Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A GUERRA DAS SOMBRAS / Jorge Tavares
A GUERRA DAS SOMBRAS / Jorge Tavares

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

Num dia nublado, Ele veio até mim. Ele é Dinaer, a luz suprema que guia a Irmandade. Eu sou a Reverenda Madre Amoel Gliam, uma guardiã do conhecimento antigo nestes tempos de incertezas. Sou a encarregada do Mosteiro das Queialiam, um santuário de luz num mundo em que a escuridão ainda prevalece. Talvez por isso Ele tenha me escolhido.

Quando o encontrei, os longos e numerosos afazeres de mais um dia de labuta haviam consumido minhas energias. Não era mais jovem como antes. No entanto, nunca usei a idade ou o cargo como escusa para me livrar de minhas responsabilidades. Isto porque considero a disciplina uma das qualidades mais caras e ao mesmo tempo mais difíceis de se conquistar. Mas aquele que vive nestas montanhas, seja homem ou mulher, ou aprende sua lição de força ou perece. Depois de longos anos, a solidez destes montes pedregosos é indelevelmente apreendida por aqueles que aqui vivem. Por isso, eu não sucumbi com a surpresa da chegada dele.

Quando entrei em meus aposentos, lá estava Ele em toda a sua grandeza. De seu corpo uma luz extravasava e em seus olhos flamejava um fogo escarlate. Uma luminosidade intensa invadia todo o cômodo, ofuscando a minha vista. Seria uma ilusão? "Quem é você, presença, que invade este santuário de paz?", indaguei. Confesso que o medo, um sentimento tão torpe, invadiu meu coração. Sabia muito bem que o velho Observador tem muitas formas e faces. "Se você é o Inimigo, ou por ele foi enviado, eu ordeno que se vá, em nome do poder que protege a todos nós da Irmandade! Eu o invocarei se preciso for!", exclamei. Estava disposta a não me curvar. Neste instante, porém, pude sentir que suas intenções não eram hostis. Ele ligou nossas mentes e eu experimentei o amor que Ele sentia pela grande Causa. Não, ele não era o Inimigo. "Amoel, tais blefes são desnecessários. Estamos do mesmo lado. Você sabe muito bem quem sou eu, não sabe?", indagou com uma voz cativante e melodiosa, qual fina música. Meus ouvidos não ouviram tais palavras, que ecoaram diretamente em minha mente.

Caí de joelhos. Sim, eu sabia quem Ele era. Ao perceber sua identidade, maior se tornou meu espanto. Poucos foram aqueles a quem foi dada a honra de sua presença. Raros eram os momentos em que o Grande Guia se fazia presente entre os homens. "Por que, Sublime Guia, me honra com sua presença? O que eu fiz para merecer tal dádiva?", perguntei. E Ele disse sem rodeios: "Reverenda Madre, escreverá um livro conforme eu lhe ditar, como se eu mesmo o escrevesse. Caberá a você contar a história do primeiro dos sete alorain".

Em minha mente imagens e palavras começaram a surgir e a se concatenar, formando a seguinte história que eu transcrevi em nome Dele.

 

 

 

 

                     Surpresa ao amanhecer

Eis que se inicia a saga final na infância de uma raça e de uma pessoa. É assim que há de raiar um novo dia, que não se porá até que a raça se torne a pessoa e a pessoa, a raça. Como podem os passos do escolhido ser mais rápidos do que os de sua raça se em tais passos está o selo do destino de ambos? Será sempre lembrado aquele que lutar pela luz, mesmo num mundo de trevas? Eu lembrarei daquele que ousar ascender, acender uma vela na escuridão... (Pergaminhos de Dinaer — Tomo III — Das Profecias e Promessas)

Na grande ilha do sul, em um tempo de decadência, sobre os escombros de impérios esquecidos, brotou a semente. E ela nasceu sob tormentosas circunstâncias, cresceu em pedregoso terreno, sob frio clima, sob grandes nevascas. Mas ela não pereceu. Ao contrário, persistiu e com ela um destino e uma mensagem. Pois a semente era o alorain, o ai auto que proclamava o retorno da antiga guerra, a guerra subterfugia que se movia pelas sombras, por detrás dos destinos e anseios humanos, a guerra em que lutavam imortais. O que ele sabia desse conflito? Nada! Nem o alorain, nem nenhum daqueles que o rodeavam conheciam as velhas histórias, mortas, como fogo extinto, como memória que se torna mito, verdade e mentira misturadas. Contudo, o arauto faria com que todos percebessem que o passado nem sempre está morto e que as velhas memórias podem emergir de seu exílio e penetrar no domínio do presente. Mas essas são questões que a raça dos homens mortais, sempre distraída, sempre entretida em banalidades, geralmente escolhe ignorar. Prefere erguer novos impérios e repetir velhos e estúpidos jogos, sem saber que seus reinos, por mais poderosos que pareçam, são castelos feitos na areia, que o vento ou as ondas sempre estão a destruir. Sem saber que, muitas vezes, tornam-se, por sua imprevidência, joguetes de forças bem mais poderosas. Mas eu não culpo os pobres homens por seguirem sua natureza. Não se pode exigir deles a percepção de um imortal. Inevitavelmente, devem ser absorvidos por essas preocupações comezinhas, vãs no grande espectro do tempo, mas que têm certa relevância sob a ótica míope dos seres humanos.

É por isso que Zairom, no dia do nascimento de seu segundo filho, não conseguia estar totalmente feliz. A sombra do jogo dos mortais estava sempre a atormentá-lo. Afinal, ele era um jogador relevante, ocupava o trono dos filhos do fogo. Senhor feudal poderoso que era, nobre do grande Império do Sul conhecido como a Terra das Sombras, estava sempre envolvido em disputas, em jogos de poder. Um desses jogos o incomodava naquele dia em que o sol brilhou sobre os planaltos ocidentais, ao mesmo tempo em que a lua azul escondia-se sob as montanhas, acuada pelo calor e majestade do grande astro. Zairom observava um papel em suas mãos, uma mensagem do último confronto em que fora envolvido. Ele próprio, no coração, era um guerreiro, ou seja, gostava da luta que preenche a vida. Mas não lhe agradava aquela batalha repleta de dissimulação, de falsas cortesias e de mentiras. Sentia-se pouco confortável, por assim dizer, já que seu estilo era bem diferente. Tirou os olhos daquela mensagem, guardou-a em um bolso e observou pela janela o novo dia que nascia. Os primeiros raios de sol tocaram seu rosto. Sentiu-se um pouco melhor, mais feliz. Foi quando teve a idéia de chamar seu filho mais velho.

— Rairom, venha aqui agora mesmo!

O menino de quatro anos acordou assustado e confuso, mas atendeu ao chamado do pai. Atravessou os corredores ainda cobertos de sombras, portadores de uma imponência peculiar àqueles lugares que o tempo envelheceu. Era assim, bela, repleta de riqueza, a residência do filho do fogo, sede daquele que era o mais próspero dos clãs.

— Ah, finalmente chegou, filho. Venha comigo. Tenho uma surpresa para você.

Zairom acolheu seu filho mais velho nos braços e levou-o até um berço que ficava num quarto contíguo. Lá o menino viu um bebê recém-nascido.

— Filho, esse é seu irmão que acaba de nascer. O nome dele é Tairom.

— Esse é meu irmão?

— Meu filho, quero que vocês dois sejam muito unidos... Você deve protegê-lo e ele também o protegerá. É assim que os irmãos devem ser.

— Eu sei, papai.

Zairom acolheu seu outro filho nos braços e sorriu sinceramente. Era como se a sombra de suas responsabilidades tivesse sido subitamente afastada. Mas foi muito breve esse momento, pois um velho temor, um temor diverso daqueles que o atormentavam, quis povoar sua mente. Era um medo maior do que os outros, já que envolvia o futuro de Rairom. Como seu pai, o menino possuía o sangue de um povo estrangeiro. Não era um Norgat, ao contrário do bebê, que dormia placidamente.

— Meu senhor, aqui estou — disse um homem de mais de sessenta anos que acabara de entrar no recinto, juntamente com uma moça mais nova.

— Jonorat! Você já viu meu filho mais novo?

— Ah, sim, mestre Zairom! Eu já o tinha visto. Sirat o levou até os criados, por ordem de sua esposa. Esse é mesmo um dia muito feliz!

— É verdade, meu amigo.

— Suponho que não pretenda sair hoje.

— Ao contrário, Jonorat. Chamei-o aqui porque preciso que prepare a carruagem.

— Mas até no dia do nascimento de seu filho pretende trabalhar, senhor?

— Ora, preciso averiguar certos assuntos... Não é nada muito sério, mas não gosto de adiar meus afazeres. Aliás, o que tenho de fazer hoje é verdadeiramente inadiável.

O velho fez uma mesura e retirou-se para desempenhar sua tarefa.

— Sirat, cuide de Rairom, está bem?

— Sim, meu senhor — disse a moça, que era encarregada de tomar conta da criança. — Vamos, Rairom?

O menino relutantemente obedeceu. Desagradava-lhe a idéia de afastar-se daquela interessante novidade que era seu irmão. Assim que ele se retirou, Zairom recolocou seu filho no berço e ficou a observá-lo. Depois, deixou aqueles aposentos, desceu as escadas, mergulhando no grande átrio central, decorado com luxuosas tapeçarias, trazidas do distante continente, da ancestral cidade de Algar. Lá estava também o quadro do falecido Tairon Norgat, pai de sua esposa. Por um momento, a atenção de Zairom foi capturada pela expressão severa daquela figura. "Arrogante até depois de morto", pensou. "Preciso mandar que levem a pintura a outro cômodo para que tenha a obscuridade que merece", concluiu. Alcançou, por fim, o exterior da residência e foi recebido pelas graciosas e imperturbáveis colinas de grama que a margeavam. Lá também estava, igualmente silencioso, o cocheiro Jonorat e um menino de uns oito anos de idade.

— Seu neto vai conosco? — perguntou Zairom sorrindo.

— Apenas se isso não for um incômodo, mestre.

— Você sabe que é um prazer tê-lo conosco! Não se esqueça de que fui eu que o convidei. Jonalat, por que não vem comigo na cabine da carruagem? Você quer?

— Gostaria sim — respondeu o menino, sorrindo. Agradavam-lhe aquelas poltronas macias e o caráter suntuoso do interior do veículo.

— Para as minas, então?

— Para as minas.

Puxada por dois corcéis negros, a escura carruagem partiu acelerada, atravessando veloz a propriedade do senhor dos filhos do fogo em direção às Blai-lan, onde se localizavam as minas de metais preciosos e minério de ferro. Cruzavam a monótona paisagem, repleta de colinas gramadas e de plantações de cereais. Ao contemplar seus domínios, Zairom sentiu certo orgulho pelo que conquistara por meio do casamento com a filha de um nobre falido. Quem diria que o menino pobre que vagara muitas vezes pelo porto de Lor-Zainan à espera do pai iria um dia tornar-se o senhor absoluto da mais rica província do Império? Tinha mesmo razões para sentir-se satisfeito consigo mesmo. O orgulho, porém, rapidamente foi suprimido, ante a dolorosa consciência de suas novas responsabilidades. Nas suas mãos, não estava apenas o próprio destino mas, também, o futuro de muitos. Não podia dar-se ao luxo de cometer um erro sequer! Lembrou-se da mensagem que recebera pela manhã e ficou taciturno. Sentia que algo relevante estava para acontecer e que precisava agir, mas faltavam-lhe subsídios... Subitamente, sua meditação foi interrompida por uma redução brusca na velocidade do veículo.

— Há algumas pedras bloqueando o caminho, mestre Zairom — apressou-se a informar o cocheiro. O velho fora forçado a parar a carruagem por completo.

— Parece que caímos em uma armadilha, Jonorat — afirmou o senhor dos filhos do fogo. Sua análise era adequada. O risco de ataques não era jamais desprezível, já que ele, como os demais nobres, travava um confronto silencioso com a imensa população de escravos que habitava o Império. Não eram incomuns as revoltas e rebeliões. Talvez fosse por isso que Zairom não se surpreendeu quando cerca de dez homens cercaram o veículo. Eram liderados por um jovem de não mais de dezoito anos, que o cocheiro não teve dificuldade em reconhecer.

— É tarde demais para voltar — disse o rapaz. — Ao que parece, esse seu hábito de andar sem escolta acabou provan-do-se fatal, não é mesmo, Zairom Guenor?

— Sironiel, é você! — exclamou o velho, consternado.

— Sou eu mesmo, tio. Eu lhe disse que conseguiria escapar, não é mesmo? E o senhor não acreditou...

— Não seja louco, Sironiel! O que espera conseguir com isso?

— Ora, não é evidente? — perguntou o jovem.

— Se quer escapar, por que simplesmente não foge, meu jovem? Vá para o Deserto de Pedra, ou para qualquer outra parte — sugeriu o filho do fogo, que parecia intrigado com a atitude do rapaz. — Por que veio me importunar? — completou ele, descendo do veículo.

— Alguém tem de fazer você pagar pelos seus crimes, senhor de escravos!

— Sironiel, você está louco! Quer destruir nossa única esperança? Mestre Zairom é filho de alguianos e está no trono da Terra do Fogo!

— Ele é filho de um traidor alguiano, tio. De um banido, de um exilado que não hesitou em enriquecer com o comércio de nossa própria gente escravizada! Além do mais, ele não é alguiano. Já nasceu nessa terra amaldiçoada, esquece-se disso? Ele não se esqueceu! Tanto isso é verdade que nossa vida continua igualmente miserável!

— Você é um tolo, rapaz! O que esperava que ele fizesse em tão pouco tempo? Ele está no trono dos filhos do fogo há menos de dois anos.

— Tudo que sei é que não suporto mais essa miserável vida de escravo. Lembro-me de quando era criança, de como vivíamos bem, meu pai era um general respeitado, minha mãe praticava a arte da cura... Ainda me lembro do dia em que o legionário entrou em nossa casa, incendiou-a e nos fez prisioneiros. Como espera que me conforme com a vida que levo agora?

— Por que está me dizendo isso? Eu estava lá, não se lembra? Eu estava em Algar quando a cidade foi destruída!

— Eu sei muito bem. Ainda assim é um covarde, tio! Escolhe servir ao nosso opressor. Pois eu sou como meu pai. Prefiro lutar pela justiça!

Jonorat emudeceu-se ante esse comentário, pois via nele certa verdade. De fato, ele admirava a personalidade de seu sobrinho, justamente por ser parecido com o pai. O irmão de Jonorat era assim: corajoso e destemido. O velho, porém, não tinha o mesmo orgulho de sua própria maneira de ser. Considerava-se um fraco, manso demais. Era o estigma de um erro do passado que o tempo não parecia ser capaz de curar.

— Interessante — observou Zairom, que estava evidentemente intrigado, mas não aparentava qualquer medo. — Você é corajoso, Sironiel. Mas, também, é muito... digamos, emotivo. Você pensa que pode conquistar o mundo pela força do ódio ou pela sede de justiça, se quiser rotular sua raiva assim. Mas saiba que seus poderosos sentimentos obscurecem a razão e impedem que veja muitas coisas. Se eu agisse como você, tudo já estaria perdido há muito tempo.

— Você fala demais, senhor de escravos — disse o rapaz desembainhando a espada.

— Ah, mas então um condenado não tem direito a suas últimas palavras? Do que tem medo, rapaz? Não posso feri-lo com palavras. Tudo que quero é fazer-lhe uma pergunta.

— Tem razão. Fale se quiser... aproveite seus últimos momentos.

— Pois bem — disse o senhor dos filhos do fogo, completamente calmo. — Como dizia, se eu agisse como você, já teria perdido a posição que ora ocupo e, portanto, o poder de ajudar na transformação desse Império. Por exemplo, se eu tivesse libertado os escravos, como, aliás, é o meu desejo, o que acha que aconteceria?

— Você ficaria sem o trabalho deles, miserável!

— Você é fúria sem razão. Não vê que isso significaria uma intervenção das legiões imperiais? Não percebe nem isso, Sironiel? Ou você desconhece que a escravidão é o pilar básico desse Império? Voltar-se contra ela é atrair a ira de todos os poderosos. Por acaso você discorda? Diga-me, Sironiel, o que faria se estivesse no meu lugar? Você atrairia a fúria de todos em razão de sua sede de justiça? Então, seria derrotado... Diga-me o que faria, essa é a pergunta que desejo fazer. Seja sincero!

— Eu... eu não sei. Mas...

— Essa situação não é culpa de mestre Zairom, Sironiel. Você não pode culpá-lo por isso! — comentou Jonorat. O rapaz parecia em dúvida.

— Eu não me importo com seus argumentos, Zairom! Eu não me importo! Esses anos todos de humilhação... Não posso esquecê-los. Eu tenho sede... sede!

— Sede de sangue? — indagou o filho do fogo, com o olhar penetrante.

— Como pode permanecer tão calmo quando está próximo de ser assassinado?

— Não pode! — subitamente Jonalat gritou, saindo do veículo. — Acho que nem ele pode. Finalmente, eu entendi. Não tem outra explicação.

— Jonalat, você está aqui? — espantou-se o jovem escravo. Zairom ficou surpreso, ante o comentário do menino.

— Não entendi, Jonalat. O que quer dizer?

O menino enrubesceu, pois atraíra a atenção de todos.

— Fale, Jonalat! — insistiu Sironiel.

— Acho que nem o mestre Zairom poderia ficar tão tranqüilo se sua vida estivesse em risco... Então, acredito que ela não está em risco! O senhor, com todo respeito, mestre, é muito esperto, já percebi isso pelas coisas que meu avô me fala. O senhor é esperto demais para não ter medo da morte, muito esperto para andar sem escolta...

— Parabéns, Jonalat! — disse Zairom, impressionado. — Que excelente raciocínio! Então, Sironiel, você concorda ou discorda com o que o neto do seu tio disse? Estou esperando sua resposta!

O rapaz suava. Havia certa dúvida em seu semblante e no semblante de seus companheiros. Aproximou a espada do pescoço de Zairom, que permanecia impassível. As mãos do rapaz tremiam.

— Eu acho... eu acho...

— Sim?

— Eu acho que ele está certo.

— É verdade? Então, o que pretende fazer? Sugiro que você e seus companheiros voltem para as minas. Não serão castigados. Mas se quiser fugir para o Deserto de Pedra... bem a escolha é de vocês. Serão, é claro, caçados pelos comerciantes de Lor-Zainan. Você sabe que é assim. Não terão mais minha proteção.

Sironiel permanecia em silêncio. Estava, obviamente, angustiado. Talvez sua vontade fosse a de chorar como uma criança.

— Eu vou voltar — disse ele finalmente. Proferir aquelas palavras era muito doloroso para o rapaz. Significava admitir a completa derrota. Jamais esperou que seus planos tivessem esse resultado tão peculiar.

— Acredito que você tomou a decisão certa.

— Mestre Zairom, cuidado! — exclamou o cocheiro Jonorat quando um dos comparsas de Sironiel, obviamente inconformado com aquele estranho desfecho, resolveu investir ele mesmo contra o filho do fogo. Seu golpe, porém, não chegaria a ser executado, pois um dos outros escravos o impediu com tamanha facilidade que seria até difícil descrever seu movimento. Pode-se dizer que tomou a espada do atacante pela própria lâmina, mas sem se ferir! Depois, colocou-se entre o filho do fogo e os demais escravos numa rapidez sobre-humana. Retirou, então, o capuz, e todos viram que se tratava de um velho de barbas brancas e olhar distante, frio, esbranquiçado. Na verdade, não pertencia ao grupo de escravos e estivera ali até aquele momento sem ser notado. Antes que percebessem inteiramente do que se tratava, antes que pudessem se recuperar da surpresa, todos foram impelidos para trás, como se uma rajada de vento os arremessasse. Mas não havia brisa sequer.

— Viu, Sironiel? Você não estava enganado. Eis aí minha escolta. Caros senhores, conheçam o mestre das sombras Zoltari de Nemaelos. Têm certeza que desejam enfrentá-lo? Eu sinceramente não recomendaria. Afinal, ele é um dos magos mais poderosos desta ilha, além, é claro, de ser um bom amigo meu.

— O senhor tinha tudo sob controle o tempo todo! — espantou-se Jonorat.

— Oh, sim! Não teria chegado aonde cheguei se caísse em armadilhas tão banais quanto essa. Esse era, aliás, o assunto por que saí de casa hoje. Para cair nessa armadilha...

O filho do fogo não conseguiu evitar uma breve gargalhada. Sentia-se de muito bom humor.

— Então, era tudo um teste — observou Sironiel.

— Certamente! E você foi aprovado.

— Achei que o surpreenderia, mestre Zairom. Mas vejo que fui eu que me surpreendi.

— É verdade... Agora se me dão licença, cavalheiros, tenho outras questões a resolver.

Acompanhado por Zoltari e Jonalat, Zairom entrou na carruagem que partiu em disparada de volta à residência da família.

— Você está de parabéns, Jonalat — comentou o filho do fogo. — A maioria dos adultos teria dificuldade de compreender o que você conseguiu perceber tão rapidamente!

— Obrigado, senhor — agradeceu o menino muito envergonhado.

— Seu primo também foi bem. Ele mostrou capacidade de liderança, coragem e um ímpeto invejável de buscar aquilo que deseja. Entretanto, os sentimentos ainda detêm um controle exagerado sobre os atos dele. Mesmo isso, contudo, pode ser remediado... Na hora crucial, ele mostrou ser capaz de tomar a decisão correta, o que mostra quão promissor ele é. Não acha, mestre Zoltari?

— Acho sim. Mas espero que não me tenha chamado aqui para participar dessas brincadeiras, Zairom. Seu pai nunca cometeria uma impertinência dessas.

O teor ríspido de suas palavras era atenuado por um tom condescendente.

— Também não cometi, velho amigo. Apenas achei que se divertiria participando desse pequeno jogo...

— E eu me diverti — disse o velho, soltando uma breve gargalhada. — Mas agora, aos negócios, certo?

— Certamente. Veja esta carta.

— Ah, agora começo a entender sua preocupação... Tem alguma idéia do que se trata?

— Se eu tivesse, não teria mandado chamá-lo. É claro que estou tomando outras providências também...

— É claro... Mas, de todo modo, você fez bem em requisitar minha assistência. Isso pode não ser nada mas, também, pode ser algo realmente sério...

— Tenho algumas conjecturas, algumas suspeitas um pouco vagas. Deixei-as por escrito aí na mensagem.

— Sim. Estou vendo. Mas não se apresse em suas conclusões. Tudo depende do que ele está tramando. Veremos...

Depois de se despedir do mestre das sombras, que seguiu com Jonorat para a Vila do Fogo, Zairom foi ver como estava sua mulher. Ela, como era de se esperar, encontrava-se prostrada na cama, mas, dentro do possível, estava até de bom humor. Por isso, comentou:

— Meu querido, já de volta? Não se esqueça de que agora temos mais um filho e você precisa trabalhar para sustentar a nós todos.

Zairom sequer sorriu.

— Bem, admito que foi uma piada sem graça. Está certo, não foi sequer uma piada, mas você podia ter rido, nem que fosse só para ser gentil...

— Desculpe, Liana.

— Você parece preocupado, Zairom. O que foi?

— Não é nada sério...

— É claro que é! Do contrário, não estaria preocupado desse jeito. Somos casados há quase três anos. Aprendi a conhecer você, pelo menos um pouco. É alguma revolta de escravos, é isso?

— Não. Não tem acontecido nada sério ultimamente e arrisco-me a dizer que não vai acontecer nenhuma rebelião importante no futuro previsível.

— Então o que é?

— Por favor, não fique ansiosa. Só não quero preocupá-la, é apenas isso. Ainda mais no seu estado...

— Eu sei. Mas você deve entender que fico ainda mais preocupada quando não sei o que o está afligindo.

— É o seu irmão. Recebi outra carta. Ele insiste para que eu vá à capital o quanto antes. Diz que está ansioso para conhecer o sobrinho...

— Ah, ele continua com essa história? Agora entendo sua preocupação, Zairom. É óbvio que nosso Imperador não é dado a essas frivolidades. Nós dois o conhecemos o suficiente para afirmar isso. Ele está tramando alguma coisa com certeza!

— Também cheguei à mesma conclusão. Mas o quê?

— É difícil saber. E o pior é que não posso ajudá-lo, já que minhas relações com ele não têm sido as melhores, para dizer o mínimo, especialmente depois que decidi casar com você.

— É verdade. Mas não pretendo atender ao chamado do Imperador, pelo menos vou adiar essa viagem ao máximo.

— Você faz bem. Não se preocupe, Zairom... Sei que vai descobrir os planos dele a tempo.

— Espero que sim, minha querida. Espero que sim...

Liana Norgat Guenor sentiu um aperto no peito, um certo temor, quando emergiu diante dela a imagem de seu irmão, nascida de tristes e soturnas memórias.

 

                                       A viagem

Liscar nunca teve medo da Floresta Negra. Ouvira suas terríveis histórias, mas preferia concentrar-se em seus incríveis tesouros. Sonhava com a lenda que todos conheciam sobre o olho da besta Crion, que tinha o poder de ver o futuro e havia sido enterrado há muito em um local secreto. Certo dia recebeu um mapa dado a ele por um famoso vidente, que tinha visto tal descrição em um sonho assombroso, no qual estava o olho de Crion, vivo, mesmo depois da morte de seu dono. Liscar não pensou duas vezes. Ele e um amigo mergulharam na escuridão da floresta. Esta foi a última vez em que foram vistos. Apenas uma de suas mãos, que ainda usava o anel da família, foi encontrada num riacho que saía das matas. Nunca mais alguém ousou tentar repetir o feito. Se as visões eram verdadeiras é um mistério a ser desvendado. (Contos de Floresta Negra — autor desconhecido)

Não é de minha natureza adormecer. Mas, por vezes, quando não estou concentrado em um assunto determinado, minha mente divaga, destrói certos limites do pensamento linear e então compreendo muitas coisas sobre o passado e também, em menor medida, sobre o futuro. Gosto de chamar de sonhos essas experiências, pois assim consigo dar aos homens mortais, que nada vêem, uma vaga idéia do que experimento em tais circunstâncias.

Muito tempo atrás, antes mesmo que o Império das Sombras existisse, tive um sonho particularmente intrigante e de implicações consideráveis. Contemplei, em minha visão, a escuridão imperturbável, eterna, que se espalhava ao infinito. Entretanto, a homogenia era apenas visual, já que havia infinitos estímulos a perturbar meus sentidos. Calor, frio, movimento rodeavam-me, denotando um estado de transformação incessante. Subitamente, essa mutação assumiu a forma de luz e eu pude ver onde me encontrava. Era o fundo de um grande oceano, preenchido por líquido opaco, semitransparente, que poderia ser — ou não — água. A fonte da luz, porém, era mais simples de identificar. Era lava incandescente, vomitada pelo submundo. Ela enfrentava o líquido circundante, que cobrava como tributo o calor que vinha das profundezas. Mas o magma não queria deixar de ser o que era, um estranho objetivo parecia animá-lo. Defrontava-se em titânico embate com o meio circundante, lutando pelo simples direito de existir. Contudo, o fogo não podia vencer e era transformado em sólida e escura rocha. Se o confronto não terminava, era simplesmente porque novo magma escolhia emergir do abismo, tomando o lugar do contendor já morto. Vi essa batalha desenrolar-se pelas imensidões do tempo e então contemplei seu resultado. Uma enorme ilha emergiu dos mares sempre bravios para encontrar um céu preenchido por nuvens escuras, mergulhado na noite eterna. A escuridão não era completa porque o magma chegara ao fim de sua jornada, a partir do abismo, e agora invadia, em salto titânico, as imensidões celestes. Eis o seu objetivo, ascender! Em represália, as nuvens despejavam sobre a terra sua energia em forma de relâmpagos e trovões abomináveis. Mas então, quando parecia que tudo seria destruído pelo embate dos elementos, o conflito entre o abismo e o céu perdeu intensidade. As nuvens se dissiparam, as ondas escassearam. O magma não mais se levantava com tanta freqüência a partir do abismo e a erva verde floresceu, cobrindo a nudez das rochas. Mas, quando a paz já se instalava, chegaram os homens e uma nova guerra iniciou-se. Não era tão descomunal quanto o conflito entre os elementos, mas era igualmente terrível em seu microcosmo, e, com certeza, mais cruel. Tive a consciência, então, de que os dois conflitos eram um só. Ou, por outra, o segundo era a continuação do primeiro. Esse entendimento foi doloroso e devastador. Pois se o conflito era tão essencial, tão perene, então como poderia haver paz? Será que a crueldade e a injustiça reinariam para sempre, mudando apenas de forma? Senti-me aturdido por esses pensamentos, eles me feriam. Perguntei-me se aquelas visões do passado não teriam relação com alguma espécie de presciência... com alguma percepção de algo que estava para acontecer. Desloquei o foco de minha atenção para a ilha que vira em meu sonho e lá por muito tempo meditei, buscando a fonte de minha perturbação. Tentava encontrar nas memórias do passado e nas correntes do presente as respostas para minhas perguntas. Então, eu vi a Floresta Negra, aquela que o povo dos arquivos designou como Zainor-Darian, e pressenti muitas coisas. Um homem vagava pelas matas, fugia de seu cativeiro. Estava cansado, exausto, ferido, e era perseguido por animais selvagens e servos de seu senhor. Era um escravo, apenas um escravo, mas intuí que ele era a fonte de minha perturbação! Essa idéia, a princípio, pareceu-me inteiramente absurda, entretanto ela estranhamente persistia, de modo que resolvi averiguar. Sei que ele correu por muito tempo até que, por fim, caiu exausto no chão e o solo cedeu. Foi tragado por um abismo, sem, no entanto, perecer na queda. Acordou assustado, desnorteado. Para seu espanto, havia caído de grande altura, mas não se machucara. Ao contrário, os ferimentos que o incomodavam haviam desaparecido, as torturas da sede e da fome não mais se faziam presentes. Estava agora em uma caverna subterrânea. A pouca luz que penetrava naquele domínio de escuridão, fazia-o pelo orifício de onde despencara. Relembrou que por muitos dias, seguira uma estranha força que o guiara através da mata. E agora... essa força estava mais forte, mais premente! Era mais do que uma força, tornara-se uma presença!

— Larcon, você finalmente chegou — disse uma voz masculina, de timbre particularmente grave, que ecoava em sua mente. — Sei o quanto sofreu. Sei o quanto lhe custou essa jornada. Mas suponho que agora esteja sentindo-se melhor.

— Eu estou. Alguém me guiou até essa floresta, uma força me mostrou o caminho até aqui! Essa força é você!

— Sim, nós o guiamos. Nós o trouxemos até aqui, Larcon. Observamos você e o escolhemos...

— Nós? Quem são vocês?

— O que é um nome? É apenas um rótulo sem importância. Chame-nos como quiser. Somos algo que está além de sua compreensão.

— Não entendo. Por que me trouxe aqui? O que quer de mim?

— O que quero de você? Mais importante é saber o que você quer! Por que você não me diz? Por acaso não tem sonhos?

— Sonhar? Desisti disso há muito tempo.

— Não desistiu! Do contrário, não teria atendido a meu chamado. Você me ouviu porque seu coração está aberto, aberto aos sonhos, aberto à esperança. Seu coração, seus olhos, seu cérebro, seu espírito flamejam, Larcon! Flamejam pela luz da esperança, pela luz dos seus mais profundos anseios! O que você quer?

— Liberdade.

— Mas só isso?

— Liberdade para mim, para meu povo!

— Você é muito nobre, Larcon. Sei que fala a verdade. Mas nós dois sabemos que isso não basta! Você quer mais. Você quer justiça, ou, talvez, vingança, não é mesmo?

— A liberdade não pode ser alcançada sem a justiça. Como podemos ser realmente livres enquanto Crion viver?

— Não podem! Você deve matá-lo, Larcon. Você deve silenciar a besta. Eu lhe darei o poder para tanto, eu lhe guiarei nessa difícil jornada. Mas antes você deve entender aquele que enfrenta. Há muitas coisas que precisa entender. Vê? Ao fundo dessa galeria há uma luz. Vá até ela!

O homem obedeceu. Sem dificuldade chegou até outra câmara mais iluminada, onde havia uma espécie de túmulo de pedra.

— Essa, Larcon, é a tumba de Liurom.

— O patriarca! Crion o matou há centenas de anos!

— Então, suponho que conheça a história dele...

— Conheço.

— Ah, mas talvez você esteja enganado. Apenas pensa que conhece. Veja aqui o diário do poderoso arquimago, do patriarca de seu povo, deixado por Dicar! Você deve estudá-lo, antes de mais nada, você precisa estudá-lo! Quando tiver terminado, nós conversaremos. Sei que parece tolo exigir isso de você, mas logo entenderá como ler esse diário é importante. Garanto que entenderá!

Por muitos dias, Larcon estudou o vasto livro. Surpreendentemente, ele conseguiu decifrar (com certa dificuldade, é verdade) os símbolos, as letras. Apreendera a ler com os pais, em sigilo, mas não conhecia todos os caracteres utilizados no estranho livro. Mesmo assim, a essência da história ele conseguiu apreender. Afinal, a língua lhe era familiar. Era o idioma do povo dos arquivos, o velho idioma central. O diário descrevia a época da Grande Decadência, quando as terras férteis transformavam-se em desertos. Foi nesse período que o patriarca partiu com seus escolhidos e vagou através dos oceanos, através do Mar de Gelo, enfrentando toda sorte de obstáculos, até aportar na grande e fria ilha do sul. Suas dificuldades, porém, não cessaram. Ali teria de se defrontar com Crion, um ser sobre-humano, de forma monstruosa. A fonte do poder da besta era seu terceiro olho, que não era realmente dele, pois fora um presente dos deuses obscuros. O olho conferia a Crion inúmeras faculdades, entre elas a de prever o futuro. Liurom enfrentou a besta e, por muito tempo, conseguiu resistir aos exércitos inimigos, compostos de homens e de feras. Pois ele era um poderoso arquimago, detentor de antigos segredos da extinta ordem dos neionaim. Entretanto, certa vez, foi iludido, por complexa rede de intrigas e de falsidade, criada por Crion. Foi levado a essa floresta, Zainor-Darian, e ali se defrontou com o senhor das feras. Embora o poder do patriarca fosse considerável, Crion podia prever cada um de seus movimentos. Desse confronto titânico apenas um sairia vivo...

— E então, Larcon, vejo que já terminou a leitura. Agora você já sabe...

— Eu sei.

— Você está pronto para enfrentá-lo e eu o orientarei e, quando o momento chegar, lhe darei o poder necessário! Mas tenha cuidado. Aprenda com os erros do patriarca ou partilhará de seu destino.

— Eu não partilharei!

— Cautela! Ele era mais sábio que você, mais poderoso. Por acaso ignora esse fato?

— Não, é claro que não!

— Pois então. Para que seja bem-sucedido onde ele fracassou, não pode se dar ao luxo de subestimar seu inimigo.

— Tem razão. Prometo não subestimá-lo.

— Excelente. Vá então!

— Espere. Você me ajuda mas não pede nada em troca? Isso é no mínimo curioso.

— Ora, suas ações estão de acordo com meus desejos e isso é o mais importante. Queremos que o tempo das feras acabe, Larcon. Elas foram um erro, são deturpadas demais, brutalizadas demais! Por meio delas, nada conseguiremos. Mas nossa aliança, ao contrário, pode trazer grandes frutos no longo prazo. Vemos isso claramente! Quero que o povo dos arquivos e seu futuro líder estejam ao meu lado! Cultue-me, conceda-me sua lealdade, e, em troca, darei a você sua vingança e a seu povo presentearei essa grande ilha... e, no futuro, talvez mais.

— Não tenho mesmo nada a perder... Além do mais, os deuses do passado estão mortos, evidentemente. Sim, eu o cultuarei. Mas como devo chamá-lo? — disse o rapaz, depois de pensar por um momento.

— Um nome é importante para você, não é? Pois bem! Perceba-me como aquele que brilha com o fogo, aquele que habita o coração flamejante do vulcão e de todas as coisas que vivem. Corações como o seu. Chame-me de deus do fogo, da chama eterna.

— Então, na língua de meus ancestrais, seu nome será Naquicar.

— E você e aqueles que o seguirem serão os meus filhos.

Foi assim selada, na Floresta Negra, a aliança entre o primeiro filho do fogo e o deus da chama eterna, uma aliança que teria consideráveis repercussões. Tanto isso é verdade que mil e seiscentos anos depois lá estava outro filho do fogo, Zairom Guenor, observando as mesmas matas, ponderando as conseqüências das ações de Larcon. Ele, obviamente, não tinha plena consciência da cadeia de eventos iniciada pelos atos do jovem escravo e que desembocara naquele dia. Contudo, Zairom compreendia, ou pelo menos intuía, que aquilo que enfrentava era, em última instância, o legado e Larcon. Entretanto, embora essa análise fosse acertada, embora houvesse um abismo a separar os dois filhos do fogo, pelo menos em um aspecto eles se aproximavam. Larcon, tendo nascido servo, foi o libertador de um povo oprimido. Nas mãos de Zairom Guenor estava também o destino de uma enorme população escravizada, boa parte dela nascida no reino que seus ancestrais chamavam de lar.

— Você parece particularmente preocupado, Zairom. Não quer conversar? — indagou um homem de pele negra e sem nenhum cabelo. Decorava-lhe o rosto um cavanhaque de fios brancos. Sentava ao lado de Zairom na cabina da carruagem que deslizava pela vasta estrada. À janela, eram visíveis as coníferas e pinheiros de Zainor-Darian.

— Estava apenas observando a Floresta Negra, Laicar. Acho que me lembrava das histórias que você contava sobre aquela mata quando eu era criança.

— Ah, é verdade, lembro-me perfeitamente. Todas as crianças adoram essas histórias, embora ao mesmo tempo sintam medo... O medo, às vezes, atrai as pessoas, eu suponho. Você mesmo tinha muito medo, Zairom. Mas adorava ouvir as histórias... — disse o velho sorrindo. — Vejo o mesmo receio em você agora, embora esteja tentando dissimulá-lo. Não vai me dizer o que o está inquietando? — perguntou. Laicar trabalhava para a casa dos Guenor desde que Zairom era muito jovem. Por isso, considerava-o quase como um filho. Às vezes, como é próprio de muitos pais, tratava-o como criança, apesar de Zairom, com trinta e um anos de idade, uma altura considerável e com escuras barbas a cobrir-lhe o rosto, ser o próprio espectro da maturidade.

— Ainda faltam muitos dias de viagem até a capital. Dois sextos, entre minha propriedade e Naquicaron, é um período muito longo. Acho que isso está me deixando ansioso. Entretanto, o que me incomoda realmente é que tenho muitas suspeitas e poucas certezas no que diz respeito aos planos do Imperador.

— Acho que estou compreendendo... Nesse caso, por que não adiou por mais algum tempo essa viagem, já que ainda não se sente seguro?

— Já venho fazendo isso há oito meses, meu amigo. Desde que meu filho nasceu, tenho usado toda sorte de estratégias

para postergar minha ida à capital. Entretanto, esse método não pode ser utilizado indefinidamente. Afinal, não se pode esquecer que conseguir mais tempo é também dar mais tempo ao Imperador...

— É verdade. Há, porém, um consolo: Zoltari estará lá. Quem sabe ele não consegue esclarecer suas dúvidas?

Zairom assentiu com a cabeça.

— Gostaria que Rairom estivesse conosco aqui nesse veículo. Poderia contar-lhe algumas histórias sobre a Floresta Negra — desconversou o velho. Obviamente, procurava afastar a mente de Zairom das preocupações que o atormentavam.

— Foi melhor que ficasse com Sirat e Tairom na outra carruagem. Pelo menos, está a salvo dessas suas histórias. Lembro-me que tinha pesadelos por causa delas! Especialmente aquela sobre Liurom!

Zairom sorriu e o velho acompanhou-o com uma sonora gargalhada.

— Sim! Especialmente aquela parte em que o patriarca é esquartejado por Crion! Você morria de medo!

— Diga-me, Laicar, o que achou dele? — perguntou subitamente o filho do fogo, assumindo novamente um ar taciturno.

— Dele quem?

— De Rairom, ora.

— Eu já lhe disse o que penso quando nos encontramos no Posto de Comércio. O que mais quer saber?

— Você acha mesmo que ele está muito parecido com a mãe?

— Você sabe disso melhor do que eu, Zairom! Não há por que insistir nesse assunto.

— É verdade. Suponho que ele seja mesmo muito parecido com ela — admitiu, com uma pontada de amargura. Uma dolorosa lembrança emergira em sua mente. — Rairom nunca será um verdadeiro filho do fogo, como eu também nunca serei.

— Em compensação, Tairom tem até o cabelo cor de chamas — comentou o velho, rindo discretamente.

— É verdade — concordou, retribuindo o sorriso. Enquanto Zairom e sua escolta deslizavam lentamente

pela estrada que margeava a Floresta Negra, podiam contemplar, à direita, uma paisagem igualmente interessante. Tratava-se do imponente e sempre revolto Mar de Gelo, em cuja costa quase não havia praias. Geralmente, a terra bruscamente acabava em penhascos e o mar sempre agitado batia de encontro às pedras. Nos lugares em que a encosta era mais baixa, as ondas explodiam nos pedregulhos e uma chuva de espuma caía sobre a caravana. Rairom, na outra carruagem, maravilhava-se com o cenário.

— Não é lindo, Sirat? — dizia a criança.

— Como esse menino se impressiona facilmente...

— Por quê?

— Você acha esse lugar bonito porque nunca viu Algar. A cidade onde o pai de seu pai viveu fica à beira de um penhasco como esse. Lá o mar é de um azul profundo, algumas vezes esverdeado nos dias de muito sol, e as gaivotas sempre estão voando e cantarolando. As ondas são ritmadas, como se dançassem uma dança ensaiada. Aqui, por outro lado, o mar é cinza e parece lutar eternamente consigo mesmo e com a rocha.

— Não fique triste, Sirat. Eu nunca tinha visto o mar. É por isso que achei bonito.

— Não estou triste, Rairom — disse a moça, ensaiando um sorriso. — Às vezes, sinto saudade. É só.

— Um dia nós vamos visitar Algar também. Você vai ver!

— Pode ser... Por outro lado, nem sei se gostaria disso. A cidade não existe mais. Tudo que resta são ruínas... escombros. Mas não se aborreça por minha causa, querido! Estou perfeitamente bem — considerou a moça. Esforçou-se para ensaiar um sorriso. — Os olhos das crianças estão sempre prontos a se maravilhar, pois tudo é novidade para elas. Portanto, aproveite a paisagem!

De fato, Rairom teria muitas oportunidades para se impressionar. A antiqüissima Cidade dos Heróis foi uma das visões peculiares que teve a oportunidade de apreciar. Também Laicar, por razões bem diversas, sentiu-se perturbado no dia em que passaram ao largo de Nogat-Zainan. Ela era, como todos sabiam, sua cidade natal. Para lá migrara sua família em virtude da invasão da Cidade do Delta pelo antigo Império Ciliano, cerca de trezentos anos antes. Certo dia, por um motivo conhecido por poucos, ele deixara sua cidade definitivamente. Era um passado perdido, doloroso, que o velho foi forçado a contemplar quando observou, ao longe, as torres pontiagudas do ancestral Forte de Telosai.

Mas foi breve a passagem de Zairom e sua escolta pela Cidade dos Heróis. Não tardaram a avançar em direção a seu destino, margeando o imponente Lago de Cristal e, por fim, desembocando no próprio coração do Império, na capital, a maior cidade do mundo conhecido. Nada se comparava, em grandeza ou imponência, ao covil dos filhos de Naquicar, o berço e centro de todo o grande Império do Sul.

Quando finalmente atingiram seu destino, o céu estava nublado e um vento gelado castigava os viajantes. Relâmpagos cruzavam o firmamento, recortavam o horizonte, prenunciando a chegada da chuva. Rairom dormia, cansado da longa viagem. Por isso, seu pai foi forçado a chamá-lo. A princípio pensou que estava em casa, lembrando de uma noite longínqua em que sua presença fora requisitada. Mas não era esse o caso. Levantou-se mal-humorado, ao observar a cabina da carruagem e perceber que a longa jornada ainda não terminara. A ansiedade e o tédio do menino eram compreensíveis, mas esses sentimentos logo seriam afastados ante a impressionante visão que se seguiria. Ao longe, lá estava ela! Infinitos pontos depositavam-se sobre a planície, margeando um oceano em cinza e azul. A princípio, Rairom acreditou que se tratasse de uma multidão, mas, terrivelmente espantado, percebeu que cada um daqueles pontos era, na verdade, uma construção. Chamou-lhe a atenção uma região cercada por vastas muralhas, no centro da qual erguia-se, imponente, o Palácio Imperial, no topo de uma colina. A edificação era claramente distinguível, mesmo a essa grande distância. O menino concluiu que aquela devia ser a maior construção já erguida.

Rairom lembrou-se, de relance, de todas as paisagens que o haviam impressionado durante a viagem. Por um ínfimo instante, reviu as terras planálticas, as familiares colinas de grama e ouviu o soprar do vento que acariciava a relva, reforçando o eterno silêncio. Observou as montanhas pontilhadas de árvores que separavam as regiões centrais das litorâneas e a planície pantanosa, um grande tapete esverdeado que se estendia quase até o infinito, quando vista do alto da grande serra. Relembrou a Cidade da Caravana do Oeste, suas casas, o Posto de Comércio, prédio imponente de cinco andares no qual encontraram Laicar. Viu as árvores de Zainor-Darian e as ondas ferozes do Mar de Gelo, que contrastavam com a paz do inerte Lago de Cristal. Intuiu que todas essas paisagens perderiam relevância com o passar do tempo, como acontece com as memórias vãs, com aquelas em que a impressão inicial é mais poderosa do que o valor real. Pois a importância que ele lhes atribuíra devia-se, em parte, ao filtro de olhos infantis, como mencionara Sirat. A imagem de Naquicaron, contudo, era um caso singular. Naquele momento concluiu que a visão da grande capital não decairia como as demais, que ficaria marcada em sua memória para sempre! De fato, tal recordação nunca perderia força, ao menos até o seu retorno. Somente por duas vezes em sua vida, Rairom pisaria no solo que um dia Larcon tomara para si.

Todavia, a impressão de Rairom, por mais duradoura ou relevante que fosse, não fazia justiça ao que era o Império. Pois, para que se compreenda o reino que Larcon criou, não basta que se contemple a grande Naquicaron, já que ali se encontra a face material tão-somente. Não basta que se leia o livro que o ex-escravo elaborou, chamado "Versos", porque, nesse caso, contempla-se apenas a dimensão espiritual, ideológica do Império. ÉEm Paris, um físico morre depois de realizar uma experiência de laboratório para uma bela visitante.

Na selva da Malásia, um homem misterioso compra uma máquina de cavitação feita de acordo com as especificações passadas por ele.

Em Vancouver, um pequeno submarino de pesquisa é alugado para ser usado nas águas da Nova Guiné.

E em Tóquio, um agente do governo americano tenta compreender o que tudo isso significa.

Sabemos que a natureza pode matar. O que poucos sabem é que idéias idiotas sobre a natureza também podem ser fatais.

Um estudante de dinâmica das ondas e o dono de um estaleiro que aluga submarinos de pesquisa são assassinados sem que alguém consiga justificar o porquê de suas mortes. Enquanto isso, na Malásia, um homem compra equipamentos com objetivos mortais.

Nick Drake, presidente do Fundo Nacional de Recursos (NERF) - uma organização ambientalista radical -, é o homem por trás desses mistérios. O NERF sobrevive às custas de doações e tem um orçamento anual estipulado em US$ 44 milhões. Para evitar que as doações sejam interrompidas, Drake faz de tudo para gerar na população um estado perpétuo de medo, anunciando eventos climáticos catastróficos. O problema é que as pessoas não estão suficientemente alarmadas. Drake, no entanto, tem um plano: forçar a natureza a colaborar com ele.

Enquanto isso, John Kenner, professor do Massachusetts Institute of Tecnology (MIT) -


um dos principais centros de ciência e tecnologia do mundo -, está trabalhando em um projeto altamente secreto do governo e se vê envolvido num plano para evitar o que parece ser uma catástrofe global. Camadas de gelo derretendo na Antártica, inundações repentinas no deserto do Arizona e uma tsunami no Pacífico Sul.

Em Estado de medo, Michael Crichton apresenta um suspense tecnopolítico de ritmo acelerado que aborda uma idéia controversa: tudo que ouvimos sobre o aquecimento global -o derretimento das calotas polares, a calamitosa confusão na meteorologia, verões que se confundem com invernos - pode ser um equívoco, na melhor das hipóteses. Ou uma fraude.

preciso ver mais além! É preciso mergulhar no cerne, onde se fundem matéria e espírito, no próprio núcleo em que flameja a chama que no coração de Larcon ardia. E, para tanto, deve-se ceifar do passado o momento adequado, quando o primeiro rei dos filhos do fogo tomava para si o trono da grande ilha do sul. Deve-se buscar o instante de seu triunfo, a noite do confronto definitivo com a besta Crion! Quisera que Rairom ou seu pai pudessem ver os dois contendores olhando-se silenciosos, em meio à grande fortaleza. Só essa visão singela já lhes ensinaria muitas coisas sobre o Império das Sombras. Certamente, seria mais útil do que o estudo dos "Versos", ou as visitas a Naquicaron.

Larcon, naquele dia distante, observava cuidadosamente as deformações de uma face cuja humanidade se perdera. Ele perscrutava aqueles traços deturpados, em busca de uma memória perdida em um passado que ele resgatara no diário do patriarca.

— Ah, encontramo-nos enfim — disse o senhor da grande ilha do sul, o velho monstro, com voz áspera de timbre muito particular, semelhante à que um leão teria se pudesse falar. — Eu sei quem você é. Já faz um ano que o enfrento, mas até agora não tinha tido a honra de conversar com meu adversário face a face. Finalmente consegui atraí-lo...

— Acha que me atraiu para uma armadilha?

— Não! Não há armadilha. Pelo menos não planejei nada que você considerasse inesperado... Minha visão tem estado deturpada, Larcon. Tento prever seus próximos passos, tento descortinar seus planos, mas não sou capaz. A princípio, pensei que isso se devesse ao fato de não conhecer esse novo senhor do povo dos arquivos, esse libertador de escravos... — falou com a voz cheia de desprezo. Ficou um momento em silêncio, como se ponderasse. — Ou talvez o nome, que no olho se encontra, estivesse impedindo-me de enxergar. Mas depois concluí que poderia ser outro o motivo. Simplesmente, não podia mais suportar essa dúvida!

Havia enorme ira no olhar da besta, embora o tom de sua voz aparentasse frieza.

— Não estava ainda em posição de ameaçá-lo. Você quis apressar nosso confronto final. Por quê?

— Ora, não entendeu? Eu precisava esclarecer minha dúvida. Ademais, do modo como as coisas se encaminhavam, esse confronto se daria inevitavelmente em um ou dois anos e em condições até mais desfavoráveis para mim... Isso eu ainda posso prever. Não estou tão cego, afinal.

— Para mim é indiferente. Estava disposto a esperar...

— Você mente. Sinto ansiedade em seu espírito. Percebo seu sofrimento, seu desejo de vingança... Acho até que posso ler seus pensamentos!

— Pare! — disse o homem. A tentativa de Crion foi facilmente repelida, desnorteando-o. Havia uma chama brilhando no olhar de Larcon. — Sei do que suspeita, Crion. Não é necessário que leia minha mente para esclarecer sua dúvida. Eu mesmo posso fazer isso por você agora mesmo. Mas depois, é claro, eu o destruirei. Para provar que não estou ansioso, deixo essa escolha para você. Pode enfrentar-me agora e então esclarecer sua dúvida, ou pode escolher esperar até que nosso confronto se torne inevitável, como você mencionou... ganharia, assim, mais tempo para descobrir uma forma de me derrotar.

— Acha mesmo, rapaz, que voltaria atrás agora? Acredita que tenho tanto medo assim de você?

— Não. Não é a mim que teme, Crion... Mas, sim, você está com medo!

— Você é muito confiante... Saiba que o modo como me repeliu já me ajudou a esclarecer minha dúvida, confirmando, em certa medida, o que eu temia... Entretanto, acho que posso destruí-lo assim mesmo. Sem mais delongas, é isso que farei!

No mesmo instante a besta ocultou-se com sua capa e foi como se as sombras fossem atraídas até ele. Deu um salto sobre-humano e afastou-se. À distância, tudo que Larcon pôde distinguir foi seu terceiro olho, que, apesar de parcialmente encoberto pelo capuz, tinha um brilho azulado. Ao sinal de seu mestre, arqueiros surgiram nas muralhas circunvizinhas e começaram a alvejar o filho do fogo.

— Havia uma armadilha afinal... Espero que meus próprios reforços não demorem a chegar — disse Larcon, tentando evadir-se das flechas. Seus sentidos eram mesmo impressionantes. Esquivava-se das setas assassinas sem grande dificuldade. Contudo, era difícil evadir-se de um número tão grande... Resolveu atacar Crion diretamente. Sacou sua espada e arremessou-a com uma força descomunal contra seu inimigo. Este, porém, fez algo ainda mais impressionante. Em vez de fugir, colheu a lâmina com as mãos nuas sem se ferir. Em seguida, quebrou a arma, partindo-a em duas.

— Não esperava me derrotar dessa forma, não é, Larcon? E o pior é que precisou concentrar toda sua atenção por um instante para jogar a espada contra mim... Embora você seja mais do que meramente humano, obviamente superestima seu poder. Não podia ter-se dado ao luxo de deixar de concentrar-se nas flechas. Veja só o resultado!

De fato, Larcon fora ferido, fora atingido por uma flecha nas costas e continuava a ser atacado. Sentindo uma dor terrível, tinha muito mais dificuldade para se esquivar. Por isso, não demorou para que fosse atingido uma segunda vez e depois uma terceira...

— Percebo que meus receios eram exagerados, Larcon. Seus poderes são... insuficientes.

Crion fez um gesto para que seus arqueiros parassem o ataque, afastou de si as sombras e aproximou-se do filho do fogo para dar o golpe de misericórdia.

— É curioso. Embora perceba que seu fim está próximo, pois isso é uma obviedade, o olho continua não me dizendo nada... Não importa.

A besta sacou sua espada e preparou-se para golpear o adversário que, prostrado, esperava o golpe fatal. Larcon ergueu a cabeça e observou a face de Crion em um tom desafiador. Subitamente, começou a rir, o que surpreendeu a besta.

— Como vê, minhas habilidades não são só insuficientes, elas são ridículas Crion.

— Cale-se e morra, escravo!

A besta preparou-se para golpear o filho do fogo com sua espada.

— Mas, como disse, não é de minhas habilidades que tem medo. Afinal, não é comigo que você luta realmente...

Ao dizer isso, Larcon deteve o golpe segurando a espada pela lâmina. Repetia, assim, o que Crion fizera.

— Como pôde? — exclamou o monstro, surpreso. — Como conseguiu deter o golpe?

— Não consegui. Não fui eu quem deteve o golpe. Você não entende? Ainda não entendeu? É claro que já compreende! Não é comigo que você luta, não verdadeiramente...

Larcon tinha a voz alterada. Recomeçou a gargalhar como um louco. Seus olhos brilhavam mais do que antes, flamejavam com um brilho dourado, intenso. Crion afastou-se amedrontado. Seu terceiro olho não lhe mostrara nada daquilo! Cobriu-se com sua capa e chamou as sombras até si. Nesse instante, os servos de Larcon invadiram as muralhas atacando os vassalos da besta.

— Não vi nada disso em minhas visões! Como eles estão aqui? Como eles entraram aqui?

— Como? Não me dignarei a responder como! Imagine se puder, mas não lhe resta muito tempo.

O corpo de Larcon foi envolvido por uma aura dourada, uma espécie de chama que o cobriu inteiro, consumindo as flechas inimigas, cicatrizando o ferimento. Larcon aproximava-se do seu inimigo e, conforme o fazia, as sombras que envolviam Crion eram dissipadas.

— Então é isso mesmo! — disse a besta. — Os deuses obscuros me traíram. Não há outra explicação. Eles me traíram!

— Vejo que, por fim, você entende... Agora suponho que percebe por que não pode vencer. Você está perdido! Enfrente seu destino, criatura miserável.

Subitamente, a cegueira do olho da besta dissipou-se e ele pôde prever o futuro, mas o único futuro que via era a própria destruição!

— Não! Não! Não pode ser! Depois de tanto tempo de servidão! Como eles puderam me trair dessa forma? E ainda nem ousaram confrontar-me diretamente! Usam esse rapaz como instrumento, como subterfúgio vil — clamava ele, quando a aura de Larcon atingiu-o, queimando seu corpo. Caiu ao chão mortalmente ferido. Larcon aproximou-se dele. Percebeu que seu inimigo logo morreria. — Humano — disse Crion por fim —, os deuses obscuros, eles trairão seu povo como me traíram e essa será minha vingança.

Deu uma pequena risada, que se misturou com um suspiro derradeiro, e morreu. No mesmo instante, muitos dos vassalos de Crion depuseram suas armas e clamaram por misericórdia. Larcon, a princípio, apiedou-se deles. Ordenou que seus guerreiros poupassem a vida dos que se rendessem. Depois, porém, ao ter os prisioneiros prostrados diante de si, de joelhos, implorando por seu perdão e jurando-lhe lealdade eterna, sentiu um asco sem limites invadir-lhe a alma. Aqueles homens e mulheres haviam se submetido a Crion pela mesma razão que os levava a implorar, com obscena humildade, por suas vidas. Era aquela torpeza, aquela falta de dignidade, que permitia que toda espécie de abominações fosse cometida sem resistência, que o mal prevalecesse no mundo. A fraqueza daquela gente era abominável aos olhos de Larcon, enchia-o de nojo e repulsa. Ordenou, por isso, que todos os prisioneiros fossem executados. Chocados, seus próprios homens pediram que revisse sua decisão.

— Se nosso povo deve prosperar, é preciso que aprendamos a separar os fortes dos fracos — ele considerou friamente. — Se fomos reduzidos à escravidão no passado, é simplesmente porque existiam aqueles dentre nós que estavam prontos a trair sua gente, a compactuar com o mal. Esses fracos, covardes, não merecem nossa compaixão! Devem ser mortos ou escravizados, para que nosso povo prevaleça!

E assim foi feito. Muito sangue foi derramado após a queda da besta, formando um prelúdio adequado para a era que se iniciava e para o Império que nascia. A chama que um dia queimou nos olhos de Larcon, que se transmutou em aura na decisiva batalha contra Crion, o abandonaria por completo. Intuiu que nunca mais gozaria dos poderes sobre-humanos de que dispusera naqueles breves e sublimes instantes. Por isso, utilizou o que restava da aura para acender uma única pira, que simbolizaria a aliança com o deus da chama eterna. Enquanto a pira persistisse, ele profetizou, o reinado dos tairons prevaleceria sobre qualquer adversidade. Depois levou a carcaça de Crion e depositou-a no interior da Floresta Negra, na mesma tumba que fora de Liurom, o patriarca do povo silai. E lá, na mata, observei Larcon pela última vez, quando já havia completado sua tarefa. Seu olhar evidenciava uma satisfação sombria. Compreendi, então, plenamente meu sonho e minha perturbação. Um novo período iniciara-se na história dos homens mortais. Um Império seria inevitavelmente erguido no sul e esse processo deixaria um rastro de guerra e destruição. Esse Império, obviamente, não surgira por acaso. Estava destinado a ser um instrumento útil para certos fins... O quão útil, porém, só consegui estimar mil e seiscentos anos mais tarde, quando o legado Zairom Guenor e, principalmente, o de seus dois filhos tornou-se discernível.

 

                       Encontro de gigantes

Conforme nos relata Siprianus Tami (e outros estudiosos da Primeira Era), durante cerca de setecentos anos o nascente Império foi uma monarquia. Não é o caso agora de tratarmos das quatro dinastias que existiram durante esse período. Cabe enfatizar apenas que o trono era passado de pai para filho (sucessão hereditária). Em geral, o ocupante do trono imperial era o senhor dos filhos do fogo. A exceção é o período de 328 a 538, conhecido como o segundo cativeiro, em que um nobre estrangeiro governava o Império. Já em 720, a grande ilha se encontrava quase unificada sob o comando de Naquicaron. Esse estado de coisas, porém, ameaçava desfazer-se, pois os reinos dominados continuavam sonhando com sua libertação. Foi por isso que, em 735, com Tiuron II, um revolucionário sistema de governo foi implantado. Nele o trono deixa de ser passado de pai para filho e o larcon passa a ser escolhido e destituído por um conselho formado pelos líderes de seis clãs. São eles: 1. os filhos do fogo (o ancestral clã de Larcon); 2. os filhos do aço (formado pelos dicarianos e lamirianos); 3. os filhos da água (formados a partir do reino de Cigoratia do Norte e da porção incorporada do reino de Onerabiam); 4. os filhos do tempo (surgidos dos filhos do fogo); 5. os filhos do vento (formados a partir dos reinos de Abiam e Cigoratia do Sul) e 6. os filhos da pedra (composto basicamente pelo antigo reino de Acsoem). O larcon poderia ser um nobre de qualquer dos clãs. Esse revezamento, mais do que qualquer outra medida, foi salutar para a consolidação do Império. ("Vida e feitos dos líderes da Primeira Era" — ]ion Silai)

A carruagem levou a todos para dentro das grandes muralhas, de sorte que Rairom pôde observar o que lá havia. Eram mais casas. Tratava-se de uma cidade dentro da cidade. As residências, porém, chamavam a atenção pela suntuosidade. Verdadeiros palacetes preenchiam a região murada que circundava o Palácio. Somente os mais ricos e poderosos podiam morar tão perto do poder. Das residências ali existentes, sem dúvida a dos filhos do fogo era a que mais impressionava. Era mesmo muito suntuosa. Fora, inclusive, utilizada como residência oficial dos imperadores até a conclusão do Palácio Imperial na Colina Nebulosa, em 735, durante o reinado de Tiuron II. Grandes estandartes dos tairons decoravam sua imponente fachada. Ao longo das vastas om-breiras que circundavam a porta principal, encontravam-se inúmeros desenhos de grandes ícones do mais antigo dos clãs. Eram representações de alguns dos velhos larcons dos tempos heróicos. Este ambiente recheado de história desagradava Zairom, pois ele sabia que não fazia parte dela. Sentia-se deslocado, como um intruso em seus próprios domínios.

Quando chegaram à mansão, a noite já estava caindo. As ruas vazias lentamente se recheavam de sombras. A tempestade que se anunciara de forma tão retumbante horas antes, caía acanhada, na forma de esparso chuvisco. As crianças e Laicar saltaram primeiro. Estas foram levadas para dentro. Laicar, porém, não se alojaria na mansão dos filhos do fogo. Precisava resolver assuntos pessoais em outro ponto da cidade. Apressadamente, partiu andando, logo desaparecendo na escuridão que se intensificava. Zairom ficou se perguntando por que seu velho amigo estava agindo de forma tão misteriosa. Tentara por mais de uma vez descobrir que assunto era este que o trouxera a Naquicaron. Laicar, porém, mostrara-se arredio. Devia ser algo concernente a seu passado, ponderou o filho do fogo. Ficou, por uns momentos, pensativo, até que resolveu entrar. Foi quando uma voz o chamou:

— Mestre Zairom... Venha.

— Esta voz... Zoltari! — disse o senhor dos filhos do fogo ao se dirigir às sombras que o chamavam. Lá estava uma figura, indistinta, parcialmente oculta pela escuridão. Mas era Zoltari, sem dúvida. Zairom nunca deixaria de reconhecer a frieza daqueles olhos esbranquiçados que criavam um contraste tão curioso com as vestes negras do mago das sombras.

— Velho mestre, o senhor conseguiu averiguar minhas suspeitas?

— Sim. Depois de muito esforço, consegui. E elas estavam corretas! Ao que parece, aquela mensagem que me mostrou oito meses atrás tinha um significado muito próximo daquele que eu e o senhor temíamos.

— Então o Imperador me convocou aqui para essa baixeza!

— Precisamente. Não foi simples descobrir. O Larcon mantinha o mais absoluto sigilo sobre os seus preparativos. Cheguei a pensar que teria de sondar a mente do próprio soberano. Felizmente, não foi necessário. Um de seus assistentes o auxiliava nos preparativos e por meio dele tudo descobri!

— E os outros, já estão aqui?

— Todos já chegaram. E a maioria sabe muito pouco sobre os preparativos do Larcon. Talvez a única exceção seja o senhor da Terra da Pedra. Ele e grupos dentro do Círculo de Dicar vêm cooperando com o Imperador nessa questão...

— Entendo. Isso não me surpreende. Como sempre seus serviços foram de grande valia.

— Foi um prazer ajudá-lo! É sempre interessante realizar um trabalho desafiador como esse.

— Um trabalho que merece ser bem recompensado, sem dúvida! Poderá receber o pagamento adequado em Roblaion-Zain — disse Zairom ao mestre das sombras que, em seguida, desapareceu nas trevas.

Ao terminar o diálogo, o nobre mestre dos filhos do fogo se dirigiu à porta de sua morada. Ao entrar, observou o luxo do grande átrio central. Já se havia esquecido da ostentação que a residência de seu clã em Naquicaron oferecia. Cruzou então o luxuoso cômodo dirigindo-se para uma das duas escadarias que davam acesso ao segundo andar da mansão. No meio do seu trajeto, entretanto, ouviu um som de bebê. Era de seu filho Tairom, possivelmente. Dirigiu-se, então, para ver o que se passava. Assim que adentrou o cômodo, viu uma figura muito bem vestida, sentada numa cadeira, de costas para a porta. Tairom estava no seu colo. Zairom apressou-se em descobrir quem era. Tratava-se de um homem por volta dos trinta anos de idade, alto e de cabelos amarelados:

— O meu sobrinho é um belo representante de nossa raça — falou a estranha figura. — Com certeza, não saiu a você!

— Larcon! Não sabia que viria receber-nos pessoalmente! — espantou-se Zairom, temendo que o senhor da Terra das Sombras tivesse percebido o seu encontro com Zoltari.

— Ora, meu caro, pela forma com que você adiou essa viagem, era de se esperar a minha pressa, não concorda? E Liana, não quis vir?

— Não. Ao que parece, ela não está muito ansiosa por reencontrá-lo, Imperador.

— Eu a entendo perfeitamente, pois, sinceramente, o sentimento é recíproco. Infelizmente, eu e minha querida irmã temos velhas contrariedades que não somos capazes de resolver. Temo que nossas divergências sejam irreconciliáveis...

— Então, Larcon, agora aí está ele. Suponho que o objetivo de minha vinda já tenha sido atendido.

— Sem dúvida... Entretanto, devo pedir que vá amanhã à noite ao Palácio Imperial, quando se realizar uma comemoração para homenagear o meu sobrinho. O bebê não precisa ficar muito tempo, basta que apareça rapidamente, pois não quero cansá-lo demais.

— Muito bem, aceito o convite. Pretendo permanecer na cidade por cerca de dois sextos, de qualquer forma.

— Ele tem o cabelo cor de chamas como o meu pai — comentou o soberano, que observava atentamente o rosto do bebê. — Finalmente, minha inútil irmã fez algo de decente nesta vida!

— Prefiro que não fale de Liana dessa maneira, Larcon. Por mais que o senhor não goste dela, exijo que a respeite na minha presença!

— Exige? Sou o Larcon, falo como quiser e o que quiser a quem me aprouver — disse o soberano, sem alterar seu tom de voz e ensaiando um sorriso sarcástico. — É um dos privilégios da posição que ocupo, meu caro. Ademais, não sei por que se ofende tanto por uma mulher pela qual não sentia sequer simpatia antes do matrimônio! Não se esqueça de que o casamento de vocês foi uma questão puramente financeira, foi arranjado para resolver certos problemas...

— Problemas de seu pai de quem tanto fala, Zairon.

— Agora me trata pelo primeiro nome... Vejo que o trono dos filhos do fogo está fazendo um bem inestimável a sua auto-estima de plebeu.

— Agora é a mim que desrespeita. Vejo que me convocou à capital simplesmente para insultar a mim e à minha família!

— Apenas para isso? Não! Nunca cometeria uma infantilidade dessas. Mas vejo que se ofendeu, então, peço desculpas. Afinal, não vim aqui para discutir. Estou muito feliz por conhecer meu sobrinho e, por isso, proponho que deixemos nossas diferenças de lado... ao menos por enquanto, querido cunhado.

Zairom não respondeu.

— Bem, não vou tomar mais o seu tempo. Espero vocês amanhã à noite.

O Larcon fez menção de se retirar, mas deteve-se, pois parecia ter lembrado de um último detalhe.

— Já ia me esquecendo... Para evitar inconvenientes, peço que amanhã não leve o seu outro filho, o bastardo — falou. Zairom consumia-se de raiva ao ouvir essas palavras, mas não retrucou. Sua resposta viria mais tarde.

Na noite seguinte, a carruagem dos filhos do fogo cruzou a estrada que levava ao cume da Colina Nebulosa. Atravessou os grandes portões, nos quais havia dois imponentes guerreiros esculpidos na pedra. Uma enorme fila de tochas iluminava todo o caminho até o Palácio Imperial. A lua brilhava azul no céu, parcialmente ocultada pelas nuvens. Rapidamente a distância que os separava do cume foi vencida. A porta do palácio,

59

uma coluna de legionários os esperava enfileirados ao lado do tapete vermelho de praxe. O senhor dos filhos do fogo desceu acompanhado apenas de seu filho Tairom e de Sirat. Esta estava encarregada, como sempre, de cuidar da criança. Quanto a Rairom, ele não viera conforme requerido.

Cruzaram a porta principal do Grande Palácio que tinha a altura aproximada de cinco homens. A sua frente estava o suntuoso salão de festas, em formato retangular, já cheio de convidados. Toda a pequena nobreza de Naquicaron estava presente. A guarda imperial fora encarregada da segurança de tão ilustres personalidades. O Larcon se encontrava sentado em seu trono, que ficava justamente no lado oposto à entrada. Apesar da grande distância que havia entre um lado e outro do salão, o ladino soberano de pronto percebeu a chegada de seus convidados mais importantes. Por isso, levantou-se e, pedindo a atenção de todos, falou:

— Senhores, peço que me escutem, pois o grande momento por que estamos reunidos hoje chegou! Abram passagem para meu sobrinho Tairom e seu pai, o senhor dos filhos do fogo!

A multidão abriu passagem para que Zairom, carregando o seu filho nos braços, atravessasse o salão de festas, com o fito de levar o menino até o Larcon. Ao chegar próximo do trono, o filho do fogo curvou-se, como mandava o cerimonial, e igualmente cerimonioso agradeceu o convite, apresentando, em seguida, Tairom ao Larcon. Após fazê-lo, Zairon pediu que levasse o sobrinho até o trono. Ao colocá-lo sentado ao lado do Larcon, este ironicamente comentou: — Estou com um bom pressentimento, meu caro amigo. Algo me diz que esta noite vai ser especial.

— Curioso, Larcon, eu sinto a mesma coisa — disse Zairom, ao afastar-se do trono.

De pé, e dirigindo-se, então, a todos os presentes, o líder do grande Império do sul discursou:

— Meus amigos, nós estamos hoje aqui reunidos para celebrar o mais importante valor de nosso povo. Para alguns este valor é o poder, para outros a conquista, ainda para outros nosso império se assenta no prazer das batalhas. Mas eu estou convicto de que todos eles estão equivocados, pois o que vêem como valor, na verdade, nada mais é do que o meio para que se atinja um fim que é a construção de uma grande civilização. Quando lutamos é este fim que almejamos. Da mesma forma, se queremos poder é para construir um grande império, uma grande pátria. Por isso, meus amigos, o verdadeiro valor de nosso Império é o futuro. Mas o futuro não é um valor, diriam alguns. Tolos são eles que não vêem um valor no grande motor que nos move. Não é verdade que quando aqui chegamos, nada havia a não ser pó? Mas nós construímos nossas cidades, expandimos nossos domínios, e sempre queremos mais, porque o que nós queremos é o futuro. É por ele que lutamos. Mas o que é o futuro? Ele está aqui ao meu lado — disse o Larcon, ao apontar para o sobrinho. — É a nova geração dos filhos da Terra das Sombras, que viverá e morrerá pelas suas crenças, que nada temerá senão o medo, que conquistará pela força de seus corações. Eis o que viemos celebrar aqui hoje, meus amigos: o futuro. Enquanto acreditarmos nele, enquanto lutarmos por ele, nosso Império será eterno! — seguiu-se uma pausa. O soberano, então, completou: — Mas chega de silêncio, como disse, esta é uma comemoração. Música!

Após uma salva de palmas, a música recomeçou a tocar e os convidados, a dançar. Os dons de orador do Larcon eram inquestionáveis. Zairom, alheio a tudo isso, procurava um velho amigo no meio daquela multidão. Estava difícil encontrá-lo. Também não conseguira avistar nenhum dos outros... Será que Zoltari se enganara? Não era possível, nunca havia falhado antes. Não tinha outra alternativa senão esperar. De súbito, no meio do grande salão uma moça de cabelos castanhos o abordou.

— Mestre Zairom, não está me reconhecendo? — indagou ela.

— Estou. Você é...

— Não está. Também já faz algum tempo e eu mudei muito. Eu sou a filha de Quiarom.

— Mas claro! Sarian, desculpe-me, é que você cresceu muito desde a última vez que eu a vi. Com quantos anos você está?

— Dezessete.

— Mas já! E como estão as coisas em Lor-Zainan?

— Aquela cidade continua a mesma. Nunca terá o refinamento de Naquicaron.

— Mas com certeza é muito mais acolhedora do que este ninho de serpentes, não acha?

— Sem dúvida!

— Estou muito feliz em ver você, Sarian. Seu pai está aqui?

— Está.

— Mas onde?

— Não está no salão de festas. Não sei onde ele foi parar... Estou certa que se encontra no Palácio porque viemos juntos.

— Entendo.

— Ele me pediu para lhe dar um recado. Eu não entendi muito bem, mas é algo assim: "as coisas não estão muito fáceis, mas devemos seguir o combinado". Mais ou menos isso, eu acho.

— Certo, Sarian. Obrigado pela mensagem.

— De nada. Até mais tarde — disse a garota, ao se afastar. Depois de cerca de meia hora, Tairom foi levado por Sirat a um dos aposentos do palácio. A festa, então, transcorreu tranqüilamente. A diversão dos demais não se estendia a Zairom. Para ele, cada momento era uma tortura. Sua ansiedade era indisfarçável. Quando a festa já estava acabando, ele percebeu que o Larcon se retirara. Concluiu que era chegada a hora de agir. Dirigiu-se até a porta que ficava ao lado do trono. Quando dela se aproximava, um legionário o abordou: — Procurando o Larcon, Zairom?

— General Daron! Vejo que todas as serpentes mais venenosas do Império estão aqui hoje. Suponho que devia ter trazido alguma espécie de antídoto.

— Muito engraçado. É bom saber que mantém o senso de humor mesmo ante as circunstâncias.

— Que circunstâncias?

— Pode bancar o tolo para o idiota do Zairon, mas não para mim. Você sempre foi o mais ardiloso de todos nós durante os anos de Academia.

— Interessante a forma com que se refere a seus superiores, Daron.

— Chega de tolices! O Larcon me pediu para levá-lo até ele. Se realmente não sabe qual o real motivo de sua vinda até aqui, logo tudo será revelado.

— Ah! Já não era sem tempo. Vamos, então — disse o filho do fogo tentando fazer transparecer uma segurança que não possuía.

A seguir, ambos transpuseram a porta da qual Zairom se aproximara. Um longo corredor estava a sua frente. A passos rápidos o cruzaram. O corredor, como todo o Palácio, era belamente decorado. Em ambas as paredes, de tom acinzentado, havia quadros com o retrato de antigos imperadores e cenas lembrando as grandes batalhas do Império durante a Primeira e Segunda Eras de Larcon. Ao seu fim, encontrava-se uma longa escadaria. Começaram a subir os intermináveis lances de escada. Daron na metade do longo caminho já ofe-gava. Por isso Zairom, que ainda quase não se desgastara, comentou:

— Sua forma já não é das melhores, Daron.

— Cale a boca, e vamos logo.

— Pelo menos, continua tão educado quanto sempre foi. Finalmente venceram a subida, para o alívio de Daron.

No topo das escadas havia um salão com os símbolos dos clãs da Terra das Sombras gravados em ouro maciço nas paredes amareladas. Daron procurou uma poltrona e sentou-se, pois estava exausto.

— Muito bem — disse ele —, daqui para frente deve ir sozinho. Atravesse aquela porta — falou o general, apontando um portal mais ou menos com o dobro da altura de Zairom. Era guardado por duas sentinelas. O filho do fogo dirigiu-se ao portal, que se abriu aparentemente sozinho com a sua aproximação. À frente, havia outro corredor que parecia ser tão grande quanto o anterior.

Zairom, que nunca tinha estado nesta ala do palácio, teve medo de se perder. Mas não havia como, pois conforme andava observou que só havia uma saída: outro portal semelhante àquele por onde entrara. Quando as portas se abriram, um imenso salão oval estava a sua frente. Era bem iluminado, embora não se pudesse perceber a presença de tochas. Como tudo no Palácio Imperial, era enorme. Estátuas gigantes de mármore decoravam toda a extensão das paredes: imperadores, magos, figuras de lendas. No centro, estava uma mesa redonda, toda de ouro e prata, que chamou sua atenção. O Larcon estava sentado próximo à mesa, na cadeira a ele reservada. Entretanto, o soberano parecia estar alheio a sua presença, pois sequer desviou o olhar para fitá-lo. Ao contrário, permaneceu estático como se fosse uma das estátuas que decoravam a sala.

Por isso, Zairom começou a andar lentamente em direção à mesa. Olhou para cima e viu uma abóbada que envolvia todo o teto da dependência. Era de cristal semitransparente, podendo-se ver através dela as nuvens e as estrelas. Aproximou-se lentamente. O Larcon estava sério. Ainda sem desviar o olhar, ele saudou o senhor dos filhos do fogo:

— Bem-vindo ao coração do Império das Sombras, Zairom.

— Então esta é a sala do Conselho de Escaelos.

— Tome o seu lugar nela, senhor dos filhos do fogo.

Zairom observou que cada uma das cadeiras tinha gravado o símbolo de um dos clãs. Existiam ao todo sete, sendo uma reservada ao Larcon e outras seis aos demais nobres. A cadeira reservada ao filho do fogo estava, mais ou menos, no lado oposto à do Larcon.

— Sente-se! — insistiu Zairon.

— Muito bem — assentiu, assumindo o seu lugar.

— Por que me trouxe aqui, Larcon?

O soberano permaneceu em silêncio. Após alguns instantes fez um gesto. Zairom, neste momento, percebeu que, além da porta por onde entrara, havia outras seis. Com o gesto do Larcon, uma delas se abrira, dando passagem a um homem. Não foi difícil para Zairom identificá-lo. Era o velho amigo de seu pai e senhor da Terra da Água, Quiarom Zangalast. Muitas vezes o havia visto durante todo o tempo que morou em Lor-Zainan e mesmo depois quando se mudou para Roblaion-Zain, pois não raras vezes ia visitar sua mãe na grande cidade do norte. Quiarom tinha então cinqüenta e dois anos de idade e os sinais da velhice já começavam a se fazer presentes. Era um pouco mais baixo que Zairom, e obeso também. Tinha uma longa barba, mas era calvo. Aproximou-se da mesa. Parecia partilhar do ar circunspecto do Larcon. Não tardou a assumir o lugar reservado ao seu clã, ao lado esquerdo dos filhos do fogo. Zairom pretendia saudá-lo, mas com um olhar seu amigo o dissuadiu. Permaneceu, assim, em silêncio.

A seguir outra porta se abriu. Novamente outro líder de clã por ela penetrou o salão. Era um homem mais velho que Quiarom. Tinha mais de sessenta anos. Ostentava uma armadura de batalha reservada aos generais. Aproximou-se da mesa e assumiu o lugar, à esquerda de Zairom, reservado aos filhos do tempo, o clã de Laicar, com sede em Nogat-Zainan. A seguir, se fez presente não um homem, mas uma mulher. Parecia possuir por volta de quarenta e cinco anos. Esta, Zairom conhecia bem, pois de certa forma a admirava. Darian Linriarod era a senhora de uma das mais prósperas regiões do Império. Com suas enormes fazendas, este feudo da Terra das Sombras negociava seus variados produtos (dos mais rústicos aos mais refinados) por todo o Império e além. Era a Terra do Aço, cujo nome há bem mais de mil anos aquela região não fazia mais jus. É que ainda na época de Larcon era o lar de guerreiros que ousaram enfrentá-lo. Mas já no ano cento e quarenta da Primeira Era, havia sido integrada ao então nascente Império. Sentou-se ao lado de Quiarom.

Faltavam ainda outros dois nobres para que a mesa se fizesse completa. O primeiro deles era tão jovem quanto Zairom. Não era muito alto. Seus cabelos escuros, túnica negra e seus olhos que exalavam falsidade e dissimulação faziam dele uma figura sombria. Rapidamente, como ansiando pelo que se seguiria, assumiu seu lugar (o reservado aos filhos da pedra), ao lado do velho general. Antes mesmo que se sentasse, o último dos nobres entrou na sala. Como Quiarom, tinha mais de sessenta anos, mas, ao contrário do senhor dos filhos da água, era esbelto e possuía uma longa barba grisalha. Usava a vestimenta reservada aos magos da Terra do Vento, o lendário domínio na região nordeste do Império. Estas terras foram o palco de inúmeras batalhas na Primeira Era de Larcon e na época dos fatos ora narrados eram o lar dos maiores estudiosos do que se convencionou chamar de artes místicas. Sentou-se ao lado do nobre com túnica negra e foi para todos possível perceber a animosidade existente entre ambos. Assim que o velho senhor assumiu o seu lugar, o Larcon quebrou o longo silêncio:

— Bem-vindos, mestres do Império, senhores das seis grandes casas! Presumo que todos desejam saber por que foram convocados a Naquicaron. Serei o mais breve possível. Primeiro, porém, devo iniciar com uma afirmação e uma indagação. A afirmação é a seguinte: no feudo imperial tem se observado um alarmante incremento do número de revoltas de escravos que se têm tornado mais organizadas e concatenadas. A indagação que desejo fazer-lhes é a seguinte: nos domínios dos nobres, este fenômeno também tem se feito presente? O que me diz Cruon Fanor? — indagou o Larcon à figura de túnica negra que sentava no trono dos filhos da pedra.

— Infelizmente sim, grande soberano! É inegável que no último ano os mineiros, principalmente os originários de Algar, têm se mostrado mais arredios do que nunca. Pode-se ver que estão organizados e são liderados por alguém desconhecido.

— Darian, o que você me diz? — indagou o Larcon.

— É bem verdade que o número de revoltas tem sido elevado. Entretanto, não sei se posso associá-lo diretamente aos alguianos ou mesmo ao período recente de um ano.

— No entanto, sua resposta à minha pergunta é positiva. Vejamos o que o general Tionar Norbest nos pode dizer sobre seus domínios — falou o soberano. Podia-se observar a sua crescente empolgação.

— Bem, eu não sei... Não sei o que dizer... Como sabe Vossa Majestade, meu filho tem se encarregado diretamente dos assuntos administrativos.

— Mas o senhor não sabe nada da administração de suas terras?

— Sou um velho e cansado general, Larcon. Mas posso dizer o seguinte... — uma pausa se seguiu, o general parecia se esforçar para não parecer ridículo perante seus pares — eu tenho ouvido comentários a respeito de revoltas de escravos em meus domínios. Além disso, minha experiência com os alguianos mostra que não se pode confiar em nenhum deles. São terríveis guerreiros, apesar de sua fraqueza aparente. Todo cuidado é pouco ao se lidar com eles!

— Palavras sábias de um herói do Império.

Zairom, que até então ouvia a tudo em silêncio, não pôde mais se conter:

— Aonde está querendo chegar com essa história, Larcon?

— Zairom Guenor, vejo que não consegue esperar a sua vez. Muito bem, por que não nos conta como estão as coisas nas terras de meu pai?

— Quer dizer, nas minhas terras... Nada de excepcional tem ocorrido.

— O quê? Quer dizer que não tem havido revoltas em seus domínios? Nenhuma?

— Pouquíssimas, para ser exato. Nada de alarmante.

— Entendo... Por que não ouvimos os outros?

— Chega dessa tolice, Larcon. Diga logo aonde está querendo chegar! — disse Zairom impaciente.

— Você teve sua chance de se pronunciar. Sei que nunca participou de uma reunião do Conselho, mas aqui todos têm a oportunidade de se manifestar. Quiarom e Diom, em virtude da pressa de nosso amigo, serei o mais direto possível. Tem havido revoltas em seus domínios?

Ambos entreolharam-se e, depois de hesitar um pouco, assentiram com a cabeça.

— Muito bem — disse o soberano —, minhas suspeitas se confirmam ante o que me disseram. Como sabem, o Conselho de Escaelos só se reúne de seis em seis anos. Entretanto, eu chamei todos aqui para esta reunião extraordinária porque um grande perigo está sobre nós, talvez o maior perigo já enfrentado desde a invasão do Império Ciliano! Os últimos relatórios que recebi fizeram com que eu decidisse chamar vocês todos, ainda esta noite, para que discutíssemos este importante problema. Como uma doença, esta crise tem seus sintomas. O principal deles é o crescente número de revoltas de escravos em todo o Império. Na verdade, tais revoltas, ao que tudo indica, não são meras insurreições desconexas. Ao contrário, parecem estar concatenadas, como se estivessem sendo coordenadas por alguma liderança oculta.

— Quem é esta liderança, Larcon? — indagou o general.

— Acreditamos que pode haver pessoas mesmo dentro do Império que estejam colaborando com os conspiradores. Entretanto, suas origens parecem ser essencialmente externas. Ao que tudo indica, caros senhores, a ameaça vem do reino continental de Delânia. Pretendem em primeiro lugar conquistar os territórios continentais sob nosso domínio e em segundo plano, se possível, desestruturar-nos a tal ponto que se torne viável destruir o Império. As revoltas, como todos aqui já devem ter percebido, desempenham um papel central nesta tentativa de desestabilização.

— Se me permite a interrupção, Larcon — falou Quiarom —, o que o levou a esta curiosa associação?

— Excelente pergunta, caro filho da água! Em primeiro lugar, a ninguém é lícito ignorar a antiga aliança existente entre Algar e Delânia. Pode-se afirmar que têm ambos os povos a mesma origem ancestral. Em segundo lugar, meus embaixadores me reportaram um crescimento das resistências às nossas iniciativas diplomáticas entre os povos continentais. Entre tais resistências cabe a nós destacar a recusa do Império Médio em assinar conosco uma aliança de cooperação permanente em termos militares e comerciais. Eles, que sempre foram cordiais conosco, mudaram de atitude. Sem dúvida devem ter uma razão para isso. Eu digo a vocês, a razão é esta: não nos temem mais, pois sabem da conspiração e esperam ansiosos pelo seu sucesso, sonhando com a possibilidade de aumentar seu território.

— Suas colocações são no mínimo interessantes, Larcon — afirmou Diom Silai. — Se me permite perguntar, quais as providências adequadas para enfrentar esta crise?

— Duas atitudes drásticas são indispensáveis, filho do vento — afirmou o soberano, estranhando o repentino silêncio de Zairom. — A primeira delas é remover o excesso de escravos. A proporção hoje na Terra das Sombras é de sete escravos para cada homem livre. Esta proporção, inédita em nossa história, deve forçosamente ser reduzida para, no máximo, três para um. A segunda é lançarmos um ataque maciço sobre Delânia, anexando esta região ao nosso território, o que nos garantirá a hegemonia permanente sobre a Península Oreânica.

— Larcon, o que exatamente o senhor quer dizer quando fala em remoção dos escravos? — perguntou a líder dos filhos do aço, temendo pela resposta.

— Pensei que já tivesse sido suficientemente claro. Devemos sacrificá-los, exterminá-los, para o que utilizaremos as legiões imperiais. Com seu número diminuído, não representarão a mesma ameaça de agora. É claro que, para não prejudicar a realização dos serviços desempenhados pelos escravos, poderemos escolher metade daqueles que devem ser mortos entre os mais descartáveis, ou seja, entre os velhos, mulheres e crianças. É claro também, caros senhores, que discutiremos formas de indenizar os proprietários. Poderíamos, por exemplo, destinar os proventos da pilhagem de Delânia para esse fim...

A surpresa parecia ser geral entre os presentes, por isso Zairon ponderou: — Sei que as medidas são drásticas, mas eu lhes garanto que são necessárias e urgentes!

Uma longa gargalhada se seguiu. Ela vinha de Zairom. Zairon levantou-se furioso: — O que significa isso? Como ousa rir ante a seriedade da questão que está sendo abordada?

— Ora, Larcon, estou rindo de você! — disse Zairom, tornando a explodir em risos. Os outros nobres pareciam perplexos com aquela cena inesperada. — Proponho que este Conselho atribua-lhe o título de Zairon, o carniceiro louco.

— Ora, seu... como ousa. Vou mandar matá-lo!

— Viu o que eu disse? — disse Zairom, assumindo uma expressão séria. — Agora chega de brincadeiras — continuou o filho do fogo. — Suas loucas ilações ofendem a dignidade deste Conselho, Zairon.

— Silêncio! Não autorizo que abra mais a sua boca, alguiano imundo!

— Todos têm o direito de se manifestar, Larcon, como o senhor mesmo disse — argumentou Quiarom. — Estou interessado em ouvir o que ele tem a dizer.

— Muito bem — disse o Larcon, ao assumir uma aparência mais calma, enquanto se sentava de novo em sua cadeira. — Mas eu advirto a todos os nobres aqui presentes que este homem é um traidor do Império a serviço da conspiração, o que todos perceberão, aliás, nas entrelinhas de suas palavras.

— Já que consegui a atenção de todos — disse Zairom levantando-se da cadeira —, exporei meu ponto de vista e, da mesma forma que o Larcon, tentarei ser o mais breve possível. O nosso soberano nos trouxe aqui hoje para falar de uma conspiração que não existe. Não nos apresentou nenhuma evidência de que os povos do continente estejam pensando em invadir nossos territórios de além-mar e muito menos a Terra das Sombras. Não temos nada a temer deles. Pelo menos, não podemos iniciar uma guerra baseados apenas em suposições infundadas...

— E por que não — interrompeu Fanor —, se o que está em jogo é a nossa segurança e talvez até mesmo a nossa própria sobrevivência?

— Desconsiderando o tom dramático de suas palavras, meu amigo, eu lhe diria o seguinte: não é lógico fazê-lo em face do preço que uma guerra como esta custa. Nenhum de nós se esqueceu dos terríveis custos da guerra contra Algar. Tivemos de transportar metade de todas as nossas legiões para o continente. Só este gasto inicial foi astronômico. Depois, no decorrer da guerra, as perdas militares e os custos operacionais levaram muitos nobres à falência. O mais notório exemplo é o falecido Tairon Norgat, pai do nosso Larcon. E Algar, isto não há como discutir, não era um reino tão forte quanto Delânia. Assim, meu caro amigo, nós poderemos até vencer a guerra, mas, com certeza, isto nos arruinaria em termos financeiros. A pergunta que eu lhes faço é a seguinte: estamos dispostos a pagar esse preço, baseados apenas em suposições tolas e sem qualquer fundamento?

— Traidor — trovejou o Imperador —, o fundamento de minhas suposições são as revoltas de escravos que curiosamente ocorrem em todas as regiões do Império menos na sua! Eu pergunto a vocês, meus caros nobres, isso não é um indício forte o suficiente? Além disso, ainda há a mudança de atitude dos covardes do Império Médio. Vocês não conseguem ver que eles não mudariam de postura sem motivo? Precisaremos esperar até que nossas cidades estejam em ruínas, para então reagir? Mas aí será tarde demais! É nosso dever sagrado defender a Terra das Sombras! É para isso que este Conselho existe! O traidor alguiano não tem revoltas nas terras dele porque ele deve ser um dos organizadores da conspiração, vocês não percebem? Ele é um traidor!

— Caros governantes da Terra das Sombras — continuou Zairom, mantendo a paciência —, eu ainda não terminei. O problema da revolta dos escravos é real. Mas a causa apontada não é Esta, meus amigos, eu posso garantir com toda certeza, é a infame situação em que os escravos se encontram e sem dúvida também o seu grande número. Somos uma ilha cheia de escravos. É preciso saber o que fazer com eles. Exterminá-los, porém, não é a atitude mais acertada porque isso causaria um ódio muito maior nos que restassem. Não duvido que a maior parte dos homens, após ver suas famílias e filhos morrerem nas mãos das legiões, não em situação de guerra, mas brutalmente assassinados, prefeririam morrer a continuar nesta ultrajante situação. Será impossível controlá-los. Em conseqüência, devemos pensar em outra solução.

— E que solução seria esta? — perguntou Darian Linriarod.

— Eu tenho pensado dia e noite a respeito, minha cara senhora. Em minhas reflexões, percebi que há muito mais escravos do que é necessário para manter minha propriedade. Ao mesmo tempo, notei que há enormes regiões dentro dos meus domínios e fora deles sem a menor serventia. O que dizer das terras inabitadas na Região das Fai-Lan e no Deserto de Pedra, que representam quase a metade desta grande ilha? Percebi também que é necessário, para que os cativos não fujam, fazer enormes despesas com segurança, sem falar nos gastos com a alimentação dos escravos. Creio que esta situação se repete na maior parte das regiões do Império. Ponderando todos esses fatores, concluí que seria muito mais viável, em termos financeiros, libertar os escravos e manter um número menor e suficiente de trabalhadores assalariados. Os gastos seriam minorados e não haveria mais revoltas.

— Viram? — interrompeu Fanor. — O Larcon estava certo! Ele é um traidor, quer acabar com a escravidão!

— Eu não disse isso — respondeu Zairom, sentando-se novamente. — Só afirmei que esta seria uma boa solução para mim. Afinal, já estou acostumado a trabalhar com mão-de-obra paga na minha atividade comercial. A escravidão apresenta muitos inconvenientes, como estes que eu acabei de citar.

— Suas considerações — comentou Darian — são perturbadoras, Zairom Guenor. Mas também são interessantes. Uma questão, porém, fica em aberto: o que fazer com os libertos que não puderem ou não quiserem permanecer como mão-de-obra assalariada?

— Isto eu posso responder — disse Quiarom —, pois tenho discutido o assunto da escravidão longamente com o senhor dos filhos do fogo. Poderíamos permitir que parte deles, os que forem alguianos, voltem para as ruínas de Algar e reconstruam a cidade. Ter uma cidade sob o nosso domínio é melhor do que ter apenas ruínas. Ao mesmo tempo, desafogaríamos a Terra das Sombras e desarmaríamos o espírito dos que ficassem. Quanto aos demais libertos, poderíamos criar novas colônias nas áreas não aproveitadas dos nossos territórios ou nas terras desabitadas que Zairom mencionou.

— Isso é um absurdo — argumentou o Larcon. — O próximo passo será conceder-lhes o Trono da Terra das Sombras!

— Senhores das grandes casas — interrompeu Diom Silai —, nós estamos nos perdendo em discussões paralelas e em acusações que não constituem o objeto de nossas deliberações aqui hoje. É preciso ponderação, senão nunca chegaremos a qualquer conclusão, quanto mais à conclusão acertada! Zairom, você nos explicou uma causa provável para o aumento

do número de insurreições, qual seja, o grande número de escravos. É um raciocínio plausível visto que, como no começo de nossas discussões já disse a senhora dos filhos do aço, apesar de numerosas, as revoltas nos meus domínios não são assunto recente e também não parecem estar diretamente relacionadas aos alguianos.

Após uma breve pausa continuou, o velho nobre, com a isenção que os magos das Montanhas do Vento gostavam de aparentar possuir:

— Devo, porém, concordar com o Imperador em outro ponto não explicado aqui hoje. Sou conhecedor dos governantes do Império Médio. O atual imperador estudou na escola em que ensinamos nossa arte. Sei que são pessoas orgulhosas, mas sobretudo são guiadas pelo interesse e também pelo medo. Se cooperaram com o Império na guerra contra Algar, foi acima de tudo porque nos temiam. Se nos temiam naquela época, com muito mais razão deveriam temer-nos agora que somos mais fortes. No entanto, mudam sua atitude em relação ao Império, recusando-se a celebrar uma aliança que, em outros tempos, seria uma de suas maiores prioridades. Uma mudança de atitude como essa, convenhamos, deve estar embasada em algum fato muito concreto.

Ao terminar suas ponderações todos os nobres, inclusive Zairom, assentiram com a cabeça. O Imperador eufórico completou:

— Mas é isso que eu estou tentando desesperadamente mostrar a vocês esta noite! Finalmente vejo que entenderam. Podemos então deixar as discussões de lado e passar à votação.

— Espere! — disse Zairom.

— Silêncio, o tempo da discussão já passou. Poderá manifestar sua opinião no voto.

— É desta aliança que estão falando? — indagou o filho do fogo ao jogar um papel sobre a mesa.

— Que truque é esse? — gritou o Imperador.

— Ora, Zairon, você melhor do que ninguém sabe a razão pela qual eles estavam opondo uma leve resistência à assinatura deste acordo. Por que estava tentando esconder isso dos nobres?

— Eu não estava escondendo nada! Isso é um truque! Vocês não percebem? São todos cegos?

— O documento é autêntico. Recebi-o dois dias antes da minha partida para Naquicaron.

— Explique-se, Zairom — falou Diom.

— Estava desconfiado das atitudes de Zairon. Chamar-me aqui com tanta urgência, sob o pretexto do nascimento de meu filho, era realmente muito estranho, especialmente partindo de quem partia. Não é segredo que nosso Larcon nunca foi do tipo sentimental. Conhecendo-o como eu o conheço, pois como todos sabem freqüentamos juntos a Academia Imperial, adiei ao máximo a minha vinda, pois concluí que deveria ser algo sério. Não conseguia, porém, descobrir ao certo qual era o plano de Zairon, até que um dia me lembrei de que ele sempre defendeu, quando jovem, a necessidade de se anexar os territórios peninsulares ao Império das Sombras. Era só uma hipótese, mas tudo parecia encaixar-se. Escrevi então para Quiarom Zangalast a fim de que ele utilizasse seus contatos no continente.

— Daqui para frente eu continuo — interrompeu Quiarom. — A princípio julguei que Zairom estava equivocado. Entretanto, pelo apreço que tenho por ele e por seu falecido pai, não lhe poderia negar o favor. Enviei, então, através de um de meus serviçais, uma mensagem a um velho amigo meu, que é diplomata do Império em Jar-li. Expliquei-lhe, na mensagem, sumariamente a questão e pedi-lhe que, se houvesse algo de suspeito, ele não só me reportasse mas, também, tentasse solucionar a situação, para o que eu lhe emprestava todo o peso da minha autoridade, afinal boa parte das terras continentais estão sob o mandato dos filhos da água. Após dois meses eu recebi a resposta. O que para mim seria imperceptível, para ele era claro como água cristalina. Segundo meu velho amigo, um foco de tensão irracional estava sendo criado entre o Império Médio e a Terra das Sombras. Estávamos protelando a entrega de terras há muito prometidas.

— Em outras palavras — continuou Zairom —, o Império estava se recusando a entregar a cidade de Algarian-naqui. Como todos sabem, em troca do apoio do Império Médio, o velho Larcon, Naogon Lamir-Vonin Linriarod, havia prometido entregá-la aos nossos aliados.

— Como relatou o diplomata — continuou Quiarom —, não parecia haver qualquer motivo estratégico para que não cumpríssemos nossa parte do acordo, mesmo passados tantos anos, a não ser se visássemos criar um foco de tensão. Sequer tínhamos tropas na região. Mesmo assim o Império Médio não ousaria entrar na cidade sem nossa autorização. Desta forma, meus amigos, na verdade nossos antigos aliados não estavam propriamente se recusando a assinar o acordo conosco. Apenas condicionavam este ato à entrega de Algarian-naqui. O embaixador, então, mostrando a carta de amplos poderes que eu lhe havia passado, viajou até Galocar Antaniom e autorizou o Império Médio a ocupar a tão cobiçada cidade em troca da aliança. Afinal, tais terras, formalmente, pertenciam aos filhos da água e eu poderia delas dispor.

— Basta de mentiras — interrompeu o Larcon —, já perdemos tempo demais discutindo. Vamos votar! O alguiano e eu não precisamos, pois já defendemos nossas posições à exaustão.

— Nesse caso, eu começo — disse Fanor. — Para mim está claro que as suspeitas do Larcon são no mínimo fundadas. O meu voto é para que executemos seu plano assim como ele elaborou.

— Isso é ridículo! — falou Quiarom. — Meu voto é para que esqueçamos as propostas do nosso Imperador. Afinal, ficou demonstrado aqui hoje que são insustentáveis! Qualquer homem de boa-fé notaria isso!

—Você tem toda razão, velho amigo — continuou Diom. — Não há como votar de outro jeito, se pretendermos ser isentos.

— Eu ainda não perdi! — brandiu o Larcon. — Velho general, como será o seu voto?

O general estava alheio à discussão. Parecia mesmo estar cochilando e quando o Larcon chamou seu nome acordou assustado.

— Meu voto, meu voto... — balbuciou — obviamente...

— Sim... — disse o Larcon lançando-lhe um olhar penetrante.

— A favor do Larcon, obviamente!

Uma gargalhada do soberano se seguiu. Depois, completou:

— Parece que seu esforço acabará sendo em vão, Zairom!

— Não, não foi — discordou a senhora dos filhos do aço.

— Darian — advertiu o Larcon —, pense bem no que você vai dizer.

— Lamento, Larcon, meu voto é contrário a seu plano. Um silêncio mortal se seguiu. O Larcon parecia atônito.

Não esperava, nem se conformava com esse desfecho. Desesperado, o soberano fez uma última tentativa, agora abrindo mão das mentiras que sustentara:

— Eu não acredito no que está acontecendo. Vocês não percebem a tolice que estão cometendo? Se não continuarmos lutando, apodreceremos e morreremos! A guerra é o que nos mantém vivos! É o que faz nossa prosperidade. Se não os atacarmos hoje, se não subjugarmos os fracos agora, nós é que estaremos sendo fracos e no futuro pagaremos o preço de nossa falta de coragem! Precisamos de um motivo maior do que esse para lutar? Por Naquicar, vocês esqueceram de tudo sobre o que nosso Império se assenta? Deixam-se influenciar por este estrangeiro, descendente de povos fracos! Dele eu posso entender os pensamentos mesquinhos, os sentimentos patéticos como a misericórdia pelos escravos, mas de vocês? Que decepção! Vocês não percebem que a escravidão não é mais do que o merecido preço que pagam pela própria fraqueza? Se nós tivéssemos sido derrotados, nós é que seríamos os escravos. Se eu menti, o fiz pelo nosso futuro. Ao menos eu estou do nosso lado. Vocês acham que este alguiano está? Se ele pudesse nos destruiria. Reconsiderem, eu lhes imploro, pelo futuro de nosso povo reconsiderem agora!

Os nobres entreolharam-se e nada disseram. Começaram a sair do recinto até que ficaram apenas Zairon e Zairom. O Larcon, bastante alterado, vociferou:

— Eu vou me vingar por isso, Zairom! Não importa quanto tempo leve, você ainda vai me pagar por estragar meus planos!

O filho do fogo ficou por alguns momentos observando o seu inimigo. Em seguida, afirmou:

— Tenho pena de você. Você representa um passado mais distante do que imagina, cujo agonizante fim foi a guerra de Algar. Está tão preso a esse passado de lutas que não consegue perceber o novo e grandioso futuro desse Império, o qual virá sem que seja necessário enrubescer a terra e a água dos rios com o sangue de gente inocente — disse o filho do fogo. Depois, retirou-se da sala.

O Larcon, sozinho, parecia em estado de choque. Com certeza, havia planejado por muitos anos aquela guerra. No momento final, porém, tudo fora perdido. Sem o apoio do Conselho de Nobres não teria nem dinheiro nem homens suficientes para sustentar o conflito. Parecia o fim dos planos do senhor da Terra das Sombras, ao menos por ora.

 

                               O enigma do sonho

O destino, ao contrário do que pensam alguns, é apenas uma estrada traçada. O indivíduo a segue ou não. Ninguém é obrigado a seguir seu destino, o qual nem sempre é fácil ou livre de riscos. Aqueles que fogem dele, porém, ouçam o que eu digo: ai de vocês que sofrerão terrivelmente durante sua existência, magoados consigo mesmos. Para o escolhido esta verdade também se aplica, só que de forma mais intensa. Desde os primeiros dias de nascimento a escolha já está feita e o destino, traçado. Marcada está, com ferro em brasa, a alma do escolhido. Entretanto, o que o seu eu inconsciente já sabe o seu consciente ignora. No devido tempo, conhecerá a verdade, que emergirá aos poucos. O que fará com o seu destino, cabe ao escolhido optar. Poderá fugir dele ou poderá enfrentá-lo. Essa escolha, que sempre é dolorosa, determinará o curso de sua existência. (Pergaminhos de Dinaer — Tomo II — Das Explicações e Conselhos)

Curiosamente, para alguns o tempo passa vagaroso, enquanto que, para outros, passa rapidamente. Rairom se incluía entre estes últimos. Por isso, os doze anos que se seguiram passaram como o vento, imperceptíveis. Não que nada neles tivesse ocorrido. Foram anos cheios de transformações. Zairom implementou grandes reformas em seus domínios. Libertou os escravos e criou novos focos de colonização nas planícies do sul. Sua região era próspera, sua riqueza cada vez maior era fonte de admiração e (como não poderia deixar de ser) de inveja por todo o grande Império e além.

Seguindo a trilha iniciada por seu pai, Zairom fundou uma nova cidade, que serviria de entreposto para as caravanas na região erma, conhecida como Irram Fanor — o Deserto de Pedra. Esta iniciativa, criticada por muitos céticos, rendeu mais frutos do que se poderia imaginar, pois ocasionou o incremento do comércio entre a Terra da Água e a Terra do Fogo. Um número cada vez maior de Caravanas passava agora pelo entreposto de Zairom, surgindo verdadeiramente uma nova cidade que, em poucos anos, já se assemelhava a Roblaion-Zain, muito embora ainda não fosse tão grande quanto ela. Muitos alguianos, entre eles o cocheiro Jonorat, retornaram a Algar e começaram o lento processo de reconstrução da cidade. Outros, porém, permaneceram. Nesse grupo se encontravam muitos dos mais jovens, que, afinal, pouco tinham conhecido da velha cidade continental de que seus pais tanto falavam. A Terra do Fogo, que fora seu cativeiro, tornara-se o seu lar.

Para Rairom também os anos não tinham passado inutilmente. Dedicara-se, em grande parte neste período, aos estudos de artes "místicas", e agora se orgulhava de já conseguir utilizar alguns "feitiços" sozinho (mesmo que nem sempre os resultados saíssem como programado). Crescera e se tornara um rapaz de dezesseis anos. De certa forma, lembrava o pai, mas principalmente a mãe. Era moreno e de olhos castanhos, o que o diferenciava dos filhos do fogo, que geralmente eram bem mais claros. Tinha quase a altura de Zairom, o qual por sua vez sempre foi considerado alto (mesmo entre os filhos do fogo). Pode-se dizer que teve uma infância normal. Nunca foi discriminado ou maltratado por Liana, que afinal mostrou ter um bom coração. Tratou-o como se seu filho fosse. Rairom sabia que ela não era sua mãe, entretanto pouco conhecia de seu próprio passado. Sempre que abordava o assunto com o pai, este se limitava a afirmar que sua mãe verdadeira havia morrido após dar à luz, dois anos antes de seu casamento com Liana. Não estava propriamente mentindo para o filho, mas era uma verdade mais do que insuficiente para satisfazer a curiosidade do menino.

Pode-se dizer que Rairom levou uma existência campestre e pacata até então, sem grandes sobressaltos. Mais tarde, sempre lembraria de sua infância e adolescência como um dos períodos mais felizes de sua vida. Lembrava-se de correr pelas colinas suaves cobertas de grama, em brincadeiras infantis com o irmão. Recordava-se de cavalgar com seu pônei até a beira da face oeste da Grande Muralha, onde podia ver o sol se pôr no oceano. Lembrava-se dos invernos gelados, quando a neve caía, e da fumaça que os vulcões ao longe jogavam no firmamento, um espetáculo estonteante.

Infelizmente, nada dura para sempre. É a "dinâmica das coisas", como dizia o velho Jonorat ao tentar explicar para o jovem Rairom, de dez anos, a razão de sua partida para Algar. Dizia ele, "Tudo um dia muda, tudo é um ciclo. Esta é uma das mais duras lições que se pode aprender nesta vida, filho". E completava: "Demorei muito tempo para aprendê-la, mas quando finalmente consegui, essa lição me ajudou a suportar os períodos difíceis e a me ansiar menos com as ameaças da vida e a crueldade dos homens". Apesar de ser então bastante jovem, Rairom nunca esqueceu estas palavras. Para ele, então com dezesseis anos, um novo período de grandes desafios estava para começar. Mesmo as maiores tempestades, porém, às vezes começam com um inocente chuviscar.

Os sinais, de fato, surgiram relativamente brandos. Vieram por meio de um sonho. Foi numa noite de verão. Rairom sentiu que acordara. Sentou-se em sua cama. Estava frio como no inverno, o que era muito curioso porque nunca, pelo que se lembrava, fizera frio de talai a disroel. Levantou-se. Algo parecia diferente. A porta de seu quarto estava entreaberta. Saiu para verificar o que havia ocorrido. Gritou pelo irmão. Nenhuma resposta. O corredor estava sombrio. Correu aos aposentos dos seus pais, estavam vazios. Correu ao quarto do irmão, também ninguém lá se encontrava. Começou a ficar ansioso. Onde poderiam estar?

— Pai, Tairom, Liana, onde estão vocês? — gritou ao descer os degraus que levariam ao andar térreo.

No amplo átrio central que ficava próximo à escada também não havia ninguém. A sua frente estava a passagem que levava ao lado de fora. Percebeu que também estava entreaberta. Através dela podia-se vislumbrar o céu, que parecia estar levemente avermelhado como se o sol estivesse nascendo. Correu em direção à porta. Ao sair, fitou o firmamento, percebendo que o vermelho não estava apenas no horizonte. O céu inteiro estava tomado daquele rubro pálido e não havia sol. A sua frente também tudo parecia mudado. A relva que cobria os campos havia morrido e a rocha nua se estendia até onde se conseguia enxergar. Nenhuma criatura viva podia ser avistada. Correu para longe da casa gritando, pois o pânico tomara conta do seu ser. De súbito, próximo ao horizonte, percebeu que algo se movia. Eram duas asas gigantescas que se aproximavam. Vinham em sua direção! Sentiu medo e resolveu se esconder dentro da casa. Entretanto, tinha-se afastado dela mais do que pensava. Mesmo assim corria à toda velocidade para refugiar-se. Em vão: muito antes de conseguir chegar à porta, o ser alado o capturou.

Rapidamente levantou vôo e ganhou altitude. Abaixo, estava a enorme ilha toda destruída. De súbito, nada se podia enxergar a não ser a cor pálida de um oceano que refletia o céu. Rairom estava de costas para a criatura, por isso não podia ver a face do seu captor. O monstro era do tamanho de pelo menos três homens, isto podia perceber. Suas asas eram enormes, cada uma delas, sozinha, parecia ser do tamanho do corpo da criatura. Mas sem plumas, assemelhavam-se às asas de um morcego. Suas mãos e braços de aparência quase humana eram brancas, mas repletas de escritos esverdeados em letras incompreensíveis. Quando olhou novamente para o chão, percebeu que não estavam mais sobre o oceano. A altitude diminuíra e outras terras igualmente devastadas se estendiam ao infinito. Aos poucos, viu que se aproximava de uma cidade em ruínas. Era enorme e nas ruas havia inúmeros cadáveres queimados. A criatura dirigia-se ao topo de uma colina onde se encontravam os restos de um grande templo. Conforme se aproximavam das ruínas, mais ficava evidente que colidiriam com a parede da estrutura. Ledo engano: penetraram na velha construção através de uma cúpula quebrada. Pousaram. Antes de soltar Rairom, a presença, que tinha uma voz grave, gritou com as asas abertas:

—Lan Secria ios-ainog — disse em tom melancólico, quase como se chorasse. Após uma pausa continuou: — lan! Natzar-tim-Alguerot. Laibian-zar.

O chão pareceu estremecer ao som dessas palavras e um uivo medonho se ouviu, como se os mortos que Rairom avistara soltassem um grito de desespero e desejo por algo desconhecido. Após uma pausa, para a surpresa do rapaz, ela começou a se expressar de forma compreensível ainda sem soltá-lo: — Vá até aquela porta e não olhe para trás. Eu o advirto, não olhe para a minha face, a não ser que já conheça a razão de minha vinda e o meu nome! Do contrário, não compreenderá o que vai ver!

Rairom queria olhar para trás, mas teve medo. Seguiu em direção ao portal. Ao entrar, teve uma visão de dezenove objetos, que no momento não conseguiu distinguir bem. Agonizado com a insólita situação, o rapaz resolveu enfrentar a medonha figura.

— Por que me trouxe aqui? Que lugar é este? — perguntou Rairom, dirigindo-se para fora da sala. Resolveu, então, fitar seu captor. Quando olhou para ele, um facho de luz ofuscou seus olhos. Rairom gritou. De súbito, estava de volta à sua cama e a face que observava era a de seu irmão. Percebeu que estava todo suado. O dia já amanhecera; fazia calor.

— O que é isso, Rairom? Teve um pesadelo? — indagou Tairom, que agora era uma criança de onze para doze anos. Continuava com os cabelos cor de fogo de quando era bebê.

— Tive... Acho que sim. Que sonho mais estranho! Parecia tão real!

— Você deve estar nervoso por causa do grande teste de hoje. Mamãe pediu que eu viesse acordá-lo.

— Ah! Sim, o teste. Vou me preparar.

Após arrumar-se, Rairom desceu as longas escadas Para o seu alívio, o sonho não era real e tudo estava como sempre esteve. Às portas da sala de jantar, porém, encontravam-se duas sentinelas, o que só acontecia em ocasiões especiais, como quando a família recebia convidados ilustres. Também se podia ver o entra-e-sai dos empregados, vestidos com seus trajes de serviço mais formais. Rairom estranhou toda aquela pompa para receber o seu examinador, que chegara na noite anterior. Ponderou, porém, que realmente fora uma grande gentileza da Academia permitir que fosse avaliado em casa, e assim não tivesse de fazer a longa viagem até as Montanhas do Vento.

Quando chegou à sala, nada o havia preparado para o choque que tomou. Ficou paralisado e boquiaberto ao ver na mesa a figura de seu examinador. Ele era ninguém mais, ninguém menos que Diom Silai, o senhor da Terra do Vento e da Academia. Rairom conhecia sua fisionomia porque uma vez, quando tinha oito anos, o vira, na Cidade da Caravana do Norte, exatamente na inauguração do prédio do Posto de Comércio. Também o conhecia por gravuras encontradas nos livros das artes místicas. O velho mago já passava dos setenta anos, mas mantinha sua lucidez e vitalidade. Aliás, sempre foi comum entre os magos o poder de alongar a própria vida. Tinha longas barbas brancas e usava uma túnica negra, do estilo reservado, aos magos da Terra do Vento. De olhar sempre atento a todos os detalhes, de pronto percebeu quando Rairom entrou na sala, em razão do que comentou:

— Ora se não é o jovem aprendiz que vim avaliar. Percebendo a surpresa de Rairom, brincou:

— Não se preocupe, meu rapaz, eu sou muito menos rígido nas avaliações que os magos mais jovens. É conseqüência da senilidade.

Todos, menos Rairom, riram da piada. Este não compreendia a razão de o Senhor da Terra do Vento vir pessoalmente avaliá-lo para a Academia. Na verdade, a razão principal de sua visita era bastante diversa, como depois se constatou.

Rairom assumiu seu lugar à mesa. Toda a família estava presente.

— Ouvi dizer grandes coisas sobre a capacidade de seu filho, Guenor. Soube de seu talento excepcional para as artes místicas — falou Diom.

— Sem ofensas, velho amigo — disse Zairom —, mas eu nunca sonhei que meu filho se tornasse um mago. Simplesmente não consegui dissuadi-lo da idéia. Ele tem verdadeira fixação pela coisa.

— Isso é verdade — completou Liana — e é muito talentoso também.

— O que me diz Rairom, você é tão talentoso quanto seus pais afirmam?

Rairom, que já estava vermelho de vergonha, respondeu:

— Eles exageram, Mestre Diom. Só posso dizer que tenho me esforçado muito.

— Com um pouco de sorte — interrompeu Zairom —, ele não vai passar no seu teste hoje e então poderá ir para a Academia do Lago de Cristal, como eu fui.

— E se tornar um desses trogloditas militares? — falou Liana em defesa de Rairom.

— Liana, não sabia que você me achava um troglodita — disse Zairom sorrindo. — Saiba você, minha querida, que aquela é uma escola de estadistas.

— E você, Tairom — falou Diom —, o que pretende fazer quando crescer? Também quer ser mago como seu irmão?

— Acho que não, Mestre. Quero ir para a Academia do Lago de Cristal.

— É bom saber que ao menos um de meus filhos segue meus conselhos — regozijou-se Zairom, ao passar a mão na cabeça do filho.

Depois de terminada a refeição, o velho mestre falou que pretendia fazer o teste ainda de manhã, pois pretendia tratar de outros assuntos com o senhor dos filhos do fogo. Pediu que Rairom se preparasse e o encontrasse no salão sul, o local do teste.

A mansão em que Rairom morava tinha dois andares básicos. No andar de cima havia três salas pequenas, sendo uma delas utilizada para as refeições, e oito quartos, além da sala de música e da biblioteca particular de Zairom, que era utilizada como escritório. No andar térreo, havia, a oeste do átrio de entrada, a grande sala de jantar. A ela ligada, na direção norte, estava a ala dos empregados. Havia nesta ala alguns quartos, mas nem todos os serviçais moravam na casa, já que existiam outras residências menores para abrigá-los. Nesta ala também ficava a cozinha. O átrio principal, pelo seu lado norte, além de possuir uma pequena porta que levava à ala dos empregados, dava também acesso à grande biblioteca, onde Rairom estudava as artes místicas. Essa biblioteca era bem maior do que a pequena biblioteca-escritório do segundo andar, possuindo algumas obras bastante raras. Aporta do lado leste do átrio central dava para a saída. Ao sul, estava a escada. Ao lado da escada havia uma porta (bem menor que as outras três) que dava para a ala sul da mansão. Este setor, pouco freqüentado pelos moradores, era chamado também de ala antiga, pois não havia passado por grandes reformas, como o restante da casa. Era composto de alguns cômodos pouco ou não utilizados, dentre os quais se destaca o salão sul. Este salão, bastante amplo, era muito usado pelo avô de Tairom para suas festas. Nos tempos de Zairom, ficou abandonado e quase nunca alguém ia lá, a não ser os empregados para a limpeza.

Quando Rairom adentrou a ala sul, o setor estava mais mórbido do que nunca. Não havia sons e a batida da porta quando a fechou foi claramente audível. Audíveis também eram seus passos ao locomover-se pelo corredor. A sua esquerda, havia uma fileira de janelas cobertas por cortinas brancas. A sua direita, erguia-se a parede esverdeada da ala antiga, cuja monotonia era quebrada pela presença de portas. Cruzou o corredor o mais rápido que pôde. Não lhe agradava aquele lugar e não entendia o porquê do teste ser feito ali. Começava a indagar-se se não estava diante de um novo pesadelo. Estava bem acordado, no entanto. Finalmente, chegou à porta maior, que levava ao salão sul.

Abriu-a com cuidado e vagarosamente. A porta rangeu alto, quebrando o silêncio. A sua frente, no outro lado do salão, estava o mestre Diom Silai sentado atrás de uma mesa. Ao lado dele havia uma garota que parecia ser tão jovem quanto Rairom. Ele lentamente se dirigiu em direção aos dois. O salão era bastante amplo, o mais amplo da casa, e tinha um formato retangular. Suas paredes eram esbranquiçadas e nelas havia desenhos desbotados do símbolo dos filhos do fogo. De um lado havia grandes janelas, bastante parecidas com aquelas do corredor. Estavam cobertas por cortinas esbranquiçadas, mas que pareciam amareladas pelo tempo. Não havia mobília, a não ser pela mesa e pelas cadeiras já mencionadas, existia apenas para Rairom uma pequena cadeira (sem mesa), localizada mais ou menos próxima a Diom. Rairom se dirigiu à cadeira e sentou-se. Um silêncio mortal se seguiu e este foi o momento de maior nervosismo. Após alguns instantes Diom Silai falou:

— Meu jovem amigo, pedi a seu pai que nos cedesse o lugar mais reservado da casa, onde não fôssemos importunados.

Por isso é que ele designou o salão sul. De fato, parece ter sido uma boa escolha. A não ser pelas vozes que falam do passado, que certamente você ainda não pode ouvir, não há nenhum som perceptível nesse salão.

Seguiu-se uma pequena pausa, após a qual o velho mago continuou:

— Esta aqui a meu lado é minha neta, Lisian. Ela tem quase a sua idade e está fazendo esta viagem comigo como um passeio. Não consegui acordá-la para o desjejum, mas quando soube do teste pulou da cama.

— É que eu tenho quinze anos e no ano que vem vou fazer o teste também — falou Lisian.

— É claro — interrompeu Diom — que ela concordou em ficar no mais absoluto silêncio.

— Desculpe, vovô — disse Lisian, esboçando um sorriso sem graça.

Rairom observava a neta de Diom. Ela era uma garota alta (mas não tão alta quanto Rairom). Tinha os cabelos castanhos e ondulados. Seus olhos eram levemente esverdeados, de uma beleza exótica. Dentre o povo do norte (como eram conhecidos os filhos da água e os filhos do vento) não havia tantos louros como no sul, onde estes predominavam. E que a família Silai era o resultado do casamento de nobres do sul (que vieram governar as terras conquistadas) com nobres de origem norgam (morenos). O resultado foi essa mistura mais ou menos rara que se podia observar em Lisian. Percebendo a distração de Rairom, o velho mago bateu na mesa. O rapaz voltou seus olhos para Diom Silai e ajeitou-se no seu assento. Sentia-se ridículo e desconfortável naquela cadeira, exposto como estava.

— Muito bem, então, meu jovem — continuou o velho mago — você não precisa ser um mago para entrar na Academia. Mesmo porque se já o fosse nem seria necessário freqüentá-la. O que exigimos do aprendiz é o talento e também certos conhecimentos do que chamamos de magia, que nada mais é do que a intervenção da mente, ou seja, do ser abstrato, no domínio da matéria concreta. Para ser um mago deve-se ter a habilidade especial de praticar esta intervenção de forma mais efetiva do que a generalidade das pessoas. É por isso que não basta ser rico, ou filho de um homem rico, como você é, para ser aceito em nossa escola. De nada adianta freqüentar a Academia da Terra do Vento se você não tiver o dom; é mera perda de tempo. O verdadeiro aprendiz é como pedra bruta a ser polida, sua habilidade desde sempre se encontra latente e desenvolve-se com a prática. É esta habilidade que vamos medir em você agora. Você entendeu o que acabei de dizer?

— Sim, mestre — respondeu Rairom em voz baixa. Ele continuava nervoso.

— Ótimo. Pois muito bem. Comecemos, então. Sua primeira prova será a levitação de sólidos. O movimento de sólidos é a mais grosseira intervenção da mente sobre a matéria, por isso é um teste bastante simples. Para incrementá-lo, exigimos do aprendiz que vença a gravidade movimentando um objeto relativamente pesado, como uma pedra, verticalmente. É sem dúvida uma exigência e tanto para os iniciantes. Está pronto?

Rairom assentiu com a cabeça. Diom mostrou a pedra que estava em cima da mesa. Como se não bastasse a dificuldade do encanto, Rairom não conseguia se concentrar. As imagens de seu sonho estavam vivas em sua cabeça. Cada vez que fechava os olhos via o facho de luz atrás do qual se escondia a face de seu captor. Faíscas explodiam em sua mente mostrando cenas do sonho. Após alguns momentos a pedra ainda estava imóvel, por isso Diom Silai interrompeu o rapaz:

— Meu jovem, você está com algum problema? Rairom foi sincero:

— Tive um sonho muito estranho essa noite, mestre, simplesmente não consigo me concentrar. As imagens do sonho ficam voltando à minha mente.

Lisian não conseguiu se conter:

— Ótima desculpa...

Seu avô fitou-a severamente. Ela se calou. Então Diom falou:

— Realmente, notei algo estranho em sua energia desde que entrou. É curioso que você ache que esse distúrbio tenha sido causado por um sonho... Você acredita que está em condição de continuar?

De súbito, Rairom não se sentia mais nervoso. Estava sim irritado com sua própria fraqueza. Nada tiraria dele seu antigo sonho. Respondeu resoluto:

— Mestre, se eu ainda tiver o controle da minha mente, não vou deixar que nada me impeça de prosseguir... Há alguma vedação a que eu faça o teste de pé?

— Não, meu rapaz.

— Ótimo — disse Rairom, jogando a cadeira para o lado e se levantando. A seguir, estendeu sua mão em direção à pedra. Por um momento nada aconteceu. No instante seguinte, porém, o objeto começou a se mover. Rairom, então, conseguiu erguê-la até uma certa altura acima da mesa. Parecia ser difícil para ele mantê-la naquela posição fora do solo, apesar de já ter praticado aquele "feitiço" inúmeras vezes. Quando Diom considerou que já era o suficiente, o interrompeu.

— Excelente, Rairom. Agora testaremos seu controle sobre a matéria líquida. Deverá, para demonstrá-lo, mover a água deste copo para fora dele sem deixar que se desagregue em pingos.

Rairom, sem nada dizer, devolveu a pedra à mesa e, então, estendeu ambas as mãos para intervir sobre a água que, aos poucos, deixou o copo e começou a flutuar. Um ou outro pingo caiu da massa líquida. Diom, a seguir, com apenas um olhar começou a intervir ele mesmo sobre o líquido, devolvendo-o ao recipiente.

— Você não precisa conseguir devolvê-la ao copo. Aliás, apenas um aprendiz até hoje conseguiu fazer isso nas provas de admissão da Academia. Hoje ele é o segundo em comando na formação dos magos.

— É Zainog, já ouvi falar muito de suas habilidades prodigiosas, mestre — respondeu o rapaz, ofegante.

Rairom estava evidentemente cansado. Estava suado também, não se sabe se em razão do calor ou do esforço despendido. Provavelmente em função de ambas as coisas. A concentração exigida para tais feitiços era grande demais para iniciantes como ele. Nos treinamentos, depois de usar um deles, Rairom descansava pelo menos uma ou duas horas, antes de utilizar qualquer outro encantamento. Certamente Diom sabia muito bem disso, mas justamente nesse aspecto é que estava a dificuldade das provas da Academia.

— Bem, jovem Guenor, testemos sua habilidade sobre a matéria gasosa. Está familiarizado com os encantos da ordem do vento?

— Sim, mestre.

— Sua tarefa é simples, basta que apague esta vela.

— Não se esqueça, Rairom, não vale soprar — comentou Lisian para o descontentamento de seu avô.

O rapaz ergueu a mão em direção à vela, mas nada aconteceu. Rairom então percebeu seu erro e concentrou-se em um ponto no ar. Dali fez surgir uma pequena corrente que quase foi insuficiente para apagar a vela. Felizmente, conseguiu. As imagens do sonho, que até então conseguira afastar, começavam a perturbá-lo novamente.

— Ótimo, Rairom. Basta que você reacenda esta vela e o teste estará terminado.

Rairom estava exausto e as imagens do sonho já começavam a incomodá-lo em demasia. Mesmo assim, após duas ou três tentativas acabou conseguindo (para seu alívio) criar uma pequena faísca desajeitada que acendeu a vela. O rapaz sentou-se na cadeira que havia posto de lado. Estava exausto. Nenhum bálsamo seria melhor para aplacar seu cansaço do que as palavras que o velho mago disse a seguir:

— Excelente! O teste está encerrado!

— Então eu passei?

— Sim, meus parabéns.

— Foi uma honra, mestre... Posso ir? — perguntou o rapaz, feliz e aliviado, pretendendo a seguir retirar-se da sala.

— Na verdade, meu jovem, esta é a deixa para Lisian se retirar da sala.

— Vovô?

— Não discuta! Você pediu permissão para ver o teste e ele já terminou. Agora eu quero averiguar uma dúvida.

Lisian fez um gesto de que pretendia discutir, mas o olhar de seu avô a dissuadiu. Retirou-se, então, da sala, contrariada.

— Rairom — continuou o velho mestre após a saída de sua neta —, você tem a possibilidade de ser um grande mago um dia, se quiser. Porém, há algo estranho na sua energia mental, jovem Guenor. Como eu já lhe disse, percebi esse fato desde o momento em que você entrou nesta sala. Na hora da refeição, hoje pela manhã, entretanto, não notei nenhuma anormalidade. Isto me intriga. Durante o teste, fiquei pensando sobre as possíveis causas desta anomalia. Mais do que isso, buscava entender o porquê de eu não tê-la percebido desde logo.

— O senhor acha que esta variação pode ter relação com o sonho?

— Já chegarei a este ponto. Quanto à razão de eu não ter percebido antes, acho que já descobri. Esta energia se oculta, ela não se mostra a não ser para os olhos de um mago atento. Na hora da refeição, eu não pretendia nem estava tentando perceber sua energia. Agora, durante o teste, eu buscava observá-la, foi por isso que ela não conseguiu se esconder de meus olhos experientes. Agora, quanto à causa desta variação, não creio que seja o sonho que você mencionou...

— Mas eu lhe garanto, mestre, aquele sonho foi mais do que um sonho, parecia real. Nunca tinha experimentado nada parecido.

— Não duvido disso, meu jovem amigo. O que eu disse foi que a variação na sua energia não foi causada pelo sonho. Você está tomando o efeito pela causa. Uma variação como esta, e isto eu posso garantir, não surge da noite para o dia. Ela já vem com você há muitos e muitos anos, senão por toda a sua vida. Agora, o que provavelmente está certo é que a sua estranha energia causou o seu sonho, e não o contrário.

— Entendo, mas por quê?

— Se é que podemos atribuir um propósito racional a esta sua peculiaridade, ela poderia estar querendo lhe revelar alguma coisa.

— Como pode uma energia querer revelar algo, ela não é um ser vivo e pensante, ou é?

— Não se preocupe, meu jovem, não acredito que seja. O que pode ser é que você mesmo esteja querendo revelar algo que você já sabe e ao mesmo tempo desconhece. Este algo é a razão da peculiaridade na sua energia, isto é bem possível... A questão que se põe é a seguinte: você quer descobrir?

— O que o senhor disse é bastante confuso, mestre. Mas a resposta me parece simples: é claro que sim, eu acho.

Mestre Diom riu com a hesitação de Rairom, pois sentia o temor do rapaz, que queria mas ao mesmo tempo temia saber a possivelmente terrível verdade que o sonho poderia revelar. Afinal, não tinha sido exatamente um sonho, mais se aproximava de um medonho pesadelo.

— Muito bem, você tem certeza? Eu posso ajudá-lo a desvendar este enigma, agora! — disse o mago, aumentando inesperadamente seu tom de voz.

— Sim — respondeu Rairom ainda não totalmente certo. Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, sentiu a voz de Diom em sua mente. Ficou surpreso, pois o mago não mexia os lábios, mas podia ouvi-lo claramente pronunciar palavras dentro de sua cabeça.

— Não se assuste, meu jovem — disse o velho mago sem que sua boca se movesse. — Eu estou me comunicando com você através da voz que o treinamento mental me confere. Estou tentando buscar na sua mente as memórias de seu sonho. Não vai ser muito difícil, elas ainda estão bastante frescas. Não tenha medo, feche os olhos e relaxe. Você vai voltar para o seu sonho, mas agora eu serei seu guia e protetor, poderá compreender tudo. Poderá saber até o que tiver medo de descobrir, pois não precisará temer coisa alguma. Eu estarei ao seu lado.

Rairom fechou os olhos. De súbito, as imagens do sonho começaram a passar na sua frente. Era como se vivesse tudo novamente. Viu sua casa vazia e o céu vermelho. Foi capturado e levado para a cidade em ruínas. Desta vez, porém, o medo o havia deixado, pois podia sentir a presença constante de Diom a protegê-lo. Foi solto e se dirigiu para a estranha sala dos objetos. No entanto, antes que pudesse entrar, a figura do velho mago se materializou na sua frente.

— Espere, Rairom — disse ele —, saiba que nessa sala está uma das duas peças do nosso pequeno quebra-cabeça.

— Como o senhor sabe disso?

— Não me incomode com perguntas tolas, Rairom — disse Diom com um tom paternal. — Eu posso sentir, é só o que posso dizer. Quando entrar na sala, preste a maior atenção em tudo. Tente reter o maior número de detalhes possível.

— Certo, mestre.

Diom desapareceu e Rairom dirigiu-se lentamente em direção à sala. Percebeu que a entrada não tinha portas, mas era maior do que parecera da primeira vez que a atravessou. Suas bordas eram folheadas a ouro, denotando a importância do recinto. A sala tinha o formato retangular e assemelhava-se, de alguma forma, a um templo religioso. No canto oposto ao que Rairom se encontrava estava uma enorme janela em formato circular, que permitia que a luz vermelha do céu iluminasse a sala. Abaixo da janela, havia uma espécie de altar, na verdade uma mesa de pedra sobre a qual se podia perceber a existência de alguns objetos. O resto do recinto era preenchido por fileiras de cadeiras de madeira. Compartilhando a desgraça do lugar, a maior parte delas encontrava-se destruída. Jogadas ao chão como estavam contribuíam para incrementar a terrível desolação do cenário. Rairom, então, como fizera durante o sonho, começou a dirigir-se até a mesa de pedra. Para tanto, ia removendo pelo caminho as cadeiras que lhe impediam a passagem.

Finalmente, após intermináveis momentos, conseguiu cruzar a sala. Correu em direção à mesa. Tamanha era sua afobação, que tropeçou num dos dois degraus que separavam o nível onde estava do altar. Quase caiu. Notou, então, que estava afobado demais e tentou recobrar a serenidade. Dirigiu-se à mesa. Ali estavam na sua frente dezenove objetos. Na extrema esquerda havia, lado a lado, quatro pedras. Não eram pedras preciosas, nem eram muito grandes nem muito pequenas. Podia-se perceber que haviam sido polidas. Ao lado das pedras havia quatro copos com água e quatro velas acesas. Nem os copos nem as velas pareciam muito requintados. Rairom perguntou-se que possível estupidez podia ser aquela. "Uma religião de adoradores de copos d'água, velas e pedras, que idiotice!", pensou. Cogitou em chamar Diom e descrever-lhe os objetos que havia visto. Compreendeu, porém, que o que ele via, o velho mago, que estava em sua mente, também podia observar. O absurdo daquele templo de adoradores de objetos patéticos o fazia rir. "Este sonho afinal está se mostrando mais idiota do que eu pensava, aliás idiota fui eu de ter medo dele", disse o rapaz.

De súbito, porém, a leveza do momento foi quebrada, pois, quando Rairom viu os outros objetos, arrependeu-se de suas palavras. Havia sete mãos humanas. Da esquerda para a direita, seis delas aos seus olhos aparentavam ser verdadeiras, a sétima tinha sido entalhada em madeira. A mão de madeira era lisa, contrastando assim com a rugosidade das demais, que estavam parcialmente decompostas. Havia, em cada uma das mãos, tatuado, um símbolo diferente. Rairom apavorou-se com aquela horrenda imagem e começou a correr para fora do recinto. Quando estava prestes a atingir a porta, colidiu com o corpo de um homem, caindo no chão. Ao olhar para cima, viu a face amistosa de Diom Silai. Sua presença fez com que Rairom recobrasse a razão.

— Você está indo muito bem, jovem Guenor — disse o velho mago. — Não ponha tudo a perder agora. Ainda falta uma peça para resolvermos nosso enigma.

— Mestre Diom, eu já vi os objetos.

— Eu sei, mas eles nada significam sem a outra parte da verdade. O problema é que, em nosso caso, o que queremos descobrir se apresenta por meio de símbolos. Somente juntando as duas partes compreenderemos o todo. Não posso lhe dar garantias, Rairom, mas eu acho que se você ver os dois lados do enigma, talvez eles se fundam, mais cedo ou mais tarde, em uma verdade inteligível. Mas isso é você quem vai nos dizer.

— Qual o outro símbolo, mestre?

— Pensei que já tivesse adivinhado. Você tem de encarar a face da criatura que o trouxe até aqui.

Rairom estremeceu de medo. Diom desapareceu. A sua frente Rairom viu a escuridão que estava além da porta. Tentou reunir toda a coragem que possuía e concentrou-se na idéia de que, por mais que o sonho lhe parecesse real, era apenas um sonho. Além disso, o velho mago estava presente acompanhando tudo e o ajudaria em caso de necessidade. Então, nosso jovem amigo levantou-se e avançou. Seguiu até uma distância mais ou menos próxima da criatura com a cabeça abaixada. Podia ver suas grandes asas, seus pés monstruosos e os estranhos escritos espalhados por seu corpo. Ela permanecia imóvel. Quando a distância lhe pareceu adequada, ergueu a cabeça e olhou a face de seu captor. Um facho de luz iluminou-lhe os olhos. Nada podia ver a não ser a imensidão branca e ofuscante. A luz machucava sua vista, por isso desviou o olhar. Ouviu então a voz de Diom encorajando-o:

— Persista, Rairom, os seus olhos não podem ser machucados num sonho, lembre-se disso. A luz é apenas o medo que você tem de ver. Tente de novo. Não tema a luz, ela não pode feri-lo.

Rairom, então, reuniu as forças que lhe restavam e, juntando toda a sua coragem, fitou novamente a criatura. Da mesma forma que das vezes anteriores, uma luz intensa e branca o cegou. Desta vez, porém, não desviou o olhar, persistiu o quanto pôde. Após alguns momentos intermináveis, a luz começou a ceder. Atrás de uma neblina muito intensa que se dissipava, tornou-se possível ver os traços arredondados de uma cabeça. Conforme a luz se esvaía e sua visão retornava, começou a apreender os detalhes. Era uma cabeça toda branca e sem cabelos. O branco era pálido como a neve, não se assemelhava em nada ao que os homens chamam de pele branca. Sua aparência não era horrível, mas era no mínimo desagradável. Não tinha símbolos como no resto do corpo, a não ser um grande sinal no meio da testa. Na penumbra que ainda persistia, Rairom viu o estranho desenho. Era um sol, uma série de raios saídos de um círculo. Dentro dele havia o desenho de uma vela acesa. Por outro lado, talvez não se tratasse de uma vela. Poderia ser também uma pessoa com os braços erguidos e com as palmas das mãos se tocando. Havia, por fim, quatro símbolos incompreensíveis colocados, dois a dois, de ambos os lados da figura.

De repente, a criatura, que até então permanecera imóvel, começou a balbuciar palavras incompreensíveis. Os sussurros se tornaram gritos que afetaram a mente de Diom. De súbito o velho mago foi jogado para fora da mente do rapaz, despertando de seu transe. Tentou acordá-lo chamando-o, mas sem êxito. Antes que pudesse pensar em tentar retornar, viu, para seu espanto, que uma aura verde começara a brilhar em volta do corpo de Rairom. Ela parecia uma chama que aumentava cada vez mais de intensidade.

— O que é isso? — balbuciou o velho mago, não conseguindo conter sua consternação.

Rairom, então ainda adormecido, começou lentamente a desprender-se da cadeira. A sua aura se tornava cada vez mais forte e mais intensa, queimava como uma chama em volta do corpo. De repente, quando já estava a meio caminho para o teto do salão sul, o rapaz parou de subir. Por alguns momentos fez-se um silêncio mortal, até que Rairom começou a falar estas palavras, pausadamente, com uma voz de certa forma diversa da sua:

— Natzar-tim-Alguerot! Natzar-tim-Alguerot! Ian! Após pronunciar a última sílaba, que mais parecia um suspiro, a aura se expandiu como uma língua de fogo até atingir as quatro paredes, deixando nelas uma marca escura. Quando tocou as cortinas, elas se incendiaram. Antes que Diom pudesse pensar em apagar o fogo, ouviu um estalo no chão. Era Rairom que caíra bruscamente após descer parte do percurso de forma suave. A estranha aura desaparecera. Diom, então, concentrou-se nas chamas e as apagou. Depois, dirigiu-se ao rapaz. Rairom abriu os olhos. A sua frente estava a face espantada de Diom Silai.

— O que aconteceu, mestre?

— Nada, Rairom, não se esforce demais... Simplesmente durante o transe aconteceu um acidente. As cortinas pegaram fogo por causa do excesso de energia que utilizei para o feitiço do transe, o calor deve ter favorecido a combustão.

— Por que minhas costas estão doendo?

— Você caiu... Caiu da cadeira. Quando eu percebi o fogo, tive de sair bruscamente do transe, em conseqüência você sofreu os efeitos desse ato e também saiu bruscamente, caindo da cadeira — falou Silai, atabalhoadamente.

O velho mestre achou melhor não contar o que acontecera a Rairom, afinal ele iria para a Academia e estaria sob seus cuidados. Aquele fenômeno único que presenciara era, sem dúvida, mais do que uma mera anormalidade na energia mental. Quando o jovem rapaz estava com a estranha aura, sentiu uma energia sem igual emanando dele, como se ele representasse uma força cujos propósitos estivessem muito além das preocupações mesquinhas dos homens. Ele mesmo, o mais poderoso mago que conhecia, sentiu-se pequeno como um grão de areia e insignificante como um animal irracional incapaz de compreender os propósitos de seu dono. Nunca vira nada igual. Sequer daquele idioma estranho que Rairom falara tinha tido notícias. Pensou como havia se arriscado ao mexer daquela forma com um fenômeno tão estranho e potencialmente perigoso. Com o tempo, poderia estudá-lo cuidadosamente. Por certo, porém, toda a cautela seria necessária. "Foi muita sorte que nada de mais grave tenha ocorrido. Mas como eu poderia saber?", pensou consigo mesmo.

— Mestre — continuou o rapaz — eu não descobri a resposta do enigma do sonho. Apesar de eu ter visto as duas peças do quebra-cabeça, elas continuam sem sentido para mim.

— É mesmo, Rairom? Eu lhe avisei que isso poderia acontecer... Mas tenho um pressentimento aqui comigo, e meus pressentimentos nunca falharam: eu acho que você já deu o primeiro passo para descobrir.

 

                                 A mensagem

Chamam este lugar de Império. Eu chamo de balbúrdia. Dizem que nossos exércitos são temíveis. Eu digo que são um monte de bárbaros, fortes sim, mas cuja força é desordenada. Somos mais instáveis do que um vulcão em erupção. Nossa glória é passageira e o sangue de nossos guerreiros vai ser em vão se não mudarmos! Afirmaram que ao escrever estas palavras eu estaria assinando minha sentença de morte. Eu afirmo que o Larcon não é um tolo e sabe que minhaspalavras são para o bem de nosso povo. Mas se morrer, morro em paz, defendendo o que acredito. A morte dos covardes não é para mim. Sim, graves e sem rodeios são minhas afirmações, pois nunca fui homem de meias-palavras. Eu sei que é necessário coragem para mudar e que toda mudança é difícil. Mas depois de estudar uma vida inteira a história de nosso povo, eu acho que o sistema que proponho, o do Grande Conselho, é o melhor possível. Ao optarmos por ele, conseguiremos construir um futuro sólido e pôr um fim nessas sangrentas guerras tribais. Aí sim teremos um Império, o Império das Sombras. Quando isto acontecer, ai dos que não nos temerem. (...) Há aqueles, porém, que dizem que se um dia adotarmos meu sistema, ele será transitório, pois haverá um Larcon que vai querer concentrar o poder em suas mãos e uma nova dinastia nascerá. A estes eu respondo tão-somente: se isto acontecer, tremam de medo, pois o fim do Império estará próximo. ("Apelo ao Larcon" — Escaelos)

No dia seguinte ao teste, Rairom acordou bem cedo, antes que o grande sol se levantasse para cruzar o firmamento. Não porque quisesse mas sim porque foi literalmente jogado para fora da cama por seu irmão mais novo. Este, depois de perceber que os gritos não surtiam resultado, deu um jeito de puxar seu irmão para que caísse estatelado no chão.

— Rairom, levante-se — ordenou ele —, levante-se agora!

— Ficou louco, Tairom? — disse Rairom, acordando assustado e irritado. — Você me paga! O sol nem se levantou ainda! Eu quero dormir. Esqueceu que ontem eu fiz o teste de admissão à Academia? Eu ainda estou recuperando as forças...

— Rairom, eu prometi a Lisian que nós a levaríamos hoje para ver o pôr-do-sol no mar, à beira da Grande Muralha, e mostraríamos a cachoeira azul também. Temos de partir cedo, caso contrário não vai dar tempo. Ninguém aqui pode ser tão mal-educado com os convidados de nosso pai, mesmo em se tratando de você, Rairom, o bronco.

— Eu não sou bronco! Pelo menos não sou mais mal-educado que você! Além disso, eu não prometi nada a ela, você é que prometeu.

— E você acha que nosso pai permitiria que eu, uma criança de doze anos, e uma garota de quinze fôssemos sozinhos até as Montanhas? Além do mais, é você que vai lá com mais freqüência e que sabe o caminho direito. Por que tanta ranhetice? Vamos lá, vai ser divertido!

— Aquela garota é insuportável! Ela ficava fazendo pia-dinhas ontem durante o teste. Não vai dar para agüentar.

— Aquela garota seria insuportável se não fosse neta de Diom Silai, mas ela é. Então, você deve achá-la adorável. Se você não for, vou contar para o avô dela a sua falta de educação e também de consideração.

— Isto é chantagem!

— Chega de conversa. Você vai ou não?

— Eu... Eu... vou — disse Rairom, dando-se por vencido.

— Ótimo!

O sol estava nascendo quando Rairom dirigiu-se para o estábulo. Lá se encontravam quatro outras figuras, além de dois cavalos de porte médio e um pônei. Era difícil identificá-las no breu do início da manhã. Ao se aproximar, percebeu que uma delas era seu pai. Zairom estava sonolento, nunca foi do tipo que gostava de acordar cedo, mas parecia ter aberto uma exceção para dar instruções a Rairom. Por isso, quando este se aproximou, não demorou a falar:

— Rairom, resolvi deixar a contragosto que fizessem essa pequena viagem. Tairom me contou sobre a sua insistência em fazer este passeio. Sei que você é responsável, por isso decidi permitir que levem Lisian com vocês.

— Insistência? — indagou Rairom, indignado.

— Eu sei que é verão — interrompeu Zairom — e o clima está propício, mas não consigo deixar de me preocupar. Não sei explicar. Cuidem bem da neta de Diom!

— Deixe que os jovens aproveitem a juventude, mestre. Pare de amolá-los com suas preocupações de gente senil — falou o comandante do exército dos filhos do fogo, que estava ao lado de Zairom.

— Você sempre teve a delicadeza de um elefante, Sironiel. Mas acho que tem razão. Podem ir, crianças, e divirtam-se. Mas venha, general, vamos esperar que Diom acorde para tratarmos de outros assuntos. Quero que você esteja presente.

Sem dar qualquer chance para Rairom se explicar, Zairom e Sironiel retiraram-se, indo em direção à mansão dos filhos do fogo. Nosso jovem amigo então fitou as duas outras figuras, que já estavam montadas. Quem mais seriam elas senão Tairom e Lisian? Enquanto esta estava montada num cavalo manso, esbranquiçado, aquele estava, como de costume, em seu pônei castanho, quase amarelo, que chamava de Dourado. Rairom tinha reservado para si sua égua, de nome Estrela, negra como a noite. A exceção era a mancha branca que ostentava na fronte, a qual lembrava mais ou menos o astro de quem recebia o nome.

Lisian, ao contrário do dia anterior, não estava de vestido. Usava os trajes reservados às amazonas. Aliás, as mulheres na Terra das Sombras, ao contrário do que se poderia pensar, sempre foram grandes amazonas. Este fato remonta a uma tradição antiqüíssima dos filhos do fogo. As mulheres, inclusive, sempre participaram, ainda que em menor número, das legiões imperiais, fato que causaria escândalo em algumas civilizações continentais. Apesar de ocuparem, em geral, uma condição de inferioridade na sociedade, em decorrência da doutrina dos "Versos", em razão da mesma doutrina tiveram um tratamento bem mais liberal que em outras sociedades. Não se olvide de que Larcon sempre deu grande relevância à força física, mas a firmeza de caráter sempre teve preferência.

Rairom, enfim, montou em seu belo animal.

— Bem, acho que devemos partir — disse ele. — O tempo hoje está ótimo, acho que poderemos chegar lá bem antes do pôr-do-sol.

— Se pretende mesmo ir para a Terra do Vento estudar magia — interrompeu Lisian, com um ar professoral — saiba que de manhã costumamos, antes de qualquer coisa, dar "bom-dia" às pessoas.

— Desculpe-me, senhorita. Bom dia! — falou Rairom, irritado. — Será que podemos ir agora, senhora da pompa e dos fricotes? — provocou o rapaz.

Lisian fez uma cara feia e estava pronta para começar uma briga ali mesmo, se não fosse pela intervenção de Tairom.

— Pessoal — disse ele —, não estraguem o passeio. Vai fazer mesmo um lindo dia, vamos aproveitar!

— Está certo, Tairom — disse Lisian de forma terna. — Eu também acho que vai ser divertido. Não fique bravo, Rairom. Vamos?

Abriu, então, um sorriso que desarmou o rapaz.

— Tudo bem. Desculpe-me pela provocação. Vamos — disse Rairom.

Partiram trotando não muito rápido, com Rairom à frente. Lentamente se distanciaram da mansão dos filhos do fogo. A temperatura do início da manhã, ao relento, era mais ou menos fria no verão da Terra das Sombras. Apesar disso, aquele prometia ser um ótimo dia, pois havia poucas nuvens no céu. Não que isto fosse qualquer garantia, já que o clima daquela região da grande ilha era bastante instável. Sem dúvida, porém, era um ótimo sinal.

A paisagem era impregnada de pequenas e médias colinas gramadas, qual ondas no mar. Havia também, espalhados pelo planalto, arbustos e árvores não muito altas. As gramíneas estavam cobertas de orvalho e uma névoa suave pairava sobre os campos sinuosos. À frente, podia-se ver claramente a sombra da Grande Muralha, na sua face oeste, que levava até as terras planas, ao nível do mar. Ao sul, podia-se enxergar, entre as colinas, a face meridional da mesma cadeia de montanhas, pela qual passava a estrada que levava a Roblaion-Zain. Bem para o leste, ao longe, era possível avistar as Blai-Lan e, além delas, as grandes montanhas vulcânicas com sua rocha nua. Eram chamadas pelo povo do norte de Fai-Lan e pelos filhos do fogo de Tai Fanor. Pairavam majestosas no centro da grande ilha, incomparáveis a qualquer outro maciço montanhoso existente na Terra das Sombras. Por detrás delas, os primeiros raios de sol começavam a romper no firmamento. O dia já estava nascendo e o calor do sol era um alívio sempre bem-vindo para os habitantes da ilha. Durante toda a manhã, os viajantes cruzaram o planalto, indo em direção às montanhas, mais ou menos em silêncio. Mais de cinco horas se haviam passado e Rairom parecia ainda sonolento e um pouco contrariado pelo fato de ter de fazer aquela viagem. Preferiria, com toda certeza, estar em sua cama descansando. Lisian, percebendo o fato, aproximou-se dele, enquanto cavalgavam, e perguntou:

— Você não queria fazer este passeio, não é, Rairom? Sinto-me um pouco culpada ao pensar que está fazendo esta viagem por minha causa.

— Bem eu... — hesitou Rairom, surpreso com a súbita polidez da moça. — Não é isso... É que eu estou um pouco cansado depois do teste de ontem.

— Ah, sim, o teste... — falou Lisian como se estivesse estranhamente satisfeita por Rairom ter tocado no assunto. — Você foi muito bem, Rairom, desculpe a minha implicância ontem.

— Não tem problema — respondeu o rapaz, agora já cogitando a possibilidade de a neta de Diom não ser tão irritante quanto ele pensava.

— Escute — continuou ela —, o que aconteceu ontem depois que eu saí?

— Depois que você saiu? Nada de muito importante.

— Nada de muito importante? — falou Lisian, insatisfeita com a resposta. — Então você poderia me contar o que aconteceu, já que não foi nada de importante, não é?

— Bem, eu...

— Qual era a dúvida que o vovô queria tirar?

— Por que tanta curiosidade? Como eu estava dizendo, na verdade, não posso explicar muita coisa porque eu mesmo não tenho certeza do que aconteceu. Pergunte para o seu avô. Afinal de contas, se ele pediu para que você saísse da sala talvez ele não quisesse que você soubesse da dúvida dele. Nesse caso, eu também não devo falar.

— Mas que raciocínio mais idiota! — falou Lisian, impaciente.

— Talvez até seja mesmo... É uma pena. Eu estava gostando bem mais da Lisian gentil. Já estava até me acostumando. Bem, vamos fazer o seguinte: se você for bem-educada e não fizer mais grosserias comigo durante a viagem, talvez então eu conte o que aconteceu, pelo menos o que eu me lembro. Que tal?

Lisian não respondeu. Tairom, que estava bem à frente de seus companheiros de passeio e por isso alheio a toda a conversa, veio até eles. Já se aproximava a hora do almoço.

— O sol já está alto — disse ele. — Acho que são quase dezoito horas, vamos almoçar? Eu estava procurando um lugar ideal e acho que encontrei...

— Dezoito horas? — indagou Lisian.

— É isso mesmo, nós almoçamos às dezoito horas, vocês não?

— Não seja idiota, Tairom — falou Rairom, rispidamente. — Você sabe que eles não contam as horas como a gente.

— Ele não está sendo idiota, Rairom — disse Lisian, esforçando-se para ser gentil com o menino. — Tairom, é que no norte nós dividimos o dia em vinte e quatro horas. Nós almoçamos na mesma parte do dia que vocês.

— Isso mesmo, nanico, eles almoçam às doze horas. Eu acho esse um modo estúpido de contar o tempo. Afinal, se o mês tem trinta e seis dias e o ano trezentos e sessenta, nada mais lógico do que dividir o dia em trinta e seis horas.

— Eu acho que vocês do povo do sul é que são estúpidos — disse Lisian, já começando a ficar irritada. — Somente vocês contam o tempo desta maneira. Nós do norte dividimos o dia em vinte e quatro horas, da mesma forma que quase todas as civilizações continentais conhecidas.

— Particularmente — disse Rairom sentindo-se como que dando um golpe vitorioso na adversária —, eu prefiro a solidão à companhia dos bárbaros do Continente do Norte.

— Ora seu... — falou Lisian, como que tateando seu cérebro em busca de uma resposta à altura.

— Ei, vocês! — interrompeu Tairom com um grito. — Que discussão mais estúpida! Eu não acredito no que estou ouvindo. Parece que eu é que sou o mais velho aqui e vocês, dois bebês chorões.

Rairom e Lisian entreolharam-se um pouco envergonhados. Quando a moça abriu um sorriso, o rapaz pareceu ficar ainda mais irritado.

— Como eu ia dizendo — continuou o menino —, eu achei o lugar perfeito para nós almoçarmos. É na margem do riacho dos peixes, perto de uma cascata. É um lugar encantador, Lisian, tenho certeza que você vai gostar. Venham!

— Você está certo, Tairom — disse Lisian, sorrindo. — Você é o mais maduro aqui. Aquela discussão estúpida só podia ter partido de quem partiu! Vamos. Eu terei prazer em ver este lugar.

— Vamos, então — respondeu Tairom, com um largo sorriso que revelava duas covinhas em suas bochechas avermelhadas por causa do calor. Percebendo que Rairom não se mexia, completou: — Vamos, Rairom! Não fique irritado. Está tudo bem.

— Ele empacou, Tairom — disse Lisian. — Vamos na frente, tenho certeza de que ele nos alcança quando tiver vontade.

Tairom olhou para o irmão com um olhar entristecido, queria verdadeiramente que ele se divertisse com o passeio. Quando percebeu que Rairom não se mexia, partiu com Lisian na direção do riacho. Conversavam animadamente como velhos amigos. Rairom, que já estava um pouco para trás, permanecia em silêncio, remoendo sua irritação e mais arrependido do que nunca por ter cedido à pressão de seu irmão. Quando viu que os dois começavam a se distanciar, teve vontade de retornar para casa dali mesmo. "Não há razão para eu me sujeitar a essa tortura", disse Rairom em voz baixa. Talvez, porém, temendo a reação do pai, ao saber que tinha deixado os dois sozinhos e indefesos, ou de Diom, seu futuro mestre, decidiu prosseguir. Cavalgou rapidamente em direção aos vultos que já começavam a desaparecer por detrás das colinas sinuosas.

Também Zairom se remoía em pensamentos. Estava só, sentado em seu gabinete, rodeado de estantes repletas de livros, lembrando-se do que ocorrera doze anos antes, na primeira reunião do Conselho de Escaelos em que tomara parte. Lembrava-se especialmente da promessa de vingança do Larcon. As palavras de ódio e de rancor pronunciadas na ocasião ressoavam em seus ouvidos como se as escutasse novamente. Permanecera, sem dúvida, durante todo o tempo que se seguiu, o mais alerta possível. Fizera tudo o que estivera a seu alcance, fortalecera-se brutalmente. Agira sempre com um único intuito: dissuadir o Larcon de seus planos, especialmente os que incluíam a vingança contra ele e sua família. "Mas seria suficiente?", indagava-se. O Larcon era um inimigo poderoso, sem dúvida. Sentiu um pouco de medo, o que jamais admitiria, nem para si mesmo.

Sua memória vagava até os anos de Academia. Seu pai, nesta época, já havia acumulado fortuna e podia mandar o filho à escola dos nobres. Mas nunca fora nobre, nunca sequer conseguira, na juventude, relacionar-se com eles. Lembrou-se da dor que sentira ao partir de casa, jovem ainda, para enfrentar o desconhecido. Lembrou-se do isolamento que sofria naquele lugar de pessoas estranhas e de frios muros de pedra. Recordou-se de como era discriminado, pela cor de sua pele, por seu jeito de falar, por suas maneiras (ou pela falta delas). Vinha a sua mente sobretudo a dor da solidão que se concretizava para ele nas inúmeras vezes que permanecia sozinho em seus aposentos, contemplando, de sua janela, o Lago de Cristal, o qual lembrava um espelho gigantesco, refletindo, sob a bruma que o encobria, o firmamento infinito.

Recordou-se do dia em que primeiro conheceu o futuro imperador, e de como, ao contrário dos outros nobres, ele foi amistoso. Tornaram-se amigos. Por muito tempo foi ele sua única amizade naquela terra hostil. O ódio veio depois, por razões que Zairom nunca chegou a conhecer bem.

Sua viagem pelo passado foi bruscamente interrompida pelo ranger da porta. Era Sironiel que chegava com o velho mago ao gabinete. O semblante de ambos era sério. Mas Diom parecia ostentar a tranqüilidade dos sábios. Sentaram-se próximos à mesa do senhor da Terra do Fogo. Zairom estava ansioso. Nos últimos meses estava ficando cada vez mais nervoso. A quietude o perturbava. Nenhum passo, nada que indicasse qualquer movimentação dos seus inimigos. Era como se eles tivessem desistido. Isso o incomodava. Depois que os outros dois estavam acomodados, Zairom esperou ainda alguns momentos antes de iniciar a conversa.

— Mestre Diom — disse ele —, este é Sironiel, o comandante de todo o exército dos filhos do fogo. Pedi para que o senhor deixasse nossa conversa para hoje para que ele pudesse estar presente, pois chegou apenas ontem à noite de uma viagem a Roblaion-Zain. Apesar da juventude, ele é perspicaz, pode ser de grande ajuda. Além disso, quero que esteja a par do teor de nossa conversa, pois é um dos mais importantes guerreiros que servem a esta Casa. Se o senhor não se importar, é claro, quero que presencie nossa conversa.

— É claro que não me importo, Zairom. Se ele é de sua confiança, para mim isto é mais do que suficiente.

— Ótimo. Então, mestre, o senhor disse, quando chegou, que veio até mim como mensageiro. Acho que é chegada a hora de mostrar esta mensagem.

— Sem dúvida, caro amigo. Mas não sem antes uma breve explicação. Há alguns meses recebi uma carta de nosso amigo Quiarom Zangalast. Ele estava preocupado com os últimos movimentos do Larcon. Segundo relatou, seus enviados junto aos reinos do norte estavam sendo assassinados. O mesmo estava acontecendo com seus servidores mais fiéis nas cidades do sul. A carta pedia que eu fosse urgentemente a Lor-Zainan, para decidirmos o que fazer. Fiquei muito preocupado ao saber dessas notícias e decidi partir o quanto antes. Junto comigo foram meu braço direito, Zainog, e minha neta também, esta última a passeio. Meu filho Laios, pai de Lisian, ficou cuidando das coisas na minha ausência.

— Isto não está me cheirando bem — interrompeu Sironiel.

— Não mesmo, meu rapaz — continuou Silai —, mas não da forma que você está imaginando. Como eu ia dizendo, fomos para Lor-Zainan o mais rapidamente possível. Qual não foi nossa surpresa ao nos encontrarmos com Quiarom! Segundo o que ele nos disse, um ou dois de seus diplomatas haviam mesmo falecido de causas naturais, mas seus enviados nas cidades do sul estavam aparentemente bem. O mais estranho, entretanto, é que Quiarom afirmou que não mandara nenhuma carta e muito menos pedira para que fôssemos até Lor-Zainan. Assim, apesar da presença de seu selo, a mensagem pelo visto não tinha sido enviada por ele.

— Alguém queria afastá-lo da Terra do Vento, mestre — disse Sironiel. Zairom permanecia em silêncio e parecia bastante preocupado. Embora estivesse pensativo, prestava atenção a cada palavra do velho mago.

— Temo que tenha razão, meu jovem — respondeu Diom. — Mas infelizmente isto não é tudo. Quiarom, que ficou visivelmente preocupado quando lhe falamos da carta, mostrou-nos outra mensagem que por coincidência recebera dois dias antes. Chegara com uma das caravanas do sul. Conforme ele me relatou, era uma mensagem de um feiticeiro das sombras conhecido como Zoltari.

— Zoltari! — exclamou Zairom, quebrando seu silêncio.

— Isso mesmo. Quiarom o reconheceu pelo estranho símbolo que ele sobrepôs à mensagem. Percebo que são velhos conhecidos. Bem, isto faz sentido. Como ia dizendo, o texto era mais ou menos codificado e nem eu e nem ele conseguimos decifrá-lo. O mais estranho, Zairom, é que apesar de ter sido endereçada para os cuidados de Quiarom, na verdade, a mensagem era destinada a você. Quiarom também conhecia Zoltari, mas não era para ele que a mensagem fora enviada. Pelo que conseguimos entender, era algo bastante importante. Sugeri a Quiarom que viesse pessoalmente até a Terra do Fogo para trazer a mensagem e já discutir as medidas cabíveis em face dela. Ponto pacífico é que esta discussão não poderia esperar, pois a data da mensagem já era bastante antiga. Tínhamos de agir o mais rápido possível. Zangalast, então, decidiu ficar na sua cidade já se preparando para o pior e alertando nossos aliados.

— Presumo que foi por isso que o senhor veio no lugar dele, mestre — disse Sironiel.

— É verdade — continuou Diom. — Estava temeroso em relação à situação na Terra do Vento, mas não tinha recebido nenhuma notícia alarmante. Pensei em mandar Zainog com a mensagem, porém, ponderando melhor, percebi que isto seria o mesmo que mandar um mensageiro qualquer, pois apenas eu ou Quiarom poderíamos discutir com você, Zairom, em detalhes, as medidas necessárias para o contra-ataque, em caso de necessidade. Por isso, ordenei a meu ajudante que retornasse à Terra do Vento e colocasse nossas forças em estado de alerta, mandando batedores para nossas fronteiras com a Terra da Pedra, buscando a existência de tropas. Então, vim pessoalmente trazer a mensagem. Pode ser que não haja razão para nos preocuparmos, tudo depende do conteúdo desta carta — disse Diom, ao colocar uma pequena folha de papel amarelado sobre a mesa.

Zairom olhou para a folha atentamente. Estava dobrada. Pegou-a em suas mãos e, abrindo-a, percebeu que não tinha mais que umas poucas linhas de texto:

Nocloel-4, 1656.

O sol está se pondo. Vou observar o jardim de rosas antes que anoiteça.

Posso ver que é grande, como se fosse primavera. O tempo urge. Os espinhos são afiados, vão ferir as pessoas no verão quando todas as flores desabrocharem. Tudo é estranho, estranho demais, não faz sentido! O perigo é iminente.

O sol vai se pôr, mas andarei pelos campos mesmo assim. Tentarei mandar mais mensagens.

Quando Zairom terminou de ler o texto, sua face empalideceu. Estava transtornado. Diom, percebendo o estado do amigo, também se mostrou preocupado. Zairom, que evidentemente entendia a linguagem cifrada, permanecia em silêncio, sem nada explicar.

— O que foi, mestre Zairom? — indagou Sironiel quebrando o silêncio.

— Zairom — continuou Diom —, o que eu e Quiarom conseguimos entender foram as ameaças de perigo, mas só podemos supor o que a linguagem cifrada significa. Não a compreendemos.

— Isto porque eu e Zoltari a criamos — interrompeu Zairom. — As notícias são mais graves do que eu imaginava. Estamos muito atrasados!

— Acalme-se, Zairom. Diga-nos exatamente o que está na mensagem.

— Bem, vou tentar — disse o filho do fogo, recuperando parcialmente o controle. — A primeira frase,"o sol está se pondo" significa que Zoltari está correndo um grande perigo. Deve ser utilizada nos casos em que o inimigo já sabe de sua presença e guerreiros treinados e de grande habilidade o estão perseguindo, provavelmente outro ou outros feiticeiros das sombras. Ele nunca havia usado esta frase antes! A metáfora das flores indica um exército inimigo. A palavra jardim indica que está sendo "cultivado", ou seja mobilizado. A espécie de flor refere-se à sua localização.

— Provavelmente, deve ser a Terra do Tempo ou em Naquicaron, onde está grande parte dos exércitos imperiais — disse Diom.

— Não — interrompeu Sironiel. — Nós mantemos espiões nas duas regiões. Qualquer movimentação de um exército hostil seria detectada e nós saberíamos disso. Um exército não é exatamente algo fácil de se esconder.

— O mesmo eu posso dizer da Terra da Pedra — completou Diom.

— Não foi em nenhuma dessas regiões. A palavra rosa indica a Terra do Aço.

— O quê? Mas eles eram nossos aliados! — disse Diom.

— É verdade. A traição deles foi algo realmente inesperado — disse Zairom. — Infelizmente, isto não é tudo. A frase da segunda linha é clara, evidencia o tamanho do exército e a possibilidade de utilizá-lo quase imediatamente. Esta última parte está no trecho "como se fosse primavera". Porém, Zoltari acha que eles pretendem usar o exército no verão, ou seja agora, a qualquer momento! O verão começou no mês passado.

— É óbvio, tudo está claro para mim — disse Diom. — A Terra do Aço é mais ou menos próxima à Terra do Vento. Basta atravessar a Terra da Pedra. Eles terão o benefício da surpresa. Além disso, afastaram-me de casa para atacar meus domínios com este exército. Tudo se encaixa. Começo a temer pelo pior! Deveria ter voltado e ajudado a reforçar as defesas. Ao menos Zainog deve ter dado o alerta.

— Acalme-se, mestre — disse Sironiel. — Todos conhecemos o relevo da Terra do Vento, que não facilita em nada a movimentação de tropas. Não estudei muito a história dessa ilha, mas sei que no passado inúmeros exércitos do sul, muito numerosos, encontraram seu fim nos desfiladeiros de sua região. Além do mais, ao contrário dessa nossa terra de fazendas, a Terra do Vento é repleta de fortalezas e castelos, uma herança do seu passado de guerras que pode vir muito bem a calhar agora. Cada uma delas pode suportar um cerco prolongado, dando chance para contra-atacarmos com todas as nossas forças.

— Sironiel tem razão — disse Zairom. — Eu mesmo não poderia ter enumerado mais razões para Zairon não enviar seu exército-surpresa para a Terra do Vento. Seu alvo deve ser outro. Ele não é estúpido.

— Mas onde? — ponderou Diom. — A Terra da Água é muito bem protegida por sua enorme frota e não tem nenhuma fronteira terrestre com os territórios inimigos, a não ser que atravessassem as Fai-Lan, as quais, pelo que nós sabemos, são inexpugnáveis.

— De minha parte — continuou Sironiel —, cheguei ontem à noite de viagem de Roblaion-Zain e garanto que não há sequer uma sombra de exército vindo da Terra do Tempo. Eu acho que o Larcon, se é que Zoltari não se enganou, desistiu de seu plano ou ainda não o pôs em prática.

— Não acho que seja isso — disse Zairom. — Zoltari nunca se engana! Além do mais, a mensagem que Diom recebeu, afastando-o da Terra do Vento, está relacionada ao plano deles de alguma forma. Eu posso sentir! O plano, seja ele qual for, já está em andamento.

— O senhor pode ter razão, mestre — falou Sironiel. — Mas onde? Talvez Zoltari nos mande outra mensagem que nos aclare as idéias.

— Não espere mais mensagens dele — lamentou-se Zairom. — Ou foi capturado, ou foi morto.

— O quê?.— espantou-se Sironiel.

— É o que percebo por sua última frase, ele voltou ao acampamento, apesar da perseguição e me alertou do risco que corria. Ele nunca fez isso antes. O risco deveria ser grande demais mesmo para ele. Alguém poderoso nas artes místicas, mais poderoso do que Zoltari, o estava perseguindo. Sua única chance era fugir, mas ele voltou porque não deve ter tido outra escolha.

— Você consegue ver isto só por aquela última frase? — indagou Sironiel.

— Se não estivesse certo, não diria — respondeu Zairom.

— A situação é realmente muito estranha — falou Silai. — As dúvidas, em vez de se aclararem, tornaram-se mais numerosas. Infelizmente, minha arte não nos pode ajudar a resolver este mistério. Precisamos de sua astúcia, Zairom.

— Tenho de pensar. Mas uma coisa é certa: no plano deles o senhor, por alguma razão, deveria permanecer afastado de sua terra, mestre. Por isso, deve voltar o quanto antes para lá. Vamos nos reforçar e torcer para que não seja tarde demais. Eu tenho outros espiões, que não chegam aos pés de Zoltari, mas vou fazer o possível e o impossível para descobrir o que está se passando. Quiarom chamou os exércitos aliados do continente para nos reforçar?

— Creio que sim... Pensando melhor, acho que o ouvi dizer que apenas os deixaria de prontidão.

— Na sua viagem de volta, encontre-se com ele e mande-o trazer todas as forças que conseguir para Lor-Zainan.

— Zairom, você acha que isto é mesmo necessário?

— Necessário? Vamos torcer para que não seja tarde demais! O tempo urge. O senhor deve partir amanhã mesmo, assim que Lisian chegar.

— Muito bem — disse Diom. — Até lá, acho que só nos resta esperar — considerou o velho mago.

Já nas proximidades da face oeste da Grande Muralha, os jovens permaneciam alheios à preocupação dos adultos. O sol já havia feito três quartos do seu percurso e o dia prosseguia como havia começado. Era um belo dia, sem dúvida. Rairom, porém, não se importava. Permanecera calado desde a hora do almoço, enquanto Lisian e Tairom conversavam sem parar. Pareciam se entender muito bem. A trilha na Serra era muito pouco utilizada, pois as terras logo abaixo eram parcamente povoadas. Por isso, a trilha não tinha sido bem planejada e era bastante estreita e irregular. Não tão irregular, porém, que os cavalos não pudessem atravessá-la com certa tranqüilidade. Contrastando com o vazio do planalto, as montanhas da face oeste eram cobertas de mata não muito fechada, semelhante à da Floresta Negra, com muitos pinheiros e coníferas. Os viajantes cruzaram a trilha até a altura de uma bifurcação. Então pararam diante dela. A única opção era perguntar a Rairom, visto que Tairom não se lembrava do caminho a ser seguido.

— Então, Rairom — disse o menino —, qual dos dois caminhos devemos tomar?

— Bem, pelo que me lembro é o da esquerda.

— Tem certeza? — perguntou Lisian.

Rairom assentiu com a cabeça. Seguiram, então, a trilha por mais ou menos umas duas horas, sempre descendo, e finalmente chegaram a uma superfície aparentemente plana. Olhando-se para cima, era possível observar, entre as árvores, os picos de algumas montanhas, cobertos de mais e mais vegetação. À frente, porém, não se podia ver muita coisa. A trilha aparentemente desaparecera em meio a um solo coberto de plantas arbustivas. Pequenos pássaros dançavam entre as árvores e uma brisa suave refrescava os viajantes.

De súbito, enquanto Tairom e Lisian se dirigiam para o leste, Rairom deu uma guinada súbita mais ou menos para o norte, sem nada dizer. Os outros dois se entreolharam e decidiram segui-lo. O terreno não era mais uma trilha, mas a mata não era fechada. Por isso, os cavalos podiam passar sem muita dificuldade. Entretanto, era difícil acompanhar Rairom, montado em Estrela, em razão do que, gritaram para que fosse mais devagar, sem serem atendidos.

Finalmente, quando conseguiram alcançá-lo, viram-se em uma espécie de clareira. Acima deles, para o leste, estava um grande penhasco rochoso do qual despencava uma cachoeira espumante. Sua água, ao tocar o solo, formava um pequeno lago. Este, por sua vez, dava origem a um riacho que se embrenhava floresta adentro. Quando Lisian olhou para a égua negra, que calmamente bebia água, viu que Rairom não estava sobre ela. Procurou-o com os olhos, mas não conseguia encontrá-lo em parte alguma. Desceu então da sua montaria e foi se aproximando de Tairom, que estava na beira do lago. Ao chegar próximo das águas, a menina viu que eram transparentes, podendo-se observar claramente os pequenos peixes que habitavam o lago e o seu não muito profundo fundo rochoso. Até mesmo Tairom poderia ficar em pé na maior parte do lago sem se afogar.

— É muito bonito este lugar, Tairom — disse Lisian.

— É, eu também acho. Esta é a Cachoeira Azul que queria lhe mostrar. Fico feliz que tenha gostado.

— Onde está Rairom? Ele sumiu. Não consigo vê-lo em lugar nenhum.

— Não se preocupe, acho que sei onde ele está. Venha.

Ao dizer isso, Tairom começou a contornar o lago dirigindo-se à base da cachoeira. Foi seguido por Lisian. O dia já terminava e a coloração de toda a natureza alterava-se, respondendo à tonalidade dourada que o céu, no oeste, começava a assumir. Ao aproximar-se da base, o menino não tardou a subir os degraus que se desenhavam na rocha. Percebendo que Lisian o seguia, advertiu-a para que subisse com cuidado, para não escorregar. Qual não foi a surpresa da moça ao descobrir que, por detrás da cascata, havia uma pequena caverna.

— Cuidado para não se molhar, Lisian — disse Tairom. A caverna era iluminada por uma lamparina, mas sua luz

não ofuscava o brilho róseo e dourado que atravessava a cachoeira invadindo o interior da gruta. Rairom estava lá dentro pensativo. Sentado na pedra fria, observava o cair incessante das águas.

— Daqui a pouco o sol vai se pôr — disse Tairom. — Vamos até o observatório ver o pôr-do-sol no mar?

— Ainda falta algum tempo para a noite cair e o observatório está muito próximo — disse Rairom.

— Observatório? — perguntou Lisian.

— É o lugar de onde se pode ver toda a planície e também o mar. São as ruínas de uma antiga torre de pedra que fica perto da encosta — explicou Tairom. — Acho que já vou para lá agora. Se depender da preguiça de Rairom, vou perder o pôr-do-sol.

— Vá na frente. Eu alcanço você. Preciso descansar um pouco — disse Lisian.

— Tem certeza? Está certo, então, mas se Rairom não quiser ir, você pode vir sozinha, pois o caminho é simples. Saia da caverna na margem do lago oposta à que você entrou. Depois procure uma trilha. É só segui-la e pronto. Não há como errar. Se não conseguir achar a trilha, peça para Rairom ajudá-la, está bem?

— Certo.

Tairom, então, deixou a gruta e foi para as velhas ruínas. Lisian sentou-se na pedra e começou a observar a cascata. A luz que atravessava as águas formava um singelo espetáculo.

— Tairom estava certo — disse Rairom. — Se você não se apressar, vai acabar perdendo o pôr-do-sol.

— É muito bonito este lugar — falou Lisian. — Também temos muitas cavernas na Terra do Vento, mas não me lembro de nenhuma atrás de uma cascata.

— É, eu sempre vim aqui — disse Rairom. — Lisian, me conte como é a Academia.

— Não há muito para contar. É um prédio antigo em formato piramidal que fica no centro de Laiog-Zainan, a Cidade do Vento. É um belo lugar, pois a cidade está cercada de montanhas nevadas. Tenho certeza de que vai gostar de lá. Mas é um pouco mais frio do que aqui.

— Aqui também é frio.

— Mas lá nós não temos verões tão quentes quanto aqui.

— Bem, eu acho que vou gostar de lá. Mas não vai ser fácil sair de casa.

— Escute, Rairom, eu queria fazer uma pergunta, mas prometa antes que não vai ficar irritado.

— Por que tanta insistência nesse assunto do teste de ontem? Não pode ser mera curiosidade.

— Então, você acha que era essa a minha pergunta...

— E não era?

— Bem, se você acha que sim, quem sou eu para discordar? Já que você quer falar nesse assunto, não é mesmo mera curiosidade. Se você me contar o que sabe, eu conto o que sei.

— Você não sabe nada que eu não saiba.

— Rairom, você é mesmo muito irritante. É o garoto mais orgulhoso e insuportável que já conheci até hoje. Sua mãe mimou você demais.

— Liana é mesmo muito protetora... Acho que ela gosta de mim tanto quanto de Tairom.

— O que está querendo dizer?

— Ora essa, você é mesmo estúpida, ela não é... Bem, minha mãe verdadeira morreu logo depois que eu nasci.

— Desculpe. Eu não sabia.

— O pior é que meu pai não me fala nada dela, não sei nem o seu nome... — lamentou-se Rairom. O rapaz olhou para o rosto de Lisian. Ela parecia frágil e triste, o que o fez se arrepender de tratá-la com tanta rispidez. — Desculpe-me por tê-la chamado de estúpida — disse o rapaz da forma mais terna que conseguiu. — Você é inteligente, para uma garota.

— Acho que devo entender isso como um elogio — falou Lisian, ensaiando um pequeno sorriso.

— Você tem razão — continuou o rapaz, levantando-se. — Não há nenhum motivo para que eu não lhe revele o que aconteceu comigo ontem. Vamos encontrar Tairom no observatório e no caminho eu conto tudo para você, pelo menos o que eu me lembro.

Deu, então, sua mão para Lisian, ajudando-a a se levantar. Ao deixar a cascata, perceberam que apenas parte dela era róseo-alaranjada. A porção superior das águas estava pintada de um azul-escuro no qual se podia ver esboçada a imagem das primeiras estrelas da noite.

— Acho que vamos perder o pôr-do-sol — comentou Rairom.

— Não tem problema. Vamos?

Saíram, então, os dois da caverna, dirigindo-se à trilha que levava às ruínas. Quando dela se aproximavam, observaram que uma figura corria em sua direção. Era Tairom. Voltava à toda velocidade. Ao aproximar-se de Rairom, o menino parou. Estava suado e ofegante. Parecia muito espantado.

— O que aconteceu, Tairom? — perguntou Lisian.

— Uns... homens... a cavalo... muitos... — disse o menino sem conseguir se explicar.

— Do que está falando, irmão? — indagou Rairom. — Respire fundo, acalme-se e explique-se.

— Não há tempo! Há um exército vindo para cá! Estão mais abaixo, mas eles têm batedores. Vamos fugir enquanto podemos! Rápido!

— Um exército? — disse o rapaz ao observar seu irmão

que corria em direção ao pônei amarelado.

O dia já havia acabado e uma longa e escura noite estava para começar.

 

                       Uma noite de trevas

Aquele que mais tarde fora lembrado como o grande impera-dor-legislador era tido como um louco por muitos de seus contemporâneos. Provavelmente, isto se deve ao fato de ter condenado o seu próprio clã ao exílio. Até então os filhos do fogo eram os senhores de Naquicaron. Com a criação dos clãs, perderam a cidade, que passou a ser o domínio do Larcon. Mas eles ficaram com a Terra de Heróis, argumentavam os defensores do soberano. É verdade. A família Norbest, a mais importante dentre os Filhos do Fogo (Tiuron II era um Norbest), recebeu a tradicional cidade para si. Os críticos, porém, ponderavam com razão que a partir de então eles deixaram de ser filhos do fogo para se tornarem filhos do tempo (o que, aliás, o próprio Larcon determinou). Então aqueles que ainda pertenciam ao primeiro dos clãs foram condenados a viver em terras ermas e descolonizadas, mais próximos do Deserto de Pedra do que de qualquer outra coisa. É certo que ninguém queria ir para lá efoi preciso que se convencesse o homem mais rico de Naquicaron, um Norgat, a assumir o trono dos recriados filhos do fogo para que alguém se dispusesse a habitar as verdes colinas de um planalto distante. Norgat, porém, não era tolo e só aceitou o feudo porque tinha sérias razões para acreditar no potencial do lugar, em especial na riqueza mineral, que, com o tempo, provou ser maior até mesmo que a da Terra da Pedra.

airom, explique-se melhor agora mesmo — disse Rairom correndo em direção ao irmão.

— Eu já disse que não há tempo! Temos de sair daqui! Venha Lisian! — gritou o menino.

A garota, então, correu até ambos. Tairom, na frente, seguia de forma resoluta em direção aos cavalos. Cruzaram a passagem da caverna e já estavam do outro lado do lago quando o menino, ao montar em seu pônei, finalmente parou.

— Acalme-se por um momento, por favor! Se você não me contar exatamente o que viu não posso pensar no que fazer — disse Rairom, assim que conseguiu alcançar o irmão.

— Já disse, eu vi um exército.

— Um exército armado? — indagou Lisian ao alcançá-los. Estava ofegante e parecia que só naquele momento se dava conta da situação.

— Isso eu já entendi. Mas explique-se melhor — pediu Rairom.

— Vamos sair da trilha primeiro e depois eu explico — insistiu o menino.

— Muito bem, eu conheço um caminho alternativo que dificilmente um exército usaria — disse o rapaz. — Vamos por ele e depois você me conta tudo, certo?

Montaram então nos cavalos e galoparam por mais ou menos meia hora o mais rápido que puderam, sempre permanecendo juntos. Em vez de seguir para o sul, foram em direção ao leste e contornaram o penhasco rochoso por uma trilha bem mais estreita, mais difícil de identificar e atravessar. Se Rairom não tivesse vindo tantas vezes àquelas montanhas, nunca encontrariam o caminho. Mas o rapaz já havia passado por ele algumas vezes e não havia risco de se perder.

— Vamos parar um pouco. Os cavalos precisam descansar. Estou preocupado com eles, afinal cavalgaram o dia inteiro e não tiveram tempo de se recuperar — disse Rairom. — Quanto à Estrela, sei que ela pode agüentar a viagem de volta. Vai estar exausta no final, mas agüenta. Em relação aos outros, não tenho certeza.

— Acho que podemos dizer o mesmo dos outros — falou Lisian. — Afinal, viemos num ritmo bem lento. O que os outros dois não vão agüentar é voltar mais rápido do que vieram.

— Acho que você tem razão, Lisian — disse Rairom. — Não sabia que entendia de cavalos.

— Há muitas coisas que você não sabe sobre mim — disse a garota. — Tairom, agora nos conte o que aconteceu em detalhes.

Tairom estava calado. Nada dissera desde que deixaram a cachoeira.

— Bem, não há muito o que explicar — disse o menino, que finalmente parecia um pouco mais calmo. — Eu estava no observatório. Dele se pode ver uma grande extensão das montanhas e também o nível do mar. Não tinha percebido nada a princípio, mas depois vi uma enorme quantidade de pessoas subindo pela trilha, bem abaixo. Pensei que fosse uma caravana, o que seria estranho. Todo mundo sabe que nenhuma caravana vem pela face oeste. Utilizam sempre a estrada da face sul. Olhei então com mais cuidado e vi que um grupo já estava relativamente próximo. Estou quase certo de que eram guerreiros armados!

— Você viu que tipo de armas eles possuíam? — perguntou Rairom.

— Mais ou menos. Havia homens a pé, a cavalo e, se não me engano, alguns com arcos também.

— Bem, continue então.

— Fiquei muito nervoso, mas ainda consegui observar que ao norte havia outro grupo, só que este estava bem mais avançado, quase ultrapassando as montanhas. Ao sul, vi, ao longe, um terceiro grupo, também mais avançado que o do meio.

— E estes, estavam armados? — perguntou Lisian.

— Não deu para ver. Estavam muito longe. Tive de sair correndo o mais rápido possível. Estavam mandando três batedores em direção à torre.

— Será algum exército estrangeiro? — indagou Lisian.

— Não sei — respondeu o menino.

— Bem, provavelmente são hostis — disse Rairom. — Devemos avisar meu pai o mais rápido possível.

— Vá com Estrela, então — disse a garota. — Ela é a única que está em condições de ir rapidamente daqui até sua casa.

— Não posso deixar vocês dois sozinhos aqui — argumentou Rairom.

— Nós podemos encontrar o caminho — retrucou Lisian.

— Tenho certeza que sim. O que me preocupa são os batedores de que Tairom falou. Teremos de voltar para o planalto logo e ele não oferece a camuflagem das matas. Acho que tenho uma idéia melhor. Lisian, você vai com Estrela o mais rápido que puder e dê o alerta. Nós dois iremos mais lentamente. Chegaremos provavelmente ao amanhecer.

— Não! Eu não posso ir. Mesmo que Estrela saiba o caminho de casa, não sei se o vai achar facilmente no escuro. Eu sei que não conheço o caminho. O risco de nos perdermos é grande demais.

— Acho que você pode estar certa. Tairom, você vai. Acha que pode montá-la?

— Eu acho que sim, mas não vou conseguir ir tão rápido quanto você iria.

— Não se esqueça de que Estrela está cansada. Ela não vai muito rápido de qualquer maneira.

— Certo.

— Enquanto estivermos nas montanhas, permaneceremos juntos. Depois, no planalto, Tairom vai com Estrela.

Os jovens, então, seguiram sempre em frente por mais ou menos duas horas em uma trilha bem mais fechada do que aquela por onde tinham vindo. Lisian pensou mesmo que não conseguiriam passar com os cavalos. Acabaram conseguindo, não, porém, sem grande esforço e com certa lentidão. Finalmente, atingiram o planalto com suas colinas gramadas. A noite estava escura e o clima havia mudado. Um vento frio e cortante feria os rostos dos viajantes. Não se via a Lua e as poucas estrelas que se avistavam demonstravam que o firmamento estava sendo rapidamente coberto por nuvens.

— A noite está escura — disse Lisian. — Espero que não chova.

— Eu também — concordou Rairom. — Como se já não tivéssemos dificuldades suficientes! Chegou a hora de nos separarmos. Tairom, venha. Suba em Estrela.

— Tem certeza de que devemos nos separar? — indagou o menino. — Eu não gosto da idéia. Acho que deveríamos ficar juntos.

— Não discuta. A situação já é arriscada o suficiente. Este exército pode ter vindo para destruir a Terra do Fogo. Você tem de avisar nosso pai o quanto antes.

— Eu vou — concordou o menino depois de pensar um pouco. — Cuidem-se vocês dois.

Rairom desmontou, permitindo que seu irmão subisse no corcel negro, que era até difícil de se enxergar na escuridão daquela noite, não fosse pela mancha branca na testa.

— Vá o mais rápido que conseguir, Tairom, mas tome cuidado, não vá cair do cavalo! — brincou o rapaz.

— Cale a boca, Rairom. Eu monto melhor do que você.

— Vou fingir que acredito. Boa sorte, irmãozinho. Tairom não tardou e partiu em disparada pela estrada.

Logo foi ocultado pelas trevas da noite. Só se ouvia o galopar de Estrela na escuridão. Mesmo este som, porém, foi ficando gradativamente mais distante, até que cessou por completo. Estrela ia numa velocidade espantosa. Pertencia à lendária raça dos planaltos do norte que, havia alguns grandes ciclos, fora trazida para aquelas verdes colinas por um povo de semblante triste há muito esquecido. O mesmo povo engenhoso construíra a Fortaleza do Eremita no Deserto de Pedra, a torre que Tairom batizou de observatório e muitas outras coisas que os filhos do fogo, em sua ignorância, desconheciam.

Rairom ficara a pé. Decerto, não poderia montar no pônei do irmão. Começaram a andar pelo caminho escuro. Não chovia, mas o ar estava úmido e uma forte cerração não permitia que se visse muito à frente. Depois de algum tempo caminhando em silêncio, o rapaz falou:

— Acho melhor começarmos a andar mais rápido. Quanto mais perto de casa estivermos, mais seguros estaremos.

— Está bem — disse Lisian. — Mas não se preocupe tanto. Tudo isso pode ser apenas um mal-entendido.

— Vamos torcer para que seja. Mas eu não acho. Um exército subindo pelas antigas trilhas da face oeste é muito suspeito, para dizer o mínimo. Parece que ele quer nos pegar de surpresa. Só pode ter vindo de navio e desembarcado nas terras pouco povoadas daquela região. Eles devem querer nos surpreender.

— Se forem inimigos, seu pai e meu avô vão saber o que fazer. Vão dar uma lição neles, você vai ver.

— Caso o exército seja tão grande quanto Tairom mencionou, tenho medo de que não haja o que fazer. Pelo menos espero que escapemos do cerco e consigamos fugir.

— Cerco?

— Isso mesmo. O que você acha que eram aquelas colunas ao norte e ao sul. Estão tentando fechar nossas saídas.

Rairom olhou para Lisian. Percebeu que ela tremia com o frio da noite. O rapaz já estava de casaco, antes mesmo do pôr-do-sol.

— Lisian, você não trouxe casacos para a noite? — perguntou ele.

— Bem, eu trouxe um na minha bolsa, mas com toda aquela correria eu a esqueci dentro da caverna.

— Temo que o mesmo tenha acontecido com a nossa comida. Pegue o meu casaco. Não vou passar frio porque estou andando. Não vou precisar dele — disse o rapaz, retirando-o e entregando-o à moça.

— Não sabia que você era capaz de um ato tão cavalheiresco, Rairom — falou Lisian ao colocá-lo. — Já estou até achando que você não é tão mal-educado quanto eu pensava.

— Não me faça mudar de idéia — disse Rairom, brincando.

— Você disse que estávamos sem comida?

— É verdade, eu também esqueci nossos suprimentos lá na caverna.

— Então, eu vou ter de passar fome?

— Ora vamos, não seja fresca, você bem que está precisando perder um pouco de peso — afirmou o rapaz, injustamente.

— O quê? O que você disse?

— Mas, espere... — falou Rairom enquanto tateava os bolsos. — Aqui está. Tinha até me esquecido deles. Está vendo este saco, aqui estão os biscoitos especiais de Liana. Ela nunca cozinha, é claro. Quem faz isso são os empregados. Nem sabe cozinhar quase nada, diga-se de passagem. Mas estes biscoitos são a honrosa exceção. De vez em quando, ela os faz e são verdadeiramente deliciosos.

— Se são tão bons, por que não me mostrou antes?

— Justamente porque são bons! Eu queria guardá-los só para mim.

— Não me diga. Por que não estou impressionada? Vai me deixar experimentar um ou não?

— Vou. Tome — disse Rairom, entregando dois biscoitos à moça. — Hoje realmente estou surpreso com minha generosidade. Estou feliz de não ter voltado para casa na hora do almoço. Sabe, por causa de sua chatice, eu pensei em voltar.

— É mesmo?

— Se eu tivesse voltado, você e Tairom estariam indefesos.

— Como se você representasse uma grande defesa... Nem mesmo tem uma arma.

— Mais importante que a força física é a inteligência. Você e Tairom, acerebrados como são, é provável que nem conseguissem achar o caminho de volta. Seriam capturados com toda a certeza.

— Nunca ouvi maior absurdo. O velho Rairom está de volta. É melhor você ficar em silêncio, porque eu estou muito cansada para brigar com você — sugeriu a garota. Rairom, que estava mesmo cansado da conversa de Lisian, acatou sua idéia. Tinham de falar menos e apressar o passo. Foi o que fizeram. Os dois jovens prosseguiram o mais rápido que puderam e passaram-se mais algumas horas sem que nada acontecesse. As trevas, de alguma forma, serviram para protegê-los.

A metade da noite já havia transcorrido, quando Tairom conseguiu chegar em casa. Todos estavam dormindo, exceto uma sentinela que estava mais ou menos acordada perto da porta. Tairom desmontou. Viu que Estrela não estava muito cansada.

— Você é realmente forte, Estrela. Cumpriu bem o seu papel — disse o menino, acariciando a égua.

Correu, então, até a entrada, passando por ela sem acordar o guarda que, na verdade, como pôde ver ao se aproximar, cochilava. Estava exausto, e esta visão o desanimou ainda mais. "Se estas são nossas defesas, estamos perdidos", pensou ele. Tinha consigo a chave da porta. Destrancou-a e entrou na casa sem que a sentinela acordasse. Começou a gritar.

— Acordem todos! Acordem!

Mas Zairom não estava dormindo. Não que não houvesse tentado. Simplesmente não conseguira. Estava em seu gabinete, tentando determinar qual seria o seu próximo passo e, o mais importante, qual seria o plano do inimigo. Estavam em guerra, disso já tinha certeza. Mal sabia ele que suas dúvidas estavam para ser dissipadas por seu filho menor. Como estava concentrado, demorou a ouvir o chamado do menino.

Mas como que despertando de um sono profundo, escutou seus gritos. Assustou-se. Levantou-se da cadeira e correu o mais rápido que pôde em direção à escada. Não era, porém, somente ele que corria. Descendo os degraus, encontrou Liana, ansiosa para consolar o filho.

Tairom estava nervoso e cansado. Chorava.

— O que houve, filho? — perguntou Liana.

— Onde está papai? — agora seus gritos haviam se transformado em murmúrios, como se tivesse esgotado suas forças.

— Estou aqui — falou Zairom com uma voz firme e tranqüila, ao descer as escadas. — Tairom, pare de chorar. Você é um garoto de coragem, tem a fibra de nossa família.

Como que instantaneamente respondendo ao comando do pai, as lágrimas pararam de cair. Liana já o abraçava.

— Vamos, me conte o que aconteceu. Onde estão Lisian e Rairom?

— Eles estão voltando, não puderam vir rápido... Acho que estão em perigo.

— O que aconteceu? Por que estão em perigo? — indagou Liana.

— Um exército está vindo para cá, papai. Eu o vi nas Montanhas. Um exército enorme...

Tairom então explicou o que viu com o máximo de detalhes possível. Zairom agora já tinha a resposta para suas indagações. Lamentavelmente, ela se mostrava pior do que todas as hipóteses que conseguira naquela noite imaginar. Estava ele diante do maior desafio de sua vida. Sua perícia seria testada como nunca antes.

Três horas mais tarde, Lisian e Rairom ainda estavam longe de casa. Porém, um bom caminho já tinha sido atravessado, o que deixou o rapaz mais confiante. Suas preocupações se esvaíam conforme o tempo passava. Se nada acontecera até então, era provável que nada mais acontecesse. A hipótese do mal-entendido formulada por Lisian, a princípio descartada, já lhe parecia bastante viável, provável até. Talvez nem existisse exército algum. Tratar-se-ia sim de uma caravana, e o resto seria fruto da imaginação do irmão. "Ele nunca foi muito normal mesmo", pensou. "E ele é bobo também. É o tipo de pessoa sujeita a ter alucinações e interpretá-las como se fossem verdades." Sorriu. Lisian quase que adormecia no lombo do seu cavalo, o qual parecia também muito cansado. Exausto também estava o pônei de Tairom. Rairom, que o trazia pelas rédeas, tinha mesmo de puxá-lo, às vezes, para que continuasse.

De súbito, porém, um leve som começou a ecoar nos ouvidos de Rairom. Soava como um galopar. Estava ainda longe, mas começava a se aproximar, cada vez mais depressa. Rairom percebeu que vinha do oeste. Olhou para trás, mas nada conseguiu ver, a bruma se intensificara.

— Ei, Lisian! — gritou o rapaz.

— O quê? — perguntou a menina, tonta de sono.

— Rápido, desça do cavalo. Tem alguém vindo para cá do oeste. Vamos nos esconder.

A moça, com uma certa relutância, obedeceu. Ainda não estava totalmente desperta, por isso ao desmontar torceu o pé. O som estava já muito próximo, em razão do que não tiveram tempo de esconder os cavalos. Só conseguiram sair da estrada e se posicionar atrás de alguns arbustos, antes que uma figura de armadura aparecesse. Estava montada em um cavalo negro, ou, pelo menos, que parecia negro na escuridão da noite. Ela se deteve perto dos outros dois cavalos e começou

a olhar ao redor, como um lobo farejando a presa. Rairom tentava observar seus movimentos sem muito sucesso, pois além da ausência de luz, era quase impossível ver alguma coisa por entre os arbustos. Decerto, não pretendia pôr a cabeça para fora. Foi um grande erro, pois não viu quando o cavaleiro desmontou e veio em sua direção.

Quando percebeu que se aproximava, pelo som de seus passos, não havia muito mais o que fazer, nem como fugir, pois Lisian não podia correr rápido o suficiente. Talvez, diga-se de passagem, nem Rairom pudesse, especialmente se não conseguisse se esconder em algum lugar seguro antes que o cavaleiro voltasse à sua montaria.

— Saia daí, seja lá quem for, se não quiser morrer. Não vou falar uma segunda vez — disse o homem, com uma voz grave e agressiva.

Rairom se levantou.

— Muito bem — disse o rapaz. — Mas quem é você para andar pelas estradas perseguindo outras pessoas?

— Silêncio. Saia já dos arbustos e venha para cá. Você está sozinho?

— É claro. Nunca houve problemas em viajar sozinho por essas terras antes, até agora pelo menos.

— Não me diga. Não pense que eu sou idiota, garoto! Mande a sua namoradinha aparecer também onde quer que ela esteja.

— Como sabe dela? Bem, não importa, ela não está mais aqui e ela não é minha namoradinha!

— Cale a boca. Vocês já me deram muito trabalho. Quase que eu e os outros não conseguimos achar a saída daquela maldita trilha que vocês escolheram para voltar... Escute, senhorita — continuou ele falando mais alto, visando Lisian — eu poderia procurá-la e encontrá-la, mas estou cansado e esta noite está fria e escura. Por isso, vou ser gentil e lhe dar uma escolha: ou você aparece ou eu mato o seu namoradinho e você vai ter de arranjar outro.

Agarrou, então, Rairom pelo braço e desembainhou sua espada. Conseguiu, o rapaz, naquele momento, ver a face do cavaleiro, pois estava com a cabeça descoberta. Era branco e alto, como o povo do sul geralmente aparentava, mas o que lhe chamou a atenção foi uma grande cicatriz que possuía perto do olho esquerdo.

— Vou contar até três. Um, dois, tr...

— Espere! — gritou Lisian.

— Ah! Vejo que você é uma menina esperta. Venha até aqui. Rápido, antes que eu mude de idéia. Diga-me onde está o outro garoto menor?

Lisian veio mancando.

— Ele não está aqui. Vai trazer muitos soldados — blefou a menina. — Se eu fosse você nos deixaria ir agora mesmo, ou vai se arrepender!

— Por acaso vocês são nobres para terem um exército à sua disposição? Daqui a pouco vão me dizer que são filhos do próprio porco renegado Zairom Guenor.

— Porco renegado?! — falou Rairom, indignado.

— Silêncio. Acho que estão dizendo a verdade quanto ao outro. Vejo que o puseram no cavalo negro mais forte e o mandaram na frente.

— Como sabe de Tairom, insolente? Fale! — gritou a garota.

Rairom gesticulou para Lisian tentando fazer com que ela se calasse.

— Tairom? Será possível que ele é o Tairom, filho de Zairom? Bem, não importa. Como eu sei dele? Eu não tenho de responder a suas estúpidas perguntas. Sabe, vocês são engraçados e formam um belo casalzinho. Pena que minhas ordens são claras: sem prisioneiros.

— Pare! — disse a menina ao perceber que o cavaleiro pretendia matar Rairom. — Olhe atrás de você!

— Você acha que eu sou idiota. Não me diga que é o seu exército particular que veio salvá-los... — falou o homem, dando uma risada.

Um grito se seguiu e um corpo caiu no chão. Não era Rairom, mas sim o cavaleiro. Estava com um ferimento atrás da cabeça.

— O que aconteceu? O que foi que o atingiu? — perguntou Rairom.

— Gostaria de poder dizer que foi a fúria do meu exército, mas na verdade foi um pedregulho que eu fiz levitar direto na cabeça do nosso amigo aqui.

— Brilhante, nem eu teria feito melhor!

— Não teria mesmo. Ele está morto?

— Não — disse o rapaz examinando-lhe o pulso. — Está apenas desacordado. Levou uma pancada muito forte. Lisian, obrigado. Você me salvou mesmo.

A garota ficou um pouco envergonhada com a súbita e sincera gratidão do rapaz, mas não disse nada. Rairom sentia dor. Tinha sofrido um ferimento em seu braço direito. O cavaleiro o tinha ferido antes de cair desacordado. O corte não tinha sido profundo, mas sangrava e o sangue manchava a sua camisa. O rapaz pegou a espada que estava no chão e procurou outras armas no corpo do cavaleiro, sem encontrar nada. Era, pelo visto, apenas um batedor, daí estar pouco armado.

— Você se machucou, deixe-me ver — falou Lisian.

— Não se preocupe, foi só um arranhão. Você está mancando?

— Torci o pé quando desci do cavalo. Bem, acho que não podemos reclamar, afinal de contas estamos vivos.

— Não se anime ainda, nós não estamos em casa e o Tairom falou em três batedores. Vamos torcer para que os outros tenham tomado um caminho diferente e não nos encontrem.

— Deixe-me ver o seu ferimento.

— Se você insiste.

Rairom, então, permitiu que Lisian o examinasse.

— Ai! Cuidado aí! — reclamou o rapaz enquanto a moça improvisava uma espécie de curativo com o pano da manga da camisa do rapaz. — Acho que Tairom não se enganou afinal. Um exército está mesmo vindo para cá e este indivíduo não me parece estrangeiro. Fala muito bem o zainiquiar. Acho que deve ser um ataque dos nossos inimigos do sul.

— Você acha que estamos em guerra?

— Eu tenho certeza. Vamos torcer para que o nosso lado saia vitorioso. O que você está fazendo Lisian? Está começando a doer mais do que antes!

— É um feitiço. Fique quieto. Assim a ferida vai parar de sangrar e vai sarar mais rápido.

— Não sabia que entendia de feitiços curativos.

— Já disse que há muita coisa que você não sabe sobre mim.

— Silêncio... Está ouvindo?

— Parece um barulho de... de cavalos... oh, não!

— Não consigo identificar a origem. Parecem vir tanto do leste como do oeste.

— Vamos nos esconder.

— Mas e o corpo?

— Não há tempo — disse o rapaz.

— Se não o escondermos agora eles vão nos achar.

— Você é mesmo muito cabeça dura.

Rairom e Lisian tentavam arrastar o corpo para fora da estrada. O rapaz, porém, estava certo quanto ao tempo. Antes que conseguissem levá-lo muito longe, outro cavaleiro chegou. Demorou para que percebessem uns aos outros por causa da escuridão que se intensificara. Por isso, quando o cavaleiro os viu, ainda estavam próximos ao corpo.

— Logar! Vocês o mataram! Malditos fedelhos — disse o cavaleiro, que parecia muito entristecido e chocado. Permanecia imóvel como uma estátua.

Relâmpagos numerosos começaram a cruzar o céu, iluminando o cenário. Uma chuva forte estava para cair.

— Vamos, Lisian. Dê-me sua mão.

— Eu não posso correr.

— Venha, dê o melhor de si.

Distanciaram-se alguns passos. Não ouviam som algum a não ser o dos relâmpagos. O cavaleiro não os estava perseguindo? Rairom olhou para trás. Viu claramente, em razão da luz de um raio, que, na mão de seu algoz, encontrava-se um arco. Seguiu-se um minúsculo instante de escuridão. Antes que pudesse fazer qualquer coisa, um novo relâmpago cortou o céu. Desta vez, pôde perceber que outro batedor a cavalo também se aproximara e que o arco já estava pronto para disparar.

— Não! — gritou ele.

Nova escuridão. O zumbido da flecha rompendo o ar foi tudo o que se ouviu. De repente a mão de Lisian apertou forte a de Rairom e depois se soltou. A moça caiu ao chão. A flecha a havia acertado nas costas. O cavaleiro rapidamente começou a se preparar para atirar novamente. Rairom permanecia parado.

— Fuja, garoto! — disse ele. — Prefiro atirar em alvos em movimento. Do contrário, não tem graça.

O outro cavaleiro começou a rir. Rairom permanecia imóvel.

— Bem, se prefere assim, que seja então.

O cavaleiro apontou a flecha em direção ao rapaz. Rairom empunhou a espada de Logar com as duas mãos, o que fez o atirador hesitar por alguns momentos.

— Vejo que tem uma espada. Que pena que a essa distância você não pode fazer nada com ela.

— Será mesmo? — desafiou o rapaz.

— Idiota, não acha, Tairram? — disse o arqueiro para seu companheiro, que assentiu com a cabeça.

Preparou-se, então, para acertar Rairom com a flecha. Um momento de escuridão mais longo se seguiu. No seu ínterim, ouviu-se o som de um corpo caindo e o relinchar de um cavalo. Mais um raio.

— Não pode ser! — gritou Tairram. A espada de Logar estava enterrada entre os dois olhos do arqueiro que restava caído no chão. — Maldito, como fez isso?!

Os relâmpagos continuavam a cruzar o firmamento. O céu parecia estar para cair.

— Eu sou um mago — disse Rairom ofegando. — Não se aproxime ou será o próximo.

O último dos três batedores sentiu um pouco de medo.

— O quê? Espere um pouco. Você é muito jovem para ser um mago. É no máximo um aprendiz e aprendizes não podem ficar usando feitiços aleatoriamente. Eles cansam. Além disso, você não tem mais uma espada para jogar em mim, tem?

Rairom permaneceu em silêncio. Estava muito cansado.

— Morra! — disse o cavaleiro preparando-se para galopar em direção a Rairom.

Antes que pudesse fazer qualquer coisa, porém, uma flecha o atingiu na barriga. Sua armadura o protegeu, mas ele desequilibrou-se, caindo de sua montaria, que saiu em disparada, desaparecendo nas trevas. A chuva começava a cair, mas ainda não muito pesadamente.

— Que truque é esse? — indagou o cavaleiro pondo a mão em sua barriga, que doía por causa do choque.

O rapaz nada disse. Estava tão surpreso quanto Tairram. Um quarto cavaleiro se aproximou, mas este vinha do leste. Parou e desmontou de seu cavalo. Rairom não conseguia ver sua face por causa da escuridão.

— Você se mostra corajoso contra crianças desarmadas. Mas vamos ver como enfrenta alguém do seu tamanho — disse ele furiosamente.

— Essa voz, pai? — falou Rairom.

— Sironiel, não atire a não ser que ele tente fugir — disse o cavaleiro.

Era mesmo Zairom e ele parecia furioso! Rairom nunca o vira assim. Sempre um frio estrategista, o pai nunca demonstrava seus sentimentos. Raramente deixava transparecer irritação, jamais fúria. Era, para o rapaz, impossível imaginá-lo como um soldado em batalha. Mas Zairom era um grande guerreiro. Um dos melhores de sua geração, pelo menos era assim que era considerado por seus mestres na Academia. O guerreiro adormecido havia despertado, e não se deixaria vencer facilmente.

A chuva caía e trovões ainda cortavam o firmamento, possibilitando que Tairram visse seu adversário. O olhar furioso de Zairom lhe gelou a alma. Pensou em fugir.

— Espere! — disse Zairom. — Você não quer lutar comigo?

— Não. Estou em desvantagem.

— Desvantagem? Eu sou um homem de meia-idade, sou mais fraco que você.

— Mas está defendendo a cria. Mesmo animais pequenos podem se tornar ferozes numa situação como essa.

— Vai perder a chance de sua vida, pois eu sou Zairom Guenor.

— O quê? Não é possível. Pode estar mentindo, mas pode não estar. E se não estiver? Mas que golpe de sorte! — balbu-ciou o cavaleiro. — Muito bem, eu vou matá-lo, velho, e levar sua cabeça para o acampamento. Não deveria ter revelado sua identidade.

O cavaleiro não tardou a atacar Zairom, que se defendeu com sua espada. Começaram a duelar, mas não por muito tempo, pois não demorou para que o senhor dos filhos do fogo o vencesse, jogando-o ao chão. Tentou cravar-lhe a espada sem sucesso, pois Tairram conseguiu se esquivar. Estava obstinado a matar Zairom a qualquer custo. Correu até o corpo do batedor morto e pegou a espada, desencravando-a do rosto de seu amigo, uma cena repugnante. Renovou a tentativa de ataque, só que, desta vez, com mais tenacidade.

— Você está lutando bem, velho, mas não tem nenhuma chance de vitória. Desista!

Rairom, que estava junto ao corpo inerte de Lisian, a tudo observava em silêncio, estarrecido. Tairram renovou o ataque. Tentava golpear o adversário na cabeça, depois na barriga, nos braços. Zairom apenas defendia-se pacientemente. Isto fez com que o adversário se precipitasse num ataque do qual o filho do fogo se esquivou. Em conseqüência, o batedor desequilibrou-se caindo ao chão. Antes que pudesse se levantar a espada de Zairom estava encostada em seu pescoço.

— Espere, nobre senhor — disse ele ofegante. — Eu imploro! Não me mate! Eu posso ser útil, isso mesmo — disse gaguejando. — Posso dar informações. Poupe-me. Por favor, tenha piedade.

Zairom hesitou por um instante.

— Você está com sorte, pois tem razão. Virá como prisioneiro por enquanto. Não pense em fugir. Mandarei Sironiel vir prendê-lo assim que eu terminar de olhar as crianças — falou o senhor dos filhos do fogo, com a nobreza que lhe era habitual.

Havia dado ao cavaleiro uma última chance de sobrevivência, mas sabia, em seu íntimo, que ele não a aceitaria. Dito e feito: assim que Zairom se afastou, Tairram tentou fugir. Correu, porém, apenas uma pequena distância, antes que uma flecha atravessasse o seu pescoço. Era de Sironiel. A chuva caía mais forte do que nunca e o rapaz sentia dor a cada pingo d'água que tocava sua ferida.

— Filho, você está bem?

— Estou inteiro, se é o que quer dizer. Quanto a Lisian, ela me salvou, mas eu não consegui fazer nada por ela. Acho que ela morreu — disse o rapaz. A água, que escorria pelo rosto, dissolvia o salgado de suas lágrimas.

— Ora, você fez o que pôde! Eu tenho muito orgulho de você, da pessoa que você se tornou. Não é só forte, mas bom e corajoso também. Sua mãe ficaria muito orgulhosa. Ela era uma pessoa valorosa, como você também é. Nunca duvide disso, filho — disse Zairom. Se não fosse pela chuva que cobria de água o rosto do filho do fogo, Rairom juraria que seu pai estava chorando.

— Pai? — balbuciou o rapaz. Estava espantado com o pai, não reconhecia nele o homem frio e distante com quem se acostumara a conviver.

— Esta noite tive medo, Rairom. Eu não sentia este medo desde o dia em que sua mãe morreu. Eu já perdi sua mãe. Não tenho vergonha de confessar que a idéia de perder você também me deixou apavorado!

Zairom abraçou forte o filho, que ainda estava chocado com a atitude do pai.

— Mestre Zairom, venha aqui! A garota está viva, mas não está nada bem — disse Sironiel que, alheio à conversa dos outros dois, examinava Lisian. — Temos de levá-la para o seu avô o quanto antes. Ele saberá o que fazer.

A chuva ainda caía forte, mas a escuridão diminuíra. Eram os primeiros raios de sol que tornavam acinzentadas as antes negras nuvens próximas ao horizonte. A noite estava chegando ao fim.

 

                         A busca pelo poder dos selos

O desejo de poder tem sido uma constante humana, e fonte de muitas das desavenças e desgraças da humanidade. Mas, por que os homens buscam o poder? Diriam alguns que essa busca não tem finalidade alguma. É irracional, está na natureza humana. Não é verdade. Há sim uma razão. Antes de mencioná-la, porém, deve-se definir o termo poder. Este conceito não é preciso, mas pode-se entendê-lo como a faculdade de transformar uma vontade (desejo) em realidade. Assim, a vontade (ou desejo) de poder nada mais é do que o reflexo de outras vontades. Por exemplo: eu quero beber um copo d'água (é um desejo), para tanto eu devo ter o poder de ter acesso à água. Em conseqüência, temos que a vontade de ter o poder de beber água se origina da vontade de beber água. Generalizando esta idéia, conclui-se que todos os desejos de poder se originam das respectivas vontades a eles relacionadas. Assim, o desejo de poder tem sua fonte nos outros desejos, os quais por sua vez se originam de um único ponto. Este ponto pode ser designado como vontade de satisfação integral.

É o que alguns chamam de desejo de ser feliz. Eis a irônica sina da humanidade: estamos condenados a ser infelizes, em razão de nossa vontade de ser felizes. ("Reflexões filosóficas" — Ma-noqui, o sábio)

Sironiel observava o horizonte. Parecia esperar por algo. Conforme o tempo passava, ficava visivelmente mais nervoso, especialmente quando constatava que o dia já estava claro. Já sem paciência, desceu as escadas da torre de pedra onde se encontrava e dirigiu-se para a mansão dos filhos do fogo. Seus passos velozes demonstravam a sua ansiedade. Havia pelo caminho alguns guardas. Pareciam estar de prontidão para a batalha pelo modo como se vestiam. Andavam de um lado para outro, ao que parecia, ocupados com os preparativos para o confronto. Uma vez dentro da casa, rapidamente ascendeu ao segundo andar. Sabia onde encontrar o seu mestre. Estava, como sempre, no escritório. Quando Sironiel entrou no cômodo, encontrou um Zairom mergulhado em pensamentos. Estava tentando se concentrar o máximo possível, pensando nas estratégias de defesa. Parecia estar com o semblante cansado.

— Mestre Zairom — disse Sironiel —, os mensageiros ainda não voltaram.

— Mas é claro que ainda não voltaram, dê tempo ao tempo, meu amigo. Você está muito nervoso e está exausto também. Precisa descansar um pouco, afinal passou quase toda a noite em claro.

— Eu não estou vendo o senhor descansar. Terei tempo para repousar mais tarde, quando isto tudo acabar.

— Sironiel, você tem se mostrado o mais fiel dos aliados, para alguém que já tentou me matar, é claro.

— Muito engraçado.

— Saiba, porém, que talvez eu e aqueles que me seguirem não saiamos vivos dessa guerra.

— O que é isso! O senhor não parece a mesma pessoa. Nunca o vi se deixar abater antes. Se o senhor vai desistir, então nos diga logo e nós nos renderemos.

— Eu não disse isso, Sironiel. Você sempre foi explosivo. Não vou desistir nem que eu esteja lutando sozinho contra todas as legiões imperiais.

— É assim que se fala. Nós vamos destroçá-los custe o que custar. Eu não tenho medo de morrer!

Zairom riu com as palavras corajosas e de certa forma inocentes de Sironiel.

— Mestre, como estão os garotos? — indagou o general.

— Estão bem. Rairom e Tairom estão dormindo agora. Lisian está sob os cuidados do seu avô. Não poderia estar em melhores mãos.

— Não quero duvidar da habilidade dele, mestre, mas eu acho que o estado dela não é nada bom. A flecha estava fincada profundamente na carne e, se eu conheço um pouco das flechas das legiões imperiais, não duvido nada que estivesse envenenada.

— Vamos ver como ela está. Eu vou precisar de Diom para resolver um outro assunto.

— Acho que sei o que é, mas será que ele vai querer sair do lado da neta?

— Bem, só vamos saber perguntando a ele. Ah! Já ia me esquecendo. Quais são os nossos efetivos atuais?

— Aqui na propriedade, nós temos mais ou menos pela minha última contagem uns cento e oitenta homens, sendo oitenta deles os melhores arqueiros existentes no mundo inteiro.

— É mesmo? Eu não sabia que tínhamos à nossa disposição guerreiros de tão alta estirpe — falou com ironia o filho do fogo.

— Eles são os melhores porque foram treinados por um soldado de capacidade inigualável, que sou eu, é claro — disse o general, que sinceramente acreditava em cada uma de suas palavras.

— Está certo, Sironiel... Vamos ver Lisian.

Os dois saíram e atravessaram o corredor. Ao abrir a porta dos aposentos de Diom, encontraram-no abatido ao lado da neta. Segurava sua mão. A garota estava pálida e mergulhada em um sono profundo. O peso dos anos era visível no semblante do velho mago, que exalava uma imensa fragilidade. A situação da neta fora sem dúvida um duro golpe. Diom parecia apenas mais um velho cansado e não o mais poderoso feiticeiro do mundo conhecido.

— Diom, como ela está?

— Fiz tudo o que pude. Temos de aguardar — murmurou o velho mago.

— Eu preciso de sua ajuda.

— Zairom, eu o respeito muito, mas não posso ajudá-lo em nada. Sou só um velho cansado da batalha da vida. Sempre quando as coisas estão indo bem, esta vida maldita nos dá uma rasteira e não se pode fazer nada. Por mais fortes que sejamos, não podemos escapar das rasteiras da vida!

— Não é a vida que nos está nos dando uma rasteira, velho amigo. É Zairon. O exército de que Zoltari nos falou se materializou como num pesadelo e está se aproximando aqui desta casa enquanto nós conversamos. O tempo é nosso inimigo. Podemos esperar sua chegada parados ou lutar contra ele. Não se esqueça de que o Larcon, em última análise, é o responsável pelo ferimento de Lisian.

O velho mago ficou um momento em silêncio. De súbito, um fogo pareceu acender-se em seus olhos.

— Aquele maldito Norgat! Você tem razão, Zairom. Quem diria que um jovem como você estaria dando lições a um bode velho como eu... Chega de sentir pena de mim mesmo. Eu também não estou disposto a me render. Estou à sua disposição. Vamos! — disse o velho mestre. A sua fisionomia pareceu revitalizar-se um pouco. Estava disposto a vingar o sofrimento da neta a qualquer custo.

— É assim que se fala, Diom! — disse Sironiel, dando um tapinha nas costas do mago.

— Sironiel, tenha mais respeito pelo Senhor da Terra do Vento. Não o trate como um de seus amiguinhos — repreendeu Zairom. O general ficou envergonhado.

— Desculpem-me. Acho que foi a empolgação.

Sem trocar mais palavras, os três desceram as escadas e percorreram a ala sul. Adentraram em um cômodo tão vazio quanto antigo.

— As vozes do passado são fortes nessa sala, Zairom — disse o mago. — Há um ar pesado aqui, de sofrimento.

— O senhor não viu nada ainda, velho mestre. Imagino o que ouvirá lá embaixo.

— Lá embaixo?

Zairom aproximou-se da parede e apertou-a em um ponto. Para a surpresa do mago, um mecanismo foi acionado abrindo uma passagem secreta. A sua frente estava uma escada.

— Vamos? — sugeriu Sironiel.

— Suponho que sim. Mas não sabia que sua casa tinha passagens secretas, Zairom.

— Não são obras minhas, pode ter certeza. Mas não posso negar que acabaram sendo úteis no final das contas.

As escadas de pedra desciam rumo às trevas. Olhando para trás, Diom percebeu que a passagem por onde entraram se parecia com um brilhante portal de luz suspenso no vazio da escuridão. De súbito, porém, as trevas começaram a se dissipar, pois uma luz amarelada surgia no final das escadas. Eram tochas. Não tardou para que os três atingissem o fundo. Os lances de escada eram mais escorregadios e tortuosos do que longos.

— Essas são as masmorras da família Norgat. Acho que cometiam toda espécie de atrocidades aqui — comentou Sironiel.

— Você acha? Aquelas vozes de dor que ouvi na outra sala eram apenas ecos das daqui de dentro — disse Diom. — Muitas pessoas morreram nestas masmorras, Zairom. Este é mesmo um lugar muito desagradável para se estar.

— Sem dúvida. Evito vir aqui o máximo possível e já pensei em destruí-las várias vezes.

— Mas você disse que tinham sido úteis. O que quis dizer?

— Acompanhe-me.

Zairom dirigiu-se a uma cela que se encontrava fechada. Dentro dela, estava uma pessoa ferida. Era um homem branco e alto, com uma grande cicatriz próxima ao olho esquerdo. Estava sentado e sua mão massageava a nuca machucada.

— Quem é esse homem? — perguntou Silai.

— Meu filho disse que acha que seu nome é Logar. Ele era um dos perseguidores de ontem à noite. Rairom me contou que Lisian fez com que uma pedra flutuasse direto na cabeça dele. Ficou desacordado por algumas horas, o suficiente para que o trouxéssemos até aqui.

— Entendo.

— Queria que o senhor estivesse presente durante o interrogatório. Não é uma grande fonte, se realmente for apenas um batedor de baixo escalão, mas é a única que temos. Precisamos conseguir o máximo de informações possível.

Logar fitou Zairom.

— Ai! — disse ele. — Minha cabeça ainda dói.

— Logar, você é um prisioneiro de guerra. Eu sou Zairom Guenor, senhor dessas terras. Coopere conosco e não será ferido.

— Você é Zairom? Já ouvi falar muito de você. Não posso dizer que foram coisas boas. Diga-me, o que quer que eu faça?

— Pode começar respondendo nossas perguntas.

— Bem, infelizmente minha cabeça está doendo e não estou disposto a responder nada. Além do mais, não há nada que eu possa dizer que sirva para salvá-lo, Zairom Guenor. Você está condenado.

— O que está dizendo, porco? — falou Sironiel, desembainhando a espada. — Se não responder, não é só sua cabeça que vai doer!

— Espere, Sironiel — falou Diom. — Não é necessário que ele coopere.

— O quê? — indagou o jovem general.

— A mente de Logar é um livro aberto. Descobrirei tudo e depois conto para vocês.

— Ótimo, mestre. Esperava que se dispusesse a fazer isso. Sinceramente, foi por esse motivo que pedi que estivesse presente — falou o filho do fogo.

— O que está dizendo, velho? — indagou Logar, com medo da resposta.

— Vamos, Logar, não há como esconder seus pensamentos de mim! — exclamou o velho mago. Para a sua surpresa, apesar de ouvi-lo com clareza, o prisioneiro percebeu que os lábios de Diom não se mexiam.

— O que está fazendo? Como? Que truque é esse? Como entrou na minha mente.

— Silêncio! — falou o mago. Os músculos de Logar se imobilizaram. Não conseguia mais se mexer, muito menos pronunciar qualquer palavra. — Vamos começar pelo básico, Logar — continuou o mago, utilizando-se da voz de sua mente. — Identifique-se.

O prisioneiro percebeu que involuntariamente seus pensamentos o levavam para seu passado na Terra do Aço. Era de novo uma criança correndo pelas praias rochosas. Seus cabelos dourados esvoaçavam ao vento. Encontrou-se com seu pai, que o ergueu no colo. Ele estava usando sua armadura de legionário. Partiria naquele mesmo dia para a guerra. Logar estava abraçado com sua mãe quando seu pai foi embora e percebeu que ela chorava baixinho. Estava crescendo. A guerra acabou, mas seu pai nunca voltou. Ele tornara-se o homem da casa. Cuidar da mãe e do irmão, esse era o seu dever. Ensinaram-no a ter orgulho do pai. Com o tempo, ele mesmo se tornaria um soldado a serviço da Terra do Aço e do Larcon.

— Logar — falou o mago em pensamento —, vá mais para frente no tempo. O exército, eu quero saber do exército.

O prisioneiro tentou resistir. "Saia da minha mente", gritava ele mentalmente. Em vão. Era mero espectador de seus próprios pensamentos. Sua mente o levou para um navio. Não.

Era uma enorme frota de navios! Navegavam em mar aberto. O capitão dizia "Não podemos ser avistados, ordens do Larcon". Dias de viagem contornando a enorme ilha, uma jornada interminável, o tédio incomparável. O fedor dos cavalos e dos homens e dos excrementos de ambos o fazia ter vontade de vomitar o tempo todo, como se não bastasse o balançar do navio. Estavam bem providos de mantimentos, para quem tivesse estômago para comê-los. A visão dos barcos com comida alegrava esses poucos privilegiados. "Ah! Finalmente desembarcamos! Finalmente", pensou Logar. Ele e muitos outros perderam algum peso durante a viagem. Alguns poucos morreram, pelo que soube. Ficaram por quase um sexto se recuperando na costa. A região era despovoada, por isso não foram avistados.

Mil legionários formavam o seu grupo. Era um exército enorme, só na coluna central havia, pelo que comentava com o amigo Tairram, uns dez grupos como o seu. Pareciam, aos seus olhos, até mais numerosos. Nas proximidades do horizonte havia mais navios. Também desembarcavam tropas, as outras colunas, segundo Tairram. Nunca imaginara que fosse possível reunir tamanho exército, muito menos transportá-lo através dos mares de uma só vez. O custo deveria ter sido astronômico. "Meu tio é o comandante do nosso grupo. Ele me disse que três colunas vão marchar sobre o inimigo, nós vamos ao centro, uma ao norte e outra ao sul", disse o amigo. "Nós vamos atacar maciçamente no mesmo dia, e de surpresa!", continuou Tairram. "Afinal", disse ele, "não queremos que eles tragam reforços". Mas se as outras estavam indo na frente não atacariam antes? Segundo Tairram elas estavam um pouco à frente apenas para fechar o cerco e impedir que os líderes escapassem. Logar ficara impressionado com o conhecimento do amigo. Na verdade, Tairram, apesar de jovem, adorava a arte da guerra e costumava estudar o assunto.

Subiam as montanhas. O dia estava bonito e o sol já se punha sob o mar.

— Uma torre de pedra! Vá verificar, garoto. Se encontrar alguém, mate. Sem prisioneiros — disse o comandante.

— Espere — falou Logar —, não mande meu irmão sozinho! Eu prometi ficar com ele sempre! Sempre! Prometi a minha mãe que ele voltaria inteiro para casa.

— Como se eu desse atenção a um sentimentalismo desses. Soldados devem receber ordens e não questioná-las.

— Espere, tio. Não fale assim — interrompeu Tairram. — O pai de Logar morreu defendendo o Império. Acho que ele está certo, não devemos mandar alguém inexperiente sozinho, não porque o nosso soldado possa morrer, mas porque o inimigo pode escapar e revelar nossa presença prematuramente.

— Acho que você tem razão, Tairram — e dirigindo-se para Logar: — Pode ir com seu irmão, meu jovem, e leve meu sobrinho com vocês.

— O quê? Eu não quero ir — falou Tairram.

— Eu sei disso. É exatamente por isso que o estou mandando. Estou punindo você por ter questionado minha autoridade para defender seu amigo.

Tairram não ousou contrariar o tio mais uma vez. Os três partiram pela trilha. Quando chegaram à Torre de Pedra, não viram nada de estranho.

— Vamos voltar — disse Tairram.

— Espere — falou Logar —, acho que antes de entrarmos na torre eu vi um vulto, mais à frente, na trilha. Ele pode ter nos visto.

— Está vendo fantasmas, meu irmão — disse o arqueiro.

— Não, eu vi alguma coisa!

— Muito bem, vamos verificar isso rápido, então. Mal posso esperar para voltar. Logo montaremos acampamento e poderemos descansar um pouco — falou Tairram.

Foram os três pela trilha o mais rápido que puderam galopar, mas haviam perdido algum tempo investigando a torre, dando margem para quem quer que fosse se distanciar. Chegaram a uma clareira. A frente, havia uma cachoeira e um pequeno lago de águas transparentes.

— Não há ninguém, Logar. A escuridão pregou uma peça em você. Vamos voltar, irmão — falou o arqueiro.

— Espere! Vejam lá em cima, no penhasco!

Apesar de o sol não estar mais visível, ainda havia alguma luz no horizonte, por isso conseguiram ver os três jovens montados que já se embrenhavam mata adentro.

— Parece que encontramos nossos fantasmas — falou Tairram. — Temos de matá-los. Provavelmente, estavam nos observando lá da torre.

— Essa trilha não parece nada fácil — retrucou o arqueiro.

— Se não os pegarmos, perderemos o elemento surpresa. Não temos escolha. Precisamos ir atrás deles — disse Tairram.

— Animem-se! Vai ser uma ótima caçada! — complementou Logar. — Vamos!

"Basta", falou Diom mentalmente. "Já vi o suficiente, pode voltar, Logar, seus pensamentos estão livres de novo". Logar despertou de seu transe. Parecia muito cansado, como se Diom tivesse drenado suas forças. Deitou-se na cama, permanecendo em silêncio. Não havia mais o que fazer, ou o que esconder, pois o inimigo sabia de tudo o que conhecia.

Diom, em seguida, como se comprometera, relatou tudo o que descobrira ao senhor dos filhos do fogo, salientando o fato de os invasores terem vindo de navio (com o fito de não despertar suspeitas), o seu número e o fato de estarem divididos em três colunas. Tudo coincidia com o que Tairom já adiantara. Era, sem dúvida, bastante informação, considerando que o prisioneiro não era um oficial, por isso Zairom parecia satisfeito.

— Não esperava que o nosso amigo aqui soubesse tanto. Mas há ainda duas perguntas que eu gostaria de fazer — disse o filho do fogo. — São ambas bastante simples e diretas, Logar. Você já testou minha paciência me obrigando a pedir a ajuda de Diom para obter o que você sabia. Por isso eu o advirto: não a teste de novo, pois eu não terei piedade do homem que tentou matar meu filho.

Logar parecia cansado. Sua resposta veio em murmúrios.

— Do que está falando? Aquele rapaz era seu filho? Eu não sabia. Juro que não.

— Ainda bem, pois seu ataque seria mais feroz se soubesse, não é mesmo, Logar? — disse Sironiel.

O prisioneiro não respondeu.

— Logar, quem é o comandante dos invasores? — indagou Zairom.

— Não sei, sou apenas um legionário. Não nos dizem nada que não precisem dizer.

— Ora, Logar, não me faça de tolo, ou pedirei ao mago que busque nos seus miolos pela resposta, nem que tenha de tostá-los para isso!

— Eu acho que ele não se importará — disse Sironiel. — Afinal foi o irmão desse aí que feriu Lisian.

— Meu irmão? Onde ele está?

— Cale a boca! — disse Sironiel. — Aqui nós é que fazemos as perguntas.

— Por favor, nobre senhor, onde está meu irmão? Ele foi capturado também? Diga-me, por favor! — implorou o prisioneiro.

— Logar, o comandante do exército é o general Daron? — insistiu Zairom.

— Não ouvi este nome. Nunca ouvi. Eu juro! Não mande o feiticeiro entrar na minha mente. Por favor.

— Lamento — disse Zairom. — Eu tenho de obter essas respostas custe o que custar. Diom...

— Espere! Eu só sei o que ouvi em boatos. Dizem que este exército seria guiado como os dos primeiros tairons. Mas eu não sei o que isto significa. Eu juro!

— Isto não faz sentido — falou Sironiel.

— Faz sim — disse Zairom. — Será que isto significa o que estou pensando, mestre?

— Pode ser que sim, filho. Mas, por outro lado, podem ser tantas outras coisas... — considerou Diom.

— Muito bem, Logar, responda-me apenas mais uma pergunta. Para quando está previsto o ataque?

— Eu não sei! Por favor senhor, deixe-me em paz. Deixe-me ver meu irmão, por favor. Eu prometi à minha velha mãe que cuidaria dele.

— Pare de falar nesse seu irmão. Rairom o matou — disse Sironiel friamente.

— O quê? Ele está morto? Malditos! Malditos! — gritou o cavaleiro. Subitamente sua passividade desapareceu. Estava enlouquecido. Tentou agredir Sironiel, que o empurrou contra a parede. Seu ferimento bateu contra a pedra fria. Fraco como estava, não conseguiu reagir, ficou jogado na dura cama a ele reservada, chorando. Seu machucado doía mais ainda. Com a pancada, ele voltara a sangrar e o sangue que escorria pelo pescoço misturava-se com suas lágrimas. Diom, Zairom e Sironiel saíram da cela, trancando-a.

— Mestre, o senhor acha que ele disse a verdade? — perguntou o filho do fogo.

— Eu acho que sim. Vasculhei os pensamentos dele e não encontrei nenhuma informação relacionada ao dia do ataque. Ele não sabia.

— Então temos de nos contentar com o que conseguimos. Vamos sair dessa masmorra imunda.

Subiram, então, as negras escadas até atingirem o portal de luz. O sabor do ar puro alegrava seus pulmões. Continuaram andando em silêncio. O filho do fogo raciocinava, buscando fazer as melhores escolhas possíveis para a defesa. As informações que conseguira com o prisioneiro já eram, sem dúvida, um excelente começo, embora ainda fossem insuficientes. Ainda pretendia ouvir outras fontes para que pudesse finalmente decidir. Zairom não precisou esperar muito por elas. Assim que chegaram ao átrio central, viram que um jovem cavaleiro por eles esperava.

— Iagor! — falou Sironiel. — Fico feliz que tenha voltado. E os outros?

— Os dois mensageiros do norte já voltaram, general Sironiel. Reportaram-me que nada está visível nas torres de guarda setentrionais. Os do sul ainda não chegaram.

— Não chegaram? — indagou o jovem general. — Mas eu os mandei antes dos outros!

— Infelizmente eles ainda não voltaram, senhor — lamentou Iagor.

— E quanto à sua missão no oeste?

— Eu os vi! Eles estão marchando, general. Os batedores deles mataram o outro cavaleiro que foi comigo. Ele foi descuidado, estava bem à minha frente. Não pude fazer nada! Foi saraivado por muitas flechas. A minha sorte foi que eles não me viram. Eram milhares de homens, talvez mais de dez mil. Pareciam uma praga cobrindo as colinas.

— A que distância eles estão? — indagou o general.

— Bem, acredito que só cheguem aqui hoje à noite. Veja, trata-se de uma suposição, senhor. Se apertarem o passo podem chegar bem antes. A cavalaria, sem dúvida, poderia já ter chegado, como eu cheguei. Mas eles têm uma infantaria numerosa pelo que pude observar, e muitos arqueiros também. Se continuarem juntos, acho que hoje à noite seria um bom palpite.

— Um exército que possui larga vantagem numérica dificilmente usa as sombras para se esconder durante um ataque. Isso só nos favoreceria. Talvez tenhamos até amanhã de manhã, mestre — complementou Sironiel.

— Não sei, meu amigo... Vamos esperar os batedores do sul. Acho que vou pensar um pouco — falou o filho do fogo. Retirou-se, então, subindo as escadas. Diom foi ver a neta.

— Venha, Logar — falou o jovem general. — Vamos ver como está o moral das tropas.

— Com prazer, senhor.

— Chame-me só de Sironiel, rapaz, afinal eu não sou tão mais velho que você.

O jovem cavaleiro sorriu. Ele de fato tinha dezoito anos e portanto era apenas doze anos mais novo do que Sironiel.

Zairom tinha muito que ponderar. A coluna setentrional não tinha sido avistada, mas a central sim. O que isso significaria? Quais seriam os planos do inimigo? O filho do fogo precisava pensar, pois o tempo estava se esgotando e o bote final da serpente se aproximava. Por isso, assim que terminou de subir as escadas, dirigiu-se ao seu gabinete, buscando o silêncio que esse recinto lhe proporcionava. Já se aproximava do meio-dia, mas não sentia fome. Sentia sim a fadiga inevitável em decorrência do que ocorrera na noite anterior. Ao adentrar o cômodo, viu que alguém lá já se encontrava. Era Liana, a sua companheira de muitos anos e ao mesmo tempo a irmã de seu maior inimigo.

— Zairom, eu estou preocupada com você. Você quase nem se alimentou hoje e não dormiu também. Você precisa descansar ou não será necessário que Zairon o derrote. A exaustão fará o trabalho.

— Não se preocupe comigo, Liana.

— Como eu não vou me preocupar? Toda a nossa vida, tudo o que construímos está por um fio!

— Não acho que se Zairon vencer ele vá fazer algum mal a você ou a Tairom.

— E quanto a você e Rairom? Você acha que quero continuar vivendo se eu perder vocês dois? Prefiro morrer com você, Zairom.

— Não fale bobagens, Liana! Você tem de viver para cuidar de nosso filho, se eu perecer.

— Você não vai morrer, Zairom!

— Não vou. Não se eu puder fazer alguma coisa para deter seu irmão.

— Escute, eu trouxe um almoço para você.

— Obrigado, mas não estou com fome.

— Meu marido, você tem de comer. Lembre-se do que eu disse: você tem de estar forte para enfrentá-lo.

Zairom sorriu.

— Obrigado, Liana. Vou me alimentar. Você tem sido uma grande companheira todos esses anos.

— Só se agradece o que se faz com sacrifício. Tudo que eu fiz foi por amor, Zairom.

— Também gosto de você, Liana. E sou muito grato também.

— Eu sei que aprendeu a gostar um pouco de mim.

— Eu...

— Não vamos discutir isso agora. Apenas coma e me prometa que vai descansar um pouco.

— Está bem, eu prometo. Você consegue sempre tudo o que quer. Como estão as crianças?

— Tairom está bem, mas Rairom sofreu um corte no braço direito. Felizmente não foi profundo. Estão dormindo. Estavam exaustos, os dois. Ainda bem que nada aconteceu. Zairom, você sabe quando vai ser o ataque?

— Não tenho certeza. Daria uma de minhas mãos por essa informação. Talvez seja hoje ao anoitecer.

— Eu queria dizer uma coisa, mas tenho medo que você não goste, ache que estou sendo covarde.

— Não se preocupe com isso, Liana. Pode falar. Liana hesitou por um momento antes de falar.

— Vamos fugir, Zairom. Agora! Eu acordo as crianças, entramos em uma das carruagens e vamos pela estrada o mais rápido que pudermos. Sei que é arriscado, mas mais arriscado é ficarmos aqui. Eu sei também que esses homens morrerão com certeza se não tiverem a sua liderança, mas pelo menos estaremos vivos e poderemos contra-atacar. Meu irmão não atacaria se não tivesse certeza da vitória. Estou certa de que a superioridade numérica do exército dele deve ser brutal. Você tem de pensar em Rairom.

O filho do fogo escutava em silêncio o apelo de sua mulher.

— Não, Liana. Devo ficar aqui por enquanto. Não chegou a hora de fugir. Mas não pense, minha querida, que é por coragem ou por orgulho que digo isso. Simplesmente, agora nossas chances ainda são maiores aqui. Se eu não estivesse certo desse fato, já estaríamos fugindo. Não pense que minha preocupação principal é a guerra por esta gelada ilha. Ficaria feliz em estar exilado com você e com meus filhos no continente.

— Então, por que não vamos, Zairom?

— Seu irmão fechou as saídas ao norte e ao sul. E se eu o conheço bem, até mesmo se fôssemos para o leste encontraríamos alguma resistência, não tão forte para deter um exército de homens armados, mas com certeza suficiente para dominar uma carruagem desarmada. Ele não espera que eu fuja, mas resolveu me desencorajar assim mesmo. Eu acho que se nós tentássemos escapar agora, isto seria nossa ruína. Não podemos nos precipitar.

— Eu não sei. Sinto-me como uma presa indefesa esperando para ser morta. Mas eu confio em você, Zairom, e mais ainda no seu julgamento.... Bem, acho que vou ver as crianças. Se precisar de mim, sabe onde me encontrar.

Liana levantou-se e saiu. Andava pelos longos e silenciosos corredores da casa em que sempre vivera. No passado, ela fora uma pessoa vigorosa, mas agora parecia cansada e abatida. Conhecia o irmão e temia pelo que pudesse acontecer com o marido e com Rairom. Passou a porta do quarto de seu filho. Ele dormia um sono agitado. Pensou em acordá-lo, mas preferiu deixá-lo descansar, afinal acreditava que o pesadelo da vida real era então muito pior do que qualquer sonho que pudesse estar tendo. Mas antes que saísse do quarto, percebeu que ele acordava.

— Mãe? — disse o garoto, ainda despertando do sono em que se encontrava. — Eu tive um pesadelo. Sonhei que Rairom e Lisian tinham sido mortos!

Liana foi até a cama do filho, sentando-se em uma cadeira ao seu lado. Já havia passado algumas horas durante a noite anterior ali velando seu sono.

— Descanse, Tairom. Vocês tiveram uma aventura e tanto ontem à noite.

— Os outros como estão? Eles chegaram?

— Chegaram. Não se esforce muito. Vou pedir que tragam algo para você comer.

— Eu quero saber se eles estão bem.

— Estão ambos vivos, filho. E é isso que importa. Tairom suspirou aliviado. Mas sua curiosidade ainda não estava satisfeita.

— Mas eles se machucaram?

— Seu irmão sofreu um corte no braço e...

— Corte?! Eu vou ver como ele está.

— Ele está dormindo, Tairom. Deixe-o descansar.

— Não se preocupem comigo, eu estou bem — disse uma voz bastante familiar, entrando no quarto.

— Rairom? — falou Liana, sem olhar para trás. Tairom abriu um sorriso. — Pensei que você ainda estivesse dormindo.

— Acordei agora há pouco.

— Fique aqui com seu irmão, vou mandar que alguém traga alguma coisa para vocês comerem — sugeriu Liana.

— Liana, como está Lisian? — perguntou o rapaz.

— Bem, Rairom, eu não sei ao certo, mas mestre Diom pediu para vê-lo assim que você acordasse.

Rairom ficou em silêncio.

— Lisian se machucou? — indagou Tairom, receoso.

— Ela foi atingida por uma flecha, mas mestre Diom está cuidando dela, filho — falou Liana.

— Rairom, se você vai vê-la, eu acho que vou com você — disse o menino.

— Nada disso. Você pode vê-la depois. É melhor que eu vá sozinho agora — falou Rairom.

— Rairom está certo — completou Liana. — Se mestre Diom pediu para chamá-lo em um momento como este, é porque quer dizer-lhe alguma coisa importante.

— E daí? — retrucou o menino. — Tudo bem, eu vou vê-la depois — conformou-se. — Mas, Rairom, assim que você sair de lá, eu quero um relatório completo.

O rapaz sorriu, mas logo seu rosto ficou sério novamente.

— Está certo. Não se preocupe — assentiu ele. Rairom estava ansioso, mas ao mesmo tempo receoso.

Não sabia o que o mestre poderia querer lhe dizer. Tinha medo de que o velho o responsabilizasse (a seu ver justamente) pelo estado da neta. Será que ela se recuperaria logo? Não havia como ter certeza. Seu anômalo altruísmo da noite anterior o havia deixado naquele momento. Rairom se entregou a pensamentos egoístas. O velho mago deveria estar deveras furioso e iria humilhá-lo com acusações que não poderia refutar. Cogitava que, por causa do que havia feito, não seria mais aceito na Academia ou ainda pior: seria amaldiçoado por Diom, o que poderia ter conseqüências ainda mais catastróficas para sua vida futura! Lamentava-se pelo seu infortúnio e por alguns momentos esquecera totalmente a situação em que estavam ele e sua família. Era como se não houvesse mais exército hostil. O potencial inimigo agora era Diom, e os problemas do rapaz, os únicos realmente relevantes.

Enquanto andava lentamente pelos corredores, concatenava uma estratégia de defesa. Iria implorar clemência ao mago, afirmar que não era guerreiro e lamentar profundamente o ocorrido. Se isto não surtisse efeito, fugiria o mais rápido possível e explicaria a situação para o pai que, com certeza, confinaria o velho mestre. Afinal, nem mesmo Diom poderia amaldiçoá-lo adequadamente à distância. Pensou em fugir naquele momento, pois com certeza o chamado de Diom não teria outro objetivo, senão o punitivo. Ponderou, porém, que isto só faria com que a fúria do velho mago se tornasse ainda mais forte. Além do mais, sua estratégia poderia dar certo e a clemência poderia ser conseguida. Talvez ainda pudesse até freqüentar a Academia, pois Diom era um homem justo e concordaria, depois de aplacada sua fúria, que Rairom teria o direito de freqüentá-la, afinal fora aprovado nos testes.

Aproximou-se da porta que dava para os aposentos de Silai. Ficou alguns momentos paralisado, sem coragem para tocá-la, quanto mais para abri-la. Num ímpeto de bravura, empurrou a porta que gradualmente cedeu, mas não sem ranger agudamente, anunciando, dessa maneira, a sua chegada. Rairom penetrou no cômodo em silêncio. A sua frente viu uma negra figura, de costas, voltada para a cama. Era Diom, que usava a escura túnica dos magos da Terra do Vento. Parecia frio e impassível. O sangue de Rairom gelou. Pensou em sair correndo naquele mesmo instante, pois, pelo visto, o velho mago não se daria ao trabalho de sequer dizer-lhe uma palavra antes de amaldiçoá-lo.

— Aproxime-se, jovem Guenor, eu estava à sua espera — disse Diom num tom grave, mas sem voltar-se para o rapaz.

Rairom, apesar do medo e por causa dele, não ousou desobedecer a ordem do ancião. Lentamente se dirigiu até a cama. Conforme se aproximava, revelava-se diante dele a face de Lisian. Ela estava pálida como a neve e se encontrava mergulhada em um sono profundo. Sentiu pena dela.

— Como ela está, mestre? — perguntou o rapaz, quase num murmúrio.

— Ela não está nada bem, Rairom, foi por isso que mandei chamá-lo aqui — falou o velho mestre, deixando o rapaz quase em pânico.

— O senhor me desculpe, mestre, peço que me perdoe, estava escuro, eu... — disse o rapaz sem conseguir disfarçar seu nervosismo.

— Do que você está falando, Rairom? Percebo que está com medo. Você está com medo de mim?

— Sim mestre, quer dizer, não, mestre. É que eu queria me desculpar.

— Do que, rapaz? Por Lisian ter se ferido? Você não teve culpa de nada, eu vi parte da cena e seu pai me contou o que eu não vi. Não poderia ter feito mais do que fez.

— Viu a cena? Eu não entendo... Eu pensei...

— Eu entrei na mente de Logar. Vi suas memórias. Você não teve culpa, foi uma vítima como Lisian, e também não saiu incólume. Felizmente seu ferimento não foi grave. Eu não o chamei aqui para puni-lo, Rairom. Relaxe, rapaz!

Rairom deu um suspiro.

— Mestre, então por que o senhor me chamou? — indagou Rairom, aliviado.

— Muito bem, vejo que está mais calmo. Agora eu posso explicar para você o motivo do meu chamado. Como eu já disse, Rairom, minha neta não está nada bem. A flecha não danificou gravemente seus órgãos internos, ao contrário do que Sironiel acreditava. Além disso, pelo que eu pude perceber, ela também não perdeu muito sangue.

O velho mago deu uma pausa. Rairom ouvia atentamente, mas sem nada dizer.

— Infelizmente, meu rapaz, esse maldito instrumento de morte estava envenenado — falou o velho mago, apontando em direção a uma flecha em cima da mesa.

— Envenenado? Então é isso? — disse Rairom, com certa satisfação. — Meu pai tem muitos antídotos, mestre.

— Eu sei disso, meu jovem. Já lhe administrei os antídotos, mas eles não parecem estar surtindo efeito.

— Eu acredito que o remédio precise de mais tempo para agir. Pelo menos um dia, eu acho.

— Gostaria que você estivesse certo. Infelizmente, acho que ele não vai agir, filho. Estive examinando os resíduos da substância na flecha. É verdade que não restava mais que uma gota, mas eu posso afirmar, mesmo sem o meu equipamento alquímico, que esta não é a substância venenosa que as legiões imperiais habitualmente utilizam em suas flechas.

— Mestre Diom, eu não quero questionar sua autoridade, mas sinceramente apenas olhando para uma gota de veneno, não vejo como o senhor possa ter certeza.

— Você tem razão, Rairom. Este raciocínio estaria certo se eu mesmo não a tivesse desenvolvido pessoalmente.

— O quê?

— Isso mesmo. Eu posso jurar que esta substância é a que eu vinha desenvolvendo na Terra do Vento. Foi difícil para mim acreditar, mas ela tem o mesmo cheiro forte que impregna a seta. Além disso, a cor e a textura são as mesmas! Isso, somado à palidez de Lisian, não deixa dúvidas.

— Como isso aconteceu, mestre? Como o Larcon conseguiu a substância?

— Estou tão pasmo quanto você, filho. Eu não sei! Eu a estava desenvolvendo para a utilizar no nosso exército contra o Larcon. Ela é feita a partir de uma flor que só se encontra na Terra do Vento. Não sei que espécie de truque é esse. Eu mesmo só fabriquei algumas amostras.

— Espere um momento, mas se o senhor desenvolveu a substância, deve conhecer um antídoto.

— Sim, eu conheço. Mas ele é feito a partir da mesma flor com que se faz o veneno, que como eu já lhe disse só existe na Terra do Vento. Eu não tenho a matéria-prima, nem o equipamento aqui comigo. O pior é que este veneno é muito forte. A não ser que receba o antídoto, ele é sempre letal.

— Quanto tempo? — perguntou Rairom, desolado.

— A substância é quase que instantaneamente debilitante. Como você presenciou, ela perdeu a consciência quase que instantaneamente. Em muitos casos, ela também mata de forma quase que instantânea. Quando isso não ocorre, a pessoa sobrevive por algumas horas. Tudo depende do organismo da vítima, da suscetibilidade dele à substância. Como ela é jovem, acredito que venha a falecer daqui a um dia, no máximo. Talvez antes.

Rairom ficou em silêncio. Estava entristecido. As lembranças da noite anterior voltavam à sua mente como que num pesadelo. Não conseguia deixar de sentir uma certa dose de culpa.

— Eu preciso de sua ajuda, rapaz. Você é a minha última esperança. Só você tem o poder de curá-la.

— O quê? — falou Rairom. Ele estava embasbacado.

— Você tem de confiar em mim. Nos antigos pergami-nhos há registros de magos que podiam curar intoxicações graves apenas com o poder da mente. Era o caso, por exemplo, do fundador de minha ordem, o grande Raolusaiod. Contudo, isto está muito acima da capacidade dos homens de hoje, mas com sua ajuda eu posso ter uma chance.

— Minha ajuda? Mas eu não sou mago.

— Filho, não sei como explicar, eu mesmo não entendo, mas você tem uma habilidade muito especial, um poder dentro de você. Estou certo de que não pode controlá-lo agora e nem sei se um dia poderá. No entanto, esse poder é a última chance para que minha neta viva. Rairom, eu estou disposto a tentar curá-la com ele. Se você confiar no que estou dizendo, nós poderemos tentar.

— Bem mestre, eu não entendo o que está dizendo, mas confio no senhor e estou disposto a ajudá-lo no que puder.

— Filho, esta é uma atitude desesperada e arriscada também! Só estou lhe pedindo isto porque não vejo outra saída. Você está disposto a arriscar sua vida? Pois é isto mesmo: nossas vidas estarão em risco quando eu tentar destrancar o seu poder e ainda mais quando tentar controlá-lo. Eu estou disposto a arriscar a minha, e você?

— Minha vida? Esta história está se tornando cada vez mais estranha... — disse Rairom, hesitando por um momento. Observou pela janela a paisagem verde das colinas. Alguns raios de sol passavam pelas brechas entre as nuvens. Estava com medo, mas por um momento seu coração ficou em paz. — Minha vida não está valendo grande coisa mesmo com esta guerra e tudo mais... Eu vou ajudá-lo. Acho que devo isso a Lisian.

— Obrigado, meu jovem — disse Diom, pondo a mão no ombro do rapaz. Ele estava profundamente grato. — Muito bem, então, eu acho melhor começarmos logo.

— É só me dizer o que eu tenho de fazer.

— Você não tem de fazer coisa alguma rapaz. Eu é que vou tentar romper as barreiras de sua mente e libertar o poder que está guardado. Apenas sente-se nesta cadeira, você entrará num estado de sono, como aquele de dois dias atrás.

Rairom sentou em uma cadeira próxima à cama. O mago também se sentou em uma poltrona não muito distante do rapaz e começou a se concentrar. Rairom rapidamente adormeceu. Entrou num estado equivalente ao sono, mas sem sonhos. Do que se passou a seguir não teve a menor consciência ou memória. Apenas o velho mago estava nesta empreitada dentro da mente do rapaz, completamente só. Que ousadia! Que atrevimento! Ele tinha sentido o poder que se esconde por detrás dos Selos e sua insignificânda diante dele. Mesmo assim ousava desafiar forças que não compreendia. Eu, que tudo acompanhava, fiquei apreensivo assim que percebi as suas intenções. Tranqüilizei-me, no entanto, na certeza de que ele não conseguiria vencer as barreiras que o separavam de seu objetivo. Ele estava, porém, determinado e se preparava para iniciar sua jornada.

Diom sentiu que estava adormecendo. Seus olhos permaneceram fechados por algum tempo e quando os abriu não estava mais no mundo físico. Flutuava em meio a brancas nuvens e um céu multicor que variava seus inumeráveis tons eternamente mutantes entre o púrpura e o alaranjado. Lá estava ele voando por um mundo de pensamentos e memórias. Era a mente de Rairom. Deveria buscar a fonte do poder, o portal que levasse à força infinita. Mas aquele mundo parecia tão infinito quanto o poder que sentira dois dias antes. Nunca o encontraria neste emaranhado de lembranças e sentimentos. Mas não, nada o afastaria de seu objetivo!

De súbito, pareceu encontrar o que procurava. Era uma chama próxima ao horizonte. Foi em sua direção o mais rápido que conseguiu, voando nas asas de seu poder. Mas não conseguia aproximar-se dela, por mais que tentasse, ela insistia em permanecer distante. Mais rápido ele voava, mais rápido ela se distanciava. Concluiu que não conseguiria chegar até ela voando. Concentrou-se então e tentou teletransportar-se instantaneamente para aquele local. O céu desapareceu e apenas a escuridão o cercava. Alguma coisa havia dado errado? Havia apenas o escuro infinito, para onde quer que olhasse. "Onde estou?", pensou. "Eu tentei me transportar, será que não deu certo?". De repente, começou a ouvir um som distante. Parecia uma cachoeira. O som foi se tornando mais forte, mais forte, até se tornar ensurdecedor! A escuridão começou a se dissipar. Estava de volta ao mundo do céu multicor. Sentiu uma força que o puxava. Olhou para baixo. Lá estava um brilhante redemoinho que sugava tudo a sua volta. Seria ele a chama que avistara? Tentou resistir. Parecia inútil. Começou a perder a respiração e depois os sentidos. Foi sugado para dentro dele.

Acordou. Estava no chão. A sua volta uma gigantesca planície se estendia infinita em todas as direções. Quatro sóis queimavam num céu alaranjado. Sentiu um calor insuportável. Muito, muito a sua frente se situava uma enorme muralha. Tentou teletransportar-se até lá. Tentou voar. Tudo em vão. Seus poderes o haviam abandonado. Uma longa caminhada o esperava. Mas nada o deteria. Por muitas horas, quase por um dia inteiro, pelo que percebera, andou incansavelmente em direção à enorme parede. O tempo passava, mas a noite não chegava. Os quatro sóis permaneciam impassíveis no céu. Bem antes de atingir as muralhas, caiu exausto e sedento no chão de areia. Não conseguia dar mais nenhum passo. Suas pernas não mais se mexiam. Tentou concentrar-se no fato de que aquilo não era real e que suas pernas não poderiam estar cansadas de verdade. Com grande esforço, conseguiu se levantar e continuar sua jornada através daquele árido deserto.

Finalmente logrou aproximar-se da grande muralha. Por mais que se concentrasse, não conseguia afastar a sensação de exaustão e de uma incomensurável sede. Teve vontade de chorar de agonia, mas suas lágrimas estavam secas. Percebeu que a paisagem mudara. A sua frente a titânica muralha de pedra se estendia, em ambas as direções, até onde a vista podia alcançar. A seus pés, a enorme sombra da parede jazia, protegendo-o do calor dos sóis. Sentiu um certo alívio. Notou que o solo estava coberto por uma fina relva esverdeada e não pela areia crua com que se acostumara. Ouviu um barulho de água. Era um riacho! Sim, ali estava ele a poucos passos de distância e suas águas eram cristalinas e frescas. Correu em direção às águas. Como que por um impulso irrefreável, pegou um pouco entre as mãos, mas antes de levá-la à boca ponderou melhor e decidiu não bebê-la. De todos os homens que eu vi chegarem a esse ponto, ele foi o único capaz de resistir a tamanha tentação. É claro que se tivesse matado sua sede, sua jornada terminaria e ele teria fracassado. De alguma forma ele conseguiu perceber isso. Seja como for, o fato é que ele cruzou o riacho sem beber uma gota sequer.

Agora estava frente a frente com a gigantesca muralha que o separava do seu objetivo. Como faria para cruzá-la? Tocou suas paredes de pedra maciça. Eram inescaláveis. Também não podia contorná-las ou destruí-las. Um enigma inso-lúvel. Diom ponderou aos pés da muralha durante algumas horas. Tentou convencer-se de que o obstáculo não era real e foi ao seu encontro. Colidiu com a parede e fracassou. Não podia abstrair-se a esse ponto. Por mais que soubesse que não era real, da mesma forma que não conseguira anular a sua sensação de sede e calor, não podia afastar a idéia de que a muralha estava ali, ou podia? Numa desesperada tentativa, fechou os olhos e começou a correr a esmo até que perdeu completamente a noção de espaço. Não sabia onde a muralha se encontrava e por isso acreditava que ela não mais existia. Eventualmente cruzou o espaço em que as paredes de pedra se encontravam, mas não mais havia paredes, como aliás nunca houvera.

Diom sentiu uma mudança de temperatura e percebeu que a sensação de cansaço e sede o havia deixado. Abriu os olhos. Viu que estava em uma espécie de sala de paredes negras e que havia uma porta a sua frente. Detrás dela emanava um imenso poder. Ele estava perto de consegui-lo, mas ainda teria mais um obstáculo pela frente: eu. E ele não poderia me vencer! Entrei na mente de Rairom e, rápido como o pensamento, assumi a forma humana. O velho mago já se dirigia para a porta quando eu interferi, colocando-me entre ele e o seu objetivo.

— Espere, Diom — disse eu.

— Quem é você? — perguntou o velho mago. — Outra ilusão?

— Você não sabe o que está para fazer.

— Você é que não sabe! Não passa de uma ilusão. Posso sentir o poder. Eu poderei curá-la.

— Este poder não é seu, mago. Ele não lhe pertence!

— Eu sei disso. Mas aquele a quem o poder pertence permitiu que eu o utilizasse.

Não pude evitar de rir longamente ao ouvir tais palavras.

— Aquele a quem o poder pertence? Você quer dizer Rairom? O poder não é dele!

— O que você está dizendo?

— Rairom é o portador de uma pequena parcela do poder. O poder está nele, mas não é dele. O rapaz é um mero servo do poder, como outros no passado já o foram.

— Basta de tolices! Eu vou utilizar esta força e nada vai me impedir! A vida de minha neta depende disso!

— A arrogância dos mortais... Outros não seriam tão pacientes como eu, velho mago. Mas eu não tenho ódio de você, porque vejo a sua enorme ignorância. Sua preocupação é a vida de sua neta? Saiba que se você liberasse a força que tanto deseja, ela destruiria este pequeno mundo. Você não pode controlá-la, acredite em mim! Nem eu poderia, se quisesse. Você não vê? Não sente o poder?

— Sinto. É por isso que eu vou consegui-lo.

— Você não quer o poder para curá-la! Você é como os outros. Você o quer para si, não é mesmo, Diom? Confesse! Você simplesmente não pode suportar a idéia de, agora que o conhece, não possuí-lo. O mais poderoso mago do mundo reduzido ao tamanho de uma formiga! Isso você não pode aceitar, não é? No fundo, a sua motivação é a de sempre: o orgulho!

— Não é! Eu juro!

— Eu tentei ser razoável. Tentei explicar-lhe as razões. Mas vejo que é em vão. Não importa. Você não pode passar por mim.

Silai percebeu que naquela câmara negra, talvez pela proximidade do Poder dos Selos, a sua própria magia não só havia retornado, mas estava infinitamente mais forte. Encheu-se de confiança.

— Não posso? — perguntou ele. — Você tem certeza? Seja lá quem for, você não deveria me subestimar assim.

— Muito bem. Vejo que o único argumento com você é a força. Então por que não tenta me destruir? Eu não vou me mover.

— Eu não quero destruí-lo, mas se for o único jeito de conseguir o poder, assim o farei.

— É o único jeito!

— Pois muito bem.

Silai concentrou-se. Uma energia dourada começou a surgir por entre as suas mãos. Uma aura esverdeada rodeou-lhe o corpo. Seus olhos brilhavam como o fogo. Aos poucos, a energia dourada começou a aumentar, tornando-se uma esfera de luz. Raios energéticos brancos dela extravasavam, qual faíscas de uma fogueira. Diom concentrou o máximo de energia que pôde naquela esfera dourada. Então, quando sentiu que não poderia continuar, permitiu que ela se desfizesse em um único raio de luz disparado contra mim. Tive medo, pois o poder dele não era mais apenas o de um mortal. Estava, de certa forma, reforçado pela força dos selos. O raio tocou o meu corpo. Senti sua força, mas, como eu previa, ele não foi capaz de me fazer nenhum mal, afinal eu não estava realmente ali.

— Você teve sua chance, Silai. Agora é a minha vez. Desta vez sairá vivo, mas se tentar novamente, não terei piedade!

Concentrei-me na figura de Diom e comecei a romper o transe. Ele desaparecia no mundo mental, quando implorou:

— Por favor, tenha piedade da pobre menina. Ela só tem quinze anos. Eu preciso salvar minha neta.

Nada respondi. Ele desapareceu por completo e o transe foi rompido. Estava de volta no mundo físico, adormecido.

Liana entrou no quarto e encontrou tanto Diom como Rairom num sono profundo. Ela chamou o rapaz, que despertou vagarosamente.

— Que horas são? — perguntou Rairom.

— Ora, filho, não faz nem meia hora que nós conversamos no quarto de Tairom. Como tinha prometido, eu trouxe algo para você comer. Trouxe algo para mestre Diom também, mas vejo que ele está dormindo. Deve estar mesmo cansado de cuidar da neta. Como ela está?

Rairom olhou para o rosto de Lisian. Continuava tão pálido quanto antes.

— Eu não sei.

— Como não sabe? Você não perguntou a ele.

— Perguntei. Quer dizer, ainda não. Por favor, deixe a comida aqui. Eu preciso falar algo com o mestre.

— Você parece estranho, aconteceu alguma coisa? — indagou Liana, que percebia a ansiedade do rapaz. — Bem, depois você me conta. Eu vou deixar a comida aqui em cima da mesa.

Liana se retirou.

— Mestre Diom, acorde! O que aconteceu? Lisian está pálida! Alguma coisa saiu errada?

O ancião abriu os olhos.

— Lamento, Rairom. Eu fracassei — disse o velho. — Minha busca acabou e com ela se extingue a última esperança. Eu poderia ter conseguido, mas alguém, alguma coisa me impediu. Minha neta está condenada.

Rairom olhou para o rosto pálido e mórbido da garota e teve certeza de que o que Diom dizia era verdade.

— Mas, mestre, tem de haver alguma coisa que possamos fazer. O senhor pode tentar de novo, ou desenvolver um antídoto. Temos de fazer alguma coisa! Não podemos ficar esperando que ela morra!

— Lamento, rapaz. Tentar de novo seria inútil, especialmente exausto como estou, e não há como fazer um antídoto.

Consternado, Rairom saiu do quarto sem dizer palavra. Estava entristecido e abalado. Com certeza, precisava de um pouco de paz e tranqüilidade. Aquele dia, porém, ainda estava longe do fim.

 

                         Duelo de destinos

Que o fogo que nasce das trevas queime o mundo inteiro'. Queime! Deixe-os queimar. Pois eles me desafiaram. Eles não temeram minha ira. Acharam-se mais fortes. Acharam-se mais espertos. Zombaram do meu poder. Mas eles são a escória. Eles são o lixo. Sempre tão felizes, tão bem-sucedidos, enquanto eu, com todo o meu mérito, só recebo o desprezo, a humilhação do anonimato; o ser-ninguém. Mas eles não, sempre fortes, tudo conseguem, tudo têm, os favores do universo lhes são dados de bom grado. Por muito tempo, tentei ser bom, bom com eles, para ver se me jogavam uma migalha da felicidade que possuíam. Mas nada, só desprezo. Muito, muito tempo esperei pela minha vingança. Sofri. Mas, agora seus gritos de agonia me enchem de prazer e satisfação. Eis que eu sou o filho do fogo. Tremam ao ouvir meu nome. Usurpadores, morram! Os favores do universo serão meus, meus, só meus! Para sempre... ("Os Versos de Larcon" — trecho retirado do capítulo "A Lição da Vingança")

Um cavaleiro de armadura negra e corcel branco aproximou-se do cume da colina. O céu estava nublado e ventava. Se não estivessem no verão, com certeza estaria fazendo muito frio. Aproximou-se de outro guerreiro com uma também negra armadura, só que bem mais imponente, como atestava a longa capa rubra que ostentava. Sua montaria era a mais nobre de todas: um grande e negro cavalo trolnaquiano, uma raridade naquela parte do mundo.

— Meu senhor, tudo está correndo como planejado. Em breve nós massacraremos os inimigos e a cabeça de Zairom ser-lhe-á entregue em uma bandeja.

— Seu excesso de confiança é um convite à ruína, general Daron.

— Quem sou eu para discordar do senhor, mestre? No entanto, mesmo o mais cauteloso dos homens esperaria uma vitória, ante a discrepância dos números.

— Isto se o adversário não fosse Zairom Guenor. Já teve notícia dos batedores desaparecidos?

— As notícias não são as melhores, meu senhor. Achamos o corpo de dois deles e o terceiro não foi encontrado. Talvez esteja vagando por este vasto planalto e tenha se perdido de nós.

— Não seja tolo. É evidente que ele foi capturado.

— Pode ser. Mas o que importa isso? Ele era apenas um legionário. Não sabia de nada e sua vida não tem relevância.

— De fato não tem, mas seja o que for que ele sabia agora o inimigo já sabe. Temos de nos apressar.

— Nossa distância do inimigo é pequena. Nossos homens logo estarão descansados. Temos apenas de mandar mensageiros para as duas outras colunas e iniciar o ataque maciço.

— Elas não vão atacar. Não da forma que está pensando. A princípio, marcharemos sobre eles sozinhos.

— Como? Mas não foi isso o que foi decidido em Naquicaron.

— Eu sei, não obstante o comandante sou eu e não os generais da capital. Eu decidi que vai ser assim.

— Como quiser. De qualquer forma não há como sermos derrotados. Mas se posso perguntar, por que não nos falou antes da sua mudança de planos?

— Pela mesma razão que você não foi escolhido para comandar este exército, Daron: para eliminar riscos.

— O senhor me ofende ao duvidar da minha lealdade ao trono do Império das Sombras.

— Chega de hipocrisia! Você já cumpriu as ordens que lhe dei?

— Sim, eu já o chamei. Deve estar vindo para cá agora. Pelo visto vim para esta campanha para ser um mero mensageiro.

— Devia se dar por satisfeito, mesmo se isto fosse verdade, não é mesmo?

Daron não respondeu.

— Mas este não é o caso — continuou o cavaleiro. — Preciso que comande a coluna principal durante o ataque.

— Fico honrado, mestre. Mas pensei que o senhor a comandaria pessoalmente.

— Não. Essa é uma tarefa tão banal que permitirei que você a realize. É muito simples: apenas avance com nossas forças contra as muralhas a oeste da casa principal. As defesas deles não devem lhe dar muito trabalho.

— Não devem mesmo. Mas não seria mais lógico atravessarmos o riacho de pedra mais ao norte ou mais ao sul e atacarmos por um flanco desguarnecido?

— Isso cabe a mim julgar.

— Perdoe-me, mestre, mas por que atacá-los por onde eles são mais fortes?

— Você é mesmo muito ingênuo, Daron. Você quer que a presa fuja? Esse é um jogo mais de inteligência do que de força. Mas não inquiete sua mente limitada tentando entender. Apenas cumpra as ordens.

— Como quiser — disse o general, sem conseguir disfarçar o ódio no tom de sua voz.

— É tudo. Vá.

Assim que Daron saiu, outro cavaleiro se aproximou. Este não usava armadura, apenas um longo e escuro capuz que escondia sua face.

— Meu senhor — disse —, aqui estou eu, conforme ordenado.

— A hora está chegando, meu amigo. Finalmente a justiça triunfará. Este dia será lembrado por gerações como a data em que o reinado de Algar em plena Terra das Sombras foi destruído, o dia em que reconquistamos nossa liberdade. Não consigo deixar de ficar ansioso.

— É compreensível, meu senhor.

— Chamei-o apenas para informá-lo que seguiremos o plano já delineado. Acredito que tudo correrá como programado.

— Vamos esperar que sim. Como o senhor bem sabe, eu também ansiei muito por este momento.

O cavaleiro de capa rubra ensaiou um sorriso sombrio. A alegria que se encontra no ódio, força motriz de tantos grandes guerreiros, estava nele. Nunca antes em sua vida se sentira tão vivo, tão feliz. Estava ávido pelo que se seguiria, pelo sangue que esperava derramar. Sentia que valia a pena ter nascido só para viver aquele dia. Cada momento era marcado pelo palpitar de seu coração. O outro cavaleiro podia perceber o estado de seu mestre, o que o fazia se orgulhar de servir a tão altivo senhor.

Mas o tempo da ansiedade estava para acabar, pois o dia estava passando enquanto o sol fazia seu silencioso percurso por detrás das nuvens. Toda a vida animal e vegetal parecia estar tomada pela quietude que antecede a batalha, como se a criação se paralisasse esperando o desenrolar dos acontecimentos no estranho mundo dos homens. O astro de fogo era a exceção. Impassível espectador, continuava sua eterna viagem sem se importar com o mundo mortal. Por isso, rapidamente o fim do dia já se aproximava. Não muito longe dos cavaleiros, Zairom permanecia enclausurado em sua sala. Seja lá qual fosse a opção que fizesse, estava na hora de tomar uma decisão. O momento culminante estava se aproximando, isso ele podia sentir. De súbito, a porta se abriu. Era Sironiel.

— Mestre Zairom. Um exército! Bem mais de mil homens pelo que pude ver da torre. Estão vindo do sul! O ataque começou.

— Você acha que é a coluna sul sobre a qual Tairom nos falou?

— Eu acho que sim. O que mais poderia ser? Mas não pude distinguir claramente. Eles ainda estão a uma boa distância.

— Não se aflija ainda, general. Eu não acho que seja. Vou à torre. Preciso ver com meus próprios olhos.

— Mestre, o senhor sabe que se eles atacarem pelo sul nossas defesas serão inúteis. Quer que eu chame Liana, Diom e as crianças e prepare a carruagem? Precisamos fugir já!

— Já disse para manter a calma. Primeiro, verei que exército é esse.

O filho do fogo levantou-se de sua cadeira e se dirigiu o mais rápido que pôde em direção à torre de guarda sul. Não demorou muito para alcançá-la, mas o exército já estava bem mais próximo. Para o seu alívio, percebeu que tudo estava correndo de acordo com o que havia planejado. Era este o último elemento de que precisava para seu plano de ação. Eram seus reforços vindos da vila ao sul, Tai-Zain. Em verdade, era formado apenas por alguns homens jovens e poucos bem armados guerreiros. Havia em maior quantidade garotos muito novos (mas não crianças), homens de meia-idade e mesmo alguns velhos. Poucos estavam montados e também havia uma minoria de armadura. Eram, todavia, no conjunto, numerosos, bem mais do que Zairom pensava que seriam. Havia com toda certeza mais de seis mil homens. O filho do fogo estava satisfeito. Um fio de esperança surgira de novo dentro dele. Via pela primeira vez, desde que a crise começara, uma luz no fim do túnel, uma saída para seus problemas.

— Eu lhe disse para não se preocupar, Sironiel. Estes são meus reforços — disse o filho do fogo.

— Mestre — indagou o jovem general sem conseguir conter a consternação — que exército é este? As tropas da Caravana do Leste eu sei que não são.

— Você me decepciona, meu amigo. Não é difícil de deduzir. Não importa, você vai saber. Mas antes peça para Ianor utilizar os suprimentos para alimentar essa gente. Eles vão ter pouco tempo para descansar, ao menos precisam estar alimentados.

— Nossas reservas devem ser possivelmente suficientes para alimentar a todos. Mas vão se esgotar numa única refeição.

— Eu sei disso. Não se preocupe com esse detalhe agora. Apenas faça o que eu disse. Leve os homens e alimente-os. Não se esqueça de agradecer em meu nome. Ah! Já ia me esquecendo. Veja se Ramar está com eles. Se estiver, leve-o ao meu gabinete assim que terminar de cumprir minhas ordens. Temos muito o que conversar.

— Ramar? Estes são os aldeões da Vila do Fogo! Isso explica porque os batedores do sul demoraram tanto a voltar. O senhor sempre com suas pequenas surpresas, não é, mestre Zairom? É por isso que eu gosto de servi-lo — disse Sironiel em meio a risos de satisfação.

O jovem general se ocupou, então, das ordens de seu mestre. Depois de receber os muito bem-vindos reforços, foi até Ianor. Lá chegando, viu que este já estava, havia muito tempo, separando os suprimentos para os guerreiros. As reservas de Zairom consistiam basicamente num cereal chamado quiarram, bastante comum na Terra das Sombras. Trazido do continente mil anos antes pelos norgam, crescia bem em regiões alagadiças e adaptava-se a uma variedade de climas, inclusive ao daquela grande e fria ilha. Geralmente era cozido, e com ele se preparava uma variedade de pratos. Além de ser durável, podia ser ingerido cru, depois de refinado. Estas características eram especialmente interessantes durante as guerras. Daí o incentivo que historicamente os imperadores deram para o seu cultivo.

— Ianor, vejo que já está bastante adiantado — disse Sironiel.

— Mestre Zairom me avisou logo de manhã para que separasse as reservas a ser utilizadas. Mas acho que afinal não há muito o que separar. Há bem mais gente do que o previsto. Não sei nem se nossas reservas serão suficientes.

— O mestre disse para não nos preocuparmos com isso. Se eu o conheço bem, ele tem algum plano na cabeça...

— Ou então acha que todos vão morrer na batalha e mortos não precisam comer.

— Que é isso, Ianor!

— Desculpe-me, senhor. É que nunca estive numa batalha antes. Estou com medo.

— Não se preocupe. Nós vamos vencer. Afinal de contas, eu estou do nosso lado.

— Muito engraçado.

Sironiel não entendeu o que dissera de engraçado. Deixou Ianor e foi até as tropas que já formavam uma fila para receber o alimento. Não demorou a encontrar o velho Ramar, que também estava à espera.

— Ramar! Aí está você.

— Sironiel, meu amigo! É justamente com você que gostaria de falar. O jovem cavaleiro que vocês mandaram à cidade hoje pela manhã não nos explicou coisa alguma, a não ser o básico. Você sabe da situação do adversário, do seu número, da previsão para a batalha, do nosso plano de defesa?

— Quantas perguntas! Bem, para ser sincero, eu sei muito pouco dessas coisas. Mas mestre Zairom pediu para chamá-lo. Ele o informará sobre tudo pessoalmente.

— Está certo, podemos ir agora se você quiser.

— Muito bem, e obrigado por terem vindo, Ramar. Nós estávamos numa situação muito difícil antes de vocês chegarem.

— Vamos apenas torcer para que nós, simples aldeões, possamos fazer alguma diferença contra os Cavaleiros de Telosai8.

— Nós vamos fazer, você vai ver. Afinal, eu estou do nosso lado.

Ramar sorriu, mas nada disse.

Os dois seguiram para a mansão dos filhos do fogo. O sol já começava a se pôr no horizonte. No caminho, partilharam poucas palavras. Ambos estavam apreensivos, embora Sironiel tentasse transparecer confiança. O som de seus passos quebrava o silêncio que dominava a morada de Zairom. Subiram a escada rapidamente, mas os momentos que os separavam do encontro com o seu mestre pareciam eternos. Quando finalmente chegaram ao cômodo em que o filho do fogo por tantos anos trabalhara, lá o encontraram acompanhado de sua mulher.

— Mestre, o senhor quer que voltemos mais tarde? — indagou Ramar.

— Não, Ramar — disse o filho do fogo. — Chegou a hora de decidirmos o futuro da Terra do Fogo e desta ilha também. Por isso, pedi que Liana estivesse presente. Chamei mestre Diom, mas ele se recusou a vir. Está ao lado da neta, a qual, pelo que parece, está piorando. Portanto, somos só nós. O tempo urge. Peço que me ajudem o melhor que puderem, porque o fardo é pesado demais para uma só pessoa.

— Nós estamos ao seu lado — disse Liana. — Partilhe conosco as suas idéias.

— É uma honra participar de tão importante momento — falou Ramar.

— Não é você que está em dívida comigo, mas eu com você, Ramar. Obrigado por terem atendido ao meu chamado tão prontamente. Não esperava que viessem tantos, pois foi um pedido de ajuda, não uma ordem.

— Todos os homens vieram com prazer. Poucos são aqueles cuja vida não melhorou nos anos de seu governo. Viemos por gratidão sim, mas também estamos aqui por interesse próprio. Não queremos a volta dos velhos tempos e estamos dispostos a lutar por isso.

— Eu agradeço sinceramente.

— Mestre, o senhor tem algo a nos falar? — indagou Sironiel.

— Sim, eu tenho. Mas antes quero fazer uma pergunta a Ramar. Vocês viram um exército indo para a cidade, ao sul?

— Bem, senhor, até o momento em que saímos da cidade, depois que as mulheres e as crianças fugiram com a caravana para a planície meridional, não havíamos visto ninguém.

— Então vocês mandaram as mulheres e as crianças pela caravana, como eu havia sugerido?

— Sim, nós o fizemos.

— Fico satisfeito.

— Devo dizer, porém, mestre, que alguns entre nós ficaram temerosos em fazê-lo — lamentou Ramar. — Foi muito difícil nos separarmos deles.

— Eu compreendo. Mas tente entender que não havia muita escolha. Seria inviável trazê-los com os homens. Isto só os colocaria sob um risco ainda maior. Também não poderiam tê-los simplesmente deixado na cidade, o que seria quase uma sentença de morte, pelo menos para os alguianos. Mandan-do-os com a caravana, eles podem chegar à planície do sul em segurança. O inimigo não tem como saber para onde eles foram, e ainda que isto possa ser deduzido, a caravana já tem uma vantagem grande sobre o exército adversário. Se eles conseguirem atravessar as montanhas, o inimigo não irá ao seu encalço. O alvo deles está aqui.

— Compreendo. Parece razoável, ainda que não seja uma boa solução — ponderou Liana.

— Concordo. Simplesmente não consegui pensar em nada melhor...

— O senhor está certo, como sempre — assentiu Ramar.

— Tempos difíceis exigem sacrifícios à altura. Mas voltando ao assunto do exército, depois que nós mandamos mulheres e crianças e deixamos a vila, nossos cavaleiros voltaram e noticiaram ter visto muitos guerreiros, talvez mais de dez mil, vindo em nossa direção. Deveriam, segundo nos disseram, chegar à Vila do Fogo aproximadamente ao anoitecer.

— Mestre — disse Sironiel —, isto quer dizer que eles estão bem longe daqui. Se o inimigo pretende atacar com todas as suas forças, não poderá fazê-lo antes de amanhã.

— Isso é verdade — ponderou Liana. — Mas a questão é: pretendem fazer um ataque conjunto?

— Liana tem razão — falou Zairom. — Eles não precisam disso. Podem nos destruir com a coluna central apenas. Mesmo com os nossos reforços não poderíamos vencê-los. Não temos como saber ao certo, mas se eu tivesse de apostar, diria que eles não vão esperar. Vão nos atacar assim que puderem.

— Então, se não podemos enfrentá-los, só nos resta fugir

— falou o sempre pragmático Ramar.

— É verdade — ponderou o filho do fogo. — Mas antes, nem isso podíamos fazer. Por certo continua não sendo viável ir para o oeste, para o sul ou para o norte. Isso seria muito arriscado. Se eu conheço bem o Larcon, já existem algumas tropas até mesmo no leste, só que não acredito que estejam em grande número. Simplesmente não tiveram tempo de deslocar a infantaria para cobrir o leste.

— Então parece óbvio: temos de fugir para o leste já! — falou Liana.

— Compreendo. Agora, com os reforços que eu trouxe, poderemos lidar com as tropas que eventualmente encontrarmos no leste, o que de outra forma não seria possível — falou Ramar. Zairom assentiu com a cabeça.

— Você sempre teve um raciocínio rápido, velho amigo — disse o filho do fogo. — Eu simplesmente não estava disposto a correr o risco, se tivesse outra saída. Nesse jogo, a precipitação é fatal. Pelo menos para o nosso lado.

— Um momento, mestre — interrompeu Sironiel. — Com todo respeito, não há nada no leste a não ser as Fai-lan e nós não podemos escalá-las. Teríamos de contorná-las e isso nos levaria inevitavelmente ao Deserto de Pedra, ou seja, para o norte. Não seria mais lógico irmos logo para o norte tentando evitar o inimigo? Se conseguíssemos, isso nos pouparia tempo.

— Tempo: esta é a palavra chave dessa guerra — disse Zairom com um tom grave. — Mas não precisamos poupá-lo, nós precisamos ganhá-lo! Nós temos mais recursos e mais aliados. Se levarmos em conta os nossos aliados no continente, o poder do nosso lado é maior, mesmo com a Terra do Fogo conquistada. Precisamos de tempo para que a notícia do ataque chegue aos nossos aliados e ao nosso exército ao sul. Eu já mandei mensageiros na Caravana e se eles conseguirem levar a mensagem, aí sim teremos reforços e poderemos contra-atacar. Temos de evitar riscos...

— Zairom está certo — falou Liana. — Enquanto permanecermos aqui, nós estamos como ratos em uma ratoeira. Estamos exatamente onde eles querem que estejamos. Mas se fugirmos, poderemos ter tempo para pensar no próximo passo.

— Nós iremos para nossas minas nas Blai-Lan. Eu venho guardando lá uma boa quantidade de suprimentos, bem mais que o suficiente para os mineiros — disse o filho do fogo. — Na região das minas nós poderemos nos esconder e pensar no que fazer. Lá sim temos uma fortificação da época da escravatura, que não é muito grande nem muito forte, é verdade. Mas, como sabem, ela fica no topo de uma alta colina de onde poderemos nos defender mais eficientemente. Além disso, há mais de mil mineiros que podem reforçar nosso contingente, um bom estoque de armas e o terreno sinuoso é ruim para a cavalaria inimiga.

— Então, acho que está decidido — falou Ramar. — Devemos partir o quanto antes! Os homens precisam apenas de uma hora de descanso, para ao menos todos terem tempo de se alimentar.

— Pois que assim seja, daqui a uma hora partiremos, mas nem um momento depois — falou Zairom. — A noite será nosso escudo. Avisem a todos. Cada instante que permanecemos aqui diminui nossas chances de sucesso.

Todos saíram em silêncio, deixando o filho do fogo a sós com sua esposa. Liana percebeu que o marido continuava sério.

— Zairom, o que foi? Agora a decisão já está tomada, mas percebo que você está sério, apreensivo. Há alguma coisa errada?

— Como se eu não tivesse motivos para permanecer sério! O risco que corremos é muito grande. Se eles nos encontrarem antes de chegarmos às Blai-Lan, teremos poucas chances de êxito.

— Eu estou bem ciente disso. Mas é outra coisa que o incomoda. Não tente me enganar. Eu o conheço muito bem.

— Bem, você tem razão, há realmente outra coisa me incomodando. Eu não sei explicar, é um sentimento.

— Há algo errado com o plano?

— Não. É que está tudo previsível demais. Eles poderiam prever nossa fuga para o leste e mesmo assim não parecem ter feito nada para impedi-la.

— Não fizeram? Provavelmente fizeram sim. Não o suficiente porque não tiveram tempo, como você mesmo disse.

— Não importa. Não há nada melhor que possamos fazer nessas circunstâncias. Se ao menos o general Daron estivesse no comando, poderíamos suborná-lo.

— Como você sabe que ele não está?

— Foi no interrogatório de hoje pela manhã. O prisioneiro não sabia com certeza, mas se o que ele disse estiver certo...

— O que foi que ele disse?

— Não se preocupe com isso agora. Liana, faça-me um favor: explique nosso plano para mestre Diom e leve o mago e as crianças para a carruagem. Eu preciso ficar um pouco sozinho.

— Está certo. Eu vou.

Liana, então, deixou o marido na companhia de seus pensamentos e atravessou o longo corredor do segundo andar de sua casa pela última vez. Foi ao encontro dos filhos. Tairom estava em seus aposentos. Instruiu-o para que se preparasse. O menino havia se recuperado da noite anterior e parecia o único naquela casa que ainda conseguia sorrir com sinceridade. O manto de sua inocência infantil o protegia da seriedade dos fatos. Para ele, de certa forma, era como se tudo fosse uma grande aventura. Foi, em seguida, ao encontro de Rairom. Ele também estava em seu quarto, mas, ao contrário do irmão, triste era seu semblante.

— Rairom, filho, seu pai decidiu. Nós vamos fugir. Prepare-se...

— Fugir? — disse o rapaz, sem entender as palavras, como se elas viessem de um mundo distante. Como o pai, estava mergulhado em seus pensamentos.

— Isso mesmo, filho. Nós vamos para as minas.

— Agora? — disse Rairom, como que despertando.

— Daqui a pouco. Vou avisar mestre Diom...

— Deixe-me avisá-lo. Ele está muito triste com a situação de Lisian.

— Eu sei, filho. Se ela está tão mal quanto eu imagino, vai ser difícil convencê-lo a fugir. Percebi que um grande desânimo tomou conta dele. Talvez seja mesmo melhor que você vá informá-lo. Vou me preparar para partir. Separei algumas roupas para todos. Já esperava este desenlace. Vou pegá-las e encontro com você na carruagem.

Liana, então, deixou Rairom sozinho e foi cuidar dos preparativos. O que ela não sabia é que o rapaz estava tão desanimado quanto o velho mago. Sentia-se cansado, desgastado e deprimido. Foi difícil para ele encontrar forças para se levantar. Sua vontade era ficar ali, perto da janela, contemplando a paisagem ondulada das verdes colinas e ouvindo o sopro suave do vento. Era um mundo calmo, tranqüilo o que ele observava. Sonhava em evadir-se das atribulações terrenas, em libertar-se dos sofrimentos da vida. Mas isso não era possível e Rairom, no fundo, sabia. Por isso, levantou-se e foi ao encontro do velho mago.

A porta dos aposentos de Diom estava aberta, tal como Rairom a deixara. Silai estava com os olhos fechados, sentado ao lado da neta.

— Mestre — disse Rairom —, nós fugiremos agora. Ordens do meu pai. Vamos!

Nenhuma resposta. Silai parecia estar longe, concentrado, adormecido talvez.

— Mestre, vamos! Temos de levar Lisian — insistiu o rapaz.

De súbito, antes que Rairom pudesse fazer ou dizer qualquer coisa, o velho mago abriu os olhos.

— Há alguma coisa errada, Rairom — afirmou ele.

— É claro que há alguma coisa errada — falou o rapaz rispidamente. — Tudo está errado!

— Não é isso — disse Diom. — Há uma força agindo aqui. Uma presença. Ela está se aproximando rapidamente! Já está muito perto. Como eu não a percebi antes? Estou me tornando um velho estúpido.

— Eu não entendo, mestre.

— Rápido, rapaz! Ela vai entrar nessa casa a qualquer momento. Vamos! Acompanhe-me.

Antes que Rairom pudesse compreender as estranhas palavras do velho mestre, um sino tocou, vinha da torre de guarda. Aquele som quebrava a quietude antes reinante e anunciava que o ataque inimigo começara! Nesse momento Liana estava descendo as escadas. Quando chegou ao andar térreo, o sino tocou mais uma vez e ela, dirigindo seu olhar para a porta, percebeu que estava entreaberta. Ouvindo o som de passos, olhou para trás e sorriu aliviada quando viu a face de Tairom no topo da grande escadaria. Mas este não retribuiu o sorriso; sua face refletia o seu espanto! Liana quase que instintivamente virou-se, sentindo uma presença. Viu uma sombra tomar a forma humana.

— Você? — exclamou ela.

O homem sorriu, enquanto desembainhava a espada. Preparou-se para golpeá-la. Liana, chocada, não se mexeu.

— Não! — gritou Tairom com toda a força de seus pulmões. Foi tudo o que pôde fazer.

O sangue de Liana derramou-se no chão e ela suavemente caiu sobre ele. Sua face não exibia dor e não se ouviu nenhum outro grito além do de Tairom. Exibia apenas sua consternação, sua surpresa por aquele acontecimento inesperado. Tairom começou a chorar. Nesse momento alguma coisa morreu dentro dele. Dali em diante, se tornaria mais pragmático, mais sério, como se naquele instante houvesse despertado bruscamente do belo éden da infância para as ermas terras da vida real. Foi uma passagem brusca demais.

Da mesma forma que surgiu, o vulto retornou às sombras de onde saíra. Assim, alguns momentos depois, quando Rairom chegou à escada, viu apenas uma imagem transparente desaparecendo. Viu também o corpo de Liana jogado no chão e fez menção de correr para junto dele, mas o irmão o segurou com o braço.

— Pare! — disse ele com a voz firme, apesar de ainda estar chorando.

Rairom olhou para a face de criança de Tairom e viu que ela estava cheia de lágrimas, mas no fundo de seus olhos percebeu uma força, uma certeza, que nunca vira antes nele. — Não desça, ou ele vai matá-lo.

Logo em seguida, Diom chegou também. Um momento de silêncio se seguiu.

— Mago das sombras— disse Silai com uma voz pausada e grave —, você é forte, mas não pode enganar minha mente como fez com as dos outros. Eu posso ver você e aqueles que traz consigo. Vou provar.

Antes mesmo de terminar a frase, uma luminosidade branca surgiu entre as mãos do velho mestre e um instante depois ela já se propagava como um raio de luz que se partiu em quatro, indo em direção ao primeiro andar numa velocidade espantosa. Dois deles atingiram seus alvos e dois foram defendidos. Para a surpresa de Rairom, um par de vultos começou a surgir. Estavam caídos no chão. Eram legionários, pelo que parecia, pois em suas armaduras estava gravado o símbolo do trono das sombras. Estavam mortos. O silêncio tomou conta do ambiente.

— Mestre Diom tem razão — disse uma voz vindo de algum ponto do primeiro andar. — O tempo do segredo já passou, finalmente. Mas o senhor está errado, mestre: eu não sou um mago das sombras.

Outros dois vultos então começaram a emergir da escuridão, tomando a forma de homens. Um deles estava de armadura. Ostentava uma capa rubra e seus cabelos eram amarelados. Sorria. O outro cobria sua face com um capuz negro e usava o escuro traje dos magos da Terra do Vento.

— Não me reconhece? — indagou ele. — Depois de tantos anos de servidão canina?

— Esta voz — falou o velho mago. — Não pode ser! Zainog! — disse ele pausadamente. Era como se tivesse levado uma punhalada em seu coração. De todos os acontecimentos amargos que vivera, a traição de Zainog só era comparável, para o velho mago, à dor que o estado de sua neta lhe causava. Para Diom, Zainog era muito mais do que seu braço direito, ele era como um filho. Era o mais prodigioso mago daquela geração, a quem Silai tudo ensinara desde o princípio, quando o seu pupilo ainda era uma criança. Confiava nele profundamente e sua traição foi um duríssimo golpe.

— Sim, sou eu — disse ele retirando o capuz. — Não sou mais seu discípulo. Agora sirvo a outro senhor.

O velho mestre estava chocado, por isso não disse nada.

— Zainog, tire esse velho do meu caminho! Leve-o para a ala sul — ordenou o outro cavaleiro.

— Venha, mestre Diom. Siga-me. Terá a chance de saber tudo o que quiser antes do fim. Ou prefere que nos defrontemos aqui? Eu posso proteger o meu novo mestre, mas será que o senhor pode proteger estes dois jovens?

— Eu vou — disse ele, como se esquecesse que estava deixando Tairom e Rairom sozinhos com o cavaleiro negro. Desceu as longas escadas.

— Mestre! Espere! — disse Rairom. O velho mago, porém, apenas lançou um olhar amargo em direção ao rapaz e continuou. Rairom não teve coragem de ir em seu encalço. Os dois magos deixaram a sala e se dirigiram para um dos muitos cômodos vazios da ala sul. Durante o curto percurso não trocaram palavras. Os momentos foram longos, pois ambos estavam concentrados. Apesar do aparente silêncio, o confronto já se iniciara. Um tentava ler a mente do outro, mas nenhum dos dois teve sucesso. Restavam apenas as palavras. Por isso, logo que penetraram num dos vazios e tenebrosos cômodos da ala sul, Zainog falou:

— Confesso que estava ansioso por este encontro. Poder finalmente tirar a máscara é maravilhoso.

— Por que, filho? Que loucura é essa? — falou Silai com um tom terno. Não conseguia sentir ódio do pupilo.

— Quando tomei a decisão de traí-lo, mestre Diom, pensei que conseguiria tomar o poder na Terra do Vento sem destruir a casa Silai — continuou Zainog, sem dar atenção ao velho mago. — Na minha inocência, acreditava que seria viável exilar a sua família, tão somente. Logo percebi, porém, que isso seria impossível e que teria de aceitar as conseqüências naturais da decisão que tomara, ou seja, a destruição do senhor e de seu filho. Pensei que sentiria uma certa culpa por causa disso, mas não. Meu coração está em paz.

— Você não respondeu a minha pergunta!

— Não mesmo. Quão baixo você caiu, mestre! Até sua antiga perspicácia o deixou! Se não conseguiu deduzir, eu não vou lhe dizer! — falou Zainog. Seus olhos brilhavam e uma língua de fogo se formou no ar sobre a cabeça de Diom, despencando sobre ele. O velho mago a despedaçou com um gesto, entretanto uma chuva de faíscas atingiu-lhe o corpo. Suas vestes começaram a se inflamar, mas as chamas foram contidas. Para tanto, porém, precisou concentrar-se e, por um breve momento, fechou os olhos. Quando os abriu Zainog não estava mais na sua frente. Num movimento brusco, o mago ressurgiu à esquerda do velho mestre e em nova tentativa fez com que um raio de fogo saísse de suas mãos. Diom quase que por reflexo o conteve, mas não sem ser jogado para trás com o impacto. Caiu no chão.

— Vejo que seu poder continua grande, velho mestre. Mas eu sou mais forte, bem mais forte! Sua decrepitude e sua senilidade não o ajudam em nada — falou Zainog com a voz cheia de desprezo. Diom rapidamente recuperou-se. Ergueu o próprio corpo com o poder de sua mente e colocou-se de pé. De súbito, percebeu a razão da traição do discípulo.

— O quinto portal! — disse ele. — Foi por isso, não foi? O fogo no olhar do jovem mago pareceu diminuir por um instante.

— De fato. Vejo que tem consciência de sua injustiça.

— Mas que injustiça, rapaz? Eu lhe ensinei tudo que você sabe, tratei-o como um filho! Só lhe fiz o bem.

— Tudo isso é verdade, não vou negar. Mas o senhor fez isso não por afeição a mim, mas apenas por reconhecer a minha capacidade. Queria um instrumento poderoso em suas mãos.

— Muito bem, Zainog. Eu também não vou negar. Fiz o que fiz por causa de seu potencial. Mas não queria que fosse meu instrumento! Queria ajudá-lo a se desenvolver, porque não suportaria ver desperdiçado um potencial como o seu.

— Mero jogo de palavras. O senhor apenas confirma o que eu disse. Saiba, mestre Diom, que eu cansei de obedecer a suas ordens. Eu, que há muito sou o mais forte dos magos da Laeníquia, tinha de obedecer até ao idiota do seu filho! Eu merecia o Quinto Portal muito mais do que ele! Eu merecia! Mas não, o senhor o deu a ele e somente a ele. É isso que chama de justiça?

— Sim. Ele é meu filho, Zainog! Um Silai! O quinto portal era dele por direito.

— Seu senso de estirpe me enoja! Não foi o senhor mesmo quem me ensinou que todos os homens nascem iguais e que é o mérito que os distingue? Mas devo corrigi-lo: ele era seu filho. O pobre infeliz não conseguiu resistir mais do que alguns instantes, mesmo com os encantos do Quinto Portal à sua disposição — disse o jovem mago antes de dar uma risada. — Aquele verme nem foi capaz de morrer dignamente. Implorou misericórdia antes do fim.

De súbito, em meio a uma nova onda de dor, tudo se aclarou para Diom. A sua saída da Terra do Vento, a falsa mensagem, os conselhos de Zainog para que não retornasse, mas continuasse até a Terra do Fogo, todos esses fatos ressurgiram em sua mente como uma onda esclarecedora. A peça que faltava para o quebra-cabeça agora havia se revelado. Até mesmo o motivo pelo qual o veneno que ele criara viera parar nas flechas do inimigo não lhe era mais desconhecido. Estava tudo explicado. Tudo era obra de seu pupilo!

— Seu coração se tornou negro, Zainog — constatou com amargura o velho mestre. — Digo se tornou, porque você não foi sempre assim. Você sucumbiu a sua inveja e fez muito mal a quem só lhe quis o bem e até a quem você mesmo queria bem. Lisian vai morrer por causa do veneno que você roubou.

— Lisian? — disse o jovem mago com a surpresa estampada no rosto. Sentiu-se consternado por um instante. — Eu nunca quis ser a causa da morte dela.

Por um momento mestre Diom pensou ver a face do seu discípulo de outros tempos. O brilho de ódio parecia tê-lo abandonado. Sua mente, pela primeira vez desde o início do confronto, estava transparente e exalava dúvida, talvez até um certo arrependimento. Mestre Diom pensou em tentar entrar na mente de seu discípulo e dominá-lo, afinal ele parecia frágil. Mera ilusão: tinha apenas iniciado sua tentativa quando Zainog o repeliu violentamente. O fogo voltava ao seu olhar.

— Eu nunca quis fazer nenhum mal à sua neta — disse ele. — Ela era uma das poucas pessoas que realmente gostava de mim, me dava o valor que eu merecia. Mas foi melhor assim.

— Como você pode dizer uma coisa dessas, Zainog?

— Ela nunca me perdoaria pelo que fiz com sua família. Pelo menos ela morrerá em paz, sem saber de nada.

— Você está morto por dentro, Zainog. Não há mais redenção para você — disse o velho mago. Apesar de saber que estava falando com o assassino de seu filho, Mestre Diom sentia mais amargura do que ódio. Sua decepção era inco-mensurável.

— Não sabe como está enganado. Eu estou mais vivo do que nunca e sua morte será minha redenção. Morra!

Das mãos de Zainog outro raio de fogo surgiu, mas mestre Diom já estava preparado e defendeu-o com facilidade.

— Esse feitiço não terá mais efeito sobre mim — disse o velho mestre. — Eu sei o quanto você gosta do elemento fogo, mas ele não será suficiente para me derrotar. Devia saber disso.

— Usarei os outros elementos se preciso for.

— Como você é tolo. Eu estou muito além dos elementos. Conheço coisas que você nem imagina. Você quer conhecer os feitiços do Quinto Portal? Então, prepare-se!

Naquele momento, uma luz começou a brilhar vinda do corpo do velho mago. Era um brilho azulado que tomou conta de toda a sala. Mestre Diom podia sentir o medo no coração do discípulo. Sem dúvida, Zainog havia subestimado seu mestre. Estava surpreso com aquela energia. Seria esse o poder do Quinto Portal? Em todos os anos que convivera com Diom Silai, Zainog nunca presenciara uma energia tão forte e misteriosa no velho mestre. Ele estava certo em suas suspeitas, era de fato um feitiço do Quinto Portal o que o velho mago invocara. Mas só mestre Diom sabia do risco que corria ao utilizar um poder ancestral, cujas nuances não entendia. Estava certo, porém, de que não havia outra escolha, pois não poderia derrotar o jovem e poderoso Zainog de outra forma.

Mestre Diom, em sua ousadia, novamente enchia meu coração de dúvida e medo. Como se não bastassem os acontecimentos que se desenrolavam ali perto, na mesma casa, colocando a vida do escolhido em risco, o velho mago agora ameaçava liberar outra força que não compreendia, podendo destruir aquela casa e seus arredores. É claro que este poder humano nada significava se comparado ao Poder dos Selos, mas poderia ser igualmente letal, pelo menos para os seres vivos das proximidades. Pensei na possibilidade de interferir novamente, mas percebi que não me seria permitido. Outras forças sobre-humanas se faziam presentes e se elas percebessem a minha interferência, a situação poderia fugir de controle, se é que ainda havia algum. Restava apenas esperar o desenlace do confronto.

Felizmente, não parecia que iria demorar muito, pois uma aura verde começou a envolver o corpo de Zainog, o qual sentiu seus músculos se paralisarem. O desespero tomou conta do jovem mago. Queria gritar, mas sua voz não saía. Mestre Diom via tudo, não com seus olhos, que estavam fechados, mas sim através de sua mente. Viu quando o corpo de Zainog foi erguido pela estranha energia, e viu como ele era contorci-do por ela. Viu quando foi jogado de encontro a uma das paredes e quando ele foi, logo a seguir, arremessado de encontro a outra. Viu quando este processo se repetiu por outras cinco vezes. Faltava apenas o golpe final.

Novamente o corpo de Zainog estava suspenso no meio da sala. Sentiu que a aura verde perdia intensidade. Mestre Diom estava cansado, mas não tão cansado assim, pois Zainog conseguiu apenas mover levemente os membros antes que a aura se intensificasse de novo. Desta vez, porém, em vez de apertar seu corpo ela começou a esticá-lo, como se cada parte do seu ser se separasse do resto. Um grito ecoou pela sala. Mas não era de Zainog, que estava silenciado pelo encanto, vinha de longe, vinha do átrio central. Não sei se foi pelo grito, que teria quebrado sua concentração, ou se pelo esforço, que teria drenado suas forças, ou se por ambas as coisas, mas Diom não conseguiu levar a cabo o feitiço e o corpo exausto e ferido de Zainog caiu no chão. Num esforço derradeiro, o jovem mago desejou profundamente a morte de seu odiado mestre, usando todo o poder que lhe restava. O velho mago estava cansado demais para se defender. O fogo surgiu de todos os lados e até mesmo de dentro de seu corpo. Foi incinerado em apenas um mísero instante, quase como se fosse desintegrado, evaporado pelas chamas quentíssimas que o envolveram.

Assim morreu Diom Silai, sem dor física, ante a rapidez de sua morte, mas com o coração pesaroso. Com ele ameaçava se exaurir o tempo dos lendários magos das montanhas geladas do leste. O encanto do Quinto Portal afinal fora sua ruína, pois drenara sua energia por completo. Entretanto, o ambicioso Zainog encontrou em seu velho mestre o mais terrível adversário que jamais enfrentara. O jovem mago vencera, mas estava exausto e ferido, e restava estendido no chão, quase inconsciente. Tudo que queria era permanecer ali, descansando. Não estava feliz pela vitória, nem sentia mais ódio. Restava apenas o cansaço, um profundo cansaço e a dor pelos ferimentos sofridos. Um cheiro de fumaça, porém, chegou às suas narinas, obrigando-o a tentar se levantar. Ao que parecia, a partir das chamas que ele mesmo criara, um incêndio de grandes proporções começara.

Antes, porém, das chamas surgirem, ainda quando o velho mago deixava o átrio a caminho de sua destruição, outro confronto estava para se iniciar. O cavaleiro negro ansiava por sua vingança, há muito esperada. Vingança esta que assumira um papel tão ou mais importante em sua vida que as riquezas e o poder que conquistara. Porém, paradoxalmente, em seus olhos transparecia sua frieza de sentimentos, embora nem Rairom, nem Tairom fossem capazes de perceber isso. Seu ódio estava longe de ser passional. Era uma revolta raciocinada, mastigada, amadurecida. Uma raiva cega, mas fria. Uma força que o dirigia inevitavelmente para um de dois fins: a completa aniquilação de seus inimigos, ou sua própria destruição nas mãos deles.

— Onde está seu pai, Tairom? — disse o senhor da Terra das Sombras. — Chame-o aqui. Nós temos muito o que conversar. Desculpem-me por eu vir sem ser convidado, mas acho que teria de esperar uma eternidade por um convite de seu pai. Por isso, tomei a liberdade de vir, afinal esta também é minha casa ou pelo menos era.

Tairom não respondeu. A princípio não reconhecera o tio, que aliás nunca vira pessoalmente, a não ser quando era muito pequeno para se lembrar. Rairom também não sabia quem era o cavaleiro negro, embora não fosse para ele muito difícil de deduzir.

— Você é o Larcon? — indagou Rairom. Trocou então um olhar com o irmão, que parecia chocado com esta possibilidade.

— Não falei com você, bastardo!

— Ele não está aqui — disse Tairom com uma voz firme, antes que Rairom pudesse fazer ou dizer qualquer coisa. — Está com as tropas lá fora.

— Você cresceu, meu sobrinho. Vejo que não só fisicamente, mas mentalmente você está se tornando um verdadeiro filho do fogo. Está mostrando hombridade em uma situação difícil, mais difícil do que você pode imaginar. Mas não pense que pode enganar seu velho tio tão facilmente. Sei muito bem que seu pai está nesta casa ou eu não teria vindo aqui. Ter um mago como Zainog à minha disposição tem suas vantagens.

"Zainog?", pensou Rairom. Apesar de ter presenciado o diálogo entre o velho mago e seu discípulo alguns instantes antes, somente agora associava o nome à pessoa. "Seria ele aquele Zainog?", indagou-se mentalmente. Desejou profundamente que não, embora tivesse menos dúvidas a esse respeito do que gostaria.

— Entendo — falou o menino. Sua voz assumiu um tom ainda mais grave e firme. — Mas para chegar até ele, você vai ter de passar por mim primeiro, tio. Não vou perder meu pai e minha mãe num único dia!

Rairom estava consternado com as palavras e com a coragem do irmão. Sua atitude contrastava com o terror que o rapaz sentia. A surpresa de Rairom aumentou ainda mais quando viu que o irmão desembainhava uma pequena espada. Aquela criança pronta para enfrentar o cavaleiro negro, armada apenas com algo que mais parecia uma faca, era uma cena incrível de se ver. O Larcon não pôde conter uma gargalhada. Estava surpreso e satisfeito com a atitude do sobrinho.

— Muito bem! Eu aceito seu desafio, Tairom. Era mesmo de se esperar que o único com o sangue dos filhos do fogo nas veias viesse lutar. Os imundos e covardes alguianos não são moldados para isso — disse o Larcon, indo em direção às escadas.

— Ficou louco, Tairom? Vamos chamar nosso pai — falou Rairom, que não acreditava no que estava acontecendo. Não houve resposta.

— Viu do que eles são feitos? São covardes e fracos — falou o Larcon, que agora já começava a subir as escadas.

— Espere! — disse o menino — Não suba! Eu vou até aí. O Larcon, sem nada dizer, recuou enquanto o menino

descia as escadas. Rairom concluiu que Tairom enlouquecera com a morte de Liana, ou ao menos deveria estar em choque, fora de si. Saiu correndo, deixando seu irmão sozinho. Pretendia buscar o pai. Somente Zairom, a seu ver, poderia ajudá-los. Já no primeiro andar, e com a espada em punho, Tairom encarava seu inimigo. Uma determinação irracional tomara conta dele.

— Você me odeia, Tairom? Sente ódio por eu ter matado sua mãe?

— Sim! — falou o menino, tentando dar um golpe com a espada, o qual foi facilmente defendido pelo Larcon. De seus olhos saíam lágrimas, mas não eram mais de tristeza, como percebeu o ardiloso senhor da Terra das Sombras.

— Sim, você me odeia! Suas lágrimas refletem seu ódio. Nada no mundo lhe daria mais satisfação do que cravar esta pequena espada no meu peito, não é?

— Sim! — disse ele investindo com toda a sua força. O Larcon repeliu o menino, dando-lhe um forte soco no rosto. Tairom caiu no chão. Sofrera um corte no lábio, que agora sangrava.

— Infelizmente isso não vai ser possível. Quem sabe um outro dia. Então me diga, você teria paciência de esperar?

— Não! — disse o menino ainda no chão.

— É uma pena. Que adiantam a força e a motivação que o ódio lhe dá se você não tem a paciência para utilizá-las? Eu tive de ter paciência...

— Você não vai mais ter de esperar, Zairon — disse uma voz vindo do topo das escadas.

— Pai! — falou o menino. O filho do fogo empunhava a espada dos Guenor e sua armadura.

— Pensei que deixaria seu filho lutar em seu lugar, Zairom. Isso seria típico de você e de seu povo, que são reconhecidamente um bando de covardes.

— Você cometeu um erro vindo até aqui sozinho — disse ele enquanto descia as escadas. — Provavelmente você fez esse movimento para me surpreender. Estou mesmo surpreso. Não esperava que tivesse um mago capaz de trazê-lo aqui sem que mestre Diom percebesse. Mas o que adiantou isso tudo? Agora você está aqui, sozinho em meu território. Não foi um movimento tão inteligente afinal.

— Sozinho? Você está louco! Vim com um exército inteiro. Daron entrará aqui com um regimento a qualquer momento.

— Daron? É mesmo? Mas por enquanto não há nenhum regimento aqui dentro dessa casa. Eu acrescentaria que vai demorar algum tempo para vencerem todos os guerreiros que eu angariei. Eles não vão fugir. Vão me defender até o último homem. Não são mercenários como os guerreiros que traz com você.

— Não subestime seu velho amigo — disse o Larcon. — Não me tome por um idiota qualquer. Você ofende minha inteligência chamando a nata das legiões imperiais de mercenários.

— Como eu ia dizendo — falou o filho do fogo enquanto descia as escadas —, até eles chegarem aqui, você está sozinho! E é claro que, quando eu mostrar seu cadáver a Daron, ele ficará muito feliz em ser subornado e trocar de lado. Ele o despreza tanto quanto eu.

— E quem vai me matar? Você? — disse o Larcon, com certa hesitação. Realmente se sentiu um pouco inseguro. Em verdade, a morte prematura dos dois legionários que trouxera como escolta não estava em seus planos. Entretanto, lembrou-se, para seu alívio, dos dois homens que deixara de guarda na porta. Chamou-os com um grito. Zairom parou por um instante. Percebeu, porém, que ninguém veio em socorro do Larcon e continuou a descer as escadas.

— Maldição, onde eles se meteram? — disse o soberano em voz baixa. — Não importa. Eu mesmo o vencerei — bradou ele. A despeito dos riscos, não queria nem podia recuar.

— Ou você está desmemoriado ou louco, Zairon — retrucou o filho do fogo. — Nunca, eu repito, nunca você me venceu em um confronto de espadas! O que o faz pensar que poderá fazê-lo agora? — indagou Zairom. O sangue do Larcon gelou com essas palavras. Sabia muito bem que isso era verdade. Nunca antes fora páreo para Zairom na luta de espadas.

— Maldito! Eu odeio você, Zairom! Você não imagina o quanto! Eu não tenho medo de morrer! Vou matá-lo hoje nem que seja a última coisa que eu faça nessa vida miserável! — exclamou Larcon, desembainhando sua espada, ainda manchada com o sangue de sua irmã.

Começaram então a duelar. Era uma batalha de gigantes. O Larcon havia se tornado um guerreiro muito mais hábil do que fora na juventude, quando já era considerado o segundo melhor espadachim da Academia, atrás apenas de Zairom. Além disso, estava inspirado por um ódio forte e cego que o filho do fogo desconhecia. Cada um de seus golpes era dotado da força que seu profundo asco por Zairom lhe conferia. O filho do fogo, porém, tinha a frieza ao seu lado. Ele observava atentamente a face de seu inimigo, que contrastava com aquela do jovem Zairon, com o qual duelara outras vezes. Estudava seus movimentos, defendendo mais do que atacando, buscando o momento ideal. De súbito, por um instante fugaz, o Larcon ficou indefeso, com sua guarda abaixada, em razão de um golpe precipitado. O filho do fogo não desperdiçaria a chance de golpeá-lo. Assim o fez. O Larcon, porém, esforçou-se para se esquivar, de sorte que a lâmina de Zairom tocou-lhe o rosto de raspão. O corte produzido começou a sangrar.

— Muito bem, vejo que não perdeu a prática — disse o Larcon.

— Eu estive treinando.

— Mas não vai ser esse arranhão que vai me derrotar. Nunca mais, Zairom, você vai se interpor entre mim e o meu destino! Isso eu lhe juro! — esbravejou o senhor da Terra das Sombras.

— Que destino? Você enlouqueceu de vez! Você sempre foi um megalomaníaco, mas tudo tem um limite. Zairon, você perdeu o senso da realidade! Foi capaz até de matar sua própria irmã, que nunca lhe fez nada de mal!

— Nunca me fez nada? Ela é a maior das traidoras. Ela deu o trono dos filhos do fogo ao meu maior inimigo! Isto eu jamais poderia perdoar. Eu sei que se ela tivesse se recusado a casar, fraco e doente como estava, meu pai não a teria forçado.

— Tenho pena de você! Não poderia enxergar a verdade nem que eu a esfregasse na sua cara!

— Chega de palavras vãs! Chegou a hora de você morrer, Zairom!

O duelo recomeçou, só que com mais intensidade. O Larcon agora parecia tomado de um desespero difícil de mensurar. Qualquer traço de frieza, que porventura conservara até aquele momento, havia se esvaído. Percebia claramente que seu inimigo era superior tecnicamente, mesmo passados tantos anos. Zairon foi tomado de uma dúvida atroz. Seria a longa espera em vão? Esvair-se-iam os seus sonhos de vingança sem nunca se tornarem reais? Estaria sua terra entregue para sempre ao domínio estrangeiro dos alguianos? Por um momento, visionou seu arquiinimigo vestido com trajes dourados nos quais estava gravado o antigo símbolo de Algar. Um grande pássaro de asas abertas sob um sol de dezenove raios reinava absoluto no outrora poderoso Império. Em sua visão, Zairom estava sentado no Trono da Terra das Sombras, em Naquicaron, com seu filho "bastardo" ao seu lado. Era servido pelo povo do sul, reduzido a bajuladores e escravos. A imagem o encheu de nojo e repulsa. Teve de se esforçar para não vomitar ali mesmo durante o confronto. Seria este o cruel destino do orgulhoso povo do sul? Seria ele o último dos filhos de Liurom a governar a grande e gelada Ilha? Não, isto não podia ser! Isto ele não permitiria, nem que tivesse de pagar com a vida. Mas da forma com que o confronto se desenvolvia, estava certo de que não poderia vencer Zairom. Imperiosa era naquele momento uma atitude desesperada!

Descuidando-se completamente da defesa, tomado de uma fúria enlouquecida, Zairon deu um golpe frontal buscando cravar a espada em seu odiado inimigo. Este, porém, continuava frio como sempre e simplesmente se desviou, embora fosse surpreendido pela atitude nada estratégica do Larcon.

— Você me decepciona, Larcon. Sabe muito bem que não vai me vencer assim.

O cavaleiro negro não respondeu. Sequer, aliás, deve ter ouvido as palavras do adversário. Estava tomado por um antigo desejo de sangue. Por isso, enquanto o filho do fogo ainda falava, Larcon investiu contra ele novamente. Novamente, Zairom desviou-se ileso. Larcon, desequilibrado, caiu no chão. O filho do fogo, olhando para a figura prostrada de seu inimigo, percebia claramente a fraqueza e o desespero do adversário.

— Desista! Você está derrotado! Esta luta acabou — falou o nobre Zairom. Por um tênue momento, apesar dos terríveis atos do Larcon, chegou mesmo a sentir pena daquela criatura patética, consumida por sentimentos negativos. Lembrou-se do tempo em que eram amigos, de quando Larcon era a pessoa mais valorosa que conhecia. Lamentou por ele ter se transformado na pessoa em que se transformara. A pena que sentia chegou mesmo a se refletir em sua face. O Larcon percebeu o olhar misericordioso do inimigo e isto foi para ele a suprema tortura. Como podia seu miserável adversário sentir pena dele? Percebeu a sua inferioridade moral em relação ao nobre Zairom. Como havia se tornado medíocre comparado a ele! Sentiu a inveja misturar-se com seu ódio. "Maldito Zairom, maldita vida!", pensou.

Numa última e desesperada tentativa, Larcon levantou-se e partiu de encontro ao filho do fogo. Neste derradeiro golpe, o cavaleiro negro colocou tudo que restava de suas forças, de seus desejos, de seu próprio ser enfim. Mas o filho do fogo novamente conseguiu se desviar. Sua piedade, porém, quebrara sua atenção e o golpe do inimigo, mais vigoroso do que poderia imaginar, conseguiu fazer com que a lâmina lhe tocasse o ombro, produzindo um corte não muito profundo. O Larcon, esgotado, ficou exposto ao contra-ataque que viria a ser fulminante.

— Eu disse chega! — gritou o filho do fogo antes de golpear vigorosamente o braço do Larcon que segurava a espada. Em um único golpe, Zairom separou a mão e o antebraço esquerdo de seu adversário do resto do corpo. Larcon, sentindo uma dor e uma humilhação tremendas, soltou um urro agudo que ecoou por toda a casa, inclusive na ala sul, de onde, logo a seguir, como que em resposta, uma explosão de chamas eclodiu.

 

                     O trono de fogo está em chamas

O que é ser um filho do fogo? Nossa grande civilização não é capaz de responder a esta simples pergunta? Perdemos tanto assim o significado de nossa raça? Alguns acham que o filho do fogo é o nobre, é o homem de títulos, é aquele que tem riqueza e poder. Desagradável é a verdade para essas pessoas para terem de mascará-la por detrás de tais mentiras. Tomam o efeito pela causa. Esqueceram do tempo em que éramos apenas um bando de homens maltrapilhos, quando a grandiosa Naquicaron era tão-somente uma pequena vila. Nossos ancestrais eram homens sem nada, sem posses, que ousavam desafiar a opressão. As chances contra eles, a racionalidade sempre a desafiá-los. Mas eles eram os filhos do fogo! Homens imperturbáveis, implacáveis. Eles superaram as adversidades. Venceram contra as chances, contra a lógica e contra o aço. Venceram o medo e a si mesmos. Ser filho do fogo é um estado de espírito. Não está no sangue, mas na alma. Por que não somos mais assim? Por que relegamos a herança de nossos ancestrais? Para onde foi nossa coragem? Agora lutamos com os números, com a lógica.

Deixamos nosso fogo se apagar... havia escravos que são mais filhos do fogo do que os últimos Imperadores. ("Heranças e Amarguras" — Escaelos)

O sol já se punha por detrás das nuvens e a luz era pouca. Sironiel corria esbaforido entre os reforços, que inocentemente continuavam a fazer sua refeição. Tinha acabado de ouvir o sino de alerta e sabia que aquele tinir agudo não podia significar outra coisa senão que o ataque começara. Procurava o velho Ramar. Separara-se dele poucos momentos antes e apesar disso não conseguia encontrá-lo na multidão de guerreiros. Sua ansiedade era grande e, quando já pensava em gritar seu nome, localizou-o sentado junto com alguns soldados jovens.

— Ramar! Venha aqui! — disse Sironiel. Sabia muito bem que tinham pouquíssimo tempo para se preparar.

— O que é, general? Estou comendo — falou o velho, que estava cansado e de mau humor. Impaciente, Sironiel correu em sua direção. Quando se aproximou, o experiente ancião anteviu no rosto preocupado do jovem general a gravidade de suas palavras.

— O ataque começou — cochichou ele.

— O quê? — disse em voz alta o velho.

— Fale baixo. Não quero causar pânico. Não queremos dispersar nossos poucos soldados.

— Eles não vão fugir, rapaz. São filhos do fogo! Se não são todos de sangue, são de espírito.

— Muito bem. Apenas faça o que eu digo. Pegue uma parte dos homens, vá para leste e espere na colina do túmulo a chegada de mestre Zairom e sua família. Farei de tudo para que cheguem inteiros lá. Você sabe onde é?

— Eu nasci aqui. Conheço cada palmo dessas terras. Mas o que você me pede é um absurdo. Vim para lutar, não para me esconder.

— Não seja idiota. Vocês não fariam muita diferença aqui.

— Acho que você está... Acho que você está certo — falou Ramar, ponderando melhor. — Mas confie neles, Sironiel. Fale com eles. São bravas almas, não são gado. Não se pode guiá-los para a morte sem que eles saibam.

Depois de dizer essas palavras, o velho dirigiu-se aos soldados.

— Prestem atenção, todos! — gritou ele. — O general Sironiel vai falar.

O burburinho que até então se ouvia cessou. Os guerreiros fizeram um silêncio mortal, pois ansiavam por notícias.

— Guerreiros, escutem-me — falou pausadamente o general, sem saber bem o que dizer. "Onde mestre Zairom teria se metido?", pensou. Desejou que ele estivesse ali, pois o filho do fogo sempre sabia escolher as palavras certas para cada momento. — Não vou mentir para vocês... O exército inimigo está na iminência de chegar.

Quando terminou de dizer essas palavras, um burburinho se seguiu. Nos corações de todos, até mesmo do jovem general, o medo se intensificara com o cair da noite.

— Quando vocês escolheram vir hoje pela manhã, sabiam que um confronto poderia ocorrer, não sabiam? Mas mesmo assim vocês escolheram vir. Cada um de vocês teve seus motivos. Se esses motivos são fortes o suficiente para que vocês de fato lutem, cabe a cada um ponderar. Tudo que eu posso dizer é que vou lutar. Eu não conheço seus motivos, mas conheço os meus. E eles são fortes! Minha gratidão para com mestre Zairom não tem limites e estou disposto a lutar sozinho se for preciso! — falou o general. Após uma pequena pausa, ele continuou: — Aqueles que forem arqueiros e quiserem lutar que me acompanhem. Os demais vão com Ramar.

Silêncio. Nenhuma resposta. Os guerreiros pareciam paralisados pela iminência do combate. Muitos deles nunca haviam lutado numa guerra antes. "Eles não vão lutar, não importa, não fariam muita diferença", concluiu Sironiel mentalmente. Na verdade, segundo sua lógica, nada faria diferença. Precisavam de um milagre. O general, desesperançado mas decidido, começou a andar até as Torres de Pedra, sem olhar para trás. Na metade do caminho ouviu o som de passos. Um grupo de mais de quinhentos homens o seguira. Sabiam de suas chances e mesmo assim haviam decidido lutar. Os demais foram com Ramar. Uns poucos, talvez duas centenas, desertaram. Sironiel ficou feliz ao vê-los e a esperança, mesmo na escuridão daquela noite, renasceu. Sem demora, dividiu-os em grupos de aproximadamente cem homens e para cada centúria determinou uma localização ao longo da muralha de pedra, reforçando as bordas norte e sul. Explicou que havia um bom estoque de flechas e que o plano era defender as muralhas o maior tempo possível, até que o mestre conseguisse evadir-se do local. Depois de ordenar que dois homens fossem até Zairom informá-lo das providências que tomara, seguiu pessoalmente com duas centúrias para a borda norte. Rápidos foram seus passos e os dos homens que o acompanharam. Não demorou para que chegassem à escada que dava acesso à torre norte, ao pé da qual um rapaz de armadura esperava por eles.

— Iagor! Como estão as coisas? Eu ouvi o sinal.

— Nada bem — falou o rapaz, expressando em suas feições a tensão que sentia. — Eles estão prestes a atacar. Mas vejo que trouxe reforços.

— Quanto tempo para o início do ataque?

— Eles já estão se movimentando. Estavam a uma certa distância, mas se aproximam rapidamente. Podem começar a atacar a qualquer momento.

— Vamos torcer para que tenhamos tempo de preparar os arqueiros — falou o general consigo mesmo. — Vamos, homens! — disse ele, voltando-se para os outros. Subiram então as escadas o mais ordenadamente possível, ante as circunstâncias. Sironiel foi à frente e logo chegou ao cume da torre. A luz do sol, que se punha, deixava branca e alaranjadas as nuvens a oeste. Os contornos negros da face oeste da Grande Muralha eram visíveis no horizonte. A pouca luz que vinha do poente permitiu que o general percebesse que algumas colunas da infantaria inimiga já estavam bastante próximas. Ao longo da muralha, de norte a sul, os arqueiros já se acumulavam. Viu que ao fundo muitas colunas inimigas permaneciam inertes. Algumas eram de infantaria, outras de cavalaria. O exército inimigo era mesmo muito numeroso. Pelo que podia estimar, talvez fossem mais de dez mil homens. Felizmente, parecia não haver armas de cerco, ao menos no espectro visível.

— Não vejo armas de cerco, Logar. Eles vão ter de contornar as bordas norte e sul.

— É. Acho que sim.

— Mas eles vão ter dificuldade para atravessar o riacho de pedra. Nesta época do ano, ele fica mais profundo e sua correnteza, mais forte. Eles vão ter de nadar.

— Sem dúvida. E vai ser difícil nadar debaixo de uma chuva de flechas. As primeiras colunas inimigas já estão se aproximando. Devemos iniciar nossa defesa?

— Certamente. Não temos por que economizar flechas. Vejo que boa parte dos arqueiros já subiu. Iniciaremos com eles. Estão a par dos sinais?

— Creio que sim, foram instruídos durante a refeição. De qualquer modo, eu distribuí os arqueiros já treinados por toda a muralha. Os outros seguirão o exemplo deles.

— Excelente. Então pode soar o sinal. Ah, já ia me esquecendo, mande acender as tochas. Logo precisaremos de luz.

Um tinir de sino se ouviu na muralha. Era o mesmo sino que tocara anteriormente. Naquele momento os arqueiros começaram a erguer seus arcos. Alguns instantes depois outro tinir com um timbre mais agudo foi ouvido e uma nuvem de flechas cruzou o céu. A infantaria inimiga, distribuída em duas colunas e muito bem armada, ergueu os escudos para se proteger. Algumas flechas, apesar de tais esforços, atingiram-nos. Não foram poucos os soldados que caíram no chão, feridos alguns, mortos outros. Uma boa parte, porém, continuou a avançar, mas após um novo tinir e nova onda de flechas acabaram recuando. Os arqueiros vibraram. Sironiel, porém, continuava carrancudo. "Só estão nos testando", pensou ele. O general estava certo, como logo a seguir se constatou.

Silêncio. A luz do sol já diminuía sensivelmente e o amarelo das tochas iluminava o perímetro próximo à muralha. Cinco colunas se aproximavam. Apenas seus vultos eram visíveis, apesar de estarem já próximas da região iluminada. Mas, antes de entrarem no perímetro de luz, elas se paralisaram. "O que estariam tramando?", pensou Sironiel. Não demorou para desvendar o pequeno enigma. Era óbvio.

— Rápido, Logar, toque o sino de proteção.

— Certo.

Um novo som de sino se ouviu. Este, porém, tinha o timbre mais grave. Em resposta, parte dos arqueiros ergueram seus improvisados escudos de madeira. Antes que metade deles o fizesse, um zunido antecipou as setas que se aproximavam.

— Eles estão muito expostos — lamentou Sironiel.

De fato estavam. As numerosas setas inimigas atingiram em cheio muitos dos defensores que caíram não só vítimas dos ferimentos, mas também do veneno que elas continham. Muitos, porém, sobreviveram. Os escudos de madeira se mostraram uma defesa razoável, afinal. Isto possibilitou que contra-atacassem. Ao tinir do sino, uma nuvem de flechas voou em direção aos vultos. Acertaram os alvos e, embora eles não pudessem afirmar com certeza, muitos arqueiros inimigos foram atingidos. Porém, não o bastante. Havia muitos outros ainda de pé e uma onda nova de flechas inimigas bombardeou a muralha, causando novas baixas. Sironiel, ao observar o cenário, concluiu que não poderia mais esperar.

— Dê o sinal, Logar, aquele que nós combinamos.

— Mas já, general?

— Já. Não podemos deixar que sejam massacrados.

O jovem guerreiro acendeu então a tocha no topo da torre. Os arqueiros sobreviventes, obedecendo ao sinal, começaram a abandonar a parte exposta das muralhas, refugiando-se nas bordas ao norte e ao sul, onde paredes de pedra os protegeriam de flechas lançadas do oeste. Na retirada, porém, muitos foram atingidos pelas setas mortais que continuavam a chegar. Era incrível ver todas aquelas flechas atravessando a luz amarelada das tochas, que nelas refletia, transformando-as em gotas douradas que voavam sobre as muralhas e iam morrer nas terras do outro lado. Havia mesmo uma beleza mórbida no cenário. Eu, que tudo observava em segurança, tinha esta impressão. Mas não era este o caso dos pobres guerreiros de Zairom, e com certeza não era esta a opinião de Sironiel. O peso de saber que havia conduzido para a morte todos aqueles homens que restavam caídos a sua frente e outros que ainda iriam cair era grande. "Tantas vidas desperdiçadas!", lamentou-se. Antes do confronto, já sabia que aconteceriam baixas, muitas baixas, mas isso era apenas uma idéia. Agora que a idéia havia se transformado na dura realidade a sua frente, ela adquirira uma dimensão sombria que o jovem general não previra. Teve vontade de chorar. Mas ele era o líder, tinha de resistir. Não poderia esmorecer jamais! "Palavras, apenas palavras vãs", pensou. Uma lágrima solitária cruzou seu rosto.

— General, a retirada está completa — falou Logar. — Quais são suas ordens?

— O quê? — indagou Sironiel, distraído por seus tristes pensamentos.

— Suas ordens, senhor! — insistiu o rapaz.

— Ah, sim. Temos de esperar. Agora que nós retiramos os arqueiros, eles vão ocupar toda a região a oeste até a beira da muralha. Provavelmente vão tentar então contorná-la. Quando fizerem isso, tentaremos retardá-los com os arqueiros que nos sobraram.

— E se eles utilizarem a estratégia anterior?

— Desta vez não vamos fugir — disse o general, sem disfarçar a amargura e o ódio em suas palavras.

De súbito, uma voz se ouviu entre a multidão de arqueiros que se acumulavam na torre de pedra e na pequena porção de muralha que apontava para o leste.

— General — disse o arqueiro que se aproximava vindo do extremo leste das muralhas —, há alguma coisa errada.

— O que quer dizer? — indagou Sironiel.

— Meus colegas não viram nada, mas eu tenho certeza que vi. Eles disseram que eu estava tendo ilusões e que estava muito escuro para ver alguma coisa, mas tenho certeza de que vi...

— Do que você está falando, rapaz? Acalme-se e vá direto ao ponto.

O rapaz respirou fundo e falou:

— Bem, senhor, é que eu vi uma fumaça negra saindo da casa do mestre.

— Fumaça negra? — indagou Sironiel. Teria mestre Zairom mandado incendiar a casa? Mas ele não lhe dissera nada a respeito. Poderia ter tomado esta decisão na última hora. Por outro lado, como o arqueiro poderia ter visto? Estava realmente muito escuro. Precisava se certificar. Correu em direção à extremidade da muralha. Fitou a escuridão, procurando os sinais mencionados. A princípio não parecia haver nada (e se houvesse fumaça estava mesmo muito escuro para se enxergar). De súbito, porém, ele viu! Não era apenas fumaça, também um tênue brilho dourado começava a se formar. Havia mesmo um incêndio. Sentiu em seu coração que algo estava errado. Ponderou que o mestre não interromperia uma fuga complicada, preocupando-se em incendiar a casa sem ter nada de relevante a ganhar com isso. Não havia como ter certeza a não ser indo verificar. É isto que decidiu fazer.

— Logar, há alguma coisa errada com o mestre. Há um incêndio na casa. Eu preciso verificar. O comando é seu. Resista o tempo que puder e depois da batalha leve os soldados os que restarem, para a Colina do Túmulo. Se não estivermos lá, vá até o Forte de Pedra, nas Blai-Lan.

— Colina do Túmulo e Forte de Pedra. Entendido, senhor.

— Preste atenção, não conte seu destino para ninguém. Não queremos que eles descubram nosso ponto de encontro.

— Compreendo. Cuide-se, Sironiel.

— Obrigado. Cuide-se você também. Preciso de cinco voluntários — disse o general secamente. Estava mais ansioso do que antes.

Logar indicou cinco homens que acompanharam o general. Desceram as escadas da Torre e atravessaram a relva esverdeada que os separava da mansão dos filhos do fogo. Algumas poucas flechas ainda voavam por cima da muralha. Em conseqüência, conforme se afastavam da segurança que a área iluminada fornecia, avançavam com mais cuidado. Sironiel desejou sinceramente que o mestre estivesse a salvo. Procurou não olhar para trás. Permitiu-se apenas uma olhadela em direção ao portão principal. Através das grades de aço viu que aquilo que previra estava se realizando. As colunas inimigas se acumulavam defronte às muralhas e preparavam-se para contorná-las. Era provável que nenhum dos seus homens sobrevivesse ao ataque. Não obstante, nada mais podia fazer por eles. Tinha de continuar. Antes que desse dois passos, porém, tropeçou em alguma coisa. Mesmo na escuridão viu que era um corpo humano. Não conseguia distinguir os detalhes do rosto. Pediu ao guarda que aproximasse a tocha que tinha consigo. A luz amarela revelou a face sem vida do cozinheiro Ianor. Havia sido atingido por uma flecha. As palavras do homem ecoaram na mente de Sironiel, "mortos não precisam comer".

— Pobre homem! Maldito Larcon! — esbravejou. Sabia, porém, que não tinha tempo para lamentações. Não tardou a continuar e os outros homens o acompanharam. Não demorou para que atingissem a porta principal. Próximos a ela, jaziam os dois mensageiros que mandara antes de se dirigir para a muralha. Ao lado deles, estavam os corpos de dois homens, os quais usavam armaduras ornamentadas com o símbolo dos filhos do fogo. A despeito disso, Sironiel percebeu de imediato que estes não eram homens seus. O combate que evidentemente ocorrera entre ambos os grupos eliminava a hipótese que fossem parte dos reforços. Deveriam ser homens do Larcon. Seria possível? Um sentimento de desespero e medo tomou conta do general, que correu em direção à porta e a abriu, ao mesmo tempo em que desembainhava a espada. O átrio revelou-se frio e escuro a sua frente. O incêndio ainda não chegara ali, mas um odor de fumaça já podia ser sentido. Não muito longe da porta, viu um corpo estendido no chão. Estava imóvel. Se estivesse ainda vivo, estaria com toda certeza condenado, pois como denotava uma rubra mancha ao seu lado havia perdido muito sangue. Seria mestre Zairom? Correu em direção ao corpo.

— Não... não sou eu, Sironiel — disse uma voz pausada-mente, como se lesse os pensamentos do general. Ele voltou-se em direção à voz, vendo a face do filho do fogo em um dos cantos da sala. Junto dele estava Tairom.

— Então quem?

— O Larcon.

— O Larcon? — exclamou ele expressando um misto de surpresa e contentamento. Seria isso verdade? Mas como ele teria vindo parar ali? Isso não importava, concluiu Sironiel. O relevante é que ele estava ali e tinha sido derrotado! Vitória!

— Eu sabia que venceríamos. É isso que você ganha por nos desafiar, seu grande monte de estrume! — disse ele, olhando com desprezo para o corpo inerte. Começou a rir. Uma alegria quase infantil tomara conta dele. Percebeu, porém, que os outros dois continuavam sérios. Algo de muito ruim deveria ter acontecido. Olhou em volta, enquanto os guardas que trouxera também se aproximavam. Só então se apercebeu do corpo de Liana. — Desculpe-me, mestre. Eu não sabia.

— Está tudo bem, Sironiel— disse o filho do fogo. O cansaço era evidente em sua voz. Era um profundo cansaço. — Eu preciso me sentar um pouco.

— Poderá descansar na carruagem, senhor. Há um incêndio. Temos de tirar todos daqui.

— Entendo. Eu acho que pre... — falou o filho do fogo antes de ser interrompido pelo ranger da porta da ala sul. Um homem passou por ela com dificuldade. Ele mancava e parecia ferido. Andava lentamente, arrastando um dos pés.

— Quem é ele, mestre? — indagou Sironiel.

— É um servo do Larcon, um mago perigoso. Ele foi lutar com mestre Diom — falou Tairom, antecipando-se ao pai.

— O que fez com mestre Diom, servo do Larcon? Onde está ele? — indagou Sironiel, sem esconder no tom de sua voz a raiva que sentia. Ficava feliz em ter a chance de se vingar pessoalmente por todos os homens mortos.

A face de Zainog demonstrava cansaço e desespero. Sua mente estava esgotada e por isso sequer conseguia pensar com clareza. O que fazer? Eles eram muitos. Havia sete deles além do garoto. Não tinha condições de enfrentar a todos. Também, exausto como estava, não poderia enganar todas as mentes ao mesmo tempo para que não conseguissem vê-lo. De súbito, vislumbrou o corpo do soberano caído ao chão. Podia perceber que ainda não estava morto, mas que logo morreria. Com certeza não poderia salvá-lo. Não podia sequer salvar a si mesmo! Seria este o fim? Sentiu um súbito medo da morte, temia a possibilidade de encontrar o espírito de seu velho mestre e de ter de encará-lo face a face.

— Está surdo? — indagou o general. — Eu perguntei onde está mestre Diom.

— Ele está morto — disse o jovem mago, tentando colocar o máximo de gravidade em sua voz. Tentava incutir o medo no coração de seus inimigos. — E eu matarei a todos que se antepuserem em meu caminho — bradou ele com o máximo de força que conseguiu angariar naquele momento derradeiro. Face ao tom quase sobrenatural que conseguiu impor a sua voz, alguns dentre os homens de Sironiel se assustaram e talvez tivessem fugido se o general não tivesse respondido com prontidão e firmeza.

— Se você pudesse cumprir essa ameaça, não teria se dado ao trabalho de fazê-la — disse ele. Zainog, a princípio, não retrucou. Não havia o que falar. Apenas deveria fazer uma escolha: morrer lutando ou acovardado. Escolheu a primeira opção.

— Então morram! — vociferou. Um facho de fogo saiu de suas mãos atingindo o arqueiro mais próximo, transformando-o em uma labareda viva. O golpe foi eficiente, mas custou-lhe suas últimas forças. Agora, tinha dificuldade até para se manter de pé. Suas faculdades mentais também foram afetadas pela exaustão psíquica e física. Entrou em um estado de semiconsciência, no qual o tempo parecia correr mais devagar. Ouviu o grito de ataque do general como apenas um som distante, quase incompreensível. A ele se seguiu a dor causada pela flecha que penetrou-lhe a carne, ou seria uma espada? Uma, duas, talvez mais. A dor, no início pontual, abraçou seu corpo inteiro enquanto ele começava a despencar. Um pensamento veio-lhe à mente: "Meu Deus, ajude-me". Ouvia estas palavras repetidas vezes em seu cérebro moribundo, mas elas não eram suas, ou eram? Nunca fora homem de religião. Orgulhava-se de seu racionalismo. A religião, com sua ritualística irritante, era em grande parte mera superstição. Não obstante, o pensamento não queria abandoná-lo, como se fosse um protesto da carne que se recusava a morrer: "Deus do fogo, nós que seguimos seus desígnios imploramos a sua ajuda". Quando caiu de joelhos, uma palavra saiu de sua boca e ela era um grito agudo regado com seu sangue: — Naquicar!

Caiu estatelado no chão.

Um instante de silêncio se seguiu. Foi então que o inesperado aconteceu. O meu velho inimigo, cuja presença eu já sentira antes naquela noite, resolveu interferir! Mas por quê? Fazia dois grandes ciclos que nenhuma intervenção no mundo físico havia se dado por parte dele. Eu conhecia muito bem o preço que ele pagava cada vez que ousava interferir no plano da matéria concreta. Era para ele custoso, tormentoso, cansativo e desestabilizante qualquer intervenção que fosse. Ele só o fazia quando o assunto era da maior relevância. Naquela noite de medo, esse foi o momento de maior terror para mim. Saberia ele quem era o escolhido, o primeiro alorain? Mas ele não poderia sentir o poder em Rairom, disso eu tinha certeza. Ou podia? Quando eu vi uma luz opaca envolver os corpos imóveis de Zainog e de Zairon e fazê-los desaparecer no nada, pensei em ir confrontá-lo pessoalmente, mesmo sabendo dos terríveis riscos que uma batalha como esta envolveria. Mas o momento de loucura passou e eu, recuperando a lucidez, ponderei que se ele soubesse a identidade do escolhido teria utilizado a intervenção para matá-lo! Era óbvio que ele não sabia. Seu interesse era outro, mas qual? De qualquer forma, se eu tivesse ido confrontá-lo, teria sido um grande erro, pois a minha presença revelaria o depositário do poder. Ele buscaria na minha mente pela identidade do escolhido e não seria nada fácil impedi-lo. Não, ele não poderia me encontrar!

Quando a luz desapareceu, não havia vestígios dos corpos. Sironiel abriu e fechou os olhos várias vezes, buscando uma resposta que se adequasse aos fatos. Como poderiam ter desaparecido dessa maneira? Deveria ser alguma bruxaria! Mas poderia aquele mago no estado em que estava utilizar-se de tamanho poder? Não, era óbvio que não! No entanto, inexistia outra resposta capaz de explicar os acontecimentos. — Mestre, o que o senhor acha que aconteceu? — indagou ele.

— Eu não sei — respondeu Zairom. — Mas acho que temos pouco tempo...

— O senhor tem razão. Vamos. Onde está Rairom?

— Ele estava no segundo andar, próximo às escadas até há pouco — disse Tairom. Os três olharam para a porção visível do segundo andar, mas não viram ninguém. Chamaram por Rairom. Não houve resposta. A quantidade de fumaça no ar já se tornava mais intensa. O incêndio estava chegando à ala central.

— Mas como ele pode ter sumido? — indagou Sironiel. — Essa é mesmo uma noite de perplexidade.

— Vamos achá-lo — falou o menino.

— Não. Eu vou achá-lo, rapazinho. Apenas vão você e seu pai até a carruagem e fiquem lá. Eu já mandei prepará-la. Deixem que o velho Sironiel cuide do resto — disse o general esboçando um sorriso forçado.

— Não. De jeito nenhum — retrucou o menino, inconformado. Estava decidido a ajudar.

— Ele está certo, filho. Vá, Sironiel... — disse o filho do fogo com um suspiro. Sironiel estranhou o tom de seu mestre. Mas não havia tempo a perder com conjecturas. Correu em direção às escadas levando dois arqueiros consigo.

— Vocês, esperem-nos na carruagem — disse o filho do fogo, dirigindo-se para os guardas restantes. Aparentemente queria ficar sozinho com o menino. Assim que os homens saíram, não tardou a falar. — Tairom — disse ele —, eu lamento que isso tudo tenha acontecido. Eu fracassei.

— Você não fracassou, pai.

— Eu não sei o que o futuro trará. Mas vocês têm de ser fortes... você e seu irmão. Gostaria que ele estivesse aqui.

— Ele virá logo. Vamos para a carruagem.

Um momento de silêncio se seguiu. O filho do fogo parecia buscar as palavras certas. — Eu não vou. Ficarei com sua mãe... — falou ele resoluto. Estava tonto, por isso teve de se recostar na parede.

— Pai? Você tem de vir! — disse o menino quase em lágrimas, enquanto o filho do fogo se sentava no chão. Estava perplexo.

— Tão cansado, eu me sinto tão cansado — disse Zairom, com a voz cada vez mais fraca. — Foi veneno. Não pode ser outra coisa... Espada envenenada.

— Pai, você vai conosco, nós lhe daremos o antídoto.

— Mestre Diom me disse, não há antídoto.

— Não! Você vai ficar bom.

— Escute, Tairom, dê isso para o seu irmão — disse Zairom, colocando um objeto dourado nas mãos do menino.

Era um anel. — A espada de nossa família, fique com ela, meu pequeno guerreiro.

— Nós vamos salvá-lo, você vai ver! — disse Tairom segurando a mão do pai.

— Coragem... — disse ele, enquanto seus olhos se fechavam. A mente de Zairom o levou para longe. Para os dias de sua infância na Cidade do Portal, correndo pelas estreitas ruelas de pedra. Sentiu o prazer que a brisa marinha lhe dava enquanto batia em seu rosto. Fitava a grande baía. Mas por que estava lá? Sim, ele se lembrava, esperava com a mãe o pai chegar do continente. Ela sorria para ele, enquanto as gaivotas voavam e cantarolavam. Ah! Os grandes navios, grandes cisnes negros eram eles, belos e elegantes com suas velas expostas ao vento. Que interessante era a agitação do porto, os cheiros, as sensações. Um mundo que se abria! O pai trazia presentes, uma jóia, um novo traje colorido. "Como estou feliz", pensou Zairom. E de súbito estava de novo na Academia. O Lago de Cristal deitava-se a sua frente, mas não sabia se olhava para ele ou para o céu. Havia dois céus estrelados, duas luas. Era mesmo um majestoso espelho. Mas o que ele refletia? As estrelas? Não mais. Era ocupado por um rosto feminino. "Minha princesa...", pensou ele. Ela sorria e corria por um campo florido. E agora ele estava com o Rairom recém-nascido nos braços, no momento seguinte cavalgava com ambos os filhos pelas belas colinas esverdeadas sob um sol agradável que esquentava sua pele. Como tinha sido feliz... As dificuldades que enfrentara durante a vida agora lhe pareciam meros detalhes. Zairom estava em paz, e com um leve sorriso nos lábios ele morreu.

— Pai, fale comigo! — disse Tairom. — Nós precisamos de você. Não nos abandone! O que nós vamos fazer sem você?

O que devemos fazer? — gritava ele desesperado. Percebeu que o coração de Zairom não mais batia. Seu pai não tinha mais pulso. As lágrimas percorriam-lhe o rosto. Seu mundo desabara. Mas não podia sequer chorar a morte dos pais. Não naquele momento! A fumaça que cobria o ar tornava a respiração difícil e o fogo também já dava sinais de sua presença. Já podia sentir o calor das chamas se aproximando. Ou saía da casa naquele instante ou não sairia jamais! Sentiu vontade de permanecer. Não tinha coragem de enfrentar a miséria que sua vida se tornara. Coragem? Essa fora a última palavra de seu pai. Sim, coragem! Uma súbita força tomou conta de Tairom. "Se eu me entregar, eles terão vencido por completo", pensou. Somente ele e o irmão restavam agora. As lágrimas foram enxugadas e o menino se levantou. Foi em direção à espada da casa de Guenor, que restava caída no chão. Ainda tinha gotas de sangue inimigo. Ergueu-a, percebendo os estranhos símbolos incrustados em sua lâmina escura. Não era nem muito leve nem muito pesada. Mesmo uma criança como ele não tinha dificuldades em levantá-la. Olhou para trás e lá estavam os corpos de seu pai e de sua mãe mais ou menos próximos um do outro.

— Obrigado pelo presente, pai.

Virou-se em direção à porta e saiu.

Mas pouco antes, quando a luta entre Zairom e o Larcon havia recém-terminado, o jovem escolhido começava a se recuperar do estado de pânico que os terríveis fatos daquele dia lhe haviam causado. Permaneceu por algum tempo estático. Do topo das escadas fitava o cenário a sua frente. Olhava para o corpo do Larcon caído no chão, para o sangue que dele saía. Não muito longe, estava o corpo de Liana. "E eles eram irmãos, como ele pôde?", indagou-se. Somente agora o sentimento de perda da única mãe que conhecera aflorava e o ódio também. Sentiu uma certa vergonha por não ter agido como o irmão, por não ter encarado o inimigo de frente. Mas se não tivesse ido chamar o pai, talvez ambos estivessem mortos antes que ele chegasse. Mesmo assim, um forte sentimento de impotência continuava dentro dele.

Percebeu no ar um leve odor de fumaça. Seria um incêndio? Olhou para o corredor que dava para o norte. Nada era visível, a não ser a escuridão. De onde estaria vindo aquela fumaça? Levantou-se e olhou para o corredor ao sul, foi quando ele viu. Lá estava ele: um brilho amarelado de chamas, o qual já começava a invadir o segundo andar, inflamando a madeira. Deveriam se apressar em fugir! O que eles estariam esperando? "Mas eles não sabem do incêndio ainda", ponderou. Cogitou em descer as escadas e advertir seu pai quanto às chamas que avistara. Foi quando uma imagem veio-lhe à mente: Lisian. Ela ainda se encontrava no quarto do avô! Tinha de salvá-la. Ou não tinha? Ela estava condenada, ele ouvira o mestre falar... Seria um risco tolo. Ademais, a menina estava ao sul, onde as chamas já haviam chegado. O mais lógico era abandoná-la, sem dúvida, pelo menos seu sofrimento terminaria. Entretanto, a imagem da garota sendo devorada pelo fogo penetrou-lhe a mente. Era horrível demais. Não podia deixar que fosse queimada viva. Sim, ela ainda estava viva! Mesmo que estivesse condenada, ainda não havia morrido e, inconsciente como estava, não tinha como se defender. Ela lhe salvara a vida... Tinha de tentar, a despeito dos riscos. Devia isso a ela.

Correu em direção ao corredor sul, que dava acesso ao quarto de Diom. Viu pelo caminho algumas faíscas de fogo e fumaça que se infiltravam pelas frestas do chão de madeira, que já começava a se inflamar. Não tinha muito tempo. "Não devo estar no meu juízo perfeito, para estar bancando o herói dessa forma", pensou. Eu que o diga! Mais uma vez, como se não bastassem os perigos externos a que estava exposto, o próprio escolhido punha tolamente sua vida em risco. E eu só poderia interferir em caso extremo e com conseqüências catastróficas, como já mencionado. Por um momento, senti que Rairom desistiria, pois ele estava hesitando. Viu que no corredor a sua frente já havia chamas que se intensificavam rapidamente. Poderia passar, mas dificilmente voltaria. Pensei que ele fosse abandonar aquele esforço sem sentido, o que seria um alívio. Mas não, ele se permitiu continuar. Muito nobre da parte dele e muito tolo também! Correu em meio à fumaça e ao brilho amarelado que entrava pelas janelas, logo chegando à porta do quarto de Diom. Ela estava aberta e o ar era difícil de respirar. Tossiu seguidas vezes, porém percebeu que no seu interior o ar ainda estava razoável, embora houvesse um forte odor de fumaça.

O quarto estava envolto por uma bruma acinzentada e por uma escuridão abrandada apenas pelo brilho amarelado que vinha da porta. Aproximou-se da cama o mais rápido que pôde. Lá estava Lisian, inerte, da mesma forma como a havia deixado. Tocou sua pele e sentiu que estava gelada. Estaria morta? Não. Tinha pulso. Mas estava morrendo, claro. Como mestre Diom havia dito, talvez vivesse mais algumas horas, não mais. Com certeza, antes do cair da noite do dia seguinte ela estaria morta de qualquer maneira. Anão ser, é óbvio, que o mestre tivesse se enganado e o veneno não fosse sempre fatal. Não era o que suas mãos frias denotavam. Mas isso não importava para Rairom. Estava decidido a pagar sua dívida para com ela. Iria salvá-la e protegê-la até que ela se curasse, ou morresse. Lentamente, ergueu-a em seus braços, pegan-do-a no colo. Viu então claramente sua face pálida, a qual mesmo nesse estado era bela. Era uma beleza triste e mórbida, no entanto.

— Não se preocupe, Lisian. Eu vou salvá-la como você me salvou — disse o rapaz, como se ela pudesse ouvi-lo.

Não havia outra saída, senão aquela por onde entrara. Caminhou em direção à porta. A fumaça que se intensificara tornava difícil a visibilidade e a respiração. Tinha de correr. Ao seu lado, não se via senão uma pequena porção das paredes e a sua frente, um misto de cinza escuro e amarelo. A mistura de chamas e fumaça impunha a maior velocidade possível, por isso Rairom correu o mais rápido que pôde. Sua velocidade, entretanto, era limitada não só pelo fato de estar carregando outra pessoa mas também pela necessidade de se desviar das porções inflamadas que se revelavam apenas a uma pequena distância, ante a penumbra que as escondia. Uma certa cautela era, por isso, imperiosa. O corredor na mente do rapaz pareceu se alongar. A escada, naquele momento, aparentava estar a uma distância grande demais. Mas ele não desistiria! Estava decidido como nunca antes em sua vida.

Pobre rapaz. Quando chegou ao ponto onde hesitara na ida, percebeu que suas suspeitas estavam corretas. Não havia como atravessar a muralha de chamas que se formara. Cogitou em usar sua magia. Entretanto, até um mago experiente teria dificuldade para controlar tamanho incêndio. Era inútil. Mas o que tinha a perder? Poderia tentar, mas não sufocando como estava por causa da fumaça. Precisava de um mínimo de lucidez. Sentou-se então no chão, sem largar a garota, que segurava junto de si. O ar estava um pouco melhor, mas não muito. Rairom continuava a tossir. Controlou seu nervosismo, ao menos em parte. Tentou concentrar-se nas chamas, visando apagá-las. Mas nada. "Não dá", pensou. Sentia o calor das labaredas esquentar-lhe a pele até quase o ponto de queimá-la. Decidiu tentar novamente, mas nada! Uma terceira tentativa também restou infrutífera. Ele era apenas um aprendiz que mal conseguia apagar uma vela. Não podia controlar um incêndio desse porte. Essa era a dura realidade. Seu tempo estava se esgotando, pois as chamas continuavam a se intensificar. Não conseguia mais respirar por causa da fumaça. — Alguém me ajude! Estou aqui! Alguém me ajude! — gritou com suas últimas forças. Não houve resposta. Segurou a garota junto ao peito para protegê-la do calor. — Desculpe-me, Lisian, me desculpe... — murmurou ele, olhando para o rosto impassível da menina. A visão de Rairom ficou embaçada. Via apenas o brilho amarelado das chamas a sua frente. Sua pele era castigada pelo calor insuportável, seus pulmões sufocavam. Esse era seu fim, tinha certeza. No último instante antes de desmaiar, vislumbrou um vulto humano além das chamas. Uma ilusão?

Mergulhou na escuridão da inconsciência antes que pudesse descobrir.

 

                                         A encruzilhada

Lan secria ios ainog, diziam os guerreiros. Mas não externamente, é claro. Apenas dentro de si, e com os olhos, e com a face entristecida. Seus pais, seus avós, seus bisavós tinham vivido num mundo tão melhor do que o deles. E o que eles fizeram para merecê-lo? Nada! Apenas nos legaram um cisma, uma ruptura, uma guerra. Tudo em vão. Nenhum dos lados poderia vencer em um mundo como este que herdamos. Um mundo de barbárie, onde a civilização não é mais que uma chama fraca que teima em não se apagar. Lan secria ios ainog, repetiam eles. Mas o que podiam fazer senão lutar? Poderia o cisma ter sido evitado? Quem sabe. Tanto já foi esquecido daquele mundo antigo que muitos duvidam que ele tenha de fato existido. Só nos resta enfrentar o triste presente, pois o passado só nos traz dor e o futuro é misterioso. Mas não é a incerteza uma coisa boa? É melhor do que a certeza do mal. A incerteza, por definição, comporta hipóteses positivas, do contrário não seria incerta. Abracemos a incerteza do futuro como o último dos nossos bens. Ao menos ela nos dá a esperança que a nossa experiência passada nos nega. (trecho de um pergaminho recuperado por Gaianis Dreifozin na sua obra "Textos Ancestrais — um relato do mundo antigo")

Os olhos de Rairom abriram-se lentamente. A sua frente, viu um vulto ainda indistinto. — Como você está? — indagou o vulto, assim que percebeu que o rapaz acordara. Sua voz era familiar.

— Onde estou? — indagou Rairom, conforme a imagem do vulto se focalizava a sua frente.

— Nós estamos fugindo...

— Tairom?

— Você ficou algumas horas desacordado. Fico aliviado que tenha voltado a si.

O rapaz recuperava a consciência rapidamente. Via a face deprimida e cansada do irmão. Ele parecia ter chorado muito. Mas agora não mais, ainda que fosse visível uma enorme tristeza em seu rosto. Percebeu que estava na carruagem de sua família e que estavam se movimentando. Neste instante, suas últimas memórias afloraram e ele se lembrou de Lisian. Olhou para os lados e viu a figura prostrada da menina. Sua cabeça repousava no colo de Tairom. Sentiu-se aliviado.

— A última coisa de que me lembro é do fogo, do calor. Eu chamei, mas ninguém respondeu. Eu devia estar morto — falou o rapaz ao se sentar.

— Tudo o que sei é que Sironiel salvou vocês dois — disse o menino, secamente.

— Sironiel? Ele devia ser o vulto que eu vi. Faz sentido... Irmão, você está bem? — inquiriu o rapaz, notando a tristeza de Tairom.

— O que você acha?

— É claro que não está. Eu também não estou. Queria que você soubesse que eu também sinto a morte dela. Ela foi a única mãe que eu tive na vida — disse o rapaz. Um momento de silêncio se seguiu. "É melhor contar-lhe de uma vez", pensou Tairom.

— A morte de minha mãe não foi a nossa única perda — disse o menino, vacilante. Era difícil para ele falar no assunto. Mas não havia outro jeito. Tinha de ser o mais direto possível.

— O que quer dizer? — indagou o rapaz, temendo pela resposta.

— Nosso pai também morreu.

— O quê? — disse ele chocado. "Que espécie de pesadelo é este para o qual acordei?", pensou.

— Do sangue de nossa família, só restam agora eu e você, irmão.

— Não é possível, Tairom — exclamou o rapaz. Em razão do choque, não conseguia sentir nada a não ser espanto. — Eu vi... — continuou ele — eu vi quando nosso pai derrotou o Larcon! Ele venceu.

— Havia veneno na espada do Larcon. Pelo menos foi isso que nosso pai me disse antes de morrer.

— Veneno?

— Isso mesmo. Uma coisa me intriga... Mas deixe para lá. Não tem importância.

— Fale — insistiu Rairom. O rapaz ainda tentava digerir a terrível notícia.

— Está bem. O que eu não consigo entender é como a nossa amiga aqui não morreu até agora e nosso pai morreu tão rápido se ambos foram envenenados — disse o menino apontando para Lisian. — Ele morreu pouco depois da luta! Foi rápido demais.

— Eu não sei, Tairom... Talvez fosse um veneno diferente, talvez ele tenha reagido de forma diversa ao mesmo veneno, eu não sei...

— Não importa. Ele está morto e nada vai mudar isso.

— É verdade. O que nós vamos fazer sem nosso pai, irmão?

— Não tenho idéia. Eu acho que ele também não sabia... — disse o menino. — Escute Rairom, antes de morrer, ele me presenteou com a espada de nossa família e me pediu que lhe desse isso — completou ele, entregando o objeto dourado ao irmão.

— Um anel de ouro... — falou o rapaz ao examinar o objeto que era de fato um anel dourado. Tinha incrustado uma única pedra azulada, provavelmente preciosa. — Ele disse por que me deu esse anel? O que ele significa?

— Não. Não teve tempo, eu acho. Como eu falei, foi muito rápido.

— Tairom, você viu nosso pai morrer? — indagou Rairom, já sabendo a resposta. Só agora se apercebia de que seu irmão menor presenciara num único dia o assassinato de ambos os pais. Um profundo sentimento de piedade pelo irmão apoderou-se dele. Tairom era jovem demais.

— Não quero falar disso... — disse o menino, desviando o olhar. A lembrança daquele momento fazia com que as lágrimas brotassem contra a sua vontade. — Nós temos de decidir o que fazer. Você tem alguma idéia? — completou ele, esforçando-se para afastar sua mente das lembranças dolorosas.

— Não, Tairom. Ainda estou digerindo isso tudo. Mas seja o que for que nós fizermos, nós faremos juntos. Eu estarei ao seu lado. Entendeu? — disse o rapaz, tentando consolar o irmão. Antes, porém, que o menino respondesse, a carruagem parou num solavanco. Seguiram-se alguns momentos de silêncio até que Rairom ouviu um som de passos e vozes. Nas proximidades parecia haver um bom número de homens. Olhou pela janela, mas uma forte neblina, somada à escuridão de uma noite sem estrelas, impedia que se visse muita coisa. — Por que nós paramos? — indagou ele.

— Não sei — disse Tairom.

— Para onde estávamos indo?

— Para a Colina do Túmulo — disse uma voz abrindo a porta da carruagem. Era Sironiel. — E nós já chegamos.

— Sim, aqui é a Colina do Túmulo — concordou outro homem, que se aproximava com um objeto luminoso, uma lamparina. — Fico feliz que tenham achado o caminho. A noite ficou muito escura e com essa neblina temi que se perdessem.

— Ramar, eu antevi essa possível dificuldade, por isso escolhi a Colina do Túmulo. Conheço muito bem o caminho até aqui, chegaria até de olhos fechados — falou Sironiel.

— Pelo menos com essa neblina as chances de nos seguirem são pequenas — disse Rairom. Os outros dois homens, então, voltaram sua atenção para ele.

— Rairom, meu garoto — falou Sironiel —, fico feliz que tenha acordado. Como você está se sentindo?

— Estou bem, eu acho, pelo menos ante as circunstâncias.

— Então você já soube que...

— Que meu pai está morto? Sim. Tairom me contou — disse o rapaz com uma voz serena. Queria parecer forte, transparecer confiança. Esta era a única forma que vislumbrava para ajudar o irmão. — E, Sironiel, obrigado, eu lhe devo a vida...

— Que é isso, rapaz. Fiz apenas a minha obrigação. Salvar vocês era o mínimo que eu podia fazer, já que no mais nada deu certo — falou o general. Rairom percebeu a amargura mal escondida por detrás de tais palavras. Sironiel tentava também parecer forte por razões análogas às do rapaz.

— Eu lamento, garotos, sei como devem estar se sentindo. Também fiquei entristecido e chocado quando Sironiel me inteirou dos últimos acontecimentos agora há pouco. Mas, infelizmente, temos de decidir o que fazer. E tem de ser agora, não podemos ficar muito tempo sem agir. Não é prudente — falou o pragmático Ramar.

— Nós poderíamos decidir sem eles — sugeriu o general. — Eles precisam descansar.

— Não! — insistiu o velho. — Eles têm de participar. É o destino deles que está em jogo.

— Ora, Ramar, não seja desumano! São só dois garotos.

— Não seja ridículo. O pai deles gostaria que eles participassem.

— Ramar está certo, Sironiel — disse Rairom, com a voz firme. — Vamos discutir já.

— É assim que se fala, garoto — assentiu o velho, enquanto entrava na carruagem. — Eu estava mesmo precisando descansar estes velhos ossos em alguma coisa mais fofa que um lombo de cavalo — disse ele, depois de se sentar ao lado de Rairom. O general permaneceu próximo à porta.

— Bem, antes de mais nada, temos de esclarecer as questões sucessórias. Segundo o contrato pré-nupcial... — falou Ramar antes de ser interrompido por Rairom.

— Eu conheço muito bem este contrato, senhor. Ele determina que meu irmão herda o trono dos filhos do fogo, enquanto eu fico com o braço comercial dos negócios da família, não é isso?

— E isso. Fui testemunha do acordo entre as casas Norgat e Guenor e esses foram basicamente seus termos. Apenas o filho com sangue Norgat herdaria o feudo.

— Não vejo qual a importância disso agora — falou Sironiel irritado.

— É uma questão de ordem. Só queria esclarecer quem é o novo senhor dos filhos do fogo.

— Bem, isso já foi esclarecido — falou o rapaz. — Devemos, agora, decidir o que fazer.

— Precisamente — concordou Ramar. — Se me permitem uma sugestão, proponho que negociemos.

— O quê? Ficou louco? — indagou o general.

— Não, meu amigo. Só estou sendo realista, como sempre. Não gosto do Larcon tanto quanto vocês. Eu o conheço desde que era menino e nunca gostei dele, mas essa me parece ser a única saída.

— Desculpe-me, Ramar, mas negociar não é uma opção — falou Rairom.

— A precipitação e a inflexibilidade podem ser defeitos fatais, meu rapaz. Apenas encare os fatos.

— Que fatos? Que você está com medo de morrer? — indagou Sironiel, revoltado.

— Eu não me ofendo com suas palavras, general, pois sei muito bem o estado emocional em que você se encontra. Se vocês apenas me ouvissem sei que me dariam razão.

— Não precisamos ouvir nada — retrucou Sironiel. Cada palavra do velho só aumentava sua irritação.

— Espere, Sironiel. Fale, Ramar, mas seja breve — disse Rairom.

— Obrigado. Vejam, o Larcon foi ferido, pelo que Sironiel me contou. Se ele morrer, as coisas ficam mais fáceis. Se ele não morrer, mesmo assim acho que podemos ser bem-sucedidos por um simples motivo.

— E qual é? — indagou o general, com um certo tom de deboche.

— A razão é a seguinte: nossos inimigos não têm interesse em tirar dos Norgat o trono dos filhos do fogo. Isso seria um indesejável fator de instabilidade entre os nobres. Nenhuma das casas gostaria que qualquer das outras ficasse com as minas e com o braço comercial dos Guenor, muito menos que o Larcon ficasse com elas, o que seria a pior das hipóteses, pois ele poderia governar praticamente sozinho, sem o apoio dos nobres.

— Você não precisa nos demonstrar seus conhecimentos de política, Ramar — disse o rapaz. — Vá direto ao ponto.

— É verdadeiro que meus conhecimentos de política são vastos, pois foram adquiridos nos longos anos em que trabalhei como conselheiro para o avô de Tairom, mas não tencionava demonstrá-los inutilmente. O que eu quero lembrar é o fato de que esta guerra foi em grande parte calcada na rivalidade pessoal entre o Larcon e seu pai, jovem Rairom.

— Esse fato nenhum de nós ignora.

— Mas talvez não tenham atentado para uma de suas conseqüências. Agora que seu pai está morto, a sede de sangue do Larcon, supondo que ele tenha sobrevivido, provavelmente deve ter diminuído. Não duvido que mediante algumas concessões, ou talvez até sem concessão alguma, ele aceitaria colocar o sobrinho no trono dos filhos do fogo. E se ele tiver morrido, a situação fica ainda mais fácil, pois é do interesse das Casas que o poder continue nas mãos dos Norgat, para que o equilíbrio se mantenha.

— Esses são seus argumentos? — indagou o rapaz após alguns instantes de silêncio.

— Sim.

— Nesse caso minha posição permanece a mesma. Não podemos negociar.

— Você não ouviu o que eu disse, rapaz? — indagou Ramar, esboçando uma certa impaciência.

— Ele já falou, Ramar. Cale-se! — ordenou Sironiel.

— Felizmente não é Rairom quem vai decidir — retrucou o velho. — Não é ele o senhor dos filhos do fogo.

Rairom esboçou um leve sorriso de entendimento.

— Percebo agora o porquê da discussão sobre a sucessão em momento tão inoportuno... Você sabia que Sironiel jamais aceitaria negociar. Esperava, no entanto, poder convencer Tairom do contrário — disse o rapaz.

— O que fiz e por que fiz não importa. É Tairom quem tem de decidir. Eu não inventei isso. E então, meu senhor, vamos negociar? Eu o farei pessoalmente e prometo que não o desapontarei — disse o velho.

— Você não pode jogar o peso dessa decisão nos ombros dele, Ramar — falou Sironiel.

— É o preço da nobreza, general.

— Ramar está certo — disse Rairom. — Meu irmão vai decidir, mas só depois de ouvir meus argumentos.

— Seus argumentos não têm nenhum peso, rapaz. Fique em silêncio.

— Ora, seu... — disse Sironiel, pronto para agredir o velho.

— Pare, Sironiel — falou Tairom, que até então nada dissera. O general se conteve. — Uma briga agora não vai ajudar em nada. Eu vou decidir, mas só depois de ouvir meu irmão.

— Mas, senhor... — insistiu Ramar.

— Silêncio — ordenou o menino. — Eu sou o senhor dos filhos do fogo, não você — completou ele. Sua voz tinha intensidade moderada, mas seu tom não tinha nada de infantil. Ao contrário, era como se englobasse um pouco da autoridade ancestral de sua família a cada palavra pronunciada. Isso deixou Rairom intrigado e o fez se lembrar do fogo que vira nos olhos do irmão logo depois que sua mãe fora assassinada. Uma mudança de fato se operara nele.

— Obrigado, Tairom. Bem, o primeiro erro de Ramar é subestimar a cobiça das Casas e do Larcon. Quem garante que elas não estão dispostas a lutar entre si se o resultado é o poder absoluto? Ninguém desconhece a ambição do Larcon. Os outros nobres são igualmente sedentos de poder. Além do mais, nada indica que as Casas não tenham acordado entre elas um meio de dividir a riqueza de nossa família, de forma que o tão desejado "equilíbrio" não seja quebrado. Não se deve esquecer também que Tairom é meio Guenor e nada garante que o Larcon tenha interesse em mantê-lo, ainda que como simples fantoche seu.

— É tudo? — indagou o velho.

— Não. Falta o mais importante. Quando meu pai assumiu o feudo, ele o fez não apenas para o benefício de nossa família, mas também porque esperava mudar essa ilha, fazer nossa civilização progredir. Foi por isso que ele acabou com a escravidão. Ele criou um modelo alternativo dentro do Império, e esse modelo era claramente superior. O Larcon representa a volta à opressão, ao atraso. Se nós desistirmos, ele triunfará. Mas não precisamos desistir. A Terra da Água ainda é forte. Em seus portos desembarcarão nossos aliados e nós poderemos vencer. Só precisamos chegar até a Cidade do Portal.

— Rapaz, você fala bonito como seu pai. Acredite, eu compartilho de seu idealismo. Mas agora é hora de deixá-lo de lado, pois ele nos levará à ruína. O momento é de recuar. Se minha experiência vale alguma coisa, acreditem em minhas palavras: nós estamos encurralados. Não há como chegar à Cidade do Portal sem que nos encontrem antes. Temos de fazer um acordo, pois essa é ainda nossa melhor chance. A alternativa é a ruína total — argumentou Ramar.

— Quanto o Larcon lhe pagou, traidor? Diga — provocou o general. O velho não se dignou a responder.

— Isso não nos levará a parte alguma — falou o Rairom. — Não acho que Ramar seja um traidor. Acredito que ele fala com sinceridade, ainda que não concorde com ele. Tairom, você vai ter de resolver o impasse — disse o rapaz. Lamentava ter de jogar a responsabilidade da decisão sobre os ombros do irmão, mas não havia outro jeito. O menino, por sua vez, permanecia em silêncio. A dúvida teimava em prevalecer, apesar dos argumentos apresentados e em razão deles. Sabia em seu íntimo que ambos estavam em parte certos. A possibilidade de negociar com o assassino de seus pais o enchia de nojo e repulsa. Por outro lado, reconhecia os enormes riscos e incertezas, caso tentassem uma jornada desesperada pelo Deserto de Pedra, rumo à Cidade do Portal. O que deveriam fazer? Precisava pensar, ponderar.

— Preciso ficar sozinho — falou o menino, antes de sair correndo em direção à escuridão. O movimento brusco e inesperado de Tairom pegou todos de surpresa. Sironiel, que estava próximo à porta, tentou impedi-lo, mas sem êxito. O menino correu o mais rápido que conseguiu para dentro da neblina, a qual o encobriu, de sorte que rapidamente só se podia ouvir o som de seus passos, e depois nem isso.

— Espere, Tairom! — gritou o rapaz.

— Viu o que você fez, Ramar? Ele é só um menino! — repreendeu o general. O velho, talvez reconhecendo uma certa verdade nessas palavras, permaneceu em silêncio.

— Temos de achá-lo, e rápido — observou Rairom. O rapaz estava certo, é claro, mas não seria fácil fazê-lo. Não em meio à densa bruma daquela noite.

O menino correu por uma trilha na colina, sempre subindo, pois abaixo tinha ouvido o som de vozes. Pertenciam provavelmente ao que restara do exército de seu pai. Não queria encontrá-los, pois precisava ficar só. Subiu uma boa distância, correndo sem sentir necessidade de parar. No percurso, as memórias dos fatídicos acontecimentos daquela noite afloravam em sua mente. A imagem dos pais caídos sem vida retornava deformada, dramatizada, como num pesadelo. As formas eram retorcidas, o sangue vermelho derramava-se em grande quantidade pelo chão. E no centro de tudo lá estava ela: a face diabólica de seu tio. Sim, tudo era culpa do seu maldito tio! Sentiu o ódio renascer dentro dele, mas ele se misturava com o medo e com o cansaço físico, causando uma confusão de sensações.

Precisava parar, foi o que fez. Ofegava. Olhou em volta, notando que estava próximo ao cume. Naquela altitude, a névoa diminuía sensivelmente. Quando ergueu a cabeça, observou que, um pouco a sua frente, estava uma estranha escultura. Era um símbolo dos filhos do fogo esculpido em pedra. Tinha três vezes o seu tamanho. Conforme se aproximava, viu que o objeto era iluminado por uma brilhante luz azul. Olhou para o céu noturno e lá estava a fonte luminosa, era a Lua que aparecia por entre as nuvens. Perto da base da escultura havia uma lápide de pedra polida em estado apenas razoável de conservação. Tratava-se do túmulo que dava nome à Colina, lembrou-se. Nela estava escrito:

"Aqui jaz Lionar Norgat

761-787

Um desbravador do submundo Um líder que morreu para salvar seus servos.

Que ele descanse perto do céu, já que passou sua breve vida tão longe dele"

Logo abaixo havia uma última frase, a qual, por causa da pouca luz e do desgaste da pedra, era de difícil leitura. O menino, porém, estava curioso para entendê-la, pois algumas memórias sobre este Lionar vinham-lhe à mente. Sabia que ele vivera durante a época de construção das minas e que morrera na tentativa de salvar um grupo de mineiros de um soterramento iminente. Acabou sendo ele próprio a única vítima. Conseguiu finalmente ler as primeiras sílabas e deduziu as demais. Era um velho dito dos filhos do fogo. As palavras ressoavam em seu ouvido enquanto as pronunciava e depois as repetia. Elas tinham um efeito esclarecedor. Ergueu a cabeça e olhou para o mar de neblina escura que cobria o planalto abaixo dele. Em um ponto do enorme nevoeiro viu uma mancha amarelada. Era sua casa que ainda queimava. Sentiu um aperto no peito e virou instintivamente o rosto na direção oposta. Agora via o contorno das montanhas Tai-Fanor. Em sua onipotência, elas pareciam desafiá-lo. De súbito, o menino ouviu o som de passos. Uma figura humana aproximava-se. Era Rairom.

— Tairom, achei que iria encontrá-lo aqui. Queria poder ajudar mais, irmão — disse o rapaz.

— Você não precisa.

— Eu só queria que você soubesse que não fui totalmente sincero antes lá embaixo. Não estava pensando no Império ou na política. Simplesmente eu queria matar aquele maldito Larcon, ou morrer tentando.

— Eu também sinto o mesmo.

— Mas há mais coisas em jogo. Talvez o Larcon tenha até morrido. Talvez Ramar tenha uma certa razão. Ele é experiente.

— Ele está com medo, Rairom.

— Eu também estou. Você não?

— Estou. Nunca tive tanto medo antes. Mas não vou deixar que ele decida por mim. "O homem que vive com medo não é o senhor da própria vida. Uma vida curta, mas livre, vale mais que uma longa existência de auto-escravidão" — recitou o menino. Sua voz tinha a autoridade que Rairom percebera anteriormente. — Nós vamos continuar, nós temos de persistir! — sentenciou ele. Sua decisão estava tomada.

— Você tem certeza?

— Tenho. É isso que nosso pai gostaria que fizéssemos

— concluiu Tairom. O velho Ramar, que se aproximava e por isso ouvira o menino falar, notou que nenhum argumento dissuadiria o jovem senhor dos filhos do fogo.

— Então o primeiro passo é irmos até o forte nas Blai-lan para conseguir suprimentos, como havia planejado seu pai

— disse o velho.

— Se você não quiser continuar conosco, não precisa, Ramar. O mesmo vale para seus homens — falou o menino.

— E deixar vocês dois nas mãos inábeis de Sironiel? De jeito nenhum — retrucou o velho.

— Eu ouvi isso! — disse o general, que também se aproximava.

— Se é assim, eu acho que não devemos perder mais tempo — ponderou o rapaz. — Temos de chegar às Blai-Lan ainda amanhã pela manhã.

Os outros assentiram com a cabeça e iniciaram a marcha de volta à carruagem. No caminho, nada falaram. Tudo já havia sido dito. Não havia mais tristeza nem indecisão. As outras sensações eram obscurecidas pelo cansaço, o qual, tal como a névoa que encobria a visão, deixava além do alcance os outros sentimentos e ponderações. Os dois jovens, pouco depois de se instalar na carruagem, adormeceram. Rairom caiu num sono profundo, mas sem sonhos.

Assim terminou um dos dias mais difíceis da vida do primeiro alorain. O dia em que perdeu toda a perspectiva de seu futuro, e tudo em que se assentava o seu presente desmoronou.

 

                               O forte de pedra

Em nome do senhor da casa de Fanor eu viajei às distantes terras do oeste. Nestas terras bárbaras cabia a mim desvendar as atividades dos Norgat. Esses arrivistas clamavam ter encontrado enormes jazidas que supostamente iriam torná-los mais ricos que o senhor da Terra da Pedra. Meu senhor era sábio e estava ciente de que os Norgat eram falastrões, mas também era previdente. Foi por isso que ele me enviou para averiguar a parcela de verdade em tais bravatas. (...) Minha busca levou-me às recém-descobertas jazidas das Blai-Lan. Não foi difícil para mim infiltrar-me entre os selvagens que agora ousavam ostentar o nome da nobre casa dos filhos do fogo. Desde o início, como perito em mineração, pude constatar que as minas escavadas eram, infelizmente, bastante promissoras. (...) No décimo dia de minha estada soube que, em uma das montanhas, onde se encontrava um forte de pedra, havia uma entrada que dava acesso à maior de todas as minas. Poucos, porém, podiam nela penetrar (...) No vigésimo quinto dia de minha permanência nas Blai-Lan, já não conseguia mais suportar o convívio com o gentio. Entretanto, não poderia ir embora, não agora que a oportunidade de adentrar na "Mina do Forte", como era chamada, finalmente surgira. (...) Percebi prontamente que a sua construção não seria possível dentro das técnicas existentes. O guia me informou que ela era anterior à chegada dos Norgat e que se estendia montanha adentro por uma infinidade de túneis não mapeados, muitos deles bloqueados ; ou em ruínas. Seria uma caverna natural? Talvez. Mas o fato é que mesmo para um homem acostumado à montanha, como eu, era uma visão imponente e assustadora. (Trechos do "Diário de Viagem de logar Fantlan", provavelmente escrito por volta do ano 755 — no calendário da Terra das Sombras, ou W58p.e. no calendário peninsular)

Enquanto, por detrás das nuvens cinzentas, o sol começava a despontar, o exército dos filhos do fogo cruzava sem descanso o planalto esverdeado. Viajavam em dois grupos. No maior deles, estava a carruagem e o grosso da infantaria. Eram liderados por Ramar. No menor, formando um grupo de reconhecimento, estavam Sironiel e alguns cavaleiros mais hábeis. Iam um pouco à frente buscando sinais do inimigo. Como Zairom antecipara, era improvável que o Larcon tivesse deslocado um contingente considerável tão a leste, pois não houvera ainda tempo hábil. Entretanto, nada assegurava que tropas inimigas já não se fizessem presentes na região das Blai-Lan. O terreno, conforme avançavam, ia ganhando em aclives. As colinas tornavam-se cada vez mais altas. A relva esverdeada dava lugar gradativamente ao cinza das pedras.

As Blai-Lan eram montanhas de porte médio. Consistiam na transição entre o planalto e a região das Montanhas de Lava. O forte de pedra, para onde se dirigiam, não ficava muito no seu interior. Por isso, era possível chegar até ele em apenas poucas horas de caminhada se seguissem pela estrada. A princípio, ficaram em dúvida se deveriam utilizá-la. Mas depois, Ramar e Sironiel concordaram que a velocidade valia o risco. Percorrer algum caminho alternativo de trilhas tortuosas iria atrasá-los demais. Pelo que parecia, tinham tomado a decisão acertada. Ao menos, não havia sinal de presença inimiga até aquele momento.

Somente quando a manhã já estava em sua metade foi que Rairom acordou. Até então estivera mergulhado em um sono profundo, que, de alguma maneira, o ajudara a recuperar as forças. Sentia fome, mas não havia comida. De toda forma, não deveriam demorar muito para chegar às minas e lá encontrariam suprimentos. A sua frente, estavam seu irmão e Lisian, ambos adormecidos. Por um momento, esqueceu do estado em que a garota se encontrava. Era como se ela estivesse apenas dormindo e a qualquer momento pudesse despertar. Mas a triste verdade era que a menina estava à beira da morte e ele não poderia salvá-la. Foi o que Rairom percebeu ao tocar em seu gelado rosto. Ela ainda respirava. Estava viva, mas por quanto tempo? Não muito, com certeza. Sua mente, amortecida pelo excesso de tristes eventos, constatava mais este fato como apenas um dado despido de qualquer sentimento. Talvez apenas houvesse uma leve amargura. Suas lágrimas haviam secado, em razão das experiências dos últimos dias, e seu coração estava temporariamente endurecido. Era como uma defesa do organismo que extirpava a dor, como se expulsasse uma doença.

O rapaz olhou pela janela da carruagem e viu que estavam subindo. Já haviam chegado às Blai-Lan. Abaixo era possível vislumbrar a imensidão verde do planalto. Toda a sua vida passara naquelas sinuosas colinas. Talvez nunca as visse de novo. Despedia-se do mundo em que vivera e preparava-se para mergulhar no abismo do desconhecido. Era muito difícil abandonar seu passado, especialmente um passado tão feliz, mas Rairom nunca teve uma escolha. A carruagem fez uma curva em direção ao leste e o planalto deixou de ser visível. O último adeus a sua vida como a conhecera até então estava dado. A sua frente se abria um futuro de incertezas e esta constatação mais do que qualquer outra lhe causou medo. E como poderia ser diferente? Os homens temem o que não conhecem, e nada mais desconhecido que o futuro. A humanidade só não vive em eterno estado de pânico porque os homens criam uma ilusão de previsibilidade. Tentam prever o imponderável através dos eventos que se repetem, como o nascer do sol, ou os fatos constantes em suas vidas. Alguns chegam até mesmo a acreditar que têm controle sobre suas existências! Pobres tolos. O que eles não sabem, ou não querem saber, é que não existe nenhuma garantia de que os fatos corriqueiros continuarão se repetindo. A mudança, menor ou maior, pode sobrevir a qualquer momento. E aí que a ilusão se quebra, a verdade se revela e o medo surge. Foi o que aconteceu com Rairom.

O rangido das portas de madeira do velho forte, que se abriam, chamou a atenção do rapaz, resgatando-o de seus pensamentos. O forte de pedra se localizava num platô levemente inclinado, não muito distante do topo de uma montanha rochosa de porte médio. Consistia externamente de três muralhas não muito elevadas, mas que propiciavam boa proteção. A face norte era protegida pela íngreme encosta à qual o forte aderia. Internamente, era composto de uma ou duas construções residenciais não muito amplas e também de um estábulo.

Não era pois de grande porte, mas sempre teve alto valor estratégico pela visão que propiciava, tanto do planalto como da região montanhosa, e também pela relativa proteção que conferia. Mostrou-se vital mais de uma vez durante o domínio Norgat, especialmente no controle das revoltas de escravos.

"Nós já chegamos", constatou o rapaz assim que olhou pela janela. — Tairom, acorde.

— O quê? — indagou o menino ainda meio adormecido.

— Já chegamos ao forte — completou, o rapaz.

— Certo — disse ele abrindo os olhos.

A carruagem adentrou o forte de pedra dirigindo-se lentamente até as proximidades de uma construção em seu interior. Assim que parou, uma voz veio recebê-los.

— Acordem, meus jovens senhores — disse ela.

— Nós estamos acordados, Ramar — falou o menino, enquanto descia da carruagem.

— Isso é ótimo, meu senhor. Espero que esteja bem desperto, pois temos uma refeição esperando por vocês lá dentro.

— Muito bom — falou Tairom. — Onde está Sironiel?

— Ele foi com o grupo avançado até as minas lá em baixo. Deve estar de volta logo.

— Há uma cama dentro da casa? — indagou Rairom, saindo da carruagem.

— Sim, é claro — respondeu o velho —, mas não me diga que já está querendo dormir de novo.

— Não é para mim, é para ela — respondeu o rapaz. Tinha Lisian em seus braços.

— Entendo. É melhor entrarmos — respondeu o velho secamente.

Na sala que se abria, havia uma mesa já posta. Ramar acompanhou Rairom até um quarto onde havia uma cama simples, mas que aos seus olhos pareceu aconchegante. Nela colocou a menina e a cobriu com uma colcha de lã.

— Ela não parece nada bem — disse o velho ao examiná-la. — Sua pele está muito fria. Sua respiração, muito tênue.

— É. Ela foi envenenada — falou o rapaz.

— Eu sei. Presumo que recebeu o antídoto.

— Recebeu, mas parece que não está funcionando.

— Não está mesmo. Não quero desanimá-lo, Rairom. Sei que você se arriscou para salvá-la, mas não desenvolva grandes expectativas.

— Seja mais direto, Ramar. Onde você quer chegar? — indagou o rapaz com uma certa impaciência.

— Rairom, é muito provável que esta cama seja o leito de morte desta pobre menina.

— Por que está me dizendo isso? Você acha que eu não sei? — inquiriu o rapaz, agora mais irritado.

— Eu estou dizendo isso porque... Bem, você correu um grande risco para salvá-la antes. Isso foi nobre, rapaz, mas foi estúpido também. Não faça isso de novo! Não arrisque sua vida por alguém que não pode salvar.

Rairom não respondeu, mas sabia que o velho Ramar estava certo. Ele mesmo não tinha certeza quanto ao motivo que o fizera ir em socorro da garota na noite anterior. Sua atitude não fora obviamente guiada pela lógica.

Cabisbaixo, ele acompanhou o velho de volta à mesa. Lembrou-se então que estava com fome. Ergueu a cabeça e se sentou, pronto para fazer sua refeição. Afinal, prometera para si mesmo que seria forte e ajudaria o irmão. Na mesa, havia queijo, pão de quiarram e leite. Não era nenhuma refeição digna da nobreza, mas para o rapaz foi muito bem-vinda.

— Escute, Ramar. Onde está o pessoal das minas? — indagou ele entre uma e outra mordiscada. — Acho que eu ainda não os vi dentro do forte ou no caminho para cá.

— Eu não sei, Rairom. Quando chegamos ao forte, ele estava vazio. Foi por isso que Sironiel foi até as minas lá embaixo, para ver se encontra alguém.

— Vazio? — indagou o menino.

— Vazio. Não havia uma viva alma sequer. Ao todo, eu calculo que deveria haver na região das minas uns oitocentos mineiros, alguns com família, outros sem. Talvez umas mil e duzentas pessoas ao todo. Todos desapareceram! Na vila que beirava a estrada também não havia ninguém.

— Bem, isso é mesmo estranho — ponderou o rapaz. — Alguma idéia do que possa ter ocorrido?

— Prefiro não me precipitar. Há muitas possibilidades. Vamos esperar o retorno de Sironiel.

— Você acha que eles souberam do ataque e fugiram? — insistiu o rapaz.

— Eu disse que prefiro esperar o retorno de Sironiel. Essa é uma possibilidade tão boa como qualquer outra — falou o velho, antes de dar uma mordida num misto de queijo e pão.

— Ramar — falou Tairom depois de um gole de leite —, as provisões das quais meu pai falou...

— Ah! Sim — interrompeu o velho, jubilante. — Nós as encontramos em grande quantidade. Estavam estocadas num compartimento no interior da Mina do Forte. Temos uma grande quantidade de quiarram para sustentar nossas tropas até a Caravana do Norte, com toda certeza, e talvez até a Cidade do Portal.

— Até que enfim uma boa notícia — disse Rairom. — Um problema a menos.

— Um problema a menos, sem dúvida. Havia também uma quantidade moderada de água, o que vai ser importante, especialmente se pretendermos atravessar o Deserto de Pedra. Mas não precisamos nos preocupar com isso agora, pois poderemos nos suprir de água no Rio Norgat — ponderou o velho.

— Entendo — disse Tairom.

— Bem, eu já terminei de comer — continuou Ramar, depois de tomar o que restava do leite. — Acho que vou inspecionar as tropas. Eles estão recebendo comida e vão descansar um pouco. Andaram a noite toda. Vocês podem andar pelo forte se quiserem. Quando estiverem com fome, peçam para o encarregado da distribuição dos suprimentos. Ele está perto da entrada da Mina do Forte. Assim que Sironiel voltar, nos reuniremos e decidiremos o próximo passo.

— Está certo — assentiu o menino. — Ramar, você também deve descansar.

— Eu vou, assim que possível. Não se preocupem comigo. Em razão da minha idade, e por hábito também, durmo poucas horas por noite. Não estou muito cansado — explicou o velho, antes de sair.

Os dois jovens, agora sozinhos, permaneceram algum tempo calados, mesmo depois de terminarem de comer. Nenhum deles estava disposto a conversar, e muito menos a lembrar dos acontecimentos do dia anterior. O menino distraía-se examinando sua espada. Apesar de ter uma lâmina relativamente escura, ela reluzia, refletindo a luminosidade que passava pela janela. Percebia os estranhos símbolos nela incrustados e indagava-se qual seria o seu significado.

— Rairom, eu gostaria de fazer uma pergunta — disse o menino quebrando o silêncio. — Você tem alguma idéia do significado desses símbolos no cabo da espada e desses outros ao longo da lâmina?

— Deixe-me vê-los — falou o rapaz, estendendo a mão. O menino por um momento hesitou em entregar sua espada. O rapaz, percebendo a resistência do irmão, completou: — Não seja bobo, Tairom, eu não vou tomá-la de você.

— Está certo. Mas você não ficou chateado de nosso pai tê-la dado para mim?

— E por que deveria? — inquiriu o rapaz, enquanto pegava a espada e observava seus símbolos com certa curiosidade.

— Eu não sei. Você é o primogênito.

— Nosso pai sabia que eu não sou guerreiro.

— Mas...

— Eu não tenho a menor idéia do que sejam esses símbolos — concluiu o rapaz, interrompendo o irmão.

— Devem ser alguianos. Eu sei que essa espada está na nossa família há algum tempo.

— Há muitas gerações, você quer dizer. Bem, pode até ser que sejam alguianos, mas não estão entre os símbolos que estudei.

— Eu não sabia que você tinha estudado alguiano.

— E de que outro modo eu poderia ler os livros de nossa biblioteca? Acho que um terço deles está em alguiano. Além disso, outra boa parte está em oreano, que é uma língua parecida com o alguiano na fala, embora tenha muitas peculiaridades na escrita — lembrou o rapaz.

— É verdade.

— Esse símbolo aqui, próximo ao cabo, me parece familiar.

— Qual?

— Esse círculo com raios, que parece o desenho do sol.

— Você o viu em algum livro?

— Pode ser, mas acho que não. Onde foi que eu o vi antes? Faz algum tempo — indagava-se o rapaz, enquanto colocava a espada sobre a mesa.

— Esqueça — disse o menino recolhendo a espada.

— Espere, estou me lembrando... Acho que já sei. Você não vai acreditar.

— Diga.

— Venha comigo — falou o rapaz, dirigindo-se à porta.

— Aonde?

— Você vai ver. Vamos — insistiu Rairom. Meio a contragosto, Tairom acompanhou o irmão. A verdade é que o menino não estava tão curioso assim para saber o significado do estranho símbolo. Parecia não ser uma questão relevante.

Saíram da residência para a superfície levemente inclinada do platô em que o forte de pedra se encontrava. Para onde se olhasse vislumbravam-se as tropas, que se espalhavam por todo o interior da fortificação. Uma parte delas se alimentava, outra parte descansava. Havia também alguns sentinelas nas muralhas. Apenas o som ocasional de vozes quebrava o silêncio do cenário. O dia estava, como de costume, nublado e um chuvisco fraco, mas persistente, insistia em cair. Nuvens escuras denotavam que uma chuva mais forte não tardaria a castigar os cansados viajantes. No lado oposto ao da entrada do forte se erguia a encosta da montanha rochosa, cujo topo pontiagudo estava parcialmente encoberto por uma nebulosidade cinzenta. O vulto negro de um pássaro solitário voava próximo dele. Incrustada na rocha encontrava-se a entrada da Mina do Forte, como era conhecida. Foi para lá que Rairom se dirigiu, seguido por Tairom. Não demoraram a atingir a fenda escura que dava acesso ao interior da montanha.

— Escute, Rairom — falou o menino —, nós temos mesmo de entrar lá dentro?

— Não vá me dizer que está com medo.

— Bem, eu não gosto da idéia de entrar nessa caverna.

— Você já entrou lá?

— Eu já entrei, e é por isso que não quero voltar. Não gosto de lugares fechados.

— Não precisa ter medo. Nós vamos somente ao salão principal. Não vamos entrar em nenhum túnel.

— Está bem, então.

— Pegue a lamparina.

— Você disse que não íamos entrar nos túneis.

— E não vamos — falou o rapaz. — Ei, guarda. Você poderia nos emprestar a sua lamparina? É só por um momento — indagou o rapaz polidamente ao sentinela que estava sentada em uma cadeira de madeira próximo à entrada. Ele era o encarregado dos suprimentos que Ramar mencionara.

— É claro, senhor — assentiu o homem, entregando-a a Rairom.

— Obrigado — disse ele ao pegar o objeto luminoso. — Tairom, você vem? Não precisa vir se não quiser.

— Eu... vou — disse o menino vacilante.

Os dois, então, adentraram a escura fenda. Logo após transpô-la estavam diante da imponente câmara conhecida como salão principal. Era um vão bastante amplo e medianamente iluminado pela luz solar, a qual invadia aquele domínio de trevas por uma abertura nas proximidades do teto em forma de abóbada. A temperatura dentro da caverna era um pouco mais fria e o ar que vinha das profundezas trazia uma certa umidade. O piso do salão principal não ficava no nível da entrada. Para se chegar até ele, descia-se através de uma escada de pedra mais ou menos longa e escorregadia. Por isso, os dois demoraram um pouco para vencer todos os degraus. Assim que conseguiram, detiveram-se por alguns instantes a admirar a beleza hostil daquele lugar. À frente, simetricamente distribuídas, estavam as entradas de cinco túneis escuros, que mergulhavam montanha adentro. A similitude entre eles era apenas quebrada pelo quinto túnel da esquerda para a direita, no qual se podia observar a presença de luzes. Era naquele setor que estava a câmara onde Zairom mantinha um de seus depósitos de suprimentos.

— Deixe-me pensar... — murmurou o rapaz. — Em qual deles estará? Eu acho que já sei — completou ele, dirigindo-se até um dos túneis. O menino o acompanhou de má-vontade. Não lhe agradava sequer a idéia de se aproximar de uma daquelas aberturas escuras que desciam não se sabia até onde. Que mistérios poderiam estar guardados por detrás daquele manto de trevas? Tairom esperava nunca ter de descobrir. Curiosa, ao menos para mim, era esta aparente contradição na mente do menino. Ao mesmo tempo em que tivera coragem para enfrentar o Larcon frente a frente como poucos homens ousariam, a escuridão da caverna lhe inspirava um medo que nem toda criança teria. Era como se aquele aspecto de sua mente tivesse ficado temporariamente imune ao processo de transformação que se operava nele. Ou talvez a ausência da causa (do ódio) acarretasse a da conseqüência (da coragem, da superação). Pode ser. Mas a mente humana é algo difícil de se entender, mesmo superficialmente. Quando se mergulha em seus meandros então é que se vislumbra o emaranhado de paradoxos de que é formada.

O rapaz se dirigiu à entrada do túnel central, o terceiro da esquerda para a direita. A luz da lamparina que trouxera foi utilizada para melhor iluminar a rocha que circundava a entrada. Após alguns momentos, exclamou: — Aqui está. Veja, Tairom!

Gravado na pedra estava um desenho semelhante ao que se encontrava na espada. O menino, nada impressionado, ponderou: — Mas, Rairom, esse não é o primeiro nem o último desenho do sol a ser feito. É apenas uma coincidência.

— Pode até ser. Mas esses detalhes são idênticos aos da espada. E o número de traços saindo do círculo, como raios do sol. Aqui há dezenove. Conte quantos são os do símbolo na espada — insistiu o rapaz. O menino, contrariado, obedeceu. — E então?

— Dezenove.

— Viu o que eu disse? Você acha que isso é coincidência também?

— Eu acho que nós já perdemos muito tempo nesse assunto. Vou voltar.

— Está certo. Vamos voltar — concordou o rapaz. Mas Rairom estava intrigado. Como um símbolo ancestral alguiano teria sido esculpido naquele local?

— Ei, garotos, vocês estão aí dentro? — gritou uma voz vindo da entrada. — Saiam já! Temos de conversar! — exclamou ela, reverberando acusticamente em ecos nada melodiosos. Não obstante, o timbre permitiu que Rairom identificasse a voz como sendo de Sironiel. Ficou aliviado ao perceber que ele voltara ileso.

— Estamos indo — respondeu ele prontamente. Os ecos de sua voz por um instante se misturaram com os criados por Sironiel, resultando numa sonoridade confusa. "Mais um motivo para não gostar de cavernas", ponderou Tairom consigo mesmo.

Poucos momentos depois, para o alívio do menino, já estavam novamente no relativo conforto da residência do administrador das minas, na qual haviam feito sua refeição. Sentados próximo à mesa estavam Ramar, Tairom e Sironiel. Este se alimentava, mas, em razão do cansaço, não conseguia despertar sua peculiar (e famosa) voracidade. Comia devagar e moderadamente.

— Então, Sironiel — disse o velho —, explique-me em detalhes o que você encontrou nas minas lá embaixo.

— Eu já disse que não encontrei coisa alguma, Ramar.

— Nada? — indagou Tairom.

— Ninguém é a palavra — respondeu o general antes de mordiscar uma fatia de pão. — Encontrei muitas coisas que foram deixadas para trás pelos mineiros. Suprimentos, algumas vestimentas, material de trabalho, estava tudo lá embaixo, exceto as pessoas. Parecem ter saído com muita pressa.

— Isso se encaixa com a minha tese de que os mineiros de alguma forma souberam do ataque e fugiram — disse Rairom, que vinha do quarto onde estava Lisian.

— Pode ser — assentiu o velho. — Mas o que sabemos com certeza é que eles se retiraram com pressa. Podem não ter fugido.

— Que eu saiba, retirar-se com pressa é sinônimo de fugir — retrucou o rapaz enquanto se sentava.

— Eu acho que eles podem ter ido para o Forte Daicar, mais ao leste — opinou Ramar. — Mestre Zairom guardava um bom estoque de armas lá.

— Pela primeira vez eu concordo com você, Ramar — falou Sironiel. — Por isso é que eu já mandei dois cavaleiros que estavam comigo até o Forte Daicar para obter notícias.

— Excelente! — aprovou o velho.

— Quanto tempo até estarem de volta? — indagou o menino.

— Bem, se não pararem para descansar os cavalos, umas quatro horas, eu acho — estimou Sironiel.

— Até lá teremos de esperar... — falou Tairom.

— E descansar — completou o general.

— Não me agrada nossa permanência aqui por muito tempo — disse Ramar. — Não devemos ficar mais do que o necessário. Por isso, eu mandei que alguns homens trouxessem as carroças da vila lá embaixo. Nelas nós carregaremos os suprimentos de que vamos precisar. Devemos partir no máximo até o anoitecer. A noite é sempre uma boa companheira para quem não deseja ser encontrado.

— Ótimo — assentiu o menino. — Até lá os homens já estarão descansados. Além do mais, é melhor esperar a chuva passar antes de partir — completou ele ao observar através da janela o intensificar das gotas d'água.

— Acredito que ela passará até o anoitecer — falou Sironiel. — As chuvas de verão não costumam durar muito.

— Vamos precisar abrigar os homens da chuva em algum lugar — lembrou Rairom.

— Não se preocupe com isso — respondeu o velho. — Trouxemos três barracas de campanha. Há ainda a outra residência e o salão principal da Mina do Forte. Não ficarão exatamente confortáveis, mas ao menos não estarão encharcados ao anoitecer. Quanto aos cavalos, o estábulo é grande o suficiente para os poucos que temos. Eu recomendo que descansem. No mais tardar, assim que o sol se pôr nós deveremos partir.

E foi o que os jovens fizeram. Rairom e Tairom foram logo para o outro dos dois quartos de que dispunha a casa. Não estavam terrivelmente exaustos, mas suficientemente cansados para pegar no sono pouco depois de se deitarem. Ramar e Sironiel foram dar algumas instruções para as sentinelas. Ascenderam até o topo dos muros do forte de pedra onde estes se encontravam. Lá perceberam a parca visibilidade que se tinha do planalto naquele momento, em razão de uma penumbra cinzenta e da cortina d'água que despencava cada vez com maior intensidade. Os semblantes de Ramar e de Sironiel esboçavam o desgaste sofrido. Não era só o cansaço físico que os importunava. Este era em muito intensificado pela forte tensão a que ambos estavam submetidos desde o dia anterior. Por isso, concordaram em descansar. Um grande erro, sem dúvida. Eles desconheciam o perigo a que estavam expostos.

Assim que adormeceu, Rairom não tardou a entrar em um outro mundo, feito de sonhos, mas tão real quanto o mundo concreto podia ser. Assim, em geral, eram os sonhos dos aimain quando o Poder dos Selos agia sobre eles. Não seria diferente com o primeiro alorain. Quando despertou nesse mundo, ele estava em sua própria cama, em seu velho quarto. Tudo estava perfeito, o sol brilhava e uma brisa suave passava através da janela. A porta se abriu, era Liana.

— Bom dia, Rairom. Hora de acordar, querido, seu pai quer falar com você.

— Liana, você está bem?

— É claro que estou bem, Rairom. O que há com você?

— É que eu sonhei um sonho terrível. Espere, eu não sonhei, era verdade! Um exército! Fogo! Morte!

— Rairom, você não está falando coisa com coisa.

— Você está bem, então? — disse o rapaz, abraçando Liana. — Eu sonhei que você tinha morrido! Que bom que tudo está bem.

— É claro que eu estou bem, filho. Rairom, vá logo falar com seu pai. Ele mesmo pediu para chamá-lo. O dia está tão bonito. Depois vocês podem cavalgar. Ele está lá fora, perto do riacho.

O rapaz assentiu. Correu pelo corredor, desceu as escadas, não tardando a atingir o exterior. Continuou correndo até as proximidades da muralha de pedra, junto ao curso d'água. Os pássaros voavam num céu de um azul profundo. A temperatura, nem muito quente nem muito fria, era extremamente agradável. Perto do riacho, lá estava Zairom. O rapaz foi ao seu encontro. O rosto do filho do fogo, antes sempre tenso, agora inspirava uma profunda tranqüilidade.

— Rairom, como você está? — indagou ele, assim que o rapaz se aproximou.

— Estou bem.

— Que bom, filho. Eu perguntei porque estava preocupado com você, com o seu futuro.

— É a história da Academia de novo? Eu não quero ir para a Academia do Lago de Cristal, pai. Quero estudar as artes naturais. Não tenho interesse por política.

— Você já é um homem crescido, deve fazer suas próprias escolhas e persistir nelas. A única coisa que você não deve fazer é desistir. Prometa que não vai desistir.

— Eu prometo. Mas pensei que o senhor não concordasse com a minha escolha.

— Eu confio em você e no seu discernimento, e não sou o único. Você é um rapaz inteligente, Rairom.

— Obrigado, pai.

— Eu vou partir, filho, e quero que cuide de tudo enquanto eu estiver fora.

— Pai, não vá — disse o rapaz sentindo uma súbita pon-tada no peito. — Eu tive um sonho muito ruim.

— Rairom, tenho de ir. É uma viagem inadiável.

— Posso ir com o senhor?

— Você não deve. Você tem de cuidar das coisas na minha ausência. E olhe lá do outro lado, tem alguém chamando você — disse o filho do fogo apontando em direção à outra margem do riacho. Era uma garota montada num cavalo. Ela acenava para os dois.

— Eu já vou até aí — disse Rairom. No entanto, o animal que vinha calmamente trotando, acabou por desequilibrar-se jogando a garota no chão. O rapaz foi rápido em direção a ela, para ajudá-la, mas, quando estava próximo do riacho, ele também tropeçou, de modo que sua face quase foi de encontro à água. Foi quando ele viu o reflexo de seu rosto, o qual estava diferente, pois um símbolo que parecia um sol com dezenove raios estava marcado em sua testa. E os raios brilhavam com uma luz branca. Apavorado, deu um grito e despertou.

Rairom estava de volta ao mundo real. O som das gotas de chuva que despencavam sobre o teto substituíram o canto dos pássaros e o uivo do vento tempestuoso, a brisa suave da manhã. É, mas este era o mundo real, o qual, ao contrário daquele criado nos sonhos, não é dado ao homem escolher. Talvez, no melhor dos casos, moldar, mas escolher jamais. Relembrava agora o triste cenário. Ao seu lado estava um Tairom adormecido, marcado, transformado. Nunca voltaria a ser a pessoa que fora antes. Zairom, Liana (e sua vida) jaziam todos mortos não muito longe dali. O vazio da destruição e da desesperança reinavam de novo absolutos em seu domínio de direito: o mundo real. Eis o verdadeiro reino em que as trevas prevalecem incontestes. Um mundo tão diferente daquele do sonho e apesar disso não mais verdadeiro do que ele. A conversa com o pai e com Liana parecera real. Mas não fora! Real era a tristeza e a desolação.

De súbito, lembrou-se da parte final de seu sonho, em que uma garota pedia sua ajuda. Levantou-se e foi em direção a Lisian. Teria ela morrido? A advertência de Ramar veio-lhe à mente. Ponderou que talvez a morte fosse o melhor. Afinal, não significava ela a (única) evasão definitiva daquele mundo de sombras? Não era ela a suprema libertação? Mas não. Lisian estava viva. Sua respiração era tênue sim, mas ainda respirava. Por algum motivo, ficou feliz ante esta constatação. Percebeu, porém, que algo de muito estranho estava acontecendo. Um som surdo, como um tambor, povoava o fundo do seu panorama acústico. Por detrás da água que caía, do vento que soprava, um som opaco, mais ou menos ritmado, insistia em se repetir. Estaria imaginando coisas? Não! Ele estava lá! O que seria aquilo? Possivelmente, algo de muito errado. Apesar de toda a angústia, de todo o pessimismo e desânimo, naquele momento despontou o soberano instinto de sobrevivência. O medo da destruição, que desafia qualquer ponderação racional, que prevalece sobre qualquer emoção, nasceu dentro dele. Tinha de sair dali o mais rápido possível. Foi acordar o irmão.

— Tairom, acorde! Há alguma coisa errada. Venha. Temos de descobrir o que está acontecendo.

O menino, sem muito entender, obedeceu. Quando estavam próximos da porta, defrontaram-se com o vulto de uma pessoa. Era Sironiel. Estava extremamente nervoso e sem demora ordenou: — Corram, garotos! Para a mina, rápido!

O ruído surdo se intensificara. Rairom compreendeu que ele vinha dos portões do forte de pedra. Era como se alguma coisa estivesse investindo contra eles. Armas de cerco! Um aríete estava batendo de encontro aos portões do forte, na iminência de rompê-los.

— Rápido! — insistiu o general. Estava encharcado por causa da chuva e parecia ter despertado pouco antes. Seu estado era de visível desespero. Sabia que se quisessem ter ao menos um fio de esperança, não havia tempo a perder. Por isso, correu em direção às cabanas de campanha e à outra residência tentando acordar o mais rápido possível os guerreiros adormecidos.

Tairom, pressentindo o perigo, obedeceu. Rairom também começou a correr em direção à entrada da Mina do Forte, mas, aproximadamente quando tinha percorrido um quarto do percurso, lembrou-se de Lisian, ficando paralisado num insuportável estado de indecisão. As portas iriam se romper a qualquer momento. Mas ele havia prometido que não iria abandoná-la. Por outro lado, as palavras de Ramar vieram à sua mente. "Não arrisque sua vida por alguém que não pode salvar", dizia o ponderado ancião. O que fazer? Torci para que ele tivesse aprendido a lição. No entanto, o rapaz decidiu se arriscar de novo. Novamente ele se expunha a um perigo desnecessário. Isto (para o meu desespero) já estava virando um hábito!

— Tairom, continue! — gritou ele. — Eu vou pegar Lisian e alcanço logo vocês.

— Não, Rairom! Não seja tolo! — falou o menino. Até o pequeno Tairom via as coisas com mais clareza do que o rapaz.

Mas nem é preciso dizer que ele não seguiu o conselho do irmão. Voltou sim. Correu teimosamente de volta à residência do administrador, colheu a garota inconsciente em seus braços, e mergulhou de novo na tempestade. A sua frente, viu ao longe a figura de Tairom. Ele já atingira a entrada. Ao seu lado, alguns guerreiros finalmente despertavam para enfrentar a batalha, acumulando-se no descampado à espera do inevitável. Sironiel os coordenava, de modo que não percebeu que o rapaz ainda estava ali. Rairom correu na maior velocidade que suas pernas podiam atingir. Parecia que iria conseguir. Os velhos portões de madeira do forte, apesar de muito desgastados, ainda resistiam. Mas quando estava na metade do percurso o som da madeira se rompendo denotou o fim da resistência dos antigos portais. Assim que se desfizeram em pedaços, hordas de guerreiros começaram a invadir a fortificação.

Rairom estava justamente entre os dois grupos de contendores. Desta vez, porém, não ficou paralisado. Continuou a correr à toda velocidade, enquanto os dois grupos venciam o terreno que separava um do outro. O rapaz sequer olhava para os lados enquanto a distância entre ele e os guerreiros de ambas as facções diminuía rapidamente. Apenas ouvia gritos indistinguíveis. Enquanto, pelo portal destroçado, mais e mais legionários entravam, da fenda que dava acesso à Mina do Forte os guerreiros de Zairom saíam. Por isso, não demorou para que todo o interior do forte estivesse coberto por soldados dos dois lados. Ainda faltava cerca de um quarto do percurso quando o rapaz foi engolfado no caos da batalha. Rairom somente via os vultos se digladiando. Os gritos, o sangue. Tentava persistir, quando foi violentamente empurrado ao chão. Caiu, e com ele a garota. Aparentemente não estava machucado. Tentou manter a racionalidade e se arrastar em direção à Lisian. Na confusão, fora pisoteado. Suas costas doíam. Podia ser morto a qualquer momento, em razão do que, não tinha coragem para se levantar. Quando olhou para a frente, porém, viu que Lisian desaparecera!

— Rápido, Rairom! — disse uma voz. Era Ramar. O velho tinha a garota em seus braços. O rapaz se levantou, apesar da dor que sentia nas costas, e conseguiu, superando-se, correr em direção à fenda. A sorte de Rairom foi que ele já estava razoavelmente próximo da entrada da caverna quando caiu no chão. O velho, que fora avisado por Tairom, e por isso já estava à sua procura, não teve, por esse motivo, grande dificuldade para encontrá-lo. Os três se refugiaram na relativa segurança da Mina do Forte. Um grande número de guerreiros ainda estava lá dentro. Preparavam-se para sair. Seguindo Ramar e Tairom, Rairom desceu as escadas que o separavam do piso do salão principal e se afastou delas, indo até as entradas dos túneis. Sentou-se no chão frio de pedra. Estava cansado e suas costas não paravam de doer.

— Rairom, você é o rapaz mais cabeça-dura que eu já conheci — disse o velho com um sorriso nos lábios.

— Acho que sou mesmo — concordou ele. — Obrigado, Ramar.

— Tudo bem, Rairom. Apenas descanse — falou o velho, enquanto colocava a garota deitada no chão próximo ao rapaz. — Você é um rapaz de sorte por ainda estar vivo depois desses últimos dois dias — completou ele, ofegante. Os ruídos da batalha ainda podiam ser ouvidos ao fundo.

— O que está acontecendo? — indagou o menino, que se mantinha de pé.

— É a coluna setentrional, ao menos nós achamos que é. Sem dúvida superestimamos nossa sorte. A chuva também aumentou o risco, já que diminuiu a visibilidade lá de baixo. Eles mataram um dos sentinelas a flechadas e o outro quase que não consegue dar o alarme. A maior parte dos homens estava dormindo. Tudo isso aconteceu a menos de meia hora.

— É impressionante como nos pegaram desprevenidos! — falou Tairom.

— Escutem, garotos — disse o velho, interrompendo o menino —, eu vou lá fora coordenar os combates. Não podemos deixar tudo nas mãos de Sironiel. Eu quero que vocês me ouçam com atenção. Vou deixar apenas alguns homens de minha confiança aqui dentro para guardá-los. Mas cuidarei para que nenhum inimigo consiga entrar na caverna, a não ser que passem por cima do meu cadáver — falou ele. Parou ofegante. O velho parecia muito preocupado. Depois de recuperar o fôlego ele continuou:

— Se aparecerem inimigos aqui dentro, isso será um mau sinal. Será um sinal de que nós provavelmente ou já perdemos ou estamos para perder a batalha.

— Por que está dizendo isso? — indagou o menino.

— É que se isso acontecer, eu quero que entrem em um desses túneis. Vão o mais longe que puderem, mas não tão longe que acabem se perdendo. Levem água e provisões. Fiquem lá pelo maior tempo que conseguirem. Se permanecerem o suficiente, o inimigo já terá ido embora quando vocês saírem. A possibilidade de irem procurá-los nas minas é pequena. Ah! Fiquem desde já dentro de um dos túneis, de modo que o inimigo não os veja quando entrar.

— Eu não gosto desse plano — disse Tairom. Sentira um arrepio na espinha quando vislumbrou a possibilidade de ter de se embrenhar por aqueles túneis. Era como se estivesse para ser enterrado vivo.

— Nós temos de confiar em Ramar, irmão — ponderou Rairom.

— E, eu acho... eu acho que Ramar está certo. Não há outra saída.

— Eu vou então — disse o velho.

— Boa sorte ! — desejou o menino.

— Para todos nós — completou Ramar. — Que Naquicar nos ilumine o caminho com sua chama eterna!

Foi-se, e com ele a maior parte dos guerreiros saíram. Um dos três guardas que ficaram trouxe a água e o quiarram que Ramar separara. Estava em duas sacolas de couro e a água em duas outras bolsas do mesmo material. Todas elas tinham alças, de modo que os jovens puderam pendurá-las nas costas. Deveria ser o suficiente para três dias, talvez mais se devidamente administrado. Trouxe também uma lamparina e três velas para iluminar a escuridão. Rairom desejou nunca precisar se utilizar do desesperado plano de Ramar, pois mesmo se ele desse certo, o que fariam depois? Estariam desamparados. Tairom se sentou ao lado de Lisian e permaneceu estranhamente inerte, observando o facho de luz que era a fenda da entrada. Seus contornos irregulares pareciam desenhar um relâmpago caindo do céu, só que de cabeça para baixo. Depois de aproximadamente um quarto de hora, ante a insistência de um dos guardas, Rairom se levantou e se posicionou na entrada do túnel central, de modo que ficasse encoberto pelas trevas. Levou Lisian consigo, mas Tairom só obedeceu depois de grande insistência do irmão. Quando o menino reclamou que sua visão da entrada tinha se tornado muito ruim, o guarda acrescentou que daria o alarme se o inimigo entrasse. Sem outros argumentos, acabou por se conformar.

O tempo passava devagar. Rairom não podia conter a ansiedade. Ao longe, ainda conseguia ouvir o som da batalha, ou estava imaginando coisas? A indefinição era uma tortura insuportável. Mas não teriam de esperar muito mais. Meia hora já havia passado desde que Ramar saíra, quando o pior aconteceu. Um grupo de inimigos estava tomando a caverna. O grito estridente do guarda chamou a atenção dos jovens.

— Inimigos na caverna! — gritou ele. E partiu, juntamente com os dois outros, para enfrentar o grupo invasor. Os dois rapazes agora tinham de fugir para dentro das trevas. Tairom entrou em pânico. Não queria acreditar que a solução drástica de Ramar teria de ser utilizada. Tinha de ver com seus próprios olhos!

— Não, Tairom, eles podem nos ver! — disse o rapaz. Em vão. O menino foi até a boca do túnel e viu quando no salão principal os três guardas foram mortos por um grupo bem maior, talvez mais de dez homens. Era hora de fugir!

— Venha, Tairom! — disse o rapaz que já se levantara e pegara a garota no colo depois de aferir que ainda estava viva. No entanto, era com um grande esforço que o fazia, pois suas costas doíam e tinha de carregar ainda o peso da bolsa de couro. Mas não desistiria. A voz de seu pai dizendo "você não deve desistir" ecoava estranhamente em sua cabeça, apagando qualquer dúvida e fornecendo-lhe a força para perseverar. — Vamos! — repetiu, puxando o braço do irmão. Os inimigos começavam a se dirigir até a entrada dos túneis. Não era, porém, possível saber se eles tinham visto os jovens ou não.

— Rairom, eu não posso... eu não posso entrar aí! — disse um Tairom bastante apavorado. Rairom sentiu pena do irmão. Era como se ele voltasse a ser o garotinho com quem se acostumara a viver, antes da catástrofe que desabara sobre suas vidas. Mas o momento não comportava hesitações, mesmo porque não estava em condições de correr.

— Tairom, preste atenção. Se ficarmos aqui nós vamos morrer. Venha comigo.

— Não... eu não posso — disse o menino. Ele suava frio.

— Confie em mim! — falou o rapaz no tom mais conciliador que conseguiu encontrar. Talvez por causa disso, ou pelas palavras em si, ou pela dramaticidade da situação, o menino assentiu.

Foram os dois de encontro às trevas. O túnel descia sempre com uma declividade constante. Rairom agora acendera a lamparina, o que diminuía um pouco a escuridão. Não haviam encontrado até então qualquer bifurcação. O silêncio daquele lugar era quebrado apenas pelo som de seus passos. O túnel parecia ficar mais estreito conforme progrediam, para o desespero de Tairom.

— Podemos parar, Rairom? Este túnel está ficando muito estreito.

— Mais um pouco. Quero ter certeza de que não estamos sendo seguidos.

Andaram por mais meia hora sem que nada de diferente acontecesse. Foi quando foram surpreendidos pelo som de vozes. Elas vinham de trás. Eram complementadas pelo som de passos rápidos cada vez mais próximos. Estavam sendo seguidos! O que fariam? Fugir, é claro. Começaram a correr (na verdade a andar mais rápido, já que Rairom não podia correr). Na confusão, a lamparina, que estava com Tairom, caiu e se quebrou. O menino entrou em pânico.

— Tairom, segure minha mão! — disse o rapaz. O menino, depois de uma ou duas tentativas, conseguiu. Os perseguidores pareciam se aproximar. Um Rairom cego em razão das trevas daquele lugar tentava manter o senso de espaço roçando de vez em quando nas paredes. Era tudo que podia fazer, já que ambos os seus braços estavam ocupados levando Lisian. De repente, deixou de sentir a parede. Mas não podiam parar. Senão seriam mortos! Continuaram mais alguns passos. Mais um grande erro.

Os dois despencaram em um escuro abismo. Rairom podia ouvir o grito do irmão. Lembrou que alguém dissera que ele era uma pessoa inteligente. "Que grande bobagem!", concluiu. No topo do abismo, os perseguidores observavam impotentes, enquanto os jovens despencavam na escuridão.

 

                                 Fragmentos do passado

Minha querida esposa, não posso descrever em palavras a saudade que sinto de você. Quando durmo, sonho sempre com nossa vida na terra de Tamisai. (...) Como está nosso filho? Está com cinco anos e eu já não o vejo há três. Fico imaginando como ele é, se está saudável. (...) A nossa busca nos levou para o sul, para aquela gelada ilha do sul. Muitos de nós estão cansados, deprimidos. Enquanto escrevo, aqui neste navio, percebo a desolação em cada olhar. O trabalho será longo, os resultados, incertos. A despeito dos rumores que apregoam o seu extermínio, poucos de nós duvidam que os inimigos se farão presentes. Sim, eles ainda existem, o que torna ainda mais pesado o nosso fardo. Ao menos, nos consolamos com o relativo sucesso alcançado até agora. Nat-zar tim ramizari! Se tivermos sorte, o último dos oito em breve será rompido e a alma dos homens estará pronta para a verdade. Temos de manter a fé. (...) Finalmente vamos construir uma nova base. A localização já foi até escolhida. Assim que a terminarmos, foi-nos dito que construiremos uma vila para abrigar as famílias dos soldados. Mas isso deve demorar ainda um ano. Estou contando os dias. Adeus, (trecho de uma carta recuperada por Gaianis Dreifozin na sua obra "Textos Ancestrais — um relato do mundo antigo")

O terror que o indivíduo sente no momento da morte é algo incrível de se ver. Todo aquele que morre consciente, do mais espiritualista ao mais cético, no momento crucial em que está para morrer, depara-se com a mais cruel das dúvidas. Indaga se sua consciência sobreviverá de alguma forma ao evento. O ser racional que aprende e se aperfeiçoa vê, no instante em que julga ser inevitável a sua morte, a verdadeira fragilidade da vida humana. O animal que quis ser um deus encara de frente a realidade dos fatos, a qual durante sua vida inconscientemente negara: é mortal. Aquele que nasce acaba por morrer e a sua consciência deixa de existir. O desespero, o medo que antecede o silêncio da morte é de uma intensidade dificilmente alcançada em qualquer outro momento da existência humana. Por isso é que alguns dizem que a morte é o mais intenso instante da vida. Talvez seja mesmo, mas não parece ser dos mais agradáveis.

Algo parecido com este medo pairou sobre o coração dos dois jovens nos efêmeros instantes que levaram despencando no abismo escuro. Felizmente, foi breve a sua angústia, pois logo foram sugados para um profundo sono, tão profundo e silencioso quanto a morte, mas não eterno como ela. Sim, eles não morreram. Foi o que Rairom percebeu ao despertar. Quando abriu os olhos, porém, viu pouco mais do que as trevas. Onde quer que estivesse, quase não havia luz. Teria morrido? Não parecia. Levou a mão às costas, deviam estar machucadas. Percebeu, para o seu espanto, que elas não mais o incomodavam. Nesse ínterim, seus olhos se acostumaram e o rapaz conseguiu ver a imagem de alguns objetos depositados ao seu lado. Também viu as paredes de pedra da caverna. A caverna! Ele se lembrava agora da maldita caverna e da queda. Por isso é que pensara que estava morto, e devia estar mesmo. Talvez o "abismo" não fosse mais do que uma pequena declividade. Nesse caso, a sorte, tão ausente nos últimos dias, teria finalmente dado a sua contribuição. Apalpando um dos objetos ao seu lado viu que era uma vela. Excelente! Concentrou-se no encantamento do fogo. Conseguiu na primeira tentativa. Estava mais confiante, pois uma pequena chama nasceu revelando-lhe o cenário.

Era uma câmara não muito ampla, nem chegava aos pés do salão principal, mas se assemelhava a ele pelo seu teto em forma de abóbada e por ter mais de uma saída. Rairom viu pelo menos cinco a sua frente. Não estavam muito distantes. Não sabia, porém, se havia contado corretamente, pois a luz da vela era muito tênue. Resolveu se aproximar. Chegou até as proximidades de uma das saídas. Viu que ela parecia subir. Talvez fosse uma passagem para o exterior da mina! Suas esperanças, porém, escassearam-se quando não conseguiu ver qualquer indício de luminosidade vindo através dela. Observou que o mesmo se repetia nas outras quatro passagens. Havia somente a escuridão, nenhuma indicação do caminho que os levaria para fora. Talvez fosse possível voltar por onde tinham vindo. Isto implicaria uma escalada, ainda que pequena. Por outro lado, era uma forma relativamente segura de sair daquele labirinto. Uma possibilidade a ser averiguada. Quando pensava em fazê-lo, porém, deparou-se com aquele estranho símbolo da espada de Tairom. Ele estava gravado na pedra próximo à terceira passagem da direita para a esquerda. Reparou que tinha alguns outros símbolos aparentemente também familiares bem abaixo dele. Eles eram alguianos e a maior parte pertencia ao alfabeto que conhecia.

Quando começava a ler o que estava escrito, ouviu o som de passos. Devia ser Tairom! Havia se esquecido dele. No entanto, também poderiam ser os perseguidores. Nesse caso, estaria com sérios problemas. Virou-se. Torceu para que fosse o seu irmão. Mas não era! Aquela presença gelou-lhe a alma. Por isso, afastou-se instantaneamente e piscou os olhos algumas vezes para ver se desaparecia. Mas não, ela ainda estava lá!

— O que está acontecendo? Estou vendo gente morta. Será que eu morri também? — murmurou ele. Não acreditava até então em fantasmas. A presença parecia muito confusa, tão confusa quanto o rapaz, mas ao contrário dele não estava com medo. Ela se aproximou de novo.

— Rairom, o que está acontecendo? Onde estamos? A última coisa de que me lembro...

— Não pode ser você! — disse o rapaz. Evitava encará-la de frente.

— Do que você está falando, Rairom? É claro que sou eu, Lisian. Que lugar escuro!

— Lisian... — falou o rapaz, tomando coragem para a pergunta crucial — você... você é um fantasma?

— Fantasma? — a garota parecia intrigada, mas não conseguiu deixar de achar graça na pergunta. — Você acha que eu sou um fantasma? Rairom, o que há com você? É claro que eu não sou um fantasma — disse ela, entre breves risadinhas.

— Não é? Mas, como? — o rapaz parecia desnorteado.

— Acalme-se, Rairom. Conte-me o que está havendo. Onde nós estamos? A última coisa de que me lembro é de uma dor nas costas... Uma pontada. Eu acho que era uma flecha. Em seguida, acordei aqui.

— Bem, é uma longa história... — disse o rapaz, tentando recuperar o controle. Tentava aceitar a idéia de que, por algum motivo inexplicável, Lisian havia se curado. Mas ela estava à beira da morte! Na última vez que verificara, na caverna, ela praticamente não respirava mais. Cogitou que talvez estivesse sonhando (seus sonhos às vezes eram bem reais). Era uma explicação razoável, mas no fundo sabia que estava acordado. Não, não era um sonho, ou era? — Mas, espere, você viu Tairom? — indagou o rapaz.

— Tairom? Ele está aqui também?

— Bem. Deveria estar — falou Rairom. Depois do que vira, o eventual desaparecimento de Tairom não o deixaria nem um pouco impressionado. — Tairom! — gritou. — Tairom, onde você está?

Nenhuma resposta. Repetiu o grito uma segunda e uma terceira vez. Sua voz produzia ecos. Depois de alguns instantes de silêncio um vulto veio em direção à luz. Era Tairom. O menino havia acabado de despertar e dirigia-se alegremente ao encontro do irmão. Lisian, com igual alegria, foi recebê-lo.

— Olá, Tairom! — disse ela. O menino afastou-se num sobressalto. Ele quase morreu de susto! Como se não bastasse o medo que sentia por estar naquela caverna escura, agora era confrontado com a visão aterradora da garota moribunda, a qual estranhamente parecia bem viva. Aliás, estava tão bem que podia andar alegremente e vir cumprimentá-lo.

— Você?! — gaguejou ele, enquanto corria para junto do irmão.

— Alguém quer me explicar o que está acontecendo? Por que vocês estão com medo de mim? — indagou Lisian, com um tom bastante irritado. Estava farta daquelas atitudes ridículas.

— Bem, para começar você deveria estar morta! — disse o menino.

— Morta? — indagou a garota. Agora tinha ficado ainda mais confusa. A flecha deveria tê-la matado? Levou a mão às costas, mas, da mesma forma que Rairom, não sentiu coisa alguma. Era como se nunca tivesse sido atingida.

— Tairom, eu acho que nós não estamos em melhor situação do que ela — falou o rapaz.

— O que quer dizer? — questionou o menino.

— Nós também deveríamos estar mortos, ou, na melhor das hipóteses, muito machucados! Olhe lá! — completou o rapaz, apontando para o cume da câmara do lado oposto ao que estavam. O menino olhou na direção mencionada pelo irmão. Viu então parte do enorme abismo no qual tinham caído. Podia ser visto, pois a parca luminosidade do ambiente vinha dele. Era realmente muito alto. Não havia como alguém sobreviver a uma queda daquelas!

— Alguém quer me explicar o que está acontecendo? Que lugar esquecido por Naquicar é este em que vocês me meteram? — insistiu a garota. Não houve resposta por alguns momentos, então Rairom falou:

— Bem, eu preciso pôr algumas idéias em ordem. Proponho que adiemos a nossa conversa até chegarmos à saída.

— Saída? — indagou o menino. Estava imensamente interessado. — Você sabe como sair daqui?

— Vejam! — disse o rapaz apontando para os escritos em alguiano. Os dois fitaram os símbolos, incapazes de decifrá-los. Só então Rairom se lembrou que era o único capaz de ler alguiano. — Aqui diz — acrescentou ele — saída oeste ...

— Saída! — exclamou o menino.

— Mas essa saída nós não podemos utilizar, a não ser que esteja disposto a escalar o abismo. Foi por onde viemos. Veja, o termo saída oeste lembra alguma coisa a você? A saída mais a oeste desse emaranhado de túneis é provavelmente aquela por onde entramos.

— Pode ser — assentiu o menino.

— Como eu ia dizendo, abaixo se lê: "Zona de prospecção e saída leste do complexo: terceiro túnel".

— Bem, mas como nós vamos saber qual desses túneis é o correto? — indagou Tairom.

— Olhem para seus pés — respondeu Rairom. Os dois o fizeram, mas permaneceram sem entender coisa alguma. — Não sabem nem os números em alguiano? Como os dois são ignorantes! — falou o rapaz, esquecendo-se que ele próprio devia ser uma das poucas pessoas em toda a Terra das Sombras a ler regularmente livros em alguiano. Havia, de fato, uns símbolos estranhos gravados no chão ao lado de cada passagem, os quais, segundo Rairom, seriam números. Estavam muito desgastados e cobertos de poeira, mas ainda eram legíveis. — O que vocês fariam sem mim? — se gabou o rapaz.

— Cale a boca, Rairom! — disse a menina. Começava a se lembrar por que considerava Rairom uma das pessoas mais pretensiosas e egoístas que conhecia. Ela estava ficando realmente de mau humor.

— O túnel correto é este aqui — disse o rapaz, apontando para uma das passagens.

— É claro que é. Ele é o único que sobe — falou Lisian, desdenhando do rapaz.

— Mas antes de irmos, temos de achar nossas provisões — acrescentou ele, ignorando o comentário.

— As bolsas de couro? Eu as vi. Estavam próximas ao lugar onde acordei — lembrou o menino. Foram até elas. Achavam-se do outro lado da câmara e também estavam intactas. Rairom recolheu-as e sentiu como estavam leves. Resolveu verificar o conteúdo. Estava tudo lá. Tanto a água, quanto o quiarram enchiam as bolsas. Por que então a sensação de leveza? Logo percebeu que era porque suas costas não estavam mais machucadas e o mais importante: não tinha de carregar o mais pesado de seus fardos, Lisian. Que bom que não tinha mais de carregá-la! Havia pago a sua dívida para com ela com juros, e cumprido sua promessa. Sentia-se bem por isso. Por outro lado, agora que a garota acordara, estava tagarela e in-solente como sempre. Paciência. Afinal, nada é perfeito. Tomou um gole d'água e lembrou que Lisian não bebia nada desde o dia em que fora ferida. Ofereceu um gole, mas ela recusou. Disse que não estava com sede! Mais um fato estranho para acrescentar a sua lista.

Seguiram pelo caminho que subia. Era de certa forma semelhante ao túnel que tinham percorrido na fuga. Suas paredes e piso eram de pedra lisa. O aclive era sempre regular. Percorreram o tedioso caminho por mais ou menos meia hora. Já estavam começando a se cansar quando se depararam com uma muralha de pedra. Esta, porém, não tinha nada de regular. Era composta de pequenos e médios pedregulhos provavelmente resultantes de um desabamento num passado distante. "Era por isso que não havia luz!", ponderou Rairom. O que fariam? A saída, se é que existia mesmo uma saída, estava evidentemente bloqueada. Sem dizer nada, Tairom e Lisian sentaram-se para descansar. O menino, apesar do cansaço, que maquiava seus sentimentos, estava cada vez mais desesperado.

Concluíra que estivera certo ao não querer entrar naquela caverna. Conforme instintivamente previra, tinham sido mesmo enterrados vivos!

O rapaz olhava fixamente para o bloco a sua frente. Não sabia o que fazer. Estavam perdidos! Haviam sobrevivido para morrer ali, de sede e de fome. Ficou fitando a parede por alguns instantes, inconformado. Não podia acabar assim! Observava a rugosidade da pedra sólida a sua frente, um obstáculo aparentemente intransponível. Nem que ele fosse o próprio mestre Diom seria capaz de rompê-la. Sem desviar o olhar, fitava aquelas paredes de alto a baixo, buscando um fio de esperança. Estava bastante concentrado, pois sua vida, a de seu irmão e de Lisian dependiam disso. De súbito, sua visão pareceu penetrar na rocha e, antes que pudesse avaliar o que estava acontecendo, pôde ver o outro lado! Levou um susto. Piscou. Sua visão voltara ao normal. Como isso havia acontecido?

— O que foi, Rairom? — indagou Lisian, ao perceber a ansiedade que tomara conta do rapaz.

— Nada — disse ele. Achou mais adequado não revelar o que ocorrera. Bebeu um gole d'água e se sentiu um pouco melhor. Estava calmo de novo. Resolveu tentar novamente. Por quê? Rairom não sabia ao certo, mas alguma coisa lhe dizia que este era o fio de esperança que procurava. Tentou concentrar-se na pedra, da mesma forma que fizera anteriormente. A princípio não obteve nenhum resultado. Tentou, então, instruir sua mente para que visse não a pedra, mas através dela. Depois de alguns instantes, sua visão ficou um pouco turva, mas ele conseguiu. Lá estava um salão enorme e amplo, talhado na rocha, tão amplo quanto o salão principal. Seu teto tinha uma reentrância pela qual entrava a luz solar. Era mesmo bonito. A imagem, porém, ficou deturpada. Sentiu sua visão voltando. Concentrou-se. Focalizava a parede de pedra. Estava vendo-a pelo lado de fora. Era mesmo muito sólida. Mas espere! Na sua borda superior havia poucas pedras. A constatação o deixou excitado, de modo que perdeu a concentração. Sua visão voltou ao normal. A sua frente estava a cara assustada da garota.

— O que houve, Rairom? — indagou, ela, enquanto o sacudia. — Você perdeu a consciência? Acorde!

— Eu não estou dormindo — disse o rapaz, enquanto uma formigação tomava conta de seus braços. A excitação nervosa foi subindo pelo seu pescoço até chegar ao cérebro. Lisian parecia falar alguma coisa, mas Rairom não ouvia, pois estava em outro estado de consciência. Seus sentidos hodiernos estavam parcialmente suspensos, mas em compensação, uma nova percepção aflorara. Passou a sentir uma energia pulsar em sua volta. Não a energia dos elementos. Não era ela. Era um poder que estava em tudo, do qual os chamados "elementos" eram efêmeras demonstrações. Era o que os magos da Terra do Vento chamavam de "A essência do Quinto Portal". Mas a verdade é que eles quase nada conheciam dela, mestre Diom fora um dos poucos a dominar seus mais rudimentares fundamentos. Mas Rairom parecia compreendê-la. Instintivamente poderia até manipulá-la. Não, não podia! Percebeu que a energia tendia naturalmente ao estado de equilíbrio e que tudo o que existia decorria necessariamente desse equilíbrio. Qualquer movimento no sentido de rompê-lo era penoso e efêmero. Assim, uma vez retirada a força externa, o equilíbrio rapidamente se restaurava. Mas, um pequeno movimento talvez fosse possível. Uma deformação na energia que, mesmo após o equilíbrio restaurado, produzisse um efeito mensurável na matéria concreta talvez estivesse a seu alcance.

A formigação deixou o seu cérebro e lentamente retornou aos braços, concentrando-se neles.

— Saia da frente! — disse o rapaz para Lisian, rispida-mente. A menina fez menção de dizer alguma coisa, quando o rapaz a empurrou. Ela foi para o lado cambaleante, e cairia se Tairom não a amparasse. Rairom sentia uma pressão insuportável em seus braços. Era como se eles estivessem sendo comprimidos e esticados ao mesmo tempo. Sentia como se estivessem para se partir em mil pedaços! "A pressão tem de sair", pensou. — Saia! — exclamou, elevando os braços na direção da borda superior da parede de pedra. Rairom sentiu um alívio em seus braços no mesmo instante em que os pedregulhos eram impelidos violentamente em direção à câmara externa. No momento seguinte, o rapaz sentiu uma enorme exaustão muscular e perdeu os sentidos.

Quando acordou, viu, iluminado pela luz solar, o rosto de Lisian. Apenas agora Rairom percebia que a pele da garota não estava mais pálida. Adquirira uma tonalidade saudável igual àquela que possuía antes do ferimento. Os efeitos do veneno, sem dúvida, haviam findado. Sua expressão, porém, era triste. Parecia ter chorado. Mesmo assim, não deixava de ser uma tristeza bela, aquela que a garota demonstrava. Em seu rosto de traços delicados, as emoções eram sempre mais bonitas.

— Que bom que você acordou — disse ela. — Você ficou assim por mais de três horas.

— Onde estou? — indagou o rapaz.

— Você está no lugar em que caiu. Onde mais?

O rapaz olhava a sua volta. Ao erguer a cabeça, a qual estava apoiada em uma das bolsas de couro, foi ofuscado por um raio de luz. Procurava se lembrar dos últimos acontecimentos, que retornavam a sua mente como num sonho. Tinha mesmo olhado através da pedra? Tinha mesmo sentido aquele poder oculto? Era tudo tão irreal. Sua vista se acostumou e viu que o raio de luz provinha de um vão na muralha de pedra. Um vão! Era bastante amplo, o suficiente para que passassem através dele. Teria criado aquela saída?

— Lisian, você sabe o que aconteceu?

— Se eu sei o que aconteceu? Eu é que pergunto. Como foi que você fez aquilo?

— Então aconteceu de verdade...

— Aconteceu. De um momento para o outro um monte de pedras começou a voar para o exterior criando aquela abertura ali. Você vai me explicar como fez isso ou não?

— Gostaria de poder.

— Rairom, há alguma coisa estranha com você. E considerando que essa não foi a primeira vez, eu diria...

— Como assim essa não foi a primeira vez? — interrompeu o rapaz.

— Bem, você tem certeza de que quer falar sobre isso?

— Tenho.

— Está certo. Naquele dia do teste, você lembra, não é?

— Claro que eu lembro — disse o rapaz. Ao buscar por suas memórias, porém, parecia que o teste tinha acontecido anos atrás, e não apenas uns poucos dias antes. Tanto havia mudado em tão pouco tempo.

— Eu não estou perguntando se você lembra do teste, Rairom. Eu estou perguntando se você sabe o que aconteceu depois do teste.

— Depois? Aquela história de novo — falou o rapaz, recordando-se da insistência da garota em falar sobre o que tinha acontecido após sua saída. — Mestre Diom foi investigar o sonho que eu tive. Foi só isso que aconteceu.

— Ele disse o porquê?

— Ele falou. Tinha alguma coisa a ver com uma deturpação ou alteração da energia mental.

— Isso não ajuda muito. Aconteceu mais alguma coisa?

— Não. Eu adormeci. Tive o sonho outra vez. Depois acordei. É só isso. Mestre Diom achava que eu iria entender o sonho, alguma coisa sobre linguagem simbólica, mas até hoje eu não entendi — falou o rapaz. Mas o que ele não entendia mesmo era o porquê de estarem falando sobre aquilo. Só respondia as perguntas porque estava muito cansado para discutir.

— Aconteceu outra coisa além disso, Rairom.

— É mesmo? Como é que você sabe?

— É porque eu fiquei espiando.

— Você fez o quê?

— Ora, você é surdo? Deixei a porta entreaberta e fiquei espiando. Estava curiosa para saber o que iria acontecer. Queria saber por que meu avô pediu para que eu saísse. Era uma atitude muito suspeita.

— E então o que aconteceu de tão extraordinário que você sabe e eu não?

— Bem, como eu posso dizer isso de uma forma não muito chocante. Basicamente, foi isso que aconteceu: uma aura verde surgiu em volta de seu corpo, você começou a flutuar e falar palavras estranhas. Depois, você pôs fogo nas cortinas e caiu. Foi isso.

— O quê?

— Você ouviu.

— Você não quer que eu acredite nessa bobagem...

— Você parecia estar possuído por um espírito malévolo. Se não quiser acreditar, não acredite, mas foi o que aconteceu.

— Espírito malévolo? Você está fora de si — disse o rapaz rispidamente. Ele estava indignado. Está certo que as cortinas tinham mesmo pegado fogo, mas daí a concluir que a causa do fogo fora ele e ainda mais que estava flutuando e falando línguas estranhas, era um passo grande demais. Mas, por outro lado, por que Lisian inventaria uma história dessas?

— Se o meu avô estivesse aqui, ele poderia confirmar — falou a garota. Instantaneamente, sua face assumiu um tom ainda mais entristecido. Rairom percebeu que ela já sabia.

— Então, Tairom lhe contou...

— Tairom me inteirou do básico. Ele não queria, coitadinho, mas eu insisti e ele acabou falando. Ele me contou o que aconteceu com seu pai e com meu avô.

— Entendo.

— Mas há uma parte da história, Rairom, que não faz nenhum sentido.

— E qual é? — indagou o rapaz. A história toda era muito triste e lhe parecia muito difícil de aceitar, e para quem não presenciou os acontecimentos, de acreditar.

— É a parte que fala do envolvimento de Zainog. Isso não é verdade, é?

— Zainog... bem... — falou o rapaz, hesitando. Pressentiu que se contasse o que de fato acontecera iria partir o coração de Lisian. Mas não podia mentir. Não tinha esse direito. — Eu acho que é verdade, infelizmente.

— Não! Isso é algum engano! — exclamou a garota. Esse fato mais do que qualquer outro parecia deixá-la desesperada. — Você diz isso porque não o conhece. Nós crescemos juntos. Zainog é incapaz de matar uma mosca e adora o meu avô. Ele nunca faria isso. Nunca!

— Acalme-se, Lisian — disse o rapaz. — Eu não conheço Zainog. Só sabia que ele era um prodígio da Terra do Vento.

— Ele é o prodígio.

— Que seja! — falou o rapaz. O fato de a garota defender o assassino de seu avô tendia a irritá-lo. Mas ele tinha de compreender. Afinal, como reagiria se alguém lhe dissesse algo parecido, como, por exemplo, que Tairom matara seu pai? Seria muito difícil de acreditar.

— Além do mais, ele estava na Terra do Vento com meus pais e meu irmão. Ele não tinha como estar lá e ao mesmo tempo na Terra do Fogo para matar meu avô. É um engano! Tem de ser!

— Tudo que sei é o seguinte, Lisian. Seu avô o chamou de Zainog.

— Ele chamou? Você deve estar enganado... Ou talvez seja outro Zainog. Deve ser isso.

— Está bem. Você pode estar certa — assentiu o rapaz, dando-se por vencido. — Tente não pensar nisso agora. Nós temos de nos concentrar em sobreviver. Uma coisa de cada vez, certo? — falou o rapaz, tentando consolá-la. A garota assentiu com a cabeça. Sua fisionomia melhorou um pouco.

— Coma um pedaço — disse ela, entregando-lhe uma fatia de pão de quiarram enquanto o rapaz se sentava. — Eu e Tairom já comemos.

— Onde está Tairom? — indagou o rapaz.

— Ele foi explorar.

— Sozinho? Você não devia ter deixado — disse Rairom, antes de dar uma mordida.

Lisian não havia respondido ainda quando os dois ouviram o barulho de passos na pedra. Tairom retornava. — Não se preocupem, vocês dois. Já estou de volta — disse ele. O menino atravessou a passagem. Não parecia muito animado. — Não achei nenhuma saída. Só mais túneis.

— Talvez a saída esteja mais à frente — argumentou o rapaz.

— Talvez — concordou o garoto. Estava desanimado pela perspectiva de permanecer naquela caverna por mais algum tempo. Lembrou-se, então, do seu achado. — Olhem só o que eu achei — falou ele, mostrando um cristal polido semitrans-parente. — Estava em uma das pequenas salas que dão para a câmara maior. Há uma caixa cheia delas. Deve haver mais de dez pedras parecidas lá. Você acha que é diamante, Rairom?

— Diamante? Acho que não. Deve ser algum outro tipo de cristal. Deixe-me ver — falou o rapaz. Rairom pegou a pedra e olhou para ela durante algum tempo. Mesmo que fosse um diamante, o rapaz não o reconheceria. Não era nenhum perito em mineração e muito menos em minérios. — Parece algum tipo de pedra preciosa — falou ele, pondo-a de encontro aos raios de luz. Nesse momento, ela começou a brilhar belamente. Mas seu brilho era estranho, pois sua tonalidade variava. Os jovens viram maravilhados o brilho da pedra primeiro em azul celeste, depois em violeta, vermelho, um tom esverdeado e finalmente pareceu se estabilizar em dourado, tal como o sol. Esta última cor, porém, ofuscou seus olhos, de modo que Rairom instintivamente largou a pedra. Assim que tocou o chão, ela parou de brilhar. Tairom não tardou a colhê-la. Estava intacta. — Na minha opinião, isso não parece diamante — completou o rapaz. Os outros dois concordaram imediatamente.

"Mais um fato estranho, já estou perdendo a conta", pensou Rairom. Perguntou, então, para os outros dois se estavam cansados. Estes responderam negativamente. Já tinham tido tempo para descansar, de modo que decidiram continuar. Passaram pela abertura, escalando o amontoado de pedras sem muita dificuldade. Penetraram, em seguida, na câmara de onde vinha a luz solar. Rairom percebeu que ela era idêntica à visão que tivera. No teto irregular, vislumbrava-se uma abertura por onde entravam os raios do sol. Havia estalactites, e no chão de pedra abundavam estalagmites de formas e tamanhos bastante variados. Contrastava, essa câmara, com as outras da Mina do Forte, pois parecia mais com uma caverna natural. Os olhos do rapaz demoraram um pouco para se acostumar com a luminosidade. Pingos d'água passavam pela abertura. Devia estar chovendo levemente do lado de fora. Além disso, estava um pouco frio também. Rairom fez menção de se dirigir para uma das saídas quando foi interrompido pelo irmão.

— Espere, Rairom. Já andei verificando essas passagens. Elas dão para câmaras pequenas. Foi numa delas que achei a pedra que lhe mostrei. Só há outros dois túneis. Um está ao lado de onde nós saímos — falou o menino, apontando para uma passagem parcialmente bloqueada pelo mesmo desabamento. — E o outro é aquele lá — disse apontando para outra passagem do lado oposto ao que estavam. Era bem maior que as outras duas.

— Parabéns, Tairom. Vejo que aproveitou o tempo.

— Obrigado — falou o menino, esboçando um sorriso. Não estava acostumado a ser elogiado por Rairom.

— Eu acho que podemos eliminar esse túnel ali — falou o rapaz apontando para a primeira das passagens mencionadas pelo irmão. — Ele é muito semelhante àquele por onde viemos — constatou o rapaz, observando o caminho que descia rumo às trevas.

— Tem razão, eu pensei a mesma coisa.

— Isso só nos deixa com uma opção.

— É verdade. Mas tem mais um detalhe. Esse túnel é cheio de trilhos, como os usados pelos carros que transportam minérios.

— E daí? — indagou o rapaz.

— E que eles são maiores que o normal. E não é só. Eu achei alguns vagões verdadeiramente gigantes. Venham ver! — falou o menino. Parecia agora estar mais animado ao se lembrar dos vagões. Foi em direção a um dos cantos da câmara. Lá estavam eles. Não eram visíveis antes por causa de um declive. Estavam mais abaixo. Havia três deles. Aos olhos dos jovens, eram verdadeiramente impressionantes. Não se pareciam com os veículos destinados a transportar minérios. Assemelhavam-se mais a carruagens, só que uma ligada à outra.

— Venham ver por dentro! — falou o menino. Depois da infeliz tragédia que se abatera sobre a vida do escolhido, agora, para a minha satisfação, tudo passara a correr de acordo com o programado. Finalmente, sentia-me de novo no controle dos acontecimentos. A situação naquele momento podia ser comparada à do rato indo em direção à ratoeira. É claro que nossos amigos eram os ratos e os vagões, a ratoeira. Conhecendo Rairom como conhecia, sabia que ele iria se interessar instantaneamente por esse engenho dos antigos. Os três, de fato, se aproximaram de um dos vagões. Tairom, inclusive, não tardou a adentrá-lo. Assentou-se numa das cadeiras. — Venha, Lisian — completou ele. — Há cadeiras bem confortáveis aqui dentro.

A garota obedeceu alegremente. Só faltava Rairom. Ele fez menção de entrar, mas então hesitou! Os outros dois, en-tretidos com a novidade, não lhe deram muita atenção. Por isso, ele os chamou:

— Ei, vocês dois, vocês não estão cansados, estão? Vamos continuar. Temos de achar a saída — falou ele. Os outros dois fizeram menção de se levantar. Estavam de acordo com o rapaz e iriam sair do vagão! Eu tinha de pensar rápido. O que havia de errado com a minha ratoeira? Por que o rato maior, quer dizer, Rairom, se recusara a entrar no vagão? Naquele momento (posso pensar bem rápido quando quero) descobrir a resposta. O que estava faltando era o queijo, quer dizer, a isca. Eu pensava que o próprio vagão poderia ser a isca, mas isso não tinha funcionado. Talvez em circunstâncias normais as coisas fossem diferentes, mas naquele dia Rairom já se deparara com muitos fatos estranhos para se impressionar com aqueles velhos vagões. Eu precisava de uma isca melhor. Uma ilusão! Sim, uma ilusão. O que podia ser? Qualquer coisa serviria, desde que fosse dentro do vagão. O anel de Rairom. Ele o havia perdido na caverna e nem reparara nisso até aquele momento. "Mas vai reparar, e vai ser agora", pensei. Quando os outros dois jovens estavam ainda se levantando, criei uma ilusão na mente do rapaz e ele viu flutuando dentro do vagão o anel que seu pai lhe dera. Olhou instintivamente para a sua mão direita. Ele não estava lá! Quase que por reflexo, tentou recuperá-lo e, para tanto, entrou no trem. Peguei! As portas se fecharam atrás do rapaz e a ilusão se desfez.

Ufa! Essa tinha sido por pouco. Agora estavam os três ali, sobressaltados, quando perceberam que a porta se fechara, mas inexoravelmente presos. Aquele maravilhoso meio de transporte dos antigos estava sob meu controle. E eu não o reformara justamente para isso? Era inútil forçar as portas ou tentar quebrá-las. Não conseguiriam grandes resultados, não com os materiais que usei na reforma. Nem mesmo os antigos teriam feito melhor. Além disso, as janelas de material transparente tinham apenas pequenas aberturas por onde o ar podia entrar, mas nenhuma pessoa conseguiria por elas sair. Não tinham nada a fazer, a não ser esperar. Foi o que perceberam após algum esforço inútil.

O pôr-do-sol se aproximava. Decidi que era um bom horário para se viajar. O trem começou a se mover devagar graças à força de minha mente. Mergulhou no túnel escuro, enquanto aumentava a sua velocidade. Tudo estava indo muito bem.

 

                             A cidade antiga

O universo, os homens e os deuses. O universo é uma sinfonia, é uma dança entre duas ordens de coisas. Ambas as ordens têm sua própria natureza e se definem mutuamente pela oposição antitética que uma nutre em relação à outra. Chamá-las simplesmente de bem e de mal é uma simplificação que não faz jus à complexidade do cenário. Também chamá-las de caos e de ordem não explica sua natureza. Mas a verdade é que nenhum de nós é capaz de fazê-lo, nem com um milhão de palavras. No entanto, no nosso íntimo, temos a noção clara desse estado de coisas, que pode ser nomeado como a antítese cósmica. Tudo que existe é fruto da interação entre os pólos antitéticos: o espaço, o tempo, a matéria, os seres vivos. O homem não é exceção. Especialmente a consciência humana reflete essa interação conflituosa de maneira lapidar. O homem não é bom nem mau, é antes as duas coisas ao mesmo tempo. Cada um dos pólos, porém, tende naturalmente à busca da pureza. A interação nada mais é do que o resultado dessa busca, ainda incompleta. No nosso universo, como o conhecemos, que se define pela mistura, a pureza é rara. Entretanto, paralelamente a ele, os polos criam uma estrutura de espaço e de tempo puras onde a matéria e a consciência não estão sujeitas à interação com o pólo oposto. As consciências puras, as quais podem se manifestar no nosso universo, são os mais poderosos agentes de ambos os contenderes. Vulgarmente são denominadas de divindades, (trecho retirado do "Livro da Natureza", de Sironiel Garaqui)10

Dúvidas. Nada mais do que numerosas dúvidas ocupavam a mente de Lisian, enquanto andava pelo seu cativeiro ambulante. Acordara meia hora antes por causa da luz do sol. Isto mesmo: o trem havia deixado seu percurso subterrâneo e cruzava a superfície. Não dormira bem durante a noite. Tivera sonhos agitados, com Zainog e seu avô se confrontando. A simples lembrança dessa possibilidade ainda lhe causava uma dor no peito, pois temia que fosse verdade o que Rairom dissera. Ao contrário da garota, os outros dois pareciam estar tendo sonhos acalentadores, pois seu sono era profundo, e suas expressões, suaves. Lisian fitava o rosto dos jovens adormecidos nos confortáveis bancos do veículo. Tairom ainda tinha as feições infantis. Era belo com seus cabelos cor de fogo e sardas espalhadas pelas bochechas róseas. Rairom, porém, já era quase um homem. Sua barba por fazer, acentuava esta característica. Lisian se deu conta pela primeira vez do quanto os dois eram diferentes. O rapaz era moreno e seu cabelo castanho combinava com a cor de seus olhos.

Era uma região erma e desabitada, a que estavam cruzando. Montanhas e mais montanhas os cercavam de ambos os lados. Tal era sua disposição, que pareciam perfilar-se para recebê-los. Eram de grande porte. Algumas tinham o pico nevado e pontiagudo, enquanto outras, também cobertas de neve, eram vulcões. Dentre essas últimas, havia aquelas cujo pico despejava no céu uma fumaça negra. Apesar da desolação, seria uma bela paisagem em outras circunstâncias. Não havia árvores. Apenas gramíneas circundavam os colossos que eram aquelas montanhas rochosas. Lisian constatou que o cenário era semelhante ao de sua própria terra. Voltaria a ver seus pais, seu irmão? O que seria dela agora? Sempre se indagara qual seria o seu futuro. Sempre tivera dúvidas. Mas nunca sentira um vazio tão grande quanto naquele momento, uma completa ausência de certezas e mesmo de probabilidades. Seu futuro estava coberto por uma névoa sombria e espessa, em função da qual mesmo o dia seguinte era um grande mistério. Lisian não entendia como os dois irmãos conseguiam dormir de forma aparentemente tão tranqüila numa situação como aquela, enquanto ela fora, durante toda a noite, atormentada por terríveis pesadelos. Tairom até se podia entender, afinal era ainda uma criança. Por isso, mostrava-se incapaz de compreender totalmente a gravidade dos eventos e era até melhor que não compreendesse mesmo. Mas Rairom, ele não! A garota interpretava tanta tranqüilidade como alguma espécie de burrice. Resolveu acordá-lo.

— Rairom, acorde! — disse ela, em tom moderado para não despertar Tairom.

— O quê? — falou ele, virando-se para o outro lado e voltando a dormir.

— Acorde! — falou novamente. Sem resposta dessa vez, a garota começou a dar pequenos socos no ombro do rapaz, cuja intensidade ia gradativamente aumentando. Conseguiu, com um grande esforço, que ele abrisse um dos olhos.

— O que você quer? — indagou Rairom sem grande interesse.

— Já disse para você acordar.

— Aconteceu alguma coisa?

— Nada de novo, mas...

— Então me deixe dormir — retrucou ele, fechando os olhos. Poucos momentos depois estava roncando. Isso já era demais! Lisian pegou a bolsa com água. Verificou que ainda estava quase cheia. Bebeu um gole, percebendo que a água estava gelada. Perfeito! Aproximou-a da face do rapaz, que continuava a roncar. Despejou, então, parte do seu conteúdo, mirando diretamente no nariz. Um Rairom sobressaltado sentou-se todo molhado, para a satisfação de Lisian, que gargalhava alegremente.

— O que você fez, sua, sua... — falou o rapaz indignado, enquanto se enxugava com a camisa.

— Eu mandei você acordar, você não obedeceu. Não tive outra saída — justificou ela.

— Não teve outra saída? — exclamou o rapaz. — Você não tem jeito mesmo. É a mesma garotínha mimada de sempre! Eu percebi desde o primeiro momento em que pus os olhos em você.

— Mimada, eu?

— E eu é que tenho de agüentar tanta petulância! Como se não bastassem todos os meus problemas, tenho de ficar ouvindo suas reclamações irritantes, seus comentários inso-lentes... — trovejou o rapaz. Acordá-lo daquela forma o deixara irracionalmente irritado.

— Pois no que me concerne — retrucou ela, em tom frio e formal —, você pode ser poupado desse incômodo. Desde que não se dirija mais a mim, eu não falarei com você. Que tal?

— Para mim está ótimo — falou o rapaz em tom resoluto. Levantou-se e se dirigiu para o outro lado do vagão, o mais distante possível da garota.

— Para mim também — assentiu Lisian, enquanto o rapaz se afastava. Não deixaria que ele tivesse a última palavra.

— Eu não acredito que vocês já estão brigando — reprovou Tairom, enquanto se espreguiçava. Ele acordara em razão da discussão.

— Desculpe-me, Tairom. Nós acordamos você, não foi? — disse Lisian.

— Não tem problema... Nós saímos do túnel. Estamos na superfície — constatou, o menino.

— É verdade. Quando acordei já havíamos saído.

— Tem idéia de que horas são?

— Não. O dia está nublado. Não dá para ver o sol — respondeu Lisian. — Quer comer alguma coisa?

— Não, obrigado.

— Você tem de se alimentar, Tairom.

— Você me lembra minha mãe falando desse jeito — observou Tairom, sentindo uma súbita melancolia. Lisian percebeu a tristeza do menino e isto lhe cortou o coração. Tinha de desviar os pensamentos dele dessas lembranças tristes.

— Você também me lembra alguém: meu irmão. Mas ele é um pouquinho mais velho do que você. Fez treze anos há alguns meses.

— É mesmo? — falou o menino. Parecia interessado.

— O nome dele é Laiossarionin, como meu pai.

— Que nome complicado!

— É verdade. Significa "cavaleiro do vento" em silai. Para simplificar, a gente o chama de Laios. Vocês dois são muito parecidos, só que ele tem cabelos escuros e olhos azuis, como eu. Tenho certeza de que se vocês se conhecessem seriam grandes amigos.

— Gostaria de conhecê-lo um dia.

— Você pode ir nos visitar na Terra do Vento. Eu lhe mostrarei todos os lugares magníficos que temos por lá. Tenho certeza de que vai gostar — falou a garota, tentando passar uma convicção que não possuía. Na verdade, indagava-se se ela própria voltaria um dia a ver sua terra.

— Eu acho que vou aceitar um pouco de pão — reconsiderou Tairom.

— Você faz muito bem. Eu já comi um pouco. Estava meio duro, mas não estava ruim.

— O pão e tudo mais que se faz com quiarram tende a durar bastante.

— É verdade — concordou a garota, entregando-lhe uma fatia.

— Não fique brava com Rairom — cochichou o menino. Olhou para o rapaz do outro lado do vagão e viu que ele estava dormindo. Sentiu-se livre para aumentar o tom de voz. — Ele não é má pessoa. É apenas um pouco explosivo.

— Tairom, você não precisa defendê-lo. Aliás, seu irmão não precisa de ninguém. Pelo menos é o que ele acha.

— Não acho que você esteja sendo justa — falou o menino, mordiscando sem vontade a fatia recebida.

— Você é muito bom, Tairom, por isso é que não vê os defeitos do seu irmão. Mas eu já os percebi claramente. Rairom é egoísta. Só pensa nos seus próprios problemas e acha que todos que estão a sua volta vivem para servi-lo — concluiu ela com um ar professoral. O garoto, porém, abriu um estranho sorriso, que surpreendeu Lisian.

— Falei alguma coisa engraçada? — indagou ela.

— Não, não é nada.

— Fale, Tairom.

— Não sei se Rairom gostaria que eu contasse — argumentou o menino. Lisian, entretanto, pareceu ficar mais interessada.

— Diga. Ele não vai ficar sabendo que você me contou, seja lá o que for. Eu juro — afirmou ela. O garoto parecia em dúvida. — Vamos lá, Tairom. Por que é que você achou graça quando eu estava falando dos defeitos do seu irmão?

— Está bem, então. Você disse que ele era egoísta. Ele geralmente é mesmo, mas com você ele não foi...

— Como assim?

— Ontem eu lhe contei o que aconteceu, mas omiti alguns detalhes. Não contei como você foi salva do incêndio da nossa casa.

— Você nem falou em incêndio.

— Não falei? Mas houve, um dos grandes. Rairom foi quem salvou você, arriscando a própria vida.

— Tairom, eu acho que você deve estar exagerando...

— Não estou. Ele quase morreu asfixiado! — retrucou o menino, indignado por Lisian ter duvidado de sua palavra. — E depois, no Forte de Pedra...

— Tairom, eu sei que você quer defender seu irmão, mas não é certo inventar essas coisas — interrompeu ela.

— Está bem então, acredite no que quiser! — falou o menino, irritado não tanto pela opinião de Lisian sobre o seu irmão mas, sim, por ela não dar o devido crédito ao seu testemunho. Mas Lisian não havia duvidado completamente. Na verdade, parte dela tinha acreditado, embora a outra parte não quisesse fazê-lo. Ela se lembrava de como o rapaz tentara defendê-la numa noite de trevas perdida em sua memória. Teria mesmo Rairom salvado sua vida? Essa dúvida começava a incomodá-la quando um solavanco chamou a sua atenção. O trem começava a parar.

Com a mudança brusca de velocidade, Rairom caiu do assento em que estava deitado. Novamente acordou sobressaltado, só que dessa vez com o rosto sujo de poeira. Levantou-se pronto para responsabilizar alguém por ter caído, mas os outros dois estavam muito longe para terem feito qualquer coisa. Percebeu que o veículo desacelerara e que isso causara a sua queda. Olhou pela janela e a visão que teve o deixou intrigado. Era uma vila em ruínas, abandonada. Entretanto, chamar aquilo de ruínas era ser demasiadamente gentil. Na verdade havia poucas paredes de pé. Mal se podia perceber que aquele monte de escombros fora um dia uma cidade.

O veículo continuava desacelerando. Ele iria eventualmente parar! Rairom dirigiu-se para a frente, chamando os outros. Explicou em poucas palavras que talvez a porta se abrisse quando os vagões parassem, mas não tinham como ter certeza se permaneceria aberta por muito tempo. Portanto, deveriam ficar perto dela. Tairom concordou. Lisian fez uma cara feia, mas obedeceu. Pegaram o mais rápido que puderam as bolsas de couro, com o que restava de suas provisões, e foram em direção à porta. Rairom, porém, indagava-se sobre o que fariam se conseguissem sair, pois estariam perdidos em algum confim esquecido, com pouquíssima água e comida. Mas algo lhe dizia que havia uma razão para tantos fatos estranhos. Sim, deveria haver um motivo. Não poderia ser o mero acaso, ou poderia? Eis a indagação que o rapaz se fazia quando o trem finalmente parou e a porta se abriu.

Naquela desolação, a última coisa que os jovens esperavam ver era o que eles de fato estavam observando. A sua frente estava um jovem que aparentava pouco mais de vinte anos. Era mais baixo que Rairom e tinha um estranho sorriso nos lábios. De pele morena, era um típico membro do povo do norte. Usava uma túnica negra e uma capa escarlate, que o protegia do vento frio que soprava. Suas vestimentas eram muito bem-acabadas, denotando a alta estirpe à qual aquela figura deveria pertencer. Os três ficaram observando-o imóveis, tentando imaginar suas intenções e os motivos para sua presença ali (onde quer que "ali" fosse). Então, o jovem quebrou o silêncio.

— Vocês vão descer do veículo ou não? — indagou. Os três assentiram, apesar da insegurança que aquela figura lhes causava. O que mais temiam é que a porta se fechasse e voltassem a ser prisioneiros daquele maldito engenho.

— Quem são vocês? — indagou, o estranho.

— Antes nos diga quem é você — retrucou Rairom.

O estranho agora teria de mentir. Sim, porque o estranho era eu! Eu pretendia conduzir o desenrolar dos acontecimentos pessoalmente, mas sem revelar minha identidade ou meu intento. A verdade, portanto, deveria ser ocultada. É claro que a mentira é um ato imoral. Ao mesmo tempo que é condenada, porém, é bastante praticada pelos mortais. Não é raro ver humanos que faltam com a verdade, mesmo quando não existe motivo para isso. No entanto, deve-se admitir que ela é um instrumento bastante útil e mesmo necessário em certas situações, e esta era uma delas. Pois bem, mas se se pretende utilizar de mentiras, então que se faça isso direito. Em primeiro lugar uma boa mentira deve ser verossímil. Para tanto, nada melhor do que recheá-la com meias-verdades que os interlocutores conheçam ou desconfiem. Em segundo lugar, uma mentira não deve ser superficial. Ela deve contar com detalhes, que podem ser verdadeiros ou não, mas que devem fazer sentido. Finalmente, a regra capital (muito desrespeitada), sem a qual as outras duas se tornam sem efeito: todas as assertivas de uma mentira devem se encaixar. A menor contradição entre elas (ou entre elas e algo que o interlocutor conheça) põe tudo a perder. Dentro do possível, deve-se respeitar essas regras, como eu fiz.

— Meu nome é Raicar Arialast — inventei. — Não tenho que dizer nada além disso. Agora eu ordeno que se identifiquem, em nome do senhor da Terra da Água.

— Você fala em nome da Terra da Água? — indagou Lisian, bastante aliviada. Tairom também parecia mais animado, mas, para minha surpresa, Rairom continuava receoso. Eu esperava conquistar a confiança dos jovens com a simples menção daquele lugar, cuja segurança tão desesperada-mente buscavam.

— Não tenho por que negar isso. Agora se identifiquem! — insisti.

— Meu nome é... — ia dizendo a garota quando o rapaz a dissuadiu com um gesto.

— Como vamos saber se você é mesmo um vassalo de Quiarom Zangalast? — indagou, o rapaz. Parecia bastante desconfiado. Eu realmente não tinha nenhuma prova à mão. Um possível impasse se formava. Felizmente, porém, a garota resolveu o dilema.

— Não dê atenção a ele — disse Lisian. — Ele é muito desconfiado. Já percebi o símbolo amarelo no tecido negro e a cor azul-marinho da pedra do anel — completou. O pequeno símbolo que estava desenhado em meu traje era um caracter alguiano bastante antigo, que nada tinha a ver com os filhos da água. Possivelmente, devia ser semelhante a alguma inscrição que a garota vira no palácio de Quiarom durante sua estada lá, não sei. A cor da pedra do anel não era azul-mari-nho. Era um verde mais ou menos azulado. Decerto, Lisian estava vendo o que queria ver, ou seja, um salvador, uma ponte de escape daquela situação difícil. Tanto melhor, usaria aquela ansiedade a meu favor.

— Ótimo. Vejo que conhece alguns dos símbolos do meu senhor. É raro encontrar sabedoria e discernimento em pessoa ainda tão jovem.

— Muito lisonjeiro da sua parte, senhor — falou a menina, ignorando os sinais do rapaz para que se calasse. — Meu nome é Lisian Linriliarod Zan-galionast Silai, filha de Laiossarionin, neta de Diom, senhor da Terra do Vento e servo do Império — recitou ela. Fiz um grande esforço para parecer impressionado.

— Mas o que uma pessoa de tão alta estirpe faz perdida nesse lugar ermo? Deixe-me oferecer meus humildes préstimos — completei, entregando-lhe um dos casacos que trouxera comigo. Ela o vestiu satisfeita, pois o vento estava mesmo frio.

— É uma longa e terrível história, que não conheço completamente, meu caro Raicar — completou ela.

— Poderia começar, minha senhora, me inteirando dos nomes de seus acompanhantes.

— Meu nome é Tairom Norgat Guenor, filho de Zairom. Esse é meu irmão Rairom — antecipou-se o menino. Tairom sabia que tinha outros sobrenomes além dos dois que mencionara, mas resolveu utilizar apenas os principais.

— Zairom Guenor? O senhor dos filhos do fogo? Vejo que estou acompanhado da mais fina nobreza da Terra das Sombras. Quanta honra! — exclamei, rindo por dentro das palavras que dizia. Há muito não me divertia tanto. — Deixem-me conduzi-los a meus humildes alojamentos.

— Que lugar é esse? — indagou o rapaz, num tom hostil.

— Explicarei tudo quando chegarmos ao alojamento. Responderei todas as suas dúvidas durante o almoço e vocês poderão esclarecer as minhas — respondi, entregando-lhes alguns casacos para que se protegessem do frio. A palavra almoço parecia agradar aos jovens, mesmo ao ainda desconfiado Rairom.

Dirigimo-nos, então, através das desoladas ruínas, ou-trora gloriosa fortaleza a serviço da Causa, com destino ao prédio central. Aquele lugar trazia-me lembranças amargas. Fazia renascer um antigo ódio, que parecia mais vivo do que nunca, quase me consumindo por dentro. Este era um dos poucos lugares que me despertavam sentimentos tão negativos. Horas cósmicas haviam se passado e mesmo assim aquelas impressões desagradáveis persistiam. Não que tenhamos sido derrotados! Muito pelo contrário: nós vencemos. Uma vitória da mais alta importância, diga-se de passagem. O problema é que o preço pago foi alto demais. Tentei desviar minha mente dessas lembranças tristes. O passado não poderia ser mudado. Devia concentrar-me no presente. Sim, o presente. Lá estava ele, com toda a sua vivacidade se desdobrando a minha frente, muito diferente da palidez que recobria essas lembranças antigas. O traçado da rua central ainda era perceptível e por ele nós seguimos. Lisian ia me inteirando dos acontecimentos, os quais para mim eram mais que familiares.

Respondia apenas com a cabeça, pois sequer estava ouvindo o que ela dizia. No entanto, ela pareceu satisfeita com o meu olhar de pesar causado pelas lembranças antigas, mas que ela interpretou como sendo decorrente da história que narrara.

Não tardamos a chegar à construção que eu havia reformado parcialmente. Ficava à beira de um grande lago de águas escuras e turvas, nas quais o vento frio batia formando pequenas ondas. O prédio que escolhi era uma antiga edificação utilizada originalmente como centro administrativo, mas que agora eu adaptara para uso residencial, pois possuía cômodos espaçosos, que poderiam servir como quartos. Além disso, era o edifício mais bem conservado que encontrei. Minha reforma foi apenas superficial. Não reparei nenhum dos equipamentos dos antigos que deixavam a vida tão confortável. Na verdade, pensei em fazê-lo, mas seria um esforço grande e inútil. Eu não precisava deles. No entanto, trouxe mobília e tapeçaria do continente, o que deixou o local, modéstia à parte, bastante agradável.

— Entrem, meus ilustres jovens — disse a eles. Os três obedeceram. Rairom ainda tinha o ar desconfiado. Tentei buscar os motivos em sua mente, mas não encontrei coisa alguma que pudesse justificar tamanho receio. É certo que tinha razões para tanto, afinal não sabia sequer onde estava. Como eu já disse em outra oportunidade, nada melhor do que o desconhecido para deixar os homens receosos. No entanto, havia algo mais. Eu podia sentir. Será que o Poder dava a seu escolhido uma percepção mais apurada capaz de apreender a minha verdadeira natureza? Pode ser. Nunca soube ao certo. — Entrem. Mandarei servir o almoço em breve — completei, apontando para a mesa. A sala de jantar ficava próximo à porta por onde entramos.

— Você ainda não nos disse quem é e que lugar é este — afirmou o rapaz.

— Apenas acomodem-se — insisti. — Eu volto em um instante e responderei todas as suas dúvidas — reafirmei.

Deixei os jovens na sala e fui em direção à cozinha. Lá estava Sirat, a mesma Sirat que doze anos antes cuidara de Tairom. Não achei uma boa idéia trazê-la, pois Rairom poderia reconhecê-la. Era um risco pequeno se tomadas as devidas precauções, mas eu queria eliminar os riscos e não aumentá-los. Entretanto, Jonorat, o líder da recém-recriada Irmandade, condicionara a entrega dos suprimentos e materiais de que eu precisava a que trouxesse Sirat comigo. Ele me explicou que a moça era sua protegida e que ela fazia questão de vir para rever Rairom e Tairom. Que tempos estranhos eram esses, em que os membros da Irmandade estavam impondo condições a mim! Quem diria! Se eu contasse ao sábio Arcon, que tanto criticou meus seguidores por seu fanatismo, ele não acreditaria. Já que teria de trazê-la mesmo, trouxe também outras duas assistentes, as quais, no final das contas, foram de grande valia, pois arrumaram a mobília e limparam a construção depois de reformada. As três estavam terminando de preparar a comida quando eu entrei.

— Sirat, quando foi mesmo que você deixou a Terra das Sombras? — perguntei.

— Bem, Rairom era muito pequeno ainda. Tenho certeza de que não vai se lembrar de mim.

— Seja mais específica.

— Acho que ele tinha uns seis anos — mentiu ela.

— Sirat, você sabe quem eu sou, não sabe? — falei com toda a paciência.

— Sei sim, senhor! — respondeu ela.

— Então por que está mentindo para mim? Você sabe que eu posso ver na sua mente que na data de sua saída Rairom tinha dez anos.

— Se já sabia a resposta, por que perguntou? — desafiou ela. O seu tom me fez rir. Eram mesmo tempos estranhos. Preferi ignorar o comentário.

— Você sabe também que Rairom a reconhecerá, pois conhece a inteligência do rapaz.

— Ah! Isso ele é mesmo. Tanto ele quanto Tairom eram meninos muito inteligentes. Eles eram boas crianças. Sinto saudades deles.

— Por quê? Você já os viu muito nesses últimos dias.

— Mas eles estavam dormindo. Não é a mesma coisa.

— Sirat, você sabe que a situação é delicada e requer precauções adequadas. Eles não podem vê-la, por enquanto.

— Eu sei.

— Pois bem, providenciarei para que possa rever Rairom no tempo certo. Confie em mim.

— Eu confio, senhor!

— Sei que sim. Foi por isso que concordei em trazê-la. Sirvam o almoço quando estiverem prontas.

— Já estamos — disse uma das assistentes.

— E quanto a você, Sirat, não saia desta cozinha.

Ela assentiu com a cabeça. Sem mais delongas, retornei à sala. Os jovens já haviam se sentado. Os três, naturalmente, estavam curiosos e apreensivos, Rairom mais do que os outros dois. Era hora de tranqüilizá-los. Sentava-me na cadeira a mim reservada, próximo à cabeceira da mesa, quando as assistentes começaram a servir o almoço. Havia bastante comida. Pato assado, arroz, pão de trigo, pão de quiarram, leite, manteiga e saladas verdes eram os elementos que formavam esse verdadeiro banquete servido aos jovens. Eu dera ordens para que uma refeição de qualidade fosse preparada, pois sabia pelo que tinham passado nos últimos tempos. Assim, por meio da comida e do teto seguro, visava proporcionar-lhes alguns momentos de conforto. Entretanto, Sirat cumpriu minhas ordens bem demais, fazendo aquela refeição constituir-se num verdadeiro desperdício de comida.

— Sirvam-se à vontade! — falei entusiasticamente. E eles de fato se serviram, menos Rairom, que parecia muito apreensivo. — Vejo que continua muito desconfiado, Rairom. Não deixe que isso estrague seu apetite.

— Raicar, você disse que esclareceria nossas dúvidas — retrucou o rapaz, só agora começando a se servir.

— Faça as perguntas.

— Que lugar é esse?

— Esta é a região das Fai-Lan, conhecida no sul como Tai-Fanor. Como eu já disse, estou nessas terras inóspitas a serviço de Quiarom Zangalast, senhor da Terra da Água. Eu pertenço a uma expedição que há três anos investiga estas ruínas.

— Investiga? — indagou Lisian.

— Eu vou explicar. Há cinco anos descobriu-se nos subterrâneos da Cidade do Portal a entrada para um complexo de cavernas. Não sabíamos ao certo se elas tinham sido construídas ou se eram naturais. Para o meu senhor, não pareceu ser algo relevante, mas não foi o que pensaram os saqueadores, que logo cogitaram a possibilidade de que fosse uma tumba de algum rei esquecido, cheia de tesouros. Pois bem, tais indivíduos começaram a vasculhar metodicamente o complexo, até que um deles encontrou alguns desses vagões e também outras coisas que considerou quinquilharias. Entretanto, conhecendo o interesse de mestre Quiarom por coisas antigas, esse saqueador levou alguns de seus achados até ele. Isso foi há quatro anos — inventei.

— Você não vai comer? — indagou Rairom.

— Não, meu caro, eu já almocei.

— Não vai beber nem um copo d'água? Não está com sede depois da caminhada que fizemos? — insistiu o rapaz.

— Não. Não estou com sede. Como eu ia dizendo, um dos achados que este saqueador levou ao mestre foi uma espécie de papel, mais ou menos conservado. Este papel deixou mestre Quiarom intrigado, pois tinha símbolos que ele já vira antes, embora não soubesse exatamente onde, alguma língua do continente talvez.

— Alguiano? — indagou Tairom.

— Exatamente. Como sabia?

— E que nós encontramos alguns escritos em alguiano também.

— Ah, entendo. Mestre Quiarom demorou algum tempo, mas acabou descobrindo que a língua era o alguiano. Com isso, conseguiram ler o conteúdo, que era bastante interessante. Sugeria a existência de muitas maravilhas, como carros que andavam sem cavalos ou aparelhos que voavam como pássaros. Mais do que isso: o texto falava de uma grande decadência na qual essas maravilhas foram perdidas, o que coincide com a nossa própria tradição desde Liurom. Mestre Quiarom ficou intrigado e fez com que o saqueador que havia trazido os escritos o levasse até onde os tinha achado. Lá havia outros documentos interessantes, mas que não adicionavam grande coisa ao primeiro. Um deles, porém, era bastante intrigante: era um mapa da nossa ilha, com a localização detalhada de uma cidade na região das Fai-Lan.

— Então mestre Quiarom resolveu investigar e mandou você aqui — concluiu Lisian, completamente convencida da veracidade de minhas explicações.

— Isso mesmo. Não só eu, é claro. Faço parte de uma expedição de trinta pessoas.

— E onde estão todos? — indagou Rairom.

— Foram até um sítio, onde desenvolvemos algumas pesquisas. Fica a três dias de viagem daqui. Devem estar de volta em um ou dois sextos. Eu fiquei porque tinha tarefas a serem terminadas aqui.

— Que interessante! — ironizou Rairom. Eu não tinha conseguido convencê-lo. — Diga-me, Raicar, o que vocês descobriram nesses dois anos?

— Três anos, você quer dizer. Não muita coisa, infelizmente. Você viu o estado dessas ruínas? De fato, houve aqui uma cidade, mas não restou muito dela. Aprendemos algumas coisas, porém, como a operar os controles de vagões como aqueles em que vocês vieram. Provavelmente foi quando mexemos em um desses controles que o veículo em que vocês estavam começou a se movimentar — expliquei. Era uma mentira deslavada, mas, para eles, não tinha por que não parecer verossímil, afinal nada sabiam sobre o funcionamento dos antigos trens. — Uma infeliz coincidência, sem dúvida — completei.

— Diga-me, você fala alguiano? — indagou Rairom. A pergunta inesperada me surpreendeu. Deveria confirmar ou negar?

— Falo — optei. Na dúvida, uma verdade ou meia-ver-dade é sempre um solo mais seguro a se pisar.

Talvez nós tivemos sorte. Aceite isso — recomendou Tairom, no momento em que uma das serventes trazia a sobremesa. Eram morangos com um creme lácteo, a sobremesa preferida de Rairom.

— Agora me explique isso, Tairom. Como eles sabiam que esta era minha sobremesa preferida? — indagou o rapaz, assim que a servente se retirou.

— É uma coincidência, Rairom — respondeu o menino, já impaciente.

O rapaz se deu por vencido. Não conseguiria convencer os outros dois sem uma evidência mais concreta. Torcia para que não a conseguisse tarde demais. Ele não sabia quais eram as minhas intenções, mas acreditava que não poderiam ser boas. Não me ofendi com tanta desconfiança, pois estava ciente de que o escolhido deveria mesmo ser cauteloso. Ele estava condenado a não poder confiar nas pessoas, ao menos até que cumprisse o seu destino. A traição espreita o alorain, pois os poderes que se opõe à Causa são tão invisíveis quanto fortes. Traiçoeiras são as forças rivais e só uma mente que duvida e se questiona constantemente poderá suplantá-las. Digo isso por experiência própria. Era um consolo ver que Rairom tinha essa essencial qualidade.

Terminada a refeição, as duas assistentes conduziram os jovens até os três quartos que ficavam no segundo piso. Os aposentos estavam adequadamente mobilados, com camas bastante acolhedoras. Eram amplos e as janelas permitiam uma bela vista do lago e das montanhas nevadas atrás dele. Depois de passadas uma ou duas horas do almoço, as assistentes prepararam-lhes banhos quentes e reconfortantes. Eles, então, repousaram durante o resto da tarde. Um repouso merecido, diga-se de passagem, depois de tantas atribulações.

Rairom, porém, ao contrário dos outros dois, não conseguiu dormir. Relembrava os acontecimentos passados, ao mesmo tempo em que buscava a melhor forma de lidar com os fatos presentes (leia-se: a melhor forma de me desmascarar). O final da tarde já se aproximava quando ele, de súbito, percebeu a resposta. Era tão óbvio. Os morangos!

Levantou-se. Saiu do quarto e desceu as escadas, pronto para conseguir a evidência que tanto desejava. A sua resposta deveria estar na cozinha. Entrou, mas ela estava vazia. Não desistiria tão facilmente. Procurou a entrada para algo como a área dos empregados da sua casa. Viu uma porta. Ia em direção a ela quando se deparou com uma das assistentes.

— O que o senhor quer aqui? — indagou ela em alguiano.

— Quero agradecer pela magnífica refeição à cozinheira — disse ele, na mesma língua.

— Não. O senhor não pode! — afirmou ela. Tola! Com isso aguçou a curiosidade do rapaz.

— Não posso? E por que não?

— Ela está cansada. Veja. Aporta do quarto está fechada. Ela não gosta que a incomodem — completou a moça, apontando para o quarto onde estava Sirat.

— Não vou me demorar — respondeu o rapaz, forçando a passagem. Antes que a jovem assistente pudesse fazer qualquer coisa, Rairom já abria a porta do quarto. Tinha quase certeza de que lá dentro encontraria a resposta para suas perguntas e por isso nada o impediria de continuar. — Com licença — disse ele, quando já havia entrado. Uma mulher, que estava sentada de costas para a porta, olhando pela janela, assustou-se ao ouvir a voz do rapaz.

— Rairom! — disse ela, levantando-se sobressaltada — Você não deveria ter vindo aqui!

— Sirat? — falou o rapaz, reconhecendo-a de imediato.

— É você mesmo?

— Sou eu, Rairom. Mas você não deveria ter vindo aqui!

— E por que não? Sirat, o que você faz aqui? Quem é Raicar?

— Deixe que eu mesmo responda — disse. Eu estava próximo à porta. — Sirat, saia. Rairom e eu precisamos conversar

— completei.

— Está certo, senhor — concordou ela.

— Não, Sirat, fique — pediu o rapaz. Ele estava com um pouco de medo.

— Confie nele, Rairom — falou Sirat, enquanto deixava o recinto. Rairom fez menção de sair também, mas antes que pudesse fazê-lo, fechei e selei a porta com a força de meu pensamento.

— O que você quer de mim? — indagou o rapaz, bastante nervoso.

— Eu só quero ajudá-lo. Nada mais.

— Você quer me ajudar? Quem é você?

— Quantas dúvidas! Quer saber a verdade? Acha que está pronto para ela?

— Que verdade?

— É, eu acho que você está pronto. Não havia planejado desse jeito, você ainda é jovem. Também o momento não é dos mais propícios, afinal você acabou de perder o seu pai. Mas acho que ante as circunstâncias, ante ao que você descobriu e principalmente ao que você supõe e imagina, mantê-lo na ignorância seria mais danoso.

— Do que você está falando, Raicar?

— Jovem Rairom, o que quero dizer é que chegou a hora de você conhecer a verdade.

 

                                        Revelações

Minha vida tinha sido livre de atribulações até aquele dia, o dia em que eu me deparei com a pedra. Aquela inocente pedra com suas três inscrições, três símbolos incompreensíveis, mas ao mesmo tempo familiares. Por que eu me apropriei dela? Não sei. Algo dentro de mim me impeliu a fazê-lo. Coincidência ou não, naquela mesma noite eu tive o sonho, o sonho que me acompanharia pelos anos seguintes. Lá estava eu de frente para um abismo profundo, infinito. Na beira do abismo, um incontável número de pessoas se perfilava. Mas elas não o viam, andavam vagarosamente em sua direção e caíam. Eu tentei ajudá-las, gritava para que parassem, mas nada. Elas insistiam em continuar. Percebi que lá estavam todas as pessoas do mundo, inclusive as que não tinham nascido e as que já haviam morrido. O abismo era o destino da humanidade e Escuridão era o nome do abismo. De súbito, porém, uma luz forte brilhou no firmamento dissipando as trevas. Graças à luz, as pessoas passaram a ver o abismo e o evitaram. Eu olhei para a fonte luminosa e lá estavam eles: os três símbolos da pedra. Naquele instante, os seus múltiplos significados, dos mais grosseiros aos mais sublimes, dos mais simples aos mais complexos, foram-me revelados. Todos eles pareciam se fundir em uma única e singela palavra: Libertação. (Nodaron Zoltion —"A verdade dos Selos")

Mesmo já passado um tempo razoável desde que Sirat saíra, o rapaz ainda continuava nervoso. Estava menos preocupado em saber a verdade, do que em se evadir. Muito natural. Somente um tolo se disporia a lutar contra o que não entende, pois a compreensão (ao menos parcial) do adversário é um pressuposto lógico da vitória. Como que intuindo essa regra, Rairom procurou saber mais sobre seu suposto inimigo, eu.

— Raicar, como você fez para fechar a porta dessa maneira? — perguntou ele, enquanto tentava abri-la. — Você é um mago, não é?

— O que é ser um mago? É apenas mais um rótulo inútil. Se você quer saber se tenho poderes mentais, então eu lhe digo que sou um mago, mas nesse caso todos os homens também são magos, pois todos os possuem, ao menos em estado latente.

— Você está a serviço do Larcon? — indagou o rapaz ingenuamente.

— Não.

— Mas essa história que você nos contou não faz sentido!

— Pelo contrário, ela faz muito sentido. Eu a elaborei cuidadosamente. No entanto, de fato, ela não é verdadeira.

— Eu sabia! Então, você admite.

— Admito que menti, mas tive um bom motivo.

— E qual é?

— Decidi que era melhor ajudá-los sem revelar minha identidade.

— E qual é a sua identidade, Raicar?

— Bem, tenho muitos nomes. Já fui chamado de diferentes maneiras em diferentes lugares. Um deles, porém, você conhece. Os seus ancestrais de Algar me chamavam de Dinaer.

— Você disse o quê? Dinaer? Você não está se referindo ao Deus do Céu, ao Senhor das Estrelas, está?

— Estou. Eu sou aquele que os alguianos e algarianos chamam de o Deus do Céu.

— Desculpe-me, Raicar, mas a sua antiga história era mais plausível do que a nova!

— Não se engane com a minha aparência, rapaz! Ela é apenas uma forma, uma projeção da minha existência real. Rairom, você deve aprender a perceber o mundo além dos sentidos. Não deixe que sua visão o cegue — ensinei.

— Já ouvi o bastante. Eu não acredito em deuses. Deixe-me ir — afirmou Rairom, arrogantemente.

— Silêncio! — ordenei, impaciente. No mesmo instante os músculos de Rairom paralisaram-se.

— O que você fez? Não consigo me mexer. Solte-me!

— O ceticismo pode ser uma qualidade ou um defeito. Um ceticismo moderado e temperado pelo bom senso é uma preciosa qualidade. Quando, porém, a descrença é pressuposto e não hipótese, ela se torna tão ideológica e cega quanto as religiões.

— Raicar, você é um mago e está a serviço do Larcon. Admita! — afirmava o rapaz, que continuava incapaz de se mover.

— Não seja ridículo. Aprenda isso: há perigos neste mundo muito maiores que o estúpido Imperador Zairon. Vamos fazer o seguinte, se o seu racionalismo simplório explicar satisfatoriamente um simples enigma eu o deixarei ir.

— E qual é?

— Sente-se! — ordenei, e no mesmo instante o corpo do rapaz flutuou até uma cadeira e nela se sentou, ficando novamente paralisado. — Diga-me, Rairom, como você sobreviveu à queda do abismo sem um arranhão sequer? Aliás, depois da queda você ficou até melhor do que antes do acidente. Explique-me apenas isso e poderá ir.

— Como você sabe do abismo? Fale!

— De que adianta responder se você é incapaz de acreditar no que digo? Agora, eu é que faço as perguntas — sentenciei. O rapaz permaneceu calado. — Por que está em silêncio, Rairom? Onde está sua arrogância agora? Você não sabe a resposta? Então me esclareça outro problema. Como a sua amiga Lisian Silai está viva? Como ela se recuperou do veneno?

— Como você sabe do veneno?

— Responda! — ordenei. O rapaz ficou em silêncio. — Você não sabe, não é? Pois eu lhe digo: eu os salvei! Você ouviu? Isso mesmo: eu, Dinaer, salvei as vidas mortais de vocês três. Mesmo para mim não foi um trabalho simples. Em que dia você pensa que nós estamos? Não estamos mais no verão, se é o que pensa. O outono já chegou. Hoje é grasroel. Vocês ficaram quase dois meses inteiros sob meus cuidados em sono profundo, recuperando-se — asseverei. O rapaz não parecia ainda inteiramente convencido, mas suas convicções estavam abaladas. — Durante esse período, Rairom, eu lhe dei um presente. Quando recuperei seu corpo, abri sua mente para uma nova realidade que os homens de hoje são incapazes de perceber. Eles não conseguem se utilizar do olho da mente, que é muito mais poderoso do que qualquer outro sentido que a matéria possa proporcionar. Foi esse olho que eu abri para você. Por isso, você conseguiu ver através do desmoronamento. Por isso, você foi capaz de apreender uma realidade mais sutil e as forças que a compõem. Por isso, você conseguiu se utilizar dessas forças para romper o desmoronamento e conquistar a liberdade. Por isso, Rairom, você vai ser capaz de me ver além dessa aparência e se convencer de uma vez por todas que eu sou Dinaer, o deus de seus ancestrais.

O rapaz não tinha mais palavras. Eram tantas informações, tantas revelações desconcertantes, tantas perguntas sem resposta. O que ele não percebia, ou não queria perceber, é que eu era as respostas. Mas ele não poderia negar essa realidade por muito mais tempo. Ele precisava me ver, então entenderia. Rairom sentiu uma formigação. Era aquela mesma sensação que tivera na caverna no dia anterior, que galgava insistentemente os degraus até o cérebro. Mas Rairom não queria ver. Ele tinha medo. Fechou os olhos. Entretanto, não era com eles que ele me veria mas, sim, com a força de sua mente. Em conseqüência, mesmo com os olhos fechados, o quarto de Sirat começou a reaparecer diante do rapaz. Mas agora ele era povoado por aquelas forças ocultas e dinâmicas que regiam a matéria.

— Olhe para mim, Rairom. Não precisa ter medo. De todos os seres que povoam este mundo, eu seria o último a querer lhe fazer algum mal — falei, da forma mais terna que consegui. — Tenha coragem!

Então, Rairom olhou. Primeiro ele viu a superfície, o envoltório, que era a ilusão. Depois, gradativamente aquela casca foi ficando transparente e Rairom observou como as forças se organizavam em torno dela, deslocando-se constantemente, interagindo dinamicamente, sempre se alterando, o que era muito diferente da quase inatividade que preponderava em torno dos objetos sem vida. E eram de grande potência, como se ali concentrado naquele pequeno espaço houvesse muita matéria ou muita energia. Conforme a casca ia se dissipando, aquele furacão de forças, aquele turbilhão assustador mostrava toda a sua intensidade. Que poder era aquele? Quais seriam os seus limites?

— Rairom, você está se concentrando na dinâmica das forças. Isto está obscurecendo a visão da minha face. É uma questão de foco. Deixe as forças de lado e olhe para mim! — completei. E naquele mesmo instante ele viu! Como posso descrever com palavras, este instrumento tão frágil e limitado, a visão que Rairom teve. Era como uma chama, um facho de luz. Mas a impressão luminosa era apenas a superfície de uma realidade imantada de significação. O cérebro do rapaz foi inundado por inumeráveis sensações de uma intensidade incomum aos homens mortais sãos. Era como se a terra se tornasse o céu e o céu a terra. Era como se o mundo inteiro se concentrasse num ponto e depois se expandisse novamente. Era como se o espaço se desdobrasse em várias realidades e a malha do tempo se descosturasse. Não, não é bom que a mente humana veja o que Rairom viu. Se ele não fosse quem era, eu jamais permitiria. Mas ele precisava aprender. Ele precisava libertar-se das amarras e da mediocridade que contaminam a vida humana e as atitudes dos homens. Ele precisava entender que os pequenos problemas do mundo em que vivia não eram nada se comparados a uma realidade maior, mais importante. Como explicar essa verdade por meio de palavras? Ele precisava vê-la e ele viu. Mas aquela visão tinha o seu preço. Rairom, por muitos anos, seria assombrado por ela.

Ofuscado, o olho da mente se fechou depois de um ínfimo instante a me observar, exatamente como eu acreditava que aconteceria. De fato, esta era uma defesa mais do que natural, visto que uma visão mais prolongada poderia causar danos permanentes ao cérebro. O olho da mente, nesses casos, sempre se fecha.

— Abra seus olhos, Rairom. Não precisa ter medo.

— Não, eu não quero mais ver! Afaste-se de mim!

— O olho de sua mente se fechou. Abra seus olhos.

— Deixe-me em paz! — implorou o rapaz. Ele estava fragilizado e aterrorizado. Eu me compadeci dele.

— Abra seus olhos e eu o deixarei ir. Você está livre — afirmei. No mesmo instante, Rairom sentiu que seus músculos se relaxaram. Não se sentia mais imobilizado. Logo depois, o rapaz ouviu o barulho da porta se abrindo. — Você pode ir embora se quiser — complementei. Motivado, após alguns momentos de indecisão, o rapaz tomou coragem e abriu seus olhos. A sua frente, delineava-se novamente a visão míope dos mortais. As forças dinâmicas haviam desaparecido e minha projeção humana estava de novo visível. A verdade estava convenientemente ocultada pelo véu da ilusão. Mas para Rairom, a imagem de Raicar tinha agora algo de inumano. A memória traumática da visão da minha face verdadeira havia se associado a ela, dando-lhe um aspecto ligeiramente diferenciado, um brilho sobrenatural. O fato é que mesmo a visão do meu eu humano incomodava o rapaz. Por isso, ele se levantou e estava pronto para sair quando eu exclamei: — Espere!

— Você disse que eu poderia ir! — lembrou o alorain, sem me encarar.

— E você pode, Rairom. Mas se ficar, eu lhe ofereço as respostas para suas dúvidas. É uma chance única.

— Eu não tenho perguntas — mentiu o rapaz.

— Então vá — retruquei. Rairom, de fato, começou a se afastar. O medo falaria mais alto? Se fosse assim, eu não o impediria. Felizmente, não foi o caso. Ele parou e se voltou em minha direção, sem me encarar.

— Se você é mesmo Dinaer, então...

— Se eu sou mesmo? Não me diga que não se convenceu de minha identidade.

— Sim. Eu me convenci.

— É um alívio, pois não tenho prova maior do que a que eu já lhe dei.

— O que eu quero saber é por que você está nos ajudando, Dinaer? Por que você nos salvou? Por que está nos auxiliando agora?

— Rairom, você quer saber por que eu me importo com você, em especial, não é?

— Comigo?

— Com você, rapaz. Os destinos dos outros dois não me dizem respeito, pelo menos não mais do que o de qualquer outra pessoa.

— Mas você os salvou!

— Em consideração a você, apenas. Você é que é especial, Rairom Guenor. Você é o elo mais recente de uma corrente muito antiga.

— Do que você está falando?

— É estranho ouvir um nobre de Algar me fazer esta pergunta.

— Eu não sou um nobre de Algar. Minha família foi expulsa. Meu avô veio exilado para a Terra das Sombras.

— Eu sei disso. Um triste episódio, sem dúvida. Ainda assim você tem o sangue nobre. Se bem que, em verdade, isso pouco importa. O culto à linhagem é algo irrelevante, ridículo até. Só existe uma família verdadeira, que é a raça humana. Todos os homens, em última análise, são frutos da mesma linhagem e acabam, por isso, sendo muito semelhantes entre si. Quanto mais observo a humanidade, quanto mais ampla e profunda se torna a minha visão, mais semelhantes eu acho os homens, nas qualidades e defeitos. Quando se percebe isso, torna-se claro que, para um ser humano, só existe uma causa verdadeira, que é a da humanidade.

— Dinaer, por favor, responda minha pergunta.

— Eu estou respondendo. O que eu quero dizer é que todas as pessoas têm um papel na Grande Causa humana, na Grande Reivindicação. Mas você, Rairom, foi escolhido para desempenhar um papel importante, especial, na sublime causa.

— Causa?

— Você não a conhece? Não conhece o poema de Nalinas?

— Eu acho que sim — respondeu Rairom.

— Então você conhece a Causa. Ouça: "De todos os animais do mundo, apenas o homem ousou trocar a terna alegria da inocência pelo pesado fardo da sabedoria. E com a sabedoria veio o conhecimento da morte. E com o conhecimento da morte, a face do medo. E com a face do medo, o fogo do ódio. E com o fogo do ódio, o mar das paixões. E o homem conheceu a dor. Era o preço por sua ousadia. Daquele dia em diante, um oceano de lágrimas preencheu o mundo. E eu perguntei: Por que, animal humano? Por que desistiu da alegria? Por que abriu mão da inocência?'. E o homem respondeu: Porque ao despertar eu vi a luz. Porque a luz revelou o meu destino, que é ser eterno como as estrelas, poderoso como os deuses e perfeito como o Universo. Eis a minha reivindicação e o meu propósito. E por ele cruzarei os sete infernos que jazem dentro de mim" — recitei.

— Você percebe, Rairom? As aspirações da humanidade são a perfeição e a eternidade. A condição de um mero animal não é suficiente para o homem, e isto o diferencia das outras criaturas. Só que o preço pago por esta ousadia é o sofrimento. A miséria da vida, a doença e a morte têm um significado diferente para o ser humano em relação aos outros animais: elas causam uma dor diversa da física, mas não menos intensa do que ela. É a dor espiritual, a dor moral, que só o homem conhece em plenitude. Os homens só sofrem porque, mais do que os outros animais, são capazes de conhecer e valorar as coisas como boas e ruins e, em conseqüência, são capazes de desejar as coisas que consideram boas. Como o mundo nem sempre é como os homens desejam, como os homens nem sempre obtêm o que querem, eles sofrem, eles odeiam, eles invejam e eles temem. As aspirações humanas e as possibilidades humanas são extremamente discrepantes. A única forma de superar esta lacuna é por meio da evolução, do aperfeiçoamento.

— Aperfeiçoamento?

— O homem precisa melhorar, progredir. Ele precisa superar os maus instintos. O ódio, o rancor e os outros sentimentos negativos que nascem com os desejos não realizados devem ser sublimados. Ele também deve se tornar sábio, conhecer os mistérios do Universo. A sabedoria moral pressupõe a intelectual, e vice-versa. Somente assim o homem conquistará o poder para realizar suas aspirações e se libertar da dor espiritual. Ocorre, Rairom, que a perfeição está longe e o caminho é tortuoso. Talvez dezenas, centenas de milhares de anos sejam necessários até que a humanidade alcance seu destino. E não há garantias! Outras vezes no passado, como na grande decadência de que falam as lendas, uma catástrofe impediu a marcha do homem e o impeliu de volta ao começo do caminho. Por essas razões sou forçado a considerar que a concretização da Grande Reivindicação é, no mínimo, uma hipótese improvável. Mas há uma esperança, um caminho mais seguro.

— Eu não entendo o que isso tudo tem a ver comigo e com você.

— Você vai entender. Mas antes eu quero saber se você ainda está assustado, temeroso. Eu preciso que você confie em mim o suficiente para me deixar guiá-lo até a resposta.

— E onde ela está?

— Ela não está num lugar físico, se é o que pergunta. Mas eu posso levá-lo até ela, se você quiser.

— Eu quero saber, eu preciso — afirmou o rapaz, após alguns momentos de hesitação.

— Então, está bem — assenti satisfeito. No mesmo instante, o mundo físico em torno de Rairom começou a desaparecer. As cores foram se tornando opacas, os objetos, transparentes. Um grande vazio começava a se formar. Uma escuridão infinita surgia diante dos olhos assustados do rapaz, que indagou o que estava acontecendo.

— Eu o estou levando até a resposta, como prometi. Veja! — exclamei. Naquele momento, as trevas se dissiparam e um mundo surgiu diante do rapaz. Qual não foi a surpresa de Rairom, ao vislumbrar que ali estava o templo que vira em seu sonho. Lá estava aquele lugar macabro, tal como o deixara. Mas agora, ele parecia mais real do que nunca! Os sentidos de Rairom, desta vez, captavam a cena com uma precisão muito maior. As paredes negras eram preenchidas por colunas acinzentadas. O altar se revelava de forma mais nítida e tinha proporções bem mais imponentes. Um cheiro desagradável impregnava o ar. Uma brisa gélida feria a pele de Rairom. O silêncio era quebrado pelo sibilar de uma ventania. Da janela vinha uma luz avermelhada, que só servia para acentuar a morbidez daquele cenário.

— O sonho!

— Isso mesmo, Rairom. Mestre Diom estava certo ao sugerir que algo de importante seria revelado por meio desse sonho. Infelizmente, ele não foi capaz de ajudá-lo a entender a revelação. Mas vou auxiliá-lo a resolver este enigma de uma vez por todas. Olhe para os símbolos no altar. Vá até eles com calma.

O rapaz aproximou-se do altar afoitamente. Desta vez, não sentia medo. Uma força parecia impeli-lo em direção àqueles estranhos símbolos, uma força que se escondia por detrás deles. Ela o atraía, seduzia-o e ele identificava-se com ela, mas Rairom não tinha consciência disso.

— O que você vê?

— O mesmo que vi antes. Velas, recipientes com água, pedras e... mãos humanas!

— Errado! Olhe com mais atenção. Não seja iludido pelos símbolos tão facilmente. Lembre-se do que eu lhe ensinei: observe além da superfície, da casca. Desta vez, concentre-se apenas nas quatro pedras e me diga o que vê.

— Eu não vejo nada. Só essas quatro pedras polidas — insistiu o rapaz depois de alguns momentos.

— Está bem, então. Deixe-me formular a pergunta de uma forma diferente. O que você sente?

—Sentir? — indagou o rapaz. Ele então percebeu. Havia um poder oculto. — Há uma força, eu sinto uma força.

— Isso mesmo. Descreva-me essa força.

— Eu não sei. Ela é vasta. É difícil senti-la na sua totalidade. As pedras a escondem. Mas ao mesmo tempo... elas são o caminho, a chave que leva à força.

— Olhe agora para os copos d'água e para as velas.

— Está bem... É a mesma força, Dinaer. Eu posso senti-la. Mas, há algo de diferente dessa vez. É a mesma força, mas ao mesmo tempo não é.

— A diferença que você percebe é uma diferença de sentido, Rairom. O fito, a finalidade é que é diferente. Diga-me, o caminho para a força é o mesmo?

— Sim! As velas e a água levam ao poder. Elas são a chave.

— Ah, percebo. Observe as mãos humanas. Lembre-se, elas são apenas símbolos. Não tem por que temê-las ou sentir asco. Observe-as e me diga o que sente — disse. E o rapaz as viu. Aquelas mãos humanas, parcialmente decompostas, causavam-lhe repulsa. Seis eram as mãos de carne e osso e havia também uma de madeira. A princípio não foi capaz de perceber aquela força misteriosa emanando delas. Depois de alguns momentos, porém, ela surgiu.

— Eu a sinto. É a mesma força. Mas ela é muito mais forte do que das outras vezes. E muito mais forte! Infinitamente mais forte. As mãos também são chaves, são o caminho, não são?

— Precisamente. Exatamente como a água, o fogo e a pedra.

— Entendo.

— Venha comigo, Rairom.

— Não. Antes me diga que força é essa. Dinaer, me diga! — ordenou o rapaz. Ele, na verdade, não queria se afastar da força. Ela o nutria, o atraía. Era difícil deixá-la.

— Não seja tolo! Não há mais nada a ser revelado no altar. Venha comigo, ou eu o abandonarei neste mundo — falei rispidamente. O único jeito de convencê-lo era com essas falsas ameaças.

— Não! Não me abandone. Eu vou — assentiu o rapaz. Como eu previa, o medo de ficar preso naquele pesadelo foi mais forte do que a vontade de estar próximo da força.

— Então venha. Há algo mais que você deve ver — completei. O rapaz seguiu-me através do templo, até próximo a sua entrada. Lá havia um grande espelho negro. Ao passar rente a ele, Rairom viu seu próprio reflexo. Alguma coisa nele, porém, chamou-lhe a atenção. Ele fitou, novamente, o espelho buscando sua imagem, mas o que encontrou foi algo bem diferente. Havia uma figura embaçada, um espectro esbranquiçado que era bem mais alto do que o rapaz. A figura começou a tomar forma lentamente. De súbito, Rairom percebeu quem era, ou melhor, o que era. Tratava-se da criatura que o raptara no sonho, com suas grandes asas de morcego. O rapaz ficou sobressaltado por um instante, mas não tardou a se acalmar, pois percebeu que ela não se movia. Ela permanecia inerte, presa naquele espelho negro. A face fria e semi-humana continuava a ostentar o estranho símbolo na testa, e o corpo ainda era impregnado de igualmente indecifráveis caracteres esverdeados.

— Dinaer, o que está havendo? — indagou o rapaz.

— Você está se olhando no espelho — respondi.

— Você não entende. Há alguém no espelho. A criatura que mestre Diom disse que era a outra parte do quebra-cabeça está aprisionada nele.

— É mesmo? Então siga o conselho do velho mago e olhe para a face dela.

— Mas eu já estou fazendo isso.

— Está mesmo? Você tem certeza?

— Eu acho que sim.

— Pois eu lhe digo que não está. Olhe para ela, Rairom, e você entenderá.

— Não posso!

— Não pode o quê? Olhar? Ah, você pode. A questão é: você quer?

— Não sei...

— O que você está vendo no espelho é uma criatura com asas de morcego? É isso?

— Sim... Eu acho. Não tenho certeza — disse o rapaz. A figura agora começava a se tornar embaçada novamente. Seus traços não eram mais perceptíveis.

— Até quando você vai se enganar, Rairom? Você sabe muito bem quem é ela, não sabe?

— Não, eu não sei!

— Sabe! Até quando você vai fingir? Admita para si mesmo de uma vez por todas.

— Não! — exclamou o rapaz ao fitá-la. A figura não estava mais embaçada. Mas ao delinear-se novamente algo nela se alterara: a face se tornara mais nítida. Rairom agora não tinha mais como negar, pois aqueles traços eram idênticos aos seus. Lá estava a face do rapaz no corpo da criatura e o estranho símbolo encravado em sua testa. — Ela não pode ser eu!

— Pode sim. Como disse, você só estava se olhando no espelho — ensinei. Tudo se tornara claro, pois o tempo da dúvida havia passado. Rairom observou sua mão esquerda e percebeu que lá também estava o mesmo símbolo de sua testa.

Isso não o surpreendeu, pois, mesmo distante do altar, ele agora sentia a força. Ela o abraçava, o envolvia. Ele notou que, na verdade, ela não estava no altar. O altar sequer existia! Ela residia dentro dele. Ela o impregnava, fazia parte da sua essência como um presente muito antigo. Ela o formava, o constituía. Contudo, estava adormecida. Aguardando um objetivo oculto, ela permanecia enterrada, escondida por detrás da sólida e fria barreira de sua mente. Era um objetivo secreto para o mundo, mas não mais para Rairom. Ele sabia agora que ele era a chave, o caminho que leva à força. Uma das sete mãos humanas que jaziam no altar era com certeza a sua. Por ele e através dele o Poder que se encontrava por detrás dos selos entraria neste mundo, neste tempo, neste espaço. Mas como? Ainda restava uma dúvida! Como faria para que o poder se libertasse? Ele não sabia, mas de uma coisa Rairom tinha certeza: a resposta para mais esta pergunta estava também oculta dentro dele.

Rairom fechou os olhos por alguns momentos e quando os abriu não estava mais naquele mundo imaginário que criara em seu sonho. Os símbolos em sua mão e em sua testa haviam desaparecido. Estava de volta ao quarto de Sirat, obser-vando-me a sua frente. Depois de alguns momentos em silêncio ele comentou:

— Eu sou a chave.

— Sim, você é — confirmei.

— Chave para quê?

— Para a força, para o Poder. Você sabe disso melhor do que eu.

— Você não entendeu. O que eu quero saber é o que é o Poder.

— O Poder é o caminho curto e seguro de que lhe falei para a Grande Reivindicação. Ele é a maneira pela qual a humanidade galgará à perfeição. Ele ajudará os homens a evoluir numa velocidade jamais imaginada. O Poder é um presente raro e precioso para toda a humanidade. Uma dádiva única, Rairom.

— Você o criou?

— Claro que não — respondi depois de uma breve risada. — Considere-me como um mero mensageiro do Poder.

— Mas por que este presente, como você o chama, foi dado à humanidade?

— Isto eu não tenho como responder. Para que você fosse capaz de entender minha resposta seria preciso que compreendesse o Poder, o que para um mortal não é possível. Apenas aceite que os motivos estão além da compreensão humana, por enquanto. Mas saiba que quando a Grande Reivindicação for alcançada, mesmo esta dúvida desaparecerá.

— Você disse que existiram outros antes de mim, que eu era o último elo de uma corrente mais antiga.

— Sim, existiram outros, mas eles não eram como você. Eram chamados de aimain, que significa "aquele que indica o caminho para a luz". Eles, como você, foram tocados pelo poder, mas não eram a chave. Você é o primeiro dos sete alorain, das sete chaves do mundo. No seu sonho você viu quatro pedras. Você percebeu que, naquele caso, as pedras eram a chave, não o aimain. Este apenas sabia onde estava a chave. Você entende?

— Mais ou menos.

— Eu já esperava por isso. Você entenderá em outra oportunidade. Acho que já tivemos revelações suficientes para um único dia. Saiba apenas que você é o primeiro dos seres humanos destinados a ser a chave dos Sete Selos do Mundo. Saiba também que doze selos já foram rompidos e estes tinham como finalidade preparar a humanidade para os sete. É a partir dos sete que a verdade será revelada, ou seja, que a humanidade evoluirá e receberá as dádivas que o Poder lhe reserva. Antes que se vá, eu lhe darei um livro antigo que esclarecerá qualquer dúvida que ainda tenha. Foi redigido em alguiano clássico, que é um pouco diferente do moderno. Mas o alfabeto é o da língua central na modalidade que se usava na Terra de Averad. Por isso, sei que conseguirá entender a maior parte do que está escrito — considerei. O rapaz, porém, parecia distraído. Não estava prestando atenção em minhas palavras. — Rairom, você está ouvindo?

— Dinaer, agora eu entendi por que você salvou minha vida. Foi por causa dos selos, não foi?

— Sim, Rairom. Eu já lhe disse isso.

— Se eu não fosse o alorain você não me salvaria, não é?

— Aonde você está querendo chegar?

— Não é? — insistiu ele. Resolvi ser sincero.

— Não acho que o salvaria...

— Eu sabia! Você se diz tão preocupado com a humanidade, mas suas ações não condizem com suas palavras — afirmou, o rapaz injustamente.

— O que quer dizer?

— Você não parece se importar muito com as pessoas — disse ele. — Não é capaz de ajudar sequer o povo que o venera.

— Você vê as coisas de uma perspectiva muito reduzida — expliquei pacientemente. — As pessoas e as nações têm o destino que merecem. Não é dado a mim interferir. O destino de Algar, por exemplo, eles o mereceram. Enfraqueceram-se a si mesmos com estúpidas disputas internas e com contendas territoriais com os vizinhos. Logicamente, quando a casa de Garis precisou de apoio, eles estavam sozinhos. Por isso, foram derrotados. Colheram o que plantaram. Nada mais.

— E quanto ao meu pai? Você acha justo o que aconteceu com ele?

— Seu pai... Se eu acho justo? É claro que sim! Como os Garis, Zairom Guenor colheu o que plantou.

— Como pode dizer isso? Você não sabe do que está falando!

— Eu sei muito melhor do que você! Seu pai não era nenhum modelo de perfeição. Há muitas coisas que você não conhece, Rairom.

— Cale a boca!

— Não me entenda mal, eu gostava dele. Admirava-o até. Mas, mesmo se desconsiderarmos seus erros passados, mesmo se nos focarmos apenas nos últimos tempos, é impossível negar que ele foi no mínimo imprevidente. Se eu estivesse no lugar dele, se eu tivesse ouvido as juras de vingança que ele ouviu e de quem ouviu, eu teria construído uma fortaleza e me cercado de um exército bem armado. Mas não foi o que ele fez, foi?

— Ele fez tudo o que podia!

— Não fez! Ele jogou com o perigo. Poupou despesas. Acreditava que simplesmente porque possuía mais recursos, mais riqueza, dissuadiria seus inimigos. Julgava ser a riqueza um sinônimo de poder. Ele não estava completamente errado. Mas o que ele esqueceu foi que para transformar a riqueza em poder, especialmente em poder militar, é preciso um certo tempo do qual nem sempre se pode dispor. Ele foi imprevidente, porque foi econômico. Sua mentalidade de comerciante falou mais alto do que a de estadista nas questões de estado e isto lhe custou a vida.

— Você é muito duro com seres humanos. Você acha que é fácil fazer as escolhas certas? Ponha-se no nosso lugar! As pessoas fazem o que acreditam ser o melhor, mas nem sempre as coisas saem como elas gostariam. Eu aprendi nesses últimos tempos que muito pouco de nossas vidas está sob nosso controle. O resto depende de fatores que não controlamos e, às vezes, nem conhecemos!

— Você está certo em parte. Não obstante, todos têm de assumir a responsabilidade por seus atos. É a causalidade, uma das leis aparentes do Universo. Toda causa tem um efeito, toda ação, uma conseqüência para aquele que age.

— Você, Dinaer, é um deus cruel e injusto. Pobres dos meus ancestrais que escolheram você e não outra divindade para venerar. Esse foi o maior erro deles — vociferou o insolente rapaz. Finalmente ele conseguira me irritar.

— Seu tolo! Você não sabe o que diz. Espero que nunca conheça a verdadeira crueldade. E quanto à injustiça, você é que é injusto e ingrato, pois eu lhe salvei a vida, abri sua mente e a única recompensa que recebo é o seu ódio. Eu não matei seu pai, não destruí Algar! Tudo isso é obra dos homens. Repudio sua tentativa de me responsabilizar por atos que não são meus.

— É inútil discutir com você, Dinaer. Parece que, pela sua visão "ampla", nada tem importância, não é mesmo? As pessoas são meros joguetes seus. Eu mesmo não sou mais do que uma peça nessa disputa obscura. Parece que a única coisa a que você dá importância são os Selos.

— Não fale sobre o que não entende, rapaz! Desde que esta incumbência foi a mim conferida, tenho feito tudo ao meu alcance para ajudar a humanidade. Ela é que não se ajuda.

— Já disse que não quero mais discutir.

— Não quer? Então o que você quer?

— Quero fazer um acordo. Eu permitirei que o Poder entre neste mundo. Você precisa de mim para isso. Em troca, você fará com que meu pai e Liana voltem a viver. Eu imploro, Dinaer, faça apenas isso por mim. Mostre um pouco de compaixão — suplicou o rapaz com tal intensidade e tristeza que eu me apiedei dele. Gostaria de não ter de acabar com suas esperanças, mas não podia atender seu pedido.

— Lamento, Rairom, mas não posso ajudá-lo.

— Por favor, Dinaer, você é o Deus do Céu, o Senhor das Estrelas, se há alguém que pode fazer isso é você. Eu vi a sua face. Sei que você pode. Por favor, Dinaer! Eu não lhe peço mais nada.

— E você acha que me pede pouco, Rairom?

— Eu sei que não é pouco, mas reconsidere. Não é só por minha causa. Pense nos tempos tenebrosos que virão com o triunfo do Larcon, a volta da escravidão e da guerra. Pense em quantas vidas serão destruídas. Prove que você é bom!

— Não posso, eu lamento — sentenciei. O rapaz percebeu que seria inútil insistir. Sua face e sua mente ganharam uma expressão de seriedade e, ao contrário do que seria de se esperar, também de tranqüilidade. Ele ainda não desistira por completo.

— Entendo — disse Rairom. — Então ao menos mate o Larcon, ou o leve para longe. Afaste-o de algum modo. Ajude-nos a reverter esta guerra.

— Lamento, rapaz. Eu não devo. Você acha que eu sou a única força desse Universo? Acha? Pois está enganado. Existem outros poderes tão grandes e até maiores do que o meu. Neste momento em particular, há um equilíbrio dinâmico que não pode e não deve ser quebrado. Embora eu simpatize com as idéias de Zairom, no plano maior das coisas, uma interferência agora não seria uma atitude acertada. Não, eu não vou interferir.

— Você não se importa! Pois muito bem, eu também não permitirei que o Poder entre nesse mundo. Eu, que sou a chave, não abrirei a porta.

— Faça o que achar acertado. Você também é livre para escolher. Esteja, porém, preparado para as conseqüências de seus atos. O Poder precisa libertar-se e, querendo ou não, você é um servo do Poder. Está em contato com ele. Ele saberá ser bastante convincente, se preciso for. Se deseja o meu conselho, aceite seu destino e o cumpra. Essa é a forma menos penosa de enfrentar a situação.

— Nunca!

— Engane-se a si mesmo, se é isso que prefere — ponderei. Rairom não tinha mais argumentos. Não havia mais o que dizer. O rapaz saía em silêncio. Estava certo de que a sua suposta dádiva era sim uma maldição. — Não se esqueça, Rairom, não conte a ninguém o que conversamos.

— E se eu contar?

— Esta pessoa será diretamente envolvida no Grande Conflito dos Selos. A partir de então, a vida desse infeliz correrá grande perigo.

— Por que diz isso?

— A identidade do escolhido deve permanecer em segredo. Você não imagina como isso é importante. Os inimigos da Causa são muito numerosos. Eu velarei por esse segredo utilizando qualquer meio necessário. Qualquer meio! — enfatizei.

— Você não seria capaz!

— Não me teste, Rairom. Eu sou capaz de tudo para cumprir minha missão. O que parece um mal, na verdade, no grande plano das coisas, é um bem.

— Eu tenho nojo de você, Deus do Céu.

— O que você sente por mim é irrelevante — retruquei friamente. — Pode ir. Descanse, escolhido.

E o rapaz saiu. Eu fui severo com ele, é verdade, mas também fui sincero. Agora ele estava ciente. Ele se acostumaria com a difícil realidade. Os seres humanos se habituam tanto às coisas boas, quanto às ruins. No entanto, seria difícil, pelo menos no começo, aceitar o destino a ele reservado. Por outro lado, ele sempre poderia se enganar (como aliás estava mesmo fazendo) e assim se reconfortar. Afinal, tudo se resumia ao eterno dilema humano: viver feliz na mentira, ou infeliz na verdade.

 

                               Esperanças e desilusões

Rodeado estou, há tantas pessoas nessa grande cidade. Mas me sinto tão-sól E como se um grande deserto me envolvesse. Tenho sonhos que nunca realizarei, desejos que nunca alcançarei. Minha vida é vazia, consumida pela eterna rotina, os acontecimentos que se repetem, o tédio incomensurável. Quem sou eu ? Uma consciência aprisionada neste corpo frágil que vai envelhecendo, se dilacerando comigo dentro. Um corpo que perde os cabelos, que engorda, apenas para lembrar a ínevitabilidade de seu próprio fim. Sou um ser que não sabe por que existe, para que existe e que tem de conviver com outros seres como eu, condenados às mesmas circunstâncias. Que consolo encontro eu nessas outras criaturas? Elas ficam entretidas com seus tolos jogos, dominadas pelos seus estúpidos instintos. No entanto, me surpreendo ao perceber que continuo vivendo. Por quê? O medo da morte? Talvez. Mas não é só isso. É que existe algo dentro de mim que acha que tudo pode ser melhor, que teima em acreditar no inacreditável. E o que chamam de esperança. Como pode ter esperança um ser que nasceu para morrer? Ainda assim, ela está dentro de mim e não posso extirpá-la.

Por isso, continuo vivendo. (Autor desconhecido — Testamento)

Pensamentos, eles são o verdadeiro tormento humano. Sempre os procurando, sempre os requisitando, muitas vezes os culpando, e freqüentemente reclamando. Há ainda aqueles que simplesmente estão desejando, almejando. Não importa a sua forma, eles não dão aos humanos um só momento de paz, um instante de sossego, de esquecimento. Os humanos são escravos de seus pensamentos, de suas preocupações. A mente humana é um caldeirão fumegante em constante ebulição. Alguns discordariam dessa assertiva. Talvez ela só seja verdadeira para algumas pessoas. De fato, as afirmações gerais, como simplificações que são, tendem a ser imprecisas. Algumas mentes são mais ativas que outras. Algumas são mais preocupadas, outras menos. Acredito que a diferença de grau existente não fere a característica em si. Pouco importa. A afirmação é aplicável a Rairom, especialmente neste momento de sua vida, e isto é o que interessa.

Depois de nossa conversa, o rapaz dava uma amostra da característica mencionada, ao ser torturado por seus pensamentos. Ele queria paz, mas não podia fugir dele mesmo. Mesmo assim, nada o impediria de tentar. Com este fim, Rairom saiu do edifício principal e mergulhou na noite que já havia caído. Surpreendentemente, boa parte da nebulosidade que predominara durante o dia havia se esvaído e o céu estava povoado de estrelas. A temperatura não estava muito baixa, pois o vento frio que durante o dia soprara, havia cessado. Estava, aliás, bastante alta para uma noite de outono.

O rapaz se dirigiu até o lago. Naquele momento, era como se o universo o observasse. Aquelas constelações infinitas haviam decidido vigiar o escolhido. Considerando-as como enviadas minhas, Rairom sentia-se incomodado com o cintilar das estrelas, que violavam a sua solidão. A Lua, como um grande olho azul, reforçava essa incômoda aparência. Mas graças aos corpos celestes é que o rapaz podia ver sem muita dificuldade para onde se dirigia. Em poucos momentos, lá estava ele, às margens do lago que era nomeado nos tempos antigos com o frio adjetivo de "perene", mas que Rairom rebatizou com o nome de seu pai. Mas não era só o lago que ele rebatizaria. Se um dia tivesse o poder, jurou que iria homenagear seu pai de muitas outras formas. Talvez fundasse uma cidade com o seu nome. Mas será que ele gostaria? Zairom nunca fora homem de ostentação. Prezava a nobreza de caráter na mesma medida que desprezava a de sangue e os exageros que a esta última acompanhavam. Pelo menos era esta a imagem que o rapaz fazia do seu pai. De súbito, percebeu o absurdo de tais ilações. As possibilidades de uma reversão da guerra eram muito reduzidas, mesmo supondo que conseguissem chegar à relativa segurança de Lor-Zainan. Como se isso não bastasse, havia ainda o terrível fardo a ser carregado, o fardo inominável e indivisível que jazia dentro dele. Podia até mesmo sentir o seu peso. Imediatamente, Rairom lembrou-se da minha existência, da minha face, e sentiu um grande ódio, que foi seguido de um enorme desespero. Era um desespero ainda maior do que aquele que sentira com a morte de seu pai. Surpreendeu-se com esta constatação. Sentou-se próximo à margem. Pequenas ondas tocaram seus sapatos. O cenário, de alguma maneira, conseguiu trazer-lhe um certo alento. O silêncio do mundo a sua volta fazia com que o ruído de seus pensamentos se acalmasse um pouco, embora ele não cessasse por completo. Era como se pudesse absorver uma parte da paz que o rodeava. Conforme o tempo passava, a dor e o desespero foram progressivamente desaparecendo. Entretanto, os pensamentos, como informações neutras, permaneciam. Sua mente tentava buscar a saída para os problemas que o atormentavam. Mas sua chance de solucioná-los era bastante reduzida, pois tantas eram as variáveis, tantas as lacunas, que se tornava impossível estabelecer a melhor conduta. Os problemas que enfrentava estavam muito além de suas possibilidades, de suas forças. Sentia-se cansado, exausto até, pelo esforço mental e pelo peso que carregava. Julgava-se desamparado, impotente como uma folha que é arrastada pela correnteza de um rio. Acima de tudo, sentia-se só.

Neste quesito em particular, admito que falhei com Rairom. Eu tentei ser o amparo que ele precisava naquele momento difícil, mas não consegui conquistar sua confiança. Isso aconteceu porque não fui capaz de fazer com que ele entendesse os meus motivos e limitações. Passei a ser visto não como um aliado, mas como um obstáculo a ser enfrentado, e mais do que isso, como uma barreira intransponível, um adversário muito pior do que o Larcon jamais poderia ser. Não era isso o que eu pretendia. Mas como o próprio Rairom disse, e pelo visto esta assertiva era aplicável também a mim, as coisas nem sempre acontecem como gostaríamos que acontecessem. O rapaz, porém, estava equivocado quanto a uma coisa: ele não estava sozinho. Não tardaria a compreender esse fato.

— Rairom — disse uma voz feminina que se aproximava. Em razão da leveza de seus passos, o rapaz não tinha percebido a sua chegada. — O que você está fazendo aqui? — indagou Lisian.

— Eu pensei que você não estava mais falando comigo — respondeu o rapaz secamente, sem fitá-la.

— Eu não devia mesmo, não é? — retrucou ela, preparando-se para retornar à casa.

— Espere! — disse Rairom. — Peço desculpas. Fico feliz que não esteja mais irritada comigo.

— E você, ainda está? — indagou ela.

— Não. É claro que não — respondeu ele. Suas brigas com Lisian pareciam ter perdido toda a relevância. Rairom estava amadurecendo rápido. — Eu vim aqui para pensar. Precisava colocar as idéias em ordem — completou.

— Posso lhe fazer companhia? — indagou ela. Rairom assentiu com a cabeça. Lisian sentou-se ao lado dele. Os dois ficaram observando o lago e o céu estrelado acima deles, o qual era recortado pela negra sombra que eram as Fai-Lan. — Rairom, o que você acha que vai acontecer conosco? — indagou ela.

— Não sei.

— Eu não agüento mais esse pesadelo, Rairom. Às vezes eu acho...

— Acha o quê? — indagou, o rapaz, percebendo a hesitação de Lisian.

— Às vezes penso que seria melhor que eu tivesse morrido.

— Não diga isso!

— Tento ser forte, mas me sinto tão indefesa. Eu invejo você, Rairom. Você tem sido corajoso.

— Guarde sua inveja. Eu não sou tão forte quanto pareço — retrucou. — Na verdade, também me sinto muito fraco. Mas quem não se sentiria no nosso lugar? Não sinta vergonha do que você sente, Lisian.

— Do que eu sinto?

— Da fraqueza, do medo.

— Ah, sim, claro. Mas não sentir vergonha desses sentimentos não ajuda muito, ajuda? Tudo continua do mesmo jeito. Há muito pouca esperança.

— Mas ainda há esperança. Isso é o que importa. Enquanto ela existir, temos de continuar tentando.

— Por quê? Eu sinto, Rairom, que qualquer esforço será inútil. Só resultará em novas desilusões.

— Mas você não tem certeza, tem?

— Não tenho.

— Então, vale a pena persistir — disse o rapaz tentando reconfortá-la. Na verdade, ele próprio nutria poucas esperanças. Entretanto, por algum motivo, sentia a necessidade de perseverar. Algo nas profundezas de seu ser rejeitava a idéia de desistir e julgava inaceitável a hipótese de pôr fim à própria existência. A escuridão da morte lhe parecia menos atraente do que o cinza escuro da vida. É interessante observar que, conforme o tempo passava, esta convicção, a princípio singela, insegura, foi ganhando cada vez mais força, como se tornaria evidente nos anos vindouros. Mas já nesta época ela se fazia presente. Apesar do desespero, apesar da falta de perspectiva, algo dentro do escolhido o impelia adiante. Seria o Poder?

— Rairom, por que você me salvou? — indagou ela. O rapaz foi pego de surpresa pela pergunta de Lisian. Não esperava e principalmente não queria que ela soubesse. Mas agora o mal já estava feito. Tairom havia falado demais.

— Eu acho que está esfriando. É melhor voltarmos — desconversou ele. Já se levantava quando a garota o interrompeu, segurando-o pelo braço. O rapaz voltou a se sentar.

— Espere. Você ainda não respondeu a minha pergunta — insistiu ela. Rairom, porém, não estava mais disposto a conversar. Naquele momento, queria se ver livre daquela situação incômoda. Por algum motivo, não queria a gratidão de Lisian.

— O que foi mesmo que você perguntou? Se eu salvei você? Quem disse que eu fiz isso?

— Tairom. Ele me contou hoje de manhã. Confesso que não acreditei na mesma hora. Mas mudei de idéia e, por isso, pedi que ele me contasse tudo em detalhes agora há pouco.

— Tairom é exagerado. Eu não fiz nada de mais. Acredite.

— Rairom, poupe seu fôlego. Apenas diga por que me salvou duas vezes. Você correu um grande risco por minha causa. Por quê? — indagou ela numa voz suave. O rapaz permaneceu em silêncio por alguns momentos. Parecia buscar a melhor resposta.

— Não sei — respondeu ele, finalmente. Até onde podia ver, estava sendo sincero. — Eu apenas tinha de salvá-la. Talvez seja pelo mesmo motivo que você me salvou naquela noite — completou ele. Sob a penumbra de uma memória distante, ressurgiram aqueles momentos de angústia na mente de Lisian. Retornaram em relâmpagos, momentos estáticos, seguidos da escuridão. Sim, ela se lembrava de tê-lo salvo.

— Eu me lembro. Talvez os motivos sejam os mesmos... Mas eu quero ter certeza. Pela última vez, Rairom, por que você me salvou? — indagou ela.

Rairom ficou em silêncio. O leve sibilar de uma brisa suave foi a única resposta. No entanto, enquanto observava o brilho azul da lua ao lado do rapaz, Lisian percebeu que sua angústia havia passado. Ela se sentia em paz. Por algum motivo que não entendia, sua tristeza fora afastada. Deitou-se na relva esverdeada e ficou por algum tempo a observar a abó-bada celeste. Toda reluzente como estava, era verdadeiramente magnífica. Ela nunca antes lhe dera o devido valor. Era como se visse o céu estrelado pela primeira vez. Apreciava cada estrela como se admira uma obra de arte. Isto porque a garota inconscientemente havia começado a aprender uma lição preciosa, sem a qual é muito difícil compreender o cerne da existência. Ela intuiu que na vida não se tem nada a perder. Em última análise, a única coisa que realmente possui importância é o próprio fato de se estar vivo. É um lugar-comum, uma verdade óbvia, mas que muitas vezes no turbilhão de problemas e preocupações passa despercebida. Quando se compreende isso já está dado um enorme passo em direção ao que todos procuram: a felicidade. Naquele tênue momento, por mais estranho que isso pudesse parecer, Lisian podia dizer que estava feliz. Ela veio buscar uma resposta, mas recebeu algo muito mais precioso: a esperança.

— Boa noite, Rairom. Eu vou entrar — disse ela, levan-tando-se. Já dava os primeiros passos em direção à casa quando ouviu Rairom chamá-la:

— Lisian — disse ele —, eu estava pensando. Acho que já descobri por que eu tinha de ajudá-la. Você quer mesmo saber? — indagou o rapaz, que também se levantara e andava lentamente em direção à garota.

— Se você estiver pronto para falar, eu quero — respondeu ela.

— Eu estava lembrando... naquele dia do incêndio, só de pensar na possibilidade de você ser consumida pelas chamas, eu sentia uma dor tão grande... tão grande. Eu não podia permitir. Eu estava disposto a tudo para salvá-la.

— Rairom, isso é verdade? Eu pensava que você não gostava de mim, que você não suportava a minha presença.

— Algumas vezes, pensei que sentisse isso. Mas agora vejo que não é verdade. Eu não queria ficar longe de você. Muito pelo contrário, eu não podia suportar a idéia... — falou Rairom. Tinha dificuldade de confessar o que sentia. — Eu não podia suportar a idéia de perder você, Lisian. Eu não conseguiria abandoná-la — completou ele, ao acariciar o rosto de Lisian. Ela estava surpresa com a atitude do rapaz, mas paradoxalmente algo dentro dela já sabia. No entanto, ainda sentia a necessidade de uma última confirmação.

— Rairom, você está dizendo que gosta de mim? — indagou ela.

— É claro que não. Eu não gosto — respondeu Rairom. Lisian fechou a cara e fez menção de se retirar, mas Rairom segurou-a pelo braço e disse: — Eu não gosto apenas. Eu amo você, Lisian — completou. No momento seguinte, ele roubava-lhe um beijo. Um breve toque de lábios, nada mais. No entanto, era algo que a garota nunca experimentara. Ficou surpresa por alguns momentos. Estava espantada pela ousadia do rapaz, mas, por mais que quisesse, não conseguia sentir-se ofendida. Sentia sim um misto de sensações que iam da vergonha à ternura. Quando olhou para Rairom, viu que ele estava sorrindo. Mas não era o sorriso de deboche que a garota se acostumara a ver no rapaz. Era um sorriso de felicidade, de alegria genuína, pois era assim que estava se sentindo. E com a felicidade veio um grande alívio. Seu fardo havia se tornado imensamente mais leve.

Eles, então, se abraçaram. Naquele período difícil, um era o supremo consolo do outro. — Eu também amo você — completou. E os dois se beijaram. As estrelas continuavam a tudo testemunhar, mas Rairom se esquecera delas.

Eu, que também tudo presenciava, não podia mais me dar ao luxo de fazê-lo. Era sempre muito divertido observar o comportamento tão previsível dos inocentes mortais. Mas o que podia fazer? Havia outros assuntos dos quais me devia ocupar ainda naquela noite, assuntos da maior relevância, que diziam respeito ao futuro de Rairom. A situação era extremamente delicada. Devia agir com grande maestria para não revelar ao Inimigo o meu intento. Não poderia permitir que ele farejasse o rastro de minhas ações e assim se aproximasse do escolhido. Por outro lado, não daria mais ao acaso a chance de me surpreender. Sem falsa modéstia, as minhas maquinações eram dotadas de grande perícia. Mesmo assim todo cuidado era pouco. Deveria executar os toques finais do meu plano pessoalmente. Assim o fiz.

Ao assumir minha forma natural, mergulhei no oceano gasoso dos céus e, com a velocidade de dez falcões, segui em direção ao norte. Da altura em que estava não tardei a avistar o manto azul do oceano. O firmamento salpicado de estrelas combinava perfeitamente com o mar. Podia ver grande parte da gelada ilha. Menos de uma hora depois, já avistava as luzes de Lor-Zainan, a Cidade do Portal. Lá estavam aqueles prédios cercados de muralhas, deitando-se sobre a grande baía. Eu sabia perfeitamente a qual deles me dirigia. Era uma pequena edificação, na região das docas. Assim que me aproximei do solo, assumi a forma humana. Por certo, não era a mesma sob a qual me manifestei aos jovens. Agora, eu me tornara um velho grisalho que segurava uma bengala e ostentava uma túnica escura. Era uma forma desagradável, mas que convinha a meus objetivos. Minha função era de mensageiro. Pretendia passar uma informação preciosa. Com o bastão eu bati na porta, uma, duas, três vezes. Nenhuma resposta, nenhum sinal de vida. Será que aqueles a quem buscava não estavam mais ali? Isso seria, por certo, um enorme problema, considerando a função crucial que deveriam desempenhar.

Felizmente, minhas preocupações mostraram-se despropositadas, o que percebi quando ouvi um som de passos. Quem veio receber-me foi um homem de feições hostis.

— Vá chamar Sarian — ordenei. O homem assustou-se com o meu tom de voz e com minhas palavras. Ninguém deveria saber que Sarian se encontrava ali. Meu interlocutor estava visivelmente assustado e poderia se tornar agressivo. Por isso, apressei-me em completar: — Nada tema. Não sou inimigo. Muito pelo contrário: sou um velho amigo da família. Diga a ela que Zoltari precisa vê-la.

Apesar de minhas ponderações, o homem parecia ainda estar hesitante. Porém, tinha quase certeza de que o nome de Zoltari, o mago das sombras, seria meu passaporte até Sarian. — Você é mesmo Zoltari? — indagou ele. Eu assenti com a cabeça.

Após alguns momentos, o homem se retirou e ao que tudo indicava, fora chamar Sarian. Ela não tardou a aparecer. Aproximou-se da porta e ficou alguns momentos a me fitar. Ao que parecia, não tinha visto Zoltari muitas vezes. Uma pena, pois não pôde apreciar a absoluta identidade de formas entre a que eu assumira e a do verdadeiro mestre das sombras.

— Quem é você? — indagou ela. Sua voz tinha um tom cansado. Era de se esperar, pois aquele era um tempo de dificuldades também para ela.

— Eu sou Zoltari. A senhora não se lembra de mim?

— Não estou certa.

— Não reconhece minhas feições? Sei que me viu poucas vezes, mas eu não tenho outras provas além de minha própria face — afirmei. — Sugiro que se aproxime.

— Não, senhora! — falou o homem que antes me atendera. — Não é seguro.

— Não precisa ter medo, minha senhora. Pode confiar em mim — argumentei. O fato de ela não me reconhecer desde logo, era, sem dúvida, um incômodo imprevisto. Felizmente, porém, Sarian se aproximou e, depois de alguns momentos, suas feições se transformaram. Ela havia reconhecido o velho amigo de seu pai.

— Zoltari! Pensávamos que havia morrido!

— E quase morri mesmo, minha senhora. Infelizmente não posso dizer que eu esteja livre daqueles que me perseguem. Por isso, devo ser breve. Trago boas notícias, embora não sejam aquelas que tanto espera.

— Então não é de meu pai que vem falar?

— Não.

— O que é, então? — indagou visivelmente decepcionada.

— Serei direto. Os filhos de Zairom Guenor não morreram.

— O quê? Isso é impossível.

— No entanto, é verdade. Eles estão vivos e chegarão a Lor-Zainan no final da tarde de amanhã, ou no começo da noite.

— Mas como?

— Não tenho tempo para explicar. Mas garanto que minha informação é verdadeira. Se mereço algum crédito, mandem alguém que possa reconhecê-los à Praça do Mercado. Nas proximidades da estátua do cinog, amanhã no final da tarde, vocês os encontrarão.

— Zoltari, explique melhor essa história.

— Lamento... Não posso permanecer nem mais um instante — afirmei, ao mesmo tempo que, à moda dos magos das sombras, desaparecia na escuridão. O que eu me programara a fazer, agora estava feito. Não era absolutamente certo que acreditariam em minha história. Mas sendo Zoltari a fonte da informação, e considerando a relevância da notícia, tinha razões para apostar que sim.

O último retoque no meu plano estava dado. Restava saber se ele funcionaria na prática. Felizmente, não precisaria esperar muito para descobrir. Entretanto, ainda havia uma noite pela frente. Utilizaria essas horas para vagar pelas trevas sem rumo. Precisava pensar. Para ser sincero, queria adiar o meu retorno àquela cidade fantasma, que tantas lembranças tristes me trazia. Passei a sobrevoar por horas a fio o manto negro do oceano, com suas ondas de espuma branca, pois isso me apaziguava o espírito. Depois, pousei no topo de um pico gelado e fiquei contemplando a paisagem. Como o mundo era belo, especialmente se visto através dos meus olhos! Os mortais não apreendiam mais do que um pálido reflexo do que eu via. Senti pena deles por causa disso. Pena? Esse era um sentimento que muitas vezes fui forçado a esquecer. Depois de uma eternidade de guerras, o "coração" endurece, como dizem os humanos. Muitas vezes, como no caso de Rairom, fui forçado a agir de forma pragmática. Houve um tempo em que as coisas eram diferentes, em que minhas ações assentavam-se sobre outras balizas. Esse tempo, porém, é onde residia uma antiga mágoa, um vulto do qual eu tentava me afastar, mas que era incapaz de esquecer. Era apenas uma pálida memória, mas dela eu fugia em desespero. Isso porque não conseguia suportar a lembrança de que não havia perdão nem esperança de recuperar o que fora destruído. É difícil de explicar, e impossível de mensurar por mentes mortais, a dor que eu sentia com a mera visão daquela imagem.

De súbito, ouvi uma voz, mas ela não vinha do passado. Falava diretamente à minha mente. Era como se muitas vozes falassem ao mesmo tempo:

— Irmão, eu estou aqui.

— Você! — exclamei num sobressalto. Era o Inimigo em pessoa! Fazia uma eternidade que não me defrontava com ele pessoalmente — Como me encontrou? — indaguei. Toda a cautela agora era pouca. Não podia permitir que ele lesse minha mente, que descobrisse a identidade do escolhido.

— Nós sentimos a sua dor. Ela permitiu que o encontrássemos. Nada tema. Não estamos próximos fisicamente. Queremos apenas conversar.

— O que você pode querer conversar comigo?

— Faz muito tempo, irmão, que não falamos um com o outro, que não discutimos este triste conflito. Isso não parece estar certo.

— Pare de me chamar de irmão e diga logo o que quer!

— Tanta agressividade não é necessária. Nós apenas queremos a paz. Queremos pôr um fim em tanto sofrimento. Abandone essa luta estúpida e deixe a humanidade seguir seu curso. Pare de interferir no destino deles e tudo estará perdoado.

— Não seja hipócrita! Como pode me pedir para parar, quando quem mais interfere no destino deles é você?

— Eu não interfiro. Apenas tento fazer com que as coisas voltem ao seu curso natural, curso este que você desviou.

— Não seja ridículo! Se foi para isso que veio me importunar, ordeno que se vá.

— Ora, seja razoável! Que esperança de vitória você pode ter? Não conhece o meu poder? Não sabe o que farei se você mantiver a humanidade nesse caminho? Para que lhe servirão essas vitórias vãs?

— Não me venha com seus blefes! Se há uma coisa que eu aprendi depois de tanto tempo é que você não tem certeza da vitória.

— Dinaer, é assim que eles o chamam, não é?

— Esse, entre outros nomes, como você bem sabe.

— Dinaer, sinto uma confiança em você, como se tivesse um trunfo escondido. Por acaso existe um elemento nesta equação que eu desconheça?

— Não me faça rir. Mesmo que eu tivesse um "trunfo" não o revelaria a você.

— Naturalmente. Vemos que nossa tentativa de conciliação não serviu para nada. Saiba que nossa intenção aqui era de paz. Entretanto, como você insiste em se fazer de surdo aos argumentos da razão e aos imperativos da lógica, somos forçados a adverti-lo: pare de intervir na Terra das Sombras.

— O que quer dizer?

— Você nos obriga a que sejamos mais diretos do que desejaríamos. Mas se assim o quer, que seja então. A guerra entre o imperador Zairon Norgat e a facção alguiana já está decidida, você bem sabe. Ocorre que o resultado do conflito nos satisfaz. Ordenamos que pare de interferir.

— Chamar a facção de Zairom de alguiana é bastante questionável... De qualquer forma, não entendo sua observação. Não interferi e nem pretendo interferir nesta guerra.

— Não nos subestime, Dinaer! Se o afirmamos é porque sabemos que você tem interferido muito mais do que o aceitável. Você salvou os filhos de Zairom e a filha de Diom da morte certa, e agora os têm sob sua proteção. Por quê? Não me diga que foi por motivos humanitários — provocou meu inimigo.

— Então, você estava acompanhando. Eu bem que desconfiei. Não nego que os ajudei, mas não tenho de explicar os meus motivos a você.

— Se pensa que pode reverter esta guerra a partir deles, está muito enganado. Sua tentativa de pôr a Terra das Sombras sob o controle de seus vassalos fracassou! — afirmou ele. Pelo que parecia, achava que eu estava ajudando os jovens com o intuito de auxiliar a facção de Zairom. Que erro! Ele me conhecia o suficiente para saber que não era do meu feitio me imiscuir em ninharias. Isso me forçava a ponderar que a Terra das Sombras deveria possuir alguma importância especial para ele. Somente assim estaria justificada, na mente dele, uma intervenção da minha parte. Lembrei-me, de relance, da visão de Larcon, o ex-escravo, da cadeia de eventos que se iniciara com ele. Um raciocínio há muito iniciado se completava. Finalmente, tudo passara a fazer pleno sentido! Por certo, o Inimigo tinha grandes planos para aquela gente. Pobres coitados! O importante, porém, era que ele estava ainda longe da verdade.

— Admito que a situação deles é difícil — concordei.

— Nós temos sido pacientes, Dinaer, pois respeitamos você pelo que foi no passado. Que fique claro, porém, que nossa paciência tem limite.

— Diga logo o que quer.

— Queremos os jovens de volta. Devolva-os para as legiões imperiais e relevaremos sua interferência.

— O quê?

— Você já entendeu. É uma proposta generosa da nossa parte. Se se recusar, nós retaliaremos!

— Ah, é mesmo? Pergunto-me se está em posição de cumprir tal ameaça.

— É fato que nossa interferência recente em favor do Larcon drenou nossas energias. No entanto, se nós realmente precisarmos, poderemos causar uma destruição suficiente para retribuir sua insolência. Um terremoto na recém-reconstruída Algar me parece bastante adequado, você não acha? Isso atrapalharia seus planos de recriar a sua repugnante Irmandade. Seria bastante conveniente — disse ele. Eu podia sentir que não estava blefando. Para me fazer uma ameaça como aquela, ele deveria mesmo querer os jovens de volta. E ele os queria vivos pois, do contrário, já os teria eliminado. Mas por quê? Se ele soubesse que Rairom era o escolhido, simplesmente o teria matado. Não era isso! O motivo dele era diverso. Havia uma pequena chance de o Inimigo querer Rairom por outra razão que eu desconhecia, mas isso não era lógico. Ocorreu-me, então, que talvez ele estivesse visando um dos outros dois jovens. Era difícil saber o que ele estava tramando, mas a chance de ele querer Tairom ou Lisian me parecia substancialmente maior, já que Zairon e Zainog teriam interesse nos dois. Mas estaria o Inimigo agindo em razão dos caprichos de meros mortais? Não era possível! Ele devia ter um objetivo próprio. Entretanto, não havia como determiná-lo. O fato é que se ele queria um dos outros dois jovens, eu não teria outra escolha senão entregá-los numa bandeja, por mais desagradável que isso fosse. Podia também, é claro, eliminá-los, o que tinha a vantagem de frustrar os planos do Inimigo, seja lá quais fossem eles mas, também, a desvantagem de desagradá-lo. O que eu não podia fazer era permitir que continuassem com Rairom, pois estaria sujeitando o escolhido a um risco extremamente elevado. Precisava ganhar tempo para que pudesse sopesar os fatos.

— Muito bem. Eu vou entregá-los, mas preciso de seis dias.

— Nós lhe damos três dias. Entregue-os a Cruon Fanor em Lor-Zainan.

— Está bem, então. Mas não interfira nesse período.

— De acordo. Eu acho que é tudo, irmão. Fico feliz que tenha entendido meu ponto de vista. Eu o deixo com sua solidão — falou ele por fim. Depois voltou o silêncio que reinava na noite. Eu fora um tolo ao me entregar às minhas mágoas, permitindo, assim, que ele me encontrasse. A intensidade dos meus sentimentos era diferente da dos humanos. Era o mesmo que acender uma fogueira numa planície escura. Eu me perguntava se teria ele conseguido sondar a minha mente, mesmo a uma longa distância. Se tivesse de apostar, diria que não, pois eu ficara bastante atento. Por outro lado, não havia como ter certeza. No futuro, deveria ser mais cauteloso. No entanto, aquela visita me revelara algo sobre as intenções do Inimigo quanto à Terra das Sombras e aos jovens (o que aliás foi o mais surpreendente). Tais intenções impunham uma mudança de rumo urgente. Tinha de voltar imediatamente a Lor-Zainan. Desta vez, eu estava preparado para imprevistos.

Retornei à toda velocidade. Em pouquíssimo tempo já andava de novo pelas ruas da Cidade do Portal. Escolhi a forma Raicar, a minha preferida. Não tardei a chegar à porta do alojamento dos soldados, que ficava nas proximidades do palácio do Cinog. A pessoa com quem queria falar deveria estar lá dentro. Já me preparava para convocá-lo mentalmente, quando, por coincidência, o vi se dirigindo à taverna local.

Considerando a missão que teria no dia seguinte, era inadmissível que se embebedasse. Por sorte, o encontrara a tempo.

— Logar, venha até aqui! — gritei. Tive de repetir meu grito para que me atendesse. Deixou seus dois companheiros, que seguiram para a taverna, e veio em minha direção. Estava com a cara amarrada, o que, somado com a cicatriz que tinha próximo ao olho esquerdo, fazia dele uma criatura desagradável de se ver.

— O que você quer, estranho. Como sabe o meu nome? — indagou ele. Como eu permanecia em silêncio, ele ameaçou: — Diga logo ou vai se arrepender.

— Agora está me fazendo ameaças, Logar? Esqueceu o que eu fiz por você?— inquiri. Aquela criatura torpe realmente me irritava, por isso um fogo brilhou em meus olhos, fazendo com que ele percebesse quem eu era. — Salvei sua vida quando a casa de Zairom Guenor estava em chamas. Evitei que fosse tostado naquele calabouço imundo. E é esta insolência a minha recompensa?

— Naquicar? — urrou ele. Esse era o nome pelo qual me conhecia. — Perdão, Naquicar. Perdão! Eu não sabia. Por favor, me perdoe — implorou de joelhos. Ele ficou aterrorizado. Era verdadeiramente ridículo rastejando daquele jeito.

— Acalme-se, Logar. Levante-se. Eu não lhe desejo mal algum. Muito pelo contrário: você me é útil. Continue a me servir adequadamente e terá um grande futuro pela frente.

— Sim, Naquicar, é claro que sim. Obrigado, muito obrigado — agradeceu. Já estava de novo de pé e recomposto.

— Eu vim requisitar seus serviços, Logar. Trata-se de uma missão muito importante.

— Sinto-me honrado. Eu o servirei com todo o meu fervor, Naquicar — falou ele. Esforçava-se para me bajular.

— No final da tarde de amanhã, os filhos de Zairom Guenor e a jovem que o derrotou meses atrás chegarão a esta cidade.

— É mesmo? Eu pensei que eles estivessem mortos.

— Pois não estão. Acha que ainda pode reconhecê-los?

— Sim. Posso reconhecer o rapaz perfeitamente. A moça também. Como poderia esquecer aqueles fedelhos!

— É o que basta. Aqui está uma representação dos esgotos de Lor-Zainan — disse, ao mostrar-lhe um mapa. — Este ponto, Logar, é onde eles estarão no final da tarde de amanhã. É a região que fica abaixo do mercado, perto do Rio Subterrâneo, nas proximidades da muralha sul. Não há como errar — completei, apontando-lhe a localização exata no mapa.

— Sim, o mapa está bastante claro.

— Sua missão consistirá em interceptá-los e prendê-los. Quando tiver a situação sob controle, deve levar o garoto menor e a moça. Deixe o rapaz nos esgotos.

— Certo. O que quer que eu faça com os outros dois?

— Mantenha-os prisioneiros e espere instruções minhas. Em um ou dois dias, decidirei o que fazer com eles. Nesse ínterim não os entregue a Cruon Fanor.

— Entendi. Não há nenhum problema nisso. Posso mantê-los prisioneiros no forte omitindo suas identidades.

— Mas lembre-se: o mais importante de tudo é que Rairom não seja ferido. Sei que você o odeia. Mas deve deixar seus sentimentos de lado para me servir adequadamente.

— Sim, Naquicar, eu compreendo.

— Compreende mesmo? Se fracassar neste ponto em particular, terríveis conseqüências se abaterão sobre você. Terríveis!

— Eu não fracassarei. O rapaz não será ferido. Quanto aos outros dois, farei o que me ordenou.

— Ótimo. Mas saiba que Rairom está muito mais perigoso desta vez. Não acho que possa vencê-lo, considerando o seu desempenho no último encontro que teve com eles.

— Eu posso, Naquicar. Eu não o desapontarei. Além do mais, não irei sozinho.

— É claro que não. Mas de qualquer forma, vou ajudá-lo. Tome estes dardos. Tem efeito imediato e deixarão o alvo desacordado por mais ou menos uma hora. Use-os em Rairom. Pode usar nos outros dois se achar necessário. Aqui tem vinte deles. Os que sobrarem, jogue no esgoto.

— Não posso ficar com eles?

— Não. Ninguém pode desconfiar da minha interferência nesse assunto, e os dardos são uma pista. Se você contar a alguém, Logar... Eu o advirto, existem coisas terríveis nesse mundo, os homens são capazes de coisas horrendas. Mas nada, Logar, nada se compara ao que vou fazer com você se me desapontar, se abrir a sua boca e contar a outra pessoa que me viu, ou se permitir que Rairom se machuque!

— Eu não o desapontarei — disse ele. Podia sentir o medo em sua voz.

— Assim é melhor. Saiba que eu sei recompensar a lealdade na mesma proporção em que puno os traidores — falei, antes de me retirar. A única forma de se controlar tipos como Logar é por meio do medo e da cobiça, pois estas são as poderosas forças que movem os vis. Assim, utilizando ambas, garantiria a sua lealdade de forma extremamente eficaz. Não me agradava usar essa espécie de gente em meus planos, mas tinha de reconhecer que, para certas tarefas — e a missão do dia seguinte era uma delas —, eles são os mais eficientes.

O dia não tardaria a nascer. Por isso, retornei sem mais delongas às velhas ruínas que me aguardavam. O sol já começava a despontar no leste, dando aos céus um colorido alaranjado, quando eu finalmente cheguei. Toquei o solo, e era um homem de novo. Adentrei a sala, na qual reinava o silêncio. Todos deviam estar dormindo. Era melhor que descansassem mesmo. Deviam recuperar a plenitude de suas forças para enfrentar as dificuldades que se seguiriam. Minha ansiedade era grande, pois havia variáveis demais. Era impossível, mesmo para mim, prever todas elas. Uma falha em meu plano tornara-se muito mais provável, e os riscos substancialmente maiores, depois do meu encontro com o Inimigo. Se ao menos eu soubesse o que ele pretendia, quais eram seus planos para os jovens, tomar a atitude certa seria muito mais fácil.

De súbito, eu vi que não estava mais sozinho. Na minha frente encontrava-se Tairom. O curioso é que eu nem havia me apercebido da sua chegada. Mas isso era de se esperar, pois eu estava muito distraído e preocupado. Seu olhar, porém, era estranhamente dissimulado.

— Então já acordou, meu jovem amigo — comentei.

— Já. Bom dia, Raicar.

— Bom dia — respondi.

— Você me parece cansado — afirmou ele. Como poderia estar cansado? O cansaço físico não era da minha natureza. No entanto, o comentário não tinha nada de absurdo. A palavra certa, porém, era desgastado. Estava desgastado em função das circunstâncias que enfrentava.

— É que eu passei a noite tentando resolver o problema de vocês — expliquei com relativa sinceridade.

— E encontrou a solução?

— Acho que sim. Mas se não se importa prefiro explicar tudo mais tarde, quando os outros acordarem.

— Eu não me importo... Raicar, meu irmão acha que você não é quem diz ser.

— Eu já sei disso. Ele veio falar comigo ontem. Rairom é um tolo inexperiente — afirmei. Não devia ter dito isso. Mas eram tantos os aborrecimentos que acabei por falar demais. Não foi preciso mais nada. Para minha vergonha, o menino me pegou de surpresa ao desembainhar sua espada, encostando-a em meu peito, próximo à altura em que estaria o coração, se tivesse um. Se fosse qualquer outra espada, qualquer outra arma, eu não teria com o que me preocupar, a não ser em perder meu disfarce perante o garoto (pois ele não conseguiria me ferir). Entretanto, a espada dos Guenor era tudo menos uma espada! Ela era nada menos que uma das quatro Pedras Raim, a única dentre elas que o Inimigo não pervertera. Eu atribuíra-lhe pessoalmente um novo poder e a forma de uma espada. Num passado distante, ela fora um presente meu para a Irmandade. Por uma suprema ironia, corria o risco de virar uma vítima da minha própria criação.

— Eu acho que ele pode ter razão — disse o garoto. Menino insolente! Conseguira me deixar extremamente enraivecido. Mas aquele não era o momento para a cólera. Muito pelo contrário: devia agir com perícia para não botar tudo a perder. Como explicar uma atitude como aquela? No dia anterior, ele me parecera bastante convencido, dócil até. O que fizera o garoto mudar de idéia?

— Por favor, jovem Tairom, não me mate — implorei. Desagrada-me sobremaneira a lembrança desse episódio humilhante. Mas ele é útil para mostrar como o Inimigo pode ser perigoso. — Eu só quero ajudá-los, só isso. Olhe nos meus olhos! Acha que estou mentindo? — indaguei. O garoto pareceu perder a convicção. Minha estratégia estava funcionando. — Pergunte para o seu irmão! Eu só quero ajudá-los. Por favor, deixe-me viver! — disse por fim. Tairom afastou a espada.

— Desculpe-me, Raicar. É que eu tive um sonho muito estranho essa noite — disse ele. Um sonho estranho? Era isso! O Inimigo o inspirara a usar a espada dos Guenor contra mim. Muito esperto da parte dele, tinha de reconhecer. Que este triste episódio servisse pelo menos para que eu não mais me esquecesse da necessidade de estar sempre atento a todas as possibilidades e perigos.

— Está certo, meu jovem. Eu entendo. É de se esperar que esteja tenso depois de tudo o que passou — falei antes de me retirar. Depois daquele susto, devia prosseguir com o plano da forma mais exata possível. No entanto, podia prever que, por melhor que fizesse a minha parte, ainda teria de enfrentar imprevistos. Pois que viessem! Eu os venceria a todos e ludibriaria até o destino, se necessário fosse. Para tanto, precisava apenas me manter frio e atento a todos os detalhes. Minha perspicácia era o instrumento que me levaria ao êxito. Não permitiria que o Inimigo me superasse nesta questão tão crucial. Ele me subestimava! Pois bem, ensinar-lhe-ia uma lição.

Quando Lisian e Rairom acordaram, pedi a Sirat que servisse uma refeição leve e que lhes preparasse provisões. Era chegada a hora da partida. Enquanto ainda comiam, relatei brevemente o que esperava que eles fizessem. Dar-lhes-ia o que tanto queriam: um destino. Em troca, eles se poriam em minhas mãos e cumpririam meus desígnios. Soubessem ou não desse fato, esta era a barganha que lhes ofereci naquele dia nublado. Era um dia como tantos outros na Ilha Zainíquia, mas que, para mim, tinha algo de singular. Sim, aquele era um dia singular, pois era decisivo. Eu podia prever isso já naquele instante.

— Então você quer que entremos naqueles vagões novamente? — indagou Lisian, depois de ouvir minha proposta. — Eu não gosto dessa idéia.

— Entenda-me, minha senhora. É o modo mais rápido para que cheguem até a Cidade do Portal. Pelo que me relataram, a celeridade é essencial. Mestre Quiarom precisa ser avisado o quanto antes.

— De nada vai adiantar a rapidez, se nós chegarmos mortos em Lor-Zainan — argumentou Tairom.

— Eu lhes garanto que é seguro. Somos capazes de controlar o aparelho.

— Deve haver uma outra maneira — defendeu a garota.

— Não existe outra maneira! — retruquei irritado. Aquele não era o momento para hesitações. Eles tinham de partir.

— Dinaer, o que você está tramando? — indagou Rairom. Ele me chamara pelo meu outro nome na frente dos dois jovens? Ele não podia fazer isso. Sabia dos riscos que uma atitude como esta implicava. Riscos para Tairom e Lisian, é claro. Mas Rairom não falara realmente. Eu percebi que os lábios do rapaz não haviam se mexido! Na verdade, ele se dirigira diretamente à minha mente. Esta foi a primeira vez que vi Rairom se utilizar de tal habilidade. Ele estava crescendo em poder rapidamente. Tudo graças à dádiva que eu lhe oferecera. A abertura de seu terceiro olho estava surtindo efeitos.

— Nada, Rairom. Eu apenas quero ajudá-lo — respondi, também mentalmente.

— Eu não confio em você! Você só ajuda a si mesmo.

— Rairom, você não precisa gostar de mim para saber que, neste momento, eu sou sua única chance de sobrevivência. Qual a esperança que pode alimentar numa terra desolada como esta? Prefere morrer aqui? É o que quer, morrer? Eu lhe ofereço a possibilidade de chegar à Cidade do Portal. Não é isto que você desejava?

— Acho que não temos escolha. Mas não creio que esteja contando tudo o que sabe. Há algo errado em Lor-Zainan, não há? — indagou o rapaz. Estaria ele lendo minha mente? Não era possível. Nenhum mortal seria capaz. Concluí que devia estar intuindo esta realidade.

— Eu lhe respondo apenas com isso: não há lugar seguro em toda a Terra das Sombras onde vocês três possam se abrigar. Mas eu não os enviaria para Lor-Zainan se não houvesse esperança — disse a ele, com a voz da minha mente. O rapaz ficou alguns momentos em silêncio. Falou então em alto e bom som:

— Eu acho que Raicar está certo. Não temos escolha.

— Você acha isso mesmo, Rairom? — indagou a garota.

— Acho, Lisian. Nós temos de ir. Não há outro jeito. Retardar nossa partida só pioraria as coisas.

— Você está certo, eu acho.

— E quanto a você, Tairom? — indaguei.

— Só de pensar em entrar naquele vagão de novo eu tenho arrepios. Não gosto de lugares fechados. Mas acho que não há mesmo outro jeito. Dos males, o menor.

— Ótimo — comemorei. — Como eu expliquei ontem, o trem os levará até algum lugar nos subterrâneos de Lor-Zainan. Com a ajuda deste mapa, vocês encontrarão a saída sem o menor problema. Rairom, você quer ficar com ele?

— Está certo — disse o rapaz, ao receber o mapa.

— Raicar, eu tive uma idéia. Por que você não vem conosco? — sugeriu a garota. — Temo que não consigamos encontrar o caminho sozinhos.

— Eu adoraria, minha senhora. No entanto, preciso permanecer aqui para controlar o veículo.

— Entendo...

— Mas não se preocupe. Tenho certeza de que encontrarão a saída dos esgotos sem nenhum problema. Preparem-se. Eu tomarei as providências necessárias. Vocês partirão dentro de três horas. Peguem os suprimentos e vão até os trilhos onde nos encontramos. Estarei esperando vocês. Acham que conseguem chegar até lá sozinhos?

— É claro que sim — disse Tairom.

— Excelente. Vou para lá agora mesmo para fazer os preparativos finais. Adeus.

Dirigi-me, então, até a linha do trem. Eu já o havia preparado para esta viagem bem antes. Agora só me restava esperar. As horas passaram-se lentamente, como era lenta a brisa que esfregava o solo. Eu estava ansioso. O que mais temia era que o Inimigo quisesse Rairom, fizesse questão de tê-lo. Se esta hipótese se concretizasse, teria de optar por uma entre duas saídas. A primeira era confrontá-lo diretamente, protegendo a vida do alorain com todas as minhas forças. Nesse caso, teria de me esforçar para destruir meu velho Inimigo. Esta hipótese parecia mais alentadora do que realmente era. Isto porque se, por um lado, ela anteciparia nosso quase inevitável confronto, pondo fim a esta série interminável de lutas paralelas, por outro, uma batalha dessas proporções envolvia enormes riscos para ambos os lados. Ademais, tinha razões para crer que os riscos eram bem maiores para mim do que para ele. Por isso, este confronto devia ser evitado. Afinal, eu tinha um papel a desempenhar. A mim cabia guiar a humanidade em direção à Grande Reivindicação. Uma vez que esta fosse alcançada, não teria dificuldades em superar o Inimigo, se preciso fosse. Mas antes disso, um confronto seria bastante temerário, não só para mim, mas principalmente para a Causa. No entanto, a outra das duas saídas era igualmente danosa. Se por ela optasse, teria de desistir de Rairom, abandoná-lo à própria sorte. O perecimento prematuro do escolhido implicaria um enorme revés para a Causa. Não seria uma derrota definitiva, mas um fato como este acarretaria um atraso de centenas, talvez milhares de anos. Não estava disposto a esperar todo esse tempo. Felizmente, eu ainda nutria esperanças reais de que não teria de fazer esta difícil escolha.

Os jovens chegaram pouco antes da hora marcada. Traziam consigo os suprimentos que Sirat separara em três bolsas não muito pesadas. Não estavam muito empolgados. Lisian e Tairom, na verdade, estavam tensos pela perspectiva de entrar no trem. Rairom também tinha um ar preocupado, mas os motivos eram outros. Temia o que poderia ocorrer quando chegassem a Lor-Zainan. Por alguma razão, ele previa um grande risco. Nutria sérias dúvidas de que Quiarom estivesse ainda no controle da cidade. Além disso, desconfiava da minha boa vontade. Analisando a situação pela perspectiva do rapaz, sou forçado a concordar com ele. Meu plano, uma vez posto em prática, seria qualificado por Rairom como traição. No entanto, o que ele não entendia é que minhas ações eram sempre guiadas pelo bem da mesma Causa a que ele servia. Na esperança de que um dia me compreendesse, pouco antes do embarque, eu o presenteei com um livro. Escrito em alguiano, somente Rairom seria capaz de entendê-lo. O rapaz relutou em aceitar meu presente, mas a curiosidade falou mais alto. Acabou ficando com ele. Aquele registro antigo significava conhecimento sobre a Causa e era justamente disso que Rairom julgava precisar. Não para que pudesse melhor cumprir seu destino mas, sim, para descobrir uma forma de ludibriá-lo. Porém, a aceitação de Rairom quanto ao seu futuro era irrelevante. No curto prazo, o que importava eram suas ações, as quais até aquele ponto estavam de acordo com meus interesses, mesmo porque suas escolhas eram poucas. Eu me despedi dos jovens rapidamente. Não havia muito o que dizer, nem razões para esperar. Restava apenas uma advertência a ser feita e eu a fiz mentalmente: — Rairom — disse eu. O rapaz imediatamente olhou em minha direção. — Você está certo em seus receios. Grandes riscos os esperam em Lor-Zainan. Mas eu não o abandonarei. Gostando ou não, rapaz, você tem em mim seu maior aliado. Quando precisar de ajuda, vá à Praça do Mercado. Próximo à estátua do Cinog, você a encontrará. Adeus.

O rapaz nada disse em resposta. Temi que ele não seguisse meu conselho. No entanto, por ora, só me restava esperar e torcer. Assim que eles embarcaram no vagão, a porta se fechou e o engenho dos antigos começou a se movimentar. Lá se foram eles para a Cidade do Portal. Levavam consigo suas esperanças e as minhas também.