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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A GUERRA DAS COROAS / Christian Jack
A GUERRA DAS COROAS / Christian Jack

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Serie A Rainha da Liberdade

Volume II

 

A GUERRA DAS COROAS

 

Sentado à esquerda de Apopis, Imperador dos Hicsos, o general de transportes sentia-se pouco à-vontade. Gozava, no entanto, de uma honra muito desejada: assistir, na companhia do soberano mais poderoso do mundo, à prova do touro de que os habitantes de Auaris, capital do Império situada no delta do Egipto, falavam com pavor sem saberem exactamente de que se tratava.

 

Instalados numa plataforma, os dois homens dominavam uma arena e uma construção circular chamada ”o labirinto” de onde ninguém, segundo se dizia, saía vivo.

 

Pareces muito nervoso observou Apopis, com a sua voz rouca que gelava o sangue.

 

É verdade, Majestade... O vosso convite para aqui, para o palácio... Não sei como vos hei-de agradecer respondeu o oficial superior, gaguejando e sem se atrever a olhar o Imperador, cuja fealdade era impressionante.

 

Grande, de nariz proeminente, faces flácidas, ventre proeminente, pernas grossas, Apopis só se permitia dois adornos: um escaravelho em ametista montado num anel de ouro no dedo mínimo da mão esquerda e, ao pescoço, um amuleto em forma de cruz egípcia, que lhe dava o direito de vida e de morte sobre os seus súbditos.

 

”Amado do deus Set”, Apopis proclamara-se Faraó do Alto e do Baixo Egipto e tentara fazer inscrever os seus nomes de coroação


na árvore sagrada da cidade santa de Heliópolis. Mas as folhas tinham-se mostrado rebeldes, recusando aceitá-lo. Apopis assassinara então o Sumo Sacerdote, ordenara o encerramento do templo e afirmara que o ritual decorrera correctamente.

 

Há algum tempo, o Imperador andava contrariado.

 

Nas Cíclades, o almirante Jannas, asiático implacável e notável guerreiro, perseguia piratas que ousavam atacar a frota mercante do Império. Na Ásia, diversos pequenos principados manifestavam veleidades de independência que as tropas de elite sufocavam à nascença, massacrando os revoltosos, queimando as aldeias e reunindo rebanhos de escravos.

 

Estes episódios serviam o grande desígnio de Apopis: aumentar ainda mais a dimensão do seu Império, que era já o mais vasto alguma vez conhecido. A Núbia, Canaã, a Síria, o Líbano, a Anatólia, Chipre, as Cíclades, Creta e os mercados da Ásia baixavam a cabeça diante dele e receavam a sua potência militar. Mas era apenas uma etapa e os invasores hicsos, reunindo soldados oriundos de diversas etnias, tencionavam prosseguir a sua conquista do mundo.

 

Um mundo de que o Egipto era o centro.

 

Esse Egipto dos Faraós que a onda hicsa submergira com uma facilidade surpreendente, pondo fim a longos séculos de civilização baseada em Maet, a justiça, a rectidão e a solidariedade. Fracos combatentes, os egípcios não tinham sabido opor-se à força brutal e às novas armas dos invasores.

 

O Faraó, agora, era ele, Apopis.

 

E instalara a sua capital em Auaris, um lugar de culto de Set, o deus do raio e da violência, que o tornava invencível. A povoação tornara-se a principal cidade do Médio Oriente, dominada por uma cidadela inatacável de onde o Imperador gostava de contemplar o porto, cheio de centenas de navios de guerra e de comércio.

 

De acordo com o desejo de Apopis, Auaris apresentava-se como uma gigantesca caserna, um paraíso para os militares servidos por egípcios escravizados.

 

E, no entanto, era no Sul desse Egipto vencido e espezinhado que uma incrível revolta se iniciara! Em Tebas, obscura cidade agonizante, um reizinho chamado Seken e a sua esposa Ah-hotep, tinham ousado pegar em armas contra o Imperador.

 

Como estão exactamente as coisas, general?

 

A situação está controlada, Majestade.

 

Em que ponto se situa a frente?

 

Em Cusae, Majestade.

 

Cusae... Essa cidade não fica trezentos e cinquenta quilómetros a norte de Tebas?

 

Mais ou menos, Majestade.

 

Isso significa portanto que o ridículo exército de Seken conquistou um vasto território... vasto demais.

 

Oh, não, Majestade! Os revoltosos tentaram um ataque relâmpago descendo o Nilo a uma velocidade surpreendente, mas não consolidaram o seu domínio sobre as províncias atravessadas. Na realidade, a sua acção foi mais espectacular do que perigosa.

 

Mesmo assim, sofremos vários revezes.

 

Esses insurrectos apanharam alguns destacamentos de surpresa! Mas reagi muito rapidamente e detive o seu avanço.

 

À custa de graves perdas, ao que consta.

 

O seu armamento é arcaico, mas esses egípcios batem-se como feras! Felizmente, os nossos carros e os nossos cavalos dão-nos uma enorme superioridade. E depois, Majestade, não deveis esquecer que matámos o seu chefe, Seken.

 

Unicamente graças ao espião que gangrena o inimigo, pensou Apopis, cujo olhar torvo permanecia indecifrável.

 

Onde está o cadáver de Seken?

 

Os egípcios conseguiram recuperá-lo, Majestade.

 

É pena. De boa vontade o teria pendurado na grande torre da cidadela. A Rainha Ah-hotep ficou ilesa?

 

Infelizmente, sim, mas é apenas uma mulher. Depois da morte do marido, só pensará em render-se. Os restos do exército egípcio não tardarão a dispersar-se e destruí-los-emos.

 

Ah, eis a distracção! exclamou o Imperador.

 

Um enorme touro de combate, olhos furiosos e cascos agressivos, entrou na arena para onde foi lançado um homem nu e sem armas.

O general empalideceu.

 

O infeliz era o seu adjunto directo, que se batera corajosamente em Cusae.

 

O jogo é tão simples como divertido explicou o Imperador. O touro carrega sobre o seu adversário, cuja única hipótese é agarrar nos chifres e realizar um salto perigoso por cima do cachaço do monstro. Segundo o pintor cretense Minos, que decora o nosso palácio, é um desporto muito em voga no seu país. Graças a ele, as minhas pinturas são mais bonitas do que as de Cnossos. Não és da mesma opinião?

 

Oh, sim, Majestade!

 

Repara... Aquele touro é um verdadeiro mastodonte e tem mau carácter.

 

De facto, o monstro não tardou a precipitar-se sobre a sua vítima, que cometeu o erro de tentar fugir voltando-lhe as costas.

 

Os chifres cravaram-se nos rins do oficial hicso. O touro projectou o moribundo no ar, espezinhou-o e espetou-lhe os chifres uma segunda vez antes de soprar.

 

Apopis fez uma careta de desagrado.

 

Aquele incapaz foi tão decepcionante na arena como no combate afirmou. Um cobarde... Eis o que ele era. Mas a responsabilidade das nossas derrotas não é da responsabilidade do seu superior?

 

O general suava em grossas bagas.

 

Ninguém teria podido fazer melhor, Majestade, garanto-vos, eu...

 

És um imbecil, general. Em primeiro lugar, porque não soubeste prever esse ataque; depois, porque os teus soldados foram vencidos em vários locais do território egípcio e não se comportaram como verdadeiros hicsos; finalmente, porque acreditas que o adversário está vencido. Levanta-te.

 

Tetanizado, o general obedeceu.

 

O Imperador tirou da bainha a adaga com castão de ouro que nunca o abandonava.

 

Desce para o labirinto ou corto-te a goela. É a tua única hipótese de obteres o meu perdão.

O olhar assassino de Apopis dissipou as hesitações do oficial superior, que saltou para o labirinto e caiu sobre os joelhos e as mãos.

 

À primeira vista, o lugar nada tinha de perigoso.

 

Era composto por ziguezagues marcados por paliçadas, por vezes cobertas de verdura. Era impossível perder-se: um único caminho, tortuoso, conduzia à saída.

 

Por altura da primeira paliçada, uma mancha de sangue chamou a atenção do general. Sem reflectir demasiado, decidiu saltar, como se franqueasse um obstáculo invisível.

 

Foi a sua sorte, pois duas lâminas saltaram de cada lado, roçando-lhe as plantas dos pés.

 

O Imperador apreciou a façanha. Desde que melhorara muito os diversos dispositivos do labirinto, poucos candidatos ultrapassavam aquela primeira etapa.

 

O general comportou-se da mesma maneira ao sair do segundo ziguezague e foi esse o seu erro.

 

Quando caiu no chão, este fugiu-lhe debaixo dos pés e precipitou-se num lago onde dormitava um crocodilo esfomeado.

 

Os gritos do hicso não perturbaram nem o animal nem o Imperador, a quem um servidor se apressou a trazer uma taça de bronze para lavar os dedos.

 

Enquanto os maxilares do crocodilo estalavam e tornavam a estalar, Apopis lavava as mãos.
Desde que o cadáver do marido fora trazido da frente para o navio-almirante, a jovem Rainha de trinta e dois anos nunca mais o abandonara.

 

Um cadáver martirizado, atingido por vários ferimentos mortais, que a mumificação deixara aparentes por ordem de Ah-hotep. Não queria apagar os vestígios da coragem de Seken, que se batera sozinho contra uma horda de hicsos antes de sucumbir. A sua bravura cerrara as fileiras dos egípcios, aterrorizados pelos carros de guerra puxados por cavalos, uma arma nova e temível.

 

Proveniente de uma família pobre, Seken apaixonara-se perdidamente por Ah-hotep, que admirava aquele ser puro e nobre, ébrio de liberdade e pronto a sacrificar a vida para devolver ao Egipto a sua passada grandeza. De mãos dadas, Seken e Ah-hotep tinham enfrentado múltiplas provas antes de poderem atacar as posições hicsas a norte de Tebas e começar assim a alargar o cerco.

 

Ah-hotep tivera a ideia de criar uma base secreta onde os soldados do exército de libertação seriam preparados para o combate e confiara a Seken a tarefa de concretizar o projecto. Como Rainha do Egipto, fora Ah-hotep a reconhecer Seken como Faraó, uma pesada função da qual ele se mostrara digno até ao último suspiro.

 

Embora o Império das Trevas tivesse feito da existência do par real um caminho de lágrimas e de sangue, Ah-hotep recordava os raros e intensos momentos de felicidade partilhados com Seken.

 

No seu coração, permaneceriam para sempre a juventude, a força e o amor.

 

Parecendo extremamente frágil, a Rainha-Mãe Teti, a Pequena, desceu ao túmulo onde a filha meditava. Sempre impecavelmente vestida e maquilhada, a idosa dama lutava com obstinação contra a fadiga surda que a obrigava a fazer uma longa sesta e a deitar-se cedo. Abalada pela morte do genro, receava que Ah-hotep já não tivesse a energia necessária para sair do seu sofrimento.

 

Deverias alimentar-te sugeriu-lhe.

 

Como Seken é belo, não é verdade? Temos de esquecer os seus horríveis ferimentos e pensar apenas no rosto orgulhoso e determinado do nosso Rei.

 

Ah-hotep, tu hoje és a soberana do país. Todos esperam as tuas decisões.

 

Fico ao pé do meu marido.

 

Velaste-o de acordo com os nossos rituais, a mumificação terminou.

 

Não, mãe, não...

 

Sim, Ah-hotep. E compete-me a mim pronunciar as palavras que receias ouvir: chegou a hora de proceder à cerimónia dos funerais e fechar o túmulo.

 

Recuso.

 

Tão frágil frente à magnífica jovem morena de fascinante encanto, Teti, a Pequena, não cedeu.

 

Comportando-te como uma chorona, trais o Faraó e tornas o seu sacrifício inútil. Agora, ele deve viajar para as estrelas e nós continuar a luta. Dirige-te a Karnak onde os sacerdotes farão de ti a incarnação de Tebas a Vitoriosa.

 

O tom imperioso da mãe surpreendeu Ah-hotep e as suas palavras trespassaram-na como outras tantas punhaladas. Mas Teti, a Pequena, tinha razão.

 

Sob poderosa escolta e acompanhada pelos dois filhos, Kamés de catorze anos e Ahmés de quatro, Ah-hotep apresentou-se no templo de Amon de Karnak onde os ritualistas não cessavam de cantar hinos pela imortalidade da alma real.

 

Desde a ocupação hicsa que Karnak não beneficiava de qualquer ampliação. Protegido por uma cerca, o templo era composto por dois santuários principais, um de pilares quadrados e outro de pilares em forma de Osíris que proclamavam a ressurreição do deus assassinado pelo seu irmão Set. De acordo com uma previsão, a capela contendo a estátua de Amon, ”o Escondido”, abrir-se-ia por si mesma se os Egípcios conseguissem vencer os Hicsos.

 

O Sumo Sacerdote curvou-se diante da que os soldados tinham denominado a Rainha Liberdade.

 

Kamés mantinha-se erecto, o pequeno Ahmés chorava e apertava com força a mão da mãe.

 

Estais preparada, Majestade, para manter o fogo conquistador de Tebas?

 

Estou. Kamés, olha bem pelo teu irmão. Ahmés agarrou-se à mãe.

 

Quero ficar contigo... E quero o meu pai! Ah-hotep beijou ternamente o rapazinho.

 

O teu pai está no céu, com os outros Faraós e nós devemos obedecer-lhe terminando a sua obra. Para isso, preciso de todos e, sobretudo, dos nossos dois filhos. Compreendes?

 

Engolindo as lágrimas, Ahmés colocou-se diante do irmão mais velho, que o segurou pelos ombros.

 

O Sumo Sacerdote conduziu Ah-hotep até à capela da deusa Mut, cujo nome significava ao mesmo tempo ”a Mãe” e ”a Morte”. Fora ela que dera à adolescente a força de travar um combate impossível. E era ela que ia transformar a modesta cidade tebana em capital da reconquista.

 

Ao diadema de ouro da mãe que Ah-hotep trazia, o Sumo Sacerdote prendeu um uraeus do mesmo metal. Depois, entregou-lhe um arco e flechas.

 

Majestade, comprometeis-vos a combater as trevas?

 

Comprometo.

 

Nesse caso, que as vossas flechas atinjam os Quatro Orientes.

 

Ah-hotep visou o Oriente, depois o Norte, o Sul e por fim o Ocidente. A nobreza da sua atitude impressionara todos os ritualistas.

 

Visto que o cosmos vos é favorável, Majestade, eis a vida que devereis preservar e a magia que devereis espalhar.

 

O Sumo Sacerdote apresentou ao rosto da Rainha uma cruz egípcia e um ceptro, cuja cabeça era a do animal de Set.

 

Poderosas vibrações atravessaram o corpo de Ah-hotep.

 

Nela, a partir de agora, incarnava a esperança de todo um povo.

 

Depois dos soldados da base secreta terem prestado uma última homenagem ao Faraó defunto, o cortejo fúnebre tomou o caminho da necrópole. Quatro bois puxavam o sarcófago colocado sobre um trenó de madeira. A intervalos regulares, ritualistas derramavam leite na pista para facilitar o deslizamento.

 

Neste período de guerra, o artesanato tradicional estava reduzido à expressão mais simples; assim, o mobiliário funerário de Seken apenas comportava objectos modestos, indignos de uma sepultura real: uma paleta de escriba, um arco, sandálias, um saiote de cerimónia e um diadema. Já não havia em Tebas um único grande escultor. Os do atelier real de Mênfis tinham sido executados há muito tempo pelos hicsos.

 

Ah-hotep era acompanhada pelos dois filhos, a mãe, o intendente Qaris e o Superintendente dos Celeiros Herai, responsável pela segurança em Tebas e grande caçador de colaboradores com o inimigo. O governador da cidade de Edfu, Emheb, tivera de regressar a Cusae a fim da manter o moral das tropas que consolidavam a frente.

 

Diante da entrada do pequeno túmulo, tão irrisório em relação às pirâmides da Idade de Ouro, Qaris e Herai ergueram o sarcófago.

 

Antes de o confiarem à deusa do Ocidente, que absorveria Seken no seu seio onde o faria renascer, era necessário abrir-lhe a boca, os olhos e as orelhas.

 

Nota: O sarcófago de Sekenenré está conservado no Museu do Cairo.

 

O sacerdote funerário estendeu à Rainha uma enxó de madeira. Logo que Ah-hotep lhe tocou, quebrou-se.

 

Não temos outra lamentou o ritualista. Era a última que tinha sido consagrada quando o Faraó reinava sobre o Egipto.

 

O sarcófago do Rei não pode permanecer inerte!

 

Então, Majestade, será necessário utilizar a enxó do ”Abridor dos Caminhos”.

 

Mas está em Assiut objectou Qaris e a cidade não é segura!

 

Vamos lá imediatamente decidiu a Rainha.

 

Majestade, suplico-vos... Não tendes o direito de correr semelhante risco!

 

O primeiro dos meus deveres consiste em tornar tranquila a viagem do Faraó para os paraísos do outro mundo. Não o fazer conduzir-nos-ia ao fracasso.
Trezentos quilómetros a norte de Tebas, em território inimigo, a cidade de Assiut, a antiga cidade do chacal divino, ”o Abridor dos caminhos”, estava agonizante. O Afegão e o Bigodes, dois calejados resistentes promovidos a oficiais no exército de libertação, possuíam numerosos contactos na região.

 

Tinham portanto confiado uma mensagem a Larápio, o chefe dos pombos-correio, capaz de percorrer mais de mil quilómetros num só voo à velocidade de oitenta quilómetros por hora.

 

A missão era arriscada. Se Larápio não regressasse, Ah-hotep perderia um dos seus melhores soldados. Aliás, ela não lhe ocultara o grande risco que ia correr. Muito atento, com a cabeça bem direita, o olhar brilhante, o pombo branco e castanho considerara-se apto a vencer.

 

Mas dois dias tinham decorrido e a Rainha perscrutava o céu em vão.

 

Ao crepúsculo, pareceu-lhe distinguir o seu mensageiro ao longe. O avanço era hesitante, o voo mais pesado do que o habitual.

 

No entanto, era realmente ele!

 

Larápio poisou no ombro de Ah-hotep.

 

Com o flanco direito coberto de sangue, estendeu orgulhosamente a pata direita à qual estava preso um pequeno papiro selado.

 

A Rainha felicitou-o acariciando-o docemente, retirou a missiva e confiou o corajoso mensageiro a Teti, a Pequena.

 

Deve ter sido ferido por uma flecha. Trata dele com cuidado.

 

É superficial considerou a Rainha-Mãe, depois de ter examinado a ferida. Daqui a alguns dias o Larápio estará de perfeita saúde.

 

Segundo o curto texto de um resistente da região de Assiut, a cidade fora quase completamente destruída, com excepção dos túmulos antigos. Tinha apenas uma pequena guarnição hicsa, que recebia as mercadorias provenientes dos oásis de Khargeh e Dakhla.

 

A caminho decidiu Ah-hotep.

 

De madrugada, o navio acostou ao porto de Assiut. Viajar de noite era perigoso, porque havia o risco de encalhar num banco de areia ou incomodar hipopótamos, cuja cólera era arrasadora. Mas, de dia, o Nilo não era seguro. Os hicsos rondavam por todos os lados.

 

Outrora muito activo, aquele porto estava ao abandono. Velhos navios e uma barcaça esventrada apodreciam.

 

Nem Risonho nem Vento do Norte detectaram qualquer presença inquietante. O molosso desembarcou primeiro, seguido pelo burro, a Rainha, o Afegão, o Bigodes e uma dezena de jovens archeiros bem alerta.

 

Aliada de Ah-hotep, a Lua iluminava a paisagem.

 

A cidade estendia-se ao abrigo de uma falésia na qual tinham sido escavados os túmulos, entre os quais o de um Sumo Sacerdote de Up-uaut, ”o Abridor dos caminhos”, detentor da enxó indispensável para ressuscitar a múmia.

 

Se eu fosse o comandante hicso considerou o Afegão seria exactamente neste lugar que colocaria as minhas sentinelas. Não há melhor ponto de observação.

 

Vamos verificar isso declarou o Bigodes. Se tiveres razão, sempre serão alguns hicsos a menos.

 

O Bigodes era um egípcio do Delta, arrastado quase involuntariamente para a resistência, que se tornara a sua razão de viver.

 

Espoliado pelos invasores, o Afegão apenas sonhava restabelecer o comércio de lápis-lazúli com um Egipto novamente respeitador das leis comerciais.

 

Os dois homens tinham corrido juntos muitos perigos. Admiradores incondicionais da Rainha Ah-hotep, a mulher mais bela e mais inteligente que tinham conhecido, bater-se-iam ao lado dela até ao fim, fosse ele qual fosse.

 

O Afegão e o Bigodes treparam a colina com a vivacidade de combatentes habituados às expedições perigosas.

 

Menos de meia hora depois, estavam de regresso.

 

Quatro sentinelas definitivamente adormecidas disse o Bigodes. O caminho está livre.

 

Como Ah-hotep seguia o mesmo treino dos soldados, não teve qualquer dificuldade em subir a encosta.

 

Vários túmulos tinham sido profanados e o do Sumo Sacerdote Up-uaut fazia infelizmente parte deles. Os hicsos armazenavam nela armas e mantimentos.

 

Com a raiva no coração, a Rainha explorou os destroços à luz de uma tocha. Atingiu a pequena sala situada próximo do fundo do túmulo, onde o ritualista tinha o costume de depositar os objectos mais preciosos.

 

Jaziam no chão fragmentos de cofres e de estátuas. A Rainha revistou aquele caos. E, por baixo de um cesto contendo alimentos mumificados, encontrou a enxó de ferro celeste utilizada durante os rituais de ressurreição.

 

A porta do túmulo de Seken fechou-se e foi o seu filho mais velho, auxiliado pelo intendente Qaris, que colocou o selo da necrópole. Depois de Ah-hotep ter aberto os olhos, a boca e as orelhas da múmia, a alma do Faraó deixou de estar presa à terra.

 

Temos de falar da situação, Majestade sugeriu Qaris.

 

Mais tarde.

 

Deveis interromper o mais rapidamente possível a vossa estratégia.

 

O governador Emheb saberá manter a frente. Eu quero partilhar a morte do meu marido.

 

Majestade, não me atrevo a compreender...

 

Devo penetrar na Morada da Acácia e ninguém me impedirá de o fazer.

 

Já eram apenas três. Três velhas sacerdotisas que formavam a comunidade das reclusas da Morada da Acácia, votada a um desaparecimento certo se a Rainha Ah-hotep não lhes tivesse assegurado casa e comida para que elas transmitissem o seu saber.

 

Ah-hotep sentou-se com elas junto de uma acácia de temíveis espinhos.

 

A vida e a morte estão nela revelou a Superiora. É Osíris que lhe dá a sua verdura, e é no interior da colina de Osíris que o sarcófago se transforma numa barca capaz de vogar no universo. Se a acácia morrer, a vida abandona os vivos até que o pai ressuscite no filho. Isís cria um novo Faraó, cura os ferimentos infligidos por Set e a acácia cobre-se de folhas.

 

A profecia era clara: Kamés tornar-se-ia Rei. Mas Ah-hotep exigia mais.

 

Possa o meu espírito permanecer eternamente ligado ao de Seken para além da morte.

 

Visto que a morte nasceu respondeu a Superiora morrerá. Mas o que era antes da criação não é afectado pela morte. Nos paraísos celestes, não existe medo nem violência. Justos e antepassados comunicam com os deuses.

 

Como posso entrar em contacto com Seken?

 

Faz chegar até ele uma mensagem de acordo com o teu coração.

 

E se ele não me responder?

 

Que o deus do destino vele pela Rainha do Egipto.

 

Era o único objecto de grande valor que Ah-hotep possuía: um porta-pincéis de madeira dourada, incrustado de pedras semipreciosas.

 

Tinha a forma de uma coluna e nele estava inscrito: ”A Rainha é amada por Tot, o senhor das palavras divinas.”

 

Num papiro novo, Ah-hotep escreveu em belos hieróglifos uma carta de amor ao seu defunto marido, suplicando-lhe que afastasse os maus espíritos e agisse em favor da libertação do Egipto. Implorava que lhe respondesse a fim de lhe provar que estava realmente ressuscitado.

 

Ah-hotep prendeu a missiva a um ramo da acácia. Depois, com argila, modelou uma estatueta de Osíris estendido no seu leito de morte que depositou ao pé da árvore. Por fim, cantou acompanhando-se com a harpa portátil a fim de que as ressonâncias garantissem à alma de Seken uma viagem harmoniosa no Além.

 

Mas responder-lhe-ia o homem que ela amava?
Embora o almirante Jannas estivesse sempre ocupado com os piratas nas Cíclades e a revolta dos tebanos ainda não controlada, a entrega dos tributos realizava-se em Auaris, de acordo com o cerimonial habitual.

 

Apopis apreciava aquele momento em que os embaixadores, vindos de todas as províncias do Império, se inclinavam profundamente diante dele e lhe ofereciam uma impressionante quantidade de riquezas.

 

Ao contrário dos antigos Faraós, guardava para si a maior parte em vez de a colocar de novo no circuito comercial.

 

Braço direito implacável do Imperador, Khamudi não se esquecia de se servir largamente, com a bênção do seu senhor, cuja segurança garantia.

 

Cabelos muito negros colados ao crânio redondo, olhos ligeiramente rasgados, mãos e pés gorduchos, ossatura pesada, Khamudi engordava cada vez mais desde que fora nomeado grande tesoureiro. Aquele que os seus escravos chamavam Agarra-tudo ou Sua Suficiência recebia uma percentagem de todas as operações comerciais importantes, depois de ter tomado o controlo sobre a exploração dos papiros no Delta.

 

A sua única distracção consistia em entregar-se às piores perversidade sexuais com o contributo de Yima, a sua loira e exuberante esposa, de origem cananeia. Também aí, Apopis, que pretendia no entanto ser austero e moralista, fechava os olhos. E fechá-los-ia durante todo o tempo em que Khamudi se mantivesse no seu lugar, o de segundo.

 

Como todos os anos, os armazéns de Auaris enchiam-se de ouro, pedras preciosas, bronze, cobre, diversas essências de madeira, tecidos, jarros de óleo e de vinho, unguentos e muitas outras riquezas que asseguravam à capital do Império a sua inegável prosperidade.

 

Quando o embaixador de Creta, envergando uma túnica decorada com losangos vermelhos, avançou para o Imperador, Khamudi tocou no punho da sua adaga e fez um sinal aos seus archeiros. Ao mínimo gesto suspeito do diplomata, tinham ordem para o abater.

 

Mas o cretense inclinou-se tanto como os outros antes de se lançar num longo discurso elogiando a grandeza e a força do Imperador dos Hicsos, de quem era um fiel vassalo.

 

Durante a maçadora peroração, Ventosa, uma magnífica eurasiática, jovem irmã de Apopis, aproveitava para acariciar o seu amante Minos, um pintor cretense enviado a Auaris para decorar o palácio de Apopis. O jovem corou mas deixou-a continuar.

 

Os servidores do diplomata depositaram aos pés do Imperador espadas, vasos de prata e móveis requintados. Creta mostrava-se igual à sua reputação.

 

O almirante Jannas anda a limpar as Cíclades declarou o Imperador com a sua voz rouca que fez estremecer a assistência e esse esforço de guerra custa-me caro. Como Creta fica próximo do lugar dos combates, entregar-me-á um tributo suplementar.

 

O embaixador mordeu os lábios e curvou-se de novo.

 

Apopis estava muito satisfeito com a decoração cretense do seu palácio fortificado e com o mobiliário que ali acumulara: um leito real roubado em Mênfis, queimadores de perfume e bacias de prata dispostas sobre as mesas de alabastro na sua sala de banhos com chão de calcário vermelho e, sobretudo, esplêndidas lâmpadas formadas por uma base em calcário e uma pequena coluna em sicômoro encimada por uma taça em bronze. No fim das suas abluções, o Imperador vestiu uma túnica castanha com franjas e dirigiu-se ao apartamento da sua esposa Tani, sem sombra de dúvida a mulher mais feia da capital, à qual recusava o título de ”imperatriz” para não ceder nem uma migalha de poder.

 

Estás finalmente pronta?

 

Pequena e gorda, Tani experimentava sem cessar novos unguentos na esperança de melhorar as suas feições. Mas os resultados eram desastrosos. Felizmente, aquela antiga criada podia vingar-se quotidianamente nas egípcias outrora bem colocadas na vida e agora reduzidas à escravidão.

 

Olha para isto, Apopis: não é surpreendente?

 

Tani manipulava pérolas fabricadas com um estranho material.

 

O que é?

 

Segundo a minha nova escrava originária de Mênfis, chama-se vidro. Obtém-se fundindo quartzo com natrão ou cinzas. E pode-se colorir como se quiser!

 

Pérolas de vidro... Estas são um pouco opacas, mas deve-se poder aperfeiçoar o processo. Anda, tenho pressa de ver realizados os nossos dois projectos, o teu e o meu.

 

Vou acabar de me maquilhar.

 

Tani recobriu a testa e as faces de uma espessa camada de khôl, à base de galena, óxido de manganésio, ocre castanho e malaquita.

 

Indiferente à acentuada fealdade da esposa, o Imperador sempre apreciara o seu ódio ao Egipto que lhe inspirava excelentes ideias.

 

Apertada num vestido com riscas brancas sobre fundo castanho, Tani saiu de cabeça levantada do palácio, um passo atrás do marido.

 

Khamudi e a guarda imperial esperavam-nos.

 

Está tudo pronto, Majestade.

 

O cortejo dirigiu-se para o último cemitério egípcio de Auaris, onde estavam enterrados os antepassados que ali tinham vivido antes da invasão.

 

Centenas de escravos indígenas apertavam-se uns contra os outros, por ordem da polícia. Todos receavam uma execução massiva.

 

Todos os vestígios de um vil passado devem desaparecer decretou Apopis. Este velho cemitério ocupa demasiado espaço. É por isso que vamos construir aqui casas destinadas aos oficiais.

 

Uma idosa mulher conseguiu destacar-se da multidão e ajoelhou-se, implorante.

 

Não, senhor, não ataqueis os nossos antepassados! Deixai-os dormir em paz, suplico-vos!

 

Com uma pancada violenta desferida com o lado da mão, Khamudi quebrou o pescoço da insolente.

 

Desembaracem-me disso ordenou aos polícias e abatam imediatamente quem ousar interromper o Imperador.

 

A partir de agora continuou Apopis enterrareis os vossos mortos diante das vossas casas ou mesmo no interior delas. Na minha cidade, não devem ocupar espaço. Não haverá mais nem oferendas nem preces pelos defuntos. Os mortos já não existem. Não há nem ”Belo Ocidente”, nem ”Oriente eterno”, nem ”Luz de ressurreição”. Quem for surpreendido a exercer as funções de sacerdote funerário será imediatamente executado.

 

A dama Tani estava encantada: com o seu génio habitual, Apopis não se contentara em pegar na sua ideia mas melhorara-a bastante.

 

Nada podia mergulhar melhor os egípcios no desespero. Serem privados de qualquer contacto com os seus antepassados far-lhes-ia finalmente compreender que tinha nascido um mundo novo.

 

O cortejo imperial tomou as barcas para atravessar o braço de água e atingir a ilha na qual estava edificado o templo de Set.

 

Construído em tijolos, o santuário principal de Auaris era igualmente dedicado ao deus sírio da tempestade, Hadad. Em frente da entrada erguia-se um altar rectangular, rodeado de carvalhos e de fossas cheias com ossos calcinados de animais sacrificados, principalmente burros.

 

Os sacerdotes curvaram-se profundamente diante do Imperador, que vinha inaugurar uma capela em sua própria glória. Inteiramente decorada com folha de ouro, testemunharia a riqueza do Império e a divindade do seu senhor.

 

Quando a cerimónia deveria provocar alegria, muitos olhares inquietos perscrutavam o céu. Mesmo por cima de Auaris acumulavam-se nuvens ameaçadoras.

 

Demonstrando perfeita serenidade, Apopis penetrou na sua capela e considerou satisfatório o trabalho dos artesãos. Todas as províncias do Império seriam informadas que ele era o igual e o filho de Set.

 

Quando saiu do templo, os raios cruzavam as nuvens.

 

Grossas gotas começavam a cair sobre o altar onde um sacerdote hicso acabava de matar um lindo burro branco com as patas atadas.

 

Majestade, a cólera de Set avisa-nos de um grande perigo! É preciso...

 

As palavras do sacrificador morreram-lhe na garganta que Apopis cortara com a sua adaga.

 

Não compreendes, imbecil, que o senhor da tempestade me saúda, a mim, o Senhor do Império, e que me torna invencível?
O grande tesoureiro Khamudi instalara no coração de Auaris um gigantesco centro de impostos, guardado pelo exército, de onde controlava as receitas fiscais provenientes das diversas províncias do Império. No decurso dos anos, aquelas não tinham parado de crescer, exigindo um número de funcionários também em constante aumento.

 

Apopis detinha o poder absoluto, comandava o exército e delegava a gestão financeira no seu grande tesoureiro que nada lhe devia ocultar, sob pena de um castigo definitivo.

 

Khamudi prezava muito o seu lugar para entrar numa jogada dessas. Informava portanto o Imperador dos diversos levantamentos que efectuava a fim de aumentar a sua fortuna pessoal.

 

Os egípcios e os vassalos eram sangrados até à última gota, mas Khamudi inventava novas taxas ou fazia baixar uma para poder aumentar outra. Persuadido que a exploração dos súbditos do Império não tinha limites, fazia questão de melhorar os seus resultados. Quanto aos dignitários, cujo enriquecimento fora considerável desde o início do reinado de Apopis, entendiam-se com Khamudi.

 

Aflito, o secretário do grande tesoureiro irrompeu no seu gabinete.

 

Senhor, é o Imperador... Está aqui!

 

Uma visita inesperada de Apopis... Khamudi sentiu de repente vontade de coçar a perna esquerda. Ás contrariedades provocavam-lhe uma espécie de eczema que as mais activas pomadas faziam desaparecer com dificuldade.

 

Milhares de números desfilaram na sua memória. Que erro teria cometido?

 

Majestade, que honra receber-vos!

 

Sinistro de fealdade, curvado, o Imperador olhava de esguelha.

 

Estás bem instalado, meu amigo. Um luxo um tanto espalhafatoso, com este mobiliário moderno, este exército de arranha-papéis, estas vastas salas de arquivos e a tua fábrica de papiros a funcionar em pleno! Mas tens uma óptima qualidade: a eficácia sem qualquer moral. Graças a ti, o Império enriquece dia após dia.

 

Khamudi sentiu-se aliviado.

 

O Imperador deixou cair a sua pesada e mole carcaça numa poltrona decorada com touros selvagens.

 

Os egípcios são carneiros para tosquiar declarou em voz cansada mas a maior parte dos nossos soldados são uns frouxos que é necessário espicaçar constantemente a fim de evitar que adormeçam sobre as vitórias passadas. A incompetência dos nossos generais irrita-me ao máximo.

 

Desejais... uma vasta limpeza?

 

Os substitutos não seriam melhores. Perdemos terreno no sul do Egipto, Khamudi, e isso é-me insuportável.

 

A mim também, Majestade! Mas trata-se apenas de uma situação temporária. Os revoltosos foram bloqueados por altura da cidade de Cusae e não irão mais longe. Quando Jannas regressar das Cíclades, destruirá a frente.

 

Aquele caso é muito mais sério do que estava previsto lamentou Apopis. O almirante não enfrenta apenas simples piratas mas uma frota inimiga bem organizada.

 

As nossas tropas regressarão em breve da Ásia, onde esmagaram o adversário.

 

Não, Khamudi. Deverão lá permanecer ainda algum tempo para se assegurarem que o fogo está bem extinto.

 

Nesse caso, Majestade, enviemos as nossas guarnições do Delta!

 

De maneira nenhuma, meu amigo. Enquanto esperamos por Jannas, dispomos de outra arma: a desinformação. Vais mandar gravar duas séries de escaravelhos, uma destinada aos nossos vassalos, para lhes anunciar que o Império Hicso cresce constantemente, outra aos egípcios que pegaram em armas contra nós. Tem cuidado com a redacção em hieróglifos da mensagem que te vou ditar.

 

Abriguem-se gritou o governador Emheb, um colosso infatigável estão a utilizar as fundas!

 

Os soldados do exército de libertação estenderam-se no chão ou esconderam-se atrás das cabanas de cana construídas na linha da frente.

 

Os jactos de projécteis demoraram longos minutos, mas não foram seguidos de nenhum ataque.

 

Os soldados tiveram a surpresa de descobrir inúmeros escaravelhos de calcário cobertos com idêntica inscrição.

 

Levaram-nos a Emheb.

 

À medida que decifrava o texto, o governador detectava o perigo.

 

Destruam todos esses escaravelhos! ordenou.

 

Emheb copiou a mensagem num papiro que confiou a Larápio para que a Rainha fosse avisada o mais depressa possível.

 

Ah-hotep esperava um sinal que lhe provasse que a alma de Seken tinha ressuscitado, mas nada ocorria. No entanto, todos os rituais tinham sido correctamente realizados e ela já não sabia que outra iniciativa tomar para entrar em contacto com o marido.

 

Com o correr dos dias, a bela mulher estiolava. Nenhum dos seus próximos a conseguia reconfortar. Permanecia no entanto atenta aos dois filhos, muito chocados com o desaparecimento do pai. Kamés tentava esquecer a mágoa treinando-se no manejo das armas com vários instrutores, o pequeno Ahmés passava a maior parte do tempo a brincar com a avó.

 

Tebas mergulhava na tristeza. Como estavam longe dos primeiros tempos da reconquista!

 

O intendente Qaris atreveu-se a aproximar-se da Rainha, sentada junto da acácia à qual confiara a sua carta dirigida a Seken.

 

Majestade... Posso falar-vos?

 

Agora o silêncio é o meu território.

 

É grave, Majestade, muito grave!

 

O que haverá de mais grave do que o desaparecimento do Faraó? Sem ele, estamos privados de força.

 

Apopis fez gravar escaravelhos que anunciam a vossa morte. Se aquela falsa notícia se espalhar por toda a parte, os resistentes não tardarão a depor as armas e o Imperador terá vencido sem combater.

 

Ah-hotep pareceu ainda mais triste.

 

Apopis não se engana. Estou morta para este mundo. Em geral tão comedido, o intendente inflamou-se.

 

É falso, Majestade, e não tendes esse direito! Sois a regente das Duas Terras, o Alto e o Baixo Egipto, e haveis-vos comprometido a continuar a obra do Faraó Seken.

 

Ah-hotep esboçou um pobre sorriso.

 

Um inimigo implacável ocupa as Duas Terras. Ao matar Seken, matou-me a mim também.

 

De súbito, o intendente Qaris pareceu perturbado.

 

Majestade, a vossa carta... A vossa carta desapareceu! Ah-hotep levantou-se para olhar o ramo no qual prendera o papiro.

 

O Faraó Seken recebeu a vossa mensagem, Majestade! Não é esse o sinal que esperáveis?

 

Espero muito mais, Qaris.

 

Da estatueta em argila de Osíris, deitado no seu leito de morte aos pés da acácia, brotaram espigas de trigo.

 

Esta visão cortou a respiração de Ah-hotep, que ficou prestes a desfalecer.

 

Um largo sorriso iluminou o rosto do intendente.

 

O Faraó Seken ressuscitou, Majestade! Vive para sempre entre os deuses e será ele a guiar a vossa conduta.

 

Até mesmo em Tebas, os boatos espalhavam-se a toda a velocidade. Uns afirmavam que a Rainha Ah-hotep tinha morrido, outros que perdera o juízo e vivia agora encerrada no templo de Karnak. O governador Emheb preparava-se para capitular, implorando a clemência do Imperador.

 

E depois a boa notícia foi anunciada pelo Superintendente dos Celeiros, Herai: Ah-hotep estava viva, de boa saúde, e dirigir-se-ia às suas tropas no dia seguinte, de madrugada.

 

Muitos soldados continuaram cépticos.

 

Mas quando o Sol apareceu a oriente, a Rainha saiu do palácio, coroada com um fino diadema de ouro e envergando um longo vestido branco. A sua nobreza e a sua beleza impuseram um silêncio respeitoso.

 

Como este sol que renasce, a alma do Faraó ressuscitou na luz. Como regente, continuarei este combate até que Kamés seja capaz de ficar à frente do exército. Pretendo continuar de uma fidelidade absoluta ao Rei defunto. Foi por isso que criei, em Karnak, a função de ”Esposa do Deus” que sou a primeira a desempenhar. Nunca voltarei a casar e o meu único companheiro continuará a ser o meu marido, que repousa no segredo do deus Amon. Quando o Egipto for libertado, se eu ainda for deste mundo, retirar-me-ei para o templo.
Larápio e a sua equipa de pombos-correio tinham abandonado Tebas de manhã cedo, portadores de mensagens dirigidas à frente. Anunciavam que a regente Ah-hotep estava de perfeita saúde e que o combate contra os hicsos continuava. Era dada ordem para destruir os escaravelhos que propagavam falsas informações.

 

Agora a base militar situada a norte da cidade de Amon já não era secreta. Tornara-se oficialmente o quartel-general do exército de libertação, com o seu palácio, os seus fortins, a sua escola de escribas, a sua caserna, o seu arsenal e os seus alojamentos. Um destacamento especial protegia Tebas onde já ninguém pensava em colaborar com os hicsos. O sacrifício de Seken, as suas primeiras vitórias e a posição assumida pela Rainha Ah-hotep devolviam a toda a população o gosto pela luta.

 

Com o auxílio da mãe e graças à exploração do filão de prata que descobrira no deserto, Ah-hotep empenhara-se em devolver o esplendor à Casa da Rainha. É verdade que a velha instituição estava ainda longe do seu passado brilhantismo, mas os edifícios oficiais de Tebas e da base militar já não estavam reduzidos às fachadas decrépitas. Animava-os de novo um pessoal qualificado; sob a direcção de Qaris, escribas e artesãos rivalizavam de ardor.

 

Ah-hotep, a mãe e Herai estavam precisamente em frente da maqueta do intendente. Representava o Egipto, da ponta do Delta a Elefantina. Quando a Rainha a vira pela primeira vez, um único lugar escapava ao ocupante: Tebas. Hoje, a situação tinha evoluído, sem ser brilhante.

 

Tebas, El-Kab, Edfu: eis as três cidades de que temos a certeza precisou Qaris. Mais a sul, Elefantina está sob o controlo dos núbios, os aliados dos hicsos. E não podemos esquecer, entre Tebas e Edfu, a poderosa fortaleza hicsa de Gebelein. A norte, muito perto de Tebas, Coptos não foi completamente libertada. Titi, o seu governador, garante-nos que a sua rede de resistência basta, mas vai ser preciso com certeza enviar-lhe reforços. Muito mais a norte, Hermópolis continua a ser o principal trinco hicso. E não falo do Delta, inteiramente sob o domínio do Imperador.

 

Quais são as últimas novidades da frente? perguntou Ah-hotep.

 

Graças aos nossos pombos-correio, estamos em contacto permanente. O governador Emheb instalou o seu campo em frente da cidade de Cusae sustendo a primeira linha hicsa, que se contenta com disparos de flechas esporádicos. A forma como as nossas tropas estão dispostas e ocupam o terreno impede um ataque massivo dos carros.

 

Porque não se lança o Imperador ao assalto das nossas posições? espantou-se a Rainha.

 

Se quisermos ser optimistas declarou Herai temos de supor que tem preocupações suficientes que o fazem deixar para mais tarde o pequeno problema que nós representamos.

 

Todos os dias acrescentou Qaris Emheb consolida mais e mais a frente.

 

Os abastecimentos?

 

São garantidos pelos camponeses dos arredores que se ligaram à nossa causa, Majestade. As redes de resistência organizadas pelo Afegão e pelo Bigodes revelaram-se muito eficazes.

 

O nosso ponto fraco continua a ser o armamento, não é verdade?

 

É verdade. Não dispomos nem de carros nem desses estranhos animais, esses cavalos que os puxam e lhes dão uma velocidade incrível.

 

Não é uma razão para nos contentarmos com as nossas armas antigas afirmou Ah-hotep. Convoquemos todos os artesãos.

 

Na mão esquerda, a regente das Duas Terras segurava um ceptro de madeira com cabeça de Set. Na direita, a espada sagrada do deus Amon. A seu lado, orgulhoso e grave, o seu filho Kamés.

 

Com este ceptro declarou Ah-hotep perante os numerosos artesão reunidos percorrerei o Egipto libertado. Mas antes de realizar essa obra de paz, teremos de empregar esta espada que o deus de Tebas nos deu. Com ela, consagro o meu filho mais velho como chefe de guerra, não para a morte, mas para a vida. Que este raio de luz ilumine o seu pensamento e lhe confira a coragem de seu pai.

 

Com a ponta da espada de Amon, um gládio curvo em bronze coberto de prata com incrustações de électrum, Ah-hotep tocou na testa de Kamés. O brilho da lâmina foi tão fulgurante que os espectadores se viram obrigados a fechar os olhos.

 

O olhar do adolescente tinha mudado bruscamente, como se a sua consciência se abrisse a realidades insuspeitadas.

 

Em nome do Faraó e no da Rainha Liberdade jurou com uma solenidade que fez estremecer a assistência comprometo-me a combater até ao último fôlego para que o Egipto torne a ser ele próprio e a alegria dilate de novo os corações. Até que eu esteja pronto a realizar a minha tarefa, nunca mais terei um momento de repouso.

 

Kamés beijou a cimitarra de Amon e prostrou-se diante da regente. A infância acabava de morrer nele.

 

Todos sabem que o nosso armamento é inferior ao do inimigo reconheceu Ah-hotep. Compete-vos a vós, artesãos tebanos, reduzir essa desvantagem. Ides fabricar novas lanças, mais compridas, com pontas de bronze mais perfurantes e novos escudos de madeira reforçados também com bronze. No futuro, os soldados de infantaria terão a cabeça protegida por um capacete e o torso por uma couraça de cabedal grosso. Machados, maças e punhais deverão ser de melhor qualidade. E as tropas de elite serão equipadas com espadas curvas, semelhantes à de Amon. No corpo-a-corpo, graças a estas armas e à nossa vontade, seremos superiores aos hicsos. Agora, ao trabalho!

 

Aclamações saudaram as palavras da Rainha.

 

Que mulher extraordinária constatou o Bigodes, que nada perdera da cena.

 

É habitada por essa força que vocês chamam a magia acrescentou o Afegão. E aquele olhar... Quem não se sentiria subjugado?

 

Já te disse: acima de tudo, não te apaixones.

 

Porquê?

 

Já não tinhas qualquer hipótese, Afegão, mas ainda tens menos desde que a Rainha Ah-hotep se tornou ”Esposa do Deus”. A partir de agora, nenhum homem se aproximará dela.

 

Ah-hotep é demasiado bela para aceitar semelhante destino.

 

Foi ela que o escolheu. Como podes perceber, não lhe faltam nem carácter nem de ideias claras.

 

Lembras-te, Bigodes, quando entrámos para a resistência... Vencer os hicsos parecia-te impossível.

 

Para ser franco, continua a ser essa a minha opinião. Ah-hotep faz-nos girar a cabeça e quase seríamos capazes de esquecer o desequilíbrio das forças. Pouco importa... Dá um sentido à nossa vida e à nossa morte.

 

A fim de consolidar mais a frente, Ah-hotep decidira utilizar o heka, essa força mágica nascida da luz de que se tornara depositária durante a sua viagem a Dendera, em companhia de Seken. O heka mais intenso era o da cidade santa de Heliópolis, infelizmente nas mãos dos hicsos. Mas aquele de que dispunha a regente bastava-lhe para fazer estacar o adversário, pelo menos durante algum tempo.

 

Na capela de Mut, em Karnak, um ritualista fabricou figuras de cera representando hicsos atados e incapazes de fazer mal. Depois, em taças vermelhas, Ah-hotep escreveu o nome de Apopis e antiquíssimas fórmulas que ordenavam à serpente destruidora que cuspisse o seu veneno e caísse sobre a sua face.

 

Que o sopro anime estas figurinhas declarou a Rainha e as queime. Que a cera, nascida da abelha, símbolo do reino do Baixo Egipto e do Delta, se torne nossa aliada.

 

As chamas crepitaram, os rostos odiosos dos hicsos deformaram-se e Ah-hotep quebrou as taças vermelhas.

 

Posso falar-vos em particular, Majestade? solicitou o intendente Qaris à regente quando esta saiu do templo.

 

Pareces perturbado... Más notícias da frente?

 

Não, tranquilizai-vos. Mas reflecti muito e não posso guardar para mim conclusões que só vós deveis conhecer.

 

Volumoso, de faces redondas, com uma calma imperturbável, Qaris conseguia em geral transmitir o seu bom humor, mesmo nos momentos mais difíceis. Ah-hotep nunca o vira tão deprimido.

 

Podemos afastar-nos, Majestade? Ninguém deve ouvir o que vos vou dizer.

 

A Rainha e o intendente seguiram ao longo do desembarcadoiro do templo.

 

O inimigo externo é temível declarou Qaris mas o inimigo interno não é menos. Felizmente, Herai livrou-nos dos colaboradores e a população só a vós idolatra. Além disso, Tebas sente bem que já não pode recuar e que teremos de ir até ao fim da aventura: a destruição ou a liberdade.

 

Sei tudo isso, Qaris. Receias o nascimento de um partido da colaboração?

 

Não, Herai está muito vigilante, e Tebas não voltará para trás, tenho a certeza. Trata-se de outra coisa, igualmente grave.

 

O intendente tinha a boca seca.

 

Há muitos anos que a minha principal tarefa consiste em coligir informações e extrair delas o essencial. Bem entendido, estudei com cuidado os relatórios referentes à morte trágica do Faraó Seken.

 

Ah-hotep imobilizou-se.

 

Notaste alguma anomalia?

 

Majestade, estou convencido que o vosso marido caiu numa cilada. Os hicsos esperavam-no naquele local, sabiam como isolá-lo e assassinaram-no graças às indicações que lhes foram fornecidas por alguém muito bem informado.

 

Queres dizer... que há um traidor entre nós?

 

Não tenho a prova formal disso, mas é essa a minha íntima convicção.

 

Ah-hotep ergueu os olhos verdes para o céu. Não previra aquele golpe baixo.

 

Tens suspeitas mais precisas, Qaris?

 

Não, Majestade, e espero estar enganado.

 

Se tiveres razão, as minhas principais decisões deverão portanto ficar secretas.

 

O mais possível, com efeito. E recomendo-vos que desconfieis de toda a gente.

 

Pelo menos de ti não, Qaris!

 

Só tenho a minha palavra para vos oferecer, Majestade.
A destruição do último cemitério egípcio de Auaris tinha provocado uma revolta inesperada: a das viúvas e dos viúvos idosos. Tinham-se reunido, desesperados, para marchar sobre a cidadela e protestar contra a decisão do Imperador.

 

Espantados, os guardas viam desabar sobre eles aquela vaga de mendigos inofensivos, bom número dos quais se deslocava com dificuldade. Bastaram algumas lanças para os deter.

 

Voltem imediatamente para casa ordenou-lhes um oficial anatólio.

 

Queremos manter o nosso cemitério protestou um octogenário que se apoiava na sua bengala. A minha esposa, os meus pais, o meus avós e os meus bisavós estão lá enterrados. O mesmo acontece com a maior parte dos meus compatriotas. Os nossos mortos não ameaçam a segurança do Império, que eu saiba!

 

Ordens são ordens.

 

Silenciosos e determinados, os contestatários sentaram-se. Não oferecia qualquer dificuldade exterminá-los, mas o oficial preferiu consultar um superior.

 

Velhos? espantou-se Khamudi.

 

Recusam-se a voltar para casa e querem ser recebidos pelo Imperador.

 

Esses imbecis ainda não compreenderam que os tempos mudaram! São barulhentos?

 

Não, de maneira nenhuma. Como desejais que os executemos?

 

Executá-los... Tenho uma ideia melhor. Vai buscar a dama Aberia. Eu solicito autorização ao Imperador.

 

Com as suas mãos maiores do que as de um colosso, a dama Aberia entregava-se ao seu prazer favorito: estrangular. De momento, contentava-se com uma gazela, cujos melhores pedaços seriam servidos à mesa de Apopis. Mas era muito menos divertido do que torcer o pescoço de uma aristocrata egípcia reduzida à categoria de escrava. Graças à esposa do Imperador, a dama Aberia não tinha falta de presas, umas assustadas, outras gesticulantes. A sua sede de vingança era inextinguível e Apopis aprovava aquela política de terror que dissuadia os vencidos de lhe resistir.

 

O grande tesoureiro chama-vos com urgência informou o oficial.

 

A dama Aberia sentiu um delicioso arrepio. Conhecendo Khamudi, só se podia tratar de uma tarefa exaltante.

 

O que é este rebanho de velhos? perguntou ela.

 

Temíveis revoltosos respondeu Khamudi.

 

Eles, temíveis? - espantou-se Aberia.

 

Muito mais do que possas julgar! Estes velhos são detentores de tradições prejudiciais que transmitem aos mais novos. É por isso que não podem continuar em Auaris onde dão mau exemplo. O seu lugar é noutro lugar, longe daqui.

 

O interesse da dama Aberia começou a despertar.

 

E competir-me-ia a mim... tratar disso?

 

Perto da nossa base de retaguarda da Palestina, em Charuhen. há zonas pantanosas onde poderia ser criado um campo de prisioneiros.

 

Um simples campo de prisioneiros... ou um campo de extermínio?

 

Como quiseres, dama Aberia.

 

A estranguladora considerou os seus prisioneiros com outro interesse.

 

Tendes razão, grande tesoureiro. São realmente perigosos revoltosos e como tal os tratarei.

 

O cortejo avançava pela pista que seguia ao longo dos lagos, na direcção de leste. Confortavelmente instalada na sua cadeira de transportadores, a dama Aberia obrigava o rebanho de escravos a andar o mais depressa possível, concedendo-lhe apenas uma paragem e um pouco de água de cinco em cinco horas.

 

A resistência daqueles velhos egípcios espantava-a. Apenas alguns tinham caído desde o início da viagem e Aberia não deixara a ninguém o trabalho de lhes torcer o pescoço. Os seus cadáveres fariam as delícias dos abutres e outras aves que se alimentavam de cadáveres. Um único deportado tentara fugir, imediatamente abatido por um polícia hicso.

 

Os outros avançavam, passo-a-passo, sob um sol escaldante.

 

Quando algum fraquejava, os mais fortes apoiavam-no como podiam e obrigavam-no a continuar.

 

Por vezes, o coração falhava. O cadáver era abandonado na beira da pista, sem ritual nem sepultura.

 

O primeiro a pedir mais água fora espancado até à morte. Assim, as viúvas e os viúvos avançavam sem se queixar, sob o olhar encantado de Aberia, que sonhava já em organizar outras viagens como aquela.

 

Não devemos perder a esperança disse um septuagenário à sua companheira de infortúnio. O meu filho faz parte de uma rede de resistentes e disse-me que a Rainha Ah-hotep se colocara à frente de um exército de libertação.

 

Não tem qualquer hipótese.

 

Já infligiu derrotas aos hicsos.

 

Em Auaris ninguém fala disso objectou a mulher.

 

A polícia do Imperador está bem organizada... Mas mesmo assim a notícia acabará por se espalhar! O exército tebano atingiu Cusae e tem com certeza intenção de atacar o Delta.

 

Os Hicsos são demasiado poderosos e os deuses abandonaram-nos.

 

Não, tenho a certeza que não!

 

Apesar das suas reticências, a viúva murmurou ao ouvido do seu vizinho que transmitiu a informação à sua vizinha. Pouco a pouco, todos os prisioneiros ficaram a saber que Tebas levantara a cabeça e que se iniciara o combate. Os mais extenuados recuperaram forças, o caminho pareceu menos penoso, apesar do calor, da sede e dos mosquitos.

 

Depois da de Auaris, a praça forte de Charuhen era a mais impressionante do Império. Torres elevadas permitiam controlar os arredores e o porto. A cidade de guarnição aquartelava tropas de choque capazes de intervir a qualquer momento na Siro-Palestina e sufocar no berço a mínima tentativa de sedição.

 

De acordo com as ordens de Apopis, os hicsos efectuavam expedições punitivas a intervalos regulares com o intuito de recordarem à população civil que a lei do Imperador era inviolável. Pilhavam uma aldeia, queimavam-na, violavam as mulheres e usavam-nas em seguida como escravas com os filhos mais robustos. Era a distracção mais apreciada pela guarnição de Charuhen, cujo porto acolhia cargueiros carregados de alimentos em quantidade.

 

A chegada do miserável cortejo surpreendeu o comandante da fortaleza, que ficou impressionado pela musculatura da dama Aberia.

 

Missão oficial declarou ela com decisão. O Imperador deseja que eu estabeleça um campo de trabalhos forçados próximo da fortaleza. Decidiu deportar o máximo de revoltosos a fim de que não perturbem a ordem hicsa.

 

Mas... são só velhos!

 

Espalham ideias perigosas, susceptíveis de perturbar os espíritos.

 

Está bem, está bem... Devereis avançar para o interior das terras, porque há muitos pântanos por aqui e...

 

Isso convém-me perfeitamente. Quero que os degredados estejam ao alcance do tiro dos vossos archeiros que se encontram de guarda no alto das torres. Se um destes bandidos tentar franquear as barreiras que vamos erguer, abatam-no.

 

A dama Aberia escolheu o pior lugar: um terreno esponjoso, infestado de insectos e batido pelos ventos.

 

Ordenou aos prisioneiros que construíssem cabanas em cana onde habitariam a partir de agora, esperando a clemência do Imperador que, na sua grande bondade, lhes concedia uma ração quotidiana.

 

Uma semana mais tarde, metade dos velhos estavam mortos Os companheiros tinham enterrado os seus corpos na lama que escavavam com as mãos. Eles próprios não sobreviveriam muito tempo

 

Muito satisfeita, a dama Aberia retomou o caminho de Auaris, onde agradeceria calorosamente a Khamudi pela sua iniciativa. Competia-lhe preparar a próxima deportação de revoltosos que, depois de terem saboreado os encantos de Charuhen, não causariam mais nenhum aborrecimento ao Imperador.
Já quase com vinte anos, Vento do Norte exercia uma função importante à frente dos burros de Tebas. Era ele que guiava os valorosos jumentos pelos carreiros e velava pelo transporte dos materiais. Nunca se eximia ao trabalho, desde que os humanos fizessem o mesmo e não ficassem de costas ao alto.

 

Ah-hotep sabia que, sem Vento do Norte e os seus colegas de quatro patas, a base militar não teria podido ver a luz do dia. E o burro continuava a trabalhar com a mesma constância e a mesma noção do trabalho bem-feito.

 

No entanto, aquela bela manhã de Primavera fora marcada por um luto. De madrugada, Risonho morrera. Depois de ter salvo a Rainha Liberdade, sendo o seu infalível guarda-costas, o velho molosso, com o organismo gasto, poisara docemente a enorme cabeça sobre os pés da Rainha, dirigindo-lhe um último olhar, terno e cúmplice. Depois, emitira um único estertor, longo e profundo.

 

Felizmente, Risonho, o Jovem, com seis meses, prometia vir a ser tão forte e inteligente como o pai. Com a pelagem cor de areia, a trunfa negra e os olhos alaranjados, detectava já a mínima intenção da dona.

 

Risonho, o Antigo, foi mumificado e enterrado próximo do Faraó Seken. Com ele, era a juventude de Ah-hotep que desaparecia, as horas de aventura e felicidade vividas em companhia do marido. Sob as tiras de pano fora introduzido um papiro comportando as fórmulas mágicas indispensáveis para franquear as portas do outro mundo.

 

Vento do Norte, partilhando o desgosto da Rainha, tocou-lhe docemente no ombro com o focinho. Ela acariciou-lhe o pescoço e pediu-lhe que concedesse a sua amizade ao jovem cão que tinha ainda muito a aprender.

 

Em sinal de aprovação, ele sacudiu as grandes orelhas.

 

O relatório de Aberia encantava o Imperador, de um mau humor terrível depois do fracasso da sua operação de desinformação. Porque não tinha pensado mais cedo em organizar deportações e abrir um campo de extermínio onde desapareceriam os resistentes? Aquela nova iniciativa tomada por Khamudi revelava-se excelente, Charuhen era um êxito total.

 

Pouco a pouco, Auaris seria esvaziada dos seus contestatários, mesmo potenciais, e os hicsos conservariam apenas os escravos indispensáveis para efectuarem as tarefas mais baixas.

 

Majestade disse Khamudi com antecipado prazer tenho aqui uma lista de rebeldes cujas atitudes ou as palavras merecem a deportação.

 

Guarda-me alguns para o touro e para o labirinto.

 

Com certeza, Majestade. Mas devo prevenir-vos: não há só egípcios.

 

Apopis franziu as sobrancelhas.

 

Um escriba hicso faltou-me ao respeito explicou Khamudi e um jardineiro anatólio desagrada à minha esposa. Não merecem ser chamados à ordem?

 

Muito bem admitiu o Imperador. Eu acrescento um guarda do palácio que cometeu a asneira de dormir com a minha doce irmã Ventosa e de se queixar das horas de serviço demasiado pesadas. Ninguém se deve entregar a esse género de críticas. O campo de Charuhen pôr-lhes-á as ideias no lugar. A dama Aberia que se ocupe desse novo grupo.

 

A deportação das viúvas e dos viúvos espalhara o terror na população egípcia do Delta. Ninguém se sentia ao abrigo das decisões arbitrárias do Imperador e de Khamudi. As minúsculas redes de resistência não se atreviam a tomar a mínima iniciativa e contentavam-se em recolher algumas informações provenientes da frente, na esperança de que fossem autênticas. Mas quase todos ignoravam ainda que um exército de libertação atingira Cusae.

 

Nas Cíclades, Jannas conquistava vitórias em cima de vitórias, mas detectar e perseguir os navios piratas demorava muito tempo. E o almirante deixava uma parte da sua frota a vigiar Creta, cuja intervenção receava.

 

Na Ásia, as tropas hicsas impunham uma ocupação sangrenta, pontuada por execuções sumárias. Apesar dessa brutalidade, havia chefes de clã que se obstinavam em pegar em armas. Nenhum resistia muito tempo e acabavam todos empalados, tal como os membros da sua família. Mas aquela irritante efervescência impedia Apopis de repatriar os seus regimentos e de os lançar ao assalto do Alto Egipto.

 

A Rainha Ah-hotep é incapaz de avançar observou Khamudi. A sua miserável tropa não tardará a ficar esgotada. Não me surpreenderia uma capitulação próxima. Que erro terem escolhido uma mulher como chefe de guerra! Decididamente, estes Egípcios nunca serão combatentes.

 

Partilho o teu ponto de vista concordou o Imperador. Sabemos, com efeito, que os tebanos mal são capazes de controlar algumas províncias afastadas. No entanto, é possível atacar a raiz do mal e suprimir a causa desta estúpida revolta sem ter de travar batalha. Um dos nossos bons amigos vai encarregar-se disso.

 

Tal como prometera, o príncipe Kamés não tinha descanso. Treinava com tanta intensidade no manejo das armas que o seu corpo se tornara o de um atleta e era necessária toda a autoridade da Rainha para o obrigar a deitar-se algumas horas a fim de evitar o esgotamento. Mas Kamés quase não dormia, perseguido pelo rosto do pai, o modelo que queria seguir.

 

Com a mãe, aprendia a arte de governar. Em companhia do irmão mais novo, concentrado e atento, lia os textos de sabedoria transmitidos pelos Faraós da Idade do Ouro. Às vezes, dava consigo a sonhar que o Egipto era verdadeiramente livre, que era possível as pessoas deslocarem-se de uma província para outra e navegarem serenamente no Nilo. Mas a realidade apanhava-o como uma mordedura e, com a raiva no coração, continuava a sua aprendizagem de Faraó.

 

Quando Ah-hotep estava a reunir os membros de um destacamento destinado a Coptos, o intendente Qaris avisou-a que um visitante inesperado solicitava audiência: um delegado de Titi, o governador de Coptos!

 

O homem era pequeno, gordo e barbudo. Curvou-se diante da regente.

 

Majestade, tenho boas notícias! O governador Titi conseguiu finalmente libertar a cidade. Os últimos hicsos rugiram e nós apoderámo-nos de um navio de mercadorias que continha numerosas jarras com alimentos. Eis algumas, enquanto esperamos outras presas.

 

Tratavam-se realmente de jarras hicsas, bojudas e pintadas de castanho.

 

Eu e dois soldados da guarda pessoal de Titi transportámo-las seguindo os caminhos dos campos explicou o barbudo. A região está tranquila, os camponeses retomam confiança. Os habitantes de Coptos esperam-vos, Majestade!

 

O governador tem a certeza do seu êxito?

 

Em caso contrário, Majestade, não me teria enviado a Tebas. Titi sofreu muito com a ocupação e é um homem prudente.

 

Ah-hotep recordava-se da sua breve estadia em Coptos em companhia de Seken. Durante o seu encontro, o governador afirmara-lhe que tinha organizado a resistência com o máximo de precauções, apresentando-se como aliado dos hicsos que controlavam a sua cidade.

 

Leva as tuas jarras para as cozinhas ordenou o intendente Qaris.

 

Almoçarás connosco acrescentou a Rainha e dar-nos-ás pormenores sobre a libertação de Coptos.

 

O mais esfomeado era Risonho, o Jovem. Sem o olhar carrancudo de Ah-hotep, teria de boa vontade saltado sobre os pratos que os servidores depositavam na mesa real. O cão fingia-se um infeliz que não era alimentado há vários dias e conseguia sempre descobrir um crédulo pronto a vir em seu socorro.

 

Os hicsos dominam ainda as pistas das caravanas? perguntou a Rainha ao enviado do governador Titi.

 

Já não será por muito tempo, Majestade. Mas vamos precisar de desmantelar os fortins que implantaram no deserto, até ao Mar Vermelho.

 

O governador possui um mapa pormenorizado?

 

Sim, graças aos caravaneiros que se alegram por escapar finalmente ao jugo hicso! Utilizando as suas indicações, poderemos atacar o inimigo de surpresa e desmantelar uma a uma as instalações.

 

Aplicando aquela estratégia, Ah-hotep libertaria mais a província tebana, que receberia de novo as mercadorias de que estava privada há muitos anos.

 

De quantos homens dispõe o governador?

 

Enquanto o pequeno barbudo se lançava em explicações bastante confusas, a Rainha comia maquinalmente um prato de favas e vaca grelhada.

 

De repente, um focinho de cão levantou-lhe o pulso.

 

Risonho! És na verdade muito atrevido...

 

Com a pata esquerda, o cão voltou o prato e começou a ladrar olhando para o enviado de Coptos. A Rainha compreendeu. O seu melhor guarda-costas tentara salvá-la.

 

Prendam esse homem! ordenou.

 

O barbudo levantou-se e correu para a porta da sala de refeições. Dois guardas barraram-lhe o caminho.

 

Esta comida está envenenada disse Ah-hotep e eu comi dela.
Começando a sentir-se mal, a Rainha Ah-hotep estendera-se num leito baixo. A mãe humedecia-lhe a testa com um pano perfumado.

 

O homem falou referiu Herai, que acabava de realizar um interrogatório duro. Foi ele que envenenou o vosso prato com sementes de rícino e veneno de escorpião. Se o vosso cão não tivesse intervindo, Majestade, estaríeis morta.

 

Deitado ao pé do leito, o molosso decidira nunca mais abandonar a sua dona.

 

Ele vinha realmente de Coptos? perguntou Ah-hotep.

 

Sim, Majestade.

 

Agiu portanto por ordem do governador Titi.

 

Sem sombra de dúvida: foi ele que enviou este assassino, provavelmente para dar satisfação ao Imperador.

 

Temos de tomar Coptos o mais depressa possível considerou a regente.

 

Ah-hotep tentou levantar-se, mas violentas dores no estômago impediram-na de o fazer.

 

Vamos imediatamente ao templo de Hathor declarou Teti, a Pequena, inquieta. As sacerdotisas saberão curar-te.

 

Apesar de uma mistura composta por cebola, alfarroba, extracto de linho e de uma planta chamada ”madeira-de-serpente”, Ah-hotep fora vítima de um grave mal-estar no caminho que conduzia ao sítio de Deir el-Bahari, onde o Faraó Montuhotep II, tinha construído um extraordinário edifício.

 

Uma vez ultrapassado o vasto pátio de entrada plantado com árvores, chegava-se a um pórtico. Às suas colunas estavam encostadas estátuas representando o Rei com a sua coroa vermelha e envergando a túnica branca justa que usava durante a festa de regeneração. O negro do rosto, das mãos e das enormes pernas do monarca tornava-o quase assustador.

 

Usando as três cores da alquimia da ressurreição, o Faraó desmultiplicara-se assim em outros tantos guardas que velavam pelo monumento central, uma representação da colina primordial, a ilha da primeira manhã do mundo na qual a luz se corporizara.

 

Junto do santuário, sacerdotisas da deusa Sekhemet veneravam uma muito antiga estátua instalada diante de um vasto tanque de pedra onde, em caso de doença grave, alguns pacientes eram autorizados a banhar-se.

 

Sou Teti, a Pequena, e confio-vos a Rainha do Egipto que acaba de ser envenenada.

 

Herai transportava nos braços Ah-hotep desmaiada.

 

Deveis ler em voz alta o texto inscrito na estátua recomendou a superiora.

 

”Vem até mim, tu cujo nome é oculto, mesmo para os deuses, tu que criaste o céu e a terra, e colocaste no mundo todos os seres. Nenhum mal ocorrerá contra ti, porque és a água, o céu, a terra e o ar. Que a cura me seja concedida.”

 

Depois de se ter enrugado, a água borbulhou.

 

O génio da estátua aceita a doente concluiu a superiora. Dispam-na e mergulhem-na no tanque.

 

Enquanto Teti e as outras sacerdotisas obedeciam, a superiora deitou água sobre os hieróglifos, enquanto uma das suas colegas recolhia o precioso líquido, actualmente impregnado de uma energia mágica.

 

Nota: Os Montuhotep são uma das duas linhagens principais da XI dinastia (2060-1991 a. C.).

 

Logo que Ah-hotep, ainda inconsciente, foi estendida no banho, a serva de Sekhmet aspergiu-lhe a garganta com a água curativa.

 

Depois de ter repetido sete vezes o gesto, pediu a todas as protagonistas que se afastassem.

 

A minha filha sobreviverá? perguntou a Rainha-Mãe, angustiada.

 

A superiora permaneceu silenciosa.

 

Coptos estava em festa.

 

Em agradecimento pelos serviços prestados aos hicsos, o governador Titi recebera autorização para celebrar a festa de Min. Bem entendido, alguns episódios do cerimonial eram omitidos, como a procissão das estátuas representando os antepassados reais. O único Faraó era Apopis.

 

Obedecendo às suas ordens, Titi acabava de pôr fim a uma guerra inútil que teria visto morrer sem necessidade milhares de- egípcios. Há já muito tempo que o governador compreendera que o poder dos invasores se consolidava cada vez mais e que o seu país se tornara uma província hicsa. Jogando um subtil jogo duplo, preservara algumas das suas prerrogativas e permitira aos seus protegidos não viverem muito mal com a ocupação. No fundo, bastava renunciar aos valores tradicionais e acomodar-se às exigências do Imperador.

 

Por exemplo, aquela velha festa do deus da fecundidade, tanto espiritual como material, perdia qualquer carácter sagrado para se tornar uma diversão popular, acompanhada por uma glorificação de Apopis, benfeitor do Egipto.

 

Se não tivesse havido aquela louca Ah-hotep e o seu insensato marido, a província tebana teria continuado a viver dias serenos Por sorte, Seken fora morto e o exército de libertação apodrecia em Cusae.

 

O último perigo era a Rainha. Por tê-la encontrado em Coptos, muitos anos antes, Titi sabia que não renunciaria a combater. Obstinada, recusava-se a admitir a realidade. Por causa dela, o Sul arriscava-se a ser vítima de uma terrível repressão.

 

Graças a Titi, Coptos seria poupada. Enviando a Tebas o seu melhor auxiliar para envenenar Ah-hotep, o governador tornava-se um herói do Império. O desaparecimento da Rainha seria sinónimo do fim dos combates. Era essa a excelente novidade que Titi ia anunciar à população, feliz por estar em festa.

 

Está tudo pronto? perguntou ao seu intendente.

 

Sim, mas a polícia hicsa exige enquadrar o cortejo.

 

É natural: eu não suportaria nenhuma perturbação da ordem. Titi apressou-se a cumprimentar o chefe da polícia local, um sírio de rosto grosseiro.

 

Ao mínimo incidente anunciou o hicso meto na prisão os amotinados e mando executar metade.

 

Nada receie: os coptitas são pessoas razoáveis. Contentar-se-ão em divertir-se e agradecerão ao Imperador por estas festividades.

 

Os sacerdotes levaram em procissão a espantosa estátua do deus Min, envolvida na mortalha branca da ressurreição. Com o falo eternamente em erecção, incarnava a força procriadora que permitia à vida perpetuar-se sob todas as suas formas e, especialmente, originar o trigo.

 

Os prospectores do deserto, os mineiros e os caravaneiros viram passar a estátua com emoção, porque o deus possuía o segredo das pedras nascidas no ventre das montanhas. Com o braço levantado, formando um ângulo secreto conhecido dos construtores de templos, e empunhando o ceptro de três peles simbolizando os três nascimentos, celeste, terrestre e subterrâneo, Min reinava sobre as pistas distantes e guiava os aventureiros.

 

Um soberbo touro branco, calmo, seguia a estátua. Segundo a tradição, era a Rainha que controlava a sua violência natural para a transformar em força fecundadora. Mas a última soberana tinha morrido e Apopis proibia a presença das mulheres nos rituais.

 

Construíam já um alto mastro, com escoras e cordas. Os mais hábeis tentariam conseguir atingir em primeiro lugar o seu topo e retirar de lá os presentes tão cobiçados. A competição não se desenrolava sem choques e as quedas não tinham conta.

 

Há demasiados templos em Coptos disse o chefe da polícia ao governador. Vais manter um só, chegará perfeitamente.

 

Os outros serão transformados em casernas e armazéns de armas.

 

Titi aquiesceu. O Imperador detestava as manifestações evidentes da antiga cultura e Coptos gozava já de um regime de favor.

 

Tens a certeza da morte de Ah-hotep? perguntou o sírio.

 

Completamente. O homem que a envenenou foi executado, Tebas está de luto. Daqui a pouco, todos os revoltosos deporão as armas. Ah-hotep era a sua alma e o seu coração. Sem ela, não terão nem a força nem a coragem de continuar. Conheço bem os Egípcios: acreditarão que a sua Rainha foi vítima de um castigo divino porque as suas acções eram más. Não deveríamos favorecer a propagação dessa ideia?

 

Eu trato disso, governador.

 

Excepcionalmente, duas tabernas tinham sido abertas. Sob rigoroso controlo policial, vendiam má cerveja com que os festeiros se deveriam contentar. Ao primeiro sinal de embriaguez, o perturbador seria preso e deportado. O Imperador não tolerava falhas na ordem pública e a dama Aberia estava encantada por aumentar o número dos condenados destinados ao campo de Charuhen.

 

Esta beberagem é ignóbil disse o Afegão.

 

Não é melhor do que esta festa truncada acrescentou o Bigodes.

 

Em suma, fomos roubados. Quero ser reembolsado.

 

Chamamos o dono?

 

Esse parvalhão está morto de medo, precisamos de um verdadeiro responsável. Aquele polícia armado, por exemplo.

 

O Bigodes aproximou-se.

 

Meu bravo, o meu amigo e eu estamos muito descontentes. A procissão é medíocre, a cerveja intragável e o ambiente deprimente. É inadmissível, não?

 

Primeiro estupefacto, o polícia em breve recuperou o sangue-frio.

 

Vocês estão bêbedos, os dois! Sigam-me sem discutir.

 

Não podemos.

 

O que estás tu a dizer?

 

Ele tem razão aprovou o Afegão, não podemos. Em primeiro lugar, não estamos bêbedos; depois, não estamos aqui para nos divertirmos e ainda menos para frequentar as vossas prisões.

Quem julgas tu que és?

 

Um resistente que vai matar um polícia hicso, incendiar esta taberna miserável e dar assim ao exército de libertação o sinal para o assalto.

 

Logo que as chamas se elevaram, os soldados de Ah-hotep, metade dos quais estava misturado com a multidão, precipitaram-se sobre os membros do serviço de ordem hicsa. Bem treinados no combate próximo pelo Afegão e o Bigodes, beneficiaram do efeito de surpresa e suprimiram em poucos instantes a maior parte dos seus adversários.

 

Estupefacto, o chefe da polícia voltou-se para o governador.

 

Para o palácio, depressa! E que a tua milícia se junte aos meus homens.

 

Assustados, os sacerdotes tinham-se enfiado no templo com a estátua de Min. Dois adolescentes, do alto do mastro, atiravam potes aos polícias. Impulsionada pelo Bigodes, a população voltava-se contra o opressor. Vários hicsos foram espezinhados pelos coptitas, demasiado felizes por poderem exprimir um ódio tão longamente contido.

 

O chefe da polícia e o governador não foram longe.

 

Diante deles, Ah-hotep e os membros da guarda pessoal de Titi.

 

Fazem agora parte do exército de libertação declarou a Rainha.

 

Majestade, vós... não estais morta! Não, é um fantasma... Só pode ser um fantasma! Corramos até ao templo de Geb. Lá, não ousarão tocar-nos.

 

Ah-hotep impediu um archeiro de disparar.

 

Os dois fugitivos conseguiram abrir uma passagem na barafunda que se orientava definitivamente em favor dos egípcios.

 

O hicso e o seu aliado atingiram o vestíbulo do templo de Geb, cuja porta estava fechada.

 

Titi bateu com os punhos fechados.

 

Abram, é o governador! Exijo o direito de asilo! A porta permaneceu fechada.

 

De repente, um pesado silêncio caiu sobre a cidade.

 

Nem mais um grito de vitória ou de sofrimento, nem mais o som de uma voz, nem mesmo o ladrar dos cães.

 

Sós no vestíbulo, o polícia e o governador estavam rodeados pelo povo de Coptos e pelos soldados do exército de libertação.

 

Ah-hotep avançou.

 

Eis as palavras que são pronunciadas neste lugar de cada vez que aqui se realiza um julgamento: ”Que o perjuro receie o deus Geb, a força criadora que ama a verdade. A mentira é o que ele detesta. Compete-lhe decidir.”

 

O governador tornou-se implorante.

 

Majestade, não vos deixeis enganar a meu respeito! Fingia ser aliado dos hicsos para proteger melhor os meus concidadãos. Sem mim, muitos teriam sido executados ou torturados. Na realidade, sou fiel desde o início da nossa aventura! Recordais-vos, não é verdade? Compreendi imediatamente que tinha que confiar em vós. Eis duas provas da minha lealdade: em primeiro lugar, os nomes dos colaboradores que traem o Egipto em benefício dos hicsos, entre os marinheiros, os caravaneiros, os comerciantes... Dar-vos-ei todos, juro-vos! Depois, a segunda prova, ainda mais evidente!

 

O governador Titi cravou o seu punhal nos rins do chefe da polícia, derrubou o ferido e acabou com ele. O assassino ajoelhou.

 

Sou o vosso humilde servidor, Majestade! O olhar de Ah-hotep cintilou.

 

Não passas de um cobarde e conspurcaste este lugar sagrado. Eis o decreto que será conservado nos nossos arquivos: o teu cargo de governador é-te retirado, não será confiado a nenhum dos teus herdeiros, os teus bens serão atribuídos aos templos de Coptos, os teus escritos serão destruídos, o teu nome é para sempre maldito e esquecido. Se um Faraó te concedesse o seu perdão, seria indigno de usar a dupla coroa e imediatamente destituído pelos deuses.

 

Chefe disse o assistente aduaneiro ao seu superior há fumo.

 

Onde?

 

Parece que vem da cidade.

 

Com certeza algum velho edifício em chamas. Isso não nos diz respeito. Estamos aqui para cobrar taxas a todas as pessoas que passam na alfândega de Coptos, infligir-lhes uma multa máxima e conseguir o louvor do Imperador. Quanto ao resto, não nos interessa.

 

Chefe...

 

O que é outra vez?

 

Vêm aí pessoas.

 

Encarrega-te delas. Eu tenho uma dor no braço à força de pôr o selo na papelada e preciso de fazer a sesta.

 

É muita gente, chefe.

 

Diversos mercadores?

 

Não, chefe. Um exército.

 

O chefe aduaneiro saiu do seu torpor.

 

No Nilo, uma dezena de navios de guerra com archeiros. Na estrada, centenas de soldados egípcios comandados pelo Bigodes.

 

Eis o que eu tenho a declarar anunciou este com gravidade: ou vocês se rendem, ou vos massacramos.

 

Com as feições cavadas, o olhar baço, o bom gigante Herai curvou-se diante da Rainha.

 

Majestade, apresento-vos a minha demissão de Superintendente dos Celeiros e de responsável pela segurança interna de Tebas. Possais vós perdoar-me um dia a minha incompetência e a minha falta de clarividência. Ninguém cometeu falta mais grave do que eu, e tenho consciência disso. O único favor que imploro é o de não ser expulso desta cidade. Mas se decidirdes de outra forma, dar-vos-ei razão.

 

Não te censuro nada, Herai.

 

Majestade! Deixei um assassino aproximar-se de vós, envenenou a vossa comida e quase haveis morrido! Por minha causa, a luta da liberdade poderia ter sido interrompida. Não mereço outra coisa senão ser deposto.

 

Não, Herai, porque concretizas todos os dias a mais elevada das virtudes: a fidelidade. Será graças a ela que permaneceremos unidos e venceremos.

 

Majestade...

 

Dá-me a honra de conservar as tuas funções, meu amigo, e de as exercer com um máximo de vigilância. Eu própria cometi graves erros e receio cometer outros. Os nossos adversários não pararam de lançar contra nós os mais perversos assaltos. É por isso que nas nossas fileiras não pode surgir nenhuma falha.

 

O bom gigante estava comovido até às lágrimas.

 

Prostrou-se diante da Esposa do Deus que cada dia admirava mais.

 

Vais ter muito trabalho considerou a Rainha. Antes de ser executado, o governador Titi forneceu-nos uma lista impressionante de colaboradores. Bem entendido, misturou o verdadeiro e o falso a fim de que nós mesmos eliminássemos aliados sinceros. Terás portanto de verificar todos os casos com a máxima atenção para que nenhum inocente seja condenado.

 

Contai comigo, Majestade.

 

Vamos ver a maqueta.

 

Não foi sem uma profunda alegria que, na sua maqueta, o intendente Qaris fez entrar Coptos e a sua região na zona libertada. Não haveria mais ocupações hicsas, nem prisões arbitrárias, nem torturas... Um novo pulmão acabava de se abrir, o torno alargava-se.

 

Como Seken deve estar feliz murmurou a Rainha. Quando conseguirmos reabrir os caminhos das caravanas, muitas dificuldades materiais serão resolvidas.

 

Amanhã, entusiasmou-se Qaris celebraremos a verdadeira festa de Min!

E será a Rainha do Egipto que dirigirá o ritual venerando a memória dos seus antepassados

 

O magnífico rosto de Ah-hotep permanecia sombrio

 

Ainda é apenas uma modesta vitória Permanecerá sem futuro se não redobrarmos de esforços

 

O nosso armamento está a melhorar, Majestade, em breve corresponderá às vossas exigências.

 

Se queremos avançar para o Norte, precisamos de mais navios Os hicsos possuem carros e cavalos, nós sabemos utilizar o Nilo É necessário abrir imediatamente novos estaleiros navais e colocar um máximo de artesãos a trabalhar.
Apesar da sua resistência física e da sua capacidade para combater a adversidade, o governador Emheb sentia-se fatigado. Nele tudo era grande e excessivo: a cabeça, o nariz, os ombros e a pança. Tinha o aspecto de um folião, mas o seu pescoço de touro e olhar duro desmentiam aquela primeira impressão.

 

Quando governava a sua boa cidade de Edfu fingindo ter-se submetido aos milicianos hicsos, fora-os pouco a pouco eliminando para os substituir pelos homens da sua rede de resistência e reconquistar a sua cidade. Aliado principal da Rainha Ah-hotep, travara a seu lado as primeiras batalhas da guerra de libertação e sentira como uma tragédia a morte do Faraó Seken.

 

Nunca teria suposto que a jovem fosse capaz de resistir a semelhante choque. No entanto, com uma coragem que provocava a admiração dos mais cépticos, decidira continuar a obra começada pelo seu defunto marido.

 

Quando brilhava o Sol do amanhecer, vencedor do dragão das trevas, Emheb admitia o êxito de Ah-hotep. Depois, vinha o dia na frente, imobilizada há meses, e tinha de se render à evidência: por razões desconhecidas, Apopis deixava arrastar a situação. Ou o Imperador estava convencido de que os egípcios acabariam por renunciar, ou preparava um assalto massivo.

 

Mesmo reforçando as suas posições, Emheb não resistiria muito tempo a um ataque dos regimentos hicsos. Mas o governador, em quem Ah-hotep tinha uma confiança total, não recuaria. Ter atingido Cusae era uma façanha que devolvia aos seus compatriotas um pouco do perdido orgulho. Deviam essa felicidade a uma Rainha suficientemente audaciosa para tentar o impossível.

 

Emheb não tinha dúvidas. Ah-hotep ordenava-lhe que aguentasse, ele aguentava.

 

Governador solicitou-lhe Ahmés, filho de Abana, um jovem soldado de extraordinário valor é necessário tranquilizar os nossos soldados. Muitos julgam ainda que a Rainha Ah-hotep morreu e que seria preferível rendermo-nos antes de sermos exterminados.

 

Acabamos de receber mensagens assinadas pela sua mão! Está bem viva e reconquistou Coptos. Quanto a esses que se querem render, pensaram na sorte que lhes será reservada?

 

Faço-lhes exactamente esse discurso, governador, mas o boato age como um veneno. Era preciso...

 

O grito de um vigia interrompeu o jovem.

 

Eles atacam! Os hicsos atacam!

 

Emheb e Ahmés, filho de Abana, saíram imediatamente da tenda do governador e dirigiram-se para o seu posto de combate.

 

Emheb enviou pombos-correio para Tebas. A mensagem de que eram portadores reclamava reforços urgentes. Se não chegassem a tempo, a frente seria destruída e o exército inimigo precipitar-se-ia sobre o Sul.

 

A base militar de Tebas tornara-se um imenso estaleiro naval onde mesmo os soldados eram utilizados pelos carpinteiros navais para fabricarem um máximo de navios num tempo recorde, sem prejudicar a sua solidez.

 

Várias equipas iam buscar madeira a todo o lado onde ela existia, principalmente de acácia e de sicômoro. Desbastavam troncos e ramos com o machado, cortavam-nos em pranchas, utilizavam martelos e cinzéis para escavar entalhes, pesadas maças para fazer entrar neles as cavilhas, e as enxós de cabo curto para o acabamento. Ninguém contava as horas porque todos estavam conscientes de participar numa tarefa vital de que dependia o futuro do país. E os que espalhavam sobre as pranchas um verniz protector contendo óleo de cedro e cera de abelha alegravam-se por ver em breve um novo navio vogar no Nilo.

 

Ah-hotep inspeccionava constantemente o estaleiro e encorajava os artesãos. Quando um deles lhe parecia demasiado esgotado, a ponto de se arriscar a um acidente, ordenava-lhe que fosse repousar. Sempre acompanhado por Risonho, o Jovem, que velava pela dona com a mesma perspicácia do Antigo, a Rainha mobilizara as tecelãs de Tebas para o fabrico das velas de linho, algumas inteiras, outras formadas por tiras de diversas larguras e cosidas entre si com grande cuidado. Equipadas com aquelas velas, as unidades da frota de guerra egípcia ganhariam em velocidade.

 

Ah-hotep não deixava de examinar os remos de leme e de navegação. Os primeiros permitiam a pilotos experientes manobrar sem grande dificuldade num rio por vezes caprichoso; os segundos possibilitavam às equipas de remadores desenvolverem os seus esforços quando o navio subia a corrente ou na ausência de vento.

 

A Rainha exigira construção de diversos navios de carga, podendo cada um transportar mais de seiscentas toneladas de armas, de materiais diversos e de alimentos. A sua presença tornaria o exército egípcio autónomo, se conseguisse aventurar-se em território inimigo. Embarcariam mesmo vacas leiteiras, depois de terem implorado à deusa Hathor que acalmasse essas preciosas auxiliares. Vitelas e bois seriam presos a argolas fixas na ponte, mas os que fossem bons marinheiros poderiam deambular à sua vontade.

 

Um ruído de passos precipitados alertou Risonho, o Jovem, que mostrou primeiro os dentes e depois se sentou diante da dona com os olhos fixos no intendente Qaris.

 

Majestade, uma mensagem alarmante! Os hicsos tentam forçar a frente, Emheb pede socorro urgente.

 

Temos navios suficientes prontos a partir?

 

Não, Majestade. Sobrecarregar os que estão terminados conduzir-nos-ia ao naufrágio. E não seria perigoso deixar Tebas desguarnecida?

 

Não foi Larápio, demasiado fatigado, que voltou a partir para a frente, mas outro pombo, quase tão experiente como o seu chefe.

 

O traidor infiltrado entre os tebanos pensara primeiro abatê-lo, mas o seu projecto era irrealista. Nem mesmo um excelente archeiro podia ter a certeza de acertar, a menos que aproveitasse o momento do pombo levantar voo. Nesse caso, teria sido facilmente detectado

 

Restava um meio muito mais seguro.

 

O espião hicso envenenou a comida do pombo-correio que apenas ressentiria as primeiras perturbações a meio do percurso. Nunca chegaria a Cusae, Emheb julgar-se-ia abandonado e o exército do Imperador faria saltar o ferrolho que lhe fechava o caminho do Sul.

 

Ainda nada? perguntou o governador a Ahmés, filho de Abana.

 

Nenhum pombo.

 

A regente não nos pode abandonar!

 

Ou os nossos mensageiros foram abatidos, ou Tebas não é capaz de nos enviar reforços. Tanto num caso como no outro, teremos de nos desembaraçar sozinhos. Os assaltos hicsos ainda não são massivos e os nossos homens resistem bem. Poder-se-ia jurar que o inimigo testa a nossa solidez antes de enviar o grosso das suas tropas.

 

Multipliquemos as ciladas e os postos de tiro recomendou Emheb. É necessário que o adversário perca muito tempo a desmontar os nossos chamarizes. Os hicsos têm o número e a força, mas conhecem mal o terreno. Apesar de todas as nossas desvantagens, nada está perdido.

 

Era o que eu pensava, governador.

 

Os dois homens sabiam que mentiam um ao outro para melhor exorcizarem o medo e poderem bater-se corajosamente até ao fim.

 

Regresso aos postos avançados disse Ahmés, filho de Abana, cujo rosto juvenil não traía a mínima emoção

 

Quando te sentires em dificuldade, manda-me um mensageiro e irei ter contigo.

 

Que os deuses vos preservem, governador.

 

Que eles te protejam também, meu rapaz.

 

Emheb não lamentava nada. Desde o início daquela louca aventura, soubera que o exército de libertação não tinha dimensão para enfrentar o monstro hicso. Mas era no entanto o único caminho a seguir, mesmo que terminasse com a morte de Ah-hotep e a destruição de Tebas.

 

Pelo menos, aqueles anos de resistência tinham apagado a vergonha e a amargura. Deixando finalmente de se comportarem como cobardes, os Egípcios apresentar-se-iam perante o tribunal do outro mundo com o orgulho do dever cumprido.

 

Aproximam-se dois navios de guerra hicsos preveniu-o o ajudante-de-campo com um grande sorriso.

 

O governador julgou ser vítima de um sonho mau.

 

E isso alegra-te?

 

Oh, sim, governador, porque escolheram muito mal o momento!

 

Por que tens essa certeza?

 

Porque vão esbarrar com mais bela frota de combate que algum dia se viu, cerca de vinte navios egípcios provenientes do Sul, com a Rainha Ah-hotep à frente!
Coroada com o fino diadema de ouro da mãe, a espada de Amon sobre o peito, a Rainha Liberdade mantinha-se à proa do navio-almirante que os remadores faziam avançar a bom andamento.

 

A reacção dos navios hicsos foi imediata. Depois de terem recolhido as velas a toda a velocidade, voltaram para trás o mais depressa que puderam.

 

Nas margens, os soldados de infantaria egípcios soltaram gritos de vitória.

 

Finalmente, os esperados reforços!

 

Qual não foi a surpresa do governador Emheb, vendo descer dos navios de guerra alguns archeiros e numerosos camponeses que não se assemelhavam de maneira nenhuma a soldados.

 

Majestade, que felicidade voltar a ver-vos! Mas... quem são estas pessoas?

 

Habitantes de Coptos e agricultores das províncias libertadas. Formá-los-ás, governador, e ajudar-te-ão a consolidar a frente Não me era possível desguarnecer a base militar de Tebas E era-me igualmente impossível abandonar-te, como a minha mensagem te anunciava.

 

O rosto do governador ficou sombrio.

 

Não recebi essa mensagem, Majestade. Foi a vez de Ah-hotep perder o sorriso.

 

Tinhamos-te enviado um dos nossos melhores pombos.. O infeliz foi então morto no caminho.

 

Com certeza alguma ave de rapina considerou Emheb.

 

Com certeza repetiu a Rainha, pouco convencida.

 

O importante é que estejais aqui, no momento certo! Apesar dos desmentidos, alguns continuavam persuadidos da vossa morte.

 

Não voltarei a partir antes de me ter encontrado com cada um dos teus soldados. Ficarás com a quase totalidade dos navios, três quartos dos quais são cargueiros cheios de armas e de material. Em caso de necessidade, os outros servir-te-ão para regressar aTebas. Graças a novas velas, são mais rápidos do que os dos hicsos.

 

Ver a Rainha, poder falar-lhe, celebrar com ela o nascimento do Sol, ouvir a sua voz pedir aos deuses para não abandonarem a terra do Egipto e habitarem o coração dos soldados: assim foi apagado todo o receio do futuro.

 

Ah-hotep ofereceu um grandebanquete aos heróis que continham os hicsos, promessa das futuras noites de festa que celebrariam o Egipto libertado.

 

E mostrou-lhes o presente destinado ao Imperador, presente que desencadeou uma franca hilaridade.

 

O Imperador deixou cair sobre o pavimento de ladrilhos o escaravelho de calcário, como se se tratasse de um carvão em brasa.

 

Quem recebeu esta abominação e quem ousou enviar-ma?

 

Foi um archeiro egípcio que a lançou para dentro da nossa primeira linha, em Cusae respondeu Khamudi. Um oficial apanhou-o e entregou-o ao correio do exército.

 

Manda executar todos esses imbecis! Leste este texto, Khamudi, leste esta mensagem horrível que essa horrível mulher se atreveu a enviar-nos!

 

O grande tesoureiro apanhou o escaravelho, portador de belos hieróglifos desenhados com nitidez:

 

”Saudações ao vil bicsoApopis que ocupa o meu país. A Rainha Ah-hotep está bem viva, todos os Egípcios o sabem. E sabem também que não és invulnerável”

 

É uma imitação, Majestade!

 

Certamente que não, Khamudi! Em breve esta peste vai inundar o país com escaravelhos como estes, e contrariar a nossa política de desinformação. E a fronteira de Cusae está agora solidamente estabelecida!

 

Os nossos ataques-surpresa não foram nada eficazes, admito, mas ensinaram-nos que os egípcios agruparam o essencial das suas tropas naquele ponto e que são incapazes de avançar. E, depois, as notícias da Ásia são boas: os reizinhos locais acalmam-se, a ordem hicsa está restabelecida. Quanto a Jannas, persegue os últimos piratas nas encostas dos vulcões das Cíclades, onde se julgavam em segurança. Era indispensável eliminar esta escória. Resta saber, Majestade, se desejais que o almirante destrua Creta.

 

Vou reflectir decretou o Imperador em voz ainda mais rouca do que o habitual. Uma frase dessa desprezível mensagem não te surpreende?

 

Khamudi releu o texto inscrito no escaravelho.

 

”Todos os Egípcios o sabem”: isso subentenderá que existem ainda, no Delta, redes de resistência que propagariam informações vindas do Sul?

 

Um simulacro de sorriso desfeou ainda mais o rosto do Imperador.

 

Essa Rainha pretensiosa cometeu um erro ao querer insultar-me e fomos demasiado indulgentes com a população autóctone, Khamudi, demasiado... Exijo interrogatórios implacáveis e tantas deportações quantas forem necessárias. Que nenhuma cidade ou aldeia sejam poupadas.

 

A mãe fora violada e decapitada, o pai esventrado pelo touro do Imperador Devido à sua beleza, a jovem egípcia tivera a insigne honra de ser escolhida para se tornar uma das cortesãs do harém oficial de Auaris que, a qualquer hora do dia ou da noite, deviam estar prontas para satisfazer os caprichos dos dignitários hicsos.

 

Tratava-se apenas de uma sobrevivência cada hora mais pesada, mas a jovem esquecia tudo para combater à sua maneira.

 

Oferecendo-se a um dos seus guardas, que não estava autorizado a tocar naquelas fêmeas de luxo, conseguira convencê-lo de que o amava. O labrego apaixonara-se por ela e não podia dispensar o seu corpo.

 

Uma noite, depois de ter de novo enfeitiçado o brutamontes, solicitara um imenso favor: poder encontrar-se com o irmão, que trabalhava como marceneiro nos subúrbios de Auaris. O guarda contactá-lo-ia por intermédio de um palafreneiro. Vê-lo alguns instantes, abraçá-lo... Eis tudo o que ela desejava.

 

O guarda hesitara longamente. Se recusasse, qual seria a reacção da beldade? Talvez o mandasse passear... E ele nunca mais encontraria criatura semelhante!

 

O primeiro encontro fora organizado em plena noite, à entrada das cozinhas do harém que a prisioneira descrevera em pormenor ao ”irmão”, um resistente amigo dos seus pais e em contacto com o Sul. Infelizmente, não lhe podia proporcionar mais nada.

 

Em contrapartida, o que lhe fora dito era extraordinário: o exército de libertação existia realmente e era uma Rainha, Ah-hotep, que dirigia a luta! Em breve a notícia se propagaria no Delta e novos resistentes engrossariam a escassa rede actual.

 

Obcecava-a um projecto: fazer penetrar um comando no harém, matar os guardas e tomar como reféns os hicsos de elevada posição que ali se encontrassem.

 

O ”irmão” concordou.

 

Durante o segundo encontro, não viria portanto sozinho.

 

E esse momento tão esperado chegara finalmente.

 

Depois de ter amimado o comandante da guarda imperial, a instigadora da conspiração saiu do seu quarto e meteu por um corredor de serviço pouco iluminado.

 

Descalça, retinha a respiração.

 

Aquela hora, as cozinhas estavam desertas. Seria aqui que ela seria obrigada a entregar-se uma última vez ao guarda antes dele abrir a porta.

 

Aqui estou... Estás aí?

 

Ninguém respondeu.

 

Espantada, deixou que os olhos se habituassem à obscuridade, evitou um grande espeto que servia para assar os gansos e passou ao lado de um forno.

 

Sou eu... Onde te escondes, meu amor?

 

Com a garganta seca, esbarrou com um objecto que não deveria estar na passagem.

 

Abaixou-se e tocou em qualquer coisa viscosa.

 

Cabelos, um nariz, dentes...

 

No momento em que gritou de pavor, uma tocha iluminou a cozinha.

 

Eu próprio cortei a cabeça desse guarda disse a dama Aberia. Sabia que ele te andava a rondar, o que é formalmente proibido.

 

Assustada, a prisioneira encostou-se à parede. Aberia rasgou-lhe o vestido.

 

Tens uns lindos seios e o resto também não está mal. Antes de morrer, esse porco confessou-me que te deixara ver o teu irmão, o que também é proibido. Acabamos de o prender, lá fora, com dois dos seus amigos. Tencionavas introduzi-los aqui, não é verdade?

 

Eu... eu não tenho nada a dizer!

 

Então, minha pequena! O Imperador ordenou-nos que identificássemos todos os resistentes e creio que tive o faro apurado. Vais portanto contar-me tudo, caso contrário o teu lindo corpo sentirá o toque desta tocha.

 

A jovem tomou impulso e lançou-se sobre o espeto, que lhe trespassou a garganta.

 

Quando Aberia a puxou para trás, julgou ver nos olhos da morta um brilho de vitória.
Durante o dia, sob um sol cruel, a Rainha Ah-hotep trouxera pessoalmente a água e a comida aos carpinteiros navais que trabalhavam sem parar. Apesar do calor, Vento do Norte aceitava sem reclamar pesados carregamentos. Com o seu passo seguro e tranquilo, seguia a regente, sempre acompanhada por Risonho, o Jovem, com todos os sentidos alerta.

 

Só a presença activa da Rainha impedia os tebanos de mergulharem no desespero. É verdade que viviam de novo livremente, mas durante quanto tempo? A força hicsa apenas fora arranhada e, mais cedo ou mais tarde, a reacção do dragão seria terrível.

 

Mas havia Ah-hotep, a sua beleza, o seu sorriso e a sua determinação que nada conseguia enfraquecer. A alma de Seken vivia nela e dava-lhe a sua força.

 

Apenas Teti, a Pequena, sentia que a filha começava a duvidar.

 

Não deveríamos recuar a linha da frente e contentarmo-nos com Tebas? sugeriu-lhe enquanto jantavam no terraço do palácio da base militar.

 

Seria uma solução razoável, com efeito.

 

Por outras palavras, não te convém.

 

Não convém ao Egipto, mãe. Uma liberdade parcial apenas nos conduziria a uma prisão mais intolerável do que aquela de que saímos. Fechando-nos sobre o nosso pequeno território, tornar-nos-íamos uma presa fácil para o Imperador

 

- Recusas portanto a realidade, Ah-hotep!

 

Nunca aceitarei a imposta por Apopis, porque é contrária à lei de Maet. De reconhecermos a supremacia da violência e da injustiça, este mundo nunca mais será habitável.

 

Então o que projectas fazer?

 

Só nos restam poucas estátuas divinas e não as honramos suficientemente. Durante dez dias, oferecer-lhes-ei os melhores alimentos, implorando aos antepassados para inspirarem a minha acção. Sem o seu apoio, corremos para o fracasso. Em seguida, consultarei o deus Lua.

 

Teti, a Pequena, contemplou demoradamente a filha.

 

Ah-hotep, tornaste-te uma verdadeira Rainha do Egipto.

 

Realizava-se de novo o ritual de que dependia o equilíbrio do universo: pescado e depois reconstituído pelos deuses Tot e Hórus, o olho completo da Lua cheia brilhava com um clarão tão intenso que fazia abrir o espírito dos que o viam.

 

Tu, que conheces ontem, hoje e amanhã declarou Ah-hotep sabes que não renunciarei. A minha vida já não me pertence, ofereci-a ao meu povo. Viver escravizado é pior do que morrer. Traça-me um caminho no céu, seguí-lo-ei.

 

No disco de prata apareceram hieróglifos formando um nome

 

Ah-hotep compreendeu que o seu coração não acabara ainda de sangrar, mas os deuses não lhe deixavam escolha.

 

Põe de parte toda a lisonja e não me ocultes nada, Herai ordenou a Rainha. Está pronto ou não?

 

Majestade, o vosso filho é um autêntico soldado. Seria capaz de combater na primeira linha.

 

Quais são as suas fraquezas?

 

Rivaliza com os nossos melhores archeiros, sai vencedor de qualquer corpo-a-corpo e maneja a espada melhor do que o melhor E tudo isso quase sem dormir.

 

É respeitado? Herai baixou os olhos.

 

Majestade, não me atrevo a dizer-vos...

 

Quero saber!

 

A metamorfose foi tão impressionante! O vosso filho mais velho assemelha-se cada vez mais ao pai. Nunca vi um homem tão novo dotado de tais qualidades de chefia. Ele próprio não tem disso consciência, mas basta-lhe aparecer para ser obedecido.

 

Então o deus Lua expressara-se correctamente ao revelar à regente o nome de Kamés. Chegara a hora da coroação.

 

Sem querer ofender-vos, minha mãe, esta entrevista tem realmente um carácter de urgência? perguntou Kamés. Tencionava atirar ao arco durante toda a tarde, e depois...

 

É a regente que te fala.

 

A gravidade de Ah-hotep impressionou o rapaz. Juntos, avançavam lentamente ao longo do lago sagrado de Karnak. A luz era forte, o local sereno.

 

Todos vos veneram declarou Kamés mas tenho uma censura a fazer-vos: porque haveis de permanecer regente e não vos tornardes Faraó?

 

Porque essa função te pertence, meu filho.

 

Não possuo nem a vossa autoridade nem a vossa experiência!

 

O deus Lua decidiu que o tempo da minha regência estava a chegar ao fim e que o do teu reinado começava. Tens apenas dezassete anos, Kamés, mas deves suceder ao teu pai.

 

As feições do jovem contraíram-se.

 

Ele continua a ser o meu modelo... Como poderei igualá-lo?

 

Se te queres mostrar digno dele, ultrapassando-o.

 

Posso recusar este cargo?

 

Conheces a resposta, Kamés.

 

O filho mais velho de Ah-hotep imobilizou-se para contemplar a água azul do lago sagrado.

 

Como a guerra parece distante! No entanto, logo que eu for coroado, será o nosso primeiro dever. E não me poderei contentar com a situação actual, mas ir mais longe, muito mais longe... Julgais que sou capaz?

 

Os deuses exigem que o sejas

 

Sois o verdadeiro Faraó, mãe, e eu serei apenas o vosso braço armado! A deusa de Tebas não incarnou na vossa pessoa?

 

Lutarei a teu lado sem desfalecimento e nunca o meu apoio te faltará. Mas reinarás à tua maneira, Kamés, e de acordo com o tua própria maneira de ser.

 

Queima-me um fogo que me impede de dormir, mãe. De repente, assusta-me. Por causa dele, não tenho nem paciência nem distanciamento diante dos acontecimentos. Se me for concedido o poder, esse fogo obrigar-me-á a atacar qualquer obstáculo, mesmo inultrapassável!

 

Ah-hotep beijou Kamés na testa.

 

És meu filho e amo-te.

 

O Bigodes gostaria de viver milhares de noites como aquela! A filha do armazenista era tão bela como a deusa Hathor. Com os seus seios redondos bem altos, o delicioso ventre liso e as pernas finas, quem não teria ela seduzido? E fora ele, o combatente de físico rude, que ela escolhera, pelo menos por algumas horas.

 

A guerra não tinha só coisas más. Em tempo normal, aquela jovem beldade não teria pensado senão em fundar uma família. Hoje, quem podia ter a certeza de sobreviver muito mais tempo? Formavam-se e desfaziam-se ligações breves, os corpos exultavam e esqueciam a angústia durante intensos momentos de prazer.

 

O Bigodes acariciava a amante adormecida quando um raio de Sol lhe bateu no canto do olho.

 

As novas recrutas! Deviam estar à espera dele há longos minutos Como oficial superior, competia-lhe a ele recebê-las E a regente não apreciava nada as distorções da disciplina.

 

Sem perder tempo a barbear-se, o Bigodes cingiu os rins com um saiote de cabedal e precipitou-se para o campo de treino

 

Vazio.

 

A base estava deserta e silenciosa. Apenas as sentinelas, no cimo das torres de vigia, permaneciam no seu posto.

 

O Bigodes voltou para as casas dos oficiais e entrou na do Afegão, que travava um combate mais doce do que o habitual.

 

Abraçava uma linda morena de olhos maquilhados. A filha mais velha do armazenista não parecia mais arisca do que a mais nova.

 

Hmmm... Sou eu.

 

Ninguém duvida, Bigodes. Caíste da cama?

 

Não percebo nada... Não há um só soldado em exercício!

 

Estavas realmente bêbedo ontem à noite. Expliquei-te que o exército tinha direito a uma semana de descanso devido à coroação de Kamés.

 

O Bigodes bateu na testa com o punho fechado.

 

Agora estou a lembrar-me!

 

Importavas-te de sair?

 

Não, não... também eu tenho uma tarefa urgente a terminar.
Durante a coroação de Seken, o Faraó tivera que se contentar com um simples diadema, porque os sacerdotes de Karnak não possuíam nem a coroa vermelha do Baixo Egipto nem a branca do Alto Egipto, provavelmente destruídas pelos hicsos.

 

Depois de ter consultado os arquivos, o Sumo Sacerdote de Karnak via-se obrigado a formular outra hipótese.

 

Outrora, Majestade disse ele a Ah-hotep a coroa vermelha estava conservada num templo de Mênfis e a branca na antiga cidade de Nekhen. Infelizmente, esse lugar sagrado foi pilhado e devastado pelos invasores. Irdes lá seria certamente inútil, mas...

 

Nekhen, no sítio de El-Kab, que tanto sofrera com o vandalismo hicso! A cidade onde a jovem Ah-hotep tinha reencontrado um velho sábio, criador de pombos-correio, estava hoje na zona livre mas já não restava nada dos seus antigos tesouros.

 

Parto para Nekhen decidiu a Rainha.

 

Desde que o governador Emheb libertara a região, El-Kab tinha mudado muito. A vida circulava de novo nas ruelas ladeadas de pequenas casas brancas reconstruídas de acordo com a tradição, embora os habitantes não tivessem ainda qualquer garantia...

 

Nota: Denominada Hieracômpohs pelos gregos

...quanto ao seu futuro. Tal como Edfu, El-Kab abrigava um regimento de reserva que podia, a qualquer momento, ser mobilizado para repelir uma tentativa de invasão dos núbios ou um ataque dos hicsos.

 

Ah-hotep era apenas acompanhada por Risonho, o Jovem, e uma vintena de homens que formavam a sua guarda pessoal, cuidadosamente escolhidos por Herai. Dirigiu-se para o forte antigo, cujas imponentes muralhas estavam ainda de pé. No interior do recinto, o templo da deusa abutre, detentora da titulatura real, era apenas ruínas.

 

Não deveis ir mais longe, Majestade recomendou o governador da cidade. Este lugar está assombrado. Os saqueadores que lá se aventuraram foram encontrados mortos. Devemos esperar que se acalme a cólera da deusa.

 

Não tenho tempo para esperar.

 

Majestade, suplico-vos!

 

Afasta-te.

 

Logo que a regente poisou o pé nas lajes, diversos escorpiões negros fugiram em todas as direcções. Não havia dúvida que forças obscuras tinham tomado posse do santuário martirizado onde, outrora, o Rei do Alto Egipto recebia a insígnia suprema do seu cargo.

 

Não, Nekhen não estava ainda libertada. E competia a Ah-hotep acalmar a cólera da deusa de que dependia o destino do futuro Faraó.

 

Quando um abutre sobrevoou o edifício, desenhando largos círculos no azul do céu, a Rainha soube quem matava os intrusos e quem teria que enfrentar.

 

As protectoras das coroas não eram um ser celeste, o abutre, incarnação da mãe por excelência, e um ser terrestre, a serpente, incarnação da chama que destruía os inimigos do rei?

 

Surgindo de um nãos partido, uma cobra fêmea ergueu-se em frente da Rainha.

 

Ah-hotep elevou as mãos num gesto de veneração.

 

Nota: A deusa abutre Nekhbet dá a titulatura real (nekhbet)

 

Não vim aqui para roubar declarou mas para fazer reconhecer o meu filho como soberano legítimo do Alto Egipto. Diante de ti, a grande antepassada que esteve no começo, me inclino. Tu, que tocas os limites do Universo e fazes nascer o Sol, que és ao mesmo tempo deus e deusa, apaga a impureza e a desgraça e ergue-te de novo na fronte do Faraó.

 

A cobra hesitou por instantes.

 

Ah-hotep estava tão próxima que o réptil teria podido saltar-lhe à garganta.

 

Mas o olhar da Rainha não vacilou. A cobra estendeu-se nas lajes e depois desapareceu por elas como um raio penetrando no solo

 

No lugar onde desaparecera a pedra estava queimada.

 

E ali se encontravam o legado da cobra

real; um uraeus em ouro que seria preso na coroa real.

 

Ah-hotep ajoelhou e pegou-lhe com respeito. Sem receio, continuou o seu caminho para o fundo do santuário que a deusa serpente tão vigilantemente guardara.

 

Apesar do incêndio sofrido pelo templo, uma das pedras permanecera intacta e brilhava com uma estranha claridade, como se fosse iluminada do interior.

 

Ah-hotep poisou a mão sobre o granito. A pedra oscilou, revelando um esconderijo que continha um cofre em acácia.

 

No interior, a coroa branca do Alto Egipto.

 

Depois de ter sido purificado no lago sagrado, Kamés recolheu-se em face de uma das estátuas do Faraó Osíris, símbolo da dupla natureza da função real que pertencia simultaneamente ao Além e ao aqui.

 

Depois, o jovem viveu o mesmo cerimonial que o pai, com uma notável diferença- enquanto a coroação de Seken permanecera durante muito tempo secreta a fim de evitar que os colaboradores avisassem o Imperador, a do seu filho mais velho seria celebrada por festividades e marcaria uma nova etapa na libertação do Egipto

 

Como o novo Faraó não era casado, foi a Esposa do Deus que reconheceu nele a presença de Hórus e de Set, os dois irmãos que partilhavam o Universo e reinavam, o primeiro sobre o Baixo Egipto, o segundo sobre o Alto Egipto. Indissociáveis e sempre em conflito, não podiam ser reconciliados e acalmados a não ser na pessoa simbólica do Faraó, o único capaz de ligar solidamente entre eles os dois deuses e as duas terras.

 

Foi Ah-hotep que deu ao filho os seus nomes de reinado: ”Hórus realizado que faz curvar as Duas Terras”, ”O que alimenta as Duas Terras”, ”O que restaura o que é duradoiro”, ”O que surge em glória no seu trono”, ”A mutação da Luz realiza-se”.

 

Finalmente, o seu nome de Kamés assumia todo o seu significado, ou seja, ”A força nasceu”. Essa força, o ka, manifestava-se no touro de combate, alimentado pela força do deus Lua.

 

Possas tu realizar esses nomes e que eles te guiem no caminho da vitória declarou a Rainha, poisando sobre a cabeça do filho mais velho a coroa branca adornada com o uraeus. Que o espírito do teu pai viva em ti e que a sua coragem anime o teu braço.

 

Os Hicsos nunca compreenderiam que a sociedade egípcia não era apenas composta por seres humanos mas também por divindades e antepassados presentes em cada faceta da vida quotidiana. Apopis estava convencido de que Seken estava morto e enganava-se. Ressuscitado pelos rituais e as fórmula de conhecimento, o seu espírito luminoso circulava entre as estrelas e a terra e ele habitava a alma daqueles que lhe permaneciam fiéis. Graças à eficácia do Verbo contido nos hieróglifos, Ah-hotep tornava real e eficaz a presença invisível do seu defunto esposo.

 

Mãe, eu queria...

 

Eu sei, Kamés. Querias permanecer neste templo e prolongar esta paz inefável. Mas ela ainda não foi confirmada e terás de lutar sem desfalecer para a conquistar e oferecer ao teu povo.

 

Do olhar do jovem monarca desapareceu qualquer hesitação.

 

O Faraó Kamés saiu do santuário de Karnak, essa região de Luz onde os conflitos, o mal e a injustiça não existiam. Depois de ter sentido uma felicidade inimaginável, devia agora enfrentar Apopis e tentar restabelecer o reino de Maet.

 

Militares e civis tinham-se amontoado em frente do templo de Karnak para aclamarem o seu novo Faraó.

 

Quando este apareceu, a coroa branca brilhou com tal fulgor que os deslumbrou

 

A Rainha Ah-hotep apresentou ao filho a cimitarra recurvada em bronze, coberta de prata e incrustada de électrum, cujo punho estava decorado com um lótus de ouro, símbolo do renascimento do Sol divino no fim das provações nocturnas

 

Como o teu pai o recebera antes de ti, recebe a espada de Amon, com a qual fenderás as trevas. Possas tu, Faraó Kamés, derrubar o seu Império e vencer a guerra das coroas.

 

À luz de uma belíssima lâmpada datando do Império Médio, o Imperador Apopis traçava sinais mágicos num papiro novo a fim de sufocar Tebas, atacando-a pelas quatro direcções do espaço. A Este e a Oeste, o fogo de Set tornava os desertos inabitáveis; a Sul, os aliados núbios ficariam muito felizes por massacrarem eventuais fugitivos egípcios. E o que surgiria do Norte seria tão temível como um exército. Seria sem desferir um golpe que o génio do Imperador exterminaria grande número de inimigos.

 

Os loucos dos tebanos tinham ousado fazer-lhe chegar às mãos um pequeno escaravelho de calcário que anunciava a coroação do Faraó Kamés! Por trás desse fantoche estaria sempre a Rainha Ah-hotep, cuja obstinação não tinha limites. Desta vez, pagaria, muito caro a sua insolência. Por muito hábil que fosse, não teria qualquer defesa contra a desgraça que se ia abater sobre Tebas.

 

Dominado por uma dúvida repentina, o Imperador seguiu pelo corredor secreto que ia dar ao tesouro da cidadela de Auaris. Só ele sabia manobrar os ferrolhos metálicos que fechavam a porta da casa-forte onde estavam reunidos os objectos rituais roubados aos egípcios, o mais preciso dos quais era a coroa vermelha do Baixo Egipto, caracterizada pela sua espiral, símbolo do crescimento harmonioso das forças vitais.

 

Apopis inquietara-se sem razão. A coroa estava bem protegida. Sem ela, Ah-hotep nunca conseguiria reconquistar o Egipto. Aquela aventureira não passava de uma rebelde perdida num sonho que em breve se transformaria em pesadelo

 

Ventosa enrolava-se num pano de incrível suavidade que os mercadores asiáticos acabavam de entregar no palácio. Tratava-se de um tecido desconhecido na terra dos Faraós, a seda Como Tani, a esposa do Imperador, a considerara grosseira e sem interesse, a bela eurasiática ficava com o lote todo.

 

Vem disse ela ao palafreneiro-chefe, um quinquagenário gordo de rosto pesado que cheirava a cavalariça.

 

O homem nada tinha de um sedutor, mas a sua rusticidade atraía a irmã do Imperador. Estava convencida de encontrar naqueles braços sensações novas.

 

Fascinado pelo luxo do quarto, ele não se atrevia a avançar.

 

Sou eu, aquilo? espantou-se ao descobrir-se num espelho cujo vidro era menos opaco do que o habitual.

 

Não era para mim que devias olhar? sugeriu-lhe Ventosa, deitando-se de lado, depois de ter tirado a túnica de linho.

 

Julgando-se vítima de uma miragem, o palafreneiro recuou.

 

Não tenhas medo murmurou ela e vem para junto de mim.

 

A voz era tão fascinante que ele obedeceu à feiticeira que lhe desatou lentamente o saiote.

 

Como és forte murmurou ela com avidez. Deixa-me preparar-te.

 

Ventosa apoderou-se de um chifre de touro que fora esvaziado para se transformar num recipiente contendo um óleo perfumado que ela fez escorrer gota a gota sobre o peito musculado do seu amante antes de o espalhar com mão tão terna que ele não resistiu muito tempo às suas carícias e se lançou sobre ela.

 

Encantada com aquela febre, Ventosa ficou no entanto desiludida pela falta de resistência da sua nova conquista. Esperara mais daquele brutamontes que com dificuldade retomava o fôlego

 

Tens uma profissão apaixonante, não é verdade?

 

É verdade, gosto dos cavalos... Mas detesto os que os maltratam!

 

Alguém te causa problemas?

 

Não devo falar disso.

 

Sou a irmã do Imperador... E posso ajudar-te.

 

Farias isso?

 

Ventosa esboçou um sorriso convincente.

 

Já que somos íntimos, não será normal?

 

O palafreneiro endireitou-se e sentou-se na beira da cama.

 

É esse monstro do Khamudi e a diaba da mulher dele... Vieram à minha cavalariça, com umas garotas, e cometeram os piores horrores! Mas ele é intocável. Se o Imperador soubesse...

 

Há-de saber.

 

O homem contemplou a sua amante como se ela fosse uma enviada do céu.

 

Então Khamudi será condenado e não voltará a pôr os pés na minha cavalariça?

 

Podes ter a certeza. O Imperador exige uma moral muito rigorosa.

 

Então não terei necessidade de agir pessoalmente!

 

O que tencionavas fazer?

 

Atrair Khamudi e a esposa a uma cilada. Como ela gosta tanto dos cavalos, eu mostrar-lhe-ia um que é afectado por um grave defeito: quando alguém se aproxima dele por trás, escoiceia. Aquela louca não teria escapado. E ele enfiar-se-ia na minha forquilha.

 

A justiça do Imperador resolverá todos os teus problemas prometeu Ventosa.

 

Considerando as circunstâncias, salvaria a vida do grande tesoureiro e da mulher, de quem Apopis conhecia e aprovava as taras. O palafreneiro-chefe acabaria os seus dias no labirinto.

 

Quanto a Ventosa, dispunha de uma informação suplementar sobre o desnaturado casal que detestava e que atacaria no momento certo.

 

Veste-te e vai-te embora exigiu ela.

 

Obrigado disse o palafreneiro em voz trémula. Obrigado por tudo o que me haveis concedido.

 

Mal o palafreneiro saiu, o pintor Minos entrou no quarto de Ventosa. Nua, esta atirou-se-lhe ao pescoço e beijou-o até lhe cortar o fôlego.

 

O artista cretense era o seu amante do coração, o único que ela ainda não enviara para a morte. Estranhamente, Minos não fomentava a mínima conspiração contra Apopis que, no entanto, o condenava a um exílio perpétuo.

 

Com uma surpreendente constância, o cretense apenas se consagrava à sua arte. Graças ao seu talento, o palácio de Auaris era hoje equivalente ao de Cnossos. Grandes pinturas murais representavam camponeses cretenses, acrobatas saltando por cima dos touros de combate e labirintos que apenas as almas dos justos podiam percorrer.

 

Apesar das inúmeras infidelidades da sua amante, Minos não se lamentava. Ser amado pela mais bela mulher de Auaris envaidecia-o e não detectava os riscos que corria ao partilhar a sua cama.

 

O bruto daquele palafreneiro deixou-me insatisfeita lamentou-se ela. Aceitas consolar-me?

 

Logo que Ventosa tocava a pele perfumada do pintor, a sua virilidade manifestava-se. Nem uma única vez os seus folguedos a tinham decepcionado. Minos não se assemelhava a nenhum outro homem e sabia dar prazer com a espontaneidade de um adolescente.

 

Depois do amor, no entanto, ela sentiu uma perturbação.

 

Alguma coisa corre mal?

 

É por causa de Creta. Pretendem os rumores que o Imperador terá decidido destrui-la.

 

Ventosa deitou-se sobre as costas do amante, colando-se às suas formas.

 

Descansa, meu amor. O almirante Jannas ainda não acabou de limpar as Cíclades nem de aniquilar os partidários da independência de Creta. Quando tiver terminado, a grande ilha encontrar-se-á só e sem outra opção que não seja uma obediência absoluta ao Senhor dos Hicsos. É evidente que terá de aumentar a sua quantidade de tributos por não ter ajudado o almirante de forma mais eficaz, mas não passará de um mal menor.

 

Creta será então poupada?

 

O Imperador fará dela uma província submetida e dedicada.

 

Achas que regressarei um dia à minha terra?

 

Com duas condições: que eu convença o Imperador que o teu trabalho está terminado e que eu parta contigo.

 

Os olhos azuis do pintor pareciam os de uma criança.

 

São apenas sonhos, não é verdade?

 

Ventosa passou ternamente a mão pelos cabelos encaracolados do cretense.

 

Será preciso tempo para os transformar em realidade, mas porque havemos de desesperar?

 

Tu e eu, lá... Não haveria nada mais maravilhoso.

 

Ama-me outra vez, Minos. E nunca deixes de me amar.
Naquele fim de ano, a base militar de Tebas festejava simultaneamente o seu novo Faraó, a fabricação de uma importante quantidade de novas armas e a conclusão de novos navios de guerra O exército de libertação estava pronto a partir para o Norte, com grande número de jovens soldados alistados nos últimos meses

 

O prestígio de Ah-hotep era tal que os habitantes das províncias de Tebas, Coptos, Edfu e Dendera já não duvidavam das suas convicções. Sim, era possível vencer. Não se tinham verificados vários milagres? E já que havia um Faraó a reinar, os deuses viriam em seu auxílio.

 

Depois de tantos meses de treino intensivo, as tropas só tinham um desejo: partir para a frente e aniquilar os hicsos.

 

Também vou anunciou o jovem Ahmés à mãe

 

Só tens sete anos lembrou-lhe Ah-hotep e não é ainda idade para combater.

 

O meu irmão mais velho é Faraó, com certeza que precisa de mim. Se eu não o ajudar, perde a guerra. Eu sei manejar a espada de madeira.

 

E também esticar o pequeno arco, já vi. Mas pode um grande estratega desconhecer a importância de uma base de retaguarda’ Enquanto o teu irmão estiver na frente, tu velarás por Tebas

 

O pequeno Ahmés não considerou a missão com leviandade.

 

Isso quer dizer preparar a segunda vaga de assalto e fabricar o material necessário’

 

Exactamente.

 

O rapazito ficou com uma expressão muito séria.

 

E serei responsável por tudo isso?

 

Comigo, se te considerares capaz.

 

Sou capaz, mãe.

 

Enquanto os estivadores começavam a embarcar armas e roupas, Herai correu para a Rainha.

 

Preciso de vos falar a sós, Majestade.

 

Ah-hotep confiou Ahmés a um oficial encarregado da sua instrução.

 

A Rainha julgou que o chefe da segurança tinha detido o espião responsável pela morte de Seken. Mas foi um assunto completamente diferente que Herai abordou.

 

Vai ser com certeza necessário adiar a partida, Majestade.

 

Porque razão?

 

Alguns dos nossos melhores capitães estão doentes e muitos remadores indispostos.

 

Uma epidemia?

 

Não creio, pois os males são variados, mas parecem sérios. Levantou-se um vento violento, despenteando a Rainha.

 

Que cheiro horrível notou ela. Dir-se-iam cadáveres em putrefacção!

 

O medo apertou a garganta de Herai.

 

É a pestilência enviada pelos emissários da deusa Sekhemet, furiosa contra a humanidade e decidida a destruí-la!

 

Só deveria manifestar-se durante os cinco últimos dias do ano lembrou Ah-hotep durante esse período terrível em que o tempo antigo está morto sem que o novo tenha tomado forma. E ainda falta mais de uma semana antes dessa fase perigosa!

 

Deve ser um malefício do Imperador considerou Herai. É impossível partir para o norte.

 

O vento pestilento espalhava o pânico na base militar. Como protegerem-se daqueles horríveis odores a não ser fechando-se nas casas e nas casernas, ou encerrando-se nos porões dos navios?

 

Reúne todos os oficiais ordenou Ah-hotep a Herai. Eles que agrupem os seus subordinados e acabem imediatamente com esta desordem. Em seguida, queimem incenso em cada casa

 

As reservas em breve se esgotarão!

 

Que um navio parta para Edfu e nos traga grande quantidade de resina de terebintina e que a enfermaria seja permanentemente fumigada.

 

Tendo saído do navio-almirante, o Faraó Kamés parecia desamparado.

 

Não deveríamos evacuar a base, mãe?

 

Este cheiro vai estender-se por toda a província tebana. O Imperador tenta asfixiar-nos.

 

Foi Teti, a Pequena, que lembrou a primeira precaução a tomar quando a cólera de Sekhemet se manifestava assim: fechar o olho esquerdo a fim de impedir os germes patogénicos de penetrarem no organismo e limpar bem o umbigo, a sua porta de saída.

 

Tanto para os soldados como para a população civil, uma ordem única: aplicar as mais rigorosas medidas de higiene.

 

Até mesmo Vento do Norte e Risonho, o Jovem, foram lavados e escovados, de forma a impedir o mau cheiro de lhes penetrar na carne. O mau vento redobrou de violência durante os cinco últimos dias do ano e, apesar dos cuidados constantes, vários doentes morreram.

 

Se a maldição do Imperador triunfasse, não haveria nascimento da Luz, nem procissão de sacerdotes e sacerdotisas transportando os objectos rituais no terraço do templo para celebrar a sua união com o disco solar, nem o ritual de reanimação das estátuas, e o exército de libertação extinguir-se-ia com o ano agonizante.

 

Kamés e Ah-hotep andavam por toda a parte, exortando cada um a não ceder ao desespero e a lutar contra os miasmas. A coragem do pequeno Ahmés impressionou os tebanos. Aspergindo-se com essência de junca odorífera a intervalos regulares, chamava à razão os que, na sua opinião, se assustavam inutilmente.

 

Ao quinto dia, o sopro mórbido tornou-se mais violento ainda e o número de mortos aumentou.

 

Segundo os antigos textos, só restavam dois remédios. O primeiro consistia em inscrever numa tira de fino linho: ”Estes malefícios não nos atingirão”; depois, davam-se doze nós na tira, ofereciam-se-lhe pão e cerveja e aplicava-se no pescoço. O segundo, em acender tantas tochas quantas fosse possível para iluminar as trevas.

 

Durante aquela terrível provação que ameaçava pôr fim a um reinado acabado de começar, Kamés soube controlar os seus receios e comportou-se com uma calma digna de um homem maduro. Foi o Faraó em pessoa que acendeu a maior parte das tochas, sob o olhar admirativo do Afegão e do Bigodes que tinham conseguido, como os outros oficiais superiores, manter a disciplina.

 

Não falta genica a esse garoto admitiu o Afegão. No meu país, tê-lo-iam reconhecido digno de combater.

 

Um bárbaro do teu género não faz a mínima ideia do que pode ser um Faraó.

 

E tu, conheceste muitos Faraós?

 

Com Seken e Kamés, são pelo menos dois! Em vez de criticar, admira.

 

Se esse maldito sopro não desaparece, em breve não teremos mais ninguém para admirar.

 

És demasiado céptico, Afegão. Como podes imaginar sequer por um segundo que um autêntico Faraó seja abatido pela adversidade?

 

O fumo das tochas subiu ao assalto dos miasmas. O céu transformou-se num imenso campo de batalha de onde as aves tinham desertado. Ali se traçavam espirais torturadas que eram atravessadas pelas imensas flechas vermelhas disparadas pelos emissários de Sekhemet.

 

Ahmés apertou com muita força a mão da mãe.

 

Tu não tens medo?

 

Claro que sim, Ahmés, mas que importância tem isso? Agimos de acordo com os rituais e utilizámos todas as nossas armas. Agora, compete ao deus Lua decidir. Lá no alto, trava uma guerra incessante e parece por vezes em agonia, mas consegue sempre recuperar.

 

Achas que vai conseguir’

 

Tenho a certeza

 

Ahmés nunca pusera em dúvida a palavra da mãe

 

E quando o disco de prata da lua cheia atravessou as nuvens soube que aquelas palavras eram verdade

 

Quando se anunciava a primeira madrugada do ano novo, o vento acalmou por fim e a pestilência desvaneceu-se

 

Espantados, os tebanos caíram nos braços uns dos outros, conscientes de terem escapado a um perigo mortal

 

Muitos mergulharam no Nilo para se purificarem dos últimos miasmas, outros prepararam uma refeição de festa

 

Risonho, o Jovem, ladrou de alegria e Vento do Norte abanou as longas orelhas, enquanto Ahmés adormecia nos braços da Rainha
O Imperador saboreou a sua coxa de ganso estufado com satisfação. O relatório que acabava de lhe entregar Khamudi, a partir das indicações fornecidas pelo espião infiltrado entre os tebanos, dava-lhe motivos para se alegrar. Numerosos soldados inimigos tinham morrido com a pestilência e o ímpeto do exército de Ah-hotep fora quebrado.

 

Era ainda necessário isolar as tropas reunidas em Cusae para as tornar tão vulneráveis que não resistissem a um assalto massivo. Apopis concebera um novo plano bastante divertido, graças ao qual aumentaria ainda a riqueza de Auaris.

 

Convencido e entusiasmado, Khamudi fora encarregado de pôr em prática o pensamento do Imperador, por um lado enviando centenas de escaravelhos para o Egipto Médio, por outro mandando funcionários encarregados de espalhar a boa nova.

 

A nuvem malcheirosa matara muitos animais e despovoara vastas herdades. O traumatismo era tal que os camponeses se metiam nos seus casebres de cana, na orla dos campos, como se aquele irrisório abrigo pudesse protegê-los das flechas dos emissários invisíveis de Sekhemet.

 

Eram raros os que, naquele princípio de ano, ousavam retomar as suas actividades habituais sem ceder ao desencorajamento. Pés Grandes fazia parte dos criadores que gostavam mais das suas vacas leiteiras do que de si próprios. Com ou sem miasmas, continuara a tratar delas, ao mesmo tempo que se queixava da má qualidade dos pastos.

 

Quando tinha acostado o primeiro navio, Pés Grandes não fugira. Devia defender o seu gado, mesmo contra um regimento hicso.

 

Um civil dirigiu-se a ele.

 

Sou um dos responsáveis pelas terras inundadas e pelas pastagens do Delta declarou com bonomia. Lá no Norte, graças aos poderes sobrenaturais do Imperador, não sofremos com os maus ventos.

 

Tanto melhor para vocês resmungou o vaqueiro.

 

Beneficiamos da generosidade de Apopis, que se estende a todos os seus súbditos, incluindo tu.

 

Ah, sim... E como?

 

Dezenas de navios de carga vão levar os teus animais e os outros rebanhos para a região de Auaris. Ali serão bem alimentados e recuperarão a saúde depois desta dura provação. A seguir, voltarás para casa.

 

Aquela antiga prática tinha sido abandonada desde o início da ocupação hicsa. Vê-la reaparecer era motivo de regozijo. Mas havia um grave problema.

 

Quanto me vai custar isso?

 

Absolutamente nada, meu amigo! Nem imaginas como as pastagens do Delta são boas e como os seus estábulos são acolhedores! A única preocupação do Imperador é o bem-estar dos trabalhadores e é por isso que manda tantos navios. Vai falar com os habitantes da tua aldeia e diz-lhes que os nossos navios de carga os esperam. Apesar deste enorme esforço da parte dos Hicsos, talvez não haja lugar para toda a gente.

 

Depois de longas e agitadas discussões, a maioria optou pela partida. Não era a generosidade do Imperador uma esmola inesperada? Enganavam-se os que acusavam os Hicsos de crueldade. É um facto que a ocupação tinha atravessado períodos difíceis, mas não marcava aquela atitude uma viragem fundamental? Apopis comportava-se como um verdadeiro Faraó, preocupado com a felicidade do seu povo. Compreendera que só aquela política conquistaria a confiança dos egípcios.

 

Guiaram portanto vacas e bois emagrecidos para os navios de carga cheios de forragem, esquecendo que, não longe dali, os revoltosos continuavam a manter a frente de Cusae. Alguns camponeses lamentavam não poderem fornecer-lhes mais alimentos, mas não teriam aqueles tebanos feito mal em se levantarem contra o seu verdadeiro soberano? E depois, criadores e agricultores não eram guerreiros.

 

Tal como os seus companheiros, Pés Grandes achou a viagem muito agradável. Não faltou nem cerveja, nem pão, nem peixe seco e saborearam belas horas de repouso às quais já não estavam habituados. Quanto mais avançavam para o norte, mais luxuriantes eram os campos. As zonas cultivadas aumentavam, os braços de água multiplicavam-se. Um verdadeiro paraíso para os vaqueiros e o seu gado!

 

Por fim, acostaram.

 

Pés Grandes acariciou as suas vacas, que não tinham tido muito medo durante a viagem.

 

Venham, minhas lindas, vão passar um bom tempo.

 

A pesada mão de um oficial hicso, de capacete negro, poisou no ombro do camponês.

 

Tu, vem comigo.

 

Eu não deixo as minhas vacas.

 

As tuas vacas? Divagas, homenzinho! Não me digas que ainda não compreendeste... Visto que estes animais estão num navio de carga do Imperador, pertencem-lhe.

 

O que estás tu para aí a dizer? Elas vão pastar aqui algum tempo e levo-as outra vez para minha casa.

 

O oficial deu uma gargalhada.

 

Nunca ouvi nada tão engraçado! Chega de conversas, homenzinho. Agora vens comigo.

 

Sou vaqueiro e não deixo as minhas vacas! O hicso esbofeteou o egípcio.

 

Naturalmente pacífico, Pés Grandes detestava ser atacado. Com um soco, pôs o oficial inconsciente.

 

Primeiro estupefactos, os seus subordinados reagiram rapidamente. A um contra dez, o camponês opôs apenas uma breve resistência. Com a cabeça ensanguentada e os braços atados, foi preso com cadeias a um compatriota e obrigado a avançar no meio de um interminável cortejo de prisioneiros.

 

Onde nos levam? perguntou ao companheiro de infortúnio.

 

Não sei.

 

As minhas vacas... O que vai ser delas? E as pessoas da minha aldeia...

 

Os hicsos mataram os que tentavam fugir. Os outros estão presos, como nós.

 

Uma grande mulher de mãos enormes apostrofou-os.

 

Mas que grandes latagões! exclamou a dama Aberia. Tanto melhor... A viagem até ao degredo de Charuhen será mais divertida. Em geral, tenho demasiados velhos, mulheres e citadinos. Habituados a uma existência protegida, não aguentam a distância. A vocês, nem o sol, nem a poeira, nem o esforço vos assustam, tenho a certeza. Sobretudo, não me desiludam.

 

Sem deixar de pensar nas suas vacas, que era o único a saber tratar bem, Pés Grandes avançou.

 

Na beira da pista, cadáveres de mulheres idosas e de crianças.

 

Tenho sede disse o seu companheiro.

 

Vamos pedir-lhes água... Não podem recusar.

 

Pés Grandes chamou os soldados que ocupavam um carro puxado por dois cavalos.

 

Queríamos beber!

 

Na paragem, excepto para os insolentes. E tu és um deles.

 

O carro partiu para a cabeça da coluna numa nuvem de poeira.

 

Julgava que o Imperador era um homem justo e bom confessou Pés Grandes porque se interessava pelos meus animais. Por que faz ele isto? Nós nem sequer o injuriámos!

 

Apopis quer esvaziar o país da sua população para a substituir por hicsos... apenas por hicsos. Ser egípcio na terra do Egipto é um crime.

 

Pés Grandes continuava a não compreender, mas foi avançando, mesmo quando o seu companheiro morreu de sede.

 

À vista da prisão de Charuhen, deixou-se cair no meio dos juncos e bebeu água lamacenta. Quando um polícia hicso o levantou puxando-lhe pelos cabelos, e batendo-lhe com um cajado, não teve forças para reagir.

 

O polícia retirou as correntes que prendiam Pés Grandes ao cadáver que arrastara durante horas, depois empurrou-o para um grande pátio cercado e vigiado por archeiros que se mantinham no cimo de torres de madeira.

 

A primeira pessoa que o vaqueiro viu foi uma rapariga nua, de olhos enlouquecidos e corpo coberto de chagas. Atirou-se por diversas vezes contra um poste e conseguiu estoirar a cabeça.

 

Sentado num montículo de excrementos, um velho segurava a mão da esposa sem se aperceber que ela já não respirava. De olhar vazio, homens esgotados cruzavam-se sem trocarem uma palavra. Outros escavavam o solo esponjoso em busca de não importa que tipo de alimento.

 

Quem tinha podido conceber e impor semelhantes atrocidades a não ser aquele Imperador das trevas, aquele mentiroso que não hesitara em enganar simples camponeses?

 

Pés Grandes nunca lhe perdoaria ter roubado as suas vacas.

 

- Vaqueiro, deitado de barriga para baixo no chão.

 

Um polícia poisou o pé em cima do pescoço do prisioneiro, outro gravou-lhe na nádega um número com uma marca de bronze ao rubro.

 

Os gritos de Pés Grandes, matrícula 1790, nem sequer fizeram sobressaltar os sobreviventes do campo de extermínio de Charuhen.
Eu também sou capaz disse o pequeno Ahmés ao irmão, o Faraó Kamés de acertar no centro de um alvo.

 

Está-me a parecer que gostas de te gabar.

 

Põe-me à prova!

 

Como queiras.

 

Kamés levou Ahmés até uma das carreiras de tiro da base, reservada aos archeiros principiantes. Por isso estava rodeada de paliçadas, de forma a que as flechas perdidas não ferissem ninguém.

 

Retesas o teu arco sozinho, Ahmés?

 

Evidentemente!

 

Vou verificar o alvo que deve estar bem estável. Reinava entre os dois irmãos uma total cumplicidade. O Rei lamentava que Ahmés fosse demasiado jovem para lutar a seu lado, mas sabia que, em caso de infelicidade, o irmão mais novo pegaria na espada.

 

No instante em que Kamés chegava ao alvo, um assobio característico alertou-o.

 

Baixa-te, depressa! berrou Ahmés a plenos pulmões.

 

Nada de grave concluiu Teti, a Pequena. A flecha apenas roçou o pescoço. Graças às compressas de mel, nem sequer ficará cicatriz.

 

Salvaste-me a vida disse Kamés ao irmão mais novo, ainda trémulo.

 

Viste o archeiro que disparou? perguntou-lhe Ah-hotep.

 

Não lamentou o rapazinho. Corri para o meu irmão e não pensei em inspeccionar os arredores. Quando lhe vi sangue no pescoço tive medo, muito medo!

 

Vem-te lavar ordenou a avó. Não tens nada o ar de um príncipe.

 

Teti e o neto abandonaram a enfermaria.

 

Há um espião nesta base declarou Ah-hotep e tentou suprimir-te.

 

Não creio, mãe. Apesar do aviso de Ahmés, não tive tempo de me baixar. Se aquele archeiro tivesse realmente querido matar-me, não teria falhado. Este ferimento superficial é um aviso: ou me contento em reinar sobre Tebas, ou desapareço.

 

Ah-hotep meditou nas palavras do Rei.

 

Por outras palavras, o teu futuro depende do conselho de guerra que vamos ter hoje mesmo.

 

Na sala de duas colunas do palácio da base militar encontravam-se reunidos a Rainha Ah-hotep, o Faraó Kamés, Herai, Qaris, os generais e os principais escribas da administração. Conscientes de que participavam na elaboração de uma decisão capital, estavam todos com uma expressão tensa.

 

A situação actual permanece estagnada lembrou o soberano. O pequeno reino de Tebas repousa numa liberdade ilusória, visto que é prisioneiro do tirano hicso a norte e do tirano núbio a sul. Não possui qualquer acesso às pistas caravaneiras e mineiras, o isolamento torna-se cada vez mais intolerável, mesmo perigoso! O Faraó do Egipto só usa a coroa branca e não pode admitir que o Imperador das trevas se arrogue o direito de usar a coroa vermelha.

 

Com certeza, Majestade, com certeza admitiu o mais velho dos generais mas será necessário para isso que nos lancemos numa guerra total de que certamente não sairemos vencedores?

 

Enquanto não o fizermos considerou o escriba Neshi como poderemos saber?

 

O general encolheu os ombros. Detestava aquele letrado demasiado magro, de crânio calvo e olhar penetrante.

 

No seu campo, a competência do responsável pelos arquivos Néshi não é contestável, mas não me parece que esteja habilitado a propor iniciativas estratégicas. Se não me engano, a sua presença aqui apenas se justifica pela necessidade de tomar notas tendo em vista a redacção de um relatório.

 

Se bem te compreendo, general, defendes o statu quo

 

Para ser completamente franco, Majestade, seria a melhor solução. Sei perfeitamente que os hicsos ocupam uma importante parte do nosso país, mas não será essa uma realidade que teremos de acabar por admitir? O exército inimigo é pelo menos dez vezes mais forte do que o nosso. Loucura seria atacá-lo! Contentemo-nos com o que a coragem da Rainha Ah-hotep nos permitiu obter Tebas é livre, podemos aqui viver em paz. Porque havemos de querer mais e destruir esse frágil equilíbrio?

 

Tão frágil que nem sequer existe afirmou o escriba Neshi

 

O imobilismo conduz à morte: eis o que nos ensinou a Rainha Ah-hotep. Julgando-nos protegidos, tornar-nos-emos uma presa fácil para o Imperador.

 

O general irritou-se.

 

É insuportável, Majestade! Neshi que se cale!

 

Compete-me a mim dar ordens, general lembrou o Faraó e considero que todos os membros deste conselho se podem manifestar

 

O militar contraiu-se um pouco mas não renunciou a convencer o monarca.

 

Sabeis, Majestade, que os hicsos não se opõem à paz’ Acabam de dar-nos uma prova evidente da sua boa vontade deixando os rebanhos dos camponeses do Médio Egipto pastar nas zonas alagáveis do Delta! E não é tudo: ofereceram também espelta aos nossos criadores de porcos. Não terá chegado o tempo de depor as armas e estabelecer acordos económicos?

 

Como é possível acreditar em semelhantes mentiras! insurgiu-se Neshi. Os Hicsos tornaram-se mestres na arte da propaganda e os que se deixam enganar acabam inevitavelmente mal. Apopis nunca consentirá em ceder uma polegada do seu Império. Os camponeses que forem para o Delta tornar-se-ão escravos e os seus rebanhos serão confiscados.

 

Desta vez, é demais! exclamou o general. Com base em que informações ousa esse escriba contradizer-me?

 

Neshi tem razão confirmou o intendente Qaris. Os hicsos atraíram efectivamente os camponeses egípcios a uma cilada.

 

Outro oficial superior voou em socorro do colega.

 

Se os hicsos continuam a ser adversários irredutíveis, Majestade, é uma razão suplementar para não os provocarmos mais! É evidente que o Imperador aceita a situação presente, visto que deixa continuar a nossa fronteira norte em Cusae. Aproveitemos essa boa vontade e preservemos o que está adquirido.

 

A Rainha Ah-hotep levantou-se e encarou os dois generais.

 

Julgais que o Faraó Seken morreu para ampliar o reduto tebano e que se teria contentado com o que está adquirido? É o Egipto inteiro que é preciso libertar e não apenas uma parte do seu território. Quem esquecer esse dever sagrado não merece servir sob as ordens do Rei Kamés.

 

Haveis deixado de fazer parte do meu conselho disse este aos dois oficiais. Possais vós mostrar-vos dignos da vossa posição no campo de batalha, à frente dos vossos respectivos regimentos.

 

Perturbados, os generais saíram da sala.

 

Tu anunciou o monarca ao escriba Neshi és nomeado portador do selo real e chanceler encarregado da administração do exército. Que cada homem seja correctamente equipado e alimentado.

 

Embora as nossas tropas estejam prestes a partir, Majestade, o meu primeiro conselho será no entanto que tenhais paciência.

 

Kamés ficou surpreendido.

 

Acharás tu também que é preferível negociar com Apopis?

 

De maneira nenhuma, visto que a natureza do Império das trevas não mudará. Mas a função de que estou encarregado incita-me a pensar que é preciso evitar o confronto de imediato. Com efeito, arriscar-nos-íamos a ter falta de recursos alimentares. Será preferível o fim da Primavera, pois beneficiaremos dos produtos das colheitas.

 

Herai e Qaris aprovaram.

 

Antes de lançar a ofensiva preconizou Neshi seria conveniente repatriar uma parte dos soldados da frente e substituí-los por homens frescos. Durante o período que nos separará da ofensiva geral, a nossa prioridade deverá ser reforçar essa frente.

 

O plano do seu novíssimo chanceler convenceu o Faraó Kamés

 

Agiremos então assim.

 

Devemos considerar outra iniciativa considerou Ah-hotep.

 

O Rei ficou tão intrigado como os membros do conselho.

 

Empenhar todas as nossas forças na frente do Norte far-nos-ia correr um risco que temos muitas vezes tendência a esquecer: um ataque dos Núbios, desejosos de saquear Tebas. Apopis espera-nos em Cusae, não em Elefantina nem na Núbia. A verdadeira prioridade é reconquistar a parte meridional do nosso país e fazer compreender aos núbios que qualquer ofensiva da sua parte seria votada ao fracasso. É por isso que, na Primavera, o grosso do nosso exército não partirá para o norte mas para o sul.
Loura artificial e bem fornecida de carnes, Yima, a esposa de Khamudi, considerava-se uma beldade irresistível. Conhecendo a possessividade do marido, evitava arranjar amantes muito evidentes e desembaraçava-se rapidamente das suas conquistas fugazes com o auxílio da dama Aberia, extremamente feliz por suprimir escravos egípcios.

 

Yima vivia em perfeita felicidade com Khamudi. Gozava a sua fortuna, martirizava tantas criadas quantas queria e satisfazia as suas pulsões em companhia de um esposo tão depravado como ela. Mas havia mesmo assim uma sombra no quadro, uma sombra ameaçadora: a dama Tani, a ”imperatriz”, continuava a tratá-la com desprezo.

 

Talvez a sua confidente a pudesse ajudar. Yima dirigira-se portanto à caserna onde vivia a escultural Aberia, capaz de estrangular um corpulento jovem com uma só mão. Todos os dias a assassina praticava exercícios de musculação e divertia-se a vencer os soldados hicsos que ousavam desafiá-la.

 

Queres carne vermelha e vinho? perguntou Aberia.

 

Oh, não! protestou Yima. Neste momento ando a vigiar o meu peso.

 

Então pára de comer bolos! É uma alimentação de miúda.

 

Estou inquieta... muito inquieta.

 

Alguém te aborrece, minha pobre querida?

 

Sim, mas não é ninguém de quem tu me possas desembaraçar. Intrigada, Aberia parou de mastigar.

 

Dá-me a solução desse enigma!

 

É Tani... Acho que ela me detesta. A estranguladora rebentou a rir.

 

Tani é demasiado feia para ter sentimentos!

 

Não brinques, isso faz-me sofrer a sério. Não compreendo porque lhe desagrado tanto e ignoro o que me censura. Tu sabes’

 

Não faço a mínima ideia, minha pobre querida! Ou melhor, faço-, aquele pequeno barril só contem fel. A imperatriz detesta toda a gente e só gosta de si mesma. Ter conseguido tornar-se a esposa do Imperador é uma façanha cujos benefícios precisa de conservar, começando por afastar todas as fêmeas que se aproximem um pouco demais do Senhor dos Hicsos.

 

Garanto-te que não é o meu caso!

 

A tua reputação não joga a teu favor, minha gata. Mas creio poder resolver isso.

 

De que forma, Aberia?

 

Eu não tenho o mínimo gosto por homens. São enfadonhos e cansam-se depressa. As mulheres, pelo contrário, que delícia! Se a imperatriz souber que também tu gostas de mulheres, deixarás de estar em perigo.

 

Yima balbuciou como uma garotinha assustada.

 

Isso que tu me pedes, contigo... Nunca serei capaz, eu...

 

Perversa como és, vais apreciar! Depois, não poderás mais passar sem isso Vamos, anda ao meu quarto. Depois de uma boa refeição ainda é melhor.

 

Mas os soldados vão saber e...

 

É precisamente o que queremos, minha querida: que a nossa ligação seja do conhecimento público. Quem ousaria tocar na minha protegida?

 

Khamudi fazia massajar os dedos dos pés, uma das partes do seu corpo que considerava perfeitas, por uma jovem egípcia, filha de um escriba deportado para Charuhen. Depois de a ter usado, acabaria ou no harém ou na deportação, conforme o seu humor do momento.

 

Com uma máscara de argila regeneradora sobre o rosto, Yima estava estendida numa esteira confortável, ao lado do marido.

 

Fizeste bem disse-lhe ele. O Imperador aprecia muito a dama Aberia. Estar em boas relações com ela ser-nos-á muito útil, tanto a ti como a mim. Quanto mais aumentam as deportações, mais Aberia adquire importância. Quando regressar de Charuhen, o Imperador vai nomeá-la chefe da polícia.

 

Ele decidiu exterminar todos os Egípcios?

 

Se queremos governar este país à nossa maneira, é a única solução. Ainda precisamos deles como escravos, mas estrangeiros educados à maneira hicsa substituí-los-ão progressivamente.

 

Que mundo maravilhoso nos prepara o Imperador! Um só pensamento, uma só direcção, uma só política, uma só casta dominante que terá todos os poderes e fiéis súbditos que obedecerão porque a lei de Apopis é a lei de Apopis! Mas quando se desembaraçará finalmente o Imperador dos agitadores tebanos?

 

Quer deixar esse prazer a Jannas e dou-lhe razão. Que soberbo massacre em perspectiva! Os tebanos estão tão aterrorizados que já não se atrevem a sair da sua base de retaguarda. Acabarão por matar-se uns aos outros na frente. Ou se rendem, e Aberia terá muitas levas a organizar, ou Jannas terá muitas cabeças a cortar. Eis o que acontece a incapazes que confiam numa mulher como essa Rainha Ah-hotep.

 

O capitão dos piratas conseguiu finalmente tomar fôlego.

 

Quando o navio do almirante Jannas abalroara o seu, julgara-se vítima de uma alucinação. Como conseguira o hicso mostrar-se mais hábil e mais rápido do que ele? Com incrível obstinação, o almirante encarniçara-se a perseguir um por um os piratas egeus, cipriotas e cretenses que atacavam a frota mercante do Imperador. Beneficiando do apoio tácito de Creta, esperavam meter ao fundo suficientes unidades hicsas para obrigarem Jannas a arrepiar caminho.

 

Mas este era um temível navegador e descobrira as manhas dos adversários. Pouco a pouco, estes tinham-se transformado em animais acossados, certos de encontrarem refúgio nas Cíclades.

 

Nova desilusão! Mesmo lá, Jannas continuara a persegui-los sem cair nas suas múltiplas emboscadas. Paciente e meticuloso, isolava cada um dos navios adversários antes de o tomar de assalto com marinheiros mais bem armados.

 

Bons nadadores, o capitão e uma dezena de piratas tinham atingido a margem da ilha de Terá, dominada por um vulcão cujas convulsões não os assustavam. Era ali que escondiam o seu saque e para lá se retirariam quando tivessem feito fortuna.

 

Eles seguem-nos, capitão.

 

Cinco barcas cheias de archeiros hicsos dirigiam-se para a ilha.

 

Trepemos, não se atreverão a imitar-nos.

 

De facto, a montanha que deitava fumo impressionava os homens de Jannas.

 

Temos que nos preocupar realmente com aqueles miseráveis fugitivos, almirante?  interrogou um lugar-tenente.

 

Qualquer trabalho deve ser levado até ao fim. O Imperador ordenou-nos que exterminássemos os piratas, nós exterminá-los-emos. Caso contrário, este punhado de insurrectos fretaria um novo navio e recomeçaria as suas expedições.

 

Aquela montanha não é... perigosa?

 

Menos do que o meu gládio  respondeu Jannas, ameaçador. O lugar-tenente não insistiu. Uma palavra mais e seria morto. Lentamente, os hicsos escalaram a encosta do vulcão.

 

Estão a subir!  exclamou um dos piratas.  Mais depressa... Temos de correr mais depressa!

 

Logo que ficaram ao alcance de tiro, os archeiros hicsos abateram os piratas. Incomodados pelas fumarolas, falharam o capitão que corria ao longo da cratera, na esperança de descer pelo lado oposto e escapar assim aos seus perseguidores.

 

Mas uma flecha trespassou-lhe a coxa.

 

Apesar da dor, arrastou-se sobre as rochas. O pé de um hicso pregou-o ao solo.

 

Não o matem já  ordenou Jannas, que acabava de descobrir um lago estranho.

 

Não continha água mas fogo de um vermelho ardente que não parava de fervilhar, produzindo grandes bolhas.

 

Ouve-me implorou o pirata tenho um tesouro escondido numa gruta!

 

Qual é o local exacto?

 

Di-lo-ei em troca da minha vida salva

 

Porque não?

 

Tenho a tua palavra?

 

Tenta a tua sorte, pirata. E, sobretudo, não me irrites mais.

 

É no meio daquela encosta, em frente de um rochedo no qual está desenhado um círculo. Verás, é um tesouro enorme! Graças a mim, serás um homem rico.

 

Será o Imperador dos Hicsos que enriquecerás. Eu estou aqui apenas para destruir os bandidos que se atrevem a atacar-nos.

 

Tenho... tenho a vida salva?

 

Coisa prometida, coisa devida admitiu Jannas. Mas antes tenho a certeza que um pequeno banho te fará muito bem. Estás sujo e cheiras mal.

 

Um banho, mas...

 

Esse lago vermelho parece-me perfeitamente apropriado.

 

Não gritou o pirata não, é o Inferno!

 

Desembaracem-me disto ordenou o almirante. Quatro hicsos levantaram o ferido e lançaram-no no lago de lava.
A base militar de Tebas estava em efervescência. Depois de um Inverno clemente, no decurso do qual tinham sido construídos novos navios, o chanceler Neshi apresentou o seu relatório ao Faraó Kamés e à Rainha Ah-hotep.

 

A frente foi reabastecida e reforçada com jovens recrutas cheios de ardor  precisou ele.  Os soldados experientes só esperam as vossas ordens para embarcar.

 

Como te parece o moral das tropas?  perguntou Ah-hotep. O chanceler Neshi hesitou.

 

Os nossos homens são corajosos e determinados, é um facto, mas...

 

Mas têm medo dos Núbios, não é verdade?

 

Exacto, Majestade. A sua reputação de ferocidade assusta mais do que um... Os vossos generais e eu próprio tentámos explicar que possuíamos armas eficazes e que a nossa formação era excelente, mas estamos longe de ter dissipado todos os receios.

 

Quem se tornar culpado de cobardia será executado diante dos seus camaradas!  decretou Kamés.

 

Talvez existam outros meios para acalmar esse medo ancestral e legítimo  adiantou a Rainha.

 

Foiegras

de gansos engordados com figos, patos assados, costeletas de vaca grelhadas, purés de cebolas, de lentilhas e de aboborinhas, cerveja de festa encorpada com uma bela cor ambarina, mil e um bolos à base de mel, eram estas as iguarias do festim que o palácio oferecia ao exército de libertação.

 

A acrescentar a isso, duas esteiras novas e confortáveis por soldado e unguentos à base de resina de terebintina que descontraíam os músculos, mantinham as boas energias do organismo e afastavam os insectos.

 

Esta Rainha é uma mãe para nós considerou o Bigodes, devorando uma fatia de pão fresco coberta de foiegras. Nunca comi tão bem na minha vida!

 

Quando o teu país atinge semelhantes apogeus reconheceu o Afegão quase esqueço o meu.

 

O seu vizinho de mesa, um soldado de infantaria de carreira, atirou para longe uma carcaça de pato cuidadosamente roída.

 

Em vez de se deslumbrarem como crianças estúpidas, fariam melhor em reflectir! É a última boa refeição a que vão ter direito. Depois, nos navios, terão que se contentar com o habitual. E não vai ser famoso, mesmo antes de morrerem sob os golpes dos Núbios.

 

Eu não tenho minimamente intenção de morrer objectou o Afegão.

 

Pobre ingénuo... Bem se vê que não sabes para onde vais!

 

E tu, tu sabes?

 

Nunca pus os pés na Núbia, de acordo, mas ninguém pode vencer esses negros enormes que são dez vezes mais fortes do que nós.

 

No entanto, não se atrevem a atacar os Hicsos lembrou o Bigodes.

 

O argumento perturbou o soldado.

 

Hão-de fazê-lo, mais cedo ou mais tarde! Os Núbios nasceram para combater, nós não. Nem um soldado egípcio voltará vivo dessa expedição.

 

Se estás convencido disso, demite-te e volta para casa recomendou o Afegão. Quando partimos vencidos de antemão, estamos mortos.

 

Diz lá, estrangeiro... Acusas-me de cobardia?

 

Incito-te a seres lúcido, nada mais.

 

Estás a fazer troça de mim, hem?

 

O Bigodes estava pronto a interpor-se, quando se fez silêncio. A Rainha Ah-hotep tomou a palavra.

 

A prova que vamos enfrentar todos juntos anuncia-se muito perigosa declarou ela porque defrontaremos terríveis adversários. Antes mesmo de enfrentarmos os Núbios, cujas qualidades de guerreiros são justamente temidas, precisamos primeiro de nos apoderarmos de uma das mais importantes fortalezas hicsas: Gebelein. Se ela desse o alerta aos núbios, não teríamos qualquer hipótese de os vencer. É por isso que a nossa prioridade é a tomada dessa praça forte. Os Hicsos ocupam o nosso país, exploram as suas riquezas e tratam os seus habitantes como escravos. Chegou o momento de lhes fazer compreender que o Egipto nunca se submeterá à sua tirania. A vontade de ser livre é a nossa melhor arma Comam e bebam, que o vosso coração esteja alegre!

 

O soldado tornou a servir-se de pato e esvaziou nova taça de cerveja forte. O discurso da Rainha tranquilizara-o: era impossível apoderarem-se de Gebelein. O exército de libertação contentar-se-ia portanto com uma breve viagem para sul e depois voltaria para trás, esquecendo a Núbia.

 

Ah-hotep beijou a mão da mãe, de cama há vários dias.

 

Não partirei com Kamés anunciou-lhe e ficarei junto de ti.

 

Não, minha filha. O teu lugar é junto do Rei, teu filho. É jovem e inexperiente. Sem ti, arrisca-se a cometer erros fatais.

 

Sem ti, querida mãe, nunca a nossa aventura teria podido materializar-se. Na hora em que a doença te afecta, o meu dever é acompanhar-te.

 

Uma velha mulher não deve impedir-te de conduzir as nossas tropas à vitória, Ah-hotep. Deixa-me enfrentar sozinha esta prova e pensa apenas no futuro.

 

Uma filha que abandonasse a mãe seria indigna de ser Rainha.

 

Pergunto a mim mesma qual é a mais teimosa de nós duas... Ajuda-me a levantar.

 

Os médicos exigem que repouses.

 

Tenho uma tarefa a cumprir, uma tarefa que tu me confiaste: governar Tebas na tua ausência e mobilizar todos os homens da província em caso de ataque hicso. A minha morte terá portanto que esperar, pelo menos até ao teu regresso.

 

Frágil como se fosse partir-se, Teti, a Pequena, saiu do seu quarto. Ah-hotep estava convencida que ela não se aguentaria nas pernas, mas a Rainha-Mãe apreciou o calor do Sol e convocou a sua criadagem.

 

Não me serve de nada estar deitada. Parte tranquila, Ah-hotep. Ahmés saberá ajudar-me, não é verdade?

 

Com resina, o Bigodes fixava solidamente os cabos das facas e das navalhas. Misturada com calcário reduzido a pó, era um óptimo aderente. O Afegão afiava as lâminas e verificava as pontas das flechas.

 

O intendente Qaris corria por todos os lados, preocupado em não deixar nada ao acaso. Conversava com todos os capitães, visitava todos os navios, inspeccionava cada cofre e cada jarra. Nesta véspera de partida para o Sul, nenhum pormenor devia ser negligenciado.

 

Herai tinha outras preocupações.

 

Majestade confessou ele a Ah-hotep o meu inquérito não deu nada. Ninguém viu o archeiro que disparou sobre o Rei. É evidente que dupliquei a sua guarda pessoal e tomei medidas de segurança ainda mais rigorosas.

 

O meu filho supõe que esse atentado não passa de uma tentativa de intimidação

 

Quer o nosso soberano tenha ou não razão, o essencial é garantir a sua protecção. Se o espião hicso ficar em Tebas, o Rei deiXará de estar em perigo, pelo menos de imediato. Se, pelo contrário, fizer parte da expedição, só pensará em cometer um novo atentado.

 

Tranquiliza-te, Herai. Saberei velar pelo Faraó.

 

Vento do Norte foi o primeiro a subir para o navio-almirante. onde disporia de uma esteira nova, à sombra de umguarda-sol que partilharia com Risonho, o Jovem. Iniciou-se depois uma longa procissão conduzida pelo Rei Kamés, que empunhava orgulhosamente a espada de Amon.

 

A um ritmo regular e enfeitiçante, o Afegão começou a bater num estranho instrumento que o Bigodes não conhecia.

 

Foste tu que fabricaste isso?

 

Trata-se de um tambor A música que produz dá coragem, vais ver.

 

O Afegão não se enganava. Aqueles sons inéditos acalmaram as angústias, sobretudo nos mais jovens.

 

Depois de ter beijado o pequeno Ahmés, recomendando-lhe que ajudasse a avó, Ah-hotep contemplava todos aqueles bravos prontos a sacrificar a sua vida para libertar o Egipto. Muitos não regressariam daquela viagem e seria ela a responsável pelo seu desaparecimento.

 

A Esposa do Deus pensava no seu defunto marido, cuja ausência lhe pesava um pouco mais cada dia. Pronunciando as ”fórmulas de glorificação” que faziam viver o seu nome e o seu ser, a Rainha criava uma energia necessária ao prosseguimento da sua louca aventura. Seken encontrava-se ali, junto dela. Dava-lhe a sua força.

 

No céu, a Lua estava visível.
Por todos os deuses!  exclamou o Bigodes.  Como o meu país é belo!

 

Não deixas de ter razão  reconheceu o Afegão.  Faltam-lhe grandes montanhas cobertas de neve, mas tem encanto.

 

O que é a neve?

 

Água do céu que se solidifica mais ou menos ao cair no chão e fica com uma bela cor branca.

 

Água... fria?

 

Muito fria. Mas queima-te as mãos se lhe tocares.

 

Que horror! Esquece essa calamidade e contempla antes o Nilo e as suas margens verdejantes.

 

A bordo do navio-almirante, que acabava de partir para o sul, os dois homens viviam um momento de felicidade perfeita. Não havia guerra, nem perigo, nem hicsos, apenas um navio que deslizava no rio, sobrevoado por íbis e pelicanos.

 

À frente, um rapagão esguio mas musculado sondava o Nilo com uma longa vara de extremidade em forma de forquilha. O papel daquele prospector era essencial. Em função da profundidade, determinava as manobras a efectuar.

 

Como te chamas?  perguntou-lhe Ah-hotep.

 

Lunar, Majestade.

 

Lunar! Tu e eu somos então protegidos pelo mesmo deus.

 

Se soubésseis, Majestade, quanto esperei por este momento! Receava desaparecer antes de poder lançar-me ao ataque dos hicsos e dos seus aliados. Graças a vós, a minha vida adquire finalmente sentido. Juro-vos que conduzirei este navio-almirante a bom porto.

 

O sorriso franco do jovem prospector reconfortou a Rainha.

 

De momento, Lunar, vamos ficar a navegar à capa.

 

Com as velas recolhidas, os navios da frota de guerra acostaram numa ordem impecável.

 

Enquanto os soldados almoçavam, Ah-hotep e Kamés reuniam os voluntários para o ataque de Gebelein.

 

Estamos a aproximar-nos da fortaleza hicsa afirmou a Rainha e é preciso que os seus vigias não detectem os nossos navios.

 

Perante um ataque tão massivo considerou um oficial talvez se rendessem!

 

Vi essa fortaleza lembrou Ah-hotep. Parece inexpugnável. E os Hicsos têm muito mais medo do Imperador do que de uma frota egípcia. Gebelein é o ferrolho do Alto Egipto.

 

E se nós passássemos tão depressa quanto possível diante dessa maldita construção?

 

Os seus archeiros disparariam flechas em chamas e a maior parte dos nossos navios seria incendiada. As tropas núbias e os hicsos estacionados em Elefantina seriam prevenidos por sinais ópticos e dizimariam os nossos homens. Em seguida, destruiriam Tebas. Para poder utilizar o Nilo é imperativo tomar Gebelein e não dar tempo à sua guarnição para pedir reforços. Não esqueçam de que do alto das torres a vista alcança mais de cinquenta quilómetros para sul.

 

Por outras palavras concluiu o Rei é impossível lançar a nossa infantaria ao assalto e ainda menos montar cerco à fortaleza! Que solução nos resta?

 

Antes de tomarmos uma decisão, devemos observar Gebelein.

 

Levo uma dezena de homens e trato disso ofereceu-se Kamés.

 

Não, meu filho. Deves permanecer à frente das nossas tropas. Serei eu a desempenhar essa missão.

 

Mãe, é demasiado perigoso!

 

O Afegão e eu declarou o Bigodes estamos habituados a esse género de expedições. Se Sua Majestade nos aceitar a seu lado, estará em segurança.

 

A caminho decidiu Ah-hotep.

 

É realmente muito grande e francamente bem colocada constatou o Bigodes com certo despeito.

 

Estendidos nas ervas altas, a Rainha e os seus dois companheiros contemplavam a fortaleza de espessas muralhas. Torres quadradas, caminho de ronda, portal monumental, fossos de protecção... A besta parece invencível.

 

Fora naquele lugar que Ah-hotep e Seken tinham descoberto juntos Gebelein, com risco de serem presos pelos guardas que efectuavam uma operação de reabastecimento.

 

Tu, que és sempre optimista perguntou o Bigodes ao Afegão como farias?

 

Não sinto este golpe.

 

O moral dos dois resistentes estava em baixo. Mas Ah-hotep não se deixava desencorajar.

 

Observemos, existe com certeza uma falha.

 

Três vezes por dia, os hicsos saíam da fortaleza e inspeccionavam os arredores. Tal como no passado, Ah-hotep quase foi surpreendida. Mas o Afegãoe o Bigodes, familiarizados com os combates na sombra, conseguiram avisá-la a tempo e dissimularem-se.

 

A patrulha passou muito perto do trio sem suspeitar da sua presença.

 

Suprimir estes não serviria para nada considerou o Afegão.

 

Podíamos entrar de roldão quando entreabrirem a grande porta sugeriu o Bigodes.

 

Alguns dos nossos conseguiriam penetrar no recinto respondeu a Rainha mas seriam massacrados.

 

Chegava do sul um navio.

 

Hicsos enquadravam escravos egípcios que transportavam com dificuldade pesadas cargas. Um deles tropeçou na passarela e deixou cair o fardo. Ao quebrar-se no cais, a jarra espalhou cerca de trinta litros de cerveja.

 

Um hicso cravou a lança na nuca do desajeitado que não pensara nem em se defender nem em fugir. Com o pé, o assassino empurrou o cadáver para o Nilo.

 

Ah-hotep tentou saltar, mas o braço forte do Afegão segurou-a

 

Com todo o respeito que vos devo, Majestade, não podeis tentar nada. Tanto eu como o Bigodes já vivemos infelizmente muitas situações como esta. Se tivéssemos cedido à cólera, já não seríamos deste mundo.

 

A descarga continuou sem mais acidentes. Depois, o navio voltou a partir para o sul.

 

Não poderíamos deitar fogo a esta cidadela? propôs o Bigodes.

 

Com o tempo que demorariam a colocar uma enorme quantidade de madeira junto dos muros considerou Ah-hotep os nossos soldados seriam abatidos pelos archeiros hicsos. E nem sequer é certo que as chamas causassem grandes prejuízos a semelhantes muralhas.

 

Gebelein é verdadeiramente inexpugnável murmurou o Afegão, furioso.

 

Nunca te vi nesse estado notou o Bigodes.

 

Nunca nada me pareceu impossível! Mas, desta vez...

 

A noite caía, o deus Lua começava a brilhar em todo o seu esplendor.

 

Ele nos dará a solução prometeu a Rainha. Continuemos a observar.

 

No dia seguinte, nenhum acontecimento notável. As mesmas patrulhas, às mesmas horas.

 

Dois dias depois, o navio de reabastecimento apareceu com um carregamento ainda mais importante e com jarras maiores.

 

Idoso e cansado, um dos escravos vergou sob o peso e pôs um joelho em terra. Incapaz de continuar, depositou o seu fardo e fitou a direito os olhos do hicso que lhe cortou a garganta com o punhal.

 

Um adolescente conseguiu transportar a jarra até ao portão da fortaleza. Sob a vigilância dos soldados do Imperador, este apenas se abriu o tempo de deixar entrar na fortaleza os alimentos líquidos e sólidos.

 

Depois, o navio voltou a partir e foi a hora da última patrulha, antes do crepúsculo.

 

Noite e dia, os archeiros ocupavam o cimo das torres de vigia. As tochas eram tão numerosas que iluminavam os arredores das fortificações, prevenindo assim qualquer agressão nocturna.

 

De madrugada, o trio abandonou o seu esconderijo. Nem o Bigodes nem o Afegão tinham entrevisto a mínima solução, mesmo arriscada, para derrubar Gebelein.

 

Foi sem surpresa que ouviram a ordem da Rainha.

 

Regressemos ao navio-almirante.
De origem asiática, usando sempre um

toucado com riscas em forma de cogumelo que lhe envolvia a cabeça pontiaguda, o almirante Jannas tinha uma aparência enganadora De estatura média, quase franzino, de palavra e gesto lentos, assemelhava-se a um bom homem em quem era fácil confiar

 

Na realidade, Jannas era um chefe de guerra implacável que, ao longo da sua brilhante carreira, executara a letra as ordens do Imperador e sem quaisquer sobressaltos de alma Tal como Apopis, estava convencido de que a força militar era a única chave do poder e que era necessário exterminar todos os que se opusessem ao domínio hicso

 

Aniquilar os piratas refugiados nas Cidades ocupara-o durante vários anos, mas o almirante não conhecia a impaciência Apenas interessava o sucesso final E era aí, precisamente, que estava o busílis: o comanditário daqueles bandidos só podia ser Creta Aquela Creta que o Imperador, por razões diplomáticas que escapavam a Jannas, recusava destruir

 

Amanhã, pensava o almirante, os Cretenses armariam outros piratas E atacariam de novo os navios de mercadorias hicsos

 

Restava uma possibilidade de infligir à grande ilha um castigo de que ela não se recomporia, desde que fosse considerada culpada de ter dado refúgio a criminosos em fuga. Por isso os navios hicsos tinham impelido para Creta o último navio pirata ainda em actividade. Evitando interceptá-lo, tinham-no visto penetrar numa enseada onde a tripulação desembarcara.

 

O dever de Jannas estava portanto traçado.

 

Os navios da frota de guerra hicsos tinham-se reunido com vista a um assalto massivo. Desta vez, Creta não escaparia ao almirante. A suas cidades e aldeias seriam queimadas, os campos devastados e as suas riquezas reverteriam para o Imperador.

 

Um embaixador pede para vos falar avisou-o o seu segundo oficial. Veio só e sem armas, a bordo de uma barca.

 

Com cerca de cinquenta anos, barbudo, cabelos bem tratados, o diplomata tinha no rosto os estigmas da angústia. Jannas recebeu-o na ponte, em frente da grande ilha.

 

Posso recordar-vos, almirante, que os cretenses são fiéis súbditos do Imperador?

 

Súbditos que acolhem e apoiam os nossos inimigos! De quem estás a troçar?

 

Se evocais o caso desses piratas que julgaram poder abrigar-se aqui na ilha, estais enganado! Detivemo-los e executámo-los. Os seus cadáveres estão à vossa disposição.

 

Jannas troçou.

 

Não acredito nem numa palavra! Haveis suprimido alguns camponeses para me enganar, enquanto os verdadeiros culpados jantam à mesa do vosso rei. Sem o seu apoio, como poderiam eles ter podido escapar durante tanto tempo?

 

Almirante, juro-vos que estais enganado! Creta é uma província do Império Hicso e dirijo-me todos os anos a Auaris para apresentar ao Imperador tributos cada vez mais importantes. Apopis é o nosso soberano bem-amado cuja autoridade nenhum Cretense pensaria contestar.

 

Que belo discurso de diplomata, mais mentiroso do que um beduíno!

 

Almirante, não vos permito...

 

Pois eu, permito! cortou Jannas, furioso. Persegui os piratas um por um. Antes de os empalar, torturei-os e eles falaram. Todos deram a mesma versão dos factos: atacavam os nossos navios de mercadorias por conta de Creta, que recuperava assim os bens oferecidos ao Imperador. Disponho de numerosos depoimentos que não deixam subsistir qualquer dúvida sobre a culpabilidade da grande ilha.

 

Esses bandidos mentiram para não sofrerem mais, é evidente! Porque havia o meu país de agir de forma tão irresponsável’

 

Acabo de to explicar, embaixador. Terás as orelhas entupidas?

 

O Imperador tem de me ouvir. Deixai-me partir para Auaris

 

Está fora de questão. Creta é um refúgio de piratas que devo destruir.

 

Não façais isso, suplico-vos! Duplicaremos os nossos tributos.

 

Tarde demais, embaixador! Hoje as tuas manhas são inoperantes. Regressa à tua ilha e prepara-te para te defenderes ao lado dos teus compatriotas. Não gosto de vencer sem encontrar alguma resistência.

 

Não existe nenhum argumento que possa alterar a vossa decisão?

 

Nenhum.

 

A destruição de Creta marcaria o apogeu da carreira de Jannas O almirante provaria assim a Apopis que o Império Hicso devia continuar a estender-se com a mesma determinação de outrora. Na altura da invasão do Egipto, era a força, e só a força, que imperara. Nada de questões de diplomacia nem de concessões aos vencidos.

 

Julgando que poderiam desferir golpes no Império por intermédio dos piratas e sem sofrer as consequências da sua traição, os Cretenses tinham cometido um erro fatal. Uma vez exterminado o seu exército, a grande ilha tornar-se-ia uma base de partida para outras conquistas.

 

Conquistar: a existência de Jannas não tinha outro sentido. Vencer exigia sacrifícios, coragem e sentido de estratégia. Fracassar seria pior do que morrer.

 

De tempos a tempos, o almirante interrogava-se sobre a atitude do Imperador. Não estaria, com a idade, a deixar-se ficar demasiado na expectativa? É um facto que o exército continuava omnipresente em Auaris, mas não cedia o palácio a um luxo excessivo? O Egipto era uma terra de sortilégios, onde facilmente se perdia o gosto pelo combate. No lugar de Apopis, Jannas ter-se-ia instalado num país muito mais rude, como a Síria, a fim de nunca esquecer que qualquer território não integrado no Império pela violência continuava a ser um inimigo potencial.

 

Mas o almirante censurava a si mesmo aquele género de críticas. Apopis via mais longe do que ele, e tinha certamente boas razões para agir assim. O grande tesoureiro Khamudi, no entanto, não exerceria uma má influência sobre o Senhor dos Hicsos? Jannas detestava aquele vicioso, unicamente preocupado com o seu lucro pessoal. Também naquele caso, como ir contra a vontade do Imperador, que fizera de Khamudi o seu braço direito?

 

O almirante era o outro braço e não se deixaria limitar pelo grande tesoureiro. De regresso a Auaris, ser-lhe-ia necessário tomar decisões que restringiriam o campo de influência de Khamudi, tão pronto a eliminar eventuais concorrentes.

 

A manhã estava soberba, o mar calmo.

 

Tempo ideal para atacar a grande ilha que vivia os seus últimos momentos de independência antes de pagar alto preço pela sua hipocrisia.

 

O segundo oficial do almirante, encarregado da coordenação das tropas de assalto, apresentou-se à porta da cabina de Jannas.

 

Almirante, todos os oficiais estão no seu posto de combate.

 

Algum problema particular?

 

Nenhum. As armas foram verificadas, os navios dispostos de acordo com as vossas ordens.

 

Jannas saiu para a ponte e observou a margem de que a frota hicsa se aproximara.

 

Nem um soldado cretense constatou. Dir-se-ia que nos deixam o campo livre.

 

Não será uma cilada, almirante?

 

Claro que sim. É por isso que vamos utilizar as nossas catapultas para incendiar a vegetação. Bom número de cretenses serão grelhados e os outros fugirão. Quanto aos que tentarem resistir, serão abatidos pelos nossos archeiros. Em seguida, pilharemos esta ilha, com uma única palavra de ordem- nada de sobreviventes.

 

Os encarregados das catapultas apenas esperavam o sinal do almirante.

 

Mas verificou-se um acontecimento imprevisto: leve e rápido, um navio hicso avançava na direcção do navio-almirante.

 

Intrigado, Jannas suspendeu o assalto. O que queria aquele intruso?

 

Um oficial de ligação subiu a bordo.

 

Almirante, novas ordens do Imperador.

 

Jannas leu o texto gravado num grande escaravelho de calcário Devido a um grave levantamento na Anatólia, Apopis ordenava ao almirante que deixasse os últimos piratas, abandonasse imediatamente as Cíclades e se dirigisse para este, avançando o mais depressa possível a fim de cair sobre os rebeldes.

 

Não pensava encontrar-vos tão facilmente declarou o enviado de Apopis. Foi uma sorte terdes fundeado na proximidade de Creta!

 

Jannas esboçou um sorriso enigmático.

 

Sorte... Nunca conto com ela.

 

Antes de dar sinal da partida, o almirante lançou um olhar furioso à grande ilha.

 

Não perderia nada por esperar.
O comandante da fortaleza de Gebelein era um cananeu de cerca de sessenta anos que devia tudo ao Imperador. Na sua juventude, queimara numerosas aldeias na Palestina e no Delta, violara uma grande quantidade de mulheres e massacrara bom número de velhos. Particularmente satisfeito com os seus serviços, Apopis oferecera-lhe, para o seu fim de carreira, aquela magnífica praça forte que servia de ferrolho ao sul de Egipto.

 

A insurreição dos tebanos não inquietava o comandante. Embriagava-os o facto de terem conseguido reunir tropas em Cusae, mas essa façanha irrisória permaneceria sem futuro. Como não podiam progredir nem para o norte nem para o sul, permaneceriam encerrados no seu reduto que o Imperador aniquilaria quando quisesse.

 

O único perigo era a Núbia. Mas o chefe que federara tribos para formar o reino de Kerma era um homem razoável. Ser o aliado incondicional dos Hicsos era muito preferível a desafiá-los.

 

Restava portanto apenas a rotina. Para evitar que ela adormecesse excessivamente a guarnição, o comandante fazia reinar uma disciplina de ferro, com um rigoroso respeito pelas tarefas militares e domésticas. A qualquer instante, Gebelein estava preparada para conter um assalto, inevitavelmente votado ao fracasso. E se surgisse um navio tebano, um dilúvio de flechas incendiadas metê-lo-ia no fundo.

 

As únicas operações delicadas eram as patrulhas da manhã e da tarde, que podiam esbarrar com um comando. Mas a Rainha Ah-hotep nunca se atrevera a enviar nenhum, certa de que não havia qualquer hipótese de vencer. Do alto das torres, os archeiros hicsos observavam permanentemente os arredores e abateriam quem quer que tentasse aproximar-se das muralhas.

 

Além disso, em caso de ataque, Gebelein avisaria por sinal óptico uma torre de vigia situada trinta quilómetros a sul. De sinal em sinal, as tropas de Elefantina seriam rapidamente mobilizadas e desceriam o Nilo a toda a velocidade em direcção à fortaleza. Poderiam mesmo ser reforçadas por soldados núbios que residiam a montante da primeira catarata. Massacrar um bando de egípcios revoltados seria uma simples distracção.

 

Comandante, é o reabastecimento avisou o seu ajudante-de-campo.

 

Água fresca, carne e peixe secos, legumes, fruta, cerveja de boa qualidade... Os hicsos não tinham falta de nada.

 

É o navio habitual?

 

É ele mesmo.

 

Do alto das muralhas, o comandante assistiu à descarga das grandes jarras ovóides de tipo cananeu com as suas duas asas. A maior parte tinha uma capacidade de cerca de trinta litros e havia ainda maiores.

 

É o dia do mel, do azeite e do vinho lembrou-lhe o ajudante-de-campo com avidez. Tinha também encomendado caixas de tecidos para substituir as roupas e os lençóis. Se a administração não fez correctamente o seu trabalho, vai ter que me ouvir!

 

O comandante tinha um prazer sempre renovado em ver os egípcios humilhados pelos robustos soldados de capacetes negros. Não perdiam uma ocasião de os atacar e de lhes fazer sentir bem a sua inferioridade. Ao mínimo sinal de revolta, era a execução sumária.

 

A porta da fortaleza abriu-se para dar passagem ao rebanho de escravos pesadamente carregados. Obrigados a andar depressa, a maior parte deles estava à beira da asfixia.

 

Mal tinham depositado os seus fardos nas reservas tinham logo de correr para a porta, de cabeça baixa, a fim de saírem o mais depressa possível da fortaleza.

 

Uns vinte archeiros mantinham-se em posição no caminho de ronda e visavam os escravos. Outro grupo apontava as suas flechas para os arredores próximos do acesso principal, para o caso de alguns insensatos terem julgado poder aproveitar da entrega de produtos para penetrar no grande pátio.

 

Como era hábito, as regras de segurança eram respeitadas à letra.

 

Sinto que não vamos tardar a receber uma mensagem do Imperadorprofetizou o comandante. Quando a frente de Cusae for esmagada, ordenar-nos-á que ataquemos Tebas em conjunto com as tropas vindas de Elefantina.

 

Os marinheiros acabavam de içar a vela do navio de mercadorias que partia de novo para o sul.

 

Vamos beber vinho esta noite? sugeriu o ajudante-de-campo.

 

De maneira nenhuma, os homens devem deitar-se cedo. Amanhã, de madrugada, tarefa de limpeza. Ao meio-dia, inspecção. Quando esta fortaleza me parecer realmente limpa, organizaremos uma pequena festa.

 

Desiludido, o ajudante-de-campo teria de suportar a sua pena com paciência. Com a cumplicidade de uma sentinela, de boa vontade abriria uma jarra para seu uso pessoal. Mas se o comandante notasse, isso valer-lhe-ia trinta dias de prisão e a transferência para um lugar qualquer muito menos agradável. Ao jantar, contentar-se-ia portanto com o habitual.

 

Gebelein estava adormecida. Apenas velavam algumas sentinelas, algumas das quais tinham dificuldade em manter os olhos abertos. Mais uma noite calma naquela praça forte onde nada os podia atingir.

 

O silêncio do armazém foi apenas ligeiramente perturbado por um pequeno ruído seco: o bojo de uma jarra acabava de ser quebrado. Lentamente, o Bigodes saiu do seu desconfortável meio de transporte. Ao lado, o Afegão imitou-o. E o mesmo aconteceu com os outros quinze membros do comando.

 

A primeira parte do plano audacioso da Rainha Ah-hotep correra bem: apoderarem-se do navio que trazia as mercadorias para Gebelein, substituir os soldados hicsos por tebanos, pedir aos escravos que desempenhassem o seu papel antes de serem libertados e encontrar voluntários suficientemente loucos para se esconderem nas jarras maiores.

 

Um incidente podia condená-los à morte: que os hicsos verificassem o seu conteúdo antes de as armazenarem. Mas o hábito e a sensação de segurança tinham prevalecido.

 

O Afegão e o Bigodes entreolharam-se, surpreendidos por estarem ainda vivos. Os camaradas juntaram-se a eles, de punhal na mão

 

Eu e o Afegão disse o Bigodes vamos sair em reconhecimento. Logo que tivermos detectado a localização das sentinelas, vimo-vos buscar e depois eliminamos os que nos incomodarem Enquanto um de nós abrir a porta grande, os outros suprimirão o máximo de hicsos nos dormitórios. É preciso agir depressa e sem ruído

 

E se uma das sentinelas conseguir dar o alarme? inquietou-se um tebano.

 

Nesse caso, estamos todos mortos. Vamos, nada de falhas. Descalços, habituados a deslocar-se sem fazer barulho num meio hostil, o Afegão e o Bigodes aventuraram-se em território inimigo O medo deu lugar a uma extrema concentração e a uma grande economia de gestos.

 

Colocadas no pátio interior, as duas primeiras sentinelas foram degoladas sem poderem soltar um grito e os seus cadáveres arrastados para uma arrecadação Os dois resistentes vestiram a túnica delas e a couraça e colocaram na cabeça o capacete negro.

 

Com um sinal, o Afegão indicou ao companheiro que ia subir ao caminho de ronda pela primeira escada e que o Bigodes devia ir pela segunda. Chegariam ao mesmo tempo aos dois postos de vigia principais, cada um ocupado por dois archeiros

 

A um contra dois, a operação anunciava-se delicada

 

O que vens aqui fazer’ espantou-se um dos hicsos ao ver aproximar-se o Afegão. Sabes perfeitamente que o comandante nos proíbe de abandonarmos o nosso posto!

 

O Afegão cortou-lhe a garganta, na esperança de que o companheiro pensasse primeiro em defender-se antes de chamar por socorro. E foi precisamente o que ele fez, cometendo um erro fatal.

 

Eliminadas as suas duas sentinelas, o Afegão voltou-se para saber se o Bigodes tivera o mesmo êxito. Viu apenas a silhueta de um soldado hicso, mas ficou descansado quando ele tirou o capacete.

 

O Bigodes desceu outra vez para o pátio, a fim de ir buscar os tebanos. Indicou-lhes a localização dos outros vigias e fixou a cada um o seu objectivo.

 

Os rapazes são menos desajeitados do que eu supunha, pensou ao vê-los em acção.

 

Ágeis e determinados, evitaram cometer qualquer erro. Menos de meia hora depois da sua saída das jarras, os membros do comando tinham suprimido a totalidade das sentinelas hicsas.

 

A porta grande ordenou o Bigodes.

 

Dois tebanos abriram-na, enquanto o Afegão incendiava o topo de uma das torres. Com aquele sinal, o primeiro regimento de assalto de Kamés saberia que podia avançar sem receio para Gebelein.

 

Esperemos que venham depressa murmurou o Afegão caso contrário arriscamo-nos a ter aborrecimentos.

 

Para os dormitórios! É preciso matar o máximo de hicsos lembrou o Bigodes.

 

Não, um instante... Olha este alojamento ao pé da torre principal. E se fosse o do comandante?

 

Experimentemos.

 

A noite era-lhes favorável. Caíram sobre um comandante adormecido, incapaz de lhes oferecer a mínima resistência.

 

Ordena aos teus homens que se rendam recomendou-lhe o Afegão.

 

Um hicso não se rende!

 

Eu conheço-te notou o Bigodes. Estavas colocado no Delta, há alguns anos... E torturaste vários dos nossos camaradas!

 

Gebelein é inatacável! Deponham imediatamente as armas!

 

E Cansas-nos declarou o Afegão. Com vocês, Hicsos, é impossível qualquer discussão.

 

Empurrou o comandante para fora, obrigou-o a subir às muralhas e, depois de o ter agarrado pelos tornozelos, lançou-o no vazio.

 

Agora, vamos aos dormitórios.

 

Como a sorte lhes continuava a sorrir, os tebanos conseguiram fechar as portas de dois dormitórios com pesadas trancas. Quanto aos que saíram do terceiro, massacraram-nos um a um.

 

No momento em que os membros do comando começavam a fraquejar, a guarda-avançada do exército de libertação penetrou na fortaleza com o Faraó Kamés à frente.

 

À proa do navio-almirante, a Rainha Ah-hotep via arder a fortaleza inatacável.
Embaixador hicso na Núbia e espião-chefe, o Zarolho nada ignorava do que se passava naquela vasta região, povoada de tribos guerreiras que o príncipe Nedjeh, um condutor de homens de métodos brutais, acabava de federar.

 

Ex-general de infantaria e assassino encartado, o Zarolho ficara com o olho esquerdo vazado por uma núbia que não suportara ser brutalizada. Oficialmente, perdera-o no decurso de um combate heróico de que saíra vencedor.

 

Durante muito tempo, receara que o príncipe Nedjeh ficasse tão imbuído da sua autoridade que ousasse atacar Elefantina. Mas o núbio contentara-se com o seu rico domínio de Kerma e afirmava-se fiel vassalo de Apopis, a quem enviava regularmente tributos.

 

Aquele comportamento excessivamente comedido intrigava o Zarolho. Nedjeh não prepararia em segredo o assalto à grande cidade do extremo Sul do Egipto, por altura da primeira catarata? No entanto, as informações transmitidas pelos informadores do Zarolho não revelavam nada de inquietante. De acordo com várias fontes, Nedjeh engordava e só se preocupava em consolidar a sua posição local.

 

Depois de ter de novo percorrido em todos os sentidos os territórios núbios a fim de se assegurar de que não havia nenhum foco de rebelião a incubar, o Zarolho gozava algumas semanas de repouso em Elefantina, onde a guarnição hicsa deixava correr os dias tranquilamente. O entendimento com os poucos soldados núbios instalados a montante da catarata, era perfeito e um certo número de oficiais, tão longe de Auans, começavam a esquecer a vocação guerreira do seu povo.

 

Não era preciso ser um perito para perceber que a disciplina afrouxava dia-a-dia e que a caserna principal abrigava cada vez mais mulheres, cuja presença era outrora proibida. A doçura dos Invernos e o calor dos Verões tinham pouco a pouco amolecido as almas mais rudes e todos se preocupavam mais com as ementas e com o conforto do alojamento do que com a manutenção das armas.

 

A guarnição de Elefantina não dispunha nem de carros nem de cavalos, reservados ao exército do Norte, Os seus navios estavam velhos e precisavam de sérias reparações. Quanto à fortaleza, tão impressionante como a de Gebelein, sofria de defeitos de construção. A grande porta ficava muitas vezes aberta e a vigilância das sentinelas era pouco atenta.

 

Quem ousaria atacar Elefantina? perguntou o governador da cidade ao Zarolho, seduzido pela núbia que encontrara na sua cama e pela excelente refeição que lhe oferecia o dignitário.

 

Há algum problema com os Núbios?

 

Nem o mais pequeno, caro amigo! São aliados um pouco susceptíveis mas perfeitamente leais. O simples nome do Imperador impõe obediência e assim é que está certo Aqui para nós, espero nunca mais ser chamado a Auaris. Seria um desgosto abandonar este pequeno paraíso.

 

Um escanção balbuciante aproximou-se da mesa do governador.

 

Uma mensagem urgente... Muito urgente!

 

O que é agora? Aposto que os oficiais se queixam da qualidade medíocre da cerveja local! De qualquer maneira, não vale a pena...

 

A leitura do texto, redigido pela mão pouco hábil de um marinheiro num pedaço de calcário, fez sufocar o governador.

 

”Gebelein caiu”... O que quer isto dizer, ”Gebelein caiu”?

 

Apoderaram-se dessa fortaleza explicou o Zarolho, também estupefacto.

 

”Apoderaram-se”... Mas quem se apoderou? Do Nilo subiram clamores.

 

Talvez não tardemos a saber, governador.

 

Os dois homens treparam quatro a quatro os degraus até ao topo da torre principal da fortaleza.

 

Daquele posto de observação privilegiado, descobriram a frota de guerra tebana, de velas inchadas por um vigoroso vento do norte.

 

Apanhados de surpresa, os navios hicsos estavam a afundar-se. Dentro de alguns minutos, o exército de Kamés e Ah-hotep desembarcaria para atacar a cidadela.

 

A porta... Os archeiros... A caserna... Depressa, é preciso agir depressa! ganiu o governador, que se precipitou para a escada.

 

Excessivamente apressado, falhou um degrau. Durante a sua interminável queda, a cabeça bateu por várias vezes na parede. No fundo da escada, o dignitário hicso estava morto.

 

O pânico apoderava-se dos soldados, brotavam de todos os lados ordens contraditórias. Para o Zarolho, havia um imperativo: sair daquela cidade e alcançar Kerma para alertar o príncipe Nedjeh.

 

Pela primeira vez, o Bigodes e o Afegão não tiveram que se arriscar durante o assalto decisivo que provocou a queda de Elefantina. Privados de chefe, desorganizados, os hicsos defenderam-se no entanto com valentia, mas o entusiasmo dos tebanos era tal que varreu o adversário em poucas horas.

 

Esses rapazes não se portam nada mal considerou o Bigodes.

 

O trabalho acaba sempre por dar resultados corroborou o Afegão. Hoje, eles colhem o benefício do treino que a Rainha lhes impôs.

 

Ah-hotep acabava de aparecer no vestíbulo interior do templo de Khnum, o santo patrono de Elefantina, em companhia do Faraó Kamés, tendo na cabeça a coroa branca. Segurando um arco na mão esquerda e o sinal de vida ankh na direita, incarnava Tebas libertadora.

 

O jovem Kamés nunca sentira uma tal sensação de felicidade Graças ao plano de Ah-hotep, executado com uma rapidez fulminante, todo o território que ia de Tebas a Elefantina estava agora livre de hicsos.

 

Nas ruas e praças, a população festejava os soldados do exército de libertação e preparavam-se já os banquetes que durariam pela noite fora.

 

Um sacerdote muito idoso saiu do templo. Caminhava com dificuldade, apoiando-se a uma bengala.

 

Gostaria de me curvar perante Vossas Majestades, mas as minhas costas estão demasiado rígidas. Que felicidade receber-vos aqui! Fiz bem em lutar contra a morte com a esperança insensata de ver esta cidade libertada.

 

Apoia-te ao meu braço recomendou-lhe a Rainha.

 

Majestade, eu...

 

Peço-te que o faças. És o guarda da roda de oleiro, não é verdade?

 

O rosto enrugado do velho iluminou-se.

 

Apesar das suas buscas, os Hicsos não a encontraram! Foi neste templo que foi fabricado o primeiro remo-leme que permite dirigir o navio do Estado. E foi também neste santuário que o deus Khnum modelou na sua roda de oleiro todos os seres vivos. Vou revelar-vos esses mistérios antes de morrer em paz

 

Vindas do deserto, dezenas de gazelas tinham invadido os jardins de Elefantina e brincavam com as crianças. Era novamente possível celebrar a festa da sua protectora, a deusa Anukis, representada sob a forma de uma linda mulher com uma coroa branca adornada com delicados chifres de gazela.

 

Enquanto a cidade deixava explodir a sua alegria, o velho sacerdote libertava o acesso às criptas do grande templo, escavadas por baixo do pavimento do nãos. Cem vezes os militares hicsos tinham profanado aquele lugar, sem desconfiar que os tesouros que cobiçavam estavam sob os seus pés.

 

O remo-leme de acácia era tão pesado que Kamés teve que fazer apelo a vários homens para o retirar das profundezas. A partir de agora, seria ele a orientar o navio-almirante.

 

Depois, o jovem Faraó segurou nas suas mãos a roda de oleiro com a qual o deus Khnum colocara no seu lugar a abóbada celeste, erguera o firmamento e modelara o cosmos a fim de que a luz nele se expandisse. Um a um, os deuses, os animais e os homens tinham saído daquela matriz.

 

O velho, a Rainha e o Rei subiram para o terraço do templo a fim de exporem a roda ao sol e lhe permitirem funcionar de novo.

 

A vida recomeça declarou o sacerdote o sopro anima a matéria.

 

Quando o céu nocturno ficou descoberto, o velho sábio mostrou aos seus convidados como utilizar os instrumentos de mira que tinham ajudado os antigos a compreender os movimentos do Sol, da Lua e das estrelas. Capazes de determinar o momento da culminação superior ou inferior de um corpo celeste, os astrónomos de Assuão sabiam que as estrelas ditas ”fixas” se deslocavam e que o centro em redor do qual pareciam girar também mudava de posição devido à precessão do eixo do mundo.

 

Maravilhado, o jovem Kamés seria capaz de ficar noites e noites a ouvir o velho, tão feliz por transmitir a sua ciência.

 

A partir de amanhã prometeu o Faraó formarás os teus sucessores. Serão nomeados numerosos sacerdotes, servidores e artesãos para que este templo reencontre o esplendor e a actividade do passado.

 

A minha morte deverá esperar então ainda mais um pouco, Majestade.

 

Ah-hotep tinha os olhos fixos na primeira catarata, que marcava a fronteira com a Núbia

 

Tal como o filho, saboreava plenamente a ressurreição de Elefantina. Mas tratava-se apenas de uma etapa e aquela vitória, por muito deslumbrante que fosse, era ainda muito frágil

 

Para além daquela barreira de rochedos iluminados pelo deus Lua, estava o inimigo Um inimigo capaz de aniquilar o exército de libertação.

 

A Rainha Ah-hotep e o Rei Kamés recolheram-se demoradamente na ilha de Biggeh onde, de acordo com a tradição, se encontravam simultaneamente o corpo de Osíris e as nascentes do Nilo. Brotando de uma caverna, metade das águas do rio tomava a direcção do norte e a outra a do sul. Essas nascentes eram tão profundas que ninguém poderia jamais atingi-las.

 

Reinava na ilha um silêncio absoluto. As próprias aves se coibiam de cantar para respeitar o repouso do deus ressuscitado que Ísis, a mágica, arrancara à morte. Por Osíris e nele renasciam as almas dos justos, os seres de luz de que o Faraó Seken fazia agora parte.

 

A bordo do navio que os levava a Elefantina, o jovem monarca não conseguiu ocultar a Ah-hotep a sua profunda emoção.

 

Esta cidade é a cabeça do país, a capital da primeira província do Alto Egipto, e preserva as origens sagradas do Nilo! Controlando-a de novo, fazemos do rio nosso aliado invencível. Tal como Osíris, a terra dos Faraós renasce. Não seria conveniente esquecer os núbios e partir imediatamente para o Norte?

 

Não, meu filho, porque é necessário abrir definitivamente o torno, tirando ao príncipe de Kerma qualquer desejo de nos atacar. E há uma única forma de o conseguir: retomar o forte de Buhen e acorrentar assim a Núbia.

 

Kamés desenrolou um papiro sobre o qual estava desenhado um mapa rudimentar.

 

Teremos então de navegar quase até à segunda catarata! Num percurso tão longo, não nos arriscamos a cair numa emboscada preparada pelo príncipe de Kerma muito antes da fortaleza?

 

É uma possibilidade  reconheceu Ah-hotep  mas aposto mais na confiança cega que ele tem nas capacidades de Buhen para deter qualquer assalto. Trata-se de uma praça forte tão poderosa como as de Gebelein e Elefantina reunidas. Se o seu governador egípcio não nos tivesse traído em benefício dos Hicsos, os Núbios não teriam certamente conseguido apoderar-se dela.

 

Tencionais utilizar uma segunda vez a manobra das jarras?

 

Receio que isso seja impossível, Kamés.

 

Nesse caso, temos de considerar um cerco longo e difícil, de resultado incerto! E, durante esse período, a frente de Cusae arrisca-se a ceder.

 

É outra possibilidade  admitiu a Rainha.  Se consideras a minha estratégia inadequada, tens liberdade para a recusar.

 

Quem ousaria ir contra a vossa vontade, mãe, vós que sois a libertadora do Egipto?

 

Tu, que és o Faraó. Ordena e eu obedecerei. Kamés contemplou o Nilo.

 

Tornando-vos a Esposa do Deus, dando todo o vosso amor a este país que vos venera com razão, traçais na terra um caminho que nasce no céu. Sou apenas um jovem Rei e ainda não disponho do vosso olhar nem da vossa visão. Por vezes, interrogo-me se sois completamente deste mundo ou se uma parte do vosso ser não se encontra do outro lado do visível a fim de conduzir este exército a bom porto. Nunca vos darei uma ordem, mãe, e seguir-vos-ei onde fordes.

 

A festa tinha acabado, a cidade estava silenciosa, e as gazelas tinham regressado ao deserto. Embora a maior parte dos soldados se sentissem afectados por dolorosas enxaquecas, todos os que deviam partir para a Núbia se tinham reunido no cais. Invejavam os camaradas chamados a formar a nova guarnição de Elefantina.

 

O chanceler Neshi aproximou-se do Faraó.

 

Está tudo pronto, Majestade. Embarcámos grande quantidade de víveres e de armas. Eu próprio verifiquei cada carregamento.

 

Pareces contrariado, chanceler.

 

Os nossos homens têm medo, Majestade. Os habitantes de Elefantina falaram-lhes dos guerreiros negros tão perigosos como feras. Todos sabem que a Núbia é um reservatório de malefícios que ninguém pode apagar. Não foi nesses desertos ardentes que mergulhou o olho do criador com intenção de destruir qualquer forma de vida? Se renunciásseis a esta expedição ao desconhecido, todos se sentiriam mais tranquilos.

 

Tu também, Neshi?

 

Eu, ficaria desiludido e inquieto. Desiludido pela falta de firmeza do comando, inquieto pelo processo de libertação.

 

Não são palavras muito diplomáticas!

 

Não sou um diplomata, mas o portador do selo real que ratifica e dá a conhecer as decisões do Faraó. Se as achar más, devo ser sincero. E se essa sinceridade vos desagrada, Majestade, demitií-me das minhas funções e substituí-me por alguém mais dócil.

 

Acima de tudo, Neshi, nunca mudes,.

 

O medo das nossas tropas é uma desvantagem que não sei como combater.

 

A minha mãe pediu aos artesãos de Elefantina para fabricarem armas inéditas que deveriam tranquilizá-los.

 

Deslumbrante no seu longo vestido verde, a Rainha Ah-hotep, coroada com um diadema floral, apresentou-se diante do exército de libertação seguida por vários artesãos que transportavam pesados cestos.

 

Vamos enfrentar temíveis adversários reconheceu ela. Antes mesmo de atingirmos o forte de Buhen, teremos de vencer guerreiros núbios que se baterão com ferocidade. Mas existe um processo mágico de os enfraquecer: utilizar estes objectos cobertos de sinais eficazes.

 

De um dos cestos, Ah-hotep retirou um boomerang no qual estava gravado um olho completo, uma cobra erguida, um grifo e uma cabeça de chacal.

 

O olho permitir-nos-á ver o perigo explicou ela e a cobra dissipá-lo. Graças ao grifo e ao chacal, as forças destruidoras do deserto serão mantidas afastadas. Os oficiais e suboficiais serão equipados com estes boomerangs a fim de protegerem os homens colocados sob o seu comando. E será um boomerang de marfim com os mesmos sinais que tornará serena a nossa navegação.

 

A Rainha nunca lhes mentira. Os soldados ficaram portanto persuadidos que também desta vez Ah-hotep conseguiria esconjurar a má sorte.

 

Foi com entusiasmo que os marinheiros içaram as velas e as vergas com o auxílio de uma adriça, puxando por esta com todas as suas forças. A manobra era delicada, mesmo para profissionais. Mas não se verificou nenhum incidente e as velas desdobraram-se sob o olhar atento dos capitães.

 

No navio-almirante, sete vigorosos rapagões içaram a alta verga no meio de duas adriças, enquanto um oitavo trepava ao topo do mastro para os ajudar. A sua manobra divertiu um jovem macaco que se revelou mais rápido do que ele e troçou da tripulação soltando pequenos gritos.

 

Os latidos de Risonho, o Jovem, avisaram o indisciplinado para não exagerar. Sentado no cimo da grande vela, o macaco entendeu a mensagem.

 

O Faraó em pessoa manejou o remo-leme quando o navio penetrou num canal que lhe permitia evitar os rochedos da primeira catarata e atingir o Nilo.

 

Com a sua longa bengala de extremidade bifurcada, o prospector Lunar media a profundidade da água, sem ter direito a errar. A progressão do navio efectuava-se portanto com lentidão.

 

Dotado de uma capacidade de concentração fora do comum, Lunar era a sua vara. Com todo o seu ser, com todos os seus sentidos, vivia cada movimento da água e detectava as múltiplas armadilhas.

 

Ah-hotep notou que a testa de Lunar ficava marcada por duas rugas profundas, como se os riscos aumentassem sem cessar. A Rainha fixou a água do canal que cintilava ao sol e dirigiu uma prece a Hapi, o dinamismo do rio, a fim de que ele não contrariasse a deslocação da frota de guerra.

 

À popa do navio-almirante, o Bigodes notou que o Afegão parecia cada vez menos bem-disposto. O seu rosto adquiria um estranho tom verde.

 

Parece que não gostas muito de navegar, pois não?

 

Olha para outro lado, deixas-me mais à-vontade.

 

Vomita à vontade, Afegão. Faltam-nos ainda algumas semanas de viagem entrecortadas por combates mortíferos. Esperemos, por ti, que haja alguns em terra firme.

 

Com o estômago virado, o Afegão nem tinha força para replicar.

 

Descansa disse o Bigodes parece que o rio é bastante calmo na Núbia. Para naturezas fracas como a tua é preferível, não? Ah, atenção... Vamos passar numa espécie de rápido que nos pode sacudir um pouco! Principalmente, não olhes. Não tenho a certeza de que o nosso navio se aguente.

 

Pouco a pouco, as rugas da testa de Lunar iam-se desfazendo. Sempre vigilante, o prospector manejava a vara de forma mais descontraída.

 

A Rainha Ah-hotep deixou de olhar a água para observar os maciços de palmeiras cintilando ao sol

 

Boas notícias, Afegão exclamou o Bigodes Acabamos de penetrar na Núbia.

 

Mais estreito do que no Egipto, o leito do rio era orlado de palmeiras, com os pés na água e a cabeça ao sol. A maior parte delas era centenária e as mais vigorosas chegavam a dar trinta cachos de tâmaras. Atingindo a maturação antes da cheia, entre Julho e Setembro, proporcionavam uma alimentação salutar durante o período quente. Com cerca de vinte metros de altura, as palmeiras mediterrâneas apresentavam uma particularidade: o seu tronco bifurcava-se duas vezes ou mais e cada um dos ramos acabava, numa espécie de coroa. Para além dos seus frutos de um castanho-avermelhado, de polpa doce e açucarada, davam uma sombra benéfica. E os seus caroços continham um líquido refrescante que o Bigodes apreciava.

 

Estás melhor, Afegão? Parece que o navio baloiça um pouco menos.

 

Sempre esverdeado, o interpelado mal comia.

 

Um dia hei-de levar-te às minhas montanhas em pleno Inverno. Vamos ver se te fazes de valente com os pés na neve. Conhecendo-te como te conheço, vais sofrer de vertigens e não poderás subir nem descer. E não contes sobretudo comigo para te ajudar.

 

Por agora, estamos na Núbia e farias melhor em olhar à tua frente. Temos visitas.

 

Eram muito negros, muito altos, muito fortes, armados de lanças e arcos. O vestuário resumia-se a um simples saiote, os rostos e torsos estavam ornados com pinturas de guerra.

 

Ah-hotep fez parar o navio-almirante.

 

A passarela ordenou.

 

Mãe inquietou-se Kamés não deveis descer a terra!

 

São homens belicosos, mas não são desprovidos de noção de honra. Não abaterão uma mulher que vai ao seu encontro, só

 

e sem armas.

 

O Bigodes não estava assim tão seguro disso. O braço do Afegão poisou sobre o seu.

 

Não os ameaces e deixa-a agir. Ela sabe onde vai.

 

Aqueles brutos vão massacrá-la!

 

Ninguém massacra uma mulher como ela.. Olha para eles... Daqui a pouco, prostrar-se-ão diante da Rainha do Egipto.

 

Surpreendido pela iniciativa de Ah-hotep, um rapagão com os pulsos ornados de pulseiras de ouro rompeu as fileiras dos seus soldados a fim de enfrentar aquele inesperado adversário.

 

Sou Ah-hotep, soberana das Duas Terras e acompanho o Faraó Kamés, à frente do seu exército.

 

Eu sou o chefe da tribo dos Medjai e julgava que não existia outro Faraó a não ser Apopis. O que vindes fazer ao meu território, Rainha do Egipto?

 

Combater os aliados dos Hicsos que ocupam o meu país e retomar a fortaleza de Buhen, entregue ao inimigo por traidores e colaboradores.

 

Estareis decidida a dar luta ao príncipe de Kerma?

 

Visto que ele é o fiel amigo do Imperador dos Hicsos, darei cabo dele.

 

O príncipe Nedjeh é invencível!

 

O Faraó vencê-lo-á.

 

O núbio pareceu perturbado.

 

O que desejam os Medjai? perguntou Ah-hotep, cuja serena beleza fascinava o seu interlocutor.

 

Os Medjai viviam numa grande parte desta terra, entre a primeira e a segunda catarata. O príncipe de Kerma quis fazer de nós seus escravos. Recusámos. Então, matou muitos de nós e destruiu grande número das nossas aldeias, com o auxílio dos hicsos, de couraça e capacete negros. Refugiámo-nos no deserto e só de lá saímos nestes últimos dias, quando soubemos que uma frota vinda de Tebas libertara Elefantina e penetrava na Núbia. Matámos os soldados do príncipe de Kerma que se preparavam para vos atacar. Durante algum tempo, julgámos que esse Nedjeh seria o nosso libertador. Na realidade, não passa de um tirano. É por isso que desejamos combater ao lado do Faraó do Egipto.

 

Sob o olhar atónito de Kamés, do Bigodes e dos soldados egípcios, os Medjai prostraram-se diante da Rainha Ah-hotep.

 

O Afegão foi modesto no seu triunfo, pois nem ele próprio acreditara verdadeiramente na predição feita.

 

Esta mulher é ela própria um milagre murmurou.

 

O egípcio Soped, comandante da fortaleza de Buhen, ouvira o Zarolho com atenção. O embaixador hicso não tinha nada de um fabulador e conhecia a Núbia melhor que ninguém. Portanto, os seus avisos não deviam ser considerados de ânimo leve.

 

Muito bem, um exército de libertação vindo de Tebas apoderou-se de Elefantina. Um golpe duro para os hicsos, de acordo, mas um revês momentâneo. Tal como eu, sabeis que a reacção do Imperador será terrível. Arrasará Tebas e Elefantina para ali instalar guarnições que impedirão, de futuro, qualquer revolta. Eu sou um leal servidor do príncipe de Kerma. Lavei os pés nas águas do meu senhor, e pertenço ao seu séquito. Por isso estou são e salvo.

 

Sem dúvida, comandante, mas deveríeis mesmo assim reforçar as vossas defesas.

 

Buhen é inexpugnável.

 

Gebelein também era!

 

A comparação não tem razão de ser. Buhen é uma pequena cidade e disponho de uma guarnição suficientemente numerosa para repelir qualquer assalto. E, depois, não deveis esquecer que as tropas do príncipe de Kerma e a tribo dos Medjai já devem ter afundado a maior parte dos navios desse ridículo Faraó Kamés. Podeis crer, meu amigo: nenhum navio inimigo chegará até Buhen.

 

É provável admitiu o Zarolho mas receio a eficácia da Rainha Ah-hotep.

 

Uma mulher! Estais a brincar?

 

Essa mulher parece ter pacto com os deuses.

 

Se os deuses não protegeram o Egipto durante a invasão dos Hicsos, não vão protegê-lo mais agora.

 

Dirijo-me a Kerma para avisar o príncipe Nedjeh e pedir-lhe para vos enviar reforços.

 

Ele vai rir-vos na cara!

 

Prefiro que sejam tomadas todas as precauções.

 

Por que haveis de estar tão inquieto? São apenas os últimos sobressaltos de uma facção tebana suficientemente louca para acreditar ainda na independência do Egipto.

 

Sentir-me-ei mais tranquilo quando essa Ah-hotep tiver morrido.

 

No momento em que falamos, já deve estar morta com certeza! Passai um tempo agradável em Kerma e cumprimentai o príncipe Nedjeh da minha parte. Parece que o seu palácio se embeleza cada vez mais e que a sua corte será em breve mais brilhante do que a dos Faraós.

 

Foi com satisfação que o comandante viu o embaixador hicso partir para sul. O Zarolho começava a deixar-se invadir pelos temores de velho, incapaz de fazer frente a situações novas. O Imperador não o deixaria muito mais tempo em funções e substituí-lo-ia por um dignitário mais jovem e mais dinâmico, que não tivesse medo da própria sombra.

 

Soped não tomara de forma alguma em consideração as recomendações do Zarolho. Quem melhor do que o seu comandante conhecia as capacidades de resistência da fortaleza? Nessa mesma noite redigiria um relatório muito crítico sobre o comportamento do Zarolho e enviá-lo-ia com urgência ao príncipe de Kerma para que este exigisse a sua demissão junto do Imperador.

 

O comandante Soped podia estar orgulhoso da sua carreira Simples de suboficial, em breve compreendera que os Hicsos eram os novos senhores do Egipto e que era necessário facilitar-lhes ao máximo a tarefa. Denunciara portanto todos os seus superiores como cúmplices dos tebanos.

 

O Imperador não se mostrara ingrato: em troca dessa colaboração espontânea, nomeara-o comandante da fortaleza de Buhen, tendo por missão fazer dela um bastião inexpugnável e decapitar quem fosse suspeito de se opor, mesmo em pensamento, aos Hicsos. Soped aproveitara para eliminar todos os que lhe desagradavam, de pleno acordo com o seu adjunto, vindo de Kerma para o vigiar. Por vezes, o núbio era obrigado a travar o ardor do colaborador, cuja sede de execuções parecia inesgotável.

 

Actualmente, o comandante Soped reinava como senhor único naquela praça-forte que servia de abrigo às caravanas, de posto de controlo para as mercadorias, de atelierde lavagem de ouro e de centro postal. Obedecendo simultaneamente às ordens do Imperador e às do príncipe de Kerma, Soped conseguia não desagradar nem a um nem a outro. E quando um período de calma se prolongava excessivamente, tratava de torturar um civil, obrigado a confessar que fomentava uma conspiração.

 

Desviando modestas quantidades de ouro em cada operação de lavagem, o comandante amealhava pouco a pouco uma pequena fortuna. A sua única preocupação era a emergência de um rival que tentasse afastá-lo de forma desleal; mas a sua vigilância era tal que não receava essa eventualidade.

 

O jantar está servido preveniu-o o seu escanção.

 

Mais um serão tranquilo em perspectiva.

O todo-poderoso príncipe de Kerma, Nedjeh, fazia-se massajar com óleo de karité, a ”árvore da manteiga”, cujo fruto continha uma semente oleaginosa. Nos últimos dois anos, o belo atleta negro engordara vinte quilos e tornara-se quase obeso. Mas como resistir aos pratos com molho e às sobremesas dos seus cozinheiros?

 

Quando tomara o poder na fértil região do Dongola, mesmo acima da terceira catarata, Nedjeh era um guerreiro ávido de conquistas. Senhor de uma região generosa onde os cereais cresciam em abundância e onde o gado prosperava, Nedjeh julgara poder apoderar-se de Elefantina, depois de Tebas, e conquistar assim o Alto Egipto. Mas a perspicácia do Imperador Apopis decidira de outra forma e o núbio achava preferível não hostilizar os Hicsos

 

Continuando a ser o seu fiel aliado e enviando tributos a Auaris. o príncipe Nedjeh garantia a sua tranquilidade e podia comportar-se como um déspota na região que controlava com punho implacável

 

Embelezara a sua capital de forma espectacular, mandando construir mesmo no centro um palácio-templo de tijolos crus com a altura de cerca de trinta metros. Uma escadaria monumental conduzia ao seu topo, de onde se divisava a cidade A sudoeste, um amplo compartimento circular servia de sala de audiências; a este, um cemitério cujos túmulos principais eram adornados com cabeças de boi. Bastiões de terra, torres de vigia e pesadas portas garantiam a segurança de Kerma, onde se sacrificavam tanto escravos como carneiros.

 

O último capricho de Nedjeh: telhas de faiança e frisos representando leões. Graças às minas de ouro, a riqueza do príncipe crescia sem cessar e ele aproveitava-a para fazer de Kerma um esplendor a seu gosto. Apopis, com o qual comunicava por intermédio dos escaravelhos com inscrições transportados pelo correio imperial, enviara-lhe carpinteiros de inegável talento. O seu palácio estava portanto cheio de móveis requintados de estilo egípcio.

 

Não faltava nada aos habitantes da nova capital. Graças às boas relações comerciais com os Hicsos, carregamentos de jarras minóicas e cipriotas chegavam regularmente a Kerma, onde os chefes de tribo vinham prestar juramento de fidelidade a Nedjeh.

 

Era evidente que o príncipe se deixara engordar e ninguém se queixava do facto. A boa comida e o luxo faziam-no esquecer as suas ambições guerreiras em benefício do conforto. O preço a pagar não era mais do que uma aliança incondicional com os Hicsos, mas saberiam esses predadores contentar-se com o extermínio dos Egípcios? O ouro da Núbia era tão tentador...

 

Nedjeh tranquilizava-se aumentando todos os anos as quantidades do precioso metal que oferecia ao Imperador. Assim, Apopis poupava a longínqua Kerma, que de forma alguma o ameaçava.

 

Quando o mordomo do príncipe lhe anunciou a visita do Zarolho, Nedjeh fez má cara. O embaixador hicso era um especialista da manha e da manipulação ao qual não seria fácil mentir. E como vinha reclamar mais ouro, o príncipe de Kerma tinha de o persuadir de que os seus mineiros haviam já extraído o máximo.

 

Estás com muito bom aspecto, Zarolho.

 

A aparência é por vezes enganadora, príncipe.

 

Vamos, vamos... Não me vais dizer que trazes más notícias?

 

O exército tebano apoderou-se de Gebelein e de Elefantina.

 

Já sei, visto que recebi as tuas mensagens. É aborrecido, com certeza, mas não serão essas posições em breve retomadas pelos soldados do Imperador?

 

É um facto.

 

Então porque nos havemos de preocupar?

 

Porque Ah-hotep e o Faraó Kamés entraram na Núbia. Nedjeh desatou a rir.

 

Uma mulher e um adolescente! Cometendo essa loucura, condenaram-se à morte.

 

O Zarolho parecia deprimido.

 

Não estou assim tão certo.

 

E por que duvidas? As minhas tropas estacionadas perto da primeira catarata e a tribo dos Medjai darão cabo desses tebanos num abrir e fechar de olhos!

 

Nestes últimos tempos, os Medjai pareceram-me cada vez menos seguros. Os vossos homens foram muito duros com eles e sei que são rancorosos.

 

Nunca ousarão desobedecer-me! Podes ter a certeza que o exército tebano foi exterminado.

 

Supondo que o não seja, não seria oportuno reforçar as defesas de Buhen?

 

Buhen é inexpugnável! Se esse bravo Soped não tivesse traído os seus, ter-me-ia visto obrigado a realizar um cerco interminável sem ter a certeza de me apoderar dessa fortaleza.

 

Creio que cometeríamos um erro grave considerando esses tebanos inofensivos. Ah-hotep é um verdadeiro chefe de guerra Para um exército considerado negligenciável, tomar Gebelein e depois Elefantina não constitui uma verdadeira proeza?

 

Não escureças a situação, Zarolho! Esses aventureiros aproveitaram circunstâncias favoráveis, nada mais.

 

Príncipe, aconselho-vos a enviar reforços a Buhen.

 

Para ser franco, parece-me inútil.

 

Como representante do Imperador dos Hicsos, vejo-me então obrigado a ordenar-vos que o façais!

 

Contendo a sua fúria, Nedjeh curvou-se.

 

Como quiseres... Mas acho-te muito alarmista.

 

Se os Medjai se voltaram contra as vossas tropas, Ah-hotep e Kamés ficaram com o campo livre. O seu objectivo principal só pode ser Buhen. Tomando essa praça-forte, encerrar-vos-ão em Kerma.

 

São muitas hipóteses não verificadas!

 

O meu instinto raramente me enganou. Sei que esta Ah-hotep é perigosa e que deveis intervir.

 

Não falemos mais disso, as ordens do Imperador serão executadas, como é costume. Apopis teve alguma vez ocasião de se queixar de mim?

 

Nenhuma reconheceu o Zarolho, satisfeito com o desfecho da sua iniciativa. Sereis vós, o príncipe de Kerma, a ter o privilégio de esmagar a revolta tebana. É evidente que retirareis disso importantes benefícios. No relatório que Apopis exigirá, farei de vós um vibrante elogio.

 

Serás sempre bem-vindo na minha cidade, Zarolho. Achas que o Imperador ficará satisfeito se o seu embaixador lhe levar a cabeça de Ah-hotep e a de Kamés na ponta de uma lança?

 

Apreciará certamente esse género de homenagem.

 

Negócio feito, meu amigo! E se nos fôssemos divertir um pouco?

 

A distracção preferida de Nedjeh, depois dos copiosos banquetes, eram as mulheres. E, nesse campo, o embaixador hicso sentia-se capaz de rivalizar com ele, tanto mais que Kerma possuía esplêndidas criaturas de temperamento ardente.

 

Um dos vastos aposentos do palácio era reservado às novas conquistas do príncipe que, apesar da sua gordura, continuava a ser um amante vigoroso.

 

Eram quatro, jovens, bonitas e sorridentes.

 

Deixo-te escolher, Zarolho.

 

Príncipe, sois demasiado generoso!

 

Por favor, é um presente para celebrar o nosso perfeito entendimento.

 

O que o hicso preferia na Núbia eram as núbias. Simultaneamente conquistadoras e dóceis, panteras inquietantes e gatas lânguidas, fascinavam-no. Se se prendera àquela terra rude, queimada pelo sol, a elas o devia.

 

E o Zarolho saboreou plenamente o presente sumptuoso do príncipe de Kerma.

 

Caía a noite quando Nedjeh sacudiu o embaixador hicso. Adormeceste, meu amigo! Antes do jantar, gostaria de te mostrar a minha última loucura.

 

O Zarolho espreguiçou-se. Duas núbias tinham-lhe tirado toda a seiva e de boa vontade teria mergulhado num sono reparador. Mas não lhe era possível desagradar ao príncipe.

 

Acompanhado por dois guarda-costas, Nedjeh conduziu o embaixador até ao cemitério de Este onde eram escavadas vastas sepulturas reservadas aos dignitários.

 

Vou conceder-te um novo privilégio, Zarolho: visitar o meu túmulo que será digno do de um grande Faraó. Vós, os Hicsos, não atribuis qualquer importância à vossa última morada; aqui, é diferente. Tive um palácio enquanto era vivo, quero outro para a minha morte.

 

Os dois homens meteram por um longo corredor em declive que ia dar a uma antecâmara precedendo um jazigo cheio de estátuas, vasos e móveis pilhados em Elefantina. Mas o mais impressionante era o tapete de crânios humanos que cobria o chão de terra batida.

 

Não gosto que me contrariem confessou Nedjeh. Sou dominado pela cólera e vejo-me obrigado a suprimir quem ousar contestar o meu poder. E tu contrariaste-me muito, Zarolho

 

O hicso recuou, esmagando ossos. Não havia saída possível.

 

Escutai, príncipe...

 

Quem me contraria não merece o meu perdão. Mas concedo-te no entanto um novo favor: o teu crânio permanecerá neste túmulo com os dos escravos que matei com as minhas próprias mãos.

 

O Zarolho tentou forçar a passagem, mas não tinha condições para lutar contra o núbio que o estendeu no chão e depois, com um violento golpe de calcanhar, lhe quebrou a nuca.

 

Oficialmente, o embaixador teria tido uma morte serena na boa cidade de Kerma. E o Imperador não arranjaria facilmente um hicso que conhecesse tão bem a região como aquele insuportável pregador de lições. Como teria aquele Zarolho vaidoso podido acreditar que Nedjeh deixaria que lhe ditassem a sua própria conduta?

 


Violentas pancadas na porta despertaram o comandante Soped a meio da noite.

 

Irritado, levantou-se e abriu, deparando com o chefe da guarda da noite.

 

O que se passa?

 

Uma patrulha acaba de descobrir um malefício perto da entrada principal.

 

Um malefício?

 

Um boomerang de marfim com sinais mágicos. Dois soldados tentaram pegar-lhe, mas queimou-lhes as mãos. Os homens estão muito inquietos, comandante. Esperam a vossa intervenção.

 

Soped vestiu-se à pressa. No coração da Núbia, não se devia tratar esse género de acontecimento com desprezo, porque os feiticeiros negros possuíam verdadeiros poderes. Por qualquer razão a descobrir, um deles decidira fazer mal à fortaleza.

 

A urgência consistia em destruir o suporte do malefício.

 

Enervado, Soped atravessou o pátio em grandes passadas e saiu da fortaleza pela porta grande.

 

Dezenas de soldados núbios e hicsos estavam reunidos em redor do objecto do delito.

 

Afastai-vos! ordenou o comandante.

 

A luz da Lua iluminava um boomerang de marfim sobre o qual tinham sido traçados sinais que assustavam os soldados de Buhen, em especial o uraeus erguido e o grifo com bico agressivo.

 

Não é nada declarou Soped, que tremia como uma palmeira batida pelo vento.

 

Se não é realmente nada objectou um núbio pegai nesse objecto e quebrai-o.

 

Parece que queima! Não será ferindo-me que dissiparei essa magia.

 

Todos compreenderam que o comandante estava aterrado. As sentinelas tinham abandonado os seus postos e vindo juntar-se aos seus camaradas, que não conseguiam afastar o olhar do misterioso boomerang.

 

Os olhos da cobra... Estão a ficar vermelhos! exclamou um deles.

 

Os da cabeça de Anúbis também! acrescentou o vizinho.

 

Tragam-me um maço ordenou o comandante. Tenho que quebrar este marfim.

 

O que foi buscar a ferramenta não voltou. Foi estrangulado por um dos medjai que acabavam de penetrar na fortaleza pela porta grande deixada entreaberta e sem vigilância. Os guerreiros negros teriam corrido o risco de escalar os muros, mas a magia de Ah-hotep evitava-lhes essa ascensão perigosa. Rápidos e ágeis, massacraram os guardas do pátio e depois subiram ao topo das torres de vigia, onde se desembaraçaram dos archeiros.

 

Esse maço vem ou não vem? impacientou-se o comandante, que se mantinha a respeitosa distância do marfim mágico, sempre animado pelos raios do deus Lua.

 

O ruído da grande porta a fechar-se fê-lo sobressaltar. Os soldados voltaram-se, espantados.

 

O imbecil que fez isto vai para a prisão! prometeu Soped. Do alto das torres brotaram nuvens de flechas, a maior parte das quais atingiu os seus alvos. O comandante viu cair em seu redor numerosos soldados da guarnição de Buhen.

 

Os Medjai! gritou um hicso. São os Medjai, vão matar-nos a todos!

 

Para o rio decidiu Soped. Fugiremos com os navios de socorro.

 

Os sobreviventes correram até à margem, onde foram forçados a deter o seu impulso por um destacamento do exército de libertação comandado por Kamés em pessoa.

 

Abandonando os seus homens, Soped não hesitou em matar um dos seus oficiais para fazer crer que lutava com os egípcios. Depois, esgueirou-se até ao Nilo. Nadando no sentido da corrente, chegaria a uma barca e afastar-se-ia o mais depressa possível de Buhen.

 

A manobra teria corrido bem se o Bigodes não a tivesse previsto. Lançou-se à água ao mesmo tempo que o seu compatriota e bloqueou-o com o antebraço direito.

 

Estás muito apressado, meu amigo!

 

Sou o comandante da fortaleza e tenho ouro bem escondido... Poupa-me a vida e serás rico!

 

Onde está escondido esse ouro?

 

Na barca... lá em baixo!

 

Quase a sufocar, Soped conseguiu estender a mão na direcção certa.

 

Vamos lá, mas nada de truques! Caso contrário, estripo-te. O Bigodes ignorava que o comandante tinha sempre um punhal

 

dissimulado numa dobra do saiote. Aquela precaução já lhe permitira sair de situações comprometedoras.

 

Fingindo-se submisso, Soped nadou lentamente até à barca dissimulada nos juncos.

 

Vários sacos de ouro estão presos ao casco revelou. Basta mergulhar e tirá-los.

 

Muito bem, vai lá!

 

O comandante penetrou na água, mas reapareceu quase imediatamente por trás do Bigodes e tentou apunhalá-lo nas costas. Habituado no combate corpo-a-corpo e àquele género de estratagema, o resistente agarrou no pulso do seu agressor e voltou a arma contra ele.

 

Traidor e cobarde! Tenho realmente prazer em matar-te.

 

À medida que a lâmina subia do ventre até ao coração, cortando a carne, os olhos do comandante tornavam-se vítreos. Estava já morto quando o Bigodes gritou de dor.

 

A maxila de um crocodilo fechara-se sobre a sua coxa esquerda. Vendo que o grande réptil o arrastava para o fundo, o Afegão saltou-lhe para o dorso e cravou-lhe o punhal no olho. Louco de sofrimento, o monstro largou a sua presa e afastou-se.

 

Com o auxílio de dois soldados egípcios, o Afegão trouxe o ferido para a margem.

 

Felizmente para ti, era um crocodilo jovem. Mas, mesmo assim, a ferida não tem nada bom aspecto!

 

No primeiro dia, o médico militar aplicou carne sobre o ferimento. No segundo, uma cataplasma de gordura de touro e de pão de cevada com bolor, cujas propriedades antibióticas eram bem conhecidas. Graças a uma droga composta por extractos de mandrágora, jujubeira e ópio, o Bigodes não sofria. Mel e mirra, utilizados como anti-sépticos, acabariam de curá-lo.

 

Sê sincero, Afegão: poderei voltar a andar?

 

Sem qualquer problema, e ficarás apenas com uma pequena cicatriz que nem sequer te permitirá armar junto das raparigas. Deixar-se beliscar por um crocodilo... Não é brilhante.

 

Sem mim, essa porcaria desse comandante teria fugido!

 

O Faraó Kamés decidiu condecorar-te por isso. E vai condecorar-me a mim também, por te ter salvo. Além disso, somos promovidos. Eis-nos à frente de dois regimentos de assalto. Por causa das tuas proezas, estamos colocados na primeira linha.

 

É a única que te interessa, não é verdade?

 

Pára de pensar por mim, isso fatiga-me.

 

E dizer que aquele colaborador do comandante julgava poder atrair-me a uma cilada com a sua história de ouro escondido por baixo do navio!

 

Mas não é uma história esclareceu o Afegão. Havia mesmo uma grande quantidade, uma parte da qual te será entregue quando a guerra acabar.

 

Se algum dia acabar...

 

Uma jovem núbia de corpo esguio entrou no quarto da fortaleza de Buhen onde o Bigodes era tratado.

 

É a tua enfermeira revelou o Afegão. Pertence à tribo dos Medjai e conhece ervas miraculosas que apressarão a tua cura. Bem, abandono-vos. A visão dos feridos deprime-me.

 

Julgando-se vítima de uma febre maligna, o Bigodes viu a jovem núbia tirar o minúsculo saiote antes de lhe preparar uma poção.

 

Está calor aqui murmurou em voz adocicada e adoro andar nua. Sobretudo, bravo oficial, deixa-me actuar: não ficarás desiludido.

 

Do alto da principal torre de vigia, a Rainha Ah-hotep e o Faraó Kamés contemplavam a Núbia. Graças à reconquista de Buhen, a rota fluvial estava cortada ao príncipe de Kerma. Além disso, os produtos transportados pelas caravanas que paravam próximo da fortaleza regressavam ao controlo dos tebanos, sem esquecer parte da produção de ouro, lavado no local.

 

Convencendo os Medjai a tornarem-se nosso aliados e utilizando esse marfim mágico disse Kamés à mãe haveis-nos permitido obter uma grande vitória e sem a mínima baixa entre os nossos homens!

 

Nem sempre assim será, meu filho. Precisas de nomear um novo comandante da fortaleza, administradores que gerirão as riquezas da região e depois designar um governador da Núbia.

 

Isso significa que arrepiamos caminho e nos juntamos à frente do Norte?

 

Ainda não, Kamés. Mesmo quando souber que reconquistámos Buhen, o príncipe de Kerma julgar-se-á em perfeita segurança porque nos considera incapazes de franquear a segunda catarata. Está enganado.
Nem mesmo os Medjai se aventuravam na região de Miu, entre a segunda e a terceira catarata. Orgulhosos por pertencerem agora ao exército de libertação, estavam colocados sob a autoridade directa do novo governador da Núbia e assumiriam todas as tarefas de policiamento do território reconquistado.

 

Segundo a opinião geral, teria sido melhor contentarem-se com o que tinham conquistado e não provocarem a cólera do príncipe de Kerma, até então silencioso. Violando o seu santuário, os tebanos provocariam fatalmente uma reacção terrível.

 

No entanto, durante um novo conselho de guerra, o chanceler Neshi opôs-se firmemente aos oficiais superiores que defendiam um recuo estratégico.

 

Quando deixareis de vos comportar como medrosos e de quantas vitórias precisareis para acreditar finalmente nas qualidades das nossas tropas? A magia dos nossos inimigos não foi inoperante face à da Rainha Ah-hotep? Fazer de Buhen a nossa nova fronteira do sul seria um grave erro. Mais cedo ou mais tarde, o príncipe de Kerma atacá-la-ia. Portanto, como preconizam o Faraó e a Rainha, criemos um talude no terreno privilegiado do adversário e isolemo-lo.

 

E se quase todas as nossas forças forem eliminadas? inquietou-se o mais idoso dos generais.

 

Estamos em guerra lembrou o Rei Kamés e o nosso avanço não poderá efectuar-se sempre sem baixas. O plano da Rainha Ah-hotep é o único válido. Amanhã, ultrapassaremos a segunda catarata.

 

Exibindo orgulhosamente a sua condecoração, um pequeno grifo de ouro preso na túnica de linho, os dois novos comandantes dos regimentos de assalto discutiam junto do navio-almirante.

 

Os feridos insistia o Afegão ficam na enfermaria.

 

Estou curado replicou o Bigodes. Por medida de precaução, levo a minha enfermeira comigo. Sempre que a cicatriz doer, ela saberá tratá-la.

 

Era a primeira vez que o Bigodes passava tanto tempo junto de uma mulher. A princípio, receara mergulhar numa atmosfera adocicada, demasiado afastada das exigências do combate; mas subestimara as capacidades de lutadora da sua jovem amante, que praticava os jogos do amor como um verdadeiro torneio. Com ela, não havia hipóteses de se dispersar em intermináveis preliminares ou inúteis conversas. O ferido tivera portanto direito apenas a um repouso limitado, tanto mais que as plantas prescritas por aquela feiticeira aumentavam a sua vitalidade.

 

Por momentos, o Bigodes estremeceu. Se o crocodilo tivesse sido um pouco maior e a intervenção do Afegão um pouco mais demorada, ele teria actualmente apenas uma perna. Incapaz de combater, ter-se-ia suicidado.

 

Evita as ideias sombrias recomendou-lhe o Afegão.

 

Quando deixarás de ler no meu pensamento? Vocês, as pessoas da montanha, são verdadeiramente insuportáveis! A propósito, em que ocupavas os teus dias durante a minha convalescença?

 

Julgas que és o único que podes seduzir as jovens núbias?

 

Na proa dos navios tinham sido pintados grandes olhos que permitiam aos navios de guerra egípcios verem ao mesmo tempo o visível e o invisível. O prospector Lunar apreciava aquele auxílio mágico, ele que devia permanecer vigilante durante horas para orientar correctamente o avanço da frota.

 

Frequentemente a seu lado, Ah-hotep mandara fixar às amuradas os boomerangs de marfim cujos sinais de força afastavam os génios maus.

 

A presença da Rainha intimidava e tranquilizava ao mesmo tempo o prospector. Sem ela, o exército de libertação ter-se-ia dispersado há muito tempo, de tal forma o medo contraía os ventres. O simples facto de verem a Rainha Liberdade, de a sentirem tão próxima embora permanecesse inacessível, dava coragem aos mais timoratos.

 

Além disso, o jovem Faraó Kamés adquiria segurança de dia para dia. Tal como o pai, tinha um sentido inato do comando e, durante os assaltos, mantinha-se sempre à cabeça dos seus homens, recusando-se a ceder aos conselhos de prudência da mãe.

 

Correspondendo às exigências do Faraó, Neshi velava pela aplicação de rigorosas medidas de higiene a bordo dos navios. Para além de lavagens quotidianas das pontes, as cabinas eram limpas com cuidado. E todos se untavam de unguento a fim de afastarem os insectos. Para lutar contra as irritações oculares, utilizavam a espuma de uma cerveja de qualidade, igualmente eficaz contra as dores de barriga. Todos os soldados dispunham de duas esteiras atadas com um cordão de cabedal vermelho que, reunidas, formavam um saco de dormir de apreciável conforto. Em todas as ementas figuravam cebolas para mastigar, cujo cheiro afastava as serpentes e os escorpiões.

 

Majestade, uma aldeia! exclamou Lunar. Devo mandar abrandar a velocidade?

 

Ainda não respondeu Ah-hotep.

 

A Rainha queria observar a primeira reacção dos habitantes da região de Miu, colocados sob o jugo do príncipe de Kerma.

 

A princípio estupefactos, os aldeões precipitaram-se para os seus arcos e fundas. As primeiras flechas caíram na água, mas as pedras falharam por pouco a proa.

 

Abrigai-vos, Majestade! suplicou Lunar.

 

Paremos ordenou Ah-hotep.

 

Já vários soldados saltavam para a margem, com risco de partirem os ossos. Mas os meses de treino revelaram-se eficazes e os jovens egípcios souberam colocar-se em posição para poderem abater os seus adversários.

 

Uma passarela permitiu a Kamés juntar-se a eles e arrastá-los para a aldeia, cuja resistência rapidamente foi anulada.

 

Um único núbio conseguira fugir mergulhando no Nilo, mesmo em frente do navio-almirante. Louco de raiva, escalou a proa com intenção de matar a feiticeira que abria o caminho ao exército egípcio.

 

O homem surgiu na ponte e lançou-se sobre Ah-hotep.

 

Roçando de leve a Rainha, Lunar esmigalhou o crânio do agressor com o seu longo remo.

 

Ah-hotep permanecera imóvel, confiante na destreza do prospector cuja mão não tremera.

 

Lunar ajoelhou-se.

 

Perdoai-me, Majestade! Podia ter-vos ferido.

 

Nomeio-te comandante da nossa marinha de guerra. A partir de agora, almirante Lunar, tomarás todas as decisões referentes à nossa navegação e os capitães dos outros navios dever-te-ão obediência.

 

Em terra firme, terminava o breve combate. Nem um único guerreiro núbio aceitara render-se, dois egípcios tinham morrido. Por ordem de Kamés, os vencedores deixaram partir as mulheres e as crianças.

 

A conquista da província de Miu tinha começado.

 

Depois de ter pessoalmente degolado um carneiro e um escravo, cujos ossos se iriam juntar aos do embaixador hicso, o príncipe de Kerma preparava-se para festejar. Nada menos do que uma dezena de pratos, entre os quais uma enorme perca do Nilo e diversas aves. Enquanto comia, havia criadas que o abanavam com um leque Quando terminava uma iguaria, uma lavava-lhe as mãos enquanto outra o perfumava. Nedjeh detestava ter os dedos gordurosos e gostava de cheirar bem.

 

Proveniente do grande oásis de Kharga, no deserto do Oeste, o vinho branco era excelente. Nedjeh não bebia menos de dois litros por refeição.

 

Mais pediu a um escanção. Não vês que tenho a taça vazia?

 

Como era agradável a vida em Kerma! Graças às riquezas agrícolas da região, vivia-se ali tão bem como nas mais belas províncias do Egipto.

 

O secretário particular do príncipe apareceu no limiar da sala de refeições.

 

Senhor, posso interromper a vossa refeição?

 

O que é que há de tão grave assim?

 

Os tebanos ultrapassaram a segunda catarata e estão a invadir a região de Miu.

 

Nedjeh perdeu o apetite.

 

Essa informação é digna de confiança?

 

Infelizmente sim, senhor. E não é tudo.

 

O que há mais?

 

Os tebanos só destruíram uma aldeia, mas...

 

Excelente novidade! As outras resistiram portanto com êxito

 

Não, senhor. A Rainha Ah-hotep falou com os chefes de aldeia e convenceu-os todos a mudar de campo. A partir de agora, serão colocados sob a protecção das tropas egípcias estacionadas em Buhen e dos polícias medjai. Essas tribos, que pensávamos definitivamente dominadas, formam actualmente a primeira linha de defesa contra nós. E depois...

 

E depois o quê?

 

O secretário particular baixou a cabeça.

 

E depois, não há nenhuma razão para que o exército inimigo se detenha no caminho.

 

Queres dizer que essa Ah-hotep e o seu maldito Faraó ousariam atacar Kerma! Semelhante erro ser-lhes-ia fatal.

 

Fulminante como um touro de combate, Nedjeh abandonou diversos pratos muito tentadores para se dirigir ao vasto compartimento circular para onde foram convocados os dignitários da cidade, interrompendo todas as suas actividades.

 

Nedjeh não lhes ocultou a gravidade da situação. Desta vez, já não era possível considerar o exército tebano de libertação como negligenciável

 

Ah-hotep vai instalar-se na região de Miu adiantou o príncipe de Kerma e consolidará as suas posições na esperança de que sairemos do nosso território para a atacar. Mas não cairemos nessa armadilha. Pelo contrário, seremos nós a armar-lhe uma cilada a ela. A melhor estratégia consiste em reforçar as defesas da cidade e reunir as nossas tropas a norte da terceira catarata. Os egípcios acabarão por se impacientar e avançarão para nós. Graças ao nosso conhecimento do terreno, exterminá-los-emos sem dificuldade.

 

Estava fora de causa fazer apelo aos Hicsos. Se interviessem, aproveitariam para se apoderar de Kerma. Nedjeh tinha portanto de se desembaraçar sozinho. Começava a compreender o que impelia a Rainha Ah-hotep a correr tantos riscos: o prazer da conquista.

 

Constatando que o príncipe de Kerma não reagia, julgaria que ele estava com a corda na garganta e avançaria sobre a capital como uma fera esfomeada.

 

Uma fera que cairia numa armadilha mortal.

 

O ruído dos tambores ressoava na região de Miu, mas não era o som da guerra. Vindos de todas as aldeias da região, os núbios tinham deposto as armas diante do Faraó e da Rainha Ah-hotep.

 

A reputação da grande mágica que nada podia atingir espalhara-se rapidamente e os chefes de clã preferiam submeter-se a serem aniquilados, tanto mais que o Faraó lhes prometera o seu perdão, na condição de se tornarem fiéis aliados do Egipto. E quem não sofrera com a crueldade do príncipe de Kerma, predador sem escrúpulos?

 

Longas jornadas de negociações tinham sido necessárias para estabelecer uma hierarquia clara e aceite por todos. Por diversas vezes, o sentido da diplomacia de Ah-hotep evitara a ruptura entre facções rivais, finalmente satisfeitas por alinharem sob a bandeira de um jovem Rei que garantiria a sua segurança.

 

A Rainha é realmente uma mulher extraordinária disse o Afegão ao Bigodes, contemplando as incríveis cenas de confraternização entre soldados egípcios e guerreiros núbios.

 

Em vez de se matarem uns aos outros, festejavam bebendo cerveja e álcool de tâmaras.

 

O único problema lembrou o Bigodes, enlaçando a sua enfermeira que tomava tão bem conta dele é que conquistar a Núbia não é o nosso objectivo. Esperam-nos lá longe, no Norte.
Nunca estás contente com nada! Aproveita o bom tempo, porque ninguém sabe de que será feito o amanhã. Ou melhor, sabe-se: teremos de enfrentar o príncipe de Kerma.

 

Não falemos disso esta noite, tens razão. Bebamos’

 

Como estão as coisas? perguntou o príncipe de Kerma ao responsável pelo aterro.

 

Deveríeis estar satisfeito, senhor. Escavámos numerosas fossas, perfeitamente dissimuladas. No fundo, dispusemos estacas bem afiadas. Centenas de soldados de infantaria egípcios espetar-se-ão nelas.

 

Faltava ainda fazer muita coisa, mas o trabalho avançava bem. O exército egípcio encontraria apenas uma fraca resistência nos arredores de Kerma e, cego pelos seus sucessos, julgaria a grande cidade núbia vencida de antemão. Nedjeh sacrificaria alguns homens que se bateriam até à morte para defender a pista principal. À frente das suas tropas, o Faraó Kamés avançaria para um novo triunfo.

 

E todas as armadilhas preparadas pelo príncipe de Kerma funcionariam ao mesmo tempo.

 

A guarda-avançada egípcia cairia nas fossas, a retaguarda seria aniquilada pelos archeiros núbios, emboscados nas árvores e nos campos de cultura. Quanto ao grosso da tropa, seria apanhado numa tenaz formada pela infantaria de Nedjeh. Assustados por aquele ataque brutal, os soldados do Faraó procurariam a salvação na fuga e seriam abatidos até ao último.

 

Os crânios de Kamés e Ah-hotep acabariam no túmulo do príncipe que o Imperador Apopis não deixaria de felicitar

 

Todo entregue à alegria das belas horas que ia viver, o obeso

 

deslocava-se com mais facilidade do que o habitual. Ah-hotep fizera mal em acreditar que a sua magia seria superior à dele. Se tivesse a sorte de a apanhar viva, far-lhe-ia sofrer as piores torturas antes de lhe conceder a graça de morrer.

 

A festa estava no auge. Toucados de perucas vermelhas contrastantes com a sua pele negra, as orelhas adornadas com argolas de ouro, envergando saiotes decorados de motivos florais, era difícil dizer qual dos núbios estava mais bonito. Com os seus colares de contas multicores e as pulseiras nos pulsos e tornozelos, as núbias comportavam-se como perigosas sedutoras às quais era impossível resistir.

 

Só o almirante Lunar e o chanceler Neshi não cediam à embriaguez ambiente. O primeiro inspeccionava navio a navio, o segundo estava permanentemente preocupado com a administração. Ambos perfeccionistas, apenas pensavam no próximo combate, que se anunciava aterrador.

 

Não era o caso do Bigodes que, deslumbrado com a região de Miu, quase esquecia o seu Delta natal.

 

Devias instalar-te aqui e fundar uma família sugeriu o Afegão.

 

Eu, ter filhos! Não estás a falar sério? Eu, refastelar-me aqui enquanto os Hicsos ocupam a minha terra! Às vezes, dizes na verdade a primeira coisa que te vem à cabeça.

 

Acaba bem a noite e procura estar com o espírito claro amanhã de manhã. Os oficiais superiores estão convocados para o navio-almirante.

 

O Faraó Kamés e a Rainha Ah-hotep ouviram atentamente os relatórios pormenorizados do almirante Lunar e do chanceler Neshi. A nomeação do primeiro fora apreciada pelo conjunto da tropa, que se felicitava pela competência do segundo. Nem um nem outro tinham o mínimo incidente a assinalar. A frota de guerra estava pronta a partir de novo para atacar Kerma e quebrar os rins do seu príncipe, aliado dos Hicsos.

 

Desta vez, a maior parte dos soldados não receava o confronto Gebelein, Elefantina, Buhen, a região de Miu... As vitórias começavam a acumular-se e a formar um sólido espírito de corpo mantido pela magia da Rainha Ah-hotep.

 

O próprio Kamés sonhava bater-se com o príncipe de Kerma e vencê-lo no seu próprio palácio. Só lhe faltava obter o consentimento da soberana, que consultara o deus Lua durante uma boa parte da noite.

 

Todos os olhares se voltaram para a Esposa do Deus.

 

Voltamos para trás declarou ela.

 

Mãe... Porque não havemos de desferir o último golpe? espantou-se o Rei.

 

Porque o príncipe de Kerma nos prepara uma armadilha de que não sairemos incólume. Faríamos mal em pensar que está inactivo e se resignou a curvar as costas. Pelo contrário, só sonha em destruir-nos utilizando a manha O nosso objectivo foi atingido: Nedjeh está isolado na sua cidade de Kerma. Se tentar sair, esbarrará com as nossas forças da região de Miu, com os medjai e com Buhen. Sobretudo, deixemo-lo acreditar que temos intenção de nos apoderarmos do seu reino.

 

Kamés não tinha qualquer argumento a opor. E lançar-se finalmente para o Norte incendiava-lhe o coração.

 

Resta-nos no entanto uma última etapa núbia que não podemos omitir acrescentou Ah-hotep.

 

A frota imobilizou-se perto de Aniba, a norte de Buhen. Foi imediatamente organizada uma caravana que partiu para o deserto do Oeste, na direcção de uma pedreira inaugurada pelo Faraó Khafré, construtor de uma das pirâmides do planalto de Guiza.

 

A Rainha pedira ao filho que ficasse no navio-almirante e ela era apenas acompanhada por cerca de cinquenta homens guiados por Vento do Norte.

 

Aqui e além, pedras cinzentas e verdes. Depois, esteias e estátuas inacabadas. Avisados da invasão hicsa, os escultores tinham abandonado a pedreira que adormecera sob o Sol ardente do grande Sul.

 

Constatando que fora atingido o objectivo da caminhada, Vento do Norte imobilizou-se. Ah-hotep deu-lhe de beber, tal como a Risonho, o Jovem Dessedentado, o molosso percorreu o local em todas as direcções e depois regressou para junto da dona.

 

Tal como o deus Lua lhe indicara, Ah-hotep devia vir ali mas ignorava ainda porquê. Admirou as obras-primas interrompidas e prometeu a si mesma reabrir aquela pedreira logo que o Egipto fosse libertado. Um dia, seria necessário cobrir a Núbia de templos esplêndidos a fim de que as divindades habitassem aquela terra ardente e orgulhosa.

 

Só com o seu cão no meio daquele universo mineral sobreaquecido, a Rainha contemplava as jazidas de pedra cortadas com cuidado. Evocaram para ela as necessárias etapas que a separavam do triunfo final, tão distante, tão inacessível. Não precisaria da paciência e da solidez da pedra para desgastar a força terrível do Imperador?

 

Risonho, o Jovem, rosnou.

 

Saindo de uma anfractuosidade, uma cobra real dirigia-se para Ah-hotep.

 

Apesar da sua coragem, o molosso manteve-se à distância. Consciente do perigo, procurava um ângulo de ataque.

 

Fica afastado, Risonho Foi o senhor da pedreira que eu vim encontrar. Não tenho portanto nada a temer.

 

Semiconvencido, o cão permaneceu desconfiado. A cobra não assumiu uma postura agressiva. Pelo contrário, estendeu-se no chão a todo o comprimento.

 

Com mão firme, Ah-hotep agarrou-a por trás do pescoço.

 

Olha, Risonho! A força que atravessa a terra aceita tornar-se a minha arma.

 

A serpente transformara-se numa vara de cornalina, rígida e leve O molosso farejou-a demoradamente. Satisfeito com o seu exame, precedeu a Rainha até ao acampamento.

Depois de ter passado uma má noite por causa de tudo o que comera e de uma crise de histeria da esposa, que acalmara com uma bofetada, o grande tesoureiro Khamudi levantara-se muito mais cedo do que o habitual.

 

Era a hora em que a sua escrava egípcia limpava cuidadosamente a sala de estar sem fazer o mínimo ruído para não incomodar o casal.

 

O que Khamudi viu cortou-lhe a respiração.

 

Não se sabendo observada, a escrava acabava de meter num saco o último espelho oferecido ao grande tesoureiro pela mulher do Imperador.

 

Atrever-se a roubá-lo assim, em sua casa!

 

O que estás a fazer, pequena peste?

 

A jovem sentiu tanto medo que largou o saco. Batendo no pavimento, o precioso espelho partiu-se.

 

Perdão, senhor, perdão! Queria vendê-lo para poder cuidar dos meus pais. Suplico-vos que me compreendeis!

 

Agarrando numa cadeira baixa, Khamudi atirou-a à desgraçada. Atingida na têmpora, caiu no chão. Louco de raiva, o grande tesoureiro espezinhou-a soltando gritos que acordaram toda a casa.

 

As outras criadas assistiram, impotentes, ao massacre de uma jovem proveniente de uma excelente família de Sais. Apenas escapara à deportação para morrer sob os golpes de um carrasco dominado por um verdadeiro transe.

 

Pára, Khamudi, pára! gritou Yima, tentando puxá-lo para trás. Está morta!

 

Chamado à razão, o assassino cessou finalmente de gesticular

 

Tragam-me marcas de bronze aquecidas no fogo e que todo o meu pessoal se reúna aqui.

 

Assustados, os escravos foram encurralados num canto do compartimento pelos guardas hicsos.

 

A ladra que tentou roubar-me um espelho foi justamente castigada declarou Khamudi com ênfase. Para que ninguém pense nunca mais em fazer o mesmo, vou marcar tudo o que me pertence, tanto escravos como objectos. Tu, vem cá.

 

O ajudante de cozinheiro que o grande tesoureiro interpelara tentou fugir, mas dois guardas estenderam-no no chão. E Khamudi imprimiu a sua marca nas costas do adolescente que soltou um dilacerante grito de dor.

 

Apesar de ser um grande comilão, Khamudi apenas petiscara

 

Estás doente, meu querido? perguntou Yima.

 

Não, claro que não!

 

Mas... estás amarelo!

 

Não digas a primeira coisa que te vem à cabeça.

 

Olha-te num espelho, peço-te!

 

Khamudi teve de se render à evidência: estava com icterícia.

 

O Imperador Apopis examinava com interesse uma bela descoberta feita na biblioteca de Sais: papiros consagrados à geometria, às matemáticas e à medicina. Nada o apaixonava mais do que o mundo dos números e dos cálculos que excluía qualquer dimensão humana Mil deportados, cem execuções... Era tão simples e distraía tanto escrever essas quantidades num papiro que adquiria força de lei sem ter de ouvir gritos nem protestos. Reduzir os seres a números e manipulá-los na tranquilidade do seu palácio, não era o auge do poder’

 

A vida em redoma regulada de acordo com um processo geométrico, o Estado dirigido pelos matemáticos, a economia submetida a equações: era esse o objectivo atingido pelo Imperador. Terra dos deuses por excelência, o Egipto era o seu laboratório privilegiado.

 

O abcesso de fixação de Cusae dívertia-o. Pouco a pouco, o exército de libertação ia apodrecendo à espera, interrogando-se em que momento as tropas hicsas lançariam por fim uma vasta ofensiva. Sem o apoio da Rainha Ah-hotep e do Faraó Kamés, os insurrectos acabariam por se revoltar contra os seus chefes.

 

A única verdadeira preocupação de Apopis era a revolta dos Anatólios, rudes guerreiros que Jannas perseguia nas montanhas onde dispunham de inúmeros refúgios. Como sempre, o almirante hicso procedia com método e paciência: quadriculava o terreno e avançava metro a metro, evitando cair nas emboscadas preparadas pelo adversário. Considerando a dificuldade das operações, Apopis enviara-lhe reforços, retirados dos regimentos aquartelados na Palestina. Tal como os piratas das Cíclades, os Anatólios seriam exterminados até ao último homem.

 

Quando se preparava para dirigir o seu conselho, o Imperador foi informado que o grande tesoureiro estava com uma violenta icterícia. Vomitava e não conseguia comer.

 

Seria a ocasião para se desembaraçar de Khamudi e substitui-lo? Uma medicação bem adaptada enviá-lo-ia discretamente para o túmulo, antes da sua encantadora esposa ser confiada aos cuidados da dama Aberia.

 

Mas quem encontrar mais servil e mais competente? Ninguém conhecia melhor os segredos que o grande tesoureiro, que geria da melhor forma os interesses do Império e, portanto, do Imperador. Depravado e corrupto, não tinha qualquer desejo de ocupar o lugar de Apopis, que o autorizava a saciar os seus vícios sem o censurar.

 

Não, o Imperador não arranjaria melhor braço direito. Consultou então um velho tratado de medicina egípcia.

 

Água morna e óleo bem denso injectados pelo ânus com um chifre de marfim eram os únicos remédios que Yima autorizava, receando que envenenassem o marido. Mas este enfraquecia a olhos vistos e queixava-se de múltiplas dores.

 

Dama Yima avisou um criado assustado é o Imperador!

 

Não queres dizer... O Imperador aqui, em minha casa?

 

Sim, dama Yima, acaba de entrar e...

 

As criadas tinham-se apressado a abrir todas as portas diante de Apopis, cujo passo arrastado parecia portador de pesadas ameaças

 

De cada vez que o via, a esposa do grande tesoureiro não conseguia impedir o seu ventre de emitir um ridículo gorgolejo.

 

Majestade, estou tão honrada!

 

O teu marido gosta do luxo observou Apopis com a sua voz rouca que gelava o sangue dos mais endurecidos. Não é normal que o meu grande tesoureiro seja um homem rico? Khamudi tem que se curar depressa e é por isso que lhe trago um remédio preparado no palácio. É composto por vinho, pó de zízifo, figos, folhas de lótus, bagas de zimbro, incenso fresco e cerveja doce. As proporções indicadas pelos médicos do Antigo Império egípcio foram rigorosamente respeitadas. Dá-lhe isto a beber imediatamente.

 

Quando recebeu o frasco de gargalo estreito que apertou nas mãos, Yima sentiu-se tetanizada.

 

Era impossível opor-se à vontade do Imperador, mas como não compreender que ele a obrigava a matar pessoalmente o marido?

 

Até àquele instante, julgara que Khamudi era de tal forma indispensável ao bom andamento do Império que Apopis nada tentaria contra ele Mas um intriguista devia ter crescido na sombra como uma planta venenosa e a ocasião para se desembaraçar do grande tesoureiro era demasiado tentadora.

 

O que esperas, Yima? Quanto mais depressa Khamudi beber esse remédio, mais depressa se curará.

 

Deve beber... o conteúdo todo?

 

Com certeza. Segundo o velho papiro, são necessários quatro dias de tratamento. Os três outros frascos ser-te-ão entregues amanhã.

 

Yima estava com pele-de-galinha. Não só não haveria outros frascos, como ainda ela seria acusada de crime e executada!

 

Agora despacha-te e diz-me o resultado. Bem sabes que não tenho tempo a perder.

 

 

Mordendo os lábios, Yima dirigiu-se ao quarto de Khamudi, já quase comatoso.

 

Com mão trémula, abriu-lhe a boca para nela deitar lentamente um líquido avermelhado e sem cheiro.

 

Apoiando-se no ombro de um criado, Khamudi fez a sua primeira entrada na vasta sala de estar. Receando a luz, o Imperador mantinha-se no canto mais escuro.

 

Yima, que nem queria acreditar na sua felicidade, avançava atrás do marido. Khamudi bebera a poção, não estava morto, sentira-se imediatamente melhor e fizera questão de se levantar para cumprimentar o seu ilustre hóspede.

 

Ainda não estou muito apresentável confessou mas tenho fome outra vez... Majestade, haveis-me salvo a vida!

 

O sorriso satisfeito de Apopis não tranquilizou a dama Yima.
O príncipe de Kerma aperfeiçoava constantemente as suas armadilhas. Em breve o exército tebano se aproximaria da sua capital confiante numa conquista fácil, sem desconfiar que mal teria tempo de combater.

 

Depois de ter morto Ah-hotep e Kamés, Nedjeh recuperaria a região de Miu e a fortaleza de Buhen. Deveria continuar para o norte e reconquistar Elefantina? Sim, mas para a restituir imediatamente ao Imperador a fim de conquistar as suas boas graças e lhe provar que o príncipe de Kerma, aliado fiel, se contentava com o seu reino.

 

Toda a cidade estava em pé de guerra, certa de desferir um golpe fatal no inimigo graças à inteligência estratégica de Nedjeh.

 

O batedor-chefe apresenta o seu relatório, Majestade. Venho de Miu onde quase fui interceptado várias vezes por patrulhas egípcias. Todas as tribos da região se submeteram a Ah-hotep.

 

Devia tê-los massacrado! enfureceu-se o obeso. Graças a mim, comiam à-vontade. E agora traem-me em benefício desses malditos tebanos! Quando vão atacar?

 

É evidente que não demorará muito. Estão a consolidar as posições e a fortificar as aldeias, ao mesmo tempo que preparam o assalto. Não vai ser fácil ter informações mais precisas, mas Kerma é com certeza o seu próximo objectivo.

 

Eles que venham murmurou Nedjeh com avidez. Eles que venham, saberemos recebê-los como merecem.

 

Nascido em Cusae, o jovem estava orgulhoso por se ter alistado no exército de libertação que, embora imobilizado, conseguia bater o pé aos Hicsos. Apesar de alguns violentos assaltos, estes não conseguiam forçar a frente.

 

Filho de camponeses e ele próprio camponês, o rapaz aprendera a bater-se no terreno, ao lado de Ahmés, filho de Abana, que lhe mostrara como esquivar-se antes de esmigalhar o crânio do adversário com um pesado maço de madeira. É verdade que os capacetes dos hicsos eram sólidos, mas o braço do jovem camponês ainda era mais; e podia gabar-se de, com os seus camaradas da mesma aldeia, ter impedido a abertura de uma brecha mortal.

 

Baixa-te  recomendou-lhe Ahmés, filho de Abana, estendido junto da última elevação de terra que acabava de formar.

 

Não tenho medo de nada!

 

Os Hicsos têm excelentes archeiros. Além disso, manejam muito bem a funda.

 

Não melhor do que nós!  protestou o jovem, atirando uma pedra de bom tamanho para o campo adversário.

 

Baixa-te, raios!

 

Foi a última ordem que o oficial deu ao jovem recruta. Atingido em plena têmpora por um sílex pontiagudo, o camponês morreu de imediato.

 

Um dilúvio de projécteis abateu-se sobre as elevações de terra que protegiam o acesso ao principal acampamento egípcio. Por vezes, os Hicsos enfureciam-se assim, continuando uma guerra de posições que se eternizava. Mas saberiam até que ponto as forças do pequeno exército de libertação se iam reduzindo? Tratava-se de um milagre que tivesse conseguido aguentar tanto tempo.

 

Quando as fundas pararam, Ahmés, filho de Abana, dirigiu-se ao quartel-general onde o governador Emheb se recompunha lentamente do ferimento na coxa.

 

A pressão deles acentua-se, governador. Precisávamos de reforços.

 

Toda a juventude de Cusae e dos campos em redor já se juntou a nós. Não temos mais reservas.

 

Não seria conveniente regressar a Tebas com os sobreviventes antes que seja demasiado tarde?

 

Abandonar Cusae... Seria o início da derrocada.

 

Uma simples retirada, governador, nada mais.

 

Bem sabes que não.

 

Ahmés, filho de Abana, aspergiu a testa com água morna.

 

Bem sei que não, tendes razão. Mas as vitórias conseguidas na Núbia não nos servem para nada. É aqui que é preciso lutar.

 

As mensagens transmitidas pelos pombos-correio eram o principal reconforto da resistência, mas não substituíam tropas frescas.

 

És muito novo, meu rapaz, e o teu olhar tem falta de profundidade. As decisões da Rainha Ah-hotep eram vitais para o nosso futuro, mas só mais tarde as compreenderás.

 

Mais tarde... quando estivermos mortos? Os nossos homens estão esgotados, deram tudo por tudo. Deixai-me aqui com os mais valentes, governador, e parti. Retardaremos os hicsos o máximo possível.

 

Emheb levantou-se com dificuldade.

 

A minha velha perna em breve estará curada e eu próprio defenderei esta posição.

 

A Rainha Ah-hotep não deseja que sejamos todos massacrados, não é verdade? Então, fazei o que for necessário!

 

Esta Rainha é muito mais extraordinária do que possas imaginar declarou Emheb com emoção. Desde que iniciou a libertação do Egipto, não cometeu um único erro. Em breve, tenho a certeza, virá do céu uma nova mensagem.

 

Ahmés, filho de Abana, perguntou a si mesmo se o governador não teria também sido ferido na cabeça. Quer quisesse quer não, Cusae estava prestes a cair.

 

Tentemos ambos responder-lhes recomendou e levantar o moral dos nossos homens.

 

No momento em que iam a sair da tenda do governador, o ruído de um bater de asas fê-los levantar os olhos.

 

Larápio! exclamou Emheb.  Vem, vem aqui depressa! O chefe dos pombos-correio poisou suavemente no ombro do governador. Na pata direita estava preso um minúsculo papiro com o selo real.

 

A mensagem era muito breve:

 

”Aguentem-se. Estamos a chegar.”

 

O grande conselho hicso realizava-se no interior do templo de Set, onde o Imperador fora o último a entrar. À sua passagem, todos se tinham curvado profundamente, incluindo o grande tesoureiro Khamudi, perfeitamente restabelecido, para surpresa geral. Tinha que ser um homem muito importante para que o próprio Apopis o tivesse tratado em vez de o suprimir!

 

Envolto num manto castanho, o Imperador estava ainda mais sinistro do que era habitual. Se o seu olhar poisasse demasiado longamente sobre um dignitário, era morte garantida.

 

O Senhor dos Hicsos contentou-se em ouvir os relatórios financeiros de Khamudi sem fixar ninguém em particular.

 

As riquezas do Império aumentavam sem cessar e não era a perda momentânea das tribos anatólias que poderia inverter a tendência. À frente de um poderoso exército, o almirante Jannas estava prestes a esmagar aquela revolta que seria certamente a última.

 

Acabamos de receber uma longa mensagem do príncipe de Kerma pela via habitual  declarou Khamudi, que não desejava revelar o segredo do modo de comunicação utilizado.  Presta homenagem ao Imperador Apopis e agradece todas as suas benesses e felicita-se pela calma que reina na Núbia. As tribos obedecem-lhe, a economia está próspera e o ouro continuará a ser entregue a Auaris.

 

O Imperador dignou-se esboçar um vago sorriso. Aquela manifestação de serenidade incitou um dos dignitários a colocar a pergunta que andava em todas as bocas.

 

Majestade, quando serão finalmente aniquilados os revoltosos de Cusae? A sua própria existência é um insulto à grandeza hicsa!

 

O rosto de Apopis endureceu.

 

Pobre imbecil, não compreendes que apenas a minha vontade autoriza a existência da frente de Cusae? Ali se esgotam em vão os fantoches tebanos. Em breve, os sobreviventes serão obrigados a fugir em direcção a Tebas. Perseguí-los-emos e reduziremos a cinzas aquela cidade rebelde.

 

Não receais, Majestade, que a Rainha Ah-hotep decida finalmente vir em seu auxílio?

 

Os olhos de Apopis coruscaram com um fulgor maligno.

 

O Imperador dos Hicsos não receia ninguém. Essa Ah-hotep não passa de uma exaltada cuja morte atroz servirá de exemplo a quem a tentar imitar.

 

Como Apopis não recebera nenhuma mensagem alarmante do seu espião que Ah-hotep não conseguia identificar, sabia que os últimos rebeldes da frente não teriam mais nenhum apoio.

 

Devo acrescentar precisou Khamudi que Cusae não tem qualquer importância económica. O tráfego comercial continua a escoar-se normalmente pela grande alfândega de Hermópolis, fora do alcance dos revoltosos.

 

O Imperador levantou-se, indicando assim o fim do conselho. Com um gesto irritado, fez compreender a Khamudi que o insolente que ousara duvidar do facto de ele ser todo-poderoso devia ser suprimido. O dignitário, um pouco gordo de mais, não seria com certeza um excelente candidato para o labirinto, mas divertiria Apopis durante alguns minutos.

 

Ao sair do templo de Set, o Imperador sentiu as pernas tão pesadas que se sentou com alívio na cadeira de transportadores que fora utilizada antes dele pelos Faraós do Egipto Médio.

 

Apopis fechou-se no compartimento secreto, no coração da cidadela. Depois, manejou delicadamente a cabaça de faiança azul sobre a qual estava desenhado um mapa do Egipto. Quando apoiou o indicador sobre Auaris e depois sobre Mênfis e Hermópolis, surgiram intensos brilhos vermelhos.

 

Tranquilizado, o Imperador poisou o dedo sobre a cidade de Elefantina.

 

Primeiro, a bela cintilação vermelha. Mas, logo em seguida, esta vacilou. Em seu lugar surgiram estranhas figuras, um olho completo, uma cobra erguida, um grifo de bico pontiagudo e uma cabeça de chacal.

 

Foi necessária ao Imperador toda a magia de que era portador para fazer desaparecer aquelas insuportáveis ameaças. Mas Elefantina permaneceu um ponto azul no mapa.

 

Por outras palavras, Apopis já não conseguia recuperar o seu controlo. Isso significava que os tebanos se tinham apoderado da grande cidade do Sul. Nem o príncipe de Kerma nem o espião hicso tinham sido capazes de o avisar.

 

O príncipe de Kerma fazia o seu próprio jogo, o espião fora identificado e suprimido, Ah-hotep reconquistara todo o território entre Tebas e Elefantina... Era essa a nova realidade.

 

Já não era possível esperar pelo regresso do almirante Jannas para forçar a frente de Cusae.

 

Numa das ameias da torre mais alta da fortaleza de Elefantina, Ah-hotep fixara o boomerang de marfim com os sinais de poder. O olho completo cegaria o Imperador, a cobra atenuaria o seu fogo destruidor, o grifo confundiria as suas percepções e a cabeça de chacal lançaria a inquietação no seu espírito. Pelo menos era o que a Rainha esperava, persuadida que Apopis lançara múltiplos feitiços sobre o Egipto para o encerrar numa prisão de malefícios cujas barras seria necessário quebrar uma a uma.

 

Vários navios tinham ficado na região de Miu, outros em Buhen, outros ainda em Elefantina com as respectivas tripulações. Do exército inicial, que partira para conquistar o Sul, restava menos de metade.

 

Não estaremos a cometer uma imprudência privando-nos de tantos soldados? inquietou-se o Faraó Kamés.

 

É essencial manter o Sul considerou Ah-hotep. Mas é verdade que vamos ter falta de homens para atacar o Norte.

 

Por outras palavras, mãe, qualquer ofensiva será votada ao fracasso!

 

Claro que não, meu filho. Desde o começo desta guerra, a situação foi sempre a mesma: estamos em inferioridade numérica, o nosso armamento é mais fraco, mas somos animados pela energia da cobra real que adorna a coroa do Faraó. Deverás multiplicar-te, insuflar coragem aos que tiverem falta dela, agir com a força de Hórus mas também com a de Set.

 

Podeis contar comigo, Majestade.

 

Não era sem saudade que o Bigodes pensava na linda núbia de quem tivera de se despedir. A pele, de um negro de azeviche de fascinante suavidade, os seios firmes tão doces de acariciar, as longas pernas de gazela... Não conseguia parar de rememorar os encantos daquela feiticeira por quem quase se apaixonara. Mas era um homem de guerra que não tinha o direito de se prender a uma mulher.

 

Deprimido, dirigiu-se para a parte de trás do navio para ir buscar um jarro de cerveja.

 

Estacou de repente.

 

O monte de cestos colocado junto dos jarros acabava de se mexer. Com o punhal na mão, o Bigodes aproximou -se. Com certeza que um passageiro clandestino se atrevera a subir a bordo!

 

Sai daí! exigiu.

 

Os cestos mexeram outra vez.

 

Surgiu o rosto sorridente da jovem núbia.

 

Tu, aqui!

 

Não te queria deixar. Então, escondi-me para ir contigo onde, tu fores.

 

Libertou-se dos cestos com graciosa agilidade e pendurou-se ao pescoço do amante.

 

És mais felina do que uma pantera!

 

Felina... Agrada-me muito como nome! A partir de agora, chamar-me-ás assim.

 

Ouve, tu não tens o direito de viajar num navio de guerra e...

 

Tu és um herói. E eu sei bater-me! Basta que digas que sou o teu soldado núbio.

 

O Bigodes sentiu que não sairia vencedor daquele novo combate. E como se tinha realmente apaixonado, foi ter com o almirante Lunar que, com a sua segurança habitual, guiava a frota em direcção a Tebas.

 

Ao aproximar-se da sua cidade, o coração de Ah-hotep contraiu-se. Fora ali que nascera, que amara e que o desejo de liberdade iluminara a sua vida. Nenhuma outra paisagem poderia alguma vez substituir o esplendor do Nilo, a grandeza dos montes e a paz dos campos de cultura, separados por palmeirais. Dedicado à serenidade, aquele lugar encantador estava no entanto transformado em núcleo de guerra, visto que era a única linguagem a utilizar com os hicsos.

 

Enquanto o navio-almirante se aproximava da base secreta, a Rainha reviveu em pensamento a expedição à Núbia. Foi forçada a constatar que o espião hicso não a prejudicara nada. A conclusão impunha-se por si: tinha ficado em Tebas. Mas os nomes em que se forçou a pensar eram os daqueles de quem era impossível suspeitar.

 

No entanto, o Faraó Seken caíra numa cilada!

 

O navio acostou sob aclamações. De acordo com a tradição, a Rainha apresentou à deusa Hathor, padroeira da navegação, uma oferenda de incenso para lhe agradecer a sua protecção.

 

O primeiro a lançar-se pela passarela foi o pequeno Ahmés, que saltou para os braços da mãe.

 

Trabalhaste bem? perguntou-lhe ela.

 

Não parei, com a avó! Vais ver como as casas estão bonitas e limpas. Limpámos tudo, até mesmo as armas.

 

Teti, a Pequena, parecia ter rejuvenescido dez anos. Os que tinham esquecido que a frágil velhinha era a Rainha-Mãe encarregada de velar por Tebas na ausência do Faraó e de Ah-hotep, foram forçados a recordá-lo brutalmente. Irritada com o deixa-andar dos seus compatriotas, Teti, a Pequena, restabelecera rigorosas regras de higiene e, em companhia do intendente Qaris e do Superintendente dos Celeiros Herai, velara pela sua aplicação. Nem um local de habitação, nem um armazém tinham escapado a uma série de fumigações e desinfecções. Todas as casas estavam a partn de agora equipadas com jarros de bico e bacias, destinados às limpezas essenciais da manhã, de que o indispensável auxiliar era o natrão, o melhor para lavar a boca. As oficinas de tecelagem tinham produzido muitas túnicas, tanto para os homens como para as mulheres, encantados por renovarem o seu guarda-roupa.

 

Instalados sob a protecção de panos estendidos entre quatro estacas, os cabeleireiros barbeavam todas as manhãs os soldados e lavavam-lhes os cabelos, ao mesmo tempo que especialistas para mulheres se esforçavam para as tornar tão bonitas quanto possível, sem se esquecerem de as perfumar com produtos ainda rudimentares, é verdade, mas que anunciavam já melhores dias. Com pinças para ondular e espátulas indispensáveis para espalhar a cera, os fabricantes de perucas tinham recomeçado a trabalhar. Estavam ainda longe das obras-primas de outrora, mas faziam de novo modelos de cabeças em madeira e recuperavam pouco a pouco a mestria perdida.

 

Cada casa, mesmo muito modesta, era actualmente rica em esteiras, cofres para arrumação, marmitas, escudelas, arcas para trigo, jarras para óleo e cerveja, e um amuleto representando o deus Bés, cujo riso tonitruante afastava os maus espíritos. Sólidas vassouras, formadas por longas fibras de palmeira rígidas, permitiam às donas de casa expulsar a poeira, enquanto equipas de lavadeiras asseguravam a limpeza da roupa.

 

A base militar transformara-se numa aldeia garrida onde todas as manhãs flutuava o aroma do pão fresco. O jovem Ahmés não exagerava: Teti, a Pequena, não descansara!

 

A mais surpreendida foi Felina, que descobria com deslumbramento as lindas casas brancas e os seus jardinzinhos bem tratados.

 

Não é um lugar para fazer a guerra  considerou ela. Vamos morar aqui?

 

Tu, sim. Eu, tenho de partir de novo.

 

Disse-te que nunca mais te deixaria e sou muito teimosa.

 

Felina, eu...

 

Leva-me para uma destas lindas casas e dá-me uma linda túnica. Depois, faremos amor.

 

O conselho restrito realizava-se no terraço do palácio real banhado pelo Sol poente. A ocasião era de uma tal doçura que a própria Ah-hotep teve vontade de esquecer as batalhas passadas e futuras, convencendo-se de que o objectivo fora atingido e que não seria necessário ir mais longe.

 

Mas ceder a essa ilusão teria sido a pior das deserções. E foi preciso ouvir o relatório do intendente Qaris.

 

Majestades, Larápio voltou de Cusae. O governador Emheb recebeu a vossa mensagem e espera-vos com impaciência. Infelizmente, corremos o risco de se abrir outra frente em Coptos. Os nossos vigias receiam um contra-ataque dos últimos partidários dos Hicsos na região, auxiliados pelas guarnições que ainda ocupam os fortins, na pista do deserto.

 

É necessário garantir a segurança de Tebas afirmou o Faraó Kamés. Resolvamos o problema de Coptos antes de partirmos para o Norte.

 

O governador Emheb e os seus homens devem estar a chegar ao limite objectou Ah-hotep. É impossível fazê-los esperar mais tempo. Tu, o portador da coroa branca, corre sem demora em seu auxílio. Eu e dois regimentos de assalto ocupar-nos-emos de Coptos.

 

Mãe, é uma loucura!

 

Com o devido respeito, Majestade insistiu Herai partilho da opinião do Faraó.

 

Não estamos reduzidos a cometer loucuras?
Fora um Kamés angustiado que se lançara para Cusae à frente de uma frota reduzida, depois de ter abraçado demoradamente a mãe que receava não voltar a ver.

 

Ah-hotep tivera de consolar o pequeno Ahmés, furioso por não poder acompanhar o irmão. Quando deixou de estar amuado, aceitou continuar a treinar-se, tanto mais que Teti, a Pequena, se comprometera a não o fazer beneficiar de nenhum tratamento de favor.

 

Mãe pediu Ah-hotep não notaste nada de anormal em Tebas, durante a minha ausência?

 

Teti, a Pequena, reflectiu sem resultado.

 

Nada te intrigou nos comportamentos de Qaris e de Herai?

 

Não, Ah-hotep. Desconfias que eles...

 

Mantém-te muito vigilante, peço-te.

 

Não vais aventurar-te na pista de Coptos! Tomaste essa posição para tranquilizar Kamés quando decidiste ficar em Tebas, não é verdade?

 

Ah-hotep sorriu.

 

Tu, que me conheces tão bem, porque me fazes semelhante pergunta?

 

A Rainha escolhera os dois regimentos comandados pelo Bigodes e pelo Afegão por uma razão determinada: a sua experiência da guerrilha. Não dispunha de homens suficientes para um choque frontal com o inimigo, mas apontava para uma série de intervenções pontuais e rápidas. A pequena tropa não teria tempo para repousar e deveria ir buscar ao fundo de si mesma os seus últimos recursos, sobretudo se sofresse grandes perdas.

 

Ah-hotep nada ocultara aos soldados sobre as provas que iam enfrentar. Nem um único recuara.

 

Não é coragem mas medo explicou o Bigodes Sabem que tanto o Afegão como eu damos cabo dos desertores. Fazei-me um favor, Majestade... Felina faz questão de transportar os meus odres de água.

 

Ela sabe ao que se expõe?

 

Uma núbia não receia nem as serpentes nem as feras. E esta é mais teimosa do que todas as mulheres juntas! Oh, perdão, Majestade, não queria dizer que...

 

Partimos daqui a uma hora.

 

Quando Ah-hotep penetrou no vestíbulo interior do templo de Coptos, os notáveis da cidade discutiam ali precisamente o seu futuro. Assustados pela ameaça hicsa, encaravam fazer de novo voto de fidelidade perante eles, voltando as costas ao jovem Faraó Kamés, incapaz de confirmar o seu poder. É verdade que Tebas levantara de novo a cabeça, mas durante quanto tempo? Pensando bem, aquela revolta só poderia ser passageira. Só os que tivessem colaborado com o Imperador escapariam à sua cólera. As propostas em favor de uma ligação oficial aos hicsos começavam a brotar quando a Rainha do Egipto apareceu.

 

Exibindo na cabeça um diadema de ouro e envergando um simples vestido branco, Ah-hotep estava mais bela do que nunca

 

Os notáveis calaram-se e curvaram-se.

 

As feridas da ocupação estão ainda longe de terem sido apagadas constatou ela e Coptos necessita de inúmeras reparações. Em vez de discorrerem no vazio, deveriam estar a trabalhar

 

Majestade afirmou o Sumo Sacerdote de Min somos vossos fiéis servidores e...

 

Sei que se preparavam para me trair porque não acreditam na vitória final de Tebas. Estão enganados.

 

Tendes de compreender-nos, os Hicsos ameaçam-nos!

 

Estou aqui para libertar definitivamente a pista do deserto e garantir a segurança de Coptos. Se continuarem a demonstrar cobardia, será a mim que terão como inimiga.

 

A intervenção da Rainha veio dar novo impulso à cidade. Ah-hotep determinou um programa de trabalhos de urgência e nomeou novos administradores que seriam directamente responsáveis perante ela. A população pôde aproximar-se dela e falar-lhe e esse simples contacto fez renascer a esperança, sob o olhar sempre admirativo do Afegão e do Bigodes.

 

A Rainha é verdadeiramente extraordinária constatou o Afegão, uma vez mais.

 

Contenta-te em obedecer-lhe recomendou o Bigodes e não te percas em sonhos insensatos. Todos os Egípcios estão apaixonados por ela, excepto eu, desde que tenho a minha nubiazinha. E, mesmo assim, não tenho muito a certeza!

 

Nenhuma mulher lhe pode ser comparada. Até mesmo um chefe de guerra endurecido se teria desencorajado há muito tempo, mas ela não... O fogo que a habita não é deste mundo.

 

Mas nós somos! Talvez seja a nossa última noite nesta terra, Afegão Aproveitemos então.

 

A Rainha concedera dispensa aos seus homens, que as tabernas de Coptos acolhiam com entusiasmo. Todos preferiam esquecer o dia seguinte.

 

Foi ao conversar com um caravaneiro que o Afegão, apesar de já um pouco tocado, teve uma ideia susceptível de poupar a vida de numerosos tebanos.

 

Anda, Bigodes, temos que ir falar já com a Rainha.

 

Deve estar a dormir.

 

Tanto pior, acordamo-la.

 

Em passo pesado, os dois homens dirigiram-se ao palácio do governador onde vivia Ah-hotep. Não apenas ela não dormia, como ainda estava ocupada a preparar o plano que o Afegão concebera muito depois dela.

 

O primeiro fortim hicso erguia-se a uma dezena de quilómetros a Este de Coptos e controlava perfeitamente a pista. Nenhuma caravana podia chegar à cidade. Os soldados do Imperador interceptavam os mercadores e despojavam-nos dos seus bens.

 

Graças a essas rapinas, suportavam as difíceis condições de existência no deserto, mas não tinham renunciado a retomar Coptos. As guarnições dos cinco fortins espalhados entre a cidade e o Mar Vermelho já não tardariam a reunir-se a fim de atacarem a cidade do deus Min, à qual fora dirigido um ultimato. Ou reconhecia a supremacia do Imperador, ou a população seria massacrada.

 

Caravana à vista! gritou um vigia.

 

O oficial hicso responsável pelo fortim veio ter com ele ao seu posto de observação.

 

Era realmente uma caravana, e de bom tamanho, mas não vinha do deserto.

 

Os notáveis de Coptos... Rendem-se! Olha para eles, todos aqueles medrosos, com as riquezas que vêm depositar a nossos pés! Vamos empalar o governador e decapitar os outros.

 

Eu disse o vigia vou ficar com o burro! Nunca vi um animal tão forte.

 

O oficial sou eu. E serei eu que dividirei o saque. Esquece esse burro e pensa nas raparigas de Coptos que te lamberão os tornozelos implorando a tua clemência.

 

Satisfeitos, os hicsos deixaram aproximar os burros, os notáveis e os seus servidores. O governador e os seus adjuntos tremiam, receando ser abatidos pelos archeiros antes de terem chegado à porta do fortim. Mas eram tão lastimáveis que nem um dos esbirros do Imperador tinha vontade de desperdiçar uma flecha. A tortura seria muito mais divertida.

 

Prosternai-vos e farejai o pó! ordenou o oficial. Os notáveis obedeceram, cada vez mais assustados.

 

Foi Vento do Norte que deu o sinal de ataque carregando sobre o oficial a quem deu uma cabeçada. Os soldados tebanos deixaram de fingir de servidores e lançaram os punhais de lâmina dupla com extrema precisão.

 

Aproveitando a falta de vigilância do inimigo, o Bigodes, o Afegão e uma dezena de homens, vindos por uma pista secundária indicada no mapa do traidor Titi que Ah-hotep não esquecera, haviam escalado a torre de vigia e tinham-se desembaraçado dos archeiros.

 

Em menos de um quarto de hora, a guarnição hicsa estava exterminada. Os egípcios apenas tinham que deplorar dois feridos ligeiros que Felina estava já a tratar.

 

Haveis desempenhado bem o vosso papel disse Ah-hotep aos notáveis que não paravam de tremer.

 

Majestade implorou o governador podemos regressar a Coptos?

 

Faltam-nos ainda ocupar quatro fortins respondeu a Rainha com um grande sorriso.
O último ataque hicso fora terrível. Com uma coragem que raiava a inconsciência, Ahmés, filho de Abana, fizera tudo para reanimar a energia de uma centena de garotos aterrorizados e repelir um comando de soldados de infantaria de capacetes negros cujo simples aspecto os assustava.

 

Repelido o assalto, restavam apenas dez sobreviventes esgotados. Coberto do sangue inimigo, Ahmés, filho de Abana, não perdera tempo a lavar-se antes de falar com o governador Emheb.

 

Acabou-se, governador, não podemos aguentar mais.

 

A mensagem de Larápio era bastante clara lembrou Emheb.

 

Os tebanos foram atrasados... ou dizimados. Em qualquer caso, não virão. Se não nos curvarmos, seremos todos massacrados.

 

O governador não protestou. O jovem herói tinha razão.

 

Concede-me um dia ainda.

 

Se os hicsos lançarem um novo ataque, não seremos capazes de o repelir. Seria brincar demasiado com o fogo.

 

Regra geral, demoram algum tempo, às vezes muito tempo, antes de recomeçarem.

 

Regra geral, sim. Mas desta vez aperceberam-se de que a frente não era mais espessa do que uma folha de sicômoro. No lugar deles, atacaria nas próximas horas.

 

Organizemos da melhor forma a nossa defesa e preparemo-nos para partir.

 

Emheb passara a noite a enterrar os cadáveres em simples fossos abertos à pressa. Não havia nem sarcófagos, nem papiros com fórmulas de ressurreição, nem mesmo um banal amuleto protector. O governador apenas pôde pronunciar uma antiquíssima invocação a Osíris pedindo-lhe para acolher no seu paraíso aqueles jovens que não tinham hesitado em dar a vida para tentarem vencer o Império das trevas.

 

E depois, a alvorada surgira sobre um acampamento egípcio já sem forças. Dois feridos graves morreram com os primeiros raios do sol. Também aqueles Emheb enterrou.

 

Deveríeis dormir um pouco recomendou Ahmés, filho de Abana.

 

Tu repousaste?

 

Não tive tempo. Reforçámos uma barreira de terra, espetámos estacas defensivas e reconstruímos os murinhos de tijolos por trás dos quais se abrigarão os nossos últimos archeiros. Mas tudo isto é tão irrisório...

 

Os navios estão prontos para partir. Encarrega-te de fazer embarcar os feridos.

 

Era mais do que um sonho que se desmoronava, muito mais. Derrubada a frente de Cusae, os hicsos precipitar-se-iam para o Sul e poriam Tebas a ferro-e-fogo. Depois de Ah-hotep, ninguém retomaria o facho. A barbárie dos invasores tornar-se-ia na lei comum e o Império das trevas não pararia de se espalhar.

 

Do lado dos hicsos, tudo parecia calmo.

 

Isso era ainda mais inquietante. Com certeza que o inimigo esperava a ordem de Auaris para lançar a ofensiva final que varreria os resistentes.

 

Emheb ordenou à maior parte dos soldados que abandonassem o seu posto e entrassem para bordo dos navios. Apenas ficou no seu lugar a primeira linha, unicamente composta por voluntários.

 

A vossa cabina foi limpa, governador avisou-o Ahmés, filho de Abana. Podeis embarcar.

 

Não, eu fico aqui. Assume o comando até Tebas.

 

Lá, teremos necessidade de vós.

 

O nosso mundo está prestes a extinguir-se, meu rapaz, e não existe nenhum ”lá”. Prefiro bater-me até ao fim com estes rapazes que morrem de medo mas se recusam a ceder.

 

Então, também fico. Como melhor archeiro do exército egípcio, retardarei a progressão dos hicsos.

 

Os dois homens abraçaram-se.

 

Ocupa o flanco esquerdo ordenou Emheb eu encarrego-me do direito. Quando as coisas se tornarem insustentáveis, os sobreviventes que se agrupem na colina.

 

Ahmés, filho de Abana, sabia muito bem que não teriam tempo para isso.

 

Emheb tinha um último receio: que o ataque hicso se desencadeasse antes da partida dos navios e que estes fossem metidos ao fundo antes de se poderem afastar. As manobras foram portanto realizadas à pressa, com risco de provocar um acidente.

 

Por sorte, não se verificou nenhum incidente. O vento do norte inchou as velas e a viagem para Tebas começou.

 

Sem uma palavra, Emheb e Ahmés, filho de Abana, dirigiram-se para os seus postos de combate.

 

Governador, eles estão de regresso.

 

O jovem soldado pôs-se em pé. Com pulso firme, Emheb obrigou-o a retomar a posição deitada.

 

Os navios... Garanto-vos que estão de regresso!

 

O governador rastejou até um montículo de onde podia observar o Nilo sem ser atingido pelos projécteis hicsos.

 

O rapaz tinha excelente vista.

 

Porque regressavam a Cusae os que podiam escapar à morte? Só havia uma explicação: navios inimigos obrigavam-nos a voltar para trás!

 

Nada.

 

O governador Emheb não podia fazer mais nada para os salvar. Ele próprio e a linha da frente estavam apanhados entre dois fogos.

 

Decidiu ordenar aos seus soldados que dispersassem.

 

Mas um pormenor intrigou o governador: na ponte dos navios não havia o mínimo sinal de agitação. Pareceu-lhe mesmo ver marinheiros a dançar de alegria!

 

Do poderoso navio de guerra que parecia persegui-los brotou um fulgor.

 

A princípio deslumbrado, Emheb compreendeu que os raios do Sol se reflectiam sobre ”a resplandecente da claridade”, a coroa branca do Faraó Kamés.

 

No seu primeiro relatório, o general hicso encarregado da frente de Cusae tranquilizara plenamente o Imperador: a guerra de desgaste revelara-se eficaz, visto que os egípcios estavam quase sem fôlego. Era inútil, portanto, deslocar um exército para o Delta. Bastaria um último assalto para destruir uma frente exangue. Está tudo pronto? perguntou ao seu ajudante-de-campo.

 

Sim, meu general. As vossas ordens foram distribuídas aos oficiais. Será quase demasiado fácil, pensou o oficial superior. Mas depois daquele penoso conflito, que se arrastara durante tanto tempo, os hicsos estripariam com prazer os últimos resistentes. E o general seria celebrado como vencedor em Auaris, onde receberia com certeza uma promoção. O seu navio avançaria orgulhosamente pelo canal principal com a cabeça cortada do governador Emheb à proa.

 

De repente, uns sons curiosos fizeram-no sobressaltar.

 

O que é isto?

 

Nunca ouvi nada assim disse o ajudante-de-campo, cujo ventre se contraía.

 

Nenhum hicso, com efeito, ouvira ainda a melopeia envolvente dos tambores. Fabricados na Núbia, emitiam intensas vibrações que espalharam a perturbação entre os soldados do Imperador.

 

Um novo malefício da Rainha Ah-hotep! exclamou o ajudante-de-campo.

 

Não vai ser esta música que vai fazer recuar os hicsos! irritou-se o general. Preparemo-nos para o assalto.

 

Com o corpo reluzente de suor, apareceu um vigia.

 

Meu general, a linha da frente acaba de ser reforçada! Há pelo menos o triplo de soldados do outro lado e há mais que não cessam de chegar.

 

De onde vêm?

 

De navios provenientes do sul. Vi mesmo os egípcios congratularem-se, como se já não receassem mais nada.

 

Perturbado, o general quis verificar pessoalmente. Seguindo o vigia, trepou até ao promontório de onde podia ver a primeira linha do inimigo.

 

O que descobriu deixou-o sem voz.

 

Na colina mais alta flutuava um estandarte com o emblema de Tebas, um arco e flechas. E o que o segurava firmemente na mão direita era um jovem vigoroso, tendo na cabeça a coroa branca do Alto Egipto que parecia emitir potentes raios luminosos.

 

Os clamores da festa celebrada pelos tebanos, acompanhados por tambores durante toda a noite, tinham acabado por mergulhar os hicsos na expectativa.

 

Carneiro assado, puré de favas, queijos frescos... Com as barrigas e os corações confortados por aquele festim, os libertadores queriam de novo acreditar na vitória. Graças ao carregamento de mantimentos, recuperavam as forças necessárias para lutar contra as tropas do Imperador.

 

O Faraó Kamés estava menos optimista. Não dissimulou a realidade ao governador Emheb.

 

As mensagens transmitidas pelos pombos-correio informaram-me que a minha mãe se apoderou dos fortins hicsos, na pista que vai de Coptos ao Mar Vermelho. Mas teve de instalar lá soldados egípcios e deixámos muitos outros na Núbia e em Elefantina a fim de mantermos as nossas posições. Espero que a Rainha Ah-hotep esteja em breve a nosso lado, mas com que exército?

 

Por outras palavras, Majestade, temos falta de homens.

 

Acumular a totalidade das nossas forças em Cusae é impossível. Os Núbios contra-atacariam pelo sul e Tebas ficaria em perigo.

 

Vamos retomar portanto esta guerra de trincheiras e desgaste. Se os hicsos repetirem os assaltos violentos, durante quanto tempo lhes conseguiremos resistir?

 

Não sei  confessou o Faraó  mas não recuaremos.

 

Está tudo pronto, Majestade declarou o Sumo Sacerdote do templo de Set quando o Imperador desceu da sua cadeira de transportadores.

 

Ao contrário dos Faraós, Apopis não começava o seu dia pela celebração de um ritual. Em geral, só vinha ao santuário para ali dirigir um grande conselho que terminava muitas vezes pela eliminação de um dignitário que se tornara demasiado enfadonho para o seu gosto.

 

Desta vez, o Senhor dos Hicsos estava só

 

Tu e os teus acólitos, afastem-se.

 

Havia uma tal violência no olhar do Imperador que o Sumo Sacerdote fugiu.

 

Apopis penetrou no santuário onde as lâmpadas de óleo tinham sido apagadas. Avançou com facilidade nas trevas.

 

Ao fundo do templo, os sacerdotes haviam deitado sobre um altar uma admirável estatueta da deusa Hathor. O rosto era esculpido com tanta delicadeza que vibrava de vida. As formas do corpo exprimiam simultaneamente amor, nobreza e ternura.

 

Noutro altar estavam dispostos cinco punhais.

 

Obedece-me, Set exigiu o Imperador ajuda-me a destruir os que se opõem à minha vontade!

 

A tempestade ressoou.

 

Espessas nuvens negras acumularam-se sobre o templo de Auaris, os cães uivaram à morte.

 

Houve apenas um único relâmpago, mas tão violento que rasgou todo o céu. O raio caiu sobre os punhais cujas lâminas se tornaram incandescentes.

 

Com o primeiro, Apopis decapitou a estatueta e cortou-lhe os pés. Cravou-lhe outros dois nos seios e mais dois no ventre.

 

Morre, maldita Ah-hotep!

 

Depois de ter feito uma paragem por baixo de uma alfarrobeira de densa folhagem cujos frutos com gosto de mel saboreara, a Rainha dirigiu-se para o templo de Dendera, rodeado por altos sicômoros.

 

Graças às expedições organizadas pelo Bigodes e pelo Afegão, os tebanos tinham libertado uma a uma as aldeias ainda nas mãos da polícia hicsa. Não hesitando em auxiliar os libertadores, os camponeses tinham-se finalmente libertado de um jugo insuportável.

 

De repente, Ah-hotep sentiu uma violenta dor no peito. Decidindo ignorá-la, continuou a avançar para o santuário da deusa Hathor que receava encontrar devastado. Mas correu fogo nos seus pés e teve de parar.

 

Sentis-vos mal, Majestade?  inquietou-se o Afegão.

 

Um pouco de fadiga, nada de grave.

 

A nova dor que trespassou o ventre da Rainha tirou-lhe a respiração e foi obrigada a sentar-se. Quando os seus pensamentos começaram a ficar confusos, compreendeu.

 

Um malefício... Aquele Imperador, só pode ter sido ele! Levem-me ao templo.

 

O Bigodes e o Afegão tiraram uma barca do canal onde estava amarrada e instalaram nela a Rainha. Foi levantada por doze homens que correram até ao grande portal, semidestruído, que franquearam em passo rápido.

 

No grande pátio jaziam os destroços de esteias e de estátuas. As efígies de Hathor que enquadravam a entrada do templo coberto tinham sido decapitadas e mutiladas.

 

Três mulheres assustadas, duas jovens e uma muito idosa, surgiram no limiar.

 

Não violeis este lugar sagrado  implorou a superiora. Para penetrar aqui tereis primeiro que nos matar.

 

Exército de libertação  declarou o Bigodes.  A Rainha Ah-hotep está doente e precisa dos vossos serviços.

 

A barca foi poisada no pavimento.

 

A Rainha Ah-hotep! A velha sacerdotisa lembrava-se da sua visita a Dendera em companhia do marido, o Faraó Seken. Dera-lhes o heka, a força mágica que permitia inflectir o curso do destino. Mas hoje essa força parecia esgotada.

 

O Imperador das trevas tenta apoderar-se da minha alma disse a Rainha.  Apenas a deusa de ouro me pode arrancar ao seu domínio.

 

A superiora poisou a mão sobre a testa de Ah-hotep.

 

Não há um segundo a perder, Majestade. O fogo de Set já invadiu a maior parte dos vossos canais. Que alguém ajude a Rainha a deslocar-se.

 

Com o acordo do Bigodes, foi o Afegão que tomou a jovem nos braços. O vigoroso barbudo de cabelos cobertos por um turbante transportou com angústia e respeito o seu precioso fardo. Felizmente, a superiora avançava em passo lento e o Afegão seguiu-a evitando qualquer passo em falso.

 

Apesar das ameaças dos hicsos, a grande sacerdotisa de Dendera não revelara a localização das criptas onde estavam conservados os objectos sagrados de Hathor. Mesmo sob tortura, permanecera calada. Encontrava hoje a recompensa pela sua coragem ao abrir a porta corrediça do pequeno compartimento onde tinham sido escondidas a coroa, os sistros, os colares e o relógio a água da deusa de ouro. Nas paredes estavam gravadas cenas que só Ela devia ver.

 

Estende Sua Majestade no chão ordenou a superiora e retira-te.

 

Quando a porta se fechou, um clarão brotou de uma estranha figura representando um invólucro oval percorrido por uma linha quebrada, a onda primordial da criação que atravessara a matéria para a animar, A vibração fez tremer a parede e o corpo de Ah-hotep.

 

A alma da Rainha está imersa na duat, a matriz estelar onde nascem a cada instante as múltiplas formas de vida revelou a superiora. Deve aí permanecer setenta horas, com a esperança de que a energia de Hathor seja mais poderosa do que a do Imperador das trevas.

 

Não tendes a certeza? inquietou-se o Bigodes,

 

Ignoro a natureza das forças que Apopis utilizou. Se fez apelo a Set, o perturbador do cosmos, todo o amor de Hathor não será demais.

 

A Rainha não corre o perigo de morrer? murmurou o Afegão.

 

Possa a deusa de ouro acolhê-la na sua barca que atravessa obscuridade.

 

Passadas as setenta horas, a grande sacerdotisa de Dendera, abriu a porta da cripta.

 

Durante intermináveis segundos, apenas houve silêncio. O Bigodes mordia os lábios, o Afegão transformava-se em pedra.

 

Ah-hotep saiu do pequeno compartimento que poderia ter sido o seu túmulo. Muito pálida, de andar hesitante, deixou a noite da duat.

 

Vendo que ela vacilava, o Afegão ofereceu-lhe o seu braço. Deveis comer, Majestade sugeriu o Bigodes

 

Antes, tenho que garantir a protecção da Rainha decretou a superiora. Graças ao colar da deusa, ficará protegida de um novo ataque.

 

A grande sacerdotisa entrou na cripta e tornou a sair com um estranho objecto, a menat, formado por um colar de contas de ouro e de turquesa ligado por dois cordões a um contrapeso de ouro que terminava num disco e se apoiava na nuca.

 

É com este símbolo que a deusa transmite o fluido mágico da vida. Graças a ele, as mães podem dar à luz e os marinheiros chegar a bom porto. Quando é brandido diante da estátua de Hathor, a tristeza e as perturbações são dissipadas. Nele se quebrarão as ondas nocivas.

 

A superiora passou o colar-menat em torno do pescoço de Ah-hotep.

 

Graças a vós, Majestade, a província de Dendera está livre.

 

Mas como poderá o Egipto renascer enquanto o templo de Abidos estiver sob a ameaça hicsa?

 

O discurso inflamado de Kamés tranquilizara os soldados egípcios. Não era Apopis ”um fraco de braço cujo coração pequeno se gabava de falsas vitórias”? Com um Faraó à sua frente, os tebanos não recuariam. E quando a Rainha Ah-hotep se juntasse a eles. avançariam finalmente para o Norte.

 

Outro motivo de esperança: o novo armamento de que dispunham presentemente as tropas da frente. Reforçados por lâminas de bronze, os escudos de madeira protegê-los-iam melhor das flechas e das lanças hicsas. Dotadas de pontas de bronze mais longas e mais penetrantes, as suas próprias lanças causariam mais devastação no inimigo, assim como as espadas mais cortantes e os machados mais fáceis de manejar. Quanto aos capacetes e às couraças cobertas de lamelas de bronze, seriam muito úteis durante as lutas corpo-a-corpo.

 

Assim equipados, os soldados de Kamés e de Ah-hotep sentiam-se quase invulneráveis. É óbvio que o medo provocado pela visão dos guerreiros com capacetes negros estava longe de ter desaparecido, mas todos se julgavam capazes de os enfrentar.

 

No entanto, fora da vista dos seus homens, o jovem Rei apresentava um rosto bastante sombrio.

 

As notícias são boas, Majestade anunciou o governador Emheb. O Larápio acaba de nos informar que a Rainha Ah-hotep libertou a província de Dendera. Dirige-se para Abidos.

 

Mesmo que ela consiga vir ter connosco, será sem reforços’ E se ficarmos inactivos, os hicsos acabarão por nos esmagar

 

Como se teria comportado Ah-hotep em tais circunstâncias? Kamés devia mostrar-se digno dela e não se contentar em manter as posições conquistadas

 

Como temos falta de voluntários, devemos convencer os hesitantes para lutarem a nosso lado

 

Pensais nos marinheiros, nos caravaneiros ou nos mercenários empregados pelos hicsos na região’

 

Temos de os persuadir

 

São gente sem fé nem lei, Majestade

 

Porque não havemos de lhas proporcionar’

 

Os caravaneiros descarregavam os burros sob a protecção de mercenários pagos pelos hicsos. Tão perto da frente, aquele género de precaução não era supérflua Segundo os últimos boatos, um jovem Faraó com a coroa branca teria mesmo chegado a Cusae? É verdade que se anuncia uma ofensiva próxima que aniquilaria os tebanos, mas não se arriscariam os resistentes a atacar os comboios de mercadorias? Só a presença dos milicianos de Apopis os dissuadiria de tentar a aventura

 

Como era costume, a descarga decorreu sem incidentes

 

No momento em que os hicsos se afastavam, Ahmés, filho de Abana, disparou a sua primeira flecha que matou de imediato o comandante Com a calma e a precisão habituais, dizimou as fileiras do adversário, apoiado por outros archeiros de elite

 

Estáticos diante das suas mercadorias, os comerciantes assistiram ao massacre dos seus protectores sem se atreverem a fugir E não foi o aparecimento de Kamés, com a deslumbrante coroa branca, que os acalmou

 

Vós sois colaboradores de Apopis declarou ele e, portanto, inimigos do Egipto

 

O porta-voz dos comerciantes ajoelhou-se

 

Majestade, oprimiram-nos. Compreendei e perdoai-nos No nosso coração, é o Egipto que reina.

 

Kamés sorriu.

 

Essas palavras alegram-me. Por sorte para vós, chegou a hora de provarem o vosso empenhamento.

 

O porta-voz mudou de rosto.

 

Majestade, somos pessoas pacíficas e...

 

Estamos em guerra lembrou o Faraó e todos devem escolher o seu campo. Ou alinhais do lado dos Hicsos e sereis executados por traição, ou bateis-vos connosco.

 

Não temos nenhuma experiência das armas!

 

Os meus instrutores confiar-vos-ão tarefas à vossa altura Visto que não existia escapatória, o mercador tentou conseguir uma importante vantagem para a sua corporação.

 

A alfândega de Hermópolis estrangula-nos, Majestade. Os funcionários da alfândega são asiáticos e beduínos que ficam com grande quantidade de mercadoria. Tencionais modificar tal situação?

 

Essa alfândega só existe por causa da ocupação.

 

Então, se sairdes vencedor, será suprimida?

 

Se sairmos vencedores, sê-lo-á.

 

Um largo sorriso iluminou o rosto do porta-voz.

 

Somos vossos fiéis servidores, Majestade, e bater-nos-emos o melhor que pudermos.

 

Quando viram chegar o destacamento comandado por Kamés, os habitantes da aldeia, assustados, refugiaram-se nas suas casas de adobe. Como muitos povoados a este de Cusae, aquele estava sob o controlo de um mercenário assistido por uma vintena de vigorosos rapagões que faziam reinar o terror aplicando as ordens da polícia hicsa. Todos se governavam bem e Joelho Gordo nunca vivera melhor do que depois de se tornar miliciano do Imperador. Explorava a população, oferecia a si próprio mulheres inacessíveis e batia em quem ousasse faltar-lhe ao respeito.

 

Chefe gritou o seu lugar-tenente estão a atacar-nos!

 

Com o cérebro entorpecido pela cerveja, Joelho Gordo demorou alguns instantes a compreender que o inacreditável acabava de acontecer. É verdade que existia a frente de Cusae e que alguns referiam o empenhamento do exército de libertação. Ele nunca tinha acreditado. E eis que os tebanos se atreviam a atacar o seu domínio!

 

Embora céptico sobre a sua capacidade para avançar. Joelho Gordo previra no entanto essa possibilidade. Os que acreditavam que lhe iam fazer curvar a cabeça teriam uma má surpresa.

 

Fizeste o que era necessário?

 

Podeis estar tranquilo, chefe!

 

Joelho Gordo sentiu um choque ao sair de casa. O provocador era um homem jovem e vigoroso, com uma coroa tão branca que o seu fulgor o encandeou.

 

Depõe as armas ordenou Kamés. Os meus homens são mais numerosos do que os teus e não tens qualquer hipótese de vencer.

 

O Rei de Tebas é indesejável no nosso território retorquiu Joelho Gordo com arrogância.

 

Traíste o Faraó vendendo-te aos Hicsos. Curva-te ou morrerás.

 

O meu único senhor é Apopis! Se não desapareceres daqui imediatamente, serás responsável pela morte de todas as crianças da aldeia. Estás a ver aquele granja, lá diante... Estão todas reunidas lá e os meus homens não hesitarão em cortar-lhes a garganta logo que eu lhes dê ordem.

 

Que ser humano ousaria cometer semelhante abominação? Joelho Gordo riu.

 

Tive uma boa escola com os Hicsos! Tu não passas de um fraco porque ainda acreditas na existência de Maet.

 

Rende-te, ainda estás a tempo.

 

Abandona o meu território ou as crianças serão executadas.

 

Amon é minha testemunha de que haverá apenas uma morte nesta aldeia declarou Kamés voltando-se para Ahmés. filho de Abana.

 

A flecha do archeiro de elite cravou-se no olho esquerdo de Joelho Gordo, que caiu de costas.

 

Privados do seu chefe, assustados com a determinação de Kamés, os homens do miliciano lançaram ao chão as espadas e os arcos. Não tinham vontade de morrer.

 

Os reféns estão indemnes garantiu o lugar-tenente de Joelho Gordo

 

Para repararem as vossas faltas só há uma via possível: obedecer-me e comprometerem-se sob juramento a combater os Hicsos. Se trairdes a vossa palavra, será a Engolidora do outro mundo que vos aniquilará.

 

Os soldados prestaram juramento. Felizes por se safarem sem nada sofrer, não estavam descontentes por se colocarem sob as ordens de um verdadeiro chefe.

 

Vais à aldeia vizinha com uma parte da minha escolta ordenou Kamés ao seu novo oficial. Proporás ao chefe da milícia local que te imite e se junte às nossas fileiras. Caso contrário, terá a mesma sorte do bandido que vos dominava.

 

O lugar sagrado de Ahidos, a norte de Dendera e a Sul de Cusae, era consagrado ao deus Osíris, o senhor da vida na eternidade. Sem qualquer importância económica, a cidade santa acolhia as esteias dos ”de voz justa” que tinham comparecido com êxito perante os dois tribunais, o terrestre e o celeste.

 

A Rainha e os seus soldados tinham acampado a boa distância do templo, mergulhado no silêncio. Não havia qualquer vestígio de presença hicsa nos arredores. Depois de diversas expedições que lhes tinham permitido libertar as aldeias entre Dendera e Abidos, os tebanos gozavam de algumas horas de repouso.

 

Não há ninguém aqui afirmou o Bigodes. Logo que os nossos homens recuperem, não será conveniente alcançarmos a frente o mais depressa possível?

 

Os Hicsos substituíram a vida pela morte lembrou Ah-hotep. Em Abidos, Osíris transforma a morte em vida, e temos primeiro de nos assegurar que apenas ali reinam os espíritos luminosos. Quando o Egipto for libertado, Abidos tornará a ser um santuário magnífico e próspero. As esteias dos justos serão novamente erigidas ali e um colégio de sacerdotes e sacerdotisas celebrará o culto e os mistérios do deus, como no passado.

 

Ouvindo Ah-hotep, a felicidade tornava-se uma ilusão. E a sua voz continuava a despertar a esperança, mesmo naqueles que julgavam tê-la perdido definitivamente.

 

Tal como os outros combatentes, Vento do Norte e Risonho esqueceram a guerra durante um dia inteiro. O burro regalava-se com deliciosos cardos e o cão refastelava-se à sombra de um sicômoro, trincando um osso.

 

A meio da manhã seguinte, a tropa aproximou-se do templo cuja fachada se encontrava em parte oculta por ervas bravias.

 

Parece que se ouvem lamentos observou o Bigodes.

 

Não tens mau ouvido aprovou o Afegão.

 

No antigo caminho das procissões, que ia do santuário a um pequeno bosque, surgiram uma dezena de sacerdotes cujos cânticos fúnebres evocavam o assassinato de Osíris pelo seu irmão Set. Parecendo profundamente afectados pelo drama que faziam reviver, avançavam com extrema lentidão. À frente, um potente homenzarrão com a cabeça coberta por um capuz. Quanto aos dois ritualistas que fechavam a marcha, seguravam um cacete para atacar os seguidores de Set, os inimigos de Osíris.

 

Os antigos cultos continuavam então a ser celebrados, mesmo de forma sumária!

 

No momento em que Ah-hotep se aproximava do ritualista chefe, Vento do Norte lançou-se a toda a velocidade e atacou o encapuçado, que caiu pesadamente.

 

Levantando-se furioso, tirou um punhal de um bolso da túnica e tentou cravá-lo no peitoral do burro. Era não contar com a intervenção de Risonho, o Jovem, que saltou sobre o agressor e lhe despedaçou o braço com os poderosos caninos.

 

Os sacerdotes armados de cacetes enquadraram Ah-hotep com intenção de lhe esmagar o crânio. A Rainha esquivou-se à primeira pancada, mas não teria escapado à segunda se a forte mão do Afegão não tivesse bloqueado o pulso do agressor antes de lho quebrar. O seu acólito não evitou a carga do Bigodes, cuja cabeçada lhe quebrou o nariz.

 

São Hicsos! declarou um dos verdadeiros sacerdotes prostrando-se diante da Rainha. Imediatamente imitado pelos colegas. Forçaram-nos a armar-vos esta cilada.

 

Antes de confiarem neles, os tebanos submeteram-nos a um rigoroso interrogatório. Chegaram à conclusão que tinham realmente sido feitos reféns por três milicianos hicsos, decididos a suprimir a Rainha, mesmo que perdessem a vida na aventura.

 

Com as lágrimas nos olhos, Ah-hotep percorreu um templo conspurcado e destruído. Dos esplendores do Império Médio não subsistia quase nada. Depois de se ter recolhido perante as cenas mutiladas que reproduziam os episódios da ressurreição de Osíris, Ah-hotep aventurou-se no deserto onde tinham sido escavadas as Moradas de Eternidade da primeira dinastia, longe das terras cultivadas. Aquelas simples construções alongadas, com paredes de tijolo, eram testemunho de um período importante durante o qual o Alto e o Baixo Egipto tinham, pela primeira vez, formado um só país.

 

Os bárbaros Hicsos não se tinham interessado por aquelas modestas sepulturas. Embora o local não estivesse imbuído de tristeza, Ah-hotep sentiu-se tão só que a sua força de vontade se sentiu abalada.

 

É certo que os êxitos conseguidos tinham ultrapassado as mais loucas esperanças. Mas seria possível ir mais longe? Reflectindo bem, os ferimentos infligidos ao monstro eram apenas superficiais. O Imperador deixara com certeza a Rainha agitar-se, como um insecto fácil de esmagar chegado o momento.

 

Ultrapassar Cusae... Uma utopia! A seguir começava o verdadeiro território dos Hicsos, cujo armamento era muito superior ao do exército de libertação. O tirano nunca aceitaria que o Faraó Kamés invadisse o seu domínio.

 

Não avançar para o Norte, não reunificar as Duas Terras, era perder a guerra e aceitar definitivamente uma ocupação que se agravaria cada vez mais.

 

Ah-hotep imobilizou-se diante de um túmulo.

 

Na mesa de oferendas que servia de portal fora depositado um pequeno jarro de vinho dedicado ao Faraó Aha.

 

Aha, o Combatente.

 

Não seria uma mensagem dirigida à Rainha pelos monarcas da primeira dinastia? Combater, não havia outro caminho.

 

Combater até à morte se fosse necessário e nunca renunciar ao objectivo supremo: a reunificação.

 

Quando Ah-hotep percorreu uma vez mais o templo de Osíris desaparecera qualquer vestígio de dúvida. O espírito dos antigos Reis penetrara nela, exigindo que o seu olhar não se limitasse apenas ao horizonte de Tebas.

 

Vigiado pelo Bigodes e pelo Afegão, um sacerdote apresentou um pedido.

 

Majestade, o nosso superior ainda está vivo. Conhece as fórmulas que nos permitirão celebrar de novo os rituais e fazer reviver os nomes dos justos reconhecidos como tal por Osíris. Para que a sua sabedoria não se perdesse, ocultámo-lo numa aldeia dos arredores. Visto que nos haveis libertado dos Hicsos, poderíeis trazê-lo para cá?

 

O Bigodes torceu o nariz.

 

Isto parece uma cilada, Majestade.

 

Uma cilada! protestou o sacerdote. Mas o que estais a pensar? Apenas queremos trazer o nosso superior para casa!

 

Isto parece cada vez mais uma cilada.

 

Vamos decidiu Ah-hotep.

 

Tomai pelo menos uma precaução recomendou o Afegão: que esse sacerdote siga à nossa frente e nos sirva de escudo.

 

A aldeia estava aninhada numa colina que dominava um canal. Instalado num nível inferior, o posto dos milicianos hicsos não criara qualquer problema ao Bigodes, que apenas precisara de dois homens para o aniquilar.

 

Acorreu uma dezena de garotos com gritos de alegria. Um rapazinho saltou para os braços da Rainha e beijou-a nas duas faces. Mães inquietas juntaram-se-lhes, sob o olhar desconfiado do Bigodes. Depois, os homens atreveram-se a sair das casas, com os braços no ar para mostrarem que não tinham armas.

 

O nosso superior continua convosco? perguntou o sacerdote, inquieto.

 

Ele está bem respondeu o chefe da aldeia.

 

Apesar da idade avançada, o ritualista-chefe era ainda dotado de vigor. Foi com profunda emoção que se curvou diante da Rainha.

 

Não posso crer, Majestade! Abidos está realmente livre?

 

Podes voltar para o templo. Que seja erigida uma esteia em honra do Faraó Seken, de voz justa, e que o seu nome seja glorificado todos os dias.

 

Assim se fará, Majestade. Perdoai a minha curiosidade, mas... haveis decidido consolidar a fronteira de Cusae ou reconquistar o Norte?

 

O Egipto só sobreviverá desde que esteja reunificado.

 

As vossas palavras são de ouro, Majestade! Mas, para ter a esperança de o conseguir, precisais de conhecer o conteúdo da jarra das profecias que revela os bons e os maus dias. Sem essa lista, cometereis erros e sofrereis pesadas perdas.

 

Onde está ela?

 

Em Hermópolis.

 

Quando os estivadores descarregaram as caixas provenientes da Ásia, a polícia estabeleceu um cordão de segurança no cais. Khamudi ordenara que não autorizassem ninguém a aproximar-se do navio de mercadorias e que o seu carregamento fosse imediatamente levado para o palácio.

 

Logo que chegaram, o grande tesoureiro abandonou as suas pastas para contemplar os numerosos vasos de cerâmica, certamente grosseiros mas de conteúdo tão precioso!

 

Sozinho na vasta cave, Khamudi abriu um dos vasos.

 

Continha ópio, que seria vendido muito caro aos oficiais superiores e aos notáveis hicsos de Auaris e das grandes cidades do Delta. Com o acordo do Imperador, Khamudi decidira desenvolver aquele novo comércio, cuja rentabilidade se anunciava excepcional. Na sequência de alguns testes efectuados no seu círculo de amigos, o grande tesoureiro apercebera-se de que os consumidores se habituavam rapidamente àquele produto e pediam mais. Como competia ao Estado garantir o bem-estar dos seus administrados, agora que tirasse disso os máximos lucros, a maior parte dos quais iriam, como era normal, engrossar a fortuna do Imperador.

 

Outra vantagem não negligenciável era que grande quantidade de dignitários se tornariam dependentes dos fornecimentos proporcionados pelo grande tesoureiro e os preços não cessariam portanto de aumentar. Dentro de alguns meses, a droga inundaria todas as províncias do Império e as comissões recebidas por Khamudis seriam colossais. Era no entanto necessário verificar a qualidade da mercadoria.

 

Apoderando-se de um lindo vaso vermelho de forma alongada, voltou para a sua casa oficial onde a esposa, Yima, se fazia depilar com cera.

 

Já de regresso, querido?

 

Tenho uma boa surpresa.

 

Logo que a minha criada acabe, eu...

 

Ela que se vá embora.

 

Receando que lhe batessem, a criada eclipsou-se. Khamudi acendeu um queimador de perfume e aqueceu pequenas bolas de ópio.

 

Vais provar isto, minha doçura.

 

O que é?

 

Uma guloseima.

 

Yima apreciou o presente. A avaliar pelo seu delírio, constituído por fases de excitação e momentos de apatia, a clientela não poderia deixar de ficar encantada.

 

O pintor Minos acrescentou azul-pálido na coluna da sala de recepções do palácio cretense, um dos elementos do grande fresco em que trabalhava, aperfeiçoando o mínimo pormenor. Perfeccionista, retomava várias vezes a mesma figura antes de ficar satisfeito.

 

Quando uma mão acariciadora se apoiou no seu ombro, poisou lentamente o pincel.

 

Ventosa... Devias deixar-me trabalhar!

 

Há horas que te esgotas a tornar mais alegre esta sala sinistra! São horas de te divertires, não achas?

 

A bela eurasiática encostou o corpo nu de encontro ao do cretense. As suas formas encaixavam-se perfeitamente, como se tivessem sido criados um para o outro.

 

És louca! Podem surpreender-nos.

 

Como é excitante murmurou ela, desatando o saiote do amante, cuja virilidade era já bem evidente.

 

Ventosa, não...

 

Estou apaixonada por ti, Minos, realmente apaixonada. Nada nos poderá ser proibido.

 

Embora continuasse a ser uma temível carnívora que persistia em devorar os inimigos do Imperador, arrancando-lhes confissões no travesseiro, Ventosa estava sinceramente apaixonada pelo pintor cuja ingenuidade lhe tocava o coração. Tanto quanto se aborrecia nos braços dos amantes de passagem, assim sentia um intenso prazer de cada vez que se oferecia ao cretense.

 

Ventosa não podia passar sem Minos. Nunca mais lhe permitiria o regresso a Creta, embora o deixasse acreditar o contrário.

 

As tuas pinturas são cada vez mais belas afirmou, estendendo-se em cima dele.

 

Fabriquei um novo azul que dá mais calor e tenciono melhorar as minhas outras cores.

 

Vais retomar as pinturas antigas?

 

Assim terá de ser.

 

Graças a ti, a beleza torna esta fortaleza quase agradável.

 

Não falemos mais de trabalho, por favor. Prefiro ocupar-me da obra-prima que acaricio.

 

Uma onda de prazer invadiu Ventosa. Só Minos a conseguia fazer esquecer as suas torpezas.

 

A recepção de gala oferecida pelo grande tesoureiro e pela esposa era das mais animadas. Estavam presentes a maior parte dos oficiais superiores hicsos, que apreciavam o seu primeiro consumo de droga e se tornariam fiéis clientes.

 

Ventosa concentrara a sua atenção num responsável pelo armamento, do qual alguns comentários ácidos sobre a frente de Cusae se assemelhavam a críticas contra a política do Imperador. Se fosse esse o caso, saberia atrair as suas confidências e haveria um novo candidato para o labirinto.

 

Yima não deixara de felicitar Minos pelo esplendor das suas esculturas e Ventosa via com maus olhos aquela galdéria aproximar-se demasiado do seu amante. Se continuasse assim, a apaixonada pelo cretense arranjaria forma de se desembaraçar da rival.

 

Não provas a nossa mais recente guloseima? perguntou Khamudi a Minos.

 

Segundo o comportamento dos que a consomem, afectaria a segurança da minha mão.

 

Não te proporcionaria novas ideias?

 

De momento, não me faltam.

 

Hás-de acabar por apreciar a droga, tenho a certeza! Como poderia um artista não o fazer? Conta comigo para te fazer os melhores preços.

 

A vossa solicitude comove-me, grande tesoureiro.

 

Nada mais normal, meu jovem amigo! Aprecio muito a arte moderna.

 

Terminados os mútuos cumprimentos, Minos conseguiu eclipsar-se.

 

Depois de ter fingido regressar ao seu apartamento, afastou-se da cidadela voltando-se várias vezes, como se receasse ser seguido.

 

Quando se dirigia para o bairro onde viviam a maior parte dos oficiais superiores, Minos por pouco não esbarrou com uma patrulha. Com o coração a bater, escondeu-se num recanto de uma ruela, esperando que nenhum dos polícias o tivesse visto.

 

Precisou de um bom bocado para normalizar a respiração e continuar o seu caminho. Por dez vezes o pintor parou e olhou à sua volta.

 

Tranquilizado, percorreu a correr a última centena de metros que o separava da casa do homem com quem se devia encontrar no máximo segredo.

 

Como combinado, a casa e as suas dependências estavam mergulhadas na escuridão. Minos esgueirou-se até à entrada, a porta abriu-se.

 

Tens a certeza de que ninguém te seguiu? perguntou uma voz angustiada.

 

Tenho.

 

Entra depressa.

 

Os dois homens sentaram-se e falaram baixo.

 

Contactaste outros dignitários? interrogou Minos.

 

Só dois, e com as máximas precauções. Mas não posso afirmar que sejam verdadeiramente seguros. Na minha opinião, era melhor renunciares aos teus projectos. Conspirar contra o Imperador é demasiado perigoso. Os que o tentaram foram mortos com atrozes sofrimentos.

 

Se não me conseguir desembaraçar de Apopis, nunca mais regressarei a Creta e eu próprio me consumirei em atrozes sofrimentos. A única solução é derrubar esse tirano.

 

O Imperador dispõe de múltiplas redes de informação, sem falar das de Khamudi. Preparar uma acção contra ele é quase impossível.

 

”Quase”... É nessa palavra que reside a esperança! E já temos dois aliados! Não é um princípio?

 

Francamente, receio que não.

 

Não estás também decidido a lutar contra Apopis?

 

Estava, mas o seu poder foi de tal forma reforçado que nada o pode contestar. Se teimares, acabarás no labirinto.

 

O Imperador precisa dos meus serviços lembrou Minos. Quem senão eu poderia decorar a sua cidadela à moda de Creta? Julga-me submisso e resignado. Sou o último de quem desconfiaria. Não é uma vantagem fundamental que deve ser explorada?

 

O hospedeiro do cretense sentiu-se abalado.

 

Não deixa de ser verdade, mas tens realmente consciência do perigo?

 

Estou pronto a tudo para recuperar a minha liberdade e regressar ao meu país. Continua a estabelecer contactos com eventuais adversários do Imperador.

 

Ventosa teria gostado de passar a noite com Minos, mas o pintor parecia apressado em abandonar a recepção oferecida por Khamudi e ir dormir no seu apartamento da cidadela. Ficou ainda mais surpreendida por vê-lo sair tomando mil precauções.

 

Intrigada, a eurasiática seguiu o amante cujo comportamento lhe parecia estranho. Ao vê-lo entrar na casa do responsável pelo armamento, suspeito de conspirar contra o Imperador, Ventosa sentiu uma violenta dor no baixo-ventre.

 

Minos, o único homem que amava verdadeiramente... Minos seria cúmplice de um traidor?
Todas as manhãs, Teti, a Pequena, convocava os oficiais responsáveis pela segurança da base militar e da cidade de Tebas. Tanto ao sul como ao norte da cidade tinham sido instalados postos de vigia encarregados de assinalar, a qualquer instante, um ataque hicso. Graças ao trabalho infatigável de Herai, o Superintendente dos Celeiros, a agricultura tebana estava de novo florescente. Os criadores acabavam de celebrar o nascimento de numerosos vitelos, cordeiros e leitõezinhos, como se o gado, tranquilizado pela manutenção de uma paz duradoira, reencontrasse uma fecundidade normal.

 

Quanto ao intendente Qaris, comportava-se como um verdadeiro ministro da Economia. Depois de ter acabado com o mercado negro, aplicava as antigas regras pretendendo que o poderoso não vivesse à custa do fraco. Mantinha a Rainha-Mãe informada da vastidão e qualidade das trocas comerciais de que o templo de Karnak era o principal regulador.

 

Apesar dos seus dias sobrecarregados, a velha senhora tinha tempo para velar pela educação do príncipe Ahmés, que se tornara um excelente archeiro e um bom manejador da espada, mas também um letrado capaz de escrever em hieróglifos ou em língua administrativa. Teti, a Pequena, fazia-o ler contos, romances e os ensinamentos de sábios como Ptah-hotep. A seriedade do rapazinho surpreendia os seus instrutores militares: obediente, perseverante, nunca reclamando perante um esforço suplementar, ia até aos limites das suas forças. Dotado de uma notável memória e de uma inteligência viva, tinha sede de saber e desejo de conhecer.

 

Em geral, Ahmés levantava-se com o Sol e tomava o pequeno-almoço com a avó. Não o vendo aparecer, Teti, a Pequena, pediu à criada de quarto para o acordar.

 

A rapariga não tardou a regressar.

 

Majestade, o príncipe está com muita febre! A testa está a arder e treme todo.

 

A Rainha-Mãe dirigiu-se imediatamente para junto de Ahmés. Sentia-se responsável pelo filho mais novo de Ah-hotep, que talvez estivesse destinado a um grande futuro. Não havia dúvida de que o seu desaparecimento prematuro seria um golpe fatal para a Rainha.

 

Com a mesma idade, Ah-hotep sofrera de problemas semelhantes. Teti, a Pequena, decidiu portanto utilizar remédios semelhantes a fim de acalmar o coração, libertando os canais que dele partiam e a ele chegavam. Restabeleceria assim uma boa circulação de energia. Ignorando a febre, simples sintoma, ocupou-se de três órgãos essenciais: o fígado, o baço e os pulmões, dando-lhe uma poção cujos ingredientes carne de touro, resina de terebintina, anafa, bagas de zimbro, cerveja doce e pão fresco tinham sido cuidadosamente doseados.

 

O rapazinho apertou com força a mão da avó.

 

Achas que vou morrer?

 

Com certeza que não. Ainda tens muito para aprender.

 

Navios à vista. Majestade! anunciou o governador Emheb.

 

De onde vêm? perguntou o Faraó Kamés.

 

Do Sul.

 

Faz os sinais de reconhecimento.

 

Se se tratasse da Rainha Ah-hotep, responderia içando a vela na qual estaria pintada uma barca contendo o disco lunar. Caso contrário, seria necessário travar a luta no rio.

 

Os nervos dos tebanos estavam extremamente tensos.

 

A vela desdobrou-se lentamente, demasiado lentamente. Por causa da intensidade do sol do meio-dia, era impossível discernir o mínimo sinal.

 

A lua, estou a vê-la! exclamou Emheb. É realmente a flotilha da Rainha.

 

O símbolo de Ah-hotep e da resistência brilhava no topo do mastro do seu navio. A um ritmo alegre, os tambores começaram a tocar para celebrar a junção do conjunto das forças egípcias.

 

Enquanto o jovem Rei beijava a mãe, os soldados congratulavam-se.

 

Ah-hotep não ocultou a sua surpresa.

 

Apenas te trago fracos reforços, meu filho, mas tu pareces ter recrutado numerosos partidários.

 

Kamés não dissimulou o seu orgulho.

 

Barqueiros, mercadores, ex-milicianos... Foi necessário convencê-los que tinham escolhido o campo errado. Nem sempre foi fácil, mas acabaram por compreender qual era o seu interesse. A nossa vitória garantir-lhes-á uma existência bem mais agradável do que sob o jugo hicso.

 

Ah-hotep abriu um largo sorriso.

 

Começas realmente a reinar, Kamés.

 

A presença da Rainha Ah-hotep tivera uma consequência inesperada: unir os elementos discordantes do exército de libertação. Graças a ela, o medo deixara de afligir os espíritos, que eram agora alimentados pelo mais louco dos sonhos: vencer o Império das trevas.

 

Reinava sobre a frente de Cusae um pesado silêncio. Todos esperavam as decisões do conselho de guerra, muitos apostavam numa decisão razoável: fazer de Cusae a nova fronteira setentrional do reino tebano, guarnecendo-a de fortificações.

 

Comprometi-me a quebrar o ferrolho de Hermópolis lembrou o Faraó Kamés. A alfândega hicsa deve ser desmantelada.

 

Lá deverá estar escondida a jarra das profecias revelou Ah-hotep. É-nos indispensável para estabelecermos a nossa estratégia e salvar numerosas vidas.

 

Carreguemos sobre Hermópolis cortou Kamés.

 

Calmo e sólido, o governador Emheb achou necessário chamar o jovem monarca à realidade.

 

Majestade, Hermópolis está fora do nosso alcance.

 

Por que razão, governador?

 

Desde que mantemos a frente de Cusae. tivemos tempo para estudar o dispositivo hicso. Com perigo da própria vida, dois batedores conseguiram contornar a primeira linha inimiga e descobrir a base de retaguarda. Trata-se da cidade de Nefrusi, a capital da décima sexta província do Alto Egipto, governada pelo colaborador Titã, filho de Pepi.

 

Haverá alguma fortaleza comparável à de Gebelein? perguntou Ah-hotep.

 

Não, mas Nefrusi também é defendida por sólidas muralhas. E não creio que o nosso exército seja capaz de se apoderar dela.

 

Esse Titã é vendido ao Imperador? indagou Kamés.

 

Infelizmente sim Majestade. Não passava de um simples barqueiro que fez fortuna transportando os invasores. Denunciou os resistentes e Apopis ofereceu-lhe a cidade. Para ele, apenas conta o Império que lhe garante riqueza e poder.

 

O perfeito exemplo do cobarde e do traidor! rugiu Kamés.

 

A maior parte dos actuais governadores das províncias do Norte são como ele, lamentou Emheb. Estão persuadidos de que o Imperador é invencível e que o nosso exército não ultrapassará Cusae. Não convencereis nenhum deles a mudar de campo.

 

Então, vão morrer!

 

Ninguém mais do que eu deseja o extermínio dessa canalha. Mas os hicsos protegem-na e fazem-na prosperar.

 

Qual seria, na tua opinião, a melhor estratégia?

 

Tornar a fronteira de Cusae intransponível erigindo fortificações e tapando o Nilo com uma muralha de navios de carga.

 

Renunciarias a reunificar as Duas Terras? inquietou-se Ah-hotep.

 

Certamente que não, Majestade, mas não devemos adaptar-nos a cada situação? Em Edfu, em Tebas e em Cusae analisámos correctamente a situação e o êxito sorriu-nos. Não vamos estragar o nosso avanço por causa de uma acção precipitada.

 

O chanceler Neshi sempre se opusera a qualquer forma de pusilanimidade. Mas desta vez a exposição de Emheb parecia-lhe sensata. Ninguém podia acusar o governador de falta de coragem. Sem ele, a frente de Cusae não se teria aguentado muito tempo.

 

Seis dias de febre forte.

 

Seis dias no decurso dos quais o pequeno Ahmés delirara muitas vezes, implorando ao pai defunto e à mãe ausente para não o abandonarem na boca dos demónios da noite.

 

Pessimista, o médico do palácio nada acrescentara à terapia prescrita por Teti, a Pequena, que quase não abandonava a cabeceira do filho mais novo de Ah-hotep, deixando ao intendente Qarís o cuidado de resolver os assuntos correntes.

 

Durante os seus momentos de lucidez, o doente lamentava estar tão fraco e não poder continuar a treinar sob a direcção dos seus instrutores. A avó tranquilizava-o e lia-lhe o ensinamento do sábio Imhotep, o génio que concebera a primeira pirâmide em pedra, erigida no lugar de Sakara, perto da cidade de Mênfis, hoje ocupada pelos Hicsos.

 

Por duas vezes, a Rainha-Mãe julgara perder o neto, cuja respiração se extinguia. Mas o olhar recusava afundar-se na noite, bebendo as suas últimas forças na confiança inabalável de Teti, a Pequena. Nem por um instante Ahmés sentira a dúvida na que o prendia firmemente à vida.

 

Tanto como os remédios, aquela atitude favoreceu a cura do príncipe.

 

Ao sétimo dia, levantou-se e almoçou com bom apetite no terraço do palácio, em companhia de uma avó aliviada e alegre.
Para os que, como os Sírios, tinham visto aquele género de monstro, Titã, filho de Pepi, assemelhava-se a um urso. Com a enorme cabeça, as sobrancelhas hirsutas e o nariz em forma de focinho, aterrorizava os seus subordinados a quem não perdoava a mínima escorregadela. Excelente aluno dos Hicsos, baseava o seu poder na violência e na crueldade.

 

À imagem e semelhança do Imperador, Titã, filho de Pepi, executava pessoalmente, todos os meses, um dos seus concidadãos escolhido ao acaso. A população de Nefrusi era obrigada a assistir à cerimónia, que acabava num hino à grandeza de Apopis.

 

O urso gostava muito da sua província e da sua capital e não tinha outra ambição que não fosse reinar sobre elas como senhor absoluto. Para lhe agradecer a sua fidelidade, o Imperador autorizara-o a erguer muralhas que davam um belo aspecto a Nefrusi.

 

Um belo aspecto que possuía também a sua esposa, Anat, uma síria de olhos azuis. Dotada de um temperamento de fogo, contrariava-o constantemente, opondo-se a cada uma das suas decisões, que considerava tão estúpidas como injustas. Por sorte para ela, Titã, filho de Pepi, apreciava aquela contestação, e só aquela. E, depois, as disputas terminavam sempre no vasto leito de sicômoro, o mais belo florão do seu palácio.

 

O dia anunciava-se agradável, visto que o senhor de Nefrusi ia cortar a garganta a um adolescente culpado de rebelião contra o Imperador. Em seguida, as raparigas desfilariam cantando um poema guerreiro composto pessoalmente pelo urso. Um ridículo horror, segundo Anat, mas cujas palavras elogiavam o génio do Imperador.

 

Ainda não estás pronto? espantou-se a jovem.

 

Quero estar particularmente belo, minha querida. As minhas aparições públicas devem encantar a população.

 

Precisas de matar um garoto inocente para fortaleceres a tua abominável reputação?

 

Claro! O mínimo sinal de clemência faria brotar resistentes como ervas daninhas.

 

Ainda existem?

 

Desconfiar, desconfiar! Tu estás soberba. Como me fica esta nova túnica?

 

Demasiado vistosa.

 

És realmente insuportável, minha querida!

 

Pouco depois da madrugada, a Rainha Ah-hotep reunira de novo o conselho supremo que acabava de decidir sobre o futuro do Egipto. Os seus membros esperavam agora directivas exactas e uma distribuição das forças armadas entre Tebas e Cusae.

 

Esta noite revelou a soberana o deus Amon apareceu-me com a espada na mão. Incarnara na pessoa do Faraó Kamés e o seu olhar tinha a intensidade do sol do meio-dia. ”Não te ordenei que destruísses os Hicsos e realizasses esta missão, fossem quais fossem os obstáculos?”, perguntou-me. É certo que sois razoáveis e sensatos. É certo que os Hicsos nos são superiores. A linha da frente é sólida, Nefrusi inexpugnável, Hermópolis ainda mais. É certo que o impossível já foi realizado e esgotámos sem dúvida as nossas reservas de heka, a única força capaz de modificar o destino cruel que se abateu sobre o nosso país. Conheço a realidade mas tenho o dever de a recusar e de não a aceitar, porque é essa a vontade de Amon. Chegou a hora de ir além de Cusae, de franquear essa fronteira de  nos lançarmos para Norte. Apenas esta estratégia contribuirá para a reunificação das Duas Terras. Se formos vencidos, Tebas será destruída e mais nada se oporá à barbárie. E se nos fecharmos sobre nós mesmos, acontecerá o mesmo. Certamente considerareis a minha determinação aberrante e preferíeis refugiar-vos numa falsa segurança. É por isso que só partirei para o combate com voluntários.

 

Kamés levantou as mãos com as palmas dirigidas para o céu, em sinal de veneração.

 

O Faraó designado por Amon ouviu a voz da Esposa do Deus. O seu exército segui-la-á. Que os conselheiros em desacordo com a nossa decisão regressem imediatamente a Tebas.

 

Ninguém saiu da tenda.

 

Que mulher incrível murmurou o Afegão, observando Ah-hotep dirigir-se a cada soldado para lhe insuflar a coragem necessária.

 

Vale a pena morrer por ela e pelo Egipto acrescentou o Bigodes. Pelo menos, quando comparecermos diante do tribunal do outro mundo, não iremos de cabeça baixa nem com olhos envergonhados.

 

Quando Kamés, com a coroa branca, surgiu à proa do navio-almirante, os guerreiros do exército de libertação ergueram as armas para o céu enquanto os tambores começavam a bater um ritmo frenético.

 

Para quebrar a linha de defesa hicsa, o Faraó lançou um triplo assalto: pelo rio e por cada uma das margens, empenhando nisso a totalidade das suas forças.

 

Kamés beneficiou de um excelente conjunto de circunstâncias. Por um lado, era a hora de render, que decorria de forma rotineira; por outro, o general encarregado da frente de Cusae estava de cama, sofrendo de cólicas nefríticas.

 

Surpreendidos pela amplitude da ofensiva, os hicsos perderam minutos preciosos para se organizarem o melhor possível. Já vários dos seus navios estavam a arder, enquanto o campo era atacado a este e oeste. Quando Ahmés, filho de Abana, abateu os oficiais superiores que se julgavam protegidos na colina de onde observavam a batalha, a cadeia de comando foi quebrada e os defensores entraram em desvario.

 

Semelhante a uma chama devoradora cujo ardor Kamés alimentava dando ordens exactas e eficazes, o exército de libertação penetrou pelas múltiplas brechas.

 

O governador Emheb estava atordoado. Como tinham tropas heteróclitas e pouco experientes conseguido derrotar os soldados hicsos mais numerosos e melhor armados? O entusiasmo dos assaltantes fora determinante, é verdade, mas havia que reconhecer ao jovem Rei Kamés qualidades excepcionais de chefe de guerra. Confiando apenas no seu instinto, atacara nos lugares certos e no momento exacto. Não seria a magia da Rainha Ah-hotep a guiar o seu braço?

 

As nossas baixas? perguntou ela.

 

Ligeiras, Majestade.

 

Que um navio repatrie os feridos graves a Tebas. Prisioneiros?

 

Nenhum.

 

A chama dos libertadores só se acalmara com a morte do último dos hicsos, queimado no incêndio do seu acampamento.

 

Ao sair do meio do fumo, com a espada manchada de sangue, o Faraó assustara os seus próprios soldados. Qualquer expressão de juventude desaparecera do seu rosto, a partir de agora marcado pelo número de mortes brutais que provocara.

 

Expuseste-te demais censurou Ah-hotep.

 

Se eu não der o exemplo, quem ousará desafiar as trevas? Esgotado, o monarca sentou-se num modesto trono em sicômoro. Risonho, o Jovem, lambeu-lhe as mãos, como se o cão quisesse apagar os vestígios do terrível combate.

 

Tínheis razão, mãe: éramos capazes de atravessara frente hicsa. Graças a esta vitória, o nosso heka ficou reforçado e evidenciámos qualidades que ignorávamos. Foi como um parto... Fizemos nascer forças temíveis que o próprio deus Set não renegaria. É esse o caminho que devemos seguir?

 

Responder à violência com a doçura, à crueldade com a diplomacia e o perdão... Era o que tu desejavas, meu filho? Essas atitudes conduziriam ao triunfo da barbárie. Diante de nós, na nossa terra, não há simples adversários com quem se pode negociar, mas Hicsos.

 

Invasores que querem aniquilar os nossos corpos e as nossas almas. Não se mantém Set à proa da barca do Sol, visto ser o único capaz de enfrentar o dragão das trevas? Kamés fechou os olhos.

 

Preparara-me para o combate, não para esta guerra.

 

É apenas o começo, meu filho. Hoje estabeleceste contacto com a valentia do teu pai e sentiste o que ele sentiu ao morrer pela liberdade.

 

Kamés levantou-se.

 

Tal como ele, irei até ao fim. Alguns dias de repouso e tomaremos Nefrusi.

 

Não te concedo esses dias. Temos de aproveitar esta vitória para forçar a nossa vantagem e cair sobre o inimigo como o falcão.

 

O Afegão e o Bigodes engoliram uma refeição bastante frugal, agarraram na bagagem e voltaram para bordo do seu navio. Apesar da sua posição e condecorações, continuavam a comportar-se como simples resistentes.

 

Bem podíamos descansar um pouco lamentou um soldado.

 

Queres mesmo morrer? perguntou-lhe o Afegão.

 

Claro que não!

 

Então, alegra-te com as ordens. Quanto mais depressa atingirmos o nosso próximo objectivo, mais hipótese teremos de vencer e, portanto, de sobreviver.

 

Vamos lutar outra vez?

 

Estás aqui para isso, não?

 

A pergunta mergulhou o soldado num abismo de perplexidade.

 

Tem razão, comandante.

 

Vamos lá, meu rapaz. Ainda não acabámos de exterminar os Hicsos.

 

Disso eu gosto!

 

O soldado subiu a passarela alegremente. Com um sentido de disciplina exemplar, os soldados do exército de libertação embarcaram num tempo recorde.

 

E foi a vez dos remadores provarem as suas capacidades.
A cerimónia atingia o auge. Dezenas de crianças entoavam o hino ao Imperador composto pelo governador da cidade de Nefrusi.

 

De repente, aquela falsa harmonia foi quebrada por gritos.

 

Titã, filho de Pepi, furioso, fez sinal aos seus polícias para interpelarem os autores de tal desordem, que seriam executados de imediato.

 

Mas os gritos redobraram, provenientes do exterior da cidade.

 

São os nossos camponeses, senhor! declarou um polícia. Suplicam-nos que abramos a porta grande.

 

Pondo termo à festa, o tirano subiu às muralhas de onde descobriu um espectáculo revoltante: dezenas de agricultores tinham abandonado o seu trabalho para tentarem refugiar-se na cidade!

 

Pela vasta planície, com ricos campos de cultura, avançavam os soldados do exército de libertação.

 

À frente, o Faraó Kamés.

 

Ponhamos depressa os camponeses em segurança recomendou o chefe dos archeiros.

 

Não podemos correr o mínimo risco. Que sejam abatidos.

 

Abatidos... Quereis dizer... Os nossos camponeses, os nossos próprios camponeses?

 

Está fora de questão abrir a porta grande. Executa as minhas ordens e depois manda disparar sobre o inimigo, de forma a que não se possa aproximar das nossas muralhas.

 

Sob os olhos espantados dos egípcios, os camponeses desarmados foram massacrados pela polícia de Titã, filho de Pepi.

 

Revoltados, um jovem capitão e alguns soldados lançaram-se em seu socorro, mas nenhum deles escapou às flechas dos archeiros de Nefrusi.

 

Este género de iniciativas deve ser banida exigiu o Rei. Estão a ver a que conduz.

 

Temos de recolher os corpos dos nossos homens avançou Emheb.

 

Não sacrificando outras vidas. Cerquemos primeiro a cidade. Os egípcios espalharam-se, permanecendo fora do alcance dos archeiros hicsos. Foram montadas tendas e o chanceler Neshi mandou servir refeições.

 

Por ordem de Ah-hotep, os regimentos de elite comandados pelo Afegão e pelo Bigodes colocaram-se a norte de Nefrusi, a fim de impedirem que eventuais reforços quebrassem o cerco.

 

Quando o Sol se pôs, Ahmés, filho de Abana, e uma dezena de voluntários rastejaram até ao local onde os seus camaradas tinham caído. Conseguiram trazer os cadáveres mas também três feridos graves, aos quais Felina prestou os primeiros cuidados antes do seu transporte para o navio-enfermaria.

 

As muralhas parecem sólidas observou o governador Emheb. Um cerco eficaz vai demorar muito tempo.

 

Retiro-me para a minha cabina decidiu Kamés.

 

Apesar da ameaça constituída pelo exército tebano, Titã, filho de Pepi, mantivera o banquete organizado em sua honra e a que presidia em companhia da esposa.

 

Finge ao menos que te estás a divertir, Anat.

 

Esqueces que estamos cercados?

 

O urso cravou os dentes numa coxa de pato.

 

Esse bando de revoltosos não nos ameaçará durante muito tempo.

 

Tens assim tanto a certeza?

 

A partir de amanhã de manhã serão esmagados pelos reforços hicsos. Apanharão esses imbecis pelas costas e enviarei os sobreviventes para Auaris, onde o seu suplício distrairá o Imperador. Em troca desse presente, Apopis conceder-me-á novos privilégios. No fundo, a vinda destes insensatos é uma sorte. Graças a eles, vou reforçar o meu prestígio!

 

Sem a mínima animação, uma orquestra composta por flautistas e oboístas tocava uma melodia lancinante que exasperou o governador de Nefrusi.

 

Desapareçam, incapazes! Os músicos eclipsaram-se.

 

Tomaste todas as precauções necessárias? inquietou-se Anat.

 

Os meus archeiros render-se-ão nas muralhas, ninguém se poderá aproximar. Podes estar tranquila, minha doçura: não estamos em perigo.

 

Estás realmente convencido de que os Hicsos são invencíveis?

 

Podes ter a certeza que são!

 

Kamés andava às voltas na sua cabina como uma fera em cativeiro. Hesitando sobre a estratégia a adoptar, colocava e tornava a colocar na balança a sua vida e a dos seus soldados e a necessária conquista de Nefrusi. Sem conseguir obter nenhum resultado das suas reflexões, saiu para a ponte onde a Rainha Ah-hotep saboreava os últimos raios do Sol poente.

 

Tomaste a decisão, meu filho?

 

Não consigo. Um cerco demasiado longo far-nos-á perder o ímpeto, um assalto mal conduzido provocará baixas demasiado pesadas.

 

As tuas conclusões são as minhas.

 

Então, o que preconizais?

 

Esta noite vou conversar com o deus Lua. Ele, o intérprete do céu, enviar-nos-á um sinal que guiará a nossa acção. Vai repousar, meu filho.

 

Cautelosos, o Afegão e o Bigodes desciam o Nilo a bordo de uma barca ligeira em companhia de uma dezena de homens aguerridos. Com todos os sentidos alerta, avançavam com extrema lentidão.

 

Ei-los anunciou o Bigodes. Não nos tínhamos enganado.

 

Dois navios de guerra hicsos no ancoradouro.

 

Os marinheiros tinham acampado na margem e as sentinelas pareciam muito descontraídas. Em terreno conquistado, o que tinham a recear os reforços que atingiriam Nefrusi no dia seguinte?

 

Um membro do comando voltou para trás a fim de ir buscar os dois regimentos de elite estacionados não longe dali. Menos de duas horas mais tarde, estavam prontos a atacar.

 

Apoderemo-nos primeiro dos navios decidiu o Afegão. Os nossos melhores nadadores abordá-los-ão pela popa e treparão para bordo. Eliminação rápida e silenciosa dos marinheiros de guarda. Quando isso estiver terminado, um só virá ter connosco. Os outros prepararão tudo para aparelhar.

 

Se a operação fracassasse, os hicsos inspeccionariam imediatamente os arredores. O confronto directo seria inevitável.

 

Os minutos pareceram intermináveis.

 

Depois, uma cabeça emergiu da água e o nadador fez o seu relatório.

 

Os marinheiros inimigos foram eliminados. Os navios são nossos.

 

Dividimo-nos em três grupos afirmou o Bigodes. Quando os hicsos adormecerem, atacamos.

 

O Faraó Kamés não conseguira adormecer. Desde a sua coroação, não conseguia dormir senão uma a duas horas por noite, sem que a sua energia fosse por isso afectada. Pensava constantemente no pai e sentia por vezes violentas dores nos locais do corpo onde o Faraó Seken fora ferido.

 

Bateram à porta.

 

Dois navios hicsos avançam sobre nós disse-lhe o governador Emheb.

 

Kamés precipitou-se para a proa do navio-almirante, mas era tarde de mais para reagir. Como prever que navios de guerra correriam o risco de navegar em plena noite?

 

Acordados em sobressalto, os marinheiros egípcios precipitavam-se para os seus postos.

 

Olhai, no topo do mastro! gritou um deles. É o Bigodes! A tensão desvaneceu-se.

 

Os dois navios acostaram docemente e os seus ocupantes soltaram gritos de vitória.

 

Majestade declarou o Afegão a nossa frota conta com duas unidades suplementares. Quanto aos reforços que o colaborador Titã esperava, não chegarão.

 

Magnífico trabalho!

 

Surpreendemos os hicsos durante o sono. Do nosso lado, três mortos e quinze feridos.

 

Manda que tratem deles e vão descansar.

 

Se tencionais atacar de madrugada, Majestade, só temos tempo de comer qualquer coisa.

 

O Rei não respondeu.

 

Quando a primeira claridade trespassava as trevas, a Rainha Ah-hotep veio ter com ele. Apesar de uma noite em branco, o seu rosto era de uma surpreendente frescura.

 

Mãe, o deus Lua falou?

 

Surgindo do oriente, um falcão de plumas coloridas atravessou o céu. As suas asas pareciam imensas, como se tomassem posse de todo o espaço.

 

Acaba de falar constatou o Faraó e eu ouvi-o!

 

Como um falcão, o Faraó Kamés caiu sobre a cidade de Nefrusi à frente do seu exército. Ofuscados pelo Sol nascente, os archeiros hicsos tiveram falta de precisão, o que não foi o caso de Ahmés, filho de Abana, e dos atiradores tebanos.

 

Com excepção de alguns marinheiros, que asseguravam a guarda da frota de guerra, todas as forças egípcias se empenharam num assalto massivo.

 

Despertado brutalmente, Titã, filho de Pepi, não ficou durante muito tempo abalado por aquele ataque inesperado. Agarrando pessoalmente numa funda, matou um oficial que marchava à frente das suas tropas.

 

Atirem, defendam-se! ordenou aos seus polícias.

 

O instinto de sobrevivência provocou um sobressalto nos milicianos que, apesar do medo, desencadearam tiro de barragem para impedir os assaltantes de se aproximarem das muralhas.

 

Precisamos de aríetes declarou o Bigodes.

 

Os mastros dos navios hicsos servirão decidiu o governador Emheb.

 

Estão a recuar! exclamou Titã. Repelimo-los! Tinha ganho, quase sem acreditar.

 

Ou, pelo menos, conseguira a trégua necessária para fugir. Os egípcios organizariam um cerco que acabaria por ser fatal à sua cidade, mas o colaborador não faria parte do número das vítimas.

 

Levaria consigo apenas alguns criados carregados com os seus bens mais preciosos. Quanto à esposa, seria uma sobrecarga inútil. Em Auaris não faltavam mulheres.

 

Como o exército de libertação tinha atacado por este, Titã tencionava sair de Nefrusi pela porta de oeste.

 

Mas foi forçado a constatar que o inimigo dispusera tropas nas colinas vizinhas. E o mesmo se verificava nas planícies do sul e do norte.

 

Nefrusi estava cercada.

 

Não tinhas tenções de fugir, pois não? perguntou-lhe Anat, irónica.

 

Não, claro que não! Estava a estudar o meio de consolidar as minhas defesas.

 

Não achas que seria mais inteligente renderes-te?

 

Render-me? Seria uma loucura!

 

De qualquer forma, serás morto. Depondo as armas, evitarás novos sofrimentos à população.

 

Eles têm de lutar a meu lado e defender-me! Não fui o seu benfeitor?

 

És cruel e cobarde. Termina a tua existência com um acto generoso, abre as portas da cidade e implora o perdão do Faraó.

 

Titã, filho de Pepi, olhou a esposa com um olhar carregado.

 

Não estarás a pensar em trair-me, minha linda? Sim, é isso... Julgas-me já vencido e tomas o partido dos tebanos!

 

Não sejas ridículo e aceita a realidade.

 

Vai imediatamente para o teu quarto. Ficarão dois guardas diante da tua porta. Quando tiver arrumado esses tebanos ocupar-me-ei de ti.

 

Senhor, eles estão a voltar!

 

Do alto das muralhas, Titã, filho de Pepi, viu de novo avançar o exército de libertação, partindo dos quatro pontos cardeais. Simultaneamente protegidos pelos tiros dos archeiros e por sólidos escudos seguros pelos auxiliares, os portadores dos aríetes avançavam rapidamente para as portas de Nefrusi.

 

O colaborador detectou a coroa branca de Kamés, que atingia a porta do Oriente. Apesar de lançada com violência, a sua lança falhou o Rei. E a cabeça do aríete meteu a porta dentro, provocando um barulho terrível que assustou os milicianos. Alguns instantes mais tarde, as três outras portas cederam.

 

Enquanto os soldados penetravam na cidade, os aríetes recuaram e tomaram de novo balanço para embaterem nas muralhas de tijolos.

 

Titã, filho de Pepi, correu para o seu palácio. Os seus milicianos não aguentariam muito tempo e precisava de se refugiar num edifício para ali esperar o Faraó e lhe suplicar que o poupasse. Não era ele também uma vítima dos Hicsos?

 

A chegada do exército de libertação era um verdadeiro milagre que rogara com toda a sua alma. A partir de agora, seria um fiel servidor de Kamés. Era ainda necessário suprimir o seu anjo mau, a traidora Anat, que se encontrava na origem das desgraças de Nefrusi. A prova da sua boa vontade era que a tinha presa na sua residência.

 

Cerca de trinta mulheres a quem Titã, filho de Pepi, mandara executar os filhos impediam a entrada do palácio.

 

Afastem-se!

 

Mataste o meu filho declarou uma grande ruiva, armada com uma marmita.

 

Mataste a minha filha acrescentou uma amiga, que empunhava um pilão na mão direita.

 

Cada uma das mulheres enumerou gravemente as suas razões de queixa.

 

Deixem-me passar e vão lutar ao lado dos milicianos. Todas ao mesmo tempo, lançaram-se sobre Titã, filho de Pepi,

 

e massacraram-no com os seus utensílios de cozinha, enquanto os aríetes destruíam as muralhas de Nefrusi.

 

Só à sua conta, o Faraó Kamés abatera mais de trinta milicianos, entre os quais o chefe da guarda pessoal do colaborador que tentara atacá-lo pelas costas. Mas o jovem Rei, graças ao treino intensivo praticado na base secreta de Tebas, parecia ter olhos na nuca.

 

Estimulados pela valentia quase sobrenatural do seu chefe, os soldados do exército de libertação tinham-se comportado com tanta coragem como os milicianos que, apesar da energia do desespero, apenas lhes tinham infligido baixas ligeiras antes de cederem perante o número.

 

Acreditando na propaganda espalhada diariamente pelo tirano e na chegada de iminente de reforços hicsos, muitos citadinos se tinham batido ao lado dos fanáticos do Imperador. Assim, a meio da tarde, as ruas de Nefrusi estavam juncadas de cadáveres.

 

As mães de família apontaram o de Titã, filho de Pepi, irreconhecível.

 

Queimem-no e acabem de arrasar esta cidade ordenou Kamés.

 

Perante tanto sofrimento, a Rainha Ah-hotep sentia o coração apertado. E era apenas Nefrusi, uma pequena cidade em comparação com Hermópolis, ela própria irrisória perante Auaris! Quantos mortos devoraria a goela do monstro antes que pudesse ser cantado o hino ao Criador Desperta em paz?

 

Felina mostrava-se de uma notável eficácia. Com os seus unguentos núbios, acalmava os sofrimentos dos feridos. Nomeada por Ah-hotep responsável pelo serviço médico de intervenção rápida, a jovem devolvia a esperança aos soldados mais gravemente atingidos. Todos invejavam o Bigodes por ter uma tal amante, transformada numa das heroínas da guerra.

 

Depois de confiar a coroa branca à mãe, Kamés fez-se lavar em abundante água e mudou de indumentária. Os lavadeiros iam demorar tempo a limpar a sua couraça maculada de sangue.

 

O jovem Rei não estava nem exaltado nem abatido. Grave, pensando já no próximo confronto, cumpria a sua missão.

 

Sob a vigilância do governador Emheb, os vencedores levavam os sobreviventes, o gado, as jarras de óleo, de leite e de mel, as armas e tudo o que servisse aos soldados, antes de as chamas consumirem Nefrusi.

 

Falta o palácio, Majestade afirmou o governador. Desejais ser o primeiro a entrar?

 

Envergando uma túnica branca, Kamés franqueou o pórtico de uma bela mansão de colunas.

 

Nos compartimentos, bastante pequenos, móveis de qualidade. Ao fundo dos apartamentos privados, uma porta fechada por um ferrolho de madeira.

 

Kamés puxou-o e abriu.

 

Sentada num assento baixo com os apoios dos cotovelos de ébano, uma bela jovem de olhos azuis.

 

O meu marido enviou-te para me matares?

 

Se és a esposa de Titã, filho de Pepi, fica a saber que esse tirano nunca mais dará ordens a ninguém.

 

A síria levantou-se.

 

Então, está morto... Existe afinal justiça! Quem quer que tu sejas, trazes-me uma maravilhosa notícia. Agora, posso desaparecer em paz.

 

Porque casaste com esse colaborador? O olhar de Anat velou-se de tristeza.

 

Cometi o erro de acreditar que me amava... Mas desprezava-me tanto que decidira suprimir-me.

 

Nefrusi já não existe, os que me combateram foram castigados. Também tu me queres combater?

 

Anat olhou Kamés com espanto.

 

Serás tu... o Faraó vindo de Tebas?

 

Ou te tornas minha fiel servidora ou partilharás a sorte dos meus inimigos.
Ser funcionário da alfândega em Hermópolis era um privilégio muito cobiçado. Apenas os militares hicsos que dispunham de excelentes folhas de serviço e relações bem colocadas em Auaris conseguiam uma nomeação para o maior posto de alfândega do Egipto ocupado.

 

Os Hicsos cobravam um direito de portagem sobre tudo o que passava por Hermópolis, homens, mulheres, crianças, animais, navios, mercadorias... Apenas os soldados do Imperador estavam isentos de taxas e podiam circular livremente. Existia, é verdade, uma tarifa oficial que impunha a taxa máxima às prostitutas encarregadas de distrair os militares. Mas os funcionários da alfândega tinham toda a liberdade para modificar as condições de passagem de acordo com o seu humor e cobrar à sua vontade.

 

Sempre odiosos, não suportavam o mínimo comentário. O infractor era imediatamente despojado da roupa e dos bens. maltratado e condenado. Se continuasse a protestar a sua boa-fé ou. pior ainda, a sua inocência, ia para a prisão onde era esquecido até que a administração se debruçasse sobre o seu caso.

 

Com o seu bigodinho e o olhar fugidio, En-Ilousa dirigia a alfândega de Hermópolis com pulso de ferro. Nomeado pelo seu amigo Khamudi. ao qual entregava uma parte dos seus lucros ocultos, o líbio não estava habituado a levantar a voz. Bastava-lhe fazer intervir os seus homens de mão para impor as suas vontades, que ninguém pensava em contestar.

 

Comportando-se como um pequeno Imperador, En-Ilousa sonhava abandonar um dia Hermópolis e ocupar uma função mais importante em Auaris. Especialista em fazer jogo duplo, traía sem remorsos os que cometiam o erro de confiar nele logo que deixavam de lhe ser úteis. Graças a Khamudi, o seu poderoso protector, esperava obter uma promoção nos próximos meses. Provaria então do que era verdadeiramente capaz.

 

A revolta tebana não o preocupava nada. A frente permaneceria fixa em Cusae até ao momento em que o Imperador decidisse eliminar Ah-hotep.

 

Como todas as manhãs, En-Ilousa inspeccionava o edifício principal da alfândega. Meticuloso, exigia que cada objecto estivesse no seu lugar e não mudava nada. Velava também pela limpeza dos uniformes. O faltoso era privado de soldo durante vários dias. E, sobretudo, En-Ilousa mantinha a discórdia entre os graduados, encorajando delações e mexericos.

 

Havia um pormenor que o irritava: naquelas últimas semanas, o volume de negócios tinha baixado ligeiramente, prova que alguns funcionários da alfândega estavam a descuidar os seus esforços. Uma vez identificados, os culpados seriam transferidos para uma terriola miserável.

 

En-Ilousa começava a ler os relatórios da véspera quando um controlador dos cereais entrou no seu gabinete.

 

Chefe, vamos ter trabalho! Três navios de carga provenientes do sul.

 

O senhor da alfândega de Hermópolis esboçou um sorriso guloso.

 

Esses vão pagar bem caro!

 

O plano da Rainha Ah-hotep tinha entusiasmado o Faraó Kamés e o seu conselho de guerra: a batalha de Hermópolis desenrolar-se-ia em três fases. Em primeiro lugar, três navios de reabastecimento com aspecto comercial apresentar-se-iam na alfândega; em seguida, um comando vindo pela margem atacaria a milícia apanhando-a por trás; por fim, a frota de guerra chegaria o mais depressa possível ao local das hostilidades.

 

Uma falta de coordenação traduzir-se-ia num desastre de que o exército de libertação não recuperaria.

 

Os três pesados navios de carga avançavam com sábia lentidão em direcção à barragem flutuante da alfândega de Hermópolis. Invisíveis, numerosos soldados estavam estendidos na ponte, prontos a intervir logo que Emheb lhes desse ordem.

 

Quando este apareceu à proa do navio da frente, En-Ilousa tomou o governador por o que ele parecia ser: um simples homenzinho gorducho, de rosto agradável. A presa ideal.

 

Terminadas as manobras de acostagem, Emheb soltaria Larápio para que o pombo-correio chegasse rapidamente à frota de guerra comandada pelo almirante Lunar. Este saberia então que o combate se ia iniciar e que devia aparelhar, exigindo aos seus remadores o máximo esforço.

 

A primeira vaga de assalto egípcia teria inevitavelmente pesadas baixas e o próprio governador se arriscava a perder a vida naquela aventura. Mas o que pensar da Rainha Ah-hotep, presente à frente do comando terrestre? Nenhum soldado se podia mostrar menos corajoso do que ela.

 

Os navios de carga acostaram suavemente sob o olhar trocista dos funcionários da alfândega, que imaginavam já a partilha do saque obtido da forma mais legal possível graças à aplicação de uma infinidade de taxas.

 

De acordo com as instruções do seu chefe, dispuseram-se em linha ao longo do cais.

 

En-Ilousa avançou para pronunciar a fórmula ritual:

 

O que tens a declarar?