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A GUERRA DO FIM DO MUNDO / Mario Vargas Llosa
A GUERRA DO FIM DO MUNDO / Mario Vargas Llosa

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A GUERRA DO FIM DO MUNDO

 

            O homem era alto e tão fraco que parecia sempre de perfil. Sua pele era escura, seus ossos proeminentes e seus olhos ardiam com fogo perpétuo. Calçava sandálias de pastor e a túnica morada que lhe caía sobre o corpo recordava o hábito desses missionários que, de quando em quando, visitavam os povos do sertão batizando multidões de meninos e casando aos casais amancebados. Era impossível saber sua idade, sua procedência, sua história, mas algo havia em sua cara tranqüila, em seus costumes frugais, em sua imperturbável seriedade que, até antes de que desse conselhos, atraía às pessoas.

            Aparecia de improviso, ao princípio sozinho, sempre a pé, coberto pelo pó do caminho, cada certo número de semanas, de meses. Sua larga silhueta se recortava na luz crepuscular ou nascente, enquanto cruzava a única rua do povoado, os grandes limiares, com uma espécie de urgência. Avançava resolutamente entre cabras que balançavam os sinos, entre cães e meninos que lhe abriam passagem e o olhavam com curiosidade, sem responder às saudações das mulheres que já o conheciam e lhe faziam vênias e se apressavam a lhe trazer jarras de leite de cabra e pratos de farinha e feijão. Mas ele não comia nem bebia antes de chegar até a igreja do povo e comprovar, uma vez mais, uma e cem vezes, que estava rota, despintada, com suas torres truncas e suas paredes furadas e seus chãos levantados e seus altares roídos pelos vermes. Entristecia-lhe a cara com uma dor de retirante ao que a seca matou filhos e animais; privado de bens, abandonou sua casa, os ossos de seus mortos, para fugir, fugir, sem saber aonde. Às vezes chorava e no pranto o fogo negro de seus olhos recrudescia com brilhos terríveis. Imediatamente ficava a rezar. Mas não como rezam outros homens ou as mulheres: ele se estendia de bruços na terra, ou nas pedras, ou nas louças lascadas, frente aonde estava ou tinha estado ou deveria estar o altar, e ali orava, às vezes em silêncio, às vezes em voz alta, uma, duas horas, observado com respeito e admiração pelos vizinhos. Rezava o Credo, o Pai Nosso e as Ave-marias sabidos, e também outras rezas que ninguém tinha escutado antes mas que, ao longo dos dias, dos meses, dos anos, as pessoas iriam memorizando. Onde está o pároco?, ouviam-lhe perguntar, por que não há aqui um pastor para o rebanho? Pois, que nas aldeias não houvesse um sacerdote, causava pena tanto como a ruína das moradas do Senhor.

            Só depois de pedir perdão ao Bom Jesus pelo estado em que tinham sua casa, aceitava comer e beber algo, apenas uma demonstra do que os vizinhos se dedicavam em lhe oferecer até em anos de escassez. Consentia em dormir sob o teto, em alguma das moradias que os sertanejos punham ao seu dispor; mas, rara vez lhe viu repousar na rede, na cama ou colchão de quem lhe oferecia estalagem. Tombava-se no chão, sem manta alguma, e, apoiando em seu braço a cabeça de emaranhados cabelos cor azeviche, dormia umas horas. Sempre tão poucas que era o último a deitar-se e quando os vaqueiros e os pastores mais madrugadores saíam ao campo já o viam, trabalhando em estancar os muros e os telhados da igreja.

            Dava seus conselhos ao entardecer, quando os homens retornaram do campo e as mulheres tinham acabado os afazeres domésticos e as criaturas estavam já dormindo. Dava-os nesses descampados desmantelados e pedregosos que há em todos os povos do sertão, no cruzeiro de suas ruas principais e que se puderam chamar praças se tivessem bancos, pracinhas, jardins ou conservassem os que alguma vez tiveram e foram destruindo as secas, as pragas, o descuido. Dava-os a essa hora em que o céu do Norte do Brasil, antes de obscurecer-se e estelar se, flameja entre abundantes nuvens brancas, cinzas ou azuladas e há como um vasto fogo de artifício lá no alto, sobre a imensidão do mundo. Dava-os a essa hora em que se prendem as fogueiras para espantar aos insetos e preparar a comida, quando diminui o bafo sufocante e se levanta uma brisa que põe às pessoas de melhor ânimo para suportar a enfermidade, a fome e os padecimentos da vida.

            Falava de coisas singelas e importantes, sem olhar a ninguém em especial da gente que lhe rodeava, ou melhor, olhando, com seus olhos incandescentes, através do corro de velhos, mulheres, homens e meninos, algo ou alguém que só ele podia ver. Coisas que se entendiam porque eram obscuramente sabidas desde tempos imemoriais e que alguém aprendia com o leite que mamava. Coisas atuais, tangíveis, cotidianas, inevitáveis, como o fim do mundo e o Julgamento Final, que podiam ocorrer talvez antes do que demorasse o povoado em pôr direita a capela abatida. O que ocorreria quando o Bom Jesus contemplasse o desamparo em que tinham deixado sua casa? O que diria do proceder desses pastores que, em vez de ajudar ao pobre, esvaziavam-lhe os bolsos lhe cobrando pelos serviços da religião? Podiam-se vender as palavras de Deus, não deviam dar-se de graça? Que desculpa dariam ao Padre aqueles pais que, pese ao voto de castidade, fornicavam? Podiam lhe inventar mentiras, acaso, a quem lia os pensamentos como lê o rastreador na terra o passado do jaguar? Coisas práticas, cotidianas, familiares, como a morte, que conduz à felicidade se se entrar nela com a alma limpa, como a uma festa. Eram os homens animais? Se não o eram, deviam cruzar essa porta engalanados com seu melhor traje, em sinal de reverência Àquele a quem foram encontrar. Falava-lhes do céu e também do inferno, a morada do Cão, empedrada de brasas e serpentes e de como o Demônio podia manifestar-se em inovações de semblante inofensivo.

            Os vaqueiros e os peões do interior o escutavam em silêncio, intrigados, atemorizados, comovidos; e assim o escutavam os escravos e os libertos dos engenhos do litoral; as mulheres; os pais; os filhos de uns e de outros. Alguma vez alguém  — mas rara vez porque sua seriedade, sua voz cavernosa ou sua sabedoria os intimidava — o interrompia para esclarecer uma dúvida. Terminaria o século? Chegaria o mundo a 1900? Ele respondia sem olhar, com uma segurança tranqüila e, freqüentemente, com enigmas. Em 1900 se apagariam as luzes e choveriam estrelas. Mas, antes, ocorreriam feitos extraordinários. Um silêncio seguia a sua voz, no que se ouvia crepitar as fogueiras e o bordear de quão insetos as chamas devoravam, enquanto os aldeãos, contendo a respiração, esforçavam de antemão a memória para recordar o futuro. Em 1896 um milhar de rebanhos correriam da praia por volta do sertão; e o mar viraria sertão, e o sertão mar. Em 1897 o deserto se cobriria de pasto, pastores e rebanhos se mesclariam e a partir de então haveria um só rebanho e um só pastor. Em 1898 aumentariam os chapéus e diminuiriam as cabeças e em 1899 os rios se tornariam vermelhos e um planeta novo cruzaria o espaço.

            Havia, pois, que se preparar. Teriam que restaurar a igreja e o cemitério, a mais importante construção depois da casa do Senhor, pois era sala de espera do céu ou do inferno, e teriam que destinar o tempo restante ao essencial: à alma. Acaso partiriam o homem ou a mulher lá com saias, vestidos, chapéus de feltro, sapatos de cordão e todos esses luxos de lã e de seda que não vestiu alguma vez o Bom Jesus?

            Eram conselhos práticos, singelos. Quando o homem partia, falava-se dele: que era santo, que tinha feito milagres, que tinha visto a sarça ardente no deserto, igual a Moisés, e que uma voz lhe tinha revelado o nome impronunciável de Deus. E se comentavam seus conselhos. Assim, antes de que terminasse o Império e depois de começada a República, os aldeãos de Tucano, Soure, Amparo e Pombal, foram escutando-os; e, mês a mês, ano a ano, foram ressuscitando de suas ruínas as igrejas do Bom Conselho, de Geremoabo, de Massacará e do Inhambupe; e, segundo seus ensinos, surgiram taipas e nichos nos cemitérios de Monte Santo, de Entre Rios, de Abadia e do Barracão; e a morte foi celebrada com dignos enterros no Itapicurú, Cumbe, Natuba, Mocambo. Mês a mês, ano a ano, foram-se povoando de conselhos as noites do Alagoinhas, Uauá, Jacobina, Itabaiana, Campos, Itabaianinha, Gerú, Riachão Lagarto, Simão Dias. A todos pareciam bons conselhos e por isso, ao princípio em um, logo em outro e ao final em todos os povos do Norte, ao homem que os dava, embora seu nome era Antonio Vicente e seu sobrenome Mendes Maciel, começaram a chamá-lo o Conselheiro.

            Uma grade de madeira separa aos redatores e empregados do Jornal de Notícias  —cujo nome destaca, em caracteres góticos, sobre a entrada — da gente que se chega até ali para publicar um aviso ou trazer uma informação. Os jornalistas não são mais de quatro ou cinco. Um deles revisa um arquivo embutido na parede; dois conversam animadamente, sem jaquetas mas com colarinhos duros e gravatas-borboletas de laço, junto a um calendário no que se lê a data  —outubro, segunda-feira, 2, 1896 — e outro, jovem, desajeitado, com grossos óculos de míope, escreve sobre uma carteira com uma pluma de ganso, indiferente ao que ocorre em torno dele. Ao fundo, depois de uma porta de cristais, está a Direção. Um homem com viseira e punhos postiços atende a uma fila de clientes no mostrador dos Avisos Pagos. Uma senhora acaba de lhe alcançar um cartão. A caixa, molhando o indicador, conta as palavras  — Clisteres Giffoni// Curam as Gonorréias, as Hemorróides, as Flores Brancas e todas as moléstias das Vias Urinarias// Prepara-as Madame A. de Carvalho// Rua Primeiro de Março N.8 — e diz um preço. A senhora paga, guarda o troco e, quando se retira, quem esperava atrás dela adianta-se e estira um papel à caixa. Vestido de escuro, com uma levita de duas pontas e um chapéu-coco que denotam uso. Uma anelada cabeleira avermelhada lhe cobre as orelhas. É mais alto que baixo, de largas costas, sólido, maduro. A caixa conta as palavras do aviso, deixando deslizar o dedo sobre o papel. De repente, enruga a testa, levanta o dedo e aproxima muito o texto aos olhos, como se temesse ter lido mal. Por fim, olha perplexo ao cliente, que permanece feito uma estátua. O caixa pestaneja, incômodo, e, por fim, indica ao homem que espere. Arrastrando os pés, cruzando o local, com o papel balançando-se na mão, toca com os nódulos o cristal da Direção e entra. Uns segundos depois reaparece e por gestos indica ao cliente que passe. Logo, retorna a seu trabalho. O homem de escuro atravessa o Jornal de Notícias fazendo soar os tacos como se calçasse ferraduras. Ao entrar em pequeno despacho, lotado de papéis, periódicos e propaganda do Partido Republicano Progressista—Um Brasil Unido, Uma Nação Forte—, está esperando-o um homem que o olha com uma curiosidade risonha, como a um inseto estranho. Ocupa o único escritório, usa botas, um traje cinza, e é jovem, moreno, de ares enérgicos.

            — Sou Epaminondas Gonçalves, o Diretor do periódico— diz —. Adiante.

            O homem de escuro faz uma ligeira vênia e leva a mão ao chapéu, mas não o tira nem diz uma palavra.

            — Você pretende que publiquemos isto? — pergunta o Diretor, agitando o papel.

            O homem de escuro assente. Tem uma barbicha avermelhada como seus cabelos, e seus olhos são penetrantes, muito claros; sua boca larga está franzida com firmeza e as narinas de seu nariz, muito abertas, parecem aspirar mais ar de que necessitam.

            — Caso não custe mais de dois mil réis  — murmura em um português dificultoso —. É todo meu capital.

            Epaminondas Gonçalves fica como duvidando entre rir ou zangar-se. O homem continua de pé, muito sério, observando-o. O Diretor opta por levar o papel aos olhos:

            — «Convoca-se aos amantes da justiça a um ato público de solidariedade com os idealistas de Canudos e com todos os rebeldes do mundo, na Praça da Liberdade, em 4 de outubro, às seis da tarde» —lê, devagar—. Pode-se saber quem convoca este comício?

             — Por hora eu  — responde o homem, no ato —. Se o Jornal de Notícias quer auspiciá-lo, wonderful.

            — Sabe você o que fez esses, lá em Canudos ? — murmura Epaminondas Gonçalves, golpeando a mesa —. Ocupar uma terra alheia e viver em promiscuidade, como os animais.

            — Duas coisas dignas de admiração  —assente o homem de escuro—. Por isso decidi gastar meu dinheiro neste aviso.

            O Diretor fica um momento calado. Antes de voltar a falar, pigarra:

            — Pode-se saber quem é você, senhor?

            Sem fanfarronice, sem arrogância, com mínima solenidade, o homem se apresenta assim:

            — Um combatente da liberdade, senhor. O aviso vai ser publicado?

            — Impossível, senhor — responde Epaminondas Gonçalves, já dono da situação—. As autoridades da Bahia só esperam um pretexto para me fechar o periódico. Embora da boca para fora aceitaram a República, continuam monárquicas. Somos o único jornal autenticamente republicano do Estado, suponho que se deu conta.

            O homem de escuro faz um gesto desdenhoso e resmunga, entre dentes,           «Esperava-me isso».

            —Aconselho-lhe que não leve este aviso ao Jornal da Bahia  —adiciona o Diretor, lançando-lhe o papel—. É do Barão de Canabrava, o dono de Canudos. Terminaria você no cárcere.

            Sem dizer uma palavra de despedida, o homem de escuro dá meia volta e se afasta, guardando o aviso no bolso. Cruzando a sala do jornal sem olhar nem saudar ninguém, com seu andar sonoro, observado de canto de olho — silhueta fúnebre, ondeantes cabelos — pelos jornalistas e clientes dos Avisos Pagos. O jornalista jovem, de óculos de míope, levanta-se de sua carteira depois de passar por ele, com uma folha amarelada na mão, e vai para a Direção, onde Epaminondas Gonçalves está ainda espiando ao desconhecido.

            — «Por disposição do Governador do Estado da Bahia, Excelentíssimo Senhor Luis Viana, hoje partiu de Salvador uma Companhia do Nono Batalhão de Infantaria, ao mando do Tenente Pires Ferreira, com a missão de lançar de Canudos aos bandidos que ocuparam a fazenda e capturar o seu cabeça, o Sebastianista Antonio Conselheiro»— Lê, em primeira página ou interiores, senhor?

            — Que vá debaixo dos enterros e das missas — diz o Diretor. Aponta para a rua, onde desapareceu o homem de escuro —. Sabe quem é esse tipo?

            — Galileo Gall  —responde o jornalista míope—. Um escocês que anda pedindo permissão às pessoas da Bahia para lhes tocar a cabeça.

                                                               ***

            Tinha nascido em Pombal e era filho de um sapateiro e sua querida, uma inválida que, em que pese a sê-lo, pariu à três varões antes dele e pariria depois a uma donzela que sobreviveu à seca. Puseram-lhe Antonio e, se houvesse lógica no mundo, não deveria viver, pois quando ainda engatinhava ocorreu a catástrofe que devastou a região, matando cultivos, homens e animais. Por culpa da seca quase todo Pombal emigrou para a costa, mas Tiburcio da Mota, que em seu meio século de vida não se afastou nunca mais de uma légua desse povoado, no que não havia pés que não fossem calçados por suas mãos, fez saber que não abandonaria sua casa. E cumpriu, ficando em Pombal com um par de dúzias de pessoas apenas, pois até a missão dos padres lazaristas se esvaziou.

            Quando, um ano mais tarde, os retirantes de Pombal começaram a voltar, animados pelas novas de que os baixios se alagaram outra vez e já se podia semear cereais, Tiburcio da Mota estava enterrado, como sua concubina inválida e os três filhos maiores. Comeram-se todo o comestível e quando se acabou, tudo o que fora verde e, por fim, tudo o que podiam triturar os dentes. O vigário Dom Casimiro, que foi enterrando, assegurava que não tinham perecido de fome, mas sim de estupidez, por comer em couros de sapataria e beber as águas da Lacuna do Boi, aglomeração de mosquitos e de pestilência que até os cabritos evitavam. Dom Casimiro recolheu ao Antonio e a sua irmãzinha, fez-os sobreviver com dietas de ar e preces e, quando as casas do povo se encheram outra vez de gente, buscou-lhes um lar.

            À menina a levou sua madrinha, que foi trabalhar em uma fazenda do Barão de Canabrava. Ao Antonio, então com cinco anos, adotou-o o outro sapateiro de Pombal, chamado o Caolho — tinha perdido um olho em uma rixa—, quem aprendeu seu ofício na oficina de Tiburcio da Mota e ao retornar ao Pombal herdou sua clientela. Era um homem áspero, que andava bêbado com freqüência e costumava amanhecer caído na rua, fedendo a cachaça. Não tinha mulher e fazia trabalhar ao Antonio como uma besta de carga, varrendo, limpando, lançando-lhe pregos, tesouras, selas, botas, ou indo à curtume. Fazia-o dormir sobre uma pele, junto à mesinha onde o Caolho passava todas as horas em que não estava bebendo com seus compadres.

            O órfão era miúdo e dócil, puro osso e uns olhos coibidos que inspiravam compaixão às mulheres de Pombal, as quais, quando podiam, davam-lhe algo de comer ou as roupas que já não cabiam em seus filhos. Elas foram um dia — meia dúzia de fêmeas que tinham conhecido à entrevada e fofocado a sua beira em incontáveis batismos, confirmações, velórios, matrimônios — à oficina do Caolho a lhe exigir que mandasse ao Antonio ao catecismo, a fim de que o preparassem para a primeira comunhão. Assustaram-no, de tal modo, dizendo-lhe que Deus pediria satisfação se esse menino morresse sem fazê-la, que o sapateiro, a contra gosto, consentiu em que assistisse à doutrina da missa, todas as tardes, antes das vésperas.

            Algo notável ocorreu então na vida do menino, ao que, pouco depois, em conseqüência das mudanças que operou nele a doutrina dos lazaristas, começariam a chamar o Beato. Saía das prédicas com o olhar largado do contorno e como purificado de escórias. O Caolho contou que muitas vezes o encontrava de noite, ajoelhado na escuridão, chorando pelo sofrimento de Cristo, tão absorto que só retornava ao mundo remexendo-o. Outras noites sentia-o falar em sonhos, agitado, da traição do Judas, do arrependimento da Madalena, da coroa de espinhos; e uma noite ouviu-o fazer voto de perpétua castidade, como São Francisco de Sales ao cumprir os onze anos.

            Antonio tinha encontrado uma ocupação a que consagrar sua vida. Continuava submisso aos mandados do Caolho, mas os fazia entrecerrando os olhos e movendo os lábios de modo que todos compreendiam que, embora varresse, ou corresse, onde o correeiro sujeitava a sola que o Caolho martelava, estava em realidade rezando. Ao pai adotivo as atitudes do menino o turvavam e atemorizavam. No rincão onde dormia, o Beato, foi construindo um altar, com imagens que lhe deram de presente na missão e uma cruz de xique-xique que ele mesmo esculpiu e pintou. Ali prendia uma vela para rezar, ao levantar-se e ao deitar-se; ali, de joelhos, com as mãos juntas e a expressão contrita, gastava seus momentos livres, em vez de brincar de correr pelos potreiros; montar à pelo os animais chuchados; caçar pombas, ou ir ver castrar aos touros como outros meninos de Pombal.

            Desde que fez a primeira comunhão foi coroinha de Dom Casimiro e quando este morreu, continuou ajudando a rezar missa aos lazaristas da missão, embora, para isso, tinha que andar, entre idas e voltas, uma légua diária. Nas procissões jogava o incenso e ajudava a decorar as andas e os altares das esquinas onde a Virgem e o Bom Jesus faziam um alto para descansar. A religiosidade do Beato era tão grande como sua bondade. Espetáculo familiar para os habitantes de Pombal era vê-lo servir de guia de cegos ao cego Adelfo, ao qual acompanhava, às vezes, aos potreiros do coronel Ferreira, onde aquele tinha trabalhado até contrair catarata e dos que vivia melancólico. Levava-o dando o braço, atravessando o campo, com um pau na mão para escavar na terra à espreita das serpentes, escutando-lhe com paciência suas histórias. E Antonio recolhia também comida e roupa para o leproso Simão, que vivia como uma besta de sela desde que os vizinhos lhe proibiram aproximar-se de Pombal. Uma vez por semana, o Beato levava-lhe em um maço os pedaços de pão, de charque e os cereais que tinha mendigado para ele, e os vizinhos o divisavam, ao longe, guiando entre os penhascos da colina onde estava sua cova, para o poço de água, ao velho que andava descalço, com os cabelos crescidos, coberto só com uma pele amarela.

            A primeira vez que viu o Conselheiro, o Beato tinha quatorze anos e tinha sofrido, poucas semanas antes, uma terrível decepção. O Padre Moraes, da missão lazarista, jogou um banho de água geada ao lhe dizer que não podia ser sacerdote, pois, não era filho natural. Consolou-o, explicando-lhe que igual podia servir a Deus sem receber as ordens, e prometeu-lhe fazer gestões com um convento capuchinho onde talvez o receberiam como irmão leigo. O Beato chorou essa noite, com soluços tão sentidos, que o Caolho, encolerizado, moeu-o à golpes pela primeira vez depois de muitos anos. Vinte dias mais tarde, sob o sufocante ensolarado do meio-dia, irrompeu pela rua medianeira de Pombal uma figurinha alargada, obscura, de cabelos negros e olhos fulminantes, envolta em uma túnica morada, que, seguida de meia dúzia de pessoas que pareciam mendigos e, entretanto, tinham caras felizes, atravessou em tromba o povoado em direção à velha capela de tijolos crus e telhas, que, da morte de Dom Casimiro, achava-se tão arruinada que os pássaros tinham feito ninhos entre as imagens. O Beato, como muitos vizinhos de Pombal, viu orar ao peregrino jogado no chão, igual à seus acompanhantes, e essa tarde ouviu-o dar conselhos para a salvação da alma, criticar aos ímpios e prognosticar o futuro.

            Essa noite, o Beato não dormiu na sapataria, mas, na praça de Pombal, junto aos peregrinos que se estenderam na terra, ao redor do santo. E na manhã e tarde seguintes, e todos os dias que este permaneceu em Pombal, o Beato trabalhou junto com ele e os seus, repondo pés e encostos aos bancos da capela, nivelando seu chão e erigindo uma cerca de pedras, que desse independência ao cemitério, até então uma légua de terra que se intercalava com o povo. E todas as noites esteve de cócoras junto a ele, absorto, escutando as verdades que dizia sua boca.

            Mas quando, a penúltima noite do Conselheiro em Pombal, Antonio, o Beato, pediu-lhe permissão para acompanhá-lo pelo mundo, os olhos — intensos, ao mesmo tempo, que frios — do santo, primeiro, e sua boca depois, disseram não. O Beato chorou amargamente, ajoelhado junto ao Conselheiro. Era noite alta, Pombal dormia e também os andrajosos, atados uns em outros. As fogueiras se apagaram mas as estrelas refulgiam sobre suas cabeças e se ouviam cantos de cigarras. O Conselheiro deixou-o chorar; permitiu que lhe beijasse parte da túnica; e não se alterou quando o Beato lhe suplicou de novo que o deixasse segui-lo, pois seu coração lhe dizia que assim serviria melhor ao Bom Jesus. O moço abraçou seus tornozelos e beijou seus pés calejados. Quando o notou exausto, o Conselheiro pegou-lhe a cabeça com as duas mãos e o obrigou a olhá-lo. Aproximando-lhe a cara perguntou-lhe, solene, se amava tanto a Deus para lhe sacrificar a dor. O Beato fez com a cabeça que sim, várias vezes. O Conselheiro levantou a túnica e o moço pôde ver, na luz incipiente, que tirava um arame que tinha na cintura rasgando-lhe a carne. «Agora leva-o você», ouviu-o dizer. O mesmo ajudou ao Beato a abrir as roupas, a apertar o cilício contra seu corpo, a atá-lo.

            Quando, sete meses depois, o Conselheiro e seus seguidores — mudaram algumas caras; tinha aumentado o número; havia entre eles agora um negro enorme e seminu, mas sua pobreza e a felicidade de seus olhos eram os de antes — voltaram a aparecer em Pombal, dentro de um redemoinho de pó, o cilício seguia na cintura do Beato, a que havia arroxeado e logo aberto estria e mais tarde recoberto de crostas parduscas. Não o tinha tirado um só dia e cada certo tempo voltava a ajustar o arame afrouxado pelo movimento cotidiano do corpo. O padre Moraes tinha tratado de dissuadir de que o seguisse levando, explicando-lhe que uma certa dose de dor voluntária agradava a Deus, mas que, passado certo limite, aquele sacrifício podia voltar um morboso agradar animado pelo Diabo e que ele estava em perigo de franquear a qualquer momento o limite.

            Mas Antonio não lhe obedeceu. No dia da volta do Conselheiro e seu séquito ao Pombal, o Beato estava no armazém do caboclo Umberto Salustiano e seu coração petrificou em seu peito, assim como o ar que entrava em seu nariz, quando o viu passar a um metro dele, rodeado de seus apóstolos e de dezenas de vizinhos e vizinhas, e dirigir-se, como a vez anterior, diretamente à capela. Seguiu-o, somou-se ao bulício e à agitação do povo e confundido com a gente orou, a discreta distância, sentindo uma revolução em seu sangue. E essa noite o escutou pregar, à luz das chamas, na praça lotada, sem atrever-se ainda a aproximar-se. Todo Pombal estava ali esta vez, ouvindo-o.

Quase ao amanhecer, quando os vizinhos, que tinham rezado e cantado e lhe tinham levado seus filhos doentes para que pedisse a Deus sua cura e que lhe tinham contado suas aflições e perguntado pelo que lhes reservava o futuro, foram-se, e os discípulos já puseram-se a dormir, como faziam sempre, servindo-se reciprocamente de travesseiros e casacos, o Beato, na atitude de reverência extrema em que se aproximava de comungar, chegou-se, vadeando os corpos andrajosos, até a silhueta escura, morada, que apoiava a hirsuta cabeça em um de seus braços. As fogueiras davam os últimos estertores. Os olhos do Conselheiro se abriram ao vê-lo vir e o Beato repetiria sempre aos ouvintes de sua história que viu neles, imediatamente, que esperavam aquele homem. Sem dizer uma palavra — não poderia — abriu a camisa de jargão e lhe mostrou o arame que lhe rodeava a cintura.

            Depois de observá-lo uns segundos, sem pestanejar, o Conselheiro assentiu e um sorriso cruzou brevemente sua cara que, diria centenas de vezes o Beato nos anos vindouros, foi sua consagração. O Conselheiro assinalou um pequeno espaço de terra livre, a seu lado, que parecia reservado para ele entre o amontoamento de corpos. O moço ficou de cócoras ali, entendendo, sem que fizessem falta as palavras, que o Conselheiro o considerava digno de partir com ele pelos caminhos do mundo, a combater contra o Demônio. Os cães tresnoitados, os vizinhos madrugadores de Pombal ouviram algum momento ainda o pranto do Beato sem suspeitar que seus soluços eram de felicidade.

            Seu verdadeiro nome não era Galileo Gall, mas era, sim, um combatente da liberdade, ou, como ele dizia, revolucionário e frenólogo. Duas sentenças de morte o acompanhavam pelo mundo e tinha passado no cárcere cinco de seus quarenta e seis anos. Tinha nascido em meados de século, em um povoado do sul de Escócia onde seu pai exercia a medicina e tinha tratado improdutivamente de fundar um cenáculo libertário para propagar as idéias de Proudhon e Bakunin. Como outros meninos entre contos de fadas, ele tinha crescido ouvindo que a propriedade é a origem de todos os males sociais e que o pobre só romperá as cadeias da exploração e do obscurantismo mediante a violência.

            Seu pai foi discípulo de um homem ao que considerava um dos sábios augustos de seu tempo: Franz Joseph Gall, anatomista, físico e fundador da ciência frenológica. Tanto que para outros adeptos de Gall, esta ciência consistia apenas em acreditar que o intelecto, o instinto e os sentimentos são órgãos situados na casca cerebral, e que podem ser medidos e tocados, para o pai de Galileo esta disciplina significava a morte da religião, o fundamento empírico do materialismo, a prova de que o espírito não era o que sustentava a feitiçaria filosófica, imponderável e impalpável, a não ser uma dimensão do corpo, como os sentidos, e igual a estes, capaz de ser estudado e tratado clinicamente. O escocês inculcou a seu filho, desde que teve uso de razão, este preceito simples: a revolução libertará à sociedade de seus flagelos e a ciência ao indivíduo dos seus. A lutar por ambas as metas tinha dedicado Galileo sua existência.

            Como suas idéias dissolventes lhe faziam a vida difícil em Escócia, o pai se instalou no sul da França, onde foi capturado em 1868 por ajudar aos operários das fiações de Burdeos durante uma greve, e enviado à Cayena. Ali morreu. No ano seguinte Galileo foi a prisão, acusado de cumplicidade no incêndio de uma igreja — o padre era o que mais odiava, depois do militar e do banqueiro—, mas aos poucos meses escapou e esteve trabalhando com um facultativo parisiano, antigo amigo de seu pai. Nessa época adotou o nome de Galileo Gall, em troca do dele, muito conhecido pela polícia, e começou a publicar pequenas notas políticas e de divulgação científica em um periódico de Lyon: l' Etincelle de révolte.

            Um de seus orgulhos era ter combatido de março a maio de 1871 com os comunheiros de Paris pela liberdade do gênero humano e ter sido testemunha do genocídio de trinta mil homens, mulheres e meninos perpetrado pelas forças de Thiers. Também foi condenado a morte, mas conseguiu escapar do quartel antes da execução, com o uniforme de um sargento-carcereiro, a quem matou. Foi à Barcelona e ali esteve alguns anos estudando medicina e praticando a frenologia junto ao Mariano Cubí, um sábio que apreciava detectar as inclinações e traços mais secretos de qualquer homem; apenas passando suas gemas uma vez por seu crânio. Parecia que seria médico quando seu amor à liberdade e ao progresso, ou sua vocação aventureira, puseram outra vez em movimento sua vida. Com um punhado de aditamentos na idéia assaltou uma noite o quartel do Montjuich, para desencadear a tempestade que, acreditavam, comoveria os alicerces da Espanha. Mas alguém os delatou e os soldados os receberam à balaços. Viu cair seus companheiros brigando, um a um; quando o capturaram tinha várias feridas. Condenaram-no a morte, mas, como segundo a lei espanhola não se dá garrote vil a um ferido, decidiram curá-lo antes de matá-lo. Pessoas amigas e influentes fizeram-no fugir do hospital e o embarcaram, com papéis falsos, em um navio de carga.

            Tinha percorrido países, continentes, sempre fiel às idéias de sua infância. Tinha apalpado crânios amarelos, negros e brancos e alternado, ao azar das circunstâncias, a ação política e a prática científica, rabiscando ao longo dessa vida de aventuras, cárceres, golpes de mão, reuniões clandestinas, fugas, reversos, cadernos que corroboravam, enriquecendo de exemplos, os ensinos de seus professores: seu pai, Proudhon, Gall, Bakunin, Spurzheim, Cubí. Fora detido na Turquia, no Egito, nos Estados Unidos, por atacar a ordem social e as idéias religiosas, mas graças a sua boa estrela e a seu desprezo do perigo nunca permaneceu muito tempo entre grades.

            Em 1894 era médico do navio alemão que naufragou nas costas da Bahia e cujos restos ficariam parados para sempre em frente ao Forte de São Pedro. Fazia apenas seis anos que o Brasil tinha abolido a escravidão e cinco que tinha passado de Império à República. Fascinou-o sua mescla de raças e culturas, sua efervescência social e política, ao ser uma sociedade em que se acotovelavam a Europa, a África e algo mais que até agora não conhecia. Decidiu ficar. Não pôde abrir um consultório, pois carecia de títulos, de maneira que, como o tinha feito em outras partes, ganhou a vida dando aulas de idiomas e em afazeres efêmeros. Embora vagabundeava pelo país, voltava sempre para Salvador, onde costumava encontrar-se na Livraria Catilina; à sombra das palmeiras do Mirante dos Afligidos; ou nos botequins de marinheiros da cidade baixa; explicando à interlocutores de passagem que todas as virtudes são compatíveis se a razão e não a fé é o eixo da vida, que não Deus a não ser Satã — o primeiro rebelde — é o verdadeiro príncipe da liberdade e que uma vez destruído a velha ordem graças à ação revolucionária, a nova sociedade florescerá espontaneamente, livre e justa. Embora havia quem o escutava, as pessoas não pareciam lhe fazer muito caso.

 

            Quando a seca de 1877, nos meses de fome e epidemias que mataram metade de homens e animais da região, o Conselheiro já não peregrinava sozinho a não ser acompanhado, ou melhor dizendo seguido (ele parecia logo dar-se conta da esteira humana que prolongava seus rastros) por homens e mulheres que, alguns tocados na alma por seus conselhos, outros por curiosidade ou simples inércia, abandonavam o que tinham para ir atrás dele. Uns o escoltavam um trecho de caminho, alguns poucos pareciam estar a seu lado para sempre. Face à seca, ele seguia andando, embora os campos estivessem agora semeados de ossaturas de cabeça de gado, que os abutres bicabam e o recebessem povoados semivazios.

            Que ao longo de 1877 deixasse de chover, secassem-se os rios e aparecessem nas caatingas inumeráveis caravanas de retirantes que, levando em carroças, ou sobre os ombros os miseráveis pertences, perambulavam em busca de água e de sustento, não foi talvez o mais terrível desse ano terrível. Senão, talvez, os bandoleiros e as cobras que expulsavam os sertões do Norte. Sempre havia gente que entrava nas fazendas a roubar, se tiroteava com os capangas dos latifundiários e saqueava aldeias afastadas e às que periodicamente deviam perseguir os volantes da polícia. Mas com a fome as equipes de bandoleiros se multiplicaram como os pães e pescados bíblicos. Caíam, vorazes e homicidas, nos povos já dizimados pela catástrofe para apoderar-se dos últimos comestíveis, de equipamento e vestimentas; e arrebentar a tiros aos moradores que se atreviam a enfrentar-se.

            Todavia, ao Conselheiro nunca o ofenderam de palavra ou ação. Cruzavam-se com ele, nas veredas do deserto; entre os cactos e as pedras; sob um céu de chumbo; ou na intrincada caatinga onde se murcharam os matagais e os troncos começavam a esquartejar-se. Os cangaceiros, dez, vinte homens armados com todos os instrumentos capazes de cortar, ferroar, perfurar, arrancar, viam o homem fraco de hábito arroxeado, que passeava por eles um segundo, com sua acostumada indiferença, seus olhos gelados e obsessivos, e prosseguia fazendo as coisas que costumava fazer: orar, meditar, andar, aconselhar. Os peregrinos empalideciam ao ver os homens do cangaço e se apinhavam ao redor do Conselheiro como frangos em torno da galinha. Os bandoleiros, comprovando sua extrema pobreza, seguiam de comprimento, mas, às vezes, detinham-se o reconhecer ao santo cujas profecias tinham chegado a seus ouvidos. Não o interrompiam se estava orando; esperavam que se dignasse vê-los. Ele lhes falava por fim, com essa voz cavernosa que sabia encontrar os caminhos do coração. Dizia-lhes coisas que podiam entender, verdades nas que podiam acreditar. Que esta calamidade era sem dúvida o primeiro dos anúncios da chegada do Anticristo e dos danos que precederiam a ressurreição dos mortos e do Julgamento Final. Que se queriam salvar a alma, deviam preparar-se para as lutas que se livrariam quando os demônios do Anticristo — que seria o Cão mesmo vindo à terra a recrutar partidários — invadissem como mancha de fogo os sertões. Igual aos vaqueiros, os peões, os libertos e os escravos, os cangaceiros refletiam. E alguns deles — o talhado Pajeú, o enorme Pedrão e até o mais sanguinário de todos: João Satã — se arrependiam de seus crimes, convertiam-se ao bem e o seguiam.

            E, como os bandoleiros, respeitaram-no as serpentes de cascavel que assombrosamente e por milhares brotaram nos campos como resultado da seca. Largas, escorregadias, triangulares, contorcionistas, abandonavam suas guaridas e elas também se retiravam, como os homens, e em sua fuga matavam meninos, bezerros, cabras e não vacilavam em ingressar em pleno dia aos povoados atrás de sustento. Eram tão numerosas aves que não havia muitos para acabar com elas e não raro ver, nessa época transtornada, serpentes que comiam essas aves de rapina em vez de, como antigamente, vê-las levantando o vôo com sua presa no pico. Os sertanejos andavam dia e noite com paus e facões e houve retirantes que chegaram a matar cem serpentes em um só dia. Mas o Conselheiro não deixou de dormir no chão, quando o surpreendesse a noite. Uma tarde, que ouviu seus acompanhantes falando de serpentes, explicou-lhes que não era a primeira vez que acontecia. Quando os filhos de Israel retornavam do Egito a seu país, e se queixavam das penalidades do deserto, o Pai lhes enviou em castigo uma praga de ofídios. Intercedeu Moisés e o Pai lhe ordenou fabricar uma serpente de bronze a que bastava olhar para curar-se da mordida. Deviam fazer eles o mesmo? Não, pois os milagres não se repetiam. Mas certamente o Pai veria com bons olhos que levassem, como prisioneiro, à face de Seu Filho. Uma mulher de Monte Santo, Maria Quadrado, carregou depois, em uma urna, um pedaço de tecido com a imagem do Bom Jesus pintado por um moço de Pombal, que por piedoso, ganhou o nome de Beato. O gesto deve ter agradado ao Pai, pois nenhum dos peregrinos foi mordido.

            E também respeitaram ao Conselheiro as epidemias que, à conseqüência da seca e fome, encarniçaram-se nos meses e anos seguintes contra os que tinham conseguido sobreviver. As mulheres abortavam poucos meses de gravidez; os meninos perdiam os dentes e os cabelos; os adultos, de repente, começavam a cuspir e a defecar sangue; inchavam-se de tumores, ou ulceravam com eczemas que os faziam derrubar-se contra os cascalhos como cães sarnentos. O homem filiforme seguia peregrinando entre a pestilência e mortandade, imperturbável, invulnerável, como um barco de acostumado piloto que navega para bom porto sorteando tempestades.

            A que porto se dirigia o Conselheiro atrás desse peregrinar incessante? Ninguém o perguntava nem ele o dizia nem provavelmente sabia. Ia agora rodeado por dezenas de seguidores que tinham abandonado tudo para consagrar-se ao espírito. Durante os meses da seca o Conselheiro e seus discípulos trabalharam sem trégua dando sepultura aos mortos de inanição, peste ou angústia que encontravam à beira dos caminhos, cadáveres corruptos e comidos pelas bestas e até por humanos. Fabricavam gavetas e cavavam fossas para esses irmãos e irmãs. Eram uma variada coletividade onde se mesclavam raças, lugares, ofícios. Havia entre eles pelados que tinham vivido tocando o gado dos coronéis fazendeiros; caboclos de peles avermelhadas cujos tataravós índios viviam seminus, comendo os corações de seus inimigos; mamelucos que foram capatazes, funileiros, ferreiros, sapateiros ou carpinteiros; mulatos e negros silvestres fugidos dos canaviais do litoral e do potro, as armadilhas, os flagelos com salmoura e demais castigos inventados nos engenhos para os escravos. E havia as mulheres, velhas e jovens, sãs ou entrevadas, que eram sempre as primeiras em comover-se quando o Conselheiro, durante o alto noturno, falava-lhes do pecado, das baixezas do Cão ou da bondade da Virgem. Eram elas as que cerziam o hábito arroxeado, convertendo em agulhas os espinhos dos cardos; e em fio as fibras das palmeiras; as que se engenhavam para lhe fazer um novo, quando o velho rasgava nos arbustos; as que lhe renovavam as sandálias e disputavam as velhas para conservar, como relíquias, esses objetos que haviam tocado seu corpo. Eram elas as que, cada tarde, quando os homens acendiam as fogueiras, preparavam o angú de farinha de arroz, ou de milho, ou de mandioca doce com água e as buchadas de abóbora que sustentavam aos peregrinos. Estes nunca tiveram que se preocupar com o alimento, pois eram frugais e recebiam dádivas por onde passavam. Dos humildes, que corriam a levar ao Conselheiro uma galinha, ou um saco de milho, ou queijos recém feitos, e também dos proprietários que, quando a corte esfarrapada pernoitava nas granjas e, por iniciativa própria e sem cobrar um centavo, limpava e varria as capelas das fazendas, mandavam-lhes com seus serventes leite fresco, mantimentos e, às vezes, uma cabrita ou um cabrito.

            Tinha dado já tantas voltas, andado e retrocedido tantas vezes pelos sertões subido e baixado tantas chapadas, que todo mundo o conhecia. Também os padres. Não havia muitos e os que estavam como perdidos na imensidão do sertão e eram, em todo caso, insuficientes para manter vivas às abundantes igrejas que eram visitadas por pastores só o dia do santo do povo. Os vigários de alguns lugares, como Tucano e Cumbe, permitiam-lhe falar com os fiéis do púlpito e se davam bem com ele; outros, como os de Entre Rios e Itapicurú o proibiam e o combatiam. Em outros, para lhe retribuir o que fazia pelas igrejas e os cemitérios, ou porque sua força entre as almas sertanejas era tão grande que não queriam indispor-se com seus paroquianos, os vigários consentiam a contra gosto a que, logo depois da missa, rezasse letanias e pregasse no átrio.

            Quando se inteiraram o Conselheiro e sua corte de penitentes que, em 1888, lá longe, nessas cidades cujos nomes inclusive lhes soavam estrangeiros — São Paulo, Rio de Janeiro; a própria Salvador, capital do Estado — a monarquia tinha abolido a escravidão e que a medida provocava agitação nos engenhos bahianos que, de repente, ficaram sem braços? Só meses depois de decretada subiu aos sertões a notícia, como subiam as notícias a essas extremidades do Império — demoradas, deformadas e às vezes caducas — e as autoridades fizeram apregoar nas praças e cravar na porta dos municípios.

            E é provável que, ao ano seguinte, o Conselheiro e sua esteira se inteirassem com o mesmo atraso que a nação a que sem sabê-lo pertenciam tinha deixado de ser Império e era agora República. Nunca chegaram a saber que este acontecimento não despertou o menor entusiasmo nas velhas autoridades, nem nos ex-proprietários de escravos (continuavam o de canaviais e rebanhos) nem nos profissionais e funcionários da Bahia que viam nesta mudança algo assim como o tiro de graça à já extinta hegemonia da ex-capital, centro da vida política e econômica do Brasil por duzentos anos e agora nostálgica parente pobre, que via deslocar-se para o Sul tudo o que antes era seu — a prosperidade, o poder, o dinheiro, os braços, a história—, e embora o soubessem não o tivessem entendido nem lhes tivesse importado, pois as preocupações do Conselheiro e os seus eram outras. Pelo resto o que mudara para eles além de alguns nomes? Não era esta paisagem de terra ressecada e céu plúmbeo o de sempre? E apesar de ter acontecido vários anos da seca, não continuava a região curando suas feridas, chorando a seus mortos, tratando de ressuscitar os bens perdidos? O que tinha mudado agora que havia Presidente em vez de Imperador na atormentada terra do Norte? Não seguia lutando contra a esterilidade do chão e a avareza da água o lavrador para fazer brotar o milho, o feijão, a batata e a mandioca e para manter vivos aos porcos, as galinhas e as cabras? Não seguiam cheias de ociosos as aldeias e não eram ainda perigosos os caminhos pelos bandidos? Não havia em qualquer parte exércitos de mendigos como reminiscência dos estragos de 1877? Não eram os mesmos os contadores de fábulas? Não seguiam, face aos esforços do Conselheiro, caindo aos pedaços as casas do Bom Jesus?

            Mas sim, algo mudou com a República. Para mal e confusão do mundo: a Igreja foi separada do Estado, estabeleceu-se a liberdade de cultos e secularizaram-se os cemitérios, dos que já não se ocupariam as paróquias a não ser os municípios. Tanto que os vigários, desconcertados, não sabiam o que dizer ante essas novidades que a hierarquia se resignava a aceitar, o Conselheiro sim soube, imediatamente: eram impiedades inadmissíveis para o crente. E quando soube que se entronizou o matrimônio civil — como se um sacramento criado por Deus não fosse bastante — ele sim teve a integridade de dizer em voz alta, na hora dos conselhos, o que os párocos murmuravam: que esse escândalo era obra de protestantes e maçons. Como, sem dúvida, essas outras disposições estranhas, suspeitas, das que se foram inteirando pelos povos: o mapa estatístico, o censo, o sistema métrico decimal. Aos aturdidos sertanejos que iam a lhe perguntar o que significava tudo isso, o Conselheiro o explicava, devagar: queriam saber a cor da gente para restabelecer a escravidão e devolver aos morenos a seus amos, e sua religião para identificar aos católicos quando começassem as perseguições. Sem elevar a voz, exortava-os a não responder a semelhantes questionários nem a aceitar que o metro e o centímetro substituíram à vara e o palmo.

            Uma manhã de 1893, ao entrar em Natuba, o Conselheiro e os peregrinos ouviram um zumbido de vespas enfurecidas que subia ao céu do Plaza Matriz, onde os homens e mulheres se congregaram para ler ou escutar ler uns decretos recém penetrados nas pranchas. Foram-lhes cobrar impostos, a República lhes queria cobrar impostos. E o que eram os impostos?, perguntavam muitos aldeãos. Como os dízimos, explicavam-lhes outros. Igual a, antes, se a um morador nasciam cinqüenta galinhas devia dar cinco à missão e uma arroba de cada dez que colhia, os decretos estabeleciam que se desse à República uma parte de tudo o que alguém herdava ou produzia. Os vizinhos tinham que declarar nos municípios, agora autônomos, o que tinham e o que ganhavam para saber o que lhes corresponderia pagar. Os arrecadadores de impostos expropriariam para a República tudo o que fosse oculto ou rebaixado de valor.

            O instinto animal, o sentido comum e séculos de experiência fizeram compreender a quão vizinhos aquilo seria talvez pior que a seca; que os arrecadadores de impostos resultariam mais vorazes que os abutres e os bandidos. Perplexos, assustados, encolerizados, acotovelavam-se e comunicavam uns aos outros sua apreensão e sua ira, em vozes que, mescladas, integradas, provocavam essa música beligerante que subia ao céu de Natuba quando o Conselheiro e seus desarrumados ingressaram no povo pela rota de Cipó. As pessoas rodearam ao homem de arroxeado e lhe obstruíram o caminho à Igreja de Nossa Senhora da Concepção (recomposta e pintada por ele mesmo várias vezes nas décadas anteriores) onde se dirigia com suas trancadas de sempre, para lhe contar quão novas à ele, sério e olhando através deles, logo que pareceu escutar. E, entretanto, instantes depois, ao mesmo tempo que uma sorte de explosão interior punha seus olhos ígneos, punha-se a andar, a correr, entre a multidão que se abria à sua passagem, para as pranchas com os decretos. Chegou até elas e sem incomodar-se em ler derrubou-as, com a cara decomposta por uma indignação que parecia resumir a de todos. Logo pediu, com voz vibrante, que queimassem essas maldades escritas. E quando, ante os olhos surpreendidos dos vereadores, o povo o fez e, além disso, começou a celebrar, arrebentando fogos como em dia de feira, e o fogo dissolveu em fumaça os decretos e o susto que provocaram, o Conselheiro, antes de ir rezar à Igreja da Concepção, deu aos seres desse afastado rincão graves primícias: o Anticristo estava no mundo e se chamava República.

            — Apitos, sim, Senhor Comissionado — repete, surpreendendo-se uma vez mais do que viveu e, sem dúvida, recordado e contado muitas vezes o Tenente Pires Ferreira—. Soavam muito fortes na noite. Melhor dizendo, no amanhecer.

            O hospital de campanha é um barraco de pranchas e teto de folhas de palma acondicionada de qualquer maneira para albergar aos soldados feridos. Está nos subúrbios de Joazeiro, cujas casas e ruas paralelas ao largo rio São Francisco — caiadas ou pintadas de cores — se divisam entre os tabiques, sob as taças poeirentas dessas árvores que deram nome à cidade.

            — Andamos doze dias daqui ao Uauá, que está já às portas de Canudos, tudo um êxito - diz o Tenente Pires Ferreira—. Meus homens caíam de fadiga, assim decidi acampar ali. E, às poucas horas, despertaram os apitos.

            Há dezesseis feridos, tombados em redes, em filas que se olham: toscas vendagens, cabeças, braços e pernas manchados de sangue, corpos nus e seminus calças e jaquetas em fiapos. Um médico de bata branca, recém-chegado, passa revista aos feridos, seguido por um enfermeiro que carrega um estojo de primeiros socorros. A aparência saudável, cidadã, do médico contrasta com as caras derrotadas e os cabelos condensados de suor dos soldados. Ao fundo do barraco, uma voz angustiada fala de confissão.

            — Não pôs você sentinelas? Não lhe ocorreu que podiam surpreendê-los, Tenente?

            — Havia quatro sentinelas, Senhor Comissionado — replica Pires Ferreira, mostrando quatro dedos enérgicos—. Não nos surpreenderam. Quando escutamos os apitos, a companhia inteira se levantou e se preparou para o combate. — Baixa a voz —: Mas não vimos chegar ao inimigo, a não ser, a uma procissão.

            Por uma esquina do barraco-hospital, à borda do rio sulcado por barcos carregados de melancias, distingue-se o pequeno acampamento, onde se acha o resto da tropa: soldados tombados à sombra de umas árvores, fuzis alinhados em grupos da quatro, lojas de campanha. Passa, ruidosa, um bando de louros.

            — Uma procissão religiosa, Tenente? — pergunta a voz nasal, intrusa, surpresa.

            O oficial dá uma olhada ao que lhe falou e assentiu:

            — Vinham pelo rumo de Canudos — explica, dirigindo-se sempre ao Comissionado —. Eram quinhentos, seiscentos, possivelmente mil.

            O Comissionado eleva as mãos e seu adjunto move a cabeça, também incrédulo. São, salta à vista, gente da cidade. Chegaram ao Joazeiro essa mesma manhã no trem de Salvador e estão ainda aturdidos e machucados pelo estalo continuado, incômodos em seus sacões de largas mangas, nas bojudas calças e botas que já se sujaram, acalorados, certamente desgostosos de estar ali, rodeados de carne ferida, de pestilência, e de ter que investigar uma derrota. Enquanto falam com o Tenente Pires Ferreira vão de rede em rede e o Comissionado, homem sério, inclina-se às vezes a dar uma palmada aos feridos. Ele só escuta o que diz o Tenente, mas seu adjunto toma nota, igual ao outro recém-chegado, o da voz resfriada, que espirra com freqüência.

            — Quinhentos, mil? — disse o Comissionado com sarcasmo—. A denúncia do Barão da Canabrava chegou a meu escritório e a conheço, Tenente. Os invasores de Canudos, incluídas as mulheres e criaturas, foram duzentos. O Barão deve sabê-lo, é o dono da fazenda.

            — Eram mil, milhares — murmura o ferido da rede mais próxima, um mulato de pele clara e cabelos crespos, com o ombro enfaixado—. Juro, senhor.

            O Tenente Pires Ferreira o faz calar com um movimento tão brusco que roça a perna do ferido que tem à suas costas e o homem ruge de dor. O Tenente é jovem, mas bem baixo, de bigodinhos recortados como os usam os petimetres que, lá, em Salvador, se reúnem nas confeitarias da rua do Chile à hora do chá. Mas a fadiga, a frustração, os nervos rodearam agora esse bigodinho francês de olheiras violáceas, pele lívida e uma careta. Estava sem barbear, com os cabelos revoltos, o uniforme esmigalhado e o braço direito em tipóia. Ao fundo, a voz incoerente segue falando de confissão e Santos óleos.

            Pires Ferreira vira-se para o Comissionado:

            — De menino vivi em uma fazenda, aprendi a contar aos rebanhos de uma olhada  — murmura—. Não estou exagerando. Havia mais de quinhentos, e, possivelmente, mil.

            —Traziam uma cruz de madeira, enorme, e uma bandeira do Divino Espírito Santo — adiciona alguém, de uma rede.

            E, antes que o Tenente pudesse atalhá-los, outros se atropelam, contando: traziam também imagens de Santos, rosários, todos sopravam esses apitos ou cantavam Kyrie Eleisons e aclamavam à São João Batista, à Virgem Maria, ao Bom Jesus e ao Conselheiro. Incorporaram-se nas redes e disputam a palavra até que o Tenente lhes ordenou calar.

            — E, de repente, nos jogaram em cima — prossegue, no meio do silêncio—. Pareciam tão pacíficos, pareciam uma procissão de Semana Santa, como ia atacar-nos? E, de repente, começaram a dar morra e a disparar à queima-roupa. Éramos um contra oito, contra dez.

             — A dar morra? — interrompe-o a voz impertinente.

             — Morra à República — diz o Tenente Pires Ferreira —. Morra ao Anticristo.  — dirige-se de novo ao Comissionado —: Não tenho nada que me reprovar. Os homens brigaram como bravos. Resistimos mais de quatro horas, Senhor. Só ordenei a retirada quando ficamos sem munição. Já sabe você os problemas que tivemos com os Mánnlichers. Graças à disciplina dos soldados puderam chegar até aqui em só dez dias.

             — A vinda foi mais rápida que a ida — grunhe o Comissionado.

             — Venham, venham, vejam isto — chama o médico de bata branca, de uma esquina.

            O grupo de civis e o Tenente cruzam as redes para chegar até ele. Sob a bata, o médico leva uniforme militar, cor azul anil. Retirou a vendagem de um soldado machucado que se torce de dor, e está olhando com interesse o ventre do homem. Aponta como algo precioso: junto à virilha, há um buraco purulento do tamanho de um punho, com sangue coagulado nas bordas e carne que pulsa.

            — Uma bala explosiva! — exclama o médico, com entusiasmo, polvilhando a pele inchada com um polvilho branco —. Ao penetrar no corpo, estala como o shrapnel, destrói as malhas e provoca este orifício. Só o tinha visto nos Manuais do Exército inglês. Como é possível que esses pobres diabos disponham de armas tão modernas? Nem o Exército brasileiro as tem.

            —Vê, Senhor Comissionado? —diz o Tenente Pires Ferreira, com ar triunfante—Estavam armados até os dentes. Tinham fuzis, carabinas, espingardas, facões, adagas, porretes. Em troca, nossos Mánnlichers se obstruíam e...

            Mas o que delira sobre a confissão e os Santos óleos agora dá gritos e fala de imagens sagradas, da bandeira do Divino, dos apitos. Não parece ferido; está amarrado a uma estaca, com o uniforme melhor conservado que o do Tenente. Quando vê aproximar-se do médico e ao grupo de civis lhes implora, com olhos chorosos:

            — Confissão, senhores! O peço! O peço!

            — É o médico de sua companhia, o doutor Antonio Alves de Santos? —pergunta o médico de bata—. Por que o tem você amarrado?

            — Tentou matar-se, senhor — balbucia Pires Ferreira—. Disparou-se um tiro e de milagre alcancei a lhe desviar a mão. Está assim do combate em Uauá, não sabia o que fazer com ele. Em vez de ser uma ajuda, converteu-se em um problema mais, sobre tudo durante a retirada.

            — Afastem-se, senhores — diz o médico de bata—. Deixem-me só com ele, eu o acalmarei.

            Quando o Tenente e os civis lhe obedecem, volta a ouvir a voz nasal, inquisitiva, peremptória, do homem que interrompeu várias vezes as explicações:

            — Quantos mortos e feridos em Lola, Tenente? Em sua companhia e entre os bandidos.

            — Dez mortos e dezesseis feridos entre meus homens — responde Pires Ferreira, com um gesto impaciente—. O inimigo teve uma centena de baixa, pelo menos. Tudo isso está no relatório que lhes entreguei, senhor.

            — Não sou da Comissão, mas sim do Jornal de Notícias, da Bahia — diz o homem.

            É distinto aos funcionários e ao médico de bata branca com os que veio. Jovem, míope, com óculos espessos. Não toma notas com um lápis, a não ser, com uma pluma de ganso. Veste uma calça descosturada, uma casaca esbranquiçada, um gorro com viseira e toda sua roupa resulta postiça, equivocada, em sua figura sem garbo. Sustenta um tabuleiro no que há várias folhas de papel e molha a pluma de ganso em um tinteiro, colocado na manga de sua casaca, cuja tampa é uma cortiça de garrafa. Seu aspecto é, quase, o de um espantalho.

            — Viajei seiscentos quilômetros só para lhe fazer estas perguntas, Tenente Pires Ferreira — diz. E espirra.

            João Grande nasceu perto do mar, em um engenho do Recôncavo, cujo dono, o cavalheiro Adalberto de Gumucio, era grande aficcionado aos cavalos. Apreciava ter os alazães mais briosos e as éguas de patas mais finas da Bahia e de ter obtido estas espécies sem necessidade de sementes inglesas, mediante sábios emparelhamentos que ele mesmo vigiava. Apreciava-se menos (em público) de ter conseguido o mesmo com os escravos da senzala, para não remover as águas turvas das disputas que isto havia lhe trazido com a Igreja e com o próprio Barão da Canabrava, mas o certo era que com os escravos tinha procedido nem mais nem menos que com os cavalos. Seu proceder era ditado pelo olho e a inspiração. Consistia em selecionar aos negritos mais ágeis e melhor formados e em amancebar os negros que por sua harmonia de rasgos e nitidez de cor ele chamava mais puros. Os melhores casais recebiam alimentação especial e privilégios de trabalho a fim de que estivessem em condições de fecundar muitas vezes. O capelão, os missionários e a hierarquia de Salvador tinham admoestado repetidas vezes ao cavalheiro por baralhar deste modo aos negros, «fazendo-os viver em bestialidade», mas, em vez de pôr fim a essas práticas, as reprimendas só as fizeram mais discretas.

            João Grande foi o resultado de uma dessas combinações que levava a cabo esse fazendeiro de gostos perfeccionistas. Em seu caso, sem dúvida, nasceu um magnífico produto. O menino tinha uns olhos muito vivos e uns dentes que, quando ria, enchiam de luz sua cara redonda, de cor azulada. Era roliço, gracioso, brincalhão, e sua mãe — uma bela mulher que paria a cada nove meses — imaginou para ele um futuro excepcional. Não se equivocou. O cavalheiro Gumucio se afeiçoou com ele quando ainda engatinhava e o tirou da senzala para levá-lo à casagrande —construção retangular, de telhado de quatro águas, com colunas toscanas e corrimões de madeira dos que se dominavam os canaviais, a capela neoclássica, a fábrica onde se moía a cana, o alambique e uma avenida de palmeiras imperiais — pensando que podia ser pajem de suas filhas e, mais tarde, mordomo ou condutor de limusine. Não queria que se danificasse precocemente, como ocorria freqüentemente com os meninos dedicados à roça, ao levante e à colheita de cana-de-açúcar.

            Todavia, quem se apropriou de João Grande foi a senhorita Adelinha Isabel de Gumucio, irmã solteira do cavalheiro, que vivia com ele. Era delgada, miúda, com uma narina que parecia estar farejando os aromas feios do mundo, e dedicava o tempo a tecer toucas, xales grandes, a bordar toalhas, colchas e blusas ou a preparar doces, afazeres para os quais estava dotada. Mas a maioria das vezes, os pães-doces com nata, as tortas de amêndoa, os merengues com chocolate, os mazapanes esponjosos que faziam as delícias de seus sobrinhos, de sua cunhada e de seu irmão ela nem os provava. A senhorita Adelinha gostou muito do João Grande desde o dia que o viu subindo ao depósito da água. Assustada ao ver dois metros do chão a um menino que logo que podia se ter de pé, ordenou-lhe que baixasse, mas João continuou subindo a escada. Quando a senhorita chamou um criado, o menino já tinha chegado à borda e alcançado à água. Tiraram-no vomitando, com os olhos arredondados pelo susto. Adelinha o despiu, agasalhou-o e o teve em braços até que dormiu.

            Pouco depois, a irmã do cavalheiro Gumucio instalou ao João em seu quarto, em um dos berços que tinham usado suas sobrinhas, e o fez dormir a seu lado, como outras damas à suas empregadas de confiança e a seus cães mulherengos. João foi depois um privilegiado. Adelinha o tinha sempre embainhado em uns mamelucos azul marinho, vermelho sangue ou amarelo ouro que lhe costurava ela mesma. Acompanhava-a cada tarde ao promontório do qual se viam as ilhas e o sol do crepúsculo, incendiando-as, e quando fazia visita e percursos de beneficência pelos casarios. Aos domingos, ia com ela à igreja, lhe levando o genuflexório. A senhorita lhe ensinou a sujeitar as meadas para que ela desembaraçasse a lã, a trocar os carretéis do tear, a combinar as tinturas e introduzir as agulhas, assim como a lhe servir de amanuense na cozinha. Mediam juntos o tempo das cocções rezando em voz alta os credos e Pai Nossos que as receitas prescreviam. Ela em pessoa o preparou para a primeira comunhão, comungou com ele e lhe fez um chocolate ovíparo para festejar o acontecimento.

            Mas, contrariamente ao que deveria ocorrer com um menino crescido entre paredes revestidas de papel pintado, mobiliário de Jacarandá forrado de damasco e sedas e armários repletos de cristais, à sombra de uma mulher delicada e consagrado a atividades femininas, João Grande não se converteu em um ser suave, doméstico, como ocorria aos escravos caseiros. Foi desde menino descomunalmente forte, tanto que, em que pese a ter a idade do João Meninho, o filho da cozinheira, parecia lhe levar vários anos. Era brutal em seus jogos e a senhorita estava acostumada dizer, com pena: «Não está feito para a vida civilizada. Estranha o bosque». Porque o moço vivia à espreita de qualquer ocasião para sair ao campo a trotar. Uma vez que cruzavam os canaviais, ao vê-lo olhar com cobiça a quão negros meio nus e com facões trabalhavam entre as folhas verdes, a senhorita lhe comentou: «Parece que os inveja». Ele repôs: «Sim, ama, invejo-os». Tempo depois, o cavalheiro Gumucio, fez-lhe pôr um bracelete de luto e o mandou às quadras do engenho para assistir ao enterro de sua mãe. João não sentiu maior emoção, pois a tinha visto muito pouco. Esteve vagamente incômodo ao longo da cerimônia, sob uma ramagem de palha, e no desfile ao cemitério, rodeado de negras e negros que o olhavam sem dissimular sua inveja ou seu desprezo por suas calcinhas, sua blusa de listas e seus sapatões que contrastavam tanto com suas regatas de brim e seus pés descalços. Nunca se mostrou afetuoso com sua ama, o que tinha feito pensar à família Gumucio que era, talvez, um desses rústicos sem sentimentos, capazes de cuspir na mão que lhes dava de comer. Mas nem sequer este antecedente lhes podia ter feito suspeitar que João Grande fosse capaz de fazer o que fez.

            Ocorreu durante a viagem da senhorita Adelinha ao Convento da Encarnação, onde fazia retiro todos os anos. João Meninho conduzia o carro puxado por dois cavalos e João Grande ia junto a ele na boléia. A viagem levava umas oito horas; saíam da fazenda ao amanhecer para chegar ao Convento no meio da tarde. Mas dois dias depois as monjas enviaram um próprio a perguntar por que a senhorita Adelinha não tinha chegado na data prevista. O cavalheiro Gumucio dirigiu as buscas de policiais bahianos e de servos da fazenda, que, durante um mês, cruzaram a região em todas direções, interrogando à meio mundo. A rota entre o Convento e a fazenda foi explorada minuciosamente sem encontrar o menor rastro do carro, seus ocupantes ou os cavalos. Parecia que, como nas histórias fantásticas dos trovadores, elevaram-se e desapareceram pelos ares.

            A verdade começou ou seja se meses mais tarde, quando um Juiz de Órfãos de Salvador descobriu, no carro em oferta que tinha comprado a um mercado da cidade alta, dissimulado com pintura, o anagrama da família Gumucio. O mercador confessou que tinha adquirido o carro em uma aldeia de cafusos, sabendo que era roubado, mas sem imaginar que os ladrões podiam também ser assassinos. O próprio Barão da Canabrava ofereceu um preço altíssima pelas cabeças do João Meninho e João Grande e o cavalheiro Gumucio implorou que fossem capturados vivos. Uma partida de bandoleiros, que operava nos sertões, entregou o João Meninho à polícia, em troca da recompensa. O filho da cozinheira estava irreconhecível de sujo e descabelado quando lhe torturaram para fazê-lo falar.

            Jurou que não tinha sido planejado por ele mas sim pelo demônio empossado de seu companheiro de infância. Ele conduzia o carro, assobiando entre dentes, pensando nos doces do Convento da Encarnação e, de repente, João Grande lhe ordenou frear. Quando a senhorita Adelinha perguntava por que paravam, João Meninho viu seu companheiro golpeá-la na cara com tanta força que a deprimiu, lhe arrebatar as rédeas e esporear aos cavalos até o promontório onde o ama subia a ver as ilhas. Ali, com uma decisão tal que João Meninho, pasmado, não se tinha atrevido a enfrentar o João Grande submeteu à senhorita Adelinha a mil maldades. Despiu-a e ria dela, que, tremendo, cobria-se com uma mão os peitos e com a outra o sexo, e a tinha feito brincar de correr de um lado a outro, tratando de esquivar suas pedradas, ao mesmo tempo que a insultava com os insultos mais abomináveis que o Meninho tinha ouvido. Subitamente, cravou-lhe uma adaga no estômago e, já morta, encarniçou-se com ela lhe cortando os peitos e a cabeça. Logo, incitado, empapado de suor, dormiu junto à sangria. João Meninho sentia tanto terror que as pernas não lhe deram para fugir.

            Quando João Grande despertou, momento depois, estava tranqüilo. Olhou com indiferença a carniça que os rodeava. Logo ordenou ao Meninho que o ajudasse a cavar uma tumba, onde enterraram os pedaços da senhorita. Tinham esperado que obscurecesse para fugir, e assim foram se afastando do lugar do crime; escondiam o carro de dia em alguma cova, ramagem ou quebrada; cavalgavam de noite, com a única idéia clara de que deviam avançar em direção oposta ao mar. Quando conseguiram vender o carro e os cavalos, compraram provisões com as que se meteram terra adentro, com a esperança de somar-se a esses grupos de silvestres que, segundo as lendas, pululavam entre as caatingas. Viviam a salto de arbusto, evitando os povos e comendo da mendicidade ou de pequenos latrocínios. Só uma vez tentou João Meninho fazer falar com o João Grande do acontecido. Estavam tombados sob uma árvore, fumando de um tabaco, e, em um arranque de audácia, perguntou a boca de jarro: «Por que matou à ama?». «Porque tenho o Cão no corpo», respondeu no ato João Grande, «Não me fale mais disso». O Meninho pensou que seu companheiro lhe disse a verdade.

            Seu companheiro de infância lhe inspirava um medo crescente, pois, do assassinato da ama, desconhecia-o cada vez mais. Quase não dialogava com ele e, em troca, continuamente o surpreendia falando sozinho, em voz baixa, com os olhos injetados em sangue. Uma noite o ouviu chamar o Diabo «pai» e lhe pedir que viesse a ajudá-lo. «Acaso não fiz já bastante, pai?», balbuciava, retorcendo-se, «Que mais quer que faça?» Convenceu-se que João fazia pacto com o Maligno e temeu que, para seguir fazendo méritos, sacrificasse-o a ele como tinha feito com a senhorita. Decidiu adiantar-se. Planejou tudo, mas a noite em que lhe aproximou serpenteando, com a faca preparada para afundar-lhe; tremia tanto, que João Grande abriu os olhos, antes de que ele fizesse nada. Viu-o inclinado sobre seu corpo, com a lâmina dançando, em atitude inequívoca. Não se alterou. «Mate-me, Meninho», ouviu-lhe dizer. Saiu correndo, sentindo que o perseguiam os diabos.

            O Meninho foi enforcado na prisão de Salvador e os despojos da senhorita Adelinha foram transladados à capela neoclássica da fazenda, mas seu vitimário não foi achado, em que pese a que, periodicamente, a família Gumucio elevava o preço por sua captura. E, entretanto, da fuga do Meninho, João Grande não se ocultava. Gigantesco, seminu, miserável, comendo o que caía em suas armadilhas, ou suas mãos agarravam das árvores, andava pelos caminhos como uma alma em pena. Cruzava as aldeias a plena luz, pedindo comida, e o sofrimento de sua cara impressionava às pessoas que estavam acostumados a lhe jogar alguma sobra.

            Um dia encontrou em uma encruzilhada de atalhos, nos subúrbios de Pombal, a um punhado de gente que escutavam as palavras que lhes dizia um homem magro, envolto em uma túnica morada, cujos cabelos lhe varriam os ombros e cujos olhos pareciam brasas. Falava do Diabo, precisamente, ao que chamava Lúcifer, Cão e Belzebu das catástrofes e crimes que causava no mundo e do que deviam fazer os homens que queriam salvar-se. Sua voz era persuasiva, chegava à alma sem passar pela cabeça, e inclusive a um ser afligido pela confusão, como ele, parecia-lhe um bálsamo que suturava velhas e atrozes feridas. Imóvel, sem pestanejar, João Grande o esteve escutando, comovido até os ossos pelo que ouvia e pela música com que vinha dito o que ouvia. A figura do santo velava aos poucos pelas lágrimas que iam a seus olhos. Quando o homem reatou seu caminho, ficou a segui-lo a distância, como um animal tímido.

            Um contrabandista e um médico foram as pessoas que chegaram a conhecer mais ao Galileo Gall na cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos (chamada, simplesmente, Bahia ou Salvador), e as primeiras em lhe explicar o país, embora nenhuma delas tivesse compartilhado as opiniões sobre o Brasil que o revolucionário vertia em suas cartas à l' Étincelle de révolte (freqüentes nessa época). A primeira, escrita à semana do naufrágio, falava da Bahia: «caleidoscópio onde um homem com noção da história vê coexistir as marcas que envileceram as distintas etapas da humanidade». A carta se referia à escravidão, que, embora abolida, existia de fato pois, para não morrer de fome, muitos negros libertos retornaram a implorar a seus amos que os recebessem. Estes só contratavam  —por salários ruins — aos braços úteis, de modo que as ruas da Bahia, em palavras de Gall, «fervem de anciões doentes e miseráveis que mendigam ou roubam e de prostitutas que recordam Alexandria e Argel, os portos mais degradados do planeta».

            A segunda carta, de dois meses mais tarde, sobre «o conluio do obscurantismo e a exploração», descrevia o desfile dominical das famílias ricas, dirigindo-se para ouvir missa à Igreja de Nossa Senhora da Concepção da Praia, com serventes que carregavam genuflexórios, velas, missais e sombrinhas para que o sol não danificasse as bochechas das damas; «estas», dizia Gall, «como os funcionários ingleses das colônias, fizeram da brancura um paradigma, a quinta-essência da beleza». Mas o frenólogo explicou a seus camaradas do Lyon, em um artigo posterior, que, face aos prejuízos, os descendentes de portugueses, índios e africanos se mesclaram bastante nesta terra e produziu uma matizada variedade de mestiços: mulatos, mamelucos, cafusos, caboclos, curibocas. E acrescentava: «Vale dizer, outros tantos desafios para a ciência». Estes tipos humanos e os europeus parados, por uma ou outra razão, em suas bordas, davam a Bahia uma atmosfera cosmopolita e variada.

            Foi entre esses estrangeiros que Galileo Gall — então logo que assassinava o português — teve seu primeiro conhecido. Viveu ao princípio no Hotel dês Étrangers, em Campo Grande, mas logo que travou relação com o velho Jan Van Rijsted, este lhe cedeu um desvão com uma cama de armar e uma mesa, nos altos da Livraria Catilina, onde vivia, e lhe conseguiu aulas particulares de francês e inglês para que se custeasse a comida. Van Rijsted era de origem holandesa, nascido em Olinda, e tinha traficado em cacau, sedas, espécies, tabaco, álcool e armas entre a Europa, África e América dos quatorze anos (sem ter ido ao cárcere nem uma vez). Não era rico por culpa de seus associados — mercadores, armadores, capitães de navio — que lhe tinham roubado boa parte de seus tráficos. Gall estava convencido que os bandidos, grandes criminosos ou simples ratinhos, lutavam também contra o inimigo —o Estado —e, embora às cegas, roíam os alicerces da propriedade. Isto facilitou sua amizade com o ex-patife. Ex, pois estava retirado das maldades. Era solteiro, mas tinha vivido com uma moça de olhos árabes, trinta anos menor que ele, de sangue egípcio ou marroquino, da que gostou muito em Marselha. Trouxe-a para Bahia e lhe pôs uma quinta na cidade alta, que decorou gastando uma fortuna para fazê-la feliz. À volta de uma de suas viagens, encontrou a bela pirada, depois de rematar tudo o que a casa continha, levando-a pequena caixa forte em que Van Rijsted escondia um pouco de ouro e umas pedras preciosas. Referiu ao Gall estes detalhes enquanto caminhavam frente ao mole, vendo o mar e os veleiros, passando do inglês ao francês e ao português, em um tom negligente que o revolucionário apreciou. Jan vivia agora de uma renda que, segundo ele, permitir-lhe-ia beber e comer até sua morte, a condição de que esta não demorasse.

            O holandês, homem inculto mas curioso, escutava com deferência as teorias de Galileo sobre a liberdade e as formas do crânio como sintoma da conduta, embora se permitia dissentir quando o escocês lhe assegurava que o amor do casal era uma tara e germe de infelicidade. A quinta carta de Gall a l'Étincelle da révolte foi sobre a superstição, quer dizer a Igreja do Senhor do Bonfim,  que os romeiros encheram de ex-votos, com pernas, mãos, braços, cabeças, peitos e olhos de madeira e de cristal, que pediam ou agradeciam milagres. A sexta, sobre o advento da República, que na aristocrática Bahia tinha significado só a mudança de alguns nomes. Na seguinte, homenageava a quatro mulatos — os alfaiates Lucas Dantas, Luis Gonzaga das Virgens, João de Deus e Manuel Faustino — que, um século atrás, inspirados pela Revolução Francesa, conjuraram-se para destruir a monarquia e estabelecer uma sociedade igualitária de negros, pardos e brancos. Jan Van Rijsted levou ao Galileo à praça onde os artesãos foram enforcados e esquartejados e, surpreso, viu-o depositar ali umas flores.

            Entre as prateleiras da Livraria Catilina conheceu Galileo Gall, um dia, ao Doutor José Batista de Sá Oliveira, médico já ancião, autor de um livro que lhe tinha interessado: Craneometria comparada das espécies humanas da Bahia, do ponto de vista evolucionista e médico-legal. O ancião, que tinha estado na Itália e conhecido ao Cesare Lombroso, cujas teorias o seduziram, ficou feliz de ter pelo menos um leitor para esse livro que tinha publicado com seu dinheiro e que seus colegas consideravam extravagante. Surpreso pelos conhecimentos médicos de Gall — embora, sempre, desconcertado e freqüentemente escandalizado com suas opiniões—, o Doutor Oliveira encontrou um interlocutor no escocês, com quem passava às vezes horas discutindo fogosamente sobre o psiquismo da pessoa criminosa, a herança biológica ou a Universidade, instituição da que Gall destrambelhava, considerando-a responsável pela divisão entre o trabalho físico e o intelectual e causador, por isso, de piores desigualdades sociais que a aristocracia e a plutocracia. O Doutor Oliveira recebia ao Gall em seu consultório e alguma vez lhe encarregava uma sangria ou uma purgação.

            Embora o freqüentavam e, possivelmente, estimavam, nem Van Rijsted nem o Doutor Oliveira tinham a impressão de conhecer realmente a esse homem de cabelos e barbicha avermelhada, malvestido de negro, que, em que pese a suas idéias, parecia levar uma vida sossegada: dormir até tarde, dar lições de idiomas pelas casas, caminhar incansavelmente pela cidade, ou permanecer em seu desvão lendo e escrevendo. Às vezes desaparecia por várias semanas sem dar aviso e, ao reaparecer, inteiravam-se que tinha feito longas viagens pelo Brasil, nas condições mais precárias. Nunca lhes falava de seu passado nem de seus planos e como, quando o interrogavam sobre estes assuntos, respondia-lhes vagamente; ambos se conformavam, aceitando-o tal como era ou parecia ser: solitário, exótico, enigmático, original, de palavras e idéias incendiárias mas de conduta inofensiva.

            Aos dois anos, Galileo Gall falava com soltura o português e tinha enviado várias cartas mais a l'Étincelle da révolte. A oitava, sobre os castigos corporais que tinha visto repartir aos servos em pátios e ruas da cidade, e a novena sobre os instrumentos de tortura usados em tempos da escravidão: o potro, a armadilha, o colar de cadeias ou gargalheira; as bolas de metal e os infantes, anéis que trituravam os polegares. A décima, sobre o Pelourinho, patíbulo da cidade, onde ainda se açoitava aos infratores da lei (Gall os chamava «irmãos») com um chicote de couro cru que se oferecia nos armazéns com um apelido marinho: o bacalhau.

            Percorria tanto, de dia e de noite, os atalhos de Salvador, que o poderia tomar por um apaixonado pela cidade. Mas Galileo Gall não se interessava na beleza da Bahia a não ser no espetáculo que nunca tinha deixado de revoltá-lo: a injustiça. Aqui, explicava em suas cartas ao Lyon, a diferença da Europa, não havia bairros residenciais: «Os barracões dos miseráveis limitam com os palácios de azulejos dos proprietários de engenhos e as ruas estão lotadas, da seca, de faz três lustros, que empurrou até aqui milhares de refugiados das terras altas, com meninos que parecem velhos e velhos que parecem meninos e mulheres que são paus de vassoura, e entre os quais um cientista pode identificar todas as variedades do mal físico, das benignas até as atrozes: a febre biliosa, o beribéri, a anasarca, a disenteria, a varíola». «Qualquer revolucionário que sinta vacilar suas convicções sobre a grande revolução — dizia uma de suas cartas — deveria dar uma olhada ao que eu vejo em Salvador: então, não duvidaria.»

 

            Quando, semanas depois, soube-se em Salvador que em uma aldeia remota chamada Natuba, os decretos da flamejante República sobre os novos impostos tinham sido queimados, a Governação decidiu enviar uma força da Polícia Bahiana a prender aos revoltosos. Trinta guardas, uniformizados de azul e verde, com quepis nos que a República ainda não mudara os emblemas monárquicos, empreenderam, primeiro em ferrovia e logo a pé, a infeliz travessia para esse lugar que, para todos eles, era um nome no mapa. O Conselheiro não estava em Natuba. Os suarentos policiais interrogaram a vereadores e vizinhos antes de partir em busca desse sedicioso cujo nome, apodo e lenda levariam até o litoral e propagariam pelas ruas da Bahia. Guiados por um rastreador da região, azul esverdeados na radiante manhã, perderam-se trás dos montes do caminho de Cumbe.

            Outra semana estiveram subindo e descendo por uma terra avermelhada, arenosa, com caatingas de espinhosos mandacarús e esfomeados rebanhos de ovelhas que escavavam na folhagem, depois da pista do Conselheiro. Todos o tinham visto passar, no domingo tinha orado nessa igreja, pregado naquela praça, dormindo junto a essas rochas. Encontraram-no por fim a sete léguas de Tucano, em um povoado de cabanas de tijolo cru e telhas que se chamava Masseté, nos contrafortes da Serra do Ovó. Era o entardecer, viram mulheres com cântaros na cabeça, suspiraram ao saber que chegava a término a perseguição. O Conselheiro pernoitava onde Severino Vianna, um morador que tinha um plantação de milho a mil metros do povo. Os policiais trotaram para ali, entre joazeiros de ramos folhudos e matas de plantas que lhes irritava a pele. Quando chegaram, meio às escuras, viram uma moradia de estacas e um enxame de seres amorfos, formados redemoinhos em torno de alguém que devia ser o que procuravam. Ninguém fugiu, ninguém prorrompeu em gritos ao divisar seus uniformes seus fuzis.

            Eram cem, cento e cinqüenta, duzentos? Havia tantos homens como mulheres entre eles e a maioria parecia sair, pela roupa que vestiam, dentre os mais pobres dos pobres. Todos mostravam — assim o contariam à suas mulheres, à suas queridas, às putas, à seus companheiros, os guardas que retornaram a Bahia — uns olhares de inquebrável resolução. Mas, na verdade, não tiveram tempo de observá-los nem de identificar ao cabeça, pois apenas o Sargento chefe lhes ordenou entregar ao que lhe diziam Conselheiro, a turfa lhes jogou em cima, em um ato de flagrante temeridade, considerando que os policiais tinham fuzis e eles só paus, foices, pedras, facas e uma que outra escopeta. Mas tudo ocorreu de maneira tão súbita que os policiais se viram cercados, dispersados, acossados, golpeados e feridos, ao mesmo tempo que se ouviam chamar «Republicanos!» como se a palavra fosse insulto. Alcançaram a disparar seus fuzis, mas mesmo que caíam andrajosos, com o peito ferido; ou a cara destroçada, nada os desanimou e, de repente, os policiais bahianos se encontraram fugindo, aturdidos pela incompreensível derrota. Depois diriam que entre seus atacantes não só havia os loucos e fanáticos que eles acreditavam, a não ser, também, acostumados delinqüentes, como o cara cortada, Pajeú, e o bandido a quem por suas crueldades chamavam-lhe João Satã. Três policiais morreram e ficaram insepultos, para alimento das aves da Serra do Ovó; desapareceram oito fuzis. Outro guarda se afogou em Masseté. Os peregrinos não os perseguiram. Em vez disso, ocuparam-se de enterrar seus cinco mortos e em curar aos vários feridos enquanto os outros, ajoelhados junto ao Conselheiro, davam graças a Deus. Até tarde na noite, ao redor das tumbas cavadas na plantação do Severino Vianna, ouviram-se prantos e rezas de defuntos.

            Quando uma segunda força da Polícia Bahiana, de sessenta guardas, melhor armada que a primeira, desembarcou da ferrovia na Serrinha, algo mudara na atitude dos aldeãos para com os uniformizados. Porque estes, embora conheciam o desamor com que eram recebidos nos povos; quando subiam à caça de bandoleiros, nunca, como esta vez, acharam-se tão certos de ser deliberadamente despistados. As provisões dos armazéns sempre se esgotaram, mesmo que oferecessem a pagar bom preço e, face às altas primas, nenhum rastreador da Serrinha os guiou. Nem ninguém soube esta vez lhes dar o menor indício sobre o paradeiro da banda. E os policiais, enquanto davam tombos do Olhos d'Água à Pedra Alta, do Tracupá à Tiririca; dali ao Tucano, e dali à Caraiba e ao Pontal e por fim de volta a Serrinha, e só encontravam, nos vaqueiros, lavradores, artesãos e mulheres que surpreendiam no caminho, olhadas indolentes, negativas contritas, encolhimento de ombros, sentiam-se tratando de empunhar uma miragem. A banda não tinha passado por ali, ao moreno de hábito arroxeado, ninguém o tinha visto e agora ninguém recordava que fossem queimados uns decretos em Natuba, nem sabido de um choque armado em Masseté. Ao voltar para a capital do Estado, ilesos, deprimidos, os guardas fizeram saber que a horda de fanáticos — igual a tantas outras, fugazmente cristalizadas ao redor de uma devota ou de um pregador — havia, certamente, se dissolvido e, a estas horas, assustados de suas próprias maldades, seus membros estariam sem dúvida fugindo em direções distintas, acaso depois de matar ao chefe. Não tinha ocorrido assim, tantas vezes, na região?

            Mas se equivocavam. Desta vez, embora as aparências repetissem velhas formas da história, tudo seria distinto. Os penitentes se achavam agora mais unidos e, em vez de vitimar ao santo depois da vitória de Masseté, que interpretavam como um sinal vindo da altura, reverenciavam-no mais. À manhã seguinte do choque, tinha-os despertado o Conselheiro, quem rezou toda a noite sobre as tumbas dos jagunços mortos. Notaram-no muito triste. Disse-lhes que o ocorrido na véspera era sem dúvida prelúdio de maiores violências e lhes pediu que retornassem à suas casas, pois se continuavam com ele, podiam ir ao cárcere ou morrer como esses cinco irmãos que agora estavam em presença do Pai. Nenhum se moveu. Passou seus olhos sobre os cem, cento e cinqüenta, duzentos esfarrapados, que o escutavam imersos ainda nas emoções da véspera, e além de olhá-los pareceu vê-los. «Agradeçam ao Bom Jesus, disse-lhes com suavidade, pois parece que escolheu a vocês para dar o exemplo.»

            Seguiram-no com as almas sobressaltadas de emoção, nem tanto pelo que lhes disse, mas sim pela brandura de sua voz, que era sempre severo e impessoal. A alguns dava trabalho não ficar atrasados por seus limiares de ave pernilongo, na inverossímil rota pela que os levava esta vez, uma rota que não era atalho de burros de carga nem atalho de cangaceiros, a não ser deserto selvagem, de cactos, favela e pedras brutas. Mas ele não vacilava quanto ao rumo. No repouso da primeira noite, depois da ação de graças e o rosário, falou-lhes da guerra, dos países que se entrematavam por um saque, como hienas pela carniça, e triste comentou que o Brasil, sendo agora República, atuaria também como as nações hereges. Ouviram-lhe dizer que o Cão devia estar de festa, ouviram-lhe dizer que tinha chegado o momento de jogar raízes e de construir um Templo que fosse, no fim do mundo, o que tinha sido no princípio a Arca de Noé.

            E onde jogariam raízes e construiriam esse Templo? Souberam depois de atravessar quebradas, matas, serras, caatingas —caminhadas que nasciam e morriam com o sol—, escalar uma ronda de montanhas e cruzar um rio que tinha pouca água e se chamava Vassa Barris. Assinalando, ao longe, o conjunto de cabanas que tinham sido ranchos de peões e a mansão desvencilhada que foi casa grande quando aquilo era uma fazenda, o Conselheiro disse: «Ficaremos ali». Alguns recordaram que, desde fazia anos, nas conversas noturnas, estavam acostumados a profetizar que, antes do final, escolhidos do Bom Jesus encontrariam refúgio em uma terra alta e privilegiada, onde não entraria um impuro. Quem subisse até ali teria a segurança do eterno descanso. Haviam, pois, chegado à terra de salvação?

            Felizes, fatigados, avançaram detrás de seu guia, para o Canudos, onde tinham saído a vê-los vir as famílias dos irmãos Vilanova, dois comerciantes que tinham ali um armazém, e todos os outros vizinhos do lugar.

            O sol calcina o sertão, brilha nas águas negra esverdeadas do Itapicurú, reflete-se nas casas de Queimadas, que se desdobram à margem direita do rio, ao pé de uns barrancos de greda avermelhada. Espaçadas árvores sombreiam a superfície pedregosa que se afasta ondulando para o sudoeste, na direção do Riacho de Onze. O cavaleiro —botas, chapéu de asas largas, levita escura — balança sem pressa, escoltado por sua sombra e a de sua mula, para um bosquezinho de arbustos plúmbeos. Atrás dele, já longe, fulguram ainda os tetos de Queimadas. A sua esquerda, a umas centenas de metros, no alto de um promontório se ergue uma cabana. A cabeleira que transborda o chapéu, sua barbicha avermelhada e suas roupas estão cheias de pó, transpira copiosamente e, pouco a pouco, seca-se a frente com a mão e passa a língua pelos lábios ressecados. Nos primeiros matagais do bosquezinho, freia à mula e seus olhos claros, ávidos, procuram em uma e outra direção. Por fim, distingue a uns passos, de cócoras, explorando uma armadilha, a um homem com sandálias e chapéu de couro, facão à cintura, calça e blusa de brim. Galileo Gall desmonta e vai para ele atirando à mula da rédea.

            — Rufino? — pergunta—. O guia Rufino, de Queimadas?

            O homem vira-se pela metade, devagar, como se tivesse advertido faz momento sua presença e com um dedo nos lábios lhe pede silêncio: shhht, shhht. Ao mesmo tempo, joga-lhe uma olhada e, um segundo, há surpresa em seus olhos escuros, talvez pelo acento com que o recém-chegado fala o português, talvez por seu traje funeral. Rufino  —homem jovem, de corpo doentio e flexível, cara angulosa, imberbe, curtida pela intempérie — retira o facão de sua cintura, volta a inclinar-se sobre a armadilha dissimulada com folhas e coberta por uma rede: da brecha sai uma confusão de plumas negras, grasnando. É um pequeno abutre que não pode elevar-se, pois uma de suas patas se acha presa na rede. Há decepção na cara do guia, que, com a ponta do facão, desprende ao pássaro e o olha perder-se no ar azul, batendo as asas com desespero.

            — Uma vez me saltou um jaguar deste tamanho — murmura, assinalando a armadilha—. Estava meio cego, de tantas horas no vazio.

            Galileo Gall assente. Rufino se endireita e dá dois passos para ele. Agora, chegado o momento de falar, o forasteiro parece indeciso.

            — Fui buscá-lo em sua casa — diz, ganhando tempo —. Sua mulher me mandou aqui.

            A mula está escavando a terra com os cascos traseiros e Rufino lhe agarra a cabeça e lhe abre a boca. Enquanto, com olhar de conhecedor, examina-lhe os dentes, parece refletir em alta voz:

            — O chefe da estação de Jacobina sabe minhas condições. Sou homem de uma só palavra, qualquer um dirá em Queimadas. Esse trabalho é bravo.

            Como Galileo Gall não lhe responde, volta a olhá-lo.

            — Não é você da Ferrovia? — pergunta, falando com lentidão, pois compreendeu que o estranho tem dificuldade em lhe entender.

            Galileo Gall vira para trás o chapéu e com um movimento do queixo para a terra de colinas desertas que os rodeia, sussurra:

            — Quero ir à Canudos. — Faz uma pausa, pestaneja para esconder a excitação de suas pupilas, e acrescenta —: Sei que foste ali muitas vezes.

            Rufino está muito sério. Seus olhos o esquadrinham agora com uma desconfiança que não se molesta em ocultar.

             — Ia à Canudos quando era fazenda de gado — diz, cheio de cautela—. Desde que o Barão da Canabrava a abandonou, não tornei.

             — O caminho continua o mesmo — replica Galileo Gall.

            Estão muito perto um do outro, observando-se, e a silenciosa tensão que surgiu parece contagiar à mula que, de repente, cabeceia e começa a retroceder.

             — Manda o Barão da Canabrava? -pergunta Rufino, ao mesmo tempo que acalma ao animal batendo-lhe no cangote.

            Galileo Gall nega com a cabeça e o guia não insiste. Passa a mão por um dos remos traseiros da mula, obrigando-a a elevá-lo e se agacha para examinar o casco:

             — Em Canudos estão acontecendo coisas — murmura—. Os que ocuparam a fazenda do Barão atacaram uns soldados da Guarda Nacional, em Uauá. Mataram vários, dizem.

             — Tem medo de que lhe matem também? — grunhe Galileo Gall, sorrindo —. É soldado, você?

            Rufino encontrou, por fim, o que procurava no casco: um espinho, talvez, ou um calhau que se perde em suas mãos grandes e toscas. Arroja-o e solta o animal.

             — Medo, nenhum — responde, brandamente, com uma ameaça de sorriso—. Canudos está longe.

             — Pagarei o justo — Galileo Gall respira fundo, acalorado; tira o chapéu e sacode a anelada cabeleira avermelhada—. Partiremos dentro de uma semana ou, ao mais, dez dias. Isso sim, terá que guardar a maior reserva.

            O guia Rufino olha-o sem alterar-se, sem perguntar nada.

            — Pelo ocorrido em Uauá — acrescenta Galileo Gall, passando a língua pela boca—. Ninguém deve saber que vamos à Canudos.

            Rufino aponta a cabana solitária, de barro e estacas, meio dissolvida pela luz no alto do promontório:

             — Venha à minha casa e conversaremos sobre esse negócio — diz.

            Põem-se a andar, seguidos pela mula que Galileo leva da rédea. Os dois são quase da mesma altura, mas o forasteiro é mais corpulento; seu andar é quebradiço e enérgico, enquanto que o guia parece ir flutuando sobre a terra. É o meio-dia e umas poucas nuvens esbranquiçadas apareceram no céu. A voz do pistoleiro se perde no ar enquanto se afastam:

            — Quem lhe falou de mim? E, se não for indiscrição, para que quer ir tão longe? O que perdeu lá em Canudos?

 

            Apareceu numa madrugada sem chuva, no alto de uma colina do caminho de Quijingue, arrastando uma cruz de madeira. Tinha vinte anos mas tinha padecido tanto que parecia muito velha. Era uma mulher de cara larga, pés machucados e corpo sem formas, de pele de cor camundongo.

            Chamava-se Maria Quadrado e vinha desde Salvador à Monte Santo, andando. Arrastava já a cruz três meses e um dia. No caminho de grutas de pedra e caatingas arrepiadas de cactos, desertos onde ululava o vento em redemoinhos, casarios que eram uma só rua lamacenta, três palmeiras e pântanos pestilentos, onde se inundavam as cabeças de gado para livrar-se dos morcegos. Maria Quadrado tinha dormindo à intempérie, salvo as poucas vezes em que algum tabaréu, ou pastor que a olhavam como Santa lhe ofereciam seus refúgios. Alimentou-se de pedaços de rapadura que lhe davam almas caridosas e de frutos silvestres que arrancava quando, de tanto jejuar, rangia-lhe o estômago. Ao sair da Bahia, decidida a peregrinar até o milagroso Calvário da Serra do Piquaracá, onde dois quilômetros escavados nos flancos da montanha e orvalhados de capelas, em lembrança das Estações do Senhor, conduziam para a Igreja da Santa Cruz de Monte Santo, aonde tinha prometido chegar a pé em expiação de seus pecados. Maria Quadrado vestia duas saias e tinha umas tranças atadas com uma cinta, uma blusa azul e sapatos de cordão. Mas no caminho dera suas roupas aos mendigos e os sapatos os roubaram em Palmeira dos Índios. De modo que ao divisar Monte Santo, essa madrugada, ia descalça e sua vestimenta era um saco de esparto com buracos para os braços. Sua cabeça, de mechas mal cortadas e crânio descascado, recordava as dos loucos do hospital de Salvador. Rapou-se ela mesma depois de ser violada pela quarta vez.

            Porque tinha sido violada quatro vezes desde que começou seu percurso: por um oficial, por um vaqueiro, por dois caçadores de veados e por um pastor de cabras que a cobriu em sua cova. As três primeiras vezes, enquanto a manchavam, só tinha sentido repugnância por essas bestas que tremiam em cima dele como atacados do mal de São Vito e tinha suportado a prova rogando a Deus que não a deixassem grávida. Mas a quarta havia sentido um arrebatamento de piedade pelo moço encarapitado sobre ela, que, depois de havê-la golpeado para submetê-la, balbuciava-lhe palavras tenras. Para castigar-se por essa compaixão se rapou e transformou-se em algo tão grotesco como os monstros que exibia o Circo do Cigano pelos povos do sertão.

            Ao chegar à costa da que viu, ao fim, o prêmio de tanto esforço — a escadaria de pedras cinzas e brancas da Via Sacra, serpenteando entre os tetos cônicos das capelas, que rematava lá encima no Calvário por volta do que cada Semana Santa confluíam multidões de todos os limites da Bahia e, abaixo, ao pé da montanha, as casinhas de Monte Santo apinhadas em torno de um lugar com dois copiosos tamarindos em que havia sombras que se moviam — Maria Quadrado caiu de bruço ao chão e beijou a terra. Ali estava, rodeado de uma planície de vegetação incipiente, onde pastavam rebanhos de cabras, o saudoso lugar cujo nome lhe tinha servido de incentivo para empreender a travessia e a tinha ajudado a suportar a fadiga, a fome, o frio, o calor e os estupros. Beijando os madeiros que ela mesma cravou, a mulher agradeceu a Deus com confusas palavras lhe haver permitido cumprir a promessa. E, retornando uma vez mais a cruz ao ombro, trotou para Monte Santo como um animal que fareja, iminente, a presa ou a querência.

            Entrou no povoado à hora em que a gente despertava e a sua passagem, de porta a porta, de janela a janela, foi propagando a curiosidade. Caras divertidas e compadecidas se adiantavam a olhá-la — suja, feia, sofrida, quadrada — e quando cruzou a rua dois Santos Passos, ereta sobre o ravina onde se queimavam os lixos e onde fuçavam os porcos do lugar, que era o começo da Via Sacra, seguia-a uma multidão de procissão. Começou a escalar a montanha de joelhos, rodeada de tropeiros que tinham descuidado as tarefas, de remendões e padeiros, de um enxame de meninos e de devotas arrancadas da novena do amanhecer. Os aldeãos, que, ao começar a ascensão, consideravam-na um simples inseto estranho, viram-na avançar penosamente e sempre de joelhos, arrastando a cruz que devia pesar tanto como ela, negando-se a que ninguém a ajudasse, e a viram deter-se rezar em cada uma das vinte e quatro capelas e beijar com olhos cheios de amor os pés das imagens de tudo os nichos do rochedo e a viram resistir horas de horas sem provar bocado nem beber uma gota, e, ao entardecer, já a respeitavam como a uma verdadeira Santa. Maria Quadrado chegou à cúpula — um mundo à parte, onde sempre fazia frio e cresciam orquídeas entre as pedras azuladas — e ainda teve forças para agradecer a Deus sua ventura antes de desvanecer-se.

            Muitos vizinhos de Monte Santo, cuja hospitalidade proverbial não se viu diminuída pela periódica invasão de peregrinos, ofereceram estalagem a Maria Quadrado. Mas ela se instalou em uma gruta, a meia Via Sacra, onde até então só tinham dormindo pássaros e roedores. Era um vazio pequeno e de teto tão baixo que nenhuma pessoa podia se ter nela de pé, úmida pelas infiltrações que haviam coberto de musgo suas paredes e com um chão de areia que provocava espirros. Os vizinhos pensaram que esse lugar acabaria em pouco tempo com sua moradora. Mas a vontade que tinha permitido a Maria Quadrado andar três meses arrastando uma cruz lhe permitiu também viver nesse oco inóspito todos os anos que esteve em Monte Santo.

            A gruta de Maria Quadrado se converteu em lugar de devoção e, junto com o Calvário, no sítio mais visitado pelos peregrinos. Ela foi decorando, ao longo de meses. Fabricou pinturas com essência de plantas, pó de minerais e sangue de cochinilha (que usavam os alfaiates para tingir a roupa). Sobre um fundo azul que sugeria o firmamento pintou os elementos da Paixão de Cristo: os pregos que trituraram sua Palmas e impigens; a cruz que carregou e em que expirou; a coroa de espinhos que ferroou suas têmporas; a túnica do martírio; a lança do centurião que atravessou sua carne; o martelo com o qual o cravaram; o látego que o açoitou; a esponja em que bebeu a cicuta; os dados com que jogaram a seus pés os ímpios e a bolsa em que Judas recebeu as moedas da traição. Pintou também a estrela que guiou até Presépio aos Reis Magos e aos pastores e um coração divino atravessado por uma espada. E fez um altar e uma despensa onde os penitentes podiam prender velas e pendurar ex-votos. Ela dormia ao pé do altar, sobre um colchonete.

            Sua devoção e sua bondade a fizeram muito querida pelos aldeãos de Monte Santo, que a adotaram como se tivesse vivido ali toda sua vida. Logo os meninos começaram a chamá-la madrinha e os cães a deixá-la entrar nas casas e currais sem lhe ladrar. Sua vida estava consagrada a Deus e a servir a outros. Passava horas à cabeceira dos doentes, umedecendo-lhes a fronte e rezando por eles. Ajudava às parteiras a atender às parturientes e cuidava dos filhos de quão vizinhas deviam ausentar-se. Se sujeitava aos transportes mais difíceis, como ajudar a fazer suas necessidades a quão velhos não podiam valer-se por si mesmos. As moças casadouras pediam-lhe conselho sobre seus pretendentes e estes lhe suplicavam que intercedesse ante os pais resistentes a autorizar o matrimônio. Reconciliava aos casais, e as mulheres a quem o marido queria golpear por ociosas, ou matar por adúlteras, corriam a refugiar-se a sua gruta, pois sabiam que a tendo como defensora nenhum homem de Monte Santo se atreveria a lhes fazer dano. Comia da caridade, tão pouco que sempre lhe sobrava o alimento que deixavam em sua gruta os fiéis e cada tarde a via repartir algo entre os pobres. Dava de presente a estes a roupa que lhe davam de presente e ninguém a viu nunca, em tempo de seca ou temperado, outra coisa em cima que o saco furado com o qual chegou.

            Sua relação com os missionários da Missão de Massacará, que vinham para Monte Santo a celebrar ofício na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, não era, entretanto, efusiva. Eles estavam sempre chamando a atenção sobre a religiosidade mal enestendida, a que discorria fora do controle da Igreja; e recordando as Pedras Encantadas, na região das Flores, em Pernambuco, onde o herético, João Ferreira e um grupo de partidários tinham regado certas pedras com sangue de dezenas de pessoas (entre elas, o seu) acreditando que deste modo desencantariam ao Rei Dom Sebastião, quem ressuscitaria aos sacrificados e os conduziria ao céu. Aos missionários de Massacará Maria Quadrado lhes parecia um caso ao fio da separação. Ela, por sua parte, embora se ajoelhava à passagem dos missionários e lhes beijava a mão e lhes pedia a bênção, guardava certa distância para eles; ninguém a tinha visto manter com esses padres de pomposos hábitos, de longas barbas e fala, freqüentemente, difícil de entender, as relações familiares e diretas que a uniam aos vizinhos.

            Os missionários acautelavam também, em seus sermões, aos fiéis contra os lobos que se metiam ao curral disfarçados de cordeiros para comerem o rebanho. Quer dizer, esses falsos profetas aos que Monte Santo atraía como o mel às moscas. Apareciam em suas ruelas vestidos com peles de cordeiro como o Batista, ou túnicas que imitavam os hábitos, subiam ao Calvário e dali lançavam sermões chamejantes e incompreensíveis. Eram uma grande fonte de distração para a vizinhança, nem mais nem menos, que os contadores de romances ou o Gigantão Pedrín, a Mulher Barbuda, ou o Homem sem Ossos do Circo do Cigano. Mas Maria Quadrado nem se aproximava dos cachos que se formavam em torno dos pregadores extravagantes.

            Por isso surpreendeu aos vizinhos ver a Maria Quadrado aproximar-se do cemitério, que um grupo de voluntários tinha começado a cercar, animados pelas exortações de um moreno de cabelos compridos e vestimenta morada, que, chegou ao povoado nesse dia com um grupo entre os que havia um ser meio homem meio animal, que galopava, tinha-os recriminado por não tomar sequer o trabalho de levantar um muro ao redor da terra onde descansavam seus mortos. Não devia a morte, que permitia ao homem ver ao rosto de Deus, ser venerada? Maria Quadrado chegou silenciosamente até as pessoas que recolhiam pedras e as empilhavam em uma linha sinuosa, ao redor das cruzes tostadas pelo sol, e ficou a ajudar. Trabalhou ombro a ombro com eles até a queda do sol. Logo, permaneceu no Plaza Matriz, sob os tamarindos, no coro que se formou para escutar ao moreno. Embora memorava a Deus e dizia que era importante, para salvar a alma, destruir a própria vontade — veneno que inculcava a cada um que a ilusão de ser um pequeno deus superior aos deuses que o rodeavam — e substitui-la pela da Terceira Pessoa, a que construía, a que obrava, a Formiga Diligente, e coisas pelo estilo; dizia-as em uma linguagem clara de que entendiam todas as palavras. Sua conversa, embora religiosa e profunda, parecia um desses amenos bate-papos de sobremesa, que celebravam as famílias na rua, tomando a brisa do anoitecer. Maria Quadrado esteve escutando ao Conselheiro, feito uma planta, sem lhe perguntar nada, sem apartar os olhos dele. Quando já era tarde e quão vizinhos ficavam ofereceram ao forasteiro teto para descansar, ela também — todos voltaram a lhe olhar, ela propôs com acanhamento sua gruta. Sem duvidar, o homem fraco a seguiu montanha acima.

            O tempo que o Conselheiro permaneceu em Monte Santo, dando conselhos e trabalhando — limpou e restaurou todas as capelas da montanha, construiu um duplo muro de pedras para a Via Sacra — dormiu na gruta de Maria Quadrado. Depois se disse que não dormiu, nem ela tampouco, que passavam as noites falando de coisas do espírito ao pé do altarzinho multicolorido, e se chegou a dizer que ele dormia no colchonete e que ela velava seu sonho. O fato é que Maria Quadrado não se separou dele um instante, carregando pedras a seu lado de dia e escutando-o com os olhos muito abertos nas noites. Em que pese a isso, todo Monte Santo ficou assombrado quando se soube, essa manhã, que o Conselheiro partiu do povoado e que Maria Quadrado se foi também entre seus seguidores.

            Em uma praça da cidade alta da Bahia há um antigo edifício de pedra, adornado com conchas brancas e negras e protegido, como os cárceres, por grossos muros amarelos. É, já o terá suspeitado algum leitor, uma fortaleza do obscurantismo: o Monastério de Nossa Senhora da Piedade. Um convento de capuchinhos, uma dessas ordens célebre pelo aprisionamento do espírito que pratica e por seu zelo missionário. Por que lhes falo de um lugar que, à olhos de qualquer libertário, simboliza o odioso? Para lhes contar que faz dois dias passei ali toda uma tarde.

            Não fui explorar o terreno com o objetivo de uma dessas mensagens de violência pedagógica em quartéis, conventos, prefeituras e, em geral, todos os baluartes da exploração e da superstição que, a julgamento de muitos companheiros, são indispensáveis para combater os tabus com que se acostumou os trabalhadores a ver essas instituições e lhes demonstrar que elas são vulneráveis. (Lembram-se dos cenáculos naturais de Barcelona que propugnaram assaltar os conventos para devolver às monjas, mediante a gravidez, sua condição de mulheres que lhes tinha arrebatado a reclusão?) Fui a esse Monastério para conversar com um tal Frei João Evangelista de Monte Marciano, de quem o destino me tinha proporcionado ler um curioso Relatório.

            Um paciente do doutor José Batista de Sá Oliveira, de cujo livro sobre a Craneometria já lhes falei e com quem às vezes colaboro, é próximo do homem mais poderoso destas latitudes: o Barão da Canabrava. O homem a que me refiro, Lelis Piedades, advogado, enquanto o Doutor Oliveira lhe administrava uma purgação para a solitária, contou que uma fazenda do Barão se acha há perto de dois anos ocupada por uns loucos que constituíram ali uma terra de ninguém. Ele se ocupa das demandas ante os tribunais para que seu patrão recupere a fazenda, em nome do direito de propriedade que o célebre Barão, que dúvida cabe, deve defender com ardor. Que um grupo de explorados se apropriou dos bens de um aristocrata sempre soa agradável aos ouvidos de um revolucionário, mesmo que esses pobres sejam — como dizia o advogado enquanto puxava na soleira tratando de expulsar a animália já triturada pela química —fanáticos religiosos. Mas o que me chamou a atenção foi escutar de repente que eles rechaçam o matrimônio civil e praticam algo que Lelis Piedades chama promiscuidade mas que, para qualquer homem com cultura social, é a instituição do amor livre. «Com semelhante prova de corrupção, a autoridade não terá mais remédio, que expulsar dali aos fanáticos.» A prova do rábula era esse Relatório, que se tinha procurado por seus conluios com a Igreja, a que também dispõe serviços. Frei João Evangelista de Monte Marciano esteve na fazenda enviado pelo Arcebispo da Bahia, a quem tinham chegado denúncias de heresia. O monge foi ver o que ocorria em Canudos e voltou muito depressa, assustado e zangado do que viu.

            Assim indica o Relatório e não há dúvida que para o capuchinho a experiência foi amarga. Para um ser livre o que o Relatório deixa adivinhar por entre suas ramelas eclesiásticas é exaltante. O instinto de liberdade que a sociedade classista sufoca mediante essas máquinas trituradoras que são: a família, a escola, a religião e o Estado; guia os passos destes homens que, com efeito, parecem rebelarem-se, entre outras coisas, contra a instituição que pretende embridar os sentimentos e os desejos. Com o pretexto de rechaçar a lei do matrimônio civil, dada no Brasil logo depois da queda do Império, a gente de Canudos aprendeu a unir-se e desunir-se livremente, sempre que homem e mulher estejam de acordo em fazê-lo, e a despreocupar-se da paternidade dos ventres fecundados, pois seu condutor ou guia — a quem chamam o Conselheiro — ensinou-lhes que todos os seres são legítimos pelo simples fato de nascer. Não há algo nisto que lhes soe familiar? Não é como se se materializassem ali certas idéias centrais da revolução? O amor livre, a livre paternidade, o desaparecimento da infame fronteira entre filhos legítimos e ilegítimos, a convicção de que o homem não herda a dignidade nem a indignidade. Tinha ou não razões para, vencendo uma repugnância natural, ir visitar capuchinho?

            O próprio rábula do Barão da Canabrava me conseguiu a entrevista, acreditando que me interesso há anos pelo tema da superstição religiosa (o que, pelo resto, é verdade). Ela teve lugar no refeitório do Monastério, um aposento repleto de pinturas com Santos e mártires, à beira de um claustro pequeno, ladrilhado, com uma cisterna a que se chegavam, pouco a pouco, os encapuzados de hábitos marrons e cordões brancos a tirar baldes de água. O monge absolveu todas minhas perguntas e se mostrou loquaz, ao descobrir que podíamos conversar sobre sua língua materna, o italiano. Meridional ainda jovem, baixinho, roliço, de barbas abundantes, sua fronte muito larga delata nele a um fantaseador e a depressão de suas têmporas e achatamento de sua nuca a um espírito rancoroso, mesquinho e suscetível. E, com efeito, no curso do bate-papo notei que está cheio de ódio contra Canudos, pelo fracasso da missão que o levou lá e pelo medo que devia passar entre os «heréticos». Mas até descontando o que tenha de exagero e rancor em seu testemunho, o resto de verdade que fica nele é, já o verão, impressionante.

            O que lhe ouvi daria matéria para muitos números de l'Étincelle da révolte. O essencial é que a entrevista confirmou minhas suspeitas de que, em Canudos, homens humildes e inexperientes estão, à força de instinto e imaginação, levando a prática muitas das coisas que os revolucionários europeus sabem necessárias para implantar a justiça na terra. Julguem vós mesmos. Frei João Evangelista esteve em Canudos uma semana, acompanhado de dois religiosos: outro capuchinho da Bahia e o pároco de um povo vizinho de Canudos, um tal Dom Joaquim, ao que, dito seja de passagem, detesta (acusa-o de bêbado, de impuro e de respirar simpatias pelos bandidos). Antes da chegada —depois de uma penosa viagem de dezoito dias — advertiram «indícios de insubordinação e anarquia», pois nenhum guia se prestava a levá-los, e a três léguas da fazenda se deram com uma avançada de homens com espingardas e facões que os receberam com hostilidade e só os deixaram passar por intercessão de Dom Joaquim, ao que conheciam. Em Canudos encontraram uma multidão de seres esquálidos, cadavéricos, asilados  em cabanas de barro e palha, e armados até os dentes «para proteger ao Conselheiro, a quem já as autoridades tinham tratado antes de matar». Ainda retintine em meus ouvidos as palavras alarmadas do capuchinho ao rememorar a impressão que lhe produziu ver tantas armas. «Não as abandonam nem para comer nem para rezar, pois se luzem ufanos com seus trabucos, carabinas, pistolas, facas, cartucheiras ao cinto, como se estivessem a ponto de liberar uma guerra.» (Eu não podia lhe abrir os olhos, explicando-lhe que essa guerra a estavam liberando desde que tomaram pela força as terras do Barão.) Assegurou-me que entre esses homens havia facínoras célebres por suas tropelias e mencionou a um deles, «muito famoso por sua crueldade», João Satã, quem se instalou em Canudos com seu partido e é um dos lugares-tenentes do Conselheiro. Frei João Evangelista conta havê-lo repreendido assim: «Por que se admitem delinqüentes em Canudos se é verdade que vocês pretendem ser cristãos?». A resposta: «Para fazer deles homens bons. Se tiverem roubado ou matado foi pela pobreza em que viviam. Aqui, sentem que pertencem à família humana, estão agradecidos e farão algo por redimir-se. Se os rechaçássemos, cometeriam novos crimes. Nós entendemos a caridade como a praticava o Cristo». Estas frases, companheiros, coincidem com a filosofia da liberdade. Vocês sabem que o bandido é um rebelde em estado natural, um revolucionário que se ignora, e recordam que nos dias dramáticos da Commune, muitos irmãos considerados delinqüentes e saídos dos cárceres da burguesia, estiveram na vanguarda da luta, ombro a ombro com os trabalhadores, dando provas de heroísmo e generosidade.

            Algo significativo: as pessoas de Canudos se chamam a si mesmos jagunços, palavra que quer dizer elevados. O monge, em que pese a suas correrias missionárias pelo interior, não reconhecia a essas mulheres descalças nem a esses homens tão discretos e respeitosos para com os enviados da Igreja e de Deus. «Estão irreconhecíveis. Há neles desassossego, exaltação. Falam com vozes, arrebatam-se a palavra para afirmar as piores sandices que pode ouvir um cristão, doutrinas subversivas da ordem, da moral e da fé. Como que quem quer salvar-se deve ir à Canudos, pois o resto do mundo caiu em mãos do Anticristo.» Sabem a quem chamam o Anticristo os jagunços? À República! Sim, companheiros, à República. Consideram-na responsável por todos os males, alguns abstratos sem dúvida, mas também dos concretos e reais como a fome e os impostos. Frei João Evangelista de Monte Marciano não podia dar crédito ao que ouvia. Duvido que ele, sua ordem ou a Igreja em geral sejam muito entusiastas com o novo regime no Brasil, pois, como lhes disse em uma carta anterior, a República, em que abundam os maçons, significou uma debilitação da Igreja. Mas daí a considerá-la o Anticristo! Acreditando assustar-me ou indignar-me, o capuchinho dizia coisas que eram música para meus ouvidos: «São de uma seita político-religiosa insubordinada contra o governo constitucional do país, constituem um Estado dentro do Estado pois ali não se aceitam as leis, nem são reconhecidas as autoridades nem é admitido o dinheiro da República». Sua cegueira intelectual não lhe permitia compreender que estes irmãos, com instinto certeiro, orientaram sua rebeldia para o inimigo nato da liberdade: o poder. E qual é o poder que os oprime, que lhes nega o direito à terra, à cultura, à igualdade? Não é acaso a República? E que estejam armados para combatê-la demonstra que acertaram também com o método, o único que têm os explorados para romper suas cadeias: a força.

            Mas isto não é tudo, preparem-se para algo ainda mais surpreendente. Frei João Evangelista assegura que, igual à promiscuidade de sexos, estabeleceu-se em Canudos a promiscuidade de bens: tudo é de todos. O Conselheiro teria convencido aos jagunços que é pecado — escute bem — considerar como próprio qualquer bem moviente ou semi-moviente. As casas, as plantações, os animais pertencem à comunidade, são de todos e de ninguém. O Conselheiro os convenceu que quanto mais coisas possua uma pessoa menos possibilidades tem de estar entre os favorecidos no dia do Julgamento Final. É como se estivesse pondo em prática nossas idéias, recobrindo-as de pretextos religiosos por uma razão tática, devido ao nível cultural de quão humildes o seguem. Não é notável que no fundo do Brasil um grupo de insurretos forme uma sociedade em que se aboliu o matrimônio, o dinheiro, e onde a propriedade coletiva substituiu à privada?

            Esta idéia revoava-me na cabeça, enquanto Frei João Evangelista de Monte Marciano dizia-me que, depois de pregar sete dias em Canudos, em meio de uma hostilidade surda, viu-se tratado de maçom e protestante por urgir aos jagunços a retornar à seus povos, e que ao lhes pedir que se submetessem à República se avivaram tanto que teve que sair, virtualmente, fugindo de Canudos. «A Igreja perdeu sua autoridade ali por culpa de um demente que passa o dia fazendo trabalhar a toda a multidão na ereção de um templo de pedra.» Eu não podia sentir a consternação dele, a não ser, alegria e simpatia por esses homens graças aos quais, dir-se-ia no fundo do Brasil, renasce de suas cinzas a Idéia que a reação crê ter enterrado lá na Europa no sangue das revoluções derrotadas. Até a próxima ou até sempre.

 

            Quando Lelis Piedades, o advogado do Barão da Canabrava, oficiou ao Tribunal de Salvador que a fazenda de Canudos tinha sido invadida por malfeitores, o Conselheiro estava lá três meses. Pelos sertões tinha deslocado a notícia de que nesse sítio cercado dos Montes pedregosos, chamado Canudos pelos cachimbos de canudos que fumavam antigamente os aldeãos, tinha jogado raízes o santo que peregrinou ao longo e ao largo do mundo por um quarto de século. O lugar era conhecido pelos vaqueiros, pois os gados estavam acostumados a pernoitar às bordas de Vassa Barris. Nas semanas e meses seguintes se viu grupos de curiosos, de pecadores, de doentes, de vagos, de fugidos que, pelo Norte, o Sul, o Este e o Oeste se dirigiam à Canudos com o pressentimento ou a esperança de que ali encontrariam perdão, refúgio, saúde, felicidade.

            À manhã seguinte de chegar, o Conselheiro começou a construir um Templo que, disse, seria todo de pedra, com duas torres muita altas, e consagrado ao Bom Jesus. Decidiu que se elevasse frente à velha Igreja do Santo Antonio, capela da fazenda. «Que levantem as mãos os ricos», dizia, pregando à luz de uma fogueira, na incipiente aldeia. «Eu as levanto. Porque sou filho de Deus, que me deu uma alma imortal, que pode merecer o céu, a verdadeira riqueza. Eu as levanto porque o Pai me fez pobre nesta vida para ser rico na outra. Que levantem as mãos os ricos!» Nas sombras chispantes emergia então, dentre os farrapos, os couros e as puídas blusas de algodão, um monte de braços. Rezavam antes e depois dos conselhos; faziam procissões entre as moradias meio por fazer; os refúgios de trapos e pranchas onde dormiam; na noite sertaneja os ouvia aclamar à Virgem e ao Bom Jesus; dar morra ao Cão e ao Anticristo. Um homem de Mirandela, que preparava fogos nas feiras —Antonio o Fogueteiro — foi um dos primeiros romeiros e, após, nas procissões de Canudos, queimaram-se castelos e arrebentaram fogos.

            O Conselheiro dirigia os trabalhos do Templo, assessorado por um mestre pedreiro que o tinha ajudado a restaurar muitas capelas e a construir desde seus alicerces a Igreja do Bom Jesus, em Crisópolis, e designava a quão penitentes iriam picar pedras, abater areia ou recolher madeiras. Ao entardecer, depois de um jantar frugal — senão estava jejuando — que consistia em um pedaço de pão, alguma fruta, um bocado de farinha e uns sorvos de água, o Conselheiro dava a boa-vinda aos recém chegados; exortava aos outros a serem hospitaleiros; depois do Credo, o Pai Nosso e os Ave-marias, sua voz eloqüente lhes pregava a austeridade, a mortificação, a abstinência, e os fazia partícipes de visões que se pareciam com os contos dos trovadores. O fim estava perto, podia-se divisar como Canudos do Alto da Favela. A República seguiria mandando hordas com uniformes e fuzis para tratar de prendê-lo, a fim de impedir que falasse com os necessitados, mas, por mais sangue que fizesse correr, o Cão não morderia ao Jesus. Haveria um dilúvio, logo um terremoto. Um eclipse sumiria ao mundo em trevas tão absolutas que tudo deveria fazer-se ao tato, como entre cegos, enquanto ao longe retumbava a batalha. Milhares morreriam de pânico. Mas, ao limpar as brumas, um amanhecer diáfano, as mulheres e os homens veriam seu redor, nas colinas e Montes de Canudos, ao Exército de Dom Sebastião. O grande Rei teria derrotado às iscas de peixe do Cão, limpo o mundo para o Senhor. Eles veriam dom Sebastião, com sua relampejante armadura e sua espada; veriam seu rosto bondoso, adolescente, sorria-lhes do alto de sua cavalgadura arreada de ouro e diamantes, e o veriam afastar-se, cumprida sua missão redentora, para retornar com seu Exército ao fundo do mar.

            Os curtidores, os parceiros, os curandeiros, os marreteiros, as lavadeiras, as parteiras e quão mendigas tinham chegado até Canudos depois de muitos dias e noites de viagem, com seus bens em uma carroça ou no lombo de um asno, e que estavam agora ali, escondidos na sombra, escutando e querendo acreditar, sentiam umedecer-se os olhos. Rezavam e cantavam com a mesma convicção que os antigos peregrinos; os que não sabiam aprendiam depressa as rezas, os cantos, as verdades. Antonio Vilanova, o comerciante de Canudos, era um dos mais ansiosos por saber; nas noites, dava largos passeios pelas bordas do rio ou das recentes plantações com o Antonio, o Beato, quem, pacientemente, explicava-lhe os mandamentos e as proibições da religião que ele, logo, ensinava a seu irmão Honório, sua mulher Antonia, sua cunhada Assunção e os filhos dos dois casais.

            Não faltava de comer. Havia grãos, legumes, carnes, e, como o Vassa Barris tinha água, podia-se semear. Os que chegavam traziam provisões e de outros povos estavam acostumados a lhes mandar aves, coelhos, porcos, cereais, cabritos. O Conselheiro pediu ao Antonio Vilanova que armazenasse os mantimentos e vigiasse sua partilha entre os necessitados. Sem diretivas específicas, mas em função dos ensinos do Conselheiro, a vida se foi organizando, embora não sem tropeços. O Beato se encarregava de instruir a quão romeiros chegavam e de receber seus donativos, sempre que não fossem em dinheiro. Os reis da República que doavam tinham que os gastar em Cumbe ou Joazeiro, escoltados pelo João Abade ou Pajeú, que sabiam brigar, em coisas para o Templo: pás, lanças, prumos, madeiras de qualidade, imagens de Santos e crucifixos. A Mãe Maria Quadrado punha em uma urna os anéis, brincos, alfinetes, colares; pentes de prender cabelos; moedas antigas; ou simples adornos de argila, de osso que ofereciam os romeiros e esse tesouro se exibia na Igreja do Santo Antonio cada vez que o Padre Joaquim, de Cumbe, ou outro pároco da região, devia rezar missa, confessar, batizar e casar aos vizinhos. Esses dias eram sempre de festa. Dois prófugos da justiça, João Grande e Pedrão, os homens mais fortes do lugar, dirigiam as equipes que arrastavam, das pedreiras dos arredores, pedras para o Templo. Catarina, a esposa do João Abade, e Alexandrinha Correia, uma mulher de Cumbe que, dizia-se, fazia milagres, preparavam a comida para os trabalhadores da construção. A vida estava longe de ser perfeita e sem complicações. Em que pese a que o Conselheiro pregava contra o jogo, o tabaco e o álcool, havia quem jogava, fumava e bebia cachaça e, quando Canudos começou a crescer, houve confusões de saques, roubos, bebedeiras e até navalhadas. Mas essas coisas ocorriam ali em menor escala que em outras partes e na periferia desse centro ativo, fraterno, fervente, ascético, que eram o Conselheiro e seus discípulos.

            O Conselheiro não tinha proibido que as mulheres se embelezassem, mas disse incontáveis vezes que quem cuidava muito de seu corpo podia descuidar sua alma e que, como Luzbel, uma formosa aparência estava acostumada ocultar um espírito sujo e nauseabundo: as cores foram desaparecendo dos vestidos de jovens e velhas, e estes se foram alongando até os tornozelos, estirando até os pescoços e inchando até parecer túnicas de monjas. Com os decotes, esfumaram-se os adornos e até as cintas que sujeitavam os cabelos, os que eram agora livres ou ocultos sob xales. Havia às vezes incidentes com «as madalenas», essas perdidas que, em que pese a ter vindo até aqui a custa de sacrifícios e de ter beijado os pés do Conselheiro implorando perdão, eram hostilizadas por mulheres intolerantes que as queriam fazer levar pentes de espinheiros em prova de arrependimento.

            Mas, em geral, a vida era pacífica e reinava um espírito de colaboração entre os vizinhos. Uma fonte de problemas era o inaceitável dinheiro da República: ao que se surpreendia utilizando-o em qualquer transação os homens do Conselheiro lhe tiravam o que tinha e o obrigavam a partir de Canudos. Comercializava-se com as moedas que levavam a efígie do Imperador Dom Pedro ou a de sua filha, a Princesa Isabel, mas como eram escassas se generalizou a troca de produtos e de serviços. Trocava-se rapadura por alpargatas; galinhas por cura de ervas; farinha por ferraduras; cobre por tecidos; balança por facões; e os trabalhos, em plantações, moradias, currais, retribuíam-se com trabalhos. Ninguém cobrava o tempo e esforço dados ao Bom Jesus. Além disso do Templo, construíam-se as moradias que se chamariam depois Casas de Saúde, onde se começou a dar alojamento, comida e cuidados aos doentes, anciões e meninos órfãos. Maria Quadrado dirigiu ao princípio esta tarefa, mas, logo que se erigiu o Santuário —uma casinha de barro, dois quartos, teto de palha — para que o Conselheiro pudesse descansar sequer algumas horas de quão romeiros o acossavam sem descanso, e a Mãe dos Homens se dedicou só à ele, as Casas de Saúde ficaram a cargo das Sardelinhas —Antonia e Assunção —, as mulheres dos Vilanova. Houve pendências pelas terras cultiváveis, vizinhas à Vassa Barris, que foram ocupando quão romeiros arraigaram em Canudos e que outros lhes disputavam. Antonio Vilanova, o comerciante, dirimia estas rivalidades. Ele, por encomenda do Conselheiro, distribuiu lotes para as moradias dos recém vindos e separou as terras para curral de quão animais os crentes mandavam ou traziam de presente, e fazia de juiz quando surgiam pleitos de bens e propriedades. Não havia muitos, na verdade, pois as pessoas não vinham à Canudos atraídas pela cobiça ou a idéia de prosperidade material. A comunidade vivia entregue à ocupações espirituais: orações, enterros, jejuns, procissões, a construção do Templo do Bom Jesus e, sobretudo, os conselhos do entardecer que podiam prolongar-se até tarde da noite e durante os quais tudo se interrompia em Canudos.

            No candente meio-dia, a feira organizada pelo Partido Republicano Progressista encheu as paredes de Queimadas com pôsteres de um Brasil unido, uma nação forte e com o nome de Epaminondas Gonçalves. Mas em seu quarto da Pensão Nossa Senhora das Graças, Galileo Gall não pensava na festa política que repicava lá fora, a não ser, nas contraditórias aptidões que descobriu em Rufino. «É uma conjunção pouco comum», pensa. Orientação e Concentração são afins, certamente, e nada mais normal que as encontrar em alguém que passa a vida percorrendo esta imensa região, guiando viajantes, caçadores, comboios, servindo de correio ou rastreando o gado extraviado. Mas e o Maravilhamento? Como combinar a propensão à fantasia, ao delírio, à irrealidade, típica de artistas e pessoas não práticas, com um homem em que tudo indica ao materialista, ao terráqueo, ao pragmático? Entretanto, isso é o que dizem seus ossos: Orientalidade, Concentração, Maravilhamento. Galileo Gall o descobriu logo que pôde apalpar ao guia. Pensa: «É uma conjunção absurda, incompatível. Como ser pudico e exibicionista, avaro e pródigo».

            Está molhando a cara, inclinado sobre um balde, entre tabiques constelados de ganchos de ferro; recorte com imagens de uma função de ópera e um espelho quebrado. Baratas cor café aparecem e desaparecem pelas fendas do chão e há uma pequena lagartixa petrificada no teto. O mobiliário é uma cama sem lençóis. A atmosfera festiva entra na habitação por uma janela gradeada: vozes que magnifica um alto-falante, golpes de pires, rufos de tambor e a gritaria dos meninos que voam como cometas. Alguém mescla ataque ao Partido Autonomista da Bahia, ao Governador Luis Viana, ao Barão da Canabrava, com louvores ao Epaminondas Gonçalves e ao Partido Republicano Progressista.

            Galileo Gall segue lavando-se, indiferente ao bulício exterior. Uma vez que terminou, seca a cara com sua própria camisa e se deixa cair sobre a cama, de barriga para cima, com um braço sob a cabeça como travesseiro. Olha as baratas, a lagartixa. Pensa: «A ciência contra a impaciência». Leva oito dias em Queimadas e, embora seja um homem que sabe esperar, começou a sentir certa angústia: isso o induziu a lhe pedir ao Rufino que se deixasse apalpar. Não foi fácil convencê-lo, pois o guia é desconfiado e Gall recorda como, enquanto o apalpava, sentia-o tenso, preparado a lhe saltar em cima. Viram-se diariamente, entendem-se sem dificuldade e, para matar o tempo de espera, Galileo estudou seu comportamento, tomado notas sobre ele: «Lê no céu, nas árvores e na terra como em um livro; é homem de idéias simples, inflexíveis; com um código de honra estrito e uma moral que brotou de seu comércio com a natureza e com os homens, não do estudo, pois não sabe ler, nem da religião, já que não parece muito crente». Tudo isto coincide com o que sentiram seus dedos, salvo o Maravilhamento. No que se manifesta, como não advertiu no Rufino nenhum de seus sintomas, nestes oito dias, enquanto negociava com ele a viagem à Canudos, em sua cabana dos subúrbios, tomando um refresco na estação da ferrovia ou caminhando entre os curtumes, à beira do Itapicurú? Em Jurema, em troca, a mulher do guia, essa vocação perniciosa, anticientífica — sair do campo da experiência, sumir-se na fantasmagoria e a encenação— é evidente. Pois, face à reserva que é em sua presença, Galileo ouviu a Jurema contar a história do Santo Antonio de madeira que está no altar maior da Igreja de Queimadas. «Encontraram-na em uma gruta, faz anos, e a levaram a Igreja e ao dia seguinte desapareceu e apareceu de novo na gruta. Amarraram-na no altar para que não escapasse e, apesar disso, voltou a ir-se à gruta. E assim esteve, indo e vindo, até que chegou à Queimadas uma Santa Missão, com quatro padres capuchinhos e o Bispo, que consagraram a Igreja ao Santo Antonio e rebatizaram ao povoado de Santo Antonio de Queimadas em honra do santo. Só assim ficou quieta a imagem no altar onde agora lhe prendem velas.» Galileo Gall recorda que, quando perguntou ao Rufino se ele acreditava na história que contava sua mulher, o rastreador encolheu os ombros e sorriu com cepticismo. Jurema, em troca, acreditava. Galileo talvez gostaria de apalpá-la também, mas não o tentou; estava seguro que só a idéia de que um estrangeiro tocasse a cabeça de sua mulher, seria inconcebível para Rufino. Sim, trata-se de um homem suspicaz. Deu trabalho aceitar levá-lo à Canudos. Regateou o preço, pôs objeções, duvidou, e embora cedesse, Galileo notou-o incomodado, quando lhe falou do Conselheiro e dos jagunços.

            Sem dar-se conta, sua atenção se foi desviando de Rufino à voz que vinha de fora: «A autonomia regional e a descentralização são pretextos que utilizam o Governador Viana, o Barão da Canabrava e seus esbirros para conservar seus privilégios e impedir que a Bahia se modernize igual aos outros Estados do Brasil. Quem são os Autonomistas? Monárquicos emboscados que, se não fosse por nós, ressuscitariam o Império corrupto e assassinariam à República! Todavia, o Partido Republicano Progressista de Epaminondas Gonçalves impedi-lo-á...». Era alguém distinto do qual falava antes, mais claro, Galileo compreendeu tudo o que disse, e até parecia ter alguma idéia, tanto que seu predecessor só tinha uivos. Irá à janela a espiar? Não, não se move da cama, está seguro que o espetáculo continua o mesmo: grupos de curiosos que percorrem os postos de bebidas e comidas, escutam aos trovadores ou rodeiam ao homem com pernas de pau que diz a sorte; às vezes, dignam-se deter um momento a olhar, não a escutar, ante o tablado do qual faz sua propaganda o Partido Republicano Progressista, e ao que protegem capangas com escopetas. «Sua indiferença é sábia», pensa Galileo Gall. Do que serve às pessoas de Queimadas saber que o Partido Autonomista do Barão da Canabrava está contra o sistema centralista do Partido Republicano e que este combate o descentralismo e o federalismo que propõe seu adversário? Têm algo a ver com os interesses dos humildes as questões retóricas dos partidos burgueses? Fazem bem em aproveitar a feira e desinteresar-se do que dizem os do tablado. Na véspera, Galileo detectou certa excitação em Queimadas, mas não pela festa do Partido Republicano Progressista, mas sim porque as pessoas se perguntavam se o Partido Autonomista do Barão da Canabrava mandaria capangas a desbaratar o espetáculo a seus inimigos e haveria tiros, como outras vezes. Até metade da manhã, não ocorreu e, sem dúvida, não ocorrerá. Para que se incomodariam em atacar um comício tão órfão de apoio? Gall pensa que as feiras dos Autonomistas devem ser idênticas a que tem lugar lá fora. Não, aqui não está a política da Bahia, do Brasil. Pensa: «Está lá, entre esses que nem sequer sabem que são os genuínos políticos desse país». Demorará muito a espera? Galileo Gall senta-se na cama. Murmura: «A ciência contra a impaciência». Abre a maleta que está no chão e afasta roupas, um revólver, agarra a caderneta onde tomou apontamentos sobre os curtumes de Queimadas, nas que matou algumas horas estes dias, e folheia o que escreveu: «Construções de tijolos, teto de telhas, colunas rústicas. Em qualquer parte, maços de casca de angico, presa e picada com martelo e faca. Jogam o angico à umas poças cheias de água do rio. Inundam os couros logo depois de lhes tirar o pelo e os deixam encharcando uns oito dias, tempo que demoram em curtir-se. Da casca da árvore chamada angico sai o tanino, a substância que os curte. Penduram os couros à sombra até que se secam e os raspam com facas para lhes tirar os resíduos. Submetem a este processo à cabeças de gado, carneiros, cabras, coelhos, veados, raposas e onças. O angico é cor de sangue, de forte aroma. Os curtumes são empresas familiares, primitivas, nas que trabalham o pai, a mãe, os filhos e parentes próximos. O couro cru é a principal riqueza de Queimadas». Volta a colocar a caderneta na bolsa. Os curtidores mostraram-se amáveis, explicaram-lhe seu trabalho. Por que são tão reticentes a falar de Canudos? Desconfiam de alguém cujo português custa entender? Ele sabe que Canudos e o Conselheiro são o centro de conversação em Queimadas. Mas ele, em que pese a seus intentos, não pôde conversar com ninguém, nem sequer Rufino e Jurema, sobre esse tema. Nos curtumes, na estação, na Pensão Nossa Senhora das Graças, na praça de Queimadas; a vez que o mencionou viu a mesma suspicácia em todos os olhos, fez-se o mesmo silêncio, ou escutou as mesmas evasivas. «São prudentes. Desconfiam», pensa. Pensa: «Sabem o que fazem. São sábios».

            Volta a escavar entre as roupas o revólver e saca o único livro que há na bolsa. É um exemplar velho, manuseado, de pergaminho escuro, no que se lê já apenas o nome de Pierre Joseph Proudhon, mas no que está ainda claro o título, Systéme des contradictions e a cidade onde foi impresso: Lyon. Não consegue se concentrar muito na leitura, distraído pelo bulício da feira e, sobretudo, pela traiçoeira impaciência. Apertando os dentes, esforça-se então em refletir em coisas objetivas. Um homem ao que não lhe interessam os problemas gerais, nem as idéias, vive enclausurado na Particularidade, e isso se pode conhecer, detrás de suas orelhas, pela curvatura de dois caroços sobressalentes, quase agudos. Sentiu-os assim, em Rufino? O Maravilhamento se manifesta, talvez, no estranho sentido da honra, mostrando nisso que a poderia chamar imaginação ética do homem que o conduzirá à Canudos?

            Suas primeiras lembranças, que seriam também as melhores e as que voltariam com mais pontualidade, não eram nem sua mãe, que o abandonou para correr atrás de um sargento da Guarda Nacional que passou por Custódia à cabeça de um volante que perseguia cangaceiros; nem o pai que nunca conheceu, nem os tios que o recolheram e criaram — Zé Faustino e Dona Ângela —, nem a trintena de ranchos e as reconhecidas ruas de Custódia, a não ser os cantores ambulantes. Vinham cada certo tempo, para alegrar às bodas, ou rumo ao rodeio de uma fazenda, ou à feira com que um povo celebrava o seu santo padroeiro; por um gole de cachaça, um prato de charque e luz contavam as histórias de Oliveiros; da Princesa Magalona, de Carlos Magno, e os Doze Pares da França. João escutava com os olhos muito abertos, seus lábios movendo-se ao compasso dos do trovador. Logo tinha sonhos suntuosos nos que ressonavam as lanças dos cavalheiros que salvavam à Cristandade das hordas pagãs.

            Mas a história que chegou a ser carne de sua carne foi a de Roberto, o Diabo, esse filho do Duque da Normandia que, depois de cometer todas as maldades, arrependeu-se e andou a quatro patas, ladrando em vez de falar e dormindo entre as bestas, até que, tendo alcançado a misericórdia do Bom Jesus, salvou ao Imperador do ataque dos mouros e se casou com a Rainha do Brasil. O menino se obstinava em que os trovadores a contassem sem omitir detalhe: como, em sua época malvada, Roberto, o Diabo, tinha afundado a faca em incontáveis grutas de donzelas e ermitões, pelo prazer de ver sofrer, e como, em sua época de servo de Deus, percorreu o mundo em busca dos parentes de suas vítimas, a quem beijava os pés e pedia tortura. Os vizinhos de Custódia pensavam que João seria cantor do sertão e iria de povoado em povoado, o violão ao ombro, levando mensagens e alegrando às pessoas com histórias e música.

            João ajudava ao Zé Faustino em seu armazém, que provia de tecidos, grãos, bebidas, instrumentos de lavoura, doces e bagatelas a todo o contorno. Zé Faustino viajava muito, levando mercadorias às fazendas ou indo comprar à cidade e, em sua ausência, Dona Ângela atendia o negócio, um rancho de barro amassado, que tinha um curral com galinhas. A senhora pôs no sobrinho o carinho que não pôde dar aos filhos que não teve. Fazia prometer ao João que alguma vez a levaria a Salvador, para ajoelhar-se aos pés da milagrosa imagem do Senhor do Bonfim, de quem tinha uma coleção de imagens em sua cabeceira.

            Os vizinhos de Custódia temiam, como à seca e às pestes, duas calamidades que cada certo tempo empobreciam ao povoado: os cangaceiros e os volantes da Guarda Nacional. Os primeiros tinham sido, ao princípio, bandas organizadas entre seus peões e próximos pelos coronéis das fazendas, para as brigas que estalavam entre eles por assuntos limítrofes; águas e pastos; ou por ambições políticas; mas logo, muitos desses grupos armados de trabucos e facões se emanciparam e andavam soltos, vivendo da rapina e do assalto. Para combatê-los tinham nascido os volantes. Uns e outros comiam as provisões dos vizinhos de Custódia; embebedavam-se com sua cachaça e queriam abusar de suas mulheres. Antes de ter uso de razão, João aprendeu, apenas se dava a voz de alarme, a colocar garrafas, mantimentos e mercadorias nos esconderijos que tinha Zé Faustino preparados. Corria o rumor de que este era coiteiro, quer dizer que fazia negócios com os bandidos, proporcionava-lhes informação e esconderijos. Ele se enfurecia. Acaso não tinham visto como seu armazém era roubado? Não se levavam roupas e tabaco sem pagar um centavo? João ouviu muitas vezes seu tio queixar-se dessas histórias estúpidas que, por inveja, inventavam contra ele as pessoas de Custódia. «Acabarão por me colocar em uma confusão», murmurava. E assim ocorreu.

            Uma manhã chegou à Custódia um volante de trinta guardas, mandada pelo Alferes Geraldo Macedo, um caboclo jovenzinho com fama de feroz, que perseguia à banda do Antonio Silvino. Esta não tinha passado por Custódia, mas o Alferes teimava que sim. Era alto e bem plantado, ligeiramente vesgo e estava sempre lambendo um dente de ouro. Dizia-se que perseguia bandidos com encarniçamento porque lhe tinham violado uma noiva. O Alferes, enquanto seus homens registravam os ranchos, interrogou pessoalmente à vizinhança. Ao anoitecer, entrou no armazém com cara exultante e ordenou ao Zé Faustino que o conduzisse ao refúgio do Silvino. Antes que o comerciante pudesse replicar, tombou-o ao chão de um bofetão: «Sei tudo, cristão. Denunciaram-lhe». Que nada valeram ao Zé Faustino seus protestos de inocência nem as súplicas de Dona Ângela. Macedo disse que para castigo de coiteiros fuzilaria ao Zé Faustino ao amanhecer se não delatasse o paradeiro do Silvino. O comerciante, por fim, pareceu consentir. Nessa madrugada partiram de Custódia, com o Zé Faustino à frente, os trinta cabras do Macedo, seguros de que cairiam de surpresa sobre os bandidos. Mas aquele os extraviou às poucas horas de marcha e voltou para Custódia para levar Dona Ângela e João temendo que as represálias caíssem sobre eles. Alferes o alcançou quando ainda estava empacotando algumas coisas. Tivesse matado só a ele, mas também matou a Dona Ângela, que lhe interpôs. Ao João, que lhe prendeu as pernas, deprimiu-o de um golpe com o cano de sua pistola. Quando este voltou em si, viu que os vizinhos de Custódia, com caras compungidas, velavam dois ataúdes. Não aceitou seus carinhos e com uma voz que se tornou adulta —só tinha então doze anos — disse-lhes, passando a mão pela cara sanguinolenta, que algum dia voltaria a vingar a seus tios, pois eram eles os verdadeiros assassinos.

            A idéia de vingança o ajudou a sobreviver as semanas que passou rondando sem rumo, por um deserto arrepiado de mandacarús. No céu via os círculos que riscavam os urubus, esperando que caísse para baixar e bicá-lo. Era janeiro e não caíra uma gota de chuva. João recolhia frutas secas, chupava o suco das palmeiras e até comeu um tatu morto. Por fim, auxiliou-o um pastor de cabras que o encontrou junto ao leito seco de um rio, delirando sobre lanças, cavalos e o Senhor do Bonfim. Reanimou-o com uma tigela de leite e uns bocados de rapadura que o menino saboreou. Andaram juntos vários dias, rumo à chapada de Estreitamento, onde o pastor de cabras levava seu rebanho. Mas antes de chegar, um entardecer, surpreendeu-os um partido de homens inconfundíveis, com chapéus de couro, cartucheiras de onça pintadas, embornais bordados com miçangas, trabucos em bandoleira e facões até os joelhos. Eram seis e o chefe, um cafuso de cabelos crespos e lenço vermelho no cangote, perguntou-lhe rindo ao João, que ajoelhado lhe rogava que o levasse consigo, por que queria ser cangaceiro. «Para matar guardas», repôs o menino.

            Começou então, para o João, uma vida que o fez homem em pouco tempo. «Um homem malvado», precisaria a gente das províncias que percorreu nos seguintes vinte anos; primeiro como apêndice de partidos de homens a quem lavava a roupa, preparava a comida, costurava os botões ou escavava os piolhos; logo, como companheiro de maldades; logo, como o melhor atirador, pistoleiro, fabricante de facas, andarilho e estrategista do grupo; finalmente, como lugar-tenente e chefe de bando. Não tinha vinte e cinco anos competos e era a cabeça pela que mais alto preço se oferecia nos quartéis da Bahia, Pernambuco, Piauí e Ceará. Sua sorte prodigiosa, que o salvou de emboscadas nas quais sucumbiam ou eram capturados seus companheiros e que, em que pese a sua temeridade no combate, parecia imunizá-lo contra as balas, fez que se dissesse que tinha negócios com o Diabo. O certo é que, diferente de outros homens do cangaço, que foram carregados de medalhas, faziam o sinal da cruz ante todas as cruzes e calvários e, pelo menos uma vez ao ano, deslizavam-se em uma aldeia para que o padre os pusesse em paz com Deus, João (que se tinha chamado ao começo João Menino, depois João Rápido, depois João Cabra Tranqüilo e se chamava agora João Satã) parecia desdenhoso da religião e resignado a ir ao inferno a pagar suas culpas incomensuráveis.

            A vida de bandido, poderia dizer o sobrinho do Zé Faustino e Dona Ângela, consistia em andar, brigar, roubar. Mas, sobretudo, em andar. Quantas centenas de léguas fizeram nesses anos as pernas robustas, fibrosas, indóceis desse homem que podia fazer jornadas de vinte horas sem descansar? Tinham percorrido os sertões em todas direções e ninguém conhecia melhor que elas as rugas das colinas, os enredos da caatinga, os meandros dos rios e as covas das serras. Essas aventuras sem destino fixo, em fila indiana, atravessando o campo, tratando de interpor uma distância ou uma confusão com reais ou imaginários perseguidores da Guarda Nacional eram, na memória do João, um único, interminável perambular por paisagens idênticas, esporadicamente aturdidos com o ruído das balas e os gritos dos feridos, rumo para algum lugar ou feito escuro que parecia está-lo esperando.

            Muito tempo acreditou que isso que o aguardava era voltar para Custódia, a executar a vingança. Anos depois da morte de seus tios, entrou uma noite de lua, sigilosamente, à frente de uma dúzia de homens, ao casario de sua infância. Era este o ponto de chegada do cruento percurso? A seca expulsara de Custódia muitas famílias, mas ainda ficavam ranchos habitados e embora, entre as caras remelentas de sono de quão vizinhos seus homens tocavam à rua, João viu algumas que não recordava, não exonerou a ninguém do castigo. As mulheres, meninas ou velhas, foram obrigadas a dançar com os cangaceiros que já beberam todo o álcool de Custódia, enquanto os vizinhos cantavam e tocavam violões. De momento em momento, eram arrastadas ao rancho mais próximo para ser violadas. Por fim, um dos aldeãos pôs-se a chorar, de impotência ou terror. No ato, João Satã afundou-lhe a faca e o abriu em canal, como açougueiro que beneficia uma cabeça de gado. Este brotar de sangue fez as vezes de uma ordem e, pouco depois, os cangaceiros, excitados, enlouquecidos, começaram a descarregar seus trabucos até converter a única rua de Custódia em cemitério. Mais ainda que a matança, contribuiu a forjar a lenda do João Satã que a todos os varões os afrontasse pessoalmente depois de mortos, cortando-lhes os testículos e cunhando-lhes nas bocas (era o que fazia sempre com os informantes da polícia). Ao retirar-se de Custódia, pediu a um cabra do bando que rabiscasse sobre uma parede esta inscrição: «meus tios cobraram o que lhes devia».

            Quanto tinha de certo nas iniqüidades que se atribuíam ao João Satã? Tantos incêndios, seqüestros, saques, torturas necessitariam, para angariarem, mais vistas e adeptos que os trinta anos do João e os partidos para seu mando, que nunca chegaram a vinte pessoas. O que contribuiu a sua fama foi que, diferente de outros, como Pajeú, que compensavam o sangue que vertiam com arrebatamentos de prodigalidade — repartindo um saque entre os miseráveis; obrigando a um fazendeiro a abrir suas despensas aos parceiros; entregando a um pároco, inteiramente, um resgate para a construção de uma capela, ou custeando a festa do patrono do povo —, nunca se soube que João fizesse estes gestos encaminhados a ganhar as simpatias da gente ou a benevolência do céu. Nenhuma das duas coisas lhe importava.

            Era um homem forte, mais alto que o médio sertanejo de pele brunida, maçãs do rosto salientes, olhos rasgados, fronte larga, lacônico, fatalista, que tinha cupinchas e subordinados, não amigos. Teve, isso sim, uma mulher, uma moça de Quixeramobin que conheceu porque lavava roupa em casa de um fazendeiro que servia de coiteiro ao partido. Chamava-se Leopoldina e era de cara redonda, olhos expressivos e formas apertadas. Conviveu com o João enquanto permaneceu no refúgio e logo partiu com ele. Mas, acompanhou-o pouco, porque João não tolerava mulheres no bando. Instalou-a em Aracati, onde vinha vê-la cada certo tempo. Não se casou com ela, de modo que quando soube que Leopoldina tinha fugido de Aracati com um juiz, à Geremoabo, as pessoas pensaram que a ofensa não era tão grave como se fosse sua esposa. João vingou-se como se o fosse. Foi à Quixeramobin, cortou-lhe as orelhas; marcou os dois irmãos varões de Leopoldina; e, levou consigo, a sua outra irmã, Mariquinha, de treze anos. A moça apareceu uma madrugada, nas ruas de Geremoabo, com a cara marcada a ferro com as iniciais J e S. Estava grávida e levava um cartaz explicando que todos os homens do bando eram, juntos, o pai da criatura.

            Outros bandidos sonhavam reunindo suficiente dinheiro para comprar umas terras, em algum município remoto, onde passar o resto da vida com nome trocado. Ao João não lhe viu guardar dinheiro nem fazer projetos para o futuro. Quando o partido saqueava um armazém, ou um casario, ou obtinha um bom resgate por alguém que seqüestrava, João, depois de separar a parte que dedicaria aos coiteiros encarregados de comprar armas, munições e remédios, dividia o resto em partes iguais entre ele e seus companheiros. Esta largueza, sua sabedoria na arte de preparar emboscadas às volantes ou de escapar das que lhe tendiam; sua coragem e sua capacidade para impor a disciplina, fizeram que seus homens lhe tivessem lealdade. Com ele se sentiam seguros e tratados com eqüidade. Agora bem, embora não lhes exigisse nenhum risco que ele não corresse, não tinha com eles a menor contemplação. Por dormirem quando faziam guarda, atrasar-se em uma marcha ou lhe roubar a um companheiro, os fazia açoitar. Ao que retrocedia quando ele tinha dada ordem de resistir, marcava-o com suas iniciais ou lhe cerceava uma orelha. Executava ele mesmo os castigos, com frieza. E ele também castrava aos traidores.

            Além de lhe temer seus homens pareciam inclusive querê-lo. Possivelmente porque João jamais tinha deixado no cenário do combate a um companheiro. Os feridos eram levados em uma rede pendurada de um tronco até algum esconderijo, mesmo que a operação pusesse em perigo ao partido. O próprio João os curava e, se era preciso, fazia trazer de força a um enfermeiro para atender à vítima. Os mortos eram também arrastados a fim de lhes dar sepultura onde não pudessem ser profanados pelo guarda nem pelas aves de rapina. Isto e a certeira intuição com que dirigia às pessoas na luta, dispersando-a em grupos que corriam, enjoando ao adversário, enquanto outros davam um rodeio e lhes caíam pela retaguarda ou os ardis que encontrava para romper os cercos, afirmaram sua autoridade; nunca foi difícil recrutar novos membros para o cangaço.

            À seus subordinados intrigava esse chefe silencioso, reconcentrado, distinto. Vestia-se com o mesmo chapéu e as mesmas sandálias que eles, mas não tinha sua afeição à brilhantina e aos perfumes — o primeiro sobre o que caíam nas lojas — nem levava as mãos cheias de anéis nem o peito coberto de medalhas. Seus embornais tinham menos adornos que os do mais novato cangaceiro. Sua única debilidade eram os cantores ambulantes, aos que nunca permitiu que seus homens maltratassem. Atendia-os com deferência, pedia-lhes contar algo e os escutava muito sério, sem interrompê-los enquanto durava a história. Quando se topava com o Circo do Cigano se fazia dar uma função e o despedia com presentes.

            Alguém, alguma vez, ouviu-lhe dizer ao João Satã que tinha visto morrer a mais gente pelo álcool, que malograva a pontaria e fazia esfaquear-se aos homens por despropósitos, que pela enfermidade ou a seca. Para lhe dar a razão, o dia que o surpreendeu o Capitão Geraldo Macedo com seu volante, todo o partido estava bêbado. O Capitão, a quem apelidavam Caçabandidos, vinha perseguindo o João desde que este assaltou a uma comitiva do Partido Autonomista baiano que vinha entrevistar-se com o Barão da Canabrava em sua fazenda de Calumbí. João emboscou à comitiva, dispersou seus capangas e aos políticos os despojou de valises, cavalos, roupas e dinheiro. O próprio Barão enviou uma mensagem ao Capitão Macedo oferecendo-lhe uma recompensa especial pela cabeça do cangaceiro.

            Ocorreu em Rosário, meia centena de moradias entre as que os homens do João Satã apareceram um amanhecer de fevereiro. Fazia pouco tinham tido um choque sangrento com uma banda rival, a de Pajeú, e só queriam descansar. Os vizinhos acessaram a lhes dar de comer e João pagou o que consumiram, assim como os trabucos, escopetas, pólvora e balas de que se apoderou. A gente de Rosário convidou aos cangaceiros a ficar à bodas que se celebraria, dois dias depois, entre um vaqueiro e a filha de um morador. A capela tinha sido adornada com flores e os homens e mulheres do lugar vestiam seus melhores ornamentos esse meio-dia, quando chegou de Cumbe o Padre Joaquim para oficiar as bodas. O cura estava tão assustado que os cangaceiros riam vendo-o gaguejar e obstruir-se. Antes de rezar missa, confessou em meio ao povo, incluídos vários bandidos. Logo assistiu o soltar de fogos; o almoço ao ar livre, sob uma ramada, e brindou com os vizinhos. Mas, empenhou-se depois, em retornar ao Cumbe com tanta obstinação que João, bruscamente, teve suspeitas. Proibiu que ninguém se movesse de Rosário e ele mesmo explorou o contorno, do lado da serrania até o oposto, um tablado descascado. Não encontrou indício de perigo. Voltou para a festa, carrancudo. Seus homens, bêbados, dançavam, cantavam, misturados com as pessoas.

            Meia hora mais tarde, incapaz de suportar a tensão nervosa, o Padre Joaquim, tremendo e choramingando lhe confessou que o Capitão Macedo e seu volante estavam no alto da serra esperando reforços para atacar. Ele tinha recebido a ordem do Caçabandidos de entretê-lo valendo-se de qualquer mutreta. Nisso, soaram os primeiros tiros, do lado do tablado. Estavam rodeados. João gritou aos cangaceiros, na desordem, que resistissem até o anoitecer como fora. Mas os bandidos tinham bebido tanto que nem sequer atinavam a dar-se conta de onde vinham os disparos. Ofereciam-se como brancos fáceis aos Comblain dos guardas e caíam rugindo, em meio de um tiroteio pontilhado pelos alaridos das mulheres que corriam tratando de escapar ao fogo entrecruzado. Quando chegou a noite só quatro cangaceiros estavam de pé e João, que brigava com o ombro perfurado, desvaneceu-se. Seus homens o envolveram em uma rede e começaram a escalar a serra. Cruzaram o cerco, ajudados por uma súbita chuva torrencial. Refugiaram-se em uma cova e quatro dias depois entraram em Tepidó, onde um curandeiro baixou a febre de João e lhe estancou a ferida. Ali estiveram duas semanas, o que demorou João Satã em poder andar. A noite que saíram de Tepidó souberam que o Capitão Macedo tinha decapitado os cadáveres de seus companheiros caídos em Rosário e que levou as cabeças em um barril, polvilhadas com sal, como carne de charque.

            Lançaram-se outra vez à vida violenta, sem pensar muito em sua boa estrela nem na má estrela dos outros. De novo andaram, roubaram, brigaram, esconderam-se e viveram com a vida por um fio. João Satã tinha sempre no peito uma sensação indefinível, a certeza de que, agora sim, a qualquer momento, ocorreria algo que tinha estado esperando desde que podia recordar.

            A ermida, semi-destruída, apareceu em um desvio do atalho que levava ao Cansanção. Ante meia centena de farrapada um homem escuro e larguíssimo, envolto em uma túnica morada, estava falando. Não interrompeu seu sermão, nem deu uma olhada aos recém vindos. João sentiu que algo vertiginoso bulia em seu cérebro enquanto escutava o que o santo dizia. Estava contando a história de um pecador que, depois de ter feito todo o dano do mundo, arrependeu-se, viveu fazendo de cão, conquistou o perdão de Deus e subiu ao céu. Quando terminou sua história, olhou aos forasteiros. Sem vacilar, dirigiu-se ao João, que tinha os olhos baixos. «Como te chama?», perguntou-lhe. «João Satã», murmurou o cangaceiro «É melhor que te chame João Abade, quer dizer, apóstolo do Bom Jesus», disse a rouca voz.

            Três dias depois de ter despachado à l'Étincelle da révolte a carta referindo sua visita a Frei João Evangelista de Monte Marciano, Galileo Gall sentiu tocar a porta do desvão, nos altos da Livraria Catilina. Apenas os viu, soube que os indivíduos eram esbirros da polícia. Pediram-lhe seus documentos, examinaram o que tinha, interrogaram-no sobre suas atividades em Salvador. No dia seguinte chegou a ordem de expulsão, como estrangeiro indesejável. O velho Jan Van Rijsted fez gestões e o Doutor José Batista de Sá Oliveira escreveu ao Governador Luis Viana oferecendo-se como fiador, mas a autoridade, intransigente, notificou ao Gall que abandonaria o Brasil em «La Marseillaise», rumo à Europa, uma semana mais tarde. Dava-lhe, de graça, uma passagem de terceira classe. À seus amigos Gall disse que ser banido — ou encarcerado ou morto — é avatar de todo revolucionário e que ele vinha comendo esse pão da infância. Estava seguro que, detrás da ordem de expulsão, achava-se o cônsul inglês, ou o francês ou o espanhol, mas, assegurou-lhes, nenhuma dos três policiais lhe poria a mão em cima, pois se faria fumaça em alguma das escalas africanas de «La Marseillaise» ou no porto de Lisboa. Não parecia alarmado.

            Tanto Jan Van Rijsted como o Doutor Oliveira o tinham ouvido falar com entusiasmo de sua visita ao Monastério de Nossa Senhora da Piedade, mas ambos ficaram pasmados quando lhes anunciou que, já que o jogavam do Brasil, faria, antes de ir-se, «um gesto pelos irmãos de Canudos», convocando a um ato público de solidariedade com eles. Citaria aos amantes da liberdade que houvesse na Bahia, para explicar-lhe: Em Canudos está germinando, de maneira espontânea, uma revolução e os homens de progresso devem apoiá-la». Jan Van Rijsted e o Doutor Oliveira trataram de dissuadi-lo, repetiram-lhe que era uma insensatez, mas Gall tentou, de qualquer maneira, publicar sua convocatória no único jornal de oposição. Seu fracasso com o Jornal de Notícias não o desalentou. Refletia sobre a possibilidade de imprimir folhas avulsas que ele mesmo distribuiria pelas ruas, quando aconteceu algo que o fez escrever: «Ao fim! Vivia uma vida muito aprazível e meu espírito começava a embotar-se».

            Ocorreu a antevéspera de sua viagem, ao anoitecer. Jan Van Rijsted entrou em desvão, com seu cachimbo crepuscular na mão, a lhe dizer que dois sujeitos perguntavam por ele. «São capangas», advertiu-lhe. Galileo sabia que chamavam assim aos homens que os poderosos e as autoridades empregavam para serviços turvos e, com efeito, os tipos tinham semblantes sinistros. Mas não estavam armados e se mostraram respeitosos: alguém queria vê-lo. Podia-se saber quem? Não se podia. Acompanhou-os, intrigado. Levaram-no da Praça da Basílica Catedral, ao longo da cidade alta, e logo depois da baixa, e logo pelos subúrbios. Quando deixaram atrás, na escuridão, as ruas pavimentadas — a rua Conselheiro Dantas, a rua de Portugal, a rua das Princesas —, os Mercados de Santa Bárbara e São João, e o internaram pelo atalho de carruagens que, bordeando o mar, ia à Barra, Galileo Gall perguntou se a autoridade não teria decidido matá-lo em vez de expulsá-lo. Mas não se tratava de uma armadilha. Em um albergue iluminado por uma lamparina de querosene, esperava-o o Diretor do Jornal de Notícias. Epaminondas Gonçalves lhe estendeu a mão e o convidou a sentar-se. Foi direto sem preâmbulos:

            — Quer permanecer no Brasil, face à ordem de expulsão?

            Galileo Gall ficou olhando-o, sem responder.

            — É certo seu entusiasmo pelo que passa lá em Canudos? — perguntou Epaminondas Gonçalves. Estavam sozinhos na habitação e fora se ouvia conversar aos capangas e o ruído sincrônico do mar. O dirigente do Partido Republicano Progressista o observava, muito sério, sapateando. Tinha o traje cinza que Galileo lhe tinha visto no despacho do Jornal de Notícias, mas em sua cara não havia a despreocupação e dissimulação de então. Estava tenso, uma ruga na frente envelhecia sua cara juvenil.

            — Eu não gosto dos mistérios — disse Gall.— Melhor me explicar do que se trata.

            — De saber se quer ir à Canudos para levar armas aos revoltosos.

            Galileo esperou um momento, sem dizer nada, resistindo o olhar de seu interlocutor.— Faz dois dias, os revoltosos não lhe inspiravam simpatia — comentou, devagar—. Isso de ocupar terras alheias e viver em promiscuidade lhe parecia coisa de animais.

             —Essa é a opinião do Partido Republicano Progressista —assentiu Epaminondas Gonçalves—. E a minha, é óbvio.

            —Mas...  — ajudou-o Gall, adiantando um pouco a cabeça.

            — Mas os inimigos de nossos inimigos são nossos amigos — afirmou Epaminondas Gonçalves, deixando de sapatear—. Bahia é um baluarte de latifundiários retrógrados, de coração monárquico, em que pese a que somos República faz oito anos. Se para acabar com a ditadura do Barão da Canabrava sobre a Bahia é preciso ajudar aos bandidos e aos sebastianistas do interior, o farei. Estamos ficando cada vez mais atrasados e mais pobres. Terá que tirar esta gente do poder, custe o que custar, antes de que seja tarde. Se o de Canudos dura, o governo do Luis Viana entrará em crise e, cedo ou tarde, haverá uma intervenção federal. No momento que o Rio de Janeiro intervenha. Bahia deixará de ser o feudo dos Autonomistas.

            — E começará o reinado dos Republicanos Progressistas — murmurou Gall.

            — Não acreditam em reis, somos republicanos até o tutano dos ossos — retificou Epaminondas Gonçalves—. Já, vejo que me entende.

            — Isso sim, entendo — disse Galileo—. Mas não o outro. Se o Partido Republicano Progressista quer armar aos jagunços, por que através de mim?

            — O Partido Republicano Progressista não quer ajudar nem ter o menor contato com gente que se rebelam contra a lei — silabou Epaminondas Gonçalves.

            — O Honorável Deputado Epaminondas Gonçalves, então — disse Galileo Gall—. Por que através de mim?

            — O Honorável Deputado Epaminondas Gonçalves não pode ajudar revoltosos— silabou o Diretor do Jornal de Notícias—. Nem ninguém que esteja vinculado, de perto ou de longe, a ele. O Honorável Deputado está dando uma batalha desigual pelos ideais republicanos e democráticos neste enclave autocrático, de inimigos poderosos, e não pode correr semelhante risco. — Sorriu e Gall viu que tinha uma dentadura branca, voraz—. Você veio a oferecer-se. Não me ocorreria nunca, se não fosse por essa estranha visita dele, anteontem. Foi a que me deu a idéia. A que me fez pensar: «Se for tão louco para convocar um comício público em favor dos revoltosos, será também para lhes levar uns fuzis». — Deixou de sorrir e falou com severidade —: Nestes casos, a franqueza é o melhor. Você é a única pessoa que, se for descoberta ou capturada, em nenhum caso poderia nos comprometer a mim e a meus amigos políticos.

            —Está me advertindo que, se fosse capturado, não poderia contar com vocês?

            — Agora sim entendeu — silabou Epaminondas Gonçalves—. Se a resposta for não, boa noite e esqueça-se de que me viu. Se for sim, discutamos o preço.

            O escocês se moveu no assento, um banquinho de madeira que rangeu.

            — O preço? — murmurou, pestanejando.

            — Para mim, trata-se de um serviço — disse Epaminondas Gonçalves—. Pagar-lhe-ei bem e assegurar-lhe-ei, logo, a saída do país. Mas se prefere fazê-lo ad honorem, por idealismo, é assunto dele.

            —Vou dar uma volta, fora — disse Galileo Gall, ficando de pé—. Penso melhor quando estou sozinho. Não demorarei.

            Ao sair do albergue lhe pareceu que chovia, mas era a água que salpicavam as ondas. Os capangas lhe abriram passagem e ele sentiu o aroma forte e picante de seus cachimbos. Havia lua e o mar, que parecia borbulhando, despendia um aroma agradável, salgado, que penetrava até as vísceras. Galileo Gall caminhou, entre a areia e as pedras desertas, até um pequeno forte, em que um canhão apontava ao horizonte. Pensou: «A República tem tão pouca força na Bahia como o Rei da Inglaterra mais à frente do Passo de Aberboyle, nos dias de Rob Roy McGregor». Fiel a seu costume, em que pese a que lhe bulia o sangue, tratou de considerar o assunto de maneira objetiva. Era ético para um revolucionário conjurar-se com um politiqueiro burguês? Sim, se a conjuração ajudava aos jagunços. E lhes levar armas seria, sempre, a melhor maneira de ajudá-los. Ele podia ser útil aos homens de Canudos? Sem falsa modéstia, alguém aguerrido nas lutas políticas e que dedicou sua vida à revolução poderia ajudá-los, na tomada de certas decisões e na hora de combater. Finalmente, a experiência seria valiosa, se a comunicava aos revolucionários do mundo. Talvez deixaria seus ossos ali, mas não era esse fim preferível a morrer de enfermidade ou de velhice? Retornou ao albergue e, da soleira, disse ao Epaminondas Gonçalves: «Sou tão louco para fazê-lo».

            — Wonderful — imitou-o o político, com os olhos brilhantes.

 

            Havia predito tanto o Conselheiro, em seus sermões, que as forças do Cão viriam a prendê-lo e a passar a faca à cidade, que ninguém se surpreendeu em Canudos quando souberam, por peregrinos vindos a cavalo de Joazeiro, que uma companhia do Nono Batalhão de Infantaria da Bahia tinha desembarcado naquela localidade, com a missão de capturar ao santo.

           As profecias começavam a ser realidade, as palavras fatos. O anúncio teve um efeito efervescente, pôs em ação: velhos, jovens, homens, mulheres. As escopetas e carabinas, os fuzis de faísca que deviam ser cevados pelo cano foram imediatamente empunhados e colocadas todas as balas nas cartucheiras, ao mesmo tempo, que nos cinturões apareciam como por cura facas e facas e nas mãos foices, facões, lanças, punções, fundas e suspensões de caçada, paus, pedras.

            Nessa noite, a do começo do fim do mundo, todo Canudos se aglomerou em torno do Templo do Bom Jesus — um esqueleto de dois pisos, com torres que cresciam e paredes que se foram preenchendo — para escutar ao Conselheiro. O ardor dos escolhidos saturava o ar. Aquele parecia mais retirado em si mesmo que nunca. Logo depois de que os peregrinos do Joazeiro lhe comunicaram a notícia, não fez o menor comentário, e prosseguiu vigiando a colocação das pedras, a colocação do piso no chão e as mesclas de areia e calhaus para o Templo com absoluta concentração, sem que ninguém se atrevesse a interrogá-lo. Mas todos sentiam, enquanto se alistavam, que essa silhueta ascética os passava. E todos sabiam, enquanto azeitavam as suspensões, limpavam a alma das espingardas e os trabucos e punham a secar a pólvora, que essa noite o Pai, por boca do Conselheiro, instruir-lhes-ia.

            A voz do santo ressonou sob as estrelas, na atmosfera sem brisa que parecia conservar mais tempo suas palavras, tão serena que dissipava qualquer temor. Antes da guerra, falou da paz, da vida vindoura, em que desapareceriam o pecado e a dor. Derrotado o Demônio, estabelecer-se-ia o Reino do Espírito Santo, a última idade do mundo antes do Julgamento Final. Seria Canudos a capital desse Reino? Se o queria o Bom Jesus. Então, derrogar-se-iam as leis ímpias da República e os padres voltariam, como nos primeiros tempos, a ser pastores abnegados de seus rebanhos. Os sertões tornariam verdes com a chuva, haveria milho e cabeças de gado em abundância, todos comeriam e cada família poderia enterrar a seus mortos em gavetas acolchoadas de veludo. Mas, antes, teria que derrotar ao Anticristo. Era preciso fabricar uma cruz e uma bandeira com a imagem do Divino para que o inimigo soubesse de que lado estava a verdadeira religião. E ir à luta como tinham ido os Cruzados a resgatar Jerusalém: cantando, rezando, aclamando à Virgem e a Nosso Senhor. E como estes venceram, também venceriam à República os cruzados do Bom Jesus.

            Ninguém dormiu essa noite em Canudos. Uns rezando, outros preparando-se, todos permaneceram de pé, enquanto mãos diligentes cravavam a cruz e costuravam a bandeira. Estiveram prontas antes do amanhecer. A cruz media três varas por duas de largura e a bandeira eram quatro lençóis unidos nas que o Beato pintou uma pomba branca, com as asas abertas, e o Leão de Natuba escreveu, com sua preciosa caligrafia, uma jaculatória. Salvo um punhado de pessoas designadas pelo Antonio Vilanova para permanecer em Canudos, a fim de que não se interrompesse a construção do Templo (trabalhava-se dia e noite, salvo os domingos), todo o resto da população partiu, com as primeiras luzes, em direção ao Bendengó e Joazeiro, para provar aos caudilhos do mal que o bem ainda tinha defensores na terra. O Conselheiro não os viu partir, pois estava rezando por eles na igreja de Santo Antonio.

            Devem ter andado dez léguas para encontrar aos soldados. Andaram-nas cantando, rezando e aclamando a Deus e ao Conselheiro. Descansaram uma só vez, logo depois de passar o monte Cambaio. Os que sentiam uma urgência, saíam das torcidas filas a escapulir-se detrás de um roquedal e logo alcançavam a outros à carreira. Percorrer esse terreno plano e ressecado tomou um dia e uma noite sem que ninguém pedisse outro alto para descansar. Não tinham plano de batalha. Os estranhos viajantes se assombravam de saber que iam à guerra. Pareciam uma multidão festiva; alguns pusseram seus trajes de feira. Tinham armas e lançavam morram ao Diabo e à República, mas até nesses momentos o regozijo de suas caras amortecia o ódio de seus gritos. A cruz e a bandeira abriam a marcha, carregada a primeira pelo ex-bandido Pedrão e a segunda pelo ex-escravo João Grande; atrás deles Maria Quadrado e Alexandrinha Correia levavam a urna com a imagem do Bom Jesus pintado em tecido pelo Beato; e, atrás, dentro de uma poeirada, empelotados, difusos, vinham os escolhidos. Muitos acompanhavam as letanias soprando os canudos que antigamente serviam de cachimbos e que os pastores perfuravam para assobiar aos rebanhos.

            No curso da marcha, imperceptivelmente, obedecendo a uma convocatória do sangue, a coluna se foi reordenando, foram-se agrupando as velhas turmas, os habitantes de um mesmo casario, os de um bairro, os membros de uma família, como se, à medida que se aproximava a hora, cada qual necessitasse a presença contígüa do conhecido e provado em outras horas decisivas. Os que tinham matado adiantaram-se e agora, enquanto se aproximavam desse povo chamado Uauá pelos vagalumes que o iluminam de noite, João Abade, Pajeú, Taramela, José Venâncio os Macambira e outros elevados e prófugos rodeavam a cruz e a bandeira, à cabeça da procissão ou exército, sabendo, sem que ninguém os dissesse, que eles por sua antigüidade e seus pecados eram os chamados a dar o exemplo na hora da investida.

            Passada a meia-noite, um parceiro lhes saiu ao encontro para lhes advertir que em Uauá acampavam os cento e quatro soldados, chegados do Joazeiro a véspera. Um estranho grito de guerra — Viva o Conselheiro!, Viva o Bom Jesus! — comoveu aos escolhidos, que, açulados pelo júbilo, apressaram o passo. Ao amanhecer avistavam Uauá, punhado de casinhas que era o alto obrigatório dos tropeiros, que foram de monte Santo à Curará. Começaram a entoar letanias à São João Batista, patrono do povo. A coluna apareceu de repente aos sonolentos soldados que faziam de sentinelas à beira de uma lacuna, nos subúrbios. Logo depois de olhar uns segundos, incrédulos, puseram-se a correr. Rezando, cantando, soprando os canudos, os escolhidos entraram em Uauá, tirando do sonho para jogar em uma realidade de pesadelo a centena de soldados que tinham demorado doze dias para chegar até lá e não entendiam essas rezas que despertavam. Eram os únicos habitantes de Uauá, todos os vizinhos fugiram durante a noite e estavam agora, entre os cruzados, dando voltas aos tamarindos do Plaza, vendo aparecer as caras dos soldados nas portas e janelas, medindo sua surpresa, suas dúvidas entre disparar, ou correr, ou voltar para suas redes e colchonetes a dormir.

            Uma voz de mando rugente que quebrou o cocorocó de um galo, desatou o tiroteio. Os soldados disparavam apoiando os fuzis nos tabiques dos ranchos e começaram a cair, banhados em sangue, os escolhidos. A coluna se foi desfazendo, grupos intrépidos se equilibravam, atrás de João Abade, de José Venâncio, de Pajeú, a assaltar as moradias e outros corriam a defender-se nos ângulos mortos, ou a esconder-se entre os tamarindos enquanto outros seguiam desfilando. Também os escolhidos disparavam. Quer dizer, os que tinham carabinas e trabucos e os que conseguiam carregar de pólvora as espingardas e divisar um branco na poeirada. Nem a cruz nem a bandeira, nas várias horas de luta e confusão, deixaram de estar ereta uma e dançante a outra, em meio de uma ilha de cruzados que, embora molestada, subsistiu, compacta, fiel, em torno desses emblemas nos que, mais tarde, todos veriam o segredo da vitória. Porque nem Pedrão, nem João Grande, nem a Mãe dos Homens, que levava a urna com a cara do Filho, morreram na refrega.

            A vitória não foi rápida. Houve muitos mártires nessas horas ruidosas. Às correrias e aos disparos aconteciam parêntese de imobilidade e silêncio que, um momento depois, eram de novo violentados. Mas antes de meia manhã os homens do Conselheiro souberam que tinham vencido, quando viram umas figurinhas dessalgadas, meio vestidas, que, por ordem de seus chefes ou porque o medo os tinha vencido antes que os jagunços, escapavam atravessando o campo, abandonando armas, jaquetas, perneiras, botas de cano longo, embornais. Dispararam-lhes, sabendo que não os alcançariam, mas a ninguém ocorreu persegui-los. Pouco depois fugiam os outros soldados e, ao escapar, alguns caíam nos ninhos de jagunços que se formaram nas esquinas, onde eram ultimados a pauladas e navalhadas rapidamente. Morriam ouvindo-se chamar cães, diabos, e prognosticar que suas almas se condenariam ao mesmo tempo que seus corpos se apodreceriam.

            Permaneceram algumas horas em Uauá, logo depois da vitória. A maioria, adormecidos, apoiados uns em outros repondo-se da fadiga da marcha e da tensão da briga. Alguns, por iniciativa de João Abade, registravam as casas em busca dos fuzis, munições, baionetas e cartucheiras abandonados pelos soldados. Maria Quadrado, Alexandrinha Correia e Gertrudis, uma vendedora da Terehinha, que tinha recebido uma bala no braço e seguia igual na ativa; foram envolvendo em redes os cadáveres dos jagunços para levar-lhe a enterrar à Canudos. As curandeiras, os ervateiros, as parteiras, os esqueléticos, os espíritos serviçais rodeavam aos feridos, lhes limpando o sangue, enfaixando-os ou, simplesmente, lhes oferecendo orações e conjuros contra a dor.

            Carregando seus mortos e feridos e seguindo o leito de Vassa Barris, desta vez com menos de pressa, os escolhidos recuaram as dez léguas. Ingressaram dia e meio depois em Canudos, dando vivas ao Conselheiro, aplaudidos, abraçados e sorrindo pelos que ficaram trabalhando no Templo. O Conselheiro, que tinha permanecido sem comer nem beber desde sua partida, deu os conselhos essa tarde de um andaime das torres do Templo. Rezou pelos mortos, agradeceu ao Bom Jesus e ao Batista a vitória, e falou de como o mal lançou raízes na terra. Antes do tempo, tudo ocupava Deus e o espaço não existia. Para criar o mundo, o Pai deveria retirar-se em si mesmo a fim de fazer um vazio e a ausência de Deus causou o espaço onde surgiram, em sete dias, os astros, a luz, as águas, as plantas, os animais e o homem. Mas ao criar a terra mediante a privação da divina substância se criaram, também, as condições propícias para que o mais oposto ao Pai, quer dizer o pecado, tivesse uma pátria. Assim, o mundo nasceu maldito, como terra do Diabo. Mas o Pai teve piedade dos homens e enviou a seu Filho a reconquistar para Deus esse espaço terrestre onde estava entronizado o Demônio.

            O Conselheiro disse que uma das ruas de Canudos se chamaria São João Batista, como o patrono de Uauá.

            — O Governador Viana está enviando à Canudos uma nova expedição — diz Epaminondas Gonçalves—. Ao mando de alguém que conheço, o Major Febrônio de Brito. Desta vez, não se trata de uns quantos soldados, como os que foram atacados em Uauá, mas sim de um Batalhão. Devem sair da Bahia a qualquer momento, o melhor já o fez. Fica pouco tempo.

            — Posso partir amanhã mesmo — responde Galileo Gall —. O guia está esperando. Trouxe as armas?

            Epaminondas oferece ao Gall um tabaco, quem o rechaça com um movimento de cabeça. Estão sentados em umas poltronas de vime, no desmantelado terraço de um imóvel situado em algum lugar entre Queimadas e Jacobina, até onde guiou ao Gall um cavaleiro desembainhado de nome bíblico — Caifás — que o fazia dar voltas e voltas pela caatinga, como querendo confundi-lo. É o entardecer; além da balaustrada de madeira, há uma fila de palmeiras reais, um pombal, uns currais. O sol, uma bola avermelhada, incendeia o horizonte. Epaminondas Gonçalves chupa seu tabaco com parcimônia.

            — Duas dezenas de fuzis franceses, de boa qualidade — murmura, olhando ao Gall através da fumaça—. E dez mil cartuchos. Caifás o levará na carroça até os subúrbios de Queimadas. Se não estiver muito cansado, o melhor é que retorne esta noite com as armas, para seguir à Canudos amanhã mesmo.

            Galileo Gall assente. Está cansado, mas lhe bastarão umas horas de sonho para recuperar-se. Há tantas moscas no terraço que tem uma mão ante a cara, espantando-as. Face à fadiga, sente-se satisfeito; a espera começava a exasperá-lo e temia que o político republicano tivesse trocado de planos. Essa manhã, quando intempestivamente o desembainhado o tirou da Pensão Nossa Senhora das Graças, com a contra-senha convinda, sentiu-se tão animado que esqueceu inclusive de tomar o café da manhã. Fez a viagem até aqui sem beber nem comer, sob um sol de chumbo.

            — Sinto fazê-lo esperar tantos dias, mas reunir e trazer as armas até aqui resultou bastante complicado —diz Epaminondas Gonçalves—. Viu a campanha para as eleições municipais, em alguns povoados?

            —Vi que o Partido Autonomista baiano gasta mais dinheiro em propaganda que vocês — boceja Gall.

            —Tem tudo o que faça falta. Não só o do Viana, também o da Governação e o do Parlamento da Bahia. E, sobretudo, o do Barão.

            —Rico como um Creso o Barão, não é verdade? —Interessa-se Gall, de repente.—Um personagem antediluviano, sem dúvida, uma curiosidade arqueológica. Soube algumas dele coisas, em Queimadas. Pelo Rufino, o guia que me recomendou você. Sua mulher pertencia ao Barão. Pertencia, sim, como uma cabra ou uma vitela. Deu-a de presente para que fosse sua esposa. O próprio Rufino fala dele como se também fosse propriedade dela. Sem rancor, com gratidão. Interessante, senhor Gonçalves. A Idade Média está viva aqui.

            — Contra isso lutamos, por isso queremos modernizar esta terra — diz Epaminondas, soprando a cinza de seu tabaco—. Por isso caiu o Império, para isso é a República.

            «Contra isso lutam os jagunços, mas bem» corrige-o mentalmente Galileo Gall, sentindo que vai dormir a qualquer momento. Epaminondas Gonçalves fica de pé.

            — O que disse você ao guia? — pergunta, passeando pelo terraço. Começaram a cantar os grilos e já não fazia calor.

            —A verdade — diz Gall e o Diretor do Jornal de Notícias para em seco —. Não mencionei seu nome para nada. Falo de mim. Que quero ir à Canudos por uma razão de princípio. Por solidariedade ideológica e moral.

            Epaminondas Gonçalves olha-o em silêncio e Galileo sabe que está perguntando se ele disser estas coisas a sério, se seriamente for tão louco, ou tão estúpido para as acreditar. Pensa: «Sou-o», enquanto gesticula, afugentando às moscas.

            — Disse-lhe também que lhes levará armas?

            — Certamente que não. Saberá quando estivermos a caminho.

            Epaminondas retoma seu passeio pelo terraço, com as mãos à costas; deixa uma esteira de fumaça. Leva uma blusa aberta, colete sem botões, calça e botas de montar e dá a impressão de não se barbear. Sua aparência é muito distinta da que tinha na redação do jornal ou no albergue de Barra, mas Gall reconhece a energia empoçada em seus movimentos, a determinação ambiciosa em sua expressão, e se diz, sem necessidade de tocar, sabe como são seus ossos: «Um ávido de poder». É dele este imóvel? Empresta-o para suas conspirações?

            —Uma vez que tenha entregue as armas, não retorne a Salvador por aqui — diz Epaminondas, apoiando-se na balaustrada e lhe dando as costas—. Que o guia o leve ao Joazeiro. É mais prudente. Em Joazeiro há um trem a cada dois dias, que o porá na Bahia em doze horas. Eu me encarregarei de que saia à Europa discretamente e com uma boa gratificação.

            — Uma boa gratificação — repete Gall, com um longo bocejo que distorce comicamente sua cara e suas palavras—. Você acreditou sempre que eu faço isto por dinheiro.

            Epaminondas arroja uma baforada de fumaça que se expande em arabescos pelo terraço. Ao longe, o sol começa a ocultar-se e há manchas de sombra no campo.

            — Não, já sei que o faz por uma razão de princípio. Em todo caso, dou-me conta que não o faz por carinho ao Partido Republicano Progressista. Para nós isto é um serviço e costumamos retribuir os serviços, já disse.

            —Não posso lhe assegurar que voltarei para Bahia — interrompe-o Gall, desprezando-o —. Nosso trato não inclui essa cláusula.

            O Diretor do Jornal de Notícias volta a olhá-lo:

            — Não vamos discutir outra vez — sorri —. Você pode fazer o que quiser. Simplesmente já sabe qual é a melhor maneira de retornar, e sabe também que eu posso lhe facilitar a saída do país sem que intervenham as autoridades. Agora, se prefere ficar com os revoltosos, dane-se você. Embora, estou seguro, mudará de idéia quando os conhecer.

            — Já conheci um deles — murmura Gall ligeiramente zombador —. E, a propósito, importar-lhe-ia despachar-me desde a Bahia esta carta para a França? Está aberta, se ler francês comprovará que não há nela nada comprometedor para você.

 

            Nasceu, como seus pais, avós e seu irmão Honório, no povoado cearense de Assaré, onde se dividiam as cabeças de gado que foram ao Jaguaribe e as que rumavam para o Vale do Cariri. No povoado todos eram agricultores ou vaqueiros, mas Antonio mostrou desde menino vocação de comerciante. Começou a fazer negócios nas classes de catecismo do Padre Matias (quem também lhe ensinou as letras e os números). Antonio vendia e comprava aos outros meninos peões, atiradeiras, bolas de vidro, cometas, tordos, canários, rãs cantoras e fazia tão bons lucros que, embora sua família não fosse próspera, ele e seu irmão eram vorazes consumidores dos doces do distribuidor Zuquieta. Diferentemente de outros irmãos, que andavam como cão e gato, os Vilanova eram unha e carne. Tratavam-se, muito a sério, de «compadres» .

            Uma manhã, Adelinha Alencar, filha do carpinteiro de Assaré, despertou com febre alta. As ervas que queimou Dona Camuncha para exorcizar o dano não fizeram efeito e dias mais tarde Adelinha tinha o corpo erupcionado de grãos que a converteram, da mais linda, no ser mais repelente do povo. Uma semana depois havia meia dúzia de vizinhos delirando pela febre e com pústulas. O Padre Tobias rezou uma missa pedindo a Deus que pusesse fim à peste antes de cair, ele também, contagiado. Quase em seguida começaram a morrer os doentes, tanto que a epidemia se estendia, incontrolável. Quando os aldeãos, aterrados, dispunham-se a escapar, encontraram-se com que o coronel Miguel Fernández Vieira, chefe político do município e proprietário das terras que cultivavam e de quão ganhos faziam pastar, o proibia, para que não propagassem a varíola pela região. O coronel Vieira pôs capangas nas saídas com ordem de disparar ao que desobedecesse o bando.

            Entre os poucos que conseguiram ir-se estiveram os Vilanova. A peste matou aos pais, a sua irmã Luz Maria, a um cunhado e a três sobrinhos. Depois de enterrar todos esses parentes, Antonio e Honório, moços fortes, com quinze anos, de cabelos encrespados e olhos claros, decidiram a fuga. Mas, em vez de enfrentar-se aos capangas a faca e bala, como outros, Antonio, fiel a sua vocação, convenceu-os de que, em troca de um novilho, uma arroba de açúcar e outra de rapadura, fizessem vista grossa. Partiram de noite, levando duas primas suas — Antonia e Assunção Sardelinha — e os bens da família: duas vacas, um burro de carga, uma mala de roupa e uma bolsinha com dez mil reis. Antonia e Assunção eram primas dos Vilanova por dupla parte e Antonio e Honório as tiveram piedade de seu desamparo, pois a varíola as deixou órfãs. Eram quase meninas e sua presença dificultou a marcha; não sabiam andar pela caatinga e mal agüentavam a sede. A pequena expedição, entretanto, atravessou a Serra do Araripe, deixou atrás Santo Antonio, Ouricuri, Petrolina e cruzou o rio São Francisco. Quando entraram em Joazeiro e Antonio decidiu que tentariam a sorte nesse povoado baiano, as duas irmãs estavam grávidas: Antonia de Antonio e Assunção de Honório.

            No dia seguinte, Antonio começou a trabalhar enquanto Honório, ajudado pelas Sardelinhas, levantava um rancho. As vacas de Assaré as tinham vendido no caminho, mas conservavam o burro de carga e nele carregou Antonio um tacho de aguardente que foi vendendo, em copinhos pela cidade. Nesse burro de carga e logo em outro e outros carregaria as mercadorias que, nos meses e anos seguintes, foi levando, ao princípio de casa em casa, depois pelos casarios do contorno e, finalmente, ao largo e ao longo dos sertões, que chegou a conhecer como sua mão. Comercializava bacalhau, arroz, legume, açúcar, pimenta, rapadura, panos, álcool e o que lhe encomendassem. Converteu-se em fornecedor de imensas fazendas e de pobres parceiros; suas caravanas se fizeram tão familiares como o Circo do Cigano nos povoados, as missões e os acampamentos. O armazém do Joazeiro, na Praça da Misericórdia, atendiam-no Honório e as Sardelinhas. antes de dez anos, dizia-se que os Vilanova estavam a caminho de ser ricos.

            Então sobreveio a calamidade que, pela segunda vez, arruinaria à família. Em bons anos, as chuvas começavam em dezembro; em maus, em fevereiro ou março. Nesse ano, em maio não caíra gota de chuva. O São Francisco perdeu dois terços de seu caudal e logo não satisfazia as necessidades de Joazeiro, cuja população se quadruplicou com os retirantes do interior.

            Antonio Vilanova não cobrou esse ano uma só dívida e todos seus clientes, donos de fazendas ou pobres moradores, cancelaram-lhe os pedidos. Até Calumbí, a melhor propriedade do Barão da Canabrava, fez-lhe saber que não lhe compraria nem um punhado de sal. Pensando tirar proveito da adversidade.

            Antonio tinha enterrado os grãos em gavetas envoltas com lona para vendê-los quando a escassez pusesse os preços pelas nuvens. Mas a calamidade foi muito grande, inclusive para seus cálculos. Logo compreendeu que se não vendia, ao mesmo tempo, ficaria sem compradores, pois as pessoas gastavam o pouco que conservavam em missas, procissões e oferendas (e todo mundo queria incorporar-se à Irmandade de Penitentes, que se encapuzavam e flagelavam) para que Deus fizesse chover. Então, desenterrou suas gavetas: os grãos, face à lona, estavam podres. Mas Antonio nunca se sentia derrotado. Ele, Honório, as Sardelinhas e até os meninos — um dele e três de seu irmão — limparam os grãos como puderam e o pregoeiro anunciou à manhã seguinte, no Plaza Matriz, que por força maior o armazém dos Vilanova rematava o estoque. Antonio e Honório se armaram e puseram quatro serventes com paus à vista para evitar desmandos. A primeira hora tudo funcionou. As Sardelinhas despachavam no mostrador enquanto os seis homens continham na porta às pessoas, deixando entrar no armazém só grupos de dez pessoas. Mas logo foi impossível conter à multidão que terminou por transbordar a barreira, derrubar portas e janelas e invadir o armazém. Em poucos minutos se apoderou de tudo o que havia dentro, incluído o dinheiro do caixa. O que não puderam levar pulverizaram.

            A devastação não durou mais de meia hora e, embora as perdas fossem grandes, ninguém da família ficou maltratado. Honório, Antonio, as Sardelinhas e os meninos, sentados na rua, contemplaram como os saqueadores retiravam de que tinha sido o armazém melhor provido da cidade. As mulheres tinham os olhos chorosos e os meninos olhavam, pulverizados pela terra, os restos dos colchonetes onde dormiam, a roupa que ficavam e os objetos que jogavam. Antonio estava pálido. «Temos que começar de novo, compadre», murmurou Honório. «Mas não neste povoado», respondeu-lhe seu irmão.

            Antonio não tinha ainda trinta anos completos. Mas, pelo excessivo trabalho, as fatigantes viagens, a maneira obsessiva com que levava seu negócio, parecia maior. Tinha perdido cabelo e a larga fronte, a barbicha e o bigode lhe davam um ar intelectual. Era forte, de ombros um pouco caídos, e andava com as pernas arqueadas, como um vaqueiro. Nunca demonstrou outro interesse que os negócios. Tanto que Honório ia às festas, e não lhe desgostava beber um copo de licor escutando um trovador; ou praticar com amigos, vendo passar pelo São Francisco as embarcações nas que começavam a aparecer máscaras de proa de cores vivas, ele não tinha vida social. Quando não estava de viagem, permanecia atrás do mostrador, verificando contas ou ideando novos artigos de atividade. Tinha muitos clientes, mas poucos amigos; embora o vissem aos domingos na Igreja de Nossa Senhora das Grutas; assistia alguma vez às procissões nas que os flagelantes da Irmandade se martirizavam para ajudar às almas do Purgatório, tampouco destacava por seu ardor religioso. Era um homem sério, sereno, tenaz, bem preparado para encarar a adversidade.

            Desta vez, a peregrinação da família Vilanova, por seu território arrasado de fome e de sede, foi mais larga que a que tinha feito uma década atrás, fugindo da peste. Logo ficaram sem animais. Depois de um primeiro choque com um partido de retirantes, a quem os irmãos tiveram que lhes disparar, Antonio decidiu que esses cinco burros de carga eram uma tentação muito grande para a faminta humanidade que perambulava pelos sertões. De modo que em Barro Vermelho vendeu quatro deles por um punhado de pedras preciosas. Mataram o outro, deram um banquete e salgaram a carne restante, com o que puderam sustentar-se vários dias. Um dos filhos de Honório morreu de disenteria e o enterraram em Borracha, onde tinham instalado um refúgio no que as Sardelinhas ofereciam sopas feitas de batata-doce de imbuzeiro, mocó e xique-xique. Mas tampouco puderam resistir muito ali e emigraram para Patamuté e Mato Verde, onde Honório foi picado por um escorpião. Quando curou, seguiram para o sul, angustiante percurso de semanas no que só encontravam povoados fantasmas, fazendas desertas, caravanas de esqueletos que ficaram à deriva, como alucinados.

            Em Pedra Grande, outro filho de Honório e Assunção morreu de um simples catarro. Estavam enterrando-o, envolto em uma manta, quando, em meio de uma poeirada cor lacre, entraram num casario, uma vintena de homens e mulheres — havia entre eles um ser com cara de homem que andava a quatro patas e um negro seminu—, a maioria com peles aderidas aos ossos, de túnicas puídas e sandálias que pareciam ter pisado em todos os caminhos do mundo. Conduzia-os um homem alto, moreno, com cabelos até os ombros e olhos de mercúrio. Foi diretamente para a família Vilanova e conteve com um gesto aos irmãos que já baixavam o cadáver à tumba. «Seu filho?», perguntou ao Honório, com voz grave. Este assentiu. «Não o pode enterrar assim», disse o moreno, com segurança. «Terá que prepará-lo e despedi-lo bem, a fim de que seja recebido na eterna festa do céu.» E antes que Honório repusera, voltou-se para seus acompanhantes: «vamos fazer-lhe um enterro decente, para que o Pai o receba alegre». Os Vilanova, então, viram os peregrinos animarem-se, correndo para as árvores, cortando-as, cravando-as, fabricando uma gaveta e uma cruz com uma destreza que mostrava longa prática. O moreno pegou em seus braços ao menino e o meteu na gaveta. Enquanto os Vilanova preenchiam a tumba, o homem rezou em voz alta e os outros cantaram benditos e letanias, ajoelhados ao redor da cruz. Mais tarde, quando, logo depois de ter descansado sob as árvores, os peregrinos se dispunham a partir, Antonio Vilanova tirou uma moeda e deu-a ao santo. «Para lhe mostrar nosso agradecimento», insistiu, ao ver que o homem não a pegava e o olhava com brincadeira. «Não tem nada que me agradecer», disse, por fim. «Mas ao Pai não poderia lhe pagar o que lhe deve nem com mil moedas como essa.» Fez uma pausa e acrescentou, brandamente: «Não aprendeu a somar filho».

            Os Vilanova permaneceram pensativos, tempo depois que os peregrinos partiram, sentados junto a uma fogueira que espantava aos insetos. «Era um louco, compadre?», disse Honório. «Vi muitos loucos em minhas viagens e este parecia algo mais que um louco», disse Antonio.

            Quando voltou a água, depois de dois anos de seca e calamidades, os Vilanova estavam instalados na Caatinga do Moura, um casario perto do qual havia uma salina que Antonio começou a explorar. Todo o resto da família — as Sardelinhas e os dois meninos — tinha sobrevivido, mas o filho de Antonio e Antonia, logo depois de umas ramelas que esfregaram os olhos muitos dias, foi perdendo a vista e agora diferenciava o dia e a noite, mas não as caras das pessoas nem a natureza das coisas. A salina resultou um bom negócio. Honório, as Sardelinhas e os meninos passavam o dia secando o sal e preparando as bolsas que Antonio saía a vender. Fabricou-se uma carreta e ia armado com uma escopeta de dois canhões, em previsão de assaltos.

            Permaneceram na Caatinga do Moura em torno de três anos. Com as chuvas, os moradores retornaram a trabalhar a terra e os vaqueiros a cuidar os dizimados gados e tudo isto significou, para o Antonio, o retorno da prosperidade. Além da salina, logo teve um armazém e começou a comercializar em cavalarias, que comprava e vendia com boa margem de ganho. Quando as chuvas diluviais desse dezembro — decisivo em sua vida — converteram o arroio que cruzava o povoado em uma corrente que levou as cabanas; afogou aves e cabritos; alagou a salina; e em uma noite enterrou sob muito lodo. Antonio encontrava-se na Feira Nordestina aonde tinha ido com um carregamento de sal e com a intenção de comprar mulas.

            Voltou uma semana mais tarde. As águas tinham começado a baixar. Honório, as Sardelinhas e a meia dúzia de peões que agora trabalhavam para eles estavam desconsolados, mas Antonio tomou a nova catástrofe com calma. Revisou o que se salvou, fez cálculos em uma caderneta e levantou-lhes o ânimo dizendo-lhes que ficavam abundantes dívidas por cobrar e que ele, como os gatos, tinha muitas vidas para sentir-se derrotado por uma inundação.

            Todavia nessa noite não fechou os olhos. Estavam alojados em casa de um morador amigo, na colina onde se refugiaram todos os vizinhos. Sua mulher o sentiu mover-se na rede e a luz da lua lhe mostrou a cara de seu marido comida pela preocupação. À manhã seguinte, Antonio lhes comunicou que deviam alistar-se pois abandonavam Caatinga do Moura. Foi tão categórico que nem seu irmão nem as mulheres se atreveram a lhe perguntar por que. Logo depois de rematar o que não podiam levar, lançaram-se uma vez mais, com a carreta coberta de vultos, à incerteza dos caminhos. Num desses dias, ouviram de Antonio algo que os confundiu. «Foi o terceiro aviso — murmurou, com uma sombra no fundo das claras pupilas—. Essa inundação nos mandaram para que façamos algo que não sei o que é.» Honório, como envergonhado, perguntou: «Um aviso de Deus, compadre?». «Poderia ser do Diabo», disse Antonio.

            Pararam uma semana aqui, um mês lá, e cada vez que a família acreditava que arraigariam em um lugar, Antonio, impulsivamente, decidia partir. Essa busca de algo, ou alguém tão incerto, desassossegava-os, mas nenhum protestou pelas contínuas mudanças.

            Por fim, depois de quase oito meses percorrendo os sertões, terminaram instalando-se em uma fazenda do Barão da Canabrava, abandonada da seca. O Barão levou seus gados e ficaram umas quantas famílias, disseminadas pelos arredores, cultivando pequenos lotes à beira do Vassa Barris e levando a pastar suas cabras à Serra da Canabrava, sempre verde. Por sua escassa população e por estar cercado dos montes, Canudos parecia o lugar menos indicado para um comerciante. Entretanto, logo que ocuparam a velha casa do administrador, que estava em ruínas, Antonio pareceu livrar-se de um peso. Imediatamente ficou a inventar negócios e a organizar a vida da família, com os antigos brios. E um ano depois, graças a seu empenho, o armazém dos Vilanova comprava e vendia mercadorias a dez léguas à redonda. Antonio viajava outra vez constantemente.

            Todavia, no dia em que os peregrinos apareceram nas ladeiras de Cambaio e entraram pela única rua de Canudos cantando louvores ao Bom Jesus com toda a força de seus pulmões, achava-se em casa. Do corrimão da antiga administração, convertida em moradia-armazém, viu aproximar-se desses seres ferventes. Seu irmão, sua mulher, sua cunhada advertiram que empalidecia quando o homem de arroxeado, que encabeçava a procissão, avançou para ele. Reconheceram os olhos incandescentes, a voz cavernosa, a fraqueza. «Já aprendeu a somar?», disse o santo, com um sorriso, estirando a mão ao mercado. Antonio Vilanova caiu de joelhos para beijar os dedos do recém vindo.

 

            Em minha carta anterior lhes falei, companheiros, de uma rebelião popular no interior do Brasil, da que tive notícia através de uma testemunha prejulgada (um capuchinho). Hoje posso lhes comunicar um testemunho melhor sobre Canudos, o de um homem vindo da revolta, que percorre as regiões sem dúvida com a missão de recrutar partidários. Posso, também, lhes dizer algo emocionante: houve um choque armado e os jagunços derrotaram a cem soldados que pretendiam chegar à Canudos. Não se confirmam os indícios revolucionários? Em certo modo sim, mas de maneira relativa, a julgar por este homem, que dá uma impressão contraditória destes irmãos: intuições certeiras e ações corretas se mesclam neles com superstições inverossímeis.

            Escrevo de um povo cujo nome não devem saber, uma terra onde as servidões morais e físicas das mulheres são extremas, pois as oprimem o patrão, o pai, os irmãos e o marido. Aqui, o latifundiário escolhe as esposas de seus próximos e as mulheres são golpeadas em plena rua por pais irascíveis ou maridos bêbados, ante a indiferença geral. Um motivo de reflexão, companheiros: assegurar-se que a revolução não só suprima a exploração do homem pelo homem, mas também, a da mulher pelo homem e estabeleça, ao mesmo tempo, a igualdade de classes, a de sexos.

            Soube que o emissário de Canudos tinha chegado a este lugar por um guia que é também tigrino ou caçador de sucuaranas (belos ofícios: explorar o mundo e acabar com os predadores do rebanho), graças ao qual consegui, também, vê-lo. A entrevista teve lugar em um curtume, entre couros que se secavam ao sol e uns meninos que jogavam com lagartixas. Meu coração pulsou com força ao ver o homem: baixo e maciço, com essa palidez entre amarela e cinza que vem aos mestiços de seus ancestrais indígenas, e uma cicatriz na cara que me revelou, a simples vista, seu passado de capanga de bandido ou de criminoso (em todo caso, de vítima, pois, como explicou Bakunin, a sociedade prepara os crimes e os criminosos são só os instrumentos para executá-los). Vestido de couro — assim o fazem os vaqueiros para cavalgar pela espinhosa campina—, levava o chapéu posto e uma escopeta. Seus olhos eram afundados e casmurros e suas maneiras oblíquas, evasivas, o que é aqui freqüente. Não quis que falássemos a sós. Tivemos que fazê-lo diante do dono do curtume e de sua família, que comiam no chão, sem nos olhar. Disse-lhe que era um revolucionário, que no mundo havia  muitos companheiros que aplaudiam o que eles tinham feito em Canudos, quer dizer tomar as terras de um feudal, estabelecer o amor livre e derrotar a uma tropa. Não sei se me entendeu. A gente do interior não é como a da Bahia, a que a influência africana deu loquacidade e exuberância. Aqui as caras são inexpressivas, máscaras, cujas funções parecem ser a de ocultar os sentimentos e os pensamentos.

            Perguntei-lhe se estavam preparados para novos ataques, pois a burguesia reage como fera quando se atenta contra a sacrossanta propriedade privada. Deixou-me de uma peça murmurando que o dono de todas as terras é o Bom Jesus e que, em Canudos, o Conselheiro está erigindo a Igreja maior do mundo. Tratei de lhe explicar que não era porque construíam igrejas que o poder tinha enviado soldados contra eles, mas me disse que sim, que era precisamente por isso, pois a República quer exterminar a religião. Estranha diatribe a que ouvi então, companheiros, contra a República, proferida com tranqüila segurança, sem indício de paixão. A República se propõe oprimir à Igreja e aos fiéis, acabar com todas as ordens religiosas como o fez já com a Companhia de Jesus e a prova mais flagrante de seu intuito é ter instituído o matrimônio civil, escandalosa impiedade quando existe o sacramento do matrimônio criado por Deus.

            Imagino a decepção de muitos leitores e suas suspeitas, ao ler o anterior, de que Canudos, como a Vendée quando a Revolução, é um movimento retrógrado, inspirado pelos padres. Não é tão simples, companheiros. Já sabem, por minha carta anterior, que a Igreja condena ao Conselheiro e à Canudos e que os jagunços lhe arrebataram as terras a um Barão. Perguntei ao da cicatriz se os pobres do Brasil estavam melhor quando a monarquia. Repô-me no ato que sim, pois era a monarquia a que tinha abolido a escravidão. E me explicou que o diabo, através dos maçons e dos protestantes, derrocou ao Imperador Pedro II para restaurá-la. Como o ouvem: o Conselheiro inculcou a seus homens que os republicanos são escravistas. (Uma maneira sutil de ensinar a verdade, não é certo?, pois a exploração do homem pelos donos do dinheiro, base do sistema republicano, não é menos escravidão que a feudal.) O emissário foi categórico: «Os pobres sofreram muito, mas, se acabou: não responderemos as perguntas do censo porque o que elas pretendem é reconhecer aos libertos para lhes pôr outra vez algemas e devolvê-los à seus amos». «Em Canudos ninguém paga os tributos da República porque não a reconhecemos nem admitimos que se atribua funções que correspondem a Deus.» Que funções, por exemplo? «Casar aos casais ou cobrar o dízimo.» Perguntei o que ocorria com o dinheiro em Canudos e me confirmou que só aceitavam o que leva a cara da Princesa Isabel, quer dizer o do Império, mas, como este já quase não existe, na realidade o dinheiro está desaparecendo. «Não se necessita, porque em Canudos os que têm, dão aos que não têm, e os que podem trabalhar, trabalham pelos que não podem.»

            Disse-lhe que abolir a propriedade e o dinheiro e estabelecer uma comunidade de bens, faça-se em nome do que for, até no de abstrações refrigerantes, é um pouco atrevido e valioso para os deserdados do mundo, um começo de redenção para todos. E que essas medidas desencadearão contra eles, cedo ou tarde, uma dura repressão, pois a classe dominante jamais permitirá que estenda semelhante exemplo: neste país há pobres de sobra para tomar todas as fazendas. São conscientes o Conselheiro e os seus das forças que estão instigando? Olhando-me nos olhos, sem pestanejar, o homem me recitou frases absurdas, das que lhes dou uma demonstração: os soldados não são a força a não ser a fraqueza do governo, quando fizer falta as águas do rio Vassa Barris tomarão leite e em seus barrancos cuzcuz de milho, e os jagunços mortos ressuscitarão para estar vivos quando aparecer o Exército do Rei Dom Sebastião (um rei português que morreu na África, no século XVI).

            São estes diabos, imperadores e fetiches religiosos as peças de uma estratégia de que se vale o Conselheiro para lançar aos humildes pelo caminho de uma rebelião que, nos fatos — diferente das palavras — é acertada, pois os impulsionou a insurgir contra a base econômica, social e militar da sociedade classista? São os símbolos religiosos, míticos, dinásticos, os únicos capazes de sacudir a inércia de massas submetidas faz séculos à tirania supersticiosa da Igreja e por isso os utiliza o Conselheiro? Ou é tudo isto obra do azar? Nós sabemos, companheiros, que não existe o azar na história, que, por arbitrária que pareça, há sempre uma racionalidade encoberta detrás da mais confusa aparência. Imagina o Conselheiro o transtorno histórico que está provocando? Trata-se de um intuitivo ou de um ardiloso? Nenhuma hipótese é descartável e, menos que outras, a de um movimento popular espontâneo, impremeditado. A racionalidade está gravada na cabeça de todo homem, até a do mais inculto, e, dadas certas circunstâncias, pode guiá-lo, por entre as nuvens dogmáticas que velem seus olhos ou os prejuízos que empanem seu vocabulário, a atuar na direção da história. Alguém que não era dos nossos, Montesquieu, escreveu que a sorte ou a desdita consistem em uma certa disposição de nossos órgãos. Também a ação revolucionária pode nascer desse mandato dos órgãos que nos governam, até antes de que a ciência eduque a mente dos pobres. É o que ocorre no sertão baiano? Isto só se pode verificar na própria Canudos. Até a próxima ou até sempre.

 

            A vitória de Uauá foi celebrada em Canudos com dois dias de festejos. Houve fogos e fogos preparados pelo Antonio, o Fogueteiro, e o Beato organizou procissões que percorreram os meandros de barracões que tinham brotado na fazenda. O Conselheiro pregava cada entardecer de um andaime do Templo. Ao Canudos aguardavam provas mais duras, não teriam que se deixar derrotarem pelo medo, o Bom Jesus ajudaria aos que tivessem fé. Um tema freqüente continuava o fim do mundo. A terra, cansada depois de tantos séculos de produzir plantas, animais e de dar casaco ao homem, pediria ao Pai poder descansar. Deus consentiria e começariam as destruições. Era isso o que indicavam as palavras da Bíblia: «Não devo estabelecer a harmonia! Vim para atiçar um incêndio!».

            Assim, enquanto, na Bahia, as autoridades, criticadas sem piedade pelo Jornal de Notícias e o Partido Republicano Progressista pelos acontecimentos de Uauá, organizavam uma segunda expedição seis vezes mais numerosa que a primeira e a proviam de dois canhões Krupp, calibre 7,5 e de duas metralhadoras Nordenfelt e, ao mando do Major Febrônio de Brito, despachavam-na por trem para Queimadas, para que logo seguisse a pé, a castigar aos jagunços, estes, em Canudos, preparavam-se para o Julgamento Final. Alguns impacientes, com o pretexto de apurá-lo ou de ganhar na terra o descanso, saíram a semear a desolação. Enfurecidos de amor prendiam fogo às construções dos matos e caatingas que separavam à Canudos do mundo. Para salvar suas terras, muitos fazendeiros e camponeses lhes faziam presentes; entretanto, arderam bom número de ranchos, currais, casas abandonadas, refúgios de pastores e guaridas de foragidos. Foi preciso que José Venâncio, Pajeú, João Abade, João Grande, os Macambira saíssem a conter esses exaltados que queriam dar repouso à natureza carbonizando-a e que o Beato, a Mãe dos Homens, o Leão de Natuba, explicassem-lhes que tinham interpretado mal os conselhos do santo.

            Tampouco nestes dias, face aos novos peregrinos que chegavam, Canudos passou fome. Maria Quadrado levou para viver com ela ao Santuário, um grupo de mulheres  —que o Beato chamou: o Coro Sagrado — para que a ajudassem a sustentar ao Conselheiro quando os jejuns lhe dobravam as pernas, e a lhe dar de comer os escassos pedaços que comia, e a lhe servir de couraça para que não o esmagassem quão romeiros queriam tocá-lo e o acossavam-lhe pedindo que intercedesse ante o Bom Jesus pela filha cega, o filho inválido ou o marido desaparecido. Enquanto isso, outros jagunços se ocupavam de procurar sustento à cidade e de sua defesa. Tinham sido escravos silvestres, como João Grande, ou cangaceiros com muitas mortes em seu histórico como Pajeú ou João Abade, e eram agora homens de Deus. Mas, continuavam homens práticos, atentos ao terrestre, sensíveis à fome e à guerra, e foram eles quem, como tinham feito em Uauá, tomaram a iniciativa. Uma vez que continham às turfas de incendiários, tocavam para Canudos cabeças de gado, cavalos, mulas, asnos, cabritos que as fazendas se resignavam a doar ao Bom Jesus, e despachavam aos armazéns do Antonio e Honório Vilanova as farinhas, os grãos, as roupas e, sobretudo, as armas que reuniam em suas incursões. Em poucos dias, Canudos se encheu de recursos. Ao mesmo tempo, solitários enviados percorriam os sertões, como profetas bíblicos, e baixavam até o litoral incitando às pessoas a partir para Canudos para combater junto aos escolhidos contra essa invenção do Cão: a República. Eram uns curiosos emissários do céu, que, em vez de vestir túnicas, levavam calças e camisas de couro e cujas bocas cuspiam os palavrões da gente ruim e a quem todos conheciam porque tinham compartilhado com eles luto e miséria até que um dia, roçados pelo anjo, foram-se à Canudos. Eram os mesmos, levavam as mesmas facas, carabinas, facões; entretanto, eram outros, pois agora só falavam do Conselheiro, de Deus ou do lugar de onde vinham com uma convicção e um orgulho contagiosos. As pessoas davam-lhes hospitalidade, escutavam-os e muitos, sentindo esperança pela primeira vez, faziam um maço com suas coisas e partiam.

            As forças do Major Febrônio de Brito estavam já em Queimadas. Eram quinhentos e quarenta e três soldados, quatorze oficiais e três médicos selecionados nos três batalhões de Infantaria da Bahia — o 9º, o 26º e o 33 º—, aos que a pequena localidade recebeu com discurso de Prefeito, missa na Igreja do Santo Antonio, sessão no Conselho Municipal e feriado para que os aldeãos gozassem do desfile com rufo de tambor ao redor do Plaza Matriz. Antes de que começasse o desfile, já tinham partido para o Norte mensageiros espontâneos que levavam à Canudos o número de soldados e armas da Expedição e seu plano de viagem. As notícias não causaram surpresa. Como podia surpreendê-los que a realidade confirmasse o que Deus lhes tinha anunciado por boca do Conselheiro? A única novidade era que os soldados viriam desta vez pelo rumo do Cariará, a Serra do Acarí e o Vale dos Ipueiras. João Abade sugeriu a outros cavar trincheiras, conduzir pólvora e projéteis e a postar gente nas ladeiras de Cambaio, pois por ali teriam que passar, forçosamente, os protestantes.

            O Conselheiro parecia no momento mais preocupado por apurar a construção do Templo do Bom Jesus que pela guerra. Seguia dirigindo os trabalhos do amanhecer, mas estes se atrasavam por culpa das pedras: teria que conduzir das pedreiras cada vez mais afastadas e subir às torres era tarefa difícil em que, às vezes, rompiam-se as cordas e os pedrões se levavam de encontro aos andaimes e operários. E, às vezes, o santo ordenava derrubar um muro já levantado e erigi-lo mais à frente ou retificar umas janelas porque uma inspiração lhe dizia que não estavam orientados na direção do amor. Via-o circular entre a gente, rodeado do Leão de Natuba, do Beato, da Maria Quadrado e das devotas do Coro que estavam batendo constantemente as mãos para espantar às moscas que vinham a perturbá-lo. Diariamente chegavam à Canudos três, cinco, dez famílias ou grupos de peregrinos, com suas minúsculas manadas de cabras e suas carretas, e Antonio Vilanova lhes designava um oco no labirinto de moradias para que levantassem a sua. Cada tarde, antes dos conselhos, o santo recebia, dentro do Templo ainda sem teto, aos recém chegados. Eram encaminhados para ele pelo Beato, através da massa de fiéis, e embora o Conselheiro tratava de impedir dizendo-lhes: «Deus é outro», tombavam-se à seus pés para beijar-lhe ou tocar sua túnica enquanto ele os benzia, olhando-os com esse olhar que dava a impressão de estar olhando sempre mais à frente. Em um momento dado, interrompia a cerimônia de bem-vinda, ficando de pé, e então lhe abriam caminho até a escada que subia aos andaimes. Pregava com rouca voz, sem mover-se, sobre os temas de sempre: a superioridade do espírito, as vantagens de ser pobre e frugal, o ódio aos ímpios e a necessidade de salvar à Canudos para que fosse refúgio de justos.

            As pessoas o escutavam ofegantes, convencidas. A religião enchia agora seus dias. À medida que surgiam, as tortuosas ruazinhas, eram batizadas com o nome de um santo, em uma procissão. Havia, em todos os rincões, nichos as imagens da Virgem, do Menino, do Bom Jesus e do Espírito Santo; cada bairro e ofício levantava altares a seu santo protetor. Muitos dos recém vindos trocavam de nome, para simbolizar assim a nova vida que começavam. Mas às práticas católicas se enxertavam às vezes, como plantas parasitas, costumes duvidosos. Assim, alguns mulatos ficavam a dançar quando rezavam e se dizia que, sapateando com frenesi sobre a terra, acreditavam que expulsariam os pecados com o suor. Os negros foram-se agrupando no setor norte de Canudos, um monte de choças de barro e palha que seria conhecida mais tarde como o Mocambo. Os índios de Mirandela, que surpreendentemente, vieram instalar-se à Canudos, preparavam à vista de todos cozimentos de ervas que despediam um forte aroma e que os punham em êxtase. Além de romeiros vieram, é óbvio, milagreiros, marreteiros, salvavidas curiosos. Pelas cabanas que se encostavam umas em outras, viam-se mulheres que liam as mãos, pícaros que se vangloriavam de falar com os mortos e trovadores que, como os do Circo do Cigano, ganhavam o sustento cantando romances ou cravando-se alfinetes. Certos curandeiros pretendiam curar todos os males com poções medicinais ou mágicas de jurema e emanar alguns beatos, presas de delírio de contrição, declamavam a voz em pescoço seus pecados e rogavam a quem os ouvia lhes impondo penitências. Um grupo de gente do Joazeiro começou a praticar em Canudos os ritos da Irmandade de Penitentes dessa cidade: jejum, abstinência sexual, flagelações públicas. Embora o Conselheiro respirava a mortificação e o ascetismo — o sofrimento, dizia, robustece a fé — terminou por alarmar-se e pediu ao Beato que passasse revista aos romeiros a fim de evitar que com eles entrassem a superstição, o fetichismo ou qualquer impiedade disfarçada de devoção.

            A diversidade humana coexistia em Canudos sem violência, em meio de uma solidariedade fraterna e um clima de exaltação que os escolhidos não tinham conhecido. Sentiam-se verdadeiramente ricos, de serem pobres, filhos de Deus, privilegiados, como os dizia cada tarde o homem do manto cheio de buracos. No amor para ele, pelo resto, cessavam as diferenças que podiam separá-los: quando se tratava do Conselheiro essas mulheres e homens que tinham sido centenas e começavam a ser milhares tornavam-se um só ser submisso e reverente, disposto a dar tudo por quem tinha sido capaz de chegar até sua prostração, sua fome e seus piolhos para lhes infundir esperanças e orgulhar do seu destino. Face à multiplicação de habitantes a vida não era caótica. Os emissários e romeiros traziam ganhos e provisões; os currais estavam repletos; assim como, depósitos e o Vassa Barris felizmente tinha água para as chácaras. Tanto que João Abade, Pajeú, José Venâncio, João Grande, Pedrão e outros preparavam a guerra, Honório e Antonio Vilanova administravam a cidade: recebiam as oferendas dos romeiros; distribuíam lotes; mantimentos e roupas; vigiavam as Casas de Saúde para doentes, anciões e órfãos. À eles chegavam as denúncias quando havia brigas na vizinhança por causa de propriedade.

            Diariamente chegavam notícias do Anticristo. A Expedição do Major Febrônio de Brito continuava de Queimadas à Monte Santo, lugar que profanou ao entardecer de 29 de dezembro, diminuída de um cabo de linha morto a conseqüência da picada de um crótalo. O Conselheiro explicou, sem animação, o que ocorria. Não era acaso uma blasfêmia, uma abominação, que homens com armas de fogo e propósitos destruidores acampassem em um santuário que atraía peregrinos de todo o mundo? Mas Canudos, a que essa noite chamou Belo Monte, não devia ser pisada pelos ímpios. Exaltando-se, urgiu-os a não render-se aos inimigos da religião, que queriam mandar de novo aos escravos às armadilhas, exaurir aos moradores com impostos, impedir-lhes de casarem-se; e se enterrassem pela Igreja; confundi-los com armadilhas como o sistema métrico, o mapa estatístico e o censo, cujo verdadeiro intuito era enganá-los e fazê-los pecar. Todos velaram essa noite, com as armas que tinham ao alcance da mão. Os maçons não chegaram. Estavam em Monte Santo, reparando os dois canhões Krupp, desfocados pelo abrupta terra e aguardando um reforço. Quando, duas semanas mais tarde, partiram em colunas em direção à Canudos, pelo Vale do Cariará, toda a rota que seguiriam estava semeada de espiões, apostados em covas de cabritos, na manobra da caatinga ou em socavas dissimuladas com o cadáver de uma cabeça de gado cuja caveira se converteu em atalaia. Velocíssimos mensageiros levavam à Canudos notícias dos avanços e tropeços do inimigo.

            Quando soube que a tropa, depois de enormes dificuldades para arrastar os canhões e metralhadoras, tinha chegado por fim ao Mulungú e que, impelidos pela fome, viram-se obrigados a sacrificar a última cabeça de gado e duas mulas de arrasto, o Conselheiro comentou que o Pai não devia estar descontente com Canudos quando começava a derrotar aos soldados da República antes de que se iniciou a briga.

            — Sabe como se chama o que fez seu marido? — silaba Galileo Gall, com a voz rota pela contrariedade—. Uma traição. Não, duas traições. A mim, com quem tinha um compromisso. E à seus irmãos de Canudos. Uma traição de classe.

            Jurema lhe sorri, como se não entendesse ou não o escutasse. Está fazendo ferver algo, inclinada sobre o fogão. É jovem, de rosto firme e brunido, leva os cabelos soltos, vestida com uma túnica sem mangas, descalça e seus olhos ainda estão coalhados do sonho do que a arrancou a chegada de Gall, pára um momento. Uma débil luz de amanhecer se insinua na cabana por entre as estacas. Há um acendedor e, em um rincão, uma fileira de galinhas dormindo entre vasilhas, trastes, montes de lenha, gavetas e uma imagem de Nossa Senhora de Marisco. Um cão lanzudo ronda aos pés de Jurema e embora ela o afaste chutando-o ele volta para a carga. Sentado em uma rede, incitado pelo esforço que foi viajar toda a noite ao ritmo do desembainhado que o trouxe de volta à Queimadas com as armas, Galileo a observa, iracundo. Jurema vai para ele com uma tigela fumegante. Entrega-lhe.

            —Disse que não ia com os da Ferrovia de Jacobina —murmura Gall, com a tigela entre as mãos, procurando os olhos da mulher—. Por que mudou de opinião?

            —Não ia, porque não queriam lhe dar o que lhes pediu —replica Jurema, com suavidade, soprando a tigela que fumega em suas mãos—. Trocou porque vieram a lhe dizer que o dariam. Ele foi ontem à Pensão Nossa Senhora das Graças para buscá-lo e você se foi, sem dizer aonde, nem se voltaria. Rufino não podia perder esse trabalho.

            Galileo suspira, afligido. Opta por beber um gole de sua tigela, queima-se o paladar, sua cara se torce em uma careta. Bebe outro sorvo, soprando. O cansaço e o desgosto enrugaram sua testa e há olheiras ao redor de seus olhos. De tanto em tanto, remói-se o lábio inferior.

            —Quanto vai durar essa maldita viagem? — grunhe por fim, sorvendo a tigela.

            — Três ou quatro dias — Jurema se sentou frente a ele, ao fio de um velho baú com correias—. Disse que você o podia esperar e que, a sua volta, levaria à Canudos.

            —Três ou quatro dias — Gall revolve os olhos, com exasperação—. Três ou quatro séculos, quis dizer.

            Ouvia-se o tinido dos guizos, fora, e o cão lanzudo ladra com força e se lança contra a porta, querendo sair. Galileo se incorpora, vai para as estacas e olha o exterior: a carroça está onde o deixou, junto ao curral contígüo à cabana, no que há uns quantos carneiros. Os animais têm os olhos abertos mas estão agora quietos e cessou o ruído dos guizos. A moradia coroa um promontório e quando há sol se vê Queimadas; mas neste amanhecer cinza, de céu encapotado, não, só o deserto ondulante e pedregoso. Galileo volta para seu assento. Jurema enche-lhe outra vez a tigela. O cão lanzudo ladra e escava a terra, junto à porta.

            «Três ou quatro dias», pensa Gall. Três ou quatro séculos nos que podem ocorrer mil percalços. Procurará outro guia? Partirá sozinho à Monte Santo e contratará ali um pistoleiro para o Canudos? Algo, salvo ficar aqui com as armas: a impaciência voltaria a espera insuportável e, além disso, podia ocorrer, como temia Epaminondas Gonçalves, que chegasse antes à Queimadas a Expedição do Major Brito.

            — Não foi você o culpado de que Rufino se foi com os da Ferrovia de Jacobina?  — murmura Gall. Jurema está apagando o fogo, com uma fortificação —. Você nunca gostou da idéia de que Rufino me levasse à Canudos.

            — Nunca eu gostei — reconhece ela, com tanta segurança que Galileo sente, por um momento, que se eclipsa sua cólera e vontade de rir. Mas ela está muito séria e olha-o sem pestanejar. Sua cara é alargada, sob sua pele tirante ressaltam os ossos das maçãs do rosto e do queixo. Serão assim, salientes, nítidos, loquazes, delatores, os que ocultam seus cabelos?—. Mataram a esses soldados em Uauá — acrescenta Jurema —. Todos dizem que irão mais soldados à Canudos. Não quero que o matem, ou que o levem preso. Ele não poderia estar preso. Precisa mover-se todo o tempo. Sua mãe lhe diz: «Tem o mal de São Vito».

            — O mal de São Vito — diz Gall.

            — Esses que não podem estar quietos — explica Jurema —. Esses que andam dançando.

            O cão ladra outra vez com fúria. Jurema vai até a porta da cabana, abre-a e o faz sair, empurrando-o com o pé. Escutam-se os latidos, fora, e, de novo, o tinido dos guizos. Galileo, com expressão fúnebre, segue o deslocamento de Jurema, que volta junto ao fogão e remove as brasas com um ramo. Um halo de fumaça se dissolve em espirais.

            — Mas, além disso, Canudos é do Barão e o Barão sempre nos ajudou — diz Jurema —. Esta casa, esta terra, estes carneiros agradecemos ao Barão. Você defende aos jagunços, quer ajudá-los. Levá-lo à Canudos é como ajudá-los. Você crê que o Barão gostaria que Rufino ajudasse aos ladrões de sua fazenda?

            — Claro que não gostaria — grunhe Gall, com ironia. O toque de campainha dos carneiros irrompe de novo, mais forte, e, sobressaltado, Gall se levanta e vai de dois limiares até as estacas. Olha fora: começam a perfilar as árvores na extensão esbranquiçada, as matas de cactos, as manchas de rochas. Ali está a carroça, com seus vultos envoltos em uma lona de cor do deserto, e a seu lado, atada a uma estaca, a mula.

            — Você acredita que ao Conselheiro o mandou à Bom Jesus? — diz Jurema —. Crê nas coisas que ele anuncia? Que o mar será sertão e o sertão mar? Que as águas do rio Vassa Barris se voltarão leite e os barrancos cuzcuz de milho para que os pobres comam?

            Não há nem pingo de brincadeira em suas palavras e tampouco em seus olhos quando Galileo Gall a olha, tratando de adivinhar por sua expressão como toma ela esses falatórios. Não o averigua: a cara brunida, alargada, aprazível, é, pensa, tão inescrutável como a de um indígena ou um chinês. Ou como a do emissário de Canudos com o que se entrevistou no curtume de Itapicurú. Também era impossível saber, observando sua cara, o que sentia ou pensava aquele homem lacônico.

            — Nos mortos de fome o instinto costuma ser mais forte que as crenças —murmura, depois de apurar até o final o líqüido da tigela, esquadrinhando as reações de Jurema—. Podem acreditar disparates, ingenuidades, tolices. Não importa. Importa o que fazem. Aboliram a propriedade, o matrimônio, as hierarquias sociais, rechaçando a autoridade da Igreja e do Estado, aniquilando a uma tropa. Enfrentaram-se à autoridade, ao dinheiro, ao uniforme, à batina.

            A cara de Jurema não diz nada, não se move nela um músculo; seus olhos escuros, levemente rasgados, olham-no sem curiosidade, sem simpatia, sem surpresa. Tem uns lábios que se franzem nas comissuras, úmidos.

            — Retomaram a luta onde a deixamos, embora eles não saibam. Estão ressuscitando a Idéia — diz ainda Gall, perguntando-se o que pode estar pensando Jurema do que ouviu —. É por isso que estou aqui. É por isso que quero ajudá-lo.

            Ofega, como se tivesse falado aos gritos. Agora, a fadiga dos dois últimos dias, agravada pela decepção que sentou ao descobrir que Rufino não está em Queimadas, volta a apoderar-se de seu corpo e o desejo de dormir, de estirar-se, de fechar os olhos, é tão grande que decide tombar umas horas sob a carroça. Ou poderia fazê-lo aqui, talvez, nesta rede? Parecerá escandaloso a Jurema que o peça?

            — Esse homem que veio de lá, que mandou o santo, ao que você viu, sabe quem era? — Ouviu-a dizer—. Era Pajeú. — E, como Gall não se impressiona, acrescenta, desconcertada —: Não ouviu falar do Pajeú? O mais malvado de todo o sertão. Vivia roubando e matando. Cortava narizes e as orelhas dos que tinham a má sorte de encontrar-lhe nos caminhos.

            O tinido dos guizos brota outra vez, simultaneamente com os ansiosos latidos na porta da cabana e o relincho da mula. Gall está recordando ao emissário de Canudos, a cicatriz que lhe comia a cara, sua estranha quietude, sua indiferença. Cometeu um engano, talvez, não lhe confiando as armas? Não, pois não podia mostrar-lhe então: não lhe acreditaria, teria aumentado sua desconfiança, teria posto em perigo todo o projeto. O cão ladra fora, frenético, e Gall vê que Jurema agarra a fortificação com que apagou o fogo e vai depressa para a porta. Distraído, pensando sempre no emissário de Canudos, dizendo-se que se soubesse que se tratava de um ex-bandido talvez teria sido mais fácil dialogar com ele, olha Jurema lutar com a tranqueira, levantá-la, e nesse instante algo sutil, um ruído, uma intuição, um sexto sentido, o azar, dizem-lhe o que vai ocorrer. Porque, quando Jurema é subitamente arrojada para trás pela violência com que se abre a porta — empurrada ou chutada de fora — e a silhueta do homem armado de uma carabina se desenha na soleira, Galileo já tirou seu revólver e está apontando ao intruso. O estrondo da carabina acorda às galinhas do rincão, que revoam espavoridas enquanto Jurema, que caiu ao chão sem que a bala a tocasse, reclama. O atacante, ao ver os pés de uma mulher, vacila, demora uns segundos em encontrar ao Gall entre a revoada espantado das galinhas e quando dirige a carabina para ele, Galileo já lhe disparou, olhando-o com expressão estúpida. O intruso solta a carabina e retrocede, bufando. Jurema grita de novo. Galileo reage por fim e corre para a carabina. inclina-se a agarrá-la e então divisa, pelo oco da porta, ao ferido que se retorce no chão, queixando, a outro homem que se aproxima correndo com a carabina levantada e gritando algo ao ferido, e mais atrás um terceiro homem amarrando a carroça das armas a um cavalo. Quase sem apontar, dispara. Quem vinha correndo dá um tropeção, roda por terra rugindo e Galileo lhe volta a disparar. Pensa: «Ficam duas balas». Jurema vai a seu lado, empurrando a porta, vê fechá-la, baixar a tranqueira e escapulir-se ao fundo da moradia. Fica de pé perguntando-se em que momento caiu ao chão. Está cheio de terra, batendo os dentes e apura o revólver com tanta força que lhe doem os dedos. Espiando por entre as estacas: a carreta das armas se perde ao longe, em uma poeirada, e, frente à cabana, o cão ladra frenético aos dois homens feridos que estão serpenteando para o curral dos carneiros. Apontando-lhes, dispara as duas últimas balas de seu revólver e parece ouvir um rugido humano em meio dos latidos e dos guizos. Sim, alcançou-os: estão imóveis, a meio caminho entre a cabana e o curral. Jurema segue chiando e as galinhas cacarejam enlouquecidas, voam em todas as direções, derrubam objetos, estrelam-se contra as estacas, contra seu corpo. Afasta à tapas e volta a espiar, a direita e a esquerda. A não ser por esses corpos semimontados um em cima do outro dir-se-ia que não ocorreu nada. Resfolegando, arrasta-se entre as galinhas até a porta. Divisa, pelas ranhuras, a paisagem solitária, os corpos que formam um gancho de ferro. Pensa: «levaram-se os fuzis». Pensa: «Pior seria estar morta». Ofega, com os olhos muito abertos. Por fim, abre a tranqueira e empurra a porta. Nada, ninguém.

            Meio encolhido, corre para onde estava a carroça, ouvindo o tinido dos carneiros que dão voltas e se cruzam e descruzam entre os paus do curral. Sente a angústia no estômago, na nuca: um ventania de pó se perde no horizonte, na direção do Riacho das Onze. Respira fundo, passa a mão pela barbicha avermelhada; seus dentes continuam entrechocando-se. A mula, atada no tronco, vadia, beatificamente. Retorna para a moradia, devagar. Detém-se ante os corpos cansados: já são cadáveres. Examina as caras desconhecidas, torradas, as caretas que as crispam. De repente, sua expressão se avinagra em um acesso de raiva e começa a chutar as formas inertes, com ferocidade, resmungando injúrias. Sua ira contagia ao cão, que ladra, salta e mordisca as sandálias dos dois homens. Por fim, Galileo se calma. Retorna à cabana arrastando os pés. Recebe-o um revôo de galinhas que o faz elevar as mãos e proteger a cara. Jurema está no centro da habitação: uma silhueta trêmula, a túnica rota, a boca entreaberta, os olhos cheios de lágrimas, os cabelos revoltos. Olha aniquilada a desordem que reina em torno, como se não compreendesse o que ocorre em sua casa, e, ao ver o Gall, corre para ele e se abraça contra seu peito, balbuciando palavras que ele não entende. Fica rígido, com a mente em branco. Sente à mulher contra seu peito, olha com desconcerto, com medo, esse corpo que se junta ao dele, esse pescoço que palpita sob seus olhos. Sente seu aroma e obscuramente atina a pensar: «É o aroma de uma mulher». Suas têmporas fervem. Fazendo um esforço eleva um braço, rodeia Jurema pelos ombros. Solta o revólver que ainda conservava e seus dedos alisam com estupidez os cabelos alvoroçados: «Queriam matar-me», sussurra ao ouvido de Jurema. «Já não há perigo, já levaram o que queriam.» A mulher vai serenando. Cessam seus soluços, o tremor de seu corpo, suas mãos soltam ao Gall. Mas ele a deixa sempre sujeita, acaricia-lhe sempre os cabelos e, quando Jurema tenta afastar-se, retém-na, «Don't be afraid», silaba, pestanejando depressa, «They are gone. They...» Algo novo, equívoco, urgente, intenso, apareceu em seu rosto, algo que cresce por instantes e logo parece consciente. Tem os lábios muito perto do pescoço de Jurema. Ela dá um passo atrás, com força, ao mesmo tempo que cobre o peito. Agora, faz esforços por desprender-se de Gall, mas este não a solta, e enquanto a sujeita, sussurra várias vezes a mesma frase que ela não pode entender: «Don't be afraid, don't be afraid». Jurema golpeia-o com ambas as mãos, arranha-o, consegue escapar e escapa. Mas Galileo corre atrás dela pela habitação, alcança-a, captura-a e, depois de tropeçar com o velho baú, cai com ela ao chão. Jurema esperneia, luta com todas suas forças, mas sem gritar. Só se escuta o ofego entrecortado de ambos, o rumor da resistência, o cacarejar das galinhas, o latido do cão, o tinido dos guizos. Entre nuvens plúmbeas, está saindo o sol.

 

            Nasceu com as pernas muito curtas e a cabeça enorme, de modo que os vizinhos de Natuba pensaram que seria melhor para ele e para seus pais que o Bom Jesus o levasse logo já que, se sobrevivesse, seria aleijado e tarado. Só o primeiro resultou certo. Porque, embora o filho menor do amansador de potros, Celestino Pardinas, nunca pôde andar à maneira dos outros homens, teve uma inteligência penetrante, uma mente ávida se soubesse tudo e fosse capaz; quando um conhecimento tinha entrado nessa cabeça, que fazia rir às pessoas, de conservá-lo para sempre. Tudo foi nele raridade: que nascesse disforme em uma família tão normal como a dos Pardinas; em que pese a ser um despropósito adoentado, não morresse, nem padecesse enfermidades; que em vez de andar em dois pés como os humanos, fizesse-o de quatro patas; e que sua cabeça crescesse de tal maneira que parecia milagre que seu corpo miúdo pudesse sustentá-la. Mas o que deu pé para que os vizinhos de Natuba começassem a murmurar que não tinha sido engendrado pelo amansador de potros, mas sim, pelo Diabo, foi que aprendesse a ler e a escrever sem que ninguém o ensinasse.

            Nem Celestino, nem Dona Gaudência deram-se ao trabalho — pensando, provavelmente, que seria inútil — de levá-lo onde Dom Asenio, que, além de fabricar tijolos, ensinava português, latim e um pouco de religião. E o fato é que um dia chegou o Correio e cravou nas pranchas do Plaza Matriz um decreto que não se incomodou em ler em voz alta alegando que tinha que cravá-lo em outras dez localidades antes de ficar o sol. Os vizinhos tratavam de decifrar os hieróglifos quando, do chão, ouviram a voz do Leão: «Diz que há perigo de epidemia para os animais, que terá que desinfetar os estábulos com creso, queimar os lixos, ferver a água e o leite antes de tomar». Dom Asenio confirmou que isso diziam. Acossado pelos vizinhos para que contasse quem lhe tinha ensinado a ler. Leão deu uma explicação que muitos encontraram suspeita: que tinha aprendido vendo os que sabiam, como Dom Asenio, o capataz Felisbelo, o curandeiro Dom Abelardo ou o funileiro Zósimo. Nenhum deles lhe tinha dado lições, mas os quatro recordaram ter visto aparecer muitas vezes a grande cabeça hirsuta e os olhos inquisitivos de Leão junto ao tamborete onde liam ou escreviam as cartas que lhes ditava um vizinho. O fato é que Leão tinha aprendido e que desde essa época lhe viu lendo e relendo, em todas as horas, encolhido à sombra das árvores de jasmim de Natuba, os periódicos, devocionais, missais, decretos e todo o impresso que podia ter em mãos. Converteu-se na pessoa que, com uma pluma de ave, fatiada por ele mesmo, e uma tintura de cochinilha e vegetais, redigia, em letras grandes e harmoniosas, as felicitações de aniversário, anúncios de falecimentos, bodas, nascimentos, enfermidades ou simples intrigas que os vizinhos de Natuba comunicavam aos de outros povos e que uma vez por semana vinha levar o cavaleiro do Correio. O Leão lia também aos aldeãos as cartas que lhes mandavam. Fazia de escriba e de leitor de outros por entretenimento, sem lhes cobrar um centavo, mas, às vezes, recebia presentes por esses serviços.

            Não se chamava Leão, e sim Felicio, mas o apelido, como ocorria freqüentemente na região, uma vez que prendeu deslocou no nome. Puseram-lhe Leão talvez por brincadeira certamente pela imensa cabeça que, mais tarde, para dar razão aos brincalhões, cobriria-se com efeito de umas entupidas riscas que lhe tampavam as orelhas e vagavam com seus movimentos. Ou, talvez, por sua maneira de andar, animal sem dúvida alguma, apoiando-se ao mesmo tempo nos pés e nas mãos (que protegia com um revestimento de couro como patas ou cascos) embora sua figura, ao andar, com suas pernas curtas e seus braços longos que se posavam em terra de maneira intermitente, era mais a de um símio que a de um predador. Nem sempre estava assim, dobrado; podia ficar de pé por momentos e dar alguns passos humanos sobre suas ridículas pernas, mas ambas as coisas o fatigavam muitíssimo. Por sua peculiar maneira de mover-se nunca vestiu calças, só túnicas, como as mulheres, os missionários ou os penitentes do Bom Jesus.

            Em que pese a que lhes redigia a correspondência, os vizinhos não acabaram nunca de aceitar ao Leão. Se seus próprios pais podiam logo dissimular a vergonha que lhes dava ser seus progenitores e trataram uma vez de dar de presente como poderiam as mulheres e os homens de Natuba considerar da mesma espécie que eles a essa feitura? A dúzia de irmãos e irmãs Pardinas o evitavam e era sabido que não comia com eles a não ser em um caixote pequeno à parte. Assim, não conheceu o amor paterno, nem o fraterno (embora, ao que parece, adivinhou algo do outro amor) nem a amizade, pois os meninos de sua idade lhe tiveram ao princípio medo e, logo, repugnância. Molestavam-o à pedradas, cuspidas e insultos se se atrevia a aproximar-se de vê-los jogar. Ele, pelo resto, rara vez o tentava. Desde muito pequeno, sua intuição ou sua inteligência sem enguiços lhe ensinaram que, para ele, outros sempre seriam seres reticentes ou desagradados, e freqüentemente verdugos, de modo que devia manter-se afastado de todos. Assim o fez, pelo menos até o episódio do canal de irrigação, e a gente o viu sempre a prudente distância, até nas feiras e mercados. Quando havia em Natuba uma Santa Missa, Leão escutava os sermões do telhado da Igreja de Nossa Senhora da Concepção, como um gato. Mas nem sequer esta estratégia do retraimento o liberou de sustos. Um dos piores o deu o Circo do Cigano. Passava pela Natuba duas vezes ao ano, com sua caravana de monstros: acrobatas, adivinhos, trovadores, palhaços. O Cigano, em uma dessas vezes, pediu ao amansador de potros e à Dona Gaudencia que lhe permitissem levar Leão para fazer dele um circense. «Meu circo é o único lugar onde não chamará a atenção», disse-lhes, «e se fará útil». Eles consentiram. Levou-o, mas uma semana depois o Leão escapou e estava de novo em Natuba. Depois, cada vez que aparecia o Circo do Cigano, ele se volatilizava.

            O que temia, acima de tudo, eram os bêbados, essas turmas de vaqueiros que logo depois de uma jornada tocando, marcando, castrando ou tosquiando, retornavam ao povo, desmontavam e corriam à adega de Dona Epifania para matar a sede. Saíam abraçados, cantarolando, cambaleando-se, às vezes alegres, às vezes furiosos, e o buscavam pelas ruelas para divertir-se ou desafogar-se. Ele tinha desenvolvido um ouvido extraordinariamente agudo e os detectava a distância, por suas gargalhadas ou palavrões, e então, saltando preso aos muros e fachadas para passar desapercebido, corria a sua casa, ou, se estava longe, a ocultar-se em uns matagais ou um teto, até que passava o perigo. Nem sempre conseguia escapar. Alguma vez, valendo-se de um ardil— por exemplo, enviando-lhe um mensageiro a lhe dizer que fulano o chamava para redigir uma solicitude ao Juiz do município — o apanhavam. Então, brincavam horas com ele, despindo-o para comprovar se debaixo da túnica ocultava outras monstruosidades além das que tinha à vista, subindo-o sobre um cavalo ou pretendendo cruzá-lo com uma cabra para averiguar o que produzia a mescla.

            Por uma questão de honra mais que por carinho, Celestino Pardinas e os seus intervinham se se inteiravam e ameaçavam aos graciosos, e uma vez os irmãos maiores se lançaram à facadas e pauladas, a resgatar ao escriba de uma partida de vizinhos que, excitados pela cachaça, tinham-no banhado em melaço, derrubado em um depósito de lixo e o passeavam pelas ruas ao cabo de uma corda como um animal de espécie desconhecida. Mas aos parentes estes incidentes em que se viam envoltos por este membro da família os deixavam fartos. Leão sabia melhor que ninguém e, por isso, nunca se soube que denunciasse aos abusivos.

            O destino do filho menor do Celestino Pardinas sofreu um tombo decisivo o dia que a filhinha do funileiro Zósimo, Almudia, quão única tinha sobrevivido entre seis irmãos que nasceram mortos ou morreram aos poucos dias de nascer, caiu com febre e vômitos. Os remédios e conjuros de Dom Abelardo foram ineficazes, como o tinham sido as orações de seus pais. O curandeiro sentenciou que a menina tinha «mau olhado» e que qualquer antídoto seria vão, enquanto, não se identificasse à pessoa que a tinha «olhado». Desesperados pela sorte dessa filha que era o luzeiro de suas vidas, Zósimo e sua mulher Eufrasia percorreram os ranchos de Natuba, averiguando. E assim chegou a eles, por três bocas, a falação de que a menina tinha sido vista em estranho conciliábulo com o Leão, à beira do canal de irrigação que corre para a fazenda. Olhando-a. Interrogada, a doente confessou, meio delirando, que essa manhã, quando ia onde seu padrinho Dom Nautilo, ao passar junto ao canal de irrigação, Leão lhe perguntou se podia lhe dizer uma canção que tinha composto para ela. E a tinha cantado, antes de que Almudia escapasse correndo. Foi a única vez que lhe falou, mas ela tinha advertido já, antes, que, como de casualidade, encontrava-se muito freqüentemente com o Leão em seus percursos pelo povoado, e algo, em sua maneira de encolher-se a seu passo, fez-lhe adivinhar que queria lhe falar.

            Zósimo agarrou sua escopeta e rodeado de sobrinhos, cunhados e compadres, também armados, e seguido de uma multidão, foi à casa dos Pardinas, apanhou ao Leão, pôs-lhe o canhão da arma sobre os olhos e lhe exigiu que repetisse a canção a fim de que Dom Abelardo pudesse exorcizá-la. Leão permaneceu mudo, com os olhos muito abertos, inquieto. Depois de repetir várias vezes que se não revelasse o feitiço lhe fariam saltar a imunda cabeça, o funileiro rastelou a arma. Um brilho de pânico enlouqueceu, um segundo, os grandes olhos inteligentes. «Se me mata, não saberá o feitiço e Almudia morrerá», murmurou sua voz, irreconhecível pelo terror. Havia um silêncio absoluto. Zósimo transpirava. Seus parentes mantinham a raia, com suas escopetas, ao Celestino Pardinas e à seus filhos. «Deixa-me ir se lhe digo isso?», voltou a ouvir a voz do monstro. Zósimo assentiu. Então, obstruindo-se e com voz de adolescente, Leão começou a cantar. Cantou — comentariam, recordariam, fofocariam os vizinhos de Natuba presentes, e os que, sem estar, jurariam que o estavam — uma canção de amor, em que aparecia o nome de Almudia. Quando terminou de cantar, Leão estava com os olhos cheios de vergonha. «Solte-me agora», rugiu. «Soltá-lo-ei depois que minha filha se cure», repôs o funileiro, sordidamente. «E se não se curar, queimá-lo-ei, junto a sua tumba. Juro-o por sua alma.» Olhou aos Pardinas — pai, mãe, irmãos imobilizados pelas escopetas — e acrescentou em um tom que não admitia dúvidas: «Queimá-lo-ei vivo, embora os meus e os seus tenham que se entrematar por séculos».

            Almudia morreu essa mesma noite, depois de um vômito no que arrojou sangue. Os vizinhos pensavam que Zósimo choraria, arrancaria os cabelos, amaldiçoaria a Deus ou beberia cachaça até cair inerte. Mas não fez nada disso. O atordoamento dos dias anteriores foi substituído por uma fria determinação com a que foi dispondo, ao mesmo tempo, o enterro de sua filha e a morte de seu feiticeiro. Nunca tinha sido malvado, nem abusivo, nem violento, a não ser um vizinho serviçal e amigável. Por isso todos o compadeciam, perdoavam-lhe de antemão o que ia fazer e alguns, inclusive, o passavam.

            Zósimo fez plantar um poste junto à tumba, conduzir palha e ramos secos. Os Pardinas permaneciam prisioneiros em sua casa. O Leão estava no curral do funileiro, amarrado de pés e mãos. Ali passou a noite, ouvindo as rezas do velório, os pêsames, as letanias, os prantos. À manhã seguinte, subiram-no a uma carreta atirada por burros e a distância, como sempre, foi seguindo o cortejo. Ao chegar ao cemitério, enquanto baixavam a gaveta e havia novas rezas, a ele, seguindo as instruções do funileiro, dois sobrinhos o amarraram ao poste e o rodearam da palha e dos ramos com as que ia arder. Quase todo o povo estava reunido ali para ver a imolação.

            Nesse momento chegou o santo. Devia ter posto os pés em Natuba a noite anterior, ou essa madrugada, e alguém lhe informaria o que estava por acontecer. Mas essa explicação era muito ordinária para os vizinhos, a quem o sobrenatural era mais acreditável que o natural. Eles diriam que sua faculdade de adivinhação, ou o Bom Jesus, levaram-no a essa paragem do sertão baiano nesse instante para corrigir um engano, evitar um crime ou, simplesmente, dar uma prova de seu poder. Não vinha sozinho, como a primeira vez que pregou em Natuba, anos atrás, nem acompanhado só por dois ou três romeiros, como a segunda, em que, além de dar conselhos, reconstruiu a capela do abandonado convento de jesuítas do Plaza Matriz. Desta vez o acompanhavam pelo menos uma trintena de seres, fracos e pobres como ele, mas com os olhos ditosos. Seguido deles, abriu-se passo entre a multidão até a tumba sobre a que jogavam as últimas pazadas.

            O homem de arroxeado se dirigiu ao Zósimo, quem estava cabisbaixo, olhando a terra. «Enterrou-a com seu melhor vestido, em uma gaveta bem feita?», perguntou-lhe com voz amável, embora não precisamente afetuosa. Zósimo assentiu, movendo apenas a cabeça. «Vamos rezar-lhe ao Pai, para que a receba alegre no céu», disse o Conselheiro. E ele e os penitentes salmodiaram e cantaram ao redor da tumba. Só depois assinalou o santo o poste onde estava amarrado o Leão. «O que vai fazer com este moço, irmão?», perguntou. «Queimá-lo», repôs Zósimo. E lhe explicou por que, no meio do silêncio que parecia soar. O santo assentiu, sem alterar-se. Logo se dirigiu ao Leão e fez um gesto para que a gente se afastasse um pouco. Retrocederam uns passos. O santo se inclinou e falou ao ouvido do amarrado e logo aproximou seu ouvido à boca do Leão para ouvir o que este lhe dizia. E assim, movendo o Conselheiro a cabeça para o ouvido e para a boca do outro, estiveram cochichando-se. Ninguém se movia, esperando algo extraordinário.

            E, com efeito, foi tão assombroso como ver torrar-se a um homem em uma pira. Porque quando calaram, o santo, com a tranqüilidade que nunca o abandonava, sem mover do lugar, disse: «Vêm e desata-o!». O funileiro voltou a olhá-lo, pasmado. «Tem que o desatar você mesmo», rugiu o homem de arroxeado, com um acento que estremeceu às pessoas. «Quer que sua filha vá ao inferno? Não são as chamas de lá mais quentes, não duram mais que as que você quer prender?», voltou a rugir, como espantado de tanta estupidez. «Supersticioso, ímpio, pecador —repetiu—. Arrependa-se do que queria fazer, vêm e desata-o, peça-lhe perdão e roga ao Pai que não mande a sua filha aonde o Cão por sua covardia e sua maldade, por sua pouca fé em Deus.» E assim esteve, insultando-o, urgindo-o, aterrorizando-o com a idéia de que, por sua culpa, Almudia iria ao inferno. Até que os aldeãos viram que Zósimo, em vez de lhe disparar, ou lhe afundar a faca ou queimar-lhe com o monstro, obedecia-lhe e, soluçando, implorava de joelhos ao Pai, ao Bom Jesus, ao Divino, à Virgem, que a alma da Almudia não baixasse ao inferno.

            Quando o Conselheiro, depois de permanecer duas semanas no lugar, orando, pregando, consolando aos sofredores e aconselhando aos sãos, partiu na direção de Mocambo, Natuba tinha um cemitério cercado de tijolos e cruzes novas em todas as tumbas. Seu séquito tinha aumentado com uma figurinha entre animal e humana, que, vista enquanto a mancha de romeiros se afastava pela terra coberta de mandacarús, parecia ir trotando entre os farrapados como trotam os cavalos, as cabras, os burros de carga...

            Pensava, sonhava: Estou nos subúrbios de Queimadas, é de dia, esta é a rede do Rufino. O resto era confuso. Sobretudo, a conjunção de circunstâncias que, esse amanhecer, tinham transtornado uma vez mais sua vida. Na dorme-vela persistia o assombro que se apoderou dele desde que, acabando de fazer amor, caiu dormindo.

            Sim, para alguém que acreditava que o destino era em boa parte inato e ia escrito sobre a massa encefálica, onde umas mãos mãos direitas e uns olhos pesados podiam auscultá-lo, era duro comprovar a existência dessa margem imprevisível, que outros seres podiam dirigir com horrível prescindência da vontade própria, da aptidão pessoal. Quanto tempo levava descansando? A fadiga tinha desaparecido, em todo caso. Teria desaparecido também a moça? Teria ido pedir auxílio, a procurar gente que viesse a prendê-lo? Pensou ou sonhou: «Os planos se fizeram fumaça quando deviam materializar-se». Pensou ou sonhou: «A adversidade é plural». Advertiu que se mentia; não era verdade que este desassossego e este pasmo se devessem a não ter encontrado ao Rufino, a ter estado a ponto de morrer, a ter matado a esses dois homens, ao roubo das armas que ia levar à Canudos. Era esse arrebatamento brusco, incompreensível, incontrolável, que o fez violar a Jurema depois de dez anos de não tocar em uma mulher, o que roía a dorme-vela de Galileo Gall.

            Tinha amado algumas mulheres em sua juventude, tido companheiras —lutadoras pelos mesmos ideais — com as que compartilhou trechos curtos de caminho; em sua época de Barcelona tinha vivido com uma operária que estava grávida quando o assalto ao quartel e da que soube, logo depois de sua fuga da Espanha, que terminou casando-se com um padeiro. Mas a mulher nunca ocupou um lugar preponderante na vida de Galileo Gall, como a ciência ou a revolução. O sexo tinha sido para ele, igual ao alimento, algo que aplacava uma necessidade primária e logo produzia aborrecimento. A mais secreta decisão de sua vida teve lugar dez anos atrás. Ou eram onze? Ou doze? Bailavam as datas em sua cabeça, não o lugar: Roma. Ali se refugiou ao fugir de Barcelona, na moradia de um farmacêutico, colaborador da imprensa anarquista e que tinha conhecido o ergástulo. Aí estavam as imagens, vividas, na memória de Gall. Primeiro o suspeitou, depois o comprovou: este companheiro recolhia prostitutas nos arredores do Coliseu, trazia-as para sua casa quando ele estava ausente e lhes pagava para que se deixassem açoitar. Aí, as lágrimas do pobre diabo a noite que o repreendeu e, aí, sua confissão de que só obtinha prazer infligindo castigo, de que só podia amar quando via um corpo machucado e medroso. Pensou ou sonhou que o escutava, outra vez, lhe pedir ajuda e na dorme-vela, como aquela noite, apalpou-o, sentiu a rotundidade da zona dos afetos inferiores, a temperatura desse topo onde Spurzheim tinha localizado o órgão da sexualidade, e a deformação, na curva occipital inferior, já quase no nascimento de seu pescoço, das cavidades que representam os instintos destrutivos. (E nesse instante reviveu a cálida atmosfera do gabinete de Mariano Cubí, e ouviu o exemplo que este costumava dar, o do Jobard le Joly, o incendiário de Genebra, cuja cabeça tinha examinado depois da decapitação: «Tinha esta região da crueldade tão magnificada que parecia um grande tumor, um crânio grávido»). Então, voltou a lhe dar o remédio: «Não é o vício o que deve suprimir de sua vida, companheiro, é o sexo», e a lhe explicar que, quando o fizesse, a potência destruidora de sua natureza, cegava a via sexual, encaminhar-se-ia para fins éticos e sociais, multiplicando sua energia para o combate pela liberdade e o aniquilamento da opressão. E, sem que lhe tremesse a voz, esquadrinhando-o aos olhos, voltou fraternalmente para propor-lhe. Façamo-lo juntos. Acompanhar-lhe-ei na decisão, para lhe provar que é possível. Juremos não voltar a tocar a uma mulher, irmão». Teria repleto o farmacêutico? Recordou seu olhar consternado, sua voz daquela noite, e pensou ou sonhou: «Era um fraco». O sol atravessava suas pálpebras fechadas, feria suas pupilas.

            Ele não era um fraco, ele sim pôde, até essa madrugada, cumprir o juramento. Porque o raciocínio e o saber deram fundamento e vigor ao que foi, ao princípio, mero impulso, um gesto de companheirismo. Acaso a busca de prazer, a servidão ao instinto não eram um perigo para alguém empenhado em uma guerra sem quartel? Não podiam as urgências sexuais distrai-lo do ideal? Não foi abolir à mulher de sua vida o que atormentou ao Gall, nesses anos, a não ser pensar que o que ele fazia, faziam também os inimigos, os padres católicos, em que pese a dizer-se que, em seu caso, as razões não eram obscurantistas, preconceituosas, como no deles, a não ser querer achar-se mais ligeiro, mais disponível, mais forte para essa luta por aproximar e confundir o que eles tinham contribuído mais que ninguém a manter inimigos: o céu e a terra, a matéria e o espírito. Sua decisão nunca se viu ameaçada e Galileo Gall sonhou ou pensou: «Até hoje». Ao contrário, acreditava com firmeza que essa ausência se traduziu em maior apetite intelectual, em uma capacidade de ação crescente. Não: mentia-se outra vez. A razão pudera submeter ao sexo na vigília, não nos sonhos. Muitas noites destes anos, quando dormia, tentadoras formas femininas se deslizavam em sua cama, pegavam-se contra seu corpo e lhe arrancavam carícias. Sonhou ou pensou que lhe dera mais trabalho resistir a esses fantasmas que às mulheres de carne e osso; recordou que, como os adolescentes ou os companheiros encerrados nos cárceres do mundo inteiro, muitas vezes tinha feito o amor com essas silhuetas impalpáveis que fabricava seu desejo.

            Angustiado, pensou ou sonhou: «Como pude? Por que pude?». Por que se tinha precipitado sobre a moça? Ela resistia e ele a tinha golpeado e, cheio de remorso, perguntou-se se lhe prendeu também quando já não resistia e se deixava despir. O que tinha ocorrido, companheiro? Sonhou ou pensou: «Não se conhece, Gall». Não, sua cabeça não lhe falava. Mas outros tinham examinado e encontrado, nele, desenvolvidas, as tendências impulsivas e a curiosidade, inépcia para o comtemplativo, para o estético e em geral para todo o desligado de ação prática e que fazer corporal, e ninguém percebeu nunca, no receptáculo de sua alma, a menor anomalia sexual. Sonhou ou pensou que já tinha pensado: «A ciência é ainda um candil que pisca em uma grande caverna em trevas».

            Em que forma afetaria sua vida este acontecimento? Tinha ainda razão de ser a decisão de Roma? Devia renová-la depois deste acidente ou revisá-la? Era um acidente? Como explicar cientificamente o desta madrugada? Em sua alma — não, em seu espírito, a palavra alma estava infectada de imundície religiosa—, às ocultas de sua consciência, foram-se armazenando nestes anos os apetites que acreditava desarraigados, as energias que supunha desviadas para fins melhores que o prazer. E essa acumulação secreta estalou essa manhã, inflamada pelas circunstâncias, quer dizer o nervosismo, a tensão, o susto, a surpresa do assalto, do roubo, do tiroteio, das mortes. Era a explicação justa? Ah, se poderia examinar tudo isto como um problema alheio, objetivamente, com alguém como o velho Cubí. E recordou essas conversações que o frenólogo chamava socráticas, andando no porto de Barcelona e pelo labirinto do bairro gótico e seu coração teve nostalgia. Não, seria imprudente, torpe, estúpido, perseverar na decisão romana, seria preparar no futuro um sucesso idêntico ou mais grave que o deste amanhecer. Pensou ou sonhou, com amargo sarcasmo: «Tem que se resignar a fornicar, Galileo».

            Pensou em Jurema. Era um ser pensante? Um bichinho doméstico, mas bem. Diligente, submisso, capaz de acreditar que as imagens do Santo Antonio escapam das igrejas às grutas onde foram esculpidas, adestrado como as outras servas do Barão para cuidar galinhas e carneiros, dar de comer ao marido, lavar-lhe a roupa e abrir as pernas só a ele. Pensou: «Agora, talvez, despertará de sua letargia e descobrirá a injustiça». Pensou: «Eu sou sua injustiça». Pensou: «Talvez lhe fez um bem».

            Pensou nos homens que o assaltaram e levaram a carroça e nos dois que matou. Eram gente do Conselheiro? Capitaneava-os o do curtume de Queimadas, esse Pajeú? Não dormia, não sonhava, mas seguia com os olhos fechados e imóvel. Não era natural que fosse ele, Pajeú, quem, tomando-o por um espião do Exército ou um mercado ávido de trapacear a sua gente, tivesse-o feito vigiar e, ao descobrir armas em seu poder, abrisse mão delas para abastecer à Canudos? Oxalá fosse assim, oxalá neste momento esses fuzis cavalgassem para reforçar aos jagunços para o que lhes morava. Por que acreditou nele, Pajeú? Que confiança podia lhe inspirar um forasteiro que pronunciava mal seu idioma e tinha idéias obscuras? «Matou a dois companheiros, Gall», pensou. Estava acordado: esse calor é o sol da manhã, esses ruídos os guizos dos carneiros. E se estavam em mãos de simples foragidos? Puderam segui-los a ele e ao desembainhado a noite anterior, quando as traziam da fazenda onde Epaminondas as entregou. Não diziam que a região fervia de cangaceiros? Tinha procedido com precipitação, sido imprudente? Pensou: «Deve descarregar as armas, as colocar aqui». Pensou: «Então estaria morto e as tivessem levado também». Se sentiu comido pelas dúvidas: Retornaria a Bahia? Iria sempre à Canudos? Abriria os olhos? Levantar-se-ia desta rede? Enfrentaria por fim a realidade? Ouvia os guizos, ouvia latidos e agora ouviu, também, pisadas e uma voz.

 

            Quando as colunas da Expedição do Major Febrônio de Brito e o punhado de soldados que ainda os seguiam convergiram na localidade de Mulungú, a duas léguas de Canudos, ficaram sem carregadores nem guias. Os pistoleiros recrutados em Queimadas e Monte Santo para orientar às patrulhas de reconhecimento e que, desde que começaram a cruzar casarios fumegantes, mostraram-se anti-sociais, desapareceram simultaneamente no anoitecer, enquanto os soldados, tombados ombro contra ombro, refletiam sobre as feridas e acaso a morte que os aguardavam detrás dessas cúpulas, retratadas contra um céu azul anil que se voltava negro.

            Umas seis horas depois, os prófugos chegavam à Canudos, suplicantes, a pedir perdão ao Conselheiro por ter servido ao Cão. Levaram-nos ao armazém dos Vilanova e ali João Abade os interrogou, com luxo de detalhes, sobre os soldados que vinham e os deixou logo em mãos do Beato, que recebia sempre aos recém chegados. Os rastreadores juraram ante ele que não eram republicanos, que não aceitavam a separação da Igreja e do Estado, nem a derrocada do Imperador Pedro II, nem o matrimônio civil, nem os cemitérios laicos, nem o sistema métrico decimal, que não responderiam as perguntas do censo e que nunca mais roubariam nem se embriagariam nem apostariam dinheiro. Logo, fizeram uma pequena incisão com suas facas em prova de sua vontade de derramar seu sangue lutando contra o Anticristo. Só então foram encaminhados, por homens com armas, entre seres recém saídos do sonho pela nova de sua vinda e que os aplaudiam e lhes estreitavam a mão, até o Santuário. Na porta, apareceu o Conselheiro. Caíram de joelhos, faziam o sinal da cruz se, queriam tocar sua túnica, lhe beijar os pés. Vários, transbordados pela emoção, soluçavam. O Conselheiro, em vez de só benzê-los, olhando através deles, como fazia com os novos escolhidos, inclinou-se e foi levantando e os olhou um a um com seus olhos negros e ardentes que nenhum deles esqueceria mais. Depois pediu à Maria Quadrado e às oito devotas do Coro Sagrado — vestiam túnicas azuis rodeadas com cordões de linho — que acendessem os acendedores do Templo do Bom Jesus, como faziam cada tarde, quando ele subia à torre a dar conselhos.

            Minutos mais tarde estava no andaime, rodeado do Beato, do Leão de Natuba, da Mãe dos Homens e das devotas; à seus pés, apinhados e ofegantes no amanhecer que despontava, estavam os homens e mulheres de Canudos, conscientes de que esta seria uma ocasião mais extraordinária que outras. O Conselheiro foi, como sempre, ao essencial. Falou da transubstanciação do Pai e do Filho que eram dois e um, e três e um com o Divino Espírito Santo e, para que o escuro fosse claro, explicou que Belo Monte podia ser, também, Jerusalém. Com seu dedo indicador mostrou, na direção da Favela, a Horta das Oliveiras, onde o Filho apareceu à noite atroz da traição do Judas e, um pouco mais à frente, na Serra da Canabrava, o Monte Calvário, onde os ímpios o crucificaram entre dois ladrões. Acrescentou que o Santo Sepulcro se encontrava a um quarto de légua, em Grajaú, entre penhascos cinzentos, onde fiéis anônimos tinha plantado uma cruz. Pormenorizou, logo, ante os escolhidos silenciosos e maravilhados, por que ruelas de Canudos passava o caminho do Calvário, onde caíra Cristo a primeira vez, onde tinha encontrado a sua Mãe, em que lugar lhe limpou o rosto a pecadora redimida e de onde aonde o tinha ajudado o Cireneo a arrastar a cruz. Quando explicava que o Vale de Ipueira era o Vale de Josafat se escutaram disparos, ao outro lado das cúpulas que apartavam à Canudos do mundo. Sem apressar-se, o Conselheiro pediu à multidão —rasgada entre o feitiço de sua voz e os tiros — que cantasse um Hino composto pelo Beato: «Em louvor do Querubim». Só depois partiram com o João Abade e Pajeú grupos de homens a reforçar aos jagunços que combatiam já com a vanguarda do Major Febrônio de Brito nas bordas do monte Cambaio.

            Quando chegaram à carreira a apostar-se nas gretas, trincheiras e lajes salientes da montanha que soldados de uniformes roxos-azuis e verdes-azuis tratavam de escalar, já estavam mortos. Os jagunços colocados pelo João Abade nessa passagem obrigatória tinham visto aproximar-se ainda às escuras às tropas, e, enquanto o grosso delas descansava em Rancho das Pedras — umas oito cabanas desaparecidas pelo fogo dos incendiários — viram que uma companhia de infantes, mandada por um Tenente montado em um cavalo pinto, adiantava-se para Cambaio. Deixaram-na avançar até tê-la muito perto e, a um sinal de José Venâncio, orvalharam-na de tiros de carabina, de espingarda, de fuzil, de pedradas, de dardos, de suspensão e de insultos: «cães», «maçons», «protestantes». Só então se precaveram os soldados de sua presença. Deram meia volta e fugiram, menos três feridos que foram alcançados e rematados por jagunços saltitantes e o cavalo, que se encabritou e lançou ao chão a seu cavaleiro e rodou entre as pedras brutas, quebrando as patas. O Tenente pôde refugiar-se detrás de umas rochas e começar a disparar tanto que o animal ali continuava estendido, relinchando lúgubre, depois de várias horas de tiroteio.

            Muitos jagunços tinham sido despedaçados pelos tiros dos Krupp, que, no momento da primeira escaramuça, começaram a bombardear a montanha provocando desmoronamentos e chuva de lascas. João Grande, que estava junto ao José Venâncio, compreendeu que era suicida o amontoamento e, saltando entre as lajes, sacudindo os braços como aspas, gritou que se dispersassem, que não oferecessem esse branco compacto. Obedeceram-lhe, saltando de rocha a rocha ou esmagando-se contra o chão, enquanto, abaixo, repartidos em seções de combate ao mando de tenentes, sargentos e cabos, os soldados, em meio de uma poeirada e toques de corneta, subiam ao Cambaio. Quando chegaram João Abade e Pajeú com os reforços, tinham alcançado a metade da montanha. Os jagunços que tratavam de rechaçá-los, em que pese a estar dizimados, não tinham retrocedido. Os que traziam armas de fogo ficaram a disparar no ato, acompanhando os disparos de vociferações. Os que só levavam facões e facas, ou essas suspensões para lançar dardos com as que os sertanejos caçavam patos e veados e que Antonio Vilanova fabricava em dezenas aos carpinteiros de Canudos, conformavam-se formando cachos em torno daqueles a lhes alcançar a pólvora ou baquetear-lhes as carabinas, esperando que o Bom Jesus lhes fizesse herdar uma arma ou aproximar-se do inimigo o bastante para atacá-lo com as mãos.

            Os Krupp seguiam lançando projéteis contra as alturas e os desprendimentos de rochas causavam tantas vítimas como as balas. Ao começo do entardecer, quando figuras de roxos-azuis e verdes-azuis começaram a perfurar as linhas dos escolhidos, João Abade convenceu aos outros que deviam substituir ou se veriam cercados. Várias dezenas de jagunços tinham morrido e muito mais se encontravam feridos. Os que estiveram em condições de escutar a ordem, retrocederam e se deslizaram pela planície conhecida como o Tabolerinho para Belo Monte, foram apenas algo mais da metade dos que a véspera e essa manhã tinham percorrido em direção contrária esse caminho. José Venâncio, que se retirava entre os últimos, apoiado em um pau, com a perna encolhida e sangrando, recebeu um tiro pelas costas que o matou sem lhe dar tempo de fazer o sinal da cruz.

            O Conselheiro permanecia desde essa madrugada no Templo sem terminar, orando, rodeado das devotas, da Maria Quadrado, do Beato, do Leão de Natuba e de uma multidão de fiéis, que rezavam também, ao mesmo tempo, que tinham os ouvidos pendentes do fragor que trazia até Canudos, por um momento muito nítido, o vento do Norte. Pedrão, os irmãos Vilanova, Joaquim Macambira e os outros que ficaram ali, preparando à cidade para o assalto, estavam desdobrados com o passar do Vassa Barris. Tinham levado à suas bordas todas as armas, a pólvora e os projéteis que encontraram. Quando o ancião Macambira viu aparecer aos jagunços que retornavam de Cambaio, murmurou que, pelo visto, o Bom Jesus queria que os cães entrassem em Jerusalém. Nenhum de seus filhos advertiu que se confundiu de palavra.

            Mas não entraram. O combate se decidiu esse mesmo dia, antes de que fosse noite, no Tabolerinho, onde neste momento se foram atirando ao chão, aturdidos de fadiga e de felicidade, os soldados das três colunas do Major Febrônio de Brito, depois de ver fugir aos jagunços dos últimos contrafortes do monte, e que pressentiam aí, a menos de uma légua, a promíscua geografia de tetos e de palha e duas altíssimas torres de pedra do que consideravam já o saque de sua vitória. Enquanto os jagunços sobreviventes entravam em Canudos — sua chegada, provocava desconcerto, conversações superexcitadas, prantos, gritos, rezas a voz em pescoço—, os soldados se deixavam cair ao chão, abriam-se as jaquetas roxos-azuis, verdes-azuis, tiravam-se as perneiras, tão esgotados que nem sequer podiam dizer uns aos outros quão ditosos estavam pela derrota do inimigo. Reunidos em Conselho de Guerra, o Major Febrônio e seus quatorze oficiais decidiram acampar nesse tablado descascado, junto a uma inexistente lacuna que os mapas chamavam de Cipó e que, a partir desse dia, chamariam de Sangue. À manhã seguinte, com as primeiras luzes, dariam o assalto à toca dos fanáticos.

            Mas, antes de uma hora, quando tenentes, sargentos e cabos ainda passavam revista às companhias intumescidas, estabeleciam listas de mortos, feridos e desaparecidos e ainda surgiam entre as rochas soldados da retaguarda, assaltaram-os. Sãos ou doentes, homens ou mulheres, meninos ou velhos, todos os escolhidos em condições de brigar caíram em cima, como uma avalanche. Tinha-os convencido João Abade que deviam atacar agora mesmo, aí mesmo, todos juntos, pois já não haveria depois se não o faziam. Tinham saído atrás dele em turba tumultuosa, cruzado como correria de cabeças de gado o tablado. Vinham armados de todas as imagens do Bom Jesus, da Virgem, do Divino que havia na cidade, empunhavam todos os paus, varas, foices, forquilhas, facas e facões de Canudos, além dos trabucos, as escopetas, as carabinas, as espingardas e os Mánnlichers conquistados em Uauá, e, ao mesmo tempo que disparavam balas, partes de metal, pregos, dardos, pedras, davam alaridos, possuídos dessa coragem temerária que era o ar que respiravam os sertanejos desde que nasciam multiplicado agora neles pelo amor a Deus e o ódio ao Príncipe das Trevas que o santo soubera lhes infundir. Não deram tempo aos soldados para sair do estupor de ver de repente, nesse plano, a massa vociferante de homens e mulheres que corriam para eles como se já não fossem derrotados. Quando o susto despertou, sacudiu-os, colocou-os de pé e agarraram suas armas, já era tarde. Já os jagunços estavam sobre eles, entre eles, detrás deles, diante deles, disparando-lhes, esfaqueando-os, apedrejando-os, cravando-os, mordendo-os, arrancando-lhes os fuzis, as cartucheiras, os cabelos, os olhos, e, sobretudo, amaldiçoando-os com as palavras mais estranhas que jamais ouviram. Primeiro uns, depois outros, atinaram a fugir, confundidos, enlouquecidos, espantados ante esse arremesso súbito, insensato, que não parecia humano. Nas sombras que caíam detrás da bola de fogo que acabava de afundar-se depois das cúpulas, dispersavam-se sozinhos ou em grupos por essas bordas de Cambaio que tão esforçadamente tinham subido ao longo de toda a jornada, correndo em todas direções, tropeçando, incorporando-se, desprendendo-se as balizas de seus uniformes com a esperança de passar desapercebidos e rogando que a noite chegasse ao mesmo tempo e fosse escura.

            Poderiam morrer todos, não ficar um oficial ou soldado de linha para contar ao mundo a história desta batalha já ganha e de repente perdida; poderiam ser perseguidos, rastreados, acossados e ultimados, cada um desse meio milhar de homens vencidos que corriam sem rumo, arejados pelo medo e pela confusão, se os vencedores soubessem que a lógica da guerra é a destruição total do adversário. Todavia, a lógica dos escolhidos do Bom Jesus não era a desta terra. A guerra que eles liberavam era só na aparência, a do mundo exterior, a de uniformizados contra andrajosos, a do litoral contra o interior, a do novo Brasil contra o Brasil tradicional. Todos os jagunços eram conscientes de ser só fantoches de uma guerra profunda, intemporal e eterna, a do bem e do mal, que se vinha liberando desde o começo do tempo. Por isso os deixaram escapar, enquanto eles, à luz dos acendedores, resgatavam aos irmãos mortos e feridos que jaziam no tablado ou em Cambaio com caretas de dor ou de amor a Deus fixadas nas caras (quando a metralha lhes tinha preservado as caras). Toda a noite estiveram transportando feridos às Casas de Saúde de Belo Monte; cadáveres que, vestidos com os melhores trajes e embutidos em gavetas fabricadas a toda pressa, eram levados ao velório no Templo do Bom Jesus e à Igreja do Santo Antonio. O Conselheiro decidiu que não seriam enterrados até que o pároco de Cumbe rezasse uma missa por suas almas, e uma das devotas do Coro Sagrado, Alexandrinha Correia, foi buscá-lo.

            Enquanto o esperavam, Antonio, o Fogueteiro, preparou fogos e houve uma procissão. No dia seguinte, muitos jagunços retornaram ao lugar do combate. Despiram aos soldados e abandonaram os cadáveres nus à podridão. Em Canudos, queimaram essas jaquetas e calças com tudo o que continham, bilhetes da República, tabacos, imagens, mechas de amantes ou filhas, lembranças que lhes pareciam objetos de condenação. Mas preservaram os fuzis, as baionetas, as balas, porque assim pediram João Abade, Pajeú, os Vilanova e porque entendiam que seriam imprescindíveis se fossem atacados de novo. Como alguns resistiam, o próprio Conselheiro teve que lhes pedir que pusessem esses Mánnlichers, Winchesters, revólveres, caixas de pólvora, fileiras de munições, latas de graxa, aos cuidados de Antonio Vilanova. Os dois canhões Krupp ficaram ao pé de Cambaio, no lugar no qual bombardearam o monte. Foi queimado deles tudo o que podiam queimar, rodas e as armações — e os tubos de aço foram arrastados, com ajuda de mulas, à cidade, para que os ferreiros os fundissem.

            Em Ranchos das Pedras onde tinha estado o último acampamento do Major Febrônio de Brito os homens do Pedrão encontraram, famintas e desgrenhadas, seis mulheres que tinham seguido aos soldados, lhes cozinhando, lhes lavando a roupa e lhes dando amor. Levaram-nas à Canudos e o Beato as expulsou, lhes dizendo que não podiam permanecer em Belo Monte quem tinha servido deliberadamente ao Anticristo. Porém, uma delas, que estava grávida, dois cafusos que tinham pertencido ao bando de José Venâncio e que estavam desconsolados com sua morte, apanharam-na nos subúrbios, abriram-lhe o ventre à talhos de facão, arrancaram-lhe o feto e puseram em seu lugar um galo vivo, convencidos de que assim prestavam um serviço a seu chefe no outro mundo.

            Ouve duas ou três vezes o nome de Caifás, entre palavras que não entende, e fazendo um esforço abre os olhos e aí está a mulher de Rufino, ao lado da rede, agitada, movendo a boca, fazendo ruídos, e é dia cheio já e pela porta e as frestas das estacas o sol entra em torrentes na moradia. A luz o fere tão forte que deve pestanejar e esfregar as pálpebras enquanto se incorpora. Imagens confusas, chegam através de uma água leitosa, e à medida que seu cérebro desperta e o mundo se esclarece, o olhar e a mente de Galileo Gall descobrem uma metamorfose na habitação: foi cuidadosamente ordenada; chão, paredes, objetos, oferecem um aspecto reluzente, como se tudo fosse esfregado e lustrado. Agora entende o que diz Jurema: vem Caifás, vem Caifás. Adverte que a mulher do rastreador trocou a túnica que lhe rasgou por uma blusa e uma saia escuras, que está descalça e assustada, e enquanto trata de recordar onde caiu seu revólver essa madrugada, diz-se que não há por que se alarmar, que quem vem é o desembainhado que o levou até o Epaminondas Gonçalves e o trouxe de volta com as armas, justamente a pessoa que neste momento necessita mais. Aí está o revólver, junto a sua maleta, ao pé da imagem da Virgem de Marisco que pendura de um prego. Agarra-o e quando pensa que está sem balas vê, na porta da moradia, ao Caifás.

            — They tried to kill me — diz, precipitadamente, e, como adverte seu engano, fala em português —: Quiseram me matar, levaram as armas. Devo ver o Epaminondas Gonçalves, agora mesmo.

            — Bom dia — diz Caifás, levando dois dedos para o chapéu com tiras de couro, sem tirar-lhe dirigindo-se à Jurema de uma maneira que parece com o Gall absurdamente solene. Logo, vira-se em volta dele e faz o mesmo movimento e repete—: bom dia.

            — Bom dia — responde Gall, sentindo-se, de repente, ridículo com o revólver na mão. Guarda-o em sua cintura, entre sua calça e seu corpo, e dá dois passos para o Caifás, advertindo a confusão, a vergonha, o embaraço que se apropriou de Jurema com sua chegada: não se move, olha o chão, não sabe o que fazer com suas mãos. Galileo aponta o exterior:

            — Viu esses dois homens mortos, aí fora? Havia outro mais, que levou as armas. Devo falar com o Epaminondas, devo lhe advertir. Leve-me com ele.

            — Vi-os — disse diretamente Caifás. E se dirige a Jurema, que segue cabisbaixa, petrificada, movendo os dedos como se tivesse uma cãibra—. Chegaram soldados à Queimadas, mais de quinhentos. Procuram pistoleiros para ir à Canudos. Ao que não quer contratar, levam-no a força. Vim avisar ao Rufino.

            — Não está — balbucia Jurema, sem levantar a cabeça—. Se foi a Jacobina.

            — Soldados? — Gall dá outro passo, até quase roçar ao recém vindo—. A Expedição do Major Brito já está aqui?

            — Haverá um desfile —assente Caifás—. Estão formados no Plaza. Chegaram no trem desta manhã.

            Gall se pergunta por que o homem não se surpreende de quão mortos viu lá fora, ao chegar à cabana, por que não lhe faz perguntas sobre o que ocorreu, sobre como ocorreu, por que permanece assim, tranqüilo, imutável, inexpressivo, esperando, que coisa?, e se diz uma vez mais que a gente daqui é estranha, impenetrável, inescrutável, como lhe parecia a China ou a do Indostão. É um homem muito fraco Caifás, ossudo, brunido, com os maçãs do rosto saltadas e uns olhos que causam mal-estar pois nunca piscam, ao que apenas lhe conhece a voz, já que logo que abriu a boca durante a dupla viagem que fez a seu lado, e cujo colete de couro e calça reforçada nos fundilhos e nas pernas também, com tiras de couro e até as alpargatas de cordão parecem parte de seu corpo, uma áspera pele complementar, uma crosta. Por que sua chegada sumiu a Jurema em semelhante confusão? É pelo acontecido faz umas horas entre eles dois? O cão lanzudo aparece de algum lado e salta, salta e brinca entre os pés de Jurema e nesse momento Galileo Gall se dá conta que desapareceram as galinhas da habitação.

            — Só vi três, o que escapou levou as armas — diz, alisando a alvoroçada cabeleira avermelhada—. Terá que avisar quanto antes ao Epaminondas, isto pode ser perigoso para ele. Pode me levar a fazenda?

            — Já não está lá —diz Caifás—. Você o ouviu, ontem. Disse que ia à Bahia.

            — Sim — diz Gall. Não há mais remédio, terá que retornar à Bahia ele também. Pensa: «Já estão aqui os soldados». Pensa: «Virão em busca de Rufino, encontrarão os mortos, encontrar-me-ão». Tem que ir, sacudir essa frouxidão, essa modorra que o atendem. Mas não se move.

            —Talvez eram inimigos de Epaminondas, gente do Governador Luis Viana, do Barão — murmura, como se se dirigisse ao Caifás, mas em realidade fala consigo mesmo—. Por que, então, não veio a Guarda Nacional? Esses três não eram guardas. Talvez bandoleiros, talvez queriam as armas para suas maldades ou para vender.

            Jurema segue imóvel, cabisbaixa, e, a um metro dele, sempre quieto, tranqüilo, inexpressivo, Caifás. O cão salta, ofegante.

            — Além disso, há algo estranho — reflete Gall em voz alta, pensando «devo me esconder até que os soldados partam e retornar à Salvador», pensando, ao mesmo tempo, que a Expedição do Major Brito já está aqui, a menos de dois quilômetros, que irá à Canudos e que sem dúvida arrasará com esse broto de rebeldia cega no que ele acreditou, ou quis, ver a semente de uma revolução—. Não só procuravam as armas. Queriam me matar, isso é seguro. E não se compreende. Quem pode estar interessado em me matar, aqui em Queimadas?

            — Eu, senhor — ouviu dizer ao Caifás, com a mesma voz sem matizes, ao mesmo tempo que sente o fio da faca no pescoço, mas seus reflexos são, sempre foram rápidos e conseguiu apartar a cabeça, retroceder uns milímetros no instante que o desembainhado saltava sobre ele e sua faca, em vez de cravar-se em sua garganta, desvia-se e fere mais abaixo, à direita, na borda mesmo do pescoço e o ombro, lhe deixando no corpo uma sensação mais de frio e surpresa que de dor. Cai ao chão, está tocando a ferida, consciente de que entre seus dedos corre sangue, com os olhos muito abertos, olhando enfeitiçado ao desembainhado de nome bíblico, cuja expressão nem sequer agora se alterou, salvo, possivelmente, por suas pupilas que eram opacas e agora brilham. Tem a faca ensangüentada na mão esquerda e um revólver pequeno, com punho de concha, na direita. Aponta-o à cabeça, inclinado sobre ele, ao mesmo tempo que lhe dá uma espécie de explicação —: É uma ordem do coronel Epaminondas Gonçalves, senhor. Eu levei as armas esta manhã, eu sou o chefe desses que você matou.

            — Epaminondas Gonçalves? — rouca Galileo Gall e, agora sim, a dor de sua garganta é muito viva.

            — Necessita um cadáver inglês — parece desculpar-se Caifás, ao mesmo tempo que apura o gatilho e Gall, que inclinou automaticamente a cara, sente uma queimação na mandíbula, nos cabelos, é como se lhe arrancassem a orelha.

            — Sou escocês e odeio os ingleses — alcança a murmurar, pensando que o segundo disparo fará branco em sua frente, sua boca ou seu coração e perderá o sentido e morrerá, pois o desembainhado está alargando de novo a mão, mas o que vê, mas bem é um bólido, um revôo, Jurema que cai sobre o Caifás e se aferra a ele e o faz arrastar, e então deixa de pensar e descobrindo em si forças que já não acreditava ter se levanta e salta também sobre o Caifás, confusamente alerta de estar sangrando e ardendo e antes de que volte a pensar, a tratar de compreender o que aconteceu, o que o salvou, está golpeando com o cabo de seu revólver, com toda a energia que resta, ao desembainhado ao qual Jurema segue presa. Antes de vê-lo perder o sentido, alcança a dar-se conta de que não é a ele a quem Caifás olha enquanto se defende e recebe seus golpes, a não ser a Jurema, e que não há ódio, cólera, a não ser uma incomensurável estupefação em suas pupilas dilatadas, como se não pudesse entender o que ela fez, como se ela se jogasse contra ele, desviasse seu braço, permitisse a sua vítima levantar-se e atacá-lo, fossem coisas que não podia sequer imaginar, sonhar. Mas quando Caifás, semi-inerte a cara torcida pelos golpes, sangrando também por seu próprio sangue ou a de Gall, solta a faca e seu diminuto revólver e Gall o arrebata e vai disparar-lhe, é a mesma Jurema quem o impede, prendendo-se de sua mão, como antes da do Caifás, e chiando histericamente.

            — Dont be afraid — diz Gall, sem forças já para lutar—. Tenho que ir daqui, os soldados virão. Ajude-me a subir, mulher.

            Abre e fecha a boca, várias vezes, seguro de que neste mesmo instante vai se desabar junto ao Caifás, que parece mover-se. Com a cara torcida pelo esforço, notando que aumentou o ardor do pescoço e que agora lhe doem também os ossos, as unhas, os cabelos, vai dando socos contra os baús e os trastes da cabana, para essa labareda de luz branca que é a porta, pensando «Epaminondas Gonçalves», pensando: «Sou um cadáver inglês».

 

            O novo pároco de Cumbe, Dom Joaquim, chegou ao povoado sem fogos nem sinos uma tarde nublada que pressagiava tormenta. Apareceu em um carro de bois, com uma mala ruinosa e uma sombrinha para a chuva e o sol. Fazia uma longa viagem desde Bengalas, em Pernambuco, onde tinha sido pároco dois anos. Nos meses seguintes se diria que seu bispo o tinha afastado dali por haver-se ultrapassado com uma menor.

            Quão vizinhos encontrou à entrada de Cumbe o levaram até a Praça da Igreja e lhe mostraram a desfundada moradia onde tinha vivido o pároco do lugar, nesse tempo em que Cumbe tinha pároco. A moradia era agora um oco, com paredes e sem teto, que servia de depósito de lixo e de refúgio aos animais sem dono. Dom Joaquim se meteu à pequena Igreja de Nossa Senhora da Concepção e acomodando os bancos usáveis preparou uma cama e pôs-se a dormir, tal como estava.

            Era jovem, um pouco curvado, baixo, levemente barrigudo, e com um ar festivo que de entrada caiu simpático às pessoas. A não ser pelo hábito e a tonsura não o tivesse tomado por um homem em ativo comércio com o mundo do espírito, pois bastava alternar com ele uma vez para compreender que tanto, ou acaso mais, importavam-lhe as coisas deste mundo (sobretudo as mulheres). O mesmo dia de sua chegada demonstrou ao Cumbe que era capaz de acotovelar-se com os vizinhos como um deles e que sua presença não estorvaria substancialmente os costumes da população. Quase todas as famílias estavam congregadas na Praça da Igreja para lhe dar boas-vindas, quando abriu os olhos, depois de várias horas de sono. Era noite fechada, tinha chovido e cessado de chover e na umidade cálida cantarolavam os grilos e o céu fervia de estrelas. Começaram as apresentações, longo desfile de mulheres que lhe beijavam a mão e homens que tiravam o chapéu ao passar junto a ele, murmurando seu nome. Em poucos momentos, o Padre Joaquim interrompeu o beija-mão explicando que morria de fome e de sede. Começou então algo semelhante ao percurso das estações de Semana Santa, em que o pároco ia visitando casa por casa, para ser tratado com atenção com as melhores coisas que os aldeãos tinham. A luz da manhã o encontrou acordado, em um dos dois botequins de Cumbe, bebendo cereja com aguardente e fazendo um contraponto de décimas com o caboclo Matias de Tavares.

            Começou imediatamente suas funções, rezar missa, batizar aos que nasciam, confessar aos adultos, repartir os últimos sacramentos aos que morriam e casar aos novos casais ou às que, convivendo já, queriam arrumar-se ante Deus. Como atendia uma vasta comarca, viajava com muita freqüência. Era ativo e até abnegado no cumprimento de sua tarefa paroquial. Cobrava com moderação por qualquer serviço, aceitava que lhe devessem ou que não lhe pagassem pois, entre os vícios capitais, de que estava decididamente isento era a cobiça. Dos outros não, mas, ao menos, praticava-os sem discriminação. Com o mesmo regozijo agradecia o suculento cabrito ao forno de um fazendeiro, que o bocado de rapadura, que lhe convidava um morador e para sua garganta não havia diferenças entre aguardente antigo ou o rum de queimar aplacado com água que se tomava em tempos de escassez. Quanto às mulheres, nada parecia repeli-lo, anciãs remelentas, meninas impúberes, mulheres castigadas pela natureza com verrugas, lábios leporinos ou idiotice. À todas estava sempre elogiando e lhes insistindo para que devessem decorar o altar da Igreja. Nos folguedos, quando lhe tinham subido as cores à cara, punha-lhes a mão em cima sem o menor embaraço Aos pais, maridos, irmãos, sua condição religiosa lhes parecia desvirilizar-lo e suportavam resignados essas audácias que em outro lhes tivessem feito tirar a faca. De todo modo respiraram aliviados quando o Padre Joaquim estabeleceu uma relação permanente com a Alexandrinha Correia, a moça que por rabdomante ficou para vestir santos.

            A lenda era que a milagrosa faculdade da Alexandrinha se conheceu quando era uma garotinha, o ano da grande seca, enquanto os vizinhos de Cumbe, desesperando-se pela falta de água, abriam poços por toda parte. Divididos em equipes escavavam do amanhecer, em todos os lugares onde houve alguma vez vegetação entupida, pensando que isto era sintoma de água no subsolo. As mulheres e os meninos participavam do extenuante trabalho. Mas a terra extraída, em vez de umidade, só revelava novas capas de areia negra ou de rochas inquebráveis. Até que um dia, Alexandrinha, falando com veemência, atordoada, como se lhe ditassem palavras que logo que tinha tempo de repetir, interrompeu à equipe de seu pai, lhes dizendo que em vez de cavar ali o fizessem mais acima, ao começo do atalho que sobe ao Massacará. Não fizeram conta. Mas a menina seguiu insistindo, sapateando e movendo as mãos como inspirada. «Total, só abriremos um oco mais», disse seu pai. Foram fazer a prova nessa esplanada de calhaus amarelados, onde se bifurcam os atalhos à Carnaiba e ao Massacará. Ao segundo dia de estar tirando torrões e pedras, o subsolo começou a obscurecer-se, a umedecer-se e, por fim, no meio do entusiasmo dos vizinhos, transpirou água. Três poços mais se encontraram pelos arredores, que permitiram ao Cumbe sorte melhor que nesses outros  lugares dois anos de miséria e mortandade.

            Alexandrinha Correia se converteu, a partir de então, em objeto de reverência e de curiosidade. Para seus pais, além disso, em um ser cuja intuição trataram de aproveitar, cobrando aos casarios e aos moradores por lhes adivinhar o lugar onde deviam procurar água. Entretanto, as habilidades de Alexandrinha não se prestavam ao negócio. A menina se equivocava mais vezes das que acertava e, em muitas ocasiões, depois de farejar pelo lugar com seu nariz escoiceado, dizia: «Não sei, não me ocorre». Mas nem esses vazios nem os enganos, que sempre desapareciam sob a lembrança de seus achados, empanaram a fama com que cresceu. Sua aptidão de rabdomante a fez famosa, não feliz. Desde que se soube que tinha esse poder, levantou-se ao seu redor um muro que a isolou da gente. Os outros meninos não se sentiam cômodos com ela e os maiores não a tratavam com naturalidade. Olhavam-na com insistência, perguntavam-lhe coisas estranhas sobre o futuro ou a vida que há depois da morte e faziam que se ajoelhasse à cabeceira dos doentes e tratasse de curá-los com o pensamento. De nada valeram seus esforços para ser uma mulher igual às demais. Os homens sempre se mantiveram a respeitosa distância dela. Não a tiravam para dançar nas feiras, nem lhe deram serenatas nem a nenhum deles lhe passou pela cabeça tomá-la por mulher. Como se apaixonar fosse uma profanação.

            Até que chegou o novo pároco. O Padre Joaquim não era homem que se deixasse intimidar por auréolas de santidade ou de bruxaria no referente à mulheres. Alexandrinha tinha deixado atrás os vinte anos. Era espingarda, de nariz sempre curioso e olhos inquietos, e ainda vivia com seus pais diferente de suas quatro irmãs menores, que já tinham marido e casa própria. Levava uma vida solitária, pelo respeito religioso que inspirava e que ela não conseguia dissipar em que pese a sua simplicidade. Como a filha dos Correia só ia à Igreja à missa do domingo e como a convidavam à poucas celebrações privadas (a gente temia que sua presença, poluída de sobrenatural, impedisse a alegria) o novo pároco demorou para travar relação com ela.

            O romance devia começar pouco a pouco, sob as abundantes cajaranas da Praça da Igreja, ou nas ruelas de Cumbe onde o cura e a rabdomante deviam cruzar-se, descruzar-se, e ele olhá-la como se estivesse tomando um exame, com seus olhinhos impertinentes, vivazes, insinuantes, ao mesmo tempo que sua cara moderava a crueldade do reconhecimento com um sorriso bonachão. E ele foi o primeiro em lhe dirigir a palavra, claro está, lhe perguntando talvez sobre a festa do povo, em oito de dezembro, ou por que não a via nos rosários ou como era isso da água que lhe atribuíam. E ela devia lhe responder com esse modo rápido, direto, desajuizado que era o seu, olhando-o sem rubor. E assim deveriam acontecer os encontros casuais, outros menos casuais, conversações onde, além das intrigas de atualidade sobre os bandidos, os volantes e as rixas; namoricos locais e as confidências recíprocas; pouco a pouco iriam aparecendo malícias e atrevimentos.

            O fato é que um bom dia todo Cumbe comentava com ironia a mudança da Alexandrinha, desinteressada paroquiana que se voltou de repente a mais diligente. Via-a, cedo nas manhãs, sacudindo os bancos da Igreja, arrumando o altar e varrendo a porta. E começou a ver-se, também, na casa do pároco que, com o auxílio dos vizinhos, tinha recuperado tetos, portas e janelas. Que existia entre ambos algo mais que debilidades em oferta foi evidente o dia que Alexandrinha entrou com ar decidido ao botequim onde o Padre Joaquim, logo depois de uma festa de batismo, refugiou-se com um grupo de amigos e tocava violão e bebia, cheio de felicidade.

            A entrada da Alexandrinha o emudeceu. Ela avançou para ele e com firmeza lhe soltou esta frase: «Você vem agora mesmo comigo, porque já tomou bastante». Sem replicar, o cura a seguiu.

            A primeira vez que o santo chegou ao Cumbe, Alexandrinha Correia levava já vários anos vivendo na casa do pároco. Instalou-se ali para cuidar de uma ferida que recebeu no povoado de Rosário, onde se viu envolto em um tiroteio entre o cangaço do João Satã e os policiais do Capitão Geraldo Macedo, os Caça-bandidos, e ali ficou. Tinham tido três filhos que todos nomeavam só como filhos da Alexandrinha e lhe diziam «guardiã» de Dom Joaquim. Em presença teve um efeito moderador na vida do pároco, embora não corrigiu todos os seus costumes. Os vizinhos a chamavam quando, mais bêbado do recomendável, o cura se voltava uma complicação, e ante ela ele era sempre dócil, até nos extremos da bebedeira. Possivelmente isso contribuiu a que os vizinhos tolerassem sem muitos resmungos essa união. Quando o santo veio ao Cumbe pela primeira vez, ela era tão aceita que inclusive os pais e irmãos de Alexandrinha a visitavam em sua casa e tratavam de «netos» e «sobrinhos» à seus filhos sem o menor desconforto.

            Por isso caiu como uma bomba que, em sua primeira prédica do púlpito da Igreja de Cumbe, onde o Padre Joaquim, com sorriso complacente, tinha-lhe permitido subir, o homem alto, esquálido, de olhos crepitantes e cabelos nazarenos, envolto em uma túnica morada, destrambelhasse contra os maus pastores. Um silêncio sepulcral se fez na nave repleta de gente. Ninguém olhava ao pároco, quem, sentado no primeiro banco, tinha aberto os olhos com um pequeno coice e permanecia imóvel, a vista fixa adiante, no crucifixo ou em sua humilhação. E os vizinhos tampouco olhavam a Alexandrinha Correia, sentada na terceira fila, que, ela sim, contemplava ao pregador, muito pálida. Parecia que o santo viria ao Cumbe lecionado por inimigos do casal. Grave, inflexível, com voz que ricocheteava contra as frágeis paredes e o teto côncavo, dizia coisas terríveis contra os escolhidos do Senhor que, em que pese ter sido ordenados e vestir hábitos, convertiam-se em lacaios de Satã. Enfurecia-se em vituperar todos os pecados do Padre Joaquim: a vergonha dos pastores que em lugar de dar exemplo de sobriedade bebiam cachaça até o desvario; a indecência dos que em lugar de jejuar e ser frugais se engasgavam sem dar-se conta que viviam rodeados de gente que logo que tinha o que comer; o escândalo dos que esqueciam seu voto de castidade e se divertiam com mulheres às quais, em vez de orientar espiritualmente, perdiam-lhes dando de presente suas pobres almas ao Cão dos infernos. Quando os vizinhos se animavam a espiá-lo com a extremidade do olho, descobriam ao pároco no mesmo lugar, sempre olhando à frente, a cara cor cobre em pó. Isso que ocorreu, e que foi a fofoca da gente muitos dias, não impediu que o Conselheiro seguisse pregando na Igreja de Nossa Senhora da Concepção enquanto permaneceu em Cumbe ou que voltasse a fazê-lo quando, meses depois, retornou acompanhado por um séquito de bem-aventurados, ou que o fizesse de novo em anos sucessivos. Diferentemente foi que nos conselhos das outras vezes o Padre Joaquim costumava estar ausente. Alexandrinha, em troca, não. Estava sempre ali, na terceira fila, com o nariz escoiceado, escutando as admoestações do santo contra a riqueza e os excessos, sua defesa dos costumes austeros e suas exortações a preparar a alma para a morte mediante o sacrifício e a oração. A antiga rabdomante começou a dar demonstrações de crescente religiosidade. Acendia velas nos nichos das ruas, permanecia tempo de joelhos ante o altar, em atitude de profunda concentração, organizava ações de graças, rogativas, rosários, novenas. Um dia apareceu tocada com um trapo negro e um pingente no peito com a imagem do Bom Jesus. Disse-se que, embora seguiam sob o mesmo teto, já não ocorria entre o pároco e ela nada que ofendesse a Deus. Quando os vizinhos se animavam a perguntar ao Padre Joaquim pela Alexandrinha, ele desviava a conversação. Notava-lhe sobressaltado. Embora seguia vivendo alegremente, suas relações com a mulher que compartilhava sua casa e era mãe de seus filhos, mudaram. Ao menos em público se tratavam com a cortesia de duas pessoas que apenas se conhecem. O Conselheiro despertava no pároco de Cumbe sentimentos indefiníveis. Tinha-lhe medo, respeito, inveja, comiseração? O fato é que cada vez que chegava lhe abria a Igreja, confessava-o, o fazia comungar e enquanto estava em Cumbe era um modelo de moderação e devoção.

            Quando, na última visita do santo, Alexandrinha Correia se foi atrás dele, entre seus peregrinos, abandonando tudo o que tinha, o Padre Joaquim foi a única pessoa do povoado que não pareceu surpreender-se.

            Pensou que nunca tinha temido à morte e que tampouco lhe temia agora. Mas lhe tremiam as mãos, corriam-lhe calafrios e a cada momento se juntava mais à fogueira para esquentar o gelo de suas vísceras. E, entretanto, suava. Pensou: «Está morto de medo, Gall». Essas goteiras de suor, esses calafrios, esse gelo e esse tremor eram o pânico de que pressente a morte. Conhecia-lhe mal, companheiro. Ou mudara? Pois estava seguro de não haver sentido nada semelhante de moço, no calabouço de Paris, quando esperava ser fuzilado, nem em Barcelona, na enfermaria, enquanto os estúpidos burgueses o curavam para que subisse são ao patíbulo a ser estrangulado com um aro de ferro. Morreria: tinha chegado a hora, Galileo.

            Endureceria-lhe o falo no instante supremo, como diziam que ocorria com os enforcados e os decapitados? Alguma tortuosa verdade escondia essa crença grandiloqüente, alguma misteriosa afinidade entre o sexo e a consciência da morte. Se não fosse assim, não lhe ocorreria o desta madrugada e o de um momento atrás. Um momento? Horas, melhor. Era noite fechada e havia miríades de estrelas no firmamento. Recordou que, enquanto esperava na pensão de Queimadas, tinha planejado escrever uma carta à l'Étincelle da révolte explicando que a paisagem do céu era imensamente mais variada que o da terra nesta região do mundo e que isto sem dúvida influía na disposição religiosa da gente. Sentiu a respiração de Jurema, mesclada ao rangido da fogueira declinante. Sim, tinha sido farejar a morte perto o que o lançou sobre esta mulher, com o falo rígido, duas vezes em um mesmo dia. «Estranha relação feita de susto e sêmen e de nada mais», pensou. Por que o tinha salvado, interpondo-se, quando Caifás ia lhe dar o tiro de graça? Por que o tinha ajudado a subir à mula, acompanhado, curado, gasto até aqui? Por que se conduzia assim com quem devia odiar?

            Fascinado, recordou essa urgência súbita, premente, irrefreável, quando o animal caiu em pleno trote, jogando ambos ao chão. «Seu coração devia arrebentar como uma fruta», pensou. A que distância estavam de Queimadas? Era o rio do Peixe o regato onde se lavou e enfaixou? Tinha deixado atrás, contornando o Riacho das Onze ou ainda não tinham chegado a esse povoado? Seu cérebro era uma multidão de perguntas; mas o medo se eclipsou. Havia sentido muito medo quando a mula desabou e viu que caía, que rodava? Sim. Essa era a explicação: o medo. A repentina suspeita de que o animal tinha morrido, não de cansaço, mas sim de um disparo dos capangas que o perseguiam para convertê-lo em um cadáver inglês. E foi procurando instintivamente amparo que saltou sobre a mulher que tinha rodado ao chão com ele. Pensaria Jurema que era um louco, talvez o diabo? Tomá-la nessas circunstâncias, nesse momento, nesse estado. Aí, o desconcerto dos olhos da mulher, sua confusão, quando compreendeu, pela forma como as mãos de Gall escavavam suas roupas, o que pretendia dela. Não fez resistência esta vez, mas tampouco dissimulou seu desgosto, ou, melhor, sua indiferença. Aí, essa quieta resignação de seu corpo que tinha ficado impressa na mente de Gall enquanto jazia em terra, confuso, atordoado, tomado de algo que podia ser desejo, medo, angústia, incerteza ou um cego rechaço da armadilha em que se achava. Através de uma neblina de suor, com as feridas do ombro e do pescoço lhe doendo como se se houvessem reaberto e a vida escorresse por elas, viu a Jurema, na tarde que obscurecia, examinar à mula, lhe abrindo os olhos e a boca. Viu-a logo, sempre do chão, reunir ramos, folhas e acender uma fogueira. E a viu, com a faca que extraiu de seu cinturão sem lhe dizer palavra, fatiar umas fatias avermelhadas dos jares do animal, trespassá-los e pô-los a assar. Dava a impressão de cumprir uma rotina doméstica, como se nada anormal ocorresse, como se os acontecimentos deste dia não tivessem revolucionado sua existência. Pensou: «São as pessoas mais enigmáticas do planeta». Pensou: «Fatalistas, educadas para aceitar o que a vida lhes traga, seja bom, mau ou atroz». Pensou: «Para ela você é o atroz».

            Logo depois de um momento, pudera incorporar-se, beber uns goles de água, e, com grande esforço pelo ardor de sua garganta, mastigar. As partes de carne lhe fizeram o efeito de um manjar. Enquanto comiam, imaginando que Jurema estaria perplexa com as ocorrências, tinha tratado de explicar-lhe quem era Epaminondas Gonçalves, sua proposta das armas, como tinha sido ele quem planejou o atentado em casa do Rufino para roubar seus próprios fuzis e matá-lo, pois necessitava um cadáver de pele clara e ruivo. Mas se deu conta que não lhe interessava o que ouvia. Escutava-o mordiscando com uns dedinhos pequenos e parecidos, espantando as moscas, sem assentir nem perguntar nada, posando pouco a pouco nos seus uns olhos que a escuridão se ia tragando e que o faziam sentir-se estúpido. Pensou: «Sou-o». Ele era, demonstrou sê-lo. Ele tinha a obrigação moral e política de desconfiar, de suspeitar que um burguês ambicioso, capaz de maquinar uma conspiração contra seus adversários como a das armas, podia maquinar outra contra ele. Um cadáver inglês! Ou será que o dos fuzis não tinha sido um equívoco, um lapsus: disse-lhe que eram franceses sabendo que eram ingleses. Galileo o descobriu ao chegar à moradia do Rufino, enquanto acomodava as caixas na carroça. A marca de fábrica, na culatra, saltava à vista: Liverpool, 1891. Tinha-lhe feito uma brincadeira, mentalmente: «França não invadiu ainda a Inglaterra, que eu saiba. Os fuzis são ingleses, não franceses». Fuzis ingleses, um cadáver inglês. O que se propunha? Podia imaginar-lhe era uma idéia fria, cruel, audaz e ao melhor até efetiva. Renasceu a angústia em seu peito e pensou: «Matar-me-á». Não conhecia o território, estava ferido, era um forasteiro cujo rastro poderia assinalar todo mundo. Onde ia esconder-se? «Em Canudos.» Sim, sim. Ali se salvaria ou, quando menos, não morreria com a lastimosa sensação de ser estúpido. «Canudos lhe anistiará, companheiro», lhe ocorreu.

            Tremia de frio e lhe doíam o ombro, o pescoço, a cabeça. Para esquecer-se de suas feridas tratou de pensar nos soldados do Major Febrônio de Brito: teriam partido já de Queimadas rumo à Monte Santo? Aniquilariam esse hipotético refúgio antes de que pudesse chegar a ele? Pensou: «O projétil não ingressou, nem tocou a pele, apenas a rasgou com seu roce candente. A bala, pelo resto, tinha que ser diminuta, como o revólver, para matar pardais». Não era o balaço, a não ser a navalhada afiada: tinha entrado profundamente, talhado veias, nervos e dali subiam o ardor e as ferroadas até a orelha, os olhos, a nuca. Os calafrios o estremeciam dos pés à cabeça. Foi morrer, Gall? Subitamente recordou a neve da Europa, sua paisagem tão domesticada se o comparava com esta natureza indômita. Pensou: «Haverá hostilidade geográfica parecida em alguma região da Europa?». No sul da Espanha, na Turquia, sem dúvida, e na Rússia. Recordou a fuga de Bakunin, depois de estar onze meses encadeado ao muro de uma prisão. A contava seu pai, sentando-o em seus joelhos: a épica travessia da Siberia, o rio Amur, Califórnia, de novo a Europa e, ao chegar a Londres, a formidável pergunta: «Há ostras neste país?». Recordou os albergues que salpicavam os caminhos europeus, onde sempre havia uma chaminé ardendo, uma sopa quente e outros viajantes com quem fumar um cachimbo e comentar a jornada. Pensou: «A nostalgia é uma covardia, Gall».

            Estava-se deixando ganhar pela autocompaixão e a melancolia. Que vergonha, Gall! Não tinha aprendido sequer a morrer com dignidade? Que mais dava a Europa, o Brasil ou qualquer pedaço de terra! Não seria o mesmo resultado? Pensou: «A desagregação, a decomposição, a podridão, e, se os animais famintos não intervierem, uma frágil armação de ossos amarelados recoberta de uma pele ressecada». Pensou: «Está ardendo e morto de frio e isso se chama febre». Não era o medo, nem a bala de matar passarinhos, nem a navalhada: era uma enfermidade. Porque o mal-estar tinha começado antes do ataque do desembainhado, quando estava naquela fazenda com o Epaminondas Gonçalves; tinha ido minando sigilosamente algum órgão e estendendo-se pelo resto de seu organismo. Estava doente, não ferido gravemente. Outra novidade, companheiro. Pensou: «O destino quer completar sua educação antes de que morra, lhe infligindo experiências desconhecidas». Primeiro estuprador e logo doente! Porque não recordava havê-lo estado nem em sua mais remota infância. Ferido sim, várias vezes, e aquela, em Barcelona, gravemente. Mas doente, jamais. Tinha a sensação de que a qualquer momento perderia o sentido. Por que este esforço insensato por seguir pensando? Por que essa intuição de que enquanto pensasse seguiria vivo? Ocorreu-lhe que Jurema se foi. Apavorado, escutou: aí estava sempre sua respiração, para a direita. Já não podia vê-la porque a fogueira se consumiu de tudo.

            Tratou de dar-se ânimos sabendo que era inútil, murmurando que as circunstâncias adversas estimulavam ao verdadeiro revolucionário, dizendo-se que escreveria uma carta a l'Étincelle da révolte associando com o que ocorria em Canudos o discurso breve do Bakunin aos relojoeiros e artesãos de Chaux-de Fonds e do vale de Saint Imier em que sustentou que as grandes sublevações não se produziriam nas sociedades mais industrializadas, como profetizava Marx, a não ser nos países atrasados, agrários, cujas miseráveis massas camponesas não tinham nada que perder, como a Espanha, Rússia, e por que não? o Brasil, e tratou de repreender ao Epaminondas Gonçalves: «Ficará defraudado, burguês. Devia me matar quando estava a sua mercê, no terraço da fazenda. Sanarei, escaparei». Sanaria, escaparia, a moça o guiaria, roubaria uma cavalgadura e, em Canudos, lutaria contra o que você representava, burguês, o egoísmo, o cinismo, a avidez e...

 

            O calor não cedeu com as sombras e, diferente de outras noites de verão, não corre gota de brisa. Salvador se abrasa na escuridão. Está já às escuras, pois às doze, por ordenança municipal, apagam-se os faróis das esquinas, e os lampiões das casas dos noctâmbulos se apagaram também faz momento. Só as janelas do Jornal de Notícias, lá no alto da cidade velha, continuam acesas, e seu resplendor enrevesa ainda mais a caligrafia gótica com que está escrito o nome do jornal nos cristais da entrada.

            Junto à porta há uma calesa e o chofer e o cavalo dormitam ao uníssono. Mas os capangas de Epaminondas Gonçalves estão acordados, fumando, acotovelados no muro do escarpado, junto ao edifício do jornal. Dialogam a meia voz, assinalando algo lá abaixo, onde apenas se divisa a mole da Igreja de Nossa Senhora da Concepção da Praia e a orla de espuma da escolho. A ronda do cavalo passou faz tempo e não voltará até o amanhecer.

            Dentro, na sala da Redação-Administração, está, sozinho, esse jornalista jovem, fraco, desajeitado, cujos espessos óculos de míope, seus freqüentes espirros e sua mania de escrever com uma pluma de ganso em vez de fazê-lo com uma de metal são motivo de brincadeiras entre a gente do ofício. Inclinado sobre sua carteira, desgraçada a cabeça imersa no halo da lamparina, em uma postura que o agüenta e mantém enviesado do tabuleiro, escreve depressa, detendo-se só para molhar a pluma no tinteiro ou consultar um livro de apontamentos, que aproxima dos óculos quase até tocá-los. O traço da pluma é o único ruído da noite. Hoje não se ouve o mar e o escritório da Direção, também iluminada, permanece em silêncio, como se Epaminondas Gonçalves dormiu sobre seu escritório.

            Mas quando o jornalista míope põe ponto final a sua crônica e, rápido, cruza a ampla sala e entra em seu escritório, encontra ao chefe do Partido Republicano Progressista com os olhos abertos, esperando-o. Tem os cotovelos sobre a mesa e as mãos cruzadas. Ao vê-lo, sua cara moréia, angulosa, em que rasgos e ossos estão sublinhados por essa energia interior que lhe permite passar as noites em branco em reuniões políticas e logo trabalhar todo o dia sem dar demonstrações de cansaço, distende-se como se se dissesse «por fim».

            —Terminada? — murmura.

            —Terminada. — O jornalista míope lhe estira o maço de papéis. Mas Epaminondas Gonçalves não os agarra.

            — Prefiro que a leoa — diz—. Ouvindo-a, dar-me-ei conta melhor como saiu. Senta-se aí, perto da luz.

            Quando o jornalista vai começar a ler o sobressalta um espirro, e logo outro, e finalmente uma rajada que o obriga a tirar os óculos, e a cobrir a boca e o nariz com um enorme lenço que saca de sua manga, como um prestidigitador.

            —É a umidade do verão — se desculpa, limpando a cara congestionada.

            —Sim — atalha-o Epaminondas Gonçalves—. Leia, por favor.

 

                                   Um Brasil Unido, Uma Nação Forte

                                   JORNAL DE NOTÍCIAS

                                   (Proprietário: Epaminondas Gonçalves)

                                   Bahia, 3 de Janeiro de 1897

 

            A Derrota da Expedição do Major Febrônio de Brito no sertão de Canudos

 

                                               Novos Desenvolvimentos

O PARTIDO REPUBLICANO PROGRESSISTA ACUSA AO GOVERNADOR E AO PARTIDO AUTONOMISTA DE BAHIA DE CONSPIRAR CONTRA A REPÚBLICA PARA RESTAURAR A ORDEM IMPERIAL OBSOLETA

                                               O cadáver do «agente inglês»

            Comissão de Republicanos viaja ao Rio para pedir intervenção do Exército Federal contra fanáticos subversivos

TELEGRAMA DE PATRIOTAS bahianos AO CORONEL Moreira César: «SALVE À REPÚBLICA!».

            A derrota da Expedição militar comandada pelo Major Febrônio de Brito e composta por efetivos dos Batalhões de Infantaria 9, 26 e 33 e os indícios crescentes de cumplicidade da coroa inglesa e de latifundiários bahianos de conhecida filiação autonomista e nostalgias monárquicas com os fanáticos de Canudos, provocaram na noite de segunda-feira uma nova tormenta na Assembléia Legislativa do Estado da Bahia. O Partido Republicano Progressista, através de seu Presidente, o Exmo. Sr. Deputado Dom Epaminondas Gonçalves acusou formalmente ao Governador do Estado da Bahia, Exmo. Sr. Dom Luis Viana, e aos grupos tradicionalmente vinculados ao Barão da Canabrava — Ex-ministro do Império e Ex-embaixador do Imperador Pedro II ante a coroa britânica — de ter atiçado e armado a rebelião de Canudos, com ajuda da Inglaterra a fim de produzir a queda da República e a restauração da monarquia. Os Deputados do Partido Republicano Progressista exigiram a intervenção imediata do Governo Federal no Estado da Bahia para sufocar o que o Exmo. Sr. Deputado Dom Epaminondas Gonçalves chamou «conjuração sediciosa do sangue azul nativo e a cobiça albiônica contra a soberania do Brasil». De outra parte, anunciou-se que uma Comissão constituída por figuras proeminentes da Bahia partiu para o Rio de Janeiro a transmitir ao Presidente Prudente de Morais o clamor baiano de que envie forças do Exército Federal a aniquilar o movimento subversivo de Antonio Conselheiro.

            Os Republicanos Progressistas recordaram que aconteceram já duas semanas da derrota da Expedição Brito, por rebeldes muito superiores em número e em armas, e apesar disso, e do descobrimento de um carregamento de fuzis ingleses destinados à Canudos e do cadáver do agente inglês Galileo Gall na localidade de Ipupiará, as autoridades do Estado, começando pelo Exmo. Sr. Governador Dom Luis Viana, mostraram uma passividade e abulida suspeitas, ao não ter solicitado no ato, como o reclamam os patriotas da Bahia, a intervenção do Exército Federal para esmagar esta conjuração que ameaça a essência mesma da nacionalidade brasileira.

            O Vice-Presidente do Partido Autonomista e Presidente da Assembléia Legislativa, Exmo. Cavalheiro Dom Adalberto de Gumucio, disse que era uma infâmia sugerir sequer, que alguém como o Barão de Canabrava, pró-homem baiano graças a quem este Estado tinha carreteiras, ferro-carros, pontes, hospitais de Beneficência, escolas e multidão de obras públicas, pudera ser acusado, e para colmo in absentia, de conspirar contra a soberania brasileira.

            O Exmo Sr. Deputado Dom Floriano Mártir disse que o Presidente da Assembléia preferia banhar em incenso a seu parente e chefe de Partido, Barão da Canabrava, em lugar de falar do sangue dos soldados derramado em Uauá e em Cambaio pelo sebastianistas degenerados, ou das armas inglesas expropriadas nos sertões ou do agente inglês Gall, cujo cadáver encontrou a Guarda Rural em Ipupiará. E se perguntou: «deve-se esta escamoteação talvez, a que ditos tema fazem sentir incômodo ao Exmo. Sr. Presidente da Assembléia?». O Deputado do Partido Autonomista, Exmo. Sr. Dom Eduardo Glicério disse que os Republicanos, em suas ânsias de poder inventam títeres, conspirações de espiões carbonizados e de cabeleiras albinas que são os bobos do povo sensato da Bahia. E perguntou: «Acaso o Barão da Canabrava não é o primeiro prejudicado com a rebelião dos fanáticos desalmados? Acaso não ocupam estes ilegalmente terras de sua propriedade?». Ao qual o Exmo. Sr. Deputado Dom Dantas Horcadas o interrompeu para dizer: «E se essas terras não fossem usurpadas , mas, emprestadas?». O Exmo. Sr. Deputado Dom Eduardo Glicério replicou perguntando ao Exmo. Sr. Deputado Dom Dantas Horcadas se no Colégio Salesiano não lhe tinham ensinado que não se interrompe a um cavalheiro enquanto fala. O Exmo. Sr. Deputado Dom Dantas Horcadas repôs que ele não sabia que estivesse falando nenhum cavalheiro. O Exmo. Sr. Deputado Dom Eduardo Glicério exclamou que esse insulto teria sua resposta no campo da honra, a menos que lhe apresentassem desculpas ipso facto. O Presidente da Assembléia, Exmo. Cavalheiro Adalberto de Gumucio exortou ao Exmo. Sr. Deputado Dom Dantas Horcadas a apresentar desculpas a seu colega, em altares da harmonia e majestade da instituição. O Exmo. Sr. Deputado Dom Dantas Horcadas disse que ele se limitou a dizer que não estava informado que, em um sentido estrito, houvesse ainda no Brasil cavalheiros, nem barões, nem viscondes, porque, do glorioso governo republicano do Marechal Floriano Peixoto, benemérito da Pátria, cuja lembrança viverá sempre no coração dos brasileiros, todos os títulos nobiliários tinham passado a ser papéis imprestáveis. Mas que não estava em seu ânimo ofender a ninguém, e menos ao Exmo. Sr. Deputado Dom Eduardo Glicério. Com o qual este se deu por satisfeito.

            O Exmo. Sr. Deputado Dom Rocha Seabra, disse que não podia permitir que um homem que se honra e preza do Estado, como o Barão da Canabrava, fora enlodado por ressentidos cujo histórico não luz nem a centésima parte de bens dispensados a Bahia pelo fundador do Partido Autonomista. E que não podia entender que se enviassem telegramas chamando baiano a um jacobino como o Coronel Moreira César, cujo sonho, a julgar pela crueldade com que reprimiu o levantamento da Santa Catarina, era colocar guilhotinas nas praças do Brasil e ser o Robespierre nacional. O que motivou um irado protesto dos Exmos. Srs. Deputados do Partido Republicano Progressista, quem, postos de pé, aclamaram ao Exército, ao Marechal Floriano Peixoto, ao Coronel Moreira César e exigiram satisfações pelo insulto inferido a um herói da República. Retomando a palavra o Exmo. Sr. Deputado Dom Rocha Seabra disse que não tinha sido sua intenção injuriar ao Coronel Moreira César, cujas virtudes militares admirava, nem ofender a memória do extinto Marechal Floriano Peixoto, cujos serviços à República reconhecia, a não ser deixar claro que era oposto à intervenção dos militares na política, pois não queria que o Brasil corresse a sorte desses países sul-americanos cuja história é uma mera sucessão de pronunciamentos de quartel. O Exmo. Sr. Deputado Dom Elisio de Torre o interrompeu para lhe recordar que tinha sido o Exército do Brasil quem pôs fim a velha monarquia e instalado a República, e, novamente de pé, os Exmos. Srs. Deputados da oposição renderam comemoração ao Exército e ao Marechal Floriano Peixoto e ao Coronel Moreira César. Reatando sua interrompida intervenção, o Exmo. Sr. Deputado Dom Rocha Seabra disse que era absurdo que se pedisse uma intervenção federal quando Sua Excelência o Governador Dom Luis Viana tinha afirmado repetidamente que o Estado da Bahia estava em condições de sufocar o caso de banditismo e loucura Sebastianista que representava Canudos. O Exmo. Sr. Deputado Dom Epaminondas Gonçalves recordou que os rebeldes tinham dizimado já duas expedições militares nos sertões e perguntou ao Exmo. Sr. Deputado Dom Rocha Seabra quantas forças expedicionárias mais deviam ser massacradas, a seu julgamento, para que se justificasse uma intervenção federal. O Exmo. Sr. Deputado Dom Dantas Horcadas disse que o patriotismo autorizava, a ele e a qualquer, a arrastar pelo lodo a quem quer se dedicasse a fabricar lodo, quer dizer a atiçar rebeliões restauradoras contra a República e em cumplicidade com a Pérfida Albión. O Exmo. Sr. Deputado Dom Lelis Piedades disse que a prova mais terminante de que o Barão da Canabrava não tinha a mínima intervenção nos acontecimentos provocados pelos desalmados de Canudos era o achar-se já vários meses afastado do Brasil. O Exmo. Sr. Deputado Floriano Mártir disse que a ausência, em vez de desculpá-lo, podia delatá-lo, e que a ninguém enganava semelhante álibi, pois toda a Bahia era consciente de que no Estado não se movia um dedo sem autorização, ou ordem expressa do Barão da Canabrava. O Exmo. Sr. Deputado Dom Dantas Horcadas disse que era suspeito e ilustrativo que os Exmos. Srs. Deputados da maioria se negassem, impedindo a debater sobre o carregamento de armas inglesas e sobre o agente inglês Gall enviado pela coroa britânica para assessorar aos rebeldes em seus protestos intentos. O Exmo. Sr. Presidente da Assembléia, Cavalheiro Adalberto de Gumucio, disse que as especulações e fantasias ditadas pelo ódio e a ignorância se desbaratavam com a simples menção da verdade. E anunciou que o Barão da Canabrava desembarcaria em terra bahiana dentro de poucos dias, onde não só os Autonomistas, mas também, todo o povo lhe daria o recebimento triunfal que merecia e que seria o melhor desagravo contra os infundados de quem pretendia associar seu nome, o de seu Partido e o das autoridades da Bahia, com os lamentáveis acontecimentos de bandidismo e degeneração moral de Canudos. Ao qual, postos de pé, os Exmos. Srs. Deputados da maioria fizeram coro e aplaudiram o nome de seu Presidente, Barão da Canabrava, tanto que os Exmos. Srs. Deputados do Partido Republicano Progressista permaneciam sentados e removiam seus assentos em sinal de reprovação.

            A sessão foi interrompida uns minutos para que os Exmos. Srs. Deputados tomassem um refrigério e moderassem os ânimos. Mas, durante o intervalo, escutaram-se nos corredores da Assembléia viva discussões e mudanças de palavras e os Exmos. Srs. Deputados Dom Floriano Mártir e Dom Rocha Seabra foram separados por seus respectivos amigos pois estiveram a ponto de atar-se a trombadas.

            Ao reatar a sessão, o Exmo. Sr. Presidente da Assembléia, Cavalheiro Adalberto de Gumucio, propôs que, em vista do recarregado da Ordem do dia, procedesse-se a discutir o novo partido pressuposto, solicitado pela Governação para estender novas vias da ferrovia de penetração ao interior do Estado. Esta proposta motivou a zangada reação dos Exmos. Srs. Deputados do Partido Republicano Progressista, quem, de pé, aos gritos de «Traição!» «Manobra indigna!», exigiram que se reatasse o debate sobre o mais candente dos problemas da Bahia e agora do país inteiro. O Exmo. Sr. Deputado Dom Epaminondas Gonçalves advertiu que se a maioria pretendia escamotear o debate sobre a rebelião restauradora de Canudos e a intervenção da coroa britânica nos assuntos brasileiros, ele e seus companheiros abandonariam a Assembléia, pois não toleravam que se enganasse ao povo com farsas. O Exmo. Sr. Deputado Dom Elisio de Torre disse que os esforços do Exmo. Sr. Presidente da Assembléia para impedir o debate eram uma demonstração evidente do embaraço que produzia ao Partido Autonomista que se tocasse o tema do agente inglês Gall e das armas inglesas, o que não era estranho, pois de todos eram conhecidas as nostalgias monárquicas e anglófilas do Barão da Canabrava.

O Exmo. Sr. Presidente da Assembléia, Cavalheiro Adalberto de Gumucio, disse que os Exmos. Srs. Deputados da oposição não conseguiriam seu propósito de amedrontar a ninguém com chantagens e que o Partido Autonomista baiano era o primeiro interessado, por patriotismo, em esmagar aos sebastianistas fanáticos de Canudos e em restaurar a paz e a ordem nos sertões. E que, em vez de fugir nenhuma discussão, antes bem a desejavam.

            O Exmo. Sr. Deputado Dom João Seixas de Pondé disse que só quem carecia de sentido de ridículo podiam continuar falando do suposto agente inglês Galileo Gall, cujo cadáver carbonizado dizia ter encontrado em Ipupiará a Guarda Rural Bahiana, tropa que pelo resto, segundo vox populi, era recrutada, financiada e controlada pelo Partido da oposição, expressões que motivaram irados protestos dos Exmos. Srs. Deputados do Partido Republicano Progressista. Acrescentou o Exmo. Sr. Deputado Dom João Seixas de Pondé que o Consulado britânico na Bahia tinha dado fé de que, tendo conhecimento de que o sujeito apelidado Gall era de maus antecedentes, tinha-o feito saber às autoridades do Estado para que procedessem em conseqüência, fazia disto dois meses, e que o Comissionado de Polícia da Bahia o tinha confirmado, assim como dado a luz pública a ordem de expulsão do país que foi comunicada a dito sujeito para que partisse no navio francês «La Marseillaise». Que o fato de que o tal Galileo Gall tivesse desobedecido a ordem de expulsão e aparecesse um mês mais tarde, morto, junto a uns fuzis, no interior do Estado não provava nenhuma conspiração política nem intervenção de potência estrangeira alguma, a não ser, ao mais, que o referido trapaceiro pretendia contrabandear armas com esses seguros compradores, cheios de dinheiro por seus múltiplos latrocínios, que eram os fanáticos sebastianistas de Antonio Conselheiro. Como a intervenção do Exmo. Sr. Deputado Dom João Seixas de Pondé provocou a hilaridade dos Exmos. Srs. Deputados da oposição, quem lhe fez gestos de ter asas angélicas e auréola de santidade, o Exmo. Sr. Presidente da Assembléia, Cavalheiro Adalberto de Gumucio, chamou à sala à ordem. O Exmo. Sr. Deputado Dom João Seixas de Pondé, disse que era uma hipocrisia armar semelhante alvoroço pelo achado de uns fuzis no sertão, quando todo mundo sabia que o tráfico e contrabando de armas era desgraçadamente um pouco generalizado no interior e, se não, que dissessem os Exmos. Srs. Deputados da oposição de onde tinha armado o Partido Republicano Progressista aos capangas e cangaceiros com os que tinha formado esse Exército privado que era a chamada Guarda Rural Bahiana, que pretendia funcionar à margem das instituições oficiais do Estado. Vaiado com indignação o Exmo. Sr. Deputado Dom João Seixas de Pondé pelos Exmos. Srs. Deputados do Partido Republicano Progressista, por suas agravantes palavras, o Exmo. Sr. Presidente da Assembléia devia impor uma vez mais a ordem.

            O Exmo. Sr. Deputado Epaminondas Gonçalves disse que os Exmos. Srs. Deputados da maioria se afundavam cada vez mais em suas contradições e embustes como ocorre fatalmente a quem caminha sobre areias movediças. E agradeceu ao céu que fosse a Guarda Rural a que capturou os fuzis ingleses e ao agente inglês Gall, pois era um corpo independente, são e patriótico, genuinamente republicano, que alertou às autoridades do Governo Federal sobre a gravidade dos acontecimentos e fez o necessário para impedir que fossem ocultas as provas da colaboração dos monárquicos nativos com a coroa britânica na conjuração contra a soberania brasileira da que Canudos era ponta de lança. Porque se não fosse a Guarda Rural, disse, a República não se inteiraria, jamais, da presença de agentes ingleses conduzindo carregamentos de fuzis para os restauradores de Canudos pelo sertão. O Exmo. Sr. Deputado Dom Eduardo Glicério o interrompeu para lhe dizer que do famoso agente inglês o único que se conhecia era um punhado de cabelos que podiam pertencer a uma senhora loira, ou ser as crinas de um cavalo, saída que motivou risadas tanto nos bancos da maioria como nas da oposição. Retomando a palavra o Exmo. Sr. Deputado Dom Epaminondas Gonçalves disse que celebrava o bom humor do Exmo. Sr. Deputado que o tinha interrompido, mas que quando os altos interesses da Pátria se achavam ameaçados, e estava ainda morno o sangue dos patriotas caídos em defesa da República em Uauá e em Cambaio, o momento era possivelmente inapropriado para brincadeiras, o que arrancou uma fechada ovação dos Exmos. Srs. Deputados opositores.

            O Exmo. Sr. Deputado Dom Elisio de Torre recordou que havia provas, contorvérsias, da identidade do cadáver encontrado em Ipupiará, junto com os fuzis ingleses, e disse que as negar era negar a luz do sol. Recordou que duas pessoas que tinham conhecido e tratado ao espião inglês Galileo Gall enquanto vivia na Bahia, o cidadão Jan Van Rijsted e o distinto facultativo Dr. José Batista de Sá Oliveira, tinham reconhecido como suas as roupas do agente inglês, seu levita, a correia de sua calça, suas botas e sobretudo a chamativa cabeleira avermelhada que os homens da Guarda Rural que encontraram o cadáver tinham tido o bom tino de cortar. Recordou que ambos os cidadãos tinham testemunhado igualmente sobre as idéias dissolventes do inglês e seus claros propósitos conspiratórios em relação à Canudos e que a nenhum dos dois lhes surpreendeu que fosse encontrado seu cadáver naquela região. E, finalmente, recordou que muitos cidadãos dos povos do interior tinham testemunhado à Guarda Rural que tinham visto o estrangeiro de cabeleira tinta e português estranho tratando de conseguir guias para que o levassem à Canudos. O Exmo. Sr. Deputado Dom João Seixas de Pondé disse que ninguém negava que o sujeito chamado Galileo Gall fosse encontrado morto, e com fuzis, em Ipupiará, mas sim fosse um espião inglês, pois sua condição de estrangeiro não indicava absolutamente nada por si mesmo. Por que não podia ser um espião dinamarquês, sueco, francês, alemão ou da Cochinchina?

            O Exmo. Sr. Deputado Dom Epaminondas Gonçalves disse que, ao escutar as palavras dos Exmos. Srs. Deputados da maioria, quem, em vez de vibrar de cólera quando se tinha a evidência de que uma potência estrangeira queria misturar-se nos assuntos internos do Brasil, para escavar a República e restaurar a velha ordem aristocrática e feudal, tentavam desviar a atenção pública para questões paralelas e procurar desculpas e atenuantes para os culpados, tinha-se a prova mais terminante de que o Governo do Estado da Bahia não levantaria um dedo para pôr fim à rebelião de Canudos, pois, pelo contrário, sentia-se intimamente agradado com ela. Mas que as maquiavélicas maquinações do Barão da Canabrava e dos Autonomistas não prosperariam porque para isso estava o Exército do Brasil, que, assim como tinha esmagado até agora todas as insurreições monárquicas contra a República no Sul do país, esmagaria também a de Canudos. Disse que quando a soberania da Pátria estava em jogo sobravam as palavras e que o Partido Republicano Progressista abriria amanhã mesmo uma coleta para comprar armas que seriam entregues ao Exército Federal. E propôs aos Exmos. Srs. Deputados do Partido Republicano Progressista abandonar o local da Assembléia aos nostálgicas da velha ordem, e dirigir-se em romaria à Campo Grande, a reavivar o juramento de republicanismo ante a placa de mármore que rememora ao Marechal Floriano Peixoto. O qual procederam a fazer imediatamente, ante o desconcerto dos Exmos. Srs. Deputados da maioria.

            Minutos depois, o Exmo. Sr. Presidente da Assembléia, Cavalheiro Adalberto de Gumucio, enclausurou a sessão.

            Amanhã daremos conta da cerimônia patriótica levada a cabo, em Campo Grande, ante a placa de mármore do Marechal de Ferro, pelos Excelentíssimos Srs. Deputados do Partido Republicano Progressista, em horas da madrugada.

 

            — Não terá que acrescentar nem tirar uma vírgula — diz Epaminondas Gonçalves. Mais que satisfação, sua cara revela alívio, como se tivesse temido o pior dessa leitura que o jornalista acaba de fazer, de deslocado, sem que o interrompessem os espirros —. O felicito.

           — Certa ou falsa, é uma história extraordinária — resmunga o jornalista, que não parece ouvi-lo —. Que um enganador de feira, que andava dizendo pelas ruas de Salvador que os ossos são a escritura da alma e que pregava a anarquia e o ateísmo nos botequins, resulte um emissário da Inglaterra que trama com os sebastianistas para restaurar a monarquia e que apareça queimado vivo no sertão não é extraordinário?

            — É — assente o chefe do Partido Republicano Progressista—. E o é mais ainda que esses que pareciam um grupo de fanáticos dizimem e ponham em disparada a um batalhão armado com canhões e metralhadoras. Extraordinário, sim. Mas, sobretudo, aterrador para o futuro deste país.

            O calor se acrescentou e a cara do jornalista míope está coberta de suor. Limpa-a com esse lençol que faz as vezes de lenço e logo esfrega contra o alhado peitilho de sua camisa seus óculos empanados.

            — Eu mesmo levarei isto aos tipógrafos e ficarei enquanto armam a página —diz, compilando as folhas pulverizadas pelo escritório—. Não haverá erratas, não se preocupe. Vá descansar tranqüilo, senhor.

            — Está você mais contente trabalhando comigo que no periódico do Barão? —pergunta-lhe seu chefe, à boca de jarro—. Já sei que aqui ganha mais que no Jornal da Bahia. Refiro-me ao trabalho. Prefere-o?

            — A verdade, sim. — O presidente coloca os óculos e fica um momento petrificado, esperando o espirro com os olhos entrecerrados, a boca semiaberta e o nariz palpitante. Mas é um falso alarme—. A crônica política é mais divertida que escrever sobre os estragos que causa a pesca com explosivos na Ribeira do Itapagipe ou o incêndio da Chocolateria Magalhães.

            —E, além disso, é fazer pátria, contribuir a uma boa causa nacional — diz Epaminondas Gonçalves—. Porque, você é um dos nossos, não é verdade?

            —Não sei o que sou, senhor — responde o jornalista, com essa voz que é tão desigual como seu físico: momentos aguda e momentos grave, com eco—. Não tenho idéias políticas nem me interessa a política.

            —Eu gosto de sua franqueza — ri o dono do jornal, ficando de pé, empunhando uma maleta—. Estou contente com você. Suas crônicas são impecáveis, dizem exatamente o que tem que dizer e da maneira devida. Alegro-me lhe haver creditado a seção mais delicada.

            Levanta a lamparina, apaga a chama soprando e sai do despacho seguido pelo jornalista que, ao cruzar a soleira da Redação-Administração, tropeça contra uma escarradeira.

            — Então, vou pedir lhe algo, senhor — diz, de repente—. Se o Coronel Moreira César deve debelar a insurreição de Canudos, queria ir com ele, como enviado do Jornal de Notícias.

            Epaminondas Gonçalves tornou a olhá-lo e examina, enquanto coloca o chapéu.

           — Suponho que é possível — diz —. Já vê, é você dos nossos, embora não lhe interessa a política. Para admirar ao Coronel Moreira César terá que ser um republicano a carta cabal.

            — Não sei se é admiração — precisa o jornalista, abanando-se com os papéis—. Ver um herói de carne e osso, estar perto de alguém tão famoso resulta muito tentador. Como ver e tocar a um personagem de novela.

            — Terá você que cuidar-se, o Coronel não gosta dos jornalistas — diz Epaminondas Gonçalves. Afasta-se já para a saída —. Começou sua vida pública matando à balaços nas ruas do Rio a um plumário que tinha insultado ao Exército.

            — Boa noite — murmura o jornalista. Trota para o outro extremo do local, onde um corredor lôbrego comunica com a oficina. Os tipógrafos, que ficaram de guarda esperando sua crônica, convidar-lhe-ão certamente a uma taça de café.

 

            O trem entra apitando na estação de Queimadas, engalanada com banderolas que dão boas-vindas ao Coronel Moreira César. Na estreita plataforma de telhas vermelhas se apinha uma multidão, sob um grande tecido branco que sobrevoa os trilhos, ondeando: «Queimadas Saúda o Heróico Coronel Moreira César E a Seu Glorioso Regimento. Viva O Brasil!» Um grupo de meninos descalços agitam bandeirinhas e há meia dúzia de senhores endomingados, com as insígnias da Câmara de vereadores Municipal no peito e chapéus nas mãos, rodeados por uma massa de gente esfarrapada e miserável, que olha com grande curiosidade e entre a qual se movem mendigos pedindo esmola e vendedores de rapadura e frituras.

            Gritos e aplausos recebem a aparição, na escalinata do trem — os guichês estão lotados de soldados com fuzis — do Coronel Moreira César. Vestido com uniforme de pano azul, botões e esporas douradas, galões e cós encarnados e espada ao cinto, o Coronel salta à plataforma. É pequeno, quase raquítico, muito ágil. O calor molha de suor todas as caras mas ele não está suando. Sua debilidade física contrasta com a força que parece gerar em torno, devido à energia que bole em seus olhos ou à segurança de seus movimentos. Olha como alguém que é dono de si mesmo, sabe o que quer e costuma mandar.

            Os aplausos e vítores correm pela plataforma e a rua, onde a gente se protege do sol com pedaços de cartão. Os meninos jogam no ar punhados de papel picado e os que levam bandeiras as agitam. As autoridades se adiantam, mas o Coronel Moreira César não se detém lhes dar a mão. Foi rodeado por um grupo de oficiais. Faz-lhes uma vênia cortês e logo grita, em direção à multidão: «Viva a República! Viva o Marechal Floriano!» Ante a surpresa dos Vereadores, quem, não há dúvida, esperavam dizer discursos, conversar com ele, acompanhá-lo, o Coronel ingressa na estação, escoltado por seus oficiais. Tratam de segui-lo, mas os detêm os sentinelas na porta que acaba de fechar-se. Ouve-se um relincho. Do trem estão baixando um formoso cavalo branco, entre o regozijo da criançada. O animal desperta o corpo, agita as crinas, relincha feliz de sentir a vizinhança do campo. Agora, por portas e janelas do trem descem filas de soldados, descarregam vultos, valises, caixas de munições, metralhadoras. Um rumor recebe a aparição dos canhões, que cintilam. Os soldados estão aproximando juntas de bois para arrastar os pesados artefatos. As autoridades, com um gesto resignado, somar-se-ão aos curiosos que, amontoados ante portas e janelas, espiam o interior da estação, tratando de divisar ao Moreira César entre o grupo movediço de oficiais, adjuntos, ordenanças.

            A estação é um só recinto, grande, dividido por um tabique depois do qual está o telegrafista, trabalhando. O lado oposto à plataforma dá a uma construção de dois pisos, com um rótulo: Hotel Continental. Soldados por toda parte, na desarborizada avenida Itapicurú, que sobe para o Plaza Matriz. Detrás das dezenas de caras que se esmagam contra os cristais, observando o interior da estação, prossegue o desembarque da tropa, de maneira febril. Ao que parece a bandeira do Regimento, que um soldado faz ondular ante a multidão, escuta-se uma nova salva de aplausos. Na esplanada, entre o Hotel Continental e a estação, um soldado escova o cavalo branco de vistosa crina. Em uma esquina do recinto há uma larga mesa com jarras, garrafas e fontes de comida protegidas das miríades de moscas por retalhos de tule, a que ninguém faz conta. Bandeirinhas e grinaldas penduram do teto, entre pôsteres do Partido Republicano Progressista e do Partido Autonomista baiano com Vivas ao Coronel Moreira César, à República e ao Sétimo Regimento de Infantaria do Brasil.

            Em meio de uma formigante animação, o Coronel Moreira César troca o uniforme de pano pelo traje de campanha. Dois soldados levantaram uma manta diante do tabique do telégrafo e, desde esse improvisado refúgio, o Coronel lança seus objetos que um ajudante recebe e guarda em um baú. Enquanto se veste, Moreira César fala com três oficiais que se acham ante ele em posição firme.

            — Parte de efetivos, Cunha Matos.

            O Major choca ligeiramente os calcanhares ao começar a falar:

            — Oitenta e três homens atacados de varíola e de outras enfermidades — diz, consultando um papel—. Mil duzentos e trinta e cinco combatentes. Os quinze milhões de cartuchos e os setenta tiros de artilharia estão intactos Excelência.

            — Que a vanguarda parta dentro de duas horas para Monte Santo, sem mais demorar. — A voz do Coronel é retilínea, sem matizes, impessoal—. Você, Olímpio, desculpe-me com a Câmara de vereadores Municipal. Recebe-los-ei mais tarde, um momento. Explique-lhes que não podemos perder tempo em cerimônias nem hospedagens.

            — Sim, Excelência.

            Quando o Capitão Olímpio de Castro se retira, adianta-se o terceiro oficial. Tem galões de coronel e é um homem envelhecido, algo rechoncho e de olhar aprazível:

            — Estão aqui o Tenente Pires Ferreira e o Major Febrônio de Brito. Têm ordens de incorporar-se ao Regimento, como assessores. Moreira César fica um instante meditabundo.

            — Que sorte para o Regimento — murmura, de maneira quase inaudível—. Traga-os, Tamarindo.

            Um ordenança, ajoelhado, ajuda-o a calçar umas botas de montar, sem esporas. Um momento depois, precedidos pelo Coronel Tamarindo, Febrônio de Brito e Pires Ferreira vêm a quadrar-se ante a manta. Fazem soar os tacos, dizem seus nomes, seus graus e «À suas ordens». A manta cai ao chão. Moreira César leva pistola e espada ao cinto, as mangas da camisa arregaçadas e seus braços são curtos, fracos e imberbes. Observa dos pés a cabeça aos recém vindos, sem dizer uma palavra, com olhar glacial.

            — É uma honra para nós pôr nossa experiência desta região ao serviço do chefe mais prestigioso do Brasil, Excelência.

           O Coronel Moreira César olha nos olhos de Febrônio de Brito, fixamente, até vê-lo desconcertar-se.

            — Experiência que não lhes serve nem para enfrentar um punhado de bandidos.  — Não subiu a voz, mas, no ato, o recinto parece eletrizar-se, paralisar-se. Esquadrinhando ao Major como a um inseto, Moreira César aponta ao Pires Ferreira com um dedo —: Este oficial mandava uma Companhia. Mas você tinha meio milhar de homens e se fez derrotar como um novato. Desprestigiaram ao Exército e, portanto, à República. Sua presença é ingrata ao Sétimo Regimento. Ficam proibidos de entrar em ação. Permanecerão na retaguarda, encarregados dos doentes e do gado. Podem retirar-se.

            Os dois oficiais estão lívidos. Febrônio de Brito sua copiosamente. Entreabre a boca, como se fosse dizer algo, mas opta por saudar e ir-se, cambaleando-se. O Tenente segue petrificado em seu lugar, com os olhos avermelhados de repente. Moreira César passa junto a ele, sem olhá-lo, e o enxame de oficiais e ordenanças reatam seus afazeres. Sobre uma mesa há dispostos uns planos e um alto de papéis.

            —Que passem os correspondentes, Cunha Matos — ordena o Coronel.

            O Major os faz entrar. Vieram no mesmo trem que o Sétimo Regimento e os nota fatigados pelo estalo continuado. São cinco homens, de distintas idades, vestidos com perneiras, boinas, calças de montar, armados de lápis, cadernos e, um deles, de um aparelho fotográfico com fole e trípode. O mais notório é o jornalista jovenzinho e míope do Jornal de Notícias. O espaçado cavanhaque de cabrito que lhe cresceu combina com seu aspecto desfiado, seu extravagante tabuleiro portátil, o tinteiro amarrado à manga e a pluma de ganso que mordisca enquanto o fotógrafo monta sua câmara. Ao dispará-la, brota uma nubécula que aviva o vozerio dos meninos escondidos detrás dos cristais. O Coronel Moreira César responde com uma vênia às saudações dos jornalistas.

            — À muitos surpreendeu que em Salvador não recebesse aos notáveis — diz, sem solenidade e sem afeto, a maneira de saudação—. Não há nenhum mistério, senhores. É uma questão de tempo. Cada minuto é precioso para a missão que nos trouxe para Bahia. A vamos cumprir. O Sétimo Regimento vai castigar aos facciosos de Canudos, como o fez com os amotinados da Fortaleza da Santa Cruz e a do Lange, e como castigou aos federalistas da Santa Catarina. Não haverá mais levantamentos contra a República.

            Os cachos humanos dos cristais, emudecidos, esforçam-se por ouvir o que diz, oficiais e ordenanças estão imóveis, escutando, e os cinco jornalistas o olham, com uma mescla de feitiço e incredulidade. Sim, é ele, aí está por fim, em carne e osso, como o pintam as caricaturas: miúdo, débil, vibrante, com uns olhinhos que lançam faíscas ou perfuram ao interlocutor e um movimento da mão, ao falar, que parece de esgrima. Esperavam-no dois dias atrás, em Salvador, com a mesma curiosidade que centenas de bahianos e deixou frustrado todo mundo, pois não aceitou os banquetes nem o baile que lhe tinham preparado, nem as recepções oficiais nem as comemorações, e, salvo uma breve visita clube Militar e ao Governador Luis Viana, não falou com ninguém, já que dedicou todo seu tempo a vigiar pessoalmente o desembarque de seus soldados no porto e o transporte da equipe e o parque à Estação de Calçada, para tomar ao dia seguinte este trem que os trouxe até o sertão. Tinha passado pela cidade de Salvador como escapando, como temendo poluir-se, e só agora dava uma explicação a sua conduta: o tempo. Mas os cinco jornalistas, que estão pendentes de seus menores gestos, não pensam no que está dizendo neste instante, a não ser recordando o que se disse e escrito sobre ele, confrontando a esse personagem de mito, odiado e endeusado, com a figura pequenina, severa, que os fala como se não estivessem ali. Tratam de marginar-lhe arrolando-se de voluntário, quando era menino, na guerra contra o Paraguai, onde recebeu tantas feridas como medalhas; em seus primeiros anos de oficial, no Rio de Janeiro, quando seu republicanismo militante esteve a ponto de fazê-lo expulsar do Exército e de mandá-lo ao cárcere, ou nas conspirações contra a monarquia que comandou. Face à energia que transmitem seus olhos, seus gestos, sua voz, custa-lhes imaginar matando-o com cinco tiros de revólver, na rua do Ouvidor da capital, àquele obscuro jornalista, mas não é difícil, em troca, ouvi-lo declarar no julgamento que estava orgulhoso de fazê-lo e que o faria de novo se alguém voltasse a insultar ao Exército. Mas, sobretudo, rememoram sua carreira pública, ao voltar do Mato Grosso, onde esteve exilado até a queda do Império. Recordam-no convertido no braço direito do Presidente Floriano Peixoto, esmagando com mão de ferro todas as sublevações que houve nos primeiros anos da República e defendendo nesse periódico incendiário, 0 Jacobino, sua tese a favor da República Ditatorial, sem parlamento, sem partidos políticos em que o Exército seria, como a Igreja no passado, o nervo central de uma sociedade laica derrubada furiosamente para o progresso científico. Perguntam-se se é certo que à morte do Marechal Floriano Peixoto, no cemitério, sofreu um desvanecimento nervoso enquanto lia o elogio fúnebre do desaparecido. Diz-se que com a ascensão ao poder de um Presidente civil, Prudente de Morais, o destino político do Coronel Moreira César e dos chamados «jacobinos» está condenado. Mas, diz-se, não deve ser certo, pois se assim fosse, não estaria aqui em Queimadas, à frente do corpo mais célebre do Exército do Brasil, mandado pelo próprio governo a desempenhar uma missão da qual, quem pode duvidá-lo, retornará a Rio com seu prestígio acrescentado.

            —Não vim à Bahia a intervir nas lutas políticas locais — está dizendo, ao mesmo tempo que aponta, sem olhá-los, os pôsteres do Partido Republicano e do Partido Autonomista que penduram do teto—. O Exército está por cima das questões das facções, à margem da politicagem. O Sétimo Regimento está aqui para debelar uma conspiração monárquica. Por que detrás dos ladrões e loucos fanáticos de Canudos há uma conjuração contra a República. Esses pobres diabos são um instrumento dos aristocratas que não se resignam à perda de seus privilégios, que não querem que o Brasil seja um país moderno. De certos padres fanáticos que não se resignam à separação da Igreja do Estado porque não querem dar ao César o que corresponde ao César. E até a própria Inglaterra, pelo visto, que quer restaurar esse Império corrompido que lhe permitia apropriar-se de todo o açúcar brasileiro por preços irrisórios. Mas estão enganados. Nem os aristocratas, nem os padres, nem a Inglaterra, voltarão a ditar a lei no Brasil. O Exército não o permitirá.

            Foi subindo a voz e dizendo as últimas frases em um tom aceso, com a mão direita apoiada na pistola de sua cartucheira. Ao calar há uma espera reverente no recinto e se escuta o zumbido de quão insetos revoam enlouquecidos sobre as fontes de comida. O mais grisalho dos jornalistas, um homem que, face à atmosfera ardente, vai abrigado com uma jaqueta à quadros, levanta timidamente uma mão, com a intenção de comentar ou perguntar algo. Mas o Coronel não lhe concede a palavra; fez um gesto e dois ordenanças, lecionados, levantam uma caixa do chão, colocam-na sobre a mesa, e a abrem: são fuzis.

            Moreira César começa a passear, devagar, com as mãos presas às costas, diante dos cinco jornalistas.

            —Capturados no sertão baiano, senhores — vai dizendo, com ironia, como se se burlasse de alguém—. Estes, ao menos, não chegaram à Canudos. De onde vêm? Nem se deram ao trabalho de lhes tirar a marca de fábrica. Liverpool, nada menos! Nunca se viram fuzis assim no Brasil. Com um dispositivo especial para disparar balas explosivas, além disso. Assim se explicam esses orifícios que surpreenderam aos cirurgiões; orifícios de dez, de doze centímetros de diâmetro. Não pareciam de bala mas sim de granada. É possível que simples jagunços, simples ladrões de gado, conheçam esses refinamentos europeus, as balas explosivas? E, de outra parte, o que significam esses personagens de procedência misteriosa. O cadáver encontrado em Ipupiará. O sujeito que aparece em Mato Grosso com uma bolsa repleta de libras esterlinas que confessa ter guiado um partido de cavaleiros que falavam em inglês. Até em Belo Horizonte descobriram estrangeiros que querem levar carregamentos de mantimentos e de pólvora à Canudos. Muitas coincidências para não advertir, detrás, um conjura anti-republicano. Não se rendem. Mas é em vão. Fracassaram no Rio, fracassaram no Rio Grande do Sul e fracassarão também na Bahia, senhores.

            Deu duas, três voltas, a limiar curto e rápido, nervoso, diante dos cinco jornalistas. Agora está no mesmo lugar do princípio, junto à mesa dos mapas. Seu tom, ao dirigir-se outra vez à eles, volta-se autoritário, ameaçador:

            — Consenti em que acompanhem ao Sétimo Regimento, mas terão que submeter-se à certas disposições. Os despachos telegráficos que enviam daqui, serão previamente aprovados pelo Major Cunha Matos ou pelo Coronel Tamarindo. Mesmo, as crônicas que enviem mediante mensageiros durante a campanha. Devo lhes advertir que se algum tentasse enviar um artigo sem o visto bom de meus anexos, cometeria uma grave infração. Espero que o compreendam: qualquer deslize, engano, imprudência, pode servir ao inimigo. Estamos em guerra, não esqueçam. Faço votos para que sua estada com o Regimento seja grata. Isso é tudo, senhores.

            Volta-se para os oficiais de seu Estado Maior, que imediatamente o rodeiam, e imediatamente, como se se tivesse quebrado um encantamento, reatam-se a atividade, o ruído, o movimento, na estação de Queimadas. Mas os cinco jornalistas seguem ali, no mesmo lugar, olhando-se, desconcertados, abobalhados, decepcionados, sem entender por que o Coronel Moreira César os trata como se fossem seus inimigos potenciais, por que não lhes permitiu lhe formular pergunta alguma, por que não lhes fez a menor demonstração de simpatia ou ao menos de urbanidade. O círculo que rodeia ao Coronel se debulha à medida que, obedecendo suas instruções, cada um dos oficiais, logo depois de chocar os saltos, afasta-se em direções distintas. Quando fica sozinho, o Coronel lança um olhar circular e, um segundo, os cinco jornalistas acreditam que se vai cercar à eles, mas se equivocam. Está olhando, como se acabasse descobrir, as caras esfomeadas, tostadas, miseráveis, que se esmagam contra as portas e janelas. Observa-as com uma expressão indefinível, a frente franzida, o lábio inferior adiantado. De repente, resolutamente, dirige-se à porta mais próxima. Abre-a de par em par e faz um gesto de boa-vinda ao enxame de homens, mulheres, meninos, velhos quase em farrapos, muitos descalços, que o olham com respeito, medo ou admiração. Com gestos imperiosos, obriga-os a entrar, devora-os, arrasta-os, anima-os, mostrando-lhes a larga mesa onde, sob auréolas de insetos ambiciosos, adoecem as bebidas e as viandas que a Câmara de vereadores Municipal de Queimadas preparou para homenageá-lo.

            — Entrem, entrem — diz, guiando-os, empurrando-os, apartando ele mesmo os retalhos de tules —. O Sétimo Regimento os convida. Adiante, sem medo. É para vocês. Faz-lhes mais falta que a nós. Bebam, comam, que lhes aproveite.

            Agora, já não precisa açulá-los, já têm caídos, alvoroçados, ávidos, incrédulos, sobre os pratos, copos, fontes, jarras, e se dão de cotoveladas, atropelam-se, empurram-se, disputam a comida e as bebidas, ante o olhar entristecido do Coronel. Os jornalistas seguem no mesmo lugar, boquiabertos. Uma idosa com uma presa mordiscada na mão, que já se retira, detém-se junto ao Moreira César, a cara cheia de agradecimento.

            — Que a Santa Senhora o proteja, Coronel — murmura, fazendo o sinal da cruz no ar.

            — Esta é a senhora que me protege — ouvem os jornalistas que lhe responde Moreira César, tocando a espada.

            Em sua melhor época, o Circo Cigano tivera vinte pessoas, se podia chamar-se pessoas à seres como a Mulher Barbuda, o Miúdo, o homem-aranha , o Gigante Pedrín e Julião tragador de sapos vivos. O Circo rodava então em uma carroça pintado de vermelho, com figuras de trapezistas, puxado pelos quatro cavalos em que os Irmãos Franceses faziam acrobacias. Tinha também um pequeno zoológico, gêmeo da coleção de curiosidades humanas que o Cigano tinha ido compilando em suas correrias: um carneiro de cinco patas, um bonito de duas cabeças, uma cobra (esta normal) a que teria que alimentar com passarinhos e um cabrito com três fileiras de dentes, que Pedrín mostrava ao público lhe abrindo o focinho de porco com suas mãos. Nunca tiveram uma carpa. As funções se davam nas praças, os dias de feira ou na festa do santo.

            Havia números de força e de equilibrismo, de magia e adivinhação, o Negro Solimão tragava sabres, o homem-aranha subia sedosamente pelo pau encebado e oferecia um fabuloso conto-de-reis a quem pudesse imitá-lo, o Gigante Pedrín rompia as cadeias, a Barbuda fazia dançar à cobra e beijava-a na boca e todos, borrados de palhaços com cortiça queimada e pós de arroz, dobravam em dois, em quatro, em seis ao Idiota, que não parecia ter ossos. Mas a estrela era o Miúdo, que contava romances com delicadeza, veemência, romantismo e imaginação: o da Princesa Magalona, filha do Rei de Nápoles, raptada pelo Cavalheiro Pierre e cujas jóias encontra um marinheiro no ventre de um peixe; o da Bela Silvaninha, com a que quis casar-se ninguém menos que seu próprio pai; o do Carlos Magno e os Doze Pares da França; o da duquesa estéril fornicada pelo Cão e que pariu ao Roberto, o Diabo; o de Oliveiros e Fierabrás. Seu número era o último porque estimulava a largueza do público.

            O Cigano devia ter contas pendentes com a polícia no litoral, pois nem sequer em temporadas de seca baixava à costa. Era homem violento, ao que, por qualquer pretexto, tirava as mãos e golpeava sem misericórdia a quem o irritava, homem, mulher ou animal. Mas, apesar de seus maus tratos, nenhum dos circenses sonhava abandoná-lo. Era a alma do Circo, ele o tinha criado, compilando pela terra a esses seres que, em seus povoados e famílias, eram objetos de zombaria, anomalias às que os outros olhavam como castigos de Deus e equívocos da espécie. Todos eles, o Miúdo, a Barbuda, o Gigante, o homem-aranha, até o Idiota (que podia sentir estas coisas embora não as entendesse) tinham encontrado no Circo migrante, um lar mais hospitaleiro, que aquele de que vinham. Na caravana que subia, baixava e revoava pelos sertões candentes, deixaram de viver envergonhados, assustados e compartilhavam uma anormalidade que os fazia sentir-se normais.

            Por isso nenhum deles pôde entender ao moço de largas riscas enredadas, muito vivos olhos escuros, quase sem pernas, que caminhava à quatro patas, do povo de Natuba. Tinham advertido, durante a função, que o Cigano o observava, interessado. Porque não havia dúvida alguma que ao Cigano os monstros —homens ou animais — o atraíam por alguma razão mais profunda que o proveito que podia lhes tirar. Talvez se sentia mais são, mais completo, mais perfeito, nessa sociedade de resíduos e raridades. O fato é que ao terminar o espetáculo perguntou por sua casa, encontrou-a, apresentou-se aos pais e os convenceu que o dessem, para transformá-lo artista. O incompreensível é que, uma semana mais tarde, o moço que trotava escapou, quando o Cigano tinha começado a lhe ensinar um número de domador.

            A má estrela começou com a grande seca, pelo impedimento do Cigano em não descer para a costa, como lhe suplicaram os circenses. Encontravam povos desertos e fazendas convertidas em ossários; compreenderam que podiam morrer de sede. Mas o Cigano não deu seu braço a torcer e uma noite lhes disse: «Dou-lhes de presente a liberdade. Vão-se. Mas se não se vão, nunca mais me diga ninguém a rota que tem que tomar o Circo». Nenhum se foi, sem dúvida porque temiam mais aos outros homens que à catástrofe. Na Caatinga do Moura caiu doente Graça, a mulher do Cigano, com febres delirantes, e teria que enterrá-la em Taquarandi. Tiveram que começar a comer os animais. Ao voltar as chuvas, ano e meio depois, do zoológico sobrevivia a cobra, e, dos circenses, tinham morrido Julião e sua mulher Sabina, o Negro Solimão, o Gigante Pedrín, o homem-aranha e a Estrelinha. Tinham perdido a carruagem com figuras estampadas e agora carregavam seus pertences em duas carretas puxadas por eles mesmos até que, com o retorno da gente, da água, da vida, o Cigano pôde comprar dois burros de carga.

           Voltaram a dar funções e a ganhar novamente o suficiente para comer. Mas já não era como antes. O Cigano, enlouquecido com a perda de seus filhos, se desinteressou do espetáculo. Tinha deixado aos três filhos com uma família do Caldeirão Grande, para que os cuidasse, e quando voltou a buscá-los, depois da seca, ninguém no povoado pôde lhe dar razão da família Campinas nem dos meninos. Não se resignava e anos depois seguia interrogando aos vizinhos das aldeias se os tinham visto ou tido notícias. O desaparecimento de seus filhos —a quem todos davam por mortos — fez dele, que era a energia personificada, um ser apático e rancoroso, que se embebedava freqüentemente e se enfurecia de tudo. Uma tarde estavam atuando no casario de Santa Rosa e o Cigano fazia o número que tinha feito antes o Gigante Pedrín: desafiar a qualquer espectador a que o fizesse tocar o chão com as costas. Um homem forte se apresentou e o tombou ao primeiro empurrão. O Cigano se levantou, dizendo que escorregou e que o homem devia provar outra vez. O forçudo voltou a enviá-lo ao chão. Ficando de pé, o Cigano, com os olhos relampeantes, perguntou-lhe se repetiria a proeza com uma faca na mão. O outro resistia a brigar, mas o Cigano, perdida a razão, provocou-o de tal modo que o forçudo não teve mais remédio que aceitar o desafio. Com a mesma facilidade com que o tinha convexo, deixou ao Cigano no chão, com o cangote aberto e os olhos frágeis. Depois souberam que o chefe do Circo tivera a temeridade de desafiar ao bandido Pedrão.

            Em que pese a tudo, sobrevivendo-se a si mesmo por simples inércia, como demonstração de que não morre nada que não deva morrer (a frase era da Barbuda) o Circo não chegou a desaparecer. Era agora, isso sim, como um detrito espectral do velho Circo, aglutinado em torno de uma carroça com um toldo remendado, que devorava um burro e no que havia uma carpa pregada com remendos, sob a qual dormiam os últimos artistas: a Barbuda, o Miúdo, o Idiota e a cobra. Ainda dava funções e os romances de amor e de aventuras do Miúdo tinham o êxito de antigamente. Para não cansar ao burro, faziam suas aventuras a pé e quão única desfrutava da carroça era a cobra, que vivia em uma cesta de vime. Em seu perambular pelo mundo, os últimos circenses tinham encontrado santos, bandidos, peregrinos, retirantes, as caras e trajes mais imprevisíveis. Mas nunca, até essa manhã, toparam-se com uma cabeleira masculina de cor vermelha, como a do homem atirado na terra, que viram dobrar uma curva do atalho que ia rumo ao Riacho das Onze. Estava imóvel, vestido com uma roupa negra que o pó branqueava as manchas. Uns metros mais à frente, havia o cadáver decomposto de uma mula que os urubus comiam e uma fogueira apagada. E, junto às cinzas, uma moça os olhava vir com uma expressão que não parecia triste. O burro, como se tivesse recebido uma ordem, deteve-se. A Barbuda, o Miúdo, o Idiota examinaram ao homem e puderam ver, entre os cabelos flamígeros, a ferida cárdena do ombro e o sangue ressecado na barba, na orelha e no peitilho.

            — Está morto? — perguntou a Barbuda.

            — Ainda — respondeu Jurema.

 

            «O fogo vai queimar este lugar», disse o Conselheiro, ao tempo que se incorporava na cama. Só tinham descansado quatro horas, pois a procissão da véspera terminou à meia-noite, mas o Leão de Natuba, que tinha um ouvido muito fino, sentiu no sonho a voz inconfundível e saltou do chão a agarrar a pluma e o papel e a anotar a frase que não devia perder-se. O Conselheiro, com os olhos fechados, sumido na visão, acrescentou: «Haverá quatro incêndios. Os três primeiros os apagarei eu e o quarto o porei em mãos do Bom Jesus». Desta vez, suas palavras despertaram também às devotas do quarto contígüo, pois, enquanto escrevia, o Leão de Natuba sentiu abrir a porta e viu entrar, amassada em sua túnica azul, a Maria Quadrado, a única pessoa, com o Beato e ele, que ingressava no Santuário de dia ou de noite sem pedir permissão. «Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo», disse a Superiora do Coro Sagrado, fazendo o sinal da cruz. «Louvado seja», repôs o Conselheiro, abrindo os olhos. E, com uma leve inflexão de tristeza ainda sonhou: «vão matar-me, mas não trairei ao Senhor».

            Enquanto escrevia, sem distrair-se, consciente até a raiz dos cabelos da transcendência da missão que o Beato lhe creditou e que lhe permitia compartilhar com o Conselheiro todos os instantes, o Leão de Natuba sentia, no outro quarto, às devotas do Coro Sagrado, ansiosas, esperando a permissão da Maria Quadrado para entrar. Eram oito e vestiam, como esta, túnicas azuis com mangas e sem decote, sujeitas com um cordão branco. Foram descalças e com a cabeça coberta por um trapo também azul. Tinham sido escolhidas pela Mãe dos Homens por seu espírito de sacrifício e sua devoção para que se dedicassem exclusivamente ao Conselheiro e as oito tinham feito promessas de viver castas e de não retornar nunca à suas famílias. Dormiam no chão, do outro lado da porta, e acompanhavam ao Conselheiro, como uma auréola, enquanto vigiava os trabalhos do Templo do Bom Jesus, orava na Igreja do Santo Antonio, presidia as procissões, os rosários, os enterros, ou quando visitava as Casas de Saúde. Devido aos costumes frugais do santo, suas obrigações eram poucas: lavar e cerzir a túnica morada, cuidar do carneirinho branco, limpar o chão e as paredes do Santuário e sacudir a cama de varas. Estavam entrando; Maria Quadrado fechou atrás delas a porta que lhes acabava de abrir. Alexandrinha Correia trazia o carneirinho. As oito fizeram o sinal da cruz ao mesmo tempo que salmodiavam: «Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo». «Louvado seja», respondeu o Conselheiro, acariciando ligeiramente o animal. O Leão de Natuba permanecia de cócoras, com a pluma na mão e o papel no banquinho que lhe servia de escritório, com os inteligentes olhos — brilhantes entre a imunda juba que lhe circundava a cara — fixos na boca do Conselheiro. Este se dispunha a rezar. Tombou-se de bruço, tanto que Maria Quadrado e as devotas se ajoelhavam a seu redor, para rezar com ele. Mas o Leão de Natuba não se tombou nem se ajoelhou: sua missão o eximia inclusive das rezas. O Beato lhe tinha indicado que permanecesse alerta se por acaso alguma das orações que dizia o santo fosse «revelação». Mas essa manhã o Conselheiro orou em silêncio, no amanhecer que por segundos crescia e filtrava no Santuário, pelos interstícios do teto, dos tabiques e da porta, uns fios de ouro molestados por partículas de pó. Belo Monte ia despertando: ouvia-se os galos, aos cães e vozes humanas. Fora, sem dúvida, já teriam começado a formar os cachos de romeiros e de vizinhos que queriam ver o Conselheiro ou lhe pedir uma mercê.

            Quando o Conselheiro se incorporou, as devotas lhe ofereceram uma tigela com leite de cabra, um pedaço de pão, um prato de farinha de milho cozida em água e uma cesta com surripiava. Mas ele se contentou com uns sorvos de leite. Então, as devotas trouxeram um cubo de água para asseá-lo. Enquanto elas, silenciosas, diligentes, sem estorvar umas a outras, como se tivessem ensaiado seus movimentos, circulavam em torno da cama e molhavam suas mãos, umedeciam-lhe a cara e lhe esfregavam os pés, o Conselheiro permaneceu imóvel, concentrado em seus pensamentos ou rezas. Quando lhe estavam pondo as sandálias de pastor que tirava para dormir, entraram no Santuário o Beato e João Abade.

            Eram tão distintos que aquele parecia mais frágil e absorvido e este mais corpulento quando estavam juntos. «Louvado seja o Bom Jesus», disse um deles e o outro «Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo». «Louvado seja.» O Conselheiro estirou a mão e, enquanto a beijava, perguntou-lhe com ansiedade:

            —Há notícias do Padre Joaquim?

            O Beato disse que não. Embora miúdo, adoentado e envelhecido, em sua cara se notava essa indomável energia com que organizava todas as atividades do culto, o recebimento dos peregrinos, o percurso das procissões, o cuidado dos altares e dava tempo para inventar hinos e letanias. Sua túnica marrom estava cheia de escapulários e também de buracos pelos que se divisava o cilício, que, dizia, não tinha tirado desde que de menino o rodeou o Conselheiro. Ele se adiantou a falar enquanto João Abade, a quem a gente tinha começado a chamar Chefe do Povo e Comandante da Rua, retrocedia.

            — João tem uma idéia que é inspiração, padre — disse o Beato, com a voz tímida e reverente com que se dirigia sempre ao Conselheiro—. Houve uma guerra, aqui mesmo, em Belo Monte. E enquanto todos brigavam você estava sozinho na torre. Ninguém lhe protegia.

            — Protege-me o Pai, Beato —murmurou o Conselheiro—. Como a si e a todos os que acreditam.

            —Embora nós morramos, você deve viver —insistiu o Beato—. Por caridade para os homens, Conselheiro.

            —Queremos organizar uma guarda que lhe cuide, pai — sussurrou João Abade. Falava com os olhos baixos, procurando as palavras—. Vigiará para que ninguém lhe faça mal. Escolheremos como a Mãe Maria Quadrado escolheu ao Coro Sagrado. Entrarão os melhores e os mais valentes, os de toda confiança. Consagrar-se-ão a seu serviço.

            — Como os arcanjos do céu ao Bom Jesus — disse o Beato. Assinalou a porta, o crescente bulício—. Cada dia, cada hora, há mais gente. Já estão centenas aí, esperando. Não podemos conhecer todo mundo. E se se metem os cães para lhe fazer danos? Eles serão seu escudo. E se houver guerra, não ficará nunca sozinho.

            As devotas permaneciam agachadas quietas e mudas. Só Maria Quadrado estava de pé, junto aos recém chegados. O Leão de Natuba, enquanto falavam, foi-se arrastando até o Conselheiro e, como o teria feito um cão preferido por seu amo, apoiou a cara no joelho do santo.

            —Não pensa em si a não ser em outros —disse Maria Quadrado—. É uma idéia inspirada, pai. Aceita-a.

            — Será a Guarda Católica, a Companhia do Bom Jesus —disse o Beato—. Serão os cruzados, os soldados crentes da verdade.

            O Conselheiro fez um movimento quase imperceptível, mas todos entenderam que tinha dado seu assentimento.

            — Quem a vai mandar? — perguntou.

            — João Grande, se lhe parecer consigo —repôs o ex-cangaceiro—. O Beato também acredita que poderia ser ele.

            —É um bom crente. — O Conselheiro fez uma brevíssima pausa e, quando voltou a falar, sua voz se despersonalizou e já não parecia dirigir-se a nenhum deles a não ser a um auditório mais vasto e imperecível—. Sofreu da alma e do corpo. E o sofrimento da alma, sobretudo, é o que faz bons aos bons.

            Antes de que o Beato o olhasse, o Leão de Natuba tinha afastado sua cabeça do joelho onde repousava e, com rapidez felina, prendeu a pluma e o papel e escreveu o que tinha ouvido. Quando terminou e, sempre engatinhando, voltou a aproximar-se do Conselheiro e a colocar sua emaranhada cabeça em seus joelhos, João Abade tinha começado a referir o ocorrido nas últimas horas. Uns jagunços tinham partido para fazer averiguações, outros voltado com mantimentos e notícias e, outros, incendiado fazendas de gente que não queria ajudar ao Bom Jesus. Escutava-o o Conselheiro? Tinha os olhos fechados e permanecia imóvel e mudo, igual às devotas, como se sua alma tivesse partido para celebrar uma dessas conversas celestiais — assim os chamava o Beato — dos que traria revelações e verdades aos vizinhos de Belo Monte. Apesar de que não havia indícios da vinda de novos soldados, João Abade tinha apostado gente nos caminhos que saíam de Canudos ao Geremoabo, ao Uauá, ao Cambaio, ao Rosário, ao Chorrochó e ao Curral dos Bois e estava abrindo trincheiras e levantando parapeitos à beira do Vassa Barris. O Conselheiro não lhe fez perguntas. Tampouco as fez quando o Beato deu conta dos combates que ele liberava. Com a entonação das letanias, explicou quantos romeiros tinham chegado a véspera e neste amanhecer; procediam de Cabobó de Jacobina, do Bom Conselho de Pombal e estavam agora na Igreja do Santo Antonio, esperando ao Conselheiro. Ia vê-los na manhã, antes de ir visitar os trabalhos do Templo do Bom Jesus, ou na tarde, durante os conselhos? O Beato continuou lhe dando conta dos trabalhos. Acabou-se a madeira para os arcos e não podia começar o teto. Dois carpinteiros tinham partido para Joazeiro a contratá-la. Como, felizmente, não faltavam pedras, os pedreiros seguiam escorando os muros.

            —O Templo do Bom Jesus tem que acabar logo — murmurou o Conselheiro, abrindo os olhos - Isso é o mais importante.

            — É-o, pai —disse o Beato—. Todos ajudam. Não são braços os que faltam, a não ser materiais. Tudo se acaba. Mas conseguiremos a madeira e, se tivermos que pagá-la, pagaremos. Todos estão dispostos a dar o que têm.

            — Faz muitos dias que não vem o Padre Joaquim — disse o Conselheiro, com certa angústia —. Faz muitos dias que não há missa em Belo Monte.

            — Deve ser pelas mechas, pai —disse João Abade—. Já quase não ficam e ele ofereceu comprar nas minas de Cacabu. Encomendou-as e estará esperando que as tragam. Quer que mande para buscá-lo?

            — Virá, o Padre Joaquim não nos trairá —repôs o Conselheiro. E procurou com os olhos a Alexandrinha Correia, quem, desde que tinham mencionado ao pároco de Cúpula, estava com a cabeça sumida entre os ombros, visivelmente confusa —: Vem aqui. Não deve ter vergonha, filha.

            Alexandrinha Correia — os anos a tinham emagrecido e enrugado, mas conservava sempre o nariz escoiceado e um ar rebelde que contrastava com suas maneiras humildes — se arrastou até o Conselheiro sem atrever-se a olhá-lo. Este lhe pôs uma mão sobre a cabeça enquanto lhe falava:

            — Desse mal saiu um bem, Alexandrinha. Era um mau pastor e, por ter pecado, sofreu, arrependeu-se, arrumou suas contas com o céu e é agora bom filho do Pai. Fez-lhe um bem, ao final. E à seus irmãos de Belo Monte, porque graças a Dom Joaquim ainda podemos ouvir missa de vez em quando.

            Disse este último com tristeza e talvez nem se deu conta que a ex-rabdomante se inclinou a lhe beijar a túnica antes de retornar a um rincão. Nos primeiros tempos de Canudos vários párocos deviam rezar missa, a batizar aos meninos e a casar aos casais. Mas desde aquela Santa Missão, com missionários capuchinhos de Salvador, que terminou tão mal, o Arcebispo da Bahia tinha proibido aos párocos prestar serviços espirituais à Canudos. Só o Padre Joaquim seguia vindo. Não só trazia conforto religioso; também, papel e tinta para o Leão de Natuba, círios e incenso para o Beato e encargos diversos ao João Abade e aos irmãos Vilanova. O que o impulsionava a desafiar à Igreja e, agora, à autoridade civil? Talvez Alexandrinha Correia, a mãe de seus filhos, com a que, em cada visita, mantinha uma austera conversação no Santuário ou na capela do Santo Antonio. Ou, talvez, o Conselheiro, ante quem o notava sempre turbado e como removido interiormente. Ou, talvez, a suspeita de que, vindo, pagava uma velha dívida contraída com o céu e com os sertanejos.

            O Beato se pôs a falar de novo, sobre o triduo do Precioso Sangue que ia se iniciar essa tarde, quando uns nódulos tocaram à porta, entre uma agitação do exterior. Maria Quadrado foi abrir. Com o sol brilhando à suas costas e uma multidão de cabeças que tratavam de espiar, apareceu na soleira o pároco de Cumbe.

            —Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo —disse o Conselheiro, ficando de pé tão depressa que o Leão de Natuba teve que se afastar de um salto—. Nós pensando em você e você aparece.

            Foi ao encontro do Padre Joaquim, cujo hábito vinha enterrado, assim como sua cara. Inclinou-se ante ele, agarrou-lhe a mão e a beijou. A humildade e o respeito com que o recebia o Conselheiro incomodavam sempre ao pároco, mas hoje estava tão inquieto que não pareceu notá-lo.

            —Chegou um telegrama —disse, enquanto beijavam a mão o Beato, João Abade, a Mãe dos Homens e as devotas—. Vem um Regimento do Exército Federal, desde o Rio. Seu chefe é um famoso militar, um herói que ganhou todas as guerras.

            —Ainda ninguém ganhou uma guerra ao Pai — disse o Conselheiro, com voz gozadora.

            O Leão de Natuba, escondido, escrevia rapidamente.

            Ao terminar seu contrato com a gente da Ferrovia de Jacobina, em Itiuba, Rufino guia uns vaqueiros pelos atalhos da Serra do Bendengó, aquela onde uma vez caiu uma pedra do céu. Perseguem uns ladrões de gado que roubaram meia centena de cabeças de gado da fazenda Pedra Vermelha, do coronel José Bernardo Murau, mas antes de encontrar aos animais se inteiram da derrota da Expedição do Major Febrônio de Brito, em Cambaio, e decidem cessar a busca para não se topar com os jagunços ou os soldados em retirada. Quando acaba de separar-se dos vaqueiros. Rufino, nos contrafortes da Serra Grande, cai em mãos de uma patrulha de desertores, mandada por um sargento pernambucano. Tiram-lhe sua escopeta, seu facão, suas provisões e a saca com os reis que ganhou como pistoleiro. Mas não lhe fazem mal e, inclusive, advertem-lhe que não passe por Monte Santo pois ali se estão concentrando os soldados derrotados do Major Brito, que poderiam arrolá-lo

            A região está removida com a guerra. A noite seguinte, perto do rio Cariará, o rastreador escuta um tiroteio e ao amanhecer descobre que gente vinda de Canudos queimou e saqueou a fazenda Santa Rosa, que ele conhece muito bem. A casa, que era ampla e fresca, com balaustrada de madeira e uma ronda de palmeiras, está chamuscada e em pedaços. Vê os estábulos vazios, a senzala e os ranchos dos peões também queimados e um velho do contorno lhe diz que todos partiram à Belo Monte, levando os animais e o que se livrou do fogo.

            Rufino dá um rodeio, para evitar Monte Santo, e ao dia seguinte uma família de peregrinos que vai rumo à Canudos lhe avisa que tome cuidado, pois há grupos da Guarda Rural percorrendo a terra em busca de homens jovens para o Exército. Ao meio dia chega a uma capela meio perdida entre as colinas amareladas da Serra de Engorda, onde, tradicionalmente, homens que têm sangue nas mãos vêm a arrepender-se de seus crimes, e, outros, a fazer oferendas. É uma construção pequena, solitária, sem portas, de muros brancos pelos que correm lagartixas. As paredes transbordam de ex-votos: tigelas com comida petrificada, figurinhas de madeira, braços, pernas, cabeças de cera, armas, roupas, toda classe de minúsculos objetos. Rufino examina facas, facões, escopetas e escolhe uma faca pontuta deixada ali recentemente. Logo vai ajoelhar-se ante o altar, no que só há uma cruz, e explica ao Bom Jesus que leva essa faca emprestada. Conta-lhe que lhe roubaram o que tinha e que a necessita para poder chegar a sua casa. Assegura-lhe que não quer tirar o que é dele e lhe promete devolver-lhe junto com outra nova, que será seu obséquio. Recorda-lhe que ele não é ladrão e que sempre cumpriu suas promessas. Faz o sinal da cruz se e diz: «Obrigado, Bom Jesus».

            Continua seu caminho, a um ritmo parecido, sem fatigar-se, subindo morros, ou descendo barrancos, cruzando caatingas, ou pedreiras. Essa tarde caça um tatu, que cozinha em uma fogueira. A carne dá para dois dias. Ao terceiro, está pelas vizinhanças Nordestina. Dirige-se ao rancho de um morador, onde costuma pernoitar. A família o recebe com mais cordialidade que outras vezes e a mulher lhe prepara de comer. Ele conta como os desertores lhe roubaram e conversam sobre o que irá ocorrer depois dessa batalha em Cambaio, em que, ao que parece, houve tantos mortos. Enquanto falam, Rufino nota que o casal troca olhadas, como se tivessem algo que lhe dizer e não se atrevessem. Cala-se e espera. O morador então, tossindo, pergunta-lhe quanto tempo está sem notícias de sua família. Perto de um mês. Morreu sua mãe? Não. Jurema, então? O casal fica olhando-o. Por fim, o homem fala: anda-se dizendo que houve um tiroteio e mortos em sua casa e que sua mulher fugiu com um forasteiro de cabelos vermelhos. Rufino lhes agradece a hospitalidade e se despede deles imediatamente.

            À madrugada seguinte a silhueta do rastreador se desenha em uma colina da qual se avista sua cabana. Atravessa o bosquezinho de rochas e arbustos onde teve a primeira entrevista com o Galileo Gall e se aproxima do promontório onde está sua moradia à velocidade com a que sempre viaja, um trote entre a caminhada e a carreira. Em sua cara há rastros da longa viagem, das contrariedades e da má notícia da véspera: sua feição se aguçou, fundo, crispado. Sua única bagagem é a faca que lhe emprestou o Bom Jesus. A poucos metros de sua cabana, seu olhar se volta receoso. O curral tem a tranqueira aberta e está vazio. Mas não é o curral que Rufino olha com olhos graves, inquisitivos, sentido saudades, a não ser a esplanada onde antes não havia essas duas cruzes que há agora, sujeitas com pedrinhas. Ao entrar descobre o acendedor, as vasilhas, a cama, a rede, o baú, a imagem da Virgem de Marisco, as panelas e as tigelas e o alto de lenha. Tudo parece estar ali e, inclusive, ter sido ordenado. Rufino olha de novo, devagar, como tratando de arrancar a esses objetos o ocorrido em sua ausência. Sente o silêncio: a falta de latidos, do cacarejo das galinhas, do tinido dos carneiros, da voz de sua mulher. Finalmente, dá uns passos pela habitação e começa a revisar tudo, com cuidado. Quando termina, tem os olhos sanguinolentos. Sai, fechando a porta sem brutalidade.

            Encaminha-se para Queimadas, que brilha ao longe sob um sol agora vertical. A silhueta de Rufino se perde em uma curva do promontório; reaparece, trotando, entre pedras plúmbeas, cactos, matagais amarelados, a cerca pontuta de um curral. Meia hora depois entra no povoado pela avenida Itapicurú e sobe por ela para o Plaza Matriz. O sol estremece as casinhas caiadas, de portas azuis ou verdes. Os soldados em retirada, depois da derrota de Cambaio, começaram a chegar pois os vê, rotos, forasteiros, formando grupos nas esquinas, dormindo sob as árvores ou banhando-se no rio. O rastreador passa ante eles sem olhá-los, acaso sem vê-los, pensando só nos vizinhos: vaqueiros de peles curtidas, mulheres que dão de mamar a seus filhos, cavaleiros que partem, velhos que se ensoalheiram, meninos que correm. Dão-lhe o bom dia ou o chamam por seu nome e ele sabe que, quando passou, voltam-se a olhá-lo, assinalam-no e começam a cochichar. Responde suas saudações com uma inclinação de cabeça, olhando à frente, sem sorrir, para desanimar a qualquer que tentasse lhe dirigir a palavra. Cruzando o Plaza Matriz, densa de sol, de cães, homens fazendo vênias, consciente das falações, dos olhares, dos gestos, dos pensamentos que suscitam. Não se detém até chegar, frente à capelinha de Nossa Senhora do Rosário, a uma pequena tenda de velas e imagens religiosas, que penduram na fachada. Tira-se o chapéu, respira como quem vai mergulhar, e entra. Ao vê-lo, a idosa, que está alcançando um pacote a um cliente, abre muito os olhos e lhe ilumina a cara. Mas espera, para lhe falar, que o comprador se foi.

            O local é um cubo com buracos pelos que ingressam línguas de sol. Círios e velas pendem de pregos e se alinham sobre o mostrador. As paredes estão cobertas de ex-votos, e de santos, cristos, virgens e imagens. Rufino se ajoelha para beijar a mão da anciã: «Bom dia, mãe». Faz-lhe o sinal da cruz na frente com uns dedos nodosos, de unhas enegrecidas. É uma anciã esquelética, franzida, de olhar duro, abrigada com uma manta face à atmosfera candente. Tem um rosário de contas grandes em uma mão.

            — Caifás quer vê-lo quer lhe explicar —diz, com dificuldade, porque o tema a esgota ou pela falta de dentes—. Virá à feira de sábado. Veio todos os sábados, a ver se voltou. É uma longa viagem, mas vinha. É seu amigo, quer lhe explicar.

            — Explique-me, você o que sabe, enquanto isso, mãe — sussurra o rastreador.

            — Não vinham matar você —replica a idosa, imediatamente—. Nem a ela. Foram matar ao forasteiro somente. Mas ele se defendeu e matou a dois. Viu as cruzes, lá encima, frente a sua casa? —Rufino assente—. Ninguém reclamou os corpos e os enterraram ali. — Faz o sinal da cruz —.Que estejam em sua santa glória, Senhor. Encontrou sua casa limpa? Estive indo, pouco a pouco, para que não a encontrasse toda suja.

           — Não devia ir —diz Rufino. Está cabisbaixo, com o chapéu na mão—. Você logo que pode andar. E, além disso, essa casa está suja para sempre.

            — Então, já sabe — murmura a anciã, lhe buscando os olhos que lhe oculta, olhando fixamente o chão. A mulher suspira. Logo depois de uma pausa, adiciona —: Vendi seus carneiros para que não os roubassem, como às galinhas. Seu dinheiro está nessa gaveta. —Faz outra pausa, tratando de demorar o inevitável, o único assunto que lhe interessa, o único que interessa ao Rufino—. A gente é má. Diziam que não voltaria. Que lhe tinham metido ao Exército, talvez, que tinha morrido na guerra, talvez. Viu quantos soldados em Queimadas? Morreram muitos lá, parece. O Major Febrônio de Brito está aqui, também.

            Mas Rufino a interrompe:

            —Você sabe quem os mandou? A esses que vinham a matá-lo.

            — Caifás —diz a anciã—. Ele os levou. Vai lhe explicar como me explicou. É seu amigo. Não foram matá-lo. Nem a ela. Só ao dos cabelos vermelhos, ao forasteiro. Cala-se e Rufino também cala e no ardente, sombreado reduto se escuta o zumbido dos moscardos, dos enxames de moscas que revoam entre as imagens. Por fim, a anciã se decide a falar.

            — Muitos os viram! — exclama, com voz trêmula e os olhos de repente relampeantes —. Caifás os viu. Quando me contou, pensei: pequei, é castigo de Deus. Eu desgracei a meu filho. Sim, Rufino: Jurema, Jurema. Ela o salvou, agarrou as mãos ao Caifás. Foi com ele, abraçando-o, apoiado nele. — Estira uma mão e aponta a rua —: Todos sabem. Já não podemos viver aqui, filho.

            O rosto anguloso, imberbe, escurecido pela penumbra do local não move um músculo, não pestaneja. A idosa agita um punho de dedos pequenino sarmentosos e cospe com desprezo para a rua:

            —Vinham a me compadecer, a me falar de si. Cada palavra era uma adaga no coração. São víboras, filho! — Passa-se a manta negra pelos olhos, como se tivesse chorado, mas os tem secos—. Limpará a imundície que lhe jogou em cima, não é certo? É pior que se tivesse tirado os olhos, pior que se me tivesse matado. Fala com o Caifás. Ele sabe a ofensa, ele sabe as coisas da honra. Ele lhe explicará.

            Volta a suspirar e agora beija as contas de seu rosário, com unção. Olha ao Rufino, que não se moveu nem elevou a cabeça.

            — Muitos foram à Canudos —diz, com voz mais suave—. Vieram apóstolos. Também ia. Fiquei porque sabia que voltaria. Vai se acabar o mundo, filho. Por isso vemos o que vemos. Por isso aconteceu isso que passou. Agora posso ir. Dar-me-ão as pernas para essa viagem tão longa? O Pai decidirá. Ele decide tudo.

            Permanece calada e, logo depois de um momento, Rufino se inclina e lhe beija outra vez a mão:

            —É uma viagem muito longa e não o aconselho, mãe —diz—. Há guerra, incêndios, falta que comer. Mas se quer ir, vá. O que você faça sempre estará bem feito. E esqueça-se do que Caifás lhe contou. Não sofra nem tenha vergonha por isso.

 

            Quando o Barão da Canabrava e sua esposa desembarcaram no Arsenal da Marinha de Salvador, depois de vários meses de ausência, puderam dar-se conta pelo recebimento até que ponto tinha decaído a força de outrora todo-poderosa Partido Autonomista baiano e de seu chefe e fundador. Antigamente, quando era Ministro do Império, ou Plenipotenciário em Londres, e inclusive nos primeiros anos da República, as voltas do Barão da Bahia eram motivo de grandes festejos. Todos os homens proeminentes da cidade e muitos fazendeiros iam ao porto conduzindo serventes e amealhados com pôsteres de boa-vinda. As autoridades compareciam sempre e havia banda de música e meninos das escolas, pias com ramalhetes para a Baronesa Estela. O banquete de recepção se celebrava no Palácio da Vitória, presidido pelo Governador, e dezenas de comensais aplaudiam os brinde, discursos e o imprescindível soneto que um poeta local recitava em honra dos recém chegados.

            Todavia, desta vez não se achavam no Arsenal da Marinha para aplaudir ao Barão e à Baronesa, quando pisaram em terra, mais de duzentas pessoas e, entre elas, nenhuma autoridade civil, nem militar, nem eclesiástica. As caras com que o cavalheiro Adalberto de Gumucio e os deputados Eduardo Glicério, Rocha Seabra, Lelis Piedades e João Seixas de Pondé — a Comissão designada pelo Partido Autonomista para recepcionar a seu chefe — se aproximaram de estreitar a mão do Barão e a beijar a da Baronesa, eram de enterro.

            Eles, entretanto, não demonstraram advertir a diferença. Sua conduta foi a de sempre. Enquanto a Baronesa, sorridente, mostrava-lhe os ramos de flores a sua inseparável empregada Sebastiana, como maravilhada de recebê-los, o Barão distribuía palmadas e abraços entre seus correligionários, parentes e amigos que faziam fila para chegar até ele. Saudava-os por seus nomes, inquiria por suas esposas, agradecia-lhes haver-se incomodado em vir a recebê-lo. E, a cada certo momento, como impelido por uma íntima necessidade, repetia a sorte que era sempre voltar para a Bahia, reencontrar este sol, este ar limpo, estas pessoas antes de subir ao carro que os esperava no mole, conduzido por um chofer de uniforme que fez muitas reverências ao vê-los, o Barão saudou com os dois braços em alto. Logo, tomou assento frente à Baronesa e Sebastiana, que tinham as saias cobertas de flores. Adalberto de Gumucio se sentou a seu lado e o carro começou a subir a Ladeira da Concepção da Praia, que transbordava de verdura. Logo, os viajantes puderam ver os veleiros da baía, o forte de São Marcelo, o Mercado e a muitos negros e mulatos metidos na água pescando caranguejos.

            —Europa é sempre uma emulsão de juventude — felicitou-os Gumucio—. Estão dez anos mais jovens do que se foram.

            —Eu o devo ao navio mais que a Europa —disse a Baronesa—. As três semanas mais descansadas de minha vida!

            —Em troca, você está dez anos mais velho. —O Barão olhava pelo guichê o panorama majestoso do mar e a ilha que cresciam à medida que o carro subia, agora pela Ladeira de São Bento, para a cidade alta—. É para tanto?

            A cara do Presidente da Assembléia Legislativa bahiana se encheu de rugas:

            —Pior de tudo o que imagina. —Assinalou o porto —: Queríamos fazer uma demonstração de forças, um grande ato público. Todos prometeram trazer gente, inclusive do interior. Calculávamos milhares de pessoas. E já viu.

            O Barão fez adeus a uns vendedores de pescado que, ao ver passar o carro em frente ao Seminário, tiraram-se os chapéus de palha. Recriminou a seu amigo com ar zombador:

            —É má educação falar de política ante as damas. Ou já não considera Estela uma dama?

            A Baronesa riu, com uma risada grácil e despreocupada, que a rejuvenescia. Era de cabelos castanhos e pele muito branca, com umas mãos de longos dedos que se moviam como pássaros. Ela e sua empregada, uma mulher moréia, de formas abundantes, olhavam entusiasmadas o mar azul escuro, o verde fosforescente das ribeiras e os telhados sangrentos.

            —A ausência do Governador é a única justificada —disse Gumucio, como se não tivesse escutado—. Decidimos nós. Queria vir, com o Conselho Municipal. Mas, tal como vão as coisas, é preferível mantê-lo auessus de mélée. Luis Viana continua leal.

            — Trouxe-lhe um álbum de gravuras hípicas — animou-o o Barão—. Suponho que as contrariedades políticas não lhe tiraram a afeição aos cavalos, Adalberto.

            Ao entrar na cidade alta, rumo ao bairro de Nazareth, os recém chegados, luzindo seus melhores sorrisos, dedicaram-se a devolver os adeuses dos transeuntes. Vários carros e bom número de cavaleiros, alguns vindos do porto e outros que o esperavam no alto do escarpado, escoltaram ao Barão pelas pavimentadas ruelas, entre curiosos que se apinhavam nas veredas ou saíam aos balcões ou tiravam as cabeças dos bondes puxados por asnos para vê-los passar. Os Canabrava viviam em um palácio com azulejos gastos de Portugal, teto de telhas vermelhas, balcões de ferro forjado, sustentados por cariátides de peitos robustos e uma fachada que rematava em quatro figuras de cerâmica amarela brilhante: dois leões cabeludos e dois dentes. Os leões pareciam vigiar aos navios que chegavam à baía e os dentes anunciar aos navegantes a esplêndida cidade. O pomar que rodeava à construção fervia de flamboians, mangas, crotos e ficus onde rumoreava o vento. O palácio tinha sido desinfetado com vinagre, perfumado com ervas aromáticas e engalanado com vasos de flores para receber aos donos. Na porta, criados de mamelucos brancos e negritos com aventais encarnados e lenços à cabeça os aplaudiram. A Baronesa ficou a conversar com eles, enquanto, o Barão, levantando-se na entrada, despedia-se de seus acompanhantes. Só Gumucio e os Deputados Eduardo Glicério, Rocha Seabra, Lelis Piedades e João Seixas de Pondé, entraram na casa com ele. Tanto que a Baronesa subia à planta alta, seguida por sua empregada, os homens cruzaram o vestíbulo, um recibo com móveis de madeira, e o Barão abriu as portas de uma habitação com prateleiras de livros, da que se via o pomar. Uma vintena de homens se calaram ao vê-lo. Os que estavam sentados se levantaram e todos aplaudiram. O primeiro em abraçá-lo foi o Governador Luis Viana:

            —Não foi minha idéia a de não ir ao porto —disse—. Em todo caso, já vê, aqui estão a Governação e a Câmara de vereadores em pleno, à suas ordens.

            Era um homem enérgico, com uma calvície pronunciada e um ventre pugnaz, que não dissimulava sua preocupação. Enquanto o Barão saudava os presentes, Gumucio fechou a porta. A fumaça rarefazia a atmosfera. Havia jarras com refrescos de frutas em uma mesa e, como não alcançavam os assentos, uns foram sentando nos braços das poltronas e outros permaneciam apoiados contra as prateleiras. O Barão demorou em terminar a ronda de saudações. Quando se teve sentado, reinou um silêncio glacial. Os homens o olhavam e em seus olhares, além de inquietação, havia uma muda súplica, uma confiança angustiada. A expressão do Barão, até então jovial, foi agravando enquanto passava revista às caras fúnebres.

            — Já vejo que as coisas não estão para que lhes conte se o Carnaval de Niza se parece com o nosso  —disse, muito sério, procurando o Luis Viana—. Comecemos pelo pior. O que é o pior?

            — Um telegrama que chegou ao mesmo tempo que você — murmurou o Governador, de uma poltrona no que parecia esmagado—. O Rio acordou intervir militarmente na Bahia, com o voto unânime do Congresso. Manda um Regimento do Exército Federal contra Canudos.

            — Quer dizer, o Governo e o Congresso oficializam a tese da conspiração —o interrompeu Adalberto de Gumucio—. Quer dizer, os fanáticos sebastianistas querem restaurar o Império, com ajuda do Conde D' Eu dos monárquicos, da Inglaterra e, é óbvio, do Partido Autonomista da Bahia. Todas as patranhas estúpidas da estirpe jacobina convertidas na verdade oficial da República.

            O Barão não demonstrou nenhum alarme.

            — A vinda do Exército Federal não me surpreende —disse—. Nestas alturas, era inevitável. O que me surpreende é o de Canudos. Duas expedições derrotadas! — Fez um gesto de estupor, olhando ao Viana—. Não o entendo, Luis. À esses loucos terei que deixá-los em paz ou acabar com eles à primeira. Mas não fazer algo tão mal feito, não deixar que se convertessem em um problema nacional, não fazer um presente assim à nossos inimigos.

            — Quinhentos soldados, dois canhões, duas metralhadoras, parece-lhe pouca coisa para enfrentar a um bando de safados e de devotas?  —repôs Luis Viana, vivamente—. Quem podia imaginar que com semelhante força Febrônio de Brito se faria derrotar por uns pobres diabos.

            — A conspiração existe, mas não é nossa — voltou a interrompê-lo Adalberto de Gumucio. Tinha o cenho franzido e as mãos crispadas e o Barão pensou que jamais o tinha visto tão afetado por uma crise política—. O Major Febrônio não é tão inepto como quer nos fazer acreditar. Sua derrota foi deliberada, negociada, decidida de antemão com os jacobinos de Rio de Janeiro, através de Epaminondas Gonçalves. Para ter esse escândalo nacional que procuram desde que Floriano Peixoto deixou o poder. Não estiveram inventando conspirações monárquicas depois para que o Exército enclausure o Congresso e instale a República Ditatorial?

            — As conjeturas depois, Adalberto — disse o Primeiro Barão, quero saber exatamente o que ocorre, os fatos.

            — Não tem fatos, só as fantasias e as intrigas mais incríveis —interveio o Deputado Rocha Seabra—. Acusam-nos de: açular aos sebastianistas, de lhes enviar armas, de estar conspirando com a Inglaterra para restaurar o Império.

            — O Jornal de Notícias nos acusa disso e de piores coisas da queda de Dom Pedro II — sorriu o Barão, fazendo um gesto desdenhoso.

            — Diferentemente é que, agora, não é só o Jornal de Notícias a não ser metade do Brasil —disse Luis Viana. O Barão o viu revolver-se no assento, nervoso, e passar a mão pela calva—. De repente, no Rio, em São Paulo, em Belo Horizonte, em todas partes começam a repetir as imbecilidades e as baixezas que inventa o Partido Republicano Progressista.

            Várias pessoas falaram ao mesmo tempo e o Barão lhes pediu, com as mãos, que não se atropelassem. Por entre as cabeças de seus amigos podia ver o pomar, e, embora o que ouvia lhe interessava e o alarmava, desde que entrou no escritório não tinha deixado de perguntar-se se entre as árvores e arbustos estaria escondida o camaleão, um animal com o que se afeiçoou como outros com cães ou gatos.

            — Agora sabemos para que formou Epaminondas a Guarda Rural — dizia o Deputado Eduardo Glicério —. Para que proporcionasse as provas, no momento oportuno. Fuzis de contrabando para os jagunços e até espiões estrangeiros.

            — Ah, disso não me inteirou — disse Adalberto de Gumucio, ao ver a expressão intrigada do Barão—. O summum do grotesco. Um agente inglês no sertão! Encontraram-no carbonizado, mas era inglês. Como souberam? Por seus cabelos vermelhos! Exibiram-nos no Parlamento de Rio, junto com fuzis supostamente encontrados ao lado de seu cadáver, em Ipupiará. Ninguém nos escuta, até nossos melhores amigos, no Rio, tragam-se esses disparates. O país inteiro acredita que a República está em perigo pelo Canudos.

            — Suponho que eu sou o gênio tenebroso da conspiração — murmurou o Barão.

            — Sobre você se torna mais lodo que ninguém —disse o Diretor do Jornal da Bahia—. Você entregou Canudos aos rebeldes e viajou à Europa para entrevistar-se com os emigrados do Império e planejar a rebelião. Chegou-se a dizer que houve uma «bolsa subversiva» e que você pôs a metade do dinheiro e a outra metade à Inglaterra.

            — Sócio em partes iguais da coroa inglesa — murmurou o Barão —. Caramba, superestimam-me.

            — Sabe a quem mandam a debelar a sublevação restauradora? — disse o Deputado Lelis Piedades, que estava sentado no braço do assento do Governador—. Ao Coronel Moreira César e ao Sétimo Regimento.

            O Barão da Canabrava adiantou um pouco a cabeça e pestanejou.

            — O Coronel Moreira César? —Ficou pensativo um bom momento, movendo às vezes os lábios como se falasse em silêncio. Depois, dirigiu-se ao Gumucio —: Talvez tenha razão, Adalberto. Esta poderia ser uma operação audaz dos jacobinos. Da morte do Marechal Floriano, o Coronel Moreira César é sua grande carta, o herói com o que contam para recuperar o poder.

            Novamente ouviu que se disputavam a palavra, mas desta vez não os conteve. Enquanto seus amigos opinavam e discutiam, ele, simulando escutá-los, distraiu-se deles, algo que fazia com grande facilidade quando um diálogo o aborrecia ou seus próprios pensamentos lhe pareciam mais importantes que o que ouvia. O Coronel Moreira César! Não era bom que viesse. Era um fanático e, como todos os fanáticos, perigoso. Recordou a maneira implacável como tinha reprimido a revolução federalista de Santa Catarina, fazia quatro anos, e como, quando o Congresso Federal lhe pediu que devesse dar conta dos fuzilamentos que tinha ordenado, respondeu com um telegrama que era um modelo de laconismo e de arrogância: «Não». Recordou que entre os fuzilados pelo Coronel, lá no Sul, havia um Marechal, um Barão e um Almirante que ele conhecia e que, ao instalar a República, o Marechal Floriano Peixoto lhe encarregou depurar do Exército a todos os oficiais conhecidos por suas vinculações com a monarquia. O Sétimo Regimento de Infantaria contra Canudos! «Adalberto tem razão, pensou. É o summum do grotesco.» Fazendo um esforço, voltou a escutar.

            — Não deve liquidar aos sebastianistas do sertão a não ser a nós — dizia Adalberto de Gumucio—. Vem liquidar, ao Luis Viana, ao Partido Autonomista, e a entregar a Bahia ao Epaminondas Gonçalves, que é o homem dos jacobinos aqui.

            — Não há razões para suicidar-se, senhores — interrompeu-o o Barão, elevando um pouco a voz. Não estava risonho já, a não ser muito sério, e falava com firmeza—. Não há razões para suicidar-se — repetiu. Passou revista à concorrência, seguro de que sua serenidade acabaria por contagiar seus amigos—. Ninguém vai arrebatar o que é nosso. Não estão, neste quarto, o poder político da Bahia, a administração da Bahia, a justiça da Bahia, o jornalismo da Bahia? Não estão aqui a maioria das terras, dos bens, dos rebanhos da Bahia? Nem o Coronel Moreira César pode mudar isso. Acabar conosco seria acabar com Bahia, senhores. Epaminondas Gonçalves e quem o segue são uma curiosidade extravagante nesta terra. Não têm nem os meios, nem a gente, nem a experiência para tomar as rédeas da Bahia embora as ponham nas mãos. O cavalo os jogaria ao chão no ato.

            Fez uma pausa e alguém, solícito, alcançou-lhe um copo de refresco. Bebeu com fruição o líqüido, no que reconheceu o gosto açucarado da goiaba.

            — Alegra-nos muito seu otimismo, é óbvio — ouviu que dizia Luis Viana—. De todo modo, reconhecerá que sofremos uns reversos e que terá que atuar quanto antes.

            — Sem dúvida nenhuma —assentiu o Barão—. Vamos fazê-lo, por hora, agora mesmo enviaremos um telegrama ao Coronel Moreira César nos congratulando por sua vinda e lhe oferecendo o apoio das autoridades da Bahia e do Partido Autonomista. Acaso não estamos interessados em que venha a nos liberar dos ladrões de terras, dos fanáticos que saqueiam fazendas e não deixam trabalhar em paz aos moradores? E hoje mesmo, também, iniciaremos uma coleta que será entregue ao Exército Federal a fim de que se empregue na luta contra os bandidos.

            Esperou que se apaziguassem os murmúrios, bebendo outro gole de refresco. Fazia calor e lhe tinha molhado a fronte.

            — Recordo-lhe que, há anos, toda nossa política consiste em impedir que o governo central interfira muito nos assuntos da Bahia — disse Luis Viana, por fim.

            — Pois, agora, a única política que podemos ter, a menos de escolher o suicídio, é demonstrar a todo o país que não somos inimigos da República nem da soberania do Brasil —disse o Barão, secamente—. Teremos que desmontar essa intriga imediatamente e não há outra maneira. Daremos ao Moreira César e ao Sétimo Regimento um grande recebimento. Nós, não o Partido Republicano.

            Secou a fronte com seu lenço e voltou a esperar que o murmúrio, mais forte que antes, decrescesse.

            — É uma mudança muito brusca — disse Adalberto de Gumucio e o Barão viu que várias cabeças assentiam, depois dele.

            — Na Assembléia, nos jornais, toda nossa atuação foi tratar de evitar a intervenção federal — disse o Deputado Rocha Seabra.

            — Para defender os interesses da Bahia terá que seguir no poder e para seguir no poder terá que trocar de política, ao menos no momento — replicou o Barão, com suavidade. E, como se não tivessem importância as objeções que lhe faziam, prosseguiu dando diretivas —: Os fazendeiros devem colaborar com o Coronel. Alojar ao Regimento, lhe facilitar guias, provisões. Somos nós, junto com o Moreira César, quem acabarei com os conspiradores monárquicos financiados pela Rainha Vitória. — Fez um simulacro de sorriso, ao mesmo tempo que passava de novo o lenço pela fronte—. É uma festa de máscaras ridícula, mas não temos alternativa. E quando o Coronel acabar com os pobres cangaceiros e santos de Canudos celebraremos com grandes festas a derrota do Império Britânico e dos Bragança.

            Ninguém o festejou, ninguém sorriu. Todos estavam calados e incômodos. Mas, observando-os, o Barão compreendeu que, embora a contra gosto, alguns admitiam já que não restava outra coisa que fazer.

            — Viajarei ao Calumbí —disse o Barão—. Não estava em meus planos fazê-lo ainda. Mas é necessário. Eu mesmo porei a disposição do Sétimo Regimento o que lhes faça falta. Todos os fazendeiros da região deveriam fazer o mesmo. Que Moreira César veja a quem pertence essa terra, quem manda ali.

            A atmosfera estava muito tensa e todos queriam fazer perguntas, responder. Mas o Barão pensou que não era conveniente discutir agora. Logo depois de comer e de beber, ao longo da tarde e a noite, seria mais fácil lhes tirar as dúvidas, os escrúpulos.

            — Vamos almoçar e reunimo-nos com as damas —propôs-lhes, levantando-se—. Falaremos depois. Nem tudo tem que ser política na vida. Terá que dar lugar, também, para as coisas agradáveis.

 

            Queimadas, convertida em acampamento, é uma formigante animação sob a rajada de vento que cobre de pó: escutam-se ordens e se atropelam formações entre cavaleiros com sabres que gritam e gesticulam. De repente, cortam a madrugada uns toques de corneta e os curiosos correm pela borda do Itapicurú a observar a caatinga ressecada que se perde na direção de Monte Santo: estão partindo os primeiros corpos do Sétimo Regimento e o ar leva o hino que os soldados cantam a voz em pescoço.

            No interior da estação, o Coronel Moreira César da alvorada estuda cartas topográficas, dá instruções, assina despachos e recebe parte de serviço dos distintos batalhões. Os correspondentes, sonolentos, alistam suas mulas, cavalos e o carro de bagagens na porta da estação, salvo o mirrado jornalista do Jornal de Notícias, que, o tabuleiro portátil sob o braço e seu tinteiro posto na manga, ronda pelo local tratando de aproximar-se do Coronel. Em que pese a ser tão cedo, os seis membros da Câmara de vereadores Municipal estão ali, para despedir do chefe do Sétimo Regimento. Esperam, sentados em um banco e o enxame de oficiais e ajudantes que vai e vem a seu redor os dispõe tão pouca atenção como aos cartazes do Partido Republicano Progressista e do Partido Autonomista baiano que ainda pendem do teto. Mas eles estão entretidos, observando ao jornalista espantalho que, aproveitando um momento de calma, consegue por fim aproximar-se de Moreira César.

            —Posso lhe fazer uma pergunta, Coronel? —silaba sua voz fanhosa.

            —A conferência com os correspondentes foi ontem — responde-lhe o oficial, examinando-o como o faria com um ser caído de outro planeta. Mas a extravagante aparência ou a audácia do personagem o abrandam —: Faça-a. Do que se trata?

            —Dos detentos — sussurram os dois olhos vesgos, posados sobre ele—. Chamou-me a atenção que incorpore ladrões e assassinos ao Regimento. Ontem à noite fui ao cárcere, com os dois tenentes, e vi que arrolaram a sete.

            —Sim — diz Moreira César, esquadrinhando-o com curiosidade—. Qual é a pergunta?

            —A pergunta é: por que? Qual é a razão para que prometa a liberdade a esses delinqüentes?

            —Sabem brigar —diz o Coronel Moreira César. E, logo depois de uma pausa —: O delinqüente é um caso de energia humana excessiva que se verte na má direção. A guerra pode represá-la na boa. Eles sabem por que brigam e isso os faz bravos, às vezes heróicos. Comprovei-o. E o comprovará você, se chegar à Canudos. Porque — volta a olhar dos pés à cabeça — a simples vista se diria que não agüentará nenhuma jornada no sertão.

            —Tratarei de agüentar, Coronel. —O jornalista míope se retira e se adiantam o Coronel Tamarindo e o Major Cunha Matos, que esperavam atrás dele.

            —A vanguarda acaba de ficar em marcha  —diz o Coronel Tamarindo.

            O Major explica que as patrulhas do Capitão Ferreira Rocha reconheceram a rota até Tanquinho e que não há rastro de jagunços, mas que está cheio de desníveis e acidentes que vão dificultar o passo da artilharia. Os exploradores de Ferreira Rocha estão vendo se há maneira de evitar esses obstáculos e, de qualquer maneira , adiantou-se uma seção de sapadores a aplainar o caminho.

            — Repartiu bem aos detentos? — pergunta-lhe Moreira César.

            — Em companhias distintas e com proibição expressa de ver-se ou falar-se entre eles — assente o Major.

            — Partiu também o comboio do gado — diz o Coronel Tamarindo. E, depois de vacilar um momento —: Febrônio de Brito estava muito ofuscado. Teve uma crise de pranto.

            — Outro suicidar-se-ia — é todo o comentário de Moreira César. Levanta-se e um ordenança se apressa a recolher os papéis da mesa que lhe serviu de escritório. O Coronel, seguido de seus oficiais, dirige-se para a saída. Há gente que corre, para vê-lo, mas ele, antes de chegar à porta, recorda algo, muda de direção e vai para os bancos onde esperam os Vereadores de Queimadas. Estes ficam de pé. São homens rústicos, agricultores ou modestos comerciantes, que vestiram suas melhores roupas e engraxaram seus sapatos em sinal de respeito. Levam os chapéus nas mãos e os nota coibidos.

            — Obrigado pela hospitalidade e colaboração, senhores. — O Coronel os confunde em um só olhar convencional e quase cego —. O Sétimo Regimento não esquecerá o afeto de Queimadas. Recomendo-lhes à tropa que aqui fica.

            Não têm tempo de lhe responder pois, em vez de despedir-se de cada um, faz uma saudação geral, levando a mão direita ao quepis, e dá meia volta para a saída.

            A aparição de Moreira César e de sua comitiva, na rua, onde está formado o Regimento — as companhias se perdem ao longe, alinhadas uma detrás de outra, junto aos trilhos da ferrovia — provoca aplausos e vítores. Os sentinelas atalham a quão curiosos querem aproximar-se. O formoso cavalo branco relincha, impaciente por partir. Sobem à suas cavalgaduras Tamarindo, Cunha Matos, Olímpio de Castro; a escolta e os correspondentes, já montados, rodeiam ao Coronel. Este relê o telegrama que ditou para o Supremo Governo: «O Sétimo Regimento inicia hoje, 8 de fevereiro, sua campanha em defesa da soberania brasileira. Nem um só caso de indisciplina na tropa. Nosso único temor é que Antonio Conselheiro e os facciosos restauradores não nos esperem em Canudos. Viva a República». Põe-lhe suas iniciais, para que o telegrafista o despache imediatamente. Faz logo um sinal ao Capitão Olímpio de Castro, quem dá uma ordem às cornetas. Estes executam um toque penetrante e lúgubre que diferencia a madrugada.

            — É o toque do Regimento — diz Cunha Matos ao correspondente grisalho, que está a seu lado.

            — Tem um nome? — pergunta a voz fastidiosa do homem do Jornal de Notícias. Encostou a sua mula uma grande bolsa, para o tabuleiro de escrever, que dá ao animal uma silhueta masurpial.

            — Toque de Carga e Degola — diz Moreira César—. O Regimento o toca da guerra do Paraguai, quando, por falta de munição, tinha que atacar a sabre, baioneta e faca.

            Dá a ordem de partida com a mão direita. Mulas, homens, cavalos, carroças, armas, ficam em movimento entre baforadas de pó que um ventania manda a seu encontro. Ao sair de Queimadas os distintos corpos da Coluna vão muito unidos e só os diferenciam as cores dos pendões que levam suas escoltas. Logo, os uniformes de oficiais e soldados são igualados pelo terral que obriga a todos a baixar as viseiras de gorros e quepis e, a muitos, a amarrar lenços à boca. Pouco a pouco, batalhões, companhias e seções se vão distanciando e o que, ao deixar a estação, parecia um organismo compacto, uma larga serpente ondulando pela terra gretada, entre troncos de favela ressecados, estala em membros independentes, serpentes filhas que também se afastam umas de outras, perdendo-se de vista por momentos e voltando-se para avistar, segundo as anfractuosidades do terreno. Há constantes cavaleiros que sobem e baixam, tendendo um sistema circulatório de informações, ordens, averiguações, entre as partes desse todo espalhado cuja cabeça, às poucas horas de marcha, presentes já, ao longe, a primeira população do trajeto: Pau Seco. A vanguarda, comprova o Coronel Moreira César através de seus prismáticos, deixou ali, entre as cabanas, rastros de seu passo: uma bandeirola e dois soldados que o esperam sem dúvida com mensagens.

            Escoltados se adiantam uns metros ao Coronel e a seu Estado Maior; detrás destes, emplastro de betume exótico nessa sociedade uniformizada, vão os correspondentes que, igual a muitos oficiais, desmontaram e caminham conversando. Exatamente ao meio da Coluna se acha a bateria de canhões.

            — O detalhe mestre foi o arco triunfal na estação de Calçada nos chamando salvadores —recorda Tamarindo—. Uns dias antes se opunham freneticamente a que o Exército Federal interviesse na Bahia e depois nos jogam flores pelas ruas e o Barão da Canabrava nos manda dizer que viaja ao Calumbí para pôr sua fazenda a disposição do Regimento.

            Ri, de boa vontade, mas seu bom humor não contagia ao Moreira César.

            — Isso significa que o Barão é mais inteligente que seus amigos —diz—. Não podia impedir que o Rio interviesse em um caso flagrante de insurreição. Então, opta pelo patriotismo, para que os republicanos não o desloquem. Distrair e confundir por hora, para tentar depois outro arranhão. O Barão tem boa escola: a escola inglesa, senhores.

            Encontram ao Pau Seco deserto de gente, de coisas, de animais. Dois soldados, junto ao tronco sem ramos onde baila a bandeirola que deixou a vanguarda, saúdam. Moreira César freia seu cavalo e passa a vista pelas moradias de barro, cujo interior se divisa por portas abertas ou arrancadas. De uma delas emerge uma mulher sem dentes, descalça, com uma túnica por entre cujos buracos lhe vê a pele escura. Duas criaturas raquíticas, de olhos frágeis, uma das quais está nua e tem o ventre inchado, prendem-se de seu corpo. Olham com assombro aos soldados. Moreira César, do alto do cavalo, segue as observando: parecem a encarnação do desamparo. Sua cara se contrai em uma expressão em que se mesclam a tristeza, a cólera, o rancor. Sempre as olhando, ordena a um dos escoltas:

            — Que lhes dêem de comer. — E se volta para seus lugares-tenentes —: Vêem vocês em que estado têm às pessoas de seu país?

            Há uma vibração em sua voz e seus olhos relampejam. Em um gesto inoportuno tira a espada do cinto e a leva a cara, como se fosse beijá-la. Os correspondentes vêem então, alargando as cabeças, que o chefe do Sétimo Regimento, antes de reatar a marcha, faz com sua espada essa saudação que se faz nos desfiles à bandeira e à máxima autoridade, aos três miseráveis habitantes de Pau Seco.

            As palavras incompreensíveis estavam brotando, por rajadas, desde que o encontraram junto à mulher triste e o cadáver da mula que bicavam os urubus. Esporádicas, veementes, tronantes, ou apagadas, sussurradas, secretas, brotavam de dia e de noite assustando às vezes ao Idiota que ficava a tremer. A Barbuda disse a Jurema depois de farejar ao homem dos cabelos vermelhos: «Tem febres delirantes, como as que mataram a Graça. Morrerá hoje, o mais tardar». Mas não morreu, embora alguns momentos branqueava os olhos e parecia vir o estertor final. Logo depois de permanecer imóvel, voltava a retorcer-se fazendo caretas e a pronunciar as palavras que para eles eram só ruídos. Outros momentos, abria os olhos e os olhava com atordoamento. O Miúdo se empenhou em que falava língua de ciganos e a Barbuda em que se parecia com o latim das missas.

            Quando Jurema perguntou se podia ir com eles a Barbuda consentiu, talvez por compaixão, talvez por simples inércia. Entre os quatro subiram ao forasteiro à carroça, junto à cesta da cobra, e reataram a marcha. Os novos acompanhantes lhes trouxeram sorte pois, ao entardecer, na alqueria de Quererá, convidaram-lhes para comer. Uma idosa jogou fumaça sobre o Galileo Gall, pôs-lhe ervas nas feridas, deu-lhe um cozimento e disse que se curaria. Nessa noite a Barbuda entreteve aos vaqueiros com a cobra, o Idiota fez palhaçadas e o Miúdo lhes contou os contos dos cavalheiros. Continuaram viagem e, com efeito, o forasteiro começou a tragar os bocados que lhe davam. A Barbuda perguntou a Jurema se era sua mulher. Não, não o era: ele a tinha desgraçado, em ausência de seu marido, e depois disso o que ficava a não ser segui-lo. «Agora entendo por que é triste», comentou o Miúdo com simpatia.

            Foram em direção Norte, guiados por uma boa estrela, pois, diariamente, encontravam o que comer. Ao terceiro dia, apresentaram-se na feira de um casario. O que as pessoas mais gostaram foram as barbas da Barbuda: pagavam para comprovar que não eram postiças e lhe tocar de passagem as tetas e verificar que era mulher. Miúdo, enquanto isso, contava-lhes sua vida desde que ela era uma garotinha normal, lá no Ceará, e como se converteu em vergonha de sua família o dia que começaram a lhe sair pêlos nas costas, nos braços, nas pernas e na cara. Começou a dizer-se que tinha pecado de por medo, que era filha de sacristão ou do Cão. A menina engoliu vidro picado de matar cães com raiva. Mas não morreu e viveu como bobo até que chegou o Rei do Circo, o Cigano, que a recolheu e a fez artista. Jurema acreditava que era uma fantasia do Miúdo mas este lhe assegurou que era a pura verdade. Sentavam-se a conversar, às vezes, e como o Miúdo era amável e lhe inspirava confiança lhe falou de sua infância na fazenda de Calumbí, ao serviço da esposa do Barão da Canabrava, uma mulher muito bela e muito boa. Era triste que Rufino, seu marido, em vez de ficar com o Barão, fora à Queimadas e se dedicasse a pistoleiro, odioso ofício que o tinha viajando. E, mais triste, não lhe haver podido dar um filho. Por que a teria castigado Deus, lhe impedindo de engendrar? «Quem sabe?», murmurou o Miúdo. As decisões de Deus eram, às vezes, difíceis de compreender.

            Dias depois, acamparam em Ipupiará, numa encruzilhada de atalhos. Acabava de ocorrer uma desgraça. Um morador, atacado de loucura, tinha matado à seus filhos. Logo, matou-se também, com seu facão. Como era o enterro dos meninos-mártires, os circenses não se apresentaram, embora apregoaram uma para a noite seguinte. O povoado era pequeno mas com um armazém onde vinha a aprovisionar-se toda a região.

            Na manhã chegaram os capangas. Vinham montados e seu rodeio, apressado e dando coices, despertou à Barbuda que engatinhou sob a carpa para ver quem eram. Em todas as moradias de Ipupirá havia curiosos, surpreendidos como ela por essa aparição. Viu seis cavaleiros armados; eram capangas e não cangaceiros, nem guardas rurais, pela maneira como estavam vestidos e porque, nas ancas de seus animais, via-se muito clara a mesma marca de uma fazenda. Ia à frente — um desembainhado — desmontou e a Barbuda viu que se dirigia para ela. Jurema acabava de incorporar-se da manta. Sentiu-a tremer e a viu desencaixada, com a boca entreaberta. «É seu marido?», perguntou-lhe. «É Caifás», disse a moça. «Vai matá-la?», insistiu a Barbuda. Mas, em vez de lhe responder, Jurema saiu a quatro mãos da carpa, ergueu-se e foi ao encontro do capanga. Este se deteve a esperá-la. O coração da Barbuda se agitou, pensando que o desembainhado —era um homem ossudo e torrado de olhar frio — golpea-la-ia, chuta-la-ia e talvez lhe cravaria a faca antes de cravar-se ao homem dos cabelos vermelhos ao que sentia remover-se na carroça. Mas não, não a golpeou. Mas bem, tirou-se o chapéu e lhe fez a saudação que se faz a alguém que se respeita. De seus cavalos, os cinco homens olhavam esse diálogo que para eles, como para a Barbuda, só era um movimento dos lábios. O que diziam? O Miúdo e o Idiota despertaram e também espiavam. Logo depois de um momento, Jurema voltou e assinalou a carroça onde dormia o forasteiro ferido.

            O desembainhado, seguido pela moça, foi para a carroça, colocou a cabeça sob o toldo e a Barbuda viu que inspecionava com indiferença ao homem que, dormindo ou acordado, seguia falando com os fantasmas. O chefe dos capangas tinha os olhos quietos dos que sabem matar, quão mesmos a Barbuda tinha visto no bandido Pedrão aquela vez que venceu e matou ao Cigano. Jurema, muito pálida, esperava que o capanga terminasse a inspeção. Por fim, este se voltou para ela, falou-lhe, Jurema assentiu e o homem então indicou aos cavaleiros que desmontassem. Jurema se aproximou da Barbuda e lhe pediu as tesouras. Enquanto buscava, a Barbuda sussurrou: «Não a vai matar?» Jurema disse que não. E, com a tesoura que tinham sido de Graça na mão, encarapitou-se na carroça. Os capangas, levando seus cavalos das rédeas, dirigiam-se ao armazém de Ipupiará. A Barbuda se atreveu a aproximar-se de ver que fazia Jurema, e atrás dela veio o Miúdo e atrás deste o Idiota.

            Ajoelhada junto a ele — ambos cabiam apenas no estreito espaço — a moça cortava, atrás do crânio, os cabelos do forasteiro. Fazia-o sujeitando com uma mão as matas avermelhadas e aneladas e a tesoura chiava. Havia manchas de sangue coagulado na levita negra de Galileo Gall, rasgões, pó e excremento de pássaros. Estava de costas, entre trapos e caixas de cores, argolas, fuligem e sombreiros de cartão com meia-luas e estrelas. Tinha os olhos fechados, a barba cheia e também com sangue ressecado e, como lhe tinham tirado as botas, os dedos de seus pés apareciam pelos buracos das meias, grandes, branquíssimos e com as unhas sujas. A ferida de seu pescoço desaparecia sob a atadura e as ervas da curandeira. O Idiota pôs-se a rir e, embora a Barbuda o acotovelasse, continuou rindo. Imberbe, esquálido, de olhos perdidos, com a boca aberta e um fio de baba pendurando dos lábios, retorcia-se com as gargalhadas. Jurema não lhe prestou atenção, mas, em troca, o forasteiro abriu os olhos. Sua cara se contraiu em uma expressão de surpresa, de dor ou terror pelo que lhe faziam, mas a debilidade não lhe permitiu incorporar-se, só mover-se no local e emitir um desses ruídos incompreensíveis para os circenses.

            Terminar sua tarefa tomou de Jurema bastante tempo. Tanto que, quando terminou, os capangas tinham tido tempo de entrar no armazém, inteirar-se da história dos meninos assassinados pelo louco e ir ao cemitério cometer esse sacrilégio que deixaria estupefatos aos vizinhos de Ipupiará: desenterrar o cadáver do filicida e subi-lo com gaveta e tudo a um de seus cavalos para levar-lhe. Agora estavam aí, a uns metros dos circenses, esperando. Quando o crânio de Gall ficou tosquiado, coberto por uma irisação desigual, torneado, estalou de novo a risada do Idiota. Jurema reuniu em um feixe as matas de cabelos que colocara sobre sua saia, atou-as com o cordão que sujeitava seu próprio cabelo e a Barbuda a viu revisar os bolsos do forasteiro e tirar uma bolsinha onde lhes disse que havia dinheiro, se por acaso queriam usá-lo. Com o penacho em uma mão e na outra a bolsinha, desceu da carroça e passou entre eles.

            O chefe dos capangas veio a seu encontro. A Barbuda o viu receber das mãos de Jurema os cabelos do forasteiro e, quase sem olhá-los, guardá-los em sua alforja. Suas pupilas imóveis eram ameaçadoras, em que pese a que se dirigia a Jurema de maneira estudada, cortês, cerimoniosa, enquanto escovava os dentes com seu dedo indicador. Agora sim, a Barbuda podia ouvi-los.

            —Tinha isto em seu bolso —disse Jurema, lançando-lhe a bolsinha. Mas Caifás não a agarrou.

            —Não devo —disse, como repelido por algo invisível—. Também isso é de Rufino.

            Jurema, sem fazer a menor objeção, escondeu a bolsa entre suas roupas. A Barbuda acreditou que ia se afastar, mas a moça, olhando Caifás nos olhos, perguntou-lhe brandamente:

            — E se Rufino morreu?

            Caifás refletiu um momento, sem trocar de cara, sem pestanejar.

            — Se morreu, sempre haverá alguém que lave sua honra — ouviu-o dizer a Barbuda e lhe pareceu estar ouvindo o Miúdo e seus contos de príncipes e cavalheiros —. Um familiar, um amigo. Eu mesmo posso fazê-lo, se fizer falta.

            — E se contam a seu patrão o que fez? — perguntou-lhe ainda Jurema.

            — É só meu patrão —repôs Caifás, com segurança—. Rufino, mais que isso. Ele quer ao forasteiro morto e o forasteiro vai morrer. Possivelmente de suas feridas, possivelmente de Rufino. Logo a mentira se tornará verdade e estes serão os cabelos de um morto.

            Deu as costas a Jurema, para subir ao cavalo. Ela, ansiosa, pôs uma mão nos arreios:

            — Matar-me-á também?

            A Barbuda advertiu que o desembainhado a olhava sem compaixão e acaso com um pouco de desprezo.

            — Se eu fosse Rufino lhe mataria, porque em si também há culpa e possivelmente pior que a dele — disse Caifás, do alto de sua cavalgadura—. Mas como não sou Rufino, não sei. Ele saberá.

            Esporeou seu cavalo e os capangas partiram, com seu estranho, pestilento saque, na direção pela que tinham vindo.

 

            Logo que terminou a missa oficiada pelo Padre Joaquim na capela de Santo Antonio, João Abade foi recolher a gaveta com os encargos, que tinha deixado no Santuário. Em sua cabeça revoava uma pergunta: «Um regimento quantos soldados são?» Jogou a gaveta ao ombro e começou a dar limiares sobre a terra desnivelada de Belo Monte, esquivando aos vizinhos que lhe saíam ao passo a lhe perguntar se era verdade que vinha outro Exército. Respondia-lhes que sim, sem deter-se, saltando para não pisar nas galinhas, cabras, cães e nos meninos que lhe colocavam entre os pés. Chegou à antiga casa-fazenda convertida em armazém com o ombro lhe doendo pelo peso da gaveta.

            A gente amontoada na porta deu-lhe passagem e, dentro, Antonio Vilanova interrompeu algo que dizia a sua mulher Antonia e a sua cunhada Assunção para vir a seu encontro. De um balanço, um lorito repetia, frenético: «Felicidade, Felicidade».

            —Vem um Regimento — disse João Abade, colocando sua carga no chão—. Quantos homens são?

            —Trouxe as mechas! — exclamou Antonio Vilanova. De cócoras revisava laborioso o conteúdo da gaveta. Sua cara foi arredondando-se, satisfeita, enquanto descobria, além dos pacotes de mechas, remédios para a diarréia, desinfetantes, ataduras, calomelano, azeite e álcool.

            — Não há como pagar o que faz por nós o Padre Joaquim — disse, elevando a gaveta sobre o mostrador. As prateleiras transbordavam de latas e frascos, gêneros e toda classe de roupa, desde sandálias até chapéus, e tinha semeadas em qualquer parte bolsas e caixas entre as que se moviam as Sardelinhas e outras pessoas. O mostrador, um tablado sobre barris, tinha uns livros negros, semelhantes aos das caixas das fazendas.

            — O padre também trouxe notícias —disse João Abade—. Um regimento, serão mil?

            — Sim, já ouvi, vem um Exército — assentiu Antonio Vilanova, dispondo os encargos sobre o mostrador—. Um Regimento? Mais de mil. Possivelmente dois mil.

            João Abade se deu conta que não lhe interessava quantos eram quão soldados mandava desta vez o Cão contra Canudos. Ligeiramente calvo, grosso, com a barba espessa, via-o ordenar pacotes e frascos com sua energia característica. Não havia a menor inquietação em sua voz, nem sequer interesse. «Suas ocupações são muitas», pensou João Abade, ao mesmo tempo que explicava ao comerciante que era preciso mandar alguém a Monte Santo, agora mesmo. «Tem razão, é melhor que ele não se ocupe da guerra.» Porque Antonio era talvez a pessoa que, desde fazia anos, dormia menos e trabalhava mais em Canudos. Ao princípio, logo depois da chegada do Conselheiro, continuava seus afazeres de comprador e vendedor de mercadorias, mas, pouco a pouco, com o consentimento tácito de todos, seu trabalho se foi sobrepondo, até deslocar a organização da sociedade que nascia. Sem ele seria difícil comer, dormir, sobreviver, quando, de todos os limites, começaram a romper sobre Canudos as ondas de romeiros. Ele tinha distribuído o terreno para que se levantassem suas casas e semeassem, indicando o que era bom semear e que animais criar; ele mudava nos povoados o que Canudos produzia com o que necessitava; quando começaram a chegar donativos, ele separou o que seria tesouro do Templo do Bom Jesus com o que se empregaria em armas e provisões. Uma vez que o Beato autorizava sua permanência, os novos vizinhos vinham onde Antonio Vilanova a que os ajudasse a instalar-se. Idéias suas eram as Casas de Saúde, para os anciões, doentes e necessitados e quando os combates de Uauá e Cambaio ele se encarregou de armazenar as armas capturadas e de distribuí-las, de acordo com o João Abade. Quase todos os dias se reunia com o Conselheiro para lhe prestar contas e para escutar seus desejos. Não voltou a viajar e João Abade tinha ouvido dizer a Antonia Sardelinha que esse era o sinal mais extraordinário da mudança experimentada por seu marido, esse homem antes possuído pelo demônio do trânsito. Agora fazia as expedições. Honório e ninguém poderia dizer se essa vontade de arraigar no major dos Vilanova se devia à magnitude de suas obrigações em Belo Monte ou a que elas lhe permitiam estar quase diariamente, embora fosse uns minutos, com o Conselheiro. Voltava dessas entrevistas com brios renovados e uma paz profunda no coração.

            — O Conselheiro aceitou a guarda para cuidá-lo —disse João Abade—. E também que João Grande seja o chefe.

            Desta vez Antonio Vilanova se interessou e o olhou com alívio. O lorito gritou de novo: «Felicidade».

            —Que João Grande venha para ver-me. Eu posso ajudá-lo a escolher às pessoas. Eu conheço todos. Enfim, se lhe parecer.

            Antonia Sardelinha se aproximou:

            —Esta manhã Catarina perguntou por você —disse ao João Abade—. Tem tempo de vê-la agora?

            João negou com a cabeça: não, não tinha. De noite, possivelmente. Sentiu-se envergonhado, embora Vilanova entendia que se pospor à família por Deus: acaso eles não o faziam? Mas a ele, no fundo de seu coração, atormentava-o que as circunstâncias, ou a vontade do Bom Jesus, tivessem-no cada vez mais afastado de sua mulher.

            — Irei ver a Catarina e o direi — sorriu-lhe Antonia Sardelinha.

            João Abade saiu do armazém pensando em quão estranhas resultavam as coisas de sua vida e, acaso, as de todas as vidas. «Como nas histórias dos trovadores», pensou. Ele, que ao encontrar ao Conselheiro acreditou que o sangue desapareceria de seu caminho, estava agora envolto em uma guerra pior que todas as que tinha conhecido. Para isso fez o Padre que se arrependesse de seus pecados? Para seguir matando e vendo morrer? Sim, sem dúvida para isso. Mandou dois moços da rua dizer ao Pedrão e ao velho Joaquim Macambira que se reunissem com ele à saída para o Geromoabo e, antes de ir onde João Grande, foi procurar ao Pajeú que abria trincheiras no caminho de Rosário. Encontrou-o a umas centenas de metros das últimas moradias, dissimulando com matas de espinheiros uma sarjeta que cortava o atalho. Um grupo de homens, alguns com escopetas, conduziam e plantavam ramos, tanto que umas mulheres repartiam pratos de comida a outros homens sentados no chão que pareciam recém relevados de seu turno de trabalho. Ao vê-lo chegar, todos se aproximaram. Viu-se no centro de um círculo de caras inquisitivas. Uma mulher, sem dizer uma palavra, pôs-lhe nas mãos uma tigela com carne de cabrito frita, orvalhada de farinha de milho; outra, alcançou-lhe uma jarra de água. Estava tão fatigado — viera correndo — que teve que respirar fundo e beber um longo trago antes de poder falar. Fez-o enquanto comia, sem que lhe passasse pela cabeça que a gente que o escutava, poucos anos atrás — quando seu bando e a do Pajeú se destroçavam um ao outro — dariam tudo para tê-lo assim, à sua mercê, para submetê-lo às piores torturas antes de matá-lo. Felizmente, aqueles tempos de desordem ficaram para trás.

            Pajeú não se alterou ao saber do novo Exército anunciado pelo Padre Joaquim. Não fez nenhuma pergunta. Sabia Pajeú quantos homens tinha um Regimento? Não, não sabia; e tampouco os outros. João Abade lhe pediu então o que viera a lhe pedir: que partisse para o Sul, a espiar e hostilizar essa tropa. Seu cangaço tinha transportado anos nessa região, conhecia-a melhor que ninguém: não era ele a pessoa mais indicada para vigiar a rota dos soldados, lhes infiltrar pistoleiros e carregadores e demorá-los com emboscadas para dar tempo à Belo Monte preparar-se?

            Pajeú assentiu, ainda sem abrir a boca. Vendo sua palidez amarela-cinza, a grande cicatriz que fendia sua cara e sua figura maciça, João Abade se perguntou que idade teria, se não era um homem velho ao que não lhe notavam os anos.

             — Está bem — ouviu-lhe dizer—. Mandar-lhe-ei mensagens cada dia. A quantos destes vou levar?

             — Aos que queira — disse João —. São seus homens.

             — Eram — grunhiu Pajeú, dando uma olhada, com seus olhinhos afundados e casmurros nos quais brilhava uma luz cálida, aos que o rodeavam—. Agora são de Bom Jesus.

            — Todos somos Dele — disse João Abade. E, com súbita urgência —: antes de partir, que Antonio Vilanova lhe dê munição e explosivos. Já temos mechas. Pode ficar aqui Taramela?

            O aludido deu um passo adiante: era um homenzinho minúsculo, com uns olhos achinados, cicatrizes, rugas e largas costas, que tinha sido lugar-tenente de Pajeú.

            — Quero ir consigo à Monte Santo —disse, com voz ácida—. Sempre lhe cuidei. Sou sua sorte.

            — Cuida agora à Canudos, que vale mais que eu — respondeu Pajeú, com brutalidade.

            — Sim, sei nossa sorte —disse João Abade—. Mandar-lhe-ei mais gente, para que não se sinta sozinho. Louvado seja o Bom Jesus.

            — Louvado seja — responderam vários.

            João Abade lhes tinha dado as costas e corria de novo, atravessando o campo, cortando caminho para o mole de Cambaio onde estava João Grande. Enquanto corria, recordou sua mulher. Não a via desde que se decidiu cavar esconderijos e trincheiras em todo os atalhos, o que o tivera correndo dia e noite em uma circunferência da que Canudos era também o centro, como o era do mundo, João Abade tinha conhecido a Catarina quando era um desse punhado de homens e mulheres — que crescia e diminuía como a água do rio — que entrava nos povoados com o Conselheiro e se estendia a seu redor nas noites, depois de fatigantes jornadas, para rezar com ele e escutar seus conselhos. Havia, entre eles, uma figura tão magra que parecia espírito, embutida em uma túnica branca como um sudário. O ex-cangaceiro tinha encontrado muitas vezes os olhos da mulher, fixos nele, durante as marchas, as rezas, os descansos. Punham-no incômodo e, por momentos, assustavam-no. Eram uns olhos devastados pela dor, que pareciam ameaçá-lo com castigos que não eram deste mundo.

            Uma noite, quando os peregrinos dormiam já em torno de uma fogueira, João Abade se arrastou para a mulher cujos olhos podia ver, ao resplendor das chamas, cravados nele. «Quero saber por que me olha sempre», sussurrou. Ela fez um esforço, como se sua debilidade ou sua repugnância fossem muito grandes. «Eu estava em Custódia a noite que você veio vingar-se», disse, de maneira quase inaudível. «O primeiro homem que matou, que deu o grito, era meu pai. Vi como lhe colocou a faca no estômago.» João Abade permaneceu calado, sentindo o ranger da fogueira, o bordear dos insetos, a respiração da mulher, tratando de recordar aqueles olhos nessa madrugada tão longínqua. Ao cabo de um momento, em voz também muito baixa, perguntou: «Não morreram todos em Custódia, dessa vez?» Não morremos três —sussurrou a mulher—. Dom Matías, que se escondeu na palha de seu teto. A senhora Rosa, que se curou de suas feridas, embora ficou lunática. E eu. Também quiseram me matar, e também me curei.» Falava como se se tratasse de outras pessoas, de outros acontecimentos, de uma vida distinta e mais pobre. «Quantos anos tinha você?», perguntou o cangaceiro. «Dez ou doze, por aí», disse ela. João Abade a olhou: devia ser muito jovem, então, mas a fome e o sofrimento a tinham envelhecido. Sempre em voz muito baixa, para não despertar aos peregrinos, o homem e a moça evocaram gravemente os pormenores daquela noite, que conservavam vívida em sua memória. Foi violada por três homens e mais tarde alguém a tinha feito ajoelhar diante de umas calças que cheiravam a bosta, e umas mãos calosas lhe tinham encravado um membro duro que logo que cabia em sua boca e que ela tivera que sorver até receber um escarro de sêmen que o homem lhe ordenou tragar. Quando um dos bandidos lhe deu um talho com sua faca, Catarina sentiu uma grande serenidade. «Fui eu que lhe deu o talho?», sussurrou João Abade. «Não sei —sussurrou ela—. Já então, embora fosse de dia, não distinguia as caras nem sabia onde estava.»

            Desde essa noite, o ex-cangaceiro e a sobrevivente de Custódia estavam acostumados rezar e andar juntos, contando-se episódios dessas vistas que agora lhes pareciam incompreensíveis. Ela se tinha unido ao santo em um povoado de Sergipe, onde vivia da caridade. Era o mais esquálido dos peregrinos, depois de Conselheiro, e um bom dia, durante uma marcha, caiu exânime. João Abade tomou em seus braços e prosseguiu assim a jornada, até o entardecer. Durante vários dias a teve carregada e se ocupou também de lhe dar os pedacinhos encharcados de alimento que seu estômago aceitava. Nas noites, depois de ouvir o Conselheiro, também como tivesse feito com um menino, contava-lhe as histórias dos trovadores de sua infância que agora — talvez porque sua alma tinha recuperado a pureza da infância — voltavam para sua memória com luxo de detalhes. Ela o escutava sem interrompê-lo e dias depois, com sua voz quase perdida, fazia pergunta sobre os sarracenos, Fierabrás e Roberto, o Diabo, de modo que ele descobria que esses fantasmas se incorporaram à vida da Catarina como antes a dele.

            Ela se tinha reposto e andava por seus próprios pés quando, uma noite, João Abade, tremendo de confusão, acusou-se diante de todos os peregrinos de haver sentido muitas vezes o desejo de possui-la. O Conselheiro chamou a Catarina e lhe perguntou se a ofendia o que acabava de ouvir. Ela disse que não com a cabeça. Ante a ronda silenciosa, o Conselheiro lhe perguntou se ainda sentia rancor pelo acontecido em Custódia. Ela voltou a dizer que não: «Está purificada», disse o Conselheiro. Fez que ambos tirassem as mãos e pediu que todos rezassem ao Pai por eles. Uma semana depois os casou o pároco de Xique-Xique. Quanto fazia disso? Quatro ou cinco anos? Sentindo que seu coração lhe arrebentava, João divisou por fim, nas saias de Cambaio, as sombras dos jagunços. Deixou de correr e continuou com esse limiar curto e rápido com o que tinha andado tanto pelo mundo.

            Uma hora depois estava junto ao João Grande, lhe contando as novidades, enquanto bebia água fresca e comia um prato de milho. Estavam sozinhos, porque, logo depois de lhes anunciar a vinda desse Regimento — ninguém soube lhe dizer quantos soldados eram—, pediu a outros homens que se afastassem. O ex-escravo andava, como sempre, descalço, com uma calça descolorida, amarrado com uma corda da qual pendiam uma faca e um facão, e uma camisa sem botões que deixava descoberto seu peito peludo. Tinha uma carabina à costas e duas fileiras de bala como colares. Quando o escutou dizer que se formaria uma Guarda Católica para cuidar de Conselheiro e que ele seria o chefe, moveu a cabeça com força.

            — Por que não? — deu João Abade.

            — Não sou digno — resmungou o negro.

            — O Conselheiro diz que é — respondeu João Abade —. Ele sabe mais.

            — Não sei mandar — protestou o negro —. Não quero aprender a mandar, tampouco. Que outro seja o chefe.

            — Mandará você — disse o Comandante da Rua —. Não há tempo para discutir, João Grande.

            O negro esteve observando, pensativo, aos grupos de homens repartidos nos penhascos e pedras brutas da colina, sob o céu que se tornou plúmbeo.

            — Cuidar de Conselheiro é muito para mim — resmungou ao fim.

           — Escolhe aos melhores, aos que estão mais tempo aqui, aos que viu brigar bem em Uauá e aqui, em Cambaio — disse João Abade —. Quando chegar esse Exército, a Guarda Católica deve estar formada e ser o escudo de Canudos.

            João Grande permaneceu em silêncio, mastigando, em que pese a que tinha a boca vazia. Olhava as cúpulas do contorno como se estivesse vendo nelas aos guerreiros resplandecentes do Rei Dom Sebastião: atemorizado e deslumbrado pela surpresa.

            — Você me escolheu, não o Beato, nem o Conselheiro —disse, com voz surda—. Não me fez um favor.

            — Não lhe fiz — reconheceu João Abade —. Não o escolhi para lhe fazer isso, nem para lhe fazer um dano, mas sim porque é o melhor. Anda à Belo Monte e começa a trabalhar.

            — Louvado seja o Bom Jesus Conselheiro — disse o negro. Levantou-se da pedra em que estava sentado e se afastou pela planície de cascalho.

            — Louvado seja — disse João Grande. Uns segundos depois viu que o ex-escravo punha-se a correr.

            — Ou será que faltou a seu dever duas vezes —diz Rufino—. Não o matou, como Epaminondas queria. E lhe mentiu, lhe fazendo acreditar que estava morto. Duas vezes.

            — Só a primeira é grave —diz Caifás—. Entreguei-lhe seus cabelos e um cadáver. Era de outro, mas nem ele nem ninguém podia notá-lo. E o forasteiro será cadáver logo, se não o for já. Essa falta é leve.

           À borda avermelhada do Itapicurú, na margem oposta a dos curtumes de Queimadas, este sábado, como todos os sábados, estendem-se postas as bancas onde os vendedores vindos de toda a comarca apregoam suas mercadorias. As discussões entre mercados e clientes se elevam sobre o mar de cabeças descobertas ou ensombreadas que enegrecem a feira e se mesclam com relinchos, latidos, zurros, vozerio de meninos e brinde de bêbados. Os mendigos estimulam a generosidade das pessoas exagerando as contorções de seus membros entrevados e há cantores que tocam o violão, ante pequenos grupos, entoando histórias de amor e as guerras entre os heréticos e os cruzados cristãos. Movendo as saias, enfeitadas de braceletes, ciganas jovens e velhas adivinham o futuro.

            — Em todo caso, lhe agradeço — diz Rufino —. É um homem de honra, Caifás. Por isso sempre lhe respeitei. Por isso lhe respeitam todos.

            — Qual é o dever maior? — diz Caifás —. Com o patrão ou com o amigo? Um cego veria que minha obrigação era fazer o que fiz.

            Caminham muito sérios um ao lado do outro, indiferentes à atmosfera matizada, promíscua, multicolorida. Abrem-se passagem sem pedir permissão apartando às pessoas com o olhar ou a pressão dos ombros. Às vezes, alguém, de um mostrador ou um toldo, saúda-os, e ambos respondem de maneira tão cortante que ninguém lhes aproxima. Como previamente de acordo, dirigem-se a um posto de bebidas — bancos de madeira, tábuas e uma ramagem — onde há menos gente que nos outros.

            — Se eu o tivesse rematado, lá em Ipupiará, talvez ofendesse você — diz Caifás, como expressando algo que pensou e repensou —. Impedindo-lhe de lavar a mancha.

            — Por que vieram matá-lo aqui, da primeira vez? — interrompe-o Rufino —. Por que em minha casa?

            — Epaminondas queria que morresse aí — diz Caifás —. Não morreu você, nem Jurema. Para não a machucar, morreram meus homens. — Cospe ao ar, por uma presa, e fica refletindo—. Possivelmente foi minha culpa que morreram. Não pensei que ia se defender, que sabia brigar. Não parecia.

            — Não — diz Rufino—. Não parecia.

            Sentam-se e juntam as cadeiras para falar sem ser ouvidos. A mulher que atende lhes alcança dois copos e pergunta se querem aguardente. Sim, querem. Traz uma garrafa que está pela metade, o rastreador serve e bebem, sem brindar. Agora é Caifás quem enche os copos. É maior que o rastreador e seus olhos, sempre imóveis, estão apagados. Vestido de couro, como de costume, e está dos pés a cabeça.

            — Ela o salvou? — diz Rufino, ao fim, baixando os olhos —. Ela lhe agarrou o braço?

            — Assim me dava conta que se tornou sua mulher — assente Caifás. Em sua cara ainda há rastros da surpresa daquela manhã—. Quando saltou e me desviou o braço, quando me atacou junto a ele. — Encolhe os ombros e cospe —. Era sua mulher já, o que podia fazer a não ser defendê-lo?

            — Sim — diz Rufino.

            — Não entendo por que não me mataram — diz Caifás—. Perguntei à Jurema, em Ipupiará, e não me soube explicar isso. Esse forasteiro é estranho.

             — É — diz Rufino.

            Entre a gente da feira, há também soldados. São os resíduos da Expedição do Major Brito, que seguem aqui, esperando, dizem, a chegada de um Exército. Têm os uniformes rasgados, vagabundeiam como almas em pena, dormem no Plaza Matriz, na estação, nos barrancos do rio. Estão também entre os bancos, de dois, de quatro, olhando com inveja às mulheres, à comida e ao álcool que os rodeiam. Os vizinhos se empenham em não lhes falar, em não os ouvir, em não os ver.

            — As promessas atam as mãos, não é verdade? — diz Rufino, com acanhamento. Uma ruga profunda reparte sua fronte.

            — Atam-nas — assente Caifás —. Como poderia desatar uma promessa feita ao Bom Jesus ou à Virgem?

            — E uma feita ao Barão? — diz Rufino, adiantando a cabeça.

            — Essa o Barão pode desatar — diz Caifás. Enche de novo os copos e bebem. Entre o rumor da feira, estala uma discussão violenta, longínqua, que termina em risadas. O céu se encapotou, como se fosse chover.

            — Sei o que sente — diz Caifás, de repente—. Sei que não dorme e que tudo na vida morreu para você. Que inclusive quando está com outros, como agora comigo, está se vingando. Assim é, Rufino, assim é quando se tem honra.

            Uma fila de formigas percorre alinhada à mesa, contornando a garrafa que ficou vazia. Rufino as observa avançar, desaparecer. Tem seu copo na mão e o aperta com força.

            — Há algo que deve ter presente — acrescenta Caifás —. A morte não basta, não lava a afronta. A mão ou o chicote na cara, em troca, sim. Porque a cara é tão sagrada como a mãe ou a mulher.

            Rufino fica de pé. Acode a proprietária do posto e Caifás leva a mão ao bolso, mas o rastreador o atalha e paga. Esperam o troco em silêncio, apartados por seus pensamentos.

            — É certo que sua mãe se foi à Canudos? — pergunta Caifás. E, como Rufino assente —: Muitos se vão. Epaminondas está contratando mais homens para a Guarda Rural. Vem um Exército e quer ajudá-lo. Também há minha família com o santo. É difícil fazer guerra à própria família, não Rufino?

            — Eu tenho outra guerra — murmura Rufino, guardando as moedas que dá a mulher.

            — Espero que o encontre, que a enfermidade não o tenha matado — diz Caifás.

Suas silhuetas se desvanecem no tumulto da feira de Queimadas.

 

            — Há algo que não entendo, Barão — repetiu o coronel José Bernardo Murau, desprezando-se na cadeira de balanço, em que se balançava devagarzinho impulsionando-se com o pé—. O Coronel Moreira César nos odeia e nós o odiamos. Sua vinda é uma grande vitória para o Epaminondas e uma derrota para o que defendemos, que o Rio não se meta em nossos assuntos. E, entretanto, o Partido Autonomista o recebe em Salvador como um herói e agora competimos com o Epaminondas a ver quem dá mais ajuda ao Cortapescoços.

            A estadia, fresca, caiada, velha, com rachos na parede, luzia desarrumada; havia um buquê de flores murchas em um vaso de cobre e, como de costume, estava lascado. Pelas janelas se viam os canaviais, acesos pelo sol, e, muito perto da casa, um grupo de servidores alistando uns cavalos.

            — Os tempos se tornaram confusos, meu querido José Bernardo—sorriu o Barão da Canabrava—. Já nem as pessoas inteligentes se orientam na selva em que vivemos.

            — Inteligente não fui nunca, essa não é virtude de fazendeiros —resmungou o coronel Murau. Fez um gesto vago para fora—. Passei meio século aqui só para chegar à velhice e ver como tudo se desmorona. Meu consolo é que morrerei logo e não verei a ruína total desta terra.

            Era, efetivamente, um homem muito velho, ossudo, com a pele brunida e umas mãos nodosas com as quais arranhava freqüentemente a cara mal barbeada. Vestia como um peão, uma calça descolorida, uma camisa aberta e, sobre ela, um colete de couro cru que tinha perdido os botões.

            — A má rajada passará logo — disse Adalberto de Gumucio.

            — Para mim, não. — O fazendeiro fez ranger os ossos de seus dedos—. Sabem quantos partiram destas terras nos últimos anos? Centenas de famílias. A seca de 77, a miragem dos cafezais do Sul, da borracha do Amazonas, e, agora, o maldito Canudos. Sabem a quantidade de gente que vai à Canudos? Abandonando casas, animais, trabalho, tudo. A esperar lá o Apocalipse e a chegada do Rei Dom Sebastião. —Olhou-os, afligido pela imbecilidade humana—. Dir-lhe-ei o que vai ocorrer, sem ser inteligente. Moreira César imporá ao Epaminondas de Governador da Bahia e ele e sua gente hostilizar-nos-ão de tal modo que terá que vender mal as fazendas ou dá-las de presente, e ir-se também.

            Em frente ao Barão e ao Gumucio havia uma mesinha com refrescos e uma cesta de bolachas, que ninguém tinha provado. O Barão abriu uma caixinha de rapé, ofereceu-a a seus amigos, e aspirou com deleite. Ficou um momento com os olhos fechados.

            — Não vamos dar de presente o Brasil aos jacobinos, José Bernardo — disse, abrindo-os—. Em que pese a que prepararam esta operação com muita astúcia, não lhes vai resultar.

            — Brasil já é deles — interrompeu-o Murau—. A prova é que Moreira César vem aqui, mandado pelo governo.

            — Foi renomado por pressão do Clube Militar do Rio. Um pequeno reduto jacobino, aproveitando a enfermidade do Presidente Morais —disse o Barão—. Na realidade, esta é uma conjuração contra Morais. O plano é muito claro. Canudos é o pretexto para que seu homem se infle de mais glória e prestígio. Moreira César esmaga uma conspiração monárquica! Moreira César salva à República! Não é essa a melhor prova de que só o Exército pode garantir a segurança nacional? O Exército ao poder, então, a República Ditatorial. — Estava sorridente, mas agora ficou sério —. Não o permitiremos, José Bernardo. Porque não vão ser os jacobinos, a não ser nós, os que vamos esmagar a conspiração monárquica. — Fez uma careta de asco —. Não se pode atuar como cavalheiros, querido. A política é um que fazer de rufiões.

            A frase tocou alguma mola íntima do velho Murau, porque sua expressão se animou e o viram tornar a rir.

            — Está bem, rendo-me, senhores rufiões! — exclamou —. Mandarei mulas, pistoleiros, provisões e o que faça falta ao Cortapescoços. Devo alojar também, aqui, ao Sétimo Regimento?

            — É seguro que não passará por sua terra — agradeceu-lhe o Barão—. Nem sequer terá que lhe ver a cara.

            — Não podemos deixar que o Brasil nos creia elevados contra a República, e até tramando com a Inglaterra para restaurar a monarquia — disse Adalberto de Gumucio—. Não se dá conta, José Bernardo? Terá que desmontar essa intriga, e muito em breve. Com o patriotismo não se joga.

            — Epaminondas jogou e jogou bem — resmungou Murau.

            — É certo — admitiu o Barão —. Eu, você, Adalberto, Viana, todos acreditávamos que não teríamos que lhe dar importância. O certo é que Epaminondas demonstrou ser um adversário perigoso.

            — Toda a intriga contra nós é troca, grotesca, de uma vulgaridade total —disse Gumucio.

            — Mas lhe deu bons resultados, até agora. — O Barão deu uma olhada para o exterior: sim, os cavalos estavam preparados. Anunciou a seus amigos que melhor seguir viagem ao mesmo tempo, já que tinha obtido seu objetivo: convencer ao fazendeiro mais teimoso da Bahia. Iria ver se Estela e Sebastiana podiam partir. José Bernardo Murau lhe recordou então que um homem, vindo de Queimadas, esperava-o fazia duas horas. O Barão o tinha esquecido por completo. «É certo, é certo», murmurou. E ordenou que o fizessem passar.

            Um instante depois se recortou na porta a silhueta de Rufino. Viram-no tirar o chapéu de palha, fazer uma vênia ao dono da casa e ao Gumucio, ir para o Barão, inclinar-se e lhe beijar a mão.

            — Quanto me alegro de vê-lo, afilhado — disse-lhe este, aplaudindo-o com afeto—. Que bom que veio nos ver. Como está Jurema? Por que não a trouxe? A Estela talvez gostasse de vê-la.

            Advertiu que o guia permanecia cabisbaixo, espremendo o chapéu e de repente, notou-o terrivelmente envergonhado. Suspeitou então qual podia ser o motivo da visita de seu antigo peão.

            — Aconteceu algo a sua mulher? — perguntou —. Está doente Jurema?

            — Dê-me permissão para romper a promessa, padrinho — disse Rufino, de um puxão. Gumucio e Murau, que estavam distraídos, interessaram-se no diálogo. No silêncio, que havia se tornado enigmático e tenso, o Barão demorou em dar-se conta que podia dizer isso que ouvia, em saber o que lhe pediam.

            — Jurema? — disse, pestanejando, retrocedendo, escavando na memória—. Fez-lhe algo? Não o terá abandonado, não, Rufino? Quer dizer que o fez, que se foi com outro homem?

            O arbusto de cabelos murchos e sujos que tinha diante, assentiu quase imperceptivelmente. Agora compreendeu o Barão por que Rufino lhe ocultava os olhos. E soube o esforço que estava fazendo e quanto padecia. Sentiu compaixão por ele.

            — Para que, Rufino? — disse, com um gesto causar pena —. O que ganharia? Desgraçar-lhe duas vezes em lugar de uma. Se se foi, de certa forma, morreu. Matou-se sozinha. Esqueça-se de Jurema. Esqueça-se um tempo de Queimadas, também. Já conseguirá outra mulher que lhe seja fiel. Vêm conosco ao Culumbí, onde tem tantos amigos.

            Gumucio e José Bernardo Murau esperavam com curiosidade a resposta de Rufino. O primeiro se serviu um copo de refresco e o tinha junto aos lábios, sem beber.

            — Dê-me permissão para romper a promessa, padrinho — disse, ao fim, o rastreador, sem levantar os olhos.

            Um sorriso cordial, de aprovação, brotou no Adalberto de Gumucio, que seguia muito atento a conversação entre o Barão e seu antigo servidor. José Bernardo Murau, em troca, pôs-se a bocejar. O Barão disse que qualquer raciocínio seria inútil, que tinha que aceitar o inevitável e dizer sim ou não, mas não se enganar tratando de fazer mudar de decisão ao Rufino. Mesmo assim, tentou ganhar tempo:

            — Quem a roubou? —murmurou—. Com quem se foi?

            Rufino esperou um segundo antes de falar.

            — Um estrangeiro que veio à Queimadas — disse. Fez outra pausa e, com sábia lentidão, acrescentou —: Queria ir à Canudos, levar armas aos jagunços.

            O copo se desprendeu das mãos de Adalberto de Gumucio e se fez migalhas a seus pés, mas nem o ruído, nem as salpicaduras, nem a chuva de lascas, distraiu aos três homens que, com os olhos muito abertos, olhavam assombrados ao rastreador. Este permanecia imóvel, cabisbaixo, calado, dir-se-ia ignorante do efeito que acabava de causar. O Barão foi o primeiro em repor-se.

            — Um estrangeiro queria levar armas à Canudos? — O esforço que fazia para parecer natural danificava mais sua voz.

            — Queria mas não foi — assentiu o arbusto de cabelos sujos. Rufino mantinha a postura respeitosa e olhava sempre ao chão—. O coronel Epaminondas o mandou matar. E crê morto. Mas não está. Jurema o salvou. E agora Jurema e ele estão juntos.

            Gumucio e o Barão se olharam, maravilhados, e José Bernardo Murau fazia esforços por incorporar-se na cadeira de balanço, grunhindo algo. O Barão se levantou antes que ele. Estava pálido e as mãos lhe tremiam. Nem sequer agora parecia advertir o rastreador a agitação que provocava nos três homens.

            — Ou será, Galileo Gall está vivo — articulou, por fim, Gumucio, golpeando uma palma com o punho—. Ou será, o cadáver queimado, a cabeça talhada e toda essa truculência...

            — Não a cortaram, senhor — interrompeu Rufino e outra vez reinou um silêncio elétrico na sala desarrumada—. Cortaram-lhe os longos cabelos que tinha. Mataram foi um lunático que assassinou a seus filhos. O estrangeiro está vivo.

            Calou e embora Adalberto de Gumucio e José Bernardo Murau lhe fizeram várias perguntas ao mesmo tempo, e lhe pediram detalhes e lhe exigiram que falasse, Rufino guardou silêncio. O Barão conhecia bastante às pessoas de sua terra para saber que o guia disse o que tinha que dizer e que ninguém nem nada lhe tiraria uma palavra mais.

            — Há alguma outra coisa que possa nos contar, afilhado ? — Tinha-lhe posto uma mão no ombro e não dissimulava quão comovido estava. Rufino moveu a cabeça.

            — Agradeço-lhe que veio —disse o Barão—. Fez-me um grande serviço, filho. A todos nós. Ao país também, embora você não saiba.

            A voz de Rufino voltou a soar, mais insistente que antes:

            — Quero romper a promessa que lhe fiz, padrinho.

            O Barão assentiu, pesaroso. Pensou que ia ditar uma sentença de morte contra alguém que talvez era inocente, ou que tinha razões poderosas e respeitáveis, e que ia sentir-se mal e repelido pelo que ia dizer, e, entretanto, não podia fazer outra coisa.

            — Faz o que sua consciência lhe peça —murmurou—. Que Deus o acompanhe e lhe perdoe.

            Rufino elevou a cabeça, suspirou, e o Barão viu que seus olhinhos estavam ensangüentados e úmidos e que sua cara era a de um homem que sobreviveu a uma terrível prova. Ajoelhou-se e o Barão lhe fez o sinal da cruz na frente e lhe deu outra vez a beijar sua mão. O rastreador se levantou e saiu da habitação sem sequer olhar às outras duas pessoas.

            O primeiro em falar foi Adalberto de Gumucio:

            — Inclino-me e rendo honras — disse, escrutinando os pedaços de vidro disseminados a seus pés—. Epaminondas é um homem de grandes recursos. É verdade, estávamos equivocados com ele.

            — Lastimo que não seja dos nossos — adicionou o Barão. Mas, apesar do extraordinário descobrimento que tinha feito, não pensava em Epaminondas Gonçalves, a não ser em Jurema, a moça que Rufino ia matar, e na pena que sua mulher sentiria se o fizesse.

 

            — A ordenança está aí desde ontem — diz Moreira César, apontando com seu chicote o cartaz que manda à população civil declarar ao Sétimo Regimento todas as armas de fogo—. E esta manhã, ao chegar a Coluna, foi apregoada antes do registro. Sabiam ao que se arriscavam, senhores.

            Os prisioneiros estão atados costas contra costas, e não há rastros de castigo em suas caras, nem em seus torsos. Descalços, sem chapéus, poderiam ser pai e filho, tio e sobrinho, ou dois irmãos, pois os rasgos do jovem repetem os do mais velho e ambos têm uma maneira semelhante de olhar a mesinha de campanha do tribunal que acaba de julgá-los. Dos três oficiais que fizeram de juízes, dois estão indo, com a pressa que vieram e os sentenciaram, para as companhias que continuam chegando à Cansanção e se somam às que já acampam no povoado. Só Moreira César está ali, junto ao corpo do delito: duas carabinas, uma caixa de balas, uma bolsinha de pólvora. Os prisioneiros, além de ocultar as armas, atacaram e feriram a um de quão soldados os prendeu. Toda a população de Cansanção — umas poucas dezenas de camponeses — está no descampado, atrás de soldados com baioneta calada que lhes impedem de aproximar-se.

            — Por este lixo, não valia a pena — a bota do Coronel roça as carabinas. Não há a menor animosidade em sua voz. Volta-se para um Sargento, que está a seu lado e, como se lhe perguntasse a hora, diz-lhe —: Dê-lhes um gole de aguardente.

            Pertíssimo dos prisioneiros, apinhados, silenciosos, com caras de estupefação ou de susto, acham-se os correspondentes. Os quais não têm chapéus se protegem do ensolarado com seus lenços. Mais à frente do descampado, ouvem-se os ruídos de rotina: sapatões e botas contra a terra, cascos e relinchos, vozes de ordem, rangidos e gargalhadas. Dir-se-ia que a quão soldados chegam ou que já descansam lhes importa um cominho o que vai passar. O Sargento tirou a rolha de uma garrafa e aproximou-a da boca dos prisioneiros. Ambos beberam um longo trago.

            — Quero morrer de tiro, Coronel — suplica, de repente, o mais jovem. Moreira César move a cabeça.

            — Não gasto munição em traidores da República — diz —. Coragem. Morram como homens.

            Faz um gesto e dois soldados desembainham suas facas do cinto e avançam. Atuam com precisão, com movimentos idênticos: agarram, cada qual com a mão esquerda, os cabelos de um prisioneiro, de um puxão lhe jogam a cabeça para trás e os degolam, ao mesmo tempo, com um talho profundo, que corta em seco o gemido animal do jovem e o alarido do velho:

            — Viva o Bom Jesus Conselheiro! Viva Belo...!

            Os soldados se aproximam, para fechar a passagem aos vizinhos, que não se moveram. Alguns correspondentes baixaram a vista, outro olha aniquilado e o jornalista míope do Jornal de Notícias faz caretas. Moreira César observa os corpos caídos, tintos de sangue.

            — Que fiquem expostos ao pé da ordenança — diz, com suavidade.

            E, no ato, parece esquecer a execução. Andando nervoso, rápido, afasta-se pelo descampado, para a cabana onde lhe prepararam uma rede. O grupo de jornalistas fica em movimento, depois dele, e lhe dá alcance. Vai em meio deles, sério, tranqüilo, com a pele seca, diferente dos correspondentes, congestionados pelo calor e a impressão. Não se recuperam do impacto dessas grutas seccionadas aos poucos passos deles: o significado de certas palavras, guerra, crueldade, sofrimento, destino, desertou o abstrato domínio em que vivia cobrando uma carnificina mensurável, tangível, que os emudece. Chegam à porta da cabana. Um ordenança apresenta ao Coronel um lavatório, uma toalha. O chefe do Sétimo Regimento enxágua as mãos e refresca a cara. O correspondente que anda sempre agasalhado balbucia:

            — Pode-se dar notícia desta execução. Excelência?

            Moreira César não ouve, ou não se digna lhe responder.

            — No fundo, o homem só teme à morte — diz, enquanto se seca, sem grandiloqüência, com naturalidade, como nos bate-papos que nas noites lhe ouvem dar à grupos de seus oficiais—. Por isso, é o único castigo eficaz. A condição de que se aplique com justiça. Leciona à população civil e desmoraliza ao inimigo. Sonha duro, sei. Mas assim ganham as guerras. Hoje tiveram seu batismo de fogo. Já sabem do que se trata, senhores.

            Despede-os com vênia rapidíssima, glacial, que aprenderam a reconhecer como irreversível fim de entrevista. Dá-lhes as costas e ingressa na cabana, em que alcançam a divisar um agitação de uniformes, um mapa desdobrado e um punhado de anexos que fazem soar os calcanhares. Confusos, atormentados, desfocados, descruzam o descampado para o posto de intendência, onde, em cada descanso, recebem sua ração, idêntica a dos oficiais. Mas é seguro que hoje não provarão bocado.

            Os cinco estão muito cansados, pelo ritmo da marcha da Coluna. Têm os fundilhos ressentidos, as pernas duras, a pele queimada pelo sol desse deserto arenoso, arrepiado de cactos e favelas, que separa à Queimadas de Monte Santo. Perguntam-se como agüentam os que partem a pé, a imensa maioria do Regimento. Mas muitos não agüentam: viram-nos derrubar-se como fardos e ser levados em peso às carretas da Sanidade. Agora sabem que esses exaustos, uma vez reanimados, são repreendidos severamente. «Esta é a guerra?», pensa o jornalista míope. Porque, antes desta execução, não viram nada que se pareça com a guerra. Por isso, não entendem a veemência com que o chefe do Sétimo Regimento faz apurar a seus homens. É esta uma carreira para uma miragem? Não havia tantos rumores sobre as violências dos jagunços no interior? Onde estão? Não encontraram a não ser aldeias semidesertas, cuja pobre humanidade os olha passar com indiferença e que, a suas perguntas, responde sempre com evasivas. A Coluna não foi atacada, não se ouviram tiros. É certo que as cabeças de gado desaparecidas foram roubadas pelo inimigo, como assegura Moreira César? Esse homem pequeno e intenso não lhes merece simpatia, mas lhes impressiona sua segurança, e que logo que coma e durma, a energia não o abandona um instante. Quando, nas noites, envolvem-se nas mantas para mal dormir vêem-no ainda em pé, com o uniforme sem desabotoar nem arregaçar, percorrendo as fileiras de soldados, detendo-se trocar umas palavras com os sentinelas ou discutindo com seu Estado Maior. E, nas madrugadas, quando soa a corneta e eles, bêbados de sono, abrem os olhos, já está ele aí, lavado e raspado, interrogando aos mensageiros da vanguarda ou examinando as peças de artilharia, como se não se deitasse. Até a execução de um momento, a guerra, para eles, era ele. Era o único que falava permanentemente dela, com uma convicção tal que chegava a convencê-los, a fazer que a vissem rodeá-los, assediá-los. Ele os persuadiu que muitos desses seres impávidos, famintos — idênticos aos executados —, que saem a vê-los passar, são cúmplices do inimigo, e que atrás desses olhares apagados há umas inteligências que contam, medem, calculam, registram, e que essas informações vão sempre adiante deles, rumo à Canudos. O jornalista míope recorda que o velho aclamou ao Conselheiro antes de morrer e pensa: «Talvez é verdade. Ao melhor, todos eles são o inimigo».

            Desta vez, diferente de outros descansos, nenhum dos correspondentes põe-se a cabecear. Permanecem, solidários em sua confusão e angústia, junto ao toldo dos ranchos, fumando, meditando, e o jornalista do Jornal de Notícias não afasta a vista dos cadáveres estirados ao pé do tronco onde baila a ordenança que desobedeceram. Uma hora depois estão de novo à cabeça da Coluna, imediatamente atrás dos estandartes e do Coronel Moreira César, rumo a essa guerra que para eles, agora sim, começou.

            Outra surpresa os espera, antes de chegar à Monte Santo, na encruzilhada onde um cartaz impreciso aponta o desvio à fazenda de Calumbí; a Coluna chega ali às seis horas de reatar a marcha. Dos cinco correspondentes, só o mirrado espantalho do Jornal de Notícias será testemunha muito próxima do fato. Uma curiosa relação se estabeleceu entre ele e o chefe do Sétimo Regimento, que seria inexato chamar amizade ou até simpatia. Trata-se, muito bem, de uma curiosidade nascida da mútua repelência, da atração que exercem entre si as antípodas. Mas o fato é que o homem que parece uma caricatura de si mesmo, não só quando escreve no disparatado tabuleiro que coloca sobre suas pernas ou arreios e molha a pluma nesse tinteiro portátil que parece um recipiente desses em que os caboclos levam o veneno para os dardos de suas suspensões nas caçadas, mas também, quando caminha ou cavalga, dando sempre a impressão de estar a ponto de desmoronar-se, parece absorvido, enfeitiçado, obcecado pelo miúdo Coronel. Não deixa de observá-lo, não perde ocasião de aproximar-se e, nos bate-papos com seus colegas, Moreira César é o único tema que lhe importa, mais ainda, dir-se-ia, que Canudos e a guerra. E o que pode ter interessado ao Coronel do jovem jornalista? Possivelmente sua excentricidade indumentária e física, essa ruindade de ossos, essa desproporção de membros, essa proliferação de cabelos e de pêlos, essas unhas largas que agora andam negras, essas maneiras brandas, esse conjunto no que não aparece nada que o Coronel chamaria viril, marcial. Mas o certo é que há algo nessa figurinha contrafeita, de voz antipática, que seduz, acaso apesar de si mesmo, ao pequeno oficial de idéias fixas e olhos enérgicos. É ao único ao que está acostumado a dirigir-se, quando conversa com os correspondentes, e algumas vezes dialoga com ele a sós, logo do rancho da tarde. Durante as jornadas, o jornalista do Jornal de Notícias, como por iniciativa de sua cavalgadura, está acostumado a se adiantar e unir ao Coronel. É o que ocorreu esta vez, depois de ter partido a Coluna de Cansanção. O míope, balançando-se com os movimentos de um boneco, confunde-se com os oficiais e ordenanças que rodeiam o cavalo branco de Moreira César, quando este, ao chegar ao desvio de Calumbí, levanta a mão direita: o sinal de alto.

            Escoltados se afastam à carreira, levando ordens, e a corneta dá o toque que fará deter todas as companhias do Regimento. Moreira César, Olímpio de Castro, Cunha Matos e Tamarindo desmontam: o jornalista escorrega até o chão. Atrás, os correspondentes e muitos soldados vão molhar as caras, braços e pés em uma poça de água estancada. O Major e Tamarindo examinam um mapa e Moreira César observa o horizonte com seus prismáticos. O sol está desaparecendo detrás de uma montanha longínqua e solitária — Monte Santo — a que impôs uma forma espectral. Quando guardou seus prismáticos, o Coronel empalideceu. Nota-o tenso.

            — O que o preocupa, Excelência? — diz o Capitão Olímpio de Castro.

            — O tempo. —Moreira César fala como se tivesse um corpo estranho na boca—. Que fujam antes de que cheguemos.

            — Não fugirão — replica o jornalista míope—. Acreditam que Deus está de seu lado. Às pessoas desta terra gostam de briga.

            — Dizem que à inimigo que foge, ponte de prata — brinca o Capitão.

            — Não neste caso — articula com dificuldade o Coronel—. Temos que fazer um castigo que acabe com as ilusões monárquicas. E, também, vingar a afronta feita ao Exército.

            Fala com misteriosas pausas entre sílaba e sílaba, desafinando. Abre a boca ainda, para acrescentar algo, mas não o faz. Está lívido e com as pupilas irritadas. Senta-se em um tronco caído e tira o quepis, a ritmo lento. O jornalista do Jornal de Notícias vai sentar- se também, quando Moreira César leva as mãos à cara. Seu quepis cai ao chão e o Coronel se levanta de um salto e começa a dar tropeções, congestionado, enquanto arranca a tapas os botões da camisa, como se se afogasse. Gemendo, jogando espuma, presa de contorções, roda aos pés do Capitão Olímpio de Castro e do jornalista, que não atinam a nada. Quando se inclinam, já correm para ali Tamarindo, Cunha Matos e vários ordenanças.

            — Não o toquem — grita o Coronel com gesto enérgico—. Rápido, uma manta. Chamem o Doutor Souza Ferreiro. Que ninguém se aproxime! Atrás, atrás.

            O Major Cunha Matos obriga a retroceder as balizas ao jornalista e, com os ordenanças, sai ao encontro dos correspondentes. Afastam-se, sem olhares. Enquanto isso, jogam uma manta sobre o Moreira César; Olímpio de Castro e Tamarindo dobram suas jaquetas para que lhe sirvam de travesseiro.

            — Abra-lhe a boca e agarre-lhe a língua — indica o velho Coronel, perfeitamente a par do que terá que fazer. Volta-se para duas escoltas e lhes ordena armar uma tenda.

            O Capitão abre à força a boca de Moreira César. As convulsões continuam, um bom momento. O Doutor Souza Ferreiro chega, por fim, com uma carroça da Sanidade. Levantaram à tenda e Moreira César estendido em uma cama de armar de campanha. Tamarindo e Olímpio de Castro permanecem a seu lado, alternando-se em lhe manter a boca aberta e abrigá-lo. A cara molhada, os olhos fechados, presa de desassossego, emitindo um gemido entrecortado, o Coronel, cada certo momento, arroja uma baforada de espuma. O Doutor e o Coronel Tamarindo trocam um olhar e não cruzam palavra. O Capitão explica como foi o ataque, quanto tempo faz, e, enquanto, Souza Ferreiro vai tirando a jaqueta e instruindo com gestos a um ajudante para que aproxime o estojo de primeiros socorros à cama de armar. Os oficiais saem da tenda para que o Doutor examine com liberdade ao paciente.

            Sentinelas armados isolam a tenda do resto da Coluna. Perto, espiando entre os fuzis, acham-se os correspondentes. Devoraram as perguntas ao jornalista míope e este lhes disse já o que viu. Entre os sentinelas e o acampamento há uma terra de ninguém, que nenhum oficial, nem soldado, atravessa a menos se for chamado pelo Major Cunha Matos. Este passeia de um lado ao outro, com as mãos à costas. O Coronel Tamarindo e o Capitão Olímpio de Castro lhe aproximam e os correspondentes os vêem caminhar ao redor da tenda. Suas caras vão obscurecendo-se à medida que se apaga o grande aguerro crepuscular. A momentos, Tamarindo entra na tenda, sai, e os três reatam o passeio. Passam assim muitos minutos, talvez meia hora, talvez uma hora, pois, quando, subitamente, o Capitão de Castro avança para os correspondentes e indica ao jornalista do Jornal de Notícias que vá com ele, acenderam uma fogueira e, atrás, soa a corneta do rancho. Os sentinelas deixam passar ao míope, a quem o Capitão conduz até o Coronel e o Major.

            — Você conhece a região: pode nos ajudar — murmura Tamarindo, sem o tom bonachão que é o seu, como vencendo uma repugnância íntima a falar disto a um estranho—. O Doutor insiste em que o Coronel deve ser levado a um lugar onde haja certas comodidades, onde possa ser bem atendido. Não há alguma fazenda perto?

            — Claro que há a diz a voz aguda—. Você sabe tão bem como eu.

            — Quero dizer, além de Calumbí — corrige o Coronel Tamarindo, incômodo—. O Coronel rechaçou categoricamente o convite do Barão de hospedar ao Regimento. Não é o local adequado para levá-lo.

            — Não há nenhum outro — diz, cortante, o jornalista míope, que esquadrinha a semi-obscuridade em direção à tenda de campanha, da que sai um resplendor esverdeado—. Tudo o que abrange a vista entre Cansanção e Canudos pertence ao Barão da Canabrava.

            O Coronel olha-o, compungido. Nesse momento sai da tenda o Doutor Souza Ferreiro, secando as mãos. É um homem com dobras nas têmporas e grandes entradas na frente, uniformizado. Os oficiais o rodeiam, esquecendo do jornalista, quem, entretanto, permanece ali, e aproxima irreverentemente os olhos que aumentam os cristais de seus óculos.

            — Foi o desgaste físico e nervoso dos últimos dias — queixa-se o Doutor, colocando um cigarro nos lábios—. Depois de dois anos, repetir justamente agora. Má sorte, rasteira do diabo, o que sei eu. Tenho-lhe feito uma sangria, para a congestão. Mas necessita os banhos, as fricções, todo o tratamento. Vocês decidem, senhores.

            Cunha Matos e Olímpio de Castro olham ao Coronel Tamarindo. Este pigarra, sem dizer nada.

            — Insiste em que o levemos ao Calumbí sabendo que o Barão está ali? — diz, por fim.

            — Eu não falei de Calumbí — replica Souza Ferreiro —. Eu só falo do que necessita o paciente. E me permitam acrescentar algo. É uma temeridade o ter aqui, nestas condições.

            — Você conhece coronel — intervém Cunha Matos —. Em casa de um dos chefes da subversão monárquica se sentirá ofendido, humilhado.

            O Doutor Souza Ferreiro encolhe os ombros:

            — Eu acato sua decisão. Sou um subordinado. Deixo salva minha responsabilidade.

            Uma agitação à suas costas faz que os quatro oficiais e o jornalista olhem a tenda de campanha. Ali está Moreira César, visível na pouca luz da lamparina do interior, rugindo algo que não se entende. Seminu, apoiado com as duas mãos na lona, tem o peito com umas formas escuras e imóveis que devem ser sanguessugas. Só pode se ter em pé uns segundos. Vêem-no desabar-se, queixando. O Doutor se ajoelha a lhe abrir a boca enquanto os oficiais agarram os pés, os braços, as costas, para subi-lo de novo à cama de armar.

            — Eu assumo a responsabilidade de levá-lo ao Calumbí, Excelência — diz o Capitão Olímpio de Castro.

            — Está bem — assente Tamarindo —. Acompanhe ao Souza Ferreiro com uma escolta. Mas o Regimento não irá onde o Barão. Acampará aqui.

            — Posso acompanhá-lo, Capitão? — diz, na penumbra, a voz intrusa do jornalista míope—. Conheço o barão. Trabalhei para seu periódico, antes de entrar para o Jornal de Notícias.

 

            Permaneceram em Ipupiará dez dias mais, depois da visita dos capangas a cavalo que se levaram, por todo saque, uma cabeleira avermelhada. O forasteiro começou a recuperar-se. Uma noite, a Barbuda o ouviu conversar, em um português dificultoso, com a Jurema, a que perguntava que país era este, que mês e que dia. À tarde seguinte se desprendia da carroça e conseguia dar uns passos cambaleantes. E duas noites depois estava no armazém de Ipupiará, sem febre, gasto, corajoso, acossando perguntas ao distribuidor (que olhava divertido seu crânio) sobre Canudos e a guerra. Fez-se confirmar várias vezes, com uma espécie de frenesi, que um exército de meio milhar de homens vindo da Bahia ao mando do Major Febrônio tinha sido derrotado em Cambaio. A notícia o excitou de tal modo que Jurema, a Barbuda e o Miúdo pensaram que de novo começaria a delirar em língua estranha. Mas Gall, logo depois de tomar com o distribuidor um copo de cachaça, caiu em um sono profundo que lhe durou dez horas.

            Retomaram a marcha por iniciativa de Gall. Os circenses preferiram ficar ainda em Ipupiará, onde, mal podiam comer, entretendo com histórias e palhaçadas aos vizinhos. Mas o forasteiro temia que os capangas voltassem a levar-se esta vez sua cabeça. Recuperou-se: falava com tanta energia que a Barbuda, o Miúdo e até o Idiota o escutavam embevecidos. Deviam adivinhar parte do que dizia e os intrigava sua mania de falar dos jagunços. A Barbuda perguntou a Jurema se era um desses apóstolos do Bom Jesus que percorriam o mundo. Não, não o era: não tinha estado em Canudos, não conhecia conselheiro e nem sequer acreditava em Deus. Jurema tampouco entendia essa mania. Quando Gall lhes disse que partia rumo ao norte, o Miúdo e a Barbuda decidiram segui-lo. Não poderiam explicar por que. Possivelmente a razão foi a da gravidade, os corpos débeis imantados pelos fortes, ou, simplesmente, não ter nada melhor que fazer, nenhuma alternativa, nenhuma vontade que opor a de quem, diferente deles, parecia possuir um rumo na vida.

            Partiram ao amanhecer e partiram todo o dia entre pedras e mandacarús folhudos sem trocar palavra, adiante a carroça, aos lados a Barbuda, o Miúdo e o Idiota, Jurema pega às rodas e, fechando a caravana, Galileo Gall. Para proteger-se do sol pôs um chapéu que usava o Gigantão Pedrín. Tinha emagrecido tanto que a calça ficava larga e a camisa lhe escorria. O roce queimante da bala lhe tinha deixado uma mancha cárdena atrás da orelha e a faca do Caifás uma cicatriz sinuosa entre o pescoço e o ombro. A fraqueza e palidez haviam como exacerbado a turbulência de seus olhos. Ao quarto dia de marcha, em uma curva do chamado Sítio das Flores, encontraram-se com uma partida de homens famintos que lhes tiraram o burro. Estavam em um bosquezinho de cardos e mandacarús, partido por um leito seco. Ao longe, divisavam as colinas da Serra de Engorda. Os bandidos eram oito, vestidos alguns de couro, com chapéus decorados com moedas e armados de facas, carabinas e fileiras de balas. Ao chefe, baixo e ventrudo, de perfil de ave de presa e olhos cruéis, os outros o chamavam Barbadura, em que pese a ser imberbe. Deu umas instruções lacônicas e seus homens, em um dois por três, mataram ao burro, cortaram-no, esfolaram e o assaram em partes sobre os que, mais tarde, equilibraram-se com avidez. Deviam estar sem comer vários dias porque, de felicidade pelo festim, alguns ficaram a cantar.

            Observando-os, Galileo se perguntava quanto demorariam as animálias e a atmosfera em converter esse cadáver nos montes de ossos polidos que se acostumou a encontrar no sertão, ossaturas, rastros, memórias de homem, ou de animal que instruíam ao viajante sobre seu destino em caso de desmaio ou morte. Estava sentado na carroça, junto à Barbuda, o Miúdo, o Idiota e Jurema. Barbadura tirou o chapéu, em cuja asa dianteira brilhava uma esterlina, e fez gestos aos circenses de que comessem. O primeiro em animar-se foi o Idiota, quem se ajoelhou e estirou seus dedos para a fumaça. Imitaram-no a Barbuda, o Miúdo, Jurema. Logo comiam com apetite, mesclados aos bandoleiros. Gall se chegou à fogueira. A intempérie o tinha torrado e curtido como um sertanejo. Desde que viu tirar o chapéu o Barbadura, não apartava a vista de sua cabeça. E a seguia olhando enquanto levava a boca o primeiro bocado. Ao tentar tragar, sobreveio-lhe uma arcada.

            — Só pode tragar coisas brandas — explicou Jurema aos homens —. Esteve doente.

            — É estrangeiro — acrescentou o Anão —. Fala línguas.

            — Assim só me olham meus inimigos — disse o chefe, com rudeza—. Tirem-me os olhos, que me incomodam.

            Porque nem sequer enquanto vomitava tinha deixado Gall de examiná-lo. Todos se voltaram para ele. Galileo, sempre observando-o, deu uns passos até ficar ao alcance de Barbadura.

            — Só me interessa sua cabeça — disse, muito devagar—. Deixe-me tocar isso. O bandido levou a mão a faca, como se fosse atacá-lo. Gall o tranqüilizou sorrindo-lhe.

            — Deixa que lhe toque — grunhiu a Barbuda —. Direi seus segredos.

            O bandido examinou ao Gall com curiosidade. Tinha um pedaço na boca mas não mastigava.

            — É sábio? — perguntou, a crueldade de seus olhos subitamente evaporada.

            Gall voltou a lhe sorrir e deu um passo mais, até roçá-lo. Era mais alto que o cangaceiro, cujos ombros apenas sustentavam a cabeça hirsuta. Circenses e bandidos olhavam, intrigados. Barbadura, sempre com a mão na faca, parecia intranqüilo e ao mesmo tempo curioso. Galileo elevou as duas mãos, posou-as sobre a cabeça de Barbadura e começou a apalpá-la.

            — Em uma época quis ser sábio — soletrou, enquanto seus dedos se moviam devagar, apartando as matas de cabelo, explorando com arte o couro cabeludo—. A polícia não me deu tempo.

            — Os volantes? — entendeu Barbadura.

            — Nisso nos parecemos — disse Gall —. Temos o mesmo inimigo.

            Os olhinhos de Barbadura se encheram subitamente de angústia; parecia acossado, sem escapatória. 

            — Quero saber a forma de minha morte —sussurrou, violentando-se a si mesmo.

            Os dedos de Gall escavavam a cabeleira do cangaceiro, detendo-se, sobretudo, em cima e atrás das orelhas. Estava muito sério, com o olhar febril de seus tempos de euforia. A ciência não se equivocava: o órgão da Acometividade, o dos propensos a atacar, o dos que gozam brigando, o dos indômitos e dos arriscados, saía ao encontro de seus dedos, terminante, insolente, em ambos os hemisférios. Mas era sobretudo o da Destrutividade, o dos vingativos e dos intemperantes e dos desalmados, que cria aos grandes sanguinários quando não o rebatem os poderes morais e intelectuais, que sobressaía anormalmente: dois inchaços duros, fogosos, em cima das orelhas. «O homem-predador», pensou.

            — Não ouviu? — rugiu Barbadura, apartando-se com um movimento brusco que o fez cambalear —. Como vou morrer?

            Gall meneou a cabeça, desculpando-se:

            — Não sei — disse —. Não está escrito em seus ossos.

 

            Os homens do partido se dispersaram, voltaram para as brasas em busca de comida. Mas os circenses ficaram junto ao Gall e Barbadura, que estava pensativo.

            — Não tenho medo de nada — disse, de maneira grave—. Quando estou acordado. Nas noites, é distinto. Vejo meu esqueleto, às vezes. Como me esperando, dá-se conta?

            Fez um gesto de desagrado, passou a mão pela boca, cuspiu. Notava-o turbado e todos permaneceram um momento em silêncio, escutando zumbir às moscas, as vespas e os moscardos sobre os restos do burro.

            — Não é um sonho recente — acrescentou o bandoleiro —. Sonhava-o de menino, em Cariri, muito antes de vir à Bahia. E, também, quando andava com Pajeú. Às vezes passam anos sem que sonhe. E, de repente, outra vez, todas as noites.

            — Pajeú?—disse Gall, olhando Barbadura com ansiedade—.O da cicatriz? Que...?

            — Pajeú — assentiu o cangaceiro—. Estive cinco anos com ele, sem que tivéssemos uma discussão. Era o melhor brigando. Roçou-o o anjo e se converteu. Agora é eleito de Deus, lá em Canudos.

            Encolheu os ombros, como se fosse difícil de entender ou não lhe importasse.

            — Esteve em Canudos? — perguntou Gall —. Conte-me. O que está passando? Como é?

            — Ouvem-se muitas coisas — disse Barbadura, cuspindo—. Que mataram a muitos soldados de um tal Febrônio. Penduraram-nos em árvores. Se não enterrarem, ao cadáver o leva o Cão, parece.

            — Estão bem armados?  —insistiu Gall—. Poderão resistir outro ataque?

            — Poderão — grunhiu Barbadura—. Não só Pajeú está lá. Também João Abade, Taramela, Joaquim Macambira e seus filhos, Pedrão. Os cabras mais terríveis destas terras. Odiavam-se e se matavam uns aos outros. Agora são irmãos e lutam pelo Conselheiro. Vão ao céu, face às maldades que fizeram. O Conselheiro os perdoou.

            A Barbuda, o Idiota, o Miúdo e Jurema se sentaram no chão e escutavam, encantados.

            — Aos romeiros, o Conselheiro lhes dá um beijo na testa — acrescentou Barbadura—. O Beato os faz ajoelhar e o Conselheiro os levanta e os beija. Isso é o beijo dos escolhidos. A gente chora de felicidade. Já é eleito, sabe que vai ao céu. O que importa a morte, depois disso?

            — Você também deveria estar em Canudos —disse Gall—. São seus irmãos, também. Lutam para que o céu desça à terra. Para que desapareça esse inferno ao que tem tanto medo.

            — Não tenho medo do inferno a não ser à morte — o corrigiu Barbadura, sem irritação—. Melhor dizendo, ao pesadelo, ao sonho da morte. É diferente, não se dá conta?

            Cuspiu de novo, com expressão atormentada. De repente, dirigiu-se a Jurema, assinalando ao Gall.

            — Alguma vez sonha com seu esqueleto, seu marido?

            — Não é meu marido — replicou Jurema.

 

            João Grande entrou em Canudos correndo, a cabeça aturdida pela responsabilidade que acabavam de lhe conferir e que, cada segundo, parecia-lhe mais imerecida para sua pobre pessoa pecadora que ele acreditou alguma vez possuída pelo Cão (era um temor que voltava, como as estações). Aceitara, não podia dar marcha atrás. Nas primeiras casas se deteve, sem saber o que fazer. Tinha a intenção de ir onde Antonio Vilanova, para que lhe dissesse como organizar a Guarda Católica. Mas agora, seu coração atordoado lhe fez saber que neste momento necessitava, antes da ajuda prática, socorro espiritual. Era o entardecer; logo o Conselheiro subiria à torre; se se dava pressa talvez o alcançasse no Santuário. Pôs-se a correr, novamente, por tortuosas ruazinhas apertadas de homens, mulheres e meninos que abandonavam casas, choças, covas, buracos e fluíam, igual a cada tarde, para o Templo do Bom Jesus, para escutar os conselhos. Ao passar frente ao armazém dos Vilanova, viu que Pajeú e uma vintena de homens, providos para uma longa viagem, despediam-se de grupos de familiares. Deu-lhe trabalho abrir passagem entre a massa que transbordava o descampado adjacente às igrejas. Obscurecia e, aqui e lá, titilavam já lamparinas.

            O Conselheiro não estava no Santuário. Tinha ido despedir do Padre Joaquim até a saída para Cumbe e, depois, o carneirinho branco preso em uma mão e na outra o cajado de pastor, visitava as Casas de Saúde, confortando doentes e anciões. Devido à multidão que permanecia soldada a ele, estes percorridos pelo Conselheiro, por Belo Monte, eram cada dia mais difíceis. Acompanhavam-no esta vez o Leão de Natuba e as devotas do Coro Sagrado, mas o Beato e Maria Quadrado estavam no Santuário.

            — Não sou digno, Beato —disse o ex-escravo, afogando-se, da porta—. Louvado seja o Bom Jesus.

            — Preparei um juramento para a Guarda Católica —repôs o Beato, docemente—. Mais profundo que o que fazem os que vêm salvar-se. O Leão o escreveu.  —Alcançou-lhe um papel, que desapareceu nas mãos escuras—. Aprenderá de cor e a cada um que escolha o fará jurar. Quando a Guarda Católica estiver formada, jurarão todos no templo e faremos procissão.

            Maria Quadrado, que tinha estado em um rincão do quarto, veio para eles com um trapo e um recipiente de água.

            — Sente-se, João —disse, com ternura—. Bebe, primeiro. Deixe-me lavá-lo.

            O negro lhe obedeceu. Era tão alto que, sentado, resultava da mesma altura que a Superiora do Coro Sagrado. Bebeu com avidez. Estava suarento, agitado, e fechou os olhos enquanto Maria Quadrado lhe refrescava a cara, o pescoço, os crespos nos quais havia cabelos brancos. De repente, estirou um braço e se prendeu da devota.

            — Ajude-me, Mãe Maria Quadrado — implorou, transpassado de medo—. Não sou digno disto.

            — Você foi escravo de um homem — disse a devota, acariciando-o como a um menino—. Não vai aceitar uma escravidão do Bom Jesus? Ele vai ajudá-lo, João Grande.

            — Juro que não fui republicano, que não aceito a expulsão do Imperador, nem sua substituição pelo Anticristo — recitou o Beato, com intensa devoção—. Que não aceito o matrimônio civil, nem a separação da Igreja do Estado, nem o sistema métrico decimal. Que não responderei às perguntas do censo. Que nunca mais roubarei, nem fumarei, nem me embebedarei, nem apostarei, nem fornicarei por vício. E que darei minha vida por minha religião e pelo Bom Jesus.

            — Aprenderei, Beato — balbuciou João Grande.

            Nisso chegou o Conselheiro, precedido por um grande rumor. Uma vez que o alto personagem, escuro e cadavérico, entrou no Santuário, seguido pelo carneirinho, o Leão de Natuba — um vulto a quatro patas que parecia fazer cambalhotas — e as devotas, o rumor continuou, impaciente, do outro lado da porta. O carneirinho devia lamber os tornozelos de Maria Quadrado. As devotas se agacharam presas à parede. O Conselheiro foi para o João Grande, quem, ajoelhado, olhava o chão. Parecia tremer dos pés a cabeça; fazia quinze anos que estava com o Conselheiro e, entretanto, seguia convertendo-se, a seu lado, em um ser nulo, quase em uma coisa. O santo tomou a cara com as duas mãos e o obrigou a elevar a cabeça. As pupilas incandescentes se cravaram nos olhos arrasados de pranto do ex-escravo.

            — Sempre está sofrendo, João Grande — murmurou.

           — Não sou digno de lhe cuidar —soluçou o negro—. Mande-me o que seja. Se fizer falta, me mate. Não quero que lhe passe nada por minha culpa. Tive ao Cão no corpo, pai, lembre-se.

            — Você formará a Guarda Católica — repôs o Conselheiro —. Mandará. Sofreu muito, está sofrendo agora. Por isso é digno. O Pai disse que o justo lavará as mãos no sangue do pecador. Agora é um justo, João Grande.

            Deixou-o beijar sua mão e, com o olhar distante, esperou que o negro se desafogasse chorando. Um momento depois, seguido por todos eles, voltou a sair do Santuário para subir à torre a aconselhar ao povo de Belo Monte. Confundido com a multidão, João Grande o ouviu rezar e, logo, referir o milagre da serpente de bronze que, por ordem do Pai, construiu Moisés para àquele que a olhasse ficasse curado das mordidas das cobras que atacavam aos judeus, e o ouviu profetizar uma nova invasão de víboras que viriam à Belo Monte para exterminar aos crentes em Deus. Mas, ouviu-o dizer, quem conservasse a fé sobreviveriam às mordidas. Quando a gente começou a retirar-se, estava sereno. Recordava que, durante a seca, fazia anos, o Conselheiro contou pela primeira vez esse milagre e que isso tinha operado outro milagre nos sertões ameaçados pelas cobras. Esta lembrança lhe deu segurança.

            Era outra pessoa quando foi tocar a porta do Antonio Vilanova. Abriu-lhe Assunção Sardelinha, a mulher do Honório, e João viu que o comerciante, sua mulher, vários filhos e ajudantes de ambos os irmãos comiam sentados no mostrador. Deram-lhe lugar, alcançaram-lhe um prato que fumegava e João comeu sem saber o que comia, com a sensação de perder tempo. Logo que escutou Antonio lhe contar que Pajeú tinha preferido levar, em vez de pólvora, apitos de madeira, suspensões e dardos envenenados, pois pensava que assim perseguiria melhor a quão soldados vinham. O negro mastigava e tragava, desinteressado de tudo o que não fosse sua missão.

            Terminada a comida, outros puseram-se a dormir, nos quartos contígüos ou em colchonetes, redes e mantas estendidas entre as caixas e estantes ao redor deles. Então, à luz de um acendedor, João e Antonio falaram. Falaram muito, em momentos em voz baixa, em momentos subindo-a, em momentos de acordo e em momentos com fúria. Enquanto, o armazém se foi enchendo de vagalumes que faiscavam pelos rincões. Antonio, às vezes, abria um dos grandes livros de caixa em que anotava a chegada dos romeiros, os falecimentos e os nascimentos, e mencionava alguns nomes. Mas ainda não deixava João que o comerciante descansasse. Desenrugando um papel que tinha conservado entre seus dedos, o alcançou e o fez ler, várias vezes, até memorizá-lo. Quando se afundava no sono, tão fatigado que nem sequer tirou as botas, Antonio Vilanova escutou ao ex-escravo, convexo em um vão livre sob o mostrador, repetindo o juramento concebido pelo Beato para a Guarda Católica.

            À manhã seguinte, os filhos e ajudantes dos Vilanova se esparramaram por Belo Monte apregoando, onde se topavam com um grupo, que quem não temesse dar a vida pelo Conselheiro podiam ser aspirantes à Guarda Católica. Logo, os candidatos se aglomeravam frente à antiga casa-fazenda e obstruíam Campo Grande, a única rua reta de Canudos. João Grande e Antonio Vilanova recebiam a cada um sentados em uma gaveta de mercadorias e o comerciante verificava quem era e quanto tempo levava na cidade. João lhe perguntava se aceitaria fazer objeto do que tinha, abandonar a sua família como o fizeram os apóstolos por Cristo e submeter-se a um batismo de resistência. Todos assentiam, com ardor.

            Foram preferidos os que tinham brigado em Uauá e em Cambaio e, eliminados, os incapazes de limpar o interior de um fuzil, carregar uma espingarda ou esfriar uma escopeta reaquecida. Também, os muito velhos e os muito jovens e os que tinham alguma incapacidade para brigar, como os lunáticos e as mulheres grávidas. Ninguém que fosse pistoleiro de volantes, ou coletor de impostos, ou empregado do censo foi aceito. Cada certo tempo, aos escolhidos, João Grande os levava a um descampado e fazia que o atacassem como a um inimigo. Os que duvidavam eram descartados. Aos outros, os fazia agredir-se e derrubar-se para medir sua bravura. Ao anoitecer, a Guarda Católica tinha dezoito membros, um dos quais era uma mulher do bando do Pedrão. João Grande tomou o juramento no armazém, antes de lhes dizer que fossem à suas casas despedirem-se, pois a partir de amanhã já não teriam outra obrigação que proteger ao Conselheiro.

            No segundo dia, a seleção foi mais rápida, pois os escolhidos ajudavam ao João a aplicar as provas aos aspirantes e punham ordem no tumulto que tudo isto incitava. As Sardelinhas, enquanto isso, as engenharam para conseguir trapos azuis, que os escolhidos levariam como braceletes ou na cabeça. No segundo dia, João juramentou mais trinta, no terceiro cinqüenta; e ao terminar a semana contava com perto de quatrocentos membros. Vinte e cinco eram mulheres que sabiam disparar, preparar explosivos e dirigir a faca e até o facão.

            Um domingo mais tarde, a Guarda Católica percorreu em procissão as ruas de Canudos, entre uma dupla cerca de gente que os aplaudiam e os invejavam. A procissão começou ao meio dia e, como nas grandes celebrações, passearam-se nela as imagens da Igreja do Santo Antonio e do Templo em construção, os vizinhos tiraram as que tinham em suas casas, arrebentaram-se fogos e o ar se encheu de incenso e rezas. Ao anoitecer, no Templo do Bom Jesus, ainda sem cobrir, sob um céu saturado de estrelas madrugadoras que pareciam ter saído para espionar o regozijo, os membros da Guarda Católica repetiram em coro o juramento do Beato.

            E à madrugada seguinte chegava até o João Abade um mensageiro de Pajeú, a lhe informar que o Exército do Cão tinha mil e duzentos homens, vários canhões e que ao Coronel que o mandava lhe diziam Cortapescoços.

 

            Com gestos rápidos, precisos, Rufino termina os preparativos de uma nova viagem, mais incerto que os anteriores. Trocou a calça e a camisa com os que foi ver o Barão, à fazenda da Pedra Vermelha, por outros idênticos, e tinha consigo um facão, uma carabina, duas facas e uma alforja. Dá uma olhada à cabana, às tigelas, à rede, aos bancos, à imagem de Nossa Senhora de Marisco. Tem a cara desencaixada e pestaneja sem trégua. Mas seu rosto anguloso recupera depois de um momento a expressão inescrutável. Com movimentos exatos, faz uns preparativos. Quando acaba, acende com o acendedor os objetos que dispôs em distintos lugares. A cabana começa a flamejar. Sem apressar-se, vai para a porta, levando unicamente as armas e a alforja. Fora, agachado junto ao curral vazio, dali contempla como um vento suave atiça as chamas que devoram seu lar. A fumaça chega até ele e o faz tossir. Fica de pé. Coloca-se a carabina em bandoleira, embainha o facão na cintura, junto às facas, e se pendura a alforja no ombro. Dá meia volta e se afasta, sabendo que nunca voltará para Queimadas. Ao passar pela estação nem sequer adverte que estão pendurando banderolas e pôsteres de boa-vinda ao Sétimo Regimento e ao Coronel Moreira César.

            Cinco dias depois, ao entardecer, sua silhueta enxuta, flexível, poeirenta, entra em Ipupiará. Fez um rodeio para devolver a faca que emprestou do Bom Jesus e andando em média dez horas diárias, descansando nos momentos de máxima escuridão e de maior calor. Salvo um dia, que comeu pagando, procurou o alimento com armadilhas ou bala. Sentados na porta do armazém, há um punhado de velhos idênticos, fumando um mesmo cachimbo. O rastreador se dirige a eles e, tirando o chapéu, saúda-os. Devem conhecê-lo, pois lhe perguntam sobre Queimadas e todos querem saber se viu soldados e o que se diz da guerra. Responde-lhes o que sabe, sentado entre eles, e se interessa pelas pessoas de Ipupiará. Algumas morreram, outras partiram para o Sul em busca de fortuna e duas famílias acabam de partir à Canudos. Ao escurecer, Rufino e os velhos entram no armazém para tomar um copo de aguardente. Uma brisa agradável substituiu a ardente atmosfera. Rufino então, com os circunlóquios devidos, leva o bate-papo para onde eles souberam sempre que levaria. Usa as formas mais impessoais para interrogar. Os velhos o escutam sem simular estranheza. Todos assentem e falam, em ordem. Sim, esteve aqui, mais fantasma de circo que circo, tão empobrecido que dava trabalho acreditar que tinha sido alguma vez essa suntuosa caravana que conduzia o Cigano. Rufino, respeitosamente, escuta-os rememorar os velhos espetáculos. Por fim, em uma pausa, retorna-os aonde os tinha levado e, esta vez, os velhos, como se estimassem que as formas se cumprissem, dizem-lhe porque veio, ou seja, confirmar: o tempo que acampou aqui, como a Barbuda, o Miúdo e o Idiota ganharam o sustento jogando a sorte, contando histórias e fazendo palhaçadas, as perguntas loucas do forasteiro sobre os jagunços e como um partido de capangas viera a lhe cortar os cabelos vermelhos e a roubar o cadáver do filicida. Nem ele pergunta nem eles mencionam à outra pessoa que não era circense nem forasteiro. Mas ela, ausência muito presente, ronda na conversação, cada vez que algum refere como o estrangeiro era curado e alimentado. Sabem que essa sombra é a mulher de Rufino? Certamente sabem ou adivinham, como sabem ou adivinham o que se pode dizer e o que terão que calar. Quase casualmente, ao concluir o bate-papo, Rufino averigua em que direção partiram os circenses. Dorme no armazém, em uma cama que lhe oferece o dono e parte ao amanhecer, com seu trote metódico.

            Sem acelerar nem diminuir o ritmo, a silhueta de Rufino cruza uma paisagem onde a única sombra é a de seu corpo, primeiro seguindo-o, logo precedendo-o. A cara apertada, os olhos entrecerrados, parte sem vacilar, em que pese a que o vento apagou a trechos o rastro. Está escurecendo quando chega a um rancho que domina uma plantação. O morador, sua mulher e meninos seminus o recebem com familiaridade. Come e bebe com eles, lhes dando notícias de Queimadas, Ipupiará e outros lugares. Conversam da guerra e dos temores que provoca, dos peregrinos que passam rumo à Canudos e filosofam sobre a possibilidade do fim do mundo. Só depois lhes pergunta Rufino pelo circo e o forasteiro sem cabelo. Sim, passaram por aqui e seguiram para a Serra do Olhos d'Água para tomar o caminho à Monte Santo. A mulher recorda sobretudo ao homem fraco e imberbe, de olhos amarelados, que se movia como um animal sem ossos e ao que, sem razões, brotava-lhe a risada. O casal cede uma rede ao Rufino e, à manhã seguinte, enchem-lhe as alforjas sem aceitar remuneração.

            Boa parte do dia, Rufino trota sem ver ninguém, em uma paisagem refrescada por matagais entre os que gozam bandos de louros. Essa tarde começa a topar-se com pastores de cabras, com os que às vezes conversa. Pouco depois do Sítio das Flores  —nome que parece brincadeira pois ali há só pedras e terra recozida — se desvia até uma cruz de troncos cercada de ex-votos, que são figurinhas esculpidas em madeira. Uma mulher sem pernas vela junto ao calvário, estendida no chão como uma cobra. Rufino se ajoelha e a mulher o benze. O rastreador lhe dá algo de comer e conversam.  Ela não sabe quem são, não os viu. Antes de partir, Rufino acende uma vela e faz uma reverência à cruz.

            Durante três dias perde o rastro. Interroga camponeses e vaqueiros e conclui que, em vez de seguir à Monte Santo, o circo se desviou ou retrocedeu. Talvez a procura de uma feira, para poder comer? Dá voltas em torno do Sítio das Flores, ampliando o círculo, averiguando por cada um de quem o compõe. Alguém viu uma mulher com cabelos na cara? A um miúdo de cinco palmos? A um idiota de corpo brando? A um forasteiro de penugem avermelhada que fala um idioma difícil de entender? A resposta é sempre não. Faz hipóteses, convexo em refúgios em oferta. E se já o mataram ou morreram de suas feridas? Baixa até o Tanquinho e sobe outra vez, sem recuperar o rastro. Uma tarde que se pôs a dormir, rendido, uns homens armados se chegam até ele, sigilosos como aparecidos. Acertaram-no uma alpargata em seu peito. Vê que os homens, além de carabinas, levam facões, apitos de madeira, facas, fileiras de munições e que não são bandidos ou, em todo caso, que já não o são. Custa-lhe convencê-los que não é pistoleiro do Exército, que não viu um soldado desde Queimadas. Está tão desinteressado da guerra que acreditam que minta, e, em um momento, alguém lhe põe a faca na garganta. Por fim, o interrogatório torna-se conversa. Rufino passa a noite entre eles, escutando-os falar do Anticristo, do Bom Jesus, do Conselheiro e de Belo Monte. Entende que seqüestraram, mataram, roubaram e viveram a salto de arbusto mas que agora são Santos. Explicam-lhe que um Exército avança como uma peste, expropriando as armas da gente, levando homens e afundando facas no cangote do que resista a cuspir os crucifixos e amaldiçoar a Cristo. Quando lhe perguntam se quer unir-se a eles, Rufino lhes responde que não. Explica-lhes por que e eles compreendem.

            À manhã seguinte, chega ao Cansanção quase ao mesmo tempo que os soldados. Rufino visita o ferreiro, que conhece. O homem, suando junto à forja que chiava, aconselha-lhe que se vá quanto antes pois os diabos arrolam pela força a todos os pistoleiros. Quando Rufino lhe explica, também ele compreende. Sim pode ajudá-lo; não faz muito passou por aqui Barbadura, que se encontrou com os que busca. E lhe falou que forasteiro que lê as cabeças. Onde os encontrou? O homem o explica e o rastreador fica na ferraria, conversando, até que anoitece. Então, sai da aldeia sem que os sentinelas o descubram e um par de horas depois se encontra de novo com os apóstolos de Belo Monte. Diz-lhes que, com efeito, a guerra chegou ao Cansanção.

            O doutor Souza Ferreiro ia impregnando os copos com álcool e os alcançava à Baronesa Estela, quem se tinha colocado um lenço como uma touca. Ela acendia o copo e o aplicava com destreza sobre as costas do Coronel. Este se mantinha tão quieto que os lençóis logo que luziam rugas. — Aqui em Calumbí tive que fazer de médica e de parteira muitas vezes — dizia a voz cantada dirigindo-se talvez ao Doutor, talvez ao doente—. Mas, a verdade, anos que não punha ventosas. Faço-o sofrer muito, Coronel?

            — Absolutamente, senhora. — Moreira César fazia esforços por dissimular seu desconforto, mas não o obtinha—. Rogo-lhe que aceite minhas desculpas e as transmita a seu marido, por esta invasão. Não foi minha idéia.

            — Estamos encantados com sua visita.  —A Baronesa tinha terminado de aplicar as ventosas e acomodava os travesseiros—. Tinha muita vontade de conhecer um herói de carne e osso. Bom, certamente, preferia que não fosse uma enfermidade o que o trouxesse para Calumbí...

            Sua voz era amável, encantadora, superficial. Junto à cama, havia uma mesa com jarras e lavadores de porcelana com pinturas de perus reais, ataduras, algodões, jarro com sanguessugas, copos para as ventosas e muitos pomos. Na habitação fresca, forrada, de cortinas brancas, entrava o amanhecer. Sebastiana, a empregada da Baronesa, permanecia junto à porta, imóvel. O Doutor Souza Ferreiro examinou as costas do doente, erupcionada de copos de cristal, com uns olhos que delatavam a má noite.

            — Bom, agora esperar meia hora para o banho e as fricções. Não me negará que se sente melhor, Excelência: tornaram-lhe as cores.

            — O banho está preparado e eu estarei ali, para o que precisem — disse Sebastiana.

            — Eu também estou à suas ordens — encadeou a Baronesa —. Agora os deixo. Ah, esquecia-me. Pedi permissão ao Doutor para que tome o chá conosco, Coronel. Meu marido quer saudá-lo. Você também está convidado, Doutor. E o Capitão de Castro, e esse jovem tão original, como se chama?

            O Coronel tentou lhe sorrir, mas apenas a esposa do Barão da Canabrava transpôs a soleira, seguida pela Sebastiana, fulminou ao médico.

            — Deveria fuzilá-lo por me colocar nesta armadilha.

            — Se lhe der um tranco, o sangrarei e terá que guardar cama um dia mais. — O Doutor Souza Ferreiro se deixou cair em uma cadeira de balanço, bêbado de fadiga—. E agora me deixe descansar também, uma meia hora. Não se mova, por favor.

            À meia hora exata, abriu os olhos, os esfregou e começou a lhe tirar as ventosas. Os copos se desprendiam facilmente e ficava um círculo avermelhado onde estavam apoiados. O Coronel permanecia de barriga para baixo, com a cabeça afundada sobre os braços cruzados e logo que separou os lábios quando o Capitão Olímpio de Castro entrou em lhe dar notícias da Coluna. Souza Ferreiro acompanhou ao Moreira César ao quarto de banho, onde Sebastiana tinha preparado tudo segundo suas instruções. O Coronel se despiu — diferente de sua tez e braços brunidos seu corpo era muito branco—, entrou na banheira sem fazer um gesto e permaneceu nela bastante tempo, apertando os dentes. Logo, o Doutor o esfregou vigorosamente com álcool e emplastro de mostarda e lhe fez inalar fumaça de ervas que ferviam em um braseiro. A cura transcorreu em silêncio, mas, ao terminar as inalações, o Coronel, para relaxar a atmosfera, murmurou que tinha a sensação de estar submetido à práticas de bruxaria. Souza Ferreiro comentou que as fronteiras entre ciência e magia eram indiferenciáveis. Fizeram às pazes. Na habitação os esperava uma bandeja com frutas, leite fresco, pães, geléia e café. Moreira César comeu sem apetite e dormiu. Quando despertou, era meio-dia e estava a seu lado o jornalista do Jornal de Notícias com um jogo de baralho, propondo lhe ensinar o jogo de cartas , que estava em moda entre os boêmios da Bahia. Estiveram jogando sem trocar palavra até que Souza Ferreiro, lavado e barbeado, disse ao Coronel que podia levantar-se. Ao entrar à sala, para tomar o chá com os donos da casa, estavam ali o Barão e sua esposa, o Doutor, o Capitão de Castro e o jornalista, o único que não se asseou da véspera.

            O Barão da Canabrava devia apertar a mão do Coronel. Na ampla habitação de ladrilhos vermelhos e brancos, havia móveis de Jacaranda e as cadeiras de palha e madeira chamadas «austríacas», mesinhas com lampiões de querosene, fotos, vitrines com cristais, porcelana e mariposas cravadas em caixas de veludo. Nas paredes, aquarelas campestres. O Barão se interessou pela saúde de seu hóspede e ambos trocaram civilidades; mas o fazendeiro jogava melhor que o oficial. Pelas janelas, abertas sobre o crepúsculo, viam-se as colunas de pedra da entrada, um poço de água, e aos flancos do aterro da fronte, com tamarindos e palmeiras imperiais, o que tinha sido a senzala dos escravos e eram agora as moradias dos trabalhadores. Sebastiana e uma faxineira de avental em quadros dispunham os bules, as taças, massas e bolachas. A Baronesa explicava ao Doutor, ao jornalista e ao Olímpio de Castro quão difícil tinha sido, ao longo de anos, conduzir até Calumbí os materiais e objetos desta casa e o Barão, mostrando ao Moreira César um herbário, dizia-lhe que de jovem sonhava com a ciência e passar sua vida em laboratórios e anfiteatros. Mas o homem propõe e Deus dispõe; ao final, consagrou-se à agricultura, a diplomacia e a política, coisas que não lhe interessaram jamais de moço. E o Coronel? Sempre quis ser militar? Sim, ele ambicionou a carreira das armas desde que teve uso de razão, e acaso antes, lá no povoado paulista onde nasceu: Pindamonhangaba. O jornalista se separou do outro grupo e estava agora junto a eles, escutando-os com impudicícia.

            — Foi uma surpresa ver chegar este jovem com você — sorriu o Barão, apontando ao míope—. Contou-lhe que trabalhou para mim, antes? Nesse tempo admirava ao Víctor Hugo e queria ser dramaturgo. Falava muito mal do jornalismo, então.

            — Ainda o faço — disse a voz antipática.

            — Puras mentiras! — exclamou o Barão—. Na realidade, sua vocação é a chismografia, a calúnia, o ataque arteiro. Era meu protegido e quando se passou ao periódico de meu adversário, converteu-se no mais vil de meus críticos. Cuide-se, Coronel. É perigoso.

            O jornalista míope estava radiante, como se tivessem feito seu elogio.

            — Todos os intelectuais são perigosos — assentiu Moreira César—. Débeis, sentimentais e capazes de usar as melhores idéias para justificar as piores velhacarias. O país os necessita, mas deve dirigi-los como a animais raros.

            O jornalista míope pôs-se a rir com tanta felicidade que a Baronesa, o Doutor e Olímpio de Castro o olharam. Sebastiana servia o chá. O Barão agarrou o braço do Moreira César e o levou para um armário:

            —Tenho para você um presente. É um costume do sertão: oferecer um presente a quem se hospeda. — Tirou uma poeirenta garrafa de Brandy e lhe mostrou a etiqueta, com uma piscada —: Já sei que você quer extirpar toda influência européia do Brasil, mas suponho que seu ódio não inclui também ao Brandy.

            Apenas se sentaram, a Baronesa alcançou uma taça de chá ao Coronel e jogou dois torrões de açúcar.

            — Meus fuzis são franceses e meus canhões alemães — disse Moreira César, tão a sério que os outros interromperam seu bate-papo—. Não odeio a Europa e tampouco o Brandy. Mas como não bebo álcool, não vale a pena que desperdice um presente assim com alguém que não pode apreciá-lo.

            — Guarde-o de lembrança, então — interveio a Baronesa.

            — Odeio aos latifundiários locais e aos mercados ingleses que mantiveram esta região na pré-história — prosseguiu o Coronel, com acento frio —. Odeio a quem o açúcar interessava mais que a gente do Brasil.

            A Baronesa atendia seus convidados, imutável. O dono da casa, em troca, tinha deixado de sorrir. Mas seu tom continuou cordial:

            — Aos comerciantes norte-americanos que o Sul recebe com os braços abertos lhes interessa a gente, ou só o café? — perguntou.

            Moreira César tinha a resposta pronta:

            — Com eles chegam as máquinas, a técnica e o dinheiro que necessita o Brasil para seu progresso. Porque progresso quer dizer indústria, trabalho, capital, como o demonstraram os Estados Unidos da América do Norte. —Seus olhinhos frios piscaram ao acrescentar —: É algo que não entenderão nunca os donos de escravos, Barão da Canabrava.

            No silêncio que seguiu à suas palavras, ouviu-se as colherinhas movendo-se nas taças e os sorvos do jornalista míope, que parecia fazer gargarejos.

            — Não foi a República a não ser a monarquia que aboliu a escravidão —recordou a Baronesa, risonha como se fizesse uma brincadeira, ao mesmo tempo que oferecia bolachas a seu convidado—. A propósito, sabia que nas fazendas de meu marido os escravos foram libertados cinco anos antes da lei?

            — Não sabia — repôs o Coronel —. Algo louvável, sem dúvida.

            Sorriu, forçado e bebeu um sorvo. A atmosfera era agora tensa e não a distendiam os sorrisos da Baronesa, nem o súbito interesse do Doutor Souza Ferreiro pelas mariposas da coleção nem a anedota do Capitão Olímpio de Castro sobre um advogado do Rio assassinado por sua esposa. A tensão ainda se agravou por complemento do Souza Ferreiro:

            — Os fazendeiros por aqui abandonam suas terras, porque os jagunçaos as queimam —disse—. Você, em troca, dá o exemplo voltando para Calumbí.

            — Voltei para pôr a fazenda a disposição do Sétimo Regimento -disse o Barão—. Lastimo que minha ajuda não tenha sido aceita.

            — Ninguém diria ao ver esta paz que a guerra está perto — murmurou o Coronel Moreira César—. Os jagunços não o tocaram. Você é um homem com sorte.

            — As aparências enganam —repôs o Barão, sem perder a calma—. Muitas famílias de Calumbí partiram e as plantações se reduziram na metade. Por outra parte, Canudos é minha terra, não é certo? Paguei minha cota de sacrifício mais que ninguém na região.

            O Barão conseguia dissimular a cólera que podiam lhe causar as palavras do Coronel; mas a Baronesa era outra pessoa quando voltou a falar:

            —Suponho que você não toma a sério essa calúnia de que meu marido entregou Canudos aos jagunços — disse, com a cara afiada pela indignação. O Coronel bebeu outro sorvo, sem assentir nem negar.

            — De modo que o convenceram que essa infâmia — murmurou o Barão —. Seriamente acredita que eu ajudo à hereges dementes, a incendiários e ladrões de fazendas?

            Moreira César pôs sua taça sobre a mesa. Olhou ao Barão com olhar glacial e passou rapidamente a língua pelos lábios.

            — Esses dementes matam soldados com balas explosivas — soletrou, como temendo que alguém pudesse perder alguma sílaba—. Esses incendiários têm fuzis muito modernos. Esses ladrões recebem ajuda de agentes ingleses. Quem a não ser os monárquicos podem fomentar uma insurreição contra a República?

            Havia-se posto pálido e a taça começou a tremer em suas mãos. Todos, salvo o jornalista, olhavam ao chão.

            — Esta gente não rouba, nem incendeia quando sentem uma ordem, quando vêem que o mundo está organizado, porque ninguém sabe melhor que eles respeitar as hierarquias — disse o Barão, com voz firme—. Mas a República destruiu nosso sistema com leis impraticáveis, substituindo o princípio da obediência pelo dos entusiasmos embainhante. Um engano do Marechal Floriano, Coronel, porque o ideal social radica na tranqüilidade, não no entusiasmo.

            — Sente-se você mal, Excelência? — interrompeu-o o Doutor Souza Ferreiro, levantando-se.

            Mas um olhar de Moreira César lhe impediu de chegar até ele. Pôs-se lívido e tinha a testa úmida e os lábios vermelhos, como se os tivesse mordido. Ficou de pé e se dirigiu à Baronesa, com uma voz que ficava entre os dentes:

            — Rogo-lhe que me desculpe, senhora. Sei que minhas maneiras deixam muito a desejar. Venho de um meio humilde e não tive outra sociedade que o quartel.

            Retirou-se da sala equilibrando-se entre os móveis e vitrines. À suas costas, a voz sem educação do jornalista pediu outra taça de chá. Olímpio de Castro e ele permaneceram na sala, mas o Doutor foi depois do chefe do Sétimo Regimento, a quem encontrou na cama, respirando com ansiedade, em estado de grande fadiga. Ajudou-o a despir-se, deu-lhe um calmante e o ouviu dizer que se reincorporaria ao Regimento ao amanhecer: não tolerava discussão a respeito. Dito isto, prestou-se a outra sessão de ventosas e se mergulhou de novo em uma banheira de água fria, da que saiu tremendo. Umas fricções de terebentina e de mostarda o fizeram entrar em calor. Comeu em seu dormitório, mas logo se levantou em bata e esteve uns minutos na sala, agradecendo ao Barão e à Baronesa sua hospitalidade. Despertou às cinco da madrugada. Assegurou ao Doutor Souza Ferreiro, enquanto tomavam um café, que nunca sentiu-se melhor e voltou a acautelar ao jornalista míope que, desgrenhado e entre bocejos, despertava a seu lado, que se em algum periódico havia a menor notícia sobre sua enfermidade, consideraria o responsável. Quando ia sair, um servente veio a lhe dizer que o Barão lhe rogava passar por seu escritório. Guiou-o até uma peça pequena, com um grande escritório de madeira no que destacava um artefato para atar charutos, e em cujas paredes havia, além de prateleiras com livros, facas, chicotes, luvas e chapéus de couro e selas. A peça dava ao exterior e na luz nascente se via os homens da escolta conversando com o jornalista baiano. O Barão estava de bata e sapatilhas.

            — Em que pese à nossas discrepâncias, acredito um patriota que deseja o melhor para o Brasil, Coronel —disse, a maneira de saudação—. Não, não quero ganhar sua simpatia com lisonjas. Nem lhe fazer perder tempo. Preciso saber se o Exército, ou pelo menos você, estão a par das manobras forjadas contra mim e contra meus amigos por nossos adversários.

            — O Exército não se mescla em questões políticas locais —o interrompeu Moreira César—. Vim à Bahia sufocar uma insurreição que põe em perigo à República. Nada mais.

            Estavam de pé, muito juntos, e se olhavam fixamente.

            — Nisso consiste a manobra —disse o Barão—. Em ter feito acreditar no Rio, ao Governo, ao Exército, que Canudos significa esse perigo. Esses miseráveis não têm armas modernas de nenhuma classe. As balas explosivas são projéteis de limonita, ou hematita parda se preferir o nome técnico, um mineral que abunda na Serra do Bendengó e que os sertanejos usam para suas escopetas sempre.

            — As derrotas sofridas pelo Exército em Uauá e em Cambaio são também uma manobra? — perguntou o Coronel—. Os fuzis gastos do Liverpool e colocados de contrabando por agentes ingleses o são?

            O Barão examinou com minúcia a miúda cara impávida do oficial, seus olhos hostis, a careta depreciativa. Era um cínico? Não podia sabê-lo ainda: a única coisa clara era que Moreira César o odiava.

            — Os fuzis ingleses sim o são —disse—. Os trouxe Epaminondas Gonçalves, seu mais fervente partidário na Bahia, para nos acusar de cumplicidade com uma potência estrangeira e com os jagunços. E quanto ao espião inglês de Ipupiará também o fabricou ele, mandando assassinar a um pobre diabo que para sua desgraça era loiro. Sabia você isso?

            Moreira César não pestanejou, não moveu um músculo; tampouco abriu a boca. Seguiu devolvendo o olhar ao Barão, lhe fazendo saber mais definitivamente que com palavras, o que pensava dele e do que dizia.

            — De modo que sabe, é você cúmplice e acaso eminência cinza de tudo isto. —O Barão afastou a vista e esteve um momento cabisbaixo, como se refletisse, mas, em realidade, tinha a mente em branco, um atordoamento do que ao fim se repôs —. Acredita que vale a pena? Quero dizer, tanta mentira, intriga, inclusive crimes, para estabelecer a República Ditatorial. Acredita que um pouco nascido assim será a panacéia de todos os males do Brasil?

            Passaram uns segundos sem que Moreira César abrisse a boca. Fora, um ensolarado avermelhado precedia ao sol, ouvia-se relinchar aos cavalos e vozes; no piso alto, alguém arrastava os pés.

            — Há uma rebelião de gente que rechaça a República e que derrotara duas expedições militares — disse o Coronel de repente, sem que sua voz firme, seca, impessoal, alterou-se o mínimo —. Objetivamente, essas pessoas são instrumentos de quem, como você, aceitaram a República só para trai-la melhor, apoderar-se dela e, trocando alguns nomes, manter o sistema tradicional. Estavam-no conseguindo, é verdade. Agora há um Presidente civil, um regime de partidos que divide e paralisa ao país, um Parlamento onde todo esforço para trocar as coisas pode ser demorado e desnaturado com as artimanhas nas que vocês são destros. Cantavam vitória já, não é certo? Fala-se inclusive de reduzir na metade os efetivos do Exército, não? Que triunfo! Pois bem, equivocam-se. Brasil não continuará o feudo que exploram faz séculos. Para isso está o Exército. Para impor a unidade nacional, para trazer o progresso, para estabelecer a igualdade entre os brasileiros e fazer ao país moderno e forte. Vamos remover os obstáculos, sim: Canudos, você, os mercados ingleses, quem cruze em nosso caminho. Não vou lhe explicar a República tal como entendemos os verdadeiros republicanos. Não o entenderia, porque você é o passado, alguém que olha atrás. Não compreende o ridículo que é ser Barão faltando quatro anos para que comece o século vinte? Você e eu somos inimigos mortais, nossa guerra é sem quartel e não temos nada que falar.

            Fez uma vênia, deu meia volta e caminhou para a porta.

            — Agradeço-lhe sua franqueza — murmurou o Barão. Sem mover do lugar, viu-o sair do despacho e, depois, aparecer no exterior. Viu-o montar no cavalo branco que sujeitava seu ordenança e partir, seguido pela escolta, em uma nuvem de pó.

 

            O som dos apitos se parece com o de certos pássaros, é um lamento descompassado que atravessa os ouvidos e vai incrustar-se nos nervos dos soldados, despertando-os na noite ou surpreendendo-os em uma marcha. Preludia a morte, vem seguido de balas ou dardos que, com assobio rasante, brilham contra o céu luminoso ou estrelado antes de dar no branco. O som dos apitos cessa então e se ouvem os mugidos enfermos das cabeças de gado, os cavalos, as mulas, as cabras ou os cabritos. Alguma vez cai ferido um soldado, mas é excepcional porque, assim como os apitos estão destinados aos ouvidos — as mentes, as almas — dos soldados, os projéteis procuram obsessivamente aos animais. Bastaram as duas primeiras cabeças de gado alcançadas para que descobrissem que essas vítimas não são já comestíveis, nem sequer por quem em todas as campanhas que viveram juntos aprenderam a comer pedras. Os que provaram essas cabeças de gado começaram a vomitar de tal modo e a padecer tais diarréias que, antes que os médicos o opinassem, souberam que os dardos dos jagunços matam duplamente aos animais, lhes tirando a vida e a possibilidade de ajudar a sobreviver a quem vinha tocando. Depois, logo que cai uma cabeça de gado, o Major Febrônio de Brito banha-a de querosene e prende fogo. Enfraquecido, com as pupilas irritadas, nos poucos dias da saída de Queimadas o Major se tornou um ser amargo e anti-social. É provavelmente a pessoa da Coluna sobre a que os apitos operam com mais eficácia, desvelando-o e martirizando-o. Sua má sorte faz que seja sua a responsabilidade desses quadrúpedes que caem em meio à elegia sonoras, que ele seja quem deve ordenar que os rematem e carbonizem sabendo que essas mortes significam fomes futuras. Fez o que estava a seu alcance para amortecer o efeito dos dardos, dispondo círculos de patrulhas em torno dos rebanhos e protegendo às bestas com couros crus, mas com a altíssima temperatura do verão, o casaco as faz suar, atrasar-se e às vezes desabam. Os soldados viram o Major à cabeça das patrulhas que, apenas, começa a sinfonia, saem a dar batidas. São incursões exaustivas, deprimentes, que só servem para comprovar o inevitável, translaticios, fantasmagóricos que são os atacantes. O poderoso ruído dos apitos sugere que são muitos, mas é impossível que assim seja, pois como poderiam invisibilizar-se neste terreno plano, de escassa vegetação? O Coronel Moreira César explicou: trata-se de partidos ínfimos, encostados em locais cavados, que permanecem horas e dias à espreita em covas, gretas, tocas, matagais, e o ruído dos apitos está estrondosamente magnificado pelo silêncio astral da paisagem que percorrem. Estes ardis não devem distrai-los, são incapazes de afetar à Coluna. E, ao reordenar a marcha, logo depois de receber o relatório dos animais perdidos, comentou:

            — Isto é bom, alivia-nos, chegaremos mais cedo.

            Sua serenidade impressiona aos correspondentes, ante quem, cada vez que recebe notícias de novas mortes, permite-se alguma brincadeira. Eles estão crescentemente nervosos com esses adversários que espiam seus movimentos e aos que ninguém vê. Não têm outro tema de conversação. Acossam ao jornalista míope do Jornal de Notícias, lhe perguntando o que pensa o Coronel realmente dessa perseguição contínua aos nervos e reservas da Coluna, e o jornalista lhes responde, todas as vezes, que Moreira César não fala desses dardos nem ouve esses apitos porque vive entregue em corpo e alma a uma só preocupação: chegar à Canudos antes que o Conselheiro e os insurretos tenham tempo de fugir. Ele sabe, está seguro, que esses dardos e apitos não têm outro objeto que distrair ao Sétimo Regimento para dar tempo aos bandidos a preparar a retirada. Mas o Coronel é um soldado destro e não se deixa enganar, nem perde um dia em batidas inúteis nem se desvia um milímetro de sua trajetória. Aos oficiais que se inquietam pelo aprovisionamento futuro lhes disse que também desde esse ponto de vista o que interessa é chegar quanto antes à Canudos, onde o Sétimo Regimento encontrará, nos armazéns, chácaras e estábulos do inimigo, o que lhe falte.

            Quantas vezes viram os correspondentes, desde que reataram a marcha, chegar à cabeça da Coluna a um jovem oficial com um punhado de dardos sanguinolentos a dar conta de novos atentados? Mas este meio-dia, poucas horas antes de entrar em Monte Santo, o oficial enviado pelo Major Febrônio de Brito traz, além de dardos, um apito de madeira e uma suspensão. A Coluna está detida em uma quebrada, sob um sol que empapa as caras. Moreira César revisa cuidadosamente a suspensão. É uma versão muito primitiva, fabricada com madeiras sem polir e cordas grosseiras, de uso simples. O Coronel Tamarindo, Olímpio de Castro e os correspondentes o rodeiam. O Coronel agarra um dos dardos, coloca-o na suspensão, mostra aos jornalista como funciona. Logo, leva-se a boca o apito feito de cano, com incisões, e todos escutam o lúgubre lamento. Só então faz o mensageiro a grande revelação:

            — Temos dois prisioneiros, Excelência. Estamos ferido, mas o outro pode falar.

            Há um silêncio, no que Moreira César, Tamarindo e Olímpio de Castro se olham. O jovem oficial explica agora que três patrulhas se acham sempre prontas para sair apenas se escutarem os apitos e que faz duas horas, soaram, as três saíram em distintas direções, antes de que caíssem os dardos, e que uma elas divisou aos arqueiros quando se escorriam detrás de umas rochas. Tinham-nos açoitado, alcançado, procurado capturar vivos, mas a gente atacou aos soldados e resultou ferido. Moreira César parte imediatamente para a retaguarda, seguido pelos correspondentes, superexcitados com a idéia de ver por fim a cara do inimigo. Não alcançarão a vê-la imediatamente. Quando chegam, uma hora depois, à retaguarda, os prisioneiros estão encerrados em um barraco custodiado por soldados com baionetas. Não os deixam aproximar-se. Rondam pelos arredores, vêem o ir e vir de oficiais, recebem evasivas daqueles que os viram. Duas ou possivelmente três horas mais tarde Moreira César vai retomar seu posto à cabeça da Coluna. Por fim se inteiram de algo.

            — Há um que está bastante grave —explica o Coronel—. Talvez não chegue a Monte Santo. Uma lástima. Devem ser executados ali, para que sua morte sirva. Aqui, seria inútil.

            Quando o jornalista veterano, que anda sempre como convalescendo de um resfriado, pergunta se os prisioneiros proporcionaram informações úteis, o Coronel faz um gesto cético:

            — O álibi de Deus, do Anticristo, do fim do mundo. Sobre isso, dizem-no tudo. Mas não sobre seus cúmplices e aguçadores. É possível que não saibam muito, são pobres diabos. Pertencem ao bando de Pajeú, um cangaceiro.

            A Coluna reata imediatamente a marcha, a um ritmo endiabrado, e entra ao anoitecer em Monte Santo. Ali não ocorre o que em outros povoados, nos que o Regimento só faz um rápido registro em busca de armas. Aqui, os correspondentes, quando ainda estão desmontando na praça quadrangular, sob os tamarindos, ao pé da montanha das capelas, rodeados de meninos, velhos e mulheres de olhares que já aprenderam a reconhecer — indolentes, desconfiadas, distantes, que se empenham em parecer estúpidas e desinformadas—, vêem que os soldados se precipitam, de dois e de três, para as casas de terra, onde entram com os fuzis em alto como se fossem encontrar resistência. À seus lados, adiante, em qualquer parte, ao compasso de ordens e gritos, as patrulhas fazem saltar portas e janelas a coronhadas e patadas e logo começam a ver filas de vizinhos arrastados por volta de quatro currais emoldurados por sentinelas. Ali são interrogados. Do lugar em que estão, ouvem os insultos, os protestos, os rugidos, aos que se somam os prantos e resistências das mulheres que tratam de aproximar-se. Bastam poucos minutos para que todo Monte Santo seja cenário de uma estranha luta, sem disparos nem cargas. Abandonados, sem que nenhum oficial lhes explique o que ocorre, os correspondentes perambulam de um lado a outro pela aldeia dos calvários e cruzes. Vão de um a outro curral e vêem sempre o mesmo: filas de homens entre soldados com baionetas e às vezes um prisioneiro que levam a trancos ou tiram de um barracão tão maltratado que apenas se tem de pé. Vão em grupo, atemorizados com cair na engrenagem deste mecanismo que range a seu redor, sem entender o que ocorre, mas suspeitando que é conseqüência do que disseram os prisioneiros dessa manhã.

            E assim os confirma o Coronel Moreira César, com quem podem conversar nessa mesma noite, depois que os prisioneiros são executados. Antes da execução, que tem lugar entre os tamarindos, um oficial lê uma Ordem do dia, particularizando que a República está obrigada a defender-se de quem, por cobiça, fanatismo, ignorância ou engano se atêm contra ela e servem os apetites de uma casta retrógrada, interessada em manter ao Brasil no atraso para explorá-lo melhor. Chega aos vizinhos esta mensagem? Os correspondentes intuem que essas palavras, proferidas com voz trovejante pelo pregoeiro, passam ante esses seres silenciosos, por trás dos sentinelas, como mero ruído. Terminada a execução, quando os vizinhos podem aproximar-se dos degolados, os jornalistas acompanham ao Chefe do Sétimo Regimento para a moradia onde passará a noite. O míope do Jornal de Notícias acerta, como de costume, para estar a seu lado.

            — Era necessário converter todo Monte Santo em inimigo com esses interrogatórios? — pergunta-lhe.

            — Já o são, todo o povo é cúmplice —responde Moreira César—. O cangaceiro Pajeú esteve aqui nestes dias, com cinquenta homens. Receberam-nos em festa e lhes deram provisões. Vêem vocês? A subversão impregnou fundo nesta pobre gente, graças a um terreno abonado pelo fanatismo religioso.

            Não o nota alarmado. Por toda parte ardem acendedores, velas, fogueiras, e nas sombras circulam, espectrais, as patrulhas do Regimento.

            — Para executar a todos os cúmplices, teve que esfaquiar a Monte Santo inteiro. —Moreira César chegou a uma casinha onde o esperam o Coronel Tamarindo, o Major Cunha Matos e um grupo de oficiais. Despede-se dos correspondentes com um gesto e, sem transição, dirige-se a um tenente —: Quantas cabeças de gado ficam?

            — Entre quinze e dezoito, Excelência.

            — Antes de que as envenenem, daremos um banquete à tropa. Diga ao Febrônio que as sacrifique ao mesmo tempo. — O oficial parte correndo e Moreira César se volta para seus outros subordinados—. A partir de manhã, terão que apertar os cinturões.

           Desaparece no barracão e os correspondentes se dirigem ao barraco dos ranchos. Ali bebem café, fumam, trocam impressões e ouvem as letanias que descem das capelas da montanha onde o povo vela aos dois mortos. Mais tarde, vêem a partilha de carne e como os soldados desfrutam dessa comida suntuosa, e os ouvem animar-se, tocar violões, cantar. Embora também comem carne e bebem aguardente, eles não participam da efervescência que deu procuração dos soldados por algo que é para eles a proximidade da vitória. Pouco depois, o Capitão Olímpio de Castro vem lhes perguntar se vão ficar em Monte Santo ou continuar para Canudos. Aos que continuem lhes será difícil retornar, pois não haverá outro acampamento intermediário. Dos cinco, dois decidem permanecer em Monte Santo e outro voltar para Queimadas, já que se sente doente. Aos que seguirão com o Regimento — o velho agasalhado e o míope — o Capitão lhes sugere que, como a partir de agora haverá marchas forçadas, devem dormir.

            No dia seguinte, quando os dois jornalistas despertam — é a alvorada e há quiquiriquís — lhes fazem saber que Moreira César já partiu, pois houve um incidente na vanguarda: três soldados violaram uma moça. Partem no ato, com uma companhia em que vai o Coronel Tamarindo. Quando alcançam à cabeça da Expedição, os violadores estão sendo açoitados, um ao lado do outro, sujeitos a troncos de árvores. A gente ruge com cada chicotada; outro parece rezar e o terceiro mantém um gesto arrogante enquanto suas costas avermelha arrebenta em sangue.

            Estão em um clarão, rodeado de mandacarús, plantas e calumbí. Entre os arbustos e matagais se acham as companhias da vanguarda, observando o castigo. Reina silêncio absoluto entre os homens, que não apartam a vista de quem recebe os açoites. Há às vezes vozerio de louros e uns soluços de mulher. A que chora é uma moça albina, algo contrafeita, descalça, por cujas roupas rasgadas se divisam machucados. Ninguém lhe presta atenção e quando o jornalista míope pergunta a um oficial se foi ela que foi violada, este assente. Moreira César está junto ao Major Cunha Matos. Seu cavalo branco vadia uns metros mais à frente, sem arreios, fresco e limpo como se acabassem de escová-lo.

            Quando terminam de açoitá-los, dois dos castigados perderam o sentido, mas o outro, o arrogante, faz ainda o alarde de ficar em atenção para escutar ao Coronel.

            — Que isto lhes sirva de exemplo, soldados —grita este—. O Exército é e deve ser a instituição mais pura da República. Estamos obrigados a atuar sempre, do mais elevado até o mais humilde, de maneira que os cidadãos respeitem nosso uniforme. Vocês sabem a tradição do Regimento: as maldades se castigam com o máximo rigor. Estamos aqui para proteger à população civil, não para competir com os bandidos. O próximo caso de violação será castigado com pena de morte.

            Nenhum murmúrio, movimento, ecoa a suas palavras. Os corpos dos deprimidos penduram em posturas absurdas, cômicas. A moça albina deixou de chorar. Tem um olhar extraviado e por momentos sorri.

            — Dêem algo de comer a esta infeliz —diz Moreira César, assinalando-a. E, aos jornalistas que lhe aproximaram —: É uma louca. Parece-lhes um bom exemplo, para uma população já prejulgada contra nós? Não é esta a melhor maneira de dar razão a quem chama o Anticristo?

            Um ordenança sela seu cavalo e o claro se encheu de ordens, deslocamentos. As companhias partem, em direções distintas.

            — Começam a aparecer os cúmplices importantes — diz Moreira César, esquecendo de repente a violação—. Sim, senhores. Sabem quem é fornecedor de Canudos? O pároco de Cumbe, um tal Padre Joaquim. O hábito, um salvo-conduto ideal, um abre-portas, uma imunidade. Um sacerdote católico, senhores!

            Sua expressão é mais satisfeita que colérica.

            Os circenses avançavam entre macambiras e cascalho, alternando-se para puxar a carroça. A paisagem se secou e às vezes realizavam longas jornadas sem nada que meter à boca. Do Sítio das Flores, começaram a encontrar peregrinos que foram à Canudos, gente mais miserável que eles mesmos, com todos os seus pertences nas costas e que, freqüentemente, arrastavam inválidos. Onde podiam, a Barbuda, o Idiota e o Miúdo liam a sorte, cantavam romances e faziam palhaçadas, mas a gente do caminho tinha pouco que lhes dar em troca. Como corriam rumores de que em Monte Santo a Guarda Rural bahiana impedia a passagem para Canudos e arrolava a todo homem em idade de brigar, tomaram a rota mais longa de Cumbe. De vez em quando percebiam fumaças; segundo a gente, eram obra dos jagunços que assolavam a terra para que os exércitos do Cão morressem de fome. Também eles podiam ser vítimas dessa desolação. O Idiota, muito débil, tinham perdido a risada e a voz.

            Atiravam da carreta por casais; o aspecto dos cinco era ruinoso, como se agüentassem grandes padecimentos. Sempre que fazia de besta de carga, o Miúdo resmungava contra a Barbuda:

            — Sabemos que é loucura ir lá e estamos indo. Não há o que comer, a gente morre de fome em Canudos. — Assinalou ao Gall, com uma careta de fúria —: Por que faz conta?

            O Miúdo transpirava e assim, encolhido e adiantado para falar, parecia ainda menor. Que idade podia ter? Tampouco ele sabia. Já apareciam rugas em sua cara: as pequenas corcundas das costas e o peito se pronunciaram com a fraqueza. A Barbuda olhou ao Gall:

            — Porque é um homem de verdade! —exclamou—. Já me cansei de andar com monstros.

            O Miúdo teve um ataque de risada.

            — E você o que é? —disse contorsionado pelas gargalhadas—. Sim, já sei o que. Uma escrava, Barbuda. Você gosta de lhe obedecer, como antes ao Cigano.

            A Barbuda, que se pôs a rir também, tratou de esbofeteá-lo, mas o Miúdo a esquivou.

            — Você gosta de ser escrava — gritava —. Comprou-a o dia que lhe tocou a cabeça e lhe disse que fosse uma mãe perfeita. Você acreditou, encheram-lhe os olhos de lágrimas.

            Ria a gargalhadas e teve que se pôr a correr para que a Barbuda não o alcançasse. Esta lhe atirou pedras, um momento. Mas depois, o Miúdo caminhava de novo junto a ela. Suas brigas eram assim, mais pareciam um jogo ou um modo especial de comunicação.

            Partiam em silêncio, sem um sistema de voltas para atirar da carreta ou descansar. Detinham-se quando algum não podia mais de fadiga, ou quando encontravam um riacho, um poço ou um lugar sombreado para as horas de mais calor. Foram, enquanto andavam, com os olhos alertas, explorando o contorno em busca de alimento, e assim tinham capturado alguma vez uma presa comestível. Mas isso era raro e tinham que contentar-se mastigando tudo o que fosse verde. Procuravam sobretudo o imbuzeiro, árvore que Galileo Gall tinha aprendido a apreciar: o gosto adocicado, aquoso, refrescante, de suas raízes lhe parecia um verdadeiro manjar.

            Essa tarde, depois de Algodões, encontraram a um grupo de peregrinos que tinham feito um alto. Deixaram a carroça e se uniram a eles. A maioria eram vizinhos do povoado que tinham decidido partir para Canudos. Conduzia-os um apóstolo, homem já velho que levava alpargatas e uma túnica sobre as calças. Tinha um escapulário enorme e os seres que o seguiam o olhavam com veneração e acanhamento, como a alguém caído de outro mundo. Galileo Gall, agachando-se a seu lado, fez-lhe perguntas. Mas o apóstolo o olhou de longe, sem entender, e seguiu conversando com sua gente. Mais tarde, entretanto, o velho falou de Canudos, dos Livros Santos e do anunciado pelo Conselheiro, ao que chamava mensageiro de Jesus. Ressuscitariam aos três meses e um dia, exatamente. Os do Cão, em troca, morreriam para sempre. Essa era a diferença: a da vida e da morte, a do céu e do inferno, a da condenação e da salvação. O Anticristo podia mandar soldados à Canudos: do que lhe serviria? Apodreceriam, desapareceriam. Os crentes podiam morrer, mas, três meses e um dia depois, estariam de volta, completos de corpo e purificados de alma pelo roce, com os anjos e o vapor do Bom Jesus. Gall o esquadrinhava com os olhos acesos, esforçando-se por não perder uma sílaba. Em uma pausa do velho disse que as guerras ganhavam não só com fé, mas também com armas. Estava Canudos em condições de defender-se contra o Exército dos ricos? Os olhares dos peregrinos oscilaram para o que falava e voltaram para o apóstolo. Este tinha escutado, sem olhar ao Gall. Ao final da guerra já não haveria ricos ou, melhor dizendo, não se notaria, pois todos seriam ricos. Estas pedras torna-se-iam rios, essas colinas plantações férteis e o areal que era Algodões um jardim de orquídeas como as que cresciam nas alturas de Monte Santo. A cobra, a tarântula, a sucuarana seriam amigas do homem, como se fosse este não expulso do Paraíso. Para recordar estas verdades estava no mundo o Conselheiro.

            Alguém, na penumbra, ficou a chorar. Sentidos, profundos, baixos, os soluços aconteceram bastante tempo. O velho voltou a falar, com uma espécie de ternura. O espírito era mais forte que a matéria. O espírito era o Bom Jesus e a matéria era o Cão. Ocorreriam os milagres tão esperados: desapareceriam a miséria, a enfermidade, a fealdade. Suas mãos tocaram ao Miúdo, agachado junto ao Galileo. Também ele seria alto e formoso, como outros. Agora se ouvia chorar a outras pessoas, contagiadas pelo pranto da primeira. O apóstolo apoiou a cabeça no corpo mais próximo e pôs-se a dormir. A gente se foi sossegando e, uns depois de outros, os peregrinos o imitaram. Os circenses retornaram à carroça. Logo se ouviu roncar ao Miúdo, quem costumava falar em sonhos.

            Galileo e Jurema dormiam separados, sobre a lona da carpa que não se tornou a levantar desde o Ipupiará. A lua, redonda e lúcida, presidia um séquito de incontáveis estrelas. A noite era fresca, clara, sem rumores, com sombras de mandacarús e mangabeiras. Jurema fechou os olhos e sua respiração se fez pausada, tanto que Gall, a seu lado, de barriga para cima, as mãos debaixo da cabeça, olhava o céu. Seria estúpido acabar neste páramo, sem ter visto Canudos. Podia ser algo primitivo, ingênuo, poluído de superstição, mas não havia dúvida: era também algo distinto. Uma cidadela libertária, sem dinheiro, sem amos, sem policiais, sem padres, sem banqueiros, sem fazendeiros, um mundo construído com a fé e o sangue dos pobres mais pobres. Se durasse, o resto viria sozinho: os prejuízos religiosos, a miragem do mais à frente, murchar-se-iam por obsoletos e imprestáveis. Estenderia o exemplo, haveria outros Canudos e quem sabe... Pôs-se a sorrir. Arranhou sua cabeça. Seus cabelos estavam crescendo, podia agarrá-los com as pontas dos dedos. Produzia-lhe ansiedade, golpes de medo, estar rapado. Por que? Foi aquela vez, em Barcelona, quando o curavam para lhe dar pau. O pavilhão da enfermaria, os loucos da prisão. Estavam rapados e levavam camisas de força. Os cidadãos eram presos comuns; comiam-se as rações dos doentes, golpeavam-os sem misericórdia e gozavam-lhes dando banhos de água geada, com mangueiras. Esse era o fantasma que ressuscitava cada vez que um espelho, arroio ou poço de água lhe mostrava sua cabeça: o desses dementes a quem carcereiros e médicos suplicavam. Tinha escrito nessa época um artigo do que se orgulhou: «Contra a opressão da enfermidade». A revolução não só arrancaria ao homem do jugo do capital e da religião, mas também dos prejuízos que rodeavam às enfermidades na sociedade classista: o doente, sobretudo o alienado, era uma vítima social não menos sofrida e desprezada que o operário, o camponês, a prostituta e a faxineira. Não disse o velho santo fazia um momento, acreditando falar de Deus quando em realidade falava da liberdade, que em Canudos desapareceriam a miséria, a enfermidade, a fealdade? Não era esse acaso o ideal revolucionário? Jurema tinha os olhos abertos e o observava. Estava pensando em alta voz?

            — Daria tudo para estar com eles quando derrotaram ao Febrônio de Brito —sussurrou, como se dissesse palavras de amor—. Passei a vida lutando e só vi traições, divisões e derrotas em nosso campo. Gostaria de ver uma vitória, embora fosse uma vez. Saber o que se sente, como é, como cheira nossa vitória.

            Viu que Jurema lhe olhava, como outras vezes, distante e intrigada. Estavam a milímetros um do outro, mas não se tocavam. O Miúdo tinha começado a desvairar, brandamente.

            —Você não me entende, eu tampouco a entendo —disse Gall—. Por que não me matou quando estava inconsciente? Por que não convenceu aos capangas que levassem minha cabeça em vez de meus cabelos? Por que está comigo? Você não crê nas coisas que eu acredito.

            — Ao que lhe toca matar é ao Rufino —sussurrou Jurema, sem ódio, como explicando algo muito simples—. Matando-lhe lhe teria feito mais danos que o que você lhe fez.

            «Isso é o que não entendo», pensou Gall. Tinham falado outras vezes do mesmo e sempre ficava ele em trevas. A honra, a vingança, essa religião tão rigorosa, esses códigos de conduta tão pontilhados, como explicar-lhe neste fim do mundo entre gente que não tinha mais que os farrapos e os piolhos que levar em cima? A honra, o juramento, a palavra, esses luxos e jogos de ricos, de ociosos e parasitas, como entendê-los aqui? Recordou que, em Queimadas, da janela de seu quarto na Pensão Nossa Senhora das Graças, tinha escutado um dia de feira a um cantor ambulante narrar uma história que, embora distorcida, era uma lenda medieval que tinha lido de menino e visto de jovem transformada em comédia romântica: Roberto, o Diabo. Como tinha chegado até aqui? O mundo era mais imprevisível do que parecia.

            — Tampouco entendo aos capangas que levaram meus cabelos —murmurou—. A esse Caifás, quero dizer, me deixar vivo para não privar a seu amigo do prazer de uma vingança? Isso não é de camponês, mas sim de aristocrata.

            Outras vezes, Jurema tinha tratado de explicar-lhe, mas esta noite permaneceu calada. Talvez estava já convencida de que o forasteiro nunca entenderia estas coisas.

            À manhã seguinte, reataram a marcha, adiantando-se aos peregrinos de Algodões. Tomou um dia cruzar a Serra da França, e ao anoitecer estavam tão fatigados e famintos que se desmoronaram. O Idiota se deprimiu um par de vezes durante a marcha e a segunda permaneceu tão pálido e quieto que acreditaram morto. O entardecer os recompensou das penalidades da jornada com um poço de água esverdeada. Beberam, apartando as ervas, e a Barbuda aproximou do Idiota a terrina de suas mãos e refrescou à cobra, lhe salpicando gotas de água. O animal não padecia privações, pois sempre havia rosinhas ou algum verme para alimentá-lo. Uma vez que saciaram a sede, arrancaram raízes, caules, folhas, e o Miúdo colocou armadilhas. A brisa que corria era um bálsamo depois do terrível calor de todo o dia. A Barbuda se sentou junto ao Idiota e lhe fez apoiar a cabeça em seus joelhos. O destino do Idiota, da cobra e da carreta a preocupavam tanto como o seu; parecia acreditar que sua sobrevivência dependia de sua capacidade de proteger a essa pessoa, animal e coisa que eram seu mundo.

            Gall, Jurema e o Miúdo mastigavam devagar, sem alegria, cuspindo os raminhos e raízes uma vez que lhes extraíam o suco. Aos pés do revolucionário havia uma forma dura, meio caveira. Sim, era uma caveira, amarelada e rota. No tempo que levava nos sertões tinha visto ossos humanos ao longo dos caminhos. Alguém lhe contou que certos sertanejos desenterravam a seus inimigos e os deixavam à intempérie, como pasto dos predadores, pois acreditavam mandar assim suas almas ao inferno. Examinou a caveira, em um sentido e em outro.

            —Para meu pai as cabeças eram livros, espelhos —disse, com nostalgia—. O que pensaria se soubesse que estou neste lugar, neste estado? A última vez que o vi, eu tinha dezesseis anos. Decepcionei-o lhe dizendo que a ação era mais importante que a ciência. Foi um rebelde, a sua maneira. Os médicos se burlavam dele, chamavam-no bruxo.

            O Miúdo o olhava, tratando de compreender, igual a Jurema. Gall seguiu mastigando e cuspindo, pensativo.

            —Por que veio? —murmurou o Miúdo—. Não se assusta morrer fora de sua pátria? Aqui não tem família, amigos, ninguém se lembrará de você.

            —Vocês são minha família —disse Gall—. E também os jagunços.

            —Não é santo, não reza, não falas de Deus —disse o Miúdo—. Por que essa teima com Canudos?

            —Eu não poderia viver entre outra gente —disse Jurema—. Não ter pátria é ser órfão.

            —Um dia desaparecerá a palavra pátria —replicou imediatamente Galileo—. A gente olhará para trás, para nós, encerrados em fronteiras, matando-nos por raias nos mapas, e dirão: que estúpidos foram.

            O Miúdo e Jurema se olharam e Gall sentiu que pensavam que o estúpido era ele. Mastigavam e cuspiam, fazendo às vezes ascos.

            —Você crê o que disse o apóstolo de Algodões? —perguntou o Miúdo—. Que um dia haverá um mundo sem maldade, sem enfermidades...

            —E sem fealdade —acrescentou Gall. Assentiu, várias vezes —: Acredito nisso como outros em Deus. Faz tempo que muitos se fazem matar para que seja possível. Por isso tenho a teima de Canudos. Lá, no pior dos casos, morrerei por algo que vale a pena.

            — Mata-lo-á Rufino —balbuciou Jurema, olhando o chão. Sua voz se animou —: Crê que esqueceu a ofensa? Está-nos procurando e, cedo ou tarde, se vingará.

            Gall a agarrou do braço.

            —Segue comigo para ver essa vingança, não é certo? —perguntou-lhe—. Se encolheu de ombros—. Tampouco Rufino poderia entender. Não quis ofendê-lo. O desejo leva tudo de encontro: a vontade, a amizade. Não depende da gente mesmo, está nos ossos, no que outros chamam a alma. — Voltou a aproximar a cara a Jurema —: Não arrependo, foi... instrutivo. Era falso o que eu acreditava. O gozo não está renhido com o ideal. Não terá que envergonhar do corpo, entende? Não, não entende.

            — Ou será que pode ser verdade? —interrompeu-o o Miúdo. Tinha a voz quebrada e os olhos implorantes —: Dizem que fez ver os cegos, ouvir os surdos, fechado chagas de leprosos. Se lhe disser: «vim porque sei que fará o milagre», tocar-me-á e crescerei?

            Gall o olhou, desconcertado, e não encontrou nenhuma verdade ou mentira para lhe responder. Nisso a Barbuda rompeu a chorar, compadecida do Idiota: «Já não pode mais—dizia—. Já nem sorri, nem se queixa, morre aos poucos cada segundo». Ouviram-na chorar assim tempo mais, antes de dormir. Ao amanhecer, despertou uma família da Carnaiba, que lhes deu más notícias. Patrulhas da Guarda Rural e capangas de fazendeiros da região fechavam as saídas de Cumbe, em espera do Exército. A única maneira de chegar à Canudos era desviando-se para o Norte e dando um grande rodeio pelo Massacará, Angico e Rosário.

            Dia e meio depois chegaram ao Santo Antonio, minúscula estação de águas termais às bordas esverdeadas de Massacará. Os circenses estavam no povoado, anos atrás, e recordavam a afluência de gente que iam curar os males da pele nas poças borbulhantes e fedidas. Santo Antonio tinha sido também vítima pertinaz dos bandidos, que deviam roubar aos doentes. Agora parecia deserto. Não encontraram lavadeiras no rio e tampouco nas ruelas empedradas, com coqueiros, ficus e cacto, via-se ser vivente  —humano, cão ou pássaro. Em que pese a isso, o Miúdo ficou de bom humor. Agarrou um cornetim, soprou-o lhe arrancando um som cômico e começou a apregoar a função. A Barbuda pôs-se a rir e até o Idiota, em que pese a sua debilidade, queria apurar à carroça, com os ombros, as mãos, a cabeça; tinha a boca entreaberta e fios de saliva. Por fim, divisaram um velho território, que sujeitava uma moça a uma porta. Olhou-os como se não os visse mas quando a Barbuda lhe mandou um beijo, sorriu.

            Os circenses instalaram a carreta em uma praça com trepadeiras; começavam a abrir janelas, portas, a aparecer caras atraídas pelo cornetim. O Miúdo, a Barbuda e o Idiota revolviam trapos e artefatos e um momento depois estavam borrando-se, sujando-se, agasalhando-se, e apareciam em suas mãos os vestígios de um objeto de cenário extinto: a jaula da cobra, aros, varinhas mágicas, um acordeão de papel. O Miúdo soprava com fúria e rugia: «Já começa a função!» Pouco a pouco, formou-se em torno um auditório de pesadelo. Esqueletos humanos, de idade e sexo indefiníveis, a maioria com as caras, os braços e as pernas comidos por gangrenas, chagas, eczemas, grãos, saíam das casas e, vencendo uma apreensão inicial, apoiando-se um em outro, engatinhando ou arrastando-se, deviam engrossar o círculo. «Não dão a impressão de agonizantes —pensou Gall—, mas sim de ter morrido faz tempo.» Todos, principalmente os meninos, pareciam muito velhos. Alguns sorriam à Barbuda, que se enrolava a cobra, beijava-a na boca e a fazia retorcer-se em seus braços. O Miúdo agarrou ao Idiota e mimou com ele o número da Barbuda e o animal: o fazia dançar, contorsionar-se, atar-se. Os vizinhos e doentes do Santo Antonio olhavam, graves ou risonhos, movendo as cabeças em sinal de aprovação e às vezes aplaudindo. Alguns se voltavam a espiar ao Gall e a Jurema, como perguntando-se a que hora atuariam. O revolucionário os observava fascinado, e Jurema tinha a cara desfigurada em uma careta de repulsão. Fazia esforços por conter-se, mas, de repente, sussurrou que não podia vê-los, queria ir-se. Galileo não a tranqüilizou. Seus olhos se foram deslumbrando e estava intimamente revoltado. A saúde era egoísta, igual ao amor, igual à riqueza e o poder: enclausurava-o a um em si mesmo, abolia aos outros. Sim, era preferível não ter nada, não amar, mas como renunciar à saúde para ser solidário dos irmãos doentes? Havia tantos problemas, a hidra tinha tantas cabeças, a iniqüidade aparecia por onde se voltasse a vista. Adivinhou o asco e o temor de Jurema e a agarrou pelo braço:

            —Olha-os, olha-os —disse com febre, com indignação—. Olha às mulheres. Eram jovens, fortes, bonitas. Quem as tornou assim? Deus? Os canalhas, os malvados, os ricos, os sãos, os egoístas, os poderosos.

            Tinha uma expressão exaltada, enfurecida e, soltando a Jurema, avançou até o centro do círculo, sem dar-se conta que o Miúdo tinha começado a contar a singular história da Princesa Magalona, filha do Rei de Napóles. Os espectadores viram que o homem de penugem e barba avermelhada, calças rotas e cicatriz no pescoço, ficava a acionar:

            —Não percam o valor, irmãos, não sucumbam ao desespero. Não estão apodrecendo-os em vida porque o tenha decidido um fantasma escondido depois das nuvens, mas sim porque a sociedade está mal feita. Estão assim porque não comem, porque não têm médicos nem remédios, porque ninguém se ocupa de vocês, porque são pobres. Seu mal se chama injustiça, abuso, exploração. Não lhes resignem, irmãos. Do fundo de sua desgraça, lhes rebele, como seus irmãos de Canudos. Ocupem as terras, as casas, dá procuração dos bens daqueles que se apoderaram de sua juventude, que lhes roubaram sua saúde, sua humanidade...

            A Barbuda não o deixou continuar. Congestionada de ira o remexeu, repreendendo-o:

            —Estúpido! Estúpido! Ninguém o entende! Está pondo-os tristes, está os aborrecendo, não nos darão de comer! Toque-lhes as cabeças, lhes diga o futuro, algo que os alegre!

 

            O Beato, os olhos ainda fechados, ouviu cantar o galo e pensou: «Louvado seja o Bom Jesus». Sem mover-se, rezou e pediu ao Pai força para a jornada. Seu corpo miúdo suportava mal a intensa atividade; nos últimos dias, com o aumento de peregrinos, alguns momentos tinha vertigens. Nas noites, quando se tornava sobre o colchonete, atrás do altar da capela do Santo Antonio, a dor nos ossos e músculos lhe impedia de descansar; permanecia às vezes horas, com os dentes apertados, antes de que o sonho o liberasse desse suplício secreto. Porque o Beato, embora débil, tinha um espírito bastante forte para que ninguém notasse as fraquezas de sua carne, nessa cidade em que exercia as funções espirituais mais altas, depois do Conselheiro.

            Abriu os olhos. O galo voltou a cantar e a madrugada apontava pela clarabóia. Dormia com a túnica que Maria Quadrado e as devotas do Coro haviam cerzido inumeráveis vezes. Calçou as alpargatas, beijou o escapulário e o pingente que levava no peito e se acomodou na cintura o oxidado cilício que lhe tinha cedido o Conselheiro quando era ainda um menino, lá em Pombal. Enrolou o colchonete e foi despertar ao chaveiro e mordomo, que dormia à entrada da Igreja. Era um velho de Chorrochó; ao abrir os olhos, murmurou: «Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo». «Louvado seja», repôs o Beato. Alcançou-lhe o látego com o que cada manhã oferecia sacrifício de dor ao Pai. O ancião agarrou o látego —o Beato se ajoelhou — e lhe deu dez açoites, nas costas e as nádegas, com toda a força de seus braços. Recebeu-os sem um gemido. Logo, voltaram a fazer o sinal da cruz. Assim iniciavam as tarefas do dia.

            Enquanto o chaveiro foi assear o altar, o Beato foi à porta e, ao aproximar-se, sentiu os romeiros chegados a Belo Monte de noite, que os homens da Guarda Católica teriam vigiados esperando que ele decidisse se podiam permanecer ou eram indignos. O medo a equivocar-se, rechaçando a um bom cristão ou admitindo a alguém cuja presença ocasionasse dano ao Conselheiro, rasgava seu coração, era algo pelo que pedia ajuda com angústia ao Pai. Abriu a porta e ouviu um rumor e viu as dezenas de seres que acampavam frente ao portão. Havia entre eles membros da Guarda Católica, com braceletes ou lenços azuis e carabinas, que fizeram coro: «Louvado seja o Bom Jesus». «Louvado seja», murmurou o Beato. Os romeiros faziam o sinal da cruz, os que não eram entrevados ou doentes ficavam de pé. Em seus olhos havia fome e felicidade. O Beato calculou ao menos cinqüenta.

            —Bem-vindos a Belo Monte, terra do Pai e do Bom Jesus — salmodiou —. Duas coisas pede o Conselheiro aos que vêm, escutando o chamado: fé e verdade. Ninguém que seja incrédulo ou que minta se hospedará nesta terra do Senhor.

            Disse à Guarda Católica que começasse a fazê-los passar. Antes, conversava com cada peregrino a sós; agora tinha que fazer por grupos. O Conselheiro não queria que ninguém o ajudasse; «Você é a porta, Beato», respondia, cada vez que lhe rogava compartilhar esta função.

            Entraram um cego, sua filha e seu marido e dois filhos destes. Vinham de Querará e a viagem lhes tinha tomado um mês. No trajeto morreu a mãe do marido e dois filhos gêmeos do casal. Enterraram-nos de forma cristã? Sim, em gavetas e com responso. Enquanto o ancião de pálpebras presas lhe referia a viagem, o Beato os observou. Dizia-se que eram uma família unida, onde se respeitava aos maiores, pois os quatro escutavam ao cego sem interrompê-lo, assentindo em apoio do que dizia. As cinco caras mostravam essa mescla de fadiga que davam a fome e o sofrimento físico e de regozijo da alma que invadia aos peregrinos ao pisar em Belo Monte. Sentindo o roce do anjo, o Beato decidiu que eram bem-vindos. Ainda perguntou se nenhum tinha servido ao Anticristo. Logo depois de tomar juramento de não ser republicanos, nem aceitar a expulsão do Imperador, nem a separação da Igreja e do Estado, nem o matrimônio civil, nem os novos pesos e medidas nem as perguntas do censo, abraçou-os e enviou com alguém da Guarda Católica de Antonio Vilanova. Na porta, a mulher murmurou algo ao ouvido do cego. Este, temeroso, perguntou quando veriam o Bom Jesus Conselheiro. Havia tanta ansiedade na família enquanto esperava sua resposta, que o Beato pensou: «São escolhidos». Veriam nesta tarde, no Templo; ouviriam-no dar conselhos e lhes dizer que o Pai estava ditoso de recebê-los no rebanho. Viu-os partir, aturdidos de gozo. Era purificadora a presença da graça neste mundo condenado à perdição. Esses vizinhos —o Beato sabia — tinham esquecido já seus três mortos e as penalidades e sentiam que a vida valia a pena de ser vivida. Agora Antonio Vilanova os apontaria em seus livros, mandaria o cego a uma Casa de Saúde, à mulher a ajudar às Sardelinhas e ao marido e aos meninos a trabalhar como abacateiros.

            Enquanto escutava a outro casal —a mulher tinha um vulto nas mãos—, o Beato pensou no Antonio Vilanova. Era um homem de fé, um eleito, uma ovelha do Pai. Ele e seu irmão eram gente instruída, tinham tido negócios, ganhos, dinheiro; poderiam dedicar sua vida a entesourar e a ter casas, terras, serventes. Mas tinham preferido compartilhar com seus irmãos-humildes a servidão de Deus. Não era mercê do Pai ter aqui a alguém como Antonio Vilanova, cuja sabedoria solucionava tantos problemas? Acabava, por exemplo, de organizar a partilha da água. Recolhia-se de Vassa Barris e das aguadas da Fazenda Velha e se distribuía gratuitamente. Os abacateiros eram peregrinos recém chegados; assim, foram sendo conhecidos, sentiam-se úteis ao Conselheiro e ao Bom Jesus e as pessoas lhes davam de comer.

            O Beato compreendeu, pela gíria do homem, que o vulto era uma menina recém-nascida, morta a véspera, quando baixavam a Serra da Canabrava. Levantou o pedaço de tecido e observou: o cadáver estava rígido, cor de pergaminho. Explicou à mulher que era favor do céu que sua filha tivesse morrido no único pedaço de terra que permanecia a salvo do Demônio. Não a tinham batizado e o fez, chamando-a Maria Eufrasia e rogando ao Pai que levasse essa alma a Sua glória. Tomou juramento ao casal e os mandou onde os Vilanova, para que sua filha fosse enterrada. Pela escassez de madeira, os enterros se converteram em um problema de Belo Monte. Percorreu-o um calafrio. Era o que mais temia: seu corpo sepultado em uma fossa, sem nada que o cobrisse.

            Enquanto entrevistava a novos romeiros, entraram umas devotas do Coro Sagrado a arrumar a capela e Alexandrinha Correia lhe trouxe um jarro de barro com um recado da Maria Quadrado: «Para que você coma sozinho». Porque a Mãe dos Homens sabia que dava de presente suas rações aos famintos. De uma vez que escutava aos peregrinos, o Beato agradeceu a Deus lhe haver dado suficiente fortaleza de alma para não sofrer fome nem sede. Uns sorvos, um bocado lhe bastavam; nem sequer durante a peregrinação pelo deserto tinha padecido como outros irmãos as torturas da falta de comida. Por isso, só o Conselheiro tinha devotado mais jejuns que ele ao Bom Jesus. Alexandrinha Correia lhe disse também que João Abade, João Grande e Antonio Vilanova o esperavam no Santuário.

            Esteve ainda perto de duas horas recebendo peregrinos e só proibiu ficar a um comerciante em grãos do Pedrinhas, que tinha sido coletor de impostos. Aos ex-soldados, pistoleiros e fornecedores do Exército, o Beato não os rechaçava. Mas os cobradores de impostos deviam partir e não voltar, sob ameaça de morte. Levaram à exaustão ao pobre, tinham-lhe rematado suas colheitas, roubado seus animais, eram implacáveis em sua cobiça: podiam ser o verme que corrompe a fruta. O Beato explicou ao homem do Pedrinhas que, para obter a misericórdia do céu, devia lutar contra o Cão, longe, por sua conta e risco. Logo depois de dizer aos romeiros do descampado que o esperassem, dirigiu-se ao Santuário. Era meio manhã, o sol fazia reverberar as pedras. Muitas pessoas tentaram detê-lo, mas ele lhes explicou com gestos que tinha pressa. Ia escoltado por gente da Guarda Católica. Ao princípio, tinha rechaçado a escolta, mas agora compreendia que era indispensável. Sem esses irmãos, cruzar os poucos metros entre a capela e o Santuário tomaria horas, pela gente que o acossava com pedidos e consultas. Ia pensando que entre os peregrinos dessa manhã havia alguns vindos de Alagoas e Ceará. Não era extraordinário? A multidão aglomerada ao redor do Santuário era tão compacta —gente de toda idade estirando as cabeças para a portinha de madeira onde, em algum momento do dia, apareceria o Conselheiro — que ele e os quatro da Guarda Católica ficaram atolados. Agitaram então seus trapos azuis e seus companheiros que cuidavam do Santuário abriram uma cerca para o Beato. Enquanto, inclinado, avançava pelo beco de corpos, este disse que sem a Guarda Católica o caos teria feito presa de Belo Monte: essa fosse a porta para que o Cão entrasse.

            «Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo», disse e ouviu: «Louvado seja». Percebeu a paz que instalava a seu redor o Conselheiro. Inclusive o ruído da rua era aqui música.

            —Envergonho-me de fazê-los esperar, padre —murmurou—. Chegam cada vez mais originais e não alcanço a falar com eles nem a recordar suas caras.

            —Todos têm direito a salvar-se —disse o Conselheiro—. Alegre-se por eles.

            —Meu coração goza vendo que cada dia são mais —disse o Beato—. Minha cólera é contra mim, porque não chego a conhecê-los bem.

            Sentou-se entre o João Abade e João Grande, que tinham suas carabinas sobre os joelhos. Estavam ali também, além do Antonio Vilanova seu irmão Honório, que parecia recém-chegado de viagem pelo terral que o cobria. Maria Quadrado lhe alcançou um copo de água e ele bebeu, saboreando. O Conselheiro, sentado em sua cama, permanecia ereto, envolto em sua túnica morada, e a seus pés o Leão de Natuba, o lápis e o caderno nas mãos, com sua grande cabeça apoiada nos joelhos do santo; uma mão deste se afundava nos cabelos retintos e intrincados. Mudas e imóveis, as devotas estavam agachadas contra a parede e o carneirinho branco dormia. «É o Conselheiro, o Professor, o Pimpolho, o Amado», pensou o Beato com unção. «Somos seus filhos. Não éramos nada e ele nos converteu em apóstolos.» Sentiu uma quebra de onda de felicidade: outro roce do anjo.

            Compreendeu que havia uma diferença de opiniões entre o João Abade e Antonio Vilanova. Este dizia que era oposto a que se queimasse Calumbí, como queria aquele, que Belo Monte e não o Maligno seria o prejudicado se a fazenda do Barão da Canabrava desaparecesse, pois era sua melhor fonte de abastecimentos. Expressava-se como se temesse ferir alguém ou dizer algo muito grave, em voz tão tênue que teria que esforçar os ouvidos. Que indiscutivelmente sobrenatural era a aura do Conselheiro para que um homem como Antonio Vilanova se turvasse assim diante dele, pensou o Beato. Na vida diária, o comerciante era uma força da natureza, cuja energia esmagava e cujas opiniões eram vertidas com uma convicção contagiosa. E esse vozeirão retumbante, esse trabalhador incansável, esse fornecedor de idéias, ante o Conselheiro se tornava uma criança. «Mas não está sofrendo —pensou—, a não ser sentindo o bálsamo.» Disse-o ele mesmo, muitas vezes, antes, quando davam passeios conversando, depois dos conselhos. Antonio queria saber tudo sobre o Conselheiro, a história de suas peregrinações, os ensinos já semeados, e o Beato o instruía. Pensou com nostalgia nesses primeiros tempos de Belo Monte, na disponibilidade perdida. Podia-se meditar, rezar, conversar. Ele e o comerciante conversavam diariamente, caminhando de um extremo a outro do lugar, então pequeno e despovoado. Antonio Vilanova lhe abriu seu coração, lhe revelando como mudara sua vida o Conselheiro. «Eu vivia agitado, com os nervos a ponto de romper-se e a sensação de que minha cabeça ia estalar. Agora, basta saber que está perto para sentir uma serenidade que nunca tive. É um bálsamo, Beato.» Já não podiam conversar, escravizados cada um por suas respectivas obrigações. Que se fizesse a vontade do Pai.

            Estava tão abstraído em suas lembranças que não notou em que momento calou Antonio Vilanova. Agora, João Abade lhe respondia. As notícias eram terminantes e as tinha confirmado Pajeú: o Barão da Canabrava servia ao Anticristo, ordenava aos fazendeiros que dessem capangas, mantimentos, pistoleiros, cavalos e mulas ao Exército e Calumbí se estava convertendo em acampamento para uniformizados. Essa fazenda era a mais rica, a maior, a de melhores depósitos e podia aprovisionar dez Exércitos. Teria que arrasá-la, não deixar nada que servisse aos cães ou seria muito mais difícil defender Belo Monte quando chegassem. Ficou com a vista fixa nos lábios do Conselheiro, como Antonio Vilanova. Não havia mais que discutir: o santo saberia se Calumbí se salvava ou ardia. Em que pese a suas diferenças —o Beato os tinha visto discrepar muitas vezes — sua irmandade não sofreria quebra. Mas antes de que o Conselheiro abrisse a boca, tocaram à porta do Santuário. Eram homens armados, vinham de Cumbe. João Abade foi averiguar que notícias traziam.

            Quando saiu, tomou outra vez a palavra Antonio Vilanova, mas para falar das mortes. Aumentavam, com a invasão de peregrinos, e o cemitério velho, por trás das igrejas, já não tinha espaço para muitas tumbas. Por isso, pôs gente a limpar e cercar um terreno em Tabolerinho, entre Canudos e Cambaio, para levantar um novo. Aprovava isso o Conselheiro? O santo fez um muito breve sinal de assentimento. Quando João Grande, movendo suas mãos, confuso, brilhando de suor seu cabelo crespo, contava que a Guarda Católica abria desde ontem uma trincheira com duplo parapeito de pedras que, começando à beira do Vassa Barris chegaria até a Fazenda Velha, voltou João Abade. Até o Leão de Natuba elevou sua enorme cabeça de olhos inquisitivos.

           — Os soldados chegaram ao Cumbe esta madrugada. Entraram perguntando pelo Padre Joaquim, buscando-o. Parece que lhe cortaram o cangote.

            O Beato ouviu um soluço, mas não olhou: sabia que era Alexandrinha Correia. Tampouco os outros a olharam, em que pese a que os soluços cresceram e ocuparam o Santuário. O Conselheiro não se moveu.

            — Vamos rezar pelo Padre Joaquim —disse, por fim, com voz afetuosa—. Agora está junto ao Pai. Ali nos seguirá ajudando, mais que neste mundo. Alegremo-nos por ele e por nós. A morte é festa para o justo.

            O Beato, ajoelhando-se, invejou com força ao pároco de Cumbe, já a salvo do Cão, lá encima, nesse lugar privilegiado onde só sobem os mártires do Bom Jesus.

 

            Rufino entra em Cumbe ao mesmo tempo que duas patrulhas de soldados que se conduzem como se os vizinhos fossem o inimigo. Registram as casas, golpeiam com as culatras aos que protestam, cravam uma ordenança prometendo a morte a quem oculta armas de fogo e a apregoam com rufo de tambor. Procuram o padre. Ao Rufino contam que o localizam por fim e que não têm escrúpulos em entrar na Igreja e tirar à trancos. depois de percorrer Cumbe indagando pelos circenses, Rufino se aloja em casa de um ajulejista. A família comenta os registros, os maus tratos. Impressionam-nos menos que o sacrilégio: invadir a Igreja e golpear a um ministro do Deus! Deve ser certo, pois, o que se diz: essas pessoas ímpias servem ao Cão.

            Rufino sai do povoado seguro de que o forasteiro não passou por Cumbe. Encontra-se talvez em Canudos? Ou em mãos dos soldados? Está a ponto de ser apressado em uma barreira de guardas rurais que fecha a rota à Canudos. Vários o conhecem e intercedem por ele ante os outros; depois de um momento lhe permitem ir-se. Toma um atalho para o Norte e, em pouco tempo de marcha, ouve um tiro. Compreende que lhe disparam, pelo pó alvoroçado a seus pés. Atira-se ao chão, arrasta-se, localiza a seus agressores: dois guardas escondidos em uma elevação. Gritam-lhe que arroje a carabina e a faca. Lança-se, veloz, correndo em ziguezague, para um ângulo morto. Chega ao refúgio, ileso, e dali pode distanciar-se pelo rochedo. Mas perde o rumo e quando está seguro de não ser seguido, acha-se tão exausto que dorme como um tronco. O sol o põe na direção de Canudos. Há grupos de peregrinos que afluem de distintos lados à impreciso atalho que faz alguns anos só percorriam comboios de gado e comerciantes paupérrimos. Ao anoitecer, acampando entre romeiros, ouve um velho com furúnculos que vem do Santo Antonio, recordar uma função de circo. O coração do Rufino pulsa com força. Deixa falar com o velho sem interrompê-lo e um momento depois sabe que recuperou a pista.

            Chega escuro em Santo Antonio e se senta junto a uma das poças, à beira de Massacará, a esperar a luz. A impaciência não o deixa pensar. Com o primeiro raio de sol, começa a percorrer as casinhas idênticas. A maioria estão vazias. O primeiro vizinho que encontra lhe aponta onde ir. Ingressa em um interior escuro e pestilento e se detém, até que seus olhos se acostumem à penumbra. Vão aparecendo as paredes, com raias, desenhos e um Coração do Jesus. Não há móveis, quadros, nem um acendedor, mas fica como uma reminiscência dessas coisas que levaram os ocupantes.

            A mulher está no chão e se reincorpora ao vê-lo entrar. Há a seu redor trapos de cores uma cesta de vime e um braseiro. Tem, em sua saia, algo que lhe custa reconhecer. Sim, é a cabeça de um ofídio. O rastreador adverte agora a penugem que sombreia a cara e os braços da mulher. Entre ela e a parede há alguém estendido, de que vê meio corpo e os pés. Descobre a desolação que arrasa os olhos da Barbuda. Inclina-se e, em atitude respeitosa, pergunta-lhe pelo circo. Ela segue olhando-o sem vê-lo e, por fim, com desalento, alcança-lhe a cobra: pode comer-lhe. Rufino, de cócoras, explica-lhe que não quer lhe tirar a comida a não ser saber algo. A Barbuda fala do morto. Esteve agonizando aos poucos e a noite anterior expirou. Ele a escuta, assentindo. Ela se acusa, tem lances de consciência, talvez devia matar a Idília antes para lhe dar de comer. Teria-o salvado, se o pudesse? Ela mesma responde que não. A cobra e o morto compartilhavam com ela a vida do começo do circo. A memória devolve ao Rufino imagens do Cigano, do Gigante Pedrín e outros artistas que viu de menino, em Calumbí. A mulher ouviu que se não fossem enterrados em gavetas, os mortos iam ao inferno; isso a angustia. Rufino se oferece a fabricar um ataúde e cavar uma fossa para seu amigo. Pergunta o que quer, Rufino — sua voz treme — diz: O forasteiro?, repete a Barbuda, Galileo Gall? Sim, ele. Levaram-o uns homens a cavalo, quando saíam do povoado. E fala outra vez do morto, não podia arrastá-lo, dava-lhe pena, e preferiu ficar cuidando-o. Eram soldados? Guardas rurais? Bandidos? Não sabe. Os que lhe cortaram os cabelos em Ipupiará? Não, não eram esses. Buscavam a ele? Sim, aos circenses os deixaram em paz. Partiram para Canudos? Tampouco sabe.

            Rufino amortalha ao defunto com as pranchas da janela, que amarra com os trapos de cores. Coloca no ombro o duvidoso ataúde e sai, seguido pela mulher. Alguns vizinhos o guiam até o cemitério e lhe emprestam uma pá. Abre uma fossa, volta a enchê-la e permanece ali enquanto a Barbuda reza. Ao voltar para o casario, ela o agradece, efusivamente. Rufino, que esteve com o olhar perdido, pergunta-lhe: levaram também à mulher? A Barbuda pestaneja. Você é Rufino, diz. Ele assente. Conta-lhe que Jurema sabia que apareceria. Também a ela levaram? Não, foi com o Miúdo, rumo à Canudos. Um grupo de doentes e de gente sã os ouvem falar, entretidos. A fadiga que Rufino sente de repente o faz cambalear-se. Oferecem-lhe hospitalidade e ele aceita dormir na casa que ocupa a Barbuda. Dorme até a noite. Ao despertar, a mulher e um casal lhe aproximam uma tigela com uma substância espessa. Conversa com eles sobre a guerra e os transtornos do mundo. Quando o casal se vai, interroga à Barbuda sobre o Galileo e Jurema. Diz-lhe o que sabe e, também, que vai à Canudos. Não teme meter-se na boca do lobo? Mais teme ficar sozinha; lá, talvez, encontre ao Miúdo e possam seguir acompanhando-se.

 

            À manhã seguinte, despedem-se. O rastreador parte para o Oeste, pois os vizinhos asseguram que esse rumo tomaram os capangas. Parte entre arbustos, espinhos e matagais e no meio da manhã esquivou uma patrulha de exploradores que restelava a caatinga. Freqüentemente se detém estudar os rastros. Esse dia não capturara nenhuma presa e só mastigara ervas. Passa a noite no Riacho de Varginha. A pouco de retomar a travessia, divisa o Exército do Cortapescoços, esse que está em todas as bocas. Vê brilhar as baionetas no pó, ouve o rangido das armações rodando pelo atalho. Reata seu trote mas não entra em Zélia até obscurecer. Os vizinhos lhe contam que, além dos soldados, estiveram ali os jagunços do Pajeú. Ninguém recorda de um partido de capangas com alguém como Gall. Rufino ouve ulular ao longe os apitos de madeira que, de maneira intermitente, ressonarão toda a noite.

            Entre a Zélia e Monte Santo, o terreno é plano, seco e pontudo, sem atalhos. Rufino avança temendo ver a qualquer momento uma patrulha. Encontra água e comida no meio da amanhã. Mas depois, tem a sensação de não estar sozinho. Olha em torno, examina a caatinga, vai e vem: nada. Entretanto, um momento mais tarde, já não duvida: espiam-no, vários. Tenta perdê-los, troca o rumo, se oculta, corre. Inútil: são pistoleiros que sabem seu ofício e estão sempre aí, invisíveis e próximos. Resignado, marcha já sem tomar precauções, esperando que o matem. Pouco depois ouviu um bando de cabras. Por fim, avista um clarão. Antes que os homens armados vão à moça, albina, contrafeita, de olhar extraviado. Por suas roupas rasgadas, vêem-se machucados. Está distraída com um punhado de guizos e um apito de madeira, desses com que os pastores dirigem o rebanho. Os homens, uma vintena, deixam-no aproximar-se sem lhe dirigir a palavra. Seus aspectos são mais de camponeses que de cangaceiros, mas estão armados de facões, carabinas, fileiras de munições, facas, chifres com pólvora. Ao chegar Rufino, um deles se aproxima da moça, sorrindo para não assustá-la. Ela abre muito os olhos e fica imóvel. O homem, sempre tranqüilizando-a com gestos, tira-lhe as campainhas e o apito e retorna onde estão seus companheiros. Rufino vê que todos eles têm pendurados guizos e apitos.

            Estão sentados em círculo, comendo, um pouco apartados. Não parecem dar a menor importância a sua chegada, como se o estivessem esperando. O rastreador leva a mão ao chapéu de palha: «Boa tarde». Alguns seguem comendo, outros movem a cabeça, e a gente murmura, com a boca cheia: «Louvado seja o Bom Jesus». É um caboclo forçudo, amarelado, com uma cicatriz que o privou quase de nariz. «É Pajeú», pensa Rufino. «Vai matar-me.» Sente tristeza, pois morrerá sem lhe haver posto a mão na cara ao que o desonrou. Pajeú começa a interrogá-lo. Sem animosidade, sem sequer lhe pedir suas armas: de onde vem, para quem trabalha, aonde vai, o que viu. Rufino responde sem vacilar, calando-se só quando o interrompe uma nova pergunta. Outros seguem comendo; só quando Rufino explica o que é o que busca e por que, voltam as caras e o esquadrinham, dos pés a cabeça. Pajeú lhe faz repetir quantas vezes guiou a quão volantes perseguiam cangaceiros, a ver se se contradiz. Mas como, de um princípio, Rufino optou por dizer a verdade, não se equivoca. Sabia que uma dessas volantes perseguia o Pajeú? Sim, sabia. O ex-bandido diz então que recorda a essa volante do Capitão Geraldo Macedo, o Caçabandidos, pois lhe custou muito trabalho escapar dela. «É bom pistoleiro», diz. «Sou», responde Rufino. «Mas seus pistoleiros são melhores. Eu não pude me liberar deles.» À pouco, das ramagens, surge uma figura sigilosa que deve dizer algo ao Pajeú; parte, com a mesma discrição fantasmagórica. Sem impacientar-se, sem perguntar qual será sua sorte, Rufino os vê terminar de comer. Os jagunços ficam de pé, enterram os carvões da fogueira, apagam os rastros de sua presença com ramos de icá. Pajeú olha-o. «Não quer se salvar?», pergunta-lhe. «Primeiro tenho que salvar minha honra», diz Rufino. Ninguém ri. Pajeú duvida, uns segundos. «Ao forasteiro que busca o levaram ao Calumbí, onde está o Barão da Canabrava», murmura entre dentes. Parte imediatamente, com seus homens. Rufino recebe a moça albina, sentada no chão, e a dois urubus, na taça de um imbuzeiro, pigarreando como velhos.

            Afasta-se imediatamente do claro, mas não andou meia hora quando uma paralisia se apodera de seu corpo, uma fadiga que o tomba onde está. Acorda, com a cara, pescoço e braços cheios de picadas. Pela primeira vez, desde Queimadas, sente um desgosto amargo, o convencimento de que tudo é em vão. Reemprende a marcha, em direção contrária. Mas agora, em que pese a que atravesse uma zona que percorreu uma e outra vez desde que soube andar, em que sabe quais são os atalhos e onde procurar água e o melhor sítio para estender armadilhas, a jornada lhe faz interminável e todo o tempo deve lutar contra o abatimento. Freqüentemente, volta para sua cabeça algo que sonhou esta tarde: a terra é uma magra crosta que, a qualquer momento, pode rachar-se e tragá-lo. Vagueia Monte Santo, sigilosamente, e dali demora menos de dez horas em chegar ao Calumbí. Não parou para descansar em toda a noite, em alguns momentos correu. Não adverte, ao atravessar a fazenda em que nasceu e passou sua infância, o estado ruinoso das plantações, a escassez de homens, a deterioração generalizada. Cruza alguns peões que o saúdam, mas não lhes devolve as boa tarde nem responde suas perguntas. Nenhum lhe fecha a passagem e alguns o seguem, de longe.

            No aterro que rodeia a casa grande, entre as palmeiras imperiais e os tamarindos, há homens armados, além de peões que circulam pelos estábulos, depósitos e quadras da servidão. Fumam, conversam. As janelas têm as persianas baixas. Rufino avança, devagar, atento às atitudes dos capangas. Sem ordem alguma, nem dizer-se palavra, estes saem a seu encontro. Não há gritos, ameaças, nem sequer diálogo entre eles e Rufino.     Quando o rastreador chega a sua altura, sujeitam-no pelos braços. Não o golpeiam, não lhe tiram sua carabina nem seu facão nem sua faca e evitam ser bruscos. Limitam-se a lhe impedir de avançar. De uma vez, aplaudem-no, saúdam-no, aconselham-lhe que não seja teimoso e entenda as razões. O rastreador tem a cara empapada. Tampouco os golpeia, mas trata de escapar. Quando se desprende de dois e dá um passo já há outros dois, obrigando-o a retroceder. Tira e afrouxa segue assim, um bom momento. Por fim, Rufino deixa de lutar e baixa a cabeça. Os homens o soltam. Olha a fachada de dois andares, o teto de telhas, a janela que é o despacho do Barão. Dá um passo e no ato se reconstitui a barreira de homens. Abre-se a porta da casa grande e sai alguém que conhece: Aristarco, o capataz, que manda nos capangas.

            —Se quer vê-lo, o Barão lhe recebe agora mesmo—diz-lhe, com amizade. O peito do Rufino cresce e decresce:

            — Vai me entregar ao forasteiro?

            Aristarco nega com a cabeça:

            — Vai entregá-lo ao Exército. O Exército o vingará.

            —Esse tipo é meu —murmura Rufino—. O Barão sabe isso.

            —Não é para si, não lhe vai entregar —repete Aristarco—. Quer que ele lhe explique isso?

            Rufino, lívido, diz que não. Incharam-lhe as veias da frente e do pescoço, está exagerado e sua.

            — Diga ao Barão que já não é meu padrinho—articula sua voz rachada—. E diga-lhe que estou indo matar a quem me roubou.

            Cospe, dá meia volta e se afasta, por onde veio.

            Pela janela do despacho, o Barão da Canabrava e Galileo Gall viram partir para o Rufino e retornar aos sítios que ocupavam os guardiães e peões. Galileo estava asseado, tinham-lhe dado uma blusa e uma calça em melhor estado que os que tinha. O Barão retornou a seu escritório, sob uma pilha de facas e chicotes. Havia uma taça de café, fumegando, e ele bebeu um gole, com o olhar distraído. Depois, voltou a examinar ao Gall como um entomólogo fascinado por uma espécie estranha. Assim o olhava desde que o viu entrar, extenuado e faminto, entre o Aristarco e seus capangas, e, mais ainda, desde que o ouviu falar.

            — Mandou matar ao Rufino? —perguntou Galileo, em inglês—. Se insistisse em entrar, se ficasse insolente? Sim, estou seguro, mandava-o matar.

            —Não se mata aos mortos, senhor Gall —disse o Barão—. Rufino está morto. Você matou-o, quando roubou a Jurema. Mandando-o matar lhe faria um favor, o liberaria da angústia da desonra. Não existe pior suplício para um sertanejo.

            Abriu uma caixa de tabacos e, enquanto acendia um, imaginou um titular do Jornal de Notícias: «Agente inglês guiado por esbirro do Barão». Estava bem pensado que Rufino lhe servisse de pistoleiro: que melhor prova de cumplicidade com ele?

            —Quão único não entendia era do que se valeu Epaminondas para atrair ao sertão ao suposto agente —disse, movendo os dedos como se os tivesse tidos cãibras—. Não me passou pela cabeça que o céu o favorecesse pondo em suas mãos a um idealista. Raça curiosa, a dos idealistas. Não conhecia nenhum e agora, com poucos dias de diferença, tratei a dois. O outro é o Coronel Moreira César. Sim, é também um sonhador. Embora seus sonhos não coincidam com os seus...

            Interrompeu-os uma viva agitação no exterior. Foi à janela e, através dos quadradinhos do ralo metálico, viu que não era Rufino, de volta, a não ser quatro homens com carabinas, aos que rodeavam Aristarco e os capangas. «É Pajeú, o de Canudos», ouviu dizer ao Gall, esse homem que nem ele mesmo sabia se era um prisioneiro ou seu hóspede. Examinou aos recém chegados. Três permaneciam mudos, enquanto o quarto falava com o Aristarco. Era caboclo, baixo, maciço, já não jovem, com a pele como couro de vaca. Uma cicatriz seccionava sua cara: sim, podia ser Pajeú. Aristarco assentiu várias vezes e o Barão o viu vir para a casa.

            —Este é um dia de acontecimentos —murmurou, chupando seu tabaco. Aristarco trazia a cara impenetrável de sempre, mas o Barão adivinhou o alarme que o habitava.

            —Pajeú —disse, laconicamente —. Quer falar com você.

            O Barão, em vez de responder, voltou-se para o Gall:

            —Rogo-lhe que se retire agora. Vê-lo-ei na hora do jantar. Comemos cedo, aqui no campo. Às seis.

            Quando saiu, perguntou ao capataz se só tinham vindo esses quatro. Não, nos arredores havia pelo menos meia centena de jagunços. Seguro que o caboclo era Pajeú? Sim, era-o.

            —O que ocorre se atacarem Calumbí? —disse o Barão—. Podemos resistir?

            —Podemos nos fazer matar —replicou o capanga, como se antes deu-se a si mesmo essa resposta—. De muitos dos homens, já não confio. Também podem ir à Canudos a qualquer momento.

            O Barão suspirou.

            — Traga-o —disse—. Quero que atire à entrevista.

            Aristarco saiu e um momento depois estava de volta, com o recém-chegado. O homem de Canudos tirou o chapéu ao mesmo tempo que se detinha, a um metro do dono da casa. O Barão tratou de identificar nesses olhinhos pertinazes, nessas facções curtidas, as maldades e crimes que lhe atribuíam. A feroz cicatriz, que podia ser de bala, faca ou garra, rememorava a violência de sua vida. Pelo resto, poderia ser tomado por um morador. Mas estes, quando olhavam ao Barão, estavam acostumados a pestanejar, baixar os olhos. Pajeú sustentava seu olhar, sem humildade.

            —Você é Pajeú? — perguntou, por fim.

            —Sou —assentiu o homem. Aristarco permanecia atrás dele, como uma estátua.

            —Fez tantos estragos nesta terra como a seca —disse o Barão—. Com seus roubos, suas matanças, suas pilhagens.

            —Foram outros tempos —repôs Pajeú, sem ressentimento, com uma recôndita comiseração—. Em minha vida pecou os que terei que dar conta. Agora já não sirvo ao Cão a não ser ao Pai.

            O Barão reconheceu esse tom: era o dos pregadores capuchinhos das Santas Missões, o dos santos ambulantes que chegavam a Monte Santo, o de Moreira César, o de Galileo Gall. O tom da segurança absoluta, pensou, o dos que nunca duvidam. E, pela primeira vez, sentiu curiosidade por ouvir o Conselheiro, esse sujeito capaz de converter a um trapaceiro em fanático.

            —A que veio?

            —A queimar Calumbí —disse a voz sem inflexões.

            —A queimar Calumbí? —O estupor trocou a expressão, a voz, a postura do Barão.

            —A purifica-la —replicou o caboclo, devagar—. Depois de tanto suar, esta terra merece descanso.

            Aristarco não se moveu e o Barão, que tinha recuperado o aprumo, esquadrinhava ao ex-cangaceiro como, em épocas mais tranqüilas, costumava fazê-lo com as mariposas e as plantas de seu herbário, ajudado por uma lente de aumento. Sentiu, de repente, o desejo de penetrar na intimidade do homem, de conhecer as secretas raízes disso que dizia. E, ao mesmo tempo, imaginava a Sebastiana, escovando os claros cabelos de Estela em meio de um círculo de chamas. Ficou pálido.

            —Não se dá conta o infeliz do Conselheiro do que está fazendo? —Fazia esforços por conter a indignação—. Não vê que as fazendas queimadas significam fome e morte para centenas de famílias? Não se dá conta de que essas loucuras trouxeram já a guerra a Bahia?

            —Está na Bíblia —explicou Pajeú, sem alterar-se—. Virá a República, o Cortapescoços, haverá um cataclismo. Mas os pobres se salvarão, graças a Belo Monte.

            —Tem lido você a Bíblia, sequer? —murmurou o Barão.

            —Tem-na lido ele —disse o caboclo—. Você e sua família podem ir-se. O Cortapescoços esteve aqui e levou pistoleiros, cabeças de gado. Calumbí está maldita, passou-se ao Cão.

            —Não permitirei que penhore a fazenda —disse o Barão—. Não só por mim. Mas sim por centenas de pessoas para as que esta terra representa a sobrevivência.

            —O Bom Jesus se ocupará delas melhor que você —disse Pajeú. Era evidente que não queria ser ofensivo; falava esforçando-se por mostrar-se respeitoso; parecia desconcertado pela incapacidade do Barão para aceitar as verdades mais óbvias—. Quando você partir, todos irão à Belo Monte.

            —Por que então, Moreira César terá desaparecido —disse o Barão—. Não compreende que as escopetas e as facas não podem resistir a um Exército?

            Não, nunca compreenderia. Era em vão tratar de raciocinar com ele, como com o Moreira César ou com o Gall. O Barão teve um estremecimento; era como se o mundo tivesse perdido a razão e só crenças cegas, irracionais, governassem a vida.

            —Para isto lhes mandou comida, animais, carregamentos de grãos? —disse—. O compromisso do Antonio Vilanova era que vocês não tocariam Calumbí nem incomodariam a minha gente. Assim cumpre sua palavra o Conselheiro?

            —Ele tem que obedecer ao Pai —explicou Pajeú.

            —Ou sera que foi Deus quem ordenou que queime minha casa — murmurou o Barão.

            —O Pai —corrigiu o caboclo, com vivacidade, para evitar um muito grave mal-entendido—. O Conselheiro não quer que faça mal a você nem a sua família. Podem ir-se todos os que queiram.

            —Muito amável de sua parte —replicou o Barão, com sarcasmo—. Não deixarei que queime esta casa. Não irei.

            Uma sombra velou os olhos do caboclo e a cicatriz de sua cara se crispou.

            —Se você não se for, terei que atacar e matar a gente que pode salvar-se —explicou, com desgosto —. Materei você e a sua família. Não quero que essas mortes caiam sobre minha alma. Além disso, quase não haveria briga. —Assinalou com a mão, atrás —: Pergunte ao Aristarco.

            Esperou, implorando com o olhar uma resposta tranqüilizadora.

            —Pode me dar uma semana? —murmurou ao fim o Barão—. Não posso partir...

            —Um dia —o interrompeu Pajeú—. Pode levá-lo se quer. Não posso esperar mais. O Cão está indo a Belo Monte e tenho que estar lá, eu também. — Colocou o chapéu, deu meia volta e, de costas, a modo de despedida, acrescentou ao cruzar a soleira seguida pelo Aristarco —: Louvado seja o Bom Jesus.

            O Barão advertiu que lhe tinha apagado o tabaco. Arrojou a cinza, acendeu-o e enquanto dava uma baforada, calculou que não tinha possibilidade alguma de pedir ajuda ao Moreira César antes de que se cumprisse o prazo. Então, com fatalismo—ele também era, afinal de contas, um sertanejo — se perguntou como tomaria Estela a destruição desta casa e esta terra tão ligada à suas vidas.

            Meia hora depois estava no refeitório, com Estela a sua direita e Galileo Gall a sua esquerda, sentados os três nas cadeiras «austríacas» de altos encostos. Ainda não escurecia, mas os criados acendiam os lampiões. O Barão observou ao Gall: levava-se as colheradas à boca com relutância e tinha a expressão atormentada de costume. Havia-lhe dito que, se queria estirar as pernas, podia sair ao exterior, mas Gall, salvo os momentos que passava conversando com ele, permanecia em seu quarto —o mesmo que tinha ocupado Moreira César — escrevendo. O Barão lhe tinha pedido um testemunho de tudo o que tinha ocorrido desde sua entrevista com o Epaminondas Gonçalves. «Em troca disso recuperarei a liberdade?», tinha-lhe perguntado Gall. O Barão negou com a cabeça: «Você é a melhor arma que tenho contra meus inimigos». O revolucionário tinha permanecido mudo e o Barão duvidava que estivesse escrevendo essa confissão. O que era então o que podia rabiscar, dia e noite? Sentiu curiosidade, em meio de seu desgosto.

            —Um idealista? —surpreendeu-o a voz de Gall—. Um homem do que se dizem tantas atrocidades?

            Compreendeu que o escocês, sem acautelá-lo, retomava a conversação de seu escritório.

            —Parece-lhe estranho que o Coronel seja um idealista? —repôs, em inglês—. O é, sem dúvida alguma. Não lhe interessam o dinheiro, nem as honras e acaso nem sequer o poder para ele. Movem-no coisas abstratas: um nacionalismo doentio, a idolatria do progresso técnico, a crença de que só o Exército pode pôr ordem e salvar a este país do caos e da corrupção. Um idealista à maneira do Robespierre...

            Calou, enquanto um servente recolhia os pratos. Brincou com o guardanapo, distraído, pensando que a noite próxima tudo o que o rodeava seria escombros e cinzas. Desejou um instante que ocorresse um milagre, que o Exército de seu inimigo Moreira César se apresentasse em Calumbí e impedisse esse crime.

            —Como ocorre com muitos idealistas, é implacável quando quer materializar seus sonhos —acrescentou, sem que sua cara mostrasse o que sentia. Sua esposa e Gall o olhavam—. Sabe você o que fez na Fortaleza do Anhato Miram, quando a revolta federalista contra o Marechal Floriano? Executaram cento e oitenta e cinco pessoas. renderam-se, mas não lhe importou. Queria um castigo.

            —Degolou-as —disse a Baronesa. Falava o inglês sem a desenvoltura do Barão, devagar, pronunciando com temor cada sílaba—. Sabe como lhe dizem os camponeses? Cortapescoços.

            O Barão soltou uma risada; olhava, sem ver o prato que acabavam de lhe servir.

            —Imagine o que vai ocorrer quando esse idealista tenha a sua mercê aos insurretos monárquicos e anglófilos de Canudos —disse, em tom lúgubre—. Ele sabe que não são nem o um nem o outro, mas é útil para a causa jacobina que o sejam, assim dá no mesmo. Por que faz isso? Pelo bem do Brasil, naturalmente. E crê com toda sua alma que é assim.

            Tragou com dificuldade e pensou nas chamas que arrasariam Calumbí. Viu-as devorando tudo, sentiu-as crepitando.

            —A esses pobres diabos de Canudos os conheço bem —disse, sentindo as mãos úmidas—. São ignorantes, supersticiosos, e um enganador pode lhes fazer acreditar que chegou o fim do mundo. Mas são também gente valorosa, sofrida, com um instinto certeiro da dignidade. Não é absurdo? Vão ser sacrificados por monárquicos e anglófilos, eles que confundem ao Imperador Pedro II com um dos apóstolos, que não têm idéia onde está a Inglaterra e que esperam que o Rei Dom Sebastião saia do fundo do mar a defendê-los.

            Voltou a levar o garfo à boca e tragou um bocado que lhe teve sabor de fuligem.

            —Moreira César dizia que teremos que desconfiar dos intelectuais —acrescentou—. Mais ainda dos idealistas, senhor Gall.

            A voz deste chegou a seus ouvidos como se lhe falasse desde muito longe:

            — Deixe-me partir para Canudos. —Tinha a expressão deslumbrada, os olhos brilhantes e parecia comovido até o tutano —: Quero morrer pelo melhor que há em mim, por isso acredito, por isso lutei. Não quero acabar como um estúpido. Esses pobres diabos representam o mais digno desta terra, o sofrimento que se rebela. Apesar do abismo que nos separa, você pode me entender.

            A Baronesa, com um gesto, indicou ao servente que recolhesse os pratos e saísse.

            —Não lhe sirvo de nada —acrescentou Gall—. Sou ingênuo, talvez, mas não fanfarrão. Isto não é uma chantagem a não ser um fato. De nada lhe valerá me entregar às autoridades, ao Exército. Não direi uma palavra. E, se fizer falta, mentirei, jurarei que fui pago por você para acusar ao Epaminondas Gonçalves de algo que não fez. Porque embora ele seja um rato e você um cavalheiro, preterirei sempre a um jacobino que a um monárquico. Somos inimigos, Barão, não o esqueça.

            A Baronesa tentou ficar de pé.

            —Não é necessário que vá —conteve o Barão. Escutava ao Gall mas só podia pensar no fogo que abrasaria Calumbí. Como o diria a Estela?

            — Deixe-me partir para Canudos —repetiu Gall.

            —Mas para que? —exclamou a Baronesa—. Os jagunços o matarão, acreditando-o inimigo. Não diz você que é ateu, anarquista? O que tem que ver com Canudos?

           —Os jagunços e eu coincidimos em muitas coisas, senhora, embora eles não saibam —disse Gall. Fez uma pausa e perguntou —: Poderei partir?

            O Barão, quase sem dar-se conta, falou com sua esposa, em português:

            —Temos que ir, Estela. Vão queimar Calumbí. Não há outro remédio. Não tenho homens para resistir e não vale a pena suicidar-se. Viu que sua esposa ficava imóvel, que empalidecia muito, que mordia os lábios. Pensou que ia se deprimir. Voltou-se para o Gall —: Como vê, Estela e eu temos algo grave que tratar. Irei a seu quarto, mais tarde.

            Gall se retirou imediatamente. Os donos da casa ficaram em silêncio. A Baronesa esperava, sem abrir a boca. O Barão lhe contou sua conversação com o Pajeú. Notou que ela fazia esforços por lhe parecer serena, mas apenas o conseguia: estava gasta tremendo. Sempre a quis muito, mas, nos momentos de crise, além disso, tinha-a admirado. Jamais a viu fraquejar; depois dessa aparência delicada, grácil, decorativa, havia um ser forte. Pensou que também esta vez ela seria sua melhor defesa contra a adversidade. Explicou-lhe que não poderiam levar quase nada, que deviam guardar em baús o mais valioso e enterrá-los e que, o resto, era melhor distribui-lo entre os criados e peões.

            —Não há nada a fazer? —sussurrou a Baronesa, como se algum inimigo fosse ouvi-la.

            O Barão moveu a cabeça: nada.

            —Na realidade, não querem nos machucar , a não ser matar ao diabo e que a terra descanse. Não se pode raciocinar com eles. —Encolheu os ombros e, como sentiu que começava a comover-se, pôs fim ao diálogo —: Partiremos amanhã ao meio-dia. É o prazo que me deram.

            A Baronesa assentiu. Suas feições se afiaram, havia dobras em sua frente e lhe chocavam os dentes.

            —Então, terei que trabalhar toda a noite —disse, levantando-se.

            O Barão a viu afastar-se e soube que, antes de nada, tinha ido contar à Sebastiana. Mandou chamar o Aristarco e discutiu com ele os preparativos da viagem. Logo, encerrou-se em seu escritório e durante tempo rompeu cadernos, papéis, cartas. O que levaria consigo cabia em duas maletas. Quando ia ao quarto de Gall comprovou que Estela e Sebastiana se puseram em ação. A casa era presa de uma atividade febril e criadas e serventes circulavam de um lado a outro, conduzindo coisas, desprendendo objetos, enchendo cestas, caixas, baús e cochichando com caras de pânico. Entrou sem chamar. Gall estava escrevendo, no velador, e ao senti-lo, com a pluma ainda na mão, interrogou-o com os olhos.

            —Sei que é uma loucura deixá-lo partir —disse o Barão, com meio sorriso que era em realidade uma careta—. O que teria que fazer é passear por Salvador, pelo Rio, como fez com seus cabelos, com o falso cadáver, com os falsos fuzis ingleses...

            Deixou a frase sem terminar, vencido pelo desânimo.

            —Não se equivoque —disse Galileo. Estava muito perto do Barão e seus joelhos se tocavam—. Não vou ajudar a resolver seus problemas, não serei nunca seu colaborador. Estamos em guerra e todas as armas valem.

            Falava sem agressividade e o Barão o via longe: pequeno, pitoresco, inofensivo, absurdo.

            —Todas as armas valem —murmurou—. É a definição desta época, do século vinte que vem, senhor Gall. Não estranho que esses loucos pensem que o fim do mundo chegou.

            Via tanta angústia na cara do escocês que, subitamente, sentiu compaixão por ele. Pensou: «Tudo o que deseja é morrer como um cão entre gente que não o entendem e às que não entende. Acredita que vai morrer como um herói e em realidade vai morrer como o temente: como um idiota». O mundo inteiro lhe pareceu vítima de um mal-entendido sem remédio.

            — Pode você partir — disse-lhe —. Dar-lhe-ei um guia. Embora duvide que chegue à Canudos.

            Viu que a cara de Gall se acendia e lhe ouviu balbuciar um agradecimento.

            —Não sei por que o deixo ir —acrescentou—. Tenho fascinação pelos idealistas, embora simpatia não, nenhuma. Mas talvez sim, algo, por você, pois é um homem perdido sem remédio e seu fim será resultado de um equívoco.

            Mas se deu conta que Gall não o ouvia. Estava recolhendo as páginas escritas do velador. Alcançou-as:

            —É um resumo do que sou, pelo que penso. —Seu olhar, suas mãos, sua pele pareciam em efervescência—. Possivelmente você não seja a pessoa mais indicada para que lhe deixe isto, mas não há outra à mão. Leia-o e, depois, agradeceria se enviasse essa direção, em Lyon. É uma revista, publicam-na uns amigos. Não sei se continua saindo...  —Calou, como envergonhado de algo—. A que hora posso partir?

            —Agora mesmo —disse o Barão—. Não preciso lhe advertir ao que se arrisca, suponho. O mais provável é que caia em mãos do Exército. E o Coronel o matará de qualquer maneira.

            —Não se mata aos mortos, senhor, como você disse —repôs Gall—. Recorde que já me mataram em Ipupiará...

 

            O grupo de homens avança pela extensão arenosa, os olhos cravados no matagal. Nas caras há esperança, mas não na do jornalista míope, quem, desde que saíram do acampamento, pensa: «Será inútil». Não disse uma palavra que delatasse esse derrotismo com o qual lutava desde que se racionou a água. A pouca comida não é problema para ele, eterno inapetente. Em troca, suporta mal a sede. Com freqüência, descobre contando o tempo que falta para tomar o sorvo de água, segundo o rígido horário que se pôs. Talvez por isso acompanha à patrulha do Capitão Olímpio de Castro. O sensato seria aproveitar estas horas no acampamento, descansando. Esta correria, a ele, tão mau cavaleiro, fatigará e, é óbvio, aumentará sua sede. Mas não, lá no acampamento a angústia faria presa dele, enche-lo-ia de hipóteses lúgubres. Aqui, pelo menos, está obrigado a concentrar-se no esforço que significa para ele não cair de arreios. Sabe que seus óculos, suas roupas, seu corpo, seu tabuleiro, seu tinteiro, são motivo de brincadeira entre os soldados. Mas isso não lhe incomoda.

            O rastreador que guia à patrulha aponta o poço. Ao jornalista lhe basta a expressão do homem para saber que o poço foi também secado pelos jagunços. Os soldados se precipitam com recipientes, empurrando-se; ouvem o ruído das latas ao se chocar contra as pedras e vê a decepção, a amargura dos homens. O que faz aqui? Por que não está em sua desordenada casinha de Salvador, entre seus livros, fumando um cachimbo de ópio, sentindo essa grande paz?

            —Bom, era de esperar —murmura o Capitão Olímpio de Castro—. Quantos poços ficam pelos arredores?

            —Só dois para ver. —O rastreador faz um gesto cético —: Não acredito que valha a pena.

            —Não importa, verifique —o interrompe o Capitão—. Têm que estar de volta antes de escurecer, Sargento.

            O oficial e o jornalista fazem um trecho com o resto da patrulha e quando estão já longe do matagal, outra vez na extensão calcinada, ouvem murmurar ao rastreador que se está cumprindo a profecia do Conselheiro: o Bom Jesus encerrará à Canudos em um círculo, fora do qual desapareceria a vida vegetal, animal e, por último, humana.

            —Se crê isso o que faz conosco? —pergunta-lhe Olímpio de Castro. O rastreador se toca a garganta:

            —Tenho mais medo ao Cortapescoços que ao Cão.

            Alguns soldados riem. O Capitão e o jornalista míope se separam da patrulha. Cavalgam um momento até que o oficial, compadecido de seu companheiro, põe seu cavalo ao passo. O jornalista, aliviado, violentando seu horário, bebe um sorvo de água. Três quartos de hora depois divisam os barracos do acampamento.

            Acabam de passar ao primeiro sentinela, quando os alcança a poeirada de outra patrulha, que vem do Norte. O Tenente que a comanda, muito jovem, coberto de terra, está contente.

            —E? —diz Olímpio de Castro, a modo de saudação—. Encontrou-o?

            O Tenente o mostra, com o queixo. O jornalista míope descobre ao prisioneiro. Tem as mãos amarradas, expressão de terror e essa camisola deve ser sua batina. É baixinho, robusto, barrigudo, com mechas brancas nas têmporas. Move os olhos, em uma direção e em outra. A patrulha prossegue sua marcha, seguida pelo Capitão e o jornalista. Quando chega ante a tenda do chefe do Sétimo Regimento, dois soldados sacodem a roupa ao prisioneiro à palmadas. Sua chegada produz revôo, muitos se aproximam para observá-lo. Ao homenzinho lhe batem os dentes e olha com pânico, como temendo que o vão golpear. O Tenente o arrasta ao interior da tenda e o jornalista míope se desliza atrás deles.

            —Missão cumprida, Excelência —diz o jovem oficial, chocando os calcanhares.

            Moreira César se levanta de uma escrivaninha, onde está sentado entre o Coronel Tamarindo e o Major Cunha Matos. Aproxima-se e examina ao prisioneiro, com seus olhinhos frios. Sua cara não mostra emoção, mas o jornalista míope adverte que remói o lábio inferior, como sempre, que algo o impressiona.

            —Bom trabalho. Tenente —diz, estirando-lhe a mão—. Vá descansar agora.

            O jornalista míope vê que os olhos do Coronel se posam um instante nos seus e teme que lhe ordene sair. Mas não o faz. Moreira César estuda ao prisioneiro com atenção. São quase da mesma altura, embora o oficial seja muito mais magro.

            —Está você morto de medo.

            —Sim, Excelência, estou—gagueja o prisioneiro. Logo que pode falar, pelo tremor—. Fui maltratado. Minha condição de sacerdote...

            —Não lhe impediu de ficar ao serviço dos inimigos de sua pátria — cala-o o Coronel. Dá uns passos, frente ao pároco de Cumbe, que baixou a cabeça.

            —Sou um homem pacífico. Excelência —geme.

            —Não, você é um inimigo da República, ao serviço da subversão restauradora e de uma potência estrangeira.

            —Uma potência estrangeira? —balbucia o Padre Joaquim, com um estupor tão grande que interrompeu seu medo.

            —A você não admito o álibi da superstição —acrescenta Moreira César, em voz suave, com as mãos nas costas—. As frescuras do fim do mundo, do Diabo e de Deus.

            As outras pessoas seguem mudas, os deslocamentos do Coronel. O jornalista míope sente no nariz o comichão que precede ao espirro e isso, não sabe por que, alarma-o.

            —Seu medo me revela que está a par, senhor padre — diz Moreira, com aspereza —. Com efeito , temos os meios de fazer falar com jagunço mais bravo. De maneira que não nos faça perder tempo.

            —Não tenho nada que ocultar —balbucia o pároco, tremendo outra vez—. Não sei se fiz bem ou mal, estou confuso...

            —Acima de tudo, as cumplicidades exteriores — interrompe-o o Coronel e o jornalista míope nota que o oficial move, nervosos, os dedos enlaçados à costas—. Latifundiários, políticos, assessores militares, nativos ou ingleses.

            —Ingleses? —exclama o padre, exagerado—. Nunca vi um estrangeiro em Canudos, só a gente mais humilde e mais pobre. Que fazendeiro nem político poria os pés entre tanta miséria. Asseguro-o, senhor. Há gente vinda de longe, certamente. De Pernambuco, do Piauí. É uma das coisas que me surpreende. Como tanta gente pôde...

            — Quanta?  —interrompe-lhe o Coronel e o cura escoiceia.

            — Milhares —murmura—. Cinco, oito mil, não sei. Os mais pobres, os mais desamparados. O diz alguém que viu muita miséria. Aqui abundam, com a seca, as epidemias. Mas lá parece que se deram entrevista, que Deus os tivesse congregado. Doentes, inválidos, todas as pessoas sem esperança, vivendo uns em cima de outros. Não era minha obrigação de sacerdote estar com eles?

            —Sempre foi política da Igreja Católica estar onde acredita que está sua conveniência —diz Moreira César—. Foi seu Bispo quem lhe ordenou ajudar aos revoltosos?

            —E, entretanto, face à miséria, essa gente é feliz —balbucia o Padre Joaquim como se não o tivesse ouvido. Seus olhos revoam entre o Moreira César, Tamarindo e Cunha Matos—. A mais feliz que vi senhor. É difícil admiti-lo, também para mim. Mas é assim, é assim. Ele deu-lhes uma tranqüilidade de espírito, uma resignação às privações, ao sofrimento, que é algo milagroso.

            —Falemos das balas explosivas —diz Moreira César—. Entram no corpo e arrebentam como uma granada, abrindo crateras. Os médicos não tinham visto feridas assim no Brasil. De onde saem? Algum milagre, também?

            —Não sei nada de armas —balbucia o Padre Joaquim—. Você não crê, mas é certo, Excelência. Juro pelo hábito que visto. Ocorre algo extraordinário lá. Essa gente vive em graça de Deus.

            O Coronel olha-o com ironia. Mas, em um rincão, o jornalista míope esqueceu a sede e se acha pendente das palavras do pároco, como se o que diz fosse para ele de vida ou morte.

            —Santos, justos, bíblicos, escolhidos de Deus? Isso é o que devo me tragar? —diz o Coronel - São os que queimam fazendas, assassinam e chamam Anticristo à República?

            —Não me faço entender, Excelência — reclama o prisioneiro—. Cometeram atos terríveis, certamente. Mas, mas...

            —Mas você é seu cúmplice —murmura o Coronel—. Que outros padres os ajudam?

            —É difícil de explicar —baixa a cabeça o pároco de Cumbe—. Ao princípio, ia rezar-lhes missa e jamais vi ardor igual, uma participação assim. Extraordinária a fé dessa gente, senhor. Não era pecado lhes voltar as costas? Por isso continuei, face à proibição do Arcebispo. Não era pecado deixar sem sacramentos a quem acredita como não vi acreditar em ninguém? Para eles a religião é tudo na vida. Estou-lhe abrindo minha consciência. Eu sei que não sou um sacerdote digno, senhor.

            O jornalista míope quis, de repente, ter consigo um tabuleiro, sua pluma, seu tinteiro, seus papéis.

            —Tive uma companheira, fiz vida marital muitos anos — balbucia o padre de Cumbe—. Tenho filhos, senhor.

            Fica cabisbaixo, tremendo, e é seguro, pensa o jornalista míope, que não percebe a risada do Major Cunha Matos. Pensa que certamente está vermelho de rubor sob a crosta de terra que lhe mela a cara.

            —Que um padre tenha filhos não me tira o sono—diz Moreira César—. Sim, em troca, que a Igreja Católica esteja com os facciosos. Que outros sacerdotes ajudam à Canudos?

            —E ele me deu uma lição —diz o Padre Joaquim—. Ver como era capaz de viver prescindindo de tudo, consagrado ao espírito, ao mais importante. Acaso Deus, a alma, não deveriam ser o primeiro?

            —O Conselheiro? —pergunta Moreira César, com sarcasmo—. Um santo, sem dúvida?

            —Não sei, Excelência —diz o prisioneiro—. Pergunto-me isso todos os dias, desde que o vi entrar em Cumbe, faz já muitos anos. Um louco, pensava ao princípio, como a hierarquia. Vieram uns padres capuchinhos, mandados pelo Arcebispo, a averiguar. Não entenderam nada, assustaram-se, também disseram que era louco. Mas como se explica então, senhor? Essas conversões, essa serenidade de espírito, a felicidade de tantos miseráveis.

            —E como se explicam os crimes, a destruição de propriedades, os ataques ao Exército? —interrompe-o o Coronel.

            —Certo, certo, não têm desculpa —assente o Padre Joaquim—. Mas eles não se dão conta do que fazem. Quer dizer, são crimes que cometem de boa fé. Por amor à Deus, senhor. Há uma grande confusão, sem dúvida.

            Apavorado, olha ao redor, como se dissesse algo que poderia provocar uma tragédia.

            —Quais inculcaram a esses infelizes que a República é o Anticristo? Quem converteu essas loucuras religiosas em um movimento militar contra o regime? Isso é o que quero saber, senhor padre. —Moreira César sobe a voz, que soa destemperada—. Quem pôs essa pobre gente ao serviço de quão políticos querem restaurar a monarquia no Brasil?

            —Eles não são políticos, não sabem nada de política—reclama o Padre Joaquim—. Estão contra o matrimônio civil, por isso do Anticristo. São cristãos puros, senhor. Não podem entender que haja matrimônio civil quando existe um sacramento criado por Deus...

            Mas emudece, depois de emitir um grunhido, porque Moreira César tirou a pistola de sua cartucheira. Desarrocha-a calmo, e aponta ao prisioneiro na têmpora. O coração do jornalista míope parece um tambor grande e as têmporas lhe doem do esforço que faz por conter o espirro.

            —Não me mate! Não me mate, por mais que queira, Excelência, senhor! —Deixou-se cair de joelhos.

            —Em que pese a minha advertência, faz-nos perder tempo, senhor padre —diz o Coronel.

            —É verdade, levei-lhes remédios, provisões, tenho-lhes feito encargos —geme o Padre Joaquim—. Também explosivos, pólvora, cartuchos de dinamite. Comprava-os para eles nas minas do Cacabú. Foi um engano, sem dúvida. Não sei, senhor, não pensei. Causa-me tanto mal-estar, tanta inveja, por essa fé, essa serenidade de espírito que nunca tive. Não me mate!

            —Quais os ajudam? —pergunta o Coronel—. Quais lhes dão armas, provisões, dinheiro?

            —Não sei quem, não sei —choraminga o padre—. Quer dizer, sim, muitos fazendeiros. É o costume, senhor, como com os bandidos, lhes dar algo para que não ataquem, para que se vão a outras terras.

            —Também da fazenda do Barão de Canabrava recebem ajuda? —interrompe-o Moreira César.

            —Sim, suponho que também de Calumbí, senhor. É o costume. Mas isso mudou, muitos se foram. Jamais vi a um latifundiário, a um político ou a um estrangeiro em Canudos. Só a miseráveis, senhor. Digo-lhe tudo o que sei. Eu não sou como eles, não quero ser mártir, não me mate.

            Corta-lhe a voz e rompe em pranto, encolhendo-se.

            —Nessa mesa há papel —diz Moreira César—. Quero um mapa detalhado de Canudos. Ruas, entradas, como está defendido o lugar.

            —Sim, sim —engatinha para a escrivaninha o Padre Joaquim—. Tudo o que sei, não tenho por que lhe mentir.

            Encarapita-se no assento e começa a desenhar. Moreira César, Tamarindo e Cunha Matos o rodeiam. Em seu rincão, o jornalista do Jornal de Notícias sente alívio. Não verá voar em pedaços a cabeça do cura. Divisa seu perfil ansioso enquanto desenha o mapa que lhe pediram. Ouve-o responder atropeladamente a perguntas sobre trincheiras, armadilhas, caminhos cortados. O jornalista míope se senta no chão e espirra, duas, três, dez vezes. A cabeça lhe revoa e volta a sentir, compulsiva, a sede. O Coronel e os outros oficiais falam com o prisioneiro sobre «ninhos de fuzileiros» e «postos de avançada» —este não parece entender bem o que são — e ele abre seu cantil e bebe um longo trago, pensando que violentou uma vez mais seu horário. Distraído, aturdido, desinteressado, ouve discutir aos oficiais sobre os confusos dados que lhes dá o pároco e ao Coronel explicar onde se instalarão as metralhadoras, os canhões, e em que forma devem desdobrar as companhias para encerrar aos jagunços em uma tenaz. Ouve-o dizer:

            —Devemos lhes impedir toda possibilidade de fuga.

            Terminou o interrogatório. Dois soldados entram para levar o prisioneiro. Antes de sair, Moreira César lhe diz:

            —Como conhece esta terra, ajudará aos guias. E nos ajudará a identificar aos chefes, quando chegar a hora.

            —Acreditei que você ia matar —diz, do chão, o jornalista míope, quando o levaram.

            O Coronel olha-o como se só agora o descobrisse.

            —O senhor cura nos será útil em Canudos —responde—. E, além disso, convém que se saiba que a adesão da Igreja à República não é tão sincera como alguns acreditam.

            O jornalista míope sai da tenda. Anoiteceu e a lua, grande e amarela, banha o acampamento. Enquanto avança para o barraco que compartilha com o jornalista velho e friorento, a corneta anuncia o rancho. O som se repete, ao longe. Acenderam-se, aqui e lá, fogueiras, e ele passa entre grupos de soldados que vão em busca das magras rações. No barraco, encontra a seu colega, como sempre, tem seu cachecol enrolado ao pescoço. Enquanto fazem a cauda da comida, o jornalista do Jornal de Notícias lhe conta tudo o que viu e ouviu na tenda do Coronel. Comem, sentados em terra, conversando. O rancho é uma substância espessa, com um remoto sabor a mandioca, um pouco de farinha e dois torrões de açúcar. Dão-lhes também café que lhes tem sabor de maravilha.

            —O que o impressionou tanto? —pergunta-lhe seu colega.

            —Não entendemos o que acontece em Canudos —responde ele—. É mais complicado, mais confuso do que acreditava.

            —Bom, eu nunca acreditei que os emissários de Sua Majestade britânica estivessem nos sertões, se se referir a isso —grunhe o jornalista velho—. Mas tampouco posso acreditar no conto do cura de que só há amor a Deus detrás de tudo isso. Muitos fuzis, muitos estragos, uma tática muito bem concebida para que tudo seja obra dos sebastianistas analfabetos.

            O jornalista míope não diz nada. Retornam ao barraco e, imediatamente, o velho se abriga e dorme. Mas ele permanece acordado, escrevendo com seu tabuleiro portátil sobre os joelhos, à luz de um candil. Tomba-se em sua manta quando ouviu o toque de silêncio. Imagina a quão soldados dormem à intempérie, vestidos, ao pé de seus fuzis, alinhados de quatro, e aos cavalos, em seu curral, junto às peças de artilharia. Está tempo insone pensando nos sentinelas que percorrem o perímetro do acampamento e que, ao longo da noite, comunicar-se-ão mediante apitos. Mas, ao mesmo tempo, subjacente, aguilhoador, perturbador, há em sua consciência outra preocupação: o padre prisioneiro, seus balbuceios, suas palavras. Tem razão seu colega, o Coronel? Pode explicar-se Canudos de acordo aos conceitos familiares de conjuração, rebeldia, subversão, intrigas de quão políticos querem a restauração monárquica? Hoje, ouvindo o apavorado cura, teve a certeza que não. Trata-se de um pouco mais difuso, inabitual, desacostumado, algo que seu cepticismo lhe impede de chamar divino ou diabólico ou simplesmente espiritual. O que, então? Passa a língua por seu cantil vazio e pouco depois cai dormindo.

 

            Quando a primeira raia o horizonte, escuta-se, em um extremo do acampamento, o tinido de uns guizos e balidos. Um pequeno broto de arbustos começa a agitar-se. Algumas cabeças se erguem, na seção que custodia esse flanco do Regimento. O sentinela que se estava afastando retorna ligeiro. Os que foram despertados pelo ruído esforçam os olhos, levam-se as mãos à orelha. Sim: balidos, campainhas. Em suas caras sonolentas, sedentas, famintas, há ansiedade, alegria. Esfregam-se os olhos, fazem-se gestos de guardar silêncio, incorporam-se com sigilo e correm para os arbustos. Aí estão sempre os balidos, o tinido. Os primeiros que chegam ao matagal divisam aos carneiros, brancos na sombra azulada... choccc, choccc... agarrou a um dos animais quando estala o tiroteio e se escutam os ais de dor dos que rodam pelo chão, alcançados por balas de carabina ou dardos de suspensão.

            No outro extremo do acampamento, soa o alvo, anunciando à Coluna que se reata a marcha.

            O saldo da emboscada não é muito grave — dois mortos, três feridos — e as patrulhas que saem detrás dos jagunços, embora não os capturam, trazem uma dúzia de carneiros que reforçam o rancho. Mas, talvez pelas crescentes dificuldades com o alimento e a água, talvez pela cercania de Canudos, a reação da tropa ante a emboscada revela um nervosismo que até agora não se manifestou. Os soldados da companhia a que pertencem as vítimas pedem ao Moreira César que o prisioneiro seja executado, em represália. O jornalista míope comprova a mudança de atitude dos homens apinhados em torno do cavalo branco do chefe do Sétimo Regimento: caras decompostas, ódio nas pupilas. O Coronel os deixa falar, escuta-os, assente, enquanto eles se tiram a palavra. Por fim, explica-lhes que esse prisioneiro não é um jagunço do montão, a não ser alguém cujos conhecimentos serão preciosos para o Regimento lá em Canudos.

            — Vingar-se-ão — diz-lhes —. Já falta pouco. Guardem essa raiva não a desperdicem.

            Esse meio-dia, entretanto, os soldados têm a vingança que desejam. O Regimento está passando junto a um promontório pedregoso, no que se divisa —o espetáculo é freqüente — a pele e a cabeça de uma vaca a que os urubus arrancaram todo o comestível. Um palpite faz murmurar a um soldado que essa cabeça de gado morta é um esconderijo de vigia. Apenas o disse quando vários rompem a formação, correm e, com uivos de entusiasmo, vêem aparecer do oco onde estava apostado, debaixo da vaca, um jagunço esquelético. Caem sobre ele, afundam-lhe suas facas, suas baionetas. Imediatamente o decapitam e vão mostrar sua cabeça ao Moreira César. Dizem-lhe que a dispararão com um canhão à Canudos, para que os rebeldes saibam o que os espera. O Coronel comenta ao jornalista míope que a tropa se acha em excelente forma para o combate.

 

            Embora passasse a noite viajando, Galileo Gall não sentia sonho. As cavalgaduras eram velhas e fracas, mas não demonstraram cansaço até a entrada da manhã. Não era fácil a comunicação com o guia Ulpino, homem de traços fortes e pele acobreada que mascava tabaco. Quase não trocaram palavras até o meio-dia, em que fizeram um alto para comer. Quanto demorariam até Canudos? O guia, cuspindo a fibra que mordiscava, não lhe deu uma resposta precisa. Se os cavalos respondessem, dois ou três dias. Mas isso era em tempos normais, não nestes... Agora não seguiriam o caminho reto, iriam pespontando, para evitar aos jagunços e aos soldados, pois, qualquer deles, tirar-lhe-iam os animais. Gall sentiu, de repente, grande cansaço e quase imediatamente dormiu.

            Umas horas depois, reataram a marcha. A pouco de partir puderam refrescar-se, em um ínfimo arroio de água salubre. Enquanto avançavam, entre colinas de cascalho e planos crispados de cardos e palmatórias, a impaciência angustiava ao Gall. Recordou aquele amanhecer de Queimadas onde pôde morrer e no que o sexo voltou para sua vida. Perdia-se ao fundo de sua memória. Descobriu, assombrado, que não tinha idéia da data: nem dia nem mês. O ano só podia continuar 1897. Era como se nesta região que percorria incessantemente, ricocheteando de um lado a outro, o tempo fosse abolido, ou fosse um tempo distinto, com seu próprio ritmo. Tratou de recordar o que ocorria, nas cabeças que tinha apalpado aqui, com o sentido da cronologia. Existia um órgão específico vinculado à relação do homem com o tempo? Sim, é óbvio. Era um incômodo, uma imperceptível depressão, uma temperatura? Não recordava seu assento. Mas sim, em troca, as aptidões ou inépcias que revelava: pontualidade e impontualidade, previsão do futuro ou improvisação contínua, capacidade para organizar com método a vida ou existências escavadas pela desordem, comidas pela confusão... «Como a minha», pensou. Sim, ele era um caso típico de personalidade cujo destino era o tumulto crônico, uma vida que por toda parte se dissolvia em caos... Tinha-o comprovado em Calumbí, quando tratava febrilmente de resumir aquilo no que acreditava e os fatos centrais de sua biografia. Havia sentido a desmoralizadora sensação de que era impossível ordenar, hierarquizar essa vertigem de viagens, paisagens, gente, convicções, perigo, exaltações, infortúnios. E, o mais provável, é que nesses papéis que ficaram em mãos do Barão da Canabrava não se transpareciam bastante, o que sim era constante em sua vida, essa lealdade que nunca descumpria, algo que podia dar um semblante de ordem à desordem: sua paixão revolucionária, seu grande ódio à infelicidade e a injustiça que padeciam tantos homens, sua vontade de contribuir de algum modo que aquilo mudasse. «Nada do que você crê é certo nem seus ideais têm nada a ver com o que acontece à Canudos.» A frase do Barão vibrou de novo em seus ouvidos e o irritou. O que podia entender de seus ideais um latifundiário aristocrata que vivia como se a Revolução Francesa não tivesse tido lugar? Alguém considerava «idealismo» uma má palavra? O que podia entender de Canudos a pessoa a quem os jagunços lhe arrebataram uma fazenda e lhe estavam queimando outra? Calumbí era, sem dúvida, neste momento, pasto das chamas. Ele sim podia entender esse fogo, ele sabia muito bem que não era obra do fanatismo ou da loucura. Os jagunços estavam destruindo o símbolo da opressão. Obscura, sabiamente, intuíam que séculos de regime de propriedade privada chegavam a arraigar de tal modo nas mentes dos explorados, que esse sistema podia lhes parecer de direito divino e, os latifundiários, seres de natureza superior, semideuses. Não era o fogo a melhor maneira de provar a falsidade desses mitos, de dissipar os temores das vítimas, de fazer ver as massas de famintos que o poder dos proprietários era destrutível, que os pobres tinham a força necessária para acabar com ele? O Conselheiro e seus homens, face às escórias religiosas que arrastavam, sabiam onde teriam que golpear. Nos fundamentos mesmos da opressão: a propriedade, o Exército, a moral obscurantista. Tinha cometido um engano escrevendo essas páginas autobiográficas que deixou em mãos do Barão? Não, elas não fariam mal à causa. Mas não era absurdo confiar algo tão pessoal a um inimigo? Porque o Barão era seu inimigo. Entretanto, não sentia por ele animação. Talvez porque, graças a ele, pudera sentir que entendia tudo o que ouvia e que lhe entendiam tudo o que dizia: era algo que não lhe acontecia desde que saiu de Salvador. Por que tinha escrito essas páginas? Porque sabia que ia morrer? Tinha-as escrito em um arranque de debilidade burguesa, porque não queria acabar sem deixar rastro dele no mundo? De repente lhe ocorreu que talvez engravidara a Jurema. Sentiu uma espécie de pânico. Sempre lhe tinha produzido um rechaço visceral a idéia de um filho e talvez isso tinha influenciado em sua decisão de Roma, de abstenção sexual. Dissera-se, sempre, que seu horror à paternidade era conseqüência de sua convicção revolucionária. Como pode um homem estar disponível para a ação se tiver a responsabilidade de um apêndice ao que terá que alimentar, vestir, cuidar? Também nisso tinha sido constante: nem mulher, nem filhos nem nada que pudesse limitar sua liberdade e debilitar sua rebeldia.

            Quando já faiscavam estrelas, desmontaram em um bosquezinho de plantas e macambira. Comeram sem falar e Galileo dormiu antes de tomar o café. Teve um sonho sobressaltado, com imagens de morte. Quando Ulpino despertou, era ainda noite fechada e se ouvia um lamento que podia ser de raposa. O guia tinha esquentado café e selado os cavalos. Tratou de cercar conversação com o Ulpino. Quanto tempo trabalhava com o Barão? O que pensava dos jagunços? O guia respondia com tantas evasivas que não insistiu. Era seu acento estrangeiro o que fazia brotar a desconfiança nesta gente? Ou era uma falta de comunicação mais profunda, de maneira de sentir e de pensar?

            Nesse momento, Ulpino disse algo que não entendeu. Fez-lhe repetir e esta vez suas palavras soaram claras: por que ia à Canudos? «Porque lá passam coisas pelas quais lutei toda minha vida», disse-lhe. «Lá estão criando um mundo sem opressores nem oprimidos, onde todos são livres e iguais.» Explicou-lhe, nos termos mais singelos de que era capaz, por que Canudos era importante para o mundo, como certas coisas que faziam os jagunços coincidiam com um velho ideal pelo que muitos homens tinham dado a vida. Ulpino não o interrompeu nem o olhou enquanto falava, e Gall não podia evitar sentir que o que dizia escorregava no guia, como o vento nas rochas, sem trincá-lo. Quando calou, Ulpino, inclinando um pouco a cabeça, e de uma maneira que ao Gall pareceu estranha, murmurou que ele acreditava que ia à Canudos salvar a sua mulher. E, ante a surpresa de Gall, insistiu: não disse Rufino que a mataria? Não lhe importava que a matasse? Não era sua mulher acaso? Para que a tinha roubado, então? «Eu não tenho mulher, eu não roubei a ninguém», replicou Gall, com força. Rufino falava de outra pessoa, era vítima de um mal-entendido. O guia retornou a sua mudez.

            Não voltaram a falar até horas mais tarde, em que encontraram a um grupo de peregrinos, com carretas e tinas, que lhes deram de beber. Quando os deixaram atrás, Gall sentiu abatimento. Tinham sido as perguntas do Ulpino, tão inesperadas, e seu tom recriminativo. Para não recordar a Jurema nem ao Rufino, pensou na morte. Não a temia, por isso a tinha desafiado tantas vezes. Se os soldados o capturassem antes de chegar à Canudos, lhes enfrentaria até obrigá-los a matá-lo, para não passar pela humilhação da tortura e, possivelmente, da covardia.

            Notou que Ulpino parecia inquieto. Fazia meia hora que cruzavam uma caatinga fechada, em meio de baforadas de ar quente, quando o guia começou a esquadrinhar a ramagem. «Estamos rodeados—sussurrou—. Melhor esperar que se aproximem.» Desceram dos cavalos. Gall não alcançava a distinguir nada que indicasse seres humanos no contorno. Mas, pouco depois, uns homens armados com escopetas, suspensões, facões e facas surgiram dentre as árvores. Um negro, já entrado em anos, enorme, seminu, fez uma saudação que Gall não entendeu e perguntou de onde vinham. Ulpino repôs que de Calumbí, que foram à Canudos e indicou a rota que tinham seguido para, afirmou, não tropeçar com os soldados. O diálogo era difícil mas não lhe parecia inamistoso. Viu nisso que o negro agarrava as rédeas do cavalo do guia e subia nele, ao mesmo tempo que outro fazia o mesmo com o seu. Deu passagem para o negro e no ato todos os que tinham escopetas o apontaram. Fez gestos de paz e pediu que o escutassem. Explicou que tinha que chegar logo à Canudos, falar com o Conselheiro, lhe dizer algo importante, que ele ia ajudar os contra, os soldados..., mas, calou, derrotado pelas caras distantes, apáticas, debochadas dos homens. O negro esperou um momento, mas ao ver que Gall permanecia calado disse algo que este tampouco entendeu. E imediatamente partiram, tão discretos como tinham aparecido.

            —O que disse? —murmurou Gall.

            —Que a Belo Monte e ao Conselheiro os defendem o Pai, o Bom Jesus e o Divino— respondeu-lhe Ulpino—. Não necessitam mais ajuda.

            E acrescentou que não estavam tão longe, assim não se preocupasse com os cavalos. Ficaram a caminho imediatamente. A verdade era que, com o enredado da caatinga, avançavam no mesmo ritmo que montados. Mas a perda dos cavalos tinha sido, também, a das alforjas com provisões e a partir de então mataram a fome com frutas secas, caules e raízes. Como Gall advertiu que, desde que saíram de Calumbí, recordar os incidentes da última etapa de sua vida, abria as portas de seu ânimo ao pessimismo, tratou —era um velho recurso — de enfrascar-se em reflexões abstratas, impessoais. «A ciência contra a má consciência.» Não expor Canudos uma interessante exceção à lei histórica segundo a qual a religião tinha servido sempre para adormecer aos povos e lhes impedir de rebelar-se contra os amos? O Conselheiro tinha utilizado a superstição religiosa para instigar aos camponeses contra a ordem burguesa e a moral conservadora e enfrentar àqueles que tradicionalmente se valeram das crenças religiosas para mantê-los submetidos e exaustos. A religião era, no melhor dos casos, o que tinha escrito David Hume —um sonho de homens doentes—, sem dúvida, mas em certos casos, como o de Canudos, podia servir para arrancar às vítimas sociais de sua passividade e as empurrar à ação revolucionária, no curso da qual as verdades científicas, racionais, iriam substituindo aos mitos e fetiches irracionais. Teria ocasião de enviar uma carta sobre este tema à l'Étincelle de révolte? Tentou de novo cercar conversação com o guia. O que pensava Ulpino de Canudos? Este permaneceu mastigando, um bom momento, sem responder. Por fim, com tranqüilo fatalismo, como se não lhe concernisse, disse: «Cortarão o cangote de todos». Gall pensou que não tinham nada mais que dizer.

            Ao sair da caatinga, entraram em um tablado carregado de xique-xiques, que Ulpino partia com sua faca; no interior havia uma polpa agridoce que tirava a sede. Esse dia encontraram novos grupos de peregrinos que foram à Canudos. Essas pessoas, que deixavam atrás, em cujos olhos fatigados podia distinguir um recôndito entusiasmo mais forte que sua miséria, fizeram bem ao Gall. Devolveram-lhe o otimismo, a euforia. Tinham deixado suas casas para ir a um lugar ameaçado pela guerra. Não significava isso que o instinto popular era certeiro? Foram ali porque intuíam que Canudos encarnava sua fome de justiça e emancipação. Perguntou ao Ulpino quando chegariam. Ao anoitecer, senão houvesse percalços. Que percalços? Acaso tinham algo que lhes roubar? «Podem nos matar», disse Ulpino. Mas Gall não se deixou desmoralizar. Pensou, sorrindo, que os cavalos perdidos eram, depois de tudo, uma contribuição à causa.

            Descansaram em uma alqueria deserta, com rastros de incêndio. Não havia vegetação nem água. Gall sovou as pernas, tinham cãibras pela caminhada. Ulpino, de improviso, murmurou que tinham cruzado o círculo. Assinalava em direção aonde havia estábulos, animais, vaqueiros, e agora havia só desolação. O círculo que separava à Canudos do resto do mundo. Diziam que, dentro, mandava o Bom Jesus e, fora, o Cão. Gall não disse nada. Em última instância, os nomes não importavam, eram envoltórios, e serviam para que as pessoas sem instrução identificassem mais facilmente os conteúdos, era indiferente que em vez de dizer justiça e injustiça, liberdade e opressão, sociedade emancipada e sociedade classista, falasse-se de Deus e do Diabo. Pensou que chegaria à Canudos e que veria algo que tinha visto de adolescente em Paris: um povo em efervescência, defendendo com unhas e dentes sua dignidade. Se conseguisse fazer-se ouvir, entender, sim, poderia ajudá-los, pelo menos compartilhando com eles aquelas coisas que ignoravam e que ele tinha aprendido em tantas correrias pelo mundo.

            —Seriamente não lhe importa que Rufino mate a sua mulher? —ouviu que lhe dizia Ulpino—. Para que a roubou, então?

            Sentiu que a cólera o afogava. Rugiu, atropelando-se, que não tinha mulher: como se atrevia a lhe perguntar algo que já lhe tinha respondido? Sentia ódio contra ele e vontade de insultá-lo.

            —É algo que não se pode entender —ouviu que resmungava Ulpino.

            Doíam-lhe as pernas e tinha os pés tão inchados que, a pouco de reatar a marcha, disse que precisava descansar algo mais. Pensou tombando-se: «Já não sou o de antes». Tinha enfraquecido muito, também: olhava, como se fosse alheio, esse antebraço ossudo no qual apoiava a cabeça.

            — Vou ver se encontro algo de comer —disse Ulpino—. Durma um pouco.

            Gall o viu perder-se detrás de umas árvores sem folhas. Quando fechava os olhos percebeu, em um tronco, meio desencravado, uma madeira com uma inscrição imprecisa: Caracatá. O nome ficou revoando em sua mente enquanto dormia.

 

            Aguçando o ouvido, o Leão de Natuba pensou: «Vai me falar». Seu corpo estremeceu de felicidade. O Conselheiro permanecia mudo em sua cama, mas o escriba de Canudos sabia se estava acordado ou dormindo por sua respiração. Voltou a escutar, na escuridão. Sim, velava. Teria fechados seus olhos profundos e, debaixo das pálpebras, estaria vendo algumas dessas aparições que baixavam a lhe falar ou que ele subia a visitar sobre as altas nuvens: os Santos, a Virgem, o Bom Jesus, o Pai. Ou estaria pensando nas coisas que diria amanhã e que ele anotaria nas folhas que lhe trazia o Padre Joaquim e que os futuros crentes leriam como os de hoje os Evangelhos.

            Pensou que, posto que o Padre Joaquim já não viria à Canudos, logo lhe acabaria o papel e teria que escrever nessas folhas do armazém dos Vilanova nos que se corria a tinta. O Padre Joaquim rara vez lhe tinha dirigido a palavra e, desde que o viu —na manhã em que entrou trotando ao Cumbe atrás do Conselheiro—, tinha advertido também em seus olhos, muitas vezes, essa surpresa, desconforto, repugnância, que sua pessoa provocava sempre e esse movimento rápido de afastar a vista e esquecê-lo. Mas a captura do pároco pelos soldados do Cortapescoços e sua morte provável causavam pena pelo efeito que tinham causado no Conselheiro. «Alegremo-nos, filhos», disse essa tarde, durante os conselhos, na torre do novo Templo: «Belo Monte tem seu primeiro santo». Mas logo, no Santuário, o Leão de Natuba tinha comprovado a tristeza que o embargava. Recusou os alimentos que lhe alcançou Maria Quadrado e, enquanto as devotas o asseavam, não fez os carinhos que estava acostumado à cabrita que Alexandrinha Correia (os olhos inchados de tanto chorar) mantinha a seu alcance. Ao apoiar a cabeça em seus joelhos, o Leão não sentiu a mão do Conselheiro e, mais tarde, ouviu-o suspirar: «Não haverá mais missas, deixou-nos órfãos». O Leão teve um pressentimento de catástrofe.

            Por isso tampouco ele conseguia dormir. O que ocorreria? Outra vez a guerra estava próxima e, agora, seria pior que quando os escolhidos e os cães se enfrentaram em Tabolerinho. Brigaria nas ruas, haveria mais feridos e mortos e ele seria um dos primeiros a morrer. Ninguém viria salvá-lo, como o tinha salvado o Conselheiro de morrer queimado em Natuba. Por gratidão tinha partido com ele e por gratidão continuava preso ao santo, saltando pelo mundo, pese ao esforço sobre-humano que para ele, deslocando-se a quatro patas, significavam essas longuíssimas travessias. O Leão entendia que muitos tivessem saudades daquelas aventuras. Então eram poucos e tinham ao Conselheiro exclusivamente para eles. Como mudaram as coisas! Pensou em quão milhares o invejavam por estar dia e noite junto ao santo. Entretanto, tampouco ele tinha ocasião já de falar a sós com o único homem que o tinha tratado sempre como se fosse igual à outros. Porque nunca tinha notado o Leão o mais ligeiro indício de que o Conselheiro visse nele a esse ser de espinhaço curvo e cabeça gigante que parecia um estranho animal nascido por equívoco entre os homens.

            Recordou essa noite, nos subúrbios do Tepidó, fazia muitos anos. Quantos peregrinos havia ao redor do Conselheiro? Depois das rezas, tinham começado a confessar-se em voz alta. Quando lhe tocou o turno, o Leão de Natuba, em um arrebatamento impensado, disse de repente algo que ninguém lhe tinha ouvido antes: «Eu não acredito em Deus, nem na religião. Só em si, pai, porque você me faz sentir humano». Houve um grande silêncio. Tremendo de sua temeridade, sentiu sobre si as olhadas espantadas dos peregrinos. Voltou a escutar as palavras do Conselheiro, essa noite: «Sofreu tanto que até os diabos escapam de tanta dor. O Pai sabe que sua alma é pura porque está todo o tempo expiando. Não tem do que se arrepender, Leão: sua vida é penitência». Repetiu mentalmente: «Sua vida é penitência». Mas também havia nela instantes de incomparável felicidade. Por exemplo, achar algo novo que ler, um pedaço de livro, uma página de revista, um fragmento impresso qualquer e aprender essas coisas fabulosas que diziam as letras. Ou imaginar que Almudia estava viva, era ainda a bela menina de Natuba e que lhe cantava e que, em vez de enfeitiçá-la e matá-la, suas canções a faziam sorrir. Ou apoiar a cabeça nos joelhos do Conselheiro e sentir seus dedos abrindo caminho entre suas riscas, separando-as, lhe sovando o couro cabeludo. Era adormecedor, uma sensação cálida que o atravessava dos pés à cabeça e ele sentia que, graças à essas mãos em seus cabelos e à esses ossos contra sua bochecha, os maus momentos da vida ficavam recompensados.

            Era injusto, não só ao Conselheiro devia agradecimento. Não o tinham carregado os outros quando já não lhe davam as forças? Não tinham rezado tanto, sobretudo o Beato, para que acreditasse? Não era boa, caridosa, generosa com ele Maria Quadrado? Tratou de pensar com carinho na Mãe dos Homens. Ela tinha feito o impossível para ganhá-lo. Nas peregrinações, quando o via extenuado, massageava-lhe longamente o corpo, como fazia com as extremidades do Beato. E quando teve febres o fez dormir em seus braços, para lhe dar calor. Procurava-lhe a roupa que vestia e tinha ideado as engenhosas luvas-sapatos de madeira e couro com que andava. Por que, então, não a queria? Sem dúvida porque também à Superiora do Coro Sagrado a tinha ouvido, nos altos noturnos do deserto, acusar-se de ter sentido asco do Leão de Natuba e de ter pensado que sua fealdade provinha do Maligno. Maria Quadrado chorava ao confessar estes pecados e, golpeando o peito, pedia-lhe perdão por ser tão pérfida. Ele dizia que a perdoava e a chamava Mãe. Mas, no fundo, não era verdade. «Sou rancoroso—pensou—. Se houver um inferno, arderei pelos séculos dos séculos.» Outras vezes, a idéia do fogo lhe dava terror. Hoje o deixou frio.

            Perguntou-se, recordando a última procissão, se devia assistir a alguma mais. Quanto medo tinha passado! Quantas vezes tinha estado a ponto de ser sufocado, pisoteado, pela multidão que tratava de aproximar-se do Conselheiro! A Guarda Católica fazia esforços inauditos para não ser transbordada pelos crentes que, entre as tochas e o incenso, estiravam as mãos para tocar ao santo. Ele Leão se viu sacudido, empurrado ao chão, teve que uivar para que a Guarda Católica o içasse quando a maré humana o tragaria. Ultimamente, apenas se aventurava fora do Santuário, pois as ruas se tornaram perigosas. As pessoas se precipitavam a lhe tocar o lombo, acreditando que lhes traria sorte, puxavam-no como um boneco e o tinham horas em suas casas fazendo perguntas sobre o Conselheiro. Teria que passar o resto de seus dias encerrado entre estas paredes de barro? Não havia fundo na infelicidade, as reservas de sofrimento eram inextinguíveis.

            Sentiu, por sua respiração, que agora o Conselheiro dormia. Escutou em direção do cubículo onde se amontoavam as devotas: também dormiam, até a Alexandrinha Correia. Permanecia insone pela guerra? Era iminente, nem João Abade, nem Pajeú, nem Macambira, nem Pedrão, nem Taramela, nem os que cuidavam os caminhos e as trincheiras tinham vindo aos conselhos e o Leão tinha visto as pessoas armadas detrás dos parapeitos eretos ao redor das igrejas e os homens indo e vindo com trabucos, escopetas, fileiras de balas, suspensões, paus, trinches, como se esperassem o ataque a qualquer momento.

            Ouviu cantar o galo; por entre as canas, amanhecia. Quando se escutavam as buzinas dos abacateiros anunciando a partilha da água, o Conselheiro despertou e se tombou a rezar. Maria Quadrado entrou em momento. O Leão estava já incorporado, face à noite em branco, disposto a registrar os pensamentos do santo. Este orou bastante tempo e, enquanto as devotas lhe umedeciam os pés e calçavam as sandálias, permaneceu com os olhos fechados. Entretanto, bebeu a tigela de leite que lhe alcançou Maria Quadrado e comeu um pãozinho de milho. Mas não acariciou ao carneirinho. «Não só pelo Padre Joaquim está tão triste —pensou o Leão de Natuba—. Também pela guerra.»

            Nisso entraram João Abade, João Grande e Taramela. Era a primeira vez que o Leão via este último no Santuário. Quando o Comandante da Rua e o chefe da Guarda Católica, depois de beijar a mão do Conselheiro, ficaram de pé, o lugar-tenente do Pajeú continuou ajoelhado.

            —Taramela recebeu ontem à noite notícias, pai —disse João Abade.

            O Leão pensou que, provavelmente, tampouco o Comandante da Rua prendeu os olhos. Estava suarento, sujo, preocupado. João Grande bebia com fruição a tigela que acabava de lhe dar Maria Quadrado. O Leão imaginou, a ambos, correndo toda a noite, de trincheira em trincheira, de entrada a entrada, conduzindo pólvora, revisando armas, discutindo. Pensou: «Será hoje». Taramela seguia de joelhos, o chapéu de couro enrugado em sua mão. Tinha duas escopetas e tantos colares de projéteis que pareciam adorno de carnaval. Mordiscava-se os lábios, incapaz de falar. Ao fim, balbuciou que tinham chegado a cavalo, Cintio e Cruzes. Um dos cavalos arrebentou. O outro talvez tinha arrebentado já, porque o deixou suando a jorros. Os cabras tinham galopado dois dias sem parar. Eles também por pouco arrebentaram. Calou-se, confuso, e seus olhinhos achinados pediram socorro ao João Abade.

            —Conte ao Pai Conselheiro a mensagem do Pajeú que traziam Cintio e Cruzes  — orientou o ex-cangaceiro. Também a ele tinha alcançado Maria Quadrado uma tigela de leite e um pãozinho. Falava com a boca cheia.

            —A ordem está cumprida, pai —recordou Taramela—. Calumbí ardeu. O Barão da Canabrava foi à Queimadas, com sua família e uns capangas.

            Lutando contra o acanhamento que lhe produzia o santo, explicou que, logo depois de queimar a fazenda, Pajeú, em vez de adiantar-se aos soldados, colocou-se atrás do Cortapescoços para cair pela retaguarda quando se lançasse contra Belo Monte. E, sem transição, passou a falar novamente do cavalo morto. Dera ordem de que o comessem em sua trincheira e de que, se o outro animal morria, entregassem-no ao Antonio Vilanova, para que ele dispusesse... mas, como nesse momento o Conselheiro abriu os olhos, emudeceu. O olhar profundo, muito escuro, aumentou o nervosismo do lugar-tenente do Pajeú; o Leão viu a força com que espremia seu chapéu.

            —Está bem, filho —murmurou o Conselheiro—. O Bom Jesus premiará sua fé e sua valentia, ao Pajeú e aos que estão com ele.

            Estirou sua mão e Taramela a beijou, retendo-a um momento nas suas e olhando-a com unção. O Conselheiro o benzeu e ele se fez o sinal da cruz. João Abade lhe indicou com um gesto que partisse. Taramela retrocedeu, fazendo uns movimentos reverentes de cabeça, e antes de que saísse, Maria Quadrado lhe deu de beber da mesma chaleira no que tinham bebido João Abade e João Grande. O Conselheiro os interrogou com o olhar.

            —Estão muito perto, pai —disse o Comandante da Rua, agachando-se. Falou com acento tão grave que o Leão de Natuba se assustou e sentiu que as devotas também se estremeciam. João Abade tirou sua faca, riscou um círculo e agora lhe acrescentava raias que eram os caminhos por onde se aproximavam os soldados.

            —Por este lado não vem ninguém—disse, assinalando a saída para Geremoabo—. Os Vilanova estão levando ali a muitos velhos e doentes, para os liberar dos tiros.

            Olhou ao João Grande, para que este continuasse. O negro apontou com um dedo ao círculo.

            —Construímos um refúgio para você, entre os estábulos e Mocambo—murmurou—. Fundo e com muitas pedras, para que resista a bala. Aqui não pode ficar, porque vêm por este lado.

            —Trazem canhões—disse João Abade—. Os vi, ontem à noite. Os pistoleiros me fizeram entrar em acampamento do Cortapescoços. São grandes, lançam fogo a grande distância. O Santuário e as igrejas serão seus primeiros alvos.