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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A HONRA DE UM CAVALHEIRO / Laurell Odonnell
A HONRA DE UM CAVALHEIRO / Laurell Odonnell

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

       Não importa o preço que tenha que pagar, Slane Donovan manterá a promessa que fez a seu irmão Richard: trazer de volta a prometida lady Taylor Sullivan ao castelo Donovan.

       Taylor fugiu de sua casa na noite depois de que seu pai queimou sua mãe na fogueira. Após isso, dedicou-se a viajar com Jared Mantle, contratado como mercenário. Ela é uma mulher forte, violenta e uma feroz lutadora.

       Slane custa a acreditar que tenha sido enganado por uma mulher e ela critica sua arrogância. Mas depois do assassinato de Jared, Taylor decide viajar com Slane. Seu inimigo Corydon fará tudo para impedir que cheguem ao castelo Donovan.

       Sua viagem acaba se convertendo em uma constante e selvagem fuga, enquanto tentam livrar-se de Corydon e chegar a Bristol, consumido pela peste, para encontrar à sua prometida. Mas o perigo de que se apaixonem é maior que seus inimigos. Slane não romperá jamais sua promessa e Taylor nunca permitirá que nenhum homem controle sua vida. Slane se vê ante a dicotomia de manter ou não sua promessa quando descobre o que seu vil irmão os preparou.

 

 

 

 

                                 Um Beijo Roubado

              — Por que não me tinha falado de sua prometida?

             Slane desviou o olhar. Por que se sentia culpado? Por que sentia que, de algum jeito, tinha-a traído? Era uma idéia ridícula. Ele não tinha por que ser leal com essa mulher, só tinha que sê-lo com seu irmão.

     — Não era importante — disse em um tom defensivo — Nossa relação... a tua e a minha... não é nada mais do que parece.

     — Suponho, então, que estava equivocada — murmurou ela.

     Slane se fixou na maneira em que os lábios dela tremiam na forma em que sua garganta se movia.

             — Nunca tive intenção de te machucar, Taylor — disse em voz baixa.

     — Não, mas fez isso.

             Seus olhos eram grandes e do verde mais profundo que Slane jamais tinha visto. A luz da vela a iluminava de uma maneira quase angélica. Sem ser convidado, tomou uma mecha do cabelo de Taylor e o enroscou entre seus dedos.

     — Meu Deus, é preciosa!

     — É melhor que te afaste de mim. Que vá muito, muito longe — lhe advertiu ela — Só te trarei problemas.

             Slane assentiu e repetiu:

             — Muito, muito longe — mas levantou a mão para passá-la ao redor do queixo de Taylor, sobre sua bochecha. Depois se viu aproximando seu braço para a cabeça dela, seus lábios aos da mulher. O doce fôlego feminino abanou seu rosto.

     Ela o olhou. Era tão bonita...

     Ele baixou seus lábios para os dela...

 

                         Inglaterra, 1340

     Taylor Sullivan se perguntou se sua mãe teria ficado louca. Em semelhantes circunstâncias, ninguém em seu são julgamento poderia irradiar um sorriso tão resplandecente como o que se desenhava nos lábios de sua mãe. Como podia sorrir quando se encontravam nessa indescritível e horrorosa situação? A menina se perguntou se aquilo era possível. Seu corpo tremeu de medo. Teve que agarrar-se firmemente as pequenas mãos para evitar que sua mãe se desse conta de que seus dedos tremiam de terror e medo.

     O traje negro da mãe contrastava com sua pálida pele de alabastro, fazendo que parecesse de um branco quase fantasmal. Seu cabelo castanho estava recolhido em uma grosa trança que se pendurava ao longo das costas e se balançava, como uma corda, de um lado a outro à medida que caminhava para Taylor.

             Taylor baixou a cabeça, incapaz de olhar o radiante rosto de sua mãe.

     — OH, querida — murmurou esta última e estendeu as mãos para tomar as de Taylor — Por que tem essa cara tão triste?

     De repente e sem poder controlar-se, Taylor se lançou para ela, abraçando-a com toda a força de que foi capaz.

     Com uma risada sobressaltada, a mulher lhe devolveu o abraço. Taylor fechou com força os olhos, lutando contra as lágrimas que a queimavam. Sua mãe lhe acariciou a cabeça com calma, tratando de tranqüilizá-la.

     — Não se preocupe — murmurou — Ele virá por mim. Sei que o fará.

             Taylor se separou de sua mãe para poder ver seus olhos azuis. Estavam frágeis e tinham um olhar longínquo, de sonho. O mesmo sorriso feliz que a pequena tinha visto nos lábios de sua mãe quando tinha entrado pela primeira vez na habitação voltou a desenhar-se em seus lábios.

           — Ele não deixará que me queimem — continuou, apesar de que os reflexos das velas que estavam na habitação torturavam a pobre menina com a visão das terríveis coisas que estavam a ponto de acontecer.

             Sua mãe se dirigiu para a janela. Pôs as mãos sobre a fria moldura e olhou fixamente o céu da nascente manhã.

             — Queremo-nos muito — sussurrou.

             — Pai? — perguntou Taylor com uma débil esperança.

             Sua mãe riu brandamente.

             — Não — disse.

             Taylor ouviu que a porta que estava detrás dela se abria; voltou-se e viu dois guardas parados ali. Para uma menina de doze anos, aqueles dois homens fortes pareciam uns gigantes com armaduras chapeadas. A luz lançou profundas sombras sobre seus rostos, transformando-os em horripilantes máscaras que fizeram com que Taylor se lembrasse dos ogros dos contos que sua mãe costumava lhe contar.

        — Chegou a hora, milady — disse um dos ogros com uma voz que soou áspera e ameaçador aos ouvidos de Taylor.

            O desesperado olhar da pequena recaiu de novo sobre sua mãe. Estava acabando seu tempo. Tinha que parar aquilo, deter esse horror.

             — Não! — gritou a menina, encontrando por fim algo de força em sua voz — Não podem fazer isso! — Agarrou a sua mãe do braço, empurrando-a para o fundo da habitação.

             Sua mãe lhe tocou brandamente a bochecha.

             — Ele virá — voltou a lhe dizer e, com delicadeza, separou-se de seu braço os pequenos dedos de Taylor. Logo, dirigiu-se para a porta.

             Taylor observou a figura erguida e alta de sua mãe e desejou poder sentir a confiança que ela exibia. Imediatamente, as duas bestas se situaram detrás da mulher, formando uma maciça parede de carne musculosa e aço frio. Taylor se viu envolta em um sentimento que a afundava cada vez mais no desespero. Seguiu ao cortejo até que chegaram ao corredor. Só havia uma única oportunidade. Só existia um homem que poderia evitá-lo.

             Voou através do corredor vazio, completamente consciente do céu que despertava à medida que o sol punha em fuga à escuridão da terra; completamente consciente de que os raios do sol pressagiavam a fatalidade do destino de sua mãe. Não conseguia que seus pequenos pés se movessem com rapidez suficiente através das escorregadias pedras do corredor. O traje de seda lhe enredava nas pernas, refreando seus apressados passos. Por fim, deteve-se frente a uma porta fechada. O medo surgiu como uma onda selvagem, competindo com a coragem. Mas, como um brioso cavaleiro, lutou contra seu pavor e elevou a mão para empurrar a porta.

     A habitação estava escura, exceto pela luz de uma única vela que estava em um birô. Taylor avançou hesitante. Entre sombras, pôde reconhecer a silhueta de um homem sentado atrás do grande birô.

             O homem elevou lentamente seus olhos negros quando ela entrou. A labareda ondeante da vela lançava reflexos avermelhados e alaranjados em seu rosto, desenhando sombras demoníacas sobre as sobrancelhas.

             Apesar de que os cinco sentidos lhe dissessem para correr, que não provocasse a fúria de seu pai, Taylor sabia que não podia dar-se por vencida.

     — Por favor — murmurou — Tenha piedade.

             O homem se recostou e seus olhos desapareceram completamente na escuridão. Depois de um comprido momento, esfregou os olhos com ar cansado.

             — A amo, você sabe — murmurou — Dava-lhe tudo. Dava-lhe tudo o que quis. —Moveu a cabeça e o cabelo cinza se agitou sobre seus ombros.

             Taylor acreditou descobrir um brilho nos olhos de seu pai quando ele levantou a cabeça; perguntou-se se poderia ser uma lágrima.

             — Isto não posso perdoar — se queixou — Não haverá piedade.

             — Por favor, pai — sussurrou quase incapaz de conter o terror que a alcançava.

     Seu pai, de repente, pareceu-lhe mais velho do que nunca; as rugas sobre as sobrancelhas, as linhas ao redor da boca; todas pareceram aprofundar-se e obscurecer-se.

             — O amor verdadeiro não existe — murmurou — Recorda isso, filha.

             — Mas minha mãe...

             O homem se levantou e caminhou até a janela, onde se via o sol que começava a aparecer no horizonte. A luz da manhã o banhou em uma maré vermelha. Uma repentina brisa levantou sua capa até os ombros e o tecido voou detrás dele; por um momento, pareceu que tivesse asas.

     — Queimá-la-ão dentro de uns minutos — disse secamente.

     Taylor retrocedeu. Tinha frio. Era tão implacável... Como podia dizer que amava a sua mãe e depois sentenciá-la à morte? Ficou de pé, erguida, e o olhou, tratando de esconder sua dor e seu desespero.

             Tinha fracassado. Não tinha sido capaz de conseguir que seu pai trocasse de opinião. Na distância, escutou o ameaçador som dos tambores. Tinha que se apressar. Já estava começando.

             Dirigiu-se para a porta, mas uma voz trovejou através da habitação.

       — Ficará comigo — lhe ordenou.

     — Não. — Taylor emitiu um soluço. Tinha que despedir-se de sua mãe.

       — Ficará ao meu lado e aprenderá ao que a infidelidade leva.

        Sentiu que suas vísceras davam um tombo. O sangue lhe retumbava nos ouvidos, afogando o ruído dos tambores.

        — Por favor, pai — lhe suplicou.

     — Ficará — disse com um tom de voz ao qual não podia desobedecer.

             Por um prolongado momento, um estranho silêncio envolveu o castelo e, a sua vez, o coração de Taylor. Pensou em desobedecê-lo e sair correndo para estar com sua mãe, mas nunca, em seus doze anos de vida, tinha-o desafiado. Anos de estrita disciplina lhe impediram de fazê-lo agora.

     Em silêncio, suplicou a Deus que salvasse a sua mãe. Rezou para que ela estivesse certa: Ele iria resgatá-la. Desesperadamente, queria acreditar no mesmo que sua mãe. Desesperadamente, queria que um cavaleiro de radiante armadura chegasse correndo para resgatá-la e a salvasse das chamas às quais a tinha condenado seu pai.

     As palavras da mãe retumbaram em sua mente:

             — Não deixará que me queimem.

             Uma chama de esperança se acendeu no peito de Taylor. Sua mãe parecia tão segura do que dizia... Poderia estar certa? Ele a salvaria?

             Taylor se apressou a ir até a janela, ao lado de seu pai. Seu olhar avivado não estava, entretanto, dirigido ao pátio onde se desenvolvia o horror da execução de sua mãe. Seus olhos procuraram o cavaleiro ao longe, na ponte e a estrada. Procuraram o cavaleiro de honra que resgataria a sua mãe. Mas a ponte e a estrada estavam vazias. Silenciosos.

             — Amamo-nos muito — havia dito sua mãe.

             Taylor olhou esperançada a estrada vazia, esperando ao que ia resgatar a sua mãe. Esperou.

             A confissão de seu pai retumbou como um eco em sua mente: “A amo”.

     E esperou. “O amor verdadeiro não existe”.

     De repente, Taylor compreendeu as palavras de seu pai e teve uma revelação arrepiante. Não haveria nenhum resgate. Sua mãe se queimaria. O pânico se apoderou dela por completo e tremeu. À medida que uma fumaça negra e chamas alaranjadas giravam para fundir-se com os raios do amanhecer, um grito acabou com o silêncio.

     De repente, levantou-se no céu do amanhecer um estalo de chamas triunfantes; suas famintas línguas lambendo a noite que morria. Para uma menina aterrorizada, aquela era a cara da morte. Taylor caiu de joelhos, pondo a cara entre suas mãos, enchendo, com seu pranto agonizante, o repentino silêncio de sua mãe.

 

             Jared Mantle amaldiçoou. No que a Inglaterra estava se transformando se permitiam que uma boa mulher como lady Diana fosse queimada?

             Diana era uma das mulheres mais piedosas que Jared tinha conhecido em sua vida. Anos atrás, ela o tinha encontrado na estrada, ferido e à beira da morte. Tinha-o levado ao castelo Sullivan e tinha cuidado dele até que recuperou sua saúde. Logo, tinha pedido ao lorde Sullivan que aceitasse os serviços de Jared. Foram necessários dez largos anos de árduo trabalho, mas Jared finalmente tinha alcançado a fila de capitão. Tinha treinado à maioria dos homens que naquele mesmo instante custodiavam o castelo. Poucos homens, ou nenhum, podiam vencê-lo em combate.

             Agora, depois de quinze anos de fidelidade e devoção, Jared se encontrou no mesmo ponto no que tinha começado: sozinho. Tocou sua curta barba. Tinha certeza de que Sullivan o deixaria ficar, mas não podia permanecer no mesmo lugar onde tinham queimado a uma amável e generosa mulher. Jared, triste, sacudiu a cabeça. Além disso, era hora de que procurasse sua própria fortuna antes que não pudesse levantar uma espada.

             Amarrou o cinturão e a espada e observou a habitação por última vez. Meteu nos bolsos as poucas moedas que tinha economizado durante seus anos de serviço aos Sullivan, dirigiu-se à porta e saiu para a noite.

             A lua era uma pequena linha de luz no ainda escuro céu, um estreito olho que observava sua partida. Avançou para o profundo do jardim.

     De repente, Jared ficou tenso. Instintivamente, soube que alguém estava ali. Escondeu-se na escuridão e observou com olhos curiosos como uma silhueta entrava às escondidas ao pátio vazio. Agachado e concentrado viu que a figura se movia com agilidade de sombra em sombra, para os portões principais.

     Jared entreabriu os olhos e se moveu silenciosamente através do pátio, suas largas pernadas aproximando-o da figura, de costas para ele.

     — É muito tarde para um passeio noturno — disse Jared em voz baixa. A figura se voltou para olhá-lo. Uns olhos verdes resplandeceram desafiantes. Rapidamente, a menina pôs os braços detrás das costas, para que ele não visse algo que sujeitava com força nas mãos.

     O movimento o surpreendeu. Embora levasse o rosto oculto sob uma capa de veludo, reconheceu-a imediatamente. A filha de Diana. O que fazia uma menina como ela passeando por ali a essas horas da noite? Perguntou-se. E, além disso, sem nenhum acompanhante.

             — Não trate de me deter! — disse-lhe a pequena.

         Pela primeira vez, Jared viu a trouxa que carregava sobre os ombros. Ela começou a afastar-se, mas o homem a sujeitou pelo pulso e a puxou. O anel de seu dedo resplandeceu na luz azul da noite. O anel tinha duas espadas desenhadas entrelaçadas com uma grande letra S, gravada no centro. Levantou seus olhos para os da jovem.

        Teria roubado o anel?

        Taylor levantou o queixo e o olhou desafiante.

             — Era de minha mãe — disse com voz firme.

             Olhou-a atentamente durante um momento.

             — Está fugindo? — perguntou-lhe.

           — Parto-me daqui — respondeu ela.

             — Sem ninguém que te cuide? Nem um guarda?

     — Não necessito nenhum guarda!

        Jared refletiu um instante sobre essas palavras. Pôde ver traços da mãe em cada um de seus orgulhosos movimentos: na preocupação que se encontrava sob seu olhar desafiante; na coragem com o que movia os ombros. Era tão jovem... Tão jovem e tão inexperiente. Jared olhou para as portas. O mundo exterior a comeria viva.

     — Aonde vai?

     Taylor fez uma pausa momentânea. Olhou a porta de madeira e depois para as paredes que rodeavam o castelo, como se ali se encontrasse a resposta.

     — A Londres — respondeu finalmente.

     Ele grunhiu em voz baixa. Taylor não tinha nem idéia daquilo no que se estava colocando; não suspeitava que tipo de gente a estava esperando lá fora para aproveitar-se de uma menina de doze anos. Certamente terminaria como prostituta. Ou morta, na estrada, sem sua elegante capa de veludo. Durante um momento se perguntou se lhe teria ocorrido colocar um pouco de comida em sua trouxa. Olhou-a de esguelha. “Bom, acredito que, ao menos, devo isto a milady”, disse a si mesmo.

       — Para lá me dirijo eu. Posso te acompanhar?

 

                               Oito anos depois

             Slane Donovan desceu de seu cavalo negro frente a uma pequena loja e o amarrou a uma árvore próxima. Woodland Hills era um povoado simples. Só havia uma loja, e se encontrava frente a ela. O letreiro pendurado por um pedaço de madeira quebrado pelo clima se sobressaía do teto de palha e chiava à medida que se movia de um lado a outro com a suave brisa. Olhou as palavras queimadas na madeira. “Produtos Benjamim”.

             Uma estranha sensação na nuca lhe fez desviar o olhar à porta da loja. Uma menina estava plantada ali, olhando-o com uns enormes olhos castanhos. Slane lhe sorriu e lhe tocou a cabeça enquanto entrava na loja.

             Estava escuro, só havia um leve resplendor a sua esquerda, na zona iluminada pelo fogo de uma enorme chaminé, e detrás dele, na entrada iluminada pelo sol. Quando seus olhos se acostumaram à penumbra, Slane se deu conta de que no fundo da loja havia um homem varrendo. Quando ouviu que Slane entrava, cessou sua atividade e o olhou, enquanto sustentava a vassoura com ambas as mãos.

             — Bom dia, senhor — o saudou — No que posso ajudá-lo?

             — Você deve ser Benjamim.

     Benjamim assentiu.

             — Sim, o que procura?

     Slane olhou a seu redor e viu várias mesas, arrumadas como vitrines. Em algumas havia adagas com pontas torcidas, facas oxidadas, maços com punhos lascados e muitas outras armas. Em outras se exibiam utensílios de cozinha ou ferramentas de agricultura. Os suportes que enchiam as paredes estavam repletos de comidas variadas, vegetais cheios de terra, pratos e umas quantas tiras de carne salgada.

     — Só necessito informação — disse Slane.

     Benjamim começou a varrer de novo.

             — Nestes dias, nada é grátis, senhor.

     Slane suspirou e tirou uma moeda de ouro do bolso.

             — Estou procurando um anel — disse — Com duas espadas cruzadas e um S em cima.

     Os olhos do homem se iluminaram quando viu a moeda de ouro. Alargou a mão para fazer-se com ela, mas Slane a retirou.

             — Viu o anel?

             — Sim, não faz nem dois dias que o vi na mão de uma mulher.

             — Sabe para que lugar a mulher foi? — perguntou Slane.

     — Saiu para o oeste. Imagino que ia para o Fulton.

        Slane assentiu e lhe deu a moeda ao homem. Benjamim, ambicioso, arrebatou-a da mão de Slane.

        Fulton. Esse era uma viagem de só um dia. Voltou-se e se dirigiu para a porta. Viu que a menina o olhava fixamente e seus olhos se abriram de par em par saísse pela porta. Slane sorriu. Saiu da loja e se aproximou de seu cavalo.

     Os suaves passos da menina o seguiram.

     — Fez algo mau?

     Slane deu a volta para ouvir a suave voz da menina.

     — Não — lhe disse com tom amável.

     — Então, por que quer encontrá-la? — perguntou.

             Slane sorriu e se ajoelhou frente a ela. Seus olhos eram grandes, castanhos e inocentes.

     — Estou procurando o anel.

     — OH.

             Slane lhe acariciou a cabeça e montou no cavalo.

       — Está procurando-o como os outros homens desta manhã?

        Slane ficou gelado.

      — A que outros homens te refere?

            — Uns homens que esta manhã estavam perguntando também pelo anel e pela mulher — disse ela — Um deles era muito antipático; tinha cabelo no lábio. Eu não gostei nada.

             — Corydon — murmurou Slane enquanto olhava para a estrada. Quando Corydon tinha ganhado as terras que rodeavam as do Donovan e Sullivan cinco anos antes, o mesmo Slane lhe tinha aproximado pacificamente, tratando de estabelecer uma relação cordial com seu vizinho. Mas Corydon zombou de seus esforços e atacou a seus companheiros. Dois homens bons foram assassinados nesse dia. Slane ainda podia escutar a risada de Corydon.

             Agora tinha começado a reunir um exército. Suficientes homens para cercar um castelo. Slane soube que ficava pouco tempo para completar sua missão. Corydon tinha uma fome insaciável de propriedades, de terras.

             Slane voltou a olhar à pequena. Não podia ter mais de quatro anos, mas obviamente era muito mais inteligente que as meninas de sua idade. Brindou-lhe um de seus mais amáveis sorrisos.

     — Obrigado, pequena — disse — Foste de grande ajuda.

     A menina colocou as mãozinhas sobre sua boca e riu. Slane apressou seu cavalo e o animal saiu ao trote. Aos poucos, Slane cravou as esporas para que apressasse a marcha. Com Corydon tão perto, sabia que não podia perder tempo. Necessitava de ajuda. Necessitava de pessoas peritas em seguir rastros.

 

        O braço bateu fortemente contra a mesa. Soaram gargalhadas ao redor da habitação, retumbaram diversos ruídos e, por fim, o que Taylor mais gostava de ouvir: o som das moedas chocando entre si. Viu que Jared se levantava da mesa, com um sorriso vitorioso em seu barbudo rosto. A cota de malha girou com seu movimento e o couro brilhou no fogo à medida que ficava de pé. Taylor olhou o fogo, contemplou suas chamas ondeantes e um instante depois voltou o rosto para Jared que acabava de perder a quebra-de-braço, um homem alto e forte, ficou em pé esfregando o dolorido braço. Taylor ficou imóvel durante um instante e, com muita discrição, moveu a mão para o punho de sua espada, mas quando viu que o homem derrotado elevava os ombros e baixava a cabeça, relaxou-se. Um sorriso se desenhou em seus lábios. Esta vez não iria ter problemas. Em outras ocasiões, Jared e ela tinham tido que sair brigando de hospedarias e botequins. À maioria dos homens lhes custava muito separar-se das moedas que tanto esforçaram para ganhar.

     Jared saudou algumas pessoas e deu vários golpezinhos em algumas costas. A maioria dos apostadores acreditava que era de mau gosto dar sua moeda a uma mulher, e Jared não podia ocupar-se disso porque tinha que cultivar suas relações e falar com os clientes do lugar no qual estivessem e com seu oponente do momento, para acalmar os ânimos e evitar males maiores. Por esse motivo, Taylor e Jared tinham decidido que o melhor era contratar a um homem que recolhesse os ganhos. Taylor se recostou contra a parede, ao fundo do botequim, procurando no lugar à pequena e turva criatura. Tinha decidido permanecer discretamente separada dos clientes, vigiando as costas do Jared.

        Viu que Irwin ia de um em um através da escura habitação, compilando algumas moedas que lançavam brilhos com a luz da tocha quando as punham na palma de sua mão. A forma em que apertava as mãos contra seu peito, a maneira em que se escapulia, fazia que Taylor pensasse em um rato. Mantendo o olhar fixo nele, Taylor tomou a jarra de cerveja da mesa que estava frente a ela. Irwin estendeu a mão frente ao seguinte homem, o qual lhe pôs duas moedas na palma, fazendo uma careta e retirando-se. A jovem elevou a jarra para os lábios, mas fez uma pausa quando viu que os olhos do Irwin se moviam da esquerda à direita. Soube o que ia fazer inclusive antes de lhe ver colocar as moedas em seu próprio bolso. Taylor estreitou seus olhos verdes e jogou a cabeça para trás para beber-se de um só gole a cerveja que ficava na jarra.

        Quando Irwin finalmente se aproximou de onde ela estava, Taylor já ia por sua segunda cerveja. Um sorriso se esboçou em seu rosto de roedor à medida que tocava a bolsa cheia de moedas, rindo-se feliz.

             — Esvazie os bolsos! — Deixou cair à bolsa em cima da mesa; as moedas tilintaram pesadamente quando tocaram a superfície de madeira.

             Taylor agarrou a bolsa. Sopesou-a na mão durante um momento e se sentiu gratificada quando viu que o sorriso do Irwin começava a desvanecer-se. Atou os laços que rodeavam sua cintura, enquanto o olhava.

      — É um prazer fazer negócios com você, Irwin — disse, e deu um passo à frente, deixando-o atrás.

             Irwin se moveu para lhe cortar o passo.

     Voltou lentamente os olhos para ele.

        — Meu pagamento — se queixou. Estendeu a mão, com a palma para cima.

        — Sabe uma coisa, Irwin? Tal como eu vejo, tem duas opções. Pode pedir ao Jared que te pague, mas ele é um homem inteligente e tudo o que teria que fazer seria te olhar aos olhos para ver que o extorquiste. — O rosto do Irwin passou do cinza ao branco. Mas se recuperou rapidamente.

     — Extorquir? Eu sou um homem reto. Eu nunca...

     — Vi-te, Irwin.

        Balbuciou por um momento, suas mãos tremendo nervosamente.

        — Foi um engano, um mal-entendido!

        Taylor assentiu.

        — Sei. E te entendo, de verdade. Mas temo que Jared não seja dos que perdoam. Sabe o que fez ao último homem ao que apanhou com as mãos em nossa bolsa cheia de dinheiro?

        Irwin negou com a cabeça, os olhos negros abertos, esperando ansiosamente a resposta.

      — Seguiu-o até um beco e... Bom, nunca se voltou a ver esse infeliz. Suponho que terminou convertido em comida para ratos.

     — Comida para ratos? — repetiu Irwin.

Taylor assentiu.

     — Não é dos que perdoam.

             — Você... Você disse que tenho duas opções.

             — Pois sim. Pode levar o que te vi roubar de nosso dinheiro... E desaparecer.

     Irwin não se moveu durante um largo momento. Taylor sorriu para seus pensamentos ao ver como o nariz do patife se contraía nervosamente.

             — Mas... — protestou sem muita convicção.

         Taylor elevou um dedo, lhe indicando que se calasse.

             — Comida para ratos — lhe recordou — E a próxima vez — murmurou, aproximando seu rosto ao do homem — te assegure de que ninguém esteja te olhando quando roubar.

            — Sully! — exclamou Jared.

     Taylor se deu a volta e viu o Jared abrindo-se passo entre a multidão que o felicitava. Era quase meio metro mais alto que ela; sua cabeça calva resplandecia a luz da tocha.

         — Eu pago a cerveja esta noite! — disse-lhe.

     Taylor assentiu.

     — É o lógico. Irwin, aqui... — Taylor se voltou para o Irwin só para dar-se conta de que tinha desaparecido. Esboçou um sorriso que iluminou seu rosto — Estes patifes não gostam nada que os apanhem roubando.

            — Meu Deus! Outro? — grunhiu Jared — É difícil encontrar a alguém de confiança hoje em dia. Quanto roubou?

         — Não o suficiente para limitar seriamente nossos lucros de hoje — disse Taylor enquanto sustentava a bolsa na palma de sua mão — Parece que dormiremos em uma cama esta noite!

             Jared baixou a cabeça, muito sério. Tomou o braço de Taylor e a levou até um canto onde ninguém podia ouvi-los.

     — Não podemos seguir assim, Sully — murmurou — Temos que encontrar trabalho. Umas poucas moedas ganhas quando apostamos não duram mais de uma noite.

        — Se preocupa muito, meu amigo. Tenho certeza de que o amanhã nos trará melhor sorte e um salário. Já o verá. — deu-se a volta para retornar para a multidão, mas Jared lhe sujeitou com mais força o braço.

             — Se amanhã não acontecer nada, vamos para o norte. De acordo?

     Taylor suspirou. Não queria ir ao norte a procurar trabalho. Era muito perto. Muito perto do lugar que tinha estado tratando de evitar pisar durante todos esses anos. Apertou os dentes e rechaçou as lembranças desagradáveis que ameaçavam apoderar-se de seus sentidos.

             Jared lhe sacudiu o braço.

     — De acordo?

     Taylor se soltou.

     — De acordo — afirmou sem vontade. Deu a volta e passou através da clientela para sair ao ar da noite.

     O norte. Olhou as estrelas e, de repente, seus esplendores brilhantes se dissiparam, transportando-a no tempo.

     As chamas brotaram frente a seus olhos. Um grito horrível e torturante retumbou em seus ouvidos. Sacudiu a cabeça bruscamente e bebeu um largo gole de cerveja. O espesso líquido passou pela língua e atravessou a garganta, desvanecendo as lembranças.

             — É perigoso que uma mulher passeie sozinha por estas ruas — disse uma voz.

             Taylor fez um gesto de desgosto ao reconhecer a voz. Normalmente, quando dizia às bestas que se mantivessem afastadas, estas obedeciam. Mas parecia que Irwin não era tão inteligente como outros.

            — Irwin — murmurou Taylor e se deu a volta — Te disse que levasse o que tinha... — deteve-se metade da frase. A luz do fogo que resplandecia através da janela do botequim iluminava a três homens parados no beco; frente a ela: Irwin e dois indivíduos fortes. ‘Assim que nosso pequeno rato tem amigos’, pensou Taylor. Recostou-se contra uma caixa de madeira que se encontrava na escura rua.

             — Não estou satisfeito com o pagamento que recebi — disse Irwin.

        — Já o supus — murmurou Taylor, levando a jarra à boca, com toda tranqüilidade.

        — E agora quero tudo.

        Taylor bebeu um largo gole de cerveja.

        — Tudo? Não estamos nos tornando um pouco ambiciosos, Irwin?

     O homem encolheu seus diminutos e magros ombros.

        — Se tiver que obter meu justo pagamento desta maneira, da mesma forma posso levar isso tudo.

             Taylor baixou a cabeça, suspirando.

             — Suponho que não posso te convencer do contrário. — Algo nela desejava que assim fora. As mãos lhe picavam e tinha vontades de brincar com sua espada um momentinho.

     — OH, sua língua é engenhosa, mas necessitará mais que palavras para me fazer trocar de parecer.

        Taylor pôs a jarra em cima da caixa, com cuidado para que não se vertesse o conteúdo. Endireitou-se e enfrentou Irwin.

       — Muito bem.

     Os pequenos e negros olhos do Irwin se abriram.

     — Vai dar a bolsa?

             Taylor riu com vontade. Não podia acreditar-lhe

             — Verá, Irwin — disse — Se quiser a bolsa, terá que consegui-la você mesmo.

             Os companheiros do Irwin riram para zombar. A meia lua que iluminava o céu iluminou o beco, permitindo que Taylor pudesse ver seus oponentes à medida que se aproximavam dela. Ambos eram homens grandes, vestidos com sujas calças curtas e esfarrapadas túnicas: um deles tinha uma barba comprida, escura e mal cuidada que lhe chegava quase até o ventre; ao outro lhe faltavam dois dentes. Moviam-se devagar e com cuidado. Taylor tinha certeza de que o volume desses homens ia ser mais que uma ajuda, um impedimento na briga.

             — Apanhem-na — Irwin disse entre dentes.

             — Né, Irwin! — advertiu Taylor — Não é você que está fazendo o trabalho sujo. Dê-lhes um momento para pensar. Aqui, senhores. Deixem-me lhes facilitar as coisas: um de vocês fique a minha direita e o outro, a minha esquerda. Tratem de me rodear.

        Os dois homens se olharam com receio antes de fazer o que Taylor lhes dizia.

             — Que plano mais engenhoso! — disse Taylor rindo. Continuou olhando de frente a Irwin, mas mantendo aos outros dois homens bem localizados e controlados em sua visão periférica. De repente, os homens agiram. O da barba se apressou para ela da direita, enquanto o outro o fazia da esquerda.

        Taylor deu um passo para trás e depois outro para diante. Os dois homens se chocaram e o desdentado caiu de costas, sentado. Taylor girou a tempo de ver que o homem da barba se aproximava dela. Ouviu um movimento à suas costas e lançou seu cotovelo para trás com firmeza, golpeando as costelas do Irwin, para depois evitar o ataque do homem da barba com um ágil movimento de dois passos que a afastaram dele.

             — Se isto for o melhor que podem fazer, deveriam partir agora mesmo — disse em tom de brincadeira.

    Parou a dois passos da parede, em um lugar onde era capaz de ver todos os homens. O que havia caído sentado ficou de pé. Irwin estava ao lado do de barba.

             O homem ao que lhe faltavam dois dentes tirou uma pequena adaga. Toda a divertida alegria que Taylor tinha sentido até esse momento desapareceu de repente. Quando se tiravam armas, já não se tratava de uma brincadeira. Nesse momento, já se tratava de brigar por sua vida. Desencapou a espada. Os homens se detiveram confundidos, sem saber como reagir.

             — É uma mulher! Não sabe como lhes usá-la — assegurou Irwin — É só uma fanfarronada, para montar um espetáculo. — Irwin tragou saliva. — Vamos, não sejam covardes, não vos paguei para que fugissem das brigas — disse a seus homens — Vocês são dois... E ela é só uma...

             O homem ao que lhe faltavam os dentes se decidiu afinal, e avançou para a moça, furioso; o ódio se refletia em seus olhos escuros. Essa jovem o tinha insultado enfrentando-o sem mostrar o menor indício de medo, e por isso ardia de raiva. Taylor pensou que isso a beneficiava, pois quando um homem é cego pela raiva, está perdido. De todos os modos, disse-se, não devia brigar; devia fugir dali o mais rapidamente possível...

     Isso lhe dizia a razão. Mas as dolorosas lembranças permaneciam em seu interior, como brasas ainda quentes. Precisava as enterrar de novo. Necessitava de uma briga.

     O rufião lhe aproximou com passos firmes. Taylor não se moveu até que ele tratou de atacá-la. Logo se agachou e se afastou com um girou veloz, mas ele a perseguiu. Taylor deteve um de seus movimentos e a adaga de seu agressor ricocheteou inofensivamente no fio de sua espada. Ele seguiu atacando-a e ela se moveu com cuidado ao redor do pequeno espaço que havia no beco, esperando o momento ideal para atuar. Finalmente, com um brusco movimento, o homem aproximou sua arma ao rosto de Taylor e ela aproveitou o momento. Jogou a cabeça para trás, afastando-se do fio da adaga no mesmo instante em que esta passava justo debaixo de seu queixo, ao tempo que tentava lhe cravar a espada. Pretendia feri-lo o suficiente para assustá-lo, mas o idiota ficou na sua frente e a espada se enterrou em seu peito. Por um momento, tudo se congelou. Os escuros olhos do homem sem dentes se aumentaram com surpresa; sua boca se intumesceu pelo atordoamento. Abriu a mão e soltou a adaga, que caiu, ricocheteando contra o chão.

     Taylor tirou de um puxão a espada do peito do ferido e se voltou para sair correndo.

             O murro que lhe deram no rosto a fez cair e rodar pelo chão. Sua cabeça deu frenéticas voltas durante um momento, enquanto lhe ardia à bochecha com uma dor insuportável. Um chute no quadril a fez girar até ficar de costas. Permaneceu quieta, com os olhos abertos, tratando de recuperar o fôlego; não sabia bem se os pontos brancos que brilhavam frente a seus olhos eram as estrelas da noite ou retalhos de dor que lhe turvavam a vista.

             Um rosto escuro, de toscas feições, apareceu em seu campo de visão; tinha o cabelo sujo e a cara coberta de crostas. Sentiu que umas mãos sacudiam seus ombros, viu que uns lábios se moviam e escutou sons ininteligíveis. De repente, um novo murro a fez jogar a cabeça para trás. Esta vez esteve segura de que os resplendores brancos que alagavam sua visão não vinham dos céus.

             Permaneceu quieta durante um momento comprido, sua bochecha fazendo pressão contra a sujeira e o pó do chão. Lentamente, as estrelas que flutuavam frente a ela se desvaneceram e o mundo voltou para seu ser. A luz da lua banhava sua jarra de cerveja, que naturalmente se derrubou durante a briga. Seus olhos percorreram o pequeno rio de cerveja que formava um pequeno atoleiro no chão. As palavras do homem da barba interromperam seu enjôo.

             — Já tiveste suficiente?

             — Atiraste-me a cerveja — se queixou Taylor. Foi castigada com um chute brutal no abdômen.

         À medida que levantava seu braço ferido para proteger-se de qualquer outro ataque, escutou umas gargalhadas.

             — Estava certo — lhe murmurou Irwin ao ouvido — Foi um grande espetáculo.

             Suas risadas zombeteiras se desvaneceram ao longe. Taylor ficou deitada na rua durante um largo momento, vendo como se aumentava o atoleiro que formava a cerveja e desejando que os zumbidos de sua cabeça se detivessem. Notou o sabor do sangue na boca e rastreou com a língua até que descobriu que tinha uma ferida no lábio. Ficou de barriga para cima com dificuldade e levantou uma mão para tocá-la bochecha esquerda, que lhe ardia de dor. Sabia que se incharia e lhe sairia um arroxeado. Fechou os olhos, fazendo um inventário de suas feridas: o estômago, o quadril, mas principalmente o rosto. A bochecha esquerda era o que estava pior. À direita também lhe ardia, mas a dor não era nem remotamente parecida ao que sentia no lado esquerdo. Já sentia o inchaço ao redor do olho esquerdo. Pelo menos acreditava que não havia quebrado nada.

             A cabeça lhe dava voltas e lhe doía de maneira insuportável. Esfregou a testa com as pontas dos dedos, tentando, sem êxito, que desaparecesse a dor. Abriu os olhos para contemplar os céus e ao Deus que a tinha entregado a semelhante destino.

             Então foi quando se deu conta de que seu anel já não estava! O anel de sua mãe! O tinham tirado do dedo!

             Tratou de ficar em pé, mas só pôde ficar de joelhos, suas pernas não a obedeciam.

             — Maldição! — Sussurrava, queixando à medida que sentia dor em cada músculo de seu corpo. Não estava em condições de perseguir os ladrões, mas se jurou que recuperaria o anel. Como fosse.

             Jogou uma rápida olhada ao beco, esperando que não tivessem levado nada mais. O homem ao que lhe faltavam os dentes se encontrava atirado a menos de dois metros dela. Seus olhos passaram rapidamente por cima dele e pela cerveja derramada e se posaram no beco. Onde estava sua espada? Não era isso o que estavam procurando. Teriam-na roubado, por acaso, para vendê-la?

             Divisou sua arma no chão, entre as sombras que se formavam perto da parede do botequim e suspirou aliviada.

             O repentino relinchar de uns cavalos a paralisou. Escondeu-se entre as sombras do botequim, esperando que quem quer que fosse não olhasse para o beco; e que não fosse nenhum miserável cavaleiro com vontades de fazer o bem. Já tinha suficientes problemas em vários povoados.

             Os cavalos atravessaram o beco sem deter-se. Taylor saiu silenciosamente das sombras e olhou de novo o corpo que se encontrava a uns quantos metros dela. Definitivamente, o patife estava morto, seu peito estava quieto e sem vida. Não era o primeiro homem ao que tinha matado e, provavelmente, tampouco seria o último. Sempre que não a apanhassem nesse momento, ali, ao lado do cadáver e com sua espada manchada pelo sangue do morto.

             A destilação da cerveja chamou sua atenção e girou a cabeça. A jarra estava derrubada sobre uma caixa. Incorporou-se e tomou; depois engatinhou até sua espada e a recolheu com mãos trementes. Ajoelhada, embainhou o aço, depois de quatro tentativas falhas.

             Ficou em pé, usando a parede como ponto de apoio. Como pôde, fez provisão de toda sua determinação, afugentou a dor e pôde endireitar-se suficiente para caminhar até o botequim. Cada passo era uma agonia; com cada um deles a dor se estendia sem piedade por todo o corpo.

             Finalmente, a porta aberta do botequim apareceu frente a ela. Deu um passo para a entrada e se deteve, recostou-se contra o marco de madeira e fechou os olhos, sabendo-se incapaz de manter-se em pé durante muito tempo.

             — Sully!

             Quande Taylor abriu seus olhos, viu o Jared sentado ao outro lado do botequim, entre duas voluptuosas empregadas. Ao vê-la, o homem se levantou de um salto e correu a seu lado. Invadiu-a uma sensação de alívio tal que a tensão que até então a tinha mantido em pé se evaporou, e começou a invadi-la um relaxante abandono.

       Levantou seu copo vazio.

             — Necessito... outra cerveja — se queixou antes de cair desvanecida nos braços de Jared.

 

             Slane entrou na hospedaria Wolf; seus olhos azuis se estreitaram com receio à medida que avaliava a estadia principal. Era o tipo de antro onde se forjavam problemas em cada esquina; onde, sob cada sombra, espreitavam ladrões e onde um assassino podia ser contratado com um xelim. Escutou risadas e conversações a seu redor. Uma prostituta que estava sentada perto da porta se agachou debaixo da mesa para lhe mostrar suas habilidades a um comerciante ansioso por ver. Quatro homens com cota de malha estavam sentados à direita de Slane; todos tinham o olhar turvo por ter bebido muita cerveja. A maioria das mesas estavam ocupadas por figuras solitárias que bebiam ou que enchiam suas barrigas com verduras ao vapor e cordeiro. Ninguém pareceu notar sua presença, mas ele sabia que todos eram conscientes de que tinha entrado.

             — O que posso fazer por você, milord?

             Slane se voltou e viu um homem baixinho a seu lado. Sua calva cabeça mal lhe chegava ao ombro.

             — Estou procurando um homem chamado Jared Mantle.

             O hospedeiro riu com satisfação.

             — Milord deve compreender que eu não posso...

             Rapidamente, Slane tirou uma moeda de ouro, silenciando as objeções do hospedeiro. Quando guardou a moeda, o homem apontou com seu polegar em direção a uma mesa que havia na parte traseira, a qual estavam sentados dois homens. Slane atravessou a habitação, dirigindo-se para a mesa indicada.

             Uma única vela iluminava as duas figuras que conversavam com muita seriedade; um deles devia ser comerciante, pois nenhum cavalheiro que se respeitasse se vestiria com cores tão escandalosas nem amarraria ao cinto um lenço amarelo e vermelho. Os olhos de Slane avaliaram rapidamente a armadura de couro que levava o outro homem e notou a segurança em si mesmo que irradiava, por isso deduziu que era Jared. Era muito mais velho do que se imaginou, mas sua idade era, provavelmente, um testemunho de sua destreza. Ainda estava vivo, depois de tudo.

             — Jared Mantle? — perguntou Slane.

             O homem levantou seus olhos desconfiados e alerta, que se encontraram com os de Slane.

             — Quem pergunta?

             Slane olhou ao comerciante e depois ao Jared.

             — Slane Donovan.

             Jared entreabriu os olhos, sem entender o que pretendia seu interlocutor.

             — Eu sou Mantle. Temos algum negócio pendente?

             — Eu gostaria de te contratar.

             — Isso é o que estou fazendo eu neste mesmo instante — protestou o comerciante.

             — Posso te oferecer o dobro do que este homem te está oferecendo — disse Slane — Necessito seus serviços imediatamente.

             Jared cravou o olhar no comerciante.

             — Pode lhe pagar o dobro do que lhe está oferecendo? — perguntou o recém-chegado.

             O comerciante negou com a cabeça e ficou em pé.

             — Talvez uma próxima vez — murmurou e lançou um irritado olhar a Slane antes de partir.

             Quande Slane se sentou no posto que ficou vazio, Jared tomou a palavra.

             — Que tipo de serviço necessita?

             Ao cavalheiro não escapou que havia um pouco de ceticismo no tom de voz do outro. Acaso Jared tinha tido negócios com seu irmão Richard? Não importava.

             — Necessito que encontre um anel.

             — Um anel? — repetiu Jared — Por que te importaria um anel?

             — Isso é meu assunto, pode encontrá-lo?

             — Como é o anel?

             Slane abriu a boca para responder, mas, de repente, uma mulher se sentou no assento que estava ao lado do Jared. Molesto com a intromissão, Slane franziu o cenho... Até que viu seu rosto. Estava cheio de arroxeados e feridas.

             — Pelo amor de Deus! — exclamou — Quem te bateu dessa maneira?

             A mulher olhou o Slane. O olho que não estava fechado pelo inchaço se estreitou imediatamente e sua inflamada boca se curvou em um sorriso pouco amável.

             — Um amigo.

             Slane se estremeceu por semelhante frieza.

             — Se nos desculpas, estamos falando de negócios. Não necessito seus serviços.

             A mulher não se alterou.

             — Se se tratar de negócios, então também pode falar comigo. Jared e eu somos sócios.

             Slane lançou um incisivo olhar ao Jared, quem assentiu com um brilho de brincadeira nos olhos.

             — Só quero te contratar — disse ao Jared.

             — Ou contrata a ambos ou a nenhum — disse Jared. Slane, pensativo, olhou-a, que lhe respondeu lhe lançando um olhar frio. Dirigiu-se ao Jared.

             — Está bem. Mas não vou te pagar mais. Cobrará o que tínhamos estabelecido.

             — Pelo trabalho de dois? — objetou a mulher. Slane cruzou os braços.

             — Aceitem ou recusem, mas decidam rápido, tenho pressa.

             Olhou a mulher e viu um brilho de resignação em seus olhos enquanto contemplava ao Jared, quem assentiu.

             — Qual é o trabalho? — perguntou ela.

             Slane se inclinou sobre a mesa.

             — Estou procurando um anel. Duas espadas cruzadas debaixo de uma S.

             Quietos, Jared e a mulher ficaram sentados durante um momento e depois se olharam mutuamente. De repente, a mulher pôs-se a rir.

             — O que é o engraçado? — perguntou Slane agressivamente.

             Seu rosto solene fez graça a Taylor, que soltou uma gargalhada.

             — Esta será a moeda mais fácil de ganhar de nossas vidas — disse afinal, quando a risada lhe permitiu falar.

     Slane ficou perplexo.

             — Sabe, acaso, onde está?

             Ela assentiu e começou a ficar de pé, mas Slane a sujeitou pelo braço, detendo seu movimento.

             — Olhe mulher, se souber onde está é melhor que me diga isso. Seu trabalho pode começar e terminar aqui mesmo.

             Ela duvidou um instante, lançou um rápido olhar ao Jared e logo voltou sua atenção ao Slane.

             — Sully — disse finalmente, enquanto esboçava um sorriso. Com o lábio inchado, o sorriso era um tanto grotesco — Meu nome é Sully, não mulher.

 

             Taylor se recostou contra a parede e se cruzou de braços enquanto observava com curiosidade ao Slane. Por que estaria interessado no anel de sua mãe? Levavam quase um dia inteiro viajando juntos e até agora não havia dito nenhuma só palavra sobre os motivos de semelhante busca.

             Ele a olhou e lhe lançou um brilhante sorriso através de seu inchado lábio. Slane franziu o cenho e se virou.

             Taylor voltou a centrar sua atenção no Jared, que estava muito sério, falando com um homem grande, alguém que era quase tão alto como ele, mas com um físico menos atrativo. A barriga lhe caía por cima das calças; os músculos de seus braços eram flácidos. A primeira vez que Jared o viu suspeitou que se tratasse do fofoqueiro do povo. E como sempre, Jared estava no certo. O homem a olhou sorrindo e depois se dirigiu ao Jared, com quem começou a falar rapidamente.

             Taylor tentou aproveitar esses minutos para ver se podia tirar algo de Slane.

             — Esse anel deve ser muito importante para ter te tirado da comodidade do castelo Donovan.

             — Sim — respondeu com voz profunda Slane. Ela o olhou com ironia. Era como falar com uma parede; uma parede musculosa, com um comprido e maravilhoso cabelo loiro, mas, de todas as maneiras, uma parede.

             Jared e o homem com o que falava se aproximaram deles; Jared vinha com a mesma expressão exasperada que sempre adquiria seu rosto quando algum homem se insinuava insistentemente a Taylor. Ela sacudiu a cabeça. Nunca aprendem. Ou terei que ensinar maneiras a todos os homens?

             — Diz que não me dará a informação se não lhe agradar, já sabe... — explicou Jared.

             À medida que os lábios do homem se convertiam em um desdenhoso sorriso, os olhos de Slane se aumentaram com raiva. Taylor se separou da parede e pôs a mão no peito de Slane para tranqüilizá-lo.

             — Não se preocupe — lhe disse — Estou acostumada a isto.

             — Não estará pensando... — começou a dizer Slane, mas Taylor centrou sua atenção no Jared.

             — Ofereceste-lhe uma moeda de ouro?

             Jared duvidou um momento.

             —Duas — disse.

             Taylor sorriu ao homem.

             — Sabe? Está sendo muito chato — lhe disse — Tudo o que precisamos é informação. Viu o anel?

             O homem assentiu.

             — Vi. Mas essa é toda a informação que conseguirá me tirar a menos que veja algum tipo de ação.

             — Ação? — repetiu Taylor — É tudo o que quer?

             Então, antes que qualquer um pudesse reagir, deu-lhe no estômago um tremendo murro que fez com que o homem se dobrasse por causa da dor. Taylor o empurrou para trás, contra o pé do Jared que, casualmente, estava convenientemente se localizado para que tropeçasse, e caiu no chão com estrépito. Taylor tirou sua espada e a pôs no pescoço.

             — Este é o tipo de ação que queria? — perguntou-lhe.

             O homem conteve a vontade de tragar saliva quande Taylor lhe cravou a garganta com a ponta de sua espada.

             — Tudo o que lhe pedimos é que nos conte o que sabe desse anel. Sei que vais colaborar conosco, verdade? —Taylor afrouxou um pouco a pressão da ponta de sua espada.

             — Não quero problemas — conseguiu dizer o homem.

             — Fala! — ordenou-lhe.

             — Saíram para Briarwood — disse — Juro que isso é tudo o que sei! Foram para o norte!

             Taylor fez uma pausa. Sabia que ele estava muito assustado para mentir. De todas as maneiras, gostava da sensação que lhe produzia ver aquele inseto arrastando-se pelo chão.

             — Talvez pense nisso antes de insultar a uma mulher, na próxima vez.

             O homem se sentou e pôs as mãos ao redor do pescoço; olhou-a com ódio. Jared se situou detrás dela, de maneira protetora. Finalmente, o homem golpeado estreitou os olhos, ficou de pé e partiu. Os olhos de Taylor brilhavam com satisfação.

             — Você deve fazer muitos amigos com essa atitude — disse Slane, movendo-se para os estábulos.

             — Ninguém necessita de amigos como esse — replicou Taylor, olhando, pela última vez, as costas do homem que se afastava e seguinde Slane.

             — Bom trabalho — a felicitou Jared aproximando-se do dueto.

 

             Slane ia com seu cavalo atrás de Sully e Jared. Seu olhar estava fixo na enigmática Sully. Sua larga trança negra se balançava de um lado a outro sobre a armadura de couro curtido, que tinha sido entalhada para que se ajustasse bem a sua pequena figura. E certamente o artesão tinha feito um trabalho admirável. De fato, ficava muito bem. Usava malhas negras debaixo da armadura. Umas botas negras escondiam suas panturrilhas. A espada amarrada a sua cintura chamava a atenção de Slane cada vez que a olhava. Nenhuma vez tinha visto uma mulher com uma espada e se perguntou se Sully seria boa espadachim.

             Era uma pena que provavelmente não tivesse tempo de descobri-lo. Voltou a concentrar-se em sua missão. A mulher Sullivan.

             Tinha certeza de que uma vez que encontrasse o anel, encontraria à mulher e sua busca acabaria. Perguntou-se como seria aquela mulher. Notaria-lhe que tinha estado sozinha durante oito anos? Estaria cansada e gasta pela falta de comida e as fadigas às que devia ter estado exposta? Estaria envelhecida por todos seus afãs e a desgraçada vida que tinha levado? Não sabia nada dessa mulher. Só que tinha vinte anos e que seu cabelo era negro. Isso era tudo o que sabia.

             Seus olhos se posaram nos dois cavalos que lhe precediam quando um dos animais soprou. Sully sorriu ao Jared com um ar de cumplicidade e açulou a seu cavalo para que tomasse à dianteira. Slane se perguntou se esses dois seriam amantes. Se o eram, como tinha permitido Jared que a batessem dessa maneira? O que lhe teria acontecido? Quem lhe tinha dado essa brutal surra? E por que, se Sully era sua mulher, permitia Jared que alguém lhe fizesse mal? Ele mataria sem duvidá-lo a qualquer que tocasse em Elizabeth.

             Suspirou levemente, pensando que Elizabeth o estava esperando em sua casa no Bristol. Tinha-lhe mandado uma mensagem lhe dizendo que ia permanecer ali por um tempo mais, coisa que não lhe importou justamente o contrário, pois ela estava com seu melhor amigo, John Flynn. Sabia que John cuidaria da Elizabeth e a protegeria enquanto ele não estivesse. Não demoraria muito, pois tinha contratado ao melhor rastreador da França. Logo encontraria o que procurava.

             Slane fustigou seu cavalo e se aproximou do Jared. Antes de falar, olhou com curiosidade ao mercenário. De fato, era velho. Tinha profundas rugas ao redor dos olhos e a pele de suas bochechas era flácida e apagada. Olhou Sully. O que podia ver ela nesse homem? Que tipo de prazer podia lhe dar? Imediatamente, Slane teve outro pensamento. Talvez não fossem amantes. Talvez sua relação consistisse mais em algo próximo a um pai cuidando de sua filha.

             — Estamos chegando a Briarwood — anunciou Jared.

             — Tem certeza de que o anel está aí? — perguntou Slane.

             — Olhe — disse Jared — paga-me para rastrear, e isso é o que estou fazendo. Encontrarei o anel, não o duvide.

             Slane assentiu, satisfeito. Cavalgaram em silencio durante uns momentos, com o sol ardente esquentando seus ombros.

             — Trabalhou para lorde Sullivan durante muitos anos, não?

             Slane sentiu o olhar do Jared.

             — Sim. Isso já faz muito tempo.

             — Me fale da moça — ordenou Slane.

             — A moça?

             — Taylor Sullivan — esclareceu Slane — Como era fisicamente?

             — Isso foi há muito tempo — insistiu Jared, mantendo os olhos cravados na estrada — Surpreendeu-me que tivesse fugido, não acreditava que fosse capaz de fazê-lo.

             Slane olhou fixamente ao Jared, sem dizer nada. Depois de um momento de silêncio, Jared acrescentou:

             — Suponho que quando sua mãe morre, é capaz de fazer coisas impulsivas.

             — E não a viu após?

             — Não — disse Jared — E não sei se poderia reconhecê-la se a visse agora, depois de tantos anos.

             — O que recorda dela?

             — Por que quer sabê-lo?

             Slane viu como Jared apertava os punhos sobre as rédeas do cavalo. Não tinha intenção de lhe contar suas razões.

             — Curiosidade, somente.

             Slane sentiu o olhar do Jared sobre ele. Seus olhos azuis o olhavam com ódio, coisa que estranhou. Por que lhe odiava esse homem? Mas a sensação passou rapidamente e Slane pensou que possivelmente o tinha imaginado.

             — Por minha lembrança, era uma gorda preguiçosa — disse Jared — Havia só um bonito atributo nela. Tinha o cabelo mais loiro e brilhante que jamais se viu. Parecia ouro.

             — Cabelo loiro — murmurou Slane — De fato.

             Deixou que seu cavalo fosse um pouco mais devagar. Examinou as costas do Jared durante um bom momento, sentindo-se estranho pela conduta do homem. Por que Jared estaria mentindo? Evidentemente, estava-lhe ocultando algo, mas o que e por quê?

 

             Jared estava sentado debaixo de uma árvore; a uns poucos passos dele, Taylor caminhava para frente e para trás. A cada passo, seus músculos se estiravam e quase lançava exclamações de prazer. Depois de uma cavalgada tão comprida, sentia-se feliz de haver descido da cela. Fez uma pausa para olhar, por cima de seu ombro, o riacho onde os cavalos estavam bebendo e viu o Slane jogando água no rosto.

             — Por que estará procurando o anel? — perguntou Taylor.

     Jared bufou.

             — Não sei — respondeu, bebendo um pouco de cerveja de seu cantil. Limpou a boca com a manga e ofereceu a Taylor — Mas parece que não está interessado só no anel.

             Taylor tomou o cantil e a levantou para seus lábios. A refrescante cerveja desceu por sua garganta cheia de pó.

             — Esteve me perguntando de ti — sussurrou Jared.

             Taylor baixou o cantil e olhou ao Jared surpreendida. Ele levantou as sobrancelhas e assentiu. Voltou a olhar Slane, que agora estava de pé, estirando-se, com os braços levantados ao céu.

             — O que lhe disse? — perguntou Taylor.

             Jared riu.

             — Que foi uma menina gorda, preguiçosa e loira.

             Taylor levantou a sobrancelha, divertida.

             — Ele acreditou?

             — Ele não lhe conheceu como eu — disse Jared, rindo com satisfação.

             Taylor se agachou ao lado de seu amigo e lhe entregou o cantil.

             — Acredita que é um enviado do meu pai?

     Jared olhou Slane com os olhos entreabertos. Um gesto de desconfiança se desenhou em seu rosto.

             — Não sei — disse afinal, em um tom muito baixo — Tudo o que sei é que não gosto desse homem.

             Seu olhar se deteve sobre Taylor.

             — Assim, mantenha-se afastada dele, ouviu?

             — Já me conhece, Jared — disse Taylor — Eu não procuro problemas.

     Jared bufou e esfregou o rosto com as mãos. Taylor caminhou para os cavalos. Slane estava revisando as rédeas e as correias do animal e ela se fixou em seus ombros fortes e em sua dourada cabeleira. Tinha ouvido tantas histórias sobre ele! Lorde Slane Donovan, do Castelo Donovan, que tinha ganhado o torneio no Warwickshire. Depois, tinha ganhado também no Glavindale. E outro. E também tinha ouvido falar das grandes batalhas nas que tinha brigado ao lado do Rei. Estremeceu-se. Tudo lhe parecia tão irreal. Ia afastar-se dali, quando ele a chamou com voz suave.

             — Onde estava Jared quando lhe feriram?

             De maneira lenta, Taylor se deu a volta e lhe disse:

             — Ele não é meu protetor. Sou uma mulher livre e faço o que desejo.

             Ele levantou seu olhar e ela se surpreendeu de quão azuis eram seus olhos. Em seguida, essas sobrancelhas castanhas se inclinaram sobre seus olhos e voltou a concentrar-se no cavalo. Tinha-a ignorado sem dizer uma só palavra! Encheu-se de exasperação. Mas nessa exasperação havia um pouco de vitória, pois ela era a mulher a que estava procurando; encontrava-se justamente a seu lado... E ele nem sequer sabia!

 

             Cavalgaram até Briarwood, aonde chegaram ao pôr-do-sol. Jared e Slane se adiantaram à hospedaria para assegurar uns quartos e ordenar um jantar quente, enquanto Taylor levava os animais ao estábulo. Quando desceu do cavalo, notou umas nuvens cinza ao longe, uma promessa de chuva.

             — Parece que vai chover muito forte — disse a voz de um menino pequeno.

             Taylor se voltou para ele, vislumbrando raios através das agitadas nuvens e escutando como ressonavam os trovões na distância. O loiro cabelo do menino estava muito sujo e a franja lhe caía sobre a testa, lhe tampando os olhos. Entregou-lhe as rédeas, assentindo.

             — Sim, isso parece — lhe respondeu. Mostrou os animais. — Encarregue-te destes cavalos.

             — Cuidarei bem deles — prometeu o menino, tirando o cabelo do rosto — Cuidei de muitos cavalos. Uma vez, inclusive, cuidei de um cavalo de guerra.

             Taylor lhe sorriu.

             — Tenho certeza de que é o melhor.

             O menino sorriu radiante, assentindo com a cabeça. Estava a ponto de partir quando o menino acrescentou:

             — Nunca tinha visto uma mulher com uma espada.

             Taylor sentiu de repente renascer antigos medos. Ficou alerta. O menino examinou seu rosto durante um momento e ela endireitou as costas, incômoda.

             — Parece ter participado de várias brigas — acrescentou.

             Depois de um momento, Taylor decidiu que o menino não tinha más intenções e lhe sorriu com seus feridos lábios.

             — Participei, mesmo. — respondeu — Talvez retorne mais tarde e te conte algumas de minhas batalhas.

       O menino assentiu entusiasmado.

             — Isso seria genial!

             — Cuida dos cavalos.

             O menino assentiu e os levou. Taylor se voltou para ir embora e se encontrou com que Slane estava encostado na porta do estábulo, olhando-a. Pegou-a de surpresa vê-lo ali, tão quieto e tão tentador.

             — O que está acontecendo? — perguntou-lhe.

             — Já consegui habitações para nós — lhe disse Slane — Tem fome?

             A idéia de uma comida de verdade, quente, conseguiu que a boca lhe fizesse água. Um prato de aveia era um luxo. A maior parte das vezes, Jared e ela tinham que comer o que a terra lhes oferecesse. Morangos. Um coelho aqui ou lá. Um punhado de nozes. Raízes. Poder degustar uma fresca taça de aveia lhe parecia o cúmulo da boa vida.

             — Um pouco — admitiu entre dentes.

             Ele fez um gesto para a estalagem, guiando-a. Mas os pés de Taylor não se moveram. Que fazia Slane aí fora? Por que não estava na hospedaria, esperando-a? Era muito suspeito.

             — Sou capaz de assegurar que cuidem bem dos cavalos — lhe disse — Não necessito de ajuda.

             — Sou bastante consciente disso — respondeu Slane.

             — Então, o que faz aqui? — perguntou-lhe — Está me vigiando?

             Slane se endireitou um pouco.

             — Só queria me assegurar de que te encontravas bem — disse.

             Taylor o olhou cética.

             — Estou perfeitamente bem — disse em um tom condescendente — Não necessito de um guarda-costas, obrigada. Entrarei dentro de um minuto.

             — Como quiser. — Slane falava com um tom muito tranqüilo e se dirigiu para a hospedaria.

             Quande Taylor viu que Slane desaparecia, um sentimento estranho se apoderou dela. De repente, teve a clara impressão de que aquele homem não mentia, de que era verdade que só queria assegurar-se de que ela se encontrava bem. ‘Não seja tola’, disse-se, para afastar esses pensamentos, ‘ele não tem interesse algum em seu bem-estar’.

             E, entretanto, o pensamento permaneceu em sua cabeça, deixando-a inquieta. Decidiu que contaria uma rápida história ao menino. Quando tivesse terminado, tinha certeza de que este sentimento teria desaparecido.

 

             Jared levou a jarra de cerveja aos lábios e bebeu um grande gole. Quando voltou a pôr o copo na mesa, deu-se conta de que Slane estava na porta, buscando-o. Elevou o braço e o agitou no ar para chamá-lo.

             — Onde está Sully?

             — Cuidando dos cavalos — respondeu Slane enquanto se sentava frente a ele.

             Jared chamou o hospedeiro e o pequeno e gordinho homem se dirigiu para eles. Pediram três taças de aveia e um pato. O hospedeiro assentiu com satisfação e se dirigiu para a cozinha.

             — Conhece bem Sully — disse Slane.

             — O suficiente — respondeu Jared.

             — Onde se conheceram?

             — Faz muitas perguntas para ser um homem que se nega a responder as perguntas que os outros lhe fazem.

             Slane ficou em silêncio.

             — Fomos contratados pelo mesmo senhor faz alguns anos. Quando esse trabalho se terminou, permanecemos juntos. — Jared encolheu os ombros, como se dizer isso fora suficiente. Slane abriu a boca para fazer outra pergunta, mas o outro o interrompeu — Depois de jantar, falarei com o hospedeiro para averiguar se ele viu o anel ou se alguém tentou vendê-lo.

             Slane entreabriu os olhos.

             — Vendê-lo? —perguntou — Por que tratariam de vendê-lo?

             — É de prata... Deve valer muitas moedas. Se for roubado...

             — Quem te disse que foi roubado? — perguntou Slane com tom exigente.

             — Bom, imaginei...

             — E como sabia que o anel era de prata? — Ele não tinha mencionado esse detalhe.

             Jared tragou saliva e olhou para outro lado. A porta se abriu de novo, fazendo que uma onda de vento alagasse a habitação e se agitassem ameaçadores, as chamas do fogo. Taylor entrou e fechou a porta.

       Jared se sentiu aliviado à medida que ela se aproximava. Taylor se deteve antes de chegar à mesa, sacudindo o pó e olhando aos dois homens.

             — Como vão, meninos? — perguntou com voz inocente.

             Slane deu um golpe na mesa com a palma da mão.

             — Já é suficiente — ordenou — Quero respostas.

             Taylor o ignorou e se sentou muito tranqüila. Bebeu um sorvo de cerveja. Logo, deixou a jarra sobre a mesa e falou.

             — Respostas a que?

             — Quer saber por que acredito que o anel foi roubado — lhe disse Jared.

             — E como soube que o anel era de prata — acrescentou rapidamente Slane.

             — Ele trabalhava para lorde Sullivan, é óbvio que conhece o anel.

             O olhar de Slane passou de Jared a Taylor. Jared ficou tenso, mas em seguida se lembrou de que Taylor não era das que cediam. Nem sequer frente a um furioso lorde.

             — Como sabia que se tratava do anel dos Sullivan? Eu não lhes disse que o anel que procuro é o anel dos Sullivan — perguntou Slane.

             Taylor não deixou de sorrir.

             — Descreveu-nos o anel; e eu conheço o brasão dos Sullivan porque em uma ocasião trabalhei para eles.

            Jared sorriu, satisfeito. Ela pensava de maneira rápida e isso o fazia sentir-se orgulhoso. Slane se recostou em seu assento, mas seu olhar ainda refletia suspeita. Cruzou os braços.

             — Certo... Mas nada disso explica como Jared sabe que o anel foi roubado.

             Taylor o imitou, recostando-se contra o assento e cruzando os braços. Ao Jared custou muito trabalho não soltar uma gargalhada.

             — Bom — respondeu Taylor — se Sullivan não o tem e está buscando-o... Deve ser porque o roubaram.

             Slane se estremeceu. Inclinou-se para ela sobre a mesa.

             — Como é que você tem todas as respostas?

             Taylor se inclinou para ele.

             — Jared e eu falamos sobre isto — disse — E tiramos nossas conclusões.

             Uma risada estrondosa surgiu da garganta do Jared. Quando os dois pares de olhos caíram sobre ele, tratou de dissimular a risada enquanto tossia e olhava para a porta. Mas sua diversão desapareceu de maneira rápida quando viu que sua presa entrava pela porta da hospedaria, seguida de quatro homens grandes.

 

             Taylor viu como a alegria se esfumava dos olhos do Jared à medida que olhava algo por cima de seu ombro. Um calafrio lhe percorreu as costas e girou a cabeça. Quando viu Irwin esteve a ponto de lançar-se sobre ele, mas se conteve. Fechou os olhos um segundo para controlar a raiva. Quando os abriu, estava mais tranqüila, embora o coração continuasse batendo com força no peito. Jared pôs as mãos sobre as dela.

             — Não faça nada apressado — lhe advertiu.

             — Nunca faço nada sem pensá-lo antes — replicou tranqüila, forçando as palavras através de seus apertados dentes. Não tirou o olhar de cima ao Irwin.

             — O que está acontecendo? — perguntou Slane.

             Taylor sentiu o sangue desbocando-se através de todas as veias de seu corpo. Tratou de ficar em pé, mas Slane a agarrou por braço.

             — Aonde vai? — perguntou-lhe, deixando de olhar aos homens que acabavam de entrar — Não te estou pagando para que arrume contas com um ex-amante.

             — Esta é por conta da casa — respondeu com seu usual sarcasmo e tratou de soltar seu braço. Mas Slane não a soltou, encarou-a, olhando-a com raiva.

             — Não me serviria de nada se te matassem — lhe disse — Morta, não poderia concluir seu trabalho.

             — Não sou eu quem vai morrer — lhe respondeu ela.

             — Ele tem o anel que está procurando — interrompeu Jared.

             Slane se voltou para olhar aos homens.

             — Um homem? — murmurou.

             — Não te meta nisto — lhe advertiu Taylor. — Esta é minha briga e não gostaria que lhe ferissem seu bonito rosto. — Sorriu-lhe com seus ainda inchados lábios antes de liberar seu braço e cravar seu olhar no Irwin.

             No momento em que Taylor ficou em pé, os olhos do Irwin se fixaram nela. Seus pequenos traços se encheram de pavor e seus diminutos olhos se moveram nervosamente de um lado a outro. Por um momento, Taylor pensou que Irwin ia sair correndo. Aparentemente, entretanto, os quatros homens que estavam detrás dele o encorajaram, já que, de repente, endireitou-se e se aproximou dela.

             Os olhos de Taylor se entrefecharam e ela passou a língua pelos lábios. Estava pensando, sem dúvida, no que podia ocorrer nos seguintes momentos.

             — Bem! — Irwin sorriu com desdém — Vejo que desfrutou da lição que te dei. Quer mais?

             Taylor teve que respirar fundo antes que a calma que sempre se apoderava dela, finalmente chegasse.

             — Não tanto como desfrutará você da lição que vou te dar eu — respondeu.

             — Ainda tão orgulhosa? — Irwin estendeu sua mão para lhe tocar o rosto mas antes de que seus gordinhos dedos a tocassem, ela tomou seu braço e o retorceu detrás das costas.

             — Acredito que tomaste algo que não te pertence — afirmou com calma.

             O corpo do Irwin se dobrou junto com seu braço enquanto emitia um grito de dor.

             — Ofereci-te resolver este assunto antes, Irwin. Mas já não há trato.

             — Por favor! — exclamou o hospedeiro — Não quero problemas aqui.

             — Nos dê o anel e iremos tranqüilamente — disse Jared, enquanto se inclinava em seu assento.

             Taylor apertou firmemente a mão do Irwin. Ele uivou pelo apertão. Não desejava nada além de golpear a esse pequeno roedor, para que sentisse uma porção de sua própria dor. Mas se Irwin lhe dava o anel, ela iria embora.

             Desejou que não o desse. Torceu-lhe um pouco a mão e ele emitiu um grito de dor. Os quatro homens que estavam detrás do Irwin se moveram para diante, sem saber como agir. Seus rostos se concentraram em Taylor.

             — Dar-lhe-ia isso, juro-o! Mas... — Irwin chiou quando ela voltou a lhe retorcer o braço, esta vez com mais força.

             — Tudo o que tem que fazer é nos dar o anel. Nem sequer te estou pedindo às moedas que nos roubou.

             — Brigas lá fora! — vociferou o hospedeiro.

             Um dos companheiros do Irwin sorriu, deixando ver duas filas de dentes torcidos e negros.

             — Eu ganhei.

     Ela se agachou até o ouvido do Irwin.

             — Estou decepcionada, Irwin, muito decepcionada — lhe disse enquanto o empurrava. O pequeno homem, derrubado, caiu ao chão.

             Slane pôs sua mão no punho de Taylor.

             — Isto não é necessário. O anel não é tão importante para mim. Só desejo encontrar à suposta mulher que o tinha posto.

             — O anel é importante para mim — lhe respondeu exaltada. Liberou sua mão e desembainhou sua espada.

             O ruído que fez Jared tirando sua arma se ouviu como um eco do som que tinha produzide Taylor ao tirar a sua.

             — Por favor, nada de armas! — gritou o assustado hospedeiro.

             Taylor escutou a maldição que murmurou Slane, mas apontou sua arma ao pescoço do homem gordinho.

             — Me dê o anel e iremos.

             Devagar, ele se aproximou dela.

             — Não me faça usar isto! — disse ela.

             — Não a usaria — lhe disse em tom zombador — Não tenho nenhuma arma, por isso ferir vai contra seus princípios.

             Taylor levantou as sobrancelhas e com um pequeno movimento de seu punho, rasgou-lhe o braço com a ponta da espada, fazendo que sangrasse.

             — Obviamente, está-me confundindo com um cavaleiro — disse ela, tranqüila — Me dê o anel ou te atravesso com esta espada.

             A ferida que lhe causou pareceu enfurecê-lo. Lançou-se para Taylor e ela teve que dar um passo rápido para um lado para evitar que o homem caísse em cima dela. Mas antes que isso acontecesse, Jared estendeu uma perna, de modo que o gordo tropeçou e se estrelou contra uma mesa. Pratos e copos saíram voando. Jared aproveitou sua queda e lhe tirou a bolsa de moedas que tinha pendurada do cinturão.

             Taylor viu como Jared olhava dentro da bolsa. Ficou tensa... E se o anel não estivesse ali? Mas seu companheiro a olhou e assentiu com a cabeça. Permitiu que seus lábios esboçassem um sorriso, mas o sorriso morreu em seguida, quando alguém lhe deu um golpe que a fez cair contra Slane. Enquanto caía, viu como Irwin saía correndo do botequim. Empurrou Slane para sair em sua perseguição.

             — Sully, espera! — exclamou Slane, mas teve que agachar-se e evitar o punho que se dirigia a seu queixo no momento em que a habitação estalou em uma monumental briga.

 

             — Alguém tem que pagar por todo este desastre! — O hospedeiro gritava estendendo seus braços para assinalar as mesas destroçadas, os copos quebrados e toda a comida pulverizada pelo chão — Olhem como ficou minha estalagem! Sabem quanto me custará arrumar tudo isto?

             Slane o ignorou e se tocou o lábio ferido. Jared e ele se defenderam bem dos companheiros do rato. Três deles tinham saído correndo rapidamente, e o homem gordo ao que Taylor tinha derrubado ainda seguia no chão. O murro recebido pelo Slane na mandíbula tinha sido o primeiro, último e, portanto único golpe que tinha recebido. Levantou a cabeça e olhou ao Jared, quem ainda estava em guarda na porta, esperando a que Sully retornasse.

             Jared caminhou frente à porta, como um pai preocupado por sua filha. Slane notava que lhe esticavam os músculos à medida que abria e fechava os punhos. Em um par de ocasiões se inclinou para diante, para sair correndo a procurar Taylor, mas se conteve resignado a deixar que lutasse sozinha com o Irwin. Jared viu que Slane o olhava e negou com a cabeça. Slane agora tinha certeza do tipo de relação que tinham. Se fossem amantes, Jared teria saído a procurá-la.

             — Como poderei fazer negócios agora? Onde comerão meus clientes? — continuava lamentando o hospedeiro.

             Slane estava cansado de ouvir suas queixa. A cabeça lhe doía cada vez mais.

             — Nos encarregaremos disso — lhe disse, impaciente.

             O hospedeiro cessou instantaneamente em suas lamentações, assustado pelo tom agressivo de Slane. Por alguma razão, este se sentiu incômodo. Não tinha certeza de se era porque Sully não tinha retornado ainda ou porque tinham encontrado o anel, mas não à mulher que ele procurava. Passou as mãos pela cabeça, acariciando o cabelo. ‘meu deus!’, pensou. ‘Talvez nem sequer esteja viva’.

             Voltou a pensar em Sully. Já deveria estar de volta. Olhou ao Jared, que estava tratando de espionar algo através da escura rua. Fora, uma feroz chuva impedia de ver algo situado a além de uns quantos metros. Slane ouvia a chuva batendo contra o teto. Apesar de seu rosto ferido gravemente, Taylor parecia capaz de cuidar-se sozinha, recordou-se. Mas era emocional e impulsiva; teria lhe acontecido algo?

             Slane ficou de pé e passou por cima de um homem que estava no chão. Pôs uma mão no ombro do Jared para lhe dar ânimo.

             — Voltará — lhe assegurou, embora ele mesmo não tivesse tanta certeza.

             Jared suspirou, mantendo o olhar fixo na rua.

             — Dar-lhe-ei uns quantos minutos mais e sairei a procurá-la.

             — Não poderá encontrá-la com esta chuva — disse Slane, retirando a mão do ombro do Jared. Apesar de seu pessimismo, sabia que, se o outro se empenhava em procurá-la, ele o ajudaria. E certamente nada lhe importaria o aguaceiro, pois considerava que o ocorrido era, ao menos em parte, culpa dela.

             Recostou-se contra a parede e tocou a bolsa que Jared tinha recuperado; depois de uns momentos de dúvida, esvaziou-a na palma da mão: quatro xelins e o anel, isso era tudo. Slane bufou. Do que lhe servia o anel se a garota Sullivan não o tinha posto? Deixou que as quatro moedas caíssem em cima do corpo que se encontrava a seus pés. Desapareceram entre as dobras da camisa do homem gordinho.

             Jared levantou um assento do chão e se sentou nele, negando com a cabeça. ‘Um pai preocupado’, pensou Slane. O silêncio caiu sobre a habitação como uma nuvem, cobrindo-o tudo. Slane viu como o hospedeiro o olhava de esguelha de uma esquina; o homem se escondeu rapidamente quando viu que Slane também o estava olhando.

             — Não posso lhes deixar a sós nem um minuto.

             Slane olhou para a alegre voz e se encontrou com Sully, que entrava como um ciclone pela porta, com as roupas empapadas e o cabelo gotejando.

             — Olhem o desastre que fizeram.

             Um estranho sentimento de alívio se apoderou de Slane ao ver o ferido rosto do Sully. E notou, com satisfação, que não havia novas feridas. Jared gritou desde seu assento.

             — Está bem?

             Sully assentiu.

             — E o que aconteceu com o Irwin? Está...?

             — Não nos voltará a incomodar — prometeu em tom grave. Seu olhar se posou no Slane — Bem... Encontraste o que procurava?

             Slane levantou o anel, mostrando-lhe. Taylor caminhou para ele e lhe tirou o anel da mão, inspecionando-o. Olhou ao Slane por um instante e ele alcançou a ver um brilho de vitória naquele olho verde que não estava inchado. Puxou-a pelo braço, afastando-a dos muito curiosos ouvidos do hospedeiro, e a levou para uma mesa perto do fogo.

             Rapidamente, Taylor se soltou, afastando do fogo. Slane a olhou interrogativamente e a seguiu a uma mesa longe do calor das chamas. Sentou-se frente a ela.

             — Antes de qualquer coisa, quero te agradecer que me ajudasse a encontrar o anel.

             Taylor se encolheu de ombros e abriu a boca para dizer algo, mas Slane se apressou a falar.

             — Como sabia quem o tinha? — perguntou.

             — Eu sei muitas coisas — replicou evasivamente.

             Slane bufou.

             — Ele tirou isso de você, não é verdade?

             Observou o desconforto no rosto de Taylor. Ela se endireitou, como se preparando para responder a uma agressão. Contra quem? Contra ele?

             — Deixar-te-ei conservar o anel se me disser uma coisa.

             Taylor não se relaxou; manteve-se tão rígida como uma tabela. Ele se aproximou para ela para sussurrar:

             — De quem roubaste o anel?

             Algo aconteceu em seu rosto, mas Slane não soube se era raiva ou medo.

             — Onde está ela? Matou-a? — continuou.

             Taylor fechou os olhos um segundo. Quando os abriu, olhou-o com tristeza.

             — Estou ofendida, Slane — disse com um fio de voz — Seriamente que o estou. Não tenho o costume de roubar. — Moveu a cabeça e seu cabelo comprido e molhado se moveu sobre os ombros — Além disso, eu não mato mulheres. Bom... A não ser que o mereçam...

             Gotas de chuva caíram de sua empapada roupa à medida que se levantava da cadeira e punha as mãos em seus estreitos quadris.

             — Descobriu-me, Slane. — Taylor tomou a mão de Slane e a abriu, depositando o anel em sua palma — Pague-nos e iremos.

             Slane pôs de novo o anel na mesa.

             — Como conseguiu este anel antes que Irwin lhe tirasse isso?

             — Temo-me que se acabou o tempo para as perguntas — disse ela — Como também se acabou nosso contrato. Pague-nos.

             Slane franziu o cenho, amaldiçoando a irracionalidade das mulheres. Procurou em seus olhos, como tratando de encontrar resposta neles para depois tomar o anel e colocá-lo na bolsa de couro que levava a cinto. Amaldiçoou de maneira inaudível enquanto colocava sua mão na bolsa das moedas para lhe pagar.

 

             Slane tirou a bolsa do cinturão e a pôs na mesa ao lado da cama. Sacudiu a cabeça. Não tinha certeza de como devia seguir o rastro da mulher Sullivan. Jared e Sully tinham sido sua melhor oportunidade.

             Tirou a espada e o cinturão e estava se preparando para tirar a túnica quando bateram à porta. Slane se queixou com frustração e impaciência e foi abrir.

             O hospedeiro estava ali, e movia as mãos nervosamente.

             — Lá embaixo há um homem que quer falar com você.

             — Bem — disse Slane e o seguiu, descendo pelas escadas. Quando chegaram, o loiro cavalheiro percorreu a sala com o olhar, mas não viu ninguém que parecesse estar buscando-o.

             — Deve haver partido — disse o hospedeiro, encolhendo-se de ombros.

             — Como era? — perguntou Slane.

             De novo, o homem encolheu os ombros.

             — Alto. Cabelo escuro. Magro...

             Slane não conhecia ninguém que respondesse a essa descrição.

             — Bom, se retornar, lhe diga que espere até manhã — disse, indo de novo a seu quarto.

             Tirou a túnica e se deitou sobre a cama de palha. Durante um momento se perguntou quem poderia estar buscando-o ali. Seria John com uma mensagem da Elizabeth? Haveria notícias sobre o castelo Donovan? Esqueceu-se em seguida destas perguntas e, imediatamente, seu agitado pensamento se centrou em Sully. Havia algo nela... Não podia decifrar muito bem o que era. Não se parecia com ninguém a quem tivesse conhecido antes. Era inteligente, valente e impulsiva. Mas também desafiante teimosa e irrefletida.

     Estendeu sua mão para a mesa de cabeceira e tomou a bolsa que continha o anel. Rangeu. Confundido, franziu o cenho e abriu a bolsa. Não havia nada nela, à exceção de um pedaço de pergaminho. Começou a sentir que a indignação o carcomia. Apertou fortemente sua mandíbula enquanto tirava o pedaço de pergaminho. Leu:

Lorde Slane, Obrigada por me ajudar a recuperar o anel de minha mãe.

Sully.

             Afligido pela surpresa, Slane só podia olhar fixamente a nota. Em seguida, suas mãos começaram a tremer de ira enquanto enrugava lentamente o pergaminho em seu punho apertado.

 

             — Não devia ter dito — disse Jared virtualmente a gritos devido ao estrondo que produzia a chuva que caía.

             — Não pude agüentar com a vontade de lhe dar um golpe em sua arrogância. Pode acreditar que pensou que tinha matado a mim mesma? — exclamou Taylor.

             — Agora te buscará — lhe recordou Jared, enquanto seus cavalos cavalgavam pela escura e enlameada estrada.

             Taylor encolheu os ombros levemente.

             — Não será difícil para nós escaparmos. Ele não conhece como nós os povoados, os lugares nem as pessoas. Além disso, não sabe rastrear. Por que acha que nos contratou?

             Jared grunhiu em sinal de desaprovação, retirando a molesta e constante chuva dos olhos.

             — É perigoso cavalgar toda a noite abaixo esta chuva — disse a Sully — Não gosto.

             — Já fizemos isto antes — disse ela — A única coisa que eu não gosto é esta chuva. — Olhou para o céu negro que ocultava a lua e as estrelas e piscou, tratando de desfazer-se, sem grande êxito, das gotas de chuva que caíam em seus olhos.

             — É a única razão pela que decidi viajar esta noite. Ninguém em seu são julgamento sai em uma noite como esta — disse Jared. Fez uma pausa momentânea — Sabe o que isto significa. Dormiremos por turnos outra vez, no bosque.

             Taylor entreabriu os olhos.

             — Possivelmente não será preciso — murmurou.

             — O que está tramando?

             — Estou decidida a dar uma lição ao arrogante lorde — prometeu Taylor — Uma lição que não esquecerá.

           Jared se queixou.

             — Sully... Se se zangar, só conseguirá que te busque com mais determinação.

             Taylor se tirou o cabelo molhado dos olhos.

             — Dentro de uma semana desapareceremos. Nunca nos encontrará — disse de maneira orgulhosa.

             — Não tem curiosidade em saber o que ele queria? — perguntou Jared.

             — Não — respondeu Taylor secamente — Se não nos disse isso no começo, não pode ser nada bom.

             Apesar de que isso era certo, uma parte dela não pôde evitar perguntar-se o que quereria. Gostaria de ter estado presente quando ele conheceu a verdade. Gostaria de ter visto o resplendor de surpresa e fúria nesses formosos olhos azuis... ‘O que está pensando?’, ralhou a si mesma. ‘Te esqueça dele. Nunca voltará a vê-lo’.

       Por um momento se sentiu uma estranha tristeza.

 

             — Tem o rosto ferido e inchado e viaja com um homem mais velho — disse Slane.

             O dono do estábulo assentiu.

             — Sim, vi-os. Ontem estiveram aqui, cedo. — Deixou cair um balde de feno na baia dos cavalos — Não disseram muito, mas pararam na hospedaria. Ao meio-dia, já tinham partido.

             ‘Estavam viajando de noite’, pensou Slane. ‘Fizeram o mesmo que eu teria feito se fosse eles’. Amaldiçoou o seu irmão em silêncio. Se não fosse pelo Richard, ele não estaria metido naquela confusão. Essa pequena harpia o estava obrigando a persegui-la. Não tinha tempo para isso. Elizabeth o estava esperando.

             — Para onde foram? — perguntou.

             — Para o oeste. Para Woodland Hills — respondeu.

             — Obrigado — disse Slane enquanto tirava seu cavalo do estábulo. Olhou para o oeste. Um menino corria ao lado da estrada. Um camponês guiava um cavalo que carregava uma carga de palha. Mas Slane não emprestou atenção.

             Ela estava se afastando do castelo Donovan. Estava afastando-o de Elizabeth. Mas não podia deixar de persegui-la. Converteu-se em um assunto que ia além de sua dívida com o Richard, além da lealdade a sua família. Ela o tinha insultado. Tinha ferido seu orgulho. E zombava dele. Encontrá-la-ia muito em breve e lhe demonstraria que ninguém... ninguém!... Zombava de Slane Donovan.

 

             Taylor jogou a cabeça para trás, rindo-se, e sua risada retumbou através do bosque. As pequenas chamas da fogueira que Jared tinha acendido se refletiam brilhantes, sobre o rosto de Taylor.

             — Assim Slane esteve ontem no povoado?

             Jared assentiu e avivou as chamas com um pau.

             — Devo admitir que seja um homem persistente. Qualquer outro teria se dado por vencido — disse Taylor. Recostou-se sobre o leito de folhas que tinha construído — Já passou mais de uma semana.

             — Esse ferreiro também disse que havia outro homem perguntando pelo anel e a mulher que o tinha posto.

       O sorriso de Taylor desapareceu.

             — Disse que o homem parecia um mercenário, que levava uma espada e uma armadura acolchoada. Eu não gosto disto. Se fosse um único homem o que nos persegue — negou com a cabeça — Mas é mais de um. Eu não gosto nada disso. Tem algo muito perigoso acontecendo, Sully.

             De repente, pela extremidade do olho detectou que algo se movia; viu um rápido resplendor de movimento. Endireitou-se e pôs sua mão na espada.

             — Jared — murmurou com tom de alarme, urgente.

             Sem hesitar, Jared tomou sua espada rapidamente do chão e se virou para as escuras árvores que havia frente a ele.

             Taylor ficou de pé de um salto, dando as costas ao Jared. Tirou sua espada, pronta para enfrentar a qualquer inimigo. Com um olhar experiente, examinou cuidadosamente os escuros arredores do bosque. Esperaram que algo ou alguém saísse da escuridão.

     Mas não havia movimento algum no bosque. A silenciosa calmaria só era interrompida pelo som do vento balançando as folhas das árvores.

             — O que viu? — perguntou-lhe Jared.

             — Algo se moveu — respondeu Taylor, esforçando-se para ver entre as sombras da noite — Há alguém aí.

             Levantou um pouco a cabeça, para escutar melhor. Mas quem respondeu foi o silêncio. Nenhum grilo cantava, nenhuma coruja ululava. Todos os animais se calaram. Apertou a mão no punho da espada. Jared se voltou e ela se moveu com ele.

             — Talvez só seja um animal.

             Taylor continuou observando fixamente as sombras. Possivelmente só se tratava de um animal. Um javali, ou um...

             O bosque explodiu em uma cacofonia e um caos de movimentos! Da escuridão saltaram figuras que pareciam nascer das árvores. Eram vários homens que empunhavam espadas e tochas. De maneira instintiva, Taylor enfrentou a um homem que se lançou direto para ela. Mas o atacante, perito em luta, desviou e anulou a ofensiva de Taylor. Ela fugiu do golpe e teve que girar rapidamente para evitar outra estocada de um segundo atacante. Caiu, lançou sua espada contra o primeiro desconhecido e conseguiu tocá-lo no estômago, mas sua espada ricocheteou inofensiva, sobre o metal. Levavam armaduras debaixo de suas túnicas negras!

             O segundo atacante, não muito mais que uma sombra negra dançando a luz do fogo, jogou-se em cima dela. Enquanto Taylor evitava o golpe, usou uma perna para dar um chute no primeiro atacante, que estava tentando aproximar-se dela.

     Sabia que tinha uns segundos preciosos para desfazer do segundo atacante antes que o primeiro voltasse a se unir à briga. Lançou-se para frente, atacando ao segundo homem incessantemente; equilibrando-se, virando com movimentos bruscos, arremetendo contra ele. Mas este conseguiu neutralizar cada investida. A garota apertou os dentes e voltou a ameaçá-lo com a espada. De novo, o homem a evitou, lhe tirando a espada com um tapa e empurrando-a. Ela reagiu agitando seu punho rapidamente, esticou a mão e, sem pensar duas vezes, pois não havia tempo, dirigiu a ponta da espada contra a cabeça de seu agressor e a enterrou no crânio. O homem caiu morto.

             Eram bons guerreiros, pensou, afastando-se a toda pressa do homem que acabava de cair. Eram muito bons brigando para serem ladrões ou simples assassinos. Olhou ao Jared e o viu ocupado lutando contra outros dois atacantes. A seus pés, viu um homem morto.

             Atrás dela soaram passos apressados, por isso se voltou e conseguiu, bem a tempo, evitar a espada de seu primeiro atacante. Brandiu a sua uma e outra vez lhe fazendo retroceder. Quase tinha conseguido encurralá-lo, quando ele se sobrepôs e atacou de novo a Taylor com forças renovadas; mas não adiantou, porque a jovem estava preparada e, depois de um rápido movimento, feriu-o na mão. O desconhecido lançou um grito de dor e deixou cair sua espada, que Taylor afastou rapidamente com um chute. Assustado, o homem levantou a vista e viu seus camaradas cansados. Então, com uma expressão de espanto no rosto, saiu correndo e desapareceu no bosque.

             Taylor tratou de ajudar ao Jared em sua batalha contra o último de seus agressores que ficava em pé. Brandia uma tocha à frente de Jared e este conseguiu agachar-se no último segundo, deixando que a arma passasse roçando perto a sua cabeça. Agachado, Jared lançou sua espada, mas a folha ricocheteou inutilmente na armadura do atacante.

             Taylor brandiu seu aço contra ele, conseguindo tocá-lo no ombro. Gritou e agitou a tocha com mais força, mas a garota conseguiu esquivar a ponta da tocha, a qual caiu, enterrando-se no chão. Taylor lhe deu um chute, para que ficasse longe de seu alcance.

             Jared deu-lhe então um tremendo golpe no quadril, conseguindo abrir um pequeno buraco através da armadura. O homem ficou quieto durante um segundo antes de desabar-se ao chão como uma árvore destruída.

             Taylor se voltou e examinou o bosque em busca de mais atacantes. Mas ninguém saiu da escuridão.

             — Está bem? — perguntou-lhe Jared, sem ar.

             Taylor assentiu e o olhou, procurando feridas no corpo de seu amigo, mas não encontrou nenhuma. Ficou quieta, respirando com dificuldade até que seu coração recuperou o ritmo normal de seus batimentos. Então se ajoelhou junto ao homem morto e o empurrou para colocá-lo de barriga para cima. Seu rosto estava coberto com um pano negro, fazendo-o parecer um carrasco. Revisou sua armadura e a túnica negra que o cobria. Olhou ao Jared e lhe disse:

             — Não tem insígnia.

             — Que diabos está ocorrendo? — perguntou Jared.

             Com um rápido movimento, Taylor lhe tirou a máscara que levava posta. Esperava poder reconhecê-lo, mas jamais tinha visto aquele rosto. Passou sua espada através da máscara, lhe limpando o sangue. Olhou ao Jared, com seus olhos negros cheios de determinação.

             — Não sei, mas te juro que vou descobrir.

 

             Slane estava surpreso de quão fácil tinha sido seguir o rastro da Taylor. A princípio. Durante uma semana, Slane tinha seguido seus passos e eles lhe levavam uma vantagem de meio-dia. Mas por volta do final dessa primeira semana, seu rastro desapareceu repentinamente, como se tivessem desvanecido no ar.

             Slane se deu conta então de que Taylor tinha estado brincando com ele. Tinha-lhe permitido segui-la, levando-o por bosques perigosos e povoados estranhos. Quando o jogo ficou aborrecido, ela simplesmente decidiu acabar com ele, deixando-o para trás e perdido.

            Apesar de tudo, Slane continuou sua busca e passou outra semana tratando de conseguir qualquer pista sobre eles, perguntando, procurando e analisando, até que ficou sem pistas nem recursos de rastreamento. Frustrado, insatisfeito e furioso além de toda racionalidade, Slane alugou uma habitação em uma hospedaria para viajantes.

             Em sua habitação, sozinho, pensou em suas desgraças enquanto tomava banho em uma tina de madeira. Moveu o corpo, afundando-se mais na água. Pegou um recipiente de cerâmica do chão, perto da banheira, e jogou o conteúdo sobre a cabeça, suspirando fortemente enquanto notava que a água morna percorria todo seu corpo, limpando a sujeira. Nunca encontraria a essa mulher. Frustrado, golpeou a banheira com o recipiente antes de deixá-lo de novo no chão. A raiva fervia em suas veias cada vez que pensava em quão fácil teria sido prendê-la... Se tivesse sabido que essa era a mulher que procurava. As chaves tinham estado ali: seu comportamento estranho, seu conhecimento do anel. Mas ele tinha sido muito cego para vê-las nesse momento. ‘Muito cego e, simplesmente, muito estúpido’, disse-se.

             Slane afundou o rosto na água, tentando dissolver assim a ira, mas o calor da água só parecia aumentar sua raiva. ‘Quando encontrar essa maldita mulher torcer-lhe-ei o pescoço. Aprenderá o verdadeiro significado do respeito’. Tirou a cabeça da água e à medida que vários jorros de líquido morno desciam por seu rosto, sentiu que um pequeno sorriso se desenhava em seus lábios. Viu-se lhe ensinando a forma como devia tratar a um cavaleiro do reino.

             De repente, uma figura escura se moveu nas sombras da habitação e Slane ficou paralisado. Alguém estava em sua habitação! Olhou rapidamente para sua direita e viu sua espada ainda embainhada, apoiada contra a perna de um assento ao outro lado do quarto. Maldita seja. Muito longe.

             — Teria renunciado prazerosamente ao dinheiro que me pagou só para poder ver a expressão de seu rosto quando recebeu minha nota — disse uma voz feminina enquanto saía das sombras e percorria os poucos passos que a separavam da banheira.

             Apesar de estar coberta por uma capa marrom e um capuz que escondia a metade de seu rosto, Slane a reconheceu imediatamente.

             — Você... — disse em um sussurro. A mulher Sullivan! Seus dedos se cravaram no bordo da banheira e sentiu como suas unhas se enterravam na madeira. Imaginou que a madeira era a suave pele do pescoço de Taylor e conseguiu tranqüilizar-se um pouco. Que diabos estava fazendo ali?

             — Não te alegra nem um pouco? — perguntou à jovem, rindo.

             Agarrou uma banqueta que havia ao lado da cama e a pôs perto da banheira. Sentou-se e o olhou divertida.

             — Ouvi que me estava procurando.

             Slane ficou quieto. Ali tinha à mulher a quem estava procurando, sentada em um assento a menos do meio metro, e tudo o que podia fazer era olhá-la assombrado. À luz da vela, o maltratado e ferido rosto que recordava tinha desaparecido, as feridas tinham sido substituídas por uma bochecha tão redonda e suave que se encontrou afligido pela perfeição. Percebeu que Taylor cheirava a lavanda graças a uma pequena brisa que entrou pelas janelas abertas e circulou por toda a habitação, envolvendo tudo em um delicado aroma. Sentiu uma pulsão debaixo da água e trocou sua posição para que sua virilidade não subisse até a superfície da água. ‘Trata-se só da bochecha de uma mulher’, reprovou-se Slane. ‘Viu milhares de bochechas em sua vida’.

             Taylor moveu os lábios provocativamente antes de tirar o capuz. À medida que o tecido se retirava e descobria a cabeça, seu cabelo negro se agitava grosseiramente sobre os ombros. Imediatamente se fixou na maciez de seus lábios; o inchaço que antes os desfigurava tinha desaparecido por completo.

             — Estava me procurando ou minhas fontes de informação estavam equivocadas?

             Slane sentiu que as pulsações de seu membro aumentavam com velocidade. Afundou-se na banheira, pondo o braço disfarçadamente entre as coxas. Era uma criatura absolutamente maravilhosa. Como ele podia saber que detrás daquelas feridas e marcas se encontrava a mulher mais bela que jamais tinha visto? Obrigou-se a afastar o olhar de seu rosto. Ela merecia seu desprezo pelo que lhe tinha feito não seu desejo.

             — Sabe muito bem que estive te procurando — respondeu — Viestes rir de mim por não ter sido capaz de te encontrar?

             — Bom... — Falava provocativamente, com a risada ainda na voz e um sorriso nos lábios.

             Maldição! Slane examinou o reflexo de Taylor que se formava na água da banheira.

             — Por que viestes? — exclamou pensando outra vez em quão inútil resultava sua espada ao outro lado da habitação.

             — Vamos aos poucos, não é melhor, Slane? — Seu rosto perdeu de repente o gesto zombador, quase amável — Por que estava me procurando?

             — Por que me pergunta isso? Suas fontes já não lhe disseram? — perguntou Slane com aspereza.

             — Slane Donovan — murmurou e ele se surpreendeu pela suavidade de seu tom de voz — Ouvi falar muito de ti quando era pequena. Foi um herói. Slane Donovan isto, Slane Donovan aquilo. No povoado só se falava de suas façanhas.

     Slane levantou a vista para olhá-la atentamente. Surpreendeu-se pela ternura e a honestidade que viu nesses grandes e verdes olhos, parecidos com uma pedra preciosa... O que sentia era, acaso, admiração? De repente, deu um golpe na parede e Slane deixou de ver sua alma através de seus olhos.

             — Busca-me para me matar? — perguntou-lhe a mulher. Slane se enfureceu. Ele era um cavaleiro; ele não matava mulheres... Nem sequer às que levavam espada.

             — Se de verdade pensasse que te estava perseguindo para te matar, não estaria sentada a um metro de mim nem estaria movendo o cabelo como se fosse uma prostituta em um botequim, procurando uma cama — disse Slane.

             O comentário acabou sendo mais duro do que tinha desejado e viu como nos olhos de Taylor começava a brilhar a ira. De novo se perguntou por que Taylor estaria ali. Devia ter algum motivo. Possivelmente o necessitasse para algo, disse-se. Slane sabia que ela não iria se expor a ser apanhada se não tivesse uma razão muito capitalista para apresentar-se ante ele. Para que o necessitaria?

             — Acredite em mim: se necessitasse uma cama onde dormir, não seria a tua! —respondeu agressivamente, saltando do assento — Se não me disser o que quero saber, encontrarei alguém que o faça. — Levantou-se para ir embora.

             Slane se levantou da água como o antigo deus Poseidón, com o líquido percorrendo todo seu corpo. Sua expressão era severa, sua boca estava tensa e seus dentes apertados. Tomou o punho de Taylor entre seus dedos e apertou com força.

             — Já escapou de mim uma vez — bufou — Não o fará de novo.

             Viu como Taylor percorria seu corpo com o olhar, mas hesitou quando chegou a sua cintura. Então elevou os olhos para encontrar-se com os de Slane. Era acaso vergonha o que se podia ler em seu olhar? Perguntou-se Slane. Ou talvez desprezo?

             — É muito arrogante, não? — perguntou-lhe brandamente enquanto desenhava um pequeno sorriso em seus lábios — Diga-me por que me persegue, diga-me quem são os que me perseguem. — Era metade súplica e metade mandato.

             Perseguem? Havia mais de um? Perguntou-se Slane.

             — Mercenários! — disse em voz alta. Acaso outros a tinham encontrado? Parecia que em sua voz havia uma preocupação genuína, um temor que lhe afetava apesar da raiva que sentia. Slane lhe soltou o braço.

             Taylor se liberou e se afastou dele.

             — Esses homens não eram mercenários — respondeu, e lhe deu as costas.

             Slane a alcançou e a sujeitou por um braço para retê-la. Então, ao olhar seu braço, viu a parte baixa de seu corpo e se deu conta que estava nu. Envergonhado, tomou suas malhas do chão e as pôs rapidamente. Quando voltou a olhar para cima, encontrou-a contemplando-o com aqueles malditos olhos; uns olhos que lhe faziam querer mergulhar fundo para poder encontrar os estranhos mistérios que prometiam revelar algum dia. Alcançou sua túnica, o pôs por cima da cabeça e atou as botas.

             De repente, ouviu-se um estrondo na rua e imediatamente depois o som de espadas se chocando em aberta batalha. Taylor tirou a capa e segurou sua arma para correr para a porta. Mas, antes que pudesse dar dois passos, a porta se abriu bruscamente e o corpo de Jared a atravessou voando.

 

             Jared caiu no chão à frente de Taylor e ficou quieto, com os olhos abertos e frágeis olhando-a. Uma grande mancha de sangue se estendia sobre seu abdômen, aumentando-se e ficando mais vermelha a cada instante. Escutou vozes a seu redor e soube que devia olhar para cima; que devia parar de olhar seu amigo, estendido no duro chão, sem mover-se. Mas parecia não poder deixar de olhá-lo. ‘Isto não está ocorrendo’, pensou. ‘Isto não está ocorrendo’.

             — Que diabos está acontecendo?

             O grito de Slane a tirou de seu estupor. Olhou para cima e viu quatro homens vestidos de negro entrando a toda pressa na habitação, com suas armas prontas para atacar. Uma adaga voou para a cabeça de Slane, mas ele conseguiu esquivá-la lançando-se ao chão. A pontiaguda adaga se cravou na parede, detrás dele. Slane rodou pelo chão e empunhou sua arma, jogando-se detrás da banheira, que estava no meio da habitação.

             Tratando de desfazer a bruma de incredulidade que a estava paralisando, Taylor voltou os olhos para enfocá-los no Jared. Por que estava ainda no chão? Por que não se levantou para enfrentar seus atacantes? Achou que ouvia Slane chamando por seu nome, mas sua confusa mente se negava a concentrar-se em algo que não fora Jared.

             Pelo canto do olho, conseguiu ver um movimento e girou para ver como um dos homens de negro levantava sua espada para atacá-la. De repente, Slane estava ali. Saiu de detrás da banheira e, com um forte empurrão, atirou seu atacante ao chão.

             — Taylor!

             Como na distância, Taylor ouviu que Slane a chamava de novo. Mas não foi verdadeiramente consciente disso até que o cavaleiro a agarrou com firmeza e a puxou para afastá-la do lugar onde tinha ficado cravada.

             Aqueles homens tinham ferido ao Jared. O horror dessa verdade surgiu como um murmúrio em sua mente. Uma das espadas passou muito perto do ombro de Slane, mas este conseguiu desviar rapidamente para enfrentar ao soldado.

             Taylor sentiu uma aguda dor em seu antebraço. Olhou para baixo, surpreendida ao ver que só estava apertando, como tinha feito tantas vezes, o punho de sua espada. Mas o braço lhe doía... Até que afrouxou a pressão de seus dedos em torno do punho. Quando um segundo e um terceiro soldado se lançaram a atacá-la, Taylor se soube defender, agachando-se para a direita para evitar um golpe e fazendo chocar sua espada contra a do outro soldado. Atuou por instinto, sem pensar, até que finalmente o peso bem conhecido de sua espada a conduziu de volta a horrível realidade.

     Aqueles homens tinham ferido ao Jared; esse pensamento a fortaleceu, açulando a ira que queimava seu coração. Desafogou-se dando um chute na virilha de um deles, que se dobrou de dor, o que Taylor aproveitou para lhe dar outro chute, agora no quadril, fazendo-o rodar pelo chão.

             Conseguiu ver o resplendor de outra espada, mas não teve tempo de esquivar o golpe. O fio lhe cortou o lábio e logo seguiu sobre seu corpo, enviando-lhe uma onda de dor que lhe pareceu chegar até a cintura; mas a armadura de couro absorveu a pior parte da dor, que diminuiu convertendo-se em uma pequena moléstia. Lançou um punho para trás e descarregou um tremendo murro na bochecha do soldado, que se queixou agudamente e se cambaleou para trás. Taylor retrocedeu, examinando rápida e cuidadosamente seus arredores.

             Viu que Slane derrotava o seu oponente, lhe dando um rápido golpe no estômago; depois, girou para trás e viu os outros três homens, todos de pé, cercando-a.

             Slane se voltou para ajudar a Taylor e atacou ao homem que tinha mais perto, que respondeu com muita perícia, virando-se no chão e lhe dando um chute que o fez cair ao chão, lançando um grito de dor. Mas não estava derrotado, e conseguiu fugir de um murro de seu agressor, quem caiu ao chão como um peso morto.

             Taylor ainda estava abalada. Esses homens tinham matado Jared. ‘Não!’ Gritou uma voz dentro dela, em uma tentativa desesperada de ignorar tão terrível possibilidade. ‘Não está morto!’ Brandiu sua espada e, de maneira perita, cravou-a no pescoço de um dos homens, que caiu ao chão, tropeçando-se contra outro dos atacantes. Os tristes olhos de Taylor retornaram ao Jared. Ainda não se movia. Seus olhos permaneciam abertos e não piscava. Seu peito estava quieto. ‘Tenho que chegar a ele’, pensou, e deu um passo para diante. O soldado que tinha derrubado de um murro já estava recuperado e se levantou para lhe bloquear o caminho.

             — Não! — gritou outra vez, e o atacou brutalmente, brandindo sua espada uma e outra vez, os metais se chocando. Mas esse soldado era um perito esgrimista, e esquivou de cada um dos golpes de Taylor com pouco esforço.

             Por fim, cansada desse jogo, Taylor lhe deu um chute no estômago, lançando-o para trás. Então se voltou para aproximar-se do Jared, só para encontrar-se com outro homem que a estava ameaçando com sua espada. Levantou sua arma bem a tempo para bloqueá-la, mas a força do choque a fez retroceder uns passos.

           Franziu o cenho, com todos seus sentidos alerta, esperando um repentino ataque de seus opositores. Então, ouviu um ameaçador som de muitos passos no chão de madeira do corredor e se voltou para a porta. Meia dúzia de homens vestidos com os mesmos uniformes negros entrou na habitação, com suas armas prontas para o ataque.

             Taylor amaldiçoou. Eram muitos. Slane se posicionou diante dela, com evidente intenção de protegê-la.

             Entretanto, estranhamente, os homens não atacaram. Ficaram de pé, silenciosos, como estátuas escuras e sem rosto. Depois, o golpe seco de uns passos rompeu o silêncio.

             Um indivíduo alto entrou na habitação. Uma capa da cor do ébano o cobria. Tinha um rosto duro, uma cara com agudos ângulos e pele queimada pelo sol. Um fino bigode desenhava uma estreita linha sobre seu lábio superior. O olhar de Taylor se deteve em seus olhos, momentaneamente congelados pela negritude de seu sério olhar. Taylor notou que Slane ficava muito tenso ao ver aquele homem.

             O desconhecido olhou com desprezo a todos os pressente e de maneira agressiva disse:

             — Fracos imbecis.

             Depois seus negros olhos se posaram sobre Slane e seus lábios se curvaram com ódio. Entreabriu seus escuros olhos.

             — Matem — ordenou — E façam lentamente. Tragam-me a mulher, e a quero viva!

             Deu-se a volta e com ele o fez sua capa, seguindo-o como uma bandeira.

             Taylor sentiu que a derrota brotava dentro dela como uma maré impossível de se deter. Logo que poderia vencer aos primeiros atacantes e agora seu número se triplicou. Soube que a apanharam... E que matariam Slane.

             Ele a olhava, seus olhos cheios de uma inexorável decisão de lutar. A jovem olhou a habitação, em busca de uma maneira de escapar. Mas só havia uma janela. E estavam no segundo andar.

             De repente, os atacantes se moveram para diante; eram como uma negra muralha móvel que ameaçava esmagá-los com seu peso.

             Depois, Taylor viu que Slane se deslocava para frente, movendo-a enquanto a abraçava, apertando-a com força contra seu peito. Moveu-se muito mais rápido, seu instinto os levava à janela, o único lugar por onde podiam escapar... Para a janela... E através dela! Madeira e partes de cristal saíram voando em mil pequenos pedaços a seu redor enquanto seus corpos atravessavam o vidro.

     Enquanto caíam no vazio, Taylor olhou por um milésimo de segundo o incrível céu estrelado e percebeu a brisa do ar livre em seus ouvidos. De repente, sua visão se nublou quando sentiu que seu corpo se movia em meio à queda. Nesse instante foi consciente de que Slane se pôs debaixo dela para ser ele quem recebesse o pior do impacto. As estrelas desapareceram rapidamente substituídas pelo sólido corpo de Slane, que tinha posto a cabeça de Taylor em seu peito.

             Tudo isto aconteceu em apenas uns mínimos instantes. Depois do golpe contra os cristais e a sensação do ar livre em seus pulmões, Taylor sentiu o impacto do golpe. Uma tremenda sacudida, como se tivesse sido lançada ao centro de um selvagem tornado.

             Enjoada, não pôde se mover durante um momento que lhe pareceu interminável; sua cabeça descansava sobre algo firme, mas quente. Sentiu como a almofada humana que a protegia se movia e a empurrava. Tratou de tomar fôlego. Slane a agarrou com firmeza pelo braço, tratando de olhar em seus olhos.

             — Está bem? — perguntou-lhe.

             Taylor moveu a cabeça, tentando desfazer-se da bruma que ameaçava tomando posse dela. Tentou assentir, mas não tinha certeza de ter conseguido. Algo tinha o gosto muito salgado em seus lábios e rapidamente o lambeu. Slane a ajudou a ficar de pé e olhou a seu redor. Tinham tido muita sorte; tinham caído na parte de trás do carro de um mercado, que estava cheio de pacotes de linho, bolsas de condimentos e sacos de grão. A maioria das bolsas tinha se aberto e seus conteúdos se pulverizaram por toda parte, enchendo o chão de pedaços de sal, montanhas de pimenta e uma piscina de trigo.

             Taylor olhou Slane, que nesse momento se estava agachando para recuperar sua arma, mas cujo olhar estava fixo em algo que havia sobre eles. Seguiu o olhar de Slane: na janela havia dois soldados que os olhavam fixamente. Um dos atacantes subiu ao batente, preparado para lançar-se sobre eles e uma repentina onda de adrenalina passou pelas veias de Taylor, sufocando qualquer dor, afogando qualquer sentimento.

             — Vamos — lhe sussurrou Slane, tomando-a pelo pulso e aproximando-a dele. Taylor recuperou sua espada do chão e seguiu ao Slane através do beco. No momento em que dobraram uma esquina, viu um dos homens vestidos de negro saltar através da janela.

             Slane a levou através do beco. Passaram pela parte traseira de umas casas. Voltou-se e se meteu por outro beco. Uma e outra vez Slane se deslocava através do povoado, dobrando e retrocedendo várias vezes até que Taylor perdeu o sentido da orientação. Sua cabeça se perdia no caos de todos os acontecimentos recentes. Desorientada e confusa agarrou-se a mão de Slane como se fora seu salva-vidas.

             Finalmente, saíram do povoado e chegaram ao bosque. Ali, Slane se moveu com rapidez, andando muito depressa, embora sem correr, forçando-a até que as pernas lhe começaram a doer. Então caiu.

             Slane se deteve e olhou a seu redor. Durante uns instantes examinou cuidadosamente as árvores que os rodeavam e, aparentemente satisfeito de sua inspeção, relaxou. Então a olhou com muita atenção.

             — Está ferida? — perguntou-lhe.

             Taylor começou a tremer. Olhou as copas das árvores, examinou o bosque ao seu redor e, finalmente, ficou em pé e começou a retroceder pelo caminho, pelo mesmo lugar pelo que tinham chegado até ali, em direção ao povoado.

             — Tenho que voltar — anunciou ao Slane.

             — Está louca? — O homem se aproximou dela, sombrio como uma nuvem de tormenta.

             Taylor se voltou para ele.

             — Não deixarei Jared assim — objetou.

             Slane a olhou fixamente durante um momento. Sua expressão se suavizou enquanto lhe dizia:

             — Taylor, Jared está morto.

             — Você não sabe!

             — Vi a muitos mortos.

             — E eu também, por isso sei que não está morto!

             Ele conhecia os riscos de ser seu cúmplice, de levá-la a todas as partes consigo... pensou Taylor.

             — Não está morto!

             Jared sabia que era muito perigoso viajar com ela...

     Slane a olhou com uma expressão de acalmada tristeza, seus olhos azuis penetrando até o fundo da alma de Taylor.

             — Não está morto! — Repetia-o apesar de que sabia que suas palavras não eram verdade. Tinha visto a morte inumeráveis vezes; tinha matado a várias pessoas, mas nunca pensou que poderia ocorrer a Jared. Taylor sentiu que a angústia lhe rasgava o coração e sentiu como seus olhos ardiam com abrasadoras lágrimas. Eles sabiam que seu pai enviaria homens a procurá-la algum dia.

             Afastou-se de Slane à medida que as ferventes lágrimas alagavam seus olhos. ‘Foi-se’, pensou. ‘Foi-se, como minha mãe’.

             — Taylor.

             A voz de Slane era um suave murmúrio, uma carícia. Desejava com todo seu coração ceder ante seus sentimentos; queria ser consolada. Quase foi até ele... Quase se deixou tocar por ele.

             Mas não o fez. Como tinha feito anos atrás, desprendeu-se de sua dor e limpou os olhos com a manga, rechaçando qualquer sentimento de autocompaixão. Jared estava morto. Agora ela estava sozinha.

             E teria que se cuidar sozinha. Ninguém a protegeria. Sacudiu os ombros levemente, para desfazer-se também da idéia da morte do Jared, e evitou o olhar fixo de Slane. Mas não pôde controlar as lágrimas que ameaçavam sair de seus olhos, sem importar quantas vezes se dissesse que devia seguir adiante, sem importar quantas vezes se dissesse que era culpa do Jared por... Por lhe oferecer sua amizade.

             Seu lábio inferior tremeu, e logo tremeu seu corpo inteiro. Uma única lágrima se deslizou por sua bochecha.

             Slane pôs um dedo em seu queixo, levantando-a brandamente até que seus olhos se encontraram com os dele. Seu olhar azul profundo penetrou em sua mente como se pudesse ler todos seus pensamentos, todas as suas dolorosas lembranças. Ela não podia esconder a dor que sentia. Nesse momento não, ainda não.

             — Sinto-o — murmurou ele.

     E de verdade o sentia. Notava-se na sinceridade de sua voz, na sombra de dor que aparecia a seus olhos. Mas tudo o que Taylor podia fazer era ficar ali, de pé, contendo os soluços que ameaçavam consumir seu corpo.

             Ele se aproximou, tomou uma mecha de cabelo de Taylor que estava sobre sua bochecha e o colocou brandamente detrás da orelha.

             Taylor lutou contra a ameaça de perder o domínio de si mesma, o abismo escuro que estava esperando tragar-lhe da morte de sua mãe. Colocou sua cabeça contra a palma da mão de Slane e este lhe acariciou a bochecha. Fechou os olhos, mas lhe escaparam umas lágrimas. Sentiu a fria mão de Slane contra sua quente bochecha e, depois, contra sua nuca, enquanto ele a aproximava de seu peito.

             O peito de Slane era forte, morno e seguro. Pôs a testa contra seu peito e sentiu como uns dedos, ao mesmo tempo fortes e ternos, acariciavam seu pescoço. O cabelo caiu como uma cascata sobre seu rosto, cobrindo-o. Era a primeira vez, desde a morte de sua mãe, que deixava que a tristeza se apoderasse dela. Chorou em silêncio; as lágrimas brotaram de seus olhos como uma suave chuva.

             Jared tinha sido mais que um amigo. Em realidade, foi sua única família durante oito anos. Tinha sido seu professor, seu protetor. Conhecia-a mais do que ela mesma. Podia-a consolar e lhe dizer o que terei que fazer. Tinha impedido que fizesse muitas tolices; tinha lhe dado conselhos de enorme valor sobre numerosos assuntos. E ela sabia que sempre podia falar com ele. Pelo que fosse. E agora já não podia.

             Lentamente, seu pranto foi cessando. Limpou os olhos e o nariz e olhou ao Slane, que a contemplava com um olhar aprazível, seu dourado cabelo ondeando levemente com a suave brisa. Então foi quando Taylor se deu conta de que seus braços estavam ao redor dela, abraçando-a. E gostou.

             Slane a soltou, e a jovem sentiu que um estranho tremor percorria seu corpo. Sentiu-se sozinha, desamparada, sem seus braços. Afastou-se dele.

             Um vento frio se deslizou entre eles e a jovem levantou a mão para separar de seu rosto uma mecha de cabelo. O olhar de Slane baixou até o punho de Taylor.

             — Está ferida — disse brandamente.

             Taylor olhou para baixo e viu que tinha marcas por todo o braço e que o punho estava torcido. Devia ser do golpe da queda.

             Ao ser consciente das feridas, sentiu a dor, como se acabasse de recebê-las nesse momento. Mas negou com a cabeça.

             — Não é nada — murmurou. E em seguida notou como surgiam outras dores, pulsações de contusões inumeráveis que pareciam cobrir todo seu corpo.

             Slane a agarrou pela mão. Olhou outra vez o punho com seus impressionantes olhos azul. Taylor seguiu o olhar de Slane, mas não se deteve em sua lesada pele a não ser na tenra forma em que ele a sustentava. Seus compridos dedos se enroscaram em sua mão, protegendo-a, sustentando-a cuidadosamente.

             — Dói-te? — perguntou-lhe.

             Um sorriso torcido se formou em seus lábios.

             — Só quando a movo — respondeu.

             — Pode movê-la?

             — Só se eu quiser sentir dor.

     Slane rodeou o punho de Taylor com suas mãos, e ela o deixou fazer. Permitiu que lhe acariciasse brandamente o pulso. Sabia que não estava quebrada. Mas gostou da forma como ele a tocava, e também sua suavidade e a preocupação que mostrava por ela.

     Durante um momento, não era a mulher que tinha sido caçada. Durante um momento, ele não era o caçador. Só eram um homem e uma mulher.

             — Quanto tempo fazia que o conhecia? — Slane fez a pergunta sem levantar seus olhos para os dela.

             — Oito anos. — Ele levantou o olhar para encontrar-se com o dela e Taylor pôde ver surpresa em seus olhos. Ela sorriu — Fomos juntos do castelo.

     Ele baixou a cabeça para posar os olhos de novo sobre seu punho.

             — Ensinou-te a brigar?

             — Jared dizia que tínhamos duas maneiras de ganhar a vida: a luta e a prostituição.

             Taylor viu a expressão de desagrado no rosto de Slane.

             — Disse que, naturalmente, nós escolheríamos a luta. Por isso me ensinou a brigar.

             Slane brandamente virou a mão de Taylor para inspecionar a palma. Logo deslizou seu dedo indicador sobre os nódulos.

             — Não tinha que fazê-lo.

             — Eu quis fazê-lo.

             — Por que não retornou ao castelo? — perguntou Slane.

             — Depois do que meu pai fez? — resmungou Taylor — Não quero vê-lo... Nunca voltarei a vê-lo.

             — Ele quer te ver.

       Taylor ficou imóvel. Depois de todo esse tempo, finalmente se perguntava onde estava e o que fazia sua própria filha! Uma repentina saudade surgiu, entretanto, dentro de seu peito. De repente quis voltar para onde estavam os amigos que tinha deixado; quis voltar para as terras que tinha amado. Mas a imagem de seu pai dançou zombeteiramente sobre a idílica imagem de seu sonho. Tinha tentado preparar-se para este momento, mas agora que o enfrentava, não sentia coisa alguma a não ser amargura. Soltou-se da mão de Slane.

             — Assim que por isso me buscava?

             Por que se sentia tão traída?

             — Está velho e quer se reconciliar — o defendeu Slane.

             — Quer ter uma herdeira — disse ela — Pois já pode ir esquecendo-se disso, porque não retornarei.

             — Não quer vê-lo? Não pensa falar com ele? — perguntou Slane.

             — Não tenho nada que lhe dizer.

             — É seu pai, pelo amor de Deus. Se quiser te ver de novo, você tem uma obrigação...

             — Um bom conselho, principalmente vindo de um homem que nunca escutou a seu pai — respondeu Taylor.

             Slane se surpreendeu com essa resposta.

             — Sim, eu sei. Sei que seu pai queria que fosse sacerdote. Mas você fugiu... Fugiu ao castelo de seu tio?

             Slane cruzou os braços. Um frio sorriso se desenhou nos lábios de Taylor.

             — E te tornou um cavaleiro. Contra os desejos de seu pai. Não é o mais adequado para me dizer que devo escutar a meu pai.

             — Isto é diferente — disse Slane orgulhosamente.

             — Por quê?

             — Eu tinha uma vocação. E não era a de ser um padre.

             — Eu também tenho uma vocação — disse enquanto lhe dava as costas — E não é a de ver meu pai de novo.

             Slane a tocou no braço, detendo seu movimento.

             — Aonde pensa ir? O que acha que fará? O que pode fazer uma mulher sozinha neste mundo? Matar-te-ão na primeira hospedaria em que pares. Ou talvez no caminho para a hospedaria.

             Taylor se afastou de seu contato.

             — Sobrevivi todo este tempo.

             — Tinha ao Jared — respondeu Slane.

             Ela ficou imóvel, lutando com sua ira e seu duelo durante um momento, olhando fixamente aqueles duros olhos azuis.

             — Não tem um lugar aonde ir — insistiu Slane em um tom de voz mais suave — Vem comigo.

             Taylor sabia que ele estava no certo. Tinha que decidir o que fazer, para onde ir. Mas se negou a pensar nisso. Negou-se a pensar em ninguém que não fora Jared, ou em uns olhos grandes, azuis e reconfortantes.

             — Pode viajar comigo até que decidas o que quer fazer.

             Taylor voltou à cabeça para as vazias sombras do bosque.

             — Dirige-te para as terras dos Sullivan. — Suas palavras eram metade afirmação, metade pergunta.

             — Sim — disse Slane.

             Taylor sentiu que lhe formava um nó no estômago. Não sabia o que fazer. Se Jared estivesse ali, poderiam lhe falar. Mas não estava e não voltaria a estar.

     E tudo era culpa dela. Sentiu umas lágrimas ameaçadoras em seus olhos, mas brigou contra elas rapidamente.

             — Vou te pagar — propôs Slane.

             A afirmação a surpreendeu. Pagar? Sentiu como a risada lhe subia pela garganta

             — Com o quê? — perguntou — Seu ouro está em sua habitação, na hospedaria.

             Slane franziu o cenho e ela quase pôde perceber a maldição silenciosa que saía de seus lábios. Então, Taylor tirou uma bolsa cheia de moedas que tinha pendurada do cinturão. Quando os olhos de Slane se abriram, incrédulos, ela começou rir, embora as lágrimas ainda corressem por suas bochechas.

             — Isso é meu! — exclamou Slane.

             — Encontrei-o em sua habitação — admitiu ela.

             A risada desapareceu e, como se a mão de um gigante a oprimisse, sentiu-se apanhada por um sentimento de tristeza. Era culpa dela. Jared sabia. Ele não queria retornar, mas ela insistiu porque queria ver o Slane. E agora seu orgulho tinha matado ao único homem no mundo que tinha sido seu amigo. Tinha pensado em aliviar a preocupação do Jared com uma bolsa cheia de moedas. Em troca, agora sustentava a bolsa em sua tremente mão, sem podê-la apresentar a ninguém mais que a seu dono.

             Slane deu um passo para diante e Taylor pensou que ia tomar a bolsa. Mas não o fez. Aproximou-se para pôr seus braços ao redor dela, abraçando-a.

             Taylor ficou tensa, resistindo instintivamente a seu consolo. Mas não pôde agüentar sua agonia, a horrível dor de sua perda. Recostou-se sobre ele e o seguiu a um lugar onde havia muitas pedras.

             Exausta, Taylor deixou que Slane a acomodasse no chão, entre um pinheiro e uma pedra grande.

             A bolsa das moedas ficou no chão, perto de seus pés, esquecida.

 

       Slane olhou atentamente a Taylor, que dormia recostada contra seu corpo. Dormia tão profundamente que nem sequer o estrondo dos cascos de um milhão de cavalos tivesse podido despertá-la. Acariciou suas costas do pescoço com a ponta dos dedos, e sentiu sua pele suave. Estava maravilhado de que os hematomas tivessem desaparecido por completo de seu corpo, deixando uma pele lisa e imaculada depois da saída do sol. Os lábios já não estavam inchados, mas sim, pelo contrário, eram encantadores, cheios e sensuais. Surgiu nele um repentino desejo de tocá-los.

       Horrorizado por seus próprios pensamentos, Slane a acomodou no chão e se afastou dela. Taylor gemeu brandamente e procurou o calor que ele tinha deixado no chão. ‘Meu Deus!’ disse-se Slane, ‘O que está acontecendo comigo? Devo pensar na Elizabeth, que está me esperando. Sim, Elizabeth’.

       Passou a mão sobre seus olhos, tratando de fazer desaparecer a fadiga que notava neles. ‘Devo estar cansado e confuso’.

       Entretanto, seu olhar retornava, como se estivesse enfeitiçado, para Taylor. ‘Se não fora por mim, ela não estaria metida nisto. Fui eu quem a encontrou, fui eu quem a meteu neste inferno da fuga dos homens do Corydon e da perda seu amigo’.

       Passeou meditando, enredando os dedos em sua loira cabeleira. Se ele não a tivesse encontrado, certamente o teria feito outro. Era evidente que estava melhor com ele do que nas mãos de algum mercenário que só procurasse a recompensa que seu irmão tinha oferecido por ela! Slane tinha certeza de que todos os mercenários da França a estavam procurando nesse preciso instante.

       O sol apareceu firmemente sobre o horizonte e o céu recuperou a vida com o iminente amanhecer. Slane sabia que deviam continuar seu caminho logo. Não tinham conseguido pôr à suficiente distancia entre eles e Corydon. Dez milhas era muito pouco. Mesmo assim, ele não queria despertá-la.

       Seu olhar voltou para ela, que permanecia escondida entre uma rocha e um pinheiro. Não podia despertá-la. Necessitava toda sua força para enfrentar ao futuro. Deixar-lhe-ia dormir, dar-lhe-ia um momento de paz, de descanso.

       Fixou o olhar no caminho que se estendia frente a eles, o caminho que os levaria a castelo Donovan.

 

             Taylor não tinha terminado ainda de abrir os olhos quando tudo o que tinha passado voltou para ela em velozes imagens sucessivas gravadas em sua memória: o corpo do Jared rompendo a porta, homens encapuzados, de negro, brandindo espadas contra ela, Slane empurrando-a pela janela, Slane abraçando a de maneira reconfortante e acalmando sua angústia. De repente se incorporou, sentou-se e lançou um rápido olhar a seu redor, mas a figura de Slane não aparecia por nenhuma parte.

     Saiu da sombra que a rocha e o pinheiro lhe brindavam e deixou que os raios do sol a banhassem, tentando forçar suas pálpebras para que a protegessem da luz brilhante. O sol estava quase diretamente sobre a cabeça. Levantou o olhar para observar a esfera dourada com assombro. Nunca dormia tanto tempo! Percorreu o lugar com o olhar, até que finalmente viu Slane, que se dirigia para ela com as mãos levantadas a altura do peito, sustentando nelas um punhado de frutos silvestres.

             Por um instante se surpreendeu: Slane parecia um deus da antigüidade, com o cabelo dourado ondeando sobre os ombros, a pele bronzeada beijada pelo sol, os olhos azuis brilhando como as mais preciosas gemas. Mas não foi esse radiante brilho o que chamou sua atenção; foi à maneira como ele a olhava, com certa reserva.

             Taylor olhou os frutos que ele levava nas mãos e logo subiu o olhar até encontrar-se com seus olhos. Ele levou um dos frutos à boca.

             — Descansaste? Porque já é hora de partir. — Ofereceu-lhe um dos frutos.

           Taylor aceitou o fruto e o estudou distraidamente, sem lhe dar nenhuma atenção. Reataram seu caminho para o castelo Sullivan. Ela não queria ver de novo seu pai. Vê-lo agora não mudaria o passado, não devolveria sua mãe.

             — Slane, acho que deveria saber que não tenho nenhuma intenção de retornar ao castelo Sullivan.

     Levantou o olhar e viu nele um gesto de desaprovação.

             — Essa decisão é você que deve tomar. Mas tenho certeza de que há outros mercenários...

             Ela levantou a mão que tinha livre.

             — Sei. Já me disse isso. Mas o que ainda não me disse é quem eram esses cavaleiros negros.

             Slane respirou profundamente.

             — São os homens de Corydon. Seu pai e meu irmão, Richard, uniram-se para combater Corydon, quem ameaçou apoderando-se de suas terras.

             — Corydon?

             — Faz cinco anos, ele se apoderou das terras que há ao oeste de Sullivan. Corydon acredita que como seu pai é velho já não representa uma grande ameaça. Ele só deixa que o tempo passe.

             — E no que se supõe que poderia ajudar minha volta?

             — Os cavaleiros do castelo Sullivan estiveram bastante inquietos. Acreditam que, sem nenhum herdeiro, se seu pai morrer, o castelo Sullivan cairá facilmente em poder do Corydon. Muitos deles já desertaram. Seu pai necessita de um herdeiro.

             Ela levou outro fruto à boca e o mastigou pensativa.

             — Bom, e o que seu irmão tem a ver com tudo isso?

             — Richard esbanjou suas riquezas, esgotando sua fortuna. As defesas do castelo Donovan são muito precárias. Não tem muito tempo: em menos de dois meses não terá suficiente ouro para pagar a seus cavaleiros.

             — Assim que meu pai tem o ouro e Richard tem os cavaleiros.

             — Seu pai foi quem pediu ajuda a Richard para te localizar.

             — E em troca Richard recebe o ouro — afirmou Taylor — E é aí onde aparece você.

       Slane assentiu.

             — Richard me pediu que te encontrasse e procurou a ajuda de um grupo de mercenários. Foi muito insistente com o assunto. — Slane suspirou e contemplou o céu durante um largo momento — Taylor há muito mais em jogo do que imagina... O bem-estar de dois reinos, de centenas de famílias, depende de seu retorno ao castelo Sullivan.

             — Isso é verdade? — Tragou saliva, imitando um gesto de preocupação. Seus olhos eram tão azuis, tão condenadamente... puros — E o quê?

             Taylor viu o desconcerto no olhar assombrado de Slane e em sua boca aberta, e sentiu uma repentina onda de satisfação. Então os lábios do cavaleiro se fecharam incrédulos.

             — Talvez não tenha entendido o que te disse.

             — Entendi-o perfeitamente. É só que não me importa. Onde estavam eles, faz oito anos, quando minha mãe ardia na fogueira? Onde estavam eles quando esses homens assassinaram o Jared? — Taylor negou com a cabeça — Não, Slane, não me importa o que aconteça a essa gente.

             — Mas...

             — Não há “mas”. Vivem sem cuidado os pobres camponeses que trabalharam duramente toda sua vida. Acaso não o temos feito todos?

             Slane a olhou intensamente por um momento.

             — Por que não vem comigo ao castelo Donovan? Ali estará a salvo do Corydon e poderá ganhar tempo para decidir o que quer fazer.

             Taylor já conhecia sua decisão. Ela nunca retornaria ao castelo de seu pai. Nunca. Mas a tentação de um leito quente e um jantar bem preparado era muita principalmente para que ela, tão faminta, ignorasse-a. Por outra parte, dar-lhe-ia tempo para pensar a respeito de seus planos para o futuro.

             — Já veremos — murmurou.

             Slane assentiu e começou a caminhar para o norte. Taylor se uniu a ele.

             — Vamos fazer todo o caminho andando? — perguntou.

             — Só até que consigamos cavalos — respondeu Slane e lhe ofereceu o punhado de frutos que ainda levava na mão. Esta vez, Taylor os recebeu com agrado e comeu um bom punhado.

 

       Depois de terem caminhado a bom passo durante mais de meio-dia, sem descanso, Taylor e Slane chegaram a um formoso prado emoldurado por uma parede de árvores a um lado e um rio ao outro.

            — Deteremo-nos aqui — anunciou Slane observando o sol poente.

       Taylor só encolheu de ombros e se aproximou do rio para limpar o suor acumulado durante a viagem.

       Slane a observou durante um bom momento. Taylor não tinha tido tempo de fazer uma trança essa manhã, e levava o cabelo solto, formando encantadores cachos sobre suas costas. Tinha-a visto passar a mão por esses formosos cachos de cabelo em repetidas ocasiões com o passar do dia, e em todas essas oportunidades não tinha podido a não ser sorrir. Felizmente, não tinha trançado o cabelo; gostava muito da maneira como a luz do sol refletia reflexos azulados em cada mecha. Imaginou inclusive o que sentiria ao tocá-lo. Jamais tinha prestado tanta atenção ao cabelo castanho da Elizabeth, também formoso. Claro que rara vez podia vê-lo; ela sempre o tinha recolhido e escondido sob uma dessas horríveis toucas ou chapéus ridículos que estava acostumada a usar. Slane caminhou para a metade da pradaria e tirou a túnica. ‘Uma boa hora de exercício é do que necessito’, pensou. ‘Somente minha espada e eu’. Gostava de treinar sem camisa, com o quente sol banhando sua pele. Sempre se sentia forte sob o resplendor do sol, forte e cheio de energia. Removeu sua espada da bainha e viu seu reflexo no reluzente metal. De repente ouviu algo e elevou a cabeça para escutar... Sim, parecia um chapinho na água. E então a viu. Taylor se encontrava ajoelhada à borda do rio; seu torneado traseiro apontava diretamente a ele.

       Uma corrente de desejo explodiu em seu interior atravessando todo seu corpo. Foi tão alarmante e inesperado que teve que voltar-se para evitar olhá-la. De onde provinha aquilo? Perguntou-se, tentando combater a repentina corrente de paixão que viajava como uma corrente violenta por suas veias. Respirou profundamente, tentando acalmar-se, mas teve que passar um largo momento antes que seu desejo se atenuasse, convertendo-se em um impulso que pudesse controlar.

       Brandiu sua pesada espada, sujeitando-a com as duas mãos, os músculos de ombros e antebraços se esticaram com a já conhecida manobra. Moveu os braços formando um amplo círculo no ar para levar a espada lentamente sobre sua cabeça. Manteve-se assim durante um momento; a espada ainda sobre ele e a luz decrescente do entardecer arrancando labaredas da espada. Seu cabelo dourado lhe banhava os ombros como uma cascata que se estendia até a metade de suas costas.

       Slane se concentrava em esticar seus músculos, treinando-os para entrar em ação quando fosse necessário, afiando assim sua destreza para a batalha. E para falar a verdade já estava preparado: era um guerreiro, um cavaleiro. Tinha enfrentado e derrotado a todos os inimigos que cruzaram seu caminho.

             Lentamente, baixou a arma levando-a de um lado ao outro de seu corpo, até que a espada ficou apontando para o rio. E então ficou congelado.

             Uns cativantes olhos verdes o observavam diretamente. Taylor se encontrava sentada com um joelho recolhimento contra seu peito, olhando-o com atenção. Mas não havia traços de sarcasmo em seu olhar. Não, não era o irreverente e zombeteiro olhar a que ele já estava acostumado. Foi então quando ela voltou seu rosto e uma comprida e escura mecha de cabelo caiu sobre um de seus seios. Durante um momento, ele acreditou sentir que o observava com profunda admiração, como o faziam todas as damas da corte. Havia surpresa naqueles olhos. Mas certamente o tinha imaginado, pois Taylor não se parecia com as mulheres que tinha conhecido até então. Era muito diferente. Deu um passo para ela.

             — Você não pratica? Não treina? — perguntou-lhe.

             Taylor cravou nele os olhos, outra vez cheios de sarcasmo.

             — Tenho certeza de que haverá suficientes oportunidades para praticar. Mas neste momento estou muito cansada.

             Slane a observou enquanto ela se acomodava sob os ramos de um imenso carvalho, e logo lhe deu as costas novamente para voltar a concentrar-se em sua atividade.

             Taylor permaneceu observando-o em silêncio. Não estava cansada absolutamente. Estava agitada, e a estranha agitação aumentava dentro dela à medida que contemplava os movimentos daquele homem que, não sabia por que razão, de repente enchia todos seus pensamentos.

 

             — Slane — sussurrou Taylor, tocando levemente o ombro de seu novo companheiro de viagem — Podemos nos deter no botequim depois de nos escapulirmos pelas ruas?

             Slane a olhou e franziu o cenho; a irritação que sentia se refletia com claridade em seu olhar.

             — Não nos escapulimos — disse olhando-a aos olhos. Taylor soltou uma risada zombadora.

             — Estivemos abraçando as sombras desde o momento em que chegamos a Sudbury esta tarde. Eu chamo a isso de escapulir-se.

             — E por que falas em sussurros? — perguntou Slane.

             — Acaso não é o que se faz quando a gente anda se escapulindo?

             Um mercador passou em uma carruagem tão carregada que balançava enquanto se deslocava pela desnivelada e poeirenta estrada que atravessava o povoado de Sudbury. Slane agarrou Taylor pelo braço e a levou para a sombra.

             — Não estamos escapulindo — insistiu.

             Taylor levantou os braços, rendendo-se.

             — Bem, bem. Rendo-me. Podemos nos deter no botequim?

     Slane assentiu.

             — Necessitamos comidas e bebidas.

             — Poderia tentar comprar um par de cavalos... — Taylor então dirigiu seu olhar para um pequeno estábulo situado junto a uma ferraria próxima.

             — Não — disse enfaticamente Slane — Não devemos nos separar.

       Taylor olhou fixamente os olhos azuis de Slane e assentiu mostrando que estava de acordo. A única coisa que queria nesse preciso instante era uma boa cerveja para acalmar sua sede. Não queria discutir com aquele teimoso nobre; não queria discordar em assuntos tão insignificantes como esse. Só estava cansada de tanto caminhar, doíam-lhe as pernas e tinha os pés inchados.

       Continuaram seu caminho, passando pelo estreito espaço que havia entre as casas. Alguns mercados tinham montada bancas na rua para exibir suas mercadorias, mas a maioria usava a casa como vitrine de sua loja. Decoravam-na com coloridos toldos e letreiros de madeira esculpidos à mão onde anunciavam os bens que tinham à venda. Os camponeses enchiam as ruas, rodeando as lojas e as entradas das lojas, regateando. O dia de mercado estava em pleno apogeu.

             Slane se deteve frente a uma carreta para negociar com um mercador de couros. É obvio, tentava adquirir alguns frascos, alforjes e garrafas para transportar vinho. Taylor caminhava pensativa à frente dele.

             Ela ziguezagueava atravessando as fileiras de lojas, inspecionando as fatias de pão fumegante expostas em um suporte, em uma padaria, e degustando uma parte de carne salgada de veado sob o toldo de outro mercado. Então se aproximou da tenda de um vendedor de condimentos. Potes de ervas picadas, pimentas e sal enchiam sua comprida mesa de madeira. Taylor ficou olhando uma enorme tigela de carvalho cheio de alhos frescos. Uma tremenda onda de tristeza alagou seu coração. Jared adorava visitar os mercados de especiarias. O alho sempre tinha sido seu condimento favorito. Sempre lhe dizia que fedia durante dias depois de comê-lo, mas ele se limitava a rir dela e lhe dizia que preferia cheirar a alhos que cheirar aos horríveis perfumes com os que os nobres se empapavam. Ele ficava falando com os mercadores durante horas, discutindo as melhores maneiras de usar anis, gengibre ou pimenta para realçar o sabor da comida. Era o homem mais feliz do mundo quando discutia sobre a melhor maneira de condimentar um coelho ou um pato.

             — Você gosta de minha cebola?

             Taylor olhou ao mercador que se dirigia a ela, um homem surpreendentemente magro, com uma cara cheia de sardas e uns poucos cabelos de barba vermelha saindo do queixo.

             — O quê? — No primeiro instante não tinha certeza de que o homem se dirigiu a ela.

             — Minhas cebolas. Vejo que gosta delas.

             Confusa, Taylor o olhou com ar interrogativo. O sardento mercador apontou com o dedo a seus olhos.

             — Você pode comprar ao menos uma cebola, não?

             Taylor passou a mão pela borda de seus olhos e os encontrou úmidos.

— Sim, tem boas cebolas — disse, com uma voz ligeiramente mais forte que um suspiro — Muito boas cebolas.

             Seguiu caminhando com muito cuidado, assegurando-se de que estava sempre protegida pelo olhar de Slane. Secou as lágrimas com a mão, esperando que Slane não tivesse sido testemunha desse momento de debilidade, e arrumou uma mecha de cabelo que se liberou da trança. Olhou a rua, os pedestres que avançavam com pressa para chegar a seus destinos.

             Quando olhou para o outro lado, um brilho de luz na metade da rua chamou sua atenção. O objeto estava meio coberto pelo pó, mas Taylor podia ver um brilho prateado sob o sol. Agachou-se e voltou a se levantar, sustentando uma enlameada jóia entre suas mãos. Então alguém gritou de uma das tendas:

             — Ladrão!

             Taylor dobrou levemente os joelhos e sua mão voou ao punho de sua espada. O pequeno mercador adornado com jóias de ouro não estava apontando seu furioso e tremente dedo para ela, a não ser para um homem vestido com malhas esfarrapadas e uma suja túnica que estava parado junto a sua banca. Tinha uma espessa barba coberta de migalhas do que devia ser sua última comida. Não parecia um ladrão. A maioria dos ladrões teria se deslocado para a multidão para desaparecer no meio das pessoas, mas esse homem se deteve, simplesmente, ficando parado com uma expressão de desconcerto, quase de medo.

             — Ladrão! — gritou o mercado de novo, enquanto se lançava sobre o homem e o capturava bruscamente pelo braço, para empurrá-lo contra o mostrador do quiosque — Devolva-me esse anel!

             O barbudo abriu os olhos, surpreso.

             — Eu... eu não roubei nada — protestou timidamente.

             Taylor olhou o anel que se encontrava na palma de sua mão e franziu o cenho levemente.

             — Uma jóia interessante — murmurou uma voz familiar com um tom provocador. Levantou o olhar para ver Slane estudando o anel em sua mão — O comprou com essa bolsa repleta de moedas que leva sempre contigo? — Taylor fez um gesto de desconcerto.

             — Encontrei-o na rua — respondeu ela.

             Num canto próximo a eles, o mercador sujeitava com força o punho do homem de barba, empurrando sua mão sobre o mostrador. O mercador se voltou e pegou uma comprida e ameaçadora faca que estava pendurada na parede atrás dele.

             — Acredito que isso pertence ao mercador, você não acha? — perguntou Slane. Taylor abriu os lábios para responder, enquanto que o mercado gritava ferozmente ao homem.

             — Sabe você o que faço com os ladrões?

             Slane a interrompeu antes que pudesse dar qualquer explicação.

             — Deixaria que cortassem a mão desse homem só para poder usar esta jóia? — disse sem esconder à ira em seu tom.

             Taylor abriu seus olhos ante a dolorosa acusação. Tão má opinião tinha dela? De qualquer modo, deixaria que pensasse o que quisesse. Deu a volta e se afastou dali.

             Slane a agarrou pelo pulso, apertando-a dolorosamente e forçando-a assim a abrir a mão. Tirou-lhe o anel. Logo, dirigiu-se ao mercador quando estava a ponto de deixar cair a faca sobre o punho imóvel do homem de barba.

             — Detenha-se! — ordenou-lhe — Eu tenho seu anel!

       O mercador olhou Slane e baixou lentamente sua faca. Ainda mantinha o camponês aprisionado.

             — Onde está? — perguntou o mercador bruscamente.

             Slane estendeu a mão e deixou cair o anel em cima do mostrador.

             — Deixe-o ir.

       O mercador lhe lançou um olhar de suspeita.

             — E como você o encontrou? —perguntou-lhe agressivamente.

             — Jogado na rua. — Slane deu um passo para o mercador, sua mão empunhando firmemente a espada, pronto — Deixe que este homem se vá.

             O mercador obedeceu e soltou o braço. O homem não desperdiçou um segundo e saiu correndo o mais rápido que pôde através da multidão, desaparecendo entre as pessoas. Slane deu outro passo para o mercador.

             — Espero que da próxima vez não castigue a um homem antes de haver se assegurado de que é o culpado.

             Taylor estava esfregando seu punho dolorido. Estava pensativa e ausente. Tão condenadamente nobre. E se o anel que ela encontrou não fora o mesmo que o mercador havia perdido? E se o homem realmente o tivesse roubado e atirado no meio da rua para que um cúmplice o recolhesse? O anel teve que chegar ali de algum jeito, não tinha ido por seus próprios meios. Talvez o homem não fosse tão inocente como Slane acreditava. Negou com a cabeça. Slane e ela eram muito diferentes. Nunca veriam as coisas da mesma maneira. Além disso, ela teria devolvido o anel se Slane lhe tivesse dado a oportunidade de fazê-lo.

             Taylor continuou caminhando pela rua. Slane apressou o passo para alcançá-la, e em questão de segundos conseguiu caminhar a seu lado, adotando seu ritmo.

             — Por que não devolveu o anel ao mercador? Acaso não te importava que esse homem pudesse perder a mão?

             Taylor se deteve momentaneamente e contemplou o vasto céu. Seus olhos tinham o mais sutil toque de tristeza.

             — Deve ter muito má opinião de mim.

             Slane se deteve seu lado.

             — Talvez não entenda sua maneira de pensar. Fui educado para seguir um rígido código de comportamento. Um código que, ao que parece, você não segue.

             — O único código que eu sigo é aquele que me ajuda a me manter viva — disse ela — Durante oito anos estive olhando constantemente por cima de meu ombro para cuidar das costas. Suspeito de tudo... E de todos. — Olhou-o durante um largo momento sem entender sequer por que confiava nele quando tudo o que tinha aprendido lhe ditava que se afastasse de Slane sem olhar atrás.

             — Não tem que suspeitar de mim — sussurrou-lhe Slane — Estou aqui para te ajudar.

             Taylor o olhou fixamente aos olhos tratando de ver além da evidente honestidade que brilhava através de seus gestos. Mas não podia.

             — Não posso confiar em ti — replicou, e continuou seu caminho.

 

             O silêncio reinava na sala de estar da estalagem Sudbury. A maioria das mesas estava vazia. Slane examinava Taylor com o olhar. Fazendo caso omisso ao frio, ela tinha insistido em sentar-se à mesa mais afastada da fogueira que esquentava o lugar. Recostou-se no assento e descansou um pé de maneira casual sobre a borda da cadeira. De propósito, deu as costas ao fogo, e ficou olhando sua cerveja fixamente como se estivesse meditando algo. Seu jantar permanecia intacto.

             Slane observava a forma em que as coloridas luzes do fogo dançavam como pequenas fantasias de diabo sobre o negro cabelo de Taylor. Era uma mulher vibrante, cheia de vida. Não obstante, também estava cheia de misteriosos pensamentos que ele não tinha a esperança de chegar a compreender. Possivelmente a analisava demais e tirava muitas conclusões sobre ela. Afinal, era só uma mulher.

             Slane voltou a se concentrar em seu jantar e levou uma perna de cordeiro a sua boca, arrancando um enorme pedaço com uma dentada.

             — O que está pensando? — perguntou com a boca cheia.

             Taylor levantou o olhar de sua cerveja.

             — Por acaso seu código não diz nada sobre o conveniente ou inconveniente de falar com a boca cheia? — disse em tom de brincadeira.

             Slane se sentiu terrivelmente envergonhado, o que lhe foi muito incômodo porque nunca se havia sentido envergonhado. Cobriu a boca com a mão e deixou de olhá-la para terminar de mastigar o bocado de cordeiro. ‘Maldita seja por me fazer sentir como um imbecil. E me amaldiçôo por dar importância ao que pensa’.

             — Estou pensando no que farei no futuro — disse ela finalmente, rompendo o silêncio.

             Slane a olhou de novo, surpreso, e devolveu a perna de cordeiro ao prato.

             — Pensei que já tínhamos chegado a um acordo. Pensei que viria comigo ao castelo Donovan.

             — Eu te disse que nós veríamos isso.

             Slane pensou em deixá-la ir sozinha ao castelo Donovan. Sua simples presença se tornou inquietante. Mas também pensou no outro juramento que tinha feito a seu irmão. Um juramento que sua honra não lhe permitia romper.

             — Há outras pessoas te buscando. Ainda que me deixasse, acabaria da mesma forma no castelo.

             — Ou poderia não fazê-lo.

             — Acredita de verdade que está preparada para viver sua vida dessa maneira, olhando constantemente sobre seu ombro para cuidar das costas?

             — Faço isso há oito anos.

             — Pois já é hora de mudar — disse Slane — Enfrente o seu passado e ponha fim a esta situação.

             — É muito fácil para ti dizê-lo, Slane — respondeu ela — Não é você quem deve fazê-lo.

             Slane suspirou, incrédulo.

             — Já o fiz — murmurou — Uma vez. — Nesse momento sentiu o olhar curioso e interrogativo de Taylor sobre ele.

             — Foi quando desafiou o seu pai? Quando te converteu em cavaleiro?

             Ela observava com atenção seu copo de cerveja, o que deu a Slane uma não desejada, mas irresistível oportunidade para estudar cuidadosamente suas feições. Seus cílios compridos que lhe acariciavam as suaves bochechas enquanto olhava a bebida. Os lábios cheios e cativantes se umedeceram com a resplandecente cerveja. Por Deus! Não havia maneira de negar a beleza de suas feições. Se estivesse vestida com um traje de fino veludo e não com a rústica armadura de couro que estava todos os homens da Inglaterra brigariam por sua atenção e por sua mão. Seu olhar passeou pelo formoso cabelo de Taylor, tão escuro como o céu da noite, e chegou a seu suave e elegante pescoço de bronzeada pele, tão cremosa, tão perfeita. De repente afastou seu olhar de Taylor, incômodo, ao dar-se conta de que poderia observá-la durante todo o dia sem deixar de assombrar-se por sua beleza. Do que estavam falando? Ah, sim. Seu pai.

             — Sim, foi um escândalo — disse Slane — Meu pai queria me converter em sacerdote, em um servidor da igreja. Já havia um cavaleiro em casa: meu irmão Richard. — Riu amargamente, acomodando as pernas em uma nova posição — Pode imaginar-me vestido de sacerdote?

             — Não — respondeu Taylor de maneira terminante. Slane estava assombrado pelo que perfeitamente poderia ser a primeira resposta sincera que lhe tinha dado até o momento.

             — Eu tampouco — ele admitiu — Assim que escapei e fugi ao castelo de meu tio. Ele me treinou e me patrocinou em segredo.

             — Seu pai deve ter se zangado muito.

             — Estava muitíssimo mais que zangado. Não só se negou a falar com meu tio depois daquele incidente, como também me vetou, proibiu-me a entrada em meu lar e ameaçou me deserdar.

             — O normal, em seu caso, seria que outros cavaleiros do reino lhe rechaçassem, que te convertesse em um guerreiro errante, sem lar — disse Taylor sem aparente emoção.

             — Sem honra. — Os olhos de Slane se fecharam levemente — Mas meu irmão Richard convenceu meu pai que voltasse a me admitir. Disse-lhe que abandonaria o castelo se não me permitia retornar a casa com minha honra intacta. Meu pai necessitava um herdeiro, alguém responsável como Richard. Assim finalmente aceitou. — Riu com tristeza, ao mesmo tempo em que a amargura se fazia notável em sua voz — Mas não retornei nesse momento. Mantive-me afastado durante anos do castelo Donovan, assistindo a torneios e brigando em guerras locais.

             — Por que não voltou para casa? — Taylor parecia cada vez mais interessada.

     Agora foi Slane quem olhou meditativo seu copo de cerveja.

             — Retornei — respondeu. Mexeu a bebida com suavidade e finalmente tomou um comprido gole — Faz um ano. Estava preparado para perdoá-lo por tudo, para afrontar meu novo futuro. Mas meu pai morreu justo antes de minha volta.

             — Lamento-o — sussurrou Taylor.

             Slane encolheu os ombros.

             — Richard já era o dono do castelo Donovan.

             Taylor sorriu, negando com a cabeça.

             — Não é essa a história que eu ouvi.

     Slane lhe dirigiu um olhar de surpresa.

             — Não? O que está dizendo? — Percebeu uma estranha satisfação nos olhos de sua companheira de viagem, um certo ar travesso que emanava dela zombeteiramente.

             — O que eu ouvi, o que me contaram quando ainda vivia no castelo de meu pai, foi que você deixou o castelo para achar seu próprio destino. Atravessou muitos povos procurando uma maneira de demonstrar seu valor. Por fim, chegou a um povo assediado por um dragão, ao que, é obvio, matou, te convertendo no herói do lugar. De igual maneira, nos povos vizinhos lutou contra um gigante, matou a um feiticeiro e salvou a uma donzela, segundo alguns uma princesa, de ser seqüestrada. Inclusive em uma história encontrou o Santo Graal.

             O cavalheiro não pôde conter a risada.

             — É um trabalho muito impressionante para alguém que só assistiu a torneios e brigou em pequenas guerras, não acha? E o que me diz de ti? Não mataste a nenhum dragão?

           Ela negou com a cabeça enquanto um entretido sorriso se desenhava em seu rosto.

             — Só matei a alguns dragões de tipo humano — respondeu — Você sabe muito bem que eu não faço coisas heróicas.

             — Me conte então suas aventuras depois de deixar o castelo. Aonde foi? O que fez?

             O olhar de Taylor mudou sutilmente. O brilho alegre de seus olhos foi substituído por outro de dor.

             — Jared... — disse ela, e ficou calada. A simples menção de seu nome provocava que lhe fizesse um nó na garganta. Fechou os olhos por um instante e Slane pôde ver como lutava para afastar a ameaçadora tristeza de seus olhos. Olhou a Slane e continuou — Jared não sabia o que fazer comigo. Não tenho certeza sequer das razões pelas quais ele queria seguir comigo, mas me alegra que o tenha feito. Fui insuportável no princípio. Teimosa, voluntariosa, desafiante. Não tinha nenhum respeito com autoridade.

             Slane soltou um risinho.

             — E o que mudou tudo isso?

             Taylor o olhou sobressaltada, e sorriu. Continuou como se não a tivesse interrompido.

             — Finalmente, fomos à casa de um velho amigo do Jared. Vivia em uma carreta cigana no bosque Grei. Chamamos isso de nosso lar durante uma temporada. Jared me treinou, ensinou-me a lutar. E Alexander... bom, digamos que eu era muito jovem e muito ingênua então. Apaixonei-me perdidamente do Alexander.

             Slane sentiu uma aguda dor no coração. Sua mão apertou compulsivamente o copo de cerveja.

             — E esse tal Alexander te correspondeu?

             Ficaram em silêncio uns momentos. Finalmente Slane levantou o olhar para Taylor. Ela o estava olhando de uma maneira muito estranha.

             — Não acredito que isso seja de sua incumbência.

             Slane assentiu com a cabeça. Desgostou-lhe muito o sentimento de ansiedade que atravessava seu corpo. Escolheu, então, finalizar a conversação a respeito de seu passado. Havia coisas que ele não deveria saber. Havia coisas que ele não queria saber.

             — Me desculpe, por favor — Taylor se desculpou enquanto se levantava da cadeira — Estou cansada, muito cansada.

             Slane se levantou e assentiu de novo, lhe desejando que passasse uma boa noite. Seguiu-a com o olhar enquanto desaparecia pelas escadas para seu quarto. Então levantou o copo e bebeu um profundo gole.

             Essa mulher o afetava muito mais do que estava disposto a admitir. Isso devia mudar.

 

       Taylor se mantinha acordada em seu leito de feno, pensando no que Slane lhe havia dito fazia um momento. ‘Enfrente a seu passado e ponha fim a esta situação’.

       Tinha-lhe perguntado se estava preparada para viver sempre em guarda, olhando sempre para trás, sobre seu ombro, para proteger as costas. E lhe tinha respondido que levava oito anos fazendo-o. Mas Jared tinha estado junto a ela ao longo desses oito anos, cuidando dela, gostando dela. Poderia fazê-lo sozinha agora?

       Talvez estivesse sendo vencida pelo cansaço desses oito compridos anos; oito anos mendigando trabalhos e lutando por cada prato de comida. Talvez fosse o fato de que por fim estava aceitando a realidade da morte de Jared... A horrível realidade de que Jared nunca voltaria a brigar a seu lado, nunca compartilharia com ela um sorriso secreto ou um abraço delicado. Sentia muita saudade dele. Talvez simplesmente se estivesse esgotada e não podia pensar. A única coisa que sabia com certeza era que sentia uma nova determinação fervendo em seu sangue. Sabia também que só havia uma coisa que pudesse acalmar esse tremendo desgosto.

       Taylor desceu as escadas da estalagem, muito tarde; dirigiu-se sigilosamente para o hospedeiro e lhe entregou um pequeno pergaminho enrolado. Ele tomou e o olhou por um momento antes de voltar seu olhar para a jovem.

       — Entregue-o ao Corydon — ordenou que — Diga-lhe que é da parte de Taylor Sullivan.

 

       Depois de uma noite agitada, cheia de escuros sonhos nos que Jared e uns homens vestidos de negro a observavam das sombras de sua mente, Taylor se levantou. Era um dia luminoso. Os quentes raios do sol, embora não pudessem apagar seus sonhos inteiramente, ajudaram a diminuir a sensação incômoda que ainda não a tinha abandonado totalmente, depois da noite que tinha passado, infestada de pesadelos e maus presságios.

       Vestiu-se o mais rápido que pôde e desceu as escadas para reunir-se com o Slane. Assim que entrou no salão, intuiu um perigo, algo que não podia precisar um sentimento ameaçador que a fez ficar alerta. Observou o salão com atenção. Cerca de metade das mesas estavam ocupadas por granjeiros ou guerreiros. Nenhum dos guerreiros levava armadura. Viu como os ombros de Slane se relaxavam ao tempo que se dirigia para um homem que carregava uma bandeja cheia de copos de cerveja.

       Taylor se dirigiu para o fundo do salão e se instalou em uma mesa perto do corredor. Enquanto se deslizava no assento, voltou a examinar o salão, fazendo um inventário de seus ocupantes. Um cansado granjeiro levantou um copo de cerveja para seus lábios, os escuros círculos debaixo de seus olhos contavam a história de um homem que não tinha dormido muito ultimamente. Taylor se perguntou se também em seus olhos se notaria o cansaço, mas não chegou a responder-se porque lhe chamou a atenção uma mesa onde estavam sentados vários guerreiros, todos embebidos em uma séria conversação. Um dos homens dirigiu seu olhar para o Taylor, mas em seguida voltou sua atenção para seus companheiros. Seguiu percorrendo o salão com o olhar e observou ao Slane, que estava falando com o hospedeiro. Tratou de olhar para outro lado, mas havia algo em Slane que fez com que seu olhar se mantivesse sobre ele. Tinha uma figura muito imponente, era dois palmos mais alto que o hospedeiro. Suas fortes mãos repousavam em seus quadris enquanto falava. A forte textura de seus músculos podia ser vista plenamente debaixo de sua túnica de tecido translúcido. Sua loira juba caía sobre seus ombros como uma sorte de cascata dourada. Quando ele sentiu que Taylor o olhava, sorriu-lhe suave e prazenteiramente. Devolveu-lhe o sorriso.

       Tranqüilizou-se depois de seu exame, não parecia que os ameaçasse nenhum perigo. ‘Devo estar mais cansada do que acreditava’, pensou. Essa era a única razão que podia encontrar para explicar o calor que sentia no ventre. ‘Jared se envergonharia de mim’, disse-se. Tina lhe ensinado a estar sempre alerta, a manter seus sentidos acordados, sem importar quão cansado seu corpo se sentisse. Essa era a única maneira de sobreviver, de evitar a qualquer homem ao qual seu pai tivesse enviado atrás dela, e Jared lhe insistia em que essa atitude devia ser tão natural para ela como respirar: desconfiar de todos; não confiar em ninguém.

       Agora descobria que não era tão dura como pensava. Aqui estava sentindo-se perturbada pelo simples sorriso de um homem que mal conhecia. Por que estava seguindo cegamente ao Slane até o castelo de seu irmão? Por que... Não tinha aonde ir? Ou era, talvez, porque Jared se foi e ela necessitava alguém a seu lado, agora que o mundo parecia estar contra ela? E Slane era o único que estava ao alcance. Mas havia algo mais. Gostava de provocá-lo. Gostava de brincar com ele... Gostava de Slane. Ele era tudo o que ela não era. Ele tinha tudo o que ela não tinha. E apesar de que ele desaprovasse sua maneira de viver, de vez em quando o tinha surpreendido olhando-a. E havia algo em sua forma de olhá-la, algo que fazia que Taylor desejasse estar em seus braços. Não. Ela não queria sentir-se assim.

             Voltou a observar o salão, afastando seus pensamentos de Slane. Dois homens, certamente comerciantes, observavam-na de uma mesa perto do fogo.

             De repente, o ruído produzido por um homem que se levantava de outra mesa, interrompeu seus pensamentos. O homem empurrou sua cadeira para trás de uma maneira quase violenta e deixou seus companheiros sem tirar o olhar de Taylor, enquanto se aproximava dela.

 

             Por um momento seus olhos se encontraram. Havia algo familiar que a perturbava neste homem gordo que se dirigia para ela. Lentamente, o reconhecimento se mostrou em sua cara e ficou tensa. Olhou aos dois amigos que tinham ficado na mesa e a estavam contemplando com um sorriso zombador.

             Quando chegou onde ela estava, o homem gordo deu um forte golpe na mesa.

             — Sully? — suas gargalhadas reverberaram no salão — Eu sabia que algum dia voltaríamos a nos encontrar — sua voz era nasal, marcada por um assobio incômodo que instantaneamente lhe pôs os nervos alerta. Ela o recordava muito bem.

             — Olá, Hugh — disse com frieza — Já se passou muito tempo.

             Hugh percorreu o salão com o olhar.

             — Onde está Jared?

             — Ele não está aqui — disse ela.

             Hugh franziu o sobrecenho.

             — O que quer dizer com que ele não está aqui? Tem que estar, são inseparáveis.

             — Ele não está aqui — repetiu ela.

             Hugh tomou uma cadeira, sentou-se grunhindo. As patas da cadeira rangeram debaixo de seu peso.

             — É uma condenada pena — disse brandamente Hugh — Uma pena — disse enquanto um assobio saía de seu nariz.

             — Ainda trabalha nos negócios da carne? — perguntou Taylor.

             Hugh sorriu mostrando um grotesco sorriso sem dentes.

             — Prefiro chamá-lo agradar.

             Sua risada despediu um fétido aroma que alcançou Taylor, a qual não pôde ocultar um gesto de repugnância.

             — Jared e você me devem muito dinheiro — disse Hugh — Aquela garota poderia ter me dado muito.

             — Era uma menina — grunhiu Taylor.

             — Muitos senhores gostam de jovens — repôs Hugh.

             Taylor apertou os dentes.

             — É muito inocente — adicionou Hugh, alcançando o braço de Taylor através da mesa e esfregando sua gordurenta mão nele — Se aceitasse trabalhar para mim, poderia fazer muito dinheiro. Tenho certeza que é selvagem...

             — É um porco, Hugh — disse calmamente — O mundo seria um lugar melhor sem ti. E se não tirar sua mão de mim neste instante, vou ter que fazer do mundo um lugar melhor.

             Hugh parou de esfregar seu braço e Taylor viu, com prazer, a ira em seus olhos.

             — Sinto que o veja assim. Só tenho duas alternativas. Dê-me o dinheiro que me deve.

             — Não te devo nada.

             — Matou a dois de meus homens naquela noite — grunhiu Hugh.

             — E mataria dez mais para manter a essa menina longe de seu repulsivo alcance. Vai embora daqui agora, antes que te atravesse a garganta com minha espada. Você me causa nojo.

             Hugh ficou em pé com brutalidade, empurrando a mesa ao fazê-lo. Sua mão se dirigiu para a adaga que estava em seu cinturão, mas Taylor estava preparada para ele. Já tinha tirado a espada e a estava apontando a enorme barriga do Hugh.

             — Qual é o problema?

             Taylor reconheceu uma voz familiar e se voltou para ver que Slane estava de pé junto a ela.

             — Isto não te incumbe — disse Hugh — Assim, te afaste.

             Seu assobio se fazia cada vez mais ruidoso. Slane lançou ao Taylor um olhar.

             — Sim, me incumbe. Verá... A dama está comigo.

             — Dama? — Hugh olhou a seus homens — Moços, alguém vê a uma dama por aqui?

             Seus homens riram estrepitosamente. Taylor não respondeu a sua provocação, mantendo a ponta de espada a só uns centímetros de seu estômago. O asco que o enorme homem lhe produzia se podia ver com claridade em cada linha de seu rosto. Hugh voltou sua atenção a Slane.

             — Ela roubou algo que era meu, deve-me muito dinheiro.

             Slane colocou a mão dentro da bolsa que estava em seu cinturão. Taylor se levantou imediatamente, pressionando sua mão sobre a de Slane para deter seu movimento.

             — Nenhuma moeda para ele — disse silenciosamente.

             — Então morrerá — replicou Hugh.

             — Estou para ver — replicou agressiva Taylor.

             — Tudo pode se negociar — disse Slane — Não há necessidade de brigar.

             Hugh olhou a Taylor, seus olhos vermelhos e ardentes de ira e orgulho ferido. Finalmente, olhou a Slane de cima abaixo.

             — Sim — disse depois de uma pausa — Acredito que nós, os homens, podemos solucionar este problema.

             Hugh passou um braço por cima do ombro de Slane, como se tivessem sido amigos toda a vida. Taylor apertou os dentes e sentiu náuseas, só queria tirar o braço do Hugh do ombro de Slane.

     Justo quando ela começava a baixar sua espada, viu que a mão do Hugh se aproximava de sua bainha. Mas não teve tempo de tirar sua arma porque Taylor, rápida, atalhou seu movimento, lhe fazendo um corte no pulso. Hugh soltou sua arma, caindo de dor, tocando seu pulso que sangrava. Slane se enfureceu, olhando Taylor. Ela estava preparada, esperando que os amigos do Hugh se unissem à batalha, mas eles ficaram sentados na mesa, contemplando a cena sem sequer mover-se.

             — A bruxa me cortou — protestou Hugh, sua voz tremendo de dor.

             — Fizeste-o por vingança! — Acusou-a Slane — E o atacaste pelas costas.

             Surpreendida pela reação de Slane, Taylor abriu a boca para defender-se. Mas lentamente a fechou. Ela não tinha que lhe explicar suas ações a ninguém. Jared, certamente, nunca teria questionado seu julgamento. Mas Slane não era Jared. Taylor guardou sua espada. Suas mãos tremiam tanto que lhe doíam.

             Que estúpido! Ela não podia acreditar que se pôs ao lado do Hugh. Levantou o queixo, negando-se a entender a dor em sua alma. ‘Assim é como ele me vê’, pensou. ‘Igual ao Hugh. E por que diabos deveria me importar? Por que deveria...?

             — Por que fez isso? — perguntou Slane.

             Ela o olhou, enchendo-o de recriminações com a força de seu olhar. Nesse mesmo momento, o sol brilhou em uma das janelas da hospedaria, capturando o brilho de seus olhos safira. Ela estava furiosa com ele. Sim. Furiosa com ele por ser tão condenadamente orgulhoso. Furiosa com ele por ser tão condenadamente nobre. Furiosa com ele por ser o homem mais bonito que jamais tinha visto. Mas ainda mais furiosa consigo mesma, por preocupar-se com o que ele pensasse dela, por lhe haver permitido que se aproximasse o suficiente para pô-la tão furiosa. Controlou-se e o olhou com uma calma fria.

             — Por vingança — disse-lhe antes de voltar-se e olhar para a janela.

       Slane olhou ao chão, onde a luz do sol se refletia sobre a adaga do Hugh. Viajaram todo o dia, parando só duas vezes para que os cavalos, que Slane tinha comprado no Sudbury, descansassem. Quando o sol se foi, procuraram uma hospedaria. Escondido em metade do bosque, o edifício era mais uma hospedaria de dois andares que uma estalagem. Amarraram seus cavalos em um estábulo, onde um menino prometeu cuidá-los.

       Slane entrou pela porta iluminada por uma tênue luz. Taylor o seguiu e pediu uma cerveja. O alto e lânguido administrador a observou detalhadamente, resmungou em desaprovação, mas reapareceu em uns segundos com a cerveja.

       Slane começou a falar com o administrador e Taylor se afastou para esperá-lo perto das escadas. A hospedaria estava totalmente vazia. ‘Slane deveria estar agradecido’, pensou Taylor. Ainda estava doída por sua reação dessa manhã.

       Slane se aproximou dela com um cansado olhar em seus olhos. Também estava rendido e lhe indicou com a cabeça que subissem a suas habitações.

 

       Era muito tarde quando Taylor desceu as escadas da hospedaria. Viu o hospedeiro ao fundo, mesclando cerveja e água. Sorriu quando viu que tratava de esconder a garrafa.

       Tirou um pergaminho enrolado. Com mão tremente, o hospedeiro tomou o cilindro, observando-o.

     — Entregue-o ao Corydon — indicou Taylor — Diga-lhe que é da parte de Taylor Sullivan.

 

       Slane olhou o teto; suas mãos estavam descansando detrás de sua cabeça. Era tarde, mas não tinha sido capaz de dormir. A palha da cama era muito fina; a hospedaria estava muito silenciosa; a noite muito fria. Perguntou-se se Taylor estaria com frio. Tinha viajado a maior parte do dia em silêncio. Agora, olhava a porta que separava suas habitações. Estaria dormindo? Seu cabelo estaria espalhado pelo travesseiro em esplêndidos cachos? Estariam seus lábios separados à medida que tomava doce fôlego atrás de doce fôlego? Estaria nua sob os lençóis? Amaldiçoando em silêncio, ficou de lado, dando as costas à porta. Que direito tinha ele de imaginar-se semelhantes coisas?

       Forçou seus pensamentos para que se concentrassem em outra coisa. Por que não lhe havia dito que Hugh tinha tirado uma adaga? Ele tinha tentado falar com ela enquanto cavalgavam, mas Taylor não tinha querido escutar, levantando o queixo de maneira desafiante e ignorando seus esforços por desculpar-se.

      Ele tinha cometido o engano de acusá-la, quando a única coisa que ela tinha feito era defendê-lo. ‘me defender?’, pensou Slane. ‘Essa mulher me salvou a vida!’. Negou com sua cabeça e voltou a dá-la volta. Não tinha lhe dado o crédito que se merecia.

     E o que tinha feito Taylor para que Hugh acreditasse que lhe devia dinheiro? Tinha querido perguntar-lhe, mas sabia que já a tinha ofendido ao assumir que ela era culpada, por isso guardou as perguntas para si mesmo.

       Ela era uma criatura de emoções desinibidas. Era deslumbrante, desafiante, atrevida e valente. Coisas que não poderiam descrever a Elizabeth.

       Elizabeth. Pensou em seu frágil figura, em seus amáveis olhos. Seus lábios. Mas não eram os lábios da Elizabeth os que sua imaginação trouxe para sua mente. Esses lábios tinham uma curva sarcástica e sensual.

       De repente, um pequeno pranto chegou a seus ouvidos. Um pranto que tinha sido interrompido. Um pranto que provinha de uma voz muito familiar. O pranto de Taylor! No seguinte instante, Slane estava fora da cama, com a espada na mão, tratando de abrir a porta que os separava.

 

       O que Slane viu lhe produziu tanta fúria que por um instante lhe nublou a vista. Mas só por um instante. Um homem com o lábio talhado estava na borda da cama de Taylor, lhe separando as pernas. Outro homem, com uma cicatriz debaixo do olho esquerdo, tinha uma mão sobre a boca de Taylor e seu punho enredado em seu longo cabelo.

       Mas essa não foi à imagem que causou ondas de ira em Slane. Essa não foi à imagem que fez com que levasse a mão à espada. Essa não foi à imagem que fez com que sentisse uma ira insuportável da qual nem sequer tinha ouvido falar em sua vida. Foi à imagem de Hugh montado com suas pernas abertas, sobre Taylor, espremendo-lhe os braços.

       Os lascivos olhos do homem estavam muito abertos, celebrando os expostos seios de Taylor.

     — Você me dará mais do que me corresponde — dizia. O assobio de seu fôlego se converteu em uma ameaça.

     — Não! — gritou Slane, lançando-se para o homem mais próximo, brandindo sua espada em uma ira cega. O assustado homem separou-se dele, caindo sobre o Hugh e Taylor, esmagando-os.

       O homem do lábio talhado deixou cair rapidamente os pés de Taylor e tirou sua espada. Slane o enfrentou, cruzaram armas, mas a ira o consumia de tal maneira que nenhum de seus movimentos foi efetivo. O homem se esquivou de todos, convertendo-os em inofensivos golpes.

     — Saia de cima de mim, porco gordo! — gritou Taylor, dando chutes, tentando libertar-se.

       Bruscamente Hugh empurrou ao homem da cicatriz, afastando-o de Taylor, e acomodou seu sexo entre as pernas da jovem, mas ela se defendeu lhe dando um murro. Então ele lhe deu um golpe na cabeça, o que a deixou aturdida por uns segundos.

       — Matem! — ordenou Hugh a seus homens — Depois a possuiremos.

       O homem do lábio talhado se uniu ao primeiro para atacar Slane com uma adaga, bloqueando a visão de Taylor. Invadia a Slane uma ira furiosa, por isso empurrou o homem da cicatriz e começou a lhe dar golpes. O homem tratou de defender-se, mas a ira que fervia dentro de Slane era muito maior. Slane lhe enterrou a espada no estômago, e o desgraçado caiu ao chão como uma pedra. Feito uma fera, Slane fixou seus olhos no do lábio talhado, que parecia aterrorizado pelo que lhe tinha acontecido a seu companheiro. Olhou com horror a espada ensangüentada de Slane e deixou cair sua arma.

             Atrás do homem, Slane viu Hugh tirando a manta de Taylor e deixando seu ventre descoberto.

             — Fora de meu caminho — gritou Slane.

             O homem deu um passo dúbio para a porta.

             — Agora — ordenou Slane.

             O homem saiu correndo da habitação.

             — Que bom trabalho!

             Slane olhou Hugh e lhe deu um golpe. A mão ferida de Hugh continuava agarrando Taylor, enquanto que com a outra mão pressionava a adaga contra sua branca garganta.

             — Podemos compartilhá-la, sabe? — sugeriu Hugh, seguindo o olhar de Slane. Sentiu-se doente só de pensá-lo e levantou sua espada — Não, não — advertiu Hugh           — Se tentar, imbecil, ela morrerá.

             Taylor parecia débil e enjoada.

             — Não posso acreditar que tenha deixado escapar a seu amigo — murmurou.

             Slane apertou os dentes. Ela estava certa. Ele deveria ter matado a todos. Seu punho apertou a espada.

             — Deixe-me passar — advertiu Hugh de novo, pressionando ainda mais a espada contra a pele de Taylor.

             — Se a ferir, sua morte será ainda mais desagradável — replicou Slane.

             — Suas valentes palavras não me enganam — disse Hugh — Eu conheço os de sua classe. Supunha-se que você devia protegê-la. Se a mato, terá falhado uma desonra que minha morte não poderá reparar. Agora retrocede ou a mato.

     Depois de um longo e tormentoso momento, Slane baixou lentamente sua arma. Não podia pôr em risco a vida de Taylor. Ele sabia e Hugh sabia também. Afastou-se da porta.

             — Estou decepcionada, Slane — disse Taylor enquanto Hugh a levava para a porta. Seu familiar sorriso zombador voltou a desenhar-se nos lábios de Taylor — Ao menos, lhe cuspa ou algo.

     Hugh se aproximou; agora Taylor estava a um passo de Slane, diante do homem gordo como se fosse um escudo. Taylor e Slane cruzaram olhadas por um rápido segundo. Algo passou pelos olhos dela. Algo que não era nem enjôo nem desvanecimento. Slane soube que algo ia ocorrer.

             De repente, Taylor colocou um dedo na ferida da mão do Hugh e afastou a adaga de seu pescoço usando a outra mão.

             Hugh a deixou ir com um gemido de dor, mas Slane interrompeu seu gemido, lhe cravando a espada. Hugh olhou suas mãos ensangüentadas e logo olhou Slane, sorriu, mostrando uns dentes amarelos e, imediatamente depois, caiu ao chão.

             Slane esquivou-se da queda com agilidade. O corpo produziu um ruído surdo ao golpear contra o chão. Depois se fez o silêncio.

             No instante de silêncio, Slane pôde sentir seu próprio coração pulsando em sua garganta. Voltou-se para Taylor, que estava sentada, muito quieta, sobre a cama, suas pernas escondidas sob seu corpo. Slane sentiu como lhe subia a ansiedade pelo corpo. Estaria ferida? Não via sangue.

             Havia se coberto com a manta e Slane pôde ver como aparecia o dedo mindinho de um de seus pés sob a lã. Seus olhos se moveram para cima, inspecionando-a para ver se tinha alguma ferida. Deteve-se na pele nua que está logo acima dos seios. À suave luz da lua que brilhava através da janela aberta, sua pele parecia uma suave pétala de rosa e igualmente delicada. Seus olhos se moveram para o pescoço de Taylor, mas este não havia sido machucado pela adaga de Hugh; só tinha um pequeno ponto vermelho que não demoraria a desaparecer. Slane se sentiu aliviado e tragou saliva.

             — Está bem? — perguntou-lhe.

             Taylor assentiu e uma mecha de seu negro cabelo se moveu para diante, sobre seus ombros. Slane se aproximou e lhe estendeu a mão. Ela parou de olhar o corpo de Hugh e olhou Slane. Estendeu sua mão e seus dedos se tocaram.

             Slane se estremeceu com o contato. Olhou a mão de Taylor, admirado por sua delicadeza. Ajudou-a ficar de pé. Quando se levantou, Taylor parecia da realeza, uma deusa cujo cabelo negro caía como uma cascata sobre seus ombros. A manta se deslizou uns centímetros.

             De repente, Slane desejou lhe tirar a manta e ver seus deliciosos e perfeitos seios.

             — Teve o que merecia... não? — murmurou ela.

             Slane sentiu que a garganta lhe secava mais.

             — Está ferida?

             — Só no orgulho.

             Slane sentiu que algo se movia em sua mão e se deu conta que ainda tinha a mão de Taylor na sua. Sabia que devia soltá-la, mas havia algo nele que fazia com que seus dedos se aferrassem orgulhosamente aos dela, ignorando a ordem que sua mente lhes tinha enviado.

             Seus verdes olhos resplandeceram em seu rosto brilhando como esmeraldas ferventes à luz do sol. Depois de ter sido atacada, como podia estar ali, de pé, tão bela? Perguntou-se Slane. Meu deus! Estava radiante. Não sabia, por acaso, o que estava fazendo a ele? Sabia. Slane tinha certeza disto. Essa pequena feiticeira estava tratando de seduzi-lo, de desviá-lo de seu código, de lhe fazer romper suas promessas.

             E estava funcionando. Soltou rapidamente sua mão e se afastou, quase tropeçando em seu próprio pé em seu afã.

             — Bom... sim... — esclareceu-se garganta à medida que se voltava a olhar ao Hugh — Direi ao hospedeiro que tire estes corpos daqui e...

             Ela se endireitou e ele pôde jurar que viu algo similar ao medo nos olhos de Taylor antes que seu rosto adquirisse a mesma expressão calma de sempre. Slane vacilou. Quem saberia que outros homens a estariam procurando? Ele já sabia que Corydon a estava perseguindo e se esse bufão do Hugh tinha podido entrar tão facilmente a sua habitação... Como podia deixá-la só agora, depois do ocorrido?

             — Como entraram os homens? — perguntou Slane.

             Taylor levantou os ombros e subiu um pouco a manta.

             — Estavam aqui quando despertei.

             Slane sentiu um pingo de decepção quando Taylor lhe deu as costas. Queria seguir olhando seu formoso rosto para sempre.

     Apertando a manta contra seu peito, Taylor se sentou na cama; parecia uma rainha sentando-se em seu trono.

             — Fechou a porta com a trava? — perguntou-lhe Slane.

             — Pareço tola?

             Não, pensou ele. Sabia que ela tinha colocado o ferrolho na porta, assim só podia haver uma resposta a essa pergunta; só havia uma pessoa que tivesse outras chaves: o hospedeiro. Slane decidiu descer para falar com ele e se dirigiu para a porta.

             — Slane?

             Ele se deteve ante a suavidade de sua voz; nunca a tinha ouvido falar com esse tom de incerteza.

             — Talvez podesse ficar... um momento... — sugeriu ela.

             Slane vacilou.

             — Ficar? — repetiu. Deus, como queria ficar. Mas Elizabeth... Não. Taylor era perigosa. Não podia ficar. Nem um minuto mais.

             — Não posso. — fez-se um comprido silencio — Estará bem se trancar a porta — disse, tratando de tranqüilizar mais a si mesmo que a ela. Quando ela não respondeu, olhou-a por cima do ombro... E em seguida soube que não devia havê-lo feito.

             Taylor se sentou reta como uma tabela, sujeitando a manta contra seu peito. Seu cabelo caía em escuras ondas sobre seus ombros, passando por seus braços e chegando até sua cintura. Era uma verdadeira deusa.

             — Sim — murmurou ela — Imagino que está no certo.

             Slane respirou fundo. Estava contente de que ela estivesse sendo racional. Estava contente de que ela o entendesse. Estendeu sua mão para abrir a porta e sentiu que um grande peso saia de seus ombros.

             — Afinal, não queremos comprometer sua reputação. Seria mais que desonroso que passasse cinco minutos em uma habitação comigo. O que pensariam os granjeiros de ti?

             Slane ficou gelado quando ouviu estas palavras. Seria porque eram verdade ou porque estava zombando dele? Ou ambas as coisas? Duvidou durante um instante, seu sentido do dever lutando contra seu sentido do bem e do mal. Depois abandonou a habitação, fechando brandamente a porta detrás de si.

 

       Slane limpou sua espada em sua habitação com um pano, guardou-a e desceu as escadas. Observou tudo o que ocorria a seu redor: uma habitação vazia, o fogo que já estava quase apagado, as sombras na parede. Finalmente, viu o hospedeiro sentado em uma mesa perto do fundo da habitação principal. Tinha a cabeça para frente, descansando sobre o peito. Quande Slane se aproximou dele, pôde ver que tinha os olhos fechados.

       ‘Assim foi como puderam entrar’, pensou Slane. ‘Estava dormido e lhe tiraram as chaves’. Sentiu como a fúria fervia em seu sangue, pronta para explodir como um vulcão. Pensou no que poderia ter acontecido a Taylor por culpa deste idiota...

       — Senhor, não estou nada satisfeito com o serviço deste lugar — disse em um tom áspero.

       O hospedeiro não se moveu. Slane pôs uma mão firme em cima de seu ombro.

       — Me escute, idiota... — começou a dizer, mas se deteve quando o homem caiu, golpeando sua cabeça contra a mesa.

       Slane retrocedeu quando viu a adaga enterrada em suas costas. Olhou para cima, para as escadas, onde estava o quarto de Taylor. No que se meteu? Perguntou-se.

 

       Slane passou toda a manhã explicando ao guarda o que tinha ocorrido na hospedaria. Taylor teria deixado que os corpos apodrecessem sem dizer nada a ninguém, mas Slane não, ele era um homem correto, que fazia em cada momento o que tinha que fazer.

     Slane foi o único que falou, porque os custódios da lei e a ordem não pareciam muito interessados no que tinha acontecido e não fizeram perguntas, nem sequer uma. Assim Taylor se alegrou de contar com o Slane, pois ela não teria tido tanta paciência e certamente teria acabado estragando tudo.

       Quando tudo se esclareceu, o oficial os deixou seguir viagem, e Taylor e Slane se encaminharam para o Edinbrook.

       Depois de cavalgarem durante horas, Taylor pôde vislumbrar o povoado à distância. Localizado em um pequeno vale que se estendia a seus pés, as casas e os edifícios destacavam como pequenas flores. Ao leste do povo, a gigantesca mole de pedra que constituía o castelo do Edinbrook se sobressaía como uma sombra imponente, olhando de cima aos habitantes do lugar como um pai severo olharia a seus inocentes filhos antes de castigá-los por uma falta imperdoável.

       Taylor desviou seu olhar do castelo para o povo e suspirou em silêncio. Outra cama. Poderia acostumar-se a viajar deste modo. Um sorriso se esboçou em seus lábios.

     — Você gosta da paisagem? — disse ele.

       Olhou para Slane, que cavalgava a seu lado; sobre o cavalo, seu corpo se movia com suavidade. Logo contemplou as colinas; flutuava uma aprazível brisa e Taylor inalou o aroma das flores do vale.

     — Eu não muito — respondeu.

       Slane resmungou um pouco.

     — O que roubou de Hugh para que estivesse tão furioso contigo? — Slane finalmente atreveu-se a dizer.

       Taylor lhe olhou de cima a baixo: suas sobrancelhas frondosas, seu queixo. Ele estava acostumado a que todos respondessem suas perguntas, isso era óbvio, dada a expressão de alerta que refletiam seus olhos, pendente da mais leve insubmissão. Mas não foi isso o que a assustou. Tampouco se assustou pelo brilho frio de seus claros olhos azul, nem pela expressão de superioridade que se lia em seu rosto... O que de verdade lhe deu medo, o que, incompreensivelmente, mais lhe doeu foi que ao olhá-lo teve a absoluta convicção de que a estava julgando. Taylor desviou o olhar.

     — Não acreditaria em mim — lhe disse.

             — Sempre acredito na verdade — lhe disse Slane.

             Taylor fechou seus lábios, como pensando. Poderia lhe dizer uma mentira e salvar sua própria desonrosa reputação. A última coisa que queria era que Slane a visse como uma mercenária com um coração de ouro. Porque ela não era isso. E mais: era totalmente o oposto. Mas Slane desejava saber a verdade.

             — Hugh era um saco de lixo humano. Provavelmente estava por aí, de novo, procurando uma nova carne para seu negócio.

             Slane assentiu.

             — Um bordel.

             — Não — respondeu Taylor — Escravidão. Claro, se Hugh não podia obter de um lorde ou um cavaleiro ou de qualquer pessoa a que tivesse intimidado o preço que solicitava... Então sim, não tinha nenhum inconveniente em atuar como alcoviteira. Fazia negócios com o corpo de uma mulher, usava-a, tirava dela todo o dinheiro que podia e logo a deixava na rua para que os abutres a comessem.

             Ela tinha visto o Hugh fazer isto. Tinha-o visto abandonando a uma mulher na rua, uma mulher da qual tinham abusado tanto que já não podia defender-se das aves de rapina que a atacavam. Taylor se sentiu doente só pensá-lo.

             — Está dizendo que você não... Graças a Deus... — disse Slane estupefato.

             Ela se voltou a olhá-lo, sem poder acreditar. Nunca tinha se prostituído em sua vida! Suspirou e negou com a cabeça, mal-humorada.

             — Disse-te que nunca acreditaria em mim — murmurou e açoitou o seu cavalo para afastar-se galopando. Ele nunca a entenderia. Nunca poderia ver além de sua fachada. E era melhor assim. Em realidade, Taylor não queria que esse homem chegasse a entendê-la. Slane a alcançou em seu cavalo, mas diminuiu o passo justo a seu lado.

             — Então, escapou?

             Taylor recordou os gritos e as brigas.

             — Sim — disse de forma tranqüilizadora — Escapamos. — Não tinha por que mencionar à menina que Hugh tinha raptado, apartando a de seus pais.

             — Com a ajuda de Jared.

             — Nunca teria conseguido fazê-lo sem ele.

             Jared tinha brigado a seu lado, protegendo tanto à menina como as costas de Taylor.

             — E Hugh queria te levar com ele agora?

             — Olhe, isso foi faz muito tempo. Por que não nos esquecemos deste assunto?

             Sorriu-lhe, mas havia tanta compaixão em seus olhos que ficou furiosa.

             — Que homem mais estúpido... — resmungou.

             — Olhe... Não era eu. Hugh roubou uma menina cigana de sua mãe. Jared e eu...

             — Você resgatou à menina?

             Seu tom incrédulo de voz a enfureceu ainda mais.

             — Pagavam-nos bem — disse.

             Um olhar pormenorizado dissipou a nuvem de dúvida do rosto de Slane. Soltou as rédeas de seu cavalo, assentindo, como se, finalmente, tivesse compreendido a Taylor.

             Taylor esperou até que Slane, depois de açular a seu cavalo, passou-a. ‘Sim’, pensou. ‘Pagaram-nos bem: lendo-nos a mão, a única coisa com o que a mulher cigana podia nos pagar’. E se sentiram muito bem recompensados. Tiveram bastante arrancando a pobre menina das horrorosas garras do Hugh. Mas Slane não precisava saber isso.

 

       Slane desceu de seu cavalo e deu as rédeas a um menino do estábulo, que sorriu e levou aos animais. Olhou a Taylor, que estava na porta do estábulo, concentrada, olhando algo ao outro lado do caminho. Ela tinha se negado a olhá-lo depois de ter galopado para o povoado, adiantando-se. Mas ele não. Estava longe de não olhá-la.

       Taylor estava de pé, muito rígida, erguida e orgulhosa, com seu comprido cabelo negro em uma grossa trança que balançava sobre suas costas. Ele a tinha visto essa manhã, na hospedaria, enquanto arrumava seu cabelo com a mesma graça com a que se penteavam as mulheres do castelo.

       Negou com a cabeça e parou de olhá-la. Nunca poderia entender como tinha descido tão baixo, como podia ter chegado a ser uma mercenária. Ser paga por ter salvado a uma menina pequena das mãos do Hugh! Sentiu-se desiludido e não soube exatamente por quê. Não tinha razão alguma para esperar nada mais dela.

       Slane deixou os estábulos e se aproximou de Taylor. Por um momento, só um momento, quando seu olhar seguiu a curvatura da bochecha para seus lábios, sentiu que seu pulso se acelerava repentinamente. Ela o olhou.

       Tudo se deteve nesse instante. Esses olhos verdes penetraram sua alma, procurando as profundidades de seu ser. Afundaram até o fundo e tiraram algo morno e tenro que ele não sabia que tinha. O sentimento o rodeou como o fogo quente do lar em uma noite chuvosa.

       Rapidamente dirigiu seu olhar para outro lado, longe de Taylor. Não se tinha dado conta de que tinha estado contendo a respiração até que o deixou sair todo o ar em uma silenciosa exalação. Piscou por um momento, sem saber o que acabava de ocorrer. Intranqüilo, entregou-lhe a capa que tinha comprado de um mercador em Sudbury.

       — Ponha isto — lhe indicou e se dirigiu para o centro do povoado.

       Quande Slane olhou para baixo, alegrou-se ao ver pelo canto do olho que a parte de baixo da capa marrom estava ao redor das botas de Taylor. Era um pouco grande para ela, mas funcionaria por agora como disfarce. Corydon conhecia Taylor, assim devia levar o rosto oculto se queria se poupar de desagradáveis encontros.

       Slane se deu conta de que nem sequer lhe tinha perguntado nada e sorriu. Tinha-o entendido sem palavras. Estava se formando algum acordo tácito entre eles?

       Sentiu-se feliz por um momento... Até que viu um grupo de soldados dirigindo-se para eles. Reconheceu-os imediatamente e se deteve. Suas túnicas negras anunciavam sua aliança: Corydon.

       Deu um passo para trás e se voltou só para ver outro grupo, menor, de cavaleiros vestidos de negro aproximando-se deles pela rua.

       Taylor se moveu para frente, mas Slane a agarrou pelo punho e a empurrou para umas sombras criadas por uma porta próxima. Furtivamente, Slane olhou a ambos os lados da rua. Estava vazia, não havia nem camponeses nem compradores ao redor. Se saíssem de seu esconderijo, seriam vistos.

       Então ouviu um ruído procedente da porta que estava atrás deles e olhou para descobrir que era a mão de Taylor que movia o trinco insistentemente de maneira infrutífera.

       Voltou a olhar para a rua. Os soldados se aproximavam. Eram muitos, não podiam enfrentar-lhes, pois isso só significaria a morte de Slane e a captura de Taylor.

       — Fique aqui — lhe indicou Taylor, pondo-o diante dela como se fora um escudo.

       Pelo menos isto a protegerá, pensou Slane. De repente, ela se lançou para ele, envolvendo seus braços no pescoço de Slane, que se teria caído ao chão se não tivesse estado apoiado no marco da porta. Abriu a boca para interrogá-la, mas, rapidamente, Taylor pressionou seus lábios contra os dele, aproximando também seu corpo.

       Imobilizado pela surpresa, Slane entreabriu a boca enquanto os lábios de Taylor se posavam sobre os seus; por um momento, apertou o pequeno corpo da jovem contra o dele, sentindo como o invadia uma forte onda de excitação. Estremeceu-se e tentou soltar-se, mas o abraço de Taylor era firme e não lhe permitia afastar-se. Por fim conseguiu tirar seus lábios dos dela e exclamar:

       — Que diabos está fazendo, mulher? Perdeste o juízo?

       — A menos que queira perder mais que o juízo, devolver-me-á o afeto que te estou oferecendo. E é melhor que o faça bem — lhe advertiu murmurando e lhe mordiscando a orelha.

       Slane sentiu ondas de prazer através de todo seu corpo. Sua mente lhe dizia que resistisse, mas seu corpo já estava sucumbindo à sedução. Imediatamente depois, sua nublada mente se concentrou o suficiente para entender o que Taylor estava fazendo. Um disfarce desesperado: uma prostituta e seu cliente.

       Taylor seguiu beijando-o enquanto lhe passava as mãos pelo cabelo, aferrando-se a ele como se seus lábios fossem sua única salvação. Slane apertou seu pequeno corpo, tentando que aos olhos dos observadores a cena parecesse natural. Sabia que devia ser convincente, do contrário estariam acabados.

       Decidido a seguir o jogo, passou sua língua com suavidade sobre os lábios de Taylor, tentando que os abrisse para ele. Sentiu como ela se estremecia enquanto os abria. Era uma excelente atriz ou...

       À distância, Slane escutou uns passos cada vez mais perto deles, por isso a apertou com mais força. Colocou sua língua mais funda em sua boca até que um suave gemido escapou através dos lábios abertos de Taylor. Então ele sentiu que se cambaleava...

       As curvas do corpo de Taylor encaixavam perfeitamente com seu corpo; seu busto, cheio, pressionava-se pesadamente contra os músculos do peito dele. Pequenos calafrios seguiam o caminho de seus dedos quando passavam por sua pele; pedaços de calor inflamavam sua alma. A essência dela parecia haver-se solidificado, envolvendo-o em um redemoinho de paixão. Slane já não escutava os passos na rua, já não lhe importava se os apanhassem ou não: só queria que este momento continuasse para sempre.

       De repente, um homem tossiu detrás deles. Apesar de que o beijo de Taylor fazia que o corpo de Slane se sentisse morno, a ameaça do perigo furou o momento como se tivesse sido uma adaga. Esteve a ponto de baixar a mão para tomar sua espada.

       As mãos de Taylor baixaram até a cintura de Slane e seguiram para suas nádegas. Ele lutou para controlar-se à medida que ela o apertava brandamente, percorrendo com suas mãos seu firme traseiro.

       Slane se afastou um pouco para olhar a verde profundidade dos olhos de Taylor. O que queria dele? Fazia isso só para esconder-se? Ou estava desafiando-o, provando-o, para ver até onde podia chegar? Passou suas mãos pelas mechas de seu cabelo, desfazendo sua trança, contendo os gemidos que queriam sair de sua garganta, cheio de paixão por ela. Aferrou-se fogosamente a seus lábios, com um brusco e quase doloroso movimento. Se estiver brincando com ele, ensinar-lhe-ia o que significava excitá-lo dessa maneira.

       O beijo dela foi tão apaixonado como o dele, a intensa necessidade dele foi correspondida com o desejo dela. Slane sentiu como Taylor tremia pela intensidade do beijo. Desejava-a como nunca tinha desejado nada na vida. Queria ver como seria seu corpo debaixo essa armadura de couro. Queria-lhe beijar os seios, seu ventre e seu...

       De repente, Taylor se afastou. Slane a olhou durante um largo momento, tratando desesperadamente de recuperar o controle sobre seu acalorado corpo. Ela parou frente a ele como um herói derrotado, sua mandíbula para cima, seus olhos brilhantes de... De quê? De paixão? Ou de brincadeira?

       Slane sentiu que uma corrente de vento gelado o atravessava. O que estava fazendo? O que estava pensando?

       — O fez muito bem — disse ela — Muito bom. Foste muito convincente, mas é melhor que não sigamos. Os soldados já passaram já se foram.

       De fato, já tinham ido. Fazia tempo. As ruas estavam vazias.

       Slane suspirou estoicamente e refletiu durante um momento. Estaria atuando em realidade? Podia esse beijo não ter significado nada para ela quando o tinha excitado tanto a ele?

       — Sim, se foram — disse incômodo. Afastou-se dela e se foi para a rua. Fez mal ao beijá-la de maneira tão apaixonada. Estava comprometido, pelo amor de Deus!

       — Não se preocupe Slane — disse Taylor, lhe dando um golpezinho nas costas — Não direi a ninguém que você gostou.

       Slane se voltou para olhá-la. Estava furioso.

       — Não falaremos disto nunca mais! — gritou-lhe — Fiz o que tinha que fazer, mas isso é tudo.

       Durante um momento, Taylor ficou de pé, com a boca e os olhos abertos. Depois, passou ao lado dele, roçando-o, mas tropeçou na prega de sua capa. Furiosa, tirou a capa. Dobrou-a cuidadosamente e a entregou. Quando ele tratou de recebê-la, ela a deixou cair sobre o poeirento chão.

       Deu-lhe as costas e começou a caminhar depressa pela rua. Slane, devagar, agachou-se e recolheu a capa. O aroma de lavanda de Taylor parecia penetrar no tecido. Ficou a capa no rosto e encheu seus pulmões com a essência de Taylor Sullivan.

 

       Taylor não podia sequer olhar a Slane. Sua ira e sua dor eram muito recentes. Não podia ignorá-los, não podia comportar-se como se nada tivesse acontecido.

       Devido aos soldados de Corydon que se encontravam no Edinbrook, Slane pensou que seria boa idéia dormir no bosque, e Taylor concordou, embora tenha se arrependido durante as largas horas que passou acordada, deitada sobre a dura e fria terra, exposta aos elementos da natureza, ao vento gelado e aos inquietantes sons de estranhos animais. Não dormiu, mas sabia que a natureza não tinha nada a ver com sua insônia. A reação de Slane ao seu débil intento de comunicação depois do beijo a tinha ferido profundamente. Não esperava que os beijos de Slane despertassem nela tanta paixão... E antes que tivesse tido tempo de entender o que tinha acontecido entre os dois, ele a tinha rechaçado, tinha-a humilhado.

       Ainda tinha vontade de lhe contar qual tinha sido o pagamento que tinham recebido Jared e ela por ajudar à menina cigana, mas se negava a dar ao Slane o que ele dizia que queria. A verdade. ‘Que pense de mim o que queira’, disse-se Taylor. Havia algo morbidamente satisfatório em guardar a verdade só para ela. Estaria perdida se começasse a procurar a aprovação de Slane.

       Olhou com rechaço os morangos que lhe oferecia e se deu a volta para começar a arrumar seu cavalo e continuar a viagem até o castelo Donovan. O castelo Donovan... Que fazia indo para ali?

       Deveria acabar com essa farsa e despedir-se de Slane. Mas, o que faria? Procuraria outro trabalho? Talvez pudesse conseguir um trabalho no castelo Donovan. Era uma possibilidade tão verossímil como qualquer outra.

       Taylor pôs sua mão na cela, preparando-se para subir a seu cavalo. Aí foi quando escutou o silêncio do bosque ao redor dela. Um misterioso silêncio onde deveria haver dúzias de diferentes sons enchendo o ar. Taylor ficou paralisada e recordou o ataque dos cavalheiros de negro quando estava com o Jared.

       Afrouxou sua espada da bainha, sem deixar de observar cuidadosamente os arredores, procurando qualquer sinal de algum atacante. O vento soprou com suavidade através das árvores, fazendo chacoalhar as folhas e os ramos. Olhou para Slane, que estava agachado, inspecionando o arreio do cavalo.

       Ao sentir seu olhar, Slane elevou a vista. Entenderam-se sem palavras, e Taylor viu como ele dirigia a mão devagar a sua espada; seus olhos abertos, alarmados.

       Então Taylor ouviu como seu cavalo relinchava atrás dela... Mas soube que era muito tarde. Deu a volta, só para ver que a ponta de uma espada se pousava contra sua garganta.

 

       Slane correu apressadamente para ajudar Taylor; seu corpo explodia de urgência em cada movimento. A ponta afiada da faca do inimigo se encontrava perigosamente perto a suave garganta da jovem. Chegaria muito tarde; já teria morrido. Esse indesejado pensamento chegou a sua mente de maneira inesperada, fazendo com que um medo poderoso nascesse em todo seu corpo.

       De repente, Taylor se lançou aos braços de seu atacante, abraçando-o jubilosa e rindo-se com verdadeiro deleite.

       Slane tropeçou e por pouco caia no chão, enquanto o homem rodeava Taylor em um abraço que parecia um casaco. Imediatamente, Slane se endireitou, ficando tão tenso e rígido como uma parede. Uma feroz onda de ressentimento o invadiu; queria atravessar a esse homem com sua espada.

       Por que não sorria para ele da mesma maneira? Mas só esse pensamento era ridículo, absurdo! Por que deveria ela lhe sorrir dessa maneira? E, por que quereria ele que o fizesse?

     — Não posso acreditá-lo! — exclamou Taylor — O que você faz aqui?

       Slane deslizou seu olhar para o homem. Seus olhos azuis olhavam para Taylor com tal deleite que quis lhe golpear na cara para lhe apagar o sorriso dos lábios. Odiou esse homem imediatamente. Odiava-o por ser capaz de fazer Taylor tão feliz. Fechou a boca e apertou os dentes.

     — Já me inteirei do que aconteceu ao Jared — disse o homem com gesto de pesar.

       Uma profunda tristeza invadiu os olhos de Taylor enquanto franzia o cenho em um gesto de dor e Slane sentiu como a culpa o envolvia em um manto de vergonha. No que estava pensando? Por que tinha sido tão egoísta?

     — Sim — disse ela brandamente soltando do homem que a abraçava.

     — Queria saber se você estava encontrava bem.

       Slane deu um passo adiante.

       — Está muito bem — afirmou com brutalidade. Taylor lhe lançou um olhar de dor, que ele sentiu que se cravava em seu corpo como uma flecha.

       O homem desviou seus olhos para o Slane.

       — Quem é você? — perguntou sem alterar sua voz.

       — Eu ia fazer lhe a mesma pergunta — respondeu Slane.

       — Ele é Slane Donovan — disse Taylor — Slane, ele é Alexander Hawksmoor.

       Alexander! A só palavra causou trepidantes tremores no corpo de Slane. Seria o mesmo Alexander de quem tinha estado tão apaixonada uns anos atrás?

       — Pode guardar sua espada — aconselhou Taylor.

             Slane olhou para baixo, surpreso de que ainda estivesse agarrando fortemente sua arma com o punho. Embainhou sua espada enquanto via como Taylor voltava a dirigir seu olhar a seu amigo.

             — Estou bem — disse Taylor ao Alexander.

             — Tem certeza?

             — Por que não estaria? — protestou Slane — Encontra-se sob meu cuidado.

             De novo, os olhares do Alexander e Taylor giraram para ele. De repente, Slane se sentiu como um intruso que tentava escutar uma conversação privada. Apertou o punho e rangeu os dentes com força. Alexander o ignorou.

             — Sully, encontra-te bem? — Baixou a voz e seguiu dizendo — Não está te obrigando a viajar com ele?

             Slane não podia acreditar o que estava ouvindo. Esses dois falavam dele como se não estivesse presente.

             — Não — disse Taylor.

             Alexander inclinou a cabeça e lançou um olhar de suspeita a sua amiga. Ela sorriu.

             — É ele quem paga a comida e a estalagem.

     Alexander olhou para o bosque.

             — Trata-se de uma estalagem bastante modesta.

             — A de ontem à noite era melhor — disse Taylor — Já conhece a facilidade que tenho para atrair problemas nas estalagens. — Alexander assentiu.

             — Contaram-me isso, por isso pude seguir o teu rastro. E pude ver-te saindo do povoado ontem à noite. — Apontou para o bosque — Segui-te até aqui.

             — Fácil, não é? —perguntou Slane.

             Taylor se voltou para ele com as mãos na cintura.

             — Alexander é ainda mais hábil do que o Jared, seguindo o rastro de uma pessoa. —Fez uma pausa e acrescentou brandamente — Do que era.

             Alexander enfrentou ao Slane com o olhar.

             — Não foi difícil.

             Incapaz de suportar outro segundo na presença desse homem, Slane deu a volta e se afastou deles dirigindo-se para seu cavalo. Suas vozes flutuavam no ar e chegavam a ele com a brisa.

             — Não pode ficar parada — disse Alexander — Nem sequer por um momento. Há muita gente te procurando.

           Slane tomou as rédeas de seu cavalo bruscamente e o corcel relinchou e deu um passo para trás. Dirigiu seu cavalo para o lado de Taylor.

             — Está pronta?

             Taylor olhou para Alexander com um olhar que expressava algo similar à nostalgia. O punho de Slane se apertou ao redor das rédeas.

             — Viajaria conosco? — perguntou ela.

             Slane abriu a boca para protestar, mas rapidamente a fechou para fazer um enfático gesto de desprezo com seus lábios. Alexander lançou um olhar ao Slane.

             — Eu adoraria. Durante um momento.

             Slane sabia que devia estar agradecido porque houvesse outra espada para proteger Taylor. Mas não o estava. A tensão, a desconfiança e a antipatia que sentia para esse indivíduo nublavam seu bom entendimento. Não queria que esse Alexander estivesse com ele... Ou pior ainda, com Taylor. Balançou-se sobre seu cavalo.

             O que lhe estava acontecendo? A Taylor seria bom ter a um velho amigo a seu lado. Especialmente depois da recente morte do Jared. Mas por que tinha que ser Alexander?

 

       Alexander desceu de seu cavalo e atou o animal a uma árvore perto de um arroio. Olhou para Taylor justo no momento em que ela observava a um Slane meditabundo.

       Donovan cavalgou diante dos outros dois a bom passo durante toda a viagem, as costas tão retas como uma vara, as mãos apertando as rédeas do cavalo, tão firme e fortemente que os nódulos se haviam tornado brancos.

       Taylor esteve pensativa durante todo o trajeto. Em várias ocasiões tinha observado a Slane com um olhar agitado e focado que fazia com que aparecesse uma linha no meio da sua testa. Algo tinha acontecido entre eles. Alexander tinha certeza disso.

       Quando se detiveram, Taylor desceu de seu cavalo e foi inclinar-se na borda do arroio para jogar água no rosto. Quando levantou a cabeça, viu que Alexander estava ali, de pé junto a ela, observando-a.

      — O que acha que está fazendo? — perguntou-lhe brandamente.

       — A que te refere?

       — Não jogue esse jogo comigo — advertiu Alexander — Conheço muito bem esses teus olhares com olhos bem abertos. — Taylor riu brandamente, mas Alexander continuou — Esse Corydon não é nenhum idiota. — Viu como o riso se desvanecia de seu rosto e, antes que ela voltasse à cabeça conseguiu observar também como a raiva estreitava seus olhos — Não acho que o despistaste... Garanto que não anda muito longe daqui.

       Taylor não deu importância. Aproximou-se de seu cavalo e abriu sua bolsa, ocupando-se em tocar os objetos que ali se encontravam. Alexander parou atrás dela.

             — Suas intenções são te capturar ou te matar. De qualquer maneira, é loucura deixar um rastro tão óbvio.

             — Não sei a que te refere — disse ela bruscamente.

             Alexander a puxou pelo ombro e a fez voltar-se para que o olhasse de frente.

             — Sei o que estiveste fazendo.

             — Você não sabe nada. Não fomos o suficientemente importantes para ti faz seis anos, assim não finja que agora o sou.

             — Eu tenho uma tarefa — disse Alexander, endireitando suas costas.

             — Também a tinha então — disse ela com suavidade — Você nos abandonou sabendo que podíamos necessitar de ti.

             Alexander ficou observando suas costas.

             — Jared tinha sua maneira de fazer as coisas. Eu tinha a minha. Não havia forma de conciliar.

             Permaneceram um momento em silêncio.

             — Por que vai ao castelo Donovan? — perguntou Alexander.

             Taylor encolheu de ombros.

             — É provável que o irmão de Slane esteja procurando mercenários para contratá-los.

             Alexander franziu o cenho.

             — É impetuosa. É imprudente. Não pode trabalhar para um nobre sem um Jared que tranqüilize as coisas.

             — Então, por que não toma você o lugar do Jared? — disse com sarcasmo.

             Alexander suspirou.

             — Ainda devo caçar ciganos.

             Taylor negou com a cabeça.

             — Segue com essa empreitada, não é?

     Liberar a terra do açoite dos ciganos era uma tarefa que Alexander se impôs fazia muitos anos. Não ia abandonar aquilo para ser seu companheiro. Mesmo assim, não podia evitar sentir a velha culpa subir por seu corpo até sua cabeça. Ela já não tinha a ninguém. Estava tão só como ele. Posou uma mão sobre seu ombro e o apertou brandamente. Taylor tirou a mão de seu ombro, afastando-se dele. Alexander ficou parado durante um comprido momento, observando suas costas tensas. Tinham sido os melhores amigos fazia muito tempo. E sabia que ela ainda estava sofrida. Abraçou-a, envolvendo seu rígido corpo com seus braços.

             No princípio ela resistiu, brigando contra o gesto de amizade. Mas depois suspirou e se recostou completamente sobre ele.

             — Desejo-te muita sorte com sua louca estratégia. O que seja que esteja planejando, espero que aconteça como você quiser — sussurrou Alexander. Mas ele sabia que não seria assim. E sabia também que só havia uma maneira de protegê-la. Seu olhar se posou sobre o Slane Donovan.

       Slane tirou uma parte de pão de seus alforjes. Tinha-o comprado em Sudbury e estava duro e ressecado. Partiu um pedaço e o levou aos lábios enquanto se voltava para ver Taylor. Mas o pequeno pedaço de pão nunca alcançou sua boca, pois Slane congelou ao contemplar o quadro que tinha frente a ele. A ira se apoderava de seu corpo com cada carícia que a mão de Alexander fazia às costas de Taylor. Uma intensa dor martirizava seu corpo. Deu-se conta de que tinha a mandíbula apertada com tanta força que seus músculos estavam intumescendo. Taylor descansava sua cabeça sobre o ombro de Alexander com a familiaridade dos amantes. Emanava tanta calma junto a esse homem que gelou o sangue nas veias de Slane.

       Afastou o olhar bruscamente para evitar a perturbadora cena e, mais ainda, para fugir do súbito impulso de dar um murro nesse homem. Baixou o olhar e encontrou suas mãos fortemente fechadas com o pão esmagado entre elas.

       Enojado de si mesmo, jogou o pedaço de pão violentamente. Deveria estar pensando na Elizabeth, sozinha, esperando-o, em lugar de doer-se porque outro homem tocava Taylor.

       Obrigou-se a caminhar com calma para o arroio. Não era de sua incumbência o que Taylor fazia com sua vida. Ele tinha uma vida própria para viver. Elizabeth. Com esforço, tratou de reconstruir a imagem da Elizabeth em sua mente, e lutou para encontrá-la em sua memória. Surpreendeu-se com o muito tempo que levou para recordar que ela tinha os olhos marrons e grandes. Olhos marrons e grandes que o olhavam sempre com absoluta confiança. Nos últimos tempos, sua relação com a Elizabeth tinha melhorado muito. Agora podiam sentar-se e encontrar uma agradável companhia um do outro, e inclusive rir juntos. Recordou seus suaves e pequenos sorrisos, a maneira como sua mão cobria sua boca enquanto ria, como se demonstrar qualquer sinal de diversão fosse um ato pouco feminino. Sentia saudades. Sim, como se sente falta de uma irmã.

       Olhou sobre seu ombro para Taylor e Alexander, vislumbrando-os entre os cavalos. Separaram-se, mas não completamente. Encontravam-se tão perto como para que Alexander estirasse sua mão e acariciasse sua bochecha.

       Slane franziu o cenho. O que Taylor lhe estava fazendo? Era o beijo, disse-se. O sabor de seus lábios permanecia nele como um fantasma. Devia recordar sua missão: acompanhá-la em sua volta ao castelo Donovan. Além disso, ela não devia lhe interessar.

       — Donovan?

       Slane se voltou para encontrar Alexander atrás dele.

       — Acompanhá-los-ei só até aqui — disse Alexander.

       Uma sensação de alívio atravessou Slane tão completa e intensamente que se sentiu enjoado. Suas mãos se abriram; seu rosto se relaxou. Os músculos de seus ombros se afrouxaram. Tudo o que pôde fazer foi assentir.

       Alexander riu com suavidade. Olhou novamente para Taylor, e Slane seguiu seu olhar. Ela se encontrava ao lado de uma enorme árvore de maçã. Parecia pequena e muito vulnerável. Quando Alexander voltou seu olhar para o Slane, encontrou nele uma certa dureza.

             — Sully esteve deixando pergaminho para Corydon, convidando-o a que a encontre.

             — Não!

             — Por isso pude encontrá-los tão facilmente. E lhe asseguro que os homens do Corydon estão já muito perto.

             — Ela jamais faria uma coisa assim — disse Slane olhando para Taylor, quem se encontrava recostada contra a árvore, sentada com os joelhos apoiados sobre seu peito.

             Alexander encolheu os ombros.

             — Encontrei uma carta em Sudbury e outra em uma estalagem situada entre Sudbury e Edinbrook.

             — Está mentindo — grunhiu Slane.

             Os olhos do Alexander se fecharam levemente.

             — Se eu fosse um homem mais suscetível, te desafiaria por pôr em dúvida minha palavra. Mantenha seus olhos nela.

       Deu meia volta e partiu, deixande Slane sem saber o que pensar de tudo aquilo. ‘Por quê?’, perguntou-se. ‘Por que, no nome do senhor, ela faria algo assim?’ Não tinha sentido. Mas o que tinha sentido quando se tratava de Taylor Sullivan?

 

       Taylor estudou o teto de palha da estalagem Village em Trenton. A vela que se consumia ao lado de sua cama gerava sombras que se projetavam no teto. Sombras profundas. Sombras escuras. Sombras negras que pareciam homens vestidos com batas escuras. As chamas piscavam fazendo uma burlesca cena de sombras que perseguiam suas presas brandindo suas armas ao longo do teto de palha.

       Sua raiva a tinha mantido acordada até bem tarde da noite. Sua determinação a impulsionava a levar a cabo sua missão. Ter visto o Alexander falando de Jared só tinha servido para reviver sua ira. Jared seria vingado. Ela se encarregaria de que assim fora. Não lhe importava o que isso pudesse lhe custar, o que pudesse acontecer a ela, nem sequer, o que pudesse acontecer a Slane se decidisse cruzar seu caminho. Slane. Por que esse homem a confundia tanto? Todo o resto parecia simples e claro. Simples porque só existia uma coisa: vingar ao Jared. Isso era a única coisa que lhe importava. Se se concentrasse nisso, nada poderia impedir que o obtivesse.

       Finalmente, levantou-se da cama, tomou um pedaço de pergaminho e um pequeno frasco de sua bolsa e se sentou no chão, ao lado da cama. Elevou a mão direita e contemplou durante um momento o anel que levava no dedo. Eram duas espadas cruzadas sobre uma S: o escudo da família Sullivan, anel de sua mãe.

       Tampou o pequeno frasco com um dedo e o derrubou cuidadosamente. Quando o soltou, um grande círculo negro cobria a ponta de seu dedo indicador. Com grande precisão pulverizou a tinta sobre o escudo do anel e o pressionou sobre o pergaminho, lhe dando assim um selo oficial. Limpou o anel e seu dedo no lençol.

       Depois enrolou o pergaminho, ficou de pé e se dirigiu para a porta. Deteve-se para escutar se havia ruídos; mas não percebeu som algum. Com muito cuidado, abriu a porta e olhou o vestíbulo. A porta de Slane se encontrava fechada, o vestíbulo vazio. Saiu de sua habitação, fechando silenciosamente a porta, e foi à sala de estar para procurar ao encarregado. Encontrou o homem arrumando a perna de uma cadeira, sua cabeça inclinada sobre seu lugar de trabalho, sua calva cabeça refletindo a já moribunda luz do fogo da chaminé. O homem levantou seu olhar para observá-la, à medida que ela lhe aproximava.

       Taylor alargou sua mão com o pergaminho para entregar-lhe ao encarregado.

       — Se um senhor chamado Corydon vier, lhe entregue isto — lhe ordenou que — Diga-lhe que é de parte de Taylor Sullivan.

       O encarregado levantou seu rosto para olhá-la fixamente aos olhos e depois desviou seu olhar para o pergaminho. Aproximou-se para tomar o papel que lhe tinha sido devotado, mas, repentinamente, outra mão maior se meteu no meio e arrancou o papel dos dedos de Taylor.

       — Eu ficarei com isso.

             Taylor deu um salto e se voltou para encontrar Slane atrás dela com o pergaminho firmemente agarrado. O coração lhe sacudiu no peito. Aproximou-se de Slane para tomar o cilindro de sua mão, mas ele, habilmente, afastou-o de seu alcance.

             Desenrolou o pergaminho; seus olhos azuis estudaram o papel durante um comprido momento, antes de levantar seu olhar para Taylor.

     Tragou saliva com esforço. Seu instinto ditava a Taylor que corresse para escapar da fúria que conseguia ver ardendo no olhar de Slane. Mas, em lugar disso, levantou a cabeça e o olhou corajosamente nos olhos. Não deixou de olhá-la enquanto dizia ao hospedeiro:

             — Desculpe-nos, por favor.

             Taylor pôde ouvir a ira moderada em sua voz. Calafrios de pavor subiram como disparos por seu corpo. Fazendo um gesto de compreensão, o hospedeiro tomou a cadeira para deixá-la a um lado e se afastou pelo vestíbulo.

             O olhar acalorado de Slane se cravou nela. Tinha os olhos frágeis e apertava com raiva o pergaminho. Durante um momento, Taylor pensou que ia golpeá-la. E o fez, mas com palavras.

             — Está louca? — reclamou-lhe com um silencioso sussurro — Por acaso está possuída pelo demônio?

             Oh sim, estava possuída por demônios. Mas não pelo tipo de demônios em que ele estava pensando. Slane levantou o punho com o qual agarrava fortemente o pergaminho para situar o maço de papel frente aos olhos de Taylor.

             — Do que se trata tudo isto?

             Ela abriu a boca para dar explicações, mas pensou melhor e voltou a fechá-la sem dizer nada. Como poderia lhe contar que estava decidida a vingar a morte do Jared? Como podia lhe falar de sua agonia por havê-lo perdido? Não tinha nenhuma intenção de expor-se a uma situação tão ridícula. Fechou a boca e se afastou para ir embora.

             Slane segurou fortemente seu braço e a empurrou até o centro da sala, perto da chaminé. Os olhos de Taylor se desviaram rápida e ansiosamente para olhar o fogo, antes de liberar seu braço da mão de Slane e afastar-se da chaminé avançando para as escadas. Slane a segurou pelo braço para detê-la.

             — Vais me dizer o que é que tenta fazer com estas cartas. Acaso quer me trair?

     Negou com a cabeça enquanto seus olhos se enchiam de confusão.

             — Queria que Corydon me encontrasse — admitiu.

     Os olhos de Slane se fecharam até converterem-se em ardentes brilhos azuis.

             — Ele assassinou seu amigo. Quer ter a mesma sorte que Jared?

             Slane lhe sacudiu o braço.

             — Tivemos sorte a vez passada de poder escapar ilesos. Jared não teve a mesma sorte. Ele morreu para te proteger!

             As palavras de Slane foram como uma punhalada em seu coração. Sua visão se nublou de repente.

             — Ele sacrificou sua vida por sua liberdade. Eu não vou dar minha vida por ti. —Lançou o pergaminho ao chão e se afastou dela — Pode jogar esse jogo sozinha.

             — Ele conhecia os riscos que corria quando viajava comigo — disse Taylor em um grunhido — Sabia que sua vida estava em risco todos os dias que passasse junto a mim.

             Slane girou a cabeça para ela, seus dentes apertados com força.

             — Era seu amigo! E agora você corteja a seu assassino como se fosse um amante! Se Corydon souber para onde nos dirigimos, não acha que fará tudo o que esteja em suas mãos para nos deter?

             Taylor se encarou com o Slane. Tinha os punhos apertados e todo seu corpo tremia.

             — Confio nisso.

             Slane deu um passo para ela.

             — Está louca! — disse com convicção. Puxou-a pelos ombros inesperadamente e Taylor pôde ver a angústia em seus olhos azuis — Sabe o que esse homem poderia te fazer?

             — Sabe o que eu poderia fazer a ele?

             Slane a contemplou durante um largo momento como se lesse seus pensamentos mais profundos. A raiva foi desaparecendo enquanto o entendimento iluminava lentamente seus olhos. A luz da compreensão iluminou seu rosto e suas mãos se relaxaram sobre os ombros de Taylor.

             — Taylor, isso é muito honorável de sua parte, mas...

             — A honra não tem nada que ver com isto — replicou com veemência, soltando-se de Slane — Jared não era só meu amigo... era minha família. Estaria morta se não fosse por ele. Tudo isso lhe devo.

     Slane ficou estático, aparentemente paralisado por sua confissão.

             Sacudida pelas fortes emoções que a invadiam, deu-lhe as costas para que ele não pudesse ler em seus olhos. Slane ficou frente às titilantes sombras produzidas pelas chamas bailarinas da chaminé. Cruzou seus braços diante de seu acalorado corpo.

             — Acha que tem uma oportunidade com Corydon?

     Disso não tinha dúvidas. A única coisa que sabia era que ao menos devia tentá-lo.

             — Matar-te-á, e sua morte e a do Jared não servirão para nada. — Slane deu um passo para aproximar-se. Taylor podia sentir seu olhar sobre ela, próximo a seu corpo — Não quererá que sua morte fique sem ser vingada?

             — Não — disse ela depois de um momento.

             — Então deve unir forças com meu irmão — sugeriu Slane.

             — Eu não necessito da ajuda de ninguém — insistiu Taylor.

             — Corydon tem homens que o protegem, guardas junto a ele todo o tempo. Não é um homem tolo. Se assim fosse, eu já o teria matado faz muito por atrever-se a posar seu olhar sobre as terras Donovan. — Deu-lhe a volta para olhá-la de frente — Com os homens e os recursos de Richard, pode vingar a morte do Jared. Sei que no fundo você sabe isso.

             Taylor contemplou uma sombra que ondeava no muro. Um tronco explodiu brandamente na chaminé e umas quantas faíscas saíram voando pelo ar. Sabia que ele tinha razão. Mas o assunto central continuava sendo que ela não confiava nos nobres. Confiar em Richard, aliar-se a ele? Não tinha certeza se conseguiria fazê-lo.

             Voltou-se para dizer-lhe, mas o olhar macio com que a estava contemplando a tomou de surpresa; poderia jurar que havia admiração em seus olhos. Fechou a boca e respirou profundamente.

             — Suponho que tem razão — se ouviu dizer.

             Slane tomou a mão e um sorriso iluminou seu rosto. De repente, Taylor ficou sem fôlego quando ele levou sua mão para boca. Ao sentir o roce de seus lábios em sua pele, uma poderosa sensação de exaltação atravessou todo seu corpo. Nesse momento soltou brandamente sua mão da de Slane. O sorriso desenhado na boca dele não se atenuou.

             — Então cavalgaremos rumo ao castelo Donovan — disse — Deveríamos chegar dentro de uma semana, se o tempo se mantiver igual.

             Mas ela não estava escutando suas palavras, estava massageando os nódulos dos dedos. Uma estranha e aguda sensação permanecia justo no lugar onde os lábios de Slane tinham acariciado sua pele. Sabia que unir forças com o Richard era a única maneira de vencer ao Corydon, e assim vingar a morte do Jared. Entretanto, não podia ignorar a constante sensação de que isso parecia muito fácil. Por que Richard teria que unir forças com ela?

     No momento em que ela deu o primeiro passo para retornar a sua habitação, Slane a deteve agarrando-a do ombro com gentileza.

             — Nada mais cartas? — perguntou brandamente.

             Taylor assentiu.

             — Nada mais cartas.

             Moveu seu dedo, acariciando o queixo de Taylor, mostrando-lhe um sorriso. Esse movimento esquentou seu interior, cobrindo-a com uma súbita sensação de prazer. Não pôde evitar devolver-lhe o sorriso. Então lhe deu as costas, e ela se deu conta de que seu momento sob o sol tinha terminado. A realidade voltou a golpeá-la como uma bofetada, seu sorriso se apagou e foi substituída pelo receio.

 

     Logo que chegaram a Sherville, uma forte chuva começou a saturar o ar. Conseguiram refugiar-se em uma estalagem antes da estrepitosa queda de um forte aguaceiro.

             Slane nunca tinha visto tanta gente em uma estalagem. Alguns pareciam muito doentes; suas caras estavam pálidas e a pele lhes pendurava de seus esquálidos ossos.

           Slane avançou através da multidão usando seus ombros, empurrando aos camponeses para chegar até onde estava o hospedeiro e assegurar seu alojamento. Quando deu a volta e olhou a sala de estar, franziu o cenho. Na parte mais afastada do quarto, um homem tossiu severamente e se dobrou com um brusco movimento, apertando seu peito como se estivesse morrendo.

             — Esta maldita praga está por toda parte — murmurou um homem perto de Slane.

             — Todas as pessoas que ainda podem sustentar-se em pé estão fugindo da cidade — acrescentou outra voz.

             Slane abriu passo até a mesa, onde Taylor o aguardava entre uma dúzia de homens e mulheres; todas as mesas da estalagem estavam abarrotadas. Slane se sentou na borda do banco, oposto ao dela, e pediu duas cervejas à garçonete da estalagem. Tomou um comprido gole e baixou o copo.

             — Consegui uma habitação para os dois esta noite — disse.

             Ela assentiu levemente para indicar que o tinha escutado, mas não disse uma palavra alguma. Apartou uma mecha de cabelo de sua cara, seus olhos estavam pousados sobre o homem que estava ao seu lado, que se inclinava sobre ela cada vez que levava um bocado de comida à boca. Taylor se afastou um pouco mais do homem, mas Slane viu a irritação refletida nas tensas linhas que se formaram ao redor de sua boca.

             Olhou para Slane, franzindo o cenho, enfurecida, e ficou subitamente em pé para tomar uma das jarras de cerveja que havia sobre a mesa.

             — Acredito que vou subir a minha habitação agora.

             Slane pigarreou deliberadamente, apartando seu olhar.

             — Nossa habitação — corrigiu-a.

             Ela se deteve congelada.

             — O quê?

             — O hospedeiro só tinha uma habitação disponível. Provavelmente a última habitação disponível deste povoado.

             — Não se preocupa com sua reputação? — perguntou ela.

             — Não tenho mais opções.

             Taylor girou afastando-se da mesa, agarrando com força a jarra de cerveja com sua tremente mão. Enquanto passava entre a enorme multidão, foi empurrada rudemente. Tropeçou e soltou a jarra, que caiu ao chão e rodou, deixando um rastro de morna cerveja ao longo da superfície. Taylor recuperou sua postura e encarou ao desventurado homem que a tinha empurrado.

             Slane ficou tenso. Não lhe parecia muito apropriado repreender ao pobre granjeiro pelo que tinha ocorrido. Só tinha sido um acidente.

             O homem se desculpou. Rogou sinceramente a Taylor que o perdoasse. Ela rugiu algo que fez com que o rosto do granjeiro empalidecesse; então caminhou furiosa procurando a porta.

     Slane fez um gesto com a cabeça e se levantou, agarrando sua jarra de cerveja e a seguiu. Lá fora, viu-a sentada sob o amparo de uma enorme árvore, com a cabeça entre os braços. A chuva caía levemente a seu redor. Ele recordou que a primeira vez que os tinha contratado Jared e a ela, tinha-a visto tão valente, tão cheia de confiança... Confiança suficiente para mentir sobre sua verdadeira identidade e mostrar-se tranqüila ao fazê-lo. Não obstante, as últimas semanas tinham sido muito intensas. Ela tinha perdido a seu mais próximo amigo. Soube que seu pai, um homem a quem ela não tinha importado durante oito anos, queria vê-la. Encontrava-se aflita por tudo isto.

             As sombras da árvore, que se balançava lentamente, sumiam na escuridão e alguns raios da lua que penetravam as sombras permitiam vislumbrar seu rosto.

             Slane sabia que devia deixá-la sozinha, que necessitava de tempo para resolver todas suas inquietações. Mas, de algum jeito, não podia manter-se longe dela. Encurvou os ombros e atravessou velozmente a estrada evitando a chuva. Sentou-se no chão junto a ela, olhando-lhe furtivamente o rosto.

             — Não quero sua compaixão.

             — Não lhe estou dando isso. Só quero que saiba que não está sozinha.

             Ela suspirou brandamente, incrédula. Deu-lhe sua jarra de cerveja e ela o olhou antes de aceitá-la.

             Slane sabia agora que Taylor não era o que parecia ser. Pretendia ser forte e inalterável, alguém a quem não lhe importava o que era certo. Mesmo assim, sentia intensamente. Tinha um enraizado sentido da honra. E lhe tinha salvado a vida da adaga do Hugh, sem gabar-se jamais de havê-lo feito. Slane aventurou outro olhar para ela.

             Sob um raio perdido de luz da lua, uma mecha de seu cabelo reluziu como ônix negro. Slane queria tocar a escura seda para comprovar se verdadeiramente era tão suave como parecia. Ele sabia que não devia, mas no seguinte instante, sua mão se levantou para acariciar seu cabelo. Era mais suave do que tinha imaginado. Seus olhos se voltaram para os dela. Eram tão brilhantes, tão cheios de ilusão... E havia dor nesses olhos... Dor que Slane queria acabar desesperadamente.

             Posou a palma de sua mão sobre a bochecha de Taylor, acariciando-a com seu polegar. Em contraste com sua tez branca como a luz da lua, sua mão parecia negra.

             Voltou a olhá-la nos olhos. As mais brilhantes e preciosas esmeraldas que jamais tinha visto lhe devolviam o olhar, brilhantes, cintilantes.

             — Taylor — sussurrou.

             — Slane, não faça isso — murmurou ela.

             Ele não tinha certeza de ter entendido.

             — Não acredito que possa resistir... — Afastou seu rosto da carícia de Slane e ficou de pé — Devemos retornar à estalagem.

     Slane se levantou rapidamente para não deixá-la escapar.

             — O que disse Taylor?

             Não lhe respondeu.

             — Te feri de algum jeito?

             — Eu só protejo sua reputação. Não quero que lhe encontrem aqui fora com uma pessoa como eu.

             — Acha que põe minha reputação tão em risco?

             — Eu acredito que tem medo de mim. — respondeu ela.

             — Diz que eu tenho medo de você? — Slane riu.

             Mas Taylor não riu. Voltou-se para olhá-lo, e sua incrível beleza inocente, de fato, fez com que ele se sentisse atemorizado. De repente, Slane soube que faria algo por aquela criatura, àquela mulher que estava deixando-o louco. A risada se deteve instantaneamente em sua garganta. Sabia que devia olhar para outro lado antes que ela pudesse perceber a verdade em seus olhos, mas quando viu um sorrisinho sarcástico em seu olhar, soube que já era muito tarde. Taylor começou a afastar-se dele.

             Slane pôde ver a indiferença em seu rosto, a máscara que utilizava para esconder seus sentimentos eficientemente. Odiava seu lado sarcástico. Puxou-a pelos braços para detê-la.

             — Não, não ponha esse muro a minha frente, Taylor. Vi a pessoa que pode ser. Vi a pessoa que se esconde atrás desse muro. Não me exclua. Falo muito sério, Taylor. Eu me importo com você.

             Mas ela permanecia impassível, como se não estivesse lhe ouvindo. Slane a sacudiu brandamente.

              — Está me escutando?

                    — Estou te escutando — sussurrou — Mas não posso fazer o que me pede.

             — Por quê? — perguntou em agonia, recusando-se a deixá-la ir por medo que ela voltasse a esconder-se atrás do muro.

       Os olhos de Taylor se moviam rapidamente, olhando alternativamente um olho de Slane e depois o outro, como se procurassem algo com desespero.

— Por quê? — reclamou, sacudindo-a forte e desesperadamente.

— Eu te destruiria. — sussurrou Taylor.

       Completamente surpreso Slane a soltou. Ela correu para a tênue chuva, desaparecendo entre as sombras que se projetavam na estalagem.

 

       Taylor passou a noite caminhando em círculos ao redor da hospedaria, tratando de encontrar algo no que pensar que não fora Slane. Queria pensar em algo, menos em como ele fazia com que se sentisse.

       A chuva tinha cessado e a lua descendia no céu enquanto ela retornava à hospedaria. Empurrou a porta e viu que a habitação principal estava vazia. Um menino pequeno estava sentado em um canto, sua cabeça cambaleando sobre seu ombro. Parou apenas Taylor entrou.

       Sorriu-lhe e lhe fez um gesto de que se voltasse a sentar, negando com sua cabeça. O menino, devagar e dúbio, retornou a seu canto. Não tinha mais do que oito anos de idade. Deveria estar dormindo fazia tempo.

       Taylor olhou para as escadas. Nem sequer sabia qual era sua habitação. A habitação dos dois. Suspirou. ‘Parece que vou terminar compartilhando o canto com o menino’, pensou.

     — Está preparada?

       Taylor se sobressaltou e girou, enquanto punha sua mão na espada. Uns profundos olhos azuis olharam seus movimentos com uma intensidade que atravessou sua alma. Relaxou sua mão, tirando-a da arma, apesar de que não sentiu que seus ombros se relaxassem. Seus olhos o avaliaram rapidamente.

     — Estava me esperando? — perguntou receosa.

     — Claro — respondeu Slane, dirigindo-se para as escadas

     — Oh — disse ela, seguindo-o — Tinha que te assegurar de que não tinha mudado de opinião com relação a escrever as notas.

       Slane se deteve e Taylor quase se choca contra ele. Voltou-se e a olhou, dizendo-lhe simplesmente:

       — Não. Tinha que me assegurar que soubesse qual era nossa habitação.

       Nossa. A palavra a fez sentir calafrios.

      Slane deu a volta e continuou subindo as escadas. Nervosa, Taylor olhou para baixo e viu o menino que estava dormido em seu canto. Sentiu uma espécie de inveja ao ver a pacífica expressão de sua cara. Negou com a cabeça enquanto seguia Slane à habitação.

       Tinha esperado estar tão esgotada quando chegasse que pensou que ia ser muito fácil dormir imediatamente. Mas quando entrou na habitação soube que não ia ser tão simples. Havia o espaço exato para uma só cama, nem sequer cabiam duas pessoas. Taylor se sentiu inquieta e desconfortável. Olhou para o corredor como se uma rota de fuga tivesse aberto de repente.

             — Vai deixar a porta aberta a noite toda? — perguntou-lhe Slane.

             — Pensei que isso ajudaria a proteger sua reputação — respondeu sarcasticamente e entrou na habitação.

             Slane a olhou. Estavam quase se tocando. Taylor podia ver o cansaço nas escuras linhas debaixo de seus olhos.

             — Talvez devesse estar mais preocupada com sua própria reputação.

             — Minha reputação? — repetiu elevando um pouco o tom de voz — Não acredito que possa piorar.

     Slane deu um passo para ela e Taylor sentiu que se afogava. Olhou-a com esses infinitos olhos azuis que lhe recordavam um céu espaçoso. Levantou seu braço e lhe roçou o ombro. ‘vai me beijar’, pensou ela. Seu olhar desceu para os lábios de Slane, antecipando a sensação.

             Ouviu um som a suas costas e demorou um momento para dar-se conta de que era a porta que se fechou. ‘Estou sozinha em uma habitação com o Slane’, pensou. ‘Uma pequena habitação. Uma minúscula habitação com apenas uma cama’. Sentiu que suas veias ardiam.

             — Taylor — disse ele em um tom similar a um suspiro.

             O corpo dela tremeu e se deu conta de que era puro desejo o que sentia. O desejo de ser beijada pelo Slane.

             — Estou cansado. Amanhã teremos um comprido dia pela frente — disse ele.

             Cansado. Quer dizer que seu plano, ao menos, tinha funcionado com ele, lástima que não para ela. Alagou-a desilusão quande Slane se afastou e a fria realidade lhe deu um golpe na bochecha. Não se beijariam.

             — Deveria dormir também — disse-lhe, agachando-se ao lado da cama para deitar-se no chão.

             — Vais dormir no chão?

             — Onde quer que durma? No corredor?

             Taylor levantou o tecido que cobria a cama.

             — Só há uma manta.

             Slane esperou ansioso que ela continuasse.

             — Não é o suficientemente grande para cobrir a ambos.

             — Então, cobrirá a ti — disse simplesmente, deitando-se no chão e lhe dando as costas.

             Taylor olhou a manta em sua mão durante um momento, depois a deixou cair sobre a cama e se jogou sobre ela. Tirou a espada e a pôs ao lado da cama. Tirou as botas e as lançou sem cerimônia ao chão. Cobriu todo o corpo com a manta. Quem havia dito que ela queria beijá-lo?

             Seus olhos se fecharam.

             Despertou sobressaltada. Estava banhada em suor, a túnica colada à sua molhada pele. Recordou ter sonhado com chamas, com o Jared e com homens de negro de olhos vermelhos brilhantes. Na escuridão, estendeu a mão para encontrar sua espada e relaxou um pouco.

             A luz da lua entrava brandamente pela janela, o que lhe permitiu ver o Slane dormido no chão ao lado da cama. Estendeu a mão para despertá-lo, mas se deteve no meio do caminho. O que poderia lhe dizer? Que estava tão assustada como uma menina pequena?

             Moveu as pernas na cama, mas quando a palha soou, ficou imóvel. Seus olhos se moveram para Slane, mas ele não se moveu. Silenciosamente, tomou a espada e ficou em pé. Olhou de novo Slane, recolheu suas botas e se aproximou da porta.

             — Aonde vai?

             Taylor saltou. Slane ainda estava deitado no chão, mas seus olhos agora estavam abertos.

             — Procurar uma cerveja — explicou murmurando como se ainda tratasse de não despertá-lo.

             — Não acredito que seja uma boa idéia que vá sozinha ao salão principal.

             — Quer segurar minha mão enquanto vou ao banheiro? — disse-lhe com sarcasmo — Ou talvez possa me dar à comida com uma colher já que, claramente, não sou capaz de fazer nada sozinha.

            Depois de um momento, Slane respondeu:

             — Pelo menos ponha a capa que te comprei.

             Taylor segurou a capa que lhe lançou e saiu da habitação. Fez uma pausa no corredor para colocar as botas e a capa antes de descer ao salão principal. Pediu uma cerveja ao hospedeiro e se sentou na parte de atrás do salão, na sombra.

             Olhando sua cerveja, Taylor refletiu sobre o que havia sentido quande Slane a havia tocado. Sentou-se cálida e... Amada. Amor? Riu de si mesma. Sabia que não existia tal coisa como o amor. O que ela e Slane podiam compartilhar só podia ser luxúria. Perguntou-se se o que sentia por Slane era o mesmo sentimento que tinha feito que matassem a sua mãe.

             Sua mãe. Inclusive agora, oito anos depois, sua lembrança ainda era muito dolorosa. Limpou as lágrimas e levou a cerveja à boca. Talvez fosse tão doloroso para ela porque nunca tinha entendido como seu pai pôde matar sua mãe. Ou que tipo de amor tinha feito com que sua mãe tivesse tanta fé em um homem que nunca apareceu para salvá-la. Isso não podia ser amor. Seu pai não podia ter amado sua mãe. Uma pessoa não queima a outra que ama.

             Não existia tal coisa como o amor verdadeiro. Seu pai o havia dito naquele desgraçado dia, e agora ela estava convencida de que era verdade. O amor era uma ilusão: algo que a gente murmurava ao ouvido de seu companheiro, mas que, realmente, não sentia. O que ela sentia por Slane só era desejo.

       De repente, a porta se abriu e viu seis homens vestidos de negro entrando na hospedaria. Por uns segundos, o coração deixou de lhe pulsar. Um dos homens apontou para a parte de trás da sala e depois para as escadas.

       Taylor baixou o capuz para esconder seu rosto entre as sombras da capa, e esperou até que os homens tivessem passado por ela; depois ficou em pé e se encaminhou para as escadas.

       Caminhou devagar, medindo cuidadosamente cada passo, esperando que o chefe do grupo não a visse, contendo a respiração, antecipando o descobrimento. Ouviu como, uma vez no andar de cima, os soldados abriam metodicamente cada porta, procurando.

       Cobriu um pouco mais o rosto à medida que subia muito devagar as escadas. Um dos guardas apareceu no alto e começou a descer para ela. Taylor hesitou quando o viu aproximar-se, mas continuou sua ascensão. Ele passou por seu lado, roçando-lhe o ombro. Ela se deteve, apertando os dentes enquanto ele passava a seu lado.

       Chegou ao segundo andar e viu dois soldados dando golpes numa porta que estava a três portas de sua habitação. Apressou-se para seu quarto e empurrou a porta, entrando sem ser vista.

       Logo que entrou na habitação e fechou a porta, sentiu que uma mão a puxava pela cintura, empurrando-a para um peito firme como uma pedra. Outra mão pressionava uma adaga em sua garganta.

       Taylor segurou a respiração durante um momento antes de escutar uma exalação exasperada.

            — Taylor? — um forte murmúrio soou em seu ouvido.

       — Não podemos ficar aqui, Slane — murmurou ela — Os homens do Corydon estão nos procurando na hospedaria.

       Slane a soltou.

       — Quantos são?

     — Seis. Provavelmente mais.

       O som da madeira rompendo-se perto a fez saltar. Seu coração começou a pulsar freneticamente em seu peito.

       Slane a puxou da mão fez uma pausa para pegar a bolsa que estava na mesa e se aproximou da janela. Abriu as cortinas e indicou a Taylor com a cabeça que saísse por ali.

       Taylor montou na janela e olhou para baixo. O chão estava só a cinco metros de distância e não sentiu nenhum medo quande Slane a segurou pelo braço e a ajudou a descer. Taylor aterrissou acocorada e rapidamente ficou de pé, movendo-se para recostar-se contra a parede. No longínquo horizonte, o sol estava saindo; o mundo estava ainda coberto pela escuridão da noite. Escondeu-se nas sombras, procurando na rua algum sinal dos homens do Corydon.

             Slane desceu ao chão de maneira silenciosa, fazendo tanto ruído como um fantasma. Trocaram olhares e começaram a caminhar para o caminho que os afastava do povoado.

             — E nossos cavalos? — perguntou Taylor murmurando.

             — Estão nos estábulos, frente à hospedaria. Não podemos nos arriscar a buscá-los.

             Justo nesse momento, Taylor escutou um suave relincho e deu a volta para ver vários cavalos amarrados a umas árvores. Deteve-se por um momento, procurando a algum guarda que estivesse perto. Slane se aproximou dela, murmurando:

             — O que está acontecendo?

             — Tenho uma idéia melhor — respondeu ela e o guiou para os cavalos.

             Os cavalos se moveram nervosamente quando notaram que Taylor se aproximava, mas ela os sossegou com suaves palavras. Olhou por cima do ombro para Slane, que estava ao seu lado, protegendo-a. Indicou-lhe que se apressasse com um rápido movimento da mão.

             Taylor agarrou as rédeas do cavalo mais próximo e do que estava ao seu lado e os guiou para a porta com uma expressão de triunfo em seu rosto.

             — Faz isto freqüentemente? — perguntou-lhe Slane enquanto tomava um dos cavalos e montava.

             Taylor subiu a seu cavalo e o olhou com um agradável sorriso.

             — Só o faço com as pessoas das quais eu não gosto.

             Moveu a cabeça para trás quando viu a marca do cavalo em seu flanco. A marca do Corydon. Açoitou ao cavalo e saiu cavalgando pelo caminho.

             Com um sorriso de satisfação, Slane também açoitou o seu cavalo, seguindo à pequena impulsiva.

 

       A incessante e persistente garoa cobria Slane com uma pequena capa de umidade. A chuva tinha começado logo que tinham vislumbrado o pequeno povoado de Bristol.

       Slane encolheu os ombros e sentiu sua roupa e seu cabelo empapados. Olhou para Taylor; apesar de parecer um rato afogado, continuava adorável. Taylor lhe sorriu e lhe devolveu o gesto. Nenhum dos dois tinha mencionado o beijo desde que tinha ocorrido. Slane se negava a pensar nisso... Exceto pelas noites, justo antes de dormir.

       E agora era consciente de que não podia tirar o olhar de Taylor. Ela era orgulhosa e valente e... Por Deus! Era a mulher mais bela que tinha visto em sua vida. Slane desviou seu olhar, longe dela. Era, além disso, inalcançável. E sempre o seria.

             Na metade do caminho para Bristol, um homem vestido com uma túnica escura e calças marrons bloqueou o caminho, elevando seus braços frente a eles. Slane olhou para todos os lados, procurando um sinal dos homens do Corydon. Mas as planas terras ao seu redor não albergavam esconderijos. Franzindo o cenho, deteve seu cavalo.

             — Não se permite a entrada de gente doente que necessite de cuidados — anunciou o homem, aproximando-se do cavalo de Taylor. Caminhou ao redor dos dois, examinando-os de maneira intensa, notando, particularmente, se suas peles estavam manchadas — Estão doentes? — perguntou.

             Slane negou com a cabeça e trocou olhares de confusão com Taylor.

             — Então que Deus esteja convosco se entrarem neste povoado — murmurou o homem, deixando-os passar.

             Slane sentiu como o terror subia como uma cobra pelas suas costas. O cavalo de Taylor dançou nervosamente em círculos antes que ela pudesse colocá-lo perto do de Slane.

             — Não entremos — disse ela — Podemos evitar o povoado fazendo uma volta.

             — Atrasaríamo-nos três dias — apontou Slane — Há um rio bloqueando a rota para o oeste e um denso bosque para o este. Primeiro vejamos o motivo de toda esta comoção. Se virmos que a coisa está mesmo muito mal, vamos por onde diz. Mas pode ser que não seja para tanto.

             À medida que se foram aproximando dos edifícios dos subúrbios do povo, começaram a cheirar um aroma fétido, de putrefação. Penetrante e nocivo. O aroma da morte.

 

             Um terrível silêncio os saudou quando entraram em Bristol; um estranho silêncio que fez com que Slane movesse sua cabeça de um lado a outro à medida que cavalgavam para o coração do povoado, escutando cuidadosamente se por acaso ouvia um som familiar, um som qualquer. Seu olhar passou pelas lojas, as pequenas casas construídas uma ao lado de outra. Mas o povoado estava vazio e quieto, à exceção do eco que produziam seus cavalos.

             Na rua, bem na frente deles, Slane viu um homem atirado no chão, de barriga para baixo. Um rato passava ao seu lado, deteve-se para cheirá-lo e seguiu seu caminho.

             Taylor desceu de seus arreios. Durante um comprido momento, simplesmente ficou olhando o cadáver. Slane posicionou seu cavalo perto dela, alerta se por acaso fosse algum tipo de armadilha.

           Com a ponta de sua bota, Taylor colocou ao homem de barriga para cima. Seus olhos estavam completamente abertos, olhando, sem vida, para o céu. Horrorizada, a jovem se afastou do cadáver.

             — O que acontece? — perguntou Slane.

             — Seu pescoço. Olhe seu pescoço.

             Slane o olhou, as glândulas de seu pescoço estavam horrivelmente torcidas, a pele escura e descolorida.

             — A peste — sussurrou Taylor, limpando-as mãos em sua túnica e enterrando a ponta de sua bota na terra para limpá-la. Olhou para Slane e este pôde ver que havia algo próximo ao pânico em seus olhos.

             De repente apareceram na rua acima umas duas dúzias de homens com o peito nu, gritando, dirigindo suas preces ao céu, cantando orações a Deus. Cada um deles sustentava uma corda ou um laço de algum tipo e se davam chicotadas, fazendo sangrar suas feridas que já cobriam a maior parte de sua pele. Slane pôs sua mão sobre a bainha da espada, mas a deixou guardada; nunca tinha visto nada similar antes e não sabia o que fariam estes homens no caso de que a tirasse. Taylor montou em seu cavalo.

             — Vamos daqui, Slane — lhe rogou — Por favor, não quero permanecer aqui nem mais um segundo.

             Slane não lhe respondeu. O que queriam esses homens? Atacariam o castelo tratando de encontrar algum santuário que os protegesse de toda essa loucura? Slane ficou tenso, seus olhos giraram para o castelo que brilhava na distância. Então bateu as esporas, dirigindo seu cavalo em um galope frenético diretamente para o coração do povoado.

             — Slane! — gritou Taylor. Seguiu-o furiosa.

             Slane tratou de ignorar o sempre crescente número de cadáveres, que aumentava à medida que se aproximava do castelo. Ouviu que Taylor o chamava, mas não lhe prestou atenção. Açoitou ao cavalo, movendo as rédeas para que o animal corresse ainda mais depressa. Rápido. Tinha que chegar ao castelo!

             De repente, uma mulher atravessou no caminho, sua roupa estava rasgada, partes de sua pele estavam manchadas e tinha as axilas tão inchadas que pareciam dois melões podres. O cavalo de Slane relinchou agudamente e se ergueu para trás. Sentiu que caía da sela e tratou de agarrar-se a algo, a alguém, mas não havia nada. Flutuou pelo ar durante um angustiante momento e caiu de costas no chão, golpeando a cabeça.

             — Slane! — Taylor desceu de seu cavalo e correu para ele — Está bem? — perguntou-lhe. Puxou-o pelo braço para ajudá-lo a ficar em pé.

             — Devo chegar ao castelo — disse ele.

             — Está louco? Vamos daqui!

             — Não — respondeu Slane.

             — Por quê? — perguntou Taylor.

     Slane viu como a moribunda mulher tropeçava ao cruzar a rua e desaparecia nas sombras de uma loja próxima.

             — Tenho que ver Elizabeth — respondeu Slane.

             — Elizabeth? — repetiu Taylor, assombrada.

             Slane montou de novo no cavalo, pôs suas botas nos estribos e começou a cavalgar para o castelo, deixando Taylor só no meio do caminho.

 

       Taylor seguiu Slane até o castelo. Esperava que ele se detivesse quando chegasse, mas não o fez. A ponte levadiça se baixou quande Slane se aproximou e os guardas pronunciaram uma saudação com má vontade. Quando entrou, Taylor olhou para cima, onde estavam às torres com os guardas e uma estranha sensação de fatalidade se instalou na boca de seu estômago. Os soldados pareciam reconhecer Slane. Onde estava? E quem era essa Elizabeth que tinha feito que Slane enlouquecesse de repente?

       Viu que ele cavalgava rapidamente através das portas do interior do castelo e o seguiu. Conseguiu entrar bem a tempo de ver como Slane chegava à torre central do castelo. A pele de seus braços se arrepiou. Sentia-se como uma intrusa neste estranho e silencioso castelo e, entretanto, seguiu Slane. Este correu por um corredor e depois subiu umas escadas de caracol.

       Taylor subiu de dois em dois os degraus que a levavam para o desconhecido. Tentava não perder Slane de vista.

       Levava-lhe muita vantagem, mas quando chegou ao final das escadas o viu entrar em uma das habitações ao fundo do corredor e o seguiu correndo, só para deter-se com brutalidade quando viu o que estava acontecendo. Slane abraçava a uma mulher que estava na cama, balançando-se levemente, lhe beijando brandamente os lábios, sussurrando seu nome uma e outra vez.

             — Elizabeth, Elizabeth, Elizabeth.

             A garganta de Taylor se fechou firmemente e teve que tragar saliva. Seus olhos se escureceram de dor antes de voltar-se e abandonar a habitação. Caminhou pelo corredor, mantendo as costas retas, apesar de sentir que ia chorar. Ela não era uma pessoa débil. Nunca se abandonaria a esse tipo de sentimentos. Talvez Elizabeth fosse sua irmã, uma prima, algum parente. Mas Taylor sabia que não era assim.

             Moveu-se pelo castelo como um fantasma. A imagem de Slane abraçando a essa mulher, a essa Elizabeth. Sentiu-se perdida, abandonada.

     Finalmente perambulou até o salão real. Estava vazio e sua vastidão só parecia aumentar a solidão que sentia. Afastou-se da porta tanto como pôde, procurando um lugar que a pudesse afastar dele, um lugar que a distanciasse da confusão e a dor que a invadiam. Voltou-se para olhar as duas portas grandes pelas que acabava de entrar, pensando, de algum jeito, que Slane apareceria de um momento a outro e lhe explicaria o que estava acontecendo. Mas a porta permaneceu vazia.

             Taylor tropeçou contra uma parede e se deteve por um momento, recostada nela. Mas o que estava fazendo? Nunca tinha necessitado de ninguém. E não necessitava de Slane. Mas o que faria agora? Não tinha dinheiro nem comida. Estremeceu ao dar-se conta de que tinha posto toda sua confiança nele.

     Invadiu-lhe a desolação. Deslizou pela gelada parede de pedra e cobriu a cabeça com os braços. Nunca havia se sentido tão perdida em sua vida.

             Então escutou uns passos e levantou levemente a cabeça para ver entre seus braços, esperando de algum modo que fosse Slane quem caminhava para ela. Seu coração se estremeceu de decepção ao ver, escondida sob uma mesa de madeira, como a saia de lã de uma mulher camponesa se movia de um lado a outro, aproximando-se dela. A mesa não a deixava ver o resto da mulher.

             Atrás da primeira mulher vinha uma segunda, sua saia verde de lã um pouco mais curta que a da primeira.

             — Quando voltou? Lorde Slane supostamente estava procurando a essa menina — disse uma das mulheres.

             Taylor girou levemente, contendo a respiração.

             — Faz poucos minutos — disse a voz de uma pessoa mais velha — E graças a Deus que chegou neste momento.

             — Lady Elizabeth estava gritando seu nome ontem à noite.

             — Estou rezando para que sobreviva.

             O coração de Taylor deu um tombo. Acaso a mulher acabava de dizer que Elizabeth estava gritando o nome de Slane?

             — Ficará melhor agora que lorde Slane está aqui — assegurou a voz da mulher mais velha — Ele cuidará dela... Você verá. Ponha essa taça aqui.

             — Mas se for à peste...

             — Nenhuma palavra, menina — respondeu agressivamente a mulher mais velha — Não deixarei que fale dessa maneira. Lady Elizabeth não tem a peste. Além disso, as coisas melhorarão agora. Tenho certeza. Lorde Slane quererá seguir com os planos que tinham.

             — Mas ninguém quererá vir a este povoado maldito.

             — Não acredito que os importe que haja ou não convidados em suas bodas. Já levam um ano esperando!

             Bodas? A mente de Taylor se negou a interiorizar essa palavra, negou-se a aceitar o que as vozes estavam dizendo.

             — Imagino que tem razão. Se lady Elizabeth sobreviver...

             — Claro que o fará. Quantas vezes tenho que dizer isso...

             Taylor viu como as mulheres saíam do salão real. Lutou contra a vontade que tinha de correr atrás delas e as sacudir para exigir uma explicação. Em vez de fazer isso, ficou sentada, quieta durante um largo momento, incapaz de poder-se mover, sem querer pensar. Mas os pensamentos chegaram a ela, de todas as maneiras. Umas bodas. Haveria umas bodas.

             Quando ficou em pé, suas pernas tremiam. Se se concentrasse em andar sem cair, conseguiria não pensar no que acabava de ouvir... Não pensar em como Slane não lhe havia dito a verdade. Que Elizabeth era sua prometida!

 

             Desesperada, Taylor perambulou pelo castelo, tentando clarear sua mente. Mas a única imagem que tinha na cabeça era a de Slane abraçando a sua prometida. Nunca havia se sentido tão mal. Inclusive a idéia de tomar umas cervejas lhe deixava um mau sabor na boca. ‘É minha culpa’, pensava uma e outra vez. ‘Deixei que se aproximasse de mim’. E agora estava presa num povoado açoitado por essa terrível enfermidade, não tinha uma moeda, nem comida nem amigos.

             Lutou contra as lágrimas que de repente apareceram em seus olhos. Estava furiosa consigo mesma por ter deixado que um cavaleiro nobre se aproximasse o suficiente para poder destruí-la. Tinha que afastar-se dele antes que a apanhasse outra vez com algum de seus malditos encantos, suas doces palavras ou seus suaves olhares.

             Podia destruí-la, como aquele cavaleiro sem rosto de seus pesadelos, aquele que destruiu a sua mãe.

             Desfez-se rapidamente dessas dolorosas lembranças e se concentrou em pensar como sair dali. Caminhava pelo corredor distraída, pensando em sua situação, quando, ao dobrar uma esquina, encontrou-se com quatro homens que tomavam cerveja e jogavam jogo de dados. Esboçou um sorriso ao ver que o dado girava no chão de pedra.

 

             As horas passaram em um suspiro, uma atrás de outra, sem sentir. Taylor tinha um considerável montão de moedas frente a ela e uma cerveja na mão que não parecia amarga, de jeito nenhum. Levantou os dados, agitou-os vigorosamente em sua mão e depois os deixou cair ao chão.

             Houve um momento de silêncio enquanto os dados caíam em posição; depois houve um bramido de incredulidade que fez com que Taylor sorrisse levemente. Agachou-se para recolher as moedas do chão e as acrescentou a seu montão.

             — Tem mais sorte que uma verruga na mão de um rei! — gritou um dos homens.

             — Deixem voar de novo, moços! — disse Taylor animando-os com um sorriso que os desarmou — Minha sorte tem que acabar em algum momento.

             O homem que estava sentado ao lado dela riu, passou a mão por seu escuro cabelo, sobre seus ombros e pôs a mão nas costas de Taylor.

             — Solte-a, desgraçado — bufou uma voz.

       Taylor viu que uma sombra se aproximava dela. Começou a ficar em pé, mas se deteve ao ver a figura que entrava no círculo de luz da tocha. Slane apareceu, com um gesto de desagrado em sua boca. Parou frente ao companheiro de Taylor e lhe deu um murro no meio do peito, atirando-o ao chão. Incrédula, Taylor olhou para Slane e depois se aproximou de seu companheiro.

             — Está bem? — perguntou-lhe.

     O homem assentiu e se levantou um pouco, com a ajuda dos cotovelos.

             — Lorde Slane! Um milhão de desculpas... — Desviou seu olhar para Taylor e disse: — Não sabia.

             Os outros três homens se levantaram quando reconheceram a Slane. Pareciam nervosos e se moviam como se fossem fugir de um momento a outro.

             — Se nos desculparem, a senhorita e eu temos assuntos que discutir — disse Slane com um tom de voz pesado e ameaçador — Guardem seu jogo de dados e saiam daqui.

             Os homens obedeceram rapidamente, olhando com curiosidade para Taylor à medida que partiam. O homem de cabelo escuro duvidou o suficiente para perguntar a Taylor:

             — Devo esperar?

     Ela assentiu e o homem partiu sem dizer mais nada. Taylor deu as costas ao Slane e começou a recolher seus lucros, que eram muito abundantes.

             — Vejo que se sente muito cômoda aqui — comentou Slane em um tom de voz que refletia desagrado — Aclimaste-te com muita rapidez.

             — Necessito das moedas para comida e do homem como acompanhante. Apesar de ser uma mercenária, o caminho continua sendo perigoso para uma mulher. Especialmente à noite — disse, agachando-se de novo para amarrar a bolsa com moedas ganhas.

             Com a parte de trás de sua mão, Slane deu um golpe na bolsa das moedas, fazendo-a voar até que caiu ao chão de pedra e se abriu de modo que seu conteúdo se dispersou por toda a habitação.

             — Não necessita de dinheiro — disse-lhe Slane muito sério. Puxou-a pela mão e, amável e brandamente, ajudou-a a ficar em pé; mas sua voz não soou tão amável quando disse — E não necessita de um acompanhante. Se esse homem te tocar de novo, quebrar-lhe-ei os dedos.

             — Não te pertenço e não pode me dar ordens. — forçou-se a acalmar-se — Está comprometido, Donovan. E não comigo. Eu estaria mais preocupado por mim se estivesse em seu lugar.

             — Pode te colocar na cama com facilidade com qualquer estranho? — inquiriu Slane.

             Ela se voltou e se agachou para recolher as moedas e as colocar dentro da bolsa e lhe disse:

             — E o que te importa? Faço o que tenho que fazer para sobreviver.

             Slane fechou sua mão, convertendo-a em um punho firme.

             — Se não me importasse, estaria agora aqui, falando contigo?

             Taylor se sentou no chão e levantou seu olhar para ele. Uma mecha de seu cabelo caiu sobre seus olhos.

             — Não entendo o que é o que quer. — riu com má vontade, de maneira triste — Devo dizer que tinha me enganado. Acreditei que te entendia. E depois... — Seu queixo tremeu. Não, não podia chorar —... Depois a vi.

             Desviou o olhar rapidamente, para a bolsa das moedas que estava sobre suas pernas. Suas trementes mãos tentavam atá-la com um fio, mas não conseguiam. Finalmente, deteve-se e fechou os punhos, tratando de controlar seus tremores.

             — Elizabeth não é o problema aqui — disse, simplesmente, Slane — Dei minha palavra de que te levaria ao castelo de seu pai.

             Ela o olhou surpreendida.

             — Bastardo! — murmurou.

             Ante as frias manipulações desse homem, Taylor sentiu que todos os anos durante os quais Jared tinha lhe ensinado a não perder o controle caíam para converter-se em nada. Ficou de pé, sentindo uma mescla de raiva, medo e agonia.

             — Então terá que romper essa promessa!

             Deu a volta para sair correndo e sentiu que sua garganta se fechava e que indesejáveis lágrimas subiam para seus olhos. Mas não mostraria para Slane o tanto que a tinha ferido. Nunca lhe deixaria ver suas lágrimas!

             Slane a puxou pelo braço e lhe voltou para que o olhasse de frente.

             — Minha palavra é sagrada para mim. A promessa que fiz a meu irmão não se romperá. Juro por minha tumba que não será assim. Se tiver que colocar quatro guardas para que te vigiem todos e cada um de seus movimentos vinte e quatro horas ao dia, assim o farei. Asseguro-te isso, Taylor, asseguro-te isso.

             — Sua maldita promessa... Com seu irmão está bem, não? De um nobre a um nobre. Mas a uma mercenária, a uma marginal... Neste caso sua promessa não significa nada... Verdade? Mentiu para mim! Também isso era parte de sua promessa? Sim? Mentiu. Tudo foi uma mentira, só para me trazer até aqui! Quando disse que te importava comigo, estava fingindo! Bom, pois eu também estava. Não significa nada para mim! É outro desses nobres que mente e faz com que uma mulher pense que você... — deteve-se bruscamente e sentiu como tremia seu peito — Não é melhor que meu pai...

             Uma lágrima rodou por sua bochecha.

             — Odeio-te, Slane Donovan. E cuspo na sua cara.

             Tentou cuspir-lhe, mas sua boca estava seca. Deu-lhe as costas, limpando o rosto com a manga da túnica.

     Slane franziu o cenho e entreabriu os olhos.

             — Nunca menti para você, Taylor — disse brandamente — Eu não minto. Vai contra o código ao que jurei minha vida e minha lealdade. Pode ser que me odeie, mas eu não sou mentiroso.

             — Seu prezado código é uma piada! — gritou ela, com os olhos cheios de lágrimas — E não me fale amavelmente, porque não me enganará de novo com suas suaves palavras, assim as guarde para sua prometida.

             Tentou soltar seu braço. Mas Slane continuou sustentando-a firmemente e inclusive há atraiu um pouco para ele.

              — Se pensa que usei palavras amáveis contigo para te enganar, está simplesmente equivocada.

             — Me solte maldito mentiroso! — exigiu Taylor.

             Slane mantinha firme sua mão sobre o braço dela. Olhou-a fixamente aos olhos, tentando encontrar uma razão para seu irracional comportamento. Mas não houve explicação alguma. Imediatamente a soltou.

             — Vai, vai correndo para seu sujo amiguinho, se é isso o que quer. Seus insultos me desonraram.

             A garganta de Taylor começou a funcionar de novo enquanto o olhava fixamente durante um largo momento; suas lágrimas pareciam brotos de sangue à luz do sol do final da tarde. Finalmente, deu a volta e correu pelo corredor, metendo-a bolsa de moedas entre seus seios.

 

       Taylor se retirou a um dos silenciosos e tranqüilos jardins. Era óbvio que esses jardins tinham sido formosos, mas agora pareciam ruínas. Ervas daninha cobriam as roseiras, como tratando de afogar seu esplendor. Sentou-se em um dos bancos do jardim com a bolsa das moedas sobre as pernas e deixou cair à cabeça para frente. Algumas lágrimas caíram sobre a bolsa, convertendo-se em pequenas manchas douradas à luz dos moribundos raios do sol. Sentia que não podia deter as lágrimas e, de certo modo, não queria fazê-lo.

       Ela tinha acreditado que ele se importava com ela. E claro que lhe importava. Só que não era ela quem lhe importava, mas a aliança entre seu irmão e seu próprio pai. E Elizabeth. Mas ela não. Ela tinha acreditado nele. Tinha dedicado seus sentimentos a ele. Mas agora estes sentimentos estavam quebrados em milhares de fragmentos.

       Durante esses últimos oito anos só tinha tido um amigo... Um verdadeiro amigo. E quando o perdeu encontrou Slane. Ele estava ali e ela necessitava de alguém. Alguém em quem confiar... Um amigo. Por que tinha chegado a pensar que se importava com ela? Agora sabia que não, que nunca tinha se importado...

       Taylor ficou de pé e começou a caminhar, tentando controlar-se. De maneira frenética limpava as lágrimas que continuavam saindo de seus olhos.

             O que podia esperar de um nobre? Tinha esperado muito mais do que ele era capaz de oferecer, isso estava claro. De todas as maneiras... Seu beijo. Por que esse beijo a tinha feito iludir-se? Ele tinha sido tão amável com ela enquanto todos os outros a olhavam como alguém inferior...

     ‘Maldito seja’, pensou. Tinha-a manipulado. Tinha utilizado as palavras exatas e ela tinha caído em seu jogo como uma menina pequena. E, entretanto, gostava de como a tinha feito sentir-se. Como igual.

             Dirigiu-se para o pátio interior do castelo. Essa era a razão pela que devia ir embora dali. Ele a tinha feito dar-se conta do que significava que um homem a olhasse... Como se olha uma mulher.

     Seus passos a levaram para o estábulo. Amarrou a bolsa das moedas a seu cinturão e entrou no sombrio edifício, caminhando rápido para seu cavalo. Estava desamarrando-o quando escutou a voz de um homem.

              — Me alegro que tenha vindo.

             — Eu também, Forrest — respondeu ela, reconhecendo a voz do homem que estava ao seu lado quando jogava os dados e que lhe tinha devotado seus serviços voluntariamente — Monte e vamos embora daqui — acrescentou Taylor. Mas à medida que ele saiu da escuridão, seu coração se paralisou.

             O homem estava sangrando pela boca. Taylor deu um passo para trás. Forrest limpou os lábios e observou o sangue em seus dedos.

             — Não parou de sangrar desde que acabamos de jogar — disse — Não consigo entender.

             Taylor tirou a espada.

             — Fique aí — ordenou-lhe. Os homens com os quais tinha jogado tinham falado dos sinais dessa morte negra. Os cuspes sangrentos eram os primeiros sintomas. Depois saíam umas protuberâncias debaixo dos braços, perto do pescoço ou em outros lugares do corpo. A protuberância se convertia, eventualmente, em manchas negras — Não se aproxime.

             — Vamos querida. Só um beijinho antes de irmos.

             — Acredito que procurarei outro acompanhante — disse ela — Não necessitarei de seus serviços.

             — Mas eu necessitarei dos teus — respondeu enquanto se aproximava dela.

             Taylor deteve seu braço usando a parte plaina de sua espada.

             — Da próxima vez, usarei a espada. Agora, afasta-te.

             — Desejei-te desde que te vi pela primeira vez. É fogo — lhe disse enquanto se aproximava — E agora parece que meu tempo está se acabando. Não me matará e se o fizer...

     Levantou os ombros. Aproximou-se mais dela, tentando tomá-la pelo braço. Taylor gritou e lhe cravou a espada com toda sua força, lhe atravessando o estômago. O homem cambaleou e caiu para trás, deixando-a mão na mortal ferida.

             Respirando com força, Taylor caminhou para a porta. A peste estava em todas as partes. Olhou ao homem caído e tremeu de repulsão. Poderia tê-la infectado só a tocando. Todo seu corpo tremeu enquanto subia no cavalo rapidamente e saía dos

 

       Slane apareceu à janela e olhou fixamente a luz do nascente sol. ‘Não devia ter deixado que fosse’, pensou de novo. ‘Devia tê-la detido. Comprometi minha palavra. E para que? Devido a minha ira irracional. A meus sentimentos’. Nunca tinha permitido que seus sentimentos se apoderassem assim dele. Sempre tinha conseguido controlá-los. Mas não com Taylor. Suas acusações se cravaram profundamente em seu coração. E suas palavras estavam tão cheias de ódio! Mas... Tinha razão? Perguntou uma voz. Não. Não tinha razão. Ele não era um mentiroso.

       Baixou seu olhar ao encosto da janela. Tinha tentado dizer a si mesmo que não lhe importava que ela partisse. E não lhe importava. Mas quando seu aborrecimento se acalmou, começou a importar. Então começou a procurá-la por todo o castelo, em cada habitação e em cada canto. Mas a única coisa que encontrou foi o cadáver de seu acompanhante. O homem infectado pela peste só tinha feito com que sua preocupação por Taylor crescesse. Não só enfrentava à ameaça dos homens do Corydon e dos mercenários de Richard, mas agora tinha também que lutar contra a peste.

      Cada segundo de cada minuto, Slane tinha que lutar contra o desejo de esquecer-se de tudo para sair correndo atrás dela. A necessidade de protegê-la e vê-la sã e salva era tão forte que o estava destruindo. Mas ia contra seu código. Como podia deixar Elizabeth quando estava tão doente? Tinha que tirá-la desse povoado invadido pela peste ou nunca sobreviveria.

       Tratou de dizer-se que Taylor era tão forte, tão vivida que estaria bem até que ele pudesse levar Elizabeth sã e salva ao castelo Donovan. Depois retornaria, encontraria Taylor e a levaria ante seu irmão. Mas no fundo sabia que Taylor estava em perigo, um perigo mortal. Cada momento que passava ao lado da Elizabeth era um momento a mais do qual Taylor podia sair ferida. Ou assassinada. Fechou sua mão em um punho. Sim, ela era forte e vivida, mas também era uma mulher... E agora estava sozinha.

       Se pudesse conseguir alguém que cuidasse de Elizabeth, alguém que a levasse a salvo ao castelo Donovan... Mas ela era sua responsabilidade. Responsabilidade, uma estranha maneira de pensar em sua prometida, pensou. Mas, estranha ou não, sabia que era a verdade.

     — Slane?

       Slane se voltou ao escutar o som da voz da Elizabeth. Seus olhos estavam agora abertos, frágeis devido à febre. Aproximou-se dela e viu que tinha uma capa de suor na testa. Não tinha mostrado nenhum sintoma da morte negra e Slane se sentia aliviado por isso. Ajoelhou-se a seu lado, tomando brandamente sua mão. Sentiu que sua pele ardia.

     — Retornaste — suspirou ela.

     — Claro — respondeu ele, olhando fixamente seus frágeis olhos marrons.

             — Oh, querido — murmurou — Estou tão feliz de que esteja aqui.

     Slane assentiu.

             — Tudo vai ficar bem agora. Só descansa — lhe sussurrou enquanto retirava uma mecha de escuro cabelo de seu úmido rosto.

             — Mas essa horrível praga. Slane devemos ir embora daqui.

     Com cada fibra de seu corpo, Slane queria tirar dali a Elizabeth. Queria procurar o Taylor. Esperava que Taylor estivesse partindo em direção ao castelo Donovan. Mas sabia que não era assim.

             Elizabeth lhe apertou a mão e sua mente voltou a concentrar-se nela. Beijou repetidamente a mão de sua prometida.

             — Quando estiver bem de novo, iremos — disse.

             Um pequeno sorriso apareceu nos lábios dela e suas pálpebras se fecharam novamente.

             Slane retornou à janela, esperando ver Taylor em algum lugar do povoado, apesar de saber que não ia ser assim. De repente, a porta se abriu e Slane viu entrar em seu amigo John Flynn. Correu a saudá-lo, tomando-o pelo braço, como era o costume. Slane tinha se perguntado por seu amigo John muitas vezes: onde estaria o que seria dele e se a peste o teria matado ou não. Mas agora, vendo o John parado na porta da habitação, Slane soube que podia ir procurar Taylor e que Elizabeth estaria muito bem acompanhada e cuidada.

             — Slane! — saudou-o John com um gigante sorriso em sua boca — Estou tão feliz de que tenha retornado!

             Seus olhos cor café já não refletiam essa fácil felicidade que Slane recordava. Além disso, carregava uma espada em sua cintura, o que era incomum, especialmente estando dentro das seguras paredes do castelo. Cortou o cabelo castanho escuro em forma redonda, certamente seguindo os desejos de Elizabeth. Durante os últimos seis meses, ela tinha estado tentando convencer Slane de que cortasse o cabelo dessa maneira, seguindo as tendências da moda.

              — Elizabeth te esteve chamando — continuou John.

             Seus olhos eram quentes, mas o olhavam fixamente.

             — Voltaste por Elizabeth, não é?

             Slane olhou para outro lado, tratando de fugir dos olhos do John.

             — Estava acompanhando Taylor ao castelo Donovan quando...

             — Encontrou Taylor Sullivan? — perguntou-lhe John com um tom de voz cheio de excitação.

             Slane assentiu.

             — Sim, mas a perdi.

             — O que quer dizer?

             — Tivemos uma briga e ela se foi — admitiu Slane.

             — Se foi? — perguntou John — Não a atou?

             — Não sou um bárbaro — Slane respondeu agressivamente.

             — Talvez devesse fazê-lo — sugeriu John.

             — Ela não é um objeto. É uma mulher.

     Na cama, Elizabeth volteou a cabeça e trocou de posição pelo que durante uns instantes Slane centrou toda sua atenção em sua prometida. Quando voltou a estar tranqüila, reatou a conversação com seu amigo:

             — Não está bem o que Richard está fazendo... Está lidando mal com ela.

             John levantou os ombros.

             —Isso não te incumbe — lhe disse.

             Slane resmungou e deu as costas ao John.

             — Seja como for, tenho que ir procurá-la.

             — Não pode deixar Elizabeth neste estado! — disse firmemente John — Não acredito que tenha a peste, mas, de todas as formas, está muito doente.

     Os olhos de Slane posaram em Elizabeth. Estava tão pálida e se via completamente indefesa. Resmungou para si. Sabia que não podia deixar Elizabeth. Sua responsabilidade estava ali, com ela.

             — Alguém mais encontrará à mulher Sullivan — disse John — Richard terá a sua prometida.

             Os olhos de Slane se posaram imediatamente em John. Tomou-lhe firme, quase dolorosamente, o braço e, de maneira urgente, disse-lhe:

             — Tem que encontrá-la. Tem que encontrá-la antes que alguém mais o faça.

             Confuso, mas lendo o óbvio desespero e insistência que mostrava seu amigo em suas súplicas, John assentiu e disse:

             — Vou tentar.

 

       No dia seguinte, Slane sentou no salão real, observando um copo de cerveja que estava ali. A imensa sala estava estranhamente vazia. Só ficaram uns quantos serventes leais que tinham permanecido ali para cuidar da senhora da casa. E não eram muitos, pois Slane podia contá-los com os dedos de uma mão. Em silêncio, amaldiçoou aos desertores. De todo modo, Elizabeth não os necessitava. A febre tinha baixado substancialmente na noite anterior e agora estava descansando. Slane sabia que sobreviveria.

       Também sabia que Taylor podia não ter a mesma sorte. Encontrava-se lá fora, entre os doentes, lutando por sua vida. Sozinha. Ficou de pé e começou a perambular, amaldiçoando ao seu irmão por lhe haver encomendado essa missão.

             E o que lhe tinha acontecido com John? Fazia vinte e quatro horas que tinha partido e ainda não tinha tido notícias dele. Acaso tinha mandado a seu amigo a encontrar-se com a morte?

             Mal estes pensamentos cruzaram sua mente, Slane escutou uns passos, voltou-se e viu John entrar. Slane se aproximou rapidamente dele.

             — E bem? — perguntou — Está ela aqui? Encontraste-a?

             John resmungou e negou com a cabeça.

             — Não pude encontrar nenhum rastro dela. Ninguém a viu. É como se tivesse desaparecido.

             Slane suspirou. Conhecia tudo a respeito dos desaparecimentos de Taylor. Sim, conhecia. Que planos teria? Para onde estaria se dirigindo? John perguntou:

             — Como está lady Elizabeth?

     Slane assentiu.

             — Muito melhor. A febre baixou. Ficará bem.

                    John suspirou e disse:

             — Graças ao Senhor.

             Slane sabia que deveria se sentir afortunado, mas não era assim. Sentia-se infeliz e preocupado.

             — Toma um pouco de cerveja. Também há uma panela cheia de aveia na cozinha, come o que quiser — disse a John e logo se dirigiu para a porta.

             — Aonde vai? — perguntou John.

       Slane duvidou por um momento. Queria sair em busca de Taylor com todo seu ser. Mas sabia que isto era impossível.

             — Ver Elizabeth — disse de maneira aflita.

 

             Elizabeth abriu os olhos. A luz penetrava em seu quarto por entre as cortinas abertas, mas algo escuro lhe impedia de ver a claridade. Por um momento pensou que era John, mas depois viu com mais nitidez um cabelo dourado que pendurava em brilhantes ondas sobre uns fortes ombros. Soube que era seu amado. Animou-se imensamente e se sentiu quase como seu antigo ser. Sentou-se na cama.

             Slane se separou da janela ao ver seu movimento. Havia alguma coisa de preocupação e um pouco de raiva em seu semblante, que desapareceu quando a viu sentada na cama. Ficou ao seu lado e Elizabeth lhe ofereceu sua mão. Sua imensa mão cobriu toda a dela, enchendo a de calor.

             — Como se sente?

             — Melhor — sorriu Elizabeth — Melhor, agora que está aqui.

             Um olhar de preocupação turvou os olhos azuis de Slane por um momento, mas desapareceu segundo depois de ter aparecido. Sorriu-lhe, mas Elizabeth pôde ver a tensão ao redor de seus lábios.

             — Ocorre algo mau? — perguntou-lhe.

             — Não — disse ele — Tudo ficará bem agora que está melhorando — disse enquanto lhe acariciava a mão.

             Elizabeth olhou a mão de Slane sobre a sua. Estava acariciando-a de uma maneira ausente, como se sua mente estivesse concentrada em outra coisa.

             — Não terminaste de procurar à moça, verdade?

             Slane ficou de pé.

             — Não — admitiu.

     Elizabeth sentiu uma faísca de desilusão no peito. Ia deixá-la de novo. Por isso estava agindo assim, distraído. Desejou que não tivesse que perder tempo procurando outra mulher, mas sabia que era isso o que sua honra exigia. E ela não aceitaria outra coisa.

             — Está bem, querido — tratou de tranqüilizá-lo — Seriamente.

             Slane a examinou durante um momento aproximou-se dela e se ajoelhou ao lado da cama. Tomou suas mãos entre as dele e pressionou sua testa contra os pulsos de Elizabeth.

             — Oh, Elizabeth — gemeu — Sinto tanto.

             Ela acariciou seu dourado cabelo.

             — Não tem por que senti-lo, Slane — murmurou.

             Mas Slane permaneceu em sua posição reverencial durante um largo momento. Quando finalmente ficou de pé, seus ombros se ergueram e houve determinação em sua voz.

             — Vamos ao castelo Donovan dentro de dois dias.

 

             Slane deteve seu cavalo frente à estalagem Queen, e desceu dele rapidamente. Durante três dias tinha tentado não demonstrar sua ansiedade e seu desespero. John tinha saído uma vez mais em busca de Taylor, mas infrutuosamente. Slane sabia que já não poderiam encontrá-la. Tinha partido fazia muito tempo. Olhou ao John e lhe disse:

             — Fique aqui com lady Elizabeth. Eu irei ver se há habitações disponíveis.

             John assentiu e Slane entrou na estalagem.

     A estalagem estava conformada por uma maré de corpos. Não haveria habitações disponíveis aquela noite: era de esperar-se. Slane duvidava inclusive de que houvesse um espaço no chão para quando chegasse à noite. Mesmo assim, algo o obrigou a parar sob o marco da porta e varrer com seu olhar a enorme sala de estar da estalagem. Taylor não estaria ali, pensou. Mas a encontraria, jurou-se a si mesmo. Iria encontrá-la.

         Uns olhos cheios de medo chamaram sua atenção; outros olhos cheios de desesperança evadiram seu olhar. Homens, mulheres e meninos... Todos fugindo de um inimigo invisível, sem saber onde, quando ou a quem atacaria primeiro.

     Slane deu um passo para dirigir-se à porta de saída e nesse momento viu fugazmente algo familiar. A túnica de uma mulher. Um par de meias conhecidas. Voltou para a sala de estar. Ela estava sentada na parte posterior do recinto; seu descuidado cabelo lhe tampava o rosto. Slane continuou com passo decidido enquanto a multidão se separava dele ao seu passo. Ela parecia inanimada, seus braços cruzados sobre uma mesa de madeira, seu cabelo pendurando grosseiramente como se não o tivesse penteado em vários dias. Sua túnica estava rota à altura do ombro e havia sangue seco ao redor do buraco. Sua cabeça e ombros estavam dobrados para seu peito como se estivesse dormindo. Slane mal podia acreditar no que viam seus olhos, mal podia acreditar sua sorte!

             — Taylor? — perguntou em voz alta.

             — Olá — murmurou ela.

     O alívio que tinha começado a apoderar-se dele quando a encontrou foi substituído instantaneamente por uma crescente preocupação. Estava ferida, e ao que parecia era grave. Havia cortes em sua roupa. Cortes de espada... Tinha certeza disso. E como se viam as feridas, tinha certeza de que não tinham sido limpas e cuidadas adequadamente.

             — Taylor? — repetiu Slane ao ver que ela não levantava a cabeça para olhá-lo — Não tem aspecto muito bom. — Um intenso sentimento de amparo ardeu dentro dele — Vamos — disse — Deve vir comigo.

             Taylor estendeu suas mãos sobre a mesa, de tal maneira que as mangas de sua túnica se recolheram. Várias cordas atavam seus pulsos, fortemente aprisionados, e raspavam sua pele.

             — Não é a única pessoa que quer que eu o acompanhe.

             — Que tipo de brincadeira infeliz é este? — perguntou Slane enfurecido — Quem te fez isto? — Agarrou as cordas e as agitou como se esse simples movimento a pudesse liberar.

             Taylor fez um gesto de dor; seu rosto se retorcia em agonia.

             — Te agradeceria se não fizesse isso — conseguiu dizer, sufocada, através de seus apertados dentes.

             Mortificado, Slane soltou as cordas.

             — Sinto — disse. Rapidamente se sentou no banco que se encontrava frente a ela e aproximou seu corpo ao de Taylor. Aproximou sua mão do rosto da jovem e removeu com muito cuidado as mechas de cabelo que se encontravam pousados sobre sua bochecha, para tentar ver seus olhos — Quem te tomou prisioneira? Onde estão as pessoas que te fizeram isto?

             Finalmente, Taylor o olhou através dos cabelos que voltavam a cobrir seu rosto. Em meio ao cabelo, seus olhos estavam cansados e frágeis.

             — Um mercenário chamado Magnus Gale.

     Os olhos de Slane se abriram surpreendidos ao escutar esse nome. Tinha trabalhado com esse homem uma vez. Evidentemente, Magnus queria ganhar recompensa que Richard tinha oferecido a quem o levasse Taylor.

             — Encurralou-me e brigamos. É um adversário muito bom, sabe? Do contrário, eu não estaria sentada aqui.

             Slane ficou horrorizado ao ver as escuras manchas em sua bochecha e os cortes nos lábios. A ira se apoderou dele e agora fervia em seu sangue.

             — Magnus. Fomos companheiros uma vez. Mas era um bastardo tão brutal que não pude continuar ao seu lado. — Slane franziu o cenho e de novo varreu com seu olhar a sala de estar — Onde ele está?

            ‘E por que está você sentada aqui?’. Perguntou-se, mas não o disse em voz alta. Poderia Magnus ter apagado o fogo dessa mulher indomável?

             — Foi buscar comida — disse Taylor — E retornará, se é que não está nos observando neste momento. Slane... — sussurrou ela implorando, mas se deteve.

             Slane a olhou nos olhos, nos quais se desenhava o mais absoluto desespero.

             — Ao diabo com ele — disse — Você vem comigo agora. — Deu uma volta à mesa para aproximar-se de Taylor — Embora queira cuspir na minha cara, não acha melhor estar sob meu cuidado? — perguntou com um tom sincero — Eu, pelo menos, não te ataria como a uma corda.

             Ela o olhou, agradecida.

             — Só se me comprar uma cerveja quando estivermos longe daqui — disse, estendendo suas mãos para ele.

             — Comprarei-te duas — disse Slane sorrindo. Agachou-se um pouco e colocou a mão em uma de suas botas e, depois de ter tirado uma pequena adaga, cortou rapidamente a corda que atava as mãos de Taylor.

             A jovem esfregou seus doloridos pulsos. De repente, ficou imóvel, como se esse simples movimento lhe tivesse causado muita dor.

             — Slane... Não sei se poderei caminhar. A ferida do tórax dói como o diabo; ainda está sangrando.

             Slane sentiu como seus dentes chiavam. Esse bastardo pagaria por isso, jurou-se em silêncio. Devia tomá-la em braços e tirá-la dali, mas não havia nenhuma maneira de atravessar a multidão. De repente, um pensamento surgiu em sua mente. Não era agradável, mas não havia outra opção. Cortou-se no dedo indicador com a adaga e pôs a arma de novo em sua bota.

             — O que está fazendo? — perguntou Taylor.

             — Te tirando daqui — respondeu Slane. Esquadrinhou ao seu redor até que encontrou um bêbado inconsciente no chão. Agachou-se e limpou seu dedo perto da boca do homem, lhe manchando a pele do rosto com sangue. Depois ficou de pé e retrocedeu até tropeçar-se com um granjeiro. O granjeiro se voltou para ver os horrorizados olhos de Slane e seguiu seu olhar até encontrar-se com o bêbado.

            O granjeiro tragou saliva e apontou com um dedo tremente.

             — Olhem!

             — Deus meu, esse homem tem a peste! — gritou alguém atrás de Slane.

             — A peste está aqui! — gritou outra mulher ao ver o sangue perto dos lábios do bêbado — A morte negra entrou na estalagem.

             Todas as pessoas que estavam de pé correram em desespero para a porta de entrada, empurrando-se e dando-se cotoveladas freneticamente para sair. Um sorriso de satisfação se desenhou nos lábios de Slane enquanto observava a amalucada multidão correr para a porta. Nesse momento um menino se cambaleou e caiu sobre suas mãos e joelhos fazendo que o sorriso de Slane se apagasse de seu rosto. Centenas de pés se estalavam pesadamente contra o chão ao redor do pequeno enquanto a correria de gente fugia da morte negra. Slane saltou sobre uma mesa que se encontrava queda no chão e se equilibrou sobre o menino, mas sabia que quando o alcançasse seria muito tarde.

             Então apareceu Taylor e agarrou à criatura com um abraço protetor. Slane viu como um homem se tropeçava contra ela e a atirava ao chão com um forte empurrão. Imediatamente, Slane apressou sua carreira para alcançá-la, mas enquanto corria para ela, Taylor conseguiu engatinhar até incorporar-se e recostar-se contra uma parede, protegendo ao menino com seu corpo do tumulto.

             Finalmente Slane os alcançou e se acomodou de tal maneira que seu corpo servisse de escudo para proteger Taylor dos trancos e golpes da enlouquecido multidão. Com o menino retorcendo-se entre eles, Slane inclinou sua cabeça orgulhoso para encontrar-se com os olhos de Taylor. Mas quando ela levantou para ele seus deliciosos olhos, Slane viu um brilho de dor brilhando em seu olhar. Taylor começou a cair lentamente contra a parede, e Slane pôde abraçá-la pelos ombros com uma mão, enquanto segurava ao menino com a outra. De repente, uma mulher apareceu a seu lado e levou ao menino. Slane a viu abraçar ao pequeno e afastar-se velozmente na escuridão da noite.

             Segurou Taylor em seus braços, negando-se a reconhecer o medo que o paralisava e lhe cortava a respiração. Ignorando seus temores, levou ao Taylor com muito cuidado até um banco, onde a deitou.

             — Francamente, decepcionaste-me, Slane Donovan — murmurou Taylor e se deteve, esgotada pelo esforço. Logo, muito devagar, levantou o braço direito e apontou para sua túnica.

             Slane seguiu seu olhar. A túnica estava empapada com sangue fresco. A angústia o atravessou como uma espada.

             — Te afaste dela, Donovan.

             Slane se voltou e viu Magnus Gale. O homem sustentava um prato de comida com uma mão e com a outra apertava o punho de sua espada. Era musculoso e se encontrava coberto por uma cota de malha.

             — Ela me pertence — acrescentou Magnus, apertando sua mandíbula — E também me pertence à recompensa que oferecem por sua cabeça.

             — Não haverá tal recompensa, Magnus — corrigiu-o Slane, incorporando-se para enfrentá-lo — A levarei ao castelo de meu irmão — Se voltou para Taylor — Necessitamos de um médico — disse. Examinou o lugar com seus olhos para tirar finalmente a túnica e apertá-la ao redor da ferida de Taylor. Tomou a mão da jovem e notou que estava muito fria. A raiva se apoderou dele. Beijou seus dedos antes de posar sua mão firmemente sobre a ferida — Continua apertando a ferida ou sangrará até morrer.

             Magnus deu uma palmada no ombro nu de Slane.

             — Ela não irá a nenhum lugar contigo. Eu a levarei a castelo Donovan.

     Slane girou e atacou com a velocidade de uma cobra, envolvendo sua mão ao redor do pescoço do Magnus. O prato de comida caiu ao chão e a comida se pulverizou por toda parte.

     Slane se equilibrou sobre o Magnus, forçando-o a tropeçar de costas. Finalmente, empurrou-o contra a parede; o golpe foi tão forte que Taylor acreditou notar como tremia o edifício. Mas Slane nem se alterou, só tirou violentamente a espada de Magnus de sua bainha e a jogou no outro extremo da habitação. Logo apertou mais a garganta do Magnus.

             — Talvez não me tenha me ouvido da primeira vez, suja escória — disse Slane através de sua contraída mandíbula — A dama viaja comigo.

             Magnus tentou liberar-se por um instante. Depois de um momento ficou completamente quieto.

             — Meu senhor — disse o encarregado da estalagem — Não quero problemas aqui. Por favor. Resolva seus assuntos fora.

             — Essa é uma boa idéia — respondeu Slane. Sustentou ao Magnus de tal maneira que não pudesse mover-se e se dirigiu de novo ao Taylor — Poderá sair sozinha? —perguntou.

             — Não... Não sei — disse ela em um sussurro.

             De repente, Magnus lançou um chute em Slane, que caiu de costas. Imediatamente, o mercenário tirou uma adaga de seu cinturão.

             — Vais morrer Donovan — disse sorrindo sarcasticamente, enquanto baixava sua adaga em direção a ele.

             Slane deteve o ataque do Magnus, segurando-o pelo pulso, enquanto o mortal fio da adaga se suspendia a só uns centímetros de seu peito. Slane se articulou de tal modo que conseguiu mover os pés sob o corpo de seu inimigo, e lhe deu um chute que o atirou de costas. Ambos os homens se incorporaram com agilidade e ficaram olhando-se, receosos.

             — O que ela significa para ti, Donovan? Por que arrisca sua vida para salvá-la? —grunhiu Magnus, retrocedendo para o Taylor.

             — Se ela morrer, você também morrerá.

             Magnus riu entre dentes, retrocedendo para ela. Slane lançou seu corpo para ele, mas Magnus tentou apunhalá-lo mais uma vez, detendo o movimento. Então, Magnus se moveu subitamente e correu na direção de Taylor.

             Um pequeno grito escapou da garganta de Taylor enquanto lançava instintivos murros ao Magnus. Mas seus reflexos eram lentos e ele esquivou seus golpes com facilidade, tomando-a pela cintura com suas enormes mãos. O abraço, tão perto de sua ferida, a fez chorar ao ser levantada pelo mercenário.

             Mas Slane já havia se recuperado, e reagiu com rapidez. De um salto, esteve novamente de pé frente a Magnus. Seu punho não se deteve até encontrar-se com o nariz de seu inimigo, e sorriu com uma sombria satisfação ao ouvir o ruído do osso ao romper-se depois do impacto.

     Magnus agüentou o golpe; sua cabeça se balançou bruscamente para trás, mas não soltou Taylor, pelo contrário, apertou-lhe até mais a cintura. Quando o sangue começou a brotar de seu destroçado nariz, sorriu. Então, sua pesada bota golpeou ao Slane no abdômen.

             — Ela é minha — gritou Magnus — Pode ficar com ela quando me tiverem pagado a recompensa.

             — Não vale nada se estiver morta, idiota — rugiu Slane, lutando contra a dor de seu abdômen. A mão de Slane se moveu em direção a sua espada, e quando viu que os olhos do Magnus se desviavam para seguir esse movimento, levantou um copo de cerveja com a outra mão e jogou o líquido na cara de seu adversário.

             Depois que a cerveja alcançou seus olhos, o homem piscou, em um intento desesperado por limpar a vista.

             Slane agarrou o punho do Magnus e, segurando Taylor pelo braço, a arrebatou com força. Retrocedeu e deu outro contundente murro no já quebrado nariz do Magnus. O murro foi seguido por um último e veloz ataque que se estralou contra o queixo do mercenário.

             Magnus caiu pesadamente no chão, enquanto sua adaga era lançada ruidosamente contra a superfície.

     A ira ainda fervia no corpo de Slane enquanto se equilibrava sobre o Magnus. O homem golpeou Slane, detendo seu ataque, e se incorporou para arremeter contra ele, golpeando-o de novo no abdômen com o ombro, mas Slane o esquivou e lançou um pesado golpe contra a garganta do Magnus. Escutou-se um arrepiante rangido. Então, Magnus desabou sobre ele, repentinamente. Seu enorme peso o aprisionou sem misericórdia. Slane lutou para liberar do peso e se moveu até que, por fim, pôde fazer um movimento de alavanca com seu joelho e empurrar o corpo do Magnus com a perna o suficiente para deslizar-se. Incorporou-se e assumiu uma postura dominante sobre o corpo do homem que estava de barriga para baixo frente a ele, esperando a que se levantasse. Mas nunca o fez.

     Slane esperou um largo instante antes de agachar-se e tomar o corpo do Magnus do ombro para dar-lhe a volta. Os olhos do mercenário estavam muito abertos e frágeis. Sem vida.

             — Meu bar — gemeu o hospedeiro, que reaparecia atrás de uma mesa virada — Quem vai pagar por todos os danos e a perda de meus ganhos?

             O olhar de Slane se desviou para Taylor: não tinha se movido do lugar onde tinha caído. Sua cabeça estava dobrada para seu peito, seu cabelo cobria desordenadamente seu rosto, e gotas de sangue começavam a cair do lado de sua túnica.

             — Procure um médico — disse Slane acaloradamente — antes que destrua o resto de sua estalagem.

             Slane se moveu para Taylor e se ajoelhou a seu lado. Seus próprios pensamentos pareciam zombar dele. Taylor era muito forte, muito valente... Ficaria bem.

             Mas Taylor não se movia e Slane tinha medo de tocá-la, medo de não ver seus olhos abrirem-se uma vez mais.

             — Taylor? — sussurrou com uma voz rouca.

             Procurou com sua mão o corpo de Taylor, só para descobrir que estava tremendo. Com suavidade tocou seu pescoço e rezou, contendo o fôlego. Com um alívio tão intenso que o levou a borda do esgotamento, sentiu seu sangue pulsar sob sua morna pele.

             — Oh, Deus — sussurrou com gratidão. Rapidamente, tomou sua túnica de novo e uma vez mais a pressionou sobre a ferida do tórax. Apartou-lhe o cabelo do rosto para poder vê-la — Taylor? Taylor pode me escutar?

     Ela entreabriu os olhos, como se fosse dormir em qualquer momento.

             — Oh — gemeu, tentando levantar-se. A dor lhe percorreu todo o corpo, torturando cada uma de suas articulações. Dobrou seu corpo levando seus joelhos para seu peito, e levantou a mão para posá-la sobre sua ferida. Sua mão tocou a de Slane. Nesse momento, abriu os olhos para encontrar-se com seu olhar. A agonia que refletia seu olhar lhe rompeu a alma.

             — Dói tanto, Slane...

             Retirou o pouco cabelo que ficava sobre seu rosto, amaldiçoando-se por não havê-lo feito antes.

             — O hospedeiro foi procurar um médico. Você vai ficar bem — animou-a, tratando de esconder a dúvida em sua mente.

             — Realmente me viria bem... — Olhou-o novamente, durante um prolongado momento, antes que a agonia trocasse a expressão de seu rosto — Slane — disse ela com dificuldade. As lágrimas enchiam seus olhos.

             Ele aproximou o corpo de Taylor para o seu, afundando seu rosto em seu cabelo e beijando sua têmpora.

             — Estou aqui, Taylor — sussurrou — Não te deixarei.

             — Slane? — perguntou uma voz masculina da porta de entrada — O que está acontecendo aqui?

             Slane lançou uma rápida olhada e viu Elizabeth e John, parados uns passos dentro da estalagem.

 

     O primeiro impulso de Slane foi soltar Taylor e deitá-la de novo no chão com muito cuidado. Mas seu corpo se negou a obedecer. Seu segundo impulso foi explicar absolutamente tudo de uma só vez em uma corrente de palavras. Mas seus lábios se negaram a obedecer. Seu terceiro impulso foi abraçar Taylor com mais força, como se ela precisasse ser protegida da esbelta mulher que estava de pé no marco da porta e que olhava com olhos agudos e inquisitivos. Seus braços obedeceram este último impulso de maneira quase imediata.

             As sobrancelhas da Elizabeth se contraíram levemente. Olhou a habitação, encontrando-se com mesas quebradas e com um homem que jazia morto no chão. Quando seus olhos se reencontraram com os de Slane, estavam cheios de confusão.

             — Meu amor, o que aconteceu? Você está bem?

             À medida que Elizabeth se aproximava, Slane notou a arrogância e a leve inclinação de seu queixo quando olhava para Taylor. Notou como o ressentimento se revoltava em alguma parte, em seu interior. Mas ele mesmo não tinha reagido assim quando conheceu Taylor?

             — Sim, eu estou bem — respondeu Slane — Mas ela não está. Tem uma profunda ferida no tórax esquerdo e terá que curá-la. O hospedeiro foi procurar um médico, mas não sei se encontrará um o suficientemente experiente para ajudá-la.

             — Me deixe fazê-lo — disse Elizabeth, ajoelhando-se junto a ele — Sou suficientemente capaz. Sabe que sou.

     Empurrou Slane com delicadeza para tirá-lo do meio, mas ele se negava a soltar Taylor.

             — Querido, me traga toalhas limpas e água morna. Tenho uma bolsa na cela de seu cavalo. Traga-me isso.

             Slane olhou para Taylor uma vez mais. Um sentimento de angústia se apoderou dele e o obrigou a apertar Taylor com mais força. Se fosse, se a soltasse, ela poderia não voltar. Ela poderia fechar os olhos e não voltar a abri-los de novo. Algo similar ao pânico nascia nele. Notou o sangue em seus dedos. O sangue de Taylor. Mas se não a soltava e impedia que Elizabeth atendesse suas feridas, morreria sangrando.

     Acomodou-a o melhor que pôde no chão, e viu como Elizabeth levantava a túnica de Taylor. A ferida era pior do que ele pensava. O sangue emanava de seu corpo, derramando-se sobre sua cremosa pele. O escuro fluido se via como uma horrível mancha que a poluía lentamente.

     A preocupação o carcomia. Voltou à cabeça para encontrar-se com Taylor olhando-o com atenção. Viu tal pânico em seus olhos que impulsivamente tomou sua mão.

             — Você vai ficar bem — disse para tranqüilizá-la — Elizabeth me curou em mais de uma ocasião.

             — Querido — disse Elizabeth em tom reiterativo — Minha bolsa.

             Slane assentiu e se apressou para a porta, dando a mesma ordem ao John. Falou brevemente com uma garçonete, lhe dando instruções para conseguir toalhas limpas e água morna. Quando falava, seus olhos se mantinham vigiando Taylor. Via cada inspiração, cada gesto de dor. Inclusive, pôde sentir o segundo no que ela fechou os olhos. Esperou que os abrisse de novo. Mas suas pálpebras permaneciam fechadas. ‘Abre os olhos, Taylor’, desejou profundamente. Seus olhos continuavam fechados. A via tão serena, tão cheia de paz como se estivesse dormindo ou... Incapaz de agüentar mais seu agudo temor, Slane correu ao lado de Taylor.

             — Elizabeth?

             — Terá que levá-la a uma habitação com cama. Não posso fazê-lo aqui. Vou costurar-lhe a ferida, e terá que estar muito quieta depois para que o fio não se rompa, temos que movê-la agora porque logo não poderemos fazê-lo.

     Slane assentiu.

             —Tenho certeza de que há suficientes habitações disponíveis neste lugar.

     Slane olhou para Taylor, para seu arroxeado e torturado rosto, mas ele já conhecia a beleza que se escondia por trás das horríveis marcas que danificavam suas feições. Era uma beleza que reluzia através dos hematomas e do barro. Uma mecha de cabelo tinha caído sobre seus olhos, e ele queria apartá-la desesperadamente. Em lugar disso, agachou-se e a elevou em seus braços, tratando de ignorar a flacidez de seu corpo e a maneira como sua cabeça caía para trás. Fez o possível por ignorar o sentimento de ansiedade que criava um vazio em seu estômago.

     Elizabeth o seguiu pelas escadas. Sacudiu a cabeça, batendo a poeira seu vestido.

             — Não posso imaginar como uma mulher pode meter-se em brigas e acabar com uma ferida de espada. Deve ser uma mulher sem nenhuma educação nem refinamento. Quem é meu senhor?

     Os dentes de Slane chiaram.

             — É a futura esposa de meu irmão — respondeu.

              — Pobre Richard! Temo-me que se sentirá gravemente decepcionado.

 

             —Slane?

             Slane despertou sobressaltado. Demorou uns instantes para recordar que tinha deixado Elizabeth acomodada em uma habitação e depois tinha ido sentar se ao lado de Taylor. Estar ao seu lado era inevitável.

             Tinha estado tão furioso, tão zangado quando se deu conta de que Taylor se foi. Mas agora, enfrentado ao pensamento de que ela poderia morrer, sentiu que sua ira se desvaneceu e algo mais... Algo que não havia sentido antes estava surgindo em seu peito.

             Seus olhos se acostumaram à tênue luz produzida pela vela. Os formosos olhos verdes de Taylor estavam abertos e o olhavam diretamente. Precipitou-se para a cama, ajoelhando-se. Tomou sua mão. Seu corpo se estremeceu de alívio. Inclinou-se para ela, acariciando sua bochecha com a ponta dos dedos; não se surpreendeu ao sentir sua pele febril ao tato. Apressou-se em empapar um pedaço de tecido em um recipiente com água que estava no chão perto da cama e o passou sobre a testa da garota.

             — Taylor, Taylor — sussurrou para si — O que vou fazer contigo?

             — Poderia me trazer uma cerveja — sussurrou ela.

     Slane sorriu brandamente enquanto continuava refrescando a testa de Taylor com o retalho de tecido. Seu olhar se posou sobre seus verdes olhos.

             — Como se sente? — perguntou.

        Ela gemeu.

             — Sinto-me como se um cavalo tivesse me pisoteado — respondeu depois de um momento. Levantou sua mão e a levou ao tórax, acariciando brandamente sua ferida. Franziu levemente o cenho e suas feições se escureceram. Quando voltou a olhar para Slane, seus olhos estavam decididos — Por que não me disse? — perguntou.

            Slane afastou o olhar e depositou de novo o pedaço de tecido dentro do recipiente. Por que se sentia culpado? Como se a tivesse traído de algum jeito. Era uma idéia ridícula. Não tinha jurado lealdade a essa mulher, só ao seu irmão.

             — Não era importante — disse à defensiva — Nossa relação, a tua e a minha não é nada mais do que parece.

     Ainda não podia levantar o olhar e enfrentá-la. Escutou um ruído e voltou à cabeça para ver os torneados lábios de Taylor retorcer-se, cheios de cinismo.

             — Suponho que estava equivocada — sussurrou ela.

             Slane viu como seus lábios tremiam, a maneira como sua garganta se movia.

             — Nunca foi minha intenção te machucar, Taylor — disse brandamente.

             — Não, essas coisas passam.

     Slane decidiu deixar de sentir-se culpado. Mas algo o impedia.

             — Me diga o que foste fazer? Aonde planejava ir quando fugiu de mim?

             — Realmente não me importava aonde ia — respondeu ela — O que importava era estar longe de ti.

             Esta vez, Slane conseguiu lhe sustentar o olhar. Seus olhos pareciam mais enormes e verdes que antes. Lembravam um exuberante bosque verde. A luz emitida pela vela sobre sua cabeça, a fazia angelical.

             De maneira inconsciente, seus dedos levantaram uma mecha de sua formosa cabeleira que se enredou entre seus dedos.

             — Meu Deus, és muito formosa.

             — Será melhor que te afaste de mim. Fique muito longe de mim — advertiu ela — Só te trarei problemas.

             Slane assentiu. Sabia que ela tinha toda a razão, que devia afastar-se dela o máximo que pudesse. Mas Taylor necessitava dele.

             — Muito longe de ti — repetiu. Mas levantou a mão para acariciar seu queixo e depois sua bochecha. Deslizou seu dedo através de seu cabelo, sussurrando — Pensei que tinha te perdido. — Então moveu o braço para lhe rodear a cabeça. Seus lábios ficaram a poucos centímetros dos dela. Seu doce fôlego roçava seu rosto...

     Um golpe na porta o fez incorporar-se totalmente.

             — Senhor! — chamou uma voz depois da porta.

             Slane ficou olhando para a porta, virtualmente congelado no lugar.

             — Slane? — A voz chamou através da porta uma vez mais e esta vez Slane soube que se tratava de John — Vi vários homens de aparência estranha caminhando pelas ruas. Não vieram ainda à estalagem, mas acredito que o farão dentro de pouco.

             Slane lançou a Taylor um olhar familiar. Os homens do Corydon. Incorporou-se e deu um passo para a porta, mas então hesitou. Não devia estar ali. Não devia estar na habitação de Taylor. Não pôde evitar olhá-la de novo. Durante um largo momento, olharam-se um ao outro intensamente. Havia simpatia no olhar de Taylor, entretanto viu traços de humilhação em um sombrio gesto que fez com seus lábios.

             — Slane não está aqui — gritou Taylor ao John.

             — Lamento incomodá-la, lady Taylor — respondeu John depois de um breve momento — Se o vir, por favor, lhe diga que o necessitam abaixo.

     Durante o que pareceu uma eternidade, os dois permaneceram imóveis; seus olhares pareciam prolongar-se no tempo. Finalmente, os passos que se afastavam da habitação romperam a magia do momento. Taylor fechou os olhos e Slane sentiu sua agonia, sua vergonha.

             ‘O que estou fazendo, em nome de Deus?’, perguntou-se em silêncio. ‘Não deveria estar aqui, no meio da noite, me sentindo como um criminoso. Eu vim somente porque ela está ferida’. Entretanto, muito dentro dele, sabia que essa não era a razão pela que estava ali. Sentia algo por ela, algo muito forte. E era aquilo que sentia que punha em perigo sua reputação. Tinha um compromisso de honra com a Elizabeth e com seu irmão. Mas, apesar de tudo, existia algo dentro dele que queria mandar tudo para o inferno. Queria ter a Taylor. Queria tê-la com cada músculo de seu corpo.

             Slane permaneceu rigidamente erguido.

             — Vais tentar fugir outra vez?

             — Dificilmente poderia ir a algum lugar nas condições em que me encontro — respondeu ela com igual grau de formalidade.

     A menos não havia rastros de sarcasmo em sua voz.

             — Por favor, fique e me deixe me encarregar de suas feridas até que sanem completamente.

     Taylor assentiu. Slane se dirigiu uma vez mais para a porta e de novo se deteve. Como poderia manter-se afastado dela? Como poderia manter seu juramento a Elizabeth e honrar o seu irmão tendo a Taylor tão perto? Slane abriu a porta e saiu da habitação. Como poderia não fazê-lo?

 

             — Não podemos movê-la — disse Slane a John. Olhou de frente a seu amigo no salão principal; o fogo da fogueira brilhava atrás dele — Não até que os pontos tenham sanado.

             — Não é seguro estar aqui — murmurou John, aproximando-se dele — Pense quão perigoso é para a Elizabeth.

             — O que quer que eu faça? —e xigiu Slane, dirigindo um fulminante olhar ao John.

             O homem se endireitou um pouco, mas não disse nada.

             — Não posso mover Taylor — repetiu Slane. Cruzou os braços e olhou furioso, para John — Esperava que o temor à peste atrasasse ao Corydon.

             — Posso levar Elizabeth — ofereceu John — Posso acompanhá-la até o castelo Donovan e você se reunirá conosco quando Taylor estiver suficientemente bem para viajar.

             Slane negou com sua cabeça.

             — Você sozinho não poderá com Corydon e não posso deixar Taylor sozinha. Se houvesse alguém mais a quem eu pudesse confiar a Elizabeth...

     John resmungou e se sentou com força em um banco próximo.

             — Tem certeza absoluta de que se trata de Corydon? — perguntou Slane.

             — Não — admitiu John — Mas devemos assumir que se trata dele. De qualquer forma, dá no mesmo. Você sabe que não demorará em vir.

        Slane sabia que John estava no certo. Sabia que não havia maneira de que eles dois fossem capazes de proteger a duas mulheres indefesas das forças do Corydon. Mas viajam, os pontos de Taylor poderiam abrir-se e começaria a sangrar de novo ou as feridas podiam infectar-se. Suspirou.

             — Não temos opção a não ser esperar até que Taylor se recupere o suficiente para cavalgar. Temos que nos arriscar.

 

             Os homens do Corydon!

             Taylor se apressou a sentar-se, seus olhos cheios de pânico examinaram toda a habitação. Sentiu uma dor ardente no tórax. Tocou a ferida, sentindo a suavidade do pano que a cobria. Fez uma careta de dor e se sentou quieta, durante um momento, esperando que a dor se acalmasse um pouco. Lentamente, sua agonia foi cessando e por um momento olhou bem a escura habitação. Os pequenos raios de luz que penetravam por entre as cortinas não lhe mostraram nada a não ser uma habitação vazia. Incorporou-se e se levantou com dificuldade. Caminhou devagar até a janela, medindo cada passo. Com uma de suas mãos sobre a ferida, abriu as cortinas e a forte luz do sol que alagou a habitação a cegou. Cobriu os olhos e afastou seu rosto dos poderosos raios do sol. Depois de um momento, colocou a mão sobre a testa, fazendo sombra, e voltou seu olhar para a rua que estava abaixo.

             Também estava vazia. Não via os homens do Corydon nem a nenhum mercenário. E mais: não via ninguém. Nem sequer Slane.

             De repente, a porta que estava atrás dela se abriu e Taylor se deu a volta, pondo sua mão, de maneira instintiva, em sua arma. Mas não estava armada. Sentiu outra onda de dor no tórax.

             Uma mulher com uma bandeja de comida em suas mãos entrou na habitação. Taylor fez uma careta de desagrado e colocou a mão de novo na ferida, amaldiçoando em voz baixa. Conhecia esse rosto. Odiava esse rosto.

             A mulher parou quando viu Taylor na janela. Durante um curto momento, seus olhos se cruzaram. Elizabeth era formosa. Seu cabelo cor amêndoa brilhava a luz do sol; sua pele era impecável. Conscientemente, Taylor levou sua mão a sua bochecha ferida, tratando de ocultá-la dos olhos da mulher. Algo se debilitou nela. Como tinha pensado em competir com uma mulher que era tudo o que um homem podia desejar?

     Elizabeth pôs a bandeja na mesa perto da cama e se apressou para ela.

             — Não deveria estar fora da cama — disse em um tom de voz suave e carinhoso — Lhe abrirão os pontos. — Tratou de tomar Taylor pelo braço.

             Taylor a esquivou de uma maneira tão violenta que bateu seu cotovelo contra as cortinas detrás dela. Voltou a sentir que a ferida lhe doía e necessitou de toda sua força para não dobrar da dor.

             — Eu posso andar — lhe disse entre dentes. Mas apesar de sua afirmação, ficou perto da janela, com a mão na ferida.

     Elizabeth cruzou os braços e lhe disse:

             — Trouxe-te um pouco de comida. A aveia está surpreendentemente boa para ser de uma hospedaria.

        Seria uma esposa maravilhosa. Uma mãe maravilhosa. Uma corrente de dor surgiu dentro de Taylor, ameaçando derrubá-la. Brigou contra o nó que sentia na garganta para não chorar. Elizabeth era tudo o que ela mesma poderia ter sido.

             Elizabeth se aproximou da cama e lhe fez um gesto.

             — Por favor. Deixe-me olhar os pontos.

        Taylor não podia deixar de olhar a mão de Elizabeth. Tão magra tão suave. Agraciada. Eficiente.

             Taylor a odiava. Olhando para a prometida de Slane à cara, não podia encontrar nenhuma razão, nenhuma, para que Slane não se casasse com ela. Inclusive sua maldita mão era perfeita.

             — Sou perfeitamente capaz de cuidar das minhas próprias feridas.

        Elizabeth juntou suas perfeitas e pequenas mãos e, simplesmente, disse:

             — Estou vendo.

             — Não — disse Taylor com uma ira e uma amargura que nunca havia sentido antes — Não acredito que o faça. Não acredito que possa.

         Elizabeth franziu o cenho e disse:

             — Slane me pediu que cuidasse de ti. Com tudo o que sabe de feridas, deveria saber que estar se movendo pode fazer com que os pontos se abram. E não queremos que sangre verdade?

         Taylor sorriu de uma maneira infame.

             — Bom, ao menos uma de nós não quer isso.

        Elizabeth ficou muito séria. Estava começando a perder a paciência.

             — Desde que meu amado me pediu que cuidasse de você, vim a sua habitação duas vezes ao dia para lhe trazer comida.

     Amado. Taylor sentiu que milhares de adagas lhe cravavam no coração. Temerosa do que pudesse dizer, deu as costas a Elizabeth para olhar para a janela. O brilhante sol a cegou, mas ela seguiu olhando fixamente a luz.

     Passou um largo momento antes que Taylor ouvisse os suaves passos de Elizabeth através da habitação e o suave som da porta fechando-se.

     Taylor retornou lentamente a sua cama e se sentou nela cuidadosamente, mantendo o braço esquerdo contra seu tórax ferido. A angústia se apoderou dela, enchendo a de raiva, de confusão, mas, principalmente, de um sentimento de derrota.

     Levantou os olhos para a bandeja e viu vendagens limpas e também pão e uma taça de aveia. Sabia que tinha que trocar as vendagens. Sabia mas não se importava. De todo modo, quanto mais tempo estivesse ferida, mais tempo teria para estar perto de Slane.

 

        Slane entrou na hospedaria silenciosamente e viu John sentado em uma das mesas perto do fogo.

             — Nada — anunciou com alívio e estendeu suas mãos convidando-o a sentar-se junto ao fogo. Tinha estado fora à maior parte da tarde, examinando o território para ver se encontrava algum sinal do Corydon ou de seus homens. Mas os únicos homens que encontrou foram sombras que, infectadas com a peste, pediam ajuda ou corpos putrefatos atirados no meio da rua. Não havia nenhum sinal do Corydon.

             Slane escutou uns passos e se voltou para ver Elizabeth, que estava se aproximando com um copo de cerveja na mão. Agradeceu-lhe sorrindo e tomou o copo de suas mãos. Bebeu um grande gole e, satisfeito, perguntou-lhe:

             — Foi tudo bem hoje?

             Elizabeth olhou para John. Slane endireitou as costas e perguntou:

             — O que está acontecendo?

        Elizabeth voltou seus olhos a Slane.

             — Fiz o melhor que pude, de verdade... Por favor, não fique decepcionado.

             Slane pôs seu copo de cerveja rapidamente em uma mesa próxima e tomou Elizabeth pelas mãos.

             — Trata-se de Taylor?

             — É uma moça muito obstinada. Não aceitou nenhum de meus oferecimentos para ajudá-la. Não deixou que lhe trocasse as vendagens — disse Elizabeth.

        Slane levantou seus olhos ao teto, soltando as mãos da Elizabeth.

             — E não quer comer. Não comeu o dia todo — acrescentou Elizabeth — Pensei que ia atirar a bandeja em mim da última vez que estive em sua habitação.

        O rosto de Slane ia ficando cada vez mais vermelho a medida que se dirigia para as escadas. Como Taylor pretendia recuperar as forças se não comia? E sabia que precisava trocar as ataduras! O que estava pensando? ‘Maldita seja!’, pensou Slane. ‘Não é suficiente que retorne à hospedaria exausto depois de todo um dia de busca, mas sim agora, além disso, tenho que lutar com este absurdo?’. Quando chegou ao segundo andar, seus punhos estavam fechados tão firmemente que lhe doía à mão.

     Slane empurrou e abriu de par em par a porta da habitação de Taylor. Foi tão duro o golpe que a porta ricocheteou contra a parede.

             — Não comeste nada — proclamou. Entretanto, ao vê-la sua voz se suavizou um pouco. Estava sentada na cama, a luz da vela brilhava sobre seu selvagem cabelo, ressaltando a delicada curva de sua bochecha. Toda a fúria que sentia desvaneceu-se.

             — Não tinha fome.

        Oh, Deus! Por que essa mulher o afetava tanto? Atravessou a habitação com grande rapidez e antes que ela levantasse a cabeça vislumbrou suas negras olheiras.

             — Não permitiste que Elizabeth trocasse as vendagens.

             Taylor franziu o cenho e olhou para a janela.

             A luz da vela titilava, iluminando sua pele com um tom dourado. Slane estava esperando uma discussão e se preparou para isso. Talvez ela estivesse tão cansada como aparentava. Sentou-se na borda da cama; Taylor seguia sem olhá-lo nos olhos.

     Taylor fez uma careta de desgosto durante um momento, mas imediatamente desapareceu.

             — Não te fará nenhum bem morrer de fome — disse em um tom de voz mais calmo. Estava esperando que Taylor se envolvesse na conversação.

     E funcionou. Taylor elevou a cabeça e o olhou. Então Slane pôde ver a ira em seus olhos brilhando quase com a mesma força do fogo que ardia na vela.

             — Então não me mande a comida por sua maldita amada — lhe respondeu agitada. De repente, fez um gesto de dor e fechou os olhos.

             — Taylor — disse ele com urgência e estendeu sua mão para ela.

             — Maldito seja!

        Taylor sujeitou firmemente o pulso de Slane antes que ele pudesse tocá-la.

             — Vá embora daqui!

     Por que tinha sido tão idiota? Pensou Slane. Ele conhecia a dor e o ardor constante que ela estava sentindo. Amavelmente, tirou o pulso de sua mão.

     Ela abriu os olhos, surpreendida. Então ele se aproximou mais a ela e apartou-lhe umas mechas de cabelo da testa.

             — Não tem que te esconder de mim, Taylor — murmurou, olhando — Sei o muito que te dói.

             Um olhar de estranheza apareceu na cara de Taylor. Incerteza. Aceitação. Pareceu relaxar-se um pouco ao lado de Slane e ele sentiu que o mundo era um lugar agradável. Não quis se mover durante um largo momento. Não queria mover-se nunca dali. Nessa habitação podia esquecer-se de suas promessas e seus códigos e concentrar-se só nela e em sua recuperação.

             Mas não... O que estava acontecendo? Acaso não tinha consciência? Não tinha sentido da honra? Afastou-se um pouco dela. Ele tinha promessas que cumprir. Sua prometida estava esperando-o no andar de baixo...

             E, entretanto, sentia que não podia ir embora dali. Suas mãos seguiram seu olhar. Tocou a prega da túnica de Taylor e hesitou durante um momento, controlando seus nervos. Controlando seus sentimentos. Devagar, Slane começou a subir-lhe a túnica. Subiu-a sobre as curvas de seus quadris, sobre sua cintura.

             Uma atadura branca envolvia seu estômago. Slane retirou a atadura com muito cuidado; logo, muito devagar para não lhe machucar, tirou-lhe as outras vendagens cheias de sangue.

             Franziu o cenho à medida que examinava a horrível linha vermelha que atravessava sua pele, os fios negros dos pontos. Nenhuma espada devia havê-la ferido. De maneira delicada, aproximou sua mão para lhe examinar os pontos. Quando seus dedos tocaram sua pele, sentiu como ela estremecia. Sentiu como o corpo de Taylor ficava tenso e imediatamente a olhou. Mas em seus olhos não havia traço de dor.

     Slane baixou seu olhar para sua pele nua. Não pôde evitar fixar-se nos erguidos seios de Taylor que se escondiam debaixo de sua túnica.

     Instantaneamente, seu sangue ferveu de desejo e sentiu como seu membro crescia e se endurecia. Surpreso, deu-se conta de que suas mãos estavam acariciando a pele de Taylor e que suas carícias já não se limitavam a sua ferida. Agora suas mãos estavam perto da parte redonda de seus seios, a parte que se escondia debaixo do tecido. Se passasse um segundo mais...

             Desviou seu olhar de seus seios, concentrando-se na ferida. Tossiu brandamente, mas sua tosse soou como se um explosivo trovão no silêncio da habitação.

             — Não parece infectado — disse ao fim.

             — Não — concordou Taylor, em um tom de voz um pouco agressivo.

          Ela tinha seus olhos cravados nele, por isso Slane sentiu que uma onda de tibieza atravessava todo seu corpo. Passou seus dedos sobre a pele de Taylor, por sua cintura, onde permaneceu um pouco mais do devido. Só lhe estava curando as feridas, dizia-se. Trocarei as ataduras, pois alguém tinha que fazê-lo.

         Seus olhos se moveram, novamente, para seus seios. O ritmo de sua respiração parecia coincidir com o palpitar do sangue em seus ouvidos. Depois a olhou, mas não foram seus olhos que lhe chamaram a atenção. Foram seus lábios. Estavam entreabertos e úmidos, como se acabasse de lambê-los. E eram cheios, tão cheios... Suplicando ser beijados. Chamando-o.

     Slane amaldiçoou em silêncio; tomou uma das ataduras limpas que estavam na bandeja perto da cama e a pôs na ferida de Taylor. Ela fez um movimento de dor e Slane lhe dirigiu um olhar de arrependimento.

             — Sinto muito — sussurrou.

     Pôs a vendagem ao redor do estômago de Taylor e apertou firme para que não caísse. Moveu sua mão ao redor da atadura, perguntando-se como seria sentir sua pele contra a dele. Perguntando-se como seria com o cabelo solto, deitada debaixo dele, esses belos olhos iluminados e seus lábios entreabertos...

             Afastou-se dela tão rapidamente que derrubou as vendagens que estavam na mesa. Seu corpo tremia de uma maneira tão feroz que saiu voando da habitação sem dizer uma só palavra.

 

     Slane abriu a porta do quarto de Elizabeth, que estava sentada na cama, seus finos e marrons cachos de cabelo liberados de seu penteado e soltos, caindo sobre suas costas. A jovem se voltou e saudou Slane com um exuberante sorriso.

             — Estava pensando que talvez devêssemos convidar para nossas bodas ao Duke Roça. Talvez traga um pouco de sua famosa cidra.

        Slane não tinha escutado nenhuma palavra do que Elizabeth havia dito. Caminhou para ela, tomou pelos braços e a atraiu para ele. Baixou seus lábios para os dela e a beijou. Com todas suas forças, tentou imaginá-la na cama com ele, seu magro corpo enrolado amorosamente entre seus braços. Mas não importava quanto tentasse, seus pensamentos retornavam ao corpo de Taylor. Essa pequena olhada a sua nua e cremosa pele perto da parte redonda de seus seios o tinha afetado muito...

        Beijou a sua prometida, tentando com todas suas forças sentir-se atraído por ela... Mas estava perdido. Soube nesse mesmo momento. Nunca poderia sentir a mesma paixão por Elizabeth que sentia por Taylor. Bufou de maneira feroz e soltou a sua prometida, afastando-se dela. Não se atreveu nem a olhá-la nos olhos.

             — Sinto muito — sussurrou.

             Slane lhe deu as costas e saiu da habitação, fechando brandamente a porta atrás dele. Ia se casar com a Elizabeth. Taylor estava comprometida com seu irmão. Ela salvaria centenas de vidas inocentes se se casava com Richard. Slane tinha prometido a seu irmão que a levaria. Tinha lhe dado sua palavra. Sua palavra era sua promessa.

 

        À medida que as feridas de Taylor iam sanando, ela ficava cada vez mais ansiosa por sair da habitação, precisava mover-se e fazer um pouco de exercício. Escapou da cama mais de uma vez, tratando de estirar as pernas, tratando de fazer com que seus músculos funcionassem de novo.

        Um dia abriu as cortinas de sua habitação para ver a brilhante manhã, se não chovia desceria para estirar as pernas. Então ouviu a risada de uma mulher e voltou seu olhar para a rua. A princípio, não viu ninguém, mas logo viu duas figuras: Slane e Elizabeth. Slane assinalava alguma coisa e Elizabeth ria.

     Taylor se afastou da janela. Mas não o fez o suficientemente rápido e teve tempo de ver como Slane beijava a bochecha de Elizabeth. Com uma maldição, fechou as cortinas e retornou à escuridão de seu quarto. Isso tinha acontecido fazia três dias e não havia tornado a abrir as cortinas.

     Mas agora sentia que a cada minuto sua agitação e seu desconforto cresciam dentro dela, ficando cada vez mais fortes. Devia sair desse maldito quarto antes que as paredes caíssem em cima dela... Levantou-se da cama e apesar de saber que não devia fazê-lo, saiu de sua habitação, detendo-se na porta para examinar o corredor. Estava vazio, assim que o atravessou correndo e desceu pelas escadas. Quando chegou ao último degrau, examinou o salão e o corredor e, com alívio, encontrou-os vazios e silenciosos. O fogo ardia ao fundo da habitação. Conseguiu sentir algumas correntes de calor e estas conseguiram dissipar um pouco a gélida umidade dessa fria habitação. Por um momento, pensou em aproximar-se do fogo, do calor... Aproximar-se das brasas traiçoeiras e maldosas que vaiavam negras promessas de carne humana chamuscada.

     Parou de olhar o fogo e se sentou em uma mesa perto das escadas, voltando o assento para favorecer a posição de sua ferida.

     Fazia três dias que Slane não ia vê-la. A única a tinha visitado nesses dias solitários para lhe ajudar a trocar as vendagens e lhe dar comida tinha sido a esposa do hospedeiro. Taylor negou com a cabeça.

     O que esperava, por acaso? Certamente, preferia não ver Elizabeth. E sabia que Slane estava fazendo todo o possível para estar longe dela.

             — Posso lhe trazer algo?

             Taylor viu o hospedeiro. Chamava-se Rollins, recordou. Ofereceu-lhe um pequeno sorriso.

             — Uma cerveja — disse e depois escutou os passos do hospedeiro, afastando-se para a parte traseira da estalagem.

             Taylor descansou seu queixo contra a parte de atrás do assento. Não necessitava de ninguém. Podia sobreviver por sua conta. Então, por que se sentia tão sozinha?

     Algo lhe roçou a perna e ela olhou para baixo. Um gato estava se esfregando contra ela.

     Um sentimento de desolação a invadiu e se agachou para acariciar o pelo do gato. ‘Não necessito de ninguém’, disse a si mesma de maneira orgulhosa. ‘E pare de ter pena de ti mesma. E pare de pensar nele’.

             — Aqui está.

        Era a voz de uma mulher. O gato saiu correndo.

        Escutou como se uns passos aproximavam e sentiu que o conhecido sentimento de ódio a invadia.

             — O que faz aqui? Slane levou um bom susto ao ver que sua habitação estava vazia.

        É obvio, era Elizabeth.

        Taylor não podia vê-los junto. A imagem de Slane beijando a bochecha de Elizabeth reapareceu em sua memória; tinha tratado de afastar essa imagem de sua mente com todas suas forças, mas não podia, a imagem permanecia incrustada em sua memória, negando-se a abandoná-la.

             — Não deveria estar aqui — disse Slane — É cedo para que saia de sua habitação.

     O timbre de sua voz fez com que Taylor tremesse. Tratou de ignorar os tremores, mas uma parte de seu coração estava se derrubando.

        Depois de um momento de incômodo silêncio, Elizabeth perguntou:

             — Como se sente? Encontra-te melhor?

        Taylor não respondeu. Como podia responder quando se sentiria melhor se estivesse morta?

             — Tem melhor aspecto — observou Elizabeth — Agora tudo o que deve fazer é lavar bem o cabelo e ficará uma garota bastante atrativa, verdade, Slane?

         Não houve resposta, mas Taylor pôde sentir o olhar de Slane em suas costas.

             — Tenho certeza de que adorará ao Richard — continuou Elizabeth. Taylor jurava que havia um pouco de desdém em sua voz.

        Que importância tinha o fato de que gostasse ou não de Richard? Tudo o que queria era unir suas forças com ele para matar ao Corydon. Faria-o pelo Jared.

     Taylor se virou e olhou ao casal. Eram perfeitos. Um homem e sua mulher. Seu estômago deu um tombo. Eram perfeitos um para o outro. Não havia lugar para uma mercenária indesejável como ela.

     Seus olhos se pousaram nos de Slane e pensou haver detectado um pouco de simpatia antes que ele desviasse seu olhar para Elizabeth.

             Por um momento, o silêncio chegou a eles como uma nuvem de tormenta, tapando o sol. Finalmente, Taylor passou ao lado de Slane e se apressou a subir as escadas, pois preferia a frieza de sua habitação a esse tipo de companhia. Sabia que não podia permanecer lá. Cada dia que passava destruía mais a si mesma.

         Por que lhe tinha doído tanto ver Slane beijando a Elizabeth? Ele não deveria lhe importar. Não deveria dar importância ao que ele pensasse ou a quem beijasse.

     Mas lhe importava.

     Foi a sua habitação e se sentou na cama. Iria embora dali, devia fazê-lo, embora isso significasse encontrar-se com algum outro Magnus Gale. Mas sua ferida não estava curada totalmente; doía-lhe e ainda não podia viajar. Os movimentos do cavalo fariam com que suas feridas voltassem a abrir-se.

             Ouviu uma batida na porta e logo um ruído.

             — Taylor?

             Seu despreparado coração parou de pulsar quando viu à porta a figura de Slane desenhada através da luz da tocha que se filtrava do corredor. A luz da tocha atravessava seu cabelo loiro e fazia com que a ponta de sua espada parecesse de ouro. Depois, fechou a porta atrás dele, trancando-se na escuridão. Na escuridão dela.

     Taylor se agachou para recolher a bolsa que estava na mesa ao lado de sua cama.

             — Aonde acha que vai?

             — Deveria estar mais preocupado com sua prometida.

             — Disse que ficaria até que suas feridas sanassem.

             Ela levantou seus olhos para olhar os dele.

             — Algumas feridas não sanam.

             — O que supõe que significa isso?

     Taylor ficou de pé, seus olhos procurando o rosto de Slane. Mas a escuridão da habitação escondia sua expressão. Taylor acendeu a vela que estava na mesa, com cuidado de manter seus dedos bem afastados da chama, e se virou para Slane.

             — Significa que, se ficar mais tempo aqui, algum dos dois sairá ferido.

             — Não diga tolices — replicou ele, desviando o olhar.

             — Slane — negou Taylor com a cabeça — não posso ficar.

             — Por quê? — perguntou ele.

             Taylor deu um bufo de risada.

             — Porque eu não gosto de Elizabeth — respondeu — E não acredito que eu a agrade.

             — Elizabeth? — Slane se voltou para ela, surpreso — É amável, terna e formosa. Por que você não gosta dela?

             Taylor se recostou contra a mesa, enquanto suspirava.

             — Eu não gosto porque é amável, terna e formosa.

             — Não brinque comigo — lhe advertiu Slane.

             — Não estou — disse Taylor amavelmente.

             — Se for, vão lhe perseguir como a um animal. Já sabe o que Magnus te fez. Não poderia suportar que voltassem a te ferir.

             Taylor o olhou fixamente. Seus olhos azuis brilhavam de sinceridade. Não se dava conta do tanto que a estava ferindo?

             — Taylor — Slane a segurou pelo pulso — Quer que ponham grilhões em você e que um mercenário sem coração te arraste até o castelo Donovan?

     Ela olhou a mão de Slane sobre seu pulso.

             — Não — murmurou — Mas tampouco quero que me leve ali um nobre sem coração.

             Slane a soltou como se o tivesse queimado.

             — Tenho coração.

             — Mas desejaria não o ter. — Ele franziu o cenho, mas ela continuou — Nem sequer pode me olhar quando Elizabeth está ao seu lado.

             Slane olhou para outro lugar, apertando seus punhos. Taylor olhou fixamente suas costas, como se tratando de memorizar cada detalhe dele. Como se tratando de... Do quê? Eles não tinham esperança. Não poderiam ter nenhum futuro juntos. E ela não queria nenhum futuro com ele, disse-se de maneira firme enquanto sentia um nó na garganta e lágrimas lhe queimando os olhos.

             Taylor se sentou na cama e sentiu como a ferida começava a arder de novo. Olhou para suas mãos entrelaçadas, por que não deixava que se fosse? Por que não podia atuar de maneira racional? Por que...?

             Slane se ajoelhou frente a ela, tomando-a firmemente pelo braço, forçando-a a que o olhasse nos olhos.

             — Não quero te ferir.

             — Então, deixe-me ir — suplicou.

             — Não posso.

             — Não te dá conta do que está fazendo? Está-me condenando a...

             — Não te estou condenando a nada, estou te salvando — a interrompeu.

          Taylor olhou os confusos olhos azuis de Slane e desejou... Desejou não havê-lo conhecido nunca. Desejou que seu pai nunca tivesse querido reconciliar-se com ela. Como poderia viver no castelo Donovan vendo Slane feliz com sua formosa esposa?

             — Sou seu amigo — disse Slane.

     Amigos? Isso era tudo? Perguntou-se Taylor em silêncio. Então, por que sentia que lhe estava arrancando o coração, lançando-o ao chão e lhe enterrando a ponta de sua espada? A amargura a embargou. Como se atrevia a tratá-la dessa maneira?

             — Não. Não é meu amigo. Nunca seremos amigos. Assim retorna para sua pequena noiva. Não necessito de seu amparo. Não necessito de nada de ti.

             Slane se ergueu sobre ela como uma estátua.

             — Estou cumprindo com a minha promessa. Comprometi-me a te levar ante Richard. E o farei.

             Uma repentina suspeita invadiu seus pensamentos. Por que Slane lhe tinha prometido a seu irmão que a levaria ante ele? Por que Richard precisava vê-la no castelo Donovan? Talvez seu pai estivesse ali, pensou, esperando-a.

             Mas depois, suas suspeitas se desvaneceram a medida que se perdeu no olhar profundo e azul de Slane, que nublava seus pensamentos.

     ‘Idiota’, pensou Taylor. ‘Idiota. Antes fora uma mulher muito prática. E agora, bastava um olhar desses profundos olhos para que te converta em argila entre suas mãos’. Tentou lhe sustentar o olhar, e quase o conseguiu, embora estivesse tremendo.

             — Não se preocupe Slane — disse ao fim, sem poder ocultar as lágrimas — Não vou morrer.

        Passou um largo momento antes que ela escutasse os passos de Slane afastando-se e o rangido da porta antes de fechar-se.

     Ficou de pé, sem mover-se, deixando que a angústia de ter sido tão idiota a invadisse. Depois jogou a cabeça sobre o travesseiro e soluçou...

 

             Slane se deteve com a mão no trinco da porta, escutando como Taylor chorava. Precisou reunir toda sua força de vontade para não abrir a porta, abraçá-la e lhe sussurrar palavras consoladoras ao ouvido.

             — Slane?

             Levantou os olhos e viu Elizabeth, que tinha uma expressão de preocupação no rosto. Durante um comprido momento, ele só a olhou. Seus dedos não tinham soltado o trinco da porta.

             — Quer ir — murmurou e se surpreendeu com a fragilidade que se notava em sua própria voz.

        Elizabeth posou sua mão em seu ombro, de maneira gentil.

             — Então, deixe-a.

             Slane negou com sua cabeça, erguendo-se um pouco.

             — Prometi ao Richard que a levaria bem.

     Elizabeth suspirou, abraçando-o.

             — Oh, Slane.

     Antes, Slane teria se jogado nos braços de sua futura esposa, mas agora só se sentia incômodo.

 

             Momentos depois Slane beijou Elizabeth, dando-lhe boa noite e, brandamente, fechou a porta da habitação de sua noiva. Voltou-se para seu próprio quarto, ao outro lado do corredor, mas seu olhar se desviou para outra porta, a de Taylor. Ficou olhando fixamente a barreira de madeira, desejando que a porta desaparecesse e ele pudesse vê-la dormindo placidamente. Por fim, voltou-se e se dirigiu para sua habitação.

             — Slane?

         A voz retumbou ao redor dele.

             — Está bem? — perguntou-lhe John.

     Ele assentiu, passando uma mão pela sobrancelha.

             — Só estou cansado.

     John assentiu.

             — Suponho que foi uma jornada bastante exaustiva — disse. Pensativo, ficou olhando a porta da habitação de Taylor durante um momento — Não é, de jeito nenhum, como eu tinha imaginado.

        Slane olhou surpreso ao seu amigo.

             — O que quer dizer?

        De repente, sentiu que o invadia a urgência de defender-se.

             — Não sei — continuou John — Não esperava que fora uma mercenária. Talvez uma taberneira ou uma costureira, mas não uma mercenária. Uma mulher que luta com uma espada...

     Slane assentiu.

             — Foi uma surpresa para todos — disse enquanto dava um tapinha no ombro do John — Pelo menos a encontrei.

        Moveu-se para dar um passo frente, mas a voz de seu amigo o deteve.

             — Há um homem lá embaixo. Entrou faz uns momentos. Acredito que é um mercenário.

     De maneira instantânea, Slane se dirigiu para as escadas. Seria um dos tantos mercenários que Richard tinha enviado? Amaldiçoou a recompensa que seu irmão tinha devotado pela entrega de Taylor.

        Viu o homem logo que chegou ao segundo degrau. Estava se esquentando junto ao fogo, seu comprido cabelo castanho lhe chegava até os ombros. Sua armadura de couro estava puída e quase não refletia a luz das chamas. O homem olhou por cima do ombro e Slane o reconheceu imediatamente. Colm Duffy, um dos homens que Richard tinha contratado para encontrar Taylor.

        Colm ficou de pé à medida que Slane se aproximava dele.

             — Lorde Donovan — o saudou Colm, estendendo a mão.

     Slane lhe deu a mão e disse.

             — Duffy. — Estudou com interesse o rosto de Colm. Mas seus olhos azuis pálidos não revelaram muito.

             — O que está fazendo aqui, milord? — perguntou-lhe Colm.

             — Seguiste-a até aqui, verdade?

     Colm soltou a mão de Slane.

             — Sim. — esfregou-se o pescoço e disse — Maldita seja. Teria me sido útil o dinheiro da recompensa.

             — Ela está agora sob meu amparo — disse Slane com firmeza.

             Colm estendeu suas mãos ante ele.

             — Não vou discutir com você, mas como a encontrou? Estive-a seguindo durante semanas.

             — Ela veio para mim — disse evasivamente Slane.

             — É verdade que está ferida? — perguntou Colm.

     Slane o olhou fixamente, mas detectou um movimento que lhe fez voltar-se. Viu o hospedeiro sair agachado da habitação onde estavam. ‘Idiota’, pensou. ‘Tem a boca tão grande como um abismo’.

     Slane assentiu, respondendo a pergunta de Colm.

             — Não pode ficar aqui — lhe sussurrou Colm — É muito perigoso.

             — Não posso viajar com ela — respondeu Slane, dando as costas a Colm para ver as chamas do fogo — Ainda é muito cedo.

             — Os homens do Corydon estão por toda parte e não têm nenhum interesse na recompensa. Só a querem morta. Não pode ficar aqui.

        Slane ficou tenso. Podia passar uma semana antes que Taylor estivesse em condições de viajar. E cada dia Corydon estaria mais perto deles.

             — Neste momento, não tenho opção.

             — Me alegro de não ser eu o que tem que tomar essa decisão — murmurou Colm, voltando-se para o fogo — Só fico esta noite. Amanhã irei.

             — Para aonde vai? — perguntou Slane.

             — Não tenho certeza ainda. Suponho que onde me paguem bem — respondeu Colm. Olhou para as escadas e depois para Slane — É verdade que está aqui com sua prometida?

     Slane assentiu.

             — Milord, se a mulher Sullivan estiver ferida e não se puder mover, terá que ficar. Mas lady Elizabeth não deveria estar aqui.

     Tinha razão, enquanto permanecesse nesse lugar, Elizabeth corria o mesmo perigo que Taylor. A rigidez constante que Slane sentia nos ombros, de repente se fez mais intensa até que seus músculos estiveram tão tensos como uma corda de violino.

             — Estaria disposto a me assegurar que Elizabeth chegasse sã e salva ao castelo Donovan por umas quantas moedas de ouro — sugeriu Colm.

          Slane se sentiu ofendido. Sabia que sua responsabilidade era escoltar a Elizabeth. Ele mesmo era quem devia levar a sua futura esposa ao castelo de seu irmão. Mas não podia. Não com Taylor ferida. Não podia fazer duas coisas de uma vez. E Taylor necessitava mais de seu amparo. Era a ela que Corydon queria matar.

         Elizabeth não deveria estar onde se encontrava o perigo. Dois homens podiam lhe oferecer o amparo que ela necessitava para viajar de maneira segura até o castelo Donovan. John e Colm. Podia mandar ao John com a Elizabeth e pagar ao Colm para que os acompanhasse. Assim estaria segura. Nada de mau lhe aconteceria em tal companhia. E a veria de novo quando chegasse com Taylor ao castelo Donovan.

     Assentiu mas não se surpreendeu da facilidade com que lhe tinha chegado à resposta.

 

       Slane se recostou na parede que ficava ao lado da porta de Taylor. Sabia que não escaparia pela janela. Tinha que saber que sua ferida começaria a sangrar se tratava de pendurar-se por uma corda. ‘Não’, pensou. ‘É orgulhosa, mas não estúpida’.

       As sombras do corredor o manteriam o suficientemente escondido para conseguir ver o rosto de Taylor no momento em que saísse de sua habitação. Ela viria por esse lado, sabia.

       Tinha esperado toda a noite até que escutou que uma porta rangia. Levantou a cabeça e viu uma figura sombria sair da habitação.

       Slane suspirou e se endireitou, preparando-se para a confrontação. Esperou que Taylor caminhasse pelo corredor antes de mover-se silenciosamente atrás dela.

       De repente, ela se voltou e fez com que Slane se detivesse. Esses maravilhosos olhos verdes estavam um pouco entreabertos, mas não pôde evitar ficar olhando-os como se o tivessem enfeitiçado. Algo resplandeceu com a luz da tocha e Slane baixou o olhar, vendo que tinha uma adaga apontada a seu estômago.

     — Está acordado muito tarde, não Slane? — sua voz soou suave e vigorosa.

     — O que planeja fazer com isso?

       Segurou a adaga na palma da mão.

     — Ninguém me obriga a ficar onde não quero. E tenho a ligeira impressão de que não me deixaria ir.

     — Pensa me atravessar com essa arma? — perguntou-lhe, incrédulo.

             — Não preciso te atravessar para lhe desarmar — lhe respondeu ela.

     Slane acreditou detectar tristeza em sua voz, mas não tinha certeza. Sentiu-se furioso.

             — Terá que fazer muito mais que me atravessar se quiser me desarmar — respondeu.

             — Não torne isso difícil — disse ela enquanto retrocedia um passo.

             — Não posso deixar que vá — disse ele em um tom de voz um pouco mais alto.

             — Não acredito que tenha muitas mais opções. —Taylor deu um passo para a escada.

     Slane se lançou frente a ela, tomando pelo pulso. Ficaram assim durante um momento, olhando-se nos olhos.

             — Ir não te servirá de nada. Enfrente seu destino.

             — Meu destino não é ver meu pai — disse Taylor.

             — Pelo menos fale com ele — lhe urgiu Slane.

             — Não.

         Tratou de liberar seu braço, mas Slane a segurava firmemente.

             — Só assim te liberará de tudo isto. É a única maneira. Acredita...?

        Deu-lhe um forte pisão no pé, e apesar de Slane sentir como a dor se espalhava em sua perna, não lhe soltou o braço. Pelo contrário, segurou-a com ainda mais força, até que detectou um brilho de agonia em seus olhos. Taylor abriu a mão para deixar a adaga cair no chão.

     Os olhos dela dançavam com ira e determinação e Slane sabia que tentaria escapar de novo, até que conseguisse. Mas não podia vigiá-la constantemente. Quanto mais forte a sujeitava, mais ela tratava de liberar-se. Devagar, soltou-lhe o pulso.

             Os olhos de Taylor se abriram com surpresa. Retrocedeu um passo, depois outro, sem tirar seus olhos de Slane.

        Ele a viu retroceder. O que estava pensando? Não podia deixá-la ir! Mas tampouco podia retê-la. Tinha que haver alguma maneira de solucionar isto. Outro passo.

     Slane sentiu que o desespero lhe queimava o peito. Recordou a primeira vez que a viu. Seu rosto estava ferido, mas seu espírito era indomável. Sempre o tinha sido. Outro passo.

     Mas estava convencido de que ela não agüentaria tanta pressão. E muito menos sozinha, e com o Corydon e os mercenários perseguindo-a. Graças a ele, esses assassinos sabiam quem era ela. Conheciam seu rosto. Outro passo.

        E sentiria saudades. Terrivelmente. Sentiria saudades de seu sorriso, seus olhos brilhantes. Sua vivacidade. Seu particular jeito de ver a vida. Não era tão insensível como queria fazer todo mundo acreditar. Slane recordou ao menino que ela tinha salvado de ser atacado nessa mesma estalagem.

     Deu um passo para as escadas para lhe impedir de continuar, mas não foi preciso porque ao chegar ao último degrau, Taylor se deteve. Sua mão descansava no corrimão.

        A mão de Slane deslizou pela madeira procurando uma resposta. Como se com isso pudesse lhe transmitir todos seus sentimentos, as coisas que não podia dizer.

     Um triste sorriso aflorou em seus lábios e Taylor retirou a mão. Deu-lhe as costas.

     Slane a olhou e pensou que era uma pequena lutadora. Corria tantos riscos... Mas o enfurecia que estivesse jogando com sua vida. Apostando-a. Encontraria-se muito mais segura se estivesse... Apostando! Era isso!

             — Taylor — chamou.

     Ela se deteve e o olhou devagar. Seu cabelo escuro caía, em grossos cachos, sobre seus ombros.

             — Sabe apostar. Você gostaria de ganhar um pouco de dinheiro?

        Taylor levantou a cabeça, entrefechando seus olhos com curiosidade. Voltou-se para ele.

             Slane desceu as escadas.

             — Você terá sua liberdade e o pagamento de um mês em troca de ficar comigo até que cheguemos ao castelo Donovan.

         Detectou um brilho de interesse em seu olhar. Bendito seja esse ambicioso coraçãozinho dela, pensou enquanto a esperança florescia em seu peito.

             — É bastante boa com essa espada. — Viu como Taylor olhava para sua espada, amarrada a sua cintura — Mas aposto que eu sou melhor que você.

          A jovem levantou seus olhos para os dele. Seus belos lábios sorriram um pouco.

             — Não seria uma briga muito justa — disse brandamente — Estou ferida.

             — Brigaremos dentro de uma semana, se estiver em forma.

        Slane a viu duvidar enquanto ela olhava seu lado ferido.

             — E brigarei com a esquerda.

     Taylor levantou seus gloriosos olhos para ele. Um sorriso lhe iluminou o rosto.

 

        Depois de passar a maior parte da manhã descansando na cama, Taylor se sentou na parte de trás do salão principal, longe do fogo. Suas pernas estavam estendidas frente a ela e sua cabeça estava recostada contra o respaldo da cadeira, de tal maneira que seu comprido cabelo negro caía quase até o chão.

         Escutou passos fortes descendo pela escada. Era um ruído de botas. Um homem. Os passos se detiveram o final das escadas e o corpo de Taylor reviveu com um fogo que lhe fez cócegas. Slane. Sabia, com certeza, que era ele. Era desesperador a forma como seu corpo reagia ante ele. E só estava pensando nele; nem sequer o tinha visto!

     Os passos se aproximaram e Taylor escutou o som de uma cadeira contra o chão.

             — Não deveria estar sozinha aqui embaixo.

             Um sorriso se estendeu ao longo de seu rosto. De fato, era Slane.

             — Está aqui — não pôde evitar provocá-lo.

     E Slane caiu direto na armadilha.

             — Mas, não estava faz uns momentos — disse, com uma voz grave, mas um pouco vacilante, à medida que ela repetiu as palavras ao mesmo tempo em que ele.

        Taylor riu brandamente, abrindo um pouco os olhos para olhá-lo.

             — É tão previsível...

     Olhou-a em silencio durante um momento. Taylor estava esperando que reagisse e lhe jogasse um de seus sermões; mas Slane suspirou e se sentou.

             — Conhece-me tão bem? — perguntou-lhe — Como é possível quando eu não sei nada a respeito de ti?

          Taylor olhou para outro lado.

             — Tenho que conhecer as pessoas para poder sobreviver.

             — E sou assim tão fácil de conhecer?

             — Normalmente, sim — admitiu.

             — E você? Por que é tão difícil te conhecer?

             Olhou-o muito séria. Em seus olhos havia um brilho estranho. Prevenção. Cautela. Desconfiança.

             — Porque tenho que me proteger. Não posso ir por aí despreparada, me mostrando tal como sou na realidade — disse, e sentiu que Slane se voltava para olhá-la.

             — Foi muito difícil para ti, não foi? Muito doloroso...

             O excesso de simpatia em sua voz a enfureceu.

             — Não tenha pena de mim — disse.

             — Suponho que, apesar de tudo, não é tão difícil de conhecer — disse Slane sorrindo.

             O calor ardia em suas bochechas e Taylor teve que sorrir e mover a cabeça. Sem desejá-lo, sentiu que seu corpo se afundava no assento, relaxando-se. O calor do sorriso de Slane a envolveu e chegou até sua alma, lugar que o fogo distante da habitação, não conseguia chegar.

             — Sempre foste assim zombador?

             — Aprendo rápido — murmurou Slane.

        Surpreendida, Taylor o olhou e riu.

             — Então devo ser uma influência muito má para seu nobre caráter.

             — Não tenho tanta certeza assim sobre isso do nobre caráter, mas sim, é uma má influência para mim de outras formas.

     Slane fez uma pequena pausa. Seus olhos, como se tivessem vontade própria, viajaram devagar de cima abaixo pelo corpo de Taylor.

             — Muito má influência, de fato.

             — Mas imagino que seja bom para vós, os nobres, tratar de vez em quando com gente comum — disse Taylor olhando-o através de seus cílios — Não é bom ficar nesse pedestal todo o tempo.

             Slane assentiu.

             — Sim. Ocasionalmente, sinto a necessidade de me sentar com o grupo de camponeses. É a única maneira de manter o contato com o que está acontecendo, na realidade, no país. — coçou o queixo, esperando uma resposta. Quando viu que não ia receber nenhuma, acrescentou — Então, moça camponesa, me conte alguma intriga local.

             — OH, sim, milord, como quiser — respondeu ela — Deseja que faça uma mesura enquanto conto a intriga ou prefere que suas empregadas permaneçam de pé?

             — Prefiro que todas minhas empregadas se prostrem ante mim em sinal de adoração — respondeu Slane.

             — Então deve ter muitas empregadas realmente cordatas — replicou Taylor. De repente, assaltou-a a imagem de Slane abraçando e beijando a uma mulher com cabelo comprido e castanho. Tossiu e subiu seus joelhos para seu peito.

             — Em realidade, prefiro as briguentas — disse ele — São muito mais interessantes.

             — Imagino — murmurou ela.

        Ficaram em silêncio, o crepitar do fogo era o único que se escutava na habitação. Taylor não pôde evitar voltar-se para olhar para Slane. E quando o fez, deu-se conta de que ele também a estava olhando. A jovem sorriu ao ver que a contemplava com uma expressão muito carinhosa. E ele respondeu também com um sorriso. O rosto de Slane se transformou. Já não tinha o olhar escuro e preocupado com o qual ela se acostumou. Era um olhar cheio de calor e promessas. Sentiu que suas preocupações se desvaneciam sob seu brilho. Imediatamente, Taylor teve uma revelação tão clara que lhe ardeu o coração: não era digna dele, inclusive em caso de que ele chegasse a possuí-la. Se ela chegasse a tocar a alma de Slane, uma alma pura e branca, esta se tornaria negra e se endureceria como ocorria com seu próprio coração.

     Taylor olhou para o lado oposto do quarto, onde ardiam as chamas do fogo.

             — Por que não me olha? — perguntou-lhe brandamente — Teme algo?

             — Temer? — riu e voltou a olhá-lo, com olhos valentes, ameaçadores — Não tenho medo de nada.

             — Eu acredito que sim — disse em voz muito baixa — Acredito que teme muitas coisas, mas te esconde atrás do escudo da indiferença.

             Surpreendida de que Slane lhe tivesse lido tão bem o pensamento, Taylor lhe deu de novo as costas, mas desta vez evitou olhar o fogo. Desta vez se fixou na parede, nas sombras que as chamas ondeantes criavam.

             — Me diga o que vê, Taylor. — Sua voz era muito suave — Diga-me o que te assusta, o que a faz não querer enfrentar ao mundo.

        A luz jogava sombras na parede à frente, oscilando ao redor de suas duas silhuetas escuras como se fora fogo queimando vítimas. Seus olhos se alagaram de lágrimas incontroláveis.

             — Ali não encontrará a resposta — lhe murmurou.

             A voz de Slane soou tão perto como se tivesse se aproximado para lhe sussurrar ao ouvido. Ela se voltou para olhá-lo e a imagem dele se viu apagada por seus frágeis olhos. Slane estava perto, muito perto. Seus olhos azuis brilharam como a parte mais quente de uma chama. Surpreendida, Taylor piscou e aproximou seu olhar, mas só viu a luz do fogo refletida.

     As sedutoras labaredas captaram sua atenção, atormentavam-na; as ondulantes labaredas a atraíam faziam-lhe gestos para que se aproximasse delas.

             De repente, deu-se conta de que estava tremendo apesar de se encontrar numa habitação quente.

             — Taylor?

             Ela quase não escutou. Podia ver a escura fumaça elevando-se como dedos para o céu azul no castelo Sullivan. Recordou esse horrível odor de carne queimada como se estivesse acontecendo uma vez mais.

             — Taylor?

             Piscou e tratou de esquecer-se dessas imagens. As lembranças se foram. Mas não o aroma. Nunca poderia desfazer-se desse fétido odor.

             Viu que Slane a estava olhando com preocupação. Passou um momento antes que se desse conta de que ele a estava puxando pela mão com firmeza.

             — Está bem?

             Tudo o que ela queria fazer nesse momento era aninhar-se em seu peito, abraçá-lo para receber todo o calor e o amparo que ele pudesse lhe dar. Mas não se moveu; só assentiu.

             — Está tremendo — observou Slane e esfregou suas mãos de maneira vigorosa para esquentá-la — Aonde foi faz um momento? Parecia que tinha visto um fantasma.

             — Uma lembrança — respondeu com a garganta seca.

     Slane olhou as chamas antes de voltar-se para ela.

             — Uma lembrança que tem a ver com o fogo?

        Taylor assentiu, mas não estava disposta ou não podia falar mais do assunto.

             — Uma lembrança que tem que ver com sua mãe?

             Taylor se voltou como se Slane lhe dado uma bofetada e esteve a ponto de ficar de pé, mas não o fez.

             — Sei que a queimaram — disse brandamente Slane.

     A jovem tentou levantar-se, mas Slane ficou de pé e colocou suas duas mãos em cima do assento, aprisionando-a. Havia algo similar ao pânico correndo pelas veias de Taylor, revolvendo seu ventre, lhe dizendo que fugisse.

             — Isso aconteceu faz muito tempo, Taylor — disse Slane — É hora de que possa falar disso.

             Taylor desviou seu olhar, incapaz de encontrar-se com seus olhos. Só havia uma maneira de escapar.

             — Onde está Elizabeth?

     Slane pôs a mão em seu queixo e lhe levantou o rosto, forçando-a a olhá-lo aos olhos. Taylor sentiu como se um raio a tivesse atravessado.

             — Enviei-a ao castelo Donovan.

             Sozinhos. Estavam sozinhos. Era um imbecil? Ou em realidade acreditava que sua honra podia protegê-lo? Seu dedo polegar roçou a bochecha de Taylor, seguindo o ângulo. A jovem sentiu que seu coração pulsava com rapidez. Louco.

     O olhar de Slane se posou nos lábios de Taylor. A carícia de seus olhos lhe provocou um prazenteiro comichão e Taylor prendeu a respiração, temerosa de mover-se, temerosa de que ele retirasse a mão de seu queixo. Instintivamente, lambeu os lábios como se isso os escondesse de Slane.

     Ele tragou saliva. Estava tão perto que seu fôlego chegava ao rosto de Taylor, com um doce e leve aroma de cerveja. A mão de Slane passou do queixo para sua nuca e depois descansou sobre seu ombro.

             Queria que a beijasse. Desesperadamente, precisava sentir os lábios de Slane contra os seus. Mas não podia mover-se. Estava aprisionada no feitiço do seu olhar, em suas carícias.

             Depois, Slane se aproximou tanto dela que seus narizes estiveram a ponto de tocar-se. Sua garganta emitiu um som, como se fora a dizer algo, mas quando ela baixou o olhar seus lábios se fecharam sem emitir uma só palavra. O sangue de Taylor palpitava em seus ouvidos; seu corpo inteiro tremia com um desejo que nunca antes havia sentido.

             O fogo crepitou e saíram umas tantas faíscas da madeira ardente. De repente, puxou-a pelos ombros firmemente, seus dedos enterrando-se na pele de Taylor.

             — Sou um homem honorável — disse entre dentes — Dei minha palavra.

             Taylor abriu a boca para dizer algo. Queria lhe dizer que estava bem, que o entendia. Ela sabia que classe de homem era ele. Mas as palavras não lhe saíram.

             Slane baixou sua cabeça e Taylor fechou os olhos, antecipando o beijo. Mas, em lugar de beijá-la, ele se afastou com um gemido.

             — Não seria suficiente — bufou — Não contigo...

             Saiu da habitação e subiu as escadas quase correndo, sem voltar-se para olhá-la nenhuma só vez.

             Taylor permaneceu sentada com os olhos fechados, desejando que retornasse, desejando sentir seus dedos roçando sua pele. Mas nenhum dos dois desejos se realizou. Quando abriu os olhos, a habitação estava vazia. Seu olhar caiu na sombra que ficava na parede, rodeada da luz ondeante do fogo. Sentiu que a luz a rodeava e um calafrio lhe percorreu o corpo. Com um suspiro, ficou de pé e voltou para sua habitação.

        Logo que entrou, tirou a espada e a deixou na cama. Caminhou ao redor da habitação durante um momento, inquieta pelos sentimentos que Slane tinha despertado nela. Depois, seu olhar se posou de novo na espada.

             A lua cheia brilhava no céu, e sua resplandecente luminescência se refletia sobre a lustrada folha chapeada da espada. Sabia que deveria segurá-la. Sabia que deveria preparar-se e praticar para a batalha contra Slane. Mas havia uma parte dela que não queria fazê-lo. Uma parte dela desejava que Slane a derrotasse.

             Não. Não podia render-se ante ele. Sabia que tinha que brigar com cada grama de força que tivesse. Como Jared lhe tinha ensinado.

     Tomou o punho da espada, olhando fixamente o reflexo da lua na brilhante folha. Seus olhos se rodearam de tristeza; havia linhas de tristeza perto de sua boca. Taylor nunca se viu tão só e tão perdida em sua vida.

             Esse rosto, essa imagem que a olhava do gentil fio da espada não era ela. Ela era muito mais forte que essa coisinha frágil de olhos trágicos. A mão de Taylor sujeitou com firmeza o cabo da espada. Sabia o que tinha que fazer.

 

             — Tem certeza que te encontra bem? — Slane ofegou, olhando o tórax de Taylor que estava ferido.

             Uma lua laranja banhava Slane e Taylor à medida que suas espadas se chocavam na noite.

             — Se tiver medo de brigar comigo, pode te render agora mesmo — respondeu Taylor.

             Slane sentiu que um sorriso aflorava a seus lábios e, por mais que quisesse, não podia apagá-lo. Sentia-se muito orgulhoso dela ao vê-la ali, brigando. Nunca se rendia. Obviamente, ela tinha sabido aproveitar essa última semana e tinha estado treinando.

             Taylor se moveu para a esquerda e depois girou com surpreendente rapidez. Slane esquivou o golpe, mas teve que mover-se bastante rápido. Realmente, era muito boa. Muito melhor do que ele tinha acreditado. Só um olho treinado podia detectar como tirava partido de suas qualidades. Não era tão forte como ele, mas era muito mais veloz. Como uma esquiva e pequena gata. Seus olhos verdes inclusive pareciam brilhar na escuridão.

     Na metade da luta, seu rosto se avermelhou com um brilho radiante. Emanava tanta vida... como se a luta a fizesse florescer. Então Slane pensou que ela não devia conhecer outra coisa, pois toda sua vida tinha sido uma contínua batalha.

             Taylor arqueou a espada sobre sua cabeça e quando ele se moveu para bloqueá-la, baixou a arma e tratou de enterrá-la em seu corpo. Amaldiçoando, Slane teve que girar para esquivar o ataque de Taylor. Droga era muito rápida! Ela continuou atacando-o com sua espada, lançando golpe atrás de golpe.

        Respirando de maneira agitada, Taylor fez uma pausa e girou um pouco para sua esquerda. De repente, lançou um golpe para sua direita, mas retrocedeu quando Slane se moveu para bloquear seu movimento. Uma suave risada saiu borbulhando de sua garganta, surpreendendo-o.

             — Está levando isto bastante a sério, não? — perguntou-lhe Taylor.

             — Sinto que aquilo pelo que estou brigando é importante — respondeu Slane, afastando o sentimento quente que lhe tinha produzido sua risada para concentrar-se na batalha.

             — Deveria aprender a relaxar — lhe aconselhou Taylor.

             — E você deveria aprender a não... — Slane lançou sua espada contra Taylor fazendo um firme arco — falar tanto. Tome cuidado, não deveria falar tanto quando está lutando.

             Taylor respondeu ao golpe de Slane como uma lutadora treinada. Aproximou-se dele, lhe oferecendo o mais sarcástico dos sorrisos.

             — Mas assim é como ganho minhas brigas — murmurou em um áspero tom de voz.

             Slane moveu sua espada contra ela, aproximando-a de seu corpo.

             — Não todas — disse ele em um tom de voz levemente mais alto que um sussurro. Slane se aproximou mais dela e Taylor teve que retroceder um passo.

             Mas depois se deteve, empurrando a espada de Slane e erguendo esses malditos lábios cheios para perto dos dele.

             — Ama Elizabeth?

             Surpreso, esteve a ponto de cair de costas, mas se endireitou instantaneamente.

             — Vamos nos casar — respondeu — Importa se a amo ou não?

             Seus lábios entreabertos atraíram seu olhar. Sua boca se via tão suave, como umas suaves almofadas de veludo onde ele poderia descansar seus lábios.

             — A honra e o dever não são tão oscilantes e escorregadios como o amor — conseguiu acrescentar.

             — O amor não existe — disse ela enquanto cuspia com repentina amargura — Só queria saber se foi o suficientemente imbecil para acreditar nisso — disse enquanto o empurrava. Sua espada brilhou com a luz da lua à medida que retrocedia depois se lançou para diante e sua espada passou roçando a cabeça de Slane.

             Ele levantou sua espada, apertando com força o punho, e se queixou quando recebeu o golpe, surpreso pela força e sentindo uma descarga nos músculos do braço. Mas reagiu com rapidez, desviando o movimento de Taylor para um lado, forçando-a a baixar sua espada e obrigando-a a cravar a ponta de sua arma no chão. O doce aroma do fôlego da jovem chegou a seu rosto à medida que ela subia a cabeça. Taylor empurrou sua espada para um lado e retrocedeu um passo.

             Endireitou-se e o olhou com fúria.

             — Ela será uma boa esposa — disse. Seu rosto era uma máscara de compostura, mas seu peito se movia de cima abaixo ao ritmo de sua agitada respiração.

     Slane observou o peito de Taylor e sentiu que suas vísceras ardiam cada vez mais à medida que via como seus seios cresciam e se apertavam contra o tecido de sua túnica com cada uma de suas gloriosas respirações. Seria tão simples usar sua espada para cortar o tecido, derrubando a última barreira que havia entre seu faminto olhar e a suave pele da mulher. Grunhiu, desviando seu olhar. O pensamento o tinha enfurecido, pois tinha chegado a ele de maneira fácil. Muito fácil. Brandiu sua espada com força, tanto que o ar gritou quando o metal de prata o atravessou de maneira violenta.

     Taylor levantou sua espada para bloquear o golpe, mas no momento em que a arma de Slane tocou a sua, caiu devido ao brutal peso do contato. Seu traseiro aterrissou no chão, e a jovem deu um grito.

        Os olhos de Slane se aumentaram pela surpresa. Não pretendia feri-la!

             — Sinto muito, Taylor — disse rapidamente e lhe estendeu uma mão.

             Ela se apoiou em um de seus pés e deu um chute nos joelhos de Slane com a outra perna, fazendo que caísse ao chão. Então se lançou para frente, colocando a ponta de sua espada no pescoço de seu oponente.

             Slane franziu o cenho quando viu a expressão de triunfo refletida em seus olhos verdes através de uma faísca de diversão.

             — Fez armadilha, isso é desonroso — disse ele.

             — Eu gosto de ganhar — disse ela com um amplo sorriso esboçado em seus lábios — Renda-se — urgiu Taylor.

             Slane sentiu que os músculos de sua mandíbula se endureciam e que seus olhos se entrefechavam. Ela pressionou a ponta de sua espada em sua pele. Os lábios de Slane se apertaram quando murmurou.

             — Rendo-me.

 

             Slane parou na escuridão do salão principal, enquanto olhava Taylor comer. Pelo menos seu apetite tinha retornado. Comia incontroladamente, como se fosse à última refeição que provaria em muito tempo. Seu escuro cabelo brilhava com a oscilante luz do fogo, grossas ondas negras caíam sobre suas costas quando se inclinava sobre sua aveia.

             Ganhou dele! Pensou pela enésima vez. E Taylor não perdia tempo aceitando seu triunfo; já tinha guardado suas coisas e estava pronta para partir assim que acabasse de comer. Partia. Slane apertou os dentes e olhou para outro lado.

             Não deveria se importar. Ganhou de uma maneira desonrosa! Tinha-o enganado. Mas se importava. E muito. Não era ter perdido a aposta, não era que lhe tivesse ganhado... Não, não era isso o que lhe incomodava. Era que ao perder a aposta a tinha perdido também. Prometeu-se que não diria nada quando ela partisse. Nisso tinha consistido sua aposta. Mas não tinha contado com perder! Era muito bom, capaz de ganhar do mais perito. Não tinha duvidado nem por um minuto que ele a venceria.

        Mas ela o tinha envolvido com seu corpo e seu olhar feiticeiro! Tinha-o distraído com suas infernais conversações! Com razão tinha perdido!

     Nenhuma briga com ela poderia ser justa. Ela sempre o teria em desvantagem com suas suaves curvas, o som de sereia de sua voz, as eternas profundidades de seus olhos cor esmeralda.

             Slane lançou sua cabeça para trás e tomou um grande gole de sua cerveja. Ficou olhando o reflexo de sua imagem na brilhante superfície do líquido. Seus olhos pareciam enfeitiçados, possuídos pela imagem de uma mulher que não podia ter. E que não deveria desejar! Olhou a causa de sua angústia.

             Taylor abriu sua boca para mordiscar seu pão. À medida que estudava seus sensuais lábios cor cereja, sua inocência parecia converter-se em provocação e depois em sedução. Apesar de estar de pé na parte de trás do salão, sua boca encheu sua visão como se estivesse sentada a centímetros do ele. Seu olhar percorreu as bochechas da jovem, surpreendendo-se com sua delicada maciez, com sua cor que lhes dava uma aparência vivaz e vibrante.

             Taylor se voltou para olhá-lo diretamente. Seus olhos atraíram os dele, forçando-os a que a olhassem. Durante um largo momento, esqueceu quem era, onde estava. Suas gêmeas esmeraldas brilhavam, eram jóias preciosas enterradas no tesouro que era seu rosto.

     De repente, Slane começou a caminhar para ela. Acabaria com essa farsa. Como podia pensar em abandonar seu amparo? Como podia pensar que sobreviveria um só dia com os homens do Corydon e os mercenários de Richard procurando-a, principalmente depois do que tinha ocorrido na última vez que tentou?

     Aproximou-se dela e sua sombra caiu sobre Taylor como uma nuvem de tormenta. Deteve-se e durante um bom momento se limitou a olhar seus olhos inquisidores enquanto sentia como a fúria ardia por todo seu corpo. Abriu sua boca para lhe ordenar que ficasse com ele, que ficasse ao seu lado... mas, de repente, deteve-se. Tinha perdido. Tinha dado sua palavra de que a deixaria ir.

             Taylor empurrou com seu pé o assento no que estava repousando sua perna e Slane, silenciosamente, sentou-se nele.

             Não podia fazer nada a não ser olhá-la. A forma em que seu cabelo caía sobre seus ombros em nuvens de cachos, a maneira como seus profundos olhos verde parecia ver através de sua alma, lendo-o e compreendendo-o. Depois as pálpebras de Taylor caíram sobre seus olhos, olhando o copo de cerveja.

             — Seria muito mais prudente que ficasse — disse finalmente Slane de forma silenciosa.

        Ela esboçou um sorriso e disse:

             — Sabia que não irias respeitar a aposta.

             — Não estou tentando te deter — insistiu — Só acredito que deveria considerar suas opções.

        Ela levantou seus luminosos olhos para ele.

             — Já o fiz.

             — Hum! Prefere correr o risco de enfrentar a dúzias de lutadores treinados que querem te matar ou quem sabe quantos mercenários que querem te seqüestrar. Matar-te. Seqüestrar-te. Pode que ambas as coisas — disse Slane olhando para Taylor — É verdade. A decisão é fácil.

 

     Era o momento de partir e Taylor sabia. O momento de deixar Slane. Tinha sido esse momento desde meia hora, desde muitas horas. Mas sentir o duro corpo de Slane tão intimamente apertado contra o seu; sentir seus lábios contra os seus, aumentava seu desejo de receber mais de suas carícias. Como podia ir quando cada um de seus sentidos lhe pedia ficar? Como podia ficar quando sua mente lhe pedia fugir sem olhar para trás? Deixou de passear de um lado ao outro da habitação, para sentar-se pesadamente na cama junto a sua bagagem.

             — Diabos — murmurou. Um torvelinho de sentimentos a alagava. Seu cérebro estava a ponto de estalar. Deixou cair à cabeça entre as mãos, lamentando sua indecisão. Nunca em sua vida tinha estado tão confusa.

             Esfregou as têmporas e agitou a cabeça desordenadamente, cheia de confusão. O que pensaria Jared dela agora? Perguntou-se.

             Lentamente, tirou as mãos do rosto.

             Tinha chegado tão longe para vingar a morte de seu amigo, pensou. E agora estava fugindo de novo, no meio da noite como uma menina assustada. Como podia abandoná-lo assim? Como podia permitir que a morte do Jared tivesse sido em vão? Mas também sabia que seu Slane não quereria que ela continuasse fugindo... Então, por que queria ir com tanta pressa?

             Voltou seu olhar para a janela. A lua lutava por iluminar o mundo, mas umas densas nuvens bloqueavam seus débeis intentos, fazendo com que a noite permanecesse em completa escuridão. A inesquecível imagem de Slane com seus úmidos lábios posados sobre sua bochecha revoava em sua mente. A dor que sentiu no peito foi tão forte como quando o experimentou a primeira vez, quando foi testemunha e protagonista da cena. Lentamente baixou o olhar para o escuro chão. Não queria ser ferida. Poria tanta distância entre ela e Slane como fora possível, esquecendo tudo: a possibilidade de um trabalho remunerado, comida e alimentação gratuita. Esquecendo de vingar ao Jared.

             Sabia que um simples olhar dos azuis e profundos olhos desse homem, ou um sorriso sedutor de seus lábios, poderia fazer com que ela se esquecesse de tudo. Por isso não tinha partido ainda. Tinha medo de encontrar-se com Slane esperando-a na sala de estar da estalagem. Esperando-a com seus preocupados olhos azuis. Esperando-a com seus fortes braços. Esperando-a com seus perigosos lábios. Tinha certeza de que se chegasse a beijá-la uma vez mais, ela jamais o deixaria. No mais recôndito de seu coração, sabia que não queria abandoná-lo. Queria ficar com ele. Talvez, só talvez, esqueceria-se da Elizabeth e tomaria a ela em seus braços uma vez mais...

             Mas também sabia que ele jamais romperia seu voto. Sua honra. Seu juramento. Agora sentia medo de que seu desejo de ter Slane embaçasse seu julgamento, lhe dando muitas razões para ficar. Além do mais, ela não poderia vingar Jared sem ajuda? Necessitava da companhia de Slane para ir ao castelo Donovan? Claro que seria muito mais fácil com o Slane ao seu lado, pagando por sua comida.                     Além disso, ele poderia procurar ajuda de seu irmão contra os homens do Corydon. E se ia a seu pai? Seu pai estava esperando-a no castelo Donovan. Poderia vê-lo outra vez, depois de todos esses anos, só para estar com o Slane um pouco mais? Encurvou os ombros, seu comprido e negro cabelo caiu sobre seu rosto e se posou sobre seu colo. Não lhe importava voltar a ver seu pai. A única coisa que lhe importava era Slane. Não queria abandoná-lo.

             Qual era o problema, então? Pensou. ‘Não irei. Nunca me importou ninguém. Por que mudar isso agora? Se for ficar, ao diabo a reputação de Slane, ao diabo sua honra. Ficarei. Farei o que eu achar melhor, tal e como o tenho feito durante os últimos oito anos’.

             Mas esse era o problema. Querer. Não sabia o que queria de Slane. Tampouco sabia se, quando já soubesse, lhe poderia dar o que ela queria. Entretanto, tinha que averiguá-lo, tinha que saber o que ele tinha que a fazia sentir-se tão... tão mulher.

             Levantou-se e se dirigiu decidida para a porta, abrindo a de par em par. De qualquer modo, ia vingar a morte do Jared.

             Caminhou sigilosamente pelo vazio corredor, apressando-se para não perder sua coragem. De qualquer modo, Slane era quem pagava sua comida e alojamento.

     Posou sua mão sobre o trinco da porta da habitação de Slane, e esteve a ponto de desistir, cheia de medo. Seu coração palpitava furiosamente em seu peito. Tinha-lhe medo...

             ‘Não tenho medo’, disse-se a si mesma. ‘De nada’. Empurrou a porta e entrou na escura habitação. Viu uma sombra mover-se, e depois escutou o familiar som de uma espada ao desencapar-se. Em meio da tênue luz que entrava na habitação, Taylor viu o reflexo da lâmina apontando para sua garganta. Entretanto, isso não a assustou tanto como enfrentar a esses olhos azuis que brilhavam na escuridão.

             Umedeceu os lábios.

             — Ficarei contigo — anunciou.

     Depois de um largo momento, a espada descendeu e deixou de ameaçar seu pescoço, sumindo-se na escuridão de onde veio. A habitação estava tão silenciosa como uma capela.

             — Acompanharei-te ao castelo Donovan — esclareceu, perguntando-se se ele a escutava. Finalmente, deu um passo para trás, antes de voltar-se e sair da habitação. Fechou a porta atrás dela.

 

             Slane se deixou cair sobre a cama, profundamente aniquilado, sem deixar de olhar para a porta. Acaso tinha sido Taylor quem tinha entrado em sua habitação, anunciando que iria ao castelo Donovan? Ou seria que por fim havia dormido e o tinha sonhado? Um glorioso e maravilhoso sonho.

             Não, algo tinha mudado em seu coração. Depois de tudo, ela iria ao castelo Donovan!

             Mas a que se devia a súbita mudança de pensamento? Perguntou-se. O que ela esperava em troca? Nunca fazia nada se não havia lucros. Então percebeu, com um amplo sorriso, que já não lhe importavam seus motivos. Taylor iria com ele! Estaria a salvo junto a ele. Nenhum mercenário se atreveria a capturá-la. Os homens do Corydon jamais posariam suas mãos sobre ela. De repente, a sensação de júbilo que sentia foi rapidamente substituída pela dúvida.

     Mas também iria ao castelo Donovan para ficar com seu irmão Richard. Para ser sua prometida.

     Com apenas pensar nisso, uma estranha sensação de melancolia se apoderou dele. Esposa de Richard. Não podia nem sequer imaginá-lo. Richard nunca toleraria seu sarcasmo. Nunca apreciaria sua sabedoria. Nunca veria sua beleza. Como Elizabeth, Richard só veria a mercenária, só veria o cabelo enredado e despenteado, só veria as mãos calosas. Richard nunca veria como se refletia a luz da lua em sua preciosa cabeleira; tampouco apreciaria a habilidade com que desembainhava sua espada. Não. Richard perceberia seu sarcasmo como falta de respeito, seu humor como insolência. Slane franziu o cenho. Realmente a estava enviando para um lugar mais seguro? Ou a estava pondo em um risco ainda maior?

     Deveria dizer-lhe a verdadeira razão pela qual a buscava. Só lhe tinha contado uma parte da verdade; não lhe tinha contado a história completa. Não lhe havia dito que seu pai a tinha prometido em matrimônio a seu irmão Richard.

             Seu olhar se elevou para a porta. Mas, se o contasse, ela nunca iria ao castelo Donovan com ele. Nunca estaria a salvo.

 

       Taylor se sentou na sala de estar, de costas à chaminé, observando a maneira como as sombras das chamas titilantes se projetavam dançando sobre os muros ao redor de sua escura silhueta. Não podia evitar perguntar-se se tinha feito o correto ao ficar ao lado de Slane. Encolheu os ombros e pensou: o que está feito, feito está.

       Uma repentina vaia do fogo despertou-a do transe hipnótico no que a tinham submerso as distorcidas sombras no muro. Acomodou-se na manta e envolveu com ela a mão que sustentava um copo de cerveja. Começou a elevá-lo para sua boca, quando ficou congelada...

       Como podia ter a esperança de competir contra Elizabeth? Competir? Não estava tratando de competir! Terminou de elevar o copo para seus lábios e bebeu. Seus sentimentos se converteram em uma confusão que habitava seu interior. Devia tratar de esclarecê-los. Devia entender o que era aquilo que estava sentindo. Mas como poderia fazer isso quando muitos desses sentimentos eram totalmente novos? Ficou em pé e se voltou. Encontrou frente a ela um homem de nariz torcido e olhos negros que a olhava com muita atenção. Por cima do ombro conseguiu ver outro indivíduo a uns metros do homem que a olhava.

             Taylor deu um passo para desviar dele, mas o homem se moveu lhe bloqueando o caminho. Não se encontrava com humor para discutir com esse homem e, por um momento, pensou em golpeá-lo na virilha com o joelho. Mas tinha certeza que Slane reprovaria que fizesse algo assim.

             — Com sua permissão — murmurou e, uma vez mais, tentou passar. De novo, o homem lhe bloqueou o caminho, e desta vez seu amigo se aproximou e parou a seu lado.

             — Vimo-la neste lugar e pensamos que desejava companhia — disse o homem firmemente.

     Taylor apertou os dentes.

             — Não, obrigada — respondeu.

             — Ah, tem maneiras — disse o homem do nariz torcido.

             — Sim, é evidente que não foi criada nas ruas — acrescentou o amigo.

             — Temo-me que devemos insistir — disse o do nariz torcido, sorrindo.

        Já basta de cortesias, pensou Taylor.

             — O que vocês dois, gentis homens, não entendem é que não me agrada a companhia de sujeitos como vocês.

             — O que tem que mau em nós? — perguntou o do nariz torcido.

             — Deveriam banhar-se mais freqüentemente — respondeu Taylor.

             — Está-nos insultando? — perguntou o amigo.

             — Não — mentiu ela — Só trato de lhes dar um conselho amigável.

             — Está nos aconselhando? — perguntou o amigo.

             — Deixe-me aconselhá-la também. Mantenha sua boca fechada e suas lindas pernas abertas. Não, Simon?

             O homem que se chamava Simon riu do mais profundo de sua garganta. Os olhos de Taylor se abriram levemente. Abriu as pernas e perguntou com aparente inocência:

             — Assim?

             — Mais abertas — replicou Simon.

             — Você quer dizer que as abra assim? —Taylor jogou sua perna para cima, golpeando o peito do Simon.

             Enquanto Simon caía para trás como conseqüência do forte chute, o outro se lançou para ela, mas Taylor facilmente o evadiu afastando seu corpo do alcance de seu atacante. O homem se chocou contra uma mesa que havia atrás dela.

             — Temo-me que não cumprirei seus desejos — disse, pondo seu pé sobre a garganta do Simon. Nesse momento, Taylor viu um rápido movimento nas escadas e olhou para cima. Ele apareceu como um anjo escuro, uma escurecida miragem emergindo das trevas — Slane — sussurrou Taylor.

             Nesse momento, o punho do amigo do Simon alcançou sua mandíbula e a enviou, cambaleante, ao chão. O copo que levava na mão voou pelos ares, pulverizando seu conteúdo sobre o chão de madeira. Taylor viu do chão como a espada de Slane assobiou, cortou o ar, golpeou a carne e derramou sangue. Uns instantes depois os dois homens jaziam mortos aos seus pés. O encarregado da estalagem e sua filha se escapuliram a um lugar seguro no momento em que começou a briga. Só Slane estava de pé perto dos vultos sem vida dos dois criminosos. Slane apertou a espada com tanta força que seus nódulos se voltaram de alabastro. Então, cuspiu sobre os cadáveres.

             Lentamente, Taylor se levantou, enquanto Slane tomava um trapo que encontrou em uma mesa próxima para limpar sua espada. Uma vez limpa, a superfície da arma voltou a brilhar. Pôs de novo a espada em sua bainha e olhou para Taylor com certo ar de assassino. Ela esteve a ponto de estremecer-se, mas manteve a compostura.

             — Estás bem? — Suas palavras eram gentis, gerando um cru contraste com o letal olhar que se podia perceber em seus olhos.

             Taylor assentiu.

             Slane se ergueu completamente e se voltou para encarar-se com o encarregado da estalagem e sua filha, que se encontravam depois da porta da cozinha. Apontou para Taylor:

              — Esta mulher está comigo. Se os vir, vocês ou a seus patrões, olhando-a com desdém, receberão a mesma lição que receberam estes desgraçados.

             Assombrada pela intensidade de sua ira, Taylor levantou sua mão distraída e massageou sua bochecha; supôs que, em seu próprio estilo incomum, ele acabava de defender sua honra... se é que ainda tivesse isso. Aproximou-se dele, examinando o massacre.

             — Poderia me encarregar deles sozinha, sabe? E provavelmente ainda estariam vivos.

             — Não mereciam menos do que obtiveram — respondeu Slane fechando os olhos. Depois de um momento os abriu lentamente. Pousou seus dedos sobre a bochecha de Taylor e ela sentiu como seu coração se acelerava com a carícia. Nos profundos olhos azuis de Slane, pôde ver sua ira e sua preocupação. E também pôde ver suas desculpas.

             Taylor sorriu levemente.

             — Encontrei-me em piores situações.

             Slane sorriu.

             — Disso não me cabe a menor duvida.

             Olhou de novo ao encarregado da estalagem e a sua filha, que se encontravam agachados. Quando Slane voltou seu olhar para Taylor, os dois souberam que não poderiam ficar ali por mais tempo.

             — Chegou o momento de partir — anunciou Slane em um tom moderado.

             — Justo quando me estava começando a gostar deste lugar — murmurou ela.

             — Pegue sua bolsa e eu pagarei o que devemos e umas poucas moedas a mais para que se encarreguem destes dois desgraçados — disse Slane brandamente e apontou os dois corpos com a cabeça.

             Taylor assentiu e se dirigiu às escadas. Sabia que deviam partir. Rapidamente o rumor correria; o rumor aproxima um homem e uma mulher, os dois fortemente armados. Corydon enviaria a seus homens. Ela não podia brigar bem ainda. Ainda não estava suficientemente recuperada para lutar tão bem como sabia fazê-lo.

             Quando retornou com suas coisas, Slane já tinha pagado a conta e se encontrava subindo as escadas para recolher seus pertences.

             — Ouça Slane — disse Taylor chamando sua atenção.

             Ele se voltou para olhá-la por cima do ombro.

             — A vida seria absurdamente aborrecida sem mim, não acha?

 

       Depois de um comprido dia de viagem, Taylor não podia acreditar que finalmente tinha chegado o momento de descer de seu cavalo. Atou seu corcel a uma árvore, perto de um arroio, desfrutando ao estirar-se e mover-se. Debilitou-se por estar parada na estalagem. Necessitava exercício para tonificar os músculos.

       Pousou os olhos sobre a pequena colina frente a ela. Aproximavam-se cada vez mais do castelo Donovan. E quanto mais se aproximavam, mais sentia que um forte nervosismo se apoderava dela.

       Taylor olhou então para Slane. Ele acariciava seu corcel enquanto o animal bebia água do pequeno arroio. O sol estava se pondo e a tênue luz dourada parecia estirar-se brandamente para lhe tocar todo o corpo, uma vez mais. Taylor estava cativada pelo poder que via nas mãos de Slane enquanto acariciava o pescoço de seu cavalo. Tinha-o visto brandir sua espada com força desmedida, mas vê-lo fazer uma tarefa tão singela como escovar seu corcel a surpreendia desmedidamente. Seu olhar passeava lentamente pelo corpo de Slane; desde seus fortes ombros, passando por sua esbelta cintura, finalizando em suas malhas, que se curvavam belamente sobre os músculos de suas pernas.

       De repente, ele se voltou e fixou seu olhar em Taylor. Tentando parecer que não o tinha notado, ela se moveu e dirigiu seu olhar a um prado espaçoso que se via sua direita. Sentiu como o quente rubor se apoderava de suas bochechas, e rapidamente se dirigiu para a leve colina que bordejava o prado, afastando-se de Slane.

       Quando chegou ao topo da colina, sentiu um forte vazio no estômago. Frente a ela se estendiam as mais formosas terras que tinha visto em toda sua vida. Grupos de árvores coloriam as enormes e verdes pradarias. Perfeitas colinas, cobertas de uma intensa e verde grama, enchiam a paisagem. Um lago azul resplandecente aparecia depois de uma das ladeiras.

       ‘OH, Deus’, pensou. ‘Não sabia que estávamos tão perto’. Sentiu como a tensão amarrava seus músculos enquanto uma enorme onda de lembranças a invadia, inclemente.

       — Taylor?

       Ao ouvir a voz de Slane, deu um salto e se voltou para olhá-lo.

       O sorriso com o que ele se aproximou inicialmente tinha desaparecido substituído por um gesto de preocupação.

       — Está bem?

       — Estamos entrando nas terras Sullivan — disse Taylor com tal mesura que até ela mesma se surpreendeu.

       Slane assentiu.

       — Sabe que devemos atravessar esta comarca para chegar ao castelo Donovan.

             Taylor voltou seu olhar para a formosa paisagem. Sim, sabia. Entretanto, não estava preparada. Durante anos tinha evitado entrar nestas terras. Tinha evitado algo que tivesse a ver com elas, e tinha se negado a aceitar qualquer trabalho que tão somente a aproximasse da propriedade Donovan. Agora, parada na porta de seu antigo lar, sentiu que uma aguda ansiedade se apoderava dela. Tinha que afastar-se dessas terras, dessas dolorosas e perseverantes lembranças.

             Voltou-se para fugir, para correr longe dali, quando se topou cara a cara com o Slane.

             Gentil, mas firmemente, Slane posou suas mãos sobre os ombros de Taylor.

             — Tudo está bem, Taylor — disse com uma tranqüilizadora e melodiosa voz.

             Taylor umedeceu seus lábios e olhou a seu redor, como se os homens de seu pai fossem sair das árvores que os rodeavam e a fossem levar velozmente ao castelo Sullivan.

             Slane segurou seu queixo e a obrigou a olhá-lo fixamente nos olhos.

             — Não deixarei que te aconteça nada — sussurrou — Prometo-lhe isso.

             Seu tato e seu olhar sincero lhe infundiram certa sensação de calma, e suas palavras apagaram o medo. Ele era um homem que honrava sua palavra. Seu juramento. Sua honra. Taylor sabia que cumpria o que dizia. Inclinou-se para ele, posando sua bochecha em seu ombro.

             Slane a abraçou, lhe dando maior segurança.

     Fumaça, chamas, imprecisas lembranças se prolongavam em sua mente. Taylor deixou cair sua cabeça para um lado, repousando sua bochecha sobre o ombro de Slane. As lágrimas queimavam seus olhos; a nuvem de fumaça, produzida pelas chamas de suas lembranças, irritava suas pupilas. Quis apagar as imagens, apagá-las de uma vez por todas. Negou-se a reconhecer o efeito que essas lembranças tinham sobre ela. Tudo tinha passado fazia muito tempo. Tudo tinha terminado.

             Afastou-se do abraço de Slane, deixando para trás a comodidade e tranqüilidade que lhe oferecia. Desceu da colina e se dirigiu para os cavalos.

             — Taylor! — chamou Slane.

             Ela se deteve, mas não se voltou. Seu coração tremia tendo saudades seu tato, sua quietude. Tinha medo de voltar-se; medo de não poder resistir ao encanto e ao consolo que lhe oferecia. Tinha medo... tinha medo de apaixonar-se por ele.

             — Fumaça!

             Voltou-se. Slane apontava para a comarca Sullivan. As lembranças de fumaça e fogo ressurgiram em sua mente. Começou a tremer. Não podia ser. Não podia haver fumaça. Não podia haver fogo. Isso tinha passado fazia anos. Tremendo, voltou-se de novo e deu as costas ao Slane.

             — Não me importa — disse com frieza.

             — Não te importa? — Seus largos passos o levaram a alcançá-la justo quando ela se parou frente aos cavalos — Talvez pense que não te importa. Mas te importa. Este é seu lar!

             — Foi — respondeu ela — Mas já não é.

             — Mas é a herdeira! Seu pai...

             — Meu pai não me importa! — gritou — Não me importa depois do que fez.

             Slane franziu o cenho ainda mais. Dirigiu-se a seu cavalo e montou.

             — Pode ser que necessitem de ajuda — disse, como se com isso explicasse e resolvesse tudo.

             O irado olhar de Taylor se chocava com o furioso olhar de Slane. Finalmente, deu rédea ao corcel e esporeou a seu cavalo em direção à coluna de fumaça.

             Taylor o viu partir. Pequenas nuvens de pó foram levantadas pelos cascos do cavalo que se afastava a toda velocidade. Então, sua figura desapareceu depois da colina e o sangue ferveu nas veias de Taylor. Quem diabos ele acreditava que era resgatando a quanta maldita pessoa o necessitasse? Poderia ser uma armadilha! Seria um bom castigo, se fosse!

             Ficou olhando para o lugar por onde Slane tinha desaparecido.

             — Por favor! — murmurou e subiu de um salto ao cavalo.

             A lua brilhava no alto do céu quando Taylor alcançou Slane, justo antes de entrar no povoado. Ele estava muito rígido sobre seu cavalo, mas não foi isso que chamou a atenção de Taylor: foi o povoado. A seu redor só havia casas destruídas e enegrecidas, vítimas da voraz ira do fogo. Havia fumaça que ainda saía da maioria dos edifícios. Ficou com a mente em branco, surpresa e aterrada. Suas mãos apertavam compulsivamente as rédeas de seu cavalo.

             Slane conduziu a seu cavalo pela rua principal do povoado.

             Sem que Taylor o esporeasse para que se movesse, seu cavalo avançou também. Ondas de terror passavam por seu olhar quando pousava seus olhos sobre umas ruínas disformes... a casa onde vivia a senhora Mulder. Ela fazia o melhor bolo de maçã da comarca, e Taylor ia ver a anciã todos os dias só para prová-la.

     Apartou seu olhar das ruínas queimadas e viu, então, a casa de granjeiro George. A fumaça se elevava em uma carbonizada e enegrecida coluna que se enredava com os raios da lua. Muito tempo atrás, ela se tinha sentado nessa mesma habitação para brincar de donzela em apuros com o Jeffrey, o filho do granjeiro George.

             Então viu a casa dos De Luza. Sua amiga Julie tinha vivido ali. Deus, não tinha pensado nela desde...

             Seu cavalo se aproximou um pouco mais dos acesos restos da casa. Julie estava acostumada a ir ao castelo com sua mãe, que trabalhava na cozinha. Taylor e Julie costumavam espiar aos cavaleiros e escolher seus favoritos enquanto os homens competiam nas justas. Às vezes inclusive imaginavam que aqueles homens competiam para honrar a elas. Julie...

             O cavalo de Taylor se deteve. O animal bateu com o casco na terra levianamente, levantando cinzas. O calor irradiava em feitas ondas que saíam das vísceras da casa.

       Uma torturante sensação aniquilava Taylor e a levava a não acreditar o que via. O que tinha acontecido? Tudo ao seu redor era destruição. O povoado jazia em fumegantes ruínas, queimado e convertido em cinzas. A fumaça queimava seu nariz, seu odor nauseabundo fechava sua garganta. Passou os dedos por debaixo de suas fossas nasais, desesperada por se desfazer do desagradável fedor.

       Seus olhos procuravam nas ruas algum sobrevivente. Mas não havia sinal de pessoas vivas, nem lamentos de pessoas feridas. Só existia o intenso calor e o ranger ocasional de alguma madeira queimada.

       Desconcertada, separou-se do enegrecido quadro e seu cavalo obedeceu a sua ordem. O animal se retirou sacudindo a cabeça, como demonstrando o desconforto causado pelas imagens que chegavam a seus olhos.

       De repente, uma carbonizada viga se partiu em dois e se chocou contra o chão, enviando uma chuva de incandescentes brasas ao céu noturno. Com a forte sacudida, Taylor se deu conta do lugar em que se encontrava, e desesperada por escapar, esporeou seu cavalo com força. Encabritado, o animal se lançou para diante e seguiu pela estrada, entre as desoladas ruínas do costumava ser um próspero povoado.

       À medida que a jovem acelerava deixando para trás a dilaceradora cena, o castelo Sullivan aparecia frente a ela chamando-a silenciosamente com sua ponte levadiça. As torres de vigias estavam vazias; agora eram vazias fendas nas paredes do castelo, e pareciam mais as feridas deixadas por uma adaga que tinha atravessado a pedra do que as janelas defensivas que deviam ser. Em outro tempo tinha sido um vibrante centro de vida. Taylor sabia que o castelo era agora um baldio monumento aos mortos.

       Seu olhar se posou imediatamente sobre um objeto pendurado nas paredes do castelo. Puxou as rédeas, conseguindo deter seu corcel. Embaixo dela, o animal dava nervosas cambalhotas. Viu, então, o objeto pendurado nas paredes e se deu conta de que tinha forma humana. Era um homem. Um homem que pendia por uma corda, pendurado pelos braços. A corda que atava seus punhos se estirava ao longo da parede e parecia estar atada à borda superior do muro. Cada instinto dentro de Taylor lhe gritava que corresse. Que fosse embora do povoado e se afastasse do castelo. Mas não podia apartar os olhos do corpo. Sua roupa parecia farrapos. Seu prateado cabelo chicoteava seu rosto. De repente, o homem moveu a cabeça e se queixou com força.

      Taylor ouviu o som dos cascos de um cavalo aproximar-se.

       — Eu o baixarei dali — ouviu Slane dizer atrás dela.

       Taylor girou sua cabeça para ver Slane montando seu cavalo sobre a ponte levadiça, dirigindo-se ao aberto portão do castelo. Voltou o olhar ao homem, balançando sua perna sobre o cavalo para desmontar-se. Aproximou-se dele entreabrindo os olhos. Havia nele algo familiar.

       O homem se queixou uma vez mais sacudindo a cabeça. Empapadas, as mechas de seu cabelo se grudavam ao sangue em sua cara. Tinha feridas por todo o corpo; sua pele estava coberta de cinzas e fuligem. Tinham-no torturado, tinha certeza disso. Mas quem teria sido?

             De repente, o homem caiu ao chão. Taylor lançou uma olhada para cima e viu que Slane a olhava do alto. Fez um gesto com o rosto e se apartou. Taylor voltou o olhar ao homem arrasado e se aproximou dele. Tinha recebido uma forte surra e não havia maneira de saber quanto tempo havia estado ali pendurado.

             Agachou-se e o puxou pelo braço, arrastando-o para lhe dar a volta. Ficou gelada ao ver seu rosto. Até maltratada e açoitada, reconheceu essa face. Suas vísceras eram um redemoinho de agonia e repulsa. Finalmente, afastou-se dele; sua cara se converteu em uma máscara de desprezo.

             — Quem é? — perguntou Slane, saindo do castelo.

             — Meu pai — sussurrou ela.

 

             Slane se agachou ao lado do homem que estava no chão e pôs a orelha perto de seu peito. O mais leve tremor de seu coração palpitava brandamente contra seu ouvido. Slane levantou a cabeça e pôs uma mão perto dos lábios do homem. Umas fracas correntes de ar golpeavam sua mão a intervalos regulares. Slane tirou a mão e olhou os olhos fechados do homem.

             — Lorde Sullivan? — disse.

     O homem se queixou e abriu lentamente os olhos.

             — Quem lhe fez isto? — exigiu Slane.

             Lorde Sullivan abriu a boca, mas não saiu nenhum som dela.

     Slane se voltou para Taylor. O vento da noite levantava levemente os cachos de seu cabelo e os lançava com delicadeza para trás, sobre seus ombros. De outra maneira, não teria se movido. Estava parada como uma estátua de granito, olhando com olhos frios.

             — Está morrendo — sussurrou Slane, furioso com a imobilidade de Taylor.

             Mas nem estas palavras fizeram com que se aproximasse de seu pai; não se ajoelhou com ternura nem chorou.

             — É seu pai — lhe recordou Slane, surpreso por sua frieza.

             — Taylor?

     Entrecortada, a voz de lorde Sullivan fez que Slane se voltasse para ele. Seus olhos se aumentaram, convertendo-se em piscinas de um marrom profundo. Seu olhar passou de Slane a Taylor com um renovado vigor, como se lhe tivesse concedido um desejo. Mas a felicidade que Slane detectou por um momento no rosto do velho, desvaneceu-se de repente.

             Slane se voltou para o Taylor. Não tinha se movido. Nem sequer tinha piscado. Maldita seja! Pensou. O que acontece com Taylor? Ficou de pé e se aproximou dela.

             — É seu pai! — murmurou com dureza — Vá até ele.

             Mas ela não se moveu. Não se voltou para olhar Slane tampouco, só olhava a seu pai com uma expressão tal de desprezo que Slane se surpreendeu.

             — Taylor — rogou seu pai — Ao fim te encontro. — Estendeu sua velha e tremente mão para ela, seus dedos abertos, como tratando de alcançar algo — Perdoe-me, filha.

             Taylor ficou tensa, apertou a mandíbula e fechou os olhos.

             — Me perdoe — lhe rogou.

     Slane esperou como fez o pai de Taylor, que estava desejoso de escutar as palavras que o sanariam. Slane se voltou para olhá-la, urgindo-a que o perdoasse.            Ela abriu um pouco os lábios, mas a palavra que saiu deles não foi uma que o absolvera.

             — Nunca — grunhiu.

     A mão do velho se converteu em um punho e caiu ao chão.

             — Taylor — exclamou Slane — Está morrendo. Deixa-o ir em paz.

             — E minha mãe o quê? — respondeu ela furiosa — Morreu, acaso, em paz quando essas chamas devoraram sua pele? Sim?

     Lorde Sullivan se queixou. Quando Slane se voltou para ele, seus olhos se viraram antes que seu corpo se agitasse contra a terra e exalasse seu último fôlego. Slane se ajoelhou a seu lado pondo uma mão perto da boca do velho. Mas sabia que lorde Sullivan estava morto. Colocou uma mão em seu peito e rezou em silêncio. Seu último desejo não se cumpriu. Não o tinham perdoado como ele esperava. Depois de tantos anos, de tanta dor... Taylor poderia deixá-lo morrer com honra, em paz, mas ela não sabia nada sobre a honra tampouco de amor.

             Slane se voltou a olhá-la com incredulidade, como se ela fora uma escura deusa surda aos rogos desesperados de seus fiéis.

             — É seu pai! E está morto! Agora não poderá experimentar seu amor. Nunca mais. Por quê? Por que não pudeste perdoar a um homem que estava a ponto de morrer?

             — Por que deveria havê-lo feito depois do que fez a minha mãe?

             — Queria seu perdão, Taylor! Agora está morto.

             — Parece-me muito bem — replicou ela, furiosa — O merece. Matou minha mãe sem remorso algum. Não foi piedoso com ela. Nem sequer quando eu o pedi. Ele se negou a escutar meus rogos. E eu lhe roguei; roguei-lhe que não lhe fizesse mal. Roguei-lhe que não a separasse de meu lado. — Apareceram lágrimas em seus olhos — Nem sequer deixou que me despedisse dela.

             Slane viu uma brilhante tristeza encher seus olhos, mas estava tão furioso com ela por ser tão insensível que não pôde evitar apertar seu punho frente a seus olhos.

             — Era seu pai! Ele te deu a vida! Amaldiçoou-o! Amaldiçoou-o em uma horrível morte da qual nunca poderá escapar! Teria podido lhe dar a paz com três malditas palavras! Só três palavras, Taylor!

             Taylor não retrocedeu quando viu que Slane lhe aproximava.

             — Ele perdoou, por acaso, a minha mãe? — respondeu-lhe Taylor — Assassinou-a! Tirou-lhe a vida ao permitir que a queimassem! Existe uma morte mais horrível que essa? Não tenho por que lhe dar paz. Que apodreça pelo que me fez! Pelo que fez a ela!

             — Escuta o que diz! — gritou Slane.

             Mas ela não estava escutando. Sua voz se quebrou no momento em que tentou falar.

             — Não sabe o que é tirarem sua mãe! Nunca o perdoarei. Nunca!

             Slane baixou o tom de sua voz.

             — Não te dá conta do que acaba de fazer, Taylor? — disse enquanto esperava ver uma horrível expressão refletida em seus olhos quando entendesse o que acabava de ocorrer. Mas essa expressão nunca chegou — Abandonaste a sua mãe para sempre — disse Slane — Escolheste que a ira e o ódio de seu pai se tornassem tuas. Agora tem seu frio coração pulsando em seu peito, não o de sua mãe.

             Taylor começou a mover a cabeça, negando suas palavras, mas se deteve paralisada pela incredulidade. Sua boca se abriu em uma silenciosa negação, mas sua voz se afogou na agonia da revelação provocada pelo Slane. A dor que lhe causou pensar no que se converteu, alagou suas pálpebras e se derramou por suas bochechas. Ficou de pé, tremendo, seu corpo inteiro agitando-se de tristeza.

             Slane abriu sua boca para falar, mas, de repente, Taylor se voltou, correndo para seu cavalo. Em um único fluido movimento, montou no cavalo e saiu cavalgando.

             — Taylor! — Slane apressou a seu cavalo e montou nele rapidamente — Taylor! —gritou de novo, mas sabia que ela não se deteria. Cavalgava como uma mulher possuída, suas mãos movendo as rédeas uma e outra vez, seu cabelo voando de maneira selvagem.

             Slane esporeou a seu cavalo com toda sua força, exigindo que cavalgasse o mais rápido possível.

             Taylor continuou cavalgando, aproximou-se de um bosque e depois desapareceu entre suas profundas sombras.

             — Taylor, pare! — gritou Slane, perseguindo-a por entre as grossas árvores.

             Sabia que ela era uma perita amazona, mas também sabia que não estava concentrada, não estava pensando para onde se dirigia. Slane viu como o cavalo de Taylor tropeçou contra uma árvore caída e seu coração se deteve por um momento, enquanto viu como ela esteve a ponto de cair durante um comprido momento e depois pôde voltar a acomodar-se. Tinha que alcançá-la.

             Cravou as esporas com força para que seu cavalo entrasse nas profundidades do bosque, esquivando árvores caídas e ramos ameaçadores. Viu que o cavalo de Taylor tropeçava e fustigou o dele para que fora mais rápido. Seu coração deu um tombo ao imaginar a agonia que ela deveria estar sentindo. Sabia que ele, de algum jeito, tinha lhe causado essa agonia, mas ela devia ver a verdade...

     Slane sabia que devia alcançá-la se queria que se detivesse. Sentiu como o sangue lhe palpitava nos ouvidos e o vento o roçava. Seu cavalo esquivou de outra árvore derrubada e se viu justo atrás de Taylor, seguindo-a por um pequeno atalho espaçoso.

             Justo nesse momento, uma sombra negra posou sobre Slane, obscurecendo a luz da lua. Olhou para cima e viu uma imensa parede de árvores frente a eles. Uma massa dura de troncos e ramos que resultavam impenetráveis para um cavalo.

             — Taylor! — gritou.

 

             Slane esporeou a seu cavalo com força e o animal cavalgou para diante. Aproximou-se de Taylor, estendendo sua mão o máximo que pôde. Envolvendo seu braço ao redor da cintura dela, pôde levantá-la de seu cavalo.

             Taylor o empurrou, lutando contra ele, provocando que os dois caíssem. Chocaram-se contra o chão; ela caiu sobre seu lado direito e ele sobre suas costas. Slane fez uma careta de dor, mas em seguida se sentiu bem. A dor desapareceu tão rápido como tinha chegado.

             Taylor tratou de afastar-se de Slane, mas ele não a deixou.

             — Fique quieta — disse, e a segurou pelo pulso, aproximando-a dele.

             A jovem começou a lhe dar golpes no ombro, tratando desesperadamente de soltar-se, mas imobilizou-lhe as pernas com o peso de seu corpo e subiu em cima dela, usando suas mãos para cravar os derrotados braços da jovem no chão.

             — Já é suficiente! — bufou.

             Surpreendeu-se quando a garota deixou de brigar e deteve seus esforços por escapar. Com assombro, viu que seu rosto estava banhado em lágrimas e sentiu estupefação e culpa.

             O olhar de Taylor era tão triste que sua alma estalou em mil pedaços. Um soluço escapou de seus lábios e Slane desejou poder tirá-la dessa agonia. Queria tocar sua dor e apagá-la. Desejava curar sua alma. Passou seus dedos pela bochecha de Taylor, seguindo o ângulo de seu rosto e limpou as lágrimas de sua pele.

             Ela abriu os lábios para respirar e o olhar de Slane se desviou a sua boca. Era tão adorável... E estava tão ferida... Inclinou a cabeça e pressionou seus lábios contra a tremente boca dela, tratando de tranqüilizá-la. Era só para tranqüilizá-la.

             Mas aconteceu algo que não tinha planejado. Seu corpo cobrou vida imediatamente e o sacudiu de um lado a outro. Era como se estivesse se alimentando da vivacidade de Taylor, de sua força e necessidade... Afastou-se um pouco para olhá-la nos olhos. Incharam-se com o pranto, mas havia outra coisa neles, um pouco escondido em suas profundidades. Algo que o chamava e que ele não podia negar nem recusar.

             Sentiu que seu corpo se enchia de uma urgência feroz e que o estava arrastando para um inferno, para um fogo de necessidade ardente que só podia ser acalmado por uma coisa. Slane inclinou sua cabeça para os lábios de Taylor, reclamando-os. Necessitava-a tanto como ela a ele. Desejava-a como nunca antes tinha desejado a ninguém. E esta vez não se deteria. A boca de Taylor se abriu e ele a saboreou por completo, explorando os doces espaços, alimentando-se de seus deliciosos lábios. Sua masculinidade cresceu de maneira forte sob suas calças, inchando-se contra o tecido, desejando explorar o escuro vazio que jazia a poucos centímetros debaixo dele.

       Sentiu que o sangue palpitava em suas têmporas e seus lábios devastavam os dela. Sua consciência pareceu arder e depois brilhou como nunca. Sentiu-se mais vivo do que jamais se havia sentido e foi consciente da maneira como cada centímetro de seu corpo se encontrava intimamente unido ao dela; seu peito contra seus seios, seu vulto contra seu núcleo. O sangue correu por suas veias queimando-o como larva ardente. Soltou-a durante um momento, mas ela, imediatamente, pôs suas mãos sobre seus braços, negando-se a interromper o momento.

       Em vez de afastar-se, Slane colocou sua mão sob a túnica de Taylor e tocou seus seios, envolvendo-os em um círculo com seus dedos, massageando-os com seu dedo polegar. Sua pele, sua carne era firme e suave e enchia sua mão.

       Taylor ofegou e Slane a beijou de novo, entrando com sua língua muito mais do que antes, jogando nos vazios de sua boca, explorando cada parte. As mãos de Taylor se moveram de seus braços a suas costas, percorrendo seus fortes músculos com suaves carícias.

       Slane deslizou sua mão sobre o pescoço de Taylor e colocou suas mãos debaixo de sua túnica, quase a rasgando pela pressa, pelo desejo que tinha de sentir sua pele. Quando seus dedos cercaram a forma delicada de seus seios, sentiu que ela se arqueava debaixo dele, tratando de tomar fôlego. Então levantou os joelhos e seu núcleo feminino se encontrou pressionado contra a masculinidade de Slane. Este afundou sua cabeça no pescoço dela, saboreando sua pele, desejando-a com uma urgência que nunca tinha sentido.

       Taylor apertou seus quadris contra ele, respondendo a suas carícias com um forte gemido que avivou os já ardentes sentidos de Slane. Deslizou-se por um dos lados do corpo de Taylor, lhe dando beijos ao longo de sua garganta até a ponta de sua túnica. Moveu sua mão por fora de seu vestido e sobre seu plano ventre, da planície de seu umbigo até o final de sua túnica, o que o tinha levado perigosamente perto de sua feminilidade. Slane deslizou sua mão até o final de sua túnica e sentiu o calor que emanava debaixo do tecido quando passou seus dedos por cima da túnica. Baixou a mão um pouco mais e tocou a parte de dentro da coxa de Taylor, deixando que um dedo se aproximasse o suficiente da sua feminilidade como para que ela se estremecesse. O cru aroma da luxúria de Taylor o alagava e Slane permitiu que o doce aroma o embriagasse e que o mágico aroma dela possuísse seus sentidos.

       Slane moveu sua mão sobre seu ventre e ela pôs uma tremente mão em cima da dele, detendo seu movimento. Slane a olhou confuso.

       — Não sabe o que está fazendo — murmurou Taylor com um tom rouco.

       A confusão de Slane desapareceu e um malvado sorriso se esboçou em seus lábios.

       — Sei exatamente o que estou fazendo — lhe sussurrou com voz sedosa antes de deslizar sua mão dentro de sua calcinha.

       Moveu seus dedos perto da umidade de sua feminilidade e tocou os suaves cachos de cabelo que escondiam sua pérola. À medida que Slane deslizava seus dedos por entre o feminino ninho com suavidade, sentia como se aproximava cada vez mais das úmidas pétalas de sua feminilidade. Tocou-os de maneira delicada e os abriu para tocar a jóia preciosa que se encontrava escondida debaixo deles. O doce som de sua voz ofegante, a suave curva de suas costas arqueadas, de fato, mostravam que Slane sabia exatamente o que estava fazendo.

             Taylor não poderia detê-lo embora o tivesse desejado. Mas a única coisa que queria era mais dele, mais de suas carícias. Tremores de prazer alagaram sua pele e a paixão palpitou através de suas veias à medida que ele a acariciava, levando-a até o topo do gozo.

             Slane tirou sua mão da feminilidade de Taylor e se surpreendeu gratamente ao escutar um gemido de objeção. Devagar, começou a despi-la, levantando sua túnica sobre seu plano ventre, passando por suas magras costelas e sobre seus seios. Baixou sua cabeça para suas curvas, adorando sua pele com suaves beijos. Tirou-lhe a túnica com cuidado, sem apartar os lábios de seus seios. Sua língua percorria a ponta rosada de seus duros mamilos.

             Taylor ofegou, sua mente ia de um lado a outro, seu mundo girava sobre seu eixo.

     Os lábios de Slane voltaram a reclamar os de Taylor, apertando-os até que ela ficou sem fôlego. Suas mãos percorreram os lados do corpo da jovem até chegarem a sua cintura. Os beijos de Slane percorreram a garganta de Taylor até o vale entre seus seios.

             Quando livrou o corpo de Taylor de sua vestimenta, olhou-a com adoração. Era a mulher mais bela que jamais tinha visto. Rapidamente, tirou sua camisa.

             Taylor observou a gloriosa nudez que Slane revelava. Como se tivessem deslocado uma cortina, revelou seu bronzeado corpo, brilhando como o bronze à luz do sol. Os músculos alinhavam sua deliciosa figura e mais músculos apareciam rodeando seu estômago. Nunca tinha visto um homem mais bonito. Quando tirou as calças, maravilhou-se com a firmeza de suas pernas.

     Inclinou-se sobre ela, mas se sustentou um momento com suas mãos, observando seus olhos. Ela estendeu seus braços para ele, passando suas mãos ao longo de seus braços, de seus ombros e de seu cabelo.

             Aproximou-se dela e Taylor inspirou profundamente quando o peito de Slane tocou seus seios nus, seus mamilos tremendo de prazer. Depois, o corpo de Slane cobriu o dela como uma morna manta. Sentiu que algo tocava seu lugar mais íntimo e soube imediatamente do que se tratava. Abriu suas pernas, tratando de senti-lo contra ela, tratando de estar mais perto dele.

             Slane quase explode com seu convite. Seu membro, ao adiantar-se, encontrou uma quente umidade esperando-o. Taylor o desejava tanto como ele a ela. Slane gemeu brandamente quando se deu conta do desejo que a consumia. Baixou sua mão e de novo tocou seu núcleo, abrindo-o. A jovem levantou os quadris e ele se encontrou facilmente dentro dela.

             Sentiu que ela ficava rígida e se deteve, afastando-se um pouco para olhar seu rosto. Poderia ser verdade? Perguntou-se. Poderia ser virgem? Beijou-a nos lábios com uma poderosa paixão e depois lhe beijou todo o pescoço com beijos ardentes e úmidos. Acariciou brandamente um de seus seios, como se estivesse usando uma pluma, até que ela relaxou de novo.

             Penetrou-a por completo.

             Taylor gemeu e lançou seu corpo para diante, indecisa. Ele respondeu a seu convite e começou a mover-se. Primeiro o fez devagar e depois seu ritmo se incrementou à medida que ela coordenou seus movimentos com os dele. Um êxtase maravilhoso crescia dentro de Taylor até que sentiu que não podia mais. Tocou-lhe os seios, massageando-os, apertando-os e beijou seu pescoço com carícias quentes. O desejo dela cresceu até picos de paixão palpitantes, passando através das estrelas até chegar a um céu que não sabia que existia. Depois, lhe beijou os lábios de um modo tão ferozmente possessivo que a lançou para os céus, fazendo-a explodir em milhões de luzes cintilantes. Manteve-se nesses céus durante um comprido momento até que seu corpo caiu de novo na terra como se fora uma estrela fugaz, queimando-se como um feroz inferno. Finalmente, Taylor permaneceu deitada ali, debaixo dele, sem fôlego.

             Slane a olhou surpreso. Antes, tinha pensado que era formosa, mas não era nada comparada com a vibrante criatura que estava agora debaixo dele. Suas bochechas eram rosadas e brilhantes, seu fôlego fluía brandamente em um doce ritmo de felicidade. Era muito mais do que poderia ter imaginado. Era tudo o que sempre tinha desejado. E com esse pensamento, voltou a penetrá-la, uma e outra vez até que seu próprio mundo explodiu em um gozo comparável ao dela. Endureceu-se e deixou que suas sementes a invadissem enquanto a sustentava com força e seus corpos e suas almas se uniam.

             Lentamente, a realidade começou a penetrar sua mente. Sentiu a brisa da noite esfriando seu caloroso corpo. Escutou seu cavalo ao longe e alguns pássaros a sua direita. Mas, sobretudo, podia sentir os seios de Taylor contra seu peito, seu plano ventre contra o dele, sua dignidade protegida dentro da tibieza dela. Devagar, saiu dela, rodando para um lado.

     Taylor não queria abrir os olhos; tinha certeza de que tudo tinha sido um sonho. Sentia-se... segura, de algum jeito. Era tolo e ridículo, mas se sentia tranqüila e morna e...

             Abriu os olhos. A escuridão do céu se desvaneceu e tinha sido substituída pelo vermelho do sol nascente. Sentiu a branda relva sob suas costas, escutou um suave relincho e olhou para o lugar de onde vinha o ruído. Viu o cavalo de Slane comendo.

             Voltou seu olhar a Slane. Ele a estava olhando com um pequeno sorriso em seu rosto.

             — O quê? — perguntou-lhe ela de maneira defensiva.

             — É formosa — murmurou Slane.

             Taylor não estava preparada para a honestidade que irradiava a voz de Slane. Sentiu como subiu o calor a suas bochechas e teve que voltar a cabeça.

     A risada estrondosa de Slane agitou seu corpo.

             — Não aceita os elogios muito bem, não?

             — Sinto muito. Jared não me ensinou isso — respondeu ela e tomou sua túnica.

             Mas Slane foi mais rápido. Puxou-a do chão e a afastou dela.

             — E te ensinou a beijar dessa maneira? — perguntou-lhe em um tom de voz estranhamente sombrio — Ou como responder dessa forma às carícias de um homem?

             — Claro que não — disse, tratando de alcançar sua túnica.

             Slane apartou o objeto para que ela não pudesse alcançá-la.

             — Então, alguém mais te ensinou?

             — Não — disse ela e baixou seu braço. Seu olhar pareceu distante quando Taylor começou a recordar — Houve um homem ou, melhor, garoto, que esteve perto. Mas eu não confiava nele — disse — Ao final demonstrou que eu tinha razão. Era um ladrão e um mentiroso.

             — Não houve outros? — perguntou-lhe Slane.

             Algo em sua voz alterou os nervos de Taylor, por isso levantou a cabeça. Não o tinha descoberto! Slane tinha pensado que ela tinha dormido com outros homens!

     Slane riu.

             — Eu sou você... Você nunca...

     Taylor negou com a cabeça e ele se arrependeu do que tinha feito. Voltou-se.

             — Não, não houve nenhum homem antes de você.

             Armou-se de coragem frente à possibilidade de que ele a rechaçasse.

             Mas não houve rechaço. Seu olhar se suavizou com ternura. Havia um brilho possessivo em seu olhar, e algo mais... algo que ela não reconhecia. Um sorriso curvou os lábios de Slane e se aproximou dela para lhe plantar um beijo na bochecha.

             Taylor elevou a cabeça para olhá-lo diretamente. Estava tão perto dela que pôde sentir o calor de seu fôlego como uma brisa em seus lábios. Aproximou-a dele, rodeando-a em um forte abraço.

             Assombrada, Taylor não pôde lhe corresponder. Deixou que ele a abraçasse, sentindo o calor de seu corpo contra o dela. Sentiu as carícias de sua bochecha contra sua cabeça.

             Finalmente, pôs seus braços ao redor dele, sustentando-o com firmeza, nervosa, como se tivesse medo de que se fora a desvanecer e ela ficasse sozinha, de novo. Permaneceram assim durante um comprido momento, a luz do amanhecer iluminando seus corpos entrelaçados.

     Uma dor que começava em seu peito e se estendia por todo seu corpo se apoderou de Taylor. Tinha a estranha sensação de que era a última vez que Slane e ela estariam juntos. Apartou-se um pouco para olhá-lo aos olhos; acariciou-lhe o cabelo, o rosto, e tratou de memorizar esse momento. Nunca tinha sentido o que estava experimentando. Queria ficar com ele para sempre, ser parte de sua vida.

             — Tenho que enterrar seu pai — murmurou Slane — Não tem que retornar.

             — Irei contigo — disse ela.

             Slane tocou sua bochecha brandamente, depois se inclinou e lhe beijou os lábios. Ofereceu-lhe sua túnica.

             Taylor tomou e a pôs por cima da cabeça. Slane colocou as meias e Taylor fez o mesmo. Tratou de alcançar uma de suas botas, mas olhou para Slane por cima de seu ombro. Estava olhando-a de maneira serena. Ela se endireitou e o olhou com suspeita. Mas seu receio desapareceu quando viu que no olhar de Slane só havia ternura.

             O cavalo relinchou à distância, Slane riu e aproximou Taylor dele, beijando-lhe o pescoço. Mas todos os instintos de Taylor afloraram. Ficou tão rígida como uma pedra.

     Slane apartou as mãos.

             — O que acontece? — perguntou-lhe.

     Taylor se concentrou em escutar, mas não havia nenhum ruído. Os pássaros, o bosque ao seu redor estava quieto, silencioso e em guarda.

             — Slane — advertiu-lhe, enquanto procurava com seu olhar por entre as árvores que estavam ao seu redor.

             Slane seguiu o olhar de Taylor, aproximando-a dele de maneira protetora.

             Todos os instintos do corpo diziam a Taylor que puxasse sua arma. Seu olhar caiu sobre o cavalo de Slane. Onde diabo está meu corcel? Perguntou-se. Sua espada estava em seu cavalo! Olhou ao seu redor, mas não havia rastro dele!

     Aproximou-se do cavalo de Slane, mas Slane a segurou pelo pulso.

             — O quê? — perguntou ela, olhando-o. Mas Slane estava olhando algo que estava justo frente a ele.

             Taylor voltou à cabeça e viu uma fila de homens vestidos de negro que se aproximava deles. Alguns apontavam arcos e flechas; outros desembainharam suas espadas. Taylor se paralisou quando viu o homem que caminhava diante dos outros. Estava todo vestido de negro e sua escura capa ondeava atrás dele com a brisa; parecia a asa de um morcego. Um sorriso horrível se desenhava ao longo de seus magros lábios e seus olhos escuros.

             — Corydon — resmungou Slane.

 

             O ódio ardia nas veias de Taylor, à medida que observava ao homem vestido de negro. Examinou o chão com a esperança de encontrar uma arma de qualquer tipo, mas não achou nada. Nem sequer um tronco velho. Aí estava ela, cara a cara com o assassino do Jared, vestida às pressas e completamente desarmada. Viu Corydon aproximar-se com os olhos entrecerrados. Deu um brusco passo para diante, para ele, tomando impulso com a mão, pronta para atacar com o punho.

     Imediatamente, Slane segurou o pulso de Taylor, que se encontrava já no ar, e a atraiu para ele em um gesto de amparo. Logo se situou entre ela e Corydon tentando protegê-la do olhar lascivo do homem e também para impedir que Taylor levasse a cabo algum ato impulsivo.

             — Ele matou ao Jared! — sussurrou Taylor.

             — Fazer com que ele te mate também não te fará nenhum bem — respondeu Slane.

             Só nesse momento o olhar de Taylor se desviou para os arqueiros, que já estiravam seus arcos, esticavam suas cordas e apontavam suas flechas diretamente ao peito da jovem.

             — Levo muito tempo te buscando, querida — disse Corydon — Que sorte te encontrar por fim — riu com certo ar luxurioso — Que prazer tão absoluto. Suas pequenas notas de amor foram de grande ajuda. Senti-me tão decepcionado quando deixei de recebê-las.

             Taylor se moveu tentando rodear ao Slane e parar frente a ele, mas ele a deteve, segurando-a pelo braço.

             Corydon lançou uma olhada ao castelo, que ardia envolto em chamas.

             — Quando desapareceu tive que inventar um novo plano.

             Os olhos de Slane seguiram o olhar do Corydon; a incredulidade e o rechaço que sentia por esse homem fizeram com que o olhasse com um profundo desprezo.

             — Foi você — sussurrou Slane — Você queimou a aldeia e o castelo.

             Taylor sentiu que um gelo congelava seu sangue. Toda a destruição e devastação que acabava de ver tinha sido obra do Corydon. Esse homem não só tinha assassinado ao único amigo verdadeiro que ela tinha tido, mas também tinha queimado centenas de pessoas inocentes.

             — Eu sabia que, de todas as pessoas, seria você quem a traria — disse a Slane. Logo, seu escuro olhar se dirigiu para o Taylor — Assim vim até aqui para sitiar o castelo e esperar a que você chegasse Taylor. A única coisa que tive que fazer foi bater na porta e convencer a seu velho pai de que era minha prisioneira.

             Corydon soltou um suave risinho, passando sua mão, coberta por uma luva negra, sobre seu bigode.

     As costas de Taylor se endireitaram com o pavor que sentiu. Certamente, seu pai não teria sido tão estúpido para cair nessa armadilha...

             — Devo dizer que me encontrei muito surpreso ao ver quanto seu pai se importava com você. Se eu tivesse sabido quão fácil era tomar o castelo Sullivan, o teria feito muitíssimo antes.

             — É você um bastardo — sussurrou Slane — Assassinou pessoas indefesas!

         Corydon sacudiu seus ombros, cobertos por uma capa negra.

             — Eu só queimei a aldeia e o castelo para chamar sua atenção. Reconstruir é algo fácil comparado a encontrar uma mulher. A uma mulher que era muito perigosa para deixá-la escapar. Não podia deixar sozinha à herdeira das terras Sullivan. Sabia que, se o fizesse, ela acabaria unindo-se a meus inimigos, não é certo, Donovan? Agora, mova-se para o lado e me deixe tomar meu prêmio.

             O remorso e a confusão alagaram a Taylor. Apesar de que ela tinha tratado de apartar-se de sua linhagem e de deixar para trás seu passado durante os últimos oito anos, tudo aquilo surgiu como um espectro, como um fantasma espreitando-a. Sua posição nobre tinha sido a causa de toda essa morte e de toda essa destruição. Muitas pessoas tinham morrido por ela...

             — Esta mulher já não significa nada para ti! Seu lar está completamente queimado. Seu pai está morto.

             — Mas ela segue viva e ainda representa uma ameaça — respondeu Corydon — Além disso, pode que valha muito mais do que eu tenha imaginado jamais. Vi como você a protege, e o joguinho de paquera que fazem. Alguém se pergunta... como é possível que você sinta algo por ela?

             Taylor viu que Slane ficava tenso, e viu também como suas mãos se contraíam para apertar seu punho. Posou uma mão sobre seu ombro para tratar de acalmá-lo.

             — Fazer com que ele te mate não te fará nenhum bem — lhe sussurrou.

     Mas suas palavras não tiveram efeito algum sobre ele. Os músculos de Slane se endureceram sob os dedos de Taylor. Ela podia sentir sua raiva e sua tensão.

     Slane observou ao Corydon durante um comprido e tenso momento. Os dois nobres se olharam de cima abaixo; o ódio que sentiam o um pelo outro foi claramente visível no desprezo mútuo gravado em seus gestos e movimentos.

             — Corydon, tenho uma proposta para você — disse Slane finalmente.

             Corydon tampou a boca com a mão, detendo sua risada.

             — Por favor, não me aborreça me fazendo proposições...

             — Uma briga. Você e eu — disse Slane.

             Corydon se endireitou. Seu escuro olhar atravessou Slane.

             — Até a morte — acrescentou Slane.

     O coração de Taylor se sacudiu.

             — Uma briga diz? — replicou Corydon pensativo.

             — Aqui. Agora. Você e eu. Se você ganhar, fica com Taylor e eu morrerei. Se eu ganhar, Taylor e eu saímos livres daqui.

             — Slane — disse Taylor com um grito sufocado, o medo se apoderava de seu coração.

             Ante a indecisão do Corydon, Slane adicionou.

             — O que acontece, Corydon? Tem medo?

     Lentamente, um sorriso se desenhou nos lábios do Corydon.

             — Esta oportunidade é muito boa para deixá-la passar. Bem. Aceito seu desafio. —deu-se volta e começou a tirar a capa.

     Slane olhou para Taylor.

             — Não importa o resultado — sussurrou ele — fuja para o bosque. Entendeu?

             — Não — disse ela — Não faça isto. Não tem que fazê-lo.

     Slane levantou seus olhos para ver os dela.

             — Que outra opção eu tenho? — perguntou ele delicadamente.

     Taylor olhou fixamente seus olhos azuis.

             — Não vale à pena defender minha honra. É uma batalha perdida.

             — Neste momento, sua honra não me importa nada — disse Slane, sorrindo. Passou um dedo pela bochecha de Taylor — Estou defendendo sua vida.

             Olharam-se com intensidade durante uns segundos. Logo, Slane voltou à cabeça para seu cavalo, que carregava sua espada.

            Foi então quando Taylor viu Corydon aproximar-se com sua espada levantada.

             — Slane! — advertiu-lhe.

             Slane a empurrou com força para fora do alcance da espada. Taylor se recompôs rapidamente, deu uma volta e viu como Slane esquivou do ameaçador fio.

             — Ele não está armado! — gritou Taylor.

             Corydon parou frente a ela, seu rosto evidenciava diversão.

             — Ele mesmo disse “aqui e agora”.

             — Tem que lhe dar uma arma! Que classe de briga seria esta se um dos competidores está desarmado?

      Corydon sorriu com malícia.

             — Do melhor tipo, querida. A classe de briga que eu ganho.

         Slane lamentou ter sido tão ingênuo. Deveria ter previsto a malícia de Corydon. Sabia que esse homem não era de confiar. Mas estava disposto a fazer algo para dar a Taylor a oportunidade de escapar. Agora enfrentava a seu mais temido oponente, seminu e desarmado.

             Corydon se aproximou lentamente, cheio de confiança, com um sorriso zombador que estirava seus magros lábios.

             — Sua arma está longe de seu alcance. Renda-se ante mim agora e lhe darei uma morte rápida.

     Slane estreitou os olhos. Olhou para Taylor e a viu incorporando-se. Parecia tão pequena e frágil em comparação com o Corydon... Nunca deixaria que esse homem pousasse suas mãos sobre ela. Só a idéia de que Corydon pensasse sequer em tocar em Taylor fazia com que Slane se sentisse brutalmente furioso. Não podia perder essa briga. A vida de Taylor dependia disso.

             Corydon atacou de novo com sua espada e Slane a esquivou outra vez, conseguindo escapar do fio da arma. Devia concentrar-se na batalha, pois se continuasse pensando em Taylor estaria perdido. Concentrou seu esforço e seu olhar em Corydon. Se tão somente pudesse lhe tirar a espada...

             Corydon fez uma ameaça para a esquerda, mas dirigiu sua espada à direita. Slane esquivou o movimento com facilidade. Continuou fugindo das investidas de Corydon até que este lançou um golpe dirigido a sua cabeça. Slane se moveu em direção ao fio e agarrou o pulso do homem, detendo o movimento.

             Slane manteve a distância entre ele e Corydon, os músculos lhe doíam. Então Corydon pisou no descalço pé de Slane, que gemeu e deu um empurrão em seu oponente, forçando-o a retroceder, e tratando de ignorar a dor que sentia no pé.

             Olhou com fúria para cara de seu inimigo. Os dedos de seus pés palpitavam em agonia, mas Slane tirou a dor de sua mente. Corydon não era um homem honrável, e tampouco o era sua forma de lutar.

             Então uma idéia se formou em sua mente. Uma idéia que se aproximava da desonra. Recordou o movimento que tinha dado a vitória sobre ele a Taylor quando combateram.

             Slane pôde fugir da espada do Corydon durante um bom momento. Mas finalmente o inimigo conseguiu posar a afiada lâmina com força sobre seu peito, empurrando-o para trás. Ele tropeçou e caiu sobre seu traseiro.

             Corydon elevou a espada sobre sua cabeça para dar a estocada final. Foi então quando Slane se apoiou em um de seus calcanhares e lançou a outra perna contra seu inimigo. Mas em lugar de dar uma rasteira em Corydon, como tinha visto Taylor fazer, Slane lhe deu um chute justo no centro do joelho, derrubando-o como uma árvore que caiu direito para ele.

             Enquanto caía, Corydon conseguiu apontar sua espada para baixo e dirigi-la ao Slane. Entretanto, seu braço se encontrava ligeiramente desviado. A espada caiu no chão à só uns poucos centímetros de distância do rosto de Slane. O peso do corpo do Corydon empurrou a arma para baixo, enterrando-a na terra.

             Slane levantou o punho e o golpeou na cara e no estômago. Corydon se moveu para sair de cima de Slane, que imediatamente o golpeou de novo na cara. Slane tentou tomar a espada da terra para atacar ao Corydon, mas a espada se encontrava firmemente enterrada e não conseguiu extraí-la do chão.

             Corydon o agarrou por trás, rodeando seus ombros com os braços, virou-o com muita força e lhe deu dois golpes no estômago. Uma terrível dor cresceu em seu interior através de sua garganta, fazendo-o dobrar-se sobre seus joelhos. Quando Corydon deu um firme golpe sobre seu rosto, Slane sentiu que caía ao fundo de um abismo.

             Mas se recuperou imediatamente. Levantou-se do chão e sacudiu a cabeça, tratando de esclarecer vista. Quando seus olhos começaram a enfocar o panorama, viu Corydon tentando desenterrar a espada do chão. Movia-a com frenesi, tentando desesperadamente liberar a espada das garras da terra.

     Slane se agachou e se aproximou do Corydon como um raio, empurrando-o e afastando-o assim da arma. Quando Corydon se voltou, Slane lhe deu dois fortes golpes na cara e logo outro no queixo, o que mandou o seu inimigo diretamente ao chão.

     Voltou onde estava à espada e a puxou com força. A arma deslizou com muita dificuldade de sua capa de terra. Voltou-se justo no momento em que Corydon se equilibrava contra ele. A faca elevada firmemente para cima recebeu Corydon, cravando-se no seu estômago.

             Slane ficou quieto durante um largo momento, contemplando a seu inimigo. Tomou fortemente a espada com o punho, observando como a incredulidade se desenhava no rosto de Corydon. Depois de um momento, Slane deu um passo para trás soltando a espada.

             As mãos do Corydon aferravam de forma convulsiva o punho, que se encontrava enterrada em seu estômago.

             Olhou à espada e logo a Slane. Caiu para diante sobre seus joelhos. Um fio de sangre aparecia por um lado de sua boca.

        Slane olhou em cima da cabeça do Corydon e viu o alívio nos olhos de Taylor. Levantou uma mão para limpar o sangue que lhe emanava do lábio e deu uns passos ao redor do Corydon para reunir-se com o Taylor.