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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A GAROTA DO PENHASCO / Lucinda Riley
A GAROTA DO PENHASCO / Lucinda Riley

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A GAROTA DO PENHASCO

 

               Baía de Dunworley, West Cork, Irlanda

A figura frágil achava-se perigosamente próxima da borda do penhasco. A longa e luxuriante cabeleira ruiva revolvia-se atrás de seu corpo esguio, agitada pela forte brisa que soprava do oceano. O vestido de algodão branco chegava-lhe aos tornozelos e deixava expostos os pequenos pés descalços. Mantinha os braços esticados, a palma das mãos voltada para a massa espumante do mar cinzento, abaixo, o rosto pálido voltado para o alto, como se estivesse se oferecendo em sacrifício aos elementos.

Grania Ryan continuou a observá-la, hipnotizada pela visão semelhante à de um fantasma. Seus sentidos estavam tão confusos que não saberia dizer se o que via ali era real ou imaginário. Fechou os olhos por uma fração de segundo e reabriu-os, e, para sua surpresa, o vulto continuava lá. Ganhando alento, deu alguns passos incertos à frente.

Enquanto se aproximava, Grania percebeu que a pessoa não era mais do que uma criança; o vestido de algodão branco que usava era uma camisola. Grania notou as nuvens negras de tempestade pairando sobre o mar, e as primeiras gotas de água salgada da chuva iminente machucaram-lhe a face. A percepção da fragilidade do ser humano, franzino contra o ambiente selvagem, impeliu-a a apressar o passo.

O vento já soprava mais forte em sua fúria, e começava a assobiar em suas orelhas. Grania parou a uns dez metros da garota, que permanecia imóvel. Os minúsculos dedos azulados dos pés seguravam-na estoicamente sobre a rocha, enquanto as rajadas crescentes rodopiavam e sacudiam o corpo delgado como o de um jovem salgueiro. Aproximou- -se mais da garota, parando às suas costas. O instinto incitava Grania a correr para ela e segurá-la, mas, se a garota se assustasse e se virasse, um passo em falso poderia resultar em uma tragédia impensável que levaria a garota para uma morte certa sobre as pedras cobertas de espuma, 30 metros abaixo.

Dominada pelo pânico, Grania parou, enquanto tentava desesperadamente pensar na melhor maneira de arrebatar a garota do perigo. Mas, antes que pudesse tomar uma decisão, ela se voltou lentamente e encarou-a com os olhos sem vida.

Instintivamente, Grania segurou-lhe os braços.

— Não vou machucá-la, prometo. Venha comigo e ficará em segurança.

A garota permaneceu imóvel como se a fitasse, sem se afastar do ponto onde se encontrava na borda do penhasco.

— Posso levá-la para casa se me disser onde mora. Vai encontrar a morte neste lugar. Por favor, deixe-me ajudá-la — Grania implorou e deu mais um passo na direção dela.

A garota, como se despertasse de um sonho, encarou-a com os olhos revividos, exibindo uma expressão de espanto e medo. No mesmo instante, virou-se para a direita e começou a correr para longe de Grania, subindo a montanha acima da borda do penhasco e desaparecendo da vista.

— Eu já ia mandar alguém procurar você. Essa tempestade não está para brincadeira, pode acreditar em mim.

— Mamãe, estou com 31 anos de idade e passei os últimos dez morando em Manhattan — replicou Grania entrando na cozinha e pendurando a jaqueta molhada num gancho próximo ao fogão. — Não precisa se preocupar comigo. Sou uma garota bem crescidinha agora, certo? — Ela sorriu enquanto se aproximava da mãe, que arrumava a mesa para servir o jantar, e beijou-a na face. — Certo?

— Pode ser como diz, mas soube de homens bem mais fortes que foram arremessados do penhasco num vendaval destes — Kathleen Ryan apontou para a selvageria do vento, do outro lado da janela da cozinha, que fazia com que os ramos secos e sem flores do arbusto de glicínia batessem, numa monotonia fúnebre, contra a vidraça. — Acabei de preparar um chá. — Kathleen enxugou as mãos no avental e aproximou-se do fogão. — Vai querer uma xícara?

— Adoraria, mamãe. Por que não para um pouco e descansa os pés por alguns minutos enquanto sirvo o chá para nós duas? — Grania guiou a mãe até uma cadeira da cozinha, que puxou debaixo da mesa, onde acomodou carinhosamente a mãe.

— Só por cinco minutos, veja bem, os rapazes estarão de volta às 6 horas e vão querer o seu chá.

Enquanto servia o líquido escaldante em duas xícaras, Grania arqueou uma sobrancelha, mas não comentou nada sobre a dedicação doméstica da mãe ao marido e ao filho. Não que alguma coisa tivesse mudado nos últimos dez anos em que estivera ausente — Kathleen sempre condescendera com os homens da casa, pondo as necessidades e os desejos deles acima de tudo. Mas o contraste da vida que a mãe levava com a sua própria, em que a emancipação e a igualdade dos sexos era a norma, deixava Grania desconsolada.

E, no entanto,… apesar de toda a liberdade conquistada em relação ao que muitas mulheres modernas considerariam uma tirania masculina ultrapassada, quem, no momento, entre mãe e filha, era a mais contente? Grania suspirou tristemente enquanto acrescentava leite ao chá da mãe. Sabia muito bem a resposta.

— Aí está, mamãe. Vai querer um biscoito? — Grania colocou a lata na frente de Kathleen e abriu-a. Como de costume, estava cheia até a borda de biscoitos de creme, biscoitos de uísque e amanteigados. Outra relíquia da sua infância e que seria considerada com o mesmo horror quanto o de contemplar uma bomba nuclear por seus contemporâneos de Nova York preocupados com a silhueta.

Kathleen escolheu dois e disse:

— Vamos, coma um para me acompanhar. Para falar a verdade, o que você tem comido não daria para alimentar um ratinho.

Grania escolheu um biscoito com cuidado, pensando como, desde que voltara para a casa dos pais, dez dias antes, sentia-se estufada a ponto de explodir com a comida farta que a mãe servia. No entanto, diria que tinha um apetite mais saudável do que a maioria das mulheres que conhecia em Nova York. E também costumava usar o fogão com a finalidade para o que fora criado, não para guardar plantas.

— A caminhada ajudou a clarear seus pensamentos um pouco, não foi? — arriscou Kathleen, já se servindo de um terceiro biscoito. — Sempre que estou com um problema para resolver, saio para dar uma caminhada e volto sabendo a resposta.

— Na verdade… — Grania bebericou um gole do chá — vi uma cena estranha lá fora, mãe. Uma garotinha de camisola, aparentando uns 8 ou 9 anos, parada bem na borda do penhasco. Tinha um cabelo ruivo maravilhoso, comprido, encaracolado… Era como se fosse uma sonâmbula, porque se virou para mim quando me aproximei e seus olhos pareciam — ela procurou a palavra certa para se expressar — vazios. Então acordou de repente e fugiu em disparada como um coelho assustado pelo caminho do penhasco. Você faz ideia de quem poderia ser?

Grania observou enquanto o rosto de Kathleen perdia a cor.

— Está se sentindo bem, mamãe?

Kathleen remexeu-se na cadeira. Olhou para a filha.

— Está dizendo que a viu alguns minutos atrás na sua caminhada?

— Sim.

— Santa Maria, mãe de Deus. — Kathleen persignou-se com o sinal da cruz. — Eles voltaram.

— Quem “voltaram”, mamãe? — indagou Grania, preocupada com o quanto a mãe parecia abalada.

— Por que teriam voltado? — Kathleen disse para a noite lá fora, do outro lado da janela. — Por que iriam querer voltar? Pensei… pensei que finalmente tudo estivesse acabado, que tivessem partido para sempre. — Ela segurou a mão de Grania. — Tem certeza de que viu mesmo uma garotinha, não uma mulher crescida?

— Com certeza, mãe. Como eu disse, ela devia ter uns 8 ou 9 anos. Fiquei preocupada… estava descalça e parecia congelada. Para ser sincera, pensei que estivesse vendo um fantasma.

— Pois foi mais ou menos isso, Grania, pode ter certeza — murmurou Kathleen. — Eles só podem ter regressado alguns dias atrás. Na sexta-feira, voltei pela montanha e passei na frente da casa. Eram bem umas dez da noite e não vi luzes acesas nas janelas. O velho casarão estava todo apagado.

— Que casarão?

— A Casa de Dunworley.

— Aquele casarão abandonado no alto da montanha depois da nossa casa? — indagou Grania. — Esteve vazio por anos, não foi?

— Esteve vazio durante toda a sua infância sim, mas… — Kathleen suspirou — eles voltaram depois que você se mudou para Nova York. E depois, quando aconteceu o… acidente… eles foram embora. Ninguém pensou em voltar a vê-los por estas bandas outra vez. E ficamos contentes por isso — ela salientou. — Aquele lugar tem uma história, uma história entre eles e nós, que se estende desde muitos anos atrás. Agora — Kathleen deu um tapinha na mesa e se levantou — o que passou, passou, e aconselho você a ficar longe deles. Eles só trazem problemas para esta família, posso lhe garantir.

Grania observou a mãe enquanto ela se aproximava do fogão, o rosto endurecido enquanto tirava a tampa da pesada caçarola de ferro contendo a refeição do jantar de um dos queimadores.

— Se aquela criança que vi tem mãe, ela ia querer saber sobre o perigo que a filha correu hoje, não é? — arriscou ela.

— Ela não tem mãe — Kathleen mexia o cozido ritmicamente com a colher de pau.

— Ela morreu?

— Morreu.

— Entendo… então, quem cuida da pobre criança?

— Não me pergunte sobre os problemas domésticos deles — Kathleen encolheu os ombros —, não me interessa e não quero saber.

Grania franziu as sobrancelhas. A atitude da mãe era totalmente contrária à maneira como reagiria normalmente. O grande coração maternal de Kathleen batia bem forte e alto diante de qualquer criatura indefesa em perigo. Costumava ser a primeira na família, ou entre os amigos, a se oferecer sempre que havia um problema e alguém precisava de ajuda. Em especial quando se tratasse de uma criança.

— Como a mãe dela morreu?

A colher de pau parou de circular na panela e fez-se silêncio. Finalmente, Kathleen deu um suspiro pesado e voltou o rosto para a filha.

— Muito bem, acho que, se não lhe contar, em breve você acabará sabendo por outra pessoa. Ela tirou a própria vida, foi o que aconteceu.

— Você está me dizendo que ela cometeu suicídio?

— Foi o que aconteceu, Grania, sem tirar nem pôr.

— Há quanto tempo?

— Ela se atirou do penhasco há quatro anos. O corpo foi encontrado dois dias depois, trazido pelas ondas, na praia de Inchydoney.

Foi a vez de Grania permanecer em silêncio. Finalmente, ela arriscou:

— De onde foi que ela saltou?

— Pelo que comentaram, provavelmente de onde você avistou a filha hoje. Eu diria que Aurora estava procurando pela mãe.

— Você sabe o nome dela?

— Mas é claro. Isso nunca foi segredo. A família Lisle era a proprietária de toda a Dunworley, incluindo esta casa aqui. Eles foram os senhores e donos de tudo na região há muito tempo. Venderam a terra nos anos 1960, mas conservaram a casa no alto do penhasco.

— Vi esse nome em algum lugar… Lisle…

— O cemitério da igreja está repleto de sepulturas deles. Incluindo a dela.

— E você já tinha visto a garotinha… Aurora… antes, no penhasco?

— Foi por isso que o pai a levou embora. Depois que ela morreu aquela pequenina sempre ia ao penhasco chamar pela mãe. Eu poderia jurar que ela meio que enlouqueceu de dor, foi isso.

Grania notou que o semblante da mãe se abrandara ligeiramente.

— Pobre coitadinha — ela suspirou.

— Sim, dava pena ver… e ela não merecia uma coisa dessas, mas existe uma ruindade entranhada naquela família. Você ouviu o que eu disse, Grania, e faça o favor de não ir até lá se envolver com eles.

— Fico imaginando por que teriam voltado — murmurou Grania, quase para si mesma.

— Aqueles Lisles fazem o que querem e não se incomodam com nada, nem com o que as pessoas possam pensar ou dizer. Não sei e não quero saber. Agora, você pode se dispor a fazer algo útil e me ajudar a arrumar a mesa para o chá?

Grania subiu para o seu quarto pouco depois das 10 horas, como fazia todas as noites desde que voltara para casa. Lá embaixo, a mãe continuava atarefada na cozinha, arrumando a mesa para o café da manhã, enquanto o pai cochilava na poltrona em frente ao televisor e o irmão, Shane, saíra para ir a um pub na vila. Os dois homens sozinhos cuidavam da fazendola de 200 hectares, toda a terra dedicada à criação de gado de leite e carneiros. Aos 29 anos, o garoto, como Shane era ainda carinhosamente chamado, parecia não ter a menor intenção de mudar-se para uma casa só sua. Mulheres vinham e iam, mas raramente passavam pela soleira da porta da casa da fazenda. Kathleen via com certa apreensão a condição duradoura de solteiro do filho, mas Grania sabia que a mãe ficaria perdida sem ele.

Ela se esgueirou para debaixo das cobertas, ouvindo a chuva tamborilar contra os vidros da janela, e esperou que a pobre Aurora Lisle estivesse dentro de casa, segura e aquecida. Passou pelas páginas de um livro, mas acabou bocejando, incapaz de se concentrar. Talvez fosse o ar fresco do lugar que a deixasse tão sonolenta; em Nova York, raramente ia para a cama antes da meia-noite.

Em contraste, Grania raramente se lembrava de uma noite quando era criança em que a mãe não estivesse em casa à noite. E se tivesse de passar a noite fora, em uma missão de caridade para cuidar de um parente adoentado, a preparação para assegurar que não faltasse comida ou roupa lavada para a família era uma operação militar. No que dizia respeito ao pai, Grania duvidava que ele tivesse passado uma única noite que fosse fora da sua cama nos últimos 34 anos de casamento. Ele estava de pé às 5h30 todas as manhãs da sua vida e saía para cuidar do rebanho de gado leiteiro da fazenda, regressando do campo para casa sempre ao escurecer. Marido e mulher sabiam exatamente onde cada um se encontrava o tempo todo. Sua vida era como se fosse uma só: juntos e inseparáveis.

E a cola que os mantinha unidos eram os filhos.

Quando ela e Matt decidiram morar juntos, oito anos antes, davam como certo que um dia teriam filhos. A exemplo de todo casal moderno, até que o momento adequado se apresentasse, eles se lançaram de corpo e alma à carreira e viveram o mais intensamente quanto puderam.

E então, em uma manhã, Grania acordou e, como costumava fazer todos os dias em Nova York, vestiu a calça do agasalho e o blusão com capuz e saiu para correr à beira do rio Hudson até Battery Park, parando nos Winter Gardens para tomar um café com leite acompanhado de um pãozinho com manteiga. E foi ali que aconteceu; enquanto bebericava o café com leite, voltou os olhos para um carrinho de bebê parado junto à mesa ao lado, onde havia uma criança recém-nascida, que dormia profundamente. Grania foi tomada de um desejo repentino e irresistível de pegar o bebê do carrinho, embalá-lo nos braços e aninhar protetoramente a sua cabecinha contra o seio. Depois que a mãe lhe dirigiu um sorriso nervoso, levantou-se e empurrou o carrinho para longe da sua atenção indesejada, Grania correu pelo percurso de volta para casa, sentindo-se sufocada pela comoção que a dominava.

Na esperança de que a sensação se desvanecesse, ela passou o dia no estúdio, mergulhada na tarefa de moldar o barro escuro e maleável da sua última encomenda, mas o sentimento não se dissipou.

Às 6 horas da tarde, deixou o estúdio, tomou um banho e vestiu uma roupa adequada à inauguração de uma galeria de arte a que compareceria àquela noite. Serviu-se de uma taça de vinho e caminhou até a janela que dava para as luzes faiscantes de Nova Jersey do outro lado do rio Hudson.

— Quero ter um bebê.

Grania tomou um grande gole de vinho. E deu uma risadinha diante do disparate das palavras que acabara de pronunciar. Então pronunciou- -as de novo, só para ter certeza.

E elas lhe pareceram certas. Não só certas, mas algo completamente natural, como se a ideia e a necessidade fizessem parte do seu ser a vida inteira, e todas as razões para aquilo não ter acontecido simplesmente tivessem evaporado e parecessem ridículas.

Grania saíra para a inauguração da galeria, onde conversara distraidamente com o grupo usual de artistas, colecionadores e intelectuais de vanguarda que frequentava aqueles eventos. No fundo, porém, não conseguira deixar de pensar nos aspectos práticos da decisão tomada antes, decisão capaz de transformar completamente a sua vida. Será que precisariam se mudar? Não, provavelmente não em curto prazo — seu loft no distrito de TriBeCa, o preferido dos artistas e intelectuais, era espaçoso, e o espaço dedicado ao escritório de Matt poderia facilmente ser convertido em um quarto de bebê. Afinal, ele raramente o usava, preferindo levar o laptop para a sala de estar e trabalhar lá. Eles moravam no quarto andar do prédio, mas o elevador de carga era grande o bastante para subir e descer com um carrinho de bebê. Battery Park, com o seu playground bem equipado e refrescado pela brisa que soprava do rio, era um bom lugar para passear. Grania trabalhava em casa, em seu estúdio, portanto, mesmo que tivessem de contratar uma babá, ela estaria a apenas alguns segundos do bebê caso fosse necessário.

Mais tarde, naquela noite, Grania deitara-se na grande cama de casal vazia e suspirara com irritação por precisar manter seus planos e sua empolgação para si mesma por mais algum tempo. Matt viajara por uma semana e só voltaria para casa dali a dois dias. Não era o tipo de coisa que se anunciasse por telefone. Finalmente, ela caíra no sono já de madrugada, imaginando a expressão de orgulho de Matt quando lhe apresentasse o bebê recém-nascido.

Quando Matt voltara para casa, mostrara-se tão empolgado com a ideia quanto ela. Juntos, de imediato e de maneira muito prazerosa, eles começaram a pôr o plano em prática, adorando ter um projeto conjunto só deles, que estreitaria e fortaleceria ainda mais sua união, exatamente como acontecera com os pais dela. Era a peça que faltava para aproximá-los de uma vez e para todo o sempre, em uma ligação dependente e indissolúvel. Em essência, uma família.

Grania jazia na estreita cama onde dormira desde a infância, ouvindo o vento rugir raivosamente ao redor das paredes de pedra da casa da fazenda. Estendeu a mão para um lenço de papel e assoou o nariz com força.

Aquilo acontecera um ano antes. E a verdade terrível era que o seu “projeto conjunto” não os unira. Ele os destruíra.

 

Quando Grania acordou na manhã seguinte, a tempestade da noite anterior fora soprada para longe como uma lembrança, levando as nuvens cinzentas consigo. O sol fazia uma de suas raras aparições de inverno, iluminando a paisagem ondulada por trás de sua janela, tornando mais nítido o verde infinito dos campos que cercavam a fazenda, interrompido apenas pelos pontinhos brancos da lã dos carneiros no pasto.

Grania sabia, por experiência própria, que esse estado de coisas provavelmente não duraria muito tempo; o sol em West Cork era como uma diva temperamental, encantando o palco com sua aparição súbita para uma ponta, banhando a todos em sua glória e, em seguida, desaparecendo tão rapidamente quanto chegara.

Nos últimos dez dias, impossibilitada de pôr em prática sua rotina normal de uma corrida matinal por causa da chuva incessante, Grania saltou da cama e correu a vasculhar a mala ainda não desfeita para encontrar o blusão, a calça de abrigo e os tênis.

— Muito bem, você acordou cedo e animada esta manhã — comentou a mãe depois que Grania desceu para a cozinha. — Vai querer mingau de aveia?

— Como um pouco quando voltar. Vou sair para dar uma corrida.

— Bem, não vá se cansar muito. Eu diria que sua cor não é das mais saudáveis… seu rosto anda meio pálido.

— É isso que quero recuperar, mãe — Grania reprimiu um sorriso. — Até daqui a pouco.

— Não vai querer pegar um resfriado agora, hein? — Kathleen gritou pelas costas da filha, que já se afastava. Ela ficou olhando pela janela da cozinha enquanto Grania descia correndo pelo caminho estreito aberto nos campos, ladeado por um antigo muro de pedras que levava até a estrada e até a trilha que contornava o penhasco.

Kathleen ficara chocada com a visão da filha quando Grania chegara em casa; nos três anos desde que a vira pela última vez, sua linda e saudável filha — que sempre fizera os rapazes voltarem a cabeça para admirá- -la, com a pele sedosa e a compleição esbelta, o cabelo louro cacheado e os olhos turquesa muito vivos — parecia ter perdido toda a vitalidade. Até comentara com o marido, John, que, no momento, Grania parecia-se com uma bela camisa cor-de-rosa posta por engano na água suja, ressurgindo como uma imagem apagada e envelhecida do que fora antes.

Kathleen sabia a razão. Grania contara-lhe quando ligara de Nova York para perguntar se poderia voltar para casa por uns tempos. Ela concordara, é claro, encantada com a inesperada oportunidade de passar um tempo com a filha. Entretanto, não conseguia entender os motivos de Grania — com certeza, aquele era um momento em que ela e seu homem precisavam ficar juntos, apoiar um ao outro pela perda sofrida, e não se distanciarem assim, com meio mundo a separá-los.

E aquele adorável Matt telefonava todas as noites para conversar com Grania, mas ela obstinadamente se recusava a atender às ligações. Kathleen sempre tivera certa afeição por ele; com uma boa e discreta aparência, um leve sotaque de Connecticut, e modos impecáveis, Matt lembrava a Kathleen os artistas de cinema pelos quais suspirara na juventude. Um Robert Redford quando jovem — para ela, era com esse ator que Matt se parecia. Por que Grania não se casara com ele anos antes estava além da sua compreensão. E agora a filha, sempre obstinada quando teimava com alguma coisa, com certeza achava-se na iminência de perdê-lo para sempre.

Kathleen não entendia muito como o mundo se organizava no momento, mas conhecia os homens e seu ego. Eles não eram como as mulheres — não tinham a mesma aptidão para a rejeição —, e se havia uma coisa de que tinha certeza era que aqueles telefonemas logo parariam de acontecer todas as noites e Matt desistiria.

A menos que houvesse algum segredo que Kathleen desconhecesse…

Ela suspirou, enquanto tirava da mesa os pratos do café da manhã e acomodava-os na pia. Grania era sua garota dourada — a única Ryan do clã que voara do ninho e fizera todo o possível para tornar a família, em especial a mãe, orgulhosa dela. Ela era a filha de que os parentes queriam ter notícias, devorando avidamente os recortes de diversos jornais que Grania enviava comentando sua mais recente exposição em Nova York, fascinados com os clientes da alta roda que a contratavam para imortalizar o rosto dos filhos, ou mesmo seus animais, em bronze…

Fazer sucesso na América — esse era o sonho supremo de todo irlandês.

Kathleen secou as tigelas e os talheres e guardou-os no grande armário de madeira. É claro, ninguém tinha uma vida perfeita, Kathleen sabia disso. Sempre presumira que lhe dar um neto fosse algo que Grania nunca acalentara, e aceitara isso. Afinal, não tinha um filho bonito e forte para lhe dar netos um dia? Mas parecia que se enganara. Apesar de todo o estilo sofisticado de Grania, vivendo no que Kathleen via como o centro do universo, em Nova York, um bebê fazia falta. E, enquanto não viesse, a filha não seria feliz.

Kathleen não podia deixar de pensar em como Grania tinha deixado isso acontecer. Apesar de todos os novos medicamentos apregoados, usados para ajudar e estimular o milagre da natureza, não havia substituto para a juventude. Ela própria tinha 19 anos quanto tivera Grania. E ainda estava cheia de energia para encarar outro bebê no espaço de dois anos. Grania estava com 31. E fosse o que fosse em que essas modernas mulheres de carreira acreditassem, era impossível ter tudo.

Portanto, embora sentisse pela perda da filha, era seu modo de ser, aceitar o que tinha e não ansiar pelo que não tinha. E com esse pensamento, Kathleen subiu a escada para arrumar as camas.

Grania deixou-se cair sobre uma rocha úmida e coberta de musgo para descansar. Estava sem fôlego e ofegante como uma sessentona; obviamente o aborto, e a recente falta de exercício, cobravam seu preço. Afundou a cabeça entre as pernas enquanto esperava a respiração se normalizar e chutou com os tênis os tufos de grama áspera embaixo dos pés. Obstinadamente, as fortes raízes mantinham-se presas ao solo e se recusavam a ser desalojadas. Se ao menos a vidinha dentro de si tivesse feito o mesmo...…

Quatro meses… quando ela e Matt pensaram que finalmente tinham conquistado a estabilidade… Normalmente, todo mundo sabe quando chega a uma situação segura, e Grania, que sempre fora um tanto paranoica até aquele momento, começou a relaxar e assumir a fantasia tão ansiada, e prestes a realizar-se, de tornar-se mãe.

Ela e Matt haviam dado a notícia aos avós dos dois lados; Elaine e Bob, os pais de Matt, lavaram-nos para jantar no L’Escale, próximo à sua enorme casa no condomínio fechado de Belle Haven, em Greenwich. Bob perguntara bruscamente quando os dois resolveriam a questão do casamento tão aguardado agora que Grania esperava um bebê. Afinal de contas, aquele era seu primeiro neto e Bob deixara perfeitamente claro que deveria receber o nome da família. Grania, que vinha adiando a discussão ou a decisão, recusando-se a responder perguntas e desconversando, sentiu-se encurralada, e os pelos da sua nuca se eriçaram, especialmente por se tratar do pai de Matt, e replicou que ela e Matt ainda precisavam conversar melhor a respeito.

Uma semana depois, no seu apartamento em TriBeCa, o interfone anunciou a chegada de um furgão da sofisticada loja de departamentos Bloomingdale’s, para entregar um enxoval completo. Grania, supersticiosa demais para deixar que os artigos fossem colocados dentro de casa, conduziu os entregadores ao subsolo, onde o enxoval ficaria guardado até o momento oportuno. Enquanto observava a quantidade de caixas que eram empilhadas em um canto, ela compreendeu que Elaine não se esquecera de nada.

— Lá se vai a nossa chance de ir à Bloomie’s para escolher um berço ou a marca de fraldas de minha preferência — murmurara Grania para Matt mais tarde, naquela noite, sem se mostrar agradecida.

— Mamãe só está querendo ajudar, Grania — respondera Matt na defensiva. — Ela sabe que ganho pouco e que você nem tanto, mas esporadicamente. Talvez eu devesse aceitar o emprego na empresa de papai afinal, agora que há um baixinho a caminho. — Matt apontara para a barriga minúscula, mas visível de Grania.

— Matt, não! — advertira Grania. — Nós concordamos que você nunca trabalharia lá. Isso acabaria de vez com a sua vida ou com a nossa liberdade. Você sabe até que ponto seu pai pode ser opressivo.

Grania desistiu de tentar arrancar a grama das suas raízes e em lugar disso olhou para o mar. Sorriu tristemente ao pensar no quanto atenuara a verdade naquela conversa com Matt. Bob era totalmente controlador em relação ao filho. Embora ela compreendesse o desapontamento que ele devia sentir por Matt não se interessar em assumir a empresa de investimentos da família, não conseguia entender a falta de interesse ou orgulho pela carreira do filho. Matt vinha se saindo muito bem e tornara-se uma autoridade reconhecida no campo da psicologia infantil. Tinha uma cátedra na Universidade de Columbia e era, constantemente, convidado a fazer palestras em outras universidades. E até mesmo a ela Bob também costumava, com condescendência, fazer comentários sutis, mas bem direcionados sobre sua criação e educação.

Pensando em perspectiva, Grania ao menos se sentia aliviada por terem recusado qualquer ajuda dos pais de Matt. Até mesmo no começo, quando tentava construir um nome como escultora enquanto Matt terminava o seu ph.D. e eles enfrentavam dificuldades para pagar até o aluguel do minúsculo apartamento de um quarto, e ela quase chegara ao ponto da paranoia. E a paranoia tinha uma boa justificativa, pensou Grania; as jovens vistosas e imaculadamente vestidas de Connecticut que ela conhecera através de Matt e sua família não poderiam fazer maior contraste com aquela garota sem sofisticação, educada em um convento, vinda de uma pequena aldeia nos confins da Irlanda. Talvez estivesse mesmo destinada ao fracasso…

— Olá?

Grania levou um susto ao ouvir aquela voz. Olhou para os lados, mas não conseguiu ver ninguém.

— Olá, eu disse.

A voz vinha de trás. Grania girou o corpo numa volta de 180 graus e, enfim, avistou Aurora. Em pé, bem ali, trajando uma calça jeans, um agasalho impermeável com capuz que cobria com bastante folga seu corpo delgado e um gorro de lã do qual escapavam algumas mechas da magnífica cabeleira ruiva. Seu rosto era delicado e com um formato ovalado perfeito, os olhos imensos e os lábios cor-de-rosa desproporcionais em relação ao quadro em que se desenhavam.

— Olá, Aurora.

O cumprimento de Grania produziu uma expressão de surpresa nos olhos da menina.

— Como você sabe o meu nome?

— Vi você ontem.

— Viu? Onde?

— Aqui, no penhasco.

— Verdade? — Aurora franziu as sobrancelhas. — Não me lembro de ter vindo aqui ontem. E eu não falei com você.

— Você não falou comigo, Aurora. Eu vi você, só isso — explicou Grania.

— E como você sabe o meu nome? — falou a menina, pronunciando cada palavra com um sotaque inglês perfeito.

— Perguntei à minha mãe quem poderia ser a garotinha com um lindo cabelo comprido ruivo. E ela me contou.

— E como é que ela podia saber? — insistiu a garota com veemência.

— Ela morou a vida inteira aqui na aldeia. Disse que vocês foram embora há muitos anos.

— Fomos mesmo. Mas agora voltamos — Aurora olhou para o mar e abriu os braços como se quisesse abraçar o litoral. — Eu amo este lugar, você não?

Grania teve a impressão de que a pergunta de Aurora era uma afirmação da qual não lhe seria permitido discordar.

— É claro que amo. É onde eu nasci e me criei.

— Então — Aurora acomodou-se graciosamente sobre a grama ao lado de Grania e demorou sobre ela os olhos azuis. — Qual é o seu nome?

— Grania, Grania Ryan.

— Acho que nunca conheci você.

Grania teve vontade de sorrir diante da maneira madura com que Aurora se expressava.

— É que não há como ter conhecido. Morei fora daqui por quase dez anos.

O semblante de Aurora iluminou-se de prazer e ela uniu as mãos como se fosse bater palmas.

— Então nós duas voltamos ao mesmo tempo para o lugar de que gostamos.

— Acho que é isso mesmo.

— Então, a gente pode fazer companhia uma à outra! Você pode ser minha nova amiga.

— É muita gentileza da sua parte, Aurora.

— Bem, você deve se sentir solitária.

— Talvez você tenha razão… — Grania sorriu. — E quanto a você? Também se sente solitária?

— Às vezes, um pouco. — Aurora encolheu os ombros. — Papai está sempre ocupado e fica viajando, e eu só tenho a governanta pra brincar. E ela não é muito boa em brincadeiras. — Em desagrado, Aurora enrugou o narizinho arrebitado e coberto delicadamente de sardas.

— Essa não — comentou Grania, sem ter nada melhor para dizer. Sentia-se ao mesmo tempo desarmada e desconcertada diante da sinceridade original da menina. — Mas você deve ter amigas na escola, não é?

— Eu não vou à escola. Papai quer que eu fique em casa com ele. Eu tenho uma preceptora.

— E onde ela está hoje?

— Papai e eu achamos que não gostamos dela, então a deixamos em Londres. — Aurora deu uma risadinha. — Depois fizemos as malas e partimos para cá.

— Entendo — disse Grania, embora na verdade não entendesse direito.

— Você trabalha? — quis saber Aurora.

— Sim, trabalho. Sou escultora.

— Não é alguém que faz estátuas?

— Você está na direção certa, sim — respondeu Grania.

— Ah, você sabe fazer papel machê? — A face de Aurora se iluminou. — Eu amo papel machê! Tive uma babá que me ensinou como fazer bolas, que a gente pintava e depois eu dava de presente ao papai. Você vai lá em casa fazer papel machê comigo? Por favor!

Grania ficou encantada com o entusiasmo e a empolgação genuína da menina.

— Tudo bem — viu-se responder concordando. — Não vejo por que não.

— Pode ir agora? — Aurora segurou-a pela mão. — Podemos subir até lá em casa e fazer alguma coisa para o papai, antes que ele saia. — Ela estendeu a mão e puxou o blusão de Grania. — Por favor, sim!

— Não, Aurora, não posso ir agora. — Grania abanou a cabeça e acrescentou: — Preciso preparar o material para o trabalho. Além disso, a minha mãe poderia pensar que me perdi.

Grania observou o semblante animado de Aurora se desfazer, a luz desaparecer dos seus olhos e o corpinho se curvar.

— Eu não tenho mãe. Eu tinha, mas ela morreu.

— Lamento muito, Aurora. — Instintivamente, Grania estendeu a mão e colocou-a carinhosamente no ombro da menina. — Você deve sentir muito a falta dela.

— Sinto, sim. Ela era a mais especial e a mais maravilhosa do mundo. Papai sempre diz que ela era um anjo e que é por isso que os outros anjos vieram buscá-la; ela voltou para o céu onde era o seu lugar.

Grania impressionou-se com a dor evidente da menina.

— Tenho certeza de que seu pai tem razão — ela concordou. — E pelo menos você tem a ele.

— “Aham” — admitiu Aurora — e ele é o melhor pai do mundo, e o mais bonito. Quando você o conhecer, vai ficar apaixonada por ele. Todas as moças ficam.

— Bem, nesse caso preciso conhecê-lo, não é mesmo? — Grania sorriu.

— É. — Aurora levantou-se da grama de um salto. — Agora já vou indo. Você vem aqui de novo, na mesma hora, amanhã.

Não era um pedido, era uma ordem.

— Eu…

— Legal. — Espontaneamente, Aurora atirou-se nos braços de Grania e abraçou-a. — Você traz as coisas para o papel machê, depois podemos subir até em casa e ficar fazendo bolas para o papai. Tchau, Grania, a gente se vê de novo amanhã.

— Até logo. — Grania acenou e observou enquanto Aurora caminhava com a agilidade de uma gazela sobre as pedras do penhasco. Mesmo com o impermeável e os tênis, seus movimentos eram graciosos.

Depois de Aurora ter desaparecido da vista, Grania deu um longo suspiro, sentindo-se como se tivesse passado por um encantamento, mantida cativa por um ser mágico e etéreo. Levantando-se, abanou a cabeça para clarear os pensamentos e imaginou o que a mãe diria quando anunciasse que, no dia seguinte, iria à Casa de Dunworley para brincar com Aurora Lisle.

 

Naquela noite, depois que o pai e o irmão saíram da mesa — e deixaram os pratos com os talheres para a mãe tirar — Grania ajudou Kathleen com a louça.

— Encontrei-me com Aurora Lisle de novo hoje — disse ela com naturalidade enquanto secava os pratos.

Kathleen arqueou uma sobrancelha.

— E a menina ainda estava usando uma camisola, como se fosse um espírito?

— Não, estava bem vestida. Ela é uma garotinha interessante, não é?

— Bem, não posso dizer que a conheci direito. — A boca de Kathleen estava apertada em uma linha dura e firme.

— Eu disse que poderia subir até a casa com ela para fazer papel machê. Ela me pareceu tão sozinha — disse Grania espontaneamente.

Kathleen fez uma pausa antes de responder.

— Eu lhe disse, Grania, avisei para não se envolver com aquela família. Mas você já é bem crescida e não posso impedi-la.

— Mas, mãe, ela é apenas uma garotinha encantadora e solitária. Parece tão perdida… não tem mãe. Será que farei algum mal passando algumas horas com ela?

— Não vou tornar a discutir isso com você, Grania. Você ouviu o que eu penso e precisa tomar as próprias decisões. E isso é tudo.

O som da campainha do telefone quebrou o silêncio. Grania não fez nenhum movimento para atender, assim como a mãe. Na sétima vez que a campainha tocou, Kathleen levou as mãos aos lábios.

— Você deve saber de quem se trata, estou bem certa disso.

— Não — desconversou Grania sem sinceridade —, por que deveria, mãe? Pode ser qualquer um.

— Nós duas sabemos quem é a esta hora da noite, minha filha, e estou com vergonha de falar de novo com ele.

O telefone continuou a tocar, a urgência inquietante da campainha em contraste direto com a calma deliberada de mãe e filha. Por fim, o telefone emudeceu, e as duas mulheres entreolharam-se longamente.

— Não estou gostando nada disso, Grania, dessa rudeza sob o meu teto. Não sei mais o que dizer a ele. Afinal, o que lhe fez esse pobre homem para merecer esse tratamento? Você sofreu uma perda, mas isso está longe de ser culpa dele, não é?

— Lamento muito, mãe — Grania abanou a cabeça —, mas você simplesmente não compreende.

— Bem, essa foi a primeira coisa que me disse com que concordo. Então, por que não me explica?

— Mamãe! Por favor! Não consigo… — Grania torceu as mãos em exasperação. — Simplesmente não consigo.

— A meu ver, Grania, isso não está direito. O que quer que tenha acontecido está afetando a todos em casa e precisamos corrigir essa situação. Eu…

— É o Matt, querida — disse o pai, entrando na cozinha com o fone na mão. — Conversamos um pouco, mas acho que é com você que ele quer falar. — John deu um sorriso de lado como se quisesse se desculpar e estendeu o aparelho à filha.

Grania fuzilou o pai com o olhar e arrancou o fone da mão dele. Saindo da cozinha, subiu a escada em direção ao quarto.

— Grania? Você está aí? — A voz suave de Matt produziu-lhe de imediato um caroço na garganta enquanto fechava a porta atrás de si e acocorava-se sobre a cama.

— Matt, pedi para não me procurar.

— Sei que pediu, querida, mas… por Deus! Não consigo entender o que está acontecendo. O que foi que fiz? Por que você me deixou?

Grania colocou a mão livre entre as coxas e tentou se acalmar.

— Grania? Você ainda está aí, querida? Por favor, se explicar o que fiz, quem sabe eu possa me defender.

Grania continuou sem responder.

— Grania, por favor, fale comigo! Sou o Matt, o homem que ama você. Com quem você partilhou a sua vida por oito anos. Estou começando a enlouquecer aqui, sem saber por que partiu.

Grania respirou fundo.

— Por favor, não me telefone. Não quero falar com você. E isso está aborrecendo os meus pais, você os incomodando todas as noites...

— Grania, por favor, sei que foi muito difícil para você perder o bebê, mas podemos tentar outra vez, não é verdade? Eu a amo, querida, e farei qualquer coisa para…

— Até logo, Matt.

Incapaz de continuar ouvindo, Grania apertou o botão e encerrou a ligação. Permaneceu sentada onde se encontrava, olhando distraidamente para as flores desbotadas do papel de parede do seu quarto da infância. Costumava observar o desenho todas as noites, depois de se entregar aos sonhos juvenis em relação ao futuro. Um futuro em que seu príncipe encantado apareceria e a carregaria para uma vida perfeita de amor. Matt fora todas essas coisas e mais… ela o adorara desde o primeiro momento em que lhe pusera os olhos. E sua vida fora um conto de fadas.

Grania recostou-se na cama e abraçou o travesseiro. Agora, a crença em que o amor superava tudo — vencia limites, saía triunfante e reinava vitorioso sobre todos os problemas — se fora.

Matt Connely desmoronou no sofá, o telefone celular ainda na mão.

Nas últimas duas semanas, desde que Grania se levantara e fora embora, tentara de toda forma descobrir a razão pela qual ela o teria deixado. Nada lhe ocorrera. Como resolveria a situação? Grania deixara claro que não queria mais nada com ele;… será que o relacionamento de ambos terminara de verdade?

— Droga! — Matt arremessou o telefone celular através da sala, observando a bateria saltar de trás do aparelho. Sim, ele entendia o quanto ela ficara arrasada com o aborto, mas isso era motivo suficiente para eliminá-lo da sua vida? Talvez devesse tomar um avião e viajar até a Irlanda. Mas, e se ela não quisesse vê-lo? E se isso piorasse ainda mais as coisas?

Matt levantou-se e, no mesmo instante, tomou uma decisão. Enquanto se encaminhava para o laptop, concluiu que qualquer coisa seria melhor do que a incerteza. Mesmo que Grania lhe dissesse com todas as letras que estava tudo acabado, era preferível a permanecer no escuro.

Matt conectou-se à internet para pesquisar os voos entre Nova York e Dublin. Mal começara a pesquisa e o interfone soou. Ele o ignorou. Não aguardava visitas e certamente não receberia bem a ninguém. O interfone continuou a soar com insistência até que, por pura irritação, Matt atravessou a sala e apertou o botão de resposta.

— Quem está aí?

— Oi, querido, ia passando por aqui e pensei em ver se estava tudo bem com você.

Matt apertou o botão de entrada imediatamente.

— Desculpe, Charley, pode subir.

Ele deixou a porta aberta e voltou a pesquisar os voos. Charley era uma das poucas pessoas que tinha coragem de ver. Uma amiga de infância, mas ela se distanciara dele — assim como vários outros velhos amigos — quando ele e Grania ficaram juntos. Grania sentia-se pouco à vontade com seu antigo grupo de Connecticut, então, pelo bem dela, ele se afastara de todos. Alguns dias antes, Charley ligara, do nada, e dissera ter sabido por alguns conhecidos que Grania viajara de volta à Irlanda. Ela viera à cidade encontrar-se com ele e o levara para comerem uma pizza juntos. Fora bom voltar a vê-la.

Minutos depois, um par de braços enlaçava os ombros de Matt, e Charley dava um beijo suave em seu rosto. Colocou uma garrafa de vinho tinto sobre a mesa, ao lado do laptop.

— Pensei que poderia estar precisando disto. Devo procurar umas taças para nós?

— Isso seria ótimo. Obrigado, Charley. — Matt continuou a comparar os horários e preços enquanto Charley desarrolhava a garrafa e despejava o conteúdo nas taças.

— O que está procurando? — perguntou ela, tirando as botas e curvando as pernas longas embaixo de si sobre o sofá.

— Voos para a Irlanda. Se Grania não volta para cá, irei até ela.

Charley arqueou uma sobrancelha perfeitamente depilada.

— Você acha isso sensato?

— O que mais, afinal, eu deveria fazer? Ficar aqui, quase perdendo o juízo, tentando descobrir o problema o tempo todo e sem encontrar uma resposta?

Charley atirou para trás uma mecha do cabelo negro e sedoso e bebericou o vinho.

— Mas, e se ela simplesmente quiser um tempo para ficar sozinha? Até superar… bem, você sabe. Você poderia piorar as coisas, Matty. Grania disse que queria ver você?

— Diabos, não! Acabei de ligar para lá e ela disse para eu parar de procurá-la. — Matt levantou-se da frente do laptop, tomou um longo gole de vinho e sentou-se com Charley no sofá. — Talvez você esteja certa — ele suspirou. — Talvez eu devesse dar mais um tempo a ela e, afinal, quem sabe, ela se recupere. Perder o bebê foi demais para ela. Você sabe como o papai e a mamãe estão ansiosos pela chegada da nova geração. Papai mal conseguiu esconder sua decepção quando esteve no hospital, depois do aborto.

— Posso imaginar. — Charley virou os olhos para o alto. — A sutileza nunca foi uma das qualidades do seu pai, não é mesmo? Não que Bob alguma vez tenha me ofendido, mas, como vocês são como uma família para mim, me acostumei a ele. Imagino como para alguém de fora, como Grania, possa ter sido difícil lidar com isso.

— É verdade. — Matt descansou os cotovelos sobre os joelhos e apoiou a cabeça entre as mãos. — Quem sabe eu não tenha feito o bastante para protegê-la. Sei como ela sempre se sentiu pouco à vontade em relação à diferença de educação.

— Matty, querido, realmente… você não poderia ter feito mais. Até a mim, você atirou à lata de lixo quando Grania apareceu.

Matt olhou para ela e franziu as sobrancelhas.

— Ei, você não está falando sério, não é? Aquele namoro que tivemos nunca poderia ter dado certo em longo prazo, poderia? Nós dois concordamos com isso, se você se lembra.

— Com certeza, Matty. — Charley dirigiu-lhe um sorriso tranquilizador. — Sempre foi uma coisa que tinha de acontecer num certo momento, não foi?

— Claro que foi. — Matt acalmou-se vendo que ela espelhava seus próprios pensamentos.

— Você sabe — considerou Charley —, às vezes, quando observo as minhas amigas passarem por traumas de relacionamentos como este, agradeço aos céus por continuar solteira. Acho que não conheço ninguém que esteja à vontade com o parceiro atualmente, embora admita que vocês rapazes façam o possível.

— É o meu caso — ele respondeu com tristeza. — Você não está pensando seriamente em permanecer uma solteirona pelo resto da vida, está? Da nossa turma de Greenwich, você era a mais promissora: a rainha da Irmandade, só tirava a nota máxima e era a garota mais bonita da classe. Agora, é uma bem-sucedida editora de revista… caramba, Charley, você sabe que pode ter alguém.

— É, eu sei, e talvez seja esse o problema — Charley deu um suspiro —, talvez eu seja exigente demais e não ache ninguém bom o bastante. Seja como for, este não é o momento de falarmos de mim. Você é que está encrencado. O que posso fazer para ajudar?

— Muito bem… será que devo pegar um avião amanhã para Dublin para tentar salvar meu relacionamento? — ele indagou.

— Matty, isso é com você — Charley enrugou o nariz. — Mas, se quer a minha opinião, eu daria um tempo para Grania. Obviamente, ela tem muita coisa para resolver. Estou certa de que voltará para você quando estiver pronta. Ela lhe pediu para deixá-la em paz, não foi? Então, por que não aceita a proposta dela e depois, quem sabe, volta a refletir sobre o assunto daqui algumas semanas? Além disso, pensei que estivesse atolado de trabalho.

— E estou — Matt suspirou. — Bem, talvez tenha razão. Vou dar o tempo que está me pedindo. — Ele estendeu a mão e deu uns tapinhas de leve no queixo de Charley. — Obrigado, irmãzinha. Você está sempre por perto para me ajudar, não é?

— Sim, querido. — Charley sorriu por baixo dos cílios. — Sempre estarei por perto para ajudá-lo.

Alguns dias depois, o interfone de Matt voltou a tocar.

— Oi, querido, é a mamãe. Posso subir?

— Claro. — Matt abriu-lhe a porta da frente, surpreso com a visita inesperada. Os pais raramente vinham a essa parte da cidade e sempre o avisavam com antecedência.

— Querido, como está passando? — Elaine beijou as duas faces do filho e acompanhou-o para dentro.

— Estou bem — replicou Matt, em voz baixa e cansada, como se mal se permitisse o esforço. Observou a mãe tirar o casaco de couro, ajeitar o cabelo levemente grisalho com um movimento rápido de cabeça e acomodar o corpo perfeito de manequim sobre o sofá. Ele rapidamente retirou os tênis e algumas garrafas vazias de cerveja de perto dos seus pés pequenos em sapatos de salto alto. — O que a trouxe aqui?

— Vim à cidade para um almoço de caridade, e você estava no caminho de casa — Elaine sorriu. — Queria ver como ia o meu rapaz.

— Estou bem — repetiu Matt. — Posso lhe preparar uma bebida, mãe?

— Um copo de água seria ótimo.

— Certo.

Elaine observou-o enquanto ele ia até a geladeira e enchia o copo. Parecia pálido e cansado, e seus modos revelavam sua infelicidade.

— Obrigada — disse ela quando trouxe a água. — Então, alguma notícia de Grania?

— Falei com ela por telefone dias atrás, mas ela não quis conversar comigo.

— Descobriu por que ela foi embora?

— Não — Matt encolheu os ombros. — Não sei o que fiz. Santo Deus, mãe, aquele bebê significava tudo para ela.

— Nunca a vi tão calada como quando a visitamos naquele dia no hospital… quando saiu do banheiro, parecia ter chorado muito.

— Pois é, e no dia seguinte, quando cheguei ao hospital depois do trabalho para visitá-la, ela já fora embora. Voltei para cá e encontrei um bilhete em que dizia ter voltado para a casa dos pais na Irlanda. Desde esse momento, não quis mais falar comigo. Sei que está sofrendo, mas não sei como me comunicar com ela.

— Você também deve estar sofrendo, querido. O bebê era tanto dela quanto seu — comentou Elaine, odiando ver o filho tão magoado e sozinho.

— É verdade, agora nada mais parece bom. Íamos formar uma família. Era também o meu sonho… merda! Desculpe, mãe. — Matt fez o melhor que pôde para conter as lágrimas. — Eu a amo tanto… e aquele baixinho, que não deu certo, era parte de nós… eu…

— Ah, querido. — Elaine levantou-se e estendeu os braços para envolver o filho. Eu sinto tanto, tanto. Se pudesse fazer alguma coisa para ajudar…

Matt desejou que a mãe não o tivesse surpreendido em um momento tão ruim. Precisou de um grande esforço para se recuperar.

— Já sou bem crescido, mãe. Vou ficar bem, acredite. Só queria saber o que fez Grania fugir. Só queria entender.

— Que tal se viesse passar um tempo com a gente? Não gosto de pensar em você aqui sozinho.

— Obrigado, mãe, mas tenho muito trabalho a fazer. Só quero acreditar que Grania vai voltar quando estiver refeita, depois de curar suas feridas. Ela sempre foi tão independente. Acho que é por isso que a amo tanto.

— Sem dúvida, ela é uma pessoa incomum — concordou Elaine. — E não parece se preocupar muito com a nossa maneira de pensar.

— Talvez porque tenha sido criada de outra maneira — retrucou Matt, sem paciência para enfrentar as críticas dos pais do tipo “bem que eu avisei” em relação à sua escolha no amor.

— Ah, não, Matt, você me entendeu errado — disse Elaine rapidamente. — Eu realmente admiro vocês dois, admiro Grania por sua coragem de enfrentar um mundo diferente porque vocês se amam. Talvez nós devêssemos seguir nosso coração também, em vez da criação. — Elaine suspirou. — Bem, agora preciso voltar para casa. Seu pai convidou os colegas do golfe para seu jantar anual de inverno.

Matt pegou o casaco de couro da mãe e ajudou Elaine a vesti-lo.

— Obrigado pela visita, mãe. Gostei bastante.

— Foi bom ver você, Matt. — Ela o beijou na face. — Você sabe o quanto me orgulho de você, não é? E sempre que quiser conversar, estarei à disposição, querido, de verdade. Compreendo… como você deve estar se sentindo. — Um brilho de tristeza apareceu em seus olhos, mas desapareceu tão rapidamente como veio. — Até mais, Matty.

Matt fechou a porta atrás dela, sentindo que ela era realmente solidária com seus sentimentos. E amou-a mais por isso. Pela primeira vez compreendeu como conhecia pouco da mulher por trás do verniz de esposa e mãe perfeita de Connecticut.

 

Na manhã seguinte, depois de Kathleen ter partido para Clonakilty para as compras da semana, Grania foi até o celeiro onde eram guardados os jornais velhos e recolheu uma pilha deles. Vasculhou a caótica oficina de trabalho do pai e acabou saindo triunfante, com uma caixa embolorada de cola em pasta para papel de parede. Acomodando tudo em uma sacola de plástico, Grania desceu pelo caminho e seguiu em direção ao penhasco. Se Aurora não aparecesse — o que era provável, pois no dia anterior não haviam marcado uma hora para o encontro —, simplesmente voltaria para casa.

Enquanto caminhava, Grania pensou no entorpecimento que sentia dentro de si. Era como se sua vida estivesse acontecendo com outra pessoa, como se estivesse em um atoleiro e não conseguisse ter acesso aos próprios sentimentos. Simplesmente era incapaz de chorar ou confrontar Matt, ou concluir se sua reação era racional ou não. Para tanto, precisaria enfrentar a dor, e a melhor solução, a mais segura, era se fechar. O que acontecera era coisa do passado e não podia ser desfeito.

Grania sentou-se em uma das rochas do penhasco sobre o mar e suspirou. Realmente acreditara, enquanto viam o relacionamento dos amigos irem por água abaixo, que eles dois fossem diferentes. Enrubesceu de vergonha ao lembrar-se de todas as conversas presunçosas que tiveram. Ardiam na memória comentários do tipo “isso não aconteceria com a gente” e “que sorte a nossa; coitados deles”. Afinal, eles também foram vítimas do complexo turbilhão das mudanças que afetavam todo homem e mulher que tentasse viver juntos em harmonia.

Grania olhou para o frio mar cinzento e, de repente, sentiu um imenso respeito pelos pais. De algum modo, eles conseguiram fazer o impossível — comprometer-se, aceitar-se e, mais importante ainda, permanecer felizes por 34 anos.

Quem sabe fosse simplesmente porque, no momento, tivessem mudado as expectativas e o nível de exigência. A hierarquia das necessidades era outra. Um casal já não se preocupava tanto com o sustento dos filhos, nem onde consegui-lo. Ou se as crianças sobreviveriam a uma doença infantil incurável. E já não era tão preocupante saber se teriam roupas com que se aqueceriam no inverno quanto a preocupação de escolher as marcas que usariam com essa finalidade. Atualmente, poucas mulheres na sociedade ocidental despediam-se do marido beijando-o pela última vez, sem saber se voltariam a vê-lo, como quando partiam para a guerra. Afinal, a simples questão da sobrevivência era coisa do passado.

— Agora, nós exigimos a felicidade. Acreditamos que a merecemos — Grania pronunciou as palavras em voz alta, invejando, sem compaixão, a aceitação e o estoicismo dos pais. Apesar dos bens materiais escassos e dos horizontes limitados, eles podiam sorrir de coisas sem importância, um sorriso compartilhado em uma compreensão mútua do que lhes cabia. Se seu mundo era estreito, era pelo menos seguro, dentro dos limites que os mantinham unidos. Ao passo que, para ela e Matt vivendo na metrópole, o céu era o limite e as restrições perigosamente poucas.

— Oi, Grania.

A voz de Aurora soou atrás dela. Grania voltou-se para vê-la, pensando como a menina lembrava uma fadinha ao aparecer, de repente, no território silencioso que ocupava.

— Oi, Aurora. Como vai?

— Estou bem, obrigada. Podemos ir?

— Podemos. Trouxe as coisas de que vamos precisar.

— Eu sei. Vi que trouxe uma sacola.

Obediente, Grania levantou-se e as duas subiram a montanha em direção a casa.

— Pode ser que você conheça o papai — arriscou Aurora. — Ele está no escritório. Ou talvez ele esteja com dor de cabeça… ele tem muita dor de cabeça.

— É mesmo?

— Só porque não usa os óculos e força a vista pra ler aqueles documentos do trabalho.

— Isso é uma tolice, não é?

— Depois que a mamãe morreu não tem ninguém para cuidar dele. Só eu.

— E estou certa de que você cuida muito bem — Grania assegurou a Aurora enquanto se aproximavam do portão de entrada para o jardim da casa.

— Posso. É... — ela disse, abrindo o portão. — Aqui que eu moro, a Casa de Dunworley. É a casa da minha família Lisle há duzentos anos. Você já veio aqui alguma vez?

— Não — Grania respondeu acompanhando-a pelo portão e, depois de entrarem, o vento que vinha soprando forte por elas, desde o penhasco, de repente se acalmou. Isso graças à espessa cerca viva de espinheiros e da famosa fúcsia silvestre de West Cork que montava guarda ao redor da casa protegendo-a, e aos seus moradores, da melhor maneira possível.

Grania observou com surpresa o lindo jardim muito bem cuidado, que oferecia uma cobertura protetora suave ao austero edifício cinzento que se erguia no centro. Sebes baixas, compostas de loureiros, alinhavam-se de cada lado do caminho de subida até a casa. E, enquanto acompanhava Aurora, Grania notou os canteiros forrados de roseiras — no momento, mortas e sem cor, mas que, no auge do verão, ofereciam a suavidade necessária aos arredores sombrios.

— Não dá pra entrar pela porta da frente — disse Aurora, virando à direita pelo caminho que seguia pela frente da casa e fazia uma curva para os fundos. — Papai disse que a porta foi trancada na época do The Troubles

[1]

e alguém perdeu a chave. Esta é a entrada.

Grania chegara a um amplo pátio onde se via uma entrada para veículos que vinham da estrada. Um utilitário novo em folha achava-se estacionado ali.

— Entre — disse Aurora abrindo a porta.

Grania acompanhou-a através do saguão e, depois, até uma cozinha espaçosa. Toda uma parede era tomada por um grande armário de pinho em estilo galês, abarrotado de pratos azuis e brancos e mais uma variedade de outros utensílios de cerâmica. Um fogão moderno ocupava a outra parede, e, na última, via-se uma antiga pia de cerâmica encaixada entre duas bancadas de madeira envernizada. O centro do salão era ocupado por uma comprida mesa de carvalho coberta de pilhas de jornais.

Aquele não era um lugar em que alguém se sentisse aconchegado ou confortável — um cômodo em que a família se reunisse enquanto a mãe estivesse diante do fogão, cozinhando uma comida deliciosa para o jantar. Era um aposento espartano, funcional e um tanto intimidador.

— Eu não precisava ter trazido os jornais — comentou Grania, apontando para as pilhas sobre a mesa.

— Ah, o papai usa para acender todas as lareiras. Ele não gosta de frio. Agora, a gente arruma um espaço na mesa pra começar? — Aurora olhou para Grania em expectativa.

— Isso… mas você não acha que deveríamos avisar a alguém que estou aqui?

— Ah, não — Aurora abanou a cabeça. — Papai não quer ser incomodado e eu já falei pra senhora Myther que você vinha. — Ela formava pilhas de jornais no chão ao redor da mesa e indicou a Grania o espaço que havia criado. — De que mais precisa?

— Vamos precisar de água para misturar a pasta. — Grania esvaziou o conteúdo da sacola, sentindo-se pouco à vontade por não ter sua presença anunciada.

— Vou pegar um pouco. — Aurora procurou uma jarra em uma das prateleiras do armário e encheu-a.

— E de um recipiente grande para misturar a pasta.

Aurora encontrou isso também e colocou-o sobre a mesa, à frente de Grania. Enquanto ela misturava a pasta, Aurora observava com os olhos vivos e empolgados.

— Adoro fazer bagunça. A minha última babá não me deixava fazer nada, porque ficava preocupada com a arrumação.

— Passei a vida fazendo bagunça — Grania sorriu. — Fazia esculturas de materiais muito parecidos com este. Agora, venha aqui e sente-se ao meu lado que vou lhe mostrar como fazer uma bola.

Aurora revelou-se uma aprendiz esperta e bem-disposta e, uma hora depois, uma bola de jornal empapada descansava orgulhosamente sobre a chapa do fogão.

— Depois que secar podemos pintá-la. Você tem alguma tinta? — indagou Grania enquanto lavava as mãos na pia.

— Não. Tinha em Londres, mas deixei lá.

— Talvez encontre alguma em minha casa.

— Posso conhecer sua casa? Deve ser legal viver em uma fazenda.

— Não moro sempre lá, Aurora — explicou Grania. — Moro em Nova York. Só estou com meus pais por um tempo.

— Ah. — O semblante de Aurora perdeu o brilho. — Quer dizer que vai logo embora?

— Sim, mas ainda não sei quando. — Enquanto Grania secava as mãos na toalha ao lado da pia, sentiu os olhos de Aurora demorando-se nela.

— Por que você está triste? — indagou Aurora.

— Não estou triste, Aurora.

— Está sim. Alguém machucou você?

— Não, Aurora, estou bem. — Grania sentiu-se enrubescer ante a observação constante da menina.

— Sei que você está triste. — Aurora cruzou os bracinhos sobre o peito. — Sei como é ficar triste. E, quando fico triste, me escondo no meu canto mágico.

— Onde ele fica?

— Não posso lhe contar, ou não seria mágico. Ou meu. Você também deve ter um.

— Parece uma ótima ideia. — Grania olhou para o relógio. — Melhor eu ir embora. Está na hora do almoço. Você deve estar com fome. Alguém vai preparar seu almoço?

— Ah, a senhora Myther deve ter deixado alguma coisa pronta ali. — Aurora apontou distraidamente na direção da despensa. — Deve ser sopa outra vez. Antes de ir, quer ver o resto da minha casa?

— Aurora… eu…

— Vamos! — Aurora pegou Grania pelo braço e puxou na direção da porta. — Quero que você veja a casa. Ela é linda.

A menina puxou Grania para fora da cozinha por um corredor largo, o piso forrado de ladrilhos pretos e brancos com uma escada elegante, ao fundo, que levava ao piso superior. Ela a arrastou pelo corredor, para dentro de um salão de visitas com altas portas venezianas que davam para o jardim. O salão estava insuportavelmente quente, com grandes toras acesas que irradiavam o calor vindo de dentro de uma lareira com moldura de mármore.

Acima da lareira, Grania avistou uma pintura que atraiu sua sensibilidade de escultora. Era o rosto de uma mulher jovem, em formato ovalado e encimado por uma espessa massa de cabelos encaracolados. Seus traços faciais eram delicados e, Grania observou, simétricos, sinal de uma beleza verdadeira. Seus admiráveis olhos azuis, engastados em uma pele muito branca, eram inocentes, apesar de inteligentes. Do ponto de vista profissional, Grania sabia que o quadro fora pintado por um artista talentoso. Ela se voltou para olhar para Aurora e imediatamente percebeu a semelhança.

— É a minha mãe. Todo mundo fala que sou a cara dela.

— Você é — Grania respondeu baixinho. — Qual era o nome dela?

Aurora deu um longo suspiro.

— Lily. O nome dela era Lily.

— Lamento muito por ela ter morrido, Aurora — disse Grania com suavidade enquanto a menina olhava intensamente para a pintura.

Aurora não respondeu, apenas continuou a olhar para a imagem da mãe.

— E quem poderia ser esta moça, Aurora?

Grania sobressaltou-se ao ouvir a voz masculina atrás de si. Voltou- -se, imaginando quanto da conversa o intruso poderia ter ouvido, e prendeu a respiração.

Parado junto à soleira achava-se — Grania repreendeu-se por incorrer no lugar-comum, mas era esse o fato — o homem mais lindo que ela já vira em toda a vida. Alto — no mínimo um metro e oitenta — com um cabelo negro e espesso penteado uniformemente, mas só um centímetro comprido demais, de modo que os cachos enrolavam-se no início da nuca. Os lábios eram cheios, mas não tão roliços a ponto de parecerem femininos, e os olhos eram de um azul-marinho profundo, contornados por cílios escuros e espessos.

Como aprendera em seu ofício, Grania admirou-lhe a estrutura óssea imaculada; as maçãs do rosto bem moldadas, o queixo forte e o nariz perfeito. Era um rosto que queria lembrar em detalhes, de modo a poder esculpi-lo em um momento posterior.

E a tudo isso acrescentava-se um físico esbelto e bem-proporcionado. Os dedos longos e sensíveis chamaram sua atenção quando se contraíram e depois relaxaram, indicando uma espécie de tensão interior. O quadro, como um todo, era de uma elegância singular, uma característica que, normalmente, ela não associaria ao sexo masculino. E uma garantia de que, sempre que entrasse em um salão, esse homem atrairia a atenção de todos os presentes — homens ou mulheres.

Grania suspirou involuntariamente diante daquele homem que, em sua opinião, beirava à perfeição física, numa impressão mais que profissional: uma secreta conspiração de um impulso natural feminino que a deixou momentaneamente sem fala.

— Quem é você? — o homem perguntou de novo.

— Esta é a minha amiga Grania, papai. — Aurora quebrou o silêncio, para o alívio de Grania. — Lembra? Eu disse que a conheci ontem no penhasco. Nós brincamos na cozinha esta manhã; fizemos uma bola de jornal com cola. Quando eu pintar eu vou lhe dar de presente. — Aurora aproximou-se do pai e enlaçou-o em um abraço.

— Estou contente que tenha se divertido, querida. — Ele mexeu carinhosamente no cabelo da menina e dirigiu um meio sorriso desconfiado a Grania. — Então, Grania, está de visita a Dunworley?

Os olhos azul-marinho a avaliaram. Grania fez o melhor possível para se controlar, sentindo a boca seca e precisando engolir antes de dizer:

— Sou da aldeia original, nasci aqui, mas estive morando no exterior nos últimos dez anos. Vim visitar a minha família.

— Compreendo. — Ele passeou os olhos pelas altas portas venezianas e pela magnífica paisagem do mar além do jardim. — Este é um lugar raro e mágico. E você o ama, não é, Aurora?

— “Aham!” Essa é nossa casa de verdade.

— Sim, é mesmo. — Ele voltou a atenção de novo para Grania. — Perdoe-me, não me apresentei. — Com Aurora ainda em torno de seus quadris, ele se aproximou e estendeu a mão. — Alexander Devonshire. — Os dedos longos e esguios apertaram os dela.

Grania fez o melhor que pôde para escapar da sensação surreal que experimentava.

— “Devonshire?” Pensei que esta fosse a família Lisle.

As sobrancelhas escuras arquearam-se quase imperceptivelmente.

— Você está certa quando diz que esta é a casa da família Lisle, mas eu me casei dentro dela. Minha esposa — os olhos de Alexander dardejaram na direção da pintura — era a herdeira da Casa de Dunworley, e um dia ela passará para a nossa filha.

— Desculpe-me… não tinha entendido.

— Na verdade, Grania, já me acostumei a ser chamado de “senhor Lisle” por aqui. — Alexander puxou a filha mais para perto de si, distanciando-se nos próprios pensamentos.

— Acho melhor voltar para casa — disse Grania pouco à vontade.

— Ah, papai, ela tem mesmo que ir embora? Não pode ficar para o almoço? — Aurora ergueu os olhos para o pai, implorando com o olhar.

— Obrigada pelo convite, mas realmente preciso ir.

— É claro — disse Alexander. — Foi muita gentileza sua passar um tempo com a minha filha.

— Ela é muito mais divertida do que a outra babá, papai. Por que ela não pode cuidar de mim?

— Querida, estou certo de que Grania tem uma porção de outras coisas que precisa fazer — Alexander sorriu por cima da cabeça de Aurora, como que se desculpando. — E não devemos tomar mais o tempo dela.

— Na verdade, não foi incômodo nenhum. Gostei bastante.

— Você vai voltar amanhã, com as tintas, para pintar a bola seca? — implorou Aurora.

Grania olhou para Alexander em busca de aprovação e obteve.

— É claro, verei o que consigo encontrar. — Grania começou a se encaminhar para a porta. Alexander aproximou-se dela e apertou-lhe de novo a mão.

— Obrigado, Grania. É muita gentileza sua dedicar um tempo para divertir a minha filha. Por favor, sinta-se bem-vinda para aparecer quando quiser. Se eu não estiver em casa, a senhora Myther mora aqui para cuidar de Aurora. — Com Aurora segurando sua mão, ele conduziu Grania para fora do salão de visitas, pelo corredor e de volta à cozinha. — Aurora, poderia chamar a senhora Myther e dizer que estamos prontos para o almoço?

— Sim, papai — disse ela, obedientemente. — Tchau, Grania, a gente se vê amanhã. — Aurora virou-se e subiu a escada.

Alexander seguiu na frente, pela cozinha, até a porta dos fundos. Quando a abriu, virou-se para Grania.

— Por favor, Aurora sabe ser muito persuasiva. Não deixe que ela a faça perder mais tempo com ela do que desejar.

— Como disse, gostei bastante. — A proximidade da presença de Alexander, a poucos centímetros dela enquanto mantinha a porta aberta, estava a ponto de fazer o cérebro de Grania derreter.

— Bem, fique atenta. Eu sei como ela é.

— Farei isso.

— Ótimo. Tenho certeza de que voltaremos a nos ver aqui, em breve. Até logo, Grania.

— Até logo.

Quando atravessou o pátio e tomou o caminho que levava ao portão para o penhasco, Grania sentiu-se desesperada para olhar para trás, para ver se ele continuava na porta. Passado o portão, apressou-se pela trilha do penhasco até chegar à sua rocha favorita. Deixou-se cair sobre ela, ofegante e desorientada.

Apoiou a cabeça entre as mãos, tentando recuperar os sentidos. A imagem do rosto de Alexander apareceu em sua mente. Sentia-se sufocada e quase temerosa em relação à influência tão forte de um homem com quem não tivera mais do que cinco minutos de contato.

Levantou a cabeça e olhou para o mar. As águas estavam calmas nesse dia, tranquilas — um monstro adormecido que poderia erguer-se e criar uma destruição em questão de minutos.

Enquanto se levantava e partia para casa, Grania pensou se a analogia também se aplicava ao homem que acabara de conhecer.

— Ei, você, sou eu. Pode me deixar entrar?

— Claro. — Matt apertou o botão que abria a porta e retornou desconsolado à leitura atenta sobre um jogo de beisebol.

Charley apareceu à porta e fechou-a atrás de si.

— Comprei comida chinesa para viagem. Sei que é o seu prato favorito, querido, pato de Pequim — ela acrescentou, enquanto se encaminhava para a cozinha. — Está com fome?

— Não — declarou Matt enquanto ela pegava alguns pratos da cozinha e abria a garrafa de vinho que trouxera consigo.

— Você precisa comer, querido, senão vai definhar. — Ela o observou enquanto arranjava a comida e os pratos em cima da mesa de centro, à frente dele. — Tome. — Charley enrolou tiras de pato em molho pequim dentro de uma panqueca e ofereceu-lhe.

Com um suspiro, Matt sentou-se ereto, mordiscou e mastigou a comida sem prazer.

Charley enrolou outra panqueca e bebericou o vinho.

— Quer conversar a respeito?

— O que há para dizer? — Matt encolheu os ombros. — Minha mulher me deixou por motivos que desconheço, ou que não entendo, e se recusa a falar comigo e explicá-los. — Ele abanou a cabeça em desespero. — Se ao menos eu soubesse como devia ter agido, então poderia fazer alguma coisa a respeito. — Ele pôs outra panqueca na boca. — E a propósito, sua tática do silêncio não funcionou. Grania não me ligou nem uma vez. É muito tempo para se recompor, não acha? — acrescentou ele taciturno.

— Sinto muito, Matty. Realmente, pensei que, se você desse um tempo, Grania poderia reagir. Pensei que o amasse.

— Eu também pensei. — Matt fez uma careta amarga. — Talvez eu estivesse errado. E talvez, apenas talvez, isso tenha mais a ver com os sentimentos dela em relação a mim… — Matt correu a mão pelo cabelo distraidamente — Talvez seja simplesmente porque ela não me queria nunca mais. Porque eu já gastei o meu cérebro e não consigo encontrar uma maldita reação com que eu pudesse tê-la magoado.

Charley colocou uma das mãos de maneira confortadora sobre o joelho de Matt.

— Talvez, por perder o bebê, os sentimentos dela tenham mudado… — Ela encolheu os ombros. — Sinto muito, só estou falando chavões.

— Não, não há nada a dizer, não é? Ela se foi e, a cada dia que passa, não acredito mais que volte. — Ele olhou para Charley. — Você acha que eu deveria fazer o que pensei e tomar um avião para a Irlanda?

— Não sei, não, Matty. Não quero parecer pessimista, mas parece que ela está deixando bem claro que não quer nada com você no momento.

— É, você está certa. — Matt engoliu o conteúdo da taça de vinho e serviu-se de mais uma. — Só estou tentando me iludir, acreditando que não acabou quando é mais do que certo que sim.

— Que tal esperar até o fim da semana para ver se ela liga? Quem sabe, se ligar, você pode sugerir a ideia do avião para a Irlanda?

— Pode ser, mas realmente estou ficando cansado de pensar que sou o bandido. Além disso, tenho um monte de trabalho a fazer e vou precisar viajar para dar umas palestras nas próximas duas semanas.

— Pobrezinho do meu Matty — Charley entoou —, você realmente não precisava passar por tudo isso. Prometa que vai melhorar, de uma maneira ou de outra. Você sabe, todos passamos por momentos ruins como esse… quando parece que o mundo inteiro vai acabar.

— É, devo admitir… estou vivendo na base da autopiedade — concordou Matt. — Desculpe. Sugiro que você me deixe por enquanto. Não sou uma boa companhia, eu sei.

— É para isso que servem os amigos, Matty, para estar do nosso lado quando precisamos. Mudando de assunto, passei aqui para lhe pedir um favor — disse Charley.

— Que favor? — Matt, perdido no próprio sofrimento, mal conseguia ouvir.

— Vou receber uns decoradores no meu apartamento dentro de alguns dias. Eles vão trabalhar por lá durante um mês mais ou menos, e eu estava imaginando se poderia usar seu quarto vago enquanto estiverem por lá. Posso pagar o aluguel, é claro — acrescentou Charley. — E você me conhece, estarei fora na maioria das noites e fins de semana.

— Ei, não precisa me pagar nada. Como disse, estou até o pescoço de trabalho e ficarei fora por mais tempo do que estarei aqui, então sinta-se à vontade para se mudar quando quiser. — Matt levantou-se, foi até a escrivaninha e tirou dali uma chave, que entregou a ela.

— Obrigada, querido.

— Não tem problema. E para ser franco, apesar do que acabei de dizer, talvez seja bom ter companhia. Você vai me fazer um favor.

— Bem, se tem certeza disso, será ótimo. Agradeço muito pelo favor.

Matt deu-lhe um tapinha na perna.

— E eu agradeço por estar aqui, me fazendo companhia.

— Não tem problema, Matty — Charley sorriu para ele. — Não tem problema algum.

 

— E aonde você vai hoje? — Kathleen observou Grania enquanto ela abotoava o casaco. — Lavou o cabelo e se maquiou...

— Em resposta à sua pergunta, vou visitar Aurora. Por aqui é incomum uma mulher lavar o cabelo e se maquiar? — respondeu Grania em tom desafiador.

— Pretende ir à Casa de Dunworley, então?

— Isso mesmo.

Kathleen cruzou os braços.

— Eu avisei você, Grania, não é uma boa ideia envolver-se nos assuntos deles.

— Mãe, eu estou ajudando a divertir uma garotinha solitária, não estou me mudando para lá! Qual é o problema?

— Já lhe disse antes e vou dizer de novo: aquela família é um problema para esta. E eu diria que você já tem problemas suficientes na sua vida sem precisar acrescentar os deles.

— Ora, tenha dó, mãe! Aurora é uma criança sem mãe que acabou de se mudar de volta para cá e não conhece ninguém. Ela está sozinha! — disse Grania em exasperação. — Até mais tarde.

Grania saiu batendo a porta atrás de si e Kathleen suspirou.

— Sim — sussurrou para si mesma —, e você é uma mãe sem filha.

Kathleen ocupou-se dos afazeres matinais com o coração pesado. Pensou várias vezes se deveria comentar, com John, sobre Grania e suas visitas à Casa de Dunworley. Na última semana, Grania subira até lá todos os dias e no dia anterior só voltara depois do anoitecer. A expressão nos olhos da filha era o bastante para dizer à mãe que alguma coisa a atraía para lá, exatamente como atraíra outras antes dela…

— Bem, minha filha — disse Kathleen para si mesma enquanto arrumava a cama de Shane — o quanto antes você voltar para Nova York e para o seu homem, melhor. Para todos nós.

Grania sabia agora que em algum ponto ao longo da sua caminhada penhasco acima, em direção a casa, Aurora apareceria e desceria a montanha para escoltá-la até o portão. Adorava observá-la enquanto fazia isso; nunca encontrara uma criança tão graciosa. Quando Aurora andava, parecia flutuar, e, quando corria, parecia dançar. E ali estava ela agora, girando como uma fadinha encantada, uma criatura etérea saída diretamente dos livros de histórias que a mãe lia para ela, na sua infância, sobre as lendas da velha Irlanda.

— Oi, Grania — Aurora a abraçou, depois lhe tomou a mão e conduziu-a montanha acima. — Eu vi você chegando pela janela do quarto. Acho que papai tem uma coisa para lhe perguntar.

— É mesmo?

Grania não vira Alexander durante toda a semana anterior. Aurora dissera que ele tivera uma crise de enxaqueca e que se recolhera ao quarto. Quando Grania expressara preocupação com a saúde dele, Aurora dera de ombros de maneira despreocupada.

— Ele vai melhorar logo, desde que fique sozinho e quieto; e em paz...

Muito embora ela se repreendesse por isso, os pensamentos sobre o pai de Aurora haviam enchido sua cabeça nos momentos de silêncio, antes de pegar no sono. E o fato de Alexander encontrar-se em algum lugar no andar de cima, e poder aparecer a qualquer segundo, criava um sentimento misto de culpa e prazer em seu íntimo. Não entendia como ele podia exercer tamanha influência sobre suas emoções — tudo o que sabia era que passava menos tempo pensando em Matt do que antes. E que isso devia ser positivo.

— Por que ele quer me ver? — Grania não pôde deixar de perguntar.

Aurora deu uma risadinha.

— É segredo. — Ela fez uma pirueta para perto do portão e abriu-o no instante em que Grania o alcançou.

— Você alguma vez frequentou aulas de dança em Londres, Aurora? Acho que poderia se sair muito bem.

— Não, mamãe não deixava. Ela odiava o balé. — Aurora esfregou o nariz enquanto fechava o portão atrás de si. — Mas bem que eu gostaria de aprender e encontrei alguns livros antigos no sótão, cheios de fotografias de moças na ponta dos pés. Se mamãe não achasse ruim, acho que era isso o que eu gostaria de ser.

Grania observou Aurora, enquanto seguia pelo caminho à frente dela, com vontade de dizer que Lily estava morta e que, com certeza, não se importaria se ela aprendesse, mas não estava em posição de fazer isso. Assim, seguiu a menina em silêncio para dentro da cozinha.

— Então — Aurora sorriu para ela e pôs as mãos nos quadris —, o que vamos fazer hoje? O que você vai tirar da sacola mágica? — perguntou ansiosamente.

Sem pressa, Grania tirou da sacola um estojo de aquarela e uma pequena tela.

— Pensei que, como o tempo está bom hoje, poderíamos ir lá fora e pintar a paisagem. O que você acha?

Aurora inclinou a cabeça concordando.

— Não precisa de um cavalete?

— Estou certa de que podemos nos arranjar como der, mas, se você preferir, podemos ir até o centro de Cork e comprar um na papelaria.

O rosto de Aurora se iluminou.

— Podemos ir de ônibus? — ela perguntou. — Eu queria passear de ônibus.

Grania arqueou uma sobrancelha.

— Você nunca andou de ônibus?

— Não, aqui não existem muitos, e quando moramos em Londres o motorista nos levava. Quem sabe você podia perguntar ao papai se ele deixa, quando falar com ele?

Grania concordou e, no instante em que se dirigiam ao salão de visitas para sair para o terraço, a senhora Myther, a governanta, desceu a escada com o cesto de roupas para lavar. Grania a encontrara antes, em algumas ocasiões, e ela parecera uma mulher bem agradável.

— Posso ter uma conversa com você, Grania? — a senhora Myther perguntou. — Em particular — baixou o tom de voz.

— Aurora, vá lá fora e tente encontrar o melhor ponto para pintarmos a paisagem. Estarei lá em dois segundos.

Aurora concordou e abriu uma porta veneziana que dava para o terraço.

— O senhor Devonshire pediu-me para lhe perguntar se seria possível você acompanhá-lo no jantar hoje à noite, ou amanhã. Ele gostaria de conversar com você sobre Aurora.

— Compreendo.

Grania deve ter parecido preocupada, porque a senhora Myther deu-lhe um tapinha no braço e sorriu.

— Não há nada com que se preocupar. O senhor Devonshire, e eu também, a propósito, estamos muitos gratos por todo o tempo que você tem dedicado a Aurora. Devo dizer a ele que hoje, ou amanhã, será o melhor para você? Obviamente, ele não quer que Aurora participe da conversa, você entende.

— Hoje à noite está ótimo.

— Devo dizer que você estará aqui por volta das 8 horas?

— Sim.

— Ótimo. E devo acrescentar que você é exatamente o que aquela criança precisa — acrescentou a senhora Myther. — Ela ganhou vida desde que a conheceu.

Grania atravessou o salão de visitas e saiu para o terraço, para encontrar-se com Aurora, e fez o melhor possível para não tentar adivinhar o que Alexander queria conversar com ela. As duas passaram uma manhã agradável sob a luz fraca do sol, Grania ensinando a Aurora os conceitos básicos da perspectiva. Quando começou a esfriar, elas voltaram para a cozinha, para pintar o esboço. Aurora subiu no joelho de Grania enquanto ela lhe mostrava como misturar um pouco de vermelho com azul para conseguir o roxo suave do penhasco, distante na extremidade da baía. Quando terminaram e afastaram-se para admirar seu trabalho manual, Aurora atirou-se num abraço ao redor do pescoço de Grania.

— Obrigada, Grania. A pintura ficou linda e vou pendurá-la no meu quarto a vida inteira, para me lembrar para sempre de casa.

A senhora Myther apareceu na cozinha e começou a mexer a sopa no fogão. Grania considerou a chegada dela como uma deixa para sair e levantou-se.

— O que vamos fazer amanhã? — indagou Aurora com ansiedade. — Você vai pedir ao papai, hoje à noite, se posso ir de ônibus até o centro de Cork?

Grania baixou os olhos para Aurora com surpresa.

— Como você sabe que eu venho hoje à noite?

— Eu simplesmente sei. — Aurora deu-lhe um tapinha no nariz. — Você vai perguntar para ele, não vai?

— Eu prometo — Grania concordou.

Grania dissera à mãe que não ficaria para o jantar naquela noite. A informação ocasionou uma sobrancelha arqueada, mas nenhum comentário.

— Estarei fora — disse Grania quando descia a escada. — Até mais tarde.

Kathleen fitou-a.

— Eu diria que você está vestida para um cavalheiro. É isso, Grania?

— Ah, mãe, o pai de Aurora simplesmente quer conversar comigo sobre a menina. Só estive com ele uma vez; não se trata de um encontro ou coisa parecida. — Grania encaminhou-se para a saída o mais rápido que pôde e pegou uma lanterna da prateleira.

— E o que devo dizer ao seu homem sobre onde a mulher dele está, se ele ligar?

Grania não deu uma resposta ao comentário, simplesmente bateu a porta atrás de si e seguiu em direção a casa. Não havia absolutamente nenhuma razão para sentir-se culpada e nenhuma razão para a mãe questionar seus motivos. Matt não tinha mais o direito de lhe dizer com quem deveria se encontrar ou o que fazer. Fora ele quem destruíra seu relacionamento. O fato de a mãe ter um fraco por Matt não ajudaria. E, depois de quase três semanas em casa, todas as noites, não lhe faria nenhum mal sair.

Armada com esses pensamentos desafiadores, Grania acendeu a lanterna e subiu pelo caminho.

Quando chegou à porta dos fundos da Casa de Dunworley, bateu e não obteve resposta. Sem saber o que fazer, decidiu entrar e parou, insegura, diante da cozinha vazia. Finalmente, saiu da cozinha e seguiu pelo corredor.

— Olá? — chamou de novo, sem receber nenhuma resposta. — Olá?

Atravessou o corredor e bateu na porta do salão de visitas. Abrindo-a, viu Alexander sentado em uma poltrona perto da lareira, lendo um documento. Ele teve um pequeno sobressalto ao ver Grania e levantou- -se, um pouco embaraçado.

— Aceite as minhas desculpas, acho que não ouvi você chegar.

— Não tem problema — disse Grania pouco à vontade, de novo sentindo a língua presa na presença dele.

— Por favor, deixe-me tirar seu casaco e venha sentar-se perto da lareira. Acho esta casa tão fria — comentou enquanto a ajudava a tirar o casaco. — Posso lhe oferecer uma taça de vinho? Ou um gim-tônica quem sabe?

— Vinho está ótimo.

— Fique à vontade, e logo estarei de volta.

Grania não se dirigiu à poltrona do outro lado da lareira — o calor na sala era opressivo. Em vez disso, sentou-se em um sofá forrado de damasco, elegante, mas desconfortável, e pensou como aquele salão era aconchegante à noite.

Alexander regressou com uma garrafa de vinho e duas taças.

— Obrigado por ter vindo, Grania — disse enquanto lhe estendia o vinho e voltava para sua poltrona ao lado da lareira. — Entre outras coisas, queria ter a oportunidade de lhe dizer como sou grato por ter entretido Aurora na última semana.

— Na verdade, foi um prazer para mim. Gostei tanto quanto ela.

— Ainda assim, foi muita bondade sua. Aurora me disse que você é escultora. Pratica sua atividade profissionalmente?

— Sim. Tenho um estúdio em Nova York.

— Que maravilha usar o próprio talento para ganhar a vida — Alexander suspirou.

— Acho que sim — arriscou Grania. — Por outro lado, nunca tive a capacidade de fazer outra coisa.

— Bem, é muito melhor ser excepcional em uma só atividade do que ser mediano em muitas. É assim que eu penso — declarou ele.

— Se não se importa de eu perguntar, o que exatamente você faz?

— Mexo com dinheiro ao redor do mundo; o dinheiro das pessoas, melhor dizendo. Você poderia dizer que sou um predador. O que faço não me dá nenhum prazer. É totalmente sem sentido — acrescentou ele de maneira sombria.

— Acho que está sendo duro demais consigo mesmo — comentou Grania. — Afinal de contas, é uma habilidade. Eu não saberia por onde começar.

— Obrigado por sua bondade, mas não crio nada, enquanto você cria algo concreto, que dá prazer ao comprador. — Alexander bebericou um gole do vinho. — Sempre admirei as pessoas com um dom artístico, apesar de eu mesmo não ter absolutamente nenhum. Adoraria ver seu trabalho. Você faz exposições?

— Faço, às vezes, embora ultimamente tenha feito mais esculturas por contrato com particulares.

Ele a encarou.

— Então, poderia contratá-la?

— Sim — Grania encolheu os ombros. — Acho que poderia.

— Muito bem, então, nesse caso eu poderia. — Ele disse gravemente. — Está disposta a ir jantar?

— Sim, quando quiser — replicou Grania vagamente.

Alexander levantou-se.

— Vou dizer à senhora Myther que podemos ir.

Grania observou-o enquanto deixava o salão, confusa sobre como um homem como ele podia parecer tão pouco à vontade. De acordo com sua experiência, os homens ricos e bem-sucedidos que se pareciam com Alexander tinham uma arrogância e uma confiança natural que acompanhavam o fato de serem universalmente admirados.

— Está tudo pronto — disse Alexander enfiando a cabeça pelo vão da porta. — Vamos para a sala de jantar, achei-a muito mais quente do que a cozinha.

Grania acompanhou-o até uma sala do outro lado do corredor. A comprida mesa de mogno, perfeitamente polida, estava arrumada para dois em uma extremidade. O fogo crepitava em outra lareira, e Grania encaminhou-se para a cadeira mais distante dela.

Alexander sentou-se na cabeceira da mesa, ao lado dela, e a senhora Myther entrou na sala trazendo dois pratos que dispôs diante deles.

— Obrigado — Alexander inclinou a cabeça quando a governanta deixou a sala. Ele olhou de relance para Grania e deu um sorriso amargo. — Peço desculpas pela simplicidade do prato, mas a culinária sofisticada não é o forte dela.

— Para falar a verdade, esta receita é o prato tipicamente irlandês de que mais gosto… colcannon; purê de batatas e couve temperados com leite, presunto, cebola, alho e molho — tranquilizou-o Grania.

— Bem, quando em Roma, faça como os romanos… afinal, este é um prato que sempre posso esperar que a senhora Myther prepare corretamente. Por favor — ele indicou — comece.

Eles comeram em silêncio por um tempo, Grania lançando olhares sub-reptícios ao companheiro. Por fim, ela rompeu o silêncio.

— Então, sobre o que precisava falar comigo, afinal?

— Queria lhe perguntar sobre seus planos para o próximo mês — explicou Alexander. — Supostamente, se está só visitando a família, deverá voltar em breve para Nova York, não?

Grania juntou a faca e o garfo.

— Para ser franca, ainda não decidi o que vou fazer.

— Devo concluir, então, por esse comentário, que está fugindo de alguma coisa?

Era uma observação perspicaz, vinda de alguém que mal a conhecia.

— Acho que poderia dizer mais ou menos isso — ela concordou com cautela. — Como sabe?

— Bem — Alexander terminou seu jantar e enxugou os lábios com o guardanapo. — Para começar, você tem um ar de sofisticação peculiar que é improvável ter adquirido na aldeia de Dunworley. Depois, eu vi você, talvez antes de Aurora, fazendo caminhadas ao longo do penhasco. Parecia evidente que refletia profundamente sobre alguma coisa. Deduzi que poderia estar lutando contra algum problema. E, por fim, é pouco provável que uma mulher como você normalmente tenha o tempo, ou a inclinação, para passar todos os dias na companhia de uma criança de 8 anos de idade.

Grania sentiu as faces enrubescerem.

— Eu diria que essa foi uma avaliação muito precisa da minha situação atual.

— Minha filha parece gostar terrivelmente de você e você também não desgosta dela, considerando os últimos acontecimentos…

— Acho que ela é uma menininha maravilhosa e nós passamos um ótimo tempo juntas — acrescentou Grania. — Mas ela é tão solitária.

— Sim, ela é solitária — admitiu Alexander com um suspiro.

— Por acaso não pensa em mandá-la para uma escola? Há uma ótima escola primária a pouco menos de dois quilômetros daqui; isso significaria que ela poderia fazer algumas amizades da mesma idade.

— Isso não faria sentido. — Ele abanou a cabeça. — Não sei por quanto tempo permaneceremos aqui, e criar laços para rompê-los depois é a última coisa de que Aurora precisa.

— E quanto a um internato? Assim, com certeza, para onde quer que você fosse, ela poderia, pelo menos, ter uma sensação de estabilidade — sugeriu Grania.

— É claro, esse pensamento me ocorreu — disse Alexander. — O problema é que, depois que a mãe morreu, Aurora apresentou problemas… problemas emocionais… que impedem isso. Portanto, muito embora seja menos do que ideal, ela precisa ser educada em casa. O que me traz ao motivo pelo qual a convidei para jantar esta noite.

— E qual seria?

— A senhora Myther trabalhou para nós, na nossa casa em Londres, e bondosamente consentiu em nos acompanhar quando partimos, apenas pelas primeiras semanas. No entanto, a família dela ficou em Londres e, obviamente, ela deseja voltar para casa o quanto antes. Estive em contato com diversas agências, tentando encontrar uma babá para Aurora e uma governanta para Dunworley, mas até o momento não tive sorte. E devo partir dentro de alguns dias. O que quero lhe perguntar, Grania, é se você estaria disposta a vir morar aqui, com Aurora, e cuidar dela até eu encontrar um pessoal adequado para assumir a tarefa.

Era a última coisa que Grania esperava ouvir.

— Eu…

Alexander ergueu a mão para interrompê-la.

— Entendo que você não é uma babá, nem a considero como tal. No entanto, neste momento, não é possível que Aurora me acompanhe, e preciso encontrar alguém, com urgência, em que possa confiar e com quem ela se sinta bem, para cuidar dela. Espero que não se sinta insultada com o pedido.

— De maneira alguma — ela replicou. — Estou honrada por confiar em mim, considerando que mal me conhece.

— Ah, eu conheço você, Grania — ele sorriu. — Aurora fala o tempo todo a seu respeito. Nunca a vi tão ligada a alguém desde que a mãe morreu. Portanto, perdoe-me o pedido. Entendo perfeitamente que possa ter outros planos. Prometo que não será por mais de um mês, mas só para me dar tempo para fazer o que... preciso… — a voz dele falhou — e encontrar alguém para cuidar dela em longo prazo.

— Um mês… Alexander — Grania mordeu o lábio. — Francamente, não sei.

— Por favor, pode pensar com calma. Não precisa se decidir agora. E a outra coisa que quero lhe perguntar é, caso concorde em ficar aqui, se poderia contratá-la para fazer uma escultura de Aurora. O que significaria que estaria trabalhando ao mesmo tempo. E pagarei a você tanto pela escultura quanto por cuidar da minha filha. Generosamente, devo acrescentar.

Grania sentiu-se afundar no azul-marinho dos olhos dele e procurou se recompor.

— Preciso voltar para casa e pensar no assunto, porque realmente não estou bem certa do que farei.

— É claro — concordou Alexander. — Quem sabe possa me informar o quanto antes? Partirei no domingo.

Domingo era dali a quatro dias.

— O que pretende fazer se eu disser não? — perguntou ela.

— Não faço a menor ideia — Alexander encolheu os ombros. — Talvez convencer a senhora Myther a ficar e dobrar o salário dela. De qualquer modo, isso não é problema com que deva se preocupar, e peço desculpas se a coloco em uma situação difícil. Deve procurar fazer o que for mais conveniente no seu caso. Perdoe-me por pedir, mas Aurora implorou para que o fizesse.

— Posso dar a resposta amanhã?

— Sim. E agora, se me der licença, receio que estou com uma terrível enxaqueca.

— É claro. Posso fazer alguma coisa para ajudar?

Alexander olhou para ela, com uma expressão de profunda tristeza nos olhos.

— Não, bem que gostaria que pudesse. — Ele estendeu a mão e colocou sobre a dela. — Obrigado por perguntar.

Enquanto voltava para casa, iluminando a trilha do penhasco com a lanterna, Grania sentiu-se envergonhada porque o toque da mão de Alexander na sua a tornara condescendente. Naquele momento, ela teria feito qualquer coisa para ajudá-lo. Quem ele era e o que ele era, ela simplesmente não sabia. Mas a dor que vira em seus olhos a acompanhou quando passou pela porta da casa da fazenda, subiu a escada até a cama e afundou, por alguma razão, exausta, entre os lençóis.

A ideia como um todo era ridícula,… ela era uma escultora de sucesso em Nova York, com uma vida...… o que estava fazendo ao pensar em mudar-se para uma casa no fim do mundo, à beira de um penhasco, para cuidar de uma garotinha na qual nunca pusera os olhos até uma semana antes? Queria agradar a um homem a respeito de quem não sabia nada? E além do mais, a linhagem da família Lisle, e a recente associação de Grania com ela, faziam sua mãe se preocupar inexplicavelmente.

E, no entanto… e, no entanto…

Enquanto o relógio marcava o correr dos minutos da noite, Grania teve o pressentimento de que entrava em águas perigosas. De repente, e com urgência, sentiu uma necessidade desesperada da segurança, da estabilidade e da normalidade da existência que conhecera nos últimos oito anos.

Será que seu relacionamento com Matt havia terminado?

Ela fugira tão depressa, tão magoada como um animal assustado.…

E nunca lhe dera a chance de se explicar. E se tivesse entendido errado? E se tudo não passasse de uma série de acontecimentos infelizes que ela juntara para criar um cenário que, na verdade, poderia ser facilmente, e inocentemente, justificável? Afinal de contas, ela simplesmente perdera seu bebê, um bebê acalentado havia muito tempo, decerto. Mas será que realmente não estivera em um tipo de situação emocional capaz de se equivocar? E se, em razão do choque e dos hormônios correndo por seu corpo, tivesse reagido de maneira exagerada? Grania suspirou e virou-se de novo na cama estreita. Sentia falta da enorme cama de casal que dividia com Matt. E do que haviam compartilhado nela. Sentia falta da vida...… sentia falta dele.

Grania chegou a uma decisão. Talvez fosse o momento de descobrir, dar a Matt uma chance para lhe apresentar sua versão dos acontecimentos.

Olhou para o relógio, que marcava 3 horas da madrugada, o que significava que eram 9 da noite em Nova York. Na pior das hipóteses, o telefone celular de Matt estaria desligado e a secretária eletrônica do apartamento, ligada. Na melhor das hipóteses, ele poderia atender aos dois.

Sentou-se, acendeu a luz e pegou o telefone celular. Sem pensar duas vezes, pressionou o nome de Matt e o número começou a ser discado. A caixa de recados de voz de Matt atendeu imediatamente e Grania desligou. Então discou o número do apartamento e, depois de dois toques, uma voz atendeu.

— Alô?

A voz era feminina e ela sabia a quem pertencia.

Sem palavras, Grania olhou para o vazio enquanto a voz repetia:

— Alô?

“Ai meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus…”

— Quem está aí?

Grania pressionou o polegar no botão para encerrar a ligação.

 

Na manhã seguinte, quando Grania e Aurora chegaram a casa, Alexander entrou na cozinha e não disfarçou sua expectativa.

— Eu vou aceitar. Vou cuidar de Aurora, quer dizer, por um mês, de qualquer modo.

— Isso é maravilhoso! Obrigado, Grania. Você não imagina o que significa para mim saber que Aurora estará segura aqui, com alguém de quem gosta. — Alexander olhou para a filha. — Está contente, Aurora?

Nenhum dos adultos precisava de uma resposta verbal. Ela estava escrita no semblante da menina.

— Ah, sim! — Ela correu para abraçar o pai, depois se adiantou para Grania e abraçou-a também. — Obrigada, Grania. Prometo que não darei trabalho.

— Tenho certeza disso. — Grania sorriu.

— E talvez possa haver tempo para abrir alguns daqueles livros da escola que você guarda lá em cima, hein? — Alexander falou para a filha e arqueou uma sobrancelha para Grania. — Ela veio para cá com lições para um mês, deixadas pela antiga preceptora lá em Londres. Duvido que tenha aberto os livros uma única vez.

— Mas, papai, eu estava tendo aulas de arte.

— Não se preocupe, cuidarei para que Aurora faça as lições — Grania apressou-se a dizer.

— Você perguntou ao papai sobre ir para o centro de Cork de ônibus? — quis saber a menina ansiosamente, voltando-se para o pai. — Grania precisa comprar coisas de arte e disse que eu poderia ir com ela. Posso ir, papai? Nunca andei de ônibus na vida.

— Não vejo nenhum mal nisso, desde que Grania não solte sua mão.

— Claro que não — disse Grania.

— E, quem sabe, ao mesmo tempo, possa comprar o que for preciso para a escultura sobre a qual conversamos ontem à noite? — indagou Alexander.

— Sim, se está certo de que quer mesmo que eu faça. Eu posso lhe mostrar alguns dos meus trabalhos pela internet.

— Para falar a verdade, já vi hoje de manhã — ele disse. — Estou contente por você aceitar, e, é claro, precisamos discutir o pagamento tanto por cuidar de Aurora quanto pela escultura. Estava imaginando se você conhece alguém na aldeia que pode vir aqui por algumas horas por dia para cuidar da casa. Não acho que seja algo que esteja incluído entre os seus deveres.

Grania pensou na antipatia da mãe pela família Lisle e imaginou quantas pessoas na aldeia teriam o mesmo sentimento.

— Posso perguntar — disse ela um tanto insegura. — Mas…

Alexander levantou a mão para detê-la.

— Entendo que nossa família não tenha uma boa reputação por aqui. Realmente, nunca cheguei ao fundo do motivo exato disso, já que sou, relativamente, um recém-chegado, mas posso lhe assegurar que tudo se baseia em uma história antiga.

— As pessoas na Irlanda têm uma memória longa — concordou Grania. — Mas verei o que posso fazer.

Aurora puxou a manga de Grania.

— Se não formos logo, não vamos perder o ônibus?

— O ônibus passa ao meio-dia. Temos dez minutos.

— Então vou levar vocês até o ponto — Alexander concluiu. — Obrigado mais uma vez, Grania, e antes de partir conversaremos para acertar os detalhes.

Depois de levar Aurora toda exultante de ônibus até o centro e voltar carregada com materiais da papelaria, Grania chegou em casa no momento em que a mãe se preparava para servir o jantar.

— E onde você esteve o dia inteiro, senhorita, gostaria de perguntar?

— No centro de Cork. — Grania deixou cair as sacolas de compras na saleta de entrada e tirou o casaco. — Precisava comprar algumas coisas.

— Soube que foi com uma amiga — disse Kathleen, enquanto servia o cozido de carne nas tigelas.

— Sim. Levei Aurora comigo. Ela nunca tinha andado de ônibus e estava muito empolgada. Posso ajudá-la, mãe?

Kathleen ignorou a oferta e colocou as tigelas sobre a mesa.

Enquanto se acomodava, e o pai e o irmão se juntavam a elas, Grania sentiu-se como se ela tivesse 8 anos de idade, surpreendida no ônibus enquanto cabulava a aula da escola.

Após o jantar, depois que Shane saiu para ir ao pub e o pai se instalou na sua poltrona perto da porta, Grania ajudou a mãe com a louça.

— Quer que eu ponha a chaleira para esquentar para fazermos um pouco de chá? — arriscou ela. — Tenho novidades para lhe contar.

— Você vai voltar para Nova York e para o seu homem adorável? — O rosto de Kathleen iluminou-se por um instante, mas Grania abanou a cabeça.

— Não, mãe, sinto muito, mas estou duvidando que isso volte a acontecer por enquanto — disse ela tristemente enquanto colocava a chaleira no fogão para ferver.

— Bem, Grania, o que não consigo entender é a razão para isso. Sei que foi uma experiência terrível você perder o seu bebê, mas…

— É mais do que isso, mãe, e, por favor, realmente não quero falar a respeito.

— Mas pelo que me pareceu, da parte dele, o que quer que tenha acontecido, Matt está disposto a corrigir. Não vai lhe dar uma chance, querida? — insistiu Kathleen.

Grania preparou duas xícaras de chá e levou-as para a mesa.

— Eu juro, mãe, se houvesse algum modo de arranjar isso, eu ia querer. Mas é tarde demais. E como você sempre disse, não faz sentido chorar sobre leite derramado. Preciso seguir em frente.

— Então, quais são seus planos?

— Bem, sei que você não vai gostar disso — Grania provou o chá pelando de quente —, mas o pai de Aurora precisa viajar por um mês e concordei em tomar conta da menina, na Casa de Dunworley, na ausência dele.

— Santa Maria, mãe de Deus! — Kathleen ergueu as mãos para as bochechas. — Não podia ser pior!

— Por favor, mãe, como Alexander me disse hoje, não importa mais o que aconteceu no passado. E nada disso tem a ver com a pobre menina. E também nada disso tem a ver comigo — enfatizou Grania, tentando, ao máximo, não perder a calma. — Alexander quer que eu faça uma escultura de Aurora enquanto estiver lá. Ele vai me pagar e, enquanto não resolvo as coisas com Matt, posso usar o dinheiro, mãe, acredite. Especialmente porque não faço a menor ideia de quando devo voltar para Nova York.

Kathleen agora estava com a cabeça enterrada entre as mãos.

— Jesus! É como se a história estivesse se repetindo. Mas você está certa. — Ela ergueu os olhos para a filha. — Por que o passado deveria ter alguma coisa a ver com você?

— Bem, mãe, talvez, se eu soubesse o que aconteceu no passado, pudesse compreender. Assim sendo, vou aceitar a oferta de Alexander. Por que não deveria?

— Por que não deveria…? — Kathleen suspirou. Ela fez um esforço mental para se recompor. — Muito bem, direi que o problema é que nós duas parecemos estar andando no escuro. Não faço a menor ideia do que deu errado entre você e Matt, e você não é capaz de entender por que isso me incomoda, você envolvida com a família Lisle. Você diz que ele não estará aqui enquanto permanecer na Casa de Dunworley?

— Não, ele estará fora.

— O que você achou do pai de Aurora?

— Ele parece um homem bonito e agradável. — Grania encolheu os ombros. — Não o conheço muito bem.

— Eu acho que ele foi… é… um bom homem. Mas todo mundo que teve a infelicidade de se envolver com essa família parece ter sido contaminado por ela, e isso se aplica a você também, Grania. — Kathleen apontou um dedo ferozmente na direção da filha.

— Mãe, a última coisa que quero é incomodar você, mas até onde eu sei…

— Sim, você está certa — exclamou Kathleen. Ela deu um sorriso fraco e bateu na mão da filha tristemente. — Mas eu imaginava que você seria a única que escaparia.

— É só por um mês, mãe — Grania enfatizou. — E, pelo menos, não ficarei atrapalhando sua vida.

— E é isso mesmo que você pensa que estou querendo, Grania? Depois de dez anos sem ver você? É um prazer ter você aqui, e sempre será.

— Obrigada, mãe. Também pensei se seria possível trazer Aurora aqui para conhecê-la — arriscou Grania. — Estou certa de que, depois que conhecê-la, vai compreender. Ela é uma garotinha adorável…

— Não comece a me pressionar agora, Grania. Estou certa de que ela é como você diz, mas os sentimentos são fortes aqui nesta casa. É melhor deixá-la longe por enquanto.

— Compreendo. — Grania bocejou. — Desculpe, não dormi muito na noite passada. Vou para a cama. — Ela se levantou e lavou a xícara na pia. Adiantou-se e beijou a mãe no alto da cabeça. — Boa noite, mãe. Durma bem.

— Você também, querida.

Quando ouviu a porta de Grania se fechar no alto da escada, Kathleen levantou-se e foi até a sala de estar conversar com o marido.

— Estou preocupada com a nossa garota — ela suspirou ao sentar- -se na poltrona na frente de John. — Ela mal chegou e já concordou em ficar lá na Casa de Dunworley por um mês, para tomar conta da filha dos Lisle.

— Ela lhe disse isso? — John desviou a atenção da televisão para examinar a expressão de ansiedade da esposa.

— Então, o que acha que podemos fazer? — indagou-lhe Kathleen.

— Eu diria que nada. Ela já é bem grandinha.

— John, você não consegue ver o que está acontecendo? Você sabe como Grania sempre se fecha quando o lado emocional perturba a vida dela. Ela está fazendo isso de novo. Dá para ver a dor que está sentindo por dentro, mas ela não se abre.

— É assim que ela é, Kathleen. Assim como o pai dela também — concordou John com imparcialidade. — Todos lidamos com os nossos problemas de maneira diferente e ninguém está certo ou errado.

— Você não acha estranho ela não ter derramado uma única lágrima pela perda do bebê?

— Como disse, cada um tem o seu modo de ser, querida. Deixe-a ser como é.

— John — Kathleen começou a perder a paciência com a calma com que o marido encarava uma situação que ela via como um desastre iminente —, nossa filha está dedicando todos os seus sentimentos maternais àquela criança. Ela está usando Aurora como uma substituta para o filho que perdeu. E, acima de tudo, talvez esteja vendo o pai da garota como um substituto de Matt. E enquanto ela dedica todas as suas energias a eles, não tem um único pensamento para a própria vida, nem tenta resolvê-la.

— Ah, Kathleen — replicou John, finalmente reagindo à aflição da esposa —, posso entender como essa situação a deixa contrariada, e entendo que queira proteger sua filha, mas não vejo nada que possamos fazer. Você vê?

— Não — disse Kathleen depois de uma longa pausa; sabia que estava procurando soluções que John não lhe poderia dar, mas sentia-se irritada com ele por não fazer nada de qualquer maneira. Ela se levantou. — Vou me deitar.

— Irei logo em seguida — replicou John às costas da esposa. Ele suspirou. Quando Kathleen se preocupava com um dos seus amados filhos, havia pouca coisa que pudesse fazer ou dizer para confortá-la.

Três dias depois, Grania subiu a montanha de carona, com o irmão, para levar suas coisas à Casa de Dunworley.

— Obrigada, Shane — disse ela enquanto descia do carro.

— Não há de quê, Grania — ele sorriu. — Avise se precisar trazer mais alguma coisa para cá. Cuide-se.

Grania pegou a grande mochila do porta-malas e entrou na cozinha pela porta dos fundos. Uma pessoinha rápida como um raio atirou-se em seus braços.

— Você veio! Eu esperei muito tempo!

— É claro que vim — Grania sorriu. — Você não pensou que eu não viria, não é?

Aurora franziu os lábios rosados.

— Às vezes os adultos dizem que vão fazer uma coisa e não fazem.

— Bem, não sou desse tipo de adulto — assegurou-lhe Grania.

— Então, papai disse que, quando você chegasse, era para lhe mostrar o seu quarto. Coloquei você ao lado do meu, assim não fica sozinha. Vem. — Aurora pegou a mão de Grania e puxou-a para fora da cozinha, passando pelo corredor e subindo a escada. Ela a conduziu até um lindo quarto com uma grande cama de ferro forjado, forrada com uma colcha rendada branca. As paredes eram pintadas de cor-de-rosa, com cortinas floridas nas janelas, que emolduravam a visão estonteante de cima do promontório.

— Cor-de-rosa é a cor que eu mais gosto — disse Aurora enquanto pulava sentada sobre a grande cama. — Você gosta também?

— Adoro o cor-de-rosa, o azul, o roxo e… — Grania sentou-se ao lado de Aurora sobre a cama e fez-lhe cócegas — o amarelo, o vermelho, o alaranjado, o verde…

Aurora ria de prazer, e foi assim que Alexander encontrou as duas, quando bateu na porta e entrou.

— Minha nossa! Mas que algazarra.

— Desculpe, papai. — Aurora empertigou-se imediatamente. — Não queria incomodar você.

— Não, querida, não incomodou. — Ele sorriu, o que, na opinião de Grania, pareceu mais uma careta. Ele parecia mortalmente pálido.

— Se conseguir soltar-se das garras de Aurora por uma meia hora, Grania, podemos tratar de alguns assuntos, antes da minha partida — sugeriu Alexander.

— Sim. — Grania levantou-se da cama e voltou-se para Aurora. — Por que não vai pegar aqueles seus livros da escola de que seu pai falou e nos encontramos na cozinha, daqui a pouco?

Aurora inclinou a cabeça obedientemente e saiu para o seu quarto, na porta ao lado, enquanto Grania e Alexander encaminhavam-se para a escada. Ele a levou para uma pequena biblioteca onde havia uma escrivaninha e um computador.

— Sente-se, Grania, por favor.

Grania obedeceu e Alexander estendeu-lhe uma folha de papel datilografado.

— Aí estão relacionados todos os meus telefones de contato. Acrescentei também o nome do meu advogado, Hans, e, se não puder me encontrar, ele é a melhor pessoa com quem deve falar. Ele sabe que você poderá ligar.

— Posso lhe perguntar para onde está viajando?

— Para a América, e depois, possivelmente, para a Suíça… — Alexander encolheu os ombros. — Peço desculpas por não poder ser mais específico. Também acrescentei os nomes de um encanador e de um eletricista, caso aconteça algum imprevisto na casa. O aquecedor de água está ligado no automático, no quartinho de serviços, que fica ao lado da cozinha. O jardineiro vem uma vez por semana e também providencia a lenha para as lareiras.

— Certo — disse Grania —, e eu acho que consegui encontrar uma faxineira temporária. Ela é filha da dona de uma lojinha na vila e parece uma boa garota.

— Ótimo. Muito obrigado, Grania. Verá que lhe deixei um cheque, incluindo uma quantia que considero justa por seu tempo por este mês, mais o pagamento pela escultura. Também acrescentei o bastante para cobrir as despesas gerais com comida, mais uma quantia para emergências, com a qual você poderá pagar a faxineira. Vai encontrar tudo detalhado nesta folha de papel. Se, por acaso, precisar de mais, como eu disse, por favor, entre em contato com o meu advogado.

Grania relanceou o olhar para o cheque. Estava preenchido com a quantia de 12 mil euros.

— Mas isto é muito mais do que eu…

— Sei que suas esculturas são vendidas por no mínimo 10 mil dólares cada, Grania.

— Sim, mas normalmente o cliente quer ver o produto acabado antes do pagamento final.

— Não preciso fazer isso — disse Alexander. — Agora, chega de finanças. Se não fosse por você, eu não poderia partir.

— Realmente é um prazer — reiterou Grania. — Gosto demais de Aurora.

— Pois saiba que o sentimento é mútuo. Desde que a mãe morreu, nunca vi a minha filha reagir a ninguém da maneira como se comporta com você. Acho isso… — Alexander suspirou — muito tocante.

Novamente, aquela expressão de tristeza profunda despontou nos olhos dele, e Grania precisou fazer um esforço para se conter e não estender a mão para confortá-lo.

— Prometo que cuidarei dela para você — disse baixinho.

— Sei que cuidará. E devo adverti-la… é difícil dizer isso… mas Aurora às vezes fala sobre a mãe como se ela estivesse aqui, nesta casa. — Alexander abanou a cabeça. — Nós dois sabemos que isso é simplesmente uma fantasia de uma criança deixada na orfandade. Eu lhe asseguro que não existem fantasmas aqui, mas, se Aurora prefere se consolar com esse pensamento, então não vejo que mal possa haver nisso.

— Não — admitiu Grania pensativa.

— Muito bem, então acho que isso é tudo. Vou partir em, aproximadamente, uma hora. Um táxi me levará até o aeroporto de Cork. Você pode, é claro, usar o meu carro à vontade, as chaves estão penduradas no porta-chaves na despensa.

— Muito obrigada. — Grania levantou-se. — Vou ver aonde foi Aurora e persuadi-la a se interessar por alguns livros.

— Telefonarei sempre que puder — Alexander concordou —, mas, por favor, não se preocupe se não receber notícias minhas por uns tempos. E Aurora também não deve se preocupar. Ah, a propósito — ele indicou a gaveta superior à esquerda da escrivaninha —, se por acaso alguma coisa vier a acontecer comigo, todos os documentos de que você poderia precisar encontram-se trancados ali. Meu advogado irá orientá-la sobre onde encontrar a chave.

Grania estremeceu de repente à expressão no rosto de Alexander.

— Vamos esperar que não precise dar esse telefonema. Voltaremos a nos ver dentro de um mês. Faça uma boa viagem.

— Obrigado.

Ela se encaminhou para a porta.

— Grania?

— Sim?

Alexander dirigiu-lhe um inesperado sorriso largo.

— Devo-lhe um jantar quando voltar. Você salvou a minha vida, literalmente.

Grania inclinou a cabeça e retirou-se apressadamente do aposento.

Grania e Aurora sentaram-se no sofá, junto à janela do quarto da menina, e observaram enquanto o táxi de Alexander seguia pela alameda sinuosa montanha abaixo. Instintivamente, ela passou o braço ao redor dos ombros de Aurora, mas a menina parecia calma. Ela ergueu os olhos para Grania.

— Tudo bem. Não estou triste. Já me acostumei com as viagens de trabalho. E desta vez está até melhor, porque você está aqui comigo. — Ajoelhou-se no assento e atirou os braços ao redor do pescoço de Grania. — Grania?

— Sim?

— A gente podia ir até a sala de estar, acender a lareira e tostar uns marshmallows, como faziam no livro de Enid Blyton

[2]

que acabei de ler?

— Acho uma ideia maravilhosa. Desde que você passe uma hora fazendo somas na mesa da cozinha enquanto preparo o jantar. Feito? — Grania estendeu a mão.

Aurora apertou-a e sorriu.

— Feito.

Mais tarde naquela noite, depois de ter acomodado Aurora na cama para dormir, e ter sido persuadida a ler uma história para ela por mais tempo do que haviam combinado originalmente, Grania voltou para o andar de baixo e dirigiu-se à sala de estar. Enquanto se ajoelhava à frente da lareira para alimentá-la com mais lenha e atiçar o fogo, notou o silêncio da casa e imaginou como fora possível ter concordado com uma coisa dessas. Concluiu que fora simplesmente uma reação instintiva ao choque de ter escutado a voz de Charley no apartamento dela na outra noite. Estava se aprisionando em uma casa por um mês, sozinha, com uma garotinha que mal conhecia, isso era uma coisa razoável de fazer?

Quis que Matt telefonasse para a casa dos seus pais, quis que a mãe lhe dissesse que não estava mais lá, precisava que ele soubesse que o que ele lhe fizera não a destruíra, que ainda era capaz de seguir em frente…

Com algum esforço, substituiu a face de Matt pela de Alexander. Teria sido imaginação sua a expressão no rosto dele quando a convidara para jantar ao regressar? E estava tão vulnerável no momento que podia ter-se apegado com todas as forças a algumas palavras que poderiam ter sido ditas apenas por educação, sem nenhum outro significado? Ela suspirou, concluindo que, fosse qual fosse o motivo de Alexander, teria pelo menos um mês para pensar a respeito sem se decidir.

Depois de apagar as luzes do andar de baixo, subiu a escada em direção ao seu quarto. Tomou um longo banho de imersão na funda banheira antiga, ao lado do quarto, antes de vestir o pijama e aninhar-se na cama grande e confortável. Permaneceu recostada nos travesseiros, regalando- -se com todo aquele espaço, depois de semanas em sua cama estreita.

Amanhã, pensou, enquanto apagava a luz, começaria a fazer um esboço de Aurora, desenvolver uma impressão da forma do seu rosto, decidir qual expressão aparecia com mais frequência em seus olhos…

Afinal, aquietou-se para dormir e fechou os olhos.

Kathleen estava sentada à mesa da cozinha, diante de uma caneca de chá. Ouviu pela porta que o noticiário das 10 acabara de terminar. Depois de escutar a previsão do tempo, John desligaria o televisor, bem como as luzes, e viria até a cozinha para encher um copo de água para levar ao quarto.

Kathleen levantou-se e encaminhou-se para a porta dos fundos. Abriu-a e olhou para o lado esquerdo. Não havia luzes acesas na casa, no alto do penhasco. Grania já devia ter ido dormir. Kathleen fechou a porta atrás de si e estremeceu ligeiramente, enquanto travava e aferrolhava a porta, por causa da sensação de desconforto que sentira ao imaginar o que a filha estaria fazendo naquela noite. Quando voltou para a cozinha, John achava-se parado ao lado da pia, abrindo a torneira para encher o copo com água.

— Estou indo para a cama, meu bem. Você também vai? — Ele baixou os olhos para a esposa e dirigiu-lhe um sorriso gentil.

Kathleen deu um longo suspiro e esfregou o rosto com a palma das mãos.

— Ah, John, nem sei mais o que fazer de mim mesma.

John deixou o copo com água no escorredor de pratos, aproximou-se da esposa e tomou-a entre os braços.

— O que foi? Não é comum você ficar nesse estado. Melhor me contar qual é o problema.

— É Grania… lá em cima naquela casa, tão sozinha. Sei que vai dizer que é bobagem minha, mas… — ela ergueu os olhos para o marido — você sabe o que sinto em relação àquela família e sobre o mal que nos causou.

— Sim, eu sei — John ajeitou uma mecha de cabelo grisalho da esposa atrás da orelha. — Mas aconteceu já faz tanto tempo. Grania e a criança fazem parte de uma nova geração.

— Será que eu deveria contar a ela? — Kathleen suplicou-lhe com os olhos para que lhe desse uma resposta.

John suspirou.

— Não sei com certeza se seria boa ou má ideia. Mas sei que não dizer nada obviamente a incomoda. Se isso fizer você se sentir melhor, então deve contar. Não que venha a fazer alguma diferença nos acontecimentos. Você sabe, tão bem quanto eu, que a geração seguinte não pode ser culpada pelos pecados dos pais.

Kathleen descansou a cabeça contra o peito largo do marido.

— Eu sei, John, eu sei. Mas o que eles fizeram à nossa família… — Ela abanou a cabeça. — Eles quase nos destruíram, John, você sabe muito bem. — Ela o olhou com um temor nos olhos. — E eu vi a expressão de Grania quando se referiu ao pai de Aurora. Duas gerações arruinadas por causa daquela família, e agora estou vendo acontecer de novo, diante dos meus próprios olhos.

— Ora essa, meu bem, nossa Grania é feita de um material resistente — John consolou-a. — Você sabe muito bem que não há como persuadir nossa filha a fazer algo que não queira.

— Mas e se ela quiser a ele?

— Haverá pouca coisa que você possa fazer. Grania é uma mulher adulta, não uma criança, Kathleen. Mas por que está temendo o pior? Ele nem está na casa, ela só está cuidando da filha na ausência dele, não há nada para sugerir que…

Kathleen afastou-se do marido e abanou as mãos em desespero.

— Não! Você está errado! Eu vi o olhar dela, John, e a expressão nos olhos dela era por causa dele. E quanto ao Matt? Talvez eu devesse telefonar para ele, pedir que viesse até aqui… Ela não sabe, não entende.

— Kathleen, acalme-se. — John suspirou. — Você não pode querer interferir nos assuntos da sua filha. Tem alguma coisa que ela não nos disse sobre o Matt, e não é da nossa conta saber até que ela o diga. Mas talvez você se sentisse melhor se contasse a ela sobre o passado. Não fará mal nenhum, e Grania entenderia por que você tem tanta dificuldade de aceitar a presença dela naquela casa.

Kathleen ergueu os olhos para ele.

— Você acha mesmo isso?

— Sim. Depois ela poderá decidir por si mesma. Agora, a minha decisão é de que já é tarde e precisamos ir para a cama. E como sou o pai dela, juro a você que não deixarei que nenhum mal aconteça à nossa filha.

Mais calma agora, Kathleen deu um sorriso apagado para o marido.

— Obrigado, meu querido. Sei que não deixará.

Grania foi acordada por uma batida forte. Sentando-se e estendendo a mão para o interruptor da luz, imaginou se o ruído teria partido de um sonho. Verificou as horas no relógio da cabeceira da cama e viu que passavam alguns minutos das três. O silêncio era total no momento, então ela apagou a luz e acomodou-se de novo na cama para tentar dormir.

O som fraco das tábuas do assoalho rangendo, no piso do lado de fora do seu quarto, fez com que se sentasse de novo na cama. Concentrou-se atentamente e ouviu o som de passos, depois uma porta sendo aberta em algum lugar ao longo do corredor. Saindo da cama, Grania abriu cuidadosamente a porta do quarto e espiou para fora. No fim do patamar da escada havia uma porta aberta, deixando passar uma réstia de luz. Grania caminhou até lá, ouvindo as tábuas do assoalho rangerem sob os próprios pés. Alcançando a porta, abriu-a e deparou-se com um quarto banhado pelo luar, que vinha das portas venezianas que levavam para a sacada do lado de fora. O quarto estava gelado e Grania também, com as portas venezianas abertas. Caminhando nervosamente na direção delas, o coração, agora, batendo apressado no peito, passou pelas portas e saiu para a sacada.

E lá estava Aurora, uma figura fantasmagórica ao luar, os braços estendidos na direção do mar, exatamente como a vira pela primeira vez.

— Aurora — Grania sussurrou, todos os sentidos alertas para a balaustrada que separava a criança de uma queda de quase quatro metros até o chão, mas que mal chegava à sua cintura. — Aurora — chamou baixinho de novo, sem obter nenhuma reação. Instintivamente, estendeu a mão e segurou-a pelo braço, mas, ainda assim, a menina não reagiu. — Vamos entrar, querida, por favor. Você corre perigo aqui. — Sentiu o corpo gelado de Aurora embaixo da camisola.

De repente, Aurora estendeu uma das mãos na direção do mar.

— Ela está ali, bem ali… não consegue ver?

Grania acompanhou os dedos de Aurora até a borda do penhasco e prendeu a respiração. Uma imagem sombria, a silhueta marcada pela luz do luar, permanecia parada no lugar onde avistara Aurora pela primeira vez.… Grania engoliu com dificuldade, fechou os olhos e tornou a abri- -los. Olhou de novo na mesma direção e não viu mais nada. O pânico a dominou, ela sacudiu o braço de Aurora.

— Aurora! Vamos para dentro, agora!

Em resposta, a menina voltou-se, o rosto tão branco quanto o luar. Ela sorriu para Grania sem pronunciar uma palavra e deixou que a levasse para dentro, para o quarto e até a soleira da sua porta. Quando Grania a acomodou na cama, acrescentando um cobertor que pegara para aquecê-la, a menina não disse nada, apenas rolou para o lado e fechou os olhos. Grania permaneceu sentada ao lado dela até ouvir sua respiração voltar ao normal e ter certeza de que adormecera. Então, tremendo de frio e de medo, seguiu, na ponta dos pés, de volta para o quarto.

Quando se deitou, viu com clareza, em sua mente, a silhueta parada à beira do penhasco.

Será...… será que imaginara aquilo? Nunca fora inclinada a ter medo do desconhecido; costumava rir da mãe quando ela falava sobre o mundo espiritual em que acreditava, descartando tudo aquilo como produto da imaginação.

Mas nessa noite...… nessa noite...… lá no penhasco...…

Grania suspirou. Estava sendo ridícula.

Fechou os olhos e procurou dormir.

 

Grania acordou com o sol iluminando as janelas do quarto. Espreguiçou-se, rolou para o lado e viu que passava das 8 horas. Normalmente, em casa, acordava com os ruídos do pai e do irmão saindo ao amanhecer para ordenhar as vacas. Recostou-se nos travesseiros e, com um estremecimento, lembrou-se dos fatos estranhos da noite anterior. Com certeza, fora obra da sua imaginação. E na claridade da manhã, enquanto saía da cama para se vestir, foi fácil acreditar que fora mesmo.

Aurora já estava na cozinha, comendo uma tigela de cereais. Sua expressão tornou-se triste quando viu Grania.

— Eu ia levar o seu café na cama — reclamou.

— É muita gentileza sua, mas fico feliz em preparar eu mesma. — Grania encheu a chaleira e colocou-a no fogão. — Dormiu bem durante a noite? — perguntou com cautela.

— Muito bem, obrigada — respondeu Aurora. — E você?

— Bem, também — ela mentiu. — Quer um pouco de chá?

— Não, obrigada. Só bebo leite. — Aurora fez uma pausa, com a colher cheia de cereais entre a boca e a tigela. — Às vezes, Grania, tenho uns sonhos muito estranhos.

— É mesmo?

— Sim… — a colher continuava suspensa — à vezes sonho que vejo a minha mãe, parada lá no penhasco.

Grania não disse nada, mas continuou a preparar o chá e a observar a colher de cereais entrando na boca de Aurora. Quando Grania sentou-se, Aurora mastigou pensativamente. Depois levantou os olhos para Grania.

— Mas é só um sonho, não é? Mamãe está morta, não pode voltar porque está no céu. O papai disse isso.

— Sim. — Grania pousou a mão consoladora sobre o ombro de Aurora. — O papai está certo. As pessoas que vão para o céu não podem voltar, por mais que a gente queira que voltem…

Foi a vez de Grania sentir a dor repentina da própria perda. Seu precioso bebezinho minúsculo nunca tivera a chance de experimentar nenhuma forma de vida e morrera dentro dela antes de respirar. Mas isso não significava que não tivesse imaginado como seria o seu bebê… a vida que ele, ou ela, teria. As lágrimas encheram seus olhos e ela fez o melhor que pôde para contê-las.

— Mas, às vezes, eu acho que ela está aqui — continuou Aurora — e tenho certeza de que a vejo. E quando conto ao papai, ele fica bravo e me manda para o médico, então não conto mais — acrescentou tristemente.

— Venha cá. — Grania estendeu os braços e puxou a menina para os seus joelhos. — Eu acho, Aurora, que é claro que sua mãe a amava muito, e você a amava também. Mesmo que seu pai esteja certo e as pessoas não possam voltar do céu, ainda assim podemos sentir como se elas estivessem conosco, cuidando de nós e nos amando.

— E você não acha que isso é errado? — Aurora fitou-a com ansiedade, querendo ser tranquilizada. — Você não acha que eu sou louca?

— Não, eu não acho que você é louca. — Grania pegou uma mecha de cabelo ruivo da menina e enrolou-a no dedo. — Agora — beijou-a na testa — eu estava pensando que hoje de manhã devemos fazer uma lição de casa para agradar ao papai, e posso fazer alguns desenhos de você para a escultura que vou fazer para ele. E, depois, a tarde é nossa para fazer o que quisermos. Tem alguma ideia?

— Não — Aurora encolheu os ombros. — E você?

— Bem, eu pensei que poderíamos ir até Clonakilty para comer um sanduíche e depois ir até a praia.

Aurora bateu as mãos, deliciada.

— Ah! Por favor... Adoro a praia!

— Então está combinado.

Aurora ficou um bom tempo sentada à mesa, muito concentrada, fazendo somas e, depois, respondeu a uma página de perguntas de geografia. Grania desenhou-a rapidamente, de vários ângulos, até ter uma boa impressão da estrutura óssea. No meio da manhã, enquanto Grania fazia um café, percebeu que faltava alguma coisa.

— Aurora, vocês têm um rádio ou um aparelho para tocar CD em algum lugar da casa? — indagou. — Quando fico trabalhando no meu estúdio, adoro ouvir música.

— A mamãe não gostava de música — disse a menina sem levantar os olhos.

Grania arqueou uma sobrancelha, mas não insistiu.

— E quanto a uma televisão?

— Tínhamos uma na nossa casa, em Londres. Eu gostava de assistir.

— Bem, o papai me deixou algum dinheiro, então, que tal se comprássemos uma? Você gostaria?

O rosto de Aurora se iluminou.

— Eu ia adorar, Grania.

— Você acha que o papai não se importaria?

— Ah, não, ele assistia também, em Londres.

— Então tudo bem, vamos comprar uma na cidade antes de irmos para a praia. E vou pedir ao meu irmão, Shane, para vir aqui instalá-la para nós. Ele é bom nessas coisas.

— Posso tomar um sorvete na praia?

— Sim — Grania sorriu —, podemos tomar um sorvete.

Depois de comprar a televisão em Clonakilty, as duas foram almoçar, em seguida foram de carro até a magnífica praia de Inchydoney ali perto, pela qual a cidade era famosa. Grania, tomada por uma ânsia de captar a graça espontânea dos movimentos da menina, ficou observando enquanto Aurora dançava na extensão deserta de areia branca. Para uma garotinha que nunca assistira a uma aula de dança na vida, sua habilidade natural era de tirar o fôlego. Ela movia os braços no alto, criando formas belas e linhas singulares enquanto erguia alternadamente as pernas do chão, sem esforço algum, em jetés perfeitos. Por fim, Aurora veio na direção de Grania e atirou-se sobre uma duna de areia, um rubor rosado saudável cobria suas faces.

— Você adora dançar, não é? — comentou Grania.

— Sim. — Aurora pôs as mãos atrás da cabeça e olhou para as nuvens no céu. — De verdade, eu não sei bem dançar, mas eu… — ela fez uma pausa.

— Sim? — Grania a incentivou.

— É, parece que eu sei dançar mais ou menos. Quando estou dançando, eu fico feliz. — Uma sombra repentina passou pelo rosto de Aurora e ela suspirou. — Queria que fosse sempre assim.

— Você gostaria de aprender a dançar? Da maneira correta, quero dizer, tomar aulas de balé?

— Ah, eu queria. Mas o papai falou isso para mamãe, uma vez, e ela disse não. Não sei por quê. — Aurora enrugou o narizinho arrebitado.

— Bem — disse Grania com cuidado — talvez fosse porque ela pensasse que você era muito nova. Estou certa de que ela não se importaria se experimentasse agora. O que você acha?

Grania sabia bem, era imprescindível que a decisão partisse de Aurora, não dela.

— Pode ser… mas onde eu ia aprender? — indagou Aurora em dúvida.

— Aqui mesmo em Clonakilty tem um curso de balé, todas as quartas-feiras à tarde. Eu sei porque costumava frequentar.

— Então a professora deve ser muito velha.

— Não tão velha, menina! — Grania riu sem poder se controlar. — Nem eu sou velha assim. E então? Acha que podemos experimentar amanhã?

— Não preciso de sapatilhas de balé e uma daquelas roupas de bailarina? — indagou Aurora.

— Você quer dizer o colante? — Grania pensou um pouco. — Bem, acho que podemos ver como você se sai amanhã e, se achar que gosta e quiser continuar, voltamos ao centro de Cork outra vez e encontramos alguns apetrechos para você.

— Acho que as outras meninas vão rir de mim se eu for com as minhas roupas normais.

Era a reação normal de uma menina tímida de 8 anos de idade.

— Acho que, depois de verem você dançar, não vão nem notar o que está usando.

— É... — Aurora respondeu meio em dúvida. — Mas se eu não gostar… nunca mais voltarei lá, certo?

— Claro que não, minha querida.

Mais tarde, naquela noite, Shane apareceu para ligar o televisor no salão de visitas. Aurora ficou em torno do rapaz, toda empolgada, e ouviu com atenção enquanto ele lhe explicou, pacientemente, como mudar de canal com o controle remoto. Depois que Aurora se acomodou na frente do aparelho, irmão e irmã foram para a cozinha.

— Quer beber alguma coisa? — indagou Grania. — Comprei uma garrafa de vinho na cidade — acrescentou e abriu-a em seguida.

— Aceito meia taça, mas você sabe que eu realmente não sou de beber vinho — disse Shane enquanto se sentava. Ele olhou ao redor de si. — Esta casa bem que mereceria uma demão de tinta, não acha?

— É verdade, mas considere que ela ficou fechada nos últimos quatro anos. Quem sabe, se eles ficarem por aqui, Alexander resolva reformá-la.

— Que casa mais abandonada, pelo amor de Deus. — Shane bebeu seu vinho em dois goles, como faria com a caneca de cerveja. — Acho que você tem coragem por ficar sozinha aqui, só com aquela baixinha por companhia. Eu, com certeza, não me daria bem. E a mamãe não está gostando nem um pouco disso também.

— Ela deixou bem claro. — Grania serviu mais vinho na taça dele. — Mamãe nunca foi de esconder os sentimentos, não é? Você faz alguma ideia do motivo pelo qual ela é tão contrária a esta casa e a esta família?

— Não faço a mínima ideia. — Shane repetiu o ritual da bebida com o vinho. — Mas com certeza é algo que tem a ver com um passado distante. Não se preocupe, Grania, todos sofremos com isso. No ano passado, passei um tempo com uma garota cuja mãe tinha estudado na classe dela, na escola. Mamãe não disfarçou que não gostava dela e tornou a minha vida um inferno. — Shane sorriu. — Ainda bem que aquela não era a garota certa… Mas o coração da mamãe não se deixa enganar, Grania, você sabe como ela é.

— Pois é, eu sei… — Grania suspirou. — Mas, às vezes, é difícil saber até que ponto existe mesmo um motivo real por trás do que ela sente.

— Bem, só sei que ela andou conversando sobre você com o papai, ontem à noite, então acho melhor fazer uma visita amanhã. Bem, agora vou andando; o chá já deve estar para ser servido e ela não gosta que a gente se atrase, você sabe. — Shane levantou-se — E aquela coisinha ali — ele apontou para Aurora — é uma gracinha mesmo. Ela só precisa de uma mãe e de um pouco de amor, isso eu reconheço. Se precisar de alguma coisa enquanto estiver aqui, Grania, ligue no meu celular, não há necessidade de mamãe sequer saber por onde eu andei, porque uma coisa é certa — ele acrescentou, dando um beliscão na bochecha da irmã —, ela não vai mudar nunca. Até logo.

Antes de ir para a cama, naquela noite, Grania foi até o fim do corredor e abriu a porta do quarto que dava para a sacada onde encontrara Aurora, na noite anterior. Mal acendeu a luz e sentiu um leve traço adocicado de um perfume no ar. Voltou e demorou-se apreciando a elegante penteadeira de três espelhos, sobre a qual se alinhava, organizada, uma variedade de apetrechos de mulher. Aproximando-se, pegou uma delicada escova de cabelo de marfim com as iniciais “L. L.” gravadas no cabo. Virou-a de lado e viu um comprido fio de cabelo louro-avermelhado ainda preso nas cerdas. Grania estremeceu — sempre considerara os vestígios que os mortos deixavam atrás de si algo estranho e perturbador.

Deixou a penteadeira e apreciou a cama, coberta com uma colcha rendada e primorosamente arrumada com diversos travesseiros, como se ainda esperasse que a antiga ocupante viesse se deitar. Olhou para o pesado armário de mogno e, incapaz de se conter, aproximou-se e virou a chave. Como suspeitava, as roupas de Lily ainda estavam penduradas, e o cheiro de perfume que dominava o quarto era forte em todas as peças do vestuário.

— Você está morta… acabou…

Grania sussurrou as palavras como que para se convencer. Deixou o quarto, girou a chave da fechadura e trancou-a pelo lado de fora. Voltou pelo corredor e guardou a chave no criado-mudo de sua cama. Deitou- -se e pensou se, pelo bem de Aurora, seria bom que o quarto da mãe fosse mantido intocado desde a sua morte. Era o equivalente a um santuário, invocando e perpetrando a ideia de que Lily ainda vivia.

— Pobre menina — Grania murmurou para si mesma sonolenta. E, pensando nisso, mesmo que a visão da sua própria mãe em relação à família de Lily fosse excessivamente dramatizada, não havia dúvida de que a casa, e seus moradores, eram decididamente estranhos.

Grania acordou sobressaltada, a luz do criado-mudo ainda acesa. Ouviu passos do lado de fora do quarto e, na ponta dos pés, foi abrir a porta. A figura delicada de Aurora achava-se parada no fim do corredor, girando inutilmente a maçaneta da porta do quarto da mãe.

Grania acendeu a luz do patamar da escada e aproximou-se.

— Aurora — murmurou, pousando a mão no ombro da menina. — Sou eu, Grania.

Aurora voltou-se, o rosto tomado de ansiedade e confusão.

— Querida, você andou sonhando de novo, volte para a cama. — Grania tentou virá-la para longe da porta, mas Aurora sacudiu-se para se desvencilhar e voltou a tentar girar a maçaneta, cada vez mais frustrada por não conseguir abri-la. — Aurora, acorde! Você está sonhando — insistiu Grania.

— Por que a porta não abre? Mamãe está me chamando, eu tenho que ir até ela. Por que não posso entrar?

— Aurora — Grania balançou-a gentilmente. — Você precisa acordar, querida. — Tentou tirar os dedos da garotinha da porta, conseguindo finalmente. — Venha comigo, querida, vou levá-la de volta para a cama e cobri-la.

Todo o desejo de resistir abandonou o corpo de Aurora de repente e ela desmoronou de encontro a Grania, soluçando.

— Ela estava me chamando, eu ouvi… Grania, eu ouvi ela me chamar.

Grania sentiu Aurora estremecer, pegou-a nos braços e carregou-a pelo corredor de volta à cama. Enxugou delicadamente as lágrimas da sua face e arrumou-lhe o cabelo.

— Querida, Aurora, não vê que tudo isso é um sonho? Não é real, eu lhe garanto.

— Mas eu ouvi, Grania, ouvi a voz dela. Ela me pediu para ir me encontrar com ela.

— Eu sei, querida, e acredito de verdade em você. Muitas pessoas têm sonhos quase reais, especialmente sobre pessoas que perderam e de que sentem muita falta. Mas, Aurora, querida, sua mãe se foi, foi para o céu.

— Às vezes — Aurora enxugou o nariz com a mão —, acho que ela quer que eu vá para o céu com ela. Ela fala que está sozinha e quer que eu fique com ela. Todo mundo pensa que eu sou louca… mas não sou, Grania, não sou mesmo.

— Claro que não — Grania tranquilizou-a. — Agora, por que não fecha os olhos enquanto fico aqui até você dormir?

— Eu estou um pouco cansada… — Aurora fez como ela pedira e Grania acariciou-lhe a testa. — Amo você, Grania, é bom quando você fica aqui — ela murmurou.

Finalmente, Aurora mergulhou num sono profundo e Grania voltou para o quarto em silêncio, sentindo-se igualmente exausta.

 

Na tarde seguinte, Aurora estava toda nervosa no carro, enquanto Grania dirigia até Clonakilty.

— Olhe, se não gostar da aula, nunca mais precisa voltar — Grania procurou consolá-la.

— Eu sei que vou gostar um pouquinho de dançar, mas tenho medo das meninas me olhando — disse Aurora. — As meninas da minha idade não gostam de mim.

— Sei que isso não é verdade, Aurora. E, como a minha mãe costuma dizer, a gente nunca deve deixar de experimentar, pelo menos uma vez.

— Sua mãe deve ser legal — disse Aurora enquanto descia do carro. — Você acha que podemos ir a sua fazenda um dia, para eu conhecê-la?

— Tenho certeza de que podemos combinar isso. A propósito, vou justamente me encontrar com ela para uma xícara de chá durante sua aula. — Grania conduziu-a pela porta do prédio da prefeitura local, onde funcionava o centro de atividades comunitárias e o estúdio de dança.

A senhorita Elva, a antiga professora de balé de Grania, com quem ela já havia conversado a respeito de Aurora, recepcionou-as à entrada do estúdio.

— Grania, bom rever você — elas trocaram beijos e a professora voltou-se à menina. — E esta deve ser Aurora. — Ajoelhando-se na frente da menina, a senhorita Elva segurou-lhe as mãos. — Você sabe, não é, que tem o nome da linda princesa do balé A Bela Adormecida?

Aurora arregalou os olhos e balançou a cabeça.

— Não, eu não sabia.

— Muito bem — a senhorita Elva levantou-se e ofereceu-lhe a mão —, agora venha comigo e vou apresentá-la a algumas meninas da sua classe. Vamos nos despedir de Grania e voltar a vê-la daqui a uma hora.

— Tudo bem. — Aurora, timidamente, colocou a mão na da senhorita Elva e seguiu-a pela porta da sala.

Grania deixou o prédio e caminhou ao longo da rua estreita e movimentada, ladeada por casas pintadas em cores alegres, como era o costume na Irlanda. Pela janela do Café do O’Donovan, avistou a mãe em uma mesa, já bebericando uma xícara de chá.

— Olá, mamãe, como você está? — Grania beijou-a e sentou-se na frente dela.

— Estou ótima. E você?

— Estou bem, mamãe. — Grania estudou o cardápio enxuto e pediu outro bule de chá e um bolinho de aveia.

— Muito bem, quer dizer que essa é a primeira vez que a menina vai a uma aula de dança?

— É, e realmente, embora eu não seja nenhuma especialista, acho que ela tem potencial para ser muito boa. Ela é tão engraçadinha, mamãe, às vezes me pego admirando-a, encantada pela leveza de seus movimentos.

— Bem, é claro — assentiu Kathleen circunspecta. — Eu diria que ela tem um dom desse tipo. Está no sangue — ela suspirou.

— Sério? — Grania levantou as sobrancelhas enquanto chegava seu chá. — A mãe dela era uma dançarina?

— Não, mas a avó era. E muito famosa na época.

— Estou surpresa de que Aurora não tenha mencionado isso. — Grania deu uma mordida em seu bolinho.

— Talvez ela não saiba. Então, como tem sido lá na Casa de Dunworley?

— Está indo... bem. — Grania precisava conversar com a mãe sobre os passeios noturnos de Aurora e sobre a atmosfera estranha na casa, mas não queria fornecer mais motivos para alimentar o mal-estar de Kathleen. — Aurora parece estar relaxando e saindo da concha comigo. Como você sabe, comprei uma TV para ela, e ela está adorando. Sinto que ela precisa — Grania procurou a expressão adequada — de alguma normalidade. Não parece saudável ser isolada do mundo exterior por tanto tempo. A solidão a deixa só com os próprios pensamentos e ela fica imaginando coisas.

— Imaginando coisas, é? — Kathleen deu um sorriso irônico. — Eu diria que tem falado que vê a mãe, não é?

— É... mas nós duas sabemos que ela está sonhando.

— Então, você não viu a mãe dela de pé no penhasco ainda? — Os olhos de Kathleen brilharam.

— Mamãe, fale sério! Você está brincando, não é?

— Não, na verdade não, Grania. Eu mesma nunca a vi, mas poderia indicar-lhe algumas pessoas da aldeia que juram ter visto.

— Bem, é claro que isso é ridículo. — Grania tomou nervosamente um gole do seu chá. — Mas o problema é que eu acho que Aurora acredita que a mãe realmente aparece para ela. Ela... tem andado enquanto dorme, e, quando tento acordá-la, diz que a mãe a está chamando.

Por força do hábito, Kathleen fez o sinal da cruz e balançou a cabeça.

— Bem, agora, o que deu no pai dela para trazê-la aqui? Não consigo mesmo imaginar. De qualquer forma, não é da nossa conta saber. Apesar de você ser a única a ficar para cuidar da garotinha.

— Eu não me importo. Eu gosto dela e quero ajudá-la, se puder — respondeu Grania na defensiva. — Então, o que você queria falar comigo?

— Bem, Grania — Kathleen inclinou-se, baixando a voz. — Tive uma conversa com seu pai, pois é, e ele acha que é melhor eu lhe contar o motivo pelo qual me preocupo com seu envolvimento com aquela família. — Kathleen mexeu na sacola que carregava e tirou de dentro um maço de cartas.

Pelas bordas amareladas, dava para perceber que eram antigas.

— De onde saíram essas cartas, mamãe? De quem são?

— Elas são de Mary, minha avó.

Grania franziu as sobrancelhas, fazendo um esforço para se lembrar.

— Eu a conheci?

— Não, infelizmente. Mas ela era uma mulher maravilhosa, de quem eu gostava muito. Alguns diriam que estava à frente da sua época. Ela era arrojada e independente, e dá para dizer que você puxou a ela, Grania. — Kathleen sorriu.

— Vou considerar isso um elogio, mamãe.

— Pois deve, e você certamente se parece com ela. — Kathleen abriu o envelope de cima e passou a Grania uma pequena fotografia em tons de sépia. — Aí está ela, esta é sua bisavó.

Grania examinou a imagem e não pôde discordar. Apesar de estar usando um gorro de lã e uma roupa antiquada, ela exibia traços semelhantes aos seus e tinha uma vivacidade que lhe despertava a curiosidade.

— Onde esta foto foi tirada, mãe?

— Eu diria que Mary tinha uns 20 e poucos anos nessa época, então, provavelmente, foi tirada em Londres.

— Londres? O que Mary estava fazendo lá?

— Bem, isso é o que você vai descobrir a partir das cartas.

— Você quer que as leia?

— Não estou forçando você a isso, mas, se quiser começar a entender como começou toda essa coisa com os Lisles, sugiro que leia. Além disso, ajudaria a passar algumas noites solitárias naquele casarão. E lá é um ótimo lugar para lê-las, considerando que a própria Mary passou um tempo lá.

— Então, você está dizendo que estas cartas vão explicar tudo?

— Não — Kathleen balançou a cabeça. — Eu não estou dizendo isso. Esse é apenas o começo. Você vai precisar que lhe conte o resto depois. — Ela consultou o relógio. — Bem, acho melhor ir embora.

— Eu também. — Grania fez sinal para a garçonete. — Vá indo, mamãe, deixe que eu pago a conta.

— Obrigada, Grania. — Kathleen levantou-se e beijou a filha. — Cuide-se. Depois nos falamos.

— Isso me lembrou de uma coisa, você se importaria se levasse Aurora à fazenda? Ela está tão empolgada em conhecê-la, ver os animais.

— Que mal haveria? — Kathleen suspirou se rendendo. — Apenas me telefone antes de ir.

— Obrigada, mamãe — Grania sorriu.

Ela pagou a conta, enfiou o grosso maço de envelopes dentro da bolsa e voltou pela rua para ir buscar Aurora. Quando chegou, viu que as outras meninas tinham deixado o estúdio para se trocar, mas Aurora ainda estava lá dentro com a senhorita Elva. A professora avistou Grania olhando através dos vidros e disse algo a Aurora, que assentiu. Em seguida, a senhorita Elva deixou o estúdio para falar com Grania.

— Como ela se saiu? — perguntou Grania ansiosamente.

— Bem, aquela criança — a senhorita Elva baixou a voz quando as outras alunas começaram a sair do vestiário para deixar o prédio — é incrível. Você diz que ela nunca teve uma aula de balé em toda a vida?

— Isso mesmo — Grania balançou a cabeça. — Foi o que ela me disse, e não vejo por que mentiria.

— Aurora tem tudo o que seria preciso para se tornar uma futura bailarina. Uma desenvoltura natural, uma postura na elevação do pé, proporções físicas perfeitas... para ser franca, Grania, mal posso acreditar no que acabei de ver.

— Acha que ela deve continuar?

— Com a máxima certeza. E rápido também. Ela já está quatro anos atrasada, e, depois que o corpo começar a amadurecer, será muito mais difícil para ela aprender. Mas esta não é a classe certa para Aurora. Ela terá superado todas essas meninas em algumas aulas. Não sei qual é a situação em casa, mas eu estaria disposta a dar aulas particulares toda semana.

— A questão é: será que é isso que Aurora quer fazer? — perguntou Grania.

— Bem, eu estava perguntando isso a ela agora mesmo e achei que ela parecia meio ansiosa. Grania, uma vez que essa menina tenha aprendido um pouco de técnica, posso conseguir um lugar para ela na Escola Real de Balé, em Londres, em poucos anos. Quem sabe se eu pudesse conversar com os pais dela?

— A mãe de Aurora está morta e o pai, no exterior. Eu sou a responsável por ela. Vou conversar com ela e ver se quer continuar.

A senhorita Elva inclinou a cabeça concordando quando Aurora, cansada de esperar no estúdio, juntou-se a elas lá fora.

— Olá, querida, a senhorita Elva está dizendo que você gostou, não é? — perguntou Grania.

— Ah, sim! — Os olhos de Aurora iluminaram-se de prazer. — Eu adorei.

— Ótimo, então quer dizer que vai querer voltar?

— Sim. A senhorita Elva e eu já conversamos. Eu posso voltar, Grania?

— Tenho certeza de que pode, sim. Mas talvez eu deva falar com seu pai para ver se ele concorda.

— Tudo bem — Aurora aceitou com relutância. — Tchau, senhorita Elva, obrigada.

— Espero ver você na próxima semana, Aurora — a senhorita Elva gritou quando Grania e Aurora afastaram-se em direção ao carro.

Naquela noite Aurora estava toda empolgada com a aula, mostrando a Grania as posições que aprendera, dando piruetas e saltos, e apontando os pés por toda a cozinha enquanto Grania preparava o jantar.

— Quando vamos ao centro de Cork para comprar minha roupa de balé? Podemos ir amanhã?

— Talvez — disse Grania depois do jantar —, mas realmente acho que devo perguntar sobre isso ao seu pai, primeiro.

— Se é o que eu gosto — Aurora fez beicinho —, ele não vai dizer não, vai?

— Acho que não vai, mas só preciso ter certeza. Quer que eu lhe conte uma história?

— Quero, por favor — disse Aurora ansiosamente enquanto Grania pegava sua mão e as duas subiam a escada. — Sabe A Bela Adormecida, a princesa que tem o meu nome? Eu queria dançar isso um dia — ela disse com ar sonhador.

— Estou certa de que você vai, querida.

Depois que Aurora se aquietou, Grania desceu e abriu a porta do escritório de Alexander. Verificou na lista de contatos qual era o telefone dele e digitou o número. O serviço de recados de voz atendeu imediatamente.

— Olá, Alexander, aqui é Grania Ryan. Aurora vai muito bem e… desculpe incomodá-lo, mas quero lhe perguntar se haveria algum problema se Aurora tivesse algumas aulas de dança. Hoje ela participou de uma e gostou bastante, e agora quer continuar. Talvez você pudesse me dar um telefonema de retorno ou até mesmo enviar-me um fax e... — Grania refletiu rapidamente antes de dizer — se não tiver notícias suas nos próximos dois ou três dias, vou considerar que não se opõe. Espero que esteja tudo bem com você, até logo.

Sem uma resposta, Grania sentia-se um tanto apreensiva quando foi se deitar às 11 horas da noite. Seus sentidos estavam alertas aos passos no corredor e, por mais que tentasse, o sono não vinha. Às 3 horas da madrugada — a hora em que acordara nas noites anteriores — foi na ponta dos pés até o quarto de Aurora e encontrou a menina dormindo tranquilamente. De volta ao quarto, estendeu a mão para o maço de envelopes que a mãe lhe entregara. Desfez o nó do cordão que os unia, abriu a primeira carta e começou a ler.

 

“Assim começou a história. E alguns dos nossos personagens estão em cena. Incluindo eu mesma, é claro. Como de costume, no centro do palco. Olho para trás e vejo como fui uma criança precoce. Mas era também ‘perturbada’, por isso os adultos devem perdoar muita coisa.

Não vou estragar a história dando demasiada atenção às minhas andanças no meio da noite. Mas incluí um pouco delas por questão de ‘efeito’, especialmente sobre mim. Além disso, no segundo ato de A Bela Adormecida, a cortina diáfana entre a realidade e os sonhos é aberta pela própria Princesa Aurora, com a ajuda da Fada Madrinha.

Quem pode dizer o que é real ou imaginário?

Eu disse, desde o início, que acreditava em magia.

Também descobri hoje que não só recebi o nome de uma princesa de um conto de fadas, mas também um pendor místico de luzes que iluminam o céu noturno. Gosto da ideia de ser uma estrela, brilhando para sempre no firmamento, embora esteja muito feliz por meu segundo nome não ser ‘Borealis’.

Agora, voltamos no tempo, e devo começar a exercer meus talentos de escritora com mais competência. Até este ponto, conheci os protagonistas vivos e respirando:

Grania sofreu muito com a perda do bebê e achava-se em uma grande confusão em relação ao homem que amava. Agora posso ver como ela era vulnerável. Presa fácil de uma criança precisando de uma mãe, e com um pai bonito cheio de dificuldades para enfrentar a situação.

Kathleen, cujo conhecimento do passado a tornava desesperada, mas impotente para proteger a filha.

E Matt, querido Matt, tão confuso e desorientado, à mercê desse gênero estranho, sem o qual os homens, parece-me, não podem passar...…

Mulheres.

Encontraremos muitas mulheres na próxima centena de páginas. Vamos nos deparar com homens bons e maus também — um elenco de personagens para fazer jus a qualquer conto de fadas. Era um tempo mais sombrio então, uma época em que se dava pouco valor à vida humana, quando a sobrevivência entre a maioria das pessoas era tudo por que alguém se esforçava.

Gostaria de poder dizer que aprendemos nossa lição.

Mas os humanos raramente olham para o passado, até cometerem os mesmos erros numa época em que suas opiniões são consideradas irrelevantes, quando são, aparentemente, velhos demais para entender os jovens. É por isso que a espécie permanecerá tão falha quanto mágica, assim como somos.

Retornemos agora ao topo do mesmo penhasco, na baía de Dunworley, onde a minha história começou...”

 

West Cork, Irlanda, agosto de 1914

— Meus documentos de mobilização chegaram. Devo partir para o Quartel Wellington, em Londres, amanhã.

Mary, que admirava o azul incomum do mar lá embaixo — o dia quente de agosto transformando as cores difusas e agrestes da baía de Dunworley como um cartão-postal da Riviera Francesa —, deteve-se imediatamente e soltou a mão de Sean.

— O quê? — exclamou ela.

— Mary, querida, assim como eu, você sabia que isso aconteceria. Sou da Reserva da Guarda Irlandesa e, agora que eclodiu a guerra contra a Alemanha, sou requisitado a ajudar os Aliados a vencer.

Mary olhou fixamente para o noivo, imaginando se o sol lhe torrara os miolos.

— Mas, Sean, vamos nos casar daqui a um mês! Estamos a meio caminho de construir nossa casa! Você não pode simplesmente se levantar e sair!

Sean sorriu para ela, mostrando nos olhos suaves que compreendia o choque. Para falar a verdade, fora um choque para ele também, mesmo sendo da Reserva. Mas o que ele sentia e a realidade acontecendo de fato eram duas coisas completamente diferentes. Ele se abaixou e puxou Mary para si — seu um metro e oitenta e cinco de altura contra um metro e meio dela fazia uma diferença considerável — mas Mary resistiu.

— Ora, vamos, Mary, preciso lutar pelo meu país.

— Sean Ryan! — Mary colocou as mãos nos quadris. — Não é pelo seu país que você vai lutar! É pela Grã-Bretanha, o país que tem oprimido o nosso país durante os últimos trezentos anos.

— Ah, Mary, até mesmo o senhor Redmond

[3]

está nos incitando a lutar pelos britânicos; você sabe do projeto de lei que vai ser aprovado no Parlamento, dando-nos a independência da Irlanda. Eles nos fizeram um favor e agora temos de retribuir.

— Favor? Deixar que os donos da terra deem uma opinião sobre como governá-la? Ah, bem… — Mary sentou-se abruptamente em uma rocha ao lado. — Pois eu diria que esse é um favor muito grande que nos concederam. — Ela cruzou os braços e olhou firmemente para a baía, à frente.

— Você também pretende se inscrever no Partido Nacionalista, é? — Sean entendia a necessidade dela de culpar alguém pela catástrofe iminente em sua vida.

— Se isso mantiver você comigo, onde é o lugar dele, farei qualquer coisa.

Sean agachou-se ao lado dela, as longas pernas quase lhe chegando às orelhas quando as dobrou. Pegou-lhe a mão, mas ela o rechaçou.

— Mary, por favor. Isso tudo significa apenas que nossos planos serão adiados, não cancelados.

Mary continuou a olhar para o mar, ignorando Sean. Por fim, suspirou.

— E eu que pensava que esse negócio de soldado fosse uma brincadeira de meninos, uma oportunidade de brincar com armas para sentirem-se grandes. Nunca achei que pudesse ser real. E que o perderia assim — acrescentou em voz baixa.

— Querida — Sean ofereceu a mão novamente e, dessa vez, ela a aceitou —, não importa que eu seja um reservista ou não. John Redmond quer que todos os irlandeses se apresentem. Do modo como vejo, ao menos tive algum treinamento, enquanto alguns dos outros companheiros não terão nenhum. E a Guarda Irlandesa é uma instituição altiva e legítima. Estarei com os meus compatriotas lá fora, Mary, nós daremos aos boches uma lição de que eles nunca esquecerão. Estarei de volta para você e para Irlanda em breve, não se preocupe.

Outro longo silêncio seguiu-se antes que Mary fosse capaz de expressar seus pensamentos, agora com a voz embargada pela emoção.

— Ah, Sean, você vai voltar? Não há nenhuma garantia disso, sabe tão bem quanto eu.

Sean levantou-se, esticando-se à sua altura máxima.

— Olhe para mim, Mary, tenho a compleição que foi feita para lutar. Seu futuro marido não é um covarde que pode ser derrubado por uns poucos alemães. Eu poderia enfrentar três deles de uma só vez, eles não são páreo para mim.

Ela o olhou com lágrimas nos olhos.

— Mas uma única bala no coração não se importa com o seu tamanho.

— Não tenha pensamentos como esse, querida. Sei me cuidar. Estarei de volta para você mais cedo do que pensa.

Mary notou o brilho de emoção nos olhos dele. Enquanto tudo o que ela via era a possibilidade de sua morte, Sean pensava na glória do campo de batalha. Sim, era isso que ele esperava.

— Então, você parte para Londres amanhã?

— Sim. Um transporte partirá do centro de Cork, levando os reservistas de Munster até Dublin, onde pegaremos o barco para a Inglaterra.

Mary baixou os olhos do horizonte e fitou a grama espessa sob seus pés.

— Quando verei você de novo?

— Mary, não posso saber isso — Sean respondeu suavemente. — Com certeza, quando nos deixarem sair, virei direto para casa e para você. — Ele lhe tomou a mão entre as suas. — Não será por muito tempo, mas não podemos fazer nada quanto a isso.

— Como seu pai vai cuidar da fazenda sem você? — perguntou Mary melancolicamente.

— As mulheres farão o que sempre fazem em um momento como este: assumir o trabalho dos homens, claro! Quando meu pai estava lutando na Guerra dos Bôeres

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, minha mamãe cuidou de todo o trabalho.

— Você já contou a ela?

— Não, queria dar a notícia a você primeiro. Contar a ela será a minha próxima tarefa. E tenho de fazer isso agora. Ah, Mary. O que posso dizer? — Sean passou os braços em volta dos ombros dela e puxou-a para si. — Vamos nos casar assim que eu voltar. Agora, querida, você vai até a fazenda comigo?

— Não — Mary balançou a cabeça lentamente. — Acho que preciso ficar sozinha por um tempo. Vá você e conte à sua mãe.

Sean assentiu em silêncio, beijou-a no alto da cabeça e endireitou-se.

— Voltarei mais tarde para vê-la, para... dizer adeus.

— Sim — ela sussurrou para si mesma quando Sean começou a caminhar lentamente de volta para descer a montanha.

Ela esperou até ele estar fora da vista, então colocou a cabeça entre as mãos e chorou. Internamente, enfurecia-se contra Deus, a quem passara tantas horas confessando os pecados. No entanto, não conseguia pensar em uma coisa que tivesse feito de errado para merecer tamanha desgraça.

Em sua antiga vida — a vida que existia até 20 minutos antes de Sean ter lhe dado a notícia — em menos de quatro semanas ela seria a senhora Sean Ryan. Pela primeira vez teria casa própria, família, respeito e, acima de tudo, um homem que não se incomodava com suas origens desconhecidas, mas que simplesmente a amava por ela ser o que era. No dia em que se casasse, seu passado desapareceria. Deixaria para trás o trabalho de empregada doméstica na Casa de Dunworley, onde esfregava o chão e andava de um lado para o outro a serviço da família Lisle, e teria seus próprios pisos para esfregar.

Não que o jovem Sebastian Lisle, seu empregador, não fosse gentil com ela durante todo o seu tempo na casa. Quatro anos antes, quando ela mal completara 14 anos, ele procurara as freiras do orfanato em busca de uma garota para preencher uma vaga entre seus empregados domésticos. Mary implorara à madre superiora para considerá-la. Mas, por ser uma das meninas mais inteligentes e trabalhadoras, e ainda ajudar as outras órfãs a aprender a ler e escrever, a madre hesitara. Ela era um bem valioso demais para o convento, e as irmãs esperavam que adotasse véu e permanecesse com elas para o resto da vida.

No entanto, não era esse o desejo de Mary. No íntimo, ela carregava muitas dúvidas — guardadas para si mesma — acerca de um Deus que destinava ao seu rebanho tanto sofrimento. Os bebês órfãos que eram deixados na porta do convento, rejeitados e na dor, muitas vezes acabavam por morrer alguns meses depois, em um surto de difteria, ou, quem sabe, de sarampo. Ainda que tivessem lhe ensinado que o sofrimento fazia parte do caminho para o céu e para Deus, e ela se entregasse com ardor à bondade divina, a perspectiva de uma vida inteira dedicada a Ele, encerrada entre as paredes de um convento, não era o que acreditava ser o certo para si mesma.

A madre superiora resistira graciosamente. Entendia que Mary, abençoada com uma inteligência aguçada e um raciocínio rápido, não se contentaria com um destino escolhido pelos outros. No entanto, não a contentava vê-la começar a vida como uma simples criada.

— Pensava em você para um posto de governanta — ela argumentou. — Você tem um dom natural para ensinar as crianças. Eu poderia indicá-la depois que completasse os 18 anos.

Para Mary, no entanto, a ideia de esperar mais quatro anos parecia impensável.

— Reverenda madre, não me importa o que eu vá fazer agora. Por favor, gostaria, pelo menos, de uma oportunidade para que o senhor Lisle me conheça, da próxima vez que vier — Mary pedira.

Por fim, a madre concordara.

— Está bem, permitirei que o encontre, e depois será a vontade de Deus se ele vier a escolhê-la.

Felizmente, para Mary, esse pareceu ser o caso. Das seis noviças que a madre superiora apresentara como candidatas ao posto de aprendiz de criada, Sebastian Lisle escolhera ela.

Mary reunira seus poucos pertences e deixara o convento sem olhar para trás.

Como observara a madre superiora, o trabalho ficava muito aquém dos seus talentos, mas, depois de tantos anos no convento, o trabalho duro não a intimidava. E tendo passado a vida toda em um dormitório com outras 11 noviças, o quartinho no sótão, dividido com outra criada, fora suficiente para empolgá-la. Mary dera o melhor de si e trabalhara diligentemente.

E não demoraria muito para que o jovem senhor notasse.

No período de alguns meses, Mary fora promovida a criada de salão. Servindo ao senhor e seus convidados, Mary observava, ouvia e aprendia. A família Lisle era inglesa. Viera para a Casa de Dunworley 200 anos antes, para assumir o controle dos pagãos irlandeses que habitavam a terra que os britânicos acreditavam ser sua. Ela aprendera a decifrar seu sotaque, acostumara-se às suas estranhas e formais tradições e ao seu senso arraigado e inabalável de superioridade.

Para sua sorte, não era uma família das mais exigentes com que pudesse trabalhar. O senhor, Sebastian Lisle, um jovem de 18 anos, vivia com a mãe, Evelyn, que perdera o marido na Guerra dos Bôeres e, agora, contava com o filho para administrar a casa. Mary soubera que Evelyn Lisle também tivera um filho mais velho, Lawrence, que seguira o pai no serviço diplomático e achava-se, atualmente, no exterior. Os Lisles tinham outra residência em Londres, uma casa grande, toda branca, que Mary comparara a um bolo de casamento ao vê-la em uma pintura.

Um dia, Mary sonhava, ela deixaria a Irlanda e viajaria ao exterior para conhecer o mundo. Mas, até então, só economizara os poucos xelins que recebia toda semana, e guardara-os sob o colchão.

E, então, dois anos depois ela conhecera Sean Ryan.

A governanta ficara acamada com dores no peito e não quisera descer a montanha, sob chuva, até a fazenda, para recolher os ovos e o leite. Então, enviara Mary.

Mary descera o penhasco e chegara toda molhada ao pátio, em frente à casa da fazenda Dunworley. Batendo na porta, esperara ensopada e pingando do lado de fora.

— Posso ajudar em alguma coisa, senhorita? — soara uma voz grave atrás dela.

Mary voltara-se e olhara para cima e, de novo, para cima, até encontrar os suaves olhos verdes de um jovem. Ele era extraordinariamente alto e de ombros largos — feito para a terra, achara ela. O tipo de homem capaz de oferecer proteção em qualquer eventualidade. Com aqueles braços fortes e musculosos e aqueles ombros, ela se sentiria tão segura como em casa, fosse qual fosse a situação.

Após esse encontro inicial, Mary não passava mais a tarde de folga vagando sem rumo ao longo do penhasco perto da casa. Sean a procurava em sua charrete e eles passeavam até a aldeia de Rosscarberry, ou iam tomar um chá em Clonakilty. Ou, simplesmente, em um dia bonito, saíam para caminhar juntos pela praia vizinha. Conversavam interminavelmente sobre a vida, conhecendo um ao outro. Enquanto Mary fora educada no convento, Sean adquirira conhecimentos sobre o trabalho na terra. Eles trocavam opiniões sobre a Irlanda e discutiam esperanças e sonhos para o futuro, que incluíam deixar a Irlanda para tentar a sorte na América. E, às vezes, simplesmente não falavam nada.

No dia em que Sean levara Mary à sua casa, para conhecer a família, seus joelhos tremeram quando ele a conduzira da porta de entrada até a cozinha. Mas Bridget, a mãe, e Michael, o pai, acolheram-na gentilmente e mostraram-se curiosos de conhecer as histórias da Casa Grande. E o fato de ela ser capaz de recitar trechos inteiros da Bíblia e do catecismo, e em latim também, provocara risos de admiração naquelas faces maltratadas pelo tempo.

— Você encontrou mesmo uma boa companheira, filho — Bridget declarara. — Espero que logo faça dela uma mulher honesta. Está mesmo na hora de você se casar, Sean.

Então, passado um ano e meio de namoro, Sean propusera-lhe casamento, e a data fora marcada para dali a um ano.

— Muito bem — Michael, o pai de Sean, dissera alguns dias depois, entre copos de aguardente de batatas. — Sua mãe e eu temos conversado sobre o futuro. Nossa casa de fazenda está velha, é úmida e pequena. Precisamos construir outra, inteiramente nova. E achei que o terreno atrás dos celeiros seria um local ideal. Sua mãe e eu estamos velhos demais para nos mudar, mas pensamos em você e Mary e nos pequenos que vão chegar, e nos filhos dos seus filhos, então devemos nos preparar para isso. — Michael colocara um esboço na frente de Sean. — O que você acha disto, filho?

Sean estudara o desenho — uma boa e grande cozinha, sala de estar, sala de jantar e um lugar na parte de trás, para um lavatório interno. Quatro quartos em cima e mais um sótão que poderia tornar-se habitável, caso a família crescesse ainda mais.

— Mas, pai, onde vamos encontrar o dinheiro para construir tudo isto? — Sean perguntara.

— Não se preocupe, filho, tenho algum dinheiro aplicado. E com certeza não haverá custos com a mão de obra. — Michael dera um murro na mesa. — Vamos construir com nossas próprias mãos!

— Ainda assim — Sean suspirara —, apesar de todo esse dinheiro e trabalho, nada disso será nosso. Apenas arrendamos esta terra, e o que está sobre ela pertence aos Lisles, afinal de contas.

Michael tomara outro gole de aguardente e balançara a cabeça em concordância.

— Eu sei, filho, e o caso é esse mesmo. Mas estou pensando que muita coisa vai mudar na Irlanda nos próximos anos. A voz dos nacionalistas está se tornando cada dia mais forte, e o governo britânico está começando a ouvir. Acho que um dia os Ryans estarão bem aqui na terra que é deles. E nós temos de pensar no futuro, não no passado. Então, agora, o que você acha da minha ideia?

Quando Sean lhe contara do plano de seu pai, Mary juntara as mãos de alegria.

— Oh, Sean, um lavatório interno! E uma casa nova para nós e nossos filhos. Pode ser construída logo?

— Sim, querida — Sean concordara. — Os rapazes de todas essas partes nos darão uma mãozinha.

— Mas e quanto aos nossos planos? — O sorriso de Mary se desvanecera. — E quanto às ideias que tivemos de conhecer o mundo, de tomar um barco para a América?

— Eu sei, eu sei — ele concordara, pousando a mão sobre a dela. — E não devemos tirar isso dos nossos pensamentos. Mas, mesmo que viajemos, os Ryans ainda precisam de um bom telhado novo sobre a cabeça. E não faria nos sentir bem melhor saber que os deixamos em segurança quando decidirmos partir?

— Eu pensei que tínhamos decidido — Mary respondera.

— Decidimos, querida, decidimos, mas tudo a seu tempo.

Assim, no ano anterior, tendo obtido a permissão de Sebastian Lisle para construir uma casa nova de fazenda — afinal, como Michael dissera, não lhe faria mal algum, simplesmente tornaria a terra mais valiosa — as fundações foram lançadas e as paredes começaram a subir. Mary acostumara-se a passar por ali, parar e admirar.

— Minha casa — sussurrava para si mesma, sem acreditar.

Toda hora de folga de Sean era dedicada ao trabalho na casa e, assim que a construção foi subindo, e os quartos, que um dia seriam dela, começaram a tomar forma, o assunto era cada vez menos partir para a América e, cada vez mais, os móveis que Sean fabricaria em sua oficina. E sobre as pessoas que convidariam para visitar sua grande casa nova depois de se casarem.

Como não tinha sua própria família, Mary adotara a de Sean. Ajudava a irmã mais nova, Coleen, com as cartas; ajudava a mãe a assar o pão sovado; e o pai a ensinara a tirar o leite das vacas. E todos eles, por sua vez, correspondiam à sua generosidade.

Embora a família não fosse rica, seus quatro hectares de terra proporcionavam-lhes um rendimento estável. A própria fazenda satisfazia a muitas de suas necessidades fornecendo-lhes leite, ovos, carne e lã de ovelha para se alimentar e abrigar do frio. Michael e Sean trabalhavam desde o amanhecer até o anoitecer, procurando fazer com que a fazenda rendesse todo o seu potencial.

Mary notava os olhares das outras famílias locais que mostravam que ela obtivera um bom partido.

E agora, pensou Mary, enxugando os olhos de qualquer jeito no xale, tudo isso lhe seria tirado. Sean podia acreditar que voltaria são e salvo para ela, mas, e se não voltasse?

Mary suspirou. Devia ter sabido que era tudo bom demais para ser verdade. Até mesmo já pedira demissão da Casa Grande, de onde deveria sair no mês seguinte para os preparativos do casamento. Imaginou se, diante das novas circunstâncias, essa ainda seria a coisa certa a fazer. Se fosse morar na casa dos Ryans, esperando até que Sean regressasse da guerra, não teria mais independência nem dinheiro próprio. Caso ele não voltasse, as chances eram de morrer solteirona debaixo do teto do noivo morto.

Mary levantou-se e pegou o caminho de volta à Casa de Dunworley. Mesmo que a senhora O’Flannery, a governanta, não gostasse dela, ainda assim apreciava sua dedicação ao trabalho e não disfarçara seu espanto no dia em que se demitira. Do mesmo modo, Sebastian Lisle, e sua mãe, manifestaram seu pesar com sua saída.

Na subida do penhasco, Mary considerou que seria capaz de manter o emprego por mais tempo. Pelo menos, até Sean voltar. Entrou na cozinha de queixo erguido. Mesmo que tivesse de engolir o orgulho com o pedido, e ainda suportar o prazer por seu infortúnio, estampado nos olhos da governanta, decidiu que esse era o menor dos dois males.

Tivera um “dono” durante a maior parte da vida e finalmente escapara.

Não queria voltar à prisão agora.

 

Depois de acenar para Sean de partida para a guerra, os dentes cerrados para refrear as emoções, Mary, no caminho de volta para a Casa de Dunworley, teve uma boa conversa consigo mesma e em seguida voltou a mergulhar no trabalho.

Os meses passaram, e as notícias da Frente vinham filtradas através de Sebastian Lisle, que, uma vez por semana, recebia o jornal The Times da Inglaterra. A ela mesma chegava uma ou outra carta de Sean, informando que já se encontrava na França e lutara em uma batalha em um lugar chamado Mons. A julgar pelas cartas, ele parecia de bom humor, curtindo a camaradagem dos outros “Micks”, como eram conhecidos os integrantes da Guarda Irlandesa. Mas já havia numerosas baixas em seu batalhão; ele comentara sobre amigos mortos ou feridos.

Às vezes, Mary descia para visitar os Ryans, mas a visão da casa inacabada — intocada desde que Sean e os outros jovens da aldeia partiram — a perturbava.

Vivia em tempo de espera, aguardando uma decisão sobre seu destino.

Nove meses depois, as cartas de Sean tornaram-se menos frequentes. Ela lhe escrevia todas as semanas, perguntando sobre a licença prometida. Em sua última carta, ele mencionara que o enviaram ao quartel da Guarda Irlandesa em Londres durante quatro dias — tempo insuficiente para uma viagem até West Cork. Mary lera no The Times que milhares de soldados aliados haviam perdido a vida em um lugar chamado Ypres.

Sebastian Lisle deixara a Irlanda havia cinco meses; não para lutar, por sofrer de asma, mas para ajudar no que disse ser o Ministério dos Negócios Exteriores.

Um manto de silêncio se abateu sobre a Casa de Dunworley. Restava apenas Evelyn Lisle para ser atendida, e, na ausência de convidados, o pessoal quase não tinha o que fazer. A nova aprendiz fora demitida, o que significava que Mary assumiria suas tarefas também. E, junto com outros, em toda a Europa, Mary prendeu a respiração e esperou.

Dezoito meses depois, Sebastian Lisle retornou a casa. Era um prazer, pelo menos, ter alguém para servir à mesa; Evelyn ergueu-se de seu torpor e desceu para comer na sala de jantar com o filho. Dois dias mais tarde, Mary foi convocada ao escritório de Sebastian.

— Queria me ver, senhor? — disse ela ao entrar.

— Sim. — Os olhos azuis de Sebastian estavam lacrimejantes e pareciam ter afundado ainda mais nas órbitas, e ele estava mais abatido e fechado, aparentando o dobro da sua idade. Seu cabelo vermelho recuara, e Mary pensou que a criação não necessariamente abençoava com a aparência. — Há uma vaga de empregada doméstica disponível em nossa casa em Londres. Sugeri seu nome para lá, Mary. Como se sente a respeito disso?

Mary olhou-o em total surpresa.

— Eu? Ir para Londres?

— Sim. Agora que estou de volta aqui, podemos nos virar com a senhora O’Flannery e uma diarista da aldeia. Considerando que, em Londres, com o esforço de guerra e cada vez mais garotas indo para as fábricas de munição, para assumir o trabalho dos homens, dirigindo ônibus e assim por diante, está se tornando cada vez mais difícil encontrar pessoas para serviço doméstico. Meu irmão me perguntou se poderia encontrar alguém aqui na Irlanda, e você foi a escolha óbvia.

— Londres... — Mary ofegou. Era onde ficava o quartel de Sean. Talvez, da próxima vez que tivesse uma licença, pudesse encontrá-lo. Além disso, era uma aventura e uma oportunidade que precisava aproveitar.

— Acredito que seria ótimo, senhor. Meus deveres serão parecidos com os daqui?

— Sim, mais ou menos. É uma casa muito maior do que esta, e a equipe era de 20 pessoas. Agora estamos com menos de dez pessoas, todas muito empenhadas. Você receberá um uniforme adequado, dividirá um quarto com outra empregada e receberá um salário de 30 xelins por mês. Acha que lhe convém?

— Bem, acho que sim, senhor.

— Muito bom, Mary. Por favor, me avise quando estiver pronta e providenciarei sua passagem para a Inglaterra.

— Sim, senhor. Farei isso, então.

Poucos dias depois, Mary desceu a montanha para ver os pais de Sean e informar-lhes da sua decisão. Como não era de se surpreender, eles não gostaram que a noiva do filho deixasse a Irlanda enquanto ele se achava ausente.

— Mas, Bridget — Mary tranquilizou-a enquanto a acompanhava no chá na cozinha —, estou indo justamente para tentar me encontrar com ele quando tiver a próxima licença.

— Decerto, isso é muito bom, mas a filha do meu primo foi para Londres no ano passado. Eles não gostam de empregadas irlandesas por lá, segundo disse. Olham para você de cima, como fazem todos os ingleses com os irlandeses — Bridget fungou.

— Como se eu me importasse com isso! Vou colocá-los em seu lugar, não se preocupe. — Sem se perturbar, Mary sorriu, ainda com o brilho da emoção nos olhos.

— Apenas me prometa uma coisa, Mary: quando essa guerra acabar, você voltará para casa e para o seu homem, está certo? — Bridget pediu.

— Você sabe que não há outro lugar em que prefira estar a não ser ao lado de Sean. Mas, enquanto puder fazer algo útil, enquanto puder esperar por ele e ganhar alguns xelins a mais para arrumar nosso futuro, acho que esse é um bom plano.

— Então, cuide-se bem naquela cidade pagã. — Bridget estremeceu a esse pensamento.

— Não se preocupe, vou me cuidar, prometo.

Mary não sentiu nem um resquício de medo quando embarcou para sua longa jornada. Primeiro, até Dublin, e depois de barco até Liverpool, e, em seguida, para o sul em um trem superlotado. Chegou a uma estação imensa. Carregou a mala até a plataforma e olhou ao redor. Disseram-lhe que seria procurada por alguém segurando uma placa com seu nome. Procurou entre os homens de uniforme cáqui, envolvidos em despedidas tristes ou reencontros felizes e, finalmente, avistou um homem em um uniforme elegante, segurando um pedaço de cartolina com seu nome escrito.

— Olá — ela sorriu enquanto se aproximava dele. — Eu sou Mary Benedict.

O homem inclinou a cabeça solenemente.

— Siga-me, por favor.

Lá fora, ele fez sinal para que entrasse na parte de trás de um carro preto reluzente. Ela o fez, maravilhada com o estofamento de couro macio dos bancos. Quando partiram, sentiu-se como uma princesa. Nunca viajara de automóvel antes.

Ia erguendo os olhos pelas janelas, admirando as lâmpadas de gás no alto — como enormes sorvetes de limão suspensos por varas compridas —, as multidões que fluíam pela calçada e os edifícios altos de ambos os lados. Os bondes corriam incessantemente para cima e para baixo no centro das ruas. E as mulheres, ela percebeu, usavam saias que deixavam à mostra os tornozelos. Seguiram ao longo de um rio largo, mas estava escuro demais para ver muita coisa. Em seguida, o motorista virou à direita, afastando-se do rio e, finalmente, entrou em uma grande praça, ladeada por enormes casas brancas. Seguiram ao longo de cavalariças estreitas, entre as quais o homem estacionou o carro e disse-lhe para descer.

— Por aqui, por favor — indicou ele, enquanto Mary o seguia ao longo das cavalariças. — Esta é a entrada dos empregados da Casa de Cadogan, que você deverá usar sempre. — Ele a conduziu para baixo, por um lance de escada, e abriu uma porta que se voltava para um pequeno pátio interno.

Outra porta conduzia a uma cozinha de teto baixo e quente, no centro da qual se estendia uma mesa ocupada por numerosas pessoas, todas vestidas com uniformes elegantes.

— Sua nova copeira está aqui, senhora C — o motorista fez um sinal com a cabeça para uma mulher corpulenta à cabeceira da mesa.

— Venha até aqui para que possa vê-la. — A mulher acenou para Mary, inspecionando-a enquanto se aproximava.

— Olá, senhora. — Mary fez uma reverência. — Sou Mary Benedict.

— Eu sou a senhora Carruthers, a governanta. — A mulher terminou sua inspeção e assentiu. — Bem, pelo menos você parece saudável, o que é mais do que posso querer considerando a última irlandesa que tivemos por aqui. Ela morreu de bronquite em uma semana. Não foi, senhor Smith? — Ela se virou para o homem careca ao seu lado e deu uma risada sonora, os amplos seios arfando enquanto ria.

— Acho que sou saudável, minha senhora — respondeu Mary. — Na verdade, nunca estive doente em um dia da minha vida.

— Bem, isso é um começo, suponho — a senhora Carruthers concordou.

A governanta falava o inglês com um sotaque estranho. Mary precisou fazer um esforço para entender o que dizia.

— Suponho que você deva estar com fome. Vocês, irlandeses, sempre estão. — Ela apontou para uma cadeira na extremidade da mesa. — Tire o chapéu e o casaco e sente-se. Teresa, sirva à Mary um prato de guisado.

— Sim, senhora Carruthers. — Uma jovem usando touca e vestido marrons levantou-se imediatamente da mesa. Mary tirou o chapéu, as luvas, o casaco e o xale e foi orientada a pendurá-los na saleta de entrada. Sentou-se ao lado de uma jovem em um uniforme que supôs ser de criada.

— Então, Mary, imagino que você não saiba ler nem escrever. Seu tipo geralmente não sabe. Isso torna a vida muito mais difícil para mim — suspirou a senhora Carruthers.

— Ah, sim, senhora, eu sei — Mary balançou a cabeça enquanto um prato de guisado era colocado à sua frente. — Eu ensinava às crianças na escola do convento.

— Escola, não é? — a senhora Carruthers sorriu. — Bem, tenho certeza de que você vai me ensinar a colocar a mesa depois!

Os outros ao redor dela riram como seria de esperar. Diligentemente, Mary ignorou a piada e engoliu seu guisado em silêncio, com apetite, depois da longa jornada.

— Você trabalhava para o irmão do senhor Lisle, em sua casa na Irlanda, pelo que ouvi dizer — continuou a senhora Carruthers.

— Sim.

— Bem, não sei como fazem lá, mas acredito que você possa achar as coisas um pouco diferentes aqui em Londres. O senhor Sebastian Lisle me disse que você sabe como servir à mesa, isso é verdade?

— Eu diria que sim — concordou Mary. — Mas tenho certeza de que a senhora está com a razão. As coisas serão diferentes aqui.

— Você vai ficar com a Nancy, nossa criada lá de cima. — A senhora Carruthers indicou a garota sentada ao lado de Mary. — O café da manhã é às 5h30 em ponto; se chegar cinco minutos atrasada, não será servida, entendeu?

Mary aquiesceu.

— Seu uniforme está em cima da sua cama. E certifique-se de que seu pinny esteja sempre limpo. O senhor Lisle é muito exigente quanto a uniformes impecáveis.

— Pinny? — perguntou Mary.

— O avental, menina. — A senhora Carruthers arqueou as sobrancelhas. — Amanhã, depois do café, vou inteirá-la dos seus deveres. Quando o senhor Lisle está na residência, esta é uma casa movimentada. Ele é um homem muito importante e gosta de coisas bem-feitas. Felizmente para você, ele está fora no momento, mas não deixamos nossos padrões caírem, não é mesmo?

A mesa toda concordou com um movimento de cabeça e começou a se levantar.

— Nancy, acompanhe Mary até o quarto.

— Sim, senhora C — disse respeitosamente a garota ao lado dela. — Siga-me — falou para Mary.

Minutos depois, Mary subia com sua mala, pela escadaria, até um corredor imenso. Do alto da escadaria, pendia um lustre enorme, cheio de lâmpadas elétricas. Subiram mais três lances de escada até chegar ao último andar.

— Jesus, Maria e José! — exclamou Mary. — Esta casa é do tamanho de um palácio!

— Aquela é sua cama — disse Nancy, depois que entraram em um quartinho onde havia duas camas e não muito mais que isso. Ela apontava para uma cama junto à janela. — Você é a última a chegar, de modo que fica com a corrente de vento.

— Obrigada. — Mary sorriu sem graça e pôs a mala sobre a cama.

— Nós nos revezamos para ir buscar a água quente para o lavatório e há um pote debaixo da cama para a outra coisa — Nancy indicou, sentando-se em sua própria cama e observando Mary. — Você é bem bonita. Como é que não tem aquele cabelo vermelho que todos vocês irlandeses têm?

— Não sei ao certo — respondeu Mary, tirando da mala as poucas peças de roupa e arrumando-as na gaveta, na lateral da cama. — Mas nem todos nós temos, sabia?

— Todos os que conheço têm. Você não, mas tem adoráveis olhos azuis e cabelo claro. Você segura a cor dele?

— Você quer dizer tingi-lo? — Mary riu e balançou a cabeça. — De onde venho não se tem esse tipo de coisa. Ainda esperamos a energia elétrica chegar à nossa parte do mundo.

— Caramba — Nancy riu. — Não poderia mais imaginar o que é viver sem ela, mas, quando eu era pequena, não havia luz elétrica. É por isso que tenho tantos irmãos e irmãs! — Ela gargalhou. — Você tem namorado?

— Tenho, mas ele está ausente, lutando contra os boches, e não o vejo há dezoito meses.

— Há sempre mais de onde ele veio, você sabe — Nancy sorriu. — Especialmente aqui em Londres.

— Bem, eu não estaria interessada em outro namorado. Não haverá mais ninguém para mim — Mary respondeu firmemente.

— Espere até passar alguns meses aqui, depois vamos ver. Há uma porção de soldados solitários de licença na cidade à procura de uma garota bonita para gastar seu soldo, grave as minhas palavras. — Nancy começou a se despir, a roupa de baixo mal cobrindo um magnífico par de seios e os quadris fartos e arredondados. Quando soltou o longo cabelo louro, parecia um querubim maduro. — Se conseguirmos nossos dias de folga juntas, vou levá-la para passear e mostrar as atrações. Há muito para mantê-la ocupada aqui nesta cidade enfumaçada, isso é certo.

— Então, como são o senhor e a senhora? — Mary perguntou enquanto se acomodava na cama.

— Ah, não temos uma senhora ainda. O senhor Lisle mora sozinho, pelo menos quando está aqui. Nenhuma senhora parece ter-lhe inspirado fantasias. Ou talvez ele não tenha inspirado nelas! — Nancy riu.

— Bem, com certeza, seu irmão Sebastian também não é casado — disse Mary, apertando o cobertor fino em torno do corpo e entendendo por que a cama que ocupava não era a preferida.

— A senhora Carruthers diz que o senhor pode ser um espião — disse Nancy. — Seja o que for que ele faz, é importante. Ele convida muita gente famosa para jantar aqui. Uma vez veio o próprio Lloyd George! Você pode imaginar o primeiro-ministro britânico sentado na sala de jantar?

— Santa Maria, mãe de Deus! Quer dizer que eu poderia ter de servi-lo à mesa? — Os olhos de Mary estavam redondos de horror.

— O que sempre penso quando temos alguém famoso em casa e o vejo com os meus próprios olhos é que todos eles têm que usar o lavatório. Então, imagino-os sentados ali e depois não me preocupo mais.

Mary riu e indagou a Nancy.

— Quanto tempo você está no serviço?

— Desde que tinha onze anos de idade, quando minha mãe me mandou para ser uma lava-potes. Aquilo, sim, é que era trabalho difícil, esvaziar todos aqueles dejetos humanos. — Nancy estremeceu. — Não importa se você é uma dama ou uma vagabunda, sua urina e sua merda fedem do mesmo jeito.

Os olhos de Mary estavam começando a se fechar, a apreensão e a emoção de chegar a Londres estavam levando a melhor sobre ela. Mesmo enquanto mergulhava no sono, Nancy continuava a falar, mas ela não ouvia mais nada.

 

Nas primeiras semanas, a vida na Casa de Cadogan foi cheia de novidades maravilhosas para Mary. O serviço era conduzido em grande escala, mesmo quando o senhor não se encontrava na residência. Ela não pôde deixar de se embasbacar com os imensos e belos salões, com suas enormes janelas cobertas com grossas cortinas de damasco, com os móveis finamente desenhados e com as lareiras encimadas por enormes espelhos elegantes.

Apesar das constantes piadas sobre sua condição de irlandesa, Mary considerou os outros empregados um grupo simpático. Nancy revelou-se uma ótima guia de Londres, tendo vivido na cidade durante toda a vida. Levou Mary, de bonde, a Piccadilly Circus, para comer castanhas quentes sob a estátua de Eros, e até o centro para ver o Palácio de Buckingham. Elas tomaram chá com bolinhos em Lyons Corner House, onde uma dupla de jovens soldados ficou “na paquera”, como Nancy observou. Nancy era favorável a retribuir, mas Mary não quis nada com isso.

Mary adorou o mundo novo e excitante. As luzes brilhantes e a agitação de Londres tornavam difícil lembrar que aquele era um país em guerra. Até então, o território britânico permanecera intocado e, para além da vista, surpreendentemente cheio de mulheres dirigindo bondes e ônibus e servindo atrás do balcão nas lojas, mas a cidade mantinha-se inalterada.

Isso foi até a chegada dos Zepelins.

Mary ouviu uma enorme explosão no meio da noite e acordou, assim como o resto da cidade, ante a notícia de que os alemães tinham bombardeado um lugar no East End, matando duas centenas de pessoas. De repente, Londres tornou-se um centro movimentado, com balões de barragem pendurados acima do horizonte, perfis sombrios das metralhadoras, assentadas no topo dos edifícios altos, e preparativos de prevenção contra novos ataques nos porões de todas as casas.

Durante o verão de 1917, quando já fazia mais de um ano que Mary se encontrava em Londres, as sirenes de ataque aéreo soaram com regularidade. Os empregados da casa se enfurnavam no porão para comer biscoitos secos e jogar cartas, enquanto o estrondo das armas rugia acima deles. A senhora Carruthers sentava-se em sua cadeira de madeira, trazida da cozinha, e tomava goles discretos de sua garrafa de bolso para acalmar os nervos. No entanto, mesmo durante os piores momentos, quando parecia que um Zeppelin estava diretamente acima e via-se o medo no rosto de todos sob a luz das velas ao redor, Mary preocupava-se pouco consigo mesma. Ela se sentia... invencível — como se o horror do que acontecia não pudesse atingi-la.

Uma manhã, na primavera de 1918, Mary finalmente recebeu uma carta de Sean. Mesmo tendo lhe informado sobre o novo endereço, não recebera nenhuma carta em resposta. Não fazia ideia de onde ele se encontrava, ou se estava vivo ou morto. Sentia-se culpada e se recriminava todas as vezes que ela e Nancy vestiam-se, em seu dia de folga, para ir até a cidade, culpada pelos risos que compartilhavam e, acima de tudo, pela sensação de liberdade que experimentava naquela cidade aberta, onde tudo parecia possível.

E porque, para ser franca consigo mesma, mal conseguia se lembrar da aparência de Sean. Abrindo a carta, ela começou a ler.

“França, 17 de março.

Minha adorável Mary,

Escrevo para lhe dizer que estou bem, embora pareça que fomos enviados para combater nesta guerra para sempre. Terei uma licença de uma semana em breve e recebi suas cartas informando que está trabalhando em Londres. Quando chegar aí, aparecerei para vê-la.

Mary, querida, devemos acreditar que esta guerra acabará logo e que poderemos voltar à nossa vida em Dunworley juntos.

Você é tudo o que tenho nos dias e nas noites aqui.

Com todo o meu amor,

Sean”

Mary releu a carta cinco vezes. Depois se sentou e ficou olhando em silêncio para a parede caiada no lado oposto à cama.

— O que foi? — Nancy estranhou seu ar pensativo.

— Meu namorado, Sean. Ele vai ter uma licença em breve e virá me ver.

— Ainda bem! — disse Nancy. — Então, ele não é uma invenção da sua imaginação, afinal de contas.

Mary sacudiu a cabeça.

— Não. É verdade, ele é real.

— E à prova de balas e dos boches também, se esteve nas trincheiras durante os últimos três anos. A maioria dos soldados não passa das primeiras semanas. Você é uma sortuda por ainda ter o namorado vivo. O que o resto de nós meninas vai fazer, hein? Deus sabe quantos milhares de jovens perdemos para esta guerra. Vamos todas acabar morrendo solteironas. Não deixe escapar seu queridinho da sorte! — Nancy advertiu.

Mary estava atiçando o fogo na sala de visitas, algumas semanas mais tarde, quando Sam, o lacaio, enfiou a cabeça pela porta.

— Há um cavalheiro que atende pelo nome de Ryan perguntando por você na porta da frente, Mary. Mandei que desse a volta pelos fundos até a entrada dos empregados.

— Obrigado, Sam — disse Mary.

As pernas tremiam enquanto descia a escada para o seu passado, rezando para que a cozinha estivesse vazia e pudesse ter pelo menos um momento a sós com Sean. No entanto, com a monotonia constante da rotina diária, os criados estavam ansiosos por alguma excitação. Consequentemente, na cozinha havia um bom grupo de criados.

Mary passou pela porta de trás tão rapidamente quanto pôde, na esperança de chegar primeiro, mas Nancy fora mais rápida. A colega estava com as mãos nos quadris e sorria para o soldado magro, quase irreconhecível, na soleira da porta.

— Parece que este jovem se chama Sean — Nancy voltou-se para Mary — e quer falar com você.

— Obrigada — disse Mary.

— Ele pode ser apenas um irlandês, mas é bem vistoso, ah, se é — Nancy sussurrou a Mary quando voltou para a cozinha.

Mary olhou nos olhos de Sean pela primeira vez em três anos e meio.

— Mary, minha Mary, mal posso acreditar que estou olhando diretamente para você. Venha, dê um abraço no seu noivo. — A voz de Sean foi embargada pela emoção quando abriu os braços, e ela se encaminhou na direção dele.

Ele cheirava diferente, mas era o mesmo. Quando o abraçou, pôde sentir sua magreza de encontro ao corpo.

— Mary — ele murmurou — é realmente você, aqui na cidade de Londres. E a estou segurando em meus braços... você não sabe quantas vezes sonhei com isso, e agora consigo realizar. Deixe-me olhar para você. — Sean pegou-a pelos ombros e examinou-a. — Eu juro, você ficou ainda mais bonita.

Ele sorria para ela, os olhos suaves cheio de ternura.

— Não seja bobo — Mary corou —, com certeza, sou a mesma que sempre fui!

— Você pode sair hoje? Eu só tenho duas noites em Londres, antes de partir de novo.

Mary olhou para ele em dúvida.

— Hoje não é normalmente meu dia de folga, Sean. Mas posso perguntar à senhora Carruthers se será possível.

Ela se virou para voltar à cozinha, mas ele a impediu.

— Você vai se aprontar para sair comigo. Eu mesmo vou falar com a mulher. Não há muitos na cidade de Londres que sejam capazes de resistir a um soldado.

E com certeza, quando Mary voltou à cozinha com sua melhor saia e o chapéu novo, Sean estava sentado à mesa com a senhora Carruthers, um copo de gim na mão, enquanto ela, e o resto dos criados, ouviam avidamente suas narrativas sobre a frente de batalha.

— Eles não nos contam nada — reclamava a senhora Carruthers. — Não sabemos o que está acontecendo, só nos dizem o que querem que todo mundo saiba.

— Bem, senhora Carruthers, eu diria que em mais seis meses os teremos vencido. Com certeza, os boches estão sofrendo mais baixas do que nós. Nós aprendemos, vejam vocês, como combatê-los. Levou tempo, mas acho que estamos do lado vencedor agora.

— Vamos esperar que sim — disse a senhora Carruthers fervorosamente. — Cada vez faltam mais suprimentos e está difícil colocar comida na mesa todos os dias.

— Não se preocupe, senhora Carruthers. Nós temos um grupo de bravos soldados para defender esta nação e vou cuidar pessoalmente para que haja um ganso na sua mesa no próximo Natal — acrescentou Sean, com uma piscadela.

A senhora Carruthers riu e olhou para Mary.

— Você tem um ótimo rapaz nesta guerra, minha jovem, apesar de dizer isso por mim mesma. Acho melhor vocês dois saírem logo. Tenho certeza de que ele não vai querer perder um segundo da sua licença conversando com uma pata velha como eu!

— Ah, senhora Carruthers, a senhora é exatamente o tipo de pessoa por quem os garotos estão lutando para manter em segurança. — Sean olhou para Mary e sorriu. — Você está pronta?

— Sim. — Mary virou-se para a senhora Carruthers. — A que horas a senhora quer que eu volte?

— Demore o tempo que quiser, querida. Tenho certeza de que Nancy não vai se importar em cobrir suas funções apenas por uma vez, hein, Nancy?

— Não, senhora C — Nancy concordou relutantemente, sentindo- -se um tanto inferiorizada naquela situação.

— É muito gentil da sua parte poupar Mary, senhora Carruthers — disse Sean e acrescentou: — Prometo que vou trazê-la de volta aqui às dez horas em ponto.

— Como disse, podem voltar na hora que quiserem — concordou alegremente a senhora Carruthers.

Mary e Sean deixaram a casa e pararam nas cavalariças.

— Eu tinha me esquecido de como você é capaz de encantar até os pássaros nas árvores, Sean Ryan. — Mary olhou para ele com admiração. — Até mesmo aquele velho machado de batalha para quem trabalho. Para onde vamos?

Sean olhou para ela e encolheu os ombros.

— Você é a única que conhece Londres, Mary. Vou deixar isso para você.

— Bem, eu diria que, para começar, devemos ir a algum lugar tranquilo. Então, por que não nos sentamos nos jardins perto daqui, onde ninguém irá nos incomodar?

Sean tomou as mãos dela nas suas.

— Eu não me importo, contanto que possa olhar em seus lindos olhos.

Eles atravessaram a avenida para os jardins da praça, abriram o portão de ferro e sentaram-se em um banco.

— Ah, Mary. — Sean beijou-lhe as mãos. — Você não imagina o que isso significa para mim, ver você, eu... — ele engasgou de repente em suas palavras e ficou sentado, em silêncio, ao lado dela.

— O que foi, Sean?

— Eu...

E então ele começou a soluçar. Os soluços profundos abalavam seu corpo. Mary o olhou com desalento, sem saber o que dizer ou como ajudar.

— Sinto muito, Mary, me desculpe... — Finalmente, Sean enxugou as lágrimas com uma de suas mãos grandes. — Estou parecendo um idiota, eu sei, mas que diabo... em que inferno estive e o que vi... e você está aí, linda como sempre. Eu... — ele afrouxou os ombros — não consigo explicar.

— Talvez seja melhor se tentar me contar, Sean. Não prometo que possa ajudar, mas talvez ouvir — disse Mary em voz baixa.

Sean balançou a cabeça.

— Jurei a mim mesmo que não faria isso, que não esmoreceria quando a visse, mas... Mary, como posso lhe dizer como tem sido lá? Como desejei a morte tantas vezes, porque a vida é... — sua voz falhou — além da resistência.

Mary acariciou delicadamente sua mão.

— Sean, estou aqui, e posso lidar com tudo que você precisar me dizer, prometo.

— O mau cheiro, Mary, o cheiro dos mortos, cadáveres apodrecendo... enche as minhas narinas até agora. Simplesmente jogados na lama, pisados... pedaços de corpos por todos os lados. E o cheiro da fumaça das armas e do gás, e as explosões mais assustadoras da vida continuando sem parar, o dia todo, a noite toda, sem fim. — Sean colocou a cabeça entre as mãos. — Não há trégua, Mary, sem descanso para ninguém. E você sabe que toda vez que passa por aquilo, na melhor das hipóteses, poderá perder seus amigos e, na pior das hipóteses, poderá se perder. E até que não seria ruim! Para fugir daquele inferno em que estou há quase três anos e meio!

Mary olhou para ele horrorizada.

— Sean, ouvimos apenas que os nossos rapazes estão indo bem agora. Que estamos vencendo.

— Ah, Mary — Sean não estava mais chorando. Sua cabeça pendia pesada em suas mãos. — Eles não querem contar sobre o sofrimento, é claro que não. Com certeza, não receberiam mais um ser humano sequer nas trincheiras se todos soubessem a verdade. — Ele a encarou de repente. — Eu não deveria dizer isso a você agora.

— Sean — Mary estendeu a mão e acariciou sua cabeça, sentiu o cabelo duro sob os dedos —, é o certo você me contar. Vou ser sua esposa logo que estiver fora disso. E não pode demorar muito, a meu ver, será que pode?

— Estive pensando a mesma coisa todos os dias durante três anos e meio, Mary, e ainda estou lá — ele respondeu desolado.

Os dois ficaram ali sentados em silêncio por um tempo.

— Sabe, Mary — disse Sean por fim. — Eu me esqueci pelo que estamos lutando. E não tenho certeza de que possa voltar e enfrentar aquilo novamente.

— Logo, logo você estará fora disso — Mary continuou acariciando seu cabelo — e voltará para casa comigo em Dunworley, para a nossa bela casa nova, onde é nosso lugar.

— Nunca diga nada disso à minha mãe. — Sean olhou para ela com ansiedade. — Você me promete, Mary? Não poderia suportar fazê-la pensar e se preocupar agora. E você está certa. — Ele lhe pegou a mão e apertou-a com tanta força que o sangue deixou os dedos de Mary. — Isso vai acabar logo. Deve acabar.

Algumas horas mais tarde, quando Mary voltou para casa e se arrastou escada acima até o quarto, Nancy a esperava, sentada na cama.

— E então? Como foi? Nunca vi a senhora C tão arrebatada. Ele é um verdadeiro sedutor, o seu Sean.

— Sim, ele é mesmo. — Cansada, Mary começou a tirar a roupa.

— Aonde vocês foram? Será que ele a levou para dançar?

— Não, não houve dança esta noite.

— Será que ele a levou para um clube para jantar?

Mary puxou a camisola.

— Não.

— Bem, então o que vocês fizeram? — indagou Nancy, com um toque de irritação na voz.

Mary deitou-se na cama.

— Nós nos sentamos nos jardins da praça.

— Quer dizer que vocês não foram a lugar nenhum?

— Não, Nancy — Mary apagou a luz. — Não fomos a lugar nenhum.

 

Na noite seguinte, Sean voltou à Casa de Cadogan para buscar Mary novamente. Dessa vez, ela o levou de trólebus até Piccadilly Circus, e eles compraram peixe com batatas fritas, que comeram sentados debaixo da estátua de Eros.

— Queria ter mais tempo, Mary, e poderia levá-la a algum lugar especial.

— Este lugar é especial para mim, Sean. — Mary o beijou na bochecha. — É melhor do que ir a um salão lotado e nos preocupar com o modo como nos comportamos, não acha?

— Por mim, está muito bom, se está bom para você — Sean concordou, levando as batatas, com apetite, à boca. — Mary, quero dizer o quanto lamento sobre a noite passada. Você não merece ouvir tudo aquilo. Hoje estou melhor.

— Não há problema, Sean. — Mary encolheu os ombros. — Você precisava pôr para fora e é justo que fizesse isso comigo.

— Bem, não quero falar mais sobre aquilo. Logo estarei de volta para lá mesmo. Conte-me sobre você, Mary, sobre sua vida aqui em Londres.

Mary o fez, enquanto caminhavam de mãos dadas, descendo para o St. James Park. Por fim, Sean pegou o rosto dela em suas mãos.

— Mary, não vai demorar muito agora, e nós dois estaremos voltando para casa. — Ele pareceu subitamente ansioso. — Você vai querer voltar para Dunworley, não vai? Quero dizer — abrindo os braços, ele indicou o que havia ao redor —, é difícil desistir desta cidade de Londres.

— Não, não é, Sean — Mary assegurou. — Eu diria que nós dois crescemos desde que nos conhecemos há tantos anos. E o mundo mudou muito. Mas vamos construir uma vida juntos, onde quer que seja.

— Mary, ah, Mary. — Sean passou os braços em torno dela e beijou-a longamente. Ele se afastou de repente. — Vou acabar me desencaminhando se não tomar cuidado. — Respirou fundo algumas vezes, em seguida abraçou-a de novo. — É melhor voltarmos agora. Não quero colocá-la em apuros com a senhora Carruthers.

Os dois passearam pelas ruas, ainda agitadas com a atividade às 11 horas da noite.

— Não parece a aldeia Clon em uma noite chuvosa de domingo? — Sean sorriu. — Então, o que achou de Lawrence Lisle? Ele é como o irmão, Sebastian, um pouco moleirão? Com toda a sua terra e a sua grande casa.

— Eu não saberia dizer, Sean — disse Mary. — Não o vi, nem ouvi, desde que cheguei.

— Onde ele está?

— Ninguém sabe ao certo, mas ele trabalha para o governo britânico no exterior. O boato é de que estaria na Rússia.

— Bem, você já deve ter ouvido falar sobre o que está acontecendo lá agora. Eu diria que, se o senhor Lisle está na Rússia, você o verá voltar para cá em breve. Os bolcheviques estão se tornando mais poderosos a cada dia que passa. Ah… — Sean suspirou. — Eu diria que o mundo está dando uma reviravolta neste instante. E quero saber como tudo vai acabar.

Eles chegaram às cavalariças e permaneceram em silêncio no alto da escada, nenhum dos dois sabia como dizer adeus.

— Venha cá, minha Mary, me abrace e me dê forças para me afastar da sua suavidade e caminhar de volta para o inferno — Sean murmurou quando ela passou os braços em volta dele.

— Eu te amo, Sean — ela sussurrou. — Volte para mim em segurança, está bem?

— Consegui até agora, não foi? — Ele a tranquilizou. — Escreverei sempre que puder, mas não se preocupe demais se não tiver notícias minhas por um tempo. Acho que as coisas poderão ficar imensamente difíceis. Deve acontecer outro grande ataque que resolverá as coisas de uma vez por todas.

— Não vou me preocupar. Deus o abençoe, meu querido, e que Deus possa trazer você de volta para casa em segurança e em breve. Adeus, Sean. — Mary limpou as lágrimas sobre o casaco de Sean e levantou-se na ponta dos pés para beijá-lo.

— Adeus, querida. Só pensando em você é que consigo suportar.

Sean afastou-se dela com relutância e lágrimas nos olhos. E, com os ombros curvados, afastou-se lentamente por entre as cavalariças.

— Não sei o que está preocupando tanto você no momento — comentou Nancy na cama alguns dias depois. — Acho que foi o fato de rever seu amigo e depois saber que ele partiu de volta para tudo aquilo, não é?

— É… — Mary suspirou no escuro. — As coisas que ele me contou sobre como é por lá. Eu não consigo tirar as imagens da minha mente.

— Talvez ele estivesse exagerando para ganhar sua simpatia, e quem sabe um beijo extra!

— Não, acho que não, Nancy — Mary suspirou. — Eu queria que fosse isso, mas Sean não é desse jeito.

— Bem, pelo que dizem os jornais, parece que vai acabar logo e, então, seu homem poderá levá-la de volta ao pântano, de onde ambos vieram. — Nancy riu. — Quer ir até a cidade na quinta-feira fazer algumas compras e tomar um chá no Lyons? Quem sabe isso a anime.

— Vamos ver como estarei me sentindo.

— Como quiser — Nancy bufou.

Mary virou-se para o lado, fechou os olhos e tentou dormir. Desde que dera adeus a Sean, três dias antes, descobrira ser impossível livrar a cabeça das imagens terríveis que ele conjurara. E, desde aquele momento, começara a notar os inúmeros homens que vagavam por Londres usando um tapa-olho, sem uma das mãos ou sem uma perna. E, naquela tarde, um soldado de pé no centro de Sloane Square gritava para os transeuntes, como se tivesse perdido o juízo. Sean disse que o bombardeio contínuo afetava a mente dos soldados. Mary afastara-se daquela pobre alma demente com lágrimas nos olhos.

Os jornais estavam cheios de notícias sobre a revolução bolchevique na Rússia e o fato de que a família imperial russa fora presa. A conversa na cozinha era de que eles veriam o senhor em casa, em breve. Aparentemente, a senhora Carruthers recebera um telegrama instruindo-a a preparar a casa para sua chegada iminente. No mesmo momento, ela entrara em atividade plena, fazendo com que Mary e Nancy polissem as pratarias três vezes até que Smith, o mordomo, desse sua aprovação.

— Como se o senhor notasse se suas colheres de chá têm alguma marca — Nancy exclamara irritada. — Depois de passar por toda aquela agitação russa, acho que ele vai se dar por feliz ao sentir-se confortável em sua própria cama.

Embora a casa vivesse em alerta vermelho, ainda não havia nenhum sinal de Lawrence Lisle. Então, quatro dias depois, a senhora Carruthers apareceu com os olhos turvos para notificar à equipe que o senhor tinha acabado de chegar, às 3 horas da manhã.

— E por razões que vocês descobrirão mais tarde, ainda não pude dormir desde aquele momento — reclamou ela. — Francamente — arqueou as sobrancelhas para Smith — quem esperaria uma coisa dessas dele? — Eles compartilharam um momento de estranhamento, antes que a senhora Carruthers acrescentasse: — Mary, o senhor e eu queremos ver você na sala de visitas, às 11 horas em ponto.

— Estou com problemas? — ela perguntou, nervosa.

— Não, Mary, não é você quem está com problemas... de qualquer maneira, não direi mais nada até que o senhor a veja. Certifique-se de estar de uniforme limpo e que não haja um fio de cabelo para fora da sua touca.

— Sim, senhora C.

— Eu me pergunto: o que vem a ser tudo isso? — disse Nancy quando a senhora Carruthers saiu da cozinha. — Parece que ela está em um mato sem cachorro. Por que será que querem falar com você?

— Bem, vou acabar descobrindo em algumas horas, não é mesmo? — Mary respondeu com firmeza.

Mary apresentou-se à sala de estar às 11 horas em ponto com uma batida na porta. A senhora Carruthers a abriu.

— Venha conhecer o senhor Lisle, Mary.

Mary entrou. Em pé, ao lado da lareira, encontrava-se um homem alto, que guardava uma forte semelhança com o irmão mais novo, Sebastian. No entender de Mary, Lawrence Lisle parecia ter ficado com a melhor parte do patrimônio genético comum.

— Bom dia — disse ele. — Eu sou Lawrence Lisle. É... Mary, não é?

— Sim, senhor — ela fez uma reverência.

— Mary, surgiu nesta casa uma... situação delicada. E após uma consulta à senhora Carruthers, ela acredita que você seja a única pessoa capaz de nos ajudar.

— Estou certa de que farei o melhor que puder, senhor. Quando souber do que se trata — respondeu Mary com nervosismo.

— A senhora Carruthers disse que você foi criada em um orfanato num convento.

— Isso é correto, senhor.

— E que, enquanto esteve no convento, você ajudou a cuidar das outras crianças de lá, especialmente as mais jovens?

— Sim, senhor, quando os bebês eram deixados na porta pelas mães pobres, eu ajudava as freiras a cuidar deles.

— Então, você gosta de bebês?

— Ah, sim, senhor, eu os adoro.

— Muito bom, muito bom — Lawrence Lisle assentiu. — Bem, Mary, a situação é esta: das minhas viagens, eu trouxe para casa, comigo, um bebê, cuja mãe, assim como aquelas pobres mulheres que deixavam seus filhos à porta do convento, encontrou-se... incapaz de cuidar dele. Ela me pediu para fazê-lo, até novo aviso.

— Compreendo, senhor.

— Agora, falei com a senhora Carruthers sobre empregar uma babá, mas ela sugeriu que você pudesse ser a pessoa para cumprir essa função temporariamente. Na verdade, seus deveres como criada de salão raramente serão utilizados; quase certamente não serão nos próximos meses. Então, a senhora Carruthers e eu gostaríamos que você passasse a cuidar do bebê imediatamente.

— Compreendo, senhor. E quantos anos tem o bebê, senhor?

— Ela deve ser... bem — Lawrence pensou por um momento —, devo dizer que ela não tem mais do que quatro ou cinco meses.

— Certo, senhor, e onde ela está?

— Ela está ali.

Ele apontou para um pequeno cesto colocado sobre uma espreguiçadeira, no outro extremo da sala.

— Vá dar uma olhada se quiser.

— Obrigada, senhor.

Depois que Mary foi até o cesto e olhou timidamente para dentro, Lawrence acrescentou ao seu lado:

— Acho que ela é bastante atraente para um bebê, embora eu não tenha muita experiência nesses assuntos. E é muito boa também. Na balsa da França, apenas choramingou.

Mary olhou para o tufo de cabelo escuro, felpudo, e para a tez pálida, mas perfeita. O bebê estava com o polegar na boca e dormia contente e profundamente.

— Eu a alimentei há apenas uma hora — comentou a senhora Carruthers. — Ela certamente poderá chorar quando quiser mamar. Acredito que você saiba como dar uma mamadeira para um bebê e trocar a fralda?

— Claro, senhora C. — Mary sorriu para o bebê. — Qual é o nome dela?

Lawrence hesitou, antes de dizer:

— Anna, seu nome é Anna.

— Sem dúvida — murmurou Mary — ela é uma coisinha linda. E sim, senhor, adoraria cuidar dela.

— Bom, então está resolvido. — Lawrence pareceu aliviado. — O bebê dormirá no segundo andar, e o quarto já foi preparado. Você deve se mudar para lá ainda hoje, para poder cuidar dela e alimentá-la durante a noite. Você está liberada de todas as suas obrigações domésticas na casa, por enquanto. Você e a senhora Carruthers devem comprar tudo o que for adequado para a criança: carrinhos, roupas e assim por diante.

— Ela não veio com nenhuma roupa, senhor?

— A mãe fez uma mala pequena para viajar. Isso é tudo o que ela tem. Então — ele indicou a porta —, sugiro que você a leve para cima agora e acomode-a em seu quarto.

— Posso perguntar de que país é este bebê? — disse Mary.

Lawrence Lisle franziu a testa e parou por um momento.

— A partir deste momento, a criança é inglesa. Se alguém perguntar, incluindo todos os integrantes do pessoal desta casa, ela é filha de um amigo meu, cuja esposa adoeceu ao dar à luz. O pai foi morto em ação um mês depois. Tomei-a como minha protegida até que a mãe esteja forte o bastante para cuidar dela por conta própria. Você entendeu, Mary?

— Entendi, senhor. E prometo que vou prestar a melhor assistência possível a Anna, para o senhor.

Mary curvou-se em uma pequena reverência e saiu da sala levando o berço com cuidado até a escada para o segundo andar. Esperou no patamar até que a senhora Carruthers viesse se juntar a ela.

— Você vai ficar aqui. — A senhora Carruthers a levou pelo corredor até um quarto que dava para o jardim quadrado. — Eu coloquei vocês neste quarto porque é o mais distante do senhor. Não importa o que ele diga, o bebê vai chorar quando estiver com fome, e não quero que ele seja perturbado.

Mary olhou com admiração para o belo quarto. Continha uma penteadeira e uma cama de ferro confortável, com uma colcha estendida por cima.

— Não alimente ideias acima da sua situação, minha jovem — a senhora Carruthers acrescentou. — Você só está aqui porque precisa cuidar do bebê durante a noite.

— Não se preocupe — assegurou Mary rapidamente, sabendo que sua súbita elevação na hierarquia poderia ser uma ameaça à posição da própria senhora Carruthers.

— Isto é só por algum tempo, entenda. Tenho certeza de que, assim que puder, o senhor vai querer empregar uma babá profissional. Mas, como observei, com a guerra, seria como encontrar uma agulha em um palheiro. Espero que esteja agradecida por ter sugerido você para isso, minha menina. Não vá me decepcionar, hein?

— Eu vou fazer o melhor que puder senhora C, prometo — Mary tranquilizou-a. — E não há nenhuma necessidade de gastarmos dinheiro em roupas para a bebê. Eu sou útil com a minha agulha e linha, e gosto de costurar.

— Certo, então. Tire seus pertences do antigo quarto assim que puder. Há um armário de água, e a porta do banheiro fica ao lado. Não precisa mais urinar em potes, minha menina. Você não é uma sortuda?

— Sim. Obrigada pela oportunidade, senhora C.

— Mesmo sendo irlandesa, você é uma boa menina, Mary. — A senhora Carruthers caminhou até a porta e, em seguida, fez uma pausa. — Não sei, não — disse ela —, tem algo de engraçado em tudo isso. Depois que você ficou com o bebê, o senhor pediu que chamasse Smith para pegar uma maleta e guardá-la no sótão. Ele disse que era para ser mantida ali, para a mãe da bebê, até que ela viesse buscá-la. Essa pequenina não me parece nada inglesa — acrescentou, olhando para o berço. — Ela parece a você?

— Ela é de uma cor incomum, com certeza — concordou Mary com cuidado. — O cabelo todo escuro e a pele branca.

— Meu palpite é de que ela é uma bebê dos russos — supôs a senhora Carruthers. — Mas nós provavelmente nunca saberemos, não é?

— Bem, o mais importante agora é manter a pequenina sã e salva conosco aqui — disse Mary.

— Sim, você está certa — concordou a senhora Carruthers. — Nos vemos lá embaixo, mais tarde.

Finalmente, Mary foi deixada sozinha com seu novo encargo. Ela se sentou na cama, ao lado da bebê no berço, e olhou para o rosto da pequena Anna. Por fim, como se a bebê soubesse que estava sendo observada, contorceu-se, mexeu-se e abriu os olhos sonolentos.

— Olá, querida — Mary balbuciou, olhando diretamente nos profundos olhos castanhos. Viu a expressão dos olhinhos mudar e percebeu que a bebê também a observava.

Mary segurou a mão da bebê com os dedos.

— Olá, Anna, estou aqui para cuidar de você.

Foi amor à primeira vista.

 

A guerra arrastou-se ainda pelos próximos meses, e Mary recebeu apenas mais uma carta de Sean. Ele dizia acreditar que os aliados, finalmente, venceriam a batalha. Mary escrevia-lhe fielmente todas as semanas e rezava por ele todas as noites.

Agora, no entanto, todos os seus pensamentos já não eram apenas para Sean, mas para o pequeno e formoso ser humano de quem era encarregada. Permanecia com a bebê 24 horas por dia. Durante a manhã, depois de alimentá-la, Anna dormia no jardim, enquanto Mary lavava suas fraldas e as roupinhas que lhe fizera. Após o almoço, ela colocava Anna no carrinho e a levava para um passeio até Kensington Gardens. Elas ficavam perto da estátua de Peter Pan e ouviam as fofocas das outras babás que ali se reuniam com seus pupilos.

As babás não lhe falavam — Mary sabia que a olhavam com desdém, vestidas com suas roupas cinzentas simples, enquanto ela continuava usando seu uniforme de criada de salão.

Depois do passeio, se o senhor não estivesse em casa, Mary levava Anna para a cozinha, para alimentá-la, e lá ela era mimada pelo pessoal da casa. Anna adorava ser o centro das atenções, sentava-se ereta no cadeirão de madeira e batia com a colher na mesa, cantando junto com o som que produzia. A cada etapa que vencia, à medida que crescia, era admirada e recebia comentários da sua audiência. Não houve nenhuma animosidade por parte dos outros empregados em relação ao novo posto de Mary. Ela estava encarregada do pequeno raio de sol que iluminava a cozinha. Anna era adorada por todos.

À noite, com Anna sentada no berço, Mary costurava suas roupinhas, babadores decorados com bordados delicados e casacos de crochê e sapatinhos. Anna ficava mais saudável a cada dia, com as bochechas pálidas ganhando um brilho rosado graças aos passeios ao ar livre.

Às vezes, Lawrence Lisle aparecia no quarto para admirar o bebê, perguntar sobre sua saúde e depois partia sem demora. Infelizmente, toda a ânsia de Mary de mostrar sua protegida era ignorada.

Uma noite, em outubro, enquanto as notícias de uma iminente vitória corriam por toda a Londres, Mary sentou-se junto ao berço de Anna e observou-a enquanto dormia. O clima na casa, em razão das boas novas, era de empolgação, com todos na expectativa à espera do tão prometido armistício.

A exemplo de milhares de outras mulheres que tinham seu homem na frente de batalha, muitas vezes Mary imaginava como se sentiria quando se anunciasse o fim da guerra. Então suspirava ao pensar que já não tinha tanta certeza.

Agitando-se, Anna murmurou algo em seu sono. Imediatamente Mary aproximou-se e acariciou o rostinho macio.

— O que será da sua vida se eu não estiver aqui para cuidar de você?

As lágrimas vieram espontaneamente para os olhos de Mary.

O armistício foi, finalmente, anunciado três semanas depois. A senhora Carruthers concordou em cuidar de Anna por algumas horas, enquanto Mary, Nancy e Sam, o lacaio, acompanhavam milhares de outros londrinos na comemoração. Mary foi empurrada do centro comercial até o Palácio de Buckingham, no meio da multidão em êxtase, agitando bandeiras, cantando e aplaudindo. Todos ovacionaram quando duas pequenas figuras apareceram na sacada — ela estava muito longe para vê-las com nitidez, mas sabia que eram o rei Jorge e sua esposa, sua xará, Mary.

Ela se virou e viu Nancy beijando apaixonadamente Sam e então foi arrastada por um par de braços fortes.

— Não é uma notícia maravilhosa, senhorita? — disse o soldado enquanto a girava no ar antes de voltar a colocá-la no chão. — É o início de um novo mundo.

Nancy e Sam seguiram a multidão que se dirigia do Mall até Trafalgar Square para continuar as comemorações. Mary caminhou de volta, sozinha, pelas ruas animadas, curtindo a felicidade contagiante ao redor, ainda sem ser capaz de participar plenamente.

O fim da guerra significaria o fim da sua temporada com Anna.

Um mês depois, Mary recebeu uma carta de Bridget, a mãe de Sean. Bridget nunca soubera escrever direito, e sua mensagem era curta e direta. Todos os rapazes que haviam partido para lutar e que tinham sobrevivido para contar a história aparentemente tinham voltado para casa, na aldeia de Dunworley. Sean não estava entre eles. Alguém se lembrava de tê-lo visto vivo em sua última batalha, no Somme, mas havia uma semana Bridget recebera uma carta do Ministério da Guerra informando que o filho fora oficialmente designado como “desaparecido em ação”.

Em razão das restrições de alfabetização de Bridget, Mary demorou vários minutos para entender o significado da carta. Sean estava desaparecido em ação. Dado como morto? Mary não sabia. Ela ouvira dizer que a França era um verdadeiro caos, enquanto os soldados começavam a tomar o caminho de casa. Muitos deles continuavam desaparecidos. Nesse caso, então, ela pensou com ansiedade, quem sabe ainda houvesse esperança?

À medida que o resto do mundo começava, lentamente, a olhar para o futuro, Mary, pela primeira vez em cinco anos, sentiu que seu mundo ainda se encontrava no limbo, como sempre estivera. E não podia ver sentido em voltar para a Irlanda enquanto não recebesse notícias de Sean. Pelo menos ali em Londres vivia ocupada, e a quantidade de xelins sob seu colchão aumentava sem cessar.

— Decerto será melhor eu ficar aqui com você, por enquanto? — ela murmurava para Anna enquanto a banhava. — Não há nada a minha espera na Irlanda até a volta de Sean, querida, nada.

À medida que o Natal se aproximava, os convidados voltaram a aparecer na mesa de jantar da Casa de Cadogan. Certa manhã, em meados de dezembro, Lawrence Lisle chamou Mary à sala de visitas.

Com o coração na boca, Mary inclinou-se na sua reverência e esperou o machado cair.

— Mary, por favor, sente-se.

Ela arqueou uma sobrancelha, surpresa. Não era o costume os criados tomarem essa liberdade na frente dos senhores. Ela se sentou timidamente.

— Queria lhe perguntar como Anna está progredindo.

— Ah, ela está maravilhosa, sem dúvida. Começou a engatinhar, e preciso me esforçar para acompanhá-la, ela é tão rápida! Estará andando em breve, então nos veremos em apuros. — Mary sorriu, toda a sua afeição aflorando-lhe aos olhos.

— Bom, muito bom. Bem, agora, Mary, você já deve ter percebido como a casa começa a voltar à vida. Assim sendo, devemos cuidar de restabelecer o cargo de criada de salão para servir à mesa.

O semblante de Mary se entristeceu, e seu coração bateu mais forte no peito.

— Sim, senhor.

— Esse era o seu antigo posto e, agora, você deveria retornar a ele.

— Sim, senhor. — Os olhos de Mary ficaram abatidos, e ela precisou cerrar os dentes para impedir-se de chorar.

— No entanto, a senhora Carruthers parece acreditar que você tem uma afinidade natural com Anna. Ela observou que o vínculo entre vocês duas é forte, o que é excelente para o desenvolvimento da criança. Concordo com ela. Então, Mary, gostaria de lhe perguntar quais são seus planos. Lamento saber que seu noivo ainda esteja considerado desaparecido em ação, mas a questão é a seguinte: estou disposto a lhe oferecer o cargo permanente de babá da criança. Caso você não esteja se preparando para voltar a qualquer momento para a Irlanda se seu rapaz for encontrado.

Senhor e criada trocaram um olhar eloquente em razão de a possibilidade de isso acontecer diminuir a cada dia.

— Bem, senhor, não sei se ele voltará, mas enquanto ele... não o fizer, eu ficaria feliz... mais do que feliz… em continuar a cuidar de Anna. Mas se ele aparecer... voltar para casa, quer dizer… — Mary gaguejou — seria o caso de pensar que teria de voltar com ele para a Irlanda. E é justo dizer-lhe isso, senhor.

Lawrence Lisle pensou por um momento, ponderando as possibilidades.

— Bem, talvez devêssemos pensar em cruzar essa ponte quando chegarmos a ela, não é mesmo?

— Sim, senhor.

— Todos precisamos enfrentar cada dia como ele se apresenta, e a senhora Carruthers me assegurou de que seus cuidados com Anna têm sido impecáveis. Então, se aceitar o novo posto, receberá um aumento de dez xelins por mês, e vou ter de pedir à senhora Carruthers para encontrar-lhe um uniforme mais adequado. Não gostaria que meus amigos pensassem que não estou agindo direito com criança.

— Obrigada, senhor. E prometo que continuarei a cuidar de Anna da melhor maneira possível. Ela é uma criança tão bonita. Talvez o senhor quisesse ir ao quarto para vê-la. Ou poderia trazê-la aqui? — ela ofereceu ansiosamente.

— Quando tiver tempo, você poderá trazê-la aqui embaixo para me ver. Obrigado, Mary, e mantenha o bom trabalho. Você poderia, por favor, pedir à senhora Carruthers para vir até aqui para discutirmos a contratação de uma nova criada para o salão?

— Claro, senhor. — Mary levantou-se e caminhou em direção à porta. Ela se virou antes de sair. — Senhor, a mãe da bebê… acha que ainda virá buscá-la?

Lawrence Lisle suspirou e balançou a cabeça.

— Não, Mary, duvido muito disso. Duvido muito mesmo.

Mary desceu a escada para a cozinha com uma boa dose de culpa pela vivacidade dos seus passos. Podia ser que já tivesse perdido seu amado Sean, mas sentia-se aliviada por ainda não ter perdido Anna também.

Os meses passaram, e não havia ainda nenhuma notícia de Sean. Mary fora, pessoalmente, ao Ministério da Guerra e entrara na fila com as outras pobres almas que tinham entes queridos ainda por retornar. O homem atrás da mesa, atormentado com a fila de mulheres desesperadas, procurou o nome de Sean em suas listas de pessoas desaparecidas.

— Lamento, minha senhora, mas há pouco mais que possa lhe dizer além do que já sabe. O sargento Ryan ainda não foi identificado, vivo ou morto.

— Isso quer dizer que talvez possa estar vivo em algum lugar e quem sabe — Mary encolheu os ombros em desespero — tenha perdido a memória?

— Certamente, senhora, a amnésia é um fenômeno comum entre muitos soldados. Mas também é provável que, se estivesse vivo, fosse localizado. O uniforme dos Guardas Irlandeses, em particular, é muito perceptível.

— Sim, mas eu deveria... devo, e também a família dele, ter uma esperança do seu retorno?

Pela expressão no rosto do homem, aquela era uma pergunta que obviamente lhe faziam várias vezes ao dia.

— Como não foi encontrado um corpo, sempre deve haver esperança. Mas está fora do meu alcance dizer à senhora, ou à sua família, por quanto tempo podem manter essa esperança viva. Se o sargento Ryan não for encontrado nas próximas semanas, o Ministério da Guerra entrará em contato e a condição dele será alterada para “desaparecido, presumivelmente morto”.

— Compreendo. Obrigada.

Sem mais palavras, Mary levantou-se e saiu do escritório.

Seis meses depois, Mary recebeu uma carta do Ministério da Guerra:

“Prezada Senhora Benedict,

Na sequência da sua investigação sobre o paradeiro do sargento Sean Michael Ryan, é meu triste dever informar que o casaco dele, com o número de inscrição no exército e contendo documentos de identificação, foi recuperado em uma trincheira inimiga em Somme, na França. Embora não tenham sido encontrados seus restos mortais nas proximidades, nós, infelizmente, presumimos que, nessas circunstâncias, o sargento Ryan encontrou a morte no teatro de guerra, enquanto servia ao seu país.

Nossas sinceras condolências são enviadas tanto para a senhora quanto para a família, a quem informaremos separadamente. Em uma observação pessoal, o fato de o casaco ter sido identificado em uma trincheira inimiga fornece uma indicação adequada para registro. O que, posso informá-la, já foi mencionado nos despachos.

No momento, o sargento Ryan está sendo considerado para uma condecoração póstuma por bravura.

Entendemos que essa seja uma pequena compensação pela perda de um parente querido, mas foi graças a homens como o sargento Ryan que a guerra terminou de forma satisfatória e a paz foi alcançada.

Com os melhores cumprimentos,

Edward Rankin”

Mary levou Anna para a cozinha e perguntou à senhora Carruthers se se importava em cuidar dela por uma hora, enquanto dava um passeio.

Como tinha os olhos lacrimejantes, a senhora Carruthers ficou cheia de simpatia ao olhar para o rosto branco de Mary.

— Más notícias?

Mary inclinou a cabeça, confirmando.

— Estou precisando de um pouco de ar fresco — falou em voz abafada.

— Saia pelo tempo que quiser. Eu e Anna vamos ficar bem, não vamos? — ela murmurou. — Sinto muito, querida. — Estendeu a mão hesitante e colocou-a no ombro de Mary. — Ele era um lindo rapaz, e sei como você esperou todos estes longos anos por sua volta.

Mary balançou a cabeça entorpecida e entrou no vestíbulo para vestir o casaco e calçar as botas. A simpatia incomum da senhora Carruthers trouxera lágrimas aos seus olhos, e ela não queria que Anna a visse chorar.

Mary sentou-se nos Jardins de Cadogan Place, vendo as crianças brincarem e um casal passear de braço dado. Aquele novo mundo, um mundo agora em paz, que permitia a busca da felicidade e dos prazeres simples, era um mundo que Sean ajudara a preservar e proteger. Mas que não viveu para ver.

Mary continuou sentada no banco até o anoitecer, quando os outros transeuntes começaram a se retirar. Passou por toda a gama de emoções: tristeza, medo, raiva... e pela maior quantidade de lágrimas que já derramara em toda a sua vida.

Releu a carta umas 20 vezes, as palavras alimentando seus pensamentos.

Sean... aquele urso enorme e um homem tão cheio de vida. Tão forte... tão jovem...

Morto.

Não respirava mais. Não fazia mais parte da terra. Tinha ido embora. Não haveria mais seu sorriso suave, ou uma repreensão, ou um riso...

Ou o amor.

Escureceu, mas Mary permaneceu onde estava.

Quando, finalmente, sentiu-se um pouco mais tranquilizada, após o choque inicial, Mary começou a considerar as implicações para si mesma. Eles não haviam casado, portanto não haveria nenhuma pensão de viúva para ela. A vida que imaginara para si há muitos anos — um homem para amá-la, protegê-la e que proporcionasse um teto sobre sua cabeça e para sua própria família — chegara ao fim.

Uma vez mais, estava sozinha. Órfã pela segunda vez em sua vida.

Mary tinha certeza de que, se voltasse para a Irlanda, os pais de Sean a receberiam de braços abertos. Mas o que seria sua vida? Mesmo que não tivesse a intenção de encontrar um homem para substituir o filho deles, Mary sabia que qualquer atividade feliz de que participasse seria como uma pílula amarga para os pais enlutados. E a presença dela sempre os lembraria de sua perda.

Esfregou o rosto devagar com a palma das mãos. O ar de março estava ficando mais frio agora e ela sentia o corpo trêmulo, de choque ou de frio. Levantou-se e olhou em volta, desolada, lembrando-se do momento em que os dois estiveram ali sentados.

— Adeus, querido. Deus o abençoe e tenha doces sonhos — ela sussurrou, e deixou os jardins para voltar à única vida que lhe restava.

 

Anna estava com quase três anos agora, o cabelo crescido em uma juba preta e brilhante, contrastando com sua pele cor de marfim. Ela caminhava hesitante pelo quarto, raramente caindo, e sua graça natural encantava a todos na casa. Até mesmo Lawrence Lisle pedira que Mary a levasse para a sala de visitas para que fizesse a mesura perfeitamente executada que Mary lhe ensinara.

De alguma forma, instintivamente, Anna sabia que o estranho que às vezes se aproximava era importante em sua vida. Parecia a Mary que Anna fazia o melhor que podia para encantá-lo, dirigindo-lhe seu sorriso mais bonito e abrindo os braços para ele, para receber um abraço.

Apesar do desenvolvimento físico, Anna ainda não falava corretamente, embora emitisse sons repetitivos e proferisse algumas palavras, portanto Mary tentou não se preocupar com isso.

— Ela já está falando bem? — Lawrence Lisle perguntou um dia, quando Anna sentou-se com ele na sala.

— Vai indo devagar, senhor, mas, de acordo com a minha experiência, os pequenos se desenvolvem em seu próprio ritmo.

Quando chegou a hora de ir, Anna atirou os bracinhos em volta dos ombros do senhor Lisle.

— Diga “até logo” para mim agora, Anna — o senhor Lisle incentivou.

— A-até... l-logo — Anna conseguiu.

Lawrence Lisle levantou uma sobrancelha.

— Diga isso de novo, Anna, boa menina.

— A-até... l-logo — disse a menina para agradá-lo.

— Hum... Mary, parece-me que Anna gagueja.

— Não, com certeza — Mary desconversou nervosamente. O senhor expressara o que ela mesma temia. — Ela só está aprendendo a formar as palavras com a língua.

— Bem, você é a especialista em crianças, mas gostaria que a observasse com atenção.

— Sim, senhor, farei isso.

Sem dúvida, nos meses seguintes, à medida que Anna aprendia mais palavras, sua gagueira tornava-se óbvia demais para ser encoberta como uma fase do desenvolvimento. Mary afligia-se e pedia conselhos ao pessoal na cozinha.

— Não há nada a ser feito, eu diria — a senhora Carruthers encolheu os ombros. — Só tente não deixar a pequena falar muito na frente do senhor. Você sabe como os senhores não gostam de imperfeições em seus filhos. E Anna é muito próxima dele, então esconda isso o quanto puder.

Decidida, Mary visitou a biblioteca local e encontrou um livro sobre o problema. Aprendeu que qualquer situação em que Anna se sentisse nervosa tornaria a gagueira mais intensa. E por ser a responsável por cuidar de Anna, procurou certificar-se de pronunciar sempre as palavras com a maior clareza, para que Anna pudesse notar e imitar da melhor forma possível.

A cozinha ria de Mary enquanto ela falava com Anna lentamente, pronunciando com rigor excessivo todas as palavras e incentivando o resto do pessoal a fazer o mesmo.

— Se não tomar cuidado, você vai deixar a menina gaguejando em todos os sotaques, do irlandês ao cockney londrino — riu a senhora Carruthers. — Se fosse você, eu a deixaria ser como é, que a natureza siga seu curso.

Mas Mary não se conformava e perseverava com a criança. Atendendo às palavras da senhora Carruthers, ela também ensinou Anna a permanecer em silêncio quando estivesse na frente do senhor, atendo-se às poucas palavras básicas para se comunicar com ele, na esperança de que sua reverência graciosa mascarasse o problema.

O senhor Lisle notou o relativo silêncio de Anna em algumas ocasiões, mas Mary continuou a despistá-lo.

— P-por que não posso falar com e-ele, M-Mary? — sussurrou a menina quando Mary a levou da sala de volta ao seu quarto.

— Você vai, querida, no devido tempo… no devido tempo — Mary confortou-a.

Anna, no entanto, pareceu ter desenvolvido seu próprio método de comunicação com seu guardião.

Poucos meses depois, após a meia hora reservada para ficarem juntos, Mary bateu na porta para buscar Anna.

— Entre.

Mary abriu a porta e encontrou Lawrence Lisle de pé junto à lareira, olhando para Anna, que se agitava ao redor da sala, ao ritmo da música que colocara para tocar no gramofone.

— Olhe como ela dança... ela é encantadora. — Sua voz não era mais do que um sussurro, enquanto observava, fascinado. — É como se soubesse o que fazer instintivamente.

— Sim, ela adora dançar — Mary observou com orgulho enquanto a menina, perdida em seu próprio mundo, esvoaçava ao redor da sala ao sabor da música.

— Ela pode não ser capaz de se comunicar com palavras, assim como os outros, mas veja como se expressa com o corpo — comentou Lawrence.

— Qual é a música, senhor? É linda — perguntou Mary, observando a criança se dobrar e girar.

— É a A Morte do Cisne, um balé de Fokine. Assisti a uma apresentação uma vez, no Kirov, em São Petersburgo... — Ele suspirou. — Nunca vi nada tão bonito.

A música terminou, e o único ruído na sala era o da agulha, enquanto o disco ainda girava, reproduzindo os sons das rachaduras no vinil.

Lawrence Lisle saiu de seu devaneio.

— Bem, aqui estamos nós — disse ele. — Anna, você dança maravilhosamente. Gostaria de ter aulas?

A menina não entendeu direito o que lhe era perguntado, mas balançou a cabeça.

Mary olhou para Anna, nervosa, e em seguida para Lawrence.

— Não acha que ela é um pouco jovem demais para tomar aulas de dança, senhor?

— Não, de maneira alguma. Na Rússia, começa-se já nessa idade. E conheço muitos migrantes russos vivendo em Londres no momento. Vou descobrir quem é considerado um professor adequado para Anna e depois vou informá-la.

— Muito bem, senhor.

— Eu t-te amo, s-senhor Lisle — disse Anna sem mais nem menos, e lhe dirigiu um sorriso radiante.

Lawrence Lisle foi pego de surpresa pelas súbitas palavras de carinho da sua protegida e então Mary, inteligentemente, pegou-a pela mão, para sair depressa com ela, antes que pudesse falar mais alguma coisa.

— Mary, queria saber se é apropriado para a minha protegida chamar-me de “senhor Lisle”? Parece... um tanto formal.

— Bem, senhor, tem alguma sugestão? — perguntou Mary.

— Quem sabe “tio” não fosse mais apropriado, dadas as circunstâncias? Afinal, sou seu guardião.

— Eu acho que é perfeito, senhor.

Anna voltou para ele.

— B-boa n-noite, tio — disse, e as duas saíram da sala.

Lawrence Lisle manteve a palavra, e algumas semanas depois Mary encontrava-se em um estúdio espelhado e bem iluminado, em uma casa chamada Peasantry, na King’s Road, em Chelsea. A professora, que se apresentara como princesa Astafieva, magra e de turbante, fumando um cigarro Sobranie através de uma piteira e vestida com uma saia de seda multicolorida que arrastava atrás de si enquanto caminhava, parecia adequadamente exótica e distante.

Anna apertou com mais força a mão de Mary, o rosto pálido contraído e atemorizado ao ver aquela mulher estranha.

— Meu bom amigo Lawrence me dizze que ezta coisinha é capaz de danzar.

— Sim, senhora — respondeu Mary, inquieta.

— Azim vamos colocar um pouco de música e ver como a menina reage. Tire zeu casaco, crianza — ela ordenou enquanto sinalizava para o pianista tocar.

— Apenas dance como fez na frente do seu tio — murmurou Mary para Anna e a empurrou para o centro do salão.

Por alguns segundos, Anna pareceu prestes a explodir em lágrimas. Mas, assim que a bela música chegou aos seus ouvidos, ela começou a oscilar o corpo e a se deslocar com a graça e leveza de costume.

Dois minutos depois, a princesa Astafieva bateu no assoalho de madeira do estúdio com seu bastão, e o pianista interrompeu a melodia.

— Já vi o bastante. Lawrence está zerto. A crianza se move naturalmente à música. Então, vou ficar com ela. Você vai trazer Anna aqui toda quarta-feira, às 3 horas.

— Sim, senhora. Poderia me dizer de que ela vai precisar?

— Por enquanto, nada, apenas o corpo com os pés descalços. Depois, eu lhe digo. — Com um aceno de cabeça, a princesa Astafieva retirou-se dramaticamente da sala.

Mary precisou persuadir Anna para convencê-la a voltar e precisou suborná-la com um vestido cor-de-rosa com uma saia de tule, que fizera especialmente para ela usar na aula, mais a promessa de um chá com bolinhos em Sloane Square depois.

O resto do pessoal da casa também acompanhara atento as ideias de Lawrence Lisle.

— Ela está aprendendo balé antes de andar bem e falar direito! — A senhora Carruthers ergueu as sobrancelhas. — Acho que todo o tempo que ele passou na Rússia virou sua cabeça. Ele fica tocando aquela música triste no gramofone vezes sem conta, sem parar. Algo sobre cisnes morrendo e coisa parecida.

No entanto, quando Mary chegou para buscar Anna após a primeira aula, a menina sorria. Durante o prometido chá com bolinhos, Anna explicou que aprendera a colocar os pés em uma posição engraçada como um pato. E a manter as mãos em posições diferentes no ar.

— Na verdade, não é uma b-bruxa, Mary.

— Você tem certeza de que quer voltar lá? Mary confirmou.

— Q-quero ir de novo.

Na primavera de 1926, Anna comemorou seu oitavo aniversário. Como Lawrence Lisle não fazia a menor ideia da sua data de nascimento real, eles inventaram uma, em meados de abril.

Mary observou com orgulho enquanto Anna cortava o bolo que o senhor lhe comprara. A menina vibrou de emoção quando abriu o pacote com seu presente e, dentro, encontrou um par de sapatilhas de balé de cetim cor-de-rosa.

— O-obrigada, tio, elas são lindas. P-posso calçá-las agora? — perguntou Anna.

— Depois de comer, você pode — Mary advertiu, com um brilho no olhar. — Não queremos que sejam estragadas por migalhas de chocolate, não é?

— Absolutamente certo, Mary — concordou Lawrence e sugeriu: — Anna, quem sabe mais tarde você não vá à sala de visitas dançar com elas para mim?

— C-claro que sim, tio — ela sorriu. — E quem sabe o s-senhor poderia d-dançar comigo? — ela brincou.

— Eu duvido — ele respondeu com uma risada. Então balançou a cabeça para todo o pessoal reunido na sala de jantar, depois saiu, enquanto todos comiam um pedaço de bolo.

Uma hora mais tarde, Anna, em suas novas sapatilhas de balé cor- -de-rosa, encaminhou-se para a sala de visitas.

Mary sorriu quando ela fechou a porta atrás de si. Não havia dúvida de que o vínculo entre Lawrence e Anna se fortalecera. Quando ele precisava se ausentar em uma viagem para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, Anna, caso soubesse do seu retorno iminente, esperava-o ansiosamente na janela do quarto. Ele também se alegrava quando a via, a expressão sombria se iluminava quando ela corria para os seus braços.

Naqueles dias, Anna não poderia ter um pai mais cuidadoso mesmo que fosse o verdadeiro, Mary comentara muitas vezes na cozinha. Ele até mesmo decidira contratar uma preceptora para ela.

— Provavelmente será melhor educá-la aqui em casa. Não queremos que caçoem da sua gagueira — ele comentou.

No entanto, a paixão que consumia Anna em todos os momentos do dia era o balé. Ela vivia e respirava para a dança, esperando ansiosamente por sua aula, e passara a praticar todos os dias as novas posições que a princesa Astafieva lhe ensinava.

Quando Mary a repreendia pela falta de concentração nos estudos, Anna lhe dirigia um sorriso brilhante.

— Não q-quero saber de hi-história quando c-crescer, eu vou ser a melhor b-bailarina do mundo! E você v-vai lá na minha primeira noite, Mary, q-quando eu dançar c-como Odette/Odile em O Lago dos C-cisnes!

[5]

Mary não duvidou. Se dependesse da determinação dela, sabia que Anna realizaria seu sonho. E, como a princesa Astafieva observara, Anna também tinha o talento necessário.

Quando Mary subiu a escada para ir buscar Anna para o banho, encontrou-a fazendo piruetas ao redor do quarto com a emoção estampada no rosto.

— A-adivinha só?! Vou assistir aos B-ballets Russes de Diaghilev com a princesa e o meu tio! Eles estão em C-Covent Garden. Alicia M-Markova vai dançar Aurora em A Bela Adormecida! — Anna terminou sua dança pulando nos braços de Mary. — Agora, o que me diz d-disso?

— Estou muito feliz por você, querida — Mary sorriu.

— E o tio disse que devemos sair amanhã para c-comprar um vestido novo para mim! Eu queria de veludo, com uma g-grande fita em volta da c-cintura — ela esclareceu.

— Então vamos ver se conseguimos encontrá-lo para você — concordou Mary. — Agora, vamos para o banho.

Apesar de Mary não saber disso, a noite em que o senhor Lisle levou Anna para ver seu primeiro balé mudaria por completo a vida delas.

Anna voltou para casa após a apresentação, segurando o programa nas mãos delicadas, os olhos arregalados de espanto.

— A senhorita M-Markova era tão bonita — disse ela com ar sonhador quando Mary colocou-a na cama. — E o seu parceiro, Anton Dolin, ergueu-a acima da cabeça como se ela f-fosse leve como uma p-pluma. A princesa Astafieva disse que conhece a senhorita M-Markova. Talvez um dia eu conheça também. Imagine — acrescentou ela, guardando o programa embaixo do travesseiro. — B-Boa noite, Mary.

— Boa noite, querida — Mary sussurrou. — Durma bem.

Poucos dias depois, a senhora Carruthers entrou na cozinha em um estado de grande agitação.

— O senhor está lá em cima, na sala de visitas. Ele me pediu para preparar um chá da tarde. E ele está com... — senhora Carruthers fez uma pausa para causar um efeito completo — uma mulher.

Diante disso, todos apuraram os ouvidos.

— Quem é ela? Você a conhece? — perguntou Nancy.

— Não, não. Eu posso me enganar, mas notei um brilho diferente nos olhos do senhor enquanto a observava e isso me fez pensar... muito bem — a senhora Carruthers encolheu os ombros. — Talvez esteja só me precipitando, mas tenho a impressão de que o nosso solteirão convicto pode estar prestes a mudar de vida.

Nas semanas seguintes, a intuição da senhora Carruthers caminhava para se confirmar. Elizabeth Delancey tornara-se uma visitante regular da casa. Entre si, os criados trocavam as informações que conseguiam reunir. Parecia que a senhora Delancey era a viúva de um velho amigo de Lawrence Lisle, dos tempos de escola em Eton. O marido, um oficial do exército britânico, perdera a vida no Somme, assim como Sean.

— Essa senhora Delancey é uma coisa — bufou a criada de salão ao trazer a bandeja de chá da sala de estar uma tarde. — Ela me falou que os bolinhos estavam com um gosto rançoso, e que era para dizer isso ao cozinheiro.

— E quem ela pensa que é para fazer esses comentários? — exclamou a senhora Carruthers. — Ela me disse ontem que vira manchas no espelho da sala e que era para a criada ser mais cuidadosa da próxima vez.

— Ela se parece com um cavalo — acrescentou Nancy — com aquela cara comprida e os olhos caídos!

— Ela não é bonita, isso é certo — concordou a senhora Carruthers — e quase tão alta quanto o senhor. Mas não é sua aparência que me preocupa, é seu caráter. Ela se intromete em tudo, sim, senhores, e vai ser um problema para todos nós se ficar por aqui permanentemente, escrevam as minhas palavras.

— E o senhor nunca mais pediu para Anna ir à sala de visitas desde que ela chegou — acrescentou Mary em voz baixa. — Na verdade, ele mal a viu no mês passado. A pequena fica me perguntando por que o tio não a chama mais.

— Ela é uma fria, isso é que ela é, e não vai querer nenhuma competição pelo afeto do seu homem. Todos sabemos como o senhor se sente em relação a Anna. Ela tem sido a alegria dos seus olhos e a senhora Malvada não vai gostar nada disso — a senhora Carruthers sacudiu o dedo para ninguém em particular.

— E se ele se casar com ela? — Mary perguntou, seu temor inspirava a pergunta que todos queriam fazer.

— Então vamos ter problemas — declarou a senhora Carruthers muito séria — e não há nenhuma dúvida quanto a isso.

Três meses depois, o senhor Lisle chamou os criados à sala de jantar para lhes falar. Elizabeth Delancey estava ao seu lado quando ele anunciou orgulhosamente à equipe da casa que os dois iriam se unir assim que o casamento pudesse ser arranjado.

O clima naquela noite na cozinha foi sombrio. Todos os criados sabiam que o mundo com que haviam se acostumado estava prestes a mudar. Como a nova dona da casa, Elizabeth Delancey assumiria o funcionamento de tudo depois do casamento. E a equipe responderia diretamente a ela.

— V-você gosta da senhora D-Delancey? — Anna perguntou calmamente a Mary enquanto ela lia para a menina uma história para dormir.

— Bem, querida, eu diria que mal a conheço, mas tenho certeza de que, se seu tio pensa que ela é boa, ela deve ser.

— Ela me disse que eu falo e-engraçado e que eu parecia... — Anna procurou na mente pela palavra — desmilinguida. O… o q-que é d-desmilinguida, Mary?

— Ah, significa que você é uma menina bonita, querida — Mary consolou-a, aconchegando-a na cama.

— Ela disse que tenho de chamá-la de “tia” quando ela se tornar a e-e-esposa do tio. — Anna ajeitou-se nos travesseiros, os grandes olhos escuros nervosos. — Ela não vai s-s-ser a minha mãe, vai, Mary? Quer dizer, sei que você não é a minha m-mãe de verdade, mas é como se fosse.

— Não, querida. Não preocupe sua cabecinha com isso, você sabe que sempre estarei aqui para cuidar de você. Boa noite, durma bem. — Mary beijou-a suavemente na testa.

Quando apagou a luz e começou a sair do quarto, a vozinha soou no escuro.

— Mary?

— O que foi, querida?

— Eu acho que ela não g-gosta de mim.

— Não seja boba! Como pode alguém não gostar de você? Agora, pare de se preocupar e feche os olhos.

O casamento aconteceu em uma igreja próxima da casa dos pais de Elizabeth Delancey, em Sussex. Mary foi convidada a levar Anna para sentar-se em meio à congregação. As sobrinhas da noiva desempenharam o papel de damas de honra.

A Casa de Cadogan prendeu a respiração por um mês, enquanto os recém-casados viajavam em lua de mel pelo sul da França. No dia em que eram esperados de volta, a senhora Carruthers mandou que a casa fosse limpa e polida de cima a baixo.

— Não quero que aquela mulher fique sugerindo que não sei como cuidar da sua nova casa — ela murmurou para a equipe.

Mary preparou Anna com seu melhor vestido para cumprimentar o tio e a nova tia, o coração pesado por uma sensação de mal-estar.

O senhor e a senhora Lisle chegaram a casa na hora do chá. Os criados alinharam-se no salão para recepcioná-los e aplaudiram reticentes. A nova senhora dirigiu algumas palavras a cada um deles. Anna posicionou-se com Mary no final da fila, esperando uma oportunidade para executar sua cortesia perfeita. A senhora Lisle simplesmente assentiu com a cabeça para Anna, em seguida transferiu-se para a sala de visitas. O senhor Lisle a seguiu.

— Ela quer falar com cada um de nós amanhã — a senhora Carruthers bufou mais tarde. — E com você também, Mary. Deus nos ajude!

Um a um, na manhã seguinte, os criados fizeram fila na sala de visitas para atender à sua nova senhora. Mary estava nervosa, aguardando sua vez.

— Venha — disse a voz e Mary entrou.

— Bom dia, Mary — disse Elizabeth Lisle.

— Bom dia, senhora Lisle. Posso lhe oferecer meus cumprimentos pessoais por seu casamento?

— Obrigada. — Seus lábios finos não se curvaram em um sorriso. — Gostaria de informar que, a partir de agora, todas as decisões relativas à protegida do senhor Lisle serão tomadas por mim. O senhor Lisle está muito ocupado no Ministério dos Negócios Exteriores e não é aceitável que seja incomodado com os detalhes de uma criança.

— Sim, senhora Lisle.

— Eu preferiria que você me chamasse de “senhora”, Mary. É a isso que estou acostumada em minha própria casa.

— Sim... senhora.

Elizabeth Lisle correu os olhos pela mesa em que estavam alinhados os livros com as contas mensais.

— Também preciso me encarregar destes assuntos — ela indicou os livros — em lugar da senhora Carruthers. Parece-me, depois de tê-los estudado, que tem havido desleixo na utilização de finanças. Colocarei um fim a isso imediatamente. Você entende?

— Sim, senhora.

— Por exemplo... — a senhora Lisle pegou os óculos de aros de chifre, presos a uma correntinha no pescoço, e apoiou-os em cima do nariz para ler o livro. — Diz aqui que os gastos de Anna estão em torno de mais de cem xelins por mês. Você pode me explicar para onde vai esse dinheiro?

— Bem, senhora, Anna tem duas aulas de balé por semana, que custam 40 xelins por mês. Ela também tem uma preceptora para ajudá-la com suas aulas todas as manhãs, a um custo de 50 xelins por mês. Depois, há as roupas dela e...

— Basta! — cortou a senhora Lisle. — Está bem claro para mim que a criança tem sido o espetáculo e as despesas de que você fala são desnecessárias. Vou conversar com o senhor Lisle sobre isso esta noite. A criança tem 8 anos, não é?

— Sim, senhora.

— Então acho pouco necessário ter duas aulas de balé por semana — a senhora Lisle ergueu as sobrancelhas e suspirou como uma indicação de sua insatisfação. — Você pode ir, Mary.

— Sim, senhora.

— M-mas, Mary, por que não posso ir duas vezes por semana às minhas aulas de balé? Uma não é o bastante! — Os olhos de Anna estavam cheios de angústia.

— Talvez vá outra vez, querida, mas, por ora, o tio não pode pagar o dinheiro que isso custa.

— M-mas ele acabou de ser p-promovido! E todos na cozinha falavam do colar de d-diamantes que ele acabou de c-comprar para a tia. Como é que não p-pode ter dez x-xelins por semana se p-pode c-comprar aquilo? — Com a gagueira intensificada pela emoção, Anna começou a chorar.

— Calma, calma, querida. — Mary passou os braços ao redor da criança. — As freiras sempre me diziam para ser grata pelo que tinha. Pelo menos você tem uma aula ainda.

— M-mas não é o bastante! Não é o bastante!

— Bem, agora você só precisa praticar mais. Por favor, tente não se aborrecer.

Mas Anna ficou inconsolável, assim como Mary sabia que ficaria.

Depois do casamento, Lawrence Lisle raramente parava em casa. Quando aparecia, Anna esperava, em uma expectativa agoniada, que a chamasse à sala de visitas. O coração de Mary partia-se ao observar a decepção no rosto da criança por isso nunca acontecer.

— Ele não me a-ama mais. O tio não me ama. Ele ama a tia. E faz tudo o que ela d-diz para ele.

A cozinha estava de pleno acordo com Anna.

— Ela o tem onde quer, nada mais que isso — suspirou a senhora Carruthers. — Eu não acho que o senhor em si seja tão cruel — ela acrescentou. — Pobre criança. Ele quase não fala mais com Anna, se é que ainda tenha um olhar para ela, pelo que tenho notado.

— Provavelmente, a senhora lhe daria um tapa na orelha, se o fizesse — observou Nancy! — Acho que tem tanto medo dela quanto nós. Ela nunca está satisfeita, sempre encontrando uma falha em tudo o que faço. Se continuar assim, acho que vou começar a pensar em sair. Há outros empregos para as mulheres nos dias atuais, e bem pagos também.

— Também acho — concordou a senhora Carruthers. — Meu amigo Elsie me disse que estão procurando uma criada lá perto da praça. Eu poderia me candidatar.

Mary escutava com melancolia. Sabia que se demitir jamais seria uma opção em seu caso.

O pessoal da casa vivia em um estado de constante tensão, sabendo que tudo o que fizesse, e por muito que trabalhasse, nunca seria o bastante para satisfazer a nova senhora Lisle. A criada de salão se demitiu e depois o cozinheiro. Smith, o mordomo, decidiu que era hora de se aposentar. Mary fez o que pôde para manter, a si mesma e a Anna, fora do caminho da senhora, cuidando dos seus assuntos da maneira mais discreta possível. Mas, ainda assim, recebiam uma chamada da sala de visitas. Mary não estava mais autorizada a acompanhar Anna e ficava nervosa esperando por ela, normalmente coberta de lágrimas. O que quer que Elizabeth Lisle pudesse encontrar para criticar em Anna, ela encontrava. Desde sua fala entrecortada até o penteado desfeito e as pegadas na escada, Anna era sempre culpada.

— Ela m-me odeia, me odeia — uma noite Anna chorou no ombro de Mary.

— Ela não a odeia, querida, é o jeito que ela é. Com todo mundo.

— Não é um “jeito” m-muito bom, não é, Mary?

Mary não podia discordar.

 

No final de 1927, depois de Anna completar 9 anos, Lawrence Lisle partiu para seu novo e permanente posto como cônsul britânico em Bangcoc. Elizabeth Lisle deveria acompanhá-lo no prazo de três meses.

— Bem, precisamos considerar pelo lado positivo... pelo menos, só teremos de sofrer mais algumas semanas com ela — disse a senhora Carruthers. — Com alguma sorte, eles não estarão de volta por anos.

— Talvez ela morra de alguma doença tropical e nunca mais regresse — fungou Nancy.

Lawrence Lisle, com a esposa ao lado observando cada movimento seu, apresentou um breve e distante adeus a Anna. Em seguida, foi a vez de Elizabeth Lisle dizer adeus ao marido.

Lawrence colocou os braços em torno dela.

— Então, querida, vejo-a em Bangcoc.

— Sim — ela balançou a cabeça. — E não se preocupe com nada aqui. Tenha certeza de que farei com que a casa funcione sem problemas na sua ausência.

Dois dias depois, Mary foi chamada à sala de visitas.

— Mary — Elizabeth Lisle esboçou um sorriso contraído —, chamei-a aqui para informar que seus serviços nesta casa não serão mais necessários. Em razão da minha partida iminente para me encontrar com meu marido em Bangcoc, decidi que é melhor para Anna passar a frequentar um colégio interno. Eu e o senhor Lisle permaneceremos em Bangcoc no mínimo pelos próximos cinco anos e esta casa deve ser fechada. É um desperdício de dinheiro manter o pessoal em atividade durante nossa ausência. Entendo que, depois de nove anos cuidando de Anna, a separação será difícil para ambas. Como compensação, você receberá um mês de salário a mais. Levarei Anna até sua nova escola no final da semana e você deixará esta casa no mesmo dia. Amanhã direi a ela que irá embora. Mas acho que será melhor, talvez, se não comunicar ainda sua saída. Não queremos que a criança fique histérica.

Mary ouvia um zumbido nos ouvidos.

— Mas... mas, minha senhora, com certeza terei permissão de me despedir dela? Eu... não quero... que pense que vou abandoná-la. Por favor, senhora Lisle... quero dizer, minha senhora — Mary implorou.

— Anna vai ficar bem. Você não é, afinal, sua mãe verdadeira. Ela ficará com as meninas da sua idade e da mesma classe — Elizabeth Lisle acrescentou intencionalmente. — Tenho certeza de que irá superar isso.

— O que acontecerá com ela durante as férias?

— Como muitas crianças órfãs, ou crianças cujos pais são residentes no exterior, ela simplesmente permanecerá na escola.

— Quer dizer que a escola será sua nova casa? — Mary ficou horrorizada.

— Se você prefere colocar desse jeito, sim.

— Posso ao menos escrever para ela?

— Dadas as circunstâncias, a proíbo. Acho que seria muito inquietante e perturbador para ela receber cartas suas.

— Então... — Mary sabia que não deveria chorar — posso saber para onde a estão levando?

— Acho melhor que não saiba. Assim, não será tentada a entrar em contato com ela. Organizei tudo o que vai precisar na nova escola. Não há nada mais que você precise fazer além de etiquetar as roupas dela, arrumar a mala e seus próprios pertences. — Elizabeth Lisle corou. — Você deve entender, Mary, que se trata de uma criança sob os cuidados do senhor Lisle e que não pode passar a vida sendo educada por criados. Ela deve aprender boas maneiras e ter uma educação adequada para tornar-se uma dama.

— Sim, senhora — a voz de Mary soou sufocada.

— Você pode ir, Mary.

Mary caminhou em direção à porta e então parou.

— E quanto às aulas de balé? Eles têm balé na escola? Ela é tão talentosa... todo mundo diz... e o senhor Lisle estava tão interessado...

— Como sua esposa, e agindo como guardiã da criança enquanto meu marido encontra-se no exterior — cortou Elizabeth —, acho que cabe a mim saber os pensamentos do meu marido. E o que é melhor para Anna.

Mary sabia que seria inútil dizer mais alguma coisa. Assim se virou e fugiu da sala.

Os dias seguintes transcorreram em meio a uma sensação de ansiedade e de tristeza. Incapaz de dizer ou fazer qualquer coisa para avisar Anna de sua partida iminente, Mary fez o melhor que pôde para confortar a criança enquanto costurava as etiquetas com seu nome no uniforme e organizava a mala que ela levaria para a nova escola.

— Eu não q-quero ir embora para a e-escola, Mary. Eu não q-quero deixar você e os outros criados, nem as minhas aulas de b-balé.

— Sei que não quer, querida, mas isso é o que o tio e a tia acham que é melhor para você. E você poderá desfrutar da companhia de outras meninas da sua idade.

— Por que preciso delas s-se tenho você e todos os outros a-amigos na cozinha aqui? Mary, estou c-com medo. Por favor, diga à tia para não me f-fazer ir. Eu prometo que não causarei nenhum problema — pediu a menina. — P-por favor, peça-lhe para me deixar ficar. — Mary passou os braços ao redor da criança enquanto ela soluçava tristemente em seu ombro. — Você vai dizer à princesa que e-estarei de v-volta nas férias, n-não vai? Diga a ela que vou c-continuar praticando na escola e n-não irei decepcioná-la.

— Claro que sim, querida.

— E o tempo p-passará muito rapidamente, não é? Não é muito tempo até as férias e estarei de v-volta aqui c-com você, não é?

Mary percebeu as próprias lágrimas correrem quando viu a criança tentando tranquilizar-se em face do inevitável.

— Não, querida, não é.

— E você vai estar aqui m-me esperando, você não vai, Mary? O q-que vai fazer quando eu for embora? — Anna ergueu uma sobrancelha. — Você pode ficar muito a-aborrecida.

— Bem, agora, talvez eu possa tirar umas férias.

— Bem, você vai estar de v-volta quando eu chegar da escola, não vai?

— Eu vou, querida, prometo.

Às 9 horas da manhã em que Anna devia partir, bateram na porta de Mary.

— Entre.

Anna apareceu vestindo o uniforme da escola nova, comprado num tamanho maior, com espaço para ela crescer. A roupa estava bem folgada sobre seu corpo e seu rosto contraía-se, muito pálido.

— A tia disse para v-vir dizer a-adeus a você. Ela disse que não queria um espetáculo lá embaixo.

Mary inclinou a cabeça, aproximou-se e abraçou-a.

— Deixe-me orgulhosa neste momento, viu, querida?

— Eu v-vou t-tentar, Mary, mas estou tão a-assustada. — A gagueira de Anna tinha aumentado progressivamente ao longo da semana.

— Não, querida, em alguns dias você estará bem, tenho certeza.

— Não, n-não sei, acho q-que estou começando a odiá-lo — foi a resposta abafada em seu ombro. — Você vai m-me escrever todos os dias? N-não vai?

— Claro que vou. — Mary afastou Anna suavemente para longe de si, fitou-a e sorriu. — É melhor você seguir seu caminho.

Anna balançou a cabeça.

— Eu s-sei. A-adeus, Mary.

— Adeus, querida.

Mary acompanhou com o olhar enquanto Anna se afastava lentamente em direção à porta. Quando chegou lá, a menina parou e voltou-se.

— Q-quando as outras m-meninas me perguntarem sobre minha mãe, vou f-falar a elas sobre você. Você a-acha que está tudo bem?

— Ah, Anna — Mary não conseguiria conter a emoção de sua voz por muito mais tempo. — Se é isso que você quer fazer, tenho certeza de que está bem.

Anna balançou a cabeça em silêncio, os olhos enormes cheios de dor.

— E lembre-se — acrescentou Mary — um dia você será uma grande bailarina. Não vai desistir do seu sonho, vai?

— Não — Anna esboçou um sorriso triste. — P-prometo, n-não desistirei.

Mary assistiu à partida de sua janela, enquanto Anna acompanhava Elizabeth Lisle no carro, e permaneceu em silêncio enquanto o veículo se distanciava. Duas horas depois, Mary também terminava de fazer a mala e se aprontava para partir. Elizabeth Lisle pagara seu salário e, graças à senhora Carruthers, ela conseguira um quarto em uma pensão em Baron’s Court, a alguns quilômetros dali, onde pretendia permanecer até clarear os pensamentos e decidir o que fazer.

Incapaz de enfrentar mais despedidas emocionais, Mary deixou cartas na mesa da cozinha para a senhora Carruthers e para Nancy, pegou sua mala, abriu a porta dos fundos e saiu para um futuro vazio.

 

“Então... a pobre e bondosa Mary foi descartada às ruas pela ímpia madrasta. Talvez ela seja a Cinderela da minha história — uma metáfora mista no sentido de um conto de fadas, então me perdoe. E Anna — a Pequena Órfã — a quem não faltavam privilégios, mas amor... Deixada por conta própria no internato.

As cartas de Mary à sua pretensa sogra, Bridget, que Grania lera tão assiduamente até tarde da noite, terminaram aqui. Em retrospectiva, compreendo que o orgulho de Mary não permitiria que continuasse escrevendo para a casa dos pais de Sean.

Sei que Grania, chegando ao final das cartas, procurou a mãe e pediu-lhe para lhe contar o que acontecera com Mary depois disso. Para efeitos da fluidez da narrativa — Leitor, estou me tornando muito boa nesse negócio de escrever —, não vou aborrecer você com os detalhes dessa viagem até a fazenda, ou as xícaras de chá sob as quais Grania foi obrigada a ouvir o resto da história.

O chá tinha um papel importante na nossa vida, na casa da fazenda em Dunworley.

Eu raramente o bebo nos dias de hoje. Faz-me sentir enjoada, e, depois, há mais coisas para fazer.

Estou divagando, uma vez mais. Agora, como em qualquer bom conto de fadas, a princesa triste deve encontrar a felicidade com seu príncipe.

O que sempre me fascinou é o que acontece após o ‘felizes para sempre’.

Por exemplo, a princesa Aurora de A Bela Adormecida acorda um século depois. Que lindo! Você pode imaginar? Tecnicamente, ela teria 116 anos. Seu príncipe tem 18. Isso é o que se poderia chamar de uma diferença de idade. E isso além de ela ter de lidar com o que seria, mesmo naqueles dias, um mundo muito diferente cem anos depois.

Pessoalmente, não apostaria muito na sobrevivência do relacionamento.

Claro, você poderá responder, é assim que são os contos de fadas. No entanto, seriam as provações da princesa Aurora, ao acordar na terra do ‘felizes para sempre’, diferentes das que Mary encontraria? Se, por acaso, encontrasse seu príncipe? Afinal de contas, a guerra — especialmente uma tão maligna quanto a que Mary vivenciou — inflige mudanças terríveis, deixando marcas indeléveis na alma.

Bem, veremos...”

 

A coisa mais difícil na nova vida de Mary era a quantidade de tempo que tinha à disposição para pensar. Até então, durante seus 29 anos, todos os momentos de que conseguia se lembrar haviam sido preenchidos com coisas a “fazer” para outras pessoas. Sempre havia uma tarefa, uma obrigação a cumprir para alguém. Agora, não tinha ninguém a quem agradar, apenas a si mesma. O tempo era todo seu e parecia interminável.

Mary também se deu conta de que a vida toda estivera rodeada de outras pessoas. Acostumada às áreas comuns de todos os lugares em que morara, achou as horas solitárias em seu quartinho apertado insuportavelmente difíceis. Os pensamentos sobre aqueles que perdera — os pais, o noivo e a jovem a quem amava como a própria filha — a assaltavam quando se sentava em frente à chama insípida da lareira a gás. Outros poderiam pensar que era ótimo não ser acordado por um sino ou uma batida forte na porta, mas, para Mary, a falta de ser “necessária” era uma revelação desagradável.

Não tinha problema com dinheiro — os 15 anos passados nas residências dos Lisles forneceram-lhe um provento sólido com que poderia facilmente manter a vida pelos cinco anos seguintes. Na verdade, poderia se dar o luxo de viver em ambientes muito mais confortáveis do que o que se encontrava no momento.

Mary passava a maioria das tardes sentada em Kensington Gardens, observando os rostos familiares das babás cuidando dos seus pupilos. Elas não lhe falavam antes e tampouco lhe dirigiam uma palavra agora. Ela não pertencia a ninguém e ninguém lhe pertencia. Ficava observando as pessoas passarem, a caminho de algum lugar.

Em seus momentos mais sombrios, Mary acreditou que não havia uma alma que se importasse se ela vivesse ou morresse. Era irrelevante, substituível e desnecessária. Mesmo para Anna, a quem dedicara tanto amor — sabia que a menina se adaptaria e seguiria em frente. Esse era o espírito da juventude.

Para passar o tempo, Mary ocupava as horas das noites solitárias criando, para si, um guarda-roupa totalmente novo. Comprara uma máquina de costura Singer e, com esforço sob a luz escassa do lampião a gás, sentava-se à mesa perto da janela que dava para Colet Gardens. Quando costurava, os pensamentos se acalmavam, e criar algo do nada a confortava. Na sequência do trabalho, seu braço direito cansava-se de girar a roda da máquina, e então fazia uma pausa e olhava para a vida lá fora. Muitas vezes, avistava um homem encostado a um poste de iluminação diretamente embaixo da sua janela. O homem parecia jovem — não mais velho do que ela — e permanecia horas ali, olhando ao longe.

Mary começou a esperar pela chegada dele, geralmente por volta das 6 horas da tarde, e o observava quando ficava parado junto ao poste, sem saber que era visto. Às vezes, o dia amanhecia e ele não fora embora.

Sua presença a consolava. Ele parecia tão solitário quanto ela.

— Pobre criatura — ela sussurrou para si mesma enquanto assava um bolo sobre a grelha da lareira a gás. — Parece que não bate muito bem da cabeça.

As noites se alongavam à medida que o inverno se aproximava, ainda assim o jovem continuava a aparecer junto ao poste de iluminação. Enquanto Mary vestia as camadas de roupas quentes que fizera para si mesma, o homem, lá no poste, parecia não se dar muito conta da temperatura cada vez mais baixa.

Em uma noite de novembro, Mary voltou mais tarde para casa, depois de ter saído para tomar chá com Nancy, e passou pelo rapaz. Parando, ela se voltou e o examinou. Era um homem alto, com traços finos — nariz aquilino, queixo orgulhoso, a pele pálida sob a luz do lampião. Era magro a ponto da emaciação, mas Mary observou que, fortalecido, daria um belo rapaz. Subindo os degraus da entrada, ela girou a chave na fechadura. Já em seu quarto, foi imediatamente à janela e refletiu sobre por quanto tempo o rapaz aguentaria ainda naquele frio. Tremendo, depois de acender a lareira a gás e envolver os ombros em um xale, Mary teve uma ideia.

Uma semana depois, Mary desceu os degraus da entrada da pensão e foi até o jovem, de pé em seu lugar de costume.

— Olhe, pegue isto. Vai mantê-lo aquecido enquanto permanecer aqui junto ao poste. — Mary ofereceu o pacote que trazia nos braços e esperou uma resposta.

Por um longo tempo, o jovem pareceu não se dar conta da presença dela, ou de que lhe dirigia a palavra. Por fim, quando Mary já se decidira a entrar, concluindo que ele devia estar além de qualquer ajuda, o rapaz moveu a cabeça em sua direção, olhou para o pacote que ela segurava e deu um sorriso débil.

— É um casaco, feito de lã — ela explicou. — Para mantê-lo aquecido enquanto estiver aqui.

— P-p-para mim? — Era como se ele não estivesse acostumado a falar. Sua voz era rouca e forçada.

— Sim — ela afirmou. — Eu moro lá em cima — Mary apontou para o quarto iluminado acima deles. — Fiquei observando você. Não quero que morra de pneumonia na minha porta — ela acrescentou — por isso fiz este casaco para você.

Ele olhou para o pacote, então tornou a fitá-la com espanto.

— V-você fez isso p-para mim?

— Sim. Agora, vai aceitar? É pesado e ficaria feliz se aceitasse.

— M-mas... N-não tenho dinheiro comigo. Não posso pagá-lo.

— É um presente. Enquanto estou aconchegada lá dentro, sinto-me perturbada ao ver você tremendo de frio aqui. Considere como se estivesse me fazendo um favor. Aceite — ela insistiu.

— É... é m-muita bondade sua, senhorita...?

— Mary. Meu nome é Mary.

Ele pegou o casaco das mãos dela e, ainda trêmulo, experimentou-o.

— Ele serve p-perfeitamente! Como você f-fez...?

— Bem, tive todas as noites para observá-lo enquanto o costurava.

— É... o m-melhor presente que j-já recebi.

Mary notou que, embora o homem gaguejasse, falava com um sotaque parecido com o de Lawrence Lisle.

— Então, agora, pelo menos, posso dormir mais tranquila na minha cama, sabendo que estará aquecido. Boa noite, senhor.

— Boa n-noite, M-Mary. E... — a expressão em seus olhos quando a fitou foi de tamanha gratidão que Mary sentiu as lágrimas brotarem. — O-obrigado.

— Nem pense nisso — respondeu ela e correu até os degraus da entrada.

Algumas semanas depois, quando se sentia inclinada a decidir que a única saída para a solidão seria retornar à Irlanda e viver como uma solteirona no seio da família de Sean, Mary foi encontrar-se com Nancy para o chá em Piccadilly.

— Caramba! Você está elegante! — Nancy comentou depois que pediram chá e torradas com manteiga. — De onde tirou esse casaco novo? Vi um igual a esse numa revista, mas custa uma fortuna. Como conseguiu o dinheiro para comprá-lo?

— Eu também o vi numa revista, então apenas copiei o modelo a partir da foto.

— Você mesma o costurou?

— Isso mesmo.

— Sei que sempre teve facilidade para costurar, mas esse casaco se parece com o legítimo! É igualzinho! — exclamou Nancy com admiração. — Será que faria um igual para mim?

— Acho que sim. De que cor gostaria?

— Que tal vermelho vivo? Será que vai combinar com a minha pele? — Nancy deu um tapinha nos seus cachos louros.

— Acho que combinaria — concordou Mary. — Mas teria que cobrar pelo material, você entende.

— Claro. E por seu tempo. Então, quanto custaria?

Mary pensou um pouco.

— Bem, diria que uns de dez xelins para o material e mais uns trocados pela confecção...

— Feito! — Nancy bateu palmas. — Vou sair com o Sam na próxima quinta-feira. E acho que ele vai me propor casamento. Será que aprontaria até lá?

— Uma semana... — Mary considerou. — Acho que consigo, sim...

— Ah, Mary, obrigada! Você é uma estrela, menina, você realmente é fantástica.

O Casaco Vermelho, como Mary sempre se lembraria dele, marcou um ponto de virada na sua vida. Nancy mostrou-o para as amigas e logo estavam todas batendo à porta de Mary para perguntar se poderia fazer um igual para elas também. Até mesmo Sheila, uma garota que morava no prédio ao lado do seu e trabalhava em uma das lojas de departamentos mais elegantes na região de Piccadilly, comentara sobre o casaco ao encontrá-la na rua e pedira-lhe para fazer um igual. Sheila veio ao seu quarto uma noite para provar a costura, e as duas conversaram com uma xícara de chá depois.

— Você deveria se lançar como costureira, Mary. Tem um verdadeiro talento.

— Obrigada, mas não sei se é certo fazer negócios com algo de que se gosta.

— Claro que é! Tenho muitos amigos que estariam dispostos a pagar para você torná-los os mais elegantes. Todos sabemos como o preço das lojas é sempre mais caro.

— É verdade. — Mary inclinou-se para a janela, para observar o rapaz novamente sob o poste de iluminação, agora aconchegado em seu casaco de lã. — Sabe quem ele é?

Sheila aproximou-se da janela e olhou para baixo.

— Meu senhorio disse que a namorada dele morava aqui antes da guerra, fazia treinamento para enfermeira no hospital St. Thomas. Ela foi pisoteada por um cavalo apavorado no Somme e morreu. E ele voltou traumatizado pelas bombas, coitado. — Sheila suspirou. — Dos dois, acho que preferia que a sobrevivente fosse ela. Pelo menos, não sofreria mais. Sinto pena de vê-lo revivendo o horror dia após dia.

— Será que ele tem uma casa?

— Aparentemente, a família dele é muito bem posicionada. Ele mora com a madrinha, em Kensington. Ela o adotou depois que os pais o recusaram. Coitado, que tipo de futuro pode ter pela frente?

— Eu realmente não sei — Mary suspirou, sentindo-se culpada e grosseira por sentir pena de si mesma nas últimas semanas. — De alguma forma, ficar aqui deve confortá-lo. E nesta vida devemos aceitar o conforto onde o encontrarmos.

Fazia três meses e meio desde que Mary mudara-se para Colet Gardens. Agora passava os dias ocupada com os clientes, costurando casacos, blusas, saias e vestidos sob encomenda. Começava a pensar em contratar uma assistente e mudar-se para um lugar mais espaçoso, para se dedicar melhor ao trabalho. Embora vivesse atarefada, com menos tempo para pensar, muitas vezes sentia um ímpeto de escrever uma carta para Anna. Queria dizer-lhe como fora forçada a deixá-la, que a amava mais do que tudo e que pensava nela todos os dias. Mas sabia, pelo bem de Anna, que seria melhor permanecer em silêncio.

O tempo já não pesava para Mary como antes, quando era difícil ser preenchido; embora seu coração, sentindo falta de alguém a quem dedicar seu amor, fechara-se entorpecido. Mas sempre que corria o risco de entregar-se à autopiedade, bastava olhar para a rua lá embaixo e contemplar o rapaz solitário, em pé, junto ao poste de iluminação.

À medida que o Natal se aproximava e os clientes exigiam as roupas feitas com antecedência, Mary não tinha tempo para se perguntar como se sentiria ao passá-lo, pela primeira vez, sem a companhia de Anna. Nancy a convidara para comemorar a véspera de Natal na Casa de Cadogan.

— Vai ser o último por lá para todos nós — informou a jovem. — Estamos todos com um mês de aviso prévio... temos de sair em janeiro, depois a casa será fechada. Tenho certeza de que a vaca arrogante nos queria nas ruas antes do Natal, se pudesse, mas felizmente ainda havia umas coisas para terminar.

— Ela já partiu para Bangcoc? — perguntou Mary.

— Sim, no mês passado. E fizemos uma festa na cozinha! De qualquer forma, eu e Sam conseguimos empregos ótimos para trabalhar como governanta e mordomo em Belgravia [6].

No dia em que sair da cozinha, nunca mais vou olhar para trás. É da pobre menina que mais sinto pena. Ela, por certo, espera voltar para casa no Natal. Faz a gente se perguntar como as pessoas podem ser tão cruéis, não é, Mary? E os homens, tão cegos quando se apaixonam por alguém assim — Nancy acrescentou.

Mary passou acordada toda a noite anterior à véspera de Natal para se assegurar de que os clientes receberiam as roupas a tempo. Às 4 horas da tarde seguinte, todos os pedidos haviam sido retirados, e ela se deixou cair, exausta, na poltrona ao lado da lareira. Sua atenção foi desperta por batidas de leve na porta.

— Quem está aí?

— Sou eu, Sheila, sua vizinha. Você tem uma visita.

Mary levantou-se da poltrona e encaminhou-se à porta para deixá-la entrar. E mal pôde acreditar em seus olhos quando viu quem estava em pé ao lado de Sheila, com o semblante pálido e tomado de ansiedade.

— Mary! — Anna atirou-se nos braços dela, abraçando-a com tanta força que lhe faltou a respiração.

— Jesus, Maria e José! Anna, o que está fazendo aqui? Como me encontrou?

— Então você a conhece mesmo? — Sheila sorriu. — Encontrei-a como uma criança abandonada e perdida, sentada no batente da porta da sua pensão.

— Ah, mas claro que a conheço. Ele é a minha Anna, não é, querida? — Mary tinha os olhos transbordantes de lágrimas enquanto admirava o rosto adorado de Anna.

— Bem, nesse caso vou deixá-las a sós — disse Sheila. — Parece que seu presente de Natal acabou de chegar, Mary.

— Pode estar certa disso. — Mary sorriu, depois fechou a porta, encaminhou Anna até a poltrona e fez com que se sentasse. — Agora, Anna, conte-me exatamente o que está fazendo aqui. Achei que deveria estar na escola.

— Eu e-estava… estou. Mas… — Anna tinha a preocupação estampada no rosto — fugi de lá e n-nunca, j-jamais vou voltar para lá.

— Ora, ora, Anna, querida, não diga uma tolice dessas. Com certeza não está falando sério.

— Estou sim, é i-isso mesmo que você acabou de ouvir. E se tentar me mandar para lá f-fugirei de novo. A diretora é uma mulher detestável, as g-garotas são detestáveis! Elas me faziam c-correr num campo para p-praticar um jogo chamado lacrosse, com as meninas c-correndo sem parar atrás de uma b-bola com um bastão para fazer gols. Eu ficava com os joelhos d-doendo e odiava tudo aquilo! Ah, Mary! — Anna enterrou a cabeça nas mãos. — Nunca fiquei tão infeliz. Quando eu ia sair para comemorar o Natal, para ver você e os outros na Casa de Cadogan, a diretora mandou me chamar em sua sala e disse que não poderia voltar para casa. Disse que a tia estava em Bangcoc com o tio e que a casa tinha sido fechada. Mary, por favor, não me faça voltar para aquele lugar horrível, p-por favor.

Dizendo isso, as últimas reservas de Anna a abandonaram e ela explodiu em lágrimas.

Mary sentou a menina sobre seus joelhos e Anna inclinou-se contra seu peito, desabafando histórias tristes de solidão, abandono e sofrimento.

Quando ela se acalmou, Mary falou-lhe com suavidade.

— Anna, precisamos, o quanto antes, informar à diretora da escola que você está em segurança. A essa altura, ela já deve ter mobilizado metade da polícia do país para encontrá-la, não quero nem pensar no que poderá acontecer.

— E-eu f-ugi hoje de manhã — balbuciou Anna —, e a senhora G-Grix, a diretora, tinha saído para passar o N-Natal com a irmã em J-Jersey. Ela me deixou com a inspetora de alunas, que bebe tanto g-gim que vê duas de mim em vez de uma.

Mary não pôde evitar de sorrir ao comentário de Anna.

— Bem, mas pelo menos devemos falar com a inspetora, então. Não queremos deixar ninguém preocupado, não é mesmo? Não importa como nos sentimos, isso não é certo, Anna.

— Desde que você p-prometa não dizer onde estou. Elas p-poderiam vir atrás de mim e eu n-não quero voltar para lá. Prefiro morrer.

Mary percebeu que a menina estava completamente exausta e não fazia sentido discutir com ela naquela noite.

— Só vou dizer que você apareceu na Casa de Cadogan sã e salva e que entrará em contato depois do Natal. O que acha?

A ideia pareceu pacificar Anna, que aquiesceu, ainda que relutantemente.

— Muito bem, então, está me parecendo que você precisa tomar um bom banho. Não será um banho como o que tomava na Casa de Cadogan, mas pelo menos ficará limpa, querida.

Mary levou Anna para o banheiro comum no fim do corredor e encheu a banheira. Enquanto esfregava a menina, perguntou como conseguira chegar até Londres e depois até a pensão dela em Colet Gardens.

— Isso foi fácil — respondeu Anna. — Eu sabia onde ficava a estação, porque fizemos um passeio a Londres, um dia, para conhecer a Catedral de São Paulo. Então escapei da escola e fui andando. Depois tomei um trem, que me levou até uma estação grandona chamada Waterloo. Tomei um ônibus até Sloane Square e fiz o resto do caminho a pé até a Casa de Cadogan, então a senhora Carruthers me colocou em um táxi para me trazer até aqui.

— Mas, Anna, a diretora não lhe disse que a casa estava fechada? O que você faria se não encontrasse ninguém lá? — Mary ajudou Anna a sair da banheira e enrolou-a em uma toalha.

— Não acreditei m-muito no que a diretora disse — admitiu Anna. — E eu s-sabia que a fechadura da janela da cozinha estava q-quebrada, então poderia abri-la e entrar sem dificuldade. Mas a senhora Carruthers estava lá e me d-disse onde você morava.

Mary olhou para Anna com admiração, apesar da ansiedade em relação ao que ela havia feito. A menininha que ela deixara quatro meses antes tinha crescido bastante. E mostrava o tipo de iniciativa e coragem que Mary não sabia que possuía.

— Muito bem, então — disse Mary enquanto conduzia Anna de volta pelo corredor em direção ao seu quarto. — Vou colocá-la na cama e depois vou descer a escada e perguntar ao meu senhorio se posso telefonar. Vou falar com a senhora Carruthers na Casa de Cadogan e pedir- -lhe para ligar para a inspetora da escola imediatamente para dizer que você está sã e salva. — Mary observou a ansiedade estampada no semblante de Anna. — E não se preocupe, não vamos dizer a ela que você está comigo. Além do mais — Mary confortou-se tanto quanto Anna — vamos até lá de qualquer modo para o almoço de Natal.

O rosto de Anna iluminou-se completamente.

— Sério? Que maravilha. Sinto tanto a falta deles.

Mary observou enquanto Anna mergulhava a cabeça nos travesseiros e começava a fechar os olhos.

— Agora durma, querida, e vamos acordar para o Natal pela manhã.

 

Na Casa de Cadogan, os criados haviam improvisado, às pressas, alguns presentinhos para Anna. Quando elas chegaram, na manhã seguinte, Anna foi recebida com afeto e muita animação pelos seis integrantes remanescentes da equipe da casa. A senhora Carruthers, como era seu costume no Dia de Natal, preparou almoço caprichado para todos. Depois que Anna abriu os presentes, eles se sentaram na cozinha para saborear um ganso com todos os acompanhamentos. Ao fim da refeição, Nancy levantou-se e exibiu com orgulho o anel cintilante no quarto dedo da mão esquerda.

— Pessoal, tenho o prazer de anunciar que Sam e eu, bem, decidimos estreitar os laços.

A notícia era motivo para um brinde. Sam foi despachado ao porão para procurar uma garrafa de vinho do porto para a cerimônia de noivado.

Depois que todos tinham ajudado a tirar a mesa e arrumar a cozinha, Nancy, com um brilho no olhar, sugeriu que subissem para o salão de visitas para se divertir decifrando charadas.

— Ah, ó-ótimo! — Anna bateu palmas. — Adoro charadas. V-vamos logo!

Enquanto subiam as escadas para o térreo, Mary disse:

— Vocês acham mesmo que devemos nos divertir no salão de visitas dela?

— Quem poderia nos impedir?! — A senhora Carruthers, animada depois de umas doses de gim e vinho do porto, riu com desdém. — Além do mais, temos a jovem senhora da casa conosco e ela nos convidou a ir lá, não foi, Anna?

Às 8 horas da noite, depois de uma tarde animada decifrando charadas, todos voltaram pelas escadas até a cozinha, sentindo-se exaustos e contentes.

A senhora Carruthers voltou-se para Mary.

— Você e Anna pretendem passar a noite aqui?

— Sinceramente, não tinha pensado nisso — disse Mary um tanto surpresa.

— Nesse caso, por que não acomoda a menina no seu antigo quarto, depois volta aqui para conversarmos? Vou fazer um chá delicioso para nós.

Mary concordou e levou Anna, que já estava sonolenta, para seu antigo quarto no andar superior.

— Ah! Que dia maravilhoso, foi o m-melhor Natal da minha vida! — Anna suspirou enquanto Mary a acomodava na cama.

— Fico feliz por sentir-se assim, querida. Com certeza foi muito melhor do que eu esperava. Boa noite e durma bem.

— Boa noite, Mary. Ah, Mary?

— Sim, querida?

— Você, Nancy, Sam e a senhora Carruthers… vocês são a minha família, não são?

— Acho que sim, querida, acho que sim — disse Mary em voz baixa ao deixar o quarto.

— Muito bem, o que você pretende fazer com aquela senhorita lá em cima, hein? — indagou a senhora Carruthers depois que Mary havia se sentado à mesa da cozinha e bebericava seu chá.

— Não faço a menor ideia — Mary suspirou.

— É claro, o que deveríamos fazer seria enviar um telegrama para o senhor e a senhora Lisle, informando que Anna apareceu aqui.

— Sim, deveríamos — concordou Mary. — Mas, bem, a questão é que prometi a Anna que ela nunca mais voltaria à escola. Acredito que, se a obrigarmos a voltar para lá, ela simplesmente fugirá de novo.

— Pode ser — concordou a senhora Carruthers —, pode ser. Talvez pudéssemos conversar com o senhor, contar-lhe como Anna se sente infeliz na escola e esperar para ver o que ele decide.

— E como passaremos pela senhora? — Mary rolou os olhos para o alto.

— Podemos esperar ter alguma sorte de sermos atendidas pelo próprio senhor. E se você lhe mandasse um telegrama diretamente?

— Mesmo que a senhora Lisle não o intercepte, ele irá conversar com ela sobre o assunto. E ela vai dizer que Anna deve voltar à escola o mais breve possível.

— Bem, só sei dizer que não consigo encontrar outra solução — a senhora Carruthers suspirou. — A pobre criança foi abandonada pela única pessoa que prometeu protegê-la. E eu não suporto nem pensar em uma coisa dessas.

— Eu sei. E também acho que não devo abandoná-la também. — Mary tomou outro gole de chá e suspirou baixinho. — Ela me contou histórias de como as alunas a importunam e como os professores fingem não ver. Disse que, apesar de todos saberem que é órfã, ainda ficam caçoando da sua gagueira. O que poderei fazer para ajudá-la? — Mary implorou.

— Esta noite eu não sei, querida, realmente não faço ideia. Mas gosto muito de Anna, e a última coisa que quero é ver a pobre criança sofrendo. Quer saber de uma coisa, vamos ter uma boa noite de sono, depois, amanhã de manhã, vamos pôr nossa cabeça para funcionar e ver se temos alguma ideia.

— Sabe que farei qualquer coisa para protegê-la, não sabe? — disse Mary.

— Sim, Mary — disse a senhora Carruthers —, eu sei.

Mary não conseguiu dormir naquela noite. Andava de um lado para o outro no quarto, tentando encontrar a melhor maneira de proteger Anna. Só queria poder levá-la consigo para ninguém nunca mais encontrar, mas a menina, não importava o que os instintos e as emoções sugerissem, não era sua.

Ou será que era?

Às 6 horas da manhã seguinte, Mary já se encontrava na cozinha. A senhora Carruthers, ainda bocejando de sono, apareceu logo em seguida. As duas prepararam o chá e sentaram-se à mesa.

— Andei pensando esta noite…

— Bem que eu tinha certeza disso, Mary. Também pensei muito, mas confesso que não cheguei a solução nenhuma.

— Bem, talvez eu tenha chegado, mas preciso lhe perguntar sobre alguns detalhes…

Quarenta minutos depois, elas já estavam na terceira xícara de chá.

A senhora Carruthers, apertando as mãos de tensão, suspirou.

— Compreendo o que está sugerindo, Mary, mas você sabe que é muito arriscado, não sabe, garota? E poderia ser acusada de um crime, posso garantir. Poderia acabar presa se der errado.

— Eu sei, senhora C, mas é a única maneira que consigo ver de proteger Anna. E vou precisar confiar na senhora para jamais dizer uma palavra do que sabe.

— Você sabe que pode confiar em mim, querida. Gosto daquela menina adorável tanto quanto você.

— Só mais uma pergunta: quando o senhor trouxe Anna para casa naquela noite, por acaso comentou alguma coisa sobre a certidão de nascimento dela?

— Não. Nunca sequer mencionou isso — afirmou a senhora Carruthers.

— Por acaso ele trouxe alguma coisa com o bebê para indicar quem era e de onde veio?

— Bem, lembra-se, na ocasião, quando comentei sobre uma maleta que o senhor Lisle trouxe com ele? Ele disse que pertencia à mãe do bebê e que era para ser guardada até que ela viesse buscar a criança.

— E onde está essa maleta agora?

— Acho que continua lá em cima, no sótão. A mãe nunca apareceu para buscá-la, não é verdade? — a senhora Carruthers encolheu os ombros.

— Acha que seria errado se eu fosse procurar lá em cima para ver se continua lá? — indagou Mary.

— Bem, se isso lhe der uma ideia de onde Anna veio, não vejo nada de errado nisso. Quer que peça ao Sam para subir até lá para ver se a encontra?

— Se quiser, senhora C. Agora, enquanto isso, como conversamos, precisaria que encontrasse algum papel que contenha a caligrafia e a assinatura de Elizabeth Lisle. E uma folha de papel timbrado onde eu possa escrever a carta.

— Você está falando sério mesmo, não é, Mary? Antes você do que eu — suspirou a senhora Carruthers. — Vou lá buscar aquele precioso livro de contas da senhora Lisle. Aquele que ela tirou de mim para preencher ela mesma, alegando que as contas estavam erradas.

Mais tarde naquele dia, Mary saiu com Anna e depois voltaram aos seus aposentos. Assim que Anna adormeceu, Mary sentou-se à escrivaninha e fez alguns esboços da carta que escreveria em algumas folhas de papel de rascunho. Agradeceu a Deus por ter passado muitas horas, na infância, copiando as escrituras sagradas para aperfeiçoar a caligrafia e a ortografia. Observou também que no livro de contas estava registrado que as mensalidades para o próximo período letivo da menina haviam sido pagas à escola pouco antes da partida da senhora Lisle para Bangcoc.

Depois, quando se sentiu confiante, Mary pegou a caneta-tinteiro de Elizabeth Lisle que a senhora Carruthers tirara da escrivaninha dela e começou a escrever.

Três dias depois, ao voltar do feriado que passara com a irmã em Jersey, Doreen Grix, a diretora da escola de Anna, sentou-se e começou a ler a correspondência que encontrara sobre sua mesa.

“Casa de Cadogan, Cadogan Place, Londres, SWI

26 de dezembro de 1928

Prezada Sra. Grix,

Infelizmente, minha partida para Bangcoc atrasou-se até depois do Natal, em razão da morte de um parente. E qual não foi a minha surpresa ao deparar-me com a minha protegida, Anna, em minha porta. Em razão da óbvia aflição por sentir-se longe do meu marido e de mim mesma, tomei a decisão de que Anna me acompanharia a Bangcoc e que será educada por lá. Compreendo que perderemos as mensalidades do semestre, mas, como a quantia já foi paga, considero a questão encerrada. Por favor, envie a minha correspondência para o meu endereço de Londres, aos cuidados da senhora J. Carruthers, minha governanta, que a transferirá até mim em Bangcoc.

Atenciosamente,

Elizabeth Lisle”

Doreen Grix não se incomodou muito com a perda da garota. Anna Lisle mostrara-se uma criança estranha que parecia ter dificuldade em se adaptar à escola. E precisava ser alimentada durante os feriados.

A diretora guardou a carta na gaveta e considerou o assunto encerrado.

Alguns dias depois, quando todos os criados tinham partido para seus novos empregos e apenas a senhora Carruthers permanecera na casa, Mary deixou Anna com Sheila e regressou à Casa de Cadogan. Explicara à moça que iria até Kent para conversar com a diretora da escola de Anna e informar-lhe que ela não retornaria à escola.

Mary encontrou a senhora Carruthers no andar superior, guardando a roupa de cama em baús.

— Passei por aqui para me despedir — disse ela.

A senhora Carruthers afastou o suor da testa e levantou-se do lado de um baú.

— Quer dizer, então, que vai seguir em frente com isso?

Mary aquiesceu.

— Vou. Acho que não tenho outra escolha.

— Não… desde que tenha consciência dos riscos que está correndo. Anna sabe que nunca mais poderá voltar para a Casa de Cadogan?

— Não, ainda não. — Mary suspirou exasperada. — Acha que estou agindo de maneira errada?

— Mary, às vezes, na vida, precisamos seguir o coração. E… só posso dizer que, quando era mais jovem, bem que devia ter seguido o meu. — A senhora Carruthers olhou para a janela, o rosto contraído em razão de uma lembrança repentina. — Uma vez tive um companheiro, sabe, e juntos tivemos um bebê. Um dia meu homem desapareceu, precisei trabalhar, então desisti da criança e coloquei-a para adoção. Não passa um dia na minha vida em que não me arrependa dessa decisão.

— Ah, senhora C, eu sinto muito. Não fazia ideia…

— Não. Bem, como poderia saber se nunca lhe contei? — ela respondeu secamente. — Mas posso ver quanto amor sente por Anna, como se fosse a própria mãe dela. E, em minha opinião, o que está fazendo é do interesse dela. Mas não necessariamente do seu interesse. Você sabe disso…

Mary aquiesceu abnegada.

— Eu sei.

— Você sabe que nunca a abandonarei, não é, Mary?

— Sim, eu sei.

— Mas deve entender que, depois de fazer o que está pretendendo, não poderemos nos encontrar novamente. Serei considerada uma cúmplice no furto de uma criança e não espero passar o resto da minha vida em uma prisão.

— Sim — disse Mary —, eu compreendo. Obrigada. — Instintivamente, Mary atirou os braços ao redor da senhora Carruthers.

— Não me agradeça por isso. Ficarei bem. Agora é melhor você ir andando.

— Sim.

— Boa sorte — disse a senhora Carruthers assim que Mary chegou à porta.

Mary inclinou a cabeça e saiu da casa, imaginando por que sua vida era marcada por uma série de despedidas dolorosas e definitivas.

A senhora Carruthers voltou para dentro, para preparar um chá para si mesma, e foi então que notou a maleta de couro atrás da porta da entrada. Ela correu para fora, mas viu que as estrebarias estavam vazias e Mary havia ido embora.

— Ah, que pena, tarde demais — disse para si mesma e pegou a maleta para tornar a guardá-la no sótão.

Mary chegou à estação de Tunbridge Wells duas horas depois. Ao saltar do trem, pediu informações sobre a agência do correio mais próxima. Seguindo até lá, depois de uma curta caminhada, entrou e colocou-se pacientemente na fila, tentando inutilmente controlar as batidas do coração. Quando chegou sua vez, aproximou-se do balcão e falou com a garota atrás dele com o melhor sotaque inglês que conseguiu.

— Quero enviar um telegrama a Bangcoc. Eis aqui o endereço e a mensagem.

— Muito bem, senhorita — respondeu a garota, consultando a tabela na antepara. — Para Bangcoc, são seis xelins e meio.

— Obrigada. — Mary contou as moedas necessárias e colocou-as sobre o balcão. — Posso saber quando será recebido?

— No máximo hoje à noite. Enviamos todos os telegramas ao fim do expediente.

— E quando posso esperar uma resposta?

A garota encarou-a com estranheza.

— Assim que o destinatário resolver mandá-la. Volte amanhã à tarde. Pode ser que já tenha chegado.

Mary aquiesceu.

— Obrigada.

Ela passou a noite em uma pensão, no centro da cidade. Não se arriscou a sair do quarto para comer, em parte porque não tinha apetite, mas também porque era importante que fosse vista pelo menor número de pessoas possível. Passou as longas horas refletindo sobre suas ações, pensando se tinha clareza do que acabara de fazer.

No papel, estava matando a criança que amava. Ou, pelo menos, suas chances de um futuro sob a proteção de uma família abastada.

No entanto, o instinto lhe dizia que havia poucas esperanças de Anna ser cuidada pelo guardião que prometera protegê-la, ou pela mulher com que se casara e que parecia ressentir-se dela. Além disso, demorariam ainda cinco anos até seu regresso. Cinco anos nos quais, se ela não fizesse alguma coisa, Anna viveria o resto da infância solitária e abandonada em um lugar que detestava. E não importava o que fosse necessário, nem o que precisaria sacrificar se fosse capturada, valeria a pena correr o risco. Na verdade, enquanto se aproximava da agência do correio na tarde seguinte, o coração palpitando no peito, ela sabia que todo o seu plano dependia inteiramente da crença de que a saída repentina de Anna da vida dos Lisles seria um alívio, em vez de uma ofensa.

Elizabeth Lisle encaminhou-se para o escritório do marido com o telegrama na mão. Antes de entrar, adotou a expressão facial adequada de choque e pesar.

— Querido, eu… — ela se aproximou dele. — Receio trazer uma notícia muito ruim.

Lawrence Lisle, exausto por mais uma noite insone no calor de Bangcoc, pegou o telegrama que Elizabeth lhe estendia. Leu-o em silêncio, depois segurou a cabeça entre as mãos.

— Eu sei, querido, eu sei… — Elizabeth colocou uma das mãos num gesto de conforto sobre o ombro dele. — É terrivelmente trágico.

— A minha Anna… a minha pobre menina… — As lágrimas brotaram-lhe nos olhos quando a sensação de culpa o dominou. — É claro, devo retornar imediatamente. Providenciar o enterro…

Elizabeth abraçou-o em silêncio enquanto ele chorava.

— Falhei com ela, Elizabeth. Prometi à mãe dela que cuidaria dela. Foi errado deixá-la sozinha na Inglaterra… ela devia ter vindo conosco.

— Querido, sempre ficou evidente para mim que Anna era uma pessoa frágil. Era tão pálida e magra, com aquela gagueira horrível. Foi mesmo uma infelicidade acontecer um surto de gripe na escola e ela não ser forte o bastante para resistir. Mas é muito provável, considerando sua saúde frágil, que também pudesse contrair uma das inúmeras doenças tropicais aqui, se nos acompanhasse.

— Mas, pelo menos, estaria na companhia de pessoas que a amavam. Não sozinha em uma escola qualquer — gemeu Lawrence.

— Lawrence, posso lhe assegurar que não deixaria sua protegida em um estabelecimento em que não confiasse para oferecer a Anna os melhores cuidados — Elizabeth repreendeu-o. — Como está dito no telegrama, a diretora gostava imensamente de Anna.

— Querida, peço que me perdoe — apressou-se a dizer Lawrence. — Não estava sugerindo que fosse culpa sua. Não — ele abanou a cabeça —, a culpa é toda minha. E agora que Anna está morta… mal posso suportar esse sofrimento. Devo viajar à Inglaterra o mais breve possível. O mínimo que posso fazer é cuidar do enterro e comparecer a ele. Estar presente em sua morte, depois de ter falhado com ela em vida.

— Realmente, querido, você não deve se punir por isso. Você fez o que muitos outros não teriam feito. Afastou-a do perigo, deu-lhe um lar, amor e bondade, e tratou-a como a sua própria filha por dez anos. — Elizabeth ajoelhou-se ao lado da cadeira dele e tomou-lhe as mãos entre as suas. — Lawrence, você deve saber que é impossível comparecer ao enterro de Anna. Essas coisas não podem esperar as seis semanas que levariam para você regressar à Inglaterra. Anna merece que sua alma possa descansar o mais rápido possível, em um enterro cristão. A diretora está se oferecendo para cuidar de tudo por nós. E para o bem de Anna, devemos aceitar a ajuda.

Finalmente, Lawrence aquiesceu.

— É claro, você está certa — concordou tristemente.

— Deixe que eu responda ao telegrama em seu lugar — disse Elizabeth gentilmente. — Quem sabe, se você considerar onde acha adequado que Anna seja enterrada, eu possa informar à diretora. Ela mencionou uma igreja local, onde seria adequado. A menos que você tenha outras sugestões.

Lawrence olhou através da janela do consulado e suspirou.

— Nem sequer sei qual era a religião de Anna. Nunca pensei em perguntar. Deixei de perguntar tantas coisas… portanto, sim, que seja feito tudo o que diretora sugere — replicou ele distante.

— Então vou responder imediatamente, agradecer pela generosidade dela e pedir que tome todas as providências necessárias.

— Obrigado, querida.

— E, Lawrence, há uma coisa que preciso lhe dizer. — Elizabeth fez uma pausa, tomando uma decisão internamente. — Poderia esperar um pouco, mas talvez, diante das circunstâncias, poderia ajudar. — Ela se levantou. — Querido, vamos ter um filho em sete meses.

Lawrence fitou a esposa, tentando alternar as emoções do pesar para a alegria. Esperava tão ansiosamente por isso.

— Ora, mas essa é a notícia mais maravilhosa! Tem certeza mesmo?

— Absoluta certeza.

Ele se levantou e passou o braço ao redor dela.

— Perdoe-me, estou sobrecarregado. É muita informação para absorver de uma só vez.

— Eu compreendo. Mas pensei, querido, que isso poderia atenuar um pouco o golpe de uma notícia tão infeliz.

— Sim, sim… — Lawrence murmurou, acariciando o cabelo da esposa. — E talvez, se for uma menina, podemos chamá-la de Anna, em homenagem à filha que acabamos de perder.

— É claro, querido. — Elizabeth dirigiu-lhe um sorriso apertado. — Se isso é o que você quer.

Mary recebeu o telegrama da garota atrás do balcão. Suas mãos tremiam enquanto ela caminhava para fora da agência do correio e sentava-se no banco mais próximo para lê-lo. Tudo dependia dessa resposta.

 

PREZADA SRA GRIX PT É COM IMENSA DOR QUE RECEBEMOS A NOTÍCIA DA MORTE PREMATURA DE ANNA PT SENDO IMPOSSÍVEL RETORNAR AO PAÍS AGRADECEMOS POR SUA AJUDA QUANTO AO FUNERAL PT ACEITAMOS TODAS AS SUAS SUGESTÕES PT POR FAVOR INFORME SOBRE AS DESPESAS PT AGRADECEMOS PELA SUA BONDADE E CONSIDERAÇÃO POR ANNA PT ELIZABETH LISLE PT

 

Mary deu um gritinho de alívio. Muito embora fosse improvável que Lawrence e Elizabeth Lisle decidissem tomar um navio para voltar à Inglaterra, sempre havia a possibilidade. Mary pegou seu lápis e rabiscou uma resposta nas costas do telegrama. Sobravam ainda umas pontas soltas, o que era imprescindível arrematar. Como sabia dos livros de Sherlock Holmes que sempre adorara ler, a atenção aos detalhes, em circunstâncias como essa, era a coisa da maior importância. Dez minutos depois, ela voltava à agência do correio e entregava a resposta à garota do balcão.

— Voltarei dentro de alguns dias para verificar a resposta — disse enquanto contava as moedas e estendia à garota por cima do balcão.

— Sabe que pode recebê-la em seu endereço se for mais conveniente — comentou a garota.

— Estou… estou me mudando e não sei direito ainda o novo endereço — replicou Mary rapidamente. — De qualquer modo, não tenho problema em dar uma passada aqui para pegá-la.

— Como quiser. — A garota encolheu os ombros e passou ao próximo cliente.

Mary saiu da agência do correio, preparando-se para mudar para uma nova vida com sua adorada Anna.

Elizabeth Lisle levou a resposta ao seu telegrama ao escritório do marido.

— A senhora Grix informa que está cuidando de tudo para Anna. Ela diz que não haverá despesas a pagar pelo funeral, considerando que já havíamos pagado as mensalidades do semestre. Se sobrar algum dinheiro, ela nos enviará. Ela saberá a quantia dentro de uma semana e nos informará o local exato onde Anna está enterrada, para que possamos visitá-la quando regressarmos à Inglaterra. Também mandará a certidão de óbito de Anna para a Casa de Cadogan.

— Certidão de óbito… pobre criança, eu…

Lawrence observou a esposa oscilar um pouco e imediatamente correu ao seu lado.

— Querida, compreendo o quanto isso tudo pode ser desgastante para você, especialmente nessas circunstâncias. — Ele a fez sentar-se em uma poltrona e segurou-lhe a mão. — O que passou, passou, e, como você disse, muito corretamente, fiz o melhor que pude por Anna. Devo seguir em frente e não incomodá-la mais com esse assunto. E… — ele apontou para a barriga da esposa — pensar na vida, não na morte.

 

— Anna, querida — disse Mary enquanto as duas achavam-se sentadas diante da lareira tostando bolinhos sobre o fogo. — Falei com sua diretora e ela já sabe que você não voltará mais.

O semblante da menina iluminou-se de alegria.

— Ah, Mary! Isso é m-maravilhoso. — Depois ela franziu as sobrancelhas. — E você c-contou ao tio e à tia sobre isso?

— Sim, e eles concordaram. — Mary respirou fundo. Ela se odiava por mentir, mas sabia que Anna nunca deveria saber o que fizera.

— Viu? Eu lhe disse que o tio não me deixaria lá se soubesse que estava infeliz. Então, quando vamos v-voltar para a Casa de Cadogan? — Ana deu uma mordida em um bolinho com manteiga que Mary lhe oferecera.

— Bem, a questão é essa, querida. Como você sabe, a casa ficará fechada enquanto seus tios permanecerem em Bangcoc. E muito embora eles a amem, não acham que possam manter uma casa do tamanho de Cadogan funcionando só para uma menina morar lá. Você entende?

— Entendo, é claro que entendo. Então onde é que eu vou m-morar?

— Bem, eles sugeriram que você poderia ficar aqui comigo.

Anna olhou ao redor do pequeno quarto, de repente percebendo sua condição de pessoa abastada desaparecendo diante dos seus olhos.

— Você quer dizer, m-morar aqui para sempre?

— Bem, a minha amiga Sheila, aquela que mora ao lado e com quem você ficou outro dia, vai se casar no mês que vem e mudar-se para um apartamento. O senhorio disse que poderíamos ficar com o apartamento dela se quiséssemos. Você se lembra? Tem dois quartos, sala de visitas, cozinha e um banheiro próprio. Achei que poderíamos considerar.

— Tudo bem — Anna concordou —, e isso significa que não precisamos abandonar o p-pobre homem que fica ao lado do poste todas as noites.

Mary relanceou o olhar para Anna.

— Você reparou nele, então?

— Ah, sim — Anna inclinou a cabeça. — Até conversei com ele. Ele me pareceu tão triste e s-sozinho, a-abandonado ali fora.

— Você conversou com ele?

— Conversei. — Anna estava entretida em devorar seu bolinho.

— E ele respondeu a você?

— Ele disse que o tempo estava ficando cada vez mais f-frio. — Anna limpou a manteiga da boca. — Ele não tem casa?

— Tem, sim, querida.

— Ele não é um órfão como eu?

— Não, ele não é um órfão.

— Bem, então onde é que vou estudar? — Anna mudou o curso da conversa.

— Bem… estive pensando que poderíamos voltar aos tempos que lhe dava aulas em casa. Especialmente se você quiser continuar com suas aulas de balé. — Mary ofereceu a cenoura adequada. — Se fosse à escola, eles não gostariam de liberá-la à tarde para isso. Mas, é claro, vai depender de você.

— Posso voltar a ter a-aulas com a princesa Astafieva? — indagou Anna. — Acho que ela é uma boa professora.

— Infelizmente, a princesa não tem passado muito bem, mas fiz algumas pesquisas e encontrei um professor maravilhoso há apenas cinco minutos daqui. O nome dele é Nicholas Legat, dançou junto com Anna Pavlova! — disse Mary de maneira encorajadora.

— Anna Pavlova… — Anna arregalou os olhos de surpresa. — A maior bailarina que já e-e-existiu!

— Sim. Então, estive pensando que nos próximos dias podemos dar uma passada no estúdio dele para ver se ele a aceita. O que acha disso?

— Ah, Mary — Anna bateu palmas. — Não posso acreditar que duas semanas atrás eu estava naquele lugar horrível pensando que nunca mais ia dançar. — Ela passou os braços ao redor de Mary. — E agora estou com você que é o meu anjo da guarda e que v-veio para me salvar.

— Ora, minha querida, você sabe que nunca deixaria você sofrer.

— Quando não recebi nenhuma carta sua na escola, pensei… — Anna mordeu o lábio — p-pensei que tivesse me abandonado.

— Bem, é que todos acharam que seria melhor se a deixasse se acostumar por lá por algum tempo.

Anna fitou-a.

— Quer dizer que a minha tia f-falou para v-você não me escrever?

— Sim, mas só para o seu bem.

— Mary, você é boa com todo mundo, mas a gente sabe que a tia me odiava. — Anna beijou-a na face. — E não importa o que você seja para mim, acho que não existe uma m-menina em todo o mundo que tenha uma mãe melhor.

Mary sentiu os olhos marejados de lágrimas, imaginando se Anna entenderia se lhe contasse toda a verdade sobre o que tinha feito.

— Bem, querida, agora chega. Mas, se deverá morar comigo durante os próximos anos, seria mais fácil se adotasse meu sobrenome.

— B-em, como p-parece que não tenho nenhum, acho que seria maravilhoso ser chamada pelo seu nome — concordou Anna.

— Você sabe que as freiras me chamaram de “Benedict”, porque também não tinha um sobrenome de verdade. Eu diria que nós duas deveríamos começar de novo — Mary sorriu — e escolher um novo!

— Podemos realmente fazer isso?

— Não vejo por que não.

— Que maravilha! Então p-posso escolher?

— É claro que pode, desde que não seja o nome de uma bailarina russa que ninguém consiga pronunciar!

Como sempre, quando estava pensando, Anna colocava o dedo indicador na boca como se o estivesse mastigando.

— Já sei!

— Sabe, querida?

— Sim! Estava pensando na minha música de balé preferida, de A Morte do Cisne, e que o meu nome é Anna, o mesmo de Anna P-Pavlova. Então, gostaria que nosso sobrenome fosse “Swan”.

[7]

— Swan… — Mary pronunciou o nome, depois voltou-se para Anna. — Gostei.

Um dia depois, era Anna Swan quem entrava no estúdio de Nicholas Legat. E Mary Swan, sua mãe, quem a levava. Anna foi imediatamente aceita no seu curso e começou com três aulas de balé por semana.

Dentro de um mês, as duas mudaram-se para o antigo apartamento de Sheila, no prédio ao lado, e Mary decidiu pintar e dar alguns retoques no novo lar. Produziu lindas cortinas com estampas florais para o quarto de Anna, na sua máquina de costura, e escolheu para si uma cortina de chita azul-clara para a salinha de estar que serviria também como ateliê de costura. Enquanto pendurava as cortinas e dava um passo para trás para admirar seu trabalho, Mary recordou-se da casa de Dunworley que era para ter sido sua tantos anos antes. Aquele sonho, no entanto, se fora, então passou a dedicar todas as suas energias domésticas ao novo espaço que, pela primeira vez na vida, poderia chamar de lar.

— Você faz milagre com a costura — declarou Anna quando Mary apresentou-lhe, orgulhosamente, seu novo quarto acabado. — E amo você. Posso convidar Nancy e a senhora Carruthers aqui para um chá? Queria que elas vissem nossa casa nova.

— Sinto muito, Anna, mas elas se mudaram da Casa de Cadogan e não sei seu endereço — respondeu Mary calmamente.

— Ah, que grosseria elas não avisarem, não acha? Elas eram nossas a-amigas.

— Tenho certeza de que entrarão em contato conosco quando puderem, querida — replicou Mary sentindo-se culpada.

As duas passaram a seguir uma rotina. Mary fazia o possível para conseguir que Anna se sentasse na pequena escrivaninha, no canto da saleta de estar, para estudar suas lições. Usava a biblioteca local para conseguir livros de história e geografia, e encorajava Anna a ler o máximo possível. Sabia que essa estava longe de ser a educação que uma garota como Anna poderia receber, mas era o melhor que podia oferecer. Além do mais, sabia que a mente da menina estava em outro lugar.

Três tardes por semana, Mary levava Anna, através de Colet Gardens, para deixá-la na aula de balé. Observava-a com nervosismo enquanto ela entrava e saía do prédio. Isso era algo com que teria de conviver pelo resto da sua vida. Era o preço a pagar por suas atitudes.

Quando a ideia ocorrera a Mary, ela pensara que, talvez, a melhor coisa a fazer fosse fugir com Anna para o exterior. Mas, depois de refletir bem sobre os detalhes, concluíra que não seria uma boa opção. Anna não tinha certidão de nascimento, passaporte, nem, na verdade, qualquer documento oficial que provasse quem era, então estavam presas dentro da Inglaterra. Ela também considerara mudar-se para fora de Londres, mas precisava pensar nos seus rendimentos. Além disso, pensara, em uma cidade pequena ou vilarejo, as duas seriam muito mais notadas. Numa cidade grande como Londres, tinham mais esperança de permanecer anônimas. E como grande parte da infância de Anna fora na Casa de Cadogan, dentro dos seus muros, ela conhecera poucas pessoas, o que diminuía as chances de ser reconhecida.

Entretanto, Mary manteve distância dos velhos lugares que frequentava em Chelsea, confortando-se ao pensar que, assim que Anna crescesse e se tornasse uma jovem mulher, poucos a associariam com a menina que sofrera uma morte tão trágica e prematura.

Quanto ao futuro Mary não conseguia pensar nisso. Fizera o que acreditava ser o mais certo para proteger a criança que amava. E se havia uma coisa que aprendera com a perda de Sean, e das suas esperanças e sonhos com ele, era que tudo o que podia fazer era aproveitar o dia.

Em um agradável final de tarde de primavera, quando Mary e Anna já viviam sua nova vida há três meses e meio, Anna entrou no apartamento acompanhada de um visitante.

Mary ergueu os olhos da máquina de costura, surpresa. Ali, parado timidamente ao lado de Anna, encontrava-se o rapaz que passava as noites junto ao poste de iluminação.

— Mary, este é Jeremy. Ele é meu amigo, não é, Jeremy?

O rapaz baixou os olhos para Anna nervosamente e aquiesceu.

— Eu disse a Jeremy que ele deveria vir aqui conhecê-la. Disse que você não se importaria. Você não se importa, não é, Mary?

— Por que eu… não, é claro que não. — Mary sentiu-se perturbada quando Jeremy fitou-a com os olhos escuros e ansiosos. — Jeremy, venha sentar-se aqui e vou lhe preparar um chá.

— M-m-muito obrigado.

Mary foi à cozinha e ocupou-se em preparar uma bandeja de chá, ouvindo Anna tagarelar muito à vontade na sala ao lado. Sua voz aguda era entremeada por um ou outro comentário na voz grossa de Jeremy.

— Aqui está — disse Mary, colocando a bandeja de chá sobre a mesa. — Jeremy, gosta com açúcar e leite?

— O-os d-dois. — Depois de uma longa pausa, emendou: — O-obrigado pela gentileza.

Mary serviu o chá e estendeu a xícara para ele. Enquanto Jeremy a segurava, suas mãos tremeram, fazendo a xícara tremer de encontro ao pires. Ela pegou os dois da mão dele e pouso-os delicadamente sobre a mesa ao lado do rapaz.

— Não é ótimo? — comentou Anna. — Muito m-melhor aqui dentro do que lá fora. — Ela apontou para o poste de iluminação. — E além do mais, eu disse a Jeremy que minha mãe também não tinha amigos. Então pensei que p-poderíamos ser amigos.

Jeremy aquiesceu, olhando para Anna. Mary surpreendeu um brilho de emoção nos olhos dele e percebeu que esse homem triste e estranho obviamente gostava da sua jovem amiga.

— Muito bem, é muita gentileza sua pensar em mim, Anna. Não é mesmo, Jeremy?

— S-sim.

Mary ocupou-se de servir o chá para si mesma e sentou-se em silêncio, imaginando o que será que poderia dizer a ele. Perguntar o que fazia parecia ridículo, uma vez que sabia que passava a maior parte do tempo junto ao poste de iluminação, à frente da sua janela.

— M-muito obrigado p-pelo casaco — disse Jeremy, não conseguindo disfarçar o esforço para pronunciar as palavras. — N-não s-senti m-mais f-frio.

— Viu? — disse Anna. — Ele fala como eu, às vezes. — Ela deu uns tapinhas na mão dele com afeto.

— Bem, é ótimo que vocês tenham conversado.

— A-Anna m-me d-disse que a-adora d-dançar — arriscou Jeremy. — A-adora O l-lago d-dos cis-cisnes, de Tch-Tchaicovsky.

— Isso mesmo — disse Anna ansiosamente. — E Mary disse que assim que tiver dinheiro suficiente, podemos comprar um gramofone como o que tínhamos na Casa de Cadogan. Então posso c-comprar o disco e você pode vir e-escutar comigo, Jeremy.

— Obrigado, Anna — Jeremy pegou timidamente sua xícara de chá e levou-a aos lábios. Engoliu o conteúdo, apreciando o sabor do líquido na boca. Depois recolocou a xícara sobre o pires com ruído. — E o-obrigado p-pelo ch-chá, Mary. N-não q-quero i-incomodá-la m-mais.

— Você não nos incomoda, não é, Mary? — indagou Anna enquanto ele se levantava.

— Não, de maneira alguma. — Mary acompanhou Jeremy até a porta do apartamento. — Agora, sinta-se à vontade para vir tomar um chá sempre que sentir vontade.

— M-muito o-obrigado, M-Mary. — Jeremy sorriu para ela com tamanha gratidão que Mary instintivamente estendeu a mão para afagar a dele.

— Vamos nos ver de novo, tenho certeza.

Algumas tardes depois, Anna apareceu no apartamento com Jeremy, que carregava alguma coisa embaixo de um cobertor.

— O Jeremy disse que comprou um presente para nós! Mal posso esperar para vê-lo. — Anna saltitava ao redor toda empolgada enquanto Jeremy perguntava a Mary onde poderia colocar o volume.

— Ponha ali. — Mary indicou o aparador e Jeremy foi até lá. Com um floreio, ele tirou o cobertor para revelar um gramofone e, encaixada sobre seu eixo, via-se uma pilha de discos.

— P-para v-você e A-Anna.

— Ah, Jeremy! — Anna bateu palmas de felicidade. — Que p-presente maravilhoso. Não é mesmo, Mary?

— Bem, claro que é, mas é apenas emprestado, não é, Jeremy? — enfatizou Mary.

— N-não, é p-para v-vocês. P-podem f-ficar.

— Mas esses aparelhos custam uma fortuna. Não podemos…

— V-vocês p-podem, s-sim. E-eu t-tenho d-dinheiro. Q-qual d-disco, Anna?

Enquanto Anna e Jeremy discutiam se a música deveria ser de A Bela Adormecida ou de O Lago dos Cisnes, Mary reconheceu o brilho de determinação nos olhos de Jeremy. Mesmo no seu estado tão desgastado, ela percebia um vislumbre do que ele poderia ter sido antes de ser destruído pela guerra.

Ele se voltou para Mary de repente, enquanto Anna colocava o disco no eixo, e sorriu para ela.

— I-isso é p-pelo s-seu c-casaco.

E foi assim.

Assim teve início a presença constante de Jeremy Langdon na sala de visitas de Mary. Toda tarde, Anna arrastava Jeremy do seu poste de iluminação e trazia-o para tomar uma xícara de chá. Enquanto Mary costurava, Anna e Jeremy ouviam a música de balé. Anna dava piruetas pela sala e Jeremy aplaudia, entusiasmado, ao fim da peça. Enquanto Anna se dobrava, fazendo-lhe uma mesura graciosa, Mary percebia que a menina recriava os momentos que passara na companhia de Lawrence Lisle no salão de visitas da Casa de Cadogan.

— E-ela é m-muito b-boa, Mary — Jeremy comentou um dia enquanto saía do apartamento.

— Você acha mesmo? Que ela é muito determinada, não tenho a menor dúvida.

— T-talentosa — concordou Jeremy. — C-conheci as m-melhores antes da guerra. E-ela t-também p-pode ser uma d-delas. A-até l-logo, Mary.

— Onde vai jantar esta noite? — arriscou Mary. — Você dá a impressão de que não faz uma refeição decente há muito tempo. Tenho algumas costeletas no fogão suficientes para nós todos.

— Ah, Jeremy, fique! — persuadiu-o Anna.

— V-vocês s-são m-muito b-boas, m-mas n-não quero s-ser um i-incômodo.

— Ele não incomoda, não é, Mary?

— Não, Jeremy, não incomoda nem um pouco — ela sorriu.

 

Logo o poste de iluminação ficou desprovido do seu velho amigo, à medida que Jeremy passava cada vez mais tempo com Mary e Anna. Ele chegava com um presente: um chocolate para Anna, ou umas postas de peixe fresco que Mary cozinharia para o jantar. À medida que a confiança de Jeremy aumentava, sua fala tornava-se cada vez menos vacilante. Com o gentil encorajamento da mulher e da menina, ele começou a se comunicar com mais facilidade. Ao longo das semanas, Mary observou como parte da magreza desaparecia, deixando para trás a compleição franzina, em razão, em parte, dos pratos fartos que Mary preparava para o jantar, e as mãos dele foram se tornando mais capazes de levar a faca e o garfo até a boca. Mary via lampejos de humor começarem a emergir, revelando um homem que, obviamente, era não só instruído, mas que tinha uma sabedoria discreta por trás de si. O cavalheirismo, a consideração e a gentileza de Jeremy, especialmente em relação a Anna, tornavam-no cada vez mais benquisto por Mary com o passar dos dias. E, à medida que a expressão assombrada deixara seus olhos verde-escuros e seu corpo ganhara volume, Mary via o quanto se tratava de um homem atraente.

Uma noite, Mary colocou Anna na cama pensando em como a criança também desabrochara desde que Jeremy entrara na vida delas.

— Eu estou feliz, Mary — Anna suspirou enquanto descansava a cabeça sobre o travesseiro.

— Fico contente por estar assim, querida.

— É verdade… — Anna murmurou. — Você, eu e Jeremy, somos quase como uma f-família de verdade, não acha?

— Sim, acho que sim. Agora feche os olhos e durma.

Mary saiu do quarto e voltou para sua mesa para continuar a costurar, mas descobriu que não conseguia se concentrar. Olhou pela janela e encontrou o poste de iluminação desocupado, como estivera naqueles dias depois que Jeremy saía do seu apartamento. Ela ainda não tinha muito conhecimento sobre quem ele era. Não havia nenhuma garantia de que um dia Jeremy não fosse simplesmente desaparecer, para nunca mais voltar. Mary sentiu o estômago se revolver diante da ideia de Anna perder mais uma pessoa amada.

E ela também…

Mary sentiu um súbito calafrio em seu íntimo quando concluiu que Anna não seria a única a tornar-se cada vez mais atraída pelo visitante regular. Havia qualquer coisa em Jeremy que lhe lembrava da última vez que vira Sean. Experimentava aquela mesma sensação protetora em relação a ele. E também atração…

Mary procurou se recompor. Precisava pôr um fim àquele absurdo. Era uma solteirona órfã, irlandesa e ex-empregada doméstica, ao passo que Jeremy Langdon obviamente devia ser um cavalheiro. Ele era simplesmente um amigo e companheiro, alguém que conhecera a espécie mais terrível de dor na vida, e com que ela se identificava. E era assim que as coisas deveriam ficar.

Alguns dias depois, ouviram-se batidas na porta de Mary. Sobressaltada, uma vez que Anna estava fora em sua aula de balé e ela não esperava nenhum cliente, Mary foi até a porta e abriu-a.

— Jeremy — disse completamente surpresa. Jeremy nunca viera ao apartamento sem que Anna o trouxesse. — Eu… está tudo bem com você?

— N-não.

Mary notou pela cor fantasmagórica de sua pele e pela expressão nos seus olhos que acontecera alguma coisa.

— Venha, entre. Anna ainda não voltou da aula, mas podemos tomar uma xícara de chá enquanto a esperamos, certo?

— E-eu q-queria conversar com você. S-sem Anna.

— Muito bem, sente-se e fique à vontade enquanto vou preparar uma xícara de chá.

— N-n-não! E-eu p-preciso falar, n-não beber!

Mary notou que a fala estava mais entrecortada do que nas últimas semanas. Conduziu-o até a sala de visitas e esperou que se sentasse na poltrona de costume.

— Tem certeza de que não quer que lhe sirva alguma coisa, Jeremy? — indagou ela, acomodando-se na poltrona oposta à dele.

— A m-minha avó m-morreu o-ontem à n-noite.

— Eu… Ah, Jeremy… Sinto muito por sua perda, querido.

— Eu… — Jeremy levou a mão trêmula à testa. — M-me d-desculpe — falou ele, enquanto as lágrimas escorriam por suas faces. — Era a ú-única pessoa que… — ele soluçou — s-se p-preocupava comigo! Ela m-me a-amava! C-como eu s-sou a-agora!

Mary observou enquanto ele sacudia os ombros em desespero. Incapaz de suportar seu sofrimento, ela fez a única coisa que pôde. Aproximou-se dele e passou os braços ao redor do seu corpo.

— Agora calma — ela sussurrou, embalando-o como se fosse uma criança, afagando seu cabelo macio —, faz bem chorar. Não há nada de errado em chorar, há?

Enquanto Jeremy continuava a soluçar, ela apertou o abraço ao redor do seu peito.

— Estou aqui, Jeremy, e Anna também está do seu lado. Nós duas nos preocupamos com você.

Jeremy ergueu os olhos angustiados na direção de Mary.

— V-vocês se p-preocupam? Com um d-destroço hu-humano c-como eu? C-omo é p-possível?

— Porque você é um homem bom e gentil. E não importa o que tenha lhe acontecido lá nas trincheiras não foi culpa sua. Não muda quem você é por dentro, muda?

Jeremy deixou a cabeça pender para frente, e Mary ficou de joelhos enquanto se endireitava para ampará-lo. Ele enterrou o rosto em seu ombro.

— I-isso n-não é o que os meus p-pais acham, eles o-odeiam a pessoa em q-que me tornei. Uma v-vergonha! Que-queriam me esconder.

— Santa Maria, mãe de Deus! — Mary estremeceu, horrorizada. — Sinto muito pelo que você sofreu. Mas eu lhe asseguro, isso não muda a pessoa que você foi e ainda é. Veja bem, Jeremy, você precisa se lembrar disso. A guerra fez coisas terríveis a homens como você. Nós que ficamos em casa não fazemos ideia do que vocês passaram para defender nossa liberdade.

— V-você acha i-isso m-mesmo?

— Eu sei disso. — Mary sentiu a umidade das lágrimas dele molhando seu ombro. — Eu tive um… alguém, que passou anos na frente de batalha. E, bem, no final, não sobreviveu para testemunhar nossa vitória.

Ante essas palavras, Jeremy ergueu a cabeça do ombro dela e olhou diretamente nos olhos de Mary.

— V-você p-perdeu o seu a-amor?

— Meu noivo. E com ele toda a vida que tínhamos planejado viver juntos.

— M-Mary, eu a-acho q-que você d-deve ser um anjo. A maneira c-como c-cuida de Anna, e de mi-mim. Ouvindo com p-paciência o que f-falo e, ainda assim, p-perdeu muito também.

— Sim. Mas não precisei encarar o medo, a dor e as lembranças daquelas coisas que devem se repetir sem parar na sua lembrança.

— Sim, mas você também s-sofreu por causa da m-maldita guerra! Mary — Jeremy tomou as mãos dela dos seus ombros e curvou-as nas suas —, estive p-pensando um p-pouco. E o que a-acho é que a-amo você. Eu amo você. — Com um grande esforço, Jeremy repetiu a frase sem gaguejar.

Houve uma pausa enquanto Mary olhava nos olhos de Jeremy. Seu bom senso e seu pragmatismo naturais falaram mais alto do que o que ele estava lhe dizendo. Esse era um momento de grande emoção e necessário para ele. E ela não devia acreditar.

— Jeremy, você está num momento de grande dor, não sabe muito bem o que está sentindo. Veja, é consequência do choque. E…

— N-não! Não é o choque. Você é t-tão l-linda e tão boa. Eu a-amo você desde o momento em que me deu o c-casaco. Desde aquele momento, não vim mais para perto do p-poste para pensar na minha namorada. Mas para ter uma chance de ver você.

— Jeremy… pare, por favor! — disse Mary atormentada.

— É verdade! Eu via Anna, sabia que era sua f-filha, falei com ela. Para me dar uma chance de me encontrar com você. E ho-hoje, quando p-perdi a única pessoa que se p-preocupava comigo, precisava lhe expressar meus sentimentos! A v-vida é muito curta!

Admirada, Mary fitou os olhos dele cheios de lágrimas. Não só porque Jeremy confessava seu amor — amor por ela —, mas porque ele acabara de pronunciar todas aquelas frases sem tomar fôlego.

— Bem, Jeremy, eu diria que é muita bondade sua, mas acho, francamente, que tudo isso ainda é por causa desse choque muito intenso.

— Mary — as lágrimas de Jeremy tinham secado. Seus olhos se abrandaram quando a fitou —, compreendo que você e eu, nós d-dois sabemos o que é a dor. Confie em mim, eu nunca brincaria com seus s-sentimentos. E os meus são muito claros para mim. Talvez você não sinta nada p-por mim afinal.

Mary permaneceu aos pés de Jeremy, os olhos baixos, as mãos ainda segurando as dele.

— Compreendo — Jeremy inclinou a cabeça. — C-como alguém p-poderia amar alguém como eu?

Mary forçou-se a encarar os olhos dele outra vez.

— Não, não é nada disso. É simplesmente porque amei alguém um dia e depois perdi. Eu… — Mary prendeu a respiração — gosto de você. Na verdade, posso dizer que gosto muito de você. E se, por acaso, um dia você saísse da minha vida, sentiria muito sua falta.

— Bem, compreendo que nós dois p-perdemos alguém. Temos isso em comum. Mas também não p-poderíamos ter em comum o fato de e-encontrar outro alguém?

— Ah, Jeremy, você não sabe nada a meu respeito. — Mary abanou a cabeça tristemente. — Fiz muitas coisas na vida, muitas coisas que você não sabe…

— M-Mary, eu m-matei outros s-seres humanos! Nada que você p-pudesse falar me chocaria depois do que vi. E fosse o que fosse, meu amor, eu gostaria de dividir com você! Portanto, conte-me e vou lhe c-contar as coisas que f-fiz. É disso que é f-feito o a-amor, não é? Confiança?

— Mas, Jeremy, querido — Mary suspirou —, sou uma órfã sem raízes. Você é um cavalheiro e precisa de uma dama. Nunca serei uma mulher assim, nem mesmo para você.

— Você acha que me importo? Minha mãe é uma d-dama de verdade e, quando eu v-voltei das t-trincheiras, ela me colocou em um — Jeremy fez um esforço para pronunciar a palavra — asilo! Seu próprio f-filho! — Ele engoliu as próprias lágrimas. — A guerra mudou tudo, n-não preciso saber de mais n-nada a s-seu respeito. Além de que é a p-pessoa mais bondosa que conheci. E tem um c-coração maravilhoso.

— Ah, Jeremy… — Mary retirou as mãos das dele e enxugou os olhos bruscamente.

Foi a vez de Jeremy inclinar-se para ela, levantá-la do chão e prendê- -la entre os braços. E o que ela sentiu ali, depois de anos de solidão, era difícil de explicar. O cheiro dele, o cheiro de um homem… tão familiar, tão desconhecido.

— Mary — ele lhe tocou o queixo com os dedos e deu um beijo suave em seus lábios —, n-nunca f-farei mal a você. Precisa acreditar em mim. Posso ver o medo em seus olhos. Já o vi tantas vezes antes.

Ele deu beijos gentis em sua testa, em seus olhos, em sua face. Finalmente, ela desistiu de tentar analisar o que tudo aquilo poderia significar e se entregou. Os sentimentos dispararam em seu íntimo quando ele a beijou e acariciou de um modo que Mary pensou nunca ter conhecido antes. Apesar de todas as aparentes deficiências de Jeremy, Mary sentiu sua masculinidade e sua força.

Vinte minutos depois, Mary olhou para o relógio sobre a lareira e levou a mão à boca.

— Ah, Jesus, Maria e José! Anna deve estar esperando por mim.

Saindo de cima dos joelhos de Jeremy, ela se recompôs e arrumou o cabelo ao espelho.

— Posso ir buscá-la c-com você?

Mary voltou-se para ele e sorriu.

— Se é o que quer, claro que sim.

Anna esperava, desapontada, nos degraus da porta do estúdio quando Mary e Jeremy apareceram na esquina. Sua expressão mudou imediatamente ao vê-los.

— Oi, vocês dois! Chegaram atrasados — ela sorriu.

— É verdade, desculpe por isso, querida, mas Jeremy apareceu de surpresa para conversar comigo. Ele tem más notícias hoje, não tem?

— Tenho.

Anna olhou para ele confusa.

— Você parece muito contente para alguém que tem m-más notícias — respondeu ela.

Jeremy dirigiu um sorriso velado a Mary enquanto tomavam o caminho de casa. Anna dançava alegremente à frente dos dois.

— Está tudo bem, eu sei por quê. Faz tempo que eu esperava isso! — Ela parou, de repente, na calçada e voltou-se para encará-los. — Vocês dois se amam, não é?

— Bem, eu… — Mary enrubesceu furiosamente.

Jeremy tomou-lhe a mão firmemente na sua.

— Sim. Você se importa?

— É claro que não! Acho que sou a garota mais feliz do mundo. Isso significa que vão se casar e eu vou ter uma mãe e um pai. E podemos ser uma f-família de verdade. — Anna atirou os braços espontaneamente ao redor dos dois. — Porque amo vocês muito, muito, muito!

 

A morte da avó de Jeremy tornou-o o proprietário de uma grande casa em West Kensington, com dinheiro suficiente para proporcionar-lhe um pequeno rendimento pelo resto da vida e um belo automóvel Ford preto. Uma semana depois do enterro da avó, Jeremy levou Mary e Anna para conhecerem a casa.

Anna correu de um aposento ao outro alegremente.

— É quase tão grande quanto a C-casa de Cadogan, mas não t-tanto.

Mary sentiu-se pouco à vontade com a comparação de Anna. Embora confiasse plenamente em Jeremy, qualquer comentário sobre o passado, em especial a alguém que vinha da mesma classe social dos seus antigos empregadores, poderia ser perigoso.

Quando Anna desceu a escada até o vestíbulo, na entrada, ela parou e voltou-se para fitar Mary e Jeremy, que desciam mais devagar atrás dela.

— Você vai nos convidar para vir morar aqui com você, Jeremy? A casa é grande demais só para você. E é muito bobo Mary e eu m-morarmos no nosso apartamento tão pequeno, se você tem todo este espaço.

— Ora, Anna. — Mary enrubesceu com a falta de tato da menina. — Jeremy só está nos mostrando a casa dele. Não lhe faça perguntas inconvenientes.

— Desculpe, Mary. Mas eu estava p-pensando exatamente isso… Você e-estava certa, Anna. — Jeremy sorriu. — A l-lógica de uma criança. Bem, Mary, você g-gostaria de vir morar aqui?

— Por favor…! — Era demais para ela. Mary fugiu à frente pelo resto dos degraus, atravessou o vestíbulo em direção à porta da frente. Não parou de correr enquanto não chegou à segurança da sua própria sala de estar.

Jeremy chegou à porta da frente do seu apartamento dez minutos depois. Ela o deixou entrar, as lágrimas correndo pelas faces.

— Onde está Anna? — ela perguntou.

— Pedi à senhora Hawdins, a empregada, para fazer-lhe um chá. P-pensei que você e eu pudéssemos ter uma c-conversa. Posso entrar?

Mary aceitou chorando, depois voltou-se e caminhou de volta à sala de estar.

— Jeremy, não sei o que você quer de mim, mas, seja o que for, é algo que nunca poderei dar. Você não me conhece! Não sou uma dama, como já disse. E sua empregada sabe disso. Pude ver nos olhos dela. Eu deveria servir você, não ser sua namorada!

Jeremy tirou um lenço do bolso e ofereceu-lhe quando ela se deixou cair numa poltrona.

— Mary, tenho estado c-com você quase todos os dias há meses. Você é tudo o que uma dama deveria ser. E quanto à sua p-posição social, aprendi nas trincheiras que classe é algo muito diferente do c-caráter de alguém. Com relação aos seus segredos, só posso dizer que estou d-disposto a ouvir. Já lhe disse isso antes, não há nada que p-possa me chocar. — Ele se ajoelhou à frente dela, afastando uma mecha de cabelo da sua face. — E acredito que o amor pode p-perdoar e compreender tudo. Conte-me, Mary, c-confie em mim — insistiu ele.

Mary suspirou profundamente, sabendo que contar talvez representasse o fim de seu possível futuro. Mas, para dar uma chance a esse futuro, ela devia fazer o que ele lhe pedia.

Pedindo ajuda do alto, ela finalmente aquiesceu.

— Contarei tudo a você.

Vinte minutos depois, Mary retorcia as mãos.

— A verdade é que cometi um pecado contra Deus. Disse falsamente que Anna tinha morrido e a roubei. Roubei uma criança. Ah, Deus me perdoe…

Jeremy aproximou-se dela e envolveu-a com força entre os braços.

— Mary, Mary, por favor não se t-torture mais. Sim, você fez algo errado, mas pelas r-razões certas. Fez por seu amor a Anna e por querê- -la feliz e segura.

— Mas será que fiz mesmo por Anna? — Mary ergueu os olhos para ele angustiada. — Ou será que foi por mim, por achar que precisava dela?

— A julgar pelo que m-me contou, e considerando o perigo que correu se o segredo fosse descoberto, acredito q-que seus motivos não foram egoístas.

— Você acha isso de verdade?

— Acho. — Jeremy tomou-lhe as mãos e apertou-as com força. — A-acho mesmo. Mary, por acaso é diferente de dizer a um pai que seu filho m-morreu nas trincheiras de maneira indolor, quando, na verdade, ele gritava em agonia? E… — Jeremy olhou para longe — talvez levando dias até morrer. Ou um comandante de pelotão mandar seus homens partirem das trincheiras todos os dias, sabendo que seguiam para a morte? — Jeremy fitou-a uma vez mais. — Você fez o melhor ao seu alcance para p-proteger alguém a quem ama, e n-nunca deve se envergonhar disso! Nunca! E eu a a-amo ainda mais pelo que você fez.

— Verdade?

— Sim. Você é corajosa, b-boa e forte.

— Ah, Jeremy, não sou, não. Tenho tanto medo de ser descoberta e Anna ser tirada de mim. Olho sempre atrás de mim toda vez que saio do apartamento.

— Proteger uma órfã, assim como você, é algo de que se orgulhar. A-além do mais — Jeremy sorriu-lhe —, p-posso ajudar você e Anna. Se você se c-casar comigo, quero dizer.

— Mesmo depois de tudo o que lhe contei, você ainda quer isso? — Mary estava perplexa.

— Mais do que nunca, Mary. Pode acreditar em mim.

 

Três meses depois, Mary Swan, uma órfã de pais desconhecidos, tornou- -se a senhora Jeremy Langdon, dona de uma grande casa em Kensington. A única outra pessoa presente ao casamento foi Anna Swan, uma menina de 10 anos.

No ano seguinte, aconteceram três coisas que fizeram Mary acreditar que Deus a protegia de verdade. Ela descobriu que estava grávida, o que causou uma alegria indizível em todos eles. Depois Jeremy, por meio de canais que Mary não desejou conhecer, descobriu que Lawrence Lisle morrera, nove meses antes, de malária em Bancgoc. Elizabeth Lisle, segundo ele ouvira dizer, abortara o bebê logo depois disso, mas não perdera tempo em encontrar outro marido conveniente. Os contatos de Jeremy descobriram que o sujeito fora enviado a Xangai e Elizabeth Lisle o acompanhara.

— Você c-compreende o que isso s-significa, Mary? Significa que você está livre. Agora, Lawrence Lisle jamais p-poderá procurá-la. E, de acordo com o que ouvi dizer, duvido que Elizabeth Lisle esteja interessada.

Mary persignou-se, sentindo-se culpada pelo alívio que sentira com a morte de Lawrence Lisle.

— São notícias tristes, mas eu estaria mentindo se não dissesse que, no fundo, estou contente. Veja bem, Jeremy, duvido que algum dia conseguisse relaxar.

— Eu sei, querida, mas ele não poderá procurá-la mais. O que significa que devo investigar um modo de iniciar um processo para adotar Anna oficialmente.

— Mas ela não tem certidão de nascimento. E nem mesmo um sobrenome.

— Deixe isso comigo, querida. — Jeremy afastou o problema como um mero detalhe. — Posso ser um homem destroçado, depois de tudo, mas o c-capitão Jeremy Langdon ainda pode conseguir alguns favores no M-Ministério do Interior. Um sujeito em e-especial me deve a sua vida. — Ele deu um tapinha na mão de Mary e, gentilmente, escorregou-a para o discreto, mas visível, perfil do bebê aninhado dentro dela.

Seis semanas antes da data prevista para o nascimento do bebê, Mary e Jeremy assinaram os documentos de adoção que, legalmente, tornavam Anna sua filha.

— Ninguém poderá incomodá-la agora, querida. Ou tirar você ou ela de m-mim — ele sussurrou no ouvido dela.

Mary assistiu, com lágrimas nos olhos, enquanto Anna dançava ao redor da mesa da cozinha com sua certidão de adoção.

— Anna Langdon — ela pronunciou radiante e, depois, atirou os braços ao redor dos novos pais. — Estou tão feliz, mal consigo r-respirar!

O bebê chegou, para grande frustração de Mary, com dez dias de atraso, mas, fora isso, sem nenhum incidente. Mary estava deitada em seu lindo quarto, um bebê junto ao seio, o amado marido e a filha recém-adotada murmurando palavras de contentamento ao lado deles. Ela só desejou que o tempo pudesse parar, pensou que poderia morrer nesse exato momento, porque não seria capaz de ser mais feliz. O bebê, uma garota rechonchuda e de bochechas rosadas, que recebeu o nome de Sophia, em homenagem à santa favorita de Mary, descansava sossegado e feliz. Mary viu com prazer enquanto Jeremy embalava delicadamente a filha nos braços.

Ela notou como, naqueles dias, sua gagueira era quase imperceptível quando lhe falava. E os terríveis pesadelos com que tanto sofria — quando acordava gritando e banhado em suor — foram diminuindo com o tempo. Mary lera tudo o que pudera sobre a neurose de guerra, sabia que raramente desapareceria, mas, pelo menos, podia ser controlada por uma vida pacífica e sossegada. Jeremy raramente saía de casa, a não ser para atravessar os Kensigton Gardens para ir comprar o seu Times, mas, mesmo assim, quando passava por uma rua barulhenta de Londres, sempre se sobressaltava com uma buzina ou uma sirene que soava. Tanto a gagueira, quanto o tremor das mãos, tornavam-se agudos por algum tempo depois. No entanto, as restrições que isso poderia significar para a vida deles não era um problema para Mary. Desde que a família estivesse tranquila e satisfeita, ela também estaria.

Jeremy começou a pintar e se revelou um artista mais do que satisfatório. Sempre que Mary admirava a escuridão das trincheiras que ele reproduzia, ela se sentia mal, mas sabia que aquilo exercia um efeito catártico sobre ele, uma expressão de toda a dor, medo, perda e morte que ele revivia a cada dia da sua vida.

Enquanto Jeremy pintava, Mary cuidava do bebê em crescimento e levava Anna e Sophia ao parque, nas tardes ensolaradas, ou, às vezes, até Piccadilly, para que Anna pudesse admirar as vitrines de roupas que adorava. Mary ainda se impressionava por ser capaz de comprar tudo o que Anna escolhia, sem precisar se preocupar com o preço que custava. Era uma mulher de posses, casada com um cavalheiro abastado.

Nesse meio-tempo, enquanto os anos passavam tranquilamente em seu lar confortável, Sophia aprendia a engatinhar, levantar-se sobre os pezinhos, andar e correr por toda a casa. E a paixão de Anna, de realizar sua ambição de tornar-se uma bailaria, aumentava no mesmo ritmo. Num final de tarde, quando Sophia mal completara 4 anos, Anna, que já mostrava os primeiros sinais de uma mulher adulta, aos 15 anos, entrou na cozinha onde Mary estava preparando o jantar.

— Mãe, ouviu f-falar que Ninette de Valois inaugurou sua nova e-escola de balé? — ela indagou.

— Não sabia, não, Anna.

— Posso ir até lá, mãe, m-me apresentar para ela, para ver se me aceita como sua a-aluna? Depois, quem sabe um dia, eu s-seja aceita em sua companhia e dance no Sadler’s Wells. Pode imaginar uma c-coisa dessas? — Anna deixou-se cair graciosamente sobre uma cadeira, suspirando só de imaginar.

— Mas pensei que você queria dançar no balé russo de Diaghilev.

— Eu queria, m-mas seria muito melhor fazer parte da primeira c-companhia de balé britânica. — Anna esticou uma perna, atirou o sapato para o alto e apontou o pé arqueado. — Posso ir, mãe, p-por favor?

— Talvez fosse melhor você conversar com seu pai e ver o que ele acha — sugeriu Mary.

— Se tudo der certo, vou dançar o dia inteiro, sem tempo para estudar inglês e matemática, mas o que mais posso aprender? Sei ler, escrever e s-somar, que é mais do que tudo o que uma dançarina precisa, não é? E s-sei dizer-lhe as datas da Batalha de Hastings, Trafalgar e…

— Anna — repetiu Mary —, vá falar com seu pai.

Como Mary desconfiava, Jeremy não resistiu ao poder de convencimento da filha. Assim, ficou decidido que ela faria um teste com Ninette de Valois para ver se conseguia uma vaga na escola de balé de Sadler’s Wells.

— Seria impossível que a nossa querida Anna se c-conformasse com outra coisa, enquanto não t-tentasse isso — disse Jeremy, intimamente orgulhoso.

Três dias depois, Mary acompanhava Anna no ônibus até Islington, onde eram ministrados os cursos da Escola Real de Balé Sadler’s Wells. Mary nunca estivera nos bastidores de um teatro e, quando foi conduzida através do labirinto de corredores até uma sala contendo uma barra e um piano, sentiu-se, ao mesmo tempo, inquieta e ansiosa por entrar em um mundo diferente. Anna respondeu a algumas perguntas sobre sua formação anterior e depois a senhorita Moreton, a professora, pediu que executasse alguns passos, primeiramente na barra e, depois, no centro da sala. Mary não pôde deixar de maravilhar-se com a maneira como Anna melhorara nos últimos anos. Apesar da sua graça e desenvoltura natural sempre presentes, sua florescente maturidade acrescentara uma nova postura aos seus movimentos.

Depois do último enchaînement, a senhorita Moreton fez uma pausa enquanto examinava Anna.

— Você dança como uma russa, e também se parece com aquelas meninas. Você é russa?

Anna lançou um olhar ansioso na direção de Mary, que encolheu quase imperceptivelmente os ombros e abanou a cabeça.

— Não. Sou inglesa.

— Mas ela estudou com a princesa Astafieva e com Nicholas Legat por algum tempo — observou Mary nervosamente, imaginando se isso seria favorável ou desfavorável.

— Bem, isso aparece em seus movimentos. Como estou certa de que deve saber, Anna, aqui em Sadler’s Wells é claro que temos influências russas, mas, como a primeira companhia de balé britânica, a senhorita de Valois está tentando criar um estilo próprio. Você está crua, mas é talentosa. Pode começar na segunda-feira?

Os olhos escuros de Anna, inflados de ansiedade, iluminaram-se de alegria.

— Q-quer dizer que estou aceita?

— Está. Agora vou entregar à sua mãe uma lista de roupas de ensaio de que vai precisar, e deve comprar sapatilhas de balé de Frederick Freed. Então espero você disposta e bem cedinho aqui na segunda-feira de manhã.

Em casa, naquela noite, houve muito motivo para comemoração. Anna mal cabia em si mesma de tanto contentamento, e toda a família a acompanhava na empolgação.

— Agora você realmente v-vai me ver dançar Odette/Odile no palco, S-sophia — Anna disse deliciada enquanto dançava com a irmã ao redor da cozinha.

— Nada irá impedi-la, a partir de agora, querida — comentou Jeremy enquanto deitava na cama ao lado de Mary naquela noite. — Vamos esperar que ela consiga realizar seu s-sonho.

Ao longo dos cinco anos seguintes, a determinação, a dedicação e a habilidade natural de Anna começaram a dar resultados. Ela fez sua estreia como o jovem Senhor de Tregginis no palco do recém-inaugurado Teatro Sadler’s Wells, na Rosebury Avenue. Vestida em um traje de Lorde Fauntleroy, e envergando uma peruca de cabelo curto, o personagem de Anna tanto abria o balé quanto fechava as apresentações. Mary, Jeremy e Sophia, agora com 9 anos de idade, aplaudiram e vibraram muito quando a cortina subiu para exibir toda a companhia. Seu papel ainda estava bem distante do espumante tutu branco dos sonhos de Anna, mas Ninette de Valois, a rainha da companhia, estava notando Anna. Seguiram- -se outros papéis secundários, como o de um dos quatro cisnes menores no Ato II de O Lago dos Cisnes e a garota Creole [8], em Rio Grande.

Em janeiro de 1939, pouco antes do seu 21º aniversário, Anna fez sua estreia como Odette/Odile em O Lago dos Cisnes. O teatro Sadler’s Wells estava lotado — era a primeira vez que um talento nativo da Inglaterra, em vez das dançarias russas importadas ou exiladas, lideraria o elenco da companhia britânica. As notícias sobre Anna e seu talento começaram a se espalhar entre os apreciadores do balé em todo o mundo. Mary, em um novo vestido de noite, com o cabelo penteado por uma profissional, estava sentada ao lado de Jeremy e Sophia em um camarote. Os acordes da pungente abertura de Tchaikovsky puseram a plateia em silêncio. Mary prendeu a respiração e fez uma prece para que aquele momento, há tanto tempo sonhado por Anna, fosse perfeito para ela. E não teve motivos para duvidar de que fora.

Diante dos buquês de flores que choviam, sobre o palco, para a jovem estrela em ascensão, ela apertou com força a mão de Jeremy enquanto as lágrimas caíam em sua face. Depois da apresentação o camarim ficou cheio de admiradores, e Mary teve dificuldade de atravessar a multidão para cumprimentar a filha. Anna, ainda de tutu, com os olhos imensos com a pesada maquiagem do palco, abriu caminho em direção à família e jogou os braços em torno da mãe.

— Ah, querida, estou tão orgulhosa de você. Você disse que conseguiria e olhe para você! Você conseguiu!

— Tudo graças a você, mamãe. — As lágrimas brilharam nos olhos de Anna. — Obrigada — ela sussurrou —, obrigada por tudo.

Anna alcançara sua meta e Mary olhou para trás no tempo. Em retrospectiva, concluiu que esse fora o momento em que começara a perder a filha. O mundo em que Anna vivia, habitado por personagens coloridos e artísticos, com suas roupas exóticas e hábitos e comportamentos sexuais estranhos, era muito distante da sua existência. Quando Anna foi proclamada a jovem rainha do balé britânico, e tantos outros se reuniram ao seu redor para receber os reflexos de sua glória, a filha começou a se distanciar do casulo do seu lar em Kensington.

Mary sempre esperava pela chegada de Anna depois de uma apresentação, querendo ouvir como fora e oferecer um chocolate e biscoitos à filha exausta. Atualmente, muitas vezes, não ouvia os passos de Anna na escada antes das três da madrugada. No dia seguinte, Anna comentaria sobre o jantar depois do teatro com os amigos no Savoy Grill, ou que dançara em uma boate da moda com nada menos que os membros da família real.

Mary não tinha mais controle sobre a vida da filha. E, como Anna agora ganhava um salário considerável, não podia se queixar dos vestidos ousados que usava — muitas vezes sem corpete — ou da quantidade de tintura vermelha que aplicava nos lábios. A julgar pelo número de buquês que eram entregues em casa, Anna tinha uma torrente de admiradores do sexo masculino. Se havia um em particular, Mary não sabia. Todas as perguntas feitas nesse sentido eram desconversadas.

Quando Mary queixou-se com Jeremy de que a vida social era frequentada por uma quantidade preocupantemente desconhecida de pessoas, especialmente do sexo masculino, Jeremy confortou-a gentilmente.

— Minha querida, Anna é uma mulher jovem e muito b-bonita. Além disso, é uma estrela. Deixe-a se c-comportar como quiser.

— Pode ser — comentou Mary irritada uma noite —, mas não estou contente quanto à fumaça de cigarros que entra no nosso quarto, de madrugada. E sei que ela está bebendo.

— Fumar e beber gim ocasionalmente estão longe de ser crimes, Mary. Especialmente da parte de uma mulher jovem q-que se acha sob tanta pressão para dar o melhor de s-si todas as noites.

Mary voltou-se para encará-lo, frustrada por Jeremy sempre se colocar do lado de Anna.

— Eu me preocupo com ela, só isso. Ela anda com tanta gente…

— Eu sei, querida, mas ela é uma g-garota crescida agora. E você precisa deixá-la viver.

A tensão entre Mary e Anna teve um ponto alto algumas semanas depois, quando Anna decidiu convidar, sem avisar, um grupo de amigos para ir em casa, depois da apresentação. O som de Cole Porter, no gramofone, e os ruídos das risadas dos convidados de Anna, na sala de visitas, deixaram Mary e Jeremy acordados até quase o amanhecer. No dia seguinte, decidida a conversar com Anna e a estabelecer algumas regras, Mary bateu à porta da filha e entrou no quarto. Anna dormia profundamente. Assim como um rapaz ao lado dela, na cama. Sufocada e chocada de horror, Mary bateu a porta atrás de si e deixou o quarto.

Dez minutos depois, Anna desceu para a cozinha em seu robe. Ela sorriu timidamente para a mãe, que colocava ruidosamente os pratos do café da manhã dentro da pia.

— Desculpe por mantê-la acordada até t-tarde da noite. Devia ter perguntado se podia t-trazer meus amigos. Era tarde e eu pensei…

— Não se preocupe com isso! O que era… quem era… — Mary não se permitia pronunciar as palavras.

— Você quer dizer o Michael? — Anna pegou o maço de cigarros do bolso do robe, acendeu um e empoleirou-se graciosamente na borda da mesa. — Ele é o m-meu parceiro de dança, mãe. E nós somos… amantes. — Ela tirou uma baforada do cigarro. — Você não se importa, n-não é? Afinal de contas, já tenho 21 anos.

— Importar-me? Mas é claro que me importo! Você pode viver em um mundo em que esse tipo de comportamento é aceitável, mas você tem uma irmã de 10 anos. E, enquanto estiver sob o meu teto, terá de se comportar de maneira normal. O que estava pensando, Anna? Sophia pode ter entrado em seu quarto e visto ele!

— S-sinto muito, mãe — Anna encolheu os ombros. — Quero dizer, o mundo m-mudou, e hoje em dia ninguém se importa com o se…

— Nem mesmo pronuncie essa palavra! — Mary estremeceu. — Como pode pensar em ser assim tão insolente? Devia se envergonhar! E estou envergonhada por ter falhado com você, por ter deixado você acreditar que esse tipo de comportamento não seja pecado!

— Mãe, você está parecendo terrivelmente p-provinciana, e muito católica e…

— Nem sequer ouse me falar dessa maneira, minha filha! Não me importa que você seja uma grande estrela no palco, quando estiver em minha casa precisa obedecer a algumas regras! E não quero saber… — Mary apontou para cima — desse tipo de libertinagens aqui!

Anna continuou sentada calmamente, fumando seu cigarro. Mary observou quando a cinza caiu no chão, e Anna não fez nenhum movimento para impedir que isso acontecesse. Por fim, Anna inclinou a cabeça.

— Tudo bem, mãe, eu compreendo. E se você n-não aprova a minha vida, tudo bem, s-sou mulher agora, tenho o meu salário. Quem sabe esteja na hora de encontrar o meu p-próprio teto.

Sem outra palavra, Anna retirou-se da cozinha, batendo a porta atrás de si.

Um dia depois, ela fez as malas e mudou-se.

Jeremy tentou confortar a esposa, tranquilizando-a de que o comportamento de Anna era normal para uma garota da era moderna. Uma garota que não só encontrava seu caminho como adulta, mas que também era cada vez mais admirada por um público que a adorava. Apesar de ver sentido no que Jeremy dizia, Mary não conseguia se conformar com a partida abrupta da filha.

Nas semanas seguintes, Anna não fez nenhuma tentativa de entrar em contato com a mãe. Todas as notícias que Mary tinha dela vinham através dos inúmeros artigos de jornais e colunas de fofocas, onde Anna era um tema corriqueiro. Ela era fotografada com os astros do teatro e do cinema em reuniões festivas, e nos braços de diversos homens da aristocracia. A tímida garotinha pela qual Mary tanto se sacrificara convertera-se em uma criatura que ela não conhecia, ou não entendia. E, no entanto,… Mary reconhecia que a filha tinha uma vontade férrea. Tudo o que Anna queria normalmente ela conseguia. O fato de agora estar no topo da profissão que escolhera era um testemunho disso. E a facilidade com que Anna cortara a mãe, o pai e a irmã tão completamente da sua vida ilustrava uma insensibilidade até então não demonstrada.

Entretanto, quando as nuvens tempestuosas da guerra acumularam-se sobre a Europa outra vez, Mary percebeu que tinha problemas suficientes sob seu próprio teto. Jeremy, que se distanciara muito da pessoa de quando ela o conhecera, recomeçara a ter pesadelos. O tremor das suas mãos e a gagueira ficaram mais pronunciados. Todas as manhãs ele lia o Times, e seu semblante tornava-se sombrio. Seu apetite diminuiu, e Mary assistia a ele se recolher para dentro de si mesmo. Não importava quantas vezes ela lhe dissesse que, se houvesse guerra, nenhum exército o chamaria, o medo de Jeremy de voltar ao seu pior terror aumentava sem cessar.

— V-você n-não entende, Mary. Eles podem não me querer de início, mas, à medida que forem se desesperando por bucha de canhão, pegarão qualquer um para atirar contra os alemães. Acredite, já vi isso antes, homens mais velhos do que eu atirados no campo para fazer número.

— Jeremy, querido, está nos seus registros médicos que você sofre de neurose de guerra. É claro que não vão querer você de volta.

— Fui mandado às t-trincheiras q-quatro vezes, Mary. Em um estado muito p-pior do que me encontro hoje. — Ele abanou a cabeça em desespero. — Você não entende a g-guerra, Mary. Por favor, não t-tente.

— Mas todo mundo diz que será diferente desta vez. Não há mais trincheiras, querido — ela insistia com ele sempre que podia. — Esta guerra, se acontecer, será travada com o equipamento moderno que foi desenvolvido. Ninguém, em seu juízo perfeito, pensará em sacrificar toda uma geração de homens como da última vez. Por favor, Jeremy, as coisas mudaram.

Jeremy se levantava com a raiva, a frustração e a dor evidentes em seu semblante, e deixava a sala.

À medida que as notícias da guerra pioravam e a inevitabilidade de outro conflito tornava-se certa a cada dia, Mary lamentava-se internamente pelo marido. Jeremy não acompanhava a esposa e a filha na cozinha, durante o jantar, e preferia comer em seu estúdio.

— O que o papai tem? — perguntava Sophia enquanto Mary a colocava para dormir.

— Nada, querida, ele só não anda se sentindo bem — Mary a confortava.

— Vai acontecer a guerra? É por isso que o papai está preocupado? — ela perguntava, os imensos olhos verdes, tão parecidos com os do pai, fixos em Mary.

— Talvez. Mas, se acontecer, não se pode fazer nada. Não se preocupe, querida. Seu pai e eu sobrevivemos à última para contar a história e resistiremos de novo.

— Mas hoje está tudo diferente, mãe. Anna foi embora e o papai está parecendo… — Sophia suspirava — como se tivesse partido também. Nada está igual como era antes. Estou com medo, mãe, não gosto disso.

Mary segurava a filha entre os braços, afagando seu cabelo, exatamente como fizera com Anna tantos anos antes, e murmurava palavras calmas em que não acreditava mais.

O verão se arrastou e os sinais dos preparativos para a guerra iminente começaram a ser vistos na cidade. Mary sentiu como se todo o país estivesse em um estado de animação suspensa, prendendo a respiração diante do inevitável. Jeremy estava catatônico. Chegara a se mudar do quarto e, agora, dormia no quarto de vestir, com o pretexto de que seus pesadelos perturbavam o sono de Mary, à noite. Com a testa franzida de ansiedade, Mary implorou-lhe para entrar em contato com seu regimento para aliviar seus temores.

— Você se tornou um inválido, querido. Não há chance de que venham a convocá-lo. Por favor, Jeremy, escreva uma carta e dê sossego aos seus pensamentos. Ao menos, depois de ter uma resposta definida, se sentirá melhor.

Mas Jeremy continuava sentado em sua poltrona no estúdio, o olhar perdido na distância, como se não a escutasse.

Quando a guerra foi declarada, no início de setembro, Mary teve uma sensação de alívio. Quem sabe, agora, saberiam melhor sobre sua situação. Dez dias depois, Mary estava deitada na cama lendo um livro quando ouviu baterem à sua porta.

— P-posso entrar? — indagou Jeremy.

— Claro que pode. Pelo amor de Deus, este é seu quarto. — Mary observou Jeremy enquanto ele se arrastava em sua direção. Perdera bastante peso e seu rosto estava abatido e encovado, como quando o conhecera. Ele se sentou ao lado da cama e ela lhe tomou as mãos nas suas.

— Mary, q-quero lhe dizer q-que a amo. Você, Anna e Sophia deram um s-sentido p-para a m-minha v-vida.

— E você à minha — disse Mary carinhosamente.

— S-sinto muito por s-ser uma p-pessoa d-difícil nas últimas s-semanas. Não s-serei mais assim, p-prometo.

— Compreendo, querido. Espero que, agora que começou, você venha a se sentir melhor.

— Sim. — A palavra não foi mais do que um suspiro. Jeremy estendeu o braço e tomou Mary nos braços. — E-eu amo v-você, m-minha q-querida. N-nunca se esqueça disso, está bem?

— Nunca.

— Seja forte e c-corajosa, e t-tão bondosa como sempre. — Ele a soltou, beijou-a nos lábios e sorriu. — V-você se importaria s-se eu me deitasse aqui c-com você esta noite? Não q-quero ficar sozinho.

— Meu amor — replicou Mary docemente —, esta é a cama e eu sou sua esposa.

Então Jeremy acomodou-se ao lado dela, e Mary segurou o marido entre os braços, acariciando seu cabelo, até ouvir os sinais evidentes da sua respiração regular. Incapaz de dormir, ela ficou observando Jeremy. E, apenas de madrugada, quando estava contente por ele dormir profunda e tranquilamente, ela se permitiu dormir também.

 

Na manhã seguinte, Mary deixou Jeremy na cama e desceu a escada para preparar o café da manhã para Sophia. As duas saíram de casa às 8h15, para fazer a caminhada de dez minutos até a escola de Sophia, próxima a Brompton Road.

— Tenha um bom dia, querida, e depois das aulas estarei aqui, como de costume, para buscá-la.

Mary observou enquanto Sophia se afastava e entrava na escola. O dia estava ensolarado e luminoso e, enquanto Mary caminhava na direção da fileira de lojas, onde normalmente comprava carne e hortaliças, sentiu-se mais animada por algum tempo. Pelo menos Jeremy conversara com ela na noite anterior e parecia mais calmo. Muito embora essa nova guerra prometesse trazer de volta todo aquele inferno, Mary sabia que, desde que ela e Jeremy se mantivessem unidos, tudo acabaria bem. Ela se demorou mais do que o normal ouvindo as conversas das outras mulheres com o açougueiro sobre a probabilidade de racionamento e sobre quando os alemães começariam a bombardear Londres de verdade. O que quer que acontecesse, Mary pensou durante o caminho de volta para casa, ela e Jeremy enfrentariam juntos.

Não havia sinal do marido quando ela chegou em casa. Mas isso não era incomum; muitas vezes, Jeremy dava uma caminhada pela manhã para comprar o jornal, e depois passeava pelos Kensington Gardens, no caminho de casa.

Mary ocupou-se das tarefas de costume, pensando como muitas pessoas achariam estranho que preferisse se ocupar dos afazeres domésticos ela mesma, quando era possível empregar alguém para isso. Ela demitira a empregada quando se casara com Jeremy, sentindo-se pouco à vontade sob o que lhe pareceu ser um olhar condescendente, e só se permitia ter uma diarista para ajudá-la a cuidar de toda a casa. Mas também sentia prazer em manter a casa arrumada e limpa para o marido e a filha.

Ao meio-dia, quando tinha preparado um almoço leve para si e para Jeremy, mas sem ter, ainda, escutado a chave girar na fechadura da porta da frente, Mary imaginou se ele não fora dominado pela exaustão e ainda dormia na cama onde o deixara.

— Jeremy? Jeremy? — ela chamou de quarto em quarto.

O estúdio de Jeremy estava vazio, assim como a sala de visitas, a biblioteca e a sala de jantar. Uma fisgada de pânico atormentou Mary. Uma das coisas que tinham feito Jeremy sobreviver ao seu suplício fora a rotina. Era totalmente incomum ele não estar em casa na hora marcada para o almoço. Ela subiu a escada com a sensação de um mau presságio, abriu a porta do seu quarto e viu que a cama estava vazia.

— Onde você está, querido? Você está aqui? — ela chamou enquanto se encaminhava para o quarto de vestir dele. Bateu na porta e não obteve resposta, então abriu-a.

Demorou algum tempo para os seus olhos se acostumarem com o que viu. Um par de sapatos bem engraxados e polidos pendurados na frente do seu nariz. Ela olhou para cima, de onde o resto do corpo pendia preso por uma corda na viga do teto acima dele.

Depois que o médico chegou, declarou Jeremy morto e chamou a polícia para descer seu corpo. Jeremy foi posto em sua cama. Mary sentou-se ao lado dele, incapaz de parar de acariciar sua pele acinzentada. Catatônica com o choque, ela não conseguia raciocinar sobre o que acontecera.

— Tem alguma razão para o senhor Langdon ter tirado a própria vida, madame? — perguntou o policial.

Mary, segurando a cabeça do marido entre as mãos, aquiesceu.

— Talvez.

— Sinto fazer essas perguntas num momento que é muito difícil para a senhora, mas ficaria muito grato se pudesse esclarecer. E depois não a incomodaremos mais.

— Ele… — Mary limpou a garganta congestionada — ele pensava que seria convocado de novo. Ele sofria de neurose de guerra, entenda.

— E ele foi? Foi convocado?

— Ele foi considerado inválido pelo exército, depois da última guerra. Eu lhe disse, vez após outra, que não iriam convocá-lo, mas… — Mary abanou a cabeça em desespero — ele não acreditou em mim.

— Compreendo. Se for de algum conforto, senhora, meu tio sofria do mesmo mal. Nada que se pudesse dizer o afastava do medo. A senhora não deve se culpar.

— Não. Mas eu me culpo… me culpo…

A campainha soou no andar de baixo.

— Provavelmente é a ambulância, senhora, para levar seu marido. Vou abrir a porta para eles entrarem. Enquanto isso, poderia fazer a gentileza de revistar seu marido para ver se encontra algo que gostaria de guardar?

Mary aquiesceu. Observou o policial sair do quarto e então, vagarosamente, inclinou a cabeça sobre o peito de Jeremy.

— Ah, meu querido, por que você deixou a mim e à Sophia? Não podia ter confiado em nós para ajudá-lo a sentir-se melhor? Eu o amava, querido, com todo o meu coração. Não sabia disso? Não podia sentir isso?

Mary abanou a cabeça desesperada em meio ao silêncio, compreendendo que ele nunca mais lhe responderia. Como pedira o policial, ela tirou seu relógio, depois enfiou as mãos nos bolsos de Jeremy, à procura de algum objeto ali. Sentiu, com a mão, um papel no bolso esquerdo e tirou de lá um envelope. Sentou-se empertigada e viu as palavras “A Serviço de Sua Majestade” no canto superior esquerdo. Eram semelhantes às do envelope que Sean recebera na época da convocação para servir na Guarda Irlandesa.

Mary virou o envelope e viu que não fora aberto. Vagarosamente, rasgou o papel e puxou de dentro uma carta, sabendo, agora, o que fizera o marido dar cabo da própria vida.

“Departamento de Pensões do Exército, 5 de outubro de 1939”.

Prezado Sr. Langdon,

Informamos que sua pensão militar será aumentada de 5,15 libras por mês para 6,2 libras mensais. O valor entrará em vigor a partir de janeiro de 1940.

Atenciosamente, ”

A assinatura estampada na base era ilegível.

A carta caiu das mãos de Mary enquanto ela repousava a cabeça sobre o peito do marido e chorava como se seu coração fosse se abrir.

Mary e Sophia compareceram, sozinhas, ao enterro de Jeremy. Mary não fazia ideia de onde encontrar os pais de Jeremy. Mais dolorosa ainda foi a ausência de Anna, a quem Mary escrevera para informar.

As únicas companhias de Mary, naquele sombrio mês de outubro, foram Sophia e sua necessidade de conforto. Mary pensou que era uma bênção ela não ter tempo para se concentrar em si mesma. Pois ela bem que poderia ter procurado a mesma saída de Jeremy, tão profunda era a sua dor. Ela também sabia que havia coisas que deveria investigar em breve. Por exemplo, Jeremy entregava-lhe, todas as semanas, uma quantia de dinheiro para manter a casa. Atualmente, ela estava usando as próprias economias dos tempos em que trabalhava. E, embora não houvesse a probabilidade de ficarem sem dinheiro no futuro próximo, e de sempre poder recorrer à costura novamente, ela não fazia ideia de qual seria sua posição em relação à casa, ou se lhe fora deixada por ele em testamento.

A situação se esclareceu uma semana depois, quando a campainha tocou e um cavalheiro careca, trajando preto, tirou o chapéu-coco para ela.

— Senhora Langdon, estou certo?

— E quem quer saber? — disse Mary desconfiada.

— Sidney Chellis, do escritório de advocacia Chellis e Latimer. Fui enviado aqui por Lorde e Lady Langdon, os pais de seu finado marido, para discutir uma questão comercial. Posso entrar?

Exausta, Mary aquiesceu. Enquanto o conduzia à sala de visitas, ela pensou que Jeremy nunca lhe dissera que era filho de um lorde e que, na verdade, nunca comentara sobre a família.

— Por favor, sente-se. Quer que lhe prepare um chá? — ofereceu ela.

— Isso não será necessário. O que vim dizer não tomará muito tempo. — O advogado tirou alguns documentos de sua pasta, que colocou sobre os joelhos.

Mary sentou-se nervosa em frente a ele.

— Será que eu… fiz alguma coisa errada?

— Não, senhora Langdon, com certeza a senhora não tem nenhum problema. Pelo menos não que eu saiba. — Ele olhou para ela, por cima dos óculos, e arqueou as sobrancelhas. — A senhora sabe, estou certo, que seu marido fez um testamento, deixando esta casa, sua pensão militar e sua renda pessoal para a senhora?

— Não, senhor Chellis, não cheguei a ponto de investigar esse assunto. Estive muito ocupada com o meu luto — replicou Mary com sinceridade.

— Bem, ele deixou seu testamento aos cuidados da nossa empresa, que tem sido a representante da família Langdon por mais de sessenta anos. Entretanto, há um pequeno problema.

— E qual poderia ser?

— Esta casa foi originalmente dada à avó do senhor Langdon pelo avô dele. Ela é de propriedade da família Langdon desde que foi construída, duzentos anos atrás. Uma cláusula no testamento da avó dele indica que seu marido teria o usufruto da casa durante seu período de vida. Mas, em caso de sua morte, ela voltaria para a família Langdon.

— Compreendo — disse Mary em voz baixa.

— Agora, a senhora e o senhor Langdon tiveram uma filha. Uma menina chamada… — o senhor Chellis consultou seus documentos — Sophia May. Está correto?

— Sim.

— E no momento ela tem 10 anos de idade?

— Isso mesmo.

— O problema que temos no caso — o senhor Chellis tirou os óculos e limpou-os com a barra do casaco — é que, simplificando, Sophia é uma menina. Quando ela se casar, assumirá o nome do marido. E se, digamos, Sophia e o marido se divorciarem, ou se, infelizmente, Sophia vier a morrer, haverá um problema para manter a casa na família Langdon. A senhora está acompanhando o que estou dizendo?

— Sim, senhor Chellis. Infelizmente, estou.

— Devo lhe dizer que, aos olhos da lei, se a senhora quiser questionar a cláusula do testamento, é possível que consiga ter o aval de um tribunal. Afinal de contas, a senhora é a viúva do senhor Langdon e tem sua herdeira. Entretanto, isso custaria algum dinheiro e… — o senhor Chellis estremeceu visivelmente — e seria muito desgastante. Portanto, Lorde e Lacy Langdon resolveram apresentar-lhe uma sugestão. Em troca de abrir mão da posse desta casa, eles estão dispostos a oferecer-lhe uma soma considerável. E, além disso, como um gesto de renúncia ao direito aos rendimentos privados do seu finado marido, seria feita uma conciliação substancial em benefício de sua filha, Sophia.

— Compreendo. — Mary digeriu o que o advogado acabara de dizer. — Portanto, senhor Chellis, a verdade é que Lorde e Lady Langdon querem que eu e minha filha saiamos da vida deles, assim como o filho deles?

— Eu não expressaria desse modo, senhora Langdon. É obviamente uma infelicidade que tenha havido um desentendimento entre Lorde e Lady Langdon e seu filho, mas não cabe a mim, seu advogado, fazer algum comentário. O acordo que sugeriram, em troca da casa, é uma soma de 1.500 libras. Além disso, a soma de cinco mil libras será liberada em favor de Sophia.

Mary ouviu em silêncio. Como fazia pouca ideia de quanto valia a casa ou, na verdade, de quanto era a renda privada de Jeremy, não podia comentar se o que estava sendo oferecido era justo. Além disso, todo o negócio deixava-lhe um gosto amargo na boca.

— Preparei um documento com a oferta para sua consideração. Meu endereço e telefone estão no alto. Depois que pensar a respeito e tomar uma decisão, ficaria grato se entrasse em contato diretamente.

— E quanto a Lorde e Lady Langdon? Eles não querem conhecer a neta? — ela murmurou, quase para si mesma. — Afinal de contas, Sophia tem o sangue deles.

— Como observei antes, senhora Langdon, sou apenas um mensageiro. Com certeza, não me foi sugerido que desejassem conhecer Sophia.

— Não… é claro que não. — Mary ergueu os olhos e contemplou o senhor Chellis. — Afinal de contas, a filha de uma criada irlandesa não seria aceitável na alta burguesia, não é mesmo?

O senhor Chellis baixou os olhos, envergonhado. Ele se ocupou em guardar os documentos na pasta.

— Como observei, se fizer a gentileza de me procurar quando tiver tomado sua decisão, providenciarei todas as providências necessárias. — Ele se levantou e inclinou a cabeça para ela. — Obrigado por me receber e espero, fervorosamente, que tudo possa ser resolvido para a satisfação de ambas as partes.

Mary acompanhou-o em silêncio até a porta.

— Até logo, senhor Chellis, entrarei em contato assim que tiver tempo para pensar na sua oferta.

Nos dias seguintes, Mary começou a fazer algumas pesquisas sobre a misteriosa família do marido. Ela descobriu que Jeremy era o segundo filho de Lorde e Lady Langdon, cuja propriedade familiar estendia-se por 200 hectares, no condado de Surrey. A propriedade era conhecida pela abundante caça ao faisão e ao pato. E por sua valiosa coleção de pinturas de Holbein. Mary também investigou quanto a casa, que atualmente chamava de seu lar, poderia valer se fosse posta à venda.

Muito embora o processo fosse desagradável, Mary pensava em Sophia. E no que era dela por direito, por ser filha de Jeremy. Alguns anos antes, ela teria concordado com qualquer oferta, mas agora era uma mulher mais velha e vivida, e compreendia claramente como o mundo funcionava. E, em benefício da filha, por mais chantagem que lhe fizessem, sabia que deveria considerar a situação com cuidado.

Mary também sabia que o que fizera, no passado, era um impedimento para enfrentar a família de Jeremy em um tribunal. Quem sabe onde poderia dar se o caso chegasse à imprensa? E se alguém do passado a reconhecesse e fizesse a ligação com Anna? E somasse dois mais dois...…

O escritório do senhor Chellis ficava em Chancery Lane. Mary apresentou-se à secretária dele e sentou-se, esperando ser recebida, forçando-se a manter os nervos e as emoções sob controle.

— Senhora Langdon — o senhor Chellis apareceu à porta de sua sala —, por favor, entre e sente-se.

— Obrigada. — Mary acompanhou-o e sentou-se na borda de uma poltrona de couro desconfortável. — Pensei sobre sua oferta, senhor Chellis — Mary reuniu todas as suas forças para dizer as palavras — e, se estiver disposto a dobrar a quantia que receberei pela minha casa, então a aceitarei.

O senhor Chellis mal ergueu as sobrancelhas. Como Mary desconfiava, sua contraproposta era esperada.

— Vou precisar consultar Lorde e Lady Langdon, mas acho que algo dessa ordem será aceitável para eles. A senhora obviamente deverá assinar um documento, negando todos os direitos ao testamento do seu marido. E também qualquer reivindicação que Sophia possa fazer no futuro em relação às propriedades dos Langdons.

— Compreendo. — Mary levantou-se, sem querer prolongar esse pacto com o demônio por mais tempo do que o necessário. — Ficarei esperando notícias suas. Tenha um bom dia, senhor Chellis.

Dois meses depois, Mary parou no saguão de entrada da sua casa e deu uma última olhada para o lar onde encontrara tanta felicidade. O carro chegaria a qualquer momento, e as duas malas que guardavam as roupas, dela e das filhas, mais um terceiro baú cheio de recordações, seguiriam depois delas. Mary sentou-se ao pé da escada, sentindo-se com as energias esgotadas. Confortava-se com a ideia de que, mesmo que conseguisse manter a posse da casa, não desejaria continuar nela. Cada ângulo, cada cheiro dentro daquelas paredes, lembravam-na do que havia perdido.

Viu Sophia descendo a escada em sua direção e estendeu os braços para a filha. Sophia aninhou-se neles, e Mary afagou seu cabelo.

— Tudo pronto?

— Sim — Sophia aquiesceu. — Estou com medo, mãe.

— Sei que está, filha. Mas será para melhor. Passei uma guerra na cidade de Londres e dizem que desta vez as bombas serão ainda piores.

— Eu sei, mãe. Mas…

Ouviram-se batidas na porta da frente.

— O carro chegou, querida.

Mary liberou a filha do abraço, depois sorriu e pegou-lhe a mão. Juntas, elas caminharam devagar para a porta da frente, as duas dizendo adeus, em silêncio, para a vida que deixavam para trás. Mary conduziu-a para fora e elas foram até o carro.

Era hora de voltar para sua casa.

AURORA

“Ah, o amor. Provavelmente, não é comum, entre os autores, chorar por suas histórias, mas considero a de Mary e Jeremy imensamente triste. Eles se amavam tanto e, no fim, nem mesmo o amor conseguiu vencer e salvá-lo. Às vezes, enquanto reflito sobre a minha jornada através da minha história, vejo que o amor não é capaz de superar os terríveis ferimentos infligidos a uma pessoa no passado. Se, ao menos, Jeremy tivesse aberto o envelope, visto que continha um aumento na sua pensão do exército, e não os documentos de convocação...…

Se ao menos.

Bem. Suponho que alguém poderia dizer o mesmo sobre tudo na vida...… especialmente a minha.

No entanto, se Jeremy tivesse aberto aquele envelope, o resto da minha história seria muito diferente e talvez ela nem valesse a pena ser escrita. Estou começando a entender como a dor nos dá força e sabedoria — eu, com certeza, mudei — e faz parte da vida, assim como a felicidade. Tudo tem seu equilíbrio natural, e como saberíamos que somos felizes se não passássemos por algumas tristezas de vez em quando? Ou nos sentíssemos saudáveis se nunca ficássemos doentes?

Recentemente, estive pensando sobre o conceito do ‘tempo’. Mary e Jeremy tiveram um momento juntos quando foram singularmente felizes. E talvez esses momentos sejam o máximo que nós, seres humanos, possamos esperar. Como sempre acontece em contos de fadas, o mal precisa acontecer, assim como o bem. Nós, seres humanos, sobrevivemos com a esperança de que esses bons momentos voltarão. E quando todas as esperanças quanto a isso desaparecem, como no caso de Jeremy, o que resta?

Para ser verdadeira, atualmente estou fazendo o melhor que posso para manter as minhas. Restam-me tão poucas.

Mas onde há vida...…

Não importa, chega de falar de mim. Voltarei agora aos tempos modernos, depois de Grania ter ouvido de Kathleen a história da sua bisavó. E foi quando me levaram à casa da fazenda em Dunworley pela primeira vez…”

 

Dunworley, West Cork, Irlanda

— Então, devo supor que “casa” fosse a Irlanda? — Grania estava sentada à mesa da cozinha, na casa dos pais, ao lado de uma caneca de chá. Ela decidira levar Aurora consigo à casa da fazenda e, ao mesmo tempo, perguntar a Kathleen o que mais ela sabia sobre a história de Mary.

— Sim. Mary voltou com Sophia e comprou uma bela casa de campo em Clonakilty.

— E nunca mais se casou outra vez?

— Não. — Kathleen abanou a cabeça. — Pelo que minha mãe me contou, a dor no coração que Mary sentiu em Londres foi o bastante pelo resto de sua vida.

— Mas a relação com a família Ryan continuou?

— Sim, e há uma ironia aí, para falar a verdade — concordou Kathleen. — É claro, não foi Mary que acabou se casando com Sean, mas sua filha, Sophia, quem se casou com Seamus Doonan, o filho da irmã mais nova de Sean, Colleen, e teve a mim!

— Ai, minha nossa, mãe! — Grania ouvia impressionada. — Então, Bridget e Michael Ryan foram seus bisavós? E, se ele tivesse vivido, Sean teria sido seu tio-avô?

— Isso mesmo. Colleen, quando se casou com Owen, meu avô, mudou-se para a nova casa da fazenda que fora, originalmente, construída para Sean e Mary. Depois eles a deixaram para o seu filho, Seamus, que se casou com a minha mãe, Sophia. E quando meu pai morreu, eu e seu pai tomamos as rédeas da fazenda — explicou Kathleen.

— Então sua mãe, Sophia, tinha sangue inglês em suas veias e sangue nobre também? — acrescentou Grania. — Seu outro avô era Jeremy Langdon?

— Sim. O que significa que você e Shane também têm. — Os olhos de Kathleen faiscaram. — Veja bem, você não é uma simples camponesa irlandesa como imaginava, Grania! Não que alguma vez se tenha notado isso em Sophia. Minha mãe era exatamente como a mãe dela, Mary: boa, amante do lar, sem nenhuma pose ou ostentação. Não como aquela irmã adotada dela, aquela Anna.

Grania notou o timbre da voz de Kathleen e observou seu semblante endurecer.

— Você a conheceu? — indagou Grania surpresa. — Pensei que ela e Mary tivessem se separado.

Kathleen sentou-se, pesadamente, junto à mesa.

— Bem, Grania, querida, há muito mais coisa ainda nessa história. Você ainda não somou dois mais dois?

— Não. — Grania abanou a cabeça. — Devia ter desconfiado de alguma coisa?

— Tendo estado na Casa de Dunworley, pensei que poderia. Naquela velha casa há pistas mais do que suficientes. Bem, o…

Nesse momento, Aurora entrou pela porta dos fundos com um dos filhotinhos recém-nascidos da cachorra collie embalado em seus braços.

— Ah, Grania! Senhora Ryan! — Os olhos de Aurora brilhavam de felicidade enquanto ela admirava o cachorrinho. — Ela é muito linda! E o Shane falou que posso dar um nome para ela! Pensei em Lily, por causa da minha mãe. O que vocês acham?

Grania viu a expressão no rosto da mãe, mas ignorou-a.

— Acho que estaria perfeito.

— Oba! — Aurora deu um beijo no alto da cabeça da cachorrinha recém-batizada. — Será que tem uma chance, assim, uma possibilidade de que…

— Precisamos perguntar ao seu pai primeiro, Aurora. — Grania leu o pensamento da menina. — Além disso, a Lily ainda não está pronta para ser separada da mãe.

— Mas eu posso vir aqui todo dia para vê-la? — perguntou Aurora. — Posso, senhora Ryan?

— Eu…

Grania observou enquanto a mãe, forçosamente, abrandava suas feições diante de uma menininha tão envolvente e animada.

— Bem… não vejo por que não.

— Obrigada! — Aurora aproximou-se dela e deu um beijo na face de Kathleen. Então suspirou, contente. — Adorei sua casa. Ela parece bem com um… — Aurora buscou a palavra — …lar.

— Obrigada, então, Aurora. — O último resquício de reserva da parte de Kathleen se desfez. — E o que vocês duas vão fazer para o seu chá, hoje à noite?

— Ainda não chegamos a pensar nisso, não é mesmo, Aurora? — disse Grania.

— Então por que não ficam aqui e tomam o chá com a gente?

— Sim, aí eu posso ficar mais tempo com a Lily. Vou lá com Shane. Ele disse que ia me levar para ver a mangueira onde tiram o leite das vacas.

Grania e Kathleen observaram Aurora enquanto ela saía da casa.

— Apesar de seu sentimento em relação aos Lisles, mãe, você precisa admitir que Aurora é uma garotinha adorável — arriscou Grania com cuidado.

— Você está certa. — Kathleen bateu na mesa e levantou-se, encaminhando-se para a bacia de batatas esperando para serem descascadas. — Não tem nada a ver com ela, pobre menininha. Como estão os pesadelos dela? — perguntou ela a Grania enquanto pegava uma faca da gaveta e começava a descascar.

— Ela parece melhor. Pelo menos não sai mais andando como uma sonâmbula. Mãe… — Grania queria retomar a conversa anterior — quando você me perguntou se eu tinha somado dois mais dois antes de Aurora aparecer, eu…

Foi a vez do pai dela interromper.

— Faça-me um chá, Kathleen, estou morrendo de sede — disse John, enquanto entrava na cozinha.

— Melhor você subir para tomar um banho enquanto preparo. — Kathleen franziu o nariz. — Você está cheirando a vaca e sabe que não suporto.

— Está bem, eu vou — disse John enquanto dava um beijo na cabeça de Kathleen para aborrecê-la. — E voltarei cheirando a rosas para o chá.

Naquela noite, Grania não teve outra chance de continuar a conversar com a mãe sobre o passado, mas, ao mesmo tempo, gostou de ver Aurora sentada à mesa com os Ryan e fazendo-lhes todos os tipos de perguntas sobre a vida na fazenda.

— Acho que eu ia querer viver numa fazenda se não virar bailarina — comentou ela com Grania, enquanto subiam pelo caminho do penhasco a caminho da casa. — Eu gosto de animais.

— Alguma vez você teve algum bichinho de estimação?

— Não. A mamãe não gostava de bichos. Ela dizia que cheiravam mal.

— Bem, acho que cheiram um pouquinho — concordou Grania.

— Mas gente também — disse Aurora tranquilamente quando chegavam à cozinha, às escuras, e Grania acendia as luzes.

— Muito bem, senhora. Vá direto para cima. Está tarde.

Depois que Aurora se acomodou para dormir, Grania — ainda pensando em Mary, sua bisavó, e em como lhe parecera uma mulher admirável — ficou vagando pela casa, incapaz de se aquietar. Ainda sem saber qual era sua relação com os Lisles e o que, no dizer da sua mãe, ainda não conseguira perceber, alguma coisa a incomodava no fundo da consciência. Algum fato que não se encaixava e que poderia juntar as pontas soltas. A resposta não estava no salão de visitas, nem na biblioteca, nem no estúdio de Alexander...… Grania abriu a porta da sala de jantar, lembrando-se da noite em que jantara ali, na companhia de Alexander.

E lá, pendurada sobre a lareira, encontrava-se a resposta. Quando estivera ali sentada, anteriormente, mal tomara conhecimento disso, mas, obviamente, aquilo ficara marcado em sua memória. Uma pintura a óleo de uma bailarina usando um tutu branco com uma penugem de cisne adornando sua cabeça escura. Os braços estavam cruzados sobre as pernas, o rosto invisível, uma vez que descansava sobre os joelhos. Ao fundo da pintura, liam-se as palavras: “Anna Langdon em A Morte do Cisne”.

— Anna Langdon… — Grania pronunciou o nome em voz alta. Essa era a ligação que não percebera antes. A razão pela qual sua mãe mencionara que Aurora herdara o talento da avó.

Grania subiu a escada uma hora depois, incapaz de confirmar sua teoria, uma vez que o rosto da dançarina, na pintura, achava-se oculto. Mas, se o rosto fosse o mesmo da mulher de olhos escuros, nas fotografias em branco e preto dispersas por toda a casa, Grania sabia que fizera a ligação.

No café da manhã na manhã seguinte, Grania perguntou distraidamente.

— Aurora, você chegou a conhecer sua avó?

Aurora abanou a cabeça.

— A mamãe disse que ela morreu antes de eu nascer. A vovó era muito velha quando teve a mamãe, foi isso.

— Você se lembra do nome dela?

— É claro que lembro! — Aurora indignou-se com a pergunta. — Era Anna, e ela foi uma bailarina. Que nem eu vou ser.

De volta à casa da fazenda, naquela tarde, com Aurora subindo alegremente as colinas para contar as ovelhas, na companhia de Shane, Grania abordou a mãe outra vez.

— E então, mãe, como aconteceu de Anna Langdon e o irmão mais novo de Lawrence Lisle, Sebastian, se conhecerem e, depois, casarem-se? Estou certa, não estou? Anna Langdon, a bailarina famosa, tornou-se Anna Lisle? A mãe de Lily e a avó de Aurora?

— Sim — Kathleen concordou, inclinando a cabeça. — Foi isso mesmo. Realmente, não adianta você me perguntar todos os detalhes, Grania, porque eu não era mais do que um bebê quando eles se casaram. Muito embora eu a tivesse conhecido, só posso supor o que deve ter acontecido antes disso. E o amor entre a minha mãe e a irmã não se sustentou, então a minha mãe raramente tocava no assunto.

— Mas por que Anna seguiu a mãe e a irmã à Irlanda? Numa época em que obviamente havia se tornado tão famosa?

— Bem, você precisa se lembrar de que Anna estava com quase 40 anos quando veio para a Irlanda para viver por aqui. E todas as bailarinas e beldades têm uma vida limitada, não é verdade? — acrescentou Kathleen com pragmatismo.

— Você se lembra bem dela, mãe?

— Ah, eu me lembro dela. — As mãos atarefadas de Kathleen fizeram uma pausa sobre a massa que estava enrolando. — Para uma criança como eu, criada neste fim de mundo, a tia Anna parecia uma estrela de cinema. A primeira vez que a vi, ela usava um casaco de peles verdadeiras. Eu me lembro da maciez dos pelos contra o rosto quando ela me abraçou e depois tirou o casaco para sentar-se e tomar um chá na nossa sala da frente. Ela tinha a compleição mais esguia que eu já vira em toda a minha vida. E usava saltos altos que pareciam montanhas para mim. E depois ela acendeu um cigarro preto. — Kathleen suspirou. — Como é que eu poderia me esquecer dela?

— Então ela era linda?

— Ela era… uma presença… uma força da natureza. E não é de surpreender nem um pouco que a primeira vez que o velho Sebastian Lisle pôs os olhos nela tenha ficado apaixonado na mesma hora.

— Que idade ele tinha?

— Ele devia estar com uns 60 anos, mais ou menos. Um viúvo, que se casara tarde, para começo de conversa. Adele, sua primeira esposa, era trinta anos mais nova do que ele. Ela morreu ao dar à luz… aquele menino.

— Sebastian já tinha um filho?

— Tinha — Kathleen estremeceu. — Seu nome era Gerald.

— Então Anna e Sebastian Lisle se casaram?

— Isso mesmo.

— O que Anna queria com um homem bem mais velho depois da vida que levara, mãe? — ponderou Grania.

— Quem sabe? Dinheiro, talvez. Minha mãe sempre disse que Anna era uma terrível perdulária, que gostava de viver no luxo. Quanto a ele, deve ter pensado que Anna representava tudo o que sempre quisera na vida. Eles se casaram três meses depois de se conhecerem.

— O irmão do guardião de Anna, Lawrence… — refletiu Grania. — Sebastian sabia quem era Anna?

— Ah, sim — continuou Kathleen —, os dois consideraram uma enorme piada o fato de Anna ter sido dada como morta durante todos aqueles anos.

— Mas… e quanto a Mary? O fato de Anna vir à Irlanda não causou um problema para ela?

— Bem, quando Anna apareceu na casa de Mary, na Irlanda, e depois conheceu Sebastian, Mary concluiu que deveria lhe contar tudo o que fizera para protegê-la quando ela era mais nova — disse Kathleen. — Ela fez aquilo com a maior boa-fé… quem sabe o que teria acontecido a Anna não fosse a intervenção de Mary? Anna sabia que, se Mary não contasse a Lawrence Lisle que ela estava morta e se ela não a adotasse, ela não teria tido a chance de seguir a carreira de bailarina.

— E Mary perdoou a filha por não procurá-la durante todos aqueles anos?

— Bem, depois de tudo o que haviam passado juntas, em Londres, havia uma forte ligação entre elas. E você já percebeu o quanto Mary amava Anna, como se fosse sua própria filha. Ela perdoaria tudo. A minha mãe, Sophia, foi quem deu o contra. Ela se referia a Anna como “a filha pródiga”.

— Quem sabe fosse ciúme dela com a mãe — disse Grania.

— Para falar a verdade, havia um pouco disso, sim. Mas antes de Mary morrer, pelo menos, elas se reconciliaram. E depois do que ela fizera para ajudar Anna no começo da vida, minha avó merecia isso, sem dúvida nenhuma. E vou lhe dizer uma coisa, Grania, toda semana, sem falta, apareciam flores frescas no túmulo de Mary, na igreja de Dunworley, flores que só pararam de aparecer no dia em que Anna morreu. Foi a maneira de ela pedir desculpas e mostrar que amava a mulher a quem sempre chamara de “mãe”.

Pensar sobre esse gesto provocou, de repente, um aperto inesperado na garganta de Grania e a dispôs mais favoravelmente em relação à Anna.

— Sebastian decidiu não mover uma ação contra Mary por roubar Anna do seu irmão tantos anos antes? — ela perguntou.

— Não sei o que Anna contou a ele sobre a situação, mas foi o bastante. E, além do mais, Lawrence Lisle tinha morrido havia muito tempo e “o que passou, passou”. No que dizia respeito a Sebastian, Mary cuidara bem do amor da sua vida e isso era tudo o que importava. Eu lhe juro, Grania, nunca vi um homem tão cego de amor por uma mulher.

Grania fez um esforço para compreender tudo aquilo.

— Foi então que Lily nasceu?

— Sim, Lily nasceu. Deus nos proteja a todos — Kathleen murmurou.

— E os três viveram felizes para sempre lá na Casa de Dunworley?

— De maneira alguma — Kathleen retrucou. — Você realmente acha que Anna Langdon se contentaria em fazer o papel de mãe a um bebê e a um enteado de três anos de idade, trancada em uma casa decadente, para lá do fim do mundo? — Kathleen abanou a cabeça. — Não. Contrataram uma babá para cuidar do bebê, e tia Anna partiu alguns meses depois. Ela dizia que se ocuparia de uma das suas apresentações de balé e desaparecia por semanas. Minha mãe tinha certeza de que havia outros homens na vida dela.

— Então Lily cresceu praticamente sem mãe, e Sebastian Lisle um marido enganado e solitário?

— Foi mais ou menos isso o que aconteceu, sim. E nunca se viu um homem mais infeliz do que Sebastian. Ele costumava descer aqui para nos ver, e trazia Lily consigo. Sentava-se à mesa e perguntava a minha mãe se tinha notícias da irmã. Eu tinha apenas 5 anos na época, mas ainda me lembro do rosto dele...… era a imagem do desespero. Era como se estivesse encantado por ela, o pobre coitado, tão desiludido. E quando tia Anna voltava de aonde quer que tivesse ido, às vezes depois de meses, de ausência, ele sempre a perdoava.

— E quanto a Lily? Que tipo de vida deve ter tido essa criança… um pai idoso e uma mãe ausente.

O rosto de Kathleen se fechou de repente.

— Chega dessa conversa agora! Não quero falar mais sobre esse assunto. E quanto a você, Grania? E quanto ao seu futuro? — ela retaliou. — O pai de Aurora deve voltar em breve e você não será mais necessária quando isso acontecer.

— Assim como você não quer falar sobre o passado, não estou disposta a discutir o futuro. — Grania levantou-se; mãe e filha tinham chegado a um beco sem saída em sua conversa. — Antes que Aurora volte com Shane, vou subir para o meu quarto para pegar umas coisas e levar lá para a Casa de Dunworley.

— Como quiser — disse Kathleen em direção à filha que já se ausentara da cozinha em direção à escada. Ela suspirou, sentindo-se esgotada por pensar no passado, e pensando que a história a ser contada ainda não terminara. Mas contara o bastante por ora e, além disso, achava que não teria forças, no momento, para contar o restante. Talvez nunca tivesse.

— Ah, e então, querida? — John entrou na cozinha e passou os braços ao redor dela. — Onde está o meu chá?

AURORA

“Acho que devo intervir a esta altura… as coisas estavam indo bem até que percebi que, se estivesse lendo esta história, me sentiria totalmente confusa. É complicado. Portanto, para facilitar sua leitura, vou recorrer a uma árvore genealógica da família.

Ufa! Levei mais tempo para esboçar esta árvore do que para escrever os três capítulos antes dela. Espero que ajude a explicar as coisas.

Estou preocupada que você ache que sejam coincidências demais. Mas, na verdade, não são. Nós — os Ryans e os Lisles — vivíamos em uma comunidade minúscula e isolada nos cafundós do mundo. Fomos vizinhos por centenas de anos, portanto acho que não é de se surpreender que a vida de todos nós, e nossas subsequentes histórias, tenham se entrelaçado.

Admito que chegar à compilação da árvore foi difícil. Sei que, em breve, também serei mais um dado acrescentado e me tornarei parte do passado, não do presente. Também me ocorre que nós, humanos, vivemos como se fôssemos imortais, tomando decisões como se fôssemos viver para sempre, sem aceitar o inevitável, que cabe a todos nós. É claro, é a única maneira de podermos sobreviver.

Acho que está na hora de me distanciar da Irlanda e do passado e olhar para o futuro, para a América. A terra da esperança, onde os sonhos se realizam, onde tudo é possível.

Leitor, este é o país de que eu gosto!

Os americanos acreditam em magia, assim como eu, porque são um povo jovem, que ainda não aprendeu a sabedoria e o cinismo que acompanham a experiência.

E vamos descobrir como Matt está passando...

 

Matt mudava de um canal para o outro na TV, sem se demorar muito em cada um. Mesmo que houvesse algum programa que normalmente despertaria sua atenção, não era capaz de se concentrar nesse momento. Sua cabeça andava “pelas tabelas” e, ultimamente, nem conseguia dormir direito. Fazia mais de sete semanas que Grania se fora, e ele não falava com ela havia quatro. O comentário constante de Charley de que “ela voltará quando estiver mais calma” já não se sustentava. Estava se tornando cada vez mais evidente, a cada dia que passava, que Grania certamente não voltaria mais. E sua vida, como um casal, estava acabada.

Muitos dos seus amigos, ao tomar conhecimento do que lhe acontecera, insistiam para que seguisse em frente, lembrando que ainda era jovem e estava em uma fase da vida em que muito dos seus contemporâneos ainda não haviam se estabelecido. Nem sequer estava casado com Grania — a insistência dela em viver com ele, como que para provar à família e aos amigos dele que não era uma mulher interesseira e exploradora da sua fortuna, fora mais importante para ela do que usar um anel de compromisso.

No fundo, os amigos estavam certos. O loft que dividia com Grania era alugado, e, juntos, eles não tinham bens de valor. Certamente, não o esperava um divórcio doloroso e prolongado. Ele poderia simplesmente encerrar o contrato de aluguel do apartamento — o que precisaria fazer logo, uma vez que era impossível mantê-lo sozinho — encontrar outro lugar para morar e cuidar da própria vida. Incólume, tanto do ponto de vista material quanto financeiro.

No entanto, do ponto de vista emocional, estava começando a perceber, a história era completamente diferente.

Durante suas idas e vindas mentais ao passado, Matt concentrara-se na primeira vez que vira Grania. Ele e alguns dos amigos tinham ido à inauguração de uma minúscula galeria, no SoHo — um dos amigos conhecia o proprietário da galeria, e o plano era dar uma passada por lá para cumprimentá-lo e, depois, seguir para o centro da cidade para jantar. O pessoal chegara, acompanhado das garotas, perfeitas como sempre nos seus jeans de grife e cabelos na última moda.

A galeria estava apinhada de gente e Matt admirava, distraidamente, as obras de arte moderna exibidas em suas paredes; borrões estranhos que pareciam ter sido pintados por crianças não eram exatamente sua praia. Então seus olhos foram atraídos para uma pequena escultura em cima de um pedestal, no canto da sala. Ele se aproximara para examinar mais de perto e notou que se tratava de um cisne modelado de maneira maravilhosa. Suas mãos foram atraídas para acariciar o pescoço elegante e a impressão de suavidade das asas emplumadas que o escultor conseguira transmitir para sua criação. A obra o agradara. Era uma peça linda. Ele verificara o preço e constatara que não era nada exorbitante. Procurara alguém que lhe informasse como poderia proceder à aquisição da peça. Depois de encontrar o dono da galeria conversando com Al, um dos seus amigos, foi levado até um balcão onde apresentou o cartão de crédito.

— Tem bom gosto, senhor. Essa também é uma das minhas peças favoritas. Tenho o palpite de que quem a criou irá longe. — O proprietário da galeria apontou através da sala. — Ali está a autora da obra. Quer conhecê-la?

O olhar de Matt fixara-se na figura delicada, usando um jeans velho e uma camisa xadrez vermelha. Seu cabelo louro encaracolado pendia — provavelmente sem que tivesse sido lavado — em uma massa desgrenhada sobre seus ombros. Quando o proprietário da galeria chamou seu nome, ela se voltou na direção deles. Matt mergulhou fundo naqueles grandes olhos cor de turquesa, o nariz arrebitado entre um arquipélago de sardas e os lábios rosados. Com o rosto sem maquiagem, ela se parecia com uma criança, e sua naturalidade não poderia fazer maior contraste com as mulheres sofisticadas com quem chegara.

Enquanto a garota respondia ao sinal feito pelo proprietário da galeria para que se aproximasse, Matt observava seu corpo esguio, os quadris estreitos e as pernas longas. Aquela garota não era uma beldade, mas a beleza genuína e o brilho intenso dos seus olhos provocaram uma reação instintiva em Matt. Enquanto a admirava, não sabia se queria atirar os braços ao redor dela e protegê-la ou arrancar-lhe a roupa de qualquer jeito e fazer amor com ela.

— Grania, este é o senhor Matt Connelly. Ele acabou de comprar seu cisne.

— Olá, senhor Connelly — ela sorriu para ele, e o lindo narizinho enrugou de satisfação. — Fico feliz que tenha gostado. Com certeza, agora, poderei comer pelas próximas semanas!

Considerando em retrospectiva, talvez aquele discreto sotaque irlandês fosse muito mais agradável de ouvir, e também mais sensual, que a entonação seca dos nova-iorquinos.

Fosse como fosse, 15 minutos depois Matt encontrara-se perguntando a Grania se poderia convidá-la para jantar. Ela declinara, dizendo que já tinha combinado de sair com o proprietário da galeria e com os outros artistas que exibiam sua arte naquela noite. No entanto, ele conseguira induzi-la a lhe fornecer o número do seu celular, usando a desculpa de querer ver outras peças do seu trabalho no estúdio onde ela trabalhava.

Matt, tão bonitão, cordial e atraente, nunca tivera problema para convencer uma garota a se encontrar com ele. Grania Ryan revelara-se diferente. Ele lhe telefonara no dia seguinte e deixara uma mensagem no correio de voz, mas não recebera nenhuma chamada em resposta. Tentara lhe falar de novo alguns dias depois, e dessa vez ela atendera, mas parecia estar ocupada na maioria das noites.

Quanto mais ela parecia evitá-lo, mais Matt determinava-se a conseguir se aproximar. Finalmente, ela concordara em se encontrar com ele para um drinque em um bar que ela conhecia no SoHo. Inadvertidamente, Matt se apresentara todo elegante, de blazer, camisa de algodão e sapatos escoceses para se encontrar em um estabelecimento da boemia onde parecia um peixe fora da água. Grania parecia pouco se importar com o que vestiria para a ocasião — ainda estava com os mesmos jeans desbotados, mas, dessa vez, com uma velha camisa azul. Ela pedira meia caneca de Guinness e bebera de um só gole como se estivesse sedenta.

— Não posso demorar, sinto muito.

E não dera a menor explicação sobre o motivo que a impedia de ficar.

Matt, tendo finalmente conseguindo atraí-la para sua companhia, fizera um esforço viril para se aproximar. Grania parecera inteiramente desinteressada na maioria das coisas que ele tinha a dizer, com a atenção voltada para outro lugar. Finalmente, ela se levantara, pedira desculpas e dissera que precisava ir.

— Podemos nos ver novamente? — indagara Matt enquanto pagava a conta apressadamente e a seguia para fora do bar.

Ela se voltara para ele na calçada em frente e perguntara:

— Por quê?

— Porque eu quero. Não é uma razão boa o bastante?

— Falando francamente agora, Matt, vi todos os seus amigos modernos entrarem na galeria naquela noite. Não acho que eu seja seu tipo, e você não é o meu.

Matt ficara embasbacado. Quando ela deu meia-volta, ele a seguiu.

— Ei, qual você acha que é o “meu” tipo, Grania?

— Ah, você sabe… nascido em Connecticut, saído de uma escola elegante, depois formado em Harvard para, então, fazer fortuna em Wall Street.

— É, bem, sim, em parte isso é verdade. — Matt enrubescera violentamente. — Mas eu, com certeza, não tenho a intenção de seguir minha turma nessa carreira financeira. A propósito, estou estudando para o meu ph.D. em psicologia na Universidade de Columbia. Depois de me formar, espero me tornar um professor.

Ao ouvir isso, Grania parara e voltara-se para ele, com um leve interesse nos olhos.

— Verdade? — Ela cruzara os braços. — Estou surpresa. Você não dá a impressão de ser um estudante pobre, dá para entender? — Ela fizera um gesto com as mãos de cima a baixo para o corpo dele. — Então, o que aconteceu com o uniforme?

— Uniforme?

— Toda essa aparência produzida — ela dera uma risada. — Você parece ter saído direto de um anúncio de Ralph Lauren.

— Bem, ei, algumas garotas parecem gostar deste visual, Grania.

— Bem, algumas garotas não são eu. Sinto muito, Matt. Não estou aqui para levar uma cantada por um engomadinho chique que pensa que pode se impor comprando a afeição de alguém.

As emoções de Matt variaram da raiva, vontade de rir e fascinação. Aquela linda baixinha irlandesa que, por fora, lembrava Alice no País das Maravilhas, mas obviamente era de aço inoxidável por dentro e tinha uma língua capaz de vergastar os segredos do interlocutor mais empedernido, o encantara.

— Uou, uou, espere aí! — ele gritara para ela enquanto a seguia pela calçada. — E aquela escultura sua que comprei? Gastei até o último centavo da herança da minha tia para comprá-la. Fazia meses que vinha procurando sem parar alguma coisa que me agradasse. Foi estipulado no testamento da minha tia que eu devia comprar alguma coisa bela com o dinheiro. — Matt se dera conta de que estava gritando com aquela baixinha, a 50 metros dele, e as pessoas paravam para olhar. Pela primeira vez na vida, ele não dera a mínima. — Comprei o seu cisne porque achei que fosse lindo. E, só para constar, meus pais estão fulos da vida comigo porque não estou seguindo os passos do meu pai! E mais: o “príncipe da cidade” não tem uma cobertura na Park Avenue, dona. Ele mora em um alojamento de estudante no campus, que tem uma cama e uma cozinha e banheiro comuns!

Grania parara de novo e voltara-se para ele, arqueando uma sobrancelha, em silêncio.

— Quer ir ver? Nenhum dos meus amigos da cidade vai lá. Fica num bairro não muito conceituado entre eles.

Diante desse comentário, Grania sorrira.

— E — Matt sabia que estava forçando um pouco a barra, mas de alguma forma era imprescindível que aquela garota conhecesse quem ele realmente era — existe toda a possibilidade de que não esteja cotado para herdar um centavo dos meus familiares ricos a não ser que faça o que eles pedem. Portanto, se você está procurando por esse tipo de valor, bem, acho que estamos quites.

Eles se encararam por uns bons 20 segundos. Assim como os transeuntes interessados, cativados pelo drama na rua.

Então foi a vez de Matt se afastar. Ele saiu andando depressa, sem se conformar com a explosão invulgar de segundos antes. Um minuto depois, Grania acompanhava seu passo.

— Você realmente usou sua herança para comprar o meu cisne? — perguntou ela em voz baixa.

— Claro que usei. Minha tia era uma grande colecionadora de obras de arte. Ela me disse para só comprar uma peça que me desse prazer instintivamente. E foi isso o que sua escultura fez.

Eles caminharam em silêncio por algum tempo, sem se preocupar para onde iam. Finalmente, Grania falara.

— Desculpe. Não devia ter julgado você dessa maneira.

— Ei, tudo bem, mas qual é o problema afinal sobre de onde venho e como me visto? — Ele a encarou. — Eu diria que é apenas uma questão de ponto de vista, eu poderia julgá-la do mesmo modo que me julgou.

— Não me venha com essa psicologia barata para cima de mim, senhor Connelly. Eu ainda poderia pensar que está tentando me impressionar.

— E eu poderia pensar que você teve algum envolvimento infeliz com alguém do meu tipo, no passado.

Grania enrubescera.

— Estou pensando que poderia ter razão. — Ela parara de andar de repente, voltara-se e o encarara. — Como sabia?

— Ei, Grania — Matt encolhera os ombros —, ninguém pode ter tanta prevenção contra Ralph Lauren. Suas roupas até que são bonitas.

— Tem razão. Sim, meu cara foi o suprassumo do idiota. Portanto, aí estamos — de repente, Grania não parecia muito segura de si mesma. — Bem, acho que…

— Ouça, em vez de ter esta conversa no meio da rua, que tal a gente ir a algum lugar para comer alguma coisa? — Matt piscara para ela. — E eu juro que ninguém estará usando blazer!

Aquela noite, e as das semanas seguintes, ficaram gravadas na lembrança de Matt como alguns dos melhores momentos da sua vida. Grania o impressionara muito com sua falta de malícia, desembaraço e franqueza. Acostumado com as mulheres elegantes e frívolas que escondiam seus verdadeiros pensamentos e sentimentos atrás de um véu de sofisticação, o que significava que um sujeito tinha de usar de adivinhação para saber em que terreno pisava, para ele Grania era como um sopro de ar fresco. Se ela estivesse feliz, ele saberia na hora, e se estivesse aborrecida ou com raiva, ou decepcionada com uma escultura que fazia no momento, ele saberia disso na mesma hora. Ela também tratava sua futura carreira, e o empenho que aplicava para construí-la, com o devido respeito. Não presumia, como tantos dos seus amigos, que isso fosse um jogo para ele, um período de evasão, até capitular e seguir o pai no mundo para o qual nascera.

Embora não tivesse uma instrução do nível da de Matt, Grania tinha uma inteligência extraordinária e exigente, e absorvia as informações como uma esponja. Depois as devolvia, usando sua capacidade intelectual instintiva para dar um sentido ao que ouvira. A parte mais desagradável da história fora ter de informar a Charley que seu relacionamento acabara. Para ele, aquilo não passara de um flerte casual que não levaria mesmo a nada mais duradouro. Ela aceitara bem a notícia, ou pelo menos dera a entender isso, e, enquanto os meses passavam, Matt passara a vê-la cada vez menos, assim, como a seus velhos amigos. Matt entendera que, considerando a procedência de Grania e as expressões nos olhos dela, era mais do que evidente que as pessoas que habitavam o mundo dele eram superficiais. Mas a questão era que esse era seu mundo e, muito embora se desfizesse dos amigos, quanto à família não era a mesma coisa.

Num fim de semana, ele a levara para casa para conhecer seus familiares. Grania passara os dias que antecederam experimentando numerosos estilos de roupa até que, faltando horas para partirem, ela explodira em lágrimas de frustração. Matt a abraçara.

— Escute, querida, a roupa não é importante. Eles vão amá-la por quem você é.

— Hum-hum — fora a resposta. — Duvido. Só não quero decepcioná-lo ou envergonhá-lo, Matt.

— Você não vai, eu juro.

O fim de semana passara bem como deveria, Matt pensara. Sim, sua mãe, Elaine, podia ter sido opressiva às vezes, mas tudo o que fizera, ou dissera, fora com as melhores intenções em relação ao filho. O pai fora menos acessível. Bob Connelly fora criado em uma geração em que os homens eram homens e não se esperava que se intrometessem nem nos assuntos domésticos nem nos dilemas emocionais da esposa. Grania fizera o melhor que pudera, mas o pai não era um homem com quem se tivesse uma conversa sincera sobre nenhum assunto.

Grania viajara em silêncio durante todo o caminho de volta para casa, e Matt passara um bom tempo, na semana seguinte, tranquilizando-a sobre o quanto seus pais haviam gostado dela. Talvez, pensara na época, se fosse capaz de lhe dar a segurança de que ela precisava, mostrasse a Grania que aquilo não era apenas uma aventura amorosa para ele, isso poderia ter ajudado. Seis meses depois, quando viajaram de férias para a Florença, depois de terem feito amor no quarto com venezianas, não muito longe do Duomo, Matt pedira a Grania para ser sua esposa. Ela o fitara com os olhos arregalados de surpresa.

— Casar com você? Matt, você está falando sério?

Matt fizera-lhe cócegas.

— Não, pensei em dizer isso por brincadeira. Grania, é claro que estou falando sério.

— Entendo… — ela ofegara. — Bem, é uma grande surpresa para mim, com certeza.

— Por que diabos a surpresa? — Matt arqueara uma sobrancelha. — Já passamos há muito da idade do consentimento; eu amo você e acho que você me ama. É a sequência natural das coisas, não é? O que os seres humanos normais fazem, nessas circunstâncias?

Os olhos de Grania tornaram-se sombrios, e ela parecera à beira das lágrimas. Não era a reação que Matt esperara nem quisera.

— Querida, não achei que fosse aborrecê-la. O que fiz de errado?

— Nada — ela suspirara. — É só que, é só que eu não posso… não, nunca serei capaz de me casar com você, Matt.

— Entendo. Posso saber por quê?

Grania enterrara o rosto no travesseiro e abanara a cabeça.

— Não é que não ame você, porque eu amo — ela dissera em voz abafada. — Mas não posso me ver sendo a senhora Matthew Connelly. Seus pais e amigos ficariam horrorizados, Matt, não importa o que você pense. Sei que ficariam. E eu passaria o resto da minha vida me sentindo culpada, com todo mundo me olhando como se eu fosse algum tipo de oportunista. Além do mais, perderia a minha própria identidade.

— Grania, querida — Matt suspirara —, não entendo por que você se preocupa tanto com o que as outras pessoas vão pensar! Isto não é problema deles, é um assunto nosso! É o que nos faz feliz. E eu ficaria muito feliz se você concordasse em ser a minha esposa. A menos, é claro, que tudo isso seja apenas uma desculpa para esconder o fato de que você não me ama.

— Não seja idiota, Matt! Você sabe que não se trata disso! — Grania sentara-se e correra uma das mãos pelo cabelo solto. — Trata-se do meu orgulho, Matt. Sou muito orgulhosa e sempre fui. Não poderia suportar que nem mesmo uma única pessoa olhasse para mim e pensasse que me casei pelos motivos errados.

— E isso é mais importante do que fazer o que é certo para nós?

— Você me conhece, meu bem, quando ponho uma coisa na cabeça, nada consegue mudar isso. Ouça — Grania estendera o braço e segurara as mãos dele —, se você está dizendo que quer passar o resto da sua vida comigo, e viver comigo, então tudo bem. É o que eu quero também. Não podemos fazer só isso, Matt? Sem o anel e o sobrenome e todo o resto?

— Você quer dizer, morar juntos?

— Sim — Grania sorrira da expressão chocada de Matt. — As pessoas fazem isso hoje em dia, você sabe. Além do mais, não conheço os aspectos legais aqui, mas depois de alguns anos eu provavelmente seria considerada sua esposa perante a lei de qualquer maneira. Matt… — ela esfregara suas mãos e o fitara muito séria —, você acha que realmente precisamos de uma folha de papel para mostrar ao mundo que nos amamos? Não seria mais de acordo conosco se vivêssemos juntos e não precisássemos dessa formalidade?

Apesar do empenho de Matt para dobrar as convenções da sua criação e viver com a mulher a quem amava, isso fora difícil para ele. Nunca considerara a possibilidade de viver com alguém, a vida toda presumira que imitaria os pais e os amigos num matrimônio tradicional.

— Eu… — ele abanara a cabeça — eu preciso pensar nisso por uns tempos.

— Eu entendo. — Grania baixara os olhos. — Quero dizer, ficarei feliz em usar seu anel se quiser me comprar um. Ou poderíamos ir à Tiffany’s, como a Audrey Hepburn fez em Bonequinha de Luxo, e marcar uma hora para escolher o anel!

— E o que aconteceria quando viessem os filhos? — indagara ele nervosamente.

— Jesus! — Grania sorrira. — Mal acabamos de pensar em juntar nossos trapinhos. Não sei se posso imaginar tão longe.

— Eu sei, claro. Mas, se estamos considerando isso, Grania, seria bom ter pensado nos filhos quando chegar a hora. Estou fazendo o possível para pensar como você, querida, mas o pensamento de que meus filhos sejam formalmente ilegítimos e nem possam tomar meu nome legalmente é demais para mim no momento.

— Bem, eu assumo o compromisso. Se estiver disposto a viver em pecado comigo, para começar, então me proponho a falar em casamento se e quando pensarmos em ter um bebê.

Matt ficara em silêncio por um momento, depois dera uma risada e a beijara no nariz afetuosamente.

— Senhora, você é o sonho de um poeta romântico. Muito bem, se é assim que você quer, negócio fechado. E nem pense — ele a olhara significativamente — que vou apertar sua mão. Conheço uma maneira muito melhor de selar um acordo do que essa.

Assim, para salvaguardar seu relacionamento com seu amor ferozmente orgulhoso, independente, frustrante, ainda que estimulante, e sempre surpreendente, Matt comprometera todos os seus princípios e fora morar com Grania. Ele lhe comprara um anel na Tiffany’s, como ela sugerira, e ela o usava orgulhosamente. Quando viram o anel, os pais só fizeram uma pergunta: quando marcariam a data?

Uma data que nunca chegara.

Agora, ali estava Matt, depois de oito anos, sem nada mais do que tinha naquele dia, em Florença. Ele se viu quase desejando o suplício de um divórcio litigioso; pelo menos isso daria grandeza equivalente à magnitude do que estava terminando. Os dois nunca tiveram uma conta conjunta no banco. Não havia praticamente nada para separar. Tudo o que os mantivera juntos fora um desejo mútuo de permanecer assim. Matt foi até a janela e olhou para fora. Talvez devesse simplesmente aceitar o que Grania dissera muito claramente e seguir em frente. Entretanto, sem saber exatamente o que fizera, ficava tudo mais difícil. Mas, se ela não estava disposta a dizer-lhe, ou mesmo conversar sobre o assunto, o que ele podia fazer?

— Oi, querido, teve um bom dia? — Charley fechou a porta atrás de si, aproximou-se e deu-lhe um abraço por trás.

— Ei, você sabe… — Matt deu de ombros.

— Você está triste? Ah, Matt, já se passaram semanas e é muito duro ver você se obrigar a passar por isso.

— Sei, bem, é assim que são as coisas, acho. — Ele se afastou do abraço dela e se dirigiu à cozinha para pegar uma cerveja. — Bebe alguma coisa?

— Por que não? — Charley deixou-se cair sobre o sofá. — Estou moída.

— Muito trabalho? — perguntou Matt distraidamente enquanto tirava a tampinha da cerveja e servia uma taça de vinho branco Chardonnay para ela.

— Pois é — ela sorriu —, bem que esta menina merecia uma festinha.

— E este menino também.

Charley aprumou-se e tomou um gole do vinho.

— Muito bem, então vamos fazer exatamente isso e dar um tempo para nós! Eu poderia ligar por uns velhos amigos… eles gostariam muito de ver você. O que acha?

— Não sei se estou com humor para participar de uma festa — Matt deu de ombros.

— Bem, não custa descobrir, não é mesmo? — Charley já abrira o telefone celular e estava pronta para digitar. — Se não puder fazer isso por si mesmo, faça por sua colega de apartamento, que está com os ouvidos cheios das suas queixas nas últimas semanas. Ei, Al! — disse ela no celular. — Tem algum plano para esta noite?

Uma hora e meia depois, Matt estava sentado em um bar elegante, no centro da cidade, o qual não frequentava havia anos, com um punhado de velhos amigos. Charley o desafiara a tirar do armário o blazer e os sapatos elegantes. A vida dele com Grania era passada em jeans e camiseta e um velho paletó de tweed que ela encontrara em um mercado de pulgas e que Grania dizia lhe dar um ar mais “professoral” para o seu trabalho.

Alguém pediu champanhe e Matt sentiu-se gratificado vendo que os amigos pareciam sentir prazer em voltar a vê-lo. Enquanto bebericava o champanhe, Matt concluiu que não saía com eles fazia exatamente oito anos. Nenhum deles chegara a assumir um compromisso mais sério, e a vida como pessoas de sucesso e brilhantes continuava a mesma. Quando lhe serviram a segunda taça de champanhe, ele sentiu como se estivesse em um túnel do tempo, mas até que não era desagradável. A presença de Grania em sua vida o forçara a se afastar, e ele se contentara com isso por causa do amor que sentia por ela. Mas Grania não estava mais ali…

Depois de três garrafas de champanhe, os seis amigos saíram para ir a um recém-inaugurado restaurante japonês e divertiram-se com um jantar animado, consumindo mais vinho do que deveriam e conversando sobre o passado. Depois da solidão e do sofrimento das últimas semanas, Matt sentiu-se tonto e desinibido com o álcool, entregando-se ao prazer de estar com os velhos amigos que conhecia desde a infância.

Já passava das 2 horas da madrugada quando saíram do restaurante. Um tanto oscilante, Matt fizera sinal para um táxi para levá-lo, e a Charley, de volta para casa.

— Foi ótimo ver você, amigão. — Al deu-lhe vários tapinhas nas costas. — Espero que possamos nos encontrar mais vezes no futuro.

— Quem sabe — reconheceu Matt, seguindo Charley ao banco de trás do táxi.

— Apareça em Nantucket para passar uns dias na Páscoa. Mamãe e papai vão adorar ver você, cara.

— Certo, Al. Cuide-se, hein? — Matt dissera alegremente.

Assim que o táxi partiu, ele fechou os olhos. Sua cabeça estava como nos tempos de calouro; girava como um prato em cima de um palito. Ele a inclinou para um lado, para ver se melhorava um pouco e encontrou o ombro de Charley. Sentiu os dedos afagarem seu cabelo, penteando-o suavemente. O contato lhe pareceu familiar e confortador.

— Você se divertiu, querido?

— Nossa — Matt murmurou, sentindo-se enjoado.

— Eu lhe disse que faria bem rever a turma. Nós todos ainda o amamos.

Matt sentiu o contato suave de lábios macios correndo pelo seu couro cabeludo.

Na manhã seguinte, Matt acordou com uma dor de cabeça de rachar. Deitado na cama, ficou olhando para o teto. Não conseguia se lembrar de ter pagado o táxi, subir pelo elevador ou de quando se enfiara na cama. Mudou de posição para encontrar algum alívio nas pulsações que pareciam fazer a cabeça vibrar.

A visão se clareou e ele percebeu, horrorizado, que não estava sozinho... também não conseguia se lembrar de como Charley acabara na cama deitada ao seu lado.

 

Grania tentava persuadir Aurora a comer uma cavala fresca que Shane pescara e lhe dera para cozinhar para o jantar, quando o telefone tocou.

— Alô? — ela atendeu, lambendo nos dedos o sabor fresco e salgado do peixe que levava até a boca de Aurora.

— É Grania?

— Sim.

— Aqui é Alexander Devonshire.

— Olá, Alexander. — Grania abafou o fone entre o queixo e a bochecha e respondeu à pergunta: “É o papai?”, que Aurora esboçara, com um “Sim” no mesmo estilo.

— Como está Aurora?

— Extremamente bem, eu diria.

— Ótimo. Claro que quero falar com ela, mas também queria que soubesse que pretendo chegar em casa no sábado.

— Tenho certeza de que ela vai ficar emocionada. Sente tanto sua falta.

Aurora inclinou veementemente a cabeça em resposta.

— E eu senti muito a falta dela. Está tudo bem por aí?

— Vamos indo muito bem, pode acreditar.

— Ótimo, ótimo.

A conversa parecia ir declinando, então Grania disse:

— Gostaria de falar com ela agora? Acho que ela tem muito o que lhe dizer.

— Eu adoraria. Nós nos vemos no sábado, Grania.

— Sim. Aqui está Aurora.

Grania passou o fone para Aurora e saiu discretamente da sala. Sabia que a conversa giraria em torno de animaizinhos de estimação e aulas de balé e subiu a escada para preparar o banho da menina.

Sentada na borda da banheira, enquanto a esperava encher, concluiu que a volta iminente de Alexander seria um chamado urgente para tomar algumas decisões.

Aurora e Grania passaram a maior parte dos dias que antecederam a volta de Alexander na casa da fazenda de Dunworley. Iniciara-se um relacionamento entre Aurora e a família Ryan. Como dissera seu pai, ela era uma garotinha esplêndida. Kathleen, tão propensa a repudiá-la, já perguntava a Grania se poderia trazer Aurora para a fazenda antes do café da manhã, para que a menina fosse ajudar a recolher ovos frescos. Aurora, por sua vez, batizara todas as galinhas da fazenda e ficara inconsolável quando uma raposa invadira o galinheiro e comera Eduína e Geni.

— Por mais sofisticados que sejam os modos dos Lisles, a pequena age com naturalidade com os animais. Ela daria uma maravilhosa esposa de fazendeiro — dissera Shane numa noite enquanto Aurora se ocupava em dar boa-noite a cada uma das vacas na mangueira.

— E isso não é uma coisa que se possa fabricar — acrescentou John.

Grania fez questão que Aurora tomasse um bom banho de banheira na manhã do regresso de Alexander a casa. Não queria a menina cheirando aos animais com que passava a maioria do tempo. Pensou com orgulho que Aurora parecia tão rosada, bonita e saudável quanto seria possível. Elas aguardaram no assento junto à janela do quarto de Aurora. Quando avistaram o táxi de Alexander despontar na subida da montanha em direção a casa, Grania permaneceu no andar de cima enquanto Aurora corria lá para baixo, para recepcionar o pai.

Por fim, Grania ouviu seu nome ser chamado e desceu a escada para encontrá-los. Aurora encontrava-se em pé no vestíbulo da entrada, seu rosto num misto de prazer e consternação.

— Grania! O papai voltou pra casa! Mas ele trabalhou muito, e ficou magro e meio cinza. Então ele tem que ir para a praia por causa do ar fresco. — Aurora pegou a mão de Grania e a puxou para a cozinha. — Vem falar oi para ele. Estou tentando fazer com que ele tome uma xícara de chá, mas não sei se vou conseguir.

Grania entrou na cozinha e tentou não demonstrar uma expressão de choque. Quando Aurora comentara sobre a aparência magra e abatida do pai fora um comentário sutil da verdade. Alexander parecia horrível. Ela lhe perguntou como fora a viagem e acabou lhe preparando o chá que Aurora havia começado.

— Posso lhe garantir — disse Alexander — que nunca vi Aurora assim tão saudável.

— Eu falei, papai, que eu não gosto de Londres. Eu gosto daqui. Porque tem ar fresco. — Aurora voltou-se para Grania. — O papai disse que posso ficar com Lily quando ela sair da mãe dela. Bom, não é?

— É sim. — Grania aquiesceu, voltando-se para Alexander. — Sinto muito se não era o que você queria. Minha família disse que Aurora poderia visitar a cachorrinha sempre que quisesse, lá na casa da fazenda, se ela fosse causar muitos problemas por aqui.

— Não. Acho que conseguiremos arrumar um lugar para a cachorrinha, afinal esta casa é bem espaçosa. Ainda mais se isso fizer Aurora feliz. — Alexander olhou para a filha, o afeto brilhando em seus olhos.

— Muito bem, acho que devo deixá-los à vontade em sua casa.

Tanto o pai quanto a filha não ocultaram sua ansiedade ante a sugestão de Grania.

— Não, Grania! Fique aqui — disse Aurora.

— Não, por favor, não vá ainda — acrescentou Alexander. — Pelo menos, fique por esta noite. E talvez possa levar Aurora até a fazenda, à tarde. Foi uma longa viagem de volta.

— É claro — concordou Grania, vendo a expressão exausta de Alexander. — Aurora, por que não vamos lá tomar o chá para que o papai possa descansar da viagem sossegado?

— Isso seria muita bondade sua, Grania. — Alexander abriu os braços para Aurora. — Venha cá e dê um abraço no seu pai. Senti muito sua falta, meu bem.

— Eu também, papai. Mas eu gosto da casa da fazenda. A família de Grania é legal.

— Ótimo. E não vejo a hora de conhecer sua cachorrinha.

Grania tentou não notar as lágrimas que afloraram aos olhos de Alexander. Nenhum dos dois queria que Aurora notasse também.

— Vamos pegar seu casaco e suas botas e sair, para deixar o papai em paz. — Grania forçou um sorriso. — Até mais tarde.

— Alexander parecia… — Grania suspirou — horrível. Ele emagreceu e seus olhos tinham uma expressão estranha… — Ela abanou a cabeça. — Sei que tem alguma coisa errada.

— Bem — Kathleen voltara seus modos bruscos de costume agora que Alexander regressara. — Você fez tudo o que pôde para cuidar de Aurora durante a ausência dele. O que mais ele precise resolver não lhe interessa, nem é da sua conta.

— Como pode dizer uma coisa dessas, mãe? — Grania retrucou irada. — O que quer que esteja errado com Alexander quase certamente afetará Aurora. E quer você goste, quer não, eu me preocupo muito com ela.

— Desculpe — Kathleen suspirou —, você está certa. Mas pode entender; depois do que leu naquelas cartas e do que lhe contei, não acha que a história está se repetindo? Sempre parece haver uma criança Lisle precisando do nosso amor e sob o nosso teto.

— Mamãe, por favor, pare com isso — Grania disse exasperada.

— Eu não posso me impedir de sentir o que sinto. É como se nossas famílias estivessem ligadas e não houvesse um jeito de escapar disso.

— Bem, se não houver jeito de escapar, estou disposta a aceitar isso. — Grania levantou-se, sem paciência para continuar suportando a atitude sem sentido da mãe. — Vou chamar Aurora para o chá.

Mais tarde, quando Grania e Aurora regressaram à Casa de Dunworley, encontraram tudo quieto.

— Parece que o papai estava tão exausto que resolveu ir para a cama — disse Grania quando conduziu Aurora para cima até seu quarto. — Melhor a gente não fazer barulho para acordá-lo. A viagem de volta da América é bem longa.

Aurora compreendeu isso e deixou que Grania a colocasse na cama.

— Boa noite, querida — Grania beijou-a na testa. — Durma bem.

— Grania, você acha que o papai está bem?

— Sim, acho que sim. Por quê?

— Ele parecia meio mal, não achou também?

— Vai ver que só estava cansado.

Grania não dormiu bem à noite. A presença de Alexander na casa a deixava nervosa. Percebeu que ele dormia na outra extremidade do corredor, ao lado do quarto que fora de Lily, e imaginou se sempre tiveram quartos separados. Verificara a maçaneta da porta do quarto de Lily anteriormente, e ela continuava trancada.

Alexander não apareceu para o café da manhã, assim, Grania e Aurora procederam à sua rotina matinal de costume. Grania continuou a manipular o barro, na forma do rosto de Aurora, enquanto sua modelo franzia a testa e levava o polegar, automaticamente, à boca. Na hora do almoço, Grania sentia-se verdadeiramente preocupada com Alexander. Aurora não fizera nenhum comentário sobre a ausência do pai, tão empolgada se sentia com a perspectiva da aula de balé naquela tarde, em Clonakilty. Pouco antes de ficarem prontas para ir à cidade, Alexander apareceu na cozinha. Ele deu um sorriso exausto.

— Vocês vão sair para algum lugar?

— Sim, papai, estou indo para a minha aula de balé.

— É mesmo? — Alexander forçou outro sorriso.

— Você não se importa, não é mesmo? — perguntou Grania nervosamente.

— Importar-me? Mas é claro que não me importo. Divirta-se, querida.

— Pode deixar. — Aurora estava se encaminhando para a porta, ansiosa para sair.

— Grania? — disse ele subitamente.

— Sim?

— Pensei se gostaria de me acompanhar para comer alguma coisa à noite. Não sei o que temos na casa, então talvez devesse perguntar se poderia acompanhá-la?

— Tenho certeza de que posso conseguir preparar alguma coisa simples. Não sabia se devia continuar a fazer compras já que estava de volta.

— Por que não conversamos sobre isso à noite?

Enquanto Aurora se encontrava na aula de balé, Grania passou pelo açougue e pelo mercado para comprar os ingredientes com que pudesse preparar o jantar. Quando chegou em casa, pôs a carne de carneiro para assar em fogo baixo, no forno, deu banho em Aurora e deixou que ela ficasse sentada por uma hora na frente da televisão. Cantando baixinho uma canção, enquanto cobria as batatas de azeite, temperando-as com alecrim para dar um sabor especial, ela viu Alexander aparecer na cozinha.

— O cheiro está bom — disse ele com prazer.

Grania ficou feliz em ver que ele parecia melhor essa noite. De banho tomado e barbeado, ele usava uma camisa de linha azul-escura e sapatos de couro imaculadamente engraxados.

— Onde está Aurora?

— No salão de visitas, vendo televisão. Espero que não se incomode, mas eu comprei uma para ela.

— Grania, você poderia, por favor, parar de me perguntar se me importo?! Minha filha parece mais feliz do que nunca. Se for preciso que ela tenha aulas de balé e uma televisão para isso, só posso dizer que fico muito grato. Por que não abre isto? — Alexander estendeu-lhe uma garrafa de vinho tinto. — Vou lá colocar Aurora na cama.

Enquanto Grania arrumava a mesa e abria o vinho para a chegada de Alexander, ela se deu conta, perturbada, de como se sentia bem nesse ambiente doméstico. E de como gostava dessa expectativa de jantar sozinha com ele. A adrenalina que sentia correr por suas veias não era, certamente, por causa do carneiro.

— Pronto, ela já está na cama e bem acomodada — disse Alexander, que voltou para o lado de Grania na cozinha. — Ela realmente parece estar vendendo saúde. E muito mais calma do que a vi em todos estes anos. — Ele pegou sua taça de vinho e brindou de encontro à dela. — Muito obrigado, Grania. Você com certeza foi como um fortificante para ela.

— Na verdade, foi um prazer. E também acho que ela desabrochou. Embora no começo…

— Sim?

— Ela caminhava dormindo. Encontrei-a uma noite na sacada com o perigo de cair. Pensei… — Grania parou, cortando a carne para montar os pratos e tornando a olhar para Alexander. — Por alguns segundos, pensei que ela fosse pular.

Alexander suspirou e sentou-se à mesa. Permaneceu em silêncio por um instante antes de falar.

— Ela diz que vê a mãe lá no penhasco.

— Eu sei — disse Grania em voz baixa. — Eu… tomei a liberdade de trancar a porta do quarto. Se quiser tornar a abrir, estou com a chave.

— Uma ideia muito sensata. E acho que deveria permanecer trancada. Você deve ter notado que é o quarto da minha finada esposa.

— Sim.

Alexander tomou um gole do vinho.

— É claro que levei Aurora para se consultar com diversos psicólogos por causa dos pesadelos e do sonambulismo. Eles me disseram que se trata de uma doença chamada transtorno do estresse pós-traumático. E que, um dia, ela viria a superar isso. Você disse que ela não teve mais pesadelos nem caminhou à noite nas últimas duas ou três semanas?

— Não teve mais nada.

— Então, talvez, tenha chegado esse dia.

— Vamos esperar que sim. Aurora era muito chegada à mãe?

— É difícil dizer — Alexander suspirou. — Não sei mesmo se Lily era capaz de se aproximar de alguém. Embora não houvesse dúvida de que amava a filha e de que Aurora a adorava.

— Ah. — Foi tudo o que Grania conseguiu oferecer como resposta. Ela continuou a escorrer as ervilhas frescas e acrescentou-as às batatas e à carne de carneiro no prato. — Aí está — ela disse enquanto levava os pratos para a mesa. — Não sei se gosta de caldo de carne, mas servi aqui nesta jarrinha e, ao lado, está o molho de hortelã. — Ela indicou a outra jarrinha.

— Nossa, que banquete. Depois de semanas comendo a comida de plástico, americana, estava sonhando com uma refeição desta. Muito obrigado, Grania — disse Alexander agradecido.

— Bem, é um banquete para mim também. Por mais que adore sua filha, é sempre bom ter a companhia de um adulto para variar — ela sorriu.

— Sim, você deve ter se sentido um tanto isolada por aqui, especialmente depois de ter morado em Nova York.

— Pelo menos tenho meus pais por perto. E eles se tornaram muito ligados a Aurora também. Por favor — Grania pegou a faca e o garfo —, coma antes que esfrie.

Os dois mastigaram em silêncio por algum tempo, Alexander só fez uma pausa para comentar como a carne estava macia.

— Então, Grania — disse ele, por fim, enquanto juntava a faca e o garfo sobre o prato, muito embora ainda restasse metade da comida —, quais são seus planos para o futuro? Já tomou suas decisões?

— Estive tão ocupada com sua filha que não cheguei a isso — Grania riu. — Ontem estive pensando que o último mês foi, provavelmente, a coisa exata de que eu precisava.

— Um tempo para refletir, quer dizer?

— Exatamente.

— Pretende voltar para Nova York?

— Como eu disse, ainda não tomei nenhuma decisão.

— Grania, preciso fazer-lhe uma pergunta.

Ela o fitou, notando a urgência repentina em sua voz.

— E sobre o que é?

— Por acaso não gostaria de permanecer aqui em casa com Aurora e comigo por mais tempo? Estarei muito ocupado e não terei tempo para dedicar a ela a atenção que precisa.

Grania fez uma pausa.

— Eu… não sei — replicou pensativa.

— Não. — Alexander baixou o olhar para a faca e o garfo sobre seu prato. — É claro que não sabe. Por que uma garota jovem e bonita como você ia querer ficar presa aqui, com uma menininha, por mais tempo do que precisasse? Desculpe, sinto-me mal por ter perguntado. Obviamente, você é a minha escolha mais cômoda, considerando como Aurora ficou bem e feliz com seus cuidados.

— Por quanto tempo seria? — Grania deu-lhe um olhar interrogativo.

— A verdade é que… não sei. — Alexander abanou a cabeça. — Realmente, não sei.

— Está com um problema no trabalho?

— Não… É difícil explicar — disse ele. — Perdoe-me por ser tão vago. Estive pensando que, se por acaso você aceitasse, no fundo do pátio há um celeiro que converti em estúdio quando Lily decidiu que queria experimentar a pintura. Não que tenha chegado a usá-lo, mas, certamente, é um espaço muito agradável para trabalhar. Com uma vista maravilhosa sobre a baía.

— Alexander, é muita consideração da sua parte oferecer, mas mal terei tempo de trabalhar enquanto estiver cuidando de Aurora em tempo integral.

— Bem, estava só pensando, agora que ela parece tão melhor, sobre sua ideia de Aurora entrar para uma escola local. Isso significaria que, se ela fosse à escola, você teria o dia inteiro para trabalhar.

— Bem, eu certamente acho que faria muito bem a Aurora entrar em contato com crianças da idade dela — Grania concordou. — Ela passa tempo demais sozinha ou na companhia de adulto. Mas, se…

Alexander pousou a mão sobre a dela.

— Compreendo, Grania. Estou sendo egoísta. Você tem uma vida longe daqui, e um talento. Certamente, não quero ficar no seu caminho. O que eu pediria, a menos que você tenha pressa de resolver imediatamente, é que fique aqui conosco pelas próximas duas semanas. Estou sob muita pressão e não terei o tempo que Aurora merece para passar com ela. Ou a energia — ele suspirou.

— Tudo bem, eu fico por mais duas semanas. — Grania sabia que estava reagindo muito mais ao contato da mão dele na sua do que a um processo de raciocínio lógico. — Afinal, preciso acabar a escultura de Aurora.

— Muito obrigado.

— E se quiser ir em frente, a diretora da escola é prima da minha mãe — disse Grania. — Estou certa de que ela poderia falar com ela sobre Aurora e ver se é possível a menina começar imediatamente.

— Maravilhoso! E, é claro, devo pagar à sua família pela cachorrinha que Aurora pretende criar.

— Por favor, Alexander, isso não será necessário. — Grania levantou-se e começou a tirar os pratos. — Quer um café?

— Não, obrigado. O café parece que faz a minha dor de cabeça piorar. Você sabe — Alexander comentou enquanto a observava andar pela cozinha —, a minha esposa sempre acreditou em anjos.

— É mesmo? — disse Grania enquanto colocava a louça na pia.

— É sim. Ela dizia que tudo o que é preciso fazer é invocá-los. — Alexander deu um sorriso triste, observando Grania. — Talvez ela estivesse certa, afinal.

Naquela noite, sozinha na cama, Grania viu-se no meio de um turbilhão. Acabara de concordar em compartilhar mais duas semanas da vida dos Devonshires e, quem sabe, até por mais tempo. Mas dessa vez não se tratava apenas de Aurora, tratava-se de Alexander. Talvez fosse por sua natureza maternal — Alexander parecia quase tão vulnerável quanto a filha — ou por algum tipo de técnica de deslocamento, como chamaria qualquer terapeuta nova-iorquino. Talvez ela estivesse vinculando suas emoções e sentimentos contrariados por Matt a outro homem. A situação com Matt continuava sem solução, no entanto, ali estava ela, fantasiando sobre o aconchegante cenário doméstico que Alexander e Aurora representavam. Um lar e uma família adequados, com uma criança já pronta, além do mais.

Grania suspirou e virou-se na cama. Talvez os anos de vida com um homem que tinha um ph.D. em psicologia e que era capaz de psicanalisar uma salsicha, se quisesse, a tivessem afetado mais do que pensara. Ou talvez fosse simplesmente sua vida dando uma guinada inesperada, e Alexander e Aurora ofereciam o consolo temporário de que precisava.

Além disso, outras duas semanas ali, enquanto Alexander resolvia os negócios urgentes que o pressionavam, mais a tarefa de colocar Aurora na nova escola, de longe representariam uma decisão para toda a sua vida. E Grania sabia muito bem que até mesmo as decisões para a vida inteira poderiam dar terrivelmente errado.

 

As duas semanas seguintes não contribuíram nem um pouco para os progressos dos planos de Grania em relação ao futuro. Três dias depois, na manhã em que Grania chegava em casa, depois de deixar Aurora na escola local, Alexander a esperava na cozinha com dois molhos de chaves nas mãos.

— Do estúdio no celeiro — disse ele, estendendo as chaves para ela. — Vá dar uma olhada e veja se lhe convém.

— Obrigada.

— Acredito que Lily nunca tenha entrado lá, portanto fique à vontade para mudar o que tiver vontade e use o local como se fosse seu. — Alexander inclinou a cabeça e deixou a cozinha.

Grania atravessou o pátio atrás da casa e abriu a porta do estúdio. Ela prendeu o fôlego quando admirou a vista da janela, do chão ao teto, que permitia a entrada de toda a luz natural de que um artista precisaria e abarcava uma extensão magnífica da baía de Dunworley. Grania olhou ao redor para o cavalete, novinho em folha e intocado, os tubos de tinta e uma variedade de caros pincéis de vison, ainda envolvidos na cobertura protetora de filme.

Os armários estavam repletos de telas e blocos de papel de esboço, imaculadamente brancos, e não se via um sinal de mancha de tinta em nenhuma parte. Grania parou junto à janela, olhando para o penhasco e imaginando por que Lily nunca tirara vantagem de um lugar tão maravilhoso. Qualquer artista profissional daria algumas das suas melhores pinturas — ou esculturas, a propósito — para ter um estúdio daqueles. Havia uma pequena antessala, contendo um banheiro e uma grande bancada com uma pia de aço inoxidável em que era possível lavar os pincéis.

Aquilo era tudo com que Grania jamais poderia sonhar.

Naquela tarde, ela transferiu sua escultura de Aurora, semiacabada, para o estúdio e colocou-a na bancada de trabalho em frente à janela. A única desvantagem, pensava Grania enquanto se sentava e lançava um olhar sonhador pela janela, era que corria o risco de passar os dias entretida com a vista em vez de se concentrar no trabalho.

Quando foi buscar Aurora na escola, a garotinha estava cheia de história sobre as novas amigas, e anunciou orgulhosamente que parecia ser a melhor leitora da classe. Naquela noite, durante o jantar, Alexander e Grania ouviram-na como pais orgulhosos enquanto Aurora contava ao pai sobre suas últimas conquistas.

— Então, papai, eu não sou tão mal-educada quanto você pensa. E sou bem inteligente.

Alexander mexeu em seu cabelo.

— Sei que você é inteligente, querida.

— Quem você acha que puxei? Você ou mamãe?

— Ah, a mamãe, com certeza. Eu sempre fui uma negação na escola.

— A mamãe era inteligente? — perguntou Aurora.

— Muito.

— Ah. — Aurora continuou a comer e depois disse. — Mas ela ficava um tempão na cama, ou saía de casa que nem você.

— É verdade, era assim mesmo, a mamãe sempre se cansava.

— Está na hora do seu banho, senhora. — Grania percebera Alexander contrair o semblante. — Precisamos acordar cedo amanhã para chegar à escola no horário.

Quando Grania tornou a descer a escada, Alexander estava na cozinha lavando a louça.

— Deixe isso aí — disse ela envergonhada. — Esse é o meu trabalho.

— De maneira alguma — disse Alexander. — Você não está aqui como a empregada doméstica, mas para cuidar de Aurora.

— Não me importo nem um pouco — disse Grania, pegando um pano de prato e parando, solidariamente, ao lado dele, na pia, enquanto ele lhe passava os pratos para enxugar. — Isso está enraizado em mim, tendo sido criada em uma casa de homens.

— É um bom modelo para Aurora. Você realmente é uma mãe natural, Grania. Alguma vez já pensou em ter filhos?

— Eu…

Alexander percebeu a voz de Grania falhar.

— Desculpe, disse alguma coisa errada?

— Não. — Grania sentiu as lágrimas assomarem aos seus olhos. — Perdi um bebê há algumas semanas.

— Compreendo. — Alexander continuou ritmicamente a lavar os pratos. — Sinto imensamente. Deve ter sido… deve ser… difícil para você.

— É, sim, eu… — Grania suspirou. — Foi sim.

— Foi por isso que você deixou Nova York?

— Foi. — Grania podia sentir os olhos azul-marinho de Alexander demorarem em seu rosto. — Isso e outras coisas. Não importa…

— Haverá outro, tenho certeza disso.

— Sim. Vou guardando as coisas no armário, certo?

Alexander acompanhou-a em silêncio, enquanto ela se afastava da pia, compreendendo que sua resistência em conversar sobre o assunto se devia à dor. Ele mudou de assunto.

— Bem, como eu disse minutos atrás, você é uma boa influência para Aurora. A mãe dela não era do tipo que se poderia chamar de doméstico.

— Bem, talvez ela tivesse talento para outras coisas.

— Mas você também tem.

— Obrigada. — Grania enrubesceu diante do olhar dele.

— Espero que não se importe, mas, quando você foi buscar Aurora na escola, eu fui até o estúdio. Sua escultura dela está absolutamente formidável.

— Ainda está muito longe de ser considerada acabada. No momento estou lutando para definir o narizinho dela — acrescentou Grania.

— É o nariz da família Lisle, todas as mulheres da família o herdaram. Imagino que seja difícil reproduzi-lo no barro.

— Sua esposa era muito linda.

— Sim, era, mas… — Alexander suspirou — ela tinha uma porção de problemas.

— É mesmo?

— Problemas mentais — acrescentou ele.

— Ah. — Grania encolheu os ombros sem saber o que comentar. — Sinto muito.

— É impressionante como a beleza pode mascarar tantas falhas. Não estou dizendo que fosse culpa de Lily, é claro, mas, quando a conheci, não pensei nem por um momento que uma mulher com a aparência dela pudesse ser… quem ela era. Seja como for… — Alexander olhou para longe.

O silêncio pairou por algum tempo na cozinha. Grania secou o resto dos pratos sem ruído e foi guardá-los no armário. Quando ela se voltou, viu que Alexander a observava.

— Seja como for — ele repetiu —, é um prazer tanto para mim quanto para Aurora ter uma mulher normal morando na casa. Aurora estava precisando de alguém em quem se espelhar. Embora Lily tivesse feito o melhor que pudesse, é claro — ele se apressou a acrescentar.

— Muitos diriam que estou longe de parecer uma mulher normal — Grania sorriu de lado. — Pergunte aos meus pais, ou a alguns dos meus amigos de Nova York. Tenho certeza de que terão uma opinião diferente.

— Grania, para mim você parece tudo o que uma mulher deveria ser. E uma mãe, por falar nisso. Realmente, lamento muito por sua perda.

Alexander ainda a olhava fixamente.

— Obrigada — ela conseguiu dizer.

— Agora eu a deixei envergonhada. Desculpe. Eu… acho que não estou com a cabeça em ordem no momento.

— Bem, vou subir para tomar um banho. E obrigada por me permitir usar aquele estúdio lindo. É um sonho, realmente. — Grania deu um sorriso tímido para Alexander e saiu da cozinha.

Na cama, mais tarde, ela se recriminou por permitir que suas fraquezas emocionais se revelassem. No entanto, algum aspecto na vulnerabilidade óbvia de Alexander, por trás da fachada estoica, refletia o modo como ela mesma se sentia. Ele a tocara porque ela se reconhecia nele.

Pela primeira vez, Grania permitiu que as lágrimas aflorassem e corressem por sua face. Estava chorando pela vida frágil e minúscula que se perdera. E, quando se aconchegou melhor para tentar dormir, horas mais tarde, sentiu-se mais calma, como se algo tivesse se partido e depois se recomposto em seu íntimo.

Com o passar dos dias, Alexander começou a aparecer com mais frequência no andar de baixo. Às vezes, ele caminhava até o estúdio e ficava observando Grania trabalhar. Ele começou a acompanhá-la ao almoço, e, quando ela mencionou que gostava de ouvir música enquanto trabalhava, um elegante e moderno aparelho de som apareceu em seu estúdio. Com o passar do tempo, Alexander foi se abrindo cada vez mais em relação a Lily.

— A princípio, eu gostava da maneira como a atenção dela fluía de um assunto para o outro com rapidez. Ela era encantadora. — Alexander suspirou. — Ela sempre parecia contente, como se a vida fosse simplesmente uma aventura empolgante e nada pudesse decepcioná-la. Tudo o que Lily queria, encontrava uma maneira de conseguir, porque encantava completamente a todos os que a rodeavam. E eu fui presa do seu encantamento. Se demonstrasse um mau humor terrível quando o mundo se fechava para ela, e ela se sentava soluçando sobre um coelho morto encontrado no jardim, ou com o fato de que a lua minguara e só voltaria a brilhar um mês depois, eu supunha que fosse simplesmente parte da sua natureza sensível. Só quando o mau humor começou a tornar-se mais frequente, com os momentos de felicidade rareando cada vez mais, foi que percebi que alguma coisa não estava certa. Alguns anos depois de nos casarmos, Lily começou a passar o dia inteiro na cama, dizendo que se sentia exausta e deprimida demais para se levantar. E então, de repente, ela aparecia, em um dos seus vestidos mais elegantes, com o cabelo lavado, e insistia para que fizéssemos algo emocionante. Ela era quase maníaca em sua necessidade de buscar a felicidade. Quando estava em uma dessas fases, ficava tudo frenético, mas maravilhoso. Tivemos umas boas aventuras, posso lhe garantir. Lily não tinha limites, e sua exuberância era contagiante.

— Aposto que era — respondeu Grania em voz baixa.

— E, é claro, toda vez que ela estava assim, eu desejava e acreditava, eu queria que seu lado sombrio nunca mais voltasse. Mas sempre voltava. Ela oscilava para cima e para baixo como um pêndulo ao longo dos anos seguintes, eu sempre no seu rastro, tentando impedir que mudasse de humor. E então — Alexander soltou o ar com força e abanou a cabeça tristemente — ela se deprimia e não se recuperava por meses. Ela se recusava terminantemente a consultar um médico. Era capaz de ter um ataque histérico violento se eu ao menos sugerisse isso. No fim, depois de se recusar a comer ou beber por quase uma semana, acabei chamando um médico. Ela recebeu tranquilizantes e foi hospitalizada. Ela foi diagnosticada com um transtorno depressivo esquizoafetivo.

— Alexander, eu sinto muito. Deve ter sido tão difícil para você.

— Bem, não era culpa dela estar doente — enfatizou Alexander —, mas o que piorava ainda mais as coisas era o fato de que Lily tinha uma postura infantil em relação à doença. Ela parecia não compreender o que estava lhe acontecendo. E, é claro, quando a internei para sua própria proteção, em uma instituição especializada no problema de Lily, fique arrasado. Ela gritou, se debateu e se agarrou em mim, implorando para não deixá-la, como ela dizia, num hospício. Mas ela representava um perigo para si mesma, na época, e tentara o suicídio em várias ocasiões. Também se tornara violenta e avançou contra mim algumas vezes com utensílios da cozinha. Poderia ter me ferido gravemente se não me defendesse.

— Meu Deus, Alexander. Que horrível! Estou surpresa como tiveram Aurora — disse Grania, genuinamente chocada com o que ele lhe contava.

— Aurora foi uma surpresa para nós dois. Lily tinha quase 40 anos quando descobriu a gravidez. Mas os médicos pensaram que fosse possível que, ao ter uma criança para cuidar, poderia acontecer algo positivo que a ajudasse, desde que estivesse sob observação constante. E na verdade, Grania — explicou Alexander —, houve inúmeras ocasiões da vida de Lily, enquanto ela tomava os medicamentos, em que ela permanecia estável, embora eu vivesse constantemente com receio de uma recaída. E nunca podia confiar que ela mesma se medicasse. Ela odiava tomar suas pílulas tranquilizantes, “de zumbi”, como as chamava. Embora o medicamento impedisse os momentos sombrios, ela achava que também bloqueavam a liberação do humor. O que, é claro, era o que acontecia. As pílulas a acalmavam, deixavam-na nivelada, mas ela dizia que era como viver a vida por trás de uma cortina de névoa. Nada parecia mais real, alegre ou doloroso como quando não as tomava.

— Coitada — disse Grania. — E ela melhorou quando Aurora nasceu?

— Sim, melhorou. Durante os primeiros três anos da vida de Aurora, Lily foi a mãe perfeita. Não domesticamente, como você, Grania. — Alexander sorriu. — Lily sempre comandou uma grande equipe de criados sob sua ordem, mas o foco da sua atenção era unicamente a menina, e eu realmente senti, então, que poderia haver esperança para o futuro. Mas não durou. — Alexander varreu o ar com a mão. — E, infelizmente, Aurora foi quem recebeu o impacto disso. Uma vez, voltei para casa para encontrar Lily adormecida na cama e não vi nem sinal de Aurora. Acordei-a para perguntar onde Aurora estava, e Lily olhou para mim e disse francamente que não conseguia se lembrar. Encontrei Aurora, com frio e muito assustada, vagando sobre o penhasco, sozinha. As duas haviam saído para um passeio juntas, e Lily simplesmente havia se esquecido da filha.

— Ah, Alexander, que horrível. — Os olhos de Grania ficaram rasos d’água só de pensar em Aurora abandonada.

— Depois disso, compreendi que nunca mais poderia deixar Aurora sozinha com Lily nem que fosse por alguns minutos. Mas eu nem cheguei a me preocupar muito, pois Lily piorou e foi internada de novo. E realmente, daí por diante, Aurora só viu a mãe esporadicamente. Voltamos a morar em Londres para eu poder trabalhar e ficar perto do hospital de Lily. Aurora teve uma série de preceptoras sem sucesso, como você ouviu falar. Depois, quando Lily voltou a se estabilizar, ela insistiu em voltar para a Casa de Dunworley. Eu nunca deveria ter concordado, mas ela adorava tanto este lugar. Dizia que a beleza do lugar a ajudava a sentir-se melhor.

— Minha mãe disse que ela tirou a própria vida — falou Grania em voz baixa.

— Sim. Sua mãe está certa. — Alexander pôs a cabeça entre as mãos e suspirou. — E estou certo de que Aurora a viu fazer isso. Ouvi um grito vindo do quarto de Lily e encontrei Aurora, em pé, na sacada em sua camisola de dormir, apontando para o penhasco lá embaixo. Dois dias depois, encontraram o corpo da mãe dela levado pelas ondas, na praia de Inchydoney. Nunca vou saber que efeitos isso poderá ter sobre Aurora. Ainda mais tendo uma mãe que, não por sua própria culpa, abriu e fechou tão abruptamente os canais do amor para a filha.

Grania fez o melhor que pôde para não permitir que suas próprias emoções não se revelassem em seu semblante. O pensamento de Aurora assistindo à mãe saltar para a morte era horrível. Ela colocou uma mão sobre a de Alexander para confortá-lo.

— Bem, tudo o que posso dizer é que, considerando o que Aurora tem passado, acho que ela é bastante equilibrada.

— Você acha? — Alexander olhou para Grania, os olhos ainda com uma expressão de desespero. — O problema é que a reação de Aurora à morte da mãe naturalmente preocupou os médicos. Eles sugeriram que Aurora herdara a instabilidade mental da mãe. As ilusões de Aurora sobre ver a mãe no penhasco, ouvi-la chamar, os pesadelos à noite… tudo isso poderia ser considerado as sementes do que irá desencadear uma doença como a de Lily.

— Ou, como você disse inicialmente, pode simplesmente indicar uma garotinha traumatizada tentando lidar com o que pode ter visto e com a perda da mãe.

— Sim, vamos esperar que seja isso mesmo. — Alexander sorriu sem alento. — E ela certamente parece ter feito grandes progressos desde que passou a conviver com você. Sou muito grato a você por isso, Grania. Não sou capaz de expressar o quanto essa garotinha significa para mim.

— Por acaso você soube se Lily sofrera algum tipo de trauma na infância? — indagou Grania. — Às vezes, isso pode provocar todos os tipos de problemas.

— Para uma escultora — Alexander arqueou uma sobrancelha —, você parece até bem entendida no assunto.

— Meu… ex-namorado era professor de psicologia. Seu assunto predileto eram os traumas de infância. Provavelmente aprendi um pouco pela convivência com ele — Grania confessou.

— Entendo — Alexander inclinou a cabeça. — Bem, voltando à sua pergunta, sei muito pouco sobre a infância de Lily. Quando a conheci ela estava morando em Londres. Ela sempre me pareceu relutante em relação a comentar sobre o passado, embora eu soubesse que ela havia nascido nesta casa e passara grande parte da infância aqui mesmo.

— Acho que minha mãe sabe alguma coisa sobre o tempo em que Lily morou aqui — disse Grania com cuidado.

— Sabe mesmo? Será que estaria disposta a me contar?

— Não estou bem certa — Grania encolheu os ombros —, ela é muito reservada a esse respeito. Mas estou bem certa de que aconteceu alguma coisa, porque, toda vez que menciono o nome de Lily, isso produz uma reação negativa da parte dela.

— Ora essa — Alexander arqueou as sobrancelhas —, isso não me parece bom. Mas qualquer informação que me ajudar a entender o quebra-cabeça em torno de Lily será recebida com muita gratidão.

— Verei o que posso extrair dela — concordou Grania —, mas não se anime muito. Minha mãe é teimosa feito uma mula. Pode ser que fique esperando por muito tempo.

— E tempo é algo que eu simplesmente não tenho — Alexander murmurou. — Devo partir de novo dentro de dez dias. Você pensou melhor sobre o que pretende fazer?

— Não — respondeu Grania sem pensar, com a sensação de que estava tentando nadar contra uma correnteza cada vez mais forte.

— Tudo bem. Não quero pressioná-la, mas obviamente devo tomar algumas providências em relação a Aurora se você não quiser ficar.

— Você sabe por quanto tempo será desta vez?

— Talvez pouco mais de um mês, possivelmente dois.

— Muito bem — Grania aquiesceu. — Você terá a resposta amanhã. — Ela se levantou e começou a tirar a mesa do almoço.

— Grania — Alexander colocara-se ao seu lado, pegando os pratos da sua mão e pondo-os de volta à mesa. Ele colocou as mãos sobre as dela. — Quero dizer que, não importa se ficar ou partir, tem sido um prazer conhecer você. Acho você uma mulher muito especial.

Ele a beijou muito suavemente nos lábios, depois se voltou e afastou-se em direção ao jardim.

De um jeito bem feminino, Grania passou as horas seguintes se analisando, torturando e questionando sobre o motivo do beijo inesperado de Alexander. Fora tudo tão repentino que ela mal podia acreditar que aquilo tivesse acontecido mesmo. O que provavelmente significava que não significava nada. Não parecia que ele quisesse mais. Por outro lado, não seria inadequado beijar a babá da filha diretamente nos lábios?

Não havia dúvida de que Alexander, seu comportamento e sentimentos eram um enigma. No entanto, ela podia sentir suas paredes emocionais lentamente desmoronarem, à medida que a empatia incomensurável entre duas pessoas que compreendiam a dor da perda as atraía uma para a outra cada vez mais.

Tudo o que Grania sabia era que estava mergulhando lentamente na areia movediça da paixão. E essa precisava ser contida antes que fosse longe demais.

— Já tomei a minha decisão, Alexander — disse Grania a ele quando voltou à cozinha depois de ter levado Aurora à escola, na manhã seguinte.

— E qual é sua resposta?

— Não posso ficar. Sinto muito. Tenho alguns… problemas que realmente preciso resolver em Nova York. Você sabe muito bem que adoro Aurora, mas…

— Não precisa me dizer mais nada. — Alexander ergueu as mãos, quase na defensiva. — Agradeço por me contar. Agora devo me apressar para conseguir uma substituta para você. — Ele deu meia-volta e saiu imediatamente da cozinha.

Grania esgueirou-se rapidamente para fora da cozinha e atravessou o pátio até o estúdio, sentindo-se culpada como uma charlatã por ter declinado a permanência ali. A escultura de Aurora estava quase pronta e ela só precisava, agora, fazer o molde e preenchê-lo com o bronze. Ela suspirou. O quanto antes saísse dessa casa, melhor.

Ela passou a manhã eliminando, do estúdio todo, qualquer vestígio de sua passagem por ali. E pensando que talvez a mãe estivesse certa; que o efeito Lisle sobre os Ryans era insidioso e incontrolável — certamente confundira seu juízo. Mesmo que fosse por causa de Aurora, não podia envolver-se emocionalmente com um homem que mal conhecia. Que podia estar sendo afetuoso com ela porque cuidava da sua filha… que poderia ter tentado suborná-la com um beijo e depois mais…

Todos os instintos de Grania diziam-lhe para partir.

Buscar Aurora na escola, naquela tarde, revelou-se uma tarefa difícil. Aurora estava cheia de planos para o futuro que a incluíam. Saber que só teria mais alguns dias até Aurora passar aos cuidados de outra pessoa era quase mais do que Grania podia suportar.

— Como assim está indo embora?

— Ah, Aurora, querida, você sabia que a minha estada aqui era apenas temporária. E que eu não poderia permanecer aqui, na Casa de Dunworley, para sempre.

Era a manhã seguinte e, desde que Alexander dera meia-volta e saíra da cozinha, Grania não o vira mais. Mas sabia que devia dizer a Aurora que estava partindo e permitir que a criança se preparasse para o que sabia que a garotinha veria como mais um adulto abandonando-a.

— Mas, Grania, você não pode ir embora! — Os grandes olhos de Aurora encheram-se de lágrimas. — Eu amo você e achei que você me amasse! Somos amigas, gostamos de ficar juntas, o papai ama você e…

Aurora rompeu em grandes e seguidos soluços.

— Querida, por favor, não chore. Por favor, não faça assim. É claro que amo você, mas você sabe que eu moro em Nova York. Tenho uma vida e uma carreira que são muito importantes para mim.

— Você vai voltar para a América e me deixar!

— Não imediatamente, querida, vou voltar a morar com a minha mãe e o meu pai na casa da fazenda, antes disso. Estarei bem ali embaixo, ao fim do caminho.

— Vai mesmo? — Ela fitou Grania com olhos desesperados. — Então posso ir morar lá com você? Sua família gosta de mim, não gosta? Eu ajudo a tirar o leite das vacas e cuido dos carneiros e…

— Aurora, você poderá nos visitar sempre que quiser. — As reservas de Grania estavam quase se esgotando.

— Por favor, me deixa ir com você! Não me deixe aqui! Os pesadelos vão voltar, a mamãe vai voltar. — Aurora atirou os braços ao redor de Grania e abraçou-a com tanta força e tão desesperadamente que ela mal conseguia respirar.

A areia movediça estava se fechando sobre a cabeça de Grania agora, e ela precisava escapar.

— Querida, vou falar com você de mulher para mulher. — Grania ergueu o queixo de Aurora e olhou-a diretamente nos olhos. — Só porque alguém não está no mesmo aposento com você, ou não está com você naquele momento, não significa que essa pessoa não ama você. Para falar a verdade, gostaria que você fosse a minha filha, e que pudesse levá-la comigo. — Grania engoliu as próprias lágrimas para poder continuar. — Mas você não pode ir comigo, Aurora. Porque não pode deixar o papai aqui, sozinho. Ele precisa de você, querida. Você sabe que precisa. E, às vezes, na vida, precisamos fazer coisas que são realmente difíceis.

— Sim. — Aurora devolveu-lhe o olhar, mostrando que compreendia. — Você está certa — ela suspirou. — Sei que eu preciso ficar aqui por causa do papai. E que você não pode ficar comigo. Você tem a sua vida e isso é muito importante. — Aurora, de repente, tirou as mãos dela e deu as costas para Grania. — A vida de todo mundo é mais importante do que a minha. É isso o que adultos fazem.

— Um dia você será adulta, Aurora. E vai entender.

— Ah, eu entendo. — Aurora voltou-se para Grania. — Eu entendo o que é ser adulto. — Depois de uma pausa, ela respirou fundo e aproximou-se de Grania. — Entendo que você precisa ir, Grania, mas espero voltar a vê-la.

— Eu prometo a você, querida, que vai. Sempre que precisar de mim, só precisa me telefonar. Prometo que estarei sempre lá para você.

— Sim. Bem — Aurora inclinou a cabeça, concordando —, está na hora de irmos para a escola, não?

Aurora foi em silêncio durante todo o percurso, mas Grania compreendeu. Compreendeu, quando Aurora saiu do carro e foi se reunir com as amigas no parquinho, sem olhar para trás, que o sofrimento e a dor da rejeição estavam cavando fundo.

Grania ergueu o queixo e pensou em Mary, que desistira de tudo para proteger uma criança que não era sequer sua. E que, no fim, ela dera as costas para Mary quando lhe fora conveniente. Quaisquer que fossem seus sentimentos em relação à Aurora, a criança não podia ser responsabilidade sua. E não poderia permitir que a história se repetisse.

— Não consigo suportar isso, mãe; mesmo com a expressão tão devastada, ela foi tão orgulhosa e corajosa… você não faz ideia do que aquela criança passou. — Grania parou na casa da fazenda no caminho de volta depois de deixar Aurora na escola. Estava sentada à mesa da cozinha com a mãe, as lágrimas correndo pela face.

— Com certeza não faço mesmo, querida — Kathleen confortou-a. Mas o que você fez, por mais difícil que seja, está certo. Como você diz, ela não é sua responsabilidade. É responsabilidade do pai dela.

— Não sei o que ela irá fazer sem mim. Todo mundo a deixou, mãe — Grania suspirava —, todo mundo. E ela pensou que eu a amava, e que me preocupava com ela e…

— Eu sei. Mas a união entre vocês duas nunca será rompida. E eu prometo, você pode dizer a Aurora por mim, que ela sempre será bem- -vinda nesta casa. Todos nós a amamos, isso é certo. Venha cá agora e deixe sua mãe lhe dar um abraço.

Grania obedeceu. Por mais que Kathleen, às vezes, a irritasse, nesse momento ela se sentia abençoada por tê-la.

Os três dias seguintes, na Casa de Dunworley, foram surpreendentemente calmos. Aurora parecia ter aceitado a situação completamente. Ela não se distanciou de Grania, mas, na verdade, pediu-lhe para passar o tempo que lhes restava juntas fazendo suas coisas favoritas. Grania concordou, e elas saíram para longas caminhadas pelos rochedos do penhasco, passaram uma tarde prazerosa colando papel machê e depois, na última noite, foram tomar o chá na casa dos pais de Grania.

Quando chegou a hora de voltarem para a Casa de Dunworley, para que Aurora pudesse ir para a cama, Grania observou a mãe abraçar Aurora como se ela fosse sua neta.

— Posso vir aqui visitar vocês e a minha cachorrinha muitas e muitas vezes, não posso, Kathleen?

— Claro que pode, querida. A Grania não vai a lugar nenhum por uns tempos e nossa porta estará sempre aberta, prometo — confortou-a Kathleen, dirigindo a Grania um olhar desesperado. — Até logo, minha querida.

Alexander estava esperando por elas na cozinha, quando chegaram em casa.

— Aurora, vá lá para cima e prepare-se para ir para a cama, por favor. Preciso conversar com Grania.

— Sim, papai — disse Aurora obediente, e saiu da cozinha.

Havia alguns envelopes esperando por Grania sobre a mesa da cozinha.

— Isto é tudo, pago completamente.

— Muito obrigada. — Grania imaginou por que se sentia envergonhada, e pouco à vontade, quando era ela que, originalmente, prestara um favor a ele num momento de necessidade.

— Consegui uma garota local muito boa que vai chegar amanhã às 10 horas da manhã. Se fizer a gentileza de levar Aurora à escola, depois passar algumas horas aqui com Lindsay, explicando-lhe os afazeres, ela buscará Aurora na escola depois das aulas.

— É claro. Agora — Grania recolheu os envelopes da mesa — quero ir lá colocar Aurora na cama.

— Sim — Alexander inclinou a cabeça.

Grania caminhou em direção à porta e abriu-a.

— Grania…

Ela se voltou e o encarou, percebendo uma tristeza em seu olhar.

— Um dia, espero que entenda por que eu… — Ele abanou a cabeça. — Se não a vir amanhã, boa sorte em seu futuro. Como eu disse na outra noite, você é muito especial. Obrigado por tudo e espero que tudo corra bem na sua vida daqui por diante.

Grania inclinou a cabeça, deixou a cozinha e subiu a escada para dar boa-noite a Aurora pela última vez.

 

Aurora não dera sinais de desespero, nem tentara implorar para Grania ficar quando a deixara na escola na manhã seguinte.

— Vou me encontrar com sua nova babá agora — Grania explicou. — O nome dela é Lindsay e parece adorável. Você sabe que o papai não empregaria alguém para cuidar de você que não fosse assim.

Aurora aquiesceu.

— Eu sei.

— E você também sabe que estarei lá embaixo, na casa da fazenda, e que você pode aparecer para nos visitar quantas vezes quiser?

— Sei.

— Até logo, querida. Vá me visitar o mais cedo que puder.

— Sim. Até logo, Grania. — Aurora sorriu, deu meia-volta e caminhou para a escola.

Lindsay, a babá local que Alexander empregara, parecia ser boa, experiente e a par da situação.

— Estou acostumada a cuidar de pessoas sozinhas, portanto realmente não haverá problemas, Grania — disse ela.

— Sim, estou certa de que fará um trabalho muito melhor do que eu. Sou apenas uma amadora que estava quebrando um galho.

Não obstante, Grania precisou comentar com Lindsay sobre todas as necessidades e desejos de Aurora. Onde o ursinho devia ser colocado, como ela gostava de ser aconchegada na cama, que tinha cócegas no lado direito do pescoço...…

Grania pedira a Shane para vir buscá-la. Então, afastou-se da Casa de Dunworley sentindo alívio e presságio em igual medida.

Fazia três dias desde que Grania partira e toda a família estava tomada de ansiedade à espera da visão do corpinho gracioso de Aurora descendo pelo caminho na sua direção. Até o momento, ela não aparecera ainda.

— Isso deve significar que ela está acomodada e feliz com a nova garota — comentou Kathleen.

— Sim, é — respondeu Grania em voz baixa.

— Ela vai descer aqui, no momento certo, portanto, você não precisa se preocupar. As crianças são fortes e Aurora é uma sobrevivente.

— Sim — repetiu Grania.

Mas as duas sabiam que não acreditavam em uma única palavra que a mãe dissera.

Mais tarde, o telefone celular de Grania tocou. Era Lindsay.

— Oi — disse Grania, fechando a porta da cozinha atrás de si e encaminhando-se à sala de estar, para ficar mais à vontade. — Como estão passando vocês duas?

— Acho que estava indo tudo bem. Até esta tarde, quando fui buscá-la na escola. E ela não estava lá.

— Como assim, ela não estava lá?

— Ela desapareceu. A professora disse que num minuto ela se encontrava no parquinho e no seguinte tinha desaparecido.

— Jesus! — Grania murmurou com o coração começando a bater acelerado. Olhou para o relógio. Faltavam dez minutos para as 6 horas. Isso significava que Aurora estivera fora por mais de duas horas. — Onde você a procurou?

— Por toda a parte. Eu… — Grania percebeu o desespero na voz de Lindsay — eu liguei para você para saber se você conhece lugares especiais para onde ela poderia ter ido, ou alguém a quem ela poderia procurar. Pensava… quer dizer, tinha esperança… de que ela pudesse estar aí com você.

— Não, mas vou procurar ao redor da casa e nos galpões. Ela pode ter vindo pelo campo sem que percebêssemos. Alexander está aí?

— Ele saiu para o centro de Cork esta tarde e não voltou ainda. Tentei ligar para o celular dele várias vezes, mas não está respondendo.

— Você procurou nos rochedos do penhasco?

— Procurei, mas nem sinal dela.

Grania conteve-se para não perguntar se Lindsay olhara para as rochas lá embaixo do penhasco.

— Certo, por que não procura em volta da casa e nos jardins de novo enquanto procuro na fazenda por aqui? Se não houver sinal dela, fique aí para o caso de Aurora voltar. Vou ligar para você se houver algum sinal dela por aqui, ou se tiver alguma ideia. Até daqui a pouco.

Grania mandou Shane procurar nos galpões, enquanto John saiu no Land Rover para procurar no campo em toda a fazenda. Kathleen permaneceu no jardim, gritando inutilmente o nome de Aurora por não ter nada melhor a fazer.

Shane encontrou-se com Grania no pátio.

— Nem sinal dela, sinto muito — relatou ele. — Mas a cachorrinha de que ela gostava parece ter sumido também.

— Sério?

— Talvez seja coincidência, mas você acha que Aurora esteve aqui e a pegou?

— Se Lily sumiu, acredito que sim — concordou Grania, mais tranquila ao pensar que ao menos era uma possibilidade de que Aurora estivesse bem. Isso lhe dava esperança de que a menina estivesse indo para algum lugar com a cachorrinha, e não caída, morta, sobre as rochas no fundo do penhasco. — Vou subir de bicicleta pelo caminho do penhasco. Por que você não vai na direção contrária até Clon? — Grania sugeriu, tirando uma bicicleta enferrujada da parede do celeiro.

— Certo, já vou indo — disse Shane, pegando outra e montando. — Estou com o meu celular, assim como o papai. A mamãe pode ficar aqui para o caso de ela aparecer.

Duas horas depois, os Ryans se reencontraram na cozinha. Nenhum deles encontrara nenhum vestígio de Aurora.

— Estive quebrando a cabeça para tentar imaginar todos os esconderijos onde ela poderia estar — disse Kathleen, andando de um lado para o outro na cozinha. — Jesus, Maria e José! Se aconteceu alguma coisa àquela pobre menininha, então…

— Será que deveríamos ligar para a polícia? — sugeriu John.

— Lindsay disse que tinha conseguido entrar em contato com Alexander, que estava a caminho de casa, vindo de Cork. Se alguém vai tomar essa decisão, deve ser ele. — Grania aquecia as mãos perto do fogão.

— Alguém quer um chá? — indagou Kathleen.

— Sim, por favor, querida — disse John. — Sem um meio de transporte, uma garotinha de 8 anos de idade e uma cachorrinha não podem estar muito longe, não é verdade? Alguém vai acabar avistando-as. Duvido que ela tenha algum dinheiro consigo. Talvez ela volte quando sentir fome — disse ele sensatamente.

— Bem, aquela cachorrinha não ficará muito feliz sem a mãe para mamar — acrescentou Shane.

Grania mal ouvia o que eles falavam. Sua mente girava aceleradamente pelas últimas dez semanas, tentando identificar algum lugar para onde Aurora poderia ter ido. Ouviu ruídos no cascalho sob os pneus e viu que era o carro de Alexander. Ele saltou e caminhou direto para a porta da cozinha. Quando ele entrou, toda a família notou o tom acinzentado do medo em seu semblante.

— Desculpem entrar assim sem pedir licença, mas Lindsay disse que vocês estavam todos à procura de Aurora. Alguma notícia?

— Até o momento, não, Alexander. Vasculhamos tudo por toda parte. Esta é a minha mãe, a propósito, o meu pai e o meu irmão, Shane — acrescentou Grania.

— Muito prazer em conhecê-los — respondeu Alexander com educação automaticamente. — Alguém tem alguma ideia de aonde ela poderia ter ido?

— Bem, estávamos justamente pensando que ela teria levado com ela a cachorrinha que adora, pelo menos ela não está sozinha — sugeriu Shane.

— Aqui, querido. — Kathleen estendeu uma xícara de chá quente para Alexander. — Beba isso, está com bastante açúcar, é bom para o choque.

— Obrigado. Você disse que ela pegou a cachorrinha? Isso significa…

— Que ela passou por aqui antes, senhor — disse John.

Um lampejo de alívio apareceu nos olhos de Alexander.

— Bem, pelo menos isso é alguma coisa. Até onde uma garotinha com uma cachorrinha poderiam ir em algumas horas?

— Não muito longe, acho eu — disse Kathleen.

— Estávamos imaginando, senhor, se não era hora de avisar a polícia — disse Shane.

— Ainda não — disse Alexander rapidamente —, mas, se não houver sinal dela dentro de algumas horas, acho que precisamos avisar.

— Se me desculpar agora, se estiver tudo bem com você, vou avisar meus amigos vizinhos — disse John. Eles podem, ao menos, dar uma olhada em seus barracões e na sua terra por nós, enquanto ainda temos alguma luz do dia.

— Boa ideia, querido — concordou Kathleen enquanto John se levantava e saía da cozinha. Ela olhou para a própria xícara de chá. — Sabem, pode ser apenas um pressentimento, mas acho que aquela garotinha está em algum lugar perto daqui.

— Seus instintos normalmente estão certos, mãe. — Shane inclinou a cabeça de modo encorajador na direção de Alexander. — A pergunta é: onde?

Depois de mais buscas infrutíferas acima e abaixo do penhasco, nos barracões vizinhos e nos campos, Alexander se rendeu e disse que estava na hora de avisar a polícia.

Grania foi para fora e ficou parada no pátio, na frente da casa da fazenda. O céu estava completamente escuro no momento, sem lua ou estrelas para ajudar a lançar alguma luz ao paradeiro de Aurora.

— Onde você está, querida? — ela sussurrou no escuro. Andou de um lado para o outro. Alguma coisa a perturbava no fundo dos pensamentos que não queria se revelar. De repente, ela soube o que era. Fazendo meia-volta, ela correu de volta à cozinha. Alexander acabara de desligar o telefone depois de avisar a polícia.

— Eles estarão lá, na Casa de Dunworley, dentro dez minutos para se informar dos detalhes. Acho melhor ir andando para recebê-los.

— Alexander, onde Lily foi enterrada?

Alexander voltou-se lentamente para Grania.

— Na igreja de Dunworley. Eu não acho…

— Podemos ir com seu carro?

— Claro. — Ele não precisou de uma nova sugestão. Os dois deixaram a casa, entraram no carro de Alexander e saíram às pressas pela estrada até onde ficava a igreja de Dunworley, aninhada num lado da montanha.

— Lily sempre disse que era onde queria ser posta para descansar. — Alexander quebrou o silêncio dentro do carro. — Ela disse que tinha a melhor vista do mundo para toda a eternidade.

Eles estacionaram o carro no acostamento e, usando uma lanterna que Alexander tirara do porta-luvas, passaram pelo portão de ferro rangente e entraram no pátio da igreja.

— Ela está à esquerda, bem lá nos fundos. — Alexander foi na frente enquanto eles seguiam com cuidado entre as sepulturas.

Grania prendeu a respiração quando eles se aproximaram o bastante para que a lanterna iluminasse a lápide de Lily. E lá, aninhada entre as flores silvestres e ervas daninhas que brotavam em cima da sepultura, achava-se Aurora. Nos braços dela, adormecida, encontrava-se Lily, a cachorrinha.

— Graças a Deus — Alexander soluçou.

Grania percebeu que a emoção do alívio o deixara próximo das lágrimas.

Ele se voltou e colocou a mão no ombro de Grania.

— Muito obrigado, Grania, por conhecer a minha filha melhor do que eu.

Alexander aproximou-se de Aurora na ponta dos pés, depois inclinou-se e, delicadamente, a pegou nos braços. Os olhos de Aurora se entreabriam com o movimento e ela sorriu para o pai.

— Oi, papai — disse sonolenta.

— Oi, querida. Vamos levar você para casa para colocá-la na cama bem quentinha.

Grania seguiu atrás enquanto Alexander carregava a filha e a colocava no banco traseiro do carro.

— Oi, Grania — Aurora sorriu para ela —, senti sua falta.

— E eu senti a sua também.

— Como você me encontrou, papai? — ela perguntou.

— Não fui eu, querida — disse Alexander enquanto dirigia montanha acima na direção da Casa de Dunworley. — Foi Grania quem adivinhou onde você poderia estar.

— Eu sabia que ela adivinharia. — Aurora parecia quase vaidosa disso. — Ela é como se fosse a minha mãe de verdade. Amo você, Grania — ela disse. — Você não vai me deixar de novo, vai?

Grania fitou os olhinhos desesperados de Aurora, engoliu em seco e disse:

— Não, querida, nunca mais vou deixá-la outra vez.

Mais tarde, quando Aurora estava em segurança na cama, com uma bolsa de água quente para aquecê-la, a cachorrinha fora levada por Shane de volta para junto da mãe e Alexander telefonara para a polícia para informar que Aurora fora encontrada, ele ofereceu um conhaque a Grania, na cozinha.

— Obrigada. — Grania sentou-se exausta e agasalhou a taça entre as mãos.

— Mandei Lindsay para a casa da mãe em Skibbereen — disse Alexander. — Ela estava bem abalada. — Ele se sentou ao lado de Grania, parecendo esgotado. — Meu Deus, que alívio. Pelo menos Aurora parecia relativamente ilesa. Com frio, mas sã e salva — repetiu.

— Sim. A pior coisa foi que eu pensei… — Grania olhou para Alexander e ele concordou, inclinando a cabeça, voltando o rosto na direção do penhasco também.

— Pensei a mesma coisa. — Ele pegou a mão de Grania. — Não sei dizer o quanto sou grato por tê-la encontrado para mim. Se tivesse perdido Aurora… — Alexander abanou a cabeça. — Acho que nada mais faria sentido. Seria o fim.

— Sim. Estou certa disso.

— Mas, Grania, ouça-me — o tom de Alexander era ansioso —, Aurora é uma garotinha linda, doce e alegre. Mas também é manipuladora, assim como a mãe. Hoje à noite foi um grito de socorro, e não acho que tenha sido um grito para mim. Era você que ela queria. Por favor, você não deve se render a tanta chantagem emocional.

— Não acho que ela pense dessa maneira, Alexander, realmente.

— Estou certo de que não — ele concordou. — É sua maneira infantil de tentar fazer com que você volte. O fato de ela amar você da maneira como ama é testemunha de como você se preocupou com ela. E também como ela se sente segura com você. Mas, e faço questão de ressaltar esse “mas”, você não deve se deixar influenciar por ela. Você não tem obrigação nenhuma em relação à minha filha. E eu odiaria pensar que, seja como for, ela esteja prejudicando os planos que você deve ter feito para sua vida.

“Que planos?”, pensou Grania consigo mesma, capaz apenas de se concentrar na presença física de Alexander tão próxima dela e a mão dele tocando a sua.

— Ouvi o que disse, Alexander, e agradeço. O problema é que… — Grania suspirou — eu a amo também.

— Mas eu repito, ela não é sua responsabilidade. É minha.

— Quais são seus planos, Alexander? — Grania fitou-o diretamente nos olhos, querendo saber, para o bem de todos eles.

— Eu… — Alexander retirou a mão de cima da dela, suspirou pesadamente e correu os dedos pelo cabelo. — Grania, preciso lhe contar uma coisa.

— Fale — pediu ela baixinho.

Ele se voltou para ela e pegou as duas mãos dela nas suas. Ele perscrutou o semblante dela e depois balançou a cabeça.

— Não consigo.

O conhaque havia abrandado a reserva natural de Grania. Foi sua vez de acariciar as mãos dele.

— Por favor, Alexander, fale comigo.

Ele se inclinou na direção dela, os joelhos de ambos se tocando, e deu um beijo suave sobre os lábios dela.

— Ah, Deus. — Ele a beijou de novo. — Eu… você é maravilhosa. — Com essas palavras, ele a puxou para os seus braços e beijou-a com violência. Ela sentiu o aroma dele ao seu redor, forte e tão querido. Seus próprios braços o envolveram enquanto ela se aconchegava mais a ele e retribuía o beijo com igual fervor. Depois, subitamente, ele se afastou.

— Perdão! Eu não podia… não devia ter feito isso. Nada disso é justo com você. Sejam quais forem meus sentimentos por você, eu… — Ele se levantou de repente, a raiva exposta em seus traços perfeitos. Pegando a taça de conhaque, atirou-a de encontro à parede, onde ela se esmagou e caiu se espalhando pelo chão impecável.

Grania assistiu ao gesto com incredulidade e horror.

— Meu Deus! Sinto muito… — Ele voltou a sentar-se e puxou-a para os seus braços de novo. Depois, afastou-a delicadamente de si e olhou-a nos olhos. — Você não faz ideia de como isso é difícil para mim.

— Talvez você pudesse tentar explicar — Grania esforçou-se para dar uma resposta racional.

— Sim. Mas eu não posso. — Ele segurou os dedos dela, entrelaçou- -os nos seus e inclinou-se novamente para beijar-lhe o rosto com delicadeza. — Se você ao menos soubesse os pensamentos que eu tive… como acho você linda… tão bondosa, gentil, adorável… e viva! E o que você tem feito por Aurora, bem, nunca poderei compensar isso. Daria qualquer coisa para tomá-la nos braços agora mesmo e carregá-la comigo lá para cima. — Ele traçava os contornos do rosto dela com a ponta dos dedos. — Mas acredite em mim, Grania, é melhor que você saia de uma vez desta maldita casa. Volte para sua vida e vá viver em outro lugar. Esqueça tudo sobre mim e sobre Aurora e…

— Alexander — disse Grania quase sem voz —, você está fazendo uma cena de cinema. Por favor, pare. Isso não vai nos levar a lugar algum.

— Sim, você tem razão. Lily sempre dizia que eu tinha uma natureza dramática. Peço desculpas. Esta noite já foi dramática o bastante. — Ele sorriu tristemente.

— Sim, foi.

Alexander desviou os olhos para o lado.

— Eu devia partir amanhã. Acho que vou protelar a viagem, pelo bem de Aurora.

— Por quanto tempo vai ficar fora? Será por mais de dois meses?

— Na pior das hipóteses, pode ser muito mais do que isso.

— Olhe, tenho uma sugestão — disse Grania.

— Qual?

— Não sei se você notou esta noite o quanto a minha família gosta de Aurora. Por que não deixa que eu a leve para lá comigo enquanto estiver fora? Se eu decidir, a qualquer momento, que preciso voltar à minha vida em Nova York, pelo menos ela poderá ficar com a minha família. E depois, quando voltar, poderá tomar suas decisões.

— Você acha que seus pais não se importariam?

— Depois de como se comportaram hoje à noite — Grania arqueou as sobrancelhas —, acho que ficou bem óbvio que não se importarão. Não consegui ter um neto para eles ainda, então eles parecem ter adotado Aurora.

— Bem… isso parece como um verdadeiro sonho para mim — a face tensa dele relaxou um pouco —, pensar que Aurora será cuidada por uma família de verdade. É claro, eu pagarei por todas as despesas com você e seus pais.

— Certo. Vou dar um telefonema rápido para a minha mãe, de manhã, e verificar com ela se estará tudo bem. — Grania ainda sentia o efeito das diversas emoções experimentadas naquela noite. E as mudanças radicais de comportamento de Alexander deixaram-na esgotada. — Se não se importar — disse ela, fazendo menção de se levantar —, agora gostaria de ir para a cama. Estou totalmente exausta.

— É claro. Foi mesmo uma noite infernal na qual, deveria acrescentar, você foi a heroína.

— Obrigada. — Grania levantou-se. — Boa noite, Alexander.

Ele observou enquanto ela levava a taça de conhaque até a pia, enxaguava-a e depois atravessava a cozinha em direção à porta.

— Grania?

— Sim.

— Por favor, me perdoe. Em qualquer outra circunstância…

Ela se voltou para ele e inclinou a cabeça, concordando.

— Eu compreendo — mentiu.

 

“Antes que você pergunte, não estou orgulhosa de mim mesma. Meu pai estava certo, é claro — eu era manipuladora. Mas também estava desesperada. E, além do mais, já fora informada de que Grania cuidaria de mim por muito, muito tempo, portanto não estava gostando que isso parecesse dar errado e que ela me deixasse.

E fiquei muito tempo pensando até decidir onde iria me esconder. Algum lugar que eu soubesse que, se ela me amasse, me encontraria, mas não óbvio demais, como um celeiro, com a cachorrinha, ou no alto do penhasco.

Muito embora não tivesse medo de fantasmas, por conhecê-los e entendê-los bem, não gostei muito de ficar lá no cemitério, sozinha. Senti-me como uma estranha ali, sendo viva quando estavam todos mortos. Além disso, tinha apenas 8 anos e era humana…

Pobre e querida Grania. Não teve muita escapatória naquela situação, sendo uma alma bondosa como ela era. E, é claro, ela me amava. O que, como eu disse anteriormente, muitas vezes é o que resolve tudo.

E acho que ela poderia ter amado o papai também, se as coisas fossem diferentes…

Devo parar de achar que poderia reescrever esta história. Estou certa de que o Mestre Autor, que tece com os fios sutis o destino da nossa vida, é, de longe, muito melhor nisso do que eu jamais poderia chegar a ser. E muito embora às vezes seja difícil entender ‘por quê’, deve-se confiar que Ele sabe. Ele conhece as razões para as coisas que nos acontecem e nos concede a todos um ‘Final Feliz’. Mesmo que possa ser muito além da diáfana cortina a que chamamos morte e que signifique que não podemos ver o final feliz enquanto vivemos.

Como você pode ter notado, não sou muito fã da Teoria da Evolução, embora tenha lido A origem das espécies, de Darwin.

Na realidade, minto. Li dois capítulos e desisti em favor de Guerra e Paz, que me pareceu uma leitura muitíssimo mais leve.

Sou uma criacionista.

Mas talvez, quando se está se aproximando do fim da vida, acredito que precisemos ser.

Peço desculpas pelo comodismo, Leitor. Passei por uns maus dias. E Guerra e Paz também não é nenhum conto de fadas.

Alguns livros de Austen vieram em seguida, para me animar. Gosto dos finais dela, mais do que normalmente gosto dos meus.

Portanto, vamos seguir com a história…”

 

Grania não entendia. Enquanto descia a montanha de carro até a casa da fazenda dos pais, com Aurora e todos os seus pertences mais preciosos estocados na parte de trás do Range Rover, não conseguia entender o que passava pela cabeça de Alexander.

— Pessoal, chegamos! — gritou Aurora enquanto saía em disparada do carro e atravessava correndo o vão da porta da cozinha aberta. Em seguida, atirou-se nos braços de Kathleen.

— Muito obrigada por me deixar ficar, e a Lily pode dormir na minha cama? Prometo que a devolvo direitinho para a mãe dela, de manhã, quando ela precisar de mais leite.

— Ora, bem, não separamos os filhotes das mães enquanto não tiverem desmamados. Nem permitimos cães no andar de cima da casa. A não ser em ocasiões muito especiais, como talvez sua primeira noite aqui. — Kathleen tocou a bochecha de Aurora e passava a mão pelos lindos cachos do cabelo da menina, trocando um olhar de resignação com a filha.

Antes da hora do chá, Shane levou-a ao campo, onde as ovelhas estavam tendo cordeirinhos.

— É impressionante — disse Kathleen. — Eu lhe disse que parece coisa do destino ter uma criança Lisle em uma família Ryan para cuidar.

— Ah, mãe, chega dessas suas previsões do futuro nas folhas do chá. E fale do passado — acrescentou Grania. — É obvio que você a adora.

— É verdade. — Kathleen teve a grandeza de admitir. — De algum modo essa criança conseguiu conquistar meu afeto, apesar de toda a minha resistência. Seu pai, então, é um caso perdido. Acho que ele está revivendo o passado, quando você era pequena. Ele até pintou aquele quarto sobrando de vocês de cor-de-rosa, e até mesmo foi a Clon para comprar algumas bonecas para ela. Nunca se viu uma expressão naquele rosto carrancudo, Grania — Kathleen riu. — Parece que ele não sabe mais o que fazer. E o seu irmão está apaixonado também — ela acrescentou.

— Você sabe que é apenas temporário, mãe, até Alexander voltar para casa.

— Não há nada no lar dos Ryans que seja temporário quando há uma criança Lisle a morar nela, escreva as minhas palavras. — Kathleen apontou um dedo para a filha. — Mas vou admitir, com a sua juventude Aurora trouxe uma nova vida para todos nós. — Kathleen pôs a chaleira no fogo para ferver. — E eu, provavelmente, moveria mundos e fundos se fosse para o bem dela. Pois é, devo admitir que sou tão má quanto o resto das mulheres da família quando se trata de uma criança Lisle. Mas como poderia resistir, quando ela me faz sorrir? — Ela voltou a face para a filha e cruzou os braços. — A maior pergunta é: Grania, o que você vai fazer agora? Com Aurora aqui, em segurança e contente, pelo menos você está livre para tomar suas próprias decisões.

— Sim, mamãe. E sou grata por isso. Gostaria de dizer que tomei algumas, mas estaria mentindo. Talvez alguns dias de folga, depois de todo aquele drama, venham a ajudar.

— Sim — Kathleen suspirou. — E aquele Alexander, até mesmo eu posso ver que ele é um grande pedaço de homem. Com aqueles olhos…

— Mãe! Comporte-se! — Grania sorriu.

— Eu sempre me comportei, e essa foi a minha perdição — ela sorriu de lado. — Uma mulher pode sonhar, não pode? Agora, vamos fazer um grande jantar esta noite. Pensei em preparar algo especial para a nossa princesinha.

À noite, com a presença de Aurora, a mesa ganhou uma nova vida. Depois do jantar, John, horrorizado por Aurora não parecer conhecer nenhuma das velhas canções da sua terra natal, pegou o seu banjo e tocou para todos. Shane, quebrando o hábito de toda a vida, não foi ao pub. Os cinco dançaram gigas irlandesas até Aurora começar a bocejar e Grania perceber a exaustão em seus olhos.

— Está na hora de subir para a cama, querida.

— Sim — disse ela, quase agradecida.

Grania levou Aurora pela escada estreita da casa até o novo quartinho recém-decorado, vestiu-lhe a camisola e acomodou-a na cama.

— Adoro sua família, Grania. Espero nunca precisar ir embora. — Aurora bocejou, os olhos quase fechados de contentamento.

Antes de Grania deixar o quarto, Aurora já havia adormecido.

Matt chegou em casa e colocou o cesto de roupas na área de serviço, para lavar mais tarde. Foi até a cozinha para preparar alguma coisa para comer. Não voltava para casa desde aquele dia depois da noite em que saíra para beber com Charley e os amigos. Caminhou até a sala de estar, aliviado porque o loft achava-se, agora, vazio, e atirou-se no sofá. É claro, Charley bem podia ter se mudado dali afinal. Será que, no momento, seu apartamento já não devia estar redecorado até os mínimos detalhes?

Matt enrubesceu ao pensar na última manhã que passara ali, horrorizado, quando vira Charley e percebera que estava nua ao seu lado. Tomara um banho e fizera a mala com tudo o que precisaria para as semanas seguintes, depois saíra sorrateiramente de casa como um amante indesejado. E a pior parte fora que não se lembrava de nada do que poderia ter feito ou deixado de fazer naquela noite.

Charley não o procurara desde então, afinal, assim não tiveram aquela conversa envergonhada ou, quem sabe, maliciosa, que se esperaria depois de terem passado a noite juntos. Ele também não a procurara; afinal, o que teria para comentar? Precisava que ela lhe desse uma dica, primeiro, para, só então, poder reagir de maneira adequada.

Matt ouviu a chave virar na fechadura. Charley passou pela porta e olhou para ele, surpresa.

— Oi, não esperava que estivesse em casa.

— Sério? — Matt respondeu com nervosismo. — Por mais estranho que pareça, eu moro aqui.

— Pois é, claro que mora — disse ela enquanto ia até a cozinha para servir-se de um copo de água. Depois voltou para a sala de estar, encaminhando-se na direção do seu quarto.

— Tudo bem com você? — Matt gritou. Diferente do seu comportamento habitual, ela estava estranhamente silenciosa.

— Sim, claro que está tudo bem. Só estou cansada.

Essa foi a última vez que a viu naquela noite ou, na verdade, em todas as noites da semana seguinte. Quando estavam em casa, juntos, Charley só dava respostas monossilábicas às suas perguntas, depois desaparecia em seu quarto e só aparecia na manhã seguinte. Matt sabia que ela o estava evitando, e entendia por quê, mas estava fora do seu alcance saber como resolver o problema.

Finalmente, Matt decidiu que a única coisa a fazer seria encarar Charley frente a frente. Naquela noite, ela chegou em casa e foi até a geladeira para servir-se de um copo de leite.

— Charley, querida, realmente acho que deveríamos conversar.

Charley parou no meio do caminho, entre a sala de estar e seu quarto.

— Sobre o quê?

— Acho que você sabe “sobre o quê”.

Charley examinou-o por um momento.

— O que há para dizer? Aconteceu, foi um erro, é óbvio que você se arrepende e…

— Uou! — Matt instintivamente levantou os braços à frente do corpo. — Pare aí. Sugiro que a gente saia para comer alguma coisa e conversar sobre tudo.

— Tudo bem — Charley encolheu os ombros —, se é isso que você quer. Vou tomar um banho.

Uma hora depois, eles estavam sentados a uma mesa, em um restaurante italiano, a alguns quarteirões dali. Matt bebia uma cerveja, mas Charley recusara bebidas alcoólicas e tomava apenas água.

— Você está se sentindo bem? Fisicamente, quero dizer. Não é comum você recusar uma taça de vinho, Charley — Matt sorriu, tentando quebrar a tensão.

— Não estou me sentindo lá essas coisas neste momento.

— Talvez fosse o caso de ir consultar um médico e fazer alguns exames — Matt encorajou.

— É — respondeu Charley com os olhos baixos; ela brincava com o guardanapo, recusando-se a fazer contato visual.

— Ei, Charley, é com o Matt que você está falando. Odeio saber que obviamente fiz alguma coisa que a aborreceu.

Charley permaneceu em silêncio. Matt continuou bravamente.

— O problema, querida, é que eu estava apagado aquela noite. Este cara aqui deve estar ficando velho, não é mais capaz de encarar uma bebida como antigamente.

A piadinha sem graça não mereceu resposta.

— Olhe — ele tentou de novo. — Vou ser franco e lhe dizer que estou confuso sobre o que realmente aconteceu naquela noite, depois que voltamos do restaurante. Quer dizer, nós dois…? Fizemos…?

Matt parou bruscamente. Não tinha mais o que dizer enquanto Charley não lhe respondesse. Ela ergueu os olhos para ele, vagarosamente. Ele não teve certeza se eles estavam cheios de tristeza ou de raiva.

— Você não… lembra?

— Não — Matt enrubesceu. — Não lembro. Sinto muito, sério, mas é melhor falar a verdade.

— Nossa — Charley suspirou — bem, isso explica tudo.

— O que eu posso dizer? Estou envergonhado e horrorizado. Imagino… não é que nós nunca… quero dizer… fizemos isso antes.

— Ah! — Os olhos de Charley embaçaram. — Então isso conserta tudo, não é? O fato de você ter avançado em cima de mim fica “tudo bem” porque já fizemos isso antes. É isso o que você está me dizendo, Matt?

— Não, eu… merda, Charley! — Matt correu a mão pelo cabelo distraidamente e depois olhou para ela. — Você está falando sério? Você diz que eu “avancei” em cima de você naquela noite?

— Sim, Matt, foi isso. Ou você está me acusando de mentir?

— É claro que não. Maldição! Não consigo acreditar que pudesse me comportar dessa maneira. Sinto muito, Charley. Sinto de verdade — ele enfatizou.

— É, eu sei — Charley encolheu os ombros. — Não tanto quanto eu. Não se preocupe, entendi tudo bem depressa. Não sei se você se lembrou ou não, o fato de não ter recebido notícias suas nas duas semanas que se seguiram deixaram bem claro tudo o que eu precisava saber. É obrigação de um cavalheiro ligar para a dama, caso você tenha esquecido — acrescentou ela. — Você me usou, Matt. E eu não acho que merecesse isso.

— Não, claro que não — concordou Matt, encolhendo-se sob o olhar frio dela. — Sinto-me um perfeito idiota, e, se eu fosse você, duvido que fosse querer alguma coisa comigo de novo.

— O pensamento me ocorreu — concordou Charley quando suas pizzas chegaram. — Quero dizer, no mínimo, pensei que fôssemos amigos. E você, com certeza, não trataria seu pior inimigo da maneira como me tratou.

— Não. — Matt tinha dificuldade de lidar com uma situação que mal acreditava que tivesse criado. O comportamento que Charley descrevia era completamente destoante dele, portanto ele tinha poucos recursos à disposição para se defender. — Charley, não sei o que dizer. Jesus! Nem sei mais quem eu sou no momento. Tenho me orgulhado de ser o maior bonzinho do mundo, talvez de um modo ou de outro precise encarar o fato de que não sou.

— Não — Charley pôs um minúsculo pedaço de pizza na boca e mastigou-o, obviamente relutante em deixá-lo escapar do anzol. — Simplesmente talvez você não seja. E eu lá, ouvindo você abrir seu coração dia após dia, noite após noite, sobre Grania. Tentando ficar do seu lado quando você precisava de mim. E como você me tratou em retribuição?

— Ei, Charley, eu entendo por quê — Matt ofegou, atordoado pelo ataque verbal —, mas você com certeza sabe como fazer um cara se sentir mal.

— Sinto muito, Matt — ela concordou. — Mas aquela noite, antes de você pular para cima de mim, você foi muito persuasivo.

— Fui?

— Foi. Por exemplo, você disse que me amava.

Matt sentiu-se afogar em um mar de acusações. E ainda assim, elas deviam ser verdadeiras. Por que Charley mentiria? Ela simplesmente não era esse tipo de garota. Eles tinham crescido juntos — ele a conhecia melhor do que qualquer outra mulher com exceção de Grania. Matt ficou sem palavras para dizer. Continuou sentado ali, em silêncio, observando-a do outro lado da mesa.

— Olhe, Matt — Charley deu um suspiro pesado —, eu realmente entendo que você não passa por um bom momento. Você estava bêbado naquela noite e eu admito que tenha dito e feito coisas que não queria. E eu estava disponível e acreditei no que você disse, quando não devia ter feito isso. Portanto, acho que foi minha culpa também.

— Que diabo, Charley, estou certo de que você não tem culpa. A culpa é minha e não quero que assuma nem um pingo de culpa. Se pudesse apertar um botão para fazer o filme voltar, eu faria. E você está certa, não estou num bom momento. Mas isso não é problema seu e eu nunca vou me perdoar por magoá-la. Estou surpreso que não tenha se mudado e decidido nunca mais falar comigo.

— Eu teria mudado se pudesse, mas o apartamento está demorando muito mais tempo para ficar pronto do que eu esperava. Não se preocupe, Matt — ela encolheu os ombros tristemente —, quando ele estiver habitável, partirei para lá.

— Este é o fim da nossa amizade? — ele perguntou devagar.

— Não sei, Matt — ela suspirou. — Agora que conversamos, preciso de algum tempo para pensar em tudo.

— Claro.

— Preciso lhe perguntar, Matt, para ser verdadeiramente franca comigo. Quando você disse o que você disse naquela noite, antes de fazermos amor, você não estava falando sério, não é?

— Você quer dizer que eu a amo? — indagou Matt.

— É.

— Eu realmente a amo, Charley — ele se esforçou para dizer —, você sabe que amo. Não estava mentindo. Como disse antes, nós nos conhecemos totalmente, você é a irmã que eu nunca tive. Mas… — Matt suspirou, simplesmente sem saber como expressar as palavras que precisava dizer.

— Não se trata desse tipo de amor — Charley apressou-se a retrucar.

Matt fez uma pausa antes de falar.

— Não.

— Porque você ainda está apaixonado por Grania?

— É. Acho que sim.

Matt observou enquanto Charley cortava outro pedaço minúsculo de pizza, colocava no garfo e mastigava completamente. Ela engoliu, depois levantou-se imediatamente.

— Desculpe, Matt, preciso ir ao banheiro.

Matt observou enquanto Charley passava tão rapidamente entre as mesas do restaurante quanto o acesso lhe permitia e desaparecia depois de descer alguns degraus. Ele pôs a pizza de lado, descansou os cotovelos sobre a mesa e esfregou as bochechas com as palmas das mãos. Aquilo era um pesadelo… Como poderia ter feito aquilo que Charley lhe contara? Ele, um psicólogo, consciente das falhas da natureza humana, fora vítima da própria fraqueza.

Matt pensou no que estava lhe acontecendo; toda a sua imagem pessoal durante 36 anos tinha se desenvolvido em torno do pensamento de que era um “cara legal”. Acreditava que sempre tratara as mulheres com respeito, nunca abusara nem tirara vantagem delas. Valorizava seus aspectos positivos e suas qualidades, e permanecia dentro dos parâmetros da formação e da educação que recebera. Acima de tudo, Matt sempre tentara agir com integridade, e só de pensar no que fizera aquela noite com Charley — uma de suas melhores amigas, pelo amor de Deus — enchia-o de remorso.

Matt olhou para os degraus, mas ainda não havia nem sinal de Charley. Pelo menos ele tivera a coragem de ser franco com ela e deixara claro que não haveria um futuro para eles dois. Por mais que a tivesse magoado, e, mesmo se o que tinha acontecido tornasse sua amizade irreparável, Matt sabia que fizera a coisa certa.

Porque…

Quer ele gostasse, ou desejasse, ou quisesse, ou não, a verdade dolorosa era que ainda estava apaixonado por Grania.

Charley ressurgiu pálida do banheiro e sentou-se em frente a Matt.

— Você está bem? — Matt franziu a testa. — Está parecendo doente.

— Não — Charley abanou a cabeça. — Não estou bem. Não estou bem coisíssima nenhuma.

— É por minha causa? Fui eu que fiz isso a você?

— Pois é, acho que num certo sentido foi você. — Charley ergueu a cabeça para encará-lo, os olhos marejados de lágrimas, num contraste marcante com a palidez do seu rosto. — Porque o problema, Matt, é que estou grávida.

 

Grania acordara uma manhã e vira os primeiros brotos da fúcsia silvestre que, no devido tempo, coloriria as bordas do caminho em uma profusão de tons arroxeados. A visão dos brotos não só anunciava o fato de que a primavera chegara, com o calor do verão nos seus calcanhares, mas que ela já estava na Irlanda há quase quatro meses. Quando se vestiu e desceu para um café da manhã apressado, antes de levar Aurora de carro para a escola e, depois, subir para a Casa de Dunworley, Grania sentiu-se enervada com a facilidade com que adotara aquela rotina. E como sua vida cotidiana ali parecia tão normal quanto sua vida anterior em Nova York. Enquanto abria a porta do estúdio, Grania imaginou se isso, em parte, se devia ao fato de estar envolvida em um novo projeto. O sentimento lhe lembrava dos tempos que passara em seu estúdio no loft em TriBeCa; aqueles momentos em que uma escultura consumia toda a sua atenção desde que acordava para um novo dia.

Enquanto tirava a jaqueta e se encaminhava para a bancada de trabalho, Grania refletiu sobre o fato de que, nos últimos tempos, era raro sentir-se empolgada, de verdade, com seu trabalho. Criar esculturas de crianças e animais para as famílias abastadas da Costa Leste americana tornara-se sua fonte de sustento. Era uma maneira de ganhar a vida e lhe permitia os meios de se aplicar ao “projeto” mais próximo do seu coração: o de ter um bebê.

Grania examinou as duas esculturas que, no momento, descansavam sobre a bancada de trabalho. E sentiu um ímpeto de empolgação percorrê-la. As duas achavam-se ainda inacabadas e imperfeitas, mas ela era profissional o bastante para saber que tinha os esboços das melhores obras que já produzira. E a razão, pensou, era simplesmente porque se sentira inspirada, não forçada, a criá-las. O sentimento que experimentava quando sentava-se à bancada e concentrava-se em moldar o barro, em um pé delicadamente arqueado, era o que a levara a esculpir, antes de qualquer coisa. Criar uma imagem, à semelhança de algo lindo — prender o momento que vira acontecer e transferi-lo para o material que o guardaria num objeto perene —, era revigorante.

Tivera a inspiração numa tarde em que ela e Aurora subiam pelo caminho do penhasco com Lily, a cachorrinha. Ela observara, enquanto Aurora dançava à sua frente, sua graça singular que mantinha sem esforço. Grania fora tomada de uma necessidade súbita de registrar o momento. Pegando o telefone celular, tirara algumas fotos rápidas da menina em diversas posições, que revelavam toda a sua exuberância. E, na manhã seguinte, começara a trabalhar em uma série de esculturas.

Desde esse momento, passara a experimentar uma sensação de paz — trabalhando naquele estúdio maravilhoso o dia inteiro, junto com a música clássica tocando no aparelho de som, a visão frontal da sua janela magnífica, de onde acompanhava as sutilezas da mudança de estação.

Nessa tarde, depois de ter obtido a permissão da senhorita Elva, Grania iria até o estúdio de dança para observar e tirar fotos de Aurora dançando.

Perdida em seu trabalho durante toda a manhã, Grania olhou para o relógio e constatou que passavam das três da tarde. Daria tempo apenas para buscar Aurora na escola e levá-la até Clonakilty para a aula de dança.

A razão de todo o seu entusiasmo ia sentada ao seu lado, alegremente, enquanto iam de carro até a cidade, conversando trivialidades sobre a nova amiguinha da escola que iria visitá-la na hora do chá, na fazenda, no dia seguinte, para conhecer a cachorrinha. Enquanto estacionava o carro, Grania pensou como as coisas simples que as crianças tomavam por certas eram as que davam prazer a Aurora. Ela vivia uma vida normal pela primeira vez em toda a sua vida.

Grania acomodou-se em um canto do estúdio de dança, tendo recorrido ao seu caderno de esboços como um meio menos intrusivo de captar as imagens de Aurora enquanto ela dançava. Mesmo nos últimos dois meses, Aurora evoluíra além de todas as expectativas. A capacidade natural que possuía ia aos poucos sendo aprimorada em posições técnicas requeridas pelo balé. E, pensou Grania enquanto Aurora executava uma pirueta perfeita, embora sua vida na casa da fazenda pudesse beirar o normal, o talento de Aurora era extraordinário.

No fim da aula, a senhorita Elva conduziu Aurora para fora do estúdio, dizendo-lhe para que fosse trocar a malha colante usada nos exercícios. Ela se voltou para Grania.

— Bem, o que você acha?

— Ela é a coisa mais primorosa de se admirar.

— Sim, é verdade. — A senhorita Elva se expressava com admiração. — Ela é de longe a melhor aluna que tive a sorte de ensinar. Estava preocupada que, por ter começado tarde, teria problemas para se desenvolver, e ela ainda não tem a técnica adequada. Mas acho que tem todas as chances de ser admitida na Escola Real de Balé. Você falaria com o pai dela a respeito disso?

— Ele sabe que Aurora está tomando aulas de balé, mas eu não comentei ainda sobre a ideia de uma escola de balé em tempo integral. E não estou bem certa de que seria o melhor para ela. Pela primeira vez na vida ela está tendo uma vida estável. Quando seria o teste?

— O mais tardar, dentro de dezoito meses. Ela deverá praticar em tempo integral quando estiver com 11 anos.

— Certo. Bem, por que não observamos como ela se sai? E talvez no próximo ano possamos chegar a uma conclusão. — Grania entregou o pagamento pela aula, agradeceu à senhorita Elva e foi buscar Aurora.

— Então — disse animada para Aurora a caminho de casa —, você acha que um dia gostaria de ir para uma escola de balé e aprender a dançar em tempo integral?

— Eu adoro balé, você sabe, Grania — Aurora confirmou. — Mas quem cuidaria de Lily e ajudaria Shane a ordenhar as vacas seu eu fosse embora?

— Bem observado — concordou Grania.

— E eu não quero deixar para trás todas as minhas novas amigas da escola — continuou Aurora. — Talvez quando eu for mais velha.

— É, talvez quando você for mais velha.

Mais tarde, naquela noite, quando Grania estava se preparando para subir para ir para a cama, seu telefone celular tocou.

— Alô?

— É Grania?

— Sim.

— Aqui é Alexander.

A ligação devia estar ruim, pois a voz dele soava abafada e distante.

— Olá, Alexander. Como vai?

— Estou… — houve uma pausa antes de Alexander continuar — bem. Como vai Aurora?

— Ela está muito contente e bem adaptada aqui conosco na fazenda. Parece estar indo muito bem na escola e fez uma porção de amiguinhas. E eu estava conversando com a professora de balé e…

— Grania — Alexander a interrompeu —, preciso falar com você pessoalmente. Com urgência — acrescentou ele.

— Certo, e quando voltará para casa?

— Esse é o problema. Receio não poder voltar no momento. Preciso lhe pedir para vir se encontrar comigo aqui.

— E onde seria isso? — Sem notícias dele fazia já um mês, Grania não tinha a menor ideia de onde ele se encontrava.

— Suíça. Estou na Suíça.

— Compreendo. Bem, se for urgente, então…

— E é — salientou Alexander. — Perdoe-me lhe pedir para fazer a viagem, Grania, mas realmente não tenho outra escolha.

— Muito bem. Então, hoje é quarta-feira… temos a tosquia das ovelhas na fazenda esta semana, que acha de eu ir na próxima terça- -feira?

— Grania, preciso que venha amanhã.

— Amanhã!

— Sim. Já reservei seu voo. Você deixará o aeroporto de Cork às 2h45, chegará a Londres às 4 horas, depois tomará um voo da British Airways para Genebra, que sai às 6 horas. Meu motorista irá buscá-la no aeroporto e trazê-la ao meu encontro.

— Certo — concordou Grania sem muita segurança. — Você quer que leve Aurora comigo?

— Não. De maneira alguma, não… — a voz de Alexander falhou. — E lembre-se de trazer sua certidão de nascimento. O controle de passaportes na Suíça pode ser consideravelmente difícil, é melhor estar preparada.

— Tudo bem.

— Então nos vemos amanhã à noite. E Grania?

— Sim.

— Muito obrigado.

Grania pressionou o botão de desligar a ligação e sentou-se à mesa da cozinha, atordoada. Imaginou o que Alexander teria dito se ela se recusasse a ir. Até onde podia ver, a decisão já estava tomada antes mesmo de ele pegar o telefone para ligar para ela.

— Em que está pensando agora, Grania?

A voz da mãe interrompeu seus pensamentos. Ela se encontrava parada ao lado da porta da cozinha, observando a filha.

— Eu… acabei de receber um telefonema estranho de Alexander — disse Grania pensativa. — Ele quer que eu vá de avião para a Suíça, para encontrá-lo, amanhã. Até já reservou a passagem para mim.

— Sério? — Kathleen cruzou os braços e arqueou uma sobrancelha. — E você vai?

— Achei que não tivesse escolha.

— Muito bem, você bem que poderia ter dito “não”.

— Eu sei, poderia mesmo, mãe, mas havia alguma coisa estranha na voz dele que… — Grania encolheu os ombros — parece que tem alguma coisa errada. Não sei o que é.

— Eu diria que, se ele tem algum problema, dependeria dele vir aqui e conversar com você. Não pedir que você saia pelo mundo para encontrá-lo.

— Concordo, mas não há muita coisa que eu possa fazer a respeito, há? Ele também me pediu para levar a minha certidão de nascimento, diz que as autoridades podem dificultar a entrada no país. Poderia encontrá-la para mim, mamãe?

— Claro que sim, mas alguma coisa não está me cheirando bem nessa situação.

— Para mim também não, mãe — disse Grania. — Mas a melhor coisa a fazer é ir ver o que ele quer.

— Grania — Kathleen aproximou-se dela —, por favor, compreenda que não quero interferir, mas existe… existe alguma coisa entre você e Alexander?

— Eu simplesmente não sei. — A necessidade de se abrir com alguém foi maior que sua normal hesitação em divulgar informações para a mãe. — Realmente, eu não sei.

— Por acaso ele… — Kathleen limpou a garganta — quando você esteve lá…

— Nós nos beijamos, mãe — ela confessou —, e, sim, para falar a verdade, eu sinto alguma coisa por ele. Mas depois — Grania abanou a cabeça em confusão — ele disse… bem, disse que não poderia dar continuidade ao relacionamento.

— E ele lhe disse por quê?

— Não. Talvez ainda ame Lily, talvez haja outra pessoa… quem sabe? Uma coisa é certa, eu realmente não sei — Grania suspirou.

— Bem, se vale de alguma coisa, observei-o naquela noite em que Aurora pôs na cabeça a ideia de fugir. Vi como ele olhava para você. Se a afeição que havia nos olhos dele quando olhou para você era por causa do amor que você demonstra pela filha dele, ou se é mais do que isso, eu não saberia dizer. Seja como for, Grania, você representa alguma coisa para ele. A pergunta é: ele significa alguma coisa para você?

— Sim, mamãe, significa. Mas como, ou por quê, ou onde isso vai parar, não sei dizer. Além do mais, eu…

— Sim?

— Ainda não terminei com Matt — admitiu ela.

— Eu sei que não, querida. E talvez nunca termine. Mas você já deixou muito claro para mim que aquilo tudo é coisa do passado — disse Kathleen. — Só não está querendo apressar o futuro agora, está?

— Não. — Grania levantou-se. — Acho melhor ir logo para a cama se for viajar para a Suíça amanhã. — Ela se aproximou da mãe e deu-lhe um abraço. — Obrigada, mãe. Como você costuma dizer, é bem provável que tudo acabe se resolvendo sem problemas.

— Vamos esperar que sim. Boa noite.

Kathleen observou a filha sair da cozinha e colocou a chaleira no fogo para ferver um pouco de água. Naquele momento, o sexto sentido lhe dizia que os filhos e o marido caçoavam dela, mas que confiavam no que dizia quando lhes convinha. — Essa família — murmurou enquanto apertava o casaco de tricô ao redor do corpo e andava de um lado para o outro pela cozinha, esperando a água ferver. Sentou-se com uma caneca de chocolate quente, tentando raciocinar por que algo dentro dela lhe dizia que Grania precisava conhecer o resto da história agora… imediatamente, antes de deixar a segurança da sua casa em direção à Suíça, no dia seguinte. — Acho que estou parecendo uma velha tola, por que Grania precisaria estar mais informada do passado? — murmurou para si mesma. Depois de beber seu chocolate, ela suspirou pesadamente. — Eu me rendo — disse para o céu, depois se levantou da mesa. Subiu a escada cansada e bateu na porta do quarto de Grania. — Sou eu, a mamãe — falou baixinho. — Posso entrar?

— É claro, mãe — disse Grania, que se achava na cama, sentada sobre as pernas cruzadas terminando de arrumar a mala à sua frente. — Ainda não fui dormir. Estou pensando o que será que terei de enfrentar amanhã. — Ela arqueou uma sobrancelha.

— Sei, tudo bem — Kathleen sentou-se na cama —, é por isso que vim aqui conversar com você. Aquela vozinha na minha cabeça, quer dizer, aquela voz estava me dizendo para lhe contar o resto da história antes de você partir. Sobre a Lily. — Kathleen estendeu o braço para afagar a mão da filha. — É uma história e tanto, e pode ser que demore um tempo para contá-la, então será uma longa noite para nós duas.

— Não me importo, mãe — Grania a encorajou. — Será bom ter alguma coisa em que pensar quando partir amanhã. Sou toda ouvidos.

— Muito bem. — Kathleen engoliu fundo. — Essa é uma história que nunca contei a ninguém antes com as minhas palavras. E talvez derrame algumas lágrimas ao contá-la também.

— Ah, mamãe. — Grania segurou a mão da mãe e apertou-a com força. — Demore o quanto precisar. Temos toda a noite, não tenha pressa.

— Certo. — Kathleen concentrou-se para começar. — Esta parte da história começa quando eu tinha 16 anos de idade e Lily Lisle tinha 15.

— Você eram amigas, mãe? — Grania estava surpresa.

— Sim, éramos — Kathleen concordou, inclinando a cabeça. — Você precisa considerar que Lily passou tanto tempo aqui na casa da fazenda que eu a considerava como a minha irmã mais nova. E o meu irmão mais velho…

— Seu irmão? — Grania olhou para a mãe em surpresa. — Não sabia que você tinha um irmão, mãe. Você nunca falou sobre ele.

— Não… — Kathleen abanou a cabeça pesadamente. — Agora, bem, por onde devo começar…?

 

Dunworley, West Cork, Irlanda, 1970

Kathleen Ryan, então com 16 anos de idade, acordou e saltou da cama para abrir as cortinas e ver como estava o tempo naquele dia. Se estivesse bom, ela, Joe e Lily fariam um piquenique na areia da praia de Dunworley. Se estivesse chovendo — o que era praticamente a norma, mesmo no alto verão, nessa região —, seria mais um dia sem graça dentro de casa, jogando cartas ou algum jogo de tabuleiro. Lily queria que interpretassem uma peça de teatro, em que ela teria o papel principal. Tinha consigo o baú da mãe cheio de velhas roupas de cerimônia na casa grande e o que mais gostava era de enfeitar-se toda com os vestidos, que eram grandes demais para o seu tamanho, e admirar-se na frente do espelho.

— Quando eu ficar mais velha serei linda, e um príncipe charmoso virá para me levar para longe daqui — ela dizia fazendo uma pose.

Não havia dúvida de que Lily seria linda — ela já era de uma beleza estonteante aos 15 anos de idade.

— Haverá uma fila de rapazes batendo na porta para levá-la consigo, pode estar certo disso — a mãe de Kathleen dissera uma vez a Seamus, seu marido.

Kathleen sentia-se a mais infeliz das mulheres, com seu corpo roliço diante do espelho — o cabelo cor de camundongo e o rosto pálido coberto por uma irritante mancha de sardas sobre o nariz.

— É preciso mais do que beleza para conquistar um homem, querida, e eles a amarão por suas outras qualidades — a mãe a confortara quando ela se queixara. Kathleen não estava segura de quais seriam essas outras “qualidades” exatamente, mas, na realidade, não queria ocupar o primeiro plano. Nem se incomodava que Lily parecesse simplesmente exigir ser o centro das atenções aonde quer que fossem. Ou que Joe, seu irmão, adorasse o terreno que Lily pisasse.

Kathleen entendia que Lily, com sua aparência exótica, a mãe glamorosa e o pai rico na Casa Grande, era uma entidade com quem jamais poderia competir.

E não a invejava; na verdade, sentia pena dela. A tia Anna, a mãe de Lily — que era uma bailarina famosa — raramente parava em casa. Sebastian Lisle, seu pai, era uma personagem idosa e distante, a quem Kathleen raramente via. E, a julgar pelos fatos, nem Lily costumava vê- -lo. Ela era deixada a cargo de uma sucessão de preceptoras, de quem ela passava a vida tentando fugir, e, normalmente, com sucesso.

Enquanto Kathleen se vestia apressadamente para começar as tarefas matinais de recolher os ovos e trazer para casa um balde de leite, ela pensava em Lily, provavelmente ainda dormindo no seu lindo quarto no casarão, no alto do penhasco. Lily não tinha tarefas a cumprir. Uma criada lhe servia o café da manhã, o almoço e o jantar, lavava suas roupas e lhe providenciava tudo o que precisasse. Às vezes, Kathleen reclamava sobre isso com a mãe, quando o dia estava gelado e precisava sair ao relento.

— Mas, Kathleen, você tem uma coisa que Lily não tem, e isso é uma família — replicava a mãe.

Para Kathleen, Lily também tinha — essa vivia mais ou menos sob seu teto. E, no entanto, ninguém jamais pedira a ela para erguer um dedo.

Ainda assim, apesar dos privilégios de Lily, e dos seus ares e graças às vezes irritantes, Kathleen sentia-se muito protetora em relação a ela. Muito embora Lily fosse apenas 18 meses mais nova, ela possuía uma característica infantil, uma vulnerabilidade que despertava os instintos maternais latentes de Kathleen. E não parecia ter um grama de bom senso também. Lily era sempre a primeira a sugerir aventuras — descer pelas rochas perigosas, sair escondido, à noite, para nadar no mar… e parecia ter pouco medo. Geralmente, essas ideias acabavam terrivelmente mal, e Kathleen não só se via salvando Lily do perigo, mas também recebendo o castigo da mãe e do pai como se tivesse sido ideia sua, antes de qualquer coisa.

E, é claro, Joe, que Deus o abençoasse, seguiria Lily até o fim do mundo se ela pedisse.

Se Kathleen se sentia protetora em relação a Lily, não havia nada demais que ele se sentisse seu irmão maior e seu cavalheiro. Três anos antes, Kathleen chegara em casa em estado deplorável, depois de encontrar Joe na estrada. Ele fora usado pelos garotos da aldeia como alvo para praticar depois da recente colheita de castanha-da-índia.

— Eles o chamaram de tudo quanto é nome, mãe, nomes horríveis! Eles disseram que ele é o idiota da aldeia, que é um retardado, que deveria ser mandado para um hospício. Por que fazem isso com ele, mãe? Ele só queria ser amigo deles.

Depois de Sophia ter cuidado dos hematomas do filho com um banho de hamamélis e mandá-lo para o campo para ajudar o pai a trazer as vacas, ela fechara a porta da cozinha e explicara a Kathleen por que o irmão mais velho era diferente dos outros meninos.

— O parto dele foi complicado — dissera Sophia —, e os médicos acharam que Joe tinha ficado sem oxigênio por um tempo antes de nascer. Isso, de alguma forma, prejudicou seu cérebro.

— Mas o Joe não é um retardado, não é, mãe? Ele sabe escrever seu nome e fazer contas?

— Não, querida, Joe não é retardado. Ele só é o que os médicos chamam de “lento”.

— E os animais o adoram, mãe. Ele fala com eles com tanto carinho e eles confiam nele.

— Sim, Kathleen, confiam mesmo. Mas os animais são mais bondosos que os seres humanos — Sophia replicara com um suspiro.

— Aqueles meninos da escola estão sempre criando caso com ele, mãe. E só porque ele é maior do que eles, os professores sempre pensam que foi Joe que começou. E, mãe, ele é que leva a culpa! — Kathleen enterrara a cabeça entre as mãos. — Não aguento ver como zombam dele. E ele nunca revida, só sorri e aceita o castigo. Não é justo, mãe, não é justo. Joe não faria mal a uma mosca, você sabe disso.

Pouco tempo depois desse episódio, a mãe e o pai tiraram Joe da escola.

— Tenho certeza de que ele aprendeu tudo o que poderia aprender e ficará muito mais feliz na fazenda comigo e com os animais — comentara Seamus.

E o pai estava certo. Joe passara a dedicar-se em tempo integral ao trabalho na fazenda, a cuidar dos animais, e empenhava toda a sua estonteante força física em benefício dos negócios da família.

Enquanto Kathleen recolhia os ovos, ela refletia sobre a existência de Joe. Ele estava sempre contente, nunca parecia deprimido ou contrariado. Ele se levantava cedo, tomava o café da manhã e saía para o campo, onde permanecia até a noite. Depois voltava para casa, tomava o chá que a mãe lhe preparava e ia para a cama. Joe não tinha amigos fora da família, mas, mesmo assim, não parecia solitário. Aos 17 anos de idade, não tinha nenhum dos interesses adolescentes dos outros rapazes da sua idade. O único momento em que os olhos de Joe realmente se iluminavam era quando Lily Lisle aparecia na casa. Ele a observava em silêncio enquanto ela caminhava pela cozinha, balançando os cabelos ruivos e dourados por cima do ombro.

— Tigre — Joe dissera de repente quando os três saíram para um passeio.

— Onde está o tigre, Joe? — Lily olhara ao redor.

— Você, tigre.

— Tigre-Lily! — Kathleen e Lily tinham exclamado juntas.

— Cabelo — Joe apontara para Lily. — Cor do tigre.

— Joe, esse é um apelido muito bonito para mim — dissera Lily, enroscando seu braço no grande braço dele. — É uma personagem de um livro chamado Peter Pan, e ela é uma princesa indiana.

— Você, princesa. — Joe baixara os olhos para Lily, o amor brilhando em seus olhos.

Apesar do egoísmo inerente de Lily, ela era muito boa com Joe. Não se cansava de ouvir a maneira como ele construía suas palavras e demonstrava interesse por um passarinho com a asa quebrada que Joe salvara e de que vinha cuidando até estar pronto para ser solto novamente. Isso, acima de tudo, fazia Kathleen perdoar as muitas falhas de Lily. Por mais mimada e obcecada por si mesma que ela pudesse ser, ainda era bondosa e atenciosa com Joe.

Kathleen guardou os ovos frescos na despensa e entrou na cozinha para tomar o café da manhã. Joe já se achava sentado à mesa, comendo, a grande mão curvada em volta da colher de cereais.

— Bom dia — Kathleen falou enquanto cortava uma fatia de pão e passava manteiga sobre ela. — O dia está lindo, Joe, vamos até a praia?

— Sim. Com Lily.

— Ela disse que desceria por volta das 11 horas. Prometeu trazer algo para comer, mas nunca cumpre o prometido e acaba se esquecendo — disse Kathleen. — Vou preparar uns sanduíches para levarmos.

— Olá, pessoal, cheguei! — Lily apareceu na cozinha mais tarde, com seu floreio dramático de costume. — Adivinhem quem está lá em casa? — disse ela, rolando os olhos enquanto pegava uma maçã da fruteira e dava uma mordida nela.

— Quem? — quis saber Kathleen, estocando os sanduíches em um cesto de piquenique.

— Gerald! Meu horrível meio-irmão, Gerald. — Lily acomodou-se graciosamente sobre uma cadeira. — Fazia mais de um ano que eu não o via… nos últimos feriados ele foi ficar com os parentes da mãe em Clare.

Tanto Kathleen quanto Joe olharam com solidariedade na direção de Lily. Gerald, o único filho de Sebastian Lisle com a primeira esposa, Adele, fora a desgraça da vida deles. Um menininho arrogante que considerava Kathleen e Joe como se fossem algo repulsivo. Ainda queria acompanhá-los nas suas brincadeiras, mas passava a maior parte do tempo sendo o estraga-prazeres. Ficava de mau humor se não ganhava todas as vezes, acusava-os de trapaceiros e, geralmente, atacava-os com agressividade, em especial a Joe, de quem, sendo do mesmo tamanho, caçoava sem misericórdia.

— Ele não pretende ir com a gente à praia, pretende? — indagou Kathleen ansiosamente.

— Não, ele me disse hoje de manhã que já está com quase 18 anos e é praticamente um adulto. Por sorte, acho que não quer nada com a gente. Ele cresceu bastante, é verdade. Mal o reconheci. Está parecendo um homem e está quase com a altura do papai. Se não fosse o Horrível Gerald, chegaria a dizer que está até bonitão — Lily deu uma risadinha.

— Não com aquela personalidade que ele tem — Kathleen estremeceu. — Muito bem, parece esplêndido que ele seja superior demais para nos acompanhar. Você está pronto, Joe?

Joe, como sempre, olhava com adoração para Lily.

— Pronto — ele respondeu.

Os três tomaram o caminho da praia, Lily ia carregada nos ombros fortes de Joe, pendurada nele como um filhote de macaco e gritando como se tivesse medo que ele escorregasse nas pedras.

— Aqui estamos — disse Kathleen, ofegando, quando deixou a pesada cesta de piquenique sobre a areia macia. — Agora deixe a Lily descer, Joe, e ela poderá me ajudar a esvaziar a cesta.

— Ah, mas está tão quente e eu quero dar um mergulho no mar imediatamente! — respondeu Lily, tirando o vestido e exibindo o traje de banho, e os contornos brancos e suaves de um corpo que ganhava forma feminina. — Primeiro que você, Joe! — Lily gritou animada, enquanto disparava sobre a areia em direção às ondas.

Kathleen observou enquanto Joe se lançava atrás de Lily, arrancando a camisa pelo caminho e mergulhando no mar de shorts, alguns segundos depois. Ela estendeu as mantas sobre a areia e distribuiu o lanche que preparara anteriormente. Olhou para Lily, em toda a beleza dos seus membros flexíveis, gritando e espirrando a água das ondas contra Joe, depois fitou o próprio corpo atarracado e desejou ser tão desinibida quanto a prima.

Dez minutos depois, Joe correu para perto dela e apontou para a toalha.

— Lily com frio — disse ele.

Kathleen inclinou a cabeça concordando, estendeu-lhe a toalha e observou enquanto Joe voltava para a arrebentação e envolvia o corpo trêmulo de Lily com o seu calor. Ela pensou que era bom não ser do tipo ciumento. Muito embora tivesse cuidado de Joe durante toda a vida, protegendo-o ferozmente, porque ele era incapaz de proteger a si mesmo, amando-o e defendendo, Kathleen sabia onde estava o coração do irmão. Se houvesse uma escolha entre salvar a irmã ou a prima de se afogar, Lily venceria com vantagem. A adoração de Joe por Lily o iluminava; qualquer migalha dela sobre a mesa valeria mais do que um ano de atenção doméstica da sua parte. E se Lily deixava Joe contente, que mal havia nisso? Kathleen só esperava que, quando Lily crescesse e se casasse — não havia dúvida de que ela era tão linda que poderia escolher o homem que quisesse —, Joe sobrevivesse à sua ausência.

Kathleen já entendia como a beleza ajudava; até mesmo na escola, as garotas bonitas se davam melhor do que as comuns. Não parecia importante quem se era por dentro — bom ou mau — se sua embalagem fosse mais atraente, você teria uma vantagem imediata. As pessoas ficavam impressionadas com a beleza, em especial os homens. Diziam que o que importava era o que havia por baixo da superfície, mas Kathleen discordava. Todas as estrelas de cinema eram lindas, as damas que moravam nas mansões eram lindas e raramente se encontraria uma garota linda pelejando como uma empregada doméstica em uma cozinha. A menos que você fosse a Cinderela, mas então seu príncipe surgiria e saberia quem você era, porque você teria pés pequeninos e femininos.

— Ah, Kathleen! Estou morrendo de fome! Posso comer um sanduíche? — Lily estava de volta, Joe seguindo alguns passos atrás dela.

— Pode pegar, temos de carne em conserva e de geleia. — Kathleen estendera a Lily um guardanapo de papel com os sanduíches.

Joe pegou uma das mantas que estavam sobrando e enrolou-a em torno dos ombros de Lily. Depois, sentou-se sobre a areia com os shorts molhados ao lado da irmã.

— Tome, Joe, você também precisa comer. — Kathleen indicou a porção de sanduíches do irmão.

— Joe, posso trocar os meus de carne em conserva pelos seus de geleia? — disse Lily. — Odeio carne em conserva.

Kathleen observou Joe estender seus sanduíches de geleia em silêncio. Lily mastigou-os, atirando as cascas na areia, depois se deitou e esticou as pernas longas e esguias na direção do sol.

— Por que tive de nascer com essa pele clara irlandesa? — gemeu Lily. Pareço uma lua cheia em uma noite escura.

— Não. Linda. — Joe sorriu.

— Obrigada, Joe. Sabe de uma coisa, Kathleen? — Lily levantou-se apoiada nos cotovelos. — Joe me pediu em casamento enquanto estávamos no mar. — Ela riu baixinho. — Não é uma gracinha?

— Bem, acho que é mesmo — disse Kathleen, sem apreciar a expressão condescendente nos olhos de Lily.

— Cuido de você — Joe inclinou a cabeça enquanto mastigava outro sanduíche de carne em conserva.

— Obrigada, Joe. Sei que você sempre vai cuidar de mim. E prometo que vou pensar no seu pedido. — Lily, os olhos brilhantes de contentamento, recostou-se de volta na areia para tomar sol.

 

— Espero que não se importe, mas Gerald quis aparecer.

Kathleen olhou para o rapaz alto e bonitão parado atrás de Lily na soleira da porta da cozinha. Ela tentou comparar o “novo” Gerald másculo com o Gerald de antigamente e se consolou ao notar o sorriso desdenhoso familiar nos lábios descarnados.

— Olá, Gerald — ela cumprimentou.

— Olá… — Gerald coçou a cabeça. — Desculpe, não consigo lembrar seu nome.

— Kathleen, é Kathleen Doonan. E este é meu irmão, Joe.

— É claro, me desculpe. Como vão passando?

— Esplendidamente — disse Kathleen. — Bem, então vamos sair?

— Olá, Lily — disse Joe, esperando por seu abraço de costume.

— Oi, Joe — Lily replicou, sem se mover, do lado de Gerald. — Roubamos as varas de pescar do papai, não é Gerald? — Lily sorriu para ele.

— Sim, um pouco melhores de que uma vara de madeira com um cordão e um pedaço de toucinho na ponta — ele deu um sorriso afetado, olhando para os apetrechos de Kathleen e Joe para a atividade em vista.

Os quatro saíram da casa e desceram em direção ao rio. Seguiram num silêncio constrangedor, com Kathleen sentindo-se enervada pela presença de Gerald. Lily caminhava com ela ao lado do meio-irmão, conversando com ele à vontade, enquanto Joe seguia atrás do grupo. Chegaram ao rio, Gerald trazia um elegante banquinho dobrável, que imediatamente ofereceu a Lily com um floreio.

— Não precisamos deixar que esse seu derrière suje-se ao sentar no chão, não é mesmo? — ele comentou.

— Obrigada, Gerald, é muita bondade sua — disse Lily, sentando- -se no banquinho.

Os outros três acomodaram-se na margem, Gerald cuidando de mostrar a Lily como usar a vara. Permaneceram sentados, em silêncio, o bate-papo animado de costume silenciado pela presença de Gerald. Todas as frases em que Kathleen pensava empacavam entre os seus lábios. Ela olhou para a esquerda e viu Joe olhando pensativamente para o rio, descontente por não estar sentado ao lado da sua adorada Lily.

É claro, Gerald foi o primeiro a pegar um peixe. Houve enorme demonstração de prazer da parte de Lily enquanto Gerald recolhia uma truta de tamanho respeitável.

— Muito bem — ela sorriu para ele. — Você obviamente leva jeito.

— O que ajuda é que esses rios ainda têm muito peixe. Os parentes do papai sempre cuidaram bem das nossas terras.

— Desculpe, Gerald, mas agora este rio é nosso. Minha mãe e o meu pai compraram esta terra no ano passado. — O orgulho de Kathleen a obrigou a mencionar. — Esperamos comprar o resto da terra que arrendamos e a casa da fazenda também, quando seu pai se decidir nos vender.

— Bem, bem, proprietários de terras por todos estes anos — Gerald deu um sorriso irônico. — Imagino que a mãe de Lily teve algo a ver com isso, hein? Queria dar um presente à irmã, talvez?

— Não, senhor, quero dizer, Gerald — Kathleen enrubesceu de raiva — minha mãe e meu pai compraram tudo muito direitinho, no papel.

— Compreendo. — Gerald arqueou uma sobrancelha, não parecendo gostar muito da notícia.

— Realmente — Lily suspirou —, que importa quem é o dono? Esse pobre peixe ainda vai acabar no prato de alguém esta noite. Não acho que para ele isso importe. Pegue a minha vara, Joe, estou com calor e quero nadar um pouco.

Joe obedeceu enquanto Lily descia pelo barranco do rio até encontrar um lugar bom para entrar na água. Tirando o vestido, ela mergulhou na água gelada. Kathleen olhou de Joe para Gerald, observando os dois pares de olhos masculinos pregados em Lily, enquanto ela nadava.

— Devo admitir — disse Gerald, depois de terem comido o lanche que haviam levado para o piquenique —, esta parte do mundo é linda quando brilha o sol. Pena que sua mãe não fique tanto tempo aqui para aproveitar, Lily. Onde ela está no momento, a propósito?

— Ah, em Londres, você sabe como ela odeia o campo — replicou Lily distraidamente.

— Fico impressionado como papai aceita isso. Ter uma esposa ausente deve ser terrivelmente duro — disse Gerald.

— Você conhece a mamãe, ela é uma ave-do-paraíso e precisa ser livre — disse Lily categoricamente. — Ela voa de volta para casa quando sente saudade.

— Se é que isso acontece — Gerald murmurou baixinho. — Bem, não vou ficar muito por aqui no futuro, vou partir para Sandhurst para aprender a me tornar um oficial do exército — anunciou ele, olhando para Joe e Kathleen. — Invejo vocês dois em certo sentido. Sempre a mesma vida, dia após dia; contando as ovelhas, ordenhando as vacas…

— Eu diria que nossa vida tem mais coisas do que apenas isso — disse Kathleen na defensiva, odiando a maneira como ele vivia tratando-os com condescendência.

— E quanto a ele? — Gerald indicou Joe.

— Joe é feliz. Não é mesmo, Joe? — Kathleen disse suavemente.

— Sou — Joe concordou. — Amo Lily. Lily está bem, Joe está bem.

— Sério? — Gerald arqueou uma sobrancelha. — “Ama”, é? Você acha que algum dia Lil vai se casar com você, Joe?

— Sim. Caso com Lily. Cuido dela.

— Minha nossa! — Gerald deu uma risada. — Você ouviu isso, Lil? Joe acha que você vai se casar com ele.

— Não caçoe dele, Gerald, ele não entende — retrucou Lily.

— Bem, pois logo vai entender, quando você partir para a escola interna em algumas semanas e não estiver mais aqui.

Lily puxou os joelhos para perto do peito.

— Eles não podem me obrigar a ir se eu não quiser, Joe. E eu não quero, acabou — Lily fez beicinho.

Kathleen olhou para o rosto de Joe, que exibia uma expressão de horror.

— Lily vai embora? — ele perguntou devagar.

Lily levantou-se, aproximou-se de Joe e sentou-se ao lado dele, dando tapinhas na sua mão.

— Não se preocupe, Joe, eu prometo que não vou embora daqui, não importa o que o papai e a mamãe digam.

— Duvido que você tenha escolha, irmãzinha — disse Gerald.

— Lily fica. — Joe olhou para Gerald e passou um braço protetor ao redor dos ombros de Lily.

— Viu? — Lily sorriu. — Joe não quer que eu vá, quer, Joe?

— Não. — Joe levantou-se e, de repente, caminhou na direção de Gerald, inclinando-se ameaçadoramente para ele. — Lily fica aqui.

— Não há necessidade de brigar, Joe, são os pais dela os responsáveis, não eu. Embora eu ache que é para o bem dela, está na hora de aprender mais alguns modos e ficar mais parecida com uma dama.

— Lily dama! — Joe desferiu um murro com rapidez, atingindo Gerald no meio do queixo.

Gerald foi derrubado para trás com a força do golpe.

— Eu disse! Não há necessidade disso, cara!

Kathleen sentiu-se paralisada, assustada com a reação agressiva de Joe. Nunca o vira externar uma reação tão violenta. E não poderia ter infligido seu comportamento incomum a uma vítima mais maliciosa.

— Joe! — Ela recorreu ao bom senso. — Agora peça desculpas imediatamente ao Gerald por tê-lo agredido. Acredite, Gerald, ele não quis fazer isso, é só sua maneira de ser protetor em relação Lily. — Kathleen puxou o braço do irmão. — Venha, peça desculpa, Joe.

Joe baixou o olhar para os pés, respirou fundo e disse:

— Desculpe.

— Bem, não foi mal, hein? — Gerald levantou-se, limpando a roupa, e voltou-se para Lily.

— Já tomei murros piores do que este e vivi para contar a história.

Kathleen notou que o ego dele estava mais ferido do que o queixo. Especialmente na frente de Lily.

— Bem, vamos esquecer tudo isso e não deixar que estrague o resto do dia — disse Kathleen desesperadamente.

— É claro — disse Gerald. — Vamos esquecer. Toca aqui, Joe?

Relutantemente, Joe estendeu a mão.

— Aí está, tudo esquecido — disse Gerald.

De algum modo, Kathleen sabia que Gerald Lisle não perdoaria nem esqueceria.

O verão continuou e Joe e Kathleen viram menos Lily do que normalmente veriam. Joe passava horas olhando pela janela do quarto, em direção ao caminho do penhasco, esperando que Lily aparecesse. Quando ela apareceu, estava perturbada, de uma forma diferente. Kathleen pensou que talvez fosse a possibilidade iminente do internato que assombrasse seus pensamentos.

— Eu não fico lá se não gostar, vocês sabem — Lily disse para Kathleen e Joe numa noite quente de agosto enquanto eles passeavam pelo caminho do penhasco. — Simplesmente eu fujo.

— Ah, estou certa de que será melhor do que você pensa, Lily. — Kathleen olhou para o rosto triste e sério de Joe. — E lembre-se, você estará de volta para o Natal num piscar de olhos. Não é mesmo, Joe?

— Lily fica. Lily fica aqui.

— Prometo que voltarei, Joe. — Lily jogou os braços ao redor dos ombros de Joe. — Mas preciso partir para Londres dentro de uma semana para comprar as roupas para a escola. Mamãe vai chegar para me levar para a Inglaterra. O papai está todo ansioso com a chegada dela. — Lily arqueou as sobrancelhas. — Francamente, não sei como ele a aceita. Eles tocam aquela horrível música de balé sem parar por toda a casa. É tão deprimente. Não consigo entender como alguém pode gostar de ver uma porção de gente parada sobre uma perna e não dizer uma palavra durante duas horas inteiras! É tão chato!

Kathleen ouvira a mãe dizer que Lily tinha aversão ao balé porque ele representava a paixão, o centro do mundo, da mãe, e a separava da filha. Ela, porém, estava inclinada a concordar com Lily. Ao ser levada pela tia para assistir a um balé em Dublin, uma vez, dormira por quase metade da apresentação.

— Agora vou sair correndo. Gerald está me ensinando a jogar bridge. E pretendo me tornar uma verdadeira especialista. — Lily beijou Joe e Kathleen e partiu na direção da Casa de Dunworley.

Joe observou-a até ela se tornar um mero ponto na distância. Então ele se sentou pesadamente e ficou olhando para o mar. Kathleen ajoelhou-se ao seu lado, passando o braço ao redor dos ombros largos.

— Ela vai voltar, Joe, você sabe que vai.

As lágrimas assomaram nos olhos de Joe.

— Amo Lily, Kathleen. Amo Lily.

Kathleen sempre sabia quando a tia Anna viera visitá-los assim que ela entrava na casa da fazenda. O aroma penetrante do seu perfume, e da fumaça de cigarro, pairavam no ar desde a cozinha até a sala de estar. E ela podia ouvir a risada gutural da tia e o tilintar da porcelana chinesa — só retirada do armário pela mãe quando a tia Anna dava a graça da sua presença.

— Kathleen, minha q-querida! Como vai, minha p-preciosa? — disse a tia Anna quando Kathleen curvou-se para beijá-la. — Nossa — ela lançou um olhar de admiração em direção à sobrinha — você está mais forte desde a última vez que a vi.

— Obrigada — disse Kathleen automaticamente, não muito segura se deveria considerar o comentário como um cumprimento.

— Venha c-cá — a tia Anna bateu no assento ao seu lado, no sofá —, sente-se aqui e me conte o que t-tem feito.

Kathleen sentou-se, sentindo-se — como sempre — como um burro de carga perto da elegância esvoaçante da tia. O cabelo escuro da tia Anna, que a mãe dissera ser tingido, ficava preso elegantemente em um coque na nuca. Seus olhos imensos eram realçados com delineador, os lábios ferozmente vermelhos. Tudo isso, de encontro ao fundo muito branco da sua pele, dava-lhe uma aparência dramática e irresistível.

Como de costume, Kathleen ficou totalmente inibida na presença da mulher que ela sabia ser mundialmente famosa na comunidade do balé. O contraste entre as irmãs, que não eram ligadas pelo sangue — a mãe lhe contara que Anna fora adotada por seus pais —, mas que haviam crescido juntas na mesma casa, não poderia ser maior. Sentada na saleta decorada com móveis escuros e desgastados, tia Anna se parecia com uma flor exótica cultivada, por engano, em um pântano irlandês.

— Então me diga, Kathleen, conte todas as novidades à sua tia — Anna encorajou.

— Eu… — Kathleen sentiu um vazio na mente, incapaz de pensar em nada de interessante para dizer a alguém como a tia. — Bem… estive de férias e voltei para escola na semana passada — ela conseguira dizer, por fim.

— Já tem alguma ideia da sua futura c-carreira? — sondou Anna.

Kathleen não fazia a menor ideia. Dizer que queria ser esposa e mãe, e não muito mais que isso, parecia ser a resposta errada.

— Não sei ainda, tia.

— E quanto aos rapazes? — Anna a cutucou de maneira conspiratória. — Com certeza deve haver algum rapaz b-batendo na sua porta?

Kathleen pensou num rapaz de Skibbereen que conhecera recentemente, num baile local. John Ryan dançara com ela quatro vezes, e eles calcularam que poderiam ser parentes distantes por parte da avó dela, Colleen Ryan. Mas, naquela região, todo mundo parecia meio aparentado.

— Posso ver que há alguém, q-querida. Você enrubesceu!

— Sério, Kathleen? — disse a mãe na poltrona em frente. — Você tem um rapaz, não tem? Bem, ela nunca mencionou nada a respeito, Anna.

— Bem, todas as garotas gostam de ter seus segredos. Não é verdade, Kathleen? — a tia Anna sorriu.

— Não tenho segredos — ela titubeou, mas sentiu-se enrubescer.

— Não há nada de errado com alguns segredos, afinal, não é mesmo, Sophia? — a tia Anna sorriu. — Estou certa de q-que sua mãe lhe c-contou, Kathleen, que para me salvar, na época, a minha mãe adotiva, Mary, contou a Lawrence Lisle, meu guardião, que eu tinha morrido num surto de gripe na escola! Pode imaginar uma coisa dessas? — Anna assinava em baixo com sua risada gutural. — E, depois, eu apareci na Irlanda sã e salva, e me c-casei com o irmão do homem que pensava que fosse meu pai, anos antes. Ora, isso é que eu ch-chamo de guardar um segredo.

— Pessoalmente, Anna, não acho que seja motivo de riso. — Os olhos de Sophia estavam carregados perigosamente. — Você sabe tão bem quanto eu que nossa mãe fez tudo que pôde para proteger você e mantê-la segura. A um grande custo para si mesma, eu deveria acrescentar. Ela poderia ter ido parar na prisão.

— Eu sei de tudo isso, irmãzinha, e sou profundamente g-grata a ela por isso. Você sabe que sou.

— Foi por isso que você não falou com ela por quinze anos e deixou-a arrasada, não foi? — rebateu Sophia.

Sentada entre as duas, Kathleen desejou que o chão se abrisse sob seus pés.

— Francamente, Sophia! Por favor, não faça um sermão! — Anna rolou os olhos para o alto. — Tudo o que fiz foi o que qualquer jovem normal t-teria feito, eu fugi do ninho. Por favor, lembre-se, na época eu não fazia ideia do que Mary tinha feito para me ajudar. Não posso ser responsabilizada por isso, posso? Bem, agora vamos falar do futuro. Você sabia que estou l-levando Lily para Londres na próxima semana para inscrevê-la em um internato?

— Sim, eu sei.

Kathleen observou a mãe fazer um esforço para se recompor e compreender que ainda havia muita coisa que não sabia sobre a história entre as duas irmãs.

— Eu simplesmente não posso acreditar que vou partir na segunda-feira — Lily suspirou, enquanto ela e Kathleen achavam-se deitadas na areia olhando as estrelas. — Como poderei viver sem isto? Todo este espaço e liberdade… o cheiro do mar entrando pela janela do quarto na brisa da manhã… as tempestades que levantam as ondas com tanta violência contra os rochedos. E acima de tudo — Lily suspirou pesadamente — sem ninguém. Não sei se gosto muito das pessoas. Você gosta, Kathleen?

Kathleen estava acostumada com os pensamentos inusitados de Lily.

— Ora, bem, posso dizer que nunca pensei se gostava ou não das pessoas. Elas meio que existem, não é? A gente precisa conviver com elas, não acha?

— Mas você pode imaginar dividir seu quarto com sete estranhas? Isso é o que vai me acontecer dentro de uma semana. Não acho que vou sequer poder tomar banho sozinha. Ah, Kathleen, você consegue imaginar?

Para ser justa, Kathleen não conseguia. De repente, isso fazia sua vida parecer muito agradável. Ela não entendia por que uma garota que fora criada com tantos privilégios quanto Lily precisava ser levada para um estabelecimento que, pelo que Lily explicara, era pouco melhor do que o que lera a respeito no livro de Charles Dickens, Oliver Twist.

— Seja como for — continuou Lily —, como já disse antes, se não gostar de lá, eu fujo. Roubei algum dinheiro de papai para ter com que pagar a viagem de volta para a Irlanda. E, se for preciso, poderei dormir em um dos seus celeiros, e você me levará comida.

— Ora, Lily — Kathleen a confortou —, vai ser melhor do que isso. Você disse que há uma porção de famílias bem de vida que mandam as filhas para essa escola. Você vai fazer uma porção de amizades, tenho certeza disso.

— Mas eu odeio regras, Kathleen. Você sabe disso — Lily gemeu. — Não sou boa nisso, realmente não sou.

Kathleen imaginou se isso acontecia porque Lily não tinha de obedecer a muitas regras, antes de mais nada, ou se era simplesmente parte de sua personalidade. Sophia sempre chamara a sobrinha de um espírito livre e Kathleen presumia que era isso o que ela era.

— Estou certa de que não vai ser tão ruim quanto você pensa. É isso que as jovens damas precisam fazer, não é?

— Gerald diz que adorou Eton — Lily suspirou. Ela se colocou, de repente, de bruços, apoiando-se sobre os cotovelos e voltou-se para Kathleen. — Eu realmente acho que Gerald está bem bonito agora, você não acha?

— Ele não é o meu tipo — respondeu Kathleen, estremecendo visivelmente ante o pensamento.

— Bem, ele progrediu bastante em relação ao tipo arrogante que era antes. A propósito, ele sugeriu que na minha última noite na Irlanda nós quatro fôssemos à praia, à noite, acendêssemos uma fogueira e fizéssemos um piquenique como um tipo de comemoração de despedida para mim. Você está dentro, Kathleen? Você e Joe?

— Estou, com certeza, mas quanto a Joe… — Kathleen suspirou. — Não imagino que Gerald gostaria de tê-lo por perto.

— Ah, Gerald esqueceu tudo aquilo. — Lily afastou todas as preocupações de Kathleen com um gesto com a mão. — Diga apenas para Joe estar lá e estou certa de que vai dar tudo certo. Não seria a mesma coisa sem ele, seria?

— Não — Kathleen concordou —, não seria.

 

Sem dúvida nenhuma, o semblante de Joe se iluminou ante a ideia de passar a noite na praia ao lado de Lily. Mesmo que isso significasse que precisaria tolerar o Horrível Gerald. Assim que o céu se carregou com o peso da noite, Kathleen e Joe desceram para a enseada.

— Agora, Joe, lembre-se, é a última noite de Lily em uma festa. Não importa o que Gerald lhe diga, prometa que não deixará que o aborreça.

— Não, Kathleen.

— Você promete, Joe?

Joe inclinou a cabeça.

— Prometo. Tenho uma coisa. Para Lily. — Tirando a mão do bolso, Joe apresentou um anjo minúsculo primorosamente esculpido. — Lily é anjo — ele afirmou.

Kathleen parou de andar e examinou o objeto na mão de Joe. Não fazia ideia de quanto tempo custara a Joe esculpir a madeira ou como ele conseguira fazer um objeto tão delicado com as mãos tão enormes.

— Joe — disse Kathleen com admiração genuína —, é lindo, de verdade. Eu diria que você tem um profundo talento para esculpir na madeira. — Ela colocou a mão em cima da palma dele. — E ela vai ficar encantada com ele, tenho certeza disso.

 

Gerald e Lily já tinham montado o acampamento no momento em que Kathleen e Joe chegaram. Uma fogueira estava acesa sobre a areia, e Gerald começara a assar linguiças sobre as chamas.

— Olá, pessoal — disse Lily com viva animação. — Espero que tenham trazido bastante comida, estou morrendo de fome! Isto aqui não é maravilhoso?

Os três observaram, enquanto Lily, subitamente, saiu correndo pela praia, saltando e girando de felicidade.

— Muito embora ela odeie balé, sem dúvida nenhuma herdou a graça da mãe, não acha, Kathleen? — comentou Gerald, sem desviar, nem um segundo, os olhos da figura dançante de Lily.

— Tem, sim. — Kathleen lançou um olhar na direção de Joe, que observava Lily, maravilhado. Kathleen pegou as mantas que trouxera consigo e espalhou-as no chão. — Sente-se aqui, Joe.

Joe obedeceu, sem tirar os olhos de Lily.

Lily voltou ofegante e atirou-se ao chão para recuperar o fôlego.

— Ah! Quando acabar esse odioso internato, vou voltar para cá e morar em Dunworley para sempre. Alguém quer nadar antes do jantar?

Kathleen balançou a cabeça.

— Está frio demais para mim, Lily.

— Que amarelona você é. Onde está seu senso de aventura? É a minha última noite!

— Pois então vamos lá — Kathleen replicou relutante. — Vocês cuidam das linguiças, certo, rapazes?

Os dois rapazes observaram as garotas se afastarem na direção das ondas. Gerald puxou uma garrafa da mochila que trouxera consigo.

— E enquanto elas vão nadar, acho que você e eu poderíamos saborear um gole disto aqui, para afastar o frio.

Joe voltou lentamente o olhar, de onde Lily desaparecera, a distância, para encarar Gerald. Olhou curioso para a garrafa na mão de Gerald.

— É uísque irlandês. Feito em casa. Meu pai ganhou de um dos seus inquilinos. Já experimentou alguma vez, Joe?

Joe abanou a cabeça lentamente.

— Bem, vamos tomar um golinho. Saúde! — Gerald deu um bom gole e passou a garrafa para Joe.

Joe cheirou o conteúdo e franziu o nariz.

— O que você é? Um homem ou um rato? Todo irlandês deve experimentar sua bebida nacional Não iríamos querer que Lily pensasse que somos covardes, não é, Joe?

Diante dessa provocação, e um tanto inseguro, Joe levou a garrafa aos lábios e tomou um golinho. Engasgado e tossindo, devolveu a garrafa a Gerald.

— O primeiro gole é sempre o pior, prometo que terá um sabor melhor depois de mais alguns. — Gerald tomou outro gole.

Quando as garotas voltaram, as linguiças estavam assadas e Joe e Gerald pareciam estar rindo de uma piada desconhecida. Tremendo de frio, Kathleen envolveu-se em uma manta e ficou feliz ao perceber que não havia tensão entre os dois rapazes.

— Experimentem este suco de flor de sabugueiro. — Gerald piscou para Joe e estendeu um copo às garotas. Elas engoliram sedentas.

— Argh! — Lily cuspiu. — Tem um sabor muito estranho.

— Tem mesmo. — Kathleen olhou desconfiada para Gerald. — O que tem aí?

— Só uma coisinha para espantar o frio, não é, Joe? Quer mais um pouquinho?

Kathleen observou através da fogueira quando Gerald passou a garrafa a Joe.

— Agora, quem vai querer uma linguiça?

Quarenta minutos depois, Kathleen estava deitada de costas olhando as estrelas, imaginando por que pareciam girar. Nunca as vira dessa maneira antes. Podia ouvir Gerald e Joe gargalhando por qualquer comentário e a imagem sombreada de Lily dançando à luz da fogueira.

Kathleen sorriu, sentindo-se muito aquecida e contente. Fechou os olhos e adormeceu.

Quando acordou, Kathleen sentiu-se desorientada e muito, muito enjoada.

— Jesus, Maria e José! — disse ela, sentindo uma ânsia de vômito e projetando o conteúdo do estômago sobre a areia ao seu lado. Enjoou mais duas vezes, mas, pelo menos, depois de passado o mal-estar sua cabeça parara de girar. Depois de enterrar a sujeira que fizera, ela se sentiu morta de sede e virou-se em direção da fogueira para encontrar a garrafa de água que trouxera.

As mantas próximas a ela encontravam-se vazias, e a fogueira se apagara.

Ela bebeu ansiosamente da garrafa e levantou-se para ver se os outros três tinham ido nadar. Sentindo as pernas estranhamente trêmulas, caminhou até a praia, mas não ouviu nem os gritos normais de risos divertidos nem conseguiu divisar as figuras mergulhando nas ondas. Voltando para o acampamento, Kathleen gritou para chamá-los novamente.

— Apareçam, vocês três, sei que estão se escondendo de mim. Saiam, de onde quer que estejam!

Não houve resposta. Apenas o ruído constante da arrebentação sobre a areia.

— Será que voltaram para casa e me deixaram aqui? — Kathleen disse para si mesma. — Não vou conseguir carregar tudo isso sozinha pelos rochedos.

Depois de gritar até ficar rouca, Kathleen sentou-se de novo na manta. E notou uma garrafa vazia deitada na areia. Pegou-a, cheirou-a e gemeu, entendendo então por que ficara tão enjoada. Gerald devia ter misturado seu suco de flor de sabugueiro com aquele uísque irlandês feito de batatas por muitas pessoas da região. Ela sabia o quanto a beberagem podia ser letal.

— Gerald, seu idiota! O que pensa em fazer nos dando essa porcaria para beber?

Kathleen sentiu-se tomada de um presságio assustador quando imaginou os outros três bêbados, vagando por entre as ondas, longe de estar no seu juízo perfeito. Tentou imaginar o que deveria fazer. Se fosse buscar ajuda, seu pai a surraria até ela ficar em carne viva por andar bebendo e, sem dúvida nenhuma, não acreditaria que Gerald batizara o suco de flor de sabugueiro com aquele uísque. E quanto será que Joe havia bebido? Ele nunca provara uma gota de álcool na vida. Quem poderia saber o tipo de efeito que a bebida teria sobre ele?

Depois de passar mais dez minutos procurando e chamando seus nomes, na praia, Kathleen compreendeu com o coração pesado que não tinha escolha a não ser soar o alarme. Não fazia ideia de que horas eram e, enquanto se levantava, concluiu que sua única esperança era que os três a tivessem deixado dormindo onde estava e voltado para casa. Sem se preocupar sobre deixar seus pertences na praia, Kathleen sentiu-se angustiada enquanto voltava pelo caminho do penhasco.

De repente, ouviu um grito vindo do canto da praia que levava às rochas próximas a uma caverna.

Voltou-se e olhou para trás, mas não conseguiu distinguir uma figura.

— Kathleen, é você?

— Sou! — ela gritou em resposta.

— Sou eu! Gerald! — Ele começou a correr na direção dela. Quando a alcançou, estava ofegante pelo esforço e curvou-se para recuperar o fôlego. Levantando os olhos para ela, ele perguntou:

— Você viu aqueles dois? Lily e Joe? Eles disseram que sairiam para nadar há uma hora mais ou menos. Eu disse que cuidaria do acampamento, porque você estava dormindo. Como eles não voltaram, saí para tentar encontrá-los. Mas não vi nem sinal deles na praia. Por acaso eles voltaram para o acampamento? Será que me desencontrei deles?

— Não, eu estava lá o tempo todo e não vi nenhum deles.

— Meu Deus — Gerald gemeu, endireitando o corpo. — Joe em especial estava bem alegre. Espero que não tenha acontecido nada horrível com eles.

— Ora essa — Kathleen pôs as mãos nos quadris —, o que você pensava que estava fazendo, dando aquele uísque barato para ele beber?

— Joe é um homem crescido. E não recusou.

— E quanto a Lily? E quanto a mim? — Kathleen revelou toda a raiva e o medo que sentia. — Você pôs uísque no nosso suco, seu idiota! O que deu em você? E se Lily se afogou lá no mar? Você será o culpado! E como vai viver com isso, senhor Lisle? — ela gritou histericamente.

— Olhe aqui, Kathleen, não fiz nada a não ser animar a festa. E ninguém pode provar isso de qualquer maneira. Além do mais, em quem você pensa que vão acreditar, hein? Em você ou em mim? Enfim — ele encolheu os ombros —, isso é irrelevante. Precisamos encontrar Lily e Joe o mais depressa possível. Procurei pelos dois em toda parte e não encontrei nenhum sinal deles.

Os olhos de Kathleen foram atraídos para uma mancha de sangue nos shorts de Gerald.

— O que é isso aí? — ela apontou.

Gerald olhou para baixo.

— Eu devo ter-me cortado enquanto andava pelas rochas e o sangue manchou o tecido. Não se importe com isso, vamos procurar de novo ou sair para pedir ajuda?

— Acho melhor procurarmos ajuda.

— Certo. E vou lhe avisar uma coisa. — Gerald inclinou-se sobre ela, e Kathleen recuou assustada. — Vocês podem ter alguns hectares de terra de mato inútil, à beira do rio, mas ainda são inquilinos das terras do meu pai. Se disser uma palavra sobre aquela garrafa que eu trouxe para a praia, hoje à noite, vou fazer com que meu pai expulse você e sua família daquela casa e das terras mais rápido do que possa imaginar. Entendeu?

— Sim — Kathleen inclinou a cabeça com os olhos lacrimosos. — Entendi.

Uma hora depois, a pequena comunidade de Dunworley tinha sido alertada para a emergência e descera para a praia, procurando nas cavernas e no mar em busca de sinais de Lily e de Joe.

Quando o dia amanheceu, um fazendeiro local chamou a todos para uma pequena caverna onde Lily jazia, inconsciente. Sua roupa estava rasgada e ela, bastante machucada. O fazendeiro levou-a pelas rochas até um carro que os esperava. Ela foi colocada, gentilmente, no banco de trás, e levada até o hospital no centro de Cork.

Vinte minutos depois, Joe foi encontrado dormindo profundamente atrás de um afloramento de rochas, a não mais de 20 metros de onde Lily fora encontrada.

Quando o acordaram, ele parecia desorientado.

— Lily — ele murmurou. — Cadê Lily?

 

Naquela tarde, bateram à porta da casa da fazenda. Dois policiais esperavam na soleira quando Sophia a abriu.

— Senhora Doonan?

— Sim?

— Gostaríamos de falar com seu filho e sua filha sobre a noite passada — disse um dos policiais.

— Eles não estão com problemas, estão? — disse Sophia nervosa enquanto os deixava entrar. — São boas crianças, nunca fizeram nada de errado.

— Queremos falar primeiro com sua filha, senhora Doonan — disse o outro policial enquanto Sophia os conduzia até a sala de estar.

— Como está Lily? Ela deve ter caído das rochas. Kathleen, a minha filha, disse. Eu…

— É sobre isso que queremos conversar com ela — interrompeu o policial.

— Vou já chamá-la — disse Sophia.

Kathleen entrou na sala, minutos depois, os joelhos tremendo de medo.

— Kathleen Doonan?

— Sim, senhor.

— Sente-se, Kathleen. Não há nada por que ficar nervosa, só queremos lhe fazer algumas perguntas sobre o que aconteceu na noite passada.

— Lily está bem, não está? — indagou Kathleen ansiosamente.

— Ela vai ficar bem, não precisa se preocupar — disse um dos policiais. — Agora, Kathleen, pode nos contar sobre tudo o que aconteceu na noite passada? Desde o momento em que vocês quatro foram para a praia.

— Bem — ela engoliu em seco —, descemos lá para fazer um piquenique para comemorar a partida de Lily para o internato. Os rapazes acenderam a fogueira e assaram linguiças enquanto Lily e eu saímos para nadar — afirmou Kathleen, observando o outro policial tomar nota.

— E depois? — Incentivou ele.

— Voltamos, comemos o nosso lanche e depois eu… bem, eu adormeci.

— Você estava cansada?

— Devia estar, senhor.

— A que horas acordou?

— Não sei, mas, quando acordei, Lily, Joe e Gerald tinham saído. Saí para procurar por eles em toda parte, mas não consegui encontrá-los. Depois vi Gerald, saindo da caverna onde Lily foi encontrada. Ele disse que tinha procurado pelos dois. Então fomos dar o alarme. E isso — Kathleen encolheu os ombros — é tudo o que posso lhes dizer se é que talvez já não saibam.

— Kathleen, gostaria que me respondesse francamente — disse o policial educadamente. — Vocês quatro andaram consumindo alguma bebida alcoólica ontem à noite, no piquenique?

— Eu… não, senhor. Por que está pensando uma coisa dessas?

— Porque foi encontrada uma grande quantidade de álcool no sangue da sua prima Lily quando a examinaram no hospital. Você quer dizer que ela foi a única a participar disso?

— Senhor… — Kathleen lembrou-se do que Gerald lhe dissera na última noite sobre expulsar sua família das terras se ela contasse a verdade. — Sim — ela admitiu, envergonhada. — Todos tomamos uma bebida, sim. Mas não muito, senhor. E não poderia dizer nada quanto a Gerald — ela acrescentou apressadamente.

— E quanto ao seu irmão, Joe?

— Acho que ele andou bebendo um ou dois goles — Kathleen respondeu com franqueza.

— Bem, quando entrevistamos o senhor Gerald antes de virmos para cá, ele nos disse que Joe estava totalmente bêbado.

— Não acho o mesmo, senhor. Joe nunca bebe, então pode ser que um pouco tenha lhe subido à cabeça.

— “... um pouco tenha lhe subido à cabeça...” — murmurou o outro guarda baixinho.

— O senhor Gerald disse que seu irmão gosta muito de Lily. É verdade.

— Ah, sim, senhor, ele a adora — concordou Kathleen.

— O senhor Gerald disse que ouviu Joe dizer que queria se casar com Lily. Será que ele ouviu isso mesmo?

— Ah, bem — Kathleen encolheu os ombros para pensar na resposta correta —, nós nos conhecemos desde criança. Somos da mesma família. Joe sempre amou Lily.

— Sim, senhorita, mas vocês não são mais crianças, não é mesmo? Ou, pelo menos, seu irmão não é — disse o outro guarda em tom sombrio. — Você diria que seu irmão tem um caráter agressivo, senhorita Doonan?

— Joe? Não! Nunca! Acho que ele é uma das almas mais gentis que existem na Terra. Não seria capaz de fazer mal a uma mosca.

— Não foi isso o que o senhor Gerald nos contou, Kathleen. Ele disse que Joe lhe deu um murro no queixo algumas semanas atrás. Ele disse que você viu isso. Você viu?

— Eu… — Kathleen sentiu que começava a suar por causa da tensão do momento. — Sim, eu vi Joe bater no Gerald, senhor, mas Joe só fez isso porque Gerald disse algo a respeito de Lily que Joe não gostou. Como disse, ele é muito protetor em relação a ela. Eu lhe garanto, pergunte a qualquer um, Joe é inofensivo — acrescentou Kathleen desesperadamente. — Ele é bom e amoroso, e não quis fazer aquilo, sinceramente não quis.

— Você diria que ele é obcecado pela prima Lily? — perguntou o policial.

— Não — Kathleen balançou a cabeça, sentindo que estava sendo induzida a tomar um caminho e a dizer coisas que pareceriam erradas. — Ele apenas a adora — ela encolheu os ombros.

— Kathleen, alguma vez você viu seu irmão tocar em Lily?

— Mas é claro! O tempo todo! Ele a carrega nas costas, levanta-a para atirar no mar… eles brincam juntos…

— Obrigado, Kathleen. Vamos ter uma conversinha com sua mãe agora e depois vamos conversar com Joe.

— Não entendo, senhor. Por favor, Joe não está encrencado, não é? Ele pode ter bebido um pouco, e batido no Gerald aquela vez, mas o senhor precisa acreditar em mim, ele nunca fez mal a ninguém, especialmente a Lily — insistiu ela desesperadamente.

— Isso é tudo por enquanto, Kathleen. Talvez precisemos conversar com você de novo.

Kathleen levantou-se desconsolada e saiu da sala de estar, os olhos marejados de lágrimas. A mãe a esperava na cozinha. Ela olhou quando Kathleen chegou, observando-a com os olhos cheios de ansiedade.

— O que eles queriam, Kathleen?

— Não sei, mamãe, não sei. Eles me fizeram uma porção de perguntas sobre Joe, mas não me disseram por quê. Sei que Lily estava ferida, mas aquilo foi por ter caído das rochas, não foi? Não porque alguém… — Kathleen levou a mão à boca. — Ah, mamãe, você acha que os policiais pensam que Joe…

— Gostaríamos de conversar com a senhora agora, senhora Doonan.

— Um dos policiais estava na porta da cozinha.

— Estou indo — Sophia suspirou. Levantou-se e os acompanhou.

Kathleen subiu a escada para seu quarto e ficou andando desesperadamente infeliz de um lado para o outro, no espaço apertado, sabendo que algo estava assustadora e horrivelmente errado. Saindo do seu quarto, ela bateu na porta de Joe. Sem receber resposta, ela a abriu e encontrou Joe deitado na cama, as mãos sob a cabeça, olhando para o teto.

— Joe. — Ela se aproximou da cama e sentou-se na borda. — Como está se sentindo?

Joe não respondeu. Continuou olhando para o teto, os olhos expressando toda a sua infelicidade.

Kathleen encostou a mão em seu braço musculoso.

— Você por acaso sabe o que aconteceu com Lily na noite passada? E por que a polícia está aqui?

Finalmente, Joe abanou a cabeça.

— Você a viu cair e se machucar, Joe? Foi isso que aconteceu, não foi, Joe?

Finalmente, ele voltou os olhos para a irmã e abanou a cabeça lentamente.

— Não consigo me lembrar. Estava dormindo.

— Ah, Joe. Estou com tanto medo. Você precisa se lembrar. Você viu Lily cair e se machucar? — repetiu ela.

— Não — de novo, Joe abanou a cabeça. — Eu dormi.

— Joe, por favor, é importante que você me ouça — Kathleen disse com ansiedade. — E tente entender o que estou lhe dizendo. Não sei com certeza, mas os policiais podem ter colocado na cabeça que você poderia ter feito mal a Lily.

Diante desse comentário, Joe sentou-se de um salto.

— Não! Nunca machuquei Lily! Nunca!

— Eu sei disso, Joe, mas eles não sabem. E eles vieram aqui por alguma coisa que aconteceu a Lily. Para saber o que aconteceu ontem à noite. E estou pensando que eles estão tentando pôr a culpa em você.

— Não! Nunca machuquei Lily! — ele gritou, dando murros na cama.

Kathleen viu a traição e a raiva nos olhos de Joe.

— Você não precisa me dizer. Sei o quanto ama a Lily. Mas talvez aqueles policiais lá embaixo não saibam e poderiam ver o que aconteceu a Lily por outro ângulo. Você me promete que não vai ficar com raiva se eles fizerem perguntas de que não vai gostar? Por favor, Joe, tente se acalmar, mesmo se perguntarem se você machucou Lily — Kathleen suplicou a ele.

— Nunca machuquei Lily, amo Lily! — Joe tornou a repetir.

Kathleen mordeu o lábio em desespero, compreendendo que não havia nada que pudesse dizer ou fazer para proteger seu belo e gentil irmão de si mesmo.

— Ah, Joe, talvez eu esteja olhando pelo lado errado. Talvez Lily seja capaz de contar, ela mesma, a história. — Kathleen ajoelhou-se sobre a cama e passou os braços ao redor de Joe carinhosamente. — Seja você mesmo e conte a eles que você estava dormindo.

— Vou — Joe inclinou a cabeça veementemente.

Kathleen ainda o abraçava quando a mãe chegou, minutos depois, o rosto pálido, para dizer que Joe era chamado lá embaixo. Ela observou enquanto ele se levantava e deixava a sala, o coração oprimido por um medo esmagador.

Os policiais levaram Joe naquela tarde para um novo interrogatório. Dois dias depois, outro policial apareceu na casa e disse aos três familiares que Joe seria acusado de estupro e agressão a Lily Lisle. Ele seria mantido na cadeia de Cork até o julgamento.

Depois que o policial se foi, Sophia sentou-se em uma cadeira, junto à mesa. Ela pôs a cabeça sobre os braços e chorou em silêncio. Seamus aproximou-se e passou os braços ao redor dela, com lágrimas nos olhos também.

Kathleen observou os pais, o desespero gravado em suas faces, e soube que estavam arrasados.

Por fim, Sophia olhou para cima, segurando a mão do marido.

— Ele não fez aquilo, fez?

— Não, querida, sabemos que não fez. — Seamus abanou a cabeça lentamente. — Mas o que podemos fazer para consertar este erro, eu não sei. — Seamus voltou-se para Kathleen. — Será que alguém nesta casa se lembra do que aconteceu naquela noite? O que deu em vocês, menina, para beber uísque? Você sabe o que a bebida faz com a cabeça de alguém, especialmente alguém tão lerdo quanto Joe!

— Pai, eu sinto muito, sinto muito mesmo. — Kathleen torcia as mãos, desesperada para contar-lhes sobre como Gerald os enganara a todos para que bebessem álcool.

— E os policiais estão acreditando na palavra do inglês, como sempre. Quem sabe se eu fosse até lá e conversasse com o Gerald? — Seamus andava de um lado para o outro na cozinha.

— E ele vai lhe dizer a verdade? Alguém fez aquilo a Lily, e nós sabemos que não foi Joe. Mas o que podemos fazer? — Sophia balançou a cabeça, angustiada. — Se foi o Gerald, acha que ele algum dia vai admitir? Nunca!

— E quanto a Lily? — perguntou Kathleen. — E se eu for falar com ela? Você sabe como somos amigas, mãe.

Sophia olhou em dúvida para o marido.

— O que você acha, Seamus? Será que Kathleen deveria ir visitar Lily?

— Eu diria que qualquer coisa vale a pena nesta situação — concordou o pai.

No dia seguinte, Kathleen tomou o ônibus para o centro de Cork. Lily estava internada no Bons Secours Hospital.

Quando Kathleen entrou no quarto, Lily estava de olhos fechados. Kathleen a examinou, o círculo preto e arroxeado ao redor do olho esquerdo, o corte em seu lábio e os hematomas embaixo do queixo. Ela engoliu com dificuldade, sabendo que era impossível sequer considerar que Joe tivesse sido capaz de fazer uma coisa dessas à sua amada Lily. Kathleen sentou-se na cadeira, ao lado da cama, sabendo que, quando Lily acordasse e elas conversassem, deveria manter-se calma e não ficar histérica diante da horrível injustiça que estava acontecendo com seu irmão.

Finalmente, Lily abriu os olhos, piscou, depois notou Kathleen sentada ao lado dela. Kathleen estendeu o braço para segurar-lhe a mão.

— Como está se sentindo?

— Com sono — respondeu Lily. — Com muito sono.

— Eles estão lhe dando remédios para ajudar a aliviar a dor? Talvez isso lhe deixe sonolenta.

— Sim — Lily umedeceu os lábios. — Poderia me dar um pouco de água?

Kathleen ajudou Lily a sentar-se e a beber um pouco. Depois que ela terminou e Kathleen recolocou o copo sobre a mesa de cabeceira, ela perguntou suavemente:

— O que aconteceu com você, Lily?

— Eu realmente não sei. — Lily fechou os olhos de novo. — Não consigo me lembrar.

— Você deve se lembrar de alguma coisa — insistiu Kathleen. — Você não acha… quero dizer, você sabe que Joe jamais faria uma coisa dessas a você. Não é mesmo, Lily?

— A polícia fica me repetindo as mesmas perguntas e não sei a resposta.

— Eles o levaram preso, Lily. Eles prenderam Joe — Kathleen sussurrou. — Estão acusando Joe pelo que lhe aconteceu. Você vai dizer a eles, não vai? Conte a eles que Joe a ama, jamais faria mal a você… você sabe que não faria. Por favor, Lily, fale com eles.

Lily continuou de olhos fechados.

— Acho que ele não faria, não, mas não posso dizer o que não me lembro.

— E quanto a Gerald? Ele tentou e…? — Kathleen não era capaz de pronunciar as palavras. — Você lutou com ele…

Lily abriu os olhos de repente.

— Kathleen! Ele é meu meio-irmão. Não posso acusá-lo de fazer uma coisa dessas, posso? Além do mais — seus olhos começaram a se fechar de novo —, como eu disse, não consigo me lembrar. Agora, por favor, estou muito cansada e não quero conversar mais sobre isso.

— Lily — Kathleen lutou contra as lágrimas —, se você não falar em defesa de Joe, ele poderá ser mandado para a prisão! Por favor, estou implorando a você…

— Agora chega — disse uma voz atrás dela.

A tia Anna estava parada na porta, os braços cruzados.

— Acho que está na ho-hora de você s-sair, Kathleen. Como Lily lhe pediu.

— Por favor, tia Anna — disse Kathleen em desespero —, eles acham que nosso Joe fez isso a Lily, e a senhora sabe como ele sempre a adorou, sempre quis protegê-la.

— Chega! — cortou a tia em voz áspera. — Você está ficando histérica e isso não é b-bom para Lily. Sugiro que d-deixe a polícia terminar as investigações. Ninguém faz a menor ideia do que Joe poderia f-fazer quando bebe, e eu acho que você não está em posição de comentar também, mocinha. Você aparentemente b-bebeu demais e não viu nem ouviu nada.

— Não, mas eu vi o Gerald e ele tinha sangue…

— Eu disse chega! Quero que você saia do quarto da minha filha agora, ou vou mandar que a tirem daqui. E vou lhe dizer uma coisa, Sebastian e eu c-concordamos plenamente que o homem que atacou nossa f-filha merece tudo o que receber! E vamos cuidar para que receba!

Kathleen saiu correndo do quarto, as lágrimas toldando-lhe a visão. Ela deixou o hospital e sentou-se em um banco, num belo jardinzinho do lado de fora. Era inútil, inútil… e Joe, porque era Joe, não estava preparado para se proteger ou se defender do que estava lhe acontecendo. Se Lily não quisesse falar em sua defesa, nem a tia Anna, ela sabia que não haveria esperanças.

Três meses depois, Kathleen achava-se sentada com os pais ouvindo Joe ser sentenciado à prisão perpétua por estupro e agressão a Lily Lisle. O advogado de Joe conseguiu interpor um recurso em sua defesa, devido à sua capacidade mental limitada, para que fosse internado em uma instituição de tratamento de segurança, nas Midlands.

Kathleen soube que nunca se esqueceria da expressão de confusão e medo na face contraída de Joe, olhando para a família, sentada no fundo do tribunal, quando foi levado grosseiramente pelos cotovelos; um policial de cada lado dele.

— Joe! — Sophia gritou na sala. — Não o levem, por favor! Ele é o meu filho, ele não entende! Por favor… ele é o meu bebê, ele precisa de mim… Joe! Joe!

Depois que Joe foi levado para fora da sala e desapareceu da vista, Sophia afundou na cadeira e chorou inconsolavelmente.

— Ele vai morrer lá, trancado entre os loucos, e sem nenhum dos seus queridos animais por perto. Ai, meu Deus… ai, meu Deus…

Kathleen ficou sentada ao lado da mãe, com o pai, igualmente arrasado, tentando acalmá-la, e olhou diretamente à frente.

Ela soube, então, que jamais perdoaria os Lisles pelo que tinham feito à sua família pelo resto da vida.

Casa da Fazenda de Dunworley, momento atual

— Ah, mamãe — Grania disse em voz baixa ao observar os ombros de Kathleen se sacudirem, enquanto ela chorava. Aproximou-se para passar os braços ao redor deles. — Ah, mamãe.

— Desculpe, querida, é que é tão dolorido contar essa história.

— Mamãe, simplesmente não sei o que dizer. Tome, pegue este lenço. — Grania tirou um lenço de papel da caixa ao lado da cama e enxugou delicadamente os olhos da mãe.

— Sei que você vai pensar que isso aconteceu muito tempo atrás — disse Kathleen, tentando se recompor — mas, Grania, vejo os olhos inocentes e confiantes de Joe todos os dias da minha vida. Ele não entendia, veja bem, o que estava lhe acontecendo. Eles o confinaram naquele lugar, naquele lugar horrível, cheio de loucos que gritavam e berravam até não poder mais, batendo nas portas trancadas para tentar sair. — Kathleen estremeceu. — Ah, Grania, você não faz ideia.

— Não, estou certa que não — disse Grania em voz baixa. — Então, vocês tentaram entrar com alguma apelação?

— Você ficaria surpresa em saber que o advogado que consultamos nos aconselhou que seria desperdício de dinheiro tentar? — Kathleen soluçou tristemente. — Além do mais, depois de ir para aquele lugar, Joe piorou. Ele sempre teve dificuldade para falar, mas, quando fomos lá, ele tinha desistido completamente. Duvido que tenha pronunciado uma só palavra nos dez anos seguintes da sua vida. Ele ficava sentado na janela, olhando para fora, e, mesmo quando fomos visitá-lo, ele não pareceu compreender quem éramos. Acho que deviam deixá-lo dopado, como faziam com todos ali. Algo para mantê-los quietos, facilitando a vida dos enfermeiros.

— Ele continua lá ainda, mãe?

— Não — Kathleen abanou a cabeça. — Ele morreu de ataque cardíaco quando você tinha 12 anos. De qualquer modo, foi o que nos disseram. Joe sempre teve um sopro no coração, mas acredito que não foi o tratamento que lhe ministraram que levou ao pior, e sim o fato de ele se sentir rasgado ao meio. — Kathleen suspirou. — Para que o pobre rapaz viveria? Depois de ter sido acusado de fazer mal à pessoa a quem amava mais que tudo nesta vida? E terminar perdendo a liberdade por causa disso. Joe não tinha muita capacidade mental, então tenho certeza de que era impossível que tivesse consciência do que lhe acontecera. Acho que, para suportar a situação, ele acabou se refugiando dentro de si mesmo. Pelo menos, foi o que o psiquiatra nos disse.

— Ah, mãe. — Grania abanou a cabeça. — É uma história horrível. Alguma vez, depois disso, Lily conversou com você? Ela se lembrou do que aconteceu?

— Aquele dia no hospital foi a última vez que falei com Lily Lisle — disse Kathleen. — A tia Anna arrastou-a para Londres assim que ela voltou para casa, e não vimos mais nem um fio de cabelo dela outra vez. Até ela voltar à Casa de Dunworley com o marido a tiracolo, muitos anos depois.

— E quanto a Gerald? — indagou Grania. — Pelo que você acabou de dizer, devo concluir que foi ele o verdadeiro responsável pelo crime?

— É nisso que vou acreditar até o dia da minha morte — reiterou Kathleen determinada. — Tinha de ser um deles, e não poderia ter sido meu amável Joe. Mas pelo menos houve algum consolo. Ouvi falar, por alguém que trabalhou em Dunworley, para o senhor Sebastian Lisle — ela disse o nome com desdém —, que Gerald foi morto enquanto estava no exterior. Não porque estivesse servindo o país, em combate, mas em uma briga de bêbados na frente de um bar, em Chipre. Ele morreu antes de Joe, aos 24 anos. E foi assim que Lily veio a herdar a Casa de Dunworley.

— Você acha que o que aconteceu naquela noite viria a afetar Lily? Quero dizer… — Grania falou com muito cuidado, sabendo que era doloroso para a mãe — Alexander me contou que Lily sofria de uma grave instabilidade mental.

— Eu não saberia dizer, porque Lily sempre foi uma criança esquisita e uma adolescente estranha — refletiu Kathleen —, e ela nunca deu a entender que se lembrava do que acontecera naquela noite. Mas seria o caso de pensar, não é, que, se ela se lembrasse, isso poderia afetá-la?

— Sim, é claro que deve ter afetado — concordou Grania. — Isso também explica por que você sempre se preocupou com meu envolvimento com os Lisles. Agora entendo por quê. — Grania segurou a mão da mãe. — E sinto muito se essa aproximação a aborreceu e trouxe de volta o passado.

— Bem, como o seu pai vive me dizendo, você não tem nada a ver com o passado. Mas ele destruiu a minha família, pode estar certa. A mamãe e o papai nunca mais foram os mesmos. E, é claro, não foi só Lily, mas a irmã da mamãe, Anna, que se recusou a falar em favor do sobrinho. Muito embora a minha mãe tenha implorado a ela para dizer à polícia o quanto Joe era inofensivo, Anna se recusou. Se tivesse falado, Grania, eles poderiam ter ouvido. Afinal de contas, ela era a esposa do senhor das terras e teria sido ouvida.

— Mas, mãe — Grania suspirou —, como podiam esperar isso dela? Gerald era o enteado de Anna. Ela estava casada com o pai dele. Meu Deus, que confusão horrível.

— Sim — Kathleen concordou — e, é claro, você está certa. A tia Anna sempre soube de que lado ficar. Sebastian lhe proporcionava uma vida confortável e toda a liberdade que ela queria. Depois do incidente, a tia Anna raramente voltou à Irlanda, passando a maior parte do tempo em Londres, na casa em que crescera. As duas irmãs nunca mais voltaram a se falar.

Grania ficou em silêncio por um instante, dando tempo para absorver o que a mãe acabara de lhe contar.

— Compreendo que você deva odiar Lily pelo que ela fez ao Joe, mas realmente, mãe, será que foi mesmo culpa dela? Ela foi a vítima daquele ataque horrível, não importa quem o tenha praticado. Talvez ela não conseguisse se lembrar, mas, mesmo que pudesse, seria em algum momento capaz de acusar o meio-irmão? — refletiu Grania. — E quem sabe se Gerald não a ameaçou? Ele pode ter feito o mesmo a Lily para se assegurar de que ficasse de boca fechada. Não estou tentando desculpá-la — acrescentou ela, rapidamente —, mas não vejo como ela poderia ter ganhado alguma coisa com isso.

— Você está certa, sim — disse Kathleen. — Isso é o que seu pai tem me dito todos estes anos. E, para ser justa, quando Sebastian Lisle morreu, logo depois de Gerald, e Lily herdou a propriedade de Dunworley do pai, meu pai escreveu-lhe, em Londres, perguntando se poderia finalmente comprar a fazenda. Ela concordou e foi muito justa no preço.

— Sendo cínica; talvez fosse para minimizar qualquer tipo de contato entre a sua família e a dela?

— Sim. Provavelmente, foi — concordou Kathleen. — Isso, e também a culpa, talvez.

— Obviamente, Alexander não sabe nada a esse respeito — disse Grania.

— Acho que dificilmente a esposa lhe contaria.

— Não, mas talvez ajudasse se Alexander soubesse. Ele sempre disse que se sente pouco à vontade morando em Dunworley. E eu acho — Grania coçou a cabeça — que, muito embora você não seja responsável pelos problemas do seu parceiro, ainda assim se sente culpado de não ter feito o bastante para ajudar. E eu sei, pelo que Alexander me contou, que ele fez todo o possível para apoiar Lily.

— Estou certa de que sim. E se faz alguma diferença para você, Grania, parei de culpar Lily pelo que aconteceu. Mas a dor no meu coração em relação ao Joe nunca vai desaparecer.

— Não… e Lily parece que pagou o preço também. Coitada. Você se importaria se eu contasse a Alexander se aparecer o momento certo?

— Não. Senti de repente que era importante contar a você antes de partir para se encontrar com ele amanhã. O mais triste de tudo isso — Kathleen suspirou — é que sou a única sobrevivente daquela noite na praia. É quase como se o mundo nos tornasse culpados por tudo o que aconteceu naquela noite.

— Mamãe! Estou aqui, com Shane e papai — Grania caçoou —, então alguma coisa continuou dando um pouco certo.

— Sim, querida. — Kathleen estendeu a mão e acariciou a face da filha. — É claro que sim. E seu pai, Grania, bem, se não estivesse aqui ao meu lado depois de tudo o que aconteceu, eu teria ficado completamente louca. Ele foi maravilhoso, pode acreditar. E ainda é, apesar de todos os seus hábitos irritantes — ela riu. — E agora, acho melhor deixar você dormir um pouco antes de partir amanhã. Promete que vai se cuidar?<