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A HORA DAS BRUXAS - Volume I / Anne Rice
A HORA DAS BRUXAS - Volume I / Anne Rice

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A HORA DAS BRUXAS

Volume I

 

A Talamasca, um grupo com poderes extra-sensoriais voltados para o bem, durante séculos pesquisou a vida da família Mayfair, uma dinastia de bruxas que começou no século XVII, na Escócia, transplantou-se para o Haiti e de lá para a fantasmagórica Nova Orleans. E através dos seus volumosos arquivos que vamos descobrir essa saga de seres decadentes e mórbidos, convivendo pacificamente com o incesto e as tempestades e um espírito, meio divindade celta, meio demônio, chamado Lasher.

            Cabe agora a Rowan, brilhante neurocirurgiã californiana e herdeira do clã, decidir-se entre o amor de Michael Curry e a sedução de um ser poderoso que quer ficar nesse mundo para sempre.

            Essa história se inicia quando Rowan Mayfair, mulher bonita, neurocirurgiã brilhante, consciente dos seus poderes especiais, mas ignorante do fato de que eles são hereditários, encontra um homem afogado na esta da Califórnia e o faz retornar à vida. Ele é Michael Curry, alguém que lutou para superar a pobreza e que agora, na sua experiência de quase morte, percebe um novo poder sensorial que ao mesmo tempo Fascina e assusta.

            A medida que ambos, atraídos e apaixonados, se aliam para descobrir o mistério do passado dela e do poder inusitado dele, o romance começa a se desenrolar cronologicamente para frente e a trás, de Nova Orleans e São Francisco atuais para Amsterdã e para um castelo na França de Luís. Aos poucos, a verdade vai emergindo e conhecemos Suzanne Mayfair, que viveu na Escócia no século XVII e, para seu infortúnio e de seus descendentes, conjurou pela primeira vez o espírito que ela batizou de Lasher.

            Das plantações de café de Port au Prince, onde se constrói a fortuna dos Mayfair, à guerra civil americana quando Julien, o único varão do clã a possuir os poderes, estabelece a dinastia nos EUA, essa história a um tempo sombria e luminosa descortina dramas de sedução e traição, episódios de cura e carinho. No cerne de tudo, a eterna luta entre o bem e o mal, sanidade e loucura, vida e morte.

 

REUNIDOS

            O médico acordou assustado. Estivera sonhando mais uma vez com a velha casa de Nova Orleans. Havia visto a mulher na cadeira de balanço. Havia visto o homem de olhos castanhos.

            E mesmo agora, nesse tranqüilo quarto de hotel no alto da cidade de Nova York, ele sentiu a perturbação antiga e alarmante. Mais uma vez, ele havia conversado com o homem de olhos castanhos. É, ajude-a. Não, isso é só um sonho. Quero sair daqui.

            O médico sentou-se na cama. Nenhum ruído a não ser o ronco suave do ar condicionado. Por que estava pensando naquilo nessa noite num quarto de hotel no Parker Meridien? Por um instante, ele não conseguiu afastar a impressão da velha casa. Ele viu a mulher mais uma vez: com a cabeça caída o olhar vazio. Ele quase ouvia o zumbido de insetos batendo nas tela da velha varanda. E o homem de olhos castanhos falava sem mover os lábios.

            Um boneco de cera infundido com vida...

            Não. Pare com isso.

            Ele saiu da cama e seguiu em silêncio pelo piso acarpetado até parar diante das cortinas brancas e transparentes, olhando para os telha enegrecidos de fuligem e os letreiros de néon meio opacos, tremeluzindo contraste com o tijolo das paredes. A luz do início da manhã aparecia pôr das nuvens acima do concreto fosco da fachada em frente. Nenhum calor debilitante pôr aqui. Nenhuma fragrância entorpecedora de rosas, de gardênias Aos poucos, sua cabeça se desanuviou.

            Voltou a pensar no inglês no bar do saguão. Foi ele quem havia despertado as recordações - o fato do inglês comentar com o barman que acabava de chegar de Nova Orleans e que aquela era sem dúvida uma cidade assombrada. O inglês, um homem afável, com a aparência de um verdadeiro cavalheiro do Velho Mundo, num terno estreito de seersucker com uma corrente de relógio de ouro presa ao bolso do colete. Onde se via esse tipo de homem nos dias de hoje? - um homem com a forte entoação melodiosa um ator dramático britânico, e olhos azuis, brilhantes, sem sinais da idade.

            - É você tem razão acerca de Nova Orleans. Sem dúvida que tem - disse o médico, voltando-se para o homem. - Eu mesmo vi um fantasma em Nova Orleans, e não faz muito tempo... - Ele parou, então, embaraçado.

            Seus olhos estavam fixos no Bourbon evaporando à sua frente, na nítida refração da luz na base do copo de cristal.

            Zumbido de moscas no verão, cheiro de remédio. Tanta quantidade de Thorazine? Será que não haveria um erro? O inglês, porém, havia demonstrado uma curiosidade respeitosa. Ele havia convidado o médico para jantar, dizendo que coletava esse tipo de história. Por um instante, o médico chegou a se sentir tentado. Havia uma calmaria na convenção, e ele gostou desse homem, sentindo uma confiança imediata nele. Além disso, o saguão do Parker Meridien era um lugar alegre e agradável, cheio de luz, movimentação e gente. Tão distante daquele canto sombrio de Nova Orleans, daquela triste cidade velha apodrecendo com seus segredos no seu perpétuo calor caribenho.

            No entanto, o médico não conseguiu contar a história.

            - Se algum dia você mudar de idéia, pode me telefonar- disse o inglês. - Meu nome é Aaron Lightner. - Ele deu ao médico um cartão com o nome de uma organização impresso. - Pode-se dizer que coletamos histórias de assombrações, mas as verdadeiras.

 

O TALAMASCA

NÓS OBSERVAMOS E ESTAMOS SEMPRE PRESENTES.

            Era um lema curioso.

            É, foi isso o que trouxe todas as recordações. O inglês e aquele cartão de visitas diferente com os números de telefone da Europa; o inglês que ia viajar amanhã para a costa oeste a fim de ver um homem da Califórnia que havia se afogado e sido ressuscitado recentemente. O médico havia lido sobre o caso nos jornais de Nova York: era uma daquelas figuras que sofre morte clínica e volta após ter visto "a luz".

            Eles, o médico e o inglês, haviam conversado acerca do afogado.

            - Ele agora diz ter poderes psíquicos, entende? - disse o inglês. - E é claro que isso nos interessa. Parece que ele vê imagens quando toca os objetos com as mãos. Chamamos essa capacidade de psicometria.

            O médico ficou intrigado. Ele próprio havia ouvido falar de alguns pacientes desse tipo, vítimas de problemas cardíacos, se é que se lembrava corretamente, que haviam voltado, sendo que uma alegava ter visto o futuro.

            "Experiências após a morte". Viam-se cada vez mais artigos sobre o fenômeno nas publicações especializadas.

            - É - disse Lightner- a melhor pesquisa sobre o assunto foi realizada por médicos, cardiologistas.

            - Não houve um filme há alguns anos - perguntou o médico - sobre uma mulher que voltou com o poder de curar? Um filme de um impacto estranho.

            - Você não tem preconceitos contra o assunto - disse o inglês com um sorriso de satisfação. - Tem certeza de que não quer me falar do seu fantasma? Eu adoraria ouvir essa história. Meu vôo só sai amanhã, antes meio dia. O que eu não daria para ouvir sua história!

            Não, aquela história, não. Nunca.

            Sozinho agora no seu quarto de hotel, o médico voltou a sentir medo. O relógio batia seu tique-taque no longo corredor empoeirado em Nova Orleans.Ele ouvia o arrastar dos pés da paciente forçada a caminhar enfermeira. Ele sentiu novamente o cheiro de uma casa de Nova Orleans verão, calor e madeira velha. O homem estava falando com ele...

            O médico nunca havia estado numa casa anterior à guerra de secessão aquela primavera em Nova Orleans. E a casa antiga tinha realmente colunas acaneladas brancas na fachada, embora a tinta estivesse se descascando. Chamavam o estilo de Renascença grega - uma longa casa num tom acinzentado, num canto sombrio do Garden District, com seu portão da frente protegido, ao que parecia, por dois carvalhos enormes. A grade de ferro tinha um desenho rendilhado de rosas e era profusamente enfeitada por trepadeiras: glicínias roxas, o amarelo da videira - virgem e buganvílias de um rosa escuro, incandescente.

            Ele gostava de parar nos degraus de mármore e contemplar os capitéis dóricos, como que coroados pelas flores inebriantes. O sol chegava em longos raios empoeirados através dos galhos retorcidos. As abelhas cantarolavam no emaranhado de folhas verdes brilhantes por baixo das cornijas descascadas. Não importava que o lugar fosse tão sombrio, tão úmido.

            Até mesmo a chegada pelas ruas desertas o seduzia. Vinha caminhando lentamente sobre calçadas rachadas e irregulares de tijolos assentados. Espinha de peixe ou de lajes cinzentas, por baixo de um arco ininterrupto de galhos de carvalho, com a luz eternamente salpicada de sombras, o perpetuamente encoberto pelo verde. Sempre parava junto à maior das árvores, que com suas raízes protuberantes erguia do seu lugar a grade ferro. Ele não teria conseguido abraçar seu tronco sozinho. Ela se erguia desde a calçada até a própria casa, com seus ramos retorcidos arranhando janelas fechadas para além da balaustrada, as folhas se emaranhando com trepadeiras floridas.

            Mesmo assim, o descuido por aqui o perturbava. Aranhas teciam teias minúsculas e elaboradas sobre as rosas de ferro batido. Em alguns pontos, a grade estava tão enferrujada que a um simples toque se desfazia em pó. E aqui e ali perto do parapeito, a madeira das varandas estava totalmente apodrecida. Havia ainda uma antiga piscina bem ao longe no jardim: um grande octógono limitado por lajes que se transformara em pântano, com sua suja e íris silvestres. Só o cheiro já era apavorante. Ali viviam rãs, rãs que ao escurecer, entoavam seu canto feio e rouco. Era triste ver os pequenos chafarizes de um lado e do outro ainda mandando seus esguichos de água para aquela sujeira. Ele sentia vontade de secá-la, limpá-la, esfregar suas laterais com as próprias mãos se fosse necessário. Ansiava por consertar a balaustrada quebrada e arrancar o mato que sufocava as urnas.

            Mesmo as tias idosas da paciente - Miss Carl, Miss Millie e Miss Nancy - tinham um ar de mofo e deterioração. Não se tratava do cabelo grisalho ou dos óculos de armação de metal. Eram suas atitudes e a fragrância de cânfora de que suas roupas estavam impregnadas.

            Certa vez ele entrou na biblioteca e tirou um livro da estante. Pequenos besouros negros saíram assustados da fenda. Alarmado, ele devolveu o livro ao seu lugar.

            Se a casa estivesse provida de ar condicionado, talvez isso fosse diferente. Mas a casa antiga era grande demais para tal, ou pelo menos foi o que disseram naquela época. O pé direito tinha a altura de mais de quatro metros.

            E, assim, a brisa preguiçosa trazia consigo o cheiro de bolor.

            Sua paciente, no entanto, era bem cuidada. Isso ele não podia deixar de admitir. Uma enfermeira negra, velha e carinhosa chamada Viola trazia a paciente até a varanda telada pela manhã e a levava à noitinha.

            - Ela não dá trabalho nenhum, doutor. Agora, vamos, Miss Deirdre, caminhe para o doutor ver. - Viola a levantava da cadeira e a empurrava com paciência, um passo atrás do outro.

            - Já estou com ela há sete anos. Doutor, ela é minha menininha.

            Sete anos assim. Não era de admirar que os pés da mulher houvessem começado a se voltar para dentro na altura dos tornozelos, e que seus braços costumassem se encolher na direção do peito se a enfermeira não os forçasse para baixo, de volta ao colo.

            Viola costumava fazer com que caminhasse dando voltas e mais voltas no longo salão duplo, passando pela harpa e pelo Bõsendorfer de cauda, encobertos de poeira. Entravam, então, na sala de jantar, com seus murais desbotados de campos lavrados e carvalhos cheios de musgos.

            Os chinelos arrastavam-se no desgastado tapete de Aubusson. A mulher estava com 41 anos, e no entanto dava a impressão de ser ao mesmo tempo jovem e antiquíssima: uma criança pálida e encurvada, imune às preocupações ou paixões adultas. Deirdre, você algum dia teve um amante? Você algum dia dançou nesse salão?

            Nas estantes da biblioteca havia livros de registro, encadernados em couro com datas antigas assinaladas na lombada em tinta roxa desbotada: 1756, 1757, 1758... Cada um trazia o nome da família Mayfair em letras douradas.

            Ah, essas velhas famílias do sul! Como ele lhes invejava sua tradição.

            Não tinha de levar necessariamente a essa decadência. E pensar que ele não sabia os nomes completos dos seus próprios bisavós ou onde eles haviam nascido.

            Mayfair - um típico clã colonial. Havia velhos quadros nas paredes mostrando homens e mulheres em trajes do século XVIII, bem como daguerreótipos, ferrotipias e fotografias descoradas. Um mapa amarela Saint-Domingue - será que ainda se chamava assim? - numa moldura no corredor. E uma pintura escurecida de uma imensa casa de fazenda.

            E as jóias que a paciente usava. Objetos de família, sem dúvida, aquelas montagens antigas. Qual era o significado de pôr esse tipo de numa mulher que não havia aberto a boca nem se movimentado por vontade própria em mais de sete anos?

            A enfermeira disse que nunca tirava a corrente com o pingente de esmeralda, nem mesmo quando dava banho em Miss Deirdre.

            - Permita que eu lhe conte um segredo, doutor. Nunca toque nele Ele teve vontade de perguntar por que não, mas não disse nada. Ficou olhando sem graça enquanto a enfermeira punha na paciente os brincos de rubi, seu anel solitário.

            É como vestir um cadáver, pensou. Lá fora os carvalhos escuros enviam seus galhos sinuosos até as venezianas empoeiradas. E o jardim tremeluz calor letárgico.

            - E olhe o cabelo dela - disse a enfermeira, com carinho. - Já viu cabeleira mais bonita?

            Era negra, com fios grossos, ondulados e longos. A enfermeira adorava escová-la, observando a formação dos cachos à medida que os soltasse.

            Os olhos da paciente, apesar da sua expressão fixa e desanimada, eram de um límpido. No entanto, de vez em quando, um fino fio de prata de saliva escorria pelo canto da boca, criando um círculo escuro no colo da sua camisola branca.

            - É incrível que ninguém tenha tentado roubar essas jóias - disse como se falasse para si mesmo. - Ela é tão indefesa.

            A enfermeira deu um sorriso superior, de quem sabe.

            - Ninguém que tenha trabalhado nesta casa iria tentar fazer isso.

            - Mas ela fica sentada sozinha na varanda o dia inteiro. Dá para se ver da rua.

            Risos.

            - Não se preocupe com isso, doutor. Ninguém por aqui é tolo de passar por aquele portão. O velho Ronnie corta a grama, mas só porque é o que sempre fez e faz há trinta anos. Mas não se pode dizer que o velho Ronnie regule bem.

            - Mesmo assim... - Mas ele se interrompeu. O que ele estava fazendo conversando desse jeito diante da mulher silenciosa, cujos olhos só de vez em quando se mexiam um pouquinho, cujas mãos estavam exatamente onde á enfermeira as havia posto, cujos pés descansavam flácidos no piso nu. Como era fácil a gente se esquecer do próprio eu, se esquecer de respeitar essa criatura trágica. Ninguém sabia o que a mulher compreendia.

            - Podia levá-la para tomar sol um dia desses - disse ele. - A pele dela está tão branca.

            Ele sabia, porém, que no jardim seria impossível, mesmo que se ficasse afastado das emanações da piscina. A buganvília espinhenta aparecia em moitas por baixo do louro - Cereja. Querubins gordinhos, sujos de limo, espiavam de trás da lantana invasora, como aparições.

            No entanto, aqui crianças haviam brincado.

            Algum menino ou menina havia escrito a palavra Lasher no grosso tronco da gigantesca extremosa que crescia junto à cerca dos fundos. Os cortes fundos haviam cicatrizado de modo a sobressair num contraste branco com a casca resinosa. Uma palavra estranha, aquela. E um balanço de madeira ainda estava pendurado num galho de um carvalho distante.

            Ele se encaminhou até a árvore solitária e se sentou no balanço por um instante, sentiu que as correntes enferrujadas rangiam antes de se mover quando ele forçou o pé contra a grama pisada.

            O lado sul da casa parecia imenso e, dessa perspectiva, era de uma beleza irresistível, com as trepadeiras floridas subindo juntas, passando pelas janelas verdes fechadas até as chaminés gêmeas acima do terceiro andar. O bambu escuro matraqueava com a brisa que o fazia arrastar na alvenaria. As lustrosas bananeiras cresciam tão altas e densas que formavam uma selva até o muro de tijolos.

            Essa velha casa era como sua paciente - bela, e no entanto esquecida pelo tempo, pela pressa.

            Seu rosto talvez ainda pudesse ser bonito se não fosse tão absolutamente desprovido de vida. Será que ela via os delicados cachos roxos da glicínia, trêmulos contra as telas, o emaranhado fervilhante de outras flores? Será que através das árvores ela conseguia ver a casa de colunas brancas do outro lado da rua?

            Uma vez ele havia subido ao segundo andar com ela e a enfermeira no elevador graciosamente antiquado, porém forte, com sua porta metálica e seu tapete gasto. Nenhuma alteração no rosto de Deirdre quando o elevador começou a subir. Ele ficou ansioso ao ouvir o ruído das engrenagens. Ele não conseguia imaginar o motor como algo que não fosse antigo e não estivesse enegrecido, grudento, empoeirado.

            E claro que ele havia conversado com o velho médico no sanatório.

            - Lembro-me de quando eu tinha sua idade - disse o velho médico. - Eu ia tratar deles todos. Ia argumentar com os paranóicos, trazer de volta à realidade os esquizofrênicos e fazer com que os catatônicos despertassem.           Dê-lhe essa injeção todos os dias, meu filho. Não há mais nada a se fazer ali. Nós só nos esforçamos para impedir que ela fique nervosa de vez em quando. Você sabe, a agitação.

            Agitação? Era essa a razão para essas drogas poderosas? Mesmo se as injeções fossem interrompidas amanhã, teria de se passar um mês para que os efeitos desaparecessem. E a dosagem era tão alta que teria sido fatal para outro paciente. Para se chegar a uma dosagem daquelas era preciso ir aumentando aos poucos.

            Como alguém podia conhecer o verdadeiro estado da mulher num caso em que a medicação se estendia há tanto tempo? Se ao menos ele pudesse fazer um eletroencefalograma...

            Ele estava no caso há um mês quando pediu suas fichas. Era um pedido de rotina. Ninguém percebeu. Ficou sentado a tarde inteira à sua escrivaninha no sanatório lutando com os rabiscos de dezenas de outros médicos, diagnósticos vagos e contraditórios: mania, paranóia, total esgotamento nervoso delírios, surto psicótico, depressão, tentativa de suicídio. Aparentemente tudo remontava à sua adolescência. Não, até mesmo antes. Alguém a havia examinado para ver se sofria de "demência" aos dez anos de idade.

            Quais eram os detalhes específicos por trás dessas abstrações? Em algum ponto na montanha de rabiscos, ele descobriu que ela havia tido uma menina aos dezoito anos, que a havia dado e sofrido "grave paranóia".

            Seria por isso que ela havia sido submetida a tratamentos de choque numa ocasião e choques por insulina em outra? O que ela havia feito com as enfermeiras que repetidas vezes abandonavam o emprego por "violência física"?

            A certa altura, ela havia "fugido" e depois sido "recolhida á força”. Depois, havia páginas faltando, anos a fio sem acompanhamento. "Dano cerebral irreversível" estava anotado em 1976. "Paciente recebeu alta. Thorazine receitado para evitar tremores, mania."

            Era um documento feio, que não contava uma história, que não revelava nenhuma verdade. E no final das contas ele o desestimulava. Será que um batalhão de médicos havia conversado com ela como ele estava fazendo agora quando se sentava ao seu lado na varanda lateral?

            - O dia está lindo, não é, Deirdre? - Ah, a brisa aqui, tão perfumada. A fragrância das gardênias ficou de repente forte demais, mas ele a adorava assim mesmo. Só por um segundo, ele fechou os olhos.

            Será que ela o detestava, que ria dele, será que sequer reconhecia sua presença? Ele agora via alguns fios grisalhos na sua cabeça. Sua mão era fria, desagradável de se tocar.

            A enfermeira veio com um envelope azul nas mãos, um instantâneo.

            - É da sua filha, Deirdre. Está vendo? Está com vinte e quatro anos agora, Deirdre.

- A enfermeira mostrou a foto também ao médico. Uma moça loura no convés de um grande iate branco, com os cabelos ao vento. Bonita, muito bonita. "Na baía de San Francisco, 1983."

            Não houve nenhuma mudança na expressão da paciente. A enfermeira puxou para trás a cabeleira negra. Ela empurrou a foto na direção do médico.

            - Está vendo essa moça? Ela também é médica! - Abaixou o queixo com ar de superioridade. - Agora está interna, vai ser doutora igual ao senhor um dia. É o que lhe digo.

            Seria possível? A moça nunca havia vindo para casa para cuidar da própria mãe? Sentiu aversão por ela, de repente. Ia ser doutora, pois sim! Há quanto tempo sua paciente não usava um vestido ou um par de sapatos de verdade? Ele sentiu vontade de ligar o rádio para ela. Talvez ela gostasse de música. A enfermeira mantinha a televisão ligada nas novelas a tarde inteira na cozinha dos fundos.

            Ele passou a desconfiar das enfermeiras como já desconfiava das tias. A mais alta, que preenchia os cheques para ele, "Miss Carl", ainda advogava apesar de estar já com seus setenta anos. Ela ia para seus escritórios em Carondelet Street e deles voltava de táxi por não conseguir mais subir no degrau de madeira do bonde de St. Charles. Ela lhe disse uma vez quando o encontrou no portão que durante cinqüenta anos havia usado o bonde de St. Charles.

            - Ah, e - disse a enfermeira numa tarde enquanto escovava o cabelo de Deirdre bem devagar, com muito cuidado. - Miss Carl é a inteligente. Trabalha para o juiz Fleming. Uma das primeiras mulheres a se formar na Faculdade de Direito de Loyola. Ela estava com dezessete anos quando entrou para Loyola. O pai era o velho juiz McIntyre, e ela sempre teve muito orgulho dele.

            Miss Carl nunca se dirigia à paciente, não que o médico tivesse visto. Era a corpulenta "Miss Nancy" que fazia maldades com ela, ao que o médico imaginava.

            - Dizem que Miss Nancy não teve muita oportunidade de estudar - disse a enfermeira, em tom de mexerico. - Sempre em casa cuidando dos outros. Também havia aqui Miss Belle, uma velha.

            Havia algo de mal-humorado e quase vulgar em "Miss Nancy". Atarracada, descuidada, sempre de avental e no entanto dirigindo-se à enfermeira com aquela voz superior, artificial. Miss Nancy tinha uma leve expressão de desdém na boca sempre que olhava para Deirdre.

            Havia ainda Miss Millie, a mais velha de todas, que era de fato alguma prima da família: uma figura clássica que usava a seda negra típica das velhas e os sapatos de cadarço. Ela ia e vinha, nunca sem suas luvas gastas e seu pequeno chapéu preto de palha com véu. Tinha sempre um sorriso simpático para o médico e um beijo para Deirdre.

            - Essa é minha pobre queridinha - costumava dizer em voz trêmula.

            Uma tarde, ele encontrou por acaso Miss Millie parada nas lajes quebradas ao lado da piscina.

            - Não há mais nem por onde começar, doutor - disse ela, com tristeza. Não lhe cabia desafiá-la, e no entanto algo se acelerou dentro dele ao ouvir o reconhecimento dessa tragédia.

            - Como Stella adorava nadar aqui - disse a velha. - Foi Stella quem a construiu, Stella, que tinha tantos planos e sonhos. Foi Stella quem mandou instalar o elevador, sabia? É exatamente o tipo de coisa que Stella faria. Stella dava umas festas! Ora, eu me lembro de centenas de pessoas na casa, mesas por todo o gramado e as bandas que tocavam. O senhor é muito novo, doutor, para se lembrar daquela música animada. Stella mandou fazer aquelas cortinas do salão duplo, e agora elas estão velhas demais para serem lavadas.

            Foi o que disseram. Que elas se desfariam se tentássemos limpá-las agora. E foi Stella quem mandou assentar esses caminhos de lajes aqui, ao longo da piscina. Está vendo? Iguais as lajes antigas da frente e do lado... - Ela parou de repente, indicando o pátio distante tão sufocado de mato ao final do lado mais comprido da casa. Era como se ela não pudesse dizer mais nada. Lentamente, ergueu os olhos até a janela do sótão lá no alto.

            Ele sentiu vontade de perguntar, mas quem é Stella?

            - Coitada da minha querida Stella.

            Ele imaginou lanternas de papel suspensas das copas das árvores. Talvez elas fossem simplesmente velhas demais, essas mulheres. E a mais nova, a estudante de medicina ou o que quer que fosse, a quatro mil quilômetros de distância...

            Miss Nancy perseguia a muda Deirdre. Ela via que a enfermeira estava forçando a doente a andar e vinha gritar no seu ouvido. Levante os pés. Você sabe muito bem que ia conseguir andar sozinha se quisesse.

            - Miss Deirdre não tem problema nenhum no ouvido costumava dizer a enfermeira, interrompendo-a. - O médico diz que ela ouve e vê muito bem.

            Uma vez ele tentou interrogar Miss Nancy enquanto ela varria o corredor do andar superior imaginando que talvez, irritada, ela lançasse alguma luz sobre o assunto.

            - Ela nunca apresenta nenhuma mudança? Ela alguma vez chega a falar... uma palavra que seja?

            A mulher contraiu os olhos para fitá-lo por algum tempo, com o suor reluzindo no rosto redondo, o nariz de um vermelho forte na altura em que os óculos pesavam.

            - Vou lhe dizer o que eu queria saber! - Disse ela. - Quem vai cuidar dela quando não estivermos mais por aqui? O senhor acha que aquela filha mimada lá da Califórnia vai se incomodar? Ela não sabe nem mesmo o nome da mãe. É Ellie Mayfair quem manda aquelas fotos. - Ela riu com desdém. - Ellie Mayfair não põe os pés nesta casa desde o dia em que a menina nasceu e ela veio para levá-la embora. Tudo o que ela queria era o bebê porque não podia ter filhos, e estava apavorada com medo de que o marido a deixasse. Ele é um advogado famoso lá onde mora. Sabia que Carl pagou a Ellie para levar a criança? Para se certificar de que a menina nunca voltasse para casa? Ora, a idéia era simplesmente desaparecer com a criança. Ela fez Ellie assinar um documento. - Ela deu um sorriso amargo, limpando as mãos no avental. - Mandaram-na para a Califórnia com Ellie e Graham para morar numa casa maravilhosa na baía de San Francisco, com um grande barco e tudo o mais, foi isso o que aconteceu com a filha de Deirdre.

            Ah, quer dizer que a filha não sabia da história, pensou sem dizer nada.

            - Carl e Nancy que fiquem aqui para cuidar de tudo! - Prosseguiu a mulher. – Essa é a ladainha da família. Carl faz os cheques, e Nancy cozinha e limpa. E o que é que Millie faz? Millie só vai à igreja e ora por todas nós. Não é fantástico? Tia Millie é mais inútil do que tia Belle chegou a ser. Vou lhe dizer o que tia Millie faz bem. Cortar flores. Tia Millie corta as rosas de vez em quando, aquelas rosas que estão lá fora abandonadas.

            Ela deu um riso rouco, feio, e passou por ele para entrar no quarto da doente, segurando a vassoura pelo cabo sebento.

            - Sabia que não se pode pedir a uma enfermeira que varra o chão? Não, a isso elas não se rebaixariam. Poderia me dizer por que uma enfermeira não pode varrer o quarto?

            O quarto estava bem limpo. Parecia ser o quarto principal da casa, um aposento amplo, arejado, voltado para o norte. Havia cinzas na lareira de mármore. E a cama em que dormia sua paciente! Uma daquelas camas imensas feitas no final do século passado, com um imponente dossel de nogueira e seda com borlas.

            Agradava ao médico o cheiro de cera e de roupa de cama limpa. No entanto, o quarto estava cheio de horríveis artefatos religiosos. Sobre a cômoda de mármore, havia uma estátua da Virgem, com o coração vermelho exposto no peito, lúgubre e repulsivo. Havia um crucifixo ao seu lado, com um corpo contorcido de Cristo em cores naturais até mesmo nos detalhes do sangue escuro que escorria dos cravos nas mãos. Velas ardiam em copos vermelhos, ao lado de um pouco de folhas murchas de palmeira.

            - Ela percebe esses objetos religiosos? - perguntou o médico.

            - Claro que não - disse Miss Nancy. Subiam emanações de cânfora das gavetas da cômoda enquanto ela as arrumava. - Grande coisa eles ajudam debaixo deste teto!

            Havia rosários pendurados nos abajures de latão trabalhado, mesmo nas cúpulas de cetim desbotado. E a impressão era a de que nada havia sido alterado aqui há décadas. As cortinas de renda amarela estavam duras e puídas em alguns lugares. Ao receber o sol, elas pareciam retê-lo, lançando sua própria luz queimada e sombria.

            Havia um porta - jóias na superfície de mármore da mesa-de-cabeceira. Aberto. Como se o seu conteúdo não fosse de valor inestimável, que realmente era. Até mesmo o médico, com seus parcos conhecimentos do assunto, sabia que aquelas jóias eram verdadeiras.

            Ao lado do porta - jóias, a fotografa da filha loura e bonita. E abaixo dela, uma outra muito mais velha e desbotada da mesma menina, pequena mas já naquela época bem bonita. Alguns rabiscos na parte de baixo. Ele só conseguiu decifrar "Pacific Heights School, 1966".

            Quando ele tocou na capa de veludo do porta jóias, Miss Nancy se voltou e praticamente gritou com ele.

            - Não toque nisso, doutor!

            - Meu Deus, não está pensando que eu seja um ladrão.

            - O senhor desconhece muitas coisas acerca desta casa e da sua paciente. Por que acha que as venezianas estão todas quebradas, doutor? Quase caindo das dobradiças? Por que acha que o reboco está se soltando dos tijolos? - Ela abanou a cabeça, balançando a carne macia das bochechas, com a boca sem cor, crispada. - Basta deixar que alguém tente consertar as venezianas. Basta deixar que alguém suba numa escada e tente pintar a casa.

            - Não estou compreendendo - disse o médico.

            - Nunca toque nas jóias dela, doutor. É o que lhe digo. Nunca toque em nada por aqui que não tenha necessidade de tocar. Aquela piscina lá fora, por exemplo. Toda sufocada de folhas e imundície como está, mas os velhos chafarizes ainda jogam água nela, já pensou nisso? Basta que se tente desligar as torneiras, doutor!

            - Mas quem...?

            - Doutor, deixe as jóias dela em paz. Ouça meu conselho.

            - Será que uma modificação nas coisas faria com que ela falasse? Ousou ele perguntar, impaciente com tudo isso e por não ter medo dessa como tinha de Miss Carl.

            - Não, isso não ia fazer com que ela fizesse nada - respondeu Nane com um sorriso irônico. Ela fechou a gaveta com violência. Contas de rosas tilintaram de encontro a uma pequena estátua de Jesus. - Agora, se o senhor me der licença, preciso ir limpar o banheiro, também.

            Ele olhou para o Jesus barbado, com o dedo indicando a cruz de espinhos em volta do coração.

            Talvez elas todas fossem loucas. Talvez ele também enlouquecesse não saísse daquela casa.

            Certo dia, quando ele estava sozinho na sala de jantar, viu outra vez aquela palavra - Lasher - escrita na poeira acumulada sobre a mesa. Parecia ter sido escrita com a ponta do dedo. Um enorme L maiúsculo caprichado. Agora, o que aquilo significava? Quando ele chegou na tarde seguinte, o lugar estava limpo. Na verdade, a única vez em que ele havia visto a poeira ser perturbada ali, onde o serviço de chá de prata sobre o aparador estava todo manchado de preto. Os murais nas paredes estavam desbotados. Mesmo assim, se os examinasse com atenção, ele conseguia ver uma cena de plantação colonial, é, a mesma casa que aparecia no quadro no saguão.

            Só depois de examinar o candelabro por muito tempo, percebeu que ele nunca havia sido adaptado para a luz elétrica. Ainda havia cera nos castiçais. Ah, que tristeza naquilo tudo.

            A noite, em seu apartamento moderno com vista para o lago, ele não conseguia deixar de pensar na sua paciente. Ele se perguntava se os olhos de ficavam abertos quando deitada na cama.

            - Talvez eu tenha uma obrigação... - Mas que tipo de obrigação? Seu médico era um psiquiatra de renome. Não seria conveniente questionar seu parecer. Não seria conveniente tentar nenhuma bobagem, como a de levá-la para um passeio no campo ou levar um rádio para a varanda. Ou ainda parar com os sedativos para ver o que aconteceria.

            Ou mesmo pegar o telefone e ligar para aquela filha, a interna. Fizera Ellie assinar um documento. Vinte e quatro anos era idade suficiente para saber algumas coisas a respeito da própria mãe.

            E sem duvida o bom senso marcava uma pausa na medicação de Deirdre, de vez em quando. E o que dizer de uma reavaliação total? Ele pelo menos tinha de fazer essa sugestão.

            - Você lhe aplique as injeções - disse o velho médico. - Faça-lhe uma visita de uma hora por dia. E isso o que se espera de você. - Uma ligeira frieza dessa vez. Velho idiota!

            Não era de se estranhar que ele se alegrasse tanto da primeira vez que viu o homem fazendo-lhe uma visita. Era o início de setembro, e ainda fazia calor. Quando entrou pelo portão, viu o homem na varanda telada ao lado dela, obviamente conversando com ela, com o braço pousado no espaldar da cadeira.

            Um homem alto, de cabelos castanhos, bem esguio.

            O médico viu-se acometido de um estranho sentimento de posse. Um homem que ele não conhecia, com sua paciente. No entanto, estava no fundo ansioso para conhecê-lo. Talvez o homem lhe explicasse algo que as mulheres não se dispunham a explicar. E ele era sem dúvida um bom amigo. Havia uma certa intimidade no seu jeito de ficar tão perto, no seu jeito de se inclinar na direção da silenciosa Deirdre.

            Quando o médico saiu de casa para a varanda, porém, não havia mais nenhuma visita ali. E ele não encontrou ninguém nos cômodos da frente.

            - Sabe, vi um homem aqui há pouco - disse ele à enfermeira quando ela entrou. - Ele estava conversando com Miss Deirdre.

            - Eu não o vi - disse a enfermeira, despreocupada.

            Miss Nancy, que estava descascando ervilhas na cozinha quando ele a encontrou, fitou-o por algum tempo e depois abanou a cabeça com o queixo firme.

            - Não ouvi ninguém entrar.

            Bem, isso não era um absurdo?! Mas ele tinha de admitir que só o havia visto por um instante, um vislumbre através da tela. Não, mas ele havia visto o homem mesmo.

            - Se ao menos você pudesse falar comigo - disse ele a Deirdre, quando estavam a sós. Ele estava preparando a injeção. - Se você ao menos pudesse me dizer se quer visitas, se isso faz diferença... - O braço dela era tão fino. Quando se voltou para ela, com a agulha pronta, ela estava olhando fixamente para ele!

            - Deirdre?

            Seu coração batia forte.

            Os olhos rolaram para a esquerda, e ela voltou a olhar para a frente, apática e muda como antes. E o calor, que o médico havia aprendido a apreciar, de repente lhe pareceu sufocante. Na realidade, ele sentia a cabeça leve como se estivesse prestes a desmaiar. Lá fora, do outro lado da tela empoeirada e encardida, o gramado pareceu se mexer. Ora, ele nunca havia desmaiado na vida e enquanto pensava nisso, enquanto tentava pensar nisso, percebeu que estivera conversando com o homem, é, o homem estava ali, não, não estava ali agora, mas acabava de sair.

            Os dois estavam no meio de uma conversa, e agora ele havia perdido o fio da meada, ou não, não era bem isso, o fato é que de repente ele não conseguiu mais se lembrar de quanto tempo estiveram conversando, e era tão estranho ter estado conversando todo esse tempo juntos e não lembrar de como tudo havia começado!

            De súbito ele estava tentando desanuviar a cabeça e olhar melhor para o homem, mas o que o outro acabara de dizer? Era tudo muito confuso porque não havia ninguém ali com quem estivesse falando, ninguém a não ser ela, mas era verdade, ele acabara de concordar com o homem de cabelos castanhos.

            - É claro, parar as injeções... - E a absoluta integridade da sua posição não admitia dúvidas, o velho médico ("Um idiota mesmo!" segundo o homem de cabelos castanhos) teria de lhe dar ouvidos!

            Tudo isso era medonho, e ainda a filha na Califórnia...

            Ele se sacudiu. Ergueu-se na varanda. O que havia acontecido? Havia adormecido na cadeira de vime. Estivera sonhando. O murmúrio das abelhas soou alto e perturbador aos seus ouvidos, e a fragrância das gardênias pareceu drogá-lo instantaneamente. Ele olhou por cima da grade para o pátio à sua esquerda. Alguma coisa havia s e mexido ali?

            Só os ramos das árvores mais além quando a brisa soprava entre eles. Ele havia visto isso milhares de vezes em Nova Orleans, essa dança graciosa, como se uma árvore liberasse a brisa para a seguinte. Um calor tão agradável e envolvente. Pare com as injeções! Ela acordará. Lenta e desajeitada, uma enorme borboleta subia pela tela diante dele. Asas maravilhosas. Aos poucos, porém, ele passou a focalizar seu corpo, pequeno, lustroso e negro. Ela deixou de ser uma borboleta e se tornou um inseto - repulsivo!

            - Preciso ir para casa - disse ele em voz alta para ninguém. - Não estou me sentindo muito bem. Acho que devo me deitar.

            O nome do homem. Qual era? Há um instante ele sabia, um nome tão notável - ah, então era isso o que a palavra significava, você é - Na verdade, muito linda... Mas espere. Estava acontecendo de novo. Ele não permitiria isso!

            - Miss Nancy! - Ele se levantou da cadeira.

            Sua paciente continuava olhando para a frente, inabalável, com o pesado pingente de esmeralda reluzindo em contraste com a camisola. O mundo inteiro se enchia de luz verde, com folhas trêmulas, e o leve borrão das buganvílias.

            - É... o calor - murmurou. - Será que eu lhe dei a injeção? - Meu Deus. Ele havia deixado cair a seringa, que se quebrara.

            - O doutor me chamou? - perguntou Miss Nancy. Lá estava ela à porta do salão, com os olhos fixos nele, enxugando as mãos no avental. A mulher de cor também estava ali, e a enfermeira atrás dela.

            - Nada, só o calor - respondeu ele, baixinho. Deixei cair a seringa. Mas e claro que tenho outra.

            Como olhavam para ele, como o examinavam. Estão pensando que fiquei louco também?

            Foi na tarde da sexta -feira seguinte que viu o homem outra vez. O médico estava atrasado. Havia tido uma emergência no sanatório. Vinha apressado pela First Street no crepúsculo precoce de outono. Ele não queria atrapalhar o jantar da família. Estava correndo no momento em que chegou ao portão.

            O homem estava parado nas sombras do pórtico. Observava o médico, com os braços cruzados, o ombro encostado numa coluna, os olhos escuros e bem grandes, como se estivesse imerso em contemplação. Alto, esguio, roupas de corte perfeito.

            - Ah, cá está você - disse baixinho o médico. Uma onda de alívio. Ele estendeu a mão quando subiu a escada. - Meu nome é Dr Petrie. Prazer em conhecê-lo.

            E como descrever aquilo? Simplesmente não havia homem nenhum ali.

            - Ora, eu sei que isso aconteceu! - disse ele a Miss Carl na cozinha. - Eu o vi no pórtico e ele desapareceu bem na minha frente.

            - Bem, de que nos interessa o que o senhor viu, doutor? - disse a mulher. Jeito estranho de falar. E era tão durona, essa senhora. Nada de frágil na sua velhice. Muito empertigada no seu costume de gabardine azul - escuro, faiscando os olhos para ele através dos óculos de armação de metal, a boca murcha no formato de uma linha fina.

            - Miss Carl, vi esse homem com minha paciente. Ora, a paciente, como todos sabemos, é uma mulher indefesa. Se uma pessoa não identificada entra na residência e sai dela...

            As palavras, no entanto, não tinham importância. Ou a mulher não acreditava nele, ou não estava ligando. E Miss Nancy, à mesa da cozinha, nem erguia os olhos do prato enquanto raspava a comida ruidosamente com o garfo. Já a expressão de Miss Millie, ah, era outra história. A velha Miss Millie demonstrava claramente sua perturbação, com os olhos passando rápido de Miss Carl para o médico e de volta a ela.

            Que família.

            Ele estava irritado quando entrou no pequeno elevador empoeirado e apertou o botão preto na chapa de latão. As cortinas de veludo estavam fechadas, e o quarto, quase escuro, com as velinhas tremeluzindo nos copinhos vermelhos. A sombra da Virgem crescia sobre a parede. Ele não conseguiu encontrar o interruptor de imediato. E quando o encontrou, acendeu-se apenas uma única lâmpada minúscula no abajur ao lado da cama. O porta - jóias estava bem ao lado. Que coisa extraordinária. Quando viu a mulher deitada, com os olhos abertos, sentiu um aperto na garganta. Sua cabeleira negra estava espalhada sobre a fronha manchada. Havia no seu rosto um rubor estranho.

            Teriam os seus lábios se movido?

            - Lasher...

            Um sussurro. O que ela havia dito? Ora, ela havia dito Lasher, certo? O nome que o médico havia visto no tronco da árvore e na poeira sobre a mesa de jantar. E ele já ouvira esse nome pronunciado em algum outro lugar...

            É por isso que sabia ser um nome. Ouvir essa paciente catatônica falar dava-lhe arrepios nas costas e no pescoço. Mas não, ele devia estar imaginando isso. Era exatamente o que ele tanto queria que acontecesse, a mudança milagrosa na paciente. Ela continuava deitada em seu transe como sempre. Thorazine em quantidade suficiente para matar uma outra pessoa...

            Ele pousou a maleta no lado da cama. Encheu com cuidado a seringa, pensando, como havia pensado algumas vezes antes, e se você simplesmente não a enchesse, se só reduzisse à metade, a um quarto ou a nada e ficasse sentado ao seu lado observando, e se... Viu-se de repente pegando-a no colo e a levando para fora da casa. Viu-se levando-a para um passeio no campo.

            Os dois caminhavam de mãos dadas pelo capim até chegarem à barragem no rio. Ali ela sorria, com o cabelo voando ao vento... Que bobagem. Já eram seis e meia, e a injeção estava muito atrasada. A seringa estava pronta.

            De repente algo o empurrou. Disso ele tinha certeza, embora não soubesse dizer onde sofreu o empurrão. Simplesmente caiu, com as pernas dobradas, e a seringa voou longe.

            Quando se recuperou, estava de joelhos na penumbra, olhando os cotões de poeira acumulada no piso nu debaixo da cama.

            - Que merda... - disse ele em voz alta antes de se refrear. Não conseguia encontrar a agulha hipodérmica. Foi então que a viu, a metros de distância, depois do guarda-roupa. Estava quebrada, estilhaçada, como se alguém tivesse pisado nela. Todo o líquido havia escorrido da embalagem plástica esmagada para as tábuas do assoalho.

            - Ora, espere aí! - disse ele, sussurrando. Ele a apanhou e ficou segurando o objeto destruído nas mãos. É claro que ele tinha outras seringas, mas essa era a segunda vez que esse tipo de coisa... E ele se encontrou novamente ao lado da cama, contemplando a paciente imóvel, pensando exatamente de que modo ela poderia ter feito aquilo, quer dizer, pelo amor de Deus o que está acontecendo?

            Sentiu um calor repentino e intenso. Algo se mexeu no quarto, um levíssimo ruído. Só as contas do rosário enrolado no abajur de latão. Procurou enxugar a testa. Foi quando percebeu, bem devagar, mesmo contemplando Deirdre, que havia uma figura parada do outro lado da cama. Viu os trajes escuros, um colete, um paletó com botões escuros. Ergueu então os olhos e viu que era o homem.

            Num átimo, sua descrença transformou-se em terror. Não havia agora nenhuma sensação de desnorteamento, nenhuma fantasia de sonho. O homem estava ali, olhando para ele. Doces olhos castanhos fixos nele.

            E de repente não estava mais lá. O quarto esfriou. Uma brisa inflou as cortinas. O médico flagrou-se gritando. Não, berrando histericamente, para ser bem franco. As dez horas daquela noite, ele estava fora do caso. O velho psiquiatra veio até seu longínquo apartamento de frente para o lago para lhe falar pessoalmente. Os dois desceram até o lago juntos e caminharam pelas margens concretadas.

            - Essas velhas famílias, não se pode discutir com elas. E não se pode querer contrariar Carlotta Mayfair. Ela conhece todo mundo. Você ficaria espantado se soubesse quantas pessoas devem algum favor ou outro a ela ou ao juiz Fleming. E essa gente tem imóveis espalhados pela cidade inteira, se você ao menos...

            - Estou lhe dizendo que vi alguma coisa! - O médico flagrou-se dizendo.

            O velho psiquiatra, porém, não lhe dava ouvidos. Havia uma suspeita quase aparente nos seus olhos enquanto ele avaliava o jovem médico, apesar de seu tom agradável de voz nunca se alterar.

            - Essas velhas famílias. - O médico não deveria jamais voltar àquela casa. O médico não disse mais nada. A verdade é que ele se sentia meio bobo. Não era homem de acreditar em aparições! E não conseguia chegar a costurar uma argumentação inteligente acerca da paciente em si, sua condição, a necessidade óbvia de uma avaliação periódica. Não, sua confiança estava totalmente abalada.

            No entanto, ele sabia que havia visto a figura. Três vezes. E não conseguia se esquecer daquela tarde da conversa nebulosa, imaginada. O homem também estivera ali naquela ocasião, só que imaterializado. E ele sabia o nome do homem... é... era Lasher!

            Porém, se até ele próprio descartava aquela conversa onírica, atribuindo-a ao silêncio do local, ao calor infernal e à sugestão de uma palavra entalhada num tronco de árvore, as outras vezes não podiam ser ignoradas. Ele havia visto um ser humano, sólido, ali. Ninguém conseguiria jamais fazê-lo desmentir isso.

            A medida que as semanas foram passando e que o médico não conseguiu se distrair o suficiente com o trabalho no sanatório, ele começou a escrever sobre a experiência, descrevendo-a detalhadamente. O cabelo castanho do homem era levemente ondulado. Os olhos, grandes. A pele, clara como a da pobre doente. O homem era jovem, talvez não tivesse mais de vinte e cinco anos. Ele não apresentava nenhuma expressão discernível. O médico conseguia se lembrar até das mãos dele. Nada de diferente com elas, só mãos bonitas. Ocorreu-lhe que o homem, embora magro, era bem proporcionado. Somente as roupas pareciam estranhas: nada a ver com seu estilo, que era bastante comum. Era a textura do tecido. Incrivelmente liso, como o rosto do homem.      Como se a figura inteira - roupas, carne, rosto - fosse feita do mesmo material. Um dia, o médico acordou com uma idéia estranhamente nítida: o homem misterioso não queria que ela tomasse aqueles sedativos! Ele sabia que a medicação lhe fazia mal. E é claro que a mulher estava indefesa. Ela não tinha como defender seus próprios interesses. O espectro a protegia!

            Mas, em nome de Deus, quem irá jamais acreditar em tudo isso? Pensou o médico e desejou estar em casa, no Maine, trabalhando na clínica do pai, não nesta cidade estranha e úmida. Seu pai compreenderia. Mas, na verdade, não. Seu pai só ficaria preocupado.

            Ele tentou "manter-se ocupado". A verdade, porém, era que o sanatório era um local entediante. Havia pouco a fazer. O velho psiquiatra deu-lhe mais alguns casos, mas eles não ofereciam desafio. Era, entretanto, essencial que o médico continuasse trabalhando, que ele apagasse toda suspeita da mente do velho psiquiatra.

            Quando o outono foi se transformando em inverno, o médico passou a sonhar com Deirdre. Nos sonhos, ele a via curada, revigorada, caminhando rápido por uma rua da cidade, com os cabelos soltos ao vento. De vez em quando, ao acordar de um sonho desses, ele se flagrava imaginando se a pobre não estaria morta. Isso era o mais provável de acontecer.

            Quando a primavera chegou, e o médico completou um ano de permanência na cidade, ele concluiu que precisava ver a casa novamente. Pegou o bonde de St. Charles até Jackson Avenue e foi andando a partir dali como sempre fizera no passado.

            Tudo estava exatamente igual, a buganvília espinhenta em plena floração sobre as varandas, o jardim descuidado repleto de minúsculas borboletas brancas, a lantana com suas pequenas flores cor de laranja, saindo pela grade de ferro.

            E Deirdre, sentada na cadeira de balanço na varanda lateral, atrás do véu de telas enferrujadas. O médico sentiu uma angústia opressiva. Ele talvez estivesse mais perturbado do que jamais havia estado na sua vida. Alguém tem de fazer alguma coisa por aquela mulher.

            Depois disso ele vagueou a esmo, acabando por chegar a uma rua suja e movimentada. Uma taberna esmazelada chamou sua atenção. Ele entrou nela, grato pelo ar condicionado enregelante e o relativo silêncio no qual alguns velhos conversavam em voz baixa ao longo do bar. Ele levou seu copo até a última mesa de madeira, nos fundos.

            O estado de saúde de Deirdre Mayfair o torturava. E o mistério da aparição só piorava as coisas. Ele pensou naquela filha lá na Califórnia. Ousaria ligar para ela? Uma conversa entre médicos... Mas ele nem sabia o seu nome.

            - Além do mais, você não tem o direito de se intrometer - disse ele, baixinho. Bebeu um gole da cerveja, saboreando sua temperatura gelada. - Lasher - sussurrou. E falando de nomes, que tipo de nome era Lasher?

            A jovem interna na Califórnia ia achar que ele era louco! Tomou mais um grande gole da cerveja.

            Pareceu-lhe de repente que estava ficando quente no bar. Era como se alguém tivesse aberto a porta para um vento do deserto. Mesmo os velhos que conversavam enquanto bebiam cerveja pareceram perceber a mudança. O médico viu um deles enxugar o rosto com um lenço sujo, e voltar a discutir como antes.

            Então, no instante em que o médico ergueu seu copo, viu bem à sua frente o homem misterioso sentado à mesa próxima à porta da rua. O mesmo rosto de cera, os olhos castanhos. As mesmas roupas indefiníveis com aquela textura estranha, tão lisas que brilhava m levemente à luz mortiça.

            Apesar de os homens por perto prosseguirem sua conversa, o médico sentiu o pavor extremo que havia conhecido na penumbra do quarto de Deirdre Mayfair. O homem estava sentado, totalmente imóvel, a contemplá-lo. Nem seis metros o separavam do médico. E a luz do dia que entrava pelas janelas da frente do bar caía nítida no ombro do homem, iluminando um lado do seu rosto.

            Estava ali de verdade. A boca do médico começou a se encher de água. Ele ia passar mal. Ia desmaiar. Num lugar desses, iam pensar que estava embriagado. Só Deus sabe o que aconteceria... Ele lutou para firmar a mão no copo. Esforçou-se para não entrar em pânico total, como havia ocorrido no quarto de Deirdre.

            Então, sem qualquer aviso, o homem pareceu bruxulear como se fosse uma imagem projetada para depois desaparecer diante dos olhos do médico. Uma brisa fria soprou pelo bar afora.

            O barman voltou-se para impedir que o vento levasse um guardanapo encardido. Em algum lugar, uma porta bateu. E a conversa pareceu ficar mais alta. O médico sentiu a cabeça latejar um pouco.

            - ...Estou enlouquecendo! - disse baixinho.

            Não havia poder na face da terra que pudesse tê-lo convencido a passar outra vez pela casa de Deirdre Mayfair. Na noite seguinte, porém, quando voltava de carro para sua casa junto ao lago, viu o homem novamente, parado sob um poste perto dos cemitérios no Canal Boulevard, banhado pela luz amarela em contraste com o branco de giz do muro do cemitério.

            Foi apenas um vislumbre, mas ele sabia que não estava enganado. Começou a tremer com violência. Por um instante, ele teve a impressão de não saber operar os controles do carro; e depois, seguiu dirigindo de uma forma irresponsável, idiota, como se o homem o estivesse perseguindo. Ele só se sentiu seguro quando fechou a porta do apartamento.

            Na sexta-feira seguinte, ele viu o homem em plena luz do dia, parado imóvel na grama em Jackson Square. Uma mulher que passava voltou-se para olhar a figura de cabelos castanhos. É, ele estava ali, como havia estado antes! O médico saiu correndo pelas ruas do French Quarter. Ao encontrar um táxi diante de um hotel, ele disse ao motorista que o tirasse dali, que só levasse para qualquer lugar, ele não se importava para onde.

            A medida que os dias foram passando, o médico deixou de sentir medo para sentir pavor. Não conseguia nem comer nem dormir. Não conseguia se concentrar em nada. Movimentava-se perpetuamente em total desalento. Olhava para o velho psiquiatra com uma raiva muda sempre que por acaso se cruzavam. Em nome de Deus, como conseguiria transmitir a essa monstruosidade que ele não se aproximaria mais da pobre coitada na cadeira de balanço? Dele ela nunca mais receberia injeções, medicamentos. Eu não sou mais seu inimigo, será que você não entende!

            Procurar a ajuda ou a compreensão de outra pessoa seria colocar em risco sua reputação, até mesmo sua carreira futura. Um psiquiatra enlouquecendo como seus pacientes. Ele estava desesperado. Precisava escapar dessa coisa Quem sabe quando a assombração lhe apareceria novamente? E se ele conseguisse entrar no seu próprio apartamento!

            Afinal, na manhã de segunda-feira, com os nervos em frangalhos e a mãos tremulas, ele se encontrou no consultório do velho psiquiatra. Ainda não havia resolvido o que iria dizer, só que não conseguia mais agüentar tensão. E logo se descobriu matraqueando sobre o calor tropical, as dores de cabeça e as noites de insônia, a necessidade de que seu pedido de demissão fosse prontamente aceito.

            Saiu de Nova Orleans naquela mesma tarde.

            Só quando estava seguro no consultório do pai, em Portland, Maine afinal revelou a história por inteiro.

            - Nunca havia nada de ameaçador no rosto - explicou. - Pelo contrário era estranha sua falta de expressão. Era um rosto tão afável quanto o de Jesus Cristo no quadro na parede do quarto da paciente. Só me olhava fixamente. Mas não queria que eu lhe aplicasse a injeção! Ele queria me apavorar.

            O pai era um homem paciente. Não respondeu de imediato. Depois lentamente, começou a falar nas coisas estranhas que havia testemunhado ao longo dos anos de trabalho em hospitais psiquiátricos: médicos aparentemente contaminados pelas neuroses e psicoses dos pacientes. Um dia ele havia visto um médico cair em catatonia no meio dos pacientes catatônicos

            - Larry, o importante é que você descanse - disse o pai. - Que você deixe que os efeitos de tudo isso passem. E que você não conte essa historia a mais ninguém. Anos se passaram. O trabalho do médico no Maine havia dado bons resultados. Aos poucos, ele havia formado uma sólida clientela particular, independente do seu pai.

            Quanto ao espectro, ele o havia deixado para trás em Nova Orleans, junto com a recordação de Deirdre Mayfair, sentada eternamente naquela cadeira. Permanecia, no entanto, nele um resquício de medo de que em algum lugar ou outro ele visse a assombração novamente. Havia uma ponta de medo de que, se uma coisa dessas aconteceu uma vez, poderia voltar a acontecer por motivos completamente diferentes. O médico havia passado por um horror verdadeiro naquela época úmida e sombria em Nova Orleans, e sua visão do mundo nunca mais foi a mesma.

            Agora, parado junto á janela na penumbra do quarto de hotel em Nova York, ele percebia que aquela história toda o dominava novamente. E, como havia feito milhares de vezes antes, ele analisou o estranho caso, á procura de seu significado mais profundo.

            Estaria o fantasma realmente o perseguindo em Nova Orleans, ou será que o médico havia interpretado mal o espectro silencioso?

            Talvez o homem não estivesse absolutamente procurando assustá-lo.

            Talvez estivesse de fato implorando para que ele não se esquecesse da mulher! Talvez ele fosse, de certa forma, uma projeção dos pensamentos desesperados da própria mulher, uma imagem enviada ao médico por uma mente que não conhecia nenhum outro meio de comunicação.

            Ah, não havia nenhum consolo nessa idéia. Era horrível demais imaginar que a mulher desamparada pedisse sua ajuda através de um emissário espectral que, por motivos que jamais seriam conhecidos, não conseguia falar, mas só fazer breves aparições.

            Quem, porém, poderia interpretar esses estranhos elementos? Quem ousaria dizer que o médico tinha razão? Aaron Lightner, o inglês, o colecionador de histórias de fantasmas, que lhe havia dado um cartão com a palavra Talamasca? Ele havia dito que queria ajudar o afogado da Califórnia.

            - Talvez ele não saiba que isso aconteceu com outros. Talvez seja necessário que eu lhe diga que outros também voltaram do limiar da morte com esse tipo de dom. É, isso seria útil, não seria? Saber que outros haviam visto fantasmas também?

            No entanto, essa não era a parte pior, a de ver a assombração. Algo pior do que o medo o havia levado de volta á varanda zelada e á figura lívida da mulher na cadeira de balanço. Era a culpa, uma culpa que ele carregaria por toda a vida, a de não ter se esforçado mais para ajudá-la, a de nunca ter ligado para a filha na costa oeste.

            A luz da manhã começava a surgir sobre a cidade. Ele observou a mudança no céu, a iluminação sutil das paredes sujas do outro lado da rua. Foi, então, ao armário e tirou o cartão do inglês do bolso do casaco.

O Talamasca

Nós Observamos

E estamos sempre presentes.

            Ele tirou o telefone do gancho.

            O relato demorou uma hora, o que o surpreendeu, mas todos aqueles detalhes haviam voltado em completa desordem. Ele não se havia incomodado com o pequeno gravador, com seu olhinho vermelho piscando. Afinal, não havia usado nomes, nem números de casas, nem mesmo datas. Mencionara Nova Orleans, uma casa antiga. E não parava de falar. Percebeu que nem havia tocado no café da manhã, a não ser para esvaziar a xícara inúmeras vezes.

            Lightner revelou-se um ouvinte excelente, respondendo delicadamente sem nunca interrompê-lo. O médico, no entanto, não se sentia melhor. Ele se sentia um tolo quando tudo terminou. Enquanto observava Lightner recolher o gravador e colocá-lo na valise, o médico sentiu vontade de pedir a fita. Foi Lightner quem rompeu o silêncio ao pôr algumas notas sobre a conta.

            - Há algo que eu preciso lhe explicar - disse ele. - Creio que irá tranqüilizá-lo.

            O que poderia realizar esse feito?

            - Você se lembra de eu ter dito que coletava histórias de fantasmas?

            - Lembro.

            - Pois é, eu conheço essa velha casa em Nova Orleans. Eu já a vi. E registrei outras histórias de pessoas que viram o homem que você descreveu.

            O médico estava perplexo. As palavras haviam sido ditas com total convicção. Na realidade, elas haviam sido pronunciadas com tanta autoridade e segurança que o médico acreditou piamente nelas. Ele examinou Lightner meticulosamente pela primeira vez. Era mais velho do que parecia á primeira vista. Talvez tivesse uns sessenta e cinco, até mesmo setenta anos.

            O médico descobriu estar mais uma vez seduzido pela expressão de Lightner, tão afável e franca a ponto de despertar uma retribuição de confiança.

            - Outros - cochichou o médico. - Tem certeza disso?

            - Ouvi outros relatos, alguns muito semelhantes ao seu. E estou lhe dizendo isso para que você compreenda que não foi sua imaginação. E para que a história não continue a atormentar sua mente. Por sinal, você não teria podido ajudar Deirdre Mayfair. Carlotta Mayfair não teria permitido. Você deve simplesmente tirar da cabeça todo o incidente. Nunca mais volte a se preocupar com isso.

            Por um instante, o médico sentiu alivio, como se ele estivesse num confessionário na igreja católica e o padre tivesse dito que o absolvia. Foi então que recebeu o impacto do verdadeiro significado das revelações de Lightner.

            - Você conhece aquela gente! - disse ele, baixinho. Sentiu a cor subindo ao rosto. A mulher havia sido sua paciente. De súbito ele estava totalmente confuso.

            - Não. Eu sei que existem - respondeu Lightner. - E vou manter seu relato estritamente confidencial. Por favor, tranqüilize-se. Lembre-se, não usamos nenhum nome na gravação. Não chegamos a usar nem o seu nem o meu nome.

            - Mesmo assim, tenho de lhe pedir a devolução da fita - disse o médico, alvoroçado. - Quebrei o sigilo. Não fazia a menor idéia de que você conhecesse os nomes.

            Lightner apanhou imediatamente a pequena fita cassete e a colocou nas mãos do médico. O homem parecia totalmente imperturbável.

            - É claro que pode ficar com ela - disse ele. - Eu compreendo.

            O médico agradeceu, com a confusão se intensificando. No entanto, o alívio não havia desaparecido de todo. Outros haviam visto a criatura. Esse homem a conhecia. Não estava mentindo. O médico não havia perdido a razão por um instante sequer. Uma leve amargura surgiu nele: uma amargura para com seus superiores em Nova Orleans, para com Carlotta Mayfair, para com aquela horrenda Miss Nancy...

            - O importante é que você não se preocupe mais com isso - disse Lightner.

            - É - respondeu o médico. - Foi horrível, tudo aquilo. A mulher, os medicamentos. Não, nem pense... Ele se calou, com os olhos fixos na fita cassete e depois na xícara vazia de café.

            - A mulher, ela ainda...

            - Na mesma. Estive lá no ano passado. Miss Nancy, a que você detestava tanto, morreu. Miss Millie foi-se também, já há algum tempo. E de vez em quando tenho notícias de gente da cidade, e o que dizem é que Deirdre não mudou em nada.

            - É - disse o médico, com um suspiro. - Você de fato tem conhecimento delas... sabe todos os nomes.

            - Então, por favor, acredite quando lhe digo que outros viram a mesma aparição. Você não estava louco, nem um pouco. E não deve ter preocupações tolas com essas coisas.

            Aos poucos, o médico examinou Lightner novamente. O homem estava fechando a valise. Verificou a passagem aérea, pareceu considerá-la correta e a enfiou no bolso do casaco.

            - Permita que eu lhe diga mais uma coisa - disse Lightner - antes de ir para o aeroporto. Não conte essa história a mais ninguém. Não vão acreditar no que disser. Só quem viu essas coisas acredita nelas. É trágico, mas invariavelmente e verdade.

            - É, eu sei disso - concordou o médico. Havia tantas coisas que queria perguntar, mas não podia. - Você...? - parou no meio da pergunta.

            - É, eu o vi - disse Lightner. - Foi mesmo assustador. Igual à sua descrição. - Ele se levantou para ir embora.

            - O que ele é? Um espírito? Um fantasma?

            - Não sei no fundo o que ele é. Todos os relatos são muito parecidos. As coisas não mudam por lá. Persistem ano após ano. Mas preciso ir e mais uma vez lhe agradeço. Se algum dia quiser falar comigo novamente, sabe onde me encontrar. Você tem o meu cartão. - Lightner estendeu a mão. - Adeus.

            - Espere. A filha, o que lhe aconteceu? A que era interna na costa oeste?

            - Ah, sim, agora é uma cirurgiã - disse Lightner, olhando de relance para o relógio. - Acho que é neurocirurgiã. Acabou de passar nos exames. Para registro no conselho de medicina, é assim que se chama? Mas eu também não a conheço, sabe? Só tenho notícias dela de quando em quando. Apenas uma vez nossos caminhos se cruzaram. - Ele se calou e deu um sorriso rápido quase formal. - Adeus, doutor, e mais uma vez obrigado.

            O médico ficou ali sentado, refletindo, por muito tempo. Ele realmente se sentia melhor, infinitamente melhor. Não havia como negar isso. Não se arrependia de ter feito o relato. Na verdade, todo o encontro pareceu ser uma bênção para ele, algo enviado pelo destino para tirar dos seus ombros a pior carga que ele jamais carregara. Lightner conhecia e compreendia todo o caso.

            Lightner conhecia também a filha na Califórnia.

            Lightner iria contar á jovem neurocirurgiã o que ela deveria saber, quer dizer, se já não tivesse contado. É, ele não levava mais aquela carga. O peso havia desaparecido. Não importava se agora estivesse pesando nos ombros de Lightner.

            Depois, ocorreu ao médico uma reflexão estranhíssima, algo que não lhe passava pela cabeça há anos. Ele nunca estivera na grande casa do Garden District durante uma tempestade. Ah, como teria sido lindo ver a chuva por aquelas janelas altas, ouvir a chuva batendo nos telhados das varandas. Que pena, perder uma coisa dessas. Na época ele pensava nisso com freqüência, mas sempre sentia falta da chuva. E a chuva em Nova Orleans era tão linda. Bem, ele ia largar tudo isso para lá, não ia? Mais uma vez, ele se flagrou reagindo às afirmações de Lightner como se elas fossem palavras ditas no confessionário, palavras com uma certa autoridade religiosa. É, vamos deixar tudo para lá.

            Fez um sinal para a garçonete. Estava com fome. Gostaria de tomar um bom café da manhã agora que podia comer. E, sem pensar muito no que fazia, ele pegou o cartão de Lightner de dentro do bolso, leu de relance os números dos telefones - os números que ele poderia chamar se tivesse perguntas a fazer, os números que ele não pretendia chamar jamais - e em seguida rasgou o cartão em pedaços pequenos, pondo-os no cinzeiro, onde ateou fogo a eles com um fósforo.

 

            Nove da noite. O quarto estava escuro, a não ser pela luz azulada da televisão. Miss Havisham, não era ela? Um espectro usando vestido de noiva, do seu querido grandes esperanças.

            Pelas janelas claras, desguarnecidas, ele via as luzes do centro de San Francisco quando tinha vontade de olhar para lá: uma constelação que cintilava apesar da névoa fina e, logo abaixo, os telhados pontiagudos das casas Queen Anne do outro lado de Liberty Street. Como gostava de Liberty Street. Sua casa era a mais alta do quarteirão, talvez outrora uma mansão, agora apenas uma bela casa, elevando-se majestosa entre os chalés mais humildes, em meio ao barulho e à confusão do Castro.

            Ele havia "restaurado" esta casa. Conhecia cada prego, cada viga, cada cornija. Sem camisa ao sol, ele havia colocado as telhas no telhado. Havia até mesmo derramado o concreto para fazer a calçada.

            Agora ele se sentia seguro na sua casa, e em nenhum outro lugar. Há quatro semanas não saía deste quarto, a não ser para entrar no pequeno banheiro contíguo.

            Horas a fio, ele permanecia deitado, com as mãos quentes dentro de luvas de couro preto que não podia e não queria tirar, e os olhos fixos na lúgubre tela em preto - e - branco da televisão. Estava deixando que a televisão desse forma aos seus sonhos através dos diversos vídeos que adorava, as fitas em vídeo dos filmes que havia visto muitos anos antes com a mãe. Para ele agora, aqueles eram os "filmes de casas", porque todos não tinham apenas enredos maravilhosos e pessoas maravilhosas que se transformavam em heróis e heroínas, mas também casas maravilhosas. Rebecca tinha Manderley. Grandes esperanças tinha a mansão em ruínas de Miss Havisham. Gaslight tinha a bonita casa londrina numa praça. Sapatinhos vermelhos tinha a mansão á beira -mar, onde a linda bailarina foi para saber que logo seria a prima ballerina da companhia.

            É, os filmes de casas, os filmes dos sonhos infantis, de personagens tão imponentes quanto as casas. Ele bebia uma cerveja após a outra enquanto os via. Cochilava e acordava. As mãos sem dúvida doíam naquelas luvas. Ele não atendia o telefone. Ele não atendia a porta. Tia Vivian cuidava disso. De vez em quando tia Vivian entrava no quarto. Ela lhe dava mais uma cerveja ou algo para comer. Ele raramente se alimentava.

            - Michael, coma, por favor - dizia ela.

            - Mais tarde, tia Viv - respondia ele, com um sorriso.

            Ele se recusava a estar ou a falar com quem quer que fosse, a não ser o Dr Morris, mas o Dr Morris não tinha condições de ajudá-lo. Seus amigos também não tinham essa capacidade. E nem queriam mais conversar com ele. Estavam cansados de ouvi-lo falar de como ficou morto durante uma hora e depois voltou. E era natural que ele não quisesse falar com as centenas pessoas que desejavam ver uma demonstração do seu poder psíquico.

            Ele estava para lá de cheio do seu poder psíquico. Será que ninguém entendia?           Era uma brincadeira de salão, isso de retirar as luvas, tocar objeto e ver alguma imagem simples, banal. "Você pegou este lápis com uma mulher do seu escritório ontem. O nome dela é Gert” ou “Esse medalhão. Hoje de manhã você o apanhou e resolveu usá-lo, mas não era isso o que queria. Você queria usar as pérolas, mas não conseguiu encontrá-las."

            Era um fato físico, isso, uma antena que talvez há milhares de anos todos os seres humanos tivessem. Será que alguém avaliava a verdadeira tragédia? A de ele não conseguir se lembrar do que viu quando se afogou.

            - Tia Viv - costumava ele dizer, ainda tentando explicar a questão para ela. - Eu realmente vi pessoas lá em cima. Estávamos mortos. Todos nós mortos. E eu tinha a opção de voltar. E fui mandado de volta com uma finalidade. Pálida sombra da sua mãe já falecida, tia Vivian só abaixava a cabeça

            - Eu sei, querido. Pode ser que com o tempo você se lembre.

            Com o tempo. Os amigos no final foram ficando mais ríspidos.

            - Michael, você fala como se fosse louco. Acontece de as pessoas afogarem. Acontece de elas serem ressuscitadas. Não existe nenhum objetivo especial.

            - Isso é conversa de doido, Michael.

            Therese chorava sem parar.

            - Olhe, não adianta nada eu ficar aqui, Michael. Você não é a mesma pessoa.

            Não. Não era mais a mesma pessoa. Aquela pessoa morreu afogada. E insistia em tentar recordar o salvamento: a mulher que o havia tirado da água o havia ressuscitado. Se ao menos ele pudesse falar com ela mais uma vez, se menos o Dr Morris a encontrasse... Ele só queria ouvir da sua própria boca que ele não havia dito nada. Ele só queria tirar as luvas e segurar as mãos dela nas suas ao lhe fazer essa pergunta. Talvez através dela ele pudesse se lembrar...

            O Dr Morris queria que ele viesse fazer mais uma avaliação.

            - Deixe-me em paz. Basta que encontre aquela mulher. Sei que sabe onde encontrá-la. Você me disse que ela telefonou. Que ela lhe disse seu nome.

            Não queria mais saber de hospitais, de tomografias do cérebro e de eletroencefalogramas; nada de injeções e comprimidos. A cerveja ele entendia bem. Sabia dosá-la. E a cerveja às vezes o traz a um passo da lembrança...

            ...E o que ele havia visto por lá era toda uma esfera. Gente, tanta gente. De vez em quando, voltava a aparecer, todo um universo diáfano. Ele a via quem era ela? Ela dizia alguma coisa... E desaparecia.

            - Eu vou, sim. Garanto. Posso morrer de novo tentando, mas vou fazer o que me pedem.

            Será que ele de fato havia dito essas palavras? Como poderia ter imaginado essas coisas, tudo tão distante do seu próprio mundo, que era povoado pelo concreto e pelo real? E qual a razão dessas estranhas sensações de estar longe, de volta ao lar, à cidade da sua infância?

            Ele não sabia. Não sabia mais nada que tivesse alguma importância. Sabia que era Michael Curry, que estava com quarenta e oito anos de idade, que tinha uns dois milhões de reserva e imóveis avaliados praticamente nesse mesmo valor, o que era muito bom, pois sua construtora estava fechada, ociosa. Ele já não conseguia mais administrá-la. Havia perdido seus melhores carpinteiros e pintores para outras empreiteiras da cidade. Havia perdido o grande contrato que significava tanto, a restauração da velha pensão em Union Street.

            Sabia que, se tirasse as luvas e começasse a tocar em qualquer objeto (as paredes, o piso, a lata de cerveja, o volume de David Copperfield que estava ao seu lado), começaria a ter lampejos de informação sem sentido e ficaria louco. Isso se já não estivesse. Sabia que havia sido feliz antes de se afogar, não com uma felicidade perfeita, mas feliz. Sua vida havia sido boa.

            Na manhã do grande acontecimento, ele havia acordado tarde, sentindo necessidade de um dia de folga, e a época era conveniente. Seus homens estavam trabalhando bem, e talvez ele não fosse inspecionar o serviço. Era o dia 1° de maio, e uma rara recordação lhe ocorreu: a de uma longa viagem de automóvel, saindo de Nova Orleans e beirando o Golfo até a Flórida, quando ele era menino. Devia ter sido para as férias da Páscoa, mas ele não tinha certeza, e todos os que teriam essa informação - seu pai, sua mãe, seus avós - haviam morrido.

            O que ele se lembrava era da água verde e transparente naquela praia branca, de como fazia calor e de como a areia parecia açúcar sob seus pés. Todos haviam descido até o mar para nadar ao pôr do sol, não havia o menor sinal de frio no ar, e, apesar do enorme sol laranja ainda estar suspenso no céu azul do oeste, uma lua crescente brilhava bem acima das suas cabeças.

            - Olhe, Michael - disse sua mãe, apontando para ela. Até mesmo o pai pareceu apreciá-la. Seu pai, que nunca observava esse tipo de coisa, havia dito em voz baixa que o lugar era lindo.

            Essa recordação o magoou. O frio em San Francisco era o único aspecto que lhe desagradava, e ele não conseguiu explicar o motivo para ninguém depois, por que essa recordação do calor sulino o havia inspirado a sair naquele dia e ir até Ocean Beach em San Francisco. Havia algum lugar mais frio do que Ocean Beach em toda a região da baía? Ele sabia como a água iria parecer pardacenta e ameaçadora sob o céu descorado e enfarruscado. Ele sabia como o vento penetraria pelas suas roupas.

            Mesmo assim, foi. Foi sozinho até Ocean Beach nessa tarde sombria e cinzenta, cheio de visões de águas mornas, de dirigir seu velho Packard conversível com a capota aberta sentindo as caricias delicadas do vento do sul.

            Ele não ligou o rádio do automóvel enquanto atravessava a cidade. Por isso não ouviu os alertas sobre a maré alta. E se tivesse ouvido? Ele sabia que Ocean Beach era um lugar perigoso. Todos os anos o mar carregava pessoas, tanto locais quanto turistas.

            Pode ser que ele tivesse refletido um pouco acerca disso quando saiu pelas pedras logo abaixo do Cliff House Restaurant. Traiçoeiras, sim, sempre, e escorregadias. Mas ele não tinha muito medo de cair, do mar ou de qualquer coisa. Estava novamente pensando no sul, nas noites de verão em Nova Orleans quando o jasmim está em flor. Lembrava-se do cheiro das maravilhas no quintal da sua avó.

            O impacto da onda deve tê-lo deixado inconsciente. Ele não tinha nenhuma recordação de ter sido carregado pela água. Só uma nítida lembrança de se erguer no espaço, de ver seu corpo lá longe, jogado pela arrebentação, de ver gente acenando e apontando, enquanto outros corriam para o restaurante para pedir ajuda. É, ele sabia o que as pessoas estavam fazendo, todas elas. Vê-las não era exatamente o mesmo que ver gente de cima. Era como saber tudo sobre elas. E como era perfeita sua sensação de segurança e alegria ali em cima. Ora, a palavra segurança nem chegava a começar a descrever o que sentia. Ele estava livre, tão livre que não conseguia compreender aquela ansiedade toda, por que motivo estavam tão preocupados com seu corpo sendo jogado de um lado para o outro.

            Foi quando teve início a outra parte. E isso deve ter sido quando ele morreu mesmo, e todas as coisas fantásticas lhe foram mostradas, e os outros mortos estavam ali, e ele compreendia, entendia todas as coisas desde as mais simples até as mais complexas. E o motivo pelo qual tinha de voltar, é, o portal, a promessa, injetados de repente e sem peso no corpo que jazia no convés da embarcação, o corpo que havia morrido afogado uma hora antes, com todas as dores, e que ressuscitou de olhos abertos para cima, sabendo tudo, pronto para fazer exatamente o que queriam que fizesse. Todo aquele conhecimento magnífico!

            Naqueles primeiros segundos, ele tentou desesperadamente relatar onde havia estado e o que havia visto, a aventura longa e poderosa. Claro que tentou! Mas tudo de que se lembrava agora era da intensidade da dor no peito, nas mãos e nos pés, e a figura obscura de uma mulher perto dele. Um ser frágil com um rosto pálido e delicado, todo o cabelo escondido num gorro escuro, os olhos cinzentos cintilando como luzes diante dele. Com uma voz doce, ela lhe disse que se acalmasse, que iam cuidar dele.

            Impossível acreditar que aquela mulherzinha houvesse tirado seu corpo do mar e forçado a água a sair dos seus pulmões. No entanto, naquele instante, ele não compreendeu que era ela quem o salvara.

            Havia homens que o levantaram, que o colocaram numa maca e o amarraram. Ele

só sentia dor. O vento açoitava-lhe o rosto. Ele não conseguia abrir os olhos. A maca foi erguida no ar.

            Depois disso, confusão. Ele teria voltado a ficar inconsciente? Teria sido esse o momento do esquecimento verdadeiro e total? Aparentemente, ninguém poderia confirmar ou negar o que aconteceu no vôo até terra firme. Só que correram com ele para a praia, onde esperavam a ambulância e os repórteres.

            O espocar dos flashes, disso ele se lembrava, as pessoas dizendo seu nome. A própria ambulância, é... e alguém tentando lhe aplicar uma injeção na veia. Ele achou ter ouvido a voz de tia Vivian. Pediu que parassem. Ele precisava se sentar. Não podiam amarrá-lo deitado de novo, não!

            - Calma, Sr Curry, calma. Ei, uma ajuda aqui com esse cara! - Pronto, ele estava mesmo sendo amarrado de novo. Tratavam-no como se fosse um presidiário. Ele lutou, mas de nada adiantou. Deram-lhe alguma injeção no braço, ele percebeu. Dava para ver a escuridão chegando. Foi quando eles voltaram, aqueles que ele havia visto lá fora no mar. Eles começaram a falar novamente.

            - Compreendo - disse ele. - Não vou permitir que aconteça. Vou para lá. Sei onde é. Eu me lembro...

            Quando acordou, havia uma forte luz artificial. Um quarto de hospital. Ele estava ligado a máquinas. Seu melhor amigo, Jimmy Barnes, estava sentado ao lado da cama. Tentou falar com Jimmy, mas foi cercado pelos médicos e enfermeiras.

            Eles o apalpavam, suas mãos, seus pés, fazendo-lhe perguntas. Mas ele não conseguia se concentrar para dar respostas adequadas. Não parava de ver coisas - imagens fugidias de enfermeiras, serventes, corredores de hospital. O que é isso tudo? Ele soube o nome do médico, Randy Morris, e soube que ele havia dado um beijo na mulher, Deenie, antes de sair de casa. E daí? As idéias surgiam literalmente, pipocando na sua cabeça. Ele não conseguia agüentar. Era como se estivesse meio acordado, meio dormindo, febril, preocupado. Ele estremeceu, tentando desanuviar a cabeça.

            - Ouçam - disse ele. - Estou me esforçando. - Afinal, ele soube o que estava acontecendo, toda essa apalpação, ele havia se afogado e eles queriam ver se havia algum dano cerebral. - Mas não precisam se preocupar. Estou bem. Bem, mesmo. Tenho de sair daqui e fazer as malas. Preciso voltar para casa imediatamente.

            Reservas no avião, encerramento das atividades da companhia...

            O portal, a promessa e seu objetivo, que era absolutamente crucial...

            Mas qual era esse objetivo? Por que precisava voltar para casa? Surgiu mais uma seqüência de imagens: enfermeiras limpando o quarto, alguém que limpava a barra cromada da cama algumas horas antes quando ele estava dormindo. Parem com isso! Preciso voltar ao ponto, ao objetivo total, a... Foi quando percebeu. Ele não conseguia se lembrar do objetivo! Não conseguia se lembrar do que havia visto enquanto estava morto! A história toda, tudo, as pessoas, os lugares, tudo que lhe haviam dito: ele não se lembrava de nada. Não, não podia ser. Tudo havia sido incrivelmente claro.

            E eles contavam com ele. Haviam dito, Michael, você sabe que não precisa voltar, você pode se recusar, e ele havia respondido que não, que ele.., que ele ia fazer o que? Aquilo ia voltar num relance, como um sonho do qual a pessoa se esquece e depois se lembra perfeitamente. Ele se sentou de repente, tirando uma das agulhas do braço e pediu papel e lápis.

            - Precisa ficar deitado sem se mexer.

            - Agora não. Tenho de anotar uma coisa. - Mas não havia nada a anotar! Lembrou-se de estar parado sobre um rochedo, pensando naquele longínquo verão na Flórida, na água morna... Depois, aquele fardo encharcado, frio e dolorido que era ele, na maca.

            Tudo havia sumido.

            Ele fechou os olhos, tentando ignorar o estranho calor nas mãos, e a enfermeira que o empurrava para encostá-lo nos travesseiros. Alguém estava pedindo a Jimmy que saísse do quarto. Jimmy não queria sair. Por que ele estaria vendo todas essas imagens desconhecidas e desconexas - relances de serventes de hospital, o marido da enfermeira, e os nomes, como é que podia saber todos esses nomes?

            - Não me toque desse jeito - disse ele. Era a experiência lá fora, lá no oceano, o que realmente importava.

            De repente, ele tentou agarrar a caneta.

            - Se ficar bem quieto...

            É, uma imagem ao tocar na caneta, imagem da enfermeira que a tirou da gaveta na central do corredor. E o papel, imagem de um homem a colocar o bloco num armário de metal. E a mesinha de cabeceira? Imagem da mulher que a havia limpado pela última vez, com um pano cheio de germes de um outro quarto. E um relance de um homem com um rádio. Alguém que fazia alguma coisa com um rádio.

            E a cama? A última paciente nela, a Sra Ona Patrick, morreu ás onze da manhã de ontem, antes mesmo de ele ter resolvido ir até Ocean Beach. Não. Desligue essa coisa! Relance do seu corpo no necrotério.

            - Não dá para agüentar isso!

            - Qual é o problema, Michael? - perguntou o Dr Morris. - Fale comigo. - Jimmy estava discutindo no corredor. Ele também ouvia a voz de Stacy; Stacy e Jimmy eram seus melhores amigos. Ele tremia.

            - Tudo bem, - disse ele baixinho ao médico. - Falo com o senhor desde que não toque em mim.

            Em desespero, ele levou as mãos à cabeça, passou os dedos pelo próprio cabelo e, com alivio, não sentiu nada. Ia adormecer novamente, pensando que tudo aconteceria como antes, que ela apareceria e ele compreenderia. Mas no instante em que realmente adormeceu, descobriu que não sabia quem era ela.

            Mesmo assim, ele precisava voltar para casa, é, para casa depois de todos esses anos, esses longos anos em que sua terra natal havia se tornado uma espécie de fantasia...

            - De volta ao lugar onde nasci - disse ele, baixinho. Tanta dificuldade para falar agora. Tanto sono. - Se me der mais algum tranqüilizante, juro que vou matá-lo.

            Foi seu amigo, Jimmy, quem lhe trouxe as luvas de couro no dia seguinte. Michael achou que não ia funcionar, mas valia a pena tentar. Seu estado de agitação estava beirando a loucura. Ele já havia falado demais, com gente demais.

            Quando repórteres ligaram direto para o quarto, ele lhes disse apressadamente "o que estava acontecendo". Quando invadiram seu quarto, ele falou sem parar, contando e recontando a história.

            - Não consigo me lembrar! - repetia ele.

            As pessoas lhe davam objetos para tocar; ele lhes dizia o que via.

            - Não significa nada para mim.

            As câmeras disparavam com seus inúmeros sons eletrônicos abafados.

            A equipe do hospital expulsou os repórteres. Michael tinha pavor de tocar até mesmo num garfo ou numa faca. Recusava-se a comer. Funcionários vinham de todos os pontos do hospital para colocar objetos nas suas mãos.

            No chuveiro, ele tocou na parede. Viu de novo a mulher, a que havia falecido. Ela havia ficado três semanas no quarto.

            - Não quero tomar banho - ela havia dito. - Estou doente, vocês não entendem?

            Sua nora a havia forçado a ficar em pé ali. Ele teve de sair do boxe. Sentou-se exausto na cama, enfiando as mãos debaixo do travesseiro. Houve alguns relances de imagens quando ele ajeitou as luvas justas de couro nos dedos. Em seguida, ele esfregou as mãos lentamente, de tal forma que tudo passou a ser um borrão, uma imagem se sobrepondo à outra até tudo perder a definição, e todos os diversos nomes que lhe ocorriam se confundirem em ruído. Depois, o silêncio.

            Devagar, ele apanhou a faca na bandeja do jantar. Ele via alguma coisa, mas era pálida, silenciosa, e desapareceu. Ele apanhou o copo, bebeu o leite. Só um bruxuleio. Certo! As luvas funcionavam. O segredo estava em ser rápido em cada gesto.

            E também em sair daqui! Mas não queriam deixá-lo sair.

            - Não quero fazer tomografia do cérebro - disse ele. - Meu cérebro está ótimo. São as minhas mãos que estão me enlouquecendo.

            No entanto, eles estavam tentando ajudá-lo: o Dr Morris, o chefe dos residentes, seus amigos e sua tia Vivian, que ficava ao seu lado o tempo todo.

            A pedido seu, o Dr Morris havia entrado em contato com o pessoal da ambulância, com a guarda costeira, com a equipe de emergência do hospital, com a comandante do barco que o havia reanimado antes que a guarda costeira a localizasse, qualquer pessoa que pudesse se lembrar dele ter dito algo de importante. Afinal, uma única palavra poderia liberar sua memória. Não havia, porém, nenhuma palavra. A comandante do barco disse que Michael havia resmungado alguma coisa ao abrir os olhos, mas ela não havia conseguido discernir uma palavra específica. Ela achava que começava com L, talvez fosse um nome. E só. A guarda costeira o levou em seguida.

            Na ambulância, ele havia dado um soco. Precisou ser dominado. Mesmo assim, ele desejava poder conversar com todas aquelas pessoas, em especial com a mulher que o reanimara. Ele disse isso à imprensa quando vieram entrevistá-lo.

            Jimmy e Stacy ficavam com ele até tarde todas as noites. Sua tia Vivian vinha sempre pela manhã. Therese afinal veio visitá-lo, tímida, assustada.

            Ela não gostava de hospitais. Não conseguia ficar por perto de gente doente. Ele riu. Isso não era a Califórnia para você, pensou. Imaginem dizer uma coisa dessas. Foi então que agiu por impulso. Arrancou a luva e segurou sua mão.

            Apavorada, não gosto de você, você é o centro das atenções, pare com isso, não acredito que tenha se afogado no mar, ridículo, quero sair daqui, eu, você deveria ter me telefonado.

            - Vá para casa, querida - disse ele.

            Em algum instante, durante as horas de silêncio, uma das enfermeiras enfiou uma caneta prateada na sua mão. Ele dormia profundamente. As luvas estavam em cima da mesa.

            - Diga-me o nome dela - disse a enfermeira.

            - Não sei o nome dela. Estou vendo uma escrivaninha.

            - Procure se esforçar.

            - Uma bela escrivaninha de mogno com um descanso verde.

            - Mas a mulher que usou a caneta?

            - Allison.

            - É. Onde ela está?

            - Não sei.

            - Tente de novo.

            - Digo-lhe que não sei. Ela lhe deu a caneta, e você a pôs na bolsa. Hoje de manhã, você a tirou da bolsa. São só imagens, cenas, não sei onde ela está. Você está num café desenhando no guardanapo com a caneta. Está pensando em me mostrar.

            - Ela morreu, certo?

            - Não sei, já lhe disse. Não vejo nada. Allison, é tudo o que vejo. Ela escreveu uma lista de compras com a caneta, pelo amor de Deus, você quer que lhe diga o que está na lista?

            - Você tem de ver mais do que isso!

            - Pois não estou vendo! - Ele calçou as luvas novamente. Nada iria fazer com que ele as tirasse uma outra vez.

            Ele deixou o hospital no dia seguinte.

            As três semanas subseqüentes foram uma agonia. Dois homens da guarda costeira telefonaram para ele, assim como um dos motoristas da ambulância, mas realmente não tinham nada a dizer que pudesse ser útil. Quanto ao barco que o salvou, a mulher queria ficar fora do assunto. E o Dr Morris lhe havia prometido respeitar sua vontade. Enquanto isso, a guarda costeira admitia para a imprensa não ter registrado o nome da embarcação ou o número do seu registro. Um dos jornais referiu-se a ela como uma lancha cruzeiro. Talvez já estivesse do outro lado do mundo.

            A essa altura, Michael percebeu que havia contado sua história a gente demais. Todas as revistas populares do país queriam conversar com ele. Ele não conseguia absolutamente sair sem que um repórter bloqueasse seu caminho e algum completo desconhecido lhe pusesse uma carteira ou uma fotografia nas suas mãos. Além disso, o telefone não parava de tocar.

            A correspondência ia se empilhando junto a porta e, embora estivesse sempre fazendo as malas para viajar, ele não conseguia realizar o que pretendia. Em vez disso, bebia: cerveja supergelada o dia inteiro, e depois Bourbon quando a cerveja não o entorpecia mais.

            Seus amigos tentavam ser féis. Eles se revezavam para conversar com ele, tentando acalmá-lo, procurando fazer com que deixasse de beber, mas nada adiantava. Stacy até mesmo lia em voz alta para ele porque ele não conseguia ler sozinho. Ele estava deixando todo mundo exausto e sabia disso.

            A verdade era que seu cérebro estava fervilhando. Ele tentava discernir as coisas. Se não conseguisse se lembrar, poderia pelo menos entender tudo isso, essa coisa demolidora, apavorante. Ele sabia, porém, que estava divagando sem parar sobre a "vida e a morte", sobre o que havia acontecido "por lá", sobre como estavam se esfacelando as barreiras entre a vida e a morte na nossa arte popular e na nossa arte séria. Ninguém havia percebido? Os filmes e os romances sempre falam do que anda acontecendo. Basta examiná-los para chegar a essa conclusão. Ora, ele via tudo isso mesmo antes do que lhe havia acontecido.

            Vejam Fanny e Alexander de Bergman. Ora, nele os mortos simplesmente entram andando e conversam com os vivos. E o mesmo aconteceu em Ironweed. Em Gritos e sussurros, os mortos não se levantavam e falavam? E havia alguma comédia em cartaz agora e, quando se consideram os filmes mais leves, a freqüência era ainda maior. Pensem em A Woman in White, com a menininha morta aparecendo no quarto do menino, e havia ainda Julia, em que Mia Farrow é perseguida pela assombração daquela criança em Londres.

            - Michael, você está embriagado.

            - Não são só os filmes de terror, vocês estão entendendo? Está acontecendo em toda a nossa arte. Tomem o livro A White Hotel, algum de vocês o leu? Pois bem, ele passa direto pela morte da heroína até sua vida após a morte. Estou lhes dizendo que algo está prestes a acontecer. As barreiras estão se desfazendo. Eu mesmo conversei com os mortos e voltei; e em algum nível subconsciente todos nós sabemos que essas barreiras estão se rompendo.

            - Michael, você precisa se acalmar. Essa história das suas mãos...

            - Não quero tocar nesse assunto. - Ele se sentia embriagado, porém, isso era forçado a admitir, e pretendia continuar assim. Gostava de se embriagar. Apanhou o telefone para pedir mais um engradado de cerveja.

            Não havia necessidade de tia Viv sair para nada. Além disso, havia todo aquele Glenlivet Scotch guardado. E mais Jack Daniel's. Ora, ele podia se manter bêbedo até morrer. Sem problemas.

            Por fim, acabou fechando a construtora por telefone. Quando tentou trabalhar, os homens lhe disseram sem rodeios que voltasse para casa. Não conseguiam fazer nada com aquela sua conversa interminável. Ele saltava de um assunto para o outro. Depois, apareceu aquele repórter pedindo-lhe que demonstrasse seus poderes para a mulher de Sonoma County. E havia mais uma coisa que o perseguia, também, algo que ele não podia contar a ninguém: ele estava recebendo vagas impressões emocionais das pessoas quer tocasse nelas quer não.

            Parecia ser uma espécie de telepatia solta no ar; e não havia luvas que pudessem inibir sua ação. Ele não recebia informações; tratava-se apenas de fortes impressões de simpatia, antipatia, verdade ou mentira. As vezes ele se envolvia tanto com isso que só via o movimento dos lábios da pessoa. Não ouvia absolutamente nada do que diziam.

            Essa intimidade de alta tensão, se é essa sua denominação mais correta, o alienava profundamente. Ele abdicou de contratos, transferindo tudo no decorrer de uma tarde, certificando-se de que todos os seus empregados continuassem trabalhando, e depois fechou sua pequena loja no Castro que vendia acessórios da era vitoriana.

            Era gostoso ficar em casa, deitado, com as cortinas fechadas, e beber. Tia Viv cantava na cozinha enquanto preparava para ele refeições que ele não queria comer. De vez em quando, ele tentava ler um trecho de David Copperfield, com o objetivo de escapar da sua própria mente. Em todos os piores momentos da sua vida, ele sempre havia se retirado para algum canto remoto para ler David Copperfield. Era mais leve e mais fácil do que Grandes esperanças, sua verdadeira predileção. Mas o único motivo pelo qual ele conseguia acompanhar o livro agora estava no fato de conhecê-lo de cor. Therese foi visitar seu irmão no sul da Califórnia. Ele sabia que era mentira, apesar de não ter tocado no telefone, apenas ouvido a voz na secretária eletrônica. Tudo bem. Adeus.

            Quando sua antiga namorada Elizabeth ligou de Nova York, ele falou com ela até desmaiar de verdade. No dia seguinte de manhã, ela lhe disse que procurasse um psiquiatra. Ameaçou largar o trabalho e vir de avião até San Francisco se ele não concordasse. Ele concordou, mas estava mentindo.

            Não queria confiar em ninguém. Não queria descrever a nova intensidade da sensação. Sem dúvida alguma, não queria falar das suas mãos. Só queria falar das visões, e ninguém queria saber disso. Ninguém queria ouvi-lo discorrer sobre a cortina que separa os vivos dos mortos.

            Depois que tia Viv ia dormir, ele experimentava um pouco seu poder do tato. Ele podia descobrir muito a respeito de um objeto quando se permitia manuseá-lo devagar. Se ele fizesse perguntas a esse seu poder - ou seja, se tentasse direcioná-lo - poderia receber ainda mais. Só que não lhe agradava a sensação daquelas imagens passando velozes pela sua cabeça. E, se havia um motivo para que essa sensitividade lhe tivesse sido concedida, o motivo estava esquecido junto com a visão e o sentido de objetivo relacionado à sua volta à vida.

            Stacy trouxe-lhe alguns livros sobre outros que haviam morrido e voltado. O Dr Morris no hospital lhe havia falado de algumas dessas obras - os clássicos estudos de experiências após a morte de Moody, Rawlings, Sabom e Ring. Lutando contra a embriaguez, a agitação, a total incapacidade de se concentrar mesmo por períodos curtíssimos, ele se forçou a ler alguns desses relatos. É, ele conhecia aquilo! Era tudo verdade. Ele também havia saído do seu corpo, elevando-se no ar, é, e não era nenhum sonho não, mas ele não havia visto uma linda luz. Ele não havia sido recebido por entes queridos já falecidos; e não havia nenhum paraíso etéreo ao qual ele fosse conduzido, repleto de flores e de belas cores. Algo totalmente diferente havia acontecido lá no mar. Era como se ele tivesse sido interceptado, que lhe tivesse sido feito um pedido, que o tivessem forçado a perceber que devia realizar uma tarefa muito difícil, de muita importância.

            Paraíso. O paraíso que ele um dia conheceu estava na cidade em que havia crescido, o lugar quente e agradável que havia deixado aos dezessete anos, aquele velho quadrado de cerca de vinte e cinco quarteirões conhecido em Nova Orleans como Garden District.

            É, foi lá onde tudo começou. Nova Orleans, que ele não via desde o verão em que estava com dezessete anos. Interessante que, ao examinar sua vida, como se supõe que as pessoas que se afogam façam, ele se lembrasse em primeiríssimo lugar daquela noite longínqua, aos seis anos de idade, na qual ele havia descoberto a música clássica na varanda dos fundos da casa da avó, ouvindo um velho rádio de válvulas no crepúsculo perfumado. Maravilhas refulgiam na penumbra. Cigarras assoviavam nas árvores. Seu avô fumava um charuto na escada, e aquela música surgiu, aquela música celestial. Por que ele havia gostado tanto daquela música se ninguém à sua volta gostava?

            Diferente desde o início, era o que era. E a formação da sua mãe não servia de explicação. Para ela, toda música era barulho. No entanto, ele havia adorado tanto a melodia que ficou ali regendo com uma varinha, descrevendo grandes gestos abrangentes na escuridão, cantarolando.

            Era no Irish Channel que eles moravam, gente trabalhadora, os Curry, e seu pai pertencia à terceira geração a ocupar o pequeno chalé duplo naquele longo bairro à beira da água onde tantos irlandeses haviam se instalado. Os antepassados de Michael haviam fugido da grande escassez de batatas, lotando os navios vazios de algodão no seu caminho de volta de Liverpool até o sul dos Estados Unidos em busca da carga mais valiosa.

            Haviam sido jogados no "túmulo pantanoso", aqueles imigrantes famintos, alguns cobertos por trapos, implorando trabalho e morrendo ás centenas de febre amarela, tuberculose e cólera. Os sobreviventes haviam escavado os primeiros canais infestados de mosquitos da cidade. Eles haviam alimentado as fornalhas dos grandes barcos a vapor. Haviam carregado navios de algodão e trabalhado nas ferrovias. Haviam se tornado policiais e bombeiros.

            Era uma gente rude, gente de quem Michael havia herdado sua estrutura forte e sua determinação. O prazer de trabalhar com as mãos tinha sua origem nesses antepassados e acabou prevalecendo apesar de anos de estudo.

            Ele havia crescido ouvindo histórias daqueles tempos remotos, de como os próprios operários irlandeses haviam construído a imensa igreja da paróquia de Santo Afonso, arrastando as pedras do rio, assentando a argamassa, fazendo coletas para adquirir as lindas imagens que vieram da Europa.

            - Nós precisávamos superar os alemães, você entende? Eles estavam construindo a igreja de Santa Maria bem do outro lado da rua. Nada no mundo iria nos forçar a assistir à missa com eles. E era por isso que havia duas magníficas igrejas paroquiais, em vez de apenas uma, com as missas sendo rezadas pelo mesmo corpo de padres todas as manhãs.

            O avô de Michael havia trabalhado como policial no cais do porto, onde seu pai outrora carregava fardos de algodão. Ele levou Michael para ver a chegada dos navios de bananas e os milhares de bananas que eram transportados por esteiras até desaparecerem no armazém, e o alertou para as grandes cobras negras que conseguiam ficar escondidas nos cachos até a hora em que eles eram pendurados para exposição nos mercados.

            O pai de Michael foi bombeiro até o dia em que morreu num incêndio em Tchoupitoulas Street, quando o filho estava com dezessete anos. Esse havia sido o momento decisivo na vida de Michael, já que a essa altura seus avós haviam morrido e sua mãe o levou com ela para a cidade em que havia nascido, San Francisco.

            Nunca surgiu na sua cabeça a menor sombra de dúvida de que a Califórnia havia sido boa para ele. O século XX havia sido bom para ele. Ele era o primeiro daquele velho clã a conseguir completar o nível superior, o primeiro a viver no mundo dos livros, dos quadros ou das boas casas.

            No entanto, mesmo se seu pai não houvesse morrido, a vida de Michael não teria sido uma vida de bombeiro. Havia nele uma inquietação que aparentemente não existia nos seus antepassados.

            Não se tratava apenas da música naquela noite de verão. Era o tipo de adoração que tinha pelos livros desde a época em que aprendeu a ler, como havia devorado Dickens aos nove anos de idade, daí em diante, sempre tendo em alta estima o romance Grandes Esperanças. Anos mais tarde, em San Francisco, ele havia dado à sua querida construtora o mesmo nome: Grandes Esperanças.

            Ele costumava mergulhar em Grandes Esperanças ou David Copperfield na biblioteca da escola onde os outros meninos lhe atiravam bolinhas de papel mascado e ameaçavam espancá-lo se ele não parasse de se fazer de "bobo", o termo usado no Irish Channel para designar alguém que não tivesse o bom senso de ser durão, brutal e desdenhoso para com tudo que desafiasse uma definição imediata.

            No entanto, ninguém jamais deu uma surra em Michael. Ele havia herdado do pai uma maldade saudável, suficiente para castigar quem quer que tentasse. Mesmo na infância, ele era robusto e de uma força extraordinária, um ser humano para quem a atividade física, mesmo a de natureza violenta, era inteiramente natural.

            Ele também gostava de brigar. E as crianças aprenderam a deixá-lo em paz. Além disso, ele aprendeu a esconder seu eu secreto o suficiente para que os colegas lhe perdoassem seus poucos deslizes e em geral gostassem dele.

            E as caminhadas, o que dizer daquelas longas caminhadas que ninguém mais da sua idade dava? Mesmo suas colegas mais tarde nunca entenderam. Rita Mae Dwyer ria dele. Marie Louise dizia que ele era maluco.

            - O que você está querendo, só caminhar?

            No entanto, desde os tempos mais remotos, ele gostava de caminhar, de atravessar Magazine Street, a grande fronteira entre as ruas estreitas e crestadas onde ele havia nascido e as ruas imponentes e silenciosas do Garden District.

            No Garden District, ficavam as mansões mais antigas da parte alta da cidade, cochilando por trás dos seus enormes carvalhos e amplos jardins. Ali, ele passeava em silêncio pelas calçadas de tijolo, com as mãos enfiadas nos bolsos, às vezes assobiando, pensando em um dia ter uma grande casa por aqui. Ele teria uma casa com colunas brancas na fachada e caminhos de lajes. Teria um piano de cauda, como aqueles que via de relance pelas janelas envidraçadas até o chão. Ele teria cortinas de renda e candelabros. E leria Dickens o dia inteiro em alguma biblioteca bem ventilada onde os livros fossem até o teto e as azaléias vermelho sangue aparecessem entorpecidas para lá da grade da varanda.

            Ele não sentia como o herói de Dickens, o jovem Pip, espiando o que sabia que deveria possuir e estando tão longe de algum dia conseguir. Nesse prazer de caminhar, no entanto, ele não estava inteiramente só, pois sua mãe também adorava dar longas caminhadas e talvez tenha sido esse um dos poucos dons significativos que ela lhe transmitiu.

            As casas ela compreendia e amava, da mesma forma que ele sempre amaria. E, quando ele era muito pequeno, ela já o trazia a esse tranqüilo santuário de casas antigas, mostrando-lhe seus locais preferidos, e os gramados amplos e lisos muitas vezes ocultos pelos arbustos de camélias. Ela o havia ensinado a prestar atenção ao canto dos pássaros nos carvalhos, á música de fontes escondidas.

            Havia uma casa sombria que ela adorava e que ele jamais esqueceria, uma longa residência sinistra, com uma enorme buganvília que se derramava sobre suas varandas laterais. Com freqüência, quando passavam por ali, Michael via um homem estranho e solitário parado entre os arbustos altos e descuidados, bem no fundo do jardim abandonado. Ele parecia perdido naquela desordem verde e emaranhada, aquele homem, que se confundia com a folhagem escura com tanta perfeição que um outro transeunte talvez não o percebesse.

            Na realidade, Michael e sua mãe faziam uma brincadeira entre eles naqueles primeiros anos. Ela sempre dizia que não estava vendo nada.

            - Mas ele está ali, mamãe - respondia Michael.

            - Está bem, Michael, diga-me como é que ele é.

            - Bem, ele tem cabelos e olhos castanhos e está muito bem vestido, como se estivesse indo a uma festa. Mas ele está nos observando, e eu acho que não devíamos ficar aqui parados olhando para ele.

            - Michael, não há homem nenhum ali - costumava dizer a mãe.

            - Mamãe, pare de me provocar.

            No entanto, houve uma ocasião em que ela havia visto o homem, sem a menor dúvida, e ela não havia gostado dele. Não foi na casa. Não foi naquele jardim abandonado.

            Foi na época do Natal, quando Michael ainda era muito pequeno, e o enorme presépio acabava de ser instalado ao lado do altar na igreja de Santo Afonso, com o Menino Jesus na manjedoura. Michael e a mãe foram até o altar para se ajoelhar junto à balaustrada. Como eram lindas as imagens em tamanho natural de Maria e José; e do próprio Menino Jesus, sorrindo, com os bracinhos rechonchudos estendidos. Parecia haver por toda parte luzes brilhantes e o suave bruxuleio de velas. A igreja ecoava com o som de pés que se arrastavam e de sussurros abafados.

            Talvez fosse esse o primeiro Natal de que Michael se lembrava. Fosse como fosse, o homem estava lá, em meio às sombras do santuário, olhando em silêncio. Quando viu Michael, ele deu aquele sorrisinho que sempre dava. Suas mãos estavam unidas. Usava terno. O rosto parecia muito calmo. No todo, sua aparência era a mesma de quando estava no jardim em First Street.

            - Olhe, mamãe, ali - disse Michael, imediatamente. - O homem, aquele do jardim.         A mãe de Michael apenas olhou de relance para o homem e afastou o olhar, temerosa.

            - Pois não fique olhando para ele - disse ela baixinho no ouvido de Michael.

            Quando saíram da igreja, ela se voltou para olhar mais uma vez.

            - Aquele e o homem do jardim, mamãe.

            - Do que é que você está falando? - perguntou ela. - De que jardim?

            Da próxima vez que passaram por First Street, ele viu o homem e tentou avisar a mãe. Mas, novamente, ela entrou na brincadeira. Provocou-o, dizendo que não havia homem nenhum. Eles riram. Estava certo. Aquilo não pareceu ter muita importância na época, apesar de ele nunca ter esquecido.

            Era muito mais significativo o fato de Michael e sua mãe serem grandes amigos, de se divertirem tanto juntos.

            Alguns anos mais tarde, a mãe de Michael transmitiu-lhe mais um dom, o de gostar dos filmes que ela o levava para ver no centro da cidade no Civic Theater. Eles iam de bonde aos sábados para ver as matinês. Coisa de maricas, dizia Mike, o pai. Ninguém o arrastava para ver aquelas maluquices. Michael sabia que o melhor era não responder e, com o passar do tempo, ele descobriu um jeito de sorrir e dar de ombros de tal modo que o pai o deixava em paz e também deixava em paz sua mãe, o que significava ainda mais para ele.

            Além do mais, nada iria apagar aquelas tardes especiais de sábado, porque os filmes estrangeiros eram como portais para um outro mundo, e eles enchiam Michael com uma angústia e uma felicidade indescritíveis.

            Ele nunca se esqueceu de Rebecca, Sapatinhos vermelhos, Os contos de Hoffman e de um filme da Itália da ópera Aída. Havia também a maravilhosa história do pianista intitulada A Song to Remember. Ele adorou César e Cleópatra com Claude Rains e Vivien Leigh. E The Late George Apley, com Ronald Colman, que tinha a mais bela voz que Michael jamais ouviu num homem.

            Era frustrante que ele ás vezes não entendesse esses filmes, que às vezes ele nem conseguisse acompanhá-los. Invariavelmente as legendas passavam velozes demais para ele ler; e nos filmes británicos, os atores falavam rápido demais para ele entender seu sotaque acentuado.

            As vezes, sua mãe lhe explicava alguma coisa no caminho de casa. No bonde, passavam direto pelo seu ponto e seguiam até Carrolton Avenue na parte alta da cidade. Era um bom lugar para ficarem sozinhos. Havia, ainda, a serem vistas as residências palacianas daquela rua, mais recentes, muitas vezes de mau gosto, construídas após a guerra de secessão, não tão bonitas quanto as casas mais velhas do Garden District, mas mesmo assim suntuosas e infinitamente interessantes.

            Ah, a dor surda desses passeios sossegados, de querer tanto e entender tão pouco. Ele de vez em quando apanhava flores das extremosas pela janela aberta do bonde. Sonhava que era Maxim de Winter. Queria saber os nomes das obras clássicas que ouvia no rádio e que adorava. Queria ser capaz de entender as palavras estrangeiras ininteligíveis pronunciadas pelos locutores, e de se lembrar delas.

            E por estranho que fosse, nos velhos filmes de terror no sujo Happy Hour Theater em Magazine treet, na sua própria vizinhança, ele muitas vezes vislumbrava aquele mesmo mundo elegante seus habitantes. Eram as mesmas bibliotecas de lambris, as lareiras arqueadas, os homens de jaqueta e graciosas mulheres de voz suave, tudo isso ao lado do monstro de Frankenstein ou da filha do Drácula. O Dr Van Helsing era homem elegantíssimo; e havia também o próprio Claude Rains, que aparecera como César no cinema do centro e agora tagarelava como louco em O homem invisível.

            Por mais que se esforçasse para que isso não acontecesse, Michael veio a detestar o Irish Channel. Ele adorava sua família. E até que gostava dos amigos. Mas odiava as casas geminadas, vinte em cada quarteirão, com minúsculos pátios na frente e cercas baixas de estacas, o bar da esquina com a vitrola automática tocando no salão dos fundos e a porta de tela sempre batendo, e as mulheres gordas de vestido florido, surrando seus filhos com cintos ou com as próprias mãos no meio da rua.

            Ele odiava as multidões que faziam compras em Magazine Street no final da tarde de sábado. A sua impressão era a de que as crianças estavam sempre com o rosto sujo e as roupas imundas. As vendedoras nas lojas de produtos baratíssimos eram grosseiras. A calçada fedia a cerveja podre. Havia um cheiro desagradável nos velhos apartamentos enfileirados acima das lojas onde moravam alguns dos seus amigos, os mais desafortunados. Havia o mesmo cheiro nas velhas sapatarias e nas lojas de conserto de rádios. Ele estava também no Happy Hour Theater. A catinga de Magazine Street. O tapete nas escadas desses velhos prédios dava a impressão de trapos. Uma camada de sujeira recobria tudo. Sua mãe não ia a Magazine Street nem para comprar um carretel de linha. Ela atravessava o Garden District, apanhava o bonde de St. Charles na avenida e descia até Canal Street.

            Michael tinha vergonha desse ódio. Sentia a mesma vergonha que Pip sentia de um ódio semelhante em Grandes esperanças. No entanto, quanto mais aprendia e quanto mais via, mais crescia dentro dele o desdém. E eram as pessoas, sempre as pessoas, que o deixavam mais desconcertado. Ele sentia vergonha do sotaque forte que denunciava a origem do Irish Channel, um sotaque, ao que se dizia, semelhante ao do Brooklyn, de Boston ou de qualquer lugar de assentamento de irlandeses e alemães.

            - Nós sabemos que você é da Escola Redentorista - costumavam dizer os meninos da cidade alta. -Dá para ver pelo seu jeito de falar. - A intenção das suas palavras era desdenhosa.

            Michael não gostava nem mesmo das freiras, aquelas irmãs grosseiras e de voz grave que espancavam os meninos à vontade, que os sacudiam e os humilhavam quando bem entendiam.

            Na realidade, ele as detestava especificamente por algo que haviam feito quando ele estava com seis anos de idade. Um garotinho, um "bagunceiro", foi arrastado da sala dos meninos da primeira série e levado até a sala da primeira série na escola feminina. Só mais tarde a turma descobriu que o menino havia sido forçado a ficar em pé dentro da lata do lixo, chorando e vermelho de vergonha, diante de todas as meninas. As freiras não paravam de lhe dar empurrões e safanões, mandando que ele entrasse na lata do lixo.

            As alunas ficaram olhando e depois contaram para os meninos. Isso deixou Michael paralisado. Ele sentia um pavor obstinado e indescritível de que algo semelhante acontecesse com ele. Porque sabia que nunca iria permitir. Ele se rebelaria, e seu pai depois lhe daria uma surra de chicote, uma violência que sempre ficava nas ameaças sem chegar a se realizar a não ser por umas duas lambadas com uma correia. Na realidade, toda a violência que ele sempre ressentia em ebulição ao seu redor- no pai, no avô, em todos os homens que conhecia - poderia surgir, como o caos, sugando-o para dentro dela. Quantas vezes ele havia visto crianças conhecidas sendo açoitadas? Quantas vezes havia ouvido as piadas frias e irônicas que seu pai contava sobre as surras de chicote que seu pai lhe havia dado?

            Michael temia isso com um medo apavorante, paralisante, inexprimível. Temia a intimidade perversa e catastrófica de ser espancado, de levar uma surra. Por isso, apesar de sua agitação física e de sua teimosia, ele se tornou um anjo na escola muito antes de descobrir que precisava aprender se quisesse realizar seus sonhos. Ele era o menino comportado, o que sempre fazia o trabalho de casa. O medo da ignorância, da violência, da humilhação o motivava tanto quanto suas ambições posteriores.

            No entanto, por que esses elementos não motivavam ninguém mais ao seu redor? Ele nunca soube o motivo, mas em retrospectiva não restava dúvida quanto ao fato de ele ser desde o início uma pessoa extremamente adaptável. Era esse o segredo. Ele aprendia a partir do que via, e mudava de acordo com isso.

            Nem seu pai, nem sua mãe possuíam essa maleabilidade. Sua mãe era paciente, sim, e refreava a revolta que lhe provocavam os costumes dos que a cercavam. No entanto, ela não tinha sonhos, não tinha grandes planos, nenhuma verdadeira força criativa. Ela nunca mudou. Nunca fez nada de mais.

            Quanto ao pai de Michael, ele era um homem impetuoso e adorável, um corajoso bombeiro com muitas condecorações. Morreu tentando salvar vidas. Era essa a sua natureza. Fazia também parte dessa natureza recuar diante daquilo que não soubesse ou não entendesse. Uma profunda vaidade o tornava "pequeno" diante daquelas pessoas bem instruídas.

            - Faça o dever de casa - costumava ele dizer porque isso era o que se esperava que dissesse. Jamais lhe passou pela cabeça que Michael estivesse extraindo tudo o que podia da escola paroquial; que nas salas de aula superlotadas, com as freiras cansadas, exaustas, Michael estivesse realmente adquirindo uma boa formação.

            Pois, por piores que fossem as condições, as freiras ensinavam as crianças a ler e a escrever muito bem. Mesmo que tivessem de bater nelas para obter o resultado. Elas ensinavam ás crianças uma caligrafia bem-feita, uma ortografia correta, as tabuadas. Até mesmo latim, história e alguma literatura.

            Elas mantinham a ordem entre os brigões. E embora Michael nunca deixasse de odiá-las, ele tinha de admitir que de vez em quando elas falavam, cada uma com seu próprio estilo simples, do aspecto espiritual, de viver uma vida que tivesse sentido.

            Quando Michael estava com onze anos, três acontecimentos exerceram um impacto dramático na sua vida. O primeiro foi uma visita da sua tia Vivian, de San Francisco, e o segundo uma descoberta acidental na biblioteca pública.

            A visita da tia Vivian foi curta. A irmã da sua mãe chegou à cidade de trem. Foram recebê-la na Union Station. Ela ficou hospedada no Pontchartrain Hotel em St. Charles e, na noite seguinte à sua chegada, ela convidou Michael, sua mãe e seu pai para virem jantar com ela no Caribbean Room.

            Esse era um sofisticado restaurante no Pontchartrain Hotel. O pai de Michael não quis ir. Não ia entrar num lugar desses. Além do mais, seu terno estava na lavanderia. Michael foi. O homenzinho, todo enfatiotado, caminhando pelo Garden District com a mãe.

            O Caribbean Room o impressionou. Era um mundo etéreo, quase silencioso, de luz de velas, toalhas de mesa brancas e garçons que lembravam fantasmas ou, melhor ainda, que lembravam os vampiros dos filmes de terror, com seus paletós pretos e camisas brancas engomadas.

            A verdadeira revelação foi, porém, a de que a mãe de Michael e sua irmã estavam perfeitamente á vontade nesse lugar, rindo baixinho enquanto conversavam, perguntando um detalhe ou outro acerca da sopa de tartaruga, do xerez, do vinho branco que ia acompanhar a refeição.

            Isso fez surgir em Michael um respeito maior pela mãe. Ela não era uma mulher que fingia ser fina. Ela realmente estava acostumada a esse estilo de vida. E ele agora compreendia por que ela ás vezes chorava e dizia querer voltar para casa em San Francisco.

            Depois que a irmã foi embora, ela ficou doente alguns dias. Ficou de cama, recusando-se a aceitar qualquer coisa que não fosse vinho, que chamava de seu remédio. Michael ficou sentado ao seu lado, lendo para ela de vez em quando, ficando assustado quando ela não dizia nada por uma hora inteira. Ela melhorou. Levantou-se, e a vida continuou.

            Michael, porém, pensava com freqüência naquele jantar, no jeito natural e tranqüilo das duas mulheres. Muitas vezes, ele passava pelo Pontchartrain Hotel. Olhava com uma inveja muda as pessoas bem vestidas paradas do lado de fora, debaixo do toldo, esperando por táxis ou limusines. Não seria apenas uma avidez sua querer viver naquele mundo? Toda aquela beleza não seria espiritual? Ele se intrigava com tantas coisas. Transbordava de desejo de aprender, de compreender, de possuir. No entanto, acabava na loja vizinha, Smith's Drugstore, lendo histórias de terror em quadrinhos.

            Foi quando aconteceu a descoberta acidental na biblioteca. Só há bem pouco tempo ele ouvira falar na biblioteca pública, e a descoberta acidental ocorreu em etapas.

            Michael estava na sala de leitura infantil, perambulando à procura de algum livro fácil e divertido para ler quando de repente viu, aberto em exposição no alto de uma estante, um novo livro de capa dura sobre o jogo do xadrez: um livro que ensinava a jogar.

            Ora, Michael sempre havia considerado o xadrez algo altamente fantástico. Não saberia, no entanto, dizer como sabia da sua existência. Nunca havia visto um tabuleiro de xadrez na vida real. Ele apanhou o livro emprestado, levou-o para casa e começou a lê-lo. O pai viu e riu. Ele sabia jogar xadrez, jogava o tempo todo no quartel dos bombeiros. Não se podia aprender o jogo num livro. Era uma idiotice.

            Michael afirmou que ia aprender com o livro, que estava aprendendo.

            - Tudo bem - disse o pai. - Você aprende, e depois eu jogo com você. Isso era maravilhoso. Mais uma pessoa que sabia jogar. Talvez até comprassem um tabuleiro.          Michael terminou o livro em menos de uma semana. Já sabia jogar xadrez. Durante uma hora, ele respondeu todas as perguntas que o pai lhe fez.

            - Ora - disse o pai. - Não dá para acreditar, mas você sabe jogar xadrez. Tudo o que precisa é de um tabuleiro. - O pai foi ao centro da cidade. Ao voltar para casa, trazia um tabuleiro de xadrez que superava todas as fantasias de Michael. Ele não era composto de símbolos (a cabeça do cavalo, o castelo, o barrete do bispo), mas de figuras perfeitamente delineadas. O cavaleiro estava montado num cavalo com as patas dianteiras erguidas; o bispo tinha as mãos como se estivesse orando. A rainha tinha os cabelos compridos por baixo da coroa. A torre era um castelo sobre o lombo de um elefante.

            É claro que era de plástico. Havia sido comprado na loja de departamentos D. H. Holmes, mas era tão mais bonito do que qualquer coisa mostrada no livro sobre xadrez que Michael ficou encantado. Não importava que o pai chamasse o cavalo de "meu cavaleiro". Estavam jogando xadrez. E daí em diante passaram a jogar com freqüência.

            A grande descoberta acidental, no entanto, não estava no fato de o pai de Michael saber jogar xadrez ou de ter a generosidade de comprar um jogo tão bonito. Tudo isso estava muito bem. E é claro que o jogo reuniu pai e filho. Mas a grande descoberta acidental foi a de que Michael podia absorver nos livros algo além das histórias... que eles podiam conduzi-lo a algo diferente de desejos e sonhos dolorosos.

            Ele havia aprendido num livro algo que outros acreditavam somente ser possível aprender fazendo, na prática.

            Depois disso, ele se tornou mais corajoso na biblioteca. Conversava com as bibliotecárias na recepção. Descobriu a existência do "índice de assuntos". E de uma forma aleatória e obsessiva, começou a pesquisar todo um leque de assuntos.

            O primeiro foi o dos automóveis. Encontrou na biblioteca muitos livros sobre automóveis. Com os livros aprendeu tudo sobre os motores e tudo sobre as marcas dos carros. E aos poucos deixou o pai e o avô deslumbrados com seus conhecimentos.

            Em seguida, procurou bombeiros e incêndios no índice. Leu a história das companhias que se formaram nas grandes cidades. Leu sobre os carros de bombeiros e os caminhões especiais com escadas, e sobre como eram construídos. Leu sobre os grandes incêndios da história, como o de Chicago e o incêndio de Triangle Factory, e mais uma vez pôde conversar sobre tudo isso com o pai e o avô.

            Michael vibrava. Sentia agora que tinha um poder imenso. E seguiu em frente com seus planos secretos, que não confiou a ninguém. A música foi seu primeiro tema secreto.

            Escolheu os livros mais infantis primeiro, já que o assunto era difícil, e depois passou para as histórias ilustradas para jovens que lhe contaram tudo sobre o a genialidade precoce de Mozart, o pobre Beethoven surdo e o louco Paganini que havia supostamente vendido a alma ao demônio. Aprendeu as definições de sinfonia, concerto e sonata. Aprendeu a teoria da pauta musical, das mínimas, semínimas, dos tons maiores e menores. Aprendeu o nome de todos os instrumentos sinfônicos.

            Desse ponto, passou para as casas. E num piscar de olhos, já compreendia o estilo da Renascença grega, os estilos italianos e o estilo vitoriano recente, bem como o que distinguia esses diversos tipos de construção. Aprendeu a identificar as colunas dóricas e as coríntias, a detectar as casas de corredor lateral e os chalés reformados. Com seus novos conhecimentos, ele perambulava pelo Garden District, com seu amor pelo que via aprofundado e ampliado em silêncio.

            Ah, ele havia tirado a sorte grande. Não havia mais motivo para permanecer confuso. Ele podia "fazer consultas" sobre qualquer assunto. Nas tardes de sábado, ele passava os olhos por dezenas de livros sobre arte, arquitetura, mitologia grega, ciência. Ele lia até mesmo livros sobre a pintura moderna, a ópera e o balé, que o deixavam envergonhado e receoso de que seu pai pudesse espiá-lo por trás e debochar dele.

            O terceiro fato ocorrido nesse ano foi um concerto no Municipal Auditorium. O pai de Michael, como muitos bombeiros, fazia serviços avulsos nas horas de folga. Naquele ano, ele estava operando o balcão que vendia água gaseificada no auditório, e Michael foi com ele uma das noites para ajudá-lo. Naquela noite ele teria aula e, por isso, não deveria ter ido, mas quis ir. Ele queria ver o Municipal Auditorium e o que acontecia lá dentro,e sua mãe concordou.

            Durante a primeira parte do programa, antes do intervalo durante o qual Michael teria de ajudar o pai e depois do qual eles arrumariam tudo para voltar para casa, Michael entrou e subiu até a parte mais alta da platéia, onde os lugares estavam vazios. Ficou ali sentado para ver como seria o concerto. Isso lhe lembrou os estudantes em Sapatinhos vermelhos, na verdade, os estudantes na galeria, esperando ali em cima com tanta ansiedade. E efetivamente o auditório começou a se encher de gente vestida com esmero - os moradores da cidade alta de Nova Orleans - e a orquestra se reuniu para as afinações no poço. Até mesmo o estranho homem magro de First Street estava lá.       Michael o viu de relance lá embaixo, com o rosto voltado para cima, como se realmente conseguisse ver Michael tão longe na última fileira. O que se seguiu deixou Michael arrebatado. Isaac Stern, o grande violinista, tocou naquela noite, e foi o Concerto para Violino e Orquestra de Beethoven, uma das obras de eloqüência mais simples e de beleza mais violenta que Michael jamais tinha ouvido. Nem por uma única vez a música o deixou confuso. Nem por uma única vez a música o excluiu.

            Muito depois do concerto estar terminado, ele ainda conseguia assoviar a melodia principal, lembrando-se, enquanto assoviava, do som imenso, doce e sensual da orquestra inteira e das notas finas e comoventes que vinham do violino de Isaac Stern.

            No entanto, a vida de Michael ficou envenenada pelo anseio despertado nele por essa experiência. Na verdade, ele sentiu nos dias que se seguiram talvez a pior insatisfação com seu mundo que jamais havia experimentado. Não deixou, porém, que ninguém percebesse. Manteve o sentimento trancado no seu íntimo, da mesma forma que mantinha em segredo seu conhecimento dos assuntos que estudava na biblioteca. Ele temia o esnobismo que crescia nele mesmo, o desprezo que sabia poder sentir por aqueles que amava se deixasse um sentimento desses ganhar vida.

            E Michael não podia suportar a idéia de não amar a família. Não tolerava ter vergonha deles. Não admitia a mesquinhez e a ingratidão de uma atitude dessas.

            Ele podia detestar as pessoas do quarteirão. Tudo bem. Mas precisava amar aqueles que viviam sob o mesmo teto, ser leal a eles e se manter em harmonia com eles.

            Era razoável e natural que devotasse amor á sua avó trabalhadora, que sempre tinha repolho e presunto borbulhando no fogão quando ele chegava. Ela parecia ter passado a vida cozinhando, passando ou pendurando roupas no quintal com sua cesta de vime.

            Ele também amava seu avô, um homem pequeno com minúsculos olhos pretos que estava sempre na escada da frente á espera de que Michael chegasse da escola. Ele sabia histórias fantásticas sobre os tempos de outrora, e Michael nunca se cansava delas.

            Depois, havia o pai, o bombeiro, o herói. Como Michael poderia não admirar esse homem? Muitas vezes Michael ia até o quartel dos bombeiros em Washington Avenue para vê-lo. Ele ficava por ali sentado, como se fizesse parte da turma, morrendo de vontade de ir com eles quando chegava um aviso de incêndio, mas sempre sendo proibido de acompanhá-los. Ele adorava ver o caminhão, saindo a toda velocidade, ouvir as sirenes e os sinos.

            Não importava que convivesse com o pavor de um dia talvez ter de ser bombeiro. Bombeiro e nada mais. Morando numa casinha geminada, com todos os cômodos em linha reta.

            Como sua mãe conseguia gostar dessas pessoas já era uma outra história, que Michael não entendia perfeitamente. Ele se esforçava a cada dia para abrandar aquela sua tristeza muda. Era seu amigo mais íntimo e único. Mas nada poderia salvar sua mãe, e ele sabia disso. Ela era uma alma perdida aqui no Irish Channel, uma mulher que falava melhor e se vestia melhor do que os que a cercavam, que implorava para poder voltar a trabalhar como vendedora numa loja de departamentos e que sempre recebia uma resposta negativa.

            Uma mulher que vivia para seus romances em brochura até tarde da noite - livros de John Dickson Carr, Daphne Du Maurier e Frances Parkinson Keyes - sentada no sofá da sala de estar, usando apenas uma combinação, com aquele calor, quando todos os outros já estavam dormindo, bebendo vinho bem devagar e com cuidado de uma garrafa embrulhada em papel pardo.

            - Miss San Francisco - era como meu pai a chamava. - Minha mãe faz todo o serviço para você, sabia? - Costumava ele dizer. Fixava os olhos nela com total desprezo nas pouquíssimas ocasiões em que ela bebia demais e sua voz ficava pastosa. No entanto, nunca fazia nada para impedir que ela bebesse. Afinal, era raro que ela ficasse assim tão mal. Era só a idéia de uma mulher ali sentada, bebendo como um homem, direto da garrafa a noite inteira. Michael sabia que era isso o que o pai pensava. Ninguém precisou lhe dizer.

            E podia ser que o pai de Michael tivesse medo de que ela fosse embora se ele tentasse mandar nela ou controlá-la. Ele sentia orgulho da sua beleza, do seu corpo esbelto e até mesmo do seu jeito elegante de falar. Ele chegava a comprar vinho para ela de vez em quando, garrafas de porto e xerez que ele próprio detestava.

            - Bebida doce e grudenta para mulheres - dizia ele a Michael. Mas aquilo era também o que bebiam os viciados em vinho, e Michael sabia.

            Será que a mãe odiava o pai? Michael nunca chegou a saber de verdade.

            Em algum ponto da sua infância, ele soube que a mãe era oito anos mais velha do que o pai. A diferença, no entanto, não era aparente. O pai era um belo homem, e a mãe parecia ter essa opinião. Ela era gentil com o marido a maior parte do tempo, mas na verdade ela era gentil com todo mundo. Mesmo assim, nada neste mundo ia fazer com que ela engravidasse de novo, insistia ela. E havia brigas, terríveis brigas abafadas por trás da única porta trancada na pequena casa sem corredor, a porta do quarto dos fundos.

            Havia uma história a respeito do seu pai e da sua mãe, mas Michael nunca soube se era verdade. Foi sua tia quem lhe contou a história depois do falecimento da mãe. Seus pais haviam se conhecido em San Francisco, perto do final da guerra, enquanto seu pai servia na marinha, e o pai tinha uma bela aparência de uniforme e, naquela época, tinha um encanto que realmente conquistava as moças.

            - Ele se parecia com você, Mike - disse-lhe a tia anos mais tarde. - Cabelos pretos, olhos azuis e uns brações, igualzinho a você. E você se lembra da voz do seu pai, uma linda voz, grave e suave. Mesmo com aquele sotaque do Irish Channel.

            Foi assim que a mãe de Michael sentiu uma queda por ele. E, quando ele voltou a embarcar, mandou lindas cartas poéticas para ela, cortejando-a e partindo seu coração. Só que as cartas não haviam sido escritas pelo pai de Michael. Elas haviam sido escritas pelo seu melhor amigo, um homem instruído que servia no mesmo navio, que colocava as metáforas e as citações dos livros. E a mãe de Michael nunca desconfiou.

            Na realidade, ela se apaixonou por aquelas cartas. E, ao descobrir estar grávida de Michael, ela foi para o sul confiando no que diziam as cartas, sendo imediatamente recebida pela família simples e de bom coração, que logo deu inicio aos preparativos para o casamento na igreja de Santo Afonso e o realizou assim que o pai de Michael conseguiu uma licença.

            Que choque deveria ter sido para ela, a pequena rua nua de árvores, a casa minúscula com um aposento dando para o outro, e a sogra que servia os homens como escrava e nunca se sentava à mesa para jantar.

            A tia de Michael disse que seu pai um dia confessou à sua mãe a história das cartas quando Michael ainda era um bebê, e que sua mãe ficou furiosa, tentou matar o marido e queimou todas as cartas no quintal. Depois, ela se acalmou e procurou consertar o casamento. Ali estava ela com um filho pequeno. Já passava dos trinta anos. Seu pai e sua mãe, mortos. Tinha apenas um irmão e uma irmã em San Francisco, e não tinha escolha a não ser a de ficar com o pai da criança. Além do mais, os Curry não eram más pessoas.

            Ela amava em especial sua sogra por tê-la abrigado quando estava grávida. E essa parte - a do amor entre as duas mulheres - Michael sabia ser verdadeira, porque a mãe de Michael cuidou da velha durante a doença que a levou. Seus dois avós faleceram no ano em que Michael entrou para o segundo grau: sua avó, na primavera, e o avo, dois meses depois. E, embora muitos tios e tias houvessem morrido ao longo dos anos, esses foram os primeiros enterros a que Michael compareceu, e ficariam para sempre gravados na sua memória.

            Foram cerimônias absolutamente deslumbrantes, com todos os acessórios sofisticados que Michael adorava. Na verdade, ele ficou profundamente perturbado ao observar que os apetrechos de Lonigan and Sons, a casa funerária, as limusines com seu estofamento de veludo cinza e até mesmo as flores e a elegância dos trajes dos que carregavam o féretro pareciam estar relacionados com a atmosfera dos filmes refinados que Michael tanto valorizava. Aqui havia homens e mulheres de voz delicada, belos tapetes e mobília entalhada, uma variedade de cores e texturas, o perfume de rosas e lírios e as pessoas refreando sua mesquinhez natural e seu jeito grosseiro.

            Era como se, quando a pessoa morresse, fosse para o universo de Rebecca, dos Sapatinhos vermelhos ou de A Song to Remember. Você tinha direito a coisas lindas nos seus dois últimos dias antes de ser enterrado. Era uma associação que o deixou intrigado por horas a fio. Quando ele viu A noiva de Frankenstein pela segunda vez no Happy Hour em Magazine Street, ficou só observando as belas casas do filme, ouvindo a melodia das vozes e examinando os trajes mais do que qualquer outra coisa. Ele sentia vontade de um dia poder falar a respeito disso com alguém mas, quando tentou contar a sua namorada, Marie Louise, ela não entendeu do que ele estava falando. Ela achava idiota freqüentar a biblioteca. Recusava -se a assistir filmes estrangeiros. Michael viu nos seus olhos o que havia visto tantas vezes no olhar do pai. Não era medo do desconhecido. Era repulsa. E ele não queria ser repulsivo.

            Além do mais, ele agora estava no segundo grau. Tudo estava em transformação. As vezes ele receava que essa fosse a época em que se esperava que seus sonhos morressem e que o mundo real o dominasse. Aparentemente, outras pessoas tinham essa sensação. O pai de Marie Louise estava uma noite sentado na escada da frente e o encarou com frieza.

            - O que o faz pensar que você vai para a universidade? Seu pai tem dinheiro para Loyola? - Ele cuspiu na calçada e olhou para Michael da cabeça aos pés. Ali, mais uma vez, havia repulsa. Michael deu de ombros. Naquela época não havia faculdade pública em Nova Orleans.

            - Talvez eu vá para a LSU em Baton Rouge - disse. - De repente posso conseguir uma bolsa.

            - Bobagem! - resmungou o homem entre dentes. - Por que você não tenta ser a metade do bombeiro que seu pai é? E talvez essas pessoas todas tivessem razão e já fosse hora de pensar em outras coisas. Michael estava com quase um metro e oitenta, uma altura extraordinária para alguém criado no Irish Channel e a maior registrada no seu lado da família Curry. Seu pai comprou um velho Packard e o ensinou a dirigir em uma semana. Ele conseguiu, então, um emprego de meio - expediente entregando flores para uma floricultura de St. Charles Avenue. Foi, porém, somente no segundo ano que suas antigas idéias começaram a ceder lugar, que ele próprio começou a se esquecer das suas ambições. Ele se esforçou para jogar futebol, conseguiu ser titular e, de repente, ele estava lá no campo do estádio de City Park, ouvindo os berros da torcida.

            - Derrubado por Michael Curry - diziam os alto-falantes.

            Marie Louise disse-lhe pelo telefone com uma voz de entrega que, por ela, ele era

quem mandava, que com ele ela faria "qualquer coisa". Esses foram os bons tempos da Escola Redentorista, aquela que sempre foi a escola de brancos mais pobre da cidade de Nova Orleans. Uma nova diretora havia chegado. Ela subia num banco no pátio da escola e gritava num microfone para incentivar os garotos antes dos jogos! Ela mandava torcidas enormes para o estádio de City Park. Logo, havia quantidades de alunos recolhendo moedas de um quarto de dólar para a construção de um ginásio, e o time da escola fazia pequenos milagres. Ele vencia jogo após jogo, aparentemente pela simples força de vontade, fazendo aqueles pontos mesmo quando o oponente estava jogando melhor.

            Michael ainda lia seus livros, mas naquele ano as partidas foram o verdadeiro foco da sua vida emocional. O futebol era perfeito para sua agressividade, sua força, até para sua frustração. Ele era um dos astros da escola. Ele sentia o olhar das garotas quando entrava na igreja para a missa das oito todos os dias de manhã.

            E então o sonho se realizou. A Redentorista ganhou o campeonato municipal. Os oprimidos haviam conseguido, os garotos do outro lado de Magazine Street, os que falavam daquele jeito diferente de tal modo que todos sabiam que eles vinham do Irish Channel.

            Até mesmo o Times-Picayune estava cheio de elogios extasiados. A campanha para a construção do ginásio estava a toda, e Marie Louise e Michael "foram até o fim" e depois passaram por dias de agonia enquanto esperavam para ver se Marie Louise estava grávida.

            Michael poderia ter perdido tudo nessa época. Ele não queria saber de mais nada a não ser de fazer gols, de ficar com Marie Louise e de ganhar dinheiro para poder sair com ela de carro. No dia da Terça feira gorda ele e Marie Louise, vestidos de piratas, foram até o French Quarter, beberam cerveja e ficaram abraçados namorando num banco em Jackson Square.

            A medida que o verão ia chegando, ela falava cada vez mais em casamento. Michael não sabia o que fazer. Ele achava que devia ficar com Marie Louise, mas não conseguia conversar com ela. Ela detestava os filmes que ele a levava a ver: Lust for Life, Marty ou On the Waterfront. E, quando ele falava em ir para a universidade, ela dizia que ele estava sonhando.

            Veio então o inverno do último ano de segundo grau de Michael. O frio era intenso, e Nova Orleans teve sua primeira nevasca em cem anos. Quando as escolas liberaram os alunos cedo, Michael foi sozinho caminhar pelo Garden District, com suas belas árvores cobertas de branco, a observar a neve macia e silenciosa que caía ao seu redor. Ele não quis dividir esse momento com Marie Louise. Em vez disso, compartilhou-o com as casas e as árvores que adorava, maravilhado diante do espetáculo das grades de ferro fundido e das varandas enfeitadas com a neve.

            Crianças brincavam nas ruas. Os carros vinham devagar sobre o gelo, derrapando perigosamente nas esquinas. Por horas a fio, o lindo tapete de neve permaneceu no chão. Michael voltou afinal para casa, com as mãos tão frias que mal pôde girar a chave na fechadura. Encontrou a mãe chorando. Seu pai havia morrido num incêndio num armazém às três da tarde. Na hora, estava tentando salvar um outro bombeiro.

            Estava tudo acabado para Michael e a mãe no Irish Channel. Antes do final de maio, a casa de Annunciation Street estava vendida. E uma hora depois de receber seu diploma do segundo grau diante do altar da igreja de Santo Afonso, ele e a mãe estavam num ônibus dirigindo-se para a Califórnia.

            Agora Michael iria ter acesso a "coisas boas", iria para a faculdade e teria contato com gente que falava um inglês decente. Tudo isso acabou se realizando. Sua tia Vivian morava num apartamento bonito que dava para o Golden Gate Park, cheio de móveis escuros e quadros a óleo de verdade. Eles ficaram com ela até conseguir um lugar para eles a alguns quarteirões dali. Michael imediatamente se inscreveu para fazer o primeiro ano na universidade estadual, com o dinheiro do seguro do pai cobrindo tudo.

            Michael adorou San Francisco. É verdade que sempre fazia frio, ventava muito e que a cidade era árida. Mesmo assim, ele gostava das cores sombrias da cidade, que lhe davam uma impressão diferente, os ocres, os verdes oliva, os escuros vermelhos romanos e os cinzas profundos. As grandes e rebuscadas casas vitorianas lembravam-lhe aquelas belas mansões de Nova Orleans.

            Por estar fazendo cursos de verão no prédio central da faculdade estadual, a fim de corrigir suas falhas em matemática e ciências, ele praticamente não tinha tempo para sentir saudade de casa, para pensar em Marie Louise ou em qualquer outra garota. Quando não estava estudando, ele se ocupava tentando compreender as coisas - como San Francisco funcionava, o que a tornava tão diferente de Nova Orleans.

            A imensa classe inferior á qual ele pertencia em Nova Orleans parecia não existir nessa cidade, na qual até mesmo os policiais e os bombeiros falavam bem, vestiam-se bem e moravam em casas caríssimas. Era impossível saber de que parte da cidade uma pessoa era. As próprias calçadas eram surpreendentemente limpas, e um ar de moderação parecia afetar até mesmo as conversas mais curtas entre as pessoas.

            Quando ia a Golden Gate Park, Michael ficava pasmo com a natureza das pessoas, o fato de elas parecerem acrescentar beleza à paisagem de um verde escuro, em vez de invadi-la. Elas andavam pelos caminhos nas suas charmosas bicicletas importadas, faziam piqueniques em pequenos grupos na grama aveludada ou se sentavam na concha acústica para ouvir o concerto de domingo.

            Os museus da cidade também foram uma revelação, cheios de Velhos Mestres de verdade, e aos domingos ficavam lotados de gente comum, gente com crianças, que parecia achar tudo muito natural. Michael roubava horas de estudo dos seus fins de semana para poder vaguear pelo De Young e contemplar com reverência o maravilhoso quadro de El Greco de São Francisco de Assis, com sua expressão atormentada e seu rosto cinzento e emaciado.

            - Tudo isso aqui é a América? - perguntava-se Michael. Era como se ele tivesse vindo de um outro país para entrar naquele mundo que só vislumbrava no cinema ou na televisão. Não nos filmes estrangeiros das casas imponentes e das jaquetas, mas em filmes americanos mais recentes e em programas de televisão, em que tudo era correto e civilizado.

            E aqui sua mãe estava feliz, realmente feliz como Michael nunca havia visto antes, guardando no banco dinheiro do seu emprego em Le Magnin, onde vendia cosméticos como costumava vender muitos anos antes, e nos fins de semana fazendo visitas à irmã e às vezes ao irmão mais velho, "tio Michael", um bêbado requintado que vendia "porcelana fina" na Gumps, em Post Street.

            Uma noite de sábado, foram a um teatro antiquado em Geary Street assistir a uma produção ao vivo de My Fair Lady. Michael adorou. Depois disso, costumavam ir aos "pequenos teatros" ver peças notáveis: Calígula de Albert Camus, Os pequenos-burgueses de Maximo Gorki e uma estranha miscelânea de monólogos baseada na obra de James Joyce, intitulada Ulysses in Nighttown.

            Michael estava enlevado com tudo isso. Tio Michael prometeu levá-lo para ver La Bohème quando começasse a temporada da ópera. Michael não teve palavras para agradecer.

            Era como se sua infância em Nova Orleans nunca tivesse realmente acontecido. Ele adorava o centro de San Francisco, com seus bondes barulhentos e suas ruas apinhadas de gente, a grande loja popular na esquina de Powell e Market, onde ele podia ficar lendo junto à estante das brochuras por horas a fio sem ser notado.

            Ele gostava das bancas de flores que vendiam buquês de rosas vermelhas por quase nada e as lojas sofisticadas em Union Square. Adorava os pequenos cinemas de filmes estrangeiros, dos quais havia pelo menos uma dúzia, onde ele e a mãe iam ver Nunca aos domingos, com Melina Mercouri, e A doce vida de Fellini, sem sombra de dúvida o filme mais fantástico que Michael jamais vira.

            Havia também as comédias com Alec Guinness, filmes filosóficos e sombrios, de Ingmar Bergman da Suécia, e inúmeros outros filmes do Japão, da Espanha e da França. Muitas pessoas em San Francisco assistiam a esses filmes. Não havia nelas absolutamente nada de secreto.

            Ele também apreciava tomar café com outros estudantes dos cursos de verão no restaurante Foster's, amplo e exageradamente iluminado, em Sutter Street, falando pela primeira vez na vida com orientais e judeus de Nova York, pessoas de cor instruídas que falavam um inglês perfeito e homens e mulheres mais velhas que roubavam tempo das famílias e dos empregos para voltar à escola pelo simples prazer de estudar.

            Foi durante esse período que Michael veio a compreender o pequeno segredo da família da sua mãe. Juntando pedacinhos aqui e ali, ele concluiu que essas pessoas haviam sido muito ricas. E que foi a avó paterna da mãe de Michael que havia dissipado toda a fortuna. Dela nada havia sido herdado a não ser uma cadeira entalhada e três quadros de paisagens com molduras pesadas. Mesmo assim, falava-se dela como de alguém mais do que maravilhoso, uma deusa, dava para se pensar, que havia viajado pelo mundo inteiro, que comia caviar e que conseguiu que seu filho estudasse em Harvard antes da bancarrota total.

            Quanto a esse filho, o pai da mãe de Michael, ele havia bebido até morrer depois de perder a esposa, uma "belíssima" mulher de origem irlandesa americana, do Mission District de San Francisco. Ninguém queria falar da "Mãe" e logo ficou claro que a "Mãe" havia se suicidado. O "Pai", que bebeu incessantemente até ter um derrame fatal, deixou uma pequena pensão para os três filhos. A mãe de Michael e sua irmã Vivian terminaram sua educação no Convento do Sagrado Coração e procuraram ocupações distintas. Tio Michael era "a imagem cuspida de papai", diziam com um suspiro, quando ele adormecia no sofá de tanto beber conhaque.

            Tio Michael era o único vendedor que Michael jamais conheceu que conseguia vender sem se levantar de onde estava sentado. Ele voltava para a Gumps, embriagado depois do almoço, e ficava ali sentado, exausto e afogueado, apenas apontando para a porcelana belíssima, explicando tudo da sua cadeira, enquanto os jovens fregueses, noivos prestes a se casarem, tomavam suas decisões. As pessoas pareciam considerá-lo encantador. Ele realmente conhecia tudo a respeito de porcelana fina, e era um cara extremamente simpático.

            Esse lento aprendizado sobre a família da mãe foi muito esclarecedor para Michael. A medida que o tempo foi passando, ele chegou à conclusão de que os valores da sua mãe eram essencialmente os dos muito ricos, embora ela própria não percebesse isso. Ela ia ver os filmes estrangeiros porque eles eram divertidos, não para seu enriquecimento cultural. Ela queria que Michael fosse para a universidade porque era lá que ele "deveria" estar. Para ela, era perfeitamente natural fazer as compras na Young Man's Fancy trazendo-lhe suéteres de gola careca e camisas clássicas que faziam com que ele parecesse um menino da classe alta. No entanto, do ímpeto ou da ambição da classe média, ela, a irmã e o irmão praticamente não sabiam nada.

            O trabalho só lhe agradava porque I. Magnin era a melhor loja da cidade e ali ela conhecia gente interessante. Nas suas horas de lazer, ela bebia vinho em quantidades cada vez maiores, lia seus romances, visitava amigas e era uma pessoa feliz, satisfeita.

            Foi o vinho que afinal a matou. Pois, com o passar dos anos, ela se tornou uma alcoólatra refinada, bebericando a noite toda num copo de cristal a portas fechadas e invariavelmente desmaiando antes de dormir. Finalmente, muito tarde numa noite, ela bateu com a cabeça numa queda no banheiro, pôs uma toalha no ferimento e voltou para a cama, sem perceber que estava sangrando lentamente.

            Já estava fria quando Michael conseguiu arrombar a porta. Isso aconteceu na casa em Liberty Street, que Michael havia comprado e restaurado para a família, apesar de tio Michael a essa altura já estar morto, também da bebida, embora o caso dele tivesse sido chamado de derrame.

            No entanto, a despeito da sua própria inércia e afinal da sua indiferença diante do mundo em geral, a mãe de Michael sempre teve orgulho da ambição do filho. Ela entendia sua vontade de vencer porque o compreendia, e o filho era o único fator que havia conferido um significado verdadeiro à sua vida.

            E a ambição de Michael era uma chama incontrolável quando ele afinal entrou para San Francisco State College, no outono, matriculado como calouro. Ali, no imenso campus da universidade, em meio a estudantes de dedicação integral, de todas as camadas sociais, Michael se sentia anônimo, cheio de força e pronto para começar sua verdadeira formação. Era como naqueles velhos tempos na biblioteca. Só que agora ele ganhava pontos com o que lia. Ele era valorizado por querer compreender todos os mistérios da vida que o instigavam tanto no passado quando ele escondia sua curiosidade daqueles que poderiam ridicularizá-lo.

            Ele não conseguia acreditar na própria sorte. Indo de uma sala para a outra, no delicioso prazer do anonimato em meio ao enorme proletariado de alunos, com suas mochilas e seus sapatos pesados, Michael ouvia, extasiado, as palavras dos professores e as perguntas espantosamente inteligentes dos estudantes ao seu redor. Temperando seu currículo com créditos opcionais em arte, música, história contemporânea, literatura comparada e até mesmo teatro, ele aos poucos adquiriu uma formação em ciências humanas à moda antiga.

            Acabou formando-se em história por ser uma matéria que apreciava, na qual tinha condições de escrever os trabalhos e fazer boas provas, e porque sabia que sua ambição mais recente - a de ser arquiteto - simplesmente estava fora do seu alcance. Ele não conseguia avançar na matemática, por mais que tentasse. E, apesar de todo o seu esforço, não conseguiu pontos suficientes para garantir sua admissão na Escola de Arquitetura, para quatro anos de pós-graduação. Ele também gostava de história por se tratar de uma ciência social na qual as pessoas tentam se distanciar do mundo para compreender seu funcionamento. E era isso o que vinha fazendo desde quando era menino no Irish Channel.

            Síntese, teoria, visão geral - tudo isso era totalmente natural para ele. E como provinha de um lugar tão diferente e estranho, como estava tão surpreso com a modernidade da Califórnia, a perspectiva do historiador era para ele confortável. Acima de tudo, gostava de ler obras bem escritas sobre cidades e séculos; livros que tentassem descrever lugares ou épocas em termos das suas origens, do seu progresso sociológico ou tecnológico, das suas lutas de classes, da sua arte e literatura.

            Michael estava mais do que satisfeito. Quando o dinheiro do seguro foi acabando, ele foi trabalhar em meio-expediente com um carpinteiro especializado na restauração das belas casas vitorianas de San Francisco. Voltou a estudar os livros sobre casas, como havia feito nos velhos tempos. Quando recebeu seu diploma de bacharel, seus velhos amigos de Nova Orleans não o teriam reconhecido. Ainda tinha a compleição física

do jogador de futebol americano, os ombros possantes e o tórax sólido, e a carpintaria o mantinha em boa forma. Seus cabelos pretos e encaracolados, os grandes olhos azuis e as sardas claras no rosto continuavam a ser características que o distinguiam. Mas agora ele usava óculos de armação escura para ler, e seu traje habitual era um suéter de ponto de trança e um paletó de tweed de Donegal com reforço no cotovelo. Até mesmo fumava um cachimbo que sempre trazia no bolso direito do casaco.

            Aos vinte e um anos de idade, ele estava igualmente à vontade martelando a valer numa casa de estrutura de madeira ou batendo veloz com apenas dois dedos um trabalho sobre "As perseguições às feiticeiras na Alemanha no século XVII”.

            Dois meses depois de começar sua pós-graduação em história, ele passou a se preparar, simultaneamente com o estudo na faculdade, para os exames para empreiteiro estadual. Estava agora trabalhando como pintor. Aprendia, ainda, o oficio de estucador e o de assentador de pisos e azulejos - enfim qualquer atividade no ramo da construção para a qual alguém se dispusesse a contratá-lo.

            Continuou a estudar porque uma profunda insegurança não lhe permitiria agir de outro modo, mas, já a essa altura, ele sabia que nenhum prazer de natureza acadêmica poderia jamais satisfazer sua necessidade de trabalhar com as mãos, ao ar livre, de subir escadas, usar o martelo e no final do dia sentir aquela sublime exaustão física. Nada jamais poderia tomar o lugar das suas belas casas. Ele adorava ver o resultado do seu trabalho - telhados consertados, escadarias restauradas, pisos trazidos de volta de um encardido irremediável para um brilho perfeito. Ele adorava descascar e laquear os batentes de porta, as balaustradas e os pilares de sustentação do corrimão bem trabalhados. E na sua condição de eterno aprendiz, estudou com todos os artífices com quem trabalhou.

            Interrogava os arquitetos sempre que podia. Fazia cópias das plantas para estudo mais pormenorizado. Debruçava -se sobre livros, revistas e catálogos dedicados à restauração e á era vitoriana.

            As vezes tinha a impressão de gostar mais de casas do que de seres humanos. Gostava delas como os marinheiros gostam das embarcações.

            E, depois do trabalho, costumava caminhar sozinho pelos cômodos aos quais dera uma nova vida, tocando carinhosamente os peitoris das janelas, as maçanetas de latão, as paredes acetinadas. Era capaz de ouvir o que uma grande casa lhe dizia.

            Terminou seu mestrado em história em dois anos, exatamente quando explodiam nas universidades americanas os protestos estudantis contra a guerra no Vietnã e quando o uso de drogas psicodélicas passou a ser moda entre os jovens que vinham aos montes para Haight Ashbury em San Francisco. Bem antes disso, porém, ele já havia passado no concurso para empreiteiro, tendo formado sua própria empresa.

            O universo da paz e amor, da revolução política e da transformação pessoal através das drogas era algo que ele nunca entendeu totalmente, e algo que realmente nunca o afetou. Ele dançou no Avalon Ballroom ao som dos Rolling Stones, fumou maconha, queimou incenso de vez em quando, ouvia discos de Bismilla Kahn e Ravi Shankar. Chegou mesmo a ir com uma namorada ao famoso encontro em Golden Gate Park no qual Timothy Leary disse aos seus seguidores que se ligassem, despertassem e pulassem fora. No entanto, tudo isso era apenas moderadamente fascinante para ele.

            O historiador no seu íntimo não conseguia sucumbir à retórica revolucionária superficial, freqüentemente tola, que ouvia por toda parte. Ele só podia rir em silêncio do marxismo de fachada dos seus amigos que pareciam não conhecer absolutamente nada de pessoal sobre o trabalhador. E observava horrorizado quando aqueles que amava destruíam totalmente sua paz de espírito, quando não seus próprios cérebros, com poderosos alucinógenos.

            Ele, entretanto, aprendeu com isso tudo. Aprendeu enquanto procurava compreender. E o imenso amor psicodélico pelas cores e pelas estamparias, pela música e pelo estilo oriental, teve a inevitável influência sobre sua estética. Anos mais tarde, ele defenderia a tese de que a grande revolução da consciência na década de 1960 havia beneficiado todos os indivíduos do país - que a reforma das casas antigas, a construção de belos prédios públicos com pátios e parques cobertos de flores, até mesmo o surgimento de modernos shopping com pisos de mármore, fontes e canteiros - que tudo isso tinha como origem direta aqueles anos cruciais em que os hippies de Haight Ashbury penduravam samambaias na janela dos seus apartamentos e cobriam seus móveis de segunda mão com colchas indianas de colorido brilhante, em que as moças enfeitavam suas cabeleiras ondulantes com as famosas flores e em que os homens trocavam suas roupas insípidas por camisas de cores berrantes e deixavam o cabelo crescer á vontade.

            Nunca houve na sua mente nenhuma dúvida de que esse período de turbulência, de consumo de drogas em massa e de música rebelde havia exercido influência direta sobre sua carreira. De um canto do país ao outro, casais jovens davam as costas às casinhas convencionais dos subúrbios modernos e, com uma nova paixão pela textura, pelo detalhe e pela variedade das formas, voltavam sua atenção ás elegantes residências antigas do centro da cidade. San Francisco tinha uma quantidade incalculável desse tipo de casa.

            Michael tinha perpetuamente uma lista de espera de clientes ansiosos. A Grandes Esperanças podia reformar, restaurar, construir do nada. Ele logo tinha projetos em andamento por toda a cidade. Não havia nada que lhe desse mais prazer do que entrar numa ruína vitoriana toda mofada em Divisadero Street e dizer "E, posso lhe entregar um palazzo aqui dentro de seis meses".

            Seu trabalho ganhava prêmios. Ele ficou famoso pelos lindos desenhos detalhados que fazia. De alguns projetos ele se incumbiu sem nenhuma orientação arquitetônica. Todos os seus sonhos estavam se realizando. Tinha trinta e dois anos quando adquiriu uma antiga residência em Liberty Street, restaurou-a por dentro e por fora, providenciando apartamentos para sua mãe e sua tia, e foi morar ali no andar superior, com uma vista para as luzes do centro, exatamente no estilo que sempre havia desejado. Os livros, as cortinas de renda, o piano, as belas antiguidades - tudo isso ele possuía. Construiu, também, um amplo deque para o lado do morro, onde podia ficar sentado sorvendo o fugidio sol do norte da Califórnia. A eterna névoa do oceano freqüentemente se dissipava antes de chegar aos morros do seu bairro. E assim ele parecia ter conquistado não só o luxo e o requinte que vislumbrara tantos anos atrás no sul, mas um pouco do sol e do calor de que se lembrava com carinho.

            Aos trinta e cinco anos de idade, ele já havia vencido pelo seu próprio esforço, além de possuir uma boa formação. Ele havia ganho e poupado seu primeiro milhão de dólares numa carteira de títulos municipais. Amava San Francisco porque tinha a sensação de que a cidade lhe havia dado tudo o que ele havia desejado um dia.

            Apesar de Michael ter se feito por si mesmo, como muita gente já o fez na Califórnia, criando um estilo em perfeita sintonia com o estilo de tantas outras pessoas que se forjaram sozinhas, ele nunca deixou de ser em parte aquele menino teimoso do Irish Channel que havia crescido usando um pedaço de pão para empurrar as ervilhas até o garfo.

            Ele nunca abandonou por completo seu acentuado sotaque e, às vezes, quando estava tratando com os operários no trabalho, voltava a usá-lo. Também nunca perdeu alguns dos seus hábitos ou idéias mais toscas, e isso sabia sobre si mesmo.

            Seu modo de lidar com tudo isso era perfeito para a Califórnia. Ele simplesmente deixava transparecer. Afinal, fazia parte dele. Não tinha nenhuma dificuldade em perguntar onde estava a carne com batata quando ia a algum sofisticado restaurante especializado na nouvelle cuisine na realidade, gostava muito de carne com batata, que comia sempre que possível, a ponto de excluir outros pratos), ou em deixar seu cigarro Camel ficar pendurado na boca enquanto falava, do mesmo jeito que seu pai fazia.

            E ele se relacionava bem com seus amigos liberais principalmente porque não se dava ao trabalho de discutir com eles. Enquanto eles gritavam uns com os outros por cima das canecas de cerveja, a respeito de países estrangeiros onde nunca haviam estado e que jamais iriam visitar, ele desenhava casas em guardanapos.

            Quando ele chegava a expor suas idéias, era num estilo extremamente abstrato, com distanciamento, pois de fato ele se sentia um estrangeiro na Califórnia, um estrangeiro no século XX. E não ficava nem um pouco surpreso com o fato de ninguém prestar muita atenção ao que dizia. No entanto, qualquer que fosse a tendência política em pauta, ele sempre se relacionava mais profundamente com aqueles que eram apaixonados como ele: artesãos, pintores, músicos, gente que seguia em frente presa a uma obsessão. E uma quantidade espantosa de amigos e amantes era de judeus russo-americanos. Eles pareciam realmente entender seu desejo principal de viver uma vida significativa, de interferir no mundo, mesmo que fosse numa proporção diminuta, com suas visões. Sonhava em construir suas próprias casas famosas; em transformar quarteirões inteiros; em criar enclaves com cafés, livrarias e pensões dentro dos antigos bairros de San Francisco.

            De vez em quando, especialmente depois da morte da mãe, ele pensava no passado em Nova Orleans, que lhe parecia cada vez mais estranho e fantástico. As pessoas na Califórnia pensavam que eram livres, mas como eram submissas, refletia. Ora, todo mundo que vinha do Kansas, de Detroit e de Nova York simplesmente perseguia os mesmos ideais liberais, os mesmos estilos de pensar, de se vestir, de sentir. Na verdade, ás vezes o conformismo era decididamente ridículo. Havia amigos que realmente diziam frases como, "Não era esse o que íamos boicotar esta semana?" e "Não se espera de nós que sejamos contra isso?" Lá na sua cidade natal, podia ser que houvesse deixado uma cidade de gente intolerante, mas ela era também uma cidade de personagens marcantes.

            Na sua cabeça, ele ouvia os velhos contadores de histórias do Irish Channel, o seu avô lhe contando como entrara escondido na igreja dos alemães quando era menino só para saber como era o latim alemão. E a história do tempo de vovó Gelfand Curry, a única antepassada alemã no clã inteiro, quando batizavam as criancinhas na igreja de Santa Maria para deixá-la feliz e depois saíam às ocultas para que fossem batizadas novamente na de Santo Afonso, do jeito certo, na igreja dos irlandeses, com o mesmo sacerdote presidindo, paciente, as duas cerimônias.

            Que figuras as dos seus tios, esses velhos que foram morrendo um a um enquanto ele ia crescendo. Ele ainda ouvia seu relato de como atravessavam nadando o Mississippi, ida e volta (o que ninguém fazia no tempo de Michael), como davam mergulhos de cima dos armazéns quando estavam embriagados, como amarraram grandes remos nos pedais das bicicletas para ver se elas funcionavam dentro d'água.

            Parecia que tudo era lenda. Dava para encher uma noite de verão com a conversa sobre o primo Jamie Joe Curry, em Argel, que se tornou um religioso tão fanático que tiveram de acorrentá-lo a um poste o dia inteiro, e sobre o tio Timothy que ficou louco em conseqüência da tinta do linotipo, de tal forma que vedava com jornal todas as rachaduras em volta das portas e das janelas e passava o tempo recortando milhares e milhares de bonecas de papel.

            E o que dizer da linda tia Lelia, que havia se apaixonado por um rapaz italiano quando era jovem e que nunca soube até ficar velha e encarquilhada que seus irmãos haviam dado uma surra no rapaz numa noite, expulsando-o do Irish Channel. Nada de carcamanos por perto. Sua vida inteira ela chorou pela perda do rapaz. Quando lhe contaram, ela, furiosa, virou de pernas para o ar a mesa do jantar.

            Até mesmo algumas das freiras tinham histórias fabulosas a contar: as velhas como a irmã Bridget Marie que havia substituído outra professora durante duas semanas quando Michael estava na oitava série, uma irmãzinha realmente simpática que ainda falava com forte sotaque irlandês. Ela não lhes ensinou absolutamente nada. Só lhes contou histórias do fantasma irlandês de Petticoat Loose e de bruxas - bruxas, dá para se acreditar! - no Garden District.

            E o melhor da conversa naquela época havia sido simplesmente a que falava da própria vida - de como era fazer a própria cerveja, viver com apenas duas lamparinas numa casa inteira e como era preciso encher a banheira portátil na noite de sexta para todos poderem tomar banho diante da lareira na sala de estar. Coisas da vida. A roupa fervendo num fogão de lenha no quintal, a água de cisternas cobertas de um musgo verde. Os mosquiteiros bem ajeitados na hora de dormir. Coisas que agora provavelmente estariam inteiramente esquecidas.

            As recordações vinham em relances estranhíssimos. Ele se lembrava do cheiro dos guardanapos de linho quando sua avó os passava antes de guardá-los nas gavetas fundas do aparador de nogueira. Ele se lembrava do gosto de sopa de siri e quiabo, com bolachas e cerveja; do barulho assustador dos tambores nos desfiles de carnaval. Ele via o homem do gelo subindo rápido a escada dos fundos, com um gigantesco bloco de gelo numa almofada no ombro. E ouvia insistentemente aquelas vozes maravilhosas, que na época lhe pareciam tão grosseiras, mas que agora pareciam possuir uma riqueza de vocabulário, uma queda para a expressão dramática, uma paixão pelo próprio ato de falar.

            Histórias de incêndios famosos, dos célebres distúrbios provocados por greves dos bondes e dos carregadores de algodão que tinham de aparafusar os fardos nos porões dos navios com enormes parafusos de ferro, cantando enquanto trabalhavam, nos tempos anteriores ás prensas de enfardar algodão. Em retrospectiva, parecia ser um mundo fabuloso. Na Califórnia, ás vezes tudo era tão pasteurizado. As mesmas roupas, os mesmos carros, as mesmas causas. Talvez o lugar de Michael não fosse ali. Talvez nunca viesse a ser. Mesmo assim, ele tinha certeza de que seu lugar não estava lá no passado. Ora, ele nem havia visitado a cidade em todos esses anos...

            Ele desejava ter prestado mais atenção àqueles caras naquela época. É que havia sentido muito medo. Ele agora tinha vontade de poder conversar com o pai, sentar-se com ele e com todos aqueles outros bombeiros malucos no quartel em Washington Avenue.

            Será que os carvalhos eram realmente tão grandes? Será que eles de fato formavam um arco perfeito sobre a rua, de tal forma que dava para se olhar por um túnel verde até o rio ao longe?

            Ele costumava se lembrar da cor do crepúsculo quando voltava a pé para casa, tarde depois do treino de futebol, vindo por Annunciation Street. Como era bonita a lantana laranja e rosa que saía por entre as pequenas cercas de ferro. Ah, será que existia um céu tão incandescente quanto aquele que passava do rosa ao violeta e afinal ao dourado acima dos telhados das casas operárias? Não podia existir um lugar tão fantástico.

            E o Garden District, ah, o Garden District. Suas recordações dali eram tão etéreas a ponto de serem suspeitas. As vezes ele sonhava com o lugar: um paraíso luminoso e cálido onde ele se descobria caminhando entre palácios esplêndidos, cercados por flores perenes e folhas de um verde reluzente Ele acordava, então, e pensava, e, eu estava lá, caminhando por First Street. Eu estava de volta.

Mas era impossível que fosse realmente assim, e ele sentia vontade de ver tudo de novo.

            Algumas casas específicas voltavam à sua memória: a imensa residência espraiada na esquina de Coliseum e Third, pintada de um branco puríssimo até as grades de ferro fundido. E as casas de duas varandas com corredor lateral que ele apreciava acima de todas, com suas quatro colunas frontais, seus longos flancos e suas altas chaminés gêmeas.

            Ele se lembrava até de pessoas que havia muitas vezes visto de relance nos seus passeios de costume, velhos em ternos de seersucker e chapéus de palha, senhoras de bengala, babás negras em uniformes azuis de algodão engomado empurrando carrinhos de bebê. E aquele homem, aquele homem estranho, de trajes imaculados, que ele via com tanta freqüência em First Street nas profundezas daquele jardim descuidado.

            Sentia vontade de voltar para conferir a recordação com a realidade. Queria ver a pequena casa de Annunciation Street, onde havia crescido. Queria visitar a igreja de Santo Afonso, onde havia sido coroinha aos dez anos de idade. E a igreja de Santa Maria do outro lado da rua, com seus arcos góticos e seus santos de madeira, onde ele também havia ajudado na missa.

            Será que os afrescos no teto de Santo Afonso eram de fato tão bonitos? As vezes, quando ia adormecendo, ele se imaginava de novo naquela igreja na véspera de Natal, quando ela estava lotada para a Missa do Galo.

            Velas ardiam nos altares. Ele costumava ouvir o hino eufórico "Adeste Fideles". A véspera de Natal, com a chuva entrando em rajadas pelas portas, e em casa depois a pequena árvore iluminada num canto e o aquecedor a gás chamejando na lareira. Como eram bonitas aquelas minúsculas chamas azuis.

            Como era linda aquela pequena árvore, com suas luzes que representavam a Luzdo Universo, seus enfeites que simbolizavam os presentes dos Reis Magos e seus galhos com cheiro de verde que reforçavam a promessa do verão por vir mesmo em meio ao frio do inverno.

            Veio-lhe à memória uma procissão da Missa do Galo na qual as meninas da primeira série vinham vestidas de anjos e saíam pelo santuário descendo pela nave principal da igreja. Ele sentia o perfume das plantas verdes do Natal, mesclando-se à doçura das flores e da cera derretida.f As meninas cantavam algo sobre o Menino Jesus. Ele havia visto Rita Mae Dwyer, Marie Louise Guidry e sua prima Patricia Anne Becker, além de todas as outras pestinhas que ele conhecia, mas como estavam lindas com as camisolas brancas e asas duras de tecido. Já não eram mais apenas monstrinhos, mas anjos de verdade. Era essa a magia do Natal. E, quando chegou em casa depois da missa, todos os presentes estavam debaixo da árvore iluminada.

            Procissões. Elas eram tantas. Mas ele nunca apreciou de verdade as da Virgem Maria. Na sua cabeça ela estava muito ligada ás freiras perversas que machucavam tanto os meninos, e ele não conseguia sentir grande devoção por ela, o que o deixava triste até ele crescer o suficiente para não se importar.

            Já do Natal ele nunca se esqueceu. Foi o único resquício de religião que jamais o abandonou, pois ele percebia por trás da festividade uma história imensa e tremeluzente que remontava a milênios até o tempo das florestas escuras onde ardiam fogueiras e os pagãos dançavam. Ele gostava de recordar o presépio com o bebê sorridente, e o momento solene da meia-noite, quando Cristo mais uma vez nascia para o mundo.

            Na realidade, daí em diante na Califórnia, a véspera de Natal era o único dia que Michael considerava sagrado. Ele sempre celebrou esse dia como outros celebravam a véspera do Ano Novo. Para ele, tratava-se do símbolo de um novo início: do tempo perdoando a pessoa e todos os seus erros para que ela pudesse recomeçar. Mesmo quando estava sozinho, ficava acordado, sentado com seu copo de vinho até a meia-noite, com a luz da pequena árvore fornecendo a única iluminação da sala. E naquele último Natal, havia nevado - logo a neve, caindo devagar e silenciosa com o vento talvez no exato instante em que seu pai havia atravessado o teto em chamas do armazém em Tchoupitoulas Street.

            Fosse como fosse, Michael nunca voltou lá.

            Ele simplesmente não conseguia arrumar tempo. Estava sempre se esforçando para terminar um serviço já com o prazo estourado. E as curtas férias que tirava, passava na Europa, ou em Nova York a perambular pelos grandes monumentos e museus. Ao longo dos anos, suas diversas namoradas preferiam que fosse assim. Quem quer ir ver o carnaval de Nova Orleans, se pode ir até o Rio? Por que alguém iria ao sul dos Estados Unidos quando poderia visitar o sul da França? No entanto, freqüentemente ocorria a Michael que ele havia conquistado tudo o que sempre desejou naqueles antigos passeios pelo Garden District e que devia voltar lá para fazer uma avaliação, ver se estava se enganando ou não. Não havia momentos em que sentia um vazio? Em que se sentia como se estivesse á espera de alguma coisa, algo de extrema importância, que ele não sabia o que era?

            Uma coisa que ele não havia encontrado era um amor forte e duradouro, mas sabia que com o tempo isso viria. E talvez, então, ele levasse sua noiva para uma visita á cidade natal. Não estaria sozinho ao vaguear pelos caminhos dos cemitérios ou pelas velhas calçadas. Quem sabe? Talvez até pudesse ficar algum tempo, percorrendo a esmo as mesmas ruas.

            E claro que Michael teve alguns casos ao longo dos anos, e pelo menos dois deles se assemelharam a casamentos. As duas mulheres eram judias, descendentes de russos, cheias de paixão, de espírito, brilhantes e independentes. E Michael sempre teve um orgulho doído dessas mulheres cultas e inteligentes. Esses relacionamentos nasceram tanto da troca de idéias quanto da sensualidade. Conversa a noite inteira depois de fazer amor, conversa com pizza e cerveja, conversa ao nascer do sol: era isso o que Michael sempre fazia com suas namoradas.

            Ele aprendeu muito com esses relacionamentos. Sua disponibilidade, como que desprovida de ego, era extremamente sedutora para as mulheres, e ele absorvia tudo o que elas tinham para ensinar, sem grande esforço. Elas adoravam viajar com ele até Nova York, à Riviera ou à Grécia, e ver seu entusiasmo encantador e seus sentimentos profundos pelo que via. Elas compartilhavam com ele sua música preferida, seus pintores favoritos, seus pratos prediletos, sua idéias acerca de mobília, roupas. Elizabeth ensinou-o a comprar um terno decente da Brooks Brothers e camisas Paul Stewart.

            Judith levou-o até Bullock and Jones para sua primeira capa Burberry e a salões sofisticados para o corte de cabelo correto e o ensinou a pedir vinhos europeus e a cozinhar macarrão, além de lhe mostrar por que a música barroca era tão boa quanto a música clássica que ele adorava.

            Ele ria de tudo isso, mas ia aprendendo. As duas mulheres brincavam com ele sobre suas sardas e seu físico de peso pesado, sobre o jeito que seu cabelo caía nos olhos azuis, sobre como os pais que vinham visitá-los o adoravam, sobre seu charme de menino malvado e sobre sua esplêndida aparência num traje a rigor. Elizabeth costumava chamá-lo de "meu valentão de coração de ouro", e Judith lhe deu o apelido de Valentão.       Ele as levava a Golden Glove para ver lutas de boxe e partidas de basquete, e a bons bares para beber cerveja. Ele as ensinou a apreciar os jogos de futebol e de rúgbi em Golden Gate Park aos domingos, se é que elas já não apreciavam, e até a brigar na rua se elas quisessem aprender. Mas isso era mais uma brincadeira do que qualquer outra coisa. Ele também as levava à ópera e a concertos, que assistia com um fervor religioso. E elas o apresentaram a Dave Brubeck, Miles Davis, Bill Evans e ao Kronos Quartet.

            A receptividade de Michael, assim como sua paixão, costumavam seduzir todo mundo.

            No entanto, seu aspecto malvado também encantava as namoradas, quase sempre. Quando furioso, ou mesmo quando ligeiramente ameaçado, ele podia voltar instantaneamente à sua cara fechada de menino do Irish Channel. E, ao fazer isso, demonstrava grande convicção e confiança além de uma certa sexualidade inconsciente. As mulheres também ficavam impressionadas com suas habilidades mecânicas, sua desenvoltura com o martelo e os pregos e com sua coragem.

            O medo da humilhação, é, isso ele compreendia no seu íntimo, e havia alguns medos irracionais da infância que ainda o atormentavam. Mas o medo de alguma coisa concreta? Na vida adulta, ele não sabia o que isso significava. Quando se ouvia um grito na noite, Michael era o primeiro a descer a escada para investigar.

            Essa atitude não era assim tão comum entre homens de alto nível de instrução. O mesmo ocorria com sua abordagem entusiástica, ardente e tipicamente direta ao sexo físico. Ele gostava do sexo simples e sem rodeios, ou mais fantasioso se elas preferissem assim. Gostava de manhã ao acordar assim como à noite. Isso conquistava corações. O primeiro rompimento, com Elizabeth, foi culpa de Michael, na sua própria opinião, porque ele simplesmente era jovem demais e não havia se mantido fiel. Elizabeth simplesmente se cansou das suas outras "aventuras", embora ele jurasse que elas "não significavam nada", e acabou fazendo as malas e o abandonando. Ele ficou inconsolável e arrependido. Seguiu-a até Nova York, mas de nada adiantou. Voltou para seu apartamento vazio e bebia de vez em quando ao longo de seis meses de luto. Não pôde acreditar quando Elizabeth se casou com um professor de Harvard, e se rejubilou quando um ano mais tarde ela se divorciou.

            Pegou um avião e foi até Nova York para consolá-la; tiveram uma briga no Metropolitan Museum of Art; e ele chorou horas a fio no vôo de volta. Na verdade, ele estava tão triste que, quando aterrissaram, a aeromoça o levou para a casa dela e cuidou dele três dias inteiros. Quando Elizabeth finalmente apareceu no verão seguinte, Judith já havia entrado na vida de Michael.

            Judith e Michael viveram juntos durante quase sete anos, e ninguém jamais imaginou que eles pudessem se separar. Foi quando Judith ficou acidentalmente grávida de Michael e, contra a vontade do pai, resolveu não levar a termo a gravidez.

            Foi a pior decepção que Michael jamais teve, e conseguiu destruir todo o amor do casal. Michael não questionava o direito de Judith abortar a criança. Ele não concebia um mundo em que as mulheres não tivessem esse direito. E o historiador nele sabia que nunca havia sido possível fazer vigorar as leis contra o aborto porque não existe nenhum relacionamento que se assemelhe ao da mãe com seu filho em gestação.

            Não, nunca havia se oposto ao direito da mulher e, na realidade, até o teria defendido. Ele, porém nunca havia previsto que uma mulher vivendo com ele no luxo e na segurança, uma mulher com quem ele se casaria imediatamente se ela concordasse com isso, fosse querer abortar um filho seu.

            Michael implorou para que ela não abortasse. A criança era deles, não era, e o pai a queria desesperadamente e não conseguia suportar a idéia de que ela perdesse sua chance de viver. Ela não precisaria crescer junto deles se Judith preferisse assim. Michael tomaria todas as providências para quer ela fosse criada em outro lugar. Dispunha de muito dinheiro. Iria visitar o filho sozinho para que Judith não precisasse saber. Tinha visões de governantas, boas escolas, tudo o que nunca havia tido. O que era mais importante, porém, era que se tratava de um ser vivo, esse bebe em gestação, e seu sangue corria nas suas pequenas veias, o pai não via nenhum motivo razoável para que ele morresse.

            Essas idéias eram horrorizantes para Judith. Elas atingiram seu âmago. Ela não queria ser mãe naquela época. Achava que não tinha condições para isso. Estava quase terminando seu doutorado na Universidade de Berkeley, mas ainda precisava escrever sua tese. E seu corpo não era um equipamento a ser usado para simplesmente gerar uma criança para uma outra pessoa. O enorme choque de dar à luz aquela criança, de renunciar a ela, estava acima das suas forças. Teria de viver com essa culpa para sempre. O fato de Michael não compreender seu ponto de vista lhe causava uma dor singular. Ela sempre havia contado com seu direito de abortar um filho indesejado. Era como se fosse uma rede de segurança. De repente, sua liberdade, sua dignidade e sua sanidade estavam ameaçadas.

            Ela dizia que um dia eles teriam um filho, quando a hora fosse adequada para os dois, pois a paternidade era uma questão de escolha e nenhuma criança deveria vir ao mundo se não fosse desejada e amada pelo pai e pela mãe. Nada disso fazia sentido para Michael. A morte era melhor do que o abandono?

            Como Judith podia sentir culpa por renunciar à criança e absolutamente nenhuma culpa pela destruição do feto? É verdade, os dois pais deveriam desejar a criança. Mas por que apenas uma das partes detinha o direito de determinar que o bebê não devia vir ao mundo? Eles não eram pobres; não estavam doentes; a criança não era resultado de um estupro. Ora, eles estavam praticamente casados e sem dúvida poderiam se casar se Judith quisesse! Eles tinham tanto a dar a esse bebê.

            Mesmo que ele fosse viver com outras pessoas, imagine o que poderiam fazer por ele. Por que cargas d'água aquela coisinha precisava perecer? E pare de dizer que não se trata de uma pessoa. Ele estava no processo de se tornar uma pessoa, ou Judith não estaria pensando em matá-lo. Pelo amor de Deus, por que um bebê recém-nascido seria uma pessoa, e um feto não? E as discussões  não paravam, com argumentos cada vez mais aguçados, cada vez mais complexos, vacilando entre o pessoal e o filosófico sem qualquer esperança de solução.

            Afinal, Michael detonou seu último cartucho. Se Judith apenas desse à luz a criança, ele iria embora com o filho. Judith nunca mais os veria. Em troca, ele faria o que Judith quisesse. Ele lhe daria tudo o que tivesse que ela pudesse desejar.

            Ele chorava enquanto argumentava com ela. Judith ficou arrasada. Michael havia preferido a criança a ela. Ele estava tentando comprar seu corpo, seu sofrimento, aquela coisa que estava crescendo dentro dela. Ela não podia suportar a idéia de ficar na mesma casa com ele. Amaldiçoou o pelo que havia dito. Maldisse sua formação, sua ignorância e, acima de tudo, sua espantosa grosseria com ela. Ele achava fácil o que ela pretendia fazer? No entanto, todos os seus instintos lhe diziam que ela devia dar um fim a esse brutal processo físico, que ela devia extinguir esse pedacinho de vida que nunca havia sido planejado e que agora estava agarrado a ela, crescendo contra sua vontade, destruindo o amor de Michael por ela e pela sua vida juntos.

            Michael não conseguiu encará-la. Se queria ir embora, que fosse. Ele queria que ela fosse. Não queria saber nem o dia nem a hora em que seu filho seria destruído.

            Foi tomado por um pavor. Tudo à sua volta parecia cinzento. Nada tinha um sabor ou uma aparência agradável. Era como se uma tristeza metálica tivesse dominado seu mundo, e todas as cores e sensações ficassem pálidas nessa atmosfera. Ele sabia que Judith estava sofrendo, mas não podia ajudá-la.

            Na realidade, ele não conseguia deixar de odiá-la.

            Lembrava -se daquelas freiras na escola, que batiam nos meninos com a palma das mãos. Lembrava-se do aperto dos dedos de uma freira no seu braço quando ela o empurrou para a forma. Lembrava-se do poder irracional, da brutalidade mesquinha. Dizia a si mesmo que aquilo tudo não tinha nada a ver com isso. Judith se importava. Judith era uma boa pessoa. Ela estava fazendo o que achava que tinha de fazer. No entanto, Michael agora sentia o mesmo desamparo que havia sentido naquela época, quando as freiras patrulhavam os corredores, monstros com seus véus negros, seus sapatos masculinizados batendo forte na madeira encerada.

            Judith foi embora quando Michael estava no trabalho. A conta do aborto - médico e hospital de Boston - chegou uma semana depois. Michael mandou o cheque para o endereço indicado. Nunca mais voltou a ver Judith.

            Depois disso, durante muito tempo, Michael viveu na solidão. O contato erótico nunca havia sido algo que ele apreciasse com desconhecidas. Agora, porém, ele o temia e escolhia suas parceiras só muito de vez em quando e com enorme prudência. Era cuidadoso ao extremo. Não queria perder mais nenhum filho.

            Além disso, ele se descobriu incapaz de esquecer o bebê morto, ou o feto morto para usar o termo exato. Não é que ele tivesse a intenção de ficar pensando na criança - ele havia lhe dado o apelido de Little Chris, mas ninguém precisava saber disso - o problema foi que ele começou a ver imagens de fetos nos filmes que ia ver, nos anúncios de filmes que via nos jornais.

            Como sempre, os filmes tinham uma enorme importância na vida de Michael. Como sempre, eles eram uma parte vital e permanente do seu aperfeiçoamento. Ele entrava numa espécie de transe no escuro do cinema. Sentia alguma ligação visceral entre o que acontecia na tela, seus próprios sonhos e subconsciente e seus esforços contínuos no sentido de compreender o mundo em que vivia.

            E agora ele via essa imagem curiosa que mais ninguém ao seu redor mencionava: os monstros cinematográficos desses tempos não apresentam uma notável semelhança com as crianças sendo abortadas todos os dias nas clínicas de todo o país?

            Tomemos, por exemplo, Alien de Ridley Scott, no qual o pequeno monstro nasce direto do tórax de um homem, um feto que guincha e mantém sua forma, mesmo á medida que vai crescendo e se banqueteando com suas vítimas humanas.

            E o que dizer de Eraserhead, em que o medonho feto que nasce do casal condenado chora sem parar. Ora, a certa altura pareceu-lhe que a quantidade de filmes de horror com fetos era incalculável. Havia Criação monstruosa, Ghoulies e Leviatã além daqueles clones que nasciam contorcendo-se como fetos dos casulos em Invasores de corpos. Ele mal conseguiu suportar essa cena quando reviu o filme no Castro. Levantou-se e saiu do cinema.

            Só Deus sabia quantos outros filmes de terror com fetos existiam.

            Vejamos a nova versão de A mosca. O herói não acabou tendo a aparência de um feto? E o que dizer de A mosca II, com suas imagens de nascimentos e renascimentos? Ocorreu-lhe que esse tema não se esgotava. Depois vinha Pumpkinhead, em que o poderoso espírito vingador dos apalaches sai de um cadáver de feto bem diante dos nossos olhos e mantém sua cabeça desproporcional de feto durante toda a horrenda violência que promove.

            Michael tentava descobrir o que isso devia significar. Não que sofremos alguma culpa pelo que fazemos, pois acreditamos ser moralmente correto controlar o nascimento da nossa prole, mas que temos sonhos desagradáveis com todos esses pequeninos seres sendo levados para a eternidade antes de nascerem? Ou não seria apenas um medo desses próprios seres que querem fazer valer seu direito sobre nós - adolescentes eternamente livres - e nos tornar seus pais. Fetos do Inferno! Ele riu com amargura dessa idéia apesar de si mesmo.

            Vejam O enigma de outro mundo de John Carpenter, com suas cabeças fetais aos berros! E o que dizer do antigo clássico O bebê de Rosemary, pelo amor de Deus, e aquele filme boboca Nasce um monstro, sobre o bebê monstro que assassinou o leiteiro quando sentiu fome. Era impossível escapar da imagem. Bebês - fetos. Ele a via para onde quer que se voltasse.

            Ele refletia sobre isso como costumava refletir sobre as casas magníficas e as pessoas elegantes dos velhos filmes de terror em preto e branco da sua juventude.

            Não adiantava tentar falar sobre isso com os amigos. Eles acreditavam que Judith estava com a razão; e jamais entenderiam as distinções que ele estava tentando fazer. Os filmes de terror são nossos sonhos atormentados, pensava ele. E nossa atual obsessão e com o nascimento, com o nascimento que dá errado e que se volta contra nós. Nas suas recordações, ele voltava ao Happy Hour Theater. Estava assistindo a A noiva de Frankenstein mais uma vez. Quer dizer que a ciência já os assustava naquela época, e em épocas ainda mais remotas, quando Mary Shelley havia posto no papel suas fantasias inspiradas.

            Bem, ele não conseguia destrinchar essas coisas. Não era na realidade um historiador ou um cientista social. Talvez não tivesse inteligência suficiente. Era um empreiteiro por profissão. Melhor ater-se á restauração de pisos de carvalho e á limpeza de torneiras de latão.

            Além do mais, ele não detestava as mulheres. Não mesmo. Também não sentia medo delas. As mulheres eram apenas pessoas, e às vezes pessoas melhores, mais delicadas, mais gentis. Ele preferia a companhia delas à dos homens a maior parte do tempo. E nunca ficava surpreso com o fato de elas geralmente compreenderem com mais sintonia do que os homens o que ele tinha a dizer, á exceção dessa questão específica.

            Quando Elizabeth ligou, disposta a reaquecer a antiga paixão, ele sentiu prazer, muito prazer, em pegar um avião para ir até Nova York. O fim de semana que passaram juntos foi perfeito, a não ser pelas meticulosas precauções que ele tomou para evitar a concepção, uma questão que agora já havia se tornado obsessiva. Os dois sabiam que podiam fazer o relacionamento voltar a funcionar. Estavam a um passo de um raro momento de belo entusiasmo. Só que Elizabeth não queria sair da Costa Leste, e Michael não conseguia imaginar sua empreiteira em Manhattan. Eles se corresponderiam, pensariam no assunto, teriam conversas por interurbano. Esperariam para ver.

            A medida que o tempo foi passando, Michael deixou um pouco de acreditar que um dia teria o amor que desejava. O seu mundo era, porém, um mundo em que muitos adultos não tinham esse amor. Tinham amigos, liberdade, estilo, riqueza, carreira, mas não esse amor. Essa era a condição da vida moderna, e isso se aplicava a ele também. Aos poucos, ele passou a considerar isso natural.

            Tinha uma quantidade de colegas de trabalho, antigos companheiros de faculdade; não lhe faltava companhia feminina quando queria. E, quando completou 48 anos de idade, imaginava que ainda havia tempo para tudo. Ele se sentia jovem e tinha uma aparência jovem, como a maioria das pessoas da sua idade á sua volta. Ora, ele ainda tinha aquelas malditas sardas. E as mulheres ainda o olhavam com interesse, disso não tinha dúvida. Na realidade, considerava mais fácil atraí-las agora do que quando era um jovem impaciente.

            Quem teria condição de dizer? Talvez seu casinho descompromissado com Therese, a mulher mais nova que ele conhecera recentemente na Symphony, poderia adquirir um significado maior. Ela era jovem demais, ele sabia e ficava furioso consigo mesmo por esse motivo; ela, então, telefonava dizendo, "Michael, eu esperava que você já me tivesse ligado a essa altura! Você está mesmo me manipulando!" Não importa o que quisesse dizer com isso.

            Lá saíam eles para jantar fora e depois para a casa dela. Mas será que ele só sentia falta de um amor profundo? Não haveria alguma outra coisa? Um dia de manhã ele acordou e percebeu num relance que o verão pelo qual vinha esperando todos esses anos não iria chegar nunca. E a terrível umidade daquele lugar havia se entranhado até a medula dos seus ossos. Nunca mais haveria noites cálidas, cheias do perfume do jasmim.

            Nunca mais brisas mornas do rio ou do golfo. Mas isso ele precisava aceitar, dizia a si mesmo. Afinal, esta era sua cidade agora. Como poderia um dia voltar para a terra natal? Mesmo assim, ás vezes San Francisco não lhe parecia mais pintada em ricos tons de ocre e de vermelho romano. Parecia transformada num tom insípido de sépia; e a claridade opaca do seu céu eternamente cinzento havia embotado seu espírito.

            Mesmo as belas casas que ele restaurava pareciam às vezes nada mais do que cenários, desprovidas de uma tradição real, sofisticadas armadilhas para capturar um passado que nunca existiu, para gerar uma sensação de solidez em pessoas que viviam apenas o momento presente, num medo da morte que beirava a histeria.

            Mas ele era um homem de sorte, e sabia disso. Sem dúvida, bons tempos e boas coisas ainda estavam por vir. E era essa a vida de Michael, uma vida que, em termos práticos, estava agora acabada, já que ele havia se afogado no dia 1° de maio, voltando cheio de tormentos e obsessões, falando sem parar nos mortos e nos vivos, incapaz de tirar as luvas pretas das mãos, receoso do que pudesse ver - as grandes enxurradas de imagens sem sentido - e captando fortes impressões emocionais até mesmo daqueles que não tocava.

            Três meses e meio haviam se passado desde aquele dia terrível. Therese havia sumido. Seus amigos haviam sumido. E ele era agora prisioneiro da casa em Liberty Street.

            Ele havia mudado o número do telefone. Não respondia ás montanhas de correspondência que lhe chegavam. A tia Viv saía pela porta dos fundos para comprar os raros mantimentos que não podiam ser entregues a domicílio.

            - Não, Michael não está mais aqui - dizia ela, interceptando os raros telefonemas, com sua voz doce e educada. Ele ria todas as vezes que ouvia isso. Porque era verdade. Os jornais diziam que ele havia "desaparecido". Isso também o fazia rir. De dez em dez dias aproximadamente, ele ligava para Stacy e Jim só para dizer que estava vivo e depois desligava. Não podia culpá-los por não se importarem. Agora no escuro, ele estava deitado na cama, vendo mais uma vez na tela da televisão sem som as imagens conhecidas de Grandes Esperanças. Uma espectral Miss Havisham, no vestido de noiva esfarrapado, conversava com o jovem Pip, papel representado por John Mills, que estava a ponto de partir para Londres.

            Por que Michael estava perdendo tempo? Ele devia estar de partida para Nova Orleans. Só que estava agora embriagado demais para isso. Embriagado demais até mesmo para ligar e verificar os horários dos vôos. Além do mais, havia a esperança de que o Dr Morris lhe ligasse, o Dr Morris, que sabia seu telefone secreto, a quem Michael havia confiado seu plano único e exclusivo. - Se eu pudesse entrar em contato com aquela mulher - dissera ao Dr Morris - sabe quem é a mulher do barco que me salvou. Se eu ao menos pudesse tirar minhas luvas e segurar suas mãos ao conversar com ela, talvez eu pudesse me lembrar de alguma coisa através dela. Sabe do que estou falando?

            - Você bebeu, Michael. Dá para se perceber.

            - Isso não tem importância agora. É liquido e certo. Estou embriagado e vou continuar a beber, mas ouça o que estou dizendo...

            - Pode falar...

            - Bem, se eu conseguisse ir até o convés do barco e tocar as tábuas com minhas mãos sem luvas.., sabe, as tábuas em que fiquei deitado...

            - Michael, isso é uma loucura.

            - Dr Morris, ligue para ela. O senhor tem como entrar em contato com ela. Se não se dispõe a ligar, dê-me o seu nome.

            - Do que você está falando, ligar para ela e dizer que você quer engatinhar no convés da sua embarcação, tateando à procura de vibrações mentais? Michael, ela tem o direito de se proteger de uma coisa desse tipo. Pode ser que ela não acredite nessa história de poder psíquico.

            - Mas o senhor acredita! O senhor sabe que funciona!

            - Quero que volte para o hospital.

            Michael desligou, furioso. Não queria saber de injeções, de exames, não, muito obrigado. O Dr Morris havia ligado de volta, repetidamente, mas as mensagens na secretária eram sempre iguais.

            - Michael, venha. Estamos preocupados com você. Queremos vê-lo.

            E então, afinal, a promessa.

            - Michael, se você conseguir ficar sóbrio, vou fazer uma tentativa. Sei onde posso localizar aquela mulher.

            Ficar sóbrio. Ele pensava nisso ali, deitado no escuro. Tateou à procura da lata de cerveja que estava por perto e a abriu. Um porre de cerveja era o melhor tipo de porre. E de certo modo era como estar sóbrio porque ele não havia derramado um gole de vodca ou de uísque na lata, certo? Aquilo, sim, é que era beber, aquele veneno de verdade, e ele devia saber disso.

            Ligue para o Dr Morris. Diga-lhe que está sóbrio, tão sóbrio quanto jamais vai estar. Aparentemente ele havia ligado. Mas talvez tivesse sido um sonho.

            Talvez estivesse cochilando de novo. Era bom estar aqui deitado, era bom estar tão bêbedo a ponto de não sentir a agitação, a ansiedade, a dor de não se lembrar...

            - Coma um pouco - disse a tia Viv.

            Ele estava, no entanto, em Nova Orleans, caminhando por aquelas ruas do Garden District. Fazia calor, e que delícia a fragrância do jasmim à noite! E pensar em todos esses anos em que não havia sentido aquele perfume forte, doce, e em que não havia visto o céu se incendiar por trás dos carvalhos, de modo a que cada folhinha diminuta de repente ficasse distinta. As lajes rachavam com as raízes dos carvalhos. O vento frio dava fisgadas nos seus dedos descobertos.

            Vento frio. É. Não estavam mesmo no verão, mas no inverno; aquele inverno penetrante e enregelante de Nova Orleans, e se apressavam pelas ruas escuras para ver o último desfile do carnaval, o da banda Mystic Krewe of Comus.

            Um nome tão lindo, pensou ele em sonho, mas naquela época remota ele também o considerava assombroso. E lá adiante, em St. Charles Avenue, ele via as tochas do desfile e ouvia os tambores que sempre o assustavam.

            - Rápido, Michael - dizia sua mãe. Ela quase o levantava do chão com a pressa. Como estava escura a rua, como era terrível esse frio, um frio como o do oceano.

            - Mas olha, mamãe - disse ele, apontando pela cerca de ferro e puxando a mão da  mãe. - Olha lá o homem no jardim.

            A velha brincadeira. Ela diria que não havia ali homem nenhum, e os dois ririam juntos. No entanto, o homem estava mesmo lá, como sempre estivera, bem ao fundo do gramado amplo, parado junto aos galhos brancos e desnudos da extremosa. Ele teria visto Michael naquela noite? Parecia ter visto. Sem dúvida, os dois se encararam.

            - Michael, não temos tempo para aquele homem.

            - Mas, mamãe, ele está lá, está mesmo...

            A Mystic Krewe of Comus. As charangas tocavam sua música selvagem, tenebrosa, enquanto passavam, com as tochas chamejantes. A multidão invadiu a rua. Do alto dos trêmulos carros alegóricos de papiermâché, homens usando fantasias cintilantes de cetim e máscaras atiravam colares de vidro, contas de madeira. As pessoas brigavam para apanhá-los. Michael não largava a saia da mãe, com ódio do barulho dos tambores. Quinquilharias caíam na sarjeta aos seus pés.

            No longo caminho de volta para casa, com o carnaval morto e acabado, as ruas cobertas de lixo e o ar tão frio que sua respiração criava vapor, ele voltou a ver o homem, parado como sempre, mas dessa vez não se deu ao trabalho de comentar.

            - Tenho de voltar para casa - dizia ele agora baixinho, dormindo. - Tenho de voltar para lá.

            Ele via a longa cerca de ferro trabalhado da casa de First Street, a varanda lateral com suas telas bambas. E o homem no jardim. Era tão estranho que aquele homem nunca mudasse. E naquele último mês de maio, exatamente no último passeio que deu por aquelas ruas, Michael cumprimentou o homem com um gesto de cabeça, e o homem ergueu a mão e acenou.

            - É, voltar- sussurrou. Mas, será que não lhe dariam um sinal, aqueles outros que lhe apareceram quando ele estava morto? Certamente eles compreendiam que ele agora não conseguia se lembrar. Eles o ajudariam. Está se desfazendo a barreira entre os vivos e os mortos. Havia passado por ela.

            - Lembre-se, você tem uma escolha - disse a mulher de cabelos negros.

            - Mas, não é isso. Não mudei de idéia. Só não consigo me lembrar.

            Sentou-se na cama. O quarto estava escuro. A mulher de cabelos negros. O que era aquilo no seu pescoço? Precisava fazer as malas agora. Ir até o aeroporto. O portal. O décimo terceiro. Entendi. Tia Viv estava sentada do outro lado da porta da sala de estar, á claridade de uma única lâmpada, costurando.

            Ele tomou mais um gole da cerveja. Depois esvaziou a lata bem devagar.

            - Por favor me ajudem - disse ele baixinho para absolutamente ninguém. - Por favor me ajudem.

            Estava dormindo novamente. O vento soprava. Os tambores da Mystic Krewe of Comus enchiam-no de medo. Seria um aviso? Por que não pula, disse a governanta perversa á pobre mulher apavorada à janela no filme Rebecca. Ele havia trocado a fita? Não se lembrava. Mas agora estamos em Manderley, não estamos? Ele poderia ter jurado que era Miss Havisham. Depois ele a ouviu sussurrar no ouvido de Estella, "Você pode magoá-lo profundamente". Pip também ouviu, mas mesmo assim ele se apaixonou por ela.

            Vou consertar a casa, murmurou. Deixar o sol entrar. Estella, seremos felizes para sempre. Isso aqui não é o pátio da escola, não é aquele longo corredor vazio que leva á lanchonete, com a irmã Clement vindo na sua direção. "Trate de voltar para a forma, menino!" Se ela me bater como bateu em Tony Vedros, eu a mato. Tia Viv estava em pé ao seu lado no escuro.

            - Estou bêbado.

            Ela pôs a cerveja gelada na sua mão, que boazinha.

            - Meu Deus, que delícia.

            - Tem uma pessoa aqui que quer vê-lo.

            - Quem? Uma mulher?

            - Um senhor simpático da Inglaterra...

            - Não, tia Viv...

            - Mas ele não é repórter. Pelo menos diz que não é. É uma pessoa gentil. Chama-se Sr Lightner. Diz que veio de Londres especialmente. O avião de Nova York para cá acabou de aterrissar e ele veio direto para nossa porta.

            - Agora não. Precisa dizer para ele ir embora. Tia Viv, tenho de voltar. Tenho de ir para Nova Orleans. Preciso ligar para o Dr Morris. Onde está o telefone?

            Ele saiu da cama, com a cabeça girando, e ficou imóvel por um instante até a tontura passar. Mas não adiantou. Seus membros pareciam de chumbo. Caiu de volta na cama, de volta aos sonhos. Andando pela casa de Miss Havisham. O homem no jardim o cumprimentou novamente. Alguém havia desligado a televisão.

            - Durma agora - disse tia Viv.

            Ele ouviu seus passos se afastando. O telefone estava tocando?

            - Alguém me ajude - disse baixinho.

 

            Basta passar por lá. De uma pequena volta, atravesse Magazine Street, desça pela First e passe pela velha casa imponente e dilapidada. Veja com seus próprios olhos se os vidros das janelas da frente estão quebrados. Veja por si mesmo se Deirdre Mayfair ainda está sentada naquela varanda lateral. Você não precisa ir até lá e pedir para ver Deirdre. Afinal, o que acha que pode acontecer?

            O padre Mattingly estava zangado consigo mesmo. Realmente era um dever visitar aquela família antes de voltar para o norte. Houve uma época em que ele foi o padre da sua paróquia. Ele conhecia toda a família. E já fazia bem mais de um ano desde que visitara o sul, desde que vira Miss Carl, desde o funeral de Miss Nancy.

            Há alguns meses, um dos padres mais jovens lhe havia escrito para contar que Deirdre Mayfair estava muito debilitada. Seus braços estavam agora recolhidos para junto do peito, com a atrofia que sempre se instala nesses casos. E os cheques de Miss Carl chegavam á paróquia com a regularidade de sempre - aparentemente um por mês - no valor de mil dólares em favor da Paróquia Redentorista, sem qualquer compromisso. Ao longo dos anos, ela havia doado uma fortuna.

            O padre Mattingly devia mesmo ir só para uma visita de cortesia e um agradecimento pessoal, como costumava fazer antigamente. Hoje em dia, os padres da paróquia não conheciam a família Mayfair.

            Eles não conheciam as velhas histórias. Jamais haviam sido convidados a visitar a casa. Só há poucos anos haviam chegado a essa paróquia antiga e triste, com um rebanho que diminuía, com belas igrejas agora trancadas em conseqüência dos vândalos, com os prédios mais velhos em ruínas.

            O padre Mattingly ainda se lembrava de quando mesmo as missas dos primeiros horários estavam sempre cheias, quando havia casamentos e enterros a semana inteira tanto nade Santa Maria quanto na de Santo Afonso.

            Lembrava -se das procissões de maio e das novenas concorridas; da Missa do Galo com a igreja intransitável. Agora, porém, as velhas famílias alemãs e irlandesas não moravam mais ali. A escola de segundo grau estava fechada há anos. O vidro estava caindo direto das janelas.

            Ele estava feliz por essa ser somente uma breve visita, pois cada retorno à paróquia era mais triste do que o anterior. Quando se prestava atenção, isso aqui era como um posto missionário avançado. Na realidade, ele esperava não ter de voltar ao sul novamente.

            No entanto, não podia ir embora sem visitar aquela família.

            É, vá até lá. É o que devia fazer. Devia ir ver como está Deirdre Mayfair. Afinal, da

não era uma paroquiana?

            E não havia nada de errado em tentar descobrir se os mexericos diziam a verdade: que haviam tentado internar Deirdre num sanatório e que ela se rebelara, destruindo as vidraças das janelas antes de voltar á sua catatonia. Isso supostamente havia ocorrido no dia 13 de agosto, só dois dias atrás.

            Quem sabe, talvez Miss Carl apreciasse uma visita.

            Isso, no entanto, não passava de um exercício mental do padre Mattingly. Miss Carl não queria sua presença hoje nem um pouco mais do que sempre quis. Havia anos que ele não era convidado a entrar. E Deirdre Mayfair era agora e seria para sempre "um belo vegetal", nas palavras da sua própria enfermeira.

            Não, ele estaria indo lá por curiosidade.

            Mas também como podia se explicar que "um belo vegetal" se levantasse e quebrasse todos os vidros de duas janelas de mais de três metros de altura? A história não fazia muito sentido quando se refletia sobre ela. E por que motivo os homens do sanatório não a levaram de qualquer jeito? Sem dúvida, eles poderiam tê-la amarrado numa camisa-de-força. Não era isso o que acontecia nessas ocasiões?

            No entanto, a enfermeira de Deirdre não deixou que eles passassem da porta, berrando para que recuassem, alegando que Deirdre ia ficar em casa e que ela e Miss Carl cuidariam de tudo.

            Jerry Lonigan, o agente funerário, havia contado tudo ao padre.

            O motorista da ambulância do sanatório costumava dirigir limusines para Lonigan and Sons. Ele viu tudo. O vidro que se espatifava ao cair na varanda da frente. Parecia que alguma coisa estava quebrando no grande quarto da frente.

            E Deirdre fazia um ruído terrível, um uivo. Coisa pavorosa de se imaginar - como a

visão de alguém ressuscitando dos mortos. Bem, isso não era da conta do padre Mattingly. Ou era?

            Meu Deus, Miss Carl estava com mais de oitenta, apesar de ainda ir trabalhar todos os dias. E agora estava inteiramente só naquela casa com Deirdre e as empregadas.

            Quanto mais refletia sobre o assunto, mais o padre Mattingly concluía que deveria ir, mesmo que detestasse a casa, que odiasse Carl e tudo que sempre soubera daquela família. É, ele devia ir.

            E claro que seus sentimentos nem sempre foram esses. Há quarenta e dois anos, quando chegou de St. Louis a essa paróquia ribeirinha, havia considerado as mulheres da família Mayfair simpáticas, até mesmo a rechonchuda e resmunguenta Nancy, e sem a menor dúvida a doce Miss Belle e a bonita Miss Milhe. A casa também o encantava, com seus relógios de bronze e seus reposteiros de veludo. Ele apreciava até os imensos espelhos manchados e os retratos pintados dos antepassados caribenhos por trás de vidros turvos.

            Também apreciava a determinação e a inteligência evidente de Carlotta Mayfair,

que lhe servia café au lait num jardim de inverno onde se sentavam a uma mesa branca de vime em cadeiras do mesmo material em meio a vasos de orquídeas e samambaias. Haviam passado mais de uma tarde agradável conversando sobre política, sobre o tempo e sobre a história da paróquia que o padre Mattingly estava se esforçando tanto para compreender. E, ele gostava delas.

            E também gostava da pequena Deirdre, a menina de seis anos de rosto bonito que ele conhecera por tão pouco tempo e que tivera de passar por uma crise tão trágica apenas doze anos depois. Estaria escrito nos manuais que o tratamento por choques podia apagar por inteiro a memória de uma mulher adulta de tal modo que ela se tornasse uma concha silenciosa com a aparência de si mesma, de olhos fixos na chuva a cair enquanto a enfermeira a alimentava com uma colher de prata? Por que haviam feito aquilo? Ele não ousava perguntar; mas haviam lhe dito repetidas vezes. Para curá-la dos seus "delírios", em que gritava num aposento vazio "Foi você" para alguém que não estava lá, alguém que ela amaldiçoava incessantemente pela morte do homem que era o pai da sua filha ilegítima.

            Deirdre. Chorar por Deirdre. Isso o padre Mattingly havia feito, e ninguém a não ser Deus jamais saberia quanto ou por quê, embora o próprio padre nunca fosse se esquecer. Todos os dias da sua vida, ele se lembraria da história que uma menininha havia derramado nos seus ouvidos no quente cubículo de madeira do confessionário, uma menininha que acabaria desperdiçando sua vida, apodrecendo naquela casa encoberta de trepadeiras enquanto o mundo lá fora prosseguia a galope para sua própria destruição.

            Basta ir até lá. Fazer a visita. Talvez só como uma silenciosa homenagem em memória da menininha. Não tente armar o quebra cabeças. Histórias de demônios vindas de uma criancinha ainda ecoando na sua cabeça depois de todo esse tempo! Uma vez que tenha visto o homem, você está condenada.

            O padre Mattingly tomou sua decisão. Vestiu seu casaco preto, ajeitou o colarinho de padre e o peitilho preto e saiu do ar condicionado da casa paroquial para a calçada quente e estreita de Constante Street. Não olhou para as ervas daninhas que encobriam os degraus da igreja de Santo Afonso.

            Não olhou para as pichações nos velhos muros da escola. Se viu alguma coisa, foi o passado que viu enquanto descia por Josephine Street e virava a esquina. E então, a dois pequenos quarteirões de distância, entrou num outro mundo. O sol ofuscante desapareceu, e com ele a poeira e a algazarra do trânsito.

            Janelas fechadas, varandas sombreadas. O zumbido delicado de gramados sendo regados por aspersão atrás de cercas ornamentais. Um cheiro forte de terra preta amontoada sobre as raízes de roseiras bem cuidadas.

            Tudo bem, e o que vai dizer quando chegar lá?

            O calor não estava tão mau assim, considerando-se ser agosto. No entanto, era exatamente como o jovem padre de Chicago havia descrito: "No início, tudo bem, mas aos poucos suas roupas váo ficando cada vez mais pesadas." Com essa, ele teve de rir.

            O que os mais novos pensavam de toda aquela devastação? Não adiantava contar como havia sido um dia. Ah, mas a própria cidade e esse velho bairro continuavam lindos, como sempre.

            Ele prosseguiu caminhando até ver a parede lateral manchada e descascada da casa da família Mayfair acima do topo das árvores, com as chaminés gêmeas pairando contra um fundo de nuvens em movimento. As trepadeiras pareciam estar afundando a estrutura inteira pelo chão adentro. Será que as grades de ferro estavam agora mais enferrujadas do que da última vez que as vira? Uma selva, o jardim.

            Ele diminuiu o ritmo. Foi mais devagar porque realmente não queria chegar lá. Não queria ver de perto o jardim abandonado, as saboeiras e espirradeiras disputando com a grama tão alta quanto o trigo, e as varandas descascadas, com aquele cinza opaco que a madeira velha e não tratada adquire no clima úmido da Louisiana.

            Ele nem mesmo queria estar aqui nesse bairro deserto e tranqüilo. Nada se movimentava por aqui, a não ser os insetos, os pássaros e as próprias plantas a absorver lentamente a luz e o azul do céu. Aqui devia ter sido antes um pântano.

            Um lugar propício para o mal.

            Ele estava perdendo o controle com esses pensamentos. O que o mal tinha a ver com a terra de Deus e as coisas que nela cresciam - até mesmo a selva do jardim abandonado da família Mayfair?

            Mesmo assim, ele não conseguia deixar de pensar em todas as histórias que já havia ouvido sobre as mulheres da família. O que era o vodu, a não ser uma adoração ao diabo? E qual pecado era pior, assassinato ou suicídio? É, o mal havia prosperado por ali. Ele ouviu Deirdre criança sussurrando no seu ouvido. E sentiu o mal quando descansou o peso na cerca de ferro, enquanto olhava para os galhos brancos, rijos, cascudos dos carvalhos que se abriam em leque acima da sua cabeça.

            Enxugou a testa com o lenço. A pequena Deirdre lhe dissera que via o demônio! Ele ouvia sua voz com tanta nitidez agora quanto naquele dia no confessionário há décadas. Também ouviu o som dos seus passos quando ela saiu correndo da igreja, fugindo dele, da sua incapacidade de ajudá-la.

            O início foi, porém, antes disso. Tudo começou numa tarde monótona de sexta feira quando houve uma ligação da irmã Bridget Marie pedindo que um padre viesse rápido ao pátio da escola. Era Deirdre Mayfair novamente.

            O padre Mattingly nunca havia ouvido falar em Deirdre Mayfair. Acabava de vir para o sul, chegando do seminário em Kirkwood, Missouri. Logo encontrou a irmã Bridget Marie, num pátio asfaltado por trás do antigo prédio do convento. Como aquilo lhe parecia europeu na época, triste e antiquado com seus muros irregulares, e a árvore retorcida com bancos de madeira formando um quadrado ao seu redor.

            A medida que se aproximava, a sombra pareceu-lhe agradável. Foi então que percebeu que as meninas sentadas ao longo do banco estavam chorando. A irmã Bridget Marie segurava uma criança trêmula e pálida pela parte mais fina do braço. A criança estava branca de medo. No entanto, era muito bonita, com olhos azuis grandes demais para o rosto fino, os cabelos negros penteados em cachos espiralados longos e bem feitos que tremiam ao tocar seu rosto, os membros bem proporcionados, porém, delicados.

            Flores estavam espalhadas por todo o chão: grandes palmas-de-santa-rita, lírios brancos, longas samambaias verdes e até mesmo rosas vermelhas de belo formato. Flores de floricultura, sem dúvida, mas eram tantas...

            - Padre, está vendo isso? - exclamou a irmã Bridget Marie. - E elas têm a coragem de me dizer que foi seu amigo invisível, o próprio diabo, que pôs essas flores aqui, que as trouxe direto para os braços dela enquanto as outras só olhavam, essas ladras! Roubaram essas flores do próprio altar de Santo Afonso...!

            As meninas começaram a berrar. Uma delas batia com os pés. Com uma fúria alarmante, formou-se um coro de "Vimos, sim! Vimos, sim!" Uma atiçava a outra com seus soluços sufocados.

            A irmã Bridget Marie gritou exigindo silêncio. Sacudiu a menininha que estava segurando pelo braço, apesar de a menina não ter dito nada. A boca da menina estava aberta com o choque e seus olhos se voltaram para o padre Mattingly num pedido mudo.

            - Ora, irmã, por favor- disse o padre. Ele havia liberado delicadamente a menina. Ela estava atordoada, totalmente submissa. Ele teve vontade de segurá-la no colo, de limpar seu rosto ali onde as lágrimas haviam deixado manchas de sujeira. Mas não o fez.

            - Seu amigo invisível - disse a irmã - o que encontra tudo que se perde, padre. Aquele que põe moedinhas para comprar balas no bolso da menina! E todas elas chupam as balas, enchem a boca, com moedas roubadas, o senhor pode ter certeza.

            As meninas choravam ainda mais alto. E o padre Mattingly percebeu estar pisando naquelas flores todas, enquanto a criança calada de rosto pálido tinha o olhar fixo nos seus sapatos, nas pétalas brancas esmagadas debaixo deles.

            - Deixe as crianças entrarem - disse o padre Mattingly. Era essencial assumir o comando. Só assim ele poderia tentar compreender o que a irmã Bridget Marie estava lhe contando.

            No entanto, quando estava a sós com a irmã, a história não era nem um pouco menos fantástica. As crianças alegavam ter visto as flores voando pelo ar. Alegavam ter visto que as flores foram parar nos braços de Deirdre. Elas riam sem parar. Diziam que o amigo mágico de Deirdre sempre as fazia rir. Se você perdesse o caderno ou o lápis, o amigo de Deirdre sempre o encontrava. Bastava que se pedisse a Deirdre, e ele trazia o objeto direto para ela. Era só isso. Elas chegavam a alegar ter visto o próprio amigo - um homem simpático, de cabelos e olhos castanhos, que aparecia um segundo parado ao lado de Deirdre.

            - Ela tem de ser mandada para casa, padre - disse a irmã Bridget Marie. - Isso acontece o tempo todo. Ligo para sua tia-avó Carl ou para sua tia Nancy, e as coisas param por algum tempo. Depois, começa tudo de novo.

            - Mas a senhora não acredita...

            - Padre, digo-lhe que ou é uma coisa ou outra. Ou o demônio está naquela criança, ou ela é um demônio de tão mentirosa que consegue fazer com que as outras acreditem nas suas histórias fantasiosas como se estivessem fascinadas. Ela não pode continuar no Santo Afonso.

            O próprio padre Mattingly levou Deirdre para casa, andando num passo lento e regular por essas mesmas ruas. Nem uma palavra sequer foi pronunciada. Haviam telefonado para Miss Carl no seu escritório no centro. Ela e Miss Millie estavam esperando na escada principal da casa imponente para recebê-los. E como a casa era linda naquela época, pintada de uma cor de lilás forte, com as janelas verdes, o acabamento todo em branco e os gradis das varandas pintados de preto de tal forma que se viam nitidamente as rosas de ferro fundido.

            As trepadeiras eram um gracioso trabalho de folha e cor, não o emaranhado ameaçador em que haviam se transformado desde então.

            - Excesso de imaginação, padre - disse Miss Carl, sem nenhum resquício de preocupação. - Millie, o que Deirdre precisa é de um banho morno. - E lá se foi a criança sem uma palavra. Miss Carl levou o padre Mattingly pela primeira vez ao jardim de inverno envidraçado para um café au lait à mesa de vime. Miss Nancy, feia e carrancuda, havia arrumado as xícaras e a prataria.

            Porcelana Wedgwood com um filete de ouro. E guardanapos de tecido com a inicial M bordada. E que mulher inteligente, essa Miss Carl. Tinha uma aparência extremamente correta no seu costume de seda feito sob medida e blusa branca de jabô, os cabelos grisalhos presos num coque perfeito na nuca, a boca pintada com batom rosa pálido. Ela logo o deixou à vontade com um sorriso cúmplice.

            - Pode-se dizer que é uma maldição da nossa família, padre, esse excesso de imaginação. - Ela serviu o leite e o café quentes de dois pequenos bules de prata. - Nós temos sonhos, visões. Parece que devíamos ser poetas ou pintores. Não advogados, como eu sou. - Ela riu baixinho, á vontade. - Deirdre vai ficar bem quando aprender a distinguir a fantasia da realidade.

            Mais tarde, ela lhe mostrou os aposentos do andar de baixo. E Miss Millie veio se juntar aos dois. Ela era tão feminina, Miss Millie, com o cabelo ruivo em cachinhos antiquados emoldurando o rosto, e anéis de pedras preciosas nos dedos. Ela o levou a uma janela para acenar para Miss Belle, que estava podando as roseiras com grandes tesouras de jardinagem de cabo de madeira.

            Carl explicou que Deirdre ia estudar com as irmãs do Sagrado Coração assim que houvesse uma vaga. Ela lamentava esse tolo inconveniente no Santo Afonso, e é claro que manteriam Deirdre em casa se era isso o que a irmã Bridget Marie queria.

            O padre começou a levantar objeção, mas tudo já estava decidido. Coisa simples, arrumar uma preceptora para Deirdre, alguém que conhecesse crianças, por que não?

            Caminhavam pelas varandas sombreadas.

            - Somos uma família antiga, padre - disse Carl, enquanto voltavam para o salão duplo. - Nem sabemos a idade da nossa família. Hoje em dia não há ninguém que saiba identificar alguns dos retratos que o senhor está vendo à nossa volta. - Sua voz parecia meio cansada, meio irônica. - Nossa origem foi nas ilhas, disso temos certeza, uma grande fazenda em Saint Domingue, e antes disso algum passado europeu nebuloso que agora está completamente perdido. Esta casa está cheia de relíquias sem explicação. Eu às vezes a considero como uma imensa concha de caramujo que preciso levar nas costas.

            Suas mãos tocaram de leve o piano de cauda, a harpa dourada. Disse ter pouco interesse por esses objetos. Que ironia que lhe coubesse a custódia deles. Miss Millie apenas sorriu, concordando com a cabeça. E agora se o padre lhe desse licença, Miss Carl precisava voltar para o centro.           Havia clientes á sua espera. Saíram juntos pelo portão da frente.

            - Muito obrigada, padre!

            E assim não se deu ao assunto a devida atenção, e a menininha de rosto pálido e cachos negros saiu do Santo Afonso. Nos dias que se seguiram, porém, a questão daquelas flores intrigou o padre Mattingly.

            Impossível de se imaginar que um bando de garotinhas pulasse por cima da banca da comunhão e roubasse flores de uma igreja enorme e impressionante como a de Santo Afonso. Mesmo os moleques de rua que o padre Mattingly havia conhecido quando menino não teriam ousado fazer semelhante coisa.

            O que a irmã Bridget Marie achava que havia realmente acontecido?

            As crianças haviam de fato roubado as flores? A freira pequena, atarracada, de rosto redondo, examinou o padre por um instante antes de responder. E disse que não.

            - Padre, Deus e testemunha de que aquela é uma família amaldiçoada, a família Mayfair. A própria avó dessa criança, que se chamava Stella, costumava contar as mesmas histórias neste mesmo pátio há muitos e muitos anos. Era um poder assustador o que Stella exercia sobre os que a cercavam. Havia freiras debaixo deste teto que morriam de medo de passar por ela. Bruxa é do que elas a chamavam na época.

            - Ora, vamos, irmã - objetou ele, imediatamente. - Não estamos nas estradas enevoadas de Tipperary, à procura do fantasma de Petticoat Loose.

            - Ah, quer dizer que o senhor conhece essa história, padre - disse ela, rindo.

            - Ouvi da minha própria mãe irlandesa no Lower East Side, irmã, umas dez vezes.       -Pois então, padre, ouça o que lhe digo. Stella Mayfair uma vez segurou minha mão, assim, e me falou de segredos meus que eu nunca havia contado para ninguém do lado de cá do Atlântico. Posso jurar, padre. Aconteceu comigo. Havia um presente que perdi ainda em casa, uma corrente com um crucifixo. Quando eu era menina, chorei sem parar quando o perdi. E foi esse mesmo presente que Stella Mayfair descreveu para mim. "Irmã, a senhora não quer tê-lo de novo?" Ela me perguntou, sorrindo o tempo todo com um jeito doce, exatamente como a neta Deirdre sorri para a gente agora, com mais inocência do que esperteza. "Posso consegui-lo para a senhora, irmã", disse ela. "Com o poder do demônio, você quer dizer, Stella Mayfair", respondi-lhe. "Não, não quero saber do presente." Mas havia no colégio de Santo Afonso muitas outras irmãs que pensavam de outro modo, e era assim que ela exercia seu poder sobre os que a cercavam, conseguindo tudo do seu jeito até o dia em que morreu.

            - Isso é superstição, irmã - retorquiu ele com grande autoridade. - E a mãe da pequena Deirdre? Vai me dizer que ela também era bruxa?

            A irmã Bridget Marie abanou a cabeça.

            - Essa se chamava Antha, uma coitadinha, tímida, doce, com medo da própria sombra, nem um pouco parecida com a mãe, Stella, pelo menos até o assassinato de Stella. O senhor precisava ver a expressão de Miss Carlotta quando enterraram Stella. E a mesma expressão no seu rosto doze anos depois, quando enterraram Antha. Agora, Carl foi a menina mais inteligente que jamais passou pelo Sagrado Coração. A coluna dorsal da família é o que ela é. Sua mãe, no entanto, nunca ligou a mínima para ela. Tudo com que Mary Beth Mayfair realmente se importava era com Stella. E o velho Sr Julien, o tio de Mary Beth, era do mesmo jeito. Stella, Stella, Stella. Já Antha, no final uma louca furiosa, ao que diziam, não era mais do que uma moça de vinte anos quando subiu correndo a escada da velha casa e se jogou da janela do sótão, fraturando a cabeça nas pedras cá embaixo.

            - Tão nova - comentou baixinho o padre. Lembrou-se do rosto pálido, assustado, de Deirdre Mayfair. Quantos anos devia ter quando sua jovem mãe cometeu um ato desses?

            - Enterraram Antha em terra consagrada. Deus que se compadeça da sua alma. Pois quem tem condição de julgar o estado de espírito de uma pessoa assim? A cabeça partida ao meio como uma melancia quando bateu no terraço. E a pequenina Deirdre berrando a plenos pulmões no berço. A verdade e que até mesmo Antha era de causar medo.

            A cabeça do padre Mattingly girava. Aquele era, porém, o tipo de conversa que ele havia ouvido a vida inteira em casa, a interminável dramatização irlandesa do mórbido, o exagerado tributo ao trágico. No fundo, aquilo o cansava. Ele queria perguntar...

            Mas a campainha soou. As crianças começaram a entrar em forma para voltar para as salas de aula. A irmã tinha de ir. Mesmo assim, ela de repente se voltou.

            - Vou lhe contar uma história sobre Antha - disse ela, com a voz baixa em virtude do silêncio no pátio - que é a melhor que sei. Naquela época em que as irmãs faziam a ceia ao meio-dia em ponto, as crianças ficavam caladas neste pátio até que terminasse o Angelus e depois dele a Ação de Graças às Refeições. Nestes dias de hoje, ninguém tem um respeito semelhante por mais nada, mas era esse o costume então. Num dia de primavera, durante aquela hora de silêncio, uma menina levada e perversa chamada Jenny Simpson vem apavorar a pobrezinha da Antha com um rato morto que havia encontrado debaixo da cerca viva. Antha dá uma olhada no rato morto e solta um berro apavorante, padre, como nunca se ouviu igual! Nós chegamos correndo da mesa, como o senhor pode imaginar, e o que acha que vimos? A menina perversa, Jenny Simpson, jogada para trás no chão, padre, com o rosto sangrando, e o rato saindo da sua mão para passar voando por cima daquela cerca que está ali! E o senhor acha que foi a pequena Antha que fez aquilo, padre? Uma menininha de nada, tão delicada quanto sua filha Deirdre hoje em dia? Claro que não! Foi o mesmíssimo demônio invisível, padre, o próprio diabo, o que trouxe as flores voando para Deirdre aqui neste pátio há uma semana.

            - A irmã não está pensando que eu seja tão ingênuo - disse o padre Mattingly rindo - a ponto de acreditar numa história dessas.

            É verdade que ela sorriu, mas ele sabia de experiências passadas que uma irlandesa daquelas podia rir do que estava dizendo e ao mesmo tempo acreditar em cada palavra.

            A família Mayfair o fascinava, como algo complexo e elegante consegue fascinar. As histórias de Stella e Antha eram remotas o suficiente para serem românticas e nada mais do que isso.

            No domingo seguinte, ele foi novamente visitar os Mayfair. Ofereceram-lhe café mais uma vez e conversa simpática: tudo tão distante das histórias da irmã Bridget Marie. O rádio tocava Rudy Vallee ao fundo. A velha Miss Belle regava vasos de orquídeas adormecidas. O aroma de frango assado vinha da cozinha. Uma casa perfeitamente agradável.

            Chegaram a convidá-lo para o almoço de domingo - a mesa estava muito bem arrumada com grossos guardanapos de linho em argolas de prata - mas ele recusou o convite com delicadeza. Miss Carl preencheu um cheque para a paróquia e o colocou nas suas mãos.

            Quando estava saindo, viu Deirdre de relance no jardim, um rosto muito branco que o espiava por trás de uma velha árvore retorcida. Ele acenou para ela sem interromper o passo, embora mais tarde algo o incomodasse na imagem da menina. Seriam seus cachos todos emaranhados? Ou seu olhar aturdido? A loucura. Era isso o que a irmã Bridget Marie lhe havia descrito, ele ficava perturbado ao pensar que aquela menina abatida estava ameaçada. Para o padre Mattingly não havia nada de romântico na verdadeira loucura. Há muito tempo ele acreditava que os loucos vivem num inferno de alheamento. A eles escapava o sentido da vida á sua volta.

            Já Miss Carlotta era uma mulher moderna, sensata. A criança não estava condenada a seguir os passos da mãe falecida. Pelo contrário, ela teria todas as oportunidades. Passou-se um mês até sua opinião sobre a família Mayfair mudar para sempre, na inesquecível tarde de sábado em que Deirdre Mayfair veio se confessar na igreja de Santo Afonso.

            Foi no horário normal em que se podia contar que todos os bons católicos irlandeses e alemães viriam aliviar sua consciência para a missa e a comunhão no domingo.

            Ele estava, portanto, sentado na elaborada casinha de madeira do confessionário, numa cadeira estreita atrás de uma cortina de sarja verde, ouvindo alternadamente os penitentes que vinham se ajoelhar nos estreitos cubículos á sua direita e à sua esquerda. Essas vozes e esses pecados ele poderia ter ouvido em Boston ou na cidade de Nova York, tão parecidos eram os sotaques, as preocupações, as idéias.

            Costumava prescrever três ave-marias ou três pai-nossos, mas raramente mais do que isso, a esses homens trabalhadores e boas donas-de-casa que vinham confessar pecadilhos de rotina.

            Foi quando uma voz infantil o apanhou despreparado, passando rápida e nítida pela treliça escura e empoeirada, eloqüente na sua inteligência e precocidade. Ele não a reconheceu a princípio. Afinal de contas, Deirdre Mayfair não havia dito até então uma palavra sequer na sua presença.

            - Abençoe-me, padre, porque pequei. Minha última confissão foi há muitas semanas. Padre, peço que me ajude. Não consigo lutar contra o demônio. Tento e sempre acabo perdendo. E vou para o inferno por isso.

            O que era isso, mais um exemplo da influência da irmã Bridget Marie? Antes que ele pudesse falar, porém, a criança prosseguiu, e ele soube que se tratava de Deirdre.

            - Não mandei o demônio se afastar quando ele me trouxe as flores. Eu queria mandar e sei que deveria ter mandado, e por isso tia Carl está muito, mas muito, zangada comigo. Mas, padre, ele só queria nos dar alegria. Padre, eu lhe juro que ele nunca me trata mal. E chora se eu não olhar para ele ou não lhe der atenção. Eu não sabia que ele ia trazer as flores do altar! As vezes ele faz umas bobagens desse tipo, padre, coisas que só uma criança pequena ou alguém com ainda menos juízo faria. Mas a intenção dele não é a de machucar ninguém.

            - Agora, espere um pouco, querida, o que a faz pensar que o próprio diabo viria atormentar uma menininha? Você não quer me contar o que aconteceu de fato?

            -Padre, ele não é como está na Bíblia. Juro. Ele não é feio. É alto e lindo. Igualzinho a um homem de verdade. E ele não diz mentiras. Ele faz coisas boas, sempre. Quando estou com medo, ele vem, senta ao meu lado na cama e me beija. Verdade. E ele espanta as pessoas que tentam me machucar!

            - Então, menina, por que você diz que ele é o diabo? Não seria melhor dizer que ele é um amigo imaginário, alguém com quem você pode ficar para não se sentir sozinha?

            - Não, padre, ele é o diabo. - Ela parecia ter tanta certeza. - Ele não é real, mas também não é imaginário. -A vozinha foi ficando triste, cansada.       Uma pequena mulher disfarçada de criança, lutando com um fardo imenso, quase em desespero. - Eu sei que ele está por perto mesmo quando ninguém percebe. Eu olho e olho, e aí todos conseguem vê-lo! - A vozinha desafinou.

            - Padre, eu tento não olhar. Digo Jesus, Maria e José e tento não olhar. Sei que é um pecado mortal. Mas ele fica tão triste e chora sem fazer barulho nenhum, e só eu ouço.

            - Bem, minha filha, você já conversou com sua tia Carl sobre isso? - Sua voz era calma, mas no fundo o relato detalhado da menina começava a alarmá-lo. Isso ia além do "excesso de imaginação" ou de outros excessos semelhantes de que ele já ouvira falar.

            - Padre, ela sabe tudo sobre ele. Todas as minhas tias sabem. Elas o chamam de o homem, mas tia Carl diz que na realidade ele é o diabo. É ela quem diz que é pecado, como o de se tocar no meio das pernas, o de ter pensamentos sujos. Como quando ele me beija e me faz sentir calafrios e outras coisas. Ela diz que é uma imoralidade olhar para o homem e deixar que ele entre debaixo das cobertas. Ela diz que ele pode me matar. Minha mãe também o viu a vida inteira e foi por isso que ela morreu e foi para o céu para se livrar dele.

            O padre Mattingly estava pasmo. Quer dizer que não se consegue escandalizar um padre no confessionário, não era isso o que se dizia?

            - E a mãe da minha mãe também o via - prosseguiu a criança, com a voz acelerada, tensa. - Ela, sim, era má, muito má. Foi ele que a fez ficar má, e ela morreu por culpa dele. Mas provavelmente foi para o inferno, em vez de ir para o céu, e talvez eu vá também.

            - Ora, menina, espere um pouco. Quem lhe disse isso?

            - Minha tia Carl, padre - insistiu a criança. - Ela não quer que eu vá para o inferno como Stella. Ela me mandou rezar para afastá-lo, que eu conseguiria se ao menos tentasse, se rezasse o rosário e não olhasse para ele. Padre, ela fica tão zangada comigo por deixar que ele apareça... - A criança parou. Estava chorando embora fosse óbvio que tentava sufocar o choro. - E tia Millie tem tanto medo. E tia Nancy se recusa a me olhar. Tia Nancy diz que na nossa família, uma vez que se tenha visto o homem, já se está praticamente condenada.

            O padre Mattingly estava horrorizado demais para falar. Pigarreou rapidamente.

            - Você está querendo dizer que suas tias dizem que essa coisa é real...

            - Elas sempre souberam dele, padre. E qualquer um pode vê-lo se eu deixar que ele fique bem forte. É verdade, padre. Qualquer um. Mas, veja só, eu é que faço com que ele apareça. Não é pecado mortal que as outras pessoas o vejam, porque a culpa é minha. Minha culpa. Ele não poderia ser visto se eu não permitisse que ele aparecesse. Padre, eu só não entendo como o demônio pode ser tão bom comigo, como ele chora forte quando está triste e tem tanta vontade de ficar perto de mim... - A voz foi interrompida por soluços reprimidos.

            - Não chore, Deirdre - disse ele, com firmeza. Mas era inconcebível!

            Aquela mulher "moderna" e sensata, no seu costume de corte perfeito, transmitindo uma superstição dessas para uma criança? E o que dizer das outras, pelo amor de Deus? Ora, elas faziam com que a irmã Bridget Marie e sua laia se parecessem com o próprio Sigmund Freud. Ele procurou ver Deirdre através da treliça escura. Ela estava enxugando os olhos com as mãos?

            A vozinha nítida continuou de repente, com uma pressa angustiada.

            - Tia Carl diz que já é pecado mortal só pensar nele ou pensar no nome dele. O fato de se pronunciar o seu nome faz com que ele surja de imediato! Mas, padre, ele está bem ao meu lado enquanto ela fala e me diz que ela está mentindo. E, padre, sei que é horrível eu dizer isso, mas ás vezes ela está mentindo, eu sei, mesmo quando ele se mantém calado. Mas o pior mesmo é quando ele vem para assustá-la. E ela o ameaça! Diz que vai me machucar se ele não me deixar em paz! - A voz parou novamente. Mal se ouvia o choro. Parecia tão pequena, tão desamparada! - Mas o tempo todo, padre, mesmo quando estou  totalmente só, ou mesmo durante a missa, com todo mundo em volta, sei que ele está sempre ao meu lado. Sinto sua presença. Ouço seu choro e isso me faz chorar, também.

            - Querida, agora pense bem antes de me responder. A sua tia Carl chegou a afirmar ter visto essa coisa?

            - Claro, padre. - Tão cansada. Será que ele não acreditava nela? Era isso o que ela lhe implorava que fizesse.

            - Estou tentando compreender, querida. Quero compreender, mas você precisa me ajudar. Tem certeza de que sua tia Carl disse tê-lo visto com seus próprios olhos?

            - Padre, ela o viu quando eu ainda era bebê e nem sabia que podia fazer com que ele aparecesse. Ela o viu no dia em que minha mãe morreu. Ele estava balançando meu berço. E quando minha avó Stella era pequena, ele ficava parado atrás dela à mesa do jantar. Padre, vou lhe contar um segredo terrível. Na nossa casa tem um retrato da minha mãe, e ele está no retrato, em pé ao lado dela. Eu soube do retrato porque ele o pegou e me deu, embora ele estivesse escondido. Ele abriu a gaveta da cômoda sem sequer tocar nela e pôs o retrato na minha mão. Ele faz esse tipo de coisa quando está bem forte, quando fiquei com ele muito tempo e passei o dia pensando nele. É aí que todo mundo sabe que ele está na casa, e tia Nancy vai esperar tia Carl á porta, cochichando, "O homem está aqui. Acabei de vê-lo". Tia Carl fica tão furiosa com isso. É tudo culpa minha, padre! E eu tenho medo de não conseguir fazer com que ele pare. E todas elas ficam tão perturbadas!

            Seus soluços foram ficando cada vez mais altos, reverberando nas paredes de madeira do confessionário. Sem dúvida, outros podiam ouvi-la no recinto da igreja. E o que ele devia lhe dizer? Estava perdendo o controle. Que loucura era essa dessas mulheres? Não haveria ninguém com um mínimo de juízo na família inteira que pudesse conseguir um psiquiatra para ajudar essa menina?

            - Querida, ouça o que lhe digo. Quero que me dê permissão para falar sobre esse assunto fora do confessionário com sua tia Carl. Você me daria essa permissão?

            - Não, padre, por favor. O senhor não pode fazer isso.

            - Minha filha, eu não vou fazer nada. Não sem a sua permissão. Mesmo assim, eu lhe digo que preciso falar com sua tia Carl a esse respeito. Deirdre, ela e eu podemos juntos afastar essa coisa.

            - Padre, ela nunca vai me perdoar por ter contado. Nunca. É pecado mortal contar. Tia Nancy nunca me perdoaria. Até tia Millie ficaria zangada. Padre, o senhor não pode dizer a ela que eu lhe falei dele! - Ela estava ficando histérica.

            - Posso fazer desaparecer esse pecado mortal, querida - explicou ele. - Posso absolvê-la. Daquele momento em diante, sua alma ficará branca como a neve, Deirdre. Confie em mim, Deirdre. Dê-me sua permissão para falar com ela.

            Por um instante de tensão, o choro foi sua única resposta. Depois, antes mesmo de ouvir o ruído da maçaneta da pequena porta de madeira, ele soube que a havia perdido. Dentro de segundos, ouviu seus passos correndo pela igreja para longe dele.

            Ele havia dito a frase errada, havia tomado a decisão errada! E agora não havia mais nada que pudesse fazer, preso como estava pelo sigilo do confessionário. E esse segredo lhe chegara de uma criança atormentada que não tinha nem idade suficiente para cometer um pecado mortal, ou para se beneficiar do sacramento que viera procurar.

            Ele nunca se esqueceu desse momento, sentado, impotente, ouvindo aqueles passos que ecoavam no átrio da igreja, com o calor e o abafamento do confessionário a sufocá-lo. Meu Deus, o que ele ia poder fazer? A tortura havia, no entanto, apenas começado para o padre Mattingly. Durante semanas a fio, ele sofre uma verdadeira obsessão: aquelas mulheres, aquela casa...

            Não podia, porém, tomar qualquer atitude com base no que ouvira, da mesma forma que não podia relatar aquilo para ninguém. O confessionário o obrigava ao sigilo em palavras e obras.

            Ele nem ousou fazer perguntas à irmã Bridget Marie, muito embora ela lhe transmitisse informações suficientes quando ele por acaso a encontrou no pátio. Ele sentia uma certa culpa por lhe dar ouvidos, mas não conseguia se afastar dali.

            - Pois não é que puseram Deirdre no Sagrado Coração? Mas o senhor acha que ela vai ficar lá? Expulsaram a mãe dela, Antha, quando tinha só oito anos de idade. E ela foi também expulsa das Ursilinas. Afinal encontraram para ela uma escola particular, um desses lugares malucos em que deixam as crianças fazerem o que quiserem. E como Antha era triste quando era menina, sempre escrevendo poesia e contos, falando sozinha e fazendo perguntas para saber como a mãe morreu. E o senhor sabe que foi assassinato, não sabe, padre, que Stella Mayfair foi morta a tiros pelo seu irmão Lionel? E isso, num baile a fantasia naquela casa. Foi um verdadeiro estouro da boiada. Espelhos, relógios, janelas, tudo estava quebrado quando o pânico terminou. E Stella jazia morta no chão.

            O padre Mattingly apenas sacudiu a cabeça de pena.

            - Não era de espantar que Antha perdesse a razão, e menos de dez anos depois ela se juntou nada mais nada menos do que com um pintor, que nem se incomodou em se casar com ela, deixando-a num prédio de quatro andares sem elevador no Greenwich Village no meio do inverno sem nenhum dinheiro e com a pequena Deirdre para cuidar, de modo que ela teve de passar a vergonha de voltar para casa. E depois saltar daquela janela do sótão, coitadinha, mas que vida infernal não era com aquelas tias implicando com ela, vigiando cada movimento seu e a trancando à noite, enquanto ela fugia para o French Quarter para beber, imagine só, na sua idade, com os poetas e os escritores e tentar fazer com que eles prestassem atenção ao seu trabalho. Vou lhe contar um estranho segredo, padre. Meses a fio, depois que ela morreu, chegavam cartas para ela, e originais seus voltavam das pessoas de Nova York para quem ela os havia mandado. E que agonia para Miss Carlotta que o carteiro lhe trouxesse uma lembrança de tanta dor e sofrimento quando tocava a campainha do portão.

            O padre Mattingly disse uma prece muda para Deirdre. Que a sombra do mal não a atinja.

            - Uma das histórias de Antha saiu numa revista, ao que me disseram, publicada em Paris, mas toda em inglês, e também isso chegou para Miss Carlotta. Ela deu uma olhada e a escondeu em algum canto trancada. Foi uma das primas da família quem me contou essa parte e me falou que eles se ofereceram para cuidar do bebê, da pequena Deirdre, mas ela não quis. Ela ia ficar com o bebê. Isso devia a Stella, a Antha, à sua mãe e à própria criança.

            O padre Mattingly parou na igreja no caminho de volta à casa paroquial. Ficou um bom tempo parado na sacristia silenciosa olhando pela porta para o altar principal. Por uma história sórdida, ele podia perdoar a família Mayfair com facilidade. Nasceram ignorantes neste mundo como o restante de nós. Mas o que dizer de deturpar a mente de uma menininha com mentiras sobre o diabo que levou sua mãe ao suicídio? Mesmo assim, não havia nada, absolutamente nada, que o padre Mattingly pudesse fazer a não ser orar por Deirdre, como estava orando agora.

            Deirdre foi expulsa da Academia Particular de Santa Margarida perto do Natal, e suas tias a despacharam para uma escola interna bem ao norte. Algum tempo depois, ele soube que ela estava em casa novamente, adoentada, estudando com uma preceptora. E numa ocasião posterior ele chegou a vê-la de relance numa concorrida missa das dez. Ela não veio comungar. Mas ele a viu sentada no banco com suas tias.

            A história da família Mayfair ia lhe chegando cada vez mais em fragmentos. Parecia que todo mundo na paróquia sabia que ele havia estado na casa. Vovó Lucy O'Hara havia segurado sua mão por cima da mesa da cozinha.

            - Pois ouvi falar que Deirdre Mayfair foi expulsa do colégio, e que o senhor esteve naquela casa por esse motivo, não é verdade, padre? - Afinal o que ele poderia responder? Por isso, só ouvia.

            - Mas eu conheço bem aquela família. Mary Beth, essa era a grande dama. Ela podia lhe contar tudo sobre a antiga fazenda. Nasceu lá logo depois da guerra de secessão. Só veio a Nova Orleans na década de 1880, quando seu tio Julien a trouxe. Como ele era um perfeito senhor do sul! Ainda me lembro do Sr Julien subindo St. Charles Avenue a cavalo. Ele era o velho mais bonito que alguém já viu. E diziam que havia uma imensa casa de fazenda em Riverbend. Ela costumava aparecer nos livros mesmo quando estava desmoronando. O Sr Julien e Mary Beth fizeram tudo o que podiam para salvá-la. Mas não se pode parar o rio quando ele está decidido a tomar uma casa.

            - Agora, ela era uma verdadeira beleza, Mary Beth, morena e extravagante, não delicada como Stella, ou sem graça como Carlotta. E dizem que Antha era linda, apesar de eu nunca tê-la visto, nem ao pobre bebê Deirdre. Já Stella era uma verdadeira rainha do vodu. É, padre, estou falando de Stella. Ela conhecia os pós, as poções, as cerimônias. Ela sabia ler a sorte nas cartas. Fez isso com meu neto, Sean. Quase o deixou louco de pavor com as coisas que lhe disse. Isso foi numa daquelas festas turbulentas lá em First Street, quando se embriagavam com bebidas clandestinas e tinham uma banda tocando bem no salão. Stella era assim.

            - Ela gostava do meu Billy, se gostava. - Um gesto súbito na direção de uma foto desbotada no alto da cômoda. - Foi o que morreu na guerra. Eu lhe avisava, "Billy, ouça o que lhe digo. Não se aproxime das mulheres da família Mayfair". Ela gostava de todos os rapazes bonitos. Foi assim que seu irmão a matou. Num dia de céu limpo, ela podia fazer surgir uma nuvem acima da cabeça de quem quisesse. Essa é a mais pura verdade, padre. Ela costumava assustar as irmãs de Santo Afonso formando tempestades desse jeito bem acima do jardim. E na noite em que ela morreu, o senhor precisava ter visto a tempestade que caiu sobre a casa. Ora, disseram que todas as janelas se partiram. Vento e chuva, como um furacão em volta da casa. Stella fez com que os céus chorassem por ela.

            Perplexo, o padre Mattingly ficava ali sentado, tentando apreciar o chá morno cheio de leite e açúcar, mas estava registrando cada palavra. Não voltou a visitar a família. Não ousou. Não podia permitir que aquela criança, se por acaso estivesse por lá, imaginasse que ele fosse relatar o que era obrigado a manter em segredo para sempre. Ele procurava as mulheres na missa. Raramente as via. É claro que esta era uma grande freguesia. Elas poderiam ter ido a qualquer uma das duas igrejas ou ainda à capelinha dos ricos lá mesmo no Garden District.

            Os cheques de Miss Carlotta, entretanto, continuavam a chegar. Isso ele sabia. O padre Lafferty, que se encarregava das contas da paróquia, mostrou-lhe o cheque perto da época do Natal - era no valor de dois mil dólares - num comentário silencioso sobre como Carlotta Mayfair usava o dinheiro para manter o mundo à sua volta satisfeito e calado.

            - Suponho que já saiba que mandaram a pequena sobrinha de volta da escola em Boston.

            O padre Mattingly não sabia. Ficou ali parado à porta do escritório do padre Lafferty, aguardando...

            - Bem, pensei que você se desse muito bem com aquelas senhoras - disse o padre Lafferty. Era homem de falar sem rodeios, com seus mais de sessenta anos, não um fofoqueiro.

            - Só fiz uma visita ou duas - disse o padre Mattingly.

            - Agora estão dizendo que a pequena Deirdre está adoentada - prosseguiu o padre Lafferty. Pôs o cheque sobre o descanso da sua escrivaninha. Olhou para ele. - Não pode freqüentar a escola comum. Tem de ficar em casa com uma preceptora.

            - Uma tristeza.

            - Parece mesmo. Mas ninguém vai questionar a decisão. Ninguém vai aparecer por lá para ver se a menina está recebendo uma formação razoável.

            - Elas têm dinheiro suficiente...

            - Têm mesmo. O suficiente para manter tudo em segredo. Elas poderiam sair impunes mesmo de assassinato.

            - O senhor acha?

            O padre Lafferty pareceu estar debatendo algo consigo mesmo. Não tirava os olhos do cheque de Carlotta Mayfair.

            - Suponho que tenha ouvido falar do assassinato - disse ele - de quando Lionel Mayfair matou a irmã Stella a tiros? Não passou nem um dia na prisão por isso. Miss Carlotta ajeitou tudo. Junto com o Sr Cortland, o filho de Julien. Aqueles dois, entre eles, poderiam dar um jeito em qualquer coisa. Nenhuma pergunta feita por ninguém. - Mas como foi que eles conseguiram...

            - É claro que a solução foi o hospício, e lá Lionel se suicidou, embora ninguém saiba como, já que estava numa camisa-de-força.

            - Não me diga.

            - Digo, sim - respondeu o padre Lafferty, concordando com um gesto de cabeça. - Mais uma vez, não foram feitas perguntas. Missa fúnebre, como sempre. Depois, a pequena Antha veio aqui, a filha de Stella, sabe, chorando, berrando, dizendo que foi Miss Carlotta quem fez Lionel assassinar a mãe. Falou com o ministro ali em baixo no salão da esquerda. Eu estava lá, o padre Morgan estava lá e também o padre Graham. Todos ouvimos o que ela disse.

            O padre Mattingly ouvia calado.

            - A pequena Antha disse que estava com medo de voltar para casa. Com medo de Miss Carlotta. Contou que Miss Carlotta disse a Lionel que ele não era homem se não desse um basta no que estava acontecendo, que chegou a lhe dar uma pistola de calibre 38 para matar Stella. Seria de se esperar que alguém fizesse algumas perguntas a esse respeito, mas o ministro não fez. Ele só pegou o telefone e ligou para Miss Carlotta. Depois de poucos minutos, uma grande limusine negra veio apanhar a pequena Antha.

            O padre Mattingly tinha os olhos fixos no homenzinho magro sentado à escrivaninha. Eu também não fiz nenhuma pergunta.

            - Mais tarde, o ministro disse que a criança era desequilibrada; que ela havia dito as outras crianças que ouvia o que as pessoas diziam do outro lado de paredes e que lia as suas mentes. Ele disse que ela se acalmaria, que estava só descontrolada com a morte de Stella.

            - Mas depois disso, ela só piorou, não foi?

            - Pulou da janela do sótão quando tinha vinte anos, foi o que fez. Não houve perguntas. Ela não estava em seu perfeito juízo e, além do mais, não passava de uma criança. Missa fúnebre como de costume.

            O padre Lafferty virou o cheque e carimbou o endosso da paróquia no seu verso.

            - Padre, o senhor está querendo dizer que eu deveria ir visitar a família Mayfair?

            - Não, padre, não estou. Nem sei do que estou falando, se quer saber a verdade. Mas agora eu preferia que Miss Carlotta tivesse desistido dessa criança, tirado a menina daquela casa. São muitas as recordações negativas debaixo daquele teto. Não é lugar para uma criança.

            Quando o padre Mattingly soube que Deirdre Mayfair havia sido mais uma vez mandada estudar fora - dessa vez na Europa - decidiu que tinha de fazer a visita.

            Era primavera, e bem mais de três anos haviam se passado desde a confissão perturbadora. Ele precisava se forçar a chegar até aquele portão, se não fosse por nenhum outro motivo, simplesmente por não conseguir pensar em nada diferente. Não foi surpresa nenhuma que Carlotta o convidasse para entrar no longo salão duplo, e o conjunto de café veio numa bandeja de prata, tudo muito cordial. Ele adorava aquele salão. Adorava aqueles espelhos um de frente para o outro. Miss Millie veio juntar-se a eles, depois Miss Nancy, embora esta pedisse desculpas pelo avental sujo, e até mesmo a velha Miss Belle desceu num elevador que ele nem sabia que existia, por estar oculto atrás de uma enorme porta de quase quatro metros, igual a todas as outras. A velha Miss Belle era surda, isso ele percebeu imediatamente.

            Por trás da máscara da conversa de cortesia, ele estudava essas mulheres, procurando sondar o que estava por trás daqueles sorrisos contidos. Nancy era o burro de carga. Millie, a desmiolada. A velha Miss Belle, quase senil E Carl? Carl era tudo que diziam ser: a inteligente, a mulher de negócios a advogada. Falaram de política, da corrupção na cidade, da alta, dos tempos mudados. No entanto, nem naquela visita, nem em nenhuma outra, ela pronunciou os nomes de Antha, Stella preços e realidade, dessa vez não foi abordado o tema da história a família, e o padre não conseguiu se forçar a abordá-lo, nem mesmo para fazer alguma pergunta simples sobre um único objeto da sala.

            Ao deixar a casa, ele olhou de relance para o pátio de lajes, dominado pelo mato. A cabeça aberta ao meio como uma melancia. Enquanto seguia ela rua, olhou de volta para as janelas do sótão. Estavam agora completamente cobertas pelas trepadeiras, com as venezianas desengonçadas.

            Disse a si mesmo que essa havia sido sua última visita. Que o padre Lafferty cuidasse do caso. Que ninguém cuidasse do caso. No entanto, sua sensação de fracasso foi se aprofundando com o passar dos anos.

            Aos dez anos de idade, Deirdre Mayfair fugiu de casa e foi encontrada dois dias depois caminhando pelo Bayou St. John na chuva, com as roupas ensopadas. Foi, então, para um outro colégio interno em algum lugar - em County Cork na Irlanda, e de lá voltou mais uma vez para casa. As irmãs diziam que Deirdre tinha pesadelos, era sonâmbula, dizia coisas estranhas. Chegou, então, a notícia de que Deirdre estava na Califórnia. A família Mayfair tinha uns primos por lá que mudança de clima lhe fosse benéfica, podiam cuidar dela. Talvez uma O padre Mattingly a essa altura já sabia que nunca iria se livrar da lembrança daquela criança a chorar. Em nome de Deus,, por que ele não havia experimentado um outro método com ela? Ele pedia em suas orações que ela contasse o que lhe contou a alguma professora experiente ou a algum médico pedia que alguém em algum lugar pudesse ajudá-la como o padre Mattingly não pôde.

            Ele nunca se lembrava de ter ouvido falar quando Deirdre voltou da Califórnia. Somente em alguma época do ano de 1956 ele soube que ela estava interna no colégio de Santa Rosa de Lima. Em seguida, ouviu o mexerico de que ela teria sido expulsa e fugido para Nova York. Uma tarde Miss Kellerman contou tudo ao padre Lafferty nos degraus da Igreja. Ela soube pela sua criada, trabalhava naquela casa. Deirdre havia encontrado os contos da sua mãe num baú no sótão, "todas aquelas bobagens de Greenwich Village". Fugiu, então, á procura do pai, embora ninguém soubesse se o homem estava vivo ou morto.

            Tudo acabou com sua internação em Bellevue. Miss Carlotta foi até Nova York, de avião, para trazê-la de volta.

            Depois, uma tarde no verão de 1959, numa conversa à mesa de uma cozinha, o padre Mattingly soube do "escândalo". Deirdre Mayfair estava grávida, aos dezoito anos. Ela havia abandonado os estudos numa faculdade no Texas. E o pai? Um dos seus próprios professores, dá para se acreditar? E, ainda por cima, casado e protestante. Ele estava pedindo o divórcio de um casamento de dez anos para se casar com Deirdre!

            Parecia que a paróquia inteira só falava nisso. Diziam que Miss Carlotta havia lavado as mãos, mas que Miss Nancy levou Deirdre até Guy Maier para comprar um belo vestido para o casamento civil. Deirdre era agora uma linda moça; linda como Antha e Stella haviam sido. Dizia-se que era linda como Miss Mary Beth.

            O padre Mattingly lembrava -se apenas daquela criança assustada, de rosto pálido. Flores esmagadas sob os pés.

            O casamento nunca iria se realizar.

            Quando Deirdre estava no quinto mês, o pai morreu a caminho de Nova Orleans. Acidente na estrada que beira o rio. A barra de direção do seu velho Ford, modelo de 1952, quebrou. O carro perdeu a direção e bateu num carvalho, explodindo instantaneamente.

            Mais tarde, perambulando no meio da multidão na festa da igreja numa quente noite de julho, o padre Mattingly iria ouvir a história mais estranha sobre a família Mayfair até então. Uma história que o atormentaria nos anos seguintes, da mesma forma que a confissão.

            Havia lâmpadas suspensas no pátio de asfalto. Paroquianos em mangas de camisa e vestidos de algodão iam de uma barraquinha a outra, experimentando sua sorte nos jogos. Ganhe um bolo de chocolate apostando uma moeda de cinco centavos na roleta. Ganhe um ursinho de pelúcia. O asfalto estava macio como calor. A cerveja corria solta no bar improvisado com tábuas indo de um barril a outro. E parecia que, para onde quer que o padre Mattingly se voltasse, ele ouvia algum cochicho sobre os novos acontecimentos na casa da família Mayfair.

            O encanecido Red Lonigan, patriarca da familia dos agentes funerários, ouvia Dave Collins lhe dizer que Deirdre havia sido trancada no quarto. O padre Lafferty estava ali sentado, olhando carrancudo por cima da cerveja para Dave. Dave disse conhecer a familia Mayfair há mais tempo do que qualquer pessoa, há mais tempo do que o próprio Red.

            O padre Mattingly pegou uma garrafa gelada de cerveja do bar e foi se sentar na ponta do banco.

            Dave Collins estava agora em plena glória, com dois padres na platéia.

            - Nasci em 1901, padre! - declarou, embora o padre Mattingly nem tivesse erguido os olhos. - No mesmo ano em que nasceu Stella Mayfair, e me lembro de quando a expulsaram da Academia das Ursulinas na cidade alta e Miss Mary Beth a matriculou na escola aqui mesmo.

            - Fofocam demais sobre essa família - disse Red, num tom de desalento.

            - É, Stella era mesmo uma rainha do vodu -prosseguiu Dave. - Todo mundo sabia disso. Mas podemos descartar os feitiços e os sortilégios baratos. Isso não era para ela. Uma bolsa de moedas de ouro que nunca se esvaziava era o que ela possuía.

            - Tudo o que ela teve no final foi um destino trágico - disse Red, em voz baixa, com um riso amargo.

            - Ora, mas ela conseguiu viver muito, antes do tiro que Lionel lhe deu - retorquiu Dave, espremendo os olhos e debruçando sobre o braço direito, com a mão esquerda segurando a garrafa de cerveja. - E mal ela estava morta e enterrada, a bolsa apareceu bem ao lado da cama de Antha. E por mais que a escondessem, ela sempre voltava.

            - Pois sim! - disse Red.

            - Havia moedas de todas as partes do mundo naquela bolsa: italianas, francesas e espanholas.

            - E como você veio a saber disso? - perguntou Red.

            - O padre Lafferty já viu, não viu, padre? O senhor viu as moedas. Miss Mary Beth costumava jogá-las na cestinha da coleta todos os domingos, o senhor sabe que era o que ela fazia. E o senhor sabia o que ela sempre dizia, "Gaste-as rápido, padre, livre-se delas antes do pôr-do-sol, porque elas sempre voltam".

            - Do que você está falando! - exclamou Red, zombeteiro.

            O padre Lafferty não disse nada. Seus olhinhos negros passaram de Dave para Red. Depois, ele olhou para o padre Mattingly, sentado à sua frente.

            - O que você quer dizer com essa história de que elas voltavam? - perguntou o padre Mattingly.

            - O que ela queria dizer é que voltavam para sua bolsa! - disse Dave, arqueando as sobrancelhas. Tomou um grande gole da sua garrafa. Sobrou apenas espuma. -Ela podia dá-las sempre que elas sempre voltavam. - Deu uma risada rouca. Sua voz soava encatarrada. - Ela dizia a mesma coisa à minha mãe quando lhe pagava pela roupa lavada. É isso mesmo, minha mãe lavava a roupa em muitas daquelas casas de rico, e nunca teve vergonha disso. E Miss Mary Beth sempre lhe pagou com aquelas moedas.

            - Pois sim! - repetiu Red.

            - E vou lhe dizer mais uma coisa - prosseguiu Dave, inclinando-se mais sobre o cotovelo, com os olhos apertados encarando Red Lonigan. - A casa, as jóias, a bolsa, tudo isso está relacionado. O mesmo vale para o sobrenome Mayfair e como elas sempre o mantêm, não importa com quem se casem. No final, fica sempre Mayfair. E você quer saber o motivo? Elas são bruxas, aquelas mulheres. Todas elas.

            Red abanou a cabeça. Empurrou sua garrafa cheia de cerveja na direção de Dave e ficou olhando enquanto Dave a segurava com os dedos.

            - É a mais pura verdade, é o que lhe digo. Elas herdam o poder da bruxaria pelas gerações afora, e naqueles velhos tempos falava-se muito sobre isso. Miss Mary Beth tinha mais poderes do que Stella. - Ele tomou um grande gole da cerveja de Red. - E era esperta o suficiente para ficar calada, o que Stella não era.

            - Então, como foi que você veio a saber? - perguntou Red.

            Dave pegou seu saquinho branco de fumo Bull Durham e viu que estava vazio.

            - O senhor não teria um cigarrinho, padre? - pediu ele ao padre Mattingly.

            Red deu urn sorriso de escárnio. O padre Mattingly entregou a Dave seu maço de Pall Mall.

            - Obrigado, padre. E agora vamos à sua pergunta, Red, da qual eu não estava tentando fugir. Sei, porque minha mãe me contou as coisas que Miss Mary Beth lhe dizia nos idos de 1921, quando Miss Carlotta se formou em Loyola, e todos a elogiavam por ser tão inteligente, por ser advogada e tudo o mais. "Ela não é a escolhida", disse Miss Mary Beth à minha mãe. "A escolhida é Stella. Stella tem o dom e vai herdar tudo quando eu morrer." "E qual é o dom, Miss Mary Beth?" Perguntou-lhe minha mãe. "Ora, Stella viu o homem", respondeu ela à minha mãe. "E quem consegue ver o homem, quando está totalmente só, herda tudo."

            O padre Mattingly sentiu um arrepio na espinha. Já fazia onze anos desde que ele ouvira aquela confissão inacabada da menina, mas nunca se esquecera de uma palavra sequer. Elas o chamam de o homem...

            Já o padre Lafferty olhava carrancudo para Dave.

            - Viu o homem? - perguntou o padre Lafferty, com frieza. - Em nome de Deus, homem, o que pode querer dizer esse palavrório sem sentido?

            - Bem, padre, imagino que um bom irlandês como o senhor saiba a resposta para essa pergunta. Não é verdade que as bruxas chamam o diabo de "o homem"? Não é fato que elas o chamam assim quando ele vem no meio da noite para tentá-las a pecados execráveis? - Ele deu mais uma das suas risadas fundas, roucas e pouco saudáveis, e tirou do bolso um trapo imundo para limpar o nariz. - São bruxas, e o senhor sabe, padre. É isso o que elas eram e o que elas são. E uma herança de feitiçaria. E o senhor se lembra do velho Julien Mayfair? Eu me lembro dele. Minha mãe me disse que ele sabia de tudo isso. O senhor sabe que é verdade, padre.

            - É uma herança, sim - respondeu o padre Lafferty, irado, pondo-se de pé. - E uma herança de ignorância, ciúme e doença mental! Nunca ouviu falar dessas coisas, Dave Collins? Nunca ouviu falar de ódio entre irmãs, de inveja e de ambição impiedosa? - Ele se voltou e foi embora em meio ao torvelinho da multidão, sem esperar pela resposta.

            O padre Mattingly ficou perplexo com a irritação do padre Lafferty. Ele preferia que

o colega tivesse apenas rido, como Dave Collins. Dave acabou de beber a cerveja de Red.

            - Ei, Red, não dá para me arrumar um quarto de dólar? - perguntou, com os olhos dardejando de Red para o padre Mattingly.

            Red estava distraído, com os olhos fixos na garrafa vazia. Como um sonâmbulo, tirou um dólar amarfanhado do bolso da calça.

            Quando estava prestes a adormecer naquela noite, o padre Mattingly se lembrou dos livros que havia lido no seminário. O homem alto, o homem moreno, o homem atraente, o incubo que vem á noite... o gigante que preside o sabá! Ele se lembrava vagamente de ilustrações num livro, desenhadas com esmero, horrendas. "Bruxas" foi a palavra que balbuciou enquanto caía no sono. Ela diz que ele é o diabo, padre. Que só olhar para ele já e pecado.

            Acordou antes do amanhecer, ouvindo a voz irritada do padre Lafferty. Inveja, doença mental. Seria essa a verdade oculta nas entrelinhas? Parecia que uma peça de importância crucial havia sido colocada no quebra -cabeça. Ele quase via o quadro como um todo. Uma casa governada com mão de ferro, uma casa na qual mulheres lindas e animadas haviam sido vítimas de tragédias. No entanto, algo ainda o incomodava...        Todas elas o vêem, padre. Flores espalhadas sob os pés, palmas-de-santa-rica grandes e longas, delicados ramos de samambaias. Ele viu seu pé os esmagando.

            Deirdre Mayfair renunciou à sua filha. A criança nasceu no novo Mercy Hospital no dia sete de novembro, e nesse mesmo dia a mãe lhe deu um beijo e a colocou nos braços do padre Lafferty. Foi ele quem a batizou e a entregou aos cuidados dos primos da Califórnia que iriam adotá-la. Foi, porém, Deirdre que exigiu que a menina usasse o sobrenome Mayfair. Sua filha não deveria nunca receber outro sobrenome, ou Deirdre não assinaria os papéis. Seu velho tio Cortland Mayfair apoiava essa sua decisão, e nem mesmo o padre Lafferty conseguiu demovê-la. Ela quis ver o nome, preto no branco, na certidão de batismo. E o pobre do velho Cortland, um perfeito cavalheiro, a essa altura já estava morto, depois de uma terrível queda escada abaixo.

            O padre Mattingly não se lembrava da primeira vez em que ouviu o termo "incurável". Ela já estava louca antes mesmo de sair do hospital. Diziam que não parava de falar alto sozinha, insistindo, "Foi você. Você o matou". As enfermeiras tinham medo de entrar no seu quarto. Ela entrou na capela, com a camisola do hospital, rindo e falando alto no meio da missa, acusando o nada de matar seu amado, de separá-la da sua filha, de deixá-la só em meio a "inimigos". Quando as freiras tentaram contê-la, ela ficou furiosa. Os serventes vieram e a levaram embora, aos chutes e berros.

            Na época em que o padre Lafferty faleceu, na primavera, ela estava internada em algum lugar distante. Ninguém sabia onde. Rita Lonigan perguntou ao seu sogro, Red, qual era o endereço porque tinha muita vontade de escrever. Mas Miss Carl disse que não seria conveniente. Nenhuma correspondência para Deirdre.

            Por Deirdre, apenas orações. E os anos foram passando. O padre Mattingly saiu da paróquia. Trabalhou em missões no estrangeiro. Trabalhou em Nova York. Chegou a ir tão longe que Nova Orleans desapareceu do seu pensamento a não ser pela lembrança súbita e ocasional, aliada à vergonha: Deirdre Mayfair, aquela que ele não havia ajudado, que ele havia perdido.

            Foi então que, numa tarde em 1976, durante uma breve estada na antiga casa paroquial, o padre Mattingly passou pela casa e viu uma mulher jovem, pálida e magra, sentada numa cadeira de balanço na varanda lateral, por trás do véu de tela enferrujada. Ela não parecia nada mais do que um espectro na sua camisola branca, mas ele imediatamente soube que era Deirdre. Havia reconhecido aqueles cachos negros pousados sobre os ombros. E depois que abriu o portão enferrujado e veio se aproximando pelo caminho de pedras, ele percebeu que a expressão no rosto era a mesma. É, era Deirdre, que ele trouxera de volta para casa há quase trinta anos. Ela estava impassível por trás da tela abaulada na moldura leve de madeira. Não houve resposta quando ele sussurrou seu nome.

            Numa corrente que trazia ao pescoço havia uma esmeralda, uma pedra belíssima, e no dedo um anel de rubi. Seriam essas as jóias de que ele ouvira falar? Que impressão descabida elas davam nessa mulher silenciosa com sua camisola branca e sem goma. Ela não deu o menor sinal de tê-lo visto ou ouvido.

            Sua visita a Miss Millie e Miss Nancy foi breve, incômoda. Carl estava no centro, trabalhando, naturalmente. E é mesmo, é Deirdre quem está na varanda lateral. Ela estava em casa dessa vez para ficar, mas não havia motivo para falar baixo.

            - A mente se foi - disse Nancy, com um sorriso amargo. - Primeiro, os choques elétricos apagaram sua memória. Depois todo o resto. Ela não conseguiria se levantar para se salvar se a casa estivesse pegando fogo. De vez em quando ela torce as mãos, tenta falar, mas não consegue...

            - Não fale assim - disse Millie baixinho, abanando levemente a cabeça e retorcendo a boca, como se não fosse de bom-tom tocar nesse assunto. Ela agora estava velha, Miss Millie, velha e com a cabeça lindamente grisalha, delicada como Miss Belle havia sido, Miss Belle, que já se fora há muito. - Aceita mais café, padre?

            A mulher sentada na cadeira na varanda era, apesar de tudo, bonita. Os tratamentos com choques não haviam embranquecido seus cabelos. E os olhos ainda tinham um azul profundo, apesar de estarem totalmente vazios de expressão. Era como uma imagem na igreja. Padre, ajude-me. Um raio de luz tocou na esmeralda e fez com que cintilasse como uma minúscula estrela.

            Daí em diante, o padre Mattingly deixou de vir ao sul com muita freqüência. E, nos anos seguintes quando tocava a campainha, não era bem recebido. As desculpas de Miss Nancy foram se tornando mais bruscas. As vezes acontecia de ninguém atender. Quando Carl estava lá, a visita era apressada, artificial. Nunca mais café no jardim de inverno; apenas algumas palavras rápidas no salão amplo e empoeirado. Será que elas não acendiam mais as luzes? Os candelabros estavam imundos.

            É claro que as mulheres estavam muito velhas. Millie faleceu em 1979. O enterro foi concorridíssimo, com primos vindo de todas as partes do país. Depois, no ano passado, havia sido a vez de Nancy. O padre Mattingly recebeu uma carta de Red Lonigan. Na ocasião o padre estava em Baton Rouge e veio até a cidade de carro só para o funeral. Miss Carl, com seus oitenta e tantos anos, era só ossos de tão magra, com o nariz aquilino, os cabelos brancos e óculos grossos que ampliavam seus olhos de um jeito desagradável. Os tornozelos estavam inchados logo acima dos sapatos pretos de amarrar. Teve de se sentar na laje de uma sepultura durante as palavras finais no cemitério.

            A própria casa dava pena de tanta decadência. Isso, o padre Mattingly viu com seus próprios olhos quando passou por lá de automóvel. Como seria inevitável, também Deirdre estava mudada. Ele pôde ver que sua frágil beleza de planta de estufa afinal se esvaíra. E, apesar das enfermeiras que a forçavam a caminhar de um lado para o outro, ela havia ficado corcunda, com as mãos curvadas para baixo e para fora na altura do pulso, como as de uma paciente artrítica. Diziam que sua cabeça estava agora permanentemente caída para um lado, e que sua boca estava sempre aberta.

            Era uma tristeza de se ver, mesmo de uma certa distância. E as jóias tornavam a imagem ainda mais sinistra. Brincos de brilhante numa inválida sem noção de nada. Uma esmeralda do tamanho da unha de um polegar!

            O padre Mattingly, que acreditava acima de tudo na santidade da vida humana, considerava que a morte de Deirdre teria sido uma benção. Na tarde seguinte ao enterro de Nancy, enquanto fazia uma visita silenciosa á velha casa, o padre Mattingly encontrou um inglês parado na extremidade mais distante da cerca - um senhor de boa aparência, que se apresentou ao padre como Aaron Lightner.

            - O senhor sabe alguma coisa sobre aquela pobre mulher? - perguntou o inglês abertamente. - Há mais de dez anos que a vejo nessa varanda. Sabe que me preocupo com ela?

            - Eu também me preocupo - confessou o padre. - Mas dizem que não há nada que se possa fazer por ela.

            - Que família mais estranha - comentou o inglês com intimidade. - Está tão quente. Eu me pergunto se ela sente calor. Seria de se esperar que consertassem o ventilador de teto. Está vendo? Parece que está quebrado.

            O padre Mattingly simpatizou imediatamente com o inglês. Homem tão vigoroso, apesar de bem educado. E ele estava tão bem vestido com seu terno de linho de três peças. Até portava uma bengala. Fazia o padre se lembrar dos senhores que costumavam passear à noite por St. Charles Avenue. Costumava-se vê-los nas varandas da frente, com seus chapéus de palha, observando o trânsito. Ah, como os tempos mudaram.

            O padre Mattingly descobriu-se conversando inteiramente à vontade com o inglês em voz abafada sob os galhos mais baixos dos carvalhos, a respeito de todos os fatos "conhecidos", com os quais o homem parecia estar inteiramente familiarizado: os tratamentos com choques, os sanatórios, a filhinha há muitos anos adotada por uma família na Califórnia. O padre, no entanto, não teria nem sonhado em mencionar as fofocas do velho Dave Collins sobre Stella ou sobre "o homem". Repetir uma besteira daquelas seria absolutamente errado. Além do mais, era um assunto por demais próximo daqueles segredos dolorosos que Deirdre Mayfair lhe confiara. Fosse como fosse, ele e Lightner acabaram no Commander's Palace para um almoço tardio a convite do inglês. Que prazer para o padre. Há quanto tempo ele não fazia uma refeição num bom restaurante de Nova Orleans como aquele, com toalhas de mesa e guardanapos de linho. Além disso, o inglês havia pedido um vinho excelente.

            O homem admitiu com franqueza estar interessado na história de famílias como a Mayfair.- O senhor sabe que eles possuíam uma grande fazenda no Haiti, quando ainda se chamava Saint-Domingue. Creio que Maye Faire era o nome da propriedade. Fizeram uma fortuna com o café e o açúcar naqueles tempos antes da insurreição dos escravos.

            -Quer dizer que o senhor conhece a história da família desde tempos tão remotos? - indagou o padre, perplexo.

            - Ah, sim, claro - respondeu Lightner. - Está nos livros de história, sabe? Uma mulher poderosa tomava conta de tudo, Marie Claudette Mayfair Landry, seguindo o exemplo da sua mãe, Angélique Mayfair. Mas já estavam ali há quatro gerações. Foi Charlotte quem chegou da França em... quando foi mesmo.., no ano de 1689. É, Charlotte. E ela deu à luz gêmeos, Peter e Jeanne Louise, que viveram até completar oitenta e um anos de idade.

            - Não diga. Nunca ouvi nada tão antigo dessa família.

            - Creio ser uma simples questão de registros. - O inglês deu levemente de ombros. - Nem mesmo os rebeldes negros ousaram incendiar a fazenda. Marie Claudette conseguiu emigrar levando um enorme tesouro em bens, assim como sua família inteira. Em seguida, foi La Victoire em Riverbend, a jusante de Nova Orleans. Acho que a chamavam apenas de Riverbend.

            - Miss Mary Beth nasceu lá.

            - É, tem razão. Em... vejamos... creio ter sido em 1871. Só o rio para conseguir devorar aquela casa. Como era linda, com colunas em toda a volta. Havia fotografias da casa nos livros turísticos mais antigos sobre a Louisiana.

            - Gostaria de ver esses livros - disse o padre.

            - Antes da guerra de secessão, já haviam construído a casa em First Street, sabia? Na realidade, foi Katherine Mayfair quem a construiu e mais tarde seus irmãos Julien e Remy moraram ali. Depois, Mary Beth fixou sua residência nessa casa. Mary Beth não gostava do campo. Creio que foi Katherine quem se casou com o arquiteto irlandês, aquele que morreu muito jovem de febre amarela. Sabe, aquele que construiu os bancos do centro cidade. É, seu nome era Monahan. E, depois quis mais morar ali porque a casa de First Street havia sido construída pelo marido, e ela estava inconsolável. que ele morreu Katherine não.

            - Parece que há muito tempo ouvi dizer que Monahan projetou a pelo casa - disse o padre mas no fundo sem vontade de interromper ela Eu costumava ouvir falar de Miss Mary Beth...

            - É, foi Mary Beth quem se casou com o juiz McIntyre, embora na época ele fosse apenas um jovem advogado, é claro. E sua filha Carlotta Mayfaier quem manda na casa agora, ao que me parece... época.

            O padre Mattin estava extasiado. Não se tratava meramente de sua antiga e doída curiosidade com relação à família cativante do próprio Lightner, além do agradável som do sotaque britânico.

            Tudo isso era apenas história com total inocência nada tempo de mexericos. Fazia com que o padre Mattin, quando o inglês falava, não se tratava de fofoca um homem tão culto. E, contra seu próprio bom senso, o padre descobriu-se contando com voz hesitante a história da menininha e das flores misteriosas no colégio.

            - Ora, aquilo não era o que ele havia ouvido no confessionário, relembrava. Mesmo assim, era espantoso que saísse assim com tanta facilidade do pátio da escola, meia dúzia de goles de vinho. O conseguia tirar a confissão da cabeça. Perdeu o fio da meada. De repente, ele não depois de Collins e em todas aquelas coisas estranhas que havia dito. Pensou como o em padre Lafferty havia se irritado tanto naquela noite de julho na festa da igreja, Lafferty, que havia se encarregado da adoção do bebé de Deirdre. Teria o padre Collins? padre Lafferty agido com base naquela conversa maluca de Dave. Ele próprio nunca havia podido fazer nada.

            O inglês teve perfeita paciência com o silencioso devaneio do padre. Na realidade, aconteceu uma coisa estranhíssima. O padre teve a impressão de que o homem estava prestando atenção aos seus pensamentos porém, inteiramente impossível e, se alguém Podia ouvir a memória de uma falar a respeito disso? Que se esperava que um padre pudesse aquela tarde pareceu longa. Como foi agradável, fosse ao padre Mattingly repetiu as velhas histórias de Dave Collins e chegou mesmo a falar das ilustrações do "homem sinistro" nos livros dança das bruxas. E o inglês demonstrava estar tão interessado, só se movimentando para servir vinho ou interrompendo, para oferecer um cigarro.

            - E agora, a que conclusão o senhor chega? - para encerrar. O homem lhe respondeu alo? disse baixinho o padre está morto agora. Sabe, o velho Dave Collns mas a irmã Bridget Marie vai viver para sempre. Ela está com quase cem anos.

            - O senhor está falando da irmã no pátio da escola há tanto tempo? - perguntou o inglês, com um sorriso.

            O padre Mattingly estava agora embriagado com o vinho que havia tomado; essa era a pura verdade. E não parava de ver o pátio, as crianças e as flores espalhadas pelo chão.

            - Ela agora está no Mercy Hospital - disse o padre. - Fui vê-la na última vez em que vim ao sul. Acho que vou visitá-la desta vez. E como diz bobagens agora que não sabe com quem está falando. O velho Dave Collins morreu num bar em Magazine Street. Local adequado. Todos os amigos fizeram uma vaquinha para o melhor dos enterros.

            O padre voltou a devanear, pensando em Deirdre e no confessionário.

            -Não deve se preocupar com isso, padre - sussurrou o inglês, tocando-lhe as costas da mão.

            O padre espantou-se. Depois quase riu da idéia de que alguém pudesse ler seus pensamentos. Era isso o que a irmã Bridget Marie havia dito sobre Antha, não era? Que ela ouvia as pessoas falando do outro lado da parede e que lia seus pensamentos? Ele havia contado essa parte ao inglês?

            - Contou. Quero lhe agradecer...

            Ele e o inglês se despediram às seis da tarde diante dos portões do cemitério Lafayette. Era aquela hora dourada da tarde quando o sol se foi, e tudo emite a luz que absorveu durante o dia inteiro. Mas como tudo aquilo estava abandonado: os velhos muros caiados e as gigantescas magnólias fazendo rachar a calçada.

            - O senhor sabe, todos eles estão enterrados aí dentro, os da família Mayfair - disse o padre Mattingly, olhando de relance para os portões. - Um grande jazigo à direita do passeio central. Com uma cerquinha de ferro trabalhado. Miss Carl mantém tudo em perfeita conservação. Podem-se ler todos esses nomes de que o senhor acabou de falar.

            O padre teria ele mesmo mostrado o jazigo ao inglês, mas já estava na hora de voltar para a casa paroquial, hora de voltar para Baton Rouge e de lá para St. Louis.

            Lightner deu-lhe um endereço em Londres.

            - Se algum dia souber mais alguma coisa sobre essa família, qualquer coisa que não seja problema me transmitir, bem, o senhor poderia entrar em contato comigo?

            É claro que o padre Mattingly nunca fizera isso. Há meses perdera o nome e o endereço. No entanto, lembrava-se com simpatia daquele inglês, embora às vezes ele se perguntasse quem seria realmente aquele homem, e o que ele de fato pretendia. Se todos os padres do mundo tivessem uma atitude tranqüilizadora como a dele, como seria esplendido. Era como se aquele homem compreendesse tudo.

            A medida que se aproximava agora da velha esquina, o padre Mattingly pensou novamente no que o jovem padre lhe escrevera: que Deirdre Mayfair estava definhando, que praticamente não conseguia mais caminhar.

            Então, como poderia  ter ficado furiosa no dia 13 de agosto, e o que gostaria de saber, pelo amor de Deus. Como poderia ela ter quebrado as janelas e assustado os homens de um sanatório?

            E Jerry Lonigan disse que seu motorista havia visto objetos sendo atirados pelas janelas afora: livros, um relógio, todo tipo de coisa, simplesmente voando pelo ar. E o barulho que ela fazia, como o de um animal uivando.

            O padre achava difícil acreditar. Lá, porém, estava a prova.

            Quando se aproximava lentamente do portão nessa quente tarde de agosto, ele viu o homem de uniforme branco sobre a varanda da frente, no alto da sua escada de madeira. Com uma espátula na mão, ele aplicava a massa ao longo das vidraças novas. E cada uma dessas janelas altíssimas apresentava vidraças novas e reluzentes, até com as minúsculas etiquetas da marca. A alguns metros dali, no lado sul da casa, por trás do véu da tela de cobre oxidado, estava sentada Deirdre, com as mãos retorcidas nos pulsos, a cabeça caída para um lado descansando no encosto da cadeira. O pingente de esmeralda na sua corrente refletiu uma pequena centelha de luz verde por um instante.

            Ah, como devia ter sido para ela a sensação de quebrar aquelas janelas? De sentir a força correndo pêlos seus membros, de se sentir detentora de um poder tão incomum? Só o fato de ter emitido um som, ora, só isso devia ter sido magnífico.

            No entanto, esse era um pensamento estranho para ele, não era? É que ele se sentia envolto por uma espécie de tristeza indefinida, alguma imensa melancolia. Ah, Deirdre, a pobrezinha da Deirdre.

            A verdade era que ele se sentia triste e amargurado como sempre se sentia quando a via. Ele sabia que não iria pelo caminho de lajes até os degraus da frente da casa. Ele não iria tocar a campainha só para ser informado mais uma vez que Miss Carl não estava, ou que ela não podia recebê-lo naquele momento.

            Esse passeio havia sido somente a penitência pessoal do padre Mattingly. Há mais de quarenta anos, ele havia cometido um erro numa trágica tarde de sábado, e a sanidade mental de uma menina dependia daquilo. Agora nenhuma visita faria a menor diferença.

            Ele ficou algum tempo parado junto à cerca, ouvindo o ruído da espátula do vidraceiro, estranhamente nítido no silêncio tropical ao seu redor. Ele sentia o calor penetrar nos seus sapatos, nas suas roupas. Permitiu que as cores suaves e delicadas desse universo úmido e sombreado surtissem efeito sobre ele. Esse era um lugar raro. Sem dúvida melhor para ela do que algum quarto estéril de hospital, ou a vista de um gramado bem aparado sem nenhuma variação maior do que a de um tapete sintético. E o que o fazia pensar que ele algum dia pudesse ter feito por ela mais do que o que tantos médicos não haviam conseguido fazer? Talvez ela nunca tivesse tido uma chance mesmo.

            Só Deus sabe.

            De repente ele vislumbrou uma visita por trás das telas empoeiradas, sentado ao lado da pobre louca. Parecia ser um belo rapaz: alto, moreno, bem vestido apesar do calor sufocante. Quem sabe não seria um daqueles primos de longe, de Nova York ou da Califórnia.

            O rapaz devia ter acabado de sair do salão para a varanda porque há um instante não estava ali. Parecia tão solícito. Era decididamente carinhoso o seu jeito de se inclinar na direção de Deirdre. Como se estivesse beijando seu rosto. É, era isso o que estava fazendo. Mesmo naquela sombra escura, o padre viu, e isso o comoveu profundamente. A tristeza que havia nele o dominou, dolorida. O vidraceiro estava agora acabando.    Recolhia sua escada. Desceu os degraus da frente, seguiu pelo passeio de lajes de pedra e passou pela varanda telada, usando a escada para afastar as bananeiras e a espirradeira crescida.

            Também o padre estava terminando. Havia cumprido sua penitência. Podia, agora, voltar para casa, para as calçadas quentes e estéreis de Constante Street e o recinto agradavelmente ventilado da casa paroquial. Lentamente, ele se voltou e começou a ir na direção da esquina.

            Olhou de relance para trás apenas uma vez. A varanda telada estava agora vazia, a não ser pela presença de Deirdre. Mas, sem dúvida, aquele jovem simpático voltaria logo. Havia calado fundo no coração do padre a visão daquele beijo terno, a noção de que alguém, mesmo agora, ainda amava aquela alma perdida que ele próprio havia deixado de salvar tanto tempo atrás.

 

            Tinha de fazer alguma coisa naquela noite, dar um telefonema para alguém. E era importante, também. Só que, depois de quinze horas de plantão, doze das quais passadas na sala de cirurgia, ela não conseguia se lembrar.

            Ainda não era Rowan Mayfair, com todas as aflições e preocupações pessoais de Rowan. Era apenas a Dra Mayfair, vazia como uma vidraça limpa, sentada calada aqui na sala dos médicos, com as mãos enfiadas nos bolsos do imundo guarda-pó branco, com os pés na cadeira à sua frente, um Parliament nos lábios, ouvindo-os conversar como os neurocirurgiões sempre conversam, regurgitando na fala cada momento excitante do dia.

            Pequenas explosões de riso, vozes que encobriam outras vozes, o cheiro de álcool, o farfalhar de roupas engomadas, o doce aroma dos cigarros. Não importa a tragédia pessoal de quase todos eles serem fumantes. Era bom ficar ali, acomodada no brilho ofuscante das lâmpadas sobre a mesa de fórmica suja, o piso de linóleo sujo e as paredes de um bege sujo. Era bom estar adiando a hora de pensar, a hora em que as recordações viriam para dominá-la e deixá-la pesada e opaca.

            Na realidade, aquele havia sido um dia praticamente perfeito, motivo pelo qual seus pés doíam tanto. Ela havia enfrentado três cirurgias de emergência, uma após a outra, desde o ferimento à bala as seis da manhã até a vítima de acidente automobilístico há umas quatro horas. E se todos os dias fossem assim, sua vida iria muito bem. Na verdade, ela seria de uma perfeição maravilhosa.

            Tinha consciência disso naquele exato momento, de uma forma despreocupada. Depois de dez anos de faculdade de medicina, de ser interna e residente, ela agora era o que sempre quis ser: médica, neurocirurgiã e, mais especificamente, neurocirurgiã assistente num gigantesco hospital universitário cujo centro de traumatologia podia mantê-la operando vítimas de acidentes quase em tempo integral.

            Tinha de admitir que estava feliz com isso, feliz com sua primeira semana numa outra função que não a de residente sobrecarregada e totalmente exausta que ainda precisava operar metade do tempo sob a supervisão de outros. Mesmo o inevitável falatório não havia sido tão terrível hoje, o interminável discurso na sala de cirurgia, em seguida as notas a serem ditadas e por último a prolongada revisão informal na sala dos médicos. Ela gostava desses profissionais ao seu redor, os internos de rosto reluzente do outro lado da mesa, o Dr Peters e o Dr Blake, que acabavam de começar seus turnos e olhavam para ela como se ela fosse uma bruxa em vez de uma médica.

            O Dr Simmons, chefe dos residentes, que lhe dizia de vez em quando num sussurro ardente que ela era o melhor médico que ele jamais havia visto operando e que as enfermeiras tinham a mesma opinião. E o Dr Larkin, o querido chefe da neurocirurgia, conhecido pelos seus discípulos como Lark, que a forçava insistentemente a desenvolver sua descrição.

            - Explique, Rowan, explique em detalhe. Você tem de dizer a esses meninos o que está fazendo. Senhores, olhem, estão diante do único neurocirurgião da civilização ocidental que não gosta de falar sobre sua atuação.

            Não gostar era pouco. Ela detestava falar. Tinha uma suspeita inata pela fala porque era capaz de "ouvir" com uma exatidão notável o que se escondia por trás dela. Além disso, simplesmente não sabia falar muito bem. Agora, graças a Deus, eles estavam debatendo o desempenho magistral do Dr Larkin hoje á tarde com o meningioma, e ela pôde mergulhar nessa sua deliciosa exaustão, saboreando o cigarro e o café horrível, admirando o reflexo da luz nas paredes maravilhosamente vazias.

            O problema era que ela havia dito a si mesma para se lembrar de um assunto pessoal, um telefonema que devia dar, alguma coisa de real importância para ela. E o que isso significava? A lembrança lhe ocorreria assim que pusesse os pés fora do hospital.

            E isso ela podia fazer quando quisesse. Afinal era a assistente e não precisava mais ficar mais do que 15 horas ali. Nunca mais teria de dormir no plantão, e ninguém mais esperava que ela descesse até o setor de emergência só para ver o que estava acontecendo, embora, se valesse sua própria vontade, talvez fosse isso o que gostasse de fazer.

            Há uns dois anos, talvez menos do que isso, a essa hora ela já teria ido embora, passando pela Golden Gate á velocidade máxima permitida, ansiosa por voltar a ser Rowan Mayfair, na cabine de comando do Sweet Christine, saindo sozinha de Richardson Bay para o mar aberto. Só quando tivesse ajustado o piloto automático para uma enorme trajetória circular, bem afastada do caminho dos canais, a exaustão a teria dominado. Ela teria descido para a cabine abaixo do convés, onde a madeira brilhava tanto quanto o latão polido, e ao se jogar num dos beliches ela teria mergulhado num sono leve através do qual todos os pequenos ruídos do barco a embalavam com carinho.

            Isso, porém, foi antes de o processo de fazer milagres na mesa de operações se tornar decididamente um vício. De vez em quando a pesquisa ainda a atraía.

            Ellie e Graham, seus pais adotivos, não estavam vivos, e a casa envidraçada no litoral de Tiburon não era um mausoléu repleto de livros de quem já morreu, de roupas de quem já morreu.

            Ela precisava passar pelo mausoléu para chegar ao Sweet Christine. Tinha de ver a correspondência inevitável que ainda chegava para Ellie e para Graham. E talvez até tivesse de ouvir uma mensagem na secretária eletrônica de algum amigo de fora avisado que Ellie havia morrido de câncer no ano anterior e que Graham havia morrido de "um derrame", para simplificar a história, dois meses antes da morte da mulher. Ela ainda molhava as samambaias em homenagem a Ellie, que costumava tocar música para elas. Dirigia o Jaguar de Graham porque vendê-lo seria uma amolação. Nunca havia se disposto a limpar a escrivaninha dele.

            Derrame. Uma sensação sinistra e desagradável passou por ela. Não pense em Graham morrendo no piso da cozinha, mas nas vitórias do dia de hoje. Você salvou três vidas nas últimas 15 horas, quando outros médicos poderiam tê-las deixado morrer. A outras vidas em outras mãos você proporcionou uma ajuda talentosa. E agora, seguros no útero da Unidade de Tratamento Intensivo, três desses pacientes estão dormindo, com olhos que podem ver, bocas que podem pronunciar palavras e, quando você lhes segura a mão, eles apertam a sua quando você pede.

            É, ela não poderia ter pedido mais do que isso. Quem dera pudesse para sempre deixar os transplantes de tecidos e os tumores para os outros. Ela vicejava na crise. Precisava dela. Iria para casa daqui a pouco só porque era saudável ir para casa, saudável descansar os olhos, os pés, o cérebro, é claro, e ir para algum lugar diferente daqui no fim de semana. Ir para o mar no Sweet Christine.

            Por enquanto, um descanso nesse imenso barco chamado hospital, porque é exatamente essa a impressão que ele dava: a de um submarino, viajando silencioso pelo tempo afora. As luzes nunca se apagavam.

            A temperatura nunca variava. Os motores nunca paravam. E nós, a tripulação, estamos unidos, apesar da raiva, do ressentimento ou da competição entre nós. Temos esse vínculo e há uma espécie de amor, quer o reconheçamos quer não. - Você está à procura de um milagre! - disse para ela o supervisor da Emergência ás seis horas da tarde, desdenhoso, com os olhos vidrados de exaustão. - Encoste essa maca na parede e guarde seu talento para alguém que possa ser ajudado!

            - Eu não quero nada, a não ser milagres - respondeu Rowan. - Vamos tirar o vidro e a sujeira do seu cérebro, e vamos trabalhar a partir daí. Não havia como lhe dizer que, ao pôr as mãos nos ombros da mulher, Rowan havia "ouvido" com sua percepção para o diagnóstico milhares de sinais ínfimos. Eles haviam lhe transmitido infalivelmente que a mulher tinha condição de viver. Ela sabia o que iria ver quando os fragmentos de ossos tivessem sido retirados com cuidado da fratura e congelados para futura substituição, quando a dura mater rasgada tivesse sido cortada e o tecido lesado por baixo dela tivesse sido ampliado pelo poderoso microscópio cirúrgico. Uma boa quantidade de cérebro vivo, incólume, em funcionamento, uma vez que ela sugasse o sangue dali e cauterizasse os minúsculos vasos arrebentados para estancar o sangue.

            Era a mesma sensação infalível que ela havia tido naquele dia em mar aberto quando içou o homem afogado, Michael Curry, para cima do convés com o guincho e tocou na sua pele fria e cinzenta. É, havia vida ali. Vamos trazê-lo de volta.

            O homem afogado. Michael Curry. Era isso, é claro, era disso que ela precisava se lembrar. De ligar para o médico de Curry. O médico havia deixado uma mensagem para ela tanto no hospital quanto na secretária eletrônica em casa. Já fazia mais de três meses desde aquela noite fria e implacável em maio, com a névoa encobrindo a cidade distante de tal forma que nem uma única luz aparecia, e o homem afogado no convés do Sweet Christine parecia tão morto quanto qualquer outro cadáver. Ela apagou o cigarro.

            - Boa noite, doutores - disse ela, levantando-se. - Segunda, ás oito - disse aos internos. - Não, não se levantem.

            O Dr Larkin segurou sua manga entre dois dedos. Quando ela tentou se livrar, ele segurou com mais força.

            - Não me saia sozinha naquele barco, Rowan.

            - Ora, chefe. - Ela tentou se livrar. Não conseguiu.- Saio sozinha com aquele barco desde os dezesseis anos de idade.

            - Isso é mau, Rowan, isso é mau. Imagine se você sofre alguma pancada na cabeça lá em mar aberto, se você cai da embarcação.

            Ela deu uma risadinha por educação, embora estivesse de fato irritada com essa conversa, e saiu pela porta, passando direto pelos elevadores, lentos demais, na direção das escadas de concreto.

            Talvez ela devesse dar uma última olhada naqueles três pacientes na UTI antes de ir embora. De repente, só a idéia de sair a deixou oprimida. A idéia de não voltar até segunda-feira era ainda pior. Enfiando as mãos nos bolsos, ela subiu correndo os dois lances de escada até o quarto andar.

            Os reluzentes corredores daqui de cima eram tão silenciosos, tão distantes daquela balbúrdia inevitável da Emergência. Uma mulher solitária dormia no sofá na sala de espera revestida de tapetes escuros. A velha enfermeira no posto daquela ala acenou quando Rowan passou. Houve tempos nos seus atormentados dias de interna quando, durante o plantão, ela passeava por esses corredores no meio da noite em vez de tentar dormir. De um lado para o outro, ela caminhava, cobrindo um piso após o outro, nas entranhas daquele gigantesco submarino, embalado pelo leve sussurro de inúmeros equipamentos.

            Pena que o chefe soubesse do Sweet Christine, pensava ela agora. Pena que desesperada e assustada ela o houvesse trazido para casa na tarde do enterro da sua mãe adotiva, levando-o para se sentar no convés, para beber vinho sob o céu azul de Tiburon. Pena que naqueles instantes ocos e metálicos ela houvesse confessado a Lark que não tinha mais vontade de ficar naquela casa, que agora vivia no barco e às vezes vivia para ele, levando-o a mar aberto depois de cada turno, não importa a quanto tempo estivesse trabalhando, não importa o quanto estivesse cansada.

            Falar com as pessoas, será que isso melhorava as coisas? Lark havia somado chavões a mais chavões enquanto tentava consolá-la. E daí em diante, todos no hospital tinham conhecimento do Sweet Christine. E ela não era só Rowan, a silenciosa, mas Rowan, a adotada, aquela cuja família havia morrido inteira em menos de meio ano, que saía a mar aberto inteiramente só no grande barco. Ela também havia se tornado a Rowan que recusava os convites de Lark para jantar, quando qualquer outra médica solteira da equipe teria aceito sem hesitar.

            Se eles imaginassem o resto da história, pensava ela, a que ponto ela era no fundo misteriosa, até para si mesma. E o que teriam dito dos homens de que gostava, os intrépidos agentes da lei e os heróis dos caminhões com escada Magirus do corpo de bombeiros que caçava em barulhentos e saudáveis bares de bairro, escolhendo seus parceiros tanto por suas mãos grossas e voz áspera quanto por seus braços fortíssimos e tórax musculoso. E, o que diriam disso? E de todas aquelas relações na cabine inferior do Sweet Christine com a arma calibre 38, de uso exclusivo da polícia, no coldre de couro preto pendurado num gancho na parede.

            E as conversas depois - não, vamos chamá-los de monólogos - nas quais esses homens, com a necessidade desesperada tão semelhante à do neurocirurgião, reviviam seus instantes de perigo e de realização, de bravura e de habilidade. Um cheiro de coragem nas camisas de uniforme. Uma canção de vida e morte. Por que esse tipo de homem? Graham havia perguntado um dia.

            - Você procura os bobos, os incultos, os grossos? E se um deles enfiar o punho pesado no seu rosto?

            - Mas é exatamente essa a questão - respondeu ela, com frieza, sem nem mesmo se importar em olhar para ele. - Eles não agem assim. Eles salvam vidas, e é por isso que eu gosto deles. Gosto de heróis.

            - Isso parece conversa de uma bobinha de 14 anos - respondeu Graham, com azedume.

            - Você não entendeu nada. Quando eu tinha 14 anos, achava que os advogados como você eram os heróis.

            Um relance amargurado dos seus olhos quando ele se afastou dela. Uma lembrança amarga de Graham, mais de um ano depois da sua morte. O gosto de Graham, o cheiro de Graham, Graham afinal na cama de Rowan, porque ele teria ido embora antes da morte de Ellie se Rowan não concordasse.

            - Não me diga que não era isso o que você sempre quis - disse-lhe Graham no fofo colchão de plumas no beliche do Sweet Christine. - Que vão para o inferno seus bombeiros, seus tiras.

            Pare de discutir com ele. Pare de pensar nele. Ellie nunca soube que você ia para a cama com ele, nem os motivos pelos quais você se sentia forçada a agir assim. Tanta coisa que Ellie nunca soube. E você nem está na casa de Ellie. Não está nem mesmo no barco que Graham lhe deu. Ainda está a salvo na tranqüilidade anti-séptica do seu mundo, e Graham está morto e enterrado no pequeno cemitério no norte da Califórnia. Não importa como ele morreu, porque também ninguém sabe dessa história. Não deixe que ele esteja ali em espírito, como dizem por aí, quando você puser a chave na ignição do carro que foi dele, que você já devia ter vendido há muito tempo, ou quando entrar nos cômodos úmidos e arrepiantes da casa que foi dele.

            Mesmo assim, ela ainda conversava com ele. Ainda prosseguia na interminável argumentação da sua defesa. A morte de Graham havia impedido para sempre qualquer solução verdadeira. E assim, o ódio e a fúria de Rowan haviam criado um fantasma dele. Ele estava perdendo a nitidez, mas ainda a atormentava, até mesmo aqui nos corredores seguros do próprio território de Rowan.

            Ela teve tanta vontade de lhe dizer que ia trazer os outros qualquer dia desses. Vou trazê-los com seu grande ego e sua exuberância, sua ignorância e seu humor brincalhão. Vou aceitar sua falta de modos, seu amor simples e ardente pelas mulheres e seu medo das mulheres. Vou aceitar até mesmo sua conversa, é, aquele seu falatório interminável. E graças a Deus que, ao contrário dos neurocirurgiões, eles não querem que eu diga nada, nem querem saber quem eu sou ou o que eu sou. Tanto faz que eu dissesse ser especialista em foguetes, espiã internacional, mágica ou neurocirurgiã.

            - Não vai querer me dizer que você opera o cérebro das pessoas!

            De que importava tudo isso?

            O fato é que Rowan compreendia um pouco melhor "a questão masculina" agora do que naquela época em que Graham discutia com ela. Ela compreendia melhor o vínculo entre sua própria pessoa e seus heróis uniformizados: o de que entrar na sala de cirurgia, calçar aquelas luvas esterilizadas e erguer o microcoagulador e o microbisturi era muito semelhante a entrar num prédio em chamas, era como se intrometer numa briga de família com um revólver para salvar a mulher e a criança.

            Quantas vezes ela ouvira a comparação entre os neurocirurgiões e os bombeiros? Depois vinha a crítica hábil: mas há uma diferença porque sua vida não está em jogo. Como não está? Pois, se você falhar ali, se você fracassar terrivelmente e com uma freqüência suficiente, estará destruído com tanta certeza quanto se o telhado em chamas houvesse desmoronado sobre sua cabeça. A sobrevivência dependia do seu talento, coragem e perfeição, porque simplesmente não havia nenhum outro meio de sobreviver.

            Cada minuto na sala de cirurgia era uma prova mortal.

            É, a mesma coragem, o mesmo amor pelo estresse e pelo perigo por um bom motivo que ela via nos homens simples que gostava de beijar, de acariciar e amamentar; os homens que gostava de ter sobre seu corpo; os homens que não sentiam necessidade de que ela falasse.

            Mas de que valia essa compreensão quando já havia meses - talvez meio ano - que ela não convidava ninguém para sua cama. De vez em quando ela se perguntava o que o Sweet Christine estaria achando disso. Estaria o barco murmurando na escuridão, "Rowan, onde estão os seus homens?" Chase, o policial palomino, de pele azeitonada e cabelo louro, do Marin, ainda deixava recados para ela na secretária eletrônica. Mas ela não tinha tempo para ligar de volta. E ele era tão simpático e também lia livros. Uma vez chegaram a ter uma conversa de verdade, quando ela fez algum comentário despreocupado sobre o setor de emergência do hospital e a mulher que fora alvejada pelo marido. Ele imediatamente se agarrou a esse gancho com sua própria coleção de tiros e facadas, e logo os dois estavam desfiando todas as suas histórias. Quem sabe não fosse por isso que ela não havia ligado de volta?

            Era uma possibilidade.

            A julgar pelas aparências, porém, a neurocirurgiã havia temporariamente dominado a mulher por inteiro. A tal ponto que ela nem sabia bem por que motivo estava pensando naqueles homens agora. A não ser que fosse por não estar realmente tão cansada assim, ou porque o último homem por quem ela havia sentido desejo tivesse sido Michael Curry, o maravilhoso afogado, lindo mesmo deitado ali, pálido e molhado, com os cabelos negros grudados à cabeça, no convés da embarcação.

            Ele era, no jargão de quando ela estava na escola, lindo de morrer, um pedaço de homem - simplesmente um cara adorável e, além do mais, o seu tipo de cara adorável. O corpo dele não era desses corpos criados em academias de ginástica na Califórnia, com músculos excessivamente desenvolvidos e bronzeados falsos, encimados por uma cabeleira oxigenada; mas, sim, um vigoroso espécime proletário, tornado ainda mais irresistível pelos olhos azuis e pelas sardas no rosto que, em retrospectiva, faziam com que ela tivesse vontade de beijá-las.

            Que ironia pescar no mar, num estado de desamparo trágico, um exemplo tão perfeito do único tipo de homem que ela jamais desejara. Ela parou. Havia chegado ás portas da Unidade de Tratamento Intensivo.

            Entrando em silêncio, ela ficou parada ali um instante, observando esse estranho mundo de aquários congelados, de pacientes graves adormecidos, à mostra debaixo do plástico da tenda de oxigênio, com seus torsos e membros frágeis ligados a monitores que emitiam sinais eletrônicos, em meio a inúmeros cabos e mostradores.

            Na cabeça de Rowan, acionou-se de repente um interruptor. Não existia nada fora desta enfermaria, da mesma forma que nada existia fora da sala de cirurgia.

            Ela se aproximou da escrivaninha, com a mão estendida para tocar muito de leve o ombro da enfermeira sentada que estudava, encurvada, uma quantidade de papéis sob a lâmpada fluorescente baixa.

            - Boa noite, Laurel - disse Rowan, baixinho.

            A mulher espantou-se. Depois, ao reconhecer Rowan, seu rosto se iluminou.

            - Dra Mayfair, ainda por aqui?

            - Só para mais uma olhadinha.

            O estilo de Rowan tratar as enfermeiras era muito mais delicado do que seu jeito com os médicos. Desde o inicio do seu estágio de interna, ela sempre procurou agradar ás enfermeiras, esforçando-se ao máximo para amenizar seu proverbial ressentimento contra as médicas, bem como para extrair delas o maior entusiasmo possível. No caso de Rowan, essa era uma ciência, calculada e refinada a ponto de parecer desumana, e no entanto com a mesma sinceridade profunda de qualquer incisão feita nos tecidos do cérebro de um paciente.

            Quando entrou no primeiro quarto e parou ao lado da cama metálica alta e reluzente - parecia, sim, uma monstruosa prateleira sobre rodas - ela ouviu a enfermeira vindo atrás, como que para servi-la. A enfermeira começou a erguer a planilha do seu lugar aos pés da cama. Rowan abanou a cabeça: não. Descorada, sem vida aparente, jazia ali a última vítima de acidente automobilístico do dia, com a cabeça enorme num turbante de ataduras brancas e um fino tubo transparente enfiado no nariz. Os equipamentos demonstravam a única vitalidade com seus monótonos apitos e suas linhas dentadas em néon. A glicose escorria pela agulha minúscula fincada no seu pulso imobilizado.

            Como um corpo que volta á vida na mesa do embalsamados, a mulher, por baixo das camadas de roupa de cama alvejada, abriu lentamente os olhos.

            - Dra Mayfair - sussurrou.

            Uma adorável onda de alívio passou por Rowan. Mais uma vez, ela e a enfermeira se olharam. Rowan sorriu.

            - Sou eu, Sra Trent - disse, em voz baixa. - Está se saindo bem. - Com delicadeza, envolveu a mão direita da mulher com seus dedos. É, muito bem mesmo.

            Os olhos da mulher foram se fechando lentamente como flores que se fecham. Nenhuma alteração na suave música das máquinas ao seu redor. Rowan retirou-se em silêncio como havia chegado.

            Pelas janelas do segundo quarto, ela examinou outra criatura aparentemente inconsciente, a de um menino moreno, magrelo, que de repente havia ficado cego e saído cambaleante da plataforma para cruzar o caminho de um trem de subúrbio.

            Ela havia trabalhado quatro horas nesse caso, suturando com a agulha diminuta o local da hemorragia que havia provocado sua cegueira para depois tratar dos danos no crânio. No setor de recuperação, ele já dizia piadas ao circulo de médicos à sua volta.

            Agora, com os olhos apertados, o corpo imóvel, Rowan estudava seus levíssimos movimentos de adormecido, como seu joelho direito se mexia por baixo da coberta, como sua mão se curvou com a palma para cima quando ele virou a cabeça de lado. Sua língua passou rápida pelos lábios secos, e ele resmungou alguma coisa como um homem falando com alguém em sonho.

            - Ele está indo bem, doutora - disse a enfermeira em voz baixa, junto a ela. Rowan concordou com um gesto da cabeça. Sabia, porém, que dentro de semanas, ele sofreria convulsões . Usariam Dilantin para controlar, mas ele seria epilético pelo resto da vida. Sem dúvida melhor do que morrer ou do que ficar cego. Ela esperaria e observaria antes de prever ou explicar. Afinal, havia sempre a possibilidade de estar errada.

            - E a Sra Kelly? - perguntou Rowan. Ela se voltou para encarar a enfermeira de frente, forçando-se a ver a mulher com clareza e abrangência. Essa era uma enfermeira eficiente e solidária, uma mulher de quem gostava bastante.

            - A Sra Kelly acha engraçado ainda ter duas balas na cabeça. Ela me disse que se sente como uma espingarda carregada. Não deixa a filha ir embora. Quer saber o que aconteceu com o pivete que lhe deu um tiro. Quer mais um travesseiro. Quer uma televisão e um telefone. Rowan deu a obrigatória risadinha de admiração. Mal se ouviu seu ruído no silêncio repleto de zumbidos.

            - Bem, talvez amanhã.

            De onde estava, podia ver a animada Sra Kelly pelo último par de janelas no final da enfermaria. Incapaz de erguer a cabeça do travesseiro, a Sra Kelly gesticulava sem esforço com a mão direita enquanto conversava com sua filha adulta, uma mulher magra e obviamente exausta, com pálpebras cansadas que, mesmo assim, não parava de concordar repetidamente com movimentos de cabeça, prestando atenção a cada palavra da mãe.

            - Ela é boa para a mãe - cochichou Rowan. - Deixe-a ficar quanto tempo quiser.

            A enfermeira concordou.

            - Estou de folga até segunda-feira, Laurel - disse Rowan. - Não sei se estou gostando desse novo horário.

            - A senhora merece o descanso, Dra Mayfair - disse a enfermeira, com um risinho contido.

            - Será? - perguntou Rowan, baixinho. - O Dr Simmons pode me telefonar se houver algum problema. Fique à vontade para lhe pedir que me chame, Laurel. Está entendendo?

            Rowan saiu pelas portas duplas, deixando que elas se fechassem suavemente. É, o dia havia sido bom. E realmente não havia mais nenhuma desculpa para continuar por aqui, a não ser fazer algumas anotações na agenda particular que mantinha no escritório e verificar se havia mensagens na secretária eletrônica. Talvez descansasse um pouco no sofá de couro. Era tão mais luxuoso, esse escritório do médico assistente, do que os aposentos entulhados e desmazelados do pessoal de plantão, onde havia cochilado anos a fio.

            Ela sabia, porém, que tinha de ir para casa. Tinha de deixar que as sombras de Ellie e Graham se movimentassem á vontade. E o que dizer de Michael Curry? Ora, mais uma vez ela havia se esquecido dele, e agora já eram quase dez horas. Precisava ligar para o Dr Morris o mais rápido possível.

            Agora não vá deixar seu coração palpitar por Curry, pensou ela, enquanto ia calmamente pelo corredor com piso de linóleo, preferindo mais uma vez a escadaria de concreto ao elevador e seguindo um trajeto irregular que terminaria por levá-la à porta do escritório, depois de atravessar o gigantesco hospital adormecido.

            Ela estava, entretanto, ansiosa por ouvir o que Morris tinha a dizer, ansiosa por noticias do único homem da sua vida naquele momento, um homem que ela não conhecia e que não via desde aquele violento interlúdio de esforço desesperado e sucesso enlouquecido, acidental, no mar turbulento há quase quatro meses...

            Naquela noite, ela estava quase entorpecida de tão exausta. Uma mudança de rotina durante seu último mês de residência resultara em trinta e seis horas de plantão, durante as quais ela conseguiu dormir talvez uma hora. Nada de mais, até que vislumbrou um homem afogado no mar.

            O Sweet Christine vinha devagar pelo oceano turbulento sob um céu pesado, de chumbo, com o vento rugindo forte contra as janelas da cabine de comando. Nenhum aviso a embarcações de pequeno porte fazia diferença para essa lancha - cruzeiro de aço, bimotor, de quarenta pés, de construção holandesa, com seu pesado casco de deslocamento movendo-se com regularidade, embora lentamente, sem qualquer elevação enquanto atravessava as ondas encapeladas.

            Em sentido estrito, era uma embarcação grande demais para ser manobrada por uma única pessoa. Rowan, no entanto, já a pilotava sozinha desde os 16 anos de idade.

            Atracar e desatracar um barco desses é realmente a parte complicada, quando se faz necessário mais um membro na tripulação. Rowan tinha seu próprio canal, largo e fundo, ao lado da sua casa em Tiburon, tinha seu próprio cais e seu próprio sistema lento e metódico. Uma vez que o Sweet Christine estivesse de ré e voltado para San Francisco, uma mulher no comando que conhecesse e compreendesse todos os complexos assobios e sinais eletrônicos da embarcação era na realidade o que bastava.

            O Sweet Christine fora construído não para a velocidade, mas para a resistência. Naquele dia, estava equipado, como sempre estava, para uma viagem de volta ao mundo.

            O céu carregado ainda sufocava a luz do dia naquela tarde de maio mesmo quando Rowan passou por baixo da Golden Gate. Quando a ponte estava fora do seu alcance visual, o longo crepúsculo já havia desaparecido por completo.

            Caía a escuridão com uma monotonia pura e metálica. Era o oceano que se fundia com o céu. Fazia tanto frio que Rowan usava luvas e gorro de lã mesmo na cabine de comando, enquanto bebia uma xícara de café fumegante atrás da outra, o que nunca afetava sua exaustão imensa. Seus olhos estavam focalizados, como sempre, no mar instável.

            Foi quando apareceu Michael Curry, um pontinho à distância. Será que aquilo podia ser um homem?

            De bruços na água, com os braços abertos sem tensão, as mãos flutuando junto à cabeça, e os cabelos pretos formando uma massa em contraste com a água de um cinza brilhante. O resto, só roupas ligeiramente infladas cobrindo um corpo flácido, sem forma. Uma capa de chuva com cinto; o calcanhar do sapato, marrom. Parecia morto.

            Tudo o que ela conseguiu saber nesses primeiros instantes foi que não se tratava de um cadáver em decomposição. Por mais que as mãos estivessem pálidas, elas não estavam inchadas. Ele deve ter caído do convés de alguma embarcação de grande porte há apenas alguns instantes ou há algumas horas. Crucial foi ter que contatar outras embarcações imediatamente e passar suas coordenadas. Depois, tentar trazê-lo a bordo. Por infelicidade, os barcos da guarda costeira estavam a milhas da sua localização. As equipes de resgate com helicóptero estavam totalmente ocupadas. Não havia praticamente nenhuma embarcação menor por ali em virtude dos avisos de perigo. E a névoa estava engrossando. A ajuda chegaria assim que fosse possível, mas ninguém sabia dizer quando.

            - Vou tentar tirá-lo de dentro d'água. Estou sozinha. Venham para cá o mais rápido possível.

            Não havia necessidade de lhes dizer que era médica, nem de lhes relembrar o que eles já sabiam. Nessas águas gélidas, as vítimas de afogamento conseguiam sobreviver por períodos incrivelmente longos, porque a queda na temperatura torna mais lento o metabolismo. O cérebro adormece, exigindo apenas uma fração do normal de oxigênio e sangue. O importante era trazê-lo a bordo e tentar reanimá-lo.

            Isso é que era difícil porque ela nunca havia feito algo parecido sozinha. Dispunha, porém, do equipamento necessário: os suspensórios presos á forte corda de náilon que passava por um guincho movido a gasolina no alto da cabine de comando. Em outras palavras, meios suficientes para içá-lo a bordo se ao menos conseguisse chegar a ele. E era aí que podia fracassar.

            Ela imediatamente calçou as luvas de borracha e vestiu o colete salva vidas. Prendeu seu próprio suspensório e apanhou mais um para o homem. Verificou o cordame, incluindo o cabo ligado ao bote salva-vidas, constatando que estava firme. Depois, soltou o bote pelo lado do Sweet Christine e desceu pela escada até ele, ignorando o mar revolto, o balanço da escada e os borrifos de água gelada no rosto.

            Ele vinha flutuando na sua direção enquanto ela remava até ele, mas a água quase afundava o bote. Por um segundo, ela pensou com clareza que aquilo era impossível. Recusava-se, entretanto, a desistir. Afinal, quase caindo do pequeno bote, ela estendeu a mão e conseguiu pegar a do homem, trazendo o corpo na sua direção com a cabeça à frente. Agora, como ia conseguir prender os suspensórios direito no tórax do homem?

            Mais uma vez a água quase inundou o bote. Ela própria quase o virou. E então uma onda a ergueu e a jogou sobre o corpo do homem. Ela soltou a mão. Soltou o homem. Mas ele voltou á superfície como uma rolha. Ela agarrou seu braço esquerdo, dessa vez, e forçou o suspensório por cima da cabeça e do ombro esquerdo, conseguindo passar o braço esquerdo por ele.

            Era, porém, crucial passar também o braço direito. Ele precisava estar bem preso se ela queria içá-lo, com aquele peso todo da roupa encharcada. E o tempo todo, seu sentido de diagnóstico funcionava enquanto ela mantinha os olhos no rosto meio submerso, enquanto tocava na pele fria da mão estendida. É, ele está aí dentro. Pode voltar. Leve-o para o convés.

            Uma onda violenta após a outra impedia que ela fizesse qualquer coisa que não fosse segurá-lo. E então, afinal, ela conseguiu agarrar a manga direita, puxar o braço para a frente passando-o pelo suspensório e, imediatamente, prendê-lo com segurança.

            O bote virou, lançando-a ao mar junto com ele. Ela engoliu água e voltou rápido à superfície, tendo perdido o fôlego com o frio enregelante que penetrava pela sua roupa: De quantos minutos dispunha a essa temperatura antes de perder a consciência? Mas ele estava amarrado ao barco agora tanto quanto ela. Se conseguisse voltar até a escada sem desfalecer, poderia içá-lo. Soltando o cabo ligado ao homem, ela foi puxando o próprio cabo para se aproximar do barco, recusando-se a acreditar que pudesse fracassar, com o grande costado de estibordo do Sweet Christine apenas um borrão branco que desaparecia e reaparecia à medida que as ondas caíam sobre ela.

            Chocou-se, afinal, com o lado da embarcação. O choque fez com que de súbito voltasse a ficar alerta. Seus dedos nas luvas recusaram-se a se flexionar quando ela estendeu a mão para o primeiro degrau da escada externa. Mas ela lhes deu o comando. Fechem, seus idiotas, agarrem a corda. E ficou olhando o que não conseguia mais sentir, quando sua mão direita obedeceu ao comando. Sua mão esquerda tentou alcançar o lado da escada.

            Mais uma vez ela estava dando ordens ao corpo entorpecido, e, meio descrente, descobriu-se subindo, degrau a degrau. Por um instante, não conseguiu se mexer, deitada no convés. O ar aquecido que saía pela porta aberta da cabine de comando formava uma nuvem de vapor como se fosse um bafo quente. Ela, então, começou a massagear os dedos até o tato voltar a eles. No entanto, não havia tempo para se aquecer. Não havia tempo para nada a não ser ficar em pé e ir até o guincho. Suas mãos agora estavam doendo, mas fizeram o que ela queria automaticamente quando ela deu partida ao motor. O guincho gemia e cantava enquanto enrolava a corda de náilon. De repente, ela viu o corpo do homem que surgia acima da balaustrada do convés, com a cabeça baixa, os braços muito abertos e caindo flácidos sobre o laço de náilon dos suspensórios, a água escorrendo das roupas pesadas, sem cor. Ele caiu para a frente, de cabeça, no convés.

            O guincho apitava enquanto o arrastava ainda mais para perto da cabine de comando, colocando-o novamente em pé a menos de um metro da porta. Ela desligou o motor. O corpo caiu, encharcado, sem vida, longe demais do ar quente para poder se beneficiar dele.

            E ela sabia que não conseguiria arrastá-lo para dentro. Além disso, não havia mais tempo a perder com as cordas ou com o guincho.

            Com um esforço enorme, ela virou o homem de bruços e expulsou mais de um litro de água do mar dos seus pulmões. Depois, ela o ergueu, enfiando-se debaixo do corpo para fazer com que voltasse à posição de costas.

            Arrancou as luvas porque a estavam atrapalhando. Pôs, então, a mão esquerda por baixo do seu pescoço, fechou-lhe o nariz com os dedos da mão direita e começou a soprar para dentro da sua boca. A mente de Rowan funcionava acompanhando o corpo, imaginando o ar quente que estava penetrando nele. Mesmo assim, parecia que respirava uma eternidade sem qualquer alteração na massa inerte por baixo dela.

            Resolveu passar para o tórax, pressionando com a maior força possível o esterno e soltando a pressão. Repetiu o movimento pelo equivalente a quinze pulsações.

            - Vamos, respire - disse, como se o estivesse xingando. - Que inferno, respire! - Voltou, então, ao boca-a-boca. Impossível saber quanto tempo se passou. Ela estava tão esquecida do tempo quanto quando se encontrava na sala de cirurgia. Simplesmente continuava, alternando entre a massagem do tórax e o enchimento dos pulmões, parando de vez em quando para tocar na carótida sem vida e perceber que a mensagem de diagnóstico era a mesma - Vivo - antes de prosseguir.

            O corpo batia no convés á mercê dos seus esforços, com a pele branca como cera e reluzente por estar molhada, e o calcanhar dos sapatos marrons de couro rolando sobre as tábuas.

            Uma vez ela tentou arrastá-lo para dentro da cabine de comando, mas foi em vão. E, com a vaga percepção de que não se via nenhuma luz atravessando a névoa, nem se ouvia nenhum ronco de helicóptero, ela prosseguia, só parando de repente para dar tapas no rosto do homem e gritar com ele, dizendo-lhe que sabia que ele estava ali e que ela esperava que ele voltasse a si.

            - Você sabe que está me ouvindo! - gritou enquanto fazia pressão contra o esterno. Ela imaginou o coração e os pulmões com todos os seus maravilhosos detalhes anatômicos. E então, quando ela ia erguer o pescoço mais uma vez, os olhos do homem se abriram, e seu rosto de repente ganhou vida. Seu tórax arquejou sob o peso dela. Ela sentiu o ar que ele expulsava, quente na sua pele.

            - Isso mesmo, respire! - gritou ela mais alto que o vento. E por que estaria tão assombrada por ele estar vivo, por estar com os olhos fixos nos dela, se não lhe havia ocorrido desistir?

            A mão direita do homem subiu de repente e agarrou a dela. Ele lhe disse alguma coisa, em voz muito baixa, incoerente, mas que mesmo assim lhe pareceu ser um nome próprio.

            Mais uma vez, ela lhe deu um tapa no rosto, mas com delicadeza. A respiração vinha irregular, porém rápida; o rosto estava contorcido de dor. Como eram azuis os olhos e como demonstravam nitidamente estar vivos. Era como se ela nunca tivesse visto olhos antes num ser humano, como se nunca tivesse visto esses glóbulos gelatinosos, brilhantes e ferozes que olhavam para ela a partir de um rosto humano.

            - Não pare, respire! Está me ouvindo? Vou apanhar cobertores lá embaixo. Ele agarrou sua mão novamente e começou a tremer com violência. Quando tentava se livrar dele, ela percebeu que ele olhava por trás dela, direto para o alto. Ele ergueu a mão esquerda. Estava apontando para alguma coisa. Uma luz afinal iluminou o convés. E meu Deus, a névoa estava vindo envolvê-los, densa como fumaça. O helicóptero chegava bem na hora.

            O vento ardia nos seus olhos. Ela mal enxergava as hélices girando. Ela relaxou, quase perdendo a consciência, mas sentindo a mão agarrada à sua. Ele estava tentando lhe dizer algo. Ela afagou sua mão.

            - Está tudo bem, tudo bem agora. Vão levá-lo para o hospital.

            E em seguida ela estava dando ordens bruscas aos homens da guarda costeira à medida que desciam pela escada: não o aqueçam rápido demais e, pelo amor de Deus, não lhe dêem nada quente para beber. É um caso grave de hipotermia. Peçam pelo rádio que uma ambulância esteja à espera no cais.

            Ela temeu por ele quando o içaram. Na realidade, porém, sabia o que os médicos iam dizer: nenhum dano neurológico.

            A meia-noite, ela já havia desistido de dormir, mas estava novamente aquecida e bem acomodada. O Sweet Christine balançava como um enorme berço no mar escuro, com suas luzes varrendo a névoa, seu radar ligado, seu piloto automático mantendo o mesmo grande trajeto circular. Aconchegada no canto do beliche da cabine de comando, já com roupas secas, Rowan bebia seu café fumegante.

            Ela se fazia perguntas sobre o homem, sobre a expressão nos seus olhos. Michael Curry era o seu nome, ou foi isso o que lhe disse a guarda costeira quando ela ligou. Ele já estava na água há pelo menos uma hora quando ela o descobriu, mas tudo havia acabado do jeito que ela havia imaginado.

            "Nenhuma complicação neurológica." A imprensa estava considerando o caso um milagre. Infelizmente, ele ficou desnorteado e violento na ambulância (talvez pela presença de todos aqueles repórteres no cais). Deram-lhe sedativos (que idiotas!) e isso havia anuviado um pouco as coisas (é claro!), mas agora ele estava bem.

            - Não divulguem meu nome para ninguém - disse ela. - Quero proteger minha privacidade.

            Entendido. Os repórteres estavam forçando muito. E, bem, para dizer a verdade, seu pedido de ajuda havia chegado na pior hora possível e não estava corretamente registrado. Não tinham nem o seu nome nem o nome da embarcação. Será que ela lhes poderia passar essa informação agora...

            - Cambio e desligo, muito obrigada - disse ela, encerrando a ligação.

            O Sweet Christine seguia sozinho. Ela visualizou Michael Curry deitado no convés, o jeito que sua testa se enrugou quando ele despertou, o jeito que seus olhos refletiram a luz da cabine de comando. Que palavra era aquela que ele havia pronunciado, parecia um nome. Mas ela não conseguia se lembrar, se é que chegara a ouvi-la com nitidez.

            Parecia quase certo que ele teria morrido se ela não o tivesse avistado. Não lhe agradou essa idéia dele boiando na escuridão e na névoa, da vida a escapar do seu corpo a cada instante. Por um triz. E que beleza de homem. Mesmo afogado, ele era algo a se admirar.

            O mistério de sempre, a combinação de traços que torna um homem bonito. Seu rosto era sem sombra de dúvida irlandês: quadrado, com o nariz curto e bastante redondo que pode determinar a feiúra de um indivíduo em muitos casos. Ninguém, no entanto, poderia tê-lo considerado feio. Não com aqueles olhos e aquela boca. De maneira alguma.

            Não era correto, porém, pensar nele naqueles termos, era? Ela não era médica quando saía á caça: era Rowan, em busca do parceiro anônimo e do sono depois, quando a porta se fechasse. Era a médica Rowan que se preocupava com ele.

            E quem conhecia mais a fundo do que ela tudo o que poderia ter ocorrido de errado com a química do cérebro durante aquela hora crucial? Ela ligou para o San Francisco General cedo na manhã do dia seguinte, quando voltou com o barco. O Dr Morris, o chefe dos residentes, ainda estava no plantão.

            - Compreendo perfeitamente - disse ela, com um breve esclarecimento da sua própria posição no hospital universitário. Ela descreveu o procedimento de ressuscitação, as instruções que havia transmitido aos paramédicos sobre a hipotermia. Curry não havia dito nada. Só balbuciou algo; ela não captou nenhuma sílaba com nitidez. Tinha, porém, a forte impressão de que ele se recuperaria.

            - Ele está bem. Teve muita sorte - respondeu o Dr Morris. E é claro que essa era uma ligação entre médicos, totalmente confidencial. Tudo o que aqueles abutres no saguão precisavam era saber que uma neurocirurgiã solitária havia içado o afogado. Era natural que, em termos psicológicos, ele estivesse meio abalado, falando sem parar sobre umas visões que teve do outro lado; e alguma coisa está acontecendo com as suas mãos, algo extraordinário...

            - Com as mãos?

            - Não é paralisia, nem nada semelhante. Olhe, meu bipe está chamando.

            - Deu para ouvir. Olhe, estou nos meus últimos trinta dias no University.Se precisar de mim, pode me chamar que irei.

            Ela desligou. O que ele podia estar querendo dizer sobre as mãos? Ela se lembrava da força com que Michael Curry a agarrara, sem querer soltar, com os olhos fixos nos dela.

            - Não cometi nenhum erro - disse ela, baixinho. - O cara não tem nenhum problema com as mãos.

            Ela compreendeu a história das mãos na tarde do dia seguinte quando abriu o Examiner.

            Ele explicava ter passado por uma "experiência mística". De algum ponto muito alto, ele vira seu próprio corpo boiando no Pacífico. Muitas coisas aconteceram, mas agora ele não conseguia se lembrar de nada; e isso o estava enlouquecendo, essa falha na memória.

            Quanto aos rumores que corriam acerca das suas mãos, bem, é... era verdade. Ele agora usava luvas pretas o tempo todo porque via imagens sempre que tocava qualquer objeto. Ele não podia segurar uma colher ou tocar num sabonete sem ver alguma imagem relacionada ao último ser humano que havia manuseado o objeto.

            Para a repórter, ele tocou no crucifixo do seu terço e lhe disse que ele havia sido comprado em Lourdes em 1939 e que era herança da sua mãe. Isso era absolutamente correto, alegava o jornal, mas agora havia inúmeros integrantes da equipe do San Francisco General que podiam confirmar os novos poderes de Curry.

            Ele gostaria de sair do hospital, gostaria mesmo. E preferia que essa história das suas mãos passasse, para que ele pudesse se lembrar do que lhe acontecera no mar.

            Ela examinou a fotografa: uma grande e nítida imagem em preto e branco dele sentado na cama. O charme do proletariado era inconfundível. E o sorriso, simplesmente maravilhoso. Até usava uma pequena corrente de ouro com um crucifixo, do tipo que realçava seus ombros musculosos. Muitos policiais e bombeiros usavam correntes desse tipo. Ela as adorava. Mesmo quando a pequena cruz ou medalha de ouro, ou fosse lá o que fosse, caía sobre seu rosto na cama, roçando nela como um beijo nas pálpebras.

            Já as mãos com luvas pretas pareciam sinistras na foto, pousadas no lençol branco. Seria possível o que o artigo dizia? Ela não duvidou nem por um instante. Havia visto coisas mais estranhas do que essa, é mesmo, muito mais estranhas. Não vá procurar esse cara. Ele não precisa de você, e você não precisa fazer nenhuma pergunta sobre as mãos.

            Ela recortou o artigo, dobrou-o e o enfiou no bolso. Ele ainda estava lá na manhã do dia seguinte quando ela entrou cambaleante na sala dos médicos depois de uma noite inteira no centro de traumatologia e abriu o Chronicle.

            Curry estava na página três, uma boa foto do rosto, com a expressão um pouco mais sombria do que antes, talvez um pouco menos confiante. Dezenas de pessoas já haviam comprovado seu estranho poder psicométrico. Ele desejava que as pessoas compreendessem que aquilo era como uma brincadeira de salão. Ele não tinha como ajudá-las.

            Tudo o que o preocupava agora era a aventura esquecida, ou seja, a região visitada enquanto estava morto.

            - Havia um motivo para minha volta - disse ele. - Sei que havia. A escolha era minha, e eu resolvi voltar. Havia algo muito importante que eu precisava fazer. Eu sabia o que era. Eu sabia o objetivo. Tinha alguma coisa a ver com um portal e com um número. Mas não consigo me lembrar do número ou do que o número significava. A verdade é que não consigo me lembrar de nada. É como se a experiência mais significativa de toda a minha vida tivesse sido apagada. E eu não sei de nenhum meio para recuperá-la.

            Estão fazendo com que ele pareça maluco, pensou Rowan. E provavelmente aquele fosse mais um caso de experiência após a morte. Hoje em dia sabemos que as pessoas passam por isso a toda hora. O que há de errado com as pessoas que o cercam?

            Quanto às mãos, estava um pouco fascinada demais por esse aspecto, ou não? Ela leu com atenção os relatos de várias testemunhas. Desejou ter cinco minutos para dar uma olhada nos exames aos quais ele havia sido submetido. Lembrou-se novamente dele deitado no convés, da firmeza com que a agarrava, da expressão no seu rosto.

            Será que ele havia sentido alguma coisa naquele instante através da mão? E o que sentiria agora, se ela fosse até lá e lhe dissesse o que se lembrava do acidente, se sentasse na cama ao seu lado e lhe pedisse que fizesse seu truque de salão com ela, ou seja, que trocasse a parca informação que ela possuía pelo que todo mundo queria dele? Não. Seria repulsivo que ela fizesse uma exigência dessas. Seria repugnante que ela, uma médica, pensasse não no que ele poderia estar precisando mas no que ela mesma desejava. Era pior do que se perguntar como seria ir para a cama com ele, beber café com ele à mesa da pequena cabine às três da manhã.

            Ela ligaria para o Dr Morris quando tivesse tempo. Para saber do seu estado, embora ela não soubesse dizer quando isso ocorreria. Ela agora era a própria morta viva, de tanto tempo sem dormir, e sua presença era necessária imediatamente no setor de recuperação. Talvez ela devesse deixar Michael Curry em paz. Talvez isso fosse o melhor para os dois.

            No final da semana, o Chronicle de San Francisco publicou uma longa reportagem na primeira página.

            O QUE ACONTECEU COM MICHAEL CURRY?

            Aos quarenta e oito anos, ele era construtor por profissão, um especialista na restauração de antigas casas vitorianas, proprietário de uma firma chamada Grandes Esperanças. Parecia ser famoso em San Francisco por transformar ruínas em mansões, um fanático pela autenticidade até os detalhes das cavilhas de madeira e dos pregos quadrados. Possuía uma pequena loja no Castro, repleta de antigas banheiras de pé e pias com pedestal. Eram célebres seus desenhos detalhados para restaurações. Na realidade, havia sido publicado um livro desses desenhos, intitulado Casas Vitorianas - por dentro e por fora. Eram suas as obras premiadas da pensão Barbary Coast Bed and Breakfast em Clay Street e do Jack London Hotel em Buena Vista West. No momento, porém, não estava fazendo nada. A empreiteira estava temporariamente fechada. Seu proprietário estava por demais ocupado tentando se lembrar do que lhe havia sido revelado durante aquela hora importantíssima que passou "morto na água".

            - Não foi sonho - disse ele. - Sei que conversei com pessoas. Elas explicaram o que queriam que eu fizesse, e eu aceitei. Eu pedi para voltar. Quanto à sua nova capacidade psíquica, ele insistia que ela não tinha nada a ver com a história. Parecia não ser nada mais do que um efeito colateral.

            - Olhe, tudo o que vejo é um relance: um rosto, um nome. É totalmente

imprevisível.

            Naquela noite, na sala dos médicos, ela o viu no noticiário da televisão: a imagem vívida do homem em três dimensões. Mais uma vez aqueles olhos azuis inesquecíveis e o sorriso saudável. Algo de inocente nele, na verdade, gestos simples e diretos indicando ser ele uma pessoa que há muito renunciou à desonestidade ou deixou de tentar superar com astúcia os embaraços do mundo da forma que fosse.

            - Preciso voltar para casa - dizia ele. O sotaque seria de Nova York? Não para minha casa aqui. Estou falando do lugar onde nasci. Voltar para Nova Orleans. - (Ali! Então era esse o sotaque!) - Eu poderia jurar que está ligado ao que me aconteceu. Não paro de ter visões da minha cidade. - Mais uma vez, ele encolheu um pouco os ombros. Parecia ser um cara muito simpático. No entanto, nada havia voltado à sua memória com relação às visões que tivera em sua experiência após a morte. O hospital não queria lhe dar alta, mas tinham de admitir que ele estava bem em termos físicos.

            - Fale-nos do seu poder, Michael.

            - Não quero falar sobre isso. - Uma encolhida de ombros. Olhou para as mãos com luvas pretas. - Quero conversar com as pessoas que me salvaram, a equipe da guarda costeira que me trouxe para o hospital, o comandante da lancha que me tirou do mar. Gostaria que essas pessoas entrassem em contato comigo. Vocês sabem que é por isso que concordei com a entrevista.

            A câmera cortou para um par de repórteres de estúdio. Brincadeiras sobre "o poder". Os dois haviam visto com seus próprios olhos. Por um instante, Rowan não se mexeu, nem mesmo pensou. Nova Orleans... e ele estava pedindo que ela entrasse em contato com ele. Nova Orleans... Bem, isso definia a questão. Rowan tinha uma obrigação. Ela ouvira o apelo dos próprios lábios de Curry. E ela precisava esclarecer essa história de Nova Orleans. Precisava conversar com ele... ou escrever uma carta. Assim que chegou em casa naquela noite, foi até a antiga escrivaninha de Graham, apanhou algum papel e escreveu uma carta a Curry.

            Contou-lhe detalhadamente tudo o que havia observado com relação ao acidente desde o momento em que o divisou no mar até quando foi içado já na maca. Em seguida, depois de um instante de hesitação, ela acrescentou seu endereço e número do telefone, com um pequeno pós-escrito.

            "Sr. Curry, eu também sou de Nova Orleans, apesar de nunca ter morado lá. Fui adotada no dia em que nasci e levada embora imediatamente. Talvez não passe de coincidência o fato de nós dois sermos do sul, mas achei que deveria saber. No barco, o senhor segurou minha mão com muita força por algum tempo. Não gostaria que sua situação fosse afetada por alguma vaga mensagem telepática recebida naquele instante, algo que pode não ter nada a ver com seu caso.

            "Se precisar falar comigo, pode me procurar no University Hospital ou no meu telefone particular."

            Era um texto suficientemente brando, neutro, com certeza. Ela havia apenas demonstrado acreditar no seu poder, colocando-se à disposição se ele precisasse dela. Nada mais do que isso, nenhuma exigência. E ela se certificaria de continuar responsável, não importa o que se revelasse.

            No entanto, ela não conseguia tirar da cabeça a idéia de poder pôr a mão na dele e só fazer uma pergunta: "Vou pensar numa coisa, numa coisa específica que aconteceu uma vez, não três vezes na minha vida; e tudo o que quero é que você me diga o que está vendo. Você faria isso? Não posso dizer que me deve esse favor porque lhe salvei a vida..."

            É isso mesmo, não pode dizer isso. Portanto, não diga!

            Ela mandou a carta direto para o Dr Morris, pela Federal Express. O Dr Morris ligou para ela no dia seguinte. Curry havia saído do hospital na tarde do dia anterior, logo após uma entrevista coletiva à televisão.

            - Ele está totalmente maluco, Dra Mayfair, mas não tínhamos nenhum motivo legal para retê-lo. Por sinal, eu lhe transmiti o que você me disse, que ele não falou nada. Mas ele está obcecado demais para desistir dessa história toda. Está decidido a se lembrar do que viu lá, sabia? A grande razão de tudo isso, o segredo do universo, o objetivo, o portal, o número, a jóia. Nunca se ouviu nada parecido. Vou encaminhar a carta para a casa dele, mas é provável que não lhe chegue às mãos. A correspondência chega aos montes.

            - E essa história das mãos, é real?

            Silêncio.

            - Quer saber a verdade? É cem por cento correta, pelo menos ao que eu tenha visto. Se algum dia chegar a presenciar o que acontece, vai ficar apavorada.

            A história foi a sensação dos tablóides vendidos em supermercados na semana seguinte. Duas semanas depois, saíram variações em People e Time. Rowan recortava os artigos e as fotos. Era óbvio que os fotógrafos estavam seguindo Curry por onde quer que ele fosse. Flagraram-no diante da sua empresa em Castro Street. Flagraram-no na escada de casa.

            Crescia em Rowan um feroz sentimento de proteção por ele. Realmente deviam deixar esse homem em paz. E você também, Rowan, devia deixá-lo em paz.

            Ele próprio não concedia mais entrevistas. Isso ficou claro já na primeira semana de junho. Os tablóides anunciavam entrevistas exclusivas com testemunhas do seu poder: "Ele tocou a bolsa e me disse tudo sobre minha irmã, sobre o que ela havia dito ao me dar a bolsa. Eu estava toda arrepiada e então ele disse, 'Sua irmã morreu'."

            Finalmente, o canal local da CBS disse que Curry estava enfurnado em casa em Liberty Street, incomunicável. Os amigos se preocupavam.

            - Ele está decepcionado, zangado - disse um dos seus antigos colegas de faculdade. - Acho que simplesmente se afastou do mundo. A empreiteira estava fechada indefinidamente. Os médicos do San Francisco General não haviam visto o paciente. Eles, também, estavam preocupados.

            Em julho, o Examiner informou que Curry estava "desaparecido". Ele havia "sumido".

            Uma repórter do noticiário noturno da televisão estava parada na escada de uma enorme casa vitoriana, apontando para uma pilha de correspondência fechada que transbordava da lata de lixo junto ao portão lateral.

            - Estará Curry confinado em sua majestosa casa vitoriana de Liberty Street que ele próprio restaurou com tanto carinho muitos anos atrás? Será que um homem está sentado ou deitado sozinho lá em cima no sótão iluminado?

            Com repugnância, Rowan desligou a tevê. Aquilo fazia com que ela se sentisse como um voyeur. Era simplesmente horrível levar a equipe de filmagem até a porta da própria casa da pessoa.

            O que não lhe saía da cabeça, porém, era aquela lata de lixo cheia de cartas não abertas. Teria sua mensagem ido parar inevitavelmente naquela pilha? A idéia do homem trancado na casa, com medo do mundo, necessitando de ajuda, era um pouco mais do que ela podia suportar.

            Os cirurgiões são homens e mulheres de ação; pessoas que acreditam poder fazer alguma coisa. É por isso que têm a coragem de abrir o corpo dos outros. Ela queria fazer alguma coisa: ir até lá, esmurrar a porta. Mas quanta gente não havia feito isso?

            Não, ele não estava precisando de mais uma visita; muito menos de uma com seus próprios planos secretos. Todas as noites, quando chegava em casa do hospital e levava seu barco para o mar aberto sozinha, Rowan pensava invariavelmente nele. Quase fazia calor nas águas abrigadas do litoral de Tiburon. Ela demorava o que podia antes de penetrar nos ventos mais frios da baía de San Francisco. Em seguida, alcançava a violenta corrente do oceano. Era erótica, essa grande mudança, quando ela voltava o barco para o oeste, jogando para trás a cabeça para olhar para cima e ver os majestosos pórticos da ponte de Golden Gate. A grande e pesada lancha cruzeiro avançava num movimento lento porém uniforme, empurrando para longe o horizonte pouco nítido.

            Era tão indiferente o Pacífico, enorme, sombrio, encapelado. Impossível acreditar em qualquer outra coisa a não ser em si mesmo quando se olhava a superfície infinitamente marchetada, que arfava e se movia sob um pôr-do-sol sem cor, no qual o mar tocava o céu numa névoa ofuscante.

            E ele acreditava que havia sido mandado de volta por algum motivo, não é? Esse homem que restaurava lindas residências, que desenhava ilustrações que eram publicadas em livros, um homem que deveria ser sofisticado demais para acreditar nesse tipo de coisa.

            Por outro lado, ele havia morrido mesmo, não? Ele havia passado por aquela experiência sobre a qual tantos escreveram,a de ser erguido, sem peso e de olhar para baixo com um sublime distanciamento do universo ali em baixo.

            Nada de semelhante jamais havia ocorrido com ela. Havia, porém, outras coisas, tão estranhas quanto essa. E embora o mundo inteiro soubesse da aventura de Curry, ninguém sabia dos estranhos segredos que Rowan conhecia.

            No entanto, chegar a pensar que houvesse um significado, uma intenção nas coisas, bem, isso estava totalmente fora do seu âmbito filosófico. Ela receava, como sempre havia receado, que tudo não passasse de solidão, trabalho árduo, e esforço para realizar algo de importante quando não havia a menor possibilidade de que isso ocorresse. Era como mergulhar uma varinha no oceano e tentar com ela escrever alguma coisa: todas aquelas pessoinhas do mundo tecendo seus pequenos desenhos que não duravam mais do que alguns anos e que não significavam absolutamente nada. A cirurgia a seduzia porque ela fazia com que se levantassem, recuperadas, vivas, agradecidas. Com a cirurgia propiciava-se a vida, afastando a morte, e esse era o único valor incontestável ao qual ela podia se entregar por inteiro. Doutora, nunca pensamos que ela fosse voltar a andar.

            Já um objetivo grandioso para viver, para renascer? O que poderia ser uma coisa dessas? Qual era o objetivo de uma mulher morrer de derrame na mesa de parto enquanto o recém-nascido chorava nos braços do médico? Qual era o objetivo de um homem, no caminho de volta da igreja para a casa, ser atingido por um motorista embriagado?

            Só que, se era um objetivo a descoberta de que se podiam, apesar de todas as leis vigentes, manter vivas num laboratório secreto no meio de um gigantesco hospital particular essas pequenas vidas abortadas, retalhando-as à vontade, em benefício de um paciente portador do mal de Parkinson com mais de sessenta anos rodados, antes que ele começasse a morrer da doença que o transplante de tecido fetal poderia curar, ora, nesse caso ela preferia usar o bisturi no ferimento a bala encaminhado pelo setor de emergência a qualquer hora.

            Ela nunca iria se esquecer daquela véspera de Natal fria e escura, bem como do Dr Lemle que a conduzia pelos andares desertos do Instituto Keplinger.

            - Precisamos de você aqui, Rowan. Eu poderia facilitar a sua transferência do hospital universitário. Sei o que dizer a Larkin. Quero você por aqui. E agora vou lhe mostrar algo a que você vai dar valor, e que Larkin jamais apreciaria, algo que você nunca verá naquele hospital, algo que você compreenderá.

            Ah, mas ela não compreendeu. Ou melhor, entendeu bem demais os horrores envolvidos.

            - No sentido estrito da palavra, ele não é viável - explicou, esse médico, Karl Lemle, cujo brilho tanto a havia seduzido, o brilho, a ambição e a visão, é, tudo isso. - E é claro que em termos técnicos nem sequer está vivo. Está morto, totalmente morto, por ter sido abortado, sabe, na clínica do andar inferior. Por isso, tecnicamente, trata-se de um ser não- humano, de uma não pessoa. E então, Rowan, quem vai dizer que temos de enfiá-lo num saco plástico de lixo se sabemos que ao manter esse pequeno corpo com vida, e ao manter outros tantos com vida, essas valiosas minas de tecido incomparável, tão flexível, tão adaptável, tão diferente de qualquer outro tecido humano, apinhado de inúmeras células estranhas que acabariam sendo descartadas no processo normal da vida fetal, se sabemos que podemos fazer descobertas no campo dos transplantes neurológicos que fariam o Frankenstein de Shelley parecer uma história para fazer criança dormir?

            Direto ao ponto, exatamente. E não havia muita dúvida de ele estar falando a verdade ao prever um futuro com transplantes de cérebros inteiros, em que o órgão do pensamento seria totalmente retirado, com segurança, de um corpo desgastado para um corpo jovem e saudável; um mundo em que cérebros absolutamente novos poderiam ser criados à medida que fosse acrescentado tecido aqui ou ali para suplementar a obra da natureza.

            - Você entende, a característica principal do tecido fetal está no fato de não provocar rejeição no paciente. Claro que você sabe disso, mas já pensou no assunto, no que isso no fundo quer dizer? Um minúsculo implante de células fetais no olho de um adulto, e o olho aceita essas células; elas continuam a se desenvolver, adaptando-se ao novo tecido. Meu Deus, você não percebe que isso nos permite participar do processo da evolução? Ora, estamos apenas a um passo...

            - Nós não, Karl, você está.

            - Rowan, você é a profissional mais brilhante com quem já trabalhei em cirurgia. Se você...

            - Isso eu não vou fazer! Não me disponho a matar. - E se não sair daqui, vou começar a gritar. Sou obrigada. Porque eu matei. E, isso era mesmo um objetivo, digamos que fosse a noção de objetivo elevada ao máximo.

            É claro que ela não havia denunciado Lemle. Os médicos não costumam agir assim com outros médicos, em especial quando eles são residentes e seus oponentes são pesquisadores famosos e poderosos. Ela simplesmente se retraiu.

            - Além do mais - dissera ele, tomando café mais tarde diante da lareira em Tiburon, com as luzes do Natal refletidas nas paredes envidraçadas ao seu redor - isso aí está acontecendo por toda parte, essa pesquisa com fetos vivos. Não haveria uma lei contra a prática se ela não existisse.

            No fundo, nenhuma surpresa. Era por demais tentador. Na realidade, a força da tentação era exatamente igual à força da repulsa. Que cientista (e um neurologista é decididamente um cientista) não havia tido sonhos dessa natureza?

            Ao assistir a Frankenstein na sessão noturna na tele visão, ela sentiu vontade de ser o cientista louco. Como teria adorado seu próprio laboratório nas montanhas e, é verdade, ela queria ver o que aconteceria se tivesse a coragem de usar um cérebro humano vivo como espécime de laboratório, dissociado de toda moral, mas não, isso ela não faria.

            Que horrendo presente de Natal, essa revelação! E, no entanto, ela redobrou sua dedicação à cirurgia de feridos. Ao ver aquele pequenino monstro, de respiração ofegante à luz artificial, ela própria renasceu, tendo sua vida se definido para conquistar um poder inestimável à medida que se tornou a realizadora de milagres do hospital universitário, aquela a quem chamavam quando o cérebro estava se derramando na maca, ou quando o paciente entrava desatinado da rua, com o machado ainda enfiado na cabeça. Talvez o cérebro ferido fosse para ela o microcosmo de toda a tragédia: a vida sendo mutilada de forma contínua e aleatória pela vida. Quando Rowan havia matado - e era o que havia feito - o ato fato era tão traumatizante quanto esses: o cérebro invadido, seus tecidos lacerados, do mesmo modo que ela encontrava com tanta freqüência agora em vítimas sobre as quais nada sabia.

            Não havia nada que ninguém teria podido fazer por aqueles que ela matara. Não era, entretanto, para debater o objetivo da vida que ela queria ver Michael Curry. Também não era para arrastá-lo para a cama. Ela queria dele o mesmo que todo mundo, e era por isso que não havia ido a São Francisco General para visitá-lo, para se certificar por si mesma da sua recuperação.

            Ela queria saber algo sobre aquelas mortes que não fosse o que as autópsias lhe diziam. Ela queria saber o que ele via e sentia (quando e se um dia segurasse sua mão) enquanto ela pensava naquelas mortes. Ele havia pressentido algo na primeira vez em que tocou nela. Podia ser que isso também estivesse apagado da memória, na companhia de tudo que ele viu enquanto estava morto.

            Ela compreendia tudo isso. Pelo menos, bem no fundo de sua mente , ela havia compreendido o tempo todo. E, à medida que os meses passavam, ela não perdia a repulsa pelo fato de querer usar Michael Curry para seus próprios objetivos.

            Curry estava dentro daquela casa em Liberty Street. Ela sabia. Ele precisava de ajuda. E que diferença faria para Curry se ela dissesse, sou médica e acredito nas suas visões, bem como no poder das suas mãos, porque eu mesma sei que existe esse tipo de coisa, esses aspectos psíquicos que ninguém consegue explicar. Eu mesma tenho um poder semelhante as vezes totalmente incontrolável: o poder de matar a vontade.

            Por que ele se importaria? Ele estava cercado de gente que acreditava no que ele conseguia fazer, não estava? Isso, porém, não estava ajudando. Ele havia morrido e voltado; e agora estava enlouquecendo. Mesmo assim, se ela lhe contasse sua história, e essa idéia era agora decididamente uma obsessão declarada, talvez ele fosse a única pessoa no mundo que acreditaria no que ela dissesse.

            Talvez fosse uma loucura chegar a pensar em contar a história toda para quem quer que fosse. E houve épocas em que ela tentava se convencer de estar enganada. Mais cedo ou mais tarde, ela iria conversar com alguém, isso ela sabia.

            Mais cedo ou mais tarde, se ela não começasse a falar, o silêncio dos seus trinta anos seria esfacelado por um grito ininterrupto que apagaria todas as palavras. Afinal, por maior que fosse a quantidade de cabeças que ela remendasse, jamais conseguiu esquecer aqueles três assassinatos. O rosto de Graham à medida que a vida escorria dele, a menina em convulsões no asfalto, o homem que se debruçou sobre o volante do jipe.

            Assim que ela passou à condição de interna, conseguiu obter pelos canais oficiais os documentos das três autópsias. Acidente vascular cerebral, hemorragia subaracnóide, aneurisma congênito. Ela leu com atenção todos os detalhes. E o que estava descrito, em linguagem de leigo, era uma misteriosa fragilidade na parede de uma artéria, que por nenhum motivo perceptível acabou se rompendo e provocando uma morte repentina e totalmente imprevisível. Em outras palavras, não havia como prever que uma criança de seis anos de repente caísse em convulsões no pátio, uma criança de seis anos saudável o suficiente para estar dando chutes na pequena Rowan e puxando seu cabelo apenas alguns momentos antes. Também não havia nada que se pudesse fazer pela criança, enquanto o sangue jorrava pelo seu nariz e pelos ouvidos e os olhos se viravam para cima. Pelo contrário, todos tentaram proteger as outras crianças, encobrindo seus olhos enquanto as levavam para dentro da sala de aula.

            - Pobre Rowan - disse a professora, mais tarde. - Querida, quero que você compreenda que foi alguma coisa na cabeça da menina que a matou. Uma doença. Não teve nada a ver com a briga de vocês.

            Foi então que Rowan soube, com certeza absoluta, o que a professora jamais viria a saber. Foi ela mesma. Ela fez com que a outra morresse. Ora, isso poderia ser descartado sem nenhum problema: o sentimento natural de culpa de uma criança por um acidente que não compreendia.

            Rowan, no entanto, havia sentido alguma coisa quando aquilo aconteceu. Alguma coisa dentro de si mesma, uma imensa sensação difusa, não muito diferente do sexo quando ela pensou mais no assunto. Uma onda que a havia inundado e aparentemente saído dela no instante em que a criança caiu para trás.

            Houve, também, o sentido do diagnóstico, já em atuação naquela época, que lhe disse que a criança morreria. Mesmo assim, ela se esqueceu do ocorrido. Graham e Ellie, no estilo de bons pais californianos, levaram-na a um psiquiatra. Ela brincou com suas pequenas bonecas. Disse o que ele queria que ela dissesse. E as pessoas morriam de "ataques" o tempo todo.

            Passaram-se oito anos até que o homem desceu do jipe naquela estrada solitária nas colinas de Tiburon, tapou sua boca com a mão e começou a falar naquela voz horrível de insolência e intimidade.

            - Agora, não me saia gritando.

            Os pais adotivos nunca chegaram a associar o caso da menina ao do estuprador que morreu enquanto Rowan se defendia, quando o mesmo ódio furioso a galvanizou, transformando-se naquela sensação singular que deixou seu corpo rígido de repente quando o homem a soltou e caiu sobre o volante.

            Ela, porém, fez a associação. Em silêncio e com total certeza, ela a fez. Não na hora, quando abriu à força a porta do jipe e saiu correndo pela estrada aos berros. Não, ela nem mesmo sabia que estava a salvo. Mais tarde, no entanto, quando estava deitada sozinha no escuro, depois que a policia rodoviária e os investigadores de homicídios haviam ido embora, ela soube com certeza.

            Quase uma década e meia depois, aconteceu com Graham. E nessa época Ellie estava com um câncer avançado demais para pensar em qualquer coisa. E sem dúvida Rowan não ia levar uma cadeira até a cama para confessar, "Mamãe, acho que o matei. Ele a estava enganando o tempo todo. Queria se divorciar. Não podia esperar os malditos dois meses que faltavam para você morrer".

            Tudo revelava um modelo, da mesma forma que uma teia de aranha é um modelo, mas um modelo não implica necessariamente um objetivo. Os modelos existem por toda parte, e o objetivo é mais seguro quando é espontâneo e breve. Você não vai agir assim. Você não vai tirar a vida. Era cometer um heresia permitir-se a recordação do tapa na menina , até mesmo a da luta com o homem no jipe. E era simplesmente horrível a lembrança da discussão com Graham.

            - O que é que você quer dizer com fazê-la assinar os papéis! Ela está morrendo! Você vai ter de agüentar ao meu lado.

            Ele a agarrou, tentando dar-lhe um beijo.

            - Rowan, adoro você, mas ela não é mais a mulher com quem eu me casei...

            - Não? Não é a mulher que você enganou durante trinta anos?

            - Ela é só uma coisa ali jogada. Quero me lembrar do jeito que ela era antes...

            - Não me venha com essa!

            Foi nesse instante que seus olhos ficaram parados e a expressão sumiu do seu rosto. As pessoas sempre morrem com um semblante tão pacífico. A um passo do estupro, o homem do jipe tinha um ar totalmente vazio. Antes da ambulância chegar, ela se ajoelhou ao lado de Graham e colou o estetoscópio à sua cabeça. Havia aquele som, tão leve que alguns médicos não o conseguem ouvir. Ela, porém, o ouviu: o som de sangue fluindo para um único ponto.

            Ninguém jamais a acusou de nada. Como poderiam? Ora, ela era médica e estava com ele quando aconteceu aquela "coisa terrível"; e Deus sabe que ela fez o que pôde.

            É claro que todo mundo sabia que Graham era um ser humano de segunda classe: seus sócios no consultório de advocacia, suas secretárias, até mesmo sua última amante, aquela idiota da Karen Garfield, que chegou a vir à procura de uma lembrancinha dele. Todos sabiam. Todos, menos a mulher de Graham. Mesmo assim, não houve a menor suspeita. Como poderia haver?

            Foi apenas uma morte natural quando ele estava a um passo de fugir com a fortuna acumulada a partir da herança da mulher, acompanhado por uma imbecil de vinte e oito anos que já havia vendido sua mobília e comprado as passagens aéreas até St. Croix. Só que não foi morte natural.

            A essa altura, Rowan conhecia e compreendia o sentido do diagnóstico. Já o praticava e o fortalecia. Quando pôs a mão no ombro de Graham, o diagnóstico disse não ter sido morte natural. Isso por si só deveria ter sido suficiente. No entanto, talvez ela estivesse errada. Talvez se tratasse do enorme padrão enganoso que chamamos de coincidência. Nada mais do que isso.

            Imaginemos, entretanto, que ela se encontrasse com Michael Curry.

            Suponhamos que ele segurasse sua mão enquanto ela pensava nessas mortes, de olhos fechados. Ele veria apenas o que ela havia visto, ou alguma verdade objetiva lhe seria revelada? Você os matou. Valia a pena tentar.

            O que ela percebia nessa noite, enquanto perambulava devagar e quase a esmo pelo hospital, enquanto mudava de direção atravessando amplas salas de espera atapetadas e seguia por longas enfermarias onde não era conhecida, e nunca o seria, era que havia sentido um desejo irresistível só de conversar com Michael Curry por muito tempo. Ela sentia ter um vínculo com ele.

            Tanto pelo acidente no mar, quanto por esses segredos psíquicos. Ela queria, talvez por motivos que ela própria não entendia perfeitamente, dizer a ele, e somente a ele, o que havia feito.

            Para ela, não era fácil encarar esse ponto fraco. A absolvição pelo assassinato só vinha quando estava operando. Ela estava no altar do Senhor quando as enfermeiras estendiam o guarda-pó esterilizado para ela, quando lhe apresentavam as luvas esterilizadas.

            E a vida inteira ela havia sido uma pessoa solitária, uma boa ouvinte, mas invariavelmente mais fria do que os que a cercavam. Aquele sentido especial, aquele que lhe era tão útil como médica, sempre a fazia perceber com demasiada intensidade o que os outros realmente sentiam.

            Ela estava com dez ou doze anos de idade quando percebeu que os outros não possuíam esse dom, às vezes nem mesmo um pequeno fragmento dele. Que sua querida Ellie, por exemplo, não fazia a menor idéia de que Graham não a amava tanto quanto precisava dela, e precisava ainda depreciá-la, mentir para ela e contar com sua presença constante e inferiorizada.

            De vez em quando, Rowan havia desejado esse tipo de ignorância: a de não saber quando os outros nos invejam ou não gostam de nós. Não saber que muitas pessoas mentem o tempo todo. Ela gostava dos tiras e dos bombeiros porque até certo ponto eles eram perfeitamente previsíveis. Ou talvez fosse apenas porque seu tipo específico de desonestidade não a incomodava tanto. Parecia até inócuo em comparação com a insegurança complexa, insidiosa e ilimitadamente perversa de homens mais instruídos.

            É claro que a utilidade para o diagnóstico havia redimido por inteiro esse sentido psíquico em especial. No entanto, o que poderia algum dia redimir a capacidade de matar à vontade?

            Tentar compensar era uma outra história. A que uso adequado uma capacidade telecinética como aquela poderia se aplicar?

            E um poder desses não estava para além da possibilidade cientifica. Essa era a parte realmente apavorante. A semelhança do poder psicossimético de Michael Curry, esses dons poderiam estar relacionados à energia mensurável, a complexos atributos físicos que poderiam um dia ser tão definitivos quanto a eletricidade, as microondas ou os sons de alta freqüência. Curry estava captando uma impressão dos objetos que tocava, era muito provável que todos os objetos existentes, todas as superfícies, todos os mínimos fragmentos de matéria, contivessem essas "impressões" armazenadas. Elas existiam num campo mensurável.

            A parapsicologia, no entanto, não atraía Rowan. Ela ficava hipnotizada pelo que podia ser visto em tubos de ensaio, em Slides e gráficos. Ela não se interessava por testar e analisar seu próprio poder assassino. Ela só queria acreditar que nunca o havia usado, que talvez houvesse uma outra explicação para o acontecido, que talvez de algum modo ela fosse inocente.

            E o trágico era que talvez ninguém pudesse jamais lhe dizer o que lhe realmente ocorrera com Graham, com o homem no Jipe e a menina no pátio. Tudo o que ela podia esperar era poder contar a alguém, poder tirar o peso das costas e exorcizar, como todo mundo fazia, através da fala. Falar, falar, falar.

            Era exatamente isso o que Rowan queria. Ela sabia. Só uma vez antes esse desejo de confiar o segredo a alguém quase a dominara alguém quase a dominara. E a ocasião havia sido totalmente estranha. Na verdade, ela quase contou a história inteira a um desconhecido; e desde então as vezes ela desejava ter feito exatamente isso. Foi no final do ano anterior, mais de seis meses depois da morte de Ellie. Totalmente estranha. Na verdade, depois da morte de Ellie. Rowan estava passando pela pior solidão que jamais conhecera. Parecia-lhe que o grande modelo chamado de "nossa família” havia sido destruída da noite para o dia. Antes da doença de Ellie, sua vida era tão boa. Nem mesmo os casos de Graham atrapalhavam, porque Ellie fingia que esses casos não existiam. E embora Graham não fosse um homem que qualquer ser humano pudesse considerar uma boa pessoa, ele possuía uma energia pessoal inesgotável e contagiante que mantinha a vida da família sempre em movimento.

            E como Rowan dependia dos dois.

            Sua dedicação à medicina a afastara quase completamente das colegas de faculdade. Nenhuma delas havia optado por alguma especialização na área das ciências. Mas a família era tudo o que aqueles três precisavam. Desde as recordações mais remotas de Rowan, eles eram um trio inabalável, quer estivessem num cruzeiro no Caribe, esquiando em Aspen, quer estivessem fazendo a ceia de Natal com o serviço de copa numa suíte no Plaza em Nova York.

            Agora a casa de sonho no litoral de Tiburon estava vazia como uma concha jogada na praia.

            E Rowan tinha a estranha sensação de que o Sweet Christine não pertencia tanto a ela e a seus vários parceiros amorosos quanto àquela família que ali havia deixado a impressão dominante ao longo de uma década feliz.

            Numa noite, depois da morte de Ellie, Rowan estava parada, só, na grande sala de estar, abaixo do teto de vigas altas, conversando consigo mesma, até rindo, pensando que não havia ninguém, ninguém que soubesse, ninguém que ouvisse. As vidraças estavam escuras e indistintas, refletindo o tapete, a mobília. Ela não via a maré que lambia incessantemente os pilares. O fogo na lareira estava se apagando. O eterno frio da noite no litoral passava lentamente pelos aposentos. Ela acreditava ter aprendido uma lição dolorosa: a de que à medida que morrem aqueles a quem amamos, perdemos nossas testemunhas, nossos observadores, aqueles que conhecem e compreendem os ínfimos modelos sem sentido, as palavras desenhadas na água com uma varinha.

            E aí não sobra nada a não ser a corrente incessante. Foi pouco depois disso que ocorreu a ocasião absurda, quando Rowan quase se apossou daquele desconhecido para derramar sua história nos seus ouvidos.

            Era um senhor de idade, de cabelos brancos, de origem obviamente britânica pelas primeiras palavras que pronunciou. E os dois se conheceram, justo aonde, no cemitério onde descansavam seus pais adotivos.

            Era um cemitério antigo e pequeno, salpicado de monumentos desgastados pelas intempéries, na periferia da pequena cidade do norte da Califórnia onde no passado vivia a família de Graham. Essas pessoas, com quem não tinha parentesco de sangue, eram-lhe completamente desconhecidas. Ela havia voltado ali algumas vezes depois do enterro de Ellie, apesar de não saber exatamente por quê. Naquele dia específico, o motivo era simples: a lápide estava afinal pronta, e ela queria ver se os nomes e datas estavam corretos.

            Ocorreu-lhe algumas vezes no trajeto para o norte que essa nova lápide seria mantida enquanto ela fosse viva e que, depois disso, ela racharia, desmoronaria e ficaria caída no meio do mato. Os parentes de Graham Franklin não haviam sido avisados do seu enterro. Os parentes ,de Ellie, distantes e vagos lá no sul, não haviam sido avisados do enterro. Mesmo em dez anos, ninguém saberia ou se importaria em saber de Graham e Ellie Mayfair Franklin. E antes do fim da vida de Rowan, todos os que os conheceram ou mesmo os que ouviram falar deles já estariam mortos.

            Teias de aranha rasgadas e desfeitas por um vento que é indiferente à sua beleza. Por que, afinal, se incomodar com isso? É que Ellie queria que ela se desse a esse trabalho. Ellie queria uma lápide, flores. Era esse o costume em Nova Orleans quando Ellie era criança. Somente no leito da morte ela finalmente mencionou a família, e para dizer coisas estranhíssimas: que o corpo de Stella ficou em exposição no salão, que as pessoas vinham ver Stella e lhe dar um beijo apesar de ter sido morta pelo próprio irmão, que o pessoal da Lonigan and Sons fechara o ferimento na cabeça de Stella.

            - E o rosto de Stella estava tão lindo no caixão. Seus cabelos negros eram lindos, todos em ondinhas, sabe, e ela estava tão bonita quanto no quadro na parede da sala de estar. Eu adorava Stella! Stella deixava que eu segurasse o colar. Eu estava sentada numa cadeira junto ao caixão. Meus pés não paravam quietos, e minha tia Carlotta mandou que eu parasse.

            Cada palavra desse estranho monólogo ficou gravada na cabeça de Rowan. Stella, o irmão, tia Carlotta. Até mesmo o sobrenome Lonigan. Porque, por alguns preciosos segundos, um lampejo de cor iluminou o vazio. Essas pessoas tinham um parentesco com Rowan. Rowan era de fato prima de Ellie em terceiro grau. E dessas pessoas Rowan não sabia nada e deveria continuar sem saber nada, se quisesse cumprir as promessas feitas a Ellie.

            Mesmo naqueles momentos dolorosos, Ellie caiu em si.

            - Rowan, nunca volte para lá. Lembre-se da sua promessa, Rowan. Queimei todas as fotografias, todas as cartas. Não vá para lá, Rowan. Seu lar é aqui.

            - Eu sei, Ellie. Vou me lembrar disso.

            E não se falou mais em Stella. No seu irmão. Na tia Carlotta. No quadro na parede da sala de estar. Só o choque do documento apresentado a Rowan após a morte de Ellie pelo seu testamenteiro, um compromisso cuidadosamente redigido, sem absolutamente nenhum valor legal, no sentido de que Rowan jamais retornasse à cidade de Nova Orleans, que jamais procurasse conhecer quem eram seus parentes.

            No entanto, naqueles dias finais, Ellie havia falado deles. De Stella na parede. E como Ellie também havia falado de lápides e flores e de ser lembrada pela filha adotiva, Rowan foi para o norte naquela tarde para cumprir o prometido. E no pequeno cemitério na colina, ela conheceu o inglês de cabelos brancos.

            Ele estava abaixado sobre um dos joelhos diante do túmulo de Ellie, como se fosse se ajoelhar, e copiava os mesmos nomes que acabavam de ser gravados na pedra. Pareceu um pouco alvoroçado quando ela o interrompeu, embora ela não tivesse dito palavra. Na realidade, por um segundo ele olhou para ela como se estivesse diante de um fantasma. A situação quase a fez dar uma risada. Afinal, era uma mulher de compleição frágil, apesar da altura, e estava usando suas roupas normais do mar: jeans e uma japona azul-marinho. E o próprio homem parecia tão anacrônico, com seu elegante terno de colete de tweed cinza.

            Aquele seu sentido especial disse-lhe, porém, que o homem só tinha boas intenções. Quando ele lhe explicou que conhecera a família de Ellie em Nova Orleans, ela acreditou. Sentiu, porém, uma grande perturbação. É que ela também queria conhecer essa gente. Afinal, não lhe restava ninguém no mundo a não ser aquela família! Que pensamento mais ingrato e desleal!

            Ela não falou nada enquanto ele tagarelava num delicioso estilo britânico sobre o calor do sol e a beleza desse pequeno cemitério. O silêncio era sua resposta inveterada a tudo, mesmo quando ele confundia os outros e os deixava pouco à vontade. E assim, por força do hábito, ela não transmitia nada de volta, independentemente do que pudesse estar pensando. Conheceu minha família? Gente do meu sangue?

            - Meu nome é Aaron Lightner - disse o homem, colocando na sua mão um pequeno cartão branco. - Se algum dia você quiser saber algo sobre a família Mayfair de Nova Orleans, não deixe de me procurar. Pode me encontrar em Londres, se quiser. Chame a cobrar. Terei o maior prazer em lhe passar o que sei sobre a família Mayfair. Uma senhora história, sabe?

            Palavras entorpecedoras, essas. Mesmo sem querer, elas a magoavam tanto na sua solidão, eram tão inesperadas nessa estranha colina deserta. Será que ela havia dado a impressão de desamparo, ali em pé, incapaz de responder, incapaz de fazer um ínfimo gesto de concordância com a cabeça?

            Ela esperava que sim. Não queria pensar que pudesse ter parecido fria ou grosseira. No entanto, estava totalmente fora de cogitação a idéia de explicar a esse homem que ela havia sido adotada, retirada de Nova Orleans no dia em que nasceu. Impossível explicar que havia feito uma promessa de jamais voltar à cidade natal, de jamais procurar obter a menor informação que fosse acerca da mulher que havia renunciado a ela. Ora, ela nem mesmo sabia o nome de batismo da própria mãe. Descobriu-se de repente pensando se ele por acaso não sabia. Talvez ele conhecesse a identidade daquela Mayfair que engravidara sem estar casada e que renunciara à filha.

            Sem dúvida, o melhor era não dizer nada, para que ele não levasse consigo algum mexerico. Afinal, sua mãe verdadeira talvez estivesse casada e com sete filhos. Qualquer conversa a essa altura só poderia prejudicá-la. Apesar dos quilômetros e dos anos que as separavam, Rowan não nutria nenhum sentimento negativo por essa criatura sem rosto, anônima, só uma saudade triste e sem esperanças. Não, ela não disse nada.

            O homem a examinou por algum tempo, com total tranqüilidade diante da expressão impassível de Rowan, do seu silêncio inevitável. Quando ela lhe devolveu o cartão, ele o aceitou com delicadeza, deixando-o estendido como se esperasse que ela o pegasse de volta.

            - Eu gostaria tanto de conversar com você - prosseguiu ele. - Gostaria de saber como vem sendo a vida para a que foi transplantada para tão longe da terra natal. - Ele hesitou um pouco e continuou. - Conheci sua mãe há anos...

            Ele parou de falar como se sentisse o efeito das suas palavras. Talvez a mera inconveniência de pronunciá-las o perturbasse. Rowan não tinha certeza. Aquele momento não poderia ter sido mais excruciante se ele a houvesse espancado. Mesmo assim, ela não se afastou. Apenas manteve-se imóvel, com as mãos enfiadas nos bolsos da japona. Conheceu minha mãe?

            Como foi horrível. E aquele homem de olhos azuis, cheios de alegria, a encará-la com tanta paciência. E o silêncio, como sempre, uma mortalha que a envolvia e a prendia. Pois a verdade era que ela não conseguia se forçar a falar.

            - Apreciaria muito que almoçasse comigo, ou que apenas me acompanhasse num drinque, se não houver tempo para uma refeição. Não sou no fundo uma pessoa inconveniente. É que a história é longa...

            E seu sentido especial lhe disse que o homem estava sendo sincero! Ela quase aceitou o convite, para tudo, para falar de si mesma e para lhe perguntar tudo sobre a família. Afinal de contas, ela não o havia procurado.

            Ele se aproximara dela com a oferta de informação. E então, naquele instante surgiu a compulsão de tudo revelar, até mesmo a história do seu estranho poder, como se ele a estivesse instando a falar em silêncio, como se ele exercesse alguma influência sobre sua mente de modo a que ela lhe abrisse suas câmaras mais recônditas. Pois ele realmente queria saber dela! E esse interesse, de um caráter pessoal tão marcante, vindo de alguém isento da mais leve suspeita de malícia, a havia aquecido como uma boa lareira no inverno.

            Modelos, testemunhas, todos os seus pensamentos delirantes sobre esses assuntos lampejaram de repente no primeiro plano. Matei três pessoas na minha vida. Posso matar com minha raiva. Sei que posso. Foi isso o que aconteceu com a transplantada, nas suas palavras. Existe lugar na história da família para uma coisa desse tipo? Ele teria recuado levemente enquanto a observava? Ou teria sido apenas a inclinação do sol sobre os seus olhos? Isso, porém, não podia acontecer. Estavam parados junto ao túmulo da mulher a quem ela havia feito a promessa.

            - Não, nunca voltarei a Nova Orleans. Nunca vou tentar descobrir nada.

            A mulher que a havia amado e que dela havia cuidado, dando-lhe talvez mais do que sua mãe verdadeira jamais poderia dar. A atmosfera do quarto da doente voltou: o som de gemidos de dor, suaves, quase não humanos.

            - Prometa -me, Rowan, mesmo que eles lhe escrevam. Nunca... nunca...

            - Ellie, você é a minha mãe, minha única mãe. O que mais eu poderia querer?

            Naquelas últimas semanas de agonia, estava exacerbado ao máximo o medo do seu próprio e terrível poder destrutivo. E se ela, em meio à dor e à revolta, voltasse o poder para o corpo enfraquecido de Ellie, terminando assim esse sofrimento estúpido e inútil de uma vez por todas? Eu poderia matá-la, Ellie. Poderia livrá-la do sofrimento. Sei que poderia. Sinto a força dentro de mim, só esperando ser posta à prova.

            O que eu sou? Uma bruxa, pelo amor de Deus! Sou quem cura, não quem destrói. Tenho chance de escolha como todos os seres humanos têm. E lá estava o inglês, a observá-la como se fascinado, como ela houvesse estado falando quando havia estado em silêncio total. Era quase como se ele lhe dissesse que compreendia. Mas é claro que isso era uma ilusão. Ele não havia dito nada.

            Atormentada, confusa, ela deu meia volta e o deixou ali. Ele devia tê-la considerado hostil ou até mesmo louca. Mas que diferença fazia? Aaron Lightner. Ela nem sequer havia lançado um olhar ao cartão antes de devolvê-lo. Não sabia por que se lembrava do nome, a não ser que fosse por se lembrar do homem e das coisas estranhas ditas por ele.

            Meses haviam se passado desde aquele dia desagradável em que voltou para casa, abriu o cofre da parede e tirou o documento que o testamenteiro de Ellie a havia feito assinar.

            - Eu, Rowan Mayfair, juro solenemente, diante de Deus e na presença da testemunha que assina este documento, que jamais voltarei à cidade de Nova Orleans, onde nasci, que jamais procurarei conhecer a identidade dos meus pais biológicos e que evitarei todo e qualquer contato com a família de sobrenome Mayfair, caso algum dos seus membros me procure por qualquer motivo ou sob qualquer pretexto...

            O documento continuava nesse estilo quase histérico, tentando cobrir qualquer contingência previsível. Tantas palavras para um significado tão pequeno. Não era de estranhar que Rowan desconfiasse das palavras. Era o desejo de Ellie que realmente tinha valor.

            Rowan, no entanto, assinou o documento. O advogado, Milton Kramer, foi a testemunha. Ficou no seu arquivo a cópia autenticada. Será que a vida de Michael Curry havia passado diante dos seus olhos desse jeito, perguntava -se às vezes Rowan, do jeito que a minha está passando diante dos meus agora? Muitas vezes ela perdia o olhar no rosto sorridente, recortado de uma revista e colado no seu espelho.

            E ela sabia que, se o visse, essa represa talvez se rompesse. Ela sonhava com isso, com essa conversa com Michael Curry, como se ela pudesse acontecer, como se ela pudesse trazê-lo para sua casa em Tiburon, como se pudessem tomar café juntos, como se ela pudesse tocar sua mão enluvada.

            Ah, que idéia mais romântica! Um valentão que adorava belas casas, que fazia lindas ilustrações. Talvez ele gostasse de Vivaldi, talvez realmente lesse Dickens. E como seria ter um homem desses na sua cama, sem roupas a não ser pelas luvas pretas de couro?

            Ah, a fantasia. Algo bem parecido com o costume de imaginar que os bombeiros que trazia para casa acabariam por se revelar poetas, que os policiais que ela havia seduzido eram de fato grandes romancistas, que o guarda-florestal que conheceu no bar em Bolinas era no fundo um pintor famoso, e que o corpulento veterano da guerra do Vietnã que a havia levado até sua cabana na floresta era um célebre diretor de cinema que se escondia, assim, de um mundo reverente e cheio de exigências.

            Ela imaginava, sim, esse tipo de coisa. E é claro que tudo era totalmente possível. No entanto, era o corpo que detinha a prioridade: o volume nos jeans tinha de ser de bom tamanho, o pescoço vigoroso, a voz grossa e o queixo mal barbeado, áspero o suficiente para arranhá-la. Mas, e se?

            E se Michael Curry tivesse ido para o sul, de onde tinha origem? Talvez fosse exatamente isso o que ocorrera. Nova Orleans, o único lugar do planeta para onde Rowan Mayfair não poderia ir. O telefone estava tocando quando ela abriu a porta do consultório.

            - Dra Mayfair?

            - Dr Morris?

            - Eu mesmo. Venho tentando encontrá-la. Trata-se de Michael Curry.

            - É. Eu sei. Ouvi seu recado. Ia ligar agora mesmo.

            - Ele quer conversar com a senhora.

            - Então ainda está em San Francisco.

            - Está escondido na própria casa em Liberty Street.

            - Vi a reportagem na televisão.

            - Mas ele quer um encontro com a senhora. Quer dizer, para falar sem rodeios, ele quer vê-la em pessoa. É que ele tem uma idéia...

            - Sim?

            - Bem, a senhora vai pensar que a loucura dele é contagiosa, mas estou apenas transmitindo um recado. Existe alguma possibilidade de esse encontro ser no seu barco? Quer dizer, era seu o barco em que estava na noite em que o salvou, não era?

            - Seria um prazer recebê-lo de novo no barco.

            - O que disse?

            - Seria um prazer vê-lo. E eu me disponho a levá-lo até o barco se é isso o que ele quer.

            - E uma atitude maravilhosa, doutora. Mas eu preciso explicar alguns pontos. Sei que pode parecer totalmente biruta, mas ele quer tirar as luvas e tocar a madeira do convés onde estava deitado quando a senhora o ressuscitou.

            - É claro que ele pode fazer isso. Não sei por que não pensei nisso antes.

            - Está falando sério? Meu Deus, não sabe o alívio que estou sentindo. Dra Mayfair, vou lhe dizer logo, esse cara é realmente uma boa pessoa.

            - Eu sei.

            - Ele está sofrendo muito. Na semana passada, ele me propôs essa idéia. Eu não ouvia notícias dele havia um mês! Estava embriagado quando me telefonou. Pensei que fosse se esquecer da idéia.

            - É uma idéia muito boa, Dr Morris. O senhor mesmo disse que o poder das suas mãos é real.

            - É verdade, disse, sim. E é real mesmo. E a senhora é uma médica bem diferente, Dra Mayfair. Mas será que faz idéia do problema em que está se metendo? Eu implorei, realmente implorei que ele voltasse ao hospital. E então ele me ligou de novo ontem à noite, exigindo que eu a localizasse imediatamente. Ele precisa pôr as mãos nas tábuas do convés ou vai enlouquecer de vez. Eu lhe disse que ficasse sóbrio, e eu faria uma tentativa. Exatamente a vinte minutos, bem antes de eu lhe telefonar, ele me liga e diz que não vai mentir, que bebeu um engradado de cerveja hoje, mas que não tocou na vodca, nem no uísque, que está o mais sóbrio que conseguiria estar.

            Ela riu baixinho.

            - Eu deveria estar chorando pelas células do seu cérebro.

            - Compreendo. Mas o que quero dizer é que o homem está desesperado. Ele não está melhorando. E eu não iria lhe pedir esse favor se ele não fosse um dos caras mais legais...

            - Vou buscá-lo. O senhor pode ligar para ele e avisar que estou a caminho?

            - Meu Deus, isso é fantástico, Dra Mayfair. Não sei como lhe agradecer.

            - Nem precisa. Sou eu que quero vê-lo.

            - Olhe, doutora, faça um pacto com ele. A senhora permite que ele brinque de maluco no seu barco se ele vier se internar para parar de beber.

            - Ligue para ele agora, Dr Morris. Em menos de uma hora, estarei à porta da sua casa.

            Ela pôs o telefone no gancho e ficou ali parada com os olhos fixos nele. Depois, removeu o crachá, despiu o guarda-pó sujo e tirou lentamente os grampos do cabelo.

 

            Quer dizer que haviam tentado internar Deirdre Mayfair mais uma vez depois de todos esses anos. Com a morte de Miss Nancy e Miss Carl ficando mais fraca a cada dia, era a melhor solução. Fosse como fosse, era essa a conversa.

            No dia 13 de agosto fizeram uma tentativa. Deirdre, no entanto, ficou furiosa, e eles a deixaram em paz. E agora ela estava piorando assustadoramente. Quando Jerry Lonigan contou à sua mulher, Rita, ela chorou.

            Já haviam se passado treze anos desde o dia em que Deirdre voltou do sanatório para casa, transformada numa idiota abobalhada que não sabia dizer nem seu próprio nome, mas isso não fazia diferença para Rita. Rita nunca se esqueceria da Deirdre verdadeira.

            Rita e Deirdre tinham dezesseis anos quando foram alunas internas do colégio de Santa Rosa de Lima. Era um prédio de tijolos, velho e feio, bem nos limites do French Quarter. E Rita foi mandada para lá porque não se comportava, havia até saído para beber com rapazes na barca fluvial The President. Seu pai dissera que o Santa Rosa iria dar um jeito nela. Todas as meninas dormiam num dormitório no sótão. Iam para a cama às nove. Rita costumava chorar até adormecer.

            Deirdre Mayfair já estava no Santa Rosa há muito tempo. Ela não se incomodava com o fato de o colégio ser velho, sombrio e rígido; mas segurava a mão de Rita quando Rita chorava. Ela ouvia quando Rita dizia que aquilo era como um presídio.

            As meninas viam "papai sabe tudo" num antigo aparelho de televisão com uma tela redonda de seis polegadas, juro por Deus! E o barulhento rádio de madeira que ficava no chão abaixo de uma janela não era nem um pouco melhor. Era impossível conseguir a vitrola. Ela estava sempre com as garotas sul-americanas, que nela tocavam aquela horrível "La Cucaracha", dançando aquelas danças espanholas.

            - Não se incomode com elas - dizia Deirdre. Ela levava Rita para o pátio lá embaixo no final da tarde. As duas brincavam nos balanços abaixo das nogueiras pecãs. Não seria de se imaginar que isso fosse muito divertido para uma menina de dezesseis anos, mas Rita adorava estar com Deirdre.

            Deirdre cantava quando as duas estavam nos balanços. Dizia que eram velhas baladas irlandesas e escocesas. Sua voz era de soprano verdadeiro, aguda e delicada, e as canções eram tão tristes. Rita ficava toda arrepiada ao ouvi-las. Deirdre gostava de ficar ao ar livre até depois do pôr-do-sol quando o céu era de um "puro violeta" e as cigarras cantavam direto nas árvores. Deirdre chamava essa hora de crepúsculo. Rita já havia visto essa palavra escrita, sim, mas nunca havia ouvido ninguém pronunciá-la. Crepúsculo.

            Deirdre pegava a mão de Rita, e as duas caminhavam ao longo do muro de tijolos, à sombra das nogueiras pecãs, de tal modo que tinham de se curvar para passar por debaixo dos galhos mais baixos. Havia alguns lugares em que se podia ficar em pé com o corpo totalmente oculto pela folhagem das árvores. Era esquisito de descrever, mas para Rita aquela havia sido uma hora estranha e deliciosa - parada ali à meia-luz com Deirdre, as árvores dançando com a brisa e as folhas minúsculas caindo como chuva sobre elas.

            Naquela época, Deirdre parecia uma verdadeira menina antiga de algum livro ilustrado, com uma fita roxa no cabelo e os cachos negros caindo em cascata pelas costas. Ela poderia ter sido muito elegante se quisesse. Tinha o corpo para isso além de roupas novas no armário que nunca se dava ao trabalho de experimentar. Só que era fácil esquecer essas coisas quando se estava com Deirdre. Seu cabelo era tão macio. Unia vez Rita o havia tocado. Elas caminhavam pelo claustro empoeirado ao lado da capela. Espiavam o jardim das freiras pelo portão de madeira. Deirdre disse que era um lugar secreto, cheio das flores mais lindas.

            - Não quero nunca mais voltar para casa - explicou Deirdre. - Aqui é tão tranqüilo. Tranqüilo! Sozinha à noite, Rita chorava sem parar. Ela ouvia a vitrola automática do bar de negros do outro lado da rua, com a música passando por cima dos muros de tijolos até chegar ao sótão no quarto andar. Às vezes quando pensava que todos estavam dormindo, ela se levantava, saía até a sacada de ferro e olhava na direção das luzes de Canal Street. Havia um fulgor vermelho acima de Canal Street. Toda Nova Orleans estava se divertindo ali, e Rita estava trancada, com uma freira atrás de uma cortina em cada ponta do dormitório. O que ela faria se não tivesse a companhia de Deirdre?

            Deirdre era diferente de qualquer pessoa que Rita conhecia. Ela possuía coisas tão lindas: longas camisolas brancas de flanela com acabamento de renda.

            Elas eram do mesmo tipo que usava agora, trinta e quatro anos depois, na varanda lateral telada, onde ficava sentada "como uma imbecil desmemoriada em estado de coma".

            E ela havia mostrado a Rita aquele colar com a esmeralda que agora usava sempre, mesmo por cima da camisola branca. O famoso colar de esmeralda da família Mayfair, embora Rita naquela época ainda não tivesse ouvido falar nele. É claro que Deirdre não o usava na escola. Era proibido usar qualquer tipo de jóia no Santa Rosa. Além do mais, ninguém teria pensado em usar um colar tão grande e antiquado, a não ser talvez para um baile de carnaval.

            Agora, ele dava uma impressão horrível em Deirdre, de camisola. Era um absurdo, uma jóia daquelas numa inválida com seu olhar parado e constante pela tela da varanda. Mas quem sabe? Talvez Deirdre de alguma forma soubesse que ele estava ali, e Deirdre sem dúvida adorava aquele colar.

            Ela deixou Rita tocar no colar quando estavam sentadas no lado da cama no Santa Rosa, sem nenhuma freira por perto para lhes dizer que não amarfanhassem a colcha.

            Rita havia virado o pingente de esmeralda nas mãos. Tão pesado o engaste de ouro. Parecia que havia algo gravado nas costas. Rita discerniu um L maiúsculo. Pareceu-lhe ser um nome.

            - Não, não leia - exclamou Deirdre. - É um segredo! - E ela pareceu assustada por um instante, com o rosto de repente vermelho e os olhos lacrimejantes. Então, ela pegou a mão de Rita e a apertou um pouco. Não era possível ficar zangada com Deirdre.

            - Ela é verdadeira? - perguntou Rita. Devia ter custado uma fortuna.

            - É, sim. Ela veio da Europa há muitos e muitos anos. Naquela época, pertencia à minha tata-tata-tata-tata-tataravó.

            As duas riram da construção da palavra, Era inocente o jeito de Deirdre falar. Ela não se vangloriava. Não era nada dessa natureza. Ela nunca procurava magoar os outros. Todos a adoravam.

            - Foi minha mãe quem a deixou para mim - explicou Deirdre. - E eu um dia vou passá-la adiante, quer dizer, se eu um dia tiver uma filha. - A perturbação no rosto. Rita abraçou Deirdre. É que as pessoas simplesmente queriam protegê-la. Deirdre fazia brotar esse sentimento em todos.

            Deirdre revelou não ter conhecido a própria mãe.

            - Ela morreu quando eu era ainda bebê. Dizem que caiu da janela do sótão. E dizem que a mãe dela também morreu ainda jovem, mas nunca se fala nela. Acho que não somos como as outras pessoas.

            Rita estava perplexa. Ninguém que conhecia dizia coisas desse tipo.

            - O que você está querendo dizer, Dee Dee?

            - Não sei bem. Nós sentimos coisas, temos pressentimentos. Sabemos quando alguém não gosta de nós e quer nos atingir.

            - Quem iria algum dia querer atingir você, Dee Dee? Você vai chegar aos cem anos e ter uns dez filhos.

            - Gosto de você, Rita Mae. Você é pura de coração. É isso o que você é.

            - Ah, Dee Dee, não. - Rita Mae abanou a cabeça. Pensou no seu namorado do Santa Cruz, no que tinham feito.

            - Não, Rita Mae, isso não tem importância - disse Deirdre, como se tivesse acabado de ler seu pensamento. - Você é boa. Você nunca tem vontade de magoar ninguém, mesmo quando está muito infeliz.

            - Eu também adoro você - disse Rita, embora não compreendesse tudo o que Deirdre estava dizendo. E nunca mais em toda a sua vida Rita disse a nenhuma outra mulher que a adorava.

            Rita quase morreu quando Deirdre foi expulsa do Santa Rosa, mesmo sabendo que isso ia acontecer. Ela própria viu um rapaz com Deirdre no jardim do convento. Havia percebido quando Deirdre saiu de mansinho depois do jantar quando ninguém estava olhando. Era a hora em que as meninas deveriam estar tomando banho, enrolando o cabelo. Esse aspecto era algo que Rita considerava estranho no Santa Rosa. Elas faziam com que as meninas enrolassem o cabelo e usassem um pouco de batom porque a irmã Daniel dizia que isso era "etiqueta".

            E Deirdre não precisava enrolar o cabelo. Ele caía em cachos perfeitos. Tudo o que precisava era de uma fita.

            A essa hora, Deirdre sempre desaparecia. Ela tomava banho antes das outras, descia sorrateira e só voltava quase na hora em que as luzes eram apagadas. Sempre atrasada, sempre correndo para as preces noturnas, com o rosto esfogueado. Dava, então, aquele belo sorriso inocente para a irmã Daniel. Além disso, quando fazia suas orações, parecia sincera.

            Rita achava que ela era a única a perceber as escapadas de Deirdre. Ela odiava o colégio quando Deirdre não estava por perto. Deirdre era a única que fazia com que ela se sentisse bem por ali. E uma noite ela desceu à procura de Deirdre. Talvez estivesse nos "balanços”. O inverno havia terminado, e o crepúsculo vinha agora depois do jantar.          Rita sabia como Deirdre gostava do crepúsculo.

            No entanto, Rita não encontrou Deirdre no pátio. Ela foi até o portão aberto do jardim das freiras. Estava muito escuro ali dentro. Viam-se os lírios da Páscoa, refulgindo brancos na escuridão. As freiras iam cortá-los no domingo de Páscoa. Deirdre, porém, nunca iria desrespeitar as normas e entrar ali. Mesmo assim, Rita ouviu a voz de Deirdre. E aos poucos ela conseguiu discernir a silhueta de Deirdre no banco de pedra nas sombras. As nogueiras pecãs eram tão grandes e baixas ali quanto no pátio. Tudo o que Rita pôde ver foi a blusa branca primeiro, depois o rosto de Deirdre com a fita roxa no cabelo, e então ela viu o homem alto sentado ao seu lado. Tudo estava tão quieto. A vitrola automática no bar dos negros ainda não estava tocando. Do convento não vinha nenhum ruído. E até mesmo as luzes no refeitório das freiras pareciam distantes com todas aquelas árvores plantadas ao longo do claustro.

            - Minha amada - disse o homem a Deirdre. Foi apenas um sussurro, mas Rita o ouviu.

            - É, você está falando. Estou ouvindo.

            - Minha amada! - Repetiu-se o sussurro.

            E Deirdre começou a chorar. Ela disse mais alguma coisa, talvez um nome. Rita nunca saberia ao certo. Parecia que ela havia dito, "Meu Lasher". Os dois se, beijaram. A cabeça de Deirdre, inclinada para trás, a brancura dos dedos do homem muito nítida em contraste com a cabeleira escura.

            - Só quero fazê-la feliz, minha amada.

            - Deus meu - disse Deirdre, baixinho. Ela de repente se levantou do banco, e Rita a viu sair correndo pelo caminho entre os canteiros de lírios.

            Não se via o homem em parte alguma. E o vento havia começado a soprar, passando pelas nogueiras pecãs de tal modo que seus galhos mais altos batiam ruidosos nas varandas do convento. Todo o jardim estava de súbito em movimento. E Rita ficou sozinha ali.

            Envergonhada, Rita deu meia volta. Ela não devia ter ficado ouvindo. Em seguida, ela também saiu correndo, subindo de uma vez os quatro lances das escadas de madeira do porão até o sótão.

            Demorou uma hora para Deirdre aparecer. Rita estava desconsolada por ter espionado a amiga daquele jeito. Mais tarde naquela noite, porém, deitada na cama, Rita repetia aquelas palavras: Minha amada. Só quero fazê-la feliz, minha amada. Ah, e pensar que um homem fosse dizer essas coisas a Deirdre!

            Tudo o que Rita conhecia era os meninos que queriam "apalpá-la", se lhes fosse dada a oportunidade. Caras desajeitados e idiotas como seu namorado Terry, do Santa Cruz, que dizia, "Você sabe, acho que gosto muito de você, Rita". Claro, claro. Porque eu deixo você me "apalpar", seu grosso.

            - Sua vagabunda! - Dizia o pai de Rita. - O colégio interno é para onde você vai. Não me importa o quanto custe. Minha amada. Palavras que a faziam pensar em músicas lindas, em senhores elegantes em filmes antigos que via tarde da noite na televisão.

            De vozes de outros tempos, suaves e distintas. As próprias palavras como se fossem beijos. E além do mais ele era bonito. Ela não havia visto direito seu rosto, mas notou que o cabelo era escuro e os olhos, grandes. Ele usava roupas finas, lindas. Ela viu os punhos brancos da camisa e o colarinho.

            Rita também teria ido se encontrar no jardim com um homem daqueles. Ela teria feito qualquer coisa com ele.

            Ah, Rita não conseguia realmente compreender os sentimentos que tudo isso fazia brotar nela. Ela chorou, mas um choro doce, em silêncio. Ela sabia que se lembraria daquele momento pela vida afora: o jardim sob o céu roxo escuro do crepúsculo com as estrelas da tarde já luzindo e a voz do homem pronunciando aquelas palavras.

            Quando acusaram Deirdre, foi um pesadelo. Estavam na sala de recreação, e as outras meninas foram forçadas a ficar no dormitório, mas todas ouviram o que se passava. Deirdre explodiu em lágrimas, mas não quis confessar nada.

            - Eu mesma vi o homem! - disse a irmã Daniel. - Está me chamando de mentirosa!      Levaram-na depois para o convento para conversar com a velha madre Bernard, mas nem ela própria conseguiu nada com Deirdre.

            Rita ficou desconsolada quando as freiras vieram arrumar as malas de Deirdre. Ela viu a irmã Daniel tirar o colar com a esmeralda da sua caixa e olhar fixamente para ele. A irmã Daniel achava que a pedra era de vidro. Dava para se ver pelo seu jeito de segurá-lo. Rita sentiu muito ao vê-la tocar na jóia, ao vê-la segurar com violência as camisolas e tudo o mais para enfiá-las de qualquer jeito na mala.

            Mais tarde naquela mesma semana, quando aconteceu um terrível acidente com a irmã Daniel, Rita não sentiu pena. Ela nunca desejou que a freira velha e perversa morresse daquele jeito, sufocada num quarto trancado com o aquecedor a gás ligado, mas se era para ser assim, que assim fosse.

            Rita tinha mais coisas em que pensar do que ficar se lamentando por alguém que havia sido cruel com Deirdre.

            Naquele sábado, ela reuniu todas as moedinhas que pôde e ligou insistentemente do telefone público do porão. Alguém devia saber o número do telefone da família Mayfair. Eles residiam em First Street a apenas cinco quarteirões da casa de Rita, mas poderia ter sido do outro lado do planeta.

            Lá não era o Irish Channel. Era o Garden District. E a casa da família Mayfair era uma mansão. Mais tarde, Rita teve uma briga horrível com Sandy. Sandy disse que Deirdre era louca.

            - Você sabe o que ela fazia à noite? Vou lhe dizer o que ela fazia. Quando todo mundo estava dormindo, ela afastava as cobertas e mexia com o corpo como se alguém a estivesse beijando! Eu vi. Ela abria a boca e se mexia na cama, você sabe, se mexia, igualzinho, você sabe, como se ela realmente estivesse sentindo alguma coisa!

            - Cale essa boca imunda! - berrou Rita, tentando dar um tapa em Sandy. Todo mundo se irritou com Rita, mas Liz Conklin a puxou para um lado, dizendo-lhe que se acalmasse. Ela disse que Deirdre havia feito algo pior do que se encontrar com o homem no jardim.

            - Rita Mae, ela deixou que ele entrasse no prédio. Ela o trouxe direto ao nosso andar. Eu mesma vi. - Liz cochichava, olhando para trás por cima do ombro, como se alguém pudesse ouvir o que dizia.

            - Não acredito em você - disse Rita.

            - Eu não a estava seguindo. Não queria criar problemas para ela. Eu só me havia levantado para ir ao banheiro, e os vi junto à janela da sala de recreação, ele e ela juntos, Rita Mae, a menos de três metros de onde nós todas dormíamos.

            - E como é que ele era? - perguntou Rita, certa de que aquilo era uma mentira. Rita saberia porque ela mesma o havia visto.

            Só que Liz o descreveu direitinho. Alto, cabelo castanho, muito "distinto", disse Liz,

e ele estava beijando Deirdre e sussurrando algo para ela.

            - Rita Mae, imagine que ela abriu todas essas fechaduras e o trouxe até aqui em cima. Ela era louca mesmo.

            - Tudo o que sei - disse Rita mais tarde a Jerry Lonigan quando os dois estavam namorando - é que ela era a menina mais meiga que conheci em toda minha vida. Era uma santa em comparação com aquelas freiras, isso posso lhe dizer. E quando eu pensava que ia enlouquecer naquele colégio, ela segurava minha mão e me dizia que sabia como eu estava me sentindo. Eu teria feito qualquer coisa por ela.

            No entanto, quando chegou a ocasião para fazer algo por Deirdre Mayfair, Rita não conseguiu fazer nada. Mais de um ano se passou. A vida de adolescente de Rita estava terminada, e nem por um segundo ela sentia sua falta. Estava casada com Jerry Lonigan, que era doze anos mais velho do que ela e muito melhor do que qualquer rapaz que ela conhecesse: um homem gentil e razoável que tirava um bom rendimento da casa funerária Lonigan and Sons, uma das mais antigas da paróquia, administrada por ele em conjunto com o pai.

            Foi Jerry quem transmitiu a Rita as notícias sobre Deirdre. Ele lhe disse que Deirdre estava grávida de um homem que já havia morrido num acidente de estrada; e que aquelas suas tias, aquelas mulheres loucas e mesquinhas da família Mayfair, iam forçá-la a renunciar ao bebê.

            Rita ia passar por aquela casa para ver Deirdre. Ela precisava fazer isso. Jerry não queria que ela fosse.

            - Que grande coisa você acha que pode fazer a respeito disso? Você não sabe que aquela tia dela, Miss Carlotta, é advogada? Ela poderia mandar internar Deirdre se ela não quisesse renunciar à criança.

            Red Lonigan, pai de Jerry, abanou a cabeça.

            - Isso já aconteceu muitas vezes, Rita - disse ele. - Deirdre assinará os documentos ou acabará no hospício. Além do mais, o padre Lafferty tem um dedo nessa história. E se há algum padre em que eu confie em Santo Afonso, é em Tim Lafferty.

            Mesmo assim, Rita foi.

            Foi a atitude mais difícil de toda sua vida, a de se aproximar daquela casa enorme e tocar a campainha, mas ela foi em frente. É claro que foi Miss Carl quem veio até a porta, aquela que dava medo em todo mundo. Jerry disse-lhe mais tarde que se tivesse sido Miss Millie ou Miss Nancy, tudo poderia ter sido diferente.

            Mesmo assim, Rita entrou direto como que passando com um empurrão por Miss Carl. Bem, ela havia aberto a porta de tela um tantinho, não havia? E Miss Carl não parecia má. Ela só parecia metódica.

            - Só queria vê-la, sabe, ela foi minha melhor amiga no Santa Rosa...

            Cada vez que Miss Carl dizia não de uma forma educada, Rita dizia sim de algum outro modo, falando de como havia sido amiga íntima sua. Foi então que ouviu a voz de Deirdre no alto da escada.

            - Rita Mae!

            O rosto de Deirdre estava molhado de lágrimas, e seu cabelo estava todo desgrenhado sobre os ombros. Ela desceu correndo descalça na direção de Rita, seguida de perto por Miss Nancy, a atarracada. Miss Carl pegou Rita pelo braço com firmeza e tentou empurrá-la para a porta de entrada.

            - Espere aí um pouco! - disse Rita.

            - Rita Mae, vão me tomar o bebê.

            Miss Nancy pegou Deirdre pela cintura e a levantou do chão no patamar.

            - Rita Mae! - berrou Deirdre. Havia alguma coisa na sua mão, parecia ser um pequeno cartão branco.

            - Rita Mae, ligue para esse homem. Diga-lhe para me ajudar.

            Miss Carl postou-se diante de Rita.

            - Vá para casa, Rita Mae Lonigan - disse ela. Mas Rita se desviou dela com agilidade. Deirdre lutava para se livrar de Miss Nancy, e Miss Nancy estava encostada no corrimão, meio sem equilíbrio. Deirdre tentou jogar o cartãozinho para Rita, mas ele simplesmente desceu planando. Miss Carl tentou apanhá-lo. E aí foi igual àquela briga pelas quinquilharias de carnaval jogadas dos carros alegóricos. Rita empurrou Miss Carl para um lado e agarrou o cartão, como quando alguém agarra um colar sem nenhum valor da calçada antes que qualquer outra pessoa o apanhe.

            - Rita Mae, ligue para essa pessoa! Diga-lhe que preciso dele.

            - Vou ligar, Dee Dee!

            Miss Nancy a estava carregando de novo escada acima. Os pés descalços de Deirdre balançavam; suas mãos estavam fincadas no braço de Miss Nancy. Era horrível, simplesmente horrível. Miss Carl, então, agarrou o pulso de Rita.

            - Dê-me isso aí, Rita Mae Lonigan - disse Miss Carl.

            Rita conseguiu se soltar e saiu correndo pela porta da frente, com o cartãozinho seguro na mão. Ela ouvia Miss Carl que vinha correndo pelo alpendre atrás dela. Seu coração batia forte enquanto ela seguia pelo caminho de entrada. Jesus, Maria e José, essa era uma casa de loucos! E Jerry ia ficar tão irritado. E o que Red ia dizer?

            De repente, Rita sentiu uma dor intensa e penetrante, quando seu cabelo foi puxado com força para trás. A mulher quase a derrubou.

            - Não faça isso comigo, sua bruxa velha! - disse Rita, com os dentes cerrados. Ela não suportava que lhe puxassem o cabelo.

            Miss Carl tentou arrancar o cartãozinho dos seus dedos. Isso era quase o pior que já havia acontecido na vida de Rita. Miss Carl torcia e rasgava o canto do cartão, que Rita não soltava, enquanto com a outra mão ainda puxava o cabelo de Rita com a maior força possível. Ela ia lhe arrancar o cabelo pelas raízes.

            - Pare com isso! - berrou Rita. - Estou lhe avisando. Estou lhe avisando! - Ela conseguiu salvar o cartão de Miss Carl e o amassou dentro da mão fechada. Simplesmente não podia bater numa senhora desse jeito.

            No entanto, quando Miss Carl lhe deu mais um puxão no cabelo, Rita bateu mesmo nela. Atingiu Miss Carl no peito com o braço direito fazendo com que ela caísse nos cinamomos. Se não houvesse tantos cinamomos, ela teria caído no chão.

            Rita saiu correndo pelo portão.

            Uma tempestade estava se formando. Todas as árvores se mexiam. Ela via os grandes galhos negros dos carvalhos oscilando ao vento; e ouvia aquele ronco forte que as grandes árvores sempre emitem. Os ramos açoitavam a casa, arranhando o teto da varanda do andar de cima. De repente, ela ouviu o ruído de vidro quebrando.

            Parou, olhou para trás e viu uma chuva de folhinhas verdes caindo sobre a propriedade inteira. Caíam também pequenos ramos e gravetos. Era como um furacão. Miss Carl estava parada no caminho olhando para as árvores lá em cima. Pelo menos não havia quebrado uma perna nem um braço. Deus do céu, ia começar a chover a qualquer instante. Rita estaria com as roupas encharcadas antes de chegar a Magazine Street, isso além de tudo o mais, de estar com o cabelo todo arrancado e com lágrimas escorrendo pelo rosto. Sem dúvida, ela estava digna de se ver.

            No entanto, a chuva não caiu. Ela conseguiu chegar de volta à Lonigan and Sons sem se molhar. E, quando se sentou no escritório de Jerry, perdeu totalmente o controle.

            - Você não devia ter ido lá. Você nunca devia ter ido! - disse ele. Havia um funeral no salão da frente. Ele devia estar lá ajudando Red. - Meu amor, uma família daquelas poderia voltar todo mundo contra nós!

            Rita não conseguia fazer nada a não ser chorar. E então ela olhou para o cartãozinho branco.

            - Mas, Jerry, dê só uma olhada nisso aqui! Veja só!

            Ele estava todo esmagado e úmido com o suor da palma da mão. Ela mais uma vez caiu a chorar.

            - Não consigo ler os números!

            - Ora, Rita, espere um pouquinho - disse Jerry, com a mesma paciência de sempre, o mesmo homem de bom coração que ele sempre foi. Debruçou-se sobre ela, desdobrando o cartãozinho no descanso da escrivaninha. Ele apanhou sua lente de aumento.

            A parte central estava bem nítida:

            O TALAMASCA

            Além disso, não se lia mais nada. As palavras abaixo não passavam de pontinhos minúsculos de tinta preta no papel inchado. E o que estivesse escrito ao longo da margem inferior estava completamente destruído. Dali nada havia sobrado.

            - Ah, Dee Dee! - lamentou-se Rita.

            Jerry prendeu o cartão entre dois livros pesados, mas isso de nada adiantou. Seu pai veio dar uma olhada, mas não conseguiu distinguir nada. O nome Talamasca não significava nada para Red. E Red conhecia praticamente tudo e todo mundo. Por exemplo, se tratasse de alguma antiga sociedade carnavalesca, ele saberia.

            - Agora, veja bem, tem alguma coisa escrita a tinta aqui no verso - disse Red. - Olhem com atenção. Aaron Lightner. Mas nenhum número de telefone. Os telefones deviam estar impressos na frente. Nem mesmo passar o cartão a ferro adiantou alguma coisa.

            Rita fez o que pôde.

            Procurou no catálogo telefônico os nomes de Aaron Lightner e do Talamasca, sabe-se lá o que era aquilo. Ligou para informações. Implorou à telefonista que lhe dissesse se não era um telefone fora do catálogo. Chegou mesmo a publicar anúncios pessoais no Times Picayune e no States Item.

            - O cartão já era velho e estava sujo quando você o recebeu - lembrou-lhe Jerry. Cinqüenta dólares em anúncios pessoais já bastavam. O pai de Jerry disse que na opinião dele era melhor ela desistir. Uma coisa, porém, ela admitia: ele não a criticou pelos seus esforços.

            - Querida, não volte mais àquela casa - disse Red. - Não tenho medo de Miss Carlotta ou de nada disso. Só não quero ver você perto daquela gente.

            Rita percebeu que Jerry trocou um olhar com o pai. Os dois sabiam de alguma coisa que não queriam contar. Rita havia ouvido que a firma Lonigan and Sons havia enterrado a mãe de Deirdre quando ela caiu daquela janela anos atrás. Até aí ela sabia. Sabia, também, que Red se lembrava da avó que "morreu jovem" também, do jeito que Deirdre lhe contou.

            Aqueles dois sabiam, porém, guardar segredos, como é costume entre os agentes funerários. Além do mais, Rita estava aflita demais para prestar atenção à história daquela casa velha e apavorante e daquelas mulheres. Ela chorou até adormecer, como acontecia no colégio interno. Talvez Deirdre tivesse visto os anúncios nos jornais, sabendo, assim, que Rita havia tentado fazer o que ela queria.

            Mais um ano se passou até Rita ver Deirdre outra vez. O bebê já não estava mais lá há algum tempo. Uns primos da Califórnia o levaram. Todo mundo dizia que era gente boa, gente rica. O homem era advogado, corno Miss Carl. A criança seria bem cuidada. A irmã Bridget Marie do Santo Afonso contou a Jerry que as freiras do Mercy Hospital diziam que o bebê era uma linda menina loura. Não tinha nada de parecido com os cachos negros de Deirdre. O padre Lafferty havia posto a menina nos braços de Deirdre e dito para ela beijar a filha, levando, depois, a criança embora.

            Isso dava calafrios em Rita. Como as pessoas que beijam o defunto um instante antes de fecharem o caixão. "Beije sua filha" para depois a levarem daquele jeito!

            Não era de estranhar que Deirdre houvesse tido um colapso nervoso. Ela foi levada direto do Mercy para o sanatório.

            - Não foi a primeira vez na família - disse Red Lonigan, abanando a cabeça. - Foi assim que Lionel Mayfair morreu, numa camisa-de-força.

            Rita perguntou o que ele estava querendo dizer, mas ele não respondeu.

            - Mas eles não precisavam agir assim - disse Rita. - Deirdre é tão meiga. Ela não saberia fazer mal a ninguém.

            Afinal, Rita soube que Deirdre estava novamente em casa. E naquele domingo Rita resolveu ir à missa na capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no Garden District. Era ali que os ricos iam, em sua maioria. Eles não costumavam freqüentar as grandes igrejas da paróquia, a de Santa Maria e a de Santo Afonso, do outro lado de Magazine Street.

            Rita foi até lá para a missa das dez, pensando, bem, vou só passar pela casa dos Mayfair no caminho de volta. Mas não precisou porque Deirdre estava lá na missa, sentada entre suas tias-avós Miss Belle e Miss Millie.

            Graças a Deus, nada de Miss Carlotta.

            Rita teve uma péssima impressão de Deirdre. Pareceu-lhe o fantasma de Banquo, como teria dito a mãe de Rita. Ela estava com olheiras escuras, e o vestido era um troço velho e lustroso de gabardine que não servia para ela. Com almofadas nos ombros. Alguma das velhas da casa é que lhe devia ter dado aquilo.

            Depois da missa, quando estavam descendo a escadaria de mármore, Rita engoliu em seco, respirou fundo e correu atrás de Deirdre. Deirdre deu aquele seu lindo sorriso, imediatamente, mas quando tentou falar quase nada saiu.

            - Rita Mae! - Conseguiu ela sussurrar. Rita inclinou-se para lhe dar um beijo.

            - Dee Dee - cochichou - tentei fazer o que você me pediu. Não consegui encontrar aquele homem. O cartão estava estragado demais.

            Os olhos de Deirdre estavam muito abertos, vazios. Ela nem mesmo se lembrava, não é? Pelo menos, Miss Millie e Miss Belle não perceberam. Elas estavam cumprimentando todo mundo que passava. E a coitada da Miss Belle nunca percebia nada mesmo. Foi então que Deirdre pareceu se lembrar de alguma coisa.

            - Tudo bem, Rita Mae - disse ela, com aquele sorriso maravilhoso. Ela apertou a mão de Rita, inclinou-se para a frente e lhe deu um beijo no rosto.

            - Agora precisamos ir, querida - disse, então, tia Millie. Ora, essa sim era Deirdre Mayfair para Rita. Tudo bem, Rita Mae.

            A garota mais meiga que ela conhecia.

            Em pouco tempo, Deirdre estava de volta ao sanatório. Ela estivera andando descalça por Jackson Avenue, falando sozinha em voz alta . Em seguida, disseram que estava num hospital psiquiátrico no Texas e depois disso Rita só soube que Deirdre era "incurável" e que nunca mais voltaria para casa.

            Quando faleceu a velha Miss Belle, a família Mayfair contratou os serviços do pai de Jerry, como sempre. Talvez Miss Carl nem mesmo se lembrasse da briga com Rita Mae. Vieram parentes de toda parte para esse enterro, mas nada de Deirdre.

            O Sr Lonigan detestava abrir o jazigo no Lafayette n° 1. Aquele cemitério tinha uma quantidade enorme de túmulos destruídos com caixões apodrecidos bem visíveis, até mesmo com alguns ossos aparecendo. Ele sentia repugnância de realizar um enterro ali.

            - Mas a família Mayfair enterra os seus lá desde 1861 - disse ele. - E eles pelo menos cuidam do jazigo, isso eu tenho de admitir. Mandam pintar a cerca de ferro batido todos os anos. E quando os turistas passam por lá? Bem, esse é um dos jazigos que eles sempre admiram, com todos aqueles Mayfair ali dentro, e todos aqueles nomes de bebês, desde a guerra de secessão. É que o resto é tão abandonado. Sabe, um dia desses vão acabar com aquele cemitério.

            Na verdade, nunca acabaram com Lafayette n° 1. Os turistas gostavam demais dali. Da mesma forma que as famílias do Garden District. Em vez disso, ele foi limpo; os muros caiados foram consertados; novas magnólias foram plantadas. Mesmo assim, ainda havia uma quantidade suficiente de túmulos desmoronados para as pessoas poderem dar uma espiada nos ossos.

            Era um "monumento histórico".

            Uma tarde, o Sr Lonigan levou Rita para conhecê-lo. Mostrou-lhe os famosos túmulos da febre amarela, onde se podia ler uma longa lista dos que morreram com apenas dias de diferença durante a epidemia. Mostrou-lhe o jazigo da família Mayfair, uma grande construção com doze criptas do tamanho de fornos lá dentro. A pequena cerca de ferro em toda sua volta protegia uma faixa minúscula de grama. E os dois jarros de mármore presos ao degrau da frente estavam cheios de flores recém cortadas.

            - Puxa, eles cuidam bem disso aqui, não é? - disse Rita. Lindíssimos lírios, palmas-de-santa-rita e cravos-de-amor.

            O Sr Lonigan olhava fixamente para as flores. Não respondeu. Em seguida, depois de pigarrear, ele indicou os nomes das pessoas que conhecera.

            - Essa aqui, Antha Marie, morta em 1941, essa era a mãe de Deirdre.

            - A que caiu da janela - completou Rita. Mais uma vez, ele não respondeu.

            - E essa aqui, Stella Louise, morta em 1929, era a mãe de Antha. E foi esse aqui, Lionel, seu irmão, "morto em 1929", que acabou numa camisa-de-força depois de atirar em Stella e matá-la.

            - O senhor não está dizendo que ele matou sua própria irmã?

            - É isso mesmo que estou dizendo. - Ele foi indicando outros nomes mais na direção do passado. - Miss Mary Beth, essa foi a mãe de Stella e de Miss Carl. E agora, Miss Millie é na verdade filha de Rémy Mayfair. Esse era tio de Miss Carl e morreu na casa de First Street, mas isso foi antes do meu tempo. Lembro-me, no entanto, de Julien. Julien era o que se pode chamar de inesquecível. Um belo homem até o dia em que morreu. Da mesma forma que o filho, Cortland. Veja, Cortland faleceu no ano em que Deirdre teve aquela criança. Mas não fui eu quem enterrou Cortland. A família vivia em Metairie. Dizem que foi toda aquela confusão com o bebê que matou Cortland. Mas isso não importa. Dá para se ver que Cortland estava com oitenta anos de idade. A velha Miss Belle era a irmã mais velha de Miss Carl. Já Miss Nancy, bem, ela é irmã de Antha. A próxima será Miss Millie, ouça o que lhe digo.

            Rita não se importava com elas. Estava se lembrando de Deirdre naquele dia remoto no Santa Rosa, quando as duas estavam sentadas na beira da cama juntas. O colar com a esmeralda chegara a ela através de Stella e de Antha.

            Ela contou isso a Red, e ele não ficou nem um pouco surpreso. Simplesmente concordou com um gesto de cabeça e disse que sim, que aquele colar havia pertencido a Miss Mary Beth e antes dela a Miss Katherine, que havia construído a casa em First Street, mas Miss Katherine na verdade já não era do seu tempo. Sua recordação mais antiga era de Monsieur Julien...

            - Mas o senhor não acha muito estranho que todas elas usem o sobrenome Mayfair. Por que não assumem o nome do marido?

            - Elas não podem - respondeu Lonigan. - Se adotarem o sobrenome do marido, não farão jus ao dinheiro da família Mayfair. Foi assim que ficou estabelecido há muito tempo. É preciso ser uma Mayfair para receber a herança dos Mayfair. Cortland Mayfair sabia disso. Ele conhecia tudo a respeito da questão. Era um excelente advogado. Nunca trabalhou para ninguém a não ser para a família Mayfair. Lembro-me de que ele uma vez me falou sobre isso. Disse que fazia parte do legado.

            Red estava novamente com o olhar fixo nas flores.

            - O que houve, Red?

            - Ah, só uma velha história que contam por aí. De que esses vasos nunca ficam vazios.

            - Bem, é Miss Carl quem manda colocar as flores, não é?

            - Não que eu saiba - disse o Sr Lonigan. - Mas alguém sempre as coloca ali. - Em seguida, ele se calou como sempre. Ele jamais chegaria a contar o que sabia. Quando ele morreu um ano depois, Rita sentiu tanto quanto se tivesse perdido o próprio pai. Ela não parava, no entanto, de se perguntar os segredos que ele havia levado consigo. Ele sempre havia sido muito bom para Rita.

            Jerry nunca foi igual. Depois, ele sempre ficava nervoso quando trabalhava para as antigas famílias.

            Deirdre voltou para a casa de First Street em 1976. Diziam que idiota e apalermada em conseqüência dos tratamentos com choques.

            O padre Mattingly, da paróquia, passou para vê-la. Não lhe restava nada do cérebro. Ele contou a Jerry que ela era igual a um bebê ou a uma velha senil.

            Rita foi fazer uma visita. Anos haviam se passado desde aquela briga horrível com Miss Carlotta. Rita agora tinha três filhos. Não tinha medo da velha.

            Comprou um bonito négligé de seda branca para Deirdre na D. H. Holmes. Miss Nancy levou-a até a varanda.

            - Olhe o que Rita Mae Lonigan trouxe, Deirdre.

            Uma idiota aparvalhada. E que esquisito ver aquela belíssima esmeralda no colar no seu colo. Era como se estivessem debochando dela quando a faziam usar o colar por cima da camisola de flanela.

            Seus pés pareciam inchados e delicados sobre as tábuas nuas do piso da varanda. Sua cabeça caía para um lado enquanto ela olhava pelas telas. Afora isso, porem, ela ainda era Deirdre, ainda bonita, ainda meiga. Rita teve de sair dali.

            Nunca fez nenhuma visita. Não transcorria, entretanto, uma semana que fosse sem que ela passasse por First Street só para parar na cerca e acenar para Deirdre, que nem percebia sua presença.

            Mesmo assim, Rita insistia. Pareceu-lhe que Deirdre ia ficando mais corcunda e mais magra, que seus braços já não descansavam no colo, mas que ficavam encolhidos, próximos do peito. Rita nunca chegava perto o suficiente para ter certeza. Era essa a vantagem de ficar parada na cerca a acenar.

            Quando Miss Nancy faleceu no ano passado, Rita disse que ia comparecer ao enterro.

            - Vou por Deirdre - disse ela.

            - Mas, queria, Deirdre não vai saber que você está fazendo isso. - Em todos esses anos Deirdre não havia pronunciado uma sílaba sequer.

            Rita não se importou. Iria assim mesmo.

            Quanto a Jerry, ele não queria ter nada a ver com a família Mayfair. Sentiu falta do seu pai mais do que em qualquer outra ocasião.

            - Por que cargas d'água eles não Podem procurar uma outra funerária? - disse ele, entre dentes. Outras pessoas agiam assim, agora que seu pai não estava mais lá. Por que a família Mayfair não lhes seguia o exemplo? Ele detestava as famílias antigas.

            - Pelo menos, essa é uma morte natural, ou foi o que me disseram.

            - Isso realmente deixou Rita espantada.

            - Ora, as mortes de Miss Belle e de Miss Millie não foram "naturais"?

            Depois que ele terminou seu trabalho com Miss Nancy naquela tarde, ele disse a Rita como havia sido terrível entrar naquela casa para apanhá-la. Como se tivesse saído direto dos tempos de outrora, era o quarto do andar de cima, com as cortinas fechadas e duas velas acesas diante de um quadro de Nossa Senhora das Dores. O quarto fedia a mijo. E Miss Nancy estava ali morta há horas naquele calor antes de ele chegar.

            A pobre Deirdre na varanda telada como um farrapo humano, e a enfermeira negra, segurando a mão de Deirdre e rezando o rosário em voz alta, como se Deirdre ouvisse as ave-marias ou sequer chegasse a perceber sua presença. Miss Carlotta não quis entrar no quarto de Miss Nancy. Ficou parada corredor de braços cruzados.

            - Hematomas, Miss Carl. Nas pernas e nos braços. Ela sofreu alguma queda grave?

            - Ela teve o primeiro ataque na escada, Sr Lonigan.

            Puxa, como Jerry preferia que seu pai ainda estivesse vivo. Seu Pai sabia como lidar com as famílias antigas.

            - Agora, você me (diga, Rita Mae. Por que ela não foi levada para o hospital? Não estamos em 1842! Estamos no mundo atual. E o que eu lhe pergunto.

            - Tem gente que quer morrer em casa, Jerry - disse Rita. Eles não lhe haviam dado uma certidão de óbito assinada? Haviam. Claro que sim. Mas ele detestava essas famílias antigas.

            - Nunca se sabe o que as pessoas vão fazer - afirmou. - E não é só a família Mayfair. Estou falando de todas as famílias mais antigas. Às vezes os parentes invadiam a sala do velório e começavam a trabalhar no defunto com seu próprio pó-de-arroz e batom. Ora, hoje em dia ninguém com algum juízo faria esse tipo de coisa. E o que dizer daqueles irlandeses que riam e faziam piadas enquanto carregavam o caixão? Um deles largava a alça do seu lado só para que o irmão tivesse de agüentar o peso todo, brincando no caminho do cemitério como se estivessem num desfile de carnaval.

            E as histórias que os mais velhos contavam no velório eram de dar náuseas. A velha irmã Bridget Marie, numa noite dessas ali embaixo, contou sobre a viagem de navio desde a Irlanda. A mamãe diz ao bebê no cesto de vime, "Se não parar de chorar, vou jogar você no mar". Em seguida, ela manda um filho pequeno tomar conta do bebê. Daqui a pouquinho ela volta.

            O bebê sumiu do cesto. O outro filho diz, "Ele começou a chorar, e eu o joguei no mar". Agora, que tipo de história é essa para se contar quando se está sentado ao lado de um caixão?

            Rita sorriu involuntariamente. Ela sempre havia gostado da irmã Bridget Marie.

            - Os Mayfair não são irlandeses - disse ela. - São ricos, e os ricos não se comportam desse jeito.

            - Ah, Rita Mae, eles são irlandeses, sim. Ou pelo menos são irlandeses o bastante para serem malucos. Foi o famoso arquiteto irlandês Darcy Monahan quem construiu aquela casa, e ele era o pai de Miss Mary Beth. E Miss Carl é filha do juiz McIntyre, e esse era irlandês como ele só. Um verdadeiro exemplo da velha guarda. Sem dúvida, eles são irlandeses. Tão irlandeses quanto qualquer outra pessoa por aqui no momento atual.        Ela estava pasma de ouvir o marido falar tanto. A família Mayfair o incomodava, isso estava bem claro, da mesma forma que havia incomodado seu pai, e ninguém nunca havia contado a Rita a história inteira. Rita foi à missa fúnebre pela alma de Miss Nancy, na capela. Ela seguiu o cortejo no seu próprio carro. Ele passou por First Street, pela velha casa, em respeito a Deirdre. Não houve, porém, nenhum sinal de que Deirdre houvesse visto todas aquelas limusines negras deslizando por ali. A família Mayfair era tão numerosa. Ora, de onde é que vinha tanta gente? Rita reconheceu vozes de Nova York, vozes da Califórnia e até mesmo vozes sulinas de Atlanta e do Alabama. E ainda todas aquelas vozes de Nova Orleans! Ela não pôde acreditar ao examinar o livro de presença. Pois não havia Mayfairs da cidade alta, do centro, de Metairie e do outro lado do rio!

            Havia até mesmo um inglês ali, um senhor de cabelos brancos trajando terno de linho que até usava uma bengala. Ele ficou para trás ao lado de Rita.

            - Puxa, que calor pavoroso está fazendo hoje - disse ele, com sua elegante voz inglesa. Quando Rita tropeçou, ele a firmou pelo braço. Muito gentil.

            Ela se perguntava o que toda essa gente pensava daquela casa medonha e do cemitério de Lafayette, com todas aquelas criptas se desintegrando. Todos se acotovelavam pelos corredores estreitos; ficavam nas pontas dos pés para tentar ver alguma coisa por cima dos túmulos maiores. Mosquitos no capim alto. E havia um daqueles ônibus de excursão estacionado junto ao portão bem naquela hora. Os turistas iriam adorar, sem dúvida. Ora, iam ver um belo espetáculo.

            O grande choque foi, no entanto, a prima que havia levado o bebê de Deirdre. Pois lá estava ela, Ellie Mayfair, da Califórnia. Jerry mostrou-lhe quem era enquanto o padre dizia as últimas palavras. Ela assinava o livro de presença em todos os enterros nos últimos trinta anos. Alta, de cabelos escuros, usando um vestido de linho azul sem mangas, com um belo bronzeado. Usava, também, um grande chapéu branco, como uma touca com aba, e óculos escuros. Parecia uma artista de cinema. Como todos se reuniam à sua volta. As pessoas apertavam sua mão. Beijavam-lhe o rosto empoado. Quando se aproximavam muito, estariam fazendo perguntas sobre a filha de Deirdre?

            Rita enxugou as lágrimas. Rita Mae, vão me tomar o bebê. O que ela havia feito com aquele pequeno fragmento de cartão branco com a palavra Talamasca? Era provável que estivesse bem aqui no seu livro de orações. Ela nunca jogava nada fora. Talvez devesse conversar com aquela mulher, só para lhe perguntar como poderia entrar em contato com a filha de Deirdre.

            Talvez algum dia aquela menina devesse ouvir o que Rita tinha a contar. Mas também, que direito tinha Rita de se intrometer a esse ponto? No entanto, se Deirdre morresse antes de Rita, e Rita visse aquela mulher mais uma vez, bem, nesse caso ela iria fazer a pergunta. Nada a impediria. Ela quase começou a chorar ali mesmo. E, imagine só, as pessoas teriam pensado que estava chorando pela velha Miss Nancy. Era de rir. Ela se virou, tentando esconder o rosto e viu, então, o inglês, aquele senhor, com os olhos fixos nela. Seu rosto tinha uma expressão bem estranha, como se ele estivesse preocupado com o fato de ela chorar. Ela chorou mesmo e fez um pequeno gesto para ele como se dissesse, está tudo bem. No entanto, ele se aproximou mesmo assim.

            Deu-lhe o braço, como havia dado antes, e a ajudou a caminhar um pouco para fora do grupo, onde havia um banco no qual ela se sentou. Quando ergueu os olhos, ela podia jurar que Miss Carl tinha os olhos fixos nela e no inglês, mas Miss Carl estava realmente muito longe, e o sol batia em cheio nos seus óculos. Era provável que nem os estivesse vendo.

            Foi então que o inglês lhe deu um cartãozinho branco e disse que gostaria de poder conversar com ela. Sobre que assunto, pensou ela, mas aceitou o cartão e o guardou no bolso.

            Mais tarde naquela noite, ela o encontrou. Estava procurando o santinho distribuído no enterro, e lá estava o cartãozinho do homem, com aqueles mesmos nomes depois de todos esses anos: Talamasca e Aaron Lightner. Por um instante, Rita achou que fosse desmaiar direto. Talvez ela tivesse cometido um grande erro. Procurou aflita  pelo velho cartão no livro de orações, ou pelo que sobrava dele. E de fato os dois eram iguais. No cartão novo, o inglês havia escrito a tinta o nome do Monteleone hotel no centro da cidade e o número do seu apartamento.

            Rita encontrou Jerry acordado, sentado à mesa da cozinha, bebendo.

            - Rita Mae, você não pode ir conversar com esse homem. Não pode lhe contar nada a respeito daquela família.

            - Mas, Jerry, tenho de contar o que aconteceu antes. Tenho de lhe dizer que Deirdre tentou entrar em contato com ele.

            - Isso foi há muitos e muitos anos, Rita Mae. A criança agora já é adulta. Ela é médica, você sabia? Vai ser cirurgia, ao que eu soube.

            - Não me importa, Jerry. - Rita perdeu o controle, mas mesmo através das lágrimas ela fez algo de estranho. Estava com os olhos fixos no cartão, gravando na memória tudo o que estava nele. Ela decorou o número do apartamento do hotel. Decorou o número do telefone de Londres. E exatamente como havia imaginado, Jerry de repente apanhou o cartão e o enfiou no bolso da camisa. Ela não disse nada. Só continuou a chorar.

            Jerry era o homem mais generoso do mundo, mas ele nunca iria compreender.

            - Foi bonito, você ter ido ao enterro, querida.

            Rita não tocou mais no assunto do inglês. Não ia se indispor com Jerry. Bem, pelo menos até aquele instante ela ainda não havia se decidido.

            - Mas o que aquela garota lá na Califórnia sabe sobre a própria mãe? - perguntou Rita. - Quer dizer, será que ela sabe que Deirdre não quis nunca renunciar a ela?

            - Querida, você tem de deixar isso para lá.

            Na vida de Rita, nunca houve um momento que se assemelhasse àquele anos atrás no jardim das freiras, em que ouviu Deirdre com aquele homem, em que ouviu duas pessoas falarem de amor daquele jeito. No crepúsculo. Rita havia contado a história a Jerry, mas ninguém conseguia compreender.

            Era preciso que se estivesse lá, sentindo o perfume dos lírios e vendo o céu de um azul de vitral através dos galhos das árvores. E pensar naquela menina tão longe, talvez sem nunca saber como era de fato sua mãe verdadeira...

            Jerry abanou a cabeça. Encheu o copo de Bourbon e bebeu metade dele.

            - Querida, se ao menos você soubesse o que eu sei dessa gente.

            Jerry estava mesmo bebendo demais. Rita percebeu isso. Jerry não era um fofoqueiro. Um bom agente funerário não podia ser indiscreto. Mas nesse instante ele começou a falar, e Rita deixou que falasse.

            - Querida, nunca houve nenhuma esperança para Deirdre naquela família. Seria possível dizer que ela foi amaldiçoada ao nascer. Era isso o que papai dizia.

            Jerry era apenas um aluno do primeiro grau quando a mãe de Deirdre, Antha, morreu, numa queda do telhado da varanda abaixo da janela do sótão da casa. O crânio abriu-se no chão do pátio. Deirdre era um bebê na ocasião, da mesma forma que Rita Mae, é claro. Mas Jerry já trabalhava com o pai.

            - Estou lhe dizendo que raspamos partes do seu cérebro das lajes. Foi horrível. Ela só tinha vinte anos, e era bonita! Mais bonita até do que Deirdre chegaria a ser. E você precisava ver as árvores naquele quintal, querida. Era como se estivesse acontecendo um furacão exatamente sobre a casa, do jeito que as árvores se mexiam. Mesmo aquelas magnólias sólidas estavam se curvando e se retorcendo.

            - É, eu já as vi assim - disse Rita, mas calou-se para que ele continuasse a falar.

            - O pior foi quando voltamos para cá e papai deu urna boa olhada em Antha. Ele disse de cara, "Está vendo esses arranhões em volta dos olhos? Ora, isso não aconteceu na queda. Não havia árvores abaixo daquela janela".

            E então papai descobriu que um dos olhos estava arrancado da órbita. Bem, papai sabia o que fazer nessas situações.

            - Ele foi direto telefonar para o Dr Fitzroy. Disse que achava ser necessário realizar uma autópsia. E fincou pé quando o Dr Fitzroy quis argumentar com ele. Afinal, o Dr Fitzroy confessou que Antha Mayfair havia enlouquecido e tentado arrancar os próprios olhos. Miss Carl procurou impedi-la, e foi então que Antha correu para o sótão. Ela caiu, é certo, mas estava totalmente fora de si quando isso aconteceu. Miss Carl presenciou tudo. E não havia motivo nenhum neste mundo para que as pessoas começassem a falar nisso, para que essa notícia saísse nos jornais. Será que não havia sido suficiente a dor pela qual a família havia passado com a morte de Stella? O Dr Fitzroy disse a papai que ligasse para a casa paroquial de Santo Afonso e conversasse com o pároco se ainda lhe restava alguma dúvida.

            - "Para mim esse não me parece um ferimento provocado por ela mesma", disse papai. "Mas se o senhor se dispõe a assinar o atestado de óbito num caso desses, bem, acho que fiz o que pude." E nunca houve autópsia nenhuma. Mas papai sabia do que estava falando.

            - É claro que ele me fez jurar não contar nunca a ninguém uma palavra disso. Eu era muito amigo de papai naquela época, já o ajudava muito. Ele sabia que podia confiar em mim. E eu agora estou confiando em você, Rita Mae.

            - Que coisa mais horrível, arrancar os próprios olhos! - sussurrou Rita, pedindo a Deus que Deirdre nunca tivesse conhecimento disso.

            - É, mas você ainda não ouviu tudo - disse Jerry, tomando mais um gole de Bourbon. - Quando começamos a arrumá-la, encontramos nela o famoso colar com a esmeralda, aquele mesmo que Deirdre usa agora, a famosa esmeralda da família Mayfair. A corrente estava enroscada no pescoço e a pedra presa no cabelo na nuca. Estava coberta de sangue e só Deus sabe mais o quê. Bem, até papai ficou chocado, apesar de tudo o que ele já havia visto neste mundo, ao tirar o cabelo e os fragmentos de ossos daquela jóia. E ele disse que não era a primeira vez que tinha de limpar sangue daquele colar. Da outra vez, ele o havia encontrado no pescoço de Stella Mayfair, mãe de Antha.

            Rita lembrou-se daquele dia remoto no Santa Rosa, do colar na mão de Deirdre. E do Sr Lonigan, muitos anos mais tarde, mostrando-lhe o nome de Stella na lápide.

            - E Stella foi a que foi morta a tiros pelo próprio irmão.

            - Foi, e isso foi horrível, pelo que papai dizia. Stella era a rebelde da sua geração. Mesmo antes da morte da mãe, ela enchia aquela velha casa com luzes, com festas noite após noite, com bebida clandestina à vontade e músicos tocando ao vivo. Só Deus sabe o que Miss Carl, Miss Millie e Miss Beth pensavam daquilo tudo. Mas, quando ela começou a trazer seus homens para dentro de casa, Lionel encarregou-se do assunto, matando-a a tiros. Ele estava era com ciúme dela. Bem na frente de todos no salão, ele disse, "Vou matá-la para não deixar que ele fique com você".

            - Ora, o que você está me dizendo? Que o irmão e a irmã iam juntos para a cama?

            - Pode ter sido, querida. Pode ter sido. Ninguém nunca soube o nome do pai de Antha. Poderia ter sido Lionel tanto quanto qualquer outro. Costumavam mesmo dizer... Mas Stella não se incomodava com o que as pessoas pensassem. Dizem que, quando estava grávida de Antha, ela convidou todas as amigas para uma enorme festa na casa. Stella nunca se perturbou com o fato de ter aquele bebê sem estar casada.

            - Ora, nunca ouvi nada semelhante - disse Rita, baixinho. - Especialmente naquela época, Jerry.

            - Pois era assim que era, querida. E não foi só de papai que eu ouvi algumas dessas coisas. Lionel deu um tiro na cabeça de Stella, e todo mundo dentro da casa simplesmente enlouqueceu, quebrando as janelas que davam para as varandas só para poder sair dali. Um verdadeiro pânico. E você não sabe que a pequena Antha estava no andar superior? Que ela desceu durante aquela confusão toda e viu a mãe ali deitada, morta no chão da sala de estar?

            Rita abanou a cabeça. O que Deirdre havia dito naquela tarde remota? E dizem que a mãe dela também morreu ainda jovem, mas nunca se fala nela.

            - Lionel acabou numa camisa-de-força depois de matar Stella a tiros. Papai sempre dizia que a culpa o deixou fora de si. Ele não parava de berrar que o diabo não queria deixá-lo em paz, que sua irmã havia sido uma bruxa, e que ela havia mandado um demônio persegui-lo. Ele afinal morreu durante um ataque, sufocou-se com a própria língua, sem ninguém por perto para ajudá-lo. Abriram a cela acolchoada, e lá estava ele, morto, e já escurecendo. Pelo menos dessa vez, o corpo veio todo costuradinho do médico - legista. Foram os arranhões no rosto de Antha doze anos mais tarde que sempre

assustaram papai.

            - Pobre Dee Dee. Ela deve ter sabido parte dessas histórias.

            - É, até mesmo um bebê muito pequeno sabe das coisas. Você sabe que é verdade! E, quando papai e eu fomos retirar o corpo de Antha do pátio, ouvíamos a pequenina Deirdre chorando a mais não poder lá dentro como se soubesse que sua mãe estava morta. Ninguém apanhava aquela criança no colo, ninguém a consolava. Ouça o que lhe digo, essa menina já nasceu amaldiçoada. Não havia esperança para ela com todos esses acontecimentos na família. Foi por isso que mandaram a criança para o oeste, para afastá-la de tudo isso. E se eu fosse você, querida, eu não me meteria nessa história.

            Rita pensou em Ellie Mayfair, tão bonita. Provavelmente, neste exato instante, já a bordo de um avião para San Francisco.

            - Dizem que essa gente da Califórnia é rica. Quem me contou foi a enfermeira de Deirdre. A moça tem seu próprio iate, lá na baía de San Francisco, na água atracado direto na varanda da frente da casa. O pai é um grande advogado lá para aquelas bandas, um verdadeiro espertalhão, mas ganha muito bem. Se existe alguma maldição na família Mayfair, a menina conseguiu se livrar dela.

            - Jerry, você não acredita em maldições e sabe muito bem disso.

            - Querida, pense um instante naquele colar com a esmeralda. Por duas vezes, papai teve de limpar o sangue nele. Sempre me pareceu que a própria Miss Carlotta acreditava que houvesse uma maldição na jóia. Na primeira vez em que papai o limpou, quando da morte de Stella, sabe o que Miss Carlotta queria que papai fizesse? Que pusesse o colar no caixão junto com Stella. Foi papai quem me contou isso. Sei que é verdade. E papai se recusou a seguir suas instruções.

            - Bem, pode ser que não seja verdadeira, Jerry.

            - Ora, Rita Mae, com aquela esmeralda dava para se comprar um quarteirão em Canal Street, no centro. Papai pediu a Hershman de Magazine Street que avaliasse a pedra. O que eu quero dizer é que aqui estava ele com Miss Carlotta, dizendo coisas do tipo, "Manifesto meu desejo de que ponha o colar no caixão com minha irmã". Por isso, ele liga para Hershman, já que ele e Hershman eram muito amigos. Hershman afirma que a pedra é mesmo verdadeira, que é a esmeralda mais bela que já viu. Que nem saberia atribuir-lhe algum preço. Que teria de levar uma jóia dessas até Nova York para uma avaliação real. Acrescentou que o mesmo acontecia com todas as jóias da família Mayfair. Uma vez ele as limpara para Miss Mary Beth antes que ela as deixasse para Stella. Disse que esse tipo de jóia costuma acabar em exibição nos museus.

            - E então o que disse Red a Miss Carlotta?

            - Disse que não, que não ia pôr nenhuma esmeralda de milhões de dólares num caixão. Ele a limpou muito bem com álcool, conseguiu um estojo de veludo para ela na loja de Hershman e depois a levou para Miss Carl. O mesmo que fizemos anos mais tarde quando Antha caiu da janela. Dessa vez, porém, Miss Carl não nos pediu que a enterrássemos. Também não exigiu que o velório fosse no salão da casa.

            - No salão!

            - Bem, foi ali o velório de Stella, Rita Mae, bem ali naquela casa. Era assim que se fazia antigamente. O enterro do velho Julien Mayfair saiu daquela casa, bem como o de Miss Mary Beth, e isso foi em 1925. E era assim que Stella queria que fosse. Ela deixou por escrito no testamento, e assim foi feito. Já no caso de Antha, nada disso ocorreu. Nós devolvemos o colar, papai e eu juntos. Eu entrei com papai, e Miss Carl estava naquele salão duplo sem nenhuma luz acesa, e olhe que é escuro ali com todas aquelas árvores, varandas e tudo o mais. Lá estava ela sentada, embalando a pequena Deirdre no berço ao seu lado. Entrei com papai, e ele pôs o colar na mão dela. Sabe o que ela fez? Ela disse, "Muito obrigada, Red Lonigan". Voltou-se e pôs o estojo da jóia no berço do bebê.

            - Mas por que ela fez isso?

            - Porque pertencia a Deirdre, é esse o motivo. Miss Carl nunca teve direito a nenhuma daquelas jóias. Miss Mary Beth deixou-as para Stella; Stella designou Antha para ficar com elas, e a filha única de Antha era Deirdre. Sempre foi assim. Todas elas passam para uma das filhas.

            - Bem, e se o colar for mesmo amaldiçoado - disse Rita. Meu Deus, só de pensar nele no pescoço de Deirdre, ela estando do jeito que está. Rita mal conseguia suportar a idéia.

            - Bem, se ele é amaldiçoado, talvez a casa também seja, porque as jóias acompanham a casa e a dinheirama toda.

            - Você está me dizendo, Jerry Lonigan, que aquela casa pertence a Deirdre?

            - Ora, Rita, todo mundo sabe disso. Como é que você não sabia?

            - Você está me dizendo que a casa é dela e que aquelas mulheres moraram ali todos esses anos em que ela esteve trancafiada, para depois a trazerem de volta daquele jeito, e ela fica ali sentada e...

            - Ora, Rita, não precisa ficar histérica. Mas é isso o que lhe digo. Ela pertence a Deirdre, da mesma forma que pertenceu a Antha e a Stella. E será herdada por aquela filha lá da Califórnia quando Deirdre morrer, a não ser que alguém consiga alterar todos aqueles antigos documentos, e eu não acho que se possa alterar nada desse tipo. O testamento é muito antigo. Ele remonta ao tempo em que possuíam a fazenda, e a tempos ainda anteriores, quando ainda estavam nas ilhas, sabe, no Haiti, antes de se transferirem para cá. Chamam-no de legado. E eu me lembro que Hershman costumava dizer que Miss Carl começou a estudar direito quando era bem nova só para aprender um jeito de driblar o legado. Mas nunca teve sucesso. Mesmo antes de Miss Mary Beth morrer, todos já sabiam que Stella seria a herdeira.

            - Mas e se a tal moça da Califórnia não souber de nada?

            - É a lei, querida. E apesar de tudo o mais que ela possa ser, Miss Carl é uma boa advogada. Além disso, o legado está vinculado ao nome Mayfair. Você tem de usar o sobrenome ou não podem herdar nada do legado. E essa moça usa o sobrenome. Eu soube disso quando ela nasceu. Da mesma forma que sua mãe adotiva, Ellie Mayfair, a que veio hoje e assinou o livro de presença. Eles sabem. As pessoas sempre sabem quando têm dinheiro a ganhar. E ainda, os outros membros da família Mayfair lhe diriam. Ryan Mayfair lhe diria. Ele é neto de Cortland, e Cortland adorava Deirdre. Realmente adorava. Ele já era muito velho quando Deirdre teve de renunciar o bebê, e pelo que eu soube ele se opôs o tempo todo. Grande ajuda a dele. Eu soube que ele teve uma briga horrível com Miss Carlotta a respeito do bebê, disse que Deirdre enlouqueceria se tivesse de renunciar à criança, e Miss Carlotta disse que Deirdre já era louca mesmo. Grande ajuda a dele. Jerry terminou seu Bourbon. Serviu mais um copo.

            - Mas Jerry, e se houver outras coisas que a filha de Deirdre não sabe? - perguntou Rita. - Por que ela não compareceu ao enterro hoje? Por que ela não quis vir ver sua mãe?

            Rita Mae, vão me tomar o bebê!

            Jerry não respondeu. Seus olhos estavam injetados. Ele havia exagerado no Bourbon.

            - Papai sabia muito mais sobre essa gente - disse ele, com a voz agora enrolada. - Mais do que quis me contar. A única coisa que ele de fato disse foi que era certo tirar o bebê de Deirdre e dá-lo a Ellie Mayfair, pelo bem do bebê. Papai também me contou uma outra coisa. Que Ellie Mayfair não podia ter filhos e que o marido estava muito decepcionado por isso e quase a ponto de deixá-la quando Miss Carl ligou de tão longe e perguntou se queriam o bebê de Deirdre. "Não vá contar isso a Rita Mae", disse papai, "mas para todo mundo foi uma bênção. E o velho Sr Cortland, que Deus o tenha, estava enganado".

            Rita Mae sabia o que ia fazer. Ela nunca havia mentido a Jerry em toda sua vida. Só não lhe contou a verdade. Na tarde do dia seguinte, ela telefonou para o Monteleone Hotel. O inglês acabara de fechar sua conta! Mas talvez ainda se encontrasse no saguão. O coração de Rita Mae batia forte enquanto ela esperava.

            - Aqui fala Aaron Lightner. Sim, Sra Lonigan. Por favor, tome um táxi e eu pago sua corrida. Estarei à sua espera.

            Ela ficou tão nervosa que se atrapalhou com as palavras, esqueceu coisas quando

ia saindo da casa e teve de voltar para apanhá-las. No entanto, estava feliz com sua atitude. Mesmo que Jerry a tivesse pego em flagrante, ela teria prosseguido com seu plano.

            O inglês levou-a até o Desire Oyster Bar, logo depois da esquina, um lugar bonito com ventiladores no teto, grandes espelhos e portas abertas para Bourbon Street. Parecia exótico a Rita, como o French Quarter sempre lhe parecia. Ela quase nunca ia até ali.

            Sentaram-se a uma mesa com tampo de mármore, e ela aceitou um copo de vinho branco porque foi isso o que o inglês pediu e a idéia lhe agradou. Que bela aparência tinha esse homem. No caso dele, a idade não importava. Ele era mais bonito do que outros homens mais jovens. Ela ficou ligeiramente nervosa por se sentar tão perto dele. E o jeito que os seus olhos a examinavam fez com que ela se derretesse como se fosse de novo uma adolescente.

            - Pode falar, Sra Lonigan. Estou ouvindo.

            Ela procurou ir devagar mas, uma vez começada a história, tudo veio aos borbotões. Logo ela estava chorando, e era provável que ele não entendesse uma palavra do que ela dizia. Ela lhe entregou aquele pedaço de cartão velho e retorcido. Ela lhe contou dos anúncios que mandou publicar e de como havia contado a Deirdre que não conseguiu encontrá-lo. Veio, então, a parte mais difícil.

            - Existem coisas que essa moça na Califórnia não sabe! A propriedade é dela, e talvez os advogados lhe passem essa informação, mas o que dizer da maldição, Sr Lightner? Estou confiando no senhor. Estou lhe dizendo coisas que o meu marido não quer que eu conte a nenhum ser humano. Só que, se Deirdre confiou no senhor naquela época, isso para mim basta. Estou lhe dizendo, as jóias e a casa são amaldiçoadas.

            Enfim, ela lhe contou tudo. Contou tudo o que Jerry lhe havia dito. Tudo o que Red um dia chegara a dizer. Absolutamente tudo o que conseguiu recordar. Interessante que ele não ficou nem surpreso nem escandalizado. E ele lhe garantiu repetidamente que faria o possível para fazer essas informações chegarem àquela moça lá na Califórnia.

            Quando terminou de falar e ficou ali sentada limpando o nariz com o lenço, o vinho branco intacto, o homem lhe perguntou se guardaria o cartão, se o chamaria caso ocorresse qualquer "alteração" no estado de Deirdre. Se não o encontrasse, ela devia deixar um recado. Quem atendesse o telefone iria compreender. Ela só precisava dizer que era algo relacionado a Deirdre Mayfair.

            Ela tirou o livro de orações da bolsa.

            - Passe-me os números novamente - disse ela, e acrescentou as palavras "algo relacionado a Deirdre Mayfair". Só depois de escrever tudo, ela pensou em fazer uma pergunta. - Diga-me, então, Sr Lightner, como veio a conhecer Deirdre?

            - É uma longa história, Sra Lonigan. Pode-se dizer que venho observando aquela família há anos. Tenho dois quadros pintados pelo pai de Deirdre, Sean Lacy. Um deles é de Antha. Foi ele que morreu numa estrada em Nova York antes de Deirdre nascer.

            - Morreu numa estrada? Eu nunca soube disso.

            - Duvido que alguém por aqui tivesse conhecimento. Era um bom pintor. Fez um belíssimo quadro de Antha com o famoso colar com a esmeralda. Consegui obtê-lo por meio de um marchanch de Nova York alguns anos depois que os dois haviam falecido. Deirdre talvez estivesse com uns dez anos nessa época. Só a conheci quando ela foi para a faculdade.

            - Estranha essa história de o pai de Deirdre ter sofrido um acidente na estrada. Foi exatamente o que aconteceu com o namorado de Deirdre, o homem com quem ela ia se casar. O senhor sabia? Que o carro se desgovernou na estrada que beira o rio, quando ele estava vindo para Nova Orleans?

            Ela achou ter percebido uma pequena mudança na expressão do inglês, mas não teve certeza. Pareceu - lhe que seus olhos se contraíram só por um segundo.

            - É, eu já sabia. - Ele aparentava estar pensando em coisas que não queria lhe contar. Depois, recomeçou a falar. - Sra Lonigan, gostaria que me fizesse uma promessa.

            - E qual é ela, Sr Lightner?

            - Se acontecer alguma coisa, algo totalmente inesperado, e a filha da Califórnia voltar para cá, por favor não tente falar com ela. Ligue-me em vez disso. Pode me ligar a qualquer hora do dia ou da noite, e prometo que estarei aqui assim que conseguir um vôo de Londres.

            - O senhor quer dizer que eu mesma não devo contar essas coisas à filha? É isso o que está dizendo?

            - É - respondeu ele, com ar muito sério, tocando sua mão pela primeira vez mas de uma forma bastante cavalheiresca sem absolutamente nenhum sinal de desrespeito. - Não volte àquela casa. Não volte lá especialmente se a filha estiver na casa. Prometo-lhe que, se eu mesmo não puder vir, outra pessoa virá , uma outra pessoa que realizará o que desejamos que seja feito, alguém inteiramente familiarizado com toda a história.

            - Puxa, isso tiraria um grande peso da minha cabeça - disse Rita. Ela sem dúvida não queria falar com aquela moça, uma perfeita desconhecida, para tentar lhe contar todas essas coisas. De repente, porém, tudo começou a intrigá-la. Pela primeira vez, ela começou a se perguntar quem seria esse homem simpático. Estaria ela enganada ao confiar nele?

            - Pode confiar em mim, Sra Lonigan - disse ele, exatamente como se soubesse o que ela estava pensando. - Peço-lhe que tenha certeza disso. Eu conheci a filha de Deirdre e sei que se trata de uma pessoa muito calada e, bem, como poderei dizer, intimidante. Não é fácil conversar com ela, se é que me entende. Creio, porém, que eu posso explicar algumas coisas para ela.

            Bem, isso aí fazia sentido.

            - Claro, Sr Lightner.

            Ele olhava para ela. Talvez soubesse como estava confusa, como aquela tarde havia lhe parecido estranha, com toda essa conversa sobre maldições e tudo o mais, sobre gente já morta e aquele colar antigo e misterioso.

            - É, eles são muito estranhos - disse ele.

            - Parece que o senhor leu meu pensamento - disse Rita, rindo.

            - Não se preocupe mais. Vou fazer com que Rowan Mayfair saiba que sua mãe não renunciou a ela. Vou me encarregar de que Rowan saiba tudo o que a senhora quer que ela saiba. Devo isso a Deirdre, não acha? Gostaria de ter podido ajudar quando ela precisou de mim.

            Bem, isso já era mais do que suficiente para Rita. Daí e m diante, todos os domingos, quando Rita ia à missa, ela abria a última página do seu missal e olhava para o número do telefone do homem em Londres.

            Ela lia aquelas palavras "algo relacionado a Deirdre Mayfair".

            Depois, fazia uma oração por Deirdre, e não lhe parecia errado tratar-se da oração pelos mortos. Essa parecia ser a oração adequada ao caso.

            - Que a luz eterna a ilumine, ó Senhor, e que ela descanse em paz. Amém. E agora já haviam se passado mais de doze anos desde que Deirdre assumira seu lugar na varanda, mais de um ano desde que o inglês havia chegado e ido embora, e estavam falando em internar Deirdre novamente. Era a casa que estava em ruínas à sua volta, naquele triste jardim descuidado, e iam mais uma vez trancafiá-la.

            Talvez Rita devesse ligar para o homem. Talvez ela devesse lhe passar essa informação. Ela simplesmente não sabia.

            - Interná-la é a melhor solução - disse Jerry - antes que Miss Carl fique velha demais para tomar essa decisão. E a verdade é que, bem, detesto ter de dizer isso, querida, mas Deirdre está piorando cada vez mais. Dizem que está morrendo. Morrendo.

            Ela esperou até Jerry ir para o trabalho. Deu, então, o telefonema. Ela sabia que a chamada apareceria na conta e que era provável que ela tivesse de acabar contando alguma coisa a Jerry. Mas isso não importava. O que importava agora era fazer a telefonista compreender que ela queria ligar para um telefone do outro lado do oceano.

            Foi uma mulher gentil que atendeu a ligação, e a chamada foi a cobrar como o inglês havia prometido. A princípio, Rita não conseguia entender tudo o que a mulher dizia, falava tão rápido, mas depois descobriu que o Sr Lightner estava nos Estados Unidos. Estava em San Francisco. A mulher ligaria para ele imediatamente. Rita podia lhe dar o número do seu telefone?

            - Ah, não. Não quero que ele ligue para cá. Basta que você lhe dê um recado. É muito importante. Que Rita Mae Lonigan ligou para avisar sobre "algo relacionado com Deirdre Mayfair". Pode anotar isso? Diga-lhe que Deirdre Mayfair está muito mal, que está piorando a olhos vistos, que talvez esteja morrendo.

            Rita perdeu o fôlego ao dizer essa última palavra. Não conseguiu dizer mais nada depois. Tentou responder com clareza quando a mulher repetiu o recado. A mulher ia ligar imediatamente para o Sr Lightner no St Francis Hotel em San Francisco. Rita chorava quando desligou o telefone.

            Naquela noite, ela sonhou com Deirdre, mas não conseguiu se lembrar de nada ao acordar, a não ser de que Deirdre estava lá, ao crepúsculo, e que o vento soprava nas árvores dos fundos do Santa Rosa de Lima. Quando abriu os olhos, pensou no vento soprando nas árvores. Ouviu Jerry contando como foi no dia em que foram retirar o corpo de Antha. Lembrou-se da tempestade de vento nas árvores naquele dia terrível em que ela e Miss Carl lutaram pelo cartãozinho onde estava escrito Talamasca. Vento nas árvores no jardim por trás do Santa Rosa de Lima.

            Rita levantou-se e foi à missa cedo. Foi até o altar consagrado à Virgem Santíssima e acendeu uma vela. Ela implorou pela vinda do Sr Lightner. Implorou pela graça de que ele pudesse conversar com a filha de Deirdre. Percebeu, então, enquanto orava, que o que a preocupava não era a herança, nem a maldição do lindo colar com a esmeralda. Pois Rita não acreditava que Miss Carl, por mais cruel que fosse, tivesse coragem de desrespeitar a lei. E Rita não acreditava na existência de maldições.

            Ela acreditava, sim, no amor que sentia do fundo do coração por Deirdre Mayfair. Ela acreditava que uma filha tinha o direito de saber que sua mãe havia sido um dia a mais meiga e gentil das criaturas, uma menina amada por todos, uma linda mocinha na primavera de 1957, quando um homem bonito e elegante num jardim na penumbra a chamara de minha amada.

 

            Ele ficou parado debaixo do chuveiro uns dez minutos, mas continuava bêbado como ele só. Em seguida, conseguiu se cortar duas vezes com o barbeador. Nada de grande importância, mas uma nítida indicação de que ele devia ter muito cuidado com essa senhora que estava vindo para cá, essa médica, esse ser misterioso que o içou do mar.

            Tia Viv ajudou-o a vestir a camisa. Ele tomou mais um gole rápido de café. Pareceu-lhe horrível, embora fosse um café perfeito. Ele próprio o havia preparado. Uma cerveja era o que ele queria. Não tomar uma cerveja agora equivalia a não poder respirar. Mas o risco era simplesmente demasiado.

            - Afinal o que você vai fazer em Nova Orleans? - perguntou tia Viv, lamentosa. Seus pequenos olhos azuis pareciam lacrimejantes, avermelhados. Ela alisou as lapelas do paletó cáqui com suas mãos magras e retorcidas. Tem certeza de que não vai precisar de um casaco mais pesado?

            - Tia Viv, lá é Nova Orleans, e em agosto. - Ele lhe deu um beijo na testa. - Não se preocupe comigo. Estou ótimo.

            - Michael, não entendo por que...

            - Tia Viv, juro que ligo assim que chegar lá. A senhora tem o telefone do Pontchartrain se quiser ligar e deixar um recado antes da minha chegada. Ele havia pedido aquela mesma suíte onde ela ficara anos atrás, quando ele, com apenas onze anos, acompanhara a mãe numa visita a ela, aquela grande suíte com vista para St. Charles Avenue, com o piano de 1/4 de cauda.

            E, eles sabiam qual era a suite que ele queria. É, ela estava disponível. E, o piano ainda estava nela. Depois a linha aérea confirmou sua reserva na primeira classe, com um assento no corredor, às seis da manhã. Nenhum problema. Só tudo se encaixando com perfeição.

            E tudo graças ao Dr Morris e a essa misteriosa Dra Mayfair, que estava agora a caminho. Ele havia se enfurecido quando soube que ela era médica.

            - Então é esse o motivo de todo o segredo - disse ao Dr Morris. - Médicos não costumam incomodar outros médicos, hei,? Médicos não dão o telefone particular de outros médicos. O senhor sabia que essa é uma questão que deveria vir a público. Eu devia...

            Morris, porém, conseguiu silenciá-lo rapidamente.

            - Michael, ela está indo até aí para apanhá-lo. Ela sabe que você está embriagado e sabe que você é maluco. Mesmo assim, ela vai levá-lo até sua casa em Tiburon e vai deixar que você engatinhe o quanto quiser no barco.

            - Tudo bem. Sou-lhe grato, pode ter certeza.

            - Então saia da cama, tome uma chuveirada e faça a barba.

            Pronto! E agora nada ia impedi-lo de fazer essa viagem. É por isso que ele ia sair direto da casa em Tiburon para o aeroporto onde cochilaria numa cadeira plástica, se fosse preciso, até o embarque no vôo para Nova Orleans.

            - Mas, Michael, qual é o motivo para tudo isso? - insistia tia Viv. - É o que eu simplesmente não consigo compreender. - Ela parecia flutuar tendo ao fundo a luz do corredor, uma mulher minúscula num vestido de seda bamba, os cabelos grisalhos nada mais do que fios apesar dos cachinhos e dos grampos a fixá-los, sem consistência como o vidro estirado que costumavam usar para enfeitar as árvores de Natal antigamente, que chamavam de cabelo de anjo.

            - Prometo que não vou me demorar - disse Michael com carinho.

            De repente, porém, um pressentimento o dominou. Ele teve a distinta sensação, aquele tipo de telepatia vaga, de que nunca mais voltaria a morar nesta casa. Não, isso não podia ser verdade. Era só o álcool que borbulhava dentro dele, deixando-o louco, e os meses de total isolamento. Ora, só isso já bastava para desequilibrar qualquer um. Ele deu um beijo no seu rosto macio.

            - Tenho de dar uma olhada na mala - disse ele. Tomou mais um gole do café.

            Estava se sentindo melhor. Limpou cuidadosamente seus óculos de aro de tartaruga antes de voltar a pô-los, e verificou o par de reserva no bolso do paletó.

            - Arrumei tudo nela - disse tia Viv, abanando a cabeça de leve. Ela estava parada ao seu lado, junto à mala aberta. Um dedo nodoso apontava as roupas dobradas com perfeição. - Seus ternos leves, os dois. Seu aparelho de barba. Está tudo aí. Ah, e sua capa de chuva. Não se esqueça da capa, Michael. Em Nova Orleans chove o tempo todo.

            - Certo, tia Viv, não se preocupe. - Ele fechou a mala e a trancou. Não se deu ao trabalho de lhe dizer que a capa de chuva havia sido destruída com o afogamento. Podia ser que a famosa Burberry houvesse sido feita para as trincheiras da guerra, mas não para o mergulho. O forro de lã estava perdido. Ele passou o pente pelo cabelo, detestando a sensação das luvas. Ele não dava a impressão de estar bêbado, a não ser que estivesse bêbado demais para perceber. Olhou para o café. Beba o resto, seu idiota. Essa mulher está fazendo uma consulta a domicílio só para agradar um beberrão. O mínimo que você pode fazer é tentar não cair da sua própria escada da frente.

            - Isso foi a campainha? - Ele apanhou a mala. É, estava pronto, perfeitamente pronto para ir embora.

            E então aquele pressentimento novamente. O que era isso, um presságio? Olhou para o quarto, o papel de parede listrado, as madeiras das quais ele havia descascado a tinta com tanta paciência para depois pintá-las, a pequena lareira na qual ele próprio havia colocado os azulejos espanhóis. Ele nunca mais ia usufruir nada daquilo. Nunca mais iria se deitar naquela cama de latão. Ou olhar através das cortinas de ponje para as distantes luzes espectrais do centro da cidade.

            Sentiu uma tristeza pesada, como se estivesse de luto. Na realidade, era exatamente a mesma tristeza que havia sentido quando da morte daqueles que amava. Tia Viv apressou-se pelo corredor, com os tornozelos inchados e doloridos, a mão tateando, até acertar o botão do porteiro eletrônico e apertá-lo com firmeza.

            - Pronto?

            - Sou a Dra Rowan Mayfair. Vim ver Michael Curry.

            Meu Deus, estava acontecendo. Ele estava mais uma vez ressuscitando dos mortos.

            - Já estou indo - disse ele. - Não precisa ir até lá embaixo comigo, tia Viv. - Mais uma vez, ele lhe deu um beijo. Se ao menos conseguisse se livrar desse pressentimento. O que seria dela se alguma coisa acontecesse a ele? - Logo estarei de volta, prometo. - Num impulso, ele a abraçou forte por algum tempo antes de soltá-la.

            Desceu, então, correndo os dois lances da escada, assoviando um pouco, de tão bom que era estar se movimentando, estar a caminho. Quase abriu a porta da frente sem verificar se havia repórteres. Parou e espiou por um pequeno cristal facetado engastado no centro do retângulo do vitral.

            Uma mulher alta como uma gazela estava aos pés da escadaria, de perfil, olhando pela rua abaixo. Tinha pernas longas de blue jeans e cabelo louro e ondulado cortado em estilo pajem, que tocava de leve sua bochecha.

            Dava uma impressão de juventude e frescor, e de uma sedução natural, na sua japona justa azul-marinho, com a gola do suéter grosso enrolada junto ao pescoço.

            Ninguém precisou lhe dizer que essa era a Dra Mayfair. Um súbito calor surgiu nas suas virilhas e circulou pelo seu corpo, fazendo com que seu rosto ardesse. Ele a teria considerado atraente e interessante, não importa onde ou quando a encontrasse. Mas saber que havia sido ela era avassalador. Ficou feliz por ela não estar olhando para a porta e não estar vendo talvez sua silhueta atrás do vidro.

            Foi essa a mulher que me devolveu a vida, no sentido literal da expressão, pensou ele, vagamente entusiasmado com o calor que aumentava, com a forte sensação de submissão que nele se misturava com um desejo quase brutal de tocar, de conhecer, de possuir, quem sabe? O mecanismo do salvamento havia sido descrito para ele inúmeras vezes: respiração boca-a-boca, alternada com massagens no coração. Agora pensava nas mãos dela sobre seu corpo, na boca sobre sua boca. Pareceu-lhe de repente cruel que, depois de tanta intimidade, os dois houvessem ficado separados por tanto tempo. Mais uma vez, sentiu uma revolta. Mas agora isso não importava.

            Mesmo de perfil, ele via sem nitidez o rosto de que se lembrava, um rosto de pele retesada e beleza sutil, com olhos cinzentos, fundos, ligeiramente luminosos. E como era encantadora sua postura, tão abertamente despreocupada e masculina, com seu jeito de se encostar no corrimão, com um dos pés no primeiro degrau.

            Aumentou nele a sensação de desamparo, com uma intensidade estranha e surpreendente. Com uma força igual, brotou o inevitável impulso de conquistar. Não havia tempo para análises, e francamente não era isso o que queria. Ele percebeu que de repente se sentia feliz, feliz pela primeira vez desde o acidente. Voltou-lhe à memória o cortante vento do mar, as luzes fortes no seu rosto. O pessoal da guarda costeira descendo pela escada como anjos vindo do paraíso da névoa. Não, não deixe que eles me levem! E a voz dela bem ao seu lado.

            - Está tudo bem.

            É. Saia. Fale com ela. Esta é a grande oportunidade; é o mais próximo daquele momento que você vai conseguir chegar. E como era delicioso sentir uma atração física tão forte por ela, sentir-se tão nu pela presença dela. Era como se uma mão invisível estivesse lhe abrindo as calças.

            Ele olhou de relance para os dois lados da rua. Não havia ninguém a não ser um homem só num portal. Na realidade, o homem em quem a Dra Mayfair estava com os olhos fixos. E sem dúvida aquele não podia ser um repórter, não aquele cara idoso, de cabelos brancos, usando um terno de colete de tweed, segurando o guarda-chuva como se fosse uma bengala.

            Mesmo assim, era estranho o jeito da Dra Mayfair de continuar a encarar o homem, e o jeito que o homem a encarava de volta. Os dois estavam imóveis, como se aquilo fosse perfeitamente normal, quando estava claro que não era.

            Ocorreu a Michael algo que sua tia Viv lhe dissera algumas horas antes, algo a respeito de um inglês que tinha vindo de Londres expressamente para vê-lo. Aquele homem sem dúvida parecia ser um inglês, um inglês sem muita sorte, que havia feito a viagem em vão.

            Michael girou a maçaneta. O inglês não fez a menor menção de cair sobre a presa, embora fixasse o olhar em Michael com tanta decisão quanto antes havia encarado a Dra Mayfair. Michael saiu e fechou a porta.

            Daí em diante, esqueceu que o inglês existia porque a Dra Mayfair se voltou, e um sorriso lindo iluminou seu rosto. Ele imediatamente reconheceu as sobrancelhas bem-feitas de um louro cinza e os cílios grossos e escuros que tornavam seus olhos cinzentos ainda mais brilhantes.

            - Sr Curry - disse ela, com sua voz grave, rouca e maravilhosa. - Quer dizer que nos encontramos de novo. - Ela estendeu sua longa mão direita para cumprimentá-lo enquanto ele descia a escada na sua direção.

            Parecia perfeitamente natural seu jeito de examiná-lo dos pés à cabeça.

            - Dra Mayfair, obrigado por ter vindo - disse ele, apertando demais sua mão e a soltando instantaneamente, com vergonha das luvas. - A senhora está me ressuscitando outra vez. Eu estava morrendo lá em cima no quarto.

            - Eu sei - disse ela. - E essa mala aí é porque nós vamos nos apaixonar e viver juntos de agora em diante?

            Ele riu. A voz rouca era uma característica que ele adorava nas mulheres, sempre muito rara e sempre mágica. Ele não se lembrava desse detalhe no convés do barco.

            - Ah, não, desculpe, Dra Mayfair. Quer dizer, eu depois tenho de ir para o aeroporto. Vou pegar o vôo das seis da manhã para Nova Orleans. Tenho de fazer isso. Imaginei apanhar um táxi de lá, quer dizer, do lugar para onde vamos, porque, se eu voltar aqui...

            E mais uma vez o pressentimento: nunca mais piorar nessa casa. Ele olhou para cima para as altas janelas da sacada, para o rebuscado trabalho de marcenaria, restaurado com tanto cuidado. Não parecia mais ser sua casa agora, essa estrutura estreita, vazia, essas janelas refletindo a luz opaca da noite incolor. Sentiu-se confuso por um instante, como se estivesse perdendo o fio da meada.

            - Desculpe-me - disse ele em voz baixa. Havia mesmo perdido o fio. Ele poderia ter jurado estar em Nova Orleans neste exato momento. Estava tonto. Estivera no meio de alguma coisa, com uma intensidade forte e deliciosa. E agora só havia essa umidade aqui, esse céu escuro e nublado e a firme certeza de que estavam encerrados todos os anos de espera, de que algo para o qual ele estava preparado estava a ponto de começar.

            Notou que estava olhando para a Dra Mayfair. Ela era quase tão alta quanto ele e o contemplava direto, de um jeito totalmente distraído. Ela o olhava como se estivesse gostando, como se o considerasse bonito ou interessante, ou talvez os dois. Ele sorriu porque estava gostando de olhar para ela também e de repente estava feliz, mais feliz do que ousava lhe dizer, por ela ter vindo.

            Ela pegou seu braço.

            - Vamos, Sr Curry. - Ela se voltou tempo suficiente para lançar um olhar lento e um pouco duro ao inglês distante e depois puxou Michael ladeira acima até a porta de um Jaguar verde-escuro. Ela abriu a porta e, tirando a mala de Michael antes que ele conseguisse pensar em impedi-la, colocou-a no banco traseiro.

            - Entre - disse ela e fechou a porta.

            Couro cor-de-caramelo. Lindo painel antiquado em madeira. Ele deu um olhar para trás por cima do ombro. O inglês ainda os observava.

            - E estranho - disse ele.

            A chave já estava na ignição antes que ela fechasse sua porta.

            - O que é estranho? Conhece aquele homem?

            - Não, mas acho que ele veio aqui para me ver... Acho que é um inglês... e ele sequer chegou a se mexer quando eu saí.

            Isso a espantou. Ela parecia intrigada, o que não a impediu de sair da vaga com uma guinada e de fazer um balão quase impossível, antes de passar pelo inglês com mais um olhar penetrante.

            Mais uma vez, Michael sentiu brotar o desejo. Havia um tremendo vigor natural no seu jeito de dirigir. Ele apreciou a imagem das suas mãos longas na alavanca do câmbio e no minúsculo volante coberto de couro. O casaco trespassado estava ajustado ao seu corpo, e uma mecha de cabelo louro caiu sobre seu olho direito.

            - Eu podia jurar já ter visto aquele homem antes - disse ela, meio entre dentes. Ele riu, não do que ela havia dito, mas do seu jeito de dirigir, quando ela virou à direita a toda velocidade, descendo por Castro Street em meio à névoa que soprava.

            Pareceu-lhe um passeio na montanha-russa. Ele apertou o cinto de segurança porque iria voar pelo pára-brisas se não o apertasse e depois percebeu, quando ela passou direto pelo primeiro sinal de parada, que estava ficando enjoado.

            - Tem certeza de que quer ir para Nova Orleans, Sr Curry? A impressão que eu tenho é que não está se sentindo muito bem. A que horas sai seu vôo?

            - Preciso ir até Nova Orleans. Tenho de voltar para lá. Desculpe, sei que não estou falando coisa com coisa. É só que essas sensações, elas vêm aleatoriamente. Elas me dominam. Pensei que fosse só com as mãos, mas não é. A senhora ouviu falar das minhas mãos, Dra Mayfair? Estou acabado. Digo-lhe que estou arrasado. Olhe, preciso que me faça um favor. Tem uma loja de bebidas por aqui, do lado esquerdo, logo depois da Eighteenth Street. Poderia dar uma parada?

            - Sr Curry...

            - Dra Mayfair, vou vomitar neste seu maravilhoso carro.

            Ela parou do outro lado da rua. Castro Street estava apinhada com as costumeiras multidões de sexta -feira à noite, bastante animada com tantas portas iluminadas de bares abertas para a neblina.

            - Você está enjoado, certo? - Ela pôs a mão sobre o seu ombro, com um certo peso e em silêncio. Será que ela percebia as ondas de sensação que o percorriam? - Se estiver alcoolizado, não permitirão que embarque.

            - Latas altas. Miller's. Uma meia dúzia. Vou dar bastante espaço entre elas. Por favor.

            - E eu é que devo entrar ali para lhe trazer esse veneno? - Ela riu, mas com delicadeza, sem maldade. Sua voz grave parecia aveludada. E os olhos eram grandes e de um cinza perfeito agora à luz do néon, iguais à água do mar aberto.

            Só que ele estava prestes a morrer.

            - Não, é claro que não vai entrar ali. Eu mesmo vou. Não sei onde está minha cabeça. - Olhou para as luvas de couro. - É que venho me escondendo das pessoas. Minha tia Viv faz tudo para mim. Desculpe.

            - Miller's. Meia dúzia de latas altas - repetiu ela, abrindo a porta.

            - Bem, uma dúzia.

            - Uma dúzia?

            - Dra Mayfair, são só onze e meia. O avião só parte às seis. - Ele tateou no bolso à procura do prendedor de dinheiro.

            Ela descartou a necessidade e atravessou a rua, desviando-se graciosamente de um táxi e desaparecendo pela loja adentro.

            Meu Deus, que coragem a minha de lhe pedir uma coisa dessas, pensou ele, derrotado. Estamos começando muito mal, mas isso não era no fundo a verdade. Ela estava sendo muito gentil com ele; ele ainda não havia estragado tudo. E já sentia o sabor da cerveja. Seu estômago não iria se acalmar com mais nada.

            O ritmo forte da música dos bares próximos de repente pareceu alto demais, e as cores da rua, gritantes demais. Os jovens transeuntes pareciam se aproximar demais do carro. E é isso o que acontece com quem fica três meses e meio em isolamento, pensou ele. Fica-se com a cara de um ex-presidiário. Pois ele nem mesmo sabia em que dia estavam, só que era uma sexta-feira porque seu vôo era para sábado, às seis da manhã. Ele se perguntou se poderia fumar naquele carro.

            Assim que ela pôs a sacola no seu colo, ele a abriu.

            - Sr Curry, multa de 50 dólares - disse ela, saindo da vaga. - Por uma lata de cerveja aberta no carro.

            - Eu sei. Se for multada, eu pago. - Ele devia ter bebido meia lata no primeiro gole. E agora, por um momento, sentiu-se bem.

            Ela atravessou o grande cruzamento de seis faixas com Market, fez uma entrada proibida à esquerda em Seventeenth Street, e subiu a ladeira como um raio.

            - E a cerveja ameniza as coisas

            - Não. Nada embota a sensação. Ela me chega de toda parte.

            - E vem de mim também?

            - Bem, não. Mas é porque eu quero estar ao seu lado, entende. - Ele tomou mais um gole, com a mão esticada para se segurar no painel quando ela fez a curva ladeira abaixo na direção do Haight. - Por natureza, não sou de me queixar, Dra Mayfair. É só que desde o acidente estou vivendo sem nenhuma camada de proteção. Não consigo me concentrar. Não consigo nem mesmo ler ou dormir.

            - Compreendo, Sr Curry. Quando chegarmos em casa, pode subir no barco, fazer o que quiser. Mas o que eu realmente queria era lhe preparar uma refeição.

            - Não vai adiantar, Dra Mayfair. Posso lhe perguntar uma coisa. Até que ponto eu estava morto quando fui içado?

            - Em termos clínicos, totalmente morto, Sr Curry. Não havia nenhum sinal perceptível de vida. Sem alguma intervenção, a morte biológica irreversível logo estaria instalada. O senhor não recebeu minha carta?

            - A senhora me escreveu uma carta?

            - Eu devia ter ido visitá-lo no hospital.

            Ela dirigia como um piloto de corridas, pensou ele, esticando cada marcha até o motor reclamar e ela passar a seguinte.

            - Mas eu não lhe disse nada, pelo que contou ao Dr Morris...

            - Disse um nome, uma palavra, alguma coisa, só que falou muito baixo. Não consegui ouvir as sílabas. Distingui um som de L... Um som de L... Um imenso silêncio abafou o restante das suas palavras.

            Ele estava caindo. Por um lado, ele sabia que estava no carro, que ela estava falando com ele, que haviam cruzado Lincoln Avenue e estavam se enfurnando em Golden Gate Park na direção de Park Presidio Drive, mas no fundo ele não estava ali. Estava às margens de um espaço de sonho no qual a palavra que começava com L significava algo crucial, algo extremamente complexo e conhecido. Uma aglomeração de seres o cercava, forçando para se aproximar dele, prontos para falar. O portal...

            Ele sacudiu a cabeça. Houve um foco, mas já estava se desintegrando. Ele sentiu pânico. Quando ela freou para o sinal vermelho em Geary Street, ele foi lançado para trás de encontro ao encosto de couro.

            - Você não opera o cérebro das pessoas do jeito que dirige esse carro, certo? - perguntou ele, com o rosto em brasa.

            - Para dizer a verdade, opero, sim. - Ela saiu do sinal um pouco mais devagar.

            - Desculpe. Parece que só sei me desculpar. Estou pedindo desculpas desde que aquilo aconteceu. Não há nada de errado com seu jeito de dirigir. Sou eu. Eu era... normal antes do acidente. Quer dizer, era só uma dessas pessoas felizes, sabe...

            Ela estaria concordando com a cabeça.

            Parecia distraída quando ele olhou para ela, absorta nos seus próprios pensamentos. Reduziu a velocidade quando se aproximou da cancela do pedágio. A névoa estava tão densa sobre a ponte que os carros pareciam desaparecer ao entrar nela.

            - Você quer falar comigo? - perguntou ela, com os olhos nos veículos que desapareciam à sua frente. Ela tirou uma nota de dólar do casaco e a entregou ao guarda do pedágio. - Quer me contar o que anda acontecendo?

            Ele suspirou. Essa era uma tarefa impossível. No entanto, seu pior aspecto era o de que ele não conseguiria parar, se começasse.

            - As mãos, sabe, vejo imagens quando toco nas coisas, mas as visões...

            - Fale-me das visões.

            - Sei o que está pensando. E neurologista. Está pensando que é algum problema com o lobo temporal, ou qualquer merda semelhante.

            - Não, não é isso o que estou pensando.

            Ela dirigia mais rápido. A forma enorme e feia de um caminhão apareceu à sua frente, com suas lanternas acesas como balizas. Ela preferiu ficar em segurança atrás dele, acompanhando-o a oitenta por hora.

            Ele engoliu o resto da cerveja em três goles rápidos, enfiou a lata no saco e depois tirou a luva. Já haviam saído da ponte, e a névoa havia desaparecido como que por mágica, o que acontecia com tanta freqüência. Espantou-o o céu límpido e luminoso. Os morros escuros erguiam-se como ombros que os empurravam enquanto eles subiam Waldo Grade.

            Ele baixou os olhos até a própria mão. Ela parecia repulsivamente úmida e enrugada. Quando ele esfregou os dedos, teve uma sensação que era vagamente agradável.

            Estavam agora indo direto a quase cem por hora. Ele tentou segurar a mão da Dra Mayfair, que estava pousada na alavanca do câmbio, longos dedos pálidos relaxados. Ela não tentou oferecer resistência. Olhou para ele de relance e voltou ao tráfego à sua frente quando entraram no túnel. Ele tirou sua mão da alavanca e pressionou seu polegar na palma nua.

            Envolveu-o um som suave e sussurrante, e sua visão se anuviou. Era como se o corpo dela houvesse se desintegrado para abraçá-lo, uma nuvem turbilhonante de partículas. Rowan. Por um instante, ele teve medo de que estivessem saindo da estrada. Mas não era ela quem sentia isso, era ele. Ele sentia aquela mão úmida, morna, a pulsação palpitante que passava por ela e aquela sensação de estar no cerne dessa imensa presença etérea que o envolvia e o acariciava por inteiro, como a neve que cai. A excitação erótica era tão intensa que ele não pôde fazer nada para contê-la.

            De repente, num lampejo destruidor, ele estava numa cozinha, uma deslumbrante cozinha moderna, com equipamentos e aparelhos reluzentes, e um homem jazia no chão, à morte. Discussão, gritos, mas isso havia acontecido alguns momentos antes. Os intervalos de tempo estavam se acavalando, colidindo uns com os outros. Não havia nada que fosse para cima ou para baixo, para a direita ou para a esquerda. Michael estava no próprio centro de tudo.

            Rowan, com seu estetoscópio, ajoelhou-se ao lado do moribundo. Odeio você. Ela fechou os olhos, tirou o estetoscópio dos ouvidos. Não podia acreditar na sorte dele estar morrendo.

            E então tudo parou. O trânsito estava congestionado. Ela soltou a mão de Michael e reduziu a marcha com um movimento seco, eficiente.

            Para ele parecia que estavam patinando no gelo, o jeito que seguiam, virando à direita, e mais uma vez à direita, mas não importava. Era uma ilusão de que eles estivessem correndo perigo, e agora vinham os fatos, aquilo que ele sempre soube sobre essas visões, tudo que estava simplesmente ali na sua mente, como se sempre tivesse estado, como seu endereço, seu número de telefone e a data do seu nascimento.

            Aquele era seu pai adotivo, e ela o desprezava, porque temia ser parecida com ele: resoluta, essencialmente dura e indiferente. Sua vida se baseava em não ser parecida com ele, mas em ser como sua mãe adotiva, uma criatura sentimental e serena, com um maravilhoso senso de estilo, uma mulher amada por todos e respeitada por ninguém.

            - E então, o que viu? - Seu rosto era de uma suavidade fantástica, banhado pelas luzes que passavam.

            - Então não sabe? Meu Deus, gostaria de perder esse poder. Gostaria de nunca tê-lo tido. Não quero saber essas coisas sobre as pessoas.

            - Diga-me o que viu.

            - Ele morreu no chão. Você gostou. Ele não se divorciou dela. Ela nunca soube o que ele estava planejando. Ele tinha um metro e oitenta e cinco de altura, nasceu em San Rafael, Califórnia e este carro era dele. - Agora de onde é que vinha tudo isso? Ele poderia ter continuado. Desde a primeira noite, ele soube que poderia continuar. Bastava que se dispusesse. - Foi isso o que vi. Tem alguma importância? Quer que eu fale a respeito? Por que quis que eu visse essa imagem é a pergunta que eu deveria estar fazendo agora. De que adianta eu saber que foi na sua cozinha e que, ao voltar do hospital, onde ele foi recebido e registrado, o que foi uma bobagem porque ele já chegou morto, você se sentou e comeu a refeição que ele havia preparado antes de morrer?

            Silêncio.

            - Eu estava com fome - murmurou ela, pouco depois.

            Ele estremeceu todo. Abriu mais uma cerveja. O delicioso aroma do malte encheu o carro.

            - E agora já não gosta tanto assim de mim, certo? - perguntou ele. Ela não respondeu. Estava prestando atenção ao movimento. Ele estava ofuscado pelos faróis que cresciam na sua direção. Graças a Deus estavam saindo da rodovia principal para pegar a estrada estreita que levava a Tiburon.

            - Gosto muito de você - respondeu ela, afinal. Uma voz baixa, rouca, surda.

            - Que bom. Eu estava com medo... Fico feliz. Não sei por que disse aquelas coisas...

            - Eu lhe perguntei o que estava vendo - disse ela, com simplicidade. Ele riu, tomando um longo gole da cerveja.

            - Estamos quase chegando. Poderia ir mais devagar com a cerveja. É uma médica quem lhe pede.

            Ele tomou outro grande gole.

            Mais uma vez a cozinha, o cheiro do assado no forno, o vinho tinto aberto, os dois copos parece cruel mas não existe absolutamente nenhum motivo para eu me sujeitar à morte dela. E se você prefere ficar por perto e ver uma mulher morrer de câncer, bem, ai você é que tem de se perguntar por que quer passar por esse tipo de coisa, por que você gosta desse tipo de sofrimento, o que há de errado com você que...

            - Não me venha com essa, para cima de mim não!

            Havia algo mais, muito mais. Tudo o que ele precisava fazer era continuar pensando no assunto. Dei-lhe tudo o que você sempre quis, Rowan. Você sabe que sempre foi você quem nos manteve juntos. Se não fosse você, eu teria ido embora há muito tempo. Ellie algum dia lhe contou? Ela mentiu. Ela disse que podia ter filhos. E sabia que era mentira. Eu teria me mandado se não fosse por você.

            Entraram à direita, para o oeste, ele imaginou, numa rua escura e arborizada que subia um morro e depois descia. A súbita visão do céu escuro e límpido novamente, cheio de estrelas longínquas e desinteressantes, e do outro lado da baía negra, o belo espetáculo de Sausalito espalhando-se pelos morros abaixo até sua enseada pequena e apinhada. Ela não precisou lhe dizer que estavam quase chegando.

            - Posso lhe fazer uma pergunta, Dra Mayfair?

            - Sim?

            - A senhora, a senhora tem medo de me machucar?

            - Por que me faz essa pergunta?

            - Ocorreu-me uma idéia estranhíssima, que a senhora estava tentando... agora há pouco quando segurei sua mão... estava tentando me transmitir um aviso.

            Ela não respondeu. Ele soube que a abalou com essa frase. Foram descendo até a rua litorânea. Pequenos gramados, telhados empinados pouco visíveis por trás de cercas altas. Ciprestes de Monterey cruelmente retorcidos pelos implacáveis ventos do oeste. Um encrave de residências milionárias. Ele quase nunca via casas modernas tão maravilhosas.

            Ele sentia o cheiro do mar ainda mais forte do que havia sentido na Golden Gate. Ela entrou num caminho calçado e desligou o motor. Os faróis iluminaram um grande portão duplo de sequóia. Depois foram apagados. Da casa mais adiante ele não via nada a não ser sua massa escura contra o céu mais pálido.

            - Preciso de um favor seu - disse ela, olhando para frente, em silêncio. O cabelo caiu encobrindo seu perfil quando ela abaixou a cabeça.

            - Ora, acho que chegou a sua vez - respondeu ele, sem hesitar. Ele tomou mais um gole espumante da cerveja. - O que quer? Que eu entre ali, ponha minhas mãos no chão da cozinha e lhe diga o que aconteceu quando ele morreu, o que no fundo o matou?

            Mais um golpe. Silêncio na cabine escura do carro. Ele percebia intensamente sua proximidade, a fragrância doce e límpida da sua pele. Ela se voltou para encará-lo. A luz da rua lançava seu clarão em fragmentos amarelos através dos galhos da árvore. A princípio ele achou que seus olhos estavam baixos, quase fechados. Depois notou que estavam abertos e que olhavam para ele.

            - É, é isso o que eu quero. É esse o tipo de coisa que eu quero.

            - Tudo bem - respondeu ele. - Foi falta de sorte que acontecesse durante uma discussão daquelas. Você deve ter se sentido culpada.

            O joelho de Rowan roçou no dele. Mais uma vez, calafrios.

            - O que o faz achar isso?

            - Você não suporta a idéia de fazer mal a alguém - disse ele.

            - Isso é ingenuidade sua.

            - Doutora, posso ser biruta - disse, rindo - mas ingênuo não sou. A família Curry nunca criou ingênuos. - Ele bebeu o resto da lata de cerveja num longo gole. Flagrou-se olhando fixamente a pálida linha de luz do seu queixo, o cabelo sedoso, cacheado. Seu lábio inferior parecia cheio, macio e delicioso para ser beijado...

            - Então é alguma outra coisa. Digamos que seja inocência, se preferir.

            Ele riu da sugestão sem responder. Se ela ao menos soubesse o que lhe estava passando agora pela cabeça enquanto ele olhava para sua boca, aquela boca encantadora, exuberante.

            - E a resposta a essa pergunta é sim - disse ela, descendo do carro. Ele abriu a porta e se levantou.

            - De que pergunta você está falando? - Ele estava ruborizado. Ela tirou a mala do banco traseiro.

            - Ora, você sabe - disse ela.

            - Eu não sei!

            Ela deu de ombros enquanto se dirigia ao portão.

            - Você queria saber se eu iria para a cama com você. A resposta é sim, como acabei de lhe dizer.

            Ele a alcançou quando ela passava pelo portão. Um grande caminho de concreto levava a portas duplas de teca escura.

            - Bem, eu me pergunto por que ainda nos damos ao trabalho de falar. - Ele tirou a mala da sua mão enquanto ela procurava a chave.

            Ela pareceu novamente um pouco confusa. Fez um gesto para que ele entrasse. Ele mal percebeu quando ela lhe tirou a sacola de cervejas. A casa era infinitamente mais bonita do que ele havia imaginado. Ele havia conhecido e explorado uma infinidade de casas antigas. Já esse tipo de casa, essa obra-prima moderna executada com esmero, era algo desconhecido para ele.

            O que ele via agora era um enorme espaço de assoalho de tábuas corridas largas, que passava da sala de jantar para a de estar, e daí para a de jogos, sem qualquer divisória. Paredes de vidro davam para um amplo deque de madeira ao sul, a oeste e ao norte, uma larga varanda sem teto levemente iluminada pela luz baça de um projetor aqui, outro ali. Mais além, a baía era simplesmente negra e invisível. E a oeste, as pequenas luzes cintilantes de Sausalito eram delicadas e íntimas em comparação com a vista distante e esplêndida do perfil apinhado e fortemente colorido de San Francisco, ao sul.

            A neblina era agora apenas uma estreita faixa de névoa em contraste com o brilho da noite. Ela raleava e se dissipava diante dos seus olhos. Ele poderia ter ficado apreciando a vista para sempre, mas a casa lhe dava uma impressão de algo semelhante a um milagre. Dando um longo suspiro, ele passou a mão pela parede de juntas de macho e fêmea, admirando o mesmo belo trabalho embutido do teto altíssimo para além das vigas pesadas que convergiam íngremes para um ponto central. Tudo de madeira, madeira de veios belíssimos, cavilhada, ajustada, polida e conservada primorosamente. A madeira emoldurava as sólidas portas de vidro. Havia acessórios de madeira espalhados por toda parte, com reflexos opacos de vidro ou couro, pernas de mesas e de cadeiras espelhadas no piso encerado.

            Na extremidade leste da casa, ficava a cozinha que ele havia visto naquela primeira visão: um grande nicho de armários e balcões escuros e reluzentes panelas de cobre suspensas de ganchos altos. Uma cozinha para ser admirada tanto quanto para se trabalhar nela. Apenas uma funda lareira de pedra, com o piso alto e amplo, o tipo de piso em que se podia sentar, separava os outros aposentos da cozinha.

            - Eu achava que você não fosse gostar - disse ela.

            - Ora, ela é maravilhosa - disse ele, com mais um suspiro. - É construída como um navio. Nunca vi uma casa moderna tão bem feita.

            - Você sente que ela se mexe? Foi feita para se mover com a água.

            Ele caminhou lentamente pelo denso tapete da sala de estar. E só então viu uma escada de ferro em curva por trás da lareira. Uma luz fraca, amarelada vinha de um portal lá em cima. Ele imediatamente pensou em quartos de dormir, em quartos amplos como essas salas, em ficar deitado no escuro com ela e o faiscar das luzes da cidade. Sentiu novamente o rosto esbraseado.

            Olhou para ela de relance. Será que ela havia captado também esse pensamento como alegava ter captado aquela pergunta anterior? Ora, qualquer mulher teria percebido sua intenção. Ela estava parada na cozinha diante da porta aberta da geladeira, e pela primeira vez ele realmente viu seu rosto na luz branca e pura. Sua pele tinha uma suavidade quase asiática, só que ela era loura demais para ser oriental. Era uma pele tão retesada que duas covinhas apareceram quando ela sorriu para ele.

            Ele foi na sua direção, mais uma vez com a percepção penetrante da sua presença física, do jeito que a luz rebatia nas suas mãos, do movimento sedutor do seu cabelo. Ele concluiu que, quando as mulheres usam o cabelo nesse estilo, cheio e curto, mal roçando a gola ao balançar, ele se torna uma parte vital de cada gesto seu. Quando se pensa nelas, pensa-se no seu bonito cabelo.

            No entanto, quando ela fechou a porta da geladeira, no instante em que a luz branca se apagou, ele percebeu que através da vidraça norte da casa, muito à sua esquerda e próximo à porta da frente, ele via uma enorme lancha cruzeiro branca, ancorada. Um projetor fraco iluminava sua imensa proa, suas numerosas vigias e as janelas escuras da cabine de comando.

            Parecia monstruosa, algo absolutamente impossível, como uma baleia encalhada ali, grotescamente próxima da mobília confortável e dos tapetes espalhados que o cercavam. Brotou nele algo quase como um pânico. Um estranho horror, como se ele tivesse experimentado algum pavor na noite em que foi salvo que agora fazia parte do que havia esquecido.

            Nada a fazer a não ser ir até lá. Nada a fazer a não ser por as mãos no convés. Ele se flagrou indo na direção das portas de vidro. Parou, então, confuso, e ficou olhando enquanto ela soltava a tranca e fazia correr a porta pesada.

            Atingiu-o uma rajada de vento frio e salgado. Ele ouvia os rangidos da imensa embarcação. E a fraca luz lunar do projetor lhe parecia sinistra e decididamente desagradável. Bem construída, lhe haviam dito. Ele acreditava agora ao olhar a embarcação. Exploradores haviam atravessado os oceanos do planeta em barcos muito menores do que esse. Mais uma vez, ele lhe pareceu grotesco, assustadoramente desproporcional.

            Ele saiu para o cais, com a gola batendo-lhe no rosto, e foi até a borda. A água era totalmente negra ali embaixo, e ele sentia seu cheiro, o cheiro úmido e inevitável das coisas mortas do mar.

            Bem ao longe, do outro lado da baía, ele mal vislumbrava as luzes de Sausalito, mas o frio penetrante se interpôs entre ele e qualquer imagem pitoresca, e ele percebeu que tudo o que detestava neste clima do oeste estava reunido neste momento. Nunca um inverno rigoroso, nem um verão escaldante, só esse frio eterno, essa eterna desolação inóspita.

            Ele estava tão feliz com a idéia de que logo estaria de volta, tão feliz de que o calor de agosto estaria lá à sua espera, como uma coberta protetora. As ruas do Garden District, com as árvores oscilando num vento morno, inofensivo... No entanto, este era o barco e este era o momento. Vamos agora subir nesse monstro, com suas vigias e seus conveses de aparência escorregadia, a balançar delicadamente batendo nos pneus de borracha preta presos ao longo do cais. Ele não gostava muito da embarcação, disso tinha certeza.

            E estava feliz de estar usando suas luvas.

            Sua experiência com barcos era limitada exclusivamente aos de grande porte: as velhas barcaças do rio da sua infância e as grandes e poderosas embarcações de cruzeiro que transportavam centenas de pessoas de um lado a outro da baía de San Francisco. Quando ele olhava para um barco como este, tudo o que pensava era na possibilidade de cair ao mar.

            Ele seguiu pelo lado da embarcação até chegar à popa, por trás da cabine de comando grande e desajeitada, e ali segurou a balaustrada, saltando para o lado (espantado por um instante com o fato do barco balançar sob seu peso) e passou o mais rápido possível para o convés traseiro.

            Ela veio logo atrás dele.

            Ele detestava aquilo, o chão a se mexer abaixo dos pés! Meu Deus, como é que as pessoas podiam suportar os barcos? Logo, a embarcação pareceu bastante estável. A balaustrada à sua volta era alta o suficiente para lhe dar uma sensação de segurança. Havia até mesmo um pequeno abrigo contra o vento.

            Ele espiou um instante pela porta de vidro da cabine de comando. Um brilho de mostradores, aparelhinhos. Poderia bem ser a cabine de um avião a jato. Talvez houvesse ali dentro uma escada até as cabines abaixo do convés. Bem, isso não era da sua conta. O que importava era o próprio convés, pois era ali que ele havia ficado ao ser salvo.

            O vento do mar rugia nas suas orelhas. Ele se voltou e olhou para ela. Seu rosto estava totalmente escuro em contraste com as luzes distantes. Ela tirou a mão do bolso do casaco e indicou um lugar nas tábuas à sua frente.

            - Foi bem aqui - disse ela.

            - O lugar em que abri os olhos? Em que respirei pela primeira vez?

            Ela fez que sim.

            Ele se ajoelhou. O movimento do barco agora lhe parecia lento e sutil, seu único som um leve rangido que não parecia vir de nenhum lugar específico. Ele tirou as luvas, enfiou-as nos bolsos e flexionou as mãos.

            Colocou-as depois nas madeiras. Frio, umidade. O lampejo veio, como sempre, de parte alguma, isolando-o do momento presente . No entanto, não foi seu salvamento o que ele viu, apenas fragmentos de outras pessoas no meio de conversas e movimentos. A Dra Mayfair, depois mais uma vez o homem odiado, e com eles uma mulher mais velha, bonita, muito amada, uma mulher chamada Ellie, mas essa camada deu lugar a outra e mais outra, e as vozes viraram ruído.

            Ele caiu para a frente, de quatro. Estava ficando tonto, mas se recusava a parar de tocar as tábuas. Tateava como se fosse cego. - Quero ver Michael! - disse ele. - Quero Michael!

            De repente, cresceu nele a raiva por toda a tristeza daquele longo verão perdido.

            - Quero Michael! - disse ele, enquanto internamente forçava o poder, exigia que ele se concentrasse, ganhasse foco e alcançasse as imagens que ele desejava.

            - Meu Deus, o instante em que respirei pela primeira vez - disse, baixinho. Mas era como folhear volumes e mais volumes à procura de uma única linha. Graham, Ellie, vozes que se erguiam e colidiam umas com as outras.

            Ele se recusava a encontrar palavras na sua cabeça para o que estava vendo. Simplesmente rejeitava a visão.

            - Quero o instante. - Deitou-se de bruços com o rosto tocando no convés áspero. De repente, o instante pareceu explodir à sua volta, como se a madeira abaixo do seu corpo estivesse se incendiando. Mais frio do que agora, um vento mais forte. O barco jogava. Ela se inclinava sobre ele. E ele via a si mesmo deitado ali, um homem morto com o rosto branco, molhado. Ela batia no seu peito.

            - Acorde, droga, acorde!

            Seus olhos se abriram. É, o que eu vi, eu a vi, Rowan, sim. Estou vivo, estou aqui! Rowan, muitas coisas... A dor no seu peito era intolerável. Ele nem mesmo sentia as mãos ou as pernas. Aquilo era a sua mão, que subia e agarrava a dela?

            Preciso explicar, a história toda antes...

            Antes do quê? Ele tentava se agarrar à lembrança, se aprofundar nela. Antes do quê? Mas ali não havia nada além do rosto oval e pálido, do jeito que ele o havia visto naquela noite, com o cabelo enfiado no gorro de marinheiro.

            De repente, no momento atual, ele dava socos no convés.

            - Dê-me sua mão - gritou ele. Ela se ajoelhou ao seu lado. - Pense, pense no que estava acontecendo naquele momento em que eu respirei pela primeira vez. Ele já sabia, porém, que não ia adiantar. Ele só via o que ela via. A si próprio, um homem morto voltando à vida. Uma coisa morta e molhada que se batia no convés com os golpes que ela não parava de aplicar no seu peito. Depois, a fenda prateada entre as pálpebras quando ele começou a abrir os olhos.

            Ficou ali imóvel muito tempo, com a respiração irregular. Ele sabia que estava sentindo um frio tremendo, apesar de não ser nada em comparação com o daquela noite terrível, e que ela estava parada ali, esperando, paciente. Ele teria chorado, mas estava cansado demais para isso, derrotado demais.

            Era como se as imagens o derrubassem com violência quando surgiam. Ele só queria a tranqüilidade. As mãos estavam agora fechadas, como punhos. Ele não se mexia.

            Houve, no entanto, alguma coisa ali. Algo que ele descobriu, um pequeno detalhe que antes ele não sabia. Era sobre ela. Naqueles primeiros segundos, ele sabia quem ela era, tinha conhecimento da sua existência. Sabia que seu nome era Rowan.

            Como, porém, confiar numa conclusão dessas? Meu Deus, sua alma doía de todo aquele esforço. Ele jazia ali derrotado, furioso, sentindo -se tolo e ao mesmo tempo agressivo. Ele teria chorado se ela não estivesse ali.

            - Tente de novo - disse ela, então.

            - Não adianta. É uma outra linguagem. Não sei usá-la.

            - Tente - insistiu ela.

            E ele tentou. Mas dessa vez não conseguiu nada a não ser os outros. Relances de dias ensolarados, imagens rápidas de Ellie e depois de Graham.

            De outros, muitos outros, raios de luz que o teriam levado numa direção ou na outra. A porta da cabine de comando batendo com o vento, um homem que vinha do piso inferior, sem camisa, e Rowan. É, Rowan, Rowan, Rowan, Rowan ali em todas as imagens que havia visto, sempre Rowan, e às vezes uma Rowan feliz.

            Nunca ninguém havia estado neste barco que Rowan não estivesse presente. Ele voltou a se ajoelhar, mais confuso com a segunda tentativa do que com a primeira. A impressão de já a conhecer naquela noite era apenas uma ilusão, uma fina camada da sua profunda impressão sobre este barco, que apenas se mesclou às outras camadas através das quais ele tentou passar. Ele talvez já a conhecesse por segurar sua mão, talvez a conhecesse porque antes de ser ressuscitado ele já soubesse de que modo isso aconteceria. Ele nunca saberia ao certo.

            A questão principal era que agora ele não a conhecia, e ainda não conseguia se lembrar! Ela era apenas uma mulher muito paciente e compreensiva, e ele devia lhe agradecer e ir embora.

            - Que vá tudo para o inferno! - disse ele entre dentes, sentando-se. Ele calçou as luvas. Apanhou o lenço, assoou o nariz e depois levantou a gola para se proteger do vento, mas de que adiantava isso com um leve paletó cáqui?

            - Vamos entrar - disse ela, pegando sua mão como se fosse a de uma criança pequena. Ele estava surpreso por estar gostando tanto dessa sua atitude. Depois que saltaram do maldito barco, instável e escorregadio, e estavam em pé no cais, ele se sentiu melhor.

            - Obrigado, doutora. Valia a pena tentar. Você me permitiu tentar, e nunca vou lhe poder agradecer o suficiente por isso.

            Ela o enlaçou com um braço. Seu rosto estava muito próximo do dele.

            - Talvez funcione de uma outra vez. - Sensação de conhecê-la, de que abaixo do convés havia uma pequena cabine na qual ela muitas vezes dormia com a foto dele colada no espelho. Ele estava enrubescendo mais uma vez.

            - Entre - disse ela, puxando-o.

            O abrigo da casa era agradável, mas ele estava triste demais e cansado demais agora para pensar nisso. Queria descansar. Mas não tinha coragem. Pensava que tinha de ir para o aeroporto, que tinha de apanhar a mala e sair dali, para depois dormir numa cadeira de plástico. Esse havia sido um dos caminhos para a descoberta, e agora estava fechado. Por isso, ele ia seguir pelo outro caminho o mais rápido possível.

            Ao voltar o olhar de relance ao barco, ele pensou que queria lhes dizer mais uma vez que não havia abandonado o objetivo, que só não conseguia se lembrar dele. Ele nem mesmo sabia se o portal era um portal em termos literais. E o número, havia um número, não? Um número de grande importância.

            Ele se encostou na porta de vidro, forçando a cabeça contra o vidro.

            - Não quero que você vá - disse ela, baixinho.

            - Eu também não quero ir, mas preciso. Você entende? Eles realmente esperam algo de mim. Disseram-me o que era, e eu tenho de fazer o possível. E voltar para lá faz parte da história.

            Silêncio.

            - Foi bondade sua me trazer aqui.

            Silêncio.

            - Talvez...

            - Talvez o quê? - Ele se voltou.

            Ela estava novamente de costas para a luz. Havia tirado o casaco, e parecia angulosa e elegante no enorme suéter de tranças grossas, com suas longas pernas, malares magníficos e pulsos finíssimos.

            - Não seria possível que houvesse a intenção de você esquecer? - perguntou ela. Isso nunca lhe havia ocorrido. Por um instante, ele não respondeu.

            - Você acredita nessa minha história das visões? Quer dizer, você leu o que saiu nos jornais? Aquela parte era verdade. Quer dizer, os jornais fizeram com que eu parecesse estúpido, biruta. Mas a questão é que havia tanta coisa, tanta, e... Ele gostaria de poder ver um pouquinho melhor o seu rosto.

            - Acredito em você - disse ela, simplesmente. Parou um pouco e depois prosseguiu. - É sempre assustador ver a morte por um triz, uma situação aparentemente casual que deixa um grande impacto. Preferimos acreditar que houve uma intenção...

            - Mas houve uma intenção!

            - Eu ia dizer que no seu caso foi realmente por um triz porque estava quase escuro quando eu o avistei na água. Cinco minutos depois, eu talvez não o visse mais, talvez não tivesse nenhuma condição de vê-lo.

            - É muita gentileza sua ficar procurando explicações a torto e a direito. Eu realmente lhe sou grato. Mas, veja bem, o que eu me lembro, quer dizer, a impressão é tão forte que nada disso é necessário para explicar. Eles estavam lá, Dra. Mayfair. E...

            - O que foi?

            Ele abanou a cabeça.

            - Só um frisson, um desses momentos malucos em que é como se eu me lembrasse, e de repente tudo sumiu. Lá no convés também senti algo assim. A percepção de que, sim, ao abrir os olhos, eu sabia o que havia acontecido... e depois mais nada...

            - A palavra que pronunciou, que balbuciou...

            - Não a ouvi. Não me vi dizendo essa palavra. Mas vou lhe dizer algo. Acho que naquela hora no barco eu sabia seu nome. Eu sabia quem você era.

            Silêncio.

            - Mas não tenho certeza. - Ele se voltou, perplexo. O que estava fazendo? Onde estava sua mala? E ele realmente precisava ir embora, só que estava tão cansado e não queria ir.

            - Não quero que vá - repetiu ela.

            - Está falando sério? Eu podia ficar aqui um pouco? - Ele olhou para ela, para a sombra escura da sua silhueta esguia tendo ao fundo a distante vidraça levemente iluminada. - Ah, eu queria tê-la encontrado antes. Eu queria... Eu preferia... Quer dizer, parece tão idiota, mas você é muito...

            Ele se aproximou um pouco para vê-la melhor. Seus olhos tornaram-se visíveis, parecendo muito grandes e longos para olhos fundos, e sua boca era generosa e macia. No entanto, à medida que ele foi se aproximando mais, ocorreu uma estranha ilusão. À luz suave que vinha através das paredes, seu rosto parecia ameaçador e perverso. Sem dúvida, era um engano. Ele não estava percebendo sua verdadeira expressão. A figura que o encarava parecia estar com a cabeça baixa, espionando-o por baixo da franja loura e lisa, numa atitude de perfeito ódio.

            Ele parou. Tinha de ser um engano. Mesmo assim, ela estava ali, totalmente imóvel, sem perceber o medo que ele agora sentia, ou sem se importar com ele. Ela então veio na sua direção, entrando na faixa de luz que entrava pela porta ao norte.

            Como estava triste e bonita! Como era possível que ele tivesse se enganado a esse ponto? Ela estava a ponto de chorar. Na realidade, era simplesmente terrível ver a tristeza no seu rosto, ver a fome súbita e silenciosa e a emoção derramada.

            - O que foi? - murmurou ele, abrindo os braços. Ela de imediato colou o corpo ao seu. Os seios pareciam grandes e macios em contato com seu tórax. Ele a envolveu com um abraço e passou os dedos enluvados pelo seu cabelo.

            - O que foi? - perguntou mais uma vez, baixinho, mas não era no fundo uma pergunta. Era, sim, uma pequena carícia reconfortante em palavras. Ele sentia o coração dela a pulsar, a respiração ofegante. Ele mesmo tremia. O sentimento de proteção despertado nele estava se aquecendo, transformando-se rapidamente em desejo.

            - Não sei - respondeu ela, num sussurro. - Não sei. - E agora estava chorando em silêncio. Ergueu os olhos e, entreabrindo a boca, começou a beijá-lo com muita suavidade. Era como se não quisesse beijá-lo contra sua vontade. Ela lhe deu todo o tempo necessário para ele se afastar. E é claro que ele não tinha a menor intenção de fazer isso.

            Ele foi tragado de imediato como havia sido no carro quando lhe tocou a mão, mas dessa vez o que o envolvia era sua carne macia, voluptuosa e bem sólida. Ele a beijava sem parar, sugando-lhe o pescoço, o rosto, os olhos. Com a mão enluvada, acariciou seu rosto, sentiu sua pele lisa por baixo do pesado suéter de lã. Meu Deus, se ao menos pudesse tirar as luvas... Mas se as tirasse, ele estaria perdido, e todo o desejo iria se evaporar em meio à confusão.

            Estava se agarrando desesperado a esse momento, desesperado. E ela já acreditava erroneamente, ela já receava tolamente...

            - Quero, quero, sim. Como você pôde pensar que eu não quisesse, que eu não... como pôde acreditar nisso? Abrace-me, Rowan. Abrace-me forte. Estou aqui. Estou com você.

            Chorando, ela se entregou aos seus braços. Sua mão tentou arrancar-lhe o cinto, abrir-lhe o zíper, mas esses foram gestos desajeitados, em vão. Ela soltou um gemido. Pura dor. Ele não agüentou mais.

            Beijou-a de novo. Beijou-lhe o pescoço quando ela jogou a cabeça para trás. Apanhou-a depois no colo e a carregou devagar atravessando a sala e subindo a escada de ferro, caminhando lentamente pelas curvas, até entrar num quarto amplo e escuro voltado para o sul. Jogaram-se numa cama baixa.

            Ele a beijou novamente, alisando seu cabelo para trás, adorando a sensação da sua pele mesmo através das luvas, olhando para seus olhos fechados, para os lábios entreabertos, indefesos. Quando tentou puxar o suéter, ela se esforçou para ajudar e afinal o arrancou pela cabeça, deixando o cabelo lindamente despenteado.

            Quando ele viu seus seios através da fina proteção de náilon, ele os beijou mesmo por cima do tecido, numa provocação proposital a si mesmo, com a língua tocando o círculo escuro do mamilo antes de afastar o sutiã. Como seria a sensação do couro preto tocando sua pele, acariciando-lhe os seios?

            Ele os levantou para beijar a curva morna debaixo deles (adorava essa dobra excitante) e chupou os bicos com força, segurando e massageando a carne com a palma da mão.

            Ela se contorcia por baixo dele, com o corpo aparentemente indefeso, os lábios roçando o queixo mal barbeado, depois macios e doces sobre sua boca, as mãos se esgueirando para dentro da camisa a tatear seu peito como se adorasse sua firmeza.

            Enquanto ele chupava os bicos dos seus seios, ela beliscava os dele. Ele estava tão duro que não ia mais agüentar. Parou, ergueu-se nas mãos, tentou recuperar o fôlego e depois se deixou cair ao seu lado. Ele sabia que ela estava tirando os jeans. Puxou-a para perto, sentindo a carne lisa das suas costas e descendo para a curva de suas nádegas gostosas de agarrar e de apertar.

            Não havia mais como esperar. Nenhuma condição. Num impulso de impaciência, ele tirou os óculos e os jogou na mesa-de-cabeceira. Agora, ela era um borrão delicado e apetitoso, mas os detalhes físicos que ele havia visto não sairiam do seu pensamento. Ele estava por cima. A mão dela procurou sua cintura, abriu o zíper das calças e tirou seu sexo para fora, sem delicadeza, dando-lhe tapas como se quisesse verificar sua firmeza, um pequeno gesto que quase o fez gozar. Ele sentiu as cócegas dos pêlos crespos, o calor dos lábios internos e finalmente a própria bainha tensa, pulsante, quando ele a penetrou.

            Pode ser que ele tenha gritado. Ele não sabia. Ela se ergueu no travesseiro, com a boca presa à dele, os braços puxando-o para si, a bacia grudada à dele.

            - Mete gostoso - sussurrou ela. Foi como o tapa: um aguilhão que fez chegar à ebulição sua fúria contida. Suas formas frágeis, sua carne macia, frágil, tudo só o instigava. Nenhum estupro imaginado que ele pudesse ter cometido em sonhos secretos e inexplicáveis jamais havia sido mais brutal.

            Seus quadris batiam com força nos dele. E ele viu vagamente o rubor do seu rosto e os seios nus enquanto gemia. Ao penetrar nela repetidamente, ele viu seus braços abertos, largados, um instante antes de fechar os olhos e explodir dentro dela.

            Afinal, exaustos, eles se separaram, caindo entre os lençóis de flanela. Seus braços que antes estavam entrelaçados no dele, esticado. O rosto dele, mergulhado nos seus cabelos perfumados. Ela veio se aconchegar. Puxou o lençol solto, esquecido, de modo a cobrir os dois. Ela se voltou para ele e se aninhou no seu ombro.

            O avião que esperasse, o objetivo que esperasse. A dor e a agitação que passassem. Em qualquer outra hora ou lugar, ele a teria considerado irresistível. Agora, porém, ela era mais do que isso, mais do que suculenta, ardente, cheia de mistério e de um fogo aparentemente perfeito . Ela era algo divino, e ele precisava tanto dela que era de entristecer.

            Seu braço macio e sedoso envolveu-lhe o pescoço quando ele a puxou para si. Ele ouvia seu coração batendo junto a sua pele. Alguns momentos mais tarde, oscilando perigosamente à beira do sono profundo, ele se sentou de repente e, meio tonto, tirou as roupas quentes.

            Ficou então deitado com ela, nu, à exceção das luvas, respirando seu calor e ouvindo seus suspiros entorpecidos, enquanto mergulhava em sonhos ao seu lado.

            - Rowan - sussurrou. E, ele sabia tudo a respeito dela. Ele a conhecia. Estavam lá embaixo. Diziam, Acorde, Michael, desça. Haviam feito um belo fogo na lareira. Ou não seria simplesmente um fogo em torno deles, como uma floresta em chamas? Ele achou que ouvia o rufar de tambores. Michael.

            Uma vaga recordação do desfile de carnaval naquela remota noite de inverno, das bandas tocando a cadência feroz, medonha, enquanto os archotes tremeluziam nos galhos dos carvalhos. Estavam ali, no andar inferior, e tudo o que ele tinha a fazer era acordar e descer. No entanto, pela primeira vez em todas essas semanas desde que o haviam abandonado, ele não queria vê-los, não queria se lembrar deles.

            Sentou-se, olhando com espanto o pálido céu leitoso da manhã. Suava, e seu coração batia forte. Quietude. Cedo demais para o sol. Ele apanhou os óculos e os pôs no rosto. Não havia ninguém nesta casa: nem tambores, nem cheiro de fogo. Absolutamente ninguém, a não ser eles dois, mas ela não estava mais na cama ao seu lado. Ele ouvia os assobios dos caibros e das estacas, mas era só o movimento da água que os fazia zumbir. E depois vinha um som vibrante e profundo, mais como um tremor do que um ruído: ele soube que era a grande lancha cruzeiro, balançando no cais. Aquele monstro fantasmagórico dizendo: Estou aqui.

            Ele ficou sentado um instante, sem animo, examinando a mobília espartana. Tudo muito bem feito da mesma bela madeira com veios que ele havia visto no andar inferior. Vivia aqui alguém que adorava a madeira de lei, que gostava de tudo arrumado com perfeição. Naquele quarto, tudo era bem baixo: a cama, a escrivaninha, as cadeiras espalhadas. Nada a impedir a vista das janelas que subiam até o teto.

            No entanto, ele sentia o cheiro de fogo. É, e ao prestar atenção também o ouvia. Um roupão estava à sua disposição, um daqueles grossos roupões brancos de toalha, do tipo que ele adorava. Vestiu-o e desceu à sua procura.

            O fogo estava aceso. Até aí, ele estava com a razão. Não havia, porém, nenhuma horda de seres de sonho aglomerada à sua volta. Ela estava sentada, com as pernas cruzadas, no piso de pedra junto à lareira, no seu próprio roupão, com seus membros finos quase perdidos nas dobras. Mais uma vez tremia e chorava.

            - Perdoe-me, Michael. Lamento tanto - sussurrou, com aquela sua voz grave e aveludada. O rosto estava molhado e extenuado.

            - Mas, querida, por que você iria dizer uma coisa dessas? - Perguntou, sentando-se ao seu lado e a envolvendo com os braços. - Rowan, o que neste mundo você pode lamentar ter feito?

            Suas palavras vieram de supetão, derramando-se com tanta velocidade que ele mal conseguia acompanhar. Que ela havia feito essa exigência imensa a ele, que ela queria tanto ficar com ele, que os últimos meses haviam sido os piores da sua vida e que sua solidão havia sido quase insuportável.

            Ele não parava de lhe beijar o rosto.

            - Gosto de estar com você. Quero estar aqui. Não quero estar em nenhum outro lugar do mundo...

            Ele se interrompeu, pensando no avião para Nova Orleans. Bem, aquilo podia esperar. E meio desajeitadamente começou a explicar como estivera cativo na casa em Liberty Street.

            - Eu não apareci porque sabia que isso ia acontecer - disse ela. - E você tinha razão: eu queria saber, queria que tocasse minha mão com as suas, que tocasse o chão da cozinha, ali onde ele morreu, eu queria... você entende? Não sou o que aparento ser...

            - Eu sei o que você é, Rowan. Uma pessoa muito forte para quem qualquer confissão de carência é terrível.

            Silêncio. Ela fez que sim com a cabeça.

            - Se ao menos isso fosse tudo - disse ela, com as lágrimas transbordando.

            - Fale comigo. Conte-me a história.

            Ela saiu dos seus braços com suavidade e ficou em pé. Caminhava descalça de um lado para o outro do aposento, aparentemente esquecida do frio. Novamente, tudo veio tão depressa, tantas frases longas e delicadas emitidas em profusão com tanta velocidade que ele tinha de se esforçar para ouvir. Para isolar o significado da beleza sedutora daquela voz. Ela havia sido adotada com um dia de vida. Havia sido levada da sua cidade natal, e ele sabia que se tratava de Nova Orleans? Isso ela lhe havia dito na carta que ele nunca recebeu. E é verdade, ele devia saber isso porque, ao ser reanimado, ele segurou sua mão e não a largou, como se não quisesse deixá-la. E pode ser que naquela hora alguma idéia louca e confusa houvesse sido transmitida, alguma súbita intensidade relacionada àquele lugar. O fato era que ela nunca havia ido até lá! Nunca havia conhecido a cidade. Nem mesmo sabia o nome completo da sua mãe.

            Ele sabia que havia um documento no cofre, logo ali, por trás daquele quadro, junto à porta, um documento que ela havia assinado comprometendo-se a jamais voltar a Nova Orleans, a jamais procurar saber alguma coisa sobre sua família, sobre seus pais verdadeiros? Arrancada, transplantada, com o passado eliminado como o cordão umbilical, e sem nenhum meio de reaver o que havia sido jogado fora. Ultimamente, porém, ela vinha pensando nisso, nesse terrível abismo negro, no fato de os dois não mais existirem, Ellie e Graham, no documento no cofre e em Ellie à morte, forçando-a a repetir enumeras vezes sua promessa.

            Eles a haviam tirado de Nova Orleans para vir para Los Angeles no avião das seis no mesmo dia em que nasceu. Ora, durante anos a fio, disseram-lhe que ela havia nascido em Los Angeles. Era isso o que estava na sua certidão de nascimento, um desses documentos falsos criados para filhos adotivos. Ellie e Graham haviam lhe falado mais de mil vezes do pequeno apartamento em West Hollywood, e em como ficaram felizes quando a trouxeram para casa.

            Essa, porém, não era a questão. A questão era que os dois estavam mortos, e com eles toda a sua história, erradicada com uma velocidade e abrangência que simplesmente a deixavam apavorada. E Ellie sofrendo tanto. Ninguém devia ter de sofrer assim. E a vida dos dois havia sido a maravilhosa vida moderna, realmente maravilhosa, embora seu mundo fosse egoísta, materialista; isso tinha de admitir.

            Nenhum vínculo com ninguém - parentes ou amigos - jamais interrompeu sua busca egocêntrica pelo prazer. E à cabeceira, ninguém a não ser Rowan enquanto Ellie berrava por mais morfina.

            Ele fazia que sim com a cabeça. Como compreendia bem! Sua própria vida não havia se tornado idêntica a isso? Atingiu-o uma súbita imagem de Nova Orleans: a porta de tela que se fechava, primos ao redor da mesa da cozinha, feijão com arroz e conversa, muita conversa...

            - Digo-lhe que quase a matei. Quase terminei com aquilo. Eu não podia... não podia... Ninguém conseguia me mentir a respeito. Sei quando as pessoas estão mentindo. Não é que eu consiga ler seus pensamentos, é mais sutil. É como se as pessoas estivessem falando com palavras em preto e branco numa página, e eu visse o que dizem em imagens coloridas. As vezes capto pensamentos, pequenos fragmentos de informação. E seja como for, sou médica. Nem tentaram mentir, e eu tinha total acesso às informações. Era Ellie quem sempre mentia, quem tentava fingir que aquilo não estava acontecendo. E eu sabia o que estava sentindo. Sempre soube. Desde quando era menina. Havia, ainda, uma outra coisa, um talento para saber. Chamo-o de sentido de diagnóstico, mas ele é mais do que isso. Coloquei minhas mãos nela e, mesmo quando estava num período de alívio de sintomas, eu sabia. O câncer está ali. Está voltando. Ela tem seis meses no máximo. E depois voltar para casa quando tudo estava acabado... Para esta casa, com todos os luxos, confortos e aparelhos concebíveis que alguém poderia...

            - Eu sei - disse ele, baixinho. - Todos os brinquedos que temos, todo o dinheiro.

            - É, e o que é isso tudo sem eles, agora, uma casca? Aqui não é o meu lugar. Se este lugar não é meu, não é de ninguém. Eu olho à minha volta... e fico apavorada, é o que lhe digo. Fico apavorada. Não, espere, não me venha consolar. Você não sabe. Não pude impedir a morte de Ellie, isso posso aceitar. Mas provoquei a morte de Graham. Eu o matei.

            - Não, você não fez isso - disse ele. - Você é médica e sabe...

            - Michael, você é um anjo que chegou a mim, mas ouça o que estou lhe contando. Você tem um poder nas mãos e sabe que é verdadeiro. Eu sei que é verdadeiro. No caminho até aqui, você demonstrou esse poder. Bem, eu tenho em mim um poder de força semelhante. Eu o matei. Antes dele, matei duas pessoas: um estranho e uma menina há muitos anos, uma menininha num pátio de escola. Li as conclusões das autópsias. Eu tenho o poder de matar! Sou médica hoje porque procuro negar esse poder. Construí minha vida com base numa compensação por esse mal!

            Ela respirou fundo. Passou os dedos pelo cabelo. Parecia desamparada e perdida naquele roupão grande e largo, amarrada pela cintura, uma Ganimedes com seu cabelo de pajem sedoso e desarrumado. Ele começou a ir na sua direção. Ela fez um gesto para que ele ficasse onde estava.

            - Há tanta coisa. Você sabe, eu criei essa fantasia de contar para você, logo para você...

            - Mas eu estou aqui, estou prestando atenção. Quero que me conte... - Com que palavras ele lhe poderia transmitir que ela o fascinava e o absorvia totalmente, e como isso era espantoso depois de todas aquelas semanas de agitação e loucura. Ela agora falava em voz baixa, contando como havia sido tudo com ela, como sempre havia sido apaixonada pela ciência, como a ciência era poesia para ela. Nunca havia pensado em ser cirurgiã. O que a fascinava era a pesquisa, os progressos incríveis, quase fantásticos, da neurologia. Ela queria passar a vida no laboratório onde acreditava existir a verdadeira

oportunidade para o heroísmo. E tinha um talento natural para aquilo, pode acreditar. Tinha mesmo.

            De repente, ocorreu a horrível experiência naquela pavorosa véspera de Natal. Ela estava prestes a ir para o Instituto Keplinger, para ali trabalhar com dedicação exclusiva a métodos de intervenção no cérebro que não envolvessem a cirurgia: o uso do raio laser, do bisturi gama, milagres que ela mal conseguia descrever a um leigo. Afinal de contas, ela nunca havia se sentido muito bem com os seres humanos. Será que o laboratório não era o seu lugar?

            E, ao que ela dizia, os últimos desdobramentos eram milagrosos, mas seu orientador, não importa qual era seu nome (ele agora estava morto mesmo havia morrido de uma série de pequenos derrames pouco depois do ocorrido e, por ironia, nem todos os cirurgiões do, mundo haviam conseguido prender e suturar aquelas rupturas fatais... mas ela só chegou a saber disso muito depois.) Voltando à história, ele a havia levado ao Instituto em San Francisco na véspera de Natal, porque essa era uma noite em que não haveria ninguém lá e ele estaria desrespeitando as normas ao lhe mostrar aquilo em que estavam trabalhando, na pesquisa com fetos vivos.

            - Eu o vi na incubadora, aquele pequeno feto. Sabe do que ele o chamava? De abortos. Odeio ter de lhe falar disso porque sei como você se sente com relação a Little Chris, sei...

            Ela não percebeu seu choque. Ele nunca lhe havia falado de Little Chris, nunca havia comentado com ninguém esse apelido, mas ela não deu a menor impressão de perceber isso. Ele continuou sentado, em silêncio, só prestando atenção ao que ela dizia, pensando vagamente em todos aqueles filmes que havia visto com aquelas imagens de fetos, terríveis e recorrentes, mas não quis interrompê-la. Queria que ela prosseguisse.

            - E aquela coisinha havia sido mantida viva, depois de um aborto espontâneo aos quatro meses, e eles estavam desenvolvendo meios para manter a vida de fetos ainda mais novos. Estavam falando de produzir embriões em provetas e de nunca devolvê-los ao útero, mas tudo isso para colher órgãos. Você devia ter ouvido os argumentos que usava, que o feto estava desempenhando um papel vital na cadeia da vida humana, dá para acreditar? E vou lhe dizer, o horrível, a parte realmente medonha, era que tudo aquilo era fascinante, e que eu estava adorando. Eu visualizava os usos em potencial que ele descrevia. Eu sabia que um dia seria possível criar cérebros novos e ilesos para vítimas de coma. Ai, meu Deus, você sabe tudo o que poderia ser feito, tudo o que eu, com meu talento, poderia ter realizado!

            - Dá para perceber - disse ele, baixinho, assentindo com a cabeça. - Dá para entender o horror e a sedução da idéia.

            - Exatamente - respondeu ela. - E você acredita que eu poderia ter uma carreira maravilhosa na área de pesquisa. Eu poderia ter sido um daqueles nomes citados nos livros. Talvez se pudesse dizer que eu nasci para isso. Quando descobri a neurologia, quando alcancei esse nível, por assim dizer, depois de toda a minha preparação, foi como se eu chegasse ao topo de uma montanha, e ali fosse meu chão, meu verdadeiro lar.

            O sol estava nascendo. Ele tocava no piso de tábua corrida onde ela se encontrava, mas ela parecia não perceber sua luz. Estava mais uma vez chorando, baixinho, com as lágrimas escorrendo simplesmente enquanto ela secava a boca com as costas da mão.

            Ela explicou como saiu correndo do laboratório, como fugiu de uma vez por todas da área de pesquisa e de tudo o que poderia ser realizado através dela. Fugiu do seu implacável desejo de poder sobre as pequeninas células fetais com sua surpreendente plasticidade. Ele compreendia como essas células podiam ser usadas para transplantes totalmente diferentes de outros transplantes?

            Compreendia que elas continuavam a se desenvolver? Que elas não detonavam as costumeiras reações imunológicas do receptor; que elas eram um campo deslumbrantemente promissor?

            - Pois era exatamente isso, não se via um limite ao que poderia ser feito. E imagine a quantidade de matéria-prima, uma pequena nação de não-pessoas, aos milhões. É claro que há leis contra isso. Sabe o que ele me respondeu? "Há leis contra isso porque todos sabem que está acontecendo."

            - Não é de surpreender - disse ele. - Não é, mesmo.

            - Àquela altura da minha vida, eu só havia matado duas pessoas. Mas, no meu íntimo, eu sabia que havia sido eu. Porque é algo relacionado ao meu próprio caráter, essa capacidade de resolver fazer algo e minha recusa de aceitar a derrota. Na sua forma mais primitiva, chame-o de mau gênio. Chame-o de fúria, na sua forma mais dramática. E na área de pesquisa, você imagina como eu poderia ter usado essa capacidade para resolver fazer, para resistir à autoridade, para seguir minha inspiração em algum projeto totalmente amoral e até mesmo desastroso? Não se trata de força de vontade. É impulsivo demais para ser força de vontade.

            - Determinação - disse ele. Ela concordou.

            - Agora veja bem, um cirurgião é um intervencionista. Ele ou ela é uma pessoa muito determinada. Você chega com a faca e diz, vou cortar fora metade do seu cérebro, e você vai melhorar. Quem teria a ousadia de fazer alguma coisa desse tipo a não ser alguém de grande determinação, alguém extremamente centrado, alguém muito forte?

            - Graças á Deus por isso.

            - Pode ser. - Ela deu um sorriso irônico. - Mas a confiança de um cirurgião não é nada em comparação com o que poderia ser extraído de mim no laboratório. E quero lhe dizer mais uma coisa, algo que acho que você vai compreender em virtude das suas mãos e das visões, algo que eu nunca poderia contar a outro médico porque de nada adiantaria.

            - Quando estou operando, visualizo o que estou fazendo. Quer dizer, mantenho na mente uma perfeita imagem multidimensional do efeito dos meus atos. Minha cabeça raciocina nos termos dessas imagens detalhadas. Quando você estava morto no convés do barco e eu soprei o ar na sua boca, visualizei seus pulmões, seu coração, o ar penetrando nos pulmões. Quando matei o homem no jipe, quando matei a menina, primeiro imaginei que seriam punidos. Imaginei-os cuspindo sangue. Naquela época, eu não tinha o conhecimento para imaginar nada mais perfeito do que isso, mas o processo era o mesmo, a mesma coisa.

            - Mas essas mortes poderiam ter sido naturais, Rowan.

            Ela abanou a cabeça.

            - Fui eu, Michael. E, com o mesmo poder me guiando, eu opero. E com o mesmo poder me guiando, eu o salvei.

            Ele não disse nada. Apenas esperava que ela continuasse. A última coisa que ele queria era discutir com ela. Meu Deus, ela parecia ser a única pessoa no mundo que realmente lhe dava ouvidos. E neste exato instante ela não estava precisando de ninguém que discutisse com ela. Mesmo assim, ele não sabia ao certo se ela estava enganada ou não.

            - Ninguém sabe dessas coisas - disse ela. - Fico parada nesta casa vazia, choro e falo em voz alta com ninguém. Ellie era minha melhor amiga neste mundo, mas eu não poderia ter contado para ela. E o que resolvi fazer? Tentei encontrar a salvação através da cirurgia. Escolhi a forma mais brutal e direta de intervenção. Mas nem todas as operações bem-sucedidas do planeta podem esconder de mim aquilo de que sou capaz. Eu matei Graham.

            - Sabe, acho que naquele instante em que Graham e eu estávamos ali juntos, acho que cheguei a me lembrar de Mary Jane no pátio e acho que cheguei a me lembrar do homem no jipe. E realmente acredito que realmente tive a intenção de usar o poder, mas só consigo me lembrar de ter visualizado a artéria. De tê-la visto se romper. Sei, no entanto, que acho que o matei deliberadamente. Quis que ele morresse para que não magoasse Ellie. Fiz com que ele morresse.

            Ela parou como se não tivesse certeza do que acabara de dizer ou como se acabasse de perceber que era a verdade. Ela afastou o olhar, na direção do mar. A água agora estava azul ao sol e cheia de unia luz ofuscante. Inúmeras velas haviam aparecido na superfície. E a casa inteira estava invadida pela paisagem ao redor, os morros escuros salpicados de construções brancas. E para Michael, tudo aquilo parecia deixá-la ainda mais só, ainda mais perdida.

            - Quando li acerca do poder das suas mãos, soube que era verdadeiro. Compreendi. Imaginei tudo que você estava sofrendo. São esses segredos que nos distinguem. Não espere que as outras pessoas acreditem, muito embora, no seu caso, elas tenham visto. No meu caso, ninguém jamais deve ver porque isso não deve nunca mais se repetir.

            - É disso que você tem medo? De que volte a acontecer?

            - Não sei. - Ela olhou para ele. - Quando penso naquelas mortes, a culpa é tão terrível que não tenho um objetivo, uma idéia ou um plano. Essa culpa é um obstáculo entre minha pessoa e minha vida. E mesmo assim, eu vivo, vivo melhor do que qualquer pessoa que eu conheça. - Ela riu baixinho, com ironia. - Todos os dias faço cirurgias. Minha vida é interessante. Mas não é o que poderia ter sido... - As lágrimas escorriam de novo. Ela olhava para ele, mas aparentemente era através dele. O sol batia direto nela, no seu cabelo louro.

            Ele queria tanto abraçá-la. O sofrimento de Rowan era para ele uma tortura. Ele mal suportava ver seus olhos cinzentos tão injetados e lacrimejantes. E o próprio retesamento do seu rosto dava uma terrível impressão quando as linhas de angústia de repente ficavam mais fortes e marcadas e as lágrimas caíam para depois o rosto voltar a ficar tranqüilo como se em conseqüência de algum choque.

            - Eu queria lhe dizer essas coisas - disse ela. Estava confusa, insegura. A voz, embargada. - Eu queria... estar com você e lhe contar. Acho que imaginei que, por ter salvado sua vida, talvez, de algum modo...

            Dessa vez, nada poderia tê-lo impedido de se aproximar dela. Levantou-se devagar e a tomou nos braços. Abraçou-a, beijando-lhe o pescoço sedoso, o rosto marcado de lágrimas, as próprias lágrimas.

            - Você imaginou certo... - Ele se afastou, tirou as luvas com impaciência e as jogou para um canto. Olhou por um instante para as próprias mãos e depois olhou para ela. Nos seus olhos viu uma expressão de vago espanto, com as lágrimas refletindo a luz do fogo. Ele, então, pôs as mãos na sua cabeça, tateando-lhe os cabelos e o rosto.

            - Rowan - sussurrou. Ordenou que todas as loucas imagens aleatórias parassem. Forçou-se a simplesmente vê-la agora, através das mãos. E surgiu mais uma vez a sensação deliciosa e envolvente dela, que havia surgido e desaparecido com tanta rapidez no carro. A sensação de estar imerso nela. E, com um zumbido súbito e violento, como o espasmo de eletricidade pelas suas veias, ele a conheceu. Conheceu a honestidade da sua vida, e sua intensidade.

            Conheceu sua bondade, sua inegável bondade. As imagens atabalhoadas, instáveis, não importavam. Elas eram fiéis ao todo que ele percebia, e o que importava era o todo, bem como a coragem do todo. Ele enfiou as mãos por dentro do roupão, tocando-lhe o corpo pequeno e magro, tão quente, tão delicioso aos seus dedos nus. Abaixou a cabeça e beijou o alto dos seus seios. Órfã, sozinha, cheia de medo mas tão forte, de uma força tão implacável.

            - Rowan - sussurrou ele, mais uma vez. - Nós é que importamos agora. Ele sentiu que ela suspirava e se entregava, como uma haste quebrada de encontro ao seu peito, e que no ímpeto do desejo toda sua dor desaparecia.

            Ele estava deitado no tapete, com o braço esquerdo dobrado para abrigar sua cabeça, a mão direita, relaxada, segurando um cigarro acima do cinzeiro, uma xícara de café fumegante ao seu lado. Já deviam ser umas nove horas. Ele havia ligado para a companhia aérea. Podiam acomodá-lo no avião do meio dia. No entanto, quando ele pensava em deixá-la, sentia-se cheio de ansiedade. Gostava dela. Gostava dela mais do que da maioria das pessoas que havia conhecido na sua vida e, talvez com maior precisão, estivesse encantado com ela, com sua óbvia inteligência e sua vulnerabilidade quase mórbida, que continuava a produzir nele um singular sentido de proteção, com o qual se sentia deliciado quase a ponto de se envergonhar.

            Depois de fazerem amor pela segunda vez, eles haviam conversado horas a fio. Falaram com tranqüilidade, sem urgência ou clímax de emoção, sobre suas vidas. Ela lhe contou como havia crescido em Tiburon, levando o barco para o oceano quase todos os dias da sua vida, como era ter freqüentado as melhores escolas. Falou mais sobre sua vida na medicina, sua primeira paixão pela pesquisa, seus sonhos de descobertas Frankensteinianas, de um modo mais detalhado e controlado. Surgiu, então, a descoberta do seu talento na sala de cirurgia. Sem a menor dúvida, ela era uma cirurgiã de incrível competência. Não sentia nenhuma necessidade de se gabar disso. Ela simplesmente descrevia o entusiasmo, a satisfação imediata, o quase desespero em que se encontrava desde a morte dos pais, sempre operando, sempre passando pelas enfermarias, sempre trabalhando. Em alguns dias, ela havia chegado a continuar operando até não conseguir mais ficar em pé. Era como se sua cabeça, suas mãos e seus olhos não fizessem parte do resto do corpo.

            Ele lhe falou sucintamente, e com um pouco de auto desvalorização, sobre seu próprio mundo, respondendo suas perguntas, animado pelo seu aparente interesse.

            - Classe operária - havia dito ele. E como ela ficou curiosa. Como eram as coisas lá no sul? Ele lhe falou das grandes famílias, dos enterros monumentais, da pequena casa estreita com seu piso de linóleo, das maravilhas no jardim minúsculo. Será que tudo lhe parecia antiquado? Talvez também desse essa impressão a ele agora, embora lhe doesse pensar nisso porque sentia tanta vontade de voltar para lá. - Não são só eles, as visões e tudo o mais. Quero voltar até lá. Quero caminhar por Annunciation Street também...

            - Esse é o nome da rua em que você cresceu? É lindo.

            Ele não lhe falou do mato nas sarjetas, dos homens sentados na escada da frente das casas com suas latas de cerveja, do cheiro de repolho cozido que nunca saía, dos trens à beira - rio que faziam chocalhar as janelas.

            Falar da vida aqui havia sido um pouco mais fácil. Falar de Elizabeth e de Judith, do aborto que destruiu sua vida com Judith, falar dos últimos anos e seu estranho vazio, da sensação de estar à espera de algo, embora ele não soubesse o que seria. Ele falou das casas e de como as amava. Da convergência de estilos que existia em San Francisco, as grandes residências em estilo vitoriano e italiano, a pensão em Union Street que ele tanto havia desejado restaurar.

            Depois, passou a falar das casas que realmente adorava, aquelas lá de Nova Orleans. Ele aceitava a existência de fantasmas nas casas, porque considerava que elas eram mais do que dormitórios, e não era de surpreender que pudessem roubar a alma de alguém.

            Foi uma conversa agradável, que aprofundou seu conhecimento um do outro, e ampliou a intimidade que já sentiam. Ele gostou de ouvi-la falar sobre sair ao mar: de ficar sozinha na ponte, com o café na mão e o vento zunindo pela cabine de comando. Ele não gostava de barcos, mas gostou de ouvi-la falar do seu. Apreciou a expressão nos seus olhos cinzentos, a simplicidade dos seus gestos lânguidos, despreocupados.

            Ele chegou mesmo a entrar naquela conversa maluca dos filmes e das imagens recorrentes de bebês e crianças vingativas. De como se sentiu ao perceber esses temas, como se tudo à sua volta estivesse se dirigindo a ele.

            Talvez estivesse a um passo do hospício, mas ele se perguntava se algumas das pessoas nos hospícios não estariam lá por entenderem de forma excessivamente literal os modelos que captavam. O que ela achava? E a morte? Bem, ele tinha muitas idéias sobre a morte, mas antes de mais nada um pensamento lhe ocorrera, mesmo antes do acidente, de que a morte de uma outra pessoa talvez seja o único acontecimento autenticamente sobrenatural que já experimentamos.

            - Não estou falando de médicos, agora. Estou falando de qualquer pessoa no mundo moderno. O que quero dizer é quando você olha para aquele corpo ali embaixo e percebe que toda a vida se foi, que você pode gritar com ele, dar-lhe tapas, tentar colocá-lo sentado e fazer o que quiser, que ele está morto, absoluta e inequivocamente morto...

            - Sei do que está falando.

            - E é preciso lembrar que a maioria de nós talvez tenha uma visão dessas uma ou duas vezes em vinte anos. Talvez nunca. Ora, na Califórnia, no momento atual, existe toda uma civilização de gente que nunca presenciou uma morte. Eles nunca chegaram a ver um cadáver! Pois não é que, quando eles ouvem dizer que alguém morreu, imaginam que ele se esqueceu de comer alimentos naturais ou que não vinha se exercitando como devia...

            Ela riu baixinho, num sussurro.

            - Cada maldita morte é um assassinato. Por que você acha que perseguem os médicos com seus advogados?

            - Isso mesmo, mas é ainda mais profundo. As pessoas não acreditam que vão morrer! E quando alguém morre, isso acontece a portas fechadas, o caixão é lacrado, se o pobre palerma teve o mau gosto de chegar a querer um caixão e um enterro, que é óbvio que ele não deveria ter desejado. Melhor um serviço em memória do falecido em algum lugar sofisticado, com sushi, vinho branco e as pessoas se recusando a mencionar em voz alta o motivo pelo qual estão ali! Ora, fui a serviços em memória de alguém aqui na Califórnia, nos quais ninguém chegou a tocar no nome do falecido! Mas se você realmente presenciar uma morte... e não for médico, enfermeiro ou agente funerário, bem, trata-se de um acontecimento sobrenatural de primeira, provavelmente o único ao qual terá acesso.

            - Pois deixe-me lhe contar de um outro acontecimento sobrenatural - disse ela, sorrindo. - Quando você está com um desses defuntos deitado no convés do barco, e você o esbofeteia e fala com ele, e de repente os olhos se abrem de verdade e o cara está vivo.

            Ela lhe deu um sorriso tão lindo. Ele começou a beijá-la, e foi assim que terminou aquele segmento da conversa. A questão principal era, porém, que ele não a havia perdido com aquelas divagações birutas. Nem uma única vez ela havia se desligado do que ele dizia.

            Por que, então, essa outra coisa tinha de estar acontecendo? Por que essa sensação de tempo perdido?

            Ele estava agora deitado no tapete, pensando em como gostava dela e em como sua tristeza e solidão o perturbavam. Em como não queria deixá-la e, mesmo assim, tinha de ir embora.

            Seu pensamento tinha uma clareza notável. No verão inteiro, nunca havia ficado tanto tempo sem beber. E estava apreciando bem a sensação de pensar com clareza. Ela havia acabado de lhe servir mais café, e o sabor era bom. No entanto, ele havia calçado as luvas de novo porque estava recebendo aquelas imagens idiotas e aleatórias de todos os lados: Graham, Ellie e homens, muitos homens diferentes, homens bonitos, todos de Rowan, isso estava excessivamente claro. Ele desejava que não estivesse.

            O sol entrando pelas janelas e pelas clarabóias a leste estava forte. Ele a ouvia fazendo alguma coisa na cozinha. Calculou que era melhor se levantar e ajudar, não importa o que ela dissesse, mas ela havia sido bastante convincente  a esse respeito.

            - Gosto de cozinhar. É semelhante à cirurgia. Fique exatamente onde está.

            Ele refletia que ela era a primeira coisa em todas essas semanas que realmente tinha importância para ele, que afastava seu pensamento do acidente e de si mesmo. E era um alívio tão grande estar pensando em outra pessoa que não fosse em si mesmo. Na realidade, ao refletir com essa clareza recém adquirida, percebeu que havia sido capaz de se concentrar bem desde que havia chegado ali. Concentrou-se na conversa, no amor, na descoberta mútua e isso era algo totalmente novo, porque em todas aquelas semanas sua falta de concentração, sua incapacidade de ler mais do que uma página de um livro, ou de acompanhar mais do que algumas seqüências num filme, o haviam deixado em constante agitação. Era tão prejudicial quanto a falta de sono.

            Percebeu que nunca lhe havia acontecido de seu conhecimento de outro ser humano começar nesse ritmo e mergulhar tão fundo tão rápido. Era como o que deveria acontecer com o sexo, mas que raramente acontecia, se é que chegava a acontecer. Ele havia perdido inteiramente de vista o fato de ela ser a mulher que o salvara. Quer dizer, uma forte impressão do caráter dela havia erradicado aquele entusiasmo vago e impessoal que ele havia sentido ao conhecê-la, e agora ele estava tecendo loucas fantasias a seu respeito.

            De que forma ele poderia continuar a conhecê-la e talvez mesmo chegar a amá-la e possuí-la, e cumprir essa tarefa que tinha de cumprir? Ele ainda tinha de cumprir sua missão. Ele ainda tinha de voltar à cidade natal e descobrir qual era o objetivo.

            Quanto ao fato de ela ter nascido lá no sul, isso não estava relacionado a nada. Sua cabeça transbordava com um excesso de imagens do passado, e o sentido de destino que unia essas imagens era forte demais para ter vindo de alguma lembrança aleatória da sua terra através dela. Além do mais, no convés do barco ontem à noite, ele não havia captado nada daquilo. O fato de conhecê-la, sim, estava lá. No entanto, até mesmo isso era passível de suspeita. Acreditava ele ainda, porque não houve nenhum "Ah, sim" de profundo reconhecimento quando ela lhe contou sua história. Só uma fascinação declarada. Não havia nada de científico neste seu poder. Podia ser que fosse de natureza física, é, finalmente mensurável, e até mesmo controlável através de alguma droga entorpecente, mas não era científico. Era mais como a arte ou a música.

            A questão, porém, era que ele precisava ir e não queria ir. O dilema o entristeceu de repente, com uma tristeza quase sem esperanças, como se de algum modo os dois estivessem amaldiçoados, ele e ela.

            Todas essas semanas, se ele tivesse podido vê-la; se tivesse podido estar com ela. Ocorreu-lhe, então, uma idéia estranhíssima. Se ao menos aquele terrível acidente não houvesse acontecido e ele a houvesse conhecido em algum lugar comum, onde começassem a conversar. No entanto, ela era parte integrante do que havia acontecido; sua singularidade e sua força faziam parte de tudo. Totalmente só lá em mar aberto naquela horrenda lancha cruzeiro justo naquele instante em que caía a tarde. Quem mais poderia ter estado lá? Quem mais poderia ter conseguido tirá-lo da água? Ora, era fácil para ele acreditar no que ela dizia acerca da determinação, acerca dos seus poderes.

            Ao descrever o salvamento em detalhe, ela disse uma coisa estranha. Disse que uma pessoa perde a consciência quase imediatamente na água muito fria. No entanto, ela havia sido jogada bem dentro d'água sem perder a consciência.

            - Não sei como cheguei até a escada - disse ela, apenas. - Sinceramente não sei.

            - Você acha que foi aquele poder? - perguntou ele.

            Ela refletiu um pouco antes de responder.

            - Sim e não. Quer dizer, pode ter sido apenas sorte.

            - Bem, sem dúvida que foi mesmo sorte para mim - disse ele, com uma extraordinária sensação de bem-estar enquanto falava. E ele não sabia bem por quê. Talvez ela soubesse, porque retrucou.

            - Temos medo do que nos torna diferentes. - E ele concordou.

            - Mas muita gente tem esses tipos de poder - disse ela. - Não conhecemos sua natureza, nem como aferi-los, mas eles são sem dúvida parte do que acontece entre os seres humanos. Vejo no hospital. Há médicos que sabem coisas, e que não conseguem dizer como sabem. Há enfermeiras que são igualzinhas. Imagino que haja advogados que sejam infalíveis para dizer se alguém é culpado ou não. Ou para saber se o júri vai votar contra ou a favor. E essas pessoas não conseguem explicar como chegam a saber.

            - A verdade é que por mais que aprendamos acerca de nós mesmos, por mais que sistematizemos, classifiquemos e definamos, os mistérios continuam imensos. Pense na pesquisa genética. Há tanta coisa que é herdada por um ser humano: a timidez é herdada, a preferência por uma marca específica de sabonete pode ser herdada, a preferência por certos nomes de batismo. Mas o que mais é herdado? Que poderes invisíveis nos são legados? É por isso que é tão frustrante para mim o fato de eu realmente não conhecer minha família. Não sei nada a respeito deles. Ellie era filha de um primo em terceiro grau. Ora, isso praticamente já não é mais nem primo...

            É, ele havia concordado com aquilo tudo. Falou um pouco do seu pai e do avô, e de como era mais parecido com eles do que gostava de admitir.

            - Mas você tem de acreditar que pode alterar sua herança genética - disse ele. - Você tem de acreditar que é possível fazer mágica com os ingredientes. Se isso não for possível, a esperança não existe.

            - É claro que é possível - retrucou ela. - Você conseguiu, não conseguiu? Quero crer que eu tenha conseguido. Pode parecer loucura, mas acredito que deveríamos...

            - Fale...

            - Deveríamos ter como objetivo a perfeição - disse ela, em voz baixa.

            - E por que não?

            Ele riu, mas não para ridicularizar. Estava pensando em algo que um dos seus amigos lhe havia dito uma vez. Esse amigo estava ouvindo com atenção enquanto Michael matraqueava a respeito de história, sobre como ninguém entendia de história ou sabia para onde ia por não conhecer história. E esse amigo lhe havia dito, "Você tem uma conversa peculiar, Michael", explicando que a expressão era de unia peça de Tennessee Williams, Orpheus Descending. Ele havia adorado o elogio. Esperava que ela também gostasse.

            - Você tem uma conversa peculiar, Rowan - disse ele, dando a mesma explicação que seu amigo lhe dera.

            Isso a fez rir, realmente a desarmou.

            - Talvez seja por isso que eu quase não falo. Nem mesmo tenho vontade de começar. Acho que você acertou. Tenho unia conversa peculiar, e é por isso que não falo.     Ele deu uma tragada no cigarro, refletindo sobre tudo isso. Seria delicioso ficar aqui com ela. Se ao menos ele se livrasse da sensação de que tinha de voltar para casa.

            - Ponha mais uma acha no fogo - disse ela, interrompendo seus devaneios. - O café da manhã está pronto.

            Ela arrumou tudo na mesa de jantar junto às janelas. Ovos mexidos, iogurte, laranjas fatiadas reluzindo ao sol, bacon e salsicha, e pãezinhos quentes recém saídos do forno.

            Ela serviu o café e o suco de laranja para os dois. E durante cinco minutos contados, sem dizer uma palavra, ele comeu. Nunca havia sentido tanta fome. Por algum tempo, fixou o olhar no café. Não, ele não queria uma cerveja, e não ia beber nenhuma. Tomou o café, e ela encheu sua xícara novamente.

            - Estava simplesmente maravilhoso - disse ele.

            - Fique por aqui - disse ela - e eu lhe preparo o jantar, e o café amanhã também.           Ele não pôde responder. Examinou-a por uni instante, procurando não ver simplesmente a beleza e o objeto do seu considerável desejo, mas apenas sua aparência. Era loura verdadeira, pensou ele, toda lisinha, praticamente sem penugem no rosto ou nos braços. Com lindas sobrancelhas acinzentadas e cílios escuros que faziam com que seus olhos parecessem ainda mais cinzentos. Tinha, no fundo, o rosto de uma freira. Sem um traço de maquiagem, e a boca larga e cheia tinha um certo toque virginal, como a boca de uma menininha que ainda não usou batom. Ele sentiu vontade de simplesmente ficar ali sentado para sempre...

            - Mas você vai embora mesmo assim - disse ela. Ele assentiu, com a cabeça.

            - Tenho de ir - disse ele.

            - E as visões? - perguntou ela, pensativa. - Você não quer falar a respeito delas?

            Ele hesitou.

            - Cada vez que tento descrevê-las, tudo acaba em frustração - explicou ele. - Além do mais, o assunto afasta as pessoas.

            - Não vai me afastar - disse ela. Parecia agora totalmente refeita, com os braços cruzados, o cabelo desarrumado, mas bonito, o café fumegante à sua frente. Estava mais parecida com a mulher resoluta e vigorosa que ele conhecera na noite anterior.

            Ele acreditou no que ela disse. Mesmo assim, havia visto a expressão de incredulidade e de indiferença em tantos rostos. Recostou-se na cadeira, olhando lá para fora por um momento. Todos os veleiros do mundo estavam na baía. E ele via as gaivotas voando sobre a enseada de Sausalito como diminutos pedacinhos de papel.