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A HORA DAS BRUXAS-Volume II / Anne Rice
A HORA DAS BRUXAS-Volume II / Anne Rice

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A HORA DAS BRUXAS

Volume II

 

O desaparecimento de Stuart Townsend

Em 1929, Stuart Townsend, que vinha estudando todo o material sobre a família Mayfair há anos, solicitou ao conselho permissão para tentar um contato com a família. Era forte sua sensação de que a mensagem lacônica de Stella no verso fotografia significava que ela desejava um contato desses.

E Stuart estava também convencido de que os três últimos bruxos - Juli Mary Beth e Stella - não eram assassinos nem seres malévolos sob nenhum aspecto; que seria perfeitamente seguro contatá-los e que de fato "coisas maravilhosas" poderiam resultar.

Isso forçou o conselho a examinar a sério toda a questão e também reexaminar, como faz constantemente, as normas e os objetivos do Talama.

Embora exista uma quantidade imensa de materiais escritos nos arquivos relacionados a nossas normas e objetivos, aquilo que considerar aceitável e inaceitável, e embora esse seja um constante tópico tratado nas no reuniões de conselhos em todo o mundo, permitam-me resumir, expressam para esta narrativa, as questões que aqui se aplicam, todas elas levantadas Stuart Townsend em 1929.

Em primeiríssimo lugar, nós havíamos criado com o Arquivo sobre as Bruxas Mayfair uma história valiosa e impressionante de uma família com poderes paranormais. Havíamos provado a nós mesmos, sem sombra de dúvida, q' família Mayfair mantinha contato corno reino do invisível e que sabia manipular forças invisíveis para obter vantagens.

Havia, porém, muitas coisas sobre o eles faziam que nós simplesmente não sabíamos.

E se fosse possível convencê-los a conversar conosco? A compartilhar no segredos? O que poderíamos descobrir?

Stella não era a pessoa misteriosa ou reservada que Mary Beth havia sido. Se ela pudesse se convencer da nossa discrição e de nossos propósitos de estudiosos, talvez ela nos revelasse algo. Era possível que Cortland Mayfair também falasse conosco.

Em segundo lugar, e talvez com menos importância, nós certamente havíamos ao longo dos anos invadido a privacidade da família Mayfair com nossa vigilância. De acordo com Stuart, nós havíamos espionado todos os aspectos da vida da família. Na realidade, havíamos estudado essa gente como se fossem cobaias. Repetidamente, justificamos nossa atuação alegando que iremos colocar nossos registros à disposição das pessoas que estudamos, e é isso o que fazemos.

Bem, jamais havíamos agido assim com a família Mayfair. E talvez não houvesse agora desculpas para não tentar.

Em terceiro lugar, nosso relacionamento com a família Mayfair era absolutamente exclusivo já que o sangue de Petyr van Abel, nosso irmão, corria em suas veias. Seria possível dizer que eles "eram aparentados" nossos. Não deveríamos procurar esse contato mesmo que fosse apenas para lhes falar desse antepassado? E quem sabe o que poderia resultar disso?

Em quarto lugar, ao entrar em contato, poderíamos estar fazendo algo positivo? E aqui é claro que estamos abordando um dos nossos principais objetivos. Será que a irresponsável Stella poderia ser beneficiada ao saber de outras pessoas semelhantes a ela mesma? Ela não gostaria de saber que havia gente que estudava essas pessoas, com a intenção de compreender o reino do invisível? Em outras palavras, Stella não gostaria de conversar conosco, e não gostaria de saber o que nós sabemos sobre os poderes paranormais em geral?

Stuart argumentava com veemência que era nossa obrigação entrar em contato. Ele também levantou uma questão interessante: o que Stella já sabia? Ele também repetiu insistente que Stella precisava de nós, que todo o clã Mayfair precisava de nós, que especialmente a pequena Antha precisava de nós, e que já era hora de nos apresentarmos e de lhes oferecer o que sabíamos.

O conselho levou tudo o que Stuart dissera em consideração. Refletiu sobre o que já sabia das Bruxas Mayfair e concluiu que as alegações a favor do contato superavam de longe os motivos contrários a ele. A idéia de perigo logo foi descartada. E assim foi dito a Stuart que ele podia viajar até os Estados Unidos e que podia estabelecer contato com Stella.

Em grande agitação, Stuart zarpou para Nova York no dia seguinte. O Talamasca recebeu dele duas cartas remetidas de Nova York. Ele escreveu ainda uma vez, ao chegar a Nova Orleans, em papel do St. Charles Hotel, dizendo que havia entrado em contato com Stella, que ele a havia considerado extremamente receptiva e que iam se encontrar para almoçar no dia seguinte.

Nunca mais se viu Stuart Townsend ou se ouviu falar dele. Não sabemos onde, quando ou mesmo se sua vida terminou. Sabemos apenas que em algum momento de junho de 1929 ele desapareceu sem deixar pistas.

Quando voltamos a examinar essas reuniões do conselho, quando lemos as atas, é muito fácil ver que o Talamasca cometeu um trágico engano. Stuart estava realmente preparado para essa missão. Deveria ter sido redigida narrativa que abrangesse todos os materiais, para que a história da família pudesse ser vista como um todo. Do mesmo modo, a questão do perigo deveria ter sido avaliada com maior cuidado Em todo o histórico da família Mayfair ocorrem referencias à violência sofrida por inimigos das Bruxas Mayfair Para ser justo, porém, deve-se admitir que não havia nenhuma história semelhante associada a Stella ou a sua geração. E decerto nenhuma história semelhante com relação a outros residentes contemporâneos da casa de First Street. (As exceções são, naturalmente, as histórias do pátio da escola envolvendo Stella e Antha, foram acusadas de usar seu amigo invisível para machucar outras crianças. Ma Stella na idade adulta não há nada que se compare a isso.)

Além do mais, a história completa da babá de Antha que morreu de queda em Roma não era do conhecimento do Talamasca na época. E é possível que Stuart não soubesse absolutamente nada a respeito desse incidente.

Mesmo assim, Stuart não estava plenamente preparado para uma missão daquelas. E, quando se examinam seus comentários ao conselho e aos ou membros, fica óbvio que Stuart estava apaixonado por Stella Mayfair. E apaixonou por ela na pior das circunstâncias, ou seja, ele se apaixonou pela imagem em fotografias e pela Stella que surgia das descrições que as pessoas faziam dela. Ela havia se tornado um mito para ele. E assim, cheio de entusiasmo e paixão, ele foi se encontrar com ela, deslumbrado não só pelos seus poderes pelos seus encantos proverbiais.

Fica também óbvio para quem observa o caso imparcialmente que Stuart era a pessoa mais adequada para essa missão, por uma série de motivos.

E antes de irmos com Stuart até Nova Orleans, permitam-nos expor sucintamente quem Stuart foi. Existe nos nossos arquivos uma pasta com tudo sobre Stuart, e sem dúvida ela merece ser lida por si mesma. Durante cerca doze anos, ele foi um membro dedicado e consciencioso da Ordem, e investigações de casos de possessão cobrem cento e quatorze registros difere.

 

A VIDA DE STUART TOWNSEND

Até que ponto a vida de Stuart Townsend está relacionada ao que lhe aconteceu ou à história das Bruxas Mayfair, não sei dizer. Sei, sim, que estou incluindo nesta narrativa mais do que precisaria incluir. E especialmente tendo em o pouco que falo de Arthur Langtry, devo explicações.

Creio ter incluído aqui este material como uma espécie de homenagem póstuma a Stuart, e como uma espécie de advertência. Seja lá o que for..

A atenção da Ordem foi chamada para Stuart quando ele estava com vinte e dois anos de idade.

Nossos escritórios de Londres receberam de um dos nossos numerosos investigadores nos Estados Unidos um pequeno artigo de sobre Stuart Townsend ou "O garoto que foi outra pessoa durante dez anos”.

Stuart nasceu numa pequena cidade do Texas no ano de 1895. Seu pai era o médico da localidade, um homem amplamente respeitado e profundamente estudioso. A mãe de Stuart era de uma família próspera e se dedicava às obras de caridade do tipo que assenta bem a uma mulher da sua posição, tendo duas babás para cuidar dos seus sete filhos, dos quais Stuart era o primogênito. Viviam numa grande casa vitoriana com uma sacada com gradil na única rua elegante da cidade.

Stuart foi para o colégio interno na Nova Inglaterra quando tinha seis anos de idade. Ele foi desde cedo um aluno extraordinário, e durante suas primeiras férias de verão, ele ficou em casa meio como um recluso, lendo no seu quarto no sótão até tarde da noite. Ele realmente tinha alguns amigos entre a aristocracia reduzida porém vigorosa da cidadezinha - filhos e filhas de funcionários públicos, de advogados e de ricos fazendeiros. Parecia ser benquisto. Aos dez anos de idade, Stuart foi acometido por uma febre forte que não pôde ser diagnosticada. Seu pai acabou por concluir que ela deveria ter origem infecciosa, mas nenhuma explicação concreta jamais foi encontrada. Stuart entrou numa crise na qual delirou dois dias seguidos.

Quando se recuperou, não era mais Stuart. Era uma outra pessoa. Essa outra pessoa alegava ser uma jovem chamada Antoinette Fielding, que falava com um sotaque francês e tocava piano maravilhosamente. Ela aparentava estar confusa quanto à idade, ao lugar em que morava ou ao que estava fazendo na casa de Stuart.

O próprio Stuart sabia um pouco de francês, mas não sabia tocar piano. E, quando ele se sentou ao empoeirado piano de cauda na sala de estar e começou a tocar Chopin, a família achou que estava enlouquecendo.

Quanto ao fato de ele acreditar ser uma moça e chorar de tristeza ao ver sua imagem no espelho, sua mãe não pôde suportar isso e saiu correndo do quarto. Depois de uma semana de comportamento em parte histérico em parte melancólico, Stuart-Antoinette foi convencido a parar de pedir vestidos, a aceitar o fato de que seu corpo era de menino agora e a acreditar que ela agora era Stuart e devia voltar a fazer o que se esperava que Stuart fizesse.

No entanto, estava totalmente fora de cogitação qualquer volta à escola. E Stuart-Antoinette, que passou a ser chamado pela família de Tony, para simplificar, passava seus dias tocando piano sem parar e escrevendo suas memórias num enorme diário enquanto ele/ela tentava resolver o mistério da sua identidade.

O Dr. Townsend, ao ler essas memórias, percebeu que o francês no qual elas estavam escritas era muitíssimo superior ao nível de conhecimento alcançado por Stuart aos dez anos de idade. Ele também começou a perceber que as lembranças da criança eram todas de Paris, e de Paris na década de 1840, como revelavam com clareza as referências a óperas, peças e meios de transporte.

Descobriu-se a partir desses documentos que Antoinette Fielding havia sido filha de uma união entre um francês e uma inglesa, que seu pai francês não havia se casado com sua mãe inglesa- Louisa Fielding - e que a menina havia levado uma vida estranha e reclusa em Paris, como a filha mimada de uma prostituta de alta classe que procurava proteger sua filha única da imoralidade das ruas. Seu grande talento e consolo era a música.

O Dr. Townsend, fascinado, e garantindo à mulher que chegariam à raiz do mistério, começou uma investigação por correspondência com a intenção de descobrir se essa pessoa Antoinette Fielding havia existido um dia em Paris.

Esse esforço o ocupou por cerca de cinco anos.

Todo esse tempo, "Antoinette" permaneceu no corpo de Stuart, tocando piano obsessivamente, ousando sair só para se perder ou para entrar em alguma briga terrível com os valentões das redondezas. Afinal, Antoinette passou a não mais sair de casa, tornando-se algo como uma inválida histérica, exigindo que suas refeições fossem deixadas a sua porta e só descendo para tocar piano à noite.

Afinal, através de um detetive particular em Paris, o Dr. Townsend pode se certificar de que uma certa Louisa Fielding havia sido assassinada em Paris em 1865. Ela era na realidade uma prostituta, mas não havia absolutamente nenhuma prova de que tivesse uma filha. E assim o Dr. Townsend acabou chegando a um beco sem saída. A essa altura, ele já estava exausto de tentai resolver o mistério. Resolveu aceitar a situação da melhor maneira possível.

Seu belo e jovem Stuart estava perdido para sempre, e no seu lugar havia um inválido deformado e abatido, um rapaz de rosto muito branco, olhos ardente e uma estranha voz assexuada, que agora vivia o tempo todo com as janela fechadas. O médico e a esposa se acostumaram a ouvir os concertos noturnos. De quando em quando o médico subia para falar com a criatura "feminina" e de rosto pálido que morava no sótão. Ele não podia deixar de notar uma deterioração mental. A criatura já não conseguia mais se lembrar muito do "seu passado". Mesmo assim, eles mantinham uma conversa agradável por algum tempo. E então aquele jovem emaciado e perturbado se voltava para os livros como se o pai não estivesse ali, e o pai ia embora.

É interessante ressaltar que ninguém jamais aventou a possibilidade de Stuart estar "possuído". O médico era ateu; os filhos freqüentavam a igreja metodista. A família não conhecia nada a respeito dos católicos, dos ritos de exorcismo dessa religião ou de sua crença em espíritos demoníacos e possessões E ao que tenha chegado ao nosso conhecimento, o vigário local, que não tinha a simpatia da família, nunca foi consultado pessoalmente acerca do caso.

Essa situação persistiu até Stuart completar vinte anos de idade. Uma noite então, ele caiu da escada, sofrendo uma grave concussão. O médico, meio acordado e esperando que a inevitável música subisse da sala de estar, descobrira o filho inconsciente no patamar da escada e correu para o hospital, onde Stuart passou duas semanas em coma.

Quando acordou, ele era Stuart. Não tinha absolutamente nenhuma lembrança de jamais ter sido outra pessoa. Na verdade, ele acreditava ter dez anos e, quanto ouviu uma voz masculina sair da sua boca, ficou horrorizado. Quando descobriu que tinha o corpo de um adulto, ficou pasmo com o choque.

Estarrecido, ele ficou sentado na cama do hospital ouvindo as histórias que lhe acontecera durante os dez últimos anos. É claro que ele não compreendia o francês. Havia tido muita dificuldade com esse idioma na escola. E é claro que não sabia tocar piano. Ora, todo mundo sabia que ele não possuía talento musical.

Não tinha ouvido para a música.

Nas semanas seguintes, ele ficava sentado á mesa de refeições olhando espantado para seus irmãos e irmãs "enormes", seu pai agora grisalho e sua mãe, que não conseguia olhar para ele sem cair em lágrimas. Os telefones e os automóveis, que praticamente não existiam em 1905, quando ele havia deixado de ser Stuart, agora o assustavam o tempo todo. A luz elétrica o enchia de insegurança. No entanto, a fonte mais intensa de agonia era seu próprio corpo adulto. E a compreensão cada vez mais profunda de que sua infância e sua adolescência haviam desaparecido sem deixar rastros Ele então começou a enfrentar os problemas inevitáveis. Tinha vinte anos, mas suas emoções e sua instrução eram as de um menino de dez. Ele começou a ganhar peso; melhorou da palidez; saía a cavalgar nas fazendas próximas com seus antigos amigos. Contrataram-se professores particulares para sua instrução. Ele lia os jornais e as revistas nacionais o tempo todo. Dava grandes caminhadas durante as quais ensaiava os movimentos e os pensamentos de um adulto. Vivia, porém, num estado de perpétua ansiedade. Sentia uma atração apaixonada pelas mulheres mas não sabia como lidar com esse sentimento. Magoava-se com facilidade. Como homem, ele se sentia irremediavelmente inadequado. Afinal, começou a brigar com todos e, ao descobrir que podia beber impunemente, passou a "encher a cara" nos bares do lugarejo.

Logo, toda a cidadezinha conhecia a história. Algumas pessoas se lembravam da primeira vez, quando do nascimento de Antoinette. Outros apenas sabiam da história, ouvindo sua retrospectiva. Fosse o caso qual fosse, havia um falatório incessante. E embora, por deferência ao médico, o jornal local nunca fizesse menção a essa história absurda, um repórter de Dallas, Texas, veio a saber dela por diversas fontes e, sem a cooperação da família, escreveu um longo artigo que saiu publicado na edição de domingo de um jornal de Dallas em 1915. Outros jornais aproveitaram a história, e ela acabou sendo enviada para nós em Londres cerca de dois meses após sua publicação.

Enquanto isso, caçadores de curiosidades caíam sobre Stuart. Um escritor da região quis escrever um romance sobre ele. Representantes de revistas nacionais tocavam a campainha da sua porta. A família ficou furiosa. Mais uma vez, Stuart era forçado a permanecer dentro de casa. Ele ficava sentado no quarto do sótão, refletindo, olhando para os objetos queridos dessa pessoa estranha, Antoinette, e sentindo que dez anos da sua vida lhe haviam sido roubados e que ele era agora um desajustado irremediável, levado a brigar com todos os que conhecia.

Sem dúvida alguma, a família recebia grande quantidade de correspondência indesejada.

Por outro lado, as comunicações naquela época não eram o que são hoje. Fosse o caso qual fosse, uma remessa do Talamasca chegou ás mãos de Stuart no final de 1916, contendo dois livros famosos sobre casos de "possessão", acompanhados de uma carta nossa na qual lhe informávamos que dispúnhamos de vastos conhecimentos sobre essas coisas e que gostaríamos de conversar com ele a esse respeito, e a respeito de outras pessoas que haviam passado pela mesma experiência.

Stuart respondeu imediatamente. Ele se encontrou com nosso representante Louis Daly em Dallas no verão de 1917 e concordou, cheio de gratidão, em vir conosco para Londres. O Dr. Townsend, a princípio preocupadíssimo, foi finalmente conquistado por Louis, que lhe garantiu que nossa abordagem desses fenômenos era totalmente acadêmica. Stuart chegou afinal a nós em 1° de setembro de 1917.

Ele foi aceito pela Ordem na qualidade de noviço no ano seguinte, e ficou conosco daí em diante. Seu primeiro projeto foi naturalmente o de fazer um estudo meticuloso do seu próprio caso, bem como um estudo de todos os outros casos conhecidos de possessão nos nossos arquivos. Sua conclusão final, que foi a mesma a que chegaram outros estudiosos do Talamasca designados para essa área de pesquisa, foi a de que ele de fato havia sido possuído pelo espírito de uma mulher morta.

A partir daí ele sempre acreditou que o espírito de Antoinette Fielding poderia ter sido expulso do seu corpo, se qualquer pessoa familiarizada tivesse sido consultada, até mesmo um padre católico. Pois, embora a igreja católica afirme que tais casos são estritamente demoníacos com o que nós não concordamos, não há dúvida de que suas técnicas para exorcizar essas presenças estranhas realmente funcionem.

Durante os cinco anos seguintes, Stuart não fez outra coisa se não investigar casos anteriores de possessão no mundo inteiro. Ele entrevistou dezenas de vítimas, fazendo anotações volumosas.

Ele chegou á conclusão, há muito sustentada pelo Talamasca, de que há uma enorme variedade de entidades envolvidas na possessão. Algumas podem ser fantasmas; outras podem ser entidades que nunca foram humanas; e outras ainda podem ser "outras personalidades" inerentes ao hospedeiro. No entanto, ele não abandonou a convicção de que Antoinette Fielding havia sido um ser humano real e que, á semelhança de muitos fantasmas desse tipo, ela não sabia ou não compreendia que estava morta.

Em 1920, ele foi a Paris á procura de provas da existência de Antoinette Fielding. Não conseguiu descobrir absolutamente nada. No entanto, as parcas informações acerca da falecida Louisa Fielding combinavam como que Antoinette havia escrito sobre a própria mãe. Há muito, porém, o tempo havia apagado qualquer traço dessas pessoas. E Stuart continuou para sempre insatisfeito sob esse aspecto.

No final de 1920, ele se resignou á possibilidade de nunca chegar a saber quem foi Antoinette e resolveu se voltar para o trabalho de campo em nome do Talamasca. Ele saía com Louis Daly a fim de intervir em casos de possessão, realizando com ele uma forma de exorcismo que Daly empregava com muita eficácia para expulsar da vítima-hospedeiro essas presenças estranhas.

Daly estava muito impressionado com Stuart Townsend. Ele se tornou orientador de Stuart, que durante todos esses anos se salientou por sua compaixão, paciência e eficácia nessa área. Nem mesmo Daly conseguia consolar a vítima depois do exorcismo como Stuart conseguia. Afinal, Stuart havia passado por aquilo. Ele sabia.

Stuart trabalhou incansavelmente nessa atividade até 1929, lendo o Arquivo sobre as Bruxas Mayfair apenas quando sua movimentada programação o permitia. Então, ele apresentou sua solicitação ao conselho e foi atendido.

Aquela altura, Stuart estava com trinta e quatro anos. Tinha um metro e oitenta, cabelos de um louro acinzentado e olhos cinzentos. Era de compleição esguia e pele clara. Costumava se vestir com elegância e era um desses norte-americanos que admiram profundamente os modos e as atitudes dos ingleses e que procuram imitá-los.

Era um rapaz atraente. No entanto, sua maior qualidade, para amigos e conhecidos, era uma espécie de inocência e espontaneidade de menino. Faltavam realmente dez anos na vida de Stuart, e esses ele nunca recuperou.

Ele era às vezes capaz de agir com impetuosidade, de perder a cabeça, de ficar furioso ao se deparar até mesmo com obstáculos ínfimos aos seus planos. No entanto, controlava isso muito bem quando saía em campo. E quando tinha alguma crise dentro da casa-matriz, sempre pudemos fazê-lo voltar ao normal.

Ele era também capaz de se apaixonar profundamente, o que aconteceu com Helen Kreis, também membro do Talamasca, que morreu num acidente automobilístico em 1924. Ele pranteou a morte de Helen excessivamente e até com algum perigo para si mesmo durante dois anos.

Podemos nunca vir a saber o que houve entre ele e Stella Mayfair. Mas é possível fazer a conjectura de que ela foi o único outro amor da sua vida.

Gostaria, a esta altura, de acrescentar minha opinião pessoal no sentido de que Stuart Townsend nunca deveria ter sido enviado a Nova Orleans. Não era só por ele estar muito envolvido emocionalmente com Stella. Era que lhe faltava experiência naquele campo específicos

Durante seu noviciado, ele havia tratado de diversos tipos de fenômenos paranormais; e sem dúvida havia lido muito sobre o lado oculto em toda a sua vida. Ele examinou uma grande variedade de casos com outros membros da Ordem. E chegou a passar algum tempo com Arthur Langtry.

Na realidade, porém, ele não sabia nada sobre bruxas, em si. E á semelhança de tantos outros membros da nossa Ordem que só trataram de assombrações, possessões ou reencarnação, ele simplesmente não sabia do que as bruxas são capazes.

Ele não sabia que as manifestações mais fortes de entidades desencarnadas surgem através de bruxas mortais. Há mesmo algumas insinuações de que ele considerava o Talamasca arcaico e tolo por chamar de bruxas essas mulheres. E é muito provável que, apesar de aceitar as descrições do século XVII de Deborah Mayfair e da sua filha Charlotte, ele não conseguisse "associar" esse material a uma "boneca do jazz" do século XX, esperta e moderna como Stella, que parecia estar acenando para ele lá do outro lado do Atlântico com um sorriso e uma piscada de olho.

É claro que o Talamasca enfrenta uma certa incredulidade em todos os que trabalham recentemente no campo das bruxarias. O mesmo se aplica à investigação de vampiros.

Mais de um membro da Ordem precisou ver essas criaturas em ação para acreditar na sua existência. A solução para esse problema e, porém, a de introduzir nossos membros no trabalho de campo sob a orientação de pessoas experientes, e em casos que não envolvam contato direto.

Mandar um homem inexperiente como Townsend para entrar em contato com as Bruxas Mayfair é como mandar uma criancinha direto ao inferno para entrevistar o demônio. Em suma, Stuart Townsend partiu para Nova Orleans despreparado e sem precauções. Com todo o respeito pelos que comandavam a Ordem em 1929, não creio que uma coisa dessas acontecesse nos nossos dias.

Finalmente, permitam-me acrescentar que Stuart Townsend, ao que nos fosse dado saber, não possuía nenhum poder extraordinário. Ele não era um "paranormal", como costumam dizer. Não dispunha, portanto, de nenhuma arma extra-sensorial quando teve de enfrentar o inimigo, que ele nem percebia como seu inimigo.

O desaparecimento de Stuart foi comunicado à polícia de Nova Orleans em 25 de julho de 1929. Isso foi um mês inteiro após sua chegada á cidade. O Talamasca tentou entrar em contato com ele por telegrama e por telefone. Irwin Dandrich tentou em vão encontrá-lo. O St. Charles Hotel, do qual Stuart alegava ter escrito sua única carta de Nova Orleans, negava jamais ter registrado alguém com esse nome.

Nossos investigadores particulares não conseguiram descobrir nada que provasse que Townsend um dia havia chegado a Nova Orleans. E a polícia logo começou a duvidar dessa sua chegada.

No dia 28 de julho, as autoridades informaram aos nossos investigadores locais que não havia mais nada que pudessem fazer. Mesmo assim, sob forte pressão tanto por parte de Dandrich quanto por parte do Talamasca, a polícia concordou afinal em ir até a casa da família Mayfair e perguntar a Stella se ela havia visto o rapaz ou falado com ele. O Talamasca já não tinha mais esperanças a essa altura, mas Stella surpreendeu a todos, lembrando-se imediatamente de Stuart.

É, de fato, ela havia conhecido Stuart, o texano alto vindo da Inglaterra. Como poderia se esquecer de uma pessoa tão interessante? Eles haviam almoçado juntos, jantado juntos e passado a noite inteira conversando.

Não, ela não podia imaginar o que havia acontecido com ele. Na realidade, ela ficou de imediato visivelmente aflita com a possibilidade de ele ter sido vítima de algum crime.

É, ele estava hospedado no St. Charles Hotel. Ele mencionou o hotel para ela, e por que cargas d'água ele iria lhe mentir? Ela começou a chorar. Ah, ela esperava que nada lhe houvesse acontecido. Na verdade, ela ficou tão perturbada que a policia quase deu por terminada a entrevista. Ela, porém, os manteve ali fazendo-lhes perguntas. Eles haviam conversado com o pessoal do Court of Two Sisters?

Ela havia levado Stuart até lá, e ele havia gostado do lugar. Podia ser que ele tivesse voltado lá. E havia um bar clandestino em Bourbon Street onde eles haviam conversado na manhã do dia seguinte, depois que algum outro estabelecimento mais respeitável - lugar horrendo! - os havia mandado ir embora.

A polícia cobriu esses estabelecimentos. Todos conheciam Stella. É, era possível que Stella tivesse vindo ali com um homem. Stella estava sempre ali com algum homem.

Mas ninguém tinha uma lembrança específica de Stuart Townsend.

Outros hotéis da cidade foram investigados. Nenhum objeto de Stuart Townsend pôde ser encontrado. Motoristas de táxi foram inquiridos, mas com os mesmos resultados frustrantes.

Afinal, o Talamasca resolveu tomar as rédeas da investigação. Arthur Langtry zarpou de Londres para descobrir o que havia acontecido a Stuart. Ele sentia um peso na consciência por ter consentido que Stuart se encarregasse do caso sozinho.

 

CONTINUA A HISTÓRIA DE STELLA  - Relatório de Arthur Langtry

Arthur Langtry foi certamente uma dos investigadores mais capazes que o Talamasca jamais produziu. O estudo de algumas importantes "famílias de bruxas" foi o trabalho de toda a sua vida. A história da sua carreira de cinqüenta anos com o Talamasca é uma das histórias mais interessantes e espantosas contidas nos nossos arquivos, e os estudos minuciosos das famílias de bruxas às quais se dedicou estão entre os documentos mais valiosos que possuímos.

É uma enorme tristeza para aqueles de nós que sé preocuparam a vida inteira com as Bruxas Mayfair o fato de Langtry nunca ter podido devotar atenção prolongada à sua história. E nos anos que antecederam o envolvimento de Stuart Townsend, Langtry expressou seu pesar em relação a isso.

Langtry, no entanto, não devia desculpas a ninguém por não ter tempo nem vida suficiente para todas as famílias de bruxas nos nossos arquivos. Mesmo assim, quando Stuart Townsend desapareceu, Langtry se sentiu responsável, e nada poderia tê-lo impedido de viajar para a Louisiana em agosto de 1929. Como já foi mencionado, ele se culpava pelo desaparecimento de Stuart, por não ter se oposto à indicação do mesmo para a missão. E no fundo do coração ele sabia que Stuart não devia ter ido.

- Eu estava tão ansioso para que alguém fosse até lá - confessou ele antes de sair de Londres. - Eu estava tão ansioso para que alguma coisa acontecesse. E é claro que eu achava que não podia ir. E por isso, pensei, bem, talvez esse estranho rapaz texano consiga abrir uma brecha.

Langtry estava beirando os setenta e quatro anos de idade naquela época. Era homem alto, com os cabelos cinza-chumbo, rosto retangular e olhos fundos. Tinha uma voz extremamente agradável e perfeita educação. Sofria das costumeiras enfermidades da velhice, mas, levando-se tudo em consideração, gozava de boa saúde.

Durante seus anos de serviço, ele havia visto de "tudo". Era um médium poderoso; e não sentia absolutamente nenhum medo quando se tratava de alguma manifestação do sobrenatural. No entanto, nunca foi descuidado ou imprudente. Ele nunca subestimou nenhum tipo de fenômeno. Era, como suas próprias investigações demonstram, extremamente confiante e forte.

Assim que soube do desaparecimento de Stuart, ele se convenceu de que o rapaz estava morto. Com uma rápida leitura do material sobre a família Mayfair, ele percebeu o erro que a Ordem havia cometido.

Langtry chegou a Nova Orleans no dia 28 de agosto de 1929, registrando-se imediatamente no St. Charles Hotel e enviando uma carta para casa como Stuart havia feito. Ele deu o nome, o endereço e o número do seu telefone em Londres para algumas pessoas na recepção do hotel para que mais tarde não houvesse dúvidas quanto à sua presença ali. Ele deu um telefonema internacional para a casa- matriz, do seu quarto, informando o número do quarto e mais alguns detalhes sobre sua chegada.

Depois, ele foi se encontrar com um dos nossos investigadores, o mais competente dos detetives particulares, no bar do hotel, mandando cobrar a despesa na conta do quarto.

Pôde confirmar pessoalmente tudo o que a Ordem já sabia. Foi também informado que Stella não queria mais cooperar com as investigações, no pé em que estavam. Insistindo em que não sabia de nada e não podia ser de ajuda, ela afinal perdeu a paciência e se recusou a voltar a falar com os investigadores.

"Quando me despedi desse senhor", escreveu Langtry no seu relatório, "eu já tinha certeza de estar sendo vigiado. Não era mais do que uma sensação, mas uma sensação profunda. Também pressenti que isso estava associado ao desaparecimento de Stuart, embora eu mesmo não houvesse feito nenhuma pergunta acerca de Stuart para ninguém no hotel. A essa altura, senti uma forte tentação de percorrer as instalações, procurando detectar alguma indicação latente da presença de Stuart num ou noutro quarto. Mas era minha profunda convicção a de que Stuart não havia sofrido nada neste hotel. Pelo contrário, as pessoas que estavam me vigiando, na verdade, anotando todos os meus movimentos e atos, só o faziam porque alguém lhes havia pago para tal. Resolvi entrar em contato com Stella Mayfair imediatamente."

Langtry ligou para Stella do seu quarto. Embora já passasse das quatro horas, era óbvio que ela acabava de acordar ao atender seu telefone particular. Só com muita relutância ela permitiu que se falasse novamente no assunto. E logo ficou evidente que era genuína sua irritação.

- Olhe, não sei o que aconteceu a ele! - disse ela, começando a chorar. - Eu gostei dele.

Gostei mesmo. Era um homem tão estranho. Nós fomos para a cama, sabia?

Langtry não conseguiu pensar em nada que pudesse dizer diante de uma confissão tão franca. Mesmo a voz de Stella sem a presença do corpo tinha algo de encantador. E Langtry se convenceu de que suas lágrimas eram sinceras.

- Bem, fomos mesmo - continuou ela, impávida. - Levei-o a algum lugarzinho horrível no Quarter. Contei isso para a polícia. Seja como for, gostei dele muito mesmo! Disse-lhe para não se aproximar desta família. Eu o avisei! Suas idéias sobre as coisas eram estranhíssimas. Ele não sabia de nada. Disse-lhe que fosse embora. Talvez ele tenha ido mesmo. Foi isso o que pensei que houvesse acontecido, sabe, que ele simplesmente havia seguido meu conselho e ido embora.

Langtry implorou a Stella que ó ajudasse a descobrir o que havia acontecido. Explicou que era uma das pessoas que trabalhavam com Townsend, e que se conheciam profundamente.

- Trabalhou com ele? O senhor quer dizer que pertence aquele grupo. - Pertenço, se está falando do Talamasca...

- Psiu, preste atenção. Seja quem for, o senhor pode vir até aqui se quiser. Mas terá de ser amanhã á noite. É que vou dar uma festa, entende? O senhor pode simplesmente ser mais um convidado. Se alguém lhe perguntar quem o senhor é, o que é pouco provável, basta dizer que Stella o convidou. Peça para falar comigo. Mas, pelo amor de Deus, não diga nada a respeito de Townsend e não pronuncie o nome do seu... sei lá como se chama...

- Talamasca...

- Isso! Por favor, ouça o que estou lhe dizendo. Haverá centenas de pessoas aqui, desde gente de fraque até esmolambados, sabe, e seja discreto. Basta que se aproxime de mim e, ao me beijar, sussurre seu nome no meu ouvido. Como é mesmo seu nome?

- Langtry. Arthur.

- Hum, hum. Certo. É bem simples para eu me lembrar, não é? Agora, tenha muito cuidado. Não posso falar mais. Posso contar com a sua presença? Olhe, o senhor precisa vir!

Langtry afirmou que nada o impediria de comparecer. Perguntou-lhe se ela se lembrava da fotografia na qual havia escrito "Para o Talamasca, com amor, Stella! P.S. Há outros que observam, também."

- É claro que eu me lembro. Olhe, não posso falar sobre isso neste instante. Escrevi aquele recado há muitos e muitos anos. Minha mãe estava viva na época. Olhe, não dá para imaginar como as coisas estão péssimas para mim agora. Nunca estive numa situação pior. E não sei o que aconteceu a Stuart. Realmente não sei. Por favor, não deixe de vir amanhã á noite.

- Claro que irei - respondeu Langtry, esforçando-se em silencio para determinar se estava sendo atraído para alguma cilada ou não. - Mas por que precisamos ser tão cautelosos sobre tudo isso? Não vejo...

- Querido, ouça o que lhe digo - insistiu ela, abaixando a voz. - Tudo bem com essa sua organização, sua biblioteca e suas maravilhosas investigações de fenômenos paranormais. Mas não seja tolo. Nosso mundo não é um mundo de sessões espíritas, mediunidade e parentes mortos nos dizendo para procurar entre as páginas da Bíblia a escritura da propriedade da rua tal, ou coisa semelhante. Quanto aquela bobagem de vodu, aquilo foi só uma brincadeira. E por sinal, não temos nenhum antepassado escocês. Éramos todos franceses. Meu tio Julien inventou uma história de um castelo escocês que ele comprou quando foi à Europa. Por isso, por favor esqueça tudo isso. Mas há outras coisas que posso lhe contar! E é essa a questão. Venha cedo. Chegue por volta das oito, está bem? Mas seja pelo motivo que for, não seja o primeiro a chegar. Agora preciso desligar. Não pode imaginar como tudo está horrível agora. Vou lhe dizer francamente, nunca pedi para nascer nesta família de loucos! Verdade! Amanhã á noite serão trezentos os convidados, e eu não tenho um único amigo neste mundo. Ela desligou.

Langtry, que havia taquigrafado a conversa inteira, copiou-a imediatamente de próprio punho, com uma cópia em carbono, que remeteu para Londres, indo diretamente ao correio para fazê-lo já que não mais confiava na situação no hotel.

Em seguida, foi alugar um fraque e uma camisa de peitilho engomado para a festa da noite seguinte.

"Estou inteiramente confuso", ele havia escrito na carta. "Eu tinha certeza de ela estar envolvida no desaparecimento de Stuart. Agora não sei o que pensar. Ela não estava mentindo para mim, disso tenho certeza. Mas por que sente tanto medo? É claro que não posso fazer uma avaliação inteligente da sua pessoa antes de conhecê-la."

No final daquela tarde, ele ligou para Irwin Dandrich, o espião pago da alta sociedade, convidando-o para jantar num restaurante da moda no French Quarter, a alguns quarteirões do hotel.

Embora Dandrich não tivesse nada a dizer com relação ao desaparecimento de Townsend, ele pareceu apreciar muito a refeição, tagarelando sem parar sobre Stella. Dizia-se que Stella estava se acabando.

- Não se pode beber mais de um quarto de litro de conhaque francês por dia e querer viver para sempre- disse Dandrich, com gestos de tédio e escárnio, como se quisesse sugerir que o assunto fosse enfadonho, quando na verdade ele o adorava. - E o seu caso com Pierce Mayfair é revoltante. Ora, o menino acabou de fazer dezoito anos. Realmente é uma tamanha idiotice de Stella agir assim! Ora, Cortland era seu principal aliado contra Carlotta, e agora ela foi e seduziu o filho predileto de Cortland!

Acho que Barclay e Garland também não aprovam muito essa situação. E só Deus sabe qual é a posição de Lionel. Lionel é um monomaníaco, e o nome da sua monomania é Stella, é claro.

E Dandrich iria á festa?

- Eu não a perderia por nada neste mundo. Sem dúvida vai ser um espetáculo interessante. Stella proibiu Carlotta de tirar Antha da casa durante essas reuniões. Carlotta está bufando. Ameaçou chamar a polícia se os desordeiros não se comportarem.

- Como é Carlotta? - perguntou Langtry.

- Ela é Mary Beth com vinagre nas veias, em vez de vinhos finos. Tem uma inteligência brilhante, mas sem imaginação. É rica, mas não existe nada que ela queira mesmo.

É cansativamente prática, meticulosa e trabalhadeira. Enfim, uma chata insuportável. É claro que ela cuida de absolutamente tudo. Millie Dear, Belle, a pequena Nancy e Antha. E eles têm uns dois criados antigos lá que nem sabem mais quem são ou o que estão fazendo aqui. Carlotta cuida deles como de todos os outros. Stella só pode culpar a si mesma por isso tudo. Foi ela quem sempre deixou Carlotta contratar e dispensar, fazer os cheques e gritar. E agora então, com Lionel e Cortland se voltando contra ela, bem, o que ela pode fazer? Não, eu não perderia essa festa, se eu fosse você. Pode ser a última por um bom tempo.

Langtry passou o dia seguinte explorando os bares clandestinos e o pequeno hotel do French Quarter (uma espelunca) onde Stella havia levado Stuart. Ele era perseguido constantemente pela forte sensação de que Stuart havia mesmo estado naqueles lugares, que o relato de Stella das suas perambulações era a pura verdade.

As sete da noite, vestido e pronto para a noite, ele escreveu mais uma brevíssima carta para a casa-matriz, que enviou da agência dos correios em Lafayette Square, já a caminho da festa.

Quanto mais penso na nossa conversa ao telefone, mais fico preocupado. Do que essa mulher tem tanto medo? Considero difícil acreditar que sua irmã Carlotta possa lhe fazer algum mal. Por que ninguém contrata uma babá para a criança atormentada? Digo- lhe que me sinto como se estivesse sendo atraído descontroladamente pela situação. Sem dúvida era assim que Stuart se sentia.

Langtry pediu ao táxi que o deixasse na esquina de Jackson e Chestnut para que ele pudesse caminhar os dois últimos quarteirões até a casa, chegando pelos fundos.

As ruas estavam totalmente tomadas de automóveis. As pessoas se amontoavam entrando pelo portão dos fundos do jardim, e todas as janelas da casa estavam iluminadas. Eu ouvia os berros agudos do saxofone, muito antes de chegar à escada da entrada. Não havia ninguém á porta da frente, ao que eu pudesse perceber. Eu simplesmente entrei, abrindo caminho em meio a um verdadeiro congestionamento de jovens no corredor. Todos fumavam, riam e se cumprimentavam, sem nem notar minha presença.

A festa realmente admitiu qualquer tipo de traje, exatamente como Stella havia prometido. Havia até mesmo uma boa quantidade de gente idosa ali. E Langtry se sentia num confortável anonimato quando se dirigia ao bar na sala de estar, onde lhe serviram champanhe de excelente qualidade.

A cada minuto, chegava mais gente. Uma multidão dançava na parte frontal do salão. Na verdade, havia tanta gente por todos os cantos, tagarelando, rindo e bebendo numa espessa nuvem azulada da fumaça dos cigarros, que eu mal pude ter uma impressão razoável da mobília do aposento. Luxuosa, suponho, e bastante parecida com a do salão de um grande navio, com seus vasos de palmeirinhas, seus torturados lustres em estilo artdéco e suas cadeiras delicadas, vagamente helênicas. A banda, instalada na varanda lateral, logo atrás de duas portas-janelas, era ensurdecedora.

Eu não podia imaginar como as pessoas chegavam a conversar com o barulho. Eu próprio não conseguia sequer manter a coerência do raciocínio.

Eu estava a ponto de me afastar daquilo tudo quando meus olhos foram atraídos pelos casais que dançavam diante das janelas da frente, e logo percebi que estava olhando direto para Stella: uma mulher muito mais teatral do que qualquer retrato seu conseguiria ser. Ela estava usando seda dourada, um vestidinho de nada, pouco mais do que uma combinação, aparentemente com camadas de franjas, e que mal lhe cobria os joelhos bem- feitos. Minúsculas lantejoulas douradas cobriam suas meias finas, bem como o próprio vestido, e havia uma faixa de cetim dourado com flores amarelas nos seus cabelos negros, curtos e ondulados. Nos pulsos, ela usava delicadas pulseiras de ouro, e no pescoço, a esmeralda Mayfair, absurdamente antiquada, no entanto deslumbrante na sua velha filigrana, pousada no colo nu.

Uma mulher-criança, ela parecia. Esguia, sem seios, e no entanto perfeitamente feminina,  com os lábios pintados de um vermelho ousado e os enormes olhos negros cintilando como pedras preciosas enquanto ela recebia o olhar de adoração de todos, sem nunca perder o ritmo da dança. Seus pequenos pés em frágeis sapatos de salto alto batiam impiedosamente no assoalho encerado e, jogando a cabeça para trás, ela ria deliciada, dando uma pequena volta, a requebrar os ínfimos quadris, com os braços totalmente abertos.

“E isso aí, Stella!” urrou alguém; e um outro, "Isso mesmo, Stella!" E tudo isso sem sair do ritmo, se é que se pode imaginar. E Stella conseguia dar uma atenção carinhosa aos seus adoradores e, ao mesmo tempo, se entregar totalmente á dança, com o corpo flexível e delicado.

Se eu um dia cheguei a ver uma pessoa que apreciasse a música e a atenção com um abandono tão inocente, naquela hora não me lembrei, como não me lembro agora. Não havia nada de cinismo ou de vaidade na sua exibição. Pelo contrário, ela dava a impressão de estar muito acima dessas idiotices egoístas e de pertencer tanto aos que a admiravam quanto a si mesma.

Já seu parceiro, só o vi mais tarde, embora, em qualquer outra circunstância, eu o houvesse notado imediatamente, dado que ele era muito jovem e no fundo notavelmente parecido com ela, a mesma pele clara, os mesmos olhos e cabelos negros. Mas ele era pouco mais do que um menino. Seu rosto ainda tinha uma pureza de porcelana, e sua altura parecia estar levando vantagem sobre seu peso.

Ele explodia com a mesma vitalidade despreocupada de Stella. E quando a música terminou, ela jogou as mãos para o alto e se deixou cair, com total confiança, direto de costas para os braços que a esperavam. Ele a abraçou com uma intimidade escandalosa, deslizando as mãos pelo seu torso de menino e depois a beijando carinhosamente na boca. No entanto, isso foi feito sem nada de teatral. Na verdade, creio que ele não via mais ninguém no mundo a não ser ela.

As pessoas fecharam o círculo ao seu redor. Alguém derramava champanhe na boca de Stella enquanto ela como que se pendurava no rapaz, e a música voltava a tocar. Outros casais, todos muito modernos e alegres, começaram a dançar.

Essa não era uma boa hora para abordá-la, raciocinei. Eram só oito e dez, e eu queria tirar alguns momentos para dar uma olhada na casa. Além disso, fiquei temporariamente desconcertado com sua presença. Uma enorme lacuna havia sido preenchida. Tive certeza de que ela não havia feito nenhum mal a Stuart. E assim, ouvindo seu riso ainda mais alto do que a nova investida da banda, retomei minha caminhada na direção das portas do salão.

Permitam-me dizer aqui que essa casa é provida de um corredor extraordinariamente longo e de uma escada bem longa e reta. Eu calcularia que ela deve ter uns trinta degraus. (São na verdade vinte e sete.) O segundo andar parecia estar inteiramente às escuras, e a escada estava deserta, embora dezenas de pessoas passassem acotovelando-se por ela na direção de uma sala feericamente iluminada no final do corredor do térreo.

Eu pretendia seguir seu exemplo, e assim fazer uma pequena exploração do local; mas, quando toquei o balaústre do pé da escada, vi alguém lá em cima. Percebi subitamente que se tratava de Stuart. Meu choque foi tal que quase gritei seu nome. Foi quando notei que havia nele algo de muito errado.

Ele me parecia absolutamente real, isso vocês precisam entender. Na verdade, o jeito que a luz o atingia, vindo de baixo, não podia ser mais realista. No entanto, sua expressão me alertou imediatamente para o fato de eu estar vendo algo que não podia ser real. Pois, embora ele olhasse direto para mim e fosse óbvio que estava me reconhecendo, não havia no seu rosto nenhuma expressão de urgência, apenas uma tristeza profunda, uma dor imensa e extenuada.

Ele pareceu se demorar até se certificar de que eu o havia visto, e então abanou a cabeça, numa proibição exausta. Ele então ergueu a mão direita e fez um gesto nítido para que eu fosse embora.

Não ousei me mexer. Permaneci totalmente calmo, como sempre faço nesses momentos, resistindo ao inevitável delírio, concentrando-me no barulho, na pressão da multidão, até mesmo nos gritos agudos da música. E com muito cuidado gravei o que estava vendo. Suas roupas estavam sujas e desarrumadas. O lado direito do seu rosto estava machucado ou pelo menos desbotado.

Afinal, cheguei ao pé da escada e comecei a subir. Só então o fantasma despertou da sua aparente lassidão. Mais uma vez, ele abanou a cabeça e gesticulou para que eu fosse embora.

- Stuart - sussurrei. - Fale comigo, homem, se puder!

Continuei a subir, com os olhos fixos nele, enquanto sua expressão demonstrava pavor cada vez maior. Vi que ele estava coberto de poeira; que seu corpo, mesmo enquanto ele me encarava, demonstrava os primeiros sinais de apodrecimento. Pior, eu sentia o cheiro! E então aconteceu o inevitável. A imagem começou a se apagar. Implorei desesperadamente que não se fosse. Mas a figura escureceu, e de dentro dela, sem a menor consciência da sua presença, saiu uma mulher de carne e osso, de extraordinária beleza, que veio descendo a escada na minha direção e passou por mim, numa lufada de seda cor de pêssego e de jóias a tilintar, trazendo com ela uma nuvem de perfume adocicado.

Stuart não estava mais ali. O cheiro de carne em decomposição desapareceu. A mulher pediu desculpas baixinho ao passar por mim. Parecia que ela estava gritando para uma quantidade de pessoas no saguão lá embaixo.

Ela se voltou, então, e enquanto eu estava ali parado olhando lá para cima, totalmente esquecido dela, e com os olhos perdidos em nada a não ser nas sombras, senti sua mão agarrar meu braço.

- Ei, a festa é aqui embaixo - disse ela, dando- me um pequeno puxão.

- Estou procurando o banheiro - disse eu, pois naquele instante não pude pensar em nenhum outro motivo.

- Fica aqui embaixo, querido. Logo ali na biblioteca. Vou lhe mostrar onde é, bem atrás da escada.

Acompanhei-a desajeitado escada abaixo, demos a volta e entramos num aposento muito amplo porém pouco iluminado, voltado para o norte.Era a biblioteca, sim, sem nenhuma dúvida, com estantes que alcançavam o teto, mobília de couro escuro e apenas uma luz acesa, num canto distante da porta, ao lado de uma cortina vermelho sangue. Um imenso espelho escuro estava suspenso acima da lareira de mármore,  refletindo a luz do abajur como se fosse uma luz de santuário.

- É aqui - disse ela, indicando uma porta fechada e saindo rapidamente. Eu de repente percebi um homem e uma mulher, abraçados no sofá de couro, que se levantaram e se apressaram a sair. A festa, com sua alegria constante, parecia evitar esse aposento. Tudo aqui era poeira e silêncio. Dava para se sentir o cheiro do couro e do papel se desfazendo em pó. E eu senti imenso alívio por estar só.

Joguei-me na poltrona bergere diante da lareira, de costas para a multidão que passava pelo corredor, olhando para o seu reflexo no espelho, sentindo-me temporariamente em total segurança e rezando para que mais nenhum casal de namorados procurasse o abrigo dessas sombras.

Apanhei meu lenço e limpei o rosto. Eu suava terrivelmente e me esforçava para lembrar cada detalhe do que havia visto.

Agora, vocês sabem que todos nós temos nossas teorias acerca de assombrações: quanto ao motivo pelo qual assumem essa ou aquela aparência, ou por que fazem o que fazem. E é provável que as minhas não estejam de acordo com as de mais ninguém. Mas, sentado ali, eu tinha certeza de um ponto. Stuart havia optado por me aparecer num estado desarrumado e em decomposição por uma razão muito especial - seus restos estavam nessa casa! Mesmo assim, ele estava me implorando que fosse embora! Ele estava me avisando para sair.

Seria esse aviso para o Talamasca como um todo? Ou apenas para Arthur Langtry? Fiquei meditando, sentindo minha pulsação voltar ao normal e sentindo, como sempre acontece depois de experiências dessa natureza, uma onda de adrenalina, uma disposição a descobrir tudo o que está por trás do leve bruxuleio do sobrenatural que eu acabava de vislumbrar.

Eu estava também furioso, de uma forma profunda e rancorosa, com a pessoa ou a coisa que havia terminado com a vida de Stuart.

O que fazer a seguir era a pergunta crucial. É claro que eu devia falar com Stella. Mas até onde eu poderia explorar essa casa antes de me apresentar a ela? E o aviso de Stuart? Exatamente qual era o perigo para o qual eu devia estar preparado?

Estava considerando tudo isso, sem perceber nenhuma mudança na confusão no corredor ás minhas costas, quando de repente fui dominado pela impressão de que algo no meu ambiente imediato havia passado por uma mudança radical e significativa. Ergui os olhos lentamente. Havia no espelho o reflexo de alguém, aparentemente de uma figura solitária. Sobressaltado, olhei para trás por cima do ombro. Não havia ninguém ali. Voltei, então, ao espelho fosco, sombrio.

Um homem olhava cá para fora, da região incorpórea por trás do vidro. E, enquanto eu o examinava, com a adrenalina subindo e meus sentidos se aguçando, sua imagem foi ficando mais clara e brilhante, até que ele apresentou a aparência nítida e inquestionável de um rapaz de pele clara e olhos de um castanho escuro, que me encarava aqui embaixo com raiva e maldade inconfundíveis.

Afinal, a imagem atingiu sua força plena. E era tão cheia de vitalidade que parecia que um homem mortal havia se introduzido em algum aposento por trás do espelho e, tendo retirado o vidro, me espiava de dentro de uma moldura vazia.

Nunca em todos os meus anos no Talamasca eu havia visto uma assombração tão perfeita. O homem parecia ter talvez uns trinta anos de idade. Sua pele era deliberadamente impecável, embora meticulosamente colorida, com um rubor nas faces e um ligeiro empalidecimento nas olheiras. Seu traje era extremamente antiquado, com uma gola branca virada para cima e uma bela gravata de seda. Quanto ao cabelo, ele era ondulado e levemente despenteado, como se o homem tivesse acabado de passar os dedos por ele. A boca parecia carnuda, jovem e um pouco avermelhada. Dava para eu ver as linhas finíssimas nos lábios. Na verdade, eu via a ínfima sombra de uma barba recém-feita no seu queixo.

No entanto, o efeito era horrendo, porque não se tratava de ser humano, pintura ou reflexo; mas de algo infinitamente mais brilhante do que qualquer um desses e, apesar disso, de algo silenciosamente vivo.

Os olhos castanhos estavam cheios de ódio e, enquanto eu observava a criatura, sua boca sofreu um tremor levíssimo de raiva e, afinal, de fúria.

Bem devagar e deliberadamente, levei meu lenço á boca.

- Você matou meu amigo, espírito? - sussurrei. Raras vezes eu me senti tão estimulado, tão preparado para o confronto. - E então, espírito? - Perguntei novamente.

Vi que ele se enfraquecia. Vi que perdia sua solidez, na verdade, sua própria animação. O rosto, modelado com tanta beleza e exprimindo tanta emoção negativa, ia aos poucos perdendo a expressão.

- Não vai se livrar de mim assim tão facilmente, espírito - disse entre dentes. – Agora temos duas contas a acertar, ou não temos! Petyr van Abel e Stuart Townsend, concordamos quanto a esse ponto?

A ilusão pareceu incapaz de me responder. E de súbito o espelho estremeceu por inteiro, voltando a ser apenas um vidro escuro quando a porta do corredor se fechou com violência.

Ouvi passos no chão nu para lá da borda do tapete chinês. O espelho estava decididamente vazio, refletindo nada mais do que mobília e livros.

Voltei-me e vi uma mulher jovem que avançava pelo tapete, com os olhos fixos no espelho e toda a sua expressão revelando raiva, confusão, aflição. Era Stella. Ela parou diante do espelho, de costas para mim, examinando-o e depois se voltou.

- Bem, você pode descreve r isso para seus amigos de Londres, certo? - Ela parecia estar à beira da histeria. - Pode lhes contar o que viu!

Percebi que seu corpo todo tremia. O leve vestido dourado com suas fileiras de franjas tremia. E, ansiosa, ela agarrou a esmeralda monstruosa junto á garganta.

Esforcei-me para me levantar, mas ela me disse que ficasse sentado e imediatamente ocupou um lugar no sofá à minha esquerda, com a mão firme no meu joelho. Ela se aproximou muito de mim, tão perto que eu pude ver a máscara nos seus cílios longos e o pó no seu rosto. Ela era como uma enorme boneca a me olhar, uma deusa do cinema, nua na sua seda transparente.

- Ouça, pode me levar daqui? Para a Inglaterra, para essas pessoas, esse Talamasca? Stuart disse que poderia!

- Você me diz o que aconteceu com Stuart, e eu a levo para onde você quiser.

- Eu não sei! - disse ela, e seus olhos logo se encheram de lágrimas. - Olhe, preciso ir embora. Eu não fiz nada contra ele. Não faço esse tipo de coisa com as pessoas. Nunca fiz! Meu Deus, o senhor não está acreditando em mim? Não tem condição de saber que estou dizendo a verdade?

- Está bem. O que quer que eu faça?

- Basta que me ajude! Leve-me para a Inglaterra. Olhe, tenho passaporte, tenho bastante dinheiro... -A essa altura, ela se interrompeu, abriu uma gaveta na mesa de canto do sofá e tirou dela um verdadeiro maço de notas de vinte dólares. - Pronto. Pode comprar as passagens. Vou me encontrar com o senhor. Hoje á noite.

Antes que eu pudesse responder, ela ergueu os olhos, sobressaltada. A porta se abriu e por ela entrou o rapaz com quem ela estivera dançando antes, muito afogueado e cheio de preocupação.

- Stella, estive procurando por você...

- Ora, querido, já vou - disse ela, levantando-se de imediato e me lançando, por cima do ombro, um olhar significativo. - Agora volte lá fora e apanhe uma bebida para mim, querido. - Ela ajeitou sua gravata enquanto falava com ele e depois fez com que se virasse, com pequenos gestos rápidos que de fato o empurraram na direção. da porta.

O rapaz demonstrava muita suspeita, mas tinha evidentemente boas maneiras. Fez o que ela disse que fizesse. Assim que fechou a porta, ela voltou para perto de mim. Estava ruborizada, quase febril e absolutamente convincente. Na verdade, minha impressão dela era a de que ela era uma pessoa algo inocente, que acreditava em todo o otimismo e rebeldia dos 'filhos do jazz'. Ela parecia autêntica, se é que me entendem.

- Vá para a estação - implorou- me. - Compre as passagens. Vou me encontrar com o senhor no trem.

- Mas que trem? De que horário?

- Não sei que trem! - Ela torcia as mãos. - Não sei que horário! Preciso ir embora. Olhe, vou com o senhor.

- Esse me parece um plano melhor. Você poderia esperar por mim no táxi enquanto eu apanho minhas coisas no hotel.

- É, é uma idéia excelente! - sussurrou. - E sairemos daqui no primeiro trem que estiver partindo. Sempre podemos mudar nossa passagem mais adiante.

- E ele?

- Que ele? - perguntou, irritada. - Está falando de Pierce? Pierce não vai causar nenhum problema! Pierce é um amor de criatura. Posso me encarregar de Pierce.

- Você sabe que não estou falando de Pierce - disse eu. - Estou falando do homem que vi há alguns instantes no espelho, o homem que você forçou a desaparecer.

Ela parecia totalmente desesperada. Era um animal acuado, mas não creio que fosse eu que a estivesse acuando. Eu não conseguia compreender.

- Olhe, eu não fiz com que ele desaparecesse - disse ela, entre dentes. - Foi o senhor! – Ela fez um esforço consciente para se acalmar, pousando a mão por um momento no peito arquejante. - Ele não nos impedirá - prosseguiu. - Por favor, acredite no que lhe digo.

Nesse instante, Pierce voltou, abrindo a porta mais uma vez e deixando entrar a imensa cacofonia lá de fora. Grata, ela tomou da mão dele a taça de champanhe e bebeu metade de um gole.

-Vou conversar com você daqui a pouco - disse-me ela com uma doçura afetada. - Daqui a um pouquinho. Você vai estar bem aqui, não vai? Não, por sinal, por que não toma um pouco de ar fresco? Vá lá para a varanda da frente, querido, e eu vou conversar com você lá.

Pierce sabia que ela estava tramando alguma coisa. Ele olhou de mim para ela, mas era óbvio que se sentia totalmente incapaz de fazer qualquer coisa. Ela o pegou pelo braço e o levou consigo adiante de mim. Olhei para o tapete de relance. As notas de vinte dólares haviam caído e estavam espalhadas por toda parte. Eu as recolhi, apressado, pondo-as de volta na gaveta, e saí para o corredor.

Bem em frente à porta da biblioteca, vislumbrei um retrato de Julien Mayfair, uma tela muito bem pintada em óleos pesados e escuros ao estilo de Rembrandt. Desejei ter tempo para poder apreciá-lo.

Mas saí rápido de trás da escada e comecei a abrir caminho com a maior delicadeza possível na direção da porta da frente.

Três minutos deviam ter se passado, e eu só havia conseguido chegar a balaústre do pé da escada, quando vi o homem novamente, ou achei que o vi por um terrível instante, o homem de cabelos castanhos que eu havia visto n espelho. Dessa vez, ele me fitava por cima do ombro de alguém, parado no canto da frente do corredor.

Tentei discerni-lo mais uma vez, mas não consegui. As pessoas fazias pressão contra mim como se tivessem a intenção, que é claro que não tinham, d impedir meu avanço.

Percebi, então, que alguém à minha frente estava apontando para a escada Eu agora já havia passado dela e me encontrava a uns dois metros da porta. Voltei-me e vi uma criança no patamar, uma menininha loura muito bonita. Ser dúvida era Antha, embora me parecesse bem pequena para ter oito anos. Estava descalça e usava uma camisola de flanela. Estava chorando e olhava por cima d balaustrada para o salão da frente.

Eu também me voltei e olhei para o salão da frente, momento no qual alguém sufocou um grito e a multidão se abriu, com as pessoas ficando à direita e à esquerda da porta, aparentando medo. Um homem ruivo estava parado no portal, um pouco à minha esquerda, voltado para o salão. E enquanto eu olhava com horror e repulsa,  ele levantou uma pistola com sua mão direita e atirou. O estrondo ensurdecedor fez tremer a casa. Seguiu-se o pânico. Encheu-se o ar de berros. Alguém havia caído junto à porta da frente, e os outros simplesmente pisoteavam o pobre coitado. Algumas pessoas procuravam escapar voltando para o saguão.

Vi Stella caída no chão, no meio do salão da frente. Estava deitada de costa: coma cabeça virada para o lado, com os olhos fixos no saguão. Corri para lá, mas não a tempo de impedir o homem ruivo de ficar parado junto a ela e atirar novamente Seu corpo teve espasmos quando o sangue jorrou do lado da sua cabeça.

Agarrei o braço do filho da mãe, e ele atirou novamente quando minha ma apertou seu pulso. Essa bala, no entanto, não acertou nela e atravessou o pise Parecia que os gritos se redobravam. Vidros se quebravam. Na realidade, a janelas estavam se espatifando. Alguém tentou pegar o homem por trás, e eu nem sei como tirei a arma da sua mão, embora estivesse acidentalmente pisando em Stella, tropeçando de fato nos seus pés.

Caí de joelhos com a arma e depois a empurrei com determinação para outro lado do chão da sala. O assassino lutava agora em vão com uma meia dúzia de homens. Estilhaços de vidro das janelas caíam sobre todos nós. Vi que ele caiam como chuva sobre Stella. O sangue escorria do seu pescoço e sujava esmeralda Mayfair que estava jogada de lado no seu colo.

A primeira coisa que percebi foi uma trovoada monstruosa que superou o berros e gritos ensurdecedores vindos de todos os cantos. E senti que a chuva entrava em rajadas. Depois eu a ouvi caindo em todas as varandas ao redor. Em seguida, as luzes se apagaram. Relâmpagos repetidos me permitiram ver os homens arrastando o assassino para fora da sala. Uma mulher se ajoelhou ao lado de Stella, ergueu seu pulso sem vida e deu um grito agonizante.

Quanto à criança, ela havia entrado na sala e estava parada, descalça, olhando fixamente para a mãe. E então também ela começou a berrar. Sua voz se erguia aguda e penetrante acima das outras. 'Mamãe, mamãe, mamãe', como se a cada repetição sua percepção do ocorrido aprofundasse seu desamparo.

- Alguém leve a criança daqui! - exclamei. E de fato outras pessoas haviam se reunido em volta dela e tentavam afastá-la dali. Saí da frente, apenas me pondo em pé quando cheguei à janela que dava para a varanda lateral. A luz de mais um relâmpago, vi alguém apanhar a arma, que foi entregue a uma outra pessoa, que a passou a ainda uma outra, que a segurou como se ela estivesse viva. As impressões digitais não tinham mais nenhuma importância, se é que em algum momento tiveram, e havia inúmeras testemunhas. Não havia nenhum motivo para eu não ir embora enquanto podia. Voltando-me, saí para a varanda lateral e enfrentei o aguaceiro ao pisar no gramado.

Dezenas de pessoas estavam ali abraçadas. As mulheres, chorando; os homens, fazendo o possível para proteger as cabeças femininas com seus paletós. Todos, encharcados, trêmulos e perplexos. A luz tremeluziu por um segundo, mas um outro relâmpago violento assinalou a interrupção do serviço. Quando uma janela do andar superior estourou de repente numa chuva de estilhaços cintilantes, o pânico mais uma vez dominou a todos.

Corri na direção dos fundos da propriedade, pretendendo sair por ali sem ser observado. Isso implicou uma pequena corrida pelo caminho de lajes, a subida de dois degraus até o pátio ao redor da piscina e dali pude ver a alameda lateral até o portão esmo. Com a chuva pesada, pude ver que ele estava aberto e vi, para além dele, as pedras reluzentes da pavimentação da rua. Os trovões reverberavam acima dos telhados, e num instante um relâmpago iluminou apavorante todo o jardim, com suas balaustradas e altas camélias, com suas toalhas jogadas sobre o esqueleto de inúmeras cadeiras de ferro pretos Tudo era açoitado irremediavelmente pelo vento.

De repente, ouvi sirenes. E, quando me apressava a chegar à calçada, vislumbrei um homem parado imóvel, como que rígido, numa grande moita de bananeiras ao lado do portão.

Ao me aproximar, olhei para a direita, direto no rosto do homem. Era o espírito, mais uma vez visível aos meus olhos, embora por que motivo juro que não faço a menor idéia. Meu coração se acelerou perigosamente, e eu senti uma tontura momentânea e uma contração das têmporas como se a circulação do meu sangue estivesse sendo bloqueada.

Ele me apresentou a mesma figura de antes. Vi o inconfundível brilho do cabelo e dos olhos castanhos bem como os trajes escuros, que não chamavam a atenção, a não ser pela sua formalidade e por uma certa indefinição do conjunto. No entanto, gotas de chuva brilhavam ao tocar nos seus ombros e lapelas. Também brilhavam no seu cabelo.

Foi, porém, o rosto da criatura que me deixou fascinado. Estava monstruosamente transformado pela dor; e suas faces, molhadas com um pranto mudo enquanto ele me encarava nos olhos.

- Por Deus, fale se puder-disse eu. Praticamente as mesmas palavras que havia dito ao desesperado espírito de Stuart. E eu estava tão descontrolado por tudo que havia visto que investi contra ele, procurando agarrá-lo pelos ombros e fazer o possível para que me respondesse.

Ele desapareceu. Só que dessa vez eu o senti sumir. Senti o calor e o súbito movimento no ar. Foi como se alguma coisa tivesse sido aspirada dali, e as bananeiras balançaram com violência. Mas também o vento e a chuva as estavam castigando. De repente, eu não sabia o que havia visto, ou o que havia sentido. Meu coração saltava perigosamente. Senti mais um acesso de tontura. Hora de sair dali.

Fui apressado por Chestnut Street, passando por dezenas de indivíduos que vagueavam, estarrecidos, a chorar, e desci por Jackson Avenue já fora do alcance do vento e da chuva, entrando num trecho bastante claro e ameno, em que o trânsito seguia tranqüilo, aparentemente sem o menor conhecimento do que havia acontecido a apenas alguns quarteirões dali. Em questão de segundos, tomei um táxi até o hotel.

Assim que ali cheguei, arrumei meus pertences, carregando tudo com dificuldade até o andar térreo sem a ajuda de nenhum porteiro e imediatamente encerrei minha conta. Eu tinha o táxi que me levaria até a estação ferroviária, onde tomei o trem da meia-noite para Nova York, e agora estou no vagão dormitório.

Vou enviar esta carta assim que puder. E até essa ocasião, terei sempre a carta comigo, na minha roupa, na esperança de que, se algo me acontecer, a carta seja encontrada.

No entanto, agora que escrevi isso, não creio que nada me aconteça! Este capítulo está encerrado. Chegou a um final horrendo e sangrento. Stuart participou dele.

E só Deus sabe o papel que o espírito desempenhou. Mas eu não vou oferecer mais tentações ao espírito voltando para lá. Todos os impulsos no meu ser me dizem para escapar daqui. E se por um instante eu me esqueço disso, tenho a recordação obsessiva de Stuart a me guiar, Stuart, do alto da escada, fazendo um gesto para que eu fosse embora.

Se não voltarmos a conversar em Londres, por favor sigam o conselho que lhes estou dando. Não mandem mais ninguém a este lugar. Pelo menos, não por enquanto. Observem, aguardem, como está no nosso lema. Considerem as provas. Procurem extrair alguma lição do que já ocorreu. E acima de tudo, estudem o arquivo Mayfair. Estudem-no em profundidade e ponham em ordem seus diversos componentes.

Minha opinião, se é que vale alguma coisa, é que nem Lasher nem Stella tiveram influência na morte de Stuart. No entanto, seus restos mortais estão debaixo daquele teto.

O conselho pode, porém, examinar as provas demoradamente. Não enviem mais ninguém para cá.

Não podemos esperar pela justiça dos homens no que diz respeito a Stuart. Não podemos ter esperança nas decisões legais. Mesmo na investigação que inevitavelmente se seguirá aos horrores desta noite, não haverá nenhuma busca na casa da família Mayfair ou no seu terreno. E como poderíamos jamais exigir que uma medida dessas fosse tomada?

Nunca nos esqueceremos de Stuart, porém. E eu sou homem o bastante, mesmo no crepúsculo da minha vida, para acreditar que deve haver um ajuste de contas, tanto no caso de Stuart quanto no de Petyr, embora eu não saiba com quê ou com quem esse ajuste será feito.

Não estou falando de desforra. Não estou falando de vingança. Falo de esclarecimento, compreensão e, acima de tudo, solução do problema. Falo da definitiva luz da verdade.

Essas pessoas, a família Mayfair, não sabem mais quem são. Digo-lhes que a moça era inocente. Estou convicto disso. Mas nós sabemos. Nós sabemos; e Lasher sabe.

E quem é Lasher? Quem e esse espírito que decidiu me revelar sua dor, que optou por me mostrar suas próprias lágrimas?

Arthur enviou essa carta de St. Louis, Missouri. Uma péssima cópia em carbono foi enviada dois dias depois, de Nova York, com um breve pós-escrito, explicando que Arthur havia reservado a passagem para voltar para casa e que iria zarpar no final da semana.

Depois de dois dias no mar, Arthur ligou para o médico de bordo, queixando-se de dores no peito e pedindo um medicamento comum para má digestão. Meia hora depois, o médico encontrou Arthur morto, aparentemente de um ataque cardíaco. Eram seis e meia da noite de 7 de setembro de 1929.

Arthur havia escrito a bordo mais uma carta bem curta no dia anterior á sua morte. Ela foi encontrada no bolso do roupão que ele usava.

Nela, ele dizia que não se sentia bem, que sofria de enjôos terríveis, o que não lhe acontecia há anos. Havia horas em que ele temia estar realmente enfermo e não voltar a ver a casa-matriz.

Há tantas coisas que eu quero debater com vocês acerca da família Mayfair, tantas idéias que me passam pela cabeça. E se nós atraíssemos esse espírito? Quer dizer, e se nós o convidássemos a vir a nós?

"Seja qual for sua decisão, não mandem outro investigador a Nova Orleans. Pelo menos, não agora, não enquanto aquela mulher, Carlotta Mayfair, estiver viva."

Ele a beijava enquanto acariciava seus seios. O prazer era tão intenso. Paralisante. Ela tentou erguer a cabeça, mas não conseguiu se mexer. O ronco ininterrupto das turbinas a embalava. É, isso era um sonho. No entanto, parecia tão real, e ela já estava voltando a cair nele. Faltavam apenas quarenta e cinco minutos para o pouso no aeroporto internacional de Nova Orleans. Ela devia tentar acordar. Mas ele já a beijava de novo, forçando a língua delicadamente entre seus lábios, com tanta delicadeza e com tanta força. E os dedos lhe tocavam os bicos dos seios, beliscando-os como se ela estivesse nua por baixo da pequena manta de lã. Ah, ele sabia fazer isso, beliscar devagar mas com firmeza. Ela se voltou mais para a janela, suspirando, encolhendo os joelhos para encostá-los na parede da cabine. Ninguém a observava. Primeira classe, meio vazia. Faltava pouco. Mais uma vez, ele lhe apertou os bicos dos seios, só um pouco mais cruel, hum, que gostoso. A verdade é que a brutalidade nunca é demais. Beije com mais força. Encha minha boca com essa sua língua. Ela abriu os lábios encostados nos dele, e então ele lhe afagou os cabelos, fazendo brotar mais uma sensação inesperada, um leve formigamento. Estava aí o milagre, que houvesse uma tamanha variedade de sensações, como uma mescla de cores suaves e vibrantes, os calafrios que lhe percorriam as costas e os braços, além do fogo a pulsar entre as pernas. Entre em mim! Eu quero que me ocupe com a sua língua e com você. Com »cais força! Ele era enorme, mas entrou suave, banhado como estava pelos seus fluidos. Ela gozou em silencio, estremecendo por baixo da manta, com o cabelo caído sobre o rosto, só com a vaga consciência de que não estava nua, de que ninguém podia estar tocando seu corpo, de que ninguém podia estar criando esse prazer. No entanto, ele se prolongava, o coração parecendo parar, o sangue latejando no seu rosto, os espasmos que desciam pelas suas coxas e pernas.

Você vai morrer se isso não parar, Rowan. A mão dele lhe acariciou o rosto. Ele beijou suas pálpebras. Te amo...

De repente, ela abriu os olhos. Por um instante, não reconheceu nada. Depois viu a cabine. A janelinha estava fechada, e tudo à sua volta parecia ser de um cinza luminoso, imerso no ruído dos motores. Os espasmos ainda a percorriam. Ela se recostou na ampla poltrona do avião e se entregou a eles, como se fossem surtos brandos e maravilhosamente modulados de eletricidade. Seus olhos passeavam lânguidos pelo teto enquanto ela se esforçava para mantê-los abertos, para acordar.

Meu Deus, qual não seria sua aparência depois dessa pequena orgia? Seu rosto devia estar ruborizado.

Ela foi se sentando bem devagar, ajeitando o cabelo para trás com as duas mãos. Tentou relembrar o sonho, não peia sensualidade, mas pela informação. Tentou voltar ao centro do sonho, saber quem era o homem. Não era Michael. Não. Isso era desagradável. Meu Deus, pensou Rowan. Fui infiel a Michael com ninguém. Que estranho. Ela levou as mãos ao rosto. Estava muito quente. Ainda sentia aquele prazer surdo, vibrante, debilitante até mesmo agora.

- Falta quanto para o pouso em Nova Orleans? -perguntou à aeromoça que passava.

- Meia hora. Está com o cinto preso?

Ela se recostou, tateando à procura do cinto e depois se entregando a uma deliciosa lassidão. Pensou em como um sonho podia provocar aquilo. Como um sonho podia levar a coisa tão longe?

Aos treze anos, costumava ter esse tipo de sonho, antes de saber que eram naturais ou o que devia fazer a respeito deles. No entanto, sempre acordava antes de terminar.

Não conseguia agir de outro modo. Dessa vez, porém, o sonho havia chegado ao final. E o mais estranho era que ela se sentia violentada, como se o amante onírico a houvesse estuprado. Ora, isso era realmente o cúmulo do absurdo. Mas a sensação não era agradável e era de extrema intensidade.

Violentada...

Ela levou as mãos aos seios por baixo do cobertor, protegendo-os com carinho. Mas isso era tolice, não era? Além do mais, não se tratou de estupro. - Aceita uma bebida antes do pouso?

- Não. Um café. - Ela fechou os olhos. Quem havia sido esse seu amante do sonho?

Nenhum rosto, nenhum nome. Só a sensação de alguém mais delicado do que Michael, alguém quase etéreo, ou pelo menos era essa a palavra que agora lhe ocorria. O homem havia falado alguma coisa. Tinha certeza disso. Mas tudo lhe havia escapado a não ser a lembrança do prazer.

Só quando voltou a se sentar ereta para tomar o café, foi que percebeu uma leve sensibilidade entre as pernas. Talvez uma conseqüência das fortes contrações musculares.

Graças a Deus não havia ninguém por perto; ninguém ao seu lado ou do outro lado do corredor. Também ela nunca teria deixado a coisa ir tão longe se não estivesse escondida, por baixo da manta. Isto é, se tivesse conseguido se forçar a acordar. Se tivesse tido escolha.

Estava com tanto sono!

Bebeu devagar um gole do café e levantou a janelinha de plástico branco.

Lá embaixo um pântano verdejante ao sol polarizado da tarde. E o rio marrom escuro, sinuoso, acompanhando à distância as curvas da cidade. Ela sentiu uma súbita exultação. Faltava pouco. O ruído dos motores ficou mais forte, mais alto, com a descida do avião.

Ela não queria mais pensar no sonho. Desejava honestamente que ele nunca houvesse acontecido. Na realidade, ele lhe pareceu de repente terrivelmente repugnante. Ela se sentia suja, cansada e furiosa. Até um pouco enojada. Queria pensar na mãe e em ver Michael.

Havia ligado para Jerry Lonigan de Dallas. A funerária estava aberta. E os primos já chegavam. Haviam telefonado a manhã inteira. A missa estava marcada para as três da tarde, e ela não devia se preocupar. Bastava que viesse do Pontchartrain assim que chegasse.

- Onde você estará, Michael? - sussurrou ela, ao se recostar mais uma vez e fechar os olhos.

Estava lá em cima dançando ao som dos seus discos. "Procure estar apresentável na festa, Lionel, por favor." Pelo amor de Deus, será que ninguém sabia o que estava acontecendo?

- E Carl falando de mandar Stella para a Europa! Como alguma pessoa poderia jamais forçar Stella a fazer qualquer coisa? E que diferença faria o fato de Stella estar na Europa? Procurei falar com Pierce. Agarrei-o pelo pescoço e disse, "Vou fazer vote me ouvir." Eu teria atirado também nele, se tivesse conseguido. É o que eu teria feito, meu Deus. Por que me impediram? "Vote não está percebendo? É com Antha que ele está agora! Estão cegos?" Foi o que falei. E vocês me digam! Será que todos eles estão cegos?

Ao que nos relataram, ele permaneceu assim dias a fio. No entanto, o trecho citado é o único fragmento anotado ao pé da letra na sua ficha médica, após o que somos apenas informados de que o "paciente continua a falar de alguma mulher e de algum homem, sendo que uma dessas pessoas é supostamente o demônio". Ou então, "Delirando de novo, incoerente, insinuando que alguém o levou ao ato criminoso, mas sem deixar claro quem é essa pessoa."

Na véspera do enterro de Stella, três dias após o assassinato, Lionel tentou fugir. Daí em diante, ele foi mantido permanentemente sob controle.

- Como conseguiram arrumar o rosto de Stella, eu nunca vou saber - disse um dos primos, muito tempo depois. - Mas ela estava linda.

- Essa foi realmente a última festa de Stella. Ela havia deixado instruções detalhadas sobre como tudo deveria ser, e sabe o que eu ouvi dizer mais tarde? Que tudo aquilo ela escreveu aos treze anos de idade! Imagine, as idéias românticas de uma menina de treze anos!

Os Comentários nos meios jurídicos indicavam algo bem diferente. As instruções para o enterro de Stella (que não representavam absolutamente uma obrigação legal) haviam sido incluídas no testamento feito por ela em 1925, após a morte de Mary Beth. E apesar de todo o seu efeito romântico, elas eram de extrema simplicidade.

Stella deveria ser velada em casa. As floriculturas deveriam ser informadas de que a "flor preferida" seria o copo-de-leite ou algum outro lírio branco. O andar principal da casa deveria ser iluminado apenas por velas. Seria servido vinho. O velório deveria se estender desde a colocação do corpo no caixão até sua remoção para a missa de corpo presente na igreja.

Acabou sendo romântico, para os padrões de qualquer pessoa, com Stella vestida de branco num caixão aberto na extremidade frontal do longo salão, e dúzias de velas de cera emitindo uma luz fantástica.

- Vou lhe dizer como foi - comentou um dos parentes muito depois. - Como as procissões do mês de maio! Exatamente. Com todos aqueles lírios, todo aquele perfume e Stella, de branco, como a rainha da primavera.

Cortland, Garland e Barclay cumprimentavam os primos que chegavam às centenas. Foi permitido a Pierce prestar suas últimas homenagens, embora ele fosse imediatamente despachado para a família da sua mãe, em Nova York. Os espelhos estavam cobertos ao velho estilo irlandês, embora ninguém parecesse saber de quem havia partido a ordem.

Havia ainda mais gente na missa de corpo presente, já que alguns primos que Stella não havia convidado para a casa de First Street enquanto estava viva foram direto para a igreja. A multidão no cemitério era tão numerosa quanto a que compareceu ao enterro de Miss Mary Beth.

- É, mas você precisa compreender que se tratava de um escândalo! - disse Irwin Dandrich.

- Foi o assassinato de 1929! E Stella era Stella, sabe? Não poderia ter sido mais interessante para certo tipo de gente. Você sabia que, na própria noite do assassinato, dois rapazes que conheço se apaixonaram por ela? Dá para imaginar!

Nenhum dos dois a conhecia antes. Estavam brigando por sua causa, um exigindo que o outro o deixasse ter uma oportunidade com ela, e o outro dizendo que havia falado com ela primeiro. Meu caro, a festa começou às sete. E às oito e meia, ela já estava morta!

-Ele está ali, ele não quer me deixar em paz! - Lionel acordou no hospício, aos gritos, na noite após o enterro de Stella.

Antes do final da semana, ele já estava numa camisa-de-força e, finalmente, no dia 4 de novembro, foi preso numa cela acolchoada. Enquanto os médicos debatiam se tentavam o tratamento de eletrochoque, ou se apenas o mantinham sedado, Lionel ficava agachado num canto, sem poder soltar os braços da camisa-de-força, gemendo e procurando afastar a cabeça do seu torturador invisível.

As enfermeiras contaram a Irwin Dandrich que ele gritava para que Stella o ajudasse.

- Ele está me enlouquecendo, Stella. Em nome de Deus, por que ele não me mata? Stella, me ajude. Stella, diga a ele que me mate.-Seus gritos ecoavam nos corredores.

- Eu não quis mais lhe dar injeções - disse uma das enfermeiras a Dandrich. - Ele nunca chegava a dormir mesmo. Ficava lutando com seus demônios, resmungando e xingando. Acho que para ele foi pior assim.

"Consideram-no total e irremediavelmente louco", escreveu um dos nossos detetives particulares. "É claro que, na hipótese da sua cura, ele talvez tivesse de ser julgado por assassinato. Só Deus sabe o que Carlotta disse às autoridades. É possível que não tenha dito nada. É possível que ninguém tenha feito perguntas."

Na manhã do dia 6 de novembro, só e desacompanhado, Lionel entrou aparentemente em convulsões e morreu sufocado com a própria língua. Não houve velório algum na casa funerária de Magazine Street. Os primos não foram recebidos na manhã do enterro, sendo orientados a ir direto para a missa na igreja de Santo Afonso. Lá foram avisados por organizadores contratados a não prosseguirem até o cemitério, já que Miss Carlotta queria tudo discreto,

Mesmo assim, eles se reuniram nos portões de Prytania Street do cemitério de Lafayette n° 1, assistindo de longe enquanto o caixão de Lionel era posto junto ao de Stella.

 

Lendas de família:

Estava tudo acabado. Todos sabiam. Pierce, coitado, acabou conseguindo se recuperar. Estudou algum tempo em Columbia e entrou para Harvard no ano seguinte. No entanto, até o dia da sua morte, ninguém nunca pronunciou o nome de Stella diante dele. E como odiava Carlotta. A única vez que eu o ouvi tocar no assunto, ele disse que ela foi a responsável. Ela devia ter puxado o gatilho com as próprias mãos.

Pierce não só se recuperou, mas se tornou um advogado extremamente capaz, que desempenhou um papel importante na orientação e expansão da fortuna Mayfair ao longo das décadas. Morreu em 1986. Seu filho, Ryan Mayfair, nascido em 1936, é a espinha dorsal do escritório da Mayfair & Mayfair atualmente. O jovem Pierce, filho de Ryan, é no momento o rapaz mais promissor da firma.

Mas aqueles primos que disseram que "estava tudo acabado" tinham razão. Com a morte de Stella, o poder das Bruxas Mayfair foi efetivamente destruído. Stella foi a primeira das herdeiras dos dons de Deborah a morrer jovem. Ela foi a primeira a sofrer morte violenta. E nunca mais uma Bruxa Mayfair "governaria" a casa de First Street, ou assumiria a administração direta do legado. Na verdade, a atual beneficiária é uma catatônica muda, e sua filha, Rowan Mayfair, é uma jovem neurocirurgiã, que mora a quase quatro mil quilômetros de First Street e não sabe nada da sua mãe, da sua história de família, da sua herança ou da sua própria casa.

Como tudo chegou a esse ponto? E será que se pode atribuir a culpa a uma única pessoa?

São perguntas a respeito das quais poderíamos nos angustiar eternamente. Mas antes de as considerarmos em detalhe, recuemos no tempo e examinemos a posição do Talamasca após a morte de Arthur Langtry.

 

O ESTADO DA INVESTIGAÇAO EM 1929

Não foi realizada autópsia em Arthur Langtry. Seus restos mortais foram enterrados na Inglaterra no cemitério do Talamasca, como há muito tempo ele havia decidido que seriam. Não há nenhum indicio de que ele houvesse sofrido morte violenta. Na verdade, sua última carta, em que descreve o assassinato de Stella, demonstra que ele já estava com algum problema cardíaco. Pode-se dizer, porém, com alguma justificativa, que o estresse do que viu em Nova Orleans teve seu efeito nocivo. Arthur poderia ter vivido mais se nunca tivesse ido até lá. Por outro lado, ele não estava aposentado, e poderia ter se deparado com a morte, em atividade em algum outro caso.

Para o conselho diretor do Talamasca, no entanto, Arthur Langtry foi mais uma vítima das Bruxas Mayfair. E a rápida visão do espírito de Stuart por Arthur foi plenamente aceita por estes experientes investigadores como prova de que Stuart morreu dentro da residência da família Mayfair.

O Talamasca queria, porém, saber exatamente como Stuart morreu. Teria sido Carlotta? E, em caso afirmativo, por quê?

O argumento mais evidente em defesa de Carlotta talvez já esteja óbvio e ficará ainda mais com o prosseguimento desta narrativa. Carlotta havia sido a vida inteira uma católica praticante, uma advogada escrupulosamente honesta e uma cidadã cumpridora da lei. Suas críticas acirradas a Stella aparentemente se baseavam nas suas próprias convicções morais, ou pelo menos foi essa a suposição da família, de amigos e até mesmo de observadores informais.

Por outro lado, dezenas de pessoas afirmam que Carlotta levou Lionel a atirar em Stella, que fez tudo para isso menos pôr a arma nas suas mãos.

Mesmo que Carlotta tivesse mesmo posto a arma nas mãos de Lionel, um ato público e carregado de emoção, como o assassinato de Stella, é muito diferente da eliminação em segredo e a sangue- frio de um estranho que mal se conhece.

Teria Lionel talvez sido o assassino de Stuart Townsend? E o que dizer da própria Stella? E como podemos ignorar a possibilidade de ter sido Lasher? Se considerarmos que essa criatura tem uma personalidade, uma história, na verdade um perfil como se diz no mundo moderno, o assassinato de Townsend não combina em termos mais lógicos com o modus operandi do espírito do que com o de qualquer outro morador da casa?

Infelizmente, nenhuma dessas hipóteses justifica a tentativa de encobri mento, e certamente houve essa tentativa, com os funcionários do St. Charles Hotel sendo pagos para dizer que Stuart Townsend nunca se hospedou ali.

Talvez uma possibilidade aceitável seja uma que abrace todos os suspeitos envolvidos. Por exemplo, e se Stella realmente convidou Townsend para vir a First Street, onde ele encontrou a morte através de alguma intervenção violenta por parte de Lasher? E se uma Stella em pânico recorresse, então, a Carlotta, a Lionel ou mesmo a Pierce para ajudá-la a ocultar o corpo e a se certificar de que ninguém no hotel dissesse uma palavra sequer?

Infelizmente, essa possibilidade, como outras semelhantes, deixa um excesso de perguntas sem resposta. Por que, por exemplo, Carlotta teria participado de uma trapaça dessas? Ela não poderia ter usado a morte de Townsend para se livrar da sua irmãzinha de uma vez por todas? Quanto a Pierce, é extremamente improvável que um jovem tão inocente pudesse se envolver numa coisa dessas. (Dali em diante, Pierce levou uma vida muito respeitável.) E, quando pensamos em Lionel, devemos nos fazer a seguinte pergunta. Se ele teve algum conhecimento da morte ou do desaparecimento de Stuart, o que o impediu de dizer algo a respeito disso, quando ficou "louco delirante"?

Ele sem dúvida falou o suficiente sobre tudo o mais que ocorreu em First Street, ou é o que os registros demonstram. Afinal, deveríamos ainda nos perguntar, se uma dessas pessoas improváveis ajudou Stella a enterrar o corpo no quintal, por que se incomodaria de retirar todos os pertences de Townsend do hotel e de subornar os funcionários para que dissessem que ele nunca esteve lá?

Talvez o Talamasca esteja errado, em retrospectiva, por não trabalhar mais a questão de Stuart, por não exigir uma investigação em larga escala, por não forçar a polícia a fazer alguma coisa. O fato é que realmente pressionamos. Como também pressionou a família de Stuart, ao ser informada do seu desaparecimento. No entanto, como declarou ao Dr. Townsend um renomado escritório de advocacia de Nova Orleans.

"Nós não temos absolutamente nada em que nos basear. Não conseguimos provar nem que o rapaz um dia esteve aqui!"

E nos tempos que se seguiram ao assassinato de Stella, ninguém se dispunha a "incomodar" a família com ainda mais perguntas sobre um misterioso texano, vindo da Inglaterra. Nossos investigadores, incluindo-se alguns dos melhores do ramo, jamais conseguiram romper o silêncio dos funcionários do hotel, nem obter uma pista por menor que fosse de quem os teria subornado. irracional imaginar que a polícia pudesse ter melhores resultados.

Existe, porém, uma opinião interessantíssima a levar em consideração antes de deixarmos esse crime sem solução. Trata-se das palavras finais de Irwin Dandrich sobre o assunto, em conversa com um dos nossos detetives particulares num bar do French Quarter perto do Natal de 1929.

- Vou lhe dizer o segredo para compreender essa família - disse Dandrich. -E olhe que eu os observo há anos. Não só para aqueles esquisitões de Londres, veja bem.

Eu os observo como todo mundo os observa: perguntando-me sempre o que se passa por trás das janelas fechadas. O segredo reside em perceber que Carlotta Mayfair não é a mulher católica virtuosa e pura que sempre fingiu ser. Aquela mulher tem algo de misterioso e de maligno. Ela é destrutiva e rancorosa. Ela preferia ver a pequena Antha enlouquecer do que vê-la crescer para ser parecida com Stella. Ela prefere ter a casa escura e deserta do que ver as pessoas se divertindo.

Superficialmente, esses comentários. parecem simplistas, mas pode haver neles mais verdade do que as pessoas percebiam na época. Aos olhos do mundo, Carlotta Mayfair certamente representava a probidade, a sanidade, a virtude e coisas semelhantes. A partir de 1929, ela passou a ir à missa diariamente na capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro em Prytania, fazia doações generosas á igreja e a todas as suas organizações e, embora estivesse envolvida numa guerra particular com a firma Mayfair & Mayfair quanto à administração do dinheiro de Antha, sempre foi extremamente generosa com seu próprio dinheiro. Ela emprestava dinheiro voluntariamente a todo e qualquer parente que dele necessitasse; enviava presentes discretos nos aniversários, casamentos, batizados e formaturas; comparecia a enterros e de vez em quando se encontrava com parentes fora da casa para almoçar ou tomar chá.

Para aqueles que haviam sido tão ofendidos por Stella, Carlotta era uma boa pessoa, o esteio da casa de First Street, quem cuidava com capacidade e interminável sacrifício da filha louca de Stella, Antha, e das outras dependentes, Millie Dear, Nancy e Belle.

Ela nunca foi criticada por não mais abrir a casa à família. Ou por sua decisão de não voltar a fazer reuniões e festinhas de qualquer tipo. Pelo contrário, todos compreendiam que "ela já tinha muito trabalho nas mãos".

Ninguém queria exercer nenhuma pressão sobre ela. Na verdade, ela se tornou para a família uma espécie de santa rabugenta com o passar dos anos.

Depois de quarenta anos de exame da família, a minha opinião, se é que tem algum valor, é de que há muita verdade na avaliação de Carlotta feita por Dandrich. Tenho a convicção pessoal de que ela representa um mistério tão grande quanto o de Mary Beth ou o de Julien. E nós apenas arranhamos a superfície do que ocorre ali.

 

MAIS ESCLARECIMENTOS ACERCA DA POSIÇAO DA ORDEM

Com relação ao futuro, foi decidido pelo Talamasca em 1929 que nenhuma outra tentativa de contato pessoal seria feita.

Nosso diretor, Evan Neville, acreditava que em primeiríssimo lugar deveríamos seguir o conselho de Arthur Langtry e, em segundo, deveríamos levar a sério o aviso do espectro de Stuart Townsend. Deveríamos nos afastar da família Mayfair por algum tempo.

Alguns membros mais jovens do conselho eram, porém, da opinião de que devíamos procurar estabelecer contato com Carlotta Mayfair através de correspondência. Que mal poderia resultar disso, argumentavam eles.E que direito nós tínhamos de não colocar nossas informações à sua disposição? Com que finalidade havíamos reunido todos esses dados? Devíamos preparar para ela um resumo sucinto das informações por nós compiladas. Sem dúvida, nossos registros mais antigos, as cartas de Petyr van Abe, deveriam ser colocados á sua disposição assim como as árvores genealógicas por nós elaboradas.

Isso provocou um debate cáustico e violento. Os membros mais velhos da Ordem relembraram aos mais novos que Carlotta Mayfair era com toda a probabilidade responsável pela morte de Stuart Townsend e que era mais do que provável que fosse responsável pela morte de sua irmã, Stella. Que obrigação poderíamos sentir para com uma pessoa dessas? Antha era a pessoa a quem devíamos revelar nossos dados, e uma atitude dessas não podia sequer ser cogitada enquanto ela não completasse vinte e um anos.

Além do mais, por não existir nenhum contato pessoal que nos orientasse, como essa informação seria dada a Carlotta Mayfair, e quais informações poderíamos pensar em lhe transmitir?

A história da família Mayfair, na apresentação que tinha em 1929, não estava de modo algum pronta para "olhos estranhos". Um resumo meticuloso teria de ser preparado, com a eliminação total dos nomes de testemunhas e de investigadores, e mais uma vez qual seria a finalidade de entregar isso a Carlotta? O que ela faria com ele?

De que modo ela poderia usá-lo no tocante a Antha? Qual seria sua reação inicial? E se íamos dar essa história a Carlotta, por que não dá-la também a Cortland e seus irmãos? Na verdade, por que não dá-la a cada membro da família Mayfair? E, se realmente agíssemos assim, quais seriam os efeitos dessas informações sobre essas pessoas? Que direito nós tínhamos de imaginar uma interferência tão espetacular nas suas vidas?

Na realidade, a natureza da história era tão especial, ela incluía material tão absurdo e aparentemente misterioso que sua revelação não podia ser cogitada arbitrariamente.

E assim prosseguia aceso o debate.

Como sempre ocorre em tais ocasiões, as normas, os objetivos e a conduta ética do Talamasca foram totalmente reavaliados. Fomos forçados a reafirmar para nós mesmos que a história da família Mayfair, devido á sua extensão e seus detalhes, era inestimável para nós, estudiosos do oculto, e que iríamos continuar a colher informações sobre a família, sem nos importar com o que dissessem os membros mais jovens do conselho acerca da ética e de tudo o mais. N entanto, nossa tentativa de "contato" havia sido um enorme fracasso. Espere ríamos até Antha completar vinte e um anos, e então pensaríamos num abordagem cuidadosa, dependendo de quem da Ordem estivesse disponível para uma missão dessas na ocasião.

Ficou também claro, enquanto o conselho prosseguia com suas querela que quase ninguém ali, nem. mesmo Evan Neville, conhecia a fundo a história completa das Bruxas

Mayfair. Houve, de fato, discussões consideráveis não sobre o que fazer e como deveria ser feito, mas sobre o que havia acontecido e em que época na família Mayfair.

É que o arquivo havia simplesmente crescida demais, ficando muito complexo para qualquer pessoa examinar com eficácia num período razoável de tempo.

Era óbvio que o Talamasca precisava encontrar um membro disposto assumir as Bruxas Mayfair como uma missão de dedicação integral. Alguém capaz de estudar o arquivo detalhadamente e depois tomar decisões inteligente e responsáveis sobre o que fazer no trabalho de campo. Considerando-se a trágica morte de Stuart Townsend, ficou estabelecido que essa pessoa deveria te excelente reputação como estudioso assim como ampla experiência prática. Na verdade, ele deveria provar seu conhecimento do arquivo, organizando todos o materiais numa longa narrativa, coerente e inteligível. Então, e só então, essa pessoa receberia permissão para ampliar seu estudo das Bruxas Mayfair através de investigações mais diretas com a intenção de um dia um contato acabar sendo feito.

Em suma, a enorme tarefa de transpor o arquivo para o formato de narrativa era considerada como uma preparação necessária para o envolvimento no campo. E havia grande sabedoria nessa abordagem.

A única triste falha no plano como um todo residiu no fato de essa pessoa só ter sido encontrada pela Ordem em 1953. E a essa altura, a trágica vida de Antha Mayfair já estava terminada. A beneficiária do legado era agora uma menina de doze anos, de rosto abatido, que já havia sido expulsa da escola por "conversar com seu amigo invisível", por fazer flores voarem pelo ar, por encontrar objeto; perdidos e por ler o pensamento dos outros.

- Seu nome é Deirdre - disse Evan Neville, com o rosto marcado de preocupação e tristeza - e está crescendo naquela casa velha e sombria exatamente como sua mãe cresceu, sozinha com aquelas velhas. E só Deus sabe o que elas conhecem ou pensam da história da família, dos poderes da menina e desse espírito que já foi visto ao lado da criança.

O jovem membro, profundamente instigado por essas palavras, por outras conversas anteriores e por leituras aleatórias dos documentos da família Mayfair. Resolveu que seria melhor agir logo.

Como é óbvio que eu sou esse membro, faço aqui uma pausa antes de relatai a história breve e triste de Antha Mayfair, para me apresentar.

 

ENTRA EM CENA O AUTOR DESTA NARRATIVA, AARON LIGHTNER

Uma completa biografia minha pode ser encontrada sob o título Aaron Lightner. Para os objetivos desta narrativa, o que se segue é mais do que suficiente.

Nasci em Londres em 1921. Tornei- me membro efetivo da Ordem em 1943, depois de terminar meus estudos em Oxford. Eu já vinha, porém, trabalhando com o Talamasca desde os sete anos de idade, e vivia na casa- matriz desde os quinze anos. Na realidade, eu havia sido levado à Ordem em 1928 por meu pai inglês (tradutor e estudioso do latim) e minha mãe americana (professora de piano), quando estava com seis anos de idade. Foi uma assustadora capacidade telecinética que fez com que procurassem ajuda externa. Eu conseguia mover objetos apenas ao concentrar sobre eles minha atenção ou ao lhes dar ordens para que se movessem. E, embora esse poder nunca fosse muito forte, ele se revelou muito perturbador para quem o viu em ação.

Meus pais preocupados suspeitavam que esse poder fosse acompanhado por outros traços paranormais, que eles de fato ocasionalmente vislumbravam. Fui levado a alguns psiquiatras em virtude dos meus estranhos talentos e afinal um deles disse que me levassem até o Talamasca; que meus poderes eram autênticos; e que eles eram os únicos que saberiam trabalhar com alguém como eu.

O Talamasca estava mais do que disposto a examinar a questão com meus pais, que sentiram imenso alívio.

- Se tentarem sufocar esse poder no seu filho - disse Evan Neville -, não chegarão a lugar nenhum. Na realidade, estarão pondo em risco seu bem-estar. Permitam que trabalhemos com ele. Permitam que o ensinemos a controlar e a usar seus dons paranormais. - Meus pais concordaram, relutantes.

Comecei a passar todos os sábados na casa-matriz na periferia de Londres, e aos dez anos de idade já passava os fins de semana e as férias de verão também. Meu pai e minha mãe faziam visitas freqüentes. Na realidade, meu pai começou a fazer traduções para o Talamasca a partir dos seus antigos registros em latim, que já se desfaziam, em 1935, e trabalhou para a Ordem até sua morte em 1972, época na qual já era viúvo e morava na casa-matriz. Meus pais adoravam a biblioteca geral da casa-matriz e, embora nunca procurassem ser membros efetivos da Ordem, fizeram parte dela, num sentido bastante concreto, até o fim das suas vidas. Eles não fizeram nenhuma objeção quando viram que eu era atraído para a ordem, insistindo apenas para que eu terminasse minha instrução e não permitisse que meus "poderes especiais" me afastassem precocemente do "mundo normal".

Meu poder telecinético nunca se tornou muito forte, mas, com o auxílio dos meus amigos da Ordem, percebi nitidamente que, sob certas circunstancias, eu conseguia ler a mente de outras pessoas. Aprendi também a encobrir meus pensamentos e sentimentos dos outros. Aprendi ainda a apresentar meus poderes ás pessoas no momento e no local mais adequados e a reservá-los essencialmente para uso construtivo.

Nunca fui o que as pessoas chamariam de um poderoso paranormal. Na verdade, minha limitada capacidade para a leitura da mente tem maior utilidade para mim na minha função de investigador de campo para o Talamasca, especialmente em situações que envolvam risco. E minha capacidade telecinética raramente se presta a qualquer ato de natureza prática.

Quando atingi os dezoito anos, já estava totalmente devotado ao estilo de vida da Ordem e aos seus objetivos. Era-me difícil conceber um mundo em que o Talamasca não existisse. Meus interesses eram os interesses da Ordem, e eu me sentia perfeitamente harmonizado com o seu espírito. Não importava onde eu fosse estudar; não importava para onde eu viajasse com meus pais ou com colegas de escola, a Ordem havia se tornado meu verdadeiro lar.

Ao completar meus estudos em Oxford, fui aceito como membro efetivo, mas já pertencia realmente á Ordem muito antes dessa época. As grandes famílias de bruxas sempre haviam sido meu campo preferido. Eu havia estudado amplamente a história das perseguições ás bruxas. E as pessoas que se adequavam á definição específica de bruxa exerciam sobre mim enorme fascínio.

Meu primeiro trabalho de campo foi relacionado a uma família de bruxas da Itália, sob a orientação de Elaine Barrett, que na época e ainda durante muitos anos foi a melhor investigadora de bruxas da ordem.

Foi ela quem primeiro me falou das Bruxas Mayfair, numa conversa informal ao jantar, contando-me logo o que havia acontecido a Petyr van Abel, Stuart Townsend e Arthur Langtry, e me sugerindo que começasse minha leitura dos materiais da família Mayfair nas minhas horas vagas. Foram muitas as noites durante o verão e o inverno de 1945 em que adormeci com os papéis do caso Mayfair espalhados por todo o chão do meu quarto. Em 1946, eu já estava fazendo anotações para uma narrativa.

O ano de 1947, no entanto, afastou- me completamente da casa- matriz e do Arquivo sobre as Bruxas Mayfair, para o trabalho de campo com Elaine. Só mais tarde percebi que esses anos me proporcionaram exatamente a folha de serviços que eu precisaria para minha aventura com as Bruxas Mayfair, e que se tornaria a missão da minha vida.

Recebi a indicação oficialmente em 1953: comece a narrativa; quando ela estiver pronta num formato aceitável, examinaremos a questão de enviá-lo a Nova Orleans para ver pessoalmente os moradores da casa de First Street.

Lembraram-me repetidas vezes que, não importa quais fossem minhas aspirações, eu só teria permissão para agir com cautela. Antha Mayfair havia sofrido morte violenta. O mesmo havia ocorrido com o pai de sua filha, Deirdre. Como também com um parente de Nova York, o Dr. Cornell Mayfair, que veio até Nova Orleans em 1945 expressamente para ver a pequena Deirdre, aos quatro anos de idade, e investigar a alegação de Carlotta de que Antha teria sido louca de nascença.

Aceitei os termos da indicação. Pus-me a trabalhar traduzindo o diário de Petyr van Abel. Nesse meio-tempo, recebi um orçamento ilimitado para expandir a pesquisa em toda e qualquer direção. Foi assim que também comecei uma investigação "a distância" para descobrir o atual estado das coisas com Deirdre Mayfair, a filha única de Antha, de doze anos de idade.

Gostaria de acrescentar, para concluir, que dois fatores parecem desempenhar um grande papel em qualquer investigação que eu empreenda. O primeiro deles parece ser o de que minha aparência e minhas maneiras deixam as pessoas à vontade, de uma forma quase inexplicável. Elas falam comigo com mais liberdade do que talvez falassem com outras pessoas. Para mim é muito difícil ou impossível determinar o quanto eu controlo esse aspecto por meio de algum tipo de "persuasão telepática". Em retrospectiva, eu diria que isso está mais relacionado ao fato de eu parecer ser um "senhor europeu", e de as pessoas imaginarem que sou fundamentalmente bom. Eu também me solidarizo intensamente com aqueles que entrevisto. Não sou um ouvinte antagônico.

Espero e rogo que, apesar das mentiras que tive de contar relacionadas ao meu trabalho, eu não tenha realmente traído a confiança de ninguém. Fazer o bem com o que eu sei é o lema da minha vida.

O segundo fator que influencia minhas entrevistas e meu trabalho de campo é minha leve capacidade de ler a mente. É freqüente que eu capte nomes e detalhes a partir do pensamento das pessoas. Em geral, não incluo essas informações nos meus relatórios. Ela é excessivamente falível. No entanto, minhas descobertas telepáticas sem dúvida me forneceram "pistas" significativas ao longo dos anos. E essa característica está decididamente ligada á minha aguda capacidade para pressentir o perigo, como a narrativa que se segue acabará revelando...

Já é hora de voltarmos á narrativa e de reconstituir a trágica história da vida de Antha e do nascimento de Deirdre.

 

AS BRUXAS MAYFAIR DE 1929 ATÉ O PRESENTE  - Antha Mayfair

Com a morte de Stella, encerrou-se uma era para a família Mayfair. E a trágica história da filha de Stella, Antha, e de sua filha única, Deirdre, permanece envolta em mistério até os dias de hoje.

A medida que os anos foram passando, a criadagem na residência de First Street reduziu-se a um par de empregados mudos, inacessíveis e totalmente leais. Os anexos, não mais necessários para criadas, cocheiros e cavalariços, caíram aos poucos em ruínas. As mulheres de First Street mantinham uma existência reclusa, sendo que Belle e Millie Dear se tornaram "doces velhinhas" do Garden District, caminhando diariamente para irá missa na capela de Prytania Street, ou parando sua jardinagem incessante e inútil para bater papo com os vizinhos que passavam pela cerca de ferro.

Apenas seis meses após a morte da mãe, Antha foi expulsa de um colégio interno no Canadá, que foi a última instituição pública que ela jamais freqüentaria. Foi surpreendentemente simples para um detetive particular descobrir a partir das conversas das professoras que Antha assustava as pessoas ao ler sei pensamentos, ao conversar com um amigo invisível e ao ameaçar quem risse de ou falasse mal dela pelas costas. Ela era descrita como uma menina nervos sempre chorando, queixando-se do frio em todos os tipos de temperatura sujeita a longas febres e calafrios inexplicáveis.

Carlotta Mayfair levou Antha para casa de trem desde o Canadá; e, ao que saibamos, Antha nunca mais passou uma noite sequer fora da casa de First Street até os dezessete anos.

Nancy, moça atarracada e mal-humorada, apenas dois anos mais velha do que Antha, continuou a freqüentar a escola todos os dias até completar dezoito anos. Com essa idade, ela foi trabalhar como arquivista no escritório de advocacia de Carlotta, onde ficou quatro anos. Todas as manhãs, sem falta, ela e Carlotta caminhavam da esquina de First e Chestnut até St. Charles Avenue onde apanhavam o bonde de St. Charles para o centro.

A essa altura, a casa de First Street já tinha assumido um ar de perpétua tristeza. Suas janelas nunca se abriam. Sua pintura de um lilás acinzentado começava a descascar, e seu jardim crescia desordenado ao longo das cercas c ferro, com os louros-cerejas e as sapucaias brotando em meio ás velhas camélias e gardênias, que anos antes eram tão bem cuidadas. Quando o antigo estábulo desocupado foi destruído por um incêndio em 1938, o mato logo ocupou espaço aberto nos fundos da propriedade. Pouco depois, mais uma construção em ruínas foi demolida, e não sobrou nada além da antiga garçonniére, e do carvalho belíssimo e imenso, com seus galhos voltados significativamente por cima do capim alto para a distante casa principal.

Em 1934, começamos a receber os primeiros relatos de operários que consideravam impossível realizar consertos ou outras pequenas obras na casa. Os irmãos Molloy contaram a todo mundo no Corona's Bar em Magazine Street que não tinham condição de pintar aquela casa porque, todas as vezes que se viravam as escadas tombavam, a tinta derramava ou os pincéis acabavam jogados na terra não se sabe como.

- Deve ter acontecido umas seis vezes - disse Davey Molloy. - Minha lata de tinta simplesmente virou, de cima da escada, derramando inteirinha no chão. Ora, eu sei que nunca na minha vida derrubei uma lata cheia de tinta! Foi isso o que ela me disse, a Miss Carlotta. "Foi você mesmo quem a derrubou, Pois bem, quando a escada virou comigo em cima, dei um basta. Larguei serviço."

Thompson Molloy, o irmão de Davey, tinha uma suspeita de quem seria responsável.

- É aquele cara de cabelo escuro, aquele que está sempre nos vigiando. E disse a Miss Carlotta. "A senhora não acha que ele pode estar fazendo tudo isso Aquele cara que está sempre ali debaixo daquela árvore?" Pois ela agiu como s não soubesse do que eu estava falando. Mas ele estava sempre vigiando Estávamos tentando consertar a parede de Chestnut Street, e eu vi que ele nos olhava pela veneziana da biblioteca. Me deu um calafrio daqueles. Quem é esse cara? É um dos tais primos? Eu não trabalho mais lá. Não me importa a dificuldade que eu esteja enfrentando. Não trabalho mais naquela casa.

Um outro operário, contratado apenas para pintar de preto os gradis de ferro fundido, relatou os mesmos "problemas". Ele desistiu depois de meio dia de trabalho em que caía entulho do telhado sobre ele e folhas não paravam de aparecer boiando na tinta.

Em 1935, já era de conhecimento geral no Irish Channel que nada podia ser feito "naquela casa velha". Quando dois rapazes foram chamados para limpar a piscina naquele mesmo ano, um deles foi jogado na água estagnada e quase se afogou. O outro teve uma dificuldade enorme para tirá-lo dali.

- Era como se eu não pudesse ver nada. Eu estava segurando firme e berrava para alguém vir ajudar. Mas nós dois estávamos afundando naquela água imunda e de repente, graças a Deus, ele conseguiu se segurar no lado da piscina e era ele quem estava me salvando. Aquela velha mulata, tia Easter, veio até ali fora com uma toalha para nós e só dizia, "Saiam de perto da piscina. Esqueçam a limpeza. Saiam já daí."

Até Irwin Dandrich ouviu os comentários.

- Estão dizendo que a casa está assombrada, que o espírito de Stella não quer deixar ninguém tocar em nada. É como se tudo estivesse de luto por Stella. - E Dandrich tinha ouvido falar num homem misterioso, de cabelos castanhos? - Eu ouço falar em todos os tipos de coisas. Há quem diga ser o fantasma de Julien. Que ele veio proteger Antha. Bem, se for verdade, ele não está sendo muito eficaz.

Pouco depois, foi publicada uma reportagem no Times-Picayune que descrevia vagamente uma "misteriosa mansão da cidade alta", na qual era impossível realizar qualquer tipo de trabalho. Dandrich recortou o artigo e o enviou a Londres com as palavras "Minha língua comprida" escritas na margem.

Um dos nossos detetives convidou a repórter para um almoço. Ela se dispôs a falar no assunto, e de fato se tratava da casa da família Mayfair. Todo mundo sabia.

Um bombeiro declarou ter ficado preso horas a fio debaixo daquela casa quando tentava consertar um cano. Ele chegou a perder a consciência. Quando afinal voltou a si e conseguiu sair dali, teve de ser levado para o hospital. Houve também o caso do homem da telefônica que foi chamado para consertar um aparelho na biblioteca.

Ele disse que nunca mais poria os pés naquela casa. Um dos quadros na parede olhou de verdade para ele. E ele estava certo de ter visto um fantasma naquele mesmo aposento.

- Eu poderia ter escrito muito mais - disse a moça. - Mas o pessoal do jornal não quer se indispor com Carlotta Mayfair. Eu lhe contei a história do jardineiro?

Ele vai lá regularmente para cortar a grama, sabe, e ele me disse uma coisa estranhíssima quando o procurei. "Ah,ele nunca me incomoda. Ele e eu nos damos muito bem. Ele e eu somos amigos." Agora, a quem você supõe que esse homem estava se referindo? Quando eu lhe fiz essa pergunta, ele me disse para ir até lá. "Pode ir que vai vê-lo. Ele está lá desde sempre. Meu avô costumava vê-lo. Ele não faz nada. Não consegue se mexer nem falar. Ele só fica ali parado, nas sombras, olhando para as pessoas. Num minuto ele está ali. No outro, já se foi. Ele não me incomoda. Por mim, tudo bem. Recebo bem para trabalhar lá. Sempre  trabalhei lá. Ele não me assusta."

O falatório em família no período descartava as "histórias de fantasmas". Da mesma forma agia a sociedade local, segundo Dandrich, embora ele também insinuasse que as pessoas eram ingênuas.

- Acho que a própria Carlotta começou todas essas histórias bobas de fantasmas - disse um dos primos, anos depois. - Ela queria manter as pessoas afastadas. Nós só ríamos quando ouvíamos alguma história.

- Fantasmas na casa de First Street? Foi nas mãos de Carlotta que a casa se transformou numa ruína. Aquela ali sempre fez economia. Essa é a diferença entre ela e a mãe.

No entanto, quaisquer que fossem as atitudes dos primos e da sociedade local, os padres na casa paroquial redentorista ouviam inúmeras histórias de fantasmas e de misteriosas diabruras na casa de First Street. O padre Lafferty costumava visitar a família regularmente, e o que se dizia era que ele não aceitava não ser recebido.

Sua irmã conversou com um dos nossos detetives.

- Meu irmão sabia muita coisa sobre o que acontecia, mas ele nunca falava nisso. Eu perguntava como Antha estava, e ele não me respondia. Mas eu sabia que ele visitava Antha. Ele entrava naquela casa. Depois da morte de Antha, ele veio aqui um domingo e só enfiou a cabeça nas mãos, sentado á mesa de jantar, e chorou. Foi essa a única vez que vi meu irmão, o padre Thomas Lafferty, perder o controle e chorar.

A família continuava preocupada com Antha durante todo esse período. A história oficial dizia que Antha era "desequilibrada" e que Carlotta sempre a levava a psiquiatras, mas que "isso não dava nenhum resultado". A criança havia sofrido um trauma irreparável com o assassinato da mãe. Ela vivia num mundo de fantasia povoado por fantasmas e companheiros invisíveis. Não podia ser deixada sozinha. Não podia sair da casa.

Os comentários nos meios jurídicos indicam que os primos costumavam ligar para Cortland Mayfair para lhe pedir que fosse ver Antha, mas Cortland já não era mais bem-vindo em First Street. Os vizinhos afirmam tê-lo visto diversas vezes não receber permissão para entrar.

-Ele costumava vir até aqui toda véspera de Natal - disse uma das vizinhas muito tempo depois. - O carro estacionava junto ao portão da frente, o motorista saltava, abria a porta e depois tirava todos os presentes da mala. Uma infinidade de presentes. Carlotta vinha, então, cá fora e lhe dava um aperto de mãos na própria escada.

Ele nunca entrava na casa.

O Talamasca jamais descobriu registros de médicos que teriam examinado Antha. É duvidoso que Antha tenha sido tirada da casa, a não ser para ir à missa de domingo.

Os vizinhos diziam vê-la com freqüência no jardim de First Street.

Ela lia livros debaixo do grande carvalho nos fundos da propriedade. Ficava sentada horas na varanda lateral, com os cotovelos nos joelhos. Uma criada que trabalhava do outro lado da rua relatou que a via conversando com "aquele homem o tempo todo. Sabe? Aquele homem de cabelos castanhos que está sempre lá visitando? Deve ser um dos primos. E ele sabe se vestir bem".

Quando Antha estava com uns quinze anos, ela já saía ás vezes pelo portão. Um carteiro mencionou o fato de vê-la com freqüência, uma moça magra, com um ar sonhador, que andava pelas ruas sozinha e ás vezes com um "cara bonito". "O cara bonito" tinha cabelos e olhos castanhos, e sempre usava paletó e gravata.

- Eles gostavam de me dar cada susto - disse um entregador de leite. - Uma vez, eu estava só assobiando sozinho, saindo do portão da casa do Dr. Milton em Second Street, e lá estavam os dois bem diante de mim, nas sombras, debaixo de uma magnólia. E ela estava totalmente imóvel. Ele, parado ao seu lado. Quase dei um encontrão neles. Acho que estavam só cochichando, e pode ser que eles tenham se assustado tanto quanto eu.

Nos nossos arquivos, não há nenhuma fotografia desse período, mas todas essas testemunhas e outras pessoas dizem que Antha era bonita.

- Antha tinha um ar distante - disse uma mulher que costumava vê-la na capela. - Não era vibrante como Stella. Parecia estar sempre imersa em sonhos e, para dizer a verdade, eu sentia pena dela, totalmente só naquela casa com aquelas mulheres. Não mencione que eu disse isso, mas aquela Carlotta é uma criatura cruel. É mesmo. Minha empregada e minha cozinheira sabem de tudo a respeito dela. Diziam que ela costumava agarrar a menina pelo pulso e enfiar as unhas no seu braço.

Irwin Dandrich relatou que antigos amigos de Stella procuravam visitar a menina de tempos em tempos, só para não serem recebidos. "Ninguém passa por Nancy ou pela criada mulata, tia Easter", escreveu Dandrich aos investigadores de Londres. "E o que se comenta é que Antha é uma verdadeira prisioneira naquela casa."

Além desses raros relances, não sabemos praticamente nada sobre Antha durante os anos de 1930 a 1938, e aparentemente ninguém na família sabia grande coisa. Podemos, porém, concluir que todas as referências ao "homem de cabelos castanhos" se aplicam a Lasher. E se for esse o caso, temos maior quantidade de aparecimentos de Lasher nesse período do que em todas as décadas anteriores.

Na realidade, são tão numerosos os exemplos de aparecimento de Lasher que nossos investigadores se habituaram a apenas fazer anotações simples, como "Criada que trabalha em Third Street diz ter visto Antha e o homem passeando juntos" ou "Mulher na esquina de First com Prytania viu Antha parada debaixo do carvalho conversando com o homem".

A casa de First Street apresentava agora um ar de mistério sinistro até para os descendentes de Rémy Mayfair e dos irmãos e irmãs de Suzette, que haviam sido muito íntimos no passado.

Foi então que, em abril de 1938, os vizinhos presenciaram uma violenta briga de família em First Street. Janelas se quebraram, as pessoas ouviram gritos, e afinal uma jovem desvairada, carregando apenas uma bolsa a tiracolo, foi vista saindo correndo pelo portão da frente, na direção de St. Charles Avenue. Sem sombra de dúvida, tratava -se de Antha. Até mesmo os vizinhos sabiam disso e ficaram olhando por trás de cortinas de renda quando um carro da polícia estacionou apenas alguns instantes depois e Carlotta veio até a beira da calçada para falar com os dois policiais, que partiram de imediato, com a sirene soando aparentemente á caça da menina fujona.

Naquela noite, parentes em Nova York receberam telefonemas de Carlotta com a informação de que Antha havia fugido de casa e de que estava seguindo para Manhattan.

Eles ajudariam a procurá-la? Foram esses primos de Nova York que contaram á família de Nova Orleans. Primos ligaram para primos. Pouco: dias depois, Irwin Dandrich escrevia a Londres que a "pobrezinha da Antha” havia dado um salto para a liberdade.

Havia fugido para a cidade de Nova York Mas até onde conseguiria chegar?

Como acabou se revelando, Antha chegou longe.

Durante meses a fio, ninguém soube onde estava Antha Mayfair. A polícia detetives particulares e membros da família não conseguiram uma pista seque: do seu paradeiro. Carlotta fez três viagens de trem a Nova York durante esse período e ofereceu recompensas substanciais a qualquer funcionário da polícia da cidade que pudesse lhe oferecer ajuda na busca. Ela telefonou para Amand. Grady Mayfair, que há pouco tempo havia deixado o marido, Cortland, e lhe fez ameaças.

- Foi simplesmente horrível - disse Amanda a um nosso "espião" na sociedade. - Ela me convidou para almoçar no Waldorf. Bem, é claro que ele não queria ir. Era parecido com um convite para passear na jaula do leão no zoológico e almoçar com ele. Mas eu sabia que ela estava perturbada com o caso de Antha e achei que queria lhe dizer umas verdades. Eu queria lhe dizer que ela mesma havia afastado Antha; que ela nunca deveria ter isolado a pobre criança dos seus tios, tias e primos que a amavam.

- Mas, assim que me sentei á mesa, ela começou a me ameaçar. "Ouça o que lhe digo, Amanda. Se você estiver abrigando Antha, posso lhe criar problema que você nem acreditaria." Tive vontade de jogar minha bebida em cima dela Eu estava furiosa. "Carlotta Mayfair, nunca mais tente falar comigo. Nunca mais me escreva, me telefone ou apareça em minha casa. Eu já estava cheia de você em Nova Orleans. Eu já estava cheia do que sua família fez com Pierce e com Cortland. Nunca mais volte a se aproximar de mim.”

Posso lhe garantir que ela estava soltando fumaça pelas orelhas quando saí do Waldorf. Mas sabe, essa uma tática normal de Carlotta. Ela faz uma acusação assim que vê a outra pessoa Aliás, ela vem fazendo isso há anos. Desse jeito, a pessoa não tem a oportunidade de fazer sua acusação contra ela.

No inverno de 1939, nossos detetives localizaram Antha através de um método muito simples. Elaine Barrett, nossa especialista em bruxaria, num reunião de rotina com Evan Neville, insinuou que Antha devia ter financiado sua fuga com as famosas jóias e moedas de ouro da família Mayfair. Por que não procurar as lojas de Nova York onde esses objetos podiam ser trocados rapidamente por dinheiro? Antha foi localizada em menos de um mês.

Ela vinha, de fato, vendendo moedas de ouro raras e belíssimas com certa regularidade para se sustentar desde a chegada, em 1939. Todos os negociantes de moedas de Nova York a conheciam: uma linda jovem, bem-educada e de sorriso franco que sempre trazia mercadorias raríssimas, da coleção da sua família na Virgínia, dizia ela.

- A princípio, achei que o material era roubado - disse um negociante de moedas. – Quer dizer, aquelas eram três das melhores moedas francesas que eu já havia visto.

Paguei-lhe apenas uma fração do que valiam e fiquei só esperando. Mas não aconteceu absolutamente nada. Quando fiz a venda, guardei uma porcentagem para ela. E, quando ela me trouxe umas moedas romanas maravilhosas, paguei-lhe o preço justo. Agora ela já é da minha absoluta confiança. Prefiro trabalhar com ela do que com algumas das outras pessoas que vêm aqui, isso eu lhe garanto.

Foi simples seguir Antha de uma dessas lojas até um amplo apartamento em Christopher Street, em Greenwich Village, onde ela estava morando com Sean Lacy, um pintor jovem e bonito, de origem irlandesa-americana, que se revelava bastante promissor e que já havia feito exposições com obras suas, tendo obtido algumas críticas favoráveis. A própria Antha havia se tornado escritora. Todo mundo no prédio e no quarteirão conhecia o jovem casal. Nossos detetives recolheram montanhas de informações quase que da noite para o dia.

Antha era o único meio de sustento de Sean Lacy, diziam abertamente os amigos. Ela comprava qualquer coisa de que ele precisasse, e ele a tratava como uma rainha.

-Na verdade, ele a chama de "minha beldade sulina" e faz tudo por ela. Mas também, por que ele não faria?

O apartamento era "um lugar maravilhoso", cheio de estantes até o teto e de grandes poltronas estofadas, muito confortáveis.

- Sean nunca pintou tão bem. Ele fez três retratos dela, todos muito interessantes. E dá para se ouvir a máquina de escrever de Antha o tempo todo. Eu soube que ela vendeu um conto para alguma revistinha literária do Ohio. Eles deram uma festa por isso. Ela estava tão feliz. Ela no fundo é um pouco ingênua, mas é ótima pessoa.

- Ela seria boa escritora se escrevesse sobre o que conhece - disse num bar uma jovem que alegava ter sido namorada de Sean. - Mas ela escreve essas fantasias mórbidas sobre uma velha casa lilás em Nova Orleans e sobre um fantasma que mora na tal casa. Tudo muito solene. Difícil de vender. Ela realmente devia esquecer essa droga e escrever sobre suas experiências aqui em Nova York.

Os vizinhos gostavam do jovem casal.

- Ela não sabe cozinhar, nem fazer nada de prático - informou uma pintora que morava um andar acima deles.-Mas também, para que precisaria? Não é ela quem paga as contas? Uma vez perguntei a Sean onde ela arranjava dinheiro. Ele disse que ela tem uma bolsa sem fundo. Tudo que ela precisa fazer é enfiar a mão. Ele então riu. Finalmente, no verão de 1940, Elaine Barrett, escrevendo de Londres, recomendou a nosso detetive particular mais responsável em Nova York que tentasse entrevistar Antha. Elaine queria desesperadamente ir até Nova York em pessoa, mas isso estava fora de cogitação. Por isso, ela falou por telefone com Allan Carver, homem amável e sofisticado, que já trabalhava conosco há muitos anos. Carver era um senhor dos seus cinqüenta anos, bem vestido e de boas maneiras. Ele considerou simples a tarefa de entrar em contato com Antha. Um prazer, na verdade.

Eu a segui até o Metropolitan Museum of Art e depois me deparei com ela quando ela estava sentada diante de um dos quadros de Rembrandt, com os olhos fixos na pintura, perdida nos seus pensamentos. Ela é bonita, muito bonita, mas muito boêmia. Naquele dia estava toda envolta em lã, com os cabelos soltos. Sentei-me ao seu lado, deixei que visse um exemplar de contos de Hemingway e comecei uma conversa a respeito dele. É, ela havia lido Hemingway e gostava dele. Ela gostava de Rembrandt?

Gostava. E de Nova York como um todo? Ah, ela adorava morar aqui. Ela não queria nunca estar em nenhum outro lugar. A cidade de Nova York era como uma pessoa para ela. Nunca antes ela havia sido tão feliz quanto estava sendo agora.

Não havia a menor chance de tirá-la do museu comigo. Ela era muito reservada, muito respeitável. Por isso, tentei aproveitar a oportunidade ao máximo.

Consegui que falasse sobre si mesma, sua vida, seu marido e seus escritos. E, ela queria ser escritora. E Sean também queria. Sean não se sentiria feliz se ela também não se realizasse. Sabe, a única profissão que posso seguir é a de escritora. Sou totalmente despreparada para qualquer outra coisa. Quando se levou o tipo de vida que eu levei, não se serve para nada. Só escrever pode salvar a pessoa. Era no fundo muito comovente seu jeito de falar nisso. Ela parecia totalmente indefesa e absolutamente autêntica. Acho que, se eu tivesse uns trinta anos a menos, eu teria me apaixonado por ela.

Mas que tipo de vida você levou? -  insisti. Não consigo definir seu sotaque. Mas sei que não é de Nova York.

Sou de lá do sul, disse ela. Trata-se de um outro mundo. Ela entristeceu instantaneamente, ficando mesmo agitada. Quero me esquecer daquilo tudo. Não quero parecer grosseira, mas criei essa norma para mim mesma. Eu me disponho a escrever sobre o meu passado, mas não a falar sobre ele. Vou transformá-lo em arte, se puder, mas não vou falar dele. É que não quero lhe conferir vida aqui, fora do universo da arte, se o senhor me entende.

Considerei sua decisão inteligente e interessante. Estava gostando da moça. Não posso lhe dizer o quanto estava gostando dela. E sabe, no meu ramo de atividade, a gente se acostuma tanto a só usar as pessoas!

Pois então me fale do que você escreve, pedi. Basta que me conte um dos seus contos, por exemplo, supondo-se que escreva contos, ou me fale de um poema seu.

Se eles tiverem algum valor, o senhor vai lê-los um dia desses, disse ela, dando-me um sorriso de despedida antes de ir embora. Acho que ela começou a suspeitar de alguma coisa. Realmente não sei. Ela olhava para os lados de um jeito defensivo o tempo todo em que conversamos. A certa altura, cheguei a lhe perguntar se estava esperando alguém. Ela disse que realmente não, mas que "nunca se sabe". Sua atitude era a de quem acha que está sendo vigiada. E é claro que meu pessoal a estava vigiando o tempo todo. Eu me senti numa situação bem desagradável naquela hora, posso garantir.

Durante meses, continuaram a chegar relatos da felicidade de Antha e Sean. Sean, um individuo grande e corpulento com um senso de humor contagiante, montou uma mostra individual no Village que foi um sucesso total. Antha teve um poema curto seu (de sete versos) publicado na revista The New Yorker. O casal estava extasiado. Só em abril de 1941 os comentários mudaram de tom.

- Bem, ela está grávida - disse a pintora do andar de cima. - E ele não quer o filho, sabe? E é claro que ela quer, e só Deus sabe o que vai acontecer. Ele conhece um médico que pode cuidar do caso, sabe? Mas ela não quer ouvir falar nisso. Detesto que ela esteja passando por tudo isso, de verdade. Ela é frágil demais. Eu a ouço chorar aqui embaixo a noite inteira.

No dia 1° de julho, Sean Lacy morreu num acidente de automóvel (causado por defeito mecânico) quando voltava de uma visita á sua mãe enferma na região norte do estado de Nova York. Antha foi hospitalizada, histérica, em Bellevue.

- Nós simplesmente não sabíamos o que fazer com ela - disse a pintora. - Ela berrou sem parar durante oito horas seguidas. Afinal, chamamos Bellevue. Nunca vou saber se essa foi a melhor maneira de agir.

Os registros de Bellevue indicam que Antha parou de berrar ou na verdade de emitir qualquer som ou fazer qualquer movimento assim que foi admitida. Permaneceu catatônica durante mais de uma semana. Escreveu, então, o nome "Cortland Mayfair" num pedaço de papel, com as palavras "Advogado, Nova Orleans". Entraram em contato com a firma de Cortland às dez e meia da manhã seguinte. Cortland ligou imediatamente para sua ex-esposa, Amanda Grady Mayfair, em Nova York e lhe pediu que fosse até Bellevue e cuidasse de Antha até ele próprio poder chegar.

Seguiu-se, então, uma batalha horrenda entre Cortland e Carlotta. Cortland, insistindo no ponto de que ele deveria se encarregar de Antha já que ela própria havia mandado chamá-lo. Mexericos da época afirmam que Carlotta e Cortland apanharam juntos o trem para Nova York, a fim de ir buscar Antha.

Num almoço em que se embriagou e se emocionou, Amanda Grady Mayfair contou toda a história ao seu amigo (e nosso informante) Allan Carver, que sempre fazia questão de perguntar pela sua velha família sulina e suas estripulias góticas. Amanda falou da sua pobre sobrinha internada em Bellevue.

-... Foi simplesmente horrível. Antha não conseguia falar. Não conseguia. Ela tentava dizer alguma coisa e só conseguia gaguejar. Estava tão fragilizada. A morte de Sean a havia arrasado. Ela demorou vinte e quatro horas para escrever o endereço do apartamento em Greenwich Village. Fui até lá imediatamente com Ollie Mayfair, sabe quem é? Uma das netas de Rémy. E apanhamos as coisas de Antha. Ai, foi tão triste. É claro que todos os quadros de Sean pertenciam a Antha, já que ela era sua esposa, imaginei. Mas os vizinhos vieram e nos contaram que Antha não havia se casado com Sean. A mãe e o irmão dele já haviam vindo ali e iam voltar com um caminhão para levar tudo embora. Parece que a mãe de Sean não gostava de Antha por acreditar que Antha havia levado seu filho a essa vida de artista em Greenwich Village.

- Eu disse a Ollie, bem, eles podem levar tudo, mas não vão levar os retratos de Antha. Apanhei esses quadros e todas as roupas e objetos de Antha, além de uma velha bolsa de veludo cheia de moedas de ouro. Agora, eu já havia ouvido falar nessa bolsa, e, se você conhece a família Mayfair, não me diga que nunca ouviu falar dela. E os seus escritos, isso mesmo, seus textos. Embrulhei tudo: seus contos, capítulos de um romance e uns poemas que ela havia escrito. E sabe que mais tarde eu descobri que um poema seu havia saído em The New Yorker. The New Yorker. Mas isso eu só soube quando meu filho, Pierce, me contou. Ele foi á biblioteca para procurá-lo. Era muito curto, algo sobre a neve caindo e o museu no parque. Nada que realmente se pudesse chamar de poema. Era mais como um fragmento de vida, por assim dizer. Mas saiu em The New Yorker. Isso era o que contava. Foi tão triste tirar tudo de dentro daquele apartamento. Como desmanchar uma vida, sabe?

- Quando voltei ao hospital, Carlotta e Cortland já estavam lá. Estavam brigando no corredor. Mas você precisava ver e ouvir uma briga entre Cari e Cort para poder acreditar. Tudo se resumia a sussurros, gestos mínimos e lábios comprimidos. Era digno de se ver. Mas lá estavam os dois, falando um com o outro desse jeito, e eu sabia que um estava pronto para matar o outro.

- "Vocês sabem que essa menina está grávida?" perguntei. "Os médicos lhes disseram?"

- "Ela tem de se livrar do bebê", declarou Carlotta. Achei que Cortland fosse morrer. Eu mesma fiquei tão chocada que não sabia o que dizer.

-Como eu odeio Carlotta! Não me importa quem saiba disso. Eu a detesto. E sempre a detestei a minha vida inteira. Tenho pesadelos só de pensar nela a sós com Antha.

Disse a Cortland ali mesmo diante dela, "A menina precisa ser bem cuidada."

- Mas Cortland já havia tentado obter a guarda de Antha. Isso ele havia tentado bem no início, e Carlotta havia ameaçado brigar com ele, expor todo tipo de coisa a nosso respeito, sabe? Ah, ela e medonha. E Cortland havia desistido. Acho que ele sabia que agora também não ia conseguir ficar com Antha. "Olhe, Antha agora é uma mulher", disse eu. "Pergunte a ela para onde quer ir. Se ela quiser ficar em Nova York, pode ficar comigo. Pode ir morar com Ollie". Nem morta!

- Carlotta entrava para conversar com os médicos. Ela fazia seu papel. Conseguiu alguma espécie de transferência oficial de Antha para um hospital psiquiátrico em Nova Orleans. Ela ignorou Cortland como se ele nem existisse. Eu telefonei para todos os primos em Nova Orleans. Liguei para todos eles. Liguei até para Beatrice Mayfair de Esplanade Avenue, a neta de Rémy. Contei que Antha estava doente, que estava grávida e que precisava de atenção e carinho.

- E aí aconteceu uma coisa tristíssima. Estavam levando Antha para a estação ferroviária. Ela fez um gesto para eu me aproximar e cochichou no meu ouvido, "Guarde as minhas coisas para mim, tia Mandy. Ela vai jogar tudo fora, se a senhora não guardar." E imaginar que eu já havia despachado tudo para Nova Orleans. Liguei para meu filho Sheffield e falei com ele sobre isso. Pedi que Sheffield fizesse o possível por ela quando ela chegasse.

Antha voltou para a Louisiana de trem com seu tio e sua tia e foi imediatamente internada no sanatório de Santa Ana, onde permaneceu um mês e meio. Inúmeros parentes vinham visitá-la. As conversas em família indicavam que ela estava muito pálida e que às vezes era incoerente, mas que estava se recuperando.

Em Nova York, nosso detetive Allan Carver providenciou mais um encontro casual com Amanda Grady Mayfair.

- E a sobrinha, como vai indo?

- Ai, é a pior história que posso lhe contar! - Lamentou-se Amanda. - Você não pode imaginar. Sabe que a tia da garota disse aos médicos do hospício que queria que eles fizessem um aborto nela? Que ela era louca de nascença e que nunca se deveria permitir que tivesse um filho? Você alguma vez ouviu alguma história pior do que essa? Quando meu marido me contou isso, eu lhe disse que, se ele não fizesse alguma coisa imediatamente, eu nunca o perdoaria. É claro que ele disse que ninguém ia tocar no bebê. Os médicos não fariam uma coisa dessas, não a pedido de Carlotta, nem a pedido de ninguém. E então, quando eu liguei para Beatrice Mayfair em Esplanada Avenue e contei tudo a ela, Cortland ficou furioso. "Não me ponha todo mundo em pé de guerra", disse ele. Mas é exatamente isso o que eu pretendia fazer. Eu disse a Bea que fosse visitá-la, que não deixasse ninguém a impedir de entrar.

O Talamasca nunca pôde corroborar a história do aborto sugerido. Mas enfermeiras do sanatório mais tarde contaram a detetives nossos que dezenas de parentes vieram visitar Antha no hospício.

"Eles simplesmente não aceitam uma resposta negativa", escreveu Irwin Dandrich. "Eles insistem em vê-la e, ao que todos dizem, ela está bem. Está entusiasmada com o bebê, e é claro que eles a estão inundando com presentes. Sua jovem prima, Beatrice, trouxe umas roupinhas de neném de renda antiga que pertenceram à tia-avó Suzette. É claro que é do conhecimento geral que Antha não se casou com o pintor de Nova York. Mas também, que diferença isso faz, quando seu sobrenome é, e sempre será, Mayfair."

Os parentes se revelaram tão ativos quanto antes quando Antha recebeu alta do sanatório e veio para casa em First Street, para convalescer no antigo quarto de Stella no lado norte da casa. Enfermeiras lhe faziam companhia o dia inteiro, e obter informações delas foi muito simples para nossos investigadores.

O lugar era descrito como "insuportavelmente lúgubre". Mas Millie Dear e Belle cuidavam muito bem de Antha. Na verdade, elas não deixavam sobrar muita coisa para as enfermeiras. Millie Dear costumava ficar sentada com Antha o tempo todo na pequena sacada do quarto. E Belle tricotava lindas roupinhas para o bebê. Cortland passava por lá todas as noites após o trabalho.

- A dona da casa não queria que ele viesse, é o que eu acho - disse uma das enfermeiras. - Mas ele vinha. Sem falta. Ele e um mais moço, acho que seu nome era Sheffield.

Todas as noites, eles se sentavam com a paciente para conversar um pouco. Os comentários na família diziam que Sheffield havia lido parte dos textos de Antha dos tempos em Nova York e que Antha era "muito boa". As enfermeiras falavam nas caixas de Nova York, caixotes cheios de livros e papéis, que Antha só olhava, mas que estava ainda fraca demais para desempacotar.

- Eu no fundo não vejo nada de errado com ela em termos mentais - disse uma das enfermeiras. - A tia nos leva até o corredor para fazer perguntas estranhíssimas.

Ela dá a entender que a moça é louca de nascença e que pode machucar alguém. Mas os médicos não nos disseram nada disso. Ela é calada e melancólica. Ela dá a impressão de ser muito mais nova do que é. Mas não é o que eu chamaria de louca. Deirdre Mayfair nasceu no dia 4 de outubro de 1941, no antigo Hospital da Misericórdia junto ao rio, que mais tarde foi demolido. O parto parece não ter apresentado nenhuma dificuldade especial, e Antha estava profundamente anestesiada, como era costume naquela época. Os parentes encheram os corredores do hospital durante as horas de visita nos cinco dias em que Antha ali esteve. Seu quarto estava repleto de flores.

O bebê era uma menina bonita e saudável.

No entanto, aquele fluxo de informações, que havia aumentado tanto com o envolvimento de Amanda Grady Mayfair, sofreu uma interrupção abrupta duas semanas depois de Antha voltar para casa. Os primos descobriam que a porta lhes era fechada pela criada negra, tia Easter, ou por Nancy, quando vinham fazer sua segunda ou terceira visita. Na realidade, Nancy deixou o emprego de arquivista para cuidar do bebê ("Ou para impedir que entremos!" disse Beatrice a Amanda num telefonema interurbano) e ela era inflexível ao dizer que a mãe e a criança não podiam ser perturbadas.

Quando Beatrice ligou para perguntar sobre o batizado, disseram- lhe que o bebê já havia sido batizado na igreja de Santo Afonso. Indignada, ela ligou para Amanda em Nova York. Uns vinte primos "invadiram" a casa numa tarde de domingo.

- Antha ficou felicíssima ao vê-los! - disse Amanda a Allan Carver. - Ela estava simplesmente emocionada. Não fazia a menor idéia de que eles tivessem ligado para ela e aparecido para visitar. Ninguém chegara a lhe dizer nada. Ela não sabia que era costume dar festas para celebrar batizados. Carlotta havia organizado tudo. Ficou magoada quando percebeu o acontecido, e todos mudaram de assunto imediatamente. Mas Beatrice ficou furiosa com Nancy, e Nancy só está fazendo o que Carlotta mandou.

No dia 30 de outubro daquele ano, Antha foi oficialmente declarada beneficiária e administradora geral do legado Mayfair. Ela assinou uma procuração em que nomeava Cortland e Sheffield Mayfair seus representantes legais para todas as questões financeiras; e solicitou que eles estabelecessem imediatamente um crédito vultoso destinado à administração da "restauração" da casa de First Street. Ela demonstrava preocupação com as condições da propriedade inteira.

Comentários nos meios jurídicos dão conta de que Antha ficou perplexa ao descobrir que era proprietária do imóvel. Isso nunca lhe havia passado pela cabeça. Ela queria redecorar, pintar, restaurar tudo.

Carlotta não estava presente á reunião de Antha com os tios. Carlotta havia exigido que o escritório de advocacia da Mayfair & Mayfair lhe fornecesse, em nome de Antha, uma auditoria completa de tudo que havia sido feito desde a morte de Stella, alegando que os registros atuais eram insuficientes. Recusou-se, portanto, a participar de qualquer entendimento legal até receber essa auditoria "para exame".

Sheffield contou mais tarde á mãe, Amanda, que Antha havia sido propositalmente enganada no que dizia respeito ao legado. Ela pareceu magoada e até um pouco chocada quando tudo lhe foi explicado. E era Carlotta quem a havia magoado. Mas tudo o que ela dizia era que Carlotta provavelmente estivesse apenas pensando no seu bem o tempo todo.

O grupo foi almoçar tarde no Galatoire's para celebrar a ocasião. Antha estava ansiosa por não estar com o bebê, mas pareceu estar se divertindo. Quando estavam saindo, Sheffield ouviu Antha fazer a seguinte pergunta ao seu pai.

- Quer dizer que ela não poderia ter me mandado embora se quisesse? Ela não poderia ter me posto no olho da rua?

- A casa é sua, ma cherie - respondeu Cortland. - Ela tem permissão para morar ali, mas isso depende totalmente da sua aprovação.- Ancha pareceu ficar tão triste.

- Ela costumava me ameaçar - disse, baixinho. - Costumava dizer que me poria na rua se eu não fizesse o que ela mandava.

Cortland, então, afastou Ancha do grupo e a levou sozinha para casa. Ancha e o bebê foram almoçar alguns dias depois com Beatrice Mayfair em outro restaurante da moda no French Qarter. Uma babá estava á disposição para levar o bebê a passear no seu belo carrinho de vime branco enquanto as duas mulheres apreciavam o peixe e o vinho. Quando Beatrice descreveu tudo isso para Amanda mais tarde, disse que Ancha estava realmente amadurecida. Estava escrevendo novamente. Estava trabalhando num romance. E ia mandar reformar a casa de First Street inteira. Ela queria consertar a piscina. E chegou a falar um pouco sobre a mãe, sobre como a mãe gostava de dar festas. Ela parecia estar cheia de vida.

Na verdade, diversos empreiteiros foram procurados para dar orçamentos para uma "restauração completa, incluindo-se pintura, carpintaria e algum trabalho de pedreiro".

Os vizinhos ficaram felizes de ouvir essa notícia dos criados. Dandrich escreveu que um famoso escritório de arquitetura havia sido consultado quanto á reconstrução do galpão de carruagens.

Ancha escreveu uma breve carta a Amanda Grady Mayfair em meados de novembro, agradecendo- lhe por toda a ajuda em Nova York. Ela agradeceu também por Amanda estar enviando toda a correspondência de Greenwich Village. Dizia estar escrevendo contos e trabalhando mais uma vez no seu romance.

Quando o carteiro, o Sr. Bordreaux, passou por ali como de costume às nove da manhã no dia 10 de dezembro, Antha estava á sua espera no portão. Trazia com ela alguns envelopes grandes de papel pardo, prontos para seguir para Nova York. Será que podia comprar os selos com ele? Os dois calcularam o peso aproximadamente (ela disse que não podia deixar o bebê para ir até o correio) e ele levou os envelopes. Antha também lhe entregou um maço de correspondência simples para vários endereços em Nova York.

- Ela estava toda entusiasmada - disse o carteiro. - Ela ia ser escritora. Uma menina tão meiga. Nunca vou me esquecer. Comentei alguma coisa sobre o bombardeio de Pearl Harbor, disse que meu filho havia se alistado no dia anterior, e que agora afinal estávamos na guerra. E sabe de uma coisa? Ela nunca havia ouvido uma palavra sobre o assunto. Não sabia nada do bombardeio ou da guerra. Como se estivesse vivendo no meio de um sonho.

A "menina meiga" morreria naquela mesma tarde. Quando o mesmo carteiro passou com a correspondência da tarde ás três e meia, caía um temporal sobre aquela área do Garden District. Chovia "canivetes". Mesmo assim, uma multidão estava reunida no jardim da família Mayfair, e o rabecão estava no meio da rua. O vento soprava "feroz".

O Sr. Bordreaux ficou por ali apesar da tempestade.

- Miss Belle estava na varanda, soluçando. E Miss Millie tentou me dizer o que estava acontecendo, mas não conseguiu dizer palavra. Miss Nancy veio, então, até a beira da varanda e gritou para mim, "Pode ir, Sr. Bordreaux. Tivemos uma morte aqui. Pode ir, e saia dessa chuva".

O Sr. Bordreaux atravessou a rua e procurou abrigo na varanda de uma casa vizinha. A governanta lhe disse pela porta de tela que Ancha Mayfair era quem havia morrido. Parecia que ela havia caído do telhado da sacada do terceiro andar. Era fortíssima a tempestade, segundo o carteiro, um verdadeiro furacão. Mesmo assim, ele ficou ali para ver enquanto um corpo era colocado no rabecão. Red Lonigan estava lá, com seu primo Leroy Lonigan. Então, o veículo foi embora. O Sr. Bordreaux voltou, afinal, a entregar a correspondência, e logo, mais ou menos ao chegar a Prytania Street, o tempo já estava limpo. No dia seguinte, quando passou por ali, a calçada estava coberta de folhas.

Ao longo dos anos, o Talamasca recolheu muitas histórias relacionadas á morte de Ancha, mas o que realmente aconteceu na tarde do dia 10 de dezembro pode nunca ser revelado. O Sr. Bordreaux foi o último "estranho" a ver ou a falar com Ancha. Naquele dia, a babá da criança, uma senhora idosa chamada Alice Flanagan, não foi trabalhar por estar doente.

O que se sabe, a partir dos registros da polícia e de conversas reservadas extraídas da família Lonigan e dos padres da paróquia, é que Ancha saltou ou caiu do telhado da sacada, abaixo da janela do sótão do antigo quarto de Julien em algum momento antes das três da tarde.

A versão de Carlotta, compilada a partir dessas mesmas fontes, foi como se segue. Ela vinha discutindo muito com Antha a respeito da criança, já que Antha havia chegado a um ponto de degeneração tal que nem alimentava o bebê.

- Ela não estava de modo algum preparada para ser mãe - disse Miss Carlotta ao policial. Antha passava horas batendo à máquina cartas, contos e poesia, e Nancy e as outras precisavam bater com força na porta do quarto para fazer com que ela percebesse que Deirdre estava chorando e que precisava que a amamentassem ou que lhe dessem uma mamadeira.

Antha ficou "histérica" durante essa última discussão. Ela subiu correndo os dois lances de escada até o sótão, gritando que a deixassem em paz. Carlotta, receando que ela se machucasse, o que acontecia com freqüência, segundo Carlotta, entrou atrás de Antha no antigo quarto de Julien. Ali, Carlotta descobriu que Antha havia tentado arrancar os próprios olhos e que havia de fato conseguido fazer brotar muito sangue.

Quando Carlotta procurou controlá-la, Antha se soltou com violência, caindo para trás pela janela em cima do telhado da sacada de ferro fundido. Ali ela pareceu conseguir engatinhar até a beirada, quando perdeu o equilíbrio ou pulou. Morreu instantaneamente quando sua cabeça atingiu as lajes três andares abaixo.

Cortland ficou fora de si quando soube da morte da sobrinha. Foi imediatamente para First Street. O que contou a sua mulher em Nova York mais tarde foi que Carlotta estava absolutamente tresloucada. O padre estava com ela, um certo padre Kevin, da paróquia redentorista. Carlotta não parava de repetir que ninguém compreendia como Antha era frágil.

- Eu tentei impedir! - disse Carlotta. - Em nome de Deus, o que se esperava que eu fizesse?

Millie Dear e Belle estavam por demais perturbadas para falar. Belle parecia estar confundindo tudo com a morte de Stella. Só Nancy tinha coisas abertamente desagradáveis a dizer. Queixava-se de que Antha havia sido mimada e protegida a vida inteira, que sua cabeça estava cheia de sonhos tolos.

Quando Cortland entrou em contato com Alice Flanagan, a babá, ela pareceu receosa. Já tinha alguma idade cera parcialmente cega. Disse não saber nada de Antha jamais ter se machucado, de ficar histérica, ou qualquer coisa parecida. Ela recebia ordens de Miss Carlotta. Miss Carlotta havia sido boa com sua família. Miss Flanagan não queria perder o emprego.

- Só quero cuidar daquele lindo bebê - disse ela á polícia. - Aquele pequeno bebê precisa de mim agora. - E ela de fato cuidou de Deirdre até a menina completar cinco anos de idade.

Afinal, Cortland disse a Beatrice e a Amanda que deixassem Carlotta em paz. Carlotta era a única testemunha do que havia acontecido. E, não importa o que houvesse acontecido naquela tarde, sem dúvida a morte de Antha havia sido um acidente horrível. O que se podia fazer?

Nenhuma investigação séria se seguiu á morte de Antha. Não houve autópsia. Quando o agente funerário teve suspeitas após examinar o cadáver e concluir que os arranhões no rosto de Antha não poderiam ter sido feitos por ela mesma, ele entrou em contato com o médico da família e recebeu o conselho ou a ordem de deixar para lá. Antha era louca. Esse era o diagnóstico informal. Durante toda a sua vida, ela fora desequilibrada. Ela havia sido internada em Bellevue e no sanatório de Santa Ana. Ela dependia dos outros para cuidar de si mesma e da sua filha.

Depois da morte de Stella, a esmeralda Mayfair nunca mais havia sido mencionada em associação ao nome de Antha. Nenhum parente ou amigo jamais relatou tê-la visto.

Sean Lacy nunca pintou Antha com a jóia. Ninguém em Nova York ouviu falar nela. No entanto, quando Antha morreu, estava com a esmeralda no pescoço. A pergunta é óbvia. Por que estaria Antha usando a esmeralda justo naquele dia? Teria sido o fato de estar usando a jóia que precipitou a discussão fatal? E se os arranhões no rosto de Antha não haviam sido feitos por ela mesma, teria Carlotta tentado arrancar os olhos de Antha? E em caso positivo, por que? Qualquer que tenha sido o caso, a mansão de First Street estava mais uma vez envolta em mistério. Os planos de Antha para uma restauração nunca foram concretizados.

Depois de violentas discussões nos escritórios da Mayfair & Mayfair (Carlotta uma vez saiu furiosa, batendo a porta com tanta força que quebrou o vidro), Cortland chegou a requerer a guarda de Deirdre, ainda bebê. Alexander, neto de Clay Mayfair, também se ofereceu. Ele e a mulher, Eileen, tinham uma linda mansão em Metairie. Poderiam adotar a criança oficialmente ou apenas recebê-la informalmente, dependendo da decisão de Carlotta.

- Cortland quer que eu volte para casa para cuidar do bebê. Eu lhe digo que sinto tanta pena da criança. Mas não posso voltar para Nova Orleans depois de todos esses anos - disse Amanda Grady Mayfair ao nosso espião na sociedade nova-iorquina, Allan Carver.

Carlotta quase riu diante de todas essas "almas caridosas", como os chamou. Ela disse ao juiz, e na verdade a qualquer um da família que lhe fizesse a pergunta, que Antha havia sido uma pessoa muito doente. Era loucura congênita sem a menor dúvida, e poderia aparecer também na sua filhinha. Carlotta não tinha nenhuma intenção de tirar Deirdre da casa da sua mãe, ou afastá-la da querida Miss Flanagan, da doce Belle ou da meiga Millie, que todas elas adoravam a menina e tinham tempo para cuidar dela dia após dia como nenhuma outra pessoa.

Quando Cortland se recusou a recuar, Carlotta o ameaçou diretamente. Sua mulher o havia deixado, não era verdade? Será que a família não ia querer saber depois de todos esses anos exatamente que tipo de homem Cortland era? Os primos ficaram pensando nas suas críticas e insinuações. O juiz se "impacientou". Na sua opinião, Carlotta Mayfair era mulher de virtude impecável e de excelente discernimento. Por que a família não podia aceitar a situação? Pelo amor de Deus, se cada bebê órfão tivesse tias tão boas quanto Millie, Belle e Carlotta, este mundo seria muito melhor. O legado ficou nas mãos da Mayfair & Mayfair, e a criança, nas mãos de Carlotta. E a questão foi encerrada abruptamente.

Apenas uma vez ocorreu outra investida contra a autoridade de Carlotta. Foi em 1945. Cornell Mayfair, um dos primos de Nova York e descendente de Lestan, acabava de terminar sua residência no Massachusetts General. Estava se formando em psiquiatria. Ele havia ouvido "histórias incríveis" sobre a casa de First Street da sua prima (por afinidade) Amanda Grady Mayfair. E também de Louisa Ann Mayfair, a neta mais velha de Garland, que estudou em Radcliffe e teve um caso com Cornell enquanto estava lá. Que história era essa de loucura congênita? Cornell estava fascinado. Ele também estava ainda apaixonado por Louisa Ann, que havia voltado para Nova Orleans, em vez de se casar com ele para morar em Massachusetts, e ele não conseguia entender a adoração da moça pela cidade natal. Teve vontade de visitar Nova Orleans e a família de First Street, e os primos de Nova York acharam que era uma boa idéia.

- Quem sabe? - perguntou ele a Amanda num almoço no Waldorf. - Talvez eu goste da cidade, e pode ser que Louisa Ann e eu consigamos descobrir um jeito de resolver as coisas.

No dia 11 de fevereiro, Cornell chegou a Nova Orleans, registrando-se num hotel no centro.

Ele pediu a Carlotta que conversasse com ele, e ela concordou com uma visita sua a First Street.

Como Cornell mais tarde relatou a Amanda num interurbano, ele permaneceu na casa talvez umas duas horas, tendo ficado sozinho com a pequena Deirdre, de quatro anos, por uma parte desse tempo.

- Não posso dizer o que descobri, mas essa criança precisa ser retirada daquele ambiente. E para ser franco, não quero envolver Louisa Ann nisso. Conto-lhe a história toda quando chegar a Nova York.

Amanda insistiu com ele para que ligasse para Cortland, a fim de transmitir a Cortland todas as suas preocupações. Cornell confessou que Louisa Ann lhe havia feito a mesma sugestão.

- Não quero fazer isso neste exato instante - disse Cornell. - Acabei de me encher com a tal Carlotta. Não quero conhecer mais nenhuma dessas pessoas hoje.

Com a certeza de que Cortland poderia ser útil, Amanda telefonou para ele e contou o que estava acontecendo. Cortland apreciou o interesse do Dr. Mayfair e ligou para Amanda naquela mesma tarde para lhe dizer que havia marcado um encontro com Cornell para jantar no Kolb's no centro. Ele voltaria a ligar para ela depois dessa conversa, mas até agora estava gostando do jovem médico. Estava ansioso para ouvir o que Cornell tinha a dizer.

Cornell não apareceu para o jantar. Cortland esperou uma hora no Kolb's Restaurant e ligou para o quarto de Cornell. Não houve resposta. Na manhã do dia seguinte, a camareira encontrou o corpo de Cornell. Estava completamente vestido deitado na cama desarrumada, com os olhos meio abertos e um copo meio vazio de bourbon na mesa-de-cabeceira. Não foi encontrada nenhuma causa imediata da sua morte.

Quando foi feita a autópsia, a pedido da mãe de Cornell bem como do médico-legista de Nova Orleans, descobriu-se nas veias do rapaz uma pequena quantidade de um poderoso narcótico, misturado ao álcool. O caso foi classificado como uma dose excessiva acidental, sem haver maiores investigações. Amanda Grady Mayfair nunca se perdoou por ter mandado o jovem Dr. Cornell Mayfair até Nova Orleans. Louisa Ann "nunca se recuperou" do choque e continua solteira até hoje. Cortland, perturbadíssimo, acompanhou o caixão na viagem de volta a Nova York. Teria sido Cornell vitima das Bruxas Mayfair? Mais uma vez somos forçados a admitir que não sabemos. Um detalhe, porém, nos dá alguma indicação de que Cornell não morreu da pequena quantidade de narcótico e álcool no seu sangue. O médico-legista que examinou o corpo antes que ele fosse retirado do quarto do hotel salientou que os olhos do morto estavam cheios de vasos sangüíneos estourados. Hoje sabemos que esse é um sintoma da asfixia. É possível que alguém tenha deixado Cornell completamente indefeso ao pôr uma droga na sua bebida (foi encontrado bourbon no copo sobre a mesa) e depois o sufocou com um travesseiro quando ele não podia mais se defender.

Quando o Talamasca procurou investigar o caso (através de um renomado detetive particular), as pistas já haviam se dissipado. Ninguém no hotel conseguiu se lembrar se Cornell Mayfair recebeu ou não visitas naquela tarde. Ele teria pedido o bourbon no serviço de copa? Ninguém jamais havia feito essas perguntas antes. Impressões digitais? Nem uma sequer havia sido tirada. Afinal, não se tratava de assassinato...

Agora, porém, já é hora de nos voltarmos para Deirdre Mayfair, a atual herdeira do legado Mayfair, órfã aos dois meses de idade, deixada nas mãos de tias idosas.

 

Deirdre Mayfair

A casa de First Street continuou a se deteriorar após a morte de Antha. A essa altura, a piscina já se havia transformado numa poça pantanosa e fétida cheia de lentilha-d'água e de íris silvestre, com seus chafarizes enferrujados a lançar jatos de água verde no caldo imundo. Mais uma vez foram aferrolhadas as janelas do quarto principal voltado para o norte. A tinta lilás-acinzentada continuou a descascar nas paredes de alvenaria.

A velha Miss Flanagan, quase totalmente cega no seu último ano, cuidou da pequena Deirdre até pouco antes do seu quinto aniversário. De vez em quando ela levava o bebê para uma volta ao quarteirão num carrinho de vime, mas nunca atravessava a rua. Cortland vinha no Natal. Ele tomava xerez no longo salão da frente com Millie Dear, Belle e Nancy.

- Eu lhes disse que desta vez iam ter de me permitir entrar - explicou ele ao filho, Pierce, que mais tarde contou a sua mãe. - Não, senhor. Eu queria ver aquela criança com meus próprios olhos no dia do seu aniversário e no Natal. Eu ia segurá-la nos meus braços. - Cortland fez declarações semelhantes às suas secretárias no escritório da Mayfair & Mayfair, que eram freqüentemente quem comprava os presentes que Cortland levava para First Street.

Anos mais tarde, Ryan Mayfair, neto de Cortland, tocou nesse assunto com um "conhecido" simpático numa festa de casamento.

- Meu avô detestava ir até lá. Nossa casa em Metairie sempre foi tão cheia de alegria. Meu pai dizia que vovô voltava para casa chorando. Quando Deirdre estava com três anos de idade, Vovô fez com que elas armassem sua primeira árvore de Natal em anos.

Ele levou para lá uma caixa de enfeites para ela. Comprou as lâmpadas na Katz and Bestoff e ele mesmo as instalou. É tão difícil imaginar as pessoas morando num ambiente tão lúgubre. Eu gostaria de ter realmente conhecido meu avô. Ele nasceu naquela casa. Já pensou? E o pai dele, Julien, havia nascido antes da Guerra de Secessão.

A essa altura, Cortland já era o retrato do seu pai, Julien. Fotografias dele, mesmo as de meados da década de 1950, mostram- no um homem alto, esguio, com cabelos negros, grisalhos apenas nas têmporas. Seu rosto de rugas profundas era extraordinariamente parecido com o do pai, a não ser pelo fato de seus olhos serem muito maiores, lembrando os olhos de Stella, embora ele tivesse a expressão amável de Julien e muitas vezes o mesmo sorriso alegre do pai.

Na opinião de todos, a família de Cortland o adorava. Seus empregados o idolatravam; e, embora o houvesse deixado anos antes, até mesmo Amanda Grady Mayfair parecia tê-lo amado sempre, ou foi o que ela disse a Allan Carver em Nova York no ano em que morreu. Amanda chorou no ombro de Allan pelo fato de seus filhos nunca terem compreendido por que ela abandonou o pai deles; e o pior era que ela não tinha nenhuma intenção de lhes contar.

Ryan Mayfair, que conheceu seu avô Cortland superficialmente, era extremamente afeiçoado a ele. Para ele e para seu pai, Cortland era um herói. Ele jamais conseguiu entender como sua avó pôde "desertar", indo para NovaYork.

Como era Deirdre durante esse período inicial? Foi- nos impossível descobrir uma única descrição dela nos seus cinco primeiros anos de vida, a não ser a lenda corrente na família de Cortland de que ela era uma menina muito bonita.

Seus cabelos negros eram finos e ondulados, como os de Stella. Os olhos eram grandes e de um azul-escuro.

A casa de First Street estava, porém, mais uma vez fechada para o mundo exterior. Uma geração de transeuntes havia se acostumado à sua fachada descuidada e ameaçadora. Novamente, os operários não conseguiam realizar consertos no imóvel. Um especialista em telhados caiu duas vezes da escada e se recusou a voltar ali. Somente o velho jardineiro e seu filho se dispunham a vir ocasionalmente para limpar o jardim coberto de mato.

À medida que foram morrendo os paroquianos, com eles morriam certas lendas acerca da família Mayfair. Outras histórias sofreram uma transformação tão infeliz com o tempo ao ponto de se tornarem irreconhecíveis. Novos detetives substituíam os antigos. Logo, ninguém a quem se fizesse uma pergunta acerca da família Mayfair citava mais os nomes de Julien, Katherine, Rémy ou Suzette.

Barclay, filho de Julien, faleceu em 1949. Seu irmão Garland, em 1951. Um filho de Cortland, Grady, morreu no mesmo ano de Garland, depois de cair de um cavalo no Audubon Park. Sua mãe, Amanda Grady Mayfair, faleceu pouco tempo depois, como se a morte do seu querido Grady tivesse sido mais do que ela pudesse suportar. Dos dois filhos de Pierce, somente Ryan Mayfair "conhece a história da família" e regala os sobrinhos mais novos, muitos dos quais não sabem absolutamente nada, com estranhas histórias.

Irwin Dandrich morreu em 1952. Seu papel já havia sido preenchido, no entanto, por uma "espiã de sociedade", uma mulher chamada Juliette Milton, que recolheu inúmeras histórias ao longo dos anos com Beatrice Mayfair e outros primos do centro da cidade, muitos dos quais almoçavam com Juliette com regularidade e não pareciam se importar com o fato de ela ser uma mexeriqueira que lhes contava tudo sobre todo mundo e contava a todo mundo tudo sobre eles. Como Dandrich, Juliette não era uma pessoa realmente maliciosa. Na verdade, ela nem mesmo parece ter sido pouco gentil. Ela adorava o melodrama, porém, e escrevia cartas incrivelmente longas aos nossos advogados em Londres, que lhe pagavam uma soma anual equivalente à pensão que antes havia sido sua única fonte de sustento.

Como também ocorreu co m Dandrich, Juliette nunca soube a quem estava fornecendo todas essas informações sobre a família Mayfair. E embora tocasse no assunto pelo menos uma vez por ano, ela nunca insistiu.

Em 1953, quando comecei a me dedicar integralmente à tradução das cartas de Petyr van Abel, eu lia os relatos acerca de Deirdre, que estava com doze anos, à medida que eles chegavam. Mandei detetives à cata de qualquer informação, por mínima que fosse.

- Pesquisem - dizia eu. - Contem- me tudo a seu respeito desde o início. Não há nada que eu não queira saber. - Liguei para Juliette Milton pessoalmente. Disse-lhe que pagaria bem por qualquer coisa nova que ela descobrisse.

Pelo menos, durante os primeiros anos da sua vida, Deirdre seguiu o exemplo da sua mãe, sendo expulsa de uma escola após a outra por suas "travessuras" e "comportamento estranho", por suas interrupções nas aulas e por estranhas crises de choro que nada conseguia acalmar.

Mais uma vez, a irmã Bridget Marie, então com seus sessenta anos, viu o "amigo invisível" em ação no pátio da escola de Santo Afonso, encontrando objetos para a pequena Deirdre e fazendo flores voar pelos ares. O Sagrado Coração, o das Ursulinas, o São José, o Nossa Senhora dos Anjos. Todos esses colégios expulsaram a pequena Deirdre em poucas semanas. A menina ficava em casa meses a fio. Os vizinhos a viam "correndo solta" no jardim ou subindo no grande carvalho nos fundos do terreno. Já não havia mais uma criadagem na casa de First Street. A filha de tia Easter, Irene, era quem cuidava da cozinha e da limpeza de tudo com afinco. Todos os dias de manhã ela varria as calçadas ou o passeio, como se chamava na época. Às três da tarde, via-se Irene torcendo o esfregão na torneira junto ao portão dos fundos do jardim.

Nancy Mayfair era na realidade a dona da casa, comandando tudo com um jeito brusco e ofensivo, ou pelo menos era o que diziam os entregadores e padres que de vez em quando apareciam por lá.

Millie Dear e Belle, duas velhinhas pitorescas, se não bonitas, cuidavam das poucas rosas junto à varanda lateral, que haviam sido salvas do mato que agora cobria a propriedade inteira, desde a cerca da frente até o muro dos fundos. Toda a família comparecia à missa das nove aos domingos na capela. A pequena Deirdre, linda no seu vestido azul- marinho em estilo marinheiro e chapéu de palha com fitas; Carlotta, num costume escuro, formal, e blusa de gola alta; e as duas velhinhas, Millie Dear e Belle, trajadas com perfeição nos seus vestidos de gabardine com renda, sapatos pretos de amarrar e luvas escuras.

Miss Millie e Miss Belle costumavam fazer compras juntas às segundas, pegando um táxi de First Street até Gus Mayer ou Godchaux's, as melhores lojas de Nova Orleans, onde compravam seus vestidos cinza-pérola, seus chapéus floridos com véus e outros acessórios elegantes. As atendentes do balcão de cosméticos as conheciam pelo nome. Vendiam-lhes pó-de-arroz, ruge cremoso e perfume Christmas Night. As duas velhinhas almoçavam na lanchonete da D. H. Holmes antes de apanhar um táxi para voltar para casa. E elas, e somente elas, representavam a família de First Street em enterros, ocasionalmente em batizados e até mesmo raras vezes num casamento ou outro, embora quase nunca fossem à recepção após a missa nupcial. Millie e Belle chegavam mesmo a comparecer a enterros de outros paroquianos e costumavam ir ao velório se fosse ali perto, na Lonigan and Sons. Freqüentavam a novena de terça- feira à noite na capela e às vezes no verão traziam debaixo da asa a pequena Deirdre, orgulhosas da menina, dando-lhe pedacinhos de chocolate durante o serviço para que ela ficasse quieta.

Ninguém mais se lembrava de algum dia ter havido algo de "errado" com Miss Belle. Na verdade, as duas senhoras conquistaram com facilidade o respeito e a benevolência do Garden District, especialmente entre as famílias que nada sabiam das tragédias e segredos da família Mayfair. A casa de First Street não era a única mansão que se reduzia a pó por trás de uma cerca enferrujada.

Nancy Mayfair, por outro lado, parecia ter nascido e crescido numa classe totalmente diferente. Suas roupas sempre foram desmazeladas. Não lavava os cabelos castanhos e só os penteava superficialmente. Teria sido fácil confundi-la com uma criada contratada. Mas ninguém jamais questionou o fato de ela ser irmã de Stella, o que naturalmente ela não era. Nancy começou a usar sapatos pretos de amarrar quando tinha só trinta anos. Resmungando, ela pagava aos entregadores t irando o dinheiro de uma carteira gasta. Ou gritava da varanda de cima para mandar embora algum ambulante que estivesse junto ao portão.

Era com essas mulheres que a pequena Deirdre passava seus dias quando não estava se esforçando para prestar atenção numa sala de aula superlotada, o que sempre terminava em fracasso e rejeição.

Repetidamente as mexeriqueiras da paróquia comparavam Deirdre à mãe. Os primos diziam que talvez fosse "loucura congênita", embora no fundo ninguém soubesse. No entanto, para aqueles que observavam a família mais de perto, apesar da distância de muitos quilômetros, certas diferenças entre mãe e filha ficaram aparentes desde cedo.

Enquanto Antha sempre foi magra e tímida por natureza, havia em Deirdre algo de rebelde e de inegavelmente sensual desde o início. Os vizinhos a viam com freqüência correr como "um menino" pelo jardim. Aos cinco anos de idade, ela conseguia subir no enorme carvalho até o alto. Às vezes, ela se escondia nos arbustos ao longo da cerca para poder assustar de propósito quem passasse por ali.

Aos nove anos de idade, ela fugiu pela primeira vez. Carlotta ligou para Cortland em pânico. Chamaram, então, a polícia. Finalmente, uma Deirdre tremendo de frio apareceu no alpendre do Orfanato de Santa Isabel em Napoleon Avenue, dizendo às irmãs que ela era "amaldiçoada" e "possuída pelo demônio". Precisaram chamar um padre para ela. Cortland veio com Carlotta para levá-la para casa.

- Excesso de imaginação - disse Carlotta. A frase iria se tornar um chavão.

Um ano depois, a polícia encontrou Deirdre perambulando na tempestade pelo Bayou St. John, tremendo e chorando, a dizer que tinha medo de voltar para casa. Durante duas horas, ela contou à polícia mentiras sobre seu nome e sua condição social. Ela era uma cigana que chegou à cidade com um circo. Sua mãe havia sido assassinada pelo domador de animais. Ela havia tentado "cometer suicídio com um veneno raro", mas havia sido levada para um hospital na Europa, onde tiraram todo o sangue das suas veias.

- Havia uma coisa tão triste e tão doida naquela criança - disse depois o policial a um investigador nosso. - Ela falava absolutamente a sério e uma expressão louquíssima aparecia nos seus olhos azuis. Ela nem ergueu os olhos quando o tio e a tia vieram apanhá-la.

Fingiu não os conhecer. Depois, disse que eles a mantinham acorrentada num quarto no segundo andar.

Aos dez anos de idade, Deirdre foi mandada para a Irlanda, para um colégio interno recomendado por um padre de origem irlandesa, da catedral de São Patrício, o padre Jason Power. Os comentários em família diziam que a idéia havia sido de Cortland.

-Vovô queria tirá-la daqui - comentou Ryan Mayfair alguns anos mais tarde.

Mas as irmãs em County Cork mandaram Deirdre de volta para casa em menos de trinta dias.

Durante dois anos, Deirdre estudou com uma preceptora chamada Miss Lampton, uma velha amiga de Carlotta, do Sagrado Coração. Miss Lampton disse a Beatrice Mayfair (de Esplanade Avenue, no centro da cidade) que Deirdre era uma menina encantadora e muito inteligente.

- Ela tem uma imaginação exagerada. É só isso que está errado com ela, e passa tempo demais sozinha.

Quando Miss Lampton se mudou para o norte para se casar com um viúvo que havia conhecido nas férias de verão, Deirdre chorou dias a fio.

Mesmo durante esses anos, houve brigas na casa de First Street. As pessoas ouviam os gritos. Deirdre muitas vezes saía de dentro de casa chorando. Ela costumava subir no carvalho até ficar fora do alcance de Irene ou de Miss Larnpton. Às vezes ficava lá em cima até depois do anoitecer.

Com a adolescência, porém, Deirdre sofreu uma mudança. Ela se tornou reservada, cheia de segredos, sem mais nada da menina levada. Aos treze anos de idade, ela era muito mais sensual do que Antha havia sido na idade adulta. Usava os cabelos negros e ondulados compridos e repartidos ao meio, presos por uma fita lilás. Seus grandes olhos azuis pareciam eternamente desconfiados e um pouco tristes.

Na verdade, a menina tinha uma aparência oprimida, segundo as mexeriqueiras que a viam na missa dominical.

- Ela já era uma linda mulher - disse uma das senhoras que freqüentavam a capela normalmente. - E aquelas velhinhas não percebiam. Costumavam vesti-la como se ainda fosse criança.

Os comentários nos meios jurídicos revelavam outros problemas. Uma tarde, Deirdre entrou correndo na sala de espera do escritório de Cortland.

- Ela estava histérica - disse mais tarde a secretária. - Durante uma hora inteira, ela gritou e chorou lá dentro com o tio. E vou lhe dizer mais uma coisa, uma coisa que só notei na hora em que ela estava indo embora. Os sapatos dela não formavam par! Estava com um mocassim marrom num pé e um sapato preto sem salto no outro.

Acho que nem ela percebeu. Cortland levou-a para casa. Não sei se ele chegou a perceber. Nunca mais a vi depois disso.

No verão antes do aniversário de quatorze anos de Deirdre, ela foi levada às pressas para o novo Hospital da Misericórdia. Havia tentado cortar os pulsos.

Beatrice foi visitá-la.

- Aquela menina tem uma disposição que Antha simplesmente não tinha - disse Beatrice a Juliette Milton. - Mas ela precisa de conselhos femininos. Ela queria que eu lhe comprasse cosméticos. Disse que só entrou numa farmácia uma vez na vida inteira.

Beatrice trouxe os cosméticos para o hospital só para ser informada de que Carlotta havia proibido todas as visitas. Quando Beatrice ligou para Cortland, este confessou não saber por que Deirdre cortara os pulsos.

- Pode ser que ela só quisesse sair daquela casa.

Naquela mesma semana, Cortland conseguiu que Deirdre fosse para a Califórnia. Ela foi de avião para Los Angeles para ficar com Andrea Mayfair, que havia se casado com um médico da equipe do Hospital Cedros do Líbano. Mas Deirdre estava de volta a casa, ao final de duas semanas.

Os parentes de Los Angeles não disseram nada a ninguém quanto ao que aconteceu, mas anos mais tarde seu único filho, Elton, contou a detetives que sua pobre prima de Nova Orleans era louca. Que ela acreditava ser amaldiçoada por algum tipo de herança; que ela havia falado em suicídio com ele, o que horrorizou seus pais. Que eles a haviam levado a médicos que afirmavam que ela nunca seria normal.

- Meus pais queriam ajudá-la, especialmente minha mãe. Mas a família ficou muito fragilizada. Acho que o que realmente deu um basta na história foi que eles a viram no quintal uma noite com um homem, e ela não quis confessar. Insistia em negar isso. E meus pais tiveram medo que alguma coisa acontecesse. Acho que ela estava com uns treze anos, e era muito bonita. Eles a mandaram de volta para casa. Beatrice contou mais ou menos a mesma história para Juliette Milton.

- Acho que Deirdre parece adulta demais para a idade - disse ela. Mesmo assim, não quis acreditar que Deirdre tivesse mentido acerca de companhias masculinas. - Ela só está confusa. - E Beatrice negava peremptoriamente que houvesse loucura congênita.

Aquilo era só uma lenda iniciada por Carlotta, uma lenda que deveria ser esquecida.

Beatrice foi até First Street para ver Deirdre e levar alguns presentes. Nancy não permitiu que entrasse.

A mesma misteriosa companhia masculina foi responsável pela expulsão mais traumatizante para Deirdre, a do colégio interno de Santa Rosa de Lima, quando estava com dezesseis anos de idade. Deirdre permaneceu nessa escola todo um semestre sem nenhum problema e estava no meio do trimestre da primavera quando ocorreu o incidente. Os mexericos em família diziam que Deirdre estava felicíssima no Santa Rosa, que ela havia dito a Cortland que não queria nunca voltar para casa. Mesmo no Natal, Deirdre havia ficado no colégio, só saindo com Cortland para uma ceia antecipada na véspera de Natal.

Deirdre adorava os balanços no pátio dos fundos, que eram grandes o suficiente para as crianças maiores, e ao entardecer ela costumava ficar ali cantando com uma outra menina, Rita Mae Dwyer (mais tarde Lonigan), que se lembrava de Deirdre como uma pessoa rara e especial; elegante e inocente; romântica e meiga.

Recentemente, em 1988, foram obtidos mais dados sobre essa expulsão diretamente com Rita Mae Dwyer Lonigan, em conversa com este investigador.

O "amigo misterioso" de Deirdre se encontrou com ela no jardim das freiras ao luar e falou baixinho, mas alto o suficiente para Rita ouvir.

- Ele a chamou de "minha amada" - disse- me Rita Mae. Ela nunca havia ouvido palavras tão românticas a não ser no cinema.

Indefesa e soluçando de tristeza, Deirdre não pronunciou uma palavra quando as freiras a acusaram de "trazer um homem para o recinto da escola". Elas haviam vigiado Deirdre e seu companheiro, espiando, pelas venezianas da cozinha do convento, o jardim onde os dois se encontravam no escuro.

- Não era nenhum menino - disse mais tarde uma das freiras, furiosa, às internas reunidas. - Era um homem! Um homem adulto!

Os registros da época são quase cruéis nas suas acusações.

-A menina é fingida. Ela permitiu que o homem a tocasse com indecência. Sua inocência é apenas de fachada.

Não pode haver nenhuma dúvida quanto a esse companheiro misterioso ser Lasher. Ele é descrito pelas freiras e mais tarde pela Sra. Lonigan como alguém de cabelos e olhos castanhos e belos trajes antiquados.

No entanto, o ponto digno de nota reside no fato de que Rita Mae Lonigan, a menos que esteja exagerando, realmente ouviu Lasher falar. Uma outra informação surpreendente que nos foi transmitida pela Sra. Lonigan é a de que Deirdre tinha a esmeralda Mayfair com ela no colégio interno, que a mostrou a Rita Mae e que lhe mostrou uma palavra gravada nas costas da jóia: "Lasher." Se a história de Rita Mae for verdadeira, Deirdre sabia muito pouco sobre sua mãe ou sobre sua avó. Ela compreendia que a esmeralda lhe chegara às mãos através das duas, mas nem sabia direito como Stella ou Antha haviam morrido.

Era de conhecimento geral da família em 1956 que Deirdre ficou arrasada com sua expulsão do Santa Rosa de Lima. Ela ficou internada no sanatório de Santa Ana durante seis semanas. Embora tenha se revelado impossível obter os registros, as enfermeiras comentavam que Deirdre implorava que lhe dessem o tratamento de choque, ao qual foi submetida duas vezes. Nessa época, ela estava com quase dezessete anos. A partir do que sabemos a respeito dos métodos desse período, podemos concluir com segurança que esses tratamentos envolviam uma voltagem maior do que a que é usada atualmente. Eles eram provavelmente muito perigosos e deviam resultar numa perda da memória de algumas horas, se não de dias.

Não sabemos por que motivo o tratamento completo não foi realizado como era costume na época. Cortland se opunha totalmente aos choques, ou pelo menos foi o que disse a Beatrice Mayfair. Ele não podia acreditar num tratamento tão drástico para alguém tão jovem.

- O que essa menina tem de errado? - perguntou Juliette a Beatrice afinal. - Ninguém sabe, querida - respondeu Beatrice. - Ninguém sabe. Carlotta trouxe Deirdre do sanatório para casa, onde ela passou mais um mês totalmente abatida.

Investigações sem trégua indicaram que uma figura sombria era vista com freqüência com Deirdre no jardim. Um entregador da mercearia Solari's ficou "apavorado" quando estava saindo da propriedade e viu "aquela moça de olhos enormes e aquele homem" na moita de bambu alto junto à velha piscina.

Uma solteirona que morava em Prytania Street viu o casal na capela depois de escurecer.

- Falei com Miss Belle. Parei no portão na manhã do dia seguinte. Achei que não estava certo. Aconteceu de noite, depois de escurecer. Entrei na capela para acender uma vela e rezar meu terço como sempre, e lá estava ela no último banco com aquele homem. A princípio eu mal os vi. Fiquei um pouco assustada. Depois, quando ela se levantou e saiu às pressas, eu a vi nitidamente à luz do poste. Era Deirdre Mayfair. Não sei o que aconteceu com o rapaz.

Diversas outras pessoas relataram visões semelhantes. As imagens eram sempre as mesmas:

Deirdre e o rapaz misterioso em algum lugar sombreado. Deirdre e o rapaz misterioso saindo assustados de onde estavam, ou olhando fixamente para o desconhecido de um jeito perturbador. Temos quinze versões diferentes desses dois temas. Algumas dessas histórias chegaram aos ouvidos de Beatrice em Esplanade Avenue.

- Não sei se alguém está tomando conta dela. E ela é tão... tão desenvolvida fisicamente - disse Beatrice a Juliette. Juliette a acompanhou numa visita a First Street.

- A menina perambulava pelo jardim. Beatrice foi até a cerca e a chamou. Durante alguns instantes ela pareceu não saber quem era Bea. Depois foi buscar a chave do portão. É claro que daí em diante só Bea falou. Mas a menina é de uma beleza espantosa. Tem mais a ver com a estranheza da sua personalidade do que com qualquer outra coisa. Ela parece rebelde e profundamente desconfiada das pessoas; e ao mesmo tempo demonstra um enorme interesse pelas coisas que a cercam. Ela se apaixonou por um camafeu que eu estava usando. Dei-lhe o camafeu, e seu prazer foi absolutamente infantil. Hesito em dizer que ela estava descalça e que usava um vestido de algodão imundo.

À medida que se aproximava o outono, houve mais relatos de brigas e de gritos. Os vizinhos chegaram ao ponto de chamar a polícia em duas ocasiões. Pude obter pessoalmente, dois anos depois, um relato completo da primeira chamada, no dia 1° de setembro.

-Não gostei da idéia de ir lá - disse- me o policial. -Sabe, incomodar essas famílias do Garden District não é meu estilo. E aquela senhora realmente nos pôs à prova à porta da frente. Era Carlotta Mayfair, a que chamam de Miss Carl, a que trabalha para o juiz.

- "Quem mandou vocês aqui? O que querem? Quem são vocês? Quero ver sua identificação. Vou ter de contar para o juiz Byrnes se vocês vierem aqui outra vez." Afinal, meu colega disse que alguém ouviu a moça da casa gritar e que nós gostaríamos de falar com ela para nos certificarmos de que estava tudo bem. Achei que Miss Carl ia matá-lo ali mesmo. Mas ela foi e trouxe a moça, Deirdre Mayfair, aquela de quem falam tanto. Ela chorava e tremia inteira. Ela disse ao meu colega, C. J., "Faça com que ela me dê as coisas da minha mãe. Ela apanhou as coisas da minha mãe."

- Miss Carl disse que para ela já chegava de "intromissão", que aquela era uma discussão de família e que a presença da polícia não era necessária. Se nós não fôssemos embora, ela iria chamar o juiz Byrnes. Foi então que a moça, Deirdre, saiu correndo da casa na direção da nossa viatura. "Levem- me daqui!" berrava ela.

- Nesse instante aconteceu alguma coisa com Miss Carl. Ela estava olhando para a mocinha parada na sarjeta junto ao nosso carro e começou a chorar. Ela tentou esconder.

Tirou o lenço e cobriu o rosto. Mas dava para ver que aquela senhora estava chorando. A menina havia deixado seus nervos à flor da pele.

- C. J. perguntou a Miss Carl o que ela queria que nós fizéssemos. Ela passou direto por ele, foi até a calçada e pôs a mão na menina, dizendo, "Deirdre, você quer voltar para o sanatório? Por favor, Deirdre, por favor." E então ela simplesmente desistiu. Não conseguia mais falar. A mocinha olhava para ela, com os olhos assustados, desvairada, e começou a soluçar. Miss Carl então a enlaçou e a levou escada acima para dentro de casa.

- Tem certeza de que era Miss Carl? - perguntei ao policial.

- Claro, todo mundo a conhece. Cara, eu nunca vou esquecer aquela mulher. No dia seguinte ela ligou para o comandante e tentou fazer com que C. J. e eu fôssemos expulsos.

Uma outra viatura policial atendeu ao chamado do vizinho uma semana mais tarde. Tudo o que sabemos sobre essa ocasião é que Deirdre estava tentando sair da casa quando a polícia chegou. Os policiais a convenceram a esperar sentada na escada da varanda até que seu tio Cortland chegasse.

Deirdre fugiu no dia seguinte. Comentários nos meios jurídicos dão conta de numerosos telefonemas de um lado para o outro, de Cortland a sair correndo para First Street e do pessoal da Mayfair & Mayfair ligando para os primos de Nova York à procura de Deirdre, como haviam feito quando Antha desapareceu anos antes. Amanda Grady Mayfair estava morta. A mãe do Dr. Cornell Mayfair, Rosalind Mayfair, não queria ter nada a ver com "aquela gente de First Street", como costumava chamar a família. Mesmo assim, ela ligou para os outros primos de Nova York. Depois, a polícia entrou em contato com Cortland em Nova Orleans. Deirdre havia sido encontrada vagando descalça e sem dizer coisa com coisa em Greenwich Village. Havia alguns indícios de que ela teria sido violentada. Cortland pegou um avião para Nova York naquela mesma noite. Na manha seguinte, ele trouxe Deirdre de volta.

A repetição da história completou o ciclo com a segunda internação de Deirdre no sanatório de Santa Ana. Ela recebeu alta uma semana depois e foi morar com Cortland na sua antiga residência em Metairie.

Os mexericos em família diziam que Carlotta estava arrasada e desanimada. Ela disse ao juiz Byrnes e à sua mulher que havia fracassado com a sobrinha. Ela receava que a menina "nunca seria normal".

Quando Beatrice Mayfair foi visitar Carlotta um sábado, encontrou-a sentada sozinha no salão de First Street com todas as cortinas fechadas. Carlotta se recusava a conversar.

- Mais tarde percebi que ela não tirava os olhos do local exato onde os caixões eram colocados antigamente, quando os velórios ainda eram em casa. Tudo o que ela me dizia era sim, não ou hum-hum, quando eu lhe fazia alguma pergunta. Afinal aquela mulher horrível, Nancy, veio me oferecer um chá gelado. Deu a impressão de se irritar quando aceitei. Eu lhe disse que eu mesma me servia, e ela disse que não, que tia Carl não ia permitir isso.

Quando Beatrice concluiu já ter aturado o suficiente de tristeza e de grosseria, ela foi embora. Dirigiu -se, então, a Metairie para visitar Deirdre na casa de Cortland em Country Club Lane.

Essa casa pertencia à família Mayfair desde que Cortland a havia construído quando ainda jovem. Uma mansão de tijolos com colunas brancas e portas-janelas, além de todos os "confortos modernos", ela mais tarde passou para Ryan Mayfair, filho de Pierce, que agora mora ali. Durante anos, Sheffield e Eugenie Mayfair viveram nela com Cortland. Sua filha única, Ellie Mayfair, a mulher que mais tarde adotaria a filha de Deirdre, Rowan, havia nascido naquela casa.

Nessa época, Sheffield Mayfair já havia morrido de um ataque cardíaco. Eugenie já estava morta há anos. Ellie morava na Califórnia, onde acabava de se casar com um advogado chamado Graham Franklin. E Cortland vivia sozinho na mansão de Metairie. Na opinião de todos, a casa era extremamente alegre, cheia de cores vivas, com papel de parede vistoso, mobília tradicional e livros. Grande quantidade de portas-janelas se abriam para o jardim, para a piscina e para o gramado da frente.

A família inteira parece ter considerado ser esse o melhor lugar para Deirdre. Metairie não tinha nada da melancolia do Garden District. Cortland garantiu a Beatrice que Deirdre estava descansando, que os problemas da menina haviam sido exacerbados por muito mistério e decisões erradas por parte de Cariotta.

- Mas ele não me diz no fundo o que está acontecendo - queixou-se Beatrice a Juliette. – Ele nunca diz. O que ele queria dizer com "mistério"?

Beatrice fazia perguntas à criada por telefone sempre que podia. Deirdre ia muito bem, dizia a criada. Estava com uma cor ótima. Havia até recebido uma visita, um rapaz de excelente aparência. A criada o havia visto apenas por um segundo ou dois, ele e Deirdre estavam no jardim, mas ele era um rapaz bonito, educado.

- Pois é, quem poderia ser esse aí? - perguntava-se Beatrice, durante um almoço com Juliette Milton. - Não aquele mesmo canalha que entrou se esgueirando no jardim das freiras para importuná-la no Santa Rosa de Lima!

"Parece- me", escreveu Juliette ao seu contato em Londres, "que essa família não percebe que a mocinha tem um amante. Estou falando de um único amante, muito distinto e fácil de ser reconhecido, que é visto repetidamente na sua companhia. Todas as descrições desse rapaz são idênticas!"

O ponto significativo neste relato está no fato de Juliette Milton nunca ter ouvido nenhum rumor sobre fantasmas, bruxas, maldições ou coisa semelhante em associação à família Mayfair. Ela e Beatrice realmente acreditavam que essa pessoa misteriosa era um ser humano.

No entanto, nessa mesma época, os velhos no Irish Channel fofocavam à mesa da cozinha sobre "Deirdre e o homem". E quando diziam "o homem", não estavam se referindo a um ser humano. A irmã idosa do padre Lafferty sabia da existência do "homem". Ela tentou tocar no assunto com o irmão, mas ele não quis lhe fazer confidências. Ela conversou com um amigo também idoso chamado Dave Collins e conversou com um detetive nosso, que a acompanhou por Constance Street no seu caminho da missa de domingo para casa.

Miss Rosie, que trabalhava na sacristia, trocando as toalhas do altar e cuidando do vinho dos sacramentos, também conhecia os fatos espantosos sobre a família Mayfair e "o homem".

- Primeiro, foi Stella, depois Antha e agora Deirdre - disse ela ao sobrinho, universitário em Loyola, que a considerou uma tola cheia de superstições.

Uma velha criada negra que morava no mesmo quarteirão sabia tudo sobre "aquele homem". Ele era o fantasma da família. Era isso o que era. E também o único fantasma que ela havia visto em plena luz do dia, sentado com a menina nos fundos do jardim.

Aquela menina ia para o inferno quando morresse.

Foi a essa altura, no verão de 1958, que me preparei para ir até Nova Orleans.

Eu acabava de reunir toda a história da família Mayfair numa primeira versão da narrativa precedente, que em essência era igual à que o leitor acaba de ler. E eu estava preocupado com Deirdre Mayfair de uma forma profunda e impulsiva.

Eu acreditava que seus poderes paranormais, e especialmente sua capacidade de ver espíritos e de se comunicar com eles, a estavam enlouquecendo. Depois de inúmeras conversas com Scott Reynolds, nosso novo diretor, e de algumas reuniões com todo o conselho, ficou decidido que eu faria a viagem e que eu usaria meu próprio discernimento para julgar se Deirdre Mayfair tinha maturidade suficiente ou era suficientemente equilibrada para ser abordada.

Elaine Barrett, um dos membros mais velhos e experientes do Talamasca, havia morrido no ano anterior, e eu era agora considerado (imerecidamente) o maior especialista em famílias de bruxas do Talamasca. Nunca foram questionadas minhas qualificações. E na verdade, aqueles que haviam mais se apavorado com as mortes de Stuart Townsend e de Arthur Langtry - e que teriam maior probabilidade de proibir minha ida a Nova Orleans - já não viviam mais.

 

A história de Deirdre Mayfair Totalmente revista - 1989

Cheguei a Nova Orleans em julho de 1958 e imediatamente me registrei num hotel pequeno e simples do French Quarter. Comecei, então, a me reunir com nossos detetives profissionais mais capazes, a consultar alguns registros públicos e a obter respostas para outras questões.

Ao longo dos anos, nós havíamos conseguido os nomes de diversas pessoas íntimas da família Mayfair. Procurei entrar em contato com elas. Com Richard Llewellyn tive pleno sucesso, como já foi descrito, e somente seu relato me ocupou alguns dias. Também consegui "me encontrar por acaso" com uma jovem professora leiga do Santa Rosa de Lima que havia conhecido Deirdre durante os meses que passou na escola e que lançou alguma luz sobre os motivos para a expulsão. Lamentavelmente, essa moça acreditava que Deirdre teria tido um caso com "um homem mais velho" e que era uma menina depravada e falsa. Outras alunas tinham conhecimento da esmeralda Mayfair. Concluiu-se que Deirdre a teria roubado da sua tia. Por que outro motivo ela estaria com uma jóia tão valiosa na escola?

Quanto mais eu conversava com a mulher, mais eu percebia que a aura de sensualidade de Deirdre havia impressionado os que a cercavam.

- Ela era tão... madura, sabe. Uma menina não tem por que ter seios enormes daquele jeito aos dezesseis anos de idade.

Pobre Deirdre. Descobri- me a ponto de perguntar se a professora considerava ou não que nessas circunstâncias a mutilação seria aconselhável, mas encerrei a entrevista. Voltei para o hotel, tomei um conhaque puro e me repreendi quanto aos perigos do envolvimento emocional.

Infelizmente, eu não estava nem um pouco menos emotivo quando visitei o Garden District no dia seguinte e no outro, quando passei horas caminhando pelas ruas tranqüilas e observando a casa de First Street de todos os ângulos. Depois de anos passados lendo a respeito dessa casa e dos seus moradores, essa observação era para mim extremamente emocionante. Mas se algum dia existiu uma casa com emanações malignas, essa era ela. Por quê? Perguntei-me.

A essa altura, ela estava muito descuidada. A tinta lilás ha via desbotado da alvenaria. Mato e samambaias minúsculas nasciam em rachaduras nos parapeitos. Trepadeiras floridas cobriam as varandas laterais de tal forma que mal se viam os gradis ornamentais; e os louros-cerejas exuberantes ocultavam o jardim de quem passasse. Mesmo assim, devia ter sido uma casa fantástica. No entanto, apesar do calor opressivo do verão, com o sol a brilhar preguiçoso e empoeirado através das árvores, a casa parecia úmida, sombria e decididamente desagradável. Durante as horas ociosas que passei a contemplá-la, observei que os transeuntes invariavelmente atravessavam a rua quando se aproximavam dela. E, embora sua calçada de lajes de pedra estivesse escorregadia do musgo e rachada em decorrência das raízes dos carvalhos, no mesmo estado se encontravam outras calçadas do bairro que as pessoas não procuravam evitar.

Algo de maligno vivia nessa casa, vivia e como que respirava; esperava e talvez chorasse seus mortos.

Acusando- me novamente, e com razão, de estar dominado pela emoção, defini meus termos. Essa coisa era maligna porque era destrutiva. "Vivia e respirava" no sentido de que influenciava o ambiente e de que sua presença podia ser sentida. Quanto à minha crença de que essa "coisa" chorava seus mortos, bastava que eu me lembrasse do fato de nenhum operário conseguir fazer qualquer conserto na casa desde a morte de Stella. Desde essa morte, a decadência havia sido progressiva, sem interrupções. Será que a criatura queria que a casa fosse se desfazendo ao mesmo tempo em que o corpo de Stella se decompunha no túmulo?

Ah, tantas perguntas sem resposta. Fui até o cemitério de Lafayette e visitei a cripta da família Mayfair. Um zelador simpático me forneceu a informação de que havia sempre flores novas nos vasos de pedra diante do jazigo, apesar de ninguém nunca ter visto quem as punha ali.

-Você acha que é algum antigo namorado de Stella Mayfair?- perguntei.

- Não - disse o velhote, com uma sonora risada. - Claro que não. É ele, sabe quem? O fantasma Mayfair. É ele quem põe as flores ali. E quer saber de uma coisa?

Às vezes ele as rouba do altar da capela. Sabe qual? A capela na esquina de Prytania e Third. Uma tarde o padre Morgan chegou aqui bufando de raiva. Parece que ele havia acabado de arrumar as palmas-de-santa-rita, e lá estavam elas nos vasos diante do jazigo da família Mayfair. Ele passou pela casa de First Street e tocou a campainha. Eu soube que Miss Carl o mandou ir para o inferno. - O homem ria e não parava de rir dessa idéia... de alguém mandar um padre ir para o inferno. Aluguei um carro, desci a estrada ribeirinha até Riverbend, examinei o que sobrou da fazenda e depois liguei para nossa espiã na sociedade, Juliette Milton, convidando-a para almoçar.

Ela teve o maior prazer em me apresentar a Beatrice Mayfair. Beatrice aceitou almoçar comigo, sem questionar em nada minha explicação superficial de que eu tinha interesse na história do sul e na história da família Mayfair.

Beatrice Mayfair tinha trinta e cinco anos de idade. Era uma mulher de cabelos escuros, muito bem- vestida, com um sotaque encantador que era uma mistura do sotaque do sul com o de Nova Orleans (Brooklyn, Boston). No que dizia respeito à família, ela era uma espécie de "rebelde".

Durante três horas ela falou comigo sem parar, no Galatoire's, despejando todo tipo de historinha sobre a família Mayfair e confirmando o que eu já suspeitava: que pouco ou nada se sabia na atualidade sobre o passado remoto da família. Era a espécie mais vaga de lenda de família, na qual os nomes são confundidos e os escândalos haviam se tornado ridículos.

Beatrice não sabia quem havia construído Riverbend, ou quando se realizou a obra. Nem sabia quem havia construído First Street. Ela achava que Julien havia construído a casa. Quanto às histórias de fantasmas e lendárias bolsas cheias de moedas de ouro, ela acreditava em tudo isso quando era criança, mas agora não. Sua mãe havia nascido em First Street (tratava -se de Alice Mayfair, a penúltima filha de Rémy Mayfair; Millie Dear, ou Miss Millie, como era conhecida, era a filha caçula de Rémy e, portanto, tia de Beatrice) e ela havia dito coisas estranhíssimas sobre a casa. No entanto, ela saiu dali com apenas dezessete anos para se casar com Aldrich Mayfair, um bisneto de Maurice Mayfair, e Aldrich não gostava quando a mãe de Beatrice falava sobre a casa.

- Meus pais são tão cheios de mistério - disse Beatrice. - Acho que meu pai já não se lembra de muita coisa mais. Ele já passou dos oitenta, e minha mãe simplesmente se recusa a me contar essas coisas. Eu mesma não me casei com um Mayfair, sabe? (Observação: o marido de Beatrice morreu de câncer na garganta na década de 1970.)

- Não me lembro de Mary Beth. Só tinha dois anos quando ela morreu. Tenho algumas fotos minhas aos seus pés numa daquelas reuniões, sabe, com todos os outros pequenos bebês da família. Mas eu me lembro de Stella. Eu adorava Stella. Adorava mesmo.

- Fico mortificada de não poder mais ir lá. Há anos parei de visitar tia Millie Dear. Ela é um amor de criatura, mas não sabe ao certo quem eu sou. Todas as vezes eu preciso dizer, sou filha de Alice, neta de Rémy. Ela se lembra por um curtíssimo espaço de tempo e logo se esquece. Além do mais, Carlotta não quer me ver por lá. Ela não quer ver ninguém. Ela é simplesmente horrível. Ela matou aquela casa!

Tirou da casa toda a sua vida. Não me importo com o que digam. A culpa é dela.

- Você acredita que a casa seja assombrada, que talvez haja algo de maligno...

- Ora, Carlotta! Ela é maligna! Mas, sabe, se é esse tipo de coisa que procura, bem, é uma pena que não possa conversar com Amanda Grady Mayfair. Foi mulher de Cortland. Morreu há anos. Ela acreditava em coisas bem fantásticas! Mas no fundo era interessante... Bem, sob um certo aspecto. Dizem que foi por isso que ela deixou Cortland. Ela dizia que Cortland sabia que a casa era assombrada. Que ele via espíritos e conversava com eles. Sempre fiquei chocada de que uma mulher adulta acreditasse nesse tipo de coisa. Mas ela estava totalmente convencida de alguma espécie de trama satânica.

Acho que foi Stella quem provocou tudo isso, inadvertidamente. Na época, eu era muito nova para saber mesmo. Mas Stella não era uma pessoa má. Não era nenhuma rainha do vodu. Stella ia para a cama com qualquer um e com todos; e, se isso for bruxaria, então metade da cidade de Nova Orleans devia arder na fogueira.

... E assim ela prosseguia, com os comentários ficando cada vez mais íntimos e irresponsáveis enquanto Beatrice comia aos pouquinhos e fumava cigarros Pall Mall.

- Deirdre é sensual demais - disse ela. - É só esse o problema da menina. Ela foi absurdamente protegida. Não é de estranhar que ande com homens desconhecidos. Confio em Cortland para cuidar dela. Cortland se tornou o venerável ancião da família. E sem dúvida ele é o único que pode enfrentar Carlotta. Olhe, essa é uma bruxa para mim. Carlotta. Ela me dá calafrios. Deviam afastar Deirdre dela.

Havia na verdade alguns comentários sobre uma escola no Texas, uma pequena universidade para a qual Deirdre poderia entrar no outono. Aparentemente, Rhonda Mayfair, uma bisneta de uma irmã de Suzette, Marianne (tia de Cortland, portanto), havia se casado com um rapaz no Texas que ensinava nessa faculdade. Tratava-se de fato de uma pequena instituição estadual para mulheres, muito bem subsidiada, e com muitas das tradições e confortos de uma caríssima escola particular. A questão era saber se aquele monstro da Carlotta deixaria Deirdre ir.

- Agora, Carlotta? Essa, sim, é uma bruxa!

Mais uma vez, Beatrice ficou toda nervosa ao mencionar Carlotta. Suas críticas iam desde o jeito de Carlotta se vestir (tailleur de mulher de negócios) até seu jeito de falar (direto ao assunto), quando de repente Beatrice se debruçou na mesa.

- E você sabe que aquela bruxa matou Irwin Dandrich, não sabe?

Eu não só não sabia, como nunca tinha ouvido a menor referência a uma coisa dessas. Em 1952 recebemos a notícia de que Dandrich havia morrido de um ataque cardíaco no seu apartamento em algum momento após as quatro da tarde. Era de conhecimento geral que ele sofria do coração.

- Eu conversei com ele - disse Beatrice, num tom de grande empáfia e drama pouquíssimo disfarçado.-Conversei com ele no dia em que morreu. Ele me contou que Carlotta havia telefonado. Carlotta o acusara de espionar a família e lhe dissera, "Bem, se você quer nos conhecer, venha até First Street. Vou lhe contar mais coisas do que você vai querer ouvir". Eu disse a ele que não fosse. "Ela vai processá-lo. Ela vai fazer alguma coisa terrível com você. Ela está fora de si." Mas ele não quis me dar ouvidos. "Vou ver aquela casa com meus próprios olhos", disse ele. "Ninguém que eu conheça entrou ali desde a morte de Stella." Fiz com que ele prometesse me ligar assim que voltasse para casa. Pois ele nunca me ligou. Morreu naquela mesma tarde. Ela o envenenou. Sei que foi ela. Ela o envenenou, e disseram que foi ataque do coração quando o encontraram. Ela o envenenou de um jeito que desse para ele chegar em casa sozinho para morrer na sua própria cama.

- O que a faz ter tanta certeza?

- O fato de não ser a primeira vez que acontece uma coisa dessas. Deirdre contou a Cortland que havia um corpo no sótão daquela casa de First Street. Isso mesmo, um corpo.

- Foi Cortland quem lhe contou isso? - Ela fez que sim com a cabeça, circunspeta. – Pobre Deirdre. Ela conta essas coisas aos médicos, e eles receitam eletrochoque!

Cortland acha que ela está vendo coisas! - Beatrice abanou a cabeça. - Cortland é assim. Ele acredita que a casa é assombrada, que há ali fantasmas com os quais se pode conversar! Mas um corpo no sótão? Não, nisso ele não acredita! - Ela riu baixinho, e depois ficou extraordinariamente séria. - Mas eu aposto que é verdade.

Eu me lembro de alguma coisa sobre um rapaz que desapareceu pouco antes de Stella morrer. Ouvi falar nisso anos depois. Tia Millie falou alguma coisa a respeito à minha prima Angela. Mais tarde, Dandrich me falou nisso. A polícia esteve à procura do rapaz. Detetives particulares também o procuraram. Um texano que veio da Inglaterra, disse Irwin, um rapaz que chegou a passar a noite com Stella e depois simplesmente desapareceu.

-Vou lhe dizer quem mais sabia dessa história. Amanda sabia. Da última vez que a vi em Nova York, nós estávamos reexaminando a história toda e ela disse, "E o que me diz daquele homem que desapareceu como por encanto!" É claro que ela fez uma associação com o caso de Cornell, sabe, o rapaz que morreu no hotel no centro depois de uma visita a Carlotta. Ouça o que lhe digo, ela os envenena, eles vão para casa e morrem. É algum produto químico com efeito retardado. Esse texano era algum tipo de historiador da Inglaterra. Conhecia o passado da nossa família...

De repente, ela percebeu a ligação. Eu era um historiador da Inglaterra. Ela riu. - Sr. Lightner, melhor tomar cuidado! - Ela se recostou na cadeira, rindo baixinho.

- Imagino que tenha razão. Mas não creio que acredite nisso tudo, Miss Mayfair. Ela pensou um pouco.

-Acredito e não acredito. - Ela riu mais uma vez. - Eu acho que Carlotta seria capaz de qualquer coisa. Mas para ser sincera, ela é muito lerda para chegar a envenenar alguém. Mas eu cheguei a pensar nisso! Isso me ocorreu quando Irwin Dandrich morreu. Eu adorava Irwin. E ele morreu logo depois de fazer urna visita a Carlotta. Espero que Deirdre vá para a faculdade no Texas. E, se Carlotta o convidar para um chá, não vá!

- Quanto ao fantasma especificamente... - disse eu. (Durante toda essa entrevista, raramente foi necessário que eu terminasse uma frase.)

- Qual deles? Tem o fantasma de Julien. Todo mundo já viu esse. Eu achei que o vi uma vez. E há também o fantasma que derruba a escada dos operários. Esse é invisível mesmo.

- Mas não há um que chamam de "o homem"?

Ela nunca havia ouvido falar nisso. Mas eu devia conversar com Cortland. Quer dizer, se Cortland se dispusesse a falar comigo. Não lhe agradava que estranhos lhe fizessem perguntas. Cortland vivia num universo da família.

Nós nos despedimos numa esquina enquanto eu a ajudava a entrar no táxi.

-Se conseguir falar com Cortland, não lhe diga que conversou comigo. Ele me considera uma terrível faladeira. Mas não deixe de lhe perguntar sobre o texano. Nunca se sabe o que ele pode dizer.

Assim que o táxi foi embora, liguei para Juliette Milton, nossa espiã na sociedade.

- Nunca chegue perto daquela casa - disse- lhe. - Nunca tenha nada a tratar pessoalmente com Carlotta Mayfair. Não volte a almoçar com Beatrice. Nós lhe daremos um cheque substancial. Basta que se afaste elegantemente.

- Mas o que foi que eu fiz? O que foi que eu disse? Beatrice fala demais. Ela conta essas histórias a todo mundo. Nunca transmiti nada que não fosse do conhecimento geral.

-Você fez bem seu trabalho. Mas existem perigos. Perigos bem definidos. Faça o que estou dizendo.

- Ai, ela lhe disse que Carlotta matou alguém. Isso é tolice. Carlotta é só uma chata. De ouvir Beatrice falar, daria para imaginar que Carlotta foi até Nova York e matou o pai de Deirdre, Sean Lacy. Ora, isso é pura bobagem.

Repeti meus avisos ou ordens, se é que tinham algum valor.

No dia seguinte, fui até Metairie, estacionei o carro e dei uma caminhada pelas ruas tranqüilas nas cercanias da casa de Cortland. A não ser pelos grandes carvalhos e pelo delicado veludo verde dos gramados, o bairro não tinha nada da atmosfera de Nova Orleans. Poderia muito bem ter sido um subúrbio de ricos perto de Houston, Texas, ou de Oklahoma City. Muito bonito, muito repousante, aparentando muita segurança. Não vi sinal de Deirdre. Esperava que ela estivesse feliz nesse lugar saudável. Eu tinha a convicção de que devia vê-la de longe antes de tentar lhe dirigir a palavra. Enquanto isso, procurei entrar em contato direto com Cortland, mas ele não me telefonou de volta. Afinal, sua secretária me disse que ele não queria falar comigo, que ele soube que eu havia conversado com seus primos e que desejava que eu deixasse sua família em paz.

Fiquei indeciso quanto a insistir com Cortland. As mesmas velhas perguntas que sempre nos assolam nessas ocasiões. Quais eram minhas obrigações? Minhas metas? Deixei, finalmente, um recado de que eu possuía grande quantidade de informações sobre a família Mayfair, remontando ao século XVII, e gostaria de conversar com ele. Nunca recebi resposta.

Na semana seguinte, soube através de Juliette Milton que Deirdre acabava de viajar para a Texas Woman's University, em Denton, Texas, onde o marido de Rhonda Mayfair, Ellis Clement, ensinava inglês para pequenas turmas de moças de fina educação. Carlotta se opôs terminantemente. Tudo foi feito sem sua permissão, e ela agora não falava mais com Cortland.

Cortland levou Deirdre para o Texas de automóvel e ficou lá o tempo necessário para se certificar de que ela estava bem na casa de Rhonda Mayfair e Ellis Clement, voltando então para Nova Orleans.

Não nos foi difícil verificar que Deirdre havia sido aceita como uma "aluna especial", que havia estudado apenas em casa. Designaram- lhe um quarto particular no dormitório das calouras, e ela foi matriculada num curso de rotina em tempo integral. Cheguei a Denton dois dias depois. Texas Woman's University era uma bela instituição escolar, localizada em colinas verdes e ondulantes, com prédios de tijolos aparentes cobertos de trepadeiras e gramados cuidados com perfeição. Era totalmente impossível acreditar que se tratasse de uma universidade pública.

Aos trinta e seis anos de idade, com os cabelos precocemente grisalhos e com a mania de usar ternos de linho, de bom corte, descobri que não precisava fazer nenhum esforço para passear pelo campus, provavelmente passando por professor a alguém que prestasse atenção. Eu ficava sentado em bancos por longos períodos escrevendo no meu caderno. Eu folheava os livros da pequena biblioteca. Perambulava pelos corredores dos velhos prédios, trocando gentilezas com algumas professoras idosas e com moças ingênuas, de saias pregueadas e blusas.

Vislumbrei Deirdre pela primeira vez inesperadamente no segundo dia após minha chegada. Ela saiu do dormitório das calouras, um prédio simples em estilo georgiano, e caminhou cerca de uma hora pelo campus. Era uma linda moça de cabelos negros longos e soltos, que passeava pelos caminhos sinuosos à sombra das velhas árvores. Usava o traje de todas, saia e blusa de algodão.

O fato de afinal vê-Ia me encheu de perplexidade. Eu estava olhando para uma grande celebridade. E enquanto eu a seguia de longe, sofri uma agonia inesperada quanto ao que eu estava fazendo. Eu não deveria deixá-la em paz? Eu não deveria lhe contar o que eu sabia da sua história inicial? Que direito eu tinha de estar aqui?

Em silêncio, eu a observei voltar para o dormitório. Na manhã do dia seguinte, eu a segui até a primeira das suas aulas. E depois até uma ampla área de cantina no subsolo, onde ela bebeu café sozinha numa pequena mesa e enfiou moedas na vitrola automática repetidamente para ouvir uma única música de novo: uma canção melancólica de Gershwin na voz de Nina Simone.

Parecia- me que ela estava aproveitando sua liberdade. Ela leu um pouco depois ficou ali sentada, olhando à sua volta. Descobri que eu era totalmente incapaz de me mexer da cadeira para ir na sua direção. Eu temia assustá-la. Que terrível descobrir que se está sendo seguido! Saí antes dela e voltei para meu pequeno hotel no centro.

Naquela tarde, voltei a perambular pelo campus. Assim que me aproxime: do seu dormitório, ela apareceu. Dessa vez, usava um vestido de algodão branco de mangas curtas, corpete perfeitamente ajustado e saia ampla e ondulante.

Ela parecia estar novamente andando a esmo. No entanto, dessa vez, ela pegou um caminho inesperado na direção do que se poderia chamar de fundo! do campus, para longe dos gramados manicurados e do movimento das pessoas, e eu logo me vi seguindo-a por um vasto jardim botânico, muito descuidado, uri lugar tão sombrio, selvagem e coberto de mato que temi por ela enquanto ela prosseguia, muito à minha frente, por uma trilha irregular.

Afinal, imensos bambuzais esconderam qualquer sinal dos distantes dormi tórios e apagaram o ruído das ruas ainda mais distantes. O ar estava pesado como me parecia em Nova Orleans, só que ligeiramente mais seco.

Desci por uma pequena passagem acima de uma pequena ponte e, ao erguei os olhos, dei com Deirdre me encarando, imóvel, parada debaixo de uma grande árvore florida.

Ela levantou a mão direita e acenou para que eu me aproximasse Os meus olhos estariam me enganando? Não. Ela estava olhando direto para mim.

- Sr. Lightner, o que o senhor quer? - Sua voz era grave e ligeiramente trêmula. Ela não aparentava nem raiva nem medo. Não consegui responder Percebi de repente que ela trazia no pescoço a esmeralda Mayfair. A jóia devia estar escondida pelo vestido quando ela saiu do dormitório. Agora estava bem vista.

Dentro de mim soou um pequeno aviso de perigo. Esforcei-me por dizer algo simples, franco e prudente.

- Estive seguindo você, Deirdre - disse eu, apesar do esforço.

- É - respondeu ela. - Eu sei.

Ela me voltou as costas, acenando para que eu a seguisse, e desceu por uma escada estreita coberta pelo mato até um lugar quase secreto onde bancos de cimento formavam um círculo, praticamente escondido da trilha principal. C bambu estalava suavemente com a brisa. O cheiro do laguinho próximo era desagradável. Mas o lugar tinha uma beleza inegável.

Ela se acomodou no banco, com o vestido branco refulgindo nas sombras a esmeralda cintilando no seu colo.

Perigo, Lightner, disse a mim mesmo. Você está correndo perigo.

- Sr. Lightner - disse- me enquanto eu me sentava à sua frente. - Basta que me diga o que quer!

- Deirdre, tenho conhecimento de muitas coisas. De coisas que dizem respeito a você, à sua mãe, à mãe da sua mãe e à mãe dela. Histórias, segredos; mexericos, árvores genealógicas... realmente todos os tipos de informação.

Numa casa em Amsterdã, existe um quadro de uma mulher, sua antepassada. O nome dela era Deborah. Foi ela quem comprou essa esmeralda de um joalheiro na Holanda há centenas de anos.

Nada disso a surpreendeu. Ela estava me estudando, obviamente à procura de mentiras e de más intenções. Eu mesmo estava inexplicavelmente abalado. Estava conversando com Deirdre Mayfair. Estava, finalmente, sentado com Deirdre Mayfair.

- Deirdre, diga- me se você quer saber o que eu sei. Você quer ver as cartas de um homem que amou sua antepassada, Deborah? Você quer saber de que forma ela morreu na França e como sua filha cruzou o oceano para chegar a saint-domingue? No dia em que ela morreu, Lasher provocou uma tempestade na aldeia... Eu me interrompi. Era como se as palavras tivessem secado na minha boca. Seu rosto havia sofrido uma mudança espantosa. Por um instante, achei que fosse uma raiva que a dominava. Percebi, depois, que era um dilema íntimo que a consumia.

- Sr. Lightner - disse, baixinho -, não quero saber. Quero me esquecer do que já sei. Vim para cá para fugir disso tudo.

- Ah! - disse eu, calando- me por algum tempo.

Eu sentia que ela estava se acalmando. Era eu quem não sabia o que fazer.

- Sr. Lightner - disse ela, então, com a voz muito firme, porém cheia de emoção -, minha tia diz que vocês nos estudam porque acreditam que somos especiais. Que, com sua curiosidade, vocês incentivariam o mal em nós, se pudessem. Não, não me compreenda mal. Ela quer dizer que, ao falar no demônio, vocês o estariam nutrindo. Ao estudá-lo, vocês lhe conferem mais vida. - Seus doces olhos azuis imploravam que eu compreendesse. Que notável serenidade ela aparentava ter! Que calma surpreendente!

- Entendo o ponto de vista da sua tia - disse eu. Na realidade, eu estava pasmo. Pasmo com o fato de Carlotta saber quem nós éramos ou de compreender nossos objetivos até aquele ponto. Foi quando me lembrei de Stuart. Stuart devia ter conversado com ela. Era essa a prova. Essa idéia e milhares de outras se amontoavam na minha cabeça.

- É como os espíritas, Sr. Lightner - disse Deirdre, no mesmo tom gentil e compreensivo. - Eles querem falar com os espíritos de antepassados mortos e, apesar de todas as suas boas intenções, apenas fortalecem entidades das quais nada entendem...

-É, sei do que está falando. Acredite que sei mesmo. Eu só queria lhe passar as informações; fazer você saber que, se você...

- Veja bem, eu não quero saber. Quero deixar o passado para trás. - Sua voz vacilou um pouco. - Não quero nunca mais voltar para casa.

- Muito bem. Compreendo perfeitamente. Mas você me fará um favor? Grave meu nome.

Fique com esse cartão meu. Guarde de cabeça os telefones que estão nele. Ligue para mim se algum dia precisar. Ela apanhou o cartão. Examinou-o algum tempo e depois o enfiou num bolso.

Descobri-me olhando para ela em silêncio, mergulhando nos seus olhos azuis grandes e inocentes, e procurando não me deter na beleza do seu corpo jovem, nos seios perfeitamente modelados no vestido de algodão. Seu rosto nas sombras me parecia cheio de tristeza.

- Ele é o diabo, Sr. Lightner. É mesmo.

- Então, minha cara, por que está usando a esmeralda? - Perguntei num impulso.

Um sorriso surgiu no seu rosto. Ela segurou a jóia, encerrando-a na mão direita, e puxou com força arrebentando a corrente.

- Por um motivo bem definido, Sr. Lightner. Era o modo mais simples de trazê-la até aqui, e eu pretendo entregá-la ao senhor. - Ela estendeu o braço e deixou a jóia cair na minha mão. Olhei para ela, mal acreditando que a jóia estivesse realmente comigo.

- Ele vai me matar, sabia? - disse eu de improviso. - Ele vai me matar para reavê-la.

- Não, ele não pode fazer isso! - disse ela, olhando para mim, sem qualquer expressão, como em estado de choque.

- É claro que pode - disse eu, apesar de estar envergonhado de fazer essa afirmação. - Deirdre, deixe-me lhe contar o que eu sei sobre esse espírito. Deixe-me lhe dizer o que eu sei sobre outras pessoas que vêem esse tipo de coisa. Nessa história, você não está só. Você não precisa lutar sozinha contra essa criatura.

- Ai, meu Deus - disse ela, baixinho, fechando os olhos por um instante. - Ele não pode fazer isso - disse ela, novamente, mas sem grande convicção. - Não acredito que ele possa fazer uma coisa dessas.

- Vou me arriscar com ele - disse eu. - Vou ficar com a esmeralda. Algumas pessoas têm suas próprias armas, por assim dizer. Posso ajudá-la a compreender as suas. A sua tia faz isso? Diga-me o que quer de mim.

- Que vá embora - disse ela, aflita. - Que o senhor... nunca mais fale comigo sobre essas coisas.

- Deirdre, ele pode fazer com que você o veja mesmo quando você não quer que ele apareça?

- Quero que pare com isso, Sr. Lightner. Se eu não pensar nele, se eu não falar nele – ela levou as mãos às têmporas -, se eu me recusar a olhar para ele, talvez...

- O que você quer? Para você mesma?

- A vida, Sr. Lightner. Uma vida normal. Não pode imaginar o que essas palavras representam para mim! Uma vida normal. Uma vida como a que as garotas lá do dormitório levam. Uma vida com ursinhos de pelúcia, namorados e beijos no banco de trás dos carros. Simplesmente viver!

Ela agora estava tão descontrolada, que eu também estava me descontrolando rapidamente. E tudo isso oferecia um perigo imperdoável. Mesmo assim, ela havia posto a jóia na minha mão! Eu a tateei, passando meu polegar por ela. Era tão fria, tão dura.

- Lamento, Deirdre. Lamento mesmo tê-la perturbado. Perdoe-me...

- Sr. Lightner, o senhor não tem como fazer com que ele desapareça? Vocês não conseguiriam fazer isso? Minha tia diz que não, que só um padre tem esse poder, mas nenhum padre acredita nele, Sr. Lightner. Não se pode exorcizar um espírito quando não se tem fé.

- Ele não aparece para o padre, aparece, Deirdre?

- Não - disse ela, com uma sombra de um sorriso irônico. - De que adiantaria se ele aparecesse? Ele não é nenhum espírito inferior que pode ser espantado com água benta e ave-marias. Ele ps faz de bobos. - Ela havia começado a chorar. Estendeu a mão para apanhar a esmeralda, puxou-a dos meus dedos pela corrente e depois a atirou o mais longe possível, pelo mato adentro. Ouvi quando atingiu a água com um ruído curto, grave. Deirdre tremia violentamente. - Ela vai voltar - disse ela.

- Vai voltar! Sempre volta!

- Talvez você possa exorcizá-lo! Você e só você!

-Ah, sim. É isso o que ela diz; o que sempre disse. "Não olhe para ele, não fale com ele, não permita que ele a toque!" Mas ele sempre volta. Ele não pede minha permissão! E...

- Sim?

- Quando estou só, quando estou triste...

- Ele aparece.

- É. Ele aparece.

Era um tormento para essa moça. Alguma coisa precisava ser feita!

- E se ele vem, Deirdre? O que estou perguntando é o que acontece se você não se opõe a ele, se você o deixa vir, se você permite que ele se torne visível. O que acontece?

- O senhor não sabe do que está falando - disse ela, perplexa e magoada, olhando para mim.

- Sei que você está enlouquecendo na tentativa de combatê-lo. O que acontece se você não resiste a ele?

- Eu morro - respondeu ela. - E o mundo à minha volta morre, e só existe ele. - Ela limpou a boca com as costas da mão.

Pensei no tempo que ela havia vivido com essa aflição. Em como era forte, indefesa e cheia de medo.

- É, Sr. Lightner, é verdade. Tenho medo. Mas não vou morrer. Vou combatê-lo. E vou vencer. O senhor vai me deixar. Nunca mais vai se aproximar de mim. E eu nunca mais vou pronunciar o nome dele, olhar para ele ou chamá-lo. E ele me deixará. Irá embora.

Encontrará outra pessoa para vê-lo. Outra pessoa... para amar.

- Ele a ama, Deirdre?

- Ama - respondeu ela, baixinho. Estava escurecendo. Eu não via mais suas feições com nitidez.

- O que ele quer, Deirdre?

- O senhor sabe o que ele quer! Ele me quer, Sr. Lightner. A mesma coisa que o senhor quer! Porque eu faço com que ele apareça. - Ela tirou do bolso um pequeno lenço amarfanhado e limpou o nariz. - Ele me disse que o senhor viria. E disse uma coisa estranha, uma coisa de que não me lembro bem. Era como uma maldição, o que ele disse. Era assim: "Estarei comendo a carne, bebendo o vinho e tendo a mulher quando ele estiver apodrecendo no túmulo."

- Já ouvi essas palavras antes - disse-lhe.

- Quero que vá embora. O senhor é uma boa pessoa. Gosto do senhor. Não quero que ele lhe faça mal. Direi a ele que ele não pode... - Ela parou, confusa.

- Deirdre, acredito que posso ajudá-la...

- Não!

- Posso ajudá-la a combatê-lo, se for essa sua decisão. Conheço pessoas na Inglaterra que...

- Não!

Esperei um pouco e depois falei com delicadeza.

- Se algum dia precisar de mim, pode ligar. - Ela não me respondeu. Eu percebia que estava totalmente exausta. Estava quase desesperada. Disse-lhe onde estava hospedado em Denton, que ficaria lá até o dia seguinte e que, se não tivesse notícias dela, iria embora. Eu me sentia um fracasso total, mas não podia magoá-la ainda mais!

Afastei o olhar na direção dos bambus sussurrantes. Estava cada vez mais escuro. E não havia iluminação naquele jardim exuberante.

- Mas sua tia está enganada a nosso respeito - disse eu, incerto da sua atenção. Contemplei o pedacinho de céu lá em cima, que agora estava bem branco. – Queremos lhe transmitir o que sabemos. Queremos lhe dar o que temos. É verdade que nos interessamos por você porque você e uma pessoa especial, mas nos interessamos muito mais por você do que por ele. Você poderia vir até nossa casa em Londres. Poderia ficar lá o tempo que quisesse. Nós a apresentaríamos a outras pessoas que viram coisas semelhantes, que lutaram com elas. Nós a ajudaríamos. E quem sabe, talvez conseguíssemos fazer com que ele desaparecesse. E a qualquer hora que você queira ir, nós a ajudaremos a ir. - (Ela não respondeu.) - Você sabe que estou dizendo a verdade. E eu sei que você sabe.

Olhei para ela, morrendo de medo de ver a dor no seu rosto. Ela olhava para mim com exatamente a mesma expressão de antes, com os olhos tristes e vidrados, e as mãos inertes no colo. E imediatamente atrás dela, estava ele, a uns dois centímetros se tanto, perfeitamente real, fixando seus olhos castanhos em mim.

Dei um grito antes de me controlar. Como um tolo, levantei-me de um salto.

- O que foi! - exclamou Deirdre, apavorada. Ela também se levantou de repente e se jogou nos meus braços. - Diga- me. O que foi?

Ele havia desaparecido. Uma brisa aquecida movimentou os brotos altíssimos do bambu.

Não havia nada ali a não ser a escuridão. Nada a não ser a proximidade do jardim selvagem. E uma lenta queda da temperatura. Como se a porta de uma fornalha acabasse de se fechar.

Fechei meus olhos, segurando-a com a maior firmeza possível, procurando não tremer demais e consolá-la, enquanto gravava na memória o que havia visto.

Um rapaz maldoso, sorrindo com frieza ali parado atrás dela, com as roupas escuras e formais sem muitos detalhes como se toda a energia da criatura estivesse sendo consumida pelos olhos brilhantes, pelos dentes brancos e pela pele reluzente. Em tudo o mais, era o homem que tantos outros haviam descrito.

Ela agora estava totalmente histérica. Sua mão cobria a boca, e ela sufocava soluços. Ela se afastou de mim com violência e subiu correndo pela pequena escada coberta de mato até a trilha.

- Deirdre! - gritei. Mas ela já estava fora do meu alcance visual na escuridão. Vislumbrei um borrão branco em meio às árvores ao longe, e em seguida deixei de ouvir suas passadas.

Eu estava só no jardim botânico, já era noite, e eu senti um medo terrível pela primeira vez na minha vida. Senti tanto medo que fiquei com raiva. Comecei a segui-la, ou melhor, a seguir a trilha tomada por ela, e me forcei a não correr, mas a dar um passo firme após o outro até que afinal vi ao longe as luzes dos dormitórios,

a estradinha por trás deles e ouvi o trânsito, sentindo- me mais uma vez em segurança. Entrei no dormitório das calouras e perguntei à mulher grisalha na recepção se Deirdre Mayfair havia acabado de entrar. Havia, sim. Sã e salva, imaginei.

- Esta é a hora do jantar, senhor. Se quiser, pode deixar um recado.

- Ah, é claro. Eu ligo para ela mais tarde. - Peguei um pequeno envelope em branco, escrevi nele o nome de Deirdre e depois escrevi um bilhete explicando mais uma vez que eu estava no hotel se ela quisesse entrar em contato comigo. Enfiei meu cartão no envelope junto com o bilhete, fechei o envelope, entreguei-o à mulher e fui embora.

Cheguei ao hotel sem maiores percalços, fui para meu quarto e liguei para Londres. Demorou uma hora para que a ligação fosse completada, tempo durante o qual fiquei ali deitado na cama, com o telefone ao meu lado, e tudo em que podia pensar era que eu o havia visto. Vi o homem. Eu mesmo vi o homem. Vi o que Petyr viu e o que Arthur viu. Vi Lasher com meus próprios olhos.

Scott Reynolds, nosso diretor, estava calmo mas irredutível quando finalmente consegui a ligação.

- Saia já daí. Volte para cá.

- Acalme-se, Scott. Eu não vim até aqui para ser espantado por um espírito que estudamos de longe há trezentos anos.

- É assim que você usa seu discernimento, Aaron? Você, que conhece a história das Bruxas Mayfair do começo ao fim? Essa coisa não está querendo assustá-lo. Ela está tentando atraí-lo. Ela quer que você atormente a moça com suas perguntas. A criatura a está perdendo, e você é sua única esperança de reavê-la. Não importa o que a tia seja, ela está farejando a verdade. Você faça com que a moça lhe fale de tudo que sofreu e estará dando ao espírito a energia que ele quer.

- Não estou tentando forçá-la a nada, Scott. Mas acho que ela não está tendo sucesso na sua luta. Vou voltar para Nova Orleans. Quero estar por perto.

Scott estava a ponto de me dar a ordem de voltar quando eu lhe lembrei minha antigüidade. Eu era mais velho do que ele. Eu havia recusado a indicação para diretor. Por isso, ele havia sido indicado. Eu não ia aceitar ordens de abandonar esse caso.

- Bem, o que vou dizer é meio como oferecer um tranqüilizante a alguém que está morrendo queimado, mas não volte para Nova Orleans de carro. Pegue um trem. Essa sugestão foi surpreendentemente agradável. Nada de estradas escuras, desoladas, sem acostamento, atravessando os pântanos da Louisiana. Mas um belo trem alegre e cheio de gente.

No dia seguinte, deixei um bilhete para Deirdre dizendo que estaria no Royal Court em Nova Orleans. Levei o carro alugado até Dallas e peguei naquela cidade o trem de volta. Foi uma viagem de oito horas, e eu pude escrever no meu diário durante todo o percurso.

Considerei, afinal, o que havia acontecido. A moça havia renunciado à sua história e aos seus poderes paranormais. A tia a havia criado para rejeitar o espírito, Lasher. No entanto, era óbvio que há anos ela vinha perdendo essa guerra. Mas e se nós lhe déssemos nossa ajuda? Será que a cadeia hereditária poderia ser rompida?

Será que o espírito abandonaria a família como um espírito que foge de uma casa em chamas que assombrou durante anos a fio?

Mesmo enquanto punha no papel esses pensamentos, eu era perseguido pela lembrança da aparição. A criatura era tão poderosa! Era aparentemente mais concreta e forte do que qualquer outra assombração que eu já tivesse visto. No entanto, a imagem havia sido incompleta.

Pela minha experiência, somente os fantasmas de pessoas que acabaram de morrer aparecem com tanta aparente substância. Por exemplo, o fantasma de um piloto morto em combate pode aparecer no exato dia da sua morte na sala de estar da sua irmã, e ela dirá mais tarde, "Puxa, ele era tão real! Eu vi até a lama nos seus sapatos!"

Aparições dos que já se foram há muito nunca apresentam essa densidade ou nitidez. E entidades incorpóreas? Elas podiam se apoderar, sim, dos corpos dos vivos e dos mortos, mas aparecer sozinhas com tanta solidez e intensidade?

Essa criatura gostava de aparecer, certo? É claro que sim. Era por esse motivo que tanta gente a via. Ela gostava de ter um corpo, mesmo que fosse por um átimo de segundo. Por isso, ela não se contentava em falar com uma voz silenciosa só com a bruxa, ou em criar uma imagem que existisse exclusivamente na sua cabeça. Não, a criatura conseguia de algum modo se materializar para que outros pudessem vê -Ia e até ouvi-Ia. E com grande esforço, talvez com um esforço imenso, ela conseguia dar a impressão de estar sorrindo ou chorando.

E então qual era o objetivo dessa criatura? Ganhar forças para poder fazer aparições de duração e perfeição cada vez maiores? E acima de tudo, qual era o significado da maldição, que na carta de Petyr dizia, "Estarei bebendo o vinho, comendo a carne e conhecendo o calor da mulher quando de você não restarem nem os ossos"?

E afinal de contas, por que não me atormentava, nem me instigava agora? Teria ele usado a energia de Deirdre ou a minha para fazer sua aparição? (Eu havia visto poucos espíritos na minha vida. Não era um médium poderoso. Na realidade, àquela altura, eu nunca havia visto uma aparição que não pudesse ser explicada como algum tipo de ilusão criada pelo jogo de luz e sombra ou pelo excesso de imaginação.)

Talvez por ingenuidade, tive a impressão de que enquanto me mantivesse afastado de Deirdre, a criatura não poderia me fazer mal. O que havia acontecido a Petyr van Abel estava relacionado aos seus poderes de mediunidade e à forma pela qual a criatura os manipulou. Eu possuía pouquíssimos poderes daquela natureza.

No entanto, seria um grave erro subestimar a criatura. Eu precisava me acautelar de agora em diante.

Cheguei a Nova Orleans às oito da noite, e coisinhas estranhas e desagradáveis começaram a acontecer imediatamente. Quase fui atropelado por um táxi em frente à Union Station. Em seguida, o táxi que ia me levar ao hotel quase bateu em outro carro quando parou junto à calçada.

No pequeno saguão do Royal Court, um turista embriagado deu um encontrão em mim e depois quis começar uma briga. Felizmente, sua mulher desviou sua atenção, pedindo desculpas repetidamente, enquanto os carregadores a ajudavam a levar o homem para o quarto. Mesmo assim, contundi o ombro nesse pequeno incidente. Eu já estava abalado com os acidentes por um fio envolvendo os táxis.

Pensei que fosse imaginação. No entanto, quando subi a escada para meu quarto no primeiro andar, um pedaço fraco do velho corrimão de madeira se soltou na minha mão. Eu quase perdi o equilíbrio. O carregador pediu desculpas imediatamente. Uma hora depois, enquanto estava anotando todos esses acontecimentos no meu diário, houve um princípio de incêndio no terceiro andar do hotel.

Fiquei parado na rua apertada do French Quarter, com outros hóspedes aflitos por quase uma hora antes de ficar esclarecido que se tratava de uma pequena labareda que havia sido apagada sem fumaça e sem que a água danificasse nenhum outro quarto.

- O que provocou o fogo? - perguntei. O funcionário embaraçado disse alguma coisa sobre lixo num depósito e me garantiu que tudo estava bem agora.

Durante muito tempo, refleti sobre a situação. Realmente tudo isso poderia ter sido coincidência. Eu não havia sofrido nada, da mesma forma que todos os outros envolvidos nesses pequenos incidentes, e o que se exigia de mim era uma disposição de espírito inabalável. Resolvi me movimentar pelo mundo só um pouco mais devagar, olhar à minha volta com mais cuidado e procurar ter consciência de tudo que estivesse acontecendo ao meu redor o tempo todo.

A noite passou sem outros inconvenientes, embora eu dormisse com dificuldade e acordasse muitas vezes. No dia seguinte, após o café da manhã, liguei para nossa agência de investigações em Londres, pedi- lhes que contratassem um detetive no Texas e que descobrissem o que pudessem sobre Deirdre Mayfair, com a máxima discrição.

Sentei- me, então, e escrevi uma longa carta a Cortland. Expliquei-lhe quem eu era, o que era o Talamasca e como vínhamos acompanhando a história da família Mayfair desde o século XVII, época em que um representante nosso salvou Deborah Mayfair de sério perigo na sua cidade natal de Donnelaith. Falei do Rembrandt de Deborah, em Amsterdã. Passei a esclarecer que tínhamos interesse nos descendentes de Deborah porque eles possuíam autênticos poderes paranormais, que se manifestavam em todas as gerações. Que desejávamos entrar em contato com a família com a intenção de compartilhar nossos registros com aqueles que se interessassem por eles e oferecer essas informações a Deirdre Mayfair, que parecia ser uma pessoa profundamente prejudicada por sua capacidade de ver um espírito que em tempos passados se chamava Lasher e que talvez ainda fosse Lasher até os dias de hoje.

“Nosso enviado, Petyr van Abel, vislumbrou esse espírito pela primeira vez em Donnelaith no século XVII. Ele foi visto inúmeras vezes na proximidade da residência da família em First Street. Eu só o vi uma vez, num outro local, com meus próprios olhos."

Copiei então uma carta idêntica para Carlotta Mayfair e, depois de muito refletir, escrevi o endereço e o número do telefone do hotel. Afinal de contas, qual seria o sentido de me esconder por trás de uma caixa postal?

Fui até a casa de First Street, pus a carta de Carlotta na caixa do correio e, em seguida, me dirigi até Metairie, onde enfiei a carta de Cortland na fenda para essa finalidade na sua porta. Depois disso, senti-me dominado por presságios e, embora voltasse ao hotel, não subi para meu quarto. Preferi dizer ao pessoal da recepção que me encontraria no bar do primeiro andar, onde permaneci boa parte da noite, saboreando lentamente uma boa marca de uísque do Kentucky e escrevendo no meu diário sobre todo o caso.

O bar era pequeno e tranqüilo, e dava para um pátio encantador. Embora eu estivesse de costas para essa vista, voltado para as portas do saguão por motivos que não sei explicar direito, eu estava gostando do lugar. A sensação de perigo estava se desfazendo lentamente.

Mais ou menos às oito, ergui os olhos do diário para perceber que alguém estava parado muito perto da minha mesa. Era Cortland.

Eu acabava de completar minha narrativa do arquivo Mayfair, como mencionei anteriormente. Eu havia examinado inúmeras fotografias de Cortland, mas não foi urna fotografia sua que me veio á mente quando nossos olhos se encontraram.

O homem alto de cabelos negros que sorria para mim era a imagem de Julien Mayfair, falecido em 1914. As diferenças pareciam não ter importância. Era Julien, sim, com olhos maiores, cabelos mais escuros e talvez lábios mais generosos. Mas, mesmo assim, Julien. E de repente o sorriso pareceu grotesco. Uma máscara.

Anotei mentalmente essas impressões estranhas, enquanto o convidava a sentar.

Ele usava um terno de linho, muito parecido com o meu, com uma camisa clara, cor de limão, e uma gravata também clara.

Graças a Deus não é Carlotta, pensei. Instante no qual ele falou.

- Não creio que vá ter notícias da minha prima Carlotta. Mas acho que já é hora de nós dois termos uma conversa. - Uma voz muito agradável e totalmente falsa. Profundamente sulino o sotaque, mas com um toque exclusivo de Nova Orleans. O brilho nos olhos escuros era simpático e ao mesmo tempo levemente desagradável. Ou esse homem me detestava, ou ele me considerava uma maldita amolação. Ele se voltou e chamou o garçom.

- Mais um drinque para o Sr. Lightner, por favor. E um xerez para mim. - Ele estava sentado diante de mim à pequena mesa de mármore, com as longas pernas cruzadas e viradas para um lado. - Não se incomoda que eu fume, certo, Sr. Lightner?

Obrigado. - Ele tirou do bolso uma bela cigarreira de ouro, colocou-a sobre a mesa, ofereceu-me um cigarro e, quando eu recusei, acendeu um para si mesmo. Mais uma vez seu ar simpático me pareceu totalmente fingido. Perguntei- me que impressão uma pessoa normal teria.

- Alegra-me que tenha vindo, Sr. Mayfair.

- Ora, pode me chamar de Cortland. Além do mais existem tantos senhores Mayfair. Eu sentia o perigo emanando daquela pessoa e fiz um esforço consciente para ocultar meus pensamentos.

- Se quiser me chamar de Aaron, eu o chamarei de Cortland com prazer.

Ele fez um pequeno gesto de concordância. Depois, deu um sorriso descuidado para a moça que trouxe nossos drinques e imediatamente tomou um golinho do xerez.

Era uma pessoa irresistivelmente atraente. Seus cabelos negros tinham brilho, e ele usava uma sombra de um bigode fino, meio grisalho. Parecia que as rugas do seu rosto eram uma forma de adorno. Pensei em Llewellyn e nas suas descrições de Julien, que eu havia ouvido poucos dias antes. Mas eu tinha de tirar tudo isso completamente da cabeça. Estava correndo perigo. Essa era minha intuição dominante, e o charme discreto do homem fazia parte dela. Ele se considerava muito atraente e muito esperto. E era as duas coisas.

Fiquei olhando a nova dose de bourbon com água. E de repente fiquei chocado com a posição da sua mão na cigarreira de ouro, a um centímetro ou dois do meu copo. Eu soube, com certeza absoluta, que esse homem pretendia me fazer algum mal. Como isso era inesperado! O tempo todo, imaginei que se tratasse de Carlotta.

- Ah, peço que me perdoe - disse ele com uma súbita expressão de surpresa, como se tivesse acabado de se lembrar de alguma coisa.-Um remédio que preciso tomar. Quer dizer, se eu conseguir encontrá-lo. - Ele tateou nos bolsos e depois tirou algo do paletó. Um pequeno frasco com comprimidos. - Que chateação - disse ele, abanando a cabeça. - Está gostando da estada em Nova Orleans? - Ele se voltou e pediu um copo d'água. - É claro que esteve também no Texas para ver minha sobrinha. Disso eu sei. Mas sem dúvida passeou pela cidade. O que acha desse jardim daqui? - Ele apontou para o pátio às minhas costas. - Uma senhora história a desse jardim. Já lhe contaram?

Virei minha cadeira um pouco e olhei para trás para ver o jardim. Vi o calçamento de lajes irregulares, uma fonte desgastada pela ação do tempo e mais adiante, em meio às sombras, um homem parado diante da porta com bandeira em semicírculo. Um homem magro e alto, com a luz vindo de trás. Sem rosto. Imóvel. O calafrio que me percorreu a espinha foi quase delicioso. Eu continuei a .olhar para o homem, e aos poucos a figura desapareceu completamente.

Esperei pela corrente de ar morno, mas não senti nada. Talvez estivesse longe demais da criatura. Ou talvez eu estivesse totalmente enganado quanto a quem ou a quê eu havia visto. Aparentemente, passou-se um século.

- Uma mulher cometeu suicídio nesse pequeno jardim - disse Cortland, quando eu me voltei para a mesa. - Dizem que a fonte fica vermelha uma vez por ano com o seu sangue.

- Interessante - disse eu, bem baixo. Fiquei olhando enquanto ele erguia o copo d'água e bebia a metade. Estaria engolindo os comprimidos? O pequeno frasco havia desaparecido. Olhei para meu bourbon com água. Eu não o teria tocado por nada neste mundo. Olhei, distraído, para minha caneta, ali ao lado do diário, e a enfiei no bolso. Eu estava tão absorto por tudo o que via e ouvia que não sentia o menor impulso de dizer uma palavra sequer.

- E então, Sr. Lightner, vamos ao assunto. - Mais uma vez, o sorriso, aquele sorriso radiante.

- Claro - respondi. O que eu estava sentindo? Estava curiosamente emocionado. Estava aqui sentado com o filho de Julien, Cortland, e ele havia acabado de derramar uma droga, sem dúvida fatal, no meu copo. Ele achava que não descobririam sua culpa. De repente, refulgiu na minha cabeça toda aquela história sinistra. Eu estava nela. Eu não estava lendo a seu respeito na Inglaterra. Eu estava aqui.

Talvez eu tivesse sorrido para ele. Eu sabia que uma aflição esmagadora se seguiria a esse estranho clímax de emoção. O maldito filho da puta estava tentando me matar.

- Estive examinando essa questão do Talamasca, etc. - disse ele num tom animado, artificial. - Não há nada que se possa fazer a respeito de vocês. Não podemos forçá-los a revelar suas informações sobre nossa família porque aparentemente são dados inteiramente particulares, não havendo nenhuma intenção sua de torná-los públicos ou de usá-los com fins nocivos. Também não podemos forçá-los a parar de compilar essas

informações desde que não desrespeitem a lei.

- É, imagino que seja verdade.

- No entanto, podemos causar inconvenientes, grandes inconvenientes, a vocês e seus enviados. Podemos tornar impossível seu acesso a tantos metros de propriedades nossas ou de membros da nossa família. Mas isso seria dispendioso, e na realidade não seria obstáculo para vocês, não se vocês são o que dizem ser. -Ele parou de falar, deu uma tragada no seu cigarro fino e escuro e olhou para o bourbon com água. – Será que pedi o drinque errado, Sr. Lightner?

- Não pediu nenhum drinque. O garçom trouxe mais um do que eu estive bebendo a tarde toda. Eu deveria tê-lo impedido. Já havia bebido o suficiente.

Seu olhar ficou mais duro enquanto ele me observava. Na realidade, sua máscara de sorriso sumiu totalmente. E num instante de falta de expressão e de falta de fingimento, ele pareceu quase jovem.

- O senhor não deveria ter feito aquela viagem ao Texas, Sr. Lightner - disse com frieza. - Não deveria ter perturbado minha sobrinha.

- Concordo. Eu não deveria tê-la perturbado. Eu estava preocupado com ela. Queria lhe oferecer ajuda.

-Muita presunção sua e dos seus amigos de Londres.-Um toque de raiva. Ou seria simplesmente irritação por eu não estar bebendo o bourbon. Contemplei-o por algum tempo, com minha mente se esvaziando até não haver a intromissão de nenhum som, nenhum movimento, nenhuma cor. Só seu rosto ali, e uma pequena voz na minha cabeça me dizendo o que eu queria saber.

- É. É presunção, não é? Mas sabe, foi nosso enviado Petyr van Abel quem foi o pai de Charlotte Mayfair, nascida na França em 1664. Quando ele mais tarde viajou até Saint-Domingue para ver a filha, ficou prisioneiro dela. E, antes que seu espírito, Lasher, o levasse à morte numa estrada solitária perto de Port-au-Prince, ele teve relações com a própria filha Charlotte, tornando-se pai de Jeanne Louise. Isso quer dizer que ele era o avô de Angélique e bisavô de Marie Claudette, que construiu Riverbend e criou o legado que o senhor hoje administra para Deirdre. Está me acompanhando?

Estava claro que ele não conseguia me responder. Estava imóvel, me olhando, com o cigarro esquecido na mão. Não percebi nenhuma emanação de maldade ou de raiva.

Prossegui, observando-o com atenção.

- Seus antepassados são descendentes do nosso enviado, Petyr van Abel. Estamos ligados, as Bruxas Mayfair e o Talamasca. Além disso, há outras questões que nos aproximam depois de tantos anos. Stuart Townsend, nosso enviado que desapareceu aqui em Nova Orleans depois de visitar Stella em 1929. Lembra-se de Stuart Townsend? O caso do seu desaparecimento nunca foi resolvido.

- Vocês estão loucos, Sr. Lightner - disse ele, sem qualquer mudança perceptível na expressão. Deu uma tragada e apagou o cigarro no cinzeiro, embora ele estivesse apenas pela metade.

- Esse seu espírito, Lasher, foi quem matou Petyr van Abel - disse eu calmamente. – Foi Lasher que vi há um instante? Logo ali? - Fiz um gesto indicando o jardim.

- Ele está enlouquecendo sua sobrinha, não está?

Uma mudança notável ocorria agora em Cortland. Seu rosto, perfeitamente emoldurado pelos cabelos escuros, pareceu de uma inocência total com sua perplexidade.

- O senhor está falando sério, não está? - Essas foram suas primeiras palavras sinceras desde que ele entrou no bar.

- Claro que estou. Por que eu ia querer tentar enganar pessoas que conseguem ler o pensamento dos outros? Seria uma tolice, não? - Olhei para o copo.-Meio parecido com o senhor esperar que eu beba esse bourbon e morra com o veneno que pôs nele, como Stuart Townsend morreu, ou como Cornell Mayfair, mais tarde.

Ele procurou ocultar seu espanto com uma expressão neutra, apática.

- A acusação que o senhor faz é muito grave - disse ele entre dentes.

- Todo esse tempo achei que fosse Carlotta. Nunca foi ela, não é? Era o senhor.

- Quem se importa com o que o senhor acha? Como ousa me fazer esse tipo de acusação! - Ele então refreou a raiva. Mexeu-se um pouco na cadeira, com os olhos fixos em mim enquanto abria a cigarreira e tirava mais um cigarro. Toda a sua atitude se modificou de repente para uma de questionamento franco. - Afinal, Sr. Lightner, o que deseja? - perguntou com sinceridade, baixando a voz. - A sério, o que é que o senhor quer?

Refleti por um instante. Eu vinha me fazendo essa mesma pergunta há semanas. O que nós realmente queríamos? O que eu queria?

- Queremos conhecê-los! - respondi, bastante surpreso ao ouvir minhas palavras. - Conhecê-los porque sabemos tanto a seu respeito e no entanto não sabemos absolutamente nada. Queremos lhes contar o que sabemos: todos os fragmentos de informações que recolhemos, tudo o que sabemos do seu passado remoto. Queremos lhes dizer tudo o que sabemos sobre o mistério de quem vocês são e do que ele é. E gostaríamos que vocês conversassem conosco. Gostaríamos que vocês confiassem em nós e se abrissem conosco! E, para concluir, queremos estender a mão a Deirdre Mayfair para lhe dizer que existem outras pessoas iguais a ela: outras pessoas que vêem espíritos. Que sabemos que ela está sofrendo e podemos ajudá-la. Que ela não está só.

Ele me examinava como os olhos aparentemente abertos, o rosto já fora do alcance do fingimento. Depois, retraindo-se um pouco e afastando o olhar, ele bateu a cinza do cigarro e fez um gesto pedindo mais um drinque.

- Por que não toma o bourbon? Não cheguei a tocar nele. - Mais uma vez eu me surpreendia, mas deixei a pergunta em suspenso. Ele olhou para mim.

- Não gosto de bourbon. Obrigado.

- O que pôs nele?

Ele se recolheu aos seus pensamentos. Parecia ligeiramente angustiado. Ficou olhando quando um rapaz trouxe seu drinque. Xerez, como antes, num copo de cristal.

- É verdade - perguntou, com os olhos fixos em mim - o que disse na carta? Sobre o retrato de Deborah Mayfair em Amsterdã? - Fiz que sim com a cabeça.

-Temos retratos de Charlotte, Jeanne Louise, Angélique, Marie Claudette, Marguerite, Katherine, Mary Beth, Julien, Stella, Antha e Deirdre...

Ele fez um gesto impaciente para que eu parasse.

- Olhe, vim aqui pensando em Deirdre. Vim porque ela está enlouquecendo. A moça com quem falei no Texas está à beira de um colapso nervoso.

- O senhor acha que a ajudou?

-Não, e lamento profundamente não ter conseguido ajudar. Compreendo que o senhor não queira nenhum contato conosco. Para que iria querer? Mas nós podemos ajudar Deirdre. Podemos mesmo.

Não houve resposta. Ele bebeu o xerez. Procurei encarar a situação a partir do seu ponto de vista. Não consegui. Eu nunca tentei envenenar ninguém. Não fazia a menor idéia de quem ele era de fato. O homem que eu conhecia dos relatos não era essa pessoa.

- Será que seu pai, Julien, teria falado comigo?

- De jeito nenhum - disse ele, erguendo os olhos como se estivesse despertando dos seus pensamentos. Por um instante, ele pareceu profundamente perturbado. – Mas vocês não descobriram com todas as suas observações que ele era um deles? - Novamente, aparentava uma franqueza total, com os olhos examinando meu rosto como se quisesse se certificar de que eu também estava sendo honesto.

- E o senhor não é um deles?

- Não - disse ele com uma ênfase surda, abanando a cabeça. - Não de verdade. Nunca fui! - Ele de repente ficou triste, e a tristeza o fez parecer velho. - Olhe, vigiem- nos se quiserem. Tratem- nos como se fôssemos a família real...

- Isso mesmo.

- Vocês são historiadores. É o que me dizem meus contatos em Londres. Historiadores, estudiosos, totalmente inofensivos, perfeitamente respeitáveis... - Sinto-me honrado.

-Mas deixem minha sobrinha em paz. Ela agora tem uma oportunidade de ser feliz. E essa história precisa ter um fim, entende? Precisa terminar. Talvez ela possa se encarregar disso.

- E ela é um deles? - perguntei, imitando sua entoação anterior.

- Claro que não! É exatamente essa a questão. Não existe nenhum deles nos dias de hoje!

Será que não compreendem isso? Qual tem sido o tema do seu estudo da nossa família? Vocês não perceberam a desagregação do poder? Stella também não era um deles. A última foi Mary Beth. Julien, quer dizer, meu pai, e depois Mary Beth.

- Isso eu percebi. Mas o que dizer do seu amigo espectral? Será que ele vai permitir que tudo se acabe?

-O senhor acredita nele?-Ele inclinou a cabeça com um leve sorriso, com as rugas se formando em volta dos olhos escuros num riso mudo. - Ora, Sr. Lightner! Não me diga que acredita em Lasher!

- Eu o vi - respondi simplesmente.

- Imaginação sua. Minha sobrinha me disse que era um jardim muito escuro.

- Ora, por favor. Será que chegamos tão longe para dizer esse tipo de coisa? Eu o vi, Cortland. Ele sorriu quando eu o vi. Ele conseguiu se apresentar com muita substância e nitidez.

O sorriso de Cortland se estreitou, ficou mais irônico. Ele ergueu as sobrancelhas e deu um pequeno suspiro.

- É, ele apreciaria sua escolha de palavras, Sr. Lightner.

- Deirdre tem condição de fazer com que ele desapareça e a deixe em paz?

- Claro que não. Mas ela consegue ignorá-lo. Ela consegue viver sua vida como se ele não existisse. Antha não conseguia. Stella não queria. Mas Deirdre é mais forte do que Antha, e mais forte do que Stella também. Deirdre tem nela muito de Mary Beth. É isso o que os outros muitas vezes não percebem... - Ele deu a impressão de estar de repente se flagrando no ato de dizer mais do que jamais havia pretendido dizer.

Ele me contemplou por algum tempo e depois, apanhando sua cigarreira e seu isqueiro, levantou-se lentamente.

- Não vá ainda - implorei.

- Mande-me sua história. Mande- me, e eu a lerei. Talvez depois possamos conversar novamente. Mas nunca mais se aproxime da minha sobrinha, Sr. Lightner. Quero que compreenda que eu faria qualquer coisa para protegê-la daqueles que pretendem explorá-la ou magoá-la. Absolutamente qualquer coisa!

Ele se virou para ir embora.

- E quanto à bebida? - perguntei, levantando-me, e indicando o bourbon. - Imagine se eu chamo a polícia e lhes forneço o drinque envenenado como prova?

- Sr. Lightner. Estamos em Nova Orleans! - Ele sorriu e piscou para mim, extremamente sedutor. - Agora, por favor, volte para sua torre de observação e para seu telescópio e nos observe de longe!

Fiquei olhando enquanto ele se afastava. Caminhava com elegância, a passos largos e relaxados. Olhou para trás de relance ao chegar à porta e me deu um aceno rápido e simpático.

Sentei-me, ignorando o bourbon envenenado, e escrevi um relato do caso todo no meu diário. Tirei, então, do bolso um pequeno frasco de aspirina, descartei os comprimidos e derramei um pouco do drinque nele. Tampei o frasco e o guardei.

Eu estava a ponto de pegar meu diário e minha caneta e me dirigir para a escada quando ergui os olhos e vi o carregador parado no saguão logo depois da porta. Ele se apresentou.

- Suas malas estão prontas, Sr. Lightner. Seu carro está esperando. - Um rosto simpático, agradável. Ninguém lhe havia dito que ele estava pessoalmente me expulsando da cidade.

-Verdade? Bem, e você arrumou tudo? - Olhei para as duas malas. É claro que meu diário estava comigo. Passei para o saguão. Pude ver uma velha limusine negra parando na estreita rua do French Quarter como uma rolha gigantesca.

- Sim, senhor. O Sr. Cortland me disse para eu me certificar de que o senhor não perdesse o vôo das dez para Nova York. Disse que alguém estaria esperando pelo senhor no aeroporto com a passagem. O senhor deve ter tempo suficiente.

- Quanta consideração! - Procurei umas notas no meu bolso, mas o rapaz as recusou.

- O Sr. Cortland já cuidou de tudo, senhor. É melhor se apressar. Não vai querer perder seu avião.

- E verdade. Mas eu tenho uma superstição com carros grandes e pretos. Arranje um táxi para mim e por favor aceite isso pelo trabalho.

O táxi me levou não ao aeroporto, mas à estação ferroviária. Consegui um leito para St. Louis e de lá viajei para Nova York. Quando falei com Scott, ele foi irredutível. Esses dados exigiam uma reavaliação. Não faça mais nenhuma pesquisa em Nova York. Volte para casa.

No meio da travessia do Atlântico, senti-me mal. Quando cheguei a Londres, já estava com febre alta. Uma ambulância me aguardava para me levar a um hospital, e Scott estava lá para me fazer companhia. Eu perdi e recobrei a consciência diversas vezes.

- Procurem algum veneno - disse eu.

Essas foram minhas últimas palavras durante oito horas. Quando finalmente acordei, ainda estava febril e me sentindo mal, mas bastante tranqüilizado por estar vivo e por ver Scott e mais dois bons amigos no quarto.

-Você foi mesmo envenenado, mas o pior já passou. Consegue se lembrar da última coisa que bebeu antes de entrar no avião?

- Aquela mulher...

- Fale.

- Eu estava no bar no aeroporto de Nova York e estava tomando um scotch com soda. Ela vinha cambaleando sozinha com uma bolsa enorme e me pediu que fosse buscar um carregador para ela. Ela tossia como se estivesse com tuberculose. Uma criatura de aparência pouquíssimo saudável. Sentou-se à minha mesa enquanto eu ia buscar o carregador. Provavelmente alguém contratado ali nas ruas.

- Ela colocou no seu copo um veneno chamado ricina, que é extraído da mamona. É poderosíssimo e extremamente comum. O mesmo que Cortland pôs no seu bourbon. O perigo

já passou, mas você ainda vai se sentir mal por uns dois dias.

- Meu Deus. - As cólicas voltavam a me atacar o estômago.

- Eles nunca vão querer conversar conosco, Aaron - disse Scott. - Como poderiam conversar? Eles matam as pessoas. Está encerrado. Pelo menos, por enquanto.

- Eles sempre mataram as pessoas, Scott - disse eu, ainda fraco. - Mas Deirdre Mayfair não mata gente. Preciso do meu diário. - As cólicas se tornaram insuportáveis.

O médico veio e começou a me preparar para uma injeção, que eu recusei.

- Aaron, ele é o chefe da toxicologia aqui. Tem uma reputação impecável. Já verificamos as enfermeiras. Nosso pessoal está aqui no quarto.

Só no final da semana, pude voltar para a casa-matriz. Eu mal conseguia me forçar a me nutrir. Estava convicto de que toda a casa-matriz logo seria envenenada. O que impediria aquela gente de contratar alguém que contaminasse nossos alimentos com toxinas comuns. A comida podia estar envenenada antes mesmo de chegar à nossa cozinha.

E, embora nada de semelhante acontecesse, demorou um ano para que eu me visse livre desse tipo de pensamento, tão abalado fiquei com o ocorrido.

Durante aquele ano, uma grande quantidade de notícias espantosas nos chegou de Nova Orleans...

Enquanto eu convalescia, repassei toda a história da família Mayfair. Revisei uma parte dela, acrescentando o depoimento de Richard Llewellyn e o de algumas outras pessoas que eu havia entrevistado antes de ir ao Texas para ver Deirdre. Concluí que Cortland havia acabado com a vida de Stuart Townsend e provavelmente com a de Cornell. Tudo fazia sentido. No entanto, restavam tantos mistérios. O que Cortland estaria protegendo ao cometer esses crimes? E por que ele vivia em constante confronto com Carlotta?

Nesse meio-tempo, recebemos notícias de Carlotta: uma verdadeira enxurrada de cartas ameaçadoras do seu escritório de advocacia para o nosso em Londres, exigindo que "cessemos e abandonemos" nossa "invasão" da sua privacidade, que "revelemos" toda e qualquer informação obtida sobre ela e sobre sua família, "que nos mantenhamos a uma distância de cem metros de qualquer pessoa da sua família, ou de qualquer propriedade da mesma, e que não façamos nenhuma tentativa de entrar em contato, por qualquer meio ou forma, com Deirdre Mayfair", e assim por diante, ad nauseam, sendo que nenhuma dessas ameaças ou exigências tinha o menor valor legal.

Nossos representantes legais receberam instruções no sentido de não dar nenhuma resposta. Debatemos, porém, a questão com o conselho reunido. Mais uma vez, havíamos tentado entrar em contato e havíamos sido repelidos. Continuaríamos a investigar, e para essa finalidade eu poderia receber plenos poderes, mas ninguém iria se aproximar da família no futuro previsível.

- Se é que algum dia isso poderá ocorrer - acrescentou Reynolds com grande ênfase. Não discuti. Eu ainda não conseguia beber um copo de leite sem me perguntar se ele ia causar minha morte. E não conseguia tirar da cabeça a lembrança do sorriso artificial de Cortland.

Dobrei a quantidade de detetives em Nova Orleans e no Texas, mas também avisei a essas pessoas pessoalmente por telefone que os alvos da sua observação eram hostis e potencialmente muito perigosos. Dei a cada um dos investigadores toda oportunidade de recusar a missão.

Acabou que não perdi nenhum investigador; mas alguns elevaram seu preço.

Quanto a Juliette Milton, nossa espiã infiltrada na sociedade, nós a aposentamos com uma pensão informal, apesar dos seus protestos. Fizemos tudo o que podíamos para que percebesse que certos membros dessa família eram capazes de violência.

Relutante, ela parou de nos escrever, implorando em sua carta de 10 de dezembro de 1958 para saber no que havia errado. No entanto, ainda teríamos notícias suas algumas vezes, ao longo dos anos. Ela está viva, em 1989, numa caríssima pensão para idosos em Mobile, Alabama.

 

CONTINUA A HISTORIA DE DEIRDRE

Meus investigadores no Texas eram três detetives altamente profissionais, dois dos quais haviam trabalhado para o governo dos Estados Unidos. Todos os três foram alertados para nunca perturbar ou assustar Deirdre com o que estávamos fazendo de nenhuma forma.

- Eu me importo muito com a felicidade dessa moça e com sua paz de espírito.

Compreendam, porém, que ela tem o poder da telepatia. Se vocês chegarem a quinze metros dela, é provável que ela saiba que está sendo vigiada. Por favor, tomem cuidado. Quer tenham acreditado em mim, quer não, eles seguiram minhas instruções. Mantiveram-se a uma distância segura, colhendo informações a seu respeito através de funcionários da faculdade e dos comentários das alunas; de senhoras que cuidavam da recepção no dormitório e de professores que falavam abertamente sobre ela enquanto tomavam café. Se Deirdre algum dia soube que estava sendo vigiada, nós nunca descobrimos. No semestre do outono, Deirdre se saiu bem na Texas Woman's University. Tirou notas excelentes. As colegas gostavam dela. Os professores gostavam dela. A cada seis semanas ela saía do dormitório para jantar com sua prima Rhonda Mayfair e o marido, o professor Ellis Clement, que na época lhe ensinava inglês. Há também um registro de um encontro no dia 10 de dezembro com um rapaz chamado Joey Dawson, mas ele só durou uma hora se formos acreditar no livro de registro.

O mesmo livro indica que Cortland visitava Deirdre com freqüência, muitas vezes se responsabilizando por levá-la numa sexta-feira ou sábado para uma noite em Dallas, da qual ela voltava antes de uma da manhã, última hora para registro de entrada. Sabemos que Deirdre foi passar o Natal em Metairie na casa de Cortland, e os mexericos em família davam conta de que ela se recusou a ver Carlotta quando esta veio fazer uma visita.

Os comentários nos meios jurídicos dão sustentação à idéia de que Cortland e Carlotta ainda não se falavam. Carlotta não respondia às ligações rotineiras de Cortland.

Cartas cáusticas eram trocadas entre os dois acerca das mínimas questões financeiras que envolvessem Deirdre.

- Ele está tentando obter o controle completo para o próprio bem da moça - disse uma secretária a uma amiga. - Mas a velha não quer aceitar. Ela está ameaçando levá-lo aos tribunais.

Quaisquer que tenham sido os detalhes dessa disputa, sabemos que o estado de Deirdre começou a se deteriorar durante o semestre da primavera. Começou a faltar às aulas. Companheiras de dormitório diziam que ela às vezes chorava a noite inteira, mas não atendia quando elas batiam à sua porta. Numa noite, ela foi recolhida pelos seguranças do campus num pequeno parque do centro da cidade, aparentando estar confusa quanto ao lugar onde estava.

Finalmente, ela foi chamada à reitoria para alguma punição disciplinar. Estava com um excesso de faltas. Foi colocada na lista de comparecimento obrigatório, e, apesar de conseguir aparecer na sala de aula, os professores diziam que estava dispersiva e talvez doente.

Em abril, então, Deirdre começou a ter náuseas todas as manhãs. As outras alunas do corredor ouviam seu sofrimento com os enjôos no banheiro comunitário. Foram falar com a encarregada do dormitório.

- Ninguém queria delatar Deirdre. Nós estávamos com medo. E se ela tentasse se machucar?

Quando a encarregada afinal sugeriu que ela pudesse estar grávida, Deirdre caiu a soluçar e teve de ser hospitalizada até Cortland poder vir buscá-la, o que ele fez no dia 12 de maio.

O que aconteceu depois permaneceu um mistério até os nossos dias. Os registros do novo Hospital da Misericórdia em Nova Orleans indicam que Deirdre foi provavelmente levada para lá assim que chegou do Texas, e que teria ficado num quarto particular. Comentários entre as velhas freiras, muitas das quais eram professoras aposentadas da escola de Santo Afonso e se lembravam de Deirdre, confirmaram rapidamente que foi o médico de Carlotta, o Dr. Gallagher, quem visitou Deirdre e declarou que ela ia mesmo ter um filho.

- Agora, essa moça vai se casar - disse ele às irmãs. - Não quero que digam nenhuma maldade. O pai é um professor universitário de Denton, Texas, e ele está agora vindo para Nova Orleans.

Quando Deirdre foi levada de ambulância para a casa de First Street três semanas mais tarde, fortemente sedada e com urna enfermeira formada para assisti-Ia, já cobriam toda a paróquia redentorista os comentários de que ela estava grávida, que logo ia se casar, e que o marido, o professor universitário, era um "homem casado".

Um perfeito escândalo para aqueles que vinham observando a família há gerações. As velhinhas cochichavam nos degraus da igreja. Deirdre Mayfair e um homem casado! As pessoas lançavam olhares furtivos a Miss Millie e Miss Belle quando elas passavam. Alguns diziam que Carlotta não queria saber da história. E então Miss Belle e Miss Millie levaram Deirdre até Gus Mayer e ali compraram para ela um lindo vestido azul, com sapatos azuis de cetim para o casamento, e uma bolsa e chapéu brancos.

- Ela estava tão dopada que acho que nem sabia onde estava - disse uma das vendedoras. - Miss Millie escolheu tudo para ela. Ela só ficou ali sentada, branca como um fantasma, dizendo, "Está bem, tia Millie", com a voz enrolada.

Juliette Milton não pôde deixar de nos escrever. Recebemos uma longa carta sua contando em detalhes que Beatrice Mayfair foi a First Street para ver Deirdre e lhe levou uma bolsa de compras cheia de. presentes.

"Por que cargas d'água ela foi voltar logo para aquela casa, em vez de ir para a de Cortland?", escreveu Juliette.

Existem algumas indicações de que Deirdre não teve muita escolha nesse caso. A medicina naquela época acreditava que a placenta protegia o bebê dos medicamentos administrados à mãe. E algumas enfermeiras disseram que Deirdre estava tão dopada ao sair do hospital que nem mesmo sabia o que estava acontecendo. Carlotta chegou no início da tarde, num dia de semana, e conseguiu sua alta.

- Pois não é que Cortland Mayfair veio procurar por ela naquela mesma noite? - Confidenciou-me a irmã Bridget Marie. - E ele não ficou como um louco ao descobrir que a menina não estava mais lá!

O disse-me-disse nos meios jurídicos aprofundavam o mistério. Cortland e Carlotta estariam berrando um com o outro ao telefone a portas fechadas. Cortland disse enfurecido à sua secretária que Carlotta achava que podia impedi-lo de entrar na casa em que ele havia nascido. Bem, ela estava fora de si, se acreditava que podia fazer isso!

- Diziam que simplesmente trancaram a casa para meu avô - comentou Ryan Mayfair anos mais tarde. - Ele foi até First Street, e Carlotta veio se encontrar com ele no portão, com ameaças. "Você entre aqui, e eu chamo a polícia", disse ela.

No primeiro dia de julho, mais uma torrente de informações agitou as mexeriqueiras da paróquia. O futuro marido de Deirdre, o "professor universitário" que estava deixando a mulher para se casar com ela, havia morrido quando vinha para Nova Orleans na estrada ribeirinha. A barra de direção do seu carro quebrou, e o carro saiu desgovernado para a direita em alta velocidade, bateu num carvalho e explodiu em chamas imediatamente. Deirdre Mayfair, solteira e ainda antes de completar os dezoito anos, ia entregar o bebê. Seria uma adoção dentro da família, e Miss Carlotta estava organizando tudo.

- Meu avô ficou indignado quando ouviu falar na adoção - disse Ryan Mayfair muitos anos mais tarde. - Ele quis conversar com Deirdre, ouvir dos seus próprios lábios que ela queria renunciar a essa criança. Mas ele ainda não conseguia entrar na casa de First Street. Afinal, ele procurou o padre Lafferty, o vigário, mas ele havia sofrido a influência de Carlotta. Estava totalmente a favor dela.

Tudo isso parece extremamente trágico. Parece que Deirdre quase teria escapado da maldição de First Street se ao menos o pai da criança, que vinha de carro do Texas para se casar com ela, não houvesse morrido. Durante anos, essa história triste e escandalosa foi repetida exaustivamente na paróquia redentorista. Mesmo em 1988, ela me foi recontada por Rita Mae Lonigan. Tudo indica que o padre Lafferty acreditava na história do pai texano da criança. E inúmeros relatos dão conta de que os parentes também acreditavam. Beatrice Mayfair acreditava. Pierce Mayfair, também.

Até mesmo Rhonda Mayfair e seu marido Ellis Clement, em Denton, Texas, pareceram acreditar nela, ou pelo menos na vaga versão que acabou chegando a eles. Mas a história não era verdadeira.

Praticamente desde o início, nossos investigadores abanaram a cabeça, perplexos. Professor universitário com Deirdre Mayfair? Quem poderia ser? A vigilância constante eliminava totalmente a possibilidade de se tratar do marido de Rhonda Mayfair, Ellis Clement. Esse mal conhecia Deirdre.

Na realidade, não havia nenhum homem semelhante em Denton, Texas, que se encontrasse com Deirdre Mayfair, ou que jamais houvesse sido visto na sua companhia por quem quer que fosse. Também não houve nenhum professor daquela universidade ou de qualquer outra instituição de ensino superior das vizinhanças que houvesse morrido num acidente de carro na estrada ribeirinha em 1959. Na verdade, ninguém morreu em acidente semelhante na estrada ribeirinha durante o ano de 1959. Haveria por trás dessa invencionice uma história ainda mais escandalosa e mais trágica? Demoramos para montar o quebra-cabeça. De fato, na ocasião em que soubemos do acidente automobilístico na estrada ribeirinha, a adoção do bebê de Deirdre já estava sendo providenciada. Quando soubemos que não havia ocorrido nenhum acidente na estrada, a adoção já era um fait accompli.

Registros oficiais indicam que em algum ponto do mês de agosto, Ellie Mayfair voou até Nova Orleans para assinar os documentos da adoção no escritório de Carlotta, embora ninguém da família parecesse ter conhecimento da presença de Ellie na cidade na época.

Graham Franklin, marido de Ellie, contou anos depois a um sócio que a adoção havia sido uma terrível embrulhada.

- Minha mulher teve de parar de falar com o avô de uma hora para a outra. Ele não queria que adotássemos Rowan. Felizmente o velho filho da mãe morreu antes mesmo de a criança nascer.

O padre Lafferty disse à sua irmã idosa no Irish Channel que aquela história toda era um pesadelo, mas que Ellie Mayfair era boa pessoa e levaria a criança para a Califórnia, onde ela teria uma oportunidade de uma nova vida. Todos os netos de Cortland aprovaram a decisão. Era só Cortland que insistia.

-Aquela menina não pode ficar com a criança. Ela é maluca - dizia o velho padre. Sentado à mesa da cozinha da irmã, ele comia feijão claro com arroz e bebia seu pequeno copo de cerveja. - Estou falando sério. Ela é maluca. Simplesmente tem de ser assim.

- Não vai funcionar - disse a velha mais tarde a um representante nosso. -Não se pode fugir de uma maldição de família com uma mudança para longe.

Miss Millie e Miss Belle compraram lindas camisolas eliseuses para Deirdre na loja Gus Mayer. As vendedoras perguntavam pela "pobre Deirdre".

- Ah, ela está se esforçando ao máximo - disse Miss Millie. - Foi uma coisa terrível, terrível. - Já Miss Belle contou a uma mulher na capela que Deirdre estava tendo "aquelas crises de novo".

- Metade do tempo ela nem sabe onde está! - resmungou Nancy, que estava varrendo a calçada quando uma das senhoras do Garden District passou pelo portão.

O que aconteceu mesmo nos bastidores durante todos esses meses em First Street? Pressionamos nossos investigadores para que descobrissem tudo o que pudessem. Somente uma pessoa que saibamos viu Deirdre durante os últimos meses da sua gravidez, que passou em isolamento, mas só entrevistamos essa pessoa em 1988.

Naquela época, o médico que a atendia ia e vinha em silêncio. Da mesma forma que a enfermeira que a acompanhava oito horas por dia.

O padre Lafferty disse que Deirdre estava resignada à idéia da adoção. Beatrice Mayfair foi informada de que não poderia ver Deirdre quando veio lhe fazer uma visita, mas tomou um copo de vinho com Millie Dear, que declarou que tudo aquilo era de partir o coração.

No entanto, no dia 1° de outubro, Cortland já estava desesperado de preocupação com a história. Suas secretárias relatam que ele fez diversas ligações para Carlotta, que tomou um táxi até First Street e que foi mandado embora repetidas vezes. Afinal, na tarde do dia 20 de outubro, ele disse à secretária que entraria naquela casa e veria sua sobrinha mesmo que tivesse de demolir a porta.

Às cinco da tarde, uma vizinha se deparou com Cortland sentado na sarjeta na esquina de First e Chestnut. Suas roupas estavam em desalinho e escorria sangue de um corte na sua cabeça.

- Chame uma ambulância - disse ele. - Ele me empurrou escada abaixo!

Embora a vizinha ficasse sentada com ele até a chegada da ambulância, ele não quis dizer mais nada. Foi levado às pressas de First Street para um ambulatório próximo. O interno de plantão verificou rapidamente que Cortland estava coberto de contusões graves, que seu pulso estava quebrado e que sangrava pela boca.

- Esse homem sofreu ferimentos internos - disse ele, pedindo ajuda imediata.

Cortland segurou então a mão desse interno, pediu- lhe que prestasse atenção, que era muito importante que ele ajudasse Deirdre Mayfair, que estava sendo mantida em cativeiro na sua própria casa.

- Vão levar embora seu bebê contra a sua vontade. Ajude-a! - disse Cortland, e então morreu.

Uma autópsia superficial indicou grande hemorragia interna e golpes fortes na cabeça.

Quando o interno insistiu em algum tipo de investigação policial, os filhos de Cortland o silenciaram imediatamente. Eles haviam conversado com sua prima Carlotta Mayfair. Seu pai caiu escada abaixo e recusou assistência médica, deixando a casa sozinho. Carlotta nunca imaginou que seus ferimentos fossem tão graves. Ela não sabia que ele ficou sentado na sarjeta. Ela estava fora de si de tristeza.

A vizinha devia ter tocado a campainha.

No enterro de Cortland, uma enorme cerimônia em Metairie, a família ouviu a mesma história. Enquanto Miss Belle e Miss Millie ficavam sentadas em silêncio em segundo plano, Pierce, filho de Cortland, dizia a todos que Cortland estava confuso quando fez uma declaração vaga à vizinha sobre o fato de um homem tê-lo empurrado escada abaixo. Na realidade, não havia em First Street nenhum homem que pudesse ter feito uma coisa dessas. A própria Carlotta o viu cair. Da mesma forma que Nancy, que se apressou para tentar segurá-lo, mas não conseguiu.

Quanto à adoção, Pierce apoiava a idéia com firmeza. Sua sobrinha Ellie proporcionaria ao bebê o ambiente exato para que o bebê tivesse as melhores oportunidades. Era trágico que Cortland tivesse se oposto à adoção, mas Cortland estava com oitenta anos. Seu discernimento já estava prejudicado há algum tempo.

A cerimônia prosseguiu, majestosa e sem incidentes, embora o agente funerário anos mais tarde se lembrasse de que alguns primos, homens de mais idade, em pé nos fundos do salão durante o "pequeno discurso" de Pierce, houvessem feito piadas amargas e sarcásticas entre si.

- Claro, naquela casa não tem nenhum homem - disse um deles.

- Não, de jeito nenhum. Nenhum homem. Só aquelas velhinhas simpáticas.

- Eu nunca vi homem nenhum lá, você viu? - E assim continuavam.

- Não, nenhum homem na casa de First Street. Não, senhor!

Quando os primos vinham fazer uma visita a Deirdre, ouviam mais ou menos a mesma história que Pierce contou na cerimônia fúnebre. Deirdre estava muito mal para vê-los. Ela nem quis ver Cortland naquele dia, de tão mal que estava. E ela não sabia, nem podia saber, que Cortland havia morrido.

- E olhe para essa escada escura - disse Millie Dear a Beatrice. - Cortland deveria ter usado o elevador. Mas ele nunca usava o elevador. Se ao menos o tivesse usado, não teria sofrido uma queda daquelas.

As lendas da família hoje em dia indicam que todos estavam de acordo quanto à adoção ser a melhor escolha. Cortland deveria ter ficado de fora.

- A coitada da Deirdre - disse Ryan, neto de Cortland - era tão talhada para ser mãe quanto a Louca de Chaillot. Mas acho que meu avô se sentia responsável. Ele havia levado Deirdre para o Texas. Acho que ele se culpava. Ele queria ter certeza de que ela queria mesmo entregar o bebê. Mas talvez o que Deirdre queria não tivesse importância.

Nessa época, eu temia cada notícia que chegava da Louisiana. Eu ficava deitado na cama à noite na casa-matriz pensando sem parar em Deirdre, perguntando a mim mesmo se não haveria alguma forma de descobrir o que ela queria ou sentia realmente. Scott Reynolds estava mais inflexível do que nunca na sua determinação de que não interferíssemos mais. Deirdre sabia como entrar em contato conosco. Cortland também. E Carlotta Mayfair também, se é que isso valia alguma coisa. Não havia nada mais que se pudesse fazer.

Somente em janeiro de 1988, quase trinta anos mais tarde, eu vim a saber numa entrevista com Rita Mae Dwyer Lonigan, uma ex-colega de escola de Deirdre, que Deirdre tentou desesperadamente entrar em contato comigo e não conseguiu.

Em 1959, Rita Mae acabava de se casar com Jerry Lonigan, da casa funerária Lonigan and Sons. Quando ela soube que Deirdre estava em casa, grávida, e que já havia perdido o pai do bebê, Rita Mae reuniu a coragem que tinha e foi fazer uma visita. Como aconteceu com tantos outros, ela não passou da porta, mas não antes de ver Deirdre no alto da escada. Deirdre gritou em desespero para Rita Mae.

- Rita Mae, eles vão levar meu bebê! Rita Mae, me ajude. - Enquanto Miss Nancy procurava forçar Deirdre a voltar para o segundo andar, Deirdre jogou um pequeno cartão branco para Rita Mae. - Entre em contato com esse homem. Faça com que ele me ajude. Diga- lhe que vão levar embora meu bebê.

Carlotta Mayfair atacou Rita Mae fisicamente e tentou arrancar o cartão dela, mas Rita, mesmo tendo os cabelos puxados e o rosto arranhado, não o soltou enquanto saía correndo pelo portão em meio a uma chuva de folhas.

Ao chegar em casa, descobriu que o cartão estava praticamente ilegível. Carlotta havia rasgado uma parte dele; e Rita inadvertidamente o prendeu na palma úmida da sua mão. Apenas se discerniam a palavra Talamasca e meu nome, escrito à mão no verso.

Só em 1988, quando conheci Rita Mae no enterro de Nancy Mayfair, e lhe dei um cartão idêntico ao destruído em 1959, foi que ela reconheceu os nomes e me chamou no hotel para relatar o que se lembrava daquele dia remoto.

Foi doloroso para este pesquisador saber do vão apelo de Deirdre por ajuda. Foi doloroso recordar aquelas noites trinta anos antes quando eu ficava deitado na cama em Londres pensando que não podia ajudá-la mas que deveria tentar. Mas como ousaria fazê-lo? E como seria possível ter sucesso?

O fato é que eu provavelmente não conseguiria fazer nada por Deirdre, por mais que tivesse me esforçado. Se Cortland não conseguiu impedir a adoção, é razoável supor que eu também não teria conseguido impedi-la. No entanto, nos meus sonhos eu me vejo tirando Deirdre da casa de First Street para levá-la para Londres. Vejo-a hoje uma mulher normal, saudável.

A realidade é completamente diferente.

No dia 7 de novembro de 1959, Deirdre deu à luz, às cinco da manhã, Rowan Mayfair, uma menina loura, saudável, de quatro quilos e duzentos gramas. Horas mais tarde, ao acordar da anestesia geral, Deirdre se descobriu cercada por Ellie Mayfair, pelo padre Lafferty, Carlotta Mayfair e duas das irmãs da Misericórdia, que mais tarde descreveram a cena em detalhe à irmã Bridget Marie.

O padre Lafferty segurava o bebê nos braços. Explicou que acabava de batizá-la na capela do hospital da Misericórdia, com o nome de Rowan Mayfair. Ele mostrou a Deirdre a certidão de batismo assinada.

- Agora, Deirdre, dê um beijo na sua filhinha - disse o padre Lafferty - e a entregue a Ellie. Ellie está pronta para partir.

Os mexericos na paróquia dão conta de que Deirdre obedeceu. Ela havia insistido para que a criança tivesse o sobrenome Mayfair e, uma vez cumprida essa condição, ela liberou a criança. Chorando tanto que mal conseguia enxergar, ela beijou o neném e deixou que Ellie Mayfair o tirasse dos seus braços. Depois, enfiou a cabeça no travesseiro, soluçando.

- Melhor deixá-la em paz - disse o padre Lafferty.

Mais de uma década depois, a irmã Bridget Marie explicou o significado do nome de Rowan.

-Carlotta foi madrinha da criança. Creio que chamaram algum médico da enfermaria para ser o padrinho, tão decididos estavam a batizá-la logo. E Carlotta disse ao padre Lafferty que o nome da criança seria Rowan, ao que ele lhe respondeu que aquele não era um nome de santa. Que lhe parecia mais um nome pagão.

- E ela retrucou ao seu modo, sabe do jeito que ela era, "Padre, o senhor não sabe que Rowan é o nome de uma árvore que era usada para afastar as bruxas e o mal de qualquer natureza? Não há uma choupana na Irlanda em que a dona da casa não ponha um galho dessa árvore por cima da porta para proteger a família de bruxas e de bruxarias, e isso sempre ocorreu durante toda a era cristã. Rowan será o nome da menina!" E Ellie Mayfair, indecisa que só ela, simplesmente concordou com um gesto de cabeça.

- Isso era verdade? - perguntei. - Costumavam por um galho dessa árvore acima da porta na Irlanda?

A irmã Bridget Marie fez que sim com a cabeça, com seriedade.

- E grande coisa adiantava!

Quem foi o pai de Rowan Mayfair?

Exame s de rotina para determinar o tipo sangüíneo indicam que o tipo de sangue do bebê combinava com o de Cortland Mayfair, que havia morrido menos de um mês antes. Permitam-nos repetir aqui que Cortland também pode ter sido pai de Stella Mayfair, e que informações recentes obtidas no Bellevue Hospital afinal confirmam que Antha Mayfair também podia ter sido sua filha.

Deirdre "enlouqueceu" antes mesmo de deixar o Hospital da Misericórdia depois do nascimento de Rowan. As freiras diziam que ela chorava o tempo todo e depois berrava sozinha no quarto, "Você o matou!" Um dia ela entrou por acaso na capela do hospital durante a missa, gritando novamente, "Você o matou. Você me deixou sozinha com meus inimigos. Você me traiu!" Ela teve de ser retirada à força, sendo rapidamente internada no Sanatório de Santa Ana, onde ficou catatônica antes de terminar o mês.

- Era o amante invisível - acredita a irmã Bridget Marie até hoje. - Ela gritava com ele e o amaldiçoava. Sabe por quê? Porque ele matou seu professor. Ele o matou porque a queria só para si. O amante demoníaco, é isso o que ele era, bem aqui na cidade de Nova Orleans. Passeando pelas ruas do Garden District à noite.

Um depoimento bonito e eloqüente, mas como é mais do que provável que o professor universitário nunca tenha existido, que outro significado podemos extrair das palavras de Deirdre? Teria sido Lasher quem empurrou Cortland escada abaixo ou que o assustou tanto que ele caiu? E em caso positivo, por quê?

No fundo, foi esse o fim da vida de Deirdre Mayfair. Durante dezessete anos ela foi encarcerada em várias instituições para tratamento mental, recebeu doses cavalares de medicamentos e séries impiedosas de eletrochoques, com apenas urna breve trégua quando voltava para casa, uma sombra da moça que havia sido. Afinal, em 1976, ela foi trazida de volta a First Street para sempre, uma inválida muda e de olhos assustados, num perpétuo estado de alerta, embora sem absolutamente nenhuma memória seqüencial.

A varanda lateral do térreo foi telada para ela. Durante anos, ela vem sendo levada até ali todos os dias, faça chuva ou faça sol, para ficar sentada imóvel numa cadeira de balanço, com o rosto ligeiramente voltado para a rua distante.

- Ela não consegue nem ter uma vaga lembrança de nada - declarou um médico.-Vive inteiramente no presente, de uma forma que simplesmente não Podemos imaginar. Seria possível se dizer que ali não existe mais o pensamento. -Trata-se de uma condição descrita em pessoas muito idosas que atingem esse mesmo estado na senilidade avançada e ficam sentadas, com os olhos parados, em hospitais geriátricos do mundo inteiro. Mesmo assim, drogas pesadas lhes são administradas para prevenir crises de "agitação", ou pelo menos foi o que disseram a vários médicos e enfermeiras. -

Como Deirdre Mayfair se tornou essa "imbecil apalermada", como as fofoqueiras do Irish Channel costumam chamá-la, esse "belo vegetal" sentado na sua cadeira? Os tratamentos com choques sem dúvida contribuíram para essa situação, séries e mais séries deles, aplicados por todos os hospitais em que ficou internada desde 1959.

Além disso, as drogas, doses maciças de tranqüilizantes fortíssimos, administrados em combinações espantosas, ou pelo menos é o que revelam os registros, à medida que continuamos a conseguir acesso a eles.

Como justificar tais tratamentos? Deirdre Mayfair deixou de falar com coerência já em 1962. Quando não estava sob o efeito de tranqüilizantes, ela gritava ou chorava sem cessar. De vez em quando, quebrava objetos. As vezes, ficava simplesmente deitada, revirando os olhos e uivando.

Com o passar dos anos, nós continuamos a recolher informações sobre Deirdre Mayfair. Praticamente todos os meses conseguimos "entrevistar" algum médico ou enfermeira, ou alguma outra pessoa que tenha estado na casa de First Street. No entanto, nossa compilação do que realmente aconteceu permanece incompleta. Naturalmente, os arquivos dos hospitais são de natureza confidencial e extremamente difíceis de serem obtidos. No entanto, em pelo menos dois dos sanatórios em que Deirdre foi tratada, nós agora sabemos não existir nenhum registro do seu tratamento.

A um desconhecido que lhe perguntou, um dos médicos admitiu claramente e de espontânea vontade ter destruído as fichas do caso de Deirdre. Um outro médico se aposentou pouco depois de tratar de Deirdre, deixando apenas algumas notas enigmáticas numa ficha sucinta. "Incurável. Trágico. Tia exige medicação permanente, mas descrição do comportamento pela tia não confiável."

Por motivos óbvios, continuamos a depender de relatos informais para nossa avaliação da história de Deirdre.

Apesar de Deirdre ter vivido num crepúsculo induzido por drogas toda a sua vida adulta, inúmeras vezes aqueles que a cercavam viram um "misterioso homem de cabelos castanhos". As enfermeiras no sanatório de Santa Ana alegavam ter visto "algum homem entrando no quarto dela! Agora, eu sei que vi". Num hospital do Texas, em que ela esteve confinada por pouco tempo, um médico alegou ter visto "um visitante misterioso" que sempre "parecia desaparecer de alguma forma quando eu pretendia lhe perguntar quem ele era".

Pelo menos uma enfermeira num sanatório no norte da Louisiana insistiu com seus superiores que havia visto um fantasma. Serventes negros nos diversos hospitais viam "aquele homem o tempo todo".

- Aquele não é humano. Percebi assim que o vi. Eu vejo espíritos. Eu chamo espíritos. Eu conheço aquele. Ele me conhece e não chega perto de mim.

A maioria dos operários não consegue trabalhar hoje na casa de First Street do mesmo jeito que não conseguia no tempo em que Deirdre era menina. São as mesmas velhas histórias. Ouviu-se até a conversa de que há "um homem por ali" que não quer que se façam consertos.

Apesar disso, alguns consertos foram feitos. Foi instalado ar condicionado em alguns quartos e foi realizada alguma reforma da instalação elétrica, sendo essas tarefas cumpridas quase invariavelmente sob a supervisão constante de Carlotta Mayfair.

O velho jardineiro ainda trabalha e de vez em quando pinta a cerca enferrujada. Não fosse por isso, a casa de First Street cochila à sombra dos carvalhos. Os sapos coaxam à noite em volta da piscina de Stella, com seus nenúfares e íris silvestres. O balanço de madeira de Deirdre já há muito caiu do carvalho nos fundos da propriedade. O assento de madeira, apenas um pedaço de tábua, está jogado no capim alto, desbotado e empenado.

Muita gente que pára para olhar Deirdre sentada na cadeira de balanço na varanda lateral chega a vislumbrar "um primo elegante" fazendo uma visita. Algumas enfermeiras largaram o serviço por causa "daquele homem que entra e sai como se fosse um fantasma", porque não paravam de ver alguma coisa com o canto dos olhos ou porque lhes parecia que estavam sendo vigiadas.

- Tem algum tipo de fantasma em volta dela - disse uma auxiliar de enfermagem que declarou à agencia que nunca mais voltaria àquela casa. - Eu o vi uma vez, em plena luz do dia. Foi a coisa mais apavorante que já vi. Quando, num almoço, perguntei a essa enfermeira sobre o fantasma, ela teve poucos detalhes a acrescentar.

- Só um homem. Um homem com cabelos castanhos, olhos castanhos, usando um paletó elegante e uma camisa branca. Deus do céu, nunca vi nada mais assustador na minha vida! Ele estava só ali parado ao sol ao lado dela, olhando para mim. Deixei cair a bandeja e gritei sem parar.

Muitos outros profissionais da saúde deixaram o serviço abruptamente. Um médico foi dispensado em 1976. Nós continuamos a procurar localizar essas pessoas, a tomar seu depoimento e a registrá-lo. Procuramos revelar o mínimo possível sobre os motivos que nos levam a querer saber o que eles viram e quando.

O que se conclui desses dados é uma possibilidade aterradora: a de que a mente de Deirdre tenha sido destruída a tal ponto que ela não consiga controlar sua evocação de Lasher. Ou seja, que no seu inconsciente ela lhe dê o poder de aparecer ao seu lado com um aspecto bem convincente; mas que ela não esteja consciente o bastante para controlá-lo a partir daí, ou para afastá-lo, se em algum nível não mais desejasse sua presença.

Em suma, ela é uma médium inconsciente; uma bruxa tornada inoperante e talvez à mercê do seu espírito, que está sempre por ali. Existe uma outra possibilidade: a de que Lasher esteja ali para consolá-la, para cuidar dela e para mantê-la feliz em termos que talvez não possamos compreender.

Em 1980, há mais de oito anos, pude obter uma peça de roupa de Deirdre, um quimono, ou qualquer peça larga, de algodão que havia sido jogado na lixeira nos fundos da casa. Levei essa peça comigo para a Inglaterra e a coloquei nas mãos de Lauren Grant, a pessoa de poder psicométrico mais forte na Ordem nos nossos dias. Lauren não conhecia nada sobre as Bruxas Mayfair, mas não se pode descartar a possibilidade de telepatia nesses casos. Procurei me afastar ao máximo em pensamento.

- Vejo felicidade - disse ela. - Essa roupa pertence a alguém de uma felicidade indescritível.

Ela vive em sonhos. Sonhos com jardins verdejantes, céus ao crepúsculo e pores-do-sol lindíssimos. Lá há galhos baixos de árvores. Há um balanço suspenso de uma bela árvore. Será uma criança? Não, é uma mulher. A brisa é agradável.

- Lauren amassou ainda mais a peça e apertou o tecido contra a pele do rosto. - É, e ela tem um lindo namorado. Que namorado! Parece um quadro: Steerforth, de David Copperfield, esse tipo de homem. Ele é tão delicado. E quando ele a toca, ela se entrega totalmente. Quem é essa mulher? Todo mundo gostaria de ser assim. Pelo menos por algum tempo.

Seria essa a vida subconsciente de Deirdre Mayfair? Ela própria nunca vai poder dizer. Para concluir, permitam-me acrescentar alguns detalhes. Desde 1976, Deirdre Mayfair, quer usando sua camisola de flanela branca, quer usando um quimono de algodão, sempre teve a esmeralda Mayfair ao pescoço. Desde 1976, eu próprio vi Deirdre algumas vezes a certa distância. Naquele ano, eu já havia feito três visitas a Nova Orleans para coleta de informações. Desde então, voltei muitas outras vezes.

Eu invariavelmente passo algum tempo caminhando pelo Garden District nessas visitas. Compareci aos enterros de Miss Belle, Miss Millie e Miss Nancy, bem como ao de Pierce, o último dos filhos de Cortland, que morreu do coração em 1984. Em todos os enterros, vi Carlotta Mayfair. Nossos olhares se cruzaram. Por três vezes nesta década pus meu cartão na sua mão ao passar por ela. Carlotta nunca entrou em contato comigo. Nunca mais fez ameaças por meios legais.

Ela está muito velha, de cabelos brancos e extremamente magra. Mesmo assim, ainda vai trabalhar todos os dias. Ela não consegue mais subir no estribo do bonde de St. Charles. Por isso, usa um táxi comum. Somente uma criada negra trabalha na casa normalmente, sem mencionar a dedicada enfermeira de Deirdre.

A cada visita, descubro alguma nova "testemunha" que pode me falar do "homem de cabelos castanhos" e dos mistérios que cercam a casa de First Street. As histórias são todas muito parecidas. Mas chegamos de fato ao fim da história de Deirdre, embora ela própria não tenha morrido.

É hora de examinar em detalhe sua única filha e herdeira, Rowan Mayfair, que nunca pôs os pés na sua cidade natal desde o dia em que foi levada dali, seis horas após seu nascimento, num avião a jato que atravessou o país.

E, embora seja cedo demais para tentar dar alguma forma coerente às informações que temos sobre Rowan, já fizemos algumas anotações de importância crucial a partir de materiais aleatórios, e são consideráveis os indícios de que Rowan Mayfair, que não conhece nada da sua família, da sua história ou da sua herança, pode ser a bruxa mais poderosa jamais gerada pela família Mayfair.

Era gostoso o ar condicionado depois do calor da rua. No entanto, enquanto parou um instante no vestíbulo da Lonigan and Sons, despercebida e portanto anônima, ela notou que o calor lhe havia causado um leve mal-estar. A corrente gelada de ar era agora um choque para ela. Ela sentiu aquele tipo de calafrio que se sente quando se tem febre. A enorme quantidade de gente que circulava lentamente a apenas alguns metros dali dava uma estranha impressão de pertencer a um sonho.

A princípio, quando ela saiu do hotel, a úmida tarde de verão lhe pareceu suportável. No entanto, quando passou pela casa escura na esquina de Chestnut e First, já sentia uma fraqueza e uma espécie de calafrio embora o próprio ar estivesse úmido, quente e denso, cheio do cheiro forte de terra e de plantas.

E, tudo isso parecia um sonho - essa sala agora, com suas paredes brancas adamascadas, seus pequenos lustres de cristal e aquelas pessoas ruidosas, bem-vestidas, em grupos que sempre se modificavam. Tudo parecia um sonho, como o universo sombreado daquelas casas antigas com cercas de ferro pelo qual ela acabava de passar. De onde estava, ela não conseguia ver o interior do caixão. Ele estava instalado junto à parede mais distante da segunda sala. À medida que a multidão barulhenta se movimentava lentamente aqui e ali, ela teve vislumbres da madeira muito bem lustrada, das alças prateadas e do cetim basteado na face interna da tampa aberta. Sentiu uma contração involuntária dos músculos do rosto. Dentro daquele caixão, pensou. Você precisa atravessar esta sala, depois a outra, e olhar. Ela sentia uma estranha rigidez no rosto. No corpo também. Basta que vá até o caixão. Não é assim que as pessoas fazem?

Ela via as pessoas agindo assim. Via que, um após o outro, eles se aproximavam do caixão e olhavam para a mulher ali dentro.

E mais cedo ou mais tarde, alguém iria perceber sua presença mesmo. Alguém talvez lhe perguntasse quem ela era. "Você me diga. Quem é toda essa gente? Será que eles sabem? Quem é Rowan Mayfair?"

Por enquanto, porém, ela estava invisível, a observar todos os outros: os homens nos seus ternos claros, as mulheres com vestidos bonitos, e tantas delas usando chapéu e até mesmo luvas. Havia anos que ela não via mulheres em vestidos coloridos com a cintura marcada e saias rodadas. Devia haver untas duzentas pessoas por ali, gente de todas as idades.

Ela viu velhos de carecas rosadas, de terno de linho branco e bengala; e meninos ligeiramente incomodados pelos colarinhos apertados e gravatas. As nucas dos velhos, como as dos meninos, pareciam igualmente nuas e vulneráveis. Havia até mesmo crianças pequenas brincando em volta dos adultos, bebês vestidos em renda branca quicando nos colos adultos, bebês um pouco maiores engatinhando no tapete vermelho-escuro.

E uma menina, talvez com seus doze anos, olhava fixamente para ela, com uma fita nos cabelos ruivos. Nunca em todos os seus anos na Califórnia ela havia visto uma menina daquela idade, ou, por sinal, uma criança de qualquer idade, com uma fita de verdade na cabeça. E essa aqui formava um grande laço de cetim cor-de-pêssego. Todos com a melhor roupa de domingo, pensou. Era assim que se dizia? E a conversa era quase festiva. Como um casamento, pareceu-lhe de repente, embora fosse preciso confessar que ela nunca havia comparecido a um casamento semelhante. Uma sala sem janelas, apesar de haver cortinas de damasco branco aqui e ali ocultando totalmente o que talvez pudesse ser uma janela.

A multidão se mexeu. Abriu-se um claro de tal modo que ela pôde ver o caixão quase inteiro. Um velhinho alquebrado num terno cinza deseersucker estava parado sozinho olhando para a morta. Com enorme esforço, ele se ajoelhou num estranho banquinho de veludo. Como é que era mesmo o nome que Ellie lhe havia dito. Quero um genuflexório junto ao meu caixão. Rowan nunca havia visto um terno de seersucker na sua vida. Mas ela sabia que era esse o tecido porque o havia visto no cinema, nos antigos filmes em preto e branco, em que os ventiladores giravam, o papagaio cacarejava no poleiro e Sidney Greenstreet dizia algo sinistro a Humphrey Bogart.

E a impressão era essa mesmo. Não o traço sinistro, apenas a localização no tempo. Ela havia voltado ao passado, a um mundo atualmente enterrado nas profundezas da Califórnia. E era por isso que ele lhe parecia reconfortante de uma forma tão inesperada, bem parecida com a daquele episódio de um seriado da televisão, o "Além da imaginação", em que um estressado homem de negócios salta do seu trem de luxo numa cidadezinha alegremente imobilizada no século XIX.

Nossos velórios em Nova Orleans eram do jeito que deve ser. Convide meus amigos. No entanto, a árida e desagradável cerimônia fúnebre de Ellie não havia sido em nada parecida com essa, com suas amigas magérrimas, bronzeadas, embaraçadas pela morte, sentadas cheias de indignação na borda das cadeiras dobráveis. Ela não queria que nós mandássemos flores, queria? "Acho que seria terrível se não houvesse flores..." A cruz de aço inoxidável, as palavras sem sentido, o homem que as pronunciava um perfeito desconhecido. Ah, e essas flores daqui! Para qualquer lugar que olhasse, ela as via: ramos imensos e deslumbrantes de rosas, lírios, palmas-de-santa-rita. Ela não sabia os nomes de algumas dessas flores. Grandes coroas apoiadas em suportes de ferro se aninhavam entre as pequenas cadeiras de pernas recurvas, por trás das cadeiras e amontoadas em grupos de cinco ou seis pelos cantos.

Salpicadas com cintilantes gotículas de água, elas estremeciam no ar gélido, cheias de fitas e laços brancos, e algumas dessas fitas traziam o nome Deirdre gravado em prateado. Deirdre.

De repente, ele estava para onde quer que olhasse. Deirdre, Deirdre, Deirdre, as fitas chorando em silêncio o nome de sua mãe, enquanto as senhoras de vestidos bonitos bebiam vinho branco em copos de pé, a menina com a fita no cabelo não tirava os olhos dela e uma freira, até mesmo uma freira, num vestido azul-escuro, com véu branco e meias pretas, estava sentada na borda de uma cadeira, apoiando-se numa bengala, com um homem cochichando algo no seu ouvido. Sua cabeça estava inclinada, seu pequeno nariz aquilino reluzia e algumas menininhas se reuniam à sua volta.

Estavam trazendo mais flores agora, pequenas árvores de arame exibindo rosas vermelhas e cor-de-rosa em meio a trêmulas samambaias. Um doce perfume pairava no recinto.

Agora Rowan compreendia. Era doce como o ar lá fora era quente e a brisa, úmida. Parecia que todas as cores à sua volta ficavam cada vez mais vibrantes.

No entanto, ela novamente sentia náuseas, e o perfume forte piorava a situação. O caixão estava longe. A multidão o encobria totalmente. Ela pensou mais uma vez na casa, a casa alta e sombria, na "esquina do lado do rio e do centro da cidade", como o recepcionista do hotel lhe havia descrito. Tinha de ser a casa que Michael não parava de ver. A menos que existissem milhares iguais a ela, milhares com um desenho de rosas no ferro da cerca e com a buganvília formando uma imensa cascata escura em contraste com a parede de um cinza desbotado. Ah, que casa mais linda!

A casa da minha mãe. A minha casa? Onde estava Michael? Houve uma súbita abertura na multidão, permitindo que ela mais uma vez visse a longa lateral do caixão. De onde ela estava, estaria vendo o perfil de uma mulher delineado no travesseiro de cetim? O caixão de Ellie não apareceu aberto. Graham não teve velório. Seus amigos se reuniram num bar no centro.

Você vai ter de ir até aquele caixão. Você vai ter de olhar ali dentro para vê-la. Foi para isso que veio. Foi por isso que quebrou sua promessa a Ellie e ignorou o documento no cofre: para ver com seus próprios olhos o rosto da sua mãe. Mas será que tudo isso está mesmo acontecendo ou estou só sonhando? Olhe para aquela menina com o braço nos ombros daquela velha. O vestido da menina tem uma faixa com um laço!

Ela está usando meias brancas. Se ao menos Michael estivesse aqui. Este era o mundo de Michael. Se Michael ao menos tirasse a luva e tocasse a mão da morta... Mas o que ele veria? Um embalsamador injetando nas suas veias o líquido para embalsamar? Ou o sangue escorrendo pelo ralo da mesa branca? Deirdre. Deirdre estava escrito em letras prateadas na fita branca suspensa na coroa de crisântemos. Deirdre, na fita sobre o enorme buquê de rosas cor-de-rosa...

Pois bem, o que você está esperando? Por que não se mexe? Ela recuou, encostando-se no batente da porta, a observar uma velha de cabelos de um amarelo pálido abrir os braços para três criancinhas. Uma após a outra, elas beijaram as bochechas flácidas da velha. Ela abaixou a cabeça. Seriam todas essas pessoas da família da minha mãe?

Ela visualizou novamente a casa, desprovida de detalhes, escura e de um tamanho fantástico. Ela entendia por que Michael adorava aquela casa, adorava aquele lugar.

E Michael não sabia que era a casa da sua mãe. Michael não sabia que tudo isso estava acontecendo. Michael havia desaparecido. E talvez tudo ficasse naquilo mesmo, só naquele fim de semana, e para sempre essa sensação de algo inacabado... Preciso voltar para casa. Não é só a história das visões; é também que este aqui não é mais meu lugar. Eu soube disso no dia em que fui olhar,o oceano...

Abriu-se a porta atrás dela. Ela saiu da frente em silêncio. Um casal mais velho passou por ela como se ela não estivesse ali: uma mulher imponente com um lindo cabelo cinza-chumbo preso para trás num coque, usando um impecável chemisier de seda, e um homem num terno branco amarfanhado, um homem de pescoço forte e voz suave, falando com a mulher.

- Beatrice! - Alguém a cumprimentou. Um belo rapaz veio beijar a mulher bonita com seu cabelo cinza-chumbo.

- Querida, entre - disse uma voz feminina. - Não, ninguém a viu. Ela deve chegar a qualquer instante. - Vozes como a de Michael, mas diferentes. Dois homens, numa conversa sussurrada enquanto bebiam seu vinho, vieram se colocar entre ela e o casal à medida que eles se dirigiam para o segundo salão. Abria-se mais uma vez a porta da frente. Uma lufada quente. O trânsito.

Ela conseguiu chegar ao canto dos fundos, e agora via o caixão com clareza, via que metade da tampa estava fechada cobrindo a parte inferior do corpo, e não soube dizer por que isso lhe pareceu grotesco. Havia um crucifixo na seda basteada acima da cabeça da mulher, não que ela estivesse vendo a cabeça, apenas sabia que estaria ali. Via somente uma pincelada de cor em contraste com o branco reluzente. Vamos, Rowan, vá até lá.

Aproxime-se do caixão. Será que isso era mais difícil do que entrar na sala de cirurgia? É claro que todos irão vê-Ia, mas não saberão quem você é. Voltou a contração, o retesamento dos músculos do rosto e da garganta. Ela não conseguia se mexer. E de repente alguém estava falando com ela, e ela sabia que devia virar a cabeça e responder, mas não o fez. A menina com a fita a observava. Por que ela não respondia, perguntou-se a menina.

-... Jerry Lonigan, posso lhe ser útil? A senhora não é a Dra. Mayfair, é?

Ela olhou para ele, apalermada. O homem corpulento, com o queixo forte e uns olhos lindos de um azul de porcelana. Não, eles eram mais como bolas de gude perfeitamente redondas e azuis.

- Dra. Mayfair?

Ela baixou os olhos até a mão do homem. Uma pata grande, pesada. Aperte a mão. Responda de algum jeito se não consegue abrir a boca. O retesamento no seu rosto piorou. Agora afetava seus olhos. O que está acontecendo? Seu corpo estava paralisado de medo enquanto seu pensamento estava em transe, nesse transe horrível. Ela fez um pequeno gesto com a cabeça na direção do caixão distante. Eu quero... mas as palavras não queriam sair. Vamos, Rowan, você não voou quase quatro mil quilômetros para isso!

O homem a enlaçou com delicadeza. Uma pressão nas costas.

- A senhora quer vê-Ia, Dra. Mayfair?

Vê-Ia, conversar com ela, conhecê-la, amá-la, ser amada por ela... Parecia que seu rosto era esculpido no gelo. E ela sabia que seus olhos deviam estar abertos demais.

Ela olhou de relance para os olhinhos azuis do homem e fez que sim, com a cabeça. Parecia que um silêncio caía sobre todos. Ela havia falado tão alto assim? Mas não havia dito absolutamente nada. Era certo que eles não a conheciam e, no entanto, todos se voltavam para olhar enquanto ela e esse homem atravessavam o primeiro salão. E a notícia era transmitida aos sussurros. Ela olhou com atenção para a menina ruiva com a fita quando passou por ela. Na realidade, até parou sem querer, paralisada na entrada do segundo salão, com esse homem simpático, Jerry Lonigan, ao seu lado.

Até as crianças pararam de brincar. O salão pareceu ficar escuro com as pessoas se movimentando em silêncio, bem devagar, apenas alguns passos.

- A senhora quer se sentar, Dra. Mayfair? - perguntou Jerry Lonigan.

Ela estava com os olhos fixos no tapete. O caixão estava a uns seis metros de distância. Não erga os olhos, não erga os olhos até chegar mesmo ao caixão. Não veja nada de horrível de longe. Mas o que era tão horrível nisso tudo? Em que isso podia ser mais horrível do que a mesa de autópsias, a não ser pelo fato de se tratar... da sua mãe.

Uma mulher veio se postar atrás da menina, pousando a mão no seu ombro.

- Rowan? Rowan. Sou Alicia Mayfair. Eu era prima em quarto grau de Deirdre. Esta é Mona, minha filha.

- Rowan, eu sou Pierce Mayfair - disse o belo rapaz à sua direita, estendendo a mão de repente. - Sou bisneto de Cortland.

- Querida, sou Beatrice, sua prima. - Um cheiro de perfume. A mulher com o cabelo cinza chumbo. A pele macia tocando o rosto de Rowan. Enormes olhos cinzentos.

- ...Cecilia Mayfair, neta de Barclay, meu avô foi o segundo filho de Julien e nasceu na casa de First Street. E aqui, irmã, venha. Esta é a irmã Marie Claire. Irmã, essa é Rowan, a filha de Deirdre!

Não havia algo especialmente respeitoso que se devia dizer a freiras, mas essa freira não poderia ter ouvido. Estavam gritando para que ela entendesse.

- A filha de Deirdre, Rowan!

- ...Timothy Mayfair, seu primo em quarto grau, estamos felizes de conhecê-la, Rowan...

- ...um prazer conhecê-la nesta triste...

- Peter Mayfair, conversamos mais tarde. Garland era meu pai. Ellie alguma vez lhe falou em Garland?

Meu Deus, eles eram todos parentes. Polly Mayfair, Agnes Mayfair, as filhas de Philip Mayfair e Eugenie Mayfair, e aquilo não tinha fim. Quantos eles seriam ao todo? Não uma família, mas um exército. Ela apertava uma mão após a outra, e ao mesmo tempo se apoiava na solidez do Sr. Lonigan, que a segurava com tanta firmeza.

Ela tremia? Não, sentia calafrios. Lábios roçavam seu rosto.

-...Clancy Mayfair, bisneta de Clay. Clay nasceu na casa de First Street antes da Guerra de Secessão. Minha mãe é Trudy Mayfair, aqui, mamãe, venha. Deixem mamãe passar...

- ...um prazer conhecê-la. Já esteve com Carlotta?

- Miss Carlotta está se sentindo mal - disse o Sr. Lonigan. - Ela irá nos encontrar na igreja...

- ...já está com noventa anos, sabe?

- ...aceita um copo d'água? Ela está pálida como cera. Pierce, apanhe um copo d'água para ela.

- Magdalene Mayfair, bisneta de Rémy. Rémy morou na casa de First Street durante anos. Este é meu filho, Garvey, e minha filha, Lindsey. Ei, Dan, Dan venha cumprimentar a Dra. Mayfair.. Dan é bisneto de Vincent. Será que Ellie lhe falou de Clay e Vincent e...

Não, nunca me falou de ninguém. Prometa que nunca irá lá, que nunca tentará descobrir. Mas por quê, em nome de Deus, por quê? Toda essa gente... Por que aquele papel?

Por que o segredo?

- ...Gerald está com ela. Pierce deu uma passada por lá. Ele a viu. Ela está bem. Virá até a igreja.

- Quer se sentar, querida?

- Você está se sentindo bem?

- Lily, meu amor, Lily Mayfair. Você não vai conseguir se lembrar dos nomes de nós todos. Nem tente.

- Robert, querida. Mais tarde conversamos.

- ...à disposição se você precisar de nós. Você está mesmo bem? Estou. Estou muito bem. E só que não consigo falar. Não consigo me mexer. Eu...

Mais uma vez se retesaram os músculos do seu rosto. Ela estava rígida. Toda rígida. Apertou mais a mão do Sr. Lonigan. Ele lhes dizia alguma coisa, que ela agora ia prestar suas homenagens. Ele estava dizendo para as pessoas se afastarem? Um homem tocou sua mão esquerda.

- Meu nome é Guy Mayfair, filho de Andrea, e esta é minha mulher, Stephanie. Ela é filha de Grady. Era prima em primeiro grau de Ellie.

Ela queria demonstrar alguma reação. Estaria apertando o suficiente cada mão? Estaria balançando a cabeça o suficiente? Estaria beijando direito a velhinha que a beijava? Um outro homem estava falando com ela, mas sua voz era baixa demais. Ele era velho e estava dizendo alguma coisa sobre Sheffield. O caixão estava no máximo a uns seis metros. Ela não ousava erguer os olhos, ou desviá-los dos parentes, com medo de vê-lo sem querer.

Mas foi para isso que você veio, e é o que precisa fazer. E eles estão aqui, às centenas...

- Rowan - disse alguém à sua esquerda -, este é Fielding Mayfair, filho de Clay. – Um homem tão velho, tão velho que ela conseguia ver todos os ossos do crânio através da pele clara, via os dentes inferiores e superiores e os sulcos em volta dos olhos fundos.

Ele estava apoiado nos outros. Não conseguia ficar em pé sem ajuda. E todo esse sacrifício, para poder vê-Ia? Ela estendeu a mão.

- Ele quer lhe dar um beijo, querida. - Ela roçou o rosto do velho com os lábios.

Ele falava baixo. Seus olhos pareceram amarelados quando ele olhou para ela. Ela procurou entender o que ele estava dizendo, algo sobre Lestan Mayfair e Riverbend.

O que era Riverbend? Ela concordou, com um gesto de cabeça. Ele era velho demais para ser tratado sem delicadeza. Ela precisava dizer alguma coisa! O homem era velho demais para estar se esforçando tanto só para lhe dar os pêsames. Quando ela apertou sua mão, sentiu que era macia, sedosa, nodosa e forte.

- Acho que ela vai desmaiar - sussurrou alguém. Sem dúvida não estavam falando dela.

- Você quer que eu a leve até o caixão? - Mais uma vez o rapaz, o rapaz bonito, com o rosto limpo de menino bem-comportado e os olhos brilhantes. - Sou o Pierce.

Acabei de me apresentar. - Um vislumbre de dentes perfeitos. - Primo de Ellie em primeiro grau.

É, até o caixão. Já é hora, não? Ela olhou naquela direção e alguém pareceu dar um passo atrás para que ela pudesse ver melhor. E então seus olhos subiram instantaneamente para além do rosto no travesseiro inclinado. Ela viu as flores agrupadas ao redor da tampa levantada, toda uma selva de flores, e bem à direita aos pés do caixão, um homem de cabeça branca que ela conhecia. A mulher morena ao seu lado chorava e rezava seu terço, e os dois estavam olhando para ela, mas como seria possível que ela conhecesse aquele homem ou qualquer outra pessoa aqui? No entanto, ela o conhecia!

Sabia que ele era inglês, fosse ele quem fosse. E sabia exatamente como seria o som da sua voz quando ele lhe dirigisse a palavra.

Jerry Lonigan a ajudou a dar um passo à frente. O belo Pierce estava ao seu lado.

- Ela está se sentindo mal, Monty - disse a senhora ainda bonita. - Vá buscar água para ela.

- Meu bem, talvez fosse bom você se sentar...

Ela abanou a cabeça, formando na boca a palavra não. Olhou novamente para o inglês de cabelos brancos, o que estava com a mulher que rezava. Ellie havia pedido o terço na última semana de vida. Rowan precisou ir a uma loja em San Francisco para comprar um. A mulher abanava a cabeça, chorava e limpava o nariz, e o homem de cabeça branca cochichava no seu ouvido, apesar de ter os olhos fixos em Rowan. Eu o conheço. Ele olhou para ela como se ela houvesse falado com ele, e então lhe ocorreu a lembrança do cemitério de Sonoma County, onde estavam enterrados Graham e Ellie. Era esse o homem que ela havia visto junto ao túmulo. Conheço sua família em Nova Orleans. E de uma forma totalmente inesperada, mais uma peça do mesmo quebra-cabeça se encaixava. Esse era o homem que estava parado em frente à casa de Michael duas noites antes em Liberty Street.

- Querida, não quer um copo d'água? - perguntou Jerry Lonigan.

Mas como isso podia estar acontecendo? Como podia ser que esse homem estivesse lá e aqui? O que tudo isso tinha a ver com Michael, que lhe havia descrito a casa com as rosas no gradil de ferro?

- Vamos deixar que ela se sente aqui mesmo. - Pierce disse que ia apanhar uma cadeira.

Ela precisava se mexer. Não podia simplesmente ficar aqui olhando para aquele inglês de cabelos brancos, querendo que ele se explicasse, que explicasse o que estava fazendo em Liberty Street. E com o canto do olho, algo que ela não conseguia agüentar ver, algo no caixão à espera.

- Pronto, Rowan, isso aqui está bem gelado. - Cheiro de vinho. - Beba um pouco, querida.

Eu gostaria, realmente gostaria, mas não consigo mexer minha boca. Ela abanou a cabeça, procurou sorrir. Acho que não consigo movimentar minha mão. E vocês todos estão esperando que eu me mexa. Eu realmente devia me mexer. Ela costumava achar que os médicos que desmaiavam numa autópsia eram na verdade uns bobos. Como uma coisa dessas poderia afetar alguém tanto em termos físicos? Se alguém me atingir com um bastão de beisebol, sou capaz de desmaiar. Meu Deus, o que você não sabe da vida está apenas começando a se revelar nesta sala. E sua mãe está naquele caixão.

O que você estava pensando, que ela fosse esperar aqui, viva, até você chegar? Até você afinal perceber... Bem aqui, nesta terra estranha! Ora, isso aqui era como um outro país, era sim!

O inglês de cabeça branca veio na sua direção. É, quem é o senhor? Por que está por aqui?

Por que me parece deslocado de uma forma tão drástica e grotesca? Por outro lado, ele não estava deslocado. Ele era exatamente como os outros, os habitantes deste país estranho, tão correto e delicado, sem uma sombra de ironia, de constrangimento ou de sentimentos falsos no seu rosto simpático. Ele se aproximou dela, fazendo com que o belo rapaz lhe cedesse o lugar.

Você se lembra daquelas expressões torturadas na cerimônia fúnebre por Ellie. Não havia ninguém ali que tivesse menos de sessenta anos, e no entanto não havia um fio de cabelo grisalho, um músculo flácido. Nada semelhante a isso aqui. Ora, é isso o que querem dizer quando falam do "povo".

Ela baixou os olhos. Fileiras de flores a cada lado do genuflexório de veludo. Deu um passo à frente, com as unhas cravadas no braço do Sr. Lonigan antes que pudesse se controlar. Fez um esforço enorme para relaxar a mão e, para total espanto seu, sentiu que ia cair. O inglês a segurou pelo braço esquerdo, enquanto o Sr. Lonigan a sustentava pelo direito.

- Rowan, preste atenção - disse o inglês, baixinho, no seu ouvido, naquele seu sotaque apocopado, apesar de melodioso. - Michael estaria aqui se fosse possível. Vim no seu lugar. Michael chegará hoje à noite, assim que puder.

Ela olhou para ele, espantada, com um alívio que quase a fez estremecer. Michael viria.

Michael estava em algum lugar por perto. Mas como isso poderia estar acontecendo?

- E, muito perto. E sua ausência foi inevitável - disse o homem com tanta sinceridade, como se acabasse de inventar essas palavras. - Ele ficou realmente aborrecido de não poder estar aqui...

Ela viu novamente a casa de First Street sombria, sinistra, descaracterizada. A casa sobre a qual Michael vinha falando o tempo todo. E, quando ela o viu pela primeira vez no mar, ele lhe pareceu um pontinho minúsculo de roupas boiando, não podia ser um afogado, não aqui tão longe, a tantas milhas da terra...

- Em que posso ajudá-la agora? - perguntou o inglês, em voz baixa, misteriosa e de uma solicitude perfeita. - Você quer se aproximar do caixão?

É, por favor, leve-me até ele. Por favor, me ajude. Faça com que minhas pernas se mexam. Mas elas já estavam se mexendo. Ele havia passado o braço pela sua cintura e a estava conduzindo, sem nenhum esforço, e graças a Deus a conversa havia recomeçado, embora fosse apenas um murmúrio em tom respeitoso, do qual ela conseguia extrair fiapos à vontade.

-...ela simplesmente não quis vir até a funerária. A verdade é essa. Ela está furiosa por nós todos estarmos aqui.

- Não diga isso. Ela está com noventa anos nas costas, e está fazendo quase quarenta graus lá fora.

- Eu sei, eu sei. Bem, todo mundo pode vir para minha casa depois, foi o que eu disse...

Ela não tirava os olhos das alças prateadas, das flores, do genuflexório de veludo agora bem à sua frente. Náuseas novamente. Náuseas do calor e desse ar fresco e imóvel com o perfume das flores pairando à sua volta como uma névoa invisível. Mas você tem de fazer isso. Tem de agir com calma e em silêncio. Não pode perder a oportunidade. Prometa que nunca voltará para lá. Que nunca tentará descobrir nada.

O inglês a estava segurando. Michael virá. Sua mão direita, encostada no braço de Rowan num gesto tranqüilizador. A mão esquerda firmava seu pulso esquerdo quando ela tocou a lateral coberta de veludo do ataúde. Lentamente, ela se forçou a erguer os olhos do chão até ver o rosto da morta, pousado bem ali no travesseiro de cetim. E bem devagar sua boca foi se abrindo, foi se abrindo até a rigidez se transformar num espasmo. Ela lutou com todas forças para não abrir a boca. Cerrou os dentes. E o tremor que a atingiu foi tão violento que o inglês apertou mais seu braço. Ele também estava olhando. Ele a havia conhecido!

Olhe para ela. Nada mais importa agora. Não é uma hora para se apressar, para pensar em outras coisas ou para se preocupar. Basta que olhe para ela, olhe para o seu rosto com todos os seus segredos agora guardados para sempre.

E o rosto de Stella estava tão lindo no caixão. Seus cabelos negros eram lindos...

- Ela vai desmaiar. Ajudem! Pierce, ajude.

- Não. Nós estamos com ela. Ela está bem - disse Jerry Lonigan.

Morta, tão perfeita e horrivelmente morta, e tão linda. Estava arrumada para a eternidade: com o batom cor-de-rosa cintilando na sua boca bem- feita, o ruge no rosto impecável de menina, os cabelos negros bem escovados sobre o cetim, como uma cabeleira de menina, solta e linda, e as contas do rosário, é, contas de rosário, enfiadas nos dedos, que pareciam de massa de pão, ali pousados sobre o peito. Não tinham nada de mãos humanas, mas de alguma escultura grosseira. -

Em todos esses anos, Rowan nunca havia visto nada semelhante. Ela havia visto cadáveres de afogados, de esfaqueados e dos que haviam morrido dormindo nas enfermarias.

Ela os havia visto já sem cor e cheios de produtos químicos, sendo retalhados após semanas, meses e até mesmo anos para a aula de anatomia. Ela os havia visto durante a autópsia, com os órgãos ensangüentados sendo retirados pelas mãos enluvadas do médico.

Mas nunca uma coisa dessas. Nunca essa coisa morta e bela usando seda azul e renda, cheirando a pó-de-arroz, com as mãos unidas sobre as contas do rosário. Ela aparentava não ter idade, quase como uma gigantesca menininha, com seus cabelos inocentes, seu rosto desprovido de rugas e até mesmo o batom, da cor de pétalas de rosa.

Ah, se ao menos fosse possível abrir seus olhos! Gostaria de poder ver os olhos da minha mãe! E nesta sala, repleta de pessoas idosíssimas, ela ainda é tão jovem...

Rowan se inclinou um pouco. Com a maior delicadeza, soltou as mãos das do inglês. Pôs as suas sobre as pálidas mãos da morta, aquelas mãos que se derretiam lentamente. Duras! Duras como as contas do rosário. Duras e frias. Ela fechou os olhos e pressionou aquela carne branca e inflexível. Tão irremediavelmente morta, tão distante de qualquer sopro de vida, tão decididamente acabada.

Se Michael estivesse aqui, será que ele poderia saber ao tocar suas mãos se ela havia morrido sem dor ou sem medo? Ele poderia ter descoberto o motivo para tantos segredos? Ele poderia tocar essa carne horrenda e sem vida, e ouvir ainda nela a canção da vida? Oh, Deus, quem quer que ela fosse, não importa o motivo pelo qual ela tenha me dado, espero que tenha morrido sem medo ou dor. Em paz, tão serena quanto seu rosto. Veja os seus olhos, a sua testa límpida.

Bem devagar, ela ergueu a mão e enxugou as lágrimas do rosto, percebendo que ele agora estava relaxado. Percebeu também que podia falar se quisesse, e que à sua volta outros também choravam, que a mulher de cabelo cinza-chumbo chorava, que a pobre mulher de cabelos negros que estivera chorando o tempo todo agora soluçava em silêncio encostada no peito do homem ao seu lado, e que a expressão no rosto daqueles que não estavam chorando - para onde quer que olhasse na claridade mais além do caixão - havia se tornado serena e pensativa, muito parecida com aqueles rostos em famosos quadros florentinos, nos quais criaturas passivas, ligeiramente tristes, contemplam o mundo daqui de fora da moldura, como se estivessem num sonho, espiando lânguidas com o canto dos olhos.

Rowan recuou, mas seus olhos permaneceram fixos na mulher no caixão. Ela deixou que o inglês a conduzisse novamente, dessa vez para uma saleta à sua espera. O Sr. Lonigan dizia que estava na hora de todos se aproximarem, um a um, que o padre havia chegado e que ele estava pronto.

Perplexa, Rowan viu um velho alto curvar-se com elegância e beijar a testa da morta.

Beatrice, a senhora bonita de cabelos cinzentos, veio em seguida e sussurrou alguma coisa enquanto beijava a morta do mesmo jeito. Uma criança foi erguida para fazer o mesmo. E o velho careca chegou, com sua barriga enorme e pesada o atrapalhando, mas conseguiu se inclinar para dar o beijo.

- Até logo, querida - sussurrou ele, com a voz rouca, para que todos o ouvissem.

O Sr. Lonigan a empurrou delicadamente para que se sentasse. Quando ele se virou, a mulher chorosa de cabelos negros se aproximou de repente, inclinou-se e olhou dentro dos seus olhos.

- Ela não queria renunciar a você - disse ela, numa voz tão fraca e rápida que parecia mais ter sido um pensamento.

- Rita Mae! - exclamou irado o Sr. Lonigan, voltando-se para ela, segurando-a pelo braço e a levando dali.

- Isso é verdade? - perguntou Rowan, estendendo a mão para tentar pegar a mão de Rita, que se afastava. O rosto do Sr. Lonigan enrubesceu. Seus maxilares tremiam ligeiramente. Ele empurrou para longe a mulher de cabelos negros, saindo por uma porta que dava para um pequeno corredor.

O inglês estava olhando para ela da porta do salão. Ele fez que sim com um pequeno gesto de cabeça e com as sobrancelhas se erguendo como se esse fato o enchesse de tristeza e assombro.

Aos poucos, Rowan afastou dele o olhar. Ficou observando a fila, que ainda chegava, um de cada vez, cada um se curvando como se quisesse beber no esguicho gelado de um bebedouro baixo.

- Adeus, Deirdre querida.

Será que todos sabiam? Será que todos se lembravam, os mais velhos, os que tinham se aproximado primeiro dela? Será que todas as crianças ouviram falar, de uma forma ou de outra, num momento ou noutro? O rapaz bonito a observava de longe.

- Adeus, minha querida... - E eles não paravam de chegar, em quantidades aparentemente intermináveis, com os salões parecendo escuros e apinhados à medida que a fila pressionava.

Não queria renunciar a você.

Como devia ser beijar aquela pele lisa e dura? E eles beijavam como se fosse a coisa mais natural do mundo, a mais simples, com o bebê erguido no alto, a mãe a se inclinar, o homem chegando tão rápido e depois uma velha com as mãos manchadas e o cabelo raleando.

- Ajude- me a subir, Cecil. - Com o pé no genuflexório de veludo. A menina de doze anos com a fita no cabelo estava nas pontas dos pés.

- Rowan, você quer ficar a sós com ela? - Era a voz de Lonigan. - Quando todos tiverem passado, será a sua vez no final. O padre espera. Mas você não é obrigada.

Ela olhou nos olhos cinzentos e amenos do inglês. Mas não era ele quem estava falando.

Era Lonigan, com seu rosto ruborizado e reluzente e seus olhinhos de porcelana.

No fundo do pequeno corredor estava sua mulher, Rita Mae, agora sem coragem para se aproximar.

- É, a sós, mais uma vez - respondeu Rowan, baixinho. Seus olhos procuraram os de Rita

Mae nas sombras do final daquele pequeno corredor.

- Verdade - disseram sem voz os lábios de Rita Mae, enquanto ela balançava a cabeça com seriedade.

É. Para lhe dar um beijo de despedida. Isso mesmo, como os outros a estão beijando...

 

Rowan Mayfair

RESUMO ESTRITAMENTE CONFIDENCIAL, ATUALIZADO EM 1989 VEJA ARQUIVO CONFIDENCIAL: ROWAN MAYFAIR, LONDRES, PARA QUAISQUER DADOS RELACIONADOS OBRIGATÓRIO USO DE SENHA PARA ACESSO

Rowan Mayfair foi legalmente adotada por Ellen Louise Mayfair e seu marido Graham Franklin, no dia do seu nascimento, 7 de novembro de 1959. Naquela ocasião, Rowan foi levada de avião para Los Angeles, onde viveu com seus pais adotivos até os três anos de idade. A família mudou-se então para San Francisco, Califórnia, onde moraram em Pacific Heights durante dois anos.

Quando Rowan estava com cinco anos de idade, a família fez sua mudança definitiva para uma casa no litoral de Tiburon, Califórnia - do outro lado da baía de San Francisco - que havia sido projetada pelos arquitetos Trammel, Porter e Davis expressamente para Graham, Ellie e sua filha. A casa é um prodígio de paredes de vidro, vigas expostas de sequóia e instalações hidráulicas e equipamentos modernos. Ela inclui deques enormes, um quebra-mar particular e um canal de navegação que é dragado duas vezes ao ano. Ela tem uma vista de Sausalito, do outro lado da baía de Richardson, e de San Francisco ao sul. Rowan agora mora sozinha nessa casa.

No momento em que escrevo, Rowan está com quase trinta anos. Ela tem um metro e setenta e cinco de altura. Usa o cabelo louro cortado curto em estilo pajem e tem olhos grandes de um cinza-claro. É inegável que seja atraente, com sua pele de uma beleza notável, sobrancelhas retas, cílios escuros e boca extremamente bem-feita.

No entanto, para se fazer uma comparação, não se pode dizer que ela tenha nada do encanto de Stella, da suavidade de Antha ou da sombria sensualidade de Deirdre.

Rowan é delicada, mas tem algo de menino. Em alguns dos seus retratos, sua expressão, em decorrência das sobrancelhas escuras e retas, lembra a de Mary Beth.

Na minha opinião, ela se parece com Petyr van Abel, mas existem diferenças nítidas. Ela não tem os olhos fundos de Petyr. E os cabelos de Rowan são de um louro-acinzentado em vez de dourado. No entanto, seu rosto é estreito como o de Petyr. E Rowan tem algo de nórdico, exatamente como Petyr nos seus retratos.

Rowan dá às pessoas a impressão de ser fria. Sua voz, porém, é afetuosa, grave e ligeiramente rouca, o que nos Estados Unidos se chama de "voz de uísque". As pessoas dizem que é preciso conhecê-la bem para se gostar dela. O que é estranho, já que nossas investigações indicam que pouquíssimas pessoas a conhecem, mas que quase todo mundo gosta dela.

 

RESUMO DOS DADOS SOBRE OS PAIS ADOTIVOS DE ROWAN: ELLIE MAYFAIR E GRAHAM FRANKLIN

Ellen Louise Mayfair foi a única filha de Sheffield, filho de Cortland Mayfair. Ela nasceu em 1923 e tinha seis anos de idade quando Stella morreu. Ellie viveu quase que exclusivamente na Califórnia desde a época em que entrou para a Universidade de Stanford aos dezoito anos de idade. Ela se casou com Graham Franklin, formado em direito por Stanford, aos trinta e um anos de idade. Graham era oito anos mais novo do que Ellie. Ellie parece ter tido pouquíssimo contato com a família mesmo antes de ir para a Califórnia, já que foi mandada para um colégio interno no Canadá aos oito anos de idade, seis meses após a morte da sua mãe.

Seu pai, Sheffield Mayfair, parece nunca ter se recuperado da perda da mulher e, embora visitasse Ellie com freqüência, levando-a em viagens para compras em NovaYork, ele a manteve afastada da cidade natal. Ele foi o mais calado e recluso dos filhos de Cortland, e possivelmente o mais decepcionante, já que trabalhava com afinco no escritório da família, mas nunca se sobressaiu ou participou de decisões importantes. Todos contavam com ele, disse Cortland após sua morte.

O que nos interessa nesta narrativa é que, após os oito anos de idade, Ellie esteve muito pouco com os parentes da família Mayfair, e que seus amigos da vida inteira na Califórnia eram pessoas que ela havia conhecido naquele estado, assim como algumas ex-alunas do colégio interno canadense com quem ela se mantinha em contato.

Ignoramos o que ela sabia da vida e da morte de Antha, ou mesmo da vida de Deirdre.

Seu marido, Graham Franklin, aparentemente não sabia nada a respeito da família de Ellie, e alguns dos comentários feitos por ele ao longo dos anos são pura fantasia.

"Ela vem de uma enorme fazenda lá no sul". "São daquele tipo de gente que guarda ouro debaixo do assoalho". "Acho que eles provavelmente descendem de piratas". "Ah, a família da minha mulher? Eles eram traficantes de escravos, não eram, querida? Todos eles têm sangue mestiço".

Os comentários em família na época da adoção davam conta de que Ellie havia assinado documentos para Carlotta Mayfair declarando que jamais deixaria Rowan descobrir nada sobre seus verdadeiros antecedentes e que nunca permitiria que ela voltasse à Louisiana.

Na realidade, esses documentos fazem parte dos registros oficiais da adoção, representando acordos formalizados entre as partes e envolvendo incríveis transferências de dinheiro.

Durante o primeiro ano da vida de Rowan, mais de cinco milhões de dólares foram transferidos da conta de Carlotta Mayfair em Nova Orleans para as contas de Ellie Mayfair na Califórnia, no Bank of America e no Wells Fargo Bank.

Ellie, que já era rica, pelos fundos deixados para ela por seu pai, Sheffield, e mais tarde pelo avô, Cortland (talvez Cortland houvesse alterado esse dispositivo, se houvesse tido tempo, mas a papelada já estava pronta há décadas), abriu um imenso fundo em custódia para sua filha adotiva, Rowan, ao qual metade dos cinco milhões foi acrescida durante os dois anos seguintes.

A outra metade foi transferida, à medida que chegava, diretamente para Graham Franklin, que investiu o dinheiro com prudência e sucesso, principalmente em imóveis (uma mina de ouro na Califórnia), e que continuou a investir o dinheiro de Ellie - pagamentos regulares do seu próprio fundo - em bens e investimentos em nome do casal ao longo dos anos. Embora recebesse muito bem como advogado bem-sucedido, Graham não tinha nenhuma herança de família, e a enorme fortuna acumulada até a.hora da sua morte, em comunhão com a mulher, resultou do seu talento para aplicar o dinheiro herdado por ela.

Existem indícios substanciais de que Graham se ressentia da mulher e que se ressentia da sua dependência financeira e emocional em relação a ela. Com sua renda, ele não poderia nunca ter sustentado aquele estilo de vida: iates, carros esportivos, férias extravagantes, uma mansão moderna em Tiburon. E ele drenava quantias enormes do dinheiro de Ellie, diretamente da sua conta conjunta para as mãos das diversas amantes que teve ao longo dos anos.

Algumas dessas mulheres nos disseram que Graham era um homem vaidoso e ligeiramente sádico. Elas, no entanto, o consideravam irresistível, desistindo dele apenas quando percebiam que ele realmente amava Ellie. Não era só o dinheiro dela. Ele não conseguia viver sem ela.

- Ele precisa de vez em quando compensar essa inferioridade, e é por isso que a engana.

Graham explicou uma vez a uma aeromoça, para quem mais tarde custeou a faculdade, que sua mulher o consumia, e que ele precisava ter "alguma coisa a mais" (querendo dizer uma mulher) ou se sentia um nada, uma total nulidade.

Quando descobriu que Ellie estava com um câncer incurável, ele entrou em pânico. Tanto seus sócios quanto seus amigos descreveram em detalhe sua "total incapacidade" para lidar com a doença de Ellie. Ele não tocava no assunto com ela; não queria ouvir o que diziam os médicos; recusava-se a entrar no seu quarto no hospital. Mudou sua amante para um apartamento em Jackson Street, bem em frente ao seu escritório em San Francisco, e ia até lá para vê-Ia até três vezes ao dia.

Forjou imediatamente um plano complicado para tirar de Ellie todos os bens da família, que agora somavam uma fortuna imensa; e estava tentando declarar Ellie incapaz, para poder vender a casa de Tiburon para sua amante, quando morreu repentinamente, dois meses antes de Ellie, de um derrame. Ellie herdou todos os bens.

A última amante de Graham, Karen Garfield, uma belíssima modelo de Nova York, lamentou sua desgraça para um dos nossos detetives enquanto tomavam coquetéis. Ela havia ficado com meio milhão, e isso era razoável, mas ela e Graham haviam planejado toda uma vida juntos: "as Ilhas Virgens, a Riviera, tudo enfim."

A própria Karen morreu de uma série de graves ataques cardíacos, sendo que o primeiro deles ocorreu uma hora depois de Karen visitar a casa de Graham em Tiburon para tentar "explicar as coisas" para sua filha Rowan.

- Aquela vaca! Ela não quis nem que eu apanhasse as coisas dele! Tudo o que eu queria era umas lembranças. Ela me disse, "Saia já da casa da minha mãe."

Karen ainda viveu duas semanas após a visita, tempo suficiente para dizer muitas coisas indelicadas sobre Rowan, mas Karen parece nunca ter relacionado sua súbita e inexplicável deterioração cardíaca àquela visita. Por que ela faria essa associação?

Nós, porém, a fizemos como será revelado no resumo que se segue.

Quando Ellie morreu, Rowan disse às amigas mais íntimas da mãe que havia perdido sua única amiga neste mundo. Isso era provavelmente verdade. Ellie Mayfair foi durante toda a vida um ser humano muito meigo e algo frágil, amada pela filha e por inúmeras amigas. De acordo com essas amigas, dela sempre emanou uma espécie de encanto de mocinha do sul, embora ela fosse uma mulher moderna e atlética, típica da Califórnia, passando facilmente por vinte anos a menos do que tinha, o que não era incomum entre as suas contemporâneas. Na verdade, a aparência jovem pode ter sido sua única obsessão, além do bem-estar da sua filha, Rowan.

Ela se submeteu a cirurgia plástica duas vezes entre os cinqüenta e os sessenta anos (para esticar o rosto); freqüentava caríssimos salões de beleza e usava o cabelo permanentemente tingido. Em fotografias com o marido, tiradas um ano antes da sua morte, ela parece ser a pessoa mais jovem dos dois. Totalmente dedicada a Graham e dependente dele, ela ignorava seus casos, e com razão.

- Ele sempre está em casa às seis para o jantar - disse ela a uma amiga. - E sempre está ali quando apago a luz.

Na verdade, a origem do encanto de Graham para Ellie e para outras, além da sua bela aparência, parecia estar no seu enorme entusiasmo pela vida e no carinho que ele dispensava à vontade àqueles que o cercavam, incluindo-se sua mulher.

Um dos seus amigos de toda a vida, um advogado mais velho, deu a seguinte explicação a um dos nossos detetives.

- Ele saía impune daqueles casos todos porque nunca foi desatencioso com Ellie. Alguns dos outros caras por aqui deveriam extrair daí uma lição. O que as mulheres odeiam é o fato de você demonstrar frieza. Se você as tratar como rainhas, elas deixarão que você tenha uma concubina ou duas fora do palácio.

A esta altura, simplesmente não sabemos se é importante colher maiores informações sobre Graham Franklin e Ellie Mayfair. O que parece nos interessar aqui é o fato de que eles eram californianos normais da classe média alta, e que viviam em extrema felicidade apesar das traições de Graham, até o último ano das suas vidas. Freqüentavam a ópera nas noites de terça; concertos sinfônicos aos sábados; e o balé de vez em quando. Possuíram uma deslumbrante sucessão de Bentleys, Rolls-Royces, Jaguars e outros carros de luxo. Chegavam a gastar dez mil dólares em roupas num mês. Nos deques da sua linda casa em Tiburon, costumavam receber amigos em reuniões modernas e pródigas. Viajavam de avião ate a Ásia ou a Europa, para férias curtas e luxuosas. Tinham um orgulho desmesurado "da nossa filha, médica", como se referiam a Rowan, alegremente, para seus numerosos amigos.

Embora Ellie tivesse o dom da telepatia, ele era mais no nível de brincadeiras. Ela sabia quem estava chamando quando o telefone tocava. Ela conseguia dizer que carta do baralho a pessoa estava segurando na mão. Fora isso, não havia nada de excepcional nessa mulher, a não ser talvez o fato de ela ser muito bonita, lembrando muitos outros descendentes de Julien Mayfair, e de ter herdado do bisavô seu jeito insinuante e seu sorriso sedutor.

A última vez que vi Ellie foi no enterro de Nancy Mayfair em Nova Orleans em janeiro de 1988. Na época ela estava com sessenta e três ou sessenta e quatro anos. Era uma mulher linda, com cerca de um metro e setenta de altura, a pele muito bronzeada e os cabelos muito negros. Seus olhos azuis estavam ocultos por trás de óculos de sol de armação branca. Seu elegante vestido de algodão realçava sua silhueta esbelta, e na realidade havia nela algo do glamour de uma atriz de cinema, ou seja, um certo brilho da Califórnia. Seis meses depois, ela estaria morta.

Quando Ellie faleceu, Rowan herdou tudo, incluindo-se o fundo de família de Ellie e mais um fundo que havia sido constituído no seu nascimento, do qual Rowan nada sabia.

Como Rowan era na época, como continua sendo, uma médica extremamente dedicada ao trabalho, essa herança praticamente não fez uma diferença apreciável na sua rotina diária. Falaremos mais sobre isso no momento propicio.

 

ROWAN MAYFAIR DA INFÂNCIA AO MOMENTO PRESENTE

Uma vigilância discreta de Rowan indicou que essa criança foi extremamente precoce desde o início, e que pode ter tido uma variedade de poderes paranormais que seus pais adotivos pareciam ignorar. Há também alguns indícios de que Ellie Mayfair se recusava a reconhecer qualquer coisa "estranha" a respeito da filha. Seja qual for o caso, Rowan parece ter sido "o orgulho e a alegria" tanto de Ellie quanto de Graham. Como indicado anteriormente, o vínculo entre mãe e filha foi extremamente íntimo até a morte de Ellie. No entanto, Rowan nunca teve o mesmo amor de sua mãe por festas, almoços, compras e outros interesses semelhantes; e nunca foi atraída para o amplo círculo de amizades femininas de Ellie, nem mesmo no final da adolescência e início da idade adulta.

Rowan compartilhou com os pais sua paixão pelo mar. Ela acompanhava a família em passeios de barco desde muito pequena e aprendeu a manobrar o pequeno veleiro de Graham, The Wind Singer, sozinha aos quatorze anos de idade. Quando Graham comprou uma lancha-cruzeiro, chamada Great Angela, a família inteira fazia longas viagens algumas vezes por ano.

Quando Rowan completou dezesseis anos, Graham já havia comprado para ela seu próprio iate, bimotor, com casco de deslocamento, que Rowan chamou de Sweet Christine. O Great Angela foi aposentado nessa ocasião, e a família inteira passou a usar o Sweet Christine, mas Rowan era o comandante inconteste. E apesar dos conselhos e objeções de todos, Rowan freqüentemente tirava a enorme embarcação da enseada sozinha.

Durante anos, foi hábito seu chegar em casa direto da escola e sair da baía de San Francisco para o mar aberto pelo menos por umas duas horas. Só eventualmente ela convidava uma amiga íntima para lhe fazer companhia.

- Nós nunca a vemos antes das oito - costumava Ellie dizer. - E eu me preocupo! Ah, como me preocupo! Mas tirar aquele barco de Rowan seria o mesmo que matá-la.

Eu simplesmente não sei o que fazer.

Embora seja excelente nadadora, Rowan não é uma navegadora ousada, por assim dizer. O Sweet Christine é uma lancha-cruzeiro de 40 pés, lenta e pesada, de construção holandesa, projetada para ter estabilidade em mares revoltos, mas não para a velocidade.

O que parece dar prazer a Rowan é o fato de estar só no barco, sem nenhuma visão da terra, em qualquer tipo de tempo. Como muitas pessoas que reagem bem ao tempo do norte da Califórnia, ela parece gostar da névoa, do vento e do frio.

Todos os que observaram Rowan parecem concordar quanto a ela ser uma pessoa solitária, uma pessoa extremamente calada que prefere o trabalho à diversão. Na escola, ela foi uma aluna compulsiva; e na universidade, uma pesquisadora compulsiva. Embora seu guarda-roupa fosse motivo de inveja entre suas colegas, ela sempre dizia que ele era obra de Ellie. Ela própria praticamente não tinha interesse algum por roupas. Seu traje característico de lazer é há anos tipicamente náutico: jeans, sapatos de iatismo, suéteres enormes, gorros de lã e uma japona de lã azul-marinho.

No mundo da medicina, especialmente no da neurocirurgia, os hábitos compulsivos de Rowan chamam menos atenção, considerando-se a natureza da profissão. No entanto, mesmo nesse campo, Rowan já foi considerada "obsessiva". Rowan parece de fato ter nascido para ser médica, embora sua opção pela cirurgia em detrimento da pesquisa tenha surpreendido muita gente que a conhecia.

- Quando ela estava no laboratório - disse um dos seus colegas-, sua mãe tinha de ligar para ela para lembrar que ela precisava reservar tempo para dormir ou para comer.

Uma das professoras de Rowan ainda na escola primária anotou na ficha, quando Rowan estava com oito anos, que "essa criança acredita ser um adulto. Ela se identifica com os adultos. Ela se impacienta com as outras crianças. Mas é bem comportada demais para deixar transparecer. Ela parece ser terrivelmente só".

 

PODERES TELEPÁTICOS

Os poderes paranormais de Rowan começaram a surgir na escola a partir dos seis anos de idade. Na realidade, eles podem ter surgido muito antes, mas nós não conseguimos descobrir provas antes dessa época. Professoras interrogadas informalmente (ou sub-repticiamente) acerca de Rowan contam histórias espantosas sobre a capacidade da menina para ler a mente.

No entanto, nada que tenhamos descoberto indica que Rowan jamais tenha sido considerada um pária, um fracasso ou uma desajustada. Em todos os seus anos de estudo, ela sempre superou as expectativas e teve um sucesso ilimitado. Seus retratos escolares mostram que ela sempre foi uma criança muito bonita, com a pele bronzeada e os cabelos louros descorados pelo sol. Nesses retratos, ela dá uma impressão de mistério, como se não estivesse gostando da invasão da câmera, mas nunca parece afetada ou constrangida.

A capacidade telepática de Rowan se tornou conhecida dos professores, em vez de dos outros alunos. Essa descoberta segue um padrão digno de nota.

- Minha mãe havia falecido - disse uma professora da primeira série. - Eu não podia voltar para Vermont para o enterro e me sentia péssima. Ninguém estava a par disso, entende? Mas Rowan chegou perto de mim no intervalo. Ela sentou ao meu lado e pegou minha mão. Eu quase explodi em lágrimas com sua ternura. "Lamento o que aconteceu com sua mãe", disse ela e ficou ali sentada em silêncio. Mais tarde, quando eu lhe perguntei como soube, ela disse, "Foi uma idéia que apareceu de repente."

Creio que aquela criança sabia todo tipo de coisa desse jeito. Ela sabia quando as outras crianças sentiam inveja dela. Como sempre foi uma criança só!

Numa outra ocasião, quando uma menina faltou à aula três dias seguidos sem explicação, e os funcionários da escola não conseguiram entrar em contato com a família, Rowan disse calmamente à diretora que não havia motivos para preocupação. A avó da menina havia morrido, e a família havia viajado para o enterro em outro estado, esquecendo-se totalmente de avisar a escola. Essa era mesmo a verdade. Mais uma vez Rowan não conseguiu explicar de que jeito soube, a não ser dizendo que a explicação surgiu de repente na sua cabeça.

Temos cerca de duas dúzia s de histórias semelhantes a essa, e o que caracteriza quase todas elas é o fato de envolverem não só a telepatia, mas a empatia e a solidariedade por parte de Rowan: um nítido desejo de consolar uma pessoa em sofrimento ou confusa ou de prestar auxílio a ela. Essa pessoa era invariavelmente um adulto. A capacidade telepática nunca está associada a brincadeiras, a dar sustos nas pessoas ou em brigas de qualquer natureza.

Em 1966, quando Rowan estava com oito anos, ela usou essa sua capacidade telepática pela última vez, ao que nós saibamos. Durante um semestre da quarta série numa escola particular em Pacific Heights, ela disse à diretora que uma outra menina estava muito doente e precisava ir a um médico, mas Rowan não sabia para quem poderia falar isso. A menina ia morrer.

A diretora ficou horrorizada. Chamou a mãe de Rowan e insistiu para que Rowan fosse levada a um psiquiatra. Só uma criança muito perturbada diria "uma coisa daquelas". Ellie prometeu conversar com Rowan. Rowan não disse mais nada. No entanto, a menina em questão uma semana depois recebeu o diagnóstico de uma forma rara de câncer ósseo. Morreu antes do final do semestre.

A diretora já contou essa história em jantares inúmeras vezes. Ela lamentou profundamente ter repreendido Rowan. Especialmente gostaria de não ter chamado a Sra. Mayfair, já que esta ficou terrivelmente contrariada.

Pode ter sido essa preocupação por parte de Ellie que pôs fim a esse tipo de incidente na vida de Rowan. Todas as amigas de Ellie sabiam do caso.

- Ellie por pouco não ficou histérica. Ela queria que Rowan fosse normal. Disse que não queria uma filha com dons estranhos.

Graham considerou a história toda uma coincidência, na opinião da diretora. Ele lhe passou um pito por ligar e contar para Ellie quando a pobrezinha morreu.

Coincidência ou não, toda essa história parece ter posto um fim nas demonstrações do poder de Rowan. É segura a suposição de que ela decidiu espertamente manter em segredo esse seu dom. Ou até mesmo que ela tenha reprimido deliberadamente esse poder a tal ponto que ele tivesse se tornado inexistente ou extremamente fraco.

Por mais que procuremos, nada encontramos sobre sua capacidade telepática daí em diante.

As recordações que as pessoas têm dela estão relacionadas à sua inteligência serena, à sua energia infatigável e ao seu amor pela ciência e pela medicina.

- Ela era aquela menina da escola que colecionava insetos e pedras, chamando tudo por um enorme nome em latim.

- Assustadora, absolutamente assustadora - disse seu professor de química no segundo grau. - Eu não teria ficado surpreso se ela reinventasse a bomba de hidrogênio durante o lazer do fim de semana.

Dentro do Talamasca, surgiram especulações no sentido de que a repressão do poder telepático por parte de Rowan talvez estivesse relacionada à expansão do seu poder telecinético; que de algum modo ela teria redirecionado a energia; e que os dois poderes representam os dois lados de uma mesma moeda. Expressando a mesma idéia em termos diferentes, Rowan abandonou a mente para se voltar para a matéria. A ciência e a medicina se tornaram suas obsessões a partir do início da adolescência.

O único verdadeiro namorado de Rowan durante -a adolescência também era inteligentíssimo e fechado. Ele parece ter sido incapaz de suportar a rivalidade com ela. Quando ela conseguiu entrar para a Universidade de Berkeley e ele não, o namoro terminou de uma forma desagradável. Os amigos culpavam o namorado. Ele mais tarde foi para o leste e se tornou um cientista dedicado à pesquisa em Nova York.

Ele "por acaso conheceu" um dos nossos investigadores na inauguração de um museu, e a conversa foi conduzida para o tema dos paranormais e de pessoas que conseguem ler a mente. O homem falou abertamente da sua ex- namorada do tempo de colégio, que era uma paranormal. Ele ainda tinha algum ressentimento.

- Eu adorava aquela garota. Gostava mesmo dela. Seu nome era Rowan Mayfair, e ela era bem diferente. Não era bonita segundo os padrões. Mas ela era impossível. Ela sabia o que eu estava pensando antes mesmo que eu soubesse. Ela sabia se eu havia saído com outra. E ela era tão calada a esse respeito que dava para apavorar. Soube que agora é neurocirurgiã. Isso é assustador. O que vai acontecer se o paciente tiver algum pensamento negativo sobre ela antes de ser anestesiado? Será que ela não vai querer cortar aquele pensamento direto do cérebro dele?

O fato é que ninguém que falasse de Rowan chegou a mencionar qualquer mesquinhez por parte dela. Descrevem- na como uma pessoa "tremenda", exatamente como Mary Beth foi descrita um dia, mas nunca mesquinha, vingativa ou indevidamente agressiva em termos pessoais.

Na época em que Rowan entrou para a Universidade de Berkeley em 1976, ela já sabia que queria ser médica. Ela tirou "A" em todas as matérias do programa preparatório para medicina, fez cursos de verão (apesar de ainda sair freqüentemente de férias com Graham e Ellie), pulou um ano inteiro e se formou em primeiro lugar em 1979. Entrou para a faculdade de medicina aos vinte anos de idade, aparentemente acreditando que dedicaria sua vida à pesquisa neurológica. Sua carreira acadêmica durante esse período foi considerada fenomenal. Muitos professores falam dela como "a maior inteligência a quem já ensinei". - Não é só que ela é inteligente. Ela usa a intuição! Ela faz associações espantosas. Ela não lê simplesmente um livro. Ela o devora e aparece com seis deduções diferentes a partir da teoria básica do autor com as quais o próprio autor nunca sonhou.

- Os alunos lhe deram o apelido de Dra. Frankenstein em virtude da sua conversa sobre transplantes de cérebros e sobre a criação de cérebros inteiros a partir de pedaços. Mas o ponto principal com Rowan é que ela é um ser humano. Nenhuma necessidade de se preocupar com uma inteligência sem emoção.

- Ah, Rowan. Se eu me lembro de Rowan? Você deve estar brincando! Rowan podia estar dando a aula no meu lugar. Quer saber uma história engraçada? Mas não vá me contar isso para mais ninguém! Eu precisei sair da cidade no final do semestre, e dei a Rowan os trabalhos da turma inteira para ela corrigir. Ela deu notas para sua própria turma! Bem, se alguém souber disso, estou acabado, mas foi um acordo, sabe? Ela queria a chave do laboratório para usá-lo no período do Natal. E eu lhe sugeri que corrigisse os trabalhos. E o pior de tudo é que foi a primeira vez que nenhum aluno sequer se queixou de uma nota. Rowan, gostaria de poder me esquecer dela. Gente como Rowan faz com que o resto de nós se considere uns idiotas.

-Ela não é inteligente. É isso o que as pessoas acham, mas a questão é outra. Ela é uma espécie de mutante. Não, estou falando sério. Ela consegue examinar os animais das pesquisas e dizer o que vai acontecer com eles. Ela costumava por as mãos neles e dizer, "esse medicamento não vai resolver". Vou lhe dizer mais uma coisa que ela fazia. Ela conseguia curar aqueles bichinhos. Conseguia, sim. Um dos médicos mais antigos me disse uma vez que, se ela não prestasse atenção, Rowan podia prejudicar as experiências com seu poder de cura. E eu acredito. Saí com ela uma vez, e ela não me curou de nada não, mas, cara, como era quente. Estou falando quente mesmo.

Foi como fazer amor com uma pessoa com febre. E é isso o que se diz das curandeiras, sabe, das que foram estudadas. Dá para se sentir um calor que emana das suas mãos. Acredito nisso. Só acho que ela não devia ter optado pela cirurgia. Deveria ter escolhido a oncologia. Nessa especialidade, ela realmente poderia ter curado as pessoas. A cirurgia? Qualquer um pode cortar os outros.

(Permitam-nos acrescentar que esse médico é ele próprio um oncologista, e que é freqüente que médicos não-cirurgiões teçam comentários extremamente pejorativos sobre os cirurgiões, chamando-os de encanadores e termos semelhantes. Os cirurgiões, por seu lado, fazem observações de igual teor depreciativo a respeito dos não-cirurgiões, dizendo coisas como "tudo o que eles fazem é preparar os pacientes para nós".)

 

O PODER DE ROWAN PARA A CURA

Assim que Rowan entrou para o hospital como interna (no seu terceiro ano da faculdade de medicina), relatos acerca dos seus poderes para a cura e para o diagnóstico se tornaram tão comuns que nossos investigadores podiam escolher à vontade o que queriam anotar.

Em suma, Rowan é a primeira bruxa Mayfair a ser descrita como curandeira desde Marguerite Mayfair em Riverbend, antes de 1835.

Praticamente qualquer enfermeira a quem se tenham feito perguntas sobre Rowan tem alguma história "fantástica" para contar. Rowan diagnosticava qualquer coisa.

Rowan sabia exatamente o que fazer. Rowan remendava pessoas que pareciam estar prontas para o necrotério.

- Ela consegue sustar hemorragias. Eu a vi fazendo isso. Ela segurou a cabeça de um menino e olhou para o seu nariz. "Pare", sussurrou ela. Eu a ouvi. E depois disso o menino simplesmente não sangrou mais.

Seus colegas mais céticos, incluindo-se aí alguns médicos e médicas, atribuem suas realizações ao "poder da sugestão".

- Ora, ela praticamente recorre ao vodu, sabe, quando diz para um paciente, agora vamos fazer essa dor parar! É claro que a dor pára. Ela hipnotizou o paciente. Enfermeiras negras mais antigas no hospital sabem que Rowan tem "o poder", e às vezes lhe pedem abertamente que "ponha as mãos" sobre elas quando estão sofrendo de uma crise de artrite ou outras dores desse tipo. Elas têm total confiança em Rowan.

- Ela olha nos olhos da gente e diz para a gente falar onde é que dói. Ela esfrega o lugar com as mãos, e não dói mais! É a pura verdade!

Na opinião geral, Rowan parece ter adorado trabalhar no hospital e ter passado por um conflito imediato entre sua devoção ao laboratório e seu entusiasmo recém-descoberto pelas enfermarias.

- Dava para se ver a cientista pesquisadora sendo seduzida! - Comentou com tristeza uma das suas professoras. - Eu sabia que nós a estávamos perdendo. E quando ela pisou na sala de cirurgia, aí tudo se acabou. Por mais que digam que as mulheres são emotivas demais para serem neurocirurgiãs, ninguém jamais diria uma coisa dessas de Rowan. Ela tem as mãos mais frias da especialidade.

(Observem a coincidência do uso de "frio" e "quente" com referência às mãos.)

Há indícios de que a decisão de Rowan de abandonar a pesquisa pela cirurgia teria sido difícil, se não traumática. Durante o outono de 1983, ela parece ter passado um tempo considerável com um certo Dr. Karl Lemle, do Instituto Keplinger de San Francisco, que estava pesquisando curas para o mal de Parkinson.

Rumores no hospital davam conta de que Lemle estaria tentando atrair Rowan, tirando-a do hospital universitário, com um salário altíssimo e condições ideais de trabalho, mas que Rowan não se sentia pronta para deixar o setor de emergência, a sala de cirurgia ou as enfermarias.

Durante o Natal de 1983, Rowan parece ter tido uma séria desavença com Lemle e daí em diante ela não atendeu mais seus telefonemas. Ou pelo menos era o que todos diziam no hospital universitário durante os meses seguintes.

Nunca pudemos saber o que aconteceu entre Rowan e Lemle. Aparentemente, Rowan aceitou um encontro para almoço com ele na primavera de 1984. Testemunhas viram os dois na lanchonete do hospital, onde se envolveram numa grande discussão. Uma semana mais tarde, Lemle deu entrada no hospital particular do Keplinger, tendo sofrido um pequeno derrame. Seguiu-se um outro, mais outro, e um mês depois ele estava morto.

Alguns dos colegas de Rowan lhe fizeram críticas severas pelo fato de não ter ido visitar Lemle. O assistente de Lemle, que mais tarde assumiu seu posto no Instituto, disse a um dos nossos detetives que Rowan era extremamente competitiva e que invejava seu chefe. Isso parece improvável. Ninguém, que tenha chegado ao nosso conhecimento, jamais associou a morte de Lemle a Rowan. Nós, no entanto, fizemos essa associação.

Independentemente do que possa ter acontecido entre Rowan e seu guru - ela costumava descrevê-lo assim antes da desavença -, Rowan passou a se dedicar à neurocirurgia pouco depois de 1983 e começou a operar exclusivamente o cérebro após completar sua residência em 1985. No momento em que escrevo, ela está terminando sua residência de especialização em neurocirurgia. Ela sem dúvida obterá seu registro no conselho e provavelmente será contratada como médica-assistente do hospital universitário ainda este ano.

O histórico de Rowan como neurocirurgiã até o presente momento - embora ela ainda seja residente e opere oficialmente sob a supervisão do assistente - é tão exemplar quanto seria de se esperar.

São inúmeras as histórias de vidas que ela salvou na mesa de operações, da sua excepcional capacidade para saber ainda no setor de emergência se uma cirurgia irá ou não salvar um paciente, das vezes em que ela consertou ferimentos de machados, tiros e fraturas de crânio resultantes de quedas ou de acidentes automobilísticos, de como ela operou dez horas seguidas sem desmaiar, do seu jeito sereno e eficaz de tratar internos assustados e enfermeiras irritadiças, bem como da censura de colegas e administradores que a aconselham de vez em quando a se arriscar menos.

Rowan, a que faz milagres, passou a ser uma forma comum de se referir a ela. Apesar do seu sucesso como residente na cirurgia, as pessoas continuam a gostar muito de Rowan. Ela é uma médica com a qual os outros podem contar. Da mesma forma, ela consegue despertar uma dedicação extraordinária nas enfermeiras com quem trabalha.

Na realidade, seu relacionamento com essas mulheres (existem alguns enfermeiros do sexo masculino, mas as mulheres ainda predominam na profissão) é tão excepcional que exige uma explicação.

E a explicação parece ser a de que Rowan se esforça ao máximo para criar um relacionamento pessoal com as enfermeiras e que, de fato, ela demonstra a mesma empatia extraordinária com relação aos problemas pessoais dessas profissionais que demonstrava para com suas professoras anos antes. Embora nenhuma dessas enfermeiras relate incidentes envolvendo telepatia, elas afirmam repetidamente que Rowan parece saber quando elas não estão bem, parece se solidarizar com suas dificuldades em família e que Rowan sempre encontra uma forma de expressar sua gratidão por serviços especiais, e isso vindo de uma médica intransigente que espera da sua equipe o mais alto nível de desempenho. A conquista das enfermeiras da sala de cirurgia por parte de Rowan, incluindo-se aquelas famosas por não cooperarem com mulheres cirurgiãs, é uma espécie de lenda no hospital. Enquanto outras cirurgiãs são criticadas por "serem implicantes", por agirem "com excesso de superioridade" ou por serem "simplesmente insolentes" - comentários que parecem refletir um preconceito considerável, no final das contas -, as mesmas enfermeiras falam de Rowan como se fosse um anjo.

- Ela nunca grita ou tem um ataque, como os homens fazem. Ela é boa demais para isso.

- Ela é tão franca quanto um homem.

- Eu prefiro trabalhar ali com ela do que com alguns desses médicos, isso eu lhe digo.

- É lindo trabalhar com ela. Ela é o que há de melhor. Adoro só vê-Ia trabalhando. É como um artista.

- Ela é o único médico que eu deixaria um dia abrir minha cabeça, posso lhe garantir.

Para colocar essas declarações numa perspectiva mais clara, ainda estamos vivendo num mundo em que as enfermeiras da sala de cirurgia às vezes se recusam a entregar os instrumentos a cirurgiãs; e em que os pacientes no setor de emergência se recusam a receber tratamento de médicas e insistem em que jovens internos os atendam enquanto médicas mais velhas, mais preparadas e mais competentes são forçadas a ceder lugar e ficar observando.

Rowan parece ter ultrapassado totalmente esse tipo de preconceito. Se existe alguma queixa contra ela entre os membros da sua profissão, é a de que ela é calada demais. Ela não fala o suficiente sobre o que está fazendo para os médicos mais novos que precisam aprender com ela. É muito difícil para ela. No entanto, ela se esforça ao máximo.

A partir de 1984, ela parecia ter escapado incólume da maldição da família Mayfair, sem ser atingida pelas experiências medonhas que perseguiram sua mãe e sua avó, e estar a caminho de uma carreira brilhante.

Uma investigação exaustiva da sua vida não havia descoberto nenhum indício da presença de Lasher, ou na realidade nenhuma ligação entre Rowan e fantasmas, espíritos ou assombrações.

E seus fortes poderes para a telepatia e para a cura pareciam ter sido aplicados numa atividade extraordinariamente produtiva, sua carreira como cirurgiã.

Embora todos à sua volta a admirassem por seus dons excepcionais, ninguém a considerava "estranha" ou "esquisita" sob nenhum aspecto ligado ao sobrenatural.

Como disse um médico, ao lhe pedirem que explicasse a reputação de Rowan.

- Ela é um gênio. O que mais se pode dizer?

 

DESCOBERTAS RECENTES

Existem, porém, mais elementos na história de Rowan, que só se revelaram nos últimos anos. Uma parte dessa história é exclusivamente pessoal e não diz respeito ao Talamasca. A outra parte nos alarmou muito além das nossas expectativas mais fantasiosas quanto ao que pode acontecer a Rowan no futuro.

Permitam-nos tratar em primeiro lugar da parte insignificante.

Em 1985, a total inexistência de uma vida social por parte de Rowan despertou nossa curiosidade. Pedimos aos nossos detetives que intensificassem sua vigilância.

Em poucas semanas, eles descobriram que Rowan, longe de não ter vida social, tem uma vida social de uma natureza muito específica, que inclui homens muito viris da classe operária, que ela conhece de vez em quando em qualquer um de quatro bares de San Francisco que freqüenta.

Entre esses homens predominam os bombeiros ou os policiais fardados. Eles são invariavelmente solteiros. Têm sempre uma belíssima aparência e o corpo extremamente bem-feito. Rowan os recebe apenas no Sweet Christine, no qual às vezes saem para o mar e outras permanecem atracados. E ela raramente vê qualquer um deles mais de três vezes.

Embora Rowan seja discreta e reservada, ela foi alvo de alguns mexericos nos bares que freqüenta. Pelo menos dois homens ficaram melindrados com sua inevitável rejeição e falaram abertamente com nossos investigadores, mas ficou evidente que eles não sabiam quase nada a respeito dela. Achavam que ela era uma "menina rica de Tiburon", que os havia desprezado, ou que os havia usado. Não faziam a menor idéia de que ela fosse médica. Um deles descreveu repetidamente o Sweet Christine como "o barco extravagante do papai".

Outros homens que conheceram Rowan foram mais objetivos.

- Ela é um lobo solitário. Só isso. Na verdade, eu gostei. Ela não queria nenhum compromisso. Eu também não. Talvez eu quisesse estar com ela mais uma vez ou duas, mas isso tem de ser de interesse mútuo. Eu a compreendo. Ela é uma moça instruída que gosta de homens à antiga.

Uma investigação superficial de doze homens diferentes vistos deixando a casa de Rowan entre 1986 e 1987 indicou que todos eram bombeiros ou policiais extremamente respeitados, alguns com fichas excelentes e condecorações. Todos eram considerados "caras legais" pelos seus colegas e futuras namoradas.

Investigações mais profundas também confirmaram que os pais de Rowan conheciam sua preferência por esse tipo de homem desde antes de se formar na faculdade. Graham comentou com uma secretária que Rowan se recusava até a falar com um rapaz de nível superior de instrução. Que ela só saía com "uns caras estranhos, de peito peludo" e que um dia desses ela ia descobrir que esses primatas débeis mentais eram perigosos.

Ellie também mencionou sua preocupação com as amigas.

-Ela diz que eles todos são policiais e bombeiros, e que esse tipo de homem só salva vidas.

Acho que ela não sabe o que está fazendo. Mas desde que não se case com um deles, acho que tudo bem. Você precisava ver o que ela trouxe para casa ontem à noite. Eu o vi de relance no deque lateral. Uns cabelos ruivos lindos e sardas. O policial irlandês mais bonitinho que já se viu.

No pé em que estão as coisas agora, interrompi essa investigação. Creio que não temos nenhum motivo para pesquisar mais esse aspecto da vida de Rowan. E, na realidade, os bares em que ela conhece seus policiais e bombeiros são tão poucos que fazer perguntas a seu respeito no fundo viola a sua privacidade, ao chamar a atenção para sua pessoa. E em alguns casos nossas perguntas estimularam conversas bastante degradantes por parte de homens grosseiros, que dela não sabiam nada, mas que alegavam ter ouvido de uma outra pessoa esse ou aquele detalhe vulgar. Não creio que esse aspecto da vida de Rowan seja da nossa conta, a não ser para salientar que seu gosto parece ser semelhante ao de Mary Beth Mayfair, e que um estilo desses de contatos aleatórios e limitados reforça a idéia de que ela é um ser solitário e um mistério para todos os que a conhecem. É óbvio que ela não fala de si mesma com esses parceiros sexuais. Talvez ela não consiga falar de si mesma com ninguém, e isso pode ser uma das chaves para a compreensão das suas compulsões e ambições.

 

O PODER TELECINÉTICO DE ROWAN

O outro aspecto da vida de Rowan, descoberto apenas recentemente, é muito mais importante e representa um dos capítulos mais perturbadores em toda a história da família Mayfair. Nós estamos agora somente começando a documentar esse segundo aspecto misterioso de Rowan, e nos sentimos forçados a prosseguir nossas investigações, e a considerar a possibilidade de um contato com Rowan no futuro próximo, embora tenhamos uma profunda preocupação com o fato de estarmos interferindo na sua ignorância quanto aos seus antecedentes familiares. E não podemos em sã consciência entrar em contato com ela sem perturbar essa ignorância. A responsabilidade envolvida é imensa.

Em 1988, quando Graham Franklin morreu de hemorragia cerebral, nosso investigador na área nos mandou uma breve descrição do ocorrido, acrescentando somente alguns detalhes, em especial que o homem morreu nos braços de Rowan. Como sabíamos da profunda dissensão entre Graham Franklin e sua mulher moribunda, Ellie, lemos esse relato com alguma reserva. Seria possível que Rowan tivesse de alguma forma provocado a morte de Graham? Estávamos curiosos por saber. À medida que nossos detetives iam procurando maiores informações sobre o plano de Graham no sentido de se divorciar, eles entraram em contato com a amante de Graham, Karen Garfield, e com o tempo informaram que Karen havia sofrido vários ataques cardíacos. Eles, então, relataram sua morte, dois meses após a morte de Graham. Sem dar absolutamente nenhuma importância ao fato, eles também haviam nos informado de um encontro entre Rowan e Karen no dia em que Karen foi levada às pressas para o hospital com seu primeiro ataque.

- Você é um cara legal. Gostei de você - havia dito Karen ao nosso investigador apenas horas depois de estar com Rowan. Ela na realidade estava conversando com ele quando teve de interromper a conversa por não estar passando bem.

Os investigadores não fizeram a associação, mas nós fizemos. Karen Garfield tinha somente vinte e sete anos. Os registros da sua autópsia, que obtivemos com bastante facilidade, indicaram que ela aparentemente sofria de uma fraqueza congênita do músculo cardíaco e de uma fraqueza congênita da parede da artéria. Ela sofreu uma hemorragia na artéria seguida de colapso cardíaco; e depois do dano inicial ao músculo cardíaco, ela simplesmente não conseguiu se recuperar. Colapsos cardíacos subseqüentes a debilitaram aos poucos até ela afinal falecer.

Somente um transplante poderia ter sido sua salvação e, como Karen tinha um tipo sangüíneo raro, ele ficou fora de cogitação. Além do mais, não havia tempo para isso.

O caso nos pareceu muito estranho, especialmente tendo em vista que a saúde de Karen nunca lhe havia causado preocupações antes. Quando estudamos a autópsia de Graham, descobrimos que ele também havia morrido de um aneurisma, ou enfraquecimento da parede da artéria. Uma forte hemorragia interna o matou quase instantaneamente. Demos ordens aos nossos investigadores para que voltassem a examinar a vida de Rowan com a maior profundidade possível, à procura de quaisquer mortes súbitas em decorrência de colapso cardíaco, acidente cérebro-vascular ou qualquer outro caso de trauma interno. Resumindo, isso significava fazer uma série de perguntas despreocupadas e discretas a professores que pudessem se lembrar de Rowan e dos seus colegas de turma, bem como a estudantes da Universidade de Berkeley ou do hospital universitário que pudessem se lembrar de um acontecimento dessa natureza. Nada de tão fácil, mas mais fácil do que as pessoas não familiarizadas com os nossos métodos possam imaginar. Na verdade, eu esperava que a investigação não revelasse nada. As pessoas que possuem esse tipo de poder telecinético - o poder de provocar graves danos internos - são praticamente inexistentes, mesmo nos anais do Talamasca.

E sem dúvida nós nunca havíamos visto ninguém na família Mayfair que pudesse causar a morte com esse tipo de força.

Muitos integrantes da família Mayfair moviam objetos, batiam portas, faziam com que as janelas tremessem. Mas em quase todos os casos, poderia ter sido pura bruxaria, ou seja, a manipulação de Lasher ou de outros espíritos inferiores, em vez de telecinesia pura. E se fosse telecinesia, era do tipo corriqueiro, nada mais do que isso.

Na verdade, a história da família Mayfair era uma história de bruxaria, com apenas leves toques de telepatia, poderes de cura ou outras capacidades paranormais acrescidos a ela.

Nesse meio-tempo, estudei todas as informações que tínhamos sobre Rowan. Eu não podia deixar de acreditar que Deirdre Mayfair ficaria feliz se lesse essa história, se pudesse saber que sua filha era tão profundamente admirada e tão realizada em tudo o que fazia. Jurei a mim mesmo nunca fazer nada que pudesse perturbar a felicidade ou a paz de espírito de Rowan Mayfair. Se a história da família Mayfair, como a conhecíamos e a compreendíamos, ia se encerrar na figura liberada de Rowan, nós só podíamos nos alegrar por ela e não devíamos fazer nada para afetar a história sob nenhum aspecto.

Afinal de contas, um ínfimo fragmento de informação do passado poderia mudar o curso da vida de Rowan. Não podíamos nos arriscar a fazer uma intervenção dessas.

Eu acreditava de fato que tínhamos de estar preparados para encerrar o arquivo sobre Rowan, e sobre as Bruxas Mayfair, assim que Deirdre falecesse. Por outro lado, tínhamos de nos preparar para fazer alguma coisa se, quando Ellie morresse, Rowan voltasse a Nova Orleans para descobrir seu passado.

Duas semanas após o enterro de Ellie, sabíamos que Rowan não pretendia voltar. Ela acabava de começar seu último ano de residência em neurocirurgia e lhe seria impossível arranjar tempo para a viagem. Além disso, nossos investigadores haviam descoberto que Ellie havia pedido a Rowan que assinasse um documento em que jurava formalmente nunca ir a Nova Orleans ou procurar saber quem eram seus verdadeiros pais. Rowan havia assinado o documento. Não havia nenhum indício de que ela não pretendesse honrá-lo.

Talvez ela nunca pusesse os olhos na casa de First Street. Talvez, de algum modo, "a maldição" fosse interrompida. E Carlotta Mayfair sairia, afinal, vitoriosa.

Por outro lado, era cedo demais para se saber. E o que iria impedir Lasher de se mostrar a essa jovem altamente paranormal que conseguia ler o pensamento dos outros talvez com maior precisão do que sua mãe ou do que sua avó, e cuja enorme força e ambição repercutiam a de antepassados como Marie Claudette, Julien ou Mary Beth, de quem ela nada sabia, mas sobre quem ela poderia em breve descobrir muitas coisas.

Enquanto eu fazia essas ponderações, eu também me flagrei pensando em Petyr van Abel, Petyr, cujo pai havia sido um grande cirurgião e anatomista em Leiden, com seu nome nos livros de história até os nossos dias. Eu ansiava por poder dizer a Rowan Mayfair, "Está vendo esse nome? O desse médico holandês famoso por seus estudos de anatomia. Ele é um antepassado seu. Seu sangue e seu talento talvez tenham chegado até você através de todos esses anos e de todas essas gerações."

Eram esses os meus pensamentos quando no outono de 1988 nossos detetives começaram a nos informar de descobertas espantosas relacionadas a mortes traumáticas no passado de Rowan. Aparentemente, uma menina que brigava com Rowan no pátio em San Francisco havia sofrido uma violenta hemorragia cerebral, morrendo a poucos metros de Rowan, que estava histérica, antes mesmo que uma ambulância pudesse ser chamada. Depois, em 1974, quando Rowan era adolescente, ela foi salva de uma agressão por parte de um estuprador condenado quando o homem sofreu um ataque cardíaco fatal enquanto Rowan lutava para escapar das suas mãos.

Em 1984, na tarde em que se queixou pela primeira vez de uma dor de cabeça fortíssima, o Dr. Karl Lemle, do Instituto Keplinger, disse à sua secretária, Berenice, que tinha acabado de encontrar Rowan por acaso e que não compreendia a animosidade que ela demonstrava com relação a ele. Ficou tão furiosa quando ele tentou falar com ela que se recusou a cumprimentá-lo diante dos outros médicos no hospital universitário. Na verdade, ela lhe havia provocado uma terrível dor de cabeça. Ele precisava tomar uma aspirina. Naquela noite, ele foi hospitalizado devido à primeira de uma série de hemorragias e morreria em questão de semanas.

Isso representava cinco mortes por acidente cardiovascular ou cérebro-vascular entre pessoas íntimas de Rowan. Três dessas pessoas haviam morrido na sua presença. Duas haviam estado com ela horas antes de adoecerem. Instruí meus detetives a fazerem uma verificação exaustiva de cada um dos colegas de trabalho e de estudo de Rowan, e a verificar cada um desses nomes nos registros de óbitos de San Francisco e da cidade de nascimento de cada um. É claro que a tarefa levaria meses.

No entanto, algumas semanas depois, eles se depararam com mais uma morte. Foi Owen Gander quem me ligou, um homem que trabalha diretamente com o Talamasca há vinte anos. Ele não é membro da Ordem, mas visitou a casa-matriz; é um dos nossos confidentes mais fiéis e um dos melhores investigadores que temos.

Foi o seguinte o seu relatório. Na Universidade de Berkeley em 1978, Rowan teve uma terrível discussão com uma colega em virtude de algum trabalho no laboratório.

Rowan achou que a outra havia mexido propositadamente no seu equipamento. Rowan perdeu o controle - algo extremamente raro de ocorrer -, jogou uma peça do equipamento no chão e voltou as costas para a garota. Esta começou a ridicularizar Rowan até outros alunos interferirem insistindo para que ela parasse.

A aluna foi para casa naquela noite em Palo Alto, Califórnia, já que as férias de primavera começavam no dia seguinte. Antes do final das férias, ela ha via morrido de hemorragia cérebro-vascular. Não havia o menor indício de que Rowan jamais tivesse sabido.

Quando li essas palavras, liguei imediatamente para Gander, de Londres.

- O que o faz pensar que Rowan não soube? - perguntei.

-Nenhum dos seus colegas soube. Depois que eu descobri a morte da moça nos óbitos de Palo Alto, fiz uma pesquisa sobre ela com amigos de Rowan. Todos se lembravam da briga, mas ninguém sabia o que aconteceu depois com a colega. Não houve um único que soubesse. Perguntei diretamente. "Nunca mais a vi." "Acho que largou a faculdade."

"Nunca a conheci muito bem. Não sei o que aconteceu com ela. Pode ser que tivesse voltado para Stanford." E é isso aí. Berkeley é uma universidade enorme. Poderia ter acontecido exatamente assim.

Aconselhei, então, ao investigador que prosseguisse com a máxima discrição e descobrisse se Rowan tinha conhecimento do que havia acontecido com a amante de Graham, Karen Garfield.

-Ligue para ela em alguma hora da noite. Peça para falar com Graham Franklin. Quando ela lhe disser que Graham morreu, explique que você está à procura de Karen Garfield. Tente incomodá-la o mínimo possível e não fique muito tempo na linha.

Na noite seguinte, o investigador ligou de volta.

- Você tem razão.

- Sobre o quê?

- Ela não sabe o que está fazendo! Ela não faz a menor idéia da morte de Karen Garfield.

Ela me disse que Karen morava em algum lugar em Jackson Street em San Francisco. Sugeriu que eu ligasse para a antiga secretária de Graham. Aaron, ela não sabe.

- Como lhe pareceu sua voz?

- Exausta, ligeiramente irritada, mas educada. Ela tem realmente uma bela voz. Uma voz extraordinária. Perguntei-lhe se conhecia Karen. Eu estava mesmo forçando um pouco. Ela disse que não conheceu Karen de verdade, que Karen havia sido amiga do seu pai. Acredito que estivesse sendo perfeitamente sincera!

- É, mas ela devia saber a respeito do pai adotivo e da menina no pátio da escola. E ela sem dúvida soube no caso do estuprador.

- Concordo, Aaron, mas é provável que nenhum desses tenha sido proposital. Você não percebe? Ela estava histérica quando a menininha morreu; estava histérica depois da tentativa de estupro. Quanto ao pai adotivo, ela estava fazendo tudo para ressuscitá-lo quando a ambulância chegou. Ela não sabe. Ou, se sabe, não tem controle sobre isso. Pode ser que isso a esteja deixando totalmente apavorada.

Dei instruções a Gander no sentido de que reexaminasse a questão dos rapazes com maior profundidade. Que procurasse por qualquer tipo de morte aplicável ao caso de Rowan entre policiais ou bombeiros de San Francisco ou de Marin County. Que voltasse aos bares freqüentados por Rowan. Que entabulasse conversa com um ex-namorado seu, dizendo que estava à procura de Rowan Mayfair. Alguém a teria visto? Alguém a conhece? Seja discreto e procure não chamar a atenção. Mas pesquise. Gander ligou quatro dias depois. Não havia encontrado nenhuma morte suspeita entre os rapazes das duas corporações que pudesse estar remotamente associada a Rowan. No entanto, um ponto importante havia surgido a partir da conversa do detetive no bar. Um jovem bombeiro, que confessou conhecer Rowan e gostar dela, disse que ela não era nenhum mistério para ele; que era mais como um livro aberto.

- Ela é médica. Gosta de salvar vidas, e aprecia nossa companhia porque nós fazemos o mesmo que ela.

- Rowan realmente disse isso para o rapaz?

- É, foi isso o que ela disse. Ele até fez piada sobre a história. "Imagine, eu fui para a cama com urna neurocirurgiã. Ela se apaixonou pelas minhas condecorações. Foi maravilhoso enquanto durou. Acha que, se eu salvar alguém de um prédio em chamas, ela me dá mais uma chance?" - Gander riu. - Aaron, ela não sabe. Sua obsessão é salvar vidas, e talvez ela nem saiba bem por quê.

- Ela tem de saber. É competente demais como médica para não saber - disse eu. – Lembre-se, ela é um gênio para diagnósticos. Ela deve ter sabido no caso do pai adotivo. A não ser, é claro, que estejamos redondamente enganados.

- Não estamos enganados, Aaron. O que temos nesse caso é uma brilhante neurocirurgiã, descendente de uma família de bruxas, que consegue matar com o olhar. E até certo ponto, ela sabe disso, tem de saber, e passa todos os dias da sua vida procurando compensar esse seu lado na sala de cirurgia. E, quando ela sai para se divertir, é com algum herói que acabou de salvar um menino de um sótão em chamas ou com um policial que impediu um bêbado de esfaquear a própria mulher. Ela é meio louca, essa moça. Talvez tão louca quanto todas as outras.

Em dezembro de 1988, fui à Califórnia. Eu estivera nos Estados Unidos em janeiro daquele ano para comparecer ao enterro de Nancy Mayfair, e muito me arrependi de não ter seguido até a costa oeste naquela ocasião para ver Rowan mesmo de relance. Mas naquela época ninguém podia imaginar que tanto Ellie quanto Graham estariam mortos dentro de seis meses. Rowan estava agora sozinha na casa de Tiburon. Eu queria dar uma olhada nela, mesmo que fosse de longe. Eu queria fazer algum tipo de avaliação que dependia de eu vê-Ia em carne e osso.

A essa altura, graças a Deus, não havíamos encontrado mais nenhuma morte no passado de Rowan. No seu último ano de residência em neurocirurgia, Rowan cumpria no hospital horários impossíveis, se não desumanos, e eu descobri ser muito mais difícil conseguir um relance dela do que jamais havia imaginado. Para sair do hospital, ela tirava o carro de um estacionamento coberto e, em casa, entrava numa garagem coberta.

O Sweet Christine, atracado quase à soleira da sua porta, ficava totalmente oculto por uma alta cerca de sequóias.

Afinal, entrei no hospital universitário, procurei a lanchonete dos médicos e fiquei por ali por perto numa pequena área para visitas durante sete horas. Ao que eu percebesse, Rowan nunca passou por ali.

Resolvi segui-la na saída do hospital, só para descobrir que não havia nenhum meio de descobrir a hora em que sairia. Sua hora de chegada era também um mistério.

Não havia nenhuma forma discreta para eu insistir com alguém que me desse detalhes. Eu não podia me arriscar a ficar perambulando na área próxima às salas de cirurgia.

O acesso era vedado ao público. A sala de espera para os membros da família dos pacientes submetidos a cirurgia era monitorada com rigor. E o restante do hospital me parecia um labirinto. Eu não sabia afinal o que fazer.

Fiquei consternado. Eu queria ver Rowan, mas receava perturbá-la. Não podia suportar a idéia de trazer as trevas até sua vida, de toldar aquele isolamento do passado que aparentava ter-lhe sido tão benéfico. Por outro lado, se ela realmente havia sido responsável pela morte de seis seres humanos! Bem, eu precisava vê-Ia antes de tomar uma decisão. Eu tinha de vê-Ia.

Incapaz de chegar a uma solução, convidei Gander para um drinque no hotel. Gander considerava Rowan profundamente perturbada. Ele a vinha observando esporadicamente há mais de quinze anos. A morte dos pais lhe havia tirado o entusiasmo, disse ele. E ele podia afirmar com bastante certeza que seus contatos aleatórios com os "rapazes de farda" como Gander chamava os namorados de Rowan, haviam se reduzido a nada nos últimos meses.

Eu disse a Gander que não deixaria a Califórnia sem pelo menos vê-Ia de vislumbre, mesmo que tivesse de ficar à espreita no estacionamento subterrâneo perto do seu carro (o pior meio possível para se conseguir ver alguém) até que ela aparecesse.

- Eu não tentaria fazer isso, meu velho - disse Gander. - Os estacionamentos subterrâneos podem ser extremamente fantasmagóricos. As pequenas antenas paranormais de Rowan irão detectá-lo de imediato. Ela pode, então, se enganar quanto à intensidade do seu interesse por ela, e você vai sentir uma súbita pontada na lateral da cabeça. Em seguida, você de repente...

-já entendi, Owen - respondi, desanimado. - Mas eu preciso dar uma boa olhada nela em algum lugar público onde ela não perceba minha pessoa.

- Ora, faça com que isso aconteça - disse Gander. - Recorra um pouco à bruxaria.

Sincronização? Não é assim que se chama?

No dia seguinte, resolvi fazer um serviço de rotina. Fui até o cemitério onde estavam enterrados Graham e Ellie, para fotografar as inscrições nas lápides. Eu havia pedido duas vezes a Gander que fizesse isso, mas não sei bem como, ele nunca chegou a ir lá. Creio que ele gostava muito mais dos outros aspectos da investigação.

Enquanto eu estava lá, aconteceu uma coisa incrível. Rowan Mayfair apareceu. Eu estava ajoelhado ao sol, fazendo algumas anotações sobre as inscrições, depois de ter tirado as fotografias, quando percebi uma moça alta de japona e jeans desbotados, subindo a ladeira. Por um instante, ela pareceu ser apenas pernas e cabelos esvoaçantes, uma linda jovem de rosto limpo. Impossível acreditar que já tivesse trinta anos de idade.

Pelo contrário, seu rosto praticamente não tinha rugas. Ela parecia exatamente igual às suas fotografias tiradas anos antes, e no entanto ela lembrava muito uma outra pessoa. Por um instante, essa semelhança me perturbou tanto que eu não consegui pensar em quem seria. Depois o nome da pessoa me ocorreu. Era Petyr van Abel. Rowan tinha a mesma aparência loura, de olhos claros, quase escandinava. Ela também parecia extremamente independente e forte.

Ela se aproximou do túmulo e parou a poucos metros de onde eu estava ajoelhado, obviamente fazendo anotações sobre a lápide da sua mãe adotiva.

Comecei imediatamente a falar com ela. Não consigo me lembrar exatamente do que disse. Eu estava tão agitado que não sabia o que devia dizer para explicar minha presença ali. E aos poucos pressenti o perigo, com a mesma certeza que o havia pressentido com Cortland tantos anos antes. Pressenti um perigo imenso. Na realidade, seu rosto liso com os enormes olhos cinzentos de repente parecia cheio de pura maldade. E então sua expressão ficou escondida atrás de uma muralha. Ela estava se fechando, como um gigantesco receptor que é desligado de repente e em silêncio. Percebi com horror que eu estivera falando da sua família. Eu lhe havia dito que conhecia sua família em Nova Orleans. Essa era minha desculpa capenga para o que estava fazendo ali. Ela queria tomar um drinque? Conversar sobre velhas histórias da família? Meu Deus! E se ela aceitasse!

Mas ela não disse nada. Absolutamente nada, pelo menos não em palavras, Eu poderia ter jurado, porém, que o receptor desligado de repente estava transformado num transmissor bem sintonizado, e ela me comunicava com bastante determinação que não podia aceitar meu convite, alguma coisa sinistra, terrível e dolorosa a impedia de aceitar. Em seguida ela pareceu estar totalmente confusa, perdida na sua tristeza. De fato, raramente se é que alguma vez na minha vida percebi uma dor tão pura. Ocorreu-me num lampejo mudo que ela sabia ter matado pessoas. Ela sabia que era diferente, de um jeito horrível e mortal. Ela sabia, e esse conhecimento a isolava como se ela estivesse enterrada viva dentro de si mesma.

Talvez não tivesse sido maldade o que senti apenas momentos antes. Mas não importa o que fosse, o encontro estava encerrado. Eu a estava perdendo. Ela se voltou para ir embora. Eu nunca iria saber por que ela havia vindo, o que pretendia fazer. Imediatamente, ofereci-lhe meu cartão. Coloquei-o na sua mão, mas ela o devolveu. Não com grosseria. Apenas o devolveu. Colocou-o de volta na minha mão. Saltou dela um rancor como um feixe de luz que sai por um buraco de fechadura. Depois ela se apagou. Seu corpo se retesou, e ela deu a volta e foi embora.

Eu estava tão abalado que por algum tempo não consegui me mexer. Fiquei ali parado no cemitério, observando enquanto ela descia a ladeira. Vi que ela entrava num jaguar verde. Saiu sem olhar para trás.

Eu estaria doente? Não estava sentindo uma dor forte em algum lugar? Eu estava a um passo da morte? É claro que não. Não havia acontecido nada disso. Mesmo assim, eu sabia o que ela podia fazer. Eu sabia, ela sabia e me havia contado! Mas por quê? Na hora em que afinal cheguei ao Campton Place Hotel em San Francisco, eu já estava completamente confuso. Resolvi que não faria mais nada por enquanto.

- Mantenha a vigilância - disse eu a Gander, quando me encontrei com ele. - Chegue o mais próximo que ousar. Esteja alerta para qualquer indício de que ela esteja usando o poder. Avise-me imediatamente.

- Quer dizer que você não vai estabelecer contato?

- Por enquanto não. Não tenho como justificá-lo. Não até que aconteça mais alguma coisa, e isso poderia ser das duas uma: ela mata mais alguém, por acidente ou por sua própria vontade; ou a mãe morre em Nova Orleans, e ela resolve voltar para lá.

- Aaron, isso é loucura! Você tem de estabelecer contato. Não pode esperar até ela voltar para Nova Orleans. Olhe, meu caro, você praticamente me contou a história inteira ao longo dos anos. E eu não quero dar a impressão de saber mais do que vocês sabem. Mas, a partir de tudo o que você me contou, essa é a paranormal mais poderosa que essa família jamais produziu. Quem vai negar que ela não é também uma bruxa poderosa? Quando a mãe afinal se for, por que esse espírito, Lasher, iria perder uma oportunidade dessas?

Não tive resposta, a não ser para dizer o que Owen já sabia. Não havia absolutamente nenhum vislumbre de Lasher na história da vida de Rowan.

- É porque ele está esperando a hora certa. A outra ainda está viva. Está com o colar.

Quando ela morrer, porém, terão de entregá-lo a Rowan. Pelo que você me disse, é essa a lei.

Liguei para Scott Reynolds em Londres. Scott já não é mais nosso diretor, mas é, depois de mim, a pessoa mais familiarizada na Ordem com o tema das Bruxas Mayfair.

- Concordo com Owen. Você precisa estabelecer contato. Precisa mesmo. O que disse a ela no cemitério foi exatamente o que devia ter dito, e em algum nível você tem consciência disso. Foi por isso que lhe falou da família. Foi por isso que lhe ofereceu o cartão. Converse com ela. É o que tem de fazer.

- Não, não concordo com vocês. Não há justificativa.

-Aaron, essa mulher é uma médica conscienciosa e no entanto sai matando as pessoas!

Você acha que ela quer que esse tipo de coisa aconteça? Por outro lado...

- ... O quê?

- Se ela realmente sabe, esse contato poderá ser perigoso. Devo confessar que não sei como me sentiria a respeito de toda essa história se estivesse aí, no seu lugar. Refleti muito. Resolvi que não entraria em contato com ela. Tudo o que Owen e Scott me haviam dito era verdade. Mas não passava de conjecturas. Nós não sabíamos se Rowan algum dia havia matado alguém de propósito . Era possível que ela não fosse responsável pelas seis mortes.

Não tínhamos como saber se ela algum dia poria as mãos no colar de esmeralda. Não sabíamos se ela um dia voltaria a Nova Orleans. Não sabíamos se os poderes de Rowan incluíam a capacidade de ver um espírito ou de ajudar Lasher a se materializar... É, mas é claro que podíamos muito bem supor que Rowan pudesse fazer tudo isso... Mas era essa exatamente a questão. Tratava-se de conjecturas. Nada mais do que conjecturas.

E aqui estava essa médica esforçada, salvando vidas diariamente num hospital de uma grande cidade. Uma mulher que não havia sido sequer tocada pelas trevas em que a casa de First Street se encontrava. É verdade que ela dispunha de um poder medonho e que poderia voltar a usá-lo, proposital ou acidentalmente. Se isso acontecesse, só então eu estabeleceria contato.

-Ah, já entendi, você quer mais um corpo no necrotério - brincou Owen.

- Não acredito que apareça mais um - disse eu, irritado. - Além do mais, se ela não sabe o que está fazendo, por que iria acreditar em nós?

- Conjecturas - disse Owen. - Como tudo o mais.

 

RESUMO

Até janeiro de 1989, não houve nenhuma associação do nome de Rowan com outras mortes suspeitas. Pelo contrário, ela vem trabalhando incansavelmente no hospital universitário, "fazendo milagres", e tem toda a probabilidade de ser nomeada médica assistente na neurocirurgia antes do final do ano.

Em Nova Orleans, Deirdre Mayfair continua sentada na sua cadeira de balanço, com os olhos fixos no jardim abandonado. A última aparição de Lasher "um belo rapaz parado de pé ao seu lado", foi comunicada há duas semanas.

Carlotta Mayfair está chegando aos noventa anos. Seu cabelo está totalmente branco, embora o penteado não tenha se alterado nos últimos cinqüenta anos Sua pele é opaca, e seus tornozelos aparecem permanentemente inchados acima dos sapatos simples de couro preto. Sua voz, porém, continua firme. E ela ainda comparece ao escritório todas as manhãs, trabalhando lá quatro horas. Às vezes ela almoça com os advogados mais novos antes de tomar o táxi de sempre de volta à casa. Aos domingos, ela caminha até a capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro para assistir à missa. Outros paroquianos já se ofereceram para levá-la de automóvel à missa e, na realidade, a qualquer outro lugar que ela gostaria de ir. Mas ela responde que gosta de caminhar. Que precisa do ar puro. Que isso a mantém em boas condições de saúde.

Quando a irmã Bridget Marie faleceu, no outono de 1987, Carlotta compareceu à cerimônia fúnebre com seu sobrinho (na verdade, seu primo Gerald Mayfair, um bisneto de Clay Mayfair). Dizem que ela gosta de Gerald Dizem que ela tem medo de não conseguir viver o suficiente para ver Deirdre em paz. Talvez Gerald tenha de cuidar de Deirdre quando Carlotta se for. Ao que saibamos, Rowan não conhece nenhuma dessas pessoas. Atualmente ela não sabe sobre sua família nada além do que sabia quando era pequena.

- Ellie tinha tanto medo de que Rowan procurasse descobrir quem eram seus pais verdadeiros - disse uma amiga recentemente a Gander. - A impressão que eu tenho é que se trata de uma história horrível. Mas Ellie nunca se dispunha a falar nela, a não ser para dizer que Rowan precisava ser protegida do passado a qualquer custo.

Eu me contento em manter vigilância e esperar.

A minha sensação, talvez irracional, é a de que isso eu devo a Deirdre. É para mim líquido e certo que ela não queria renunciar a Rowan. Não há a menos sombra de dúvida de que ela teria desejado para a filha uma vida normal. Há ocasiões em que eu me sinto tentado a destruir nosso arquivo sobre as Bruxa! Mayfair. Será que alguma outra história nos envolveu em tanta violência e tanta dor? É claro que uma atitude dessas é impensável. O Talamasca jamais permitiria. E jamais perdoaria, se eu agisse à sua revelia.

Ontem à noite, depois de terminar meu rascunho final desse resumo, sonhe; com Stuart Townsend, a quem vi apenas uma vez quando era menino. No sonho, ele estava no meu quarto e conversava comigo há horas. No entanto, quando acordei, só consegui recordar suas últimas palavras.

- Você entende o que eu estou dizendo? É tudo planejado! - Ele estava tremendamente irritado comigo.

- Não entendo! - disse em voz alta quando acordei. Na verdade, foi o som da minha voz que me acordou. Fiquei pasmo ao descobrir que estava num quarto vazio, que estivera sonhando, que Stuart não estava realmente ali.

Não entendo. Essa é a pura verdade. Não sei por que Cortland tentou me matar. Não sei por que um homem daqueles chegaria a um extremo tão medonho. Não sei o que realmente aconteceu a Stuart. Nem mesmo sei por que Stella estava tão desesperada para que Arthur Langtry a levasse embora. Não sei o que Carlotta fez com Antha, ou se Cortland foi o pai de Stella, de Antha e do bebê de Deirdre. Simplesmente não entendo!

Existe, porém, um ponto sobre o qual tenho certeza. Um dia, independentemente do que tenha prometido a Ellie Mayfair, Rowan pode voltar a Nova Orleans. E, se ela o fizer, vai querer algumas respostas. Dezenas e mais dezenas de respostas. E eu receio que atualmente eu seja o único - nós do Talamasca somos os únicos - que tenha condições de reconstituir para ela essa triste história.

 

Aaron Lightner, Talamasca Londres 15 de janeiro de 1989

E aquilo continuava sem parar, exótico e irreal na sua estranheza, um ritual de algum outro povo, esquisito e de uma beleza sinistra, à medida que toda aquela gente se derramava até o ar quente lá fora e depois entrava numa frota de limusines que os levavam silenciosamente por ruas estreitas, lotadas, nuas de árvores.

Diante de uma alta igreja de tijolos, a da Assunção de Santa Maria, a longa fila de carros reluzentes e lentos foi parando, esquecida dos prédios abandonados da escola com suas janelas quebradas e do mato a brotar vitorioso em cada fenda e rachadura.

Carlotta estava parada na escadaria da igreja, alta, rígida, com a mão magra cheia de manchas segurando firme a curva da sua lustrosa bengala de madeira. Ao seu lado, um homem atraente, de cabelos brancos e olhos azuis, talvez não muito mais velho do que Michael, que a velha dispensou com um gesto frágil enquanto acenava para Rowan acompanhá-la.

O homem mais velho recuou para ficar com o jovem Pierce, depois de apertar rapidamente a mão de Rowan. Havia algo de furtivo no seu jeito de sussurrar seu nome, "Ryan Mayfair", enquanto olhava ansioso para a velha. Rowan compreendeu que ele era o pai do jovem Pierce.

E entraram todos na imensa nave da igreja, todo o grupo acompanhando o caixão na sua mesa com rodinhas. Os passos ecoavam suaves e altos sob os graciosos arcos góticos, com a luz batendo brilhante nas magníficas janelas de vitral e nas estátuas dos santos delicadamente pintadas.

Raras vezes, mesmo na Europa, ela havia visto tanta elegância e grandiosidade. As palavras de Michael voltaram vagamente à sua lembrança: algo sobre a velha paróquia da sua infância; sobre as igrejas lotadas que eram grandes como catedrais. Teria sido esse o lugar?

Devia haver umas mil pessoas ali reunidas agora, crianças com seus gritos agudos antes que as mães as calassem, e as palavras do padre reverberando no amplo vazio como se fossem uma canção.

A velha de costas rígidas ao seu lado não lhe dizia nada. Nas suas mãos definhadas, frágeis, ela segurava com maravilhosa destreza um livro pesado, cheio de imagens coloridas dos santos. Seus cabelos brancos, puxados para trás num coque, pareciam grossos e pesados junto à cabeça pequena, abaixo do seu chapéu preto de feltro sem abas. Aaron Lightner ficou lá atrás, nas sombras, junto às portas da frente, embora Rowan tivesse preferido que ele se sentasse ao seu lado. Beatrice Mayfair chorava baixinho no segundo banco. Pierce estava do outro lado de Rowan, de braços cruzados, olhando sonhador para as imagens do altar, para os anjos pintados lá no alto. Seu pai parecia ter caído no mesmo tipo de transe, apesar de uma vez ele ter se virado e fixado seus penetrantes olhos azuis em Rowan, deliberadamente e sem constrangimento.

Eles se levantaram às centenas para receber a comunhão, os velhos, os moços e as criancinhas. Carlotta recusou ajuda ao se dirigir até a frente e depois voltar ao seu lugar, com a ponta de borracha da sua bengala batendo surda no chão. Deixou-se então cair no banco, com a cabeça baixa, enquanto dizia suas preces. Ela estava tão magra que o costume escuro de gabardine parecia vazio, como um traje num cabide, sem nenhum contorno de um corpo dentro dele. Suas pernas pareciam gravetos enfiados nos grossos sapatos de cadarço.

O cheiro de incenso subiu do turíbulo de prata enquanto o padre circundava o caixão. Afinal, a procissão saiu para a frota que aguardava na rua sem árvores. Dezenas de pequenas crianças negras, algumas descalças, algumas sem camisa, olhavam das calçadas quebradas diante de um ginásio esportivo abandonado, em péssimo estado. Mulheres negras estavam paradas de braços cruzados e cara amarrada, ao sol. Será que isso aqui era mesmo nos Estados Unidos da América?

Em seguida, a caravana mergulhou, um veículo quase grudado ao da frente, pelas densas sombras do Garden District, com dezenas de pessoas a acompanhando a pé, as crianças saltitando à frente, todos avançando por aquela profunda luz verde.

O cemitério murado era uma verdadeira cidade de túmulos com telhados em cumeeira, alguns com seus próprios jardins minúsculos, com os caminhos passando de um lado para o outro por essa cripta em ruínas ou por esse grande monumento aos bombeiros de uma outra era, aos órfãos desse ou daquele orfanato, ou aos ricos que tinham o dinheiro e o tempo para mandar gravar poesia nessas lápides, palavras agora cheias de pó e em lento desgaste.

O próprio jazigo da família Mayfair era enorme e cercado de flores. Uma pequena cerca de ferro encerrava a pequena construção, com urnas de mármore nos quatro cantos do seu peristilo de inclinação delicada. Seus três vãos continham doze criptas do tamanho de um caixão, e de uma delas havia sido removida a tampa de mármore liso, de tal forma que ela estava aberta, escura e vazia, para que o caixão de Deirdre Mayfair fosse ali colocado como uma enorme fôrma de pão.

Instada delicadamente a ficar lá na frente, Rowan estava parada ao lado da velha. O sol cintilava nos seus pequenos óculos prateados e redondos, enquanto ela olhava com ar lúgubre para a palavra "Mayfair", gravada em letras gigantescas dentro do triângulo achatado do peristilo.

E Rowan também olhou para ali, deslumbrada mais uma vez com as flores e os rostos à sua volta, quando numa voz respeitosa e contida o jovem Pierce lhe explicou que, apesar de haver apenas doze criptas, inúmeros membros da família Mayfair haviam sido ali enterrados, como revelavam as lápides da frente. Com o tempo, os caixões mais antigos eram abertos para ceder lugar a novos mortos. E os pedaços, bem como os ossos, eram jogados numa catacumba abaixo do jazigo. Rowan respirou levemente ofegante.

- Quer dizer que eles estão todos ali embaixo - disse ela, baixinho, meio perplexa. – Todos misturados ali por baixo?

-Não, eles estão no céu ou no inferno - disse Carlotta Mayfair, com a voz firme e atemporal como seus olhos. Ela nem mesmo voltou a cabeça para os dois.

Pierce recuou, como se tivesse medo de Carlotta, com um rápido sorriso constrangido lhe iluminando o rosto. Ryan olhava espantado para a velha. Agora, porém, o caixão estava sendo trazido, com os carregadores o sustentando nos ombros. Seus rostos estavam vermelhos com o esforço; o suor escorria das suas testas quando eles depositaram o enorme peso no carrinho.

Era a hora das últimas orações. O padre estava novamente ali com seu coroinha. O calor de repente pareceu impossível e imóvel. Beatrice enxugava as bochechas ruborizadas com um lenço dobrado. Os mais idosos, à exceção de Carlotta, estavam se sentando onde podiam nas saliências em volta dos túmulos menores.

Rowan deixou seus olhos vaguearem até o alto do jazigo, até o peristilo ornamentado com a palavra "Mayfair", e acima desse nome, em baixo relevo, uma porta aberta ao longe. Ou seria um grande buraco de fechadura aberto? Ela não soube dizer. Quando uma brisa leve e úmida começou a soprar, fazendo mexer as folhas rígidas das árvores ao longo do caminho, pareceu um milagre. Ao longe, junto aos portões da frente, com os súbitos lampejos de cor do trânsito às suas costas, Aaron Lightner estava parado ao lado de Rita Mae Lonigan, que havia esgotado as lágrimas e parecia simplesmente consternada como alguém que trabalhou a noite inteira em enfermarias de hospital com pacientes moribundos.

Mesmo o toque final deu a Rowan uma impressão de loucura pitoresca. Pois, à medida que saíam pelo portão principal, ficou claro que um pequeno grupo ia agora entrar num elegante restaurante bem do outro lado da rua!

O Sr. Lightner despediu-se dela discretamente, prometendo-lhe que Michael viria. Ela queria pressioná-lo, mas a velha o encarava com frieza e raiva; e estava óbvio que ele havia percebido essa atitude e que estava ansioso para se afastar. Desnorteada, Rowan deu um aceno de adeus. O calor novamente fazia com que se sentisse mal. Rita Mae Lonigan sussurrou uma despedida pesarosa. Centenas disseram adeus enquanto passavam rapidamente; centenas vieram abraçar a velha. Aquilo parecia não ter fim, o calor tornando o ar pesado e depois leve, as árvores gigantescas fornecendo uma sombra malhada. "Vamos nos ver outras vezes, Rowan". "Você vai ficar, Rowan?" "Até logo, tia Carl. A senhora cuidou dela." "Logo iremos visitá-la, tia Carl. A senhora precisa vir até Metairie". "Tia Carl, eu lhe telefono na semana que vem". "Tia Carl, a senhora está bem?"

Afinal, a rua ficou vazia a não ser pelo fluxo constante de veículos coloridos, barulhentos, indiferentes, e por algumas pessoas bem-vestidas que saíam do restaurante obviamente fino e espremiam os olhos com a luz forte do sol.

- Não quero entrar - disse a velha, olhando com frieza para os toldos brancos e azuis.

- Ora, tia Carl, por favor, só um pouquinho - disse Beatrice Mayfair.

- Por que não entramos por alguns minutos? - disse um rapaz esguio chamado Gerald, que segurava o braço da velha. - Depois eu a levo para casa.

- Agora quero ficar sozinha - disse a velha. - Quero ir para casa a pé sozinha. - Seus olhos se fixaram em Rowan. Espectrais, com sua inteligência imutável saindo em faíscas do rosto desgastado, encovado. - Fique com eles quanto tempo quiser - disse ela, como se fosse uma ordem - e depois venha me procurar. Estarei à sua espera.

Na casa de First Street.

- Quando a senhora quer que eu vá? - perguntou Rowan, com delicadeza. Um sorriso frio, irônico, tocou os lábios da velha, um sorriso atemporal como os olhos e a voz.

- Quando você quiser vir. Será uma boa hora. Tenho algo a lhe dizer. Estarei lá.

- Vá com ela, Gerald.

- Vou levá-la, tia Bea.

- Se quiser, você pode me acompanhar de carro - disse Carlotta, inclinando a cabeça e pousando a bengala no chão à sua frente. - Mas eu vou caminhar sozinha.

Quando as portas de vidro do restaurante chamado Commander's Palace haviam se fechado às suas costas, e Rowan percebeu que agora estavam num mundo levemente familiar de garçons uniformizados e toalhas de mesa brancas, ela olhou para trás através do vidro para o muro caiado do cemitério e para os pequenos telhados pontiagudos visíveis acima do muro.

Os mortos estão tão perto que podem nos ouvir, pensou ela.

- É, mas você sabe - disse Ryan, o homem alto de cabelos brancos, como se tivesse lido seu pensamento -, aqui em Nova Orleans nós nunca os deixamos totalmente de lado.

Um crepúsculo cinzento caía sobre Oak Haven. Já quase não se via o céu. Os carvalhos estavam negros e densos, com as suas sombras se ampliando de modo a engolir o último resquício da luz quente do verão que se aferrava à estrada de cascalho. Michael estava sentado na larga varanda da frente, com a cadeira inclinada para trás, os pés na balaustrada de madeira, um cigarro na boca. Ele havia acabado a história da família Mayfair, e estava se sentindo inexperiente, entusiasmado e cheio de uma tranqüila animação. Ele sabia que ele e Rowan constituíam agora o novo capítulo ainda por escrever, ele e Rowan, que haviam sido personagens dessa narrativa já há algum tempo.

Quase em desespero, ele se agarrou ao prazer do cigarro, e à observação das mudanças no céu crepuscular. A escuridão ia se adensando por toda parte agora na paisagem extensa, com a barragem sumindo de tal jeito que ele não conseguia mais divisar os carros que passavam pela estrada, mas apenas ver o brilho amarelo das suas luzes.

Cada som, cada perfume, cada nuança de cor despertava nele uma enxurrada de recordações agradáveis, algumas deslocadas e sem qualquer identificação. Era simplesmente a certeza da familiaridade, de que esse era o seu chão, que era aqui que as cigarras cantavam como em nenhum outro lugar.

No entanto, era uma agonia, esse silêncio, essa espera, essa quantidade de pensamentos amontoados na cabeça.

As lâmpadas acesas no quarto atrás dele ficaram mais fortes à medida que o dia terminava ao seu redor. Agora, a luz suave caía sobre as pastas de papel pardo no seu colo.

Porque Aaron não havia ligado para ele? Sem dúvida, o enterro de Deirdre Mayfair já havia terminado. Aaron devia estar voltando, e talvez Rowan estivesse com ele. Talvez Rowan houvesse perdoado Michael instantaneamente por não ter comparecido já que ele próprio não se havia perdoado - e estava vindo para cá para ficar com ele. Os dois iriam conversar esta noite, falar sobre tudo isso neste lugar seguro e saudável.

Havia, porém, mais uma pasta a ser lida, mais um apanhado de anotações, obviamente destinado aos seus olhos. Melhor acabar isso de uma vez. Ele apagou o cigarro, esmagando-o no cinzeiro sobre a pequena mesinha dobrável ao seu lado e, levantando a pasta para que a luz a atingisse, ele a abriu.

Papéis soltos, alguns manuscritos, alguns datilografados, alguns impressos. Ele começou a ler.

 

COPIA DE AEROGRAMA ENVIADO A CASA-MATRIZ DO TALAMASCA EM LONDRES POR AARON LIGHTNER

Agosto de 1989: Parker Meridien Hotel Nova York.

Acabei de completar entrevista obtida através de encontro casual com médico de Deirdre Mayfair (de 1983) aqui em Nova York, como planejado. Diversas surpresas.

Enviarei transcrição completa manuscrita da entrevista (fita perdida; médico a solicitou e eu a entreguei a ele), que completarei durante o vôo até a Califórnia. Quero, porém, comunicar uma novidade extremamente interessante e pedir uma busca nos arquivos e um estudo dos mesmos.

Esse médico alega ter visto Lasher não só junto a Deirdre, mas a alguma distância da casa de First Street, em duas ocasiões. E pelo menos numa dessas ocasiões, num bar em Magazine Street, está claro que Lasher se materializou. (Observe-se o calor, o deslocamento de ar, tudo perfeitamente descrito pelo homem.)

Além disso, o médico se convenceu de que Lasher estava tentando impedi-lo de dar a Deirdre a medicação tranqüilizante. E que, quando Lasher mais tarde lhe apareceu, ele estava tentando conseguir que o médico voltasse a First Street e de algum modo ajudasse Deirdre.

O médico só chegou a essas interpretações em época mais recente. Quando estavam ocorrendo as aparições, ele ficou assustadíssimo. Ele não ouvia palavras de Lasher; ele não recebia nenhuma mensagem telepática nítida. Pelo contrário, ele achava que o espírito estava procurando desesperadamente se comunicar e só conseguia fazê-lo por meio dessas aparições silenciosas.

Esse médico não demonstra absolutamente nenhuma evidência de ser algum tipo de médium natural.

Conduta recomendada: pinçar todas as aparições de Lasher desde 1958 e estudar cada uma cuidadosamente. Procurar qualquer aparição em que Deirdre não estivesse por perto. Preparar uma lista de todas as aparições, informando a distância aproximada de Deirdre.

No pé em que está o caso agora, antes da investigação solicitada, só posso concluir que Lasher pode ter acumulado uma força considerável nos últimos vinte anos, ou sempre teve mais força do que percebemos, e pode na verdade se materializar onde bem entenda.

Não quero me precipitar em chegar a essa conclusão. Mas isso me parece mais do que provável. E o fato de Lasher não conseguir implantar sugestões ou palavras claras na mente do médico só reforça minha opinião de que o próprio médico não era um médium natural e não poderia estar auxiliando essas materializações.

Como bem sabemos, no caso de Petyr van Abel, Lasher estava trabalhando com a energia e a imaginação de uma psique poderosa, com profundos conflitos e culpas morais.

Com Arthur Langtry, Lasher estava tratando com um médium experiente, e aquelas aparições e/ou materializações ocorreram apenas na propriedade de First Street, na proximidade de Antha e de Stella.

Será que Lasher pode se materializar quando e onde deseja? Ou será que ele simplesmente tem a força para tal feito a maiores distâncias da bruxa?

É o que temos de descobrir.

Seu no Talamasca, Aaron

P.S. Não procurarei ver Rowan Mayfair em San Francisco. Nesta viagem, a tentativa de contato com Michael Curry é prioritária. Telefonema de Gander hoje cedo, antes que eu deixasse Nova York, indica que Curry está agora quase inválido dentro de casa. No entanto, mantenham- me informado no Saint Francis Hotel de qualquer novidade no caso Mayfair. Permanecerei em San Francisco o tempo necessário para entrar em contato com Curry e lhe oferecer ajuda.

 

Notas aos arquivos, agosto de 1989 (Caprichosamente manuscritas, tinta preta em papel pautado)

Estou a bordo de um 747, a caminho da costa oeste. Acabei de reler a transcrição. Tenho a firme opinião de que há algo de extraordinário na história desse médico.

Enquanto repasso apressadamente o arquivo Mayfair, o que me chama a atenção é o seguinte:

Rita Mae Dwyer Lonigan ouviu a voz de Lasher em 1955-1956.

Esse médico alega ter visto Lasher a enorme distância da casa de First Street.

Talvez devêssemos tentar um encontro casual entre Gander e Rowan, para que Gander pudesse procurar determinar se Rowan viu ou não viu Lasher. Mas parece tão improvável...

Não posso tentar fazer isso eu mesmo. Não tenho nenhuma condição de fazer isso agora.

Situação de Curry de extrema importância.

Impressões sobre Curry... Continuo a acreditar que há algo de muito especial nesse homem, além da sua experiência angustiante.

Ele precisa de nós, sem a menor dúvida. Gander tem razão quanto a esse ponto. Mas minha impressão tem a ver com ele e conosco. Creio que ele talvez queira se tornar um de nós.

Como posso justificar essa sensação?

1) Reli todos os artigos relacionados à sua experiência diversas vezes; e há algo ali que não foi dito, algo relacionado com o fato de sua vida estar num ponto de estase quando ele se afogou. Tenho a forte impressão de que ele era um homem à espera de alguma coisa.

2) 0 currículo de Curry é notável, especialmente sua educação superior. Gander confirma sua formação em história, especialmente na história européia. Precisamos desesperadamente de alguém assim. Ele é fraco em línguas, mas hoje em dia todo mundo o é.

3) Mas a questão principal com relação a Curry é descobrir como vou conseguir vê-lo. Gostaria que toda a família Mayfair desaparecesse por algum tempo. Não quero pensar em Rowan enquanto trabalho com Curry...

Michael folheou rapidamente o restante da última pasta. Só artigos a sei: respeito, e artigos que ele havia lido antes. Duas grandes fotos lustrosas sua, da United Press International. Uma biografia datilografada, compilada principalmente a partir dos artigos anexos.

Bem, o arquivo sobre Michael Curry ele conhecia. Pôs tudo aquilo de lado, acendeu mais um cigarro e voltou ao relato manuscrito do encontro de Aaron com o médico no Parker Meridien.

A bela letra de Aaron era muito fácil. As descrições das aparições de Lasher estavam perfeitamente sublinhadas. Ele acabou de ler o relato, concordando com os comentários de Aaron.

Levantou-se, então, da cadeira da varanda, levando consigo a pasta, e entrou, dirigindo-se à escrivaninha. Seu caderno de capa de couro estava ali, onde o havia deixado. Sentou-se, olhando sem ver o quarto por um instante, sem realmente perceber que a brisa do rio enfunava as cortinas ou que a noite lá fora já era uma total escuridão. Sem notar que a bandeja do jantar estava no escabelo diante da poltrona bergère, da mesma forma de quando havia chegado, com os alimentos intactos debaixo das diversas cúpulas de prata.

Ele tomou a caneta e começou a escrever.

Eu tinha seis anos quando vi Lasher na igreja no Natal, atrás do presépio. Isso deve ter sido em 1947. Deirdre devia ter essa mesma idade, e talvez estivesse na igreja. Mas eu tenho a forte impressão de que ela não estava lá.

Quando Lasher apareceu para mim no Auditório Municipal, ela também podia estar presente. Mas, por outro lado, não temos como saber, para citar a expressão preferida de Aaron.

No entanto, as aparições em si não têm nada a ver com Deirdre. Nunca vi Deirdre no jardim de First Street, nem em lugar algum que eu soubesse.

Indubitavelmente, Aaron já escreveu o que eu lhe contei. E a mesma insinuação se aplica aqui: Lasher aparecia para mim quando ele não estava perto da bruxa. E provável que ele se materialize onde queira.

A questão é saber por que o faz. Por que eu? E outras associações são ainda mais torturantes e exasperadoras.

Por exemplo, isso pode não ter muita importância, mas eu conheço Rita Mae Dwyer Lonigan. Eu estava com ela e Marie Louise no barco na noite em que ela se embriagou com seu namorado, Terry O'Neill. Por esse motivo, ela foi estudar interna no Santa Rosa, onde conheceu Deirdre Mayfair. Eu me lembro de quando Rita Mae entrou para o Santa Rosa.

Será que isso significa alguma coisa?

E mais um ponto. E se meus antepassados trabalharam no Garden District? Não sei se trabalharam ou não. Sei que a mãe de meu pai foi uma órfã criada no orfanato de Santa Margarida. Acho que ela não tinha um pai legítimo.

Imaginemos que sua mãe tivesse sido criada na casa de First Street... mas acho que estou ficando louco.

Afinal de contas, olhem o que essas pessoas fizeram em termos de reprodução. O uso desse método com cavalos ou com cães é chamado de procriação por endogamia ou em linha direta.

Repetidamente, os melhores machos procriaram com as bruxas, de forma a reforçar na combinação genética certas características, que indubitavelmente incluíam traços paranormais, mas e o que dizer de outros traços? Se eu compreendi corretamente o que li, Cortland não foi apenas o pai de Stella e de Rowan. Ele também poderia ter sido o pai de Antha, embora todos imaginassem que fosse Lionel.

Ora, se Julien foi pai de Mary Beth, ah... tinham de fazer alguma espécie de estudo no computador só sobre esse aspecto, o da endogamia. Criar um mapa. E, se eles dispõem das fotografias, podem se aprofundar mais na ciência genética. Preciso contar tudo isso a Rowan. Rowan compreenderá tudo isso. Quando estávamos conversando, Rowan disse alguma coisa sobre o motivo pelo qual a pesquisa genética era tão impopular.

As pessoas não querem admitir o que podem determinar nos seres humanos em termos genéticos. O que me leva ao livre-arbítrio. E minha crença no livre-arbítrio faz parte dos motivos pelos quais estou ficando louco.

Seja como for, Rowan é a beneficiária genética de tudo isso: alta, esguia, sexy, extremamente saudável, inteligentíssima, forte e bem-sucedida. Um gênio da medicina com um poder telecinético para matar, que prefere, em vez disso, salvar vidas. E aí está o livre arbítrio, mais uma vez. O livre-arbítrio.

Mas, de que modo eu me encaixo nessa história com meu livre-arbítrio intacto? Quer dizer, o que está tudo planejado, para usar as palavras de Townsend no sonho? Meu Deus!

Será que eu de algum modo não sou parente dessas pessoas através de criados irlandeses que trabalharam para eles? Ou será que eles simplesmente procuram sangue novo quando precisam de energia? Mas qualquer um dos heróis policiais/bombeiros de Rowan teria cumprido a missão. Por que eu? Por que precisei me afogar, se de fato foram eles que me afogaram, o que ainda não acredito que tenham sido? E depois, a história de Lasher se revelar sozinho para mim todo esse tempo desde o início da minha infância.

Meu Deus, não existe uma interpretação única para nenhum aspecto dessa história. Talvez eu tenha sido destinado para Rowan desde o início, e meu afogamento não estivesse previsto, sendo por isso que aconteceu o salvamento. Não posso aceitar a hipótese de o afogamento ter sido predeterminado! Porque, se ele realmente foi, então praticamente tudo foi. E apavorante.

Não posso ler essa história e concluir que as terríveis tragédias nela contidas eram inevitáveis - como Deirdre morrer daquele jeito.

Eu poderia ir escrevendo assim durante três dias seguidos, divagando, examinando esse ponto ou algum outro. Mas estou ficando louco. Ainda não tenho a menor pista do significado do portal. Não houve uma palavra no que li que esclarecesse essa imagem única. Também não percebo o envolvimento de nenhum número na história. A não ser que o número treze esteja num portal, e que isso tenha algum significado.

Agora, o portal pode ser simplesmente o da entrada da casa de First Street, ou a própria casa poderia ser alguma espécie de portal. Mas estou forçando a conclusão.

O que digo não me transmite nenhuma impressão de acerto.

Quanto ao poder psicométrico das minhas mãos, ainda não sei como devo usá-lo, a não ser que seja para tocar Lasher quando ele se materializar, e descobrir assim o que esse espírito é realmente, de onde vem e o que quer das bruxas. Mas como poderei tocar Lasher a menos que Lasher queira ser tocado?

É claro que vou tiraras luvas e por as mãos em objetos relacionados a essa história, à casa de First Street, se Rowan, que agora é a proprietária, me permitir.

Não sei por que a perspectiva de fazê-lo me enche de pavor. Não consigo considerar esse poder a realização do meu objetivo. Considero-o como uma intimidade com inúmeros objetos, superfícies e imagens. Além disso, pela primeira vez, tenho medo de tocar objetos que pertenceram aos mortos. Mas preciso tentar. Preciso tentar tudo!

Quase nove horas. E Aaron ainda não chegou. Aqui, longe da cidade, está escuro, silencioso e arrepiante. Não quero imitar Marion Brando em On the Waterfront, mas os grilos me deixam nervoso também no campo. E estou meio assustado neste quarto, mesmo com suas belas luminárias de latão. Não quero olhar para os quadros na parede, ou para os espelhos, com medo de que alguma coisa me apavore.

Detesto me sentir assustado.

E não estou agüentando esperar aqui. Talvez seja injusto esperar que Aaron chegue no instante em que terminei a leitura. Mas o enterro de Deirdre já terminou, e aqui estou sentado à espera de Aaron, com um monte de Mayfairs na cabeça e apertando meu coração, mas espero! Espero porque prometi que esperaria, Aaron não ligou e eu preciso estar com Rowan.

Aaron vai ter de confiar em mim. Vai mesmo. Podemos conversar hoje, amanhã e depois, mas esta noite vou passar com Rowan.

Uma nota final: se eu me sento aqui, fecho os olhos e volto meu pensamento para as visões; se eu evoco aquela sensação, pois todos os fatos se perderam, ainda me descubro acreditando na bondade das pessoas que vi. Fui mandado de volta por um objetivo maior. E a escolha era minha - o livre-arbítrio - de aceitar a missão.

Agora, não consigo associar nenhum sentimento positivo ou negativo à idéia do portal ou do número treze. E isso é angustiante, profundamente angustiante. Continuo, porém, a acreditar que aquele meu pessoal lá em cima era bom.

Acredito que Lasher não seja bom. Decididamente. As provas parecem indiscutíveis de que ele teria destruído algumas dessas mulheres. Talvez ele tenha destruído cada uma que lhe ofereceu resistência. E a pergunta de Aaron. Quais são os planos desse ser, é o que importa. Essa criatura age por si só. Mas por que o estou chamando de criatura? Quem o criou? O mesmo que criou a mim? E quem haveria de ser, é o que me pergunto. Passo a chamá-lo de entidade.

Essa entidade é má.

Então, por que ela sorriu para mim na igreja quando eu tinha seis anos? Certamente ela não pode estar querendo que eu a toque e descubra seus planos. Ou será que pode?

Mais uma vez, as palavras ‘predestinado' e ‘planejado' estão me deixando louco. Em mim tudo se revolta contra uma idéia dessas. Posso acreditar numa missão, num destino, num objetivo importante. Todas essas expressões estão relacionadas à coragem, ao heroísmo e ao livre-arbítrio. Mas "predestinado" e "planejado" me enchem de desespero.

Seja qual for o caso, não me sinto em desespero agora. Sinto-me transtornado, incapaz de ficar neste quarto muito mais tempo, desesperado para chegar até Rowan.

Desesperado para armar o quebra-cabeça, para cumprir a missão que me foi confiada lá em cima, porque acredito que foi a melhor parte de mim que aceitou essa missão.

Por que estou ouvindo aquele cara lá de San Francisco, Gander ou sei lá qual era seu nome, dizendo, ‘Conjecturas'?

Queria que Aaron estivesse aqui. Que fique registrado que gosto dele. Que gosto deles. Entendo o que fizeram nesse caso. Entendo, sim. Nenhum de nós aprecia saber que está sendo vigiado, espionado, que escrevem a seu respeito, esse tipo de coisa. Mas eu compreendo. Rowan compreenderá. Ela tem de compreender.

O resultado dessa observação é simplesmente único, de enorme importância. E, quando penso em como estou profundamente implicado em tudo isso, em como fui envolvido desde o momento em que a entidade olhou para mim através da grade de ferro, bem, agradeço a Deus por eles existirem, por eles ‘observarem', como costumam dizer.

Por eles saberem o que sabem.

Porque, se não fosse isso... e Rowan irá compreender. Rowan irá compreender talvez melhor do que eu, porque ela vê coisas que eu não vejo. E talvez seja isso o que está planejado, mas lá vou eu novamente.

"Aaron! Volte logo!"

Ela ficou parada diante do portão de ferro enquanto o táxi se afastava devagar, com o silêncio farfalhante cercando-a por todos os lados. Impossível imaginar uma casa mais desolada ou ameaçadora. A luz impiedosa do poste se derramava como a lua cheia através dos galhos das árvores, caindo sobre as lajes rachadas e a escada de mármore coberta de folhas secas, sobre as pilastras caneladas altas e grossas, com sua tinta branca descascada e manchas pretas de apodrecimento, sobre as tábuas frágeis que seguiam irregulares até a porta aberta e a palidez opaca lá de dentro, com um levíssimo tremeluzir.

Aos poucos, ela deixou que seus olhos passeassem pelas janelas trancadas, pelo jardim denso e descuidado. Uma chuva fina havia começado a cair no instante em que saiu do hotel. E agora ela estava tão leve que parecia pouco mais do que uma neblina, emprestando seu brilho ao asfalto da rua, pairando sobre as folhas reluzentes acima da cerca, mal roçando seu rosto e seus ombros.

Aqui minha mãe acabou seus dias, pensou. E aqui a mãe dela nasceu, assim como sua mãe, anteriormente. Aqui nesta casa, onde Ellie se sentou junto ao caixão de Stella. Pois certamente só podia ter sido ali, embora durante a tarde inteira, com os coquetéis, a salada e a comida extremamente condimentada, eles só houvessem falado de temas superficiais. "Carlotta vai querer lhe contar..." "... depois de você conversar com Carlotta".

Estaria a porta agora aberta para ela? Haviam deixado o portão entreaberto para melhor recebê-la? O imenso batente de madeira da porta parecia um gigantesco buraco de fechadura, que se adelgaçava de uma base mais aberta para o topo mais estreito. Onde será que ela havia visto aquele mesmo portal com o formato de um buraco de fechadura? Esculpido no jazigo no cemitério de Lafayette. Que ironia, pois essa casa havia sido o túmulo da sua mãe.

Nem mesmo a chuva suave, silenciosa, havia conseguido amenizar o calor. Mas vinha agora uma brisa, a brisa do rio era como as pessoas a chamavam ao se despedir apenas a alguns quarteirões do hotel. E a brisa, com cheiro de chuva, envolveu Rowan tão deliciosa quanto a água. E o que era esse perfume de flores no ar, tão profundo e selvagem, tão diferente dos perfumes de floricultura que a haviam cercado mais cedo?

Ela não lhe ofereceu resistência. Ficou ali parada, sentindo-se leve e quase nua nos frágeis trajes de seda que acabara de vestir, procurando enxergar a casa escura, procurando respirar fundo, procurando represar a corrente de tudo que havia acontecido, tudo que havia testemunhado e compreendido apenas parcialmente.

Minha vida está partida ao meio, pensou. Todo o passado é a parte abandonada, que se afasta, como um barco que se desamarrou, como se a água fosse o tempo, e o horizonte, a fronteira demarcada do que continuaria tendo importância.

Ellie, por quê? Por que fomos afastadas? Por que, se todos eles sabiam?

Sabiam meu nome, sabiam o seu, sabiam que eu era filha dela! Que história era aquela daquela gente toda, às centenas, pronunciando tantas vezes aquele nome, Mayfair?

- Depois de conversar com ela, venha ao escritório no centro - dissera o jovem Pierce.

Pierce, com suas bochechas rosadas e já sócio da firma fundada há tanto tempo pelo seu bisavô.

- Avô de Ellie, também, sabe? - disse Ryan, o de cabelos brancos e feições cuidadosamente esculpidas, que havia sido primo em primeiro grau de Ellie. Ela não sabia.

Não sabia quem era quem, de onde todos vinham, o que aquilo significava e, acima de tudo, porque ninguém nunca lhe disse nada. Um lampejo de raiva. Porque Cortland isso, e Cortland aquilo... e Julien e Clay e Vincent e Mary Beth e Stella e Antha e Katherine.

Ah, que doce melodia sulina, as palavras ricas e profundas como a fragrância que respirava agora, como o calor que se grudava a ela, e que fazia até mesmo sua fina saia de seda parecer de repente pesada.

Será que todas as respostas estariam atrás daquela porta aberta? Estará o futuro além daquela porta? Pois afinal de contas, por que, apesar de tudo, este não podia se tornar um mero capítulo da sua vida, realçado e raramente relido, depois que ela voltasse para o mundo lá fora, onde havia sido mantida todos aqueles anos, fora do alcance dos sortilégios e encantamentos que agora a resgatavam? É, mas não ia ser assim. Porque, quando se cai presa de um encantamento tão forte, nunca mais se é a mesma pessoa. E cada instante neste estranho mundo da família, do sul, da história, do parentesco, da oferta de amor, a afastava mais um milênio de quem ela havia sido, ou de quem ela queria ser.

Eles saberiam, eles imaginavam por um segundo sequer, como tudo aquilo era sedutor? A que ponto ela havia se sentido inexperiente, enquanto eles lhe faziam convites, prometiam visitas e conversas futuras, prometiam o conhecimento, a lealdade e a intimidade da família?

Os parentes. Será que eles conseguiam adivinhar como aquilo tudo era indescritivelmente exótico depois daquele mundo árido e egoísta em que ela havia passado a vida, como uma planta de vaso que nunca viu um sol de verdade, nunca esteve na própria terra, nem ouviu a chuva a não ser quando batia nas janelas de vidraças duplas?

-Eu costumava às vezes olhar ao meu redor - havia dito Michael acerca da Califórnia – e tudo me parecia tão árido aqui. - Ela compreendia. Compreendia antes de chegar

a sonhar com uma cidade como esta, na qual cada textura, cada cor como que saltava aos olhos, na qual cada fragrância era inebriante e o próprio ar era algo vivo, que respirava.

Fui estudar medicina para encontrar o mundo visceral, pensou ela, e só nas salas de espera e nos corredores próximos ao setor de emergência cheguei a vislumbrar as reuniões de clãs, as gerações a chorar, a rir, a sussurrar, enquanto o anjo da morte passa sobre eles.

- Você está dizendo que Ellie nunca lhe disse o nome do seu pai? Ela nunca lhe falou de Sheffield, Ryan, Grady ou... ?-Repetidamente ela havia respondido que não.

No entanto, Ellie havia voltado, para assistir naquele mesmo cemitério ao enterro de tia Nancy, quem quer que fosse essa tia, e depois naquele mesmo restaurante ela lhes havia mostrado a fotografia de Rowan que trazia na carteira! Nossa filha, médica!

- Gostaria que me mandassem de volta para casa, mas não podem fazer isso. Eles não podem fazer isso - havia dito Ellie, moribunda, sob o efeito da morfina, a Rowan. Depois que a deixaram no hotel e depois que ela subiu para tomar um banho e trocar de roupa em virtude do excesso de calor, houve um momento em que sentiu tanto rancor que não conseguiu raciocinar, racionalizar ou sequer chorar. E é claro que ela sabia, sabia tão bem quanto qualquer outra coisa, que devia haver um enorme número deles que teria adorado nada mais nada menos do que fugir daquilo tudo, daquela imensa teia de laços de sangue e de recordações. No entanto, ela não conseguia realmente imaginar essa sensação.

Tudo bem, aquele havia sido o lado agradável, irresistível como o perfume dessa flor na escuridão, todos eles ali de braços abertos.

Mas quais seriam as verdades que a aguardavam atrás dessa porta? Sobre a mulher criança no ataúde? Durante muito tempo, enquanto eles falavam, com as vozes salpicando umas nas outras como champanhe, ela havia pensado, Será que algum de vocês por algum milagre sabe o nome do meu pai?

- Carlotta vai querer... bem... dar a sua versão.

-... tão nova quando você nasceu.

- Papai nunca chegou a nos contar...

Daqui, ao luar elétrico sobre as lajes quebradas, ela não conseguia ver a varanda lateral que Ryan e Bea haviam descrito para ela, a varanda na qual sua mãe havia ficado sentada numa cadeira de balanço treze anos a fio.

- Acho que ela não sofria.

Mas, tudo o que tinha de fazer agora era abrir esse portão de ferro, subir os degraus de mármore, atravessar as tábuas apodrecidas e empurrar mais a porta que havia sido deixada aberta. Por que não? Ela queria tanto experimentar aquela escuridão lá dentro que nem sentia saudade de Michael naquele instante. Ele não poderia acompanhá-la nessa missão.

De repente, como se houvesse sonhado, ela viu a luz clarear atrás da porta. Viu que a própria porta era afastada, e surgia ali a silhueta da velha senhora, pequena, magra. Sua voz pareceu firme e nítida na escuridão, quase com uma entonação irlandesa, sombria e grave.

- Você vai entrar ou não, Rowan Mayfair?

Ela empurrou o portão, que resistiu, e passou por ele assim mesmo. Os degraus estavam escorregadios. Subiu devagar e sentiu as tábuas gastas da varanda de madeira cederem ligeiramente sob seu peso.

Carlotta havia desaparecido, mas quando Rowan entrou no corredor viu sua pequena silhueta mal iluminada longe, bem longe, na entrada de uma sala imensa onde brilhava a única luz que iluminava toda aquela amplidão, de pé direito alto, diante dela.

Caminhou lentamente atrás da velha senhora.

Passou por uma escada, que subia reta e com uma altura impossível até um segundo andar sombrio, do qual ela nada podia ver, e por portas à sua direita que davam para uma ampla sala de estar. A iluminação da rua entrava pelas janelas desse aposento, tornando-as esfumaçadas e de um branco lunar, enquanto revelava um longo trecho de assoalho reluzente e algumas peças espalhadas de mobília não identificáveis.

Afinal, após uma porta fechada à esquerda, ela entrou numa área iluminada e viu que estava numa grande sala de jantar.

Havia duas velas sobre a mesa oval, e era a suave dança das suas chamas que fornecia a iluminação interior da sala toda. Parecia mesmo surpreendente que elas se erguessem finas de modo a revelar os murais nas paredes, imensas paisagens rurais de carvalhos adornados com musgos e de terras aradas. As portas e janelas altíssimas chegavam a mais de três metros e meio de altura. E, de fato, quando ela olhou para trás pelo corredor, a porta da frente lhe pareceu imensa, com seus batentes cobrindo a parede inteira até o teto sombrio.

Voltou-se, então, olhando fixamente para a mulher sentada à cabeceira da mesa. Sua cabeleira densa e ondulada estava muito branca na escuridão, emoldurando o rosto com mais suavidade do que antes, e as velas refletiam duas chamas distintas e assustadoras nos seus óculos redondos.

- Sente-se, Rowan Mayfair. Tenho muitas coisas a lhe dizer.

Teria sido uma teimosia sua que a fez lançar mais um longo olhar ao seu redor, ou teria sido apenas seu fascínio que não queria ser interrompido? Ela via que as cortinas de veludo estavam quase esfarrapadas em alguns lugares, e que o chão estava coberto com um tapete gasto. Um cheiro de poeira ou de mofo emanava dos assentos estofados das cadeiras torneadas. Ou seria do tapete talvez, ou das tristes cortinas?

Não importava. Estava por toda parte. Havia, porém, mais um cheiro, um perfume delicioso que a fazia pensar em madeira, sol e, por estranho que fosse, em Michael.

Era bom. E Michael, o carpinteiro, compreenderia qual era. O cheiro da madeira na casa antiga, e o calor que nela se havia acumulado o dia inteiro. Incorporava-se ligeiramente ao todo o cheiro das velas de cera.

O lustre escuro lá no alto captava a luz das velas e a refletia em centenas de gotas de cristal.

- Ele é para velas - disse a velha. - Já não tenho idade para subir para trocá-las. E Eugenia também está velha demais. Não tem mais condição de fazer isso. – Com um ínfimo gesto de cabeça, ela indicou um canto distante da mesa.

Sobressaltada, Rowan percebeu que uma negra estava parada ali, um espectro de criatura com cabelo ralo, olhos amarelados e braços cruzados, aparentemente muito magra, embora fosse difícil saber naquela escuridão. Das suas roupas nada se via a não ser um avental sujo.

- Pode ir agora, querida - disse Carlotta à negra. - A não ser que minha sobrinha queira aceitar algo para beber. Mas você não quer, não é, Rowan?

- Não, obrigada, senhorita Mayfair.

- Chame-me de Carlotta, ou Carl se quiser. Não importa. Existem milhares de senhoritas Mayfair.

A velha negra foi embora, passando pela lareira, pela mesa e saindo pela porta para o longo corredor. Carlotta ficou observando sua saída, como se quisesse estar totalmente a sós com Rowan antes de dizer mais uma palavra.

De repente, ouviu-se um ruído metálico, estranhamente familiar e no entanto, para Rowan, impossível de definir. Em seguida, o estalido de uma porta sendo fechada e a vibração surda e profunda de um enorme motor se esforçando nas profundezas da casa.

-Um elevador - disse Rowan, baixinho.

A velha dava a impressão de estar acompanhando o som. Seu rosto parecia murcho e pequeno abaixo da carapaça do cabelo. O ruído da parada do elevador pareceu satisfazê-la.

Ela ergueu os olhos para Rowan e fez um gesto indicando uma cadeira solitária junto à longa lateral da mesa.

Rowan foi até ela e se sentou, de costas para a janela que dava para o quintal. Ela virou a cadeira de modo a poder olhar para Carlotta.

À medida que foi levantando os olhos, teve uma visão maior dos murais. Uma casa de fazenda com colunas brancas e colinas ondulantes ao fundo.

Ela olhou para a velha adiante das velas e sentiu alívio ao não ver mais o reflexo das chamas minúsculas nas lentes dos óculos. Apenas o rosto encovado, os óculos reluzindo límpidos, o tecido escuro florido do vestido de mangas compridas da mulher e suas mãos magras que surgiam da renda nas mangas, segurando com dedos nodosos o que parecia um porta jóias de veludo.

Foi isso o que ela empurrou grosseiramente na direção de Rowan.

- E seu - disse ela. - É um colar com uma esmeralda. É seu, como esta casa é sua e o terreno em que ela foi construída, além de tudo o mais de qualquer valor que esteja aqui dentro. Afora isso, é sua uma fortuna cerca de cinqüenta vezes maior do que a que você já possui, talvez cem vezes maior, embora hoje em dia isso já esteja fora do alcance dos meus cálculos. Mesmo assim, ouça o que vou lhe dizer antes de reivindicar o que é seu. Ouça bem o que tenho de lhe contar.

Ela parou e examinou o rosto de Rowan. Aprofundou-se em Rowan a sensação da atemporalidade da voz da mulher, na verdade de toda a sua atitude. Era quase fantasmagórico, como se o espírito de alguém mais jovem estivesse ocupando aquele corpo idoso e lhe conferindo uma animação violenta e contraditória.

-Não - disse a mulher. - Estou velha, muito velha. O que me manteve viva foi esperar pela morte dela e pelo instante que eu mais temia, o instante em que você chegasse aqui. Pedi a Deus que Ellie tivesse uma vida muito longa, que Ellie se agarrasse a você durante todos aqueles anos até que Deirdre tivesse apodrecido no túmulo e a corrente estivesse rompida. Mas o destino me aprontou mais uma pequena surpresa. A morte de Ellie. Ellie, morta, e eu sem uma palavra sequer que me avisasse.

- Foi como Ellie quis - disse Rowan.

- Eu sei - suspirou a velha. - Sei que o que você diz é verdade. Mas não foi o fato de não me contarem; foi a própria morte de Ellie que foi o golpe. Mas está acabado, e não havia como impedir.

- Ela fez o que pôde para me manter longe daqui - disse Rowan, com simplicidade. – Ela insistiu comigo para que eu assinasse uma promessa de que nunca viria. Preferi quebrar essa promessa.

A velha ficou em silêncio algum tempo.

- Eu quis vir - disse Rowan e depois perguntou, com o máximo de delicadeza, como que implorando: - Por que quiseram me manter afastada? A história era tão terrível assim?

- Você é uma mulher forte - disse a velha, depois de contemplá-la algum tempo em silêncio. - Você é forte como minha mãe era forte. Rowan não respondeu.

- Você tem os olhos dela, alguém lhe disse isso? Será que alguém lá era velho o suficiente para se lembrar dela?

- Não sei - respondeu Rowan.

- O que você viu com esses seus olhos? - perguntou a velha. - O que você viu que sabia que não devia estar ali?

Rowan teve um sobressalto. A princípio, ela achou que entendeu mal as palavras. Depois, num átimo, percebeu que não; e se lembrou instantaneamente do fantasma que lhe havia aparecido às três da manhã, confundindo-o de repente e de forma inexplicável com seu sonho no avião, de alguém invisível que a tocava e a violentava.

Perplexa, ela viu o sorriso que se abria no rosto da velha. Mas não era um sorriso amargo ou vitorioso. Era apenas de resignação. Em seguida, o rosto voltou a ficar neutro, triste e pensativo. Com aquela iluminação fraca, a cabeça da velha pareceu uma caveira por um instante.

- Quer dizer que ele foi até você - disse ela, com um suspiro - e ele pôs as mãos em você.

- Não sei - disse Rowan. - Explique -me essa história. Mas a velha apenas olhava para ela e esperava.

- Era um homem, um homem magro e elegante. Ele apareceu às três horas da manhã. Na hora em que minha mãe morreu. Eu o vi tão nitidamente quanto estou vendo a senhora, mas só por um instante.

A mulher baixou os olhos. Rowan teve a impressão de que ela havia fechado os olhos, mas viu, então, um pequeno brilho abaixo das pálpebras. A mulher cruzou as mãos diante de si sobre a mesa.

- Era o homem - disse ela. - O homem que enlouqueceu sua mãe, e enlouqueceu sua avó. O homem que serviu minha mãe, que dominava todos os que a cercavam. Eles lhe falaram dele, os outros? Eles lhe deram algum aviso?

- Não me falaram nada - disse Rowan.

- É porque não sabem e afinal perceberam que não sabem. Agora deixam os segredos conosco, como sempre deveria ter sido.

- Mas o que foi que eu vi? Por que ele apareceu para mim? - Mais uma vez, ela pensou no sonho no avião, e não conseguia encontrar nenhum motivo para associar os dois.

- Porque ele acredita que agora você é dele - disse a velha. - Dele para ser tocada, para ser amada e dominada com suas promessas de servidão. Rowan sentiu novamente a confusão, e um calor difuso no rosto. Dele para ser tocada. A atmosfera obsessiva do sonho retornou.

- Ele lhe dirá que é o contrário - disse a velha. - Quando ele falar no seu ouvido para que ninguém o ouça, dirá que é seu escravo, que passou de Deirdre para você. Mas é mentira, querida, uma perversa mentira. Ele irá se apoderar de você e a levará à loucura se você se recusar a fazer o que ele quer. Foi o que fez com todas elas. - Ela fez uma pausa, franzindo as sobrancelhas enrugadas, com os olhos perdidos na superfície empoeirada da mesa. - À exceção daquelas que foram fortes o suficiente para refreá-lo e fazer dele o escravo que ele alegava ser, usando-o para atingir suas próprias metas... - Sua voz foi baixando. - Sua própria maldade infinita.

- Explique-me esse ponto.

- Ele a tocou, não é verdade?

- Não sei.

- Ah, sabe, sim. Seu rosto fica todo vermelho, Rowan Mayfair. Bem, permita-me lhe fazer uma pergunta, minha menina, minha menina independente que já teve tantos homens da sua própria escolha, foi tão bom quanto um homem mortal? Pense antes de falar. Ele lhe dirá que nenhum mortal poderia lhe proporcionar o prazer que ele proporciona. Mas será verdade? Ele tem um preço terrível, esse prazer.

- Pensei que fosse um sonho.

- Mas você o viu.

- Isso foi na noite anterior. Ele me tocou durante um sonho. Foi diferente.

- Ele a tocava até o final - disse a velha. -Não importava a quantidade de tranqüilizantes que lhe dessem. Por mais idiota que fosse seu olhar, por mais apático que fosse seu caminhar. Quando ela estava deitada na cama à noite, ele vinha, ele a tocava. Ela se retorcia na cama como uma prostituta vulgar, sob o efeito do seu toque... - Ela refreou suas palavras e depois o sorriso roçou seus lábios como a luz roçava.

- Isso a deixa zangada? Você tem raiva de mim por eu lhe contar isso?

Você acha que era bonito de se ver?

- Acho que ela estava doente e fora de si; e que era humano.

- Não, minha cara, suas relações nunca foram humanas.

- A senhora quer que eu acredite que o que eu vi foi um fantasma, que ele tocava minha mãe, que eu de algum modo o herdei.

- É, e trate de engolir essa sua raiva. Essa sua raiva perigosa.

Rowan ficou espantada. Uma onda de medo e confusão a atingiu.

- A senhora está lendo meus pensamentos. E esteve lendo o tempo todo.

- Ah, é claro. Na medida do possível, eu os leio. Eu gostaria de poder ler melhor. Sua mãe não era a única pessoa nesta casa com o poder. Três gerações antes, eu estava destinada ao colar. Eu o vi quando tinha três anos, com tanta nitidez e força que ele conseguia segurar minha mão com sua mão morna e me levantar no ar, é, levantar meu corpo, mas eu o recusei. Voltei-lhe as costas. Disse-lhe que voltasse para o inferno de onde havia vindo. E usei meu poder para combatê-lo.

- E esse colar agora vem para mim porque eu o vejo?

- Ele vai para você porque você é a única filha mulher, e não há possibilidade de escolha.

Ele seria seu por mais fracos que fossem os seus poderes. Mas isso não importa. Porque seus poderes são fortes, muito fortes, e sempre foram. - Ela se calou, examinando Rowan novamente, com o rosto por um instante indecifrável, talvez isento de qualquer opinião específica. - Imprecisos, sim; incoerentes, é claro; talvez incontroláveis; mas fortes.

-Não os superestime - disse Rowan, em voz baixa. - Eu nunca o faço.

- Há muito tempo, Ellie me contou tudo - disse a velha. -Ellie me disse que você conseguia fazer com que as flores murchassem. Que podia fazer a água ferver. "Ela é uma bruxa mais poderosa do que Antha ou do que Deirdre", foi o que ela me disse, chorando e me implorando um conselho sobre o que devia fazer. "Mantenha a menina afastada!", disse-lhe eu. "Certifique -se de que ela nunca volte para cá. De que ela nunca saiba! De que ela nunca aprenda a usar seus poderes."

Rowan suspirou. Ela ignorou a dor surda com a menção do nome de Ellie, com o fato de Ellie conversar com essas pessoas sobre ela. Totalmente isolada. E todos os outros aqui. Até mesmo essa velha desgraçada.

- É, e estou sentindo sua raiva de novo, sua raiva de mim, sua raiva pelo que você acha que sabe que eu fiz à sua mãe!

- Não quero ter raiva da senhora - disse Rowan, com a voz contida. - Só quero compreender o que está dizendo. Quero saber por que fui levada daqui...

Mais uma vez, a velha mergulhou num silêncio pensativo. Seus dedos adejaram sobre o porta jóias e depois o envolveram e ficaram imóveis, excessivamente parecidos com as flácidas mãos de Deirdre no ataúde.

Rowan desviou o olhar. Olhou para a parede mais distante, para o panorama do céu pintado acima da lareira.

- Mas será que minhas palavras não lhe proporcionam um mínimo consolo? Todos esses anos, você não se perguntou se era a única pessoa no planeta que lia o pensamento dos outros, a única que sabia quando alguém por perto ia morrer? A única que conseguia afastar uma pessoa de você só com a raiva que sentia? Olhe para aquelas velas.

Você pode apagá-las e pode acendê-las de novo. Faça isso. Rowan não fez nada. Ficou olhando fixamente para as pequenas chamas. Sentia que estava tremendo. Se a senhora soubesse de fato, se realmente soubesse o que eu podia lhe fazer agora...

- Mas eu sei. Veja, eu sinto sua força, porque eu também sou forte, mais forte do que Antha ou do que Deirdre. Foi assim que eu pude mantê-lo sob controle nesta casa; foi assim que impedi que ele me machucasse. Foi assim que consegui colocar trinta anos entre ele e a filha de Deirdre. Faça com que as velas se apaguem. Acenda-as de novo. Quero vê-Ia fazer isso.

- Não vou fazer nada. E quero que pare de brincar comigo. Fale o que tem a dizer. Mas pare com essas brincadeiras. Pare de me torturar. Nunca lhe fiz nada. Diga-me quem ele é, e por que a senhora me separou da minha mãe.

- Mas já lhe disse. Separei vocês duas para poder afastar você dele, deste colar, desta herança de maldições e da fortuna criada a partir do poder e da interferência dele. - Ela estudou a expressão de Rowan e prosseguiu, com a voz mais grave, embora com a mesma nitidez. - Separei você dela para alquebrar sua vontade e para afastá-la de uma muleta na qual ela poderia se apoiar, de um ouvido no qual ela pudesse derramar sua alma torturada, de uma companhia que ela poderia deformar e perverter com sua fraqueza e sua aflição.

Paralisada de raiva, Rowan não deu nenhuma resposta. Entristecida, ela via mentalmente a mulher de cabelos negros no caixão. Via também o cemitério de Lafayette, só que envolto pela escuridão da noite, tranqüilo e deserto.

- Trinta anos você teve para crescer forte e direita, longe desta casa, longe do mal dessa história. E o que você se tornou? Uma médica incomparável até para seus colegas de profissão; e, quando praticou o mal com seu poder, você recuou numa virtuosa condenação de si mesma, com uma vergonha que a impulsionou para um sacrifício ainda maior.

- Como a senhora sabe essas coisas?

- Eu vejo. O que vejo é impreciso, mas vejo. Vejo o mal, embora não consiga ver os atos em si, pois eles estão ocultos pela própria culpa e vergonha que os anunciam.

- Então, o que quer de mim? Uma confissão? A senhora mesma disse que voltei as costas ao que fiz de errado. Procurei alguma outra coisa, algo infinitamente mais exigente, algo superior.

- "Não matarás" - sussurrou a velha.

Um choque de pura dor trespassou Rowan e, consternada, ela viu que os olhos da velha se dilatavam, escarnecendo dela. Confusa, Rowan compreendeu o estratagema e se sentiu indefesa. Pois num átimo de segundo, a mulher, com suas palavras, havia feito surgir na mente de Rowan a imagem exata daquilo que estava procurando. Você matou. Em acessos de raiva e fúria, você tirou a vida. Foi proposital. É essa a força que você tem.

Rowan mergulhou mais fundo em si mesma, espiando os óculos redondos e planos que captavam a luz e a liberavam, e os olhos escuros difíceis de divisar por trás deles.

- Será que eu lhe ensinei alguma coisa? - perguntou a mulher.

- A senhora está pondo minha paciência à prova. Permita- me relembrar que não lhe fiz nada. Não vim aqui exigir respostas suas. Não lhe fiz nenhuma censura. Não vim para reivindicar essa jóia, esta casa ou qualquer objeto que nela se encontre. Vim ver o enterro da minha mãe, e entrei pela porta da frente porque a senhora me convidou. Estou aqui para ouvir, mas não vou aceitar ser seu brinquedo muito tempo mais.

Nem por todos os segredos deste mundo. Também não tenho medo desse seu fantasma, mesmo que ele ostente o pau de um arcanjo.

A velha a encarou um instante. Depois, ergueu as sobrancelhas e riu, uma risadinha curta, repentina, com uma nota surpreendentemente feminina. Ela prosseguiu, sorrindo.

- Palavras acertadas, minha cara - disse ela. - Há setenta e cinco anos minha mãe me disse que ele poderia fazer os deuses gregos chorarem de inveja, tão lindo era ao entrar no seu quarto. - Ela relaxou lentamente, na cadeira, retesando os lábios e depois voltando a sorrir. - Mas ele nunca a afastou dos seus lindos mortais.

Ela gostava do mesmo tipo de homem que você aprecia.

- Ellie lhe contou isso também?

- Ela me contou muitas coisas, mas nunca me disse que estava doente. Nunca me disse que estava à morte.

- Quando as pessoas estão morrendo, elas ficam com medo - disse Rowan. – Estão inteiramente sós. Ninguém pode morrer no lugar delas.

A velha baixou os olhos. Ficou imóvel por algum tempo. Depois suas mãos afagaram o tampo macio do porta-jóias e, segurando-o com força, ela o abriu. Ela o virou ligeiramente para que a luz das velas refulgisse na esmeralda que estava ali dentro, presa num emaranhado de corrente de ouro. Era a maior pedra preciosa que Rowan jamais havia visto.

- Eu costumava sonhar com a morte - disse Carlotta, contemplando a pedra. - Eu já a pedi nas minhas orações. - Ela ergueu os olhos lentamente, avaliando Rowan, e mais uma vez eles se dilataram, com a pele frágil e macia da sua testa se enrugando excessivamente acima das sobrancelhas grisalhas. Sua alma parecia agora fechada e imersa na tristeza. Foi como se por um instante ela houvesse se esquecido de se ocultar de algum modo de Rowan, por trás da crueldade e da inteligência. Ela apenas a contemplava.

- Venha - disse a velha, endireitando-se com dificuldade. - Deixe- me lhe mostrar o que tenho de lhe mostrar. Acho que não resta muito tempo agora.

- Por que diz isso? - disse Rowan em voz baixa, com um tom insistente. - Por que me olha desse jeito?

A mulher apenas sorriu.

- Venha. Traga a vela se quiser. Algumas das lâmpadas ainda acendem. Outras estão queimadas ou os fios já há muito se desgastaram e se soltaram. Acompanhe-me.

Levantou-se da cadeira, tirou cuidadosamente a bengala de madeira que estava enganchada no encosto e caminhou com uma firmeza surpreendente, passando por Rowan que a observava parada, protegendo a chama frágil com a mão esquerda em curva.

A luz ínfima cresceu parede acima enquanto as duas seguiam pelo corredor. Ela brilhou um instante na superfície reluzente de um velho retrato de um homem que de repente pareceu estar vivo, olhando para Rowan. Ela parou, voltando a cabeça de maneira brusca, para olhar e ver que havia sido apenas uma ilusão.

- O que foi? - perguntou Carlotta.

- Só que eu pensei... - Rowan olhou para o retrato, muito bem pintado, que mostrava um homem sorridente, de olhos negros, decididamente ninguém vivo, soterrado por baixo de camadas de verniz quebradiço, todo rachado.

- Pensou o quê?

-Nada de importante - disse Rowan, prosseguindo, com a mão a proteger a vela como antes.

- A luz fez com que ele parecesse ter se movimentado.

A mulher voltou o olhar, fixando-o no retrato, com Rowan parada ao seu lado.

- Você verá muitas coisas estranhas nesta casa - disse ela. - Você pode passar por aposentos vazios só para dar meia-volta porque acha que viu uma silhueta em movimento, ou uma pessoa olhando para você.

Rowan examinou seu rosto. Carlotta agora não parecia perversa, nem brincalhona, apenas solitária, pensativa, abismada.

- Você não tem medo do escuro? - perguntou Carlotta.

- Não.

- Então, enxerga bem no escuro.

- Enxergo. Melhor do que a maioria das pessoas.

A mulher voltou a andar, dirigindo-se para a porta alta ao pé da escada, e ali apertou o botão. Com um estrépito abafado, o elevador desceu até o térreo e parou pesado, aos trancos. A mulher virou a maçaneta, abrindo a porta e revelando uma porta pantográfica, que abriu com esforço.

Entraram, pisando num retalho de tapete gasto, cercadas por paredes forradas de um tecido escuro, com uma lâmpada fraca acesa no teto.

- Feche as portas - disse a mulher, e Rowan obedeceu, estendendo a mão para puxar a maçaneta e fechando a porta pantográfica. - É bom que aprenda a usar o que é seu - acrescentou a velha.

Uma fragrância delicada emanava das suas roupas, algo doce como Chanel, misturada ao perfume inconfundível de pó-de-arroz. Ela apertou um pequeno botão preto de borracha, à sua direita. E lá foram subindo, velozes, com um impulso que surpreendeu Rowan.

O corredor do segundo andar estava imerso numa escuridão ainda mais impenetrável do que o do térreo. O ar estava mais aquecido. Nenhuma porta ou janela deixava passar um feixe de luz que fosse da rua, e a luz da vela lançava uma claridade fraca sobre as inúmeras portas de almofadas brancas e mais uma escada que subia.

- Entre aqui - disse a velha, abrindo uma porta à esquerda e seguindo à frente, com a bengala batendo de leve no espesso tapete florido.

Cortinas, escuras e podres, como as da sala de jantar lá embaixo, e uma cama estreita de madeira, com um dossel, aparentemente entalhado com a imagem de uma águia. A cabeceira também era entalhada com um desenho semelhante, simétrico.

- Nesta cama, sua mãe morreu - disse Carlotta.

Rowan olhou para o colchão nu. Viu uma enorme mancha escura no pano listrado que tinha um brilho quase cintilante na escuridão. Insetos! Minúsculos insetos pretos se alimentavam diligentemente na mancha. Quando ela deu um passo adiante, a luz fez que fugissem em disparada para os quatro cantos do colchão.

Ela arfou e quase.deixou cair a vela.

A velha parecia mergulhada nos seus pensamentos, de algum modo protegida daquele horror.

- Isso é repugnante - disse Rowan entre dentes. - Alguém devia limpar este quarto!

- Você pode mandar limpá-lo se quiser- respondeu a velha. - Ele agora é seu.

O calor e a visão das baratas fizeram com que Rowan se sentisse mal. Ela recuou e encostou a cabeça no batente da porta. Outros cheiros subiam, ameaçando lhe provocar náuseas.

- O que mais quer me mostrar? - perguntou, com calma. Refreie sua raiva, dizia ela a si mesma, enquanto seus olhos corriam as paredes desbotadas, a mesinha-de-cabeceira apinhada de imagens de gesso e velas. Tudo lúgubre, feio, imundo. Morta nesta imundície. Morreu aqui. No abandono.

Não - disse a velha. - Não no abandono. E o que é que ela percebia do ambiente à sua volta no final da vida? Leia você mesma os registros médicos. - A velha passou mais uma vez por ela, voltando ao corredor. - E agora precisamos subir essa escada, porque o elevador só vem até aqui.

Reze para não precisar de ajuda minha, pensou Rowan. Ela se retraía só de se imaginar tocando a velha. Procurou respirar fundo, para acalmar o tumulto no seu íntimo. O ar, pesado, viciado e cheio de levíssimos indícios de cheiros ainda piores, parecia estar grudado a ela, às suas roupas, ao seu rosto.

Ficou olhando a mulher subir, galgando cada degrau lentamente mas com competência.

- Venha comigo, Rowan Mayfair- disse ela, olhando para trás. - Traga a vela. As antigas luminárias a gás daqui de cima foram desligadas há muito tempo.

Rowan a acompanhou. O ar ficava cada vez mais quente. Parada no pequeno patamar, ela viu mais um lance curto de degraus e depois o último patamar, no terceiro andar.

Enquanto subia, parecia que todo o calor da casa devia estar concentrado ali.

Através de uma janela nua à sua direita entrava o clarão incolor da luz do poste da rua lá embaixo. Havia duas portas, uma à esquerda e uma diretamente à sua frente.

Foi a porta da esquerda que a velha abriu.

- Está vendo ali dentro o lampião sobre a mesa? Acenda-o.

Rowan largou a vela e ergueu a camisa do lampião. O cheiro do óleo era ligeiramente desagradável. Ela tocou com a vela acesa o pavio queimado. A chama grande e brilhante ficou ainda mais forte quando ela baixou a camisa. Rowan segurou a lâmpada no alto para iluminar um aposento espaçoso, de pé direito baixo, cheio de pó, umidade e teias de aranha. Mais uma vez, pequenos insetos fugiram da luz. Um farfalhar seco a assustou, mas o cheiro agradável do calor e da madeira era forte ali, ainda mais forte do que o cheiro de mofo e de panos estragados.

Ela viu que havia baús encostados nas paredes; que caixotes de mudança estavam apinhados sobre uma cama de latão no canto mais distante abaixo de uma das duas janelas quadradas. Um denso emaranhado de trepadeiras encobria metade da vidraça, com a luz refletindo nas gotas de chuva ainda agarradas às folhas, tornando-as ainda mais visíveis. As cortinas haviam caído há muito tempo e estavam ainda amontoadas no peitoril das janelas.

Livros forravam a parede à direita, cercando a lareira e seu pequeno consolo de madeira, em prateleiras que chegavam ao teto. Havia livros espalhados a esmo nas velhas poltronas estofadas que agora pareciam macias, esponjosas com a umidade e a idade. A luz do lampião reluziu no latão opaco da velha cama.

Refletiu também no couro embaçado de um par de sapatos, aparentemente jogados junto a um tapete comprido e grosso, amarrado num rolo irregular e empurrado de encontro à lareira desativada.

Havia algo de estranho nesses sapatos, algo de estranho naquele rolo cheio de saliências. Seria o fato de o tapete estar preso por uma corrente enferrujada, em vez da corda que pareceria mais provável?

Rowan percebeu que a velha a observava.

- Este foi o quarto de meu tio Julien - disse a mulher. - Foi por aquela janela que sua avó Antha saiu para o telhado da varanda e caiu para morrer lá embaixo nas lajes.

Rowan firmou o lampião, segurando-o melhor pela cintura marcada da sua base de vidro. Não disse nada.

- Abra o primeiro baú aí à sua direita - disse a velha.

Hesitando por um instante, embora não soubesse dizer por quê, Rowan se ajoelhou no piso nu e empoeirado, pôs o lampião ao lado do baú e examinou a tampa e a tranca arrombada. O baú era de lona reforçada com couro e tachas de latão. Ela ergueu a tampa sem esforço e a encostou delicadamente na parede para não arranhar o reboco.

- Está vendo o que está aí dentro?

- Bonecas - respondeu Rowan. - Bonecas feitas de... de cabelo e osso.

- É, ossos e cabelos humanos, de pele humana e aparas de unhas. Bonecas das suas antepassadas tão antigas que não se sabem os nomes das mais velhas, e elas se desfarão em pó se você as tocar.

Rowan examinou todas elas, dispostas cuidadosamente em fileiras numa camada de morim ralo, cada boneca com seu rosto meticulosamente desenhado e sua longa mecha de cabelo, algumas com varinhas para lhes servir de braços e pernas, outras molengas e quase amorfas. A mais nova e mais elegante de todas era feita de seda com uma pérola costurada ao vestido. Seu rosto era de osso reluzente, com os olhos, o nariz e a boca desenhados com tinta de um marrom escuro, talvez mesmo com sangue.

- É - disse a velha. - E sangue. E essa é sua bisavó Stella.

A bonequinha pareceu sorrir para Rowan. Alguém havia grudado os cabelos negros à cabeça de osso com cola. Saíam ossos da bainha do tubinho de seda.

- De onde vieram esses ossos?

- De Stella.

Rowan estendeu a mão e recuou, com os dedos se retraindo. Ela não conseguia se forçar a tocar a boneca. Hesitante, ela ergueu a ponta do morim, para ver ali embaixo mais uma camada, e nessa as bonecas estavam rapidamente se transformando em pó. Elas haviam afundado no pano, e era bem provável que não pudessem ser tiradas intactas dali.

-Elas remontam aos tempos da Europa. Enfie a mão. Pegue a mais velha. Você consegue ver qual é?

-Não adianta. Ela se desfará se eu a tocar. Além do mais, nem sei qual delas é a mais velha.

- Ela recolocou o pano no lugar, acertando a camada superior com cuidado.

E, quando seus dedos tocaram nos ossos, ela sentiu uma vibração súbita e desagradável. Era como se uma luz forte houvesse lampejado diante dos seus olhos. Sua mente registrou as possibilidades médicas... convulsão, perturbação do lobo temporal. No entanto, o diagnóstico parecia tolo, por pertencer a um outro universo.

Ela olhou fixamente para as pequenas carinhas. - Qual é a finalidade? Por que isso?

-Para falar com elas, se você quiser; e para invocar sua ajuda, de tal modo que elas saiam do inferno para satisfazer sua vontade. - A mulher retesou os lábios enrugados numa leve expressão de escárnio, com a luz, de baixo, deformando seu rosto grotescamente. - Como se elas fossem sair das chamas do inferno para satisfazer um pedido de quem quer que fosse.

Rowan deu um longo suspiro depreciativo olhando novamente para as bonecas, para o rosto horrendo e nítido de Stella.

- Quem fez essas coisas?

- Todos eles, o tempo todo. Cortland veio se esgueirando à noite e cortou o pé da minha mãe, Mary Beth, enquanto ela jazia no caixão. Foi Cortland quem tirou os ossos de Stella. Stella queria ser enterrada em casa. Stella sabia o que ele faria, porque sua avó Antha era pequena demais para isso.

Rowan estremeceu. Baixou a tampa do baú, levantou-se, erguendo cuidadosamente o lampião, e espanou o pó dos joelhos.

- Esse Cortland, o homem que fez essas coisas, quem ele era? Não o avô do Ryan que conheci no enterro?

- É, minha querida, o próprio - disse a velha. - Cortland, o belo, Cortland, o perverso, Cortland, o instrumento daquele que conduz esta família há séculos. Cortland, que violentou sua mãe quando ela se agarrou a ele à procura de ajuda. Estou falando do homem que copulou com Stella para gerar Antha, que por sua vez deu à luz Deirdre, que dele concebeu você. Ao mesmo tempo, filha e bisneta.

Rowan ficou calada, visualizando a disposição dos nascimentos e dos entrelaçamentos.

- E quem fez uma boneca da minha mãe? - perguntou, olhando fixamente para o rosto da velha, que agora parecia medonho no jogo de luz e sombra do lampião.

- Ninguém. A não ser que você mesma queira ir até o cemitério, soltar a lápide e tirar as mãos dela de dentro do caixão. Você acha que conseguiria fazer uma coisa dessas? Ele a ajudará, sabia, o homem que você já viu. Ele aparecerá se você puser o colar e o invocar.

- A senhora não tem nenhum motivo para querer me magoar. Não faço parte disso tudo.

- Estou lhe dizendo o que sei. Magia negra era o negócio deles. Sempre foi. Eu lhe digo o que você precisa saber para fazer sua escolha. Você se curvaria a essa imundície? Você daria continuidade a isso tudo? Você ergueria aqueles fragmentos deploráveis e invocaria os espíritos dos mortos para que todos os demônios no inferno fizessem de você um joguete?

- Eu não acredito nisso - disse Rowan. - E não creio que a senhora acredite.

- Eu acredito no que vi. Acredito no que sinto quando toco nessas bonecas. Elas são dotadas de perversidade, como as relíquias sacras são dotadas de santidade. Mas as vozes que falam por elas são todas dele, a voz do demônio. Você não acredita no que viu quando ele lhe apareceu?

- Vi um homem de cabelos escuros. Não era um ser humano. Era algum tipo de alucinação.

- Era Satã. Ele lhe dirá que isso não é verdade. Ele lhe dará um lindo nome. Ele dirá poesia para você. Mas ele é o diabo dos infernos por um simples motivo. Ele mente e destrói. E ele destruirá você e seus descendentes se conseguir, pois seus objetivos, os objetivos dele são o que importa.

- E quais são esses objetivos?

- Ter vida, como nós temos vida. Realizar-se, ver e sentir o que nós vemos e sentimos. – A mulher lhe voltou as costas e, meneando a bengala à sua frente, caminhou até a parede da esquerda, junto à lareira, parando diante do tapete mal enrolado e depois olhando para os livros que forravam as estantes dos dois lados da chaminé revestida de lambri acima do consolo da lareira.

Histórias - prosseguiu ela. - Histórias de todos os que vieram antes de nós, escritas por Julien. Este foi o quarto de Julien, o retiro de Julien. Aqui dentro, ele escreveu suas confissões. De como com sua irmã Katherine ele gerou minha mãe Mary Beth; e depois com Mary Beth gerou minha irmã Stella. E quando ele quis se deitar comigo, eu cuspi na sua cara. Tentei arrancar seus olhos com minhas unhas. Ameacei matá-lo. - Ela se voltou e olhou fixamente para Rowan.

Magia negra, feitiços maléficos, registros de suas pequenas vitórias de quando castigava seus inimigos e seduzia seus amantes. Nem todos os serafins nos céus poderiam saciar sua luxúria. Não a de Julien.

- Tudo isso está registrado aí?

- Tudo isso e algo mais. Mas eu nunca li seus livros, nem nunca vou ler. Já me bastava ler seus pensamentos quando ele ficava sentado um dia após o outro na biblioteca lá embaixo, mergulhando a pena no tinteiro e rindo consigo mesmo enquanto dava asas à fantasia. Isso foi há muitas décadas. Esperei tanto tempo por este momento.

- E por que os livros ainda estão aqui? Por que não os queimou?

- Porque eu sabia que, se um dia você viesse, teria de ver com seus próprios olhos. Nenhum livro tem a força de um livro incinerado! Não....Você precisa ler sozinha o que ele era, pois o que ele diz com suas próprias palavras não pode ter outro efeito a não ser o de culpá-lo e condená-lo. - Ela fez uma pausa. - Leia e escolha. Antha não tinha condições de escolher. Deirdre não tinha condições de escolher. Mas você tem. Você é forte, inteligente e sábia, apesar da pouca idade, sábia. Isso eu vejo em você.

Ela pousou as duas mãos sobre o cabo da bengala e olhou para outro lado com o canto dos olhos, meditando. Mais uma vez, seu capacete de cabelo branco parecia pesar sobre o rosto pequeno.

- Eu fiz minha escolha - disse ela, baixinho, quase triste. - Fui até a igreja depois que Julien tocou em mim, depois que ele cantou suas canções e disse suas mentiras.

Acredito francamente que ele imaginava conseguir me seduzir com seus encantos. Fui até o altar de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e ali me ajoelhei e rezei. E uma verdade poderosíssima me foi revelada. Não importava que Deus no céu fosse católico, protestante ou hindu. O que importava era alguma coisa mais profunda, mais antiga e mais forte do que qualquer imagem dessas: um conceito do bem baseado na afirmação da vida, na repulsa à destruição, à perversidade, ao uso e abuso do homem pelo homem. Era a afirmação do humano e do natural. - Ela ergueu os olhos para Rowan. - Pedi a Deus que me ajudasse. Que Nossa Senhora me amparasse. Que me permitissem usar meu poder para combatê-los, para derrotá-los, para vencê-los.

Mais uma vez, seus olhos se desfocaram, talvez contemplando o passado. Pairaram por algum tempo sobre o tapete aos seus pés, com seus círculos apertados de corrente enferrujada.

- Eu sabia o que me esperava, mesmo naquela época. Anos depois, aprendi o que precisava.

Aprendi os mesmos feitiços e segredos que eles empregavam. Aprendi a invocar os mesmos espíritos inferiores que eles comandavam. Aprendi a lutar com ele, em toda a sua glória, com espíritos féis a mim, que eu depois podia dispensar com um estalar de dedos. Em suma, usei suas armas contra eles mesmos.

Ela parecia taciturna, distante, estudando as reações de Rowan apesar de aparentar indiferença com relação a elas.

- Eu disse a Julien que não teria nenhum filho incestuoso dele. Que não me descrevesse fantasias do futuro. Que não aplicasse seus truques comigo, transformando-se num rapaz nos meus braços, quando eu podia sentir sua carne murcha e sabia que ela estava ali o tempo todo. "Você acha que eu me importo com você ser o homem mais lindo do mundo? Você ou seu guardião maléfico? Você acha que eu tomo minhas decisões com tanta vaidade e complacência?" Foi o que eu disse a ele. Se ele me tocasse novamente, eu usaria o poder de que dispunha para afastá-lo. Eu não precisaria de mãos humanas para me ajudar. E eu vi medo nos seus olhos; medo, muito embora eu mesma ainda não houvesse aprendido o suficiente para fazer valer minhas ameaças; medo de um poder que ele sabia existir mesmo que eu ainda não me sentisse segura dele. Mas talvez fosse apenas medo de alguém que ele não conseguia seduzir, não conseguia confundir, não conseguia conquistar. - Ela sorriu, com os lábios finos revelando uma reluzente dentadura perfeitamente nivelada. - Sabe, isso é terrível para alguém que vive exclusivamente pela sedução.

Ela silenciou, talvez dominada pelas lembranças.

Rowan respirou fundo, ignorando o suor grudado ao seu rosto e o calor do lampião. Ao olhar para a mulher, o que sentia era angústia, angústia, desperdício e longos anos de solidão. Anos vazios, anos de uma rotina enfadonha, de rancor e de uma crença feroz, uma crença com o potencial para matar...

- É, matar - suspirou a mulher. - Também fiz isso. Para proteger os vivos daquele que nunca viveu, e que se apossaria deles se pudesse.

- Por que nós? - perguntou Rowan. - Por que nós somos os joguetes desse espírito de que a senhora fala? Por que logo nós no mundo inteiro? Não somos os únicos que conseguem ver espíritos.

A velha deu um longo suspiro.

- A senhora alguma vez falou com ele? Disse que ele lhe apareceu quando ainda era criança, que falava no seu ouvido palavras que ninguém ouvia. Alguma vez a senhora lhe perguntou quem ele era e o que realmente queria?

- Você acha que ele teria me contado a verdade? Ele não lhe dirá a verdade, lembre-se do que lhe digo. Você só o alimenta quando lhe faz perguntas. Você lhe dá combustível como se ele fosse a chama no lampião.

A velha de repente se aproximou ainda mais de Rowan.

- Ele retirará da sua mente a resposta mais adequada para enganá-la, para deixá-la fascinada. Ele tecerá uma teia de falsidades tão densa que você não conseguirá ver o mundo através dela. Ele quer sua força e dirá o que for preciso dizer para obtê-la. Quebre a corrente, menina! Você é a mais forte de todas elas! Quebre a corrente, e ele terá de voltar para o inferno, pois ele não tem mais nenhum lugar para onde ir no mundo inteiro para encontrar uma força como a sua. Você não percebe?

Foi ele quem criou essa força. Cruzando irmão com irmã, tio com sobrinha e filho com mãe, é, até isso, quando precisava, para criar uma bruxa ainda mais poderosa, só fracassando de vez em quando, e reconquistando o que havia perdido numa geração com um poder ainda maior na próxima. Qual foi o custo de Antha e Deirdre se ele podia ter uma Rowan.

- Bruxa? A senhora disse a palavra bruxa?

- Todas eram bruxas, todas elas, está me entendendo? - Os olhos da velha esquadrinhavam o rosto de Rowan. - Sua mãe, sua avó, sua bisavó, e até Julien, aquele ser desprezível, pai de Cortland, que foi seu pai. Eu também estava destinada a isso até me rebelar.

Rowan cerrou o punho esquerdo, enfiando as unhas na palma da mão, encarando a velha nos olhos, com repulsa por ela e no entanto incapaz de se afastar.

- O incesto, minha cara, foi o menor dos seus pecados, mas seu projeto mais importante: incesto para fortalecer a linhagem, para multiplicar os poderes, para purificar o sangue, para dar à luz uma bruxa terrível e esperta a cada geração, há tanto tempo que os primórdios se perderam na história da Europa. O inglês que lhe fale a esse respeito, o inglês que veio com você à igreja, o inglês que estava segurando seu braço.

Deixe que ele lhe diga os nomes das mulheres cujas bonecas estão naquele baú. Ele lhe venderá sua especialidade na magia negra, sua genealogia.

- Quero sair deste quarto - disse Rowan, baixinho. Ela se voltou, lançando o feixe de luz no patamar da escada.

- Você sabe que é verdade - disse a velha atrás dela. - No fundo você sempre soube que vivia em você o mal.

- A senhora escolheu mal suas palavras. Está querendo dizer o potencial para o mal.

- Bem, saiba que pode dar um basta nisso! Esse pode ser o significado da sua força superior, o de que você pode agir como eu agi, voltando sua força contra ele. Voltando-a contra eles todos!

A velha passou bruscamente por Rowan, com a bainha do seu vestido roçando-lhe o tornozelo, e a bengala batendo surda no chão enquanto ela saía para o patamar e fazia um gesto para que Rowan a seguisse.

Entraram na única porta remanescente no andar, dela saindo um cheiro fortíssimo e revoltante. Rowan recuou, praticamente sem poder respirar, e então fez o que sabia que devia fazer. Respirou fundo aquela fedentina e engoliu em seco, pois não havia nenhum outro modo para tolerá-la.

Erguendo bem alto o lampião, ela viu que aquele era um depósito estreito. Estava cheio de frascos e vidros em prateleiras improvisadas, e os frascos e vidros estavam cheios de um líquido escuro, turvo. Havia espécimes nesses recipientes. Coisas pútridas, estragadas. O cheiro forte do álcool e de outros produtos químicos, e acima de todos o de carne em putrefação. Insuportável a idéia de que esses recipientes de vidro fossem abertos e do horrível fedor do seu conteúdo.

- Pertenceram a Marguerite - disse a velha - e Marguerite foi a mãe de Julien e de Katherine, que foi minha avó. Não espero que você guarde todos esses nomes. Você vai encontrá-los nos registros lá do outro quarto. Mas preste atenção ao que eu lhe digo.

Marguerite encheu esses vidros com coisas horrorosas. Você verá quando derramar o conteúdo. E veja bem, faça isso você mesma se não quiser ter problemas. Coisas horrendas nesses frascos... e logo ela, a curandeira! - Ela quase cuspiu a palavra, com desprezo. - Com o mesmo dom poderoso que você tem agora, de pôr as mãos sobre os enfermos e de reunir as células para consertar a fratura ou o câncer.

E foi isso o que ela fez com seu dom. Traga o lampião mais para perto.

- Não quero ver isso agora.

-Não? Você é médica, não é? Você não dissecou os mortos de todas as idades? Você não corta as pessoas agora?

- Sou cirurgiã. Opero para preservar e prolongar a vida. Não quero ver essas coisas agora...

No entanto, mesmo enquanto falava, estava examinando os frascos, olhando para o maior deles no qual o líquido ainda estava claro o suficiente para permitir ver a coisa macia, vagamente arredondada que nele flutuava, meio oculta pelas sombras. Mas era impossível o que estava vendo. Aquilo parecia ser exatamente uma cabeça humana. Ela recuou como se tivesse se queimado.

- Diga-me o que viu.

- Por que está fazendo isso comigo? - perguntou, em voz baixa, com os olhos fixos no frasco, nos olhos escuros apodrecidos, boiando no líquido, e nos cabelos de alga. Ela voltou as costas ao frasco e encarou a velha. - Foi hoje o enterro da minha mãe. O que a senhora quer de mim?

- Já lhe disse.

- A senhora está me castigando por ter vindo; está me punindo só por eu querer saber; por eu ter estragado seus planos.

Teria sido aquilo um sorriso no rosto da velha?

- A senhora não compreende que agora eu estou totalmente só lá na Califórnia? Quero conhecer minha família. A senhora não pode fazer com que eu me curve à sua vontade.

Silêncio. Aquilo ali era uma fornalha. Rowan não sabia quanto tempo mais iria agüentar.

- Foi isso o que fez com minha mãe? - perguntou, com a voz como que se extinguindo de raiva. - A senhora fez com que ela cumprisse a sua vontade?

Ela deu um passo atrás, como se sua raiva a forçasse a se afastar da velha; com a mão segurando desconfortavelmente o lampião de vidro, que agora estava quente com o pavio aceso, tão quente que ela mal conseguia mantê-lo na mão.

- Vou passar mal neste quarto.

-Pobrezinha--disse a velha. -O que você viu no frasco era uma cabeça de homem. Pois olhe com cuidado para ele quando chegar a hora. Olhe também para os outros que encontrar ali.

- Estão todos podres, deteriorados. São tão velhos que já não servem para nada, se é que algum dia serviram. Quero sair daqui.

Mesmo assim, seus olhos voltavam ao frasco, dominados pelo pavor. Sua mão esquerda tapou sua boca, como se de algum modo pudesse protegê-la. E, olhando para o líquido turvo, ela viu mais uma vez o buraco escuro da boca na qual os lábios estavam se deteriorando lentamente e os dentes brancos reluziam com perfeição. Viu o brilho gelatinoso dos olhos. Não, não olhe mais. Mas o que era aquilo dentro do vidro? Havia coisas que se mexiam no líquido, vermes. A vedação havia sido quebrada.

Ela se volto u e saiu do quarto, apoiando-se na parede, de olhos fechados, com o lampião a lhe queimar a mão. Seu coração batia forte nos ouvidos, e por um instante pareceu que as náuseas iam dominá-la. Ela ia vomitar no próprio chão no alto dessa escada imunda, com essa mulher desgraçada e perversa ao seu lado. Anestesiada, ouviu a mulher passar novamente por ela. Ouviu seu movimento ao descer a escada, dando passos mais lentos do que antes e somente recuperando um pouco a velocidade ao chegar ao patamar.

- Desça, Rowan Mayfair. Apague o lampião, mas acenda a vela antes e traga-a com você.

Rowan foi se recuperando lentamente. Passou a mão esquerda pelos cabelos. Lutando contra uma outra crise de náusea, ela entrou devagar no quarto. Pôs o lampião na pequena mesa junto à porta de onde o havia tirado, bem no momento em que achou que seus dedos não agüentariam mais a temperatura e ficou segurando a mão direita junto à boca, procurando aliviar a sensação de queimadura. Depois, ergueu a vela devagar e a mergulhou na camisa de vidro do lampião, pois sabia que o vidro estaria quente demais para ser tocado. O pavio acendeu, com um pouco de cera escorrendo, e então ela apagou o lampião. Ficou ali parada um pouco, com os olhos sobre o  tapete enrolado e o par de sapatos de couro jogado junto a ele.

Não, não estavam jogados, pensou. Não. Foi lentamente na direção dos sapatos. Estendeu, devagar, seu próprio pé esquerdo até tocar num dos sapatos e deu um chute nele. Percebeu que ele estava preso em alguma coisa, no mesmo instante em que ele se soltou, deixando ver o osso branco e reluzente da perna que saía da calça dentro do tapete enrolado.

Ficou paralisada, olhando espantada para o osso. Para o próprio tapete enrolado. E então, indo até a outra extremidade, ela viu ali o que não via antes, o brilho escuro de cabelos castanhos. Alguém embrulhado no tapete. Alguém morto, morto há muito tempo, e olhe, a mancha no piso, a mancha escura no lado do tapete, perto do chão, onde os fluidos escorreram e secaram há muito. E veja, até mesmo os minúsculos insetos esmagados, presos no líquido viscoso há tanto tempo.

Rowan, prometa que nunca voltará para lá, prometa.

De algum lugar distante lá embaixo, ela ouviu a voz da velha, tão fraca que parecia mais um pensamento seu.

- Desça, Rowan Mayfair. Rowan Mayfair, Rowan Mayfair, Rowan Mayfair...

Recusando-se a se apressar, ela saiu, com apenas um último olhar ao morto escondido no tapete, à vareta de osso branco que dele saía. Ela fechou, então, a porta, e desceu a escada, apática.

A velha estava parada diante do elevador aberto, apenas observando, com a feia luz dourada da lâmpada do elevador a iluminá-la em cheio.

- A senhora sabe o que encontrei - disse Rowan, endireitando-se ao chegar ao pé da escada. A pequena vela bruxuleou um instante, lançando pálidas sombras translúcidas no teto.

- Você encontrou o cadáver enrolado no tapete.

- Pelo amor de Deus, o que andou acontecendo nesta casa! - Exclamou Rowan, ofegante. Vocês são todos loucos?

Como a velha parecia fria e controlada. Como parecia totalmente indiferente. Ela indicou o elevador aberto.

- Venha comigo - disse ela. - Não há nada mais a ser visto e só um pouco mais a ser dito...

- Ah, mas muitas coisas ainda precisam ser ditas - contestou Rowan. - Diga-me, a senhora contou essas coisas à minha mãe? A senhora lhe mostrou aqueles frascos e aquelas bonecas horríveis?

- Eu não enlouqueci sua mãe, se é isso o que quer dizer.

- Acho que qualquer um que crescesse nesta casa poderia ficar louco.

- Sou da mesma opinião. Por isso, mandei você para longe. Agora venha.

- Diga-me o que aconteceu com minha mãe.

Ela entrou atrás da velha na pequena cabine empoeirada, fechando a porta de madeira e a pantográfica com raiva. Enquanto desciam, ela se voltou e examinou o perfil da mulher. Velha, velhíssima. A pele amarelada como pergaminho. O pescoço, tão fino e fraco, com as veias saltadas sob a pele frágil. É, tão frágil.

- Diga-me o que aconteceu - insistiu Rowan, com os olhos fixos no chão, sem ousar olhar a mulher de perto de novo. - Não me fale de como ele a tocava quando dormia, mas o que aconteceu, o que aconteceu realmente!

O elevador parou com um tranco. A mulher abriu a porta pantográfica, empurrou a de madeira e saiu para o corredor.

Quando Rowan fechou a porta, a lâmpada se apagou como se o elevador e sua lâmpada nua nunca houvessem existido. A escuridão pareceu envolvê-la com um leve frescor, recendendo à chuva para além da porta aberta. A noite reluzia lá fora, com seus ruídos tranqüilizadores.

- Diga- me o que aconteceu - insistiu Rowan, em voz baixa, amarga.

Atravessaram o longo salão da frente, com a velha servindo de guia, ligeiramente inclinada para a esquerda acompanhando sua bengala e Rowan, seguindo, paciente, atrás dela.

A luz fraca da vela ia se arrastando devagar pelo salão inteiro, mal chegando a iluminar o teto. Mesmo abandonado, era um lindo salão, com suas lareiras de mármore e os altos espelhos acima dos consolos refulgindo em meio às sombras lúgubres. Todas as janelas iam até o chão. Nas duas extremidades, havia espelhos que se olhavam cobrindo toda a extensão do aposento. Rowan percebeu vagamente que os lustres eram refletidos infinitamente. Sua própria silhueta pequena estava lá, repetida inúmeras vezes até finalmente desaparecer na escuridão.

- É - disse a velha. - É uma ilusão interessante. Darcy Monahan comprou esses espelhos para Katherine. Darcy Monahan tentou afastar Katherine de todo o mal que a cercava. Mas ele morreu nesta casa, de febre amarela. Katherine chorou pelo resto da sua vida. Mas os espelhos continuam até hoje, de um lado e do outro, e acima das lareiras, como Darcy os instalou.

Ela suspirou, mais uma vez descansando as mãos no cabo da bengala.

- Todos nós... de tempos em tempos... estivemos refletidos nesses espelhos. E agora você está se vendo neles, enquadrada na mesma moldura.

Rowan não respondeu. Entristecida, distante, ela ansiava por ver aquele salão iluminado, ver os entalhes nas lareiras de mármore, ver o estado das longas cortinas de seda, ver os florões de gesso no teto altíssimo.

A velha avançou até a mais próxima dentre duas janelas laterais que vinham até o chão.

- Levante-a para mim - disse a velha. - Ela desliza para cima. Você tem força suficiente. -- Ela apanhou a vela que Rowan levava e a colocou numa mesinha junto à lareira.

Rowan estendeu a mão para soltar a trava simples e ergueu a pesada janela de nove vidraças, empurrando-a com facilidade até que ela estivesse quase acima da sua cabeça.

Ali ficava a varanda telada, A noite lá fora, o ar tão puro quanto agradável e cheio da promessa de mais chuva. Rowan sentiu uma onda de gratidão e ficou parada em silêncio, deixando que o ar beijasse seu rosto e suas mãos. Ela abriu caminho quando a velha passou.

A vela, esquecida, lutou com uma corrente de ar erradia e se apagou. Rowan saiu para a escuridão. Mais uma vez, aquele perfume forte veio com a brisa, com sua doçura inundante.

- O jasmim da noite - disse a velha.

Em toda a volta do gradil dessa varanda cresciam trepadeiras, com suas gavinhas dançando com a brisa, folhinhas minúsculas parecendo inúmeras asas de insetos batendo na tela. Flores tremeluziam no escuro, brancas, delicadas, lindas.

-Era aqui que sua mãe ficava sentada, um dia após o outro -disse a velha. - E ali, ali naquelas lajes foi onde sua avó morreu. Morreu ao cair daquele quarto lá de cima que havia sido de Julien. Eu mesma a forcei a sair pela janela. Creio que a teria empurrado com minhas próprias mãos se ela não tivesse pulado. Com minhas próprias mãos, eu havia tentado arranhar seus olhos, como também havia feito com Julien.

Fez uma pausa. Ela estava olhando para a noite lá fora através da tela oxidada, talvez contemplasse as formas altas e indistintas das árvores em contraste com o céu mais claro. A luz fria do poste da rua se estendia iluminando a parte da frente do jardim. Brilhava sobre a grama alta, abandonada. Refletia até mesmo no espaldar alto da cadeira de balanço de vime branco.

A noite parecia terrível e desamparada aos olhos de Rowan. Medonha e lúgubre, esta casa, um lugar apavorante e devorador. Ah, viver e morrer aqui, passar uma vida inteira nesses cômodos tristes, assustadores. Morrer naquela imundície lá em cima. Era execrável. E o horror subia dentro de Rowan como um volume negro e denso, ameaçando impedir sua respiração. Ela não tinha palavras para descrever o que sentia. Não tinha palavras para o ódio que sentia em seu íntimo pela velha.

- Eu matei Antha - disse a velha, de costas para Rowan, com a voz baixa, as palavras confusas. - Eu a matei tanto quanto se a tivesse empurrado. Eu queria que ela morresse. Ela estava balançando Deirdre no berço, e ele estava ali, ao seu lado. Ele olhava para o bebê e fazia o bebê rir! E Antha estava deixando. Ela conversava com ele com sua vozinha fraca, afetada, e lhe dizia que ele era seu único amigo agora que seu marido estava morto, que era seu único amigo no mundo inteiro. Ela me disse que a casa era dela, que podia me pôr para fora se quisesse. Disse isso para mim. E eu disse que arrancaria seus olhos fora se ela não desistisse dele. "Sem olhos, você não o verá. Não deixará que o bebê o veja".

A velha fez uma pausa. Cheia de repugnância e tristeza, Rowan esperou naquele silêncio abafado dos ruídos noturnos, de coisas que se mexiam e cantavam no escuro.

- Você alguma vez viu um olho humano arrancado da órbita, pendurado no rosto de uma mulher por fios ensangüentados? Foi o que fiz com ela. Ela gritava e soluçava como uma criança, mas eu fiz isso. Arranquei seu olho e a persegui escada acima enquanto ela fugia de mim tentando segurar seu precioso olho nas mãos. E você acha que ele procurou me impedir?

- Eu teria tentado - disse Rowan, em voz baixa, amarga. - Por que está me contando essa história?

- Porque você quis saber! E para saber o que aconteceu com uma, você precisa saber o que aconteceu com a que veio antes dela. E você precisa saber, acima de tudo, que foi isso o que fiz para quebrar a corrente.

A mulher se voltou e encarou Rowan, com a fria luz branca refletindo nos seus óculos e os transformando momentaneamente em espelhos cegos.

- Isso eu fiz por você, por mim e por Deus, se é que Deus existe. Eu a fiz sair pela janela.

"Vamos verse você, cega, ainda o vê", gritei. "Vamos verse você o faz aparecer!" E sua mãe... sua mãe berrava no berço naquele exato quarto. Eu deveria ter lhe tirado a vida. Deveria tê-la sufocado naquele momento, quando Antha jazia morta lá fora nas lajes. Como eu queria ter tido a coragem!

Mais uma vez a velha se calou, erguendo ligeiramente o queixo, com os lábios finos mais uma vez se abrindo num sorriso.

- Sinto sua raiva. Sinto sua condenação.

-Dá para ser diferente?

A velha inclinou a cabeça. A luz da rua caía sobre os cabelos brancos, deixando o rosto sombreado.

- Eu não poderia matar uma coisinha tão pequena - disse ela, exausta. - Não consegui me forçar a pegar um travesseiro e tapar com ele o rosto de Deirdre. Lembrei-me das histórias antigas a respeito de bruxas que haviam sacrificado bebês, que haviam derretido a gordura do bebê no caldeirão nos Sabás. Nós da família Mayfair somos bruxos. E era eu quem ia sacrificar essa coisinha tão pequena, como os antigos faziam? Eu estava ali parada, pronta para tirar a vida de um bebê, uma criancinha que chorava, e eu não conseguia me forçar a fazer o que os outros haviam feito. Mais uma vez, o silêncio.

- E é claro que ele sabia que eu não conseguiria fazer aquilo! Ele teria destruído a casa para me impedir se eu tivesse tentado.

Rowan esperou até não conseguir esperar mais, até que o ódio e a raiva dentro dela a estivessem sufocando.

- E mais tarde - perguntou ela, com a voz embargada- o que a senhora fez com a minha mãe para quebrar a corrente, como a senhora disse? Silêncio.

- Fale.

A velha suspirou. Voltou a cabeça muito de leve, olhando através da tela oxidada.

- Desde quando era muito pequena e brincava ali no jardim, eu lhe implorava que lutasse contra ele. Eu lhe dizia para não olhar para ele. Eu lhe ensinei a rejeitá-lo!

E eu havia vencido minha luta, havia superado seus ataques de melancolia, de loucura e de choro, bem como suas revoltantes confissões das batalhas que havia perdido e de como havia permitido que ele entrasse na cama com ela. Eu havia vencido até Cortland a violentar! E então eu fiz o que tinha de fazer para me certificar de que ela renunciaria a você e nunca a procuraria.

Fiz o que tive de fazer para garantir que ela nunca recuperasse forças para fugir, para ir à sua procura, para apanhá-la de volta e trazê-la para o meio da sua loucura, da sua culpa e da sua histeria. Quando se recusavam a lhe dar tratamento com choques num hospício, eu a levava para outro. E eu dizia aos médicos o que tinha de dizer para fazer com que a amarrassem na cama, lhe dessem tranqüilizantes, lhe aplicassem choques. Eu dizia a ela o que tinha de dizer para fazer com que ela berrasse e os convencesse a fazer o que eu queria!

- Não me diga mais nada!

- Por que não? Você queria saber, não queria? E também, quando ela se contorcia debaixo dos lençóis como uma gata no cio, eu mandava que lhe dessem injeções, que lhe dessem...

- Pare!

- ... duas ou três vezes ao dia. Não me importa que ela morra. Podem aplicar. Não quero que ela fique aí deitada, como joguete dele, contorcendo-se no escuro, não quero...

- Pare. Pare com isso.

- Por quê? Até o dia em que morreu, ela foi dele. Sua última e única palavra foi o nome dele. De que valeu tudo isso, a não ser por você, por você, Rowan!

- Pare com isso! - disse Rowan, sibilando, com as mãos erguidas no ar, impotentes, os dedos muito abertos. - Pare  com isso. Eu poderia matá-la pelo que está me dizendo! Como a senhora ousa falar em Deus e na vida, quando fez isso com uma menina, uma menina que criou nesta casa imunda? E fez isso com ela quando ela estava indefesa, doente... Deus que a perdoe! A senhora é a bruxa, uma velha doente e cruel! Como pôde fazer isso com ela? Deus que a perdoe! Deus que a perdoe! Que o diabo a leve!

Um choque sombrio passou pelo rosto da velha. Por um segundo, à luz fraca, ela pareceu perder a expressão, com seus olhos de vidro redondo brilhando como dois botões e sua boca, frouxa, vazia.

Rowan gemia. Suas próprias mãos foram para os lados da cabeça, enfiando-se no cabelo. Seus lábios estavam cerrados com força para reter suas palavras, para reter a dor e a mágoa.

-Que vá arder no inferno pelo que fez! - exclamou, engolindo em parte as palavras, com o corpo curvado por uma raiva que não conseguia refrear.

A velha franziu o cenho. Estendeu o braço, e a bengala caiu da sua mão. Deu um único passo arrastando o pé para a frente. E então sua mão direita fraquejou e mergulhou na direção do braço esquerdo da cadeira de balanço à sua frente. Seu corpo frágil foi  virando lentamente e afundou na cadeira. Quando sua cabeça bateu no espaldar alto, ela parou de se mexer. Sua mão escorregou do braço da cadeira e ficou pendurada ao lado.

Não havia o menor barulho na noite. Só um chiado constante e indefinido como se os insetos e as rãs estivessem cantando, e os carros e motores distantes, onde quer que estivessem, também acompanhassem a melodia. Um trem pareceu passar ali por perto, com seus estalidos rítmicos e velozes abafados pela música. E ecoou o ruído longínquo e surdo de um apito, como um soluço gutural na escuridão.

Rowan estava paralisada, com os braços caídos, inertes e inúteis, a olhar espantada pela malha oxidada da tela para o delicado movimento rendilhado das árvores em contraste com o céu. O canto grave das rãs aos poucos se isolou dos outros sons noturnos e desapareceu. Um carro veio pela rua vazia do outro lado da cerca da frente, com os faróis devassando a folhagem densa e molhada.

Rowan sentiu a luz na sua pele. Viu a luz passar de relance sobre a bengala de madeira, caída no chão da varanda, sobre o sapato preto e fechado de Carlotta, dolorosamente torcido como se seu tornozelo magro estivesse quebrado.

Será que alguém viu através dos arbustos cerrados a mulher morta na cadeira? E a figura loura e alta logo atrás dela?

Rowan estremeceu toda. Esticou-se para trás, com a mão esquerda subindo e agarrando um punhado do seu cabelo para puxá-lo até a dor no couro cabeludo ficar tão forte que ela mal pudesse suportar.

A fúria havia desaparecido. Mesmo o traço mais leve da raiva estava extinto. Rowan estava parada, sozinha e com frio, no escuro, agarrando-se à dor enquanto segurava firme o cabelo com os dedos trêmulos; sentindo frio como se o calor da noite não existisse; sozinha como se aquela escuridão fosse a escuridão abissal na qual não havia restado nenhuma esperança de luz, nenhuma promessa de esperança ou de felicidade. O mundo acabado. O mundo com toda a sua história, toda a sua lógica inútil, todos os seus sonhos e realizações.

Lentamente, ela limpou a boca com as costas da mão, de um jeito desleixado, como uma criança, e ficou ali parada olhando a mão inerte da morta, com os dentes matraqueando à medida que o frio se aprofundava nela, realmente enregelante. Ajoelhou-se, então, e segurou a mão para procurar sentir a pulsação, que sabia não estar lá. Pousou a mão no colo da velha e viu o sangue que lhe escorria do ouvido, pelo pescoço abaixo, e entrava pela gola branca.

- Eu não queria... - sussurrou, mal conseguindo formar as palavras.

Atrás dela, a casa escura bocejava, à espera. Rowan não conseguia suportar a idéia de se voltar. Espantou-se com algum ruído distante, não identificável, que a encheu de medo. Estava com um medo verdadeiro, o pior medo que jamais havia sentido de um lugar em toda a sua vida. E, quando pensava nos cômodos escuros, não conseguia dar meia-volta. Não conseguia voltar a entrar na casa. E a varanda fechada era para ela uma armadilha.

Ergueu-se devagar e olhou lá para fora por cima da grama alta, para além de uma trepadeira emaranhada que se agarrava à tela e que estremecia ali com suas minúsculas folhas pontiagudas. Olhou para as nuvens que se movimentavam mais além das árvores e ouviu um som baixo e terrível que saía dos seus próprios lábios, uma espécie de gemido desesperado, apavorante.

- Eu não queria... - repetiu.

É numa hora dessas que se reza, pensou ela, aflita, em silêncio. E numa hora dessas que se reza para que o nada e ninguém eliminem o pavor do que se fez, dêem um jeito, façam com que nunca se houvesse vindo até aqui.

Ela viu o rosto de Ellie no leito do hospital. Prometa que você nunca, nunca...

- Eu não queria fazer isso! - Sua voz saiu tão baixa que só Deus poderia tê-la ouvido. – Meu Deus, eu não queria. Juro. Eu não queria fazer isso mais uma vez.

Muito ao longe, em algum ponto de um outro universo, existiam outras pessoas. Michael, o inglês, Rita Mae Lonigan e os parentes reunidos à mesa do restaurante. Até mesmo Eugenia, perdida em algum canto daquela casa, dormindo e talvez sonhando. Todos esses outros.

E ela parada ali sozinha. Ela, que havia matado essa velha cruel e perversa. Que a havia matado com tanta crueldade quanto a que a própria velha havia usado para matar. Que Deus a mandasse para o inferno por aquilo tudo. Que fosse arder no inferno por tudo o que disse e fez. Que fosse para o inferno. Mas não era minha intenção, juro...

Mais uma vez, ela passou a mão pela boca. Cruzou os braços sobre os seios, encolheu os ombros e estremeceu. Tinha de se voltar e penetrar na casa sombria. Voltar até a porta e sair dali.

Ah, mas não conseguia fazê-lo. Precisava chamar alguém, contar a alguém, gritar por aquela mulher, Eugenia, e fazer o que devia ser feito, o que era correto. No entanto, a agonia de ter de falar com desconhecidos agora, de ter de pronunciar mentiras oficiais, era mais do que ela poderia suportar.

Deixou a cabeça pender, frouxa, para um lado. Ficou olhando fixamente para o corpo inútil, caído e quebrado dentro do saco do vestido. Os cabelos brancos tão limpos e aparentemente sedosos. Toda aquela vida mesquinha e desgraçada vivida nesta casa, toda a sua vida mal-humorada e infeliz. E assim tudo termina para ela.

Ela fechou os olhos, exausta, erguendo a s mãos até o rosto, e as preces surgiram. Ajude-me porque não sei o que fazer, não sei o que fiz e não sei desfazer o que está feito. E tudo o que a velha disse era verdade, e eu sempre soube, soube que o mal estava dentro de mim e dentro deles, e que foi por isso que Ellie me levou embora. O mal.

Ela viu o fantasma pálido e magro do lado de fora da vidraça em Tiburon. Sentiu as mãos invisíveis que a tocavam, como no avião. O mal.

- E onde é que está você? - Sussurrou ela na escuridão. - Por que eu deveria ter medo de voltar,para dentro desta casa?

Ela ergueu a cabeça. De dentro do longo salão atrás dela, veio outro leve estalido. Como uma tábua velha cedendo sob o peso de alguém. Ou teria sido apenas o som de um caibro? Tão baixo que poderia ter sido um rato no escuro, esgueirando-se pelo assoalho com suas patinhas repugnantes. Mas ela sabia que não era. Com todos os seus instintos, ela sentia ali uma presença, alguém por perto, alguém na escuridão, alguém no salão. Não a velha negra. Não era o arrastar dos seus chinelos.

- Apareça para mim - disse ela, baixinho, com seu último resquício de medo se transformando em raiva. - Apareça agora.

Mais uma vez, ela ouviu o ruído. E foi se voltando lentamente. Silêncio. Olhou uma última vez para a velha sentada. E depois entrou no longo salão da frente. Os espelhos altos e estreitos se encaravam na calma sombria. Os lustres empoeirados atraíam a luz para si mesmos, soturnos na escuridão.

-Não estou com medo de você. Não estou com medo de nada aqui neste lugar. Apareça como apareceu antes.

Os próprios móveis pareceram vivos por um instante carregados de perigo, como se as pequenas cadeiras recurvas a estivessem observando, como se as estantes com suas portas de vidro tivessem ouvido seu vago desafio e quisessem testemunhar qualquer coisa que ocorresse.

- Por que você não vem? - disse ela, sussurrando, mais uma vez. - Está com medo de mim?

- O nada. Um estalido surdo de algum lugar lá em cima.

Com passos silenciosos e uniformes, ela se dirigiu até o corredor, aguçadamente consciente do som da sua própria respiração difícil. Contemplou calada a porta da frente aberta. Era leitosa a luz que vinha da rua; eram escuras e reluzentes as folhas gotejantes dos carvalhos. Ela deu um longo suspiro, quase involuntário, e depois se voltou, afastando-se dessa luz tranqüilizadora, atravessando de volta o corredor, mergulhando nas sombras mais densas para chegar à sala de jantar vazia, onde a esmeralda estava à espera, no porta jóias de veludo.

Ele estava aqui. Tinha de estar.

- Por que você não aparece? - sussurrou, surpresa com a fragilidade da própria voz. As sombras pareceram se mexer, mas nenhuma forma se materializou. Talvez uma brisa ínfima houvesse atingido as cortinas empoeiradas. Ouviu-se um estalo seco no assoalho onde ela pisava.

Ali sobre a mesa estava o porta-jóias. Cheiro de cera pairando no ar. Seus dedos tremiam quando ela abriu a tampa e tocou a própria pedra.

- Vamos, seu demônio - disse ela, erguendo a esmeralda, vagamente impressionada pelo seu peso, apesar da sua aflição. Ela a ergueu cada vez mais até que a luz atingisse a pedra e a pendurou no pescoço, manejando com facilidade o fecho pequeno e forte na sua nuca.

Depois, num momento estranhíssimo, ela se viu fazendo isso. Viu a si mesma, Rowan Mayfair, arrancada do passado, que havia sido tão distante de tudo isso que agora parecia ter perdido os detalhes, parada como um caminhante perdido nesta casa escura e estranhamente familiar.

E era familiar, ou não era? Essas portas altas e afiladas eram suas conhecidas. Parecia que seus olhos já haviam passeado milhares de vezes por esses murais. Ellie havia caminhado por aqui. Sua mãe havia vivido e morrido aqui. E como lhe parecia pertencer irrecuperavelmente a um outro mundo aquela casa de sequóia e vidro lá na distante Califórnia. Por que ela havia esperado tanto para voltar?

Ela havia entrado por um desvio na trajetória sombria e reluzente do seu destino. E o que eram todas as suas vitórias passadas em comparação com o confronto com esse mistério? E pensar que esse mistério com todo o seu esplendor sinistro lhe pertencia por direito. Ele havia esperado todos esses anos para que ela viesse reivindicá-lo; e agora ela, afinal, estava aqui.

A esmeralda pesava sobre a seda macia da sua blusa. Seus dedos pareciam incapazes de resistir a ela, pairando sobre ela como se fosse um ímã.

- É isso o que você quer? - perguntou ela, baixinho.

Ali atrás no corredor, um ruído inconfundível lhe deu resposta. A casa inteira ressoou com ele, como a caixa de um grande piano ressoa com o menor toque a uma corda que seja. E logo em seguida, ele se repetiu. Um ruído suave porém definido. Havia alguém ali.

Seu coração batia quase com dor. Ela estava parada, sem saber o que fazer, com a cabeça baixa e, como num sonho, ela se voltou e ergueu os olhos. Distinguiu a poucos passos uma figura sombria e indistinta: o que parecia ser um homem alto.

Todos os sons mais ínfimos da noite pareceram desaparecer, deixando-a num vazio enquanto ela se esforçava para discernir aquela criatura da escuridão espessa em que estava enredada. Rowan estaria se iludindo ou aquilo não seria o esboço de um rosto?

Pareceu-lhe que um par de olhos escuros a observava, que ela mal vislumbrava o contorno de uma cabeça. Talvez até estivesse vendo a curva branca de um colarinho duro.

-Não me venha com brincadeiras - disse ela, baixinho. Mais uma vez, a casa inteira reverberou com seus estalidos e suspiros aleatórios. E então, de uma forma assombrosa, a figura se iluminou, confirmou sua presença mágica e, no entanto, no momento em que Rowan arfava de surpresa, ela começou a se desfazer.

- Não, não vá! - implorou Rowan, de repente duvidando de ter visto alguma coisa. E, enquanto não tirava os olhos daquela confusão de luz e sombra, numa procura desesperada, uma forma mais escura surgiu subitamente em contraste com a luz fraca e opaca da porta distante. Aproximava-se cada vez mais em meio aos turbilhões de poeira, a passos pesados, nítidos. Sem a menor possibilidade de engano, ela viu os ombros poderosos, os cabelos negros, crespos.

- Rowan? É você quem está aí, Rowan?

Sólido, conhecido, humano.

- Ah, Michael - exclamou Rowan, com a voz baixa, embargada. Ela foi até os braços que a esperavam. - Michael, graças a Deus.

Bem, pensava ela consigo mesma, em silêncio, sentada debruçada sozinha à mesa de jantar, suposta vítima dos horrores desta casa sinistra, estou me tornando uma dessas mulheres que simplesmente se jogam nos braços de um homem e deixam que ele se encarregue de tudo.

No entanto, era bonito ver Michael em ação. Ele fez as ligações para Ryan Mayfair, para a polícia e para a Lonigan and Sons. Ele falava a mesma língua dos policiais à paisana que vinham subindo pela escada. Se alguém percebeu suas luvas pretas, ninguém disse nada, talvez porque ele estivesse falando rápido demais, dando explicações e facilitando as coisas para apressar as conclusões inevitáveis.

- Ora, ela acabou de chegar aqui. Não faz a menor idéia de quem seja esse cara lá no sótão.

A velha não lhe contou. E ela está em estado de choque agora. A velha simplesmente morreu ali fora. Agora, esse corpo no sótão já está lá há muito tempo; e o que eu peço a vocês é que não mexam em mais nada no quarto, se for possível tirar apenas os restos mortais; e ela quer saber quem era esse homem tanto quanto vocês querem saber.

E olhe, Ryan Mayfair está chegando. Ryan, Rowan está ali dentro. Está péssima. Antes de morrer, Carlotta lhe mostrou um corpo lá em cima.

- Um corpo. Você está falando sério?

- Precisam removê-lo. Será que você ou Pierce podiam ir até lá, para se certificar de que eles não mexam em todos aqueles registros antigos e todas aquelas coisas?

Rowan está ali na sala. Está exausta. Ela conversa com vocês amanhã.

Pierce aceitou imediatamente a missão. Tropel pela velha escada acima. Michael e Ryan conversavam com a voz contida. Cheiro de fumaça de cigarro no corredor. Ryan entrou na sala de jantar e falou, baixinho, com Rowan. - Amanhã, ligo para você no hotel. Tem certeza de que não quer vir comigo e com Pierce para ficar em Metairie?

- Tenho de ficar por perto. Quero vir aqui amanhã de manhã. - Seu amigo da Califórnia é simpático; é daqui. - E. Gentileza sua.

Mesmo com a velha Eugenia, Michael agiu como o protetor, pondo o braço no seu ombro enquanto a acompanhava para ver "a velha Miss Carl" antes que Lonigan tirasse o corpo da cadeira de balanço. Pobre Eugenia, que chorava sem emitir nenhum som.

- Querida, você quer que eu chame alguém para vir buscá-la? Você não vai querer passar a noite na casa sozinha, vai? E só dizer o que quer que eu faça. Posso conseguir alguém para vir para cá passar a noite com você.

Com Lonigan, seu velho amigo, ele logo se entendeu. Perdeu tudo o que era da Califórnia na sua voz para falar igualzinho a Jerry e a Rita, que acompanhava o marido no rabecão. Velhos amigos, Jerry bebia cerveja com o pai de Michael na frente de casa trinta e cinco anos atrás; e Rita e Michael saíam em grupos de quatro para namorar nos tempos de Elvis Presley. Rita lhe deu um abraço.

- Michael Curry.

Chegando até a frente da casa, Rowan os havia visto iluminados pelas luzes intermitentes. Pierce estava falando ao telefone na biblioteca. Ela ainda nem havia visto a biblioteca. Agora uma luz opaca inundava o aposento, iluminando o couro antigo e os tapetes chineses.

-... pois bem, Mike - dizia Lonigan -, você precisa falar com a Dra. Mayfair que essa mulher estava com noventa anos de idade, que só havia uma coisa que a mantinha viva, Deirdre. O que eu quero dizer é que era apenas uma questão de tempo depois que Deirdre se foi, e que ela não deve se culpar por nada que possa ter acontecido aqui nesta noite. O que eu estou dizendo, Mike, é que ela é médica, mas não faz milagres. Não, não muitos, pensou Rowan.

- Mike Curry? Você não é o filho de Tim Curry? - perguntou o policial uniformizado. – Me disseram que era você. Você sabia que meu pai e seu pai eram primos em terceiro grau? Pois eram. Meu pai conhecia bem o seu. Costumavam beber cerveja juntos no Corona's.

Afinal, o cadáver do sótão, embalado e etiquetado, foi levado embora; e o pequeno corpo ressequido da velha foi colocado na maca branca acolchoada como se ainda estivesse vivo, embora estivesse apenas sendo transportado para o rabecão, talvez para jazer na mesma mesa de embalsamamento onde Deirdre estivera um dia antes.

Nenhum velório, nem cerimônia fúnebre, nada, informou Ryan. Isso ela mesma havia dito a ele um dia antes. Também havia feito a mesma recomendação a Lonigan, disse o homem.

- Haverá uma missa em sua memória daqui a uma semana - disse Ryan. - Você ainda estará por aqui?

Para onde eu poderia ir? Por quê? Descobri meu lugar. Nesta casa. Sou uma bruxa. Sou uma assassina. E dessa vez agi deliberadamente.

-... E sei como tudo isso foi terrível para você.

Perambulando de volta à sala de jantar, Rowan ouviu o jovem Pierce na porta da biblioteca.

- Agora, ela não está pensando em passar a noite nesta casa, está?

- Não, nós vamos voltar para o hotel - disse Michael.

- É só que ela não devia ficar aqui sozinha. Esta casa pode ser muito perturbadora. Uma casa verdadeiramente perturbadora. Você acharia que eu sou louco se eu lhe dissesse que agorinha mesmo quando entrei na biblioteca havia um retrato de alguém acima da lareira e que agora o que há ali é um espelho?

- Pierce - disse Ryan, irado.

- Desculpe, papai, mas...

- Agora não, meu filho, por favor.

- Acredito em você - disse Michael, com um risinho. - Vou ficar com ela.

- Rowan? - Ryan a abordava mais uma vez com cuidado. Ela, a órfã, a vítima, quando na realidade era a assassina. Agatha Christie teria sabido. Mas nesse caso eu teria de ter usado um castiçal.

- Sim, Ryan.

Ele se sentou à mesa, procurando não tocar a superfície empoeirada com a manga do seu terno de corte impecável. O terno do enterro. A luz atingiu seu rosto bem-educado, seus frios olhos azuis, de um azul muito mais claro do que o de Michael.

- Você sabe que esta casa é sua? - Ela me disse.

O jovem Pierce estava parado, no portal, em atitude de respeito. - Bem, há muito mais na história. - Dívidas, hipotecas?

- Não - disse ele, abanando a cabeça. - Acho que você nunca vai precisar se preocupar com esse tipo de coisa enquanto viver. Mas a questão é que, quando você quiser, pode vir até o centro para examinar tudo.

- Meu Deus - exclamou Pierce -, essa aí é a esmeralda? - Ele havia vislumbrado o porta-jóias nas sombras do outro lado da mesa. - E com toda essa gente passando por aqui!

Seu pai lhe lançou um olhar paciente, contido.

- Ninguém vai roubar essa esmeralda, meu filho - disse ele com um suspiro. Olhou, então, ansioso para Rowan. Apanhou o porta jóias e olhou para ele como se não soubesse ao certo o que devia fazer.

- O que há de errado? - perguntou Rowan. - Qual é o problema?

- Ela lhe falou sobre o colar?

- E alguém algum dia falou sobre ele com você? - perguntou Rowan, sem nenhum tom de desafio.

- Uma história e tanto - disse ele, com um sorriso sutil, forçado. Ele pôs o porta-jóias diante dela, dando-lhe um tapinha. Ela se levantou.

- Já sabem quem era o homem no sótão? - perguntou ela.

- Logo saberão. Havia um passaporte e outros documentos no cadáver, ou no que restou dele.

- Michael está aonde?

- Aqui, querida, bem aqui. Olhe, você está querendo ficar sozinha? - No escuro, suas mãos enluvadas estavam quase invisíveis.

- Estou cansada, podemos voltar para o hotel? Ryan, posso ligar para você amanhã?

- Quando você quiser, Rowan.

A porta, Ryan hesitou um pouco. Olhou de relance para Michael. Michael fez menção de sair. Rowan estendeu a mão e conseguiu agarrar a dele, espantando-se com o couro.

- Rowan, ouça o que vou lhe dizer - disse Ryan. - Não sei o que tia Carl acabou lhe contando. Não sei como aquele corpo foi aparecer lá em cima, ou o que isso significa; nem mesmo sei o que ela lhe disse a respeito do legado. Mas você precisa limpar essa velharia, tem de queimar aquele lixo todo lá de cima, arrumar gente para vir aqui, Michael pode ajudá-la nisso, para jogar as coisas fora, todos aqueles livros velhos, aqueles frascos. Você precisa arejar a casa e fazer uma avaliação. Você não precisa examinar a casa inteira, inspecionando cada partícula de poeira, de sujeira, de feiúra. Ela é uma herança, mas não é uma maldição. Pelo menos, não precisa ser.

- Eu sei - disse ela.

Barulho à porta da frente.

Os dois rapazes negros que vieram apanhar vovó Eugenia estavam agora parados no corredor. Michael subiu para ajudá-la. Ryan e depois Pierce se abaixaram para beijar o rosto de Rowan. Pareceu-lhe de repente que era igual a quando beijavam um defunto. Percebeu então que era exatamente o contrário. Aqui eles beijavam os mortos da mesma forma que beijavam os vivos.

O calor das mãos e o sorriso de despedida de Pierce que lampejou no escuro. Amanhã, telefone, almoço, conversa e tudo o mais.

Ruído do elevador na sua descida infernal. Era verdade que no cinema as pessoas iam para o inferno de elevador.

- E você tem sua chave, Eugenia. Você pode vir amanhã, pode entrar como sempre entrou, se precisar de alguma coisa. Agora, querida, você precisa de algum dinheiro?

- Recebi meu pagamento, Sr. Mike. Obrigada, Sr. Mike.

-Muito obrigado, Sr. Curry - disse o rapaz negro. Voz educada, gentil. O policial mais velho voltou. Ele devia estar no saguão de entrada porque ela mal o ouvia.

- É, Townsend.

-... passaporte, carteira, tudo bem ali na camisa.

Portas fechadas. Escuridão. Silêncio.

Michael, vindo pelo corredor.

E agora somos só nós dois, e a casa está vazia. Ele parou no portal da sala de jantar olhando para ela.

Silêncio. Ele tirou um cigarro do bolso, enfiando o maço de volta de qualquer jeito. Não podia ser fácil com aquelas luvas, mas elas não pareciam atrapalhá-lo.

- E o que você acha de sairmos de uma vez daqui? - perguntou ele. Bateu o cigarro no mostrador do relógio. Explosão de um fósforo, e o brilho da luz nos olhos azuis quando ele olhou para cima, observando novamente a sala de jantar, os murais. Existem olhos azuis e olhos azuis. Será que o seu cabelo poderia ter crescido tanto em tão pouco tempo? Ou seria apenas a umidade do ar quente que o tornava tão denso e crespo?

O silêncio ecoava nos seus ouvidos. Todos haviam ido embora mesmo.

E a casa inteira estava ali vazia e vulnerável ao toque de Rowan, com suas inúmeras gavetas, cômodas, armários, potes e caixas. No entanto, era-lhe repugnante a idéia de tocar em qualquer coisa. Nada era dela. Tudo aquilo pertencia à velha, úmido, estragado e horrível, como a velha. E Rowan não tinha nenhum ânimo de se mexer, nenhum ânimo para subir novamente as escadas, para ver absolutamente nada.

- O nome dele era Townsend? - perguntou.

- É, Stuart Townsend.

- Você faz alguma idéia de quem ele podia ser?

Michael pensou um pouco, limpou um cisco de fumo do lábio, mudou o peso de uma perna para a outra. Belo corpo musculoso, pensou ela. Decididamente pornográfico.

- Sei quem ele era - disse Michael, com um suspiro. - Aaron Lightner, está lembrada dele?

Ele sabe tudo a respeito de Townsend.

- Do que é que você está falando?

- Você quer conversar aqui? - Seus olhos passearam mais uma vez pelo teto, parecendo antenas. - Estou com o carro de Aaron aí fora. Podemos voltar para o hotel ou ir a algum lugar no centro.

Seus olhos se detinham carinhosos no florão de gesso, no lustre. Havia algo de furtivo, de culpado, no seu jeito de admirar a casa mesmo em meio a uma crise dessas.

Mas ele não precisava esconder isso dela.

- E esta a casa, não é? A casa da qual você me falou na Califórnia?

Os olhos se voltaram para ela. Os dois se encararam.

- É, é esta a casa. - Ele deu um sorrisinho triste e abanou a cabeça. - É esta mesmo. – Ele bateu a cinza na palma da mão, formando uma concha com ela, e foi devagar da mesa na direção da lareira. O movimento pesado dos quadris, do seu grosso cinto de couro, tudo perturbadoramente erótico. Ela o observou enquanto ele jogava as cinzas na lareira vazia, as pequenas cinzas invisíveis que possivelmente não fariam nenhuma diferença se lhes fosse permitido cair no assoalho empoeirado.

- O que você quis dizer com o Sr. Lightner saber quem aquele homem era?

Ele pareceu constrangido. Extremamente sexy e muito constrangido. Deu mais uma tragada no cigarro, e olhou em volta, refletindo.

- Lightner pertence a uma organização - disse, afinal. Procurou no bolso da camisa e tirou um cartãozinho, que pôs sobre a mesa. - Eles a consideram uma ordem. Como uma ordem religiosa, mas ela não é religiosa. O nome é Talamasca.

- Amantes da magia negra?

- Não.

- Foi o que a velha me disse.

- Pois foi uma mentira. Eles acreditam na magia negra, mas não são nem amantes nem praticantes.

- Ela me disse um monte de mentiras. Havia verdade no que ela dizia, também, mas o tempo todo a verdade estava emaranhada no ódio, na perversidade, na virulência e em mentiras horrendas, horrendas. - Ela estremeceu. - Estou com calor e estou com frio - disse ela. - Vi um desses cartões antes. Ele me deu um na Califórnia.

Ele lhe contou isso? Eu o conheci na Califórnia.

- Junto ao túmulo de Ellie - acrescentou Michael, embaraçado.

- Bem, como isso é possível? Que você seja amigo dele, e que ele saiba toda a história do homem no sótão? Estou cansada, Michael. Tenho a impressão de que poderia começar a gritar sem conseguir nunca mais parar. Tenho a sensação de que, se você não começar a me contar... - Ela se interrompeu, olhando apática para a mesa. - Não sei o que estou dizendo.

- Esse homem, esse Townsend - disse Michael, apreensivo - ele era membro da Ordem. Ele veio para cá em 1929, para tentar entrar em contato com a família Mayfair.

- Por quê?

- Eles vêm observando essa família há trezentos anos, compilando sua história. Vai ser difícil para você compreender tudo isso...

- E só por coincidência esse homem é seu amigo?

-Não. Não se precipite. Nada disso foi coincidência. Eu o conheci aqui na frente desta casa na noite em que cheguei aqui. Eu o vi em San Francisco, também. Você o viu, você se lembra, na noite em que me apanhou para ir até sua casa, mas nós dois pensamos que ele fosse um repórter. Eu nunca havia falado com ele e, antes daquela noite, eu nunca o havia visto.

- Eu me lembro.

- E então, ele estava ali fora. Eu estava bêbado. Bebi no avião. Você se lembra de que eu prometi que não me embriagaria, mas foi o que eu fiz. Cheguei aqui e vi esse... esse outro homem no jardim. Só que não era um homem de verdade. Pensei que fosse, e depois percebi que não era. Eu costumava ver esse cara quando eu era pequeno. Eu o via todas as vezes que passei por esta casa.

Já lhe falei dele, você se lembra? Pois bem, o que eu preciso explicar de alguma forma é que... ele não é real.

- Eu sei - disse ela. - Eu mesma o vi. - Uma sensação eletrizante passou por ela. - Continue, por favor. Vou lhe contar tudo quando você terminar.

Só que ele não conseguia prosseguir. Olhava, ansioso, para ela. Estava frustrado, preocupado. Encostado no consolo da lareira, olhava para ela, com a luz do corredor iluminando parte do seu rosto, e os olhos dardejando pela mesa até voltarem finalmente a ela. Uma ternura imensa brotava em Rowan ao ver em Michael esse sentido de proteção, ao ouvir na sua voz a delicadeza e o medo de magoá-la.

- Conte-me o resto - disse ela. - Olhe, você não está entendendo? Tenho coisas horríveis a lhe contar, porque você é a única pessoa com quem posso falar. Por isso, conte-me logo sua história porque, com isso, estará facilitando as coisas para mim. Porque eu nem sabia como ia lhe falar de ter visto o tal homem. Eu o vi depois que você foi embora, no deque lá em Tiburon. Eu o vi no momento exato em que minha mãe morria em Nova Orleans. E eu nem sabia que ela estava morrendo. Eu não sabia absolutamente nada a respeito dela.

Ele fez que sim, com a cabeça, mas ainda se sentia confuso, sem saída.

- Se eu não puder confiar em você, para o que der e vier, não quero falar com mais ninguém. O que você está me escondendo? Basta que fale. Diga-me por que aquele homem, Aaron Lightner, foi gentil comigo hoje à tarde no enterro quando você não pôde vir? Quero saber quem ele é e como você o conheceu. Tenho direito a essa pergunta?

- Meu amor, você pode confiar em mim. Não se zangue comigo, por favor.

- Ora, não se preocupe. É preciso mais do que uma briga de namorados para eu fazer explodir a carótida de uma pessoa.

- Rowan, não foi isso...

-Eu sei, eu sei! -disse ela, sussurrando. -Mas você sabe que eu matei aquela velha.

Ele fez um pequeno gesto de negação e abanou a cabeça.

- Você sabe que fui eu. - Ela olhou para ele. - Você é a única pessoa que sabe. - De repente, ocorreu-lhe uma terrível suspeita. - Você não contou a Lightner as coisas que eu lhe disse? Sobre o que eu posso fazer?

- Não - respondeu ele, sacudindo a cabeça com veemência, implorando-lhe em silêncio que acreditasse nele. - Eu não disse nada, mas ele sabe, Rowan.

- Sabe o quê?

Ele não respondeu. Encolheu os ombros de leve, apanhou mais um cigarro e ficou ali parado, com o olhar perdido, aparentemente refletindo, enquanto pegava a carteirinha de fósforos e, sem sequer perceber, fazia aquele maravilhoso truque de dobrar um fósforo, fechar a carteirinha, curvar o fósforo, riscá-lo e levar a chama ao cigarro, usando apenas uma das mãos.

- Não sei por onde começar - disse ele. - Talvez pelo início. - Ele soltou a fumaça, voltando a encostar o cotovelo na lareira. - Amo você. Amo mesmo. Não sei como tudo isso foi acontecer. Tenho um monte de suspeitas e estou apavorado. Mas amo você. Se isso foi predeterminado, quer dizer, se foi o destino, bem, então, sou um homem perdido. Realmente perdido, porque não posso aceitar essa história de destino. Mas não vou renunciar ao amor. Não me importa o que aconteça. Você ouviu o que eu disse?

Ela fez que sim.

- Você tem de me falar tudo sobre essas outras pessoas - disse ela, mas também disse sem palavras, Você sabe o quanto eu o apto e o desejo?

Ela se virou de lado na cadeira para olhar melhor para ele. Esfregou as costas dos braços, novamente, e descansou o salto do sapato na travessa da cadeira. Erguendo os olhos até ele, ela viu seus quadris de novo, a inclinação do cinto, a camisa apertada no peito. Não conseguia parar de desejá-lo fisicamente. Melhor acabar logo com isso, não era? Ah, é claro, vamos comer esse sorvete delicioso inteirinho só para nos livrarmos dele. E assim você pode me dizer do que está falando com tudo isso, e eu posso lhe falar também. Do homem no avião. E da pergunta da velha. Foi melhor do que com um mortal?

Seu rosto se anuviou ao olhar para ela. Ele a amava. Amava, sim. Esse homem, simplesmente o melhor homem que ela jamais havia conhecido, tocado ou desejado. Como teria sido tudo isso sem ele?

- Michael, fale comigo sem rodeios, por favor.

- Claro, Rowan. Mas não vá me dar uma de louca. Ouça com atenção o que eu tenho a dizer.

Ele pegou uma das cadeiras da sala de jantar que estavam encostadas na parede, virou-a de modo que o encosto ficasse de frente para ela e montou a cadeira em estilo vaqueiro, cruzando os braços sobre o encosto, enquanto olhava para ela. Isso também era pornográfico.

- Os dois últimos dias, estive enfurnado num lugar a uns cem quilômetros daqui, lendo a história da família Mayfair compilada por esse pessoal. - O Talamasca.

- Isso. Agora, deixe-me lhe explicar. Há uns trezentos anos, viveu um homem chamado Petyr van Abel. O pai dele havia sido um cirurgião famoso na Universidade de Leiden, na Holanda. Existem ainda livros de autoria desse médico, Jan van Abel.

- Esse eu conheço - disse ela. - Ele era anatomista. Ele sorriu e abanou a cabeça. - Pois é, querida, ele é seu antepassado. Você se parece com o filho dele. Pelo menos é o que Aaron diz. Ora, quando Jan van Abel morreu, Petyr ficou órfão e se tornou membro do Talamasca. Ele conseguia ler a mente das pessoas. Ele via fantasmas. Era o que outras pessoas poderiam ter considerado um bruxo, mas o Talamasca lhe deu abrigo. Ele acabou trabalhando para eles, e parte do seu trabalho consistia em salvar pessoas acusadas de bruxaria em outros países. E, se essas pessoas tivessem dons reais, sabe, os dons que você e eu temos e que Petyr van Abel tinha, ele ajudava essas pessoas a chegarem à casa-matriz e do Talamasca em Amsterdã.

Ora, esse Petyr van Abel foi à Escócia procurar interferir no julgamento de uma bruxa chamada Suzanne Mayfair. Só que ele chegou tarde demais, e tudo o que pôde fazer, que acabou se revelando ser bastante, foi tirar sua filha Deborah da cidadezinha, onde ela poderia acabar sendo também queimada, e trazê-la para a Holanda.

Antes, porém, de fazer isso, ele viu esse homem, esse espírito. Percebeu também que a menina Deborah o viu. E Petyr levantou a hipótese de que Deborah havia feito com que a criatura aparecesse, o que se revelou ser verdade.

Deborah não ficou na Ordem. Ela acabou seduzindo Petyr e teve dele uma filha chamada Charlotte. Charlotte foi para o Novo Mundo, e foi ela quem fundou a família Mayfair. No entanto, quando Deborah morreu na França, condenada por bruxaria, o homem de cabelos castanhos, aquele mesmo espírito, foi até Charlotte. Da mesma forma que a esmeralda que está bem aí no porta-jóias. Ela passou, junto com o espírito, para Charlotte.

Todos os Mayfair desde então são descendentes de Charlotte. E a cada geração desses descendentes até os nossos tempos, pelo menos uma mulher herdou os poderes de Suzanne e de Deborah, que incluem, entre outras coisas, a capacidade de ver esse homem de olhos castanhos, esse espírito. E elas todas são o que o Talamasca chama de Bruxas Mayfair.

Ela emitiu um barulhinho, meio de surpresa, meio de nervosismo divertido. Ajeitou-se na cadeira e ficou olhando as ínfimas mudanças no seu rosto enquanto ele organizava tudo o que queria dizer. Depois, decidiu não dizer nada.

- O Talamasca -- disse ele, escolhendo as palavras com cuidado. - Eles são estudiosos, historiadores. Eles documentaram milhares de ocorrências de aparecimento desse homem de cabelos castanhos dentro e por perto desta casa. Há trezentos anos em Saint-Domingue, quando Petyr van Abel foi até lá para conversar com sua filha Charlotte, esse espírito o enlouqueceu. E acabou por matá-lo.

Ele deu mais uma tragada no cigarro, com os olhos passeando pela sala novamente, mas dessa vez sem ver a sala, mas vendo alguma outra coisa, e depois voltando a ela.

- Pois bem, como lhe expliquei antes, eu vejo esse homem desde que eu tinha uns seis anos de idade. Eu o vi todas as vezes que passei por esta casa. E ao contrário das inúmeras pessoas entrevistadas pelo Talamasca ao longo dos anos, eu também o vi em outros lugares. Mas a questão é que... no outro dia quando voltei aqui à noite, depois de tantos anos, vi o homem de novo. E quando contei a Aaron o que vi, quando lhe contei que via esse homem desde que era desse tamanho, e quando lhe disse que você me havia salvado do mar, bem, aí ele resolveu me mostrar o arquivo do Talamasca sobre as Bruxas Mayfair.

- Ele não sabia que era eu quem o havia içado do mar? Michael abanou a cabeça.

- Ele veio a San Francisco para me ver por causa das minhas mãos. É esse o campo de ação deles, por assim dizer, pessoas que têm poderes especiais. Era uma viagem de rotina. Ele estava vindo me oferecer ajuda, talvez da mesma forma que Petyr van Abel foi tentar interferir na execução de Suzanne Mayfair. Foi aí que ele a viu diante da minha casa. Viu que você veio me apanhar, e sabe que ele imaginou que você me havia contratado para vir até aqui? Pensou que você havia contratado um paranormal para voltar aqui e investigar seus antecedentes.

Michael deu uma última tragada no cigarro e o atirou na lareira.

- Bem, pelo menos por algum tempo, foi isso o que ele pensou. Até eu lhe dizer o motivo real pelo qual você veio me ver; como você nunca havia visto esta casa, nem mesmo em fotografia. Pois aí está, você me entende?

- E agora o que você precisa fazer é ler o Arquivo sobre as Bruxas Mayfair. Mas ainda há outros aspectos... no que me diz respeito. Quer dizer, os outros aspectos têm mais a ver comigo.

- As visões.

- Exatamente. - Ele sorriu, com uma expressão afetuosa, linda. - Exatamente! Porque você se lembra de eu lhe dizer que vi uma mulher e que havia uma jóia...

- E você está dizendo que é essa esmeralda.

-Não sei, Rowan, não sei. E de repente sei. Sei com a mesma certeza que tenho de estar sentado aqui que foi Deborah Mayfair que eu vi lá do outro lado, Deborah, e que ela estava usando a esmeralda no pescoço, e que eu fui enviado aqui para fazer alguma coisa.

- Para lutar com esse espírito?

Ele abanou a cabeça.

- É mais complicado do que isso. É por isso que você precisa ler o arquivo. E Rowan, você precisa ler. Você não pode se ofender com a existência de um arquivo desses. Você tem de lê-lo.

- E qual é o interesse do Talamasca nisso tudo? - perguntou ela.

- Nenhum - respondeu ele. - Saber. É, eles gostariam de saber. Eles gostariam de compreender. É como se eles fossem investigadores paranormais. - E suponho que sejam podres de ricos.

- Ah, são - disse ele, concordando com a cabeça. - Podres, cheios da nota.

- Você está brincando.

- Não. Eles têm dinheiro como você tem. Têm dinheiro como a igreja católica. Como o Vaticano. Olhe, isso não tem nada a ver com a possibilidade de eles quererem alguma coisa de você...

- Está bem. Eu acredito. É só que você é ingênuo, Michael. É mesmo. Você é realmente ingênuo.

- O que a faz dizer isso, Rowan! Por Deus, onde você foi arrumar a idéia de que eu sou ingênuo? Você já disse isso antes, e é um verdadeiro absurdo!

- Michael, você é. É mesmo. Está bem, diga-me a verdade, você ainda acredita que aquelas visões eram boas? Que as pessoas que lhe apareceram eram seres superiores?

- Acredito - respondeu ele.

- Essa mulher de cabelos negros, condenada por bruxaria, como você disse, com a jóia, era boa... a mesma que o derrubou da rocha para dentro do oceano Pacífico, onde...

- Rowan, ninguém pode provar uma cadeia de acontecimentos controlados desse jeito! Tudo o que sei...

- Você viu esse espírito quando estava com seis anos de idade? Pois vou lhe dizer uma coisa, Michael, esse homem não é bom. E você o viu aqui há duas noites? E essa mulher de cabelos negros também não é boa.

- Rowan, é cedo demais para que você faça essas interpretações.

- Está bem. Concordo. Não quero deixá- lo furioso. Não quero que se zangue nem por um segundo. Estou tão feliz por você estar aqui. Você não imagina como estou feliz com a sua presença aqui nesta casa, comigo aqui, feliz por você entender tudo isso e por você... ah, é uma coisa horrível de dizer, mas estou feliz por não estar nisso sozinha. E quero você aqui, essa é a pura verdade.

- Eu sei, eu compreendo. O que importa é que estou aqui e que você não está sozinha.

- Mas não vá você também fazer suas interpretações. Existe aqui alguma coisa terrivelmente perversa, algo que eu posso sentir como sinto o mal em mim. Não, não diga nada. Só me escute. Há algo tão maligno aqui que poderia transbordar e machucar muita gente. Mais do que jamais machucou no passado. E você parece um cavaleiro idealista que acabou de sair do castelo pela ponte levadiça!

- Rowan, isso não é verdade.

- Tudo bem, tudo bem. Eles não o afogaram lá na Califórnia. Eles não fizeram nada disso.

E o fato de você conhecer todas essas pessoas, Rita Mae e Jerry Lonigan, isso não tem nenhuma relação com nada.

- Tem relação, sim, mas a questão é saber que tipo de relação. É essencial não chegar a conclusões precipitadas.

Ela se virou de novo para a mesa, descansando os cotovelos nela e segurando a cabeça nas mãos. Não fazia idéia de que horas seriam. A noite parecia mais quieta do que antes. De vez em quando alguma coisa na casa estalava ou rangia. Mas eles estavam a sós. Totalmente a sós.

- Sabe - disse ela. - Eu penso naquela velha, e é como se caísse sobre mim uma nuvem de perversidade. Estar com ela foi como caminhar com o mal. E ela achava que pertencia ao bem. Ela achava que estava combatendo o demônio. Tudo está emaranhado, mas de um modo ainda mais obscuro do que esse.

- Ela matou Townsend - disse Michael.

- Você tem certeza disso? - perguntou Rowan, voltando-se novamente para ele.

- Pus minhas mãos nele. Senti nos ossos. Foi ela. Ela o amarrou naquele tapete. Pode ser que ele estivesse dopado na hora, não sei. Mas ele morreu no tapete. Disso tenho certeza. Ele abriu um buraco no tapete com os dentes.

- Meu Deus! - Ela fechou os olhos, com a imaginação compreendendo as implicações com um excesso de nitidez.

- E havia gente na casa o tempo todo, mas ninguém o ouvia. Não sabiam que ele estava morrendo lá em cima. Ou se sabiam, não fizeram nada a respeito.

- Por que razão ela faria uma coisa dessas?

- Porque ela nos detestava. Quer dizer, ela detestava o Talamasca. - Você disse "nos detestava".

- Foi um lapso, mas um lapso muito esclarecedor. Sinto - me como se pertencesse à Ordem.

Eles me procuraram e me convidaram para entrar, mais ou menos. Eles confiaram em mim. Mas talvez o que eu quisesse dizer era que ela detestava qualquer um de fora que soubesse alguma coisa. Ainda há perigos para as pessoas de fora. Aaron corre perigo. Você me perguntou o que o Talamasca leva nisso tudo. Bem, ele corre o risco de perder mais um membro.

- Explique melhor.

- A caminho de casa, voltando do enterro para o interior para me apanhar, Aaron viu um homem na estrada e desviou dele, capotou duas vezes e mal havia saído do carro quando este explodiu. Foi aquele espírito. Sei que foi. Aaron também acha que foi. Imagino que, qualquer que seja esse plano maior, esse emaranhado, Aaron já cumpriu sua função.

- Ele está machucado?

Michael abanou a cabeça.

- Ele sabia o que estava acontecendo, no instante em que tudo estava se passando. Mas não podia correr o risco. Imagine se não fosse uma assombração e ele tivesse atropelado uma pessoa de verdade. Ele simplesmente não podia correr esse risco. Ele também estava usando o cinto. Acho que bateu forte com a cabeça.

- Levaram-no a um hospital?

- Sim, doutora. Ele está bem. Foi por isso que demorei tanto para chegar aqui. Ele não queria que eu viesse. Queria que você fosse para lá, para o campo, e lesse o arquivo lá. Mas eu vim de qualquer jeito. Eu sabia que essa coisa não ia me matar. Eu ainda não cumpri minha missão.

- O objetivo das visões.

- Não. Ele tem seu objetivo. Elas têm o delas. E os dois não se completam. Um trabalha contra o outro.

- O que acontece se você fugir para o Tibete?

- Quer vir junto?

- Se eu for com você, você não estará fugindo. Mas, sério, o que aconteceria se você realmente fugisse?

- Não sei. Não pretendo fugir; por isso, não dá para calcular. O pessoal das visões quer que eu o combata, que eu lute contra ele e essa maquinação que ele vem preparando o tempo todo. Disso estou convencido.

- Querem que você quebre a corrente - disse ela. - Foi isso o que a velha falou. Ela me disse para quebrar a corrente, ou seja, interromper esse legado que vem desde o tempo de Charlotte, acho, apesar de ela não ter falado de ninguém no passado tão remoto.

Ela disse que ela própria tentou. E que eu poderia conseguir.

- Essa é a resposta óbvia, é claro. Mas nisso aí há ainda outros aspectos, coisas relacionadas ao homem e aos motivos pelos quais ele apareceu para mim.

- Pois bem - disse ela. - Agora você me ouça. Vou ler aquele arquivo, página por página.

Mas eu vi também essa criatura. E ela não aparece simplesmente. Ela afeta a matéria.

- Quando você o viu?

- Na noite em que minha mãe morreu, no exato instante. Tentei ligar para você. Telefonei para o hotel, mas você não atendia. Fiquei apavorada. Mas a aparição não é a parte importante. O que aconteceu a mais, sim. Ele afetou a água em volta da casa. Causou uma tamanha turbulência na água que a casa oscilava nas estacas. Não houve absolutamente nenhuma tempestade naquela noite na baía de Richardson ou na de San Francisco. Não houve nenhum terremoto ou qualquer outro motivo natural para que aquilo acontecesse. E ainda tem mais uma coisa. Na vez seguinte, senti essa criatura me tocar.

- Quando foi isso?

- No avião. Achei que era um sonho. Mas não era. Fiquei dolorida depois, como se eu tivesse tido relações com um homem grande.

- Você não quer dizer que a criatura...?

- Eu achava que estava dormindo, mas a distinção que estou tentando fazer é que essa coisa não se limita a aparecer. Ela está envolvida com o físico de algum modo específico. E o que eu preciso compreender são seus parâmetros.

- Bem, essa é uma elogiável atitude científica. Eu posso saber se esse seu contato provocou alguma outra reação, menos científica?

- Claro que provocou. Foi agradável porque eu estava meio adormecida. Mas, quando acordei, eu me senti como se tivesse sido estuprada. Odiei.

- Maravilha - exclamou Michael, ansioso. - Maravilha. Bem, você tem o poder para fazer essa coisa parar com esse tipo de violação.

- Eu sei, e agora que eu sei que é isso, vou fazer com que pare. Mas se anteontem alguém tivesse tentado me dizer que algum ser invisível ia se enfiar por baixo das minhas roupas num vôo até Nova Orleans, eu não teria estado nem um pouco mais preparada, porque não teria acreditado. Mas nós sabemos que ele não quer me machucar. E temos quase certeza de que ele não quer machucar você. O que precisamos ter em mente é que ele realmente ataca qualquer um que pareça interferir com seus planos, e que agora seu amigo Aaron está incluído nessa categoria.

- Certo - disse Michael.

- Mas você parece estar cansado, como se fosse você quem precisasse ser levado de volta ao hotel para ser posto na cama. Por que não vamos agora? Ele não respondeu. Sentou-se ereto e esfregou a nuca com as mãos. - Tem uma coisa que você não está dizendo.

- O quê?

- E que eu também não estou dizendo.

- Então fale - disse ela, baixinho, com paciência.

- Você não quer falar com ele? Você não quer lhe perguntar quem ele é e o que ele é? Você não acha que pode se comunicar com ele melhor e com maior franqueza talvez do que qualquer uma das outras? Talvez você, não. Mas eu, sim. Eu quero conversar com ele. Quero saber por que ele aparecia para mim quando eu era menino. Quero saber por que ele chegou tão perto de mim naquela noite em que eu quase o toquei, quase toquei seu sapato. Quero saber o que ele é. E eu sei, não importa o que Aaron tenha me dito, ou o que Aaron vá me dizer, acho que sou inteligente o suficiente para me comunicar com essa coisa, para ponderar com ela, e talvez seja exatamente esse tipo de soberba que a criatura espera encontrar em todos os que chegam a vê -Ia. Pode ser que ela já conte com isso.

Agora, se isso não lhe ocorreu, bem, então, você é muito mais forte e inteligente do que eu, mas muito mesmo. Eu nunca cheguei a falar com um fantasma ou espírito, ou seja lá o que for. E a verdade é que eu não perderia essa oportunidade, nem mesmo sabendo o que eu sei e sabendo o que ele fez com Aaron.

Ela concordou.

- É, você realmente compreendeu bem o caso. E pode ser que ele conte mesmo com isso, com a vaidade que existe em alguns de nós, de que não agiremos como os outros. Mas existe mais uma coisa entre mim e esse ser. Ele me tocou. E me deixou com a sensação de ter sido violentada. Eu não gostei.

Ficaram ali sentados em silêncio por um instante. Ele olhava para ela, e ela quase conseguia ouvir o funcionamento das engrenagens na cabeça dele.

Ele se levantou e estendeu o braço para pegar o porta-jóias, deslizando-o pela superfície lisa da mesa. Abriu-o e contemplou a esmeralda.

- Vamos - disse ela. - Toque a jóia com a mão.

- Ela não é parecida com o desenho que eu fiz - sussurrou ele. - Eu a estava imaginando, quando fiz o desenho. Não era uma lembrança. - Ele abanou a cabeça. Parecia estar a ponto de fechar a tampa do porta-jóias de novo, quando tirou a luva e pôs os dedos sobre a pedra.

Calada, ela esperava. Mas podia dizer, só pela expressão dele, que ele estava decepcionado e ansioso. Quando ele suspirou e fechou o porta-jóias, ela não o pressionou.

- Vi uma imagem sua - disse ele. - Você punha a esmeralda no pescoço. Eu me vi parado diante de você. - Ele calçou a luva cuidadosamente.

- Foi quando você chegou.

- É - disse ele, concordando. - Eu nem percebi que você estava com ela.

- Estava escuro.

- Eu só via você.

- Que diferença faz? - disse ela, encolhendo os ombros. - Eu a tirei e guardei no estojo.

- Não sei.

- E logo agora, quando a tocou, viu mais alguma coisa?

Ele abanou a cabeça.

- Só que você me ama - disse ele, com a voz tímida. - Me ama de verdade.

- Basta tocar em mim, para saber isso.

Ele sorriu, mas um sorriso triste, confuso. Enfiou as mãos nos bolsos, como se estivesse tentando se livrar delas, e abaixou a cabeça. Ela esperou algum tempo, detestando vê-lo angustiado.

- Venha, vamos embora - disse ela. - Esta casa o está afetando mais do que a mim. Vamos voltar para o hotel.

Ele concordou.

- Preciso beber água - disse ele. - Será que tem água gelada nesta casa? Estou com sede e com calor.

- Não sei. Nem sei se ela tem cozinha. Talvez, um poço com um balde coberto de musgo.

Quem sabe, uma fonte mágica.

Ele riu baixinho.

- Venha, vamos procurar a água.

Ela se levantou e o acompanhou pela porta dos fundos da sala de jantar. Um espécie de copa, ali, com uma pequena pia e altos armários envidraçados repletos de porcelana.

Ele passou devagar. Parecia estar medindo a espessura das paredes com as mãos.

- É aqui atrás - disse ele, passando pela porta seguinte. Ele apertou um antigo interruptor preto de parede. Acendeu-se uma lâmpada suja no teto, fraca e lúgubre, revelando um longo aposento de dois níveis: a parte superior, um árido local de trabalho; a parte inferior, dois degraus abaixo, uma pequena copa para o café da manhã, provida de lareira.

Uma longa série de portas envidraçadas permitia a visão do quintal coberto pelo mato lá fora. Parecia que o canto das rãs aqui era mais forte, mais nítido. A silhueta escura de uma árvore imensa impedia totalmente a visão do canto norte da paisagem. A própria copa e a cozinha eram muito limpas e aerodinâmicas, num estilo antiquado. De grande eficiência.

A geladeira embutida ocupava metade da parede interna, com uma porta enorme e pesada, como as portas de câmaras frigoríficas de restaurantes.

- Não diga nada se houver um corpo aí dentro. Eu não quero saber - disse ela, exausta.

- Não, só alimentos - respondeu ele, sorrindo - e água gelada. - Ele apanhou a garrafa de vidro transparente. - Vou lhe contar uma coisa sobre o sul. Aqui sempre se tem uma garrafa de água gelada. - Ele saiu a procurar num dos armários acima da pia do canto, e pegou dois copos de geléia com a mão direita, pondo-os sobre o balcão limpíssimo.

A água gelada estava deliciosa. Ela então se lembrou da velha. A casa era realmente dela; talvez, o copo também. Um copo usado pela velha. Rowan foi dominada pela repulsa, e pôs o copo na pequena pia de aço à sua frente.

É, como num restaurante, pensou, distanciando-se lentamente, com rebeldia. A casa foi muito bem equipada há muito, muito tempo, quando alguém mandou arrancar as instalações vitorianas tão veneradas atualmente em San Francisco, substituindo-as por todo esse aço reluzente.

- O que vamos fazer, Michael? - perguntou ela.

Ele olhou para o copo na sua mão. Depois olhou para ela, e imediatamente a ternura e o desejo de proteger que transpareciam nos olhos de Michael a enterneceram.

- Vamos nos amar, Rowan. Vamos nos amar. Você sabe, com a mesma certeza que tenho a respeito das visões, tenho certeza de que o fato de que nós realmente nos amamos não estava nos planos de ninguém.

Ela se aproximou dele e o abraçou. Ela sentiu as mãos que subiam pelas suas costas e que se fechavam com amor e carinho na sua nuca e no seu cabelo. Era delicioso seu jeito de abraçá-la apertado. Ele enfurnou o rosto no pescoço de Rowan e depois deu um beijo delicado na sua boca.

- Quero que você me ame, Rowan. Que confie em mim e me ame - disse ele, com uma voz dolorosamente sincera. Ele se afastou e pareceu mergulhar em si mesmo um pouco.

Pegou, então, a mão de Rowan e a levou lentamente na direção da porta envidraçada. Ficou ali parado, olhando para a escuridão lá fora. Abriu a porta. Não havia tranca.

Talvez não houvesse tranca em nenhuma delas. - Podemos ir ali fora? - perguntou.

- Claro que podemos. Por que está me perguntando?

Ele olhou para ela como se quisesse beijá-la, mas não a beijou. E então ela o beijou, mas bastou sentir como era delicioso para que todo o resto voltasse à sua mente. Ela se aconchegou junto a ele por algum tempo. E depois foi a primeira a sair. Descobriram que a cozinha dava para uma varanda telada, muito menor do que aquela na qual a velha havia morrido, e saíram por mais uma porta, igual a muitas portas antiquadas de tela, até mesmo com a mola que fazia com que se fechasse após sua passagem. Desceram pelos degraus de madeira até as lajes.

- Tudo isso aqui está bem. No fundo, não está em mau estado.

- Mas e a casa em si? Ela pode ser salva, ou já se deteriorou demais?

- Esta casa? - Ele sorriu, abanando a cabeça, com os olhos azuis lindos, brilhantes, ao olhar para ela e depois para a estreita varanda aberta lá no alto. - Querida, esta casa está perfeita, simplesmente perfeita. Ela estará aqui quando você e eu já não estivermos mais vivos. Nunca entrei numa casa dessas. Mesmo em todos os meus anos em San Francisco. Amanhã, vamos voltar aqui, e eu vou lhe mostrar esta casa à luz do dia. Vou lhe mostrar a espessura dessas paredes. Se você quiser, eu lhe mostro os caibros debaixo dela. - Ele se calou, envergonhado por se deliciar tanto, e mais uma vez envolvido pela tristeza e respeito pela morte da velha, exatamente como acontecera a Rowan. Além disso, ainda havia Deirdre, e tantas perguntas ainda sem resposta sobre ela. Tantas coisas nessa história descrita por ele, e no entanto parecia que a jornada mais sombria... Muito melhor olhar para ele e ver nele o entusiasmo ao examinar as paredes, ao inspecionar os batentes das portas, os peitoris e os degraus.

- Você a adora, não?

- Sempre a adorei desde que era menino. Eu a amei quando a vi dois dias atrás. E a amo agora muito embora eu saiba todos os tipos de coisas que aconteceram nela, mesmo o que aconteceu àquele cara no sótão. Eu amo esta casa porque ela é sua. E porque... porque é linda, não importa o que as pessoas tenham feito dentro dela, ou com ela. Ela era linda quando foi construída. E será linda daqui a cem anos.

Ele a enlaçou novamente, e ela se grudou a ele, aconchegando-se nele e sentindo que ele beijava seu cabelo. Os dedos enluvados tocavam seu rosto. Ela teve vontade de arrancar aquelas luvas. Mas não disse nada.

- Sabe - disse ele. - É uma coisa engraçada. Em todos os anos que passei na Califórnia, trabalhei em muitas casas. E gostei de todas elas. Mas nenhuma jamais me fez sentir minha mortalidade. Elas nunca faziam com que eu me sentisse pequeno. Esta casa me dá essa sensação. Ela me passa essa sensação porque vai estar aqui depois que eu me for.

Eles se voltaram e se embrenharam mais no jardim, descobrindo as lajes apesar do mato que procurava encobri-las, e das bananeiras tão densas e baixas que as grandes folhas laminares roçavam nos seus rostos.

Os arbustos encobriram a luz da cozinha atrás deles à medida que eles iam subindo por uma escada baixa de pedra. Aqui estava escuro, escuro como no campo.

Subiu um cheiro fétido, forte, como o cheiro de um pântano, e Rowan percebeu que estava olhando para uma longa piscina. Estavam parados à borda dessa enorme piscina negra. O mato a encobria tanto que a superfície da água só aparecia em vagos vislumbres.

Os nenúfares refulgiam despudorados à ínfima luz do céu distante. Insetos zumbiam, invisíveis, em grande número. As rãs coaxavam, e havia coisas que se mexiam dentro d'água fazendo com que a luz tocasse de repente a superfície, mesmo em meio ao mato alto. Ouvia -se um som contínuo de gotejamento, como se a poça fosse alimentada por fontes. E, quando forçou os olhos, Rowan viu os bicos que derramavam seus jatinhos cintilantes.

- Foi Stella quem a construiu - disse Michael. - Há mais de cinqüenta anos. Não era para ser nada parecido com isso aqui. Era uma piscina. E agora o jardim tomou conta. A terra voltou a ocupá-la.

Como ele parecia estar triste. Era como se ele houvesse visto a confirmação de algo em que não acreditava totalmente. E imaginar o impacto desse nome nela quando Ellie o pronunciou nas semanas finais de febre e delírio. "Stella no caixão."

Ele agora estava olhando para a frente da casa; e, quando ela seguiu a direção do olhar, viu a alta cumeeira do terceiro andar com suas duas chaminés flutuando com o céu como pano de fundo, e o lampejo da lua ou das estrelas, ela não sabia dizer qual, nas janelas quadradas lá em cima, no quarto onde o homem havia morrido e de onde Antha havia fugido de Carlotta. Toda aquela altura ela havia caído, passando pelas varandas de ferro, até atingir as lajes, até seu crânio rachar nas lajes e o tecido delicado do cérebro ser esmagado, com o sangue escorrendo.

Ela se encostou mais em Michael. Juntou as duas mãos atrás dele, descansando seu peso contra ele.

Olhou direto para o céu pálido lá em cima e suas poucas estrelas espalhadas porém nítidas, e então a lembrança da velha voltou. Era como se a nuvem maléfica não quisesse soltá-la. Ela pensou na expressão no rosto da velha ao morrer. Pensou nas palavras. E o rosto da sua mãe no ataúde, cochilando para sempre sobre o cetim branco.

- O que foi, querida? - Um ronco baixo no seu tórax.

Ela apertou o rosto de encontro à camisa de Michael. Começou a tremer como estivera tremendo a intervalos a noite inteira e, quando sentiu que os braços dele a abraçavam apertado, quase com força, ela adorou.

Aqui as rãs cantavam, aquela canção alta, repetitiva, do mato, e ao longe uma ave gritou na noite. Impossível acreditar que havia ruas bem ali perto, e que outras pessoas viviam logo depois das árvores; que as luzinhas amarelas e distantes que cintilavam aqui e ali através das folhas lustrosas eram as luzes das casas de outras pessoas.

- Amo você, Michael. Amo de verdade.

No entanto, ela não conseguia se livrar da sensação maligna. Ela parecia fazer parte do céu e da árvore gigantesca que se erguia acima da sua cabeça, bem como da água reluzente no fundo do mato viçoso e selvagem. Mas não fazia parte de nenhum lugar específico. Estava nela, era parte dela. E Rowan percebeu, com a cabeça imóvel sobre o peito de Michael, que não se tratava apenas da lembrança da velha e de sua maldade frágil e individual, mas de um presságio. Os esforços de Ellie haviam sido em vão, pois Rowan tinha esse presságio já há muito tempo. Talvez, mesmo durante a vida inteira, ela soubesse que um segredo sinistro e medonho esperava por

ela, e que ele era um segredo enorme, imenso, voraz e cheio de camadas, que, uma vez aberto, continuaria a se desenrolar para sempre. Era um segredo que se transformaria no mundo, com suas revelações encobrindo a própria luz da vida de rotina.

Este longo dia na agradável cidade tropical, cheio de rituais e cortesias antiquadas, havia sido apenas o primeiro desdobramento. Até mesmo os segredos da velha não passavam de um começo.

E esse grande segredo extrai sua força, da mesma raiz da qual eu extraio a minha, tanto para o bem quanto para o mal, porque no final eles não podem ser separados.

- Rowan, deixe- me tirá-la deste lugar. Nós já devíamos ter saído. A culpa é minha.

-Não, não faz diferença sair daqui. Gosto daqui. Não faz diferença para onde eu vá. Então, por que não ficar aqui, onde está escuro, tranqüilo e lindo?

Surgiu novamente o perfume daquela flor, aquela que a velha havia chamado de jasmim da noite.

- Ah, você está sentindo esse perfume, Michael? - Ela olhava para os nenúfares brancos na escuridão.

- Esse é o perfume das noites de verão em Nova Orleans - respondeu ele. - De caminhar sozinho, assobiando e batendo nas grades de ferro com uma varinha. - Ela adorava a vibração profunda da sua voz de dentro do peito. - Esse é o perfume de caminhar por todas essas ruas. - Ele baixou o olhar até ela, parecendo se esforçar para discernir seu rosto. - Rowan, não importa o que aconteça, não abandone essa casa. Mesmo que você tenha de sair dela e nunca mais voltar a vê-Ia, mesmo que você venha a detestá-la. Não se desfaça dela. Nunca a deixe cair nas mãos de quem não a ame. Ela é bonita demais. Ela tem de sobreviver a tudo isso, exatamente como nós.

Ela não respondeu. Não confessou o medo sinistro de que não iriam sobreviver, de que, de algum modo, tudo que lhe havia servido de lenitivo seria perdido. Lembrou-se, então, do rosto da velha, lá em cima no quarto da morte, onde o homem havia morrido anos e anos atrás, e das suas palavras, "Você pode escolher. Pode romper a corrente!" A velha, tentando transpor sua própria casca de maldade, perversidade e frieza. Procurando oferecer a Rowan algo que ela considerava puro e brilhante. E no mesmo quarto em que o homem havia morrido, amarrado indefeso no tapete, enquanto a vida prosseguia normal na casa abaixo dele.

- Vamos embora, querida. Vamos para o hotel. Tenho de insistir. Vamos nos enfiar numa daquelas camas enormes e macias e nos aconchegar um ao outro.

- Podemos ir a pé, Michael? Podemos ir bem devagar no escuro?

- Claro, querida, se você preferir.

Não tinham chaves para trancar nada. Deixaram as lâmpadas acesas por trás de janelas imundas ou providas de cortinas. Desceram pelo caminho e saíram pelo portão enferrujado.

Michael abriu o carro e tirou uma valise, que mostrou a Rowan. Era a história inteira, disse ele, mas ela não podia ler antes de ele explicar alguns pontos. Havia coisas ali dentro que a chocariam, que talvez a perturbassem. Amanhã, conversariam a respeito durante o café da manhã. Ele havia prometido a Aaron que não lhe entregaria o arquivo sem explicações, e era por ela que ele estava fazendo isso. Aaron queria que ela compreendesse.

Ela concordou. Não sentia nenhuma desconfiança de Aaron Lightner. Era impossível que alguém a enganasse, e Lightner não tinha necessidade de enganar ninguém. E, ao pensar nele agora, ao se lembrar da sua mão no seu braço na cerimônia fúnebre, ela teve a sensação desagradável de que ele também era um inocente, inocente como

Michael. E o que os tornava inocentes era o fato de eles realmente não compreenderem a maldade nas pessoas.

Ela estava tão cansada agora. Não importa o quanto se veja, se sinta ou se venha a descobrir, o cansaço acaba chegando. Não se pode sofrer sem parar, uma hora após a outra, um dia após o outro. No entanto, olhando de volta para a casa, ela pensou na velha, fria, pequena e morta na cadeira de balanço, uma morte que nunca seria compreendida ou vingada.

Se eu não a houvesse matado, poderia tê-la odiado com tanta liberdade! Mas agora sinto essa culpa por causa dela, além de todas as outras dúvidas e desgraças que ela trouxe à tona.

Michael estava parado, olhando fixamente para a porta da frente. Ela deu um pequeno puxão na sua manga ao se aproximar mais dele.

- Parece um enorme buraco de fechadura, não é? - disse ela.

Ele fez que sim, mas parecia distante, perdido nos seus pensamentos. - Era assim que costumavam chamar esse estilo de portal. Fazia parte da mixórdia de estilos egípcio, grego e romano que adoravam tanto quando construíram esta casa.

- Bem, até que o resultado foi bom - disse ela, exausta. Quis lhe contar que a porta estava entalhada no jazigo no cemitério, mas estava cansada demais.

Caminharam juntos, devagar, seguindo até Philip Street, depois até Prytania e de lá até Jackson Avenue. Passaram por lindas casas na escuridão. Passaram por muros de jardins. Desceram, então, pela St. Charles, pelas lojas e bares fechados e por enormes prédios de apartamentos na direção do hotel, com apenas um carro ou outro

passando veloz; e o bonde aparecendo apenas uma vez com um enorme estrondo metálico quando fez a curva e seguiu barulhento até desaparecer, com as janelas vazias cheias de uma luz amarela como manteiga.

No chuveiro, fizeram amor, apressados e desajeitados nos seus beijos e carícias. A sensação das luvas de couro excitavam Rowan quase até a loucura quando tocavam nos seus seios e desciam entre suas pernas. Não havia mais casa, nem velha, nem a pobre e linda Deirdre. Só Michael existia, só esse peito rijo com o qual ela andava sonhando, e esse pau grosso nas suas mãos, a se erguer do seu ninho de pêlos escuros, lustrosos, crespos.

Anos antes alguma amiga idiota lhe havia dito, tomando café na universidade, que as mulheres não achavam bonito o corpo do homem, que o que importava era o que o homem fazia. Pois bem, ela sempre havia gostado dos homens tanto pelo que faziam quanto pelo corpo que tinham. Ela adorava esse corpo, adorava sua firmeza e seus mamilos minúsculos, macios e sedosos; seu ventre rijo e esse pau, que ela punha na boca. Ela adorava sentir essas coxas fortes sob seus dedos, o pêlo macio na curva das nádegas. Firmes e sedosos, era isso o que os homens eram. Ela desceu as mãos pelas coxas de Michael, arranhando a parte traseira do joelho e apertando os músculos das pernas. Tão fortes. Ela o empurrou contra os azulejos, sugando com movimentos mais longos e deliciosos, com as mãos em concha para segurar as bolas e suspendê-las de encontro à base do pau.

Ele tentou levantá-la com delicadeza, mas ela queria que ele gozasse na sua boca. Ela puxou seus quadris mais para perto de si. Não quis soltá-lo, e então ele gozou, e o gemido foi tão bom quanto tudo o mais. Mais tarde, quando se enfiaram na cama, já secos e aquecidos, com o ar condicionado soprando de leve, Michael tirou as luvas. E começaram de novo.

- Não consigo parar de tocar em você - disse ele. - Não dá para agüentar, e tenho vontade de lhe perguntar como foi quando aconteceu aquilo, mas sei que não devia lhe fazer essa pergunta. E você sabe, é como se eu conhecesse o rosto do homem que tocou em você...

Ela estava deitada no travesseiro, olhando para ele no escuro, adorando a sensação deliciosa do seu peso sobre ela e das suas mãos quase lhe puxando o cabelo. Ela fez um punho com a mão direita e roçou os nós dos dedos no seu queixo escuro e cheio de sombras com a barba por fazer.

- Foi como fazer sozinha - disse ela, baixinho, esticando-se para segurar sua mão esquerda e puxando-a para baixo para poder beijar sua palma. Ele se enrijeceu encostado na sua coxa. -Não foi a turbulência de uma outra pessoa. Não eram células vivas contra células vivas.

- Uummmm, adoro essas células vivas - disse ele, rouco, no seu ouvido, beijando-a com violência. Ele a machucava com seus beijos; e Rowan revidava com o mesmo desrespeito, a mesma fome e insistência.

Quando acordou, eram quatro da manhã. Hora de ir para o hospital. Não. Michael dormia profundamente. Ele nem sentiu o beijo delicadíssimo que ela lhe deu no rosto.

Ela vestiu o pesado roupão branco de toalha que encontrou pendurado no armário e saiu em silêncio para a sala de estar da suíte. A única luz vinha da avenida.

Estava um deserto lá embaixo. Tranqüilo como um cenário de teatro. Ela adorava as ruas de madrugada, quando ficavam desse jeito, quando a impressão era a de que seria possível descer e sair dançando nelas, se quisesse, como se fossem um palco, porque as linhas brancas e os sinais de trânsito não significavam nada.

Ela se sentia bem, lúcida e em segurança aqui. A casa estava à espera, mas a casa já esperava há muito tempo.

A telefonista lhe disse que ainda não havia café. Havia, porém, um recado para ela e para o Sr. Curry, de um certo Sr. Lightner, no sentido de que ele voltaria para o hotel mais tarde naquele mesmo dia e que poderia ser encontrado pela manhã no retiro. Ela anotou o número.

Entrou na pequena cozinha, encontrou utensílios e café e o preparou ela mesma. Voltou, então, e fechou com cuidado a porta do quarto e a porta do pequeno corredor entre o quarto e a sala de estar.

Onde estava o Arquivo sobre as Bruxas Mayfair? O que Michael havia feito com a valise tirada do carro?

Ela examinou a pequena sala, com seu sofá e suas poltronas. Olhou no pequeno banheiro, nos armários e até na cozinha. Depois voltou para o corredor e ficou apreciando Michael adormecido à luz que vinha da janela.

Cabelos crespos na nuca.

No armário, nada. No banheiro, nada.

Muito esperto, Michael. Mas eu vou encontrá-la. Foi quando viu a ponta da valise. Ele a enfiara atrás da poltrona.

Ele não demonstra grande confiança, mas também eu estou fazendo exatamente o que mais ou menos prometi que não faria. Ela apanhou a valise, parando para ouvir o ritmo da sua respiração profunda, e depois fechou a porta. Foi na ponta dos pés pelo corredor, fechou a segunda porta e pôs a valise na mesa de centro à luz do abajur. Apanhou, então, seu café e seus cigarros e se sentou no sofá, olhando para o relógio. Eram quatro e quinze. Ela adorava essa hora do dia, simplesmente adorava. Era uma boa hora para ler. Havia sido, também, sua hora preferida para dirigir até o hospital, varando um sinal vermelho após o outro no enorme vácuo silencioso, com a cabeça repleta de pensamentos detalhados e organizados das operações à sua espera. Mas essa hora era ainda melhor para a leitura.

Rowan abriu a valise e retirou a grande pilha de pastas, cada uma com seu estranho título: Arquivo sobre as Bruxas Mayfair. Isso a fez sorrir. Era tão literal.

- Inocentes - sussurrou. - São todos inocentes. O homem no sótão, provavelmente inocente.

E aquela velha, uma bruxa até os ossos. - Ela parou, deu a primeira tragada no cigarro e se perguntou como compreendia aquilo tão perfeitamente e por que tinha tanta certeza de que eles, Aaron e Michael, não compreendiam.

Essa convicção se manteve.

Folheando rapidamente as pastas, ela avaliou o original, como sempre fazia com os textos científicos que queria devorar de uma assentada. Depois inspecionou uma página qualquer para verificar a proporção de abstrações para termos concretos, e concluiu que essa proporção era confortável, sendo que estes últimos superavam as abstrações num grau extremamente alto.

Uma brincadeira cobrir tudo em quatro horas. Se tivesse sorte, Michael dormiria o tempo necessário. O mundo dormiria. Ela se aconchegou no sofá, pôs os pés descalços na beirada da mesinha de centro e começou a ler.

Às nove, ela vinha caminhando lentamente de volta a First Street até chegar à esquina de Chestnut. O sol da manhã já estava alto no céu, e os pássaros cantavam quase com fúria no túnel folhoso dos galhos lá em cima. O grito agudo de um corvo sobressaiu do coro mais suave. Esquilos corriam apressados ao longo dos galhos grossos e pesados que se estendiam longe por cima das cercas e dos muros. As calçadas de tijolos bem varridas estavam desertas; e o lugar todo parecia pertencer às suas flores, árvores e casas. Até mesmo o barulho do trânsito eventual era engolido pela vegetação e pela quietude envolventes. O céu azul e límpido brilhava através da folhagem alta, e a luz, mesmo na sombra, parecia de algum modo pura e brilhante.

Aaron Lightner já estava à sua espera junto ao portão, um homem de ossos pequenos, usando leves trajes tropicais, com uma aparência britânica formal, até a bengala na sua mão.

Ela havia ligado para ele às oito, pedindo esse encontro. E mesmo à distância ela percebia que ele estava profundamente preocupado com sua reação ao que havia lido. Ela atravessou o cruzamento com calma. Aproximou-se dele devagar, com os olhos baixos, a cabeça ainda tonta com a longa história e todos os detalhes que havia absorvido com tanta rapidez.

Quando se encontrou parada diante dele, ela pegou sua mão. Não havia ensaiado o que pretendia dizer. Seria uma tortura para ela. Mas era bom estar aqui, estar segurando sua mão, apertando-a afetuosamente, enquanto examinava a expressão no seu rosto franco e simpático.

- Obrigada - disse ela, com a voz lhe parecendo fraca e inadequada. - Vocês responderam a todas as perguntas mais terríveis e torturantes da minha vida. Na realidade, vocês não podem saber o que fizeram por mim. O senhor e seus observadores. Eles descobriram minha parte mais sombria. E o senhor sabia qual era e a iluminou, fazendo sua ligação a algo maior, mais antigo e tão verdadeiro quanto ela. - Ela abanou a cabeça, ainda segurando sua mão, num esforço para prosseguir. - Não sei como dizer o que quero dizer - confessou. - Não me sinto mais sozinha! Estou falando de mim, de meu eu total, não apenas o nome e a parte que a família quer. Estou falando de quem eu sou. - Ela deu um suspiro. As palavras eram tão toscas, e o sentimento por trás delas, tão enorme, enorme como seu alívio. - Eu lhes agradeço por não terem guardado segredo. Agradeço do fundo do coração.

Ela percebia o assombro de Lightner e sua ligeira confusão. Bem devagar, ele abaixou a cabeça. E ela sentiu sua bondade, e acima de tudo sua disposição de confiar.

- Em que posso ajudá-la agora? - perguntou ele, com um tom afável de franqueza total.

- Entre - disse ela. - Vamos conversar.

Onze horas. Ele se sentou na cama no escuro, olhando espantado para o relógio digital na mesa. Como foi que conseguiu dormir tanto? Havia deixado as cortinas abertas para que a luz o acordasse. Mas alguém as havia fechado. E as luvas? Onde estavam suas luvas? Ele as encontrou e as calçou para só depois sair da cama.

A valise havia sumido. Ele soube antes de olhar atrás da poltrona. Frustrado. Imediatamente, vestiu o roupão e saiu pelo corredor até a sala de estar. Ninguém ali. Só o cheiro chamuscado de café velho que vinha da cozinha, e o aroma remanescente de um cigarro. Fez com que ele quisesse fumar um logo.

E ali na mesinha de centro, a valise esvaziada e o arquivo: pastas de papel pardo em duas pilhas bem arrumadas.

-Ah, Rowan- gemeu ele. E Aaron nunca o iria perdoar. E Rowan havia lido a parte a respeito de Karen Garfield e do Dr. Lemle que morreram depois de estar com ela. Ela havia lido todos os deliciosos mexericos compilados ao longo dos anos com Ryan Mayfair, com Beatrice e com outros que ela com toda a certeza havia conhecido no enterro. Isso e milhares de outras coisas que ele não conseguia imaginar naquele instante.

Se ele entrasse no quarto e descobrisse que todas as roupas dela haviam desaparecido...

Mas as roupas de Rowan não estavam aqui mesmo; estavam no seu próprio quarto.

Ele ficou ali coçando a cabeça, sem saber o que fazer, ligar para o quarto dela, telefonar para Aaron, enlouquecer de vez. Foi quando viu o bilhete.

Estava bem ao lado das duas pilhas de pastas de papel pardo: uma única folha de papel de carta do hotel, coberta com uma letra muito nítida e retilínea.

Oito e meia da manhã.

Michael,

Li o arquivo. Amo você. Não se preocupe. Vou me encontrar às nove com Aaron. Você pode vir me ver na casa às três? Preciso passar algum tempo sozinha lá. Estarei esperando por você por volta das três. Se não puder, deixe um recado para mim aqui.

A pitonisa de Endor

- A pitonisa de Endor. - Quem seria a pitonisa de Endor? Ah, sim, a mulher que o rei Saul procurou para conjurar o rosto dos seus ancestrais? Não exagere na interpretação.

Isso só quer dizer que ela sobreviveu ao arquivo. A menina prodígio. A neurocirurgiã. Li o arquivo! Ele havia levado dois dias. Li o arquivo!

Ele tirou a luva da mão direita e pôs a mão no bilhete. Relance de Rowan, vestida, curvando-se diante da escrivaninha na saleta junto à sala de estar. Em seguida, relance de alguém que havia posto o papel de carta ali já há dias, uma arrumadeira de uniforme, e outras coisas tolas, chegando aos borbotões, nenhuma com qualquer importância. Ele ergueu os dedos e esperou até que o formigamento parasse.

- Quero Rowan - disse, tocando novamente o papel. Rowan, e Rowan sem raiva, mas profundamente misteriosa e... o quê? No meio de uma aventura?

É, o que ele estava sentindo era um entusiasmo estranho, cheio de desafio. E isso ele compreendia perfeitamente. Ele a viu novamente, com uma nitidez chocante, só que em algum outro lugar, mas imediatamente a imagem ficou confusa, ele a perdeu e calçou de novo a luva.

Ficou ali sentado um instante, mergulhado em si mesmo, odiando instintivamente esse poder, mas mesmo assim pensando na questão do entusiasmo. Lembrou-se do que Aaron lhe havia dito na noite anterior.

- Posso ensiná-lo a usar esse poder, mas ele nunca será exato. Sempre haverá confusão. Meu Deus, como Michael o detestava. Odiava até mesmo a forte sensação de Rowan que o invadira e que não o largava. Ele teria preferido muito mais as lembranças viscerais do quarto e da sua voz grave e aveludada falando com tanta delicadeza, tanta franqueza e simplicidade. Preferia muito mais ouvi-la dizer com seus próprios lábios.

Entusiasmo!

Chamou o serviço de copa.

- Mandem-me um café da manhã, ovos, aveia, é, um bom prato de aveia, uma porção extra de presunto, torradas e um bule de café. Diga ao garçom para usar a chave-mestra. Vou estar me vestindo. E por favor some uma gorjeta de vinte por cento para o garçom. E que ele traga água bem gelada.

Ele leu o bilhete mais uma vez. Aaron e Rowan estavam juntos agora. Isso o enchia de apreensão. E agora ele compreendia o medo de Aaron quando Michael começou a ler o arquivo. E naquela hora ele não queria dar ouvidos a Aaron. Só queria ler. Bem, ele não podia culpar Rowan.

Também não conseguia se livrar dessa sensação incômoda. Rowan não compreendia Aaron. E Aaron sem sombra de dúvida não a compreendia. E ela achava que ele era ingênuo. Ele abanou a cabeça. E ainda havia Lasher. O que Lasher estaria pensando?

- Era o homem - disse Aaron, na noite anterior, antes de Michael sair de Oak Haven. - Eu o vi iluminado pelos faróis. Sabia que era uma artimanha. Mas não podia me arriscar.

- E então o que vai fazer? - perguntou Michael.

- Vou tomar cuidado - disse Aaron. - O que mais eu poderia fazer? E agora ela queria que ele fosse se encontrar com ela na casa às três da tarde porque precisava passar algum tempo ali sozinha. Com Lasher? Como Michael iria represar suas emoções até as três da tarde?

Bem, companheiro, você está em Nova Orleans, não está? Ainda não esteve no seu velho bairro. Talvez já seja hora de ir até lá.

Ele saiu do hotel às quinze, para o meio-dia, e o calor envolvente foi uma surpresa agradável no instante em que pisou lá fora. Depois de trinta anos em San Francisco, ele havia se preparado instintivamente para o frio e o vento.

E, enquanto caminhava na direção da cidade alta, descobriu que, no mesmo nível subconsciente, havia se preparado para uma subida ou uma descida. As calçadas largas e planas lhe pareciam maravilhosas. Era como se tudo fosse mais fácil: cada vez que se respirava a brisa agradável, cada passo que se dava, cada travessia de rua,

olhar despreocupado para os velhos carvalhos de casca preta que modificavam a paisagem urbana no instante em que ele atravessou Jackson Avenue. Nenhum vento cortante no rosto; nenhum brilho desagradável do céu da costa do Pacífico a ofuscá-lo.

Para a caminhada até o Irish Channel, ele preferiu Philip Street, e seguiu por ali sem pressa como teria feito nos velhos tempos, sabendo que o calor ficaria mais intenso, que suas roupas ficariam pesadas e que até mesmo o interior dos seus sapatos ficaria úmido em pouquíssimo tempo. Mais cedo ou mais tarde, teria de tirar seu blusão safári para pendurá-lo num dos ombros.

No entanto, ele logo se esqueceu disso tudo. Este era o cenário de muitas recordações felizes. Ele conseguia afastar da sua mente a preocupação com Rowan, a preocupação com o homem. Ele estava só voltando ao passado, perambulando por esses muros antigos, cobertos de hera, e pelas extremosas jovens, crescendo esguias em meio ao mato, cheias de flores oscilantes. Ele precisava afastá-las à medida que avançava. Ocorreu- lhe novamente, com a mesma força de antes, que a saudade não havia embelezado nada. Graças a Deus, muita coisa ainda estava ali! As altas casas vitorianas no estilo Queen Anne, tão maiores do que as de San Francisco, permaneciam em pé ao lado das casas anteriores à Guerra de Secessão com suas colunas e paredes de alvenaria, sólidas e magníficas como a casa de First Street.

Ele afinal atravessou Magazine, alerta para o trânsito veloz, e foi entrando no Irish Channel. As casas pareceram encolher. Colunas cederam lugar a esteios de madeira.

Já não havia mais carvalhos; até mesmo os olmos

imensos desapareciam depois da esquina de Constance Street. Mas até aí tudo bem; tudo bem mesmo. Esta era a sua parte da cidade. Ou pelo menos havia sido. Annunciation Street o deixou desconsolado. As boas restaurações e pinturas recentes que havia visto em Constance e Laurel eram raras nessa rua maltratada. Os terrenos baldios estavam cheios de lixo e de pneus velhos. A casa geminada em que ele havia crescido estava abandonada, com grandes pedaços de compensado velho cobrindo todas as portas e janelas. E o quintal no qual ele havia brincado estava agora coberto por mato e cercado com uma feia tela de arame. Ele não viu sombra das velhas maravilhas que floriam perfumadas, em tons de rosa, no inverno e no verão. Também haviam sumido as bananeiras que ficavam junto ao velho barracão nos fundos da entrada lateral.

A pequena mercearia da esquina estava deserta e trancada a cadeado. E o velho bar da esquina não demonstrava o menor sinal de vida. Aos poucos, ele percebeu que era o único homem branco à vista.

Pareceu ir mergulhando cada vez mais nessa tristeza e nessa sujeira. De longe em longe, via-se uma casa com pintura recente. Uma bonita criança negra com os cabelos trançados e olhos redondos e serenos estava agarrada a um portão, olhando fixamente para ele. Mas todas as pessoas que ele poderia ter conhecido haviam ido embora muito tempo atrás.

E ver a lamentável decadência de Jackson Avenue nessa região o deixou magoado. Mesmo assim, ele prosseguia na direção das moradias de tijolo do St. Thomas Project. Aqui já não morava mais nenhum branco. Ninguém precisava lhe dizer isso. Aqui ficava a cidade do homem negro, e ele sentia frios olhos a observá-lo quando virou a

esquina de Josephine Street na direção das velhas igrejas e da velha escola. Mais chalés de madeira vedados com tábuas; o piso inferior de um prédio totalmente esvaziado. Móveis quebrados e inchados, empilhados junto à sarjeta. Apesar do que já havia visto antes, o estado lamentável dos prédios abandonados da escola foi um choque para ele. Havia vidraças quebradas nas janelas das salas nas quais ele havia estudado tantos anos antes. Além disso, o ginásio que ele havia ajudado a construir parecia tão envelhecido, tão obsoleto, tão absolutamente esquecido.

Somente as igrejas de Santa Maria e de Santo Afonso permaneciam orgulhosas e aparentemente indestrutíveis. Mas suas portas estavam trancadas. E no pátio da sacristia de Santo Afonso, o mato alcançava a altura dos seus joelhos. Ele viu as antigas caixas de luz, abertas e enferrujadas, com os fusíveis arrancados.

-Quer ver a igreja?-Ele se voltou. Um pequeno homem com um início de careca, uma barriga arredondada e um rosto rosado e suarento estava falando com ele. – Pode ir até a casa paroquial, e eles o deixarão entrar - disse o homem. Michael fez que sim.

Até mesmo a casa paroquial estava trancada. Era preciso tocar uma campainha e esperar.

E a mulherzinha de lentes grossas e cabelo castanho curto falou por trás de uma vidraça.

- Gostaria de fazer uma doação - disse ele, tirando um maço de notas de vinte dólares. - Gostaria de ver as duas igrejas se possível.

- Não poderá ver a de Santo Afonso. Não é mais usada. Não é segura. O reboco está caindo.

O reboco! Ele se lembrava dos maravilhosos afrescos no teto, com os santos olhando para ele de um céu azul. Debaixo daquele teto, ele havia sido batizado, havia feito a primeira comunhão e, mais tarde, havia sido crismado. E naquela sua última noite em Nova Orleans, ele vinha pelo corredor central de Santo Afonso, com sua beca e chapéu brancos, com os outros formandos, nem mesmo pensando em dar uma última olhada ao seu redor, com todo aquele entusiasmo por estar indo com a mãe para a costa oeste.

- Para onde foi todo mundo? - perguntou Michael.

- Mudaram-se daqui - disse ela, fazendo um gesto para que ele a acompanhasse. Ela ia levá-lo até o interior da igreja de Santa Maria, passando por dentro da própria casa paroquial. - E os negros não freqüentam.

- Mas por que está tudo trancado?

- Tivemos um roubo atrás do outro.

Ele não conseguia conceber essa história de não se poder entrar à vontade numa igreja silenciosa e sombreada a qualquer hora do dia. Não se poder fugir à rua barulhenta e causticante, para sentar na quietude escurecida, a conversar com os anjos e com os santos, enquanto velhas de vestidos floridos e chapéus de palha rezavam seus terços sussurrando com lábios murchos. Ela o conduziu, passando pelo altar. Ele havia sido coroinha aqui. Havia preparado o vinho do sacramento. Sentiu um pequeno espasmo de felicidade quando viu as fileiras de santos de madeira, quando viu a nave longa e alta com seus sucessivos arcos góticos. Tudo esplêndido, tudo intacto.

Graças a Deus, ela ainda estava em pé. Ele estava a ponto de chorar. Enfiou as mãos nos bolsos e baixou a cabeça, só olhando para cima bem devagar por baixo das sobrancelhas. Estavam totalmente embaralhadas suas recordações de missas aqui e de missas do outro lado da rua na igreja de Santo Afonso. No seu tempo já não havia mais nenhuma briga entre irlandeses e alemães; eram só os nomes de origem alemã ou irlandesa misturados de qualquer jeito. A escola primária usava a outra igreja para a missa matinal. A de Santa Maria ficava cheia com os alunos do segundo grau.

Não era preciso nenhuma imaginação para voltar a ver os estudantes uniformizados saindo enfileirados dos bancos para comungar. As meninas, de blusa branca e saia de lã azul; os meninos, de calças e camisa cáqui. No entanto, a memória continuava a esquadrinhar todos aqueles anos. Aos oito anos de idade, ele havia balançado o turíbulo fumegante aqui, nessa escada, para a bênção.

- Pode ficar o tempo que quiser - disse a mulherzinha. - Basta que volte por dentro da casa paroquial quando terminar.

Durante uma meia hora, ele ficou sentado no primeiro banco. Não sabia exatamente o que estava fazendo. Talvez gravando na memória os detalhes que não teria conseguido extrair das suas lembranças. Para nunca mais se esquecer dos nomes entalhados no piso de mármore daqueles que haviam sido enterrados debaixo do altar. Para nunca mais se esquecer talvez dos anjos pintados lá em cima. Ou do vitral lá à sua direita no qual os anjos e os santos usavam sapatos de madeira! Que estranho! Será que alguém poderia ter uma explicação para isso? E imaginar que ele nunca havia percebido o detalhe antes... e quando pensava em todas aquelas horas passadas nesta igreja...

Pensar em Marie Louise, com seus seios grandes por baixo da blusa branca engomada do uniforme, lendo seu missal. E Rita Mae Dwyer, que já parecia uma mulher adulta aos quatorze anos. Ela usava saltos muito altos e enormes brincos dourados com o vestido vermelho aos domingos. O pai de Michael era um dos homens que passava pelos bancos com a cesta da coleta num cabo comprido, enfiando-a numa fileira após a outra, com a expressão adequadamente solene. Naquele tempo você sequer cochichava numa igreja católica, a menos que fosse absolutamente necessário.

O que ele estava achando, que todos estariam aqui à sua espera? Uma dúzia de Rita Mães em vestidos floridos, fazendo uma visita ao meio-dia?

- Não volte lá, Mike - havia Rita Mae dito ontem à noite. - Guarde a lembrança do jeito que era antes.

Ele afinal se pôs de pé. Caminhou pelo corredor na direção dos velhos confessionários de madeira. Encontrou na parede a placa com a relação daqueles que haviam contribuído para a restauração no passado recente. Fechou os olhos, e só por um instante imaginou ouvir crianças brincando nos pátios da escola, aquele burburinho de vozes misturadas ao meio-dia.

Não havia nenhum ruído semelhante. Nenhum chiado pesado das portas abertas à medida que os paroquianos entravam e saíam. Apenas o lugar vazio e imponente. E a Virgem com sua coroa no altar- mor.

Pequena, distante, parecia a imagem. Ocorreu- lhe em termos racionais que deveria rezar para ela. Deveria perguntar à Virgem ou a Deus por que havia sido trazido de volta; qual era o significado de ser arrancado das frias garras da morte. Mas ele não tinha nenhuma fé nas imagens no altar. Não lhe voltava nenhuma recordação da fé infantil.

Em vez disso, a lembrança que lhe ocorreu foi específica e incômoda; suja e mesquinha.

Ele e Marie Louise haviam se encontrado para conversar em segredo bem atrás daquelas altas portas da frente. Chovia a cântaros. E Marie Louise havia confessado, com certa relutância, que não estava grávida. Ela estava furiosa por ser forçada a confessar, furiosa por ele estar tão aliviado.

- Você não quer se casar? Por que entramos nessa brincadeira idiota?

O que teria acontecido com ele se houvesse se casado com Marie Louise? Ele via seus olhos castanhos, grandes e emburrados. Sentia sua irritação, sua decepção. Não conseguia imaginar uma coisa dessas. A voz de Marie Louise voltou.

- Você sabe que vai se casar comigo mais cedo ou mais tarde. Estamos destinados um ao outro.

Destinados. Teria sido o destino que o havia tirado daqui, o destino que o levou a fazer as coisas que fez na sua vida, o destino que o fez ir tão longe? Estaria ele destinado a cair do rochedo no mar e a ser lentamente carregado para longe, para longe das luzes da terra?

Pensou em Rowan, não apenas na imagem visual, mas em tudo o que Rowan significava para ele agora. Pensou na sua doçura, na sua sensualidade, no seu mistério. No seu corpo esguio, em boa forma, aconchegado ao dele debaixo dos lençóis; na sua voz aveludada e nos seus olhos frios. Pensou no jeito de Rowan olhar para ele antes de fazerem amor, tão despreocupada, totalmente esquecida do seu próprio corpo, absorta no dele. Olhando para ele, enfim, como um homem olharia para uma mulher. Com a mesma fome e a mesma agressividade e, no entanto, entregando-se como por mágica nos seus braços.

Ele ainda olhava fixamente para o altar, para toda a igreja ampla e profusamente ornamentada.

Ele gostaria de acreditar em alguma coisa. Percebeu, então, que acreditava. Ainda acreditava nas visões, na bondade das visões. Acreditava nelas e na sua bondade com tanta firmeza quanto outras pessoas acreditam em Deus ou em santos, na correção divina de um certo caminho, tanto quanto acreditam numa vocação.

E isso lhe pareceu tão tolo quanto as outras crenças. "Mas eu vi, mas eu achei, mas eu me lembro, mas eu sei..." Pura baboseira. Afinal de contas, ele não conseguia se lembrar. Nada em toda a história da família Mayfair havia realmente feito com que ele voltasse àqueles momentos preciosos, a não ser a imagem de Deborah. E apesar de toda a sua certeza de que havia sido ela quem se aproximara dele, ele não possuía nenhum detalhe verdadeiro, não se lembrava realmente de momentos ou de palavras.

Num impulso, com os olhos ainda fixos no altar, ele fez o sinal da cruz.

Quantos anos haviam se passado desde a época em que ele fazia esse sinal todos os dias, três vezes ao dia? Curioso, pensativo, ele repetiu o gesto.

- Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. - Seus olhos ainda fixos na Virgem. – O que eles querem de mim? - perguntou, baixinho. E ao tentar reinvocar o pouco que conseguia das visões, percebeu em desespero que a imagem da mulher de cabelos escuros havia sido substituída pela imagem de Deborah descrita na história.

Uma havia eliminado a outra! Com a leitura, em vez de obter mais alguma coisa, ele havia perdido.

Depois de mais algum tempo, parado ali em silêncio, com as mãos enluvadas enfiadas nos bolsos, ele voltou lentamente pelo corredor central, até chegar à mesa da comunhão, subiu os degraus de mármore, atravessou o altar e encontrou o caminho de saída passando pela casa paroquial.

O sol batia sobre Constance Street como sempre. Feio e impiedoso. Não havia árvores aqui.

E o jardim da casa paroquial estava escondido por trás de um muro alto de tijolos; e o gramado ao lado da igreja de Santa Maria ardia, cansado e empoeirado.

A loja de artigos religiosos na esquina ao longe, com todas as suas imagens pequenas e bonitas e seus santinhos, não existia mais. Tábuas cobriam as vitrines. Uma placa de imobiliária na parede de madeira pintada.

O homenzinho careca de rosto vermelho e suarento estava sentado na escada da casa paroquial, com os braços cruzados sobre os joelhos, os olhos acompanhando uma revoada de pombos de asas cinzentas diante da lamentável fachada descascada da igreja de Santo Afonso.

- Deviam envenenar esses pombos - disse ele. - Eles deixam tudo imundo.

Michael acendeu um cigarro e ofereceu um ao homem, que o aceitou. Michael também lhe deu a carteirinha de fósforos quase vazia.

- Filho, por que você não tira esse relógio de ouro e guarda num bolso? Não saia por aqui com esse negócio no pulso, está n!e entendendo?

- Quem quiser meu relógio leva junto meu pulso e o punho que está preso a ele.

O homem apenas encolheu os ombros e abanou a cabeça.

Já na esquina de Magazine e Jackson, Michael entrou num bar escuro, de aparência desagradável, num prédio velho e miserável de ripas desengonçadas. Em todos os seus anos em San Francisco, ele nunca havia visto um estabelecimento tão depauperado. Um homem branco parecia uma sombra ao fundo, olhando para ele com olhos que cintilavam num rosto encovado e cheio de rugas. O balconista do bar também era branco.

- Dê-me uma cerveja - disse Michael.

- Que marca?

- Tanto faz.

Sua cronometragem foi perfeita. Faltando três minutos para as três, ele estava atravessando Camp Street, caminhando lentamente, para que o calor não o matasse, e mais uma vez se sentindo acalmado pela sombra agradável e pela beleza aleatória do Garden District. É, tudo isso era como sempre havia sido.

E imediatamente ele se sentiu bem; sentiu imediatamente que estava onde queria estar e talvez mesmo onde deveria estar, se fosse possível a cada um determinar sua trajetória.

Exatamente às três da tarde, ele estava diante do portão aberto. Era a primeira vez que via a casa à luz do dia, e seu pulso se acelerou. Aqui, aqui mesmo. Mesmo no seu estado de abandono, ela era majestosa, imponente, apenas hibernando por trás das cortinas de trepadeiras, com suas janelas altas cobertas de tinta verde descascada e no entanto ainda perfeitamente aprumadas nas suas dobradiças de ferro. À espera...

Uma tontura o dominou enquanto olhava para ela, um súbito prazer por ter voltado, pelos motivos que fossem. Por estar fazendo o que devia estar fazendo...

Ele subiu a escada de mármore e empurrou a porta. Quando ela se abriu, ele entrou no corredor longo e amplo. Nunca em San Francisco ele havia estado numa construção com uma estrutura dessas; nunca havia estado em aposentos com o pé-direito tão elevado ou visto portais tão graciosos e altos.

Um brilho profundo aparecia no assoalho de cerne de pinho apesar da margem de poeira grudenta ao longo das paredes. A tinta estava descascando das sancas lá no alto, mas as próprias sancas estavam perfeitas. Ele sentia amor por tudo o que via: pela perfeita execução dos portais em formato de buraco de fechadura, e a beleza da balaustrada da longa escada interna. Estava gostando de sentir o chão sólido sob seus pés. E o perfume bom da madeira da casa o encheu com uma satisfação súbita e agradável. Uma casa tinha um cheiro desses só num único lugar no mundo inteiro.

- Michael? Entre, Michael.

Ele caminhou até a primeira das duas portas da sala de estar. Ainda escura e sombria, embora Rowan houvesse aberto todas as cortinas. A luz entrava em listras pelas lâminas das venezianas e chegava abrandada pela tela suja da varanda para onde davam as janelas laterais. Uma aragem de madressilva. Tão doce e agradável. E aquela seria uma coroa- imperial explodindo numa infinidade de raminhos cor-de-rosa ao longo da tela? Ele não havia visto essa linda trepadeira em todo o tempo que passou fora.

Ela estava sentada, pequena e muito bonita, no longo sofá de veludo marrom, de costas para a frente da casa. Era lindo o jeito do seu cabelo cair junto ao rosto. Ela estava usando um daqueles camisões soltos de algodão enrugado, leve como a seda, e seu rosto e seu pescoço pareciam ter um forte bronzeado em contraste com a camiseta branca que usava por baixo. Suas pernas muito longas nas calças brancas; os dedos dos pés nus e surpreendentemente sexy, com um leve relance de esmalte vermelho, nas sandálias brancas.

- A pitonisa de Endor - disse ele, abaixando-se para beijar seu rosto e segurá-lo na mão esquerda, com ternura e carinho.

Ela o agarrou pelos punhos, grudando-se a ele, beijando-o na boca com violência e doçura. Ele sentia o tremor nos braços de Rowan, a febre. - Você ficou aqui sozinha?

Ela se recostou quando ele se sentou ao seu lado.

- E por que não? - perguntou ela, com a voz baixa, grave. - Larguei o hospital oficialmente hoje à tarde. Vou procurar um emprego por aqui. Vou ficar aqui, nesta casa.

Ele deu um suspiro longo e assobiante e sorriu. Está falando sério?

- Bem, o que você acha?

-Não sei. Todo o caminho até aqui... voltando do Irish Channel, eu não parava de pensar que talvez você já estivesse aqui com as malas prontas para voltar.

- Não. Não há a menor chance. Já considerei três ou quatro hospitais diferentes aqui com meu ex-chefe em San Francisco. Ele vai dar uns telefonemas para mim. Mas o que me diz de você?

- O que você está querendo dizer com isso? Rowan, você sabe por que estou aqui. Para onde poderia pensar em ir? As visões me trouxeram para cá. Não estão me mandando ir para nenhum outro lugar. Na verdade, não estão me dizendo nada. Eu ainda não consegui me lembrar. Li quatrocentas páginas da história, mas não me lembro. Foi Deborah quem eu vi, até aí eu sei. Mas realmente não sei o que ela disse.

- Você está cansado e com calor - disse ela, tocando- lhe a testa com uma das mãos. – Não está falando coisa com coisa.

Ele deu um risinho de surpresa.

- Ouçam só o que ela diz, a pitonisa de Endor. Você não leu a história? O que está acontecendo? Você não leu aquilo tudo? Estamos numa gigantesca teia de aranha e não sabemos quem a teceu. - Ele estendeu as mãos enluvadas, olhando para os dedos. - Simplesmente não sabemos!

Ela lhe lançou um olhar sereno, distante, que fez seu rosto parecer frio, muito embora ele estivesse corado e seus olhos cinzentos estivessem maravilhosamente iluminados.

- Bem, você leu, não leu? O que pensou quando leu? O que achou?

- Michael, acalme-se. Você não está me perguntando o que pensei. Está me perguntando como estou me sentindo. O que estive dizendo é o que eu penso. Não estamos presos em nenhuma teia, e ninguém a está tecendo. E, se quer um conselho, esqueça essas pessoas. Esqueça o que elas querem, essas pessoas que apareceram nas suas visões.

Esqueça-as a partir de agora.

- O que você quer dizer com "esquecer"?

- Está bem, ouça o que lhe digo. Estou aqui sentada pensando há horas, pensando nisso tudo. Minha decisão é a seguinte. Vou ficar aqui, vou ficar aqui porque esta casa é minha e porque gosto dela. Gosto também da família que conheci ontem. Gosto deles. Quero conhecê-los. Quero ouvir suas vozes, reconhecer seus rostos e aprender o que eles tiverem a me ensinar. Além do mais, eu sei que não seria capaz de me esquecer daquela velha e do que lhe fiz, não importa para onde eu fosse. - Ela fez uma pausa, com o rosto transfigurado por um instante num súbito lampejo de emoção, que logo desapareceu, deixando-a tensa e fria. Ela cruzou os braços levemente, com um dos pés na beira da mesinha de centro. - Você está prestando atenção?

- Claro que estou.

- Pois bem, eu também quero que você fique aqui. Espero que você fique e torço para isso.

Mas não por causa desse modelo, dessa teia, ou seja lá o que for. Não por causa das visões ou por causa do homem. Já que não existe absolutamente nenhum meio de se descobrir o que essas coisas querem dizer, Michael, ou de se descobrir o que foi predeterminado, para usar a palavra que você escreveu nas suas anotações, ou mesmo por que você e eu acabamos nos conhecendo. Não há meios de se saber.

- Ela parou, examinando a expressão de Michael atentamente e depois prosseguiu. - Por isso, tomei uma decisão - declarou, falando mais devagar - com base no que posso saber, no que posso ver, definir e compreender; e ela é que este é o meu lugar porque quero que o seja.

- Estou entendendo - disse ele, fazendo que sim com a cabeça.

- O que estou dizendo é que vou ficar aqui apesar desse homem e do seu aparente projeto, dessa coincidência de eu o salvar do afogamento, sendo você quem é.

Ele concordou novamente, um pouco hesitante, e depois se recostou no sofá, respirando fundo, sem tirar os olhos dela.

- Mas você não pode me dizer que não quer se comunicar com essa criatura, que não quer compreender o significado disso tudo...

- Claro que quero compreender - disse ela. - Quero mesmo, mas apenas isso não me manteria aqui. Além do mais, para essa criatura não importa se estamos em Montcleve, na França, em Tiburon, na Califórnia, ou em Donnelaith, na Escócia. E quanto ao que importa para aqueles seres que você viu, eles vão ter de voltar e lhe dizer o que interessa! Você simplesmente não sabe.

Ela fez uma pausa, procurando deliberada e obviamente abrandar suas palavras como se temesse que elas fossem por demais ferinas.

- Michael, se você quiser ficar, tome essa decisão com base em alguma outra coisa. Como talvez querer ficar aqui por minha causa, porque foi aqui que nasceu, ou por acreditar que será feliz aqui. Porque esse bairro foi o primeiro que você amou, e talvez pudesse voltar a amar.

- Nunca deixei de amar esse lugar, Rowan.

- Mas não faça nada mais para obedecer às visões! Faça as coisas apesar de elas existirem. - Rowan, estou aqui agora nesta sala por causa delas. Não perca esse fato de vista. Nós não nos conhecemos no iate clube, Rowan. Ela fez uma longa expiração.

- Insisto em perdê-lo de vista.

- Aaron conversou com você sobre tudo isso? Foi esse o conselho que lhe deu?

- Não pedi conselhos a ele - respondeu ela, cheia de paciência. - Encontrei-me com ele por dois motivos. Em primeiro lugar, eu queria conversar com ele mais uma vez e me certificar de que ele era honesto.

- E então?

-Ele é tudo o que você disse. Mas eu precisava vê-lo mais uma vez, para conversar de verdade com ele. - Ela se interrompeu. - Ele tem um jeito fascinante de falar.

- Eu sei.

- Senti isso quando o vi no velório; e houve também aquela outra vez quando o vi junto ao túmulo de Ellie.

- E você agora está tranqüila quanto a ele?

- Agora eu o conheço - disse ela, concordando. - Ele não é tão diferente de mim e de você.

- Como assim?

- Ele é dedicado - disse ela, encolhendo um pouco os ombros. - Do mesmo jeito que eu sou dedicada à cirurgia, e que você é dedicado quando está devolvendo a vida a uma casa como esta. - Ela pensou um pouco. - Ele tem ilusões, como você e eu as temos.

- Compreendo.

- O segundo motivo consistia em eu querer lhe dizer que sentia gratidão por tudo o que ele me havia dado na história. Que ele não precisava se preocupar com ressentimentos ou com revelações indevidas de minha parte.

Michael estava tão aliviado que nem a interrompeu, mas estava intrigado.

- Ele preencheu a lacuna maior e mais crucial da minha vida - disse ela.

-Creio que nem mesmo ele compreenda o que isso significou para mim. Ele é muito desconfiado. E no fundo não conhece a solidão. Está com o Talamasca desde quando era menino.

- Sei do que você está falando. Mas acho que ele realmente compreende.

- Mesmo assim, ele desconfia. Essa coisa, essa encantadora aparição de cabelos castanhos, seja lá o que for, tentou matá-lo de verdade, sabia?

- Eu sei.

- Mas eu tentei fazer com que ele entendesse minha gratidão. Que eu não o criticava sob nenhum aspecto. Há dois dias, eu era uma pessoa sem família e sem passado.

E agora tenho tanto uma quanto o outro. As questões mais torturantes da minha vida foram respondidas. Creio que ainda não absorvi o significado total. Não paro de me lembrar da minha casa em Tiburon e a cada vez percebo que não preciso mais voltar para lá, que não preciso mais ficar lá sozinha. E o impacto maravilhoso se repete.

- Nunca imaginei que sua reação fosse essa. Tenho de confessar. Imaginei que você se zangasse, que talvez se sentisse ofendida.

- Michael, não estou ligando para o que Aaron fez a fim de obter as informações. Não me importo com o que os seus colaboradores tenham feito, ou com o que fizeram desde o princípio. A questão é que a informação seria absolutamente inexistente se ele não a houvesse compilado. A mim restaria aquela velha e as coisas nocivas que ela disse. E todos os primos radiantes, sorridentes e oferecendo solidariedade, mas incapazes de contar a história toda por não a conhecerem. Eles só conhecem pequenos trechos cintilantes. - Ela respirou fundo. - Sabe, Michael, algumas pessoas não sabem receber presentes. Elas não sabem tomar posse e fazer uso deles. Eu preciso aprender a receber presentes. Esta casa é um presente. A história foi outro. E a história torna possível que eu aceite a família! E meu Deus, eles são o maior presente de todos.

Mais uma vez, ele sentiu alívio, um profundo alívio. Suas palavras como que o fascinavam. Mesmo assim, ele não conseguia superar a surpresa.

- E a parte do arquivo a respeito de Karen Garfield? E o Dr. Lemle? Tive tanto medo por você quando lesse isso.

A centelha de dor no seu rosto dessa vez foi mais forte, mais clara. Ele imediatamente lamentou sua falta de tato. De repente, pareceu imperdoável ter falado sem pensar.

- Você não me compreende - disse ela, com a voz tão neutra quanto antes. - Não entende o tipo de pessoa que eu sou. Eu queria saber se tinha aquele poder ou não!

Fui procurá-lo porque imaginei que, se você me tocasse com as suas mãos, poderia me dizer se esse poder realmente existia. Bem, você não pôde dizer isso. Mas Aaron me disse. Aaron me deu uma confirmação. E nada, nada poderia ter sido pior do que suspeitar e não ter certeza.

- Compreendo.

- Será? - Ela engoliu em seco, com o rosto de repente se esforçando muito para conservar sua expressão de tranqüilidade. E então seus olhos ficaram baços por um instante e só voltaram a brilhar com um óbvio ato de determinação. Ela prosseguiu, num sussurro áspero. - Odeio o que aconteceu a Karen Garfield. Detesto mesmo.

Já Lemle? Lemle já estava doente. Ele havia sofrido um derrame no ano anterior. Sobre Lemle não tenho certeza, mas com Karen Garfield... ali fui eu, sim. E Michael, aconteceu porque eu não sabia!

- Entendo - disse ele, baixinho.

Por algum tempo, ela se esforçou em silêncio para reconquistar a serenidade. Quando voltou a falar, sua voz estava exausta e um pouco rouca. - Eu ainda tinha mais um motivo para querer ver Aaron.

- Qual era?

Ela pensou um pouco antes de responder.

-Não estou em comunicação com esse espírito, e isso quer dizer que não tenho como controlá-lo. Ele ainda não se revelou a mim, não de verdade. E pode ser que não o faça.

- Rowan, você já o viu, e além do mais ele está à sua espera.

Ela refletia, com a mão mexendo à toa num pequeno fio de linha na barra da camisa.

- Eu sou hostil a ele, Michael. Não gosto dele. E acho que ele sabe. Estive aqui sentada horas a fio, sozinha, convidando-o a se achegar e, ainda assim, sentindo ódio e medo dele.

Michael ficou intrigado com isso.

- Talvez ele tenha exagerado - disse ela.

- Você está se referindo ao jeito com que ele tocou em você...

- Não. Estou querendo dizer que ele pode ter exagerado em mim. Ele pode ter ajudado a criar exatamente a médium que não pode ser seduzida por ele ou enlouquecida por ele. Michael, se com esse meu poder invisível eu posso matar um ser humano de carne e osso, como você imagina o impacto da minha hostilidade sobre Lasher?

Ele espremeu os olhos, olhando atento para ela.

- Não sei - confessou ele.

A mão de Rowan tremia ligeiramente quando ela empurrou para trás o cabelo que caía sobre o rosto. A luz do sol se refletiu nele por um instante, tornando-o realmente louro.

- Minhas aversões são muito profundas. Sempre foram. Elas não mudam com o tempo.

Sinto uma aversão arraigada por essa criatura. Ah, eu me lembro do que você disse ontem à noite, a respeito de querer conversar com a criatura, argumentar com ela, descobrir o que ela quer. Mas neste exato momento a repulsa é o que há de mais forte.

Michael ficou observando Rowan por algum tempo, em silêncio. Ele sentiu uma aceleração estranha, quase inexplicável, do seu amor por ela.

- Sabe, você estava certa no que disse antes. Eu realmente não a compreendo, nem compreendo que tipo de pessoa você é. Eu a amo, mas não a entendo.

- É que você pensa com o coração - disse ela, tocando delicadamente no seu tórax com o punho fechado. - É isso o que o faz tão bom. E tão ingênuo. Já eu não ajo assim. Existe em mim algo de mau igual ao mal das pessoas ao meu redor. Elas raramente me surpreendem. Mesmo quando me deixam furiosa.

Ele não quis discutir com ela. Mas não era ingênuo, não!

- Estou há horas pensando em tudo isso - disse ela. - Nesse poder de romper vasos sangüíneos e aortas, provocando a morte como que por uma praga rogada. Se esse poder que tenho servir para alguma coisa, talvez ele sirva para destruir essa entidade. Talvez ele possa atuar sobre a energia controlada pela criatura, da mesma forma que atua sobre as células de seres vivos.

- Isso nunca chegou a me passar pela cabeça.

- É por isso que temos de pensar com independência - disse ela. - Antes de mais nada, sou médica. Sou mulher e pessoa, em segundo lugar. E para mim, na qualidade de médica, é perfeitamente fácil ver que essa entidade existe em alguma espécie de relação contínua com o mundo físico. É cognoscível o que esse ser é. Cognoscível como o enigma da eletricidade era cognoscível no ano 700 da era cristã, embora ninguém o conhecesse.

Michael concordou.

- Seus parâmetros. Você usou essa palavra ontem à noite. Não paro de me perguntar sobre seus parâmetros. Se ele é sólido o suficiente quando se materializa para que eu o toque.

- Isso. Exatamente. O que ele é quando se materializa? Tenho de descobrir seus parâmetros.

Meu poder também funciona de acordo com as normas do nosso mundo físico.

E eu tenho de aprender os parâmetros do meu poder também.

A dor voltou ao seu rosto, mais uma vez como um lampejo de luz, algo que deformava sua expressão e que depois se ampliava até que o rosto liso parecesse ameaçado de murchar como o de uma boneca no fogo. Só aos poucos, ela voltava a uma expressão neutra, calma, bonita e calada. Sua voz era um fio quando ela prosseguiu.

- Essa é a minha cruz, o meu poder. Da mesma forma que a sua cruz é o poder que tem nas mãos. Nós vamos aprender a controlar essas coisas para podermos decidir quando e onde usá-las.

- É, é isso mesmo o que temos de fazer.

- Quero lhe dizer uma coisa sobre aquela velha, Carlotta, e sobre meu poder...

- Você não precisa falar se não quiser.

- Ela sabia que eu ia fazer aquilo com ela. Ela previu e, calculista, me provocou. Eu poderia jurar que foi isso o que fez.

- Por quê?

- Fazia parte dos planos dela. Eu não paro de pensar nisso. Talvez ela pretendesse me deixar abatida, destruir minha confiança. Ela sempre usou a culpa para magoar Deirdre, e é provável que a tenha usado também com Antha. Mas não vou me deixar atrair pelas longas articulações dos seus planos. Seria errado que agíssemos assim agora, que falássemos neles, em Lasher, nas visões e na velha, e no que eles querem. Eles tra&cc