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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A GRANDE RAINHA / Marion Zimmer Bradley
A GRANDE RAINHA / Marion Zimmer Bradley

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

AS BRUMAS DE AVALON

 

Livro 2

A Grande rainha

 

Capítulo 1

Lá longe, no norte, onde Lot era rei, a neve acumulava-se profundamente nos tabuleiros, e mesmo ao meio-dia a luz não passava de uma névoa penumbrosa. Nos raros dias em que o sol brilhava, os homens podiam sair para caçar, mas as mulheres eram prisioneiras do castelo. Morgause, girando vagarosamente o fuso - ela continuava a odiar essa ocupação, mas a sala estava demasiado escura para qualquer trabalho mais delicado -, sentiu uma corrente de vento gelado entrar pela porta e levantou os olhos. Disse, numa leve censura:

- Está muito frio para isso, Morgana, e você queixou-se de frio durante todo o dia. Agora quer nos transformar a todos em blocos de gelo?

- Eu não me queixei - respondeu Morgana. - Disse alguma coisa? A sala está tão abafada quanto uma privada, e a fumaça cheira mal. Quero respirar, apenas isso! - Fechou a porta e voltou para junto do fogo, esfregando as mãos e tremendo. - Desde o solstício do verão que sinto frio.

- Não tenho dúvidas disso - falou Morgause. - O pequeno passageiro aí rouba todo o calor de seus ossos. Ele está quentinho e confortável, enquanto a mãe treme. É sempre assim.

- Pelo menos já passamos a metade do inverno, pois a luz aparece mais cedo e fica até mais tarde - exclamou uma das criadas de Morgause. - E, talvez, dentro de mais uma quinzena, a senhora já tenha o seu bebê...

Morgana não respondeu e continuou a tremer junto à lareira, esfregando as mãos como se estivessem doendo. Morgause pensou que a moça parecia um espectro do que fora, o rosto emaciado e magro tinha uma aparência cadavérica, e as mãos ossudas, contrastando com a protuberância enorme da barriga grávida, pareciam as de um esqueleto. Havia grandes círculos sob seus olhos, e as pálpebras estavam vermelhas, como que irritadas pelo pranto prolongado, mas durante todas as luas que Morgana passou em sua casa, Morgause nunca a viu verter uma única lágrima.

"Eu a consolaria, mas como, se ela não chora?"

Morgana vestia uma velha roupa de Morgause, um camisolão desbotado e puído, azul-escuro, grotescamente grande demais. Parecia desajeitada, quase desmazelada, e Morgause sentia-se exasperada porque a sobrinha não se dera sequer ao trabalho de pegar agulha e linha para encurtar um pouco o vestido. Seus tornozelos estavam inchados e dobravam-se sobre os sapatos; isso era conseqüência de só se ter para comer peixe salgado e legumes silvestres, naquela época do ano. Todos precisavam de alimentos frescos, difíceis de conseguir então. Bem talvez os homens tivessem alguma sorte na caça e ela pudesse convencer Morgana a comer um pouco de carne fresca; depois de quatro gravidezes, Morgause conhecia a fome terrível da fase final. Lembrava-se de que certa vez, quando esperava Gawaine, entrara na sala de laticínios e comera um pouco da argila ali guardada para revestir as paredes. Uma velha parteira lhe dissera que quando uma mulher grávida não consegue controlar a vontade de comer essas coisas estranhas, é porque a criança tem fome e a mãe deve dar-lhe tudo o que ela desejar. Talvez no dia seguinte houvesse verduras frescas junto do regato da montanha - era uma comida pela qual toda mulher grávida ansiava, especialmente no fim do inverno.

O belo cabelo escuro de Morgana estava embaraçado, como se não tivesse sido penteado ou trançado há semanas.

Ela afastou-se do fogo e, apanhando um pente que estava no consolo, tentou alisar os pêlos de um dos cachorrinhos de Morgause. "Seria melhor que você se ocupasse com seu próprio cabelo", pensou a tia, mas ficou calada; Morgana andava tão irritada ultimamente que preferia não lhe dizer nada. Era natural, estando tão próxima do parto, pensou ela, contemplando as ossudas mãos da moça  manejando o pente em meio aos pêlos emaranhados; o cãozinho latiu e ganiu, e Morgana silenciou-o numa voz mais suave do que a usada, naqueles dias, com os seres humanos.

- Não pode demorar muito agora, Morgana - tornou Morgause docemente. - Pela Candelária, sem dúvida, você já estará livre.

- Já não é sem tempo - Morgana deu um último tapinha no cachorro e colocou-o no chão. - Bem agora você já está apresentável para ficar entre senhoras, bichinho... Como está bonito com o pêlo lisinho!

- Vou aumentar o fogo - suspirou uma das criadas, cujo nome era Beth, colocando de lado o fuso e jogando a roca numa cesta com lã solta. - Os homens não demoram, certamente. Já está escuro. - Dirigiu-se à lareira, tropeçou num graveto solto e quase caiu. - Gareth, seu bruxinho, limpe essa sujeira!

Jogou o graveto no fogo, e Gareth, de cinco anos, que os andava espalhando por todo lado e falando com eles a meia voz, deu um grito de protesto - os gravetos eram os seus exércitos!

- Bem, Gareth, já é noite, e seus soldados devem recolher-se às tendas - sugeriu Morgause secamente. Com ar amuado, o menino empurrou os gravetos para um canto, colocando porém um ou dois deles, com muito cuidado, numa dobra da túnica - eram os mais grossos, que Morgana, em princípios do ano, entalhara numa forma aproximada de soldados com elmos e armaduras, tingindo com suco de bagos suas supostas túnicas vermelhas.

- Você faz para mim outro cavaleiro romano, Morgana?

- Agora não, Gareth - respondeu. - Minhas mãos estão doendo de frio. Amanhã, talvez.

Mal-humorado, ele aproximou-se e, junto aos joelhos da tia, perguntou:

- Quando terei idade suficiente para ir caçar com papai e Agravaine?

- Faltam ainda alguns anos, creio - sorriu Morgana. - Você só poderá ir quando tiver altura bastante para não perder-se nas nevascas!

- Eu sou grande! - defendeu-se o menino, colncando-se bem ereto. - Veja, quando está sentada, eu sou maior do que você, Morgana! - Irritado, deu pontapés na cadeira. - Não se tem nada para fazer aqui!

- Bem - sugeriu Morgana -, posso ensinar-lhe a fiar, para você não ficar sem fazer nada.

Apanhou a roca abandonada de Beth e mostrou-a ao menino, mas ele fez uma careta e recuou.

- Eu serei cavaleiro! Cavaleiros não fiam!

- É pena - interrompeu Beth, com tristeza. - Talvez não usassem tantos mantos e túnicas se soubessem o trabalho que dá fiar!

- Mas existe a história de um cavaleiro que fiava

observou Morgana, estendendo os braços para a criança. - Venha cá. Não, sente-se no banco, Gareth, você é muito pesado para ficar agora no meu colo, como um nenê. Isso aconteceu antigamente, antes da vinda dos romanos, com um cavaleiro chamado Aquiles, que tinha sido amaldiçoado. Como uma velha feiticeira dissera à mãe dele que o jovem morreria em combate, ela o vestiu com saias e escondeu-o entre as mulheres, onde ele aprendeu a fiar e a tecer e a fazer tudo o que uma moça faz.

- E ele morreu em combate?

- Morreu, sim, pois quando a cidade de Tróia foi sitiada, todos os cavaleiros e guerreiros foram convocados para ir tomá-la, Aquiles acompanhou-os, e revelou-se o melhor de todos os cavaleiros. Conta-se que ele teve a oportunidade de escolher entre viver muito e em segurança, e então morrer velho e esquecido, ou viver pouco e morrer jovem em meio à glória, e que ele optou pela glória. Por isso, os homens ainda contam sua história nas sagas. Ele lutou em Tróia com um cavaleiro chamado Heitor - Ectório, em nossa língua.

- Foi o mesmo Ectório que criou nosso rei Artur? - perguntou o menino, de olhos arregalados.

- Não, pois tudo isso aconteceu há muitos séculos, mas talvez tenha sido um dos antepassados dele.

- Quando eu estiver na corte e for um dos Companheiros de Artur - disse Gareth, com os olhos arregalados como pires -, serei o melhor na guerra, e conquistarei todos os troféus quando houver certames. O que aconteceu com Aquiles?

- Não me lembro... Isso foi há muito tempo, e ouvi a história na corte de Uther - explicou Morgana, levando as mãos aos rins como se sentisse dores.

- Conte alguma coisa sobre os cavaleiros de Artur, Morgana. Você viu mesmo Lancelote, ou não? Eu o vi no dia da coroação do rei. Ele matou algum dragão? Conte-me, Morgana...

- Não a aborreça, Gareth; ela está doente - pediu Morgause. - Dê uma corrida até a cozinha e veja se eles têm algum pão de aveia para você.

O menino parecia aborrecido, mas, tirando o cavaleiro do bolso, saiu, conversando com ele a meia voz:

- Então, Sir Lancelote, vamos sair para matar os dragões do lago...

- Esse aí só fala de guerras e lutas - impacientou-se Morgause - e do seu precioso Lancelote, como se não bastasse ter Gawaine longe com Artur, nas guerras! Espero que quando Gareth crescer haja paz nesta terra!

- Haverá paz - sussurrou Morgana, com ar distante. - Mas isso não terá importância, pois ele morrerá pelas mãos de seu mais caro amigo...

- O quê! - exclamou Morgause espantada, mas os olhos da moça estavam perdidos na distância, como se nada vissem. A tia sacudiu-a levemente, perguntando:

- Morgana, você está se sentindo mal?

Morgana piscou e sacudiu a cabeça:

- Desculpe-me. O que foi que você disse?

- O que foi que eu disse? Ora, o que foi que você disse? - perguntou Morgause, mas o ar de sofrimento nos olhos da jovem provocou-lhe um arrepio. Afagou-lhe a mão, e atribuiu ao delírio as palavras sombrias. - Acho que você estava sonhando de olhos abertos. - Sentiu que não desejava acreditar que Morgana pudesse ter experimentado a Visão. - Deve cuidar-se mais, Morgana. Você mal come e não dorme...

- Sinto aversão pela comida - suspirou a moça. - Quem dera que fosse verão, e eu pudesse ter algumas frutas... A noite passada, sonhei que estava comendo as maçãs de Avalon...

Sua voz tremeu, e ela baixou a cabeça para que Morgause não visse as lágrimas que lhe pendiam dos cílios. Cerrou os punhos, porém, e não chorou.

- Estamos todos cansados de peixe salgado e toucinho defumado - comentou Morgause -, mas, se Lot tiver sorte na caçada, poderemos comer carne fresca.

Sabia que Morgana aprendera em Avalon a suportar a fome, a sede e o cansaço; agora, grávida, quando devia abrandar um pouco sua dureza, orgulhava-se de suportar tudo sem se queixar.

- Você teve a formação de uma sacerdotisa; aprendeu a jejuar, mas seu filho não pode suportar a fome e a sede, e você está magra demais...

- Não zombe de mim! - retrucou Morgana, irritada, mostrando a barriga desmesuradamente grande.

- Mas suas mãos e seu rosto estão que é só osso! Não deve jejuar assim; você está grávida, e deve pensar na criança!

- Pensarei no bem-estar dela, quando ela pensar no meu! - respondeu, levantando-se abruptamente, mas Morgause segurou-lhe as mãos e obrigou-a a sentar-se outra vez.

- Querida criança, sei o que você está passando, eu já tive quatro filhos, lembra-se? Os últimos dias são piores do que todos os longos meses juntos!

- Eu devia ter sido sensata, livrando-me disso quando era possível!

Morgause abriu a boca para uma resposta ríspida, mas suspirou:

- É muito tarde para dizer que devia ter feito isso ou aquilo; mais dez dias e tudo estará terminado. - Tirou um pente das dobras da túnica e começou a desembaraçar os cabelos da sobrinha.

- Deixe - disse ela, inquieta, afastando a cabeça. - Eu mesma faço isso amanhã. Tenho andado muito cansada para pensar nessas coisas. Mas se você está aborrecida de me ver toda desarrumada assim... bem, dê-me o pente!

- Fique quieta, Iennavan - pediu Morgause. - Não se lembra que, quando era pequenina em Tintagel, você me chamava para pentear seus cabelos, porque sua ama... como era mesmo o nome dela?... Ah, agora me lembro: Gwennis, era isso... costumava puxá-los, e você dizia: "Quero que a tia Morgause me penteie!" - Passou o pente pelos cabelos embaraçados, alisando-os fio por fio, e afagou-lhe carinhosamente a cabeça. - Seu cabelo é bonito.

- Escuro e grosso, como o rabo de um cavalo no inverno!

- Não, fino como a lã de uma ovelha negra, e brilhante como a seda - retrucou Morgause, ainda afagando os fios escuros. - Fique quieta, vou trançá-lo para você... Eu sempre desejei ter uma filha, para poder vesti-la com gosto e trançar-lhe o cabelo assim... Mas a Deusa só me deu filhos, e você deve ser a minha filhinha agora, quando precisa de mim... - Puxou a cabeça negra contra o peito, e Morgana ficou assim, tremendo, contendo as lágrimas que não podia derramar. - Assim, minha querida, não chore, não falta muito... Você não tem cuidado bem de si mesma, você precisa do cuidado de uma mãe, minha garotinha...

- É que... está tão escuro aqui... Anseio pelo sol...

- No verão temos muita luz, fica claro até a meia- noite, e por isso no inverno é tão escuro!

Morgana ainda tremia com soluços incontroláveis, e Morgause apertava-a contra o peito, embalando-a suavemente.

- Vamos, vamos, Iennavan, assim, eu sei como você se sente... Gawaine nasceu em pleno inverno. Estava escuro e tempestuoso como agora, eu tinha apenas dezesseis anos, e sentia muito medo. Nada sabia sobre partos. Arrependi-me então de não ter ficado como sacerdotisa em Avalon, ou na corte de Uther, ou em qualquer outro lugar que não fosse aqui. Lot estava fora, nas guerras, e eu tinha ódio de meu corpo inchado, vomitava o tempo todo, as costas me doíam e eu me sentia sozinha entre mulheres estranhas. Você acredita que durante todo aquele inverno guardei minha velha boneca, em segredo, na minha cama, e abraçada a ela chorava todas as noites até dormir? Eu era uma criança! Você, pelo menos, é uma mulher feita, minha querida.

Morgana disse, soluçando:

- Sei que sou muito velha para ser tão infantil... - mas agarrou-se a Morgause, quelhe afagava os cabelos.

- E agora, aquele mesmo bebê a que dei à luz antes de ser mulher está longe, lutando contra os saxões, e você, a quem segurei nos braços como uma boneca, você vai ter um filho. Ah, sim, eu tinha algumas novidades para contar-lhe. A mulher do cozinheiro, Marged, teve um filho. Sem dúvida, por isso o mingau estava encaroçado, hoje de manhã. Portanto, você já tem uma ama-de-leite à sua disposição. Mas tenho certeza de que quando vir o seu filho, quererá amamentá-lo.

Morgana fez um gesto de aversão, e Morgause sorriu.

- Eu também senti isso, antes do nascimento de cada um dos meus filhos, mas depois que olhava para eles, não podia largá-los. - Notou que a sobrinha estremecia. - O que foi, Morgana?

- Doem-me as costas. Fiquei sentada por muito tempo, é isso - respondeu a moça, levantando-se inquieta e andando pela sala, com as mãos nos rins. Morgause apertou pensativamente os olhos; sim, notara que, nos últimos dias, a barriga vinha baixando, não podia faltar muito agora. Devia mandar pôr palha fresca no aposento das mulheres e avisar às parteiras que estivessem prontas para qualquer momento.

 

Os homens de Lot encontraram um gamo nos montes; arrancada a pele e limpo, o cheiro da carne que estava sendo assada sobre uma grande fogueira enchia todo o castelo, e nem mesmo Morgana recusou um pedaço do fígado cru e sangrento - era costume destinar essa parte às mulheres grávidas.

Morgause viu-a fazer uma careta de nojo, tal como ela fazia quando coisas assim lhe eram servidas, durante a gravidez, mas Morgana, como ela mesma havia feito, comeu-a com avidez, pois seu corpo, sobrepujando a mente revoltada, exigia o alimento. Mais tarde, porém, depois de assada, partida e distribuída a carne, ela fez um gesto de recusa. A tia, porém, pegou um bom pedaço e colocou-o em seu prato.

- Coma - ordenou. - Não, Morgana, você vai me obedecer, não pode matar-se de fome e matar seu filho também desse jeito.

- Impossível - respondeu em voz baixa. - Vou acabar vomitando. Deixe de lado, e mais tarde tentarei comer.

- Por que não?

Baixando a cabeça, murmurou:

- Não posso comer carne de gamo... Comi isso em Beltane quando... e agora até mesmo o cheiro me dá náuseas...

"E essa criança foi gerada em Beltane, nas fogueiras rituais. Por que ela está tão perturbada? Essas recordações deviam ser agradáveis", pensou Morgause, sorrindo à lembrança de tais orgias. Ficou imaginando que a moça caíra nas mãos de algum homem excepcionalmente bruto e sofrera algo parecido com um estupro, o que explicaria sua raiva e desespero com a gravidez. Ainda assim, o que estava feito era irremediável, e Morgana tinha bastante idade para saber que nem todos os homens eram brutos, mesmo que sua primeira experiência tivesse sido com alguém que não era gentil nem hábil com as mulheres.

Morgause tomou um pedaço de pão de aveia e mergulhou-o no suco da carne, no prato.

- Então, coma isto. Terá, assim, as vantagens da carne, e vou mandar fazer-lhe um chá de bagas de roseira-brava. É azedo e lhe fará bem. Lembro que, em estado semelhante, eu desejava coisas azedas.

Morgana comeu obedientemente, e Morgause teve a impressão de que seu rosto adquiria alguma cor. Fez uma careta devido ao gosto azedo da beberagem, mas tomou-a.

- Não gosto, mas é estranho: não consigo parar de beber!

- Seu filho quer isso - explicou Morgause, a sério. - As crianças que estão no ventre sabem o que lhes convém.

Lot, sentado à vontade entre dois de seus caçadores, sorriu amigavelmente para ela.

- Um animal velho e magro, mas um bom jantar para um final de inverno - disse. - Fico satisfeito que não tenhamos encontrado uma fêmea prenhe. Vimos duas ou três, mas recomendei aos homens que as deixassem de lado, e até mesmo prendi os cães - quero que procriem em paz, e pude ver que estavam próximas do momento, muitas delas já bem pesadas.

Bocejou, e pegando o pequeno Gareth, cujo rosto estava engordurado e brilhante por causa da carne, disse:

- Dentro em pouco você já estará grande o bastante para ir caçar conosco. Você e o pequeno duque da Cornualha, sem dúvida.

- Quem é o duque da Cornualha, papai? - perguntou Gareth.

- Ora, o bebê de Morgana - respondeu Lot sorrindo, e o filho ficou olhando para ela.

- Eu não vejo nenhum bebê. Onde está o seu bebê, Morgana?

A tia deu um muxoxo, pouco à vontade:

- No próximo mês, por esta altura, eu o mostrarei a você.

- A donzela da primavera vai trazê-lo?

- É, pode-se dizer que sim - respondeu sorrindo, apesar de tudo.

- E como pode um bebê ser duque?

- Meu pai era duque da Cornualha. Sou sua única filha legítima. Quando Artur subiu ao trono, deu Tintagel de volta para Igraine; eu o herdarei dela, e também meus filhos, se tiver algum.

Morgause, olhando para a jovem, pensou: "Seu filho está mais perto do trono que o meu Gawaine. Eu sou irmã germana de Igraine, e Viviane é apenas irmã uterina, portanto Gawaine é mais aparentado com o rei do que Lancelote. Mas o filho de Morgana será sobrinho de Artur. Será que ela pensou nisso?"

- Certamente, então, Morgana, seu filho é o duque da Cornualha...

- Ou duquesa - sorriu ela novamente.

- Não, eu posso dizer, pelo jeito de sua barriga, baixa e larga, que será um menino - opinou Morgause. - Já tive quatro, e observei a gravidez de minhas criadas...

Sorriu maliciosamente para Lot e continuou:

- Meu marido leva muito a sério o velho adágio que manda o rei ser o pai do seu povo!

Lot respondeu com bom humor:

- Acho certo que meus filhos legítimos, nascidos de minha rainha, tenham muitos irmãos bastardos; dizem que sem irmãos estamos como que nus, e meus filhos são muitos... Vamos, Morgana, não quer pegar a harpa e cantar para nós?

A moça empurrou para o lado o resto do pão de aveia ensopado no molho.

- Comi demais para poder cantar - desculpou-se, enrugando a testa, e começou a andar pela sala; Morgause notou que ela tinha as mãos novamente nos rins. Gareth correu e puxou-a pela saia.

- Cante para mim. Cante aquela canção sobre o dragão, Morgana.

- É muito comprida para esta noite. Está na hora de você ir para a cama - mas, apesar disso, dirigiu-se para o canto, pegou a pequena harpa que ficava ali e sentou-se num banco. Tocou algumas notas ao acaso, inclinou-se para afinar uma das cordas e depois começou a cantar uma maliciosa canção com que os soldados acompanhavam suas bebedeiras.

Lot cantou em coro, e seus homens também, e as vozes roucas subiam até as trevas enfumaçadas:

 

- "Os saxões chegavam na escuridão da noite,

Quando todos estavam dormindo.

Mataram todas as mulheres, pois

Preferiam dormir com as ovelhas!"

 

- Você não aprendeu essa canção em Avalon - disse Lot sorrindo, enquanto Morgana se levantava para colocar a harpa no canto.

- Cante mais - pediu Gareth, mas ela sacudiu a cabeça numa negativa.

- Estou sem fôlego para cantar, agora. - Recolocou a harpa no lugar e apanhou o fuso, mas logo em seguida o pôs de lado e recomeçou a andar pela sala.

- O que tem, moça? - perguntou Lot. - Você está inquieta como um urso enjaulado!

- Minhas costas doem quando fico sentada, e aquela carne que minha tia queria que eu comesse acabou me provocando cólicas.

Levou novamente as mãos aos rins e curvou-se de repente, como se estivesse sentindo uma câimbra. Deu um grito assustado, e Morgause, que a olhava, notou que a comprida bata ficara molhada e escura, ensopada até os joelhos.

- Oh, Morgana, você se molhou! - gritou Gareth. - Você está muito grande para mijar na roupa. Minha ama me bateria se eu fizesse isso!

- Silêncio, Gareth! - ordenou Morgause rispidamente, e correu para a sobrinha, que continuava dobrada sobre si mesma, com o rosto vermelho de espanto e vergonha.

- Tenha calma, querida - disse ela, tomando-a pelo braço. - Você sente dores aqui... e aqui...? Foi o que pensei. É o trabalho de parto, não sabia?

Mas como poderia Morgana saber? Era seu primeiro filho, e como nunca fora dada a ouvir as conversas das mulheres, não conhecia os sinais. Devia estar sentindo as primeiras dores há muitas horas. Morgause chamou Beth:

- Leve a duquesa da Cornualha para o quarto das mulheres e chame Megan e Branwen. E solte os seus cabelos: ela não pode ter nada amarrado, ou com nós.

E acrescentou, afagando-lhe a cabeça:

- Quem me dera ter sabido disso antes, quando trancei o seu cabelo! Irei logo ficar com você, Morgana.

Ficou olhando-a sair, apoiada fortemente no braço da ama. E disse a Lot:

- Tenho de ficar com ela. É a primeira vez, e ficará com medo, pobrezinha!

- Não há pressa - comentou Lot preguiçosamente. - É o primeiro; ela terá de esperar toda esta noite, e você terá muito tempo para ficar segurando-lhe a mão. - Deu um sorriso bem-humorado para a esposa. - Você está com pressa em trazer para o mundo o rival de nosso Gawaine!

- O que quer dizer? - perguntou Morgause, em voz baixa.

- Apenas isto: Artur e Morgana nasceram do mesmo ventre, e o filho dela está mais perto do trono que o nosso.

- Artur é jovem - respondeu, friamente -, e tem tempo bastante para fazer dezenas de filhos. Por que acha que ele precisa de um herdeiro?

Lot deu de ombros:

- A sorte é inconstante. Artur enfrenta as batalhas como se estivesse cercado de uma proteção mágica. Sem dúvida, a Senhora do Lago tem alguma coisa a ver com isso, maldita seja! E Gawaine é demasiado leal ao seu rei. Mas a sorte pode afastar-se de Artur, e, se esse dia chegar, eu gostaria que Gawaine estivesse mais perto do trono. Pense bem, Morgause. A vida de uma criança é frágil! Você faria bem em pedir à Deusa que o pequeno duque da Cornualha não respirasse duas vezes.

- Como poderia fazer isso com Morgana? Ela é como uma filha para mim!

Lot pegou afetuosamente o queixo de sua mulher e sorriu:

- Você é mãe amante, Morgause, e eu não desejaria outra coisa. Mas tenho dúvidas de que Morgana esteja tão interessada em andar com um filho nos braços. Eu a ouvi dizer que gostaria de ter-se livrado dele...

- Ela está doente e cansada - Morgause irritou-se. - Você pensa que eu não disse a mesma coisa, quando estava cansada de andar por aí com uma barrigona? Toda mulher fala essas coisas nas últimas luas da gravidez.

- Ainda assim, se o filho de Morgana nascer morto, não me parece que ela lamentará muito. O que estou dizendo é que você não deve lamentar, tampouco.

Morgause defendeu a sobrinha:

- Ela é boa para o nosso Gareth, faz brinquedos para ele e conta-lhe histórias. Tenho certeza de que será boa mãe para o seu filho.

- Mesmo assim, não seria de nosso interesse que Morgana pensasse em seu filho como o herdeiro de Artur. - Abraçou a esposa. - Veja, minha querida, nós temos quatro filhos e, sem dúvida, quando forem todos crescidos, irão engalfinhar-se: o reino de Lot não é bastante grande para todos eles! Mas se Gawaine fosse o Grande Rei, haveria reinos para todos.

Ela sacudiu lentamente a cabeça. Lot não gostava de Artur, como não gostara de Uther; mas não podia ter imaginado que fosse assim tão insensível.

- Você está me pedindo que mate a criança tão logo nasça?

- Ela é minha parenta e hóspede - tornou Lot - e, portanto, sagrada. Eu não incorreria na pecha de assassino de um parente. Disse apenas que a vida dos recém-nascidos é frágil, a menos que se tenha muito cuidado com eles.

Se Morgana tiver um parto difícil, bem poderia acontecer que não houvesse tempo para cuidar da criança.

Morgause apertou os dentes, e afastou-se de Lot.

- Preciso ir ver minha sobrinha.

Por trás dela, Lot sorriu.

- Pense bem no que lhe disse, minha mulher.

Lá na pequena sala, a lareira fora acesa para as mulheres. Um caldeirão de sopa fervia sobre o fogo, pois a noite seria longa. Palha fresca tinha sido espalhada pelo chão. Morgause esquecera, como ocorre com as mulheres que são felizes com os filhos, o medo do parto, mas, à vista da palha, um calafrio percorreu-lhe a espinha. Morgana estava vestida com uma camisola folgada, e o cabelo, desatado, caía-lhe pelas costas. Estava andando de um lado para outro na sala, apoiada no braço de Megan. Tudo aquilo tinha um ar de festa, e festa era, realmente, para as outras mulheres. Morgause aproximou-se da sobrinha e tomou-lhe o braço.

- Vamos, agora você vai caminhar um pouco comigo, enquanto Megan vai preparar as fraldas do seu bebê.

Morgana olhou-a, e Morgause teve a impressão de que seus olhos eram os de um animal selvagem preso numa armadilha, esperando a mão do caçador que lhe cortará o pescoço.

- Demora muito, tia?

- Ora, ora, você não deve pensar nisso - respondeu carinhosamente. - Se quiser pensar, pense que as dores já começaram há muito tempo, e portanto tudo andará maís depressa agora.

Consigo mesma, porém, admitiu: "Não será fácil, ela é tão pequena, e está tão relutante em ter esse filho; sem dúvida, terá pela frente uma longa e dura noite..."

Lembrou então que Morgana tinha a Visão e que era inútil mentir-lhe. Acariciou-lhe o rosto pálido.

- Não importa, menina, tomaremos conta de você. É sempre demorado, com o primeiro filho, parece que eles não querem abandonar o ninho confortável. Mas faremos tudo o que pudermos. Alguém já trouxe um gato para o quarto?

- Um gato? Sim, ali tem um, mas por quê, tia?

- Porque, minha querida, se você já viu uma gata ter filhotes, saberá que ela não sente dores; fica ronronando o tempo todo e, assim, talvez o prazer que ela sente em dar à luz contribua para minorar as suas dores - explicou Morgause, afagando o gato. - É uma simpatia para o parto, uma magia que talvez vocês não conheçam em Avalon. Sim, pode sentar-se agora, descanse um pouco, e ponha o gato no colo.

Viu Morgana afagar o gato num momento de trégua, para, logo em seguida, dobrar-se novamente com as dores agudas, e insistiu com ela que se levantasse outra vez e andasse:

- Enquanto você puder agüentar. Assim vai mais depressa.

- Estou tão cansada, tão cansada... - gemeu.

"E ficará ainda mais cansada até que isto acabe", pensou, limitando-se a colocar o braço em torno da sobrinha.

- Vamos, apoie-se em mim, menina...

- Você é como minha mãe... - murmurou Morgana, agarrando-se à tia, com o rosto contorcido, como se fosse chorar. - Gostaria que minha mãe estivesse aqui...

E mordeu o lábio como se lamentasse aquele momento de fraqueza, recomeçando a andar devagar de um lado para outro no quarto cheio de gente.

As horas arrastavam-se, lentas. Algumas mulheres dormiam, mas eram muitas, e podiam revezar-se caminhando com Morgana, que ia ficando cada vez mais pálida. O sol já aparecera, e a parteira ainda não lhe dissera que podia deitar-se na palha, embora estivesse tão cansada que tropeçava e mal podia caminhar. Queixava-se de frio e apertava o quente manto de peles, para logo em seguida atirá-lo longe, dizendo que se sentia queimar. Repetidas vezes teve espasmos e vomitou, deitando fora apenas bílis esverdeada. Não conseguia, porém, conter os vômitos, embora a forçassem a beber preparados de ervas, que engolia, sedenta. Mas recomeçava logo a vomitar, e Morgause, observando-a, pensava no que Lot dissera, indagando-se se haveria alguma diferença em fazer o que ele sugerira ou não... Era muito possível que Morgana não sobrevivesse ao parto.

Por fim ela não conseguiu andar mais, e deixaram-na deitar-se, ofegante, mordendo os lábios a cada vez que lhe voltavam as dores. Morgause ajoelhou-se ao seu lado, segurando-lhe as mãos, enquanto as horas passavam. Muito tempo depois do meio-dia, perguntou-lhe docemente:

- Ele... o pai da criança... era muito maior do que você? Às vezes, quando a criança demora tanto a nascer, significa que saiu ao pai e que é grande demais para a mãe.

Pensava, como havia pensado antes, em quem seria o pai da criança. Vira Morgana olhar para Lancelote durante a coroação de Artur; se o filho era dele, isso poderia explicar a grande irritação de Viviane, que a forçara a fugir de Avalon... Em todos aqueles meses, Morgana nada disse das razões que a levaram a deixar o templo, e sobre o filho, apenas que fora gerado durante as fogueiras de Beltane. Viviane era tão carinhosa com a moça, e não teria deixado que ela se tornasse mãe do filho de um qualquer...

Mas se Morgana, rebelando-se contra o destino que lhe escolheram, tivesse tomado Lancelote como amante, ou o tivesse atraído para a caverna de Beltane, então isso poderia explicar por que a sacerdotisa predileta de Viviane, a esco- lhida como sucessora da Senhora do Lago, fugira de Avalon.

Mas Morgana dissera apenas:

- Não lhe vi o rosto; ele aproximou-se de mim como o Galhudo - e Morgause sabia, com os vestígios da Visão que lhe restavam, que a sobrinha estava mentindo. Por quê?

 

As horas arrastavam-se. Em certo momento, Morgause foi até o salão principal, onde os homens jogavam. Lot, com uma das jovens criadas de Morgause no colo, observava, enquanto suas mãos brincavam distraidamente com os seios dela. Quando Morgause entrou, a moça olhou-a apreensivamente, e começou a deslizar dos joelhos do amo, mas a outra fez um movimento de indiferença com os ombros.

- Fique onde está; não precisamos de você entre as parteiras, e, pelo menos esta noite, terei de ficar com minha sobrinha e não tenho tempo de brigar por um lugar na cama dele. Amanhã, as coisas podem ser diferentes.

A moça baixou a cabeça, corando. Lot perguntou:

- Como vai Morgana, querida?

- Nada bem. Nunca tive tanta dificuldade - respondeu Morgause, inquirindo em seguida, com raiva: - Você lançou uma praga contra minha sobrinha para que ela não se levantasse do leito do parto?

- Você é quem tem as magias e os encantamentos neste reino - defendeu-se Lot, sacudindo a cabeça. - Não desejo mal a Morgana. Deus sabe que isso seria desperdiçar uma mulher bonita, e Morgana é bonita, apesar de sua língua afiada! Embora ela seja da sua família, minha querida, isso apenas torna o prato mais salgado...

Morgause sorriu afetuosamente para o marido. Ele podia escolher brinquedos bonitos para a sua cama - e a moça em seu colo era apenas um deles -, mas entendiam- se bem, os dois.

- Mamãe, onde está Morgana? - quis saber Gareth. - Ela disse que hoje me faria mais um cavaleiro para brincar!

- Ela está doente, filhinho. - Morgause suspirou fundo, sentindo pesar novamente sobre ela a preocupação.

- Ela ficará boa logo - atalhou Lot -, e então você terá um priminho para brincar. Será seu irmão de criação e seu amigo. Temos um ditado segundo o qual os laços de parentesco duram três gerações, e os de criação duram sete, e como o filho de Morgana terá laços de parentesco e de criação com você, ele será mais do que seu irmão.

- Ficarei contente de ter um amigo - sorriu Gareth. - Agravaine zomba de mim e me chama de menino bobo, pois diz que estou muito grande para brincar com cavaleiros de madeira!

- Bem, o filho de Morgana será seu amigo, quando tiver crescido um pouquinho - explicou Morgause. - A princípio, ele será como um cachorrinho cujos olhos ainda não se abriram, mas dentro de um ou dois anos terá idade suficiente para brincar com você. Mas a Deusa ouve as orações das crianças, e por isso, meu filho, você deve pedir-lhe que dê a Morgana um filho forte, com muita saúde, e que ele não venha como o enviado da Morte...

E começou a chorar de repente. Espantado, Gareth ficou olhando a mãe, enquanto Lot indagava:

- Ela está assim tão mal, querida?

Morgause assentiu com um gesto de cabeça. Mas não havia necessidade de atemorizar a criança. Enxugou os olhos com a bata. Gareth olhou para o alto e exclamou:

- Por favor, querida Deusa, dê à minha prima Morgana um filho forte, para que possamos crescer juntos e juntos sermos cavaleiros.

Morgause riu contra a vontade e acariciou o rosto gorducho...

- Tenho a certeza de que a Deusa ouvirá essa prece. Agora devo voltar para junto de Morgana.

Sentiu, porém, que os olhos de Lot a acompanhavam enquanto deixava a sala, lembrando-lhe o que dissera antes - que seria melhor para eles se o filho de Morgana não sobrevivesse.

"Ficarei satisfeita se Morgana sair viva disto", pensou, e pela primeira vez lamentou ter aprendido tão pouco das grandes magias de Avalon, agora que necessitava de um encantamento que pudesse facilitar essa luta para a sobrinha.

Estava tão difícil, tão temerosamente difícil para a menina; seus partos não tinham sido assim...

Voltou para a sala das mulheres. As parteiras estavam fazendo Morgana ajoelhar-se sobre a palha, para ajudar a criança a deslizar do ventre; ela, porém, tombava entre as mulheres, como um corpo sem vida, de modo que duas delas tinham de segurá-la. Morgana soluçava, mordendo por vezes os lábios para não gritar, tentando ser corajosa. Morgause ajoelhou-se ao seu lado, na palha suja de sangue. Estendeu as mãos e Morgana agarrou-as, olhando para ela quase sem reconhecê-la.

- Mãe! - gritou. - Mãe, eu sabia que você viria... Seu rosto contorceu-se outra vez, e ela jogou a cabeça para trás, com a boca contraída em gritos abafados. Megan recomendou:

- Segure-a, senhora... Não, por trás, assim, mantendo-a ereta...

E Morgause, segurando a sobrinha pelas axilas, sentiu a moça estremecer, em contrações e soluços, enquanto lutava para libertar-se delas, cegamente. Já não era capaz de ajudá-las, ou mesmo deixá-las fazerem o que deviam, e gritava quando a tocavam. Morgause fechou os olhos sem querer ver, segurando com toda a sua força o corpo frágil de Morgana, que se contorcia. Ela gritou novamente "Mãe! Mãe!", mas Morgause não sabia se estava chamando Igraine ou a Deusa. Depois, caiu nos braços da tia, quase inconsciente; sentiu-se um forte cheiro de sangue, e Megan levantou alguma coisa escura e desarrumada.

- Veja, senhora Morgana. A senhora tem um belo filho...

E inclinou-se para a criança, soprando-lhe na boca.

Houve um som agudo, irritado, o grito de um recém-nascido chorando com fúria por ter sido trazido para um mundo frio.

Morgana, porém, jazia nos braços de Morgause, totalmente esgotada, sem forças nem mesmo para abrir os olhos e ver seu filho.

 

A criança fora lavada e enfaixada; Morgana tomara uma taça de leite quente e mel, com ervas contra a hemorragia, e dormia levemente, exausta, e nem se mexeu quando Morgause se inclinou para beijá-la de leve na testa.

Ela viveria e ficaria boa, embora a tia jamais tivesse visto uma mulher lutar tanto, e sobreviver, para ter um filho vivo. A parteira acreditava que, depois de todo o trabalho para que ele saísse vivo, era improvável que Morgana tivesse outro. O que, pensou Morgause, era bom. Compreendia agora que seus partos, apesar de não terem sido fáceis, não tinham sido nada, em comparação com este.

Pegou a criança enfaixada, olhando as minúsculas feições. Parecia estar respirando bem, embora por vezes, quando a criança não chora imediatamente e é necessário soprar-lhe na boca, a respiração possa voltar a falhar mais tarde, e ela venha a morrer. Mas o bebê tinha uma saudável cor rosada e até mesmo as pequenas unhas eram cor-de-rosa. Cabelos escuros e bem lisos, e uma penugem escura e macia ao longo dos braços e pernas - sim, ele nascera de uma fada, como a própria Morgana. Poderia ser mesmo filho de Lancelote e, portanto, duplamente próximo do trono de Artur.

A criança precisava de uma ama-de-leite imediatamente... e Morgause hesitou, então. Sem dúvida, quando Morgana tivesse repousado um pouco, desejaria segurar o bebê e amamentá-lo. Era sempre assim, por mais difícil que fosse o parto. E quanto mais difícil, maior a alegria da mãe em cuidar do filho; quanto maior a luta, maior o amor e o prazer com que a criança era levada ao seio.

Pensou, então, contra a vontade, nas palavras de Lot. "Se eu quiser ver Gawaine no trono, esta criança é um obstáculo." Não quisera ouvir quando Lot dissera isso, mas agora, com a criança nos braços, não podia deixar de pensar que não seria tão grave assim se ela fosse mal cuidada pela ama, ou estivesse demasiado fraca para mamar. E se Morgana ainda não a tivesse segurado ou amamentado, não sentiria muito; a criança não teria vivido pela vontade de Deus...

"Quero apenas poupar-lhe sofrimento..."

O filho de Morgana, provavelmente com Lancelote, ambos da velha linhagem real de Avalon... Se alguma coisa acontecesse a Artur, o povo aceitaria essa criança no trono.

Mas não tinha nem mesmo a certeza de que era filho de Lancelote.

E embora Morgause tivesse quatro filhos, Morgana era a menininha que ela mimara e cuidara como uma boneca, carregando-a nos braços; a menininha cujo cabelo escovava, a quem banhava e dava presentes. Poderia fazer isso com o filho dela? Quem poderia dizer que Artur não teria uma dezena de filhos com sua rainha, quem quer que fosse ela?

Mas filho de Lancelote.. Sim, o filho de Lancelote ela poderia abandonar à morte sem pena. Lancelote não era mais aparentado com Artur do que Gawaine, e não obstante Artur dava preferência a ele em tudo. Tal como ela própria vivera à sombra de Viviane, irmã desprezada que não fora cogitada para ser a Grande Rainha - jamais perdoara Viviane por ela ter escolhido Igraine para Uther -, assim também o fiel Gawaine viveria à sombra de Lancelote, que era mais brilhante. Se Lancelote tinha brincado com Morgana, ou se a desonrara, mais razão haveria para odiá-lo.

Pois não havia justificativas para que Morgana tivesse o filho bastardo dele, em segredo e em meio ao sofrimento. Teria Viviane, talvez, julgado o seu precioso filho bom demais para Morgana? Morgause vira a moça chorar em segredo durante todos aqueles longos meses; estaria ela doente devido ao amor e ao abandono?

"Viviane, maldita seja, usa as vidas das pessoas como as pedras de um jogo! Lançou Igraine nos braços de Uther sem pensar em Gorlois, levou Morgana para Avalon; irá destruir-lhe também a vida?

Se tivesse certeza de que era filho de Lancelote!"

Tal como lamentara, quando Morgana sofria as dores do parto, não conhecer magia bastante para minorar seu sofrimento, agora também lamentava seus poucos conhecimentos. Quando morava em Avalon, não tivera interesse nem persistência para estudar as histórias dos druidas. Ainda assim, vivendo com Viviane, aprendera uma ou outra coisa com a sacerdotisa que a mimara e estragara. Despreocupadamente, com bom humor, como se satisfaz a uma criança, mostraram-lhe alguns encantamentos e magias simples.

Bem, iria utilizar-se deles, agora. Fechou as portas do quarto e acendeu um novo fogo na lareira. Cortou três fios de cabelo da nuca da criança e, curvando-se sobre Morgana, adormecida, cortou também alguns fios de seus cabelos. Furou o dedo da criança com seu punhal, acalentando-a depois para silenciar o choro vigoroso. E, lançando ervas secretas ao fogo com os cabelos e o sangue, murmurou uma palavra que conhecia, e ficou olhando para as chamas.

Sustou a respiração em silêncio quando as chamas se contorceram, morreram, e por um momento um rosto a olhou - um rosto jovem, envolto em cabelos claros e sombreado pelos galhos que escureciam os olhos azuis parecidos com os de Uther...

Morgana dissera a verdade, ao afirmar que ele se aproximara dela como o Galhudo; não obstante, havia mentido...

Morgause devia ter compreendido; haviam celebrado o Grande Casamento para Artur, então, antes de sua coroação. Teria Viviane planejado isto também, uma criança que viesse de duas linhagens reais?

Houve um ruído atrás dela, e Morgause voltou-se. Morgana conseguira levantar-se e estava de pé, segurando a guarda da cama, com o rosto branco como a morte.

Seus lábios mal se mexeram; apenas os olhos escuros, que o sofrimento deixara muito fundos, brilhavam com o fogo da feitiçaria no chão, junto da lareira.

- Morgause - pediu ela -, jure, se você me ama, jure que não dirá nada a Lot ou a qualquer outra pessoa! Jure, ou lançarei sobre você todas as maldições que conheço!

A tia colocou a criança no berço e voltou-se para Morgana, segurando-a pelo braço e levando-a de volta para a cama.

- Vamos, deite-se, repouse, menina. Temos de conversar sobre isso. Artur! Por quê? Foi Viviane?

Morgana repetiu, ainda mais agitada:

- Jure não dizer nada! Jure não falar nunca mais sobre isso! Jure! Jure!

Seus olhos tinham um brilho selvagem. Morgause teve medo de que a moça perdesse o controle.

- Morgana, minha filha...

- Jure! Ou eu a amaldiçôo, pelo fogo, mar e pedra...

- Não! - interrompeu Morgause, segurando-lhe as mãos para acalmá-la. - Eu juro!, eu juro!

Não queria jurar. Pensou: "Eu devia ter-me recusado, eu devia ter falado disso com Lot...", mas era tarde demais, agora tinha jurado.. e ela não desejava ser amaldiçoada por uma sacerdotisa de Avalon.

- Deite-se, agora - recomendou suavemente. - Você precisa dormir, Morgana.

A moça fechou os olhos, e Morgause ficou sentada afagando-lhe a mão e pensando.

"Gawaine é homem de Artur, não importa o que aconteça. Lot não teria nenhuma vantagem com Gawaine no trono. Este - não importa quantos filhos Artur possa ter - é o seu primogênito. Artur foi criado como cristão e faz questão de ser rei de cristãos; consideraria este filho do incesto uma vergonha. É bom conhecer algum segredo grave de um rei. Mesmo de Lot, embora eu o ame, procurei sempre conhecer certos detalbes de seus pecados e de sua luxúria...

A criança, no berço, acordou e chorou. Morgana, como todas as mães, quando os filhos choram, abriu os olhos. Estava fraca demais, e quase não podia se mexer, mas murmurou:

- Meu filho... é o meu filho? Morgause, quero segurar meu filho.

Morgause inclinou-se e já ia colocar a criança, toda enrolada, nos braços de Morgana. Hesitou, então: se ela segurasse o filho uma vez, desejaria amamentá-lo, sentiria amor por ele, preocupar-se-ia com seu bem-estar. Mas se a criança fosse entregue a uma ama-de-leite antes mesmo que a mãe pudesse ver-lhe o rosto... bem, nesse caso não sentiria grande coisa, e o menino ficaria sendo, na realidade, o filho de seus pais adotivos. E seria bom que o primogênito de Artur, o filho que ele não ousava reconhecer, votasse a maior fidelidade a Lot e Morgause, como seus verdadeiros pais; que os filhos de Lot fossem seus irmãos, e não os filhos que Artur pudesse ter, quando se casasse.

As lágrimas rolavam mansamente pelo rosto de Morgana.

- Dê-me meu filho, Morgause, deixe-me segurá-lo, quero vê-lo... - implorou ela.

Morgause respondeu com ternura, mas também com firmeza:

- Não, Morgana. Você não tem forças para segurá-lo e amamentá-lo e... - Procurou apressadamente uma mentira em que a moça, ignorante em tudo que se relacionava com o assunto, pudesse acreditar. - Se você o segurar, ainda que seja uma vez só, ele não aceitará o seio da ama-de-leite; por isso é preciso entregá-lo a ela imediatamente. Poderá pegá-lo no colo quando você ficar um pouco mais forte, e ele estiver bem alimentado.

E embora Morgana começasse a chorar e estendesse os braços, soluçando, Morgause levou a criança para fora do quarto. Pensou: "Agora, ele será o filho adotivo de Lot, e teremos sempre uma arma contra o Grande Rei. E tenho certeza de que Morgana, quando estiver recuperada, não lhe dará muita importância, e se sentirá feliz em deixá-lo comigo."

 

Capítulo 2

Gwenhwyfar, filha do rei Leodegranz, estava sentada no alto do muro da horta fechada, segurando-se nas pedras com as duas mãos e olhando os cavalos no cercado lá embaixo.

Atrás dela havia o cheiro doce das ervas e hortaliças, das ervas medicinais que a mulher de seu pai usava para preparar remédios e poções. A horta era um dos seus lugares favoritos talvez o único ao ar livre do qual realmente gostava. Sentia-se mais protegida dentro de casa, ou quando bem cercada - os muros em volta da plantação faziam-na sentir-se quase tão segura quanto o interior do castelo. Ali, no alto, podia ver, lá longe no vale, uma grande extensão que se prolongava até onde a vista alcançava . . Gwenhwyfar voltou-se para a segurança do jardim por um momento, com as mãos dormentes outra vez e a respiração difícil na garganta. Ali no alto do muro que fechava a sua horta, estava a salvo; se começasse a sentir o pânico avassalador novamente, poderia descer e sentir-se protegida.

A esposa de seu pai Alienor, perguntou-lhe certa vez, exasperada, quando fizera referência a esse estado de espírito:

- Mas protegida contra o quê, menina? Os saxões nunca vêm tão para o oeste assim. Estamos no alto do morro, e poderíamos vê-los a pelo menos três léguas de distância, se viessem é a vista panorâmica que temos aqui que constitui a nossa principal proteção, em nome dos céus!

Gwenhwyfar jamais poderia contar-lhe, pois suas razões pareciam-lhe lógicas. Como explicar à sensata e prática Alienor que eram o próprio peso de todo aquele céu e a vastidão das terras que lhe faziam medo? Não havia o que temer, e isso era tolice.

Mas essa tolice tornava-a ofegante e ela sentia dificuldade para respirar e uma dormência que subia da barriga até a garganta, enquanto as mãos suadas perdiam a sensação do tato. Todos ficavam exasperados com ela - o padre residente, que lhe dizia não haver nada ali senão as boas terras... verdes de Deus, o pai, que lhe gritava que não tolerava aqueles disparates de mulher em sua casa -, por isso aprendeu a não manifestar seu temor em voz alta. Só no convento a haviam compreendido. Ah, o querido convento onde se sentia tão bem quanto um camundongo no ninho, e de onde nunca saía, a não ser para ir até o jardim! Gostaria de voltar para lá, mas agora era mulher feita, sua madrasta tinha filhos pequenos e precisava dela.

A ideia do casamento também lhe dava medo. Mas então teria a sua casa, onde poderia fazer o que quisesse e onde seria a dona. Ninguém ousaria rir dela!

Lá embaixo, os cavalos corriam, mas entre eles os olhos de Gwenhwyfar fixavam-se em um homem esguio, vestido de vermelho, cujo cabelo encaracolado ocultava a testa queimada de sol. Percebendo que ele era tão veloz quanto os próprios cavalos, a moça compreendeu por que os saxões o chamavam de Flecha de Duende. Alguém lhe contara que ele tinha sangue de fadas, Lancelote do Lago, era seu nome, e Gwenhwyfar já o tinha visto no lago mágico, no tenebroso dia em que se perdera, na companhia daquela horrível mulher-fada.

Lancelote laçara o cavalo que desejava; um ou dois dos homens de seu pai gritaram-lhe uma advertência, e Gwenhwyfar quase gritou também. Aquele cavalo não era montado nem mesmo por seu pai, mas apenas pelos melhores amansadores. Lancelote, rindo, fez um gesto de desprezo pela advertência; deixou que o domador viesse segurar o animal, enquanto lhe colocava a sela. Gwenhwyfar ouvia-lhe a voz risonha.

- Que prazer terei em montar um cavalo de moça, que qualquer um pode conduzir com uma rédea feita de palha? Quero que vocês vejam. Com a rédea colocada dessa maneira, posso controlar o cavalo mais indócil que tenham e transformá-lo num animal de combate. Assim, vejam...

Ajeitou uma das fivelas dos arreios e pulou na sela, sem qualquer ajuda. O cavalo levantou-se nas patas traseiras; Gwenhwyfar ficou olhando, boquiaberta, enquanto ele se inclinava sobre o animal, obrigando-o a baixar as patas e a sujeitar-se, forçando-o a andar lentamente. O fogoso animal tentava escapar ao controle, indócil, com movimentos laterais; Lancelote fez um gesto, pedindo a um dos palafreneiros do rei que lhe desse uma lança comprida.

- Agora vejam... - gritou. - Suponhamos que aquele saco de palhas ali seja um saxão que avança contra mim com uma daquelas grandes espadas cegas que usam...

Deixou o cavalo correr, lançando-se pelo gramado. Os outros cavalos espalharam-se quando ele se aproximou, célere, do saco de palha e o atravessou com a lança, sacando depois a espada da bainha, ao mesmo tempo em que se voltava, contendo o cavalo a meio galope e girando a arma em grandes círculos. Até mesmo Leodegranz recuou quando ele avançou sobre o grupo de homens. Lancelote deteve com perfeição o animal na frente do rei, desmontou e fez uma mesura.

- Senhor! Peço vossa autorização para treinar cavalos e homens, a fim de que sejam levados por vós à batalha quando os saxões voltarem, para que os derroteis como fez Artur na Floresta de Celidon, no último verão. Tivemos já algumas vitórias, mas chegará o dia em que uma grande batalha decidirá para sempre se os saxões ou os romanos governarão esta terra. Estamos treinando todos os cavalos que conseguimos, mas os de Vossa Majestade são melhores do que quaisquer outros que possamos comprar ou criar.

- Eu não jurei fidelidade a Artur - exclamou o pai de Gwenhwyfar. - Uther era diferente. Era um soldado com experiência, e homem de Ambrósio. Artur é apenas um rapaz...

- Ainda pensais assim, depois das batalhas que ele venceu? - perguntou Lancelote. - Ele conserva o trono há mais de um ano, é o vosso Grande Rei, senhor. Quer lhe tenhais jurado fidelidade ou não, em toda batalha que ele trava com os saxões também protege Vossa Majestade. Cavalos e homens, é pouco o que pedimos.

Leodegranz fez um aceno de cabeça.

- Não é aqui o lugar para discutirmos a estratégia do reino, Sir Lancelote. Já vi o que sabe fazer com o cavalo. Ele é seu, meu hóspede.

Lancelote fez uma grande reverência e agradeceu formalmente ao rei Leodegranz, mas Gwenhwyfar notou que seus olhos brilharam de alegria. Ficou imaginando quantos anos ele teria.

- Entremos no castelo - convidou Leodegranz -, bebamos juntos e lhe farei uma proposta.

Gwenhwyfar saltou do muro e correu pela horta até a cozinha, onde a esposa de seu pai supervisionava o trabalho das mulheres.

- Senhora, meu pai está chegando com Lancelote, o emissário do Grande Rei. Hão de querer comida e bebida.

Alienor olhou-a, espantada.

- Muito obrigada, Gwenhwyfar. Vá ajeitar-se, e poderá levar-lhe o vinho, pois estou muito ocupada.

Gwenhwyfar correu ao seu quarto, vestiu a melhor roupa por cima da bata simples que usava e colocou no pescoço um colar de contas de coral. Desfez as tranças do belo cabelo e deixou-o cair, ondulado. Enfiou no dedo o pequeno anel de ouro de donzela que costumava usar e desceu, com passos medidos e movimentos leves. Sabia que o azul lhe assentava melhor do que qualquer outra cor, por mais cara que fosse a roupa.

Apanhou uma bacia de bronze, encheu-a com a água quente da chaleira pendurada junto ao fogo, e nela espalhou pétalas de rosa. Caminhou para o saguão no momento em que seu pai e Lancelote estavam entrando. Pousou a bacia, recebeu os mantos dos homens, pendurou-os num cabide, e voltou a fim de oferecer-lhes a água quente e perfumada para lavarem as mãos. Lancelote sorriu, e ela sentiu que fora reconhecida.

- Não nos encontramos antes na ilha dos Padres, senhora?

- Já conhece a minha filha, senhor?

Lancelote concordou com um gesto de cabeça, e Gwenhwyfar, com a voz mais tímida e suave possível - aprendera há muito que desagradava ao pai quando falava com ousadia - disse:

- Papai, ele mostrou-me o caminho para o convento, quando me perdi.

Leodegranz sorriu para ela, indulgente.

- Minha querida cabeça-de-vento, se der três passos para fora de casa, perde-se. Bem, Sir Lancelote, o que pensa de meus cavalos?

- Já vos disse. São melhores do que quaisquer outros que possamos comprar ou criar. Temos alguns vindos dos reinos mouros na Espanha, e os cruzamos com os animais dos altiplanos, de modo que temos cavalos resistentes, capazes de suportar nosso clima e, ao mesmo tempo, rápidos e corajosos. Mas precisamos de mais. O número que podemos produzir é limitado. Tendes mais do que suficiente, e posso mostrar-vos como treiná-los para que os possais levar às batalhas...

- Não - interrompeu o rei. - Estou velho. Não tenho vontade de aprender novos métodos de luta. Casei-me quatro vezes, mas todas as minhas esposas só me deram meninas doentias que morreram antes de serem desmamadas, por vezes antes mesmo de serem batizadas. Tenho filhas; quando a mais velha casar-se, seu marido é quem comandará meus homens nas batalhas, e poderá treiná-los como quiser. Diga ao seu Grande Rei que venha até aqui, e examinaremos o assunto. Lancelote respondeu, um pouco secamente:

- Sou primo e capitão do senhor meu rei Artur, mas nem mesmo eu lhe digo o que ele deve fazer.

- Peça-lhe, então, que venha até um velho que não quer afastar-se de junto de sua lareira - sugeriu o rei, um pouco aborrecido. - Se não vier por mim, talvez venha para saber o que farei dos meus cavalos e dos homens armados para montá-los.

Lancelote fez uma reverência.

- Sem dúvida, senhor.

- Chega dessa conversa, então. Filha, sirva-nos um pouco de vinho - pediu o rei. Gwenhwyfar aproximou-se timidamente e verteu o vinho em suas taças.

- Agora vá, minha filha, para que eu e meu hóspede possamos conversar.

Despedida, Gwenhwyfar ficou esperando na horta até que um criado saísse e pedisse o cavalo e a armadura do senhor Lancelote. O cavalo em que viera e o outro, que lhe fora dado por seu pai, foram levados até a porta. Ela ficou observando, à sombra do muro, até que Lancelote se afastou; depois, saiu e ficou esperando. O coração batia-lhe forte - acharia ele que fora muito ousada? Mas o cavaleiro a viu, sorriu, e esse sorriso dominou-lhe o coração.

- O senhor não tem medo desse cavalo grande e fogoso?

Lancelote sacudiu negativamente a cabeça.

- Minha senhora, não creio que tenha nascido ainda um cavalo em que eu não possa montar.

Então, quase murmurando, ela perguntou:

- É verdade que o senhor controla os cavalos com a sua magia?

Ele lançou a cabeça para trás, numa gargalhada sonora.

- De modo algum, minha senhora. Não faço mágicas. Gosto dos cavalos, compreendo seu jeito e como a cabeça deles funciona, eis tudo. Será que pareço um feiticeiro?

- Mas... dizem que o senhor tem sangue de fadas - continuou a moça, e o riso dele tornou-se mais grave.

- Realmente, minha mãe era da velha raça que governou esta terra antes da chegada dos romanos; ou mesmo das tribos do norte. Ela é sacerdotisa na ilha de Avalon e uma mulher muito sábia.

- Noto que o senhor não falaria mal de sua mãe - disse Gwenhwyfar -, mas as irmãs do convento de Ynis Witrin disseram que as mulheres de Avalon eram bruxas malignas que serviam aos demônios...

Ele sacudiu a cabeça, ainda sério:

- Não é verdade. Não conheço bem minha mãe, fui educado em outro lugar. Tenho tanto medo quanto amor por ela. Mas posso assegurar-lhe que não é uma mulher malvada. Ela levou o meu senhor Artur ao trono e deu-lhe sua espada para lutar contra os saxões. Isso lhe parece algo mau? Quanto à sua magia, só os ignorantes a consideram uma feiticeira. É bom que a mulher seja sábia.

Gwenhwyfar baixou a cabeça.

- Não sou sábia, sou muito idiota. Até mesmo com as irmãs, aprendi apenas a ler com dificuldade o livro da missa, que, segundo elas, era tudo o que eu precisava saber, além das coisas que as mulheres aprendem: cozinhar, lidar com ervas e poções, tratar de ferimentos...

- Para mim, tudo isso seria um mistério maior do que o treinamento dos cavalos, que a senhora considera uma mágica - sugeriu Lancelote, com seu grande sorriso. Depois, inclinou-se na montaria e tocou-lhe o rosto com a mão. - Se Deus for bom, e os saxões não aparecerem por algumas luas ainda, vê-la-ei novamente, quando voltar com o Grande Rei. Reze por mim, senhora.

Afastou-se, e Gwenhwyfar ficou a olhá-lo, com o coração batendo forte, mas experimentando agora uma sensação quase agradável. Ele poderia voltar, ele queria voltar. E seu pai dissera que devia casar-se com alguém que pudesse comandar cavalos e homens na batalha; quem melhor do que o primo do Grande Rei e capitão de sua cavalaria? Estaria o pai pensando em casá-la com Lancelote? A moça corou de satisfação e felicidade. Pela primeíra vez, sentiu-se bela, ousada e corajosa.

Mas no interior do castelo, seu pai lhe disse:

- Um belo homem, esse Flecha de Duende, e hábil com os cavalos, mas bonito demais para ser alguma coisa mais do que isso.

E Gwenhwyfar exclamou, surpresa com sua audácia:

- Se o Grande Rei fez dele o primeiro de seus capitães, ele deve ser o melhor dos guerreiros!

Leodegranz deu de ombros.

- Ele é primo do rei, e dificilmente poderia ficar sem um posto em seus exércitos. Será que ele tentou conquistar seu coração, ou - acrescentou com um olhar que a fez tremer de medo - sua virgindade?

Sentiu-se corar outra vez, e ficou desesperadamente irritada consigo mesma.

- Não, ele é um homem decente, e o que me disse poderia ser dito em sua presença, meu pai.

- Bem, não ponha idéias nessa sua cabeça-de-vento - interrompeu-a Leodegranz, mal-humorado. - Você pode voltar os olhos para coisas melhores do que ele. Esse homem não passa de um bastardo do rei Ban, com Deus-sabe-quem, uma dessas moças de Avalon!

- A mãe dele é a Senhora de Avalon, a grande sacerdotisa do Povo Antigo, e ele é filho de um rei...

- Ban de Benwick! Ban tem meia dúzia de filhos legítimos. Por que casar-se com um capitão do rei? Se tudo currer bem, você se casará com o próprio rei!

Gwenhwyfar recuou, dizendo:

- Eu teria medo de ser a Grande Rainha.

- Você tem medo de tudo, não importa o quê - respondeu o pai com brutalidade. - É por isso que precisa de um homem para tomar conta de você, e o rei é melhor do que o capitão do rei!

Viu os lábios da filha tremerem, e disse-lhe calmamente:

- Vamos, vamos, menina, não chore. Deve ter confiança em mim; eu sei o que é melhor para você. É para isso que estou aqui, para cuidar do seu futuro e conseguir-lhe um bom casamento, com um homem de confiança, que cuide bem de minha pequena e linda cabecinha-de-vento.

Se ele tivesse se zangado com ela, Gwenhwyfar poderia ter insistido em sua rebelião. "Mas como posso me queixar do melhor dos pais, que só quer o meu bem?", pensou.

 

Capítulo 3

Num dia de começo da primavera, no ano seguinte à coroação de Artur, Igraine, em seu convento, estava inclinada sobre um bordado de toalha de altar.

Durante toda a sua vida gostara desse trabalho delicado, mas quando moça, e mais tarde casada com Gorlois, deixara-se ocupar - como todas as mulheres - com o trabalho de tecer, fiar e costurar roupas para a sua casa. Como rainha de Uther, com muitos criados, pudera passar o tempo livre fazendo bordados finos e tecendo bainhas de fitas de seda; ali, no convento, procurava tornar úteis seus conhecimentos. Não fora isso, pensava um pouco pesarosamente, aconteceria com ela o mesmo que com tantas freiras: teceria apenas as roupas lisas, escuras, de lã, que todas elas, inclusive Igraine, usavam, ou então os linhos lisos, mas tediosos, para véus, coifas e panos de altar. Apenas duas ou três das irmãs sabiam tecer a seda ou fazer bordados finos, e entre elas Igraine era a mais prendada.

Estava um pouco apreensiva. Naquela manhã, ao sentar-se junto de seus bastidores, julgara ouvir um grito, e sobressaltara-se, olhando à volta, antes que pudesse se conter. Parecia-lhe ter ouvido em algum lugar a voz de Morgana gritando "Mãe!", em agonia e desespero. Mas o convento estava silencioso e vazio à sua volta, e após um momento Igraine benzeu-se e voltou a trabalhar.

"Ainda assim..." Afastou resolutamente a tentação. Renunciara há muito à Visão, como coisa do Maligno; não queria mais nada com as feitiçarias. Não acreditava que Viviane fosse má, mas os velhos deuses de Avalon certamente eram aliados do Diabo, ou não poderiam manter sua força numa terra cristã. E havia entregue sua filha a esses velhos deuses.

Em fins do último verão, Viviane mandara-lhe uma mensagem: Se Morgana estiver com você, diga-lhe que está tudo bem. Perturbada, Igraine mandara dizer em resposta que não via Morgana desde a coroação de Artur; julgava-a ainda a salvo em Avalon. A irmã superiora do convento ficara horrorizada com a idéia de alguém no convento receber um mensageiro de Avalon. E mesmo quando Igraine explicou que era uma mensagem de sua irmã, a superiora, descontente, afirmou que não poderia haver contatos, mesmo através de mensagens, com aquele lugar ímpio.

Igraine ficou então muito agitada - se Morgana deixara Avalon, devia ter brigado com Viviane. Era coisa inédita uma sacerdotisa jurada, do mais alto grau, deixar a ilha, exceto para tratar de negócios de Avalon. Que Morgana tivesse partido sem conhecimento ou permissão da Senhora era fato tão sem precedentes que sentiu o sangue gelar-lhe nas veias. Para onde teria ido? Teria fugido com algum amante, estaria vivendo uma vida sem lei, sem os ritos de Avalon, ou da Igreja? Teria ido para a casa de Morgause? Estaria morta em algum lugar? Não obstante, embora orasse continuamente pela filha, Igraine tomara a firme resolução de resistir à tentação constante da Visão.

Ainda assim, durante grande parte daquele inverno, parecia que Morgana andava ao seu lado; não a pálida e sombria sacerdotisa que vira na coroação, mas a menina que fora seu único conforto, naqueles anos desesperados e solitários na Cornualha, em que era uma críança-mulher aterrorizada, uma criança-mãe. A pequena Morgana, em seu vestido de açafrão e suas fitas, uma criança séria, de olhos escuros, vestida com um manto vermelho; Morgana com o irmãozinho nos braços, quando as duas crianças dormiam, com as cabeças escura e dourada pousadas num mesmo travesseiro. E ficava pensando no quanto havia negligenciado Morgana depois que fora para a companhía de seu amado Uther e lhe dera um filho e herdeiro do seu reino. Morgana não fora feliz na corte de Uther, nem tivera nunca muito amor por ele. Por isso, tanto quanto pela insistência de Viviane, concordara que a filha fosse criada em Avalon.

Só agora se sentia culpada; não teria sido precipitada ao mandar a filha embora, a fim de poder dedicar todos os seus pensamentos a Uther e aos filhos dele? Contra a sua vontade, lembrou-se de um velho ditado de Avalon: A Deusa não oferece seus dons àqueles que os recusam... Ao mandar seus próprios filhos embora, um deles para ser criado por outros (para segurança da própria criança, lembrou-se, depois da queda do cavalo que deixou Artur como morto) e a outra para Avalon - ao mandá-los embora, teria ela mesma lançado a semente da perda? Teria a Deusa se recusado a dar-lhe outro filho por ter deixado o primeiro ir-se tão facilmente? Confiara isso ao seu confessor, mais uma vez, e ele a tranqüilizara, dizendo que fizera bem em mandar Artur embora, pois todo menino, mais cedo ou mais tarde, tinha de sair de casa. "Mas", disse ele, "não devia ter deixado que Morgana fosse para Avalon." Se a menina era infeliz na corte de Uther, deveria ter sido colocada numa escola, num convento, em algum lugar.

Ao saber que Morgana não estava em Avalon, pensou em mandar um mensageiro à corte do rei Lot para informar-se se estava ali. Mas o inverno chegara rapidamente, e cada dia representava uma nova batalha contra o frio, as rachaduras, a umidade terrível por toda parte. Até mesmo as irmãs passaram fome no auge do inverno, dividindo o que tinham com os mendigos e camponeses.

E certa vez, no auge do inverno, julgou ouvir a voz de Morgana, gritando, angustiada: "Mãe! Mãe!" Morgana sozinha e aterrorizada - Morgana à morte? Onde, ah, Deus, onde? Seus dedos apertaram a cruz que, como todas as freiras do convento, ela trazia à cintura. "Senhor Jesus, protege-a e guarda-a, Maria, mãe divina, mesmo que ela seja pecadora e feiticeira... Tem piedade dela, Jesus, como tiveste de Madalena, que era pior do que ela..."

Horrorizada, viu que uma lágrima caíra sobre o belo trabalho que estava fazendo: poderia manchá-lo. Enxugou os olhos com o véu de linho e afastou um pouco o bastidor, apertando os olhos para ver melhor - estava ficando velha, e sua visão diminuía pouco a pouco. Ou seriam as lágrimas que lhe embaçavam os olhos?

Inclinou-se outra vez, resolutamente, sobre o bordado, mas o rosto de Morgana parecia estar à sua frente, e ela podia ouvir na imaginação aquele grito desesperado, como se a alma da filha estivesse sendo arrancada de seu corpo. Também ela gritara assim pela mãe, de quem mal podia lembrar, quando Morgana nascera... Gritariam todas as mulheres pela mãe, na hora do parto? O terror dominou-a. Morgana, naquele inverno desesperado, dando à luz em algum lugar.

Morgause... fizera brincadeiras na coroação de Artur, dizendo que ela estava tão caprichosa com sua comida quanto uma mulher grávida. Contra a vontade, Igraine viu-se contando nos dedos: sim, se assim fosse, Morgana teria dado à luz o filho no auge do inverno. E agora, mesmo naquela primavera suave, parecia ouvir outra vez aquele grito: ansiava por ir ao encontro da filha, mas onde, onde?

Soaram passos atrás dela e uma tosse, e uma das moças, criada no convento, disse:

- Senhora, há visitas na sala exterior. Um deles é um religioso, o próprio arcebispo!

Igraine pôs de lado o bordado. Afinal de contas, não estava manchado; as lágrimas vertidas pelas mulheres não deixam marcas no mundo, pensou com amargura.

- Por que o arcebispo, entre todos os vivos, deseja ver-me?

- Eu não sei, senhora, e creio que também não disse à madre superiora - respondeu a moça, disposta a conversar por um instante. - Mas a senhora não mandou presentes para a Igreja, na época da coroação do Grande Rei?

Realmente, Igraine assim o fizera, mas não lhe parecia que o arcebispo estivesse ali para falar-lhe disso. Talvez quisesse alguma coisa mais. Os padres quase nunca são ambiciosos pessoalmente, mas todos eles, em especial os de igrejas ricas, ambicionavam prata e ouro para seus altares.

- Quem são os outros? - perguntou, sabendo que a moça estava ansiosa por falar.

- Não sei, senhora, mas a madre superiora queria proibir a entrada de um deles, porque... - e os olhos da moça arregalaram-se - era um mago e feiticeíro, um druida!

Igraine levantou-se.

- É o Merlim da Bretanha, pois é meu pai e não é mago, filha, mas um erudito, treinado na ciência dos sábios. Até mesmo os Padres da Igreja dizem que os druidas são homens bons e nobres e veneram a Deus, em harmonia com eles, pois reconhecem Deus em todas as coisas, e o Cristo como um dos muitos profetas de Deus.

A moça fez uma pequena reverência, aceitando a correção, enquanto Igraine guardava o bordado e ajustava o véu corretamente em volta do rosto.

Quando chegou à sala exterior, viu não apenas o Merlim e um homem estranho e austero, com as roupas escuras que os homens da Igreja estavam começando a adotar para se distinguirem dos eruditos, como também um outro, que não reconheceu, nem mesmo quando se virou. Por um instante, pareceu-lhe estar olhando o rosto de Uther.

- Gwydion! - exclamou, para emendar-se rapidamente: - Artur. Perdoe-me, esqueci.

Ela teria se ajoelhado ante o Grande Rei, se ele não tivesse se antecipado, impedindo-a.

- Mãe, jamais se ajoelhe na minha presença. Proíbo-o.

Igraine fez uma reverência para o Merlim e o arcebispo, de ar severo.

- Esta é minha mãe, a rainha de Uther - disse Artur, e o arcebispo respondeu, descontraindo os lábios num movimento que Igraine supôs ser um sorriso. - Mas agora ela tem uma honra superior, pois é noiva de Cristo.

"Dificilmente uma noiva", pensou Igraine, "apenas uma viúva que se refugiou na sua casa." Mas não disse nada, inclinando a cabeça.

Artur continuou:

- Senhora, este é Patrício, arcebispo da ilha dos Padres, hoje chamada de Glastonbury, que chegou recentemente.

- Sim, por vontade de Deus - disse o arcebispo -, expulsei recentemente todos os magos malignos da Irlanda, e venho para expulsá-los de todas as terras cristãs. Encontrei em Glastonbury padres corruptos, que toleravam entre eles até mesmo o culto em comum com os druidas, o que teria provocado em Nosso Senhor, que morreu por nós, lágrimas de sangue!

Taliesin, o Merlim, disse com sua voz suave:

- Ora, então o senhor seria mais rigoroso do que o próprio Cristo, irmão? Pois ele, ao que me lembro, foi muito censurado por se juntar aos párias e pecadores, e até mesmo coletores de impostos, e com mulheres como Madalena, quando preferiam que fosse um nazareno como João Batista. E por fim, ao agonizar na cruz, prometeu ao ladrão que naquela mesma noite estariam juntos no Paraíso, não?

- Acho que muita gente se julga capaz de ler as Escrituras, e incide em erros como esse - disse Patrício, secamente. - Os que se presumem sábios aprenderão, é o que espero, a ouvir seus padres para as interpretações verdadeiras.

O Merlim sorriu suavemente:

- Não posso participar desse desejo, irmão. Também eu acredito ser a vontade de Deus que todos os homens devam procurar a sabedoria em si mesmos, e não recebê-la de outra pessoa. As crianças talvez precisem de alguém para lhes amassar a comida, mas os homens podem beber a sabedoria sozinhos.

- Vamos, vamos! - interrompeu Artur com um sorriso.

Não quero discussões entre os meus dois mais queridos conselheiros. A sabedoria do Merlim me é indispensável. Foi ele quem me colocou no trono.

- Senhor - protestou o arcebispo -, foi Deus quem o colocou ali.

- Com a ajuda do Merlim - teimou Artur -, e jurei ouvir sempre os seus conselhos. O senhor não quer que eu seja perjuro, não é mesmo, padre Patrício?

Pronunciou o nome com o sotaque das terras setentrionais onde fora criado.

- Vamos, mãe, sentemo-nos para conversar.

- Primeiro, deixe-me mandar buscar vinho e alguma coisa de comer, para os senhores se refazerem da longa viagem até aqui.

- Obrigado, mãe, e por favor, mande também alguma coisa para Cai e Gawaine, que vieram comigo. Não permitiram que eu viajasse sem escolta. Insistem em fazer para mim o serviço de camareiros, como se eu não pudesse levantar a mão sem eles. Posso fazer tudo sozinho, como qualquer soldado, com a ajuda apenas de um ou dois palafreneiros, mas os dois não deixam...

- Seus companheiros terão o melhor - prometeu Igraine, e saiu para ordenar que servissem vinho e comida aos visitantes e sua comitiva. O vinho para os hóspedes chegou, e ela o serviu.

- Como estão as coisas com você, meu filho?

Olhando-o bem, teve a impressão de que ele estava dez anos mais velho do que o rapaz magro que fora coroado no último verão. Parecia ter crescido meio palmo, e seus ombros estavam mais largos. Havia em seu rosto um corte vermelho que já estava se fechando, graças a Deus... Bem, nenhum soldado podia evitar um ou dois ferimentos.

- Como vê, mãe, andei combatendo, mas Deus me protegeu. E agora, venho em missão de paz. Mas como está a senhora, aqui?

- Ah, nada acontece, aqui - respondeu ela com um sorriso. - Mas recebi uma mensagem de Avalon dizendo que Morgana deixou a ilha. Estará ela na sua corte?

Ele sacudiu negativamente a cabeça.

- Ora, mãe, eu não tenho uma corte que seja digna de tal nome. Cai administra meu castelo. Tive de obrigá-lo a isso, pois preferia acompanhar-me na guerra, mas forcei-o a ficar e dar segurança à minha casa. E dois ou três dos velhos cavaleiros de meu pai, idosos demais para guerrear, vivem ali com as mulheres e os filhos menores. Morgana está na corte de Lot, Gawaine me contou quando o irmão, o jovem Agravaine, veio para o sul, ingressar nos meus exércitos. Disse que Morgana fora fazer companhia à sua mãe. Viu-a apenas uma ou duas vezes, mas ela estava bem e parecia tranqüila; toca harpa para Morgause e controla a despensa. Creio que Agravaine estava encantado com ela.

Uma expressão de sofrimento passou-lhe pelo rosto, despertando a atenção de Igraine, que apesar disso ficou calada.

- Deus seja louvado por estar Morgana a salvo entre parentes. Eu estava preocupada com ela.

Não era aquele o momento, principalmente estando presente um padre, de perguntar se Morgana tivera um filho.

- Quando Agravaine chegou ao sul?

- Em princípios do outono, não foi, Merlim?

- Creio que sim.

Então Agravaine de nada sabia; ela mesma vira Morgana e de nada suspeitara. Se é que estava realmente grávida, se tudo aquilo não fosse apenas uma fantasia de sua imaginação.

- Bem, mãe, vim falar-lhe de questões de mulher, já que tocamos no assunto. Parece que devo me casar. Não tenho outro herdeiro senão Gawaine...

- Isso não me agrada - disse Igraine. - Lot vem esperando todos esses anos. Não dê as costas ao filho dele.

Os olhos de Artur chamejaram, irados.

- Nem mesmo a senhora deve falar assim de meu primo Gawaine! É um dos meus Companheiros jurados, quero-lhe bem como ao irmão que nunca tive, como ao próprio Lancelote! Se Gawaine ambicionasse meu trono, bastaria que tivesse afrouxado a vigilância por cinco minutos, e eu teria o pescoço cortado, e não esse talho no rosto. Ele seria, então, o Grande Rei! Eu lhe confiaria a vida e a honra!

Igraine ficou espantada com a sua veemência.

- Bem, sinto-me feliz porque você tem um companheiro tão fiel e digno de confiança, meu filho. - E acrescentou, com um sorriso cáustico: - Deve ser um desgosto para Lot que o filho dele goste tanto assim de você!

- Não sei o que fiz para que me queiram tanto bem, mas é o que acontece, e sinto-me abençoado por isso.

- Sim - afirmou Taliesin. - Gawaine será firme e leal até a morte, Artur, e além da morte, se Deus o permitir.

- Os homens não podem pretender conhecer a vontade de Deus - sentenciou o arcebispo, gravemente.

- Mais leal ainda do que Lancelote, Artur, embora me custe dizer isso - continuou Taliesin, sem dar ouvidos ao arcebispo.

Artur sorriu, e Igraine pensou, com uma dor no coração, que ele tinha todo o encanto de Uther, e também podia inspirar grande lealdade aos seus seguidores! Como era parecido com o pai!

- Vamos, eu me desgostarei até mesmo de você, Merlim, se falar assim de meu mais caro amigo - cortou Artur. - A Lancelote eu também confiaria minha vida e minha honra.

Merlim observou, com um suspiro:

- Pode confiar-lhe a vida, tenho certeza...

- Ah, sim, tenho certeza de que ele não falhará na hora decisiva, pois certamente ele o ama e o protegerá com o sacrifício de sua própria vida.

- Gawaine é um bom cristão, mas não tenho a mesma certeza no que concerne a Lancelote - disse Patrício. - Chegará o momento, espero, em que todos aqueles que falsamente se dizem cristãos serão desmascarados como adoradores do Demônio que realmente são. Quem não aceitar a autoridade da Santa Madre Igreja em relação à vontade de Deus será como disse o Cristo: "Aqueles que não estão comigo, estão contra mim". Por toda a Bretanha há homens que pouco mais são do que pagãos. Em Tara eu me ocupei deles, quando acendi os fogos pascais num de seus montes pagãos, e os druidas do rei puderam resistir. Não obstante, até mesmo na santa Ilha de Glastonbury, por onde caminhou José de Arimatéia, encontro padres adorando um poço sagrado! Isso é impiedade! Eu o fecharei, ainda que tenha de recorrer ao próprio bispo de Roma!

Artur sorriu:

- Não me parece que o bispo de Roma tenha a menor idéia do que acontece na Bretanha.

- Padre Patrício, o senhor prestaria um grande desserviço ao povo desta terra se fechasse o seu Poço Sagrado. É um dom de Deus...

- É parte de um culto pagão. - Os olhos do arcebispo brilharam com o fogo austero dos fanáticos.

- É um dom de Deus - insistiu o velho druida -, porque não há nada neste universo que não venha de Deus, e as pessoas simples preeisam de signos e símbolos simples.

Se adoram Deus nas águas que fluem de sua abundância, que mal há nisso?

- Deus não pode ser adorado com símbolos feitos pelo homem...

- Quanto a isso, estamos totalmente de acordo, irmão. Parte da sabedoria druida está em dizer que Deus, que está acima de tudo, não pode ser adorado em qualquer construção feita pelas mãos humanas, mas exclusivamente sob o céu. Não obstante, vocês constroem igrejas e as adornam ricamente com ouro e prata. Onde, portanto, está o mal em beber das fontes sagradas feitas por Deus e abençoadas com a visão e a cura?

- Foi o Diabo quem lhes deu o conhecimento dessas coisas - teimou Patrício com aspereza, e Taliesin riu.

- Ah, mas Deus desperta dúvidas e o Diabo também, e no final dos tempos todos se voltarão para ele e obedecerão à sua vontade.

Artur interrompeu, antes que Patrício pudesse responder:

- Senhores, não viemos aqui para discutir teologia!

- É certo - suspirou Igraine, aliviada. - Falávamos de Gawaine e do outro filho de Morgause, Agravaine, não é? E do casamento de Artur...

- É uma pena - lamentou Artur -, já que os filhos de Lot gostam tanto de mim, e Lot, não tenho dúvidas disso, está tão ansioso para que o herdeiro de sua casa esteja próximo do rei, que Morgause não tenha uma filha, para que eu pudesse ser o seu genro, e ele soubesse que o seu neto seria meu sucessor.

- Isso seria bom - admitiu Taliesin -, pois tanto Artur como Morgause são da linhagem real de Avalon.

Patrício interrompeu, amuado:

- E Morgause não é irmã de sua mãe, senhor? Casar-se com a sua filha seria quase como deitar-se com a própria irmã!

Artur ficou perturbado. Igraine concordou:

- Tem razão. Ainda que Morgause tivesse uma filha, seria impossível pensar nisso.

- Seria fácil para mim gostar de uma irmã de Gawaine - lamentou Artur. - A idéia de casar-me com uma estranha não me agrada muito, e acredito que a moça também não ficará satisfeita!

- Isso ácontece com todas as mulheres - e Igraine ficou surpresa com o que disse tão prontamente: estaria ainda amargurada com o que se passara há tanto tempo? - Os casamentos devem ser decididos por aqueles que têm mais sabedoria do que as moças inexperientes.

- O rei Leodegranz ofereceu-me sua filha, esqueço-me do nome, com um dote de cem dos seus melhores homens, todos armados e, ouça, mãe, cada um deles com os bons cavalos que cria, para que Lancelote os possa treinar. Este era um dos segredos dos césares, fazer com que suas melhores coortes lutassem a cavalo. Antes disso, apenas os citas usaram cavalos, mas para o transporte de suprimentos e, por vezes, para enviar mensagens. Se eu tivesse uma cavalaria de quatrocentos homens bons... bem, mãe, nesse caso eu poderia expulsar os saxões,fazendo-os ganir como seus próprios cães!

Igraine riu:

- Isso não me parece razão suficientemente boa para casar-se, meu filho. Os cavalos podem ser comprados, e os homens, contratados.

- Mas Leodegranz não quer vendê-los. Creio que ele deseja em troca desse dote, e um dote digno de um rei, ligar-se fortemente por laços de parentesco ao Grande Rei. Ele não é o único, mas ofereceu-me mais do que qualquer outro. O que quero pedir-lhe, mãe, é o seguinte. Como não cogito mandar um mensageiro comum dizer ao rei que aceito sua filha, e que ele a embrulhe como um pacote e a mande para mim, iria você levar-lhe minha resposta, e acompanhá-la até minha corte?

Igraine começou a expressar seu assentimento, mas lembrou-se de que fizera votos no convento.

- Você não pode enviar algum de seus homens de confiança, Gawaine ou Lancelote?

- Gawaine é um devasso, e não sei se eu gostaria de vê-lo perto de minha noiva - sorriu Artur. - Que seja Lancelote, então.

Merlim, porém, aconselhou com voz sombria:

- Igraine, creio que você devia ir.

- Por que, vovô? - perguntou Artur. - Acredita que Lancelote seja tão encantador que minha noiva se apaixone por ele e não por mim?

Taliesin suspirou, e Igraine respondeu imediatamente:

- Eu irei, se a abadessa do convento o permitir.

A madre superiora, pensou, não negaria permissão para que ela comparecesse ao casamento do filho. E sentiu que, depois de muitos anos como rainha, não era fácil sentar-se tranqüilamente por trás dos muros e esperar notícias dos grandes acontecimentos que se passavam na terra. Talvez fosse esse o destino de toda mulher, mas ela o evitaria, enquanto possível.

 

Capítulo 4

Gwenhwyfar sentiu a náusea que lhe era familiar dominar-lhe o estômago; começou a pensar que talvez, antes de partirem, teria de correr para o banheiro. O que faria, se a necessidade a dominasse depois de ter montado e partido? Olhou para Igraine, alta e formal, parecendo a madre superiora do seu antigo convento. Ela comportara-se de maneira bondosa e materna naquela primeira visita, um ano antes, quando o casamento fora arranjado. Agora, que vinha buscá-la para a cerimônia, parecia rígida e exigente, sem qualquer traço do medo que Gwenhwyfar sentia. Como podia estar tão calma? A moça arriscou-se a perguntar, numa voz tímida, olhando para os cavalos e a liteira que esperavam:

- A senhora não tem medo? É tão longe...

- Medo? Ora, não. Já fui muitas vezes a Caerleon, e não é provável que os saxões estejam em guerra, a esta época. Viajar no inverno é difícil, com lama e chuva, mas é melhor isso do que cair nas mãos dos bárbaros.

Gwenhwyfar sentiu o choque e a vergonha, fechou as mãos, olhando para os seus pesados e feios sapatos de viagem.

Igraine estendeu o braço e, tomando-lhe a mão, alisou- lhe os dedos delicados.

- Esqueci-me de que você nunca saiu de casa antes, exceto para ir para o convento. Você esteve em Glastonbury, não?

Gwenhwyfar assentiu com a cabeça.

- Gostaria de estar voltando para lá...

Sentiu, por um momento, os olhos penetrantes de Igraine e intimidou-se; talvez percebesse que não se sentia feliz em casar-se com seu filho e passasse a não gostar dela... Mas a outra murmurou apenas, segurando-lhe a mão com firmeza:

- Eu não me senti feliz quando me casaram com o duque da Cornualha; só me senti contente quando segurei minha filha nos braços. Mas eu mal completara quinze anos. Você tem quase dezoito, não?

Apertando a mão de Igraine, Gwenhwyfar sentiu diminuir o pânico. Mesmo assim, quando deu um passo para fora dos portões, foi como se o céu, baixo, cheio de nuvens de chuvas, constituísse uma ameaça. A trilha à frente do castelo era um mar de lama onde os cavalos patinhavam. Agora, estavam sendo colocados em ordem de montar, com mais homens do que Gwenhwyfar já vira reunidos em toda a sua vida, gritando e chamando-se uns aos outros, enquanto os cavalos relinchavam, numa confusão generalizada. Mas Igraine segurava sua mão com firmeza, e a moça, encolhendo-se, a seguiu.

- Estou contente que a senhora tenha vindo me acompanhar...

Igraine sorriu.

- Sou ainda muito voltada para as coisas do mundo, e aprecio uma oportunidade de sair do convento - deu um passo largo para desviar-se do excremento dos cavalos, que fumegava em meio ao barro. - Cuidado, ali, filha. Veja, seu pai nos reservou dois dos seus melhores cavalos. Você gosta de montar?

Gwenhwyfar sacudiu negativamente a cabeça, e murmurou:

- Pensei que pudesse ir de liteira...

- Ora, pode, se quiser - admirou-se Igraine. - Mas você se cansará disso, creio. Quando minha irmã Viviane viajava, costumava usar culotes de homem. Eu deveria ter trazido um par deles para você, embora na minha idade não pareçam muito adequados.

Gwenhwyfar ficou muito vermelha.

- Impossível - respondeu, tremendo. - É proibido às mulheres usar roupas de homem, segundo as Sagradas Escrituras.

Igraine riu.

- Parece que o Apóstolo conhecia pouco os países do norte. Onde ele vivia o calor era intenso, e ouvi dizer que os homens da terra onde viveu Nosso Senhor não usavam calças, mas longas túnicas, como alguns romanos ainda o fazem. Creio que as Escrituras dizem apenas que as mulheres não devem usar a roupa de um determinado homem, e não que sejam proibidas aquelas feitas ao estilo das masculinas.

E certamente minha irmã Viviane é a mais bem-comportada das mulheres: é sacerdotisa em Avalon.

Os olhos de Gwenhwyfar arregalaram-se:

- Ela é feiticeira, senhora?

- Não, é uma mulher sábia, que entende de ervas e remédios, e que tem a Visão, mas jurou nunca fazer mal aos homens e aos animais. Ela nem mesmo come carne. Vive tão austeramente quanto a superiora de meu convento.

Igraine interrompeu-se para apontar:

- Veja, lá está Lancelote, o principal Companheiro de Artur. Ele vem nos escoltar, e levar os homens e os cavalos...

Gwenhwyfar sorriu, sentindo o rubor subir-lhe ao rosto.

- Conheço Lancelote. Ele veio mostrar a meu pai o que sabia fazer com os cavalos.

- Sim, ele monta como os centauros de que falavam os antigos, e que eram metade homem e metade cavalo!

Lancelote desmontou. Seu rosto estava tão vermelho do frio quanto o manto romano que usava. Tinha a gola levantada para proteger o rosto. Fez uma reverência para as damas:

- Senhora - perguntou dirigindo-se a Igraine -, está pronta para montar?

- Acho que sim. A bagagem da princesa já está na carroça, creio - respondeu, olhando para a pesada carroça, carregada e coberta com peles: uma cama e roupas, um enorme baú entalhado, um tear grande e um pequeno, potes e caldeirões.

- Sim. Espero que não atole na lama - desejou Lancelote, olhando a junta de bois atrelada à carroça. - Não é com essa carroça, porém, que estou preocupado, mas com a outra, o presente de casamento do rei para Artur - acrescentou sem entusiasmo e olhando para o outro carro, muito maior. - Eu achava melhor que a mesa para a casa do rei fosse feita em Caerleon, caso Uther não tenha deixado mesas e mobílias suficientes. Não que eu tenha má vontade com a mobília de noiva da minha senhora - acrescentou, com um rápido sorriso para Gwenhwyfar que a fez corar -, mas uma mesa, como se meu senhor Artur não tivesse móveis suficientes para a sua sala?

- Ah, mas essa mesa é um dos tesouros de meu pai - esclareceu Gwenhwyfar. - Fazia parte do butim de um dos reis de Tara, vencido por meu avô, que lhe tomou a melhor mesa que tinha em seu salão. Ela é redonda, de modo que um bardo pode sentar-se no meio e cantar para os comensais, ou os criados podem andar à volta para servir vinho ou cerveja. E quando ele tiver convidado outros reis, não precisará preocupar-se com a ordem em que os colocará... Por isso meu pai pensou que a mesa seria conveniente para um Grande Rei, que também tem de colocar à mesa os seus nobres Companheiros, sem dar preferência a um ou outro.

- É, sem dúvida, um presente real - comentou Lancelote cortesmente. - Mas são necessárias três juntas de bois para puxá-la, e só Deus sabe quantos carpinteiros e marceneiros para montá-la novamente, quando tivermos chegado. Assim, em lugar de viajarmos com a rapidez de uma companhia de cavalos, teremos de arrastar-nos com o ritmo dos mais lentos bois. De qualquer modo, o casamento não se realizará antes de sua chegada, senhora. - Inclinou a cabeça, escutando e gritou: - Já estou indo, homem! Não posso estar em todos os lugares ao mesmo tempo. - Fez uma reverência. - Senhoras, preciso pôr em marcha esse exército! Posso acompanhá-las aos seus cavalos?

- Creio que Gwenhwyfar quer viajar na liteira - informou Igraine.

Lancelote observou com um sorriso:

- Ora, é como se o sol fosse para trás das nuvens, então. Mas sua vontade será feita, senhora. Espero que volte a brilhar para nós novamente, um outro dia, talvez.

Gwenhwyfar sentiu-se agradavelmente constrangida, como sempre acontecia quando Lancelote fazia seus bonitos discursos. Nunca sabia se ele estava falando a sério, ou se brincava. De repente, quando o rapaz se afastou, voltou a ter medo. Os cavalos pareciam enormes, à sua volta, inúmeros homens indo e vindo - era como se fossem realmente o exército de que Lancelote falara, e ela, apenas uma peça de bagagem em que ninguém prestava atenção, quase um espólio de guerra. Em silêncio, deixou que Igraine a ajudasse a entrar na liteira, que era forrada de almofadas e um tapete de peles, e enroscou-se a um canto.

- Posso deixar as cortinas abertas, para que tenhamos um pouco de luz e ar? - perguntou Igraine, sentando-se confortavelmente nas almofadas.

- Por favor, não - pediu Gwenhwyfar numa voz sufocada. - Eu... eu me sinto melhor com elas fechadas.

Dando de ombros, Igraine cerrou as cortinas. Olhou para fora através de uma pequena abertura, vendo o primeiro dos soldados montados avançar, enquanto os carros se colocavam em linha. Um dote real, sem dúvida, todos aqueles homens. Soldados a cavalo, armados e equipados, para aumentarem os exércitos de Artur - era quase a imagem que, por ouvir falar, fazia de uma legião.

Gwenhwyfar, de olhos fechados, muito pálida, repousava a cabeça nos travesseiros.

- Sente-se mal? - perguntou Igraine, espantada.

- É que... é tudo tão amplo - respondeu a moça, com um gesto negativo de cabeça. - Tenho medo - murmurou.

- Medo? Mas, minha filha... - começou Igraine.

Interrompeu-se, porém, e, depois de um instante, disse:

- Bem, você logo se sentirá melhor.

Gwenhwyfar, com os braços cruzados sobre os olhos mal percebeu quando a liteira começou a mover-se; mergulhara num estado de semi-sonolência, no qual podia manter o pânico sob controle. Para onde ia, sob aquele imenso céu que tudo cobria, por charnecas inóspitas e por tantos morros? O nó do pânico, em seu ventre, apertava-se cada vez mais. À sua volta ouvia o barulho dos cavalos e homens, um exército em marcha. Ela era apenas parte dos acessórios entre os cavalos e os homens, o equipamento e uma mesa enorme.

Era apenas uma noiva, com todas as coisas próprias de uma noiva, roupas, vestidos e jóias, um tear e uma chaleira e uns pentes, e fusos para fiar o linho. Não era ela mesma, não havia nada para ela, constituía apenas propriedade de um Grande Rei que nem sequer se dera ao trabalho de vir até ali para conhecer a mulher que lhe estavam mandando junto com todos aqueles cavalos e arreios. Ela era uma outra égua, uma égua reprodutora para as cavalariças reais, na esperança de gerar um garanhão. Gwenhwyfar pensou que sufocaria de raiva. Mas não, não devia ficar irada, não era correto; a Madre Superiora lhe dissera no convento que a tarefa da mulher era casar-se e ter filhos.

Gostaria de ser freira e permanecer no convento, aprender a ler e fazer belas letras com a pena e o pincel, mas isso não era para uma princesa. Tinha de obedecer ao pai como se fosse a vontade de Deus. As mulheres precisavam ter um cuidado muito especial em fazer a vontade de Deus, por que foi através da mulher que a humanidade caiu no Pecado Original, e todas devíam sabér que tinham de trabalhar para redimir esse pecado, no Éden. Nenhuma mulher, com exceção de Maria Mãe do Cristo, podia ser realmente boa: todas as outras eram más, nunca tiveram a oportunidade de ser outra coisa. Era o castigo da mulher por ser como Eva, pecadora, cheia de ódio e rebeldia contra a vontade de Deus. Murmurou uma prece e deixou-se cair novamente num estado de semi-inconsciência.

Igraine, resignando-se a viajar atrás de cortinas fechadas, embora ansiasse por ar fresco, ficou imaginando o que estaria errado com a moça. Não dissera uma única palavra contra o casamento; ela, Igraine, não se rebelara ao casar-se com Gorlois, e, recordando-se de que também havia sido uma criança irritada e aterrorizada, sentia simpatia por Gwenhwyfar. Mas por que tinha a menina de ocultar-se atrás das cortinas, ao invés de ir ao encontro de sua nova vida de cabeça erguida? De que tinha medo? Será que Artur lhe parecia um monstro? Ela não ia se casar com um velho que tivesse três vezes a sua idade; Artur era jovem e disposto a dispensar-lhe honrarias e respeito.

Dormiram, naquela noite, numa tenda instalada em um lugar seco escolhido cuidadosamente, ouvindo o vento que uivava e a chuva que caía. Igraine acordou no meio da noite, e notou que a moça choramingava.

- O que aconteceu, minha filha? Está doente?

- Não, senhora. Acha que Artur gostará de mim?

- Não há razão para que não goste - sorriu Igraine gentilmente. - Você sabe, certamente, que é bonita.

- Será que sou? - Com tanta docilidade, a pergunta parecia apenas ingênua, e não presunçosa, expressão de um desejo de ser elogiada, como aconteceria se fosse outro o tom de sua voz. - A senhora Alienor afirma que tenho nariz muito grande e sardas como uma pastora.

- A senhora Alienor... - começou Igraine, mas lembrou-se de que devia ser caridosa. Alienor não era muito mais velha do que Gwenhwyfar, e tivera quatro filhos em seis anos. - Creio que ela deve sofrer um pouco da vista. Você é realmente linda! Tem o cabelo mais bonito que já vi.

- Não creio que Artur se importe com a beleza - queixou-se a moça. - Ele nem mesmo mandou saber se eu era vesga ou manca, ou se tinha lábio leporino.

- Gwenhwyfar, toda moça se casa devido ao dote. Também um Grande Rei deve casar-se cumprindo as recomendações de seus conselheiros. Você não acredita que ele também deve estar passando noites acordado, imaginando o que a sorte lhe terá reservado, e que ficará muito contente ao ver que você lhe traz beleza, bom gênio e também instrução? Ele estava resignado a casar-se com quem devia, mas se sentirá feliz ao ver que você não tem, como disse, lábios leporinos nem é bexiguenta ou vesga. Ele é jovem e não tem grande experiência com as mulheres. E Lancelote, tenho certeza, deve ter-lhe dito que você é bela e virtuosa.

Gwenhwyfar deu um suspiro:

- Lancelote é primo de Artur, não?

- Certo. Ele é filho de Ban de Benwick com minha irmã, que é a Grã-Sacerdotisa de Avalon. Nasceu do Grande Casamento. Você já ouviu falar nisso? Na Bretanha Menor, o povo observa alguns dos velhos ritos pagãos. Até mesmo Uther, ao ser feito Grande Rei, foi levado à ilha do Dragão e coroado pelos velhos ritos locais, embora não lhe pedissem que se casasse com a terra; na Bretanha, isso é feito pelo Merlim, que se sacrifica pelo rei, se for preciso...

- Eu não sabia que esses veihos ritos pagãos ainda eram conhecidos na Bretanha. E Artur foi coroado assim, também?

- Se foi, não me disse. Talvez hoje as coisas tenham mudado, e ele se satisfaça com a presença do Merlim entre os seus principais conselheiros.

- A senhora conhece o Merlim?

- Ele é meu pai.

- É mesmo? - Gwenhwyfar arregalou os olhos para ela, no escuro. - Senhora, é verdade que quando Uther Pendragon a procurou, antes de casar-se com ele, o fez disfarçado de Gorlois pelas artes mágicas do Merlim, de modo que a senhora deitou-se com o rei, pensando que fosse o duque da Cornualha, e ainda fosse uma esposa casta e fiel?

Igraine espantou-se. Ouvira rumores de histórias de que dera à luz o filho de Uther muito depressa, mas nunca ouvira o que a jovem acabava de dizer.

- Então falam isso?

- Por vezes, senhora. Há histórias dos bardos a esse respeito.

- Bem, não é verdade. Ele vestia o manto de Gorlois e trazia seu anel, que lhe havia tomado quando lutaram. Gorlois foi traidor do seu Grande Rei, e estava condenado. Mas não importa o que as histórias digam, eu sabia perfeitamente que era Uther, e ninguém mais.

Sentiu um nó na garganta. Mesmo agora, parecia-lhe que Uther estava vivo em alguma parte, longe, em campanha.

- A senhora amava Uther? Não foi magia do Merlim, então?

- Não. Eu o amava muito, embora a princípio pensasse que me havia escolhido para casar porque eu era da velha linhagem real de Avalon. Dessa forma, como você vê, um casamento feito para o bem do reino pode ser feliz. Eu amava Uther. Desejo-lhe a mesma boa sorte, e que você e meu filho possam amar-se do mesmo modo.

- Eu também espero.

Gwenhwyfar segurou novamente a mão de Igraine, que notou seus dedos pequenos e macios, facilmente esmagáveis, ao contrário de suas mãos, fortes e habilidosas. Não eram dedos para tratar de crianças ou de homens feridos, mas para os delicados bordados ou as orações. Leodegranz devia ter deixado a menina no convento, e Artur devia ter procurado outra noiva. As coisas seriam como Deus quisesse. Sentia pena do medo de Gwenhwyfar, mas também de Artur, com uma noiva tão infantil e receosa.

A própria Igraine porém, quando fora mandada para Gorlois, não era muito melhor, e talvez a força da moça se revelasse com o passar dos anos.

Os primeiros raios do sol movimentaram o acampamento. Os homens começaram a preparar-se para a marcha do dia, e em pouco tempo chegariam a Caerleon. Gwenhwyfar parecia pálida e fraca; quando tentou levantar-se, voltou-se para o lado e vomitou. Por um momento Igraine sentíu uma suspeita pouco caridosa, mas afastou-a. A moça, retraída e tímida, estava doente de medo, apenas. Decidiu ser enérgica:

- Eu disse que a liteira fechada lhe provocaria enjôo. Hoje, você tem de montar a cavalo e tomar ar fresco, ou comparecerá à cerimônia nupcial com o rosto pálido, e não rosado.

E para si mesma: "E se eu tiver de viajar com as cortinas fechadas mais um dia, sem dúvida enlouquecerei. Seria um casamento realmente digno de nota, com uma noiva doente e pálida, e a mãe do noivo, louca".

- Vamos, se você se levantar e montar, Lancelote viajará ao seu lado, conversará, e você ficará mais alegre.

Gwenhwyfar trançou os cabelos e até preocupou-se em arrumar o véu. Comeu pouco, mas tomou cerveja de cevada e guardou um pedaço de pão, dizendo que o comeria mais tarde, na viagem.

Lancelote estava de pé e em ação desde o alvorecer.

Quando Igraine lhe disse: "Você deve acompanhar a moça. Ela está melancólica, pois nunca se afastou de casa, antes", seus olhos se iluminaram e ele sorriu.

- Com prazer, senhora.

Igraine foi atrás dos dois jovens, satisfeita de poder dedicar-se solitariamente aos seus pensamentos. Como eram belos - Lancelote, tão moreno e animado, e Gwenhwyfar, toda dourada e branca. Artur também era louro, seus filhos seriam muito claros. E percebeu, com surpresa, que desejava ser avó. Seria agradável ter crianças à sua volta, mimá-las e brincar com elas, mas que não fossem filhos seus, com as quais não tivesse de preocupar-se e agitar-se. Distraiu-se num agradável devaneio; habituara-se a devanear muito no convento. Olhando os jovens à sua frente, cavalgando lado a lado, notou que a moça controlava bem o cavalo, que seu rosto adquirira uma boa cor, e que até mesmo sorria. Fizera bem em forçá-la a tomar ar.

E notou então a forma como os dois se olhavam.

"Meu Deus! Uther olhou assim para mim quando eu era mulher de Gorlois - como se tivesse fome e eu fosse alimento fora de seu alcance... O que poderá resultar disso, se eles se amarem? Lancelote é honrado, e eu juraria que Gwenhwyfar é virtuosa, portanto, o que pode acontecer, senão sofrimento para eles?" Censurou-se, então, por sua suspeita; eles mantinham uma distância decente, não procuravam tocar-se, sorriam porque eram jovens e o dia estava bonito. Gwenhwyfar ia casar-se, Lancelote levava cavalos e homens para seu rei, seu primo e amigo. Por que não haveriam de estar felizes e conversando alegremente? Sou uma mulher maldosa. Mas, ainda assim, sentiu-se perturbada.

"O que resultará de tudo isso? Meu Deus, seria um pecado implorar, por um momento, a Visão?" E ficou pensando se haveria ainda uma possibilidade de Artur desistir, com honra, desse casamento. Para o Grande Rei, casar-se com uma mulher cujo coração já fora dado a outro poderia ser uma tragédia. A Bretanha estava cheia de donzelas prontas a amar e a desposar o rei. Mas o dote havia sido pago, a noiva deixara a casa do pai, e os reis vassalos e os súditos estavam se reunindo para assistir ao casamento de seu jovem rei.

Igraine resolveu falar com o Merlim. Como principal conselheiro de Artur, talvez ele ainda pudesse impedir o casamento - mas poderia fazê-lo sem guerra e ruína? Além disso, seria uma pena para Gwenhwyfar ser rejeitada publicamente, e na presença de todo o país. Não, era tarde demais, o casamento teria de ser realizado, tal como o destino queria. Igraine suspirou e baixou a cabeça - o dia perdera a sua beleza. Disse a si mesma, com irritação, que todas as suas dúvidas e medos não tinham sentido, que eram produto da imaginação de uma velha; ou que todas essas fantasias lhe eram inspiradas pelo Diabo, para tentá-la a usar a Visão a que havia renunciado, e arrastá-la novamente para a maldade e a feitiçaria.

Não obstante, enquanto cavalgava, seus olhos voltavam-se repetidamente para Gwenhwyfar, Lancelote e para o clima quase visível que os cercava, uma aura de desejo, paixão e ansiedade.

Chegaram a Caerleon pouco antes do anoitecer. O castelo ficava num morro, no local de uma velha fortaleza romana, e parte dos muros de pedra ainda permanecia de pé - mais ou menos como devia ter sido nos velhos tempos de Roma, pensou Igraine. Por um momento, vendo as encostas cobertas de tendas e de pessoas, perguntou-se se o lugar não estaria sendo sitiado, compreendendo imediatamente que toda aquela gente tinha vindo para o casamento do Grande Rei. Ao ver a multidão, Gwenhwyfar ficou pálida e novamente aterrorizada; Lancelote estava tentando dar alguma dignidade à comprida e desordenada coluna. A moça colocou o véu no rosto e seguiu em silêncio ao lado de Igraine.

- É pena que tanta gente a veja cansada e abatida da viagem - comentou Igraine. - Mas, olhe, lá vem Artur para nos receber.

Gwenhwyfar estava tão exausta que mal levantou a cabeça. Artur, numa comprida túnica branca, com a espada na preciosa bainha vermelha pendurada na cintura, parou para falar por um momento com Lancelote, à frente da coluna, e em seguida, com os pedestres e os cavaleiros, abrindo alas para que passasse, dirigiu-se a Igraine e Gwenhwyfar. Fez uma reverência para a mãe:

- Fez uma boa viagem, senhora?

Levantou, porém, os olhos para a jovem, e Igraine percebeu que eles se abriam de surpresa diante da beleza de Gwenhwyfar e quase pôde ler os pensamentos da moça.

- Sim, eu sou bela, Lancelote me acha bela; estará o meu senhor Artstr satisfeito comigo?

Artur estendeu a mão para ajudá-la a desmontat. Ela oscilou um pouco, e o rei estendeu os doís braços para ampará-la.

- Minha senhora e noiva, bem-vinda ao seu lar e à minha casa. Que seja feliz aqui, e que este dia lhe seja tão alegre quanto é para mim.

Gwenhwyfar sentiu o rubor subir-lhe ao rosto. Sim, Artur era bonito, pensou, com o cabelo louro e os olhos cinzentos, sérios e francos. Como parecia diferente de Lancelote, com sua alegria e brincadeiras impulsivas! E como a olhava de outra maneira - Lancelote a via como se fosse a estátua da Virgem no altar da igreja, mas o olhar de Artur era sóbrio, observador, como se ainda não estivesse certo de ela ser uma amiga, ou uma inimiga.

- Agradeço, meu noivo e senhor - respondeu ela. - Como pode ver, trouxe-lhe o prometido dote de homens e cavalos...

- Quantos cavalos? - perguntou ele.

Gwenhwyfar ficou confusa. O que sabia sobre os preciosos cavalos dele? Tinha de deixar tão claro que eram os cavalos, e não ela, que lhe interessavam nesse casamento? A jovem procurou ficar ereta - era maior do que alguns homens e tinha boa altura para uma moça -, e observou com dignidade:

- Eu não sei, meu senhor Artur, pois não os contei. Deve perguntar a seu capitão de cavalaria. Tenho a certeza de que o senhor Lancelote poderá dizer quantos são, incluindo as éguas e os potros que ainda mamam.

“Ah, isso, minha filha!”, aplaudiu Igraine em pensamento, vendo as cores surgirem nas faces pálidas de Artur ante a resposta reprobatória. Ele sorriu, sentido:

- Perdoe-me, senhora, ninguém espera que se ocupe de tais coisas. Tenho certeza de que Lancelote me dirá tudo isso, no devido momento. Pensava também nos homens que a acompanharam. Parece-me adequado que os saúde como meus novos súdítos, depois de saudar a sua senhora e a minha rainha.

Por um momento, ele pareceu tão jovem quanto realmente era. Olhou à volta a multidão de homens, cavalos, carros e carroças, e abriu os braços, desalentado:

- Em meio a toda essa confusão, não acredito que me ouçam, de qualquer modo. Permitam-me acompanhá-las até os portões do castelo.

Tomou a mão da noiva e levou-a pelo caminho, procurando os lugares mais secos.

- Receio que este seja um lugar velho e desolado. Era a fortaleza de meu pai, mas nunca vivi aqui, desde que me conheço por gente. Talvez no futuro, se os saxões nos deixarem algum tempo sossegados, possamos encontrar um local mais adequado para nosso lar, mas no momento teremos de contentar-nos com este.

Quando passaram pelos portões, Gwenhwyfar estendeu a mão e tocou a muralha. Era grossa, segura, de pedra romana, alta; parecia estar ali desde o começo do mundo - era um lugar onde se estava protegido. A moça alisou a parede quase com amor.

- Parece-me belo. Tenho certeza de que é seguro... Isto é, quero dizer, tenho a certeza de que serei feliz aqui.

- Assim o espero, senhora... Gwenhwyfar - sorriu Artur, usando pela primeira vez o seu nome e falando com um sotaque estranho. De súbito, a moça tentou adivinhar onde ele teria sido criado.

- Sou muito jovem para estar à frente de tudo isso, de todos esses homens e reinos. Ficarei contente em ter alguma ajuda.

Gwenhwyfar ouviu-lhe a voz tremer, como se tivesse medo - mas de que, em todo o mundo, poderia um homem ter medo?

- Meu tio por afinidade, Lot, rei de Orkney, casado com a irmã de minha mãe, Morgause, afirma que sua mulher governa tão bem quanto ele, quando está ausente na guerra ou em conselhos. Estou pronto a dar-lhe esta honra, senhora, e deixá-la reinar ao meu lado.

O pânico voltou a apertar a garganta da jovem. Como podia ele esperar tal coisa? Como podia uma mulher governar? Que lhe importavam os bárbaros selvagens, as tribos do norte, ou suas mulheres bárbaras? Respondeu, numa voz abalada e frágil:

- Eu nunca poderia aspirar a tanto, meu senhor.

Igraine observou com firmeza:

- Artur, meu filho, o que está pensando? A moça viajou durante dois dias e está exausta! Não é este o momento de falar de estratégia de reinos, com o barro das estradas ainda em nossos sapatos! Peço-lhe, mande-nos as camareiras, e amanhã haverá tempo bastante para conhecer sua noiva!

A pele de Artur, pensou Gwenhwyfar, era mais fina do que a sua; foi a segunda vez que o viu corar como uma criança censurada.

- Desculpe-me, mãe. E a senhora também.

Levantou o braço, fazendo um sinal, e um rapaz moreno e esbelto, com uma cicatriz no rosto e mancando acentuadamente, aproximou-se deles.

- Meu irmão de criação e meu camareiro-mor, Cai, esta é Gwenhwyfar, minha senhora e minha rainha.

Cai fez uma reverência e sorriu:

- As suas ordens, senhora.

- Como você vê, Gwenhwyfar trouxe móveis e pertences. Senhora, dou-lhe as boas-vindas ao seu próprio lar. Dê a Cai as ordens que julgar adequadas, sobre onde colocar suas coisas. Peço-lhe agora que me dê licença. Devo inspecionar os homens, os cavalos e o equipamento.

Fez novamente uma reverência profunda, e Gwenhwyfar teve a impressão de ver em seu rosto uma sensação de alívio. Ficou pensando se o rei estaria desapontado com ela, ou se seu único interesse no casamento era realmente o dote de cavalos e homens, como havia pensado. Bem, estava preparada para isso; ainda assim, uma recepção mais pessoal teria sido agradável. Compreendeu que o jovem moreno e de cicatrizes chamado Cai esperava suas ordens. Era gentil e deferente - não precisava ter medo dele.

Suspirou e estendeu a mão para tocar as grossas paredes que a cercavam, como se buscasse tranqüilizar-se e firmar a voz, de modo que, ao falar, o fizesse como uma rainha.

- No carro maior, Sir Cai, há uma mesa de madeira irlandesa, presente de casamento de meu pai para meu senhor Artur. É um troféu de guerra, muito velho e valioso. Faça com que seja montada no maior salão de banquetes de Artur. Antes, porém, mande preparar um quarto para minha senhora Igraine, e alguém para servi-la esta noite.

Surpreendeu-se, achando que falara mesmo como uma rainha. Cai não pareceu relutar em aceitá-la como tal. Fez uma profunda reverência e disse:

- Imediatamente, minha senhora e rainha.

 

Capítulo 5

Durante toda a noite, grupos de viajantes foram se reunindo à frente do castelo. Mal havia amanhecido, quando Gwenhwyfar, olhando para fora, viu toda a encosta do morro, até o castelo, coberta de cavalos e tendas, e de uma multidão de homens e mulheres.

- Parece uma festa - comentou com Igraine, que havia dormido em seu quarto naquela última noite de virgindade, e a outra sorriu-lhe.

- O casamento de um Grande Rei, minha filha, é uma festa maior do que qualquer outra nesta ilha. Veja, aqueles são os homens de Lot de Orkney.

Pensou: "Talvez Morgana esteja com eles", mas nada disse. Quando moça, costumava pôr em palavras todos os pensamentos que lhe ocorriam.

Como era estranho, pensou Igraine: durante toda a sua fase fértil, a mulher aprendia a pensar só nos filhos. Se pensava nas filhas, era para imaginar que quando estivessem crescidas iriam para as mãos de outro, que estavam sendo criadas para uma outra família. Teria sido porque Morgana era a primogênita, sempre a mais próxima do seu coração? Artur voltara depois de sua longa ausência, mas, como fazem os homens, distanciara-se tanto que já não havia meios de alcançá-lo. Mas a Morgana - descobrira isso na coroação de Artur - Igraine sentia-se ligada pelo laço de alma, que nunca se rompe. Seria porque apenas Morgana partilhava de sua herança de Avalon? Seria por isso que toda sacerdotisa desejava ter uma filha que lhe seguisse os passos, e nunca se afastasse dela?

- Quanta gente! Eu não sabia que havia tanta gente assim em toda a Bretanha - admirou-se Gwenhwyfar.

- E você será a Grande Rainha de todos eles. É atemorizador, eu sei. Foi o que senti, quando me casei com Uther.

Pareceu-lhe, por um momento, que Artur escolhera mal a sua rainha. Gwenhwyfar era bela, tinha bom gênio, instrução. Mas a rainha precisa ser capaz de ocupar seu lugar no primeiro plano da corte. Talvez a moça fosse tímída e retraída demais.

A rainha era, nos termos mais simples, a esposa do rei, não apenas a anfitriã e a governanta de sua casa - qualquer camareiro poderia fazer isso. Mas, tal como as sacerdotisas de Avalon, ela era um símbolo de todas as realidades do mundo, uma lembrança de que a vida era mais do que combates, guerras e domínio. O rei lutava para proteger aqueles que eram incapazes de lutar por si mesmos, as mulheres grávidas, as crianças pequenas, os velhos, os avós.

Entre as tribos, na verdade, as mulheres mais fortes tinham lutado ao lado dos homens - havia outrora uma escola de guerreiras mantida por mulheres -, mas desde o início da civilização cabia aos homens caçar para conseguirem alimento e afastarem os invasores de seus lares, onde as mulheres grávidas, as crianças pequenas e os velhos se abrigavam. E o trabalho das mulheres era zelar por esse lar. Assim como o rei era unido à Grã-Sacerdotisa no casamento fíctício com a terra, como um símbolo de que traria força ao seu reino, assim também a rainha, numa união semelhante com o rei, criava um símbolo de força central atrás de todos os exércitos e da guerra - o lar é o centro no qual todos os homens uniam as suas forças... Igraine sacudiu a cabeça com impaciência. Essas coisas de símbolos e verdades interiores eram adequadas, talvez, a uma sacerdotisa de Avalon, mas ela, Igraine, tinha sido rainha durante tempo bastante, sem se ocupar de tais idéias. Chegaria a época em que Gwenhwyfar pensaria nessas coisas, quando fosse velha e já não precisasse delas! Naqueles dias civilizados, uma rainha não era uma sacerdotisa de aldeões que se ocupavam de campos de cevada, tal como o rei já não era o grande caçador que perseguia os gamos!

- Vamos, Gwenhwyfar, Cai deixou criadas para atenderem você, mas, como mãe de seu marido, e no lugar da sua, será mais adequado que eu me ocupe da sua toalete para o casamento.

A moça parecia um anjo depois de vestida; seu cabelo era uma aura dourada ao sol, ofuscando quase o brilho da coroa de ouro que colocara. Seu vestido era de lâ branca, fina como uma teia de aranha. Gwenhwyfar contou a Igraine, com um orgulho tímido, que o tecido fora trazido de um país distante, mais distante até do que Roma, e era mais caro do que ouro. Seu pai comprara uma medida desse pano para a pedra do altar de sua igreja, e um pedaço menor para envolver uma relíquia sagrada, e dera-lhe também um corte com o qual fizera seu vestido de casamento. Havia ainda metragem suficiente para uma túnica de festa para Artur - seria o seu presente de núpcias.

Lancelote veio buscá-las para a missa, que antecedia a solenidade do casamento. Depois, todo o dia seria dedicado aos festejos. O rapaz resplandecia num manto vermelho que usara antes, mas estava vestido para montar.

- Vai deixar-nos, Lancelote?

- Não - disse ele sério, olhando porém apenas para Gwenhwyfar. - Nos espetáculos de hoje, os novos cavaleiros, a nova cavalaria de Artur, oferecerão uma demonstração do que podem fazer. Serei um dos participantes dessa demonstração, hoje à tarde. Artur acha que é chegado o momento de revelar os seus planos ao povo.

Igraine percebeu novamente aquele olhar desesperado, ansioso, que ele lançava a Gwenhwyfar, e o brilho do sorriso dela ao fitar o moço. Não podia ouvir agora o que se dizia - não tinha dúvidas de que eram palavras inocentes. Mas não precisavam de palavras. Igraine sentiu outra vez a certeza desesperadora de que isso não poderia ter bons resultados, e só provocaria sofrimentos.

Desceram pelos corredores, acompanhados de servos, nobres, que se juntavam ao cortejo à medida que este passava, e foram para a primeira missa. Nos degraus da capela, juntaram-se a eles dois rapazes que, como Lancelote, usavam longas penas negras nos chapéus. Ela lembrou-se de que Cai também trazia uma: seria aquilo um distintivo dos Companheiros de Artur?

- Onde está Cai, irmãos? - perguntou Lancelote. - Não devia estar aqui para acompanhar a senhora à igreja?

Um dos recém-chegados, um homem grande e pesado que, pensou Gwenhwyfar, apesar disso se parecia um pouco com Lancelote, respondeu:

- Cai, e Gawaine também, está preparando Artur para o casamento. Na verdade, pensei que você estaria com eles, pois os três são como irmãos para o rei. Ele me mandou substituí-lo, como parente da senhora Igraine.

E voltando-se para ela, disse, depois de uma reverência:

- Senhora, será possível que não me reconheça? Sou filho da Senhora do Lago. Meu nome é Balam, e este é o nosso irmão de criação, Balim.

Gwenhwyfar fez um aceno cortês de cabeça para eles. Pensou: Poderá esse Balam, grande e pesado, ser realmente irmão de Lancelote? É como se um touro se dissesse irmão do mais belo dos garanhões meridionais! Balim, seu irmão de criação, era baixo e de rosto avermelhado, barbado e com o cabelo amarelo como um saxão.

- Lancelote, se é desejo seu estar com meu senhor e rei... - disse ela.

- Acho que deve ir ficar com ele, Lancelote - observou Balam com uma gargalhada. - Como todos os homens no dia do casamento, Artur está muito nervoso. Nosso rei pode lutar como o próprio Pendragon no campo de batalha, mas esta manhã, ao se preparar para a sua noiva, não parece mais do que o rapaz que, na realidade, é!

Pobre Artur, pensou Gwenhwyfar, este casamento é um sofrimento maior para ele do que para mim. Eu, pelo menos, nada mais tenho a fazer senão obedecer à vontade de meu pai e rei!

Achou graça, mas apenas por um momento. Pobre Artur, tería de recebê-la pelo bem de seu reino, mesmo que fosse feia, velha ou marcada de bexigas. Era apenas mais um dever penoso, como comandar seus homens nas batalhas contra os saxões. Pelo menos dos saxões ele sabia o que podia esperar!

- Senhor Lancelote, prefere estar ao lado de meu senhor Artur? - perguntou a moça.

Os olhos do moço disseram-lhe claramente que não desejava afastar-se dela. Gwenhwyfar havia aprendido, em um ou dois dias, a ler essas mensagens silenciosas. Jamais trocara uma palavra com Lancelote que não pudesse ser dita em voz bem alta na presença de Igraine, de seu pai e de todos os bispos da Bretanha reunidos. Mas, pela primeira vez, o rapaz parecia dividido por desejos conflitantes.

- A última coisa que desejo é deixar sua companhia, senhora. Mas Artur é meu amigo e meu primo...

- Deus me ajude a nunca me interpor entre parentes - sorriu ela, estendendo a pequena mão para que a beijasse. - Com este casamento, você se torna também meu fiel parente, e meu primo. Vá para junto de meu senhor e rei e diga-lhe...

Hesitou, surpresa com sua própria ousadia: seria correto, aquilo? Que Deus ajudasse a todos eles, dentro de uma hora seria a esposa de Artur; que importância teria se suas palavras parecessem muito ousadas, quando expressavam, na verdade, uma preocupação recomendável com o seu rei?

- Diga-lhe que tenho prazer em devolver-lhe o seu mais fiel capitão, e que o espero com amor e obediência.

Lancelote sorriu. E aquele sorriso pareceu tocar o mais profundo da alma da moça, cujos lábios também se abriram de prazer. Como podia sentir-se tão ligada a ele? Toda a sua vida parecia ter-se filtrado pelos dedos, ao toque dos lábios do cavaleiro. Engoliu em seco, e de súbito teve consciência do que sentia. Apesar de suas conscienciosas mensagens de amor e obediência a Artur, sentiu que venderia a alma para fazer voltar o tempo e poder dizer ao pai que só se casaria com Lancelote. Era algo tão real quanto o sol que a iluminava e a relva sob seus pés, tão real - e voltou a engolir em seco - quanto Artur, que estava se preparando para o casamento, e para o qual também ela deveria dirigir-se depois da santa missa.

Será esta uma das cruéis brincadeiras de Deus, que eu só viesse a saber o que estou sentindo tarde demais? Ou será alguma manobra esperta do Diabo, para afastar-me de meu dever para com meu pai e meu marido? Não ouviu o que Lancelote disse; sentiu apenas que a mão do rapaz deixava a sua, que ele lhe voltava as costas e afastava-se. Mal ouviu as palavras corteses dos dois irmãos, Balim e Balam - qual deles era o filho da Sacerdotisa do Lago, então? Balam, o irmão de Lancelote, tão pouco parecido com ele quanto um corvo se parece com uma grande águia.

Percebeu que Igraine falava com ela.

- Deixo-a com os Companheiros, minha querida. Quero falar com o Merlim antes da missa.

Só alguns instantes depois, Gwenhwyfar percebeu que a outra esperava sua permissão para retirar-se. Sua posição de Grande Rainha já era uma realidade. Mal percebeu as palavras que disse a Igraine, que então se afastou.

Igraine atravessou o pátio, murmurando desculpas às pessoas que empurrava, tentando alcançar Taliesin. Todos estavam vestidos com alegres roupas de festa, mas ele trazia suas habituais e austeras vestes cinzentas.

- Meu pai...

- Igraine, minha filha - Taliesin voltou para ela o olhar e ela sentiu-se vagamente reconfortada porque o velho druida lhe falava como se tivesse catorze anos. - Pensei que estivesse fazendo companhia à nossa noiva. Como é bonita! Artur descobriu um tesouro. Ouvi dizer que é inteligente também, instruída, e religiosa, o que agradará o bispo.

- Meu pai - Igraine baixou a voz para que ninguém ouvisse. - Quero fazer-lhe uma pergunta: haverá algum meio honroso para que Artur evite esse casamento?

Taliesin mostrou-se consternado:

- Não, acho que não. Tudo está preparado para o casamento, depois da missa. Que Deus nos ajude, teremos sido enganados, será ela estéril, impura, ou...

O Merlim sacudiu a cabeça, desalentado.

- A menos que ela estivesse escondendo o fato de ser leprosa, ou estivesse grávida de outro homem, não há como impedir o casamento. E, mesmo assim, seria impossível evitar o escândalo e a ofensa, ou deixar de transformar Leodegranz num inimigo. Por que pergunta, Igraine?

- Acho que é virtuosa. Mas percebi a maneira como olha para Lancelote, e como ele retribui. E poderá isso resultar em outra coisa que não sofrimento, quando a noiva está atraída por outro, e esse é o melhor amigo do noivo?

O Merlim olhou-a com intensidade: seus velhos olhos continuavam perscrutadores como sempre.

- Ah, então é isso? Sempre me pareceu que o nosso Lancelote tinha um encanto e uma atração excessivos para a sua felicidade. Mas é um rapaz honrado, afinal de contas; talvez tudo não passe de imaginação juvenil, e quando o novo casal se tiver tornado marido e mulher na prática, eles se esquecerão disso, ou lembrar-se-ão do episódio com uma leve tristeza, como algo que poderia ter sido.

- Eu diria que o senhor tem nove casos entre dez - respondeu. - Mas não os viu; e eu vi.

O Merlim suspirou novamente:

- Igraine, Igraine, não creio que você esteja errada, mas agora que tudo está feito, somos impotentes para agir. Leodegranz consideraria o rompimento um insulto tão grande que entraria em guerra contra Artur, e este já enfrenta muitos desafios ao seu reino - ou será que você não ouviu falar daquele rei do norte que mandou proclamar que, tendo arrancado a barba de onze soberanos para fazer-se rei, exigia que Artur lhe pagasse tributo, ou viria arrancar-lhe a barba também?

- E o que fez Artur?

- Respondeu que sua barba ainda não acabara de crescer, mas que, se a queria, viesse arrancá-la, e que seria fácil encontrar o caminho acompanhando os cadáveres de saxões que encontrasse. E mandou-lhe a cabeça de um deles - acabava de retornar de uma incursão contra os saxões -, dizendo que seria mais fácil arrancar aquela barba. Concordou, finalmente, em mandar um presente para o rei, mas não lhe pagar nenhum tributo, nem ele, nem seus amigos. O episódio terminou assim, mas, como você pode compreender, Artur não está em condições de fazer inimigos, e Leodegranz não seria um adversário desprezível. É melhor que ele se case com a moça, e eu diria isso até mesmo se a tivesse encontrado na cama com Lancelote - o que não aconteceu e provavelmente não acontecerá.

- E o que faremos? - perguntou, torcendo as mãos.

O Merlim acariciou-lhe o rosto, muito de leve:

- O que sempre fizemos, querida. O que temos de fazer, aquilo que os deuses nos mandam fazer. Faremos tudo o que pudermos. Nenhum de nós empenhou-se nesta missão com o objetivo de encontrar a sua felicidade pessoal, minha filha. Você, que cresceu em Avalon, sabe disso. Não importa o que façamos para tentar criar o nosso destino, no final ele depende dos deuses, ou, como sem dúvida o bispo preferiria dizer, de Deus. Quanto mais velho fico, mais tenho certeza de que as palavras que usamos para expressar a mesma verdade não têm importância.

- A Senhora do Lago não se sentiria contente em ouvir essas palavras - intrometeu-se um homem moreno e de rosto fino, atrás dele, vestido com roupas escuras que podiam ser as de um padre ou de um druida. Taliesin voltou-se e sorriu.

- Não obstante, Viviane sabe que são verdadeiras, tanto quanto eu... Igraine, creío que você não conhece o mais novo de nossos bardos. Trouxe-o comigo para cantar e tocar no casamento de Artur. Este é Kevin.

O moço fez uma reverência. Ela percebeu que andava apoiado numa bengala entalhada. Sua harpa, numa caixa, era levada por um menino de doze ou treze anos. Muitos bardos e harpistas, quando não druidas, eram cegos ou aleijados - raramente um jovem de perfeita saúde tinha tempo para aprender essas artes, naquela época de guerras. Em geral, porém, os druidas escolhiam rapazes sadios e inteligentes. Era difícil que um homem com alguma deformidade fosse admitido aos ensinamentos dos druidas - acreditava-se que os deuses assinalavam com essas deficiências possíveis falhas de caráter. Teria sido, porém, uma grande grosseria mencionar o fato naquele momento, e ela pôde apenas concluir que os dons do moço deviam ser excepcionais para que fosse aceito, apesar de ser aleijado.

A apresentação afastou o pensamento de Igraine de seu objetivo inicial, mas quando voltou a refletir sobre o assunto, compreendeu que Taliesin tinha razão. Era impossível sustar o casamento sem escândalo e, provavelmente, sem uma guerra. Dentro da construção de taipa que era a igreja, as luzes estavam todas acesas, e o sino começara a tocar. Igraine entrou. Taliesin ajoelhou-se, muito formal; o menino que carregava a harpa fez o mesmo, mas Kevin, não. Igraine ficou pensando se, não sendo cristão, ele estaria indiferente à missa, como Uther aparentara estar, certa vez. Mas, observando o seu constrangimento, chegou à conclusão de que provavelmente tinha uma perna rígida e não podia dobrar o joelho. Viu o bispo olhar em sua direção e franzir o cenho.

- Ouvi as palavras de Jesus Cristo Nosso Senhor - começou o bispo. - Onde dois ou três se reunirem em meu nome, estarei entre vós e tudo o que for pedido em meu nome será concedido...

Igraine ajoelhou-se, envolvendo o rosto com o véu, sem deixar de sentir a presença de Artur, que entrou na igreja com Cai, Lancelote e Gawaine, vestindo uma bela túnica branca e um manto azul, e usando como enfeite apenas a fina coroa de ouro da coroação, e a bainha vermelha, ornada de jóias, de sua grande espada. Igraine teve a sensação de que, mesmo sem olhar, podia ver Gwenhwyfar, em seu delicado vestido branco e, como Artur, ornada de ouro, ajoelhada entre Balim e Balam. Lot, magro e já com alguns cabelos brancos, ajoelhava-se entre Morgause e um dos seus filhos mais novos. Atrás dele era como se uma harpa houvesse soado uma nota elevada, proibida, em meio ao cantochão do padre. Levantou a cabeça, cautelosamente procurou ver, sabendo quem estaria ajoelhada ali. O rosto e o vulto de Morgana estavam ocultos por Morgause.

Mesmo assim, Igraine podia sentir que a moça estava ali parecendo uma nota dissonante em meio à harmonia do servíço religioso. Depois de todos aqueles anos, estaria novamente lendo o pensamento alheio? De qualquer modo, o que estava uma princesa de Avalon fazendo na igreja? Quando Viviane a visitara, e a Uther, na época em que estavam casados, a sacerdotisa não comparecia à missa, ou quando o fazia ouvia com atenção e delicadeza, tal como se estivesse vendo uma criança brincar com suas bonecas numa festa. Mas agora, podia ver Morgana - mudada, mais magra, mais bonita, vestida com simplicidade numa roupa de bela lâ escura, com uma touca branca. Estava imóvel, ajoelhada, com a cabeça inclinada e os olhos baixos, a imagem da atenção respeitosa. Ainda assim, Igraine teve a impressão de que até mesmo o padre podia sentir-lhe a irritação e a impaciência, pois parou duas vezes para olhar em sua direção, embora fosse impossível acusá-la de qualquer coisa que não fosse perfeitamente adequada à situação, motivo por que voltou logo a dar continuação à missa.

Mas a atenção de Igraine também fora interrompida. Tentou manter o pensamento na missa, murmurou as respostas adequadas, mas não conseguia pensar nas palavras do padre, nem no filho que estava se casando, nem em Gwenhwyfar, que - sabia sem ter de ver - sob a proteção do véu, procurava olhar para Lancelote ao lado de Artur. Agora, só conseguia pensar na filha. Quando a cerimônia terminasse, e com ela o casamento, poderia vê-la, e saberia por onde havia andado e o que lhe acontecera.

Levantou os olhos por um momento, quando o auxiliar do padre lia a história das Bodas de Caná, e olhou para Artur - e notou que ele também só tinha olhos para Morgana.

 

Capítulo 6

Sentada entre as mulheres da comitiva de Morgause, Morgana ouvia em silêncio o serviço religioso, de cabeça inclinada e no rosto a máscara cortês de respeito. Interiormente, estava impaciente. Era um absurdo - como se uma casa edificada pelas mãos do homem pudesse ser transformada, pelas palavras de um padre, num abrigo para o Espírito que não fora feito pelo homem. Seu pensamento corria, livre. Estava cansada da corte de Morgause; agora, que voltava ao centro dos acontecimentos, sentia-se como se tivesse saído de um remoto lago de águas paradas para a agitação de um rio que corria com rapidez. Sentia-se viver novamente. Mesmo em Avalon, por mais tranqüilo e isolado que fosse, tinha a sensação de estar em contato com o fluxo da vida, mas, entre as mulheres do séquito de Morgause, sentia-se ociosa, estagnada, inútil. Voltava agora a movimentar-se, mas desde o nascimento do filho tinha estagnado. Pensou por um instante naquele filho, Gwydion. Ele mal a conheceria, agora; quando o tomava nos braços para acariciá-lo, esperneava, querendo voltar para a mãe adotiva. Mesmo naquele momento, a lembrança de seus bracinhos a lhe envolverem o pescoço provocava-lhe debilidade e remorso, mas afastou esse pensamento. A criança nem sequer sabia que ela era sua mãe; cresceria pensando ser filho de Morgause. Sentia-se satisfeita, embora não conseguisse sufocar o sofrimento que isso lhe provocava.

Bem, todas as mulheres sofriam ao ter de deixar o filho, pensou ela. Mas todas têm de suportar isso, exceto as que têm um lar, que se sentem satisfeitas em fazer pelos filhos aquilo que qualquer mãe adotiva, ou criada, podia fazer. Até uma pastora tem de deixar os filhos para cuidar dos rebanhos; por que não uma rainha ou uma sacerdotisa. Viviane deixara de lado seus filhos. Com Igraine, fora a mesma coisa.

Artur parecia másculo e belo; estava mais desenvolvido, de ombros mais largos - já não era o rapaz esbelto que se aproximara dela com o sangue do gamo no rosto. Naguela ocasião, havia sido possível sentir a força - não era como as tolas histórias dos feitos do Deus deles, que se metia em tudo, transformando a água em vinho, o que era uma blasfêmia contra os dons da Deusa. Ou a história queria dizer que a união de um homem e uma mulher em matrimônio era transformada, pelo fermento do Espírito, numa coisa sagrada, como no Grande Casamento? Para a felicidade de Artur, esperava que assim fosse com aquela mulher; de onde estava, ajoelhada atrás de Morgause, podia ver apenas uma nuvem clara de cabelos dourados, com a coroa da noiva, de um dourado ainda mais refulgente, e o vestido branco de um tecido bonito e raro. Artur levantou os olhos para a noiva, e seu olhar pousou em Morgana. Viu seu rosto mudar, e pensou, com um súbito movimento de consciência, "reconheceu-me; então, não devo ter mudado tanto quanto ele; passou de rapaz a homem, e eu - eu já era uma mulher e não mudei tanto guanto ele".

Esperava que a noiva de Artur o amasse, assim como ele a ela. Em sua memória, ecoavam as desoladas palavras do irmão. "Durante toda a minha vida, lembrar-me-ei sempre de você e a amarei, e abençoarei". Mas assim não devia ser. Era preciso que ele esquecesse, que só visse a Deusa na mulher que escolhera. Ao lado dele, estava Lancelote. Como era possível que, com o tempo, Artur tivesse mudado e amadurecido tanto, e Lancelote permanecesse intocado, inalterado? Não, também ele mudara: parecia triste, havia uma extensa cicatriz em seu rosto, que chegava até a cabeça e deixava nos cabelos uma pequena mancha branca. Cai estava mais magro e mais curvado, mancava de forma acentuada, e olhava para Artur como um cão dedicado olharia para o dono. Com um sentimento misto de esperança e medo, Morgana procurou Viviane com o olhar, mas não viu a Senhora do Lago. Ali estava o Merlim, com a cabeça grisalha inclinada como se estivesse rezando, e atrás dele, de pé - uma sombra alta com senso suficiente para não dobrar o joelho ante aquela pantomima idiota -, Kevin, o Bardo. Antes assim!

A missa chegava ao fim. O bispo, um homem alto e de ar ascético, com um rosto sombrio, dizia as últimas palavras. Até mesmo Morgana baixou a cabeça - Viviane ensinara-lhe a pelo menos mostrar respeito pela fé alheia, já que, como dizia, toda fé pertencia aos deuses. A única cabeça que não se curvava era a de Kevin, de pé numa posição orgulhosa. Morgana gostaria de ter a coragem de levantar-se e ficar ao lado dele, com a cabeça levantada. Por que Artur se mostrava tão reverente? Não havia feito um juramento solene em relação a Avalon, bem como aos padres? Chegaria o dia em que ela ou Kevin teriam de lembrar-lhe esse juramento? Sem dúvida, aquele anjo branco e religioso com quem ele estava se casando em nada contribuiria para isso. Deveriam ter casado Artur com uma mulher de Avalon; não seria a rimeira vez que uma sacerdotisa se unia a um rei. A idéia abalou-a, e ela dominou seu constrangimento, imaginando rapidamente Raven como Grande Rainha. Ao menos, teria a virtude cristâ do silêncio... Inclinou a cabeça e mordeu o lábio, tomada de um súbito medo de rir alto.

A missa terminou. As pessoas começaram a dirigir-se para a porta. Artur e seus Companheiros ficaram onde estavam, e, a um gesto de Cai, Lot e Morgause aproximaram-se dele, e Morgana os acompanhou. Viu que Igraine, o Merlim e o harpista silencioso também permaneciam na igreja. Levantou os olhos e encontrou o olhar de sua mãe. Sabia, com um pressentimento parecido com a Visão, que, não fora a presença do bispo, e estaria envolvida pelos braços de Igraine. Corou um pouco, afastando os olhos do olhar ansioso da mãe.

Havia procurado pensar o menos possível nela, consciente apenas de que, em sua presença, teria de proteger a única coisa que Igraine jamais poderia saber: quem era o pai de seu filho... Certa vez, durante a longa e desesperada luta de que mal se podia recordar, pensara ter gritado, como uma criança, chamando a mãe, mas não tinha certeza. E, mesmo agora, temia qualquer contato com aquela mãe que durante certo tempo tivera a Visão, que conhecia os costumes de Avalon; Morgana poderia conseguir esquecer todo o seu treinamento de infância e sua culpa, mas iria Igraine censurá-la por alguma coisa que, afinal de contas, fora escolhida por ela mesma?

Lot aproximou-se e dobrou o joelho ante Artur que, com um ar bondoso e sério no rosto, o fez levantar-se e beijou-o em ambas as faces.

- Estou satisfeito por ter vindo ao meu casamento, tio. Sinto-me feliz por ter um amigo e parente tão fiel, para guardar o litoral do norte, e seu filho Gawaine é meu caro amigo e mais íntimo Companheiro. E a você, tia, devo-lhe um agradecimento por ter me dado seu filho para ser meu fiel Companheiro...

Morgause sorriu. Era bela ainda, pensou Morgana, muito mais do que Igraine.

- Senhor, terá motivo para agradecer-me novamente dentro em pouco, pois tenho filhos mais novos que só falam do momento em que poderão vir servir o Grande Rei.

- Serão tão bem-vindos quanto o seu irmão mais velho - disse Artur gentilmente, e voltou o olhar para Morgana, ajoelhada. - Bem-vinda, irmã. Na minha coroação, fiz-lhe uma promessa, que agora resgatarei. Venha. - Estendeu-lhe a mão. Morgana levantou-se, sentindo a pressão da mão de Artur e a tensão que ela lhe provocava. Não a olhou nos olhos, mas levou-a até onde a moça vestida de branco estava ajoelhada, cercada pela aura dourada de seus cabelos. - Minha senhora - sorriu ele gentilmente, e por um momento Morgana não soube a quem ele se dirigia, pois olhava de uma para a outra, e quando Gwenhwyfar ergueu-se seus olhos encontraram os dela, num choque momentâneo do reconhecimento. - Gwenhwyfar, esta é minha irmã Morgana, duquesa da Cornualha. Quero que ela seja a primeira entre as damas de seu séquito, pois é a de mais alta posição entre elas.

Morgana viu Gwenhwyfar umedecer os lábios com a pequena língua cor-de-rosa, como a de um gato.

- Meu senhor e rei, a senhora Morgana e eu já nos conhecemos.

- O quê? De onde? - perguntou Artur, sorrindo.

Morgana respondeu, também pouco à vontade.

- Foi quando a rainha estava na escola, num convento em Glastonbury, meu senhor. Ela havia se perdido em meio à névoa e acabou nas margens de Avalon.

Como naquele dia distante, pareceu-lhe que, de repente, alguma coisa sombria e triste como a cinza havia coberto e obscurecido o dia claro. Morgana sentiu, apesar de seu belo vestido e da excelência de seu véu, como se fosse uma criatura grosseira, anã, terrena, ante a brancura etérea e o dourado precioso de Gwenhwyfar. A sensação durou apenas um momento; depois a moça deu um passo à frente e abraçou-a, beijando-a no rosto como convinha a uma parenta. Morgana, retribuindo o cumprimento, sentiu que Gwenhwyfar era frágil como um cristal precioso, ao contrário da solidez de que ela, Morgana, era dotada. Recuou, tímida e constrangida, para não sentir que era a outra quem recuava. Seus lábios pareciam ásperos contra a maciez de pétala do rosto da noiva.

- Receberei a irmã de meu senhor e marido, a senhora da Cornualha, com alegria. Posso chamá-la de Morgana, irmã? - perguntou suavemente.

- Como quiser, senhora - respondeu, com um profundo suspiro. E ao dizer essas palavras, sentiu que eram deselegantes, mas não sabia o que poderia ter respondido.

De pé, ao lado de Artur, viu Gawaine olhá-la com um leve ar de espanto. Lot era cristão apenas porque isso lhe era conveniente, mas Gawaine era sinceramente religioso, ao seu jeito franco. Seu olhar de desaprovação tornou Morgana tensa: tinha tanto direito de estar ali quanto ele. Seria divertido ver alguns desses Companheiros de Artur, tão formais, perderem seus modos cortesãos em volta de uma fogueira de Beltane! Bem, Artur jurara honrar o povo de Avalon, tal como os cristãos que estivessem em sua corte.

Talvez fosse por isso que ela estava ali.

- Espero que sejamos amigas, senhora - disse Gwenhwyfar. - Lembro-me de que a senhora e o senhor Lancelote reconduziram-me quando eu estava perdida naquelas brumas terríveis; ainda hoje, tremo ao recordar aquele horrível lugar.

Ergueu os olhos para Lancelote, que estava atrás de Artur. Morgana, sensível ao estado de espírito daqueles que a cercavam, seguiu-lhe o olhar e cogitou nas razões que teriam levado Gwenhwyfar a dirigir a palavra a Lancelote. Compreendeu então que ela não conseguia evitar, presa aos olhos dele... e o rapaz a olhava como um cão faminto olha um osso sangrento. Se estava escrito que Morgana e aquela criatura preciosa rosada e branca, tinham de encontrar-se novamente, havia sido melhor para ambas que isso tivesse acontecido exatamente quando Gwenhwyfar se casara  com outro homem. Sentia a mão de Artur ainda na sua, e isso também era motivo de perturbação. Aquele elo seria rompido quando ele levasse a noiva para a cama. Ela se transformaria, então, na Deusa, e Artur já não olharia Morgana daquele modo tão perturbador. Era sua irmã, e não sua amante; era mãe não de seu filho, mas do filho do Galhudo, e assim tinha de ser.

“Mas eu não rompi aquele elo, também. É certo que estive doente depois do nascimento do meu filho, e não tinha nenhuma vontade de cair, como uma maçã madura, na cama de Lot, e por isso me fiz a castidade em pessoa, sempre que estava em sua presença. Mas olhou para Lancelote, na esperança de interceptar a troca de olhares entre ele e Gwenhwyfar.

Lancelote sorriu, mas não a viu. Gwenhwyfar pegou a mão de Morgana, enquanto com a outra mão segurava a de Igraine.

- Dentro em pouco, vocês serão como irmã e como mãe para mim, pois não tenho nenhuma das duas. Venham ficar ao meu lado enquanto é celebrado o casamento, mãe e irmã.

Por mais fechado que o coração de Morgana estivesse ao encanto da moça, aquelas palavras espontâneas o estimularam, e ela retribuiu a pressão dos dedos pequenos e cálidos. Igraine estendeu o braço além de Gwenhwyfar para tocar a mão de Morgana, e esta lhe disse:

- Não tive ainda tempo de saudá-la devidamente, mãe - e soltou por um momento a mão de Gwenhwyfar, para beijar Igraine. E pensou, enquanto as três ficavam abraçadas por um instante, "Todas as mulheres são, na verdade, irmãs para a Deusa."

- Bem, então vamos - disse o Merlim, com satisfação. - Vamos firmar e testemunhar o casamento, e passemos depois às celebrações.

Morgana considerou o bispo muito austero, até que ele disse, com bastante cordialidade:

- Agora que os nossos ânimos estão todos elevados com a caridade, vamos alegrar-nos como convém a cristãos, em dia de presságios tão favoráveis.

De pé ao lado de Gwenhwyfar durante a cerimônia, Morgana sentiu que a moça tremia. Suas lembranças voltaram-se para o dia da caça do gamo. Ela, pelo menos, fora estimulada e excitada pelo ritual, e mesmo assim tivera medo e agarrara-se à velha sacerdotisa. De repente, num impulso de bondade, desejou poder dar à jovem, que, afinal de contas, havia sida educada num convento e nada conhecia da antiga sabedoria, um pouco dos sentimentos transmitidos às sacerdotisas mais novas. Ela ficaria então sabendo como deixar que as correntes vitais do sol, do verão e da terra a atravessassem. Poderia tornar-se realmente a Deusa para Artur, e este, o Deus para ela, de modo que o seu casamento não fosse apenas uma fórmula vazia, mas uma verdadeira união interior em todos os níveis de vida... Chegou a pensar em palavras para dizer-lhe isso, mas lembrou-se então de que Gwenhwyfar era cristã, e não lhe seria grata por esse ensinamento. Frustrada, suspirou, sabendo que não devia falar.

Levantou os olhos e encontrou o olhar de Lancelote, que se demorou no seu por um momento. Morgana recordou-se daquela tarde ensolarada no Tor, quando poderiam ter-se unido como homem e mulher, deusa e deus... Sabia que ele também se recordava. Mas Lancelote desviou o olhar e fez o sinal-da-cruz, tal como o padre.

A cerimônia simples terminou. Morgana assinou o nome como testemunha do contrato de casamento, notando como sua letra era fluente e bem-feita ao lado da assinatura rabiscada de Artur e das letras infantis e inábeis de Gwenhwyfar - será que as freiras de Glastonbury sabiam tão pouco?

Lancelote também firmou, bem como Gawaine e o rei Bors da Bretanha, que viera como testemunha, e Lot e Ectório e o rei Pellinore, irmão da mãe da noiva, que se fazia acompanhar de uma filha jovem, a quem chamou solenemente, com um gesto.

- Minha filha, Elaine, sua prima, minha senhora e rainha. Peço-lhe que a aceite em seu serviço.

- Ficarei feliz tendo-a entre minhas damas de companhia - respondeu Gwenhwyfar, sorrindo. Morgana notou que a filha de Pellinore parecia-se com Gwenhwyfar rosada e dourada embora um pouco menos radiante. Estava vestida com uma túnica de linho tingida de açafrão, o que amenizava a cor de cobre do dourado de seus cabelos.

- Como se chama, prima? E que idade tem?

- Elaine, senhora, e tenho treze anos.

Fez uma reverência tão profunda que perdeu o equilíbrio e Lancelote amparou-a. Corou profundamente e escondeu o rosto no véu. Lancelote sorriu com indulgência, e Morgana sentiu uma dolorosa pontada de ciúme. Não olhava para ela, olhava apenas para esses anjos brancos e dourados; sem dúvida, também a considerava pequena e feia. E naquele momento toda a sua bondade para com Gwenhwyfar transformou-se em ressentimento, e teve de voltar o rosto para o outro lado.

Gwenhwyfar passou as horas que se seguiram recebendo cumprimentos de, aparentemente, todos os reis da Bretanha e sendo apresentada às suas mulheres, irmãs e filhas.

Quando chegou o momento de sentar-se à mesa, além de Morgana, Elaine, Igraine e Morgause, teve de mostrar-se atenta e delicada também para com Flavila, mãe adotiva de Artur e mãe de Cai, para com a rainha do País de Gales do Norte, que também se chamava Gwenhwyfar, mas era morena e tinha uma aparência romana, e para com meia dúzia de outras. Murmurou para Morgana:

- Não sei como poderei lembrar todos esses nomes! Deverei chamá-las simplesmente de "minha senhora", e esperar que não desconfiem?

Morgana respondeu também num murmúrio e partilhou momentaneamente do tom divertido que havia na voz dela:

- Essa é uma das vantagens de ser Grande Rainha, senhora: ninguém ousará perguntar-lhe por quê! Não importa o que fizer, aceitarão sem discutir! Se não concordarem, não ousarão manifestar essa discordância.

Gwenhwyfar teve um breve riso.

- Mas você deve me chamar pelo nome, Morgana, e não apenas "senhora". Quando você diz "senhora", fico procurando alguma dama gorducha como a senhora Flavila, ou a mulher do rei Pellinore!

Por fim, o banquete começou. Morgana tinha agora mais apetite do que na coroação de Artur. Sentou-se entre Gwenhwyfar e Igraine, e comeu com vontade. Os hábitos moderados de Avalon pareciam coisa do passado. Comeu até mesmo carne, embora não gostasse, e como não havia água na mesa e a cerveja destinava-se principalmente aos criados, bebeu vinho, que realmente não apreciava. Deixava-lhe a cabeça um pouco tonta, embora não fosse tão ardente quanto os fortes licores de cevada, comuns na corte de Orkney, que odiava e dos quais nunca se servia.

Depois de algum tempo, Kevin preparou-se para tocar, e a conversa cessou. Morgana, que não ouvia um bom harpista desde que deixara Avalon, escutou com atenção, em meio a recordações do passado. Teve, de repente, saudades de Viviane. Mesmo quando levantou os olhos e viu Lancelote - que, como o Companheiro mais próximo de Artur, sentava-se mais perto do rei do que os outros, até mesmo do que Gawaine, seu herdeiro, e comia no mesmo prato -, pensou nele apenas como o companheiro daqueles anos no lago.

"Viviane, e não Igraine, é minha verdadeira mãe, e foi por ela que gritei." Inclinou a cabeça, retendo lágrimas que não sabia como derramar.

A música cessou, e ouviu a voz sonora de Kevin:

- Temos outro músico entre nós - anunciou ele. - Gostaria a senhora Morgana de cantar para os presentes?

"Como pôde saber que eu estava ansiosa para tocar minha harpa?", pensou Morgana, que disse em voz alta:

- Será um prazer tocar sua harpa, senhor, mas há vários anos não ponho as mãos num belo instrumento, apenas em imitações, na corte de Lot.

- Ora - interrompeu Artur, descontente -, como poderia minha irmã cantar como um músico, a serviço de toda essa gente?

Kevin pareceu ofendido, e com razão, pensou Morgana. Num movimento de súbita irritação, ela levantou-se:

- Aquilo que o Mestre Harpista de Avalon concorda em fazer, também eu tenho a honra de fazer! Com a música, servimos apenas aos Deuses!

Tomou a harpa, sentando-se num banco. Era um instrumento maior do que o seu, e por um momento suas mãos tatearam as cordas, procurando as posições. Em seguida, movimentaram-se com mais segurança e ela tocou uma canção do norte, aprendida na corte de Lot. Sentiu-se grata, de repente, ao vinho que lhe limpara a garganta; ouviu-se cantar numa voz cheia e doce - o dom lhe voltava tão vigoroso quanto antes, embora não o tivesse reconhecido até aquele momento. Tinha a voz de contralto, profunda e forte, treinada pelos bardos de Avalon, e sentiu-se orgulhosa, novamente. "Gwenhwyfar pode ser bela, mas eu tenho a voz de um bardo."

E até mesmo Gwenhwyfar juntou-se aos muitos que a cercaram ao terminar.

- Sua voz é linda, irmã! Você aprendeu a cantar assim em Avalon?

- Sim, minha senhora, a música é sagrada. Não aprendeu harpa no convento?

- Não, pois parecia impróprio a uma mulher erguer a voz ante o Senhor - respondeu Gwenhwyfar com um recuo.

- Vocês, cristãos, gostam demais da palavra "impróprio", especialmente no que se relaciona às mulheres. Se a música é um mal, é mal também para os homens. E se é uma coisa boa, não devem as mulheres fazer todo o bem que puderem, para compensar o suposto pecado cometido na criação do mundo?

- Mesmo assim, isso não me era permitido. Cheguei a ser castigada por ter segurado uma harpa - lembrou Gwenhwyfar, com certa tristeza. - Mas você nos encantou, e não posso deixar de considerar esse encantamento como um bem.

- Todos em Avalon, homens e mulheres, aprendem um pouco de música - dísse Kevin. - Poucos, porém, têm o talento da senhora Morgana. As belas vozes nascem feitas, não são produto da formação. E se a voz é um dom de Deus, parece-me, então, ser uma arrogância considerá-la com desprezo, seja em homem ou em mulher. Não podemos acreditar que Deus tenha cometido um erro, dando-a a uma mulher. Deus não erra; devemos aceitá-lo onde quer que Ele se manifeste.

- Não posso discutir teologia com um druida - comentou Ectório. - Mas se tivesse uma filha com esse talento, eu consideraria isso uma tentação para ela se desviar do lugar indicado à mulher. Nunca ouvimos dizer que Maria, a Mãe do Senhor, tenha cantado ou dançado.

- Mas sabemos que quando o Espírito Santo baixou sobre ela, Maria levantou a voz e cantou: "A minha alma engrandece ao Senhor... " Disse, porém, as palavras em grego: "Megalynei he psyche mou ton Kyrion"...

Apenas Ectório, Lancelote e o bispo reconheceram as palavras gregas, embora Morgana também as tivesse ouvido mais de uma vez. O bispo respondeu com firmeza:

- Mas ela cantou apenas na presença de Deus. Só Maria Madalena teria cantado ou dançado na frente de homens, e assim mesmo antes de ter sido salva pelo nosso Redentor, pois isso era parte de seus costumes perversos.

- O rei Davi era cantor e tocava harpa, pelo que sabemos - interrompeu Igraine, com leve ironia. - O senhor acredita que ele seria capaz de castigar alguma de suas cinco mulheres ou suas filhas por tocarem harpa?

De súbito, Morgana manifestou-se:

- Se Maria Madalena tocava harpa e dançava, ainda assim foi salva, e em lugar nenhum está escrito que Jesus lhe tenha dito para calar-se com humildade! Se ela derramou bálsamo precioso na cabeça do Senhor, e este não permitiu que os discípulos a censurassem, bem poderia ter recebido com agrado seus outros dons. Os Deuses dão aos homens o que têm de melhor, e não o pior.

Patrício retrucou, secamente:

- Se é essa a forma de religião conhecida aqui na Bretanha, estamos realmente necessitados de concílios como o que foi convocado pela nossa Igreja!

Franziu o cenho, e Morgana, que já se arrependia de suas palavras apressadas, baixou a cabeça - não seria conveniente estabelecer uma polêmica entre Avalon e a Igreja, durante o casamento de Artur. Mas por que ele não se manifestava? Todos começaram a falar ao mesmo tempo, e Kevin, retomando a harpa, tocou uma animada música, ao som da qual os criados passaram com novos pratos que a ninguém mais apeteciam.

Algum tempo depois, Kevin emudeceu sua harpa, e Morgana, como teria feito em Avalon, serviu-lhe vinho, e ajoelhou-se para oferecê-lo. Kevin sorriu e tomou a taça, convidando-a, com um gesto, para que se levantasse e se sentasse ao lado dele.

- Senhora Morgana, meus agradecimentos.

- É meu dever e prazer servir a um bardo assim, Mestre Harpista. Esteve recentemente em Avalon? Está minha tia Viviane com boa saúde?

- Está bem, embora muito envelhecida - respondeu ele tranqüilamente. - E, ao que me parece, sofrendo por sua causa. A senhora devia voltar.

Morgana sentiu novamente uma onda de desespero e afastou os olhos.

- Não posso. Mas dê-me notícias de lá.

- Se quiser mais notícias de Avalon, terá de ir lá, pois há um ano não volto àquele lugar. Tenho de percorrer todo o reino para depois levar notícias à Senhora, pois Taliesin está muito velho para ser Mensageiro dos Deuses.

- Bem, você terá muito que lhe contar sobre este casamento.

- Direi que a senhora está viva e bem, pois ela sente sua falta. Já não tem a Visão para ver por si mesma. E falarei também do seu filho mais novo, que é o principal Companheiro de Artur. - E acrescentou, com um sorriso sarcástico: - Vendo-o com Artur, creio que ele se parece ao discípulo mais jovem que na ceia reclinou a cabeça no peito do Cristo...

Morgana não pôde conter um sorriso.

- O bispo mandaria açoitá-lo por blasfêmia, se o ouvisse falar...

- Bem, lá está Artur, sentado, como Jesus com os Apóstolos, defendendo o cristianismo em todo o país. E quanto ao bispo, é um homem ígnorante.

- Ora, só porque não tem ouvido para a música.

Morgana não havia sentido, até então, o quanto ansiava pela conversação com pessoas de seu nível. Morgause e o falatório de suas damas eram tão medíocres, tão presos a coisas insignificantes!

- Creio que todo homem sem ouvido para a música é realmente ignorante, pois, sem ísso, não fala, mas zurra - replicou o bardo. - Mas há outras coisas ainda. Este momento não é propício para um casamento.

Morgana estava há tanto tempo afastada de Avalon que, por um instante, não entendeu o que e1e queria dizer. Mas Kevin apontou para o céu.

- A lua é minguante. Isso é um mau augúrio para um casamento, e Taliesin lhes dísse isso. Mas o bispo queria a cerimônia pouco depois da lua cheia, para que os visitantes pudessem viajar à luz do luar, ao regressarem a seus castelos. E também por ser o dia de um dos santos deles, não sei qual. O Merlim falou também com Artur, dizendo-lhe que o casamento não lhe traria alegrias - não sei por quê. Mas não houve jeito de sustá-lo de maneira honrosa, ao que parece, pois os preparativos já estavam avançados demais.

Morgana sabia instintivamente o que o velho druida dissera: também ela notara a maneira como Gwenhwyfar olhava para Lancelote. Teria sido a manifestação da Visão que a fizera recuar ante Gwenhwyfar, naquele dia, em Avalon?

"Ela me tomou Lancelote para sempre, naquele dia", pensou Morgana e, em seguida, lembrando-se de que então estava sob a promessa de manter a virgindade para a Deusa, foi tomada de surpresa ante esse pensamento. Teria faltado ao juramento, por ele? Baixou a cabeça, envergonhada, como se temesse, por um momento, que Kevin lesse seus pensamentos.

Viviane dizia que uma sacerdotisa deve exercer, em tudo, o seu próprio critério. Fora um instinto acertado que, com ou sem juramento, a levara a desejar Lancelote... "Eu teria feito melhor, mesmo pelos padrões de Avalon, em tomar Lancelote naquela ocasião; e então a rainha de Artur teria vindo para ele com o coração intato, pois Lancelote teria formado um laço místico comigo, e o filho que tive também seria da velha linhagem real de Avalon..."

Mas tinham outros planos para ela, e o naufrágio que provocaram a arrastara para longe do lago, deixando-lhe um filho que destruíra qualquer esperança de dar à Deusa, algum dia, uma sacerdotisa para o seu santuário. Depois de Gwydion, não poderia ter mais filhos. Se tivesse confiado em seu instinto e em seu critério, Viviane teria ficado irritada, mas encontrariam alguém que servisse para Artur, de qualquer maneira.

"Fazendo o que era certo, fiz o que estava errado. Obedecendo à palavra de Viviane, contribui para o fracasso e o desastre desse casamento, pois sei que dele resultará desastre..."

- Senhora Morgana - tornou Kevin delicadamente -, noto que está perturbada. Posso ajudá-la em alguma coisa?

Ela sacudiu a cabeça, e seus olhos encheram-se novamente de lágrimas. Ficou pensando se ele saberia que ela havia sido de Artur, na sua consagração como rei. Não poderia aceitar a piedade de Kevin.

- Não tenho nada, senhor druida. Talvez eu participe de suas dúvidas quanto a esse casamento feito na lua minguante. Estou apenas preocupada com meu irmão. E tenho pena da mulher com quem ele se casou.

Ao dizer tais palavras, sabia serem elas sinceras; apesar de todos os receios que tinha de Gwenhwyfar, aos quais se misturava o ódio, sentia também pena dela - casava-se com um homem que não a amava, e amava a um homem que não podia desposar.

"Se eu tomar Lancelote de Gwenhwyfar, prestarei um serviço a meu irmão, e à sua mulher também, pois se o afasto dela, acabará por esquecê-lo." Aprendera em Avalon a examinar seus próprios motivos, e agora estremecia interiormente: não estava sendo sincera consigo mesma. Se tomasse Lancelote de Gwenhwyfar, não seria por amor do irmão, nem do reino, mas única e exclusivamente porque o desejava para si.

"Não para você mesma. Em favor de outrem, você pode usar sua magia. Mas não deve enganar-se a si mesma." Conhecia muitas magias de amor. Seria para o bem de Artur! E também seria bom para o reino, repetiu muitas vezes, se tomasse Lancelote da mulher do irmão. Mas sua rígida consciência de sacerdotisa continuava a dizer-lhe: "Você não pode fazer isso. É proibido usar sua magia para sujeitar o universo à sua vontade."

Ainda assim, tentaria. Mas teria de ser sem outra ajuda senão a de seus próprios recursos femininos. Disse a si mesma, com entusiasmo, que Lancelote a desejara uma vez, sem a ajuda de magia; poderia sem dúvida fazer com que a desejasse novamente!

Gwenhwyfar estava cansada das comemorações. Havia comido mais do que devia, e embora só tivesse provado uma taça de vinho, sentia calor, e, afastando o véu, procurou abanar-se. Artur falava com muitos de seus convidados, movendo-se devagar na direção da mesa em que ela estava sentada com as outras damas e, finalmente, se aproximou dela. Com ele, estavam Lancelote e Gawaine. As mulheres afastaram-se, abrindo lugar nos bancos, e Artur sentou-se ao seu lado.

- É o primeiro momento que realmente tenho para falar com você.

Ela estendeu-lhe a mão pequena.

- Eu compreendo. Isso se parece mais com um conselho do que com uma festa de casamento, meu senhor e marido.

Artur riu, um pouco pesaroso.

- Todos os acontecimentos de minha vida se parecem agora com um conselho. Um rei não faz nada que seja privado. - Bem - disse ele, corrigindo-se com um sorriso, ao ver o rubor espalhar-se no rosto da moça -, quase nada. Acho que haverá algumas exceções, minha cara esposa. A lei exige que eles nos vejam ir juntos para a cama. Mas o que acontece depois disso, só a nós interessa, creio.

Ela baixou os olhos, sabendo que Artur percebera o rubor em suas faces. Mais uma vez, em meio à vergonha, compreendeu que o esquecera novamente, que estava observando Lancelote e pensando, com a doçura sonolenta de um sonho, no quanto desejava que fosse ele o seu noivo naquele dia - que destino perverso fizera dela a Grande Rainha?

Os olhos de Lancelote voltavam-se para ela com aquele ar faminto, e Gwenhwyfar não ousava fitá-lo. Percebeu que ele afastava dela o olhar antes mesmo que uma sombra caísse sobre eles e Morgana se aproximasse. Artur afastou-se para que ela se sentasse ao seu lado.

- Venha sentar-se conosco, irmã, há sempre lugar para você, aqui - convidou numa voz tão arrastada que Gwenhwyfar ficou imaginando o quanto ele teria bebido.

- Quando o banquete terminar, teremos mais algum divertimento, alguma coisa talvez mais emocionante do que a música do bardo, por mais bela que seja. Eu não sabia que você cantava, irmã. Sabia que era uma feiticeira, mas não que também era música. Terá você nos enfeitiçado a todos, aqui?

- Espero que não, pois do contrário não ousaria cantar novamente. Como é mesmo aquela velha história sobre o bardo que, com seu canto, enfeitiçou os gigantes malvados transformando-os num círculo de pedras, onde permanecem até hoje?

- Essa história eu não conheço - interrompeu Gwenhwyfar - mas no meu convento contava-se que criaturas malvadas zombaram do Cristo em sua caminhada para a cruz, e um santo levantou a mão e transformou-as em corvos, que voariam por todo o mundo gritando zombarias para sempre... E contavam também a história de um santo que transformou um círculo de feiticeiras, em meio a seus ritos malignos, num círculo de pedras.

- Se eu tivesse tempo para estudar filosofia, em lugar de ser guerreiro, conselheiro ou cavaleiro - murmurou Lancelote vagarosamente -, creio que tentaria descobrir quem fez aquele círculo de pedras e por quê.

- Em Avalon, sabe-se a razão - retrucou Morgana rindo. - Viviane poderia dizer-lhe, se quisesse.

- Mas o que as sacerdotisas e os druidas dizem pode não ser mais verdadeiro do que as piedosas fábulas de suas freiras, Gwenhwyfar - observou Lancelote, corrigindo-se imediatamente: - Perdoe-me, eu deveria dizer minha senhora e rainha. Artur, perdão, não pretendi faltar com o respeito à sua rainha, mas eu a chamava pelo nome quando era mais jovem e ainda não era a nossa soberana...

Morgana, porém, sabia que ele apenas buscava uma desculpa para pronunciar o nome dela em voz alta.

- Meu caro amigo - respondeu Artur com um bocejo - se minha dama não se importa, também eu não me importo. Que Deus não permita que eu seja daqueles maridos que trancam a mulher numa gaiola, longe de todos os outros seres humanos. O marido que não pode manter o respeito e a fidelidade de sua mulher, provavelmente não os merece.

Inclinou-se e pegou a mão de Gwenhwyfar.

- Esse banquete me parece demasiado longo. Lancelote, quanto falta para que os cavaleiros estejam prontos?

- Creio que logo estarão prontos - informou, desviando deliberadamente o olhar de Gwenhwyfar. - Meu senhor e rei, deseja que eu o verifique...?

"Ele está se torturando, não pode suportar a visão dela junto de Artur, e não pode deixá-la sozinha com ele", pensou Morgana. E disse em voz alta, fazendo deliberadamente uma brincadeira com a verdade:

- Acho, Lancelote, que o casal real deseja ter alguns momentos a sós para conversar. Vamos deixá-los aqui e apressar os cavaleiros.

- Meu senhor - acrescentou Lancelote incisivamente, antes que a noiva abrisse a boca para protestar -, peço sua permissão para retirar-me.

Artur assentiu, e Morgana pegou a mão de Lancelote, que se deixou levar, embora voltasse um pouco a cabeça, como se não lhe fosse possível tirar os olhos de Gwenhwyfar. O coração de Morgana estava apertado: ao mesmo tempo, sofria por vê-lo sofrer, e estava disposta a fazer tudo para afastá-lo dali, para não ter de testemunhar sua atração por Gwenhwyfar. Ouviu Artur dizer, enquanto se afastavam:

- Até ontem à noite, eu não sabia que o destino, ao me mandar uma noiva, mandava-me também uma bela mulher.

Ouviu também a resposta:

- Mas não foi o destino, meu senhor, foi meu pai.

Antes que pudesse ouvir a resposta de Artur, já estavam muito distantes.

- Lembro-me de que, há muitos anos, em Avalon, você falou da cavalaria como a chave da vitória sobre os saxões e de um exército disciplinado, como o dos romanos - comentou Morgana. - Parece-me que é esse o seu plano, com tantos cavaleiros agora.

- É certo que os venho treinando. Mas não pensei que uma mulher fosse lembrar-se de um detalhe de estratégia militar, prima.

Morgana riu.

- Eu vivo com medo dos saxões, como todas as mu- lheres destas ilhas. Certa vez atravessei uma aldeia que tinha sido atacada por eles, e todas as mulheres, desde as meninas de cinco anos até as avós de noventa, desdentadas e sem cabelos, haviam sido estupradas. Qualquer coisa que nos ofereça esperança de nos livrar deles para sempre é importante para mim, talvez mais do que para os homens e os soldados, que temem apenas a morte.

- Eu não havia pensado nisso. Os soldados de Uther Pendragon não hesitavam em vasculhar o campo em busca de mulheres que os desejassem, assim como os de Artur, mas, em geral, não há estupros. E eu havia me esquecido, Morgana, de que você foi educada em Avalon e pensa, com freqüência, em coisas que pouco significam para outras mulheres.

Olhou-a, e segurou-lhe a mão.

- Havia me esquecido das harpas de Avalon. Acreditava odiar aquele lugar, achava que nunca desejaria regressar. Apesar disso, por vezes, algum detalhe me leva de volta para lá. O som da harpa, o sol sobre um círculo de pedras, o cheiro das maçãs e o barulho das abelhas ao sol. Peixes pulando no lago e o grito das aves aquáticas ao entardecer...

- Você se recorda do dia em que subimos o Tor? perguntou suavemente.

- Lembro-me. - E com súbita amargura, Lancelote acrescentou: - Eu gostaria que, naquele dia, você não estivesse prometida à Deusa.

- Eu sempre desejei que assim fosse - concordou, numa súbita voz trêmula. Lancelote olhou-a, apreensivo.

- Morgana, Morgana, minha prima, eu nunca vi você chorar.

- Você é como tantos homens, que têm medo das lágrimas de uma mulher?

Ele sacudiu a cabeça, e envolveu-a com o braço.

- Não - confessou em voz baixa -, quando choram, elas parecem muito mais reais, mais vulneráveis; as mulheres que não choram me assustam, porque sei que são mais fortes do que eu, e tenho sempre receio das coisas de que serão capazes. Eu sempre tive medo de... Viviane.

Morgana sentiu que ele ia dizer minha mãe, mas que evitara as palavras.

Atravessaram as arcadas baixas das cavalariças; a longa fileira de cavalos amarrados obscurecia o dia. Havia um cheiro agradável de feno e palha. Lá fora, Morgana viu homens que se movimentavam amontoando o feno, arrumando bonecos de couro, homens que entravam e saíam, selando os cavalos.

Alguém viu Lancelote, e gritou:

- O Grande Rei e os outros senhores estarão prontos para nos ver, dentro em pouco? Não queremos levar os cavalos para fora e deixá-los lá de pé, pois ficam inquietos.

- Dentro em pouco - respondeu Lancelote.

O soldado que estava atrás do cavalo era Gawaine:

- Ah, prima - cumprimentou-a. - Lance, não a traga até aqui, pois este não é lugar para uma dama. Alguns destes malditos animais ainda não foram domados. Você continua disposto a pegar o garanhão branco?

- Estou disposto a aprontá-lo para que Artur o monte na próxima batalha, ainda que eu quebre o pescoço!

- Não brinque com essas coisas - disse Gawaine.

- Quem disse que estou brincando? Se Artur não puder montá-lo, eu mesmo o montarei na batalha, e vou exibi-lo esta tarde em honra da rainha!

- Lancelote, não se arrisque por isso. Gwenhwyfar não distingue um cavalo do outro, e ficará impressionada, mesmo que você monte um pangaré apenas para dar a volta ao pátio, como se estivesse vendo os feitos do próprio centauro!

O olhar que lhe lançou foi, por um instante, quase de desprezo, mas Morgana percebeu nele, claramente, uma indagação: Como pode ela compreender sua necessidade de mostrar-se superior naquele dia?

- Vá montar, Gawaine, e informe aos outros que estaremos prontos dentro de meia hora. E pergunte a Cai se ele quer começar.

- Não me diga que Cai vai montar com aquela perna defeituosa - observou um dos homens, com sotaque estranho. Gawaine voltou-se para ele:

- E você lhe recusaria isso? É o único exercício militar em que aquela perna não faz nenhuma diferença, e, assim, ele não fica preso à cozinha e ao caramanchão das damas!

- Ora, ora, percebo o que quer dizer - concordou o soldado estranho, que se voltou para selar seu animal. Morgana tocou a mão de Lancelote, que se voltou para ela novamente, desconfiado. Aqui, pensou Morgana, organizando as coisas, correndo um risco, fazendo alguma coisa por Artur, ele esqueceu o amor, está novamente feliz. Se pudesse manter-se sempre ocupado, aqui, não precisaria andar atrás de Gwenhwyfar, ou de qualquer outra mulher.

- Mostre-me esse cavalo perigoso que você vai montar - pediu.

Lancelote levou-a por entre as fileiras de animais amarrados. Morgana viu o focinho pálido e prateado, a longa cauda de fios brilhantes que pareciam linho - um cavalo grande, mais alto do que o próprio Lancelote. O animal mexeu a cabeça, e seu resfolegar foi como o vapor de dragões que soltassem fogo.

- Veja, que beleza! - E o moço colocou a mão no focinho do cavalo. - Treinei-o pessoalmente. É o meu presente de núpcias para Artur, que não tem tempo de domar um cavalo. Jurei que ele estaria pronto no dia do casamento, para que Artur o montasse, e tão manso quanto um animalzinho doméstico.

- Um bom presente - observou Morgana.

- Não. Foi apenas o presente que pude dar. Não sou rico. E, de qualquer modo, ele não precisa de jóias ou de ouro, está cheio dessas coisas. Este presente só eu poderia lhe dar.

- Um presente seu mesmo - murmurou Morgana, pensando: "Como ele ama Artur! É' por isso que está sofrendo tanto. O que o tortura não é o fato de desejar Gwenhwyfar; é que ele não ama menos a Artur. Se fosse um simplório como Gawaine, eu não teria pena dele. Gwenhwyfar é virtuosa, e eu teria prazer em vê-lo rejeitado por ela."

- Gostaria de montá-lo. Não tenho medo de nenhum cavalo.

- Morgana, você não tem medo de nada? - riu ele.

- Oh, não, meu primo - discordou, sentindo-se sóbria de repente. - Temo muitas coisas.

- Bem, eu não sou tão corajoso quanto você, pois tenho medo das batalhas, dos saxões e de morrer antes de provar tudo o que for possível. Por isso, não ouso recuar ante qualquer desafio... E tenho medo de que tanto Avalon quanto os cristãos estejam errados e que não haja Deuses nem céu e nenhuma vida depois da morte, de modo que, ao morrer, eu pereça para sempre. Por isso, temo morrer antes de ter saboreado o que me cabe na vida.

- Não me parece que ainda reste muita coisa para você provar.

- Ah, mas há, sim, Morgana, há muitas coisas que desejo, e sempre que vejo uma delas, lamento profundamente, e me pergunto que fraqueza ou que loucura me impede de fazer o que gostaria... - e de repente soltou as rédeas e envolveu-a em seus braços, faminto, puxando-a para junto de si.

"Desespero", pensou Morgana amargamente. "Não é a mim que deseja, quer esquecer por um momento que Artur e Gwenhwyfar estarão um nos braços do outro, esta noite." As mãos de Lancelote acariciaram com grande habilidade seus seios. Beijou-a na boca, e ela sentiu todo o corpo do rapaz, pressionando o seu. Ficou imóvel nos braços dele, tomada de um torpor e de uma paixão crescentes, que eram como uma dor. Mal teve consciência dos pequenos movimentos que fazia para ajustar seu corpo ao dele. Abriu a boca sob os lábios de Lancelote, cujas mãos passeavam por todo o seu corpo. Mas quando ele fez um movimento para levá-la para um dos montes de feno, Morgana protestou debilmente.

- Meu querido, você está louco, há dezenas de soldados e cavaleiros de Artur por aqui...

- Você se importa? - perguntou ele, e Morgana murmurou, tremendo de excitação:

- Não! Não!

Deixou que ele a deitasse. No fundo do pensamento, ocorreu-lhe com amargura, uma princesa, duquesa da Cornualha, princesa de Avalon, tombada nos estábulos como uma camponesa, sem ter sequer a desculpa das fogueiras de Beltane. Mas afastou o pensamento, e deixou que as mãos dele agissem, sem resistência. Melhor isso do que fazer Artur sofrer. Não sabia se era o seu pensamento, ou o do homem cujo corpo parecia estar por sobre todo o seu corpo, cujas mãos furiosas a machucavam. Seus beijos eram quase selvagens, mergulhando-lhe na boca com raiva. Sentiu que ele lhe puxava o vestido e começou a tirá-lo.

Ouviram então vozes, chamando, gritando, um ruído como uma martelada, um grito de medo, e de repente dezenas de vozes gritavam ao mesmo tempo.

- Capitão! Senhor Lancelote! Onde está ele? Capitão!

- Por aqui, eu acho...

Um dos soldados mais jovens desceu correndo junto da fileira de cavalos. Praguejando selvagemente em voz baixa, Lancelote colocou-se entre Morgana e o soldado, enquanto ela enterrava o rosto no véu e encolhia-se, já seminua, em meio à palha, para não ser vista.

- Raios! Será que não posso me afastar por um momento?

- Venha correndo, senhor, um dos cavalos estranhos... havia uma égua no cio, dois dos garanhões começaram a brigar, e acho que um deles quebrou uma perna...

- Demônios!

Lancelote arrumou-se rapidamente, levantou-se e postou-se diante do rapaz que os havia interrompido.

- Estou indo...

O rapaz viu Morgana, que esperou, num momento de horror, não ter sido reconhecida. Se o fosse, seria objeto de conversas apimentadas na corte. Pior ainda é o que não sabem... que tive um filho de meu irmão.

- Será que interrompi alguma coisa, senhor? - perguntou o rapaz, tentando ver além de Lancelote e reprimindo o riso. O que fará isso à sua reputação?, pensou Morgana, desconsolada. Ou será positivo para o homem ser surpreendido num monte de feno? Lancelote sequer respondeu, empurrando o moço à sua frente, de modo que ele quase caiu.

- Corra e procure Cai, e o ferreiro, depressa!

Voltou rapidamente, como um vendaval, e beijou Morgana, que conseguira pôr-se de pé.

- Que diabo! De todos esses malditos... Apertou-a fortemente, com dedos famintos, beijou-a com tal força que ela sentiu a marca de seus lábios no rosto.

- Meu Deus! Logo esta noite! Maldição!

Morgana não conseguiu falar. Pôde apenas acenar com a cabeça, tonta, entorpecida, com o corpo todo gritando pela conclusão do que havia começado, enquanto ele se afastava correndo. Um ou dois minutos depois, um jovem aproximou-se, fez uma reverência, enquanto os soldados corriam de um lado para outro e ouvia-se o grito terrível, quase humano, de um animal agonizante.

- Senhora Morgana? Meu nome é Griflet. O senhor Lancelote mandou que eu a acompanhasse até os pavilhões. Disse-me que a havia trazido até aqui para mostrar-lhe o cavalo que está treinando para o rei, mas que a senhora escorregou e caiu no feno, e que ao acudi-la começaram a chamá-lo... quando surgiu essa briga com o cavalo do rei Pellinore. Ele manda pedir-lhe desculpas e pede que volte ao castelo... Bem, pensou Morgana, isso pelo menos explicava a roupa amassada, o cabelo despenteado e a touca desfeita, cheios de feno. Não precisava aparecer diante de Gwenhwyfar e de sua mãe como a mulher das Escrituras surpreendida em adultério. O jovem Griflet estendeu-lhe o braço, e ela apoiou-se pesadamente nele, dizendo:

- Acho que torci o tornozelo - e foi mancando até o castelo. Se tivesse sofrido uma queda e uma contusão séria, isso justificaria a palha em sua roupa. Por um lado, alegrava-se da rapidez com que Lancelote conseguira uma explicação; por outro, sentia-se desolada, e ansiava por que ele a acolhesse e protegesse. Artur dirigiu-se com Cai aos estábulos, aborrecido devido ao acidente com os cavalos. Morgana deixou que Gwenhwyfar a examinasse, e Igraine mandou buscar água fria e tiras de linho para enfaixar-lhe o tornozelo, fazendo com que se sentasse ao seu lado, à sombra, enquanto homens e cavalos exibiam suas habilidades. Artur fez um pequeno discurso sobre a nova legião de Caerleon, que revivia as glórias da época dos romanos, e que salvaria o país. Seu pai de criação, Ectório, estava muito satisfeito. Vieram depois uns dez cavaleiros para demonstrar as novas técnicas de parar um cavalo a meio galope, cerrar fileiras, dar voltas e movimentar-se no mesmo ritmo.

- Depois disso - declarou Artur solenemente -, ninguém voltará a dizer que os cavalos só servem para puxar carroças! - Sorriu para Gwenhwyfar. - Que tal lhe parecem meus cavaleiros, senhora? Dei-lhes o antigo nome romano de equitas, nobres que podiam ter um cavalo e equipá-lo.

- Cai monta tão bem quanto um centauro - comen- tou Igraine a Ectório, que sorriu de satisfação. - Artur, você nunca teve um gesto mais bondoso do que quando deu a Cai um dos melhores cavalos.

- Cai é muito bom soldado, e muito bom amigo, para ficar em casa definhando - sentenciou Artur com vigor.

- Ele não é seu irmão de criação? - perguntou Gwenhwyfar.

- Sim. Foi ferido em sua primeira batalha, e tinha medo que, por isso, fosse obrigado a ficar agora em casa, com as mulheres. Uma sorte terrível para um soldado. Mas, a cavalo, ele pode lutar tão bem quanto os outros.

- Veja - exclamou Igraine -, a legião derrubou todos aqueles alvos. Nunca vi coisa igual!

- Não creio que fosse possível resistir a esse ataque - comentou o rei Pellinore. - Que pena Uther Pendragon não estar vivo para ver isso, meu rapaz... perdoe-me... meu senhor e rei...

- O amigo de meu pai pode chamar-me como o desejar - sorriu Artur calorosamente. - Mas as honras dessa demonstração cabem ao meu amigo e capitão, Lancelote.

Gaheris, filho de Morgause, fez uma reverência para Artur.

- Senhor, posso ir até as cocheiras e ver os cavalos serem desarreados? - Era um menino vistoso e alegre, de seus catorze anos.

- Pode - disse Artur. - Quando virá ele fazer companhia a Gawaine e Agravaine, ao nosso lado, minha tia?

- Talvez este ano, se os irmãos puderem lhe ensinar as artes de soldado e vigiá-lo - respondeu Morgause, alteando em seguida a voz: - Não! Você, não, Gareth! - Tentou alcançar o menino gorducho, de seis anos. - Gaheris! Traga-o de volta para cá!

Artur fez um gesto e riu:

- Não se preocupe. Os meninos correm para as cocheiras como as pulgas para os cães. Já me contaram como montei o cavalo de meu pai, quando mal tinha seis anos! Não me recordo, foi pouco antes de eu ir viver com Ectório - e, ao ouvir isso, Morgana teve um arrepio, lembrando-se da criança loura deitada como morta, e da sombra numa bacia de água... não, tudo aquilo havia desaparecido.

- Seu tornozelo dói muito, irmã? - perguntou Gwenhwyfar, solícita. - Vamos, apóie-se em mim...

- Gawaine tomará conta dele - continuou Artur, distraído. - Ele é o melhor homem que temos para preparar os cavalos jovens.

- Melhor do que o senhor Lancelote? - perguntou Gwenhwyfar.

Ela quer apenas dizer o nome dele, pensou Morgana. Mas foi a mim que ele desejou, ainda há pouco, e esta noite será tarde demais... é melhor isso do que provocar o sofrimento em Artur. Di-lo-ei a Gwenhwyfar, se for necessário.

- Lancelote? É o nosso melhor cavaleiro, embora demasiado ousado para o meu gosto. Os rapazes o adoram, é claro. Veja, lá está o seu pequeno Gareth, tia, andando atrás dele como um cachorrinho. Fazem qualquer coisa para ter um elogio dele. Mas para ensinar aos rapazes, ele não é tão bom quanto Gawaine: é muito brilhante e gosta de exibir-se. Gawaine os prepara sem pressa, fazendo com que aprendam a arte facilmente, passo a passo, sem esforço. Gawaine é o meu melhor mestre-de-armas. Vejam, lá vem Lancelote naquele cavalo que está treinando para mim.

Deu uma gargalhada, enquanto Igraine observava:

- Que endiabrado!

Pois Gareth pendurara-se como um macaco na sela, e Lancelote, rindo, apanhara-o, colocando-o montado à sua frente, iniciando em seguida um rápido galope morro acima, em direção ao local abrigado de onde o grupo real assistia às demonstrações. Galopou díretamente para eles, a toda a velocidade, de modo que até Artur abriu a boca, espantado, e Igraine fugiu, lívida de susto. Lancelote conteve tão bem o animal que ele se levantou no ar e rodopiou.

- Seu cavalo, senhor Artur - disse ele com uma mesura, segurando as rédeas com uma das mãos -, e seu primo. Tia Morgause, pegue este pequeno diabo e esquente-lhe o traseiro por mim - acrescentou, deixando Gareth escorregar da sela para cair quase no colo da mãe. - Ele poderia ter sido morto sob as patas do cavalo!

Gareth nada ouvia dos ralhos de Morgause, fixando em Lancelote os olhos azuis arregalados de adoração.

- Quando você for mais crescido - prometeu Artur, rindo e afagando a cabeça do menino -, farei de você um cavaleiro, e poderá sair montado combatendo gigantes e invasores malvados, e salvando belas damas.

- Ah, não, meu senhor Artur - interrompeu o menino, com os olhos ainda presos no cavalo branco que Lancelote fazia andar de um lado para outro. - O senhor Lancelote fará de mim um cavaleiro, e iremos juntos em busca de aventuras.

Ectório riu:

- O jovem Aquiles encontrou o seu Pátroclo, ao que parece.

- Fui totalmente ofuscado - riu Artur com bom humor. - Nem mesmo a mulher com quem acabo de me casar consegue tirar os olhos de Lancelote, e pede-lhe que a chame pelo nome. Agora, o pequeno Gareth prefere ser feito cavaleiro por ele! Se Lance não fosse o meu mais íntimo amigo, eu ficaria louco de ciúme.

Pellinore observava o cavaleiro, que andava de um lado para outro, e desabafou:

- Aquele miserável dragão ainda está escondido num lago, nas minhas terras, e sai de vez em quando para matar meus meeiros ou suas vacas. Talvez, se eu tivesse um cavalo como esse, que enfrentasse a luta... Acho que vou treinar um cavalo de batalha, e sair novamente à caça do dragão. Da última vez, quase morrí.

- Um dragão, meu senhor? - perguntou Gareth. - E ele soltava fogo?

- Não, meu rapaz, mas tinha um cheiro horrível, e de sua barriga vinha um barulho como se sessenta cães de caça estivessem uivando lá dentro - contou Pellinore, e Ectório apressou-se a explicar-lhe:

- Os dragões não deitam fogo, meu rapaz. Essa idéia foi conseqüência do velho costume de chamar uma estrela cadente de dragão, porque ela tem uma longa cauda de fogo. Pode ter havido, antigamente, dragões que soltavam fogo, mas não em nossa época.

Morgana não prestava atenção, embora se perguntasse o que haveria de verdade na história de Pellinore, e o que seria exagero para impressionar a criança. Seus olhos estavam voltados para Lancelote, que continuava a exercitar o cavalo.

- Eu jamais poderia treinar um cavalo assim - disse

Artur a Gwenhwyfar. - Lancelote o está preparando para mim. Há dois meses, aquele animal era tão selvagem quanto os dragões de Pellinore, e veja como está manso, agora!

- Ainda me parece muito selvagem. Mas eu tenho medo até mesmo do cavalo mais manso.

- Um cavalo de batalha não pode ser manso como o cavalo de uma senhora. Ele tem de ser forte... Meu Deus! - exclamou de repente, levantando-se. Uma mancha branca surgira de algum lugar: uma ave, talvez um ganso, e enfiara-se subitamente sob as patas do cavalo. Lancelote, que montava distraído, com a atenção desviada, foi projetado para trás, quando o animal empinou com um relincho nervoso.

Procurou controlá-lo, mas caiu quase sob suas patas. Ainda meio consciente, conseguiu rolar para o lado.

Gwenhwyfar deu um grito. Morgause e as outras damas também gritaram, enquanto Morgana, esquecendo-se de que devia fingir um tornozelo deslocado, deu um pulo e correu para Lancelote, arrastando-o para longe das patas do cavalo. Artur também correu para agarrar-lhe as rédeas, afastando-o, à força, de perto de Lancelote, que jazia agora inconsciente. Morgana ajoelhou-se ao lado do rapaz, passando-lhe a mão pela testa, que começava a ficar roxa, e de onde corria um fio de sangue que se misturava à poeira.

- Está morto? - gritou Gwenhwyfar. - Está morto?

- Não - respondeu Morgana, asperamente. - Tragam água fria e algumas tiras de linho das que foram usadas para atar-me o tornozelo. Acho que quebrou o pulso, amortecendo com ele a queda, para não quebrar o pescoço. E a mancha na testa...

Inclinou-se, auscultando-lhe o peito, sentindo-o subir e descer. Tomou a bacia de água fria que lhe foi apresentada pela filha de Pellinore, limpando a testa de Lancelote com um pedaço de pano.

- Alguém deve pegar aquele ganso e torcer-lhe o pescoço. E dar no guardador uma boa sova. O senhor Lancelote poderia ter quebrado a cabeça, ou machucado o cavalo do Grande Rei.

Gawaine levou o animal de volta para a cocheira. A tragédia que por pouco não aconteceu empanou o brilho das festividades, e um a um os convidados começaram a procurar suas tendas ou seus quartos. Morgana atou a cabeça de Lancelote, concluindo o trabalho de entalar-lhe o pulso quebrado antes que o rapaz recuperasse os sentidos, segurando o braço e gemendo de dor. Depois de conversar com a governanta, mandou Cai buscar algumas ervas que fariam Lancelote dormir e ordenou que o levassem para a cama. Ficou com ele, embora o moço continuasse semi-inconsciente, apenas gemendo e revirando os olhos ainda sem visão.

Num certo momento, olhou-a e murmurou:

- Mãe... - e o coração de Morgana quase parou de bater. Depois de algum tempo, Lancelote mergulhou num sono pesado e tranqüilo, e quando despertou reconheceu-a.

- Morgana, minha prima? O que aconteceu?

- Você caiu do cavalo.

- Do cavalo? Que cavalo? - perguntou, confuso, e, quando soube de tudo, disse, com segurança: - Isso é absurdo. Eu não costumo cair de cavalos - e voltou a dormir.

Morgana ficou sentada ao seu lado, deixando que segurasse sua mão, e sentiu o coração doer. A marca dos beijos de Lancelote ainda estava em sua boca, em seus seios doloridos. Mas o momento havia passado, e ela sabia disso. Mesmo que ele se lembrasse, não voltaria a querê-la, a não ser para minorar a agonia de pensar em Gwenhwyfar e no seu amor pelo rei e primo.

Escurecia. Ouviu ao longe, no castelo, sons de música, outra vez - Kevin tocava harpa. Havia risos, cantos, festa. De repente a porta abriu-se, e o próprio Artur, com uma tocha na mão, entrou.

- Irmã, como está Lancelote?

- Ele viverá. Tem a cabeça muito dura e resistente - informou, com irreverência.

- Queríamos que você estívesse entre as testemunhas quando a noiva fosse levada para a cama, pois foi também testemunha do contrato de casamento. Acho, porém, que ele não deve ficar sozinho, e não gostaria de entregá-lo aos cui- dados de um camareiro, nem mesmo de Cai. Ainda bem que você está ao seu lado. Vocês são irmãos de criação, não é?

- Não - respondeu Morgana, com uma raiva ines- perada.

Artur aproximou-se da cama e pegou a mão atada de Lancelote, que gemeu e se agitou, abrindo os olhos:

- Artur?

- Sou eu mesmo, meu amigo - disse o rei, e Morgana admirou-se por sentir tanta ternura na voz de um homem.

- Seu cavalo... está bem?

- O cavalo está bem. Mas não se preocupe com ele.

Se você estivesse morto, de que me serviria um cavalo? - Estava quase chorando.

- O que aconteceu?

- Um ganso meteu-se entre as patas do cavalo. O guardador fugiu. Creio que sabe o que o espera: uma boa surra!

- Não faça isso - pediu Lancelote. - Ele é apenas um menino idiota, meio imbecil. Não tem culpa de que o ganso seja mais esperto e tenha fugido. Prometa-me, Gwydion.

Morgana ficou surpresa de ouvir o velho nome de Artur. O rei apertou a mão do ferido e inclinou-se para beijá-lo no rosto, evitando cuidadosamente a parte machucada.

- Prometo, Galahad. Agora, durma.

Lancelote apertou-lhe a mão, com força.

- Quase estraguei sua noite de casamento, não. disse, com uma ironia que Morgana considerou muito parecida à sua.

- Quase, mesmo. A noiva chorou tanto por sua causa. que fiquei pensando no que faria, se eu tivesse quebrado a cabeça - comentou Artur, rindo.

- Artur, mesmo você sendo rei, é preciso deixar que ele repouse! - Morgana foi enérgica.

- Está bem. - Artur ergueu-se. - Mandarei o Merlim vê-lo, amanhã. Mas ele não deve ficar sozinho, esta noite...

- Eu ficarei aqui - prometeu ela, irritada.

- Bem, se você tem certeza...

- Volte para Gwenhwyfar! Sua mulher o espera.

Artur suspirou, resignado. Depois de um momento, comentou:

- Não sei o que dizer a ela. Nem o que fazer.

- Isso é ridículo - espera que eu vá ensinar-lhe ou ensinar a sua noiva?

Ante o olhar de Artur, Morgana baixou os olhos, e foi suave:

- Artur, é simples. Faça como a Deusa mandar.

Ele parecia uma criança assustada. Por fim, numa voz rouca lutando com as palavras, retrucou:

- Ela... não é a Deusa. É apenas uma menina... e está com medo. - Depois de um momento, explodiu: - Morgana, você não sabe que eu ainda...

Não poderia suportar o que ele ia lhe dizer.

- Não! - gritou com violência, estendendo a mão e impondo silêncío. - Artur, lembre-se pelo menos de uma coisa. Para ela, você será sempre o Deus. Tome-a como o Galhudo...

Artur persignou-se, tremeu e acabou murmurando:

- Deus me perdoe. Esse é o castigo... - e calou-se. Ficaram a olhar-se, incapazes de falar. Por fim, ele pediu:

- Morgana, não tenho o direito... você pode me dar um beijo?

- Meu irmão... - suspirou ela, e, pondo-se na ponta dos pés, beijou-o na testa. Depois, marcou-a com o sinal da Deusa. - Que ela o abençoe - murmurou. - Artur, vá para a sua noiva. Prometo, em nome da Deusa, que tudo sairá bem. Juro-lhe.

O rei engoliu em seco, e Morgana viu os músculos de seu pescoço moverem-se. Depois, afastou dela os olhos murmurando:

- Deus a abençoe, irmã.

A porta fechou-se atrás dele.

Morgana caiu numa cadeira e ficou sentada, imóvel, contemplando Lancelote adormecido, atormentada pelas imagens da memória. Seu rosto lhe sorria à luz do sol, em Tor. Gwenhwyfar, molhada, com as saias ensopadas, segurando a mão de Lancelote. O Galhudo, com o rosto besuntado do sangue do gamo, abrindo a cortina na entrada da caverna. A boca de Lancelote procurando avidamente os seus seios... havia apenas umas poucas horas.

- Pelo menos, ele não passará a noite matrimonial de Artur sonhando com Gwenhwyfar - murmurou. Deitou-se na cama ao lado dele, pressionando cuidadosamente o corpo contra o corpo do rapaz. Ficou assim, em silêncio, sem sequer chorar, mergulhada num sofrimento desesperado, profundo demais para transformar-se em lágrimas. Mas não fechou os olhos naquela noite, lutando contra a Visão, lutando contra os sonhos, lutando pelo silêncio e pelo torpor que afugentasse o pensamento, tal como havia aprendido em Avalon.

E ao longe, na ala mais distante do castelo, Gwenhwyfar estava acordada, olhando com uma ternura culpada para os cabelos de Artur, que brilhavam ao luar, para seu peito que subia e descia na respiração tranqüila. Lágrimas rola- vam-lhe lentamente pelo rosto.

Queria tanto amá-lo, pensou, e em seguida rezou:

- Meu Deus, Santa Virgem Maria, ajudai-me a amá-lo como é meu dever, ele é meu rei e meu senhor, é tão bom, merece alguém que o ame mais do que eu posso.

À volta dela, a noite parecia respirar tristeza e desalento.

Por quê?, perguntava-se Gwenhwyfar. Artur está feliz. De nada me pode censurar. De onde vem essa tristeza que paira no ar?

 

Capítulo 7

Certo dia, no final do verão, a rainha Gwenhwyfar, com várias de suas damas, estava sentada no salão de Caerleon. A tarde morria e fazia muito calor; a maioria delas fingia tecer, ou cardar o que restava da lã daquela primavera, para fiar, mas os fusos moviam-se preguiçosamente, e até mesmo a rainha, que era a melhor bordadeira entre todas elas, suspendera o bordado de uma bela toalha para altar que pre- parava para o bispo.

Morgana pôs de lado a lã preparada para fiar e suspirou. Naquela época do ano, sentia-se sempre saudosa de casa, ansiando pelas brumas que, vindas do mar, pairavam sobre os rochedos de Tintagel... Não as via desde criança.

Artur e seus homens, com os cavaleiros da legião de Caerleon, haviam partido para o litoral sul, a fim de examinar o novo forte que as tropas do tratado tinham construído. Não ocorreram ataques naquele verão, sendo bem possível que os saxões, com exceção dos que haviam celebrado o tratado com Artur e viviam pacificamente na região de Kent, tivessem desistido da Bretanha. Dois anos de atividades da legião de cavaleiros haviam reduzido o combate aos saxões a um exercício esporádico de verão. Artur, porém, aproveitava a tranqüilidade da época para reforçar as defesas do litoral.

- Estou com sede novamente - disse a filha de Pellinore, Elaine. - Posso ir, minha senhora, pedir que tragam novos jarros d'água?

- Chame Cai, ele se encarregará disso - sugeriu Gwenhwyfar.

Ela mudou muito, pensou Morgana. De uma criança tímida e assustada, transformou-se numa rainha.

- Você devia ter-se casado com Cai, quando o rei manifestou tal desejo, Morgana - começou Elaine, ao voltar de sua incumbência e sentando-se no banco ao lado dela.

- É o único homem de menos de sessenta anos no castelo, e sua mulher nunca ficará sozinha durante a metade do ano.

- Você pode ficar com ele, se quiser - respondeu Morgana cordialmente.

- Ainda não entendi por que você não quis - observou Gwenhwyfar, como se lembrasse um velho ressentimento. - Teria sido muito bom: Cai, o irmão de criação do rei, de grande prestígio junto dele, e você, irmã de Artur e duquesa da Cornualha por seu próprio direito, agora que a senhora Igraine não sai mais do convento.

Drusila, filha de um dos pequenos reis do leste, disse com um riso zombeteiro:

- Digam-me, se a irmã e o irmão do rei se casam, o que será isso, senão incesto?

- Meia irmã, e irmão de criação, sua bruxa - brincou Elaine. - Mas diga-me, senhora Morgana, foram apenas as cicatrizes e a perna manca que a fizeram desistir? Cai não é nenhuma beleza, certamente, mas seria um bom marido.

- Não me deixo enganar por você - atalhou Mor- gana, fingindo um bom humor que não sentia: será que aquelas mulheres só podiam pensar em casamento? - Você não se preocupa com a minha felicidade matrimonial com Cai, você quer apenas um casamento para quebrar a monotonia do verão. Mas não deve ser ambiciosa. Sir Griflet casou-se com Meleas na última primavera, e acho que isso já é suficiente. - Olhou para Meleas, cujo vestido começava a ficar apertado no corpo grávido. - No ano que vem, nesta mesma época, você vai ter até mesmo uma criança com quem brincar e para mimar.

- Mas a senhora ainda não se casou, senhora Morgana - atacou Alienor de Galis. - E dificilmente poderia ter encontrado melhor partido do que o irmão de criação do rei!

- Não tenho pressa de casar-me, e Cai pensava tanto em mim quanto eu nele.

Gwenhwyfar riu:

- É verdade. Ele tem uma língua quase tão ferina quanto a sua e mau gênio. Sua mulher precisará de mais paciência do que Santa Brígida, e você, Morgana, tem sempre uma resposta ríspida na ponta da língua.

- E além disso, se ela se casasse, teria de tecer para a família - disse Meleas. - Como sempre, Morgana evita a sua cota de trabalho de tecelagem!

O seu fuso começou a girar e acabou rolando lentamente no chão.

- É certo que raramente cardo a lã, mas já não há quase lã alguma - desculpou-se Morgana, dando de ombros e apanhando com relutância o fuso caído.

- Mas você é a melhor fiandeira entre nós todas - tornou Gwenhwyfar. - Seu fio é sempre igual e nunca se rompe. O meu parte-se apenas ao olhar.

- Sempre tive boa mão. Talvez esteja apenas cansada de fiar, já que minha mãe me ensinou quando eu era ainda muito pequena - admitiu Morgana, que começou, indecisa, a passar o fio entre os dedos.

Era verdade que detestava fiar e evitava esse trabalho sempre que possível... ficar rodando o fio nas mãos, com o corpo imóvel e apenas os dedos se movendo, o carretel girando, caindo ao chão... para cima e para baixo, rodando e rodando entre as mãos... era muito fácil cair em transe. As mulheres falavam dos pequenos acontecimentos do dia, de Meleas e seus enjôos matinais, de uma mulher que chegara da corte de Lot com histórias escandalosas sobre a luxúria... "Eu poderia contar-lhes muita coisa se quisesse, nem mesmo a sobrinha de sua mulher escapou de suas mãos sensuais... Foi-me necessária toda a presença de espírito e uma língua ferina para não cair na cama de Lot. Para ele, tanto faz ser donzela ou matrona, duquesa ou criada, desde que use saias..." Torcer o fio, retorcê-lo, vigiar o movimento do fuso, girando, girando. Gwydion deve estar bem grande, com três anos, pronto para a espada de madeira e os cavaleiros de pau, como fizera para Gareth, em lugar dos gatinhos e dos brinquedos de osso. Lembrava-se do peso de Artur em seu colo, quando menina, ali em Caerleon, na corte de Uther... Era uma felicidade Gwydion não se parecer com o pai: um menino parecido com Artur na corte de Lot teria estimulado a maledicência. Mais cedo ou mais tarde, alguém somaria dois mais dois e chegaria ao resultado certo... Levantou a cabeça, irritada. Era muito fácil cair em transe quando fiava, mas tinha de fazer a sua cota, era preciso haver fio para tecer, no inverno, e as damas preparavam uma toalha de banquete... Cai não era o único homem de menos de cinqüenta anos no castelo, havia Kevin, o Bardo, que chegara com notícias do País do Verão... Como era lento o movimento do fuso na direção do chão... torcer, torcer o fio, como se os dedos tivessem vida própria, desligados do resto... Mesmo em Avalon, odiava fiar... em Avalon, em meio às sacerdotisas, tentara fazer mais do que sua cota de trabalho entre os potes de tinta, para evitar o odioso trabalho de fiar, que liberava a sua mente, enquanto os dedos se mexiam. E enquanto o fio era torcido, parecia a dança espiral em volta do Tor, dando voltas e mais voltas, como o mundo girava em volta do sol no céu, embora os ignorantes achassem que era o contrário... As coisas nem sempre eram como pareciam ser, bem podia acontecer que o carretel é que desse voltas ao fio, enquanto este girava sobre si mesmo tantas vezes, rodando como uma serpente... como um dragão no céu. Se fosse homem e pudesse sair com a legião de Caerleon, pelo menos não precisaria ficar sentada, fiando, fiando o tempo todo. Mas até mesmo a legião de Caerleon rodava atrás dos saxões, e estes atrás dela, tal como o sangue corria nas veias, o sangue vermelho, girando, girando... derramando-se pela lareira...

Morgana só ouviu o próprio grito depois que ele rompera o silêncio da sala. Deixou cair o fuso, que rolou pelo sangue vermelho espalhando-se junto da lareira...

- Morgana! Irmã, machucou-se com o carretel? O que se passa?

- Sangue na lareira... - gaguejou Morgana. - Vejam, ali, bem em frente ao lugar do rei, abatido ali como uma ovelha no matadouro, diante do rei...

Elaine sacudiu-a. Tonta, Morgana passou a mão pelos olhos. Não havia sangue, apenas o lento deslizar do sol da tarde.

- Irmã, o que foi que você viu? - perguntou Gwenhwyfar, suavemente.

Deusa Mãe! Aconteceu de novo! Morgana tentou controlar a respiração.

- Nada, não foi nada... Devo ter adormecido e sonhado, por um momento.

- Não viu nada? - Calla, a gorda mulher do despenseiro, fixou o olhar ávido em Morgana. Ela então se lembrou da última vez que entrara em transe enquanto fiava, havia mais de um ano, e vira o cavalo favorito de Cai quebrar a perna na cocheira, tendo de ser sacrificado. Disse, com impaciência:

- Nada, foi apenas um sonho... Sonhei a noite passada que estava comendo ganso e não o provo desde a Páscoa! Será que todo sonho é um presságio?

- Se você vai fazer profecias, Morgana - zombou Elaine -, deve nos dizer alguma coisa sensata, como a época em que os homens voltarão para casa, a fim de que possamos aquecer o vinho, ou se Meleas vai ter um menino ou uma menina, ou quando a rainha ficará grávida!

- Cale-se, idiota! - murmurou Calla, pois os olhos de Gwenhwyfar encheram-se de lágrimas. A cabeça de Morgana doía, em conseqüência do transe involuntário. Pontos luminosos pareciam dançar diante de seus olhos, pálidos vermes coloridos que cresciam até ocupar todo o campo de visão. Sabia que devia deixar passar aquela sensação, mas no mesmo momento em que tal pensamento lhe passou pela cabeça, ela explodiu:

- Estou cansada de todas essas histórias! Não sou nenhuma curiosa de aldeia para andar mexendo com encantamentos para ter filhos ou poções amorosas, presságios e talismãs. Sou uma sacerdotisa e não uma feiticeira!

- Vamos, calma - disse Meleas tranqüilamente. - Deixemos Morgana sossegada. Este sol basta para fazer qualquer um ver coisas que não existem. Ainda que ela tenha visto sangue derramado junto da lareira, será talvez porque algum criado bronco colocará ali um pernil mal-assado, e o molho poderá escorrer por aquele lugar! Quer um pouco d'água, senhora?

Dirigiu-se ao balde d'água, mergulhou nele a concha e ofereceu-a a Morgana, que bebeu com avidez.

- Sempre ouvi dizer que a maioria das profecias dão em nada. Poderíamos até mesmo perguntar-lhe quando o pai de Elaine finalmente encontrará e matará o dragão que anda perseguindo.

Como era de se esperar, aquelas palavras distraíram a atenção. Calla brincou:

- Se é que há mesmo um dragão, e ele não está apenas buscando uma desculpa para sair de casa, quando se cansa de ficar entre quatro paredes!

- Se eu fosse homem e casado com a mulher de Pellinore - disse Alienor -, creio que preferiria a companhia de um dragão que não conseguisse encontrar à do dragão com quem teria de partilhar a cama.

- Diga-me, Elaine - perguntou Meleas -, há realmente um dragão, ou seu pai o persegue porque é mais fácil do que tomar conta de suas vacas? Quando há uma guerra, os homens não precisam ficar sentados fiando, mas, em tempos de paz, eles podem se cansar dos aviários e dos campos, creio.

- Eu nunca vi o dragão, Deus me livre. Mas há alguma coisa que come as vacas de tempos em tempos, e certa vez eu vi um grande rastro visquento nos campos, e senti o mau cheiro. Havia nas proximidades uma vaca semidevorada, coberta de gosma. Não era obra de um lobo, nem de um comilão.

- Vacas que desaparecem - riu Calla. - O povo das fadas não é, ao que acredito, constituído de bons cristãos que não roubem de vez em quando uma vaca, quando o gamo se torna escasso.

- Falando em vacas - e Gwenhwyfar foi firme -, devo perguntar a Cai se há uma ovelha ou cabra para ser abatida. Precisamos de carne. Se os homens chegarem esta noite, ou amanhã, não podemos alimentá-los a todos com mingaus e pão com manteiga! E até mesmo a manteiga está começando a derreter com este calor. Venha comigo, Morgana. Gostaria que sua Visão nos pudesse dizer quando teremos chuva! E vocês, limpem os fios e a lã dos bancos, por aqui, e deixem de lado o trabalho. Elaine, minha filha, leve meu bordado para meu quarto e tenha cuidado para não sujá-lo.

Enquanto se dirigiam para a saída, ela perguntou a Morgana, em voz baixa:

- Você viu realmente sangue, Morgana?

- Eu sonhei - repetiu, teimosa.

Gwenhwyfar olhou-a fixamente, mas por vezes havia entre elas uma afeição verdadeira, e a rainha não insistiu.

- Se viu, Deus permita que seja o sangue dos saxões, derramado longe daqui. Venha, vamos perguntar a Cai quais são as reservas de carne. Não é época de caça, e não gostaria que os homens tivessem de sair novamente para caçar, quando retornassem. - Deu um bocejo. - Seria bom que esse calor passasse. É bem possível que venha uma tempestade, pois o leite azedou esta manhã. Direi às criadas que o aproveitem para coalhadas, que não o dêem aos porcos.

- Você é uma dona-de-casa notável, Gwenhwyfar - observou Morgana, com uma ironia amarga. - Eu não teria pensado nisso, por estar fora da minha vista. Mas o cheiro da coalhada é tão forte na sala de laticínios. Eu preferia que o leite estragado fosse engordar os porcos.

- Eles já estão bem gordos com esse tempo, com todos os frutos do carvalho maduros - respondeu a rainha, olhando novamente para o céu. - Veja, será que foi um relâmpago?

Morgana olhou e viu o risco brilhante no céu.

- Sim, os homens chegarão molhados e com frio, precisamos ter vinho preparado para eles - disse, distraída. Depois, teve um estremecimento, enquanto Gwenhwyfar pestanejava.

- Agora creio que você realmente teve a Visão. Não há nenhum rumor de cascos, nem recebemos qualquer aviso da torre de vigia. De qualquer modo, direi a Cai que prepare a carne.

Gwenhwyfar afastou-se, deixandn Morgana, que com uma das mãos pressionava a cabeça dolorida.

Isso não é bom. Em Avalon, aprendera a controlar a Visão, a não deixar que ela se manifestasse quando estava descuidada, quando não a esperava... Dentro em pouco, acabaria sendo realmente uma feiticeira de aldeia, vendendo amuletos e profetizando se será menino ou menina, ou amores novos para as donzelas, em conseqüência do tédio daquela vida em companhia das damas. O falatório a aborrecia e a levava a fiar, o que, por sua vez, lhe provocava transes... Algum dia, sem dúvida, cairei tanto que darei a Gwenhwyfar o talismã que ela quer, para que possa dar um filho a Artur... a esterilidade é uma cruz pesada para uma rainha, e apenas uma vez nestes dois anos ela apresentou algum sintoma de gravidez.

Apesar disso, achava tolerável a companhia de Gwenhwyfar e de Elaine; o pensamento da maioria das outras mulheres não ia além da próxima refeição, ou do carretel de fio a ser completado. Gwenhwyfar e Elaine tinham certa instrução e, às vezes, sentada entre elas, quase podia imaginar-se tranqüilamente entre as sacerdotisas da Casa das Moças.

A tempestade desabou pouco antes do poente - o granizo pipocava no pátio e batia nas pedras; caiu uma chuva pesada. Quando o vigia da torre gritou que os cavaleiros se aproximavam, Morgana não teve dúvidas de que era Artur e seus homens. Gwenhwyfar mandou iluminar o pátio com tochas e, pouco depois, nas muralhas de Caerleon ressoava o barulho de homens e cavalos. A rainha conferenciara com Cai, e não uma cabra, mas uma ovelha fora abatida: havia, portanto, carne assada para os homens e uma sopa consistente. A maior parte dos soldados acampou no pátio externo e no campo. Como qualquer comandante, Artur fiscalizou a instalação dos homens e cavalos, antes de passar ao pátio interno, onde Gwenhwyfar o esperava.

Tinha a cabeça enfaixada sob o elmo e apoiava-se levemente no braço de Lancelote, mas afastou suas perguntas ansiosas.

- Uma escaramuça... invasores juntos no litoral. Os saxões das tropas do tratado já tinham dado conta da maioria deles quando chegamos. Ah!, sinto o cheiro de carneiro assado... Que mágica é essa, se você não sabia que vínhamos?

- Morgana me disse que viriam, e há também vinho quente - contou Gwenhwyfar.

- Ora, ora, é uma felicidade para um homem faminto ter uma irmã dotada da Visão - sorriu Artur jovialmente para Morgana, acentuando, assim, sua dor de cabeça e sua tensão. Beijou-a e voltou-se para Gwenhwyfar.

- Está ferido, meu senhor... Deixe-me ver . .

- Não, não, já lhe disse que não é nada. Nunca perco muito sangue, você sabe disso, enquanto tenho comigo esta bainha. Mas como está passando, senhora, depois de todos esses meses? Eu pensei que...

Os olhos dela encheram-se lentamente de lágrimas.

- Eu estava enganada, outra vez. Ah, meu senhor, desta vez eu tinha tanta certeza, tanta...

Artur tomou-lhe a mão, incapaz de expressar a sua decepção, ante o sofrimento da rainha.

- Ora, devemos, sem dúvida, pedir a Morgana que lhe dê um talismã - disse ele. Mas viu, com um rosto que se tornava momentaneamente triste, Meleas receber Griflet com um beijo caloroso, empinando orgulhosamente a barriga crescida. - Ainda não somos velhos, minha Gwenhwyfar.

"Mas também já não sou tão jovem", pensou ela. "A maior parte das mulheres que conheço, com exceção de Morgana e Elaine, que são solteiras, já têm meninos e meninas crescidos, quando chegam aos vinte anos. Igraine teve Morgana aos quinze anos, e Meleas está apenas com catorze e meio." Tentou manter uma aparência tranqüila e despreocupada, mas a culpa mordia-a interiormente. Apesar de tudo o que uma rainha pudesse fazer para seu senhor, seu primeiro dever era dar-lhe um filho, e isso não se realizara, apesar de ter rezado até os joelhos lhe doerem.

- Como passa a minha cara senhora?

Lancelote fez-lhe uma reverência, sorrindo, e ela estendeu-lhe a mão para que a beijasse.

- Mais uma vez, voltamos e a encontramos mais bela do que nunca. É a única cuja beleza não se apaga nunca. Começo a pensar que é essa a vontade de Deus: enquanto todas as outras mulheres envelhecem, engordam e se desgastam, minha rainha continua sempre bela.

Gwenhwyfar sorriu para ele e sentiu-se reconfortada. Talvez fosse até bom não estar grávida e feia. Viu Lancelote olhar para Meleas com um leve sorriso de desprezo, e sentiu que não toleraria saber-se feia aos olhos dele. Até mesmo Artur parecia descomposto, como se tivesse dormido com a mesma túnica amarrotada durante toda a campanha, embrulhado num manto já muito usado, em meio à chuva, à lama e à intempérie. Lancelote, porém, parecia bem-vestido e descansado, com o manto e a túnica bem escovados, como se estivesse vestido para as celebrações da Páscoa. Tinha o cabelo penteado, a correia de couro polida, e até mesmo as penas de águia de seu gorro estavam secas e lisas. Gwenhwyfar concluiu que ele se parecia mais a um rei do que o próprio Artur.

Enquanto as criadas entravam com pratos de carne, Artur puxou Gwenhwyfar para junto de si.

- Sente-se aqui entre mim e Lancelote, Gwen, e conversemos. Parece que há muito não ouço uma voz que não seja masculina e áspera, e não sinto o perfume de um vestido de mulher. - Passou a mão em seus cabelos. - Você também, Morgana, venha sentar-se junto de mim. Estou cansado das campanhas, quero ouvir as novidades, e não falar de guerras! - Mordeu, com fome, um pedaço de pão. - Como é bom comer pão fresco! Já não agüento mais o pão velho do exército e a carne que já passou do ponto.

Lancelote voltou-se e sorriu para Morgana.

- E você, prima, como está? Suponho que não tenha recebido notícias do País do Verão, ou de Avalon, não? Há mais alguém aqui que está ansioso por essas notícias, se as houver. Meu irmão Balam veio conosco.

- Não tenho notícias de Avalon - informou Morgana, sentindo-se observada por Gwenhwyfar, ou estaria ela olhando para Lancelote? - Mas há muitos anos não vejo Balam. Ele talvez tenha notícias mais recentes do que as minhas.

- Ei-lo - disse Lancelote, fazendo um gesto para os homens, no salão. - Artur convidou-o a jantar aqui como meu parente, e seria bondade sua, Morgana, levar-lhe um copo de vinho de nossa mesa. Como todos os homens, ele está ansioso pela atenção de alguma mulher, mesmo que seja uma parenta e não uma namorada.

Morgana apanhou um dos recipientes usados para beber vinho, um chifre revestido de madeira, que estava sobre a mesa do rei, e chamou um servo para que o enchesse. Depois, segurando-o entre as mãos, deu a volta à mesa entre os cavaleiros. O olhar deles provocava-lhe uma sensação agradável, embora soubesse que olhariam assim para qualquer mulher bem-nascida, bem-vestida, depois de tantos meses de campanha - não era uma homenagem específica à sua beleza. Pelo menos Balam, que era seu primo, quase um irmão, não a olharia com olhos tão famintos.

- Meus cumprimentos, parente. Lancelote, seu irmão, manda-lhe um pouco de vinho da mesa do rei.

- Peço-lhe que o prove primeiro, senhora - pestanejou ele. - Morgana, é você? Quase não a reconheci, está tão bonita! Penso em você sempre com as roupas de Avalon, mas vejo que é realmente parecida com minha mãe. Como vai a Senhora do Lago?

Morgana colocou a taça nos lábios - uma simples cortesia naquele reino, mas oriunda talvez de uma época em que os presentes do rei eram provados na frente de um convidado, quando o envenenamento de reis rivais não era raro. Entregou-a a Balam, que tomou um grande gole, antes de olhar novamente para Morgana.

- Esperava ter notícías de Viviane por seu intermédio, primo. Há muitos anos não vou a Avalon.

- Ah, eu sabia que você estava na corte de Lot. Brigou com Morgause? Ouvi dizer que as mulheres brigam muito com ela...

- Não - respondeu Morgana, sacudindo a cabeça. - Mas queria estar bem longe da cama de Lot, o que não é fácil. A distância entre Orkney e Caerleon quase não é suficiente.

- Então você veio para a corte de Artur para ficar entre as damas da rainha. É uma corte mais adequada do que a de Morgause, eu diria. Gwenhwyfar protege bem suas donzelas, e também lhes consegue bons casamentos. Vejo que a mulher de Griflet já está esperando seu primeiro filho. Ela não lhe encontrou um marido, prima?

Morgana forçou-se a dizer, com aparente alegria:

- Está me fazendo uma proposta de casamento, senhor Balam?

- Você é uma parenta muito próxima - disse ele, rindo. - Caso contrário, eu aceitaria sua oferta. Mas ouvi dizer que Artur queria casá-la com Cai, e pareceu-me um bom partido, já que, afinal de contas, você deixou Avalon.

- Cai estava tão interessado em mim quanto eu nele - disse Morgana com rispidez. - E eu nunca disse que não voltaria para Avalon, mas só o faria quando Viviane me mandasse chamar.

- Quando eu era apenas um menino - contou Balam, e por um momento, os olhos negros se voltaram para Morgana, ela pensou que podia ver a semelhança com Lancelote mesmo nesse homem grande e deselegante -, eu tive raiva da Senhora, de Viviane, porque não me amava como devia, sendo minha mãe. Mas agora creio que compreendo melhor as coisas. Como sacerdotisa, ela não tinha tempo para criar um filho. E por isso me confiou a quem só fazia isso, e me deu meu irmão colaço, Balim... Sim, quando criança, eu me sentia culpado por isso, também, por gostar mais de Balim do que de Lancelote, que é do meu próprio sangue. Mas agora sei que Balim é realmente o irmão do meu coração, e que Lancelote, embora eu o admire como o belo cavaleiro que é, será sempre um estranho. E ainda - continuou Balam, com uma expressão séria -, quando Viviane entregou-me à senhora Priscila para que me criasse, colocou-me numa família onde eu viria a conhecer o verdadeiro Deus e o Cristo. Parece-me estranho que, se eu tivesse ficado em Avalon com meus parentes, seria um pagão, tal como Lancelote...

- Bem - disse Morgana, sorrindo um pouco -, quanto a isso não posso partilhar de sua gratidão, pois acho que foi um erro da Senhora deixar que o filho abandonasse os Deuses de sua fé. Mas até mesmo Viviane me disse, várias vezes, que os homens devem ter a orientação espiritual e religiosa que melhor lhes convier, e que tanto fazia ser a crença dela, ou qualquer outra. Se eu fosse realmente cristã de coração, sem dúvida que ela me teria deixado viver com minha fé. Mas embora eu tenha sido criada até os onze anos por Igraine, que era tão cristã quanto os demais, creio talvez que estava predeterminado que eu veria as coisas do espírito tal como nos manda ver a Deusa.

- Balim poderia discutir isso com você melhor do que eu - disse Balam -, pois ele é mais religioso do que eu, e é melhor cristão. Eu diria provavelmente aquilo que os padres dizem, que há apenas uma fé verdadeira, na qual homens e mulheres devem acreditar. Mas você é minha parenta, e eu sei que minha mãe é uma boa mulher, e tenho esperanças de que até mesmo o Cristo levará em conta a bondade dela, no dia do Juízo Final. Quanto ao resto, não sou padre e não vejo por que não deva deixar todas essas questões para os padres, que as estudaram. Gosto muito de Balim, mas ele devia ter sido padre e não soldado, devido à sua sensibilidade em questões de fé e consciência. - Olhou para a mesa do rei, e perguntou: - Diga-me, prima, você o conhece melhor do que eu. O que está pesando tanto no coração de nosso irmão Lancelote?

Morgana inclinou a cabeça:

- Se eu soubesse, Balam, não poderia dizer, pois o segredo não é meu.

- Você tem razão em me dizer que cuide de meus proprios negócios, mas não gosto de vê-lo sofrer, e ele está sofrendo. Tive raiva de nossa mãe, como disse, porque ela me tirou de casa ainda muito pequeno, mas deu-me uma mãe adotiva que me amava e um irmão de minha idade, criado ao meu lado e muito ligado a mim, em tudo, e deu-me um lar. Ela não fez o mesmo com Lancelote. Ele nunca teve um lar, nem em Avalon, nem na corte de Ban de Benwick, onde era apenas mais um dos bastardos do rei, vistos com indiferença... Viviane prejudicou-o realmente, e eu gostaria que Artur lhe desse uma esposa, para que ele tivesse finalmente um lar.

- Bem - sugeriu Morgana, alegremente -, se o rei quiser que eu me case com Lancelote, pode marcar o dia.

- Você e Lancelote? Não é parenta muito próxima, para isso? - perguntou Balam, e refletiu por um instante. - Não, acho que não. Igraine e Viviane eram apenas meias irmãs, e Gorlois e Ban de Benwick não têm qualquer parentesco. Mas alguns padres dizem que os irmãos de criação devem ser considerados irmãos de sangue, para questões matrimoniais... Bem, Morgana, eu brindarei com satisfação a seu casamento, no dia em que Artur lhe der como marido meu irmão, e pedirei que o ame e cuide dele, como Viviane jamais fez! E nenhum de vocês precisa deixar a corte: você é a dama favorita ia rainha, e Lancelote é o maior amigo do nosso rei. Espero que isso aconteça!

Seus olhos detiveram-se em Morgana com uma preocupação bondosa.

- Você também já está passando da idade em que Artur a deveria ter dado em casamento a um homem.

"E por que o rei deveria me dar, como se eu fosse um de seus cavalos ou cães?", pensou Morgana, mas deu de ombros. Vivera muito tempo em Avalon, esquecendo-se de que os romanos haviam criado essa lei, segundo a qual as mulheres eram propriedade dos homens. O mundo mudara, e era inútil revoltar-se contra o que não podia ser modificado.

Pouco depois, ela começou a dar a volta à grande mesa que Gwenhwyfar dera a Artur, como presente de casamento. O grande salão em Caerleon, embora amplo, não era bastante grande para a mesa, e a certa altura Morgana teve de saltar os bancos, porque devido ao tamanho de mesa eles tinham de ficar junto da parede. Também os servos da cozinha tinham de pular bancos, com seus pratos e copos fumegantes.

- Kevin não está aqui? - perguntou Artur. - Então, Morgana deve cantar para nós. Estou ansioso pelas harpas e por todas essas coisas de homens civilizados. Não me surpreendo que os saxões passem o tempo todo em guerras. Ouvi como cantam mal os seus cantores e compreendo que eles não tenham razão para ficar em casa!

Morgana pediu a um dos ajudantes de Cai que fosse buscar a harpa em seu quarto. Ele teve de pular os bancos na curva da mesa, e perdeu o equilíbrio. Só a agilidade com que Lancelote o amparou impediu que o instrumento caísse ao chão.

Artur franziu a testa:

- Foi muita bondade de meu sogro mandar-me esta grande mesa redonda, mas não existe em Caerleon um salão bastante grande para ela. Quando os saxões forem expulsos definitivamente, terei de construir um salão para instalá-la!

- Então, ele nunca será construído! - respondeu Cai, ríndo. - Dizer "quando os saxões forem expulsos para sempre" é como dizer "quando Jesus voltar", ou "quando o inferno congelar", ou "quando nascerem morangos nas macieiras de Glastonbury".

- Ou quando o rei Pellinore matar o seu dragão - emendou Meleas.

- Vocês não devem rir do dragão de Pellinore - disse Artur com um sorriso, pois ouvi dizer que foi visto novamente e que ele saiu à sua caça, para matá-lo, desta vez. Na verdade, perguntou ao Merlim se conhecia algum encantamento para dragões!

- Ah, sim, ele foi visto, como a ciranda das bruxas no alto dos morros, ou a dança do anel de pedras na noite de lua cheia - ironizou Lancelote. - Há sempre pessoas que vêem aquilo que querem: algumas vêem santos e milagres, outras vêem dragões ou fadas. Mas nunca conheci homem ou mulher que tivesse visto um dragão ou uma fada.

Morgana lembrou-se, contra a sua vontade, do dia, em Avalon, em que fora buscar raízes e ervas e perdera-se num lugar onde a fada lhe apareceu e pediu para ficar com seu filho. O que vira realmente? Não teria sido tudo aquilo apenas a imaginação doentia de uma mulher grávida?

- Você diz isso, apesar de ter sido adotado como Lancelote do Lago? - perguntou Morgana calmamente, e ele voltou-se para ela, dizendo:

- Há momentos em que isso me parece mentira. Não acontece o mesmo com você, Morgana?

- É verdade, sim, por momentos - respondeu. - Mas há ocasiões em que tenho saudades de Avalon...

- Ah, eu também - confessou ele.

Desde a noite do casamento de Artur, Lancelote não dera nenhuma demonstração, por palavras ou olhares, de ter por ela outro sentimento que não fosse o de um companheiro de infância e irmão de criação. Morgana achava que já se resignara a isso, mas assustou-se novamente quando os belos olhos de Lancelote encontraram-se com os seus, cheios de bondade.

Mais cedo ou mais tarde, terá de ser como Balam disse: somos ambos solteiros, a irmã do rei e seu melhor amigo...

- Bem, quando os saxões tiverem sido expulsos para sempre, e não riam, como se fosse um acontecimento impossível! Podemos fazê-lo, e eles sabem disso, creio, então construirei um castelo e um grande salão, bastante grande até mesmo para esta mesa. Já escolhi o lugar: é um forte num morro, que já existia muito antes da época romana, a cavaleiro do próprio lago, e perto da ilha que é reino de seu pai, Gwenhwyfar. Você conhece o lugar, onde o rio desagua no lago...

- Conheço. Quando pequena, fui ali certa vez, colher morangos. Havia um velho poço arruinado, e encontramos pontas de setas de sílex. Os antigos havíam deixado ali as suas flechas.

Como era estranho, pensou Gwenhwyfar, lembrar-se de uma época em que gostava de sair a céu aberto, sem se preocupar se havia ou não uma muralha, ou a proteção de alguma coisa à sua volta. Agora, ficava com náuseas e tonta, ao afastar-se das muralhas, de um lugar onde pudesse vê-las e tocá-las. Por vezes, sentia uma contração de medo no estômago, até mesmo quando atravessava o pátio, e tinha de correr novamente para dentro do castelo.

- É um lugar fácil de fortificar - disse Artur -, embora eu espere que, uma vez liquidados os saxões, tenhamos calma e paz nesta ílha.

- Desejo pouco digno de um soldado, irmão - observou Cai. - O que fará, numa época de paz?

- Chamarei Kevin, o Bardo, para compor canções, e domarei meus próprios cavalos e montarei por prazer - respondeu Artur. - Os meus companheiros e eu criaremos nossos filhos sem colocar uma espada em suas mãozinhas antes que tenham chegado à idade adulta! E não precisarei temer que fiquem aleijados ou sejam mortos antes de serem homens. Cai, não teria sido melhor se você não tivesse sido mandado para a guerra antes de ter idade suficiente para saber se defender? Por vezes, parece-me ter sido um erro que você, e não eu, tenha ficado defeituoso, porque Ectório queria-me a salvo para Uther!

Olhou com preocupação e carinho para seu irmão de criação, e Cai retribuiu com um sorriso.

- E manteremos vivas as artes da guerra realizando jogos, como faziam antigamente, e coroando o vencedor com coroas de louros - sugeriu Lancelote. - Artur, o que são louros? Eles crescem nestas ilhas? Ou apenas na terra de Aquiles e Alexandre?

- O Merlim poderia lhe dizer - esclareceu Morgana, quando Artur deu mostras de perplexidade. - Também não sei, mas, quer tenhamos louros ou não, há plantas suficientes para fazer coroas para os vencedores dos seus torneios.

- E daremos carros também para os harpistas - tornou Lancelote. - Cante, Morgana.

- É melhor que eu cante para você agora - disse ela -, pois quando vocês, homens, realizarem seus torneios, não creio que deixem as mulheres cantar.

Tomou a harpa e começou a tocar. Estava sentada quase que no mesmo lugar onde, naquela tarde, vira o sangue derramar-se pela lareira do rei... viria tal coisa a acontecer, ou seria fantasia? Por que devia pensar que ainda tinha a Visão? Ela raramente lhe ocorria, nos últimos tempos, a não ser naqueles transes pouco desejados...

Começou a cantar um velho lamento que ouvira em Tintagel, o lamento de uma pescadora que vira os barcos varridos pelo mar. Sabia que os encantava com a sua voz, e no silêncio do salão começou a cantar também as velhas canções das ilhas, que aprendera na corte de Lot: a lenda da sereia que saíu do mar para conhecer um amante mortal, canções das pastoras solitárias, canções de fiar e cardar o linho. Mesmo quando sua voz ficou rouca, não se cansaram de pedir mais, mas Morgana levantou as mãos, em protesto.

- Chega. Não, realmente, não posso cantar mais. Estou rouca como um corvo.

Pouco depois, Artur mandou que os servos apagassem as tochas no salão e levassem os convidados para os quartos. Uma das tarefas de Morgana era acompanhar as mulheres solteiras do séquito da rainha acomodando-as para dormir tranqüilas num grande quarto, atrás da própria câmara de Gwenhwyfar, numa ala situada no extremo oposto daquela em que ficavam os soldados. Demorou-se, porém, um momento, de olhos fixos em Artur e Gwenhwyfar, que davam boa-noite a Lancelote.

- Ordenei às criadas que preparassem a melhor cama de hóspedes para o senhor Lancelote - informou a rainha, mas ele riu e sacudiu a cabeça.

- Sou um soldado. É meu dever verificar se os homens e os soldados estão instalados para passar a noite, antes de deitar-me.

Artur riu, envolvendo com o braço a cintura de Gwenhwyfar.

- Precisamos casá-lo, Lance, para que não passe as noites no frio. Fiz de você o meu capitão da cavalaria, mas não precisa passar as noites dormindo com os cavalos!

Gwenhwyfar sentiu uma pontada no coração, ao ver os olhos de Lancelote. Parecia-lhe que podia ler os pensamentos do rapaz, que ele diria em voz alta, se pudesse, o que já dissera uma vez: Meu coração está tão cheio da minha raiva que não há nele lugar para nenhuma outra mulher... Conteve a respiração, mas o moço apenas suspirou e riu, e ela pensou: "Não, sou uma mulher casada, uma mulher cristã, é pecado até mesmo abrigar tais pensamentos. Terei de fazer penitência." E sentindo a garganta tão apertada que não conseguiu engolir, não pôde evitar outro pensamento indesejado: "Penitência suficiente já é o ato de ter de separar-me de quem amo..." E deu um suspiro, fazendo com que Artur, sobressaltado, se voltasse para ela:

- O que foi, meu amor, machucou-se?

- Um... alfinete picou-me - desculpou-se, afastando os olhos,fingindo que o procurava nas pregas da roupa. Viu que Morgana a observava, e mordeu o lábio. "Ela está sempre me vigiando... e tem a Visão. Será que conhece todos os meus pensamentos pecaminosos? Será por isso que me olha com tanto desprezo?

Morgana, porém, nunca lhe demonstrara outro sentimento que não fosse a bondade de uma irmã. E quando estivera grávida, no primeiro ano do casamento, quando havia contraído a febre e abortara a criança aos cinco meses não suportara ter ao seu lado nenhuma outra de suas damas. Morgana cuidara dela quase que como uma mãe. Por que, agora, ser tão ingrata?

Lancelote desejou-lhes boa-noite novamente e retirou-se. Gwenhwyfar tinha uma consciência quase dolorosa de que o braço de Artur a envolvia pela cintura e de que havia desejo em seus olhos. Bem, haviam estado separados por muito tempo. Experimentou, porém, um ressentimento súbito e intenso. "Nunca mais fiquei grávida, desde aquela ocasião. Será que ele não pode nem sequer dar-me um filho?"

Ah, mas sem dúvida a culpa era dela. Uma das parteiras dissera-lhe que era como uma doença do gado, quando deitam fora suas crias antes do tempo, repetidamente, e que por vezes as mulheres também tinham a mesma doença, de modo que não conseguiam conservar as crianças mais do que um ou dois meses, três no máximo. De certa forma, talvez por falta de cuidado, ela devia ter contraído aquela doença, talvez tivesse ido à leiteria numa ocasião em que não devia, ou bebido o leite de uma vaca que tinha perdido a cria antes de nascer, de modo que a vida do filho e herdeiro de seu marido fora prejudicada, e tudo por culpa sua... Sufocada pela idéia, acompanhou Artur até o aposento deles.

- Não estava brincando, Gwen - disse Artur, sentando-se para descalçar suas botas de couro. - Devemos casar Lancelote. Você já viu como todos os meninos correm para ele, e como ele os trata bem? Ele deve ter filhos. Ora, Gwen, já sei! Devemos casá-lo com Morgana!

- Não!

A palavra lhe escapou sem pensar, e Artur voltou-se para ela, espantado.

- O que há com você? Não lhe parece perfeito, a escolha ideal? Minha irmã e meu melhor amigo? E seus filhos, veja bem, seriam herdeiros de nosso trono, de qualquer modo, se os deuses não quiserem nos dar filhos... Não, não chore, meu amor - pediu ele, e Gwenhwyfar sabia, humilhada e envergonhada, que seu rosto se contorcia com o pranto. - Não pretendi fazer-lhe qualquer crítica, minha querida, os filhos vêm quando a Deusa quer, mas só ela sabe quando teremos filhos, ou se chegaremos a tê-los. E embora Gawaine me seja muito caro, não tenho nenhuma vontade de colocar no trono um filho de Lot, quando eu morrer. Morgana é filha de minha mãe, e Lancelote é meu primo...

- É claro que para Lancelote pouco importa ter filhos ou não - suspirou Gwenhwyfar. - Ele é o quinto, ou sexto, filho do rei Ban, e além disso, bastardo.

- Nunca esperei ouvir de você, entre tanta gente, uma censura ao meu parente e mais caro amigo, pelo seu nascimento. E ele não é um bastardo comum, mas filho do Grande Casamento...

- Heresias pagãs! Se eu fosse o rei Ban, faria uma limpeza em todo esse lixo de feitiçaria em meu reino, o que você também devia fazer!

Artur mexeu-se constrangido, enfiando-se sob as cobertas da cama:

- Lancelote não teria muita razão para gostar de mim se eu expulsasse sua mãe deste reino. E jurei respeitar Avalon, pela espada que me deram ao ser feito rei.

Gwenhwyfar olhou para a grande espada Excalibur pendurada junto da beirada da cama em sua bainha mágica, coberta de símbolos místicos que pareciam brilhar à luz do luar e zombar dela. Apagou a luz, e estendeu-se ao lado de Artur, dizendo:

- Nosso Senhor Jesus Cristo há de proteger você melhor do que todos esses encantamentos da feitiçaria. Você não teve de se envolver com nenhuma de suas deusas e bruxarias antes de ser feito rei, não? Sei que isso se fazia na época de Uther, mas esta terra é cristã!

Artur sentia-se pouco à vontade ao dizer:

- Há muita gente nesta terra, o Povo Antigo, que vivia aqui bem antes da chegada dos romanos. Não podemos proibir essa gente de amar seus deuses. E quanto ao que me aconteceu antes de minha coroação, bem, isto não lhe diz respeito, Gwenhwyfar.

- Os homens não podem ter dois senhores - continuou ela, surpresa com sua ousadia. - Eu preferia que fosse um rei totalmente cristão, meu senhor.

- Devo fidelidade a todo o meu povo, e não apenas aos que seguem o Cristo...

- Parece-me que esses são os seus inimigos, e não os saxões. A verdadeira guerra, para um rei cristão, deve ser apenas contra os que não seguem o Cristo.

Artur riu, ainda pouco à vontade:

- Você parece o bispo Patrício. Ele preferia que convertêssemos os saxões a que os eliminássemos, para que pudéssemos viver em paz com eles. Quanto a mim, sou como os padres que viviam aqui antigamente, que, quando lhes pediram que mandassem missionários para os saxões, sabe o que responderam?

- Não, nunca ouvi essa história.

- Disseram que não mandariam missionários para os saxões para não serem obrigados a encontrá-los em paz, nem mesmo ante o trono de Deus. - Artur riu com gosto, mas a rainha nem sorriu, e depois de algum tempo fez o sinal-da-cruz. - Bem, pense no que eu disse, Gwenhwyfar. Parece-me o mais perfeito casamento possível: meu melhor amigo e minha irmã. Ele seria então meu irmão, e seus filhos, meus herdeiros... - Envolveu-a nos braços, no escuro e acrescentou: - Mas agora, devemos empenhar-nos para que não precisemos de outros herdeiros, nós dois, meu amor, a não ser os que você me der.

- Que Deus o permita, senhor - murmurou Gwenhwyfar, aninhando-se nos braços de Artur e procurando afastar qualquer outro pensamento.

 

Morgana, depois de ter instalado as moças, ficou algum tempo junto da janela, inquieta. Elaine, que dormia com ela, murmurou-lhe:

- Venha deitar-se, Morgana. É tarde, você deve estar cansada.

- Acho que a lua é que me deixou inquieta esta noite, pois não tenho sono - respondeu ela, sacudindo a cabeça. Não queria deitar-se e fechou os olhos. Mesmo que não tivesse a Visão, sua imaginação a atormentaria. Por toda parte, os homens que tinham voltado juntavam-se às suas mulheres - pensou, com um sorriso melancólico na escuridão; é como Beltane em Avalon... Até mesmo os soldados que não eram casados tinham conseguido mulheres para aquela noite, ela o sabia. Todos, desde o rei com sua mulher até os servos nas cocheiras, estavam nos braços de alguém, exceto as donzelas da rainha. Gwenhwyfar considerava dever seu proteger-lhes a castidade, como Balam dissera, e eu sou protegida junto com as donzelas da rainha.

Lancelote, no casamento de Artur... não houve nenhuma seqüência, embora não fosse culpa dela. E Lancelote tem se afastado da corte sempre que pode... Sem dúvida, para não ver Gwenhwyfar nos braços de Artur! E também ele estava sozinho naquela noite, entre os soldados e cavalaria - naturalmente sonhando com a rainha, a única mulher do reino que não podia ser sua. Pois sem dúvida, qualquer outra, na corte, casada ou solteira, estava disposta a aceitá-lo, como acontecía com ela. Se não tivesse sido a falta de sorte no dia do casamento de Artur, ele a teria possuído, e sendo um homem de honra, se ela ficasse grávida, a teria esposado.

Embora não seja provável que eu volte a conceber, depois do que sofri com o nascimento de Gwydion... mas eu não precisava dizer-lhe isso. E poderia tê-lo feito feliz, mesmo que não pudesse lhe dar um filho. Houve uma época em que ele me queria, antes de ter visto Gwenhwyfar, e depois, também... Se não fosse a falta de sorte, eu o teria feito esquecer-se dela em meus braços...

E não sou tão feia assim... quando estava cantando esta noite, muitos dos cavaleiros me olharam com desejo... Eu poderia fazer com que Lancelote me desejasse...

Elaine perguntou com impaciência:

- Você não vem se deitar, Morgana?

- Ainda não... Acho que vou dar um passeio lá fora - respondeu, embora isso fosse proibido às damas da rainha, e Elaine teve um sobressalto, com a timidez que tanto a exasperava. Ficou pensando se teria adquirido isso com Gwenhwyfar, como uma febxe ou uma nova moda de usar véus.

- Você não tem medo, com todos esses homens acampados por aí?

- Bem, você não acha que estou cansada de dormir sozinha? - perguntou com uma risada. Mas percebeu que a brincadeira ofendera Elaine, e disse, mais delicadamente: - Eu sou a irmã do rei. Ninguém me encostaria a mão contra a minha vontade. Você me considera assim tão sedutora que nenhum homem possa me resistir? Tenho vinte e seis anos, já não sou uma virgenzinha como você, Elaine.

Morgana deitou-se, vestida, ao lado da moça. Na escuridão e no silêncio, como temia, sua imaginação - ou era a Visão? - criava quadros: Artur com Gwenhwyfar, homens com mulheres por toda parte no castelo, unidos no amor, ou simplesmente no desejo. E Lancelote, estaria também sozinho? A lembrança, mais intensa do que a imaginação, assaltou-a, novamente, e recordou-se do dia claro e ensolarado no Tor, os beijos dele que primeiro despertaram aquela sensação pungente por todo o seu corpo; e a amargura do arrependimento de estar comprometida. E depois, quando Artur casou-se com Gwenhwyfar, o rapaz quase lhe rasgara as roupas e a possuíra nas cocheiras... ele a desejara, naquela ocasião...

E então, clara como a Vísão, uma imagem lhe veio à mente, Lancelote caminhando sozinho pelo pátio, com o rosto marcado de solidão e frustração... Eu não usei a Visão nem minha magia para atrai-lo com finalidades egoistas... a Visão me veio sem ser solicitada...

Silenciosamente, movendo-se com cuidado para não despertar a companheira mais nova, libertou-se do abraço de Elaine, afastando-se da cama. Havia tirado apenas os sapatos; abaixou-se para calçá-los novamente, e saiu do quarto sem fazer barulho, movendo-se como uma brisa de Avalon.

Se é um sonho nascido de minha imaginação, se ele não estiver lá, caminharei um pouco ao luar para acalmar minha febre e voltarei para a cama, não haverá mal nenhum nisso. Mas a ímagem persistia em sua imaginação, e ela sabia que Lancelote estava lá, sozinho, acordado também.

Também ele era de Avalon... as marés do sol correm também em seu sangue... Morgana passou silenciosamente pela porta, junto do vigía adormecido, e olhou para o céu. A lua crescente iluminava o pátio de pedras junto das cocheiras. Não, não o via ali; do outro lado... Por um instante, pensou: Ele não está aqui, foi um sonho, foi minha imaginação. Já estava quase decidida a voltar para a cama, tomada de súbita vergonha: e se o vigia a encontrasse ali, todos saberiam que a irmã do rei saía de casa quando todas as pessoas honestas estavam dormindo, sem dúvida com intenções pouco decentes...

- Quem está aí? Vamos, diga quem é!

A voz era baixa e rouca, a voz de Lancelote. De repente, apesar de toda a sua alegria, Morgana teve medo: a Visão fora verdadeira, e agora? A mão de Lancelote baixou à espada: ele parecia muito alto e magro, em meio às sombras.

- Morgana - disse ela suavemente, e a mão dele largou o punho da arma.

- Prima, é você? - Saiu das sombras, e o rosto dele, vigílante perturbado, amenizou-se ao olhá-la. - Tão tarde? Veio procurar-me? Há algum problema no castelo? Artur... ou a rainha...?

Até mesmo agora, ele só pensa na rainha. Morgana sentiu um formigamento na ponta dos dedos e nas pernas, de raiva e de emoção.

- Não, tudo está em ordem, pelo que sei. E não tenho conhecimento dos segredos da câmara real! - Ele corou, apenas uma sombra na sua face no escuro, e desviou os olhos. - Eu não conseguia dormir. E por que me pergunta o que estou fazendo aqui, quando você também não está na cama? Ou será que Artur o nomeou o seu vigia noturno? - Pôde sentir o sorriso de Lancelote.

- Nomeou-me tanto quanto a você. Eu estava inquieto, e todos à minha volta dormiam. Creio que a lua me deixou nervoso.

A mesma frase que Morgana usara com Elaine, e isso lhe pareceu um bom presságio, um símbolo de que seus espíritos estavam harmonizados e que respondiam um ao chamado do outro, como uma harpa silenciosa vibra quando é tocada uma nota em outra harpa.

Lancelote continuou a falar suavemente, na escuridão, ao lado dela.

- Fico inquieto nessas noites, pensando em tantas noites de batalha...

- E você gostaria de estar de volta às batalhas, como todos os soldados?

- Não - suspirou ele. - Embora talvez não seja adequado a um soldado sonhar com a paz.

- Não penso assim, pois para que serve a guerra, senão para que a paz possa vir para todo o nosso povo? Quando um soldado ama demais sua ocupação, ele se transforma apenas num instrumento de morte. O que trouxe os romanos à nossa ilha pacífica, senão o amor da conquista e da batalha, por si mesmas?

- Seu pai era um dos romanos, prima - disse ele, sorrindo. - E o meu também.

- Não obstante, dou mais valor às tribos pacíficas, que queriam apenas cultivar a terra em paz e adorar a Deusa. Sou da gente de minha mãe... e da sua.

- Sim, mas aqueles poderosos heróis antigos de que já falamos, Aquiles, Alexandre, todos eles consideravam a guerra e as batalhas a ocupação adequada ao homem, e ainda hoje, nestas ilhas, os homens pensam primeiro na batalha, e depois na paz, apenas como um intervalo de tranqüilidade, um intervalo feminino. - Suspirou. - São pensamentos sombrios, não é de surpreender que afugentem o sono, Morgana.

Esta noite, eu daria todas as grandes armas que já foram forjadas, e todas as canções sobre Aquiles e Alexandre, em troca de uma maçã de Avalon... - Voltou a cabeça para o outro lado, e a moça segurou-lhe a mão.

- Eu também, primo.

- Não sei por que estou com saudades de Avalon. Não vivi lá por muito tempo - cismou Lancelote, intrigado. - Mesmo assim, considero-o o melhor lugar da terra, se é que está nesta terra. A velha mágica druida, ao que me parece, afastou-o deste mundo, porque era demasiado bom para nós, homens imperfeitos, e deve ser como um sonho do céu, impossível... - Recobrou-se com uma pequena risada: - Meu confessor não gostaria de me ouvir dizer tais coisas!

Morgana também riu baixo.

- Então você se tornou cristão, Lance?

- Não muito bom, receio. Mas essa fé me parece tão simples e boa que gostaria de acreditar nela. Eles dizem: acredite no que não viu, professe o que não sabe, há mais virtude nisso do que em acreditar no que viu. Até mesmo Jesus, segundo dizem, ao levantar-se de entre os mortos, censurou um homem que colocou as mãos em suas feridas para ver se ele não era um fantasma ou um espírito, pois era melhor acreditar sem ver.

- Mas nós renasceremos outra vez - disse Morgana, muito baixo -, e muitas outras vezes. Não viemos à terra uma vez, para ir depois para o céu ou o inferno deles, mas vivemos repetidamente, até nos unirmos aos deuses.

Lancelote abaixou a cabeça. Agora que os olhos de Morgana se haviam habituado à meia-luz do luar, podia vê-lo claramente, a linha delicada da testa curvando no lugar dos olhos, o queixo comprido e fino, as sobrancelhas escuras sobre as quais caía o cabelo negro. A beleza do rapaz provocou-lhe uma dor no coração.

- Eu havia esquecido que você é sacerdotisa e acredita... - sussurrou.

As mãos de ambos estavam unidas; Morgana sentiu que a dele se contraía e soltou-a.

- Por vezes não sei em que acredito. Talvez eu tenha ficado tempo demais longe de Avalon.

- Também eu não sei em que creio. Mas vi tantos homens morrerem, e também mulheres e crianças, nesta prolongada guerra, que me parece que estou lutando desde que tive tamanho bastante para segurar uma espada. E quando os vejo morrer, a fé me parece uma ilusão, e a verdade é que todos morremos como os animais, e não somos mais do que isso. Como a grama cortada, como a neve do ano passado.

- Mas também essas coisas voltam - murmurou Morgana.

- Voltam? Ou será uma ilusão? - A voz dele parecia amarga. - Acredito que talvez nada disso tenha sentido. Toda essa conversa de Deuses e de Deusas são fábulas para consolar crianças. Ah, Morgana, por que estamos falando assim? Você devia ir descansar, prima, e eu também.

- Irei, se você quiser - concordou ela, e, no momento em que ia afastar-se, a felicidade inundou todo o seu ser, pois Lancelote segurou-lhe a mão.

- Não, não. Quando estou sozinho, sou vítima dessas fantasias e dessas malditas dúvidas, e, quando elas surgem, é melhor dizê-las em voz alta, pois assim posso ouvir a loucura que são. Fique comigo, Morgana...

- Todo o tempo que você quiser - murmurou ela, sentindo lágrimas nos olhos. Envolveu o peito de Lancelote com seus braços, enquanto os vigorosos braços do rapaz a apertaram, e depois soltaram, como que tomados de remorso.

- Você é tão pequena... Eu me havia esquecido como é pequena. Eu poderia esmagá-la com minhas mãos, prima...

As mãos de Lancelote acariciaram-lhe os cabelos, que estavam soltos sob o véu. Ele os afagou e torceu uma ponta entre os dedos.

- Morgana, Morgana, por vezes tenho a sensação de que você é uma das poucas coisas na minha vida que é totalmente boa. Como uma daquelas fadas de que falam as lendas, que vêm de uma terra desconhecida e dizem palavras de esperança e beleza para um mortal, e partem novamente para as ilhas do oeste, para nunca mais serem vistas...

- Mas eu não irei embora - murmurou ela.

- Não.

Num dos extremos do pátio, havia um tronco onde os homens costumavam se sentar, esperando seus cavalos. Ele a puxou para lá, e disse: - Sente-se aqui junto de mim... - e depois hesitou. - Não, aqui não é lugar para uma dama - e começou a rir. - Nem a cocheira, naquele dia... Você se lembra, Morgana?

- Pensei que você tinha se esquecido, depois que aquele cavalo diabólico o derrubou.

- Não deve chamá-lo assim. Ele salvou a vida de Artur em combate, mais de uma vez. Artur o considera seu anjo da guarda. Ah, aquele foi um dia de erros. Eu teria feito mal possuindo-a daquela maneira, prima. Há muito queria pedir-lhe perdão, e ouvir de sua boca que não me guarda rancor...

- Rancor? - Morgana olhou-o, e sentiu-se tonta de tanta emoção. - Rancor? Talvez contra aqueles que nos interromperam...

- Verdade?

A voz dele era suave. Lancelote segurou-lhe o rosto entre as mãos e inclinou-se, pousando os lábios nos dela.

Morgana deixou-se abraçar, abrindo a boca sob aqueles lábios. Ele não usava barba, ao estilo romano, e sentiu a maciez levemente áspera de sua pele contra o rosto, a cálida doçura de sua língua penetrando-lhe a boca. Lancelote apertou-a mais, quase levantando-a, com um leve murmúrio. O beijo durou até que ela, involuntariamente, teve de recuar um pouco para respirar, e ele riu - um som miraculoso.

- Aqui estamos, outra vez... parece que já estivemos aqui... e desta vez eu cortarei a cabeça de quem vier nos interromper... mas estamos aqui nas cocheiras, beijando-nos como servos! E agora, Morgana? Para onde vamos?

Não sabia. Não havia nenhum lugar seguro para eles.

Não podia levá-lo para o seu quarto, onde Elaine também dormia, além de mais quatro damas de Gwenhwyfar, e o próprio Lancelote afirmara que preferia dormir entre os soldados. E no fundo de sua mente, alguma coisa dizia que não devia ser assim, a irmã e o amigo do rei não deviam sair à procura de um monte de feno. O caminho certo, se realmente se queriam, era esperar até a manhã e pedir autorização a Artur para se casarem.

Mas no coração, escondida num canto para que ela não tivesse de tomar consciência dela, estava a certeza de que Lancelote não queria isso. Num momento de desvario, poderia desejá-la, apenas. E por um momento de paixão, iria arrastá-lo a um compromisso para toda a vida? Os costumes das festas tribais eram mais sinceros, um homem e uma mulher que tivessem o sol e o luar no sangue podiam juntar-se, como queria a Deusa, e mais tarde, se o desejassem, morar juntos e criar filhos, depois pensava-se em casamento.

Sabia, no fundo do coração, que não tinha realmente vontade de casar-se com Lancelote, ou qualquer outro - embora sentisse que para ele, para o bem de Artur e até mesmo de Gwenhwyfar, seria melhor afastá-lo da corte.

Foi, porém, um pensamento passageiro. Estava tonta com a proximidade de Lancelote, cujo coração pulsava junto de seu rosto. Ele a queria; naquele momento não pensava em Gwenhwyfar ou em alguém que não fosse ela.

Que seja como quer a Deusa, homem e mulher.

- Eu sei - murmurou, segurando-lhe a mão. Contor- nando as cocheiras e a forja, havia uma trilha que levava ao pomar. A grama era alta e macia, e por vezes as mulheres ali se sentavam, nas tardes de sol.

Lancelote estendeu o manto sobre a grama. Em torno deles, pairava o aroma indefinível de maçãs verdes e de relva, e Morgana pensou: Quase poderiamos estar em AvaLon. Com o jeito que ele tinha de repetir-lhe os pensamentos, disse:

- Encontramos para nós um pedaço de Avalon, esta noite - e puxou-a para si. Tirou-lhe o véu, acariciou-lhe os cabelos, mas não parecia ter pressa de ir além, segurando-a com delicadeza, inclinando-se repetidamente para beijá-la no rosto ou na testa. - A grama está seca, não houve sereno. Provavelmente, choverá antes de amanhecer - murmurou, acariciando os ombros e as mãos pequenas de Morgana. Sua mão, calejada pela espada, era tão dura que Morgana teve um sobressalto, e recordou que era quatro anos mais velha do que ele. Conhecia sua história: Lancelote nascera quando Viviane já considerava passado o seu período de fertilidade. Os longos dedos do rapaz podiam cobrir toda a sua mão e escondê-la; ele brincou com os dedos de Morgana, com seus anéis, levando a mão até a gola do vestido, desabotoando-a. Ela se sentia tonta, abalada, a paixão dominava-a como a onda que cresce e cobre toda a praia, e deixou-se afogar pelos seus beijos. Ele murmurou alguma coisa que ela não ouviu, mas não perguntou o que era, já não podia pensar em palavras.

Lancelote teve de ajudá-la a tirar o vestido. As roupas usadas na corte eram maís complicadas do que os trajes simples de sacerdotisa, e ela se sentia pouco à vontade, desajeitada. Ele gostaria dela? Seus seios pareciam flácidos e caídos, estavam assim desde o nascimento de Gwydion; lembrava-se de que, quando o rapaz os tocara pela primeira vez, eram pequenos e firmes.

Mas ele não parecia notar, acariciando-os, segurando os bicos entre os dedos e depoís, suavemente, entre os lábios e os dentes. Morgana perdeu totalmente a noção das coisas, nada existía no mundo, exceto as mãos que a tocavam, o pulsar da consciência de seus próprios dedos correndo pela firmeza dos ombros do homem, pelas suas costas, pela maciez dos pêlos, ali... havia pensado que os pêlos do peito de um homem deviam ser ásperos, mas os dele eram macios e acetinados como o cabelo dela, cerrado e anelado. Num deslumbramento, lembrou-se de que a primeira vez havia sido com um rapaz de menos de dezessete anos, que mal sabia o que fazer, e que tivera de orientá-lo, mostrar-lhe como... E havia sido a única vez, de modo que chegava quase virgem a Lancelote... Desejou, numa onda de sofrimento, que para ela fosse a primeira vez, e que pudesse lembrar-se de tudo aquilo como de uma coisa muito boa. Deveria ter sido assim, daquela maneira... Movimentou o corpo sob o de Lancelote, agarrando-se a ele, gemendo; não podia agüentar, agora, esperar por mais tempo...

Lancelote parecia não estar preparado, embora Morgana estivesse pronta, com o corpo pulsando de vida e desejo. Agarrou-o, faminta, com a boca ávida, convidativa. Murmurou seu nome, implorando, quase medrosa. Ele continuou a beijá-la suavemente, afagando-a e acalmando-a com as mãos, mas ela não queria ser acalmada, todo o seu corpo gritava pela conclusão, era a fome, a agonia. Tentou falar, implorar, mas tudo se resumiu num soluço.

Ele ainda a segurava junto de si, ainda a afagava:

- Calma, calma, não, Morgana, espere, não, eu não quero fazer-lhe mal, nem desonrá-la, nem pense nisso. Assim, fique deitada junto de mim, deixe-me abraçá-la, deixe-me satisfazê-la...

E, em desespero e confusão, permitiu-se fazer o que ele queria, mas, embora seu corpo gritasse de prazer, uma irritação curiosa crescia nela. E o fluxo de vida entre os dois corpos, macho e fêmea, as ondas da Deusa, que subiam e as forçavam? Compreendeu que ele estava fugindo daquela onda, que estava transformando o amor que ela sentia num jogo, num fingimento. Lancelote não parecia importar-se com isso, dava a impressão de pensar que assim devia ser, que ambos teriam prazer... como se nada importasse a não ser os corpos, como se não houvesse uma união maior com toda aquela força. Para a sacerdotisa criada em Avalon e sensível às grandes correntes da vida e da eternidade, esse ato amoroso cheio de cautelas, sensual, deliberado, parecia quase uma blasfêmia, uma recusa a se submeterem à vontade da Deusa.

E então, no meio da mistura de prazer e humilhação, começou a encontrar desculpas para ele. Não fora criado em Avalon, mas passara do lar adotivo para a corte, e desta para os campos militares; havia sido soldado quase toda a sua vida, passada em acampamentos; talvez não soubesse, ou talvez estivesse habítuado às mulheres que não lhe davam senão um momento de relaxamento para o corpo, ou mulheres que queriam apenas brincar de fazer amor, sem dar nada... Ele dissera: "Não quero fazer-lhe mal nem desonrá-la", como se realmente acreditasse que havia algum mal ou desonra naquela união. Satisfeito, ele se afastara um pouco, mas ainda a tocava, brincava com ela, passando os dedos pela fina penugem das coxas, beijando-a no pescoço e nos seios. Fechou os olhos, segurando-o, irritada e desolada... mas talvez fosse isso o que merecia; agira como uma prostituta procurando-o, e merecía ser tratada assim... E estava tão excitada que o deixara possuí-la daquela maneira, teria deixado que fizesse qualquer coisa, sabendo que se pedisse mais perderia até mesmo isso, e ansiava por ele, ainda tinha fome dele com uma dor intolerável que jamais seria satisfeita totalmente. E ele não a queria, realmente... Seu coração ainda ansiava por Gwenhwyfar, ou por alguma mulher que pudesse possuir sem contato maior do que esse encontro de peles sem maior significação... Uma mulher que se entregasse sem pedir nada mais do que prazer. Em meio à dor e à fome de seu amor, um leve sentimento de desprezo surgiu, e com isso a maior de todas as agonias - a de que não o amava menos, a de saber que sempre o amaria, tal como o amava naquele momento de fome e desespero.

Sentou-se, puxando o vestido e atando-o nos ombros com dedos trêmulos. Lancelote sentou-se também, em silêncio, estendendo a mão para ajudá-la a ajustar a roupa. Depois de um longo tempo, ele disse, arrependido:

- Agimos mal, minha Morgana, você e eu. Está com raiva de mim?

Ela não podia falar, tinha a garganta contraída de dor. Disse por fim, forçando a voz a formar as palavras:

- Não, com raiva, não. - Sentiu que ia levantar a voz e gritar, exigindo o que ele não podia lhe oferecer, e talvez a nenhuma mulher.

- Você é minha prima, minha parenta, mas não lhe fiz mal algum. - Sua voz ainda tremia. - Pelo menos, não poderia me sentir culpado disso... de tê-la desonrado perante toda a corte... Eu não faria isso nem em troca do mundo... Acredite, prima, eu gosto muito de você...

Morgana já não podia conter os soluços.

- Lancelote, imploro-lhe, em nome da Deusa, não fale assim. O que houve de mau? Estava de acordo com Ela, aquilo que ambos queríamos...

Ele teve um gesto de sofrimento:

- Você fala da Deusa, de coisas pagãs... Quase me faz medo, prima, quando eu quero manter-me livre do pecado e apesar disso voltei os olhos para você, com luxúria, sabendo que era um erro. - Apanhou as roupas com mãos trêmulas e, por fim, quase sufocou: - O pecado parece-me mais mortal, eu acho, do que é realmente. Eu gostaria que você não fosse tão parecida com minha mãe, Morgana..

Foi como um tapa no rosto, como um golpe traiçoeiro, cruel. Por um instante ela perdeu a fala. Depois parecia que toda a ira da Deusa a dominava, e viu-se levantar e crescer, sabendo que era o encantamento da Deusa que baixava, como acontecera na barca de Avalon. Embora pequena e insignificante, naquele momento ela se tornara maior do que Lancelote, e viu o cavaleiro poderoso, o capitão da cavalaria do rei, encolher-se, pequeno e assustado, como todos os homens ante a presença da Deusa.

- Você é... um desprezível idiota, Lancelote. Não merece sequer ser amaldiçoado!

Voltou-se e fugíu, deixando-o sentado ali, com a roupa ainda meio vestida, olhando-a com espanto e vergonha. Morgana sentia o coração bater. Metade dela queria gritar com Lancelote, a outra metade desejava chorar de agonia, de desespero, implorar o amor mais profundo que lhe fora negado por ele, que a rejeitara, recusando-se à Deusa que havia nela... Pensamentos fragmentados passaram-lhe pela cabeça, uma velha história da Deusa surpreendida e rejeitada por um homem e de como ele fora estraçalhado pelos cães que caçavam com ela... E sofria pelos seus sonhos de tantos anos, transformados agora em pó e cinzas.

Um padre diria que é a paga do pecado. Ouvi isso com muita freqüência, pelo padre de Igraine, antes de ter ido para Avalon. Serei, no coração, mais cristã do que acredito? E mais uma vez parecia-lhe que seu coração iria romper-se com o naufrágio e o desastre do seu amor.

Em Avalon, isso jamais teria acontecido. Os que se aproximavam da Deusa dessa forma jamais teriam se recusado ao seu poder... Andou de um lado para outro, enquanto o fogo do ódio lhe consumia as veias, sabendo que ninguém compreenderia como se sentia, exceto uma outra princesa da Deusa. Viviane, pensou com saudade. Viviane comreenderia, ou Raven, ou qualquer de nós, da Casa das Moças.. o que venho fazendo todos esses longos anos, longe de minha Deusa?

 

Morgana fala...

Três dias depois, tive permissão de Artur para deixar sua corte e voltar para Avalon. Disse apenas que estava com saudades da ilha e de Viviane, minha mãe adotiva. E durante aqueles dias não falei com Lancelote, exceto as palavras trocadas por cortesia todos os dias, quando não podiamos evitar um encontro. E mesmo assim, não deixei que nossos olhares se encontrassem; sentia-me envergonhada, irritada, e procurei de todas as formas não ficar frente a frente com ele.

Então, montei num cavalo e dirigi-me para o leste, pelas montanhas; e não voltei a Caerleon por muitos anos, nem tive notícias do que aconteceu na corte de Artur... mas essa história é para outra ocasião...

 

Capítulo 8

No verão do ano seguinte, os saxões começaram a concentrar-se ao largo do litoral, e Artur e seus homens passaram todo o ano organizando o exército para a batalha que sabiam inevitável. Artur comandou seus soldados na luta e expulsou os saxões, mas não travou a batalha, nem conquistou a vitória decisiva como esperava: o inimigo sofreu sérias perdas, e levaria mais de um ano para recuperar-se. Mas Artur já não dispunha de cavalos e homens suficientes para derrotá-lo de maneira decisiva e definitiva, como desejara. Naquela batalha, ferira-se, o que a princípío não pareceu ser coisa séria; mas a ferida infeccionou e inflamou, e teve de passar grande parte do outono na cama - os primeiros flocos de neve caíram sobre as muralhas de Caerleon, antes que ele pudesse andar um pouco pelo pátio, apoiado numa bengala, e as cicatrizes o acompanharam até o túmulo.

- Só em plena primavera é que poderei voltar a montar - observou ele, sombriamente, para Gwenhwyfar, que estava de pé junto ao muro do pátio, com o manto azul bem fechado.

- Talvez - duvidou Lancelote -, ou mais tempo ainda, meu caro senhor, se expuser ao frio a ferida antes que ela se feche totalmente. Entre, peço-lhe; veja, há neve no manto de Gwenhwyfar.

- E na sua barba, Lance. Ou serão os primeiros cabelos brancos? - perguntou Artur, brincando, e o outro riu.

- As duas coisas, creio. Mas nisso o meu rei tem uma vantagem sobre mim, pois sua barba é tão clara que os fios brancos não aparecerão, quando chegarem. Venha, apóie-se em meu braço.

Artur o teria mandado embora, mas Gwenhwyfar disse:

- Não, apóie-se no braço dele, Artur. Você estragará todo o nosso trabalho de cura, se cair. As pedras estão escorregadias, com esta neve que se derrete assim que toca o chão.

Artur suspìrou e tomou o braço do amigo.

- Agora, já seí como deve ser a velhice.

Gwenhwyfar aproximou-se, pegou-lhe o outro braço, e ele riu.

- Você me amará e me sustentará assim, quando eu estiver com as barbas brancas e quando precisar me apoiar numa bengala, como o Merlím?

- Até mesmo quando tiver noventa anos, meu senhor - respondeu Lancelote, rindo com ele. - Bem posso imaginar Gwenhwyfar segurando-o por um braço e eu pelo outro, enquanto damos nossos passos de velhos na direção do torno. Todos nós teremos noventa anos, ou quase! - De repente ficou sério: - Estou preocupado com Taliesin, senhor. Está enfraquecendo, e seus olhos estão falhando. Não acha que ele deveria voltar para Avalon e passar seus últimos dias em paz?

- Sem dúvida que sim - concordou Artur. - Mas ele não me deixará sozinho, tenho apenas padres como conselheiros...

- E que conselheiros melhores do que os padres poderia ter o meu senhor? - retrucou Gwenhwyfar. Irritava-se com a palavra ímpia "Avalon"; dava-lhe medo pensar que Artur jurara proteger aqueles costumes pagãos.

Entraram no salão, onde a lareira estava acesa, e Artur fez um gesto de aborrecimento quando Lancelote o encaminhou para sua cadeira.

- Ora, coloquem o velho junto do fogo e dêem-lhe sua papa. Estou espantado que me deixem usar sapatos e calças, em lugar de um roupão!

- Meu querído senhor - começou Gwenhwyfar, mas Lancelote colocou a mão em seu ombro.

- Não se irrite, prima, todos os homens são assim, rabugentos, quando estão doentes. Ele não sabe como está bem, sendo tratado por belas mulheres e com comidas caprichadas, roupa limpa e as papas que despreza... Eu fui ferido em campanha, fiquei aos cuidados de um velho que era manco demais para poder combater, e deitado em camisa porque não podia mudá-la e ninguém vinha me ajudar, tendo para comer apenas pão duro e um pouco de cerveja choca para molhá-lo. Pare de resmungar, Artur, ou eu farei que você trate de seu ferimento de modo masculino, como convém a um soldado de verdade!

- Ah, ele é bem capaz disso, também - disse Artur, com um sorriso afetuoso para o amigo. - Você não tem muito medo de seu rei, príncipe Galahad.

Tomou a colher de chifre da mão da mulher e começou a comer a mistura de vinho quente com pão e mel.

- Ah, isto é bom, e aquece. Tem especiarias, as mesmas que você me pediu que mandasse de Londinium...

Cai aproximou-se deles, quando Artur terminou, e disse:

- E então, como vai a ferida, depois de uma cami- nhada, meu senhor? Ainda sente muita dor?

- Não tanto quanto da última vez, é tudo o que posso dizer - respondeu Artur. - Foi a primeira vez que conheci o que era realmente o medo, medo de morrer sem terminar minha obra.

- Deus não o permitirá - desejou Gwenhwyfar.

Artur acariciou-lhe a mão.

- Eu mesmo me disse isso, mas uma voz dentro de mim gritou que era o grande pecado do orgulho, temer que eu ou qualquer outro homem não pudesse ser poupado daquilo que Deus quer que seja feito. Refleti muito sobre isso, enquanto estava incapacitado de me levantar.

- Não me parece que tenha ainda muita coisa a fazer, exceto a vitóría final contra os saxões, meu senhor - disse Cai. - Agora, porém, é necessário ir para a cama, pois está cansado com o passeio.

Quando Artur estava instalado novamente na cama, Cai tirou-lhe as roupas e examinou levemente a grande ferida que ainda purgava.

- Mandarei chamar as mulheres - disse Cai. - É necessário que se coloquem novamente roupas quentes sobre a ferida, porque ela foi forçada. Foi sorte não ter se aberto, enquanto caminhava.

Quando as mulheres trouxeram as chaleiras fumegantes, misturando as compressas de ervas e a água quente e colocando panos dobrados sobre a ferida, tão quentes que Artur pestanejou e gritou, Cai comentou:

- Mas você tem sorte, assim mesmo, Artur. Se a espada o tivesse atingido um pouco mais para o lado, Gwenhwyfar teria maiores razões de queixa, e você seria conhecido por toda parte como o rei castrado... como na velha lenda! Não conhece a história do rei ferido na coxa? A medida que seus poderes declinavam, declinava também a terra, até a vinda de um jovem que pôde torná-la novamente fértil...

Gwenhwyfar estremeceu, e Artur disse rispidamente, torcendo-se de dor, sob o calor da compressa:

- Isso não é história para se contar a um homem ferido!

- Pareceu-me que ela o faria mais consciente da sorte que teve, pois sua terra não definhará nem ficará estétil - tornou Cai. - Na Páscoa, ouso dizer, o ventre da rainha poderá estar novamente pejado, se forem afortunados...

- Que Deus o permita - desejou Artur, mas a mulher não pareceu satisfeita e afastou-se. Mais uma vez ela concebera, e mais uma vez tudo se perdera, tão depressa que mal percebeu que estivera grávida - seria sempre assim? Seria estéril, seria o castigo de Deus por não ter-se empenhado desde o início em fazer do marido um cristão melhor?

Uma das mulheres tirou a compressa e ia substituí-la, mas Artur estendeu a mão para Gwenhwyfar:

- Não, deixe a senhora fazer isso, as mãos dela são mais leves.

A rainha segurou a compressa fervente, tão quente que lhe queimou os dedos, mas recebeu a dor como uma penitência. Era sua culpa, tudo era sua culpa; ele a mandaria embora como estéril, e tomaria outra mulher que pudesse lhe dar um filho. Fora um erro casar-se com ela - já tinha dezoito anos e passara os seus anos mais frutíferos. Talvez...

Se pelo menos Morgana estivesse aqui, eu lhe imploraria aquele encantamento que poderia me tornar fértil...

- Parece-me agora que necessitamos das artes curativas de Morgana - disse ela. - A ferida de Artur não está sarando como devia, e Morgana é muito hábil nas artes da cura, como também a própria Senhora do Lago. Por que não mandamos uma mensagem a Avalon, pedindo que uma delas venha?

Cai franziu a testa:

- Não vejo necessidade disso. A ferida de Artur vai indo bem. Vi outras, muito piores, sararem totalmente.

- Mesmo assim, eu ficaria satisfeito de ver minha boa irmã. Ou minha amiga e benfeitora, a Senhora do Lago. Mas pelo que Morgana disse, não creio que as verei juntas...

- Mandarei uma mensagem a Avalon, pedindo a minha mãe que venha, se assim quiser, Artur.

Mas foi para Gwenhwyfar que ele se voltou, e seus olhos encontraram-se por um momento. Naqueles meses de enfermidade de Artur, Lancelote parecia estar sempre ao lado dela, e oferecia-lhe tal apoio que a rainha não saberia o que fazer, sem ele. Nos primeiros dias, quando nenhum dos dois acreditava que Artur viveria, Lancelote vigiara com ela, e o amor que demonstrava pelo amigo levara-a a envergonhar-se de seus pensamentos. Ele é primo de Artur, tal como Gawaine, está tão perto do trono quanto ele, é filho da irmã de Igraine. Se alguma coisa acontecer a Artur, ele será o rei de que precisamos... Nos velhos tempos, o rei era apenas o marido da rainha...

- Devemos, então, mandar chamar a senhora Viviane? - perguntou Gwenhwyfar.

- Só se você tiver o desejo de vê-la - respondeu Artur com um suspiro. - Parece-me, agora, que tudo do que preciso é uma dose maior daquela paciência que me foi aconselhada pelo bispo quando falei com ele da última vez. Deus foi realmente bom para mim, não me deixando inválido quando os saxões vieram da primeira vez. Se ele continuar a me proporcionar sua graça, poderei montar, quando eles voltarem. Gawaine está reunindo homens no norte, para Lot e Pellinore, não é?

- Sim - concordou Lancelote com uma risada. - Ele disse a Pellinore que o dragão terá de esperar até que tenhamos dado cabo dos saxões... Ele deve vir com todos os seus homens, quando o convocarmos. E Lot também virá, embora esteja ficando velho. Logicamente, não perderá qualquer oportunidade de que o reino ainda passe às mãos de seus filhos.

"E irá realmente, se eu não der um filho a Artur", pensou Gwenhwyfar. Parecia-lhe que todas as palavras, sobre qualquer coisa, eram como flechas dirigidas ao seu coração por ter falhado no primeiro dever de rainha. Artur gostava muito dela, poderiam ter sido felizes, se ela pudesse livrar-se, ainda que por um momento, da culpa de sua esterilidade.

Durante algum tempo, quase considerara o ferimento uma sorte, pois ele não podia pensar em deitar-se com mulher alguma, e as censuras diminuíram. Podia então cuidar dele, tratá-lo bem, tê-lo totalmente para si, como raras vezes acontecia às mulheres cujos maridos pertenciam não a elas, mas a um reino. Podia amá-lo, sem pensar sempre em sua culpa; quando Artur a tocava, podia pensar no amor deles, e não em seu medo e em sua esperança sem perspectivas. "Desta vez ele finalmente me engravidará; e se engravidar, será que tudo correrá bem, ou voltarei a frustrar a preciosa esperança do reino?" Ela se preocupara com Artur, tratara dele noite e dia, tal como fazem as mães com os filhos doentes; quando o marido começou a ficar novamente forte, sentou-se ao seu lado, conversou e cantou para ele - embora não tivesse a doce voz de Morgana - e preparou-lhe pratos que pudessem despertar o apetite de um homem doente, a fim de que engordasse, depois da terrível doença e do enfraquecimento sofrido em princípios do verão.

Mas de que vale todo o meu cuidado, se não dou um herdeiro ao seu reino?

- Eu gostaria também que Kevin estivesse aqui - desejou Artur -, para ouvir um pouco de música. Ou então Morgana, pois não temos bons menestréis na corte, agora!

- Kevin voltou para Avalon - informou Lancelote. - O Merlim me disse que ele foi atender a certos deveres sacerdotais ali, tão secretos que não podia contar mais nada. Espanta-me que os padres deixem esses mistérios druidas continuarem, num país cristão.

- Eu não mando na consciência do povo, seja rei ou não - sentenciou Artur, com um movimento de ombros.

- Deus deve ser adorado como ele quer, Artur, e não como querem os homens, e por isso nos mandou Cristo - retrucou Gwenhwyfar, asperamente.

- Mas ele não o mandou para esta terra - respondeu Artur -, e quando São José veio para Glastonbury e fincou na terra seu cajado e este floresceu, os druidas o saudaram e ele não se recusou a participar de seus cultos.

- O bispo Patrício é de opinião que essa história é herege, e má - insistiu Gwenhwyfar -, e que os padres que partilham com os druidas suas crenças deviam ser destituídos e expulsos, tal como ele expulsou os próprios druidas!

- Ele não fará isso durante meu reinado - foi a firme resposta de Artur. - Jurei proteger Avalon.

Sorriu e estendeu a mão para a grande espada Excalibur, pendurada na sua bainha vermelha.

- E você tem razões para ser grata a essa magia, Gwenhwyfar. Se eu não tivesse comigo essa bainha, nada poderia ter-me salvo. E mesmo assim, sangrei quase até a morte, e só a magia foi capaz de conter o sangue. Não acha que eu seria um ingrató se traísse a boa vontade deles?

- Você acredita nisso? - perguntou a rainha. - Colocaria as magias e as feitiçarias acima da vontade de Deus?

- Ora, minha querida - sorriu Artur, acariciando-lhe os cabelos louros -, você acha que o homem pode fazer alguma coisa que não seja da vontade de Deus? Se essa bainha realmente impediu que eu morresse, então foi porque a vontade de Deus era que eu não morresse mesmo. Parece-me que minha fé está mais próxima de Deus do que a sua, se você tem medo de que algum mago possa desfazer o que Ele quer. Estamos todos nas mãos de Deus.

Gwenhwyfar olhou rapidamente para Lancelote, em cujo rosto havia um sorríso. Pareceu-lhe por um momento ver nele um ar de zombaria, mas isso passou, e acreditou não ter sido mais do que uma impressão.

- Bem, se você quer música, Artur, Taliesin virá tocar, tenho certeza. Embora esteja velho e sua voz não seja boa, as mãos ainda têm grande destreza na harpa.

- Chame-o, então - ordenou Artur, e riu. - Dizem as Escrituras que o velho rei Saul mandou chamar seu jovem harpista para tocar e acalmá-lo, mas eu sou um rei jovem que precisa do seu velho harpista para melhorar-lhe o humor!

Lancelote saiu em busca do Merlim, e quando este chegou com o instrumento, sentaram-se no salão e por muito tempo ficaram ouvindo música.

Gwenhwyfar lembrou-se de Morgana, tocando ali. Se ela estivesse aqui, dar-me-ia um encantamento... mas não antes que o meu senhor se recupere... e em seguida, olhando para Lancelote, sentiu o corpo desfalecer. Ele estava sentado num banco, inclinado para trás e ouvindo a música, com as mãos colocadas atrás da cabeça e as pernas compridas estendidas em direção à lareira. Os outros homens e mulheres tinham-se aproximado, e Elaine, a filha de Pellinore, tivera a ousadia de sentar-se no banco junto de Lancelote, mas sem que lhe prestasse atenção.

Lancelote faria melhor em casar-se. Devo fazer um esforço e escrever ao rei Pellinore, para que lhe dê a mão de sua filha. Elaine é minha prima e se parece comigo; ela é um bom partido. Mas Gwenhwyfar sabia que não faria isso: disse a si mesma que podia esperar até o dia em que o próprio Lancelote se manifestasse a esse respeito.

Se Artur não se recuperar...

Ah, não, não, não posso pensar nunca nisso... Fez o sinal-da-cruz em segredo. Mas há muito Artur não a tomava nos braços, e parecía, de qualquer modo, que ele não conseguiria um filho com ela... Ficou pensando em como seria fazer amor com Lancelote - poderia ele dar-lhe o filho que desejava? E se fizesse dele seu amante? Sabia que certas mulheres agiam assim... Morgause não guardava segredo a esse respeito; agora que já não podia mais conceber, sua devassidão era tão escandalosa quanto a de Lot. Sentiu-se corar e esperou que ninguém tivesse visto o seu olhar para as mãos de Lancelote; ficou pensando qual seria a sensação ao ser acariciada por elas... Não, não ousava pensar nisso.

Quando as mulheres aceitavam amantes, deviam tomar cuidado para não ficar grávidas, a fim de não terem um filho que as desonrasse ou trouxesse a vergonha para seus maridos. Mas se ela era estéril, isso não teria importância... Seria a sua boa sorte. Em nome de Deus, como podia ela, uma mulher cristã e casta, ter tais pensamentos? Havia pensado nisso uma vez, e quando o revelou em confissão, o padre disse apenas ser normal que, com o marido doente há tanto tempo, seus pensamentos se voltassem para isso. Ela não devia sentir-se culpada, mas rezar muito, cuidar do marido e pensar apenas que isso era ainda mais difícil para ele. E Gwenhwyfar sabia que esse conselho era bom, sensato, mas sentiu que o padre não compreendera tudo, como era pecadora e como seus pensamentos eram maldosos. Porque se tivesse compreendido, sem dúvida a teria censurado e im- posto penitências pesadas. Ela teria se sentido melhor e mais livre, nesse caso...

Lancelote nunca a acusaria de ser estéril...

Deu-se conta de que alguém pronunciara seu nome, e levantou a cabeça, confusa, como se seus pensamentos estivessem sendo lidos por todos.

- Não, chega de música, meu caro Merlim - disse Artur. - Veja, está ficando escuro e minha rainha está dormindo sentada. Está cansada de cuidar de mim, provavelmente.. Cai, mande servir o jantar, mas eu vou para a cama, e ali provarei um pouco de carne.

Gwenhwyfar levantou-se, dirigiu-se a Elaine, e pediu-lhe que ocupasse seu lugar no salão: ficaria com o rei. Cai foi dar as ordens, e Lancelote ficou para ajudar Artur, enquanto este, apoiado na bengala, dirigiu-se mancando para seu quarto. Ajudou-o a instalar-se no leito tão cuidadosamente quanto um pajem.

- Se ele precisar de alguma coisa durante a noite, mande me chamar. Você sabe onde durmo - disse em voz baixa para Gwenhwyfar. - Posso levantá-lo com mais facilidade do que qualquer outra pessoa.

- Não, não creio que isso seja necessário agora - respondeu. - Muito obrigada, assim mesmo.

Junto dela, Lancelote parecia ainda mais alto; colocou delicadamente a mão em seu rosto.

- Se quiser ir dormir junto com suas damas, eu ficarei velando. Você está precisando de uma longa noite de sono ininterrupto. Parece uma mãe cuidadosa que só tem sossego quando o filho dorme a noite inteira sem se mexer. Eu tomarei conta de Artur, não há necessidade de você ficar ao lado dele, agora. Posso dormir aqui.

- Você é muito bondoso, mas eu prefiro ficar junto dele.

- Mas mande me chamar, se precisar. Não tente levantá-lo sozinha. Prometa-me, Gwenhwyfar.

Seu nome parecia tão suave nos lábios dele! Mais suave do que quando ele dizia "minha rainha" ou "minha senhora"!

- Prometo, meu amigo.

Ele inclinou-se e deu-lhe um beijo muito leve na testa.

- Você parece muito cansada. Vá para a cama e durma bem.

Sua mão ficou por um momento no rosto dela e, quando a retirou, Gwenhwyfar sentiu que sua face ficara fria e sem expressão. Finalmente, foi deitar-se ao lado de Artur.

Durante algum tempo, julgou que ele dormia. Mas por fim ouviu-lhe a voz, na escuridão:

- Ele tem sido um bom amigo, não é verdade?

- Nem mesmo um irmão poderia ser melhor,

- Cai e eu fomos criados como irmãos, e gosto muito dele, mas é certo o que dizem: o sangue é mais espesso do que a água, e os laços sanguíneos trazem uma proximidade que eu nunca imaginara até conhecer alguém do meu próprio sangue.

Artur mexeu-se na cama, sem encontrar posição, suspirando:

- Gwenhwyfar, há uma coisa que preciso dizer-lhe.

Ela teve medo, o coração bateu mais forte. Teria visto Lancelote beijá-la, acusá-la-ia de infidelidade?

- Prometa-me não chorar novamente, não posso suportar isso. Juro-lhe que não pretendo censurá-la, mas estamos casados há muitos anos e só duas vezes, até agora, você teve esperanças de um filho. Não, peço-lhe, não chore, deixe-me falar. Talvez a culpa não seja sua, mas minha. Tive outras mulheres, como todos os homens. Mas embora nunca procurasse esconder quem eu era, em todos esses anos nenhuma delas me procurou, nem seus parentes, para dizer que eu tinha um filho bastardo. Talvez seja a minha semente que não tem vida, de modo que, quando você concebe, a criança não chega nem mesmo a amadurecer...

Ela baixou o rosto, deixando a cortina de seus cabelos esconder-lhe a face. Estaria Artur também acusando a si mesmo?

- Gwenhwyfar, ouça-me. Deve haver um herdeiro para este reino. Se você me der, em qualquer momento, uma criança para ocupar o trono, pode ter certeza de que não farei perguntas. No que me concerne, qualquer filho que você tenha será reconhecido como meu, e criado como meu herdeiro.

O rubor de suas faces parecia querer explodir em chamas. Pensaria Artur que ela seria capaz de traí-lo?

- Nunca, eu nunca poderia fazer isso, meu senhor e rei...

- Você conhece os costumes de Avalon. Não, mulher, não me interrompa, deixe-me falar. Quando um homem e uma mulher se unem dessa maneira, diz-se até mesmo que a criança é filha de Deus. Gwenhwyfar, eu gostaria muito que Deus nos desse uma criança, não importa quem fosse o instrumento da vontade de Deus em procriá-la, você me en- tende? E se acontecesse que a vontade de Deus se fizesse por meio de alguém que é o meu mais caro amigo e o mais próximo dos parentes, eu o abençoaria, e à criança que nascesse. Não, não chore, não direi mais nada - concluiu Artur, estendendo os braços para envolvê-la e deixar que ela repousasse em seu ombro. - Eu não sou digno de um amor tão grande!

Pouco depois, ele adormeceu, mas Gwenhwyfar continuou acordada, enquanto as lágrimas lhe rolavam pelo rosto.

Ah, não, pensou ela. Meu querido amor, meu senhor, sou eu que não sou digna de seu amor, e agora você me dá permissão para trai-lo. De repente, pela primeira vez na vida, sentiu inveja de Artur e de Lancelote. Eram homens, tinham uma vida cheia, saíam pelo mundo e arriscavam a vida em batalhas, mas estavam livres daquelas decisões aterradoras.

Não importava o que ela fizesse, sempre que tinha de tomar uma decisão, por menor que fosse, quer fosse ela uma decisão importante como uma criança ou carne para o jantar, havia aquele peso em seu coração, o peso daquela decisão, da qual podia depender a sorte de reinos inteiros. Agora, a escolha era sua, e não simplesmente a vontade de Deus, de dar ou não um herdeiro ao reino. Um herdeiro que fosse do sangue de Uther Pendragon - ou mesmo que não fosse.

Como poderia ela, uma mulher, tomar tal decisão? Gwenhwyfar puxou a coberta de pele sobre a cabeça, enroscou-se como uma bola e permaneceu assim.

Ainda naquela noite, ficara sentada olhando para Lancelote, que ouvia o harpista, e esse pensamento infiltrara-se em sua cabeça. Amava-o há muito, mas começava então a perceber que o desejava; no fundo, não era melhor do que Morgause, que se comportava como uma prostituta, quando queria, com os cavaleiros do marido e até mesmo, como murmuravam escandalizados os faladores, com pajens ou servos bonitos. Artur era muito bom, e Gwenhwyfar gostava muito dele. Ali, em Caerleon, encontrara a segurança. Não seria bom se os moradores do castelo, e o povo à sua volta, começassem a falar mal dela, como faziam com Morgause.

Gwenhwyfar queria ser boa, manter a alma pura e a virtude intata, mas queria que essa virtude fosse conhecida de todos, que pensassem nela como uma rainha boa e sem mácula. Por exemplo, desconhecia qualquer coisa que pudesse depreciar Morgana, que vivera ao seu lado durante três anos, sendo, pelo que sabia, tão virtuosa quanto ela própria.

Mas dizia-se que Morgana era feiticeira por ter vivido em Avalon, por ter certa instrução e conhecer as ervas que curavam - por isso, pessoas da corte, e das proximidades do castelo, murmuravam sobre suas ligações com o povo das fadas e com o Diabo. E até ela mesma, Gwenhwyfar, por vezes não tinha certeza se o que tanta gente dizia podia ser totalmente falso. E no dia seguinte teria de enfrentar Lancelote e continuar com o seu trabalho ao lado de Artur, sabendo que este lhe dava permissão - como poderia olhar novamente o outro nos olhos? Ele tinha o sangue de Avalon, era filho da Senhora do Lago, talvez pudesse ler um pouco os pensamentos, talvez pudesse ver nos olhos dela o que estava pensando.

E então a ira, tão violenta que a assustou, dominou-lhe a corpo trêmulo como uma onda. Deitada ali, com raiva e medo, julgou que nunca mais ousaria sair novamente do castelo, temendo o que pudesse fazer então. Todas as mulheres da corte desejavam Lancelote - sim, até mesmo Morgana; notara como a cunhada o olhava, e por isso, quando certa vez Artur mencionara a possibilidade de os dois se casarem, ela ficara desolada; sem dúvida Lancelote consideraria Morgana ousada demais. E talvez eles tivessem brigado, pois observara que, nos últimos dias, antes de partir, Morgana conversara menos com ele do que habitualmente, e que não se olhavam.

Sim, sentia falta de Morgana... mas estava ao mesmo tempo satisfeita de que ela não tivesse permanecido na corte, e não mandaria um mensageiro a Tintagel para saber notícias dela, se lá estivesse. Imaginava-se repetindo-lhe tudo o que Artur acabara de dizer; morreria de vergonha e, ainda assim, suspeitava que a outra riria dela. Dir-lhe-ia que cabia a ela, Gwenhwyfar, decidir se tomava ou não Lancelote como amante. Ou talvez, até mesmo, que a decisão deveria caber a Lancelote.

E então ponderou, como se uma chama a atravessasse como o fogo do inferno, a possibilidade de oferecer-se a Lancelote e ser repudiada por ele. Nesse caso, certamente, morreria de vergonha. Não sabia como poderia voltar a encará-lo, ou a Artur, ou a qualquer das damas da corte, que jamais haviam sofrido uma tentação assim. Teria vergonha até mesmo de falar aos padres do assunto, pois ficariam sabendo, então, que Artur era menos cristão do que deveria ser. Como suportaria deixar a proteção daquelas paredes, ou mesmo daquele espaço, daquele quarto e daquela cama? Ali, nada de ruim poderia acontecer a ela ou a Artur.

Sentia-se um pouco mal. No dia seguinte diria às suas damas que não se sentia bem, e elas, como Lancelote, pensariam apenas que estava cansada de cuidar de Artur, dia e noite. Continuaria a ser, como sempre, uma rainha boa e virtuosa e uma mulher cristã. Não poderia pensar, nunca, em ser outra coisa. Artur estava transtornado com a ferida e com sua longa inatividade: era isso. Quando estivesse bom, não pensaria mais nisso, e, sem dúvida, ser-lhe-ia grato por não ter dado ouvidos à sua loucura, salvando-os de um pecado terrível.

Mas no momento em que mergulhava no sono, de cansaço, lembrou-se de algo que uma de suas damas dissera, há muito tempo, poucos dias antes da partida de Morgana: que esta devia dar-lhe um encantamento... Bem, devia realmente. Se Morgana a enfeitiçasse de tal modo que não lhe restasse outra escolha senão amar Lancelote, então estaria livre daquela terrível necessidade de optar... Quando Morgana voltar, pensou, falarei com ela. Mas Morgana estava longe da corte já havia quase dois anos, e bem poderia não voltar mais.

 

Capítulo 9

Estou ficando velha demais para essas viagens, pensou Viviane, enquanto cavalgava em meio à chuva de fim do inverno, de cabeça baixa, envolta num manto bem fechado.

E o ressentimento tomou conta dela. Esta tarefa devia caber agora a Morgana, e ela é quem devia ser a Senhora, depois de mim, em Avalon.

Taliesin dissera-lhe, há quatro anos, que Morgana estava presente ao casamento de Artur em Caerleon, e ali ficara para servir entre as damas de Gwenhwyfar. A Senhora do Lago, servidora de uma rainha? Como ousava Morgana esquecer o seu verdadeiro caminho? E ainda assim, quando enviou uma mensagem a Caerleon para que ela retornasse a Avalon, o mensageiro voltou dizendo que a moça havia deixado a corte... tendo ido, ao que parecia, para Avalon.

Mas ela não está em Avalon. Nem em Tintagel com

Igraine, nem na corte de Lot, em Orkney. Para onde, então, terá ido?

Alguma coisa má poderia ter-lhe acontecido em suas viagens solitárias. Poderia ter sido aprisionada pelas quadrilhas de assaltantes ou de homens sem senhores que infestavam o interior - poderia ter perdido a memória, ou ter sido estuprada, assassinada, lançada em alguma vala onde seus ossos jamais seriam encontrados. Ah, não, pensou Viviane, se ela tivesse sofrido alguma desgraça, sem dúvida eu teria visto no espelho... ou com a Visão.

Mas não podia ter certeza. A Visão agora era incerta, e muitas vezes, quando tentava ver o além, apenas uma névoa enlouquecedora surgia ante seus olhos, o véu do desconhecido que ela não ousava tentar penetrar. E a sorte de Morgana estava escondida dentro daquele véu.

Deusa, rezou ela, como já fizera tantas vezes antes, Mãe, consagrei-vos minha vida, trazei de volta minha menina para mim, enguanto eu ainda estiver viva... e, mesmo ao falar, sabia que não teria resposta, apenas a chuva cinzenta como o véu do desconhecido, a resposta da Deusa oculta no céu imóvel.

Teria sentido tanto cansaço, da última vez que fizera tal viagem, seis meses atrás? Parecia-lhe que antes cavalgava com a facilidade de uma moça; agora, as sacudidelas do burrinho machucavam todos os ossos de seu corpo magro e o frio penetrava o manto e a mordia como pequenos dentes gelados.

Um de seus acompanhantes voltou-se e disse:

- Senhora, posso ver a casa lá embaixo. Chegaremos antes do anoitecer, creio.

Viviane agradeceu ao homem, procurando não deixar transparecer a satisfação que sentia. Não podia demonstrar fraqueza diante de seus acompanhantes.

Gawan foi ao seu encontro no estreito pátio, enquanto ela desmontava do burro, amparando-a para que não pisasse no estrume.

- Bem-vinda, Senhora - disse ele. - Como sempre, tenho prazer em vê-la. Meu filho Balim e seu filho chegarão no máximo até amanhã. Mandei uma mensagem a Caerleon, para que viessem.

- É tão grave assim, velho amigo? - perguntou Viviane, e Gawan concordou com um aceno de cabeça.

- A senhora dificilmente a reconhecerá. Ela está muito acabada, agora, e se come ou bebe alguma coisa, por pouco que seja, é como se um fogo lhe queimasse as entranhas. Não poderá resistir muito, apesar de todos os seus remédios.

- Eu temia isso - expressou Viviane, com um gesto de cabeça, suspirando. - Quando essa doença toma conta de alguém, não o deixa mais escapar. Talvez eu possa minorar-lhe um pouco o sofrimento.

- Que Deus o permita, pois os remédios que deixou quando esteve aqui da última vez de pouco servem agora. Ela acorda e grita durante a noite como uma criança, quando pensa que eu e as servas podemos não ouvi-la. Já não tenho sequer ânimo de orar e pedir que tais sofrimentos lhe sejam poupados, Senhora.

Viviane suspirou novamente. Da última vez que ali estivera, seis meses antes, deixara as drogas e os remédios mais fortes, desejando no fundo que Priscila contraísse a febre no outono e morresse rapidamente, antes que cessassem os efeitos dos paliativos. Não podia fazer nada, agora. Gawan levou-a para a casa, instalou-a em frente ao fogo, e uma serva preparou-lhe um caneco de sopa quente, tirada de um caldeirão que fumegava perto da lareira.

- A senhora viajou muito na chuva - disse Gawan. - Sente-se e descanse. Poderá ver minha mulher depois da refeição da noite. As vezes, ela dorme um pouco, a esta hora do dia.

- Se ela pode repousar, mesmo um pouco, isso é uma bênção, e não a perturbarei! - comentou Viviane, envolvendo com as mãos pequenas o caneco de sopa, procurando instalar-se melhor no banco sem encosto. Uma das servas tirou-lhe as botas e o manto, outra surgiu com uma toalha quente para secar-lhe os pés, e Viviane, afastando as saias para que seus pés magros pudessem se aquecer mais, descansou por um momento, confortável e despreocupada, esquecendo sua triste missão. Depois, ouviu-se um grito agudo, vindo de um dos aposentos interiores, e a serva teve um sobressalto, dizendo:

- É a senhora, coitada. Deve ter acordado. Tinha esperanças de que ela dormisse até que tivéssemos servido a refeição da noite. Tenho de ir vê-la.

- Eu também vou - e Viviane acompanhou a mulher até o aposento interior. Gawan ficou sentado junto ao fogo, tendo no rosto uma expressão de medo, enquanto o grito agudo ia desaparecendo.

Desde que Priscila adoecera, quando Viviane a visitava encontrava ainda nela traços de grande beleza, alguma semelhança com a bela jovem que criara seu filho Balam. Agora, o rosto, os lábios e o cabelo sem brilho tinham quase todos a mesma tonalidade de um amarelo acinzentado, e até mesmo os olhos azuis pareciam desbotados, como se a doença tivesse sugado toda sua cor. Da última vez, Priscila ainda conseguia levantar-se e permanecer de pé uma parte do dia; agora, estava de cama havia vários meses... meio ano transformara-a muito. Como sempre acontecia, os remédios e as ervas de Viviane proporcionavam-lhe melhora e uma recuperação parcial. Agora, era tarde demais para qualquer ajuda.

Por um momento, os olhos sem brilho percorreram o quarto sem fixar-se, os lábios moviam-se de leve no maxilar , que parecia entrar-lhe pela boca. Viu, então, Viviane, pestanejou, e disse num fio de voz:

- É você, Viviane?

A Senhora do Lago colocou-se junto dela e pegou-lhe com cuidado a mão emaciada:

- Sinto muito vê-la tão doente! O que tem sentido, minha cara amiga?

Os lábios sem cor e rachados contraíram-se numa careta que Viviane, por um instante, julgou ser uma contração provocada pela dor, até compreender que era um sorriso.

- Não creio que pudesse estar pior - murmurou a enferma. - Acho que Deus e sua Mãe esqueceram-se de mim. Mas estou contente em vê-la outra vez, e espero viver o bastante para rever ainda uma vez os meus queridos filhos e abençoá-los...

Deu um suspiro cansado e procurou mexer um pouco o corpo.

- Minhas costas doem muito por ter de permanecer deitada, mas quando me tocam, é como se me enfiassem facas. Estou com sede e não ouso beber água, com medo da dor...

- Vou tentar reconfortá-la um pouco - prometeu Viviane, e, dizendo aos servos o que desejava, limpou os ferimentos resultantes do longo tempo na cama e lavou a boca de Priscila com uma loção refrescante, de modo que, mesmo não tendo bebido água, não teria a língua tão ressecada. Sentou-se depois junto dela, segurando-lhe a mão, sem perturbá-la com conversas. Um pouco depois do escurecer, houve um barulho no pátio, e Priscila, acordando novamente, com os olhos febris à luz da lâmpada, exclamou:

- São os meus filhos!

E realmente, pouco depois, Balam e seu irmão de criação, Balim, filho de Gawan, entravam no quarto, inclinando-se devido ao teto baixo.

- Mãe - disse Balam, inclinando-se para beijar a mão de Priscila, e depois voltando-se para Viviane e fazendo-lhe uma reverência. - Minha Senhora.

Viviane estendeu o braço e tocou o rosto de seu filho mais velho. Não era tão belo quanto Lancelote; era corpulento e deselegante, mas tinha olhos negros e bonitos como os seus, ou como os do irmão. Balim era menor, um homem forte, de olhos cinzentos. Tinha apenas dez dias mais do que seu filho, Viviane sabia. Parecia-se com a Priscila de outrora, de cabelos louros e faces coradas.

- Minha pobre mãe - murmurou, afagando-lhe a mão. - Agora a senhora Viviane veio ajudar você, e dentro em pouco estará melhor, não é? Mas está tão magra, mãe, deve procurar comer mais para ficar novamente forte e curada...

- Não - murmurou ela. - Não voltarei a ficar forte enquanto não estiver com Jesus no céu, meu querido filho.

- Ah, não, mãe, você não deve dizer isso... - exclamou Balim, e Balam, encontrando o olhar de Viviane, suspirou. Disse então, numa voz tão baixa que nem Priscila, nem seu filho, puderam ouvir:

- Ele não compreende que ela está morrendo, minha senhora... minha mãe. Sempre insistiu em que ela pode ficar boa. Eu havia realmente esperado que ela se fosse no outono, quando todos apanhamos a febre, mas sempre foi tão forte...

Balam sacudiu a cabeça, e seu pescoço grosso estava congestionado. Viviane notou que havia lágrimas em seus olhos, mas ele enxugou-as rapidamente. Pouco depois, Viviane disse que deviam sair todos e deixar a enferma repousar mais um pouco.

- Diga adeus aos seus filhos, Priscila, e abençoe-os.

Os olhos dela brilharam um pouco:

- Gostaria que fosse realmente um adeus, antes que eu fique ainda pior. Preferia que não me vissem como eu estava hoje pela manhã - murmurou, e Viviane viu o terror em seus olhos. Inclinou-se para ela, dizendo-lhe carinhosamente:

- Acho que posso prometer-lhe que não sofrerá mais, minha cara, se é assim que deseja terminar.

- Por favor - pediu Priscila, e Viviane sentiu que suas palavras eram reforçadas pela pressão de sua mão, magra como uma garra.

- Vou deixá-la aqui com seus filhos, então, pois ambos são seus filhos, minha querida, muito embora você só tenha dado à luz um deles.

Dirigiu-se ao outro aposento, onde encontrou Gawan.

- Tragam minhas mochilas - ordenou aos servos, e quando estas chegaram pôs-se a procurar alguma coisa. Depois, voltou-se para Gawan: - Ela agora está tranqüila, mas não posso fazer mais nada, exceto acabar com seu sofrimento. Creio que é esse o seu desejo.

- Não há esperança, então? Nenhuma?

- Não. Para ela, não haverá senão sofrimento, e não posso imaginar que o Deus de vocês deseje que sofra ainda mais.

- Ela disse várias vezes... que queria ter a coragem de atirar-se ao rio enquanto ainda podia andar até lá...

- É chegado, portanto, o momento de que se vá em paz - disse Viviane, suavemente. - Mas quero que saiba que tudo o que eu fizer estará de acordo com a vontade dela.

- Viviane - respondeu Gawan -, sempre a amamos profundamente e confiamos em você. Se seus sofrimentos terminarem aqui, sei que ela a abençoará.

O rosto dele estava marcado pela dor. Acompanhou Viviane de volta ao quarto interior. Priscila conversava tranqüilamente com Balim e largou-lhe a mão. O moço dirigiu-se, chorando, para junto do pai. Priscila estendeu a mão magra para Balam e disse, numa voz frágil:

- Você tem sido um bom filho. Sempre cuidou de seu irmão de criação, e peço-lhe que reze pela minha alma.

- Rezarei, minha mãe - prometeu Balam, ínclinando-se para abraçá-la, mas Priscíla deu um pequeno grito de dor e medo quando ele se aproximou. Balam limitou-se, apenas, a segurar-lhe a mão descarnada e apertá-la na sua.

- Já tenho o remédio para você, Príscila - disse Viviane. - Diga boa-noite e durma...

- Estou tão cansada - murmurou a agonizante. - Ficarei muito feliz de poder dormir... Deus a abençoe, Senhora, e a sua Deusa também...

- Em nome dela, que é misericordiosa - murmurou Viviane, levantando a cabeça de Priscila para que pudesse engolir.

- Tenho medo de engolir. É amargo e sempre que tomo alguma coisa, sinto dor...

- Juro-lhe, minha irmã, que quando você tiver tomado isto, não sentirá mais dores - prometeu Viviane, com segurança, e chegou-lhe a taça aos lábios. Priscila engoliu, e levantou a mão débil para tocar-lhe o rosto.

- Dê-me também um beijo de despedida, Senhora - pediu, repetindo o seu sorriso fantasmagórico. Viviane pressionou os lábios contra sua testa, que parecia um crânio descarnado.

Eu dei a vida e agora venho como mensageira da morte... Mãe, faço por ela aquilo que gostaria que alguém fizesse por mim, algum dia, pensou, e estremeceu, levantando os olhos para seguir o olhar interrogador de Balim.

- Venha - disse-lhe. - Deixemos que ela descanse.

Passaram ao outro aposento. Gawan ficou para trás, segurando a mão da esposa. Era bom, pensou Viviane, que ele ficasse junto dela.

As servas haviam preparado a refeição da noite, e Viviane, dirigindo-se ao seu lugar, comeu e bebeu, pois sentia-se cansada da longa viagem.

- Vocês vieram da corte de Artur em Caerleon até aqui em um dia, rapazes? - perguntou, sorrindo em seguida: os "rapazes" eram homens!

- Sim, desde Caerleon - respondeu Balam -, e foi uma viagem horrível, com frio e chuva! - Serviu-se de peixe salgado e passou manteiga no pão. Depois, estendeu o prato de madeira a Balim. - Você não está comendo, irmão.

Balim estremeceu:

- Não tenho ânimo de comer quando nossa mãe está nessas condições. Mas, graças a Deus, a Senhora veio, e ela vai melhorar dentro em pouco, não é mesmo? Seus remédios lhe fizeram tanto bem da última vez, foi um verdadeiro milagre. Agora ela vai melhorar, não é?

Viviane olhou para ele: seria possível que não compreendesse? Disse, com tranqüilidade:

- O melhor fim, para ela, seria ir agora ao encontro de seu Deus na outra vida, Balim.

Ele olhou-a com o rosto conturbado:

- Não! Ela não pode morrer! - exclamou. - Senhora, diga-me que vai ajudá-la, que não deixará que morra...

- Não sou o seu Deus, e a vida e a morte não dependem de mim - explicou Viviane, seriamente. - Você prefere que ela continue nesse sofrimento por muito mais tempo, Balim?

- Mas a Senhora conhece todas as artes da magia - protestou ele, com raiva. - Por que vem aqui, então, se não a pode curar? Ainda há pouco, ouvi-a dizer que podia pôr fim ao sofrimento de minha mãe...

- Só há uma cura para o sofrimento de sua mãe - respondeu Viviane, colocando, compadecida, a mão no ombro de Balim. - E é uma cura misericordiosa.

- Chega, Balim - disse Balam, colocando a mão grande e calejada sobre a mão do irmão de criação. - Você realmente prefere que ela continue a sofrer?

Mas Balim ergueu violentamente a cabeça e olhou para Viviane:

- Então a Senhora usou a sua feitiçaria para curá-la, quando interessava a sua Deusa maligna - gritou - e agora, quando já não pode fazer mais nada por ela, quer deixá-la morrer...

- Cale-se, homem - ordenou Balam, e sua voz era rouca e tensa. - Você não viu, nossa mãe a abençoou e deu-lhe um beijo de despedida, era o que ela queria...

Mas Balim continuava olhando para Viviane e levantou a mão como se fosse golpeá-la. - Judas! - gritou. - A Senhora também traiu com um beijo... - Voltou-se, e correu para o quarto da mãe: - O que fez? Assassina! Maldita assassina! Pai, pai! É um crime e uma feitiçaria...

Gawan, com o rosto branco, surgiu na porta do quarto, fazendo gestos desesperados para pedir silêncio, mas Balim empurrou-o e entrou apressadamente no aposento. Viviane seguiu-o, e viu que Gawan fechara os olhos da morta. Balim também o percebeu e voltou-se para ela, gritando de maneira incoerente:

- Assassinato! Traição, bruxaria! Bruxa assassina!

Gawan segurou o filho.

- Você não pode falar assim com alguém que sua mãe amava, e sobre o corpo dela!

Mas Balim agitava-se e gritava, tentando alcançar Viviane. Ela procurou falar, para acalmá-lo, mas ele não a ouvia. Por fim, foi para a cozinha e sentou-se junto do fogo. Balam aproximou-se, tomou-lhe as mãos e disse:

- Sinto muito que ele tenha reagido dessa maneira, Senhora. Ele não sabe o que diz, e quando o choque tiver passado ficará tão agradecido quanto eu. Pobre mãezinha, sofreu tanto, mas agora tudo acabou, e devemo-lhe isso - baixou a cabeça, tentando não soluçar. - Ela foi uma verdadeira mãe para mim também...

- Eu sei, meu filho, eu sei - murmurou Viviane, afagando-lhe a cabeça como se ele fosse o menino desajeitado de há mais de vinte anos. - Você deve chorar por sua mãe adotiva, e seria um insensível, se não o fizesse.

Balam não resistiu mais e soluçou, ajoelhado ao lado de Viviane e com o rosto escondido em seu colo.

Balim apareceu e inclinou-se para eles, com o rosto deformado pela fúria.

- Você sabe que ela matou nossa mãe, Balam, e vem buscar consolo com ela?

Balam levantou a cabeça, procurando sufocar os soluços:

- Ela fez-lhe a vontade. Será que você não compreende?... Mesmo com a ajuda de Deus, nossa mãe não teria vivido mais quinze dias, e você não queria que esse sofrimento lhe fosse poupado?

Mas Balim continuava a gritar, desolado:

- Minha mãe, minha mãe está morta!

- Cale-se, ela era minha mãe adotiva, minha mãe também - gritou Balam com raiva. Mas logo em seguida seu rosto descontraiu-se: - Ah, irmão, meu irmão, também eu sofro, por que vamos brigar? Vamos, tome um pouco de vinho, o sofrimento dela terminou, está agora com Deus. É melhor que rezemos por ela do que ficar brigando assim. Vamos, irmão, venha comer e descansar, você também está cansado.

- Não! - gritou Balim. - Não descansarei sob o teto que abriga essa bruxa imunda que matou minha mãe!

Gawan entrou, pálido e com raiva, e deu um tapa na boca de Balim, ao mesmo tempo que exclamava:

- Paz! A Senhora de Avalon é nossa hóspede e nossa amiga! Você não conspurcará a hospitalidade deste teto com essas palavras blasfemas! Sente-se, meu filho, e coma, para não dizer tolices que todos tenhamos de lamentar!

Balim, porém, olhava à sua volta como um animal selvagem.

- Não comerei nem descansarei sob este teto enquanto ele abrigar... aquela mulher.

- Você ousa insultar minha mãe? - perguntou Balam.

- Vocês todos estão contra mim! - gritou Balim. - Portanto, deixarei este teto que abriga a assassina de minha mãe!

Voltou as costas e saiu correndo da casa. Viviane afundou-se numa cadeira, enquanto Balam oferecia-lhe o seu braço, e Gawan, um copo de vinho.

- Beba, Senhora, e aceite minhas desculpas pelo meu filho. Está fora de si; dentro em pouco voltará ao normal.

- Devo ir atrás dele, pai, para que não cometa alguma imprudência? - perguntou Balam, mas Gawan sacudiu a cabeça.

- Não, filho, fique aqui com sua mãe. As palavras não lhe serão muito úteis, neste momento.

Trêmula, Viviane provou o vinho. Também ela estava triste com a morte de Priscila e recordava-se da época em que ambas eram jovens, cada qual com seu filho nos braços... Priscila fora tão bonita e alegre, haviam rido e brincado juntas com seus filhos, e agora ela estava morta, depois de uma enfermidade devastadora, e fora a mão de Viviane que lhe oferecera a taça da morte. O fato de lhe ter feito a vontade apenas deixava livre a sua consciência, mas não diminuía o pesar que sentia.

Passamos nossa juventude juntas, e agora ela está morta, eu estou velha, velha como a própria imagem da morte. E daqueles meninos encantadores que brincavam aos nossos pés, um já tem cabelos brancos, e o outro me mataria se pudesse, como uma bruxa e assassina... Parecia a Viviane que seus ossos tremiam com uma dor gelada. Estava perto do fogo, mas ainda assim não conseguia aquecer-se. Aconchegou mais o xale, e Balam levou-a para a melhor cadeira, colocou uma almofada às suas costas e deu-lhe um copo de vinho aquecido.

- Ah, também a Senhora a amava. Não se preocupe com o que Balim disse; ele recobrará a razão com o tempo. Quando dominar novamente seu pensamento, saberá que seu gesto constituiu uma grande bondade para nossa mãe... - Interrompeu-se, enquanto a vermelhidão lhe subia lentamente ao rosto. - Está aborrecida, Senhora, por eu considerar como minha mãe aquela que acabou de morrer?

- Não, você está certo - respondeu Viviane, tomando o vinho quente e afagando a mão endurecida de seu filho, que outrora havia sido tão macia e pequena que podia cobri-la com a sua própria, como um botão de rosa. Agora, era a sua mão que se perdia na dele. - A Deusa sabe que ela foi mais mãe para você do que eu.

- Ah, eu sabia que a Senhora compreenderia. Morgana me disse a mesma coisa quando a vi pela última vez na corte de Artur.

- Morgana? Está ela na corte de Artur, agora, meu filho? Estava lá, quando você partiu?

Balam fez um aceno negativo com a cabeça, lamentando-se:

- Não. Eu a vi pela última vez... há anos, Senhora. Ela deixou a corte de Artur, deixe-me ver... foi antes que o rei sofresse aquele grande ferimento... sim, no próximo solstício de verão completam-se três anos. Pensei que estivesse com a Senhora, em Avalon.

Viviane acenou com a cabeça e agarrou-se ao braço da cadeira de espaldar alto.

- Não vejo Morgana desde o casamento de Artur. - Pensou então, que ela talvez tivesse viajado para outros países e perguntou a Balam:

- E o seu irmão, Lancelote?  Está na corte, ou voltou para a Bretanha Menor?

- Ele não deixará a corte, enquanto Artur for vivo, creio - informou Balam. - Embora ultimamente ele tenha estado ausente com freqüência...

Viviane, com um fragmento da Visão, ouviu as palavras que Balam não disse, pois não queria divulgar mexericos escandalosos: Quando Lancelote está na corte, os homens observam como ele nunca tira os olhos da rainha Gwenhwyfar, e por duas vezes rejeitou um casamento que lhe foi proposto por Artur. Balam prosseguiu, apressadamente:

- Lancelote disse que colocará tudo em ordem no reino de Artur, e por isso está sempre indo de um lugar para outro, e já matou mais bandidos do que qualquer outro dos Companheiros do rei. Dizem que, sozinho, ele vale por toda uma legião, Senhora... - Balam ergueu a cabeça e olhou com mágoa para Viviane. - Seu filho mais novo, Senhora, é um grande cavaleiro, um cavaleiro como os do velho Alexandre das lendas. Há quem diga ser melhor do que o próprio Artur. Eu não lhe trouxe essa honra, Senhora.

- Nós todos fazemos aquilo a que Deus nos destinou, meu filho - sorriu Viviane, docemente. - Sinto-me contente ao ver que você não alimenta sentimentos rancorosos em relação a seu irmão, por ser ele melhor cavaleiro.

Balam sacudiu a cabeça.

- Ora, isso seria como querer mal a Artur por não ser eu o rei, minha mãe. E Lancelote é modesto e bom para todos, e religioso como uma moça. Não sabe que ele se tornou cristão, Senhora?

Viviane sacudiu a cabeça.

- Não me surpreende - disse, com um leve desprezo que não percebera em sua voz, até que falou. - Seu irmão sempre teve medo das coisas que não pode compreender, e a fé de Cristo é bem adequada para escravos que se consideram pecadores e humildes... - Fez uma pausa, e disse: - Desculpe, meu filho. Não pretendi menoscabar. Sei que é também a sua crença.

Balam pestanejou e sorriu.

- Realmente, acaba de acontecer um mìlagre, Senhora: que tenha pedido desculpas por alguma coisa!

Viviane mordeu o lábio:

- É assim realmente que me vê, meu filho?

Ele fez que sim com a cabeça.

- Ah, você sempre me pareceu a mais orgulhosa das mulheres, e acho certo que fosse exatamente como era - disse Balam. E Viviane não pôde deixar de pensar, zombando de si mesma, que havia chegado a isso, a buscar a aprovação de seu filho! Procurou alguma outra coisa sobre a qual falar.

- Você disse que Lancelote recusou-se a casar, e por duas vezes? O que pensa que ele está esperando? Será que está mais interessado num dote maior do que o oferecido por qualquer moça?

E mais uma vez, julgou ouvir os pensamentos que Balam não dizia em voz alta: Ele não pode ter aquela que queria, pois ela está casada com o seu rei... Mas Balam disse:

- Ele diz que não está pensando em casar-se com ninguém, e faz brincadeira, afirmando que gosta mais de seu cavalo que de qualquer mulher que não possa acompanhá-lo nos combates. Diz, brincando, que algum dia tomará como esposa alguma das guerreiras saxônias. Ninguém consegue superá-lo nas armas, nem nos torneios que Artur realiza em Caerleon. Por vezes, ele aceita lutar em desvantagem, sem um escudo, ou troca de cavalos com o adversário, para que não tenha muita vantagem. Balim desafiou-o certa vez e ganhou uma corrida com ele, mas recusou o prêmío, pois descobriu que a sela de Lancelote havia se soltado.

- Então Balim também é cortesão e bom cavaleiro?

- Ah, sim, mãe, não deve julgar meu irmão pelo que aconteceu hoje. Quando disputou uma corrida com Lancelote, eu não sabia a quem devia preferir. Lancelote ofereceu-lhe o prêmio, dizendo que ele o havia conquistado com justiça, pois não poderia ter perdido o controle de seu cavalo; foi o que disse! Mas Balim não aceitou, e ficaram discutindo como dois heróis das histórias antigas que Taliesin costumava contar-nos quando éramos pequenos.

- Então você pode orgulhar-se de seus dois irmãos! - concluiu Viviane, e a conversa desviou-se para outras coisas. Pouco depois, levantou-se para ajudar a preparar a morta. Quando passou ao quarto desta, percebeu, porém, que as mulheres todas a temiam, e que lá também estava um padre, da aldeia. Recebeu-a bem, mas, pelas suas palavras, Viviane percebeu que pensava ser ela uma das irmãs de um convento próximo - na verdade, suas escuras roupas de viagem davam-lhe essa aparência, e Viviane não tinha vontade de discutir com ele, naquela noite. Assim, quando a convidaram a ocupar a melhor cama de hóspedes, ela aceitou, e finalmente dormiu. Mas tudo o que conversara com Balam parecia-lhe vir à mente, em seus sonhos, e por um momento pareceu-lhe ver Morgana em meio à névoa cinzenta e pouco densa, correndo por uma floresta de árvores estranhas, coroada de flores que não havia em Avalon. Viviane dizia no sonho, e repetiu ao acordar, que não podia esperar mais, que tinha de procurar vê-la com a Visão, ou com o que restava dela.

Na manhâ seguinte compareceu ao enterro de Priscila. Balim voltou e ficou chorando junto da sepultura. Quando o enterro terminou e as outras pessoas entraram na casa para beber cerveja, aproximou-se dele e propôs, delicadamente:

- Não quer abraçar-me e trocar perdão comigo, meu filho? Acredite, eu partilho de sua dor. Fomos amigas durante toda a nossa vida, Priscila e eu, pois do contrário, como lhe teria eu dado meu próprio filho para criar? Eu sou a mãe de seu irmão de criação.

Estendeu-lhe os braços, mas o rosto de Balim permaneceu frio e fechado; ele voltou-lhe as costas e afastou-se.

Gawan convidou-a a ficar por mais um dia ou dois, para descansar, mas Viviane pediu que lhe trouxessem seu burro. Tinha de voltar para Avalon, disse. Gawan, embora sua hospitalidade fosse sincera, ficou aliviado - se alguém informasse ao padre quem era ela, poderia haver constrangimentos que não desejava, na festa fúnebre de sua mulher. Também Balam perguntou:

- Permite que a acompanhe até Avalon, Senhora? Costuma haver assaltantes e malfeitores pelas estradas.

- Não - respondeu ela, estendendo-lhe a mão com um sorriso. - Não tenho ar de quem leva ouro, e os homens que me acompanham são das tribos; poderíamos esconder-nos nos montes, se fôssemos atacados. E eu não represento nenhuma tentação para um homem que esteja atrás de uma mulher. - Riu, e acrescentou: - E com Lancelote empenhado em acabar com todos os bandidos deste país, tudo voltará dentro em breve ao que se diz que era antes, e uma virgem de quinze anos, carregando uma bolsa de ouro, poderá ir de um extremo da ilha ao outro sem que ninguém a ataque! Fique aqui, meu filho, chorando a sua mãe, e faça as pazes com seu irmão de criação. Não brigue com ele por minha causa, Balam.

Teve um estremecimento, como se sentisse frio, pareceu-lhe ouvir o tinir de espadas, e ver seu filho sangrando, com uma grande ferida...

- O que foi, Senhora? - perguntou Balam.

- Nada, meu filho. Prometa-me apenas que não brigará com seu irmão Balim.

Ele baixou a cabeça.

- Não brigarei, mãe. E direi a ele quais foram as suas palavras, para que saiba que não ficou aborrecida.

- Pela Deusa, não estou - afirmou Viviane, mas ainda sentia um frio gelado, apesar do sol de inverno lhe aquecer as costas. - Que ela o abençoe, meu filho, ao seu irmão também, embora eu acredite que ele não deseja a bênção de nenhum outro deus que não seja o seu. Você aceita a bênção da Deusa, Balam?

- Aceito - respondeu, inclinando-se para beijar a mão de Viviane. Ficou olhando para ela enquanto a comitiva se afastava.

Viviane dizia-se, enquanto viajava para Avalon, que, sem dúvida, a Visão que tivera ao despedir-se de Balam era conseqüência do cansaço e do medo. De qualquer modo, seu filho era um dos Companheiros de Artur, e não se podia esperar que na guerra com os saxões escapasse de algum ferimento. Mas a imagem persistia em sua memória, e ela tinha a sensação de que ele e o irmão adotivo acabariam brigando por sua causa. Por fim, Viviane fez um gesto nervoso e não quis mais ver a rosto do filho na lembrança, até que voltasse a encontrá-lo pessoalmente.

Estava preocupada também com Lancelote. Ele já passara, há muito, da idade de casar. Mas havia homens que não se preocupavam com as mulheres, buscando apenas a companhia de seus irmãos e camaradas de armas, e Viviane ficou pensando se o filho de Ban seria um deles. Bem, Lancelote devia seguir seu próprio caminho; ela concordara com isso, quando ele deixara Avalon. Se era muito dedicado à rainha, sem dúvida era para que seus camaradas não zombassem dele como apreciador de rapazes.

Mas acabou afastando os filhos do pensamento. Nenhum deles ocupava em seu coração o lugar de Morgana, e Morgana... onde estaria ela? Preocupara-se antes, mas agora, depois de ter ouvido as palavras de Balam, temeu pela própria vida da moça. Antes que o dia terminasse, mandaria mensageiros de Avalon a Tintagel, onde Igraine vivia, e ao norte, à corte de Lot, onde Morgana poderia ter ido visitar o filho. Viviane tinha visto o pequeno Gwydion uma ou duas vezes, em seu espelho, mas não lhe dera muita atenção, já que ele estava bem. Morgause era bondosa com todas as crianças pequenas, tendo vários filhos, e haveria tempo suficiente para pensar em Gwydion, quando ele chegasse à idade em que teria de ser adotado. Então, ele deveria ir para Avalon...

Com a disciplina férrea de muitos anos, conseguiu afastar até mesmo Morgana de seu pensamento, e continuar a viagem para Avalon no estado de espírito que convinha a uma sacerdotisa que acabava de fazer o papel de mensageiro da morte para a sua mais antiga amiga - compungida, claro, mas sem grande dor, pois a morte era apenas o início de uma nova vida.

Priscila era cristã. Acreditava que agora estaria com o seu Deus, no céu. Mas também ela nascerá novamente neste mundo imperfeito, para buscar a perfeição dos Deuses, várias vezes... Balam e eu nos separamos como estranhos, e assim deve ser. Eu não sou a Mãe, e não devo sofrer mais do que quando deixei de ser a Donzela para ela... Não obstante, seu coração estava cheio de rebeldia.

Sim, chegara o momento de abrir mão do governo de Avalon, para que uma mulher mais jovem se tornasse a Senhora do Lago, e ela, apenas uma das mulheres sábias, que davam conselhos e orientação, mas sem arcar com o poder esmagador. Sabia, há muito, que a Visão a estava abandonando. Mas não podia abrir mão de seu poder até que pudesse transferi-lo para as mãos preparadas para assumi-lo. Pensara poder agüentar até que a amargura de Morgana tivesse passado e ela voltasse para Avalon.

Mas se aconteceu alguma coisa com Morgana... e mesmo que não tenha acontecido, terei o direito de continuar como Senhora, agora que a Visão me deixou?

Por um momento, quando chegou junto ao lago, sentia tanto frio e estava tão molhada que quando os remadores se voltaram para ela, para que convocasse as brumas, não conseguiu lembrar-se do encantamento. Sim, realmente é tempo, e mais do que tempo, que eu transfira meus poderes... E então as palavras lhe voltaram à memória e as pronunciou, mas passou grande parte daquela noite acordada, com medo.

Quando a manhã chegou, Viviane examinou o céu; a lua estava minguando, e não poderia consultar o espelho naquela altura. E haverá qualquer utilidade em consultar aquele espelho outra vez, agara que a Visão me abandonou?

Com disciplina férrea, forçou-se a nada dizer a qualquer das sacerdotisas que a serviam. Mais tarde, porém, reuniu-se com outras mulheres sábias, e perguntou-lhes:

- Haverá alguém na Casa das Moças que ainda seja virgem e ainda não tenha ido ao bosque, ou às fogueiras?

- Há a pequena filha de Taliesin - informou uma das mulheres.

Viviane ficou confusa por um instante. Igraine estava crescida, casara e enviuvara, era mãe do Grande Rei em Caerleon, e também Morgause estava casada e era mãe de muitos filhos. Depois, lembrou-se e disse:

- Eu não sabia que ele tinha uma filha na Casa das Moças.

Houve uma época, pensou, em que nenhuma moça era levada para lá sem que ela soubesse, e fora sua a mão que testara cada uma delas, quanto à Visão e quanto à sua inclinação para a ciência druida. Nos últimos anos, porém, abrira mão desse controle.

- Digam, quantos anos ela tem? Como se chama? Quando veio ficar conosco?

- Chama-se Niniane. É filha de Branwen, lembra-se dela? Segundo contou, Taliesin lhe fez esta filha nas fogueiras de Beltane. Parece que foi há pouco tempo, mas ela deve ter hoje onze ou doze anos, talvez mais. Foi criada em alguma parte, no norte, mas veio para nossa companhia há cinco ou seis estações. É uma boa menina, obediente, e hoje em dia não há muitas donzelas que venham para nós, de modo que possamos escolher entre elas, Senhora! Não há hoje nenhuma como Raven ou sua sobrinha Morgana. E onde está Morgana, agora, Senhora? Ela devia voltar para nós!

- Sim, realmente ela devia voltar para nós - admitiu Viviane, sentindo-se envergonhada de dizer que nem sabia onde estava ela, nem mesmo se estava viva ou morta. Como tenho a insolência de ser Senhora de Avalon, quando sequer conheço o nome de minha sucessora, nem quem está na Casa das Moças? Mas se essa Niniane era filha de Taliesin e de uma das sacerdotisas de Avalon, certamente teria a Visão. E mesmo que não tivesse, Viviane poderia forçá-la a ver, se ainda fosse virgem.

- Mandem essa Niniane falar comigo, antes do amanhecer, dentro de três dias a contar de hoje - ordenou, e, embora visse muitas perguntas nos olhos da velha sacerdotisa, observou com satisfação que ainda era indiscutivelmente a Senhora de Avalon, pois a mulher nada disse.

 

Niniane apresentou-se uma hora antes do amanhecer, ao fim da reclusão da lua minguante. Sem dormir, Viviane passara grande parte da noite inquieta, fazendo a si mesma uma série de perguntas. Sabia que relutava em abrir mão de sua posição de autoridade, mas se pudesse transferi-la para as mãos de Morgana, deixaria o posto com saudades. Rodava nas mãos a pequena faca que Morgana abandonara quando fugira de Avalon, e colocou-a de lado, erguendo o rosto para olhar a filha de Taliesin. A velha sacerdotisa, como eu mesma, perdeu a noção do tempo: sem dúvida a menina tem mais de onze ou doze anos. A mocinha tremia de medo, e Viviane lembrou-se de que Morgana também tremia ao vê-la pela primeira vez e como a Senhora de Avalon. Disse, docemente:

- Você é Niniane? Quem são seus pais?

- Sou filha de Branwen, Senhora, mas não sei o nome de meu pai. Ela contou-me apenas que fui concebida em Beltane.

Bem, isso era bastante razoável:

- Quantos anos você tem, Niniane?

- Terei catorze invernos este ano.

- E você já esteve nas fogueiras, filha?

A menina negou com a cabeça, e disse:

- Ainda não fui chamada.

- Você tem a Visão?

- Apenas um pouco, creio, Senhora.

Viviane suspirou.

- Bem, veremos. Venha comigo. - Saíram da casa isolada, subindo pelo caminho oculto do Poço Sagrado. A menina era mais alta do que ela, esguia, de cabelos louros e olhos violeta - não era muito diferente de Igraine, quando tinha a mesma idade, pensou Viviane, embora seu cabelo estivesse mais perto do vermelho do que do louro.

De repente, pareceu-lhe ver Niniane coroada e vestida como a Senhora, e sacudiu a cabeça com impaciência, para afastar dela a visão indesejada. Sem dúvida, eram apenas devaneios incertos...

Levou-a até o Poço, depois parou por um momento para olhar o céu. Entregou-lhe a faca que fora dada a Morgana ao ser feita sacerdotisa e disse tranqüilamente:

- Olhe no espelho, minha filha, e veja onde está aquela a quem isto pertencia.

Niniane hesitou:

- Senhora, eu lhe disse... Eu tenho pouca Visão...

Viviane compreendeu, de repente: a menina tinha medo de falhar.

- Não tem importância. Você verá com a Visão que era minha. Não tenha medo, minha filha, mas procure ver no espelho.

Fez-se silêncio, enquanto Viviane observava a cabeça inclinada da menina. Na superfície da água, parecia que apenas o vento passava, irritando-a, como sempre. E então Niniane começou, numa voz baixa e insegura:

- Ah, vejo... ela dorme nos braços do rei cinzento... - e calou-se.

O que quer ela dizer? Viviane não conseguia interpretar as palavras. Quis gritar com a menina, forçar nela a Visão indesejada, mas controlando-se, no maior esforço de sua vida, calou-se, sabendo que até mesmo seus pensamentos incertos poderiam apagar a Visão da virgem. Disse, numa voz pouco mais clara do que um sussurro:

- Diga-me, Niniane, você pode ver o dia em que Morgana voltará para Avalon?

Outra vez o silêncio vazio. Uma leve brisa, o vento da manhã, soprou novamente e deslizou pela superfície vítrea da água. Por fim, a moça sussurrou:

- Ela está de pé na barca... seu cabelo está grisalho agora... - e novamente silenciou, suspirando como se sentisse dor.

- Você vê mais alguma coisa, Niniane? Fale, diga-me...

Dor e terror perpassaram o rosto da menina, que murmurou:

- Ah a cruz... a luz me queima, o caldeirão entre suas mãos... Raven! Raven, você vai nos deixar agora?

Ela deu um suspiro forte, de choque e espanto, e desabou, desmaiada, no chão.

Viviane ficou imóvel, com as mãos entrelaçadas; em seguida, com um profundo suspiro, inclinou-se para erguer a menina. Mergulhou a mão na água, borrifou-a sobre a face pálida. Um momento depois, a mocinha abria os olhos, fixando-os em Viviane com medo, e começou a chorar:

- Sinto muito, Senhora... Eu nada pude ver...

Bem. Ela falou, mas não se lembra do que viu. Eu bem podia ter-lhe poupado isto, não valeu a pena. Era inútil irritar-se com a menina, que só fizera o que lhe fora ordenado. Viviane afagou os cabelos louros de Niniane e disse, suavemente:

- Não chore. Não estou zangada com você. Sua cabeça está doendo? Vá descansar, minha filha.

A Deusa distribui seus dons como quer. Mas por que.

Mãe de todos, me mandais instrumentos imperfeitos para realizar vossa vontade? Vós me tirastes o poder de fazer vossa vontade. Por que, então, também me tirastes aquela que poderia servir-vos quando eu já não estiver aqui?

Niniane, com as mãos na cabeça, desceu lentamente o caminho em direção à Casa das Moças, sendo seguida, depois de algum tempo, por Viviane.

Teriam as palavras de Niniane sido apenas um delírio? Não lhe parecia: tinha certeza de que ela vira alguma coisa. Mas Viviane não entendia o quê, e as tentativas da menina de expressar-se em palavras nada significavam. Agora, Niniane esquecera tudo, e não podia interrogá-la novamente.

Ela dorme nos braços do rei cinzento. Significaria isto que Morgana estava nos braços da morte?

Voltaria Morgana para Avalon? Niniane dissera apenas: Ela está de pé na barca... portanto Morgana voltaria a Avalon. Seu cabelo está grisalho, agora... portanto, essa volta não se faria brevemente, se é que ocorreria. Isso pelo menos era claro.

A cruz. A luz me queima. Raven, Raven, o caldeirão entre suas mãos. Isso sem dúvida era apenas um delírio, uma tentativa de colocar uma imprecisa visão em palavras. Raven levaria o caldeirão, a arma mágica da água e da Deusa... sim, Raven tinha poderes para levar os Grandes Símbolos. Viviane ficou sentada, olhando a parede de seu quarto, pensando se isso significaria que agora Morgana estava perdida para eles e Raven devia assumir o poder da Senhora do Lago. Parecia-lhe que as palavras da menina não poderiam ser interpretadas de outra maneira. E mesmo assim, poderiam nada significar.

Não importa o que eu fizer agora, estou agindo no escuro - é como se eu tivesse procurado Raven, que teria me respondido apenas com o silêncio!

Mas se Morgana estava realmente nos braços da morte, ou perdida para sempre para Avalon, não havia outra sacerdotisa preparada para assumir a responsabilidade. Raven dera a sua voz à Deusa... e teria o seu santuário de ficar abandonado porque Raven escolhera o silêncio?

Viviane ficou sozinha em casa, olhando para a parede e refletindo sobre as palavras enigmáticas de Niniane. De repente, levantou-se e subiu a trilha silenciosa para olhar novamente as águas imóveis, cinzentas comoo céu pesado. Pareceu-lhe, por um momento, que alguma coisa se movia ali, e ela murmurou:

- Morgana?

Olhou ftxamente para as profundezas silenciosas do Poço. Mas o rosto que a fitava não era o de Morgana, era imóvel, indiferente como o da própria Deusa, coroada com simples juncos...

- É minha própria face que vejo ou a imagem da morte?...

Por fim, cansada, afastou-se.

Eu sabia, desde a primeira vez que trilhei este caminho, que viria um tempo em que só há desespero, quando se busca arrancar o véu do santuário, e quando se grita por ela, sabendo que não responderá porque não está ali, porque nunca esteve ali, não há Deusa, mas apenas nós mesmos, e estamos sós na zombaria dos ecos refletidos por um santuário vazio...

Não há ninguém ali, nunca houve alguém ali, e toda a Visão não passa de sonhos e alucinações...

Enquanto se arrastava, cansada, descendo o morro, viu a lua nova no céu. Agora, porém, isso nada significava, a não ser que o silêncio e a reclusão rituais estavam, então, acabados.

Que tenho eu a ver com esse arremedo de Deusa? A sorte de Avalon está em minhas mãos, e Morgana partiu, estou sozinha com velhas, crianças e moças ainda despreparadas... sozinha, sozinha! E estou velha, cansada, com a morte à minha espreita...

Em sua casa as mulheres haviam acendido o fogo, e um copo de vinho aquecido estava ao lado de sua cadeira, para que quebrasse o jejum da lua minguante. Sentou-se pesadamente, e uma de suas atendentes veio tirar-lhe os sapatos e colocar um xale quente em volta de seus ombros.

Não há ninguém, apenas eu. Mas eu ainda tenho as minhas filhas, não estou totalmente só.

- Obrigada, minhas filhas - agradeceu, com uma cordialidade pouco habitual, enquanto uma das atendentes fazia uma reverência tímida sem falar. Viviane não sabia seu nome - por que estou sendo tão negligente? -, mas imaginou que a moça devia ter feito um voto transitório de silêncio. Uma outra atendente disse suavemente:

- É privilégio nosso servi-la, Mãe. Irá descansar agora?

- Por enquanto, não - respondeu, e acrescentou, num impulso: - Peça à sacerdotisa Raven que venha me atender.

Um longo tempo pareceu transcorrer até que, com um passo silencioso, Raven entrou na sala. Viviane saudou-a com um movimento de cabeça, que a moça respondeu, e, obedecendo a um gesto da Senhora, foi sentar-se à sua frente. Viviane estendeu-lhe o copo, ainda quase cheio de vinho quente, e Raven provou-o, com um sorriso de agradecimento, colocando-o de lado. Por fim, Viviane disse, num tom de súplica:

- Minha filha, você rompeu seu silêncio uma vez, antes de Morgana partir. Agora eu a procuro, e ela não é encontrada. Não está em Caerleon, nem em Tintagel, nem com Lot e Morgause e... e eu estou envelhecendo. Não há ninguém para substituir-me... Pergunto-lhe como perguntaria ao oráculo da Deusa: Morgana voltará? - Raven ficou em silêncio. Por fim sacndiu a cabeça, e Viviane perguntou: - Você quer dizer que ela não voltará? Ou que não sabe? A jovem sacerdotisa, porém, fez um estranho gesto de desamparo e indagação.

- Kaven, você sabe que eu devo passar meu posto a alguém, e não há ninguém para recebê-lo, ninguém que tenha a tradicional formação de sacerdotisa, nenhuma que conheça tudo. Só você. Se Morgana não voltar para nós, você terá de ser a Senhora do Lago. Seu juramento de silêncio foi cumprido fielmente. Agora, é chegado o momento de deixá-lo de lado, de receber de minhas mãos a guarda deste lugar. Não há outra solução.

Raven sacudiu a cabeça. Era alta, franzina, e como Viviane pensou, já não era jovem. Tinha, sem dúvida, dez anos mais do que Morgana, devia estar perto dos quarenta. E chegou aqui uma mocinha, cujos seios ainda não haviam despontado. Tinha o cabelo longo e escuro, o rosto era moreno e magro, os olhos pretos, sob sobrancelhas grossas e negras. Tinha um ar envelhecido e austero.

Viviane cobriu o rosto com as mãos e disse numa voz rouca, entre as lágrimas que não devia derramar:

- Eu... eu não posso, Raven.

Um instante depois, ainda com o rosto coberto, sentiu um toque leve no rosto. Raven levantara-se e estava inclinada sobre ela. Não falou, apenas a abraçou fortemente e a segurou por um momento. Viviane, sentindo o calor da outra mulher, começou a soluçar e teve vontade de chorar sem parar. Por fim, quando, cansada, ela se calou, Raven beijou-a e saiu em silêncio.

 

Capítulo 10

Igraine dissera a Gwenhwyfar, certa vez, que a Cornualha era o fim do mundo. E era essa a impressão que Gwenhwyfar tinha - ali parecia não haver coisas como os saxões invasores, ou o Grande Rei. Ou a Grande Rainha. Ali, naquele distante convento, embora num dia claro fosse possível ver, olhando em direção ao mar, a silhueta escura do castelo de Tintagel, ela e Igraine eram apenas duas damas cristãs. E constatou, eom surpresa, que estava satisfeita por ter vindo.

Mas quando Artur lhe pedira que viesse, teve medo de deixar as muralhas envolventes de Caerleon. A viagem foi um longo pesadelo, até mesmo a rápida e confortável marcha pela estrada romana, em direção ao sul. Quando a deixaram e começaram a percorrer a charneca elevada e descampada, Gwenhwyfar encolheu-se, em pânico, dentro de sua liteira, mal podendo dizer o que lhe fazia maior medo, se o céu aberto e imenso, ou as grandes extensões de uma planície sem mato e sem árvores, onde as rochas se elevavam, escuras e frias como os ossos da terra. Durante muito tempo, não se viu nenhuma criatura viva, exceto os corvos que circulavam no alto, esperando que alguma coisa morresse, ou, muito distante, um pônei selvagem, que parava para levantar a cabeça hirsuta, e depois voltava a correr.

Naquele distante convento da Cornualha, tudo era tranqüilidade e paz. Um sino suave tocava as horas, e no jardim fechado as rosas floresciam e se entrelaçavam nas fendas do muro de tijolos, em ruínas. O lugar fora outrora uma vila romana. As irmãs haviam arrancado o chão de uma grande sala porque, diziam, mostrava uma escandalosa cena pagã. Gwenhwyfar teve curiosidade de saber o que era, mas ninguém lhe disse, e ela sentiu vergonha de perguntar. Nos cantos da sala havia belos e pequenos delfins e peixes curiosos e, no centro, tinham sido colocados tijolos comuns. Ficava sentada ali com as irmãs, por vezes, durante as tardes, bordando, enquanto Igraine descansava.

Igraine agonizava. Dois meses atrás, a notícia chegara a Caerleon. Artur teve de viajar para o norte, para Eboracum, a fim de fiscalizar a fortificação da muralha ali construída pelos romanos e não pôde ir. Morgana não estava. E como Artur não podia ir, e sendo impossível querer também que Viviane, na sua idade, fizesse tal viagem, o rei pedira a Gwenhwyfar que fosse fazer companhia a sua mãe.

Depois de muita discussão, ela concordou.

Gwenhwyfar não tinha muita experiência com doentes.

A enfermidade de Igraine não provocava dores, mas faltava-lhe o ar e ela não podia caminhar muito, sem tossir ou ficar ofegante. A irmã que cuidava dela disse que era inflamação dos pulmões, mas não havia sangue, nem febre, nem congestão do rosto. Os lábios estavam pálidos e as unhas, azuladas. Os tornozelos estavam tão inchados que ela quase não podia andar: Igraine mostrava-se também demasiado cansada para falar e passava a maior parte do tempo na cama. Não parecia a Gwenhwyfar que ela estivesse muito doente, mas a irmã disse que ela realmente agonizava e que não teria mais de uma semana de vida.

Estavam na melhor parte do verão, e naquela manhã Gwenhwyfar colheu uma rosa branca no jardim do convento e colocou-a sobre o travesseiro da sogra. Igraine fizera um esforço para levantar-se no dia anterior para ir às vésperas, mas naquela manhã estava tão cansada e sem forças que não conseguira levantar-se. Mesmo assim, sorriu para Gwenhwyfar:

- Obrigada, minha filha - aproximou a flor do rosto, aspirando delicadamente as pétalas. - Eu sempre quis rosas em Tintagel, mas o solo ali era tão ruim, que quase não floresciam... Vivi ali cinco anos e nunca desisti de formar um jardim...

- Quando a senhora foi buscar-me para o casamento, viu o jardim de minha casa - recordou Gwenhwyfar, com uma súbita saudade daquele distante jardim murado.

- Lembro-me de como era bonito... Recordava-me Avalon. As flores são tão belas, ali, no pátio da Casa das Moças! - Ficou calada por um momento. - Foi enviada uma mensagem para Morgana, em Avalon?

- A mensagem foi mandada, mãe. Mas Taliesin contou-me que ela não estava em Avalon - respondeu Gwenhwyfar. - Sem dúvida está com a rainha Morgause, e nesta época é preciso muito tempo para que um mensageiro faça a viagem de ida e volta.

Igraine suspirou e começou a lutar outra vez com a tosse. Gwenhwyfar ajudou-a a sentar-se. Pouco depois, Igraine murmurou:

- A Visão deveria ter feito Morgana vir para cá. Você viria, se soubesse que sua mãe estava morrendo, não? Sim, pois você veio, e nem mesmo sou sua mãe. Por que Morgana não vem?

Minha vinda não tem para ela nenhuma importância, pensou Gwenhwyfar, não é a mim que ela quer aqui. Ninguém se importa que eu esteja aqui ou em qualquer outro lugar. Sentiu o coração magoado. Mas Igraine olhava para ela em expectativa, e a moça respondeu:

- Talvez Morgana não tenha recebido nenhuma mensagem. Talvez ela tenha ido para um convento, em algum lugar, para tornar-se cristã e tenha renunciado à Visão.

- É possível... Foi o que fiz, quando me casei com Uther. Mesmo assim, de quando em vez a Visão ainda me ocorre sem que eu a deseje, e creio que se Morgana estivesse doente ou à morte, eu saberia - sua voz era incerta. - A Visão voltou-me novamente antes de você se casar... Diga-me, Gwenhwyfar, você ama meu filho?

Gwenhwyfar recuou ante os claros olhos cinzentos da doente - veria ela dentro de sua alma?

- Amo-o bastante e sou sua fiel rainha, senhora.

- Ah, acredito em você... E são felizes, juntos?

Igraine segurou as finas mãos da moça entre as suas, por um momento, e de súbito sorriu.

- Claro que devem ser. E serão ainda mais felizes, pois finalmente você concebeu o filho dele.

Abrindo a boca de espanto e olhando fixamente para Igraine, Gwenhwyfar disse:

- Eu... eu não sei.

Igraine voltou a sorrir, um sorriso terno e radioso, e Gwenhwyfar pensou: Sim, quando jovem ela deve ter sido muito bela, a ponto de Uther deixar de lado toda cautela e ir atrás dela com encantamentos e feitiçarias.

- Isso acontece com freqüência, embora você não seja realmente muito jovem. É surpreendente que ainda não tenha um filho.

- Não foi por falta de desejo, nem de rezar para que isso acontecesse, senhora - murmurou Gwenhwyfar, tão abalada que quase não sabia o que dizia. Estaria a velha rainha delirando? Eram palavras demasiado cruéis, para serem apenas brincadeira.

- Por que... acredita que estou grávida?

- Esqueci-me de que você não tem a Visão. Ela também me abandonou, e por muito, muito tempo a ela renunciei, mas, como disse, por vezes ela volta sem que eu o deseje, e nunca foi inexata.

Gwenhwyfar começou a chorar, e Igraine, perturbada, estendeu a mão magra, colocando-a sobre a da moça.

- Ora, como pode ser? Dou-lhe uma boa notícia e você chora, minha filha?

Agora ela vai pensar que eu não quero o filho, e não posso tolerar a idéia de que pense mal de mim... Gwenhwyfar disse, numa voz trêmula:

- Apenas duas vezes, em todos os anos em que estou casada, tive razões para acreditar que estava grávida, e mesmo assim, só fiquei com a criança um ou dois meses. Diga-me, senhora...

Sua garganta contraiu-se, e ela não ousou pronunciar as palavras. Diga-me, Igraine, eu terei esse filho, você me viu então com o filho de Artur ao seio? O que pensaria o seu padre desse entendimento com a bruxaria?

- Gostaria de poder dizer-lhe mais coisas - continuou Igraine, acariciando-lhe a mão. - Mas a Visão vai e vem, de acordo com sua própria vontade. Deus permita que tudo corra bem, minha querida. Talvez eu não possa ver mais porque, quando seu filho nascer, já não estarei aqui... Não, minha querida, não chore - pediu ela. - Estou preparada para deixar esta vida desde o casamento de Artur. Gostaria de ver seu filho, de ter no colo um filho de Morgana, se algum dia isso acontecesse, mas Uther já se foi, e meus filhos estão bem. É possível que Uther me espere além da morte, ou os outros filhos que perdi. E se não estiverem à minha espera... - fez um gesto de indiferença com os ombros. - Eu nunca saberei.

Os olhos de Igraine fecharam-se, e Gwenhwyfar pensou: Eu a deixei cansada. Ficou sentada, em silêncio, até que a velha rainha adormeceu; depois, saiu sem ruído e foi para o jardim.

Sentia-se confusa. Não tinha, realmente, a sensação de estar grávida. Se tivesse pensado nisso, iria achar que a tensão da viagem lhe retardara as regras... Durante os três primeiros anos de casamento, julgou-se grávida todas as vezes que ocorrera um atraso. E no ano em que Artur esteve pela primeira vez ausente, na batalha da Floresta de Celidon e durante a longa campanha que a antecedeu, e depois, ferido e demasiado fraco para procurá-la, a mesma coisa aconteceu. E finalmente, compreendera que seu fluxo mensal era inconstante, sendo impossível acompanhá-lo pela lua, pois em certas ocasiões passavam-se dois ou três meses sem qualquer sinal.

Mas agora, depois das palavras de Igraine, ficou pensando por que não havia cogitado nisso antes; não teve dúvidas da verdade do que ela dissera. Alguma coisa, em seu íntimo, dizia-lhe que era feitiçaria, e uma pequena voz insistia em lembrar-lhe: Todas essas coisas são do Diabo e não têm lugar nesta casa de mulheres santas. Uma outra voz, porém, contemporizava: Que mal haveria em dizer-me isso? Era como a história do anjo que comunicou a Maria, a Virgem, o nascimento de seu filho... Por um momento Gwenhwyfar assustou-se com sua presunção; depois começou a rir baixinho, ante o absurdo de imaginar que Igraine, velha e agonizante, poderia ser um anjo de Deus.

Naquele momento o sino do claustro soou, anunciando as orações, e Gwenhwyfar, embora fosse ali apenas hóspede, e não tivesse obrigações, dirigiu-se à capela, ajoelhando-se em seu lugar habitual, entre os visitantes. Pouco ouviu, porém, do serviço religioso, pois todo o seu coração e sua mente estavam empenhados na mais fervorosa prece que já fizera em toda a sua vida.

Veio a resposta a todas as minhas orações. Oh, graças, meu Deus, Jesus Cristo e Nassa Senhora! Artur estava errado. A culpa não era dele. Não houve necessidade... e mais uma vez foi tomada da terrível vergonha que sentira, quando ele lhe dissera aquelas coisas, dando-lhe, praticamente, permissão para traí-lo... e que mulher má eu fui, então, pois cheguei a considerar essa possibilidade... Mas agora, em meio a toda a sua maldade, Deus a recompensara quando menos o merecia. Gwenhwyfar levantou a cabeça e começou a cantar o Magnificat com as outras, e o fazia com tanto fervor que a abadessa voltou para ela um olhar surpreso.

Não sabem por que estou agradecida.. não sabem o quanto devo estar agradecida... Também não sabem como fui má, pois estava pensando, aqui neste lugar sagrado, naquele a quem amo...

E de repente, mesmo em meio à alegria, voltou a dor: Agora ele me verá gorda com o filho de Artur, e me considerará feia e grosseira e, nunca mais me olhará com amor e desejo. E, então, apesar de sentir-se feliz, surpreendeu-se pequena, deformada e triste.

Artur deu-me licença e poderiamos ter tido um ao outro pelo menos uma vez, e agora, nunca mais, nunca mais..

Colocou o rosto entre as mãos e chorou, silenciosamente, sem se importar com o olhar da abadessa.

 

Naquela noite, a respiração de Igraine ficou tão difícil que ela não podia nem mesmo abaixar a cabeça para descansar: teve de ficar sentada, apoiada em muitas almofadas, para conseguir um pouco de ar, e, ofegante, tossia interminavelmente. A abadessa deu-lhe um remédio para limpar-lhe os pulmões, mas que apenas a deixou enjoada, disse ela, e não quis tomá-lo mais.

Gwenhwyfar ficou sentada ao lado de Igraine, cochilando ocasionalmente, mas sempre alerta quando ela se mexia, pronta a oferecer-lhe um pouco d'água ou ajeitar-lhe os travesseiros, para que tivesse um pouco mais de conforto. Havia apenas um pequeno lampião no quarto, mas o luar estava muito claro, e a noite tão quente que a porta para o jardim ficava aberta. E em meio a tudo aquilo, o som abafado do mar, além do jardim, batendo sobre as rochas.

- É estranho - murmurou Igraine numa voz distante. - Eu nunca teria pensado em vir morrer aqui... Lembro-me de como me senti desolada, sozinha, quando vim para Tintagel a primeira vez, como se fosse o próprio fim do mundo. Avalon era tão bonito, tão florido...

- Há flores aqui - disse Gwenhwyfar.

- Mas não são como as flores de lá. Aqui, é tudo tão estéril, tão rochoso! Você já esteve na ilha, minha filha?

- Fui educada no convento de Ynis Witrin, senhora.

- É bonito, lá na ilha. E quando viajei para cá, passando pela charneca, tudo me pareceu tão alto, tão nu e deserto, que tive medo...

Igraine fez um débil movimento na direção dela, e Gwenhwyfar segurou-lhe a mão, assustando-se ao sentir como estava fria.

- Você é uma boa menina. Vir ver-me, tão longe, quando meus próprios filhos não vêm. Lembro-me de como você tinha medo de viajar. E agora, vem de tão longe, mesmo estando grávida.

Gwenhwyfar friccionou com as suas as mãos geladas de Igraine:

- Não se canse conversando, mãe.

O ruído que saiu da boca de Igraine poderia parecer-se a uma pequena risada, mas perdeu-se em meio à sua respiração ofegante.

- Você acha que isso pode fazer alguma diferença, agora, Gwenhwyfar? Eu não agi bem com você. No próprio dia do seu casamento, procurei Taliesin e perguntei-lhe se havia alguma forma honrosa para Artur sustar o casamento.

- Eu... eu não sabia. Por quê?

Pareceu-lhe que Igraine hesitava antes de responder, mas talvez estivesse apenas lutando para recuperar o fôlego.

- Não sei... Talvez eu achasse que você não seria feliz com meu filho.

Lutou novamente com um acesso de tosse, tão forte que parecia sufocá-la para sempre.

- Agora não deve falar mais, mãe - aconselhou Gwenhwyfar, quando elà se acalmou um pouco. - Quer que eu chame o padre?

- Ao diabo com todos os padres - respondeu Igraine claramente. - Não quero saber deles. Ora, não fique tão espantada, minha filha. - Ficou calada por alguns instantes. - Você me julgou tão religiosa porque me retirei para um convento, a fim de passar nele os últimos anos de minha vida. Mas para que outro lugar poderia ter ido? Viviane teria me recebido em Avalon, mas não podia esquecer-me de que foi ela quem arranjou meu casamento com Gorlois. Além dos muros daquele jardim, está Tintagel, como uma prisão. E foi realmente uma prisão para mim. Não obstante, era o único lugar que eu podia considerar meu. E achava que conquistara esse direito pelo que sofrera ali... - Outra longa e silenciosa luta para respirar. Por fim, continuou:

- Gostaria que Morgana estivesse conosco. Ela tem a Visão, deve saber que estou morrendo...

Gwenhwyfar viu lágrimas em seus olhos e esfregou-lhe as mãos geladas, que pareciam tão retesadas quanto garras frias:

- Tenho certeza que ela viria, se soubesse.

- Não sei... Eu a separei de mím, mandando-a para Viviane. Embora sabendo muito bem como Viviane era impiedosa, que iria usar Morgana com a mesma indiferença com que me usara, em favor da felicidade desta terra, e em favor do seu próprio poder. Mandei-a embora porque, entre dois males, pareceu-me que estaria melhor em Avalon, nas mãos da Deusa, do que nas mãos dos padres de preto, que lhe ensinariam a pensar que era má, por ser mulher.

Gwenhwyfar estava profundamente consternada. Tentou aquecer-lhe as mãos entre as suas, e renovou os tijolos quentes nos pés de Igraine. Estes, porém, estavam tão frios quanto o gelo, e quando os esfregou, Igraine disse que não sentia nada.

Gwenhwyfar achou que devia tentar novamente:

- Agora que o fim está próximo, não deseja falar com um dos sacerdotes de Cristo, mãe?

- Já lhe disse que não. Ou então, depois de todos esses anos em que fiquei calada para ter paz, eu poderia agora dizer-lhes o que realmente penso deles... Eu amava Morgana o bastante para mandá-la para Viviane, para que finalmente escapasse deles... - Sua respiração voltou a ficar difícil. - Artur... Ele nunca foi meu filho, era o filho de Uther, apenas uma esperança de sucessão, nada mais. Eu amava Uther e dei-lhe filhos porque isso representava muito para ele, ter um filho que o sucedesse. Nosso segundo filho, aquele que morreu logo depois de cortado o cordão... aquele, eu acho que eu o teria amado por ele mesmo, tal como amei Morgana. Diga-me, Gwenhwyfar, meu filho a censurou alguma vez por não lhe ter dado ainda um herdeiro?

Gwenhwyfar abaixou a cabeça, sentindo as lágrimas nos olhos.

- Não, ele tem sido muito bom... Nunca me censurou. Disse-me certa vez que nunca fizera um filho numa mulher, embora tivesse conhecido muitas, e que talvez a culpa não fosse minha.

- Se ele a ama por você mesma, então ele é uma jóia rara entre os homens - disse Igraine. - E tudo estará bem, se puder fazê-lo feliz... Eu amava Morgana porque era tudo o que eu tinha para amar. Eu era jovem e infeliz; você jamais poderá imaginar como eu fui infeliz, naquele inverno em que ela nasceu, sozinha, longe de casa e ainda quase uma criança. Tive medo de que ela fosse um monstro, devido ao ódio que senti, durante a gravidez, mas ela era muito bonitinha, séria, inteligente, parecia uma fadinha. Só amei a ela e a Uther. Onde está ela, Gwenhwyfar? Onde está ela, que não vem ver a mãe agonizante?

- Sem dúvida ela não sabe que a senhora está agonizante - procurou consolá-la.

- Mas ela tem a Visão! - exclamou Igraine, agitando-se inquieta nos travesseiros. - Onde estará ela, que não vê que estou morrendo? Ah, eu percebi que ela estava angustiada, e muito, até mesmo na coroação de Artur, mas nada lhe disse, eu não queria saber, minhas preocupações eram muitas e não me aproximei dela quando precisava de mim... Gwenhwyfar, diga-me a verdade! Morgana teve um filho em algum lugar, sozinha e longe de qualquer pessoa que a amasse? Será que ela lhe falou sobre isso? Será que ela me odeia, então, a ponto de não me querer ver, quando estou morrendo, apenas porque não lhe expressei todos os meus receios quando da coroação de Artur? Ah, Deusa... Abandonei a Visão para ter paz no meu lar, já que Uther era seguidor de Cristo.. Mostre-me onde está Morgana, minha filha...

Gwenhwvfar sentiu-lhe a mão imóvel, e pediu:

- Agora a senhora deve ficar quieta, mãe... Tudo deve ser como Deus quer. A senhora não pode invocar a Deusa dos demônios, aqui...

Igraine sentou-se imediatamente. Apesar do rosto emaciado e doente, dos lábios azulados, ela olhou para a outra de tal modo que Gwenhwyfar lembrou-se, subitamente: Ela tamhém é a Grande Rainha desta terra...

- Você não sabe o que está dizendo - sentenciou Igraine com piedade, orgulho e desprezo. - A Deusa está acima de todos os outros deuses. As religiões podem aparecer e desaparecer, como os romanos sem dúvida sabiam e como os cristãos descobrirão, mas ela está acima de todas elas. - Deixou Gwenhwyfar deitá-la novamente nos tra- vesseiros e gemeu: - Ah, se meus pés pudessem ser aquecidos... Sim, eu sei que há tijolos neles, mas não posso senti-los. Li, num certo livro antigo que Taliesin me deu, sobre um estudioso que foi obrigado a beber cicuta. Taliesin diz que os sábios sempre foram assassinados. Assim como o povo das terras do extremo sul crucificou o Cristo, também aquele homem sábio foi obrigado a beber cicuta porque a ralé e os reis acreditavam que ele ensinava uma doutrina falsa. E quando estava morrendo, ele disse que o frio subia-lhe dos pés, e por isso morreu... Não bebi cicuta, mas é como se tivesse bebido. E agora, o frio está chegando ao meu coração...

Estremeceu e ficou quieta, e por um instante Gwenhwyfar pensou que ela deixara de respirar. Não, o coração batia fracamente, ainda. Mas Igraine não voltou a falar, ficando apenas deitada nos travesseiros, arfando, até que, pouco antes da madrugada, sua respiração ofegante cessou.

 

Capítulo 11

Igraine foi enterrada ao meio-dia, depois de um serviço religioso solene. Gwenhwyfar ficou ao lado do túmulo, com as lágrimas correndo-lhe pelo rosto, enquanto o corpo, envolto numa mortalha, era baixado à cova. Na verdade, porém, não conseguia sentir realmente pesar pela morte da sogra. Toda a vida dela foi uma mentira, ela não era uma cristã autêntica. Se aquilo em que acreditavam era verdade, então Igraine estaria agora queimando no inferno. E isso lhe era intolerável, principalmente quando pensava em toda a bondade que a sogra tivera para com ela.

Os olhos de Gwenhwyfar ardiam, de falta de sono e devido às lágrimas. O céu, pesado, era um eco de seus receios vagos: parecia que a chuva desabaria a qualquer momento sobre eles. Lá dentro do convento, sentia-se segura, mas logo teria de deixar essa segurança e viajar dias e dias pelas altas charnecas, com a ameaça sombria daqueles céus abertos por toda parte, pairando sobre sua cabeça e sobre seu filho... Tremendo, Gwenhwyfar cruzou as mãos sobre a barriga, como num desejo inútil de proteger o ser que ali se abrigava contra as ameaças do céu.

Por que estou sempre com medo? Igraine era pagã e sujeita às artimanhas do Diabo, mas eu estou segura e posso chamar o Cristo para me salvar. O que havia para recear, sob esse céu de Deus? Não obstante, tinha medo, o mesmo medo insensato que a dominava com tanta freqüência. Não devo ter medo, sou a Grande Rainha da Bretanha; a única outra mulher que podia usar esse titulo dorme sob a terra, aqui... Grande Rainha, e gerando o filho de Artur. Por que ter medo de qualquer coisa neste mundo de Deus?

As freiras terminavam o hino, voltando do túmulo. Gwenhwyfar estremeceu novamente, aconchegando o manto. Devia tomar muito cuidado agora, comer bem, descansar bastante, para que as coisas não saíssem erradas, como antes. Contou nos dedos, em segredo. Se tivesse sido naquela última vez, antes de sua partida... mas não, suas regras não haviam se manifestado por mais de dez domingos, simplesmente não tinha certeza. Ainda assim, estava confiante em que o filho nasceria mais ou menos pela Páscoa. Sim, era uma boa ocasião. Lembrava-se quando Meleas dera à luz seu filho, no auge do inverno, com o vento uivando lá fora, como se todos os diabos esperassem para roubar a alma do recém-nascido. O único desejo de Meleas fora que o padre comparecesse na ala das mulheres para batizar seu filho, quase antes de ele dar os primeiros vagidos. Não, Gwenhwyfar sentia-se satisfeita por não ter de dar à luz em plena escuridão do inverno. Mas para ter um filho, estava disposta a enfrentar um parto até mesmo na própria noite do solstício do inverno!

Um sino soou, e a abadessa veio em sua direção. Não lhe fez a reverência usual - o poder temporal, disse ela certa vez, nada representava ali. Mas, afinal de contas, Gwenhwyfar era a Grande Rainha, razão pela qual lhe fez uma inclinação de cabeça, com grande cortesia, e perguntou:

- A senhora ficará ainda algum tempo conosco? Nós nos sentiríamos muito honradas se se demorasse.

Ah, se eu pudesse ficar! É tão calmo aqui... Mas respondeu, com visível pena:

- Não posso, devo voltar para Caerleon.

Não podia retardar o anúncio das boas noticias a Artur, a notícia sobre seu filho...

- O Grande Rei deve ser informado da... da morte de sua mãe. - Depois, sabendo o que a outra desejava ouvir, acrescentou rapidamente: - Pode estar certa de que eu lhe contarei como a trataram bem, aqui. Ela teve tudo o que poderia ter desejado nos últimos dias de sua vida.

- E o fizemos com satisfação, pois gostávamos muito da senhora Igraine. Sua escolta será avisada, e estará pronta para partir pela manhã bem cedo, se Deus quiser e nos der bom tempo.

- Amanhã? E por que não hoje? - perguntou Gwenhwyfar, mas parou: aquela pressa poderia parecer insultante. Não havia percebido como estava ansiosa para transmitir a notícia a Artur, acabar de uma vez por todas com as acusações silenciosas de esterilidade. Pousou a mão no braço da abadessa: - A senhora deve rezar por mim, agora, e pelo nascimento normal do filho do Grande Rei.

- É verdade, senhora? - O rosto da abadessa mostrou a satisfação que ela sentia em ser confidente da rainha.

- Realmente, nós rezaremos. Dará grande prazer às irmãs saber que somos as primeiras a dizer preces pelo nosso novo príncipe.

- Eu farei doações ao seu convento...

- Os dons de Deus e as orações não podem ser comprados com ouro - atalhou a abadessa, secamente, mas ainda assim parecia satisfeita.

No quarto ao lado do de Igraine, onde havia dormido aquelas últimas noites, sua criada movimentava-se, colocando as roupas e objetos de uso nas sacolas. Quando Gwenhwyfar entrou, olhou para ela e resmungou:

- Não condiz com sua dignidade de Grande Rainha viajar apenas com uma única serva, senhora! Ora, qualquer esposa de um cavaleiro teria mais! A senhora deve arranjar mais uma, nas casas aqui, e também uma dama para acompanhá-la!

- Peça a uma das irmãs que a ajude - cortou Gwenhwyfar. - Viajaremos .mais depressa, se formos poucos.

- Ouvi dizer no pátio que houve desembarques de saxões no litoral sul - resmungou a mulher. - Dentro em pouco, já não se poderá viajar com segurança por parte alguma deste país!

- Não seja tola. Os saxões do sul estão comprometidos, por meio de um tratado, a manter a paz com as terras do Grande Rei. Sabem o que as legiões de Artur podem fazer, pois as descobriram na Floresta de Celidon. Acredita que queiram dar mais trabalho aos corvos? De qualquer modo, logo estaremos de volta a Caerleon, e no final do verão transferiremos a corte para Camelot, no País do Verão. Os romanos defenderam aquele forte contra todos os bárbaros. Nunca foi tomado. Sir Cai está ali, agora, construindo uma grande sala para a Távola Redonda de Artur, de modo que todos os Companheíros e reis possam sentar-se para comer juntos.

Como esperava, a atenção da mulher foi distraída:

- Esse lugar fica perto de sua terra, não é, senhora?

- Sim. Das alturas de Camelot, pode-se olhar para além e ver a ilha que é o reino de meu pai. Na verdade, eu estive ali, quando menina - disse, lembrando-se de que, quando pequena, antes mesmo de ter ido para a escola das freiras em Ynis Witrin, fora levada até as ruínas do velho forte romano. Pouca coisa havia ali, então - apenas a velha muralha, e o padre aproveitara-se disso para um sermão sobre a transitoriedade das glórias humanas...

Naquela noite sonhou que estava num lugar alto, em Camelot, mas a cerração envolvia tudo, e a ilha parecia flutuar num mar de nuvens. Mais além, podia ver o alto da montanha Tor em Ynis Witrin, coroada com as pedras circulares, embora soubesse que haviam sido derrubadas pelos padres há cem anos. E por uma das artimanhas da Visão, parecia que Morgana estava no Tor, e ria e zombava dela. Usava uma coroa de junco simples. Morgana estava ao seu lado em Camelot, e ambas olhavam lá para baixo, para todo o País do Verão, até a ilha dos Padres, vendo sua própria terra, onde seu pai Leodegranz era rei, e a ilha do Dragão envolta na bruma. Mas Morgana usava roupas estranhas e uma coroa dupla, alta, e Gwenhwyfar não a via propriamente, mas sabia que ela estava ali. E disse: Eu sou Morgana das Fadas, e dou-lhe todos esses reinos como Grande Rainha, se você se ajoelhar e me adorar.

Gwenhwyfar acordou sobressaltada, a gargalhada de Morgana ainda soava em seus ouvidos. O quarto estava silencioso e solitário, exceto pelo ressonar pesado de sua serva, deitada no chão. Fez o sinal-da-cruz e deitou-se para dormir novamente. Mas, ao adormecer, teve a impressão de estar olhando para as águas claras e enluaradas de um poço, e em vez de seu rosto, era o rosto pálido de Morgana que se refletia ali, com a coroa de junco, como algumas das bonecas da colheita que os camponeses ainda faziam, e muito, muito distante. Gwenhwyfar teve de sentar-se novamente e fazer o sinal-da-cruz, antes de conseguir acalmar-se e adormecer.

Pareceu-lhe que a despertavam cedo demais, mas havia insistido em que a chamassem às primeiras luzes do amanhecer. Ouviu a chuva batendo no telhado, enquanto se vestia à luz dos lampiões, mas se esperassem a chuva passar, naquele clima, poderiam ficar ali por um ano. Sentia-se tonta e sonolenta, mas agora sabia haver bons motivos para isso, e acariciou disfarçadamente a barriga ainda reta, como para assegurar-se de que era real. Não tinha vontade de comer, mas engoliu um pouco de pão e carnes frias, como devia... Tinha uma longa viagem pela frente. E se não lhe importava viajar com a chuva, era pelo menos possível que os saxões ou os assaltantes ficassem em casa.

Estava amarrando o capuz de seu manto mais quente, quando a abadessa entrou. Depois de algumas palavras formais de agradecimento pelos ricos presentes oferecidos por Gwenhwyfar, em seu nome e no de Igraine, a religiosa mencionou a verdadeira razão daquela visita de despedida.

- Quem reina hoje na Cornualha, senhora?

- Ora, não tenho certeza - respondeu, procurando lembrar-se. - Sei que o Grande Rei deu Tintagel a Igraine quando de seu casamento, para que tivesse um lugar seu, e creio que, depois dela, seria da senhora Morgana, filha de Igraine com o duque de Gorlois. Não sei nem mesmo quem está ali agora, como castelão.

- Eu também não - disse a abadessa. - Algum servo ou cavaleiro da senhora Igraine, creio. É por isso que vim lhe falar, senhora... O castelo Tintagel é valioso, e deve ser ocupado, pois do contrário haverá guerra também por aqui. Se a senhora Morgana casar-se e vier morar aqui, tudo estará bem, creio. Não a conheço, mas sendo filha de Igraine, penso que também será uma boa mulher e uma boa cristã.

Pois pensa errado. Gwenhwyfar julgou ouvir a risada zombeteira do sonho. Mas não falaria mal da irmã de Artur a uma estranha.

- Transmita minhas palavras ao rei Artur, senhora: alguém deve vir morar em Tintagel. Ouvi boatos que circularam quando Gorlois morreu, de que havia um filho bastardo e alguns outros parentes, que podem querer lutar para retomar outra vez estas terras. Enquanto Igraine vivia aqui, todos sabiam que o lugar era domínio de Artur, mas agora, seria bom que o Grande Rei mandasse para cá um dos seus melhores cavaleiros, casado talvez com a senhora Morgana.

- Direi a Artur - respondeu Gwenhwyfar, e enquanto saía, ficou pensando nisso. Pouco entendia dos assuntos de Estado, mas sabia que havia surgido um caso antes que Uther conquistasse a coroa, e isso havia acontecido novamente, quando ele morreu sem deixar herdeiro. Pensou que algo semelhante poderia ocorrer se a Cornualha ficasse sem um governante que impusesse o respeito às leis. Morgana era a rainha da Cornualha, e devia vir reinar ali. Lembrou-se então do que Artur dissera certa vez, de que seu melhor amigo deveria casar-se com sua irmã. Como Lancelote não era rico e não tinha terras, seria acertado que os dois viessem reinar na Cornualha.

E agora que devo estar grávida do filho de Artur, o melhor seria afastar Lancelote da corte, para que eu não tivesse que olhar nunca mais para seu rosto e pensar aquelas coisas que nenhuma mulher casada e boa cristã deve imaginar.

Mesmo assim, não podia suportar a idéia de vê-lo casado com Morgana. Teria havido alguma vez na face da terra uma mulher tão má quanto ela? Viajava com o rosto envolto no manto, sem ouvir as conversas dos cavaleiros que compunham sua escolta, mas depois de algum tempo percebeu que estavam atravessando uma aldeia incendiada.

Um dos cavaleiros pediu permissão para pararem um pouco, e foi procurar sobreviventes. Mas voltou com um ar desolado.

- Saxões - informou para os outros, e calou-se imediatamente ao ver que a rainha estava ouvindo. - Não tenha medo, senhora, eles se foram, mas devemos ir o mais depressa possível para comunicar isso a Artur. Se lhe dermos um cavalo mais rápido, poderia acompanhar-nos?

Gwenhwyfar sentiu a garganta contrair-se. Haviam acabado de subir, deixando lá embaixo um dos vales profundos, e o céu se arqueava sobre suas cabeças, enorme e aberto, cheio de ameaças - sentiu aquilo que os animais pequenos devem sentir, no meio do mato, quando a sombra do gavião passa sobre eles. Disse, e sua voz soou fina e trêmula como a de uma menininha:

- Não posso ir mais depressa, agora. Carrego o filho do Grande Rei, e não ouso colocá-lo em risco.

Mais uma vez, teve a impressão de que o cavaleiro era Griflet, marido de sua dama Meleas - continha-se para não falar, fechando a boca com um estalo. Ele disse, por fim, disfarçando a impaciência:

- Então, senhora, seria melhor que a levássemos para Tintagel, ou para qualquer outra grande casa nesta área, ou de volta para o convento, para que possamos ir rapidamente e chegar a Caerleon antes do amanhecer de amanhã. Estando grávida, a senhora certamente não poderá viajar durante toda a noite! Permitirá que um de nós a leve, e a sua serva, de volta para Tintagel ou para o convento?

Gostaria muito de estar novamente atrás de umas muralhas, se há saxões por ai... mas não devo ser covarde. Artur deve ter noticias de seu filho. E por isso insistiu:

- Não pode um dos senhores correr a Caerleon, enquanto o resto continua a viagem no meu ritmo? Ou não será possível contratar um mensageiro para levar rapidamente a mensagem?

Griflet dava a impressão de que iria praguejar:

- Não posso confiar em nenhum mensageiro contratado, agora, e nesta área, senhora, e nós somos poucos, até mesmo para uma região em paz, mal bastando para sua proteção. Bem, tudo será como tem de ser, e sem dúvida os homens de Artur já devem ter recebido a notícia.

Afastou-se, pálido e com os maxilares apertados, parecendo tão irritado que ela teve vontade de chamá-lo de volta e concordar com o que ele dissera. Mas repetiu-se firmemente que não devia ser covarde. Agora trazia no ventre o rebento real, devia comportar-se como uma rainha e continuar com coragem.

E se eu estivesse em Tintagel e a região se enchesse de saxões, teria de ficar ali até o fim da guerra, quando a paz voltasse à área, e isso poderia demorar... e se Artur não souber que estou grávida, poderá deixar-me ali para sempre. Por que levaria uma rainha estéril para seu novo palácio em Camelot? É bem provável que ouvisse os conselhos do velho druida que me odeia, Taliesin, seu avô, para trocar-me por alguma mulher que pudesse dar-lhe um filho a cada dez luas, aproximadamente... Mas tudo estará bem, quando Artur souber...

O vento gelado parecia varrer as altas charnecas e penetrar-lhe os ossos; depois de algum tempo, pediu que parassem novamente e preparassem a liteira para viajar nela: os movimentos do cavalo a estavam sacudindo muito. Griflet parecia irritado e, por um momento achou que ele iria praguejar, esquecendo-se da cortesia, mas o rapaz deu as ordens, e Gwenhwyfar acomodou-se contente, lá dentro, satisfeita do passo lento e das cortinas que ocultavam o céu ameaçador.

Antes do anoitecer, a chuva parou por algum tempo, o sol saiu, abaixo, desaparecendo logo sobre a charneca desolada.

- Vamos armar as tendas aqui - comunicou Griflet. - Na charneca, pelo menos, podemos ver à distância. Amanhã, devemos chegar à velha estrada romana, e então poderemos viajar mais depressa... - e de repente baixou a voz e disse aos outros cavaleiros alguma coisa que Gwenhwyfar não pôde ouvir, mas a fez sentir medo, sabendo de sua irritação pela marcha vagarosa em que iam. Mas todos sabiam que uma mulher grávida corria o risco de abortar se andasse a galope, e já por duas vezes ela abortara. Será que queriam que também desta vez ela perdesse o herdeiro de Artur?

Dormiu mal, deitada no chão duro e coberta com o manto e os cobertores úmidos e o corpo dolorido da cavalgada.

Mas, depois de algum tempo, conseguiu adormecer, apesar da chuva que pingava dentro da tenda e mais tarde foi despertada pelo barulho dos cavaleiros e pela voz de Griflet, dando gritos ásperos e roucos.

- Quem vem lá? Pare!

- É Griflet? Conheço sua voz - respondeu alguém no escuro. - Sou Gawaine, e estou à procura de vocês. A rainha está aí?

Gwenhwyfar envolveu-se no manto e, mesmo em ca- misola de dormir, saiu da tenda.

- É você, primo? O que faz aqui?

- Esperava encontrá-la ainda no convento - disse Gawaine, desmontando. Atrás dele na escuridão, havia outras formas - quatro ou cinco dos homens de Artur, embora Gwenhwyfar não lhes distinguisse o rosto.

- Como está aqui, senhora, suponho que a rainha Igraine tenha deixado esta vida...

- Ela morreu a noite passada - respondeu, e Gawaine suspirou.

- Bem, é a vontade de Deus. Mas a terra está em armas, senhora. Como está aqui, e tão adiantada na viagem, creio que deve prosseguir para Caerleon. Se ainda estivesse no convento, eu tinha ordens de escoltá-la, junto com as irmãs que desejassem proteção, até o castelo de Tintagel, e pedir que ficasse ali até haver maior segurança na região.

- E, agora, pode poupar-se de fazer a viagem - comentou Gwenhwyfar, irritada, mas Gawaine sacudiu negativamente a cabeça.

- Como minha mensagem é inútil, e supondo que as irmãs queiram ficar mesmo no convento, devo seguir para Tintagel para convocar todos os homens fiéis a Artur. Os saxões estão se concentrando perto da costa, com mais de cem navios: os faróis mandaram sinais. A legião está em Caerleon, e todos os homens estão se preparando. Quando a notícia chegou ao reino de Lot, fui apresentar-me imediatamente a Artur, que me mandou a Tintagel para levar a mensagem - respirou. - Nestes dias, o próprio Merlim não é mais mensageiro do que eu.

- Eu sugeri à rainha que ela devia ficar em Tintagel, mas agora é muito tarde para voltar! - reclamou Griflet. - E com os exércitos nas estradas... Gawaine, talvez você devesse escoltar a rainha de volta a Tintagel.

- Não - foi a resposta clara. - Devo voltar agora, não tenho medo de viajar para onde devo ir.

Se tinha de enfrentar novamente a guerra, Artur ficaria ainda mais satisfeito com as boas notícias que Gwenhwyfar lhe levava. Gawaine já havia sacudido a cabeça com impaciência.

- Não posso me atrasar acompanhando o ritmo de viagem de uma mulher, a não ser que fosse a Senhora do Lago, capaz de cobrir a cavalo, num dia, a mesma distância que qualquer homem. E a rainha é um mau cavaleiro... não quera irritá-la, ninguém espera que a senhora monte como um homem, mas não posso me atrasar...

- E a rainha está grávida e tem de viajar ainda mais devagar - acrescentou Griflet com igual impaciência. Não poderia mandar alguns de seus cavaleiros mais lentos escoltá-la, Gawaine, enquanto eu seguiria com você para Tintagel?

- Sem dúvida você quer estar no meio da ação respondeu ele com um sorriso. - Mas Griflet, esta missão é sua, e ninguém o inveja. Pode dar-me um copo de vinho e um pouca de pão? Viajarei durante toda a noite, para chegar a Tintagel ao amanhecer. Tenho uma mensagem para Marcus, o duque de guerra da Cornualha, que deve trazer seus cavaleiros. Esta pode ser a grande batalha prevista por Taliesin, na qual pereceremos ou expulsaremos os saxões definitivamente! Mas todos os homens devem vir lutar ao lado de Artur!

- Até mesmo algumas das tropas do tratado ficarão agora com Artur - juntou Griflet. - Continue, se tem de continuar, e Deus os acompanhe.

Abraçaram-se.

- Voltaremos a encontrar-nos quando Deus quiser, amigo.

Gawaine fez uma vênia para Gwenhwyfar, que lhe estendeu a mão e perguntou:

- Um momento. Minha parenta Morgause está bem?

- Como sempre, senhora.

- E minha cunhada Morgana, está segura na corte de Morgause, então?

Gawaine pareceu surpreender-se.

- Morgana? Não, senhora, não vejo minha prima Morgana há muitos anos. Certamente, ela não esteve em visita ao reino de Lot, pois minha mãe me teria contado respondeu, cortês, apesar de sua impaciência. Agora, devo partir.

- Deus o acompanhe - disse ela, e ficou ouvindo o tropel dos cavalos que se afastavam na noite.

- Falta tão pouco, agora, para o amanhecer, que não creio haver razão para dormirmos novamente. Não será melhor levantar acampamento e prosseguir para Caerleon?

Griflet pareceu satisfeito.

- Sim, pouco se poderia dormir, com esta chuva. E se está disposta, senhora, alegro-me em retomarmos a marcha. Só Deus sabe o que teremos de enfrentar antes de chegarmos a Caerleon.

Quando o sol se ergueu sobre a charneca, era como se estivessem atravessando um país já silenciado pela guerra. Era a época em que os camponeses deviam estar nos campos, mas embora passassem por várias propriedades isoladas nos morros, não se viam animais pastando, nenhum cão latiu, nem qualquer criança correu para vê-los; e mesmo ao longo da estrada romana não encontraram um único viajante. Tremendo, Gwenhwyfar compreendeu que já se haviam espalhado as notícias da guerra, e os que não podiam participar dela haviam se escondido atrás de portas fechadas, para escapar de ambos os exércitos.

Haverá perigo para meu filho se viajar a essa velocidade? Mas agora parecia tratar-se da escolha de um mal menor - colocá-la em risco, e ao filho de Artur, com a marcha forçada, ou retardar-se pela estrada e cair talvez nas mãos dos exércitos saxões. Gwenhwyfar resolveu não dar mais motivos de queixa a Griflet, por atrasar a viagem. Mas enquanto cavalgava, não querendo refugiar-se na liteira para não ser acusada de retardar a viagem, parecia-lhe que o medo pairava à sua volta, por todo lado.

 

O poente já se aproximava, depois de um dia longo, quando avistaram a torre de vigia construída por Uther em Caerleon. A grande bandeira vermelha do Pendragon flutuava no alto, e Gwenhwyfar benzeu-se ao passarem sob ela.

Agora que todos os cristãos vão enfrentar os bárbaros, será certo que esse símbolo de uma velha fé demoníaca sirva para reunir as armas de um rei cristão? Mencionara o fato certa vez a Artur, e este respondeu que jurara ao seu povo governá-lo como o Grande Dragão, tanto aos cristãos como aos não-cristãos, e sem favoritismos. Riu, e mostrou-lhe os braços tatuados com as serpentes bárbaras. Ela sentia repulsa por aquelas serpentes, símbolos que nenhum cristão devia trazer, mas o rei fora inflexível.

- Trago-as como testemunho de que fui feito rei quando ocupei o lugar de Uther nesta terra. Não falemos mais disso, minha senhora.

E nada do que Gwenhwyfar disse pôde levá-lo a discutir o assunto, ou a ouvir o que um padre teria a dizer sobre aquilo.

- O ofício de padre é um, e o de rei é outro. Eu gostaria que você partilhasse tudo comigo, mas como não deseja ocupar-se disso, não posso falar do assunto com você. E quanto aos padres, não é da conta deles. Deixe de pensar nisso, eu lhe ordeno.

Sua voz era firme, mas não irritada. Ela baixou a cabeça e não disse mais nada. Mas, agora, ao passar sob a bandeira do Pendragon, tremia. Se nosso filho vai governar uma terra cristã, deve uma bandeira druida tremular sobre o castelo de seu pai?

Atravessaram lentamente os exércitos acampados na planície à frente de Caerleon. Alguns dos cavaleiros, que a conheciam bem, vieram aclamar sua rainha, e ela sorriu e acenou para eles. Atravessaram o campo dos homens de Lot, vindos do norte com lanças e longos machados, envoltos em suas roupas de tintas grosseiras e sobre os quais flutuava a bandeira de Morrigan, o Grande Corvo de guerra. O irmão de Gawaine, Gaheris, aproximou-se e fez-lhe uma reverência, caminhando depois ao lado do cavalo de Griflet, enquanto se aproximavam do castelo.

- Meu irmão o encontrou, Griflet? Ele tinha uma mensagem para a rainha...

- Encontrou-nos quando já tínhamos feito um dia de viagem - informou Gwenhwyfar -, mas, então, era mais fácil continuar até aqui.

- Vou acompanhá-los até o castelo. Todos os Companheiros de Artur estão convidados a jantar com o rei - contou Gaheris. - Gawaine ficou irritado de ter que ir com as mensagens, mas ninguém anda mais depressa do que meu irmão, quando necessário. Sua mulher está aqui, Griflet, mas já está se preparando, com a criança, para ir para o novo castelo. Artur quer que todas as mulheres se mudem, pois podem ser defendidas mais facilmente ali, pois ele só pode dispor de poucos cavaleiros para isso.

Para Camelot! O coração de Gwenhwyfar quase parou: tinha feito todo o percurso desde Tintagel para dar a Artur a notícia sobre seu filho, e agora ele a mandaria para Camelot?

- Não conheço aquele estandarte - disse Griflet, olhando para uma águia dourada esculpida num mastro. Parecia muito antiga.

- É o estandarte de Gales do Norte. Uriens está aqui, com Avalloch, seu filho. Uriens afirma que seu pai o tomou dos romanos, há mais de cem anos. Até pode ser verdade! Os homens dos montes de Uriens são combatentes vigorosos, embora eu não diga isso quando me podem ouvir.

- E que estandarte é aquele? - perguntou outra vez Griflet, e embora a pergunta fosse dirigida a Gaheris, foi Gwenhwyfar quem respondeu.

- É o estandarte de meu pai, Leodegranz, a bandeira azul com a cruz dourada.

Ela mesma, quando moça, no País do Verão, ajudara as damas da corte de sua mãe a bordar a bandeira do rei. Contava-se que seu pai a escolhera depois de ouvir uma história segundo a qual um dos imperadores de Roma viu o sinal da cruz no céu, antes de uma de suas batalhas. Poderíamos agora estar lutando sob esse simbolo, e não sob as serpentes de Avalon! Estremeceu, e Gaheris olhou-a interrogativamente.

- Tem frio, senhora? Devemos continuar até o castelo, Griflet, pois Artur está à espera da rainha.

- Deve estar cansada da viagem, senhora - disse Griflet, olhando-a com simpatia. - Mas dentro de alguns momentos, estará novamente aos cuidados de suas damas.

Ao se aproximarem dos muros do castelo, muitos Companheiros de Artur, que a conheciam, acenaram-lhe e gritaram seu nome, de maneira cordial e informal. No ano que vem, nesta época, eles estarão saudando o seu príncipe, pensou.

Um homem corpulento e de passo trôpego, com armadura de couro e um elmo de aço, atravessou-se no caminho - parecia ter tropeçado, embora tivesse feito uma curvatura para Gwenhwyfar, e ela percebeu que o fazia deliberadamente, que se havia colocado de propósito em seu caminho.

- Senhora minha irmã, não me conhece?

Gwenhwyfar franziu a testa, olhando-o, e só depois de um momento o reconheceu.

- É você..

- Meleagrant. Vim lutar ao lado de nosso pai e de seu marido, minha irmã.

- Eu não sabia que seu pai tinha um filho - disse Griflet com um sorriso cordial. - Mas todos são bem-vindos para lutar sob a bandeira de Artur.

- Talvez você possa dizer uma palavra a meu respeito com seu marido, o rei, minha irmã - pediu Meleagrant. Olhando-o, Gwenhwyfar sentiu uma leve repulsa. Era um homem enorme, quase um gigante, e como tantos homens grandes parecia malformado, como se um lado do corpo fosse maior do que o outro. Um olho era, sem dúvida, maior do que o outro, e era vesgo. Tentando ser justa, Gwenhwyfar refletiu que a deformidade não era culpa sua, e que realmente nada tinha contra ele. Havia sido, porém, uma arrogância dirigir-se a ela como irmã na frente de todos, e agora segurava-lhe a mão, como se a fosse beijar, sem pedir-lhe licença. Fechou-a e retirou-a.

Tentou falar com firmeza:

- Sem dúvida, quando você merecer, Meleagrant, meu pai falará de você a Artur, e ele o fará um de seus cavaleiros. Sou apenas uma mulher, e não tenho autoridade para prometer-lhe isso. Meu pai está aqui?

- Está com Artur no castelo - respondeu Meleagrant, aborrecido -, enquanto eu fico aqui fora com os cavalos como um cachorro!

- Não me parece que você tenha direito a mais do que isso, Meleagrant - e a voz de Gwenhwyfar era firme. - Ele lhe deu um lugar ao seu lado, pois sua mãe foi, outrora, uma de suas favoritas...

Meleagrant retrucou rispidamente:

- Todos sabem tão bem quanto minha mãe que sou o filho do rei, seu único filho vivo! Irmã, fale com nosso pai em meu favor!

Gwenhwyfar retirou a mão, evitando as muitas tentativas de Meleagrant de segurá-la.

- Deixe-me ir, Meleagrant! Meu pai diz que você não é filho dele, e como posso eu dizer mais alguma coisa? Não conheci sua mãe, e este é um assunto entre você e meu pai!

- Mas você deve me ouvir - insistiu ele, procurando-lhe a mão, até que Griflet interpôs-se:

- Vamos, você não pode falar assim à rainha, ou Artur servirá sua cabeça num prato durante o jantar! Tenho a certeza de que o rei lhe concederá o que for justo, e se você lutar bem por ele nesta batalha, não há dúvida de que o colocará entre seus Companheiros. Mas você não pode perturbar a rainha desse jeito!

Meleagrant voltou-se para Griflet, pondo-se a sobranceiro sobre ele, que, embora também bastante alto e atlético, parecia uma criança, e disse:

- Você vai querer me dizer o que eu posso ou não conversar com minha irmã, seu idiota?

Griflet levou a mão à espada:

- Estou incumbido de escoltar a rainha e cumprirei essa missão, que me foí dada por Artur. Saia do caminho, ou eu o tirarei à força!

- Você e quem mais? - zombou Meleagrant, animando-se com um riso feio.

- Eu, entre outros - intrometeu-se Gaheris, colocando-se rapidamente ao lado de Griflet. Como Gawaine, era um homem muito corpulento, que daria dois do esbelto Griflet.

- E eu - disse Lancelote, saindo da escuridão e caminhando rapidamente para o cavalo de Gwenhwyfar, que quase chorou de alívio. Nunca ele lhe pareceu mais bonito do que naquele momento. E embora fosse esbelto e não muito corpulento, havia alguma coisa em sua presença que fez Meleagrant recuar. - Este homem a está incomodando, minha senhora Gwenhwyfar?

Ela engoliu em seco e acenou com a cabeça, vendo, amedrontada, que não tinha voz para responder. Meleagrant perguntou:

- E quem é você, camarada?

- Cuidado - recomendou Gaheris. - Não conhece o senhor Lancelote?

- Sou o capitão da cavalaria de Artur - respondeu Lancelote, com seu ar despreocupado. - E o campeão da rainha. Tem alguma coisa a dizer?

- Minha conversa é com minha irmã - disse Me- leagrant.

Gwenhwyfar, estridente, respondeu:

- Não sou irmã dele! Este homem se diz filho de meu pai porque sua mãe foi, por algum tempo, uma das mulheres do rei! Ele não é filho de meu pai, mas um palhaço de nascimento servil, que vem do campo, embora meu pai tenha sido bastante bom para dar-lhe um lugar em seu séquito!

- É melhor você sair do caminho - disse Lancelote, avaliando Meleagrant com desprezo, e era fácil ver que este o conhecia e não desejava medir-se com ele. Recuou, dizendo numa voz sombria:

- Você se arrependerá algum dia, Gwenhwyfar.

Lancelote estava como sempre muito bem-vestido, com uma túnica e um manto vermelhos. Tinha o cabelo cuidadosamente cortado e penteado, a barba feita. As mãos pareciam macias e brancas como as de Gwenhwyfar, embora ela soubesse que eram fortes e duras como o aço. Estava mais belo do que nunca. E chegara exatamente a tempo de salvá- la de um encontro desagradável com Meleagrant. Sorriu, sem querer: e foi como se alguma coisa se revolvesse, no mais íntimo de Gwenhwyfar.

Não, não devo olhar para ele assim agora, vou ser a mãe do filho de Artur...

- Senhora, não há de querer passar pelo grande salão com essas amassadas roupas de viagem! Choveu durante a maior parte da viagem. Permita que eu a leve, com a criada, até a porta lateral, de onde poderá ir diretamente para seus aposentos, refrescar-se, para depois saudar meu senhor Artur no salão, quando tiver mudado de roupa e estiver bem aquecida. Você está tremendo! O vento não está muito frio para você, Gwenhwyfar?

Ele sempre tivera o privilégio de tratá-la pelo nome, sem as expressões formais "minha senhora", ou "minha rainha", mas nunca esse nome havia soado mais docemente em seus lábios.

- Como sempre, você se preocupa comigo - sorriu a rainha, deixando que ele conduzisse o cavalo.

- Griflet, anuncie ao rei que a senhora chegou bem e está em seus aposentos. E você, Gaheris, volte para junto dos seus companheiros. Eu conduzirei a rainha.

Junto à porta ajudou-a a desmontar, e ela sentiu o contato de suas mãos. Baixou os olhos, sem querer olhá-lo.

- O grande salão está cheio dos Companheiros de Artur - informou Lancelote -, em grande confusão. A Távola Redonda foi levada há apenas três dias, em três carroças, para Camelot, e Cai a acompanhou, para instalá-la no novo salão. Agora, um cavaleiro foi mandado às pressas para chamá-lo de volta, e também a outros homens que possam montar, no País do Verão...

Ela levantou para Lancelote o olhar, atemorizada.

- Gawaine falou-nos de invasões dos saxões. É esta a guerra que Artur temia?

- É a guerra que, há muitos anos, sabíamvs que aconteceria - foi a resposta tranqüila. - É para ela que Artur vinha treinando suas legiões, e para a qual eu venho preparando a cavalaria. Quando terminar, talvez tenhamos a paz que desejamos, durante toda a minha vida e durante toda a vida de Uther.

De repente ela o envolveu em seus braços.

- Você poderá ser morto - murmurou. Era a primeira vez que tinha a coragem de fazer aquilo. Ficou agarrada a ele, com o rosto encostado em seu ombro, enquanto Lancelote a envolvia em seus braços. Mesmo em meio ao medo, ela sentia a doçura de ser abraçada por ele.

- Todos sabíamos que isso aconteceria algum dia, minha querida - e sua voz tremeu. - Tivemos a sorte de dispor de vários anos para nos prepararmos, e de ter Artur como chefe. Acho que nem mesmo você sabe o grande comandante que ele é, e como todos nós o adoramos! É jovem, mas é o maior dos Grandes Reis que tivemos desde muito antes da chegada dos romanos. Com Artur à nossa frente, é certo que expulsaremos os saxões daqui. E quanto ao resto, será como Deus quiser, Gwenhwyfar.

Afagou-lhe os ombros suavemente, dizendo:

- Pobre menina, está tão cansada, deixe-me conduzi-la até suas damas.

Mas Gwenhwyfar sentia as mãos dele tremerem, e de repente teve vergonha de ter-se lançado em seus braços como se fosse uma daquelas mulheres que acompanham os soldados!

 

Em seus aposentos, tudo era confusão. Meleas colocava as roupas em caixas, Elaine supervisionava as servas, e abraçou-a, exclamando:

- Prima, estávamos tão preocupadas, com você em viagem! Esperávamns que recebesse a mensagem antes de deixar o convento, e ficasse a salvo em Tintagel...

- Não, Igraine morreu. Gawaine nos encontrou quando já tínhamos feito um dia inteiro de viagem, e além disso meu lugar é ao lado de meu marido.

- Senhora, Griflet voltou junto? - perguntou Meleas.

- Ele acompanhou-me até aqui - respondeu Gwenhwyfar, com um aceno de cabeça. - Você o verá no jantar, suponho. Ouvi Gaheris dizer que todos os Companheiros de Artur tinham sido convidados a jantar com o rei.

- Se é que se pode chamar isso de jantar - ironizou Meleas. - É mais como uma refeição de soldados. Este lugar está como um acampamento armado, e vai piorar ainda mais. Mas Elaine e eu fizemos todo o possível para manter as coisas em ordem.

Ela sempre fora uma jovem sorridente e bem-humorada, mas agora parecia preocupada e cansada.

- Coloquei em caixas todos os seus vestidos e as coisas de que pode precisar neste verão, de modo que a senhora poderá partir para Camelot pela manhã. O rei disse due todos teríamos de ir juntos, pois o palácio está praticamente pronto para ser ocupádo, com o trabalho feito por Cai. Mas nunca pensei que fôssemos para lá assim, nessa pressa, quase sitiados...

Não, pensou Gwenhwyfar. Passei viajando todos esses dias, e agora não vou voltar novamente à estrada! Meu lugar é aqui, e meu filho tem o direito de nascer no castelo do seu pai. Não permitirei que me mandem outra vez daqui para ali, como se fosse bagagem!

- Tenha calma, Meleas, talvez não haja tanta pressa assim! Mande alguém buscar água para lavar-me e traga uma roupa que não esteja molhada nem suja de lama da viagem. E quem são essas mulheres?

As mulheres, ao que se verificou, eram as esposas de alguns dos Companheiros e de alguns dos reís vassalos de Artur, que iriam com elas para Camelot. Era mais fácil que viajassem todos num só grupo, e lá estariam a salvo dos saxões.

- É perto de sua terra - disse Elaine, como se isso pudesse vencer a resistência de Gwenhwyfar. - A senhora poderá visitar a esposa de seu pai, seus irmãos e irmãs. Ou enquanto o rei Leodegranz estiver na guerra, sua madrasta poderá viver conosco em Camelot.

Isso não seria agradável para nenhum de nós, pensou Gwenhwyfar, e em seguida teve vergonha de si mesma. Pensou em acabar com toda aquela discussão dizendo umas poucas palavras. Estou grávida e não posso viajar, mas desistiu ao pensar nas numerosas perguntas a que teria de responder. Artur devia ser o primeiro a saber.

 

Capítulo 12

Quando Gwenhwyfar entrou no grande salão que parecia vazio e nu sem a grande Távola Redonda e sem o esplendor das bandeiras e tapetes, Artur estava sentado a uma mesa, no meio do aposento, próximo das lareiras, cercado de meia dúzia de seus Companheiros, enquanto outros formavam um grupo próximo. Estava ansiosa para dar-lhe a notícia, mas não podia anunciá-la na frente de toda a corte! Teria de esperar até que estivessem a sós na cama - era o único momento em que o tinha totalmente para si. Mas quando Artur desviou o olhar dos Companheiros e a viu, levantou-se e foi abraçá-la.

- Gwen, minha querida - disse ele. - Eu tinha esperanças de que a mensagem levada por Gawaine pudesse deixá-la em segurança em Tintagel...

- Você está zangado pelo fato de eu ter voltado?

Ele sacudiu a cabeça, negativamente:

- Não, claro que não. Então as estradas ainda oferecem alguma segurança, e você teve sorte. Mas suponho que isso quer dizer que minha mãe...

- Morreu há dois dias, e foi enterrada no convento. Parti imediatamente para trazer-lhe a notícia. E apesar disso, você só tem críticas a me fazer, pelo fato de não ter ficado em segurança em Tintagel, devido a esta guerra!

- Não são críticas, minha querida, mas sim preocupação com sua segurança. Mas Sir Griflet cuidou bem de você, pelo que vejo. Venha sentar-se conosco, aqui.

Levou-a para um banco e sentou-se ao lado dela. A prata e os utensílios de cerâmica haviam desaparecido. Gwenhwyfar supôs que tinham sido mandados para Camelot, e ficou pensando o que teria acontecido com os belos pratos romanos vermelhos dados pela sua madrasta como presente de casamento. As paredes estavam nuas e a sala vazia, e comeram em pequenas tigelas de madeira, do tipo grosseiro que se encontra nos mercados. Mergulhando um pedaço de pão na vasilha, ela disse:

- Este lugar já parece ter sido cenário de uma batalha.

- Achei que tudo devia ser mandado para Camelot respondeu Artur -, e depois tivemos as notícias de desembarques dos saxões, e tudo se tornou confuso. Seu pai está aqui, minha querida, e sem dúvida você há de querer saudá-lo.

Leodegranz estava sentado ali perto, embora não no círculo dos que estavam mais próximos de Artur. Gwenhwyfar aproximou-se dele e o beijou, sentindo seus ombros fortes sob as mãos - seu pai sempre lhe parecera um homem corpulento, imponente, e agora, de repente, dava a impressão de estar velho e cansado.

- Eu disse ao meu senhor Artur que não devia deixar que você viajasse pelas estradas numa época destas. Ah, sem dúvida é natural que Artur desejasse mandá-la para junto do leito de morte de sua mãe, mas ele também tinha um dever para com você, como mulher dele. Igraine tem uma filha solteira que devia estar com ela. Onde está a duquesa da Cornualha, que não foi para junto da mãe?

- Não sei por onde anda Morgana - respondeu Artur. - Minha irmã é adulta e dona de seu próprio nariz. Não precisa de minha autorização para estar aqui, ou ali.

- Ah, é sempre assim com um rei - observou Leodegranz, num tom de lamentação. - É senhor de todos, exceto de suas mulheres. Com Alienor é a mesma coisa, e tenho três filhas que ainda não estão em idade de casar, e já pensam que governam minha casa. Você as verá em Camelot, Gwenhwyfar. Mandei-as para lá a fim de estarem mais seguras, e a mais velha, Isotta, já tem idade suficiente; você poderia fazer dela uma de suas damas, é sua meia irmã, não, Gwenhwyfar? E como não tenho filhos vivos, quero que peça a Artur para casá-la com um de seus melhores cavaleiros, quando for a época.

Gwenhwyfar sacudiu a cabeça, surpresa com a idéia de que sua meia irmã Isotta já tivesse idade para viver na corte.

Tinha quase sete anos quando Gwenhwyfar se casou - deveria ser agora uma jovem de doze ou treze. Elaine tinha a mesma idade quando foi para Caerleon. Sem dúvida, se lhe pedisse, Artur daria Isotta a um de seus cavaleiros, talvez Gawaine, ou possivelmente - já que Gawaine seria rei do reino de Lot algum dia - a Gaheris, que eram primos do Grande Rei.

- Estou certa de que Artur e eu, juntos, encontraremos um bom marido para minha irmã.

- Lancelote continua solteiro - sugeriu Leodegranz -, bem como o duque Marcus da Cornualha. Embora me pareça que seria mais adequado que Marcus se casasse com a senhora Morgana e ambos combinassem suas pretensões, e ela teria então alguém para defender seu castelo e suas terras. E embora sabendo que ela é uma das damas da Senhora do Lago, não tenho dúvidas de que o duque Marcus poderia domá-la.

Gwenhwyfar sorriu à idéia de que Morgana pudesse casar-se, obedientemente, com alguém que eles considerassem digno. Ao mesmo tempo, sentiu-se irritada: por que ela podia fazer o que quisesse? Nenhuma outra mulher tinha permissão para isso, nem mesmo Igraine, que era mãe do rei, e fora casada de acordo com a vontade de seus parentes. Artur devia exercer sua autoridade e fazer com que a irmã se casasse, antes que trouxesse a desonra para todos eles! Lembrou-se, porém, de que, quando Artur falara em casar Morgana com seu amigo Lancelote, ela mesma havía feito objeções. Ah, eu fui egoista... Não posso tê-lo para mim, e não quera que tenha uma esposa. Procurou, porém, convencer-se de que se sentiria feliz em ver Lancelote casado, se a noiva fosse adequada e virtuosa!

- Pensei que a duquesa da Cornualha estivesse entre suas damas... - comentou Leodegranz.

- Esteve, sim - respondeu Gwenhwyfar -, mas deixou-nos há alguns anos, para viver com sua parenta, e não voltou.

E novamente ocorreu-lhe a pergunta: onde andaria Morgana? Não estava em Avalon, nem na corte de Morgause, em Tintagel com Igraine - poderia estar na Bretanha Menor, ou numa peregrinação a Roma, ou no país das fadas, ou no próprio inferno, pelo que Gwenhwyfar sabia. Aquela situação não podia continuar: Artur tinha o direito de saber onde estava sua parenta mais próxima, agora que a mãe havia morrido. Mas, sem dúvida, Morgana teria ido para junto dela, se isso lhe fosse possível!

Gwenhwyfar voltou para junto de Artur. Lancelote e o rei faziam rabiscos, com a ponta dos punhais, na mesa de madeira à sua frente, enquanto comiam, distraidamente, do mesmo prato. Mordendo os lábios - na verdade, poderia ter ficado em Tintagel, pois não fazia nenhuma diferença para Artur sua presença ali -, ia retirar-se para um canto com suas damas, mas ele levantou os olhos, viu-a, sorriu-lhe e estendeu a mão para ela.

- Não, minha querida, não quis mandá-la embora. Eu preciso realmente conversar com meu capitão da cavalaria, mas há lugar para você, aqui - fez um gesto para um dos servos. - Traga mais um prato para a senhora. Lancelote e eu destruímos este. Também há pão fresco, se é que resta algum, pois, sem Cai, as cozinhas estão um caos.

- Acho que já comi bastante - sorriu Gwenhwyfar, apoiando-se um pouco no ombro de Artur, que a afagou, distraído. Ela sentia a presença de Lancelote, cálida e firme, do outro lado, e experimentava uma sensação de segurança entre eles. Artur inclinou-se para a frente, com uma das mãos acariciando ainda o cabelo da esposa e com a outra segurando o punhal com que fazia riscos.

- Veja, podemos levar os cavalos por aqui? É possível viajar depressa e deixar as carroças com provisões e bagagens passarem pelo terreno menos acidentado, mas os cavalarianos podem cortar caminho, com equipamento leve, e marchar rapidamente. Cai tem homens preparando o pão de munição para o exército, e o vem armazenando há três anos, desde a batalha da floresta de Celidon. É provável que eles desembarquem aqui - e mostrou um lugar no tosco mapa que havia desenhado. - Leodegranz, Uriens, venham ver isto.

O pai de Gwenhwyfar aproximou-se acompanhado de outro homem, magro, moreno e ágil, embora seu cabelo fosse grisalho e tivesse o rosto marcado.

- Rei Uriens - disse Artur -, saúdo-o como amigo de meu pai e como meu amigo. Já conhece a senhora Gwenhwyfar?

Uriens fez uma mesura. Tinha uma voz agradável, melodiosa:

- O prazer é meu em falar-lhe, senhora. Quando a guerra tiver terminado, levarei minha esposa, se me autorizar, para apresentá-la à senhora, em Camelot.

- Terei a maior satisfação - sorriu Gwenhwyfar, sentindo a falsidade de sua voz. Nunca fora capaz de dizer aquela frase comum de cortesia de maneira convincente.

- Não poderá ser este verão, pois temos outras coisas a fazer - tornou Uriens, inclinando-se sobre o esboço de mapa feito por Artur. - No tempo de Ambrósio, levamos um exército por aquí. Não tínhamos tantos cavalos, exceto nas carroças, mas poderíamos levá-los pelo terreno mais íngreme, e cortar caminho. Devemos evitar os pântanos do su1 do País do Verão.

- Eu esperava não ter de subir as montanhas - disse Lancelote.

Uriens sacudiu a cabeça:

- Com essa grande quantidade de cavalos, é melhor assim.

- Nas montanhas, os cavalos escorregam e quebram as pernas - argumentou Lancelote.

- Melhor até mesmo isso, Sir Lancelote, do que ter os homens, os cavalos e as carroças afundados na lama. Melhor a montanha do que o pântano - opinou Uriens. - Veja, aqui fica a velha muralha romana...

- Não consigo ver direito, com tantos rabiscos - disse Lancelote, com impaciência. Dirigiu-se à lareira, apanhou um graveto, sacudiu a brasa da ponta e começou a desenhar no chão, com o carvão. - Vejam, aqui está o País do Verão, e ali, os lagos e a muralha romana... Temos, digamos, trezentos cavalos, e aqui, duzentos...

- Tantos assim? - perguntou Uriens, com incredulidade. - As legiões de César não tinham mais do que isso!

- Há sete anos que os estamos treinando, e exercitando os soldados para montá-los - esclareceu Lancelote.

- Graças a você, meu caro primo.

- Graças ao senhor, meu rei, que teve visão para compreender o que póderíamos fazer com eles - retrucou Lancelote, voltando-se para o rei.

- Alguns soldados ainda não sabem combater a cavalo - tornou Uriens. - Quanto a mim, combato bastante bem à frente de soldados a pé.

- O que também é bom - disse Artur -, pois não temos cavalos para todos os que desejam combater montados, nem selas, estribos e rédeas, embora eu tenha posto todos os seleiros do reino trabalhando o mais depressa possível. Custou-me muito esforço arranjar o dinheiro para pagar tudo isso, e os homens me julgaram um tirano avarento - riu, e abraçou Gwenhwyfar, acrescentando: - Durante todo esse tempo, quase nem tive ouro para comprar para minha rainha as sedas e os bordados! Todos os recursos foram para cavalos, ferreiros e seleiros! - De repente, a alegria desapareceu, e ele ficou quase sério: - E agora, a grande prova para o que fizemos e para tudo o que poderemos fazer: desta vez os saxões vieram em peso, meus amigos. Se não pudermos contê-los, tendo metade do número de soldados, não haverá comida neste país senão para os corvos e os lobos!

- Essa é a vantagem da cavalaria - disse Lancelote com gravidade. - Homens montados e armados podem combater contra cinco, dez, e talvez até vinte inimigos. Se nossas suposições forem acertadas, derrotaremos os saxões definitivamente. Se não forem, bem, morreremos defendendo nossos lares, as terras que amamos e nossas mulheres e filhos.

- Sim - disse Artur com doçura. - É o que faremos. Para que trabalhamos desde que tínhamos corpo suficiente para pegar uma espada, Galahad?

E sorriu seu sorriso raro e doce, o que fez Gwenhwyfar pensar, com uma pontada de dor: Ele nunca sorri assim para mim. No entanto, quando souber das notícias que lhe trago...

Lancelote respondeu ao sorriso, e depois também ele suspirou:

- Recebi uma mensagem de meu meio irmão Lionel, filho mais velho de Ban. Disse que se faria ao mar dentro de três dias... não... - parou, contando nos dedos. - Já está no mar, o mensageiro atrasou-se. Ele tem quarenta navios e espera forçar todos os navios saxônios, ou o maior número possível, contra as rochas ou para o sul do litoral da Cornualha, onde não poderão desembarcar suas tropas em boa ordem. E quando Lionel desembarcar, levará seus homens para o ponto em que estamos nos reunindo. Terei de mandar-lhe um mensageiro indicando o local de encontro.

Apontou para o mapa rabiscado nas pedras. Houve uma agitação de vozes na porta do salão, e um homem alto, magro e grisalho caminhou por entre os bancos e as mesas de madeira. Gwenhwyfar não via Lot desde antes da batalha da Floresta de Celidon.

- Nunca pensei ver o salão de Artur nu, sem a sua Távola Redonda! E você, meu primo Artur, jogando com os seus coleguinhas, no chão!

- A Távola Redonda foi para Camelot, primo - explicou Artur, levantando-se -, junto com todos os meus móveis e os pertences das mulheres. O que você vê aqui é um campo armado, esperando apenas o amanhecer para que as últimas mulheres sejam mandadas para Camelot. A maioria delas, com as crianças, já foi.

Lot fez uma reverência para Gwenhwyfar e disse, com sua voz cheia:

- Ora, então a corte de Artur ficará certamente desolada. Mas é seguro para mulheres e crianças viajarem, com a região em pé de guerra?

- Os saxões ainda não penetraram muito pelo interior - tornou Artur -, e não haverá perigo, se viajarem imediatamente. Devo separar uns cinqüenta homens para montarem guarda a Camelot. Será para eles uma tarefa ingrata ficar longe do campo de batalha. A rainha Morgause está segura, em vosso reino. E estou satisfeito por minha irmã estar com ela!

- Morgana? - Lot sacudiu a cabeça negativamente. - Ela não nos visita há muitos anos! Ora, ora. Para onde pode ter ido? E com quem? Eu sempre achei que essa moça era capaz de nos fazer uma surpresa! Mas por que se transfere para Camelot, meu senhor Artur?

- É mais fácil de defender - respondeu o rei. - Cinqüenta homens podem defendê-lo até a volta de Cristo. Se eu deixasse as mulheres em Caerleon, teria necessidade de manter aqui duzentos homens ou mais, que não poderiam participar da batalha. Não sei por que meu pai instalou-se aqui. Eu tinha esperança de já estar em Camelot, quando os saxões atacassem novamente, e eles teriam de atravessar todo o país para chegar até lá. Poderíamos escolher o local onde fosse melhor para enfrentá-los. Se os atraíssemos para os pântanos e os lagos do País do Verão, onde a terra nunca é igual dois anos consecutivos, então a lama e os pântanos fariam parte do trabalho para nós, e o pessoal de Avalon poderia dar cabo deles com suas flechas.

- Eles o farão, de qualquer maneira - disse Lancelote, levantando-se depois de estudar o mapa desenhado nas pedras do chão. - Avalon já mandou trezentos, e outros virão, ao que dizem. E o Merlim me disse, quando falei com ele da última vez, que haviam mandado mensageiros ao seu país, meu senhor Uriens, para que o Povo Antigo, que vive nos morros ali, também venha lutar ao nosso lado. Assim, temos a legião, soldados montados combatendo em terreno plano, todos com armaduras e lanças, valendo cada um uns doze saxões ou mais. Temos numerosos soldados a pé, arqueiros e espadachins, que podem combater nos montes e vales. E temos ainda muitos homens das tribos, com lanças e machados, e o Povo Antigo, que sabe fazer emboscadas e derrubar homens com suas setas de ponta de sílex, sem serem vistos. Creio que estamos preparados para enfrentar todos os saxões de todas as Gálias e do litoral do continente!

- E é o que teremos de fazer - concordou Lot. - Tenho lutado contra os saxões desde os tempos de Ambrósio, tal como Uriens, e nunca tive de enfrentar nada semelhante ao exército que agora avança contra nós.

- Desde que fui coroado, eu sabia que este dia chegaria. A Senhora do Lago disse-me isso ao me dar a Excalibur. E agora, ela está mandando que todo o povo de Avalon se reúna sob a bandeira do Pendragon.

- Estaremos todos presentes - afirmou Lot, mas Gwenhwyfar estremeceu, e Artur, solícito, lhe disse:

- Minha querida, você viajou todo o dia de hoje e de ontem, e terá de partir novamente, ao alvorecer. Posso chamar suas damas para a levarem para a cama?

Ela sacudiu a cabeça numa negativa, e torceu as mãos no regaço:

- Não, não estou cansada. Artur, não me parece adequado que os pagãos de Avalon, governados pela feitiçaria, lutem ao lado de um rei cristão! E quando você os reúne sob aquela bandeira pagã...

- Minha rainha, prefere que o povo de Avalon assísta impassível a seus lares caírem nas mãos dos saxões? A Bretanha também é a terra deles. Eles lutarão tanto quanto nós, para proteger nossa terra contra os bárbaros. E o Pendragon é o seu rei jurado.

- É disso que eu não gosto - protestou Gwenhwyfar, tentando tornar sua voz firme, para não parecer uma menina levantando a voz num conselho de homens. Afinal de contas, pensou ela, Morgause é ouvida como conselheira de Lot, e Viviane nunca hesitou em falar de assuntos de Estado! - Não me agrada que nós e o povo de Avalon tenhamos de lutar do mesmo lado. Essa batalha pertence aos homens civilizados, aos seguidores do Cristo, descendentes de Roma, contra aqueles que não conhecem o nosso Deus. O Povo Antigo é nosso inimigo, tanto quanto os saxões, e esta terra só será realmente cristã quando todo esse povo estiver morto, ou tiver se refugiado nas suas montanhas, e com eles os seus deuses demoníacos! E não me agrada, Artur, que você tenha como bandeira um símbolo pagão. Você devia lutar, como Uriens, sob a cruz do Cristo, a fim de que possamos separar os amigos dos inimigos.

Lancelote estava chocado:

- Eu também sou seu inimigo, Gwenhwyfar?

- Você é cristão, Lancelote - respondeu ela, sacudindo a cabeça.

- Minha mãe é a mesma Senhora do Lago maligna que você condena pelas suas feitiçarias - disse ele -, e eu próprio fui criado em Avalon. O Povo Antigo é a minha gente. Meu pai, que é um rei cristão, também celebrou o Grande Casamento com a Deusa, pela sua terra! - Ele parecia irritado.

Artur levou a mão ao punho da Excalibur, em sua bainha de veludo vermelho e de ouro. A visão da mão do rei sobre aqueles símbolos mágicos, e das serpentes tatuadas em volta de seu pulso, fez com que Gwenhwyfar afastasse os olhos.

- Como poderá Deus conceder-nos a vitória se não afastarmos todos esses símbolos de feitiçaria e lutarmos sob a cruz? - perguntou ela.

- Há alguma razão no que diz a rainha - opinou Uriens, conciliador. - Mas eu levo minhas águias em nome de meus pais e de Roma. Ofereço-lhe a bandeira da cruz, meu senhor Artur, se assim desejar. Poderá levá-la com justiça, em atenção à rainha.

Artur sacudiu a cabeça, rejeitando. Só o rubor no seu rosto indicava a Gwenhwyfar que ele estava irritado.

- Jurei lutar sob a bandeira real do Pendragon, e o farei, ou morrerei. Não sou nenhum tirano. Quem desejar levar a cruz de Cristo no seu escudo pode fazê-lo, mas a bandeira do Pendragon fica, como símbolo de todos os povos da Bretanha: cristãos, druidas, Povo Antigo, também, lutando juntos. Tal como o dragão é superior a todos os animais, assim também o Pendragon está acima de todos os povos! De todos, digo eu!

- E as águias de Uriens e o Grande Corvo do reino de Lot lutarão ao lado do dragão - declarou Lot, levantando-se. - Gawaine não se encontra aqui, meu senhor? Eu queria falar com meu filho, e pensei que ele estivesse sempre ao seu lado!

- Sinto tanto a falta dele quanto você, meu tio. Não sei para onde me voltar, sem Gawaine à minha retaguarda, mas tive de mandá-lo com uma mensagem a Tintagel, pois ninguém anda mais depressa do que ele.

- Ah, mas o senhor tem muita gente para guardá-lo! - comentou Lot, mal-humorado. - Vejo Lancelote sempre a um passo ou dois, ao seu lado, pronto para preencher o espaço vazio...

Lancelote ficou vermelho, mas respondeu cortesmente:

- É sempre assim, primo, todos os Companheiros de Artur competem entre si pela honra de estar mais próximo do rei, e quando Gawaine está presente, até mesmo Cai, que é irmão de criação do rei, e eu, que sou o campeão da rainha, devemos ceder-lhe o lugar.

Artur voltou-se novamente para Gwenhwyfar, e disse:

- Agora, realmente, minha rainha, você deve ir descansar. Este conselho pode prolongar-se pela noite, e você deverá estar pronta para partir ao alvorecer.

Gwenhwyfar apertou as mãos. Desta vez, desta vez, dai-me coragem para falar...

- Não, meu senhor, não - disse com voz clara. - Não partirei ao alvorecer para Camelot ou para qualquer outro lugar na face desta terra.

O rosto de Artur avermelhou-se novamente, indicando que estava com raiva.

- Como pode ser, senhora? Não é possível retardar- se, havendo uma guerra no país. Eu lhe concederia de boa vontade um dia ou dois para descansar antes de nova viagem, mas é preciso colocar todos em segurança antes que os saxões cheguem. Quando amanhecer, Gwenhwyfar, seu cavalo e sua equipagem estarão prontos. Se você não puder montar, viaje numa liteira ou seja levada numa cadeira, mas terá de ir.

- Não irei! - disse ela em tom de desafio. - E você não pode me forçar, a menos que me coloque num cavalo e me amarre nele.

- Deus não permita que eu tenha de fazer isso - disse Artur. - Mas qual a razão, senhora? - Estava perturbado, procurando manter a voz calma e brincalhona. - Ora, todas essas legiões de homens aí fora obedecem às minhas ordens, será que terei de enfrentar uma rebelião dentro de minha própria casa, e provocada por minha esposa?

- Seus homens podem obedecer às suas ordens - argumentou ela, em desespero. - Eles não têm a mesma razão que eu para permanecer aqui! Ficarei apenas com uma companhia e uma parteira, meu senhor, mas não viajarei para lugar nenhum, nem mesmo até as margens do rio, enquanto seu filho não tiver nascido!

Pronto, eu disse... aqui, na frente de todos esses homens...

Ouvindo-a, Artur compreendeu, mas em lugar de alegrar-se, demonstrou apenas consternação. Sacudiu a cabeça, começou a dizer "Gwenhwyfar...", mas parou.

Lot riu, e disse:

- Está grávida, senhora? Ora, congratulações! Mas isso não a impede de viajar. Morgause montava todos os dias, até ficar demasiado pesada para isso. E ninguém diria ainda que está grávida. Nossas parteiras dizem que o ar fresco e os exercícios são saudáveis para as mulheres grávidas, e quando a minha égua favorita está prenhe, eu a exercito até seis semanas antes do dia.

- Não sou uma égua - respondeu Gwenhwyfar, friamente. - E já tive dois abortos. Você me exporia novamente a isso, Artur?

- Mas você não pode ficar aqui. Este lugar não pode ser defendido de maneira adequada - insistiu ele, desanimado. - E podemos ter de partir com o exército a qualquer momento! Não é justo pedir às suas damas que fiquem e corram o risco de ser capturadas pelos saxões. Tenho certeza de que a viagem não lhe fará mal, querida, há mulheres grávidas entre as que partiram para Camelot na semana passada. E você não pode ficar aqui, com todo o seu pessoal ausente; isto vai ser apenas um acampamento de soldados, Gwen!

Gwenhwyfar olhou para suas damas.

- Nenhuma de vocês ficaria com sua rainha?

- Eu fico, prima, se Artur permitir - disse Elaine.

E Meleas:

- Ficarei, se meu senhor permitir, embora nosso filho já esteja em Camelot.

- Não, Meleas, você tem de ir para junto de seu filho - insistiu Elaine. - Eu sou parenta da rainha e posso suportar com ela tudo por que ela tiver de passar, até mesmo viver num campo armado com homens - colocou-se ao lado de Gwenhwyfar, segurando-lhe a mão. - Mas você não poderia viajar numa liteira? Camelot é muito mais seguro.

Lancelote levantou-se e aproximou-se da rainha. Curvou-se sobre sua mão e disse, em voz baixa:

- Minha senhora, peço-lhe que siga com as outras damas. Esta região poderá estar em ruínas dentro de dias, quando os saxões chegarem. Em Camelot, estará perto da terra de seu pai. Minha mãe vive em Avalon, a um dia de viagem. Ela é conhecida pelas suas artes médicas e como parteira, e tenho certeza de que irá cuidar da senhora, ou mesmo fazer-lhe companhia quando a criança nascer. Se eu mandar uma mensagem a minha mãe, pedindo-lhe isso, a senhora partirá?

Gwenhwyfar inclinou a cabeça, fazendo força para não chorar. Mais uma vez, tenho de fazer o que me mandam, como qualquer mulher, não importando o meu desejo! Agora, até mesmo Lancelote procurava forçá-la a fazer o que lhe mandavam. Lembrou-se da viagem desde o País do Verão, em que mesmo com a presença de Igraine sentira-se aterrorizada; e durante todo o dia, atravessara as terríveis charnecas, desde Tintagel. Agora que estava a salvo, entre aquelas paredes, e que lhe parecia nunca mais ter de abandonar a segurança oferecida por elas...

Talvez, quando estivesse mais forte, quando o filho estivesse seguro em seus braços... Então, talvez pudesse ousar tal viagem, mas não agora. E Lancelote a oferecer-lhe a companhia daquela feiticeira maligna que era a sua mãe! Como podia pensar que toleraria uma feiticeira junto de seu filho? Artur podia contaminar-se com juramentos e laços com Avalon, mas seu filho jamais seria tocado pelo mal pagão.

- É bondade sua, Lancelote - teimou. - Mas não irei para nenhum outro lugar, até que meu filho tenha nascido.

- Nem mesmo que fosse para Avalon? - perguntou Artur. - Você e nosso filho estariam mais protegidos ali do que em qualquer outro lugar do mundo.

Ela estremeceu e fez o sinal-da-cruz.

- Que Deus e a Virgem Maria não o permitam! - murmurou. - Preferia ir para o próprio país das fadas!

- Gwenhwyfar, ouça... - começou Artur, mas suspirou, derrotado, e ela sentiu que tinha vencido. - Seja como você quer. Se o perigo da viagem lhe parece maior do que o de ficar aqui, então Deus não permita que eu a obrique a viajar...

Irritado, Gaheris disse:

- Artur, você vai deixá-la fazer isso? Pois lhe digo que você devia amarrá-la ao cavalo e mandá-la embora, quer ela queira ou não! Meu rei, dará ouvidos, assim, a conversas de mulher?

Artur sacudiu a cabeça, cansado:

- Calma, primo. Vê-se logo que você não é casado. Gwenhwyfar, faça como quiser. Elaine pode ficar com você, uma serva, uma parteira, seu padre e mais ninguém. Todos os outros devem partir ao alvorecer. E agora, vá descansar, Gwen. Não posso perder mais tempo com isso!

E Gwenhwyfar, oferecendo obedientemente o rosto para o beijo formal de Artur, não teve a sensação de haver conquistado uma vitória.

 

As outras mulheres partiram às primeiras luzes do dia.

Meleas pediu para ficar com a rainha, mas Griflet não permitiu.

- Elaine não tem marido nem filho - disse ele. Que permaneça aqui. Mas se eu fosse o rei Pellinore, não deixaria minha filha ficar, com ou sem rainha. Você irá, minha cara.

E Gwenhwyfar teve a impressão de que Griflet olhava-a com desprezo. Artur deixou-lhe claro que a parte principal do castelo era, a partir de então, um campo militar, e que teria de limitar-se aos seus aposentos, com Elaine e as servas. A maior parte dos móveis tinha sido mandada para Camelot. Uma cama foi transferida do aposento de hóspedes para seu quarto, e nela dormiu com Elaine. Artur passava as noites no acampamento com os homens, mandando saber notícias dela uma vez por dia, mas raramente o via.

A princípio, Gwenhwyfar pensou que eles partiriam a qualquer momento para travarem batalha com os saxões, mas os dias se seguiram, depois as semanas, sem que houvesse qualquer novidade. Cavaleiros e mensageiros solitários chegavam e partiam, e ela podia ver o exército aumentar a cada dia, mas circunscrita ao seu quarto e ao pequeno jardim atrás dele, ouvia apenas as notícias fragmentadas que sua serva e a parteira podiam trazer, muito incompletas e constituídas principalmente de boatos. O tempo custava a passar e pesava sobre ela; sentia enjôos pela manhã e queria apenas ficar deitada, embora mais tarde melhorasse e caminhasse, inquieta, pelo jardim, sem nada para fazer a não ser imaginar cenas de saxões devastando o litoral e pensar em seu filho. Gostaria de fazer roupinhas para o bebê, mas não tinha lã para fiar, e o tear grande fora mandado para Camelot.

Tinha, porém, o tear pequeno, as sedas e a lã fiada que a haviam acompanhado a Tintagel, e começou a fazer planos de tecer uma bandeira... Artur prometera-lhe, certa vez, que quando lhe desse um filho, poderia pedir-lhe qualquer presente que estivesse ao seu alcance. Gwenhwyfar pretendia solicitar-lhe que abandonasse a bandeira pagã do Pendragon e hasteasse o pavilhão da cruz. Isso tornaria toda a terra sob o Grande Rei uma terra cristã, e sua legião seria um exército santo, sob a proteção da Virgem Maria.

Seria uma bela bandeira, tal como a imaginava: azul, com fio dourado, e suas sedas vermelhas de alto preço destinadas ao manto da Virgem. Não tinha nenhuma outra ocupação, e por isso trabalhou da manhã à noite, e com a ajuda de Elaine a tarefa avançou rapidamente. E em cada ponto desta bandeira eu colocarei minhas orações para que Artur seja protegido e para que este pais se torne cristão, de Tintagel até o reino de Lot...

Certa tarde o Merlim foi visitá-la. Gwenhwyfar hesitou: seria acertado permitir que aquele velho pagão e adorador do Demônio se aproximasse dela num momento como aquele, quando estava grávida do filho de Artur, que algum dia seria rei daquela terra cristã? Mas vendo os olhos bondosos do velho, lembrou-se de que ele era pai de Igraine e que seria bisavô de seu filho.

- Que o Eterno a abençoe, Gwenhwyfar - desejou ele, abrindo os braços numa bênção. Ela fez o sinal-da-cruz, e ficou pensando se ele se ofenderia. Mas o Merlim pareceu considerar aquilo apenas uma troca de bênçãos. - Como passa, senhora, nesta prisão? - perguntou, olhando à volta do quarto. - Sim, é realmente uma prisão! A senhora estaria melhor em Camelot, ou em Avalon, ou na ilha de Ynis Witrin, indo para o colégio, com as freiras, não acha? Ali, pelo menos teria ar fresco e exercício! Este quarto parece um estábulo!

- Tomo ar suficiente no jardim - disse Gwenhwyfar, tomando a decisão de mandar arejar o quarto naquele mesmo dia e de mandar varrer o chão, por onde estavam espalhadas suas coisas. O aposento era pequeno demais para quatro mulheres.

- Então, minha filha, não deixe de caminhar todos os dias ao ar fresco, mesmo que chova: O ar é um remédio para todos os males - aconselhou o Merlim. - Bem posso imaginar como se deve aborrecer aqui. Não, minha filha, não vim fazer-lhe críticas - acrescentou, delicadamente. - Artur deu-me a boa notícia, e regozijo-me por você, como todos nós. E eu, em especial, pois são poucos os homens que conseguem ver seus bisnetos. - Seu rosto, envelhecido e marcado, parecia irradiar bondade. - Se houver alguma coisa que eu possa fazer pela senhora, dê suas ordens. Está recebendo alimentação adequada, fresca, ou apenas as rações dos soldados?

Gwenhwyfar assegurou-lhe que tinha tudo o que poderia desejar - diariamente, uma cesta com as melhores provisões possíveis, mas não lhe disse que quase não tinha fome.

Falou-lhe, porém, da morte de Igraine, contou que tinha sido enterrada em Tintagel, e que uma das últimas coisas que fizera fora revelar-lhe que estava grávida. Não mencionou a Visão, mas olhando para o velho com olhos perturbados, perguntou:

- Senhor, sabe por onde anda Morgana, que não foi sequer ver a mãe em seu leito de morte?

Ele sacudiu lentamente a cabeça:

- Sinto muito, mas não sei.

- Mas isto é um escândalo! Morgana não pode deixar os parentes na ignorância de seu paradeiro!

- Talvez ela, como fazem algumas das sacerdotisas de Avalon, esteja realizando alguma missão mágica, ou tenha se isolado em busca da Visão - sugeriu Taliesin, que também parecia perturbado. - Nesse caso, eu não teria sido informado de seu paradeiro, mas tenho certeza de que se estivesse em Avalon, onde está a minha filha com as sacerdotisas, eu saberia. - Suspirou, e continuou: - Morgana é uma mulher adulta, e não precisa da autorização de nenhum homem para movimentar-se.

Se Morgana viesse a sofrer por sua teimosia e devido à sua maneira pouco cristã de fazer o que queria seria bem feito, pensou Gwenhwyfar! Fechou as mãos, com raiva, e não respondeu ao druida, desviando o olhar para que ele não percebesse sua irritação. O Merlim a tinha em boa conta, e ela não queria dar-lhe má impressão. E ele nada percebeu, pois Elaine mostrava-lhe a bandeira.

- Veja, é assim que passamos nossos dias na prisão, meu bom senhor.

- O trabalho está indo depressa - disse o Merlim, sorrindo. - Bem, vejo que não há tempo, e como é mesmo que dizem os padres, o Diabo encontra trabalho para os ociosos... Vocês não deixaram lugar para que o Diabo agisse aqui, pois estão ocupadas como abelhas na colméia, vocês duas. Já se pode perceber o belo desenho.

- E enquanto tecia, eu rezava - contou Gwenhwyfar, como um desafio. - A cada ponto, eu dizia uma oração para que Artur e a cruz de Cristo possam triunfar sobre os saxões e os seus deuses pagãos! O senhor não me censurará por isso, quando pede a Artur que lute sob a sua bandeira pagã?

O Merlim respondeu suavemente:

- As orações nunca são desperdiçadas, Gwenhwyfar. A senhora acha que não sabemos nada de oração? Quando Artur recebeu sua grande espada Excalibur, ela estava numa bainha trabalhada por uma sacerdotisa, com preces e encantamentos pela segurança e proteção do rei. Essa sacerdotisa jejuou e rezou durante os cinco dias que levou para fazer o trabalho. E sem dúvida a senhora notou que, embora tivesse sido ferido, Artur sangrou muito pouco.

- Eu prefiro que ele seja protegido pelo Cristo, e não pela feitiçaria - protestou Gwenhwyfar, nervosa, e o velho sorriu ao responder:

- Deus é uno, e há apenas um Deus. Todo o resto são coisas de ignorantes que procuram colocar deuses numa forma que se possa compreender, como aquela imagem da Virgem, ali, senhora. Nada acontece neste mundo sem a bênção do Uno, que nos dará a vitória ou a derrota, como Deus quiser. O dragão e a Virgem são ambos símbolos do apelo dos homens a algo superior a nós.

- Mas o senhor não ficaria com raiva se a bandeira do Pendragon fosse rasgada e o estandarte da Virgem fosse içado sobre a nossa legião? - perguntou Gwenhwyfar, com desprezo.

O Merlim estava perto dela, e ergueu a mão cheia de rugas para acariciar a seda brilhante.

- Uma coisa tão bonita como esta, e feita com tanto amor, como poderia eu condená-la? - sorriu delicadamente. - Mas há outros que amam a bandeira do Pendragon como a senhora ama a cruz de Cristo. Negar-lhes-ia então suas coisas sagradas, senhora? Os de Avalon, druida, sacerdote e sacerdotisa, sabem que a bandeira é apenas um símbolo, e o símbolo nada é, enquanto a realidade é tudo. Mas o povo pequeno não compreenderia, e eles devem ter o seu dragão como símbolo da proteção do rei.

Gwenhwyfar pensou no povo pequeno de Avalon e das remotas montanhas de Gales, que havia chegado com machados de bronze e até mesmo pequenas flechas de sílex, com os corpos grosseiramente pintados. Estremeceu de horror à idéia de que uma gente tão selvagem fosse lutar ao lado de um rei cristão.

O Merlim viu-a estremecer, e interpretou mal a razão.

- Está úmido e frio aqui. A senhora deve tomar mais sol - percebeu de súbito a verdadeira causa do estremecimento, e, abraçando-a, disse suavemente: - Minha querida filha, você deve se lembrar de que este país existe para todos os homens, quaisquer que sejam seus deuses, e lutamos contra os saxões não porque eles não querem adorar nossos deuses, mas porque querem queimar e saquear nossas terras e tomar tudo o que temos. Lutamos para defender a paz destas terras, senhora, cristãos e pagãos, sendo por isso que tantos povos se colocaram ao lado de Artur. Preferiria que o rei fosse um tirano que escravizasse as almas de seus súditos ao seu próprio Deus, como nem mesmo os Césares ousaram fazer?

Ela apenas estremeceu, e Taliesin disse que tinha de ir, mas que, se precisasse de alguma coisa, Gwenhwyfar deveria mandar chamá-lo.

- Kevin, o Bardo, está aqui no castelo, senhor Merlim?

- Sim, creio que sim. Eu devia ter pensado nele. Vou pedir-lhe que venha tocar harpa para as senhoras, enquanto estiverem encerradas aqui.

- Nós gostaríamos de ouvi-lo, mas no que eu estava pensando era pedir sua harpa emprestada... ou a sua, senhor Druida.

O Merlim hesitou:

- Não creio que Kevin emprestasse sua harpa, tem muito ciúme dela - sorriu. - Quanto à minha está consagrada aos deuses e não posso deixar que ninguém a toque. Mas Morgana não levou a harpa quando partiu, e ela ainda está em seu quarto. Quer que a mande trazer, Elaine? Você sabe tocar?

- Não muito bem, mas sei o suficiente para não estragar o instrumento, e isso nos daria alguma coisa a fazer, quando estivermos cansadas de bordar e costurar.

- Daria a você - observou Gwenhwyfar. - Sempre considerei impróprio a uma mulher tocar harpa.

- Que seja impróprio - retrucou Elaine -, mas creio que ficarei louca, fechada aqui sem ter nada para fazer, ninguém para ver, mesmo que eu dance nua como Salomé na frente de Herodes!

Gwenhwyfar riu, depois mostrou-se escandalizada: o que pensaria o Merlim? Mas o velho riu sinceramente:

- Vou mandar-lhe a harpa de Morgana, senhora, e poderá dedicar-se a seu impróprio passatempo, embora, na verdade, eu nada veja de impróprio em se fazer música!

Naquela noite Gwenhwyfar sonhou que Artur estava ao seu lado, e que as serpentes de seus pulsos criavam vida e arrastavam-se até a sua bandeira, deixando-a toda fria com sua baba, e manchada... Acordou sem ar e com enjôo, e naquele dia não teve forças para deixar o leito. Artur foi vê-la à tarde, e ficou ao seu lado, desanimado.

- Não me parece que essa reclusão possa lhe fazer bem, senhora - insistiu. - Preferia que estivesse a salvo em Camelot! Recebi mensagens da Bretanha Menor, eles encurralaram nas rochas trinta navios saxões, e devemos partir dentro de dez dias - disse, mordendo o lábio. - Gostaria que tudo isso tivesse terminado e estivéssemos todos em segurança em Camelot. Peça a Deus, Gwen, que cheguemos lá a salvo.

Sentou-se na cama ao lado dela, tomou-lhe a mão, mas um dos seus dedos tocou as serpentes no pulso de Artur, e ela a retirou com um movimento de repulsa.

- O que foi, Gwen? - murmurou, tomando-a nos braços. - Minha pobrezinha, fechada aqui, assim, você ficou doente... Eu receava isso!

Ela procurou controlar as lágrimas.

- Eu sonhei... sonhei... ah, Artur - implorou, sentando-se ereta na cama e afastando as cobertas -, não posso tolerar a idéia de que você deixará aquele horrível dragão pairar sobre todos, como no sonho que tive... Veja o que fiz para você!

Descalça, ela o puxou, com as duas mãos, até o tear.

- Veja, está quase pronta, em três dias estará terminada...

Artur envolveu-a nos braços.

- Gostaria que isso não tivesse tanta importância para você, Gwenhwyfar. Sinto muito. Eu a levarei em combate, ao lado da bandeira do Pendragon, se assim quiser, mas não posso esquecer o juramento que fiz.

- Deus o castigará se você cumprir um juramento feito aos pagãos e não a Ele. Deus punirá a nós dois...

Artur afastou as mãos que o seguravam.

- Minha pobrezinha, você está doente e infeliz, o que não é de espantar, neste lugar. E agora, infelizmente, é tarde demais para mandá-la para longe daqui, mesmo que você quisesse ir, pois pode haver grupos de saxões entre Caerleon e Camelot. Procure acalmar-se, meu amor - pediu, dirigindo-se para a porta. Ela correu atrás dele, segurando-o pelo braço.

- Você não ficou com raiva?

- Com raiva? Quando você está doente e esgotada? - Beijou-a na testa. - Mas não quero falar nisso novamente, Gwenhwyfar. Agora, tenho de ir, espero um mensageiro que deve chegar a qualquer momento. Mandarei Kevin tocar para você. Sua música a animará.

Beijou-a novamente e afastou-se, enquanto Gwenhwyfar voltava à bandeira e começava a trabalhar nela, com grande pressa.

Kevin apareceu na tarde do dia seguinte, arrastando, com o apoio de uma bengala, seu corpo deformado. A harpa estava pendurada em seu ombro, dando-lhe a aparência de um corcunda monstruoso, na silhueta contra a porta. Gwenhwyfar teve a impressão de que o nariz do druida enrugava-se em desagrado, e de repente ela pôde ver o quarto com os olhos dele: um aposento em desordem, com as coisas de uso diário de quatro mulheres, e um ar não muito fresco. Kevin levantou a mão na bênção dos druidas, e Gwenhwyfar recuou - podia aceitá-la do venerável Taliesin, mas vinda de Kevin enchia-a de horror, como se ele pudesse enfeitiçá-la, e a seu filho, com bruxarias pagãs. Fez o sinal-da-cruz, disfarçadamente, sem se importar que ele tivesse percebido.

Elaine dirigiu-se a Kevin, dizendo-lhe cortesmente:

- Deixe-me ajudá-lo com a harpa, Mestre Harpista.

Kevin recuou, como se quisesse afastá-la, embora sua voz de cantor fosse suave:

- Agradeço-lhe, mas ninguém pode tocar em Minha Dama. Se eu a levo com minhas próprias mãos, quando dificilmente posso me arrastar com uma bengala, não parece que deve haver um motivo, senhora?

Elaine inclinou a cabeça como uma criança censurada, e disse:

- Não tive má intenção, senhor.

- Claro que não, como poderia saber disso? - respondeu ele, retorcendo-se dolorosamente, ou pelo menos assim pensou Gwenhwyfar, para tirar a harpa do ombro e colocá-la no chão.

- Está bem assim, Mestre Harpista? Deseja um copo de vinho para amaciar a garganta, antes de cantar? - perguntou ela, e Kevin aceitou. Depois, vendo a bandeira no tear, perguntou a Elaine:

- A senhora é filha do rei Pellinore, não? Está tecendo uma bandeira para seu pai levar à batalha?

Gwenhwyfar respondeu rapidamente:

- As mãos de Elaine trabalham tão bem quanto as minhas, mas essa bandeira é para Artur.

A voz de Kevin parecia indiferente, como se estivesse admirando as primeiras tentativas de tecer feitas por uma criança.

- É bonita, e será uma bela decoração para uma parede em Camelot, quando a senhora for para lá. Mas tenho a certeza de que Artur levará a bandeira do Pendragon na batalha, como fazia seu pai, antes dele. Mas senhoras não gostam de falar de guerras. Devo tocar, agora?

Levou as mãos às cordas e começou a tocar. Gwenhwyfar ouvia, encantada, e suas servas aglomeraram-se na porta para ouvir também, sabendo que partilhavam de um presente real. Ele tocou por muito tempo na penumbra que se intensificava, e, enquanto ouvia, Gwenhwyfar sentiu-se transportada para um mundo em que não havia diferença entre pagão ou crístão, entre guerra ou paz, mas onde apenas o espírito humano, flamejando contra as trevas como uma tocha sempre acesa, tinha valor. Quando as notas da harpa finalmente silenciaram, ela não conseguiu falar, e viu que Elaine chorava em silêncio.

Depois de algum tempo, ela disse:

- As palavras não podem expressar o que nos proporcionou, Mestre Harpista. Só posso dizer que sempre me lembrarei disso.

O sorriso torto de Kevin parecia zombar da emoção de Gwenhwyfar e de sua própria emoção:

- Senhora, na música, aquele que dá recebe tanto quanto aquele que ouve.

Voltou-se para Elaine e acrescentou:

- Vejo que tem a harpa da senhora Morgana. Conhece, então, a verdade das minhas palavras.

Ela assentiu com um gesto de cabeça, mas esclareceu:

- Sou apenas o pior dos principiantes em música. Gosto de tocar, mas ninguém teria prazer em me ouvir. Sou grata às minhas companheiras por me tolerarem enquanto luto com as notas.

- Isso não é exato, você sabe que gostamos de ouvi-la - interrompeu Gwenhwyfar, enquanto Kevin sorria e observava:

- Talvez a harpa seja o único instrumento que não pode soar mal, mesmo que não seja tocado com perfeição. Será por isso que é dedicado aos Deuses?

Gwenhwyfar contraiu os lábios - teria ele de estragar o prazer daquela hora, falando de seus Deuses infernais?

Afinal de contas, ele não passava de um sapo malfeito; sem a música, jamais teria permissão de sentar-se em qualquer mesa respeitável; ouvira mesmo dizer que era apenas um menino do campo. Não quis ofendê-lo, já que tinha vindo proporcionar-lhes um prazer, mas afastou os olhos. Que Elaine conversasse com ele, se quisesse. Levantou-se e caminhou para a porta.

- Aqui dentro está quente como o inferno - disse irritada, abrindo a porta.

Pelo céu, já então escuro, cruzavam lanças de luz, partindo do norte. Sua exclamação atraiu a serva, Elaine e até mesmo Kevin, que colocava cuidadosamente a harpa na capa e aproximou-se com dificuldade da porta.

- Oh, que será isso?, o que significa? - exclamou Gwenhwyfar.

- Os homens do norte dizem que é o relampejar das lanças no país dos gigantes - explicou Kevin. - Quando é visto na terra, é presságio de uma grande batalha. E certamente é isso o que nos espera, uma batalha onde a legião de Artur pode decidir, com a ajuda dos Deuses, se iremos viver como homens civilizados ou mergulhar para sempre nas trevas. A senhora devia ter ido para Camelot. Não é justo que o Grande Rei tenha de se preocupar agora com mulheres e crianças.

Gwenhwyfar voltou-se para ele, indignada:

- O que sabe de mulheres ou crianças, ou de batalhas, druida?

- Ora, esta não seria minha primeira batalha, minha rainha - respondeu ele, sem se alterar. - Minha Dama pertencia a um rei, que a ofereceu a mim por ter tocado suas harpas de guerra, que lhe proporcionaram a vitória. A senhora crê que eu deveria ter procurado a segurança, com as donzelas e os eunucos de saias que são os padres cristãos? Não, minha senhora. Nem mesmo Taliesin, que é muito velho, corre da batalha.

Houve um silêncio, enquanto no céu continuavam a flamejar as luzes do norte.

- Com sua licença, minha rainha, tenho de procurar meu senhor Artur e conversar com ele e o senhor Merlim sobre o que pressagiam essas luzes para a batalha que nos aguarda.

Gwenhwyfar sentiu como se seu ventre estivesse sendo atravessado por um punhal. Até mesmo aquele pagão aleijado podia estar com Artur agora, enquanto ela, sua esposa, tinha de ficar ali escondida, embora trouxesse em si as esperanças do reino! Pensara que, se tivesse o filho do rei, este teria de dar-lhe maior importância e consideração, em lugar de tratá-la ainda como aquela mulher inútil que ele fora obrigado a aceitar como parte de um dote em cavalos! E não obstante, ali estava ela, jogada novamente para um canto porque Artur não podia se livrar dela, e até mesmo sua bela bandeira era rejeitada como indesejada.

Kevin preocupou-se:

- Sente-se mal, senhora? Senhora Elaine, por favor, ajude-a!

Estendeu a mão para Gwenhwyfar, mas ela era deformada, uma garra retorcida, e a rainha viu as serpentes que se enrolavam em seu pulso, tatuadas em azul... Recuou bruscamente e deu-lhe um tapa, sem saber o que fazia. Kevin, que não tinha muita firmeza nos pés, perdeu o equilíbrio e caiu pesadamente no chão de pedra.

- Afaste-se de mim - gritou ela, sem fôlego. - Não me toque com suas serpentes malignas, pagão que será consumido pelas chamas do inferno, não lance essas serpentes malcheirosas sobre o meu filho...

- Gwenhwyfar!

Elaine correu para ela, mas em vez de ajudá-la, curvou-se solícita sobre Kevin, estendendo-lhe a mão para erguê-lo.

- Senhor druida, não a amaldiçoe... Ela está doente e não sabe o que faz...

- Ah, não sei? - gritou Gwenhwyfar. - Acredita que não sei como todos me olham, como uma idiota, como se eu fosse cega, surda e muda? E quer me acalmar, com palavras bondosas, mas eu sei que você, pelas costas dos padres, quer levar Artur para a impiedade pagã, você, que nos entregaria às mãos dos feiticeiros do mal... Saia já daqui, para que meu filho não nasça deformado por eu ter olhado para seu rosto horrível...

Kevin fechou os olhos e torceu as mãos, mas afastou-se silenciosamente, e começou, com grande esforço, a colocar a barpa no ombro. Procurou a bengala, que lhe foi entregue por Elaine, e Gwenhwyfar ouviu-a murmurar:

- Perdoe-a, senhor druida, ela está doente e não sabe...

A voz musical de Kevin soou asperamente:

- Sei muito bem disso, senhora. Acredita que eu não tenha ouvido essas doces palavras de outras mulheres, antes? Sinto muito, queria apenas proporcionar-lhes algum prazer.

Gwenhwyfar, com a cabeça escondida nas mãos, ouviu o barulho de sua bengala e de seus pés trôpegos, enquanto ele se arrastava penosamente. E mesmo depois que ele já havia ido, continuou a gritar, com os braços levantados - ah, ele a havia amaldiçoado com aquelas serpentes peçonhentas, podia senti-las picando-lhe o corpo, as lanças das luzes no céu flamejando no alto penetravam seu corpo, incendiavam- lhe a cabeça... Gritou e escondeu o rosto nas mãos; caiu ao chão retorcendo-se, enquanto as lanças a atravessavam... Recuperou um pouco os sentidos ao ouvir Elaine exclamar:

- Gwenhwyfar! Minha prima! Olhe para mim, fale comigo! Ah, Virgem Maria, ajudai-nos... Mandem chamar a parteira! Vejam, o sangue...

- Kevin! - gritou Gwenhwyfar. - Kevin! Ele amaldiçoou meu filho... - Ergueu-se desesperada devido à dor que lhe atravessava o ventre, e bateu com os punhos na parede de pedra. - Ah, meu Deus, mandem o padre, o padre, talvez ele possa afastar essa maldição... - E sem levar em conta o jato de água e sangue que sentia ensopar-lhe as coxas, arrastou-se até a bandeira que tecera, fazendo repetidamente o sinal-da-cruz, como uma louca, antes que tudo se apagasse em trevas e pesadelo.

 

Só vários dias depois compreendeu que correra grave perigo de vida, que perdera quase todo o sangue ao abortar a criança de quatro meses, que era pequena e fraca demais para respirar.

Artur. Agora certamente ele me odiará. Eu não pude nem mesmo dar à luz seu filho... Kevin, foi Kevin quem me amaldiçoou com suas serpentes... Teve pesadelos com serpentes e lanças, e num momento em que Artur, ao seu lado, tentava segurar-lhe a cabeça, ela recuou sobressaltada, com medo das serpentes que pareciam enroscar-se nos pulsos do marido.

Mesmo depois de passado o perigo, não recobrou as forças; ficou deitada, apática, sem se mexer, com as lágrimas correndo-lhe pelo rosto. Não tinha ânimo nem mesmo para enxugá-las. Não, era loucura pensar que Kevin a amaldiçoara, devia ter sido uma alucinação do seu delírio... não era o primeiro filho que perdia e se alguém tinha culpa era ela mesma, por ter ficado ali, onde não tinha ar fresco e alimentação adequada, sem exercício, na companhia de suas damas.

O padre foi vê-la e também ele concordou que era insensato achar que Kevin a havia amaldiçoado... Deus não usaria as mãos de um sacerdote pagão para puni-la.

- A senhora não deve culpar os outros assim tão impensadamente - disse ele com severidade. - Se há culpa, deve ser sua. Terá na consciência algum pecado inconfessado, minha senhora Gwenhwyfar?

Inconfessado? Náo. Há muito havia confessado seu amor por Lancelote e fora absolvida. Havia procurado pensar apenas no marido. Não, não podia ser isso... e não obstante, falhara.

- Eu não pude persuadir... não tive força bastante para convencer Artur a abandonar suas serpentes pagãs e a bandeira do Pendragon - gemeu debilmente. - Será que Deus castigou meu filho por isso?

- Só a senhora sabe o que está em sua consciência. E não fale de castigo para a criança... Ela está no seio de Cristo. É a senhora e Artur que estão sendo punidos, se punição existe, o que não me compete dizer - acrescentou com afetação.

- O que posso fazer para redimir-me? O que posso fazer para que Deus mande a Artur um filho para a Bretanha?

- Terá a senhora feito tudo o que pode para dar à Bretanha um rei cristão? Ou não diz as palavras que sabe que deve dizer, porque quer agradar a seu marido? - perguntou o padre, com severidade. E quando ele se foi, ela ficou olhando para a bandeira. Todas as noites, agora, ela sabia, as luzes do norte brilhavam novamente no céu, pressagiando a grande batalha que viria; mas no passado, um imperador romano vira o sinal da cruz no céu, e o destino de toda a Bretanha se modificara. Se ela pudesse provocar esse sinal para Artur...

- Venham ajudar-me a levantar - pediu às servas. - Tenho de acabar a bandeira para Artur levar em combate.

Artur visitou-a naquela noite, no momento em que dava os últimos pontos na bandeira e as mulheres acendiam as lâmpadas.

- Como vai, minha querida? Estou satisfeito em vê-la novamente de pé e com disposição para trabalhar - disse, beijando-a. - Minha querida, não deve lamentar-se tanto... nenhuma mulher poderia dar à luz uma criança sadia, com essa tensão, na expectativa da batalha a qualquer momento. Eu realmente devia ter mandado você para Camelot. Somos jovens, minha Gwenhwyfar, Deus ainda pode nos dar muitos filhos.

Ela percebeu o ar vulnerável no rosto dele, e sabia que Artur compartilhava do seu sofrimento.

Tomou-lhe a mão e fez com que ele se sentasse ao seu lado, no banco diante da bandeíra.

- Não é bonita? - perguntou, e sentiu-se como uma criança que deseja elogios.

- É muito bonita. Eu achava que nunca veria um trabalho tão bom quanto este - e levou a mão à bainha vermelha da Excalibur, que nunca saía de sua cintura. Mas o seu é mais bonito ainda.

- E a cada ponto eu dizia orações para você e seus Companheiros. - E procurando convencê-lo, Gwenhwyfar acrescentou: - Artur, ouça-me. Você não acredita que Deus pode estar nos castigando por achar que não somos dignos... de dar a este reino um outro rei, a não ser que juremos servi-lo fielmente, não de maneira pagã, mas dentro dos novos preceitos, sob o Cristo? Todas as forças malignas do paganismo estão aliadas contra nós, e devemos combatê-las com a cruz.

Artur colocou a mão sobre a dela, e disse:

- Vamos, minha querida, isso é tolice. Você sabe que sirvo a Deus da melhor maneira possível...

- Mas você ainda leva aquela bandeira pagã de serpentes à frente de seus homens - exclamou ela. Artur balançou a cabeça, consternado.

- Meu amor, não posso faltar ao juramento à Senhora de Avalon, que me colocou no trono.

- Foi Deus, e mais ninguém, que colocou você no trono - apressou-se ela a corrigir. - Ah, Artur, se você me ama, faça isso, se quiser que Deus nos dê outro filho. Não vê que Ele nos castigou, levando nosso filho?

- Você não deve falar assim - cortou ele com firmeza. - Pensar que Deus pudesse fazer tal coisa é uma superstição, uma loucura. Vim dizer-lhe que finalmente os saxões estão se concentrando, e teremos de avançar para dar-lhes combate no monte Badon. Gostaria que você já estivesse boa para viajar para Camelot, mas não pode ser, ainda não.

- Ah, eu sei muito bem que sou apenas um peso para você - exclamou amargamente. - Nunca fui mais do que isso... É uma pena que eu não tenha morrido junto com meu filho...

- Não, não, você não deve falar assim - pediu ele com ternura. - Tenho toda a fé de que, com a minha espada Excalibur e todos os meus Companheiros, triunfaremos. E você deve rezar por nós dia e noite, Gwenhwyfar. - Levantou-se e acrescentou: - Só partiremos ao amanhecer. Tentarei vir despedir-me de você esta noite, antes de partirmos, junto com seu pai e Gawaine, e talvez Lancelote também. Ele mandou lembranças, Gwenhwyfar, ficou muito preocupado quando soube que você estava tão doente assim. Poderá conversar com eles, se vierem?

Ela baixou a cabeça, e disse com amargura:

- Farei a vontade do meu rei e senhor. Sim, eles podem vir, mas acho estranho que você me peça orações, quando sequer posso convencê-lo a abandonar aquela bandeira pagã e adotar a cruz do Cristo. E certamente Deus sabe o que está em seu coração, pois não permite que você se lance à batalha com a certeza de que um filho seu reinará nesta terra, porque ainda não se resolveu a fazer dela uma terra cristã...

Artur parou, soltou-lhe a mão, e Gwenhwyfar sentiu que a olhava. Por fim, colocou a mão sob seu queixo e levantou o rosto da esposa, para olhá-la nos olhos, dizendo calmamente:

- Minha querida, meu amor, em nome de Deus, acredita nisso?

Ela fez uma afirmação com a cabeça, incapaz de falar, assoando-se, como uma criança, na manga do vestido.

- Digo-lhe, minha querida, na presença de Deus, não creio nisso, não creio que Deus aja assim, ou que tenha muíta importância a bandeira que levamos. Mas se é tão importante para você... - Fez uma pausa e engoliu em seco. - Gwenhwyfar, não posso suportar vê-la sofrer tanto! Se eu levar esta bandeira do Cristo e da Virgem à batalha, à frente de meus soldados, você deixará de lamentar-se e rezará a Deus por mim, de todo o coração?

Levantou os olhos para Artur, e seu coração batia com grande alegria. Estaria realmente pronto a fazer isso por ela?

- Ah, Artur, tenho rezado, tenho rezado...

- Então - disse Artur com um suspiro -, juro-lhe, Gwenhwyfar, levarei apenas a sua bandeira de Cristo e da Virgem, e nenhuma outra se levantará acima da minha legião. Que assim seja, amém.

Beijou-a, mas Gwenhwyfar notou que ele estava muito triste. Segurou as mãos de Artur e beijou-as, e pela primeira vez as serpentes nos punhos não pareceram ameaçá-la, eram apenas imagens apagadas. Sentiu que havia sido realmente loucura pensar que podiam fazer-lhe mal, ou ao seu filho.

Artur chamou seu ajudante, que estava à porta do quarto, para que apanhasse cuidadosamente a bandeira e a içasse por sobre o acampamento.

- Sairemos em marcha amanhã ao alvorecer, e todos devem ver a bandeira que minha dama teceu, com a Santa Virgem e a cruz, flutuando por sobre a legião de Artur.

O ajudante ficou surpreso:

- Mas senhor... e a bandeira do Pendragon?

- Que seja guardada em algum lugar. Marcharemos amanhã sob o pavilhão de Deus.

O ajudante cumpriu as ordens, e Artur sorriu para Gwenhwyfar, mas não havia alegria em seu sorriso.

- Virei vê-la ao entardecer, com seu pai e alguns parentes nossos. Jantaremos aqui, e farei com que os servos tragam comida para todos. Elaine não poderá atender a tantas pessoas. Até logo, minha querida - e afastou-se.

O jantar em família acabou sendo realizado num dos salões menores, pois o quarto de Gwenhwyfar era pequeno demais para abrigar todas as pessoas. Ela e Elaine vestiram os melhores vestidos de que dispunham ali em Caerleon e trançaram fitas no cabelo. Era animador ter uma espécie de festa, depois do isolamento sombrio das últimas semanas. O jantar - embora não fosse muito melhor do que as rações do exército - foi servido em mesas montadas sobre cavaletes. A maior parte dos velhos conselheiros de Artur estava em Camelot, inclusive o bispo Patrício, mas Taliesin, o Merlim, foi convidado, e o rei Lot e o rei Uriens de Gales, o duque da Cornualha, e o meio irmão mais velho de Lancelote, Lionel da Bretanha Menor, filho mais velho e herdeiro de Ban. Lancelote também estava presente e teve oportunídade de aproximar-se da rainha e beijar-lhe a mão, olhando-a nos olhos com uma ternura sem esperanças.

- Está recuperada, senhora? Eu estava preocupado. - Protegido pelas sombras, beijou-a, apenas um roçar de lábios na testa.

O rei Leodegranz também se aproximou, brincando e ao mesmo tempo ralhando, para beijar-lhe a testa:

- Sinto muito pela sua enfermidade, minha cara, e pela perda de seu filho, mas Artur devia tê-la mandado de qualquer jeito para Camelot, numa liteira. Era o que eu teria feito com Alienor, se ela teimasse comigo. E veja bem, a senhora nada ganhou em ficar!

- Não deve censurá-la - pediu Taliesin suavemente. - Já sofreu bastante. Se Artur não a censura, não cabe a seu pai fazê-lo.

Elaine mudou de assunto, com tato:

- Quem é o duque Marcus?

- É primo de Gorlois da Cornualha, que morreu antes de Uther subir ao trono - explicou Lancelote. - Ele pediu a Artur que, se vencermos em monte Badon, a Cornualha lhe seja dada, por meio do casamento com nossa prima Morgana.

- Aquele velho? - espantou-se Gwenhwyfar.

- Pois eu acho que seria melhor mesmo dar Morgana a um homem mais velho. Ela não tem a beleza que atrai os homens mais novos - disse Lancelote -, mas é inteligente e instruída, e o duque Marcus não a quer para si, mas para seu filho, que é um dos melhores cavaleiros da Cornualha. Artur tomou-o como um dos seus Companheiros, às vésperas desta batalha. Embora seja provável que, se Morgana não voltar para o corte, Drustan se case com a filha de Hoell, o velho rei bretão - riu. - Mexericos da corte sobre casamentos. Não haverá outro assunto sobre que conversar?

- Bem - perguntou Elaine, ousadamente -, quando você nos falará de seu casamento, Lancelote?

Ele inclinou a cabeça, com elegância, e respondeu:

- No dia em que seu pai me oferecer sua mão, senhora Elaine, eu não a rejeitarei. Mas é provável que seu pai a queira casar com um homem mais rico do que eu, e como minha senhora aqui já é casada - e fez uma reverência para Gwenhwyfar, que viu a tristeza em seus olhos -, não tenho muita pressa...

Elaine corou e baixou os olhos.

- Convidei Pellinore a vir jantar conosco, mas ele prefere ficar no acampamento com seus homens, organizando a marcha. Algumas das carroças já estão se movimentando. Vejam... - apontou para a janela. - As lanças do norte chamejam novamente sobre nossas cabeças!

- Kevin, o Harpista, não virá esta noite? - perguntou Lancelote.

- Convidei-o a vir, se quisesse - respondeu Taliesin -, mas ele disse que preferia não ofender a rainha com sua presença. A senhora brigou com ele?

Ela baixou os olhos:

- Falei-lhe com certa dureza quando estava doente e sofrendo grandes dores. Se o encontrar, senhor druida, poderia dizer-lhe que lhe peço desculpas?

Com Artur ao seu lado e sua bandeira da cruz flutuando sobre o acampamento de Artur, ela sentia amor e tolerância para com todos, até para com o bardo.

- Creio que ele sabe que a senhora falou em meio ao seu sofrimento - observou Taliesin, cortesmente, e Gwenhwyfar ficou imaginando o que lhe teria contado o druida jovem.

A porta abriu-se de súbito, e Lot e Gawaine entraram na sala.

- Meu senhor Artur, o que se passa? - perguntou Lot. - A bandeira do Pendragon, que juramos seguir, não flutua mais sobre o campo, e há grande inquietação entre as tribos. Diga-me, senhor, o que fez?

Artur empalideceu à luz das tochas.

- Apenas isto, primo: somos um povo cristão, e lutamos sob a bandeira do Cristo e da Virgem.

Lot lançou-lhe um olhar sombrio.

- Os arqueiros de Avalon estão falando em deixá-lo, senhor. Ice a bandeira de Cristo, se sua consciência assim o exige, mas coloque ao lado dela a bandeira do Pendragon, com as serpentes da sabedoria, ou seus homens se dispersarão, sem aquela união que mantiveram durante toda essa horrível espera! Quer deitar a perder toda a boa vontade deles? E os pictos, com suas setas de sílex, mataram muitos saxões antes disso e voltarão a matá-los. Peço-lhe, não lhes tire a bandeira, perdendo com isso sua fidelidade!

Artur sorriu, pouco à vontade.

- Assim como aquele imperador que viu o sinal no céu e disse Com este sinal venceremos, assim também venceremos nós. Você, Uriens, que leva as águias de Roma, conhece essa história.

- Conheço, meu rei, mas será prudente negar ao povo de Avalon o seu direito? Assim como eu, o senhor traz nos pulsos as serpentes como símbolo de uma terra mais antiga do que a cruz.

- Mas será uma nova terra, se vencermos - disse Gwenhwyfar -, e, se não, nada terá importância.

Lot voltou-se para ela, enquanto dizia, com desprezo:

- Eu devia ter adivinhado que isso era obra sua, senhora.

Gawaine caminhou, inquieto, até a janela olhou para o acampamento lá embaixo.

- Vejo que o povo pequeno movimenta-se em volta de suas fogueiras; o povo de Avalon, e do seu país, rei Uriens. Artur, meu primo - e dirigiu-se ao rei -, imploro-lhe, como o mais velho de seus Companheiros, que mande hastear sobre o acampamento a bandeira do Pendragon, para aqueles que desejam segui-la.

Artur hesitou, mas ao ver os olhos brilhantes de Gwenhwyfar, sorriu para ela e respondeu:

- Eu jurei. Se sobrevivermos à batalha, nosso filho reinará sobre um país unido sob a cruz. Não forçarei a consciência de ninguém, mas está escrito nas Sagradas Escrituras: "Eu e minha casa serviremos ao Senhor".

Lancelote suspirou. Afastou-se de Gwenhwyfar.

- Meu senhor e rei, lembro-lhe que sou Lancelote do Lago e honro a Senhora de Avalon. Em nome dela, meu rei, que foi sua amiga e benfeitora, imploro-lhe um favor: deixe-me levar a bandeira do Pendragon em batalha. Assim, seu juramento será cumprido e não terá faltado a Avalon.

Artur hesitou. Gwenhwyfar sacudiu negativamente a cabeça, de modo imperceptível, e Lancelote olhou para Taliesin. Tomando o silêncio como um assentimento, Lancelote já ia deixar a sala, quando Lot disse:

- Artur, não! Já se fala demais que Lancelote é seu herdeiro favorito! Se ele levar o estandarte do Pendragon na batalha, então pensarão que o escolheu para levar a bandeira e haverá divisão no reino, o partido do rei sob a cruz, e o de Lancelote sob o Pendragon.

Lancelote voltou-se, irritado, para Lot:

- Você leva a sua própria bandeira, como Leodegranz, Uriens e o duque Marcus da Cornualha. Por que não posso levar a bandeira de Avalon?

- Mas a bandeira do Pendragon é a bandeira de toda a Bretanha sob o nosso Grande Dragão - gritou Lot, e Artur suspirou e assentiu.

- Devemos lutar sob uma bandeira, e essa bandeira é a da cruz. Sinto recusar-lhe alguma coisa, primo - disse ele, e estendeu-lhe a mão -, mas não posso permitir isso.

Lancelote ficou parado, com os lábios apertados, contendo visivelmente a raiva, e em seguida dirigiu-se à janela.

Lot, atrás dele, disse:

- Ouvi meus homens do norte dízerem que estas são as lanças dos saxões que todos nós vamos enfrentar, e os cisnes selvagens estão gritando, e os corvos nos esperam...

Gwenhwyfar apertava fortemente a mão de Artur, e disse, com calma:

- Com este símbolo venceremos...

Artur apertou-lhe também a mão.

- Mesmo que todas as forças do inferno, e não apenas os saxões, estivessem reunidas contra nós, minha senhora, com os meus Companheiros não posso falhar. E com você ao meu lado, Lancelote - e Artur puxou-o para junto de si. Por um momento Lancelote permaneceu imóvel, com o rosto ainda marcado pela raiva, mas depois concordou, com um suspiro profundo:

- Que assim seja, reí Artur. Mas... - hesitou, e Gwenhwyfar, que estava ao seu lado, sentiu o estremecimento que passava por todo o seu corpo. - Não sei o que dirão quando souberem disso, em Avalon, meu senhor e rei.

Por um momento, reinou no salão um silêncio total, enquanto as luzes, as lanças chamejantes do norte, brilhavam sobre eles.

Elaine fechou então as cortinas, afastando a visão dos presságios, e exclamou, alegremente:

- Venham sentar-se para o jantar, meus senhores. Pois se vão partir para a batalha ao alvorecer, não irão em jejum, e lhes preparamos o melhor!

Mas várias vezes, enquanto comiam, e enquanto Lot, Uriens e o duque Marcus falavam de estratégia e disposição das tropas com Artur, Gwenhwyfar notou que os olhos de Lancelote estavam cheios de mágoa e de temor.

 

Capítulo 13

Quando Morgana deixou a corte de Artur, em Caerleon, pedindo licença apenas para fazer uma visita a Avalon e a sua mãe adotiva, pensava em Viviane - pois assim, evitava lembrar-se do que acontecera a ela e a Lancelote. Sempre que as recordações a levavam nessa direção, sentia como se estivesse sendo queimada com o ferro em brasa da vergonha: oferecera-se a ele com toda a sinceridade, à maneira antiga, e ele não quisera dela mais do que brincadeiras infantis, que eram um escárnio à sua feminilidade. Não sabia se a irritação que sentia era contra ele, ou contra si própria, por ele ter brincado assim com ela, ou por tê-lo desejado tanto...

Às vezes, lamentava as palavras duras que lhe dissera. Por que o insultara? Ele era o que a Deusa havia feito dele, nem melhor, nem pior. Mas em outras ocasiões, enquanto viajava para o leste, sentia-se culpada: a frase que Gwenhwyfar dissera ao se encontrarem pela primeíra vez, pequena e feia como a gente das fadas, queimava-lhe a lembrança. Se tivesse mais a dar, se fosse mais bonita, como Gwenhwyfar... Se pudesse contentar-se com o que Lancelote tinha a dar... E logo seu pensamento seguia um caminho oposto, achando que ele a tinha insultado, e insultado a Deusa através dela... Atormentada por essas recordações, Morgana percorreu a região verde dos montes. E depois de algum tempo, seus pensamentos começaram a voltar-se para aquilo que a esperava em Avalon.

Havia abandonado a Ilha Sagrada sem permissão. Renunciara à sua condição de sacerdotisa, deixando para trás até mesmo o pequeno punhal curvo de sua iniciação; e nos anos decorridos desde então, sempre usara o cabelo sobre a testa para que ninguém visse o crescente azul ali tatuado. E agora, numa das aldeias, trocou um de seus anéis dourados por um pouco de tinta azul usada pelas mulheres da tribo e reavivou a tatuagem desbotada.

Tudo o que me aconteceu foi resultado de minha indiferença pelo juramento que fiz à Deusa... E lembrou-se do que Lancelotelhe dissera, em seu desespero, de que não havia deuses nem deusas, que eles eram apenas formas que a humanidade dava, aterrorizada, àquilo que não podia compreender racionalmente.

Mesmo que isso fosse verdade, não diminuía a sua culpa, pois quer a Deusa tomasse a forma que os homens imaginavam, quer fosse ela apenas outro nome para o que havia de desconhecido na natureza, ainda assim Morgana abandonara o templo e o modo de viver e pensar que havia se comprometido a respeitar, esquecendo com isso os grandes fluxos e ritmos da terra. Alimentara-se de comidas proibidas a uma sacerdotisa, tirara a vida de animais, aves ou plantas sem agradecer àquela parte da Deusa que era sacrificada para seu bem, vivera sem se preocupar, entregara-se a um homem sem procurar saber a vontade da Deusa em seus ciclos solares, apenas por prazer e sensualidade - não, não podia esperar que, ao voltar, tudo fosse como antes. Atravessando os montes, em meio às plantações que floresciam e à chuva fertilizante, tinha consciência, com uma dor cada vez maior, do afastamento em que se encontrava em relação aos ensinamentos de Viviane e de Avalon.

A diferença é maior do que eu pensava. Até mesmo aqueles que trabalham a terra, quando são cristãos, adotam um modo de vida que está muito distanciado desta terra; dizem que seu Deus lhes deu o dominio sobre todas as coisas que crescem e sobre todos os animais dos campos. Ao passo que nós, moradores dos montes e pântanos, florestas e campos distantes, sabemos que não é nosso o dominio da natureza, mas sim ela que nos domina, desde o momento em que a luxúria se agita nas virilhas de nossos pais e o desejo no ventre de nossas mães para nos gerarem, sob o dominio dela, até nosso crescimento nesse ventre e nosso nascimento no devido tempo, mesmo a vida das plantas e animais que têm de ser sacrificados para nos alimentar, vestir e nos dar forças para vivermos... Tudo isso está sob o dominio da Deusa, e sem sua misericórdia nenhum de nós poderia respirar, tudo seria estéril e morreria. E mesmo quando chega o momento da esterilidade e da morte, a fim de que outros possam vir tomar nosso lugar nesta terra, é também a vontade da Deusa que se faz sentir, dela, que não é apenas a Senhora Verde da terra frutifera, mas também a Senhora Negra da semente oculta sob a neve, do corvo e do gavião que trazem a morte aos vagarosos, e dos vermes que trubulham em segredo para destruir aguilo que já cumpriu seu tempo, até mesmo Nossa Senhora da ruína e destruição e morte, no fim...

A luz de todas essas recordações, Morgana acabou convencendo-se de que tudo o que acontecera com Lancelote não tinha, afinal de contas, grande importância; o maior pecado não vinha dele, mas de seu próprio coração, do fato de ela ter-se afastado da Deusa. Pouco importava o que os sacerdotes consideravam como bom, virtuoso, ou pecaminoso e vergonhoso. A ferida em seu orgulho tinha sido apenas uma depuração saudável.

A Deusa ocupar-se-á de Lancelote no devido momento e à sua maneira. Não me cabe opinar. Naquele momento, Morgana achou que a melhor coisa seria não voltar a ver, nunca mais, seu primo.

Não. Não devia esperar que fosse possível voltar ao seu lugar como sacerdotisa... Mas Viviane poderia ter pena dela e permitir que reparasse seus pecados contra a Deusa. Naquele momento, sentiu que ficaria satisfeita em viver em Avalon mesmo que fosse como criada ou humilde trabalhadora dos campos. Sentia-se como uma criança doente, que corre para deitar a cabeça no regaço da mãe, e ali chorar... Mandaria buscar o filho para criá-lo em Avalon, entre os sacerdotes, e nunca mais se afastaria dos ensinamentos que aprendera...

Assim, quando viu o monte Tor, elevando-se, verde e claro, sobre os outros montes que o cercavam, as lágrimas rolaram-lhe pelo rosto. Estava voltando para casa, para seu lugar e para Viviane, iria rezar, entre as pedras circulares, à Deusa para que seus erros pudessem ser redimidos, para que pudesse voltar ao lugar de onde o orgulho e a obstínação a haviam afastado.

O Tor parecia estar brincando de esconder com ela, tornando-se visível num momento entre os montes, como um falo ereto, escondendo-se no momento seguinte entre os montes menores, ou desaparecendo em meio à névoa. Mas chegou finalmente às margens do lago, aonde, tantos anos antes, havia ido com Viviane, ainda criança.

As águas acinzentadas à luz do final da tarde estavam vazias à sua frente. Contra a luz vermelha do céu, os juncos eram escuros e nus, e a ilha dos Padres mal aparecia um pouco acima da bruma do poente sobre o lago. Nada, porém, agitou-se, nada moveu-se sobre a água, embora ela concentrasse todo o pensamento e todo o coração num esforço apaixonado para alcançar a Ilha Sagrada, para chamar a barca... Ficou ali uma hora, sem se afastar, até que as trevas se fecharam à sua volta, e ela teve consciência de que falhara.

Não... A. barca não viria buscá-la, nem naquela noite, nem nunca mais. Viria para uma sacerdotisa, para a escolhida de Viviane, mas não para uma fugitiva que tinha vivido em cortes seculares e agido segundo seu próprio capricho durante quatro anos. Outrora, na época de sua iniciação, tivera de sair de Avalon, e a prova para saber se havia ou não alcançado sua condição de sacerdotisa era apenas esta: a de ser capaz de voltar sem ajuda.

Não podia chamar a barca. Temia, no fundo de sua alma, gritar em voz alta a palavra mágica que a faria surgir por entre a cerração. Ela, que perdera o direito de ser considerada filha de Avalon, não podia comandar a barca. Quando as cores abandonaram a água e os últimos vestígios do sol desapareceram na penumbra da névoa, Morgana olhou pesarosamente a margem distante. Não, não ousava chamar a barca; mas havia outra maneira de chegar a Avalon dando a volta ao lago, onde poderia atravessar pela trilha secreta através do pântano e encontrar ali o caminho para o mundo oculto. Com a solidão doendo no peito, começou a contornar o lago, puxando o cavalo pela rédea. A presença do animal em meio à escuridão que caía, seu resfolegar atrás dela, eram uma espécie de conforto. Se tudo fracassasse, poderia passar a noite às margens do lago; não seria a primeira noite que ela passaria sozinha ao relento. E, pela manhâ, encontraria seu caminho. Lembrou-se da viagem solitária, disfarçada, até a corte de Lot, no norte distante, há muitos anos. Tornara-se pouco afeita à dureza, com a vida de luxo e comodidade da corte, mas poderia enfrentá-la novamente, se necessário.

Mas tudo estava tão silencioso: não se ouviam os sinos da ilha dos Padres, os cânticos do convento, o grito das aves - era como se estivesse andando no país encantado. Morgana encontrou o lugar que procurava. As trevas tornavam-se cada vez mais densas, e cada arbusto e árvore parecia assumir uma forma sinistra, de algum estranho monstro ou dragão. Mas Morgana estava recobrando os hábitos mentais que tinha quando vivera em Avalon: nada havia ali que lhe pudesse causar mal, se ela não vinha para o mal.

Começou a seguir pela trilha secreta. A meio caminho teria de penetrar na névoa, pois do contrário a trilha a levaria até a horta dos monges, atrás do claustro. Concentrou-se para não pensar mais na crescente escuridão e fixou o pensamento no silêncio meditativo, no lugar onde ansiava chegar. Assim, cada passo era como se tecesse um encantamento, desenvolvendo a dança espiral como se estivesse subindo o Tor, na direção das pedras circulares... E Morgana caminhava em silêncio, de olhos semicerrados, dando cuidadosamente cada passo. Agora, podia sentir o frio da névoa à sua volta.

Viviane não havia julgado um mal muito grave o fato de levá-la a relações com o seu meio irmão e ter dele um filho. Um filho nascido da velha linhagem real de Avalon, mais rei do que o próprio Artur. Se tivesse esse filho de Lancelote, ele teria sido criado em Avalon, para ser um dos maiores druidas. Agora, que futuro o esperava? Por que deíxara Gwydion nas mãos de Morgause? Sou uma mãe desnaturada, pensou Morgana; deveria ter mandado buscar meu filho. Mas não teve forças para olhar Artur nos olhos e revelar-lhe a existência do filho, Não queria que os padres e as damas da corte a olhassem e dissessem: Essa é a mulher que teve um filho do Galhudo, no velho estilo das tribos que pintam o rosto e usam chifres e correm com o gamo, como animais.. O menino estava bem no lugar onde se encontrava, a corte de Artur não era lugar para ele, e o que poderia fazer com uma criança de três anos correndo entre suas pernas?, ou de Artur?

Havia, porém, momentos em que pensava nele, lembrava-se das noites em que o filho lhe tinha sido levado, bem alimentado e sorridente, em que se sentara embalando-o, sem pensar em nada, com todo o corpo tomado por uma felicidade que prescindia da consciência... Em que outras ocasiões pudera sentir-se tão feliz? Apenas uma vez, pensou, quando Lancelote e eu estávamos ao sol no monte Tor, quando caçamos aves aquáticas nas margens do lago... E então, pestanejando, percebeu que já deveria ter ido além do ponto em que estava, deveria ter passado as névoas e entrado no terreno sólido de Avalon.

E, na verdade, os pântanos tinham desaparecido: havia árvores à sua volta, e o caminho era firme, não havia chegado à horta dos padres nem aos edifícios externos do conjunto. Deveria estar agora na área situada atrás da Casa das Moças que levava ao pomar; tinha de pensar no que diria quando fosse encontrada, nas palavras que pronunciaria para provar ao povo de Avalon que tinha o direito de estar ali.

Ou não tinha? Parecia-lhe que estava agora um pouco menos escuro, talvez a lua estivesse aparecendo no céu - era o terceiro ou quarto dia após a lua cheia, e dentro em pouco haveria luar suficiente para ver o caminho. Não podia esperar que cada árvore e cada moita estivessem no mesmo lugar que ocupavam quando ali vivia e conhecia todos os detalhes do caminho. Morgana segurou com força a rédea do cavalo, tomada de um medo repentino de perder-se em caminhos que outrora lhe tinham sido familiares.

Não, a escuridão diminuía sensivelmente, ela podia ver as árvores e as moitas claramente. Se era a lua, como não a via entre as árvores, no céu? Será que, ao caminhar com os olhos semicerrados, perdera a direção, colocando-se no caminho que, em meio à névoa, ficava entre os dois mundos?

Se lhe fosse possível ver algum ponto de referência familiar.

Não havia nuvens agora - via o céu, e até mesmo a névoa desaparecera, mas podia ver as estrelas. Talvez tivesse permanecido muito tempo longe dessas coisas. Não via qualquer sinal da lua, embora há muito ela devesse estar no céu...

E então sentiu como se uma água fria lhe escorresse pelas costas e lhe congelasse o sangue. No dia em que saíra para procurar ervas e raízes, para deitar fora a criança que estava em seu ventre... teria entrado novamente naquele país encantado que não era o mundo da Bretanha nem o mundo secreto onde a magia dos druidas havia escondido Avalon, mas aquele país mais velho e mais sombrio, onde não havia estrelas nem sol?

Procurou controlar as batidas do coração, para serená-las; agarrou com força a rédea do cavalo e encostou-se ao flanco morno e suado, sentindo a solidez dos músculos e ossos ouvindo o resfolegar macio do animal junto de seu rosto, claro e bem real. Sem dúvida, se ficasse parada um pouco e refletisse, encontraria o caminho... Mas o medo crescia nela. Não posso voltar. Não posso voltar para Avalon, não posso abrir caminho entre a névoa... No dia da prova de iniciação, ela sentira isso por um momento, mas colocara o medo de lado, com firmeza.

Mas eu era mais jovem e inocente, então. Nunca havia traído a Deusa ou os ensinamentos secretos, nunca havia traido a vida...

Morgana procurou controlar o medo crescente. O pânico era a pior coisa. O pânico a colocaria à mercê de qualquer desgraça que pudesse ocorrer. Até mesmo os animais ferozes podiam sentir o cheiro do medo no corpo do homem e atacá-lo, mas fugiam dos corajosos. Era por isso que os homens mais decididos podiam correr entre os gamos sem serem molestados, desde que sua pele não exalasse o cheiro do medo... Seria por isso, perguntou-se, que eles passavam no corpo a acre tinta azul, para cobrir o cheiro do medo? Talvez o homem ou a mulher realmente corajosos fossem aqueles cuja mente não formasse imagens do que poderia acontecer, se as coisas escapassem ao seu controle.

Nada havia ali que pudesse causar-lhe mal, mesmo que houvesse penetrado no país das fadas. Certa vez, isso já lhe acontecera, mas a mulher que zombara dela não constituíra uma ameaça nem lhe fizera mal. Os habitantes daquele mundo eram ainda mais antigos do que os druidas, mas também eles viviam pela vontade e sob a lei da Deusa, em seus costumes e usos, e talvez mesmo algum deles a pudesse guiar no caminho certo. Assim, não havia, em nenhuma hipótese, nada a temer: o pior que podia lhe acontecer era não encontrar ninguém e ter de passar a noite sozinha entre as árvores.

Viu então uma luz - seria uma das luzes que havia na Casa das Moças? Se assim fosse, então chegaria dentro em pouco; senão, podia perguntar o caminho a quem encontrasse. Se estivesse perdida na ilha dos Padres e encontrasse um deles, é possível que tivesse medo dela, julgando-a uma fada. Ficou imaginando se, de tempos em tempos, aquelas mulheres apareceriam para tentar os padres: era mais do que razoável que ali, no próprio santuário da Deusa, algum padre mais imaginoso do que os outros pudesse sentir o pulsar do lugar, pudesse chegar a saber que seu estilo de vida era uma negação das forças da vida que corriam no próprio ritmo do mundo. Os padres negavam a vida, em lugar de afirmá-la. Negavam a vida do coração e a vida da natureza, a vida que estava na raiz das relações entre homem e mulher...

Se eu fosse a Senhora de Avalon, nas noites de lua nova e crescente, mandaria as donzelas para o claustro dos padres, para mostrar-lhes que não se pode negar nem zombar da Deusa, que eles são homens e que as mulheres não são invenções malignas de um Diabo por eles imaginado, mas que a Deusa pode fazer com que obedeçam às suas leis... em Beltane, ou no solsticio do verão... Ou os padres mandariam embora as donzeLas, considerando-as demônios surgidos para tentar os fiéis? E por um momento pareceu-lhe ouvir a voz do Merlim: Que todos sejam livres para servir ao Deus que quiserem...

Até mesmo um Deus que negasse a própria vida da terra? pensou Morgana. Mas sabia que Taliesin teria dito "Mesmo assim".

Através da névoa, percebeu claramente a forma de uma tocha, que subia, amarela e azul, de um longo mastro. Seu brilho cegou-a por um momento, mas em seguida viu o homem que a segurava. Era pequeno e moreno, não era padre nem druida. Usava uma tanga de pele de gamo pintada e uma espécie de manto negro sobre os ombros nus.

Parecia um dos pequenos homens das tribos, apenas um pouco maior. Tinha cabelos escuros e compridos, e usava na cabeça uma grinalda de folhas coloridas, folhas de outono, embora o outono ainda não tivesse chegado. E isso assustou Morgana. Mas a voz do homem era macia e doce, e falava num dialeto antigo:

- Bem-vinda, irmã. Foi colhida de surpresa pela noite2 Venha por aqui. Deixe-me conduzir seu cavalo, pois conheço os caminhos.

Morgana teve a impressão de que era esperada. Como num sonho, deixou-se conduzir: o caminho ia se tornando cada vez mais firme e fácil de seguir, e a luz da tocha afastava a névoa úmida. O homem conduzia o cavalo, e de vez em quando voltava-se para ela e sorria-lhe. Depois estendeu a mão e segurou a sua, como se estivesse guiando uma criança pequena. Tinha os dentes muito brancos e os olhos escuros ao brilho da tocha, eram alegres.

Havia agora mais luzes. A certa altura, sem que se lembrasse quando, o homem entregara o cavalo a outro, e a conduzira para dentro de um círculo de luzes - não se lembrava de ter passado por nenhum muro, mas estava num grande salão, onde homens e mulheres festejavam, usando grinaldas na cabeça. Algumas eram feitas de folhas de outono, mas ao mesmo tempo havia mulheres com coroas de flores do começo da primavera, as que surgem antes mesmo que a neve desapareça totalmente. De algum lugar, vinha o som de uma harpa.

O guia estava ainda ao lado de Morgana. Conduziu-a para uma mesa alta e ali, sem se surpreender, ela reconheceu a mulher que vira antes, usando nos cabelos uma grinalda de juncos trançados. Seus olhos cinzentos pareciam não ter idade e tudo saber, como se ela pudesse ler e ver todas as coisas.

O homem fez Morgana sentar-se num banco e colocou em suas mãos um caneco feito de um metal que ela não conhecia. A bebida que continha era doce, suave, com gosto de turfa e urze. Bebeu com sede, e percebeu que bebera depressa demais, depois de um longo jejum: sentiu-se tonta.

Lembrou-se então de um velho ditado: se você se perder no país das fadas não deve jamais beber ou comer ali. Mas isso era apenas um velho ditado: eles não lhe fariam mal. Perguntou então:

- Que lugar é este?

- É o Castelo Chariot, e você é bem-vinda, Morgana, Rainha da Bretanha - respondeu a mulher.

- Não, não sou rainha - retrucou Morgana, sacudindo a cabeça. - Minha mãe foi Grande Rainha, e eu sou a duquesa da Cornualha, apenas... - É a mesma coisa - sorriu a mulher. - Você está cansada, viajou muito. Coma e beba, irmãzinha, e amanhã a levaremos para onde quiser ir. Agora, é hora de celebrarmos.

Havia frutas em seu prato, e pão macio e escuro, feito de algum cereal desconhecido, mas pareceu-lhe que já o provara antes... Percebeu então os braceletes de ouro do homem que lhe servira de guia até ali e que se enroscavam em seus punhos, como se fossem serpentes vivas... Esfregou os olhos, imaginando ter caído num sonho, e quando olhou de novo percebeu que eram apenas pulseiras, ou talvez uma tatuagem, como a feita em Artur quando fora sagrado rei. E por vezes, ao olhar para aquele homem, o jogo de sombras e luzes das tochas dava a impressão de que usava galhos acima da testa. A mulher estava coroada de ouro, tinha ouro por todo o corpo, mas ao mesmo tempo sua coroa parecia feita apenas de juncos, o colar ao pescoço parecia feito de conchas, de pequenas conchas que se abriam como as partes íntimas de uma mulher e que eram sagradas para a Deusa. Ficou sentada entre eles enquanto se ouviam os sons de uma harpa, música mais doce que a das harpas de Avalon... Já não estava cansada. A bebída doce fizera desaparecer o cansaço e o sofrimento. Mais tarde alguém lhe deu uma harpa e também ela tocou e cantou. Sua voz nunca soara tão doce, clara e aveludada. Enquanto tocava, sentiu-se como num sonho em que todas as faces que a cercavam tinham a semelhança de alguém que já conhecera em outro lugar... Parecia-lhe caminhar nas praias de uma ilha ensolarada e tocar uma curiosa harpa curva; e houve um momento, quando estava sentada num grande pátio de pedras, em que um druida, vestindo uma estranha túnica comprida, usando instrumentos, ensinava a todos a localizar as estrelas, e havia canções e sons que abriam uma porta fechada ou levantavam um anel de pedras circulares, e ela aprendeu-os todos, e foi coroada com uma serpente dourada...

A mulher disse que era hora de descansar - no dia seguinte a levariam e ao seu cavalo. Dormiu aquela noite num quarto fresco cheio de folhas - ou eram tapeçarias que pareciam transformar-se, contando histórias de todas as coisas que haviam sido? Viu-se também transformada em tema da tapeçaria, com a harpa na mão, com Gwydion no colo e viu-se ainda com Lancelote, que brincava com seu cabelo e lhe segurava a mão, e achou que havia algo de que deveria se recordar, alguma razão pela qual deveria estar com raiva dele - mas não podia lembrar o quê.

Quando a mulher lhe disse que era uma noite de festa e que deveria ficar com eles mais um ou dois dias, para dançar, ela concordou... Havia tanto tempo, pareceu-lhe, que não dançava e não se divertia. Mas quando tentou pensar que festa seria aquela, não conseguiu lembrar-se direito.

Sem dúvida, o equinócio não tinha chegado ainda, nem podia ver a lua ou o sol, para calculá-lo sozinha, como aprendera.

Colocaram uma grinalda de flores em seus cabelos, belas flores do verão, pois, disse a senhora, ela não era uma donzela inexperiente. Era uma noite sem estrelas, e perturbava-a o fato de não poder ver a lua, tal como não vira o sol durante o dia. Quantos dias teriam se passado - um, dois ou três? O tempo parecia não ter mais importância; comia quando sentia fome, dormia se se sentia cansada, sozinha, ou quando estava deitada numa cama, macia como a relva, com uma moça. Certa vez, para sua surpresa, a moça - sim, parecia-se um pouco com Raven - envolveu-a nos braços e a beijou, e ela correspondeu aos beijos, sem surpresa ou vergonha. Tudo se passava como num sonho, em que coisas estranhas eram perfeitamente possíveis, e Morgana surpreendia-se com tudo isso apenas um pouco, mas de alguma forma nada daquilo parecia ter importância, pois ela vivia num sonho encantado. Por vezes, perguntava-se o que teria acontecido com seu cavalo, mas quando pensou em viajar, a mulher lhe disse que não devia pensar nisso ainda, gostariam que ficasse com eles. E anos mais tarde, ao procurar lembrar-se do que lhe acontecera no Castelo de Chariot, recordava-se de que se deitara no colo da mulher e nela mamara como uma criança, sem que lhe parecesse estranho estar ela, Morgana, uma mulher feita, deitada no colo da mãe, sendo acariciada e acalentada como um bebê. Mas sem dúvida havia sido apenas um sonho, quando estava tonta com aquele vinho forte e doce...

E por vezes tinha a impressãa de que a mulher era Viviane, e pensava: Estarei doente, estarei com febre e sonhando todas essas coisas curiosas? Saiu em companhia das damas da mulher, e com elas procurou ervas e raízes, sem se importar com a estação em que estavam. E na festa - teria sido naquela mesma noite, ou em outra? - havia dança ao som de harpas, e ela tocou também para que outros dançassem, e a música que tocou parecia, ao mesmo tempo, melancólica e alegre.

Num determinado momento, quando procurava bagos e flores para grinaldas, seus pés tropeçaram em alguma coisa: os ossos descarnados de algum animal. E em volta do pescoço estava um pedaço de couro, e sobre ele um resto de pano vermelho - parecia o saco em que trazia suas coisas quando saíra de Caerleon. Ficou pensando no que teria acontecido com seu cavalo, estaria ele a salvo nas cocheiras? Não as tinha visto no castelo encantado, mas supunha que existissem em algum lugar. No momento, bastava dançar, cantar, deixar o tempo passar, encantado...

Num certo momento, o homem que a tinha conduzido até ali retirou-a do círculo onde dançavam. Ela jamais soube seu nome. Como, se não podia ver o sol ou a lua, as ondas tanto de um como de outro pulsavam tão violentamente nela?

- Você tem um punhal - disse ele. - É preciso tirá-lo, não o posso tolerar.

Morgana soltou as tiras de couro que prendiam o punhal e lançou-o longe, sem ver onde caiu. O homem aproximou-se, então, misturando com os dela seus cabelos negros: tinha um gosto doce na boca, de morangos e da estranha bebida de urzes. Desabotoou-lhe a roupa. Morgana se habituara ao frio - não tinha importância que fizesse frio sobre a relva, ali, que estivesse nua debaixo do homem. Tocou o corpo dele: era quente, seu membro forte era quente e duro, as mãos lhe abriam as coxas com força e pressa. Todo o corpo de Morgana ansiava pelo seu, com a fome de uma virgem: ela se mexeu junto com ele e sentiu o ritmo das pulsações da terra à sua volta.

Teve medo, então... Não queria que a engravidasse, passara tão mal com o nascimento de Gwydion, que outro filho sem dúvida a mataria. Mas quando ia falar, ele colocou-lhe a mão gentilmente sobre os lábios, e Morgana compreendeu que ele lia seus pensamentos.

- Não tenha medo - disse -, minha querida, o momento não é propício... É a época do prazer, e não da gestação - explicou suavemente, e ela entregou-se - e sim, havia galhos em sua testa, ela se deitava outra vez com o Galhudo, e era como se as estrelas estivessem despencando sobre as flores à volta deles - ou seriam apenas os pirilampos?

Certa ocasião em que estava passeando com as donzelas pela floresta, aproximou-se de um poço e inclinou-se sobre ele, olhando bem no fundo. Viu então o rosto de Viviane, que a contemplava da água. Tinha os cabelos grisalhos, mechas totalmente brancas, e havia nele marcas que Morgana não conhecia. Seus lábios abertos pareciam chamá-la. Ficou pensando, então: Há quanto tempo estou aqui?

Sem dúvida quatro ou cinco dias, talvez mesmo uma semana. Tenho de partir. A mulher disse que me levaria até as praias de Avalon...

Dirigiu-se a ela e disse-lhe que precisava partir. Mas a noite caía... sem dúvida, haveria tempo bastante no dia seguinte.

Em outra ocasião, na água, pareceu-lhe ver Artur concentrando seus exércitos. Gwenhwyfar estava cansada e mais velha; segurava Lancelote pela mão, enquanto este se despedia dela e a beijava na boca. Sim, pensou Morgana com amargura, desses jogos é que ele gosta. Gwenhwyfar teria desejado que assim fosse, ter todo o seu amor e dedicação, sem colocar em risco sua honra.. Mas também era fácil esquecê-los...

E então, certa noite, acordou sobressaltada, ouvindo de alguma parte um grande grito, e por um momento pareceu-lhe estar no Tor, no centro das pedras circulares, ouvindo o grito aterrador ecoar pelos mundos - a voz que ouvira apenas uma vez desde que se tornara mulher, aquela voz áspera e enferrujada, que se embotara pela falta de uso, a voz de Raven, que só uma vez rompera o silêncio, quando os Deuses tinham uma mensagem que não ousavam deixar a mais ninguém...

Ah, o Pendragon traiu Avalon, o dragão caiu... A bandeira do dragão já não flutua mais contra os guerreiros saxões. Chorai, chorai, se a Senhora deixar Avalon, decerto não voltará mais... e o som de choro, de soluços na escuridão súbita...

E silêncio. Morgana sentou-se, ereta, à luz cinzenta, tendo de repente a mente clara, pela primeira vez desde que entrara naquele mundo.

Estive aqui por tempo demais, o inverno chegou. Devo partir agora, antes que este dia termine... Não posso nem mesmo dizer isso, o sol não se levanta nem se põe, aqui... Devo ir agora, imediatamente. Sabia que podia pedir seu cavalo, e depois, lembrou-se de que ele há muito estava morto naquelas florestas. Pensou, tomada de súbito medo: Quanto tempo estive aqui?

Procurou seu punhal curvo, e recordou-se de que o jogara fora. Vestiu-se, e suas roupas pareciam envelhecidas. Não se lembrava de ter lavado o vestido nem as peças íntimas, que apesar disso não pareciam muito sujas. E pela mente passou-lhe de súbito uma interrogação: não estaria louca?

Se eu falar com a mulher, ela me pedirá novamente para não ir...

Morgana trançou o cabelo... Por que o deixara solto, ela, uma mulher adulta? E desceu o caminho que a levaria a Avalon.

 

Morgana fala...

Até hoje nunca soube quantas noites e dias passei no país das fadas - até hoje minha mente se torna confusa quando tento fazer a conta. Por mais que me esforce, não acredito que fossem menos de cinco, nem mais de treze. Tampouco tenho certeza do tempo que transcorreu fora dali, nem em Avalon, enquanto estive lá, mas como a humanidade registra melhor a passagem do tempo do que no pais das fadas, sei que cerca de cinco anos se passaram.

À medida que envelheço, penso cada vez mais que talvez o que consideramos como o passar do tempo só acontece porque adquirimos o hábito, terrivelmente arraigado, de contar as coisas - os dedos de um recém-nascido, o nascer e o pôr-do-sol -, e por isso pensamos com muita frequência no número de dias ou de estações que devem transcorrer antes que o grão amadureça, ou nosso filho cresça no ventre e seja dado à luz, ou que algum encontro muito desejado se concretize. E os registramos de acordo com o passar do ano e do sol, como o primeiro dos segredos sacerdotais. No país encantado, eu nada sabia do tempo, e portanto para mim ele não passava. Quando dele sai, descobri que já havia mais marcas no rosto de Gwenhwyfar e que a deliciosa juventude de Elaine começava a desaparecer. Minhas mãos, porém, não estavam mais magras, meu rosto continuava intocado pelas marcas ou rugas, e embora em nossa família os cabelos embranqueçam cedo - aos dezenove anos Lancelote já tinha alguns cabelos brancos -, o meu estava tão negro e intocado pelo tempo quanto a asa de um corvo.

Cheguei a pensar que quando os druidas retiraram Avalon do mundo da contagem e do registro constantes, isso também começou a acontecer ali. O tempo não flui sem medida em Avalon como num sonho, ou como no país das fadas. Não obstante, o tempo começou a correr ali mais devagar. Vemos a lua e o sol da Deusa e registramos os ritos nas pedras circulares, de modo que o tempo nunca nos abandona totalmente. Mas não corre paralelo ao tempo de outros lugares, embora se possa pensar que se os movimentos do sol e da lua fossem conhecidos de todos, o tempo em Avalon teria de passar do mesmo modo que no mundo lá fora...

Mas não é assim. Nestes últimos anos, eu podia passar um mês em Avalon e descobrir, quando saia de lá, que toda uma estação transcorrera lá fora. E ao final dagueles anos, isso sucedeu mais amiúde, pois eu não tinha paciência para ver o que acontecia no mundo exterior. E quando as pessoas viam que eu continuava sempre jovem, então me consideravam, mais do que nunca, uma fada ou uma feiticeira.

Mas isso foi muito, muito depois.

Pois quando ouvi Raven dar aquele grito aterrorizador que varou os espaços entre dois mundos e chegou até mim, onde eu estava, no sono intemporal do mundo encantado, eu parti... mas não para Avalon.

 

Capítulo 14

No mundo lá fora, a luz do sol brilhava forte através das instáveis sombras das nuvens sobre o lago, e os sinos soavam distantes, pelo ar. Enquanto perdurasse aquele som, Morgana não ousava elevar a voz para gritar a palavra mágica que chamaria a barca, nem assumir a forma da Deusa.

Olhou-se no espelho da superfície do lago. Quanto tempo teria permanecido no país das fadas?, perguntou a si mesma. Com a mente livre dos encantamentos, sabia - embora lhe parecesse terem sido apenas dois ou três dias - que ali ficara o tempo suficiente para que seu belo vestido escuro se esgarçasse na bainha que se arrastava pelo chão. Havia perdido o punhal, ou o jogara fora, não tinha certeza. Recordava-se agora de algumas das coisas que lhe haviam ocorrido ali como se fossem sonhos ou momentos de loucura, e seu rosto inflamava-se de vergonha. Não obstante, de mistura com isso havia lembranças de uma música mais suave do que jamais ouvira no mundo ou em Avalon, ou em qualquer outro lugar, exceto quando estivera nas fronteiras do país da Morte, quando do nascimento de seu filho... e então experimentara algo muito próximo do desejo de atravessar aquela fronteira, aínda que fosse apenas para ouvir a música. Lembrava-se do som de sua própria voz cantando com a harpa das fadas: nunca havia cantado ou tocado tão bem. Gostaria de voltar para lá, e ficar para sempre. E quase mudou de rumo para retornar, mas a lembrança do terrível grito de Raven a perturbava.

Artur traíra Avalon e o juramento que lhe proporcionara a espada e lhe abrira as portas do mais sagrado recinto dos druidas. E Viviane correria perigo se deixasse Avalon - lentamente, procurando combinar as coisas na cabeça, Morgana lembrou-se. Partira de Caerleon em fins do verão, poucos dias antes, ao que parecia. Não conseguiu chegar a Avalon, e agora parecia que jamais chegaria... olhou com tristeza para a igreja no alto do Tor. Se pudesse penetrar em Avalon, por trás da ilha... mas os caminhos a tinham levado apenas para o país das fadas.

Em algum lugar, portanto, havia perdido o punhal e o cavalo; lembrava-se agora de ter visto ossos descarnados, e sentiu um arrepio. Pareceu-lhe também que a igreja no Tor era diferente, os padres deviam ter feito obras e certamente não poderiam tê-la modificado tanto num mês, ou mesmo em dois... Tenho de descobrir quantas luas se passaram enquanto eu me divertia com as donzelas da senhora fada, ou me deliciava com o homem encantado que me conduziu até lá, pensou.

Mas não, não poderia ter sido mais de duas, ou no máximo, três noites..., pensou, agitada, sem saber que tudo aquilo era apenas o início de uma confusão que aumentaria sempre, e que ela jamais poderia esclarecer. E quando pensava naquelas noites, sentia medo e vergonha, tremendo à recordação de um prazer que jamais experimentara, deitada nos braços do homem encantado e, não obstante, agora que estava livre do encantamento, tudo aquilo lhe parecia algo vergonhoso, feito num sonho. E as carícias que fizera nas fadas donzelas e que delas recebera, alguma coisa que jamais poderia ter sonhado sem o encantamento - acontecera alguma coisa também com a senhora... e agora que pensava nisso, ela era muito parecida com Viviane, e Morgana envergonhou-se novamente... No país das fadas, era como se tivesse sentido fome dessas coisas por toda a sua vida, e, não obstante, lá fora, no mundo, jamais as teria ousado nem sonhado com elas.

Apesar do sol quente, Morgana começou a tremer. Não sabia em que época do ano estava, mas havia faixas de neve não derretida nas margens do lago, escondendo os juncos. Em nome da Deusa, será possível que o inverno tenha passado, e a primavera já tenha voltado? E se tivesse transcorrido no mundo real um tempo suficiente para que Artur planejasse a traição a Avalon, então deveria ter ficado no mundo encantado por mais tempo do que ousava pensar.

Havia perdido o cavalo, o punhal e tudo o mais que trazia. Também os sapatos estavam gastos, não tinha alimentos consigo, e estava sozinha numa região pouco amiga, longe de qualquer lugar onde era conhecida como a irmã do rei. Bem, já passara fome, antes. Um leve sorriso passou-lhe pelo rosto. Havia grandes casas e conventos onde talvez lhe dessem pão, como a um mendigo. Resolveu dirigir-se à corte de Artur - em alguma aldeia seria possível encontrar quem necessitasse dos serviços de uma parteira, e poderia trocar seu trabalho por comida.

Lançou um último e saudoso olhar para a margem que se via do outro lado do lago. Ousaria fazer a tentativa final de pronunciar a palavra mágica que a levaria a Avalon? Se pudesse falar com Raven, talvez ela conhecesse exatamente quais os perigos existentes... abriu a boca para gritar a palavra, e recuou. Não podia enfrentar Raven, que respeitara as leis de Avalon tão meticulosamente, que nada fizera para envergonhar sua condição de sacerdotisa. Como enfrentar seus olhos claros com as recordações daquilo que fizera no mundo real e no mundo encantado? Raven leria tudo aquilo em sua mente num instante... Por fim, quando as praias do lago e a torre da igreja enevoaram-se com suas lágrimas, Morgana voltou as costas para Avalon, dirigindo-se à velha estrada romana que levava ao sul, para além das minas até Caerleon.

 

Viajava a pé havia três dias, quando encontrou outro viajante. Na primeira noite dormira na cabana abandonada de um pastor, sem comer, apenas abrigando-se do vento. Na segunda, chegara a uma casa onde não havia ninguém, exceto um guardador de gansos meio imbecil, que a deixou sentar-se e aquecer-se junto ao fogo. Morgana extraiu um espinho do pé do rapaz, que lhe deu como recompensa um pedaço de pão. Havia ido mais longe, com menos alimento.

Ao aproximar-se, porém, de Caerleon, surpreendeu-se ao ver duas casas desertas e as espigas apodrecendo no campo, sem terem sido colhidas. Era como se os saxões tivessem passado por ali! Entrou numa das casas, que parecia ter sido saqueada, pois quase nada restava. Mas num dos quartos encontrou um casaco velho e desbotado, que até mesmo aos saqueadores devia ter parecido muito esfarrapado para ser levado, e que fora abandonado quando os moradores fugiram. Mas era de uma lã de boa qualidade, e Morgana envolveu-se nele, embora lhe aumentasse ainda mais a aparência de mendiga: havia, porém, sofrido mais com o frio do que com a fome. Quase ao anoitecer, algumas galinhas cacarejaram no pátio abandonado - as galinhas eram animais de hábitos arraigados e ainda não tinham aprendido que não encontrariam mais alimentos ali. Morgana agarrou uma delas e torceu-lhe o pescoço, acendendo depois um pequeno fogo na lareira. Se tivesse sorte, ninguém vería a fumaça saindo das ruínas. Ou, se visse, poderia pensar que era um fantasma. Espetou a ave com um galho ainda verde e assou-a no fogo. Era tão velha e dura que até mesmo os dentes fortes de Morgana tiveram dificuldade em mastigar-lhe a carne. Estava, porém, com fome há tantos dias que não deu importância a isso, chupando os ossos como se fossem do mais delicioso frango assado. Encontrou também pedaços de couro num dos barracões que devia ter sido a forja. Haviam levado todas as ferramentas e todos os pedaços de metal, mas deixaram couro espalhado pelo chão, e Morgana embrulhou nele o que restou da galinha. Teria consertado também seus sapatos, mas não tinha faca. Bem, talvez passasse por alguma aldeia onde lhe fosse possível tomar uma faca emprestada por alguns minutos. Que loucura a levara a jogar fora seu punhal?

Vários dias transcorreram depois da lua cheia, e quando ela partiu da fazenda arruinada, encontrou geada na soleira da porta, e uma lua convexa arrastava-se pelo céu do dia. Ao atravessar a soleira da porta com seu saco de couro com a carne fria e um cajado na mão - algum pastor, sem dúvida, o havia cortado, e deixado para trás - ouviu uma galinha cacarejando; procurou então seu ninho e comeu o ovo cru, ainda quente, sentindo-se em seguida bem alimentada e a gosto.

O vento era áspero e frio, e ela caminhou depressa, satisfeita por ter encontrado o manto, por mais gasto que estivesse. A manhã já estava bem avançada, e ela começava a pensar em sentar-se à beira da estrada para comer um pouco de galinha fria, quando ouviu um tropel atrás de si, aproximando-se rapidamente.

Seu primeiro pensamento foi continuar a caminhar - estava preocupada com seus problemas e tinha tanto direito de estar caminhando pela estrada quanto qualquer outro viajante. Depois, lembrando-se da fazenda saqueada, achou que faria melhor escondendo-se atrás de um arbusto, junto do caminho. Não podia imaginar que tipo de gente se encontrava pelas estradas, agora, com Artur ocupado em manter a paz com os saxões, e sem ter muito tempo para fazer respeitar a tranqüilidade do campo e assegurar a proteção nas estradas. Se o viajante parecesse inofensivo, poderia pedir-lhe notícias; caso contrário, poderia ficar escondida até que ele desaparecesse.

Era um cavaleiro solitário, envolto num manto cinza e montado num cavalo alto e magro; vinha sem servo, ou mula de carga. Trazia, porém, um grande volume na garupa... não, também não era isso: era seu corpo que se encurvava sobre a sela. E Morgana compreendeu então quem deveria ser o homem, e abandonou seu esconderijo.

- Harpista Kevin! - chamou.

Ele parou o cavalo, que era um animal bem-treinado e não se assustou. Olhou-a, resmungando, com a boca torcida num esgar que parecia ser de mofa - ou seriam apenas as suas cicatrizes?

- Nada tenho para você, mulher... - e interrompeu-se. - Pela Deusa! É a senhora Morgana! O que faz aqui, senhora? Ouvi dizer no ano passado que estava em Tintagel com sua mãe, antes que ela morresse, mas quando a Grande Rainha foi ao sul para o enterro, disse que não, que a senhora não estivera lá...

Morgana cambaleou e estendeu a mão para firmar-se no cajado.

- Minha mãe...? Morta? Eu não sabia...

Kevin desmontou, firmando-se nos flancos do cavalo até colocar a bengala em posição.

- Sente-se aqui, senhora. Não sabia? Por onde tem andado, em nome da Deusa? A notícia chegou até Viviane em Avalon, mas ela está velha demais, e muito fraca, para poder viajar.

Mas onde eu estava, pensou Morgana, não fiquei sabendo. Talvez quando vi o rosto de Igraine no poço da floresta, fosse ela tentando dizer-me, e eu não fiquei sabendo. A dor pesou-lhe no coração; ela e Igraine haviam se distanciado tanto - separaram-se quando ela tinha apenas onze anos e partira para Avalon -, mas agora sentia uma angústia profunda, como se fosse a mesma menininha que chorava ao partir da casa da mãe. Ah, minha mãe, e eu não fiquei sabendo de nada... Sentou-se à margem da estrada, enquanto as lágrimas lhe rolavam pelo rosto.

- Como morreu ela? Você sabe?

- Foi do coração, creio. Foi há um ano, na primavera. Creia-me, Morgana, pelo que dizem todos, foi uma morte natural e previsível, na idade dela.

Por um momento Morgana foi incapaz de controlar a voz para poder falar. E, com a dor, veio o terror, pois era claro que permanecera fora do mundo por mais tempo do que lhe parecera possível. Kevin disse há um ano, na primavera. Portanto, mais de uma primavera havia transcorrido enquanto ela estivera no país das fadas! Pois no verão, quando partira da corte de Artur, Igraine nem mesmo estava doente! Não havia permanecido lá durante meses, mas sim anos!

E poderia fazer com que Kevin lhe contasse as novidades, sem revelar por onde tinha andado?

- Tenho vinho comigo, Morgana. Posso oferecê-lo, mas você terá de ir buscá-lo... Não caminho muito bem... Você parece magra e pálida, estará também com fome? E como se explica que eu a encontre assim na estrada, vestida... - Kevin franziu a sobrancelha com aversão - pior do que qualquer mendiga?

Morgana procurou uma explicação convincente.

- Vivi... na solidão e distante do mundo. Não vi nem falei com ninguém conhecido, por longo tempo. Perdi até mesmo a conta das estações.

E isso era verdade, pois os habitantes do país das fadas não podiam ser considerados homens.

- Eu bem posso crer - respondeu Kevin. - É possível então que nem tenha sequer sabido da grande batalha...

- Vejo que esta região está toda saqueada...

- Ora, isso foi há três anos - contou Kevin, e Morgana estremeceu. - Algumas das tropas do tratado romperam seu compromisso e invadiram esta região, saqueando e incendiando. Artur sofreu grave ferimento naquela batalha e ficou acamado por meio ano.

Viu o rosto perturbado de Morgana e julgou tratar-se de preocupação.

- Ah, ele agora está passando bem, mas durante todo aquele tempo, não se levantou. Imagino que tenha sentido falta de seus conhecimentos medicinais, Morgana. Gawaine foi quem comandou os homens de Lot, lá do norte, e tivemos paz durante três anos. Mas, no verão passado, houve uma grande batalha em monte Badon, onde Lot morreu, e foi uma vitória que os bardos cantarão durante cem anos. Creio que não ficou um chefe saxão vivo em toda esta terra, desde a Cornualha até o reino de Lot, exceto os que aceitaram Artur como rei. Não houve nada parecido desde os tempos dos Césares. E agora, toda esta terra está sob a paz de Artur.

Morgana levantou-se e foi até os sacos pendurados na sela. Encontrou o vinho, e Kevin disse:

- Traga também o pão e o queijo. É quase meio-dia, e comerei aqui com você.

Depois que ela o serviu e abriu a sacola de couro com o que restava da galinha, oferecendo-a, Kevin sacudiu a cabeça.

- Obrigado, mas não como mais carne. Fiz votos... Surpreendo-me ao vê-la comer carne, Morgana, uma sacerdotisa de sua classe...

- É comer isso ou jejuar - respondeu Morgana, contando-lhe como encontrara a galinha. - Mas não observo mais essa proibição desde que deixei Avalon. Como o que encontro para comer.

- Por mim, creio que pouca diferença faz comer carne, peixe ou cereais - observou Kevin -, embora os cristãos dêem grande importância a tais coisas. Pelo menos, esse Patrício, que é agora o bispo de Artur. Antes disso, os padres que moravam conosco em Avalon costumavam repetir uma frase do seu Cristo, segundo a qual não é o que entra na boca do homem que o avilta, mas o que dela sai. Portanto, os homens podem comer, com humildade, tudo o que Deus lhes dá. Foi o que ouvi Taliesin dizer. Mas quanto a mim - e sem dúvida você sabe que em certo nível dos Mistérios aquilo que se come tem grande efeito sobre a mente -, não ouso comer carne, agora, deixa-me mais tonto do que vinho em excesso!

Morgana assentiu com um gesto de cabeça, pois também ela tinha essa experiência. Quando bebia as ervas sagradas, não podia comer senão um pouco de pão e frutas; até mesmo o queijo ou lentilhas cozidas eram demasiado fortes e deixavam-na doente.

- Mas para onde vai agora, Morgana? - E quando lhe disse, Kevin olhou-a como se estivesse doida: - Para Caerleon? Mas não há mais nada lá... Ou talvez você não saiba, embora isso me pareça difícil de acreditar, que Artur deu Caerleon para um de seus cavaleiros que se distinguiu naquela batalha. No dia de Pentecostes, ele mudou-se, com toda a corte, para Camelot. Faz um ano, neste verão, que ele se transferiu para lá. Taliesin não gostou de ele ter inaugurado sua corte num dia santo cristão, mas Artur agiu assim para agradar à rainha, a quem ele ouve em tudo.

Morgana surpreendeu um leve sorriso no rosto de Kevin.

- Mas se você não ouviu falar da batalha, é provável que não saiba também que Artur traiu o pvvo de Avalon e as tribos.

A mão de Morgana imobilizou-se no ar, antes de levar aos lábios o copo com vinho.

- É por isso que vim, Kevin. Fiquei sabendo que Raven quebrou seu voto de silêncio e profetizou coisas parecidas.

- Foi mais do que uma profecia - disse o bardo, estendendo com dificuldade a perna, como se o fato de estar sentado no chão por muito tempo lhe provocasse dores.

- Artur traiu... O que fez ele? Por acaso ele os entregou aos saxões?

- Então você não sabe? As tribos haviam jurado seguir a bandeira do Pendragon, juraram isso na coroação dele, como haviam jurado na coroação de Uther, antes de Artur. E o povo pequeno da época anterior às tribos, também ele veio com seus machados de bronze e suas flechas de sílex, suas machadinhas de pederneira - como o povo das fadas ele não suportava o ferro frio. Todos, todos os que haviam jurado seguir o Grande Dragão. E Artur os traiu... Ele deixou de lado a bandeira do dragão, embora nós lhe implorássemos que permitisse a Lancelote ou Gawaine levá-la em batalha. Ele, porém, jurou que só levaria a sua bandeira da cruz e da Virgem ao campo de batalha de monte Badon. E foi o que fez...

Morgana olhou-o, aterrorizada, lembrando-se da cerimônia em que Artur fora feito rei. Nem mesmo Uther havia se comprometido a tal ponto com o povo de Avalon! E traíra tal juramento?

- E as tribos não o abandonaram? - murmurou ela.

- Algumas quase o deixaram. Parte do Povo Antigo de Gales realmente voltou para casa quando a cruz foi içada - o rei Uriens não conseguiu contê-las. Quanto ao resto - contou Kevin com grande ódio -, bem, nós sabíamos, naquele dia, que os saxões nos tinham entre a cruz e a caldeirinha. Poderíamos seguir Artur e seus cavaleiros na batalha, ou viver desde então sob o domínio saxônico, pois aquela era a grande batalha profetizada. E ele levava a espada sagrada Excalibur dos Paramentos Reais. Como se a própria Deusa soubesse que seria pior se a terra fosse governada pelos saxões. Por isso, ele lutou, e a Deusa lhe deu a vitória.

Kevin ofereceu mais vinho a Morgana, e quando ela recusou, bebeu sozinho.

- Viviane quer sair de Avalon para ir questioná-lo sobre o seu perjúrio, mas reluta em fazê-lo na frente de todos. Por isso estou a caminho de Camelot, para lembrar a Artur o seu juramento. Se ele não me escutar, Viviane jurou que irá ela mesma a Camelot, no dia em que todos apresentam suas petições, pois Artur prometeu ouvir a todos e distribuir justiça, no dia de Pentecostes. E então, disse ela, vai apresentar-se como um pedinte comum, e exigir o respeito ao compromisso, lembrando ao rei o que poderá lhe acontecer se faltar à sua palavra.

- Permita a Deusa que a Senhora do Lago não tenha jamais de se humilhar a tal ponto - disse Morgana.

- Eu também teria me dirigido a ele com palavras duras, mas não me cabe determinar - comentou Kevin, estendendo a mão. - Pode ajudar-me a levantar-me? Acho que meu cavalo agüenta dois, e se não agüentar, quando chegarmos a uma cidade, teremos de conseguir-lhe uma montaria. Eu devia ser tão galante quanto o grande Lancelote e ceder-lhe a minha, mas... - e apontou para o corpo aleijado.

Morgana ajudou-o a levantar-se, e disse:

- Sou forte, posso caminhar. Se tivermos de conseguir alguma coisa na cidade, seria melhor que fossem sapatos e uma faca para mim. Não tenho nenhum dinheiro comigo, mas lhe pagarei quando puder.

- Você é minha irmã em Avalon - disse Kevin dando de ombros. - O que é meu é seu, como diz o costume. Não se fala em pagamento entre nós.

Morgana sentiu-se corar, envergonhada por ter sido Kevin quem lhe lembrasse o juramento. Na verdade, tenho estado fora do mundo.

- Vou ajudá-lo a montar. Será que o cavalo vai ficar quieto?

- Se não ficasse, não teria nenhuma utilidade em minhas viagens solitárias pelas estradas - respondeu Kevin com um sorriso. - Vamos! Eu gostaria de chegar a Camelot amanhã.

Numa cidade, em meio aos morros, encontraram um sapateiro que consertou os sapatos de Morgana, e compraram um velho punhal de bronze. O homem que o vendeu disse que não havia falta de tais objetos na região, desde a grande batalha. Kevin comprou-lhe também uma capa decente, dizendo que a capa de molambos que encontrara na casa deserta não servia nem mesmo para forrar-lhe a sela do cavalo. A parada, porém, os atrasou, e a noite caiu cedo.

- Deveríamos ter ficado naquela cidade - disse Kevin.

- Eu podia ter trocado a música da minha harpa por uma ceia e uma cama para nós dois. Sozinho, poderia dormir sob uma árvore, ou sob a proteção de uma parede, embrulhado em minha capa. Mas uma senhora de Avalon não poderia fazer isso.

- E por que acredita que nunca dormi assim? - perguntou Morgana.

- Você parece ter dormido assim com muita freqüência, ultimamente! - respondeu ele, rindo. - Mas por mais depressa que andemos, não chegaremos a Camelot esta noite. Temos de procurar um abrigo qualquer.

Algum tempo depois, em meio à neve que caía rapidamente, puderam distinguir os contornos escuros de uma construção abandonada. Devia ter sido um curral pois nem mesmo Morgana conseguiu entrar sem curvar-se. Os animais, porém, o haviam abandonado há muito tempo, e deles não restava sequer o cheiro. O telhado estava bem conservado. Ataram as rédeas do cavalo a um poste e entraram. Kevin indicou-lhe, com um gesto, que estendesse no chão sujo o velho manto andrajoso; embrulharam-se em suas capas e deitaram-se sobre ele. Mas fazia tanto frio que, por fim, ao ouvir os dentes de Morgana batendo, Kevin propôs que deviam cobrir-se, os dois, com os seus mantos e ficar bem juntos, para se aquecerem.

- Se não lhe desagradar ficar tão junto desse meu corpo deformado - disse ele, e Morgana pôde sentir o sofrimento e a raiva na voz do bardo.

- Harpista Kevin, você pode ser deformado, mas eu só sei que com suas mãos quebradas você faz melhor música do que eu ou mesmo do que Taliesin com nossas mãos inteiras - respondeu, aproximando-se satisfeita. E finalmente, sentiu que poderia dormir, com a cabeça repousando no ombro de Kevin.

Morgana caminhara durante todo o dia e estava cansada; dormiu pesadamente, mas acordou quando a luz da alvorada começou a infiltrar-se pelas frestas da parede. Doía-lhe o corpo por ter dormido no chão duro, e ao olhar à sua volta as paredes de barro, teve um estremecimento de horror. Ela, Morgana, sacerdotisa de Avalon, duquesa da Cornualha, dormindo ali num abrigo de animais, expulsa de Avalon... voltaria algum dia? E vinha de lugares ainda piores, do Castelo Chariot, no país das fadas, longe dos conhecimentos tanto da cristandade quanto do paganismo, fora até mesmo da esfera deste mundo. Ela, que fora criada com tanto requinte por Igraine; ela que era irmã do Grande Rei, instruída pela Senhora do Lago, aceita pela Deusa... jogara tudo isso fora. Mas não, não jogara fora, tudo lhe fora tomado quando Viviane a mandara à celebração na qual Artur fora feito rei e da qual saíra grávida do próprio irmão.

Igraine está morta, minha mãe está morta, e não posso voltar a Avalon, jamais neste mundo... e Morgana não pôde conter o pranto, abafando os soluços no tecido grosseiro de sua capa.

A voz de Kevin era suave e rouca na meia-luz:

- Está chorando por sua mãe, Morgana?

- Por minha mãe, e por Viviane, e talvez ainda mais por mim mesma.

Morgana não tinha a certeza de ter dito essas palavras em voz alta. O braço de Kevin a envolveu, ela apoiou a cabeça em seu peito, e chorou longamente, até lhe secarem as lágrimas.

Depois de longo tempo, e ainda acariciando os cabelos de Morgana, o bardo disse:

- Você disse a verdade, não tem asco de mim.

- Como poderia ter, se você foi tão bom?

- Nem todas as mulheres pensam assim. Mesmo nas fogueiras de Beltane ouvi dizerem, pois há pessoas que me consideram também surdo e mudo, porque sou aleijado das pernas e das mãos, ouvi mais de uma das donzelas da Deusa murmurarem para sua sacerdotisa que as colocasse longe de mim, para que eu não as olhasse, quando chegasse o momento de nos afastarmos das fogueiras...

Morgana ficou espantada.

- Se eu fosse a sacerdotisa, teria expulso essa mulher das celebrações, por ela ter ousado questionar a forma pela qual o Deus lhe poderia surgir... E o que fez você, Kevin?

- Preferi ir-me embora discretamente, sem que ninguém visse, para não interromper o ritual ou sujeitar qualquer mulher a tal escolha - contou ele com um movimento de ombros. - Nem mesmo Deus poderia modificar o que elas vêem ou pensam de mim. E mesmo antes de ter sido proibido, pelo juramento de druida, de relacionar-me com as mulheres que vendem o corpo por dinheiro, eu não conseguia convencê-las a me aceitar. Talvez eu devesse tentar ser padre entre os cristãos, que, pelo que sei, ensinam aos seus sacerdotes o segredo de viver sem mulheres. Ou talvez eu devesse ter desejado que quando os invasores me quebraram as mãos e o corpo, me tivessem castrado também, para que não me preocupasse com isso. Sinto muito, eu não deveria ter falado no assunto. Mas fico pensando se você concordou em deitar junto de mim por ter pensado que este corpo deformado não era o de um homem, e não me via como tal...

Morgana ouvia-o, espantada com a amargura de suas palavras, com as feridas sofridas pela sua masculinidade. Sabia a consciência que havia nas mãos de Kevin, na sensibilidade exacerbada do músico. Mesmo antes da Deusa, poderiam as mulheres ver nele apenas um corpo deformado? Lembrou-se de como se lançara aos braços de Lancelote, e a ferida que seu orgulho sofrera e que jamais deixaria de sangrar.

Deliberadamente, Morgana abaixou-se e o beijou na boca, puxou as mãos dele e beijou as cicatrizes nelas existentes.

- Nunca tenha dúvidas sobre isso, para mim você é um homem, e foi a Deusa quem me levou a fazer isso.

Deitou-se outra vez, voltando-se para ele.

Kevin olhou-a com intensidade, à luz que a cada minuto se tornava mais clara. Morgana teve um breve estremecimento provocado pelo que viu no seu rosto - teria pensado que era piedade? Não: ela partilhava a consciência do sofrimento dele, o que era outra coisa. Olhou-o diretamente nos olhos... Sim, se o seu rosto não fosse tão marcado pela amargura, tão contorcido pelo sofrimento, ele poderia ter sido bonito. Os traços eram finos, os olhos, muito escuros e gentis. O destino deformara-lhe o corpo, mas não lhe aquebrantara o espírito - nenhum covarde poderia ter suportado as provas dos druidas.

Sob o manto da Deusa, assim como toda mulher é minha irmã e minha filha e minha mãe, assim também todo homem tem de ser para mim como um pai, um amante e um filho... Meu pai morreu antes que eu tivesse idade para lembrá-lo, e não vejo meu filho desde que foi desmamado... Mas para este homem eu darei aquilo que a Deusa me leva a dar... Morgana beijou novamente uma das mãos cheias de cicatrizes e a levou aos seios, por dentro do vestido.

Kevin não tinha experiência, o que parecia estranho a um homem de sua idade. Mas como poderia ter sido di ferente?, pensou Morgana. Esta é realmente a primeira vez que faço isso de minha livre vontade, e que meu dom foi aceito naturalmente, como é oferecido. Isso fez fechar certas feridas em seu coração. Estranho que assim fosse com um homem que mal conhecia, e pelo qual só sentia bondade.

Mesmo em sua inexperiência, Kevin foi generoso e gentil com ela, e Morgana sentiu que nele se avolumava uma enorme e silenciosa ternura.

- É estranho - comentou ele finalmente, numa voz tranqüila e curiosa. - Eu sabia que você era inteligente e sacerdotisa, mas nunca pensei que fosse bonita.

- Bonita, eu? - Morgana riu, mas sentiu-se grata pelo fato de que para ele, pelo menos naquele momento, parecia bonita.

- Diga-me, Morgana, por onde andou? Eu não queria perguntar, mas parece que isto está pesando muito em seu coração.

- Não sei - respondeu sem pensar. Nunca imaginara que lhe pudesse dizer. - Fora do mundo, talvez... Eu estava tentando ir para Avalon, e não pude, o caminho estava fechado para mim, creio. Por duas vezes já, estive... num outro lugar. Outro país, um país de sonhos e encantamentos, um país onde o tempo pára e não existe, e onde nada se ouve senão música...

Calou-se. Iria o harpista considerá-la louca? Kevin passou o dedo pelo canto do olho de Morgana. Estava frio e haviam afastado as cobertas: ele voltou a ajeitá-las carinhosamente à volta dela.

- Também eu estive ali certa vez, e ouvi a música que tocam... - disse, numa voz distante e sumida. - E naquele lugar eu não era aleijado, as mulheres não zombavam de mim. Algum dia, talvez, quando eu tiver perdido o medo da loucura, voltarei novamente a eles. Mostraram-me os caminhos secretos e disseram que eu podia ir, devido à minha música... - e mais uma vez a sua voz macia mergulhou no silêncio.

Morgana estremeceu e afastou os olhos.

- Seria melhor que levantássemos. Se nosso pobre cavalo não se congelou durante a noite, chegaremos a Camelot ainda hoje.

- E se chegarmos juntos, eles pensarão que você está vindo comigo de Avalon. Não é da conta deles por onde você andou. Você é uma sacerdotisa, e sua consciência não pode ser controlada por nenhum homem vivo, nem mesmo os bispos deles, ou o próprio Taliesin.

Morgana gostaria de ter um vestido decente para usar, pois chegaria à corte de Artur com as roupas de uma mendiga. Bem, não havia outro jeito. Kevin observou-a enquanto ela penteava os cabelos, depois estendeu-lhe a mão, e Morgana ajudou-o a levantar-se, com naturalidade. Viu, porém, que a amargura voltara aos olhos dele. Kevin protegia-se com mil cercas de reserva e ódio. Não obstante, quando saíam do estábulo, ele tocou-lhe a mão.

- Nãolhe agradeci, Morgana...

Ela sorriu:

- Ora, se há agradecimentos, são mútuos, meu amigo. Ou você não percebeu isso?

Por um momento, os dedos deformados agarraram-se aos seus. E então, foi como uma explosão de fogo, viu o rosto marcado cercado de um halo de fogo, contorcendo-se em gritos, e fogo em toda a sua volta... Fogo... Endireitou-se e afastou a mão, olhando-o com horror.

- Morgana! - exclamou Kevin. - O que é?

- Nada, nada, uma cãimbra no pé - mentiu, evitando a mão do bardo, quando ele a estendeu para ampará-la. Morte! Morte pelo fogo! O que queria dizer aquilo? Nem mesmo o pior dos traidores tem aquela morte... Ou teria visto apenas o que lhe havia acontecido quando ficara aleijado, ainda criança? Embora rápido, o instante da Visão deixou-a abalada, como se ela própria tivesse dito as palavras que o levariam àquela morte.

- Vamos - disse quase bruscamente. - Vamos partir.

 

Capítulo 15

Gwenhwyfar nunca teve vontade de provocar a Visão. Não dizia a Sagrada Escritura que nenhum homem sabia o que o dia pode trazer? Não se lembrara quase de Morgana no último ano, depois que a corte fora transferida para Camelot, mas naquela manhã, ao despertar, recordou-se de um sonho com a cunhada, no qual ela lhe tomava a mão, conduzindo-a para as fogueiras de Beltane e aconselhando-a a deitar-se ali com Lancelote. Quando ficou totalmente acordada, riu-se da loucura de tal sonho. Sem dúvida os sonhos eram mandados pelo Diabo, pois em todos eles ouvia conselhos maléficos que nenhuma esposa cristã deveria ouvir, e quase sempre era Morgana quem os dava.

Bem, ela se foi desta corte e não preciso pensar mais nela... Não, não lhe quero mal, gostaria que se arrependesse dos seus pecados e encontrasse paz num convento... Mas muito longe daqui. Agora que Artur abrira mão de seus costumes pagãos, Gwenhwyfar julgava que seria muito feliz, não fossem esses sonhos nos quais Morgana a chamava para coisas vergonhosas. E agora o sonho a perseguia, enquanto trabalhava na toalha para o altar, destinada à igreja, e com tanta força que parecia um crime ficar sentada trabalhando uma cruz com fio de ouro, enquanto pensava em Lancelote. Pôs de lado o bordado e fez uma oração, mas os pensamentos continuaram. Artur, quando ela lhe implorara, no Natal, prometera acabar com as fogueiras de Beltane nos campos; achava que ele o teria feito antes, se o Merlim não o tivesse impedido. Seria difícil alguém não amar aquele velho, pensou Gwenhwyfar, pois era muito delicado e bondoso. Se fosse cristão, seria melhor do que qualquer padre. Mas Taliesin argumentara que não era justo para o pessoal dos campos acabar com a fé simples numa Deusa que cuidava de suas plantações e da fertilidade de seus animais e de suas mulheres. Sem dúvida, eram poucos os pecados que aquela gente humilde podia cometer, tal a carga de trabalho que pesava sobre eles nos campos, a fim de produzir pão suficiente para afastar a fome. Não se devia esperar que o Diabo se preocupasse com eles, se é que havia Diabo. Mas Gwenhwyfar dissera:

- O senhor acredita que eles não pecam quando vão para as fogueiras de Beltane e ali praticam ritos pagãos e sensuais, e se deitam com outros que não maridos...

- Deus sabe que eles se divertem muito pouco em sua vida - respondeu tranqüilamente Taliesin. - Não me parece ser muito errado que, quatro vezes por ano, quando chegam as estações, eles se divirtam e façam o que lhes agrada. Não me parece haver muita razão em amar um Deus que pensasse nessas coisas para considerá-las maldade. A senhora as considera um mal, minha rainha?

Gwenhwyfar considerava. Qualquer mulher cristã teria de achar que era um pecado ir para os campos e dançar nua e deitar-se com o primeiro homem que lhe fosse mandado...

Era uma vergonha, uma falta de recato, um pecado. Taliesin sacudiu a cabeça, suspirando.

- Mesmo assim, rainha, ninguém pode ser dono da consciência de outrem. Mesmo que isso lhe pareça maligno e vergonhoso, a senhora poderia pretender saber o que é certo ou errado para os outros? Nem mesmo os sábios podem saber tudo, e talvez os deuses tenham mais objetivos do que nós, com nosso parco conhecimento, podemos saber.

- Se eu conhecesse o bem e o mal, como conheço e como os padres nos ensinaram a conhecer no Santo Evangelho, então eu teria medo do castigo se eu não impusesse leis que evitassem o pecado para o meu povo? - perguntou Gwenhwyfar. - Deus me pediria contas, creio, se eu permitisse que o mal grassasse em meu reino; e se eu fosse o rei, já teria acabado com isso.

- Então, minha senhora, só posso dizer que felizmente para este país a senhora não é o rei. Um rei tem de proteger seu povo dos invasores, dos estrangeiros, e chefiá-lo na sua defesa. O rei tem de ser o primeiro a colocar-se entre o reino e todo o perigo, assim como o camponês se levanta para defender seus campos contra qualquer ladrão. Mas não é seu dever proibir ao povo aquilo que, no mais fundo do coração, esse povo deseja fazer.

Gwenhwyfar, porém, discutiu ainda:

- O rei é o protetor de seu povo, e de que adiantaria proteger os corpos, se deixasse as almas praticando o pecado? Veja, senhor Merlim, sou a rainha, e as mães desta terra mandam as filhas para me servirem e para aprenderem os costumes da corte, o senhor compreende? Bem, que rainha seria eu, se permitisse que essas moças se comportassem de maneira imodesta, e ficassem grávidas ou - como faz a rainha Morgause, pelo que ouvi dizer - deixasse que suas aias fossem para a cama com o rei, se este assim o desejasse? As mães me confiam suas filhas porque sabem que eu as protegerei...

- É muito diferente que à senhora sejam confiadas donzelas ainda demasiado jovens para saber o que querem, e que tenha de ser para elas como a mãe que as cria de maneira conveniente. O rei, porém, governa homens feitos.

- Deus não disse que há uma lei para a corte e outra para os camponeses! Ele quer que todos os homens cumpram os mandamentos. E suponhamos que não houvesse leis. O que acha que aconteceria neste país, se eu e minhas damas saíssemos pelos campos e nos comportássemos de forma tão desavergonhada? Como permitir que tais coisas aconteçam nas proximidades das igrejas?

Taliesin sorriu e disse:

- Não me parece, mesmo se não houvesse leis contra isso, que a senhora fosse capaz de ir para os campos na ocasião das fogueiras de Beltane, minha senhora. Já observei que não gosta muito de sair ao ar livre.

- Eu tive a felicidade de receber ensinamentos cristãos e orientação dos padres, e prefiro não ir - respondeu ela secamente.

- Mas, Gwenhwyfar - insistiu Taliesín gentilmente, com olhos de um azul muito claro que a contemplavam entre as linhas e marcas do rosto -, pense nisto: suponha que houvesse uma lei contra isso, e sua consciência lhe dissesse que era certo entregar-se à Deusa em reconhecimento de que ela está acima de todos nós, corpo e alma. Se sua Deusa quisesse que a senhora assim o fizesse - nesse caso, permitiria a aprovação de uma lei que proibisse as fogueiras de Beltane? Pense, minha cara senhora: há menos de duzentos anos - o bispo Patrício não lhe disse isso? -, era rigorosamente contra as leis aqui, no País do Verão, que o Cristo fosse adorado, pois isso privaria os deuses de Roma do que lhes era devido, com justiça. E houve cristãos que preferiram morrer a fazer uma coisa tão simples quanto lançar uma pitada de incenso ante algum de seus ídolos - ah, vejo que conhece a história. Gostaria que seu Deus fosse um tirano tão mau quanto qualquer imperador romano?

- Meu Deus é real, e eles são apenas ídolos criados pelos homens - respondeu Gwenhwyfar.

- Não mais do que a imagem da Virgem Maria que Artur levou em combate... - argumentou Taliesin. - Uma imagem para reconfortar o espírito dos fiéis. É rigorosamente proibido que eu, como druida, tenha qualquer representação de qualquer deus, pois me foi ensinado, em muitas vidas, que não preciso de nenhuma dessas imagens. Posso pensar no meu Deus, e ele está comigo sem isso. Mas aqueles que nasceram apenas uma vez não podem, e por isso precisam de sua Deusa em pedras redondas e poços, como seu povo simples precisa da imagem da Virgem Maria e da cruz que alguns dos seus cavaleiros levam nos escudos, para que se saiba que são cristãos.

Gwenhwyfar sabia que havia alguma falha nessa argumentação, mas não podia discutir com o Merlim. De qualquer modo, ele era apenas um velho, e um pagão.

- Quando eu tiver um filho de Artur - ele me disse certa vez que então poderia pedir-lhe qualquer coisa, aí, então, pedir-lhe-ei que proiba as fogueiras de Beltane e das colheitas.

Gwenhwyfar lembrou-se dessa conversa, meses depois, na manhã em que teve o sonho. Sem dúvida Morgana a teria aconselhado a fazer isso, a ir com Lancelote para as fogueiras... Artur dissera que não lhe faria perguntas se ela tivesse um filho, e praticamente lhe dera permissão para ser amante de Lancelote. Sentiu o rosto queimar, enquanto se curvava sobre o bordado da cruz; ela não era digna de fazer aquele trabalho. Colocou de lado a toalha do altar e envolveu-a num pedaço de pano mais grosseiro. Continuaria o trabalho quando estivesse mais tranqüila.

Os passos irregulares de Cai soaram junto da porta.

- Senhora, o rei mandou perguntar se pode descer até o campo de armas. Ele deseja mostrar-lhe algo.

Gwenhwyfar fez um aceno de cabeça para suas damas:

- Elaine, Meleas, venham comigo. As outras podem vir, ou ficar aqui trabalhando, como quiserem.

Uma das mulheres, que era mais velha e tinha problemas de visão, preferiu ficar e continuar a fiar; as outras, querendo aproveitar a oportunidade de tomar um pouco de sol, correram atrás da rainha.

Nevara durante a noite, mas o rigor do inverno passara, e a neve dissolvia-se rapidamente ao sol. Em meio à relva, surgiam as folhas das diversas batatas enterradas. Mais um mês, e haveria abundância de flores. Quando Gwenhwvfar chegou a Camelot, seu pai, Leodegranz, mandou-lhe o melhor jardineiro que tinha, para que determinasse quais as flores e ervas mais adequadas ao terreno. Mas aquele alto de morro fora fortificado muito antes dos romanos, e ali vicejavam certas ervas, que Gwenhwyfar mandou transplantar para a horta, e quando encontraram uma área onde cresciam flores silvestres, pediu a Artur que a deixasse fazer ali o seu jardim, de modo que o campo de armas fora edificado um pouco mais longe.

Gwenhwyfar olhou para cima, timidamente, enquanto atravessavam os gramados. Era tudo tão aberto, ali, tão perto do céu! Caerleon ficava perto da terra. Ali em Camelot, em dias de chuva, era como estar numa ilha de névoa e cerração, tal como Avalon. Mas em dias claros, de sol, como aquele, era um local elevado e exposto, a cavaleiro de toda a área à sua volta, e dali ela podia ver quilômetros e quilômetros de morros e florestas...

Era como estar perto demais do céu; sem dúvida não era certo que os seres humanos, sendo meros mortais, vissem tão longe. Mas Artur disse que, mesmo havendo paz, o castelo do rei deveria ser difícil de sitiar.

Não foi o rei quem veio ao seu encontro, mas Lancelote. Ele estava ainda mais bonito, pensou Gwenhwyfar. Agora que não precisava manter curtos os cabelos para usar o elmo de guerra, trazia uma cabeleira que lhe chegava aos ombros. Tinha também uma barba curta, de que Gwenhwyfar gostava, embora Artur, a pretexto disso, brincasse com Lancelote, chamando-o de vaidoso. O rei continuava usando o cabelo curto de soldado, e era barbeado diariamente pelo seu camareiro, com o mesmo cuidado com que penteava o cabelo.

- Senhora, o rei a espera - comunicou-lhe Lancelote, tomando-a pelo braço, para levá-la até os bancos que Artur mandara fazer junto das cercas de madeira que contornavam o campo de exercícios.

Artur fez-lhe uma reverência, agradecendo a Lancelote com um sorriso, enquanto segurava a mão da rainha.

- Por aqui, Gwen, sente-se ao meu lado. Mandei chamá-la porque quero mostrar-lhe algo especial. Veja ali...

Gwenhwyfar constatou que um grupo de cavaleiros mais jovens e alguns dos rapazes que serviam na casa do rei estavam empenhados num simulacro de batalha: divididos em dois grupos, combatiam com paus e grandes escudos.

- Veja - disse Artur - aquele grandão, com a camisa rasgada, cor de açafrão. Não lhe faz lembrar alguém?

Gwenhwyfar olhou para o rapaz, notando a habilidade com que manejava a espada e o escudo: ele afastou-se dos outros, e atacou-os com violência, derrubando-os; deu um golpe tão forte na cabeça de um dos companheiros que o deixou estendido no chão, sem sentidos, enquanto outro cambaleava com o golpe seguro sobre o seu escudo. Era apenas um rapazinho, cujo rosto rosado mostrava os primeiros sinais de barba, mantendo ainda sua aparência de querubim. Era, porém, muito alto, corpulento e de ombros bem largos.

- Luta como um demônio - disse Gwenhwyfar -, mas quem é? Creio tê-lo visto por aí, na corte...

- É o jovem que veio para a corte e recusa-se a dar seu nome - respondeu Lancelote, junto deles. - Por isso, foi mandado para Cai, para ajudar na cozinha. Chamam-no de "Bonito", porque tem as mãos finas e brancas. Cai fez as mais duras pilhérias com elas, falando em engrossá-las com os trabalhos mais aviltantes. Nosso Cai tem uma língua ferina.

- Mas o rapaz nunca lhe deu uma resposta - contou Gawaine, que estava ao lado de Artur. - Ele poderia partir Cai ao meio apenas com as mãos, mas quando os outros o incitaram a que o agredisse, pois Cai fizera certa vez uma piada de mau gosto sobre os pais do rapaz, dizendo que ele devia ter tido um nascimento pouco digno e ser filho de um lavador de pratos, já que fazia esse trabalho com tanta naturalidade, o Bonito apenas olhou para eles e disse que não lhe parecia bem erguer a mão contra um homem que se tornara aleijado a serviço do seu rei.

- Isso deve ter sido pior para Cai do que ser agredido, creio - observou Lancelote. - Cai considera-se incapacitado para qualquer coisa que não seja mexer nas panelas e servir os pratos. Artur, será necessário arranjar uma missão para ele, mesmo que seja apenas procurar os rastros do dragão de Pellinore.

Elaine e Meleas sufocaram o riso com a mão, e Artur respondeu:

- Bem, vou tratar disso. Cai é muito bom e muito leal, e não podemos deixá-lo amargurar-se dessa maneira. Eu lhe teria dado Caerleon, mas ele recusou. Disse que seu pai lhe recomendou que me servisse com suas próprias mãos enquanto vivesse e que viria para Camelot, para ser meu administrador. Mas esse menino, que vocês chamam de Bonito, reparem... Não lhe faz lembrar alguém, Gwenhwyfar?

Ela examinou o rapaz, que atacava agora os últimos componentes do grupo adversário, com o cabelo flutuando ao vento. Tinha uma testa alta e ampla, um nariz grande e suas mãos, que seguravam com força as armas, eram lisas e brancas. Depois, olhou para Gawaine, que estava ao lado de Artur, e cujo nariz e olhos azuis, embora ocultos pelo cabelo vermelho, pareciam-se com os do rapaz, e disse:

- Ora, ele se parece com Gawaine.

A frase foi dita como se isso fosse chocante.

- Sim, parece mesmo, em nome de Deus - respondeu Lancelote, rindo. - E nunca notei isso, embora esteja sempre em contato com ele. Dei-lhe a camisa que está usando, porque não tinha uma sequer.

- E deu-lhe também outras coisas - comentou Gawaine. - Quando lhe perguntei se tinha tudo o que lhe era necessário, ele me falou das coisas que você lhe deu. Foi muita bondade sua ajudar o rapaz, Lance.

Artur, surpreso, voltou-se e disse:

- Então ele é parente seu? Eu não sabia que você tinha um filho...

- Não, meu rei. É meu irmão mais novo, Gareth. Mas ele não quer que eu diga nada.

- E você não disse nem mesmo a mim, primo? - observou Artur, quase como uma censura. - Você guarda segredos de seu rei?

- Não é isso - protestou Gawaine, constrangido, corando, de modo que suas faces avermelhadas e seu cabelo ficaram quase da mesma cor. Pareceu estranho a Gwenhwyfar que um homem tão grande e forte pudesse corar como uma criança. - Nada disso, meu rei, mas o rapaz pediu-me que nada dissesse. Afirmou que eu havia sido favorecido por ser primo do rei, mas que ele queria conquistar seu lugar na corte de Artur e a proteção do grande Lancelote - foram essas suas palavras, o grande Lancelote - por seu próprio mérito, e não pelo nome e nascimento.

- Foi tolice dele - comentou Gwenhwyfar, rindo.

- Não, foi uma atitude honrosa. Eu gostaria de ter o mesmo espírito e a mesma coragem para fazer isso, em lugar de ser tolerado porque, afinal de contas, eu era filho bastardo de Ban e não precisava conquistar nada por mérito próprio. Foi por isso que sempre me esforcei para ser corajoso nas batalhas, para que ninguém dissesse que minha posição não fora conquistada por esforço próprio.

Artur segurou com cordialidade o braço de Lancelote:

- Você não precisa temer isso nunca, meu amigo. Todos sabem que você é o melhor de meus cavaleiros e o que está mais próximo de meu trono.

E voltando-se para o homem de cabelos vermelhos, perguntou:

- Mas Gawaine, eu não o protegi por ser meu parente e herdeiro, mas por ser leal e corajoso e ter-me salvo a vida mais de doze vezes. Houve quem me dissesse que eu não devia ter o meu herdeiro como guarda-costas, pois se ele cumprisse com escrúpulo seu dever, então jamais subiria ao trono. Mas já tive muitas ocasiões de me alegrar por estar às minhas costas um primo tão leal. - Colocou o braço no ombro de Gawaine: - Então ele é seu irmão, e eu não sabia.

- Eu também não sabia quando ele chegou à corte - disse Gawaine. - A última vez que o tinha visto, na coroação, ele era pequeno, ainda não chegava à altura do punho de minha espada, e agora, vejam como está crescido. Mas quando o vi na cozinha pensei que fosse algum bastardo da família. Deus sabe que são muitos os bastardos de Lot. Eu o reconheci, e foi então que Gareth me pediu para não revelar sua identidade, a fim de que pudesse conquistar a fama por si mesmo.

- Bem, um ano sob a direção rígida de Cai faria de qualquer menino mimado um homem - previu Lancelote -, e esse rapaz tem-se comportado como um verdadeiro homem.

- Admiro-me de que você não o tenha conhecido, Lancelote, pois ele quase o matou, na coroação de Artur - riu Gawaine. - Ou você não se recorda do menino que entregou à nossa mãe, pedindo-lhe que o castigasse severamente para que ele não se metesse mais sob as patas dos cavalos...

- E quase parti a cabeça pouco depois, sim, eu me recordo agora - disse Lancelote, rindo também. - É então o mesmo pilantra! Mas ele já está muito à frente dos outros rapazes, precisa agora praticar as armas com os homens e os cavaleiros. Tenho a impressão de que será um dos melhores. Tenho a sua permissão, senhor?

- Faça o que quiser, meu amigo.

Lancelote tirou a espada.

- Guarde-a para mim - pediu, entregando a arma a Gwenhwyfar. Saltou a cerca, agarrou uma das ripas de madeira destinadas ao treinamento dos rapazes e correu em direção a Gareth. - Você é muito maior do que os outros. Vamos, venha tentar fazer o mesmo com alguém mais ou menos de seu tamanho!

Gwenhwyfar pensou, tomada de súbito medo: Do seu tamanho? Mas Lancelote não era um homem alto, era pouco maior do que ela, e o jovem Bonito podia olhá-lo bem de cima. Por um momento, o rapaz, enfrentando o capitão da cavalaria real, hesitou. Artur fez um gesto de estímulo, e o rosto dele iluminou-se de alegria. Avançou contra Lancelote, levantando a espada de brinquedo para um golpe, e ficou surpreso de não acertá-lo: Lancelote evitou o golpe, moveu- se para o lado e o atingiu no ombro, sem muita força. Apesar disso, a camisa do rapaz se rasgou, embora tivesse sido tocada apenas de leve. Gareth recuperou-se rapidamente, aparou o golpe seguinte de Lancelote, que escorregou na grama úmida e caiu de joelho em frente ao rapaz.

Bonito recuou, enquanto o cavaleiro punha-se de pé, gritando:

- Idiota! Suponha que eu fosse um guerreiro saxão! - E deu um grande golpe nas costas do rapaz, com sua espada de pau, que o projetou longe, enquanto sua espada voava na direção oposta. Gareth ficou estendido no chão, meio tonto.

Lancelote correu para ele e, inclinando-se, disse com um sorriso:

- Eu não quis machucá-lo, mas você tem de aprender a proteger-se melhor. - Estendeu o braço: - Vamos, apóie-se em mim.

- O senhor me concedeu uma honra - o rapaz corou. - Na verdade, fez-me bem sentir sua força.

- Desejo que lutemos sempre lado a lado e não como inimigos, Bonito - respondeu Lancelote, dando-lhe uma palmada nas costas. O rapaz pegou a espada de pau e voltou para junto dos companheiros, que se reuniram à sua volta, brincando:

- Então, Bonito, você quase derrubou o capitão da cavalaria real, numa luta, hem?

Artur sorriu quando Lancelote saltou de novo a cerca.

- Foi muita gentileza sua, Lance. Ele será um bom cavaleiro, como seu irmão. - E com um aceno de cabeça para Gawaine, Artur acrescentou: - Primo, não diga a seu irmão que sei quem ele é. As razões que tem para não ser conhecido são honrosas. Diga-lhe, porém, que o vi e que o sagrarei cavaleiro por ocasião do Pentecostes, quando qualquer pessoa pode apresentar-me sua petição, se ele vier pedir-me uma espada digna de sua condição.

O rosto de Gawaine iluminou-se. Ora, pensou Gwenhwyfar, qualquer pessoa que tivesse visto a ambos teria adivinhado que eram irmãos, pois seus sorrisos eram iguais.

- Agradeço, meu senhor e rei. Possa ele servir ao seu rei tão bem quanto eu.

- Isso dificilmente seria possível - admitiu Artur, afetuosamente. - Eu tenho muita sorte com meus amigos e Companheiros.

Gwenhwyfar pensou que realmente Artur inspirava amor e dedicação a todos - era o seu segredo como rei, pois embora fosse bastante hábil nas batalhas, não era um grande guerreiro. Mais de uma vez, nos combates simulados com que se divertiam e se mantinham em forma para a luta, ela vira Lancelote, e até mesmo o velho Pellinore, derrubá-lo. Artur nunca se irritava, nem se sentia ferido em seu orgulho, mas sempre dizia, com toda a naturalidade, que estava contente por ter soldados tão bons para protegê-lo, e amigos que eram melhores do que os inimigos.

Pouco depois, os rapazes apanharam suas armas de brincadeira e partiram. Gawaine foi conversar com o irmão, mas Artur levou Gwenhwyfar para junto da muralha fortificada. Camelot ficava num morro bastante alto, achatado no topo e tão grande quanto uma cidade; por todo o cume, e protegidos pela muralha, haviam sido construídos o castelo e a cidade. Artur levou a esposa até seu ponto de observação favorito, de onde se descortinava, do alto da muralha, todo o vale. Ela ficou tonta e agarrou-se ao muro. De onde estavam, podiam ver a ilha onde passara a infância, o país do rei Leodegranz, e um pouco para o norte, a ilha que parecia enroscar-se como um dragão adormecido.

- Seu pai está ficando velho e não tem filho - disse Artur. - Quem governará, depois dele?

- Eu não sei. É provável que ele queira que você nomeie alguém como regente, em meu lugar.

Uma de suas irmãs morrera de parto no distante País de Gales, e outra, no sítio a seu castelo. A segunda mulher de seu pai também não tinha nenhum filho vivo, de modo que Gwenhwyfar era a herdeira daquele reino. Mas como poderia, sendo mulher, defendê-lo contra os que pretendiam tomá-lo? Olhou para as terras do pai, ao longe, e perguntou:

- Seu pai, o Pendragon, também foi feito rei na ilha do Dragão, não é?

- Foi o que me disse a Senhora do Lago, e portanto ele jurou proteger sempre a velha religião e Avalon, como eu - respondeu Artur, sombriamente, olhando para a ilha do Dragão. Gwenhwyfar não conseguiu imaginar que absurdo pensamento pagão lhe estaria passando pela cabeça.

- Mas quando você se voltou para o único Deus verdadeiro, conquistou então a maior das vitórias e expulsou os saxões desta terra para sempre.

- É tolice dizer isso - observou Artur. - Não me parece que nenhum país poderá estar sempre seguro, mas apenas na medida em que Deus o permitir...

- E Deus deu a você toda esta terra, Artur, para que possa reinar como rei cristão. É como o profeta Elias; o bispo contou-me sua história, quando saiu com os sacerdotes de Deus e foi ao encontro dos sacerdotes de Baal, de modo que cada um dos grupos invocou o que chamavam de seu deus, e o Deus Único foi o maior, e Baal apenas um ídolo, que não pôde responder aos que o chamavam. Se houvesse algum poder nos costumes de Avalon, acredita que Deus e a Virgem Maria teriam proporcionado a você aquela vitória?

- Meus exércitos expulsaram os saxões, mas eu posso ser punido por ter faltado a um juramento - admitiu. Gwenhwyfar não gostava de ver as linhas do sofrimento e do medo marcarem o rosto dele.

Ela caminhou um pouco na direção do sul, de onde, olhando com insistência, podia-se ver o alto da Igreja de São Miguel, construída no alto do Tor - a igreja fora edificada porque Miguel era o senhor do mundo das trevas e lutava para manter sujeitos no inferno os Deuses dos pagãos. Havia ocasiões, porém, que a imagem enevoava-se ante os olhos dela, e Gwenhwyfar via apenas o Tor, coroado pelas pedras circulares. As freiras de Glastonbury diziam que assim fora nos dias do paganismo, nos dias sombrios de antigamente, e os padres haviam trabalhado para derrubar as pedras e levá-las dali. Achava que a imagem apagava-se porque ela era uma pecadora, dando-lhe uma visão do mundo pagão. Sonhara, certa vez, que ela e Lancelote estavam deitados juntos à sombra das pedras circulares, e ele tivera dela aquilo que jamais lhe dera.

Lancelote. Ele era tão bom, nunca a pressionava para conseguir mais do que uma mulher cristã, casada, poderia dar-lhe, sem desonra... Não obstante, estava escrito que o próprio Cristo dissera que quem olhar para uma mulher com desejo terá cometido adultério com ela em seu coração... Portanto, ela pecara com Lancelote, e não havia como negar isso, ambos estavam condenados. Estremeceu e afastou o olhar do Tor, pois lhe parecia que Artur podia ler seus pensamentos. Ele tinha pronunciado o nome de Lancelote. .

- Você não concorda, Gwen? Está mais do que na hora de Lancelote casar-se.

Ela obrigou sua voz a permanecer calma:

- No dia em que ele lhe pedir uma esposa, meu senhor e meu rei, então deve dar-lhe uma.

- Mas ele não pedirá. Não quer afastar-se de mim. A filha de Pellinore seria uma boa mulher para ele, e é sua prima. Não acredita que servíria? Lancelote não é rico, Ban tinha muitos filhos bastardos para poder dar-lhes muita coisa. Seria um bom casamento para ambos.

- Sim, sem dúvida - anuiu Gwenhwyfar. - Elaine o segue com os olhos da mesma maneira que os meninos no pátio, ansiosos por uma palavra gentil ou até mesmo um olhar.

Embora o coração lhe doesse, talvez fosse melhor que ele se casasse, era bom demais para estar preso a uma mulher que podia lhe dar tão pouco. E, com isso, Gwenhwyfar poderia redimir-se de seu pecado com a firme promessa de não pecar mais, o que seria impossível, se ele continuasse junto dela.

- Bem, vou falar novamente sobre o assunto com Lancelote. Ele diz que não está pensando em casamento, mas farei com que entenda que isso não signifíca o exílio da corte. Não seria bom para mim, e para os meus, se nossos filhos pudessem, algum dia, ser acompanhados pelos filhos de Lancelote?

- Deus permita que chegue esse dia - desejou Gwenhwyfar, persignando-se. Ficaram juntos no alto da muralha, olhando para o País do Verão, que se estendia à sua frente.

- Vem um cavaleiro, lá na estrada - mostrou Artur, olhando para o caminho que levava ao castelo. E quando o cavaleiro aproximou-se: - É Kevin, o Harpista, que vem de Avalon. E pelo menos desta vez teve senso bastante para se fazer acompanhar de um servo.

- Não é um servo - observou Gwenhwyfar, cujos olhos argutos se detinham na figura esguia que cavalgava à garupa de Kevin. - É uma mulher. Estou espantada. Pensava que os druidas eram como os padres, que se mantinham longe das mulheres.

- Ora, alguns deles o fazem, querida, mas ouvi Taliesin dizer que os druidas que não são das ordens superiores podem se casar, e casam-se com freqüência. Talvez Kevin tenha arranjado uma esposa, ou talvez tenha apenas viajado em companhia de alguém que vinha para cá. Mande uma de suas damas dizer a Taliesin que ele está aqui, e outra à cozinha - se vamos ter música esta noite, é conveniente que tenhamos alguma coisa parecida com um banquete para comemorar! Vamos recebê-lo, um harpista com a habilidade de Kevin merece ser recebido pelo próprio rei!

Quando chegaram aos portões grandes, estes já tinham sido abertos e Cai adiantava-se para saudar a chegada do grande músico a Camelot. Kevin fez uma mesura ante o rei, mas os olhos de Gwenhwyfar estavam pousados na forma esguia e malvestida que vinha atrás dele.

Morgana curvou-se:

- Eis-me de volta à sua corte, meu irmão.

Artur abraçou-a.

- Bem-vinda, irmã. Há tanto tempo... - disse, com o rosto encostado ao dela. - E agora que nossa mãe não está mais conosco, nós, que somos parentes, devemos ficar juntos. Não se afaste novamente de mim, irmã.

- Não pensava nisso - respondeu.

Gwenhwyfar foi abraçá-la também, sentindo o corpo ossudo e magro da outra, contra seus braços:

- Você parece estar viajando há muito tempo, irmã.

- É verdade, venho de muito longe - concordou Morgana, e a rainha continuou a segurar-lhe a mão, enquanto entravam no castelo.

- Por onde andou? Esteve ausente por tanto tempo... Eu cheguei quase a pensar que não voltaria.

- Eu também quase cheguei a pensar a mesma coisa - disse ela. E Gwenhwyfar notou ainda que não havia dito por onde andara.

- As coisas que você deixou conosco, sua harpa e seus vestidos, tudo isso ficou em Caerleon. Mandarei buscá-las amanhã, com a maior rapidez possível - continuou a rainha, levando-a para o aposento em que dormiam suas damas. - Até que cheguem, vou emprestar-lhe um vestido. Você está viajando há muito, irmã, e parece ter dormido num estábulo. Foi atacada por ladrões, e teve suas coisas roubadas?

- Enfrentei contratempos na estrada - explicou Morgana - e se puder mandar alguém me preparar um banho, para que eu possa mudar de roupa, eu lhe agradecerei muito. Também queria um pente emprestado, grampos para os cabelos, e uma camisola.

- Meus vestidos ficarão muito compridos em você sorriu Gwenhwyfar - mas, sem dúvida, é possível prendê-los com alfinetes, até que suas roupas cheguem. Pentes, véus e camisolas, posso arranjar-lhe com satisfação, bem como sapatos: esses que você traz parecem ter caminhado daqui ao reino de Lot, ida e volta! - Fez um sinal a uma das aias:

- Traga o vestido vermelho e o véu usado com ele, e uma camisola, e os meus outros sapatos de cerimônia, bem como meias - escolha tudo de modo que a irmã de meu senhor se vista de acordo com sua posição! E mande preparar um banho, com uma serva para ajudar.

Olhou com desprezo para o vestido que Morgana estava tirando e disse:

- Se não for possível lavar e arejar essa roupa, será preferível dá-la a uma das mulheres que trabalham nos laticínios.

Quando compareceu ao jantar do rei, Morgana usava o vestido vermelho, que dava algum colorido à sua pele morena e lhe caía bem. Pediram-lhe que cantasse, mas ela não queria, dizendo que Kevin estava presente e que ninguém se interessaria pelos chilreios de um pardal, quando podia ouvir um rouxinol.

No dia seguinte, Kevin pediu uma audiência particular com Artur, e em companhia também de Taliesin, ficaram os três fechados durante muitas horas, tendo jantado juntos e a sós. Gwenhwyfar não ficou sabendo do que falaram, pois Artur pouco lhe contava sobre os assuntos de Estado. Estavam, sem dúvida, irritados com ele por ter faltado aos votos feitos em Avalon, mas teria de aceitar esse fato, mais cedo ou mais tarde - o fato de ele ser um rei cristão. Quanto à rainha, tinha outras coisas para ocupar seu pensamento.

 

Naquela primavera, a febre grassou na corte, e algumas de suas damas ficaram doentes, de modo que até a Páscoa Gwenhwyfar não teve tempo para pensar em outra coisa.

Nunca imaginara que a presença de Morgana seria motivo de contentamento, mas esta conhecia muito bem as ervas e a arte de curar, e foi sem dúvida esse conhecimento que evitou a ocorrência de falecimentos na corte - no campo, à volta do castelo, eram numerosos os mortos, pelo que ouvia dizer, em sua maioria criancinhas e velhos. Sua meia irmã mais nova, Isotta, contraíra a febre, e como a mãe não quisera deixá-la na corte, foi necessário mandá-la de volta para a ilha. Mais tarde, no final daquele mês, Gwenhwyfar recebeu a notícia de sua morte. Sofreu com isso, pois se afeiçoara à moça e acalentava esperanças de casá-la com um dos Companheiros de Artur, quando ficasse mais velha.

Também Lancelote foi acometido pela febre, e Artur deu ordens para que fosse instalado no castelo e tratado pelas damas da rainha. Quando ainda havia risco de contrair a doença, Gwenhwyfar não se aproximou dele - pois esperava, novamente, estar grávida, o que não se confirmou: eram apenas suas esperanças e ilusões. Quando ele começou a melhorar, ia vê-lo amiúde e ficava sentada ao seu lado.

Morgana também ia, para tocar harpa, enquanto Lancelote não podia deixar o leito. Certo dia, observando os dois, enquanto falavam de Avalon, Gwenhwyfar surpreendeu o brilho nos olhos da cunhada, e pensou: Ora, ela ainda o ama! Sabia que Artur alimentava esperanças nesse sentido - um casamento entre Morgana e Lancelote -, e ficou louca de ciúmes, vendo que Lancelote ouvia embevecido a harpa de Morgana.

Ela tem a voz tão suave! Não é honita, mas é tão instruida e inteligente - mulheres bonitas há muitas, Elaine é bela, e Meleas e a filha do rei Royns, e até mesmo Morgause, são bonitas, mas por que iria Lancelote preocupar-se com elas? E observou a gentileza das mãos de Morgana, ao erguê-lo e dar-lhe os remédios e as bebidas refrescantes. Gwenhwyfar não sabia tratar os enfermos, não tinha habilidades, ficava sentada calada, enquanto Morgana conversava, ria e distraía o doente.

Escurecia, e por fim Morgana disse:

- Já não consigo mais ver as cordas da harpa, e estou rouca como um corvo, não posso cantar mais. Você tem de tomar seu remédio, Lancelote, e depois eu lhe mandarei seu servo, para prepará-lo para a noite.

Com um sorriso breve, Lancelote segurou a taça que ela lhe colocara nas mãos.

- Seus remédios são refrescantes, prima, mas ugh!, que gosto ruim têm!

- Beba - disse ela, rindo. - Artur colocou-o sob meu comando enquanto estiver doente...

- Sim, e não tenho dúvidas de que, se eu recusasse, você me bateria e me mandaria para a cama sem jantar, ao passo que se eu tomar meu remédio como um bom menino, ganharei um beijo e um pedaço de bolo.

Morgana riu.

- Você ainda não pode comer bolo, mas sim sua bela sopa. Mas, se tomar o remédio, ganhará um beijo de boa noite e eu lhe farei o bolo de mel, quando estiver melhor e puder comê-lo.

- Sim, mamãe - brincou Lancelote, enrugando o nariz. Gwenhwyfar pôde ver que Morgana não gostou da brincadeira, mas quando ele esvaziou o prato de sopa, ela inclinou-se e o beijou de leve na testa, ajeitou as cobertas sob seu queixo como a mãe faz com o filhinho no berço.

- Aí está, bom menino, durma bem - disse ela, rindo, mas o riso soou amargo para Gwenhwyfar, e Morgana saiu. A rainha ficou ao lado da cama de Lancelote:

- Ela tem razão, meu querido, você devia dormir.

- Estou cansado de ter sempre de dar-lhe razão - respondeu o rapaz. - Sente-se aqui ao meu lado um pouco, meu amor...

Raramente ele ousava falar-lhe nesse tom, mas Gwenhwyfar sentou-se na cama e deixou que ele lhe segurasse a mão. Mas Lancelote puxou-a para si e beijou-a; ela ficou estendida na beirada da cama, deixando-se beijar repetidamente. Depois de um longo tempo, ele suspirou e não protestou quando Gwenhwyfar se ergueu.

- Meu querido amor, esta situação não pode continuar assim. Você precisa deixar que eu me afaste da corte.

- O quê? Para ir perseguir o dragão favorito de Pellinore? E o que fará Pellinore com o seu tempo de folga? Esse é o seu passatempo favorito - brincou Gwenhwyfar, embora sentisse uma pontada no coração.

Ele a tomou nos braços, puxando-a para si.

- Não, não brinque, Gwen. Você sabe e eu sei, e, que Deus nos ajude, acho que Artur também sabe, que só amo você, desde que a vi na casa de seu pai. E para que eu seja fiel a meu rei e amigo, preciso afastar-me desta corte e não olhá-la nunca mais...

- Eu não o prenderei, se você julgar que deve partir...

- Tal como já parti antes - repetiu ele com violência. - Todas as vezes que fui para a guerra, metade de meu ser ansiava por cair nas mãos dos saxões, a fim de não voltar para um amor sem esperanças. Deus me perdoe, mas houve ocasiões em que odiei meu rei, a quem jurei amar e servir, mas depois pensava que nossa amizade não devia ser perturbada por nenhuma mulher. Por isso, jurei não pensar mais em você, a não ser como a esposa de meu rei. Mas agora já não há guerras, e tenho de ficar aqui sentado, dia após dia, vendo-a ao lado dele, no trono, e pensar em você na cama dele, como a esposa satisfeita e feliz...

- Por que acredita que estou mais feliz e contente do que você? - perguntou, com voz trêmula. - Pelo menos você pode escolher entre partir e ficar, mas eu fui entregue a Artur sem que nem mesmo me perguntassem se eu queria. E tampouco posso abandonar a corte, quando as coisas não são do meu agrado, mas obrigada a ficar aqui, detrás destas paredes e fazer o que se espera que eu faça... Se você pode ir, não me sinto capaz de pedir-lhe para ficar. E se você ficar, não posso mandar que se vá. Você, pelo menos, é livre para ir ou ficar, como melhor lhe parecer!

- E pensa que há felicidade para mim, seja em ficar ou em partir? - perguntou Lancelote, e por um momento Gwenhwyfar teve a impressão de que ele ia chorar. Mas controlou-se: - Meu amor, o que quer que eu faça? Deus não permita que eu lhe cause ainda maior infelicidade. Se eu partir, então seu dever é evídente, ser uma boa esposa para Artur, nada mais nada menos. Se eu ficar...

Interrompeu-se.

- Se julga que deve ir, então vá - soluçou Gwenhwyfar, enquanto as lágrimas lhe desciam pelo rosto, enevoando-lhe a visão.

Com uma voz sumida como se tivesse recebido um ferimento mortal, Lancelote chamou-a:

- Gwenhwyfar...

Raramente ele pronunciava seu nome, preferindo chamá-la de "minha raínha", ou "minha senhora", ou, quando brincava, dizia sempre Gwen. Ao ouvir agora seu nome, Gwenhwyfar teve a impressão de jamais ter ouvido um som tão suave.

- Gwenhwyfar, por que chora?

Agora era preciso mentir, e mentir bem, porque não podia lhe dizer a verdade e sentir-se ainda honrada.

- Porque... - hesitou, e em seguida, com a voz abafada, admitiu: - Porque não sei como poderei viver, se você for embora.

Ele deu um suspiro e tomou-lhe as mãos:

- Mas então, meu amor... Não sou rico, mas meu pai me deu uma pequena propriedade na Bretanha continental. Você iria para lá comigo, para longe desta corte? Eu... eu não sei, mas talvez fosse mais honroso do que ficar aqui na corte de Artur, fazendo amor com sua mulher...

Então ele me ama, pensou Gwenhwyfar, ele me quer, essa é a maneira honrosa... Mas sentiu-se dominar pelo pânico. Ir para longe, sozinha, mesmo com Lancelote... e pensou no que todos diriam dela, em como ficaria totalmente desonrada...

Lancelote continuava a segurar-lhe a mão:

- Não poderíamos voltar nunca, você sabe, nunca. E é provável que fôssemos ambos excomungados. Isso nada significaria para mim, não sou muito cristão. Mas para você...

Ela puxou o véu sobre o rosto e chorou, sabendo que era covarde.

- Gwenhwyfar, eu não a induziria ao pecado...

- Já pecamos - respondeu amargamente -, nós dois...

- E se os padres estiverem certos, estaremos condenados para sempre - concordou ele, também com amargura.

- E ainda assim, não tive de você mais do que esses beijos.

- Sofremos todo o mal e toda a culpa, e nenhum do prazer que se diz ser inerente ao pecado. E não tenho tanta certeza de acreditar nos padres. Que tipo de Deus é esse, que sai toda noite para vigiar, olhando aqui e ali, como uma velha faladeira, para ver se algum homem está na cama com a mulher do vizinho?

- O Merlim disse uma coisa parecida - lembrou Gwenhwyfar. - E por vezes isso me parece sensato, mas volto a imaginar se não será obra do Diabo, para me tentar ao mal...

- Oh, não me fale do Diabo - e Lancelote puxou-a novamente para si. - Minha querida, irei embora se você quiser, ou ficarei se for essa sua vontade, mas não suporto vê-la tão infeliz...

- Eu não sei o que quero - lamentou-se, deixando-se abraçar, soluçante. Por fim, Lancelote murmurou:

- Já pagamos pelo pecado... - e beijou-a na boca.

Tremendo, Gwenhwyfar rendeu-se ao beijo, enquanto mãos ansiosas buscavam seus seios. Ela chegou quase a esperar que seu amado não se contentasse, desta vez, apenas com isso, mas houve um barulho no aposento contíguo, fazendo com que ela se erguesse, num pânico súbito. Ficou sentada na beira da cama, enquanto o servo de Lancelote entrava no quarto. Ele tossiu e disse:

- Senhor? A senhora Morgana comunicou-me que já está pronto para deitar-se. Permiti-me, senhora?

Morgana outra vez, maldita seja! Lancelote riu, e soltou a mão de Gwenhwyfar.

- Sim, e parece-me que minha senhora está cansada. Promete vir ver-me amanhã, minha rainha?

Ela sentiu, ao mesmo tempo, agradecimento e irritação por Lancelote ter falado com tanta calma. Afastou-se da luz que o servo trazia: sabia que seu véu estava amassado, assim como a saia, o rosto manchado das lágrimas e o cabelo desfeito. Que aparência devia ter, e o que poderia o servo pensar que estava fazendo? Desceu o véu sobre o rosto e levantou-se.

- Boa noite, Sir Lancelote. Kerval, cuide bem do querido amigo do meu rei.

E saiu, esperando de todo o coração conseguir chegar até seu quarto, antes de explodir novamente em lágrimas. Ah, Deus, como, como ouso pedir a Deus que me deixe pecar mais? Eu devia pedir que me livrasse da tentação, e não posso!

 

Capítulo 16

Um ou dois dias antes das fogueiras de Beltane, Kevin, o Harpista, voltou outra vez à corte de Artur. Morgana sentiu-se feliz em vê-lo: a primavera fora longa e cansativa. Lancelote recuperara-se da febre e partira para o norte, para o reino de Lot, e Morgana também havia pensado em ir para lá, para estar com o filho. Não queria, porém, viajar na companhia do rapaz, e nem ele teria desejado sua companhia na viagem, pensou. Meu filho está bem lá, irei vê-lo noutra ocasião...

Gwenhwyfar ficou triste e calada; nos anos em que Morgana estivera ausente, a rainha transformara-se de uma criança alegre em uma mulher silenciosa, triste, mais religiosa do que o normal. Morgana suspeitava que esse sofrimento era provocado pela partida de Lancelote, e conhecendo-o deduziu, com algum desprezo, que ele não abandonava de vez aquela mulher, nem a levava definitivamente para o pecado. E Gwenhwyfar reagiu da mesma maneira: nem desistia, nem cedia. Ficou imaginando o que pensaria Artur, mas para perguntar-lhe seria necessário mais coragem do que tinha.

Morgana alegrou-se, portanto, com a chegada de Kevin à corte, e pareceu-lhe provável que cumprissem juntos os ritos de Beltane - o sangue andava a ferver-lhe nas veias, e se não podia ter o homem que desejava (e sabia que ainda era Lancelote), talvez fosse melhor tomar como amante alguém que a desejasse: era reconfortante ser querida e desejada. E Kevin conversava com ela livremente sobre as questões de Estado, coisa que nem Lancelote, nem Artur, faziam. Se tivesse ficado em Avalon, pensou, num momento de amargo arrependimento, estaria sendo agora consultada sobre os grandes problemas de sua época.

Bem, era demasiado tarde para isso. Saudou portanto Kevin no grande salão e mandou que lhe servissem comida e vinho, tarefa que Gwenhwyfar lhe transferira com satisfação - gostava muito de ouvir o harpista tocar, mas não suportava vê-lo. Morgana serviu-o e conversou sobre a Ilha Sagrada.

- Viviane está bem?

- Bem, e continua decidida a vir a Camelot na época do Pentecostes. E faz bem, pois Artur não me dá ouvidos. Apesar disso, prometeu não proibir as fogueiras de Beltane este ano, pelo menos.

- De nada adiantaria proibi-las. Mas Artur tem problemas mais imediatos, também - fez um gesto. - Além daquela janela, quase à vista lá do alto do castelo, está a ilha-reino de Leodegranz. Já ouviu falar sobre o assunto?

- Um viajante ocasional contou-me que ele morreu sem deixar herdeiro. Sua mulher, Alienor, morreu com o último filho, poucos dias depois. A febre foi cruel naquela região.

- Gwenhwyfar não quis ir para o enterro. Não tinha muitos motivos para chorar, o pai não era muito carinhoso. Artur a teria consultado sobre a constituição de um regente, ali. Ele diz que agora que o reino é de Gwenhwyfar, se tiverem um filho, este ficaria com as terras. Mas não parece provável que ela venha a tê-lo.

Kevin sacudiu lentamente a cabeça.

- Ah, a rainha teve um aborto antes da batalha de monte Badon, e ficou muito doente. Desde então, não houve nem mesmo boatos de que estivesse grávida. Que idade tem ela?

- Creio que tem pelo menos vinte e cinco anos - respondeu Morgana, mas não estava certa, pois ficara muito tempo no país das fadas.

- Já está velha para um primeiro filho - concluiu Kevin. - Embora eu não tenha dúvida de que, como todas as mulheres estéreis, ela reze por um milagre. De que sofre a rainha, que não concebe?

- Não sou parteira. Ela me parece saudável, mas gastou os joelhos rezando, e não há sinal de gravidez.

- Bem, os Deuses sabem o que fazem. Mas precisamos da misericórdia deles nesta terra, se o Grande Rei morrer sem um filho! E agora não há mais ameaças dos saxões para impedir que os reis rivais da Bretanha se atirem uns contra os outros e transformem esta terra em farrapos. Nunca confiei em Lot, mas ele está morto, e Gawaine é o homem mais firme de Artur, portanto não há muito o que temer, a menos que Morgause encontre um amante com ambições de ser Grande Rei.

- Lancelote foi para lá, mas deve voltar logo - comentou Morgana, e Kevin acrescentou:

- Viviane também queria ir ao reino de Lot, por alguma razão, embora todos nós achássemos que ela está muito velha para tal viagem.

Ora, então ela verá meu filho... O coração de Morgana deu um salto e houve uma contração de dor ou de pranto em sua garganta. Kevin pareceu não ter notado.

- Não encontrei Lancelote no caminho - contou ele. - Sem dúvida, tomou outra estrada, ou ficou para ver a mãe, ou talvez - e riu ligeiramente - para cumprir os ritos de Beltane. Isso daria satisfação a todas as mulheres do reino de Lot, sem dúvida. Morgause não deixaria que um prato tão apetitoso lhe escapasse.

- Ela é irmã da mãe de Lancelote - cortou Morgana -, e creio que ele é cristão demais para isso. Tem muita coragem para enfrentar os saxões em combate, mas pouca coragem para essa batalha.

Kevin arregalou os olhos:

- Ah, é mesmo? Não tenho dúvidas de que você sabe do que está falando, porém, por uma questão de delicadeza, diremos que foi a Visão! Mas Morgause gostaria bem de ver o melhor cavaleiro de Artur atingido por um escândalo, pois assim Gawaine ficaria ainda mais próximo do trono. E ela é apreciada por todos os homens, pois ainda não é muito velha e conserva a beleza, mantendo o cabelo vermelho, sem qualquer vestígio de embranquecimento...

- Ora - ironizou Morgana -, vende-se hena do Egito nos mercados do seu reino!

- Ela ainda é esguia, e dizem que usa as artes mágicas para atrair os homens - acrescentou Kevin. - Mas tudo isso são boatos, apenas. Ouvi dizer que ela tem governado bem. Você não gosta muito dela, não é Morgana?

- Gosto, sim. É minha tia e tem sido boa para mim - respondeu, e já ia dizendo "E está criando meu filho", o que poderia dar ensejo a uma pergunta sobre Gwydion. Conteve-se, porém. Nem mesmo a Kevin devia confessar isso. Disse, então: - Mas não me agrada que minha tia Morgause seja objeto de comentários como uma pessoa lasciva.

- Ora, isto não tem importância - riu Kevin, empurrando para o lado o copo de vinho. - Se ela gosta de homens bonitos, não será a primeira, nem a última. E agora é viúva, ninguém tem o direito de pedir-lhe contas de quem dorme em sua cama. Mas não posso deixar o Grande Rei à espera. Deseje-me boa sorte, Morgana, pois devo levar-lhe notícias tristes, e você sabe qual o destino reservado, antigamente, para os portadores de más novas para o rei!

- Artur não é um rei desse tipo - atalhou Morgana. - Mas se não for um segredo, que notícias ruins você traz?

- Não são novas, pois já se disse mais de uma vez que Avalon não tolerará que ele governe como rei cristão , qualquer que seja sua fé pessoal. Ela não permitirá que os padres reprimam o culto da Deusa, nem que toquem nos bosques sagrados. Se consentir nisso, então terei de dizer-lhe , em nome da Senhora do Lago, que a mão que lhe deu a espada sagrada dos druidas também pode esmagá-lo.

- Não lhe será muito agradável ouvir isso, mas talvez sirva para lembrar-lhe seu juramento.

- Sim, e Viviane dispõe ainda de outra arma que pode usar - tornou Kevin, mas quando Morgana lhe perguntou qual, ele não quis dizer.

Quando o druida se afastou, ela ficou pensando na noite que se aproximava. Haveria música ao jantar, e mais tarde - bem, Kevin era um amante delicado e ansioso por agradá-la, e ela estava cansada de dormir sozinha.

Ainda estava sentada no salão, quando Cai lhe anunciou a chegada de outro viajante:

- Um parente seu, senhora Morgana. Poderia recebê- lo e servir-lhe o vinho?

Morgana concordou. Teria Lancelote voltado, assim tão depressa? O viajante, porém, era Balam.

Quase não o reconheceu, a princípio. Estava mais pesado, crescera tanto que teve a impressão de que seria necessário um cavalo muito grande para suportar-lhe o peso. Balam, porém, reconheceu-a imediatamente.

- Morgana! Saudações, prima - disse, sentando-se ao seu lado e aceitando o copo quelhe era oferecido. Ela comunicou-lhe que Artur estava falando com Kevin e com o Merlim, mas que o veria ao jantar, e perguntou-lhe as novidades.

- A única novidade é que um dragão foi visto novamente no norte. E desta vez, não é uma fantasia, como a do velho Pellinore. Eu vi os rastros por onde ele passou e conversei com duas pessoas que o viram. Não estavam mentindo, nem contando uma história para divertir, nem para se dar importância. Estavam realmente aterrorizadas. Disseram que o dragão saíra do lago e apanhara seu servo. Mostraram-me o sapato dele.

- Seu sapato, primo?

- Perdeu-o quando foi apanhado, e eu não quis nem saber de tocá-lo, pois estava todo coberto de uma baba viscosa. Vou pedir a Artur que uma meia dúzia de cavaleiros venha comigo acabar com o dragão.

- Você devia chamar Lancelote, se ele voltar - sugeriu Morgana, procurando dar à voz o tom mais tranqüilo possível. - Ele precisa praticar com os dragões. Creio que Artur está pensando em casá-lo com a filha de Pellinore.

Balam olhou-a fixamente.

- Não invejo a moça que tiver meu irmão por marido. Ouvi dizer que o coração de Lancelote já tem dona... ou talvez eu não deva comentar...

- Não deve comentar, Balam.

- Está bem - concordou ele com um movimento de ombros. - Artur não tem, então, nenhuma razão especial para desejar que Lancelote tenha uma noiva bem distante da corte. Eu não sabia que você voltara para cá, prima. Está com boa aparência.

- E como vai seu irmão de criação?

- Balim está bem, pelo menos estava, quando o vi pela última vez, embora continue irritado com Viviane. Mesmo assim, não há razão para acreditar que ainda a responsabilize pela morte de nossa mãe. Ele esbravejou e clamou por vingança, naquela ocasião, mas teria de ser realmente louco para continuar pensando nisso. De qualquer modo, se a questão ainda o preocupa, ele não falou dela quando esteve aqui no Pentecostes, há um ano. Artur tem um novo costume, que você talvez ainda não conheça. Não importa onde estejamos, todos os seus Companheiros antigos devem se reunir no Pentecostes, para jantar com ele. Nessa ocasião, ele sagra então os novos Companheiros da ordem de cavalaria, e aceita ouvir qualquer petição, mesmo do mais humilde súdito.

- Sim, ouvi falar disso - concordou Morgana, e uma leve preocupação passou por sua mente. Kevin falara de Viviane, e ela achava um tanto intranqüilizadora a idéia de que uma mulher da idade da Senhora do Lago viesse até Camelot, como um súdito comum, apresentar uma petição. Como Balam disse, só um louco continuaria alimentando sentimentos de vingança durante todo esse tempo.

Houve música, naquela noite, com a bela execução e o canto de Kevin; mais tarde, Morgana saiu do quarto onde dormia com as damas solteiras de Gwenhwyfar, tão silenciosamente quanto um fantasma - ou como uma sacerdotisa treinada em Avalon -, e dirigiu-se ao aposento onde Kevin dormia. Dali retornou antes do amanhecer, bem satisfeita, mas perturbada por uma das coisas que o bardo lhe dissera, embora tivessem outros assuntos para comentar, além de Artur:

- Artur não quer me ouvir. Ele me disse que o povo da Inglaterra era cristão, e que, embora não persiga nenhum homem por seguir os Deuses de sua preferência, ainda assim ficaria com os padres e a igreja, tal como estavam, ao lado de seu trono. E mandou dizer à Senhora de Avalon que se ela quiser de volta a espada, terá de vir tomá-la.

Mesmo depois de ter voltado discretamente para sua própria cama, Morgana ficou deitada, acordada. Era a espada lendária que provocava a fidelidade de tantos dos homens das tribos e do norte a Artur, e era a fidelidade do rei a Avalon que lhe assegurava o apoio do povo moreno, anterior aos romanos. Agora, ele parecia estar mais distante do que nunca do juramento que fizera.

Morgana poderia falar-lhe, mas adivinhava que não seria ouvida: era mulher e irmã, e, como sempre, pairava entre eles a lembrança da cerimônia em que fora feito rei, de modo que não conseguiam falar-se livremente, como era possível antes. E ela não tinha a autoridade de Avalon - jogara-a fora com as próprias mãos.

Talvez Viviane lhe fizesse ver a importância de respeitar o juramento. Mas, por mais que se repetisse isso, custou muito para conseguir fechar os olhos e adormecer.

 

Capítulo 17

Mesmo antes de levantar-se, Gwenhwyfar pôde sentir que o sol brilhava, entre as cortinas da cama. O verão chegou. E depois, Beltane. Toda a plenitude do paganismo: tinha a certeza de que muitos de seus servos, de ambos os sexos, afastar-se-iam da corte naquela noite, quando as fogueiras de Beltane fossem acesas na ilha do Dragão em honra de sua Deusa, para se deitarem nos campos... Algumas das servas, sem dúvida, voltarão para casa com os ventres cheios dos filhos do Deus... e eu, uma esposa cristã, não posso ter um filho do meu querido senhor...

Voltou-se na cama e ficou olhando Artur dormir. Ah, sim, ele era o seu querido senhor, e ela o amava bastante. Recebera-a como parte de um dote, sem a conhecer; mesmo assim, a amara e honrara. Não era culpa dela se não podia cumprir com o primeiro dever de uma rainha, e dar-lhe um filho que herdasse o reino.

Lancelote - não, ela jurara a si mesma, da última vez que ele deixara a corte, que não pensaria mais nisso. Mesmo assim, ansiava por ele, de coração, alma e corpo, mas prometera ser uma esposa leal e fiel a Artur. Nunca mais Lancelote teria dela aqueles jogos e brincadeiras que deixavam os dois ansiosos por mais... Era brincar com o pecado e com outras coisas menos graves.

Beltane. Bem, talvez como mulher cristã e como rainha de uma corte cristã, ela tivesse o dever de realizar naquele dia banquetes e festas na corte para que todos se divertissem sem prejuízo para suas almas. Sabia que Artur mandara anunciar jogos e prática de armas que concorreriam a prêmios, em Pentecostes - como vinha fazendo a cada ano, desde a transferência da corte para Camelot; havia, porém, um bom número de seus homens para realizarem jogos também naquele dia - ela ofereceria uma taça de prata. E deveria providenciar ainda música e danças, e as damas podiam realizar aquilo que faziam por vezes como brincadeira: ofereceria uma fita àquela que tecesse mais durante uma hora, ou fizesse a tapeçaria mais longa - sim, devia promover jogos inocentes para que ninguém, entre sua gente, lamentasse a proibição dos ritos da ilha do Dragão. Gwenhwyfar sentou-se e começou a vestir-se: era preciso falar com Cai.

Embora tivesse se ocupado durante toda a manhã, e Artur manifestasse alegria quando ela lhe falou do assunto, considerando seu plano como muito engenhoso, e tivesse discutido com Cai os prêmios que ofereceriam ao melhor espadachim e ao melhor cavaleiro - sim, e dariam talvez um manto, também, para o melhor dos rapazes -, ainda assim, no fundo de seu coração, um pensamento continuava a corroê-la. É este o dia em que os Deuses antigos exigem que honremos a fertilidade, e eu, eu estou ainda estéril. Assim , uma hora antes do meio-dia, quando as trombetas deviam soar para reunir os homens no campo de armas, a fim de começar os jogos, Gwenhwyfar procurou Morgana, sem saber ainda ao certo o que lhe diria.

Morgana estava encarregada da sala de tingir a lã que haviam fiado e também das mulheres que preparavam a cerveja - ela sabia evitar que a bebida se estragasse, sabia destilar espíritos fortes para remédios, e fazer perfumes com pétalas de flores, mais finos do que os trazidos de além-mar , e que custavam mais caro que o ouro. Havia mulheres no castelo que acreditavam ser esta uma arte mágica, mas Morgana disse-lhes que não, que apenas conhecia as propriedades das plantas, das sementes e das flores. Qualquer mulher, disse, poderia fazer o mesmo, se fosse habilidosa e estivesse disposta a dedicar tempo e esforço para aprender.

Gwenhwyfar encontrou-a com seu vestido de festa amarrado no alto e o cabelo coberto com um pano, cheirando uma fornada de cerveja que azedara nos tonéis.

- Joguem fora, o levedo deve ter esfriado e azedou. Podemos fazer mais, amanhã. Há suficiente para hoje, até mesmo com os festejos da rainha, qualquer que seja seu motivo.

- Você está disposta para festejos, irmã? - perguntou Gwenhwyfar.

- Na verdade, não - respondeu Morgana, voltando- se. - Mas estou espantada de que você esteja, Gwen. Pensei que, nas comemorações de Beltane, ficaria jejuando e rezando piamente, ainda que fosse apenas para mostrar que não é desses que se alegram em honra da Deusa das colheitas e dos campos.

Gwenhwyfar ruborizou-se. Nunca sabia se Morgana a estava ridicularizando.

- Talvez Deus tenha ordenado isso, que as pessoas se alegrem com a proximidade do verão, e não é preciso falar da Deusa. Ah, não sei o que pensar... Você acredita que a Deusa dê vida às colheitas, aos campos e ao ventre das cabras, novilhas e mulheres?

- Foi o que me ensinaram em Avalon, Gwen. Por que pergunta isso, agora?

Morgana tirou o pano que lhe cobria os cabelos, e Gwenhwyfar, de repente, achou-a bela. Era mais velha, devia ter passado dos trinta, mas parecia tão jovem quanto da primeira vez que a vira... Não era de espantar que todos os homens a julgassem uma feiticeira! Usava um belo vestido de lã azul-escuro, muito simples, mas o cabelo negro estava atado com fitas coloridas e preso junto às orelhas com um grampo de ouro. Ao lado dela, Gwenhwyfar sentia-se insignificante como uma galinha, uma mulher capaz de ocupar-se apenas de coisas domésticas, muito embora fosse a Grande Rainha da Bretanha, e a outra, apenas uma duquesa pagã.

Morgana sabia tantas coisas, e ela era tão ignorante, podia apenas escrever seu nome e ler um pouco dos Evangelhos. Embora fosse instruída e pudesse ler e escrever, Morgana conhecia também as artes domésticas, sabia fiar, tecer e fazer belos bordados, tingia e fazia cerveja, bem como preparava remédios de ervas - além de conhecer ainda a magia. Por fim, Gwenhwyfar perguntou, numa voz incerta:

- Irmã, disseram como uma pilhéria... mas será... será verdade que você conhece... todos os tipos de encantamentos e magias para a fertilidade? Eu... eu não posso suportar mais isso, que até os meninos da corte me observem como que para ver se estou grávida, ou reparem como prendo meu cinto! Morgana, se você realmente conhece esses encantamentos, tal como dizem... Minha irmã, imploro-lhe, poderia usá-los para mim?

Comovida e perturbada, Morgana tocou o braço de Gwenhwyfar:

- É certo que em Avalon se diz que tais e tais coisas podem ajudar, se uma mulher não concebe quando deve. Mas Gwenhwyfar...

Hesitou, e o rosto da rainha ruborizou-se de vergonha. Por fim Morgana continuou:

- Eu não sou a Deusa. Bem pode ser desejo dela que você e Artur não tenham filhos. Você realmente tentaria mudar a vontade de Deus com encantamentos e magias?

Gwenhwyfar respondeu com paixão:

- Até mesmo o Cristo no Jardim das Oliveiras orou: "Se for essa a tua vontade, afasta de mim esse cálice..."

- Mas ele disse também: "Senhor, que seja feita a tua vontade, e não a minha" - lembrou Morgana.

- Admiro-me de você saber tais coisas.

- Morei com Igraine durante onze anos, e ouvia o Evangelho ser pregado com a mesma freqüência que você.

- Não obstante, não posso entender que Deus queira ver o reino novamente assolado pelo caos, se Artur morrer sem herdeiro. - Gwenhwyfar podia ouvir a própria voz altear-se, aguda e irritada. - Durante todos esses anos fui fiel, sim, eu sei que você não acredita. Deve pensar o que pensam todas as mulheres da corte, que traí meu senhor pelo amor de Lancelote... Mas não é verdade, Morgana, juro que não...

- Gwenhwyfar, Gwenhwyfar! Eu não sou seu confessor! Eu nunca a acusei!

- Mas acusaria, se pudesse, e creio que você sente ciúmes - respondeu a rainha, no auge da raiva, e depois, arrependida, exclamou: - Oh, não, não! Não quero brigar com você, Morgana, minha irmã. Oh, não! Vim implorar sua ajuda - sentiu as lágrimas correrem de seus olhos. - Nada fiz de errado, tenho sido uma esposa fiel e leal, cuidei da casa de meu senhor e procurei honrar sua corte. Tenho rezado por ele e tentei fazer a vontade de Deus, fiz tudo o que me competia, e, apesar disso, apesar disso... e de toda a minha fidelidade e obediência ao dever... não consegui o que devia ter conseguido. Qualquer meretriz nas ruas, qualquer seguidora de soldados na guerra, exibe sua enorme barriga e sua fertilidade, enquanto eu... eu nada tenho, nada.

Soluçava profundamente, cobrindo o rosto com as mãos. E Morgana, numa voz espantada, mas suave, disse, abraçando Gwenhwyfar e puxando-a para junto de si:

- Não chore, Gwenhwyfar, não chore. Olhe para mim, você sofre tanto assim por não ter um filho?

A rainha lutou para controlar as lágrimas:

- Não consigo pensar noutra coisa, dia e noite.

Depois de um longo tempo, Morgana disse:

- Sim, posso compreender que isso é difícil para você. - Ela parecia estar ouvindo os pensamentos da própria Gwenhwyfar: Se eu tivesse um filho, não pensaria noite e dia nesse amor que tenta minha honra, pois todos os meus pensamentos poderiam ser dedicados ao filho de Artur. - Gostaria muito de ajudá-la, irmã, mas não quero mexer com encantamentos e magia. Aprendemos em Avalon que as pessoas simples podem precisar disso, mas os prudentes não se envolvem com elas e suportam o destino que os Deuses lhes reservaram.

Ao falar, sentiu-se hipócrita. Lembrou-se da manhã em que havia saído para procurar raízes e ervas para fazer uma poção que impedisse o nascimento do filho de Artur. Naquela ocasião, não se entregara à vontade da Deusa! Mas acabara por não fazer nada, também...

Tomada de súbito cansaço Morgana pensou: Eu, que não queria um filho, e que quase morri ao dá-lo à luz, tive um; Gwenhwyfar, que anseia noite e dia por um filho, continua de ventre e braços vazios. É essa a bondade da vontade dos Deuses? Não obstante, sentiu-se obrigada a dizer: - Gwenhwyfar, gostaria que você se lembrasse de uma coisa: os encantamentos têm por vezes conseqüências indesejáveis. Por que acha que a Deusa a quem sirvo lhe mandaria um filho, quando o seu Deus, que você julga ser o maior de todos, não o mandou?

Parecia uma blasfêmia, e Gwenhwyfar teve vergonha de si mesma. Não obstante, disse numa voz baixa e sufocada o que pensava:

- Acho que Deus talvez não se importe com as mulheres. Todos os seus padres são homens, e as Escrituras dizem várias vezes que nós, mulheres, somos as tentadoras e o mal. Talvez seja por isso que ele não me ouve. E por isso eu estaria disposta a recorrer à Deusa... Deus não se importa... - voltou a chorar copiosamente. - Morgana, se você não puder me ajudar, juro que irei esta noite de barco à ilha do Dragão, subornarei meu servo para me conduzir até lá, e quando as fogueiras forem acesas, também eu pedirei à Deusa que me conceda o dom de ter um filho... Juro, Morgana, que farei isso...

E imaginou-se à luz das fogueiras, dando volta às chamas, sendo rasgada por um homem estranho e sem rosto, deitando-se em seus braços, e a idéia fez com que seu corpo se contraísse de dor e de um prazer meio envergonhado.

Morgana ouvia com grande horror. Ela nunca faria isso, perderia a coragem no último momento... Eu tive medo, até eu, e sempre soube que minha virgindade estava destinada ao Deus. Mas, então, percebendo o desespero profundo na voz da cunhada, ela pensou: Ah, mas talvez ela pudesse. E se o fizesse, iria odiar-se para o resto de sua vida.

O único som que se ouvia na sala eram os soluços de Gwenhwyfar. Morgana esperou que ela se acalmasse um pouco:

- Irmã, vou fazer por você o que posso. Artur pode dar-lhe um filho, você não precisa ir às fogueiras de Beltane, ou buscar um filho em qualquer outro lugar. Você não deve dizer nunca que lhe contei isso, prometa-me, e não faça perguntas. Mas Artur realmente tem um filho.

Gwenhwyfar olhou-a, espantada:

- Ele me disse que não tinha filhos...

- Pode ser que ele não saiba desse. Mas eu mesma vi a criança. Está sendo criada na corte de Morgause.

- Ora, então ele já tem um filho, e se eu não conceber outro...

- Não! - disse Morgana rapidamente, e sua voz era dura. - Já lhe disse que você não deve falar nunca sobre isso, ele não poderia reconhecer esse filho. Se você não lhe der um herdeiro, então o reino ficará com Gawaine. Gwenhwyfar, não me faça mais perguntas, pois não poderei lhe dizer mais nada além disso: se você não concebe, não é culpa de Artur.

- Não fiquei grávida desde a última colheita, e, em todos esses anos, só concebi três vezes - Gwenhwyfar engoliu em seco, enxugando o rosto no véu. - Se eu me oferecer à Deusa... ela será misericordiosa comigo...

- É possível - suspirou Morgana. - Você não deve ir à ilha do Dragão. Você pode conceber, eu sei... Talvez um encantamento pudesse ajudá-la a segurar o filho até o nascimento. Advirto-a, porém, mais uma vez, Gwenhwyfar: os encantamentos não funcionam como os homens e as mulheres querem, mas segundo suas próprias leis, que são tão estranhas quanto o tempo no país das fadas. Não me culpe, Gwenhwyfar, se o encantamento funcionar de maneira diferente do que você espera.

- Se ele me der até mesmo a menor possibilidade de ter um filho do meu senhor...

- Isso ele fará - prometeu Morgana, e começou a andar, seguida de Gwenhwyfar como uma criança levada pela mãe. Qual seria o encantamento, pensou, e o que faria, e porque Morgana parecia tão estranha e solene, como se fosse a própria Deusa? Mas disse para si mesma, com um suspiro, que aceitaria o que estivesse para vir, se com isso pudesse satisfazer seu maior desejo.

Uma hora depois, quando as trombetas soaram, e Morgana e Gwenhwyfar estavam sentadas lado a lado no campo de armas, Elaine inclinou-se para elas:

- Vejam! Quem está cavalgando ao lado de Gawaine?

- É Lancelote - respondeu Gwenhwyfar, quase sem fôlego. - Ele voltou.

Estava mais bonito do que nunca. Sofrera um corte no rosto, que poderia ter sido feio, mas que lhe dava a beleza feroz de um felino. Cavalgava como se fosse parte do cavalo, e Gwenhwyfar ficou escutando a conversa de Elaine sem ouvi-la realmente, de olhos fixos nele.

Amarga, a ironia disso tudo. Por que agora, quando estou decidida e jurei não pensar mais nele, e sim cumprir, como jurei, o dever junto de meu senhor e rei...? Em torno do pescoço, sob o colar de ouro que Artur lhe dera como presente de casamento, cinco anos antes, podia sentir o peso do talismã de Morgana, costurado num saquinho que pendia entre seus seios. Ela não sabia, e não queria saber, o que fora colocado ali.

Por que agora? Eu esperava que quando ele viesse para o Pentecostes, já estivesse grávida de meu senhor, e que ele não me olharia mais, pois estaria evidente minha disposição de honrar meu casamento.

Mas contra sua vontade, Gwenhwyfar lembrou-se das palavras de Artur: Se você me der um filho, não farei perguntas.. você compreende o que estou lhe dizendo? Ela sabia muito bem o que o marido estava dizendo. O filho de Lancelote poderia ser herdeiro do reino. Essa nova tentação lhe estaria sendo oferecida agora, por já ter cometido pecado sério, deixando-se envolver pela feitiçaria de Morgana, e por ter feito ameaças estranhas, esperando com isso forçar a cunhada a ajudá-la?

Não me importo, desde que possa dar um filho ao meu rei... Se Deus me condenar por isso, de que me serve ele? Teve medo da própria blasfêmia, mas também tinha sido uma blasfêmia pensar em ir às fogueiras de Beltane.

- Vejam, Gawaine foi derrubado, nem ele pode resistir aos golpes de Lancelote - comentou Elaine, ansiosa. - E Cai, também! Como pode Lancelote derrubar um homem aleijado?

- Não seja mais tola do que tem de ser, Elaine - ralhou Morgana. - Você pensa que Cai gostaria de ser poupado por Lancelote? Se Cai participa desses jogos, sem dúvida pode correr o risco de ser derrubado! Ninguém o forçou a competir.

Desde o momento em que Lancelote entrou nos jogos, a vitória estava decidida. Houve protestos bem-humorados entre os Companheiros, quando perceberam isso.

- É inútil entrarmos na arena quando Lancelote está aqui - disse Gawaine, rindo, com o braço em volta do pescoço do primo. - Você não podia ter chegado um ou dois dias depois, Lance?

O rapaz também ria, com o rosto afogueado. Apanhou a taça dourada e atirou-a para cima.

- Também sua mãe me pediu que ficasse na corte dela para as fogueiras de Beltane. Não vim para privá-los dos prêmios, não preciso deles. Gwenhwyfar, minha senhora - exclamou -, fique com isto, e em troca dê-me a fita que usa em seu pescoço. A taça pode ir para o altar, ou para a mesa da rainha!

Envergonhada, Gwenhwyfar levou a mão ao pescoço e à fita em que estava atado o talismã de Morgana.

- A fita eu não lhe posso dar, meu amigo... - mas procurou algo na manga do vestido, bordada com pequenas pérolas. - Aceite este lenço como uma gentileza para meu campeão. Quanto aos prêmios, dá-los-ei a todos... - Fez um gesto abrangendo Gawaine e Gareth, que se haviam colocado depois de Lancelote nos jogos.

- Muito bem pensado - aplaudiu Artur, levantando- se, enquanto Lancelote recebia o lenço bordado e o beijava, amarrando-o em seguida no elmo. - Mas meu soldado mais corajoso ainda merece outro prêmio. Você se sentará conosco na mesa real, Lancelote, e nos contará tudo o que lhe aconteceu, desde que deixou minha corte.

Gwenhwyfar pediu licença para se retirar junto com suas damas a fim de se preparar para o banquete. Elaine e Meleas conversavam sobre a bravura de Lancelote, sua habilidade de cavaleiro, a generosidade em abrir mão do prêmio. Gwenhwyfar só podia pensar no olhar que lhe dera quando pedira a fita que trazia no pescoço. Levantou os olhos e encontrou o sorriso sombrio e enigmático de Morgana. Não posso sequer rezar pedindo tranqüilidade de espirito. Perdi o direito de rezar.

Durante a primeira hora do banquete, ela movimentou-se pelo salão, verificando se todos os convidados estavam bem instalados e bem servidos. Quando se sentou à mesa real, a maioria deles já estavam bêbados, e lá fora estava muito escuro. Os servos trouxeram lâmpadas e tochas, prendendo-as na parede. Artur disse jovialmente:

- Veja, minha senhora, estão acendendo nossas fogueiras de Beltane dentro do próprio castelo.

Morgana estava sentada junto de Lancelote. O rosto de Gwenhwyfar estava congestionado pelo calor e pelo vinho que bebera; afastou-se, para não vê-los juntos. Lancelote deu um grande bocejo:

- Ora, estamos realmente no dia de Beltane. Eu havia me esquecido.

- E Gwenhwyfar decidiu que devíamos ter uma festa para que ninguém fosse tentado a participar dos velhos ritos - explicou Artur. - Há outras maneiras de esfolar o lobo sem arrancar-lhe a pele: se eu proibisse as fogueiras, então seria um tirano...

- E teria faltado ao compromisso com Avalon, meu irmão - observou Morgana, em voz baixa.

- Mas se a rainha torna mais agradável ao meu pessoal ficarmos sentados aqui em nossa celebração, em lugar de sair para o campo e dançar junto às fogueiras, então nosso objetivo é alcançado mais simplesmente!

Morgana deu de ombros. Gwenhwyfar teve a impressão de que, secretamente, ela se divertia. Havia bebido pouco, talvez fosse a única totalmente sóbria na mesa real.

- Você viajou pelo reino de Lot, meu primo. Diga-me: os ritos de Beltane são celebrados lá?

- É o que diz a rainha - respondeu Lancelote -, mas pelo que sei, ela poderia estar brincando comigo. Não vi nada que me sugerisse não ser a rainha Morgause, a mais cristã das senhoras.

Gwenhwyfar teve a impressão de que ele olhava para Gawaine, pouco à vontade, enquanto falava.

- Veja bem o que estou dizendo, Gawaine, não é absolutamente contra a senhora minha tia, a quem muito amo...

Mas a única resposta que teve foi um ressonar suave, e o riso de Morgana foi ríspido.

- Veja, lá está Gawaine adormecido com a cabeça na mesa! Também eu gostaria de saber notícias do reino de Lot. Não creio que uma pessoa criada lá possa esquecer tão rapidamente as fogueiras de Beltane. O calor do sol corre nas veias de quem foi criado em Avalon, como eu, como a rainha Morgause, não é mesmo, Lancelote? Artur, você se recorda do dia em que foi feito rei na ilha do Dragão? Há quantos anos? Nove, dez...

Artur pareceu aborrecer-se, embora respondesse gentilmente:

- Isso foi há muitos anos, como você disse, irmã, e o mundo muda a cada estação. Creio que a época dessas coisas já passou, exceto talvez para os que vivem nos campos, em meio às colheitas, e têm de pedir a bênção da Deusa. Taliesin diria assim, e eu não o contradigo. Mas creio que esses velhos ritos têm pouco a ver com pessoas como nós, que vivem em castelos, em cidades e ouviram as palavras do Cristo. - Levantou o copo de vinho, esvaziou-o e falou com a ênfase dos bêbados: - Deus nos dará tudo o que desejarmos, tudo o que é certo termos, sem necessidade de falarmos dos velhos Deuses, não é assim, Lance?

Gwenhwyfar sentiu os olhos de Lancelote pousarem nela, antes que ele respondesse:

- Quem, dentre nós, tem tudo o que deseja, senhor? Nenhum rei, e nenhum Deus, pode conceder isso.

- Mas eu quero que meus... meus súditos tenham tudo de que precisam - repetiu Artur, falando um pouco enrolado. - E o mesmo quer a minha rainha, que nos proporciona nossas próprias fogueiras de Bel... Beltane aqui...

- Artur, você está bêbado - observou Morgana, suavemente.

- Ora, e por que não? - perguntou ele, com hostilidade. - Na minha festa e na minha... minha casa... para que combati os saxões, todos esses anos? Para sentar- me aqui, à Távola Redonda, e desfrutar a... a paz, a boa cerveja e o vinho, a boa música... onde está Kevin, o Harpista? Não vou ter música na minha festa?

Rindo, Lancelote respondeu:

- Não tenho dúvidas de que ele foi adorar a Deusa nas fogueiras, e tocar ali sua harpa, na ilha do Dragão.

- Ora, isso é traição - resmungou Artur com a voz empastada. - E mais uma razão para proibir as fogueiras de Beltane, a fim de que eu tenha música.

Morgana também riu e disse alegremente:

- Você não pode mandar na consciência dos outros, meu irmão. Kevin é druida e tem o direito de oferecer sua música aos Deuses que respeita, se assim o quiser - apoiou o queixo nas mãos, e Gwenhwyfar julgou que a cunhada se parecia com um gato lambendo o leite dos bigodes.

Mas creio que ele, à sua maneira, já cumpriu os ritos de Beltane. Sem dúvida, foi dormir, pois todos aqui estão bêbados demais para distinguirem entre sua execução e a minha, na harpa, ou as gaitas de foles ululantes de Gawaine, que, mesmo quando dorme, toca música - acrescentou ela, a um ronco particularmente forte do primo. Fez um gesto para um dos camareiros, que tentou convencer Gawaine a levantar-se. Ele fez uma reverência insegura para Artur e saiu cambaleando do salão.

Lancelote levantou o copo e bebeu-o de um trago.

- Também já estou cansado de música e festa. Viajei desde antes do amanhecer, pois queria estar presente aos jogos de hoje, e dentro em pouco pedirei licença para ir dormir, Artur.

Gwenhwyfar calculou o estado de embriaguez de Lancelote pelo seu jeito espontâneo de dizer "Artur", pois em público tinha sempre o cuidado de dirigir-se formalmente a ele, como "meu senhor" ou "meu rei", e só quando estavam sozinhos dizia "primo" ou "Artur".

Mas na adiantada hora em que se encontrava a festa, poucos estariam bastante sóbrios para perceb&eci