a procurar quaisquer pistas. - É interessante - murmurou ele, à medida que examinava a carne exposta. Agachou-se junto ao pescoço e olhou-o. - Peter, deveis anotar que penso que a cabeça não foi coitada de um só golpe de espada ou machado.

- Porque seria? - perguntou Holcroft, inclinando-se sobre o ombro de Baldwin. Simon estremeceu e desviou o olhar.

- Estais a ver aqui? - o cavaleiro apontou. - A carne foi cortada exactamente no local em que foi separada do corpo. Não foi com um só golpe de espada, burgomestre. Mas olhai aqui.

Quando Holcroft se inclinou mais, viu que o cavaleiro apontava para uma pequena lasca.

- Isso? É apenas um pedaço de osso! Baldwin levantou para ele o olhar irónico.

- Sim, um pedaço de osso da espinha deste homem. Não vedes? Ah, bem, suponho que não seja muito importante. O assassino apunhalou-o e depois cortou-lhe o pescoço com uma faca. Em seguida usou uma arma pesada mas não muito afiada para cortar o pescoço do morto. Não usou uma faca para cortar os ossos, como poderia ter feito, inserindo a ponta da lâmina entre as vértebras e separando a cabeça; ele cortou a carne, e, em seguida, usou uma lâmina pesada para cortar o osso, tal como um talhante.

- Pensais que foi Will Ruby? - perguntou Holcroft, sobressaltado e incrédulo.

Baldwin atirou-lhe um olhar e levantou-se.

- Suspeito de qualquer pessoa que tenha acesso a ferramentas grandes. Isto poderia ter sido feito com a mesma facilidade com um machado de lenhador, com a podadeira de um agricultor ou com o cutelo de um talhante. De facto, um cutelo é a arma menos provável, pois qualquer talhante teria usado uma faca afiada para cortar osso. Esta estava embotada, e abriu caminho esmagando o osso. Não, ainda não faço ideia de quem seja o responsável por isto. Mas é interessante: por que motivo teria o assassino decapitado a sua vítima?

Holcroft encolheu os ombros.

- Calculo que nunca saberemos.

Simon sentia o início de uma dor de cabeça. O cheiro era poderoso e fazia-o sentir-se enjoado. Foi um alívio ouvir Baldwin murmurar:

- Talvez devêssemos perguntar ao dono da taberna o que sabe de tudo isto. Este corpo foi encontrado aqui perto. Quem é ele?

- Ela, senhor. Chama-se Agatha.

- Muito bem. Vamos ver o que Agatha tem a dizer.

 

A taberna era uma taberna como as outras, existentes na região. Havia bancos grandes e pequenos, mesas, colocados ao acaso num chão de terra tão solidamente batida que era tão dura como carvalho seco e curado. Uma fina camada de palha descolorida estava irregularmente espalhada para ensopar a maior sujidade nos locais em que os clientes embriagados tinham vomitado. Estava a fazer um bom negócio, com homens, mulheres e crianças sentados ou de pé, todos com canecas ou jarros de cerveja. A um canto, um grupo de pessoas acotovelava-se em volta de um jogo de mesa, fazendo apostas e anunciando cada nova jogada com suspiros e vivas.

Simon olhou em redor, com interesse. Sentia uma justificada irritação ao ver a prosperidade dos comerciantes de Tavistock em comparação com os seus vizinhos de Lydford.

Para Baldwin, aquela era apenas uma taberna movimentada. Não tão grosseira como uma casa de cerveja normal, não sendo, porém, tão exclusiva como uma estalagem, atraía à sua sala principal os homens do porto e as suas famílias para bebericarem a boa cerveja da proprietária. Viu uma mulher com um jarro na mão, a servir, indiferente a tudo o resto. O burgomestre acenou-lhe com a mão, e ela retribuiu com um aceno de cabeça, revirando em seguida os olhos na direcção do céu, à medida que outro grito se erguia dos jogadores reunidos ao canto. Ela levantou uma mão num mudo apelo à espera, passando depois por eles em direcção às salas do outro lado das cortinas.

- Sir, penso que não devo entrar ali - disse Peter em jeito de queixa.

- E por que não? - perguntou Baldwin.

- Bem, há muitas mulheres e... - ele não queria admitir que, na noite anterior, quase que se envolvera numa luta. Ombro a ombro com ele, Peter estava disso desconfortavelmente consciente, encontrava-se o burgomestre, que o persuadira a ir-se embora.

- Não vos preocupeis, Peter. Eu proteger-vos-ei - disse, com frieza, o cavaleiro.

À frente dos outros, Holcroft dirigiu-se a uma mesa, desalojando um grupo de jovens que já tinham desfrutado das festividades um pouco demasiado entusiasticamente. Os jovens afastaram-se de má vontade, deixando espaço suficiente para que os homens se sentassem. Passados poucos minutos, a dona da taberna apareceu.

Agatha tinha o rosto redondo, com faces vermelhas como maçãs e cabelo castanho caído que lhe escorregava de debaixo do toucado. A boca revelava um fixo sorriso amável e profissional. Caminhou em direcção à mesa deles. Baldwin estava sentado em silêncio, enquanto Holcroft pedia cerveja para todos, e explicava quem Baldwin e Simon eram. A mulher lançou um olhar ao monge e Simon apercebeu-se de que o Abade enviara o noviço não só para tomar notas, mas também para delegar nele a sua autoridade durante a realização do inquérito que eles levavam a cabo.

O burgomestre abanou a cabeça à medida que ela se apressava em direcção à despensa.

- Pobre indivíduo. Que maneira de ser morto, e depois ser deixado daquela forma num monte de lixo. Por que é que alguém faria uma coisa daquelas?

- Quando encontrarmos o assassínio, vamos perguntar-lhe - disse Baldwin. - Talvez agora devêssemos estar a envidar esforços nesse sentido. Tendes tomado notas cuidadosamente, Peter?

O monge levantou o olhar e apressou-se a acenar com a cabeça.

- Sim, meu senhor. Está tudo escrito.

Simon espreitou para a escrita garatujada e ficou contente por não ter de decifrar, ele próprio, os gatafunhos. O rapaz tentara copiar tudo tal como era dito, e o resultado era uma confusão de borrões.

- Agatha - disse Baldwin, quando a mulher regressou com um tabuleiro de taças cheias -, o corpo que foi encontrado ontem à noite, viste-lo? - Ela acenou com a cabeça, e ele continuou: - Reconhecestes o homem?

Ela limpou as mãos ao avental. Para Simon, Agatha poderia estar grávida, a túnica ondeava-lhe tão solta debaixo do cinto. Percorreu com o olhar os homens sentados, enquanto falava.

- É difícil reconhecer um homem sem cabeça. Mas penso ter visto as roupas antes - olhou para o burgomestre, e Baldwin viu um leve tremeluzir nos olhos dela. - Não quero colocar a corda ao pescoço de homem nenhum, mas ontem à noite esteve aqui um indivíduo vestido com algo parecido. Usava gibão e calças como as que estão vestidas no cadáver, mas nunca o tinha visto antes de ontem à noite.

- É claro! - exclamou Holcroft, e bateu com a mão na coxa. Esquecera-se do homem que acompanhava Elias - o facto de ter visto Lizzie com Torre limpara-lhe a memória como um pano húmido a apagar letras de um quadro de ardósia.

- Tendes a certeza disso? - continuou Baldwin. Não era ninguém que conhecesse de uma feira anterior, por exemplo?

- Não posso ter a certeza. - Ela encolheu os ombros e fez sinal com a cabeça em direcção aos clientes sentados a outras mesas. - Não é como se eu estivesse para aí sentada sem nada para fazer. Por altura da feira, há demasiados estrangeiros por aí para se poder conversar com todos. Não sei quem ele era.

- O que estava ele a fazer? Estava sozinho, ou com outra pessoa?

- Entrou sozinho - concordou ela, de má vontade. Agatha não gostava de atirar as culpas para cima de ninguém, especialmente quando se tratava de um homem da cidade que era um cliente regular.

- Ele sentou-se com alguém? - tentou Baldwin saber.

Ela manteve-se em silêncio por mais um momento, mas depois olhou para o burgomestre e as palavras jorraram em torrente.

- Não, meu senhor. Detesto dizer mal de outra pessoa, mas ele esteve aqui com um homem de cá: Elias. O estrangeiro entrou aqui sozinho, mas perguntou-me por Elias, e, quando este entrou, o estrangeiro mandou chamá-lo. Sentaram-se juntos, e era como se fossem velhos amigos. Ele esteve com Elias durante algum tempo.

Simon debruçou-se para a frente.

- Estiveram aqui muito tempo?

- O tempo suficiente para tomarem quatro canecas cada um.

- Qual dos dois é que saiu primeiro?

- Saíram juntos, logo a seguir ao toque das Completas.

- E parecia que eram amigos? - perguntou Baldwin.

Ela pensou.

- Bastante amigos - admitiu ela, por fim. - Elias nunca foi grande falador, mas na noite passada parecia bastante excitado.

- Excitado? - Holcroft saltou ao ouvir a palavra. - E pensais que estava suficientemente excitado para lutar com o homem?

Agatha lançou-lhe um olhar aborrecido e casual.

- Ora, David, eles não puxaram de adagas um para o outro aqui, e é tudo o que sei. Se saíram e lutaram, eu nunca ouvi nada. Tal como disse, só os vislumbrei a saírem. Isto é uma taberna. Eu estava a servir cerveja, lembras-te? Não é como se eu pudesse passar o dia inteiro com todos os meus clientes, especialmente quando já estão de mau humor. Mas ele regressou.

Baldwin suprimiu um sorriso. A proprietária da taberna era uma mulher sensata no trato, e não aturava loucos de boa vontade.

- Dizeis que Elias regressou?

- Sim. Esteve ausente durante alguns minutos, depois entrou à pressa e bebeu mais um pouco.

Simon agitou-se.

- Serviste-lo? - Quando ela acenou com a cabeça, ele continuou. - Vistes-lhe algum sangue nas roupas?

Baldwin observava-a com atenção. Isto era importante. Os assassinos ficavam sempre sujos de sangue das suas vítimas. O assassino do cadáver da ruazinha estreita devia ter sido salpicado - especialmente porque lhe decepara a cabeça.

Ela pensou, abanando depois a cabeça devagar.

- Não, nada disso. Baldwin perguntou:

- Ele trazia um saco ou qualquer outra coisa com ele quando regressou?

- Não.

- Isso não quer dizer nada - disse Holcroft. - Ele podia ter deixado a cabeça em casa ou noutro sítio qualquer.

- É possível - concordou Baldwin, mas sem convicção. - Esse Elias, quem é ele?

- É o homem que vive ao lado da loja de Will Ruby - apressou-se Holcroft a dizer. - É proprietário de uma loja de comida. A pilha de lixo era toda dele.

- Nesse caso, penso que devemos ir dar-lhe uma palavrinha.

Baldwin e Simon saíram da sala com Edgar. Peter guardou depressa a caneta e as tintas e estava prestes a segui-los, quando surpreendeu uma curiosa expressão no rosto da proprietária da taberna. A mulher fixava o burgomestre com um género de solidariedade, enquanto que ele a olhava com aquilo que Peter só podia adivinhar tratar-se de muda súplica.

Elias sentou-se no seu barril e passava uma mão pelo sobrolho antes de espreitar para cima, para o Sol, e de bocejar. Ainda lhe doía o pescoço depois de ter dormido em cima da banca da sua tenda no mercado, e estava contente pelo facto de, pelo menos, não ter chovido.

Quando surgiu outro rosto, levantou-se e fez uma reverência com a cabeça de forma insinuante. O cliente desenrolou uma longa encomenda, e Elias pestanejou, à medida que ouvia. Quando o rol de instruções terminou, começou, de um salto, a agir, e foi buscar o capão assado, dez tentilhões assados e um coelho. Tratando-se de uma feira, ele apressou-se a somar os preços: oito pennies pelo capão, um pelos tentilhões e quatro pelo coelho, arredondando em seguida a quantia para dezasseis pennies. Resmungando, o cliente pagou-lhe. Sabia bem que, embora o dinheiro fosse mais do que normalmente teria de pagar na cidade, não era tanto como um comerciante de Londres teria cobrado.

Quando António da Cammino pediu uma cavala, Elias colocou-a a cozinhar ao lado da sua fogueira. Reconheceu o veneziano da taberna na noite anterior, embora não soubesse o nome de António. O rosto de António lembrava-lhe a noite anterior, e Elias bebeu um longo trago da sua caneca.

Estava mesmo a precisar. Ter voltado a ver Jordan Lybbe fora um choque, e seguira-se aquele horror na ruazinha estreita. Não estava habituado a ver coisas daquelas. Tudo o que pudera fazer fora deitar a sua bebida no copo quando regressara depois à taberna, e não entornar tudo para o chão, de tal maneira lhe tremia a mão.

É claro que sabia que teria de pagar a multa por não ter retirado o monte de lixo, mas não fora capaz de lá voltar. Agora não.

Apareceram duas crianças sujas, acabadas de chegar dos prados onde tinham estado a brincar, perguntando o preço de todas as carnes cozinhadas que ele tinha expostas, e tentando regatear. Elias era conhecido entre a gente nova da cidade por ser generoso com a comida. Aceitou-lhes o dinheiro, mas deu a cada um um estorninho assado coberto com mel, assim como os tordos que tinham encomendado. Nessa altura o peixe estava pronto, e serviu-o ao paciente veneziano. Pegando no peixe, António pagou, colocando-se depois junto à banca, onde rasgou a carne amarela que libertava vapor. Quando reparou que Elias o observava, fez sinal para a comida:

- Não faz mal comer aqui, pois não?

- Claro que não, senhor - respondeu Elias, e estava quase a perguntar-lhe de onde era, pois não conseguira reconhecer o sotaque, quando António acenou para chamar a atenção do filho.

Pietro aproximou-se, Luke atrás dele, e observou as coisas que Elias tinha para oferecer, atirando negligentemente uma moeda ao ar. Apontou para uma perna de borrego cozinhada, e, depois de Elias ter cortado uma enorme fatia, o jovem pousou a moeda, ficando em seguida a conversar com o pai numa língua que Elias não conseguia reconhecer.

A multidão estava agora a crescer. Elias teve de sentar-se novamente, desconfortavelmente consciente da comichão nas mãos que anunciavam outro ataque de tremores. O ácido borbulhava-lhe furiosamente no estômago como água a ferver em cima de uma fogueira, e ele engoliu um grande trago de cerveja para o acalmar. Sentado sob um sol escaldante, ao lado do seu braseiro e da fogueira, sentia-se como se ele próprio estivesse a ser cozinhado, e ansiou pela hora em que pudesse fechar a tenda e deixar-se cair no seu cobertor atrás da banca. Durante os três dias da feira de São Rumon, ele arrendara a loja e os quartos, por isso a tenda seria a sua cama.

Arrotou e estremeceu, e viu os dois homens a olharem na sua direcção. Perante a expressão do rosto do mais jovem, Elias gelou. Era um olhar pleno de um desdém tão poderoso que Elias se sentiu a corar. Fez um gesto de desaprovação, mas, antes que pudesse falar, eles tinham ambos virado as costas e partido.

À medida que se afastavam, Elias encontrou outra figura a fazer sombra sobre as suas mercadorias.

- Sim, senhor? Oh...

Frei Hugo estendeu interrogativamente a tigela, e Elias deixou cair dois estorninhos lá dentro.

- Obrigado, meu filho - disse o frade, enquanto se afastava na mesma direcção dos venezianos.

- Jesus Cristo! - murmurou Elias, estacando quando outra figura apareceu. - Senhor, em que posso servi-lo? Oh, és tu. - Pelo menos não traz vestida a roupa do morto, pensou para si próprio.

Jordan Lybbe resmungou, mas Elias notou que a sua atenção estava noutro lado, e, quando seguiu o olhar de Lybbe, viu que estava pousado no frade e nos outros. Sem falar, Lybbe deixou a tenda e foi atrás deles.

Edgar pareceu perder a sua letargia assim que entraram nas movimentadas ruas temporárias do recinto da feira. Enquanto durou o interrogatório e o exame após a morte, ele não tivera que fazer, parecendo aborrecido com os acontecimentos, mas agora, mal chegaram à primeira série de lojas, ficou alerta, procurando em redor com a atenta concentração de um cão de caça à procura de um rasto.

O amo lançou-lhe um olhar longo e duro. Edgar devia gostar muito da mulher que escolhera, e isso não augurava nada de bom para o próprio futuro de Baldwin. Havia uma implicação preocupante: se Edgar se casasse, ainda quereria servir o seu senhor? Havia agora uma tendência para os homens livres deixarem os seus senhores e comprarem propriedades em cidades, para se tornarem comerciantes. Baldwin não sabia como seria capaz de gerir as suas propriedades sem Edgar a seu lado, perseguindo os servos feudais e certificando-se de que os negócios da propriedade corriam bem. Era com uma sensação de desgraça iminente que ele observava o criado.

Passaram pelas filas de bancos e mesas de cores garridas carregados de tecidos. Os buréis pesados e grosseiros eram agora raros, embora os vilãos mais pobres ainda dessem uso ao tecido barato e felpudo. Vários comerciantes locais estavam a vender um tecido de cor casta-nho-avermelhada juntamente com as peças mais baratas de cerca de doze metros de comprimento e um metro de largura. Baldwin viu um monge a discutir a qualidade das peças com um comerciante, e presumiu que o clérigo de aspecto pensativo, que abanava a cabeça em sinal de discordância só para fazer uma contra-oferta, devia ser o funcionário real encarregado da distribuição de esmolas da abadia.

Peter, quando Baldwin viu de relance o rosto do rapaz, estava encantado, observando tudo em seu redor com olhos escancarados de fascínio. O jovem nunca estivera numa feira. Nunca vira antes uma tal variedade de mercadorias; parecia que a produção do mundo inteiro se encontrava aqui, e tudo em profusão. Passaram por costureiros de luvas, alfaiates, sapateiros e curtidores. Havia velas, sabões, ervas de todas as espécies, especiarias, todas colocadas em recipientes, e sementes que vinham de tão longe como Constantinopla. Cada aia estreita continha novas atracções e maravilhosos artigos em exposição. O jovem monge ficou aborrecido pelo facto de Baldwin não os deixar parar enquanto não chegaram ao mercado do gado.

Aqui passaram alguns minutos a observar, à medida que um enorme animal de cor castanho-avermelhada era conduzido pelo picadeiro. Os seus furiosos olhos pretos fitavam os espectadores que observavam, e o regateio começou. Peter estava de boca aberta enquanto se gritavam ofertas. Chegou-se a um acordo rapidamente, e os licitan-tes chegaram-se todos à frente para pagarem a sua parte; segundo as leis da feira, era ilegal acumular provisões dentro da cidade, caso um comerciante tentasse ganhar o monopólio e, assim, causar escassez. Qualquer pessoa que fizesse uma oferta pela carne de um boi devia receber uma parte para evitar que um só negociante controlasse toda a carne.

Peter estava consciente de que outros voltavam a avançar, e caminhou atrás deles. Não se tinha apercebido de como o mundo era diversificado, e murmurou uma oração silenciosa, de si para si, à medida que se apressava a seguir os outros. Um pouco mais à frente na rua estreia, embateu em alguém e deixou cair o saco de couro onde tinha as penas e as tintas. Teve de se inclinar para as apanhar, e, quando se voltou a levantar, descobriu que já não via os outros. Olhou em redor com uma ansiedade súbita.

Havia pouco tempo que Peter era monge, e ainda servia no noviciado. Frequentara a escola da abadia durante alguns anos, mas passara pouco tempo fora da abadia propriamente dita. Agora, pela primeira vez, encontrava-se sozinho numa feira, e a massa de humanidade era assustadora. Apanhou o saco do chão, mas depois parou.

À sua frente aparecera um jovem casal. Conhecia Pietro da Cammino de o ter levado à estalagem na noite anterior, mas nunca pusera os olhos em Avice Polé.

Peter era jovem e impressionável, educado para venerar e idolatrar a imagem de Nossa Senhora, e, aos seus olhos, Avice Polé era um anjo. Era tão fina e bonita como as imagens da Mãe de Cristo esculpidas na igreja da abadia. Os seus grandes olhos verdes e o nariz ligeiramente arrebitado conferiam-lhe um ar de divertimento, como se ela pudesse ver o melhor em todas as pessoas e em tudo no mundo. Parecia uma alma amável e generosa, pensou ele.

O noviço observava-a ao passar. Pietro viu-o, mas ignorou-o: era apenas mais um monge, e havia bastantes em Tavistock por altura da feira, especialmente com os mendicantes, que passavam o seu tempo a pregar ou a pedir esmola; mas Avice, radiante, sorriu para Peter ao passar por ele, e esse simples reconhecimento derreteu o coração do monge.

Nesse momento, dois homens irritantes empurraram-no para o lado. Um era António, mas ele não conhecia Arthur Polé. Atrás deles vinha Luke, que o amaldiçoou, e, em seguida, Peter ficou mais uma vez só. Teve súbita consciência de que os outros deveriam ter avançado, e estava prestes a partir atrás deles, quando passaram por ele mais dois homens, apressados, e um deles era frade.

Peter não quis saber. A sua mente estava concentrada na graciosa criatura que lhe sorrira.

Luke sentiu um rápido desconforto quando se apercebeu de que empurrara um monge do seu caminho. Não fora sua intenção; pensara que se tratava apenas de mais um camponês mal vestido. Vislumbrara apenas nas vestes antes de afastar o jovem do seu caminho com uma cotovelada. Quando reparara na tonsura, era demasiado tarde.

Mas não havia tempo para pedidos de desculpa. António da Cammino, seu amo, mostrava o seu aborrecimento por seguir logo atrás do filho e da rapariga, e Luke era violentamente empurrado para lhes acompanhar o passo. A multidão que enchia as ruas amontoava-se junto a determinadas tendas, e, a cada enleio, António era obrigado a abrandar a marcha. Assim que podia, rompia em frente, tentando encurtar a distância que o separava do filho, e, de cada vez, surgia outro atraso para Luke, que era obrigado a abrir caminho. Era cansativo - e mais do que um pouco ridículo.

Luke esticou o queixo à medida que rompia através de mais um grupo. Entravam agora numa rua nova, e aqui, finalmente, a passagem estava quase desimpedida. Podia respirar um pouco mais facilmente, e alargou o passo.

O pai da rapariga parecia ao criado um homenzinho arrogante - forte, mas mole da vida fácil que levava. António e Arthur Polé mal olhavam na direcção um do outro, e Luke não estava surpreendido. A sua experiência dizia-lhe que os pais raramente ficavam entusiasmados quando eram os filhos a encontrar os seus próprios companheiros. Os pais desejavam arranjar alianças em que a riqueza pudesse casar-se com a riqueza, mas nem António nem o pai da rapariga sabiam fosse o que fosse um do outro. Os filhos tinham-se conhecido e tinham combinado caminhar juntos quase antes de os pais se terem apercebido do que estava a acontecer. Agora seguiam lado-a-lado, nenhum deles falava, mas absorviam ambos com sofreguidão as palavras dos filhos, não surgisse qualquer indiscrição.

Luke suspirou. Não era de admirar que o seu amo estivesse preocupado. A última coisa de que precisava era que o filho começasse um caso amoroso. Especialmente se se tomasse sério.

Lançou a Pietro um olhar duro. Luke nunca dera pelo facto de ele se ter interessado antes por raparigas. Que o fizesse agora, e pela filha de um burguês, era surpreendente: Pietro sabia quão pouco tempo dispunham para ficar em Tavistock. Mas, nos últimos meses, o criado vira sinais crescentes de revolta.

Era sempre assim. Os filhos haviam de procurar os seus próprios divertimentos, e, aparentemente, Pietro decidira que esta rapariga era interessante - ou possivelmente algo parecido com um desafio, emendou Luke. Era certo que o rapaz parecia apanhado por ela - mal podia tirar os olhos dela. O criado lançou à rapariga um olhar apreciador. Pietro escolhera bem. Ela parecia vulnerável, preparada para um ataque sério e maduro de um escudeiro mundano como Pietro. As suas histórias de viagens por terras estrangeiras, as suas roupas caras e modernas tornariam os seus encantos irresistíveis. Luke tinha alguma experiência de mulheres jovens e impressionáveis. Em determinada altura casara com uma, embora a deixasse para trás quando os franceses se aproximaram.

Isso fora alguns anos antes, quando ele vivia nas fronteiras orientais da Gasconha. Ganhava para ter uma vida suficientemente decente, e, se não fossem os ataques dos franceses e as capturas que estes fizeram dos defensores do território do Rei inglês, ele ainda lá estaria. Mas era conhecido que os franceses não gostavam daqueles que se tinham aliado aos ingleses, e, mal surgiram os primeiros arautos perto da sua cidade, ele selara o cavalo e fugira. Foi sob a dor das saudades de casa que se dirigira para Bordéus, para um local onde voltasse a ouvir vozes inglesas, mas os habitantes da cidade não eram caridosos, e, durante meses, ele quase morrera de fome, pedindo esmolas e tentando encontrar trabalho, antes de ter encontrado António e o filho. Olhou novamente o amo, vendo a raiva viva nos ombros rígidos de António, e abanou a cabeça. A rapariga poderia valer um trambolhão, mas ele perguntava-se se Pietro se teria apercebido dos sentimentos do pai.

 

Peter alcançou Baldwin e os outros junto às tendas de artigos de couro. A secção seguinte incluía os comerciantes de aves domésticas e os talhantes. Will Ruby estava lá, e Baldwin viu que ele observava o grupo com olhos que traíam a sua ansiedade.

Baldwin encontrava-se à entrada da rua em que os cozinheiros desenvolviam o seu negócio e olhou pela passagem estreita. Havia aqui um espaço aberto, onde as crianças corriam, jogando à apanhada, enquanto os pais, indulgentes, observavam. Os ricos e os pobres misturavam-se, todos a beberem ou a mastigarem a sua comida.

Simon tomou o peso à sua bolsa. O cheiro da comida fazia-lhe crescer água na boca. Cebolas e alho, pimenta e carnes de todas as qualidades estavam a cozer ou a assar em seu redor, à medida que ele se movimentava entre as tendas, e olhou os artigos expostos com um olho apreciador. Passara muito tempo desde que tomara o pequeno-almoço.

Holcroft ia à frente. Caminhava depressa, mas Simon bem via que ele observava as pessoas e os artigos expostos à medida que passava, e o beleguim ficou impressionado com a sua dedicação. Era óbvio que o homem levava as suas responsabilidades a sério, e estava sempre à procura de alguma infracção às regras da feira.

Elias viu Holcroft aparecer e resmungou de si para si. Estava prestes a ausentar-se por alguns minutos, para ir mergulhar a cabeça na água do bebedouro do gado. O seu crânio era uma espessa e densa erupção de dor e ele ansiava por lancetá-la. Com o Sol ardente por cima da sua cabeça a reflectir-se nas túnicas brancas e nos toldos coloridos, ele tinha de semicerrar os olhos para tentar minorar a agonia.

- Viva, David - disse ele, tentando parecer animado. - Como estás hoje?

- Estarei melhor quando tiver recebido o teu dinheiro.

- O meu dinheiro? Mas porquê?

- Sabes bem porquê. Avisei-te em relação ao lixo.

- Oh! Bem, tentei removê-lo, mas não fazes ideia do tempo que levei. Carreguei dez carros de mão para a estrumeira, mas depois...

- Cala-te, Elias - disse Holcroft com voz áspera. - Vou mandar o bedel para cobrar o dinheiro para a semana. Não quero saber das tuas desculpas. Especialmente porque...

Baldwin interrompeu-o subtilmente, antes que ele mencionasse quaisquer pormenores sobre o cadáver, apontando para um pastel e perguntando:

- Que recheio tem aquele?

Holcroft calou-se enquanto o cozinheiro estendia o braço para pegar na crosta dourada e elogiava o recheio de pato e presunto.

- Parece muito bom. Posso levar um. Mas, primeiro...

Esta foi a vez de Baldwin de ser interrompido. Um guarda de estatura corpulenta irrompeu pela multidão e dirigiu-se ao burgomestre.

- Está a ser feito um negócio entre o funcionário do Rei e um negociante de cavalos. A vossa presença é necessária para o testemunhardes. - Oh, por Deus! - resmungou Holcroft. Como burgomestre, era seu dever validar todas as grandes transacções. Havia pesadas multas para um negociante que não o mandasse chamar para testemunhar o seu negócio, pois a parte que cabia à abadia dependia da marca do burgomestre constante nos papéis.

Holcroft lançou um olhar incomodado a Baldwin, que disse, num tom compreensivo:

- Deixai isto connosco. Podemos informar-vos mais tarde do que está a acontecer.

O burgomestre acenou com a cabeça, os olhos a passarem de Simon para Baldwin, enquanto o guarda, irritado, batia na espada com as pontas dos dedos, olhando depois para Elias.

- Diz a estes cavalheiros a verdade, Elias. Eles estão aqui a representar a autoridade do Abade. Se eu souber que disseste disparates, venho verificar o peso de todos os teus artigos, estás a perceber? E por cada pastel que estiver abaixo do peso, apanhas um dia no pelourinho.

Com a boca escancarada de consternação, Elias viu o burgomestre afastar-se, seguido de perto pelo guarda.

- Ele estava a falar de quê?

- Elias, sois proprietário da loja ao lado da de Will Ruby, não é verdade?

O cozinheiro fechou a boca com um ruído surdo. Baldwin via que o homem estava nervoso, e as mãos tremiam-lhe com o tique ocasional do bebedor inveterado. Isso, pensou o cavaleiro, explicava a sua pálida compleição. Baldwin não bebia excessivamente, e tinha pouco respeito por aqueles que o faziam. Na sua opinião, eram, invariavelmente, loucos ou estúpidos. A experiência ensinara-lhe que apenas aqueles que tinham passado por um grande choque ou os fracos de espírito se refugiavam na bebida em demasia. Elias parecia uma criatura bastante patética, do tipo que se desagregava ao primeiro golpe do destino. Tinha o rosto magro e sardento, sob uma grenha rebelde de cabelo vermelho-acastanhado. O nariz fino e os olhos próximos um do outro conferiam-lhe um ar manhoso, e os lábios cor-de-rosa e carnudos davam-lhe uma aparência doentia, como se sofresse de alguma doença.

- Onde estivestes a noite passada, Elias? - perguntou Baldwin.

- Porquê? Quem sois? - inquiriu Elias, lançando um olhar breve a Peter, à medida que o monge estendia o papel e começava a escrever.

- Sou Baldwin Furnshill, Defensor da Paz do Rei em Crediton, e este é Simon Puttock, burgomestre do Castelo de Lydford. O Abade pediu-nos que investigássemos um assassínio. Onde estivestes a noite passada?

- Estive aqui.

- Onde estivestes antes disso, Elias?

- Levei séculos a preparar tudo isto.

- Compreendo. Deixai então que vos diga onde estivestes. Estivestes na taberna perto da vossa loja, não é verdade?

- Se sabeis, por que perguntais? Simon insistiu, uma certa irritação na voz:

- Elias, estamos a trabalhar para o Abade, tentando solucionar um assassínio.

O cozinheiro olhava, carrancudo, de um para o outro:

- Está bem - disse indelicadamente. - Estive na taberna.

- Assim está melhor. Quem mais lá estava? - perguntou Baldwin.

Elias estremeceu, à medida que uma dor aguda lhe apunhalava a têmpora. Sentou-se no barril e cerrou um pouco os olhos, enquanto olhava para cima, para o Defensor da Paz.

- Era o início da feira, havia lá montes de gente.

- Quem é que reconhecestes, Elias? - perguntou Baldwin, agora menos amável.

- Reconheci várias pessoas: o próprio burgomestre esteve lá mais tarde. A uma mesa estavam sentados quatro guardas de Denbury; aquele que veio agora mesmo chamar David era um deles. Torre, que vive no caminho para Ashburton, também lá estava, assim como um mercador com a esposa e a filha. Ah, e três homens com um monge a servir de guia, embora não tivessem ficado. Eu nunca os tinha visto antes.

- Como eram eles? - perguntou Baldwin.

Elias encolheu os ombros. Para ele, todos os mercadores que visitavam a feira eram iguais. Começou a repor alguns pastéis e carnes.

- Eles estiveram aqui, foi por pouco que não os encontrastes. Calculo que sejam pai e filho. Parecem-se um com o outro.

- O homem com quem estivestes sentado - disse Baldwin, observando atentamente o rosto do cozinheiro. - Quem era?

- Perdão?

Havia na voz dele uma nota de incerteza que captou o interesse de Baldwin.

- Na taberna, estivestes sentado com um homem durante um bom bocado. Tomastes muitas bebidas com ele. Mais tarde deixastes a taberna com ele. Quem era?

- Ninguém... Era apenas alguém que veio ter comigo e que queria conversar.

- Deixastes a taberna juntos, por isso aonde fostes? - pressionou Simon.

- Não fomos a lado nenhum. Ele, por acaso, saiu da taberna ao mesmo tempo que eu ia a sair para ir à casa de banho, é só isso.

Baldwin fixava-o e os olhos de Elias baixaram para o chão.

- Está morto. Assassinado

O cozinheiro deixou cair um pastel. Fixou o cavaleiro com a boca aberta de choque.

- Não! Ele... não pode estar!

Simon observava-o, confuso. Elias não ficara surpreendido ao ouvir dizer que houvera um assassínio, mas o choque que revelara ao ouvir falar do seu companheiro não foi certamente fingido.

- Passastes o serão com um homem de jaqueta de couro vermelho, e deixastes a taberna com ele. E agora descobrimos que um homem de jaqueta de couro vermelho foi assassinado e escondido no vosso lixo. Afinal quem era ele?

Elias recuou sob a explosão do rugido súbito do cavaleiro.

- Senhor, eu... - Elias tremia. Este interrogatório estava a confundi-lo, e lamentava as cervejas que bebera na noite anterior. Os dois homens numa pose tão agressiva à sua frente, o moreno e irritado, a cicatriz a brilhar-lhe na face, e o mais jovem, o beleguim, um sorriso sinistro no rosto ao ver Elias contorcer-se de embaraço - ambos o faziam recear pela sua liberdade.

Mas ele não fazia ideia como escapar-lhes. Sentia-se como um coelho apanhado numa armadilha: podia tentar libertar-se, mas só correndo o risco de prejudicar Jordan. No entanto, se ficasse calado, sem tentar proteger-se, podia ser preso.

Era óbvio que alguém o teria visto sair da taberna, mas como é que ele poderia ter sabido que o corpo seria descoberto tão depressa, e que ele fosse relacionado com Jordan tão facilmente? Abanou a cabeça, tentando limpá-la do nevoeiro que lhe entorpecia o cérebro. Era impossível dizer-lhes a verdade. Esse caminho levava à destruição. Ocorreu-lhe uma saída.

- Senhor, não sei quem ele era.

- Estais a mentir - disse Simon. - Já sabemos que ele perguntou por vós. Espereis que acreditemos que ele vos conhecia e que, no entanto, não sabíeis nada dele?

- É a verdade - protestou Elias teimosamente.

- Não - disse Baldwin, secamente. - Não é verdade. Conhecíei-lo. - Elias abanou a cabeça. A Baldwin ele parecia tão decidido como uma mula. Cedendo a um impulso, o cavaleiro baixou o tom de voz. - Por que é que um homem apunhala a sua vítima e depois lhe corta a cabeça?

- Cortaram-lhe a cabeça? - Elias curvou o lábio, surpreendido.

- Mais do que isso - disse Simon secamente. - Levaram-lhe a cabeça. Não sabemos onde está.

De súbito, Elias tremeu, como se tivesse sido atacado por uma sezão. Baldwin estava convencido de que o homem não estava a representar. Não havia nada de novo num homem assassinado com uma faca - quase todos os assassínios eram cometidos com facas ou adagas. Mas retirar a cabeça de uma vítima era completamente diferente.

- Quem faria... porquê? - balbuciou o cozinheiro. - Quero eu dizer, para que é que alguém faria uma coisa dessas?

Simon cruzou os braços e encostou-se ao apoio do toldo.

- É uma boa pergunta - disse.

- Elias, por que é que não nos quereis dizer quem era o homem que estava convosco ontem à noite? - perguntou Baldwin.

- Não o conheço - teimou Elias em afirmar. O cavaleiro observava-o com ar irónico.

- Estivestes séculos com o homem. É óbvio que o devíeis conhecer. No entanto, persistis nesta ridícula negação. Talvez devêssemos mudar-vos para a cadeia para poderdes reconsiderar.

Ambos viram o medo e a dúvida ensombrar a visão do homenzinho. Simon sentia apenas desprezo. O cozinheiro era fraco. Por qualquer razão, estava com medo de deixar a verdade vir à superfície. Mas a sua própria fraqueza foi o que fez Baldwin duvidar de que Elias fosse capaz de assassínio. Deu consigo a recordar o cadáver. Era forte e largo, com peito de barril, o corpo de um homem no auge da sua saúde e força. Em vida, deve ter tido uma estatura um pouco acima da média. Os ombros e os bicípites caracterizavam-no como uma figura poderosa.

O cavaleiro considerou o homem frágil que se encontrava à sua frente. Seria uma personagem tão patética capaz de homicídio, perguntava-se - especialmente do homicídio de um homem forte que estava em forma e que era saudável? Baldwin conhecera bastantes assassinos que estavam dispostos a escorregar por uma rua estreita e escura para dominarem a sua presa, mas Elias não tinha ar de ser um deles. A sua expressão era inocente, meramente determinada.

Baldwin vira aquela expressão antes, e, por um momento, perguntou-se onde, vindo-lhe depois à cabeça. Apanhara uma vez um rapaz num dos seus prados, e as ovelhas aterrorizadas corriam por todo o lado. Desaparecera um cordeiro, e o cavaleiro enraivecido acusara o rapaz de roubo. Enquanto, em tom de desafio, negava toda a cumplicidade, o rapaz recusara dizer o que tinha acontecido. Só mais tarde, quando Baldwin encontrara o cordeiro desaparecido, morto e parcialmente comido, é que descobrira a verdade. O cão do rapaz perseguira as ovelhas e os cordeiros. Capturara um deles e fugiu com ele. Mas o cão era o único amigo e companheiro do rapaz. Este preferia ser, ele próprio, castigado, do que ver o seu cão morto.

O cavaleiro olhava o cozinheiro pensativamente. Não prenderia Elias ainda, decidiu. Não havia qualquer lógica na sua decisão; baseava-se simplesmente no seu sentido de justiça. Elias não era nenhum salteador. Certamente que quem quer que matara e decapitara o corpo, deixando-o no lixo, não era nenhum fracote mas um homem forte e poderoso por direito próprio.

Não, pensou ele. Por agora, deixaria o cozinheiro. Se houvesse mais provas concretas contra ele, poderia prendê-lo mais tarde. Para já, Baldwin estava satisfeito por deixá-lo debaixo de olho.

Mas quando chegou ao fundo da rua estreita na qual ficava situada a tenda de Elias, não pôde deixar de sentir que estava a correr um risco.

- Edgar - disse para o seu escudeiro -, penso que Elias não é o assassino, mas ele sabe alguma coisa. Fica aqui e vigia-o. Não quero que ele desapareça.

Lybbe estava dividido sobre que grupo seguir. Avice e o pai estavam a dirigir-se para a zona dos comerciantes de especiarias, ao passo que parecia que os italianos iam de regresso à abadia. Enquanto hesitava, vislumbrou o frade.

Hugo encontrava-se a alguns metros dele, a tigela a baloiçar e a tocar-lhe de lado, e olhava os italianos com uma expressão de dúvida estampada no rosto. Lybbe observava-o com interesse crescente. Todo o caminho, desde que deixara a tenda de Elias, reparara no frade que seguia à sua frente, mas não se apercebera de que o clérigo perseguia a mesma presa. Descobrir outra pessoa com curiosidade em relação ao objecto da sua perseguição fazia-o sentir um alívio a roçar a euforia. Se o frade também tinha dúvidas sobre eles, Lybbe não poderia estar completamente errado.

Se se tivesse tratado de um padre, Lybbe não teria colocado a hipótese de dizer alguma coisa ao homem, mas este era um frade, um monge franciscano. Sabia muito bem que a Ordem tinha as suas ovelhas negras, mas este frade errante, com o seu hábito sujo e a tigela de esmolas a acusar muito uso, parecia honesto. Tinha a aparência de um homem que levava a sério os seus deveres. Lybbe perguntou-se se se poderia confessar a este e contar-lhe a sua história. Os franciscanos eram conhecidos por atribuírem penitências leves, agindo com base na teoria de que uma penitência leve que fosse executada era melhor do que MICHAEL JECKS uma penitência dura que pudesse ser ignorada com perigo para a alma em questão.

Hugo levantou as mãos, indeciso, e deixou-as cair com aparente desânimo. Lybbe, observando-o com atenção, viu a sua irresolução. Devagar, o clérigo regressou penosamente colina acima, para longe dos Polé e dos Cammino. À medida que ele se aproximava de Lybbe, o mercador estremeceu ao aperceber-se de quem se tratava; isso fê-lo decidir-se.

- Irmão, queríeis alguma coisa para a vossa tigela? Hugo levantou o olhar na direcção daquela voz calma.

- Obrigado, mas tenho tudo de que preciso - nessa altura os olhos escancararam-se-lhe. - Vós!

- Irmão, quereis ouvir a minha confissão?

 

Holcroft acenava com a cabeça, à medida que os pormenores eram lidos, e tirou da bolsa o selo oficial. Bateu com ele na cera derretida quase antes de o funcionário ter acabado de colocar uma quantidade suficiente no pergaminho, e disse com brusquidão, antes de sair apressado:

- É tudo?

Tencionara encontrar uma taberna para matar a sede - não sentia qualquer desejo de voltar a ver o beleguim nem o cavaleiro imediatamente, mas tinha de passar pelo mercado dos cavalos. Aí, gastou algum tempo a andar de um lado para o outro, observando os animais a serem levados em parada em volta do picadeiro, antes de serem exibidos. Era sempre excitante ver os moços de lavoura a montarem os seus cavalos campo acima e campo abaixo, para demonstrarem a sua velocidade e vigor.

Virando-se para ir buscar uma caneca de cerveja fresca, encontrou um pequeno grupo de guardas atrás de si. Quase esbarrou neles. Fazendo um gesto de aborrecimento, fez-lhes sinal para que lhe saíssem do caminho, mas eles não se moveram, e, com uma sensação de repugnância, viu que eram os homens de Denbury.

- O que há?

- Senhor - era Jack Grande. Os seus olhos escuros transbordavam de uma reservada preocupação. - Houve um roubo.

- E depois? Informai-vos dos pormenores e descobri o criminoso. Por Deus, terei de ser eu a fazer tudo? - Em seguida gelou, ao ver o rosto do homem. - O que é?

- É melhor virdes connosco, burgomestre.

Seguiu atrás deles. Se era suficientemente mau para que Jack Grande tivesse medo, devia ser, de facto, um acto terrível. Deu consigo a ficar para trás, à medida que os homens abriam caminho através da multidão, relutante em encontrar qualquer prova que eles lhe pudessem impingir. Primeiro um homicídio, agora um roubo, e ambos tinham de acontecer no ano em que ele era o responsável.

Para sua surpresa, descobriu que estava a ser levado em direcção à zona dos comerciantes de carne. O recinto destinado à luta de touros com cães estava agora vazio - o gado ferido estava a ser morto e ainda não tinha chegado um novo reforço. Os homens levaram-no rua acima, para o talho de Will Ruby. Aí, recuaram respeitosamente, deixando espaço para que o burgomestre entrasse, e, depois de lhes lançar um olhar desconfiado, caminhou de lado para trás da mesa da banca e dirigiu-se ao espaço que se encontrava ao fundo.

Ruby estava deitado numa enxerga baixa, pálido, enquanto a mulher, em silêncio, lhe segurava um pano húmido junto à têmpora. Quando ouviram Holcroft aproximar-se, ela saltou para trás, e o marido agarrou num bastão guarnecido de pregos que guardava ao lado da cama improvisada. Ao ver o burgomestre, deixou-o cair com uma expressão de vergonha no rosto.

- Mas afinal que se passa? - perguntou Holcroft, admirado. Nunca vira o talhante comportar-se assim antes. Aquela atitude não tinha nada a ver com ele, mesmo tendo sido assaltado.

- Desculpa, David. É este ataque, que me tornou um pouco aterrorizado.

- Quem foi, reconheceste-o? Ruby dirigiu-lhe um olhar estranho.

- Não, nunca o tinha visto antes.

- Como era ele?

- O guarda não te disse?

- Não me disse o quê?

- Burgomestre, foi um monge! Um maldito monge foi quem me assaltou!

 

O Abade Champeaux fez sinal aos homens para que se sentassem. Peter, junto à porta, andava nervosamente de um lado para o outro, sem saber se deveria entrar nos aposentos privados do Abade, e ficou encantado, embora secretamente receoso de cometer um faux pas em tal companhia, quando o Abade lhe acenou para que entrasse e lhe apontou uma cadeira.

Simon entrou atrás do amigo e ficou surpreendido ao vê-lo parar quando dera apenas alguns passos no interior. Foi então que viu porquê. O Abade estava sentado na sua grande cadeira à cabeça da mesa, enquanto os criados se ocupavam a preparar bacias, toalhas e água para o banho. Ao lado do Abade encontrava-se a esposa de Simon, e, junto a ela, havia outra mulher.

O beleguim sempre considerara a esposa a mulher mais adorável que alguma vez vira: o corpo de Margaret era esbelto mas forte, o rosto ainda não apresentava rugas nem quaisquer marcas deixadas pelo desgosto que tão frequentemente tornava as feições prematuramente macilentas, e o seu cabelo loiro e espesso brilhava como uma chama ao sol do Verão. Mas a mulher que se encontrava ao lado dela distinguia-se por uma beleza de outro tipo.

À medida que o Abade o apresentava à senhora, Baldwin ficou preso ao sítio. Via um misto de tranças ruivas e douradas a saírem-lhe do toucado, o que contrastava com os seus brilhantes olhos azuis. Tinha o rosto regular, talvez um pouco redondo. O nariz era curto e demasiado pequeno. A boca parecia rasgada de mais e o lábio superior era muito carnudo, conferindo-lhe um ar teimoso. A testa era larga e alta: mas o cavaleiro considerou que a soma destas imperfeições era a perfeição total.

- Jeanne? Não é um nome daqui, pois não? - perguntou ele. Ela sorriu, e ele ficou secretamente encantado ao ver como as faces dela formavam covinhas.

- Não, senhor. Deram-me o nome em Bordéus.

- Estais hospedada na abadia?

- O Abade deu-me um quarto de hóspedes perto do portão do pátio. Era aí que eu costumava ficar com o meu marido quando vínhamos à feira.

O Abade interrompeu.

- É possível que saibais, Sir Baldwin, que, na condição de Abade de Tavistock, eu possuo um título de barão. Tenho de manter alguns cavaleiros para formarem o exército em tempo de guerra. Sir Ralph era um deles. Não foi nada arranjar um quarto disponível para a sua viúva.

- Viúva?

- Infelizmente, Sir Ralph de Liddinstone apanhou febre no início do Verão.

Febre, pensou Jeanne, dificilmente descrevia a terrível agonia dos seus últimos dias. Ela nunca pensara que um homem tão robusto sucumbisse com tamanha rapidez. Mas ela sentia-se grata por assim ter acontecido.

O marido fora um bruto. Ela podia agora admiti-lo. De início, Ralph correspondera aos seus ideais de um cavaleiro verdadeiramente cortês, sendo amável e atencioso, encantador e dócil - mas isso mudara quando ela não pudera dar-lhe filhos. Ele culpou-a disso, como se ela estivesse deliberadamente a negar-lhe um herdeiro. De cada vez que um amigo dele anunciara o nascimento de outro filho, Ralph olhara-a mais sombriamente, até que, por fim, a agredira.

Da primeira vez, o choque dela foi tão grande que não sentiu realmente qualquer dor, mas, a partir daí, ele começara a beber cada vez mais, amuando no átrio, e depois, como que para evitar deitar-se com ela, esmurrava-a ou dava-lhe pontapés, agredindo-a uma vez nas costas nuas com um cabo de chicote de montar.

Não! Jeanne sentia-se grata por Deus lho ter levado.

Baldwin viu a tristeza fugidia nos olhos dela.

- Senhora, peço-vos perdão se, sem pensar, vos fiz lembrar de...

- Não é nada - disse ela com frieza, dirigindo-lhe um olhar que lhe fez inchar o coração. -Já passou tudo. E o Abade tem sido muito amável.

- Minha cara, eu não fiz nada. A abadia tem o dever de providenciar hospitalidade.

- Abade, deixastes-me ficar em vossa casa, emprestastes-me o vosso camareiro para que haja a certeza de que a casa é bem gerida durante as colheitas para que tenhamos comida para o Inverno, e fizestes de mim vossa amiga. Isso é muito mais do que nada.

Baldwin acenou com a cabeça. Muitos abades e priores haveriam de querer pôr uma viúva fora para que as suas terras pudessem ser mais eficazmente controladas por um homem. Esta atitude do Abade confirmava a impressão de amabilidade e generosidade que ele formara antes sobre o clérigo.

- Então... viestes à feira?

- Sim. O meu marido e eu costumávamos vir todos os anos à Feira de São Rumon, e o Abade teve a gentileza de me convidar novamente, embora eu agora seja viúva.

Margaret quase incrédula, viu que o amigo Baldwin gostava e estava mais interessado nesta mulher do que em todas as outras que ela fizera desfilar à frente dele durante os últimos anos. Soltou um leve suspiro de frustração por todo o trabalho que tivera ter sido perdido, mas depois examinou Jeanne atentamente. Aparentemente, ele sentia-se atraído por esta mulher ruiva de Liddinstone: se ela podia fazer Baldwin feliz, Margaret faria tudo ao seu alcance para se certificar de que ele a conquistava.

Ao ver que Baldwin estava estupefacto, Margaret virou-se para ela.

- Jeanne, tenho de fazer várias compras na feira, e o meu marido e Baldwin deixam muito a desejar como companhia, especialmente quando têm a desculpa de um homicídio a investigar. Gostaríeis de ir comigo à procura de tecido e louça e talheres de ouro ou prata?

Jeanne lançou um olhar rápido ao cavaleiro, que estava especado, inseguro. Ela via que ele procurava desajeitadamente as palavras, e a visão da timidez do cavaleiro era um bálsamo para a sua alma, após anos a dizerem-lhe que não valia nada porque era estéril.

- Ficaria encantada.

O Abade era idoso agora, mais velho do que muitos, mas não lhe escapara o interesse que vira nos olhos de Jeanne, quando esta observava Baldwin. Seria realmente agradável, sentia ele, se a feira de São Rumon pudesse unir um casal como este. Costumava comer no refeitório com os seus monges, e convidava muitas vezes os seus hóspedes para se lhe juntarem aí, mas não seria conducente para a concentração dos monges ter mulheres entre si, e seria igualmente impensável para o Abade deixá-los numa sala separada, por isso, hoje, decidira convidar os seus hóspedes para comerem com ele no seu salão. Agora perguntava-se se essa decisão poderia levar a um resultado feliz.

- Então, SirBaldwin, tivestes êxito?

- Hum? Ah, descobrimos alguma coisa, mas aquilo que descobrimos parece apenas aumentar a confusão. Pensamos que o homicídio ocorreu por volta do toque das Completas - o homem que pensamos ser a vítima foi visto a deixar a taberna logo a seguir ao toque dos sinos. Mas ainda não podemos confirmar quem era o morto.

- Pelo menos isso afasta as atenções de nós - disse o Abade, acenando com a cabeça a Jeanne. - Estávamos aqui com os meus convidados venezianos quando tocou o sino das Completas.

Jeanne perguntou:

- Ninguém o reconhece?

- Sem cabeça, não. Era mercador, tanto quanto se sabe, e sabeis a quantidade de mercadores que vêm cá à feira. Até encontrarmos a cabeça, é difícil provar quem o homem era.

- Meu bom Deus! Quer dizer que podemos nunca vir a saber quem a pobre alma era - suspirou o Abade.

- É possível. No entanto, avançámos um pouco - disse Baldwin, e contou-lhes as conversas que tivera com a proprietária da taberna e com o cozinheiro.

- E isso não vos dá um motivo para prenderdes Elias? - perguntou o Abade, sem estar certo. - Se ele deixou a taberna com o homem, e o homem não voltou a ser visto com vida, certamente que isso aumenta as probabilidades de ter sido ele a cometer o assassínio.

- Quanto mais penso nisso, mais me convenço de que é improvável que Elias seja o assassino. Ele não pode ser tão estúpido! Se Elias fosse o assassino, por que deixaria ele o corpo tão próximo da sua loja? Se ele quisesse esconder o corpo, levá-lo-ia lá para dentro, certamente, e escondê-lo-ia melhor. E se foi mesmo ele que apunhalou o homem e lhe cortou a cabeça, teria estado coberto de sangue, mas ele regressou à taberna sem quaisquer manchas ou outras marcas nas roupas. E, mais uma vez, se ele matou mesmo o homem, onde é que poderia ter escondido a cabeça? A proprietária da taberna disse que ele regressou pouco depois de ter saído.

- Há algumas coisas que podíamos verificar - disse Simon, pensativo. - Podíamos revistar-lhe a casa. Se ele teve pouco tempo para esconder a cabeça, certamente que estaria lá dentro. Talvez encontremos sangue ou qualquer outra coisa que o incrimine.

- É uma boa ideia - disse Baldwin. Olhou para o Abade. - Poderíeis tratar das coisas para que nós o façamos?

- Falarei com Holcroft e dir-lhe-ei que mande um guarda convosco - disse ele. - Por enquanto, não fiqueis com esse ar tão irritado! Só podeis fazer o vosso melhor; e é difícil ver como é que se poderia esperar que resolvêsseis um homicídio, quando nem sequer sabeis quem o morto era.

Margaret viu Baldwin sorrir educadamente, mas conhecia-o demasiado bem para acreditar que era um sorriso genuíno. O cavaleiro não gostava de enigmas. Queria sempre descobrir a verdade em qualquer situação, e ela estava convencida de que ele estava irritado com a escassez de factos sobre os quais pudesse construir um caso. Ela viu-o abrir a boca, mas, antes que pudesse falar, alguém bateu à porta. Um monge abriu-a e recuou para deixar entrar as visitas.

Peter encontrava-se de pé junto à porta, e, quando levantou o olhar, viu os venezianos. Vê-los fê-lo lembrar-se da rapariga, e a lembrança fez-lhe aflorar o sangue no rosto. Mal ouviu as apresentações do Abade.

- Ah, meus amigos, apresento-vos António da Cammino e o seu filho Pietro, de Veneza. Visitaram o Bispo de Exeter, e vieram cá para ver a feira e descobrir se poderiam lucrar com ela.

À medida que o Abade se dirigia a todas as pessoas presentes na sala e as apresentava aos italianos, Margaret reparou que o jovem não fazia qualquer esforço para mostrar interesse. Mal se deu ao trabalho de retribuir o olhar dos homens a que era apresentado, e depressa caminhou para a janela, espreitando lá para fora com aparente petulância.

O pai estava visivelmente desconcertado perante tal grosseria, e lançou um olhar desesperado em direcção às costas do filho. Margaret aproximou-se para falar com ele. Seria imperdoável para os dois discutirem nos aposentos do Abade.

- Senhor, acabastes de chegar?

- Não, já há um dia que cá estou - ela ficou surpreendida pelo facto de ele falar num inglês perfeito, apenas com um ínfimo traço de sotaque. Ele viu a atrapalhação dela, e o seu rosto adquiriu uma expressão mais leve. - Estais surpreendida por me ouvirdes falar a vossa língua tão bem? Nasci neste país. O meu pai era mercador e, quando eu era pequeno, viveu aqui durante longos períodos. Aprendi inglês antes de aprender a minha própria língua.

- E voltais a Inglaterra com frequência? Estais agora aqui em negócios?

Era difícil adivinhar-lhe a idade, pensou ela. O aspecto dele era intemporal, com um porte tranquilo que era inteiramente estrangeiro. Os olhos enrugavam-se-lhe numa encantadora e lisonjeira avaliação.

- Sim, estou aqui para discutir assuntos com o senhor Abade.

- Mas tereis algum tempo para vos divertirdes? - perguntou ela. - Para visitardes a feira e verdes as coisas que estão à venda?

- Oh, sim! Já estive na feira para ver que tipo de mercadorias estão a ser oferecidas. Há mais variedade aqui do que em muitas outras feiras, especialmente em Veneza. - Os olhos dele deixaram-na e pousaram no filho, que estava de pé com as costas viradas para as pessoas presentes na sala, um braço apoiado à parede junto à janela.

- E vós, Pietro? - perguntou ela, à medida que ele se virava para encarar os outros.

- Eu, signora? Perguntais sobre diversões? Não há nada que eu queira nesta cidade, excepto uma coisa - disse ele calmamente. - Mas essa coisa não me é permitida.

- Se tudo o que sabes fazer é censurar e resmungar, deixa-nos e procura o teu próprio divertimento! Não insultes a hospitalidade do Abade - disse-lhe o pai com frieza.

Fez-se silêncio na sala, à medida que os dois homens se olhavam, o filho pálido, o homem mais velho com um brilho de raiva nos olhos cinzentos-claros. O jovem abanou a cabeça num gesto rápido de desespero, e saiu da sala.

O Abade deitou vinho a António e apontou-lhe uma cadeira, e o homem, embaraçado, encolheu os ombros ao mesmo tempo que a aceitava.

- Devo pedir desculpa pelo meu filho. Lamento que ele tenha sido tão indelicado, Abade, meu senhor.

- Os jovens são tantas vezes difíceis de compreender... - observou Champeaux.

Enquanto os homens conversavam, Margaret estava sentada a um canto comjeanne. A conversa dos homens girava em torno dos negócios da feira, e ela não estava interessada. Assuntos de finanças, como, por exemplo, quantos visitantes se esperavam nos três dias de feira, quantos cavalos seriam vendidos e se os próprios representantes do Rei na área dos têxteis se dignariam vir, não suscitavam nela qualquer interesse. Para Margaret, o único interesse da feira consistia em ver todas as mercadorias em exposição e em comprar qualquer coisa para a filha, que ficara em Lydford.

- Estivestes casada com SirRalph durante muito tempo? - perguntou ela, a experimentar.

- Durante cinco anos, penso.

- Deveis ter achado a charneca uma paisagem estranha, depois de ter vindo de Bordéus.

- E achei, embora me lembrasse de alguma coisa. Fiquei órfã quando era pequena, e o meu tio levou-me para viver com ele em Bordéus, mas, antes disso, eu tinha vivido não muito longe de Tiver-ton, a Norte, por isso, voltar a ver Devon foi ver a terra onde eu deveria ter estado a viver, se os meus pais não tivessem morrido. A única dificuldade foi viver tão longe de uma cidade, mas depressa me habituei a isso.

Margaret acenou com a cabeça. Ela podia imaginar que, para um habitante de uma cidade, a mudança para os ermos de Dartmoor teria sido difícil.

- Quando eu regressar a Lydford, tendes de ir visitar-nos. É difícil para uma viúva quando há tão poucas pessoas a viverem perto. Fareis novos amigos entre as pessoas que conhecemos em Lydford.

- Seria muita amabilidade da vossa parte - disse Jeanne, e o olhar dela pousou em Baldwin. Quando voltou a olhar Margaret, tinha o sobrolho levantado, numa pergunta muda, e Margaret teve de reprimir um risinho. Não fazia ideia de que o seu plano fosse tão transparente.

- Tendes filhos? - perguntou ela, e viu uma sombra passar pelo rosto da sua nova amiga.

- Não, nenhum. Tem sido o desgosto da minha vida.

- Nós temos apenas uma filha. O nosso filho morreu no ano passado - disse Margaret com voz calma.

Esta era a primeira vez que ela se sentira capaz de deixar a filha desde que o filho, Peter, morrera. Quando ele se fora, ela quase sofreu uma febre cerebral, especialmente porque se sentira como se tivesse também perdido o marido. Simon sempre fora um modelo de marido, mas sentia muito intensamente a falta de um filho. Quando Peter nascera, Simon ficou encantado, vendo no rapaz um futuro companheiro que daria continuidade ao seu nome, e talvez dar início a uma dinastia que se poderia transformar numa família nobre. Quando o filho falecera, o choque fora ainda maior.

Margaret olhou-o. Simon estava a ouvir a conversa e a acrescentar os seus próprios comentários. Os homens falavam agora de estanho, e ela via que o Abade estava satisfeito com o que ouvia do seu beleguim. Ela sabia que Simon era respeitado entre os mineiros porque demonstrara ser sensato e justo, protegendo os interesses dos mineiros de estanho sempre que podia, mas castigando-os quando tentavam passar das marcas. O facto de ver o Abade tratar as observações do marido com tal respeito despertou nela uma sensação de orgulho. O Abade Champeaux era um homem importante em Devon.

Baldwin, ela bem via, ainda pensava no problema do homem assassinado. Ela desejava que eles voltassem a discutir o homicídio. Era de longe mais interessante do que esta conversa sobre metal e lã. A sua atenção deambulou até às feições ansiosas de António da Cammino. O homem olhava fixamente a porta pela qual o filho saíra, e, ao fitá-lo, Margaret sentiu um pouco da sua dor. Margaret era uma mulher sensível, nascida e criada numa quinta, e vira como os seres jovens podiam virar-se contra os pais. Ver a expressão de António lembrava-lhe que, independentemente de quanto os pais pudessem ser cuidadosos, os filhos podiam sempre revelar-se uma decepção. Por um instante, perguntou-se como é que o seu falecido filho teria sido.

Simon viu a súbita falta de brilho nos olhos da esposa e deixou rapidamente a conversa, trazendo o jarro para servir mais vinho a Margaret.

Enquanto falava com o Abade Champeaux e Cammino, Baldwin reparou que Margaret e Simon estavam juntos. Pareciam novamente felizes um com o outro, agora que ambos tinham ultrapassado a tristeza. Podia observar com prazer o afecto existente entre Simon e a esposa, mas, por vezes, isso recordava-lhe a sua própria solidão. Interceptou então um olhar apreciador de Jeanne.

Esse olhar fê-lo pensar na sua posição. Quando se juntara aos Templários, fizera voto de castidade. No entanto, uma vez que a sua Ordem tinha sido destruída pela avareza do Papa, ele considerava os seus juramentos anulado. O Papa exigira obediência, e traíra depois os seus cavaleiros, por isso, como poderiam ser válidos os juramentos de pobreza e castidade?

Baldwin sentia-se orgulhoso por não ter sucumbido ao desejo, como faziam tantos dos seus pares com tanta regularidade, mas podia admitir para si próprio que, agora que se encontrava à deriva no mundo secular, sem o grande objectivo dos Templários a comandar a sua vida, sentia as mesmas necessidades que os seus iguais. Queria uma esposa para companheira. E queria um filho para dar continuidade ao seu nome.

A sua atenção foi chamada à realidade quando o veneziano falava.

- Abade, meu senhor, ouvi dizer que foi encontrado um homem morto. É verdade?

- Receio que sim, António. Parece que foi morto na rua, perto da taberna da estrada de Brentor.

- Que pena, pobre homem - disse Cammino, abanando a cabeça.

- Sim. Sinto-me verdadeiramente afortunado por ter aqui Sir Baldwin e Simon. Eles são experientes a descobrirem assassinos. Tenho a certeza de que em breve descobrirão o homicida.

- Sim, sem dúvida - Cammino ficou pensativo, por um momento, olhando depois para a porta. - Abade, meu senhor, minhas senhoras, Sir Baldwin, Simon, receio dever ir à procura do meu filho e assegurar-me de que não está a fazer uma triste figura em qualquer outro lugar - deixou-os, e o criado seguiu-o em direcção à saída.

Quando Baldwin captou de relance a expressão do Abade, viu que revelava alívio. Champeaux não fez qualquer esforço para esconder os seus sentimentos.

- Bem se diz que o pior inimigo de um homem é o seu filho, o filho sabe sempre como magoar. Então, Sir Baldwin, há mais alguma coisa de que necessiteis para conduzirdes o vosso inquérito?

- Hmm? Oh, não - o olhar do cavaleiro estava firmemente agarrado à porta pela qual tinham saído os dois venezianos. - Não, penso que tenho tudo de que necessito, obrigado.

- Óptimo. Nesse caso, jantemos. Sei que eu tenho fome!

 

Holcroft caminhava num passo lento e cauteloso em direcção às tendas dos vendedores de cerveja. Mais do que antes, sentia que precisava de uma bebida, e não de uma cerveja fraca.

Um monge assaltara Will Ruby! A ideia era louca, contudo, Ruby fora convincente. Ele vira o beneditino, inclinara-se perante ele, manifestando o seu respeito, e, mal passara, levara uma pancada na cabeça. Enquanto se encontrava caído no chão, aturdido, a bolsa foi-lhe agarrada, houve um brilho de aço, e ele perdera o seu dinheiro. Na altura ficou contente porque a lâmina cortou apenas as correias da bolsa e não lhe apunhalara o coração, mas, como ele disse ao burgo-mestre, se este incidente se tornasse conhecido, qualquer monge da cidade correria perigo.

Aí é que estava o busílis, e Holcroft sabia-o. Era inconcebível que um monge verdadeiro fosse pudesse ser o culpado, tinha de ser alguém disfarçado. Mas, se isto se tornasse conhecido, na melhor das hipóteses as pessoas olhariam para um monge na rua de soslaio. Se ele não deixasse que fosse conhecido que alguém se vestia de monge para roubar, o homem podia continuar sem qualquer impedimento, mas, se Holcroft tornasse os factos conhecidos, seria impossível para um monge andar na rua - na feira quase todos eram estrangeiros, e poucas pessoas conheceriam um monge verdadeiro.

Bebericou a sua cerveja. A história teria tendência a espalhar-se se houvesse outro assalto. Ele tinha sorte pelo facto de o primeiro homem a ser atacado ter sido um habitante da cidade, preocupado em não ofender o Abade. Provavelmente o próximo mercador a ser assaltado seria alguém de fora da cidade, e, nesse caso, a notícia tornar-se-ia do conhecimento público e, quando tal acontecesse, havia o risco de se poder formar uma multidão em fúria. Tavistock sempre fora uma cidade pacata e segura, com poucos dos distúrbios tão característicos das cidades grandes como Bristol e Londres, mas Holcroft sabia perfeitamente que, entre uma parte da população, havia ressentimento contra a riqueza da Abadia. Como uma mecha seca, o motim não necessitava mais do que uma ínfima faísca para atear uma chama consumidora, e a notícia de que um monge andava a assaltar as pessoas podia ser essa faísca.

Não tinha alternativa: tinha de contar ao Abade. Terminando a sua cerveja, colocou a caneca vazia em cima da mesa e fixou-a. Quando olhou em seu redor, de mau humor, não havia sinais de um hábito beneditino, o que era um alívio, mas isso apenas significava que o ladrão se encontrava noutro local, à espera para agredir o primeiro transeunte que tivesse uma bolsa cheia.

Holcroft pôs-se a caminho da abadia com um coração que se afundara tanto que parecia arrastar-se pelo chão atrás dele.

No recinto da feira, a excitação da manhã esmorecera um pouco. Agora os visitantes caminhavam de uma forma mais calma, com menos urgência, à medida que se apercebiam de que havia muito mais para todos comprarem e nenhuma necessidade de se apressarem a comprar mercadorias na primeira tenda que exibisse qualquer coisa de jeito.

As pessoas passeavam ao longo das ruas e das vielas cheias de gente, apreciando as mercadorias, calculando o seu valor e comparando os artigos de uma tenda com os da tenda seguinte.

Elias via os clientes a vaguearem de um lado para o outro, e estava contente por vender carnes e tortas. Com o seu negócio, as pessoas ou queriam o que ele tinha ou não queriam. Não havia nada do género de verem uma coisa numa banca, depois apressarem-se a regressar à tenda de outro mercador para lhe dizerem que o mesmo tecido, ou luvas, ou camisa podiam ser comprados por, no mínimo, menos um penny cinco tendas mais à frente. Para Elias, era um simples caso de “Qual é o recheio daquele pastel? Oh, está bem, levo um”.

Estava sentado no seu barril e descansava as costas contra o poste do toldo. Jarro de cerveja no colo, ele permitiu gradualmente que o calor do Sol lhe fechasse as pálpebras. Era tão bom estar sentado a encharcar-se de calor.

Elias casara, mas a esposa morrera de parto com o seu segundo filho. O primeiro falecera com uma estranha doença que lhe dava falta de ar e o fazia espirrar na Primavera, e, embora Elias tivesse pensado que ele estaria livre de perigo quando chegasse aos dez anos de idade, o cozinheiro regressara a casa, uma tarde, para encontrar o filho estendido no vestíbulo, pálido e de lábios azuis, ofegante. Em pânico, Elias correra à abadia e implorara ao guarda dos portões que fosse buscar um monge para o ajudar, mas quando o homem encontrara um, o rapaz estava morto.

O cozinheiro fungou e bebeu mais um longo trago de cerveja. Fora difícil, mas, depois de ter enterrado a mulher e o filho, ele encontrara uma rotina. O trabalho árduo para manter o negócio a andar ocupava-lhe a maior parte do dia, e depois havia sempre a taberna e Lizzie ou outra rapariga. Tudo considerado, ele era razoavelmente feliz.

O barril baloiçou e ele acordou, subitamente alarmado. De pé e debruçados sobre ele estavam dois dos homens de Denbury. O olhar assustado de Elias ia de um para o outro.

- Elias, pensamos que precisas que a tua tenda seja guardada como deve ser - disse Jack Grande.

O segundo homem sorriu. De certa forma, isso era mais terrível do que qualquer outra coisa. Os dentes dele eram de restolho negro e o hálito tão fedorento como o do próprio demónio.

-Jack Grande tem razão - disse ele, olhando-o de esguelha. - Senão podes vir a dar com todos os teus pastéis e as outras coisas esmagadas no chão. Não havias de querer isso, pois não?

 

Estava escuro aqui. O Sol passara do seu zénite e os edifícios faziam sombra sobre a terra batida da estrada. Homens e mulheres, a rir, caminhavam indolentemente, a maior parte de regresso à cidade, a excitação do primeiro dia de feira começando a saturar-se a meio da tarde. Já se tinham saciado de ver a gama de artigos disponíveis. Agora eram horas de regressar à estalagem, à taberna ou aos quartos alugados para se prepararem para as diversões da noite.

Na obscuridade da entrada de uma porta, Pietro da Cammino esperava nervosamente, encostado a uma parede, passeando o olhar ansioso rua acima e rua abaixo, carregando o sobrolho quando as pessoas passavam a conta-gotas, uma ou duas a lançarem um olhar desinteressado na sua direcção.

O pai não podia compreender. Era demasiado velho. Pietro ouvira António contar-lhe uma vez e outra como cortejara Isabella, sua mãe, todos aqueles anos antes, e como ficara orgulhoso ao conquistar uma mulher tão bonita. No entanto, António não podia compreender que Pietro encontrara finalmente a mulher de que precisava. Até o nome dela, Avice, soava a único ao jovem veneziano. O nome estava de acordo com a rapariga: ambos eram raros e exóticos.

Ela era linda. Pietro ficara impressionado e sem palavras no caminho para a cidade, mas no momento em que falara nela ao pai, quando voltavam ao quarto após a visita ao Abade e após a visita interrompida à taberna, António expressara imediatamente as suas reservas.

- Não, Pietro. Ela não é a mulher certa para ti.

- Não é a mulher certa? - ele ainda podia experimentar a sensação de incredulidade. - O que significa isso? Ela é bem-educada, bonita, saudável e o pai tem dinheiro! Nenhuma outra mulher poderia ser tão ideal para mim!

- Não é essa a questão. Estamos aqui apenas o tempo suficiente para que eu convença o Abade, sabes isso. Não há tempo para a cortejares. Não, deixa-a em paz, e encontraremos uma esposa para ti quando regressarmos à nossa terra.

- À nossa terra? Conheço todas as mulheres na nossa terra! Avice é a mulher que eu quero.

- É? E como vais conquistar a mão dela? Estás preparado para ficar neste país, estás? O que farias quando eu partisse?

O pai estava divertido, falando num tom condescendente, mas a sua convicção de que Pietro estava errado fez com que o filho ganhasse determinação. António não tinha o direito de o impedir de escolher a mulher que queria. Tinha idade suficiente para escolher sozinho.

- Ficarei com ela se eu quiser!

- Sem o meu dinheiro para te manter?

- O vosso dinheiro?

António paralisara ao ouvir aquilo, a confiança a evaporar-se-lhe perante a rudeza do tom voz do filho. Respirou fundo e falou de forma conciliadora.

- Pietro, tens de ver que isso é impossível. Temos de partir dentro de poucos dias. E se alguma coisa correr mal? Ainda estarias neste país, e estarias em risco!

- Estou disposto a correr esse risco. Quero-a.

O criado entrou e serviu-lhes cerveja de um jarro. António bebericou e fez uma careta.

- Isto sabe a urina de cão!

O filho encolheu os ombros. António nunca gostara de cerveja, mas recusava pagar vinho a preços ingleses. Eram exorbitantes nesta terra esquecida de Deus.

Pietro detestava discutir com o pai, pois havia vínculos de lealdade entre eles que iam mais longe do que os habituais laços de sangue. A mãe morrera quando ele ainda não tinha dois anos, atropelada por uma carroça desgovernada, numa rua estreita de Florença. O rapaz crescera sem uma única recordação da mãe, e dependera do pai mais do que ninguém. Esse facto tornara a relação entre eles invulgarmente próxima.

Mas era essa mesma proximidade que agora o sufocava. Pietro ansiava por fugir ao domínio do pai e criar a sua própria vida, em vez de ser sempre um associado nos esquemas de António. E Avice correspondia ao seu conceito de perfeição.

Fora pura sorte o facto de terem deparado com ela esta manhã na feira. Mesmo o pai não pôde, nessa altura, recusar falar com ela e com o pai, e Pietro caminhara ao lado dela, enquanto os pais de ambos seguiam atrás.

Fora maravilhoso, só o facto de estar com ela. Até a amabilidade dela para com o monge era uma indicação da sua generosidade de espírito. Mas, passado isso, o pai não mudara de opinião.

- Pietro, pensa só no que estás a arriscar! Bem sabes o que quase aconteceu em Bayonne. A tua vida poderia estar em perigo.

- Pai, eu amo-a!

- Só a conheceste ontem. Hoje ama-la. Amanhã poderás detestá-la. Ela é bonita, mas não merece que se morra por ela.

Pietro já não tinha de aceitar as ordens do pai. Tinha idade suficiente para conhecer a sua própria mente. Praguejou em voz baixa. O pai sempre mandara nele: ele nunca tinha uma palavra a dizer nas sortes de ambos. O que António exigia era o que ele esperava; o que António exigia era o que recebia. Os desejos dos outros eram irrelevantes. De súbito, Pietro sentiu-se muito só. Se Avice não o aceitasse, que faria ele? Ele tornara a sua posição muito clara junto do pai - se ela não aceitasse ser cortejada por ele, ele não tinha a certeza se pediria desculpa ao pai e se imploraria perdão. António era demasiado orgulhoso para o aceitar de volta sem um pedido de desculpas, mas Pietro não tinha suficiente autoconfiança para ser capaz de o fazer com sinceridade.

Ouviu-se um risinho abafado mais à frente na estrada, e sentiu um clique na cabeça, perante aquele som. Ele reconheceu-a até por aquela simples explosão de alegria.

De início não viu nada. O local onde ele se encontrava estava mergulhado na sombra, e, depois de olhar para cima, ficou cego. Na estrada, tudo parecia sombrio e sem interesse. O caminho avançava, entre curvas e contracurvas, sinuoso como uma cobra, e parecia tornar-se cada vez mais sombrio à medida que serpenteava colina acima, dirigindo-se irregularmente para norte. Foi dessa direcção que a voz dela chegou até ele, e Pietro perguntou-se o que teria feito com que Avice ficasse tão animada. Havia demasiadas pessoas na rua, e, através de toda aquela gente, ele não a via. Então, finalmente, vislumbrou-a entre outras figuras irrelevantes, e sentiu um prazer fugaz. Ao ver um homem ao lado dela, ele endureceu de ciúme - até que reconheceu o pai da rapariga.

Arthur Polé deu à filha um pequeno toque com o cotovelo para lhe chamar a atenção, à medida que a figura se destacava da parede e ficava especada, como que ponderando se deveria aproximar-se ou esperar.

- Estás a ver o que fizeste agora? - murmurou ele.

- Oh, pai! Não é culpa minha. Eu não o incitei nem coisa nenhuma. O mercador olhou a filha com um cinismo bem-humorado.

- Ai não? E imagino que não lhe tenhas dito onde estávamos alojados, não é assim?

- Ele continuaria a perguntar - disse ela, serena.

- Avice Polé, não sei o que será feito de ti. - o pai respirou fundo e lançou-lhe um olhar de lado. - Sabes que a tua mãe está decidida a que cases com John e...

- Pai, não quero discutir sobre isso - disse ela com firmeza. Arthur Polé pestanejou lentamente, exasperado. Em sua casa, sabia que os criados lhe chamavam “a sela da mulher rezingona”, e ele sentia muitas vezes que o merecia, pois por mais que tentasse impor a sua vontade a Marion, sua esposa, tinha geralmente tendência a ser levada a defender o ponto de vista dela. Ela passava por cima das objecções dele e forçava-o a concordar com ela. Era muito mais fácil e criava-se uma melhor atmosfera em sua casa, se ele se rendesse.

Quando olhava agora para Avice, ele via nela a mulher com quem se casara - e, no entanto, Avice era mais do que isso. Com as suas feições delicadas e grandes e penetrantes olhos verdes, ela era mais bonita do que até Marion fora. O rosto dela era perfeito, com malares altos, uma saudável pele de cor pálida com pequenas sardas, e estragado apenas pelo aspecto pugnaz do queixo. Quando ele a fitava, viu os olhos dela leves de alegria perante a visão do veneziano. Restavam poucas dúvidas de que ela tinha o coração firmemente preso ao rapaz.

- Pietro, meu rapaz - gritou ele friamente. - Que coincidência estardes aqui.

- Viva, Pietro - arrulhou Avice, e o pai lançou-lhe um olhar zangado. Ela estava a crescer demasiado depressa, pensou ele. O tom de voz dela continha a nota certa de prazer lisonjeiro e promessa. Arthur decidiu colocar a aia dela a vigiá-la.

- Senhor - disse Pietro, executando em seguida uma vénia. - Menina Avice.

Ela envaideceu-se - envaideceu-se nitidamente, viu Arthur. Uma vénia e a filha dele perdia todo o controlo. Adoptou uma expressão firme. Era demasiado provável que este veneziano presumido procurasse apenas uma coisa, e Arthur Polé protegeria a sua filha contra um predador estrangeiro.

- Em que podemos ajudá-lo?

O rapaz estava vestido extravagantemente, de uma maneira que teria sido ridícula para um inglês. Pelo menos isso deve contar contra ele. Os venezianos, com a sua frota e os seus vastos recursos financeiros, podiam dar-se ao luxo de comprar o que quisessem, e agora, com o dinheiro a ser gerado em Inglaterra, podiam comportar-se como lhes apetecia, mas o fino veludo vermelho do manto do rapaz, a pele que lhe debruava o capuz, as calças verdes e vermelhas, tudo apontava para uma opulência que era estrangeira, e mais do que um pouco embaraçosa. Arthur tinha a certeza de que a filha não poderia ser atraída durante muito tempo para um rapaz tão presunçoso.

Enganava-se. A surpreendente excentricidade das roupas de Pietro constituía o próprio âmago da atracção que ele exercia sobre ela. Avice observava o traje dele com manifesto encanto.

- Senhor, após ter-me encontrado com a vossa filha esta manhã, não consegui esquecê-la, e vim para aqui esperar, na esperança de poder vê-la.

- Penso que não... - começou Arthur com altivez, mas Avice interrompeu-o, à medida que a porta deles se abria.

- Que bonito discurso, mas espero que não tenhais ficado gelado com este vento. Pietro, tendes de entrar e de vos aquecer à nossa lareira. Quereis tomar uma bebida connosco? Temos vinho muito bom de Guyenne. Pai, se fizeres companhia ao nosso convidado, juntar-me-ei a vós daqui a pouco. Primeiro tenho de ir arranjar-me.

Ele lançou-lhe um olhar paciente, à medida que ela se afastava. Fazendo sinal a Pietro para que entrasse para o vestíbulo, Arthur ficou, por um momento, parado, à escuta. Ouvia os passos dela no chão duro. Quando ela virou a esquina para o corredor para se dirigir ao seu quarto, ele ouviu-a apressar-se subitamente. O passo tranquilo dela fora apenas um disfarce que escondia a urgência da sua missão, e, mal soube que se encontrava fora do alcance da visão deles, ela puxara as saias para cima e correra.

A determinação dela, mesmo correndo o risco de zangar o pai, fez com que este lançasse ao veneziano um olhar azedo, mas o rapaz mantinha o olhar firmemente preso à porta por onde Avice haveria de regressar. Arthur pigarreou irritadamente, e, finalmente, o veneziano estremeceu e lembrou-se da presença do seu anfitrião.

- Então, Pietro? Quereis vinho?

- Sim, por favor, senhor. Seria muito agradável tomar um pouco de vinho.

O seu nervoso aparente cativou o mercador, e Arthur acenou com a cabeça ao camareiro.

- Traz vinho e três taças.

- Esta casa é esplêndida, senhor - disse Pietro, hesitante, à medida que o camareiro deixava a sala.

Arthur ouvia-lhe o tremor na voz e sentiu ternura pelo rapaz. Lembrava-se da sua própria corte a Marion, e do horror dilacerante de estar sozinho na mesma sala que o pai dela em circunstâncias semelhantes, aterrorizado, não fosse alguma palavra mal pensada atingir e matar à nascença as suas hipóteses.

- Tivemos sorte em conseguir alugá-lo rapidamente - disse ele acanhadamente.

- Não é vosso?

- Não, vimos à feira de Tavistock apenas ano sim ano não. Não há necessidade de vir com mais frequência. O que faria eu o resto do tempo com uma casa como esta?

- E a senhora vossa esposa? Está aqui convosco?

- Não, está na feira, a comprar muitas coisas de que precisa em casa. Voltará mais tarde. Onde estais alojado? Tendes a vossa própria casa?

O veneziano abanou a cabeça.

- Não, estamos alojados na abadia enquanto o meu pai negoceia com o Abade. O Abade Champeaux tem um rebanho de ovelhas de bom tamanho e deseja garantir os melhores preços para a sua lã. O meu pai tem navios e poderia ajudar a transportar a lã para o estrangeiro, e com os seus juros bancários, podemos ser capazes de ajudar o Abade de outras formas.

Isso deu a Arthur uma pausa para pensar. O rapaz estava a falar de improviso sobre o trabalho do pai, mas conhecia a posição dele no mundo. Se António tinha um negócio bancário e acesso a navios, a família de Pietro não era só próspera, era também abastada. Arthur conhecera alguns banqueiros, principalmente de Florença e Génova, e sabia quanta riqueza as cidades-estado tinham acumulado através dos seus negócios com o Oriente. Se este jovem era filho de um banqueiro, seria um genro muito mais útil do que John de Hatherleigh. O casamento numa família de barões era uma coisa - relacionar Avice com um negócio de comércio estrangeiro era outra. Arthur começou a ver possibilidades em Pietro. Esse facto poderia até levar Marion a mudar de ideias.

- E depois?

- O meu pai regressará a Veneza.

O criado voltou com o tabuleiro e pousou-o em cima de uma mesa. Passou o vinho ao veneziano. Arthur pegou na sua própria taça e engoliu avidamente. Se havia alguma coisa a que ele jamais se habituaria, era a este processo ritualizado de comprar um marido para a filha. Detestava a ideia de que o processo conduziria inevitavelmente ao facto de a sua pura e doce Avice se ligar a um qualquer jovem inexperiente que ele não conhecia, como era o caso de John, simplesmente porque possuía um título. E se ele fosse do tipo que bate regularmente na mulher? E este veneziano? Lançou um olhar a Pietro. Era tão rancoroso que o jovem derramou vinho no colo. Consternado, ainda olhava fixamente as vestes salpicadas, quando se ouviram os passos no corredor.

Arthur ficou satisfeito ao ouvir o caminhar lento de Avice, à medida que ela se aproximava da porta. Quando surgiu à vista deles, a sua respiração quase que se acalmara. Arthur suspirou ao ver a túnica carmesim matizada de fios dourados que tremeluziam à luz das velas quando ela caminhava. Sabia que aquele era o vestido preferido dela, e que lhe realçava as cores na perfeição, o carmesim a cintilar como os tons ruivos do seu cabelo, quando ela passava por castiçais e velas.

Avice ignorou o pai, preferindo falar directamente com Pietro. Arthur conhecia todos os seus estados de espírito, e hoje ele via que ela estava decidida a conquistar o coração do jovem.

Ainda apreciava Pietro com o olhar quando ouviu a voz da esposa. Os olhos dele pregaram-se, embaraçados, na porta, à medida que ela entrava.

Marion deixou-se ficar a contemplar a cena por um momento. Avice encontrou o seu olhar firme em jeito de desafio. Fitando o veneziano, Marion viu a sua expressão ardente, e o próprio rosto dela endureceu.

- Minha querida, permite-me que te apresente Pietro da Cammi-no Lembras-te, conhecemo-lo e ao pai no caminho para cá.

Ela inclinou graciosamente a cabeça.

- Não estava à espera de encontrar uma visita. Peço-vos que me desculpeis por não me encontrar aqui para vos receber.

- Não te preocupes, mãe; o pai e eu fizemos as honras da casa.

- Tenho a certeza que sim, Avice - disse a mãe com uma doce ironia. - E agora, senhor, decerto que nos ireis desculpar, mas temos muitas compras para separar. Avice, por favor, vem ajudar.

- A tua criada não pode ajudar-te, mãe? - disse Avice friamente.

- Preferia que a minha filha mostrasse o seu excelente gosto - disse Marion, e apenas alguém que a conhecesse poderia ter dito que a sua voz gentil escondia uma determinação de aço.

Avice estava sentada em silêncio, interiormente furiosa pelo facto de a mãe exigir a sua ajuda como se ela fosse uma simples serviçal. Estava tentada a recusar e a continuar a falar com Pietro, mas sabia que a mãe ficaria à espera, com um ar paciente - mas só por fora - até que ela lhe obedecesse, e, finalmente, Avice acabaria por obedecer. Não tinha alternativa, enquanto vivesse com ela sob o mesmo tecto.

Mas podia demonstrar a sua revolta, e fê-lo agora. Levantou-se e presenteou o veneziano com um sorriso ofuscante, fazendo educadamente uma vénia antes de se virar e de deixar a sala, ignorando a mãe.

Marion não tinha terminado. Virou-se para o marido:

- É sempre agradável conhecer pessoas novas, Arthur, mas tens de ter cuidado, agora que Avice está prometida em casamento. É melhor que não haja qualquer sombra de escândalo, pois isso poderia pôr em perigo a sua reputação, e a jovem esposa de um nobre não se pode dar ao luxo de ter qualquer mancha no seu carácter.

Marion saiu e, quando Arthur viu o rosto de Pietro, sentiu pena dele. O rapaz parecia desolado.

- As minhas desculpas por aquilo, meu amigo - disse ele amavelmente. - A minha esposa é dura quando se trata da filha. Não é nada contra vós, é claro.

Pietro mal o ouvia. O que Marion queria dizer fora demasiado claro para ele. Avice estava prometida em casamento! A discussão que ele tivera com o pai fora em vão. Ele não a podia ter, de qualquer maneira.

Então uma firme determinação deu-lhe força. Ele não podia ter entendido mal os modos de Avice. Ela queria-o tanto quanto ele a desejava. Ele conquistá-la-ia. Tinha de conquistá-la.

Levantando-se, agradeceu ao mercador, explicando que tinha coisas a fazer.

Na rua, olhou para trás, para a casa, antes de se virar para descer a colina em direcção à abadia. Quando percorrera apenas alguns metros, ouviu um assobio, e virou-se para ver o criado do pai, na sombra, encostado negligentemente a uma parede.

- O que estás aqui a fazer, Luke? O pai disse-te que me vigiasses, não é verdade? Podes dizer-lhe que as suas precauções parecem desnecessárias.

Luke olhou o edifício com franca admiração.

- Ela rejeitou-vos?

- Oh, não. Ela não. - Pietro perdeu os olhos na distância, à medida que começavam a caminhar de volta à Abadia. - Ela parece tão interessada em mim como antes. Não, é a mãe que quer manter-me afastado dela.

- Sabeis porquê? Será que ela ouviu dizer alguma coisa sobre o vosso pai?

- Está calado! - disse Pietro em voz baixa. - Não digas essas coisas nem mesmo na rua! - e continuou, agora mais calmo: - Não, penso que ela não ouviu dizer nada sobre o meu pai. Só que tem outra pessoa em mente para a filha.

- Se assim o dizeis.

- Não te preocupes com isso. Se alguém tivesse ouvido falar no meu pai, teriam contado ao Abade. Não há qualquer risco - quando a mãe dela ouvir falar nas nossas negociações com Champeaux, cairá provavelmente em si e tentará fazer com que eu volte a cortejar a filha.

 

Jordan Lybbe estava encostado ao poste da tenda e bocejava. O dia fora agitado, e ele podia acenar com a cabeça, em sinal de satisfação interior, ao ver como os seus artigos se tinham esgotado. Agora a fila em frente à sua tenda estava a diminuir, e ele tinha tempo para descansar um pouco.

Os dois homens vinham ao longo da pequena rua estreita em que as suas peças de tecido estavam expostas, e falavam com todos os outros feirantes. O ajudante de Lybbe, Hankin, com os seus grandes olhos redondos, viu-os aproximarem-se. Avançavam de moca na mão, e Hankin viu-os a aceitarem dinheiro de todos os feirantes.

- Bom dia, cavalheiros. Em que posso servi-los? - começou ele, mas foi empurrado para o lado. Os guardas queriam o seu amo.

Lybbe estava sentado numa caixa, à espera, enquanto os dois homens observavam os produtos da sua tenda. Ele irradiava entusiasmo e à-vontade, como se esperasse vender alguma coisa.

- Tens bom tecido. É a primeira vez que vens à feira de Tavistock? - perguntou um deles.

Lybbe acenou com a cabeça, resplandecente.

- Bonjour.

Os homens olharam-se.

- Compreendes inglês, não é verdade?

- Pardon! - passado tanto tempo, o seu sotaque gascão era perfeito.

Jack Grande franziu o sobrolho. Não encontrara ainda um feirante que não falasse inglês. Ele próprio não falava gascão nem francês, e a barreira linguística era algo que ele não previra. Fazendo um gesto com a moca, indicou toda a mercadoria.

- Isto! É tudo bom tecido. Tens de nos pagar para tomarmos conta dele. Percebes?

Lybbe assentiu e escondeu a cabeça, a sorrir.

- Oui, c'est bon, c’est-ce pás.

- Isto é uma perda de tempo - disse Jack Pequeno ao seu companheiro.

- Leva uma das peças, então. Não temos o dia todo.

Jack Pequeno dirigiu-se a uma prateleira de tecido e seleccionou um. Lybbe acenava com a cabeça, contente, e Jack Pequeno voltou costas para deixar a tenda. Instantaneamente, um fino fio enrolou-se-lhe em volta do pescoço, e o homem foi puxado bruscamente para trás, desequilibrado, preso pelo pescoço com todo o peso do corpo apoiado no fio. Gorgolejou e soltou um grito rouco, os músculos do pescoço ganhando relevo, à medida que ele lutava para respirar.

- Ora bem - ouviu ele uma voz amigável dizer-lhe ao ouvido. - Não estavas a tentar levar um presente de um comerciante honesto, pois não?

O guarda buscava com as mãos para puxar o fio e se libertar, deixando cair o tecido e a moca.

Lybbe continuou, num tom animado:

- Eu gosto de dar presentes, mas só quando estou preparado. Não gosto que as pessoas tentem obrigar-me a dar-lhes coisas. Não gosto mesmo nada disso. Por isso, quando eu te deixar ir, vais sair calmamente para a rua e não diremos mais nada. E se alguma coisa acontecer à minha mercadoria enquanto eu aqui estiver, vou-te fazer uma visita. Estás a perceber? Vou perguntar-te por que motivo é que um guarda tão grande e tão forte como tu não pôde impedir que me roubassem a mercadoria, ou a queimassem ou simplesmente a atirassem para a lama. E vou perguntar-vos a todos quando é que vos encontráveis junto à minha tenda, para poder descobrir quando é que as pessoas fizeram os danos. E nessa altura posso ficar zangado e atacar alguém. Qualquer pessoa que, nesse momento esteja ao pé de mim. Percebes o que eu quero dizer?

Deu-lhe um empurrão, libertando o fio ao mesmo tempo, e o homem cambaleou para a frente, até parar ao embater contra uma mesa. Sufocando, esfregava o pescoço, o ódio a brilhar-lhe nos olhos. Lybbe enrolou o fio de couro em volta do dedo.

- Como eu disse, se acontecer por aqui alguma coisa estranha, vou visitar-vos. Perceberam? - apanhou a moca e avaliou-lhe meditativamente o peso na mão. Em seguida atirou-a a Jack Pequeno. O guarda conseguiu apanhá-la antes que o atingisse na barriga, mas, durante todo esse tempo, os seus olhos estavam firmemente fixos na figura baixa à sua frente, como se tentasse gravar as feições do homem para sempre na memória.

 

Margaret convidara Jeanne para a acompanhar numa visita à feira, deixando Baldwin e Simon ir ao encontro de Holcroft, que os esperava com o guarda Daniel. O burgomestre sentia-se frustrado por ter de ajudar o cavaleiro de Furnshill, pois tinha muitos outros deveres a chamá-lo, mas o Abade fora bastante claro, mesmo depois de ter sido informado do ataque a Will Ruby.

- Isto é um assassínio - assinalou ele -, e tendes de ajudar Baldwin e o beleguim, se puderdes. O ataque a Ruby é secundário; pode esperar.

Com Hugh, o criado de Simon, atrás, Margaret conduziu a sua nova amiga colina acima, passando pela rua estreita onde o lixo ainda estava empilhado, pela loja do cozinheiro e pela taberna, e seguindo em direcção ao recinto da feira.

Margaret ia muitas vezes com o marido à feira de Lydford, mas a feira de Tavistock estava numa escala diferente. O número de tendas era estonteante, e muitos comerciantes traziam mercadorias de muito longe. Ela olhava em seu redor enquanto passavam, mas foi só quando chegaram às tendas da comida que ela começou a examinar as mercadorias a sério. Quase que se lhe tinham acabado as especiarias e precisava de reabastecer-se.

Hugh ficava de pé, resignado, enquanto a sua senhora regateava com os feirantes. Num curto espaço de tempo, estava carregado de cestos. Laranjas e amêndoas, pães de açúcar, pacotes de gengibre e canela, noz-moscada, cardamomo e cravo-da-índia, estava tudo empilhado nos seus cestos, até que ele se queixou do peso.

Margaret franzia o nariz às mercadorias que podia comprar em Lydford. Mostarda, sal e açafrão eram todos ignorados, assim como a pimenta, mas, para consternação de Hugh, ela abrandou junto aos barris de peixe, e ficou encantado quando ouviu Jeanne chamar-lhe a atenção para os vendedores de tecidos.

- Não disseste que precisavas de tecido?

E logo Margaret lançou um olhar especulativo às peças de tecido em exposição.

- Tem de ser a cor certa para ele.

- Para o teu marido?

- Não - respondeu ela, palpando uma seda púrpura com triste cobiça. Teria de ir para uma mulher mais abastada do que ela: Simon nunca concordaria com tal despesa. - Para Baldwin. Ele não tem túnicas decentes.

- Tomaste a responsabilidade de lhe comprar roupas novas? Margaret sorriu perante o tom de surpresa.

- Não há mais ninguém que lho faça. - Ele não tem mulher?

- Nunca casou, e raramente se encontra com mulheres da sua própria condição social a quem possa fazer a corte. E é demasiado ilustre para casar com uma camponesa.

- Oh. - A simples expressão carregava um meio tom de interesse.

- Ficaria agradecida - disse Margaret inocentemente - se me pudesses ajudar - que cores pensas que lhe ficariam bem?

Jeanne lançou-lhe um olhar curioso.

- Conhece-lo muito melhor do que eu.

- Sim, mas, por vezes, outra opinião pode ajudar muito.

- A sério?

Jordan observou os três a aproximarem-se e avançou para junto da banca.

- Minhas senhoras, deveis certamente ver o melhor que há na feira. Para duas senhoras tão bonitas, só servirão os artigos mais finos. Vinde ver estas peças aqui.

Margaret inclinou a cabeça perante o cumprimento, e ela e Jeanne seguiram-no até ao barracão improvisado que ele construíra atrás da banca, entre duas carroças. Aqui elas encontraram prateleiras com os tecidos mais excelentes. Em exposição havia tecido de ouro, gaze e finas lãs oriundas das cidades flamengas, e Margaret suspirou ao ver aquelas finas cores.

- Há aqui tecido que vos faria parecer ambas rainhas - disse Jor-dan, confiante. - Olhai para isto. - Puxou para fora um tecido azul-escuro. - Poderia uma senhora desejar uma lã mais fina para uma túnica?

- Não é para nós que estamos à procura - conseguiu Jeanne dizer quando Jordan inspirou. - É para um homem.

- Excelente, senhora. E o vosso marido deve ser um cavalheiro forte e nobre, tenho a certeza - e um homem com bom olho para a beleza. Este seria o tecido perfeito.

Ela olhou o tecido carmesim que ele tinha nas mãos, depois olhou para Margaret.

- De que pensas que o meu marido precisaria? - perguntou ela, e soltou um risinho abafado. Margaret sorriu, e em seguida estavam ambas a vibrar de riso, enquanto o feirante e Hugh trocavam olhares de incompreensão.

A porta de Elias não estava fechada à chave. O interior estava tão escuro como uma cave; a entrada da loja estava virada para Oriente, e a magra luz do Sol em declínio não entrava de todo. Baldwin esperava enquanto o burgomestre praguejava e resmungava, tentando acender uma mecha com uma pedra de isqueiro e a sua faca. Assim que as chamas, aos arrancos, começaram a crepitar, ele acendeu uma vela, e a sala encheu-se de um brilho amarelo, à medida que ele a estendia a Baldwin.

Holcroft não quisera revistar a casa de Elias desta maneira. Ele tinha a alma livre de um habitante do porto, e isto parecia violação de propriedade alheia. O facto de que fora o próprio Abade a dar a ordem não ajudava. O Abade Champeaux era tanto dono da casa de Elias como da de Holcroft. A cidade era uma entidade livre, e embora o Abade pudesse ser dono dos direitos do tribunal, tal não significava que ele fosse dono da justiça exercida nesse tribunal, apenas dos lucros dela resultantes.

Baldwin aceitou a vela e examinou cuidadosamente a sala. Havia esteiras e cobertores estendidos no chão. Elias alugara cada centímetro de espaço livre durante a feira, mas os seus hóspedes encontravam-se, de momento, no recinto da feira, e a casa estava deserta. Apenas ficara o seu cheiro a falta de limpeza, dominando os odores mais salutares a comida cozinhada.

Para Peter, tratava-se de um lugar em nada peculiar, construído de madeira, com argamassa a encher os painéis. As montras - duas grandes persianas que se abriam para fora para formarem mesas em cima das quais Elias podia expor os seus artigos - estavam dispostas de cada lado da porta. Para além de uma quantidade de mesas e.bancos, havia pouco mobiliário. O chão estava coberto de palha, que, a julgar pela aparência, havia algum tempo que fora lá espalhada.

Não havia qualquer local óbvio onde Baldwin visse que poderia ter sido escavado um buraco para esconder a cabeça desaparecida. As paredes eram finas, por isso ele pôs o guarda a afastar a palha e a procurar um esconderijo por baixo.

Transpôs a entrada baixa que dava acesso à sala das traseiras. Aqui encontrava-se toda a parafernália de uma cozinha. Ao fundo, o mais afastado possível da rua, havia um forno de tijolo. Panelas, pratos e tigelas - estava tudo empilhado em cima da mesa colocada ao longo de uma parede. Junto à parede em frente havia uma escadaria, sendo cada degrau talhado em madeira cortada em diagonal de maneira a formar uma secção triangular que depois estava pregada a dois corrimões. Baldwin subiu para chegar ao pequeno quarto no primeiro andar. Ao meio havia uma cama, as cortinas de linho estavam corridas, não estando presas de nenhum dos lados. Sentia-se um odor a almíscar proveniente das ervas colocadas debaixo da enxerga para afugentar as pulgas. Aos pés da cama havia uma arca, e, quando o cavaleiro espreitou para o seu interior, encontrou lençóis de reserva e outras roupas. Nada mais. Espalhadas pelo chão, havia algumas esteiras.

Simon seguira-o e encontrava-se à entrada, enquanto Baldwin olhava lá para fora, para a rua.

- Não é muito atractivo, pois não? - observou Simon. Com uma mão, o cavaleiro apontou para o espaço em redor.

- Eu estava a pensar que este homem deve viver sozinho. Dificilmente poderá ser casado com uma casa com um mobiliário tão escasso.

Lançou à sala um último olhar apressado e desceu. O quarto lembrava-lhe o seu próprio quarto, um quarto igualmente espartano, e foi acometido por uma estranha sensação de simpatia pelo cozinheiro solitário que vivia sozinho na sua loja, sem ter sequer o conforto de uma mulher - o conforto de uma mulher como Jeanne, deu ele consigo a pensar, e expulsou grosseiramente da sua mente a lembrança do rosto dela.

- Holcroft?

O burgomestre, que se encontrava na sala da frente, acorreu de imediato.

- Sim, Sir Baldwin?

- Elias... é casado?

- Viúvo. A mulher morreu de parto. Depois morreu o filho. Simon seguira-os e ouvira a última parte da conversa. Viu o olhar rápido que Baldwin lhe lançou, e, a sorrir, abanou a cabeça. Ultrapassara a morte do filho, e o facto de ouvir falar numa perda sofrida por outra pessoa não podia magoá-lo.

O cavaleiro voltou-se novamente para o burgomestre:

- Elias não tem nenhuma mulher?

- Apenas as meninas da taberna. - Recordou a noite anterior à feira. - Uma, em especial, suponho eu, Lizzie. Esteve aqui com ele ontem à tarde.

Peter olhou em redor. Depois da opulência da abadia, achava esta pequena loja desagradável, com o seu cheiro a corpos sujos.

- Devíamos também falar com ela - murmurou Baldwin. Voltou a lançar um olhar em redor da sala, reparando nas trempes e nos tachos, nas tigelas e nos pratos enormes. - Há sinal de ele ter escondido alguma coisa aqui?

- Nenhum. Já dei até uma olhadela ao forno e à fornalha.

- Ah, muito bem. Acho que nos devemos regozijar com isso - disse Baldwin, caminhando em direcção à porta das traseiras. - O que há ali fora?

- O quintal dele.

Baldwin abriu a porta e saiu. Simon acompanhou-o e viu-o de pé a olhar atentamente em redor. O cavaleiro parecia um monge míope e distraído a quem escapara alguma coisa. Quando o beleguim estudou a área, viu lixo há anos acumulado. Havia uma frouxa pilha de toros sob um telhado de colmo mal colocado, um pequeno barracão que parecia a casa de banho de Elias, uma pequena série de canteiros de alho francês, cebolas e alhos, repolhos, feijão e outras plantas. Numa pequena secção separada por armações de madeira, esgaravatavam e cacarejavam galinhas prazenteiramente. O quintal estava separado da rua por uma cerca de madeira gradeada.

- Não há nada aqui - disse Baldwin, virando-se para se ir embora.

- Espera um momento - disse Simon. Junto aos toros havia uma velha caixa de madeira. Aproximando-se, levantou a tampa e tirou do interior uma podadeira de lâmina pesada. - Baldwin?

O cavaleiro pegou na ferramenta que ele lhe estendia e levantou-a. Encontrou o olhar de Simon.

- Poderia ser - concordou este.

- É difícil dizer, mas as manchas na lâmina...

- Sim, parecem sangue.

Simon olhou novamente em redor da pequena horta. Caminhou até ao canteiro que se encontrava mais distante da casa e baixou-se, olhando para o solo. Para melhor averiguar, estendeu a mão e tocou-lhe. Havia uma pequena depressão no solo.

- Daniel, vai buscar uma pá - gritou.

- O que é? - perguntou Baldwin.

- Aquela terra foi mexida recentemente - disse o beleguim num tom de certeza. - Reconheço o aspecto: quando os mineiros enchem os buracos, forma-se uma depressão assim.

Daniel não ficou contente com a tarefa que lhe foi atribuída. Trouxe a pá e começou a escavar, mas com pouco entusiasmo. Gostava do emprego de guarda só por causa do dinheiro - não estava nos seus planos investigar homicídios nem descobrir partes de cadáveres. O desagrado que sentia em relação à tarefa de que fora incumbido tornou-o lento, à medida que cavava mais fundo, e, quando sentiu a pá bater em algo que cedeu um pouco, recuou, levantando o olhar para o Defensor da Paz do Rei, o desespero estampado nos olhos.

Baldwin sentiu pena dele e fez sinal para que se afastasse. Atirou a pá para o lado, baixando as mãos nuas para remover a terra com elas. Pouco depois via um saco e puxou-o para fora. Tirando-o para fora da cova, colocou-o no chão e olhou Simon, que fez uma careta involuntária. Baldwin cortou o cordel que o atava e o tecido grosseiro caiu. Peter estremeceu e virou costas, engolindo para manter a bílis controlada.

- Tinhas razão, Simon - disse Baldwin.

- Sim.

Holcroft disse com voz incrédula:

- Não, estávamos todos enganados. Esse não é o mercador que estava sentado com Elias. É um homem que vive no caminho para Ashburton: Roger Torre.

Baldwin ora olhava para Simon ora para a cabeça.

- Tendes a certeza?

Holcroft acenou com a cabeça. Atrás dele, Peter cambaleava em direcção à cerca, os olhos fechados.

- Talvez fosse por isso que Elias ficou chocado quando lhe dissemos que o amigo fora assassinado - raciocinou Simon. - Se ele soubesse que o cadáver era de Torre, as nossas palavras deveriam tê-lo feito pensar que o companheiro também fora assassinado.

Baldwin acenou com a cabeça pensativamente.

- Isso explicaria a sua consternação.

- O corpo estava na sua rua, a cabeça no seu quintal. Todas as provas apontam para Elias - disse Simon.

- É verdade, mas Elias não tinha a roupa suja de sangue quando regressou à estalagem.

- Eu sei. Talvez o amigo dele tenha cometido o homicídio, e Elias não tenha tido nada a ver com isso, mas não é isso que me preocupa. Estava aqui a pensar, com todas estas provas contra ele, a multidão convencer-se-á de que foi ele o autor do crime. E como ficará então a sua segurança?

- Tens razão. Temos de nos certificar de que Elias fica em segurança.

- Com a cabeça aqui, há provas suficientes para o prender. Ficaria bastante seguro na prisão.

- E algum tempo lá podem convencê-lo a contar-nos o que sabe sobre o amigo - concordou Baldwin. Ao ouvir vomitar, ergueu o sobrolho. - Peter? Sentis-vos bem?

Perante a evidente incapacidade de Peter para tomar notas durante algum tempo, enviaram-no à abadia para informar o Abade Champeaux dos desenvolvimentos. Quando ele partiu, Holcroft tirou cautelosamente o saco das mãos de Baldwin.

- Esse tal Torre, tinha esposa ou qualquer parente? Haveria alguém que pudesse reconhecê-lo por este corpo?

Holcroft coçou o maxilar.

- Nem por isso. Ele não era daqui. Vinha apenas à cidade ocasionalmente.

Atravessaram a loja de comida até à rua.

- Então foi por isso que não o deram como desaparecido - disse Baldwin. - Não havia ninguém que achasse falta dele, pobre diabo.

- Não, senhor.

- Viste-lo na taberna? - perguntou Simon.

- Sim, ele estava lá quando eu cheguei; bebemos juntos por algum tempo.

- Viste-lo envolver-se nalguma briga ou coisa assim?

- Bem, ele teve mesmo um problema com aqueles venezianos que estão hospedados na abadia. Eles iam a sair à pressa, no momento exacto em que Torre saía, e o mais jovem acariciou da faca. Mas não passou de uma disputa estúpida, nada de mais. Nada para se matar alguém. Torre limitou-se a olhar para o rapaz e afastou-se.

- Mas o rapaz quase que puxara pela faca - raciocinou Baldwin. - Os italianos podem levar essas coisas a sério. E têm tendência para usar formas de vingança subtis.

- Torre ficou sozinho depois disso? - indagou Simon. Tinha a certeza de que o burgomestre estava a esconder alguma coisa. Parecia-lhe ver no olhar dele uma expressão de vergonha.

- Saiu com Lizzie por algum tempo.

- Essa “Lizzie” é a mesma rapariga que era amiga de Elias?

- É prostituta na taberna - explicou Holcroft. O cavaleiro disse:

- Vistes Elias quando ele e o amigo saíram da taberna?

- Não, senhor, não vi. Porquê?

- Porque a proprietária da taberna nos disse que Elias e o amigo saíram, e que Elias regressou pouco depois. Se ele e Torre se divertiam ambos com essa tal “Lizzie”, Elias pode ter ficado com ciúmes. Não seria a primeira vez que uma coisa dessas acontecia. Isso poderia muito bem dar-nos um motivo para o crime. Vamos visitá-la agora.

Holcroft engoliu em seco. Se Sir Baldwin acreditava que Elias podia ter assassinado só porque outro homem dormira com Lizzie, o que pensaria o cavaleiro se soubesse dos sentimentos do próprio Holcroft para com a rapariga?

- Lamento, senhor, mas ela não está aqui agora. Todas as prostitutas são banidas durante a feira.

Baldwin perguntou, de modo determinado:

- A sério? Pensais, então, que ela saiu da cidade?

- Sim, com certeza.

- Onde é que ela vive habitualmente?

- Na taberna.

- Óptimo. Bem, vamos até lá colocar esta cabeça juntamente com o corpo e descobrir para onde é que ela foi.

Enquanto Holcroft saía para reunir a cabeça de Roger Torre ao corpo, os outros entraram na taberna. Tinha muito movimento, como era costume, e Simon teve de abrir caminho para chegar a uma mesa. Para sua surpresa, antes de se juntar a ele, Baldwin ficou a conversar com o guarda que se encontrava à entrada. Passados alguns minutos, a proprietária da taberna apareceu e cuidou da encomenda deles.

Quando Holcroft regressou, as mãos muito bem lavadas, necessitava de uma cerveja bem forte. O facto de levar o saco com aquele conteúdo repugnante deixara-o profundamente perturbado.

Antes que ela pudesse afastar-se com as encomendas que eles tinham feito, Baldwin perguntou a Agatha:

- Senhora, tendes aqui a trabalhar para vós uma rapariga chamada Lizzie. Gostaria de falar com ela.

- Lamento, senhor. Esta altura é de feira. Não lhe é permitido estar aqui enquanto a feira durar.

- Ela não está aqui? Que pena! Sabeis para onde foi?

A proprietária da taberna franziu o sobrolho, transferindo a sua atenção de Sir Baldwin para o burgomestre.

- Não, já me dá bastante que fazer tentar manter os meus clientes felizes, sem ter de me preocupar com gente como ela.

A mulher afastou-se de rompante, e Holcroft lançou ao cavaleiro um olhar penetrante.

- Estais a ver? Bem vos disse que ela não estaria por aqui. As prostitutas e os leprosos são banidos durante a feira.

- Tenho a sensação de que Agatha nos poderia ajudar mais se quisesse - disse Baldwin com voz suave. Houve um atraso de alguns minutos, até que a proprietária da taberna regressou, trazendo canecas e um jarro. Pousou-os na mesa, com lábios cerrados.

- Agatha - disse Baldwin num tom persuasivo -, podíeis fazer um esforço para pensardes onde é que Lizzie poderá estar agora instalada?

- Não posso pensar - disse ela com firmeza.

- Compreendo.

A mulher lançou-lhe um olhar desconfiado, que se transformou em raiva quando Daniel se aproximou, agarrando pelo cotovelo uma jovem sorridente.

- O que estais a fazer com ela? Que direito tendes de...

- Sir Baldwin, apanhei-a a tentar fugir pela porta das traseiras depois de esta mulher ter estado a falar com ela - anunciou Daniel.

- Obrigado. Senhora, trazei-nos, por favor, outro jarro de cerveja, não reteremos a vossa criada durante muito tempo.

Holcroft estava boquiaberto.

- Mas... mas o que estás aqui a fazer ainda, Lizzie? Devias ter saído daqui há horas.

Simon olhou-o.

- Está muito bem banir as prostitutas da cidade durante a feira, mas para onde é que esperais que alguém vá quando não conhece ninguém noutro local nem tem para onde fugir?

- Agatha tem de se explicar - disse Holcroft num tom pesado. - E tu também, rapariga.

- Não, não é bem assim - disse Baldwin sensatamente. - Afinal, a ideia é de que a prostituição não deve ser exercida durante a feira, e Agatha impediu Lizzie de exercer a sua profissão. No entanto, sendo uma alma cristã, ela não atirou a rapariga para a rua. Penso que o Abade ficaria encantado ao saber que ela mostrara tal misericórdia.

Lizzie olhou severamente para a mão com que o guarda lhe agarrava o braço. Baldwin acenou para que ele a largasse. Daniel libertou-a e sentou-se ao lado de Holcroft.

- Lizzie, estou a tentar descobrir quem poderá ter cometido um assassínio - disse Baldwin, e explicou tudo sobre o corpo. Enquanto ele falava, Agatha regressou e pousou um jarro de cerveja, não tirando os olhos de Lizzie. Simon via que ela estava nervosa por poder ser presa e multada por manter prostitutas durante a feira. A atenção dela voltou a concentrar-se em Baldwin, à medida que o cavaleiro continuava: - Ele não deve ter morrido longe da porta da taberna. Ouviste ou viste alguma coisa ontem à noite? Alguém a pedir ajuda, uma luta?

- Não, senhor. Nada.

- Agatha? E vós?

- Eu, senhor? - lançou a Lizzie um olhar rápido. - Não, nada.

- Estou a ver. Havia aqui muita gente ontem à noite?

- Já vos disse quem estava aqui e quem não estava - respondeu a proprietária da taberna, com aspereza. - Olhai, estou ocupada. Há aqui pessoas que querem ser servidas, e o vosso interrogatório não me vai ajudar a pagar a renda.

Baldwin observou-a a afastar-se bruscamente entre os grupos de pessoas, e levantou os olhos para a rapariga:

- Lizzie, por favor, senta-te. Isto não vai levar muito tempo, mas não seria cortês deixar uma mulher de pé enquanto os interrogadores estão todos sentados.

Daniel aproximou-se - um pouco demasiado entusiasticamente para o gosto de Baldwin, e o cavaleiro lançou-lhe um olhar azedo.

Pela primeira vez, Baldwin examinou a rapariga. Se tivesse de adivinhar, diria que ela tinha pouco mais de vinte anos e era muito atraente; ainda não perdera o esplendor da juventude. Era morena, e o cabelo era acastanhado, com tons de ruivo onde a luz incidia. Tinha o rosto quadrado mas muito feminino, e os lábios eram carnudos e pareciam sorrir com uma alegria fácil. Não era difícil a Baldwin compreender por que motivo ela atraía os homens da cidade. Já reparara na forma como outras mulheres da sua profissão a olhavam de alto a baixo com uma expressão dura, mas nos olhos castanhos de Lizzie tudo o que ele via era uma felicidade ingénua que o surpreendia e o confortava.

- Trabalhas aqui? - perguntou ele. Os olhos dela pousaram imediatamente em Holcroft. - Lizzie, penso que o burgomestre concordará comigo em que o Abade não precisa de saber demasiado em relação ao local onde vives e à forma como trabalhas. O Abade Robert está preocupado com o homicídio de um homem, e há outras coisas que não o preocupam realmente. Oh, e parece que me lembro que o burgomestre está prestes a deixar o seu cargo e a abrir caminho para um homem novo, não é assim?

Holcroft encolheu os ombros.

- Suponho que o Abade não poderá estar menos preocupado com ofensas menores quando tem um homicídio para desvendar, e não tenho necessidade nenhuma de o importunar com coisas que não o preocupam - e, sim, deixo o cargo dentro de alguns dias, por isso não vou criar dificuldades.

- Lizzie? - pressionou-a Baldwin suavemente.

- Sim, habitualmente vivo aqui. Por vezes vou-me embora, mas ajudo frequentemente Agatha a cozinhar e a fazer cerveja, e ela deixa-me dormir num quarto nas traseiras.

- E não só dormir - disse um homem que ia a passar. Ela levantou o olhar rapidamente e respondeu:

- Continua a ter esperança, John Bacon. Quando o teu pirilau tiver crescido o suficiente para me agradar, talvez eu pense em mostrar-te o que posso fazer por ti. - Virou-se para Baldwin como quem pede desculpas. - Lamento, mas Bacon é sempre assim.

Baldwin tossiu, e sentiu o rubor a subir-lhe ao rosto. A sua única compensação era que quase conseguia sentir o calor a irradiar do rosto do burgomestre. Era bastante óbvio que a rapariga via a sua atrapalhação. Inclinou-se para a frente para pousar uma face na mão, e o movimento fez com que a túnica se lhe ajustasse ao peito. Ele tinha dificuldade em manter os olhos no rosto dela, à medida que ela o olhava inocentemente. A sobrancelha dela ergueu-se uma vez, num movimento rápido que ele poderia não ter visto - mas a expressão dela mostrava que ela sabia que ele tinha visto.

- Hum, então quem... quem estava aqui ontem à noite?

- Ontem à noite? Oh, havia muitos homens - disse ela, e ele tinha a certeza de que ela o estava a provocar. - Elias, e Will Ruby, aqui o burgomestre... - Baldwin reparou no comentário. Ela era suficientemente inteligente para deixar bem claro que o burgomestre estava implicado - e muitos outros. Elias passou algum tempo a falar com um desconhecido, e havia um pai e um filho vindos do estrangeiro, alguns guardas, um frade, e Roger Torre, e... Oh, não sei quem mais.

- É em Torre que estamos interessados - disse Baldwin. - Conhece-lo bem?

A boca dela abriu-se num amplo sorriso.

- O que quereis saber?

- Lizzie, Torre está morto.

O divertimento dela desapareceu, e a sua postura mudou.

- Pensais que o morto era Roger? Isso é uma loucura... Não posso acreditar.

- É verdade.

- Bem, por que não o anunciaram imediatamente? Toda a gente tem estado a pensar que se tratava de um desconhecido.

- Porque sem vermos a cabeça não podíamos saber - disse Holcroft com rudeza e bebeu um longo gole de cerveja.

Ela olhava-os fixamente. Toda a gente na taberna sabia que o corpo não tinha cabeça, mas não lhe ocorrera que pudesse ser Roger.

- Mas porquê?

- É por isso que estamos aqui - explicou Baldwin. - Sabemos que ele esteve contigo ontem à noite. Estamos a tentar descobrir se ele disse alguma coisa, ou talvez tivesses visto alguém a discutir com ele, qualquer coisa.

- Se é verdade, deixai-me ver o corpo dele.

Baldwin fez um gesto com a mão, e Daniel levantou-se. Caminhou para a porta. Passado um momento, Lizzie seguiu-o. Alguns minutos depois, estava de volta, o rosto pálido.

- Bebe isto - disse Baldwin, empurrando a sua caneca na direcção dela.

Ela aceitou-a, grata. Levantando-a com ambas as mãos, esvaziou-a. Quando a voltou a pousar em cima da mesa, Baldwin viu que as mãos lhe tremiam.

- É mesmo Torre - disse ela num tom rude. - E o único homem que conheço que pode ter feito isto é ele!- E apontou um dedo trémulo ao burgomestre.

 

Arthur Polé fez o vinho girar na sua taça e olhou pensativamente para o seu interior. A esposa estava serenamente sentada junto à lareira, na sua posição preferida, bordando uma tapeçaria. Por fora, estava calma, e falava com o que a um desconhecido poderia ter parecido indiferença, mas Arthur sabia que não era assim. Este era o seu tom de doce sensatez. Era o tom que usava quando queria que um dos criados compreendesse bem o que se esperava dele. Arthur sabia que ela usava este tom também com ele quando pensava que ele a decepcionara de uma forma gritante.

Era injusto. Ele não fizera nada hoje para merecer este tratamento. No que lhe dizia respeito, ele tentara manter aquele maldito veneziano longe da filha. Cammino não parecera à sua porta a convite de Arthur: era tudo culpa de Avice. Ela é que maquinara tudo, não ele.

Arthur estava habituado a ser tratado pela mulher como um delinquente quando ela considerava que ele descera abaixo do nível elevado de um mercador e de um membro da Corporação tão importante como ele era; e ele habituara-se a uma filha que pensava nele apenas como um banco pessoal com recursos ilimitados e sem cobrança de juros, mas irritava-o que a mulher lhe desse lições sobre o tipo de homem em que ele devia pensar para a sua única filha.

- John seria um partido muito bom para ela - estava Marion a dizer ao mesmo tempo que terminava imperturbavelmente um ponto e seleccionava uma linha nova. - É verdade que não tem dinheiro seu, mas o pai, Sir Reginald, é proprietário de uma boa porção de terra e de quatro aldeias. Avice ficará bem ao abrigo das necessidades. E Sir Reginald também tem laços com a família de Courtenay, por isso John será o pai perfeito para os filhos dela.

O marido levantou o olhar para ver o criado à espera, junto à porta. Esvaziou a sua taça e fez sinal para que ele lha voltasse a encher. Marion reparou no gesto.

- Ainda não bebeste o suficiente, meu querido? Já bebeste muito antes, com aquele homem.

- “Aquele homem”, como lhe chamas, é o maior mercador de tecidos de Winchester. Para mim, ele podia valer uma pequena fortuna.

- Eu devia esperar isso, a julgar pela quantidade de vinho que gastaste com ele.

- Como esperas que eu faça amigos e arranje contactos novos no negócio se não lhes comprar às vezes presentes? Não aprendeste nada de negócios durante todo este tempo em que estamos casados?

- Oh, sim. Aprendi muito desde que casaste comigo - respondeu ela causticamente. - Fui obrigada, não estava habituada a tais coisas antes.

Arthur pegou na taça que o criado lhe estendia e fez-lhe sinal com a cabeça para que deixasse a sala. Reconheceu o preâmbulo ácido às queixas habituais, e não queria que fossem testemunhadas.

- Afinal, marido, quando casei contigo era filha de um cavaleiro.

- Sim, querida.

- Ele era descendente de uma família antiga. Tive sorte em que ele concordasse em deixar-me casar contigo.

-- Porque eu era apenas o filho de um sapateiro.

- Eras de uma... nobreza menor - Marion acenou com a cabeça, acrescentando complacentemente: - Mas eu via que eras um homem honrado.

Arthur sentiu-se ofendido e impelido a retaliar:

- Eu já era rico, e o teu pai precisava de dinheiro.

- Isso não teve nada a ver.

- Marion, o teu pai não tinha dinheiro para te sustentar.

- Isso não é verdade! - os olhos dela brilhavam de indignação. Arthur pousou a sua taça.

- O único título que me salvou foi o dinheiro que eu tinha juntado durante anos. Se não fosse isso, o teu pai ter-me-ia recusado. Ele precisava do meu dinheiro.

Ela olhou-o com uma fúria fria. Marion não era uma mulher dura. Casara com Arthur quando ele era ainda relativamente desconhecido, e aprendera a aceitar algumas das atitudes e crenças curiosas que o caracterizavam, mas gradualmente, ao longo dos anos, ela conseguira educá-lo e elevá-lo a um nível de nobreza. Ele jamais poderia aspirar a ser um verdadeiro cavalheiro, uma vez que não possuía nobreza de nascimento, mas, apesar disso, ela tinha a certeza de que poderia melhorar a posição da sua família na cidade, e um método para atingir esse objectivo era assegurar-se de que a filha casava bem. Era importante, não só para Marion, mas também para a própria Avice. Era muito melhor para ela se pudesse casar-se com um homem com estatuto. O pai podia arranjar o dinheiro.

Marion engoliu o orgulho - Mãe Santíssima, quantas vezes precisara fazê-lo ao longo dos anos! - e obrigou-se a acenar compreensivamente com a cabeça.

- Arthur, és um bom homem, e as tuas capacidades para o negócio fizeram de ti um homem de sucesso, mas não vês que o que quero para Avice é o que é melhor para ela e para os filhos?

- Ela não tem filhos.

- Para os filhos que ela vai ter. Ela deve estar em posição de poder cuidar dos nossos netos. Isso significa que tem de encontrar um marido com uma posição social adequada, e o único que conhecemos é John. - Era verdade, ela sabia, que John era ignorante e mais do que um pouco estúpido, mas o que se poderia esperar de um escudeiro rural? Na verdade, ele era pouco mais do que um agricultor.

Mas era parente dos de Courtenay, e isso contava muito.

Por um momento, Marion continuou a bordar em silêncio, ao mesmo tempo que pensava. Seria um feito significativo voltar a ter um título nobiliárquico na família. E Avice não poderia desejar um partido melhor. Nenhuma das famílias maiores toleraria que a filha de um mercador se ligasse a elas, e ela tinha sorte por John a ter aceitado. Marion observou afectuosamente o marido. Ele olhava, taciturno, para o fogo, recusando encontrar o olhar dela.

- Marido, sabes que o melhor para ela é casar-se no seio de uma boa família.

- Eu preferia que ela fosse feliz.

- Eu sou feliz.

A doçura do tom dela fê-lo levantar o olhar, examinando-lhe o rosto em busca de um indício de falsidade.

- Mas ela parece ter a mente fixa neste veneziano, e, pela forma como ele anda por aí a rondar, se não a ama, então eu não sei o que é o amor.

- Aquilo não é amor, é apenas paixão. Ambos sairão disso - disse ela em tom confidencial. - Arthur, sabemos tudo sobre John, e não sabemos nada sobre este rapaz. Qual é o partido mais seguro para a nossa filha?

- Sabias que Pietro é filho de um banqueiro? O pai está neste preciso momento a negociar com o Abade.

Ela fez uma pausa, enquanto digeria a informação.

- Talvez seja assim, mas não se trata apenas de dinheiro.

- Marion, alguns destes banqueiros italianos são extremamente ricos. Com esse dinheiro, Pietro podia comprar o grau de cavaleiro, talvez até o título de duque.

- Um título novo não é a mesma coisa que um antigo - protestou ela, não parecendo muito segura.

- E como é que sabes que o veneziano não é oriundo de uma família com título de nobreza? Muitos destes banqueiros italianos provêm de famílias nobres.

- Não me parece que...

- Se for, estamos a perder um bom marido para a nossa filha, não estamos?

- E que sugeres que façamos, então?

- Apenas isto: que descubramos o que pudermos sobre os Cammino. Vou mandar o criado fazer isso. Henry sempre foi metediço. Vai adorar descobrir coisas sobre eles.

Marion pensou, depois concordou com um aceno de cabeça.

- Se pensas que vale a pena, marido.

Arthur observou a mulher, à medida que ela regressava à sua costura. Parecia contente, e, quando levantou o olhar e encontrou os olhos dele, voltou a sorrir. Ele voltou a fixar o fogo; nunca compreenderia as mulheres. Contudo, resolveu mandar investigar os venezianos o mais depressa possível. Se se vergasse aos desejos da filha, teria primeiro de se certificar de que, mais tarde, ela não teria motivo para lamentar a escolha que fizera.

Margaret pegou no tecido que o mercador lhe estendia e segurou-o junto ao corpo, enquanto Jeanne via como lhe ficava. Então recomeçaram ambas a soltar risinhos abafados. Jordan manteve a sua expressão agradável, mas que estava a tornar-se um pouco fixa. Quando olhou para Hugh, tudo o que viu foi um ar taciturno, e teve de perguntar-se a qual das mulheres pertencia o idiota de olhar triste. Se a mulher dele tivesse um criado como aquele, jurou Jordan, ele despediria a criatura imediatamente.

Hugh estava carregado com a montanha de produtos alimentares, e sentia como se os braços tivessem esticado centímetros. A alegria das mulheres era incompreensível para ele, e também não confiava no vendedor. Jordan Lybbe parecia demasiado pronto, demasiado adulador na forma como cantava os elogios do par, à medida que elas seguravam peças de tecido junto ao corpo. Roçava o familiar, e Hugh estava profundamente desconfiado. O homem quase que parecia estar a namoriscá-las, e o que tornava as coisas piores era o facto de que as mulheres davam todo o aspecto de estarem a adorar.

Hugh olhou a rua de uma ponta à outra. O dia aproximava-se do fim, e as pessoas deixavam livres os corredores entre as tendas, preparando-se para regressarem às suas casas alugadas, ou aos quartos em estalagens e tabernas, algumas para voltarem às suas camas quentes na palha por cima dos cavalos. Primeiro, no entanto, todos estariam ansiosamente à espera dos saltimbancos, que, inevitavelmente, seguiam a feira. Esta noite, na névoa alcoólica de muitas salas, as pessoas estariam a observar, com olhar turvo, os bobos a executarem acrobacias ou a cantarem, e poucas, se é que algumas, se lembrariam de alguma coisa pela manhã. As únicas coisas que as fariam lembrar-se seria a dimensão da sua ressaca e a leveza das bolsas.

Ele podia visualizar tudo demasiado bem, e queria fazer parte de tudo. Mas havia apenas muito poucas hipóteses de ele poder desfrutar de qualquer uma das festividades, enquanto o seu amo fosse convidado do Abade. Seria impróprio para o criado de um beleguim cabriolar com malabaristas ou bailarinas enquanto estivesse alojado num convento.

Quando rebentou outra onda de hilaridade, ele colocou cuidadosamente os cestos no chão, encostando-se a um poste. Aqui podia sentir o último brilho do Sol, e fechou os olhos, desfrutando do calor ténue. Era bastante raro ele ter tempo para se sentar ao sol nos dias que corriam. Tudo isso terminara quando saíra de casa para ganhar a vida. Antes disso ocupara-se, primeiro, a espantar pássaros, atirando pedras aos pombos e corvos, e, conseguindo, por vezes, uma pedrada feliz e comida para o jantar, até ter oito anos e idade suficiente para ser pastor, e, se os meses de Inverno eram frios e cruéis - trabalhando na neve, tentando encontrar animais perdidos e protegendo os jovens cordeiros de raposas, busardos, corvos, lobos e de todos os outros animais que transformavam em presas as estúpidas criaturas de pernas longas -, os meses de Verão eram mais do que compensadores. Ele podia, então, sentar-se nos prados com a sua pequena bolsa de comida e um odre cheio de cerveja, e dormitar à luz do Sol, enquanto as jovens ovelhas andavam continuamente a pastar em círculo: caminhando e pastando, caminhando e pastando.

Com os olhos do espírito, ele via agora as pastagens, como se tivesse regressado à colina perto de Drewsteignton, os quarenta e tal animais à sua frente, os maxilares a moverem-se ritmicamente, dando um passo lento de cada vez, à medida que seguiam atrás do líder. A visão era tão forte que sentiu que quase podia estender a mão e tocar na ovelha mais próxima.

Então voltou bruscamente ao estado de vigília, ao ouvir a voz.

- Os meus amigos dizem que és de França. É verdade?

Em primeiro lugar, Hugh olhou para as mulheres: estavam em silêncio mas sãs e salvas. O mercador tinha estado a falar com tal concentração que não reparara nos três homens que furtivamente o tinham rodeado. Hugh deslocou-se silenciosamente para detrás do poste, a mão a cair-lhe sobre o velho punhal e a testá-lo na bainha.

- Eles pensaram que não compreendias inglês. Disseram que tinhas problemas com ele antes.

Tinham escolhido a ocasião do ataque com perfeição, pensou Hugh. O vendedor de tecidos e as mulheres estavam ocupados na parte de trás da tenda, e era difícil ver a rua agora, tão distantes se encontravam da banca que estava à frente. Se gritassem a pedir ajuda, era provável que estivessem inconscientes e os atacantes já longe antes que alguém ousasse entrar e descobrir o que estava a acontecer. Não havia muita gente que se preocupasse em arriscar a vida para proteger outro feirante. Hugh ficou quieto, e, tanto quanto podia ver, nenhum dos homens reparara na sua presença.

O chefe dos três, aquele que falara, tinha na mão uma enorme moca de espinheiro negro, e levantou-a e deixou-a cair duas ou três vezes.

- Vamos ver se isto te ensina o inglês do Rei, seu sacana estrangeiro. Apanhem-no, rapazes!

Os dois homens que ladeavam Lybbe estenderam as mãos para o agarrarem, mas o mercador era demasiado rápido para eles. Saltou para a frente, desviando para o lado a moca do chefe e agarrando o pulso do homem. Protegendo-se debaixo do ombro dele, ainda a segurar-lhe no braço, Lybbe girou, torcendo o braço do homem para trás. O chefe estava agora dobrado, dominado pela dor, Lybbe tirou-lhe a moca dos dedos, que não ofereceram qualquer resistência, e pousou-a em cima do ombro do seu atacante, empurrando o homem para longe de si e obrigando-o a soltar um pequeno suspiro de dor.

- Compreendo inglês suficientemente bem, penso - disse Jor-dan com frieza. - Mas parece que o teu amigo não compreendeu. Eu disse-lhe que me zangava se acontecesse alguma coisa ao meu material, mas é óbvio que ele não percebeu o que eu queria dizer. - Torceu-lhe o braço e segurou-o mais acima, e as pernas do chefe cederam quando ele tentava impedir o ombro de sair do encaixe. - Pergunto-me se tu me compreenderás. Se isto se repetir, terei de continuar a levantar-te o braço, e então precisarás de ir ter com os monges para que to arranjem. Poderá levar algum tempo.

Observando-o, Jeanne estava petrificada pelo choque. Havia uma aceitação da violência na acção dele, uma precisão na lenta tortura que ele infligia ao homem que fazia com que uma pena de horror descesse pela espinha dela, fazendo-lhe cócegas. Ela nunca assistira antes a tal crueldade intencional para com outra pessoa. O seu próprio sofrimento às mãos do marido era um caso diferente, pois ela sabia que podia suportá-lo - e uma parte dela até o aceitava como castigo por não poder dar ao seu homem os filhos por que ele ansiava - mas este deliberado infligir de dor noutra pessoa fazia com que a sua alma se aninhasse com medo.

Jack Grande avançou furtivamente, levantando um pé de cada vez e pousando-o silenciosamente. Tinham-no deixado de guarda à frente da tenda, caso os gritos de medo e os lamentos de dor do mercador atraíssem outros vendedores em sua defesa, e ouvira os primeiros comentários de escárnio dos seus amigos, mas quando tudo ficou em silêncio, ficara ansioso. Espreitando através das cortinas de tecidos pendurados nas traseiras, viu Lybbe a agarrar o homem num abraço doloroso.

- Queres descobrir quanto tempo é preciso para curar um ombro partido? É excruciante, dizem - continuou Lybbe em tom de conversa, levantando o braço ainda mais. Outro grito de dor libertou-se da sua vítima.

Jack Grande avançou por entre os tecidos, usando a sua moca para afastar o tecido para o lado, à medida que se aproximava cada vez mais. Não se ouvia qualquer som a não ser a respiração pesada da vítima de Lybbe e o tom de voz frio do mercador. Jack Grande chegou à ponta do último tabique de tecido pendurado e respirou fundo, ao mesmo tempo que se preparava para se lançar para a frente.

Foi então que Hugh o atingiu por cima da orelha, e o homem caiu como um bezerro abatido com um machado de magarefe.

O ruído súbito, o roçar de tecidos e o suspiro fundo que se ouviram quando o homem caiu fizeram com que Lybbe olhasse rapidamente por cima do ombro. Hugh encolheu os ombros, e o mercador acenou com a cabeça.

- O teu último amigo parece estar agora a fazer uma soneca. Qual é a tua decisão, amigo?

- Desisto, rendo-me - murmurou o homem, sufocando. Lybbe lançou-lhe um olhar contemplativo, em seguida aplicou-lhe um bom pontapé na base da espinha. O chefe caiu, prostrado, diante dos outros dois, que fixavam o amigo com furiosa consternação.

- Tirai aquele lixo da minha tenda, e não deixeis que volte cá - disse Lybbe secamente. - Tendes sorte. Vós sois dois e há dois pedaços de excremento para levar, por isso ide!

Hugh viu os dois homens rodearem cautelosamente o mercador e agarrarem os amigos. O homem inconsciente foi arrastado, a cabeça a bater levemente em cada tufo de relva, enquanto que tiveram de ajudar o outro a pôr-se em pé, agarrando-lhe o braço dorido, e de levá-lo para longe dali.

Quando tinham desaparecido, Lybbe atirou ao ar a sua nova moca, girando, e voltou a apanhá-la.

- E agora, senhoras, depois daquilo por que passastes, e especialmente porque o vosso criado acabou de me salvar de ser espancado, podeis escolher o tecido que quiserdes por metade do preço.

 

Simon e Baldwin olharam espantados, à medida que Lizzie atirava violentamente a sua caneca à cabeça de Holcroft. O burgomestre protegeu-se e a caneca passou por ele, esmagando-se contra a parede distante.

- Assassino! Homicida! Cobarde! Porque tiveste de o matar? O que é que ele tinha feito que muitos outros não tinham já feito também, heim? Foi por seres tão fraco que tiveste de o matar? Nunca ousaste falar comigo antes, pois não?

Baldwin preparou-se para a agarrar, caso ela se atirasse a Holcroft.

- Lizzie, por favor, está calada e explica-te.

- Calada? Por que deveria eu estar calada? Acuso-o, aquele homem, o nosso burgomestre, de ter morto Roger.

- Porquê?

- Porque ele sempre me quis, desde que me viu aqui pela primeira vez. Porque me viu ontem ir para o meu quarto com Roger, e estava à porta à espera quando eu saí. Ele não entrou na taberna depois - deve ter-se apressado a seguir Roger e matou-o.

Baldwin olhou Holcroft.

O burgomestre estava sentado com a cabeça baixa, como se estivesse à espera de outra pedrada. Nunca lhe passara pela cabeça que Lizzie o acusasse de homicídio. Ouvi-la denunciá-lo infligiu-lhe um terror fugaz, como se o desdém dela lhe tivesse queimado a própria alma. Mas, de alguma forma, isso fê-lo sentir-se mais leve, como se a explosão dela lhe tivesse destruído completamente a paixão, não deixando nada, nem sequer mágoa, no seu rasto.

A repugnância presente na voz dela curara-o do amor que sentira por ela, fosse qual fosse a sua causa. Ele ergueu a cabeça e encarou os olhos de Baldwin com firmeza.

- Ela tem razão. Eu queria-a mesmo, e fiquei arrasado quando a vi sair da sala de braço dado com Roger. Mas juro que não tive nada a ver com a sua morte.

- Estavas ali à espera quando eu saí do meu quarto - disse ela, muito irritada.

- Sim, estava. Se eu tivesse querido matar Roger, teria saído para a estrada para lhe preparar uma emboscada.

- Oh, tretas. Tiveste tempo para correr atrás dele, para o apunhalar e...

Baldwin levantou uma mão.

- Por favor, Lizzie, já adivinhaste e acusaste de mais. Acalma-te. Agatha - mais cerveja! Agora, Lizzie, conta-nos exactamente o que aconteceu quando tu e Torre... terminaram.

Enquanto falava, a rapariga lançou a Holcroft um olhar cheio de indignação, a voz a tremer-lhe de raiva.

- Ouvi o sino das Completas e apercebi-me de que tínhamos demorado mais do que eu tencionava, por isso levantei-me e vesti-me, enquanto ele ainda ficou na cama. Quando lhe contei que Holcroft gostava de mim, ele disse que não fizera ideia. Ficou perturbado, pensando que poderia ter feito o burgomestre infeliz ao levar-me da taberna tão abertamente, especialmente porque Holcroft estivera a discutir com ele. Essa discussão deve ter sido muito séria, é tudo o que posso dizer!

- Sim, e depois?

Sob o paciente interrogatório dele, ela organizava os seus pensamentos.

- Ele vestiu-se e saiu. Eu ainda estava a entrançar o cabelo e a arranjá-lo. Pus o meu toucado e tive de voltar a atar o avental, e tinha perdido um sapato, por isso tive de procurá-lo, e depois saí. Quando estava a fechar a porta, vi Holcroft, encostado à entrada da taberna.

- Quer dizer que ele se encontrava junto à porta das traseiras que dá para as cortinas que servem de divisórias?

- Sim - disse ela com brusquidão, irritada pela interrupção. - Estava lá especado quando eu saí. Quando caminhei em direcção a ele, virou costas e foi-se embora.

Baldwin acenou com a cabeça.

- Holcroft?

- É tudo verdade. Eu estava à espera havia um bocado. Lembro-me de ter ouvido uma porta a abrir-se e a bater, e, quando olhei, vi Torre. Ele viu-me ao mesmo tempo, e baixou a cabeça, como se se sentisse envergonhado, e passou à pressa por mim. Eu esperei mais algum tempo e estava prestes a entrar quando Lizzie saiu. Ela fez como se não me tivesse visto. - Holcroft bebericou a sua cerveja. - Decidi ir para casa.

Simon pigarreou.

- Por que caminho fostes, Holcroft?

- Subi a colina em direcção a Brentor.

- Nesse caso, no sentido contrário àquele que Torre seguiu.

- Ele deve ter corrido atrás de Roger e matou-o! - proclamou Lizzie.

- Torre era idiota? - perguntou Simon, cáustico. - Era surdo? Estás a dizer-nos que pensas que um homem seguiria por uma estrada no meio de uma feira, à noite, e que não se viraria se ouvisse passos a aproximarem-se? Se ele ouvisse alguém a correr atrás dele, ter-se-ia preparado para o caso de ser atacado.

- Roger não. Conhecia bem a cidade, há séculos que vinha cá todos os anos. Se ele ouvisse alguém atrás dele na estrada, pensaria apenas que era alguém com pressa.

- Acabaste de nos dizer que Roger ficou nervoso perante a ideia de perturbar Holcroft - sublinhou Simon. - Se assim é, certamente que ficaria de ouvido alerta, não fosse ouvir passos ligeiros atrás de si - a não ser que fosse completamente idiota! Quem viraria costas a um homem que pensava que lhe tinham roubado a mulher?

- Eu não era mulher dele - disse Lizzie, pouco convincente.

- E Elias? - perguntou Baldwin. - Tinhas estado a dormir com ele nessa tarde, não é assim? Será que ele podia ter ficado com ciúmes de Torre por estar contigo?

- Ciúmes, de quê? Não sou mulher de ninguém; nenhum homem é dono de mim, eu vivo como quero. Por que motivo é que Elias iria ter ciúmes de mim?

- Elias deixou a taberna enquanto te ausentaste com Torre. Regressou mais tarde, apressado. É possível que ele tenha seguido Torre e o tenha assassinado. Teve de beber algumas cervejas rapidamente para se acalmar, pelo menos foi o que algumas pessoas disseram.

Lizzie olhava fixamente o cavaleiro como se ele fosse louco.

- Elias, matar? Se acreditardes nisso, acreditareis em mim se eu disser que o céu é verde. Este homem aqui é que era o ciumento, não Elias. O padeiro sentia-se apenas solitário, às vezes, e pedia-me que lhe fizesse companhia. Não, Elias não mataria. Este homem era aquele que me queria toda para ele! - Lizzie levantou-se, lançando um olhar de desdém ao burgomestre, que lhe retribuiu com uma expressão de surpresa ferida. - Seja como for, tenho trabalho a fazer. Não posso ficar aqui sentada todo o dia a sonhar, e, no que me diz respeito, não quero estar sentada em lugar nenhum perto de ti, David Holcroft, nunca mais. - Dando meia volta rapidamente, deixou a mesa.

- Ora bem, David - disse Baldwin com gentileza. - Suponho que vos apercebeis de que temos de saber tudo sobre isto... Posso prometer-vos que, se não tiver qualquer relação com o homicídio, o que nos disserdes não sairá daqui.

Holcroft esboçou um sorriso amargo.

-Agora que Lizzie já se decidiu, toda a cidade ficará a saber. O mais provável é que o Abade saiba... e a minha mulher - o burgomestre suspirou.

“Bem, Sir Baldwin, é uma história bastante breve. Casei-me quando era muito jovem e a minha esposa é cinco anos mais velha do que eu. Foi desejo do meu pai que nos casássemos, pois o pai dela era proprietário de uma boa porção de terra no caminho para Werrington, e isso, juntamente com a terra arrendada pela minha família, teria feito uma propriedade jeitosa, mas, pouco depois de nos termos casado, o meu pai faleceu, e, com as dívidas que ele tinha na altura, foram-se as terras arrendadas. Tiveram de ser divididas, e, depois disso, havia menos do que quando nos casámos. No entanto, eu comecei a amá-la, e estava satisfeito.

“Mas ultimamente ela tornou-se reservada. É-me difícil arrancar-lhe uma palavra, e, à noite, está sempre cansada ou tem dor de cabeça. Há uns bons dois meses que esta situação dura. Talvez seja culpa minha. Dizem que um homem deve bater na mulher, mas eu nunca o fiz. - Continuou, cansado: - Sempre trabalhei muito no meu ofício, mas há três meses ela começou a queixar-se porque nunca me via. Eu não podia parar, ainda por cima com o cargo de burgomestre também.

Houve um momento de pausa, enquanto Holcroft reunia coragem.

- Eu já conhecia Lizzie, e, como podeis ver com os vossos próprios olhos, qualquer homem a quereria. Sempre que a via, ela perguntava-me como eu estava, e tinha sempre tempo para ouvir. Parecia preocupar-se. Suponho que se pode dizer que eu sentia paixão por ela. De início eu vinha aqui tomar uma bebida rapidamente, a caminho de casa, mas ultimamente tenho cá vindo apenas para a ver. Ela interessava-se. Isso tornava-a realmente desejável. - Engoliu um longo trago de cerveja e olhou-os nos olhos, em jeito de defesa.

- Por que motivo discutistes com Torre? Foi por causa dela? - perguntou Baldwin calmamente.

- Não, Roger não conhecia os meus sentimentos em relação a ela - a própria Lizzie vos disse isso. Não, foi por causa do monge.

- Monge? Que monge?

Hesitantemente, Holcroft contou o episódio de Peter e do encontro deste com Torre, que quase acabou em luta.

- E o que pretendia Torre? - perguntou Simon, mostrando incompreensão. - O Abade parece um homem generoso, não parece nada do tipo que gosta de incomodar seja quem for.

Holcroft lançou-lhe um olhar duro.

- Robert Champeaux tornou-se Abade aqui quando a abadia estava a desmoronar-se. Os monges não tinham dinheiro, e tudo o que tentavam fazer consumia-lhes mais os recursos, até se encontrarem às portas do desespero. Foi então que Champeaux tomou posse. Encontrou logo papéis antigos que davam certos direitos à abadia, e ele depressa os retomou. Pediu dinheiro emprestado, emprestou dinheiro, fez lucros que investiu em projectos novos, aumentando sempre as reservas da abadia. Penso que é um homem honrado, e tudo o que ele deseja fazer é assegurar-se de que a abadia seja forte e esteja protegida para encarar o futuro, mas há muita gente que é de outra opinião. Pensam que ele é como todos os outros - que está simplesmente a forrar os seus próprios bolsos à custa de todos os habitantes da cidade.

- E Torre pensava isso? - tentou Baldwin saber.

- Sim. Pensava que o Abade o estava a enganar. Roger não conseguia simplesmente compreender que o Abade teria tratado qualquer outra pessoa exactamente da mesma forma.

- Como era Torre tratado?

- Com bastante justiça. Roger era um dos dependentes da abadia, um servo. O Abade está gradualmente a permitir que os homens aceitem a terra de arrendamento durante vários anos, porque assim pode cobrar-lhes renda anual, mas pode também fazer com que eles lhe paguem mais com o dinheiro que fazem. O Abade estava a tentar fazer com que Roger aceitasse um arrendamento, como faz a todos. O problema é que Roger não via as coisas assim. Tudo o que ele via é que estava a ser obrigado a entrar num acordo que lhe custaria muitos xelins por ano para cultivar os produtos de que ele depende. Era por isso que ele odiava o Abade, e foi por isso que o insultou em frente ao monge.

- Esse monge de que falais é o jovem Peter?

- Sim. O rapaz é ainda noviço. Ficou contente por defender o seu senhor, como faria qualquer jovem escudeiro. Não sei o que o Abade sentiria, mas devia ficar grato por um dos seus querer proteger o seu nome a sua honra. De qualquer forma, tive de interferir e sugeri que o monge se fosse embora antes de se envolver numa rixa de taberna.

- E depois Torre acalmou-se?

- Não, Roger pensou que eu estava do lado do Abade e não quis ficar comigo depois. Foi por isso que me deixou e saiu com Lizzie.

- Muito bem. Assim, mais tarde, fostes esperar à porta?

- Sim - confirmou Holcroft num tom pesado. - Vi Roger sair e passar por mim, parecendo embaraçado. Fiquei ali parado até Lizzie sair. Depois fui para casa.

- Sozinho?

- Duvido que alguém me tenha visto. Se viram, não me apercebi. Eu não estava de bom humor.

- Porquê? Sabíeis que ela era prostituta - assinalou Simon.

- Não sei. Escutai, tal como eu disse, a minha mulher já não fala comigo, e Lizzie era compreensiva. Podeis achar estúpido, apenas uma paixão pueril, mas, a mim, parecia-me bastante real. Vê-la sair com Torre mostrou-mo claramente. Eu queria fazê-la sentir-se culpada, ao ver-me à espera à porta. Mas juro que não tive nada a ver com o homicídio.

Baldwin acenou com a cabeça.

- Agora que Lizzie vos acusou de homicídio, dificilmente podereis ajudar na investigação. O que quer que descobríssemos com a vossa ajuda não seria digno de crédito. Prejudicaria quaisquer descobertas.

- Tereis de contar ao Abade.

- Não lhe direi nada. Tudo o que ele precisa de saber é que uma mulher de uma taberna ficou histérica e gritou que éreis culpado. Isso não constitui qualquer prova, e espero que não vos afecte. Mas coloca-nos, de facto, numa posição difícil. Se encontrássemos o verdadeiro culpado com a vossa ajuda, algumas pessoas poderiam estar dispostas a presumir que tínheis procurado um bode expiatório para vos protegerdes, e, se as pessoas estiverem preparadas para acreditar que o Abade é desonesto - levantou uma mão para impedir os protestos do burgomestre -, poderiam também espalhar rumores de que um inocente foi enforcado para proteger o homem do Abade - se, de facto, nós alguma vez descobrirmos alguém a quem acusar.

Holcroft acenou lentamente com a cabeça.

- Nesse caso, regressarei a casa agora. Podem sempre contactar-me lá.

Simon observou-o a levantar-se e a encaminhar-se para a saída.

- Pobre diabo!

- Ele recuperará. Holcroft passará em breve as suas responsabilidades a outra pessoa, e então terá tempo para resolver as coisas com a esposa. Tudo o que ele pode fazer agora é ir para casa, e esse é o único local em que ele nunca poderá encontrar qualquer paz. Como deve ser horrível ser-se apanhado num casamento sem amor.

- Acontece com muita frequência - disse Simon, com a insensibilidade de um homem que amava e que era amado pela esposa.

- Sim - concordou Baldwin, pensando no sorriso radiante de Jeanne. Sem saber como, ele tinha a certeza de que ela jamais poderia ser tão cruel como Holcroft descrevera a esposa. Empurrou a imagem da mente. - Penso que deveríamos tratar agora de Elias. O que achais?

 

Edgar estava sentado num banco, uma caneca de cerveja numa mão, um pequeno pastel na outra. Tinha um ar de satisfação. O cavaleiro tocou-lhe no banco com o pé.

- A comer? Pensei que te tinha dito para vigiares Elias.

- Ele está ali - disse Edgar, apontando com o pastel. - Nem por um segundo o perdi de vista.

Baldwin olhou. Elias estava de pé, a conversar com um homem de barba e com um frade.

- Vem, vamos resolver isto.

À medida que eles se aproximavam, o homem de barba desapareceu entre a multidão, mas o frade ficou. Baldwin dirigiu-se ao cozinheiro.

Elias mantinha uma pose resoluta. O rosto adquirira o mesmo aspecto obstinado de antes.

- Sim, meus senhores? Quereis comprar uma torta agora?

- Elias, estivemos na tua casa e encontrámos uma coisa no teu quintal.

Enquanto dizia isto, Baldwin observava-o atentamente. Se tivesse havido nem que fosse o mais leve endurecer de feições, o mais momentâneo movimento das pálpebras dele ou um torcer de mãos, Baldwin duvidaria da sua forte convicção de que o cozinheiro estava inocente, mas não houve nada. Quando muito, Elias parecia divertido.

- Bem, não sou obrigado a limpar o meu quintal sempre que há uma feira. Não me podeis multar por isso!

- Encontrámos uma cabeça enterrada no teu quintal, Elias. A cabeça de Torre. De boca aberta, Elias agarrou-se ao tampo da mesa.

- A cabeça de Torre no meu quintal? Senhor, não tive nada a ver com isso - não fui eu que o matei. Por que motivo é que eu mataria Roger? Nunca discutimos. Porquê, se, ainda na noite em que ele morreu, estive sentado com ele. Perguntai aqui a Frei Hugo, ele esteve lá connosco.

Baldwin fez sinal a Edgar.

- Lamento, Elias - disse ele com voz dura. - Não posso fazer mais nada. Com o corpo na tua rua e a cabeça no teu quintal, temos de prender-te. Faço-o com a autoridade que o Abade me conferiu.

- Falai com o frade - suplicou Elias, desesperado.

- Frade?

Hugo vira uma grande parte de Inglaterra durante as suas viagens, e estava cansado de cavaleiros. Muitos dos homens que ele conhecera e que usavam espadas pouco mais eram do que salteadores, e alguns cometiam crimes abertamente. No entanto, o homem alto e moreno que se encontrava à sua frente parecia diferente. Não havia ostentação na forma como se vestia, e Hugo ficou com a impressão de que era a compaixão, e não a violência, que espreitava por detrás daqueles olhos escuros e vivos.

- Senhor, ele está a dizer a verdade. Eu tinha ido à taberna com Roger Torre, e este cozinheiro juntou-se a nós.

- Isso foi antes do toque das Completas? Hugo acenou timidamente com a cabeça.

- Senhor, eu estava lá com Torre havia algum tempo, e quando Elias chegou eu já tinha bebido bastante cerveja. - Então não vale a pena, Elias. O teu álibi é demasiado fraco. Edgar, leva-o para a cadeia.

Baldwin observou enquanto o cozinheiro, a protestar, era levado, entre Daniel e o seu próprio criado, e, quando eles já se encontravam suficientemente longe e não podiam ouvir, voltou a olhar para o frade.

- Antes que protesteis, Frei, eu concordo. Penso que ele não é nenhum assassino, mas o que pensará a multidão quando ouvir dizer que a cabeça foi encontrada no quintal dele?

- Compreendo. Parece cruel metê-lo na cadeia só porque a multidão duvida da palavra dele.

- É melhor ser-se cruel agora do que vê-lo enforcado por pessoas exaltadas - disse Baldwin. - E agora, há alguma coisa que nos possais contar sobre aquele serão? Dizeis que estáveis com Torre – vistes alguém ameaçá-lo, ou ouvistes alguma coisa que nos possa ajudar a encontrar o assassino?

Hugo lançou-lhe um olhar de desculpas.

- Senhor, a cerveja naquela taberna é muito forte. Não estou habituado a uma bebida tão poderosa, e, durante a maior parte do serão, não poderia ter ouvido alguém que falasse directamente para mim. - Ele gostava bastante do aspecto deste cavaleiro, mas não ia falar do outro homem - pelo menos por enquanto. Se estivesse enganado, Hugo não queria ver um inocente ser enviado para a forca com base em provas por ele fornecidas. E que provas é que ele realmente tinha? Apenas o facto de que pensava ter reconhecido um rosto de anos antes.

Não, decidiu. Esperaria epensaria, e, se tivesse a certeza, diria ao cavaleiro. Antes disso, não.

Lançando um olhar rápido ao local por onde o cozinheiro desaparecera, afastou-se.

Com uma sensação de anticlímax, Baldwin viu-o ir. Tinha a certeza de que o frade sabia qualquer coisa, e que estivera prestes a contar ao cavaleiro.

Não faz mal, murmurou ele para si próprio. - Descobrirei outra forma.

Na rua, Peter tremia. Sabia que não devia estar ali, mas, depois de ter regressado à pressa para contar ao Abade sobre a cabeça, Champeaux mandara-o encontrar Baldwin, e ele ia a caminho, devagar. Tinha muita coisa em que pensar.

Deveria pronunciar os votos em breve, e depois disso estaria comprometido com Deus. Desde que entrasse pelos portões da abadia pela última vez, estaria perdido para o mundo. A partir daí, não pertenceria mais ao mundo material, corpóreo, mas faria parte do reino de Deus. O seu corpo teria sido deixado junto aos portões da Abadia; só a sua alma entraria.

Tudo o que ele sempre quis foi ser um homem de Deus, mas agora os interesses seculares estavam a distraí-lo.

Os monges da abadia constituíam um grupo variado, englobando desde os que eram completamente de outro mundo, aqueles que ele mal conseguia compreender, já que os pensamentos deles estavam tão concentrados na vida futura, até aos francamente desonestos. Estes últimos harmonizavam-se flagrantemente com as pessoas da cidade, conversando com elas sempre que podiam através dos portões da abadia, e partilhando com elas cerveja e bisbilhotices; alguns deles divertiam-se em tabernas quando deveriam estar a trabalhar. Isso confundia o jovem, cuja visão antes de vir para Tavistock fora de uma comunidade dedicada que servia a Deus e só a Deus. Aqui, sob a gestão frouxa do Abade Champeaux, os monges pareciam trabalhar tanto para ganharem dinheiro como para conquistarem o seu lugar no Céu.

Independentemente da frequência com que ele tentava dizer a si próprio que o comportamento dos outros era irrelevante, que viveria como sabia que devia, com os olhos postos no futuro no Céu, intercedendo pelas pessoas do mundo, e rezando por aqueles que já tinham morrido para que lhes fosse concedida entrada no Céu e para que não fossem atirados para o abismo - ele, por vezes, tinha dúvidas.

Tinham-lhe dito que as dúvidas eram necessárias. Era apenas encarando as dúvidas que um homem de Deus poderia reconhecer os seus próprios defeitos e chegar àquele estado de graça no qual poderia servir o seu Senhor com toda a plenitude. Era preciso que uma pessoa se confrontasse com as suas fraquezas antes de poder desistir do mundo e viver unicamente para rezar e salvar almas.

Mas Peter era assaltado por dúvidas de natureza virulenta. Pensara que a sua fraqueza era a preguiça, que poderia dar consigo incapaz de acordar a meio da noite para as orações nocturnas, ou, pior ainda, que poderia adormecer a meio delas. Este desejo doloroso e sem sentido era algo em que nunca pensara.

No entanto, existia, e parecia agora estar a dominar toda a sua concentração. Onde antes existira apenas a adoração agridoce do seu Deus, agora ele surpreendia sempre os seus pensamentos a afastarem-se dos seus deveres e a virarem-se para a deslumbrante e perfumada figura de Avice Polé.

Abanou a cabeça violentamente, como um cão a secar-se. Tudo isto estava errado. Estava prestes a dedicar a sua vida a Deus, e sempre que tentava pensar no grande fardo que estava a aceitar, o rosto de Avice Polé intrometia-se insidiosamente. O modo como ela segurava a cabeça, o modo como andava, o ligeiro estreitar dos olhos à medida que a boca se lhe abria num sorriso, tudo estava indelevelmente gravado na mente dele, e era-lhe cada vez mais difícil libertar-se destas lembranças.

Abriu-se uma porta, e ele sentiu uma necessidade avassaladora de fugir, quando reconheceu Avice, como se ela tivesse sido enviada para o afastar da sua vocação.

Ela saiu com uma criada - e olhou-o com calorosa simpatia.

Peter sentiu o coração transformar-se em chumbo fundido. Estava pesado de saudade, queimava de desejo por esta mulher. Por um momento perguntou-se se aquela agonia penetrante seria prova da sua própria morte, mas depois o rubor instantâneo que lhe abrasava as faces fê-lo aperceber-se de que morrer seria preferível. Não seria tão embaraçoso.

Avice reprimiu um risinho. A criada resmungou em desaprovação, mas a rapariga não via mal algum em falar com um monge, especialmente um monge era óbvio que estava tão de língua atada de desejo adolescente por ela. Ele era ternurento, pensou ela. Como um cachorrinho.

- Olá - disse ela.

Peter engoliu em seco. Sentiu como se um pedregulho se lhe tivesse materializado na base da garganta. Tudo o que conseguiu proferir foi um ruído surdo.

Ela começou a caminhar, os olhos sempre postos nele, e, como se fosse arrastado por uma corda, ele deu consigo a caminhar ao lado dela, meio relutante, meio embriagado de orgulho pelo facto de ela querer que ele se lhe juntasse.

Na sua cidade, ela estava habituada a apaixonados que esperavam, cheios de esperança, do lado de fora da porta dela. O facto de que o monge pudesse simplesmente ir a passar por ali, sem qualquer conhecimento de que ela ali vivia, não lhe ocorreu. Avice presumia, e não em vão, mas apenas por uma questão de lógica, que ele devia ter estado à espera para a ver, e estava determinada a compensá-lo pela cortesia. Falava amavelmente com ele, tagarelando sobre a excitação da feira, contando-lhe sobre as compras que fizera e aquilo que ainda tinha de procurar, e ele bebia-lhe as palavras como se fossem vinho, e ficou embriagado de admiração por ela.

Avice não fazia ideia de quão total era o ardor dele. Crescera em Plymouth, onde havia muitos mancebos, e estava acostumada a ser adorada por eles. Na pequena cidade não havia concorrentes à sua beleza combinada com a riqueza do pai. Para ela, não passava de capricho o facto de dever recompensar a adoração do monge. Avice não se apercebia de que meia dúzia de palavras dela podiam fazer com que ele reconsiderasse a sua vocação, que no espaço de algumas passadas o convenceria de que não podia renunciar ao mundo e esconder-se de uma beleza tão terna como a que ela possuía. Se ela tivesse compreendido o turbilhão que ia no coração dele, poderia ter-se compadecido e ter sido brusca para com ele, como um acto de generosidade. Mas ela não podia avaliar a forma como os desejos de um jovem podiam ser acesos; ainda menos que um monge fosse um homem, possivelmente um homem ainda com mais paixão do que os jovens fracos e enfadonhos da sua cidade natal.

Peter incendiou-se de adoração. Podia desistir do seu hábito, deixar o mosteiro e tornar-se um homem comum: podia casar-se com esta mulher.

Para Avice, era ainda mais gratificante receber as atenções dele pelo facto de ser monge. Se até um homem de Deus reconhecia a sua beleza, ela sentia, na sua arrogância juvenil, que devia estar destinada a um grande casamento. Possivelmente não se poderia casar com John, pois era um pateta. Não percebia nada de arte nem de beleza. Não, Avice tinha de encontrar um marido com quem pudesse criar uma dinastia. Com este pensamento gratificante, a sua mente virou-se mais uma vez para Pietro.

Estava resolvida a casar com ele. Estava convencida de que ele e o pai dela eram ricos, e de que a mãe não podia opor-se ao casamento quando visse o verdadeiro valor dos bens dos venezianos. Para Avice isso era irrelevante. Pietro apreciava-a - algo de que John era incapaz.

Aproximavam-se da taberna. Avice lembrava-se daquele local com ternura, agora que o mal-entendido do serão anterior fora esclarecido. Lembrava-se da dúvida e da inquietação enquanto ali estivera sentada durante tanto tempo, esperando e desesperando que Pietro chegasse, e apercebendo-se depois de que ele não chegaria. Fora terrível - a pior noite da sua vida. Mas as desculpas dele tinham sido tão veementes esta manhã que ela o perdoara.

Ela podia imaginar a figura dele, de pé em frente da taberna, e sorriu por dentro. Peter entendeu mal a expressão dela, pensou que era por causa dele e suspirou, feliz. Esta, pensou ele, era a mulher para ele. Era tão amável, tão doce e suave, seria a esposa perfeita, um anjo sobre a terra. Quando ele estivesse doente, ela seria uma amiga dedicada e a mãe dos seus filhos.

Estava ele, feliz, a pensar na sua sorte ao encontrar uma companheira tão maravilhosamente bonita, quando viu o veneziano. O monge sentia uma centelha de irritação pelo facto de o estrangeiro ter interrompido o seu passeio com a mulher da sua eleição, quando a sua musa soltou um pequeno suspiro de prazer, e os sonhos dele murcharam ao calor da sua consternação: ele tinha um adversário, um homem que não prestara juramento de castidade. Nesse segundo, Peter tomou a decisão que mudaria a sua vida.

Avice apressou-se a avançar, os seus passos leves agora, quando viu o seu homem, e a criada teve de puxar as saias para cima e de as segurar com as mãos para lhe acompanhar o passo. Peter parou, sentindo o estômago enovelado.

- Senhora, sinto-me honrado por vos voltar a encontrar - disse Pietro com voz suave. - Posso juntar-me a vós?

- Não, não podeis - declarou a criada calorosamente. - Ela não fala com todos os estrangeiros da cidade, pelo menos quando não os conhece.

- Não te preocupes - disse Avice, os olhos fixos no homem que amava. - Ele conhece os meus pais. O pai deixou-me passear com ele esta manhã.

A criada resmungou sombriamente, mas não ousou contradizer a rapariga que tinha a seu cargo. Sabia perfeitamente que a sua senhora podia ter uma vontade de ferro quando lhe apetecia.

Pietro olhou para trás dela.

- Quem é aquele jovem monge? - perguntou ele, condescendente.

O tom de voz de Pietro remexeu com o capricho dela. Avice virou-se e acenou.

- É um admirador meu, não é um monge qualquer. Posso casar-me com ele.

- Casar com ele? Com um monge? - ele reprimiu o riso. O ar de divertimento dele ofendeu-a.

- Lá monge ele pode ser, mas desistiria de tudo por mim.

- Sim? E o nobre John?

- Esse?- disse ela desdenhosamente. - Enoja-me. É um louco, um bobo. A minha mãe gosta dele porque é parente de um fidalgo, mas para mim não significa nada. Não, não casarei com ele. Mas com um jovem monge? Que melhor prova de devoção poderia haver do que o facto de um homem desistir da sua religião, da sua vida, de tudo, pela mulher da sua eleição? Penso que ele é bastante nobre.

- Achais que sim? - Pietro examinou o rosto sorridente dela. Fora bastante mau ficar a saber que ela estava prometida em casamento a um escudeiro, mas a recusa dela convenceu-o. No entanto, agora ela afirmava a sua paixão por um fraco monge! Ele olhou para trás, para Peter, cheio de um ódio súbito e irracional. Nenhum rapaz se interporia entre ele e Avice, decidiu. Se ele estava preparado para renunciar à sua vocação por uma mulher, não era monge nenhum e o hábito que usava não o protegeria.

Avice viu o olhar dele, e sentiu-se convencida de que este homem lutaria por ela, se fosse preciso. Era deliciosamente excitante - e agradável.

 

O Abade Champeaux inclinou-se, à medida que o veneziano deixava o seu salão, mas, depois de ter regressado à mesa, o seu rosto tornara-se pensativo. A ideia de Cammino era interessante, ele reconhecia. A proposta dele de exportar a lã dos rebanhos da Abadia em galés em vez de embarcações mais pequenas e mais lentas, podia muito bem aumentar os lucros de todos. Os venezianos, com os seus navios rápidos, podiam transportá-la para França através do Canal em metade do tempo - se o tempo ajudasse - e António parecia disposto a formar uma estreita aliança com a abadia, prometendo empréstimos a taxas baixas, se ganhasse este negócio.

Porém, António da Cammino era exactamente o tipo de homem de quem Champeaux aprendera a desconfiar. O veneziano parecia não ser fértil em opiniões próprias; moldava cada palavra sua de forma a adaptar-se ao seu potencial sócio, e Champeaux tinha a sensação de que, se dissesse que todos os mercadores e banqueiros deviam ser enforcados e afogados, o outro concordaria com sinceridade.

O veneziano fizera uma grande exibição dos seus contactos, dando o nome do Bispo de Exeter como alguém que poderia confirmar a sua probidade e integridade. Talvez, calculou o Abade Champeaux, António tivesse esperado ser aceite apenas pela sua palavra; talvez um Abade devesse confiar na honra de um homem - mas Champeaux era demasiado astuto em questões de negócios. Algo lhe soara a falso, e, como já tinha um homem a caminho de Exeter, enviara uma mensagem a Stapledon para confirmar as credenciais de António. A resposta estava em cima da sua mesa. O camareiro de Stapledon pediu desculpas pelo facto de o Bispo se encontrar ausente, e negou conhecer umveneziano chamado Cammino. Tanto quanto ele sabia, o Bispo nunca tivera quaisquer negócios com tal homem. O Abade Champeaux foi forçado a concluir que era alvo de um embuste. Isso fez com que se decidisse a não aceitar a oferta do veneziano.

O Abade olhava para cima, pela janela, em direcção ao Ocidente. Por cima da colina, o céu era de púrpura e ouro, uma mistura de cores impossível, e, mais uma vez, agradeceu a Deus pelo facto de os seus antecessores terem optado por construir a área residencial da abadia virada para Ocidente e não para Oriente. Sabia que era devido ao curso do rio e à configuração do terreno, todas razões lógicas e razoáveis, e todas inexprimivelmente mundanas, mas davam-lhe esta magnífica vista do pôr do Sol, e por isso ele sentia-se profundamente grato.

Robert Champeaux tinha muito por que se sentir grato. Tinha uma boa e próspera abadia, excelente terra arável, uma cidade bem desenvolvida e a convicção de que, após a sua morte, seria visto como um patrono da abadia, uma honra que lutara para alcançar ao longo de toda a sua vida de Abade.

O Abade sempre quisera deixar a sua marca na abadia. Para ele era um empreendimento sagrado, um empreendimento que exigia todos os seus esforços. A abadia era uma parte crucial da luta contra o mal, uma fortaleza essencial no conflito espiritual, e ele tencionava deixá-la numa situação tão forte que durasse um milhar de anos. Era esse o seu legado a Tavistock: uma instituição religiosa que rivalizaria com as melhores e mais fortes da Cristandade. Se as coisas se concretizassem como ele desejava, gostaria de ser recordado na mesma base como um dos fundadores da abadia.

Foi por isso que as palavras de Holcroft o tinham perturbado. Era inconcebível que um monge pudesse atacar e assaltar um homem, mas Champeaux tinha provas fornecidas por uma testemunha idónea, e, como o árbitro da justiça na cidade, não podia ignorar o que lhe tinham contado. Sobre Will Ruby, sabia que todos os que passavam pela loja do talhante o conheciam como um homem decente. Seria diferente se a alegação tivesse sido feita por um indivíduo irresponsável como Elias, mas quando um homem como Ruby falava, só um louco ignoraria as suas palavras. Se Ruby disse que um monge o assaltara, por mais repulsiva que essa notícia pudesse ser, as pessoas da cidade pensariam que era verdade, e isso poderia ser suficiente para levantar um tumulto.

Champeaux levantou-se e caminhou até à janela, franzindo o sobrolho. Tinha de dizer ao beleguim e ao amigo, por mais potencialmente perigosa que essa informação pudesse ser. Se eles fossem confrontados com a história mais tarde, teriam justificação para suspeitarem dos motivos que o tinham levado a esconder um facto de tal importância. Era desagradável, mas necessário.

Tomada a sua decisão, regressou à sua mesa e sentou-se. As suas cogitações foram interrompidas por um monge que lhe bateu à porta. Esta abriu-se para revelar Margaret e Jeanne.

Margaret deixara Hugh a transportar as suas compras para o quarto deles, a seguir ao salão do Abade. O criado não dissera nada, virou simplesmente costas e, arrastando os pés, foi-se embora com a sua carga, como um paciente burro, mas Margaret recusou-se a deixar-se influenciar pela disposição dele. Jeanne fizera-lhe algumas boas recomendações, e, entre si, as duas mulheres tinham sobrecarregado Hugh de tecidos comprados com grande desconto ao curioso mercador.

De início, o Abade ficou confuso com a torrente de conversa delas.

- Senhoras, por favor, uma de cada vez - protestou ele, quando elas explodiram com a história da sua aventura.

Jeanne deixou-se cair num banco, enquanto Margaret explicava o que lhes acontecera. Agora que tinha oportunidade de se acalmar, Jeanne deu com o seu humor a cair como um manto. Sentia uma aversão irracional pelo feirante: irracional porque ele estivera a proteger-se a si próprio e à sua mercadoria, e era direito e dever de qualquer homem proteger-se a si próprio e à sua propriedade. Contudo, qualquer coisa nele quando se encontrava naquela pose vingativa acendera um ódio dentro dela, como se tivesse agitado uma lembrança antiga.

Robert Champeaux recebeu a história de Margaret com espanto e consternação. Parecia impossível que um ataque assim pudesse ter sido abertamente perpetrado durante a sua feira. Quando ela acabou de contar a sua história, ele considerou que tinha de fechar a boca, que se escancarara de consternação.

- Mas... estais ambas bem? Nenhuma de vós se magoou?

- Não, não, Abade - disse Jeanne alegremente. - Estávamos bem, foram apenas os dois meliantes que se magoaram, e os amigos deles, suponho, que mais não fosse no seu orgulho.

- Isto é terrível - insistiu o Abade. - Que homens ousem cometer tais actos proscritos, e durante a feira também, onde estavam os guardas?

Margaret lançou um olhar rápido a Jeanne A viúva estava prestes a falar quando Baldwin e Simon entraram.

Simon cumprimentou a esposa com um desconfiado estreitar de olhos. Ela parecia demasiado animada para que a bolsa dele tivesse ficado incólume após a incursão dela na feira. Margaret interpretou o olhar e esboçou um amplo sorriso.

- Não, gastei menos do que tu terias esperado, marido, mas só por causa do ataque.

- Ataque? - perguntou logo Baldwin. - O que aconteceu?

O rosto dele registava a sua surpresa à medida que ouvia a história que elas tinham para contar. Simon deixou-se simplesmente cair numa cadeira e acenava com a cabeça.

- Já vi Hugh em acção antes.

- Isso é tudo o que tens para dizer? - perguntou Baldwin. - Isto é terrível! E se Jeanne ou Margaret se tivessem magoado?

Margaret ouviu a ordem por que ele pronunciara os nomes e olhou para a sua nova amiga. Para sua satisfação, reparou que a viúva também reparara.

Simon encolheu os ombros.

- Quando se é criado nos campos, como um agricultor, aprende-se cedo a lutar. Hugh foi treinado ao proteger o seu rebanho dos lobos de duas e de quatro pernas. Se fugisse, o pai bater-lhe-ia, por isso entrar numa luta era, pelo menos, uma forma de evitar uma tareia. Aprendeu a lutar bem e a não perder. Tenho pena do homem que tentar magoá-lo enquanto ele tiver à mão uma arma de qualquer tipo.

- E tendes a certeza de que estais ambas bem? - perguntou Baldwin às duas mulheres.

- Sim, estamos óptimas - disse Jeanne. Margaret sabia que não tinha necessidade de responder.

- Dizes que esse tal mercador vos vendeu as suas mercadorias a um preço baixo? - insistiu Simon, implacável. - Isso quer dizer que gastaram menos, ou que compraram tantas coisas mais que acabaram por ficar sem dinheiro?

- Gastámos pouco, especialmente quando vires o que comprámos - respondeu Margaret, resplandecente.

- E vós, Sir Baldwin - acrescentou Jeanne -, tereis em breve uma túnica e um manto novos.

- Uma túnica e um manto novos?

Baldwin parecia tão abatido que até o Abade irrompeu numa gargalhada grosseira.

- Sir Baldwin, como poderíeis recusar roupa nova vinda de duas benfeitoras tão gentis?

- Com dificuldade.

- Receio ter pouco a ver com isso - disse Margaret. - Jeanne deseja fazer todo o trabalho sozinha.

Simon viu o olhar rápido que Jeanne lançou à sua esposa e presumiu correctamente que aquilo era para ela uma novidade, mas ele estava também contente ao ver que ela parecia mais do que feliz com a oferta.

- Sim, senhor cavaleiro, se mo permitirdes, seria um prazer.

- Seria uma honra, senhora - disse ele, embaraçado.

O Abade estava ainda a pensar no problema que surgira na feira.

- Onde estavam os guardas quando esses homens cometeram este ultraje? Terei de me assegurar de que os homens de serviço serão castigados por permitirem tal coisa.

- Não sejais demasiado duro para com eles - disse Baldwin enquanto se sentava ao lado de Jeanne. - Quantas centenas de tendas há aqui? Tendes gente de todo o reino e do outro lado do mar a visitar a vossa cidade. Não fiqueis surpreendido por haver um incidente de importância menor.

- Tendes razão, especialmente porque há um assunto mais sério a tratar. Encontrastes a cabeça, diz-me Peter - disse o Abade devagar -, mas pertencia ao homem chamado Roger Torre.

- Sim, a cabeça estava enterrada no quintal de Elias, mas ainda não fazemos ideia por que motivo Torre teria sido morto. Prendemos o cozinheiro.

- Então pensais mesmo que Elias é o assassino? Baldwin abanou a cabeça.

- Não posso acreditar que ele o fez. É demasiado fraco, e penso que não teve tempo. Além disso, ele não poderia ter cometido este homicídio sem ter ficado com a roupa ensanguentada. Não, é-me difícil acreditar que Elias teve alguma coisa a ver com a morte de Torre. - explicou que sentiam que Elias estaria mais seguro na cadeia, e o Abade acenou compreensivamente com a cabeça.

- Foi uma boa ideia. A multidão descontrolada aqui pode ser tão imprevisível como os cidadãos de Londres. De qualquer forma, há mais uma coisa que deveis saber. Um homem foi atacado por alguém que vestia um hábito beneditino.

- De certeza que o indivíduo é demente - protestou Simon depois de o Abade lhes ter contado a história de Ruby. - Quem poderia acusar um monge de uma coisa dessas?

- Infelizmente, há demasiadas pessoas que acreditariam no pior mesmo vindo de beneditinos. Têm-se ouvido ultimamente demasiadas histórias de homens de Deus que se tornaram fora-da-lei, e há bastantes exemplos de monges que optaram por ignorar os juramentos de castidade e que arranjam mulheres. Ainda há pouco tempo ouvi falar de um irmão que foi encontrado na cama com uma mulher casada. É uma coisa que sempre se torna conhecida noutras terras, quando um monge vai para o lado do mal, e as pessoas então olham para todos como sendo corruptos e indignos.

- Pensais que um dos vossos monges poderia ter feito isso? - perguntou Baldwin, brincando com o seu vinho. - Ou será um disfarce?

- Alguns metros de tecido é tudo o que se precisa para se imitar um monge - assinalou o Abade.

Baldwin reparou que ele não negou definitivamente que um dos seus monges pudesse ter cometido o assalto.

- Tendes aqui muitos homens de hábito. O Abade lançou-lhe um olhar.

- Somos em bom número - admitiu. - Doze monges, incluindo eu próprio, e mais trinta irmãos leigos e pensionistas, que também usam hábito, mas duvido que algum deles possa ter cometido um crime como esse.

- Não, claro que não - disse Baldwin calmamente, e o Abade regressou às suas cogitações sobre Elias.

- Estou satisfeito pelo facto de o cozinheiro se encontrar atrás das grades. Podeis não estar convencido da sua culpa, mas por que motivo é que outra pessoa colocaria a cabeça no quintal dele?

- A minha pergunta é, por que motivo é que o próprio Elias a teria colocado lá? Só um louco a enterraria tão perto da sua própria casa.

- Não tinha tempo antes de regressar à taberna - sugeriu o Abade.

- Mas tinha depois. Por que não desenterrá-la, levá-la para a estrumeira e atirá-la para lá? Pelo menos dessa forma não haveria nada a relacioná-la com Elias.

- Encontrastes um hábito em casa dele?

- Não, Abade, meu senhor. Mas não andávamos à procura de um hábito.

- Se ele tivesse um, tê-lo-ia escondido - decidiu o Abade.

- Suponho que sim - concordou Baldwin, pensativo -, mas o que me interessa é a razão pela qual ele está a proteger o homem com quem bebeu naquela noite.

O Abade acenou distraidamente com a cabeça, fazendo sinal ao seu camareiro para que lhe servisse mais vinho, e Peter apareceu com um jarro de liga de estanho num tabuleiro. Serviu vinho ao seu amo e aos convidados, mas em seguida deixou-se ficar em frente de Champeaux, os olhos postos no chão, os braços caídos ao lado do corpo e abrindo e cerrando os punhos.

- Meu filho, passa-se alguma coisa? - perguntou o Abade com gentileza.

- Posso pedir-vos um momento do vosso tempo, meu senhor?

- Amigos, dai-me licença, por favor.

Com interesse, Baldwin observou o Abade a sair da sala com o monge, passando pela porta atrás do seu pequeno dossel e entrando na sua capela privada. O beleguim estava menos inquiridor do que o cavaleiro, e aproximou-se para falar com a esposa.

Poucos minutos depois, o monge voltou a aparecer, fungando e limpando o rosto. Atrás dele vinha, hesitante, o Abade Champeaux. Dirigiu-se à sua cadeira e sentou-se, tomando um longo gole de vinho antes de olhar contemplativamente para a porta pela qual o noviço tinha saído.

- Há muitas coisas nesta vida que não fazem sentido - observou o Abade.

Baldwin olhou-o, surpreendido. Champeaux perdera o seu genial bom humor. Parecia triste e velho.

- Passa-se alguma coisa?

- Há alturas em que a minha cruz é mesmo pesada. Baldwin acenou com a cabeça e virou-se para falar com Jeanne, mas, de vez em quando, sentia que a sua atenção era atraída para o Abade, que, distraído, olhava para a porta, batendo com os dedos na mesa à sua frente.

 

Hugo caminhava através da multidão, olhando em seu redor, à medida que voltava a procurar o homem. Desde que Elias fora preso, ele deambulara entre os ajuntamentos à procura do homem de barbas, mas este desaparecera.

O frade não tinha a certeza se fizera a coisa certa. Talvez devesse ter confiado no cavaleiro alto e lhe devesse ter dito tudo o que sabia, mas... e se estivesse errado? Era perigoso confiar na memória, especialmente passados vinte e tal anos, mas até que ponto é que era mais perigoso não dizer nada? Depois havia o barbudo Jordan: contar a Baldwin devia certamente resultar na morte de Lybbe. No entanto, Hugo teria de informar Jordan de que Elias fora preso, caso ele ainda não tivesse ouvido dizer.

Continuou a descer, pensativo, em direcção à praça, à medida que avaliava as suas dificuldades, e aí esqueceu os problemas perante o fascínio das peças de teatro e das acrobacias apresentadas.

Um dos deveres mais difíceis de um frade era encontrar material novo para pregar. Ele, tal como os outros Irmãos Menores, acreditavam que pregar dogmaticamente não fazia qualquer sentido quando a audiência era, na sua maior parte, iletrada. Ele andava sempre à procura de material que atingisse apenas pontos morais. Foi tendo isso em consideração que a sua atenção vagueou pelas pessoas que assistiam à representação de milagres.

 

Era quase noite quando Marion Polé colocou de parte o seu trabalho de costura e lançou ao marido um olhar ansioso.

- Para onde é que ela pode ter ido? Arthur pousou a sua taça e abanou a cabeça.

- Deve ter resolvido assistir a alguns dos divertimentos. Talvez tenha ido a uma taberna.

- Não pareces muito preocupado com a tua filha. Ela é apenas jovem.

- Mas é suficientemente esperta para fugir ao perigo.

- Podes pensar assim, mas eu não estou convencida disso.

- Marion, ela está bem. Não é todos os dias que tem oportunidade de ver uma feira.

- Marido, esqueceste o caso dela e daquele estrangeiro? E se ela se tiver encontrado secretamente com ele neste momento exacto? - o rosto dela endureceu. - Pensas que ela não tencionava fazê-lo, não é verdade? Que saiu sem esperar voltar a ver aquele veneziano?

- Marion, Avice está na companhia de Susan. Aquela criada contar-te-ia qualquer coisa que acontecesse, se se tratasse de algo remotamente indecoroso.

- E se a tua filha estivesse resolvida a cometer uma indiscrição?

- perguntou Marion, o rosto pálido de horror.

- Mulher, estás a sugerir que Susan permitiria que a rapariga que tem a seu cargo desse um trambolhão no meio de uma taberna qualquer? Ou pensas que Avice poderia copular na rua sem a criada dar por nada? Não sejas tão ridícula.

- Mas, Arthur, e se ela tiver sido atacada? Ouvem-se coisas tão terríveis sobre as feiras, especialmente feiras grandes como esta. E se...?

- E se o céu caísse ou o Sol se esquecesse de nascer de manhã - disse ele com brusquidão. - Não sejas estúpida, mulher, ela disse-te que ia sair por algum tempo. Ainda não está na hora das Completas. Se alguma coisa lhe acontecesse, Susan impediria que Avice se magoasse, e, se não conseguisse, tenho Henry a vigiar ambas.

- Henry?

- Sim. E se o nosso moço de estrebaria visse alguém a tentar ameaçar a nossa filha, preferiria morrer a vê-la magoada. Conhece-lo tão bem como eu. Sendo assim - a voz dele subiu de tom -, por amor de Deus, não queres parar de te preocupar e deixar-me em paz por um momento? Já tenho bastante em que pensar com todos os negócios que estou a conduzir nesta feira sem a tua conversa tola!

No seu quarto, António da Cammino andava de um lado para o outro, furioso, à medida que, lá fora, a luz se esvanecia e os monges entravam para iluminar o local. Era difícil manter uma aparência calma, quando estes loucos inocentes tratavam dos seus afazeres, mas ele não abria a boca, enquanto os homens andavam lentamente à roda com as suas velas e círios, colocando os tubos de cera no lugar e acendendo-os. Ele até conseguiu esboçar um sorriso de gratidão quando eles terminaram e o deixaram sozinho.

Só então é que se permitiu voltar a pensar no filho. O cretino andava a comportar-se como um escudeiro enamorado de um conto palaciano. António aproximou-se da janela e olhou lá para fora. Ele falara a sério: não iria esperar enquanto o filho cedia ao seu capricho por causa de uma donzela. Havia bastantes donzelas bonitas na sua cidade; não havia necessidade de procurar uma aqui nesta cidadezinha esquecida de Deus.

Do seu quarto, que ficava situado na muralha sul da abadia, junto à ponte, ele podia olhar por cima do rio, para as pastagens que se estendiam do outro lado. O gado vagueava. Um porco grunhia à beira das árvores, e ele ouviu gritos e portas a baterem, à medida que as pessoas se instalavam para a noite. No entanto, os assobios e os gritos mostravam que nem todos estavam preparados para o seu descanso. Alguns dos mais jovens procuravam divertimento, e estavam determinados a encontrá-lo: havia um rápido bater de pés por baixo da sua janela, quando alguém seguia, apressado, pelo caminho junto ao rio.

Após os anos que passara na Gasconha, António estava admirado pelo facto de que uma cidade tão pequena pudesse alojar tanta gente. Obviamente que todos os comerciantes permaneciam junto das suas mercadorias, pois não havia muitos que pudessem dar-se ao luxo de alugar um quarto e de contratar pessoal para lhes guardar os bens todas as noites, e havia um grande acampamento de tendas a Leste do recinto da feira, onde dormia uma grande parte das pessoas em excesso, mas havia ainda um grande número que encontrou casas na própria cidade.

É claro que Tavistock não pertencia à mesma categoria que Orleães ou Paris, em França, nem das feiras do Rei inglês em La Rochelle, Bordéus, Winchester e Londres, mas, mesmo assim, constituía uma grande atracção para muitas pessoas. Reuniam-se aqui multidões, no entanto, António não conseguia compreender porquê.

Não era que a cidade fosse de fácil acesso. Na sua maior parte, as estradas eram pobres, embora António pensasse que se encontravam todas neste reino mergulhado nas trevas da ignorância. Dificilmente seria pelo clima, pois embora o dia hoje estivesse estado morno e agradável, ele sabia que aqui, perto daquilo que fora a floresta real de Dart-moor, era possível que o tempo, em minutos, mudasse de soalheiro e limpo para sombrio, húmido e triste.

António virou costas à vista que se abria para ele da janela e regressou à mesa, servindo-se resignadamente de uma grande caneca de cerveja. Não gostava da água com paladar, fraca, arrepiante, que enchia a barriga, e de que se alimentavam os camponeses ingleses. Sabia que o Abade era dono de uma boa adega de vinho, mas esse para o seu próprio uso, e, embora a abadia tivesse o dever de fornecer hospitalidade aos viajantes, o Abade não sentia remorsos por cobrar dinheiro aos seus convidados pelo vinho que bebiam. Era um sinal de parcimónia que provocava ressentimento no veneziano. O seu dinheiro já era demasiado apertado. Ele preferia obrigar-se a consumir esta intragável zurrapa enquanto sonhava com os fortes vinhos tintos de Guyenne.

O Abade Champeaux era um homem idoso, pensou ele. Aparentemente amável, havia nele um veio duro quando se tratava de negócios. António esperara que a sua oferta fosse aceite muito mais rapidamente do que isto, e poderia ter estado longe daqui um dia ou dois depois. Mas, em vez disso, parecia que o outro homem precisava de tempo para pensar nas suas propostas. Tudo o que elas implicavam era um monopólio sobre a lã durante três anos, o que dificilmente se poderia considerar um período longo, e a oferta que ele fizera de empréstimos baratos deveria ter feito o Abade agarrar a oferta.

António esperava que o acordo se concretizasse. Precisava do dinheiro que a lã lhe traria, especialmente após o fiasco em Bayonne, onde eles tinham sido perseguidos por uma horda de gente furiosa. A perseguição que daí resultou quase que lhes custara a vida. Felizmente, Luke pensara em cortar as rédeas à besta de carga, e, sem o animal, necessariamente lento, a atrasá-los, tinham escapado à captura. Não que António tivesse agradecido ao criado. Era sua obrigação salvar as mercadorias. Contudo, não havia fuga possível ao facto de que, quando um cavaleiro, três escudeiros e dois criados os perseguiam a cavalo com tal estrépito, era melhor apagar o rasto e abandonar o que os atrasava para nos mantermos vivos.

António levantou o olhar ao ouvir o som de uma porta a abrir-se e a fechar-se. Passados alguns momentos, ouviu o passo leve do filho, o passo mais pesado de Luke.

- Ousaste voltar, então? Que gentileza da tua parte. Talvez quisesses que eu matasse o bezerro gordo!...

O seu sarcasmo não surtiu qualquer efeito no bom humor do filho.

- Pai, podes estar irritado, mas eu tive um serão agradável e não permitirei que mo estragues. Vem servir-nos cerveja, Luke. O meu pai precisa de alguma coisa para a digestão.

- Não, o Abade está à nossa espera, e já estamos atrasados. Podes beber quando estivermos com ele. Pelo menos lá teremos bom vinho, em vez desta porcaria.

Carrancudo, vestiu uma túnica e um casaco, avaliando rapidamente o vestuário do filho. Pietro vestira-se bem para a sua donzela. Usava umas calças justas apertadas por baixo da camisa e da túnica curta, e o seu melhor manto debruado a pele: estava apresentável para aparecer perante o seu anfitrião.

- Vamos, então. Não quero ver o Abade aborrecido por causa do teu atraso.

Atravessaram o grande pátio, passaram pelos estábulos e pelas despensas, pelas pocilgas e pelos canis, e entraram no pátio da cozinha. Ao atravessá-lo, chegaram a um pátio mais pequeno em frente aos aposentos do Abade, onde este tinha um pequeno pomar e um jardim, separados da actividade do grande pátio, e no qual se podia sentar em pacífica contemplação.

O salão do Abade encontrava-se num edifício que formava uma parte da muralha principal da abadia. Entraram e subiram as escadas para os aposentos do Abade, seguindo atrás de um criado idoso.

- As minhas desculpas, padre - disse António assim que a porta se abriu. O meu filho esqueceu-se das horas e só agora regressou. Espero que não tenhamos atrasado a vossa refeição.

- Nada disso, nada disso. Por favor, entrai e tomai um pouco de vinho connosco.

Enquanto o vinho era servido, António, sub-repticiamente, não tirava os olhos dos outros. Sabia que o beleguim era casado com a mulher loura, mas o cavaleiro parecia estar a prestar grande atenção à viúva.

António guardou essa informação para futuro uso. Era sempre bom, como comerciante e mercador internacional, registar quaisquer pontos que pudessem ser de interesse. Se lhe perguntassem, como frequentemente acontecia, quem conhecia quem e se eram amigos, pequenas informações como, por exemplo, quem cortejava que senhora, podiam ser úteis. Sempre lhe desagradara lidar com funcionários de reis, mas, por vezes, contar coscuvilhices sobre as pessoas como se fosse espião era a única forma de evitar as mais pesadas taxas de imposto. E, às vezes, informações como esta eram úteis localmente; afinal, qualquer senhor da zona poderia interessar-se por alguém tão importante como o Defensor da Paz do Rei.

Os criados estavam sentados a uma segunda mesa mais perto da porta. Viu Pietro franzir o sobrolho quando um monge entrou com o criado do cavaleiro, Edgar, que se deixou ficar a observar a sala antes de se dirigir ao seu próprio lugar entre Peter e Hugh.

À sua própria mesa, o Abade estava sentado de um lado, dando o lugar de honra a Baldwin, o seu convidado mais importante. António e o filho ocuparam os lugares junto a Baldwin, a seguir a Simon e Margaret, enquanto que Jeanne estava sentada ao lado de Baldwin, por insistência do Abade Robert.

Jeanne esboçou um resplandecente sorriso de prazer aparente, à medida que o Abade lhes destinou aquele lugar, mas, no fundo do seu coração, ela teria ficado mais feliz se o tivesse amaldiçoado. Os motivos de Champeaux eram transparentes, e ela ainda não queria um novo marido.

Não era que SirBaldwin de Furnshill não fosse atraente. Enquanto ele ria por entredentes com uma graça de Margaret, ela aproveitou a oportunidade para lhe examinar o perfil. Era bastante agradável, pensou ela - uma estranha mistura de normando e celta, com a pele morena e o cabelo escuro. A cicatriz que exibia na face conferia-lhe um ar ousado de pessoa que não liga a nada, embora ela tivesse a certeza de que isso não reflectia a natureza dele. Parecia demasiado sério e ponderado. Das curtas conversas que tivera com ele, era óbvio que ele se preocupava com aqueles que eram mais pobres do que ele, embora a sua reticência em relação à igreja não deixasse de ser curiosa. Ela não sabia que ele fora templário, e que, desde a destruição da Ordem, tinha pouca consideração pelo Papa e pelos cardeais.

Era uma pena, sentia ela, que Sir Baldwin não lhe tivesse sido apresentado antes e que não o tivesse conhecido melhor. Agora, sob o olhar de tantas outras pessoas, especialmente da mulher do beleguim, ela sentia-se como se estivesse a ser empurrada para uma corte para a qual não estava preparada.

A bacia chegou, e ela mergulhou nela as mãos, pegando na toalha para as secar. Em seguida reparou no olhar de SirBaldwin, e viu que, também ele, estava nervoso. Jeanne ficou ofendida. Que razão é que ele tinha para estar nervoso? O homem deveria tê-la achado perfeitamente desejável; certamente que ela não era demasiado velha para ele, ou seria? O facto de Baldwin poder estar a sentir dúvidas semelhantes às suas fez com que Jeanne ficasse bastante aborrecida - e então viu-lhe um olhar trocista, e quase riu em voz alta quando reconheceu a ironia.

A situação difícil em que se encontravam era em grande parte devida ao zelo casamenteiro de Margaret e do Abade. Os esforços destes últimos de parecerem subtis eram uma farsa, pensou Jeanne, sem rancor. Estavam, sem dúvida, a tentar ajudar os amigos a encontrarem a felicidade, embora fosse tão curioso o facto de pensarem que conheciam a chave para o contentamento de outras pessoas.

Como que por acordo, ambos escolheram não falar com o outro. Não foi uma decisão consciente de parte a parte, mas mais uma reacção ao ar de expectativa em que eram observados.

Margaret reparou na frieza aparente entre ambos. Durante a refeição, ela vira que Baldwin e a sua elegante vizinha falaram pouco, se é que falaram, e sentiu uma frustração crescente por as suas esperanças poderem tornar-se goradas, pois desejava vê-lo casar-se com alguém que pudesse fazer-lhe companhia e dar-lhe filhos, e esta era a primeira mulher por quem ele mostrara interesse. O facto de eles, subitamente, terem desenvolvido aquela frieza entre si era preocupante. Lançou um olhar rápido ao marido para ver se ele também tinha reparado, mas Simon estava a falar com António. Ela ouviu o veneziano dizer:

- Quereis dizer que o morto não era desconhecido, como toda a gente pensava?

- Não, senhor. O homem que foi assassinado era um agricultor daqui que se chamava Roger Torre. Ele também estava na taberna naquela noite.

- Mas eu pensei... presumi que ele devia ter sido identificado. Como pudestes ter-vos enganado assim?

- Sim, por que não pudestes ver logo? - Pietro franziu o sobrolho. - Ninguém se deu ao trabalho de ver o corpo?

- É claro que sim - explicou Simon pacientemente. - Mas o assassino tinha cortado a cabeça ao corpo e tinha-a escondido. É difícil reconhecer um corpo quando não tem rosto.

Pietro e António trocaram um olhar confuso. Foi o pai que balbuciou:

- A cabeça? Porquê?... Quer dizer, por que faria um homem uma coisa dessas à sua vítima, beleguim?

Jeanne comprimiu os lábios, em sinal de desagrado.

- Parece uma coisa particularmente cruel para se fazer a uma vítima: tirar-lhe a vida e depois profanar o cadáver.

- Foi isso que também nos preocupou. Não faz sentido. - Simon rasgou um pedaço do seu pão e mastigou-o meditativamente. - Prendemos o homem em cujo quintal a cabeça estava enterrada.

Baldwin ficou satisfeito pelo facto de Simon ter cuidadosamente evitado sugerir que pensava que Elias fosse o assassino. Havia pessoas suficientes que estariam dispostas a assumir a culpa de Elias sem a ajuda deles. Acenou com uma mão, abrangendo vagamente a cidade no exterior da abadia.

- Não há necessidade de preocupar todos os comerciantes. Creio bem que se tratou de uma discussão qualquer, que depressa levou a golpes, e, por qualquer razão, o assassino decidiu levar a cabeça.

- Um curioso trofeu - divagou António.

- Suponho que vós mesmo tenhais visto o morto, senhor - continuou Simon, pensando nas palavras de Elias. - Ele estava na taberna à mesma hora que vós.

António encolheu os ombros.

- Na taberna? Que taberna?

- A que fica no caminho para a feira. Estivestes lá, não estivestes? Torre era o homem com quem esbarrastes quando saístes - disse Baldwin, e ficou surpreendido quando o veneziano mais velho o fixou com um olhar desconfiado.

- Estais a sugerir que eu estive envolvido naquele acto horrível, Sir Baldwin?

O Abade interrompeu, apaziguador.

- O cavaleiro não sugeriu nada, António. Estava meramente a comentar que vós próprio poderíeis ter visto o homem.

- O homem ainda não confessou?

- Não - disse Baldwin, regressando à sua comida. Levantando o olhar, reparou numa estranha expressão no rosto do Abade, à medida que este observava António: suspeição misturada com uma certa dureza. Quando Champeaux o viu a olhá-lo, o seu rosto adquiriu mais uma vez uma expressão relaxada de amável hospitalidade.

- Mais vinho, Sir Baldwin?

- Obrigado. - Baldwin fez sinal ao criado para que servisse Jeanne, cuja taça estava quase vazia. A expressão do rosto do Abade intrigara-o. Era evidente que traía qualquer preocupação interior, mas que preocupação poderia ser essa, ele não fazia ideia. Lembrou-se então de que Roger Torre fizera alegações contra o Abade pouco antes de morrer. Era dificilmente concebível que o próprio Robert Champeaux pudesse ter estado envolvido no homicídio, mas poderia ter ouvido falar dele - havia sempre o confessionário. Isso fê-lo pensar no monge. Baldwin deu consigo a observar sub-repticiamente Champeaux e o noviço Peter.

António ansiava por qualquer informação sobre o homicídio, mas tal não era de admirar. Segundo a experiência de Baldwin, qualquer homicídio atraía grande interesse público, e quando era tão estranho quanto este, com um cadáver decapitado e uma cabeça encontrada escondida num quintal, qualquer pessoa gostaria de saber todos os pormenores. No entanto, quando lançou um olhar a Jeanne, viu que a conversa a estava a ofender.

Ela estava sentada numa pose rígida, à medida que a discussão andava à volta do mistério, e raramente olhava na direcção dele. Isso fez com que Baldwin ficasse um pouco triste. Ele pensara que ela estava interessada nele quando se encontraram pela primeira vez, mas agora ela estava concentrada na sua comida e raramente olhava na direcção dele. O cavaleiro viu os olhos dela voarem rapidamente na direcção de Margaret, e foi então que ele compreendeu. Ele estava consciente, havia mais de um ano, dos solícitos planos de casamento que a mulher do beleguim empreendera em nome dele. Era tão óbvio como uma beata numa igreja que ela decidira que o cavaleiro encontrara a sua companheira; intuitivamente, ele adivinhava que, pela sua parte, Jeanne de Liddinstone receava ser novamente acasalada tão pouco tempo após ter perdido o marido.

Mas ela era muito atraente; a imagem ideal da senhora de um cavaleiro. E a forma como o nariz dela se torcia quando ela ria, a maneira acanhada que ela tinha de espreitar alguém pelo canto do olho, a sua intensidade quando escutava, a cabeça colocada para um lado como se ele fosse a única pessoa existente na sala, tudo isso a tornava desejável. O facto de ser jovem e rica meramente acrescentava a sua atracção.

Erguendo o olhar, ela viu a expressão dele, e Baldwin estava prestes a desviar o olhar, embaraçado por ter sido descoberto a examiná-la, quando ela sorriu, e, de súbito, ele não se importou que Margaret se envaidecesse do outro lado da mesa.

Foi arrancado aos seus pensamentos pelo Abade, que se inclinava na sua direcção.

- Sir Baldwin, gostaríeis de combinar vir caçar comigo?

- Sim, realmente, mas, com a feira, não tendes outros deveres? Seria muita amabilidade da vossa parte, mas certamente que tendes bastante para fazer sem ser tratar do conforto de um hóspede errante.

Champeaux encolheu os ombros.

- A minha vida é de constante labuta com a obra de Deus: Opus Dei. No entanto, se amanhã eu tiver de glorificar o nosso santo fundador, posso tirar o dia seguinte para descansar. Há pouca coisa para eu fazer, de qualquer maneira. A feira decorre sozinha, com o burgo-mestre a carregar a maior parte do fardo, por isso tudo o que se espera que eu faça é estar aqui para o caso de precisarem de mim, e geralmente no terceiro dia de feira não precisam. É demasiado calmo. Far-me-eis companhia?

- Ficaria encantado, Abade.

- Então está combinado.

A refeição terminou pouco depois. Ainda faltava mais uma hora para as Completas, mas o Abade tinha muitos deveres a cumprir. À medida que os seus convidados se preparavam para partir, Baldwin deu consigo sozinho com Jeanne. Simon e Margaret esperavam intencionalmente à porta, olhando para ele.

Baldwin não podia simplesmente afastar-se como se ela não existisse.

- Senhora, eu... eu...

Uma vez que começara a falar, não fazia ideia como continuar. Consciente da expressão de interesse no rosto de Edgar, deu consigo a corar, e sentiu um acesso de irritação. Era um cavaleiro experiente em assuntos de guerra. Por todo o mundo conhecido viajara sem medo, puramente devido à sua intrepidez com a lança e a espada; no entanto, agora estava corado, embaraçado e nervoso simplesmente por causa de uma mulher. Era intolerável.

Mas de todas as capacidades cavalheirescas, aquela de que mais precisava agora era aquela em que nunca fora instruído. Aos escudeiros ensinavam-se maneiras palacianas e como se comportar em presença de mulheres, mas ele aprendera as suas capacidades cavalheirescas como monge-guerreiro. Não houvera lugar à doce arte de cortejar quando ele tomara os seus votos.

Jeanne viu a sua dor.

- Sir Baldwin?

- Senhora, eu queria... - queria desculpar-se se ela se tivesse sentido pressionada, para que ela soubesse que ele a tinha em elevada consideração. Contudo, dizê-lo implicaria que ela sentira tal pressão, e se ela não a tivesse sentido? De súbito, ele estava cercado de dúvidas. - Senhora, eu... - foi então que a inspiração o atingiu. - Gostaríeis de caminhar um pouco? A tarde está clara e morna, e seria uma honra acompanhar-vos, se não considerardes a minha companhia aborrecida.

Ela olhou para a porta. António e Pietro conversavam, a observá-la abertamente. Junto deles estavam Simon e Margaret. A esposa do beleguim exibia um olhar de aprovação, e Jeanne viu-a executar um rápido aceno de cabeça como que de encorajamento. Isso fê-la decidir-se.

- Receio sentir o frio.

Instantaneamente, ela viu a tristeza, a solidão nos olhos dele ao mesmo tempo que acenava gravemente com a cabeça.

- Compreendo. Não voltarei a incomodar-vos.

- Mas se eu pudesse mandar alguém buscar o meu manto, eu ficaria bem, não ficaria? - apressou-se ela a dizer, e ficou surpreendida com o prazer que ela própria sentia perante a ideia.

Orgulhoso, Baldwin não conseguiu impedir-se de adoptar um porte um pouco mais direito, à medida que caminhava com ela para a porta. Tomou, então, consciência da presença do criado a seu lado.

- Hum, Edgar? Penso que me podes deixar. Não precisarei de ti. Edgar olhou-o sem compreender. Não gostava de deixar Baldwin desprotegido. Mas quando o amo saiu da sala e Edgar lhe ouviu os passos a ecoarem ao longo do corredor em direcção à rua, encolheu os ombros. A bonita viúva não constituiria grande perigo, e fosse qual fosse o perigo que ela representasse, era certo que agradaria a Baldwin.

 

No recinto da feira, Jordan Lybbe entrouxou as últimas mercadorias e atirou-as para o barracão improvisado. Hankin, de braços cruzados, estava encostado ao poste em que se apoiava o telhado. Terminado o seu trabalho do dia, era-lhe difícil manter os olhos abertos, e Lybbe deu-lhe uma pancada amigável nos ombros.

- Não te preocupes, rapaz! Daqui a pouco podes fechar os olhos e dormir um pouco. Fica aí esta noite. Quando acordares, terei o teu pequeno-almoço pronto.

Observou o rapaz afectuosamente. Hankin tinha apenas dez anos. Lybbe tinha-o salvo quando os pais morreram de uma febre, lá na Gasconha. A cidade não estava disposta a adoptar um órfão, e fora difícil para o rapaz inglês numa terra estranha sem amigos. Para o solitário Lybbe, Hankin tornara-se como um filho.

Enquanto Hankin entrava com as roupas e fazia na erva uma cama de tapetes, Lybbe ficou a respirar o ar puro do serão.

Uma brisa agitava os galhardetes e as bandeiras, empurrando os finos e cinzentos anéis de fumo que se elevavam das fogueiras por detrás do recinto onde se encontravam as tendas e as carroças. As fogueiras podiam ser ilegais no interior do recinto da feira em si, mas, ainda assim, os homens precisavam de se manter quentes. O vento trazia consigo o cheiro forte e penetrante de feixes a arder, e insinuações de cozinhados, fazendo com que o estômago vazio de Lybbe se manifestasse. Embora estivesse fresco, era um alívio após o calor do dia. A fresquidão lembrava o mercador da sua juventude aqui na cidade.

Na rua estreita, entre as tendas, o mercador levantou o olhar para os céus. O firmamento era de um azul profundo, com um abundante borrifo de estrelas que tremeluziam e dançavam lá no alto, por cima dele. Lybbe não era dado à contemplação, mas, quando viu aqueles pontos brilhantes, os milhares e milhares de pontinhos de luz lá no alto, por cima da sua cabeça, sentiu um certo temor respeitoso e uma grande veneração por Deus.

Devagar, começou a dirigir-se para a cidade. A feira estava agora calma, mas logo para lá da vala que a delimitava, havia pequenos grupos sentados em volta de fogueiras, aquecendo as mãos e a conversarem sobre o negócio do dia. A esta hora do serão, todos os clientes tinham partido e as únicas pessoas que ficaram dentro do recinto eram os feirantes ou os seus guardas. Após terem passado o dia inteiro de pé e a gritar para anunciarem as suas mercadorias, a maior parte estava exausta e precisava de descansar os pés e as gargantas. Bebiam de canecas de cerveja ou de sidra, conversando em surdina, ao mesmo tempo que fixavam, cansados, as chamas, preparando-se para a noite. Lybbe conhecia alguns, e gritava-lhes à medida que passava, sentindo novamente a gratidão pelo facto de, entre tantos visitantes, não ser provável que o reconhecessem, especialmente com a barba. Ele não era nada parecido com o jovem que fora forçado a partir logo após os homicídios.

À entrada do recinto da feira, parou. Lybbe estava a contar encontrar Elias à espera, mas o cozinheiro não se via em lado nenhum. Não havia pressa. Lybbe encontrou um toro para se sentar na escuridão, debaixo de um beiral baixo, e cruzou os braços, contente.

Elias ficara surpreendido por encontrar Lybbe de regresso a Tavistock. Da última vez que se tinham visto, Lybbe era um fugitivo, um fora-da-lei, e Elias dera-lhe comida e uma cama enquanto planeavam como executar a sua fuga - a única alternativa era a corda. Isso fora quase há vinte anos, e Lybbe ficara surpreendido pela força da emoção que sentira quando entrara mais uma vez na sua cidade, o lugar que conhecera como a sua casa.

Uma vez ultrapassada a incredulidade inicial, Elias fora efusivo nas boas-vindas, insistindo em comprar mais cerveja, mas Lybbe tinha aversão a beber de mais. Ficava nervoso de falar demasiado alto ou imprudentemente, e sabia como a cerveja podia soltar as línguas.

Ficara alarmado quando os guardas o atacaram. Presumira que o procuravam pelos seus crimes; foi só quando eles o atacaram que se apercebeu de que o queriam assustar após a sua recusa em submeter-se à extorsão por parte deles. De qualquer forma, Jordan Lybbe sentia repugnância por homens que tentavam coagir outros a entregarem as suas mercadorias sem qualquer razão. Já aguentara bastante daquilo antes, e não aceitaria mais tal situação.

Considerou preocupante o facto de Elias estar atrasado. Após uma separação de vinte anos, ele teria esperado pontualidade. Havia ainda tanta coisa de que falar. Provavelmente era o horror da noite anterior a tomar conta dele, pensou.

Elias ficara aterrorizado. Fora por isso que Jordan mandara embora o cozinheiro antes de trocar de roupas com o homem - e antes de lhe ter separado a cabeça do corpo. Elias não teria sido capaz de suportar tal coisa. Aquilo não podia magoar o morto, mas podia protegê-lo, a ele, Lybbe.

Ao ouvir passos, olhou rapidamente pela rua, mas era um casal. Observando mais atentamente, reconheceu uma das mulheres que tinham testemunhado o ataque de que fora vítima.

Baldwin não conhecia Lybbe, e tinha toda a sua atenção concentrada na mulher que seguia a seu lado. Jeanne ria baixinho de uma graça que ele dissera, e Lybbe sorriu perante a entrega deles a si próprios. Era bom ver duas pessoas tão felizes na companhia uma da outra.

Para o cavaleiro, a feira não era tão impressionante como uma das grandes feiras de Londres ou Winchester, mas também não era tão assustadora. As feiras de Smithfield e St. Giles eram enormes, atraindo tanta gente que apavoravam o cavaleiro da província. Ele procurava uma vida pacata e descansada, e Tavistock adequava-se mais ao seu gosto.

Havia ainda algumas pessoas a deambularem entre os pequenos caminhos e ruas estreitas, e Baldwin mantinha livre a mão que manejava a espada. Fora-lhe continuamente incutido enquanto fazia a sua preparação que devia estar sempre preparado para se defender e defender outros que podiam precisar da sua ajuda, e com tantos estrangeiros na cidade, ele sentia uma vaga inquietação sem o seu criado por perto.

- Nunca fostes casado? - perguntou ela.

- Não. Passei a minha juventude em Outremer, no Reino de Jerusalém, e depois em Chipre e Paris. Só regressei a Inglaterra há quatro ou cinco anos, quando o meu irmão faleceu e me deixou a propriedade. Antes disso, eu não tinha senhor nem amo de qualquer tipo - o casamento estava fora de questão.

- Podíeis ter casado quando regressastes.

- Nunca houve tempo. Assim que regressei, pediram-me para ser o Defensor da Paz do Rei, e, desde então, tenho tido pouco tempo para procurar esposa.

Ela lançou-lhe um olhar rápido, pelo canto do olho. A ideia de este cavaleiro ter estado tão continuamente ocupado que não lhe sobrava tempo para encontrar uma mulher era absurda. Ele era um cavaleiro: podia arranjar tempo para fazer o que quisesse.

- Mas não foi só isso - confessou ele, vendo o olhar de incompreensão dela. - Não sou um cavaleiro jovem, pois não? As mulheres esperam admiradores cavalheirescos e não velhos guerreiros endurecidos com poucos encantos como eu.

Ela presenteou-o com um olhar de indignação trocista.

- Oh, senhor cavaleiro, tendes razão! Sois tão antigo e lamuriento, como poderia uma mulher olhar para vós a não ser com pena?

- Estais a ver? Nem mesmo vós sois capaz de me levar a sério - queixou-se ele, mas havia um veio de tristeza na sua expressão que deu origem a uma sensação de ternura no peito dela.

Jeanne tentou reprimi-la mal se apercebeu dela, lembrando a si própria que não precisava deste homem, e, se ele ainda estava sozinho após tanto tempo, devia ser mesmo aborrecido, mas a solidão dele tocou-a.

- Estou surpreendida por não terdes casado quando éreis mais jovem. Desististes de toda a esperança de encontrar uma esposa?

- Não foi possível. De início houve a guerra, depois o longo processo de recuperação e, por fim, a pobreza de ser um pária sem senhor.

Jeanne levantou o olhar para ele. A luz das estrelas era generosa para ele, suavizando-lhe as rugas da dor e fazendo-o parecer mais jovem. O cabelo brilhava-lhe à luz cinzenta, conferindo-lhe um ar de calma dignidade, mas havia sofrimento na sua voz quando falava do passado. Ela não compreendia o que o tornava tào amargo, mas, como toda a gente na Europa, vira cavaleiros que tinham empobrecido. Por toda a Cristandade, havia cavaleiros que tinham perdido os seus senhores, quer devido a desentendimentos, quer porque os seus senhores tinham morrido, quer devido a qualquer outra razão. Uma vez sem lar, tornavam-se cavaleiros andantes, sem rendimentos nem protector, sem qualquer fonte de alimentação e até sem uma cama. Eram homens tristes, muitas vezes orgulhosos e arrogantes por baixo da sua aparência desgrenhada, que tinham sido derrubados por um golpe do destino. Muitos recorreram à vilania, roubando para viver.

Jeanne nunca pensara neles antes, mas agora dava consigo a perguntar-se como é que estes cavaleiros sobreviviam. Como é que até o seu defunto marido teria reagido se não tivesse podido herdar as terras e o dinheiro que herdou e se tivesse sido obrigado a procurar um novo senhor, apenas para descobrir que este fora enganado na batalha, ou assassinado, ou que morrera de febres, e que o filho não estava interessado em manter os velhos servidores do pai? Ela tinha poucas dúvidas de que o marido se teria embrenhado nos bosques, se teria tornado um renegado e um fora-da-lei, e que teria morrido jovem, pendurado ignominiosamente de uma árvore. A ideia fê-la estremecer.

Logo Baldwin foi solícito.

- Tendes frio? Quereis regressar?

- Não, Sir Baldwin, estou bem, a sério. Por favor, falai-me da vossa casa, de Furnshill.

A voz dele tornou-se mais suave.

- É uma casa velha, comprida e estreita, na encosta de uma colina. Tem bosques atrás e de ambos os lados, e um riacho que nasce perto da casa. Tenho boa terra arável, com várias casas e quintas, e os vilãos mantêm a casa cheia de comida, mesmo depois de terem tirado bastante para eles. Num dia claro, posso sentar-me em frente à soleira da minha porta e estender o olhar quilómetros por cima das colinas e não ver quase nada a não ser árvores e os meus campos.

- Eu gostaria de ver.

Ele olhou-a de lado, surpreendido.

- Gostaríeis? Seríeis muito bem-vinda. Direi a Simon que vos leve da próxima vez que ele me for visitar, se desejardes.

- Seria muito agradável - disse ela.

- E vós? Uma mulher como vós poderia encontrar outro marido com facilidade.

A ousadia dele fê-la gaguejar.

- Eu? Eu... É bom da vossa parte dizerdes isso, mas há muitas viúvas, e ainda mais mulheres jovens. Por que é que um homem olharia para uma mulher de vinte e nove anos, quando tem um monte de mulheres mais jovens? Seja como for, estou contente.

Baldwin estava prestes a responder quando reparou noutro casal. Para sua surpresa, reconheceu o jovem monge e uma rapariga; uma criada encontrava-se perto, resmungando de desaprovação.

- Penso que podemos ter deparado com um triste acontecimento - murmurou ele, à medida que eles se aproximavam.

Avice ficou estupefacta com o descaramento.

- Gostaríeis de casar comigo? Vós? E aonde é que me colocaríeis a viver, na abadia, com os outros hóspedes?

- Não, senhora, encontrarei uma casa para nós. Não precisa de ser muito grande só para nós dois.

- Ai sim? E como é que vós, tendo prestado juramento de pobreza, compraríeis comida para vivermos? Se o vosso Abade vos permitir viver fora da abadia... Ele pode fazer isso?

- Mas já está tratado! Eu ainda não tomei os votos. O meu Abade concordou em deixar-me sair da abadia - disse Peter desesperada-mente, confuso perante a rejeição dela. Ele não podia ter entendido mal os sentimentos dela, não quando, ainda nessa manhã, o sorriso que ela lhe dedicara fora tão amável e doce. Ela devia estar a mostrar raiva -porque a criada estava ali, pensou ele. - Tudo o que tenho de fazer é dizer ao Abade quando vou sair.

- Podeis sair da abadia quando quiserdes, se sois tão imoderado que não podeis tomar o juramento de castidade, mas não espereis que eu aceite a pobreza, por nada deste mundo. Só de pensar nisso! Deixar a minha casa para viver numa cabana como uma camponesa!

- Deixa-nos por um momento - disse Peter à criada. Avice bateu o pé.

- Deixai-a em paz! Ela é minha criada, e se eu desejar que ela se vá embora, serei eu a ordenar-lhe, e não um monge miserável qualquer.

Avice estava ofendida por este insignificante clérigo magricela ousar embaraçá-la em frente de Susan. Embora ela se tivesse orgulhosamente vangloriado de ter conquistado o coração do monge, não se apercebera de que a sua vitória fora tão completa. Quando ela dissera que ele desistiria de servir a Deus, tentava apenas fazer ciúmes ao veneziano, nada mais. Era alarmante ser confrontada com a adoração do clérigo de rosto macilento; não, mais do que isso - era assustador. O que aconteceria à alma dela, se tentasse um monge a deixar a sua vocação, perguntou-se distraidamente. A ideia emprestou veneno à sua voz.

- Deixai-me em paz, não quero voltar a ver-vos.

- Mas, senhora, eu...

- Eu não pensaria em ter-vos para marido nem que fôsseis o único homem em toda a Cristandade, nem que possuísseis uma riqueza sem igual, nem que fôsseis Rei. Envergonhar-me na rua desta maneira! Não, ide! Deixai-me em paz, e não volteis a dirigir-me a palavra.

Ela continuou o seu caminho; o monge seguiu-a com o olhar, a boca aberta de completa consternação, mas ela não olhou para trás. A dominar a sua mente estava a longa oração que teria de dizer antes de se retirar para o leito, e o arrependimento e a confissão que devia oferecer ao padre na sua próxima missa. Estava chocada, horrorizada, por aquele rapaz tolo poder pensar que ela estaria preparada para desistir da sua vida e tornar-se sua esposa.

- Quem é que ele pensa que é?

- Ele pensou que era o homem que amáveis - disse Susan com brusquidão.

- Não me respondas! Tem tento na língua ou farei com que deixes a casa de meu pai.

- Foi a vossa atitude leviana que iludiu o rapaz, não as minhas palavras. Se quereis morder alguém, mordei a causadora dos vossos problemas, vós!

- Está calada!

Susan encolheu os ombros, nada preocupada. Sabia que a sua senhora estava a fazer uma ameaça vã; ela não desistiria da sua criada, não que tivesse muitas alternativas. Independentemente do quanto o pai lhe quisesse agradar, ela sabia que Susan fora escolhida pela mulher dele, e Arthur não se arriscaria a ofender Marion só para satisfazer um capricho da filha.

À medida que o rapaz passava, apressado, Baldwin gritou-lhe:

- Peter! Estais bem?

O rosto de Peter era uma imagem da destruição. Olhou o cavaleiro sem o reconhecer, recuando, a boca a mover-se, sem que soltasse quaisquer palavras. De súbito, deu meia volta e foi-se embora, colina acima, afastando-se da cidade.

Baldwin fez tenção de correr atrás dele, mas Jeanne pousou-lhe uma mão no braço.

- Deixai-o. Penso que ele atingiu um grau de dor e de sofrimento que nenhumas palavras podem curar.

- Mas o que poderá tê-lo causado? - perguntou Baldwin.

Jeanne fez sinal em direcção a Avice, que desaparecia rapidamente no caminho de regresso.

- Penso que precisais de lhe perguntar a ela. Era ela que estava ainda agora a falar com ele, e certamente que deve saber o que lhe cortou o coração ao meio.

Baldwin ficou um momento especado, indeciso.

- O que poderia uma jovem rapariga ter dito para ter magoado um monge tão profundamente?

- Posso lembrar-me de algumas coisas.

- Isso é muito improvável, certamente. Ela fez um gesto exasperado com a mão.

- Um jovem é um jovem, quer use as vestes de clérigo ou não. Só porque ele usa um hábito negro, não significa que não sinta os mesmos anseios que um rapaz normal.

- Mas um monge! - Baldwin calou-se, embrenhado em pensamentos. Lembrava-se de uma altura em que era mais jovem e se encontrava a recuperar em Chipre. Havia uma donzela que o tentava então, e a angústia que ele suportara depois de renunciar a ela era dolorosa de recordar.

- Suponho que ele ainda é noviço e que ainda não tomou os votos.

- Talvez. Mas penso que seria mais agradável irmos para casa por onde viemos do que seguirmos atrás de qualquer um deles, não achais?

Baldwin olhou rua acima, como que à procura do monge, e acenou com a cabeça.

Hugo deixou o último dos foliões e caminhou de regresso à pequena casa onde estava alojado. Não fora um serão produtivo. Sempre que vira um possível tema novo para um sermão, o homicídio intrometia-se-lhe na mente, assim como o rosto que encontrara na taberna. Era frustrante - preocupante - e, à medida que subia a colina, rezava à procura de orientação.

A pouca distância do recinto da feira, viu duas mulheres aproximarem-se. Não reconheceu Avice, embora o rosto dela lhe parecesse familiar, mas quando viu a figura vestida de hábito que saía, apressada, das sombras, em direcção a ela, ficou surpreendido. Era um jovem monge, que se dirigiu às mulheres com aparente familiaridade. Avice bateu as palmas, encantada, e permitiu-lhe que se juntasse a ela.

Hugo observou, embasbacado, à medida que os três passavam por ele. Nenhum monge deveria ser tão familiarizado com uma mulher. Não havia ali luzes, não com as restrições impostas pelos guardas com vista à segurança, mas os três passaram suficientemente perto para que o frade reconhecesse o rosto de Pietro, e Hugo sentiu um arrepio de horror.

Um rapaz que era capaz de roubar um hábito de beneditino e de o usar em público, a rir ao mesmo tempo que o profanava ao cortejar uma donzela, era capaz de qualquer coisa.

Elias estava sentado na sua cela e embrulhava-se no cobertor grosseiro que o guarda lhe vendera. A cela tinha uns meros três metros quadrados de superfície, e Elias já lá estivera dentro uma vez antes. Fora há doze anos, quando fora encontrado a vender pastéis com carne estragada, e passara uma manhã na cadeia antes de ter sido arrastado para o pelourinho, onde os pastéis de “carne pútrida, fedorenta e abominável” foram queimados diante do seu nariz. Foi uma lição salutar para um jovem cozinheiro, e arruinara-lhe o negócio durante alguns meses.

Não fora um crime grave. Assim que fora apanhado, ele soubera exactamente o que o iria acontecer. Era bastante comum ver-se um padeiro, cozinheiro ou taberneiro a serem presos no pelourinho durante um dia, depois de terem adulterado os seus produtos com ingredientes baratos, ou que se tinham estragado. Ele estivera ciente do risco e aceitara-o, porque os pombos tinham sido muito caros para os deitar simplesmente fora, e não esperara que alguém se apercebesse que havia alguma coisa de errado com eles - ele usara especiarias com mais generosidade do que o habitual para disfarçar a carne estragada. Era atípico da sua sorte que um casal de jovens e uma mulher tivessem adoecido depois de os terem comido.

Mas não podia iludir-se ao pensar que poderia safar-se disto com um dia no pelourinho ou no tronco. Por que motivo Lybbe decidira esconder a cabeça no seu quintal, ele não conseguia compreender. Era uma loucura! No entanto, apercebia-se de que Lybbe poderia não ter sabido em que outro local a haveria de esconder. Havia muitos anos que ele não vinha a Tavistock, e não teria desejado deambular pela cidade à procura de um esconderijo adequado.

Lá fora, ouvia de vez em quando o firme bater de botas, à medida que o guarda passava, e a sombra do homem subia pela parede interior da sua cela, projectada por uma tocha que ardia no edifício em frente. Era uma das que eram mantidas acesas para dificultar a fuga. Pelos olhos do espírito, Elias via o mercado lá fora. Era uma área extensa, que formava um triângulo grosseiro, aonde os mineiros de estanho vinham regularmente para pesar o seu metal e comprar provisões. Ele sempre o vira como uma parte agradável da cidade, mesmo após a sua reclusão anterior; parecia sempre tão movimentado e agitado.

A cabeça caiu-lhe. Não fizera nada de errado, mas ia ser julgado por homicídio. Não tinha qualquer dúvida após ter visto a expressão carregada do rosto de Baldwin. A tremer, apertou mais o cobertor em volta dos ombros e pensou com pessimismo no seu futuro.

A uma coisa estava determinado: não trairia Jordan. O mais provável é que não servisse de nada. Significaria apenas que ambos seriam enforcados. Não fazia sentido arrastar Jordan consigo e vê-lo morrer também. Elias era realista, e sabia que Lybbe não tinha hipótese de escapar se fosse chamado perante um juiz ou um magistrado local. Essa era a ironia de todo o caso: o seu único protector era o único homem que não podia chamar, o único que se encontrava em perigo de morte, caso fosse descoberto. De qualquer forma, não acreditariam na palavra dele, por isso o seu álibi em favor de Elias não podia ajudar em nada.

Ao ouvir arranhar, ele não se interessou e embrulhou-se ainda mais no cobertor. Era só a sua sorte ter de partilhar a cela com uma ratazana. O arranhar voltou a ouvir-se, e ele deu um salto. À janela de grades encontrava-se uma forma indistinta, inclinada. Elias só conseguia divisar a cabeça de um homem.

- O que é? - perguntou, irritado. - Queres regozijar-te com a desgraça de um homem, não? Desanda! Deixa-me em...

Ouviu-se um riso abafado, e ele sentiu a pele do pescoço eriçar-se-lhe.

- O que estás aqui a fazer? Por amor de Deus, Jordan! E se alguém te vê?

- Psiu! Ninguém me vai ver. O que estás aqui a fazer? Pensei que tivesses caído numa emboscada quando não apareceste. Acabei de ouvir dizer que tinhas sido levado pelos guardas.

- Eles descobriram a cabeça. Lybbe sentiu o ar gelar-lhe no peito.

- Encontraram-na? Cristo!

- Sim, mas não te preocupes. Eu...

- Tu o quê? Não podes morrer por minha causa, Elias. Oh, meu bom Deus, como podes Tu permitir que isto aconteça?

Elias esboçou um sorriso forçado perante o amargo tom de voz.

- Não foi Ele; foste tu. Se queres culpar alguém, culpa-te a ti próprio por teres colocado a maldita cabeça no meu quintal.

- Tenho de me entregar. Confessar o que fiz e explicar porquê.

- Pensas que isso nos vai ajudar? Isto é Inglaterra, Jordan, e não um lugar maravilhoso como aqueles de que os pregadores falam, onde há justiça e equidade para todos e onde ninguém pode ser enforcado nem esquartejado por capricho.

- Não posso deixar-te morrer sem tentar salvar-te, Elias.

- Não podes fazer nada - assinalou o cozinheiro, fatigado. - Se confessares o que fizeste, também serás detido, e quando nos levarem perante o juiz, seremos ambos enforcados. De que vale isso? Deixa-me entregue ao meu destino. Pelo menos se eu não disser nada, terão de provar que sou mentiroso. Arranja-me um advogado e faz com que me defenda. É a melhor coisa que podes fazer.

- Não posso deixar-te aí sozinho para seres enforcado em meu lugar!

- Se te entregares, seremos ambos enforcados, de qualquer forma. Pelo menos assim é só um de nós. Pensa na tua mãe, Jordan. O que teria ela preferido?

- Ela também era tua mãe, Elias!

- Eu sei. Quereria ela que ambos os seus filhos morressem, ou só um, para que o outro possa viver? Não estou a sacrificar-me, Jordan, estou a fazer a única coisa que faz sentido.

- Eles apodrecerão no Inferno por isto, juro - Lybbe passou os dedos pelo cabo duro de madeira da adaga que trazia à cintura.

- Não faças nada, Jordan. Não voltes a colocar-te em perigo, por mim não. Para quê? Encontra-me só um advogado para que eu me possa defender.

- Está bem, mas eu, vem aí alguém!

- Vai, vai agora! E não voltes. Ainda ninguém sabe quem és, por isso estás seguro. Se voltares, podes ser visto, e então o que seria de nós? Vai, por amor de Deus, e deixa-me em paz!

Lybbe escorregou silenciosamente para as sombras, à medida que os passos se aproximavam, e fugiu à volta do muro. Assim que se encontrava fora do alcance da vista, precipitou-se pela estrada e escondeu-se numa rua estreita e escura.

Espreitando cuidadosamente em volta da esquina, viu um monge a subir a estrada num passo decidido. O homem tinha a cabeça oculta pelo capuz, e Jordan ficou surpreendido. A maior parte dos monges andava com a cabeça descoberta no calor do fim do Verão. Havia mais qualquer coisa que parecia incongruente, mas antes que ele pudesse aperceber-se do que era, a figura desaparecera, apressada.

Estava prestes a regressar para ver o irmão, quando ouviu mais passos a aproximarem-se. Desta vez viu a figura corpulenta de um guarda. Ouviu o homem resfolegar, escarrar e cuspir.

- Estás aí acordado? Se eu tenho de estar levantado toda a noite para te guardar, não vejo por que deves dormir confortavelmente, Elias Lybbe. Acorda, sacana!

- Está bem, Jack. Estou acordado.

- Óptimo. Vê lá se ficas assim, ou terei de te espicaçar com isto. - Houve um movimento rápido, e Jordan viu a figura empurrar qualquer coisa entre as grades de madeira da janela. Ouviu-se um grito breve. - Sim, bem, se dormires é isso que apanhas, para ficares acordado. Vou voltar para me assegurar de que estás.

A raiva de Jordan cresceu quando ouviu o golpe, e saltou para a frente, agarrando a faca, mas o homem desaparecera atrás da outra esquina do edifício antes de ele sequer poder sacar da arma. Deu rapidamente um passo em frente, mas quando ficou ao mesmo nível da janela da cela, parou ao ouvir a voz do irmão.

-Jordan, não sejas louco! - assobiava Elias. - Queres ser enforcado? Vai-te embora agora, e não voltes. A única coisa que me faz aguentar isto é saber que, pelo menos, tu estás seguro. Não me faças sentir que morri em vão. Vai!

E, por uma vez, o homem mais velho obedeceu ao irmão, mas, quando se ia embora, todos os pensamentos relacionados com Elias se lhe escaparam temporariamente da mente. Não conseguia esquecer a imagem do monge a subir a estrada à pressa. Foi então que se apercebeu do que lhe parecera tão incongruente: o monge levava uma moca. Quase inconscientemente, seguiu a figura de hábito.

 

Arthur bocejou, serviu-se de mais vinho, e ficou contente ao ouvir a porta bater.

- E onde estiveste?

- Pai? - Avice entrou, tendo a criada permanecido à porta, e atirou-se para Arthur, sentando-se no seu colo e abraçando-o.

- Devias ter visto os malabaristas e os músicos! Eram maravilhosos. Havia lá uma mulher, tinha a voz mais doce que já ouvi, e cantou tudo sobre Judas e como Jesus lhe emprestou trinta moedas de prata para comprar comida, mas foi roubado e traiu Jesus ao senhor de Jerusalém para recuperar o dinheiro, oh, foi tão triste!

Avice endireitou-se na cadeira e ele viu uma lágrima a correr-lhe pela face.

- Ora, ora, minha filha. Era só uma canção. Talvez não devessem deixar os músicos tocarem na cidade, se vão perturbar as mulheres.

- Oh, mas foi tão bonito, pai. E os outros todos cantaram sobre reis e rainhas, sobre Artur e Guinevere e um tinha todas as canções sobre o Rei, o pai do nosso Rei.

- Sim - disse Arthur num tom pesado. - Ninguém ainda tem canções sobre o Rei novo, pois não?

- Pai, não sejas tão maldoso. Tenho a certeza de que tudo o que se ouve sobre ele não é verdade. - Ela levantou-se, baixando afectuosamente o olhar para ele. - Agora vou para a cama. Também devias subir daqui a pouco. Pareces cansado.

- E estou - admitiu ele. - Mas tenho mais uma coisa para fazer.

- Ai sim? - disse ela, lançando um olhar severo à taça e ao jarro. Ele deu-lhe uma palmada no traseiro.

- Sim, minha pequena víbora! Não olhes para o meu vinho como a tua mãe. A cada dia que passa estás mais parecida com ela.

- Não estou nada! - declarou ela, calorosamente, mas beijou-o e saiu da sala. A criada estava de parte, fez uma vénia, e seguiu a donzela que tinha a seu cargo.

Alguns minutos depois entrou Henry. Arthur fez-lhe sinal para que se sentasse numa cadeira ao lado da qual havia uma garrafa bojuda de cerveja que estava a aquecer junto à lareira. Enquanto o homem tomava um longo trago, Arthur batia impacientemente com os dedos no braço da sua cadeira.

Henry era um homem baixo e magro, com o rosto picado e marcado por cicatrizes deixadas por uma doença infantil. Ele encolheu os; ombros, num gesto bastante expressivo.

- Ela encontrou-se com ele cedo, mas não por muito tempo. Depois caminhou apenas pela cidade, viu os bailarinos e os acrobatas, depois foi para o recinto da feira.

- E não se encontrou lá com homem nenhum?

- Com dois monges. O primeiro trocou algumas palavras com ela, mas ela despediu-o com as orelhas a arder.

- Porquê? Ouviste o que disseram?

Henry lançou-lhe um olhar longo e riu. - Se me encontrasse suficientemente perto para ouvir o que diziam, estaria suficientemente perto para ser visto, e Avice conhece-me. O que queríeis, que eu ouvisse o que diziam e que ela me man”-dasse deixá-la em paz, ou que me mantivesse escondido e que ficasse com ela para a proteger de salteadores e ladrões?

- Tens razão, é claro. Continua.

- O monge fugiu para norte e a vossa filha continuou em redor do recinto da feira. Mais à frente, encontrou outro monge, que tinha o rosto coberto com o hábito para se proteger do frio, pois o vento era fresco. A vossa filha disse a Susan que a deixasse por uns momentos, e ele caminhou com ela durante algum tempo, a conversar. Ela deixou-o quando resolveu vir para casa.

- Devia estar a começar a ficar tarde, por essa altura - Arthur franziu o sobrolho. - E era outro monge?

- Era tarde. Ouvi tocar o toque das Completas quando já vínhamos na estrada de regresso à cidade. Ela devia conhecê-lo, pois foi bastante delicada para com ele. Não foi como com o primeiro.

Arthur fixou as chamas.

- Outro monge - repetiu. - Henry, podes pensar que sou paranóico ou apenas um velho louco, mas o que estava um monge a fazer fora da abadia à hora das Completas? Todos os monges devem estar na sua igreja.

- Talvez o Abade o tivesse incumbido de uma missão especial, senhor.

- Se ele estava a cumprir uma incumbência do Abade, o que estava ele a fazer a conversar com a minha filha? Henry, esse segundo monge: era alto, baixo, gordo, magro, de ombros largos, estreitos? Não! Antes de responderes, pensa. Especificamente, era como Pietro?

- O veneziano? - Henry perguntou com um tom de sarcasmo, mas depois a testa enrugou-se-lhe. Por um minuto ou dois os seus olhos adquiriram uma expressão distante e o criado serviu-se de uma bebida da garrafa bojuda, ao mesmo tempo que fixava o olhar a meia distância. - Certamente que não podia ser ele. De corpo, suponho que era muito parecido com o rapaz, mas será que ele teria a ousadia de se fazer passar por padre?

- Penso que o sacana far-se-ia passar pelo Papa para pôr as mãos em cima da minha filha! - disse Arthur com brusquidão, recostando-se na cadeira, mal-humorado. - Por amor de Deus, não contes nada disto à minha mulher. Se Marion soubesse, tremo só de pensar o que ela faria.

- Quereis que fique com a menina Avice quando ela, de futuro, voltar a sair?

Sem energia, Arthur afundou-se na cadeira.

- Sim, faz isso. E, entretanto, terei de fazer outro trabalho. - Outro trabalho englobava tudo, acrescentou para si próprio. Se a filha se fixasse no rapaz, ele teria de apressar as suas investigações sobre os venezianos que estavam alojados na abadia, e ver se eram tão prósperos como pareciam. - Henry, amanhã, assim que enclarecer, vai à abadia e vê se consegues arranjar um monge com quem falar. Descobre tudo o que puderes sobre esse rapaz e o pai. Tenho de saber que tipo de homens são.

 

Ele fizera isto bastantes vezes ao longo dos últimos dois anos, e sabia como fazer as coisas. Era tarde, mas isso ajudaria. As suas vítimas estariam mais insensíveis devido ao cansaço e à bebida. Os primeiros lugares a verificar eram as tabernas e outras casas de cerveja que ficavam espalhadas por toda a cidade. Aí estariam os bêbedos, os homens que podiam ser rapidamente dominados, se atingidos uma vez na cabeça, e depois privados de todo o dinheiro e valores que traziam consigo.

Era urgente que ele conseguisse o máximo o mais depressa possível. Podia culpar-se do erro que cometera, mas dificilmente ficara surpreendido com o facto de ter morto o homem errado. Estava tão escuro sem candeeiros nem tochas. Quando ele vira a figura corpulenta, presumira instantaneamente que se tratava de Lybbe; não era culpa sua que Torre fosse tão parecido com ele no escuro. Quando o agredira, o homem estava de costas para ele, e ele não se dera ao trabalho de lhe olhar para o rosto. Não parecia haver necessidade.

Mas sentia-se estúpido em relação ao erro; e, em consequência dele, o perigo em que se encontrava duplicara. Não só estava ainda em risco, caso Lybbe o reconhecesse, como agora tinha de andar um passo à frente do cavaleiro de Furnshill no que dizia respeito à morte de Torre.

Enquanto esperava, sentia uma expectativa cada vez maior. A sua desesperada necessidade de fugir da cidade alimentava a sua tensão.

Decidira não ir à taberna onde atacara Will Ruby. Poderia haver um guarda plantado para o apanhar. Não, esta noite, ele subiu mais um pouco a colina, passando pela cela e continuando em direcção à feira. Havia aqui várias tabernas que até agora, quando o serão já ia avançado, estavam cheias de mercadores e comerciantes que gastavam os seus lucros em vinho, cerveja e mulheres.

A primeira a que chegou ficava situada numa conveniente rua sossegada, de onde ele via toda a frente do local e a maior parte da rua em ambas as direcções. Instalou-se na escuridão junto à entrada e encostou-se a uma parede, a baloiçar o bastão à toa. Tempo era o que não lhe faltava. Tinha toda a noite, e a sua paciência estava à altura da tarefa.

 

No dia seguinte, ao pequeno-almoço, Baldwin ficou satisfeito ao reparar que Jeanne parecia feliz ao vê-lo. Simon observou o seu velho amigo a caminhar para a mesa e a sentar-se ao lado dela. Quando Margaret, encantada, lhe deu um toque com o cotovelo, resmungou, rabugento:

- Eu sei, tenho olhos na cara! - Mas ela adivinhava que ele também se sentia aliviado.

O cavaleiro olhou Jeanne.

- Esta manhã não temos Abade?

- Nunca tínheis visitado a feira antes, pois não, Sir Baldwin? Não, bem, hoje é a Festa de São Rumon, e o Abade vai estar com os seus monges. Vão celebrar um serviço alargado em honra do Santo, e uma missa pelos fundadores da abadia.

Baldwin acenou com a cabeça. Na Igreja da abadia havia altares dedicados aos seus principais benfeitores. Não só de SãoRumon, mas também de Ordulf e da esposa Aelfwynn, os dois fundadores, do Abade Lyfing, que a reconstruiu após ter sido arrasada pelos Viquingues, e de Eadwig, que deu as suas terras de Plymstock aos monges. Todos eram recordados com respeito e gratidão.

- O Abade tem um grande número de obrigações a cumprir - continuou Jeanne -, em honra do santo padroeiro da abadia. Mercadores e artesãos trazem ofertas ao altar de São Rumon, e alguns desejam sempre falar com o Abade para se certificarem de que o que deram lhes trará a recompensa devida.

- Tenho a certeza de que o Abade desempenha as suas obrigações com honra e para satisfação de todos os que vão à igreja - disse Baldwin, de um modo um pouco frívolo.

- Sim. O Abade Champeaux é um homem generoso e amável.

- Tenho a certeza que sim - concordou Baldwin. - Estou contente por viverdes na terra dele. Deve ser um bom senhor para os seus servos.

Nesse ponto, ela riu.

- Eu tenho sorte, sim, mas não ouvireis muitas das outras pessoas que vivem na terra dele dizerem a mesma coisa. Ouvistes falar de Torre?

- Apenas que ele tinha discutido com um monge na noite em que morreu.

- O Abade Champeaux é uma alma generosa, mas está determinado a assegurar-se de que as suas terras dão lucro. Transformou alguns dos seus servos em rendeiros: em vez de terem de lhe fornecer serviços nos campos dele e de lhe pagarem uma pequena renda, ele arrendou-lhes as terras para que eles possam cultivá-las melhor e terem mais lucro.

- Por que haveria ele de querer isso?

- Traz mais dinheiro para a abadia. Torre, por exemplo. O Abade ia obrigá-lo a tomar a terra de arrendamento, e isso teria significado que, em vez de alguns pennies por ano, ele teria de pagar doze xelins ao Abade. Isso era ser generoso, pois agora que Torre morreu, ele receberá isso do novo rendeiro, mas o responsável pelas finanças da abadia pensa que ele ganhará mais, provavelmente um arrátel de pimenta e de cominhos, para além do dinheiro.

- Então era disso que Torre se estava a queixar. Ia ganhar mais liberdade, mas teria de pagar pelo privilégio.

- Sim.

Baldwin mastigava, pensativo.

- E o monge, Peter, estava a defender o seu senhor, e foi por isso que quase se envolveu numa luta com o mineiro.

- Ainda tendes dúvidas de que Elias seja o assassino?

- Não posso acreditar que foi ele. Se ele tivesse um motivo para matar Torre, por que esperaria até agora para o fazer?

- Pode ser que ele se tenha dominado até à altura da feira para que houvesse um confuso número de pessoas em redor...

- É possível. Ele não me parece nada estúpido, e isso envolveria uma certa astúcia. Mas ainda acredito que, se Elias participou, de facto, neste homicídio, foi como cúmplice. É o outro homem que eu quero conhecer, o homem que ele está a proteger. - E, a não ser que ele nos diga quem é, admitiu Baldwin para si próprio, há poucas hipóteses de se esclarecer esta confusão.

A muralha da abadia tinha vários portões. Havia o portão pequeno por baixo dos aposentos do Abade, a comporta que dava acesso à ponte da abadia, e o portão do pátio - um grande bloco com quartos por cima por onde passava a maior parte do movimento que entrava e saía da abadia. Era aqui que os monges com pouca coisa para fazer passavam o seu tempo a conversar com os transeuntes.

Arthur pedira-lhe que reunisse informações, e o criado sabia aonde devia ir. Henry dirigiu-se ao postigo aberto nas enormes portas de carvalho. Já lá estavam dois bufarinheiros, a conversar com um monge, que estava apoiado numa pá a olhar para a multidão que passava. Até mesmo a esta hora da manhã, as pessoas enchiam a rua a caminho da feira.

Na mão, Henry levava um grande cântaro de bom vinho Bordeaux. Encostou-se à parede até que os bufarinheiros se afastaram, e foi então que saudou o monge.

- Irmão, o meu amo disse-me que vos agradecesse e à abadia por lhe permitirdes vir à feira. Envia-vos isto. - E exibiu o vinho.

- É para nós? - disse o monge dubiamente, pegando no cântaro e verificando o cheiro junto à boca aberta da vasilha. A sua disposição rapidamente melhorou, mal cheirou o bom vinho de Arthur.

- Provai um pouco - incitou-o Henry. - É o melhor que o meu amo tem.

O monge mirou o vinho, depois Henry, depois novamente o cântaro. Por fim, decidiu-se, encostou a pá à parede e bebeu um gole rápido.

- É bom - disse ele, expirando.

Henry olhou para trás. Havia muitos visitantes no grande pátio, mas ninguém prestava qualquer atenção ao par que se encontrava junto ao portão.

- Eu nunca provei o vinho do meu amo - disse ele com ar triste. - Ele diz-me sempre que é bom de mais para um criado.

- Isso é típico. - O monge abanou a cabeça. Do sotaque dele, Henry ficou contente ao ouvir o suave rrrr de Devon. Henry tinha a certeza de que se tratava de um irmão leigo, um camponês local a quem ofereceram comida e alojamento gratuitos no recinto da abadia em troca da realização da maior parte do trabalho pesado, para que irmãos nascidos em melhores berços pudessem dedicar o seu tempo ao estudo e à contemplação sem necessitarem de executar trabalho manual em excesso.

- Os pobres nunca chegam a provar as melhores coisas da vida, não é assim? - Olhou por cima do ombro, empurrando depois, de súbito, o cântaro a Henry. - Toma, prova um pouco.

Henry bebeu um longo gole de vinho e voltou a passá-lo ao monge, lambendo os lábios.

- É óptimo, não é? Já vejo por que é que o meu amo o quer só para si.

O monge tomou-lhe especulativamente o peso na mão.

- O teu amo disse que o vinho era para o mosteiro ou para o Abade? - perguntou com ar sério.

- Disse que era para a abadia, para agradecer aos monges.

- Nesse caso, uma vez que eu sou monge... - disse o seu novo amigo, novamente com uma expressão de seriedade, e voltou a levantar o cântaro. - Mas seria ganância tomá-lo todo - acrescentou, e piscou o olho à medida que Henry voltava a aceitá-lo.

- Há muito movimento aqui? Tendes muitos convidados.

- Mais do que habitualmente - concordou o monge, limpando o vinho que lhe caíra no queixo. - Gente de todo o lado. O beleguim e a esposa, um homem de Crediton, um...

Henry esperou enquanto o monge enumerava todos os convidados. Quando ele mencionou Veneza, o criado saltou ao ouvir a palavra.

- Onde fica isso? É perto de Iorque? - perguntou inocentemente.

- Não, é no estrangeiro. Algures a Sul da Gasconha - respondeu o monge, conhecedor. - Por isso, é no estrangeiro. Devias ver a forma como se vestem. - Abanou a cabeça e voltou a beber.

- O que fazem eles aqui? Eu pensava que eles iam para outro sítio se quisessem comprar coisas.

- Oh, não. Estão cá para negociar com o Abade. Querem fazer um acordo para comprarem toda a sua lã durante os próximos três anos a preço fixo. Assim o Abade sabe de antemão quando irá receber, e isso tornar-lhe-á o trabalho um pouco mais fácil. - Estou a ver. Então vão ficar cá durante algum tempo.

- Oh, não sei. Suponho que se irão embora assim que consigam o contrato que pretendem. Parecem ter outros negócios a tratar, segundo diz o meu amigo que trabalha com o responsável pelos hóspedes, e querem partir rapidamente, logo que o Abade concorde com o contrato.

- Devem ser ricos para negociarem com o Abade.

- Eles dizem que são.

O ouvido de Henry estava mais alerta do que nunca.

- Pensais que não são? - perguntou, fingindo desinteresse.

- Há qualquer coisa neles que não bate certo. Eles dizem que são mercadores e banqueiros, e esses homens são muito ricos. Mas estes indivíduos têm roupas muito boas e as selas e os arreios são de boa qualidade, mas os cavalos que têm são animais baratos.

Henry compreendia a distinção. O seu amo era muitas vezes anfitrião de homens ricos, e, como criado, ele sabia que aqueles que exibiam roupas boas possuíam também os melhores cavalos e gastavam fortunas em adornos para os seus animais. Não fazia sentido possuir uma montada de primeira qualidade para fazer com que ela pareça um cavalo inferior atacado pela pulmoeira ao usar uma sela e uns arreios baratos. Os ricos exibiam o dinheiro que tinham. Ele recordou a chegada dos Cammino à cidade.

- Por que será?

- Eles disseram que foram assaltados, mas, se, de facto, foram, por que não lhes levaram o dinheiro e o ouro? E se lhes levaram os cavalos, não teriam levado também as selas e restantes apetrechos? Penso que estes homens não são tão abastados como querem fazer ver ao Abade. No entanto, não tenho nada com isso.

Henry ficou até terminarem o cântaro entre si, mas pouco mais havia para descobrir, por isso deixou o monge, agora com todo o aspecto de satisfação, para regressar a casa do amo. En route, viu uma figura familiar, e aproximou-se lentamente para a examinar.

Era o jovem veneziano, Pietro, e o criado. O par esperou um pouco a norte da taberna, parado numa ruazinha estreita, à sombra de uma casa grande. Henry não tinha a certeza, mas tinha a sensação de que estavam à espera de alguém, e, enquanto observava, viu aproximarem-se as figuras de Avice e da criada. Quando reparou na forma como o rosto da jovem se iluminou de alegria ao ver o amado, Henry continuou a observar com uma expressão severa. O seu amo teria problemas em persuadi-la a deixar o veneziano em paz.

Apercebeu-se de que os quatro continuavam a descer a colina em direcção a ele, e virou costas para se afastar à pressa antes que o vissem, quando tropeçou. Outra pessoa que se encaminhava para a feira à pressa foi de encontro a ele, e Henry soltou uma praga dirigindo-se ao homem, quando reconheceu o jovem monge Peter. O criado colocou-se de pé com a ajuda das mãos e apressou-se a encostar-se a uma parede, olhando para cima, para a estrada. Ficou espantado ao ver o monge especado em frente da filha do seu amo. Também a ver estava o velho frade, do outro lado da rua.

- Senhora, devo pedir-vos que...

Henry viu Pietro, imprevidente, dar um passo em frente.

- Se estais preparado para renunciar à vossa vocação, o hábito não vos serve de protecção. Deixai a minha senhora em paz! - disse ele, e, de súbito, estendeu a mão e esbofeteou Peter na face, quase fazendo com que o rapaz desse uma volta completa antes de cair ao chão.

Peter ficou estendido no chão a soluçar de fúria e ciúme, enquanto Avice e Pietro passaram por ele. Nem sequer conseguia reunir energias para gritar; estava exausto - e envergonhado da sua atitude. No dia anterior, a vida parecera-lhe cheia de promessas; o futuro dele estava traçado, e conhecia a sua vocação - e agora tudo estava arruinado. Estava apaixonado por uma mulher que o rejeitara com desprezo, a ambição da sua vida estava destruída, e a sua esperança de ser feliz fora esmagada debaixo do calcanhar delicado dela.

Sentiu que uma mão lhe agarrava o cotovelo e que o colocavam em pé.

- Meu filho, meu filho, o que significa tudo isto?

Peter limpou os olhos, espalhando sujidade por todo o rosto.

- Frei? Não é nada. Nada. - Os olhos dele seguiam Avice à medida que ela descia a colina com o seu escudeiro. - Como é que ela o pôde preferir, a ele?

Hugo afagou-lhe o ombro.

- É melhor ela escolher um homem como ele do que persuadir-te a abandonar a tua vocação...

- Mas ele...

- O quê, meu filho? - perguntou Hugo pacientemente. Peter endureceu o maxilar.

- Ele pode ser um assassino!

- O quê? - involuntariamente, Hugo recuou um passo.

- Sim! Eu estava lá, vós também! Na taberna, na noite em que aquele homem foi assassinado, deveis ter visto. Quando o homem se encontrava a barrar o caminho, aquele cachorro veneziano quase que sacou da faca.

- Isso não quer dizer nada. Ele não sacou dela, de facto, e...

- Mas e se ele armou uma emboscada ao homem mais tarde? E se ele o apunhalou? Isso quereria dizer que Avice ia casar com um assassino!

Henry ouviu as palavras. Viu Hugo abanar a cabeça e aconselhar o noviço a ter cuidado com as pessoas a quem fizesse tão graves acusações, mas o rapaz não era do género de se deixar apaziguar.

- Ela não é para ti, meu filho. Tens uma vocação. Tens de esquecer as paixões da carne se queres ser um bom monge.

- Não serei monge. Já disse ao Abade.

Hugo pousou-lhe uma mão no ombro com compaixão.

- Antes de tomares uma decisão dessas, tens de reflectir muito e profundamente. Deus enviou-te esta tentação para testar a tua determinação. És realmente capaz de O decepcionar tão facilmente?

Peter retirou do ombro a mão do frade.

- Eu amo-a.

O frade abanou a cabeça em sinal de compaixão, à medida que o rapaz, de cabeça baixa, descia em direcção à abadia. Hugo tivera sorte - nunca sofrera de desejo, e era-lhe difícil compreender o tormento dos outros. Para ele, a adoração da Mãe de Cristo era suficiente.

Henry tentou a sua sorte e foi ter com ele.

- Frei? O monge está bem? Hugo olhou-o.

- Ele não se magoou - respondeu Hugo, ambiguamente.

- Aqueles estrangeiros deviam ser menos arrogantes.

O frade afastou da cabeça o jovem monge. Ainda procurava um tema para pregar, e falou distraidamente.

- Não são só eles. A arrogância não é exclusivo de venezianos.

- É típica de banqueiros estrangeiros.

- Banqueiros? Eles são banqueiros? Pensei que eram apenas mercadores. - De súbito, Hugo estacou na rua e soltou um leve suspiro de prazer. Poderia ser um tema bem batido, mas, finalmente, tinha uma ideia para um sermão.

 

Baldwin e Jeanne seguiam alguns passos atrás de Simon e da esposa, em parte por autodefesa. Enquanto caminhavam atrás deles, o cavaleiro sentia que não se encontrava tanto sob constante observação.

Era sempre assim, ele sabia. Um jovem casal de namorados estava sempre sujeito a um exame contínuo, e a mínima falha de maneiras ou de comportamento cortês faria com que o escudeiro se tornasse objecto da mais perversa troça verbal, ou pior ainda. Não era tudo para um lado, pois qualquer donzela que oferecesse o que poderia ser considerado pelos pais e amigos como comentários excessivamente indecorosos ou namorisqueiros seria severamente repreendida. Ele esperara que, se encontrasse uma mulher a quem cortejar, poderia, pelo menos, fazê-lo sem o embaraço de um amigo a escutar ao pé, e, sem dúvida, a registar todos os disparates com intenção de lembrar mais tarde o cavaleiro, quando este se encontrasse numa posição indefesa.

Estava dolorosamente consciente de que o seu criado e o de Simon seguiam ambos atrás dele, e isso era quase mais terrível do que se Simon e Margaret, à frente, se encontrassem em posição de ouvir tudo. Tinham sido recentemente dadas a Baldwin provas suficientes de que Edgar desfrutara da companhia de várias das mulheres mais jovens de Crediton. A sua aparência de guerreiro e a sua fácil lisonja pareciam conquistá-las, embora Baldwin não conseguisse compreender porquê. Ainda na semana anterior ele ouvira o seu criado a cortejar uma bufarinheira na rua, e as expressões de admiração de Edgar perante a beleza da rapariga (embora, na opinião de Baldwin, ela fosse bastante comum) conquistaram-lhe um ofuscante brilho de felicidade e todas as promessas de mais do que um simples desconto.

Conversa fiada daquela natureza, que, para Baldwin, pouco mais era do que uma mentira vestida de boas maneiras, irritava-o. Não tinha qualquer significado. Preferia poder fazer uma inequívoca afirmação de afecto a uma mulher que amava, e continuar em termos educados e honrosos com todas as outras, do que ter de fazer nem que fosse uma só afirmação embaraçosa, de fazer revoltar o estômago e que não fosse verdadeira. Baldwin era cavaleiro, e a natureza suave de uma campanha para conquistar o coração de uma mulher era um mistério para ele. Uma coisa que ele já descobrira era que cortejar uma senhora não era algo tão directo como virar o cavalo para um inimigo e atacar. Era necessária uma certa subtileza que era estranha à sua alma. Com uma sensação de derrota, perguntou-se se deveria pedir conselho ao criado. Edgar sabia como se lutava neste tipo de batalha.

Uma vez na feira, as mulheres, naturalmente, gravitavam juntas, e Simon deslocou-se para o lado do amigo. Baldwin ignorou o seu olhar irónico e o piscar de olhos, assim como o cotovelo que ele lhe espetou de lado, mantendo o que ele esperava que fosse um silêncio digno.

Simon sorria maldosamente, desfrutando da falta de à-vontade do amigo.

- Já te ocorreu mais alguma coisa sobre Elias?

- Receio que não. Enquanto ele não se aperceber do perigo que corre, pouco podemos fazer para forçá-lo a revelar a identidade do outro homem.

- Tens tido a mente ocupada com outras coisas, eu sei - Simon esboçou um sorriso pretensioso -, mas ocorreu-me uma coisa. Elias tem uma estatura fraca, enquanto que Torre era entroncado e forte. As roupas que vestiram a Torre serviam-lhe, mas não teriam servido a Elias. O homem que se encontrava com Elias devia ter a mesma estatura que Torre.

- Sim, mas quantas centenas aqui têm a mesma constituição física? - Baldwin olhou a última banca em que as mulheres tinham parado. Tinha luvas caras, e ele sentiu um calor de prazer sádico, enquanto Margaret regateava animadamente preços com o feirante.

- Por que é que Elias ficou calado? Isso é que me intriga. Pensas que o homem que estava com ele era o assassino?

- Talvez. A julgar pelas descrições, ele devia ter a mesma constituição que Torre, e as roupas comprovam isso, se, de facto, ele trocou de roupa com o cadáver. Também, se foi ele que matou e decapitou Torre, isso explicaria como Elias podia ter voltado a aparecer na taberna sem uma marca de sangue na roupa.

- Mas que tipo de domínio é que o homem poderia ter sobre Elias para convencer o cozinheiro a ficar calado quando a sua vida está em perigo? - Surpreendendo um olhar de Jeanne, Baldwin sentiu um acesso de irritação. Precisava de tempo para divisar a melhor maneira de cortejar esta senhora, e, no entanto, era obrigado a concentrar-se em apanhar um assassino. Por um momento, sentiu uma aversão irracional por Elias. Era ele e o seu maldito silêncio que lhe estavam a causar este problema. Se não fosse ele, Baldwin poderia juntar-se às mulheres e talvez comprar um presente a Jeanne. - E que possível motivo é que o homem poderia ter? - Continuou Baldwin. - Era novo nesta zona, estava apenas de passagem, pelo menos foi o que a dona da taberna deu a entender. Certamente não era daqui, pois ela não o reconheceu.

- Uma ofensa pessoal, um acidente - quem sabe? Talvez devêssemos voltar à taberna e perguntar lá; talvez encontrarmo-nos com Holcroft e vermos se uma noite na cadeia soltou a língua do nosso amigo Elias.

- Oh, imagino que sim - resmungou Baldwin. - Se aquele maldito cozinheiro patético falasse, podíamos deixar de perder o nosso tempo. Por que é que ele não nos disse simplesmente o que aconteceu?

Aproximaram-se das mulheres. Jeanne virou-se instantaneamente para Baldwin com um ar inquiridor. Baldwin encolheu os ombros, como quem pede desculpa, ao mesmo tempo que Simon explicava, e depois acrescentou:

- Penso que Simon tem razão, devíamos ir verificar isto.

Para sua surpresa, ela acenou compreensivamente com a cabeça.

- É claro que deveis - ele parecia tão desgostoso por ter de ir, que ela sentiu vontade de o abraçar, como uma mãe que mima um filho rebelde. Em vez disso, presenteou-o com um sorriso encorajador. - De qualquer maneira, seria aborrecido para vós andardes atrás de nós, de tenda em tenda, a ver roupas e botas. Não, ide ambos, e encontrar-vos-emos depois.

Jeanne não era idiota, ela vira a expressão do rosto de Simon enquanto eles conversavam, e sabia quão tímido o cavaleiro era. O beleguim estivera a troçar dele sem misericórdia, disso ela tinha a certeza, por isso, quando eles viraram costas para se irem embora, ela chamou-os de volta:

- Um momento, Simon, certamente que, quando a vossa esposa tem tanta coisa para comprar, não a ides deixar apenas com alguns trocos, pois não? A vossa bolsa está cheia e a dela está quase vazia - não lhe dais o vosso dinheiro?

Simon ficou pasmado, de boca aberta.

- O meu dinheiro? Mas... - uma vez que Jeanne tinha a mão estendida, ele recuou, embatendo no sorridente Edgar, que agarrou rapidamente o braço do beleguim e o levou de volta. Sob o olhar firme de Jeanne, ele sentiu que não tinha alternativa senão abrir os cordões à bolsa e tirar de lá todas as moedas. - Não gastes tudo em doçarias - disse bruscamente, soltando o braço com um puxão. - Vamos, Baldwin. Deixemos estas lindas ladras e procuremos um bom e honesto assassino.

Deixaram Hugh com as mulheres, com um ar revoltado só de pensar nas mercadorias que teria novamente de carregar, e afastaram-se com Edgar, dirigindo-se ao portão principal e descendo até ao mercado. Aqui Baldwin aproximou-se da janela da cela e espreitou. Viu o cozinheiro desconfortavelmente enroscado ao canto, embrulhado no cobertor fino e coçado, a tremer.

Depois de terem passado pela zona do mercado, tiveram de abrir caminho pela multidão que já se tinha reunido para ver os malabaristas e os acrobatas. Os menestréis afinavam os instrumentos, uma mulher cantava numa voz alta e nasal. Então, na extremidade mais distante, viram o frade.

Hugo estava de pé em cima de um barril, a pregar.

- Deus ensina-nos que há um preço justo para tudo, e esse preço deveria ser suficiente para que um homem tivesse lucro. Mas Ele ensina-nos que, se um homem tem demasiado lucro, esse homem está a perseguir activamente a avareza, e a avareza é pecado. É por isso que as nossas leis impedem que se contrate mais gente do que se precisa, ou que se faça qualquer outra coisa que nos possa dar vantagem sobre os outros no nosso negócio. É por isso que não se deve sobrestimar o nosso trabalho em detrimento do trabalho dos outros.

“É por isso que a usura é um pecado tão único, pois não contribui em nada para o bem-estar do homem. Os banqueiros contribuem apenas para a miséria do mundo, porque emprestam dinheiro e cobram juros sobre esse dinheiro. Que proveito é que humanidade tira disso? Um sapateiro ajuda-nos ao fazer sapatos para que possamos andar muito sem magoarmos os pés; um tanoeiro permite-nos guardar a comida e a bebida para não morrermos à fome durante o Inverno; um tecelão faz tecidos para nos vestirmos; um agricultor fornece-nos comida para comermos. Mas o que fazem os banqueiros? Não fazem nada, não nos fornecem nada, não contribuem em nada para o bem do homem.

Baldwin murmurou:

- Ele deveria ter cuidado. Não queremos que a multidão se agite.

- Ele sabe o que está a fazer, em breve vai chegar aos motivos por que a avareza é tão má. Já ouvi antes este tipo de sermão - disse Simon. - Anda, vamos até à taberna.

E continuaram, perdendo, assim, o final do sermão de Hugo. Mais tarde, Baldwin viria a lamentar isso.

No interior da taberna pairava um agradável odor de um caldo de carne e legumes que se encontrava no fogo, numa enorme panela de três pés. O beleguim cheirou o ar apreciadoramente. Se não tivesse comido antes de sair da abadia, teria pedido uma tigela daquele caldo grosso. Assim, pediu à criada que servia à mesa que fosse buscar cerveja para ele e para Edgar. Baldwin não tinha sede.

Havia muita gente, com vendedores e compradores sentados a discutirem as suas transacções, famílias a descansarem enquanto as crianças corriam entre as pernas dos agricultores, mercadores e mineiros. Baldwin viu um grupo de guardas a um canto, e examinou-os com interesse. Um parecia ter magoado o braço, pois segurava-o junto ao corpo num cabresto. Outro tinha um aspecto extremamente pálido e abalado.

- Simon, estás a ver aqueles homens? - sussurrou Baldwin. O beleguim resmungou:

- O que têm eles?

- Margaret e Jeanne contaram-nos ontem à noite do ataque ao mercador de tecidos, não te lembras? Um homem ficou inconsciente, outro com o braço torcido.

- Pensas que são aqueles?

- Parecem eles, não parecem? O que estão guardas a fazer na feira, ameaçando os negociantes?

- Se forem, de facto, eles, talvez tivessem uma boa razão para... Não sei, talvez estivessem a cobrar portagens por pagar.

Baldwin soltou um gemido exasperado.

- Lembras-te do que Jeanne e Margaret disseram? Aqueles homens não falaram em portagens, disseram que queriam ensinar inglês ao feirante, ou outro disparate parecido. Seja como for, seria o bedel do burgomestre que iria recolher o dinheiro, não o guarda. Não, estes homens têm estado a preparar alguma.

Agatha apareceu com um jarro e duas grandes canecas. Colocou-os em cima da mesa, mas, antes que se pudesse ir embora, Simon disse:

- Agatha, soubestes que prendemos Elias?

- Sim, e parece uma coisa tão estúpida como tudo o resto, na minha opinião.

- Porquê? - perguntou Baldwin.

- Porque ele não é nenhum assassino. Elias, por vezes, é idiota, e pode ser uma peste mesmo lamurienta, mas apunhalar alguém pelas costas? Nunca!

- Na noite em que Torre morreu, sabemos que Holcroft esteve aqui, porque Lizzie o viu à espera dela, por isso não é provável que ele pudesse ter assassinado Torre, independentemente do que a rapariga pensa.

- O que Lizzie pensa é lá com ela. Nunca me passou pela cabeça que o burgomestre fosse o responsável.

- Mas Elias estava com aquele outro homem. Como era ele de estatura, mais ou menos como Torre?

- Talvez.

- Compreendeis, pensamos que Elias não teria morto o homem sozinho, se, de facto, esteve envolvido na morte do homem. Ele e o amigo saíram daqui juntos, segundo dizeis. Na pior das hipóteses, ele matou Torre com a ajuda de um cúmplice. Pensamos que é mais provável do que ele ter apunhalado Torre sozinho.

A mulher encolheu os ombros.

- Vós é que tendes de descobrir.

Baldwin recostou-se na cadeira e lançou-lhe um olhar perscrutador.

- Agatha, quanto tempo passou desde que ele saiu da taberna com o amigo até ter regressado?

- Apenas alguns minutos.

- Tendes a certeza? O assassino de Torre teria precisado de muito tempo. Podereis estar enganada? Poderá ele ter estado ausente durante um bom bocado?

Baldwin aguardou, na expectativa, e deixou escapar um suspiro de alívio quando ela abanou a cabeça devagar.

- Não, não me parece que me tenha enganado. Ele esteve ausente apenas por uns momentos.

- Quer dizer, Agatha, que é possível que o amigo fosse o homem que despiu Torre e que vestiu as suas próprias roupas ao cadáver. As roupas dele teriam servido a Torre, daquilo que vistes?

Ela voltou a fazer uma pausa, não desviando o olhar do dele, antes de acenar, decidida, com a cabeça.

- Suponho que sim.

- Muito bem. Sendo esse o caso, precisamos de encontrar o amigo de Elias. É mais do que provável que seja ele o assassino.

- Perguntai a Elias.

-Já perguntámos - protestou Simon, cansado. - Ele não nos diz.

- Obrigai-o, então. Simon rangeu os dentes.

- Reparastes se Torre discutiu com ele?

- Com o companheiro de Elias? Não, de forma alguma.

- Mas vistes Torre discutir com outros?

- Oh, sim. Ele já tinha tomado algumas cervejas e estava com disposição para lutar.

- Com quem é que ele lutou? Agatha respondeu, animada:

- Com toda a gente: atirou-se ao monge, e a David, e a uns estrangeiros que iam de saída.

- Mas não com Elias nem com o amigo dele?

- Não, com eles não.

Baldwin franzia o sobrolho à dona da taberna.

- Senhora, sabemos que estavam cá outras pessoas naquela noite. Mencionastes um mercador. Sabeis onde ele mora?

- Ele está ali, se quiserdes falar com ele.

Seguindo o dedo indicador dela, Baldwin viu Arthur Polé sentado a uma mesa, sozinho. Tinha à frente uma caneca de vinho, e examinava uma folha de papel.

- Sim, penso que devíamos falar com ele agora - disse Baldwin. Arthur levantou o olhar quando eles se encontravam a seu lado, e, ao saber quem eram, fez um gesto para o banco à sua frente.

- Em que posso ajudar-vos, cavalheiros?

O cavaleiro achou-o pomposo. As roupas que usava não davam demasiado nas vistas, mas a pele de esquilo da gola era um sinal da sua riqueza.

- Senhor Polé, estamos a tentar descobrir o que aconteceu na noite em que Roger Torre foi assassinado.

- Pensei que tínheis prendido alguém por isso.

- Temos um homem na prisão, mas, quando muito, ele será um cúmplice, e não o assassino. Gostaríamos de saber o que vistes naquela noite. A que horas chegastes aqui?

- Um pouco antes das Completas. O sino ainda não tinha tocado quando entrei.

- Quanto tempo ficastes?

- Pouco tempo. Tínhamos sido convidados por um mercador veneziano que tínhamos conhecido na viagem para a cidade.

- António da Cammino?

- Sim - confirmou Arthur amargamente. - O filho dele desenvolveu um afecto pela minha filha. É um problema, pois ambos parecem voluntariosos em relação a isso e eu não sei que fazer para tentar resolver a questão.

Baldwin acenou com a cabeça. Se Pietro ansiava por uma mulher, isso explicava o seu comportamento em frente do Abade.

- Quando chegaram eles?

- Saíram antes de nós termos chegado, o que devo dizer que foi grosseiro, tendo em conta que aceitaram o meu convite.

- Eles explicaram por que se foram embora?

- Não - mas a proprietária da taberna disse-me que foi porque foram ofendidos por um frade. Penso que devia ser o mesmo frade que tinha pregado um sermão a António na viagem para cá. Sabeis como podem ser estes frades mendicantes. António teve o azar de ser o alvo do discurso deste, e suponho que vê-lo de novo na taberna tenha sido a última gota. Optou por se ir embora antes de ser humilhado em público.

- Vistes alguém a discutir ou a lutar aqui naquela noite?

- Ninguém, não. Era bastante tarde, e as pessoas já estavam a começar a preparar-se para dormir. Todos estavam cansados de viajar. De qualquer maneira, nós próprios saímos pouco depois.

- Antes do cozinheiro? Arthur encolheu os ombros.

- Não o conheço. O único homem que reparei que saiu antes de mim foi o burgomestre. Penso que mais ninguém saiu antes de nós.

- O morto deixou a taberna pouco depois do toque das Completas. Também o ouvistes?

Arthur hesitou.

- Penso que me lembro, sim. Oh, é claro! Foi quando o ouvi que perguntei à proprietária da taberna se tinha visto os venezianos. Foi nessa altura que ela me disse que eles se tinham ido embora. Por isso terminámos as nossas bebidas e saímos.

- Podeis bem ter saído daqui antes do morto. Presumo que saibais onde o corpo foi encontrado, na rua entre a loja de comida e o talho. Vistes algo suspeito?

- Não. Vimos apenas um monge no caminho de regresso.

- Um monge? Voltaríeis a reconhecê-lo?

- Não, tinha o capuz puxado para cima, a cobrir-lhe o rosto. Tudo o que sei é que ele vinha a sair da rua quando nós saímos da taberna, e, quando passámos por ele, todos o saudámos educadamente.

Baldwin debruçou-se para a frente.

- Era alto? Era bem constituído?

- Oh não, era bastante magro. Não era de modo nenhum alto. E agora tendes de me desculpar. Tenho de ir... falar com o meu criado.

Simon observou-o a caminhar para a porta.

- O criado dele?

- Pergunto-me se o burgomestre poderá corroborar as palavras de Polé - disse Baldwin.

- Se lhe quiseres perguntar, ele acabou de entrar.

Levantando o olhar, Baldwin viu à porta a figura animada do burgomestre. Holcroft olhou em redor da sala, e, ao ver o beleguim e o amigo deste, dirigiu-se a eles.

- Muito bom dia, senhores.

- Como estais, burgomestre? - perguntou Simon.

- Estou cansado. Deixei a feira para ter alguns minutos de paz - está lá um verdadeiro caos -, mas, à parte disso, estou muito bem.

Simon sentiu que as sobrancelhas se lhe erguiam perante o entusiasmo do homem. Holcroft quase podia ser uma pessoa completamente diferente daquela que corria atrás de Lizzie.

Ao ver a sua expressão, o burgomestre explicou:

- A minha esposa - disse-vos que há algumas semanas que tem tido um comportamento reservado - bem, agora sei porquê! Tive de lhe falar sobre Lizzie antes que uma das suas amigas lhe contasse, e ela foi muito compreensiva. Ela só se tem comportado desta maneira porque está outra vez grávida, e isso estava a preocupá-la. Agora ela voltou a ser ela própria, e não tenho palavras para vos dizer o quanto melhor o meu lar está!

- Folgo muito em sabê-lo, burgomestre - Baldwin sorriu. - A propósito, dizei-me: aqueles homens, são guardas, não são?

Holcroft sentou-se ao lado de Edgar. Seguindo o olhar de Baldwin, deu consigo a espreitar Jack Grande.

- Sim - respondeu ele, acrescentando resignadamente: - O que é que eles têm andado a tramar?

-Já vos chamaram antes a atenção para eles? - perguntou Simon.

- Todos os anos chamam a atenção do burgomestre para aqueles patifes. Não há nada em que eles se pudessem envolver que me surpreenda.

- Estou a ver - murmurou Baldwin com interesse. E continuou: - David, temos a certeza de que Elias não é o assassino. Se ele teve alguma coisa a ver com isso, não estava sozinho. Elias está a proteger alguém, e precisamos de descobrir quem e porquê. Reconhecestes o homem com quem ele estava a beber?

- Mal reparei nele. Eu estava a falar com Torre.

Baldwin deslocou o seu banco para poder encostar-se à parede, e enfiou as mãos no cinto.

- Torre quase que andou à luta com os venezianos que estão alojados na abadia.

- Com o filho, mais precisamente - corrigiu Holcroft.

- Obrigado. Como dizeis, com o jovem Pietro. Em seguida ele tentou encetar uma luta com um frade, e, finalmente, discutiu convosco. Ao mesmo tempo, estava furioso com o Abade.

- Não estais a sugerir que o Abade teve alguma coisa a ver com a sua morte, pois não? - perguntou Holcroft, consternado.

- Hmm? Oh, não, claro que não - disse Baldwin. Um demónio fê-lo acrescentar: - Mas suponho que a possibilidade não devia ser ignorada.

Simon tentou, sem êxito, evitar um sorriso.

- Mas temos também o curioso tratamento do corpo.

- Ignorai isso. Desde que saibamos quem é que queria Torre morto, podemos pensar nos motivos que levaram o assassino a mutilá-lo. O problema é - continuou ele, abanando a cabeça - que não parece haver realmente um motivo sério para assassinarem o homem. Pelo menos a julgar por tudo o que descobrimos até aqui. Alguma coisa deve estar a escapar-nos.

- O que disse Elias? - perguntou Holcroft.

- Por enquanto, nada - respondeu Baldwin num tom pesado.

- Iremos novamente falar com ele dentro em breve, mas ele parece decidido ao martírio. Vós conhecei-lo, Holcroft. É viúvo, dissestes vós, por isso o escândalo não pode estar na base da questão, ele não está a tentar proteger a mulher. Ele é o tipo de homem que tem um segredo que poderia embaraçar qualquer parente que ainda viva? Tem alguma coisa escondida no seu passado que poderia arruinar a sua reputação?

- Elias? Não, não é suficientemente imaginativo.

- E que poderia ser pior do que ser enforcado como assassino?

- disse Simon, incrédulo.

- Tens razão - disse Baldwin, abanando a cabeça com indignação. - Mas por que se deixará ele enforcar sem se dar ao trabalho de se defender? Tem de haver uma razão!

Enquanto falava, viu os quatro homens ao canto levantarem-se e atravessarem a sala. O cavaleiro observou-os despercebidamente. Pareciam guardas comuns, excepto que tinham uma postura um pouco dura de mais. Para um homem que lutara na guerra contra os Sarracenos, era fácil reconhecer a violência latente que transparecia nos poderosos braços deles e nas feições sinistras. Um deles, que era mais baixo do que os outros, de cabelo castanho-claro e um rosto queimado pelo vento e pelo sol, carregava no olhar uma sensação de ameaça evidente, à medida que se aproximava da porta. Edgar, ao ver a expressão fixa no rosto do amo, virou-se no banco e seguiu os olhos de Baldwin. O guarda presenteou-o com um malevolente olhar de soslaio, antes de sair atrás dos colegas.

Holcroft bebericava, feliz, a sua cerveja, a mente claramente de volta a casa e à esposa. Baldwin deu-lhe uma cotovelada.

- Aqueles guardas - houve um problema na feira ontem. - E explicou-lhe sobre o ataque a Lybbe.

- Eu não ficaria nada surpreendido se o ataque tivesse alguma coisa a ver com aqueles canalhas. Eles cobram sempre dinheiro aos feirantes para lhes protegerem os bens, mas ninguém quer apontar-lhes o dedo. Se alguém foi capaz de lhes virar as mesas em cima, tanto melhor. Talvez, de futuro, eles se comportem.

- Duvido - disse Baldwin, a pensar na crueldade cega que observara nos impiedosos olhos escuros do último homem que saíra.

 

Deixando Holcroft a terminar a sua bebida, os dois amigos saíram da taberna e regressaram colina acima em direcção à prisão. Contornaram a praça do mercado, mantendo-se afastados da multidão que enchia as ruas.

À entrada da cadeia estava um guarda, sentado num banco de três pés, agarrando uma vara comprida e repousando, fatigado, a cabeça nos antebraços. Quando levantou o olhar, Baldwin reparou que era o mesmo guarda que os ajudara a encontrar a cabeça.

- Daniel, queremos falar com o prisioneiro. Solta-o. - Levantando-se sem graça, o guarda caminhou para a porta. Baldwin lançou-lhe um olhar condescendente.

- Estiveste aqui toda a noite?

- Não, senhor. Jack Grande é que esteve. Eu rendi-o ao nascer do dia. Mas a cidade está tão cheia que o único quarto que consegui arranjar foi numa taberna, e, mesmo assim, no chão. - Esfregava as costas amargamente. - Houve lá gente a beber toda a noite, e mal consegui pregar olho. - Abriu a porta com a chave e soltou para a luz do Sol um Elias a piscar os olhos e cheio de frio.

- Elias, queremos fazer-te mais algumas perguntas sobre o que aconteceu na taberna na noite em que Torre foi assassinado - disse Simon.

Num passo decidido, o cozinheiro caminhou para uma mancha brilhante de luz do Sol, junto a uma parede, encostando-se a ela e desfrutando do calor como um cão ao sol. Baldwin posicionou-se de um lado, enquanto Simon se colocou em frente do homenzinho.

- Elias, com quem estavas a beber naquela noite?

- Já respondi a todas as perguntas a que vou responder.

- Quando falámos contigo pela última vez, pensávamos que o morto era o homem com quem estavas a beber, e não acreditámos em ti quando disseste que não sabias quem ele era. Agora sabemos que foi Torre que foi assassinado, e podemos apenas presumir que quem o matou foste tu ou foi o teu amigo. Corres rapidamente?

A pergunta fez com que o cozinheiro arregalasse os olhos.

- O quê?

- Se correres, suponho que é possível tere-lo apunhalado, ter-lhe tirado as roupas para lhe vestir outras, tê-lo decapitado, ter escondido a cabeça e ter corrido de volta à taberna, mas duvido. Não, penso que é mais provável que o teu amigo o tenha assassinado, com ou sem a tua ajuda, que ele executou o seu acto revoltante enquanto tu te apressavas a regressar à taberna e consumias várias cervejas para acalmar os teus nervos abalados. Isso parece-me mais provável.

Elias virou costas novamente, a boca fechada. Era tudo como ele receava que fosse: mesmo sem lhes ter dito quem estava com ele, eles tinham adivinhado o suficiente para assumirem que ambos tinham estado envolvidos na morte de Torre. Não havia nada a ganhar com a confissão de Jordan. Isso só resultaria na morte de ambos. Era melhor continuar calado. Assim só ele morreria: o irmão viveria.

Baldwin olhou o amigo, que encolheu os ombros, desesperado. O cavaleiro levantou os olhos para o céu, à procura de inspiração.

- Elias, não falas para protegeres alguém. Quem, ainda não sabemos, mas havemos de descobrir. Deves pensar que ele é culpado, se não por que outro motivo procurarias esconder de nós a identidade dele? No entanto, sabes que estás a colocar o pescoço num nó ao fazê-lo. Isso mostra grande coragem e integridade, mas pensa: se não tiveste nada a ver com este homicídio, e se achas que o teu amigo é o culpado, e que vale morreres? Para todas as partes envolvidas, seria melhor que ele fosse apanhado. Se ele decapitou o homem e escondeu a cabeça, estava certamente a tentar deixar que as provas apontassem para ti, não é verdade? Por que não denunciá-lo? Se nos contares quem praticou, de facto, este acto louco, pelo menos o teu pescoço estará a salvo.

Elias continuou mudo, e Baldwin dirigiu-lhe um olhar de interesse.

- Elias, temos a certeza que não foste tu que o fizeste. A camisa que o homem tinha vestida não era tua - és demasiado pequeno para possuíres uma peça de roupa daquele tamanho. Então quem é que a tinha vestida? Só podemos presumir que era o teu amigo da taberna. Ele ameaçou-te? Se assim foi, assegurar-te-ei protecção, compreendes? Mas não posso fazer nada se recusares ajudar-me.

- Elias, fala connosco - disse Simon, quase a suplicar. - Deixa-nos ajudar-te.

- Não podeis fazer nada.

- O que queres dizer com isso? - perguntou Baldwin. - Pensamos que não mataste Torre. Conta-nos a verdade e encontraremos o homem que o matou.

Mas o cozinheiro não respondia a mais perguntas. Continuava teimosamente mudo, e, por fim, até Baldwin desistiu, mandando-o embora com um gesto, irritado. Elias virou-se, uma vez, e olhou Baldwin como se estivesse tentado a falar, mas, exactamente quando o cavaleiro, esperançado, encontrou o olhar dele, o momento passou. O cozinheiro desapareceu no interior, ainda em silêncio.

- Olha, se o maldito louco se quer matar, por que devemos interferir?! - murmurou Simon, furioso, à medida que Daniel voltava a fechar a porta à chave.

Baldwin abanou a cabeça.

- Por uma simples razão: enquanto Elias está ali, o verdadeiro homicida está em liberdade. A Lei, e a Justiça, pedem-nos que levemos o verdadeiro assassino a prestar contas. Só não consigo perceber por que é que ele insiste em manter o seu silêncio.

- Deve haver um poderoso motivo para ele manter a boca fechada quando sabe que é o seu pescoço que está em perigo. Eu não teria pensado que ele fosse tão corajoso.

- Não, não parece ter a ver com carácter - Baldwin começou a caminhar de regresso à feira, a testa enrugada em sinal de concentração. - Alguma coisa o deve ter assustado para que ele entrasse neste acto louco de coragem. Mas o quê?

- Neste momento não quero saber! - disse Simon, positivo. --Quero recuperar a minha bolsa de Margaret antes que esteja completamente vazia!

Seguiram ao longo de ruas e travessas, abrindo caminho por entre uma multidão que olhava, admirada, um grupo de acrobatas. Um pequeno ajuntamento de mineiros de estanho encontrava-se a um canto, tentando gritar o texto de um mistério por cima dos suspiros e dos aplausos de um público que estava a observar homens que andavam apoiados nas mãos e que executavam saltos no ar a grande altura para aterrarem nos ombros de outros. Simon mal olhou para eles. Sabia que os mineiros de estanho tinham pago para patrocinarem peças no festival religioso; pensavam que assim cairiam nas boas graças do seu novo administrador, o Abade. Para o beleguim, as peças eram altamente ininteligíveis, e evitava-as sempre que podia.

Mais uma vez na feira, abriram caminho por entre a multidão. Com livre acesso à carteira dele, Simon estava convencido de que a esposa gravitaria naturalmente de regresso às tendas que vendiam tecidos, por isso foi para aí que se dirigiu.

A diversidade de tecidos à vencia foi uma surpresa para Baldwin; não esperara tal variedade. Escarlates caros, tecido de lã que adquiria a sua maciez peculiar ao ser tingido em grãs, chamalote feito de restos de lã, e tecidos grosseiros de qualidade inferior encontravam-se em exposição, pendurados de uma forma sedutora de maneira a exibirem as suas cores. Azul-escuro, preto-azulado, verde, vermelho, violeta - todas as cores estavam disponíveis, e o negócio corria bem, parecia, a julgar pelo número de pessoas que se afastavam aos ziguezagues sob o peso das peças compradas.

Baldwin admitiu para si próprio que não via tal variedade desde o tempo que passara em Paris. Pendurados e agitando-se suavemente à brisa suave, havia linhos, musselinas, lonas, lãs cardadas, fustões, até tecido de Inglaterra, o cobertor duro usado por baixo das selas. Camponesas e senhoras amontoavam-se naquela zona, acompanhadas de maridos aborrecidos ou de criadas excitadas e tagarelas, para tocarem nos tecidos expostos. Algumas chegavam a comprar mais do que uma peça.

Nas ruelas, a luz do dia era obscurecida por toldos e tecidos pendurados, que tornavam a passagem sombria, embora as cores garridas tentassem dar-lhe um ar festivo, e o cavaleiro deu consigo a responder com uma melancolia de espírito. Por cima e fora da feira, o Sol brilhava intensamente num céu descoberto, apenas com alguns pálidos farrapos de nuvens que não conseguiam toldar o calor do Sol; no entanto, cá em baixo, com a brisa fresca do Sul e a sombra fornecida pelas tendas dos comerciantes, tudo era diferente. Era como se a própria feira existisse fora da realidade do mundo, fosse uma criatura distinta por direito próprio, uma criatura que podia alterar o cérebro dos homens e das mulheres. Havia na multidão uma excitação silenciosa, uma tensão, que fazia arrepiar a espinha a Baldwin. Na generalidade, ele detestava multidões, mas esta, cuja única razão para se juntar aqui era para comprar adornos da moda, dava toda a impressão de ser febril e maníaca.

Duas mulheres agarravam a mesma peça de tecido e ralhavam com o vendedor, proferindo imprecações, ao mesmo tempo que cada uma delas tentava puxar a peça da outra. Noutra tenda, Baldwin viu uma senhora empurrar para o lado uma mulher do povo para comprar o tecido que esta apalpava. A mulher cambaleou e caiu contra um poste, depois sentou-se a esfregar o flanco, fixando os olhos grandes e assustados nas pessoas que empurravam e gritavam. A imagem fez-lhe o sangue gelar.

Era feira. As pessoas tinham necessidade de comprar coisas fosse qual fosse o preço. A atmosfera fazia com que mulheres que geralmente davam as boas-vindas umas às outras com uma saudação educada vissem as vizinhas como adversárias numa luta até à morte.

Baldwin aproximou-se da mulher caída e ajudou-a a levantar-se, escoltando-a depois através da multidão, de volta à tenda; deixou-a junto aos tecidos mais baratos que ela teria mais probabilidades de comprar. Ela inclinou a cabeça em sinal de gratidão, mas ele não reparou, já seguia o seu caminho. Sentia uma necessidade urgente; queria encontrar Jeanne e Margaret e deixar esta frenética febre de comprar.

Mais à frente na rua, as coisas melhoraram. Aqui os tecidos eram de uma qualidade uniformemente melhor, e, embora algumas camponesas passassem para investigar, cacarejando e abanando tristemente a cabeça, como um bando de galinhas, ao verem os preços, a maior parte das clientes eram mulheres vestidas com mais opulência e que procuravam tecido para roupas novas para si próprias, para os maridos ou filhos.

Foi aqui que encontraram Margaret e Jeanne. À entrada de uma pequena tenda, com uma enorme banca carregada de veludos e escarlates, os dois amigos quase passaram um trémulo monte de tecidos.

- Senhor? Senhor, não vades!

Simon parou e virou-se lentamente para encarar a pilha que tremia. Do outro lado espreitava o rosto ansioso do seu criado.

- Hugh, o que estás a fazer debaixo disso tudo? - perguntou ele, sem acreditar no que via.

- A vossa esposa, senhor. Disse-me que carregasse todas estas coisas para a Abadia, para ela e para Lady Jeanne.

- Não digas nada - disse Simon a Baldwin.

- Eu? Eu não ia dizer nada! - protestou o cavaleiro inocentemente.

- Onde estão elas agora, Hugh?

O beleguim caminhou para detrás da mesa. Aí encontrou Hankin, e deu-lhe instruções para que ajudasse o seu criado, uma vez que o tecido tinha sido comprado ao amo dele. O rapaz levantou-se precipitadamente, de bom grado, pois a manhã estava a verificar-se muito monótona. Quando tirara a Hugh duas das trouxas mais pequenas e lhe aliviou o fardo, o par afastou-se em direcção à Abadia.

Entretanto, Simon seguiu os sons de conversa excitada, e abriu caminho por entre os tecidos que estavam pendurados como cortinas ao fundo da tenda, Baldwin e Edgar no seu rasto.

Hoje Jordan estava mais cuidadoso. Ao primeiro som de vozes, deslocou-se para o canto, e quando viu um par de botas aproximar-se por baixo dos tecidos pendurados, agarrou a sua moca. Quando Simon surgiu e viu a esposa, estacou perante o feirante armado.

- Quem sois? - perguntou Jordan.

- Sou o beleguim do Administrador das Minas de Estanho, que é o Abade. E vós, quem sois? - perguntou Simon rudemente, olhando a moca com desconfiança.

À medida que Baldwin entrava atrás de Simon, viu Jeanne dirigir-lhe um sorriso e retribuiu-lho calorosamente. O aparente prazer dela fez com que a disposição sorumbática dele se evaporasse, e pôde virar-se para o mercador com uma nova boa disposição.

Jordan estava imóvel, a moca a oscilar negligentemente agora, mas encontrava-se num turbilhão. Reconheceu o tom de autoridade do beleguim, e, por um curto momento, quando o cavaleiro e o criado apareceram por detrás dele, pensou que estava prestes a ser preso-, nos olhos do espírito ergueu-se-lhe uma imagem da forca na colina do Campo de Forches. Depois obrigou-se a relaxar quando viu a esposa do beleguim caminhar em direcção ao marido, e Jeanne começar a mostrar a Baldwin as suas mais recentes aquisições. Jordan deu um pequeno passo atrás, aumentando o espaço que o separava deles.

À medida que o fazia, Baldwin reparou no seu movimento e levantou o olhar. Por um instante, viu puro medo no rosto do feirante, e isso fê-lo interrogar-se.

- Baldwin, este é o homem corajoso que teve de se defender daqueles três rufias ontem à noite - disse Jeanne.

- Tivestes sorte, segundo o que nos contaram - disse Baldwin. Ah, então isso explicava o medo do homem. Fora causado por ver aparecer na sua tenda três homens, todos desconhecidos, logo na manhã a seguir ao último ataque.

Jordan encolheu os ombros.

- É uma daquelas coisas.

- Reconhecestes os homens?

- Oh, sim. Eram todos guardas. Tenho-os visto por aqui desde então. Querem fazer chantagem, receber dinheiro extra para protegerem as mercadorias. Se alguém não pagar, eles próprios estragam a mercadoria - já extorquiram dinheiro à maior parte dos outros mercadores que aqui estão.

- Bem, de qualquer maneira penso que demonstrastes que não precisais de ajuda para proteger as vossas coisas - Baldwin riu, mas tomou nota do que disse o feirante e que só vinha confirmar a ideia que formara sobre os homens da taberna.

Entretanto, Jeanne levantou um tecido pesado.

- Olhai para este. Não achais que faria uma túnica maravilhosa?

- Hum? - Baldwin examinou o berrante veludo vermelho. - Ficar-vos-ia perfeitamente, senhora. A cor destacaria a vossa tez.

- Nesse caso, se o meu cavaleiro assim pensa, devo comprá-lo, não devo? - disse ela, fazendo-lhe uma vénia irónica.

Baldwin pensou.

- Não, senhora. Se eu penso assim, eu é que vo-lo devo comprar.

- Não podeis, Sir Baldwin. É demasiado caro - não posso permiti-lo.

- Então recusai-o quando vo-lo der - apressou-se ele a dizer, e puxou moedas da bolsa, ao mesmo tempo que se aproximava de Jordan.

O feirante tirou-lhas.

- A peça inteira? - perguntou, esperançado.

- Sim - respondeu Baldwin com imprudente generosidade.

- Não - disse Jeanne com a determinação de uma mulher habituada a contar o seu dinheiro. Deu instruções a Jordan para que cortasse seis metros, e ficou a vê-lo desenrolar o tecido e medi-lo contra o metro de madeira. Quando medira o bastante, marcou o tecido com um pedacinho de giz branco e chamou o ajudante.

- Mandei-o ajudar o meu criado com as outras compras - disse Simon.

- Ah, não tem importância - disse Jordan, escondendo o seu aborrecimento pelo facto de outra pessoa dar ordens ao seu ajudante. Caminhou até à mesa para ir buscar a tesoura, mas não a encontrou. Não estava em cima da mesa propriamente dita, nem debaixo dela, e ele resmungou de si para si. As tesouras eram caras, e ele pedia sempre a Hankin que cuidasse dela, mas agora parecia mais uma vez ter desaparecido. Regressando para junto do grupo que se encontrava à espera, ele encolheu os ombros, irritado.

- O meu assistente parece ter levado a tesoura com ele.

- Não tendes mais nada para cortar? - perguntou Baldwin.

- Oh, sim, tenho uma faca - Jordan tirou-a do cinto, fez uma dobra no veludo no local onde se encontrava a marca de giz, e começou a cortar cuidadosamente ao longo da linha.

Baldwin contou as moedas com aquele ligeiro choque que assalta um homem quando, depois de ter feito uma promessa precipitada, paga a conta. Não fazia ideia de que o tecido pudesse ser tão caro. Jordan separara a fazenda da peça. Colocou a faca de lado e dobrou a parte que pertencia a Jeanne, desfazendo rugas e pregas enquanto isso. Quando terminou, Baldwin pegou na trouxa e passou-lhe as moedas.

Enquanto Jordan as colocava na sua bolsa, os olhos de Baldwin pousaram em cima da mesa. A faca encontrava-se do lado esquerdo e o cabo estava perfeitamente visível. Era de madeira, e tinha um desenho habilmente gravado.

- Parece uma boa faca - disse ele.

- Há muitos anos que a tenho. Trago-a sempre comigo.

- Ah sim? É inglesa?

- Não, comprei-a numa feira em Rennes, a um espanhol. Penso que foi feita por um mouro.

Baldwin pegou-lhe. Era bastante pesada e agradável ao tacto, sólida e equilibrada, e tinha uma lâmina comprida, larga na base, e que estreitava até ao bico.

Era difícil imaginá-la a cortar o pescoço de Torre, mas Baldwin reconheceu o brasão que se via no cabo; era o mesmo que estava na bainha que tinham encontrado com o corpo.

- Edgar? Vem cá por um momento - chamou ele, levantando a faca na mão, e olhando Jordan nos olhos. - Há algum tempo que ando a querer falar contigo - disse ele, calmo.

Peter caminhava arrastando os pés na relva alta, a cabeça baixa, enquanto contemplava o chão à sua frente. Após os acontecimentos dos últimos dias, não podia ficar: teria de se ir embora. Não havia alternativa: era simplesmente a consequência inevitável dos seus actos e do rumo que os acontecimentos tinham tomado. Embora Avice o tivesse rejeitado, ele estava demasiado inquieto - e envergonhado da sua fraqueza carnal - para ficar.

Aqui fora, nos pomares para lá da muralha da abadia, o Sol pintalgava o chão através das macieiras, das pereiras e das avelaneiras. A relva seria em breve desbastada, quando as ovelhas fossem novamente soltas lá dentro, mas, por agora, tinham sido retiradas de lá para que os frutos pudessem ser apanhados, os do chão juntamente com os das árvores. A abadia dependia do pomar para aprovisionar as galerias subterrâneas para o Inverno e encher os barris de sidra.

Em seu redor havia o sussurro crepitante das minúsculas vagens pretas e amarelas de ervilhaca a rebentarem. Um grilo soltou um áspero som experimental, rapidamente acompanhado por outro, mas ambos morreram quando ele se aproximou.

Este era um dos últimos dias de Verão, e, no meio da sua desolação, Peter foi lembrado de quão esplendoroso o mundo podia ser. Sentiu como se o próprio Deus estivesse a troçar dele, a escarnecer da sua desgraça. Peter sabia que a culpa era sua, e aninhou-se com medo de que o seu Deus tivesse disso conhecimento. Teria de deixar a abadia e a protecção do Abade e descobrir uma forma de ganhar a vida noutro local.

Não era fácil ver como o poderia fazer. Peter frequentara a escola da abadia durante muitos anos antes de tomar a tonsura. Muitos rapazes da cidade frequentavam a escola, embora muitos acabassem por se tornar mercadores ou cavaleiros. Alguns até entraram para o parlamento para ajudarem a aconselhar o Rei. Para Peter, depois de ter visto como os monges viviam e como serviam a Deus, a decisão de ficar parecera natural. Como os irmãos, queria dedicar a sua vida a rezar pelos mortos e a assegurar que as suas almas eram salvas. Esse era o dever da abadia, interceder por todos os cristãos que tinham morrido; eram guerreiros espirituais, os salvadores da raça humana.

E agora Peter tinha de aceitar que não era digno. Quantas vezes ouvira aquelas palavras serem pronunciadas em relação a outros, e sentira a presunção que o seu próprio êxito relativo lhe dava. Talvez, perguntava-se, tudo isto fosse o castigo de Deus pelo seu orgulho pecaminoso. Nunca se deveria ter considerado melhor do que os infelizes que falhavam ao descobrirem as suas próprias fraquezas. Não era melhor do que eles; conseguira simplesmente agarrar-se à sua crença na sua própria vocação... por arrogância.

Dando um pontapé numa pedra, viu-a ressaltar e afastar-se a girar. Fê-lo lembrar-se de si próprio: insignificante, sem importância. Não tinha mais valor do que um seixo, aos olhos do mundo.

Enquanto se aproximava do rio, um ruidoso bater de asas metálico fê-lo parar e olhar para cima. Uma libelinha, de corpo intensamente azul, atirava-se como uma seta, de cá para lá, patrulhando o seu território junto ao lago que se formava numa curva. Tinha uma forma e uma beleza perfeitos, e Peter foi completamente dominado pela magnificência de um Deus que podia criar uma criatura tão maravilhosa. O noviço sempre quisera compreender melhor o mundo à sua volta, e era para ele uma fonte de infelicidade não poder continuar os seus estudos dentro da abadia.

Deixando-se cair bruscamente junto à margem do rio, abraçou as pernas, olhando demoradamente os prados defronte, contemplando o seu futuro. Era triste. Não tinha ofício nem mister. Havia poucos ofícios em que aceitavam aprendizes na cidade, e ele era já demasiado velho para a maioria deles. Para um homem com quase dezanove anos, a única carreira que era capaz de seguir era provavelmente a de soldado. Pelo menos com isso ele teria garantida uma porção de comida e cerveja, e uma cama à noite.

Levantou-se e continuou a deambular sem objectivo. A ideia de se tornar soldado não o atraía, e não só porque o seu modo de vida sedentário o tornava inadequado para os rigores da luta. Tinha aversão ao princípio de fazer um juramento para obedecer às ordens de um barão terreno, agora que gostara de servir um Abade.

Outro barulho súbito chamou-lhe a atenção. Havia gritos e ruídos de pancada vindos do lado do mercado. Os pés tinham-no trazido de volta à estrada que levava para ocidente da cidade, e ele olhou para um lado e para o outro, indeciso. Sentia uma tentação para deixar Tavistock para trás, para desaparecer, simplesmente, e procurar a sua sorte, fosse ela qual fosse.

Mas não podia. Não tinha nada - nem dinheiro, nem emprego, nem entusiasmo; perdera verdadeiramente tudo. Não tinha nada para fazer nem para onde ir. Sentia-se completamente só. Enquanto que ele teria de bom grado desistido da sua vocação para se casar com Avice e teria ficado feliz por viver com ela na pobreza, o facto de ela o ter rejeitado era tão total e definitivo que ele sentia que não havia muita razão para continuar a viver.

A cabeça caiu-lhe para o peito e, como um miserável, caminhou em direcção à cidade, de regresso à abadia. Quando se aproximava, viu um pequeno ajuntamento de pessoas da cidade, algumas a acenarem com paus e pedaços de madeira quebrados. Àquela distância, poderia ter sido um grupo de foliões, mas, enquanto olhava, viu jovens a apanharem pedras da berma da estrada e a atirarem-nas aos portões da abadia.

Mudou rapidamente de sentido, voltando a subir a colina em direcção ao recinto da feira.

Ouviu um grito atrás de si, e, quando olhou, viu algumas figuras correrem, apressadas, atrás dele. Fugiu, o coração acelerado. Muito frequentemente, as pessoas da cidade gostavam de ridicularizar os jovens noviços quando tinham oportunidade, mas este grupo não estava com disposição de brincar. Era uma multidão à procura de vítimas.

À sua frente viu outro hábito negro, e apressou-se em direcção a ele. Olhando para trás, viu que os seus perseguidores estavam a ganhar terreno. Ofegante ao calor, pegou na bainha do seu hábito e correu o mais que pôde atrás do outro irmão.

 

Quando a filha entrou, Marion colocou a costura de parte e examinou-a. Para seu desgosto, estava consciente de um sentido de orgulho na pose de Avice. O porte dela era tão altivo como o da própria Marion, e a sua entrada real, ignorando os pais, dirigindo-se directamente a um banco e sentando-se, era uma obra-prima de desdém.

Pela sua parte, Arthur ficou triste por vê-la tão abertamente amotinada. A filha, que adorava com toda a sua alma, por quem ele de bom grado daria um braço se isso a fizesse feliz, estava a tratá-lo com tanto respeito como ele concederia a um pedinte na rua. E tudo por causa daquele veneziano. Suspirou, e lançou um olhar a Henrv, que se encontrava junto à parede. O criado revelava uma atitude indiferente: desempenhara a sua obrigação como a via, e estava à espera de fornecer as provas necessárias quando o chamassem.

Não havia satisfação maldosa na voz de Marion, apenas calma compreensão.

- Avice, queríamos-te aqui porque temos andado a descobrir o que podemos sobre esse teu apaixonado. Esse tal Pietro da Cammino.

Avice levantou os olhos e defrontou o olhar da mãe.

- E que descobristes?

O pai olhou Henry mais uma vez.

- Avice, o pai dele está a negociar com o Abade, mas há outras coisas que deves saber.

- Presumo que este seja o teu espião, deixa-o falar! - disse Avice, fixando Henry.

O criado estremeceu. Já esperava que esta obrigação fosse dolorosa, e a sua jovem senhora não estava com disposição para lhe facilitar a tarefa.

- Menina Avice, na verdade eu fui tentar descobrir o que podia, não por querer inquietar-vos, mas porque não gostaria que fôsseis infeliz.

- Despacha-te, homem! Ela quer saber o que descobriste - disse Marion com rudeza.

- O pai e o filho estão alojados em casa do Abade enquanto negoceiam com ele. Dizem que são ricos, mas outras pessoas pensam que não o são. É possível que estejam a tentar enganar o Abade para lhe extorquirem dinheiro.

- Disparates!

- Os cavalos deles são de má qualidade - quantos homens ricos tolerariam cavalos como os deles?

- Talvez os seus próprios cavalos tivessem ficado coxos.

- Talvez. Mas, de alguma forma, o rapaz é perigoso. Sacou de uma faca contra o homem que morreu nas proximidades da taberna. Algumas pessoas pensam que ele é o assassino.

- Algumas “pessoas”? Que pessoas?

- Entre elas, monges.

A boca de Avice abriu-se de consternação.

- Mas, como? - disse ela, voltando logo ao ataque. - Se um monge pensasse isso, diria ao seu Abade, e este dificilmente permitiria que um homem suspeito de homicídio ficasse como seu convidado. Não acredito em ti!

- Avice - protestou a mãe -, Henry não te mentiria.

- Mentiria, se pensasse que vós desejásseis que ele o fizesse. Mentiria, se pensasse que estáveis determinados a ver-me infeliz para o resto dos meus dias e casada com John.

- Menina, eu não inventei nada disto. Foi o que um monge me disse.

De súbito, Avice levantou a voz:

- Um monge, ou foi um noviço? Foi o rapaz que me pediu que fugisse com ele? Foi, não foi? Foi aquele louco do Peter!

- Quem foi não interessa, rapariga - disse Arthur com voz funda, mas ela ignorou-o.

- Essas são todas as provas que conseguis reunir, a opinião ciumenta, injusta e tendenciosa de um rapaz que me quer, ele próprio, tanto que cometeu perjúrio para com o seu Deus! No entanto, não podeis provar que Pietro não é rico! O facto de ele e o pai serem convidados do abade deve significar que o próprio Abade Champeaux os considera honrosos, e, contudo, estais preparados para espalhar mentiras maliciosas só para me convencerdes de que estou errada - bem, não vou ouvir isto. Sei que tipo de homem Pietro é, e casarei com ele.

- Não podes, Avice. Vais casar com John - lembrou-lhe a mãe.

- Não vou. Tenho sido uma filha respeitadora e obediente, mas não concordarei com isso. A vida é minha, e preferiria ir para um convento do que prender-me a John até à morte.

Deu meia volta e retirou-se, de modo brusco, da sala. Arthur abanou a cabeça.

- Não era este o resultado que desejávamos.

- Ela ainda vai mudar de opinião - disse Marion, mas com mais confiança do que, de facto, sentia. - Henry, diz à criada de Avice que venha falar comigo imediatamente. - Quando ele saiu da sala, ela continuou: - Arthur, enquanto este disparate não terminar, Avice deverá permanecer no interior da casa. Não podemos permitir que ande por aí a vaguear por onde lhe apetecer com esse vagabundo veneziano. Quem sabe aonde a sua loucura a poderá levar?

- Oh, muito bem - disse ele, e levantou-se.

- Aonde vais?

- Voltar à taberna. Já estou saturado de tudo isto.

- Não queres dizer com isso que a apoias neste escarnecer caprichoso da nossa vontade...?

- Da tua vontade, não da minha. Tudo o que eu quero é vê-la feliz.

- Eu também, Arthur. Simplesmente não acredito que ela seja feliz com este rapaz.

- Talvez, mas, neste momento, também não sei se ela poderá alguma vez ser feliz com John. Chamas-lhe capricho, mas pergunto-me se não será igualmente capricho obrigá-la a casar-se com um homem que a tua filha considera desprezível. - E, antes que ela pudesse responder-lhe, deixou a sala.

Lá fora, Arthur reflectiu por um momento. As suas palavras deviam ter ferido a esposa, mas ele não podia lamentá-las. Marion estava a empreender uma vendetta contra o rapaz com base no seu próprio desejo de que Avice se casasse numa família cavaleiresca. Era um desejo bastante natural, ele admitia, mas ele preferia que a filha fosse feliz a tentar forçá-la a iniciar uma dinastia. Arthur hesitou, em seguida afastou-se colina abaixo em direcção à taberna. Se não conseguia encontrar paz na sua própria casa, procurá-la-ia noutro local.

Estavam a ganhar terreno. Peter estava convencido de que estava prestes a ser atacado, e a carne arrepiava-se-lhe ao pensar no que os jovens lhe fariam quando o apanhassem.

O monge também ouviu o barulho. Ao ver a multidão a berrar, desviou-se para o lado, entrando numa ruazinha estreita. Peter viu-o desaparecer, e marcou o local. A arfar, corria colado aos edifícios que ladeavam a estrada. Se ele ao menos conseguisse chegar à ruazinha estreita, poderia seguir o outro monge sem que os seus perseguidores o vissem.

Não reconheceu o monge - encontrava-se demasiado longe, mas Peter perguntou-se se trataria de um dos irmãos leigos. Havia tantos a trabalharem nos campos, ou a manterem a forja e o moinho em funcionamento, que Peter não podia lembrar-se deles todos. A figura deste parecia-lhe familiar, mas não conseguia identificá-lo.

Chegando à ruazinha estreita, ele arriscou olhar para trás. A curva da rua escondia a multidão da sua vista. Entrou rapidamente na rua, apenas para encontrar um homem que saía. Numa mão segurava um hábito negro, mal embrulhado. Na outra trazia um pesado pau.

Peter parou a olhar.

- O que fazíeis com isso vestido? - perguntou, mas viu o homem levantar o pau, e o monge recuou, os olhos, horrorizados, fixos na moca. Ouvindo um grito atrás de si, ele girou, mesmo a tempo de ver passar a correr o magote movido pelo escárnio. De súbito, ficou com menos medo deles; de súbito, eles pareciam seus protectores, e ele abriu a boca para gritar, mas, antes que conseguisse fazê-lo, foi sacudido para trás, para a escura barriga da ruazinha estreita. Os jovens subiam a colina a correr, sem prestarem atenção à defesa apavorada de Peter.

 

A fogueira emitia muito fumo na taberna, e Arthur tossiu quando o fumo chegou até ele. Para variar, tomava cerveja, e bebeu dois litros antes de decidir que devia ir para casa. Fez as contas com a proprietária da taberna e começou a subir a colina em direcção à sua casa, recuperada a boa disposição. Certamente que tudo iria terminar em bem - em breve deixariam Tavistock, e Avice estaria longe da influência maligna do veneziano. Talvez ela, afinal, viesse mesmo a gostar de John.

A esposa não estava assim tão errada, pensou ele com um optimismo alcoólico. Estava certo que ela quisesse para a filha o melhor marido que pudesse encontrar, e, embora John fosse feio e menos atraente que um macaco, ele tinha, de facto, o atributo da raça. Era simplesmente uma pena que Avice fosse demasiado jovem para ver isso. Ela haveria de mudar de opinião - provavelmente, corrigiu ele num acesso de realismo.

A rua ficara mais clara e ele viu um grupo de jovens que agitavam paus e gritavam. A visão tornou-o um pouco nervoso. Os jovens hoje em dia pareciam, demasiado frequentemente, propensos à violência à mínima provocação, e já tinha acontecido um homem ser atacado simplesmente por olhar para um rapaz. Manteve os olhos firmemente fixos no chão, caminhando mais rapidamente quando passava por eles. Mais à frente, os seus passos hesitaram ao ver uma figura conhecida.

Pietro caminhava indolentemente em frente à casa, no lado oposto da estrada, olhando para a janela dos quartos de cima da casa de Arthur. A sua atitude era a de um homem que fizera uma compra e que está confiantemente à espera de que o criado lhe traga o seu brinquedo. A sensação de bem-estar de Arthur evaporou-se como que empurrada pela brisa que agitava suavemente as bandeiras na rua. O álcool que o enchera de feliz contentamento alimentava-lhe agora a raiva.

O cachorro arrogante! Que descaramento, fazer-lhe um bloqueio à casa desta maneira. Poderia ser a forma de roubar a filha de um homem na terra bárbara dele, mas Arthur preferia ser enforcado a deixar que ele se apoderasse de Avice por meios tão evidentes.

- De que estais à espera, senhor?

Pietro virou-se, acordado do seu agradável devaneio. Estava a tentar compor um poema para Avice - não conseguia chegar a uma melodia - e esquecera-se de que aqui estaria à vista de todos. De início pôde apenas olhar, espantado, para o furioso mercador. Arthur ficara com os cabelos em pé, como um terrier irritado, e Pietro estava meio à espera de lhe ver a crista a levantar-se e de o ouvir rosnar.

- Então? - perguntou Arthur com voz sibilante. - Esperais que eu chame Avice e que a mande atirar a vós como se atiram restos a um lobo? É o que pareceis, um malvado predador que seria capaz de arrancar a minha filha à família. Perturbastes a paz da minha casa, desassossegastes a minha filha, possivelmente arruinastes o casamento dela com o filho de um cavaleiro, e consternastes a minha esposa. E agora tendes a ousadia de estar à minha porta como se tivésseis o direito de esperar que ela viesse ter convosco.

- Senhor, eu só espero poder ver Avice, mais nada - protestou Pietro. - Eu amo-a...

- Amor! Não fazeis ideia do que a palavra significa. Se a amásseis, deixá-la-íeis casar com o homem a quem está prometida, e deixaríeis de a incomodar! Ela vai casar com um escudeiro. Sois escudeiro? John pertence a uma família antiga, é parente de um conde, e vós?

- Senhor, o meu pai é abastado, e pode...

- Abastado? O que é o dinheiro para mim? Tenho dinheiro, e de sobra, não preciso de dinheiro.

Pietro sentia o rosto a ruborizar-se-lhe sob o ataque. Não era que o insulto fosse injusto; pelo contrário, a preocupação do homem justificava-se muito bem, especialmente com a falta de dinheiro do seu próprio pai.

- E onde está a prova da vossa riqueza, heim? Como posso confiar na vossa palavra?

Não podia. Aí é que estava o busílis. Pietro e o pai eram forçados a economizar havia já algum tempo.

- Avice casará com um homem que possa sustentá-la, um homem que tenha um cavalo decente e dinheiro para o manter, uma casa e criados, com terra suficiente para assegurar que nunca lhe faltará comida - disse Arthur com voz ameaçadora -, e não com um pateta qualquer vestido de maneira extravagante e com um cavalo doente!

Pietro estremeceu e deu um passo atrás. A sua retirada acendeu um prazer cruel no peito de Arthur. Com um entusiasmo inebriante, seguiu o perplexo rapaz como um cavaleiro em luta que vê o adversário vacilar.

- Não acredito que vós e o vosso pai sejais autênticos. Penso que sois falsos, mentirosos, e avisarei o Abade de que estais a tentar ludibriá-lo.

Arthur viu com raiva que o rapaz nem sequer tentava defender-se. Qualquer pessoa acusada de tais crimes devia negá-los instantaneamente, mas este louco estava a aceitar todas as palavras como se fossem todas verdadeiras... todas verdadeiras. Arthur ficou de boca aberta. Até agora as suas palavras tinham-lhe saído sem que ele pensasse nelas; pretendera apenas convencer Pietro de que não era bem-vindo perto da filha, mas esta ausência de defesa devia significar que as suas suspeitas estavam mais próximas do alvo do que ele pensara. Se assim era, os Cammino eram piores do que até Marion presumia.

Não precisava de dizer mais nada. Pietro lançou-lhe um olhar em que se misturavam aversão e medo, virando depois as costas e afastando-se a passo largo em direcção à abadia.

Um pensamento dominava a mente de Pietro. Avice prometera que iria com ele, mas, se ouviu as acusações de Arthur, será que mudaria de opinião? No mínimo duvidaria dele. Pietro cerrou os dentes. Ele não deixaria - não poderia deixar - que ela ouvisse o que o pai acreditava. Não voltaria a olhar para ele.

No entanto, não podia simplesmente fugir com ela. O pai dele jamais concordaria. Não, ele devia ficar.

Chegara a esta decisão ao contornar a última curva da estrada, e viu a multidão junto aos portões da Abadia.

O Abade Champeaux passara uma grande parte da manhã na Igreja da abadia com as pessoas que queriam fazer ofertas aos altares de São Rumon e dos fundadores da abadia; ainda tinha muitos outros deveres a cumprir. Havia as esmolas para dar, e não apenas comida, porque vinte e cinco anos antes ele comprometera-se a dar dinheiro para comprar calçado e roupa para os pobres. O funcionário encarregado da distribuição de esmolas comprara uma quantidade de tecido para aqueles que não tinham capacidade monetária para o comprar, e era preciso dar dinheiro e pão aos desesperados leprosos, o único benefício que a feira lhes traria, uma vez que eram banidos enquanto ela durava. Tudo isto constituía uma pesada quebra nos recursos da abadia, especialmente os quinze alqueires de farinha de trigo que seriam transformados em pão para os pobres e o vinho que seria bebido por todos os monges. O Abade Champeaux sentia, por vezes, que a coisa mais importante da sua vida era o dinheiro. Era ele que guiava os seus pensamentos a quase todas as horas do dia.

Quando ouviu a gritaria, o Abade pensou que era apenas o barulho da feira trazido pelo vento. Foi só quando o barulho se tornou mais intenso e ele ouviu gritos ansiosos vindos do interior do pátio e o pesado chiar e bater do portão grande que ele se apressou a sair.

Irmãos leigos torciam as mãos quando ele se aproximou.

- O que significa todo este barulho e toda esta agitação? - perguntou.

- Padre, há um motim!

O Abade fechou os olhos por um segundo. Outras abadias e priorados tinham sofrido motins, mas ele nunca esperara ter um aqui. Tavistock fora sempre tratada com lenidade da sua parte - os seus impostos eram justos, as suas exigências poucas. Não havia motivo para que as pessoas da cidade se revoltassem.

- Sabemos porquê?

- Não, Abade. A multidão limitou-se a aparecer junto aos portões, exigindo os venezianos.

Champeaux olhou-o, confuso. Parecia incompreensível que a cidade se tivesse virado contra os Cammino. Caminhando em direcção ao portão do pátio, o Abade dirigiu-se ao postigo e puxou o ferrolho para trás. Quando um monge correu para o impedir, ele deu uma ordem brusca para que o deixassem em paz. Esconder-se não era forma de parar uma multidão. Abrindo a porta com um empurrão, Champeaux saiu.

Era apenas um pequeno ajuntamento, viu ele, talvez quarenta pessoas ao todo. Algumas seguravam bastões e paus no ar, mas um número maior agarrava jarros de cerveja ou vinho. Tinham estado a gritar e a proferir ameaças, mas, quando ele apareceu, o barulho esvaneceu-se. Os que se encontravam à frente acalmaram-se e calaram-se ao verem o homem mais poderoso da cidade. Quando ele olhou os rostos em seu redor, a maior parte deles vermelhos de cerveja e calor, nenhum deles o olhava nos olhos. Fixavam os olhos no chão e arrastavam os pés.

Gradualmente a atmosfera mudava à medida que os que se encontravam na retaguarda da multidão se apercebiam de que alguma coisa estava a acontecer. O cântico desordeiro tornou-se uma sequência de gritos, e depois um resmungar geral. Pouco depois isso cessou, e a estrada foi engolida pelo silêncio.

- Meus amigos, o que estais todos aqui a fazer? - perguntou calmamente, e, no silêncio, a sua voz ouvia-se claramente e o eco trazia-a de volta, depois de ter ido de encontro às casas defronte. - Este é o dia da festa de São Rumon - o santo da Abadia, e vosso - e vindes aqui embriagados, a gritar e a praguejar como se desejásseis deitar abaixo o seu próprio altar sagrado. Pensais que o vosso santo vos amaria e protegeria como sempre fez, se profanásseis a sua abadia?

- Não faríamos nada contra São Rumon - gritou alguém, e o Abade procurou por entre a multidão, tentando ver quem era.

- Não? Mas vindes aqui, armados de mocas, para baterdes à sua porta.

- Só porque fecharam as portas para não nos deixarem entrar.

- Que mais poderiam eles fazer? O que faríeis vós se uma multidão armada aparecesse à vossa porta, convidá-la-íeis a entrar? Dizei, para que é toda esta agitação?

De imediato se ergueram muitas vozes, e o Abade não conseguia ouvir nada. Levantou uma mão.

- Um de cada vez, por favor! Agora - vós, dizei-me o que se passa. O homem para quem ele apontou, um mineiro, olhou-o resolutamente nos olhos.

- Abade, sabemos que tendes venezianos convosco. São conhecidos como criminosos, bandidos. Viemos cá exigir que os expulseis.

- Exigis que eu expulse os nossos convidados, quando o meu dever de hospitalidade exige que eu cuide deles?

- O vosso dever não exige que deis protecção a usurários e ladrões, Abade.

Ouviu-se um murmúrio de raiva, e o Abade Robert voltou a levantar a mão.

- Quem é que, entre vós, acusa estes homens?

- Disseram-nos - afirmou o mineiro, mas, atrás dele, Champeaux viu homens, com a vergonha estampada no rosto, deixarem cair as armas, e outros esconderem-nas sub-repticiamente da vista.

- Meus amigos, esses homens estão, de facto, aqui, mas são inofensivos. Asseguro-vos que são inocentes de qualquer crime contra mim, contra a abadia, ou contra a cidade.

- Não é verdade que eles estão a tentar fazer-vos vender-lhes a vossa lã?

- Ninguém me pode obrigar a vender a minha lã. Se isso vos faz sentir felizes, juro que não lhes venderei nada. Aí tendes! Não podeis lutar com esses homens, e eu também não. Agora dispersai, antes que a guarda venha enxotar-vos à pancada. Não terei qualquer luta à minha porta, especialmente no dia de São Rumon. Os meus monges já têm muito que fazer sem terem de vos consertar os ossos!

Era uma exigência ousada, mas a multidão perdera a sua vontade colectiva de violência. O Abade já vira antes grupos assim. Juntavam-se onde havia demasiada cerveja, e, num momento, um só homem podia sublevá-los até à fúria, mas, com muita frequência, outro homem de vontade forte podia intimidá-los, e os rostos ali presentes denotavam mais embaraço do que brutalidade. O Abade aproveitou a súbita acalmia para fazer o Sinal da Cruz, e isso foi suficiente para pôr fim àquela pequena rebelião. Como se se tratasse de um sinal aceite, o ajuntamento emagreceu, à medida que os homens procuravam entretenimento e mais cerveja.

Soltando um suspiro de alívio, o Abade observou-os a desaparecer. Era um grupo de tamanho razoável, pensou para si próprio. Se tivessem realmente querido provocar o caos, teria sido difícil, até para a guarda, verem-se livres deles. Champeaux estava duplamente satisfeito por ter sido capaz de ciispersá-los antes de terem cometido quaisquer actos e violência contra a abadia ou contra os seus monges.

Ao mesmo tempo que os homens se afastavam colina acima, Champeaux debruçou-se pela porta do postigo e gritou ao guarda do portão:

- Abre os portões e deixa-os ficar abertos.

Quando as grandes portas de carvalho chiaram sobre as dobradiças de ferro, o Abade olhou para trás. Havia apenas algumas canecas e paus a assinalarem o local onde a multidão estivera. Ele deveria ter dito aos amotinados que levassem consigo o lixo que tinham trazido, mas pensou que foi melhor não lhes ter dito nada. Uma tal exigência poderia ter sido suficiente para lhes fazer voltar a disposição novamente para a violência.

Estava prestes a regressar aos seus aposentos, quando viu duas figuras que se aproximavam, hesitantes - Pietro e o criado. O Abade esperou, calmo e paciente por fora, mas agitado por dentro, certo de que eles eram, de alguma forma, responsáveis por aquele acesso de violência na multidão.

- Estais bem?

Pietro entrou primeiro, pálido e abatido.

- Sim, Abade, meu senhor, estou são e salvo.

- O que causou esta loucura? Vistes o que levou a que isto acontecesse?

- Não - disse Pietro, e havia nele um olhar de desconcerto que não permitia discussão. - Estava a regressar quando vi os homens aqui, e escondi-me deles.

- Eu vi - disse Luke, e olhou em redor, receoso. - Havia um frade no mercado que estava a dar um sermão sobre a usura, e ele citou o nome do meu amo para dar o exemplo de um usurário. Foi ele que incitou a multidão à fúria, Abade, meu senhor.

- Quem deu o meu nome? O que se passa? - gritou António, jovialmente. Estava a dormir uma soneca quando ouviu o ruído vindo do portão principal, e perdera a maior parte das palavras de Luke. - O que tens andado a tramar agora, Luke?

- Um frade? - repetiu Champeaux, pensativo. Os frades já tinham antes causado problemas devido a excesso de zelo nos sermões, mas esta era a primeira vez que acontecia em Tavistok. - António, não tendes nada a recear. Algumas pessoas exaltadas, só isso.

- Recear? - António olhou-o, confuso. - Por que deveria eu recear?

- Senhor - irrompeu Luke, excitado -, foi aquele mesmo frade - aquele que vimos quando nos dirigíamos para cá, e que voltámos a ver na taberna. Estava a falar de usura e a instigar as pessoas contra o pecado, como ele lhe chamou.

- Parece que é impossível escapar ao preconceito dos ignorantes - disse António altivamente.

- Já vos aconteceu isto antes? - perguntou Champeaux.

- Sim, em Bayonne - disse António.

- Mas, senhor, ele estava a falar de vós- deu o vosso nome, descreveu-vos. A multidão queria o vosso sangue! - Luke chorava. - Pensei que íamos ser linchados.

Pietro fixou Luke. Virou-se rapidamente para o Abade.

- Abade, meu senhor, penso que é perigoso para nós permanecermos aqui agora, e não é bom para a abadia, se é provável que causemos agitação ao ficarmos. Talvez fosse melhor para todos se partíssemos.

- Não podemos, Pietro - disse António. - Por enquanto.

O Abade lançou-lhe um olhar furioso. Era bastante claro o que ia na mente do veneziano: o acordo das lãs.

- Tenho a certeza de que estaríeis seguro aqui, meu amigo, mas se tudo o que vos retém é o nosso negócio, receio ter de recusar a vossa oferta.

António estremeceu.

- Mas, Abade, vós... A minha oferta não é suficientemente alta? Se eu aumentasse a quantia...?

- Não, António. Tive de dar a minha palavra à multidão para pôr fim à sua fúria louca.

- Mas, Abade, certamente... certamente que a vossa palavra foi dada sob pressão. Não precisais de vos sentir preso por ela... e pensai no lucro que vos traria!

- A minha palavra é a minha palavra, Cammino - disse o Abade, e, embora a sua voz estivesse calma, continha uma ponta de aço. António ergueu as mãos e deixou-as cair num gesto de derrota. Estava estupefacto perante o súbito virar da sua sorte. Este era o segundo golpe num ano. Virou costas ao Abade para olhar os portões, agora abertos, com ar de fatalidade. Para além dos vestígios, não havia nada que mostrasse que, minutos antes, a multidão furiosa se reunira para provocar a sua ruína.

- Nesse caso - disse Pietro, lançando um olhar ao pai -, penso que devemos partir imediatamente. E ficarmos, só causaremos mais problemas.

- Muito bem, então. Ide com a minha bênção - disse o Abade com visível agrado.

Observou os três a atravessarem o pátio em direcção aos seus quartos, e estava prestes a regressar aos seus aposentos, quando algo o fez olhar para trás, para o exterior.

Lá, a descerem a colina, estavam Simon e Baldwin com as mulheres. Champeaux esperou que chegassem, mas os olhos estreitaram-se-lhe ao ver outro homem a passar furiosamente por eles, colina abaixo. Pouco depois, o Abade conseguiu distinguir a figura de Daniel. O homem de cabelo loiro precipitou-se para o interior do pátio e gritou, sem fôlego:

- Abade, meu senhor, tendes de vir! É Peter - ele... ele está morto!

 

O Abade fora dominado por uma sensação de irrealidade enquanto se encontrava na rua estreita, baixando o olhar para a figura caída vestida com o hábito negro da Ordem. As pessoas amontoavam-se à entrada da rua, estendendo o pescoço por cima dos braços cruzados de dois guardas para espreitarem o corpo. Do outro lado passavam homens e mulheres, desinteressados, à medida que se encaminhavam para a feira ou regressavam dela aos seus aposentos para tomarem uma refeição.

Champeaux vira muitos corpos mortos na sua vida - monges que tinham expirado devido a febres, velhice, ou, ocasionalmente, fome, mas havia algo de indescritivelmente triste nesta morte. Peter era tão jovem. Deveria ter tido muitos anos para viver, pois era bastante saudável, e poderia ter-se tornado um bom monge, se tivesse resolvido o problema com a rapariga. Todos os homens que entravam para o convento eram obrigados a harmonizar-se com o seu próprio voto de castidade, e Champeaux estava convencido de que o jovem também teria conseguido. Era uma coisa ser-se tentado, mas, se se tinha de ser tentado, era melhor que isso acontecesse antes de se tomarem os votos para que o problema pudesse ser confrontado e a firme decisão pudesse ser tomada antes.

Só se alegrava com o facto de Simon e Baldwin se encontrarem a jeito. O cavaleiro já estava inclinado sobre a figura, olhando-a com uma expressão estranhamente compreensiva.

- Como é que ele morreu, Sir Baldwin? Baldwin mal levantou o olhar.

- Tem os pulsos cortados.

O beleguim observou Baldwin a virar suavemente o corpo, examinando as costas de Peter e comentando sempre aquilo que via.

- Não há muito tempo que está morto: tem o corpo ainda quente e o sangue mal coagulou. Não há sinais de ferida nas costas nem nada que sugira que foi assassinado. Apenas os cortes nos pulsos. É...

- Eu sei, Sir Baldwin - disse o Abade calmamente. - Parece suicídio.

O cavaleiro não disse nada, virando mais uma vez o corpo para que ficasse de costas e levantando um braço para examinar a carne que tinha as incisões.

Simon disse:

- Tem os punhos fechados como se se estivesse a preparar para lutar.

- Todos nós somos sangrados por questões de saúde - disse o Abade devagar. - Ele deveria saber que cerrar os punhos faz com que o sangue corra mais depressa.

O cavaleiro acenou com a cabeça.

- Foi misericordioso e rápido. O rapaz deve ter ficado rapidamente inconsciente, com ambos os pulsos abertos. - Levantou o olhar para o rosto desolado do Abade, acrescentando suavemente: - Ele não deve ter sofrido, meu senhor.

- Obrigado por me dizerdes isso, Sir Baldwin. Eu não desejaria pensar que ele teve dores durante muito tempo, o pobrezinho. Já é bastante horrível o facto de ele ter planeado um acto tão perverso, tal pecado contra o seu Deus, sem ter de sofrer por isso.

Esse, eles todos sabiam, era o busílis da questão. O suicídio era um crime contra Deus: um acto de violência condenado por todos. Significava que um suicida não poderia ser sepultado numa igreja nem no pátio de uma igreja.

- Por que é que ele teria feito isto? - perguntava-se Simon.

O Abade ficou em silêncio por um momento. Não podia mencionar a confissão do desejo pela rapariga que o noviço lhe fizera.

- Ele não estava na abadia ontem à noite - admitiu, por fim. - Penso que alguma coisa lhe atormentava a mente.

- O que fareis com ele? - perguntou um dos guardas que se encontrava perto. - Deixá-lo numa encruzilhada?

Havia um prazer sórdido na sua voz, o que fez com que o Abade abanasse a cabeça veementemente. O guarda estava a sorrir, satisfeito por ver que até um monge podia cair em completa desgraça, e, por uma vez, o Abade Robert permitiu-se um acesso de raiva.

- Pensais que por ele ter sofrido os tormentos do mal, uma tortura lenta e terrível que não podeis imaginar, deveria ser abandonado como um criminoso? Pensais que a sua alma deveria ser atirada para o lado por causa da dor que ele foi obrigado a suportar? Vós próprio, sim, vós e a vossa família, os vossos filhos, os vossos pais, todos vós, estais protegidos pelos monges desta abadia, que se entregam a Deus, e ousais vangloriar-vos quando um de nós considera a agonia demasiado grande! Este homem foi levado por Deus. Suicidou-se após dias de luta com o demónio dentro de si, enquanto que a sua mente se manteve firme, e isso foi um acto de Deus. Deus escolheu levá-lo para junto de Si. Como ousais sugerir que ele seja tratado como um criminoso sem absolvição?! Peter será sepultado com honra no cemitério dos monges, tal como se tivesse morrido de qualquer outra forma, e podeis dizer isso aos vossos amigos!

Simon estava espantado ao ver a súbita emoção do Abade, e o guarda estava igualmente chocado. O homem retirou-se, murmurando desculpas, e o Abade suspirou profundamente, como se tivesse gastos as suas últimas energias com esta explosão. Champeaux baixou mais uma vez o olhar para o corpo.

- Oh, Peter, Peter. Por que chegaste a isto?

O beleguim queria levar dali o Abade. A morte do monge abalara o homem mais velho até ao mais profundo da sua alma, e a sua tristeza era insuportável. Simon estava prestes a propor que deixassem aquele lugar infeliz, quando viu o pau.

Era uma vulgar moca de carvalho, com uma grande bola a servir de cabeça, que repousava junto a uma parede a escassos metros da entrada da rua. Alguém a poderia ter atirado para ali, pensou ele, um transeunte sem mais uso para dar a um pesado pedaço de madeira como aquele. No entanto, Simon sabia que ninguém iria desfazer-se de uma arma tão útil como aquela. Um bom instrumento de defesa como aquele seria guardado e estimado até estar velho ou podre.

Segurou-a à luz e examinou-a. Não havia sinal de rachas nem de mossas - encontrava-se em óptimo estado. O solo ali estava a mais ou menos um metro do cadáver, e Simon lançou-lhe um olhar mais atento. A moca poderia ter sido trazida para ali pelo monge, que poderia tê-la deixado cair enquanto se preparava para se destruir, e tinha ficado aqui esquecida, enquanto o rapaz via o seu sangue a gotejar-lhe e a jorrar-lhe das feridas. Simon nunca vira o monge carregar uma moca, mas muitos homens faziam-no, e ele não tinha dúvidas de que um monge poderia arranjar uma tão facilmente como um servo. O olhar avivou-se-lhe. Se Peter levava isto consigo, poderia ele ser o monge responsável pelos assaltos relatados? Poderia Peter ter sido o monge que atacou Will Ruby? Havia outros homens que também tinham sido atacados - poderia Peter ter sido o assaltante?

 

Os guardas convergiram na tenda de Jordan Lybbe e passaram de rompante pelo rapaz que se encontrava à frente. Jack Grande agarrou-lhe o braço e arrastou-o atrás deles: Hankin não teve tempo para chamar, quanto mais de gritar. Queria o amo, mas Lybbe não estava ali, e Hankin sabia que, sem ele, não tinha protector.

Outros feirantes, tendo todos pago pela sua protecção, tinham estado à espera disto. Toda a gente sabia que os guardas tinham sido espancados por Lybbe, por isso era inevitável que, enquanto o mercador estivesse ausente da sua tenda, ela seria novamente visitada. Os que se encontravam mais perto viravam a cara e concentravam-se nos seus negócios. Não fazia sentido serem espancados para protegerem os bens de outro - especialmente quando o proprietário era um criminoso acusado e um fora-da-lei. As notícias viajavam depressa entre a comunidade de comerciantes.

- Tudo isto é do teu amo, não é, rapaz? - perguntou Jack Grande, abarcando com um gesto do braço os bens em exposição. - Isto pertence tudo a Jordan Lybbe. Bem, já deixou de pertencer. Agora é tudo nosso, e vamos levar tudo.

Hankin levantou o olhar fixo para ele, um rapazinho agarrado por um homem que representava a autoridade - um guarda. O seu amo, o homem que ele via como um pai, desaparecera, e estes homens iam roubar todas as suas mercadorias. Hankin estava assustado, mas Lybbe salvara-o, salvara-o da fome quando os pais morreram. O rapaz não tinha família, só Lybbe. Não era leal a ninguém excepto a Lybbe. E estes homens pretendiam roubar ao seu amo tudo o que ele possuía.

O seu braço direito estava a ser agarrado por Jack Grande, mas ainda podia alcançar a sua pequena faca de bainha com a mão esquerda: arrancou-a da bainha e enfiou-a no braço de Jack Grande. O guarda soltou um grito, libertou o rapaz, e olhava incompreensivelmente para o corte, à medida que o sangue gotejava.

- Seu sacaninha!

Hankin regressou precipitadamente aos recessos dos tecidos pendurados. Ainda estava com medo dos homens carrancudos, mas o facto de ter espetado a faca no braço de Jack Grande dera-lhe uma sensação de satisfação que nem uma grande sova conseguia apagar. Era capaz de se defender. Mergulhado nas peças de tecido, enroscou-se, a faca em posição, à espera.

Will Ruby ficou furioso quando o seu aprendiz quebrou a pequena faca. A ferramenta de lâmina fina era uma das suas preferidas, e ele usava-a sempre que tinha trabalhos mais minuciosos para fazer, como, por exemplo, cortar coelhos ou lebres pequenos. O idiota nunca deveria ter tentado usá-la para cortar os ossos do pescoço de um ganso. Não admirava que a lâmina se tivesse partido ao meio - era demasiado fraca para um trabalho daqueles.

Havia um cuteleiro na feira, e Will decidiu ir ver o que o homem tinha para oferecer. Se houvesse alguma coisa parecida à sua velha faca, ele comprá-la-ia. Já fizera dinheiro suficiente para poder dar-se a esse luxo, e sentia que merecia um presente após os dois choques consecutivos de ter encontrado o homem sem cabeça, e de ter sido atacado. Tocou cuidadosamente o alto que tinha na cabeça. Ainda lhe doía, mas pelo menos parecia não ter provocado qualquer dano. Para além de ter perdido a sua faca preferida por ter deixado o aprendiz tomar conta das coisas enquanto ele foi dar descanso à sua dor de cabeça, de qualquer forma.

O caminho para o cuteleiro levou-o a passar pelos vendedores de tecidos, e ele acenou e sorriu às pessoas que encontrou, a maior parte das quais conhecia da sua loja. Era sempre bom parecer simpático e amigo; os clientes preferiam lidar com homens felizes do que com homens taciturnos.

Uma pequena multidão reunira-se num ponto, bloqueando-lhe a passagem. Todos estavam a olhar para uma tenda em especial. Ruby seguiu-lhes o olhar e estacou.

Os guardas amontoavam-se em volta do toldo do mercador, Jack Grande com um torniquete amarrado acima do cotovelo. A um aceno de cabeça dele, os homens entraram cuidadosamente. Ruby franziu o sobrolho ao ouvir um grito, seguido de pragas, e um rapaz foi arrastado para fora entre dois homens, Jack Grande atrás com uma faca na mão.

- O que se passa aqui? - perguntou Ruby à pessoas que se encontrava a seu lado.

- É a tenda do homem, daquele que foi preso. Suponho que aqueles porcos vão assegurar-se de que vão fazer o máximo de dinheiro possível agora que o proprietário está ausente.

- E o rapaz?

- Queria proteger os bens do amo, o pateta.

Dois membros da guarda agarravam bem o rapaz entre si, estendendo-o por cima de um barril. Outro segurava um bastão, olhando a multidão com um sorriso de escárnio, enquanto Jack Grande desamarrava o seu pesado cinto de couro. Levantou-o e baixou-o sobre as costas de Hankin.

Ruby via a agonia nos músculos esticados, à medida que o couro produzia um ruído seco ao abater-se sobre o seu corpo frágil. Mas ninguém se mexeu na multidão quando Jack Grande levantou novamente o braço, preparando-se para atacar. Havia apenas uma expectativa silenciosa, e depois um tipo de suspiro colectivo, ao mesmo tempo que o cinto descia sobre a figura magra da criança.

Ruby conhecia os guardas. Tinham-lhe extorquido dinheiro nos últimos três anos por altura da feira. Todos os comerciantes sabiam como faziam dinheiro para si próprios, mas não havia ninguém a quem pudessem queixar-se. O Abade devia saber como eles abusavam da sua posição, mas não agia, e de pouco serviria um burgomestre tentar impedi-los, se o Abade não o apoiava.

O cinto voltou a subir no ar, e Ruby viu o suor jorrar do rosto do rapaz. Parecia estar a suplicar à multidão, implorando que um deles, qualquer deles, o ajudasse, mas todos aqueles para quem ele olhava desviavam o olhar, num género de vergonha. Ruby sentiu a sua dor de cabeça renovar a força, a dor a aumentar a cada chicotada do cinto de Jack Grande.

Então não suportou mais. A dor de cabeça, a agonia no rosto do rapaz, a sensação de que a cidade estava a ser invadida pela injustiça em forma de guardas que usavam de violência gratuitamente, de que a cidade estava a degenerar para se transformar numa fossa de homicídio e criminalidade... fizeram-lhe, de súbito, o sangue ferver.

Rosnou - rosnou mesmo! O som fê-lo sentir um repentino prazer animal na batalha, e saltou por cima da mesa. Agarrando o cinto que o guarda segurava, ele deu pontapés para afastar as pernas do homem, que caiu. Ruby já estava em cima dos outros. Por um momento, eles ficaram parados a olhar, enquanto ele gritava imprecações, tão abismado como um agricultor que vê o seu porco mais manso transformar-se num varrasco enfurecido, mas quando ele lutou impetuosamente à sua volta com o cinto, puseram-se a mexer. O guarda que segurava o bastão apanhou com o peso todo da fivela na testa, e tombou como um bezerro abatido, mas, por essa altura, já os outros dois se encontravam fora de alcance. Deixaram cair o rapaz, que chorava, e afastaram-se para uma distância segura, um deles colocando a mão na faca.

Ruby deixou cair o cinto e ajoelhou-se junto a Hankin, falando-lhe em suaves murmúrios, e os dois homens olharam um para o outro. Estavam prestes a precipitar-se sobre o talhante quando uma voz os fez parar.

- Canalhas! Vamos apanhar estes canalhas! O guarda sacou da faca.

- Quem se atreve a atacar-nos? Tu? - perguntou, apontando a adaga a um sapateiro de rosto carrancudo.

- Sim, eu - e, antes que o outro pudesse responder, o sapateiro tinha-se atirado para a frente. O guarda deu um passo atrás, mas o seu sorriso de desdém transformou-se num olhar de preocupação ao aperceber-se de que o sapateiro não estava sozinho. A multidão, que desviara os olhos quando o rapaz estava a ser chicoteado, vira os odiados guardas serem forçados a retirar-se pelas corajosas acções de um só homem. Agora, no momento exacto em que o sapateiro saltava para a rixa, os vizinhos seguiram-no, e, em vez de um adversário teimoso, o guarda deu consigo a ser enfrentado por trinta, que avançavam inexoravelmente. Agitava a adaga à toa para os manter à distância, enquanto batia em retirada, o amigo a seu lado.

Mas antes que chegassem longe, o sapateiro agarrara o braço do homem, imobilizando-lhe a mão que segurava a faca, e a multidão aproximou-se, agarrando ambos os homens e arrastando-os para os postes do toldo. Foram ambos amarrados com firmeza a um poste, e Jack Grande e o guarda foram puxados e presos a outro. Então, enquanto todos os quatro gritavam de fúria impotente, eram chicoteados com cintos, e, quando os comerciantes se cansaram disso, foram buscar fruta podre e atiraram-na aos fanfarrões.

Ruby não prestava atenção a nada disto. Embalando o corpo frágil de Hankin, levou-o ao colo, passando pelos guardas que gritavam, e estava prestes a voltar à sua própria tenda quando foi detido por uma mão que lhe pousou no braço.

- A criança está bem?

- Sim, irmão - Ruby nunca antes falara com Hugo, mas reconheceu o frade. - Foi espancado, mas podia ter sido pior.

- Por que é que eles fizeram isso? - perguntou Hugo, abanando a cabeça.

- Sabiam que o amo dele foi preso.

- Quem? O homem que é proprietário desta tenda?

- Sim, frade. Não ouvistes dizer? Era Jordan Lybbe, o fora-da-lei. Foi preso, toda a gente pensa que ele deve ter morto o pobre Torre.

- Jordan Lybbe, um fora-da-lei? - repetiu Hugo horrorizado. - Mas não pode ser!

Simon examinou o bastão especulativamente. Um homem vestido de monge assaltara homens na cidade e atacara Ruby. Era possível que Peter tivesse sido o ladrão. Se assim era, foi melhor que ele tivesse optado por esta saída de uma vida de desgraça.

 

Ao vislumbrar o rosto do Abade, Simon tinha a certeza de que ele já chegara a uma conclusão semelhante, mesmo sem ter visto o bastão. Tinha a dor estampada no rosto, que estava dominado por uma palidez firme, e o beleguim perguntou-se o que teria ele ouvido em confissão, quando Peter solicitara uma conversa com o Abade na noite anterior. Mesmo nessa altura, Baldwin estava interessado no rapaz, Simon sabia, e o beleguim perguntava-se que forte suspeita é que o amigo teria evidenciado.

Simon não queria acrescentar o desgosto do Abade, mas era o próprio beleguim do administrador. Não podia permitir que esta prova fosse ocultada.

- Senhor?

O Abade Champeaux virou-se para ele com um ar inquiridor, e, ao ver o bastão, os olhos escancararam-se-lhe, e lançou um olhar involuntário ao corpo, o que disse a Simon que ele adivinhara o mesmo.

- O que é? - perguntou Baldwin, resmungando à medida que se colocava de pé. - Ah - uma moca, e uma moca sólida, ainda por cima. Onde estava?

Enquanto Simon explicava, o cavaleiro escutava atentamente.

- Foi ali?

O beleguim acenou com a cabeça.

- Ele deve ter ficado chocado com o que tinha feito, e atirou-a para longe de si. Ou talvez a tenha deixado cair ali, quando entrou nesta ruazinha, dominado pela determinação de se suicidar.

- Talvez - disse Baldwin, mas sem convicção. - Porquê aqui? - perguntava-se ele, acocorando-se junto à parede. - Suponhamos que era dele. - Caminhou até à entrada da rua, agitando a moca, e deixou-a cair. A ferramenta bateu na terra húmida da rua e aí ficou. - Nesse caso, não pode ter-lhe caído da mão.

Simon compreendeu o que ele queria dizer. A moca estava no chão junto à parede oposta ao corpo, e dificilmente o rapaz a teria deixado cair ali e ter depois atravessado a ruazinha para se matar. Contudo, não poderia ter ressaltado até lá quando ele caiu.

O cavaleiro aproximou-se do corpo e atirou o pau para o local onde fora encontrado.

- Ele pode tê-la atirado.

- Talvez estivesse revoltado por aquilo que o seu bastão fizera e atirou-o para longe de si... - supôs o Abade.

- É possível, mas, se assim fosse, não a teria atirado com mais força e para mais longe? E porquê vir morrer para este sítio? Os suicidas enfocam-se ou cortam os pulsos em casa. O que o terá trazido até aqui?

- Ele tinha a mente de um monge - disse o Abade. - Não queria manchar o recinto da abadia com o seu sangue.

- Se ele tinha uma mente assim, porquê matar-se e colocar em perigo a sua alma através de tal afronta a Deus? - perguntou Baldwin concisamente.

Acocorou-se, olhando para a parede e para a moca caída, baixando depois os olhos para o corpo, antes de soltar uma breve exclamação. Lentamente, com reverência, abriu os dedos da mão de Peter. Examinou a mão com intensa concentração, e, à medida que o Abade fez tenção de se retirar, Baldwin levantou o olhar.

- Abade, podeis vir aqui, por favor?

- O que é, Sir Baldwin? - disse o homem mais velho, a voz a trair um grau de rudeza.

- Isto - disse Baldwin calmamente.

Simon viu uma série de golpes fundos que cortavam a palma da mão e os dedos. Estremeceu perante aquela visão: podia imaginar a dor provocada pela lâmina a cortar a carne tão profundamente.

- Então, senhor cavaleiro? É suposto eu estar interessado na última loucura do rapaz? Ele está morto, e estas marcas e mutilações não me preocupam agora. - disse o Abade com brusquidão.

- Mas deviam preocupar. Só vi este tipo de marcas em homens que tentaram defender-se de um atacante. Por que razão é que um suicida faria estes cortes nas mãos? Mas um homem que está a ser atacado por outro com uma faca, agarra-a muitas vezes para manter a lâmina afastada, e, quando o atacante puxa a faca para trás...

- Ele foi atacado?

- Sim, Abade. Este rapaz não é nenhum suicida. Estas marcas mostram que ele tentou proteger-se do assassino. Meu senhor Abade, Peter foi assassinado!

- Quem poderia fazer tal coisa? - sussurrou o Abade Robert, horrorizado.

Baldwin encolheu os ombros.

- Isso não sei. Talvez o homem que tem andado a roubar, e talvez tivesse sido o mesmo homem que matou Torre. Isso poderá explicar por que é que a moca está aqui: porque Peter viu o ladrão na rua, e talvez o assaltante tivesse deixado cair o bastão para esconder a sua culpa, e depois não conseguiu voltar a encontrá-lo, ou fugiu mal matou o rapaz. Talvez quisesse implicar o rapaz nos seus próprios crimes. Não interessa, o que interessa é que Peter foi assassinado, não se suicidou.

- Sir Baldwin, dais-me uma migalha de esperança no meio de todo o meu desespero.

- Ainda temos de procurar quem o assassinou.

- Quem poderia ser? Quem ousaria cometer tal crime?

- Prendemos o homem na posse da faca que foi tirada da bainha que estava no corpo de Torre. É possível que ele tenha morto Peter, mas...

- O quê, Sir Baldwin?

- Ele estava com Jeanne e Margaret durante algum tempo antes de eu o ter mandado prender - disse Baldwin lentamente. - Eu ficaria surpreendido se o noviço pudesse ter estado aqui muito tempo sem ser descoberto: esta rua é muito frequentada. No entanto, o nosso homem está preso já há mais de uma hora. Temos de ir ver se ele pode lançar alguma luz sobre isto. Há mais uma coisa: este monge gostava de uma rapariga.

- Eu sei - admitiu o Abade. - tentei persuadi-lo a deixar essa paixão, mas não serviu de nada.

- Ontem à noite vi-o a norte da feira. Este rapaz foi desprezado por ela, e parecia que tinha o coração partido. Penso que devemos ir falar com a rapariga e perguntar-lhe o que disseram e por que motivo é que ela optou por rejeitá-lo tão violentamente, talvez ela nos possa dar uma pista.

- Que possível pista é que ela vos poderá dar? - perguntou o Abade.

- Ela foi cruel com ele. Talvez este acto não tivesse sido perpetrado por um criminoso louco, mas há uma razão mais prosaica para a morte do rapaz. E se ele tivesse um rival? Não poderia esse rival ter decidido livrar-se do outro pretendente dela?

- Se o rival de Peter sabia que ela o tinha rejeitado, dificilmente haveria um motivo para matar Peter - disse o Abade, com lógica.

- É verdade, mas ela tratou-o com tamanho desdém, que tenho de me perguntar o que sabe ela disto. Certamente que algo a fez reagir daquela maneira para com ele. Ele parecia tão seguro dos sentimentos dela, e deve ter ficado completamente arrasado quando ela o rejeitou tão cruelmente. Precisamos de interrogá-la.

- Ide falar com ela com a minha bênção. Posso dizer-vos onde ela vive, ontem à noite Peter disse-me quem ela era. - A voz do Abade endureceu. - Mas primeiro interrogai o homem que está preso e descobri o que ele tem a dizer em abono de si próprio.

 

- Como é que eles se aperceberam de que estavas envolvido? - perguntou Elias.

Jordan abanou a cabeça.

- O beleguim foi comprar tecido, e, como um louco, cortei-o com a faca que usei no homem. O cavaleiro conheceu-a pelo brasão. - Estava de pé junto à janela sem protecção para além das grades. A cela tresandava a fezes. O irmão não tomara banho, e Lybbe sentia o cheiro do suor dele, o que aumentava o seu medo. Havia no chão uma côdea de pão, que fora mordiscada por ratazanas, e um balde com água. Uma caixa de cinza formava uma latrina grosseira. A janela, pelo menos, oferecia um pouco de ar fresco, e Lybbe encostava-se às grades, grato. - A culpa foi minha. Eu nunca deveria ter voltado, mas não pude deixar de o fazer.

- Por que o fizeste? Devias saber que estavas a caminhar de volta para a forca do Abade!

- Bayonne era uma cidade bastante boa para mim, suponho, mas sou um homem da charneca. Serias capaz de viver numa terra, nem que fosse o lugar mais bonito do mundo, e não voltar a olhar para a charneca? Dartmoor não é simplesmente uma cidade: se se nasce aqui, está-nos nos ossos. Tenho tido saudades desde que parti. E também tive saudades tuas, meu sacana. Afinal, és meu irmão.

- Vou contar-lhes o que aconteceu.

- É um pouco tarde para nos preocuparmos com isso - disse Jordan. - Desculpa ter-te metido nisto, Elias. Devia ter ficado longe.

Agora era demasiado tarde para desculpas. Não podia aceitar que era por sua culpa que as coisas tinham chegado a isto, mas precisava de tempo para pensar, para encontrar uma saída do atoleiro em que caíra. A sua maior preocupação era o rapaz. O que seria do pobre Hankin?perguntava-se. Salvara-o quando os pais morreram, e agora a sua estupidez levaria à segunda orfandade do rapaz. Pela primeira vez desde que salvara Hankin, sentia o peso da responsabilidade. Nem sequer sabia se o rapaz estava em segurança - havia tantos perigos para um jovem numa feira.

Mas era difícil pensar noutra pessoa enquanto sentia a sombra da forca do Abade. Voltou a vê-la com os olhos do espírito, mas agora com um corpo já pendurado e a balouçar - o seu próprio corpo. A voz saía-lhe pesada.

- Não te preocupes, Elias, vou contar-lhes tudo. Não há necessidade de sofreres mais por mim.

- Vão ambos contar-nos o que aconteceu - disse Simon bruscamente, da porta. - Vem cá para fora, Elias; tu também, Lybbe.

Seguiram-no até um lugar ao sol. Já se formara uma multidão heterogénea, pacientemente à espera de saber por que motivo o segundo homem fora preso. Baldwin olhou atentamente os habitantes da cidade ali reunidos; não queria mais motins. Estava contente por Edgar ter esperado junto à cadeia, depois de ter escoltado Jordan Lybbe até lá; sentia-se desarmado quando o seu homem de confiança não se encontrava por perto.

Simon leu correctamente a expressão do seu rosto, e amaldiçoou interiormente a inevitável curiosidade dos habitantes da cidade; havia sempre o risco de uma pessoa exaltada poder decidir libertar homens que consideravam inocentes, ou organizar uma multidão de linchamento. Olhou em redor. A seguir à cela havia uma pequena sala que os burgueses de Tavistock usavam para encontros. Serviria para os interrogatórios que iam fazer. Conduziu-os para o interior, e sentou-se num banco, enquanto os outros entravam em fila. Baldwin e Edgar ocuparam lugares de ambos os lados da porta, o guarda Daniel com eles. Simon observava os dois homens que se encontravam à sua frente.

Elias era um espantalho maltrapilho e andrajoso, com grandes olhos temerosos e rosto pálido. Lybbe estava de pé, revelando uma resignação fortuita, os pés afastados como que a preparar-se para resistir a um ataque violento. Olhava o beleguim como se tivesse esperado ser apanhado, e estava pronto para o seu julgamento.

- Elias - começou Simon -, chamaste irmão a este homem - porquê?

Lybbe olhou Elias de esguelha.

- Eu sou irmão dele. Saí daqui há muitos anos atrás e fui viver para a Gasconha, mas regressei recentemente para o ver. Há muito tempo que não nos víamos.

- Matastes Roger Torre?

- Não - disse Lybbe redondamente. - Ele já estava morto quando o encontrámos.

- É melhor contares-nos o que aconteceu.

- Leva pouco tempo. Estávamos a beber na taberna nesse serão. Eu não conseguira avisar Elias de que vinha para a feira, nem sequer tinha a certeza se ele ainda estava vivo, mas encontrei a taberna e decidi entrar.

“A proprietária da taberna disse-me que Elias ia lá muitas vezes, e esperei para ver se ele aparecia. Apareceu, de facto, e mandei a proprietária da taberna pedir-lhe que me fizesse companhia. Falámos durante muito tempo, e então ele sugeriu que fôssemos para sua casa comer alguma coisa. Eu estava contente por comer, pois não tinha comido nada o dia todo, por isso levantámo-nos e saímos. Lembro-me de que o sino das Completas estava a tocar quando saímos. Elias tinha-me falado daquela pilha de lixo que ele tinha de tirar dali, senão era multado, e eu perguntei se era muito, porque depois comermos eu podia ajudá-lo a carregá-lo para a estrumeira. Por isso ele levou-me rua acima para me mostrar.

- Foi aí que encontrámos Torre - continuou Elias. - Estava estendido em cima da pilha. Tropecei-lhe no braço. - Elias estremeceu.

- Estava de rosto para baixo, como se alguém tivesse acabado de o arrastar para lá pelos calcanhares e o tivesse coberto com o lixo - explicou Lybbe.

- De rosto para baixo? - perguntou Baldwin, olhando Lybbe com interesse.

- Sim, senhor. De rosto para baixo - Lybbe suspirou. - Estava morto, mas ainda tinha a cabeça sobre os ombros.

- Por que o decapitaste? - quis Simon saber. Lybbe endireitou os ombros, decidido.

- Pensei - ainda penso - que ele morreu porque alguém o tomou por mim. Tenho a certeza de que pretendiam matar-me, e não Torre.

Simon debruçou-se para a frente, olhando-o fixamente.

- Continua.

- Senhor, há vinte anos que vivo na Gasconha, negociando nos mercados e mantendo uma loja em Bayonne. No ano passado houve uma grande feira em Bayonne, e viajaram para lá pessoas de todo o mundo cristão, para comprarem ou venderem as suas mercadorias. Os venezianos - os Cammino - estavam lá. Ficaram alojados com o próprio Abade, combinando comprar peltre a todos os vendedores da cidade, sempre a bons preços, usando as garantias que o abade lhes estendeu.

“Houve problemas durante toda a feira. Homens foram assaltados, atacados na rua e as suas bolsas eram levadas. Os responsáveis nunca foram encontrados, embora tivessem sido detidas várias pessoas. No último dia da feira, foi atacado um homem, um mercador do Norte. Suponho que ele tinha conhecimento dos assaltos, pois estava alerta e conseguiu sacar da faca para se defender, mas foi apunhalado até à morte.

“Bem, os habitantes da cidade ficaram furiosos. Inundaram as ruas, intimidando qualquer pessoa que pensavam que podia ser responsável. O Abade concordou quando os venezianos disseram que estavam assustados e que queriam partir. Na minha opinião, ele pensava que o facto de os ter alojados na abadia podia tentar alguns dos mais exaltados a atacar o lugar.

“No dia seguinte, eles levantaram-se cedo e partiram à pressa, antes do romper da aurora, com o criado, levando consigo todo o estanho, para vergonha do Abade. O clamor público foi levantado e um grupo de pessoas partiu atrás deles. Por sorte, outros viajantes tinham-nos visto passar, por isso os homens sabiam que direcção tomar. Os criminosos só fugiram porque libertaram a besta de carga com todo o estanho que tinham levado. Aliviados da carga, puderam avançar a galope, enquanto que os perseguidores, cujos cavalos já estavam quase exaustos, puderam apenas ficar a ver a distância entre os dois grupos aumentar.

- Não foram apanhados?

- Não, senhor. Ora, quando eu estava sentado na taberna com Elias, vimos três homens entrar. Sentaram-se à espera que a proprietária da taberna os servisse, e, uma vez que ela estava connosco, ficaram impacientes. Vislumbrei o rosto do homem mais velho, e pensei reconhecê-lo, mas não me lembrava de onde. Eu tinha a certeza de que era um rosto que eu não conhecia daqui. Passados alguns momentos, todos eles deixaram a taberna. Só mais tarde é que me lembrei de que conhecia aqueles rostos de Bayonne.

“Foi quando encontrámos o corpo; Elias reparou que o morto tinha a mesma estatura que eu - tinha uma constituição semelhante. Ao olhar para ele, ali estendido, ele disse que poderia ter sido eu. Foi então que me apercebi de onde é que eu conhecia os homens que estavam na taberna. Eram os Cammino, os ladrões de Bayonne.

“De repente, pensei: e se eles me tivessem encontrado primeiro? Saberiam que eu constituía um risco para eles, pois podia reconhecê-los e denunciá-los. Se eles estavam a tentar enganar também alguém aqui, podiam ter-se sentido mais seguros matando-me, para que eu não testemunhasse contra eles. No escuro, eles podiam ter pensado que aquele homem era eu! Se eles me tivessem visto na taberna, visto a minha cara, se tivessem apercebido de que eu estava em Bayonne na mesma altura que eles, podiam muito bem ter decidido calar-me para sempre e ter esperado para me prepararem uma emboscada.

“Tudo isto me passou pela cabeça num abrir e fechar de olhos. Eu tinha a certeza de que o homem morrera por engano; e tinha igualmente a certeza de que os homens que eu vira na taberna eram os responsáveis. Mas, pelo menos, eles agora pensavam que eu estava morto.

Fez uma pausa, e Simon incitou-o a continuar.

- Bem, senhor, eu disse a Elias o que pensava, mas ele mal podia aguentar os dentes sem baterem, tão perturbado estava. Sugeri que ele regressasse à taberna e tomasse outra bebida para acalmar os nervos.

- Por que não levantaste o clamor público? - resmungou Simon.

- Não podia tirar da cabeça a ideia de que eles tinham tentado matar-me - e, uma vez que descobrissem que se tinham enganado, poderiam tentar de novo. Mas eu não tinha provas! Dificilmente eu poderia pedir ao burgomestre que acreditasse que os convidados do Abade eram assassinos, não é verdade? E, se eu o fizesse, eles podiam encontrar uma forma de me matarem antes de eu os poder mandar prender. Eu simplesmente não sabia o que fazer - mas então pensei: e se eles não descobrirem que mataram o homem errado? E se eu pudesse esconder a identidade da vítima? Não podia esconder o corpo inteiro, pois, se o fizesse, eles podiam pensar que não me tinham morto, que eu conseguira arrastar-me dali e recuperar... mas se a identidade do cadáver fosse escondida, eles podiam deixar-me em paz até que eu pudesse mostrar que eles eram os assassinos. Foi então que me veio à cabeça, de repente vi como podia esconder o engano deles: podia trocar de roupas com ele. Regressei à rua e troquei as coisas dele pelas minhas. Mas o rosto dele poria a mentira a descoberto. Tinha de lhe esconder o rosto.

Lybbe levantou o olhar, pálido, mas provocador.

- Eu não estava a tentar perturbar a Paz do Rei. Só que eu conhecia o segredo destes três homens, e queria expor a sua vilania. Precisava de tempo para descobrir em que novo crime os Cammino estavam envolvidos. Olhai - Torre já estava morto, e o que fiz não poderia tê-lo magoado. Mas a cabeça dele não foi fácil de separar do corpo. - Lybbe fez uma pausa para ganhar coragem. - Cortei com a minha faca, mas precisava de algo mais forte. Fui a casa do meu irmão, encontrei uma podadeira de árvores, e usei-a para separar a cabeça, em seguida voltei a cobrir o corpo, mas não completamente, para que fosse facilmente descoberto.

Baldwin olhava-o fixamente.

- Não te ocorreu que o facto de lhe tirar a cabeça faria com que o assassino suspeitasse?

- Não tive tempo para pensar. Tudo o que eu sabia era que eles não podiam descobrir que eu estava vivo.

- Podias ter chamado a guarda e mandado prender os homens imediatamente. Porquê esta charada ignóbil?

Lybbe esteve calado por um momento.

- Como eu disse, eles estavam alojados em casa do Abade - eram seus amigos. E, de qualquer forma, eu já fui atacado duas vezes pela guarda. Como poderia confiar neles? Se os venezianos lhes pagassem suficientemente bem, a guarda podia concordar em prender-me em vez deles.

- Estou a ver. Continua.

- A cabeça foi a última coisa. Tinha de escondê-la. Encontrei um saco no quintal do meu irmão, cavei um buraco e enterrei-a. Depois regressei à minha tenda.

Simon confrontou o cozinheiro.

- Elias, por que diabo não nos contaste tudo isto? Porquê colocares a tua vida em perigo para esconder uma coisa que não teve nada a ver contigo?

- Eu estava assustado. Pensei que iríeis presumir que ambos tínhamos morto Torre, e não fazia sentido morrermos os dois, por isso pensei que poderia carregar com a culpa toda do que ver-nos partilhá-la.

Baldwin acenou lentamente com a cabeça. Até ali fazia sentido. Pensou e voltou a olhar Lybbe.

- Por que deixaste a bainha com Torre e levaste a faca? Ele sorriu tristemente.

- Porque sou um idiota, cavaleiro, meu senhor. Primeiro vesti-lhe as minhas roupas, e depois, quando queria cortar-lhe a cabeça, apercebi-me de que tinha deixado a minha faca no cinto. Em vez de tirar tudo, só tirei a faca, tencionando tirar a bainha mais tarde, mas depois estava tão abalado que me esqueci. Enfiei a faca no cinto que estava a usar enquanto arrastava o corpo para a pilha de lixo e depois fui enterrar a cabeça. Quando percebi que tinha deixado a bainha vazia com o corpo, decidi, estupidamente, deixar as coisas como estavam. Eu não sou estúpido, Sir Baldwin, mas o que fiz naquele dia tem-me perseguido desde então.

- E esses tais ladrões - os homens que pensais que mataram Torre. Quem eram eles, então?

- Chamam-se “Cammino”.

Edgar e Daniel levaram os irmãos de volta à cadeia, e, depois de eles terem saído, Simon olhou para o cavaleiro.

- O que pensas disto?

- Penso que é absurdo. Porquê passar por esta charada, quando tudo o que eles precisavam de fazer era informar que tinham encontrado um corpo e dizer o que sabiam sobre os outros homens?

- Ouviste o que Lybbe disse sobre a guarda?

- Sim, e isso não era verdade. Ele disse que chegou cá no dia em que Torre foi morto. Os guardas tentaram extorquir-lhe dinheiro no dia seguinte, por isso foi mentira dizer que tinha medo deles naquela altura - a não ser... - a voz diminuiu-lhe de intensidade, à medida que o olhar se perdia, sem ver, pela porta aberta, estrada fora, em direcção à cidade. Na distância, ele viu uma figura, o burgomestre.

- O que é? - perguntou Simon, enquanto Baldwin se afastava a passo largo.

- Uma ideia. Vem, despacha-te! - gritou o cavaleiro por cima do ombro. O beleguim praguejou, mas partiu atrás dele.

O burgomestre esperara que o anterior interrogatório seria suficiente. Tinha várias transacções para testemunhar, e tentou esconder a sua impaciência, à medida que o cavaleiro se dirigia a ele, apressado.

- Holcroft, viveis aqui já há algum tempo, não é verdade?

- Toda a minha vida.

- Sabíeis que Elias tinha um irmão?

- Sim, é claro, Jordan. Saiu daqui, oh, há anos. Pelo menos vinte.

- Por que se foi ele embora?

O burgomestre comprimiu os lábios.

- Era um fora-da-lei. Reuniu um grupo de meliantes, um grupo que assassinava e queimava tudo por onde passava no Norte do condado. Ele só foi descoberto porque o grupo se envolveu numa luta com o povo de Tiverton, e a cidade ganhou. Perseguiram os homens ao longo de quilómetros, mas os patifes tiveram sorte. Um dos elementos do grupo foi encontrado numa igreja, a pedir asilo, e concordou em denunciar os companheiros. Deu os nomes de todos os homens do grupo, e foi-lhe permitido abandonar o reino para sempre. Um dos nomes que ele deu foi o de Jordan Lybbe.

- Como é que Lybbe escapou à justiça? - perguntou Simon.

- Facilmente. Veio para casa antes que as notícias da batalha tivessem chegado aqui. Pegou em alguns dos seus pertences e desapareceu. Um navio deixou a costa pouco tempo depois, e constou-se que um homem parecido com Lybbe tinha subido a bordo antes de o navio se ter feito à vela.

- Estou a ver. Bem, obrigado, Holcroft - disse Baldwin. Holcroft deixou-os e Simon abanou a cabeça.

- Então foi por isso que ele preferiu este elaborado embuste a chamar a guarda.

- Ele sabia que pagaria com a vida se fosse descoberto novamente no reino. Se ele chamasse a guarda e fosse reconhecido, seria enforcado.

- E assim vai ser!

- Sim - concordou Baldwin, mas estava perplexo. - Mas por que é que ele cortaria a cabeça do corpo e a esconderia? Se ele não tivesse nada a ver com o assassínio, teria apenas saído da cidade enquanto estava escuro.

- Talvez pensasse que isso seria visto como uma admissão de culpa.

- Mas se ele pensasse isso, teria simplesmente deixado o corpo como estava. Deve ter havido uma razão para ele ter tirado a cabeça ao corpo. - Baldwin inclinou a sua própria cabeça para um lado. - A alternativa é - ele foi o assassino: mas por que mataria Torre? Não temos qualquer motivo que o tivesse levado a fazer isso.

- Talvez Torre o tivesse reconhecido.

- Mas, se ele o tivesse reconhecido, não teria gritado o que sabia? Os guardas estavam na taberna, e muitas outras pessoas. Se Torre tivesse reconhecido Lybbe, teria provocado uma rixa.

- A não ser que pensasse que poderia fazer chantagem com Lybbe para que ele lhe pagasse pelo seu silêncio.

- Nesse caso, Torre teria ido falar com ele, mas ninguém os viu a conversar.

- Não perguntámos a ninguém se eles conversaram - assinalou Simon, com lógica. - É verdade. Mas, também, se Torre se tivesse apercebido de quem Lybbe era, certamente não teria saído com Lizzie. Teria ficado no interior da taberna, onde poderia vigiar o seu investimento, quer tivesse falado com ele ou não. Nada disto faz sentido.

- Estás a dizer que a história dele era verdadeira e que foram os venezianos que cometeram o crime?

- Não sei, Simon. Mas faz tanto sentido como Lybbe ser o assassino.

Deixaram a prisão e fizeram o caminho de regresso, colina abaixo. O edifício que o Abade lhes indicara era uma casa de aspecto agradável não muito longe da taberna, e Baldwin bateu à porta com força, assim que lá chegaram. Apareceu uma criada que parecia incomodada, e Baldwin passou por ela, entrando no vestíbulo.

No interior, uma mulher estava placidamente sentada a trabalhar numa tapeçaria. Levantou o olhar, algo surpreendida, ao ouvir passos no chão de pedra, e, em seguida, o rosto endureceu-se-lhe.

- O que significa esta intrusão? Tendes negócios a tratar com o meu marido, porque, se não tiverdes, chamarei a guarda neste mesmo instante?!

- Senhora, perdoai a nossa entrada abrupta - disse Baldwin suavemente. - É com a jovem senhora que desejamos falar, a donzela que se tornou amiga do monge Peter. Sabeis onde ela está?

Marion examinou-o com frieza e colocou a sua tapeçaria de parte.

- O que quereis com ela?

- Senhora, o rapaz foi encontrado assassinado, e temos de descobrir se ela nos pode ajudar a encontrar o assassino.

- Assassinado? A minha filha não sabe nada disso. Não posso permitir que a interrogueis.

- Temos de o fazer.

- Não o fareis, por minha honra! Se desejardes, podeis falar com o meu marido, mas...

- Estamos aqui - interrompeu-a Simon - a seguir ordens do Abade. É muito importante que falemos com a sua filha imediatamente.

A senhora Polé franziu o sobrolho, mas consentiu. A vontade do Abade não podia ser contrariada. Mandou a criada buscar a filha. Alguns momentos depois, a criada regressou, sozinha.

- Senhora, a porta está fechada à chave, e ela não responde.

- Deixai-me tentar - disse Marion, e, pegando nas saias para as levantar um pouco do chão, apressou-se a sair da sala. Simon olhou Baldwin, e seguiram-na.

- Avice? Avice, abre esta porta imediatamente!

Batia à porta com a palma da mão, e Baldwin viu que a mulher estava a começar a entrar em pânico. O cavaleiro murmurou: “Meu Deus!”. Se havia uma complicação que ele não desejava, era que esta rapariga pudesse ter fugido com o namorado.

- Senhora, com vossa licença.

O cavaleiro olhou para Edgar, e o criado precipitou-se para a porta com o ombro. A porta tremeu, mas a madeira era forte. Baldwin juntou-se ao criado. Sob o peso combinado de ambos, a porta e o caixilho abanaram, e Baldwin tropeçou numa tranca quebrada e caiu de borco no chão. Do chão, viu que a sala estava deserta. A janela aberta contava a história da fuga de Avice Polé.

Atrás de si, Baldwin ouviu um riso abafado.

- Simon, se pensas que tem graça - disse ele com frieza -, da próxima vez podes tu arrombar a porta. - Devagar, colocou-se em pé, estremecendo ao ver a equimose que tinha no ombro. Sentia-se como se o tivesse fracturado ao mesmo tempo que a porta. Quando olhou para a ombreira da porta, viu que esta tinha sido fechada com ferrolho por dentro.

- Que diabo significa tudo isto?

Simon virou-se para ver um homem de rosto corado, boquiaberto perante a destruição. Sentiu-se um forte cheiro a álcool quando ele entrou no quarto.

- Regresso a minha casa para me dizerem que uns estranhos entraram à força, e depois descubro que destruíram uma porta! O que se passa, heim? Quem sois?

Baldwin limpou o pó dos joelhos e passou por cima dos destroços.

- Sou Sir Baldwin de Furnshill, e este é Simon Puttock, beleguim do Castelo de Lydford. Estamos a investigar os homicídios de Roger Torre e de um monge noviço em nome do Abade.

- E que tem isso a ver comigo e a minha família?

- Arthur, estes homens queriam falar com Avice, mas ela desapareceu. Arthur, ela fugiu!

- O quê? - o marido vasculhou o quarto, os olhos regressando depois ao rosto de Marion, assustados. - Quando? Quer dizer, como?

- Ela desapareceu. Deve ser Pietro!

- Eu acabo com ele, se fez mal à minha Avice!

- Não temos a certeza de que foi ele - disse Baldwin.

- Vós podeis não ter, mas eu tenho! Quero que ele seja chicoteado, por amor de Deus! E se ele... Se ele manchou a honra dela, acabo com...

- Marido, o mínimo que podemos fazer agora é pensar como encontrá-la e trazê-la de volta.

- Encontrá-la? É claro que teremos de a encontrar, mulher! Baldwin pegou no furioso mercador, que falava precipitadamente, lançando perdigotos, pelo braço e começou a levá-lo de volta ao vestíbulo. A sua voz era baixa e calma, falando com uma firmeza sem pressas que apaziguou o homem irado.

- Falastes no veneziano. Era o mais jovem? Pareceu-me, sim - era Pietro. Avice estava no quarto dela? Bem, estou a compreender. Pouco mais havia a fazer para um pai preocupado do que prendê-la a uma argola, e não é assim que se conquista o amor e a confiança da sua filha, pois não? É claro que não... Ah, cá estamos.

Tinham chegado mais uma vez ao vestíbulo, e Baldwin encaminhou o pai agora condescendente para uma cadeira, mandando depois a criada ir buscar vinho e água. Marion sentou-se, as mãos no regaço, enquanto pensava no marido. Ela dissera-lhe que não funcionaria, ela dissera-lhe que deviam fazer as malas e partir imediatamente, mas ele recusara por causa dos seus negócios. Ainda tinha as peles todas, ainda não conseguira vendê-las, e tinha de ficar em Tavistock para tentar ver-se livre delas.

- Ela estará bem fechada à chave no quarto - dissera ele. “Bem” era assim como ela estava agora, pensou Marion amargamente. Provavelmente já com a honra manchada, e John não haveria de a querer assim. Ele era descendente de uma família antiga, e esperava-se que qualquer mulher que ele escolhesse fosse pura, independentemente da riqueza dos pais.

O vinho chegou, e Baldwin encheu uma taça, acenando com a cabeça ao homem para que bebesse. Com mãos trémulas, Arthur levou a taça aos lábios, bebericou, depois pousou-a em cima da mesa. A sua Avice tinha fugido. Era inconcebível!

- Senhor, quando foi a sua filha vista pela última vez? - perguntou Baldwin.

- Não sei. Marion?

- Cerca do meio da manhã.

- Obrigado, senhora. E ela tinha sido proibida, presumo, de voltar a ver este rapaz, não é verdade?

- Sim - disse Arthur num tom pesado. - Dissemos-lhe esta manhã. Compreende, andámos a fazer investigações sobre ele e o pai, e eles não eram como se pintavam. Tinham ambos fingido que eram abastados, no entanto, sei que têm apenas uns cavalos reles. Um homem rico economizaria nos cavalos desta forma?

- Estou a ver - Baldwin mordeu o lábio. Havia uma coisa que o preocupava mais do que qualquer outra. - Dizei-me, sabeis de alguma razão que o terá levado a decidir fugir com a vossa filha agora?

- Sim. Vi-o esta manhã, àquele maldito e arrogante idiota! - Arthur explicou, lançando à esposa um olhar de lado - ele ainda não lhe contara isto. Depois de ter encontrado Pietro, Arthur ficara tão furioso que voltara imediatamente à taberna. - Informei-o de que não poderia voltar a ver a minha filha, e de que, quanto a mim, ele não servia para ela.

- Estou a ver. Que fez ele depois de terdes falado com ele?

- Partiu a correr em direcção à Abadia. Depois do que eu lhe disse, presumi que ele jamais se atreveria a mostrar de novo o rosto.

- Tendes aqui cavalos?

- Sim, há estábulos nas traseiras, num pátio.

- O da sua filha desapareceu?

- Não sei, segui-me!

Levantou-se e apressou-se a sair em direcção ao guarda-vento. A porta das traseiras dava para um pequeno pátio com estábulos à esquerda. Enquanto ele foi interrogar o criado, Baldwin olhou para cima. Havia uma escada encostada à parede.

- Então foi assim - disse para Simon, indicando a escada com a cabeça .

- Não é a inferência mais difícil que alguma vez fizeste - murmurou Simon.

Ouviu-se um grito vindo do estábulo, e eles correram para a entrada. No interior encontraram o mercador debruçado sobre uma figura que se contorcia.

- O sacana amarrou o meu criado! - gritou Arthur, indignado. O cavaleiro debruçou-se sobre Henry e cortou as cordas que lhe amarravam os braços e os pés. Edgar ajudou-o a colocar-se em pé, e, ainda com a sua ajuda, Henry foi levado para a sua enxerga, onde cuidadosamente o deitaram. O cavaleiro estava de pé a seu lado.

- Podes contar-nos o que aconteceu? - perguntou Baldwin.

- Fui agredido, senhor - disse Henry dolorosamente. - Alguém me bateu por trás.

- Viste quem era?

- Não, senhor. Tudo o que sei é que estava aqui a cuidar dos cavalos, e a única coisa de que me lembro é de uma terrível dor de cabeça e de estar amarrado que nem um capão.

- Não viste para que lado foram?

- Não, senhor.

- Ouviste alguma coisa? Gritos?

- Quereis dizer - disse Arthur, endireitando-se de indignação -, quereis sugerir que a minha filha pode ter fugido voluntariamente com esse pateta veneziano?

- É possível - disse Baldwin, levantando uma mão para interromper a furiosa expostulação de que a filha de Polé jamais seria conivente com tal traição aos desejos dos pais. - Neste momento nem sequer temos a certeza de que Pietro da Cammino esteja envolvido. Deixar-vos-emos agora e vamos à abadia interrogá-lo.

- Ele não vai estar na abadia, estou a dizer-vos que ele fugiu!

- Nesse caso, quando nos tivermos certificado de que ele não se encontra na abadia, organizaremos uma busca para o encontrarmos - e a ela.

- Há mais uma coisa, Sir Baldwin. Se o Abade não acreditar nisso, dizei-lhe que o seu convidado, aquele sacana de seu nome Pietro, tem estado a fazer-se passar por monge.

- O quê?

- O meu criado viu-o ontem à noite. Estava vestido como um beneditino, a deambular pela cidade. A minha filha encontrou-se com ele, e ele cortejou-a sob a protecção de um traje santo.

- Meu Deus! - exclamou Simon. - Seria ele o ladrão?

 

Simon e Baldwin mandaram Edgar colocar a sela e os arreios nos cavalos, e correram pelo pátio em direcção aos aposentos do Abade. Um monge disse-lhes que ele se encontrava na sua capela particular, e tiveram de esperar, arreliados com a demora, enquanto outro monge entrou e pediu ao Abade que os recebesse.

- Meus amigos soubestes alguma coisa pela rapariga?

Simon contou-lhe sobre o desaparecimento da rapariga, e o Abade gelou.

- Mas... os venezianos partiram.

- Quando? - perguntou Baldwin sem perder tempo.

- Depois de a multidão ter vindo aos portões. Tanto Pietro como o criado ficaram aterrorizados com o aparecimento de tantas pessoas exaltadas a pedirem o seu sangue. Alguém os tinha agitado contra os banqueiros. Pietro insistiu para que partissem. De início, o pai estava relutante, não querendo perder o negócio comigo, mas eu recusei o negócio, e ele concordou então em partir.

- Parece que Pietro tinha um motivo secreto. A multidão que se reuniu junto aos portões deu-lhe a desculpa de que ele precisava, e ele aproveitou a oportunidade.

- Sir Baldwin, tendes de os encontrar.

- Vamos tentar, senhor. Mas para onde poderão ter ido é uma questão de suposição. Vamos precisar de lhes dar caça com muito cuidado.

- Irei convosco ao pátio. É-me impossível juntar-me a vós no dia da festa do Santo protector da abadia, mas, pelo menos, posso certifi-car-me de que ides com o maior número de homens possível.

Dizendo isto, o Abade Robert Champeaux conduziu-os para fora da sala. Estava um monge no exterior, e o Abade pediu-lhe que se aproximasse, dizendo-lhe que preparasse homens para se juntarem à perseguição. O monge afastou-se a correr precipitadamente, e o Abade e os outros continuaram o seu caminho.

Edgar estava à espera com os cavalos, e Baldwin pegou nas rédeas que o criado lhe estendia.

- O problema é que não fazemos ideia para onde é que eles poderão ter ido. Tendes um caçador que esteja habituado a perseguir animais?

- Tenho, mas não está aqui, saiu para trabalhar. Simon disse:

- Certamente que irão directamente para a costa. Plymouth seria o ideal para eles.

- Talvez - disse Baldwin com um ar pensativo. - Mas o porto lá é muito pequeno. As hipóteses de encontrarem um navio antes que os alcancemos são remotas, a não ser que tenham um navio à espera.

- Eles saíram muito à pressa? - perguntou Simon ao Abade. - E as roupas e os pertences deles, levaram tudo?

- Não sei, eu... Vós - chamou ele um irmão leigo. O homem aproximou-se, tranquilo, uma pá ao ombro como se fosse uma arma. - Ide ao quarto de hóspedes e vede se os venezianos deixaram alguma coisa para trás. Depressa, irmão!

O homem deixou cair a sua pá e hesitou, perguntando-se se a deveria apanhar. Vendo o rosto do Abade, deixou-a caída e partiu a correr. O Abade suspirou.

- Apenas há algumas horas tudo estava normal. Era simplesmente um agitado dia de festa em honra de São Rumon, e agora perdi um noviço para um criminoso, dois hóspedes vão ser caçados que nem veados, e...

- Meu senhor, Abade!

Champeaux olhou Baldwin com surpresa.

- Sim?

- Caçados! Os vossos cães!

O Abade escancarou os olhos por um momento, em seguida soltou um murmúrio e bateu na testa com a palma da mão.

- Devo ser o maior idiota à face da Terra! - e partiu rapidamente em direcção às portas do rio. Passados alguns minutos regressou com um homem, de rosto comprido e compleição pálida. Uns olhos azuis-escuros brilhavam sob umas sobrancelhas negras.

- Este é o meu criador de cães, o responsável pelos meus perdigueiros.

- Criador, tens cães lebreiros?

- Temos - vinte casais.

- Eles sabem caçar homens? O criador riu por entredentes.

- Podiam perseguir uma formiga pelo cheiro.

Ouviu-se uma agitação vinda do quarto de hóspedes e, quando eles se viraram para ver qual era a causa, viram o irmão leigo a correr na direcção deles.

- Abade, o criado ainda aqui está!

Ao ver o criador de cães encolher os ombros e começar a fazer o caminho de regresso para junto dos seus adorados animais, Baldwin gritou-lhe:

- Mestre criador, traz cá dez casais imediatamente, e um cavalo para ti. Vamos caçar homens.

Simon virou-se para o monge.

- Onde está ele?

- No quarto de hóspedes.

- Muito bem. Vamos, Baldwin.

Os hóspedes podiam ficar alojados em várias partes da abadia, dependentemente da sua posição social e importância. Os de posição social mais inferior ficavam nas instalações comunais por cima do próprio portão grande, enquanto que os mais importantes ficavam nos próprios quartos particulares do Abade, ao longo do seu vestíbulo. Para outros, quando estes já estavam a ser usados, havia o bloco principal para hóspedes, que dava para o rio, e era neste edifício que os venezianos tinham sido alojados. Simon subiu as escadas para o primeiro andar, e só quando chegou à porta é que lhe ocorreu que o homem que se encontrava lá dentro poderia estar desesperado e ser perigoso. Ficou invulgarmente contente ao ouvir atrás de si os passos firmes de Baldwin e do seu criado, ao mesmo tempo que colocava a mão na espada e testava o punho na mão. Olhou para o cavaleiro, abriu a porta de súbito e entrou de rompante, sacando da espada enquanto isso. Encostou-se a uma parede, segurando a arma à sua frente.

- A espada é desnecessária, Simon - ouviu ele Baldwin murmurar à medida que o cavaleiro entrava.

Ao canto do que era um quarto comprido e amplo, ele viu o criado Luke a dobrar roupas e a enfiá-las num saco leve de pano, próprio para ser pendurado a uma sela. O homem ficou pasmado, olhando Simon como se duvidasse da sua sanidade mental.

- És o criado de António e Pietro da Cammino? - perguntou Baldwin, aproximando-se lentamente do homem. Este acenou com a cabeça, o que foi um alívio para o cavaleiro, que receara que o outro não falasse inglês. - Como te chamas?

- Luke, senhor.

- Muito bem. Luke, sabes para onde eles foram?

- Não, senhor - respondeu Luke, o olhar ainda fixo em Simon, ao mesmo tempo que o beleguim procurava a bainha com os dedos e colocava a espada no seu interior. - Eles reuniram as suas coisas e foram-se; não sei para onde.

- Ajudaste-os a guardar as coisas?

- Sim, senhor. Depois da gritaria e de tudo o que se passou ao portão, Pietro veio directamente para aqui, e disse-me que aprontasse as suas coisas.

- Como é que ele te pareceu? - perguntou Baldwin.

- Muito preocupado, senhor. Corado e rude. Disse-me que me devia preparar para partir imediatamente e, a julgar pelo olhar dele, imaginei que alguma coisa se devia ter passado.

Simon abanou a cabeça.

- Eles já têm um bom avanço sobre nós, vamos embora. O amigo abanou a cabeça e levantou uma mão.

- Espera, Simon. Não nos apressemos antes de ser necessário. Os cães ainda não estão prontos, e não temos nenhum grupo de pessoas. Ora bem, Luke, dizes que Pietro estava corado e irritado. Deu-te alguma indicação daquilo que o tinha irritado?

- Não, senhor. Disse apenas que tinha sido um idiota e saiu, mal eu tinha começado a guardar as coisas dele. Depois regressou um pouco mais tarde com o pai, e António parecia deprimido. Não me disse absolutamente nada enquanto aqui esteve, só andava de um lado para o outro do quarto.

O cavaleiro continuava a olhar fixamente o criado.

- Quando estáveis em Bayonne, não foram lá atacados por uma multidão?

Luke acenou com a cabeça.

- Sim, foi assustador, sermos perseguidos daquela forma. Tivemos de partir quase imediatamente.

- Sabias que Pietro falou hoje com o pai de Avice? Ele disse a Pietro que se fosse embora e não voltasse a ver a filha.

Simon interrompeu:

- Baldwin, isso é mesmo necessário?

- Pietro deve ter-se encontrado com a rapariga num momento qualquer, se não como é que ele iria saber que ela iria com ele?

- Está bem, então o rapaz foi vê-la, e quando ela lhe disse que ficaria feliz por ir com ele, ele voltou aqui e preparou-se para partir. Podemos agora ir-nos embora?

- Mas havia aquela multidão junto aos portões da abadia, Simon. Será que isso foi apenas uma coincidência fortuita? E as pessoas dispersaram assim que o Abade falou com elas. Será que Pietro e o pai se sentiram realmente tão ameaçados que tiveram de partir imediatamente? Se ele sabia que Avice iria com ele de qualquer maneira, qual era a pressa? Podia certamente ter esperado até ser escuro e partir então.

- Baldwin, estás a entrar em pormenores de mais, e entretanto eles estão cada vez mais longe. Vem, vamos atrás deles!

- Tem paciência, Simon. Ora bem, Luke, não acredito que António tivesse partido à pressa só por uma multidão estar a fazer uma barulheira. Ele estaria seguro aqui na abadia. Por que terá ele concordado em partir tão à pressa? Tão à pressa, a ponto, por exemplo, de te deixar para trás, Luke - terminou Baldwin, imperturbável.

Luke olhou para trás. Sabia que teria de optar entre proteger os seus amos e esconder-lhes os segredos - e neste caso poderia ser visto com desconfiança e possivelmente até ser acusado juntamente com eles -, e desligar-se deles completamente e proteger-se a si próprio. Lançou um olhar rápido ao beleguim.

Simon soltou um lamento exasperado e deixou-se cair num banco.

- Presumo que tenhas uma razão para querer esperar, não? Talvez o rapaz estivesse com pressa porque tinha morto o monge, e agora sabemos que raptou a rapariga...

- Simon, não sabemos nada do género! Não há nada que o relacione com o homicídio de Peter, e nem sequer sabemos se ela não terá sido uma cúmplice voluntária na partida deles. Neste momento não sabemos nada sobre o assunto.

- Senhor, o meu amo António foi acusado pelo pai da rapariga de ser uma fraude, de ter inventado um falso estratagema para roubar o Abade.

- E isso fez com que ele, de repente, fugisse? - perguntou Simon, a duvidar.

- Senhor, eu recusei-me a ir com eles. Dir-vos-ei tudo o que sei se puder ser ilibado de culpa por aquilo que eles fizeram.

Baldwin acenou com a cabeça.

- Fala!

- Conheci António e o filho há dois anos em França. Tinham perdido o criado, que morrera de doença, e ficaram contentes por me terem a substituí-lo.

“O ano passado fomos a Bayonne, à feira, e ficámos numa pequena estalagem. Nessa altura, pensei que era para encontrar novos produtos para vender, pois eles tinham feito uma fortuna com a venda de um grande fornecimento de artigos em metal originários de Toledo, mas depois comecei a ter dúvidas.

Simon estava muito interessado. A história do criado era hesitante, mas o beleguim via que ele estava a chegar depressa ao que queria dizer.

- António passava muito tempo a falar com o Abade de lá, e, sempre que eu ouvia as conversas, eram sempre sobre a mesma coisa - que António tinha uma frota e procurava os melhores fornecedores de mercadorias para transportar para Florença. Parecia-me estranho, pois eu nunca tinha visto qualquer indício de um único navio, quanto mais de uma frota.

“Então, uma noite, António veio ter comigo e deu-me instruções para que eu guardasse tudo e me preparasse para partir. Pensei que ele tinha perdido o interesse no Abade e que queria evitar a conta do alojamento dos cavalos no estábulo e da comida, por isso fiz o que me disseram; mas, quando ouvi António a falar com o filho, a atitude dele era de desprezo e desdém. Eu não fazia ideia porquê; limitei-me a fazer o que me tinham dito. Quando estava tudo guardado, foi o próprio António que nos conduziu aos estábulos, e descobri que um pónei tinha sido carregado com outro material, mas pensei que eram apenas as coisas que António tinha comprado na feira. Nunca me ocorreu... Bem, já lá chegarei.

“Tirámos os cavalos dos estábulos atrás da estalagem pelas rédeas, e, uma vez fora da cidade, montámo-los e afastámo-nos. Cerca de trinta quilómetros mais à frente, havia outra estalagem, e descansámos aí uma manhã antes de voltarmos a partir, mas, pouco mais adiante, ouvimos um som de cavalos a galope atrás de nós, e, quando olhei por cima do ombro, vi um cavaleiro acompanhado de outros, aproximando-se o grupo a todo o galope. António viu-os ao mesmo tempo e gritou-nos para que chicoteássemos os cavalos.

“Eu não sabia o que se passava, mas, se eles nos estavam a perseguir, quer se tratasse de um grupo fora-da-lei ou de um grupo de representantes da autoridade, eu não queria saber: não desejava ser apanhado por tantos homens que me pareciam vir numa missão guerreira, a quilómetros de lado nenhum. Tal como os outros, enterrei as esporas na minha montada e tentei fugir. Mas o pónei era um fardo pesado. A carga era demasiada para que ele pudesse andar mais depressa, e os homens estavam a ganhar terreno em relação a nós. Tentei chicoteá-lo, mas, embora eu lhe tenha feito golpes em muitos sítios da pele, o animal não conseguia acompanhar. Por fim, libertei-o.

- E?

A voz de Baldwin era serena, mas quebrou o silêncio como uma maça a bater em vidro. O criado levantou novamente o olhar.

- Senhor, quando António viu o que eu tinha feito, ficou possesso. Disse: “Para quê ter roubado todo aquele peltre, se vais deixá-los recuperá-lo todo?” Fiquei horrorizado: não fazia ideia de que ele o estava a roubar. Talvez eu tenha feito algumas coisas na vida de que não me orgulhe, mas não sou ladrão, e a ideia de roubar tanta gente, e tudo sob a garantia do Abade... Era como roubar ao próprio Abade.

"Continuámos, e António conseguiu vender alguns artigos e evitar que morrêssemos de fome, e, quando viemos aqui para Tavistock, eu pensava que era para ele começar a reconstruir o seu negócio. Quando ele entrou esta manhã, tal como o tinha feito em Bayonne, apercebi-me de que ele estava novamente a fazer alguma coisa de errado, e decidi deixá-los. Se eles quiserem um colar de corda, façam favor. Eu não quero!

- E - incitou-o Baldwin - que mais? Continua, até aí já sabemos.

Edgar estava de pé junto à porta, e, através dela, viu os cães agitados e impacientes no pátio. Os homens estavam a chegar; os guardas a cavalo colocados em volta da feira para protegerem os viajantes tinham sido chamados para formarem o grupo de perseguição. Pensou em dizer ao amo, mas, vendo a concentração de Baldwin, ficou calado.

- Senhor, Pietro conheceu aquela rapariga, Avice, e apaixonou-se por ela - e, penso eu, ela por ele. Ele combinou encontrar-se com ela na taberna, para permitirem aos pais conversarem e falarem de negócios, na esperança de que cada um considerasse o outro um bom partido, mas, para profundo desgosto de Pietro, o pai insistiu para que partíssemos. Senhor, enquanto nos encontrávamos em Bayonne, havia um mercador que vimos muitas vezes. Também estava na taberna naquela noite. Quando António o viu, apressou-se a sair, quase derrubando um homem que ia a entrar, e Pietro quase que sacou da adaga para abater o homem; foi apenas o facto de eu lhe ter segurado o braço que o impediu de o fazer. Lá fora, António disse-nos que tinha visto o mercador de Bayonne. Pietro não o tinha visto, mas António tinha a certeza absoluta, e disse-nos que, de futuro, evitássemos a taberna para que não fôssemos reconhecidos. Em seguida ele e eu regressámos à abadia.

- E Pietro?

- Ficou: disse que queria esperar pela sua donzela e pelos pais, na esperança de poder falar com ela ou convencê-los a irem para outra taberna.

- Então foi ele - concluiu Simon com voz suave. ! Baldwin coçava o queixo, pensativo.

- E que mais?

Agora Luke estava comprometido. Fechou os olhos por um instante, depois fixou os de Baldwin com firmeza, ao mesmo tempo que completava a sua história:

- Senhor, esta manhã Pietro estava furioso com um monge que tinha estado a “importunar”, como ele disse, a donzela dele. Saiu para se encontrar com ela, e, quando regressou, como digo, estava pálido e ansioso. Não quis fazer-lhe perguntas - sei do que ele é capaz. Por vezes tem mau génio. Agora sei que o monge está morto.

- E formaste as tuas próprias conclusões, é óbvio - disse Baldwin, e levantou-se. - Muito bem, Edgar, eu estou a ouvi-los; não é preciso acenares-me tanto. Luke, vais ficar aqui até regressarmos. Vem, Simon, de que estás à espera? Temos homens para apanhar.

No pátio encontraram o Abade a falar com o criador de cães, ao mesmo tempo que se viam homens a praguejar contra os cães, que se babavam junto aos cascos dos cavalos. O próprio Abade Champeaux parecia não estar ciente do caos, e Baldwin presumiu que ele estava tão habituado a caçar e ao barulho que os seus lebreiros faziam que, para ele, este era um som quase relaxante. O cavaleiro pediu ao Abade que tratasse das coisas para que Luke ficasse detido, e, em seguida, preparou-se para montar.

O cavaleiro ficou contente ao reparar, quando passava a perna por cima do dorso da sua égua árabe, que os cães pareciam ser todos de boa raça. Eram de uma boa cor castanha-amarelada, e maiores do que o seu próprio cão, com narinas largas engastadas em focinhos compridos, e todos se distinguiam por um peito poderoso, com fortes pernas dianteiras e traseiras que apontavam não só para o facto de serem capazes de manter uma velocidade constante, mas também para a capacidade de derrubarem caça grossa. A Baldwin não escaparam as pesadas coleiras de caça, todas de couro forte e com a sua marca, em que o abade investira para a sua matilha. As coleiras não eram demasiado ostentosas, não eram ornamentadas a prata nem sequer a ferro, mas o cavaleiro percebeu que eram caras, e o que viu fê-lo esboçar um sorriso. O Abade tinha orgulho nos seus lebreiros.

Baldwin esperava que esse orgulho fosse hoje justificado.

- Enviar-nos-eis isto para a abadia - afirmou Margaret, preferindo presumir a condescendência do homem do que oferecer-lhe uma oportunidade de recusar. Com ar infeliz, ele acenou com a cabeça. Já fora forçado a regatear mais do que era sua intenção, e valia a pena concordar só para se ver livre daquela mulher avarenta.

Jeanne mantinha uma cara séria, à medida que Margaret instruía severamente o homem, mas, mal elas se tinham afastado um pouco pela rua, começou a rir:

- O pobre diabo ficou contente de te ver pelas costas.

- Teria ficado preocupada se não ficasse - disse Margaret, complacente. - Isso só poderia significar que ele pensava que tinha ficado com a melhor parte do negócio, e eu não queria que ele tivesse lucrado de mais comigo. Eu não fui demasiado dura para ele - no fim, ele ficou bastante feliz em concordar com as minhas condições.

- Com certeza, senhora- disse Jeanne, simulando uma vénia. - Ele devia ficar-te agradecido por te teres dignado visitar a sua tenda, e muito mais por tere-lo agraciado ao fazeres negócio com ele.

- O tecido ficará bem no meu aparador.

- Sim, e o outro ficar-te-á bem - disse Jeanne.

Margaret riu. Tinha convencido o homem de que era potencialmente bom para o seu negócio ter como cliente a esposa do beleguim de Lydford, e, a princípio, ele desvelara-se em esforços para lhe mostrar os tecidos mais finos que tinha, mas o seu entusiasmo pela conversa tinha esmorecido quando se apercebeu de que o objectivo dela era ganhar o melhor tecido pelo preço do mais barato.

- A culpa não é minha - disse ela. - Fui criada como filha de um agricultor, e ensinaram-nos a regatear e a poupar o máximo dinheiro possível. A minha mãe teria ficado horrorizada se me visse deitar fora bom dinheiro só para não me dar ao incómodo de regatear um pouco.

- Se ela fosse como a esposa do meu tio da Borgonha, ficaria igualmente chocada ao ver-te gastar tanto dinheiro em alguns tecidos finos.

Margaret ignorou o tom de suave censura, uma vez que o comentário lhe aguçara o interesse.

- Os teus tios criaram-te?

- Sim, depois de os meus pais terem morrido, levaram-me com eles.

- Deve ter sido uma grande aventura ir para tão longe - disse Margaret, com um laivo de inveja. O mais longe que ela viajara fora até Tiverton.

- Não para uma menina de apenas três anos de idade. Não fazia ideia de como era a minha casa, mal me lembrava dela, e, passado pouco tempo, tinha-me esquecido de como a minha mãe era.

- Não pode ser!

Jeanne olhou-a, ouvindo o tom de incredulidade. Lembrou-se demasiado tarde de que Margaret tinha uma filha, e fez uma careta de desculpas.

- Tenho a certeza de que, se eu tivesse sido um pouco mais velha, teria sido capaz de me lembrar do rosto dela, mas era muito nova para perder o pai e a mãe.

- É claro. Mas diz-me, o teu tio não ficou triste ao ver-te casar com alguém que vivia tão longe dele? Deve ter sido um horrível sofrimento para ti ter perdido duas famílias quando casaste.

Jeanne observava uma tenda de chapéus.

- Nem por isso, não. Tendo perdido os meus pais, não me importava muito de perder um tio. E ele não sentia a minha falta. Para ele, eu era um constante sorvedoiro na sua bolsa, e pouco mais. Só pode ter sido um alívio para ele quando eu parti. Ele tinha investido muito dinheiro a assegurar que eu recebia uma boa educação, e instruía-me em regras de etiqueta e em boas maneiras de acordo com a minha posição social. Quando Ralph Liddinstone se apoderou de mim, penso que, de alguma maneira, o tio viu isso como prova do seu êxito: tinha-se visto livre de um elemento da sua casa que lhe ficava caro. Foi como se tivesse vendido um dos servos mais inúteis por uma quantia razoável.

Havia um tom de tristeza, de aceitação de uma situação de infelicidade com equanimidade, e de súbito, Margaret sentiu que tinha uma capacidade de profunda penetração na vida daquela mulher. Margaret fora sempre amada, pelos pais, desde o dia em que nasceu, e, mais tarde, pelo homem com quem se casara e pela filha; Jeanne nunca conhecera tal amor avassalador. Não fora desejada como filha, mas o tio aceitara-a quando não teve outra alternativa, e, quando pôde, livrou-se dela o mais depressa possível, entregando-a a um homem que, aparentemente, não a amara, e que, em vez disso, a tratara como a qualquer outro objecto possuído, algo a agredir quando desobediente.

Isso fez com que Margaret enfiasse o braço na outra, num gesto solidário, e, embora Jeanne parecesse bastante surpreendida, ficou, era óbvio, igualmente grata.

Estavam ainda de braço dado quando depararam com um pequeno grupo de actores que representavam um mistério, e ambas pararam, como que por mútuo acordo, para assistirem.

A história estava tão mal representada que Margaret não tinha a certeza que tema era tratado. A determinada altura sentiu que poderia ser sobre o Juízo Final, mas era difícil ter-se a certeza, em parte porque ela nunca tinha estudado, mas também porque dava consigo distraída durante os sermões - isso foi quando a filha começou a perder o interesse nas celebrações, olhando em redor à procura de alguma coisa para fazer, e ela tinha dificuldade em concentrar-se.

Jeanne não estava nada impressionada com a peça, mas alguém na multidão lhe chamou a atenção.

Havia um homem, provavelmente não teria mais de vinte e poucos anos, que estava com o filho a uma ponta do público. Sempre que os actores diziam as suas falas, ele apontava para eles, explicando o que estava a acontecer, e quando o filho se queixava de não ver bem, ele erguia a criança e sentava-a nos ombros.

Espontaneamente, afluiu-lhe à mente o pensamento de que Baldwin seria igualmente amável e generoso se fosse pai. Tal pensamento fê-la esboçar um sorriso breve.

Não fazia sentido fornecer aos cães lebreiros o cheiro das roupas de António ou Pietro; eles iam a cavalo, e a hipótese de um cão apanhar o rasto dos homens era remota. Em vez disso, deram aos cães um velho cobertor da sela de António - um cobertor que tinha sido usado pelo seu cavalo. O responsável pelos cães não estava confiante, pensando que os seus lebreiros pudessem confundir o animal com outro cavalo, mas era o melhor que podiam fazer. Quando todos os cães tinham farejado o cobertor, o homem colocou ao ombro um grande saco de couro e montou. A caçada saiu à rua.

As movimentações tinham sido tão intensas que os cães não conseguiam discernir o rasto, e Simon olhou Baldwin.

- Se eles se encaminharam para a charneca, temos tempo para os encontrarmos mais tarde. Eu sugeriria ou a estrada de Brentor ou a costa. Certamente que eles tentariam fugir por um desses itinerários, não te parece?

- Penso que sim. Vamos dirigir-nos para Plymstock para ver o que podemos descobrir; se não descobrirmos nada, podemos voltar para trás e tentar a estrada de Brentor, e, por fim, a charneca.

Dizendo isto, Baldwin gritou ao responsável pelos cães, e a cavalgada partiu a um galope leve, os cães a avançarem como uma sólida massa. Lembravam a Baldwin um enxame de abelhas; cada um era individual, mas agia como parte de um todo. Caudas no ar e a abanar, davam todo o aspecto de prazer por terem sido libertados dos seus canis e terem uma nova presa para caçar.

A estrada passava pelos pomares e pelos viveiros de peixe da abadia, e, pouco depois, encontravam-se fora da cidade propriamente dita. À esquerda deles havia a estrumeira a tresandar ao lixo da cidade, e, à ponta, havia gente da cidade, lançando lixo e retirando-se rapidamente. O insuportável fedor pairava sobre a estrada, e Simon estava divertido com a reacção dos cavaleiros. Alguns calaram-se, uns poucos cobriram o rosto com os capuzes, enquanto outros recorreram ao humor grosseiro, rindo alto da repugnância dos companheiros. O próprio Simon não gostava do cheiro, mas estava acostumado a ele; Baldwin, via ele, mostrava o seu desagrado com um trejeito dos lábios - o cavaleiro era oriundo de uma zona campestre, e este fedor de putrefacção nunca era tão concentrado onde ele vivia. Aí, o lixo humano era reduzido a cinza para secar e perder a sua virulência, até poder ser espalhado nos campos para ajudar os cereais a crescer.

Baldwin ficou contente por ver a estrumeira para trás. Para além dela, o ar do campo tinha um cheiro mais adocicado, como se a natureza tivesse erguido uma barreira invisível na distância em que o homem podia poluir a atmosfera. Agora, em vez daquele cheiro nauseabundo, vinha até ele o odor das ervas do prado cortadas de fresco, o odor doce das plantas aromáticas e, de vez em quando, a fragrância pura do alho silvestre.

Continuaram a cavalgar até terem percorrido quase dois quilómetros, e, em toda aquela distância, os cães não detectaram nada. O criador manobrava-os bem e mandava-os andar em círculos de ambos os lados da estrada, caso a presa a tivesse deixado para evitar deixar rasto, mas os lebreiros farejaram por algum tempo, regressando depois para junto dele, as cabeças inclinadas para um lado em jeito de busca, as caudas a abanarem devagar, e, por fim, Simon teve de admitir a derrota.

- Tentemos a estrada de Brentor - disse.

O responsável pelos cães acenou para a frente.

- Há um carreiro lá em cima que nos leva de volta a Hurdwick. Podemos apanhar lá a estrada de Brentor, em vez de fazermos todo o caminho de volta a Tavistock e tornarmos a subir.

Simon acenou com a cabeça, e o responsável pelos cães meteu esporas ao cavalo para que avançasse, chamando os cães enquanto o fazia. O resto do grupo seguiu-o.

Após os acontecimentos dos últimos dois dias, Baldwin sentia-se aliviado por ter uma tarefa para realizar que envolvia esforço físico. Isso deixava-lhe a mente livre para pensar: em primeiro lugar, nas coisas que ouvira ao criado dos venezianos, mas depressa os seus pensamentos regressaram a Jeanne.

Era tão bonita que o intimidava. Baldwin estava convencido de que os seus sentimentos eram correspondidos, mas era difícil imaginar porquê - ele não era suficientemente arrogante para mentir a si próprio, e sabia que dificilmente seria o pretendente perfeito. Tinha apenas uma pequena propriedade, uma quinta, que mantinha ao abrigo dos seus direitos de serviço ao seu senhor, e até o seu modo de vestir - aqui ele olhou para baixo, para a sua túnica puída mas confortável, com uma careta - era um embaraço, como Margaret fizera questão de lhe dizer.

O criador de cães conduziu-os para a direita de uma bifurcação, e encontraram-se num carreiro mais pequeno e coberto de erva que serpenteava entre montes e vales, até que chegaram a uma encruzilhada onde o responsável pelos cães levou os lebreiros para Norte. Este caminho depressa virou novamente para Nordeste, de forma que estavam a recuar quase em paralelo ao primeiro rumo que tomaram à saída da cidade. Passava por várias aldeias pequenas e quintas, e, quando chegaram a outra encruzilhada, o criador de cães deixou os lebreiros andarem em círculo, para o caso de poderem encontrar um rasto, mas, mais uma vez, eles não mostraram sinais de excitação.

- Mestre criador - gritou Simon. - É esta a estrada de Brentor?

- Não, senhor - respondeu o criador de cães calmamente. - Esta é a estrada para Milton Abbot, mas eu queria certificar-me de que os patifes não tinham vindo por aqui em vez de irem até Brentor.

Simon acenou com a cabeça. O criador de cães sabia, obviamente, do seu mester, e estava a verificar todas as estradas que partiam de Tavistock. A cidade da abadia estava inserida no seu vale, e dela partiam estradas para Norte, Este e Oeste, embora nenhuma levasse para Sul, por cima da charneca do outro lado do rio, e o criador de cães, na sua busca dos venezianos, estava a investigar cada caminho como se fosse o carreiro de um veado. Partiram novamente para a estrada seguinte. Esta era aquela que subia a colina em direcção a Brentor.

O responsável pelos cães pôs os seus lebreiros a examinar a estrada, incitando-os com gritos entusiásticos e assobios, e esperou enquanto eles andavam em círculo junto à encruzilhada. Simon observava, a ponta da língua a espreitar-lhe entre os lábios, na sua ansiedade por vê-los arrancar, mas depois suspirou, à medida que os cães começaram a parar, a sentar-se e a coçar-se. Em seu redor, Simon via os homens a relaxarem nas suas selas, deixando as lanças descaírem um pouco da vertical, perdendo o interesse, um ou dois a conversarem.

- Parece que, afinal, devíamos ter ido para a charneca - disse ele a Baldwin com resignação, mas, antes que o cavaleiro pudesse comentar, o criador de cães aproximou-se:

- Olhai para ela, senhor.

Seguindo o dedo indicador do homem, Simon viu uma cadela a deslocar-se para cá e para lá, num passo constante, embora não muito rápido, a pouca distância dos outros cães. O animal parou, olhou para trás, para a matilha, a cabeça inclinada para um lado com uma cómica expressão de dúvida, a testa enrugada.

- Ela acabou de encontrar o rasto de uma raposa ou de outro animal - disse o beleguim, perdendo o interesse, e virou-se para Baldwin.

Para sua surpresa, o cavaleiro mal podia controlar o seu entusiasmo. Baldwin caçava muitas vezes com os seus próprios cães, e reconheceu os sinais. A cadela estava com dúvidas devido à existência de outros odores fortes, e enquanto a observava, ele disse em voz baixa:

- Mestre criador?

- Sim, meu senhor, creio que sim. Os sacanas vieram por aqui - disse o homem, após ter lançado um olhar fulminante a Simon.

O beleguim olhava de um para o outro.

- Podes dizê-lo por um cão fazer aquilo?

- Ela é a melhor, senhor. Está só a certificar-se, ides saber não tarda nada.

Logo a seguir, a cadela soltou um latido agudo, que foi recebido pelos outros cães da matilha, que logo se juntaram a ela, levando insistentemente os narizes à terra da estrada e começando a ladrar, à medida que reconheciam o cheiro difícil de captar. Os latidos e os uivos adquiriram uma qualidade persuasiva, e, em redor, os homens começaram a mexer-se nas selas e a agarrar as armas com mais firmeza, quando viram que os cães, finalmente, tinham apanhado o rasto. De súbito, a matilha avançou.

Era uma experiência terrível para Simon. Nunca antes participara numa grande caçada e ver aquelas magníficas criaturas a transbordar entusiasmo era um pouco como observar a torrente em maré cheia a precipitar-se impetuosamente pela Garganta de Lydford. O chefe da matilha soltou um longo uivo, depois calou-se, cedendo a uma terrível determinação, ao mesmo tempo que começava a caminhar para Norte num passo vivo e rápido, o resto da matilha a ocupar o seu lugar atrás, até que ele se transformou na ponta de uma seta de cães que se colocava em movimento. À medida que os cães mais jovens o alcançavam, o chefe tentava mordê-los à esquerda e à direita e apressava o passo. Outros aumentavam a velocidade para o acompanharem, e depressa se formou uma inevitabilidade naquela pressa de romper, que, pelo seu silêncio súbito, se tornou ameaçadora. Os lebreiros estavam a reservar toda a sua força para a perseguição e não voltariam a ouvir-se enquanto não tivessem apanhado a sua presa e a tivessem imobilizado.

Sem dizer mais nada, o criador de cães usou o chicote na sua montada, o rosto traindo o entusiasmo que sentia, e, quando Simon olhou para Baldwin, viu o mesmo olhar no rosto do cavaleiro.

- Vamos!

Era como começar uma corrida de cavalos. Metendo esporas aos flancos da sua montada, Simon sentiu a força a perpassar os quartos traseiros do seu cavalo, ao mesmo tempo que o animal executava um salto para a frente com uma súbita explosão de energia, e ele teve de se baixar e de lhe agarrar os flancos com os joelhos para se manter sentado. De detrás de si, ouviu o som de ferraduras em pedra, depois uma rápida difusão de cascos na terra bem batida da estrada, à medida que os cavaleiros metiam esporas às suas montadas e encontravam a sua própria posição na confusão, cada homem a empurrar os outros do seu caminho para arranjar um espaço livre no qual o seu cavalo pudesse avançar. A seu lado, um cavalo empinou-se, mas o cavaleiro não perdeu o controlo e forçou o animal a torcer-se a meia altura, as patas dianteiras a agitarem-se, até estar virado na direcção certa, girando, em seguida, a cabeça na mesma direcção.

O som dissonante e vacilante de muitos cascos hesitantes a ganharem velocidade transformou-se num rítmico rufar de tambor, à medida que todos eles galopavam brandamente em uníssono, e, de repente, o som tornou-se num sólido trovão.

Para Simon, era como se os cavalos imitassem a matilha. Os lebreiros tinham formado um grupo em forma de cunha, o chefe destacado à frente, enquanto que os homens que os seguiam formavam outro grupo, atrás do criador de cães. Baldwin, viu ele, refreava a sua égua árabe, que queria partir a galope. Ela tinha a energia e a velocidade para ultrapassar qualquer outra montada do grupo.

Ouvia-se um barulho terrível: o couro rangia e os arreios chocalhavam ao mesmo tempo que os cavaleiros avançavam com ímpeto, cada vez mais depressa, o vento assobiava e rugia nos ouvidos de Simon, quase a ensurdecê-lo, o sacudir e o estalar dos mantos a ondearem ao vento como velas, e, a abafar tudo, a batida, uniforme e terrível na sua força violenta, dos cascos a martelarem o chão por baixo deles. Por um breve segundo, o beleguim perguntou-se o que sentiria ao ver uma cavalaria inteira de cavaleiros nas suas montadas vindo ao ataque na sua direcção, mas colocou a ideia de parte. Precisava de toda a concentração para meramente se aguentar no dorso do seu cavalo.

Começaram a subir uma colina, passando pelo Campo de Forches, onde o Abade tinha a sua forca, e cavalgaram por uma curta planície. Na extremidade mais longínqua, os cães correram e rodearam um agricultor que seguia numa carroça e que praguejou alto e bom som, tentando manter o seu boi quieto, enquanto os lebreiros se precipitavam para ambos os lados do animal, apenas para que os cavaleiros que vinham atrás passassem a galope. Quando olhou para trás por cima do ombro, Simon viu um homem embater noutro, quando ambos tentavam tomar o mesmo caminho, e um caiu, de braços abertos, para uma barreira, continuando o cavalo sozinho, os estribos a voarem e a balançarem de lado, enquanto o animal lutava, de olhos assustados, para conservar o seu lugar entre os outros.

Encontravam-se agora na grande planície do Campo de Heath, próximo de Brentor, e o rochedo cónico que dava o nome à povoação estava, imponente, à direita deles, a igreja no topo a constituir uma visão reconfortante nos arredores ermos. Continuaram ainda com o mesmo ímpeto, os lebreiros tão silenciosos e intrépidos como os próprios cães do demónio na perseguição do seu implacável objectivo.

Baldwin não pôde deixar de esboçar um sorriso de contentamento ao sentir o desejo urgente da sua égua árabe de ultrapassar todos os outros cavalos nesta corrida. Fora treinada exactamente para um exercício como este, sentiu ele. A caça era a única forma de vida para um homem, com o sangue a correr-lhe tão depressa nas veias como o ar a passar-lhe pelas orelhas, a excitação da busca da presa, e a capacidade de manter a montada sob controlo, tudo combinado para fazer desta uma experiência única em excitação.

Contudo, ele sabia que o fim da perseguição seria a captura de dois homens. E a sua captura poderia ser, pouco depois, seguida da morte dos mesmos, pendurados na corda da forca do Abade. Os pensamentos andavam-lhe em turbilhão na cabeça, o prazer glorioso e febril do ataque; o final sinistro da perseguição.

Havia tantas vidas ligadas neste caso; as de Peter e de Torre, de Avice e de Pietro, de António, de Elias e de Jordan. Era provável que Lybbe fosse enforcado pelas suas ofensas passadas, e se Pietro fosse considerado culpado, como sugeria o testemunho de Luke, de ter assassinado Torre e possivelmente Peter, também ele morreria.

Mas Baldwin estava preocupado com um pormenor. Havia uma pista que lhe escapara, algo de vital que lançaria luz sobre tudo o que ele ouvira hoje.

 

Finalmente chegou até eles uma onda de música vinda dos lebreiros.

- Escutai! - gritou o criador de cães, dominado pela excitação. - Agora são nossos. Não podem fugir.

Baldwin acenou com a cabeça, concordando. Raramente ouvira cães de caça manifestarem-se tão fortemente, e, quando o faziam, era um sinal seguro de que a presa se encontrava bem próxima.

Olhou em redor, enquanto continuavam. Após Brentor, tinham tomado o caminho para Nordeste, e seguiam agora pela velha estrada por baixo de Lydford, em direcção à charneca. O tempo aqui estava sombrio, com espessas nuvens cinzentas por cima das suas cabeças. Aqui, ao olharem para cima e ao sentirem o fresco húmido no ar, era difícil acreditar que em Tavistock o tempo estava calmo e claro, com poucas nuvens num céu azul-escuro.

Baldwin reconhecia a maior parte da paisagem devido às suas viagens para visitar Simon, e esta zona era-lhe familiar. Seguiam a um galope leve, para pouparem os cavalos, e ele tinha tempo para examinar a área. Mais à frente, um pouco para a direita, havia uma colina baixa com pequenos dólmenes no cimo e que Baldwin reconheceu como a Colina Branca. Logo à esquerda estava Doe Tor, com o grande monte de Great Links Tor a elevar-se por detrás. O grupo continuou a sua perseguição ao longo de um estreito vale com um riacho que corria num fio, calmamente, na sua base, com Sharp Tor a erguer-se à frente deles. No momento exacto em que Baldwin estava a olhar, viu, à frente, o fumo ténue levantado pela batida de cascos no pó seco.

Havia figuras minúsculas em cima dos cavalos. Era difícil ver, enquanto seguiam num passo tão constante, mas ele tinha a certeza de que eram três cavalos - queria dizer que Avice estava com eles, reparou Baldwin. A visão deu-lhe um entusiasmo acrescido para prosseguir. Olhou à esquerda e à direita e viu que também os outros tinham vislumbrado o objecto da sua perseguição.

- Uma vez que eles se encontrem entre as rochas, levará séculos a tirá-los de lá - gritou Simon, e Baldwin acenou com a cabeça, com ar sombrio. Se António e o filho estivessem dispostos a lutar, seria o cabo dos trabalhos para os fazer sair de lá. A sua única esperança era que os três cavaleiros estivessem mais cansados do que o grupo de perseguidores. Mas, embora os cavalos que eles perseguiam mostrassem sinais de exaustão, era claro que os venezianos ganhariam a segurança das rochas antes que eles pudessem impedi-los, e Baldwin soltou uma praga em voz baixa.

Porém, ele não contara com os lebreiros do Abade. O criador de cães gritou aos animais, assobiando-lhes e cantando-lhes numa curiosa voz aguda, e, de súbito, a matilha afastou-se com grande rapidez. Os homens tiveram de chicotear os cavalos para tentarem acompanhar os cães, mas foi em vão. Não havia forma de alcançarem os lebreiros que corriam. Baldwin viu os venezianos a olharem, irritados, por cima dos ombros, os rostos a deixarem transparecer tanto raiva como medo, à medida que calculava a distância que os separava dos perseguidores, enquanto que, ao lado deles, a rapariga seguia, aos solavancos, numa égua.

- Não - disse Baldwin entredentes -, não é como Bayonne, onde escapastes porque tínheis partido com tempo para descansar as montadas antes que os perseguidores vos alcançassem. Desta vez os vossos cavalos estão tão cansados quanto os nossos, e os nossos são de melhor raça. Desta vez não escapareis.

Os venezianos tinham um último e desesperado lançamento a fazer. Tal como em Bayonne tinham distraído o grupo de perseguidores ao libertar uma besta de carga, agora, enquanto Baldwin observava, viu o cavalo da rapariga mudar de direcção e virar para Norte. O cavaleiro recusava-se a ceder à tentação de correr atrás dela, e gritou por cima do ombro aos dois cavaleiros que se encontravam mais próximos para que a seguissem e a trouxessem de volta. Os outros continuaram.

Os venezianos chegaram às rochas, e encontravam agora outro obstáculo à sua fuga. Em redor do pico rochoso havia uma profusão de pequenas pedras, e em qualquer uma delas os cavalos poderiam fracturar uma perna e cair. Não podiam prosseguir àquela velocidade louca e vertiginosa.

Mas os lebreiros podiam. Com patas fortemente almofadadas, não receavam pedras nem rochas, e passavam por cima dos pedregulhos com o entusiasmo impaciente de cães que, finalmente, vêem a sua presa.

- Vamos! - gritou Simon, e o grupo de perseguidores avançou para a colina.

Baldwin ouviu o tom da diferença no ladrar. Enquanto corria com a presa à vista, cada cão soltara latidos insistentes, chamando a atenção dos humanos para o rasto. Agora ladravam continuamente, e Baldwin, como caçador que era, sabia o que isso significava: a presa estava encurralada. Reduziu a velocidade e deu à sua égua árabe tempo para escolher o caminho. Se os lebreiros tinham os homens, não havia qualquer razão para arriscar a vida dela.

A inclinação da colina era bastante íngreme e todos os cavalos foram forçados a caminhar com cuidado. Ainda na frente, o criador de cães incitava a sua montada a prosseguir, o rosto cheio de ansiedade pelos seus cães, e Baldwin sabia o que ele estaria a pensar. Seria que os homens, agora encurralados pela matilha, tentariam matar-lhe os cães? Já acontecera antes numa tentativa para capturar criminosos, quando estes tinham acesso a piques ou lanças. Era bastante fácil levar os cães a atacar, e espetá-los numa espada ou numa adaga comprida como carne para assar por cima da fogueira. Como qualquer bom criador ou treinador de cães, o homem do Abade receava apenas pelos seus preciosos cães. Significavam mais para ele do que a sua própria vida, e, pensou Baldwin, ai de quem tenha magoado os animais deste criador de cães!

Ao cimo da colina havia um género de planície arredondada, e foi lá que encontraram os homens, num pequeno beco rochoso. Com paredes altas de ambos os lados e à frente, os dois homens tinham desmontado e estavam diante dos cavalos, enquanto os cães andavam em círculo, ofegantes, olhando os homens com cuidadosa expectativa.

Simon parou, descansando o braço na cernelha da montada, a ofegar como se tivesse vindo a correr, ele próprio, todo o caminho. Fitou Baldwin de lado.

- Parece que eles irão connosco demasiado facilmente, não parece?

- Oh, penso que sim - concordou Baldwin, ao mesmo tempo que os outros elementos do grupo se lhes juntavam.

O cavaleiro não tinha a certeza se os dois venezianos se tinham apercebido de que tinham companhia. Não despregavam os olhos dos cães, que ladravam, rosnavam e uivavam à sua volta. O cavalo de António saltava com o dorso arqueado, enquanto o dono praguejava, irritado, agarrado às rédeas e agitando o chicote perto dele. O de Pietro parecia quase morto, com a cabeça caída quase a tocar o chão. No momento em que Baldwin os olhava, ele afagava-lhe a cabeça. Esse simples acto de conforto despertou no cavaleiro alguma compaixão. Um homem que fosse capaz de honrar o seu cavalo, mesmo quando este perdera a corrida, deve ter alguns princípios, embora ele tivesse de admitir que fosse natural que qualquer ladrão ou fora-da-lei considerasse a sua montada mais importante do que uma esposa, companheiro ou escudeiro - o cavalo seria sempre o método de fuga e de segurança, e merecia a melhor comida e água, mesmo se isso significasse que o cavaleiro ficaria com sede ou fome.

O criador de cães deixou-se cair do cavalo, gritando aos cães e atirando-lhes migalhas da sua bolsa de couro. Gradualmente, os animais deixaram de andar em círculo e afastaram-se, e Simon pôde, então, examinar os dois venezianos.

António estava de pé, ofegante do esforço, o chicote ainda na mão, ao mesmo tempo que olhava os homens de semblante carregado. Reconhecendo Baldwin e Simon, as suas feições revelaram surpresa:

- Sir Baldwin, vós também?

O filho deixou-se cair para se sentar junto à cabeça do cavalo. Afagava o pescoço do animal e evitava olhar Simon nos olhos.

Com um salto, o beleguim desceu do cavalo e fez sinal aos homens para que descansassem.

- Quem esperáveis? O Abade em pessoa?

- Não me renderei! - declarou António, e sacou da espada.

- António - disse Baldwin resignadamente -, de que servirá isso? Não ajudará a causa do vosso filho.

- Que causa? - perguntou António reservadamente, os olhos mais estreitos.

- Ele está preso. Foi acusado do homicídio de Torre e do monge Peter.

- O quê? Pensei que estavas com a multidão que aquele maldito frade atiçou contra nós!

- Eu? Quem me faz semelhante acusação?! - perguntou Pietro. Baldwin e Simon trocaram um olhar. A surpresa dele parecia autêntica. O beleguim disse:

- Acusastes-vos a vós próprio quando decidistes deixar a cidade com esta pressa toda.

António abanou a cabeça.

- Isso foi por causa da multidão. Não ouvistes? Aquelas pessoas foram incitadas pelo frade para me atacarem. Não quisemos ficar num local onde as nossas vidas pudessem estar em perigo.

- Não teve nada a ver com o medo de se descobrir que éreis o assassino? - perguntou Simon sarcasticamente.

- Não sei nada de assassínio nenhum - afirmou Pietro. - Queria fugir para poder estar com Avice, é só isso.

- E eu juntei-me a ele voluntariamente.

Baldwin virou-se para ver a rapariga na sua égua, levada pelas rédeas por um guarda transpirado, que murmurou, aborrecido:

- Ela fez-nos ir até meio caminho de Oakhampton. Sacudindo os pés para se libertar dos estribos, Avice saltou para o chão e correu para Pietro.

- Eu amo-o e não casarei com o homem que o meu pai escolheu. Este é o homem com quem me casarei.

Baldwin coçou a face e lançou um olhar ao amigo. Com ar de dúvida, Simon observava o casal.

Não havia como negar o facto de que o rapaz não tinha aspecto de assassino louco, do tipo capaz de matar um monge por considerá-lo seu rival. Em seguida, outro pensamento aflorou à mente do cavaleiro: - Avice, quando concordastes em fugir com este rapaz? E Baldwin sabia a resposta antes de ela começar a falar.

 

Jordan e Elias Lybbe estavam sentados, a maior parte do tempo em silêncio. O Sol movia-se vagarosamente em direcção ao horizonte, e o calor sufocante do meio-dia na cela cedia o lugar a um frio húmido. Durante o dia a temperatura subira uniformemente. As paredes de pedra deviam ter mantido fresca a pequena prisão, mas a larga janela de grades permitia ao ar quente inundar o interior, e, na ausência de vento, os dois homens sufocavam, transpirando profusamente. A pouca água que lhes tinham dado quando entraram há muito que acabara, e ambos sentiam a sua falta.

- Nunca devias ter voltado.

Jordan sentia como se a pele da língua estivesse coberta por pele de coelho, e tinha dificuldade em engolir.

- Parecia correcto regressar para te ver. Havia tanto tempo eu estava ausente, queria apenas ver mais uma vez a cidade em que nasci - sabia que o irmão não podia compreender as saudades de casa a doerem-lhe nos ossos. Fora insensato voltar, como disse Elias, mas era uma necessidade que não podia ser recusada.

- Não havia razão - persistia Elias, infeliz.

- Parece que não.

- Pergunto-me o que me irá acontecer...

- Devias estar bem. Em breve apanharão os venezianos, e então estarás bastante seguro. Não é o meu caso: eu irei para a forca.

Elias arqueou as pernas e pousou a cabeça sobre os joelhos. Sabia que o irmão tinha razão. Uma vez declarado fora-da-lei, não podia haver defesa para um homem.

- Não devias ter voltado - repetiu ele com ar sombrio.

- Pelo menos voltei a ver a minha cidade - disse Jordan calmamente. - Vivi demasiado tempo no estrangeiro. A terra é boa, rica e fértil, e as pessoas vivem bem, mas não é a minha casa. Não podia morrer lá feliz. Aqui posso morrer satisfeito.

- Nunca casaste? , - Sim. Ela apanhou febre e morreu. Não tivemos filhos.

- Aquele rapaz... não é teu?

- Não -Jordan mordeu o lábio. Esperava que Hankin estivesse bem. - Tomei conta dele quando tinha acabado de ficar órfão. Serviu-me de consolo, e eu consegui mantê-lo vivo, por isso estávamos bem um para o outro.

Elias ficou com demasiado calor, enrolado como estava, e estendeu as pernas para a frente, gemendo com a dor nas articulações. Precisava de água, mas não foi isso que lhe tornou a voz áspera.

- Isso foi para reparar o que tinhas feito?

- Não fiz nada de que me envergonhe, Elias, acredita - disse Jordan, cansado. Era-lhe difícil falar do assunto, fora há tanto tempo. O machado ensanguentado saltou-lhe mais uma vez à mente, a boca da mulher escancarada, como se estivesse a gritar, deitada ao lado do corpo do marido, a menina protegida atrás das saias dela. A lembrança fê-lo fechar os olhos com um estremecimento. Embora ele, na altura, não o tivesse sabido, aquele acontecimento marcou o fim da sua velha vida. E agora regressara para o assombrar e acabar por completo com a sua existência.

- O bando de malfeitores matou-os todos, não foi? - perguntou Elias, sem piedade.

- O que poderia eu ter feito contra tantos? - Jordan encostou a cabeça à parede. Sempre soubera que o irmão não acreditava nos seus protestos de inocência.

Elias desviou o olhar. Um elemento do grupo denunciara os outros, confessou em troca da vida, jurando que dizia a verdade. Não havia razão para acusar Jordan, se ele não tivesse tido nada a ver com o assunto.

- Mas os sacanas deixaram um órfão, tal como aquele com que ficaste.

- Eu lembro-me - pela janela, Jordan fixava o céu límpido. Não era coisa que ele pudesse esquecer. A rapariga caíra com um golpe, e, com todo o sangue que havia no quarto, os homens tinham presumido que estava morta. Fora, para ele, um enorme alívio quando, mais tarde, vira que o peito dela mexia, e ele erguera-a e levara-a daquele ossuário. Nunca lhe ocorrera que, depois de a ter salvo, pudesse ser acusado, mas fora-o, de facto, e teve de fugir para salvar a vida antes que o prendessem.

- A única coisa que me alegra é ter podido assegurar-me de que ela viveria.

Elias suspirou e mudou de posição. As pedras do chão enterravam-se-lhe nas nádegas descarnadas.

- Sim, mas... e o rapaz?

- Que rapaz?

- Aquele que salvaste, aquele que está na tua tenda.

- Hankin? Suponho que vai ter de se arranjar sozinho. -Jordan levantou mais uma vez os olhos para o céu, e teve de pestanejar para afastar as lágrimas, que não eram só de pena de si próprio, mas também de inutilidade. Não havia mais nada que ele pudesse fazer para ajudar o rapaz, disse a si próprio. Hankin podia ser capaz de se sustentar a si próprio... se o Abade não ficasse com tudo o que Jordan possuía, como multa, ele podia dar tudo ao rapaz.

- Sem nada, ele não tem muita hipótese de sobreviver. Jordan encarou o irmão;

- Se te safares disto, Elias, promete-me que tomas conta dele.

- Eu?!

- Alguém tem de o fazer, e o pobre rapaz não tem ninguém. Ele mal fala inglês agora, há tanto tempo que está longe daqui. Jura, Elias - é a última coisa que te peço que me faças.

- E não é nenhuma insignificância que queres que eu faça - só que passe o resto da minha vida a proteger um rapaz sem barba! - resmungou Elias, mas, pouco depois, Jordan ouviu a promessa de que precisava, e pôde então relaxar e voltar a encostar-se à parede.

Era pouco o que ele deixava atrás de si, mas, pelo menos, tinha a satisfação de saber que alguém cuidaria de Hankin. Elias era desmazelado e preguiçoso, e tinha uma capacidade de se queixar que indignava o irmão mais velho, mas era bastante saudável, e Jordan tinha a certeza de que ele ficaria secretamente encantado com a companhia do rapaz. Hankin fora um bom amigo. Teria sido um peso intolerável na mente de Jordan ir para a forca sabendo que Hankin estava abandonado.

Voltou a olhar lá para fora, para o mundo fresco e livre, perguntando-se o que teria acontecido ao outro órfão, uma menina - teria ela sobrevivido à dor e ao terror de perder os pais tão desnecessariamente? Aliviar-lhe-ia a morte saber que ela não tinha sofrido demasiado tomento.

Ao ouvir a gritaria e o som de arreios, o Abade deixou o refeitório e apressou-se em direcção ao grande pátio. Os homens estavam todos a descer dos cavalos com os movimentos sóbrios e cautelosos de quem está tremendamente cansado.

- Sir Baldwin, estais bem? Ninguém se magoou?

- Não, ninguém se magoou. E não precisais de recear pelos vossos lebreiros nem pelo criador. Eles estão óptimos.

- Sir Baldwin, eles estavam longe do meu pensamento - censurou-o o Abade, mas o cavaleiro viu o olhar dele a passar por ele e a dirigir-se para as caudas a abanar da matilha. - A rapariga?

- Está bem, cansada mas óptima - e o pai ficará encantado ao saber que ela está incólume em todos os sentidos.

- Isso será para ele um alívio - concordou o Abade. - E agora, quereis interrogar os homens imediatamente?

Baldwin lançou um olhar às figuras enlameadas que se encontravam em cima dos cavalos. As sombras estavam a alongar-se, e o escuro não estava longe.

- Não, Abade, meu senhor. Estou exausto, e eles também - cavalgámos quase até Lydford e regressámos. Será melhor esperarmos pela manhã. Deixar que os meus ossos descansem antes de me defrontar com eles, para poder pensar com mais clareza no que lhes vou dizer.

- Vou mandar acorrentá-los na cave.

- Eu não me daria a esse trabalho. E não tenho assim tanta certeza de que precisais recear que eles fujam. Deixai apenas um homem à porta. - Acenou com a cabeça em direcção à rapariga. - Avice deverá ser escoltada até à casa do pai.

- Não quero ir! Deixai-me ficar aqui com Pietro!

- Sois responsabilidade do vosso pai, não do Abade - disse Baldwin, exasperado. - E dificilmente seria adequado ficardes na mesma sala com dois homens - especialmente numa masmorra. Vinde - permiti que vos levemos a casa; eu acompanhar-vos-ei.

- Vou contigo - ofereceu-se Simon. Tinha as pernas perras após aquela longa cavalgada, e estava com vontade de as esticar. Baldwin, viu ele, parecia preocupado, e, enquanto subiam pela estrada, o cavaleiro ia calado, de sobrolho franzido.

Levaram pouco tempo a chegar à casa do mercador. Arthur estava à espera, e Simon explicou por Avice a forma como ela fora trazida de volta à Abadia.

- Ela está muito bem, senhor. Não temei por ela... - Simon interrompeu-se, sem saber como iria terminar a frase. Ele queria dizer: “eles não lhe tocaram, não tiveram tempo de a molestar”, mas, de alguma forma, as palavras eram vulgares e irrelevantes.

Avice estava ao lado dele, os olhos baixos, e Arthur encontrava-se dividido entre a raiva e o puro prazer: raiva por ela ter fugido com o rapaz sem ter levado os pais em consideração; e intensa alegria por ela estar de volta. Enquanto Simon o observava, a expressão dele suavizou-se, e Arthur estendeu os braços. Avice pareceu ter sido puxada para a frente como que por um íman invisível, até que se encontrou dentro do círculo formado pelos braços do pai. Ouviu-se um grito vindo do interior da casa, e Simon reconheceu a voz estridente da mãe de Avice; o homem e a filha pareceram não ter dado por nada, e deixaram-se ficar, simplesmente, naquele abraço mudo. Passado um momento, Arthur viu Simon a observar, e de súbito, uma lágrima rolou pela face do mercador.

O beleguim acenou com a cabeça, a sorrir, e virou-se para se ir embora, mas, antes que pudesse retirar-se, Arthur agarrou-lhe o braço.

- Obrigado - disse, com voz rouca.

Então saiu, e a porta fechou-se devagar atrás do pai e da filha.

Simon soltou um longo e lento suspiro. Era difícil imaginar como é que ele teria reagido se tivesse sido a sua filha que tivesse desaparecido e que, depois, tivesse sido recuperada. Não tinha nada a ver com Pietro: Simon tinha a certeza de que, quem quer que fosse o rapaz, os medos e a ansiedade seriam os mesmos. A sua potência não poderia ser diminuída pelo estatuto legal nem pela classe social. Se a sua filha se fosse embora sem dizer nem uma palavra aos pais, Simon sabia que enlouqueceria. A branda aceitação do regresso da filha por parte de Arthur fez com que o beleguim tivesse esperança de que o mercador continuasse a ser assim calmo e compreensivo, engolindo a sua raiva e substituindo-a pela gratidão que sentia por voltar a vê-la em casa, em segurança.

A lembrança daquele puxão silencioso no seu braço fez com que Simon ficasse completamente consciente da alegria do mercador. O homem não fora capaz de expressar os seus sentimentos em palavras, mas aquele forte puxão dissera tanto como um sermão, e o beleguim juntou-se ao amigo, para caminharem juntos de regresso à Abadia com uma sensação de orgulho de uma tarefa bem desempenhada.

Baldwin tinha outros pensamentos a ocuparem-lhe a mente. Mal reparara que tinham devolvido a rapariga à família. A sua atenção estava firmemente concentrada nos homicídios, e já não tinha qualquer interesse em Avice: a rapariga já não importava, agora que tinha sido encontrada e que o homem que tentara sequestrá-la - quer ela tenha sido uma vítima voluntária ou involuntária - estava preso.

Os homicídios de Peter e Torre continuavam por resolver. Baldwin não gostava de pontas soltas, no entanto, parecia haver muitas.

- Simon, pensas que estamos mais próximos de encontrar uma resposta para estes homicídios?

Simon abanou a cabeça.

- Quanto mais penso, mais confuso fico. Elias tinha todas as provas a apontarem para ele, mas quando descobrimos o irmão, tudo o que antes apontava para Elias começou a apontar para ele - especialmente desde que ele admitiu ter cortado a cabeça a Torre. E o seu passado de fora-da-lei mostra que é capaz de homicídio. Mas os venezianos são, eles próprios, criminosos - estavam preparados para roubar um Abade, por amor de Deus! Se puderam roubar um homem de Deus, devem ser capazes de qualquer coisa. E Pietro foi visto com um hábito de monge vestido, o que poderia querer dizer que ele também era o ladrão.

- É mais provável que seja Jordan Lybbe, como dizes, ele era um fora-da-lei.

- Sim. Mas por que mataria ele Torre?

- E também, quais seriam os motivos de Pietro e António?

- Não gostas da explicação de Lybbe: fosse qual fosse deles que matou Torre pensava que estava com isso a impedir que o descobrissem?

- Oh, não sei. Há algo de errado em tudo isto, Simon. Toda a minha alma me está a gritar que eu deixei escapar qualquer coisa. Só há uma coisa de que tenho a certeza: Pietro não matou Peter.

- Porquê?

- Porque Peter foi assassinado depois de Pietro se ter encontrado com Avice. Avice comprometera-se com ele quando se encontraram ontem à noite, por isso o motivo dele desaparece. Não fazia sentido matar o monge.

- Não vejo qualquer razão para que António matasse o monge.

- Nem eu.

- Assim, voltamos a Lybbe.

- Sim - disse Baldwin, mas, quando Simon olhou para ele, o amigo não parecia mais satisfeito do que antes.

 

Na manhã seguinte, quando Baldwin se levantou da cama, não se sentia nada restabelecido após uma noite de insónia. Tivera esperança de que alguma inspiração o iluminasse enquanto dormia, mas, ao olhar lá para fora, por cima do pátio, não se sentiu mais próximo de uma solução.

Ao ver uma figura apressada a atravessar o pátio, a sua disposição tornou-se mais leve quando reconheceu Jeanne. Ela, pelo menos, era fresca e sadia. O rosto dela seria uma imagem bem-vinda após os seus distúrbios de sono. Ao mesmo tempo que ele tomava consciência do pensamento, ela atravessava o pátio e entrava pela porta que dava acesso aos aposentos do Abade.

Baldwin vestiu-se e desceu para o pátio, sentando-se num banco com Edgar a seu lado.

O criado já o vira antes com esta disposição. O cavaleiro estava sentado com o queixo apoiado na palma da mão, o cotovelo no joelho, numa atitude de absoluta concentração. Tinha o olhar carrancudo fixo num monge que varria o pátio, e não olhava o criado sentado ombro a ombro com ele. Era este o lugar do costume de Edgar, um ponto a partir do qual ele podia proteger o amo. Era a posição que aceitara quando Baldwin lhe salvara a vida naquele buraco infernal de Acre, quando eram ambos muito mais jovens e antes de, juntos, se terem reunido aos Cavaleiros Templários. Edgar e ele tinham-se encontrado entre os últimos a deixarem a cidade quando os Sarracenos tomaram conta do lugar, e foi devido à bravura heróica dos Templários que ambos tinham conseguido fugir, por isso, depois de recuperarem, ambos sentiram a mesma necessidade de se juntarem à Ordem que lhes salvara a vida.

Mais tarde, quando a Ordem que ambos veneravam fora destruída para alimentar a ganância de um Rei e de um Papa, Baldwin era propenso a estados de espírito sombriamente introspectivos, e hoje Edgar estava, de início, inquieto perante a possibilidade de o seu amo ter novamente cedido a uma tal disposição. Mas depois conseguiu olhar o amo nos olhos e viu o brilho. Este não era nenhum negro desespero. Baldwin estava simplesmente a concentrar todo o seu ser no problema dos homicídios.

- Senhor? - disse ele calmamente.

- O que é? - perguntou Baldwin com brusquidão.

- Quereis ir tomar o pequeno-almoço?

- Não posso ser agora incomodado com comida!

- Senhor, devíeis comer alguma coisa.

- Há um pormenor qualquer que nos escapou, algo crucial. Mas o quê?

Edgar encolheu os ombros.

- Aqueles que estão inocentes serão certamente capazes de o provar.

O amo resmungou, pouco entusiasmado.