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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A Identidade Bourne / Robert Ludlum
A Identidade Bourne / Robert Ludlum

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A Identidade Bourne

                      

The New York Times, Sexta-feira, 11 de julho de 1975

Primeira página

DIPLOMATAS ESTÃO LIGADOS AO CASO DO TERRORISTA FUGITIVO CONHECIDO COMO CARLOS

PARIS, 10 de julho — A França expulsou hoje três diplomatas cubanos do alto escalão que estavam em conexão com a procura de um homem chamado Carlos, que se acredita ter importante ligação em uma rede internacional de terrorismo. O suspeito, cujo nome verdadeiro supõe-se ser Ilich Ramirez Sanchez, está sendo procurado pela morte de dois agentes de contra-espionagem e um informante libanês, ambos mortos em um apartamento do Quartier Latin, a 27 de junho último. As três mortes trouxeram a polícia até aqui e depois para a Bretanha, onde crêem haver uma trilha de uma rede de agentes internacionais do terrorismo. Na busca de Carlos, depois das mortes, os policiais franceses e britânicos descobriram provisões de armas que ligavam Carlos ao terrorismo da Alemanha Ocidental e foram levados a suspeitar da existência de uma conexão entre os vários atos terroristas em toda a Europa. Foi visto em Londres. Desde então, Carlos tem sido visto em Londres e em Beirute, no Líbano...

 

Associated Press, Segunda-feira, 7 de julho de 1975

Syndicated dispatch

OPERAÇÃO REDE-FINA PARA PEGAR ASSASSINO

LONDRES (AP) — Balas e garotas, granadas e boas roupas, carteira bem-recheada, passagens aéreas para lugares românticos e agradáveis apartamentos em meia dúzia de capitais de várias partes do mundo. Este é o retrato de um assassino da era do jato, procurado em uma caçada internacional. A caçada começou quando o homem abriu sua porta em Paris e matou a tiros dois agentes do serviço de informação francês e um informante libanês. Quatro mulheres estão sob custódia em duas capitais, acusadas de crimes em sua defesa. O assassino, no entanto, desapareceu — talvez no Líbano, como acredita a polícia francesa. Nos últimos dias, em Londres, os que travaram conhecimento com ele o têm descrito para os repórteres como sendo de boa aparência, cortês, de boas maneiras, rico e sempre vestido na moda. Mas os seus associados são homens e mulheres conhecidos como os mais perigosos de todo o mundo. Dizem que tem ligações com o Exército Vermelho japonês, com a Organização para a Luta Armada da Arábia, com o grupo Baader-Meinhof da Alemanha Ocidental, com a Frente de Libertação do Quebec, com a Frente de Libertação Popular Turca, com os separatistas da França e da Espanha, e com ala Provisória do Exército Republicano Irlandês. Quando o assassino viaja — para Paris, para o Hague, para Berlim Ocidental — bombas explodem, armas estouram e sempre ocorrem seqüestros. Um furo foi obtido em Paris quando um terrorista libanês fez uma confissão em interrogatório. O que levou dois homens do serviço de informação à porta do assassino, em Paris, no dia 27 de junho. Ele atirou em todos os três, matando-os, e depois fugiu. A policia encontrou as suas anuas e os cadernos de anotação contendo “listas de mortes” de pessoas importantes. Ontem o London Observer disse que a policia estava à caça do filho de um advogado comunista venezuelano, para interrogá-lo sobre a tripla chacina. A Scotland Yard disse: “Não estamos proibindo as reportagens”, mas adiantou que não havia nenhum mandado contra ele e que ele estava sendo procurado apenas para interrogatório. O Observer identificou o homem caçado como sendo Ilich Ramirez Sanchez, de Caracas. Disse que seu nome estava em um dos quatro passaportes encontrados pela polícia francesa quando invadiram o apartamento de Paris onde o chacinador se escondia. O jornal disse que o nome Ilich foi tirado de Vladimir Ilych Lenin, fundador do Estado soviético, que ele foi educado em Moscou e fala russo fluentemente. Em Caracas, um porta-voz do Partido Comunista Venezuelano disse que Ilich é o filho de um advogado marxista de 70 anos de idade e que mora a 450 milhas a oeste de Caracas, mas que “nem o pai nem o filho pertencem ao nosso partido”. Contou aos repórteres que desconhecia o então paradeiro de Ilich.

 

A traineira submergiu nas vagas violentas do mar escuro e furioso como um animal desajeitado tentando desesperadamente emergir de um atoleiro pegajoso. As ondas se elevavam a gigantescas alturas e vinham quebrar de encontro ao casco com o mesmo peso da sua tonelagem bruta; os borrifos da espuma do mar se avolumavam no céu escuro e desciam em cascatas sobre o convés, empurrados pela força do vento. De qualquer ponto de distância podia-se ouvir os gemidos de um tormento inanimado, de madeira roçando contra madeira, de cordas torcidas, esticadas até o ponto máximo de estiramento. O animal estava morrendo.

Duas explosões repentinas vararam a noite, transpassando os ruídos do mar e do vento com um som mais agudo do que os gemidos da própria nave. Então, eles saíram da cabina mal-ilumi-nada, daquela casca protetora que subia e descia alternadamente. Um homem arremessou-se porta afora, agarrando-se às grades com uma das mãos. Com a outra, segurava o estômago.

Outro homem o seguiu, num cerco cauteloso. Sua intenção era violenta. Ficou se escorando no vão da porta da cabina, ergueu a arma e atirou mais uma vez. E outra.

O homem que estava na mureta levou as mãos à cabeça, arqueando o corpo para trás sob o impacto da quarta bala. A proa da traineira mergulhou de repente no entremeio de duas gigantescas ondas, levantando do chão o homem ferido. Ele foi atirado para a esquerda, sem poder tirar as mãos da cabeça. O barco foi jogado para o alto pelo mar encapelado, aproa e o do meio do casco estavam mais para fora do que para dentro da água. O vulto que estava no vão da porta foi varrido de volta para dentro da cabina. Um quinto tiro disparou inesperadamente. O homem ferido gritou, tentando alcançar com as mãos alguma coisa a que pudesse se agarrar; tinha os olhos cegos pelo sangue e pela espuma salgada que varria incessantemente o convés. Não havia nada a que se agarrar, e ele se agarrou ao nada. Suas pernas vergaram e o corpo cambaleou para a frente. O barco jogou violentamente, caindo para sotavento, e o homem com o crânio aberto precipitou-se para dentro da escuridão desvairada.

Ele sentiu a turbulenta água gelada envolvê-lo, engolindo-o e sugando-o para o fundo, fazendo-o girar em círculos e, em seguida, impelindo-o para a superfície — apenas o tempo suficiente para uma arfada de ar. Uma arfada apenas e já estava no fundo novamente.

Havia um calor estranho, uma mistura úmida e quente na sua fronte, que queimava na água que continuava a engoli-lo. Mesmo dentro da água — era um fogo onde nenhum fogo podia queimar. E havia uma sensação gelada, também. Um latejamento gelado no estômago, nas pernas e no peito, tão gelado que o mar frio à sua volta aquecia. Era estranho! Podia sentir tudo isso enquanto reconhecia o seu próprio pânico. Podia ver o seu próprio corpo girando e se retorcendo, braços e pés lutando freneticamente contra a pressão e a voracidade das águas. Podia sentir, pensar, ver, perceber o pânico e lutar. E o mais estranho — havia paz. Havia paz na calma do observador, no seu distanciamento; o observador separado dos acontecimentos, conhecendo-os, mas sem estar essencialmente envolvido por eles.

Em seguida foi tomado por outra forma de pânico. Outra forma de pânico alastrou-se nele, avolumando-se através do calor e do frio, infiltrando-se no seu reconhecimento distante. Ainda não podia se entregar à paz! Ainda não! Devia acontecer a qualquer instante, embora não estivesse certo do que era; mas sabia que alguma coisa iria acontecer. E ele tinha que estar ali!

Então, esperneou furiosamente, agarrando-se às pesadas paredes d’água, o peito queimando, até irromper à superfície, debatendo-se para permanecer no topo das negras vagas. Subir! Subir!

Uma monstruosa onda o arrastava acomodado em sua crista, rodeado pelas imensas bolsas de espuma e pela escuridão. E nada. Virar! Virar!

Até que aconteceu. A explosão foi compacta, pôde ouvi-la mais alto do que o ruidoso entrechocar das águas com o vento — o som e a visão que eram, de alguma forma, seu descanso, sua paz. O céu acendeu-se. Parecia um ígneo diadema. E dentro daquela coroa de fogo, objetos de todos os tamanhos e formas eram jogados do círculo de luz para as sombras do lado de fora.

Vencera. De qualquer forma, ele vencera.

De repente, imergiu novamente para dentro de um abismo. Podia sentir as águas turbulentas se fecharem acima dos seus ombros, refrescando o fogo-febre das suas têmporas, aquecendo o gelo-frio dos seus ferimentos no estômago, nas pernas, e...

Seu peito. Seu peito estava em agonia! Fora golpeado — a pancada esmagadora, o impacto repentino, intolerável quase. De novo! Deixe-me só. Dê-me paz!

E outra vez!

E novamente tentou se firmar, outra vez se debater... Até que sentiu um objeto grosso e viscoso que se movia com os movimentos do mar. Não sabia o que era, mas lá estava, podia senti-lo, segurá-lo.

Segure-o! Ele vai levá-lo para a paz. Para o silêncio da escuridão... e da paz.

Os raios do sol nascente irromperam através da névoa do céu oriental, emprestando seu brilho calmas águas do Mediterrâneo, O capitão do pequeno barco pesqueiro, os olhos injetados e as mãos marcadas por queimaduras feitas pelas cordas, estava sentado sobre a amurada da popa, fumando um Gauloise, agradecido por ver o mar novamente brando. Passou a vista pela casa do leme, que estava aberta. Seu irmão mais novo regulava o estrangulador, acelerando para navegar mais depressa, e o outro tripulante examinava uma rede, um pouco mais afastado. Riam de alguma coisa, e isso era muito bom, pois na noite anterior haviam enfrentado sérios problemas, sem tempo para risos. De onde teria vindo aquela tormenta? Os boletins meteorológicos de Marselha não haviam previsto nada; se tivessem, ele teria ficado ao abrigo da costa, no litoral. Queria alcançar as zonas de pesca, 80 quilômetros ao sul de La Seyne-sur-Mer, ao despontar do dia, mas não à custa de avarias e reparos dispendiosos. E que reparos não são dispendiosos nestes dias?

E muito menos à custa de sua própria vida. Em alguns momentos, na noite passada, chegara a pensar nessa possibilidade.

— Tu es fatigué, hein, mon frère? — gritou o irmão, sorrindo para ele. — Va te coucher maintenant. Laisse-moi faire.

— D’accord — respondeu ele, jogando o cigarro para o lado e esgueirando-se para o convés, para cima de uma rede. — Dormir um pouco não vai fazer mal.

Era bom ter um irmão no leme. Um membro da família deve sempre ser o piloto de um barco de família, os olhos são mais vigilantes.

Mesmo que seja um irmão que fala a linguagem suave de um homem letrado, tão oposta à sua linguagem vulgar. Louco! Um ano apenas na universidade e o irmão quis começar uma compagnie. E com um único barco, que já tivera seus melhores dias há muitos anos. Louco. Para que serviram seus livros ontem à noite, quando sua compagnie esteve a ponto de emborcar?

Fechou os olhos e molhou as mãos na água corrente do convés. O sal do mar era bom para as queimaduras. Queimaduras feitas enquanto amarrava o equipamento, que queria perder-se na tormenta.

— Olhe! Lá adiante!

Era o irmão. Parece que o sono seria interrompido pelos vigilantes olhos da família.

— O que é? — gritou.

— A bombordo! Há um homem na água! Está se segurando em alguma coisa, algum destroço ou um pedaço de tábua qualquer.

O capitão tomou o leme, inclinando o barco para o lado direito do corpo e desligando as máquinas para reduzir o turbilhão formado nas águas pelas hélices. Qualquer movimento podia fazer com que o homem escorregasse do pedaço de madeira a que se agarrava, de tão fraco que parecia. As mãos brancas apertavam a borda da madeira como garras, mas o resto do corpo estava flácido — como um afogado, já passado deste mundo.

— Vamos alçá-lo com as cordas! — o capitão gritou para o irmão e o ajudante. — Passem as cordas por debaixo das pernas. Devagar, agora! Passem pela cintura, agora. Puxem com cuidado.

— Ele não tira as mãos da tábua!

— Tentem! Abram à força! Pode ser o enrijecimento da morte.

— Não. Ainda está vivo... acho. Move os lábios, embora não diga nada. E os olhos também. Mas duvido que esteja nos enxergando

— As mãos se soltaram!

— Levem-no. Segurem-no pelos ombros e puxem-no para cima. Cuidado, agora!

— Mãe de Deus! Olhem a cabeça dele! — O ajudante gritou. — Está aberta!

— Deve tê-la batido contra a tábua na tormenta — disse o irmão.

— Não — discordou o capitão, olhando surpreso para o ferimento. — É um talhe feito, como de navalha. Foi uma bala; ele levou um tiro.

— Como você pode ter certeza disso?

— Em mais de um lugar — continuou o capitão, percorrendo o corpo com os olhos, — Vamos em direção à Île de Port Noir; é a ilha mais próxima. Lá tem um médico na praia.

— Ele pratica...

— Quando pode — afirmou o irmão. — Quando a bebida o permite praticar. Tem mais sorte com os animais dos pacientes do que com os próprios pacientes.

— Não vai ter nenhuma importância. Ele será um cadáver quando chegarmos lá. Se por acaso sobreviver, cobrar-lhe-ei a gasolina extra e a pesca que perdermos. Pegue o estojo, vamos enfaixar-lhe a cabeça. Será melhor do que nada.

— Olhem! — gritou o ajudante. — Olhem para os seus olhos.

— O que têm? — perguntou o irmão.

— Estavam cinzas ainda há pouco, tão cinzas quanto o cabo de aço. Estão azuis agora!

— O sol está mais forte — respondeu o capitão, encolhendo os ombros. — Ou está pregando peças aos seus olhos. Não importa, a cor não é importante no túmulo.

Os intermitentes apitos dos barcos de pesca destoavam dos incessantes e estridentes guinchos das gaivotas, compondo o ruído característico e universal de uma praia. A tarde morria. O sol era uma bola de fogo no ocidente, a atmosfera, pesada e desoladora, e estava muito quente. Além dos píeres, de frente para o ancoradouro, havia uma rua calçada com pedras e algumas casas brancas com a pintura manchada, separadas por grama alta crescendo intrépida da terra seca misturada com a areia. O que restou das varandas era apenas um esqueleto de grades remendadas, estuque desmoronando e estacas provisoriamente encaixadas. Estas residências tinham conhecido melhores dias algumas décadas antes, quando os seus habitantes acreditaram erradamente que a Île de Port Noir poderia vir a ser outro lugar de lazer do Mediterrâneo. Isto jamais aconteceu.

Todas as casas tinham trilhas que davam para a rua, mas a última casa da série tinha uma trilha casualmente mais pisada do que as demais. A casa pertencia a um inglês que chegara a Port Noir oito anos atrás em circunstâncias desconhecidas e que ninguém se importava em conhecer; era médico, e a praia precisava de um médico, pois os anzóis, as agulhas e as facas eram ao mesmo tempo meios de sustento e instrumentos de incapacidade para o trabalho. Se alguém encontrava 1e docteur num bom dia, as suturas não eram tão más assim. Por outro lado, se o bafo do vinho ou do uísque era muito acentuado, era preciso arriscar a sorte.

Tant pis! Era melhor do que ninguém.

Mas não hoje, hoje ninguém ainda havia passado pela trilha. Era domingo e era fato corrente que todas as noites de sábado o doutor ficava completamente bêbado na vila e ia terminar a noite com qualquer puta que estivesse disponível. Naturalmente, também era tido como certo que durante estes últimos sábados a rotina do doutor fora alterada, ele não tinha mais sido visto na vila. Mas não fora uma mudança assim tão radical: as garrafas de uísque eram regularmente enviadas ao doutor, enquanto ele ficava em casa. Isso era o que ele vinha fazendo desde que o barco pesqueiro, vindo de La Ciotat, trouxera o desconhecido, mais morto do que vivo.           

O Dr. Geoffrey Washburn acordou com um sobressalto, o queixo caído sobre a clavícula, fazendo com que o hálito de sua boca penetrasse pelas narinas. E não era nada agradável! Piscou os olhos tentando se orientar e olhou de relance para a porta do quarto. Provavelmente o seu cochilo fora interrompido por outro incoerente monólogo do paciente. Não, não escutava qualquer som. Até mesmo as gaivotas lá fora estavam indulgentemente quietas. Era o feriado da Île de Port Noir, não havia movimento de barcos chegando para açular os pássaros com suas pescas.

Washburn olhou para o copo vazio e a meia garrafa de uísque em cima da mesa ao seu lado. Era uma vitória. Em domingos normais, os dois já estariam vazios; a dor da noite anterior teria se esfumaçado com o uísque. Sorriu, mais uma vez abençoando a irmã mais velha, em Coventry, que tornava possível o seu uísque com uma pensão mensal. Era uma boa garota a Bess, uma boa garota, e só Deus sabe que ela podia lhe dar bem mais do que lhe dava, mas assim mesmo era agradecido pelo que ela lhe enviava. E o dia em que ela morresse e o dinheiro parasse de chegar, ele tentaria o esquecimento com o vinho mais barato que encontrasse, até que a dor se extinguisse totalmente. Para sempre.

Estava se acostumando com essa eventualidade, começando a aceitar essa idéia... Mas tudo mudara há três semanas e cinco dias, quando aquele estranho, meio morto, fora puxado do mar e trazido até sua porta por alguns pescadores que não quiseram se identificar. A sua missão era de indulgência, e não de envolvimento. Deus entenderia, o homem fora baleado.

O que os pescadores não sabiam, no entanto, é que muito mais do que apenas as balas haviam tomado o corpo daquele homem. E a mente.

O doutor empurrou seu frágil esqueleto para fora da cadeira e caminhou com passos vacilantes em direção à janela que dava para o ancoradouro. Baixou a vidraça, fechando os olhos para se proteger do sol forte, e depois deu uma espiada por entre as palhetas da janela para observar o movimento da rua lá embaixo, curioso para ver o motivo daquela algazarra. Era uma carreta puxada a cavalo, uma família de pescador no seu passeio dominical.Onde mais poderia alguém ter tal visão? Então, lembrou-se das carruagens e dos cavalos finamente enfeitados que atravessavam o Regent Park de Londres passeando com turistas durante os meses de verão, e riu com a comparação. Mas era uma risada efêmera, que dava lugar a alguma coisa inconcebível a menos de três semanas. Desistira de toda a esperança de rever a Inglaterra. Mas agora tudo poderia voltar a ser possível. O estranho poderia provocar uma mudança.

A menos que seu prognóstico estivesse errado, poderia acontecer a qualquer dia, hora ou minuto. Os ferimentos das pernas e do peito eram profundos e graves, quase fatais, não fosse o fato de as balas terem permanecido onde haviam se alojado e as contusões terem sido meio cauterizadas e continuamente limpas pela água do mar. Extraí-las não fora tão difícil e perigoso como poderia parecer, o tecido já estava preparado, amaciado e esterilizado, pronto para a faca. O ferimento do crânio foi mais problemático. A bala penetrara subcutaneamente e parecia ter ofendido as regiões fibrosas do tálamo e do hipocampo. Se a bala tivesse penetrado mais alguns milímetros, as funções vitais teriam cessado imediatamente, mas elas não tinham sido atingidas e Washburn tomou uma decisão — permaneceu sóbrio durante 36 horas, alimentando-se de amido e bebendo água tanto quanto lhe era humanamente possível. Em seguida realizou o trabalho mais delicado que já empreendera desde a sua demissão do Hospital Macleans, de Londres. Limpou com pincel cada milímetro das áreas fibrosas, e depois repuxou e suturou a pele sobre a lesão craniana, sabendo que o menor erro com pincel, agulha ou pinça causaria a morte do seu paciente.

E não desejava que este paciente morresse. Por uma série de razões e mais especialmente uma.

Quando terminou a operação e os sinais vitais permaneceram constantes, o Dr. Geoffrey Washburn voltou-se para o seu complemento químico e psicológico: a garrafa. Embebedou-se, mas sem passar dos limites. Sabia exatamente onde estava e o que devia fazer durante todo o tempo, o que era positivamente uma vitória.

A qualquer dia, a qualquer instante, talvez, o estranho abri ria os olhos e ele poderia ouvir palavras inteligíveis dos seus lábios.

A qualquer momento.

As palavras vieram antes. Flutuaram no ar como a brisa da manhã, que vinha do mar e arejava a sala.

— Quem está aí? Quem está na sala?

Washburn sentou-se no estrado, movimentou as pernas devagar e pôs-se de pé com cuidado. Era muito importante não fazer nenhum barulho estridente, nenhum ruído repentino ou movimento apressado. Isto poderia assustar o paciente e levá-lo a uma regressão psicológica. Os minutos seguintes seriam tão delicados quanto os atos cirúrgicos que realizara. Como médico, já estava preparado para aquele momento.

— Um amigo — respondeu com brandura.

— Amigo?

— Você fala inglês, como pensei. Suspeito que seja americano ou canadense. O seu trabalho dentário não é do Reino Unido ou de Paris. Como se sente?

— Não tenho certeza.

— Leva um tempo. Não quer se aliviar?

— O quê?

— Ir ao banheiro, companheiro. O recipiente ao seu lado é para isso. O branco, à sua esquerda. Se o usar a tempo, é claro.

— Desculpe.

— Nada disso. É uma função perfeitamente normal. Sou médico, sou seu médico. Meu nome é Geoffrey Washburn. E o seu?

— Como?

— Perguntei o seu nome.

O estranho moveu a cabeça e ficou a olhar perplexamente para a parede branca riscada com os raios de luz da manhã. Depois, se virou, volvendo os olhos azuis para o médico. — Não sei.

— Oh, meu Deus!

— Já lhe disse mil vezes. Leva tempo. Quanto mais você luta contra isso, mais se atormenta, e é pior para você.

— Você está bêbado.

— Geralmente. E isso não é da sua conta. Mas posso lhe dar algumas pistas, se me ouvir.

— Eu tenho ouvido.

— Não, não tem. Tem dado as costas. Esconde-se no seu casulo e puxa as cobertas sobre a mente. Ouça-me de novo.

— Estou ouvindo.

— Quando esteve em coma — e foi por bastante tempo —, você falou em três línguas diferentes: inglês, francês e uma maldita ingresia que presumo ser uma língua oriental. Isso quer dizer que você é plurilíngue, está em casa em várias partes do mundo. Agora, pense geograficamente. O que lhe parece mais próximo e fácil? Mais confortável.

— O inglês, obviamente.

— Já concordamos com isso. Agora, o que é mais desconfortável?

— Não sei.

— Os seus olhos são redondos e não oblíquos. Eu diria que obviamente é a oriental.

— Óbvio.

— Mas então por que você fala? Agora, pense em termos de associação. Anotei algumas palavras, ouça. Vou pronunciá-las foneticamente. Ma — kwa. Tam — kwa. Kee — sab. Diga a primeira coisa que lhe vier à mente.

— Nada.

— Bom trabalho.

— Que inferno! O que você quer?

— Alguma coisa. Qualquer coisa.

— Você está bêbado.

— Já concordamos com isso. Totalmente. Mas também salvei a porcaria da sua vida. Bêbado ou não, sou um médico. E já fui muito bom.

— O que aconteceu?

— O paciente questiona o médico, agora?

— Por que não?

Washburn fez uma pausa e olhou a praia pela janela. — Eu estava bêbado — disse. — Disseram que matei dois pacientes na mesa de operação porque estava bêbado. Podia ter liquidado um. Não dois. Eles percebem um comportamento muito rapidamente, que Deus os abençoe. Nunca dê uma faca a um homem como eu e depois o desfaça com respeitabilidade.

— Era necessário?

— O que era necessário?

— A bebida.

— É claro, seu miserável — disse Washburn com brandura, voltando-se da janela. — Era, e é. E o paciente não tem permissão para fazer julgamentos no que diz respeito ao médico.

— Sinto muito.

— Você também tem o incômodo hábito de se desculpar. É um protesto muito elaborado e nada natural. Não acredito nem por um minuto sequer que você seja uma pessoa de desculpas.

— Então, conhece alguma coisa que desconheço.

— A seu respeito sim. Muito. Mas quase nada faz sentido.

O homem sentou-se mais para a frente na cadeira. A camisa abriu-se na altura do peito de musculatura firme, deixando à mostra as ataduras, cruzou os braços e as veias saltaram do seu braço musculoso e esguio. — Outras coisas além das que nós já conversamos?

— Sim.

— Coisas que eu disse quando estava em coma?

— Não, não apenas isso. Já discutimos a maior parte daquele palavrório todo. As línguas, o seu conhecimento de geografia — cidades que quase nunca ouvi falar —, a sua obsessão em evitar usar nomes próprios, nomes que você quer dizer mas não diz, a sua disposição para defender-se, atacar, recuar, se esconder, correr, tudo um pouco violento, devo admitir. Muitas vezes tive que prender seus braços com esparadrapo para proteger os curativos. Mas já passamos por tudo isso. Existem outras coisas.

— O que quer dizer? Que coisas? Por que não me contou antes?

— Porque são coisas físicas. De estrutura externa. Eu não tinha certeza se você já estava pronto para ouvi-las, como ainda não tenho.

O homem se recostou na cadeira, juntando as sobrancelhas escuras em irritação. — Agora é o julgamento do médico que não me diz respeito. Estou pronto. Do que está falando?

— Podemos começar com a aparência comum dessa sua cabeça? O rosto, em particular.

— O que tem ele?

— Não é o mesmo com o qual você nasceu.

— O que quer dizer?

— Uma lente grossa sempre pode perceber as marcas de uma operação. O seu rosto sofreu alterações, companheiro.

— Alterações?

— Você tem um queixo bem pronunciado. Eu diria que você tinha uma cova no queixo. Ela foi removida. A parte superior do seu osso malar esquerdo — seus malares também são bem pronunciados, o que demonstra a sua ascendência eslava, de há muitas gerações — tem diminutas marcas de uma cicatriz cirúrgica. Aventuro-me a dizer que um sinal de pele foi eliminado. Seu nariz é bem inglês, e já foi um pouco mais pronunciado do que é hoje. Foi afinado muito suavemente. Seus traços mais pronunciados foram suavizados, sua característica facial foi abrandada. Entende o que estou lhe dizendo?

— Não.

— Você é um homem razoavelmente atraente, mas o seu rosto se distingue mais pela categoria em que se insere do que pelo rosto propriamente.

— Categoria?

— Sim. Você é o protótipo do anglo-saxão branco que as pessoas vêem todos os dias nos melhores campos de críquete, ou nas quadras de tênis. Ou no bar em Mirabel. Esses rostos se tornam quase indistintos um do outro, não é? Os traços no lugar certo, os dentes retos, as orelhas rentes à cabeça — nada fora do equilíbrio, tudo no lugar certo, apenas um pouco suavizado.

— Suavizado?

— Bem, abrandado talvez seja uma palavra melhor. Definitivamente autoconfiante, até mesmo arrogante, acostumado a abrir o seu próprio caminho.

— Não estou muito certo do que você está tentando me dizer.

— Tente desta forma, então. Mude a cor dos seus cabelos, e seu rosto ficará mudado. Sim, há traços de descoloração, cabelos quebradiços, tintura. Use óculos e um bigode, e você se transforma, é outro homem. Acho que você deve estar nos seus trinta e poucos, mas bem pode aparentar outra idade, dez anos a mais ou cinco a menos. — Washburn fez uma pausa, ficou a observar as reações do homem, como se estivesse em dúvida se devia ou não prosseguir. — E já que falamos sobre óculos, você se lembra daqueles exercícios, dos testes que fizemos há uma semana?

— É claro.

— A sua visão é perfeitamente normal, você não tem necessidade de usar óculos.

— É como pensei.

— Então, por que existem sinais evidentes de uso prolongado de lentes de contato em volta das suas retinas e nas pálpebras?

— Não sei. Não faz sentido.

— Posso tentar uma explicação?

— Gostaria de ouvi-la.

— Talvez não. — O doutor voltou-se para a janela e deu uma olhadela distraída para fora. — Alguns tipos de lentes de contato são criados apenas para mudar a cor dos olhos. E alguns tipos de olhos se prestam melhor ao uso das lentes do que outros, em geral os que têm matiz cinza ou azulada. Os seus são uma mistura. Castanho-acinzentados ou azuis, dependendo do reflexo da luz. A natureza o favoreceu neste aspecto; não foi preciso, nem era possível, fazer qualquer alteração.

— Preciso para quê?

— Para mudar a sua aparência. E muito profissionalmente, eu diria. Para vistos, passaporte, carteira de motorista — pode mudar à vontade, de acordo com a necessidade. Cabelos: castanhos, louros, castanho-avermelhados. Olhos — difícil deduzir — verdes, cinzas, azuis? As possibilidades são inúmeras, não acha? Tudo dentro dessa categoria comum e bem reconhecida, em que os rostos ficam anuviados pela repetição.

O homem levantou-se da cadeira com dificuldade, pondo-se de pé com a ajuda dos braços, prendendo a respiração enquanto se erguia. — Também é possível que você esteja tentando adivinhar, fazendo aproximações. Você pode estar perdido.

— Os traços são reais, são marcas. Isto é uma evidência.

— Interpretada por você, e com uma grande dose de sarcasmo ainda por cima. Suponhamos que eu tenha sofrido um acidente e tenha sido remendado? Isso explicaria a cirurgia.

— Não a do tipo que você fez. A tintura dos cabelos, a re moção de covas e malares não fazem parte de um processo de restauração.

— Você não conhece nada disso! — disse o desconhecido, irado. Existem diversas espécies de acidentes, diversos procedimentos. Você não estava lá, não pode ter certeza.

— Ótimo! Fique furioso comigo. Você quase não fica, não o suficiente. E enquanto está furioso, aproveite e pense. O que você era? O que é você?

— Um vendedor... Um executivo de uma companhia internacional, que fez especialização no Extremo Oriente. Podia ser. Ou um professor de línguas. . . um professor de línguas em uma universidade qualquer. Também é possível!

— Muito bem. Escolha uma. Agora!

— Eu... Eu não posso. — Os olhos do homem mostravam desamparo.

— Porque você não acredita em nenhuma delas.

O homem balançou a cabeça. — Não. E você?

— Não — disse Washburn. — Por uma razão específica. Essas ocupações são relativamente sedentárias e você tem o corpo de um homem que esteve sujeito a esforço físico. Oh, não quero dizer um atleta treinado ou coisa parecida, você não é nenhum desportista, como dizem. Mas a tonicidade de seus músculos é firme, seus braços e mãos estão acostumados a fazer força e são bastante fortes. Em outras circunstâncias eu o julgaria um trabalhador acostumado a carregar objetos pesados, ou um pescador condicionado a lançar rede o dia todo. Mas o âmbito do seu conhecimento, eu diria, do seu intelecto, exclui estas possibilidades.

— Acho que você está querendo chegar em algum ponto, não é? Alguma coisa diferente. Por quê?

— Porque nós estamos trabalhando juntos, muito juntos, e sob pressão, há algumas semanas já. Você mostrou um padrão de comportamento.

— Então estou certo?

— Sim. Mas eu tinha que ver como você aceitaria o que eu lhe disse. Sobre a cirurgia anterior, os cabelos, as lentes de contato.

— Passei no teste?

— Com um equilíbrio furioso. Já é hora, não tem por que retardar mais. Francamente, não tenho paciência. Venha comigo — Washburn precedeu-o, atravessando a sala até chegar a porta que ficava na parede de trás, a porta que dava para a farmácia. Lá dentro, foi até um canto e pegou um antigo projetor, com o tampo da lente grossa e redonda já enferrujado e rachado. — Isto veio de Marselha junto com os meus suprimentos — disse, enquanto colocava o projetor sobre a pequena escrivaninha e enfiava o conector na tomada da parede. — Não é o melhor equipamento, mas vai nos servir. Feche as janelas, sim?

O homem sem nome e sem memória foi até a janela e abaixou a veneziana; a sala ficou escura. Washburn ligou a luz do projetor e um quadrado iluminado apareceu na parede branca. Então, inseriu um pequeno pedaço de celulóide por trás da lente.

O quadrado de luz encheu-se de repente com imensas letras.

GEMEINSCHAFT BANK

BAHNHOFSTRASSE. ZURIQUE.

ZERO — SETE — DEZESSETE — DOZE — ZERO

QUATORZE — VINTE E SEIS — ZERO

— O que é isto? — perguntou o homem sem nome.

— Olhe bem. Estude. Pense.

— É o número de alguma conta bancária.

— Exatamente. O cabeçalho timbrado e o endereço são do banco, os números escritos a mão estão no lugar de um nome, mas como estão anotados a mão, constituem a assinatura do correntista. Procedimento bancário normal.

— Onde o encontrou?

— Em você. Este é um negativo diminuto, acho que a metade de um filme de 35 milímetros. Foi implantado — cirurgicamente implantado — por debaixo da pele, um pouco acima do seu quadril direito. Os números estão escritos com a sua letra, é a sua assinatura. Com isto você pode abrir uma caixa-forte em Zurique.

 

Escolheram o nome de Jean-Pierre. Não despertava suspeitas nem ofendia ninguém, era um nome tão comum quanto qualquer outro em Port Noir

E alguns livros chegaram de Marselha, seis livros de tamanhos diversos e diferentes espessuras; quatro em inglês, dois em francês. Eram textos de medicina, que tratavam de lesões na cabeça e no cérebro. Havia interligações no cérebro, centenas de palavras pouco familiares para memorizar e tentar entender. Lo- bus occipitalis e temporalis, o córtex e as fibras de conexão do corpus callosun, o sistema límbico — sobretudo o hipocampo e os corpos mamilares que, juntamente com o fórnice, eram indispensáveis à memória e à lembrança. Quando danificados, causavam a amnésia.

Havia alguns estudos psicológicos sobre o estresse emocional que produz histeria paralisante e afasia mental, condições que também resultavam em perda total ou parcial da memória. Amnésia.

Amnésia.

— Não existem regras — disse o homem de cabelos escuros, esfregando os olhos à luz inadequada da lâmpada da mesa. — Ë um quebra-cabeças geométrico, pode acontecer com qualquer combinação de modos, física ou psicologicamente — ou com um pouco de tudo. Pode ser permanente ou temporária, completa ou parcial. Não há nenhuma regra!

— De acordo — respondeu Washburn bebericando seu uísque, sentado em uma cadeira do outro lado da sala. — Mas acho que estamos mais próximos do que aconteceu. Do que penso que aconteceu.

— E o que foi? — perguntou o homem, um pouco apreensivo.

— Você acabou de dizer: “um pouco de tudo”. Embora a palavra “pouco” devesse ser mudada para “muito”. Muitos abalos.

— Muitos abalos a quê?

— Ao físico e ao psicológico. Eles são relacionados, entrelaçados — dois fios de experiência, ou estímulo, que deram um nó, se enredaram.

— Você não está floreando muito?

— Menos do que você pensa, quase nada. — O médico apanhou uma prancheta cheia de folhas. — Esta é a sua história — a sua nova história —, que começa no dia em que você foi trazido para cá. Vou resumir. Os ferimentos físicos indicam que a situação em que você se encontrava era de total estresse psicológico, a histeria subseqüente foi causada pelo tempo que você passou na água, que foi de pelo menos umas nove horas, que serviu para solidificar o dano psicológico. A escuridão, os movimentos violentos, a dificuldade de encher os pulmões — estes foram os instrumentos da histeria. Tudo o que precedeu a histeria teve que ser apagado para que você pudesse lutar pela vida, sobreviver. Está me acompanhando?

— Acho que sim. A cabeça estava se protegendo.

— Não a cabeça, a mente. Faça a distinção, é importante. Voltaremos à cabeça, mas vamos lhe dar um rótulo: o cérebro.

— Está bem. Mente, não cabeça... Que é, na realidade, o cérebro.

— Ótimo. — Washburn passou os dedos pelas folhas da prancheta. — Isto está cheio, tem algumas centenas de observações. Aqui estão os medicamentos que foram usados — dosagem, tempo, reação, essa coisa toda —, mas, na maior parte, são anotações que dizem respeito a você, o homem em si. As palavras que usa, as palavras às quais reage, as frases que emprega — quando posso anotá-las — quando está consciente ou quando fala no sono, e quando esteve em coma. Até mesmo a sua forma de andar, o seu modo de falar, de retesar os músculos quando alguma coisa lhe chama a atenção, ou quando vê algo que lhe interessa. Você parece ser uma massa de contradições, há uma violência à flor da pele, quase sempre sob controle, mas bem viva. Há também um certo pesar, algo que lhe parece doloroso; no entanto, você raramente deixa escapar a raiva que a dor lhe provoca.

— Você a está provocando agora — interrompeu o homem — Já repetimos estas palavras e estas frases vezes e vezes...

— E vamos continuar — interrompeu Washburn — enquanto houver progresso.

— Eu não sabia que houve algum progresso.

— Não em termos de reconhecer uma identidade ou uma ocupação. Mas estamos descobrindo o que é mais confortável para você, com o que você lida melhor. É um pouco amedrontador.

— Em que sentido?

— Vou lhe dar um exemplo. — O médico pôs de lado a prancheta e levantou-se da cadeira. Foi até um antiquado armário que ficava junto à parede, abriu uma gaveta e tirou uma grande pistola de mão, automática. O homem sem memória ficou tenso na cadeira; Washburn logo percebeu-lhe a reação. — Nunca usei isto, e não tenho certeza se sei como usá-lo, mas moro na praia... — Sorriu e em seguida, subitamente, sem qualquer aviso, jogou-a para o homem. A arma foi alcançada ainda no ar, ele agarrou-a com segurança, rápida e confiantemente. — Destrave-a; acho que esta é a palavra.

— O quê?

— Destrave-a. Agora.

O homem olhou para a pistola. E depois, em silêncio, suas mãos e dedos se moveram com muita habilidade. Em menos de trinta segundos, ela estava completamente desarmada. Ele procurou o olhar do médico,

— Está vendo o que quero dizer? — disse Washburn. — Dentre outras habilidades, você tem um extraordinário conheci mento das armas de fogo.

— Armas? — O homem perguntou surpreso, com a voz intensa, mais uma vez apreensivo.

— É muito estranho — respondeu o médico. — Logo que você saiu do seu estado de coma, falei sobre o seu trabalho dentário. Não tem características de trabalho feito por militares. E quanto à cirurgia, eu diria que de forma alguma pode ela ser associada ao exército.

— E então?

— Não vamos falar sobre isto agora, vamos voltar ao que aconteceu. Estávamos falando da mente, lembre O estresse psicológico, a histeria. Não é cérebro físico, mas as pressões mentais. Estou sendo claro?

— Continue.

— Enquanto o choque for retrocedendo, as pressões também vão retrocedendo até que não haja qualquer necessidade fundamental de proteger a psique. Enquanto isso se processa, as suas habilidades e os seus talentos voltarão para você. Você vai se lembrar de alguns padrões de comportamento, vai vivê-los com naturalidade, liberar as suas reações instintivas mais superficiais. Mas há uma lacuna, e tudo o que está escrito naquelas páginas me faz crer que esta é irreversível. — Washburn parou e voltou para a cadeira onde estivera sentado, e para a garrafa. Sentou-se e bebeu, fechando os olhos, exausto.

— Continue — sussurrou o homem.

O médico abriu os olhos e olhou para o seu paciente. — Vamos voltar à cabeça, que havíamos rotulado de cérebro. O cérebro físico com seus milhares e milhares de células e componentes iterativos. Você leu os livros, conheceu os sistemas fórnice e límbico, as fibras do hipocampo e do tálamo, as técnicas cirúrgicas do callosum e sobretudo a lobotomia. A menor alteração pode causar mudanças dramáticas. Foi isso o que lhe aconteceu. O dano foi físico. É como se alguns blocos fossem reagrupados, recompostos, a estrutura física não é mais a mesma. — Washburn parou mais uma vez.

— E... — insistiu o homem.

— As pressões psicológicas retrocedidas vão permitir — estão permitindo — que suas habilidades e talentos retornem a você. Mas acho que você jamais será capaz de relacioná-los a qualquer coisa do seu passado.

— Por quê? Por que não?

— Porque os condutos físicos que permitem e transmitem essas memórias foram alterados. Foram fisicamente recompostos, a ponto de não mais funcionarem como antes. Para todos os efeitos, foram destruídos.

O homem permaneceu sentado, imóvel. — A resposta está em Zurique — disse.

— Não ainda. Você não está preparado, ainda não está sufi cientemente restabelecido, não está forte.

— Eu vou ficar.

— Sim, vai ficar.

As semanas passaram, os exercícios verbais continuaram enquanto as páginas cresciam e a força do homem retornava. Era a manhã da décima nona semana, o dia estava luminoso e o Mediterrâneo, calmo e reluzente. Como de costume, o homem estivera correndo durante uma hora, indo da praia até as montanhas; ele se exercitara, aumentando a distância até pouco mais de doze milhas diariamente, diariamente aumentando a velocidade e diminuindo as paradas para descanso.

Ele estava sentado na cadeira perto da janela, no quarto, respirando pesadamente, o suor ensopando-lhe a camiseta. Entrara pela porta dos fundos, passando pelo corredor escuro que atravessava a sala. Era bem mais fácil, a sala servia como sala de espera do consultório de Washburn, alguns pacientes ainda estavam lá, com cortes e talhos para serem reparados. Estavam todos sentados, parecendo amedrontados, talvez pensando nas condições de le docteur naquela manhã. Na verdade, não eram más. Geoffrey Washburn ainda bebia como um louco cossaco, mas nestes últimos dias ele permanecera seco. Era como se uma reserva de esperança tivesse sido encontrada no recesso do seu fatalismo destrutivo. E o homem sem memória entendia — essa esperança estava atada a um banco da Bahnhofstrasse, em Zurique. Por que o nome da rua lhe viera à mente com tanta facilidade?

A porta se abriu e o doutor irrompeu no quarto, sorrindo, o casaco branco, manchado com o sangue dos pacientes.

— Consegui! — disse ele. Havia triunfo em sua voz, nenhuma explicação, no entanto. — Eu podia abrir minha agência de empregos e viver de comissões. Seria mais seguro.

— Do que está falando?

— Como já conversamos, é disso que você precisa. Você tem que atuar fora, e a menos de dois minutos Monsieur Jean Pierre Sem-Nome está proveitosamente empregado! Ao menos por uma semana.

— Como conseguiu isso? Pensei que não houvesse nenhuma saída.

— O que não tinha saída era a perna infeccionada de Claude Lamouche. Expliquei-lhe que o meu suprimento de anestésico era muito, muito limitado. Nós negociamos, você foi a moeda de troca.

— Por uma semana?

— Se você for de algum valor, ele pode mantê-lo mais tempo. — Washburn fez uma pausa. — Embora isso não seja o mais importante, não é?

— Acho que nada disso tem importância. Se fosse há um mês, talvez, mas não agora. Já lhe disse. Estou pronto para partir. Sempre pensei que era o que você queria. Tenho um compromisso em Zurique.

— E eu gostaria que você se saísse da melhor forma possível nesse compromisso. Meus interesses são extremamente egoístas. Nenhuma fraqueza é permitida.

— Estou pronto.

— Aparentemente sim. Mas aceite a minha palavra, é muito importante que você passe períodos prolongados na água, e que seja à noite, por um bom tempo. E que não seja sob determinadas condições, condições controladas, não como passageiro, mas submetido a condições razoavelmente duras — na verdade, quanto mais duras melhor.

— É outro teste?

— Todos os que eu puder inventar neste primitivo Menningers de Port Noir. Se eu pudesse invocar uma tempestade e provocar um naufrágio qualquer, o faria. Por outro lado, Lamouche é quase uma tormenta, é um homem muito difícil. O inchaço da sua perna vai desaparecer e ele vai indignar-se com você. E os outros também. Você vai ter que substituir alguém.

— Muito grato.

— Esqueça. Estamos combinando dois estresses. Ao menos uma ou duas noites na água, se Lamouche se mantiver dentro do programa — porque este é o meio hostil que contribuiu para a formação da sua histeria —, e o fato de estar exposto ao ressentimento e às suspeitas dos homens à sua volta, que simboliza a situação inicial de seu estresse.

— Agradeço mais uma vez. E se decidirem me lançar ao mar? Este seria o seu último teste, suponho. Mas não sei como vai funcionar se eu me afogar.

— Oh, não vai acontecer nada disso — disse Washburn com ar de zombaria.

— Fico contente que esteja assim tão confiante. Também gostaria de estar.

— Mas você também pode. Você tem a proteção e a segurança da minha presença. Posso não ser nenhum Christiaan Barnard ou Michael De Bakey, mas sou tudo o que este povo tem. Eles precisam de mim, e não vão se arriscar a me perder.

— Mas você quer partir. Sou o seu passaporte para sair daqui.

— De forma insondável, meu caro paciente. Agora venha. Lamouche o quer lá no estaleiro para que você possa se acostumar com o seu equipamento. Você começa amanhã de manhã, às quatro horas. Pense como lhe será benéfica uma semana no mar. Pense nisto como um cruzeiro.

Nunca antes houvera um cruzeiro como aquele. O capitão do imundo barco de pesca, empapado de óleo, era a versão boca- suja e insignificante de um Capitão Bligh. A tripulação era formada por um quarteto de desajustados que eram, sem dúvida alguma, os únicos homens em Port Noir que podiam se dar bem com Claude Lamouche. O quinto membro ativo era um irmão do que cuidava da rede, um personagem marcante para o homem chamado Jean-Pierre e que provocara, poucos minutos depois da partida do ancoradouro às quatro horas da madrugada, um episódio inesquecível.

— Você está tirando a comida da mesa do meu irmão! — o homem da rede sussurrou, irritado, entre rápidas baforadas de um cigarro imóvel nos lábios. — Da boca dos seus filhos!

— É por uma semana apenas — protestou Jean-Pierre. Teria sido mais fácil — muito mais fácil — oferecer-se para reembolsar o irmão desempregado com a mesada que Washburn recebia, mas o médico e o seu paciente tinham concordado em deixar de lado tais compromissos.

— Espero que você seja bom de rede!

Não era.

Houve momentos durante as 72 horas seguintes em que o homem chamado Jean-Pierre pensou que a alternativa de uma conciliação financeira fosse justificável. A hostilização não cessou, mesmo à noite — sobretudo à noite. Era como se todos os olhares estivessem dirigidos para ele no instante em que deitasse no cobertor infestado do convés, esperando que ele começasse a adormecer.

— Você! Fique de vigia! O piloto está com náusea. Você fica no lugar dele.

— Levante-se. Philippe está escrevendo suas memórias! Ele não pode ser perturbado.

— De pé! Você arrebentou uma rede esta tarde. Não vamos pagar pela sua estupidez. Estamos todos de acordo. Conserte-a agora!

Às redes.

Se dois homens eram necessários de um lado, seus dois braços tinham que valer por quatro do outro lado. Se trabalhava ao lado de um homem, havia repentinos arrastões e largadas que o deixavam com todo o peso da rede; um esbarrão inesperado de um ombro adjacente o jogava contra a amurada do barco e quase o mandava para fora.

E Lamouche! Um maníaco completo, que media cada quilômetro de água pelo peixe que havia perdido. Tinha uma voz de trompa de chifre, desagradável. Não se dirigia a ninguém sem antepor uma obscenidade ao seu nome, hábito que o paciente achou enlouquecedor. Mas Lamouche não tocou no paciente de Washburn; estava apenas enviando uma mensagem ao doutor: Nunca mais me faça isto! Não envolva mais o meu barco e o meu peixe.

O programa de Lamouche exigia um retorno a Port Noir ao anoitecer do terceiro dia, para descarregar o peixe e dar folga à tripulação até as quatro horas da manhã seguinte, tempo para dormir, fornicar, beber ou, tendo sorte, os três ao mesmo tempo. Logo que enxergaram terra à vista, aconteceu.

As redes estavam sendo recolhidas e dobradas no meio do convés pelo homem da rede e o seu primeiro assistente. O indesejável tripulante a quem insultavam chamando de “Jean-Pierre Sangsue” (o Sanguessuga”) esfregava o convés com uma vassoura de cabo comprido. Os outros dois tripulantes jogavam baldes de água do mar em frente da vassoura mas, com mais freqüência ainda, em frente do Sanguessuga, seu alvo preferido.

Um balde cheio foi jogado muito alto, cegando momentaneamente o paciente de Washburn. Este perdeu o equilíbrio e a pesada vassoura de cerda, dura como metal, voou de suas mãos, a ponta para a frente, fazendo com que as afiadas cerdas raspas em a coxa do homem da rede, que estava ajoelhado.

— Merde alors!

— Désolé — disse o ofensor ca sacudindo a água dos

— Que diabo de coisa você disse!? — gritou ele.

— Disse que sentia muito — respondeu o homem chamado Jean-Pierre. — Diga aos seus amigos para molharem o convés e não jogarem a água em mim..

— Meus amigos não fazem de mim o objeto de sua estupidez!

— Eles foram a causa da minha agora mesmo.

O homem da rede agarrou o cabo da vassoura, pôs-se de pé e o segurou como uma baioneta. — Quer brincar, Sanguessuga?

— Vamos, dê-me a vassoura.

— Com prazer, Sanguessuga. Tome! — E empurrou-a para a frente, fazendo com que as cerdas raspassem o peito do paciente, seu estômago, penetrando pelo tecido da camisa.

Se foi por causa do contato com as cicatrizes que restaram dos antigos ferimentos, ou pela frustração e raiva resultantes dos três dias de insultos e humilhações, ele nunca soube. Sabia apenas que tinha que responder. E sua resposta foi alarmante, até para ele mesmo.

Agarrou o cabo da vassoura com a mão direita, impelindo-o de volta contra o estômago do homem da rede, empurrando-o contra ele no instante do impacto, ao mesmo tempo em que levantava o pé esquerdo do convés e o calcava contra a garganta do homem.

— Tao! — O sussurro gutural saiu dos seus lábios involuntariamente, sem que ele mesmo soubesse o que aquilo significava.

Antes que pudesse entender, ele girava em torno de si mesmo, o pé direito como um aríete golpeando o rim esquerdo do homem.

— Che-sah! — murmurou.

O homem da rede recuou, e em seguida investiu contra ele, furioso com a dor, as mãos estendidas como garras. — Porco!

O paciente se agachou, movendo rapidamente a mão direita para agarrar o braço esquerdo do homem, torcendo-o para baixo e levantando-o em seguida, forçando o braço de sua vítima para cima, girando-o novamente para só depois largá-lo, enquanto forçava o calcanhar contra a parte inferior de suas costas. O francês caiu estendido por cima das redes, esmagando a cabeça contra a base da mureta.

— Mee-sah! — E novamente ele não conhecia o significado de seu grito surdo.

Um dos tripulantes agarrou-lhe o pescoço por trás. O paciente esmurrou com o pulso fechado a região pélvica do homem que o agarrara e se abaixou, segurando com firmeza o cotovelo posto à direita da sua garganta. Deu uma guinada para a esquerda, levantando do chão o atacante, que girou, pernas no ar, enquanto era atirado do outro lado do convés, o rosto e o pescoço presos entre as rodas de um molinete.

Os dois homens restantes saltaram sobre ele, esmurrando-o com os pulsos e joelhos, enquanto o capitão do barco pesqueiro esbravejava repetidamente suas advertências.

— Le docteurl Rappelons le docteur! Va doucement!

As palavras estavam tão deslocadas quanto a visão do capitão. O paciente agarrou o pulso de um dos homens, levando-o para baixo e fazendo-o girar da esquerda para a direita, num único movimento, O homem rugiu de dor. O pulso estava quebrado.

O paciente de Washburn apertou os dedos das mãos, unindo-os, e girando os braços como uma marreta acertou no meio da garganta do homem com o pulso quebrado. Este deu um salto mortal no ar e caiu desfalecido sobre o convés.

— Kwa-sah! — O grito ecoou nas orelhas do paciente.

O quarto homem recuou, arregalando os olhos para aquele louco, que simplesmente olhou para ele.

Terminara. Três dos homens da tripulação de Lamouche estavam inconscientes, severamente punidos pelo que tinham feito. Era pouco provável que algum deles pudesse voltar à doca às quatro horas da manhã.

As palavras de Lamouche foram pronunciadas com espanto e desprezo ao mesmo tempo. — Não sei de onde você veio, mas vai sair já deste barco.

O homem sem memória entendeu a ironia involuntária das palavras do capitão. Eu também não sei de onde vim.

— Agora, você não pode mais ficar aqui — disse Geoffrey Washburn, entrando no quarto meio escurecido. — Acreditei seriamente que podia evitar qualquer ataque sobre você. Mas não posso lhe proteger quando é você quem faz o estrago.

— Foi uma provocação.

— Na mesma extensão do dano infligido? Um pulso quebrado e lacerações que precisaram de pontos na garganta e no rosto de um dos homens e no crânio de outro? Um choque grave e uma lesão ainda indeterminada em uma coxa, para não mencionar ainda um soco em uma virilha que causou distensão nos testículos? Acho que a palavra adequada é matança.

— Teria sido apenas uma simples morte, e eu teria sido o morto, se tivesse acontecido de outra forma. — O paciente fez uma pausa, mas voltou a falar antes que o doutor pudesse interromper. — Acho que devemos conversar. Muitas coisas aconteceram, outras palavras me vieram à cabeça. Devemos conversar.

— Devemos, mas não podemos. Não há tempo. Você tem que partir agora. Já arranjei tudo;

— Agora?

— Sim. Eu lhes disse que você foi à vila, talvez para beber. As famílias estarão à sua procura, irmãos, primos e cunhados. Terão facas, ganchos, talvez uma espingarda ou duas. Quando não o tiverem encontrado voltarão. Não vão parar enquanto não o encontrarem.

— Por causa de uma briga que não comecei?

— Porque você feriu três homens que vão perder pelo menos um mês de salário. E mais uma coisa, infinitamente mais importante.

—O quê?

— O insulto. Alguém de fora, que não é da ilha, provou ser um páreo duro não apenas para um, mas para três respeitáveis pescadores de Port Noir.

— Respeitáveis?

— No sentido físico. A tripulação de Lamouche é considera da a mais dura da praia.

— Isso é ridículo.

— Não para eles. Trata-se da honra deles... Agora, rápido, vamos, junte suas coisas! Tem um barco de Marselha atracado e o capitão concordou em esconder você e depois largá-lo a meia milha do largo ao norte de La Ciotat.

O homem sem memória reteve a respiração. — Então está na hora — disse pensativamente.

— Está na hora — respondeu Washburn. — Acho que sei o que está lhe passando pela cabeça. Uma sensação de desamparo, de estar à deriva sem um leme para mantê-lo no curso. Tenho sido o seu leme e não vou mais estar com você. Não posso mudar isso, mas ouça bem o que estou lhe dizendo, você não está desamparado. Você vai se encontrar.

— Para Zurique — acrescentou ele.

— Para Zurique — concordou o doutor. — Aqui está, ajeitei algumas coisas para você neste pedaço de oleado. Amarre-o em volta de sua cintura.

— O que é isto?

— Todo o dinheiro que tenho, uns dois mil francos. Não é muito, mas vai lhe ajudar no início. E o meu passaporte. Pode servir para alguma coisa. Temos mais ou menos a mesma idade e ele já tem oito anos. As pessoas mudam. Mas não deixe ninguém observá-lo muito de perto. É apenas um papel oficial.

— O que você vai fazer?

— Se não voltar a encontrar você não vou precisar dele nunca mais.

— Você é um homem camarada.

— Acho que você também é... Pelo que pude conhecer. Mas, de agora em diante, nunca o vi antes. De forma que não posso responder por esse homem. Gostaria de poder, mas não é possível.

O homem encostou-se contra a grade, olhando para as luzes de Île de Port Noir, que ficavam para trás. O pesqueiro adentrava a escuridão, como ele mergulhara na escuridão ha quase cinco meses.

E agora mergulhava novamente na escuridão.

 

Nenhuma luz brilhava na costa da França. O clarão mortiço de um resto de luar delineava a orla rochosa. Estavam a duzentas jardas da margem e o pesqueiro balouçava suavemente, respondendo aos movimentos de contracorrente da enseada. O capitão apontou para a margem.

— Há uma extensão de praia entre aquelas duas pontas de pedra. Não é grande, mas você pode alcançá-la se nadar sempre para a direita. Podemos nos deixar arrastar por mais uns trinta ou quarenta pés, não mais. Um minuto ou dois, apenas.

— Já fez mais do que eu esperava. Sou-lhe grato por isto.

— Não há de quê. Costumo pagar meus débitos.

— Faço parte deles?

— E como! O doutor em Port Noir costurou três dos meus tripulantes depois daquela fúria, há cinco meses. Você não foi o único que sobrou, sabe?

— A tormenta? Você me conhece, então?

— Você estava branco como cera na mesa, mas não o conheço e nem quero conhecê-lo. Eu estava sem dinheiro, não tinha pescado nada, e o doutor me disse que eu podia pagar quando estivesse em melhores condições. Você está sendo o meu pagamento.

— Preciso de alguns papéis — o homem falou pressentindo possibilidade de ajuda. — Preciso falsificar um passaporte.

— E por que me diz isso? — perguntou o capitão. — Disse apenas que deixaria em segurança uma encomenda ao norte da margem de La Ciotat. Foi só isso que eu disse.

— Não teria feito isso se não fosse capaz de fazer outras coisas também.

— Não vou levá-lo até Marselha. Não vou me arriscar com as patrulhas. A Súreté tem esquadrões espalhados por todo o ancoradouro. As turmas contra narcóticos são maníacas, ou você paga a eles ou pega vinte anos de cadeia.

— Isso quer dizer que posso conseguir os papéis em Marselha. E você pode me ajudar.

— Eu não disse isso.

— Disse sim. Preciso de um serviço e esse serviço pode ser encontrado no lugar para onde você não vai me levar. Mas é lá que posso encontrar esse serviço, foi o que você disse.

— Mas o que foi que eu disse?

— Que você pode me encontrar em Marselha, se eu puder chegar lá sem a sua ajuda. Só me diga onde.

O capitão do pesqueiro ficou estudando o rosto do paciente e custou a tomar uma decisão. Depois disse: — Há um café na Rua Sarrasin, ao sul do Old Harbor, o Le Bouc de Mer. Estarei lá hoje à noite entre nove e onze horas. Você vai precisar de algum dinheiro, uma parte tem que ser dada adiantada.

— Quanto?

— Depende de você e do homem com quem vai negociar.

— Apenas para ter uma idéia.

— Fica mais barato se você tiver um documento que possa ser trabalhado; de outra forma, é preciso roubar um.

— Mas já lhe disse que tenho um.

O capitão encolheu os ombros. — Mil e quinhentos, dois mil francos. Estamos perdendo tempo?

O paciente lembrou-se do pacote de oleado amarrado à sua cintura. A fraudulência imperava em Marselha, mas só assim podia conseguir um passaporte falsificado. Um passaporte para Zurique. — Podemos negociar — respondeu sem saber por que estava tão confiante. — Até a noite, então.

O capitão perscrutou a linha do mar mal-iluminada. — Só podemos chegar até aqui. Agora é por sua conta. Lembre-se: se não nos encontrarmos em Marselha, nunca o vi antes e você nunca me viu entes. E ninguém da minha tripulação tampouco conhece você.

— Estarei lá. Le Bouc de Mer, Rua Sarrasin, ao sul de Old Harbor.

— Vá com Deus. — O capitão fez um sinal para um dos homens, que estava no leme. As máquinas roncaram debaixo do barco. — A propósito, a clientela lá do café Le Bouc não está acostumada com o dialeto parisiense. Se fosse você, eu falaria mais aspirado.

— Obrigado pelo aviso. — O paciente respondeu enquanto passava as pernas por cima da mureta e entrava na água. Manteve a mochila suspensa e pôs-se a tesourar a água com as pernas, para se manter flutuando. — Até a noite — acrescentou em voz mais baixa, olhando para o casco escuro do pesqueiro.

O capitão já deixava a grade, não havia ninguém para ouvi- lo. Os únicos ruídos vinham das batidas das ondas contra a madeira e do som abafado das máquinas acelerando.

Agora é por sua conta.

Ele se debateu e rodopiou na água fria, pondo-se em direção à margem. Lembrou-se que devia avançar reto em direção à sua direita, para as pontas de pedra. Se o capitão realmente tivesse certeza do que dissera, ele seria levado pela corrente para a praia invisível.

A corrente realmente o levou até lá. Podia sentir a ressaca empurrando seus pés nus para dentro da areia. As últimas trinta jardas foram as mais difíceis de atravessar. A mochila de lona encerada estava quase seca, ele ainda a segurava acima das ondas.

Alguns minutos depois já estava sentado sobre uma duna de capim selvagem vendo os juncos altos vergarem com a brisa do mar aos primeiros raios de luz da manhã. O sol estaria em pé dali a uma hora, e ele teria que se mexer.

Abriu a mochila e tirou um par de botas e duas meias grossas que estavam enroladas com a calça, mais uma camisa de brim ordinário. Em algum lugar no seu passado aprendera a fazer uma mala com grande economia de espaço — a mochila continha muito mais coisa do que se poderia pensar. Onde teria ele aprendido isso? Por quê? As perguntas não cessavam.

Levantou-se e despiu os calções britânicos que Washburn lhe dera. Estendeu-os por cima das folhas dos juncos para secar; não podia se desfazer de nada. Depois, tirou a camiseta e também a estendeu.

Agora, sentado em cima da duna, nu, sentia um regozijo estranho, misturado com uma dor surda no meio do estômago. Era medo, ele sabia. Sabia o porquê do regozijo, também.

Saíra-se bem no primeiro teste. Acreditara no seu impulso — talvez por compulsão — e soubera o que dizer e como responder. Há uma hora não tinha destino certo, sabia apenas que Zurique era o seu objetivo e que teria que passar por divisas e muitos olhos de oficiais. O velho passaporte estava tão longe de parecer seu que até mesmo o mais estúpido funcionário da emigração poderia perceber isso. Mas mesmo que conseguisse entrar na Suíça com ele, não lhe seria de grande valor, pois logo iria sair de lá e qualquer ação mais estranha que fosse percebida ou qualquer objeto seu que fosse retido podia denunciá-lo. Não podia permitir que isso acontecesse. Não agora, antes de saber mais alguma coisa sobre si mesmo. As respostas estavam em Zurique. Tinha que viajar com liberdade e conseguira passar a lábia no capitão do pesqueiro para tornar isso possível.

Você não está desamparado. Você vai se encontrar.

Antes que o dia terminasse ele já teria feito um contato com um profissional para falsificar o passaporte de Washburn e transformá-lo em uma licença para viajar livremente. Era o primeiro passo concreto que daria. Mas antes disso, tinha que pensar no dinheiro. Os dois mil francos que o doutor lhe dera não eram suficientes, talvez até nem dessem para o próprio passaporte. Para que lhe serviria uma licença de viagem se ele não tivesse os meios para poder viajar? Dinheiro. Tinha que arranjar dinheiro. Tinha que encontrar um meio para isso.

Sacudiu a roupa que tirara da mochila, vestiu-a e enfiou os pés nas botas. Depois deitou-se na areia e ficou olhando para o céu, que pouco a pouco se tomava claro. O dia acabara de nascer, e ele também.

Caminhou pelas ruas estreitas de La Ciotat, entrando nas lojas mais para conversar com os vendedores do que outra coisa qualquer. Era uma sensação estranha poder fazer parte da convivência humana, não ser um pária desconhecido, um náufrago retirado do alto-mar. Lembrou-se da advertência do capitão e tornou o seu francês mais gutural, o que lhe permitia passar pela cidade e ser aceito como um estrangeiro qualquer.

Dinheiro

Havia uma parte de La Ciotat que parecia servir a uma rica clientela. As lojas eram mais limpas e as mercadorias mais caras, o peixe mais fresco e a carne mais abundante do que na área do comércio central. Até mesmo os vegetais reluziam, muitos eram exóticos, importados da África ou do Oriente Médio. O lugar tinha um toque de Paris ou de Nice que estava estampado na representação da rotina da classe média de uma comunidade costeira. Um pequeno café, cuja entrada ficava no final de um caminho da lajes, era separado das lojas, dos dois lados, por uma sala de manicure.

Dinheiro.

Entrou em um açougue e percebeu logo que o dono não gostara de sua presença, lançando-lhe um olhar frio. O homem atendia a um casal de meia-idade que, pela maneira de falar e agir, deviam ser empregados domésticos de uma mansão importante. Eram precisos, lacônicos e exigentes.

— A vitela da semana passada estava passável apenas — disse a mulher. — Quero um pedaço melhor desta vez, ou serei forçada a mandar buscar em Marselha.

— E uma noite — o homem acrescentou — o marquês comentou comigo que as postas de cordeiro estavam muito magras. Vou repetir, cuidado com a espessura das postas.

O dono suspirou e deu de ombros, murmurando algumas frases solícitas de desculpas e promessas. A mulher virou-se para o acompanhante com a mesma voz autoritária que usara para o açougueiro:

— Espere pelos pacotes e ponha-os no carro. Vou até a mercearia, vá me buscar lá.

— Está bem, querida.

A mulher saiu — parecia um pombo à procura dos grãos do conflito. No instante em que saiu pela porta o marido virou-se para o dono do açougue, já com maneiras completamente diferentes. Fora-se a arrogância e um sorriso ficara no lugar.

— A rotina diária, eh, Marcel? — disse ele, tirando um maço de cigarros do bolso.

— Nem melhor nem pior. As postas estavam mesmo muito finas?

— Meu Deus, não! Qual foi a última vez em que ele pôde perceber alguma coisa? Você bem sabe.

— Onde está o Marquês do Monte-de-Esterco, agora?

— Está bêbado na porta ao lado, à espera da puta de Toulon. Volto mais tarde para pegá-lo e ajudá-lo a passar pela marquesa sem ser visto, passando pelos estábulos. Até lá, ele não vai poder guiar. Usa a sala de Jean-Pierre em cima da cozinha, sabe?

— Ouvi falar.

À menção do nome Jean-Pierre, o paciente de Washburn virou-se de onde estava, perto do balcão com as aves à mostra. Foi um reflexo automático, imediato. O movimento serviu apenas para que o açougueiro se lembrasse de sua presença.

— O que é? O que você quer?

Era hora de deixar de lado o francês gutural, agora. — Você me foi recomendado por alguns amigos, em Nice. — Falou com um acento mais condizente com o Quai d’Orsay do que o Le Bouc de Mer.

— Oh? — O dono do açougue imediatamente fez um novo juízo dele. Entre a sua clientela, sobretudo entre os mais jovens, havia os que preferiam se vestir de forma oposta ao que a sua situação permitia. A camisa comum Basque estava até na moda nestes últimos tempos. — É novo aqui, senhor?

— Meu barco está atracado aqui, para reparos. Não teremos condições de chegar a Marselha ainda hoje.

— Posso ser-lhe útil?

O paciente riu. — Pode ser útil ao chefe. Eu não me atreveria a pedir-lhe nada. Ele estará por aqui mais tarde e tenho alguma influência sobre ele.

O açougueiro e o amigo riram. — Acho que sim, senhor — o dono do açougue respondeu.

— Vou precisar de uma dúzia de patos novos e, vamos dizer, uns dezoito chatobriãs.

— Pois não.

— Ótimo. Mandarei o nosso cozinheiro diretamente para cá. — Virou-se para o homem de meia-idade. — A propósito, ouvi sem querer... Mas não, não fique preocupado. O marquês não é aquele burro do d’Ambois, não é? Acho que alguém me disse que ele mora aqui por perto.

— Oh, não, não, senhor. — O criado respondeu. — Não conheço o Marquês d’Ambrois. Referia-me ao Marquês de Chamford. Um excelente cavalheiro, senhor, mas com muitos problemas. Tem um casamento cheio de dificuldades, senhor. Muito difícil, não é nenhum segredo.

— Chamford? Sim, acho que já o encontrei. Um baixinho, não é?

— Não, senhor. Na verdade, bem alto. Mais ou menos do seu tamanho, eu diria.

— Verdade?

O paciente logo percebeu as várias entradas e escadas internas do café de dois andares. Foi rápido para memorizar — fez-se de um entregador de frutas e legumes de Roquevaire, um pouco incerto sobre a sua nova rota. Havia duas escadas que davam para o segundo andar — uma saía da cozinha e a outra ficava logo atrás da entrada da frente, no pequeno vestíbulo. Esta era usada pelos patrões para irem aos banheiros de cima. Havia até uma janela pela qual uma pessoa, se quisesse, poderia ver, do lado de fora, quem usasse esta escada especial; e ele estava certo de que se esperasse o tempo suficiente veria duas pessoas subirem por ela. Sem dúvida alguma, subiriam separadamente, nenhum dos dois se dirigiria ao banheiro, mas ao quarto que ficava acima da cozinha. O paciente gostaria de saber qual dos dois automóveis estacionados na rua quieta pertencia ao Marquês de Chamford. Qualquer que fosse o carro, no entanto, o empregado de meia idade, lá no açougue, não teria que se preocupar; seu patrão não iria dirigi-lo.

Dinheiro.

A mulher chegou bem perto de uma, hora. Era uma loura de cabelos varridos pelo vento, com os seios grandes apontando na seda azul da blusa, as pernas longas queimadas de sol, que avançava com passas graciosos, em cima de saltos finos, as coxas e os quadris bem desenhados por debaixo de branca saia justa. Chamford podia ter problemas, mas também tinha bom gosto.

Vinte minutos depois pôde ver a saia branca pela janela; ela se encaminhava para o segundo andar. Menos do que 60 segundos depois uma outra figura apareceu na esquadria da janela — de calça escura e um blazer que vestia um rosto branco cambaleando cautelosamente escada acima. O paciente contou os minutos. Seria bom se o Marquês de Chamford tivesse um relógio.

Segurando a mochila, tão discretamente quanto possível, pelas tiras, o paciente caminhou pela calçada de lajedo até a entrada do restaurante. Lá dentro, virou à esquerda no vestíbulo, desculpando-se com um senhor mais velho que se arrastava penosa mente para subir os degraus, alcançou o segundo andar, virou novamente à esquerda e deu com um longo corredor que levava à parte de trás do edifício, acima da cozinha. Passou pelos banheiros e chegou a uma porta fechada no final do estreito corredor. Permaneceu imóvel, as costas junto à parede. Virou a cabeça e esperou que o velho se aproximasse do banheiro e abrisse a porta, enquanto descia o fecho da calça.

O paciente — instintivamente, sem pensar, na verdade — levantou a mochila e encostou-a no centro da almofada da porta. Segurou-a no lugar, os braços estendidos, deu um passo para trás e, num movimento rápido, bateu com o ombro esquerdo na lona, abaixando a mão direita assim que a porta se abriu e agarrando-a antes que batesse contra a parede. Ninguém lá embaixo, no restaurante, podia ter ouvido aquela silenciosa entrada forçada.

— Nom de Dieu! — gritou ela — Qui est-ce!...

— Silence!

O Marquês de Chamford rolou de cima do corpo nu da loura até a beira da cama, indo estatelar-se no chão. Parecia um personagem de uma ópera cômica. Ainda estava com a camisa engomada, o nó da gravata ainda no lugar, as longas meias pretas de seda; mas tinha só isto no corpo. A mulher se agarrou às cobertas, fazendo o melhor que podia para minorar a indelicadeza do momento.

O cliente do doutor deu suas ordens rapidamente. — Não gritem! Ninguém vai se machucar se fizerem exatamente o que eu disser.

— Minha esposa o contratou! — gritou Chamford, deixando as palavras escorregarem da boca com dificuldade, a visão difícil. — Eu lhe pago mais!

— Podemos começar — respondeu o paciente do Dr. Washburn. — Tire a camisa e a gravata. E as meias. — Avistou a pulseira de ouro brilhando no pulso do marquês. — E o relógio.

Alguns minutos depois, a transformação era completa. As roupas do marquês não lhe caíam perfeitamente, mas ninguém podia negar a qualidade do tecido e a originalidade do corte. Também o relógio — era um Girard Perregaux, e a carteira de Chamford, que continha mais de treze mil francos. As chaves do carro também eram imponentes, engastadas em prata de lei.

— Pelo amor de Deus, dê-me as suas roupas! — suplicou o marquês; a implausibilidade da sua reclamação cheirava a álcool.

— Sinto muito, mas não posso — respondeu o intruso, ajuntando tanto as suas próprias roupas quanto as da loura.

— Você não pode levar as minhas! — exclamou ela.

— Já avisei para falarem baixo.

— Está bem, está bem — continuou ela .—, mas você não pode...

— Claro que posso.— O paciente olhou à volta do quarto. Havia um telefone sobre uma escrivaninha, perto da janela. Foi até lá e torceu o fio, puxando-o da tomada — Agora ninguém poderá perturbá-los — ele acrescentou, enquanto pegava a mochila.

— Você não vai sair assim, entendeu?! — Chamford falou com irritação. — Não vai escapar com isto! A policia vai encontrá-lo

— A polícia?! Você acha realmente que deve chamar a policia? Um inquérito legal seria feito e todas as circunstâncias teriam que ser descritas. Não acho que seja uma boa idéia. Creio que é melhor você esperar pelo camarada que vem lhe buscar mais tarde. Eu o ouvi dizer que iria ajudá-lo a passa pela marquesa entrando pelos estábulos. Levando em consideração tudo isso, realmente acredito que é o melhor que você tem a fazer. Tenho certeza de que você pode apresentar uma história bem melhor do que esta. Não tenho intenção de lhe contradizer em nada.

E assim o ladrão desconhecido saiu, fechando atrás de si a porta arrombada.

Você não está desamparado. Vai encontrar o seu caminho.

Ele já encontrara, e era assustador. O que dissera Washburn? Que suas habilidades e talentos voltariam... mas acho que você não vai poder relacioná-los com as coisas do seu passado. O passado. Que espécie de passado era esse, que lhe havia desenvolvido tais habilidades, todas essas habilidades que demonstrara nas últimas 24 horas? Onde aprendera a machucar, mutilar e aleijar com golpes dos pés? E os dedos entrelaçados, formando um martelo? Como sabia onde precisamente aplicar os golpes? Quem o ensinara a lidar com a mente criminosa de forma a fazê-la, embora relutantemente, agir coagida pela lembrança de um erro? Como ele conseguia cifrar tão rapidamente estas meras implicações e se convencer tão depressa de que as suas intuições estavam certas? Onde teria aprendido a perceber imediatamente a possibilidade de extorsão, só por entreouvir casualmente uma conversa em um açougue? E mais ainda, a levar a cabo o crime? Meu Deus, como ele pôde?

Quanto mais você lutar contra isso, mais vai se atormentar, será pior para você.

Concentrou-se na estrada e no painel de mogno do Jaguar do Marquês de Chamford. A disposição dos instrumentos e dos mostradores não lhe era familiar; o seu passado parecia não lhe ter dado muita experiência com este tipo de carro. Isso queria dizer alguma coisa.

Em menos de uma hora atravessava a ponte por sobre um largo canal; agora tinha a certeza de ter alcançado Marselha. Pequenas casas de pedra parecendo blocos quadrados saindo da água; as ruas estreitas cercadas pelos muros — eram as imediações do velho ancoradouro. Ele o reconhecia muito bem e, no entanto, não o conhecia. Lá longe, bem no alto de uma das montanhas, destacava-se o contorno de uma catedral com uma imagem da Virgem encimando o campanário. Era a Notre-Dame de-la-Garde. O nome lhe veio à mente imediatamente. Vira-a antes — e no entanto nunca a tinha visto.

Oh, Cristo! Já chega!

Poucos minutos depois encontrava-se no palpitante centro da cidade, dirigindo pela movimentada Canebière, com a sua proliferação de lojas caras, enquanto os últimos raios do sol da tarde ressaltavam os cristais coloridos das vitrines dos dois lados da rua. Dos dois lados, os enormes cafés se espalhavam sobre as calçadas. Dobrou à esquerda em direção ao ancoradouro, passando pelos bordéis, as pequenas fábricas e alguns terrenos cercados, cheios de carros prontas para serem transportados para o Norte, para os salões de exposição de Saint-Etienne, Lyons e Paris. E para alguns pontos do Sul, em direção ao Mediterrâneo.

Intuição. Siga a sua intuição. Porque nada podia ser descon siderado. Qualquer recurso tinha que ser imediatamente utilizado, uma pedra tinha valor se pudesse ser usada; um veículo, se fosse necessário para alguém. Escolheu um dos lotes de carros novos e usados, mas onde só tinha carros caros. Parou no meio-fio e saiu do carro. Além da cerca havia uma garagem, os mecânicos em seus macacões andavam de lá para cá, em silêncio, transportando ferramentas. Andou em volta dos carros casualmente, até perceber um homem vestido com um terno claro, de listras finas; sua intuição mandava que se aproximasse dele.

Levou menos de dez minutos; teve que dar poucas explicações, passar um Jaguar para a África do Norte com a garantia de rasurar o número do motor.

As chaves com cabeças de prata foram trocadas por seis mil francos, quase um quinto do valor do automóvel de Chamford. Logo em seguida o paciente do Dr. Washburn pegou um táxi e pediu que o levasse a uma casa de penhores — um lugar onde não lhe fizessem muitas perguntas. A mensagem foi bem entendida, assim era Marselha. Meia hora depois o Giirard Perregaux não estava mais em seu pulso; fora trocado por um Seiko cronógrafo e mais oitocentos francos. Cada coisa tinha um valor de acordo com a sua utilidade; o cronógrafo era à prova de choque.

O pr6ximo passo foi uma pequena loja de departamentos no lado sudeste de La Canebière. As roupas eram escolhidas e tiradas dos cabides e prateleiras, pagas e vestidas, já usadas e surradas, nos provadores. Um blazer mal-assentado e uma calça foram deixados lá.

De um mostruário no chão escolheu uma maleta de couro macio, mais algumas peças adicionais de vestuário, que foram postas dentro da maleta, juntamente com a mochila. O paciente olhou para o relógio novo: quase cinco horas, hora de escolher um hotel confortável. Estava sem dormir há dias, precisava de um bom repouso antes do encontro na Rua Sarrasin, no café Lê Bouc de Mer, onde iria fazer os arranjos para um encontro bem mais importante — o de Zurique.

Deitado na cama, ficou olhando para o teto, O reflexo das luzes da rua formavam desenhos irregulares na superfície lisa e branca. A noite chegara depressa em Marselha e lhe trouxera uma certa sensação de liberdade. Era como se a escuridão fosse uma imensa manta acobertando a impiedosa luz do dia, que desvelava tudo com muita rapidez e presteza. Aprendera mais uma coisa a seu respeito: sentia-se melhor à noite. Como um gato faminto, podia vasculhar e pilhar melhor no escuro. Mas havia uma contradição nisso: durante os meses que passara em Île de Port Noir ansiava ardentemente pela luz do dia, ávido, esperava o amanhecer desejoso de que a escuridão se dissipasse.

Coisas novas estavam acontecendo, ele estava mudando.

Algumas coisas já tinham acontecido. Acontecimentos que desmentiam o conceito de que pilhar era mais fácil à noite. Doze horas atrás ele estava em um barco pesqueiro, no Mediterrâneo, com um objetivo em mente e dois mil francos amarrados à cintura. Dois mil francos, quantia menor do que quinhentos dólares americanos, de acordo com o câmbio do dia fixado no saguão do hotel. E agora já tinha uma bagagem contendo algumas peças de roupa boa e estava deitado em uma cama de hotel de boa qualidade com um pouco mais de vinte e três mil francos guardados em uma carteira Louis Vuitton, que pertencera ao Marquês de Chamford. Vinte e três mil francos... quase seis mil dólares.

De onde viera? Como pudera fazer tudo o que acabara de fazer?

Chega! Chega!

A Rua Sarrasin era tão antiga que se ficasse em outra cidade qualquer já teria sido designada como um marco; era uma artéria larga, de pedras, que ligava ruas que haviam sido feitas muitos séculos depois. Assim era Marselha, onde o antigo coexistia com o velho, ambos destoando do novo. A Rua Sarrasin não tinha mais do que cem pés de comprimento, estava congelada no tempo, entre as paredes de pedra dos edifícios que davam frente para o mar, desprovida de luzes, aprisionando a neblina que vinha do ancoradouro. Era uma rua escondida, propícia para breves encontros entre homens que não queriam ser vistos.

Som e luz vinham do Le Bouc de Mer. O café ficava mais ou menos no centro do corredor largo; o prédio fora um edifício de escritórios do século XIX. Algumas paredes tinham sido demolidas para a construção de um grande salão de bar com várias mesas no centro; algumas paredes foram deixadas formando pequenos cubículos para conversas menos públicas. Era a correspondência que o pessoal do cais encontrara para as salas privadas dos restaurantes da Rua La Canebiêre; os cubículos eram fechados com cortinas, e não com portas, de acordo com as condições dos seus freqüentadores.

O paciente andou por entre as mesas lotadas, abrindo caminho por entre as camadas de fumaça, desculpando-se enquanto tentava abrir passagem entre os pescadores, soldados bêbados e prostitutas de rosto vermelho, à cata de camas para descansar e de alguns francos. Espiou para dentro de uma série de cubículos — era um marujo à procura dos seus companheiros — até encontrar o capitão do pesqueiro, que estava com outro homem à mesa. Era magro, pálido, os olhos apertados e bisbilhoteiros como os de um furão curioso.

— Sente-se — disse o casmurro capitão. — Pensei que viesse antes.

— Combinamos entre nove e onze. Faltam quinze para as onze.

— Você estica o tempo; pode pagar o uísque, então.

— Com prazer. Peça alguma coisa decente, se é que eles têm. O homem magro e pálido sorriu. Tudo ia ficar bem.

Eles estavam bem. O passaporte em questão era, naturalmente, um dos mais difíceis do mundo para se adulterar, mas com grande cuidado, bom equipamento e maestria o trabalho poderia ser feito.

— Quanto?

— Estas habilidades — mais o equipamento — não ficam muito barato. Duzentos e cinqüenta francos.

— Para quando?

— Bem, o cuidado, a maestria, tudo isso toma tempo. Três ou quatro dias. E assim mesmo tenho que apressar o artista, que vai me dar uma bronca.

— Mais mil francos para me entregar amanhã.

— Às dez da manhã — respondeu imediatamente o homem pálido. — Vou aceitar a transgressão.

— E os mil — interrompeu o carrancudo capitão. — O que você conseguiu em Port Noir? Diamantes?

— Talento — respondeu o paciente sem entender muito bem

— Vou precisar de uma foto — disse o contato.

— Dei uma parada em uma galeria e fiz essa — respondeu o paciente tirando do bolso da camisa uma pequena fotografia quadrada. — Com todo esse caro equipamento, acho que você pode dar um jeito nela.

— Roupa fina — disse o capitão, passando a foto para o homem pálido.

— Bem talhada — o paciente concordou com ele.

Combinaram o lugar do encontro para a manhã seguinte, a bebida foi paga, e o capitão escorregou quinhentos francos por debaixo da mesa. A entrevista terminara, o comprador deixou o cubículo e começou a abrir caminho pelo salão apinhado, passando pelo alarido das mesas, pelas camadas de fumaça, em direção à porta.

Foi tão repentino, tão rápido, tão inesperado, que nem teve tempo para pensar. Só reagir.

Foi um esbarrão brusco, acidental, mas o olhar que se fixou nele não tinha nada de acidental, Os olhos esbugalhados pareciam querer saltar da órbita, arregalados, descrentes do que viam. Uma expressão à beira da histeria.

— Não! Oh, meu Deus, não! Não pode... — O homem parou no meio da multidão, o paciente cambaleou para a frente, afastando com a mão o ombro do homem.

— Espere aí!

O homem alteou a voz novamente, encaixando o V formado pelo polegar e os demais dedos no pulso do paciente, tirando-lhe a mão do ombro. — Você! Você morreu! Você não podia ter sobrevivido!

— Sobrevivi. O que sabe você?

O rosto agora se contorcia em uma massa retorcida em fúria, uma expressão maligna nos olhos, a boca aberta sugando o ar, os dentes amarelos descobertos, que pareciam dentes de animal. De repente, o homem puxou uma faca. Ouviu-se o barulho da lâmina saindo do cabo, mesmo naquela zoeira. O braço estendeu-se para a frente, a lâmina era uma extensão da mão que a segurava, movendo-se em direção ao estômago do paciente. — Sei que vou dar cabo de tudo! — sussurrou o homem.

O paciente girou o braço direito por baixo, com um pêndulo, varrendo para longe todos os objetos que encontrava na frente. Depois, rodou nos calcanhares, impulsionando o pé esquerdo para cima, fincando o calcanhar no osso pélvico do atacante.

— She-sab! — o eco em seus ouvidos era ensurdecedor.

O homem cambaleou para trás, caindo por sobre um trio de bebedores. A faca foi ao chão, e logo que foi vista ouviram-se gritos, homens afluindo para o ponto da briga, punhos e mãos lutando para separar os combatentes.

— Saiam já daqui!

— Vão discutir em outro lugar!

— Não queremos que a polícia entre aqui, seus bêbados desgraçados.

A violenta linguagem vulgar de Marselha se elevou por entre o ruído cacófono do Le Bouc de Mer. O paciente foi cercado. Observou o seu quase assassino avançando pela multidão, segurando a virilha, forçando um caminho para a saída. A porta pesada girou e o homem desapareceu na escuridão da Rua Sarrasin.

Alguém que pensava que ele estava morto — queria que ele estivesse morto — agora sabia que ele estava vivo.

 

O vôo do Caravelle da Air France para Zurique já estava com todos os lugares da classe econômica lotados. As poltronas estreitas se tornavam ainda mais desconfortáveis com a turbulência que fustigava o avião. Um bebê chorava nos braços da mãe, outras crianças choramingavam, engolindo seus gritos de medo, enquanto os pais sorriam tentando transmitir-lhes uma tranqüilidade que não tinham. A maior parte dos demais passageiros estava em silêncio, alguns bebendo seu uísque mais rapidamente do que de costume, outros forçando um riso nas gargantas amedrontadas, falsas bravatas que só serviam para enfatizar a insegurança, em vez de disfarçá-la. Um vôo terrível significava coisas diferentes para diferentes pessoas, mas sempre havia o indispensável pensamento do terror. Quando as pessoas se encerram em um tubo de metal a trinta mil pés, do chão, tornam-se vulneráveis. Um mergulho mais prolongado e ele estaria caindo verticalmente em direção à terra. E algumas perguntas fundamentais acompanham o terror absoluto. Que pensamentos vêm à cabeça das pessoas em uma situação dessas? Como as pessoas reagem?

Tentou descobrir, era muito importante. Estava sentado próximo à janela, os olhos postos na asa da aeronave, observando a larga extensão de metal se encurvar e vibrar sob o impacto brutal dos ventos. As correntes se entrechocavam, encurralando o tubo feito pelas mãos do homem, para domesticá-lo, torná-lo submisso, de forma a não esquecer que era apenas uma partícula microscópica na imensa vastidão do firmamento. Uma pitada a mais de pressão sobre a flexão de tolerância permitida e a asa se arrebentaria, os propulsores romperiam do corpo cilíndrico, retalhando as asas. Um impacto de rebites se soltando, a explosão e, em seguida, o sensacional mergulho.

O que ele faria? O que pensaria? Alguma coisa além do medo incontrolável de morrer e ser esquecido — existiria alguma coisa mais? Era nisso que ele devia se concentrar, essa era a projeção que Washburn tanto enfatizava em Port Noir. As palavras do médico lhe vieram à memória.

Sempre que você perceber uma situação de estresse — e tiver tempo — esforce-se ao máximo para projetar-se nela. Faça associações tão livremente quanto puder, deixe que as palavras e as imagens encham sua mente. Nelas você poderá encontrar algumas chaves.

Continuou a olhar concentradamente para fora da janela, tentando conscientemente puxar seu inconsciente, firmando os olhos na violência natural, desencadeada além do vidro, destilando os movimentos, silenciosamente se “esforçando” para permitir que as suas reações puxassem palavras e imagens.

Elas chegaram — devagar. Lá estava a escuridão, novamente, e o som cortante do vento estilhaçando-lhe os ouvidos, contínuo, crescendo em intensidade até que pensou que sua cabeça iria explodir. Sua cabeça... Os ventos açoitavam-lhe a face esquerda, queimavam-lhe a pele, ele era forçado a levantar o ombro esquerdo para proteger o rosto... Ombro esquerdo. Braço esquerdo. O seu braço estava levantado, os dedos enluvados da mão esquerda apertavam uma borda lisa de metal, a mão direita segurava uma... correia, ele estava se segurando em uma correia, esperando por alguma coisa. Um sinal... uma lanterna ou uma batida no ombro, os dois talvez. Um sinal! Acendeu! Ele mergulhou. Para dentro da escuridão, do vazio, o corpo tombando, girando, sendo atirado para dentro da noite escura. Ele acabara de... de saltar de pára-quedas!

— Etes-vous malade?

Seu devaneio insano foi subitamente interrompido, o nervoso passageiro ao seu lado tocara-lhe o braço esquerdo — o que estava levantado, com os dedos da mão esticados, como se estivessem tentando resistir, rígidos, na mesma posição. Atravessado ao peito, o baço direito comprimia o tecido do seu paletó, a mão direita segurava a lapela com força, pregueando o pano. Na testa corria um fio de suor. Acontecera. Aquela alguma- coisa-mais chegara, efêmera, insana — fora focada.

— Pardon — respondeu ele abaixando os braços. — Un mauvais rêve — acrescentou ele casualmente.

O tempo se abriu e o Caravelle estabilizou-se no ar. Os sorrisos nos rostos atormentados das aeromoças voltaram a ser naturais, todo o serviço de bordo prosseguiu, enquanto os desconcertados passageiros se entreolhavam.

O paciente pôs-se a observar à sua volta, mas não chegou a nenhuma conclusão. Estava absorvido pelas imagens e sons que tão claramente tinham se definido nos olhos e ouvidos de sua mente. Atirara-se de um avião... Era noite... Sinais, o metal e as correias eram intrínsecos ao seu salto. Saltara de pára-quedas. Onde? Por quê?

Pare de se atormentar!

Com o propósito de desviar a mente daquela loucura, tirou do bolso do paletó o passaporte falsificado e o abriu. Como era de se esperar, o nome Washburn permanecera, era bastante comum, e seu possuidor lhe dissera que não daria nenhuma bandeira. O Geoffrey R., no entanto, fora mudado para George P., as eliminações e preenchimentos dos intervalos na linha tinham sido habilmente trabalhados. Um trabalho perfeito. A colocação da foto também fora feita com grande habilidade, não parecia mais um retrato em papel barato, feito por uma máquina em uma galeria de diversões.

Os números de identificação, claro, eram completamente diferentes, garantindo não dar alarme em nenhum computador do serviço de imigração. Pelo menos até que o portador apresentasse o documento para a primeira inspeção. Dali para a frente, tudo ficava sobre a responsabilidade do comprador. Paga-se caro para se ter esta garantia, tão caro quanto pela mestria e pelo equipamento, pois é preciso ter contatos com a Interpol e as casas de triagem da imigração. Guardas da alfândega, especialistas em computadores e funcionários de todas as redes das fronteiras da . Europa eram regularmente pagos por suas informações vitais. Raramente cometiam enganos. Se os cometessem não era fora a de propósito perderem um olho ou um braço — esses eram os ossos da falsificação de papéis.

George P. Washburn. Não se sentia bem com o nome. O dono do passaporte original o instruíra muito bem nos princípios da projeção e associação. George P. era uma corruptela de Geoffrey R. — um homem que. fora devorado por uma compulsão que se fundamentava na fuga, na fuga da identidade. E esta era a última coisa que o seu paciente queria, ele daria a vida para saber quem era.

Daria mesmo?

Não tinha importância. A resposta estava em Zurique. Em Zurique havia...

— Mesdames et messieurs. Nous commençons notre descente pour l’aéroport de Zurich.

Ele sabia o nome do hotel: Carillon du Lac. Dissera instintivamente para o chofer do táxi. Lera em algum lugar? Talvez o nome estivesse em uma daquelas listas dos folhetos de Boas- vindas-a-Zurique que estavam dentro das bolsas elásticas em frente ao seu assento, no avião.

Não. Ele conhecia o saguão do hotel, a madeira pesada, escura e envernizada lhe era... de alguma forma, lhe era familiar. E as imensas janelas de espelho que davam para o Lago Zurique. Já estivera lá antes, tinha se dirigido para onde agora se dirigia — um balcão com o tampo de mármore — há muito tempo atrás.

Tudo foi confirmado pelas palavras ditas pelo funcionário por trás da escrivaninha. As palavras lhe soaram com uma explosão.

— É um prazer vê-lo novamente, senhor. Faz tempo que não nos visita.

Faz? Quanto? Por que você não diz o meu nome? Pelo amor de Deus! Eu não o conheço! Não sei quem sou! Ajude-me! Por favor, ajude-me!

— É, faz mesmo — respondeu ele. — Pode me fazer um favor? Torci o pulso, não consigo escrever. Pode preencher para mim o cartão de registro? Farei o possível para assinar. — Prendeu a respiração; e se o educado cavalheiro lhe pedisse para repetir o nome, ou soletrá-lo?

— Pois não. — O funcionário puxou o cartão e pôs-se a escrever. — Gostaria de ver o médico do hotel?

— Mais tarde, talvez. Agora não. —. O funcionário continuou a escrever e depois levantou o cartão, virando-o do lado em que ele devia assinar.

Sr. J. Bourne. Nova York, N. Y. — U.S.A.

Olhou para o nome, petrificado, hipnotizado pelas letras. Tinha um nome — um pedaço de nome. E um país, bem como uma cidade, onde era residente.

J. Bourne. John? James? Joseph? O que significaria o J.?

— Alguma coisa está errada, Herr Bourne? — o funcionário perguntou.

— Errada? Não, nada. — Pegou a caneta, lembrando-se de simular certa dificuldade para escrever. Será que pediriam que ele escrevesse por extenso o nome todo? O primeiro nome, inclusive? Não, assinaria exatamente como o funcionário escrevera no cartão.

Sr. J. Bourne.

Escreveu o nome tão naturalmente quanto pôde, deixando a mente evadir-se, permitindo que quaisquer imagens ou pensamentos pudessem disparar livremente. Não apareceu nenhum. Estava apenas assinando um nome desconhecido, não sentiu nada.

— O senhor me deixou preocupado, mein Herr —- disse o funcionário. — Pensei que havia cometido um engano. Foi uma semana muito movimentada esta, e hoje um dia mais movimentado ainda. Mas, na verdade, eu estava quase certo.

E se ele tivesse cometido um engano? O Sr. J. Bourne, da cidade de Nova York, U.S.A., não se incomodou em pensar nesta possibilidade. — Jamais me ocorreu duvidar da sua memória... Herr Stossel — o paciente respondeu, dando uma rápida olhadela para o cartão de em-serviço, que estava do lado esquerdo, sobre o balcão. O homem por detrás da escrivaninha era o subgerente do Carillon du Lac.

— O senhor é muito gentil. — O subgerente inclinou-se para ele. — Presumo que vai solicitar as condições costumeiras de sua estadia conosco?

— Algumas podem ter mudado — respondeu J. Bourne. — Vejamos.

Quem telefonar ou perguntar pelo senhor na portaria deve ser informado que o senhor não se encontra no hotel no momento. A ocorrência, no entanto, deve ser-lhe comunicada imediatamente. A única exceção deve ser feita com relação à sua firma em Nova York, a Treadstone Seventy-One Corporation, se bem me recordo.

Outro nome! Este, ele poderia localizar com uma chamada telefônica de longa distância. Formas fragmentárias começavam a se encaixar. O pânico começava a voltar-lhe.

— Pode continuar assim. Não me esquecerei da sua eficiência.

— Estamos em Zurique — respondeu o cortês funcionário, levantando os ombros. — O senhor sempre foi muito generoso, Herr Bourne. Page — hierher, bitte!

Seguiu o pajem até o elevador — algumas coisas já estavam mais claras. Tinha um nome e compreendia agora por que seu nome era tão bem lembrado pelo subgerente do Carillon du Lac; tinha um país, uma cidade e uma firma para a qual trabalhava — uma firma que o havia empregado, por qualquer razão. E sempre que vinha a Zurique algumas precauções eram tomadas para protegê-lo de visitantes inesperados ou indesejados. Isso ainda não compreendia bem. Porque ou alguém se protegia completamente ou nem se dava ao trabalho de proteger-se, afinal. Qual era a vantagem de um processo de segurança tão impreciso, tão vulnerável à penetração? Parecia-lhe um serviço de segunda mão, sem valor, como se uma criança pequena estivesse brincando de esconde-esconde. Onde estou? Tente me achar. Vou falar alto para lhe dar uma dica.

Mas isso não era profissional, e o que ele aprendera durante essas últimas 48 horas é que era um profissional. Do quê, não tinha a menor idéia. Só tinha certeza da posição, uma boa posição.

A voz da telefonista de Nova York sumia da linha de vez em quando. Sua conclusão, no entanto, era exasperadamente clara. E terminante.

— Não consta na lista nenhuma companhia com este nome, senhor. Consultei os guias mais recentes, consultei as listas de telefones particulares e não existe esta Treadstone Corporation — nem mesmo nada parecido com Treadstone e com números seguindo o nome.

— Talvez tenham desistido muito cedo...

— Não há nenhuma firma ou companhia com esse nome, senhor. Repito, se o senhor tem um primeiro ou segundo nome, ou o tipo de negócio que a firma faz, talvez possa lhe ajudar.

— Não tenho. Só o nome: Treadstone Seventy-One, Cidade de Nova York.

— É um nome muito estranho, senhor. Tenho certeza que, se constasse da lista, seria simples e fácil localizá-la. Sinto muito.

— Agradeço pelo trabalho que teve — respondeu J. Bourne colocando o fone no gancho. Era inútil continuar. O nome devia ser um código qualquer, palavras inventadas por alguém, e que lhe davam acesso a um hotel não muito acessível. E as palavras podiam ser usadas por qualquer um, não importando onde ele havia situado o nome, a companhia-fantasma. E, assim, a localização em Nova York também era insignificante. De acordo com a telefonista a cinco mil milhas dali, era.

Foi até a cômoda onde deixara a carteira Louis Vuitton e o cronógrafo Seiko. Pôs a carteira no bolso e o relógio no pulso, olhou-se no espelho e murmurou:

— Você é J. Bourne, cidadão dos Estados Unidos, residente na cidade de Nova York, e é perfeitamente possível que os números“zero-sete–dezessete-doze–zero-quatorze–vinte e seis-zero” sejam a coisa mais importante da sua vida.

O sol brilhava, infiltrando-se pelas copas das árvores que acompanhavam toda a elegante Bahnhofstrasse, refletindo-se nas vitrinas das lojas e criando blocos de sombra onde os edifícios dos grandes bancos vetavam seus raios. Era uma rua onde a solidez e a fortuna, a segurança e a arrogância, a determinação e um certo toque de frivolidade coexistiam lado a lado. E o paciente do Dr. Washburn já andara por aquelas calçadas antes.

Caminhou rápido em direção à Burkli Platz, a praça que dava para o lago de Zurique, o Zurichsee, com os seus inúmeros embarcadouros diante do cais, cercado por jardins que no forte calor do verão abriam-se em flores. Podia vê-las com os olhos da mente, as imagens chegavam-lhe com facilidade, mas sem pensamentos, sem memória.

Virou de novo para Bahnhofstrasse, sabendo instintivamente que o Gemeinschaft Bank era um edifício ali por perto, de pedras claras. Ficava do outro lado da rua onde ele andara, passando deliberadamente do edifício. Aproximou-se das pesadas portas de vidro e empurrou uma folha, que se abriu facilmente. O chão era de mármore marrom, e ele sentia que já estivera lá antes, mas não era uma imagem tão forte quanto as demais. E tinha a estranha sensação de que devia evitar o Gemeinschaft.

Más não agora.

— Bonjour, monsieur. Vous desirez...? — O homem que lhe dirigia a palavra estava vestido com um fraque; a boutonniêre vermelha era o símbolo de sua autoridade. O uso do francês se explicava pelas roupas do cliente; até os mais subordinados e menores anões de Zurique eram bons observadores.

— Tenho negócios pessoais e confidenciais para discutir — respondeu J. Bourne, em inglês. Mais uma vez espantava-se com as palavras que lhe saíam tão naturalmente da própria boca. Usou o inglês por dois motivos: queria ver a expressão daquele gnomo ao perceber o seu erro e não queria que houvesse qualquer desentendimento sobre tudo o que dissesse durante a próxima hora.

— Pardon, sir — disse o homem, as sobrancelhas levemente arqueadas, estudando o sobretudo do cliente. — O elevador à esquerda, segundo andar. O recepcionista vai atendê-lo.

O recepcionista era um homem de meia-idade, cabelos cortados rente à cabeça e óculos com aros de tartaruga. Sua expressão era severa, os olhos rigidamente curiosos. — O senhor tem constantemente negócios pessoais e confidenciais conosco, senhor? — perguntou, repetindo as palavras do recém-chegado.

— Sim.

— A sua assinatura, por favor — disse o funcionário, entregando-lhe um papel timbrado do Gemeinschaft, com duas linhas em branco centradas no meio da página.

O cliente entendeu: não era necessário o nome. Os números escritos a mão tomam o lugar do nome... eles constituem a assinatura do correntista. Procedimento normal. Washburn.

O paciente escreveu os números por extenso, relaxando a mão para que a escrita fosse livre. Depois devolveu o papel para o recepcionista, que o estudou cuidadosamente, levantou-se da cadeira e apontou para uma fila de portas estreitas com painéis de vidro fosco. — Dirija-se à quarta sala, senhor, e alguém logo há atendê-lo.

— A quarta sala?

— A quarta porta à esquerda. Ela se fechará automaticamente.

— Isso é necessário?

O recepcionista olhou-o um pouco surpreso. — Está de acordo com a sua própria exigência, senhor — respondeu polida- mente, um tom de surpresa na voz estranha. — Esta é uma conta com três zeros. Em geral os correntistas do Gemeinschaft que têm este número telefonam antes para que uma entrada particular possa ser preparada.

— Sei disto — o paciente de Washburn mentiu com uma casualidade que nem mesmo ele percebeu. — É que tenho pressa.

— Vou transferir isso para Verificações, senhor.

— Verificações?! — O Sr. Bourne, da Cidade de Nova York, EUA, não pôde evitar a surpresa; a palavra soara como um alarma.

— Verificação de Assinatura, senhor. — O homem ajustou os óculos, dando um passo em direção a uma mesa perto de sua escrivaninha. — Sugiro que espere na Sala Quatro, senhor. — A sugestão não era um pedido, mas uma ordem, o comando dado pelos olhos pretorianos.

— Por que não? Diga-lhes para se apressarem, sim? — O paciente atravessou a sala em direção à quarta porta, abriu-a e entrou. A porta fechou-se automaticamente, pôde ouvir o dique da fechadura. J. Bourne olhou para o painel de vidro fosco. Não era uma simples vidraça de vidro; havia uma rede de finos arames tecidos por baixo da superfície. Com certeza, se ela fosse quebrada um alarme seria disparado. Ele estava em uma cela, esperando ser chamado.

O resto da pequena sala era revestido com muito bom gosto e cuidadosamente mobiliado — duas poltronas de couro estavam postas uma ao lado da outra e na frente havia um pequeno canapé flanqueado por duas mesas antigas. No lado oposto havia uma segunda porta, que contrastava totalmente com a primeira — era de aço cinza. Revistas recentes e jornais em três línguas estavam sobre as mesas. O paciente sentou-se e pegou uma edição parisiense do Herald Tribune. Lia as palavras impressas sem conseguir absorver nada do seu sentido. A porta se abriria a qualquer momento, a mente se consumia em pensamentos de estratégia. Estratégia sem memória, apenas instintiva.

Finalmente, a porta de aço se abriu e apareceu um homem alto, magro, feições aquilinas e cabelos de cor cinza, meticulosa- mente arrumados. Seu rosto era aristocrático, pronto para servir a um igual que precisava de sua experiência. Estendeu a mão. Falava um inglês refinado, melífluo, escondendo um pouco a entonação suíça.

— Estou honrado em vê-lo. Perdoe a demora; na verdade, foi um tanto engraçado.

— Em que sentido?

— Tenho a impressão de que o senhor assustou um pouco Herr Koenig. Não é muito comum uma conta de três zeros chegar sem um aviso prévio. Ele é bastante formal em seus hábitos, o senhor compreende, o incomum pode arruinar os seus dias. Por outro lado, torna o meu mais agradável. Sou Waither Apfel. Por favor, entre.

O funcionário do banco soltou a mão do paciente e fez um gesto em direção à porta de aço. A sala era uma extensão da cela e tinha a forma de um V. Revestimento escuro, móveis pesados e confortáveis e uma grande escrivaninha que ficava em frente a uma janela ainda maior, de onde se avistava toda a Bahnhofstrasse.

— Sinto tê-lo incomodado — disse J. Bourne. — Tenho pressa, só isso.

— Sim, ele me contou isso. — Apfel deu a volta na escrivaninha e fez um gesto com a cabeça em direção à poltrona de couro à sua frente. — Sente-se, por favor. Mais uma ou duas formalidades apenas e poderemos discutir o seu assunto, o seu negócio. — Os dois homens sentaram-se. No mesmo instante o funcionário do banco pegou uma ficha branca e inclinou-se sobre a escrivaninha, entregando-a ao cliente do Gemeinschaft. Preso nela estava um papel timbrado; em vez das duas linhas em branco, no entanto, havia dez, que começavam logo abaixo do timbre e continuavam quase até o final da folha. — Sua assinatura, por favor. Cinco apenas serão suficientes.

— Não estou entendendo. Acabei de fazer isto.

— E muito bem. A Verificação confirmou.

— Então, por que outra vez?

— Uma assinatura pode ser praticada até o ponto em que uma única interpretação seja aceitável. No entanto, sucessivas repetições da mesma assinatura resultarão em imperfeições se ela hão for autêntica. Um examinador grafológico poderá detectá-las imediatamente, porém tenho certeza que isso não lhe diz respeito. — Apfel sorriu, enquanto colocava uma caneta na beira da escrivaninha. — Nem a mim, francamente, mas Koenig insiste.

— É um homem cauteloso — disse o paciente — tomando a caneta e pondo-se a escrever. Já havia começado a quarta linha quando o bancário o interrompeu.

— Isso é suficiente, mais será perda de tempo. — Apfel estendeu a mão para a pasta. — Na Verificação disseram que o senhor não é nem mesmo um caso limite. Logo que receberem isto, a conta será entregue. — Inseriu a folha de papel pela abertura de uma esquadria de metal que ficava no lado direito de sua escrivaninha e apertou um botão. Um raio de luz brilhante acendeu e apagou-se em seguida. — Isto transmite as assinaturas diretamente para o grafólogo — continuou o bancário —, que, naturalmente, já está programado. Francamente, tudo isso é um pouco descabido. Ninguém que tivesse sido prevenido de nossas precauções concordaria em fazer as assinaturas adicionais se por acaso fosse um impostor.

— Por que não? Tendo passado por tudo isso, por que não arriscar?

— Há apenas uma entrada para este escritório e, portanto, invertendo a situação, apenas uma saída. Tenho certeza de que ouviu o barulho da trava automática da porta, na sala de espera.

— E também vi a malha de arame no vidro — acrescentou o paciente.

— Então, o senhor entende. Um impostor logo cairia na armadilha.

— E se ele tivesse uma arma?

— O senhor não tem.

— Ninguém me revistou.

— O elevador o revistou. De quatro ângulos diferentes. Se o senhor estivesse armado, a máquina pararia entre o primeiro e o segundo andar.

— Vocês são muito cautelosos.

— Tentamos manter um bom serviço — O telefone tocou. Apfel respondeu. — Sim?... Entre. O bancário olhou para o seu cliente. — Sua pasta está aqui.

— Foi rápido.

— Herr Koenig já a havia pedido há alguns minutos. Ele estava apenas à espera do despacho do grafólogo. — Apfel abriu uma gaveta e pegou uma argola cheia de chaves. — Tenho certeza de que ele está desapontado. Estava quase certo de que alguma coisa estava errada.

A porta de aço se abriu e o recepcionista entrou trazendo um recipiente de metal preto, que colocou sobre a escrivaninha, perto de uma bandeja com uma garrafa de Perrier e dois copos.

— O senhor está gostando de sua estadia em Zurique? — perguntou o bancário para preencher o silêncio.

— Muito. Meu quarto dá para o lago. É uma bela vista, muito calma, quieta.

— Esplêndida! — disse Apfel, enchendo um copo para o cliente. Herr Koenig saiu, a porta se fechou e o bancário voltou ao assunto do negócio.

— A sua conta, senhor — falou enquanto selecionava uma chave da argola. — Posso destravar a caixa ou o senhor mesmo prefere fazê-lo?

— Não, pode continuar. Abra-a.

O bancário olhou-o. — Eu disse destravar, não abrir. Não tenho este privilégio, nem quero tal responsabilidade.

— Por que não?

— No caso de sua. identidade estar listada, não é da minha posição tomar conhecimento dela.

— E supondo que eu queira fazer negociações, transferir algum dinheiro, ou mandá-lo para alguém?

— Isso poderia ser efetuado com a sua assinatura numérica em um formulário de retirada.

— Ou enviar para outro banco — fora da Suíça, para mim?

— Então, é de praxe requerer-se um nome. Sob tais circunstâncias uma identidade seria tanto minha responsabilidade quanto meu privilégio.

— Abra-o.

Apfel abriu o cofre. O paciente do dr. Washburn segurou a respiração e sentiu uma dor aguda na boca do estômago. O banqueiro retirou um maço de extratos de conta presos por um grande grampo de prender papéis e passou os olhos pelas colunas do lado direito no alto das páginas, mantendo a expressão facial quase inalterada. O lábio inferior repuxou um pouco, vincando os cantos da boca. Curvou-se para a frente e entregou as folhas para o dono.

Abaixo do timbre do Gemeinschaft estavam algumas palavras datilografadas em inglês, a língua do cliente:

Conta: Zero — Sete — Dezessete — Doze — Zero — Quatorze

— Vinte e seis — Zero

Nome: Restrito às Instruções Legais e ao Correntista

Admissão: Lacrado em Envelope Separado

Capital Corrente em Depósito: 7.500.000 Francos

O paciente respirou devagar, olhando espantado para a cifra. Embora pensasse que estava preparado para qualquer surpresa possível, ele não estava preparado para aquilo. Era tão amedrontador quanto tudo por que passara nos últimos cinco meses. Calculando por cima, a quantia era de mais ou menos cinco milhões de dólares.

$ 5.000.000!

Como? Por quê?

Tentando controlar um começo de tremor na mão, folheou os formulários de entrada. Eram muitos e as somas, extraordinárias, nunca inferiores a 300.000 francos. Os depósitos eram feitos em intervalos de cinco a oito semanas e haviam começado há vinte e três meses. Chegou ao último formulário, que marcava o primeiro depósito: era uma transferência de um banco de Singapura e a maior entrada — dois milhões e setecentos mil dólares malaios, convertidos em 5.175.000 francos suíços.

Por trás deste último formulário percebeu o contorno de um envelope bem mais curto do que o tamanho da folha. Levantou o papel, o envelope tinha uma tarja preta e algumas palavras datilografadas:

Identidade:        De acesso exclusivo do proprietário. 0

Restrições Legais:        Acesso – Funcionário Registrado, Treadstone Seventy-One Corporation, o Portador Apre-

            sentará Instruções por Escrito do Proprietário.

Sujeito a Verificações.

— Gostaria de verificar isto — disse o cliente.

— É propriedade sua — replicou Apfel. — Posso lhe assegurar que permaneceu intacto.

O paciente retirou o envelope da pasta e o abriu. Um selo do Gemeinschaft lacrava o envelope; nenhuma das letras em relevo fora danificada. Abriu o envelope, tirou o cartão de dentro e leu:

Correntista:       Jason Charles Bourne

Endereço:         Não consta.

Cidadania:        EUA.

Jason Charles Bourne.

Jason.

O J era de Jason! O seu nome era Jason Bourne. O Bourne não lhe tinha significado nada, o J. Bourne também não, mas a combinação Jason e Bourne eram obscuras engrenagens ajustadas em um engate perfeito. Podia aceitá-lo; aceitou-o. Era Jason Charles Bourne, americano. Mesmo assim, ainda podia ouvir o coração batendo, a vibração nos ouvidos era ensurdecedora, a dor no estômago, mais aguda. O que era? Por que a sensação de que estava mergulhando no escuro novamente, nas águas escuras outra vez?

— Alguma coisa está errada? — perguntou Waither Apfel.

Alguma coisa está errada, Herr Bourne?

— Não. Está tudo certo. Meu nome é Bourne. Jason Bourne.

Estaria gritando? Sussurrando? Não podia dizer.

— É um privilégio conhecê-lo, Sr. Bourne. Sua identidade permanecerá confidencial, O senhor tem a palavra de um funcio- nário do Banco Gemeinschaft.

— Obrigado. Agora, acho que tenho que transferir uma boa parte deste dinheiro e vou precisar de sua ajuda.

— Mais uma vez, será um privilégio para mim. Será um prazer prestar-lhe qualquer assistência ou poder lhe aconselhar.

Bourne procurou a garrafa de Perrier.

A porta de aço do escritório de Apfel fechou-se atrás dele. Dentro de alguns segundos sairia da bem-decorada ante-sala da cela para a sala de recepção e depois para os elevadores. Dentro de minutos estaria na Bahnhofstrasse com um nome, uma grande soma de dinheiro, e ainda medo e confusão.

Conseguira. O Dr. Geoffrey Washburn fora pago com muito mais do que o valor da vida que salvara. Uma transferência feita por telex na quantia de 1.500.000 francos suíços fora mandada para um banco de Marselha, um depósito feito em uma conta em código, que encontraria o seu destino: o único médico da Île de Port Noir, sem que jamais o nome de Washburn fosse usado ou revelado. Tudo o que Washburn tinha a fazer era ir a Marselha, declarar os números do código e o dinheiro seria dele. Bourne sorriu para si ao imaginar a expressão do rosto de Washburn quando a conta lhe fosse apresentada. O médico excêntrico e alcoólatra já teria ficado satisfeito com dez ou quinze mil libras, mas agora tinha mais de um milhão de dólares. Isto iria ou assegurar a sua recuperação ou apressar a sua destruição. Escolher era um problema dele.

Uma segunda transferência, de 4.500.000 francos, foi remetida para um banco em Paris, à Rue Madeleine, e depositada no nome de Jason C. Bourne. A transferência foi expedida via malote — o Gemeinschaft mantinha dois por semana para Paris — com os cartões de assinatura em três vias e os demais documentos. Herr Koenig assegurara a ambos, ao seu superior e ao cliente, que os papéis chegariam a Paris em três dias.

O resto da transação era insignificante, se comparada com as complicações anteriores. Cem mil francos em notas graúdas foram trazidos para o escritório de Apfel; o recibo da retirada foi feito com a assinatura numérica do portador da conta.

Restou em depósito no Gemeinschaft Bank 1.400.000 francos suíços, soma não tão pequena.

Como? Por quê? De onde?

Toda a transação levou apenas uma hora e vinte minutos. E só houvera uma nota discordante de todas as facilidades que lhe foram oferecidas para as transações: a expressão de Koenig — um misto de solenidade e triunfo. Ele telefonara para Apfel, fora mandado entrar e trouxera para o seu superior um pequeno envelope com as bordas tarjadas de preto.

— Une fiche — anunciara em francês.

O banqueiro abrira o envelope, retirara dele um cartão, lera com cuidado o seu conteúdo e, em seguida, devolvera o cartão e o envelope para Koenig. — Serão seguidos os procedimentos normais — dissera ele.

Koenig deixara a sala imediatamente.

— É alguma coisa a meu respeito? — perguntara Bourne.

— Apenas no caso de liberar grandes somas como estas. Simples normas da casa. — O banqueiro lhe dera um sorriso tranqüilizador

A fechadura fez um clique. Bourne abriu a porta de vidro fosco e entrou nos domínios pessoais de Herr Koenig. Dois outros homens haviam chegado e estavam sentados separados, um em cada lado da sala de recepção. Como não estavam em celas separadas e por detrás das janelas de vidro opaco, Bourne presumiu que nenhum dos dois devia ter uma conta de três zeros. Ficou a imaginar se haviam assinado os seus nomes ou escrito por extenso uma série de números, como fizera. Mas parou em seguida, no instante em que chegara ao elevador e apertara o botão.

Pelo canto do olho, percebeu um movimento. Koenig movera a cabeça, fazendo um sinal para os dois homens. Eles se levantaram logo que a porta do elevador se abriu. Bourne voltou-se. O homem à sua direita puxou do bolso do sobretudo um pequeno rádio e disse alguma coisa — breve, rápida.

O homem à esquerda tinha a m direita escondida dentro da capa de chuva. E quando a tirou, segurava uma arma, uma pistola automática preta, calibre 38, com um cilindro perfurado encaixado ao cano. Um silenciador.

Os dois homens se aproximaram de Bourne, enquanto ele recuava para dentro do elevador deserto.

E começou o desvario.


 

As portas do elevador começaram a se fechar. O homem com o rádio na mão já tinha entrado, o outro procurava segurar as portas com os ombros, enquanto apontava a arma para a cabeça de Bourne.

Jason inclinou-se para a direita — uma reação imediata de medo — repentinamente, moveu o pé esquerdo, levantando-o do chão, e girou o corpo. O calcanhar foi bater na mão armada do homem, o revólver foi jogado para cima e ele cambaleou de costas para fora do recinto. Dois tiros silenciosos foram dados antes que as portas se fechassem; as balas foram se alojar na madeira grossa do forro. Bourne completou a volta do corpo e jogou o ombro contra o estômago do outro homem, escorregando a mão direita para o seu peito, enquanto com a esquerda prendia a mão que segurava o rádio. Depois arremessou o homem contra a parede. O rádio voou pelo elevador, e quando caiu algumas palavras saíram pelo alto-falante.

— Henri? Ça va? Qu’est-ce qui se passe?

A imagem de outro francês voltou à cabeça de Jason. Um homem à beira da histeria, não podendo acreditar no que via — seu quase assassino, que correra do Le Bouc de Mer para as sombras da Rua Sarrasin havia menos de vinte e quatro horas. Aquele homem não perdera tempo, havia mandado para Zurique uma mensagem: o homem que supunham morto estava vivo. E bem vivo. Matem-no!

Bourne agarrou o francês à sua frente, passando o braço esquerdo em volta de sua garganta e puxando-lhe violentamente a orelha esquerda com a mão direita. — Quantos? — perguntou era francês. — Quantos estão lá embaixo? Onde estão?

— Descubra você, seu porco!

O elevador estava a meio caminho do saguão do primeiro andar.

Jason empurrou a cabeça do homem para baixo, quase arrancando a orelha da base, e jogou-o contra a parede. Este gritou enquanto caía. Bourne calcou-lhe ó joelho sobre o peito e sentiu o coldre. Abriu-lhe o sobretudo e puxou o revólver de cano curto. Imediatamente pensou que alguém desativara as máquinas do elevador. Koenig. Ele se lembraria; não haveria nenhuma amnésia com relação a Herr Koenig. Enfiou o revólver pela boca aberta do francês.

— Fale ou parto a sua cabeça com um tiro! — O homem deixou escapar um lamento gutural. Bourne tirou o cano da arma da sua boca e empurrou-lhe contra o rosto.

— Dois. Um perto dos elevadores, outro fora, na calçada, perto do carro.

— Que espécie de carro?

— Peugeot.

— Que cor? — O elevador já estava parando.

— Marrom.

— O homem no saguão, com que roupa está?

— Não sei...

Jason estalou a arma contra a testa do homem. — É melhor se lembrar!

— Um casaco preto!

O elevador parou. Bourne obrigou o francês a ficar de pé. As portas se abriram. Do lado esquerdo, um homem estava vestido com uma capa de chuva escura e usava óculos de armação dourada, muito estranhos. Ele deu um passo para a frente. Os olhos por detrás das lentes pareciam ter reconhecido o que se passava; o sangue escorria pelo peito do francês. Levantou a mão encoberta pelo bolso largo da capa — mais uma arma automática com silenciador era apontada para o alvo de Marselha.

Jason empurrou o francês pela porta, escudando-se nele.

Três rápidos tiros foram ouvidos. O francês gritou, levantou os braços e deu um último grito de protesto. Depois dobrou o corpo e caiu contra o chão de mármore. Uma mulher, que estava do lado direito do homem com os óculos de armação dourada, gritou, juntamente com alguns homens que chamavam por Hilfe!, pela Polizei!

Bourne logo percebeu que não poderia usar o revólver que tirara do francês. A arma não tinha silenciador, qualquer tiro que desse seria ouvido e ele ficaria marcado. Enfiou-a no bolso do paletó, passou pela mulher que gritava e agarrou um ascensorista pelos ombros, jogando-o contra o assassino de capa escura.

O pânico cresceu no saguão, enquanto Jason corria em direção às portas de vidro da entrada, O porteiro de boutonnière, que trocara a sua língua uma hora e meia antes, gritava em um telefone de parede, um guarda uniformizado estava do seu lado, de arma em punho, obstruindo a passagem, de olhos pregados no caos que se formara. E, de repente, de olhos postos nele. No momento era difícil sair. Bourne evitou o olhar do guarda e dirigiu-se ao recepcionista que estava ao telefone.

— O homem com óculos de armação dourada! — gritou ele. — É ele! Eu vi!

— O quê? Quem é você?

— Seu amigo de Walther Apfel! Obedeçam! O homem de óculos dourados, de capa preta. Lá!

A mentalidade burocrática não mudou em milênios. O nome de um superior vale por uma ordem.

— Herr Apfel! .—. O recepcionista do Gemeinschaft virou-se para o guarda. — Você o ouviu! O homem de óculos. Óculos de armação dourada!

— Sim, senhor! — O guarda avançou correndo.

Jason passou pelo lado do recepcionista em direção às portas de vidro, empurrou a porta da direita, deu uma olhada para trás. Sabia que tinha que correr novamente, mas não sabia se um homem do lado de fora, na calçada, ao lado de um Peugeot mar- rom, o reconheceria se saísse. Na certa atiraria nele.

O guarda correu em direção a um homem vestido com uma capa preta. Um homem caminhando mais lentamente do que as figuras em pânico à sua volta. Um homem que não usava óculos. Acelerou o pano direção à entrada, em direção a Bourne.

Do lado de fora, o caos crescente era a proteção de Jason. As vozes se extinguiram no banco, as sirenas gemiam cada vez mais alto, enquanto carros de polícia se aproximavam da Bahnhofstrasse. Andou algumas jardas para a direita, rodeado de pedestres, em seguida pôs-se a correr, forçando caminho por entre uma multidão de curiosos e se refugiando na frente de uma loja, com a atenção presa nos automóveis parados no meio-fio. Viu o Peugeot e o homem parado ao seu lado com a mão ameaçadoramente no bolso do sobretudo. Em menos de quinze segundos o motorista do Peugeot juntou-se ao homem da capa preta, que agora punha de novo os óculos de armação dourada, tentando ajustar-se à nova visão. Os dois conversavam rapidamente, examinando atentamente a Bahnhofstrasse.

Bourne entendia a confusão deles. Saíra pelas portas de vidro do Gemeinschaft e caminhara em direção à multidão sem nenhum pânico. Estivera pronto para correr, mas não correra por medo de ser parado enquanto estivesse próximo à entrada. Ninguém mais tivera permissão para sair de lá — e o motorista do Peugeot não percebera, não reconhecera o seu alvo, identificado e marcado para execução em Marselha.

O primeiro carro de polícia chegou quando o homem com os óculos de armação dourada tirara a capa e a empurrava pela janela para dentro do carro. Fez um sinal com a cabeça para o motorista do Peugeot, que pôs o carro em movimento. O assassino tirou os delicados óculos e fez algo completamente inesperado: voltou para as portas do banco, juntando-se à policia, que estava entrando.

Bourne ficou olhando o Peugeot afastar-se do meio-fio e acelerar na Bahnhofstrasse. A multidão na frente da loja começou a se dispersar; muitos iam em direção às portas de vidro, esticando o pescoço na tentativa de enxergar, na ponta dos pés, espiando para dentro do banco. Um policial saiu fazendo com que os curiosos se afastassem para abrir caminho até a calçada. Enquanto gritava, uma ambulância, como um casco de navio, querenava na esquina noroeste, acompanhando a todos que dessem passagem, O motorista da ambulância estacionou o descomunal veículo no espaço deixado pelo Peugeot. Jason não podia mais enxergar, tinha que ir até o Carilon du Lac pegar suas coisas e sair de Zurique, da Suíça. Ir para Paris.

Mas por que Paris? Por que insistira que seu capital fosse transferido para Paris? Não pensara nisso antes de sentar-se no escritório de Walther Apfel, assombrado com a extraordinária quantia que lhe fora apresentada. Era bem maior do que jamais pudera imaginar — tanto que só podia reagir mudamente, instintivamente. E o seu instinto evocara uma cidade: Paris. Como se fosse, de alguma forma, vital. Por quê?

De novo, não tinha tempo... Viu os enfermeiros da ambulância saírem do banco com uma maca. O corpo estava com a cabeça coberta. Morto. Isso tinha uma significação para Bourne — fora salvo por suas habilidades, que não sabia de onde vinham. Se não fosse por isso, ele seria agora aquele homem morto na maca.

Viu um táxi na esquina e correu para ele. Tinha que sair de Zurique — uma mensagem fora enviada de Marselha. Jason Bourne está vivo. Matem-no. Matem Jason Bourne!

Deus do céu, por quê?

Esperava encontrar o subgerente do Carillon du Lac atrás do balcão da portaria, mas ele não estava lá. Então pensou que um bilhete curto para o homem... Como era o nome dele? Stossel. Sim, Stossel. Um bilhete curto para Stossel seria suficiente. Não era necessário dar nenhuma explicação por sua súbita saída; e quinhentos francos seriam suficientes pelas poucas horas que passara no Carilon du Lac — e pelo favor que pediria a Herr Stossel.

No quarto, jogou o estojo de barbear dentro da mala desfeita, examinou a pistola que tirara do francês, colocou-a no bolso do sobretudo e depois sentou-se à escrivaninha para escrever um bilhete para Herr Stossel, o subgerente. Escreveu uma frase que lhe saiu com muita facilidade — muito espontânea:

. . .Entrarei logo em contato com o senhor para receber as mensagens que possam me ser enviadas. Estou certo de que será conveniente manter-se atento a elas, e aceitá-las em meu nome.

Se chegasse alguma comunicação da indefinível Treadstone Seventy-One, ele gostaria de saber. E saberia, pois assim era Zurique.

Colocou uma nota de quinhentos francos entre os papéis e lacrou o envelope. Depois, pegou a maleta e caminhou em direção ao corredor, onde ficavam os elevadores. Eram quatro. Logo que apertou o botão, lembrou-se do Gemeinschaft e deu uma olhada em volta. Mas não havia ninguém. Uma sineta soou e a luz vermelha indicando o terceiro andar acendeu-se. Ótimo, o elevador estava descendo; precisava ir para o aeroporto o mais depressa possível, sair de Zurique, da Suíça. Uma mensagem fora transmitida.

Quando as portas se abriram, viu dentro do elevador dois homens rodeando uma mulher de cabelos avermelhados. Interromperam a conversa e cumprimentaram-no com um sinal de cabeça, afastando-se um pouco para dar lugar à sua maleta. Tão logo as portas se fecharam, recomeçaram a conversar. Estavam na casa dos trinta e falavam em um francês fluente, com rapidez. A mulher olhava alternadamente ora para um ora para outro homem, sorrindo e parecendo pensativa. Tomavam algumas decisões de pouca importância, e as risadas se misturavam com as perguntas pretensiosamente sérias.

Você vai para casa depois do encerramento, amanhã? — o homem à esquerda perguntou.

— Não sei ainda. Estou esperando ordens de Ottawa — respondeu a mulher. — Tenho parentes em Lyon, seria bom se pudesse vê-los.

— É quase impossível — disse o homem da direita — que a direção deste comitê consiga encontrar dez pessoas que queiram fazer um resumo deste maldito seminário em um único dia. Vamos ter que ficar aqui por mais uma semana.

— Mas Bruxelas não vai aprovar uma coisa dessas — disse sorrindo o primeiro homem. — O hotel é muito caro!

— Sem dúvida, o jeito será mudar-se para outro — disse o segundo, dando uma olhada de soslaio para a mulher. — Estávamos esperando que você fizesse exatamente isso, não é?

— Você é um tolo — disse a mulher. — Aliás, vocês são dois loucos, e esta é a minha opinião final.

— Mas você não é, Marie — interpelou o primeiro. — Quero dizer, não é louca. A sua apresentação, ontem, foi brilhante.

— Nada disso. Foi rotineira e bem monótona.

— Não, não! — discordou o segundo. — Foi soberba, tinha que ser. Não entendi uma única palavra. Mas não tem importância, tenho outros talentos.

— Oh, você é um tolo...

O elevador estava parando; o primeiro homem falou novamente. — Vamos sentar na última fileira do salão. Já estamos mesmo atrasados e além do mais Bertineili está falando — deve ser sem importância, creio. As suas teorias de flutuações cíclicas impostas saíram de moda com a queda do império financeiro dos Bórgias.

— Antes até — disse a mulher de cabelos avermelhados, dando uma risada. — Com os impostos de César. — Ela fez uma pausa e continuou, em seguida. — Ou com as guerras púnicas.

— A última fileira então — disse o segundo homem, oferecendo o braço à mulher. — Poderemos dormir. Ele costuma usar um projetor de slides, a sala deve estar escura.

— Não. Vocês dois vão na frente, eu os encontro daqui a pouco. Na verdade, preciso enviar alguns telegramas e não tenho confiança nas telefonistas, elas nunca ditam a mensagem exata.

As portas se abriram e os três saíram. Os dois homens tomaram o caminho do saguão, andando em direção diagonal, e a mulher dirigiu-se ao balcão em frente. Bourne pôs-se ao seu lado enquanto lia distraidamente um aviso em um mural triangular alguns passos em frente.

BEM-VINDOS

MEMBROS DO SEXTO SEMINÁRIO MUNDIAL

DE ECONOMIA

PROGRAMA DE HOJE:

13h: Honorável James Frazier, Membro do Reino Unido.

Suíte 12

16h: Dr. Eugenio Bertinelti, Universidade de Milão, Itália.

Suíte 7

21h: Jantar de despedida do Presidente.

Suíte da Hospitalidade.

— Apartamento 507. A telefonista disse que havia um telegrama para mim.

Falava em inglês agora, a mulher de cabelos avermelhados, no balcão da portaria, ao seu lado. Ela dissera que estava “esperando ordens de Ottawa”. Era canadense, portanto.

O funcionário examinou os escaninhos e voltou com o telegrama. — Dra. St. Jacques? — perguntou, entregando-lhe o envelope.

— Sim. Muito obrigada.

A mulher se afastou enquanto abria o telegrama. O funcionário chegou-se a Bourne. — O senhor?

— Gostaria de deixar este bilhete para Herr Stossel. — Colocou o envelope timbrado do Carilon du Lac em cima do balcão.

— Herr Stossel só voltará às seis horas da manhã, senhor. Todas as tardes sai às quatro horas. Posso ajudá-lo?

— Não, obrigado. Entregue-lhe isto, apenas. — Em seguida lembrou-se: estava em Zurique. — Não é urgente — acrescentou — mas preciso de uma resposta. Verifico com ele de manhã.

— Pois não, senhor.

Bourne pegou a maleta e atravessou o saguão do hotel, em direção à entrada, que era composta de uma fila de portas de vidro que davam para uma calçada circular, de frente para o lago. Podia ver alguns táxis esperando, em fila, sob a iluminação intensa da cobertura da entrada. O sol se pusera, era noite em Zurique. Ainda assim havia vôos para todos os pontos da Europa até bem depois da meia-noite.

De repente, parou de andar, de respirar, uma espécie de paralisia tomou conta de seu corpo. Os olhos não podiam acreditar no que viam além das portas de vidro. Um Peugeot marrom parara na frente do primeiro táxi na entrada circular. Um homem desembarcou — um assassino em uma capa preta, usando uma armação de óculos fina e dourada. Outro homem saiu do carro, mas não era o motorista que estivera parado no meio-fio na Bahnhofstrasse, à espera de um alvo que não reconheceu. Em vez disso, era um outro assassino, com outra capa de chuva, os bolsos largos pesados, cheios de poderosas armas. Era o homem que estivera sentado na sala de recepção do segundo andar do Banco Gemeinschaft, o mesmo que puxara uma pistola calibre 38 de um coldre por baixo do casaco. Uma pistola com silenciador que detonara duas balas em direção ao crânio da vítima que seguira dentro de um elevador.

Como? Como o haviam encontrado?... Lembrou-se e sentiu-se nauseado. Fora tão casual, tão inofensivo! O senhor está gostando de sua estadia em Zurique? Walther Apfel perguntara enquanto esperavam que o agente saísse para que ficassem a sós novamente.

Muito. Meu quarto dá para o lago. É uma bela vista, muito calma, quieta.

Koenig! Koenig o ouvira dizer que seu quarto dava para o lago. E quantos hotéis tinham quartos de frente para o lago? Especialmente hotéis que um homem com uma conta de três zeros pudesse freqüentar. Dois? Três De sua remota memória apareceram os nomes: Carilon d Lac, Baur au Lac, Eden au Lac. Existiriam outros? Nenhum nome lhe veio à memória. Como fora fácil encontrá-los! Como lhe fora fácil dizer aquelas palavras. Que estúpido!

Não havia tempo agora, em muito tarde. Podia enxergar através das portas de vidro, e os assassinos também. O segundo homem o havia visto. Algumas palavras foram trocadas por cima do capô do Peugeot, os óculos de armação dourada foram ajustados, as mãos postas dentro dos bolsos descomunais, armas bem seguras nas mãos. Os dois homens se dirigiram para a entrada e se separaram no último momento, cada um ia para um dos painéis de vidro transparente. Os flancos estavam cobertos, a armadilha pronta. Ele não podia correr para fora.

Será que pensavam que podiam entrar no saguão lotado de um hotel e simplesmente matar um homem?

É claro que pensavam! A multidão e o barulho eram-lhes uma cobertura. Dois, três, quatro tiros mudos dados em seguida seriam tão eficientes quanto uma emboscada em uma praça repleta à luz do dia. A fuga era fácil no caos que se seguia então.

Mas não permitiria que chegassem perto dele! Retrocedeu, os pensamentos corriam-lhe pela mente. Supremo ultraje! Como ousavam? O que os fazia pensar que não procuraria proteção, ou gritaria pela polícia? A resposta estava clara, tão surpreendente quanto a própria pergunta. Os assassinos sabiam com certeza aquilo que ele apenas podia suspeitar: ele não podia procurar por essa forma de proteção — não podia procurar a policia. Para Jason Bourne todas as autoridades deviam ser evitadas... Por quê? Estariam à sua procura?

Cristo, por quê?

As duas portas laterais foram abertas com as mãos disponíveis, as outras permaneceram escondidas, segurando o aço. Bourne virou-se; à sua frente, elevadores, corredores, portas — telhado e despensas subterrâneas. O hotel devia ter uma dúzia de saídas.

Ou não? Ou os assassinos, que agora abriam caminho por entre a multidão, sabiam de algo de que ele apenas podia suspeitar? O Carilon du Lac teria duas ou três saídas? Todas facilmente cobertas por homens a postos do lado de fora, todas usadas como armadilhas para abater a figura solitária de um homem em fuga.

Um homem sozinho; um homem sozinho era um alvo muito fácil. E se não estivesse sozinho? Se alguém estivesse com ele? Duas pessoas não eram uma, mas para quem estava sozinho outra pessoa podia ser uma camuflagem — sobretudo numa multidão, sobretudo à noite, e era noite. Verdadeiros assassinos sempre evitavam tirar a vida errada, não por compaixão, mas por objetividade: se provocassem pânico, o alvo certo poderia escapar.

Sentiu o peso da arma no bolso, mas isso não lhe dava nenhum conforto. Usá-la, ou até mesmo mostrá-la, o exporia. Ainda assim estava lá. Voltou para o centro do saguão, em seguida virou-se para a direita onde havia uma grande concentração de pessoas. Era o burburinho do início da noite para um grupo que participava de um seminário internacional, muitos planos sendo ensaiados, paqueradores e cortesãs se separavam por entre olhares de aprovação ou censura, grupinhos excêntricos por todos os lados.

Havia um balcão de mármore encostado à parede, um funcionário examinava algumas páginas de papel amarelo, enquanto segurava um lápis como se fosse um pincel. Telegramas. Duas pessoas estavam em frente ao balcão, um homem de idade, obeso, e uma mulher com um vestido vermelho-escuro, a cor da seda complementando a cor dos seus cabelos longos, castanho-averme-lhados... Cabelos castanho-avermelhados! Era a mulher que estava no elevador e que fizera uma piada a respeito dos impostos de César e as guerras púnicas; a doutora, que estivera ao seu lado na portaria do hotel, perguntando pelo telegrama.

Bourne olhou para trás. Os assassinos estavam usando a multidão muito bem, pedindo passagem polidamente, mas abrindo caminho com firmeza; um vinha pela direita, o outro, pela esquerda, acercando-se como dois dentes de uma pinça. Se continuassem a mantê-lo à vista, podiam forçá-lo a continuar fugindo cegamente, sem nenhuma direção, sem saber se o caminho que tomasse daria em um lugar sem saída, de onde não pudesse mais fugir. Então os silenciosos tiros disparariam contra ele, deixando apenas as marcas de queimado nos bolsos dos assassinos...

Mantê-lo à vista?

A última fileira então... Poderemos dormir. Ele costuma usar um projetor de slides, a sala deve estar escura.

Jason virou-se de novo e olhou para a mulher de cabelos castanho-avermelhados. Ela terminara o telegrama e agradecia ao funcionário, enquanto retirava do rosto os óculos com aros de chifre e os colocava dentro da carteira. Não estava a mais de oito pés de distância dele.

Bertinelli está falando — coisa sem importância, acho.

Não havia mais tempo, tinha que tomar uma decisão instintiva. Bourne passou a maleta para a mão esquerda, caminhou depressa em direção à mulher no balcão, tocou o seu cotovelo de leve, para não alarmá-la.

— Doutora?...

— Sim?

— Você é a doutora?... — Ele a soltou, fazendo-se de embaraçado.

— St. Jacques — completou ela, usando a pronúncia francesa para o Saint. — Você estava no elevador.

— Não sabia que era você — ele disse. — Disseram-me que poderia me informar onde Bertinelli está falando.

— Está lá no quadro. Suíte sete.

— Acho que não sei onde fica. Importa-se em me mostrar? Estou atrasado e tenho que tomar notas da sua palestra.

— Da palestra de Bertinelli? Por quê? Trabalha em algum jornal marxista?

— Não, uma cadeia neutra. — Jason respondeu, sem saber de onde vinham as suas frases. — Estou cobrindo a palestra para algumas pessoas que acham que ele não vale a pena.

— Talvez não, mas deve ser ouvido. Costuma dizer algumas verdades bem brutais.

— Perdi. Tenho que achá-lo agora. Talvez você possa me apresentá-lo.

— Creio que não. Mas posso lhe mostrar a sala. Tenho que dar um telefonema. — Ela fechou a carteira.

— Por favor. Depressa!

— O quê? — Ela o olhou sem indulgência.

— Sinto, mas estou com pressa. — Ele olhou à direita, os dois homens não estavam a mais de vinte pés dali.

— E também esta sendo grosseiro — disse friamente a Dra. St. Jacques.

— Por favor. — Ele reprimiu a vontade de empurrá-la para a frente, para fora daquela armadilha ambulante que se aproximava.

— É por aqui. — Ela se pôs em direção a um amplo corredor que saía da parede de trás. Os grupos de pessoas estavam ficando cada vez menores, as saliências eram menos altas na parte de trás do saguão. Chegaram ao que parecia um túnel forrado de veludo de um vermelho intenso, com duas portas de cada lado e por cima, indicando Sala de Conferência Um, Sala de Conferência Dois. No fim do corredor ficavam duas portas duplas, as letras douradas do lado direito indicando ser ali a entrada para a Suíte Sete.

— Aqui está — disse Marie St. Jacques. — Tenha cuidado ao entrar, é provável que esteja escuro lá dentro. Bertinelli sempre usa slides em suas conferências.

— Como um cinema — comentou Bourne olhando para trás, para a aglomeração no final do corredor. Lá estava ele, o homem com os óculos de aro dourado, pedindo licença para passar por um animado trio no saguão. Vinha em direção ao corredor e seu companheiro vinha logo atrás.

— ... uma diferença considerável. Ele se senta abaixo do palco e faz a sua doutrinação. — A Dra. St. Jacques dissera alguma coisa e agora estava indo embora.

— O que você disse? Um palco?

— Bem, uma plataforma alta. Para espetáculos, acho.

— Eles têm que entrar — ele disse.

— Como?

— Espetáculos. Há uma saída lá dentro? Outra porta?

— Não tenho idéia, preciso realmente fazer esta ligação. Aprecie o professore. — E virou-se pan ir embora.

Ele deixou cair a maleta e tomou-lhe o braço. Ao toque, ela olhou-o com firmeza. — Tire sua mão de mim, sim?

— Não quero amedrontá-la, mas não tenho outra escolha. — Ele falou calmamente, os olhos postos no fim do corredor, por cima dos ombros dela. Os assassinos haviam diminuído o passo, a armadilha estava para se fechar. — Tem que vir comigo.

— Não seja ridículo!

Ele apertou-lhe o braço, fazendo com que ela se movimentasse e ficasse na sua frente. Em seguida, tirou a arma do bolso, certificando-se de que o corpo dela escondia a pistola dos homens, que estavam a uns trinta pés dali. — Não quero usar isto e não quero machucá-la também. Mas é o que farei se for obrigado.

— Meu Deus...

— Fique quieta. Faça o que lhe digo e ficará bem. Tenho que sair deste hotel e você vai me ajudar. Logo que estiver fora, deixa-la-ei ir-se. Mas não até que consiga sair daqui. Venha. Vamos entrar.

— Você não pode...

— Posso, sim. — Pressionou o cano da pistola contra o seu estômago, afundando-o na seda escura, que enrugou-se sob a pressão de sua força. Ela estava completamente aterrorizada e permaneceu silenciosa, submissa. — Vamos.

Ele pôs-se do lado esquerdo dela, com a mão ainda segurando.lhe firmemente o braço, a pistola atravessada ao peito, a centímetros do peito dela. Os olhos dela permaneciam presos à arma, os lábios abertos, a respiração irregular. Bourne abriu a porta, empurrando-a para a frente. E ainda teve tempo de ouvir uma palavra gritada no corredor.

— Schnell!

Entraram na escuridão, mas por um momento apenas; um raio de luz branca atravessou a sala, por cima das fileiras de poltronas, iluminando as cabeças do auditório. Era a projeção de um gráfico na tela distante, com os quadrados numericamente marcados e uma linha grossa e preta começando no lado direito e se estendendo em um desenho irregular, subindo pelas linhas em direção ao lado direito. Ouvia-se uma voz bem acentuada falando, amplificada por um alto-falante.

— Podem observar que durante os anos de 70 e 71, quando restrições específicas foram auto-impostas à produção — repito, auto-impostas — por estes líderes da indústria, a recessão econômica resultante foi muito menos severa de que na — slide doze, por favor — assim chamada regulamentação da praça de mercado pelos intervencionistas governamentais. O próximo slide, por favor.

Jason empurrou a mulher, fazendo-a passar pela frente das pessoas que estavam próximas à parede de trás, atrás da última fileira de poltronas. Tentou calcular o tamanho da sala de conferências, procurando uma luz vermelha que pudesse significar uma porta para a fuga. E a viu! Uma débil luz vermelha ao longe. Ficava sobre o palco, por trás da tela. Não havia nenhuma outra saída, nenhuma porta. Apenas entrada para a Suíte Sete. Tinha que chegar até lá, tinha que levá-los para aquela saída. Por trás do palco.

— Marie... par ici! — O sussurro veio do lado esquerdo, de uma das poltronas da última fila.

— Non, chérie. Reste avec moi. — O segundo sussurro veio da sombria figura de um homem que estava diretamente em frente de Marie St. Jacques. Ele dera um passo à frente para interceptá-la. — On nous a séparé. Il n’y a plus de chaises.

Bourne pressionou firmemente a arma na costela da mulher, a mensagem era clara. Ela sussurrou sem respirar, e Jason estava contente por seu rosto estar escondido no escuro e não poder ser visto claramente. — Por favor, deixe-nos passar — disse ela em francês. — Por favor.         

— O que é isto? Ele é o seu telegrama, minha querida?

— Um velho amigo — sussurrou Bourne.

Um grito foi ouvido, mais alto do que o crescente burburinho do auditório. — Pode me dar o “slide” doze! Per favore!

— Temos que ver alguém no final da fila — continuou Jason, olhando para trás. A porta da direita da entrada abriu-se e ele conseguiu enxergar um aro dourado no meio de um rosto ensombreado. Uma armação dourada refletindo a luz pálida do corredor. Bourne fez a moça avançar, passando pelo amigo espantado, empurrando-o para a parede enquanto murmurava uma desculpa.

— Desculpe, mas temos muita pressa!

— E muita grosseria, também!

— Sim, eu sei.

— “Slide” doze! Ma che infamia!

O raio de luz projetou-se na tela, vibrando por causa da mão trêmula e nervosa do operador. Outro gráfico apareceu sobre a tela no instante em que Jason e a mulher alcançavam a parede de trás, o início da estreita passagem que acompanhava toda a extensão da sala até o palco. Empurrou-a para o canto, comprimindo seu corpo contra o dela, seu rosto contra o rosto dela.

— Eu grito — sussurrou ela.

— Eu atiro — respondeu ele. Espiou para as figuras se esgueirando abaixadas contra a parede; os dois matadores tinham entrado, os dois procurando-o, mexendo as cabeças como roedores assustados, tentando encontrar o seu alvo entre as filas de rostos.

A voz do conferencista se alteou como o soar de um sino quebrado, um protesto curto mas estridente. — Ecco! Aos céticos, a quem me apresento aqui esta noite — a maioria — aqui está uma prova estatística! De substância idêntica a cem outras análises que preparei. Deixem a praça do mercado para os que vi vem lá. Excedentes menores sempre poderão ser encontrados. E são um preço pequeno para o bem geral.

Seguiu-se o ruído de algumas palmas, a aprovação de limitada minoria. Bertinelli deu continuidade à palestra, retomando seu tom normal e monótono, fincando um longo mostrador sobre a tela, enfatizando o obvio — o que lhe era óbvio. Jason inclinou-se para trás novamente. Os óculos de aro dourado brilharam no clarão da luz do projetor; o matador que os usava tocava o braço do companheiro, apontando com a cabeça para a esquerda, ordenando que seu subordinado efetuasse a busca do lado esquerdo da sala, enquanto ele ficaria com o direito. Começou a procura, o aro dourado se aproximando cada vez mais brilhante enquanto ele se esquivava por entre os que estavam em pé, estudando cada rosto. Logo estaria no canto, perto deles, em questão de segundos. Deter o assassino com um tiro era tudo o que restava. E se alguém da fila dos que estavam de pé se movesse, ou se a mulher que ele comprimira contra a parede entrasse em pânico e o empurrasse... ou se perdesse o matador por qualquer outra razão possível, estaria perdido. Mesmo se conseguisse acertar no homem, havia outro matador do outro lado da sala, e devia ser certamente um bom atirador.

— Por favor, o slide treze.

Era isso. Agora!

O raio de luz apagou-se. No escuro, Bourne arrancou a mulher da parede, fez com que ela rodasse onde estava, ficando de frente pan ele. — Se fizer algum barulho, eu a mato!

— Acredito — sussurrou aterrorizada. — Você é louco.

— Vamos! — Empurrou-a para a estreita passagem que ia dar no palco, a cinqüenta passos dali. A luz do projetor acendeu- se novamente. Agarrou o pescoço da moça, forçando-a a se abaixar até ficar de joelhos, enquanto ele também se punha de joelhos ao seu lado.

Estavam escondidos dos assassinos pelas filas de corpos sentados nas poltronas. Pressionou a carne da mulher com os dedos, era o sinal para continuar a se movimentar, arrastando-se... lentamente, mantendo-se abaixada, mas movendo-se. Ela entendeu e começou a se movimentar de joelhos, trêmula.

— A conclusão desta fase é irrefutável — gritou o conferencista. — A causa do lucro é inseparável do incentivo da produtividade, mas os papéis antagônicos jamais podem ser iguais. Como entendia Sócrates, a desigualdade dos valores é constante. O outro não é simplesmente lata ou ferro, quem dentre vocês pode negar isto? Slide quatorze, por favor!

Novamente a escuridão. Agora.

Com um puxão, ele levantou a mulher, empurrando-a para a frente, em direção ao palco. Estavam a três pés da borda.

— Cosa succede? Qual é o problema, por favor? Slide quatorze!

Acontecera! O projetor emperrara novamente e a escuridão se prolongava outra vez. E lá, sobre o palco à frente deles, em cima, o brilho vermelho do sinal de saída. Jason apertou o braço da moça com crueldade. — Fique de pé sobre o palco e corra para a saída! Eu a seguirei de perto. Se parar ou gritar, atiro.

— Pelo amor de Deus, deixe-me ir!

— Ainda não. — Era verdade. Devia haver uma outra saída em algum lugar; com outros homens esperando pelo alvo de Marselha. — Vá! Agora.

A Dra. St. Jacques pôs-se de pé e correu para o palco. Bourne levantou-a do chão, passando-a por cima da borda do palco, depois pulou para dentro e colocou-a de pé novamente.

A luz ofuscante do projetor arremessou-se contra a tela, inundando-a e lavando o palco. Gritos de surpresa e zombaria se elevaram do auditório à visão das duas figuras. Os gritos do indignado Bertinelli foram ouvidos no tumulto.

— É insoffribile! Ci sono comunisti qui!

Outros sons foram ouvidos — três disparos mortais, agudos, repentinos. Estalos abafados de uma arma com silenciador — ou armas; a madeira do arco do proscênio fora estilhaçada. Jason socou a moça para se abaixar e adiantou-se em direção às sombras do espaço estreito da ala, puxando-a atrás dele.

— Da ist er! Da oben!

— Schnell! Der projektor!

Um grito veio da passagem do centro da sala no momento em que as luzes do projetor se moveram para a direita, espalhando-se pelas alas do palco — mas não completamente. O facho de luz foi interceptado por algumas peças verticais dentro do palco, que escondiam os bastidores: luz, sombra, luz, sombra. E no final das peças, na parte de trás do palco, estava a saída. Uma porta de metal larga e alta com uma barra de proteção.

Estilhaços de vidro — a luz vermelha explodiu com um tiro certeiro. O sinal em cima da porta estava apagado. Não tinha importância, ele ainda podia ver o brilho do metal da barra de proteção.

A sala de conferência virou um pandemônio. Bourne agarrou a mulher pela fazenda da blusa e a conduziu entre percalços pelas peças dos bastidores até a porta. De início, ela resistiu. Ele a esbofeteou e puxou-a para o seu lado, enquanto levantava a barra da porta para cima.

Algumas balas atravessaram a parede do lado direito, os matadores se aproximavam, correndo pelas passagens à procura de melhor campo de visão. Eles os alcançariam em poucos segundos, e daqui a alguns segundos viriam outras balas, ou mais uma bala, uma só, de fatal pontaria. Restavam ainda algumas balas, ele sabia. Não tinha idéia de como ou por que sabia, mas sabia. Pelos ruídos, podia visualizar as armas, extrair os pentes das balas, contar os cartuchos.

Dando um golpe violento na barra de proteção, abriu a porta e empurrou-a para fora, carregando a Dra. St. Jacques, que esperneava.

— Pare com isso! — gritou ela. — Não vou sair daqui! Você é um louco! Ouvi tiros!

Jason bateu a porta com o pé, fechando-a. — Levante-se!

— Não!

Ele golpeou-lhe o rosto com as costas da mão. — Desculpe, mas tem que vir comigo. Levante-se! Logo que estivermos fora, dou-lhe a minha palavra, deixo-a ir. — Mas para onde iria ele agora? Estavam em outro túnel, mas não era acarpetado nem tinha porta de metal polido ou sinais luminosos de saída. Encontravam-se em uma espécie de área de carregamento, deserta, com um chão de concreto. E à sua frente, na parede, estavam dois carrinhos de transporte. Ele estava certo: os objetos usados no palco da Suíte Sete tinham de ser transportados e a porta de saída era alta e larga o suficiente para dar passagem a grandes peças de cenário.

A porta! Tinha que fechar a porta! Marie St. Jacques estava de pé. Segurou-a enquanto agarrava o primeiro carrinho, puxando-o pelo chassis até perto da porta de saída, empurrando-o com o ombro e o joelho até que ficasse junto ao metal da porta. Olhou para baixo; por baixo da grossa base de madeira, estavam as travas de pé das rodas. Calcou a alavanca da frente e depois a de trás.

A moça tentou escapar, virando o corpo enquanto ele esticava a perna até o fim do carrinho. Imediatamente ele baixou a mão até o seu pulso, segurou-o firmemente e torceu-o. Ela deu um grito, as lágrimas encheram-lhe os olhos, os lábios tremiam. Puxou-a para si, empurrando-a para a esquerda e começando a correr, supondo que a saída o levasse em direção à parte de trás do Carillon du Lac e na esperança de encontrar uma saída. Porque apenas na saída ele iria precisar da mulher, porque daí então um casal, e não um homem sozinho e em fuga, estaria saindo do hotel.

Em seguida, o som alto e forte de batidas foi ouvido. Os matadores tentavam forçar a porta do palco, mas o carrinho travado era uma barreira muito pesada.

Sacudiu a moça no chão de cimento, ela tentou livrar-se esperneando novamente, torcendo-se de um lado para o outro, à beira da histeria. Ele não teve outra escolha: segurou-lhe firmemente o cotovelo e enfiou-lhe o polegar na carne, pressionando fortemente. Ela suspirou, a dor foi repentina e torturante, e começou a soluçar, o que deu a ele chance de empurrá-la para a frente.

Chegaram a uma escada de cimento. Os quatro degraus tinham uma beirada de aço e davam para uma porta dupla de metal que ficava embaixo. Era a saída para o descarregamento; de pois das portas ficava a parte de trás do Carilon du Lac, a área de estacionamento. Estava chegando lá. Agora era apenas uma questão de aparência.

— Ouça-me — disse para a mulher amedrontada, rígida — você quer que eu a solte?

— Oh, por Deus, sim! Por favor!

— Então, faça o que digo! Vamos descer estes degraus e sair por aquela porta como duas pessoas perfeitamente normais, ao fim de um dia normal de trabalho. Você vai me dar o braço e caminharemos lentamente, conversando calmamente, até os carros que estão no fim do estacionamento. E vamos rir — não alto, mas um riso normal —, como se estivéssemos lembrando de coisas engraçadas que aconteceram durante o dia. Entendeu?

— Nada de engraçado me aconteceu durante os últimos quinze minutos — respondeu ela numa voz quase inaudível e monótona.

— Finja o contrário. Posso cair numa cilada e se isto acontecer não me importa mais nada. Entendeu?

— Acho que meu pulso está quebrado.

— Não está.

— Meu braço esquerdo, meu ombro... Não posso mexê-los, estão latejando.

— A raiz do nervo foi premida, vai passar daqui a alguns minutos. Você vai ficar bem.

— Você é um animal.

— Quero viver — respondeu ele. — Venha. Lembre-se, quando eu abrir a porta, olhe para mim e sorria, jogue a cabeça para trás e ria um pouco.

— É a coisa mais difícil que já fiz.

— Melhor do que morrer.

Ela pôs a mão machucada no braço dele e desceram a escada curta até a plataforma da porta. Ele a abriu e então saíram. Com a mão no bolso do sobretudo segurando a pistola do francês, ele perscrutou o terminal de descarregamento. Havia apenas uma lâmpada presa em um fio de arame por cima da porta; sua luz clareava os degraus de concreto à esquerda, que davam para a calçada embaixo. Conduziu sua refém para lá.

Ela representou o que ele lhe pedira, mas o efeito foi macabro. Enquanto desciam os degraus ela virou o rosto para ele e suas feições aterrorizadas foram iluminadas. Os lábios carnudos estavam abertos, esgarçados sobre os dentes brancos em um sorriso falso e tenso; os olhos arregalados eram duas órbitas escuras e sombrias, refletindo intenso temor; a pele marcada por sulcos de lágrimas estava retesada e pálida, manchada pelos vergões vermelhos das bofetadas. Ele via um rosto cinzelado em pedra, uma máscara emoldurada pelos cabelos vermelho-escuros que caíam em cascata por sobre os seus ombros, afagados pela brisa noturna — o único movimento vivo naquela máscara petrificada.

Um riso sufocado saiu-lhe da garganta, pronunciando as veias do pescoço longo. Ela não estava muito longe de um desmaio, mas ele nem sequer podia pensar nisso. Tinha que se concentrar no espaço em volta deles, ficar atento a qualquer movimento — qualquer pequeno movimento que pudesse perceber — no escuro estacionamento. Era óbvio que esta parte de trás, escura, era usada apenas pelos empregados do Carilon du Lac. Eram quase seis e meia, a noite já estava imersa em seus afazeres. Tudo estava quieto. O pátio era escuro e tinha manchas descontínuas forma das pelas fileiras de automóveis parados, silentes — uma formação de insetos imensos, os vidros opacos dos faróis eram como cem olhos fixos no vazio.

Um ruído, um arranhão. Metal contra metal. Vinha da direita, de um dos carros de uma fila próxima. Que fila? Que carro? Ele jogou a cabeça para trás;, como se estivesse respondendo com um riso a uma piada feita pela companheira, e passou os olhos pelas janelas dos carros mais próximos. Nada.

Alguma coisa? Era. Mas tão pequena! Uma diminuta chama de luz verde.., que se movimentava quando eles se movimentavam.

Verde. Pequena... Seria luz? De repente, de algum lugar num passado remoto, a imagem de uma linha cruzada irrompeu na sua vista. Seus olhos viam dois traços finos, duas linhas que se cruzavam. Linhas cruzadas! Uma lente de alcance... A luz infravermelha de um rifle.

Como os assassinos souberam? A pergunta tinha muitas respostas. Um rádio de mão fora usado no Gemeinschaft; outro poderia estar sendo usado agora. Ele estava com um sobretudo, sua refém, com um vestido de seda fina. E a noite estava fria, nenhuma mulher sairia daquela maneira.

Ele girou para a esquerda, abaixando-se e jogando-se contra Marie St. Jacques, batendo com o ombro no seu estômago, o que a fez rolar escada abaixo. Os estalos abafados se repetiram, estilhaços dê pedra e asfalto explodiram à volta deles. Ele mergulhou para a direita rolando várias vezes na calçada, enquanto retirava do bolso a pistola. Em seguida, pulou para a frente, segurando com a mão esquerda o pulso direito, e fez mira com o revólver para a janela onde estava o rifle. Disparou três tiros.

Um grito veio do espaço aberto do carro estacionado, que se transformou em gemido, depois em um arquejo, e depois silêncio. Bourne permaneceu imóvel, à espera, ouvindo, observando, pronto para atirar novamente. Silêncio. Quis ficar de pé mas não conseguiu. Alguma coisa tinha acontecido. Mal podia se mexer. Depois, a dor se espalhou por todo o peito. Era tão violenta que se encolheu, apoiando-se com as duas mãos, balançando a cabeça, tentando focalizar a visão, rejeitar a agonia. O ombro esquerdo, a parte inferior do peito, debaixo das costelas... A coxa esquerda, acima do joelho e abaixo do quadril, os mesmos lugares dos ferimentos anteriores, onde algumas dúzias de pontos tinham sido removidos há apenas um mês. Tinha ferido as áreas enfraquecidas, distendido tendões e músculos que ainda nem estavam restaurados. Oh, Cristo! Tinha que se levantar, tentar alcançar o carro do seu quase assassino, tirá-lo de lá e fugir.

Balançou a cabeça rapidamente, fazendo uma careta de dor, e olhou para Marie St. Jacques. Ela se levantava lentamente, primeiro pondo-se sobre um joelho, depois sobre um pé, segurando-se na parede externa do hotel. Logo estaria de pé, correndo. Para longe.

Não podia deixá-la ir-se! Ela correria gritando para dentro do Carillon du Lac e os homens apareceriam, alguns para prendê-lo, outros para matá-lo. Tinha pie detê-la!

Jogou-se para a frente e começou a rolar para a esquerda, girando como um manequim completamente fora de controle, até chegar bem perto da parede, bem perto dela. Então, levantou a arma e fez pontaria em direção à sua cabeça.

— Ajude-me — disse, ouvindo a tensão de sua própria voz.

— O quê?

— Você me ouviu. Ajude-me a levantar.

— Você disse que me deixaria ir! Deu-me a sua palavra!

— Tenho que retirá-la.

— Não, por favor.

— Esta arma está apontada para o seu rosto, doutora. Venha cá e me ajude ou vou explodi-la.

Ele tirou o morto do carro e mandou que ela se pusesse atrás do volante. Depois, abriu a porta traseira e rastejou para o assento de trás, para não ser visto.

 

Sempre que você se encontrar numa situação de tensão — e tiver tempo, é claro — faça exatamente como faria quando se projeta em alguém que está observando. Deixe a sua mente vagar livre, deixe todos os pensamentos e imagens aflorarem claramente. Tente não exercitar qualquer disciplina mental. Seja uma esponja, concentre-se em tudo e em nada. Algumas especificações podem vir a você, alguns condutos reprimidos podem contatar eletricamente e começar a funcionar.

Bourne lembrou das palavras de Washburn enquanto tentava se acomodar no canto do assento e readquirir o controle. Massageou o peito suavemente, esfregando os músculos magoados em volta do ferimento. Ainda sentia dor, mas não era tão aguda quanto há alguns minutos.

— Você não pode apenas me mandar dirigir! —. lamentou-se a Dra. St. Jacques. — Não sei para onde ir!

— Nem eu — disse Jason. Pedira que ela fizesse a volta no passeio à margem do lago; estava escuro e ele precisava de tempo para pensar. Mesmo que fosse apenas para ser uma esponja.

— As pessoas vão me procurar — exclamou ela.

— Também estão me procurando.

— Mas você me pegou contra a minha vontade. Você me bateu. Várias vezes. — Falava com mais calma agora, impondo-se um certo controle. — Isso é rapto, assalto... Crimes sérios. Você só queria sair do hotel, foi o que disse. Deixe-me ir e prometo não contar nada. Prometo!

— Você está querendo dizer que me dá a sua palavra?

— Sim!

— Dei-lhe a minha e retirei-a. Você pode fazer o mesmo.

— Você é diferente. Eu não vou fazer isto. Ninguém está tentando me matar! Oh, Deus do Céu! Por favor!

— Continue dirigindo.

Uma coisa estava clara para ele. Os assassinos o tinham visto deixar cair a maleta e deixá-la para trás na corrida para a fuga. Aquela mala lhes dizia o óbvio: ele estava saindo de Zurique e, sem dúvida, saindo da Suíça. O aeroporto e a estação de trem estariam sendo vigiados. E o carro que ele tomara do homem que matara — o homem que tentara matá-lo — seria procurado.

Não podia ir para o aeroporto ou para a estação de trem; tinha que se livrar do carro e encontrar outro. Não estava sem recursos, tinha 100.000 francos suíços e mais 16.000 francos franceses; a conta corrente da Suíça na carteira do passaporte, a da França, na carteira de notas que roubara do Marquês de Chamford. Era mais do que o suficiente para levá-lo em segredo a Paris.

Por que Paris? Era como se a cidade tivesse um magnetismo especial para ele, atraindo-o sem nenhuma explicação.

Você não está desamparado. Você vai encontrar o seu caminho... Siga os seus instintos; razoavelmente, é claro.

Para Paris.

— Você já esteve em Zurique antes? — perguntou ele à sua refém.

— Nunca.

— Você não mentiria para mim, não?

— Não tenho nenhuma razão para isso! Por favor. Deixe-me parar. Deixe-me ir!

— Há quanto tempo está aqui?

— Uma semana. O seminário durou uma semana.

— Então teve tempo de dar umas voltas, conhecer alguns lugares.

— Quase não saí do hotel. Não houve tempo.

— O programa que vi no mural não parecia muito cheio. Apenas duas conferências por dia.

— Eram conferencistas convidados; nunca mais do que dois por dia. A maior parte do nosso trabalho foi em seminários... pequenas conferências. Entre dez e quinze pessoas de países diferentes, com interesses diferentes.

— Você é do Canadá?

— Trabalho para o governo canadense, pan a Treasury Board, Department of National Revenue.

— O “doutora” não é de médica, então?

— Economia. Universidade McGiil. Universidade de Pembroke, Oxford.

— Estou impressionado.

Subitamente, com uma irritação controlada, ela acrescentou: — Os meus superiores esperam que eu entre em contato com eles. Hoje à noite. Se não tiverem notícias minhas, ficarão alarmados. E farão interrogatórios, chamarão a polícia de Zurique.

— Percebo. Temos que pensar nisso, não é? — De repente, Bourne lembrou-se de que durante todo o choque e violência da última meia hora, a Dra. St. Jacques não largara da carteira nenhuma vez. Ele se inclinou para a frente, estremecendo, a dor no peito ficara aguda de repente. — Dê-me a sua carteira.

— O quê? — Ela tirou rapidamente a mão do volante, agarrando a carteira, numa tentativa inútil de resguardá-la.

Ele esticou a mão direita por cima do assento, agarrando o couro com os dedos. — Dirija, doutora! — Ele levantou a carteira do assento e recostou-se novamente.

— Você não tem o direito... — Calou-se: era óbvia a infantilidade de sua observação.

— Sei disso. — Abriu a carteira, acendendo a lâmpada de leitura do carro, virando do avesso a carteira de mão. Condizendo com a dona, a carteira era bem-organizada. Passaporte, carteira de dinheiro, uma bolsinha com trocados, chaves e, nas divisões de trás, algumas anotações e bilhetes. Procurava uma mensagem específica, um envelope amarelo que lhe fora entregue pelo funcionário da portaria do Carillon du Lac. Encontrou-o, abriu o envelope e tirou o papel dobrado. Era um telegrama de Ottawa.

RELATOS DIÁRIOS PRIMEIRA QUALIDADE. SAÍDA ATENDIDA. IREI ENCONTRÁ-LA NO AEROPORTO QUARTA-FEIRA 26. TELEFONE OU TELEGRAFE VÔO. EM LYON NÃO ESQUEÇA BELLE MEUNIERE. COZINHA SOBERBA. AMOR PETER;

Jason botou o telegrama na carteira e viu a pequena caixa de fósforos, de cobertura branco-acetinada e com uma lista de palavras escritas. Pegou-a e leu. Kronenhalle. Um restaurante... Um restaurante. Alguma coisa o incomodava, não sabia o que poderia ser, mas era alguma coisa. Alguma coisa a respeito de um restaurante. Ficou com a caixa de fósforos, fechou a carteira e curvou-se para a frente, deixando-a cair no assento da frente. — Era tudo o que eu queria ver — disse, acomodando-se de novo no banco, olhando para a caixa de fósforos. — Parece que me lembro de você ter dito alguma coisa sobre “ordens de Ottawa”. Você as recebeu; vinte e seis foi na semana passada.

— Por favor...

A súplica era um pedido de ajuda; ele entendeu, mas não podia responder. Até a hora seguinte, ou mais, ele iria precisar daquela mulher como um homem aleijado precisa de uma muleta ou, mais apropriadamente, como um pessoa impossibilitada de dirigir precisa de um motorista. Mas não naquele carro.

— Vire — comandou ele. — Faça a volta para o Carillon.

— Para o... hotel?

— Sim — disse ele, o olhar fixo na caixa de fósforos, virando-a na mão sob a luz da lanterna do carro. — Precisamos de outro carro.

— Nós? Não, você não pode! Não irei mais... — E novamente ela parou antes de terminar de falar, antes de completar o pensamento. Ocorreu-lhe outro pensamento e ficou em silêncio, de repente, enquanto girava a direção do sedã até que ele virasse para o outro lado da rua escura à margem do lago. Depois apertou o acelerador com tal força que o carro disparou, os pneus giraram sob a súbita velocidade. Mas logo tirou o pé do pedal, segurando a direção, tentando se controlar.

Bourne levantou os olhos da caixa de fósforos e olhou para a sua cabeça, para os longos cabelos vermelho-escuros que brilhavam na luz. Pegou a arma do bolso e mais uma vez inclinou-se para a frente diretamente para as costas dela. Levantou a arma, levou a mão ao ombro dela e virou o cano contra o seu rosto.

— Quero que isto fique bem claro. Você vai fazer exatamente o que eu lhe mandar. Você ficará ao meu lado, e esta arma ficará no meu bolso, apontando para o seu estômago, como agora, exatamente neste momento, está apontando para a sua cabeça. Como vê, estou fugindo para salvar a minha vida e não hesita rei em puxar o gatilho. Quero que isto fique bem claro, entende?

— Entendo. — A resposta saiu como um murmúrio. Ela respirou pelos lábios entreabertos. Estava completamente aterrorizada. Jason afastou a arma do seu rosto; estava satisfeito.

Satisfeito e revoltado.

Deixe a sua mente vagar livre... A caixa de fósforos. O que significava? Mas não era ela, era o restaurante — e não era o Kronenhalle, mas outro restaurante. Pesadas luzes, luz de vela, escuro... triângulos no lado de fora. Pedra branca e triângulos pretos. Três?... Três triângulos pretos.

Havia alguém lá... Nesse restaurante com três triângulos na fachada. A imagem era tão clara, tão vívida... tão perturbadora! O que era? Teria existido este lugar?

Algumas especificações podem vir a você... alguns condutos reprimidos... começar a funcionar.

Estaria acontecendo agora? Oh, Cristo, eu não agüento!

Podia divisar as luzes do Carillon du Lac a algumas centenas de jardas, lá embaixo na rua. Não planejara bem os seus movimentos, mas pensava em duas possibilidades, tinha duas suposições. A primeira: os matadores não haviam permanecido no local. Mas, por outro lado, Bourne não estava a fim de cair em uma armadilha criada por ele mesmo. Conhecia apenas dois deles, e não poderia reconhecer os outros se ainda estivessem lá.

A área principal do estacionamento ficava depois do caminho circular, no lado esquerdo do hotel. — Diminua a marcha — ordenou Jason. — Vire na primeira entrada à esquerda.

— É uma saída — protestou ela, a voz tensa. — Vamos tomar um caminho errado.

— Ninguém está saindo. Vá, continue! Para dentro do estacionamento, passando pelas luzes.

A cena à entrada do hotel, embaixo da cobertura da entrada, explicava claramente por que eles não haviam sido notados. Quatro carros da polícia estavam alinhados no passeio circular, com as luzes vermelhas girando na capota, transmitindo uma aura de emergência. Os policiais uniformizados, acompanhados pelos funcionários do hotel vestidos de casaca transitavam por entre uma multidão de hóspedes excitados, respondendo e fazendo perguntas, examinando a lista dos que saíam de automóvel.

Marie St. .Jacques atravessou o estacionamento, passando pelos holofotes, e estacionou em um espaço vazio do lado direito. Depois desligou o motor e permaneceu sentada, imóvel, olhando fixamente para a frente.

— Preste atenção, tenha cuidado — disse Bourne, abaixando a vidraça. — E mova-se lentamente. Abra a sua porta e saia, fique ao meu lado e me ajude. Lembre-se, a janela está aberta e tenho uma arma na mão. Você está perto de mim; não vou errar se atirar.

Ela fez o que ele disse, como um autômato aterrorizado. Jason segurou-se na estrutura da janela e conseguiu sair para a calçada. Trocou o peso do corpo de um pé para o outro — a mobilidade estava voltando. Já podia andar. Não bem, com um certo manquejo, mas podia andar.

— O que vai fazer? — perguntou a Dra. St. Jacques como se estivesse com medo de ouvir a resposta.

— Esperar. Cedo ou tarde alguém vai estacionar um carro aqui. Não importa o que tenha acontecido lá dentro, ainda é hora do jantar. As reservas de mesa já foram feitas, alguns encontros já foram programados, a maioria para tratar de negócios — essas pessoas não vão mudar de idéia.

— E quando aparecer um carro, como vai tomá-lo? — Ela fez uma pausa e, em seguida, respondeu à sua própria pergunta. — Oh, meu Deus, você vai matar quem estiver dirigindo.

Ela agarrou-lhe o braço, seu rosto estava a centímetros dele, branco como cera. Ele tinha que controlá-la pelo medo, mas mão a ponto de deixá-la cair em histeria. — Se tiver que matar, mato. Mas acho que não vai ser necessário. Os empregados do estacionamento trazem o carro para cá. As chaves em geral são deixadas sobre o painel do carro, ou embaixo dos bancos. É fácil.

Luzes de farol iluminaram a bifurcação do caminho circular; um pequeno cupê acelerou ao entrar na quadra — provavelmente dirigido por um dos empregados do hotel. O carro veio diretamente para eles, deixando Bourne um pouco alarmado até perceber o espaço vazio ao lado. Mas eles estavam na frente dos faróis, tinham sido vistos.

Reservas para o jantar... Um restaurante. Jason tomou uma decisão; usaria a oportunidade.

O empregado saiu do cupê e pôs as chaves embaixo do banco. Enquanto se encaminhava para a traseira do carro, cumpriinentou-os com um aceno de cabeça, parecendo um pouco curioso. Bourne falou em francês.

— Olá, meu jovem! Talvez possa nos ajudar.

— Sim, senhor? — O empregado se aproximou um pouco, hesitante, cauteloso; obviamente os acontecimentos no hotel ainda estavam em sua memória.

— Não estou muito bem, bebi demais do excelente vinho suíço de vocês.

— Acontece, senhor. — O jovem sorriu aliviado.

— Minha mulher achou bom tomar um pouco de ar fresco antes de ir para a cidade.

— Uma boa idéia, senhor.

— Ainda está tudo agitado lá dentro? Achei até que o policial não nos deixaria sair. Mas quando viu que eu estava na iminência de vomitar em cima do seu belo uniforme...

— Muito agitado, senhor. Estão por toda parte... Temos ordens de não comentar.

— É claro. Mas estamos com uni problema. Um amigo nosso chegou esta tarde e concordamos em nos encontrar em um restaurante. Mas esqueci o nome. Já estive lá antes, mas não consigo me lembrar onde fica nem como se chama, Só me lembro que na fachada havia três formas estranhas... Um desenho qualquer... Triângulos, acho.

— É o Drei Alpenhäuser, senhor. Os... Três Chalés. Fica numa rua lateral, depois da Falkenstrasse.

— Sim, é claro, é isso mesmo! E para ir lá, saindo daqui, nós... — Bourne foi pronunciando as palavras lentamente, como um homem bêbado tentando se concentrar.

— Vire a esquerda no fim da saída, senhor. Vá reto pelo Uto Quai por uns cem metros mais ou menos, até alcançar um píer grande então vire à direita. Vai levá-lo até a Falkenstrasse. Logo que o senhor passar a Seefeld, fique atento à rua do restaurante. Tem uma placa na esquina.

— Obrigado. Estará aqui daqui a algumas horas, quando voltarmos?

— Estou de serviço até as duas da manhã, senhor

— Ótimo. Procura-lo-ei para expressar-lhe minha gratidão mais concretamente.

— Obrigado, senhor. Posso ir buscar seu carro?

— Você já fez muito, obrigado. Preciso andar mais um pouco. — O empregado se despediu e se dirigiu para o hotel. Jason guiou Marie St. Jacques até o cupê, capengando um pouco ao seu lado. — Depressa! As chaves estão debaixo do assento.

— Se nos deterem, o que faremos? Esse empregado vai ver o carro sair, vai perceber que você o roubou.

— Duvido. Não se nós sairmos já, logo que ele entrar naquela confusa multidão.

— E se ele perceber?

— Se isso acontecer, espero que você saiba correr — disse Bourne enquanto a empurrava para a porta do carro. — Entre. — O empregado dobrou a calçada em direção à frente do hotel e, de repente, apressou o passo. Jason puxou a arma e capengou rapidamente em volta do carro, segurando-se na capota, enquanto apontava o revólver para o pára-brisa. Depois, abriu a porta de trás e pôs-se ao lado dela. — Merda. Eu disse para pegar as chaves!

— Está bem... Não consigo pensar.

— Tente, tente!

— Oh, Deus... — Ela estendeu a mão por baixo do assento e pôs-se a procurar sob o tapete até que achou o pequeno estojo de couro.

— Ligue o motor, mas espere até que eu lhe diga para dar a ré. — Ele esperou para ver se aparecia algum farol na entrada do estacionamento, porque então o empregado teria uma razão para voltar correndo, pois haveria mais um carro para estacionar. Mas não apareceu nada. E talvez por outra razão: havia duas pessoas desconhecidas na área do estacionamento. — Em frente, depressa! Quero sair daqui. — Ela jogou a marcha para a ré e segundos depois estavam se aproximando da saída pelo caminho que dava frente para o lago. — Diminua a marcha — ordenou ele. Um táxi apareceu na frente deles, na curva do caminho.

Bourne prendeu a respiração e olhou pela janela de trás para a entrada do Carillon du Lac. O que se passava debaixo do toldo da entrada explicava bem a súbita necessidade que teve o empregado de se apressar — iniciara-se uma discussão entre a polícia e um grupo de hóspedes do hotel. Estava-se formando uma fila para checar os nomes daqueles que estavam deixando o hotel; a demora resultante impacientava os inocentes.

— Vamos — disse Jason, de novo tremendo. A dor vinha em pontadas por todo o peito. — O caminho está limpo.

Era uma sensação de entorpecimento, estranha e misteriosa. Os três triângulos eram exatamente como ele os imaginara: em madeira grossa e escura, em baixo-relevo na parede de pedra branca. Três triângulos iguais, como uma rendição à abstração geométrica dos telhados do chalé cobertos de neve e com os andares mais baixos completamente cobertos. Acima das três pontas estava o nome do restaurante, escrito em letras góticas: DREI ALPENHÄSER. Embaixo dos triângulos ficava a entrada. Duas portas que formavam um arco de catedral; as aldravas de ferro maciço, em forma de argolas, eram comuns aos château alpinos.

Os prédios em volta, dos dois lados da rua estreita e de pedras, eram estruturas restauradas de um passado antigo de Zurique e da Europa. Não era uma rua para automóveis. Imaginava-se passando por ali formosas carruagens puxadas por cavalos, com os cocheiros naqueles assentos altos usando cachenê e cartola, iluminados pelos lampiões a gás. Era uma rua repleta de visões e ruídos de lembranças esquecidas, apesar de o homem não ter memórias para lembrar.

Mesmo assim, teve uma, vívida e perturbadora. Três triângulos escuros, luzes intensas e velas. Estava certo, era uma lembrança de Zurique. Mas de outra vida.

— Chegamos — disse a mulher.

Eu sei.

— Diga-me o que fazer! — gritou ela. — Estamos passando.

— Siga até a esquina e vire à esquerda. Dê a volta no quarteirão e depois volte até aqui.

— Por quê?

— Quisera saber.

— O quê?

— Porque mandei. — Havia alguém lá ... no restaurante. Por que não lhe vinham outras imagens? Outra imagem. Um rosto.

Rodaram pela rua e passaram pelo restaurante mais duas vezes. Dois casais, um depois do outro e mais um quarteto entra ram; um homem saiu, indo em direção à Falkenstrasse. A julgar pelos carros estacionados na calçada, havia um pequeno grupo no Drei Alpenhäuser. Logo chegaria mais gente, dali a umas duas horas, porque a maioria das pessoas preferia a refeição da noite às dez e meia, em vez das oito. Não havia mais por que se retardar, nada mais lhe vinha à mente. Podia sentar-se e ficar atento, na esperança de que alguma coisa lhe viesse à cabeça. Alguma coisa. Porque já viera antes, como aquela caixa de fósforos, que lhe evocou uma imagem real. E dentro dessa realidade havia uma verdade que ele tinha que descobrir.

— Encoste à direita, na frente do último carro. Vamos a pé.

Em silêncio, sem comentários ou protestos, a mulher fez como ele lhe mandara. Jason olhou para ela, estava sendo muito dócil, incoerente com o seu comportamento anterior. Ele entendeu. Tinha que lhe dar uma lição de novo. Sem levar em conta o que podia acontecer lá dentro, no Drei Alpenhäuser, ainda precisava dela para uma última contribuição. Ela teria que levá-lo para fora de Zurique.

Q carro parou, os pneus arranhando o meio-fio. Ela desligou o motor e ia tirar as chaves do contato com um movimento lento, muito lento. Ele estendeu o braço e segurou-lhe o pulso; ela o olhou naquela escuridão, sem respirar. Ele foi escorregando os dedos até encontrar o chaveiro.

— Fico com elas — disse.

— É claro — respondeu ela, deixando a mão esquerda cair mecanicamente do lado do corpo, sustentado pelo painel da porta.

— Agora saia e fique ao lado do carro — continuou ele. — Não faça nenhuma bobagem.

— E por que faria? Você me mataria.

— Ótimo. — Ele estendeu o braço para o trinco, exagerando um pouco a dificuldade, a cabeça virada para o outro lado. Então abaixou o trinco...

De repente, o ruído do tecido do vestido, a golfada de ar, a porta da frente aberta, e a mulher já estava com meio corpo para fora, para a rua. Mas Bourne estava alerta; a lição tinha que ser dada. Virou-se, o braço esquerdo como uma mola, a mão uma garra, e segurou a seda do vestido que estava entre as suas espáduas. Puxou-a de volta para o assento e, agarrando-a pelo cabelo, virou-lhe a cabeça para trás até que o seu pescoço estivesse esticado e o rosto de frente para ele.

— Não vou fazer isso de novo! — disse ela, enquanto as lágrimas lhe brotavam dos olhos. — Juro que não vou fazer de novo!

Ele estendeu o braço e bateu a porta, fechando-a. Depois olhou-a fixamente, tentando entender alguma coisa nele mesmo. Meia hora antes, em outro carro, experimentara certa náusea ao encostar o cano da arma no rosto dela, ameaçando-a de morte se não o obedecesse. Agora não sentia essa mudança; com esta ação indissimulada ela passara para um outro território, tornara-se uma inimiga, uma ameaça; se precisasse, mata-la-ia, e sem nenhuma emoção, simplesmente porque era a coisa mais prática a ser feita.

— Diga alguma coisa! — sussurrou ela. E seu corpo teve um leve espasmo, os seios apontando contra a seda escura do vestido, o peito arfando, subindo e descendo com um movimento agitado. Segurou o próprio pulso na tentativa de controlar-se e quase conseguiu. De novo falou, mas em vez do sussurro, era agora num tom monótono e lento. — Eu disse que não vou fazer isso de novo e não vou.

— Mas vai tentar — respondeu ele calmo. — Vai chegar um momento em que você vai achar que pode e vai tentar de novo. Acredite em mim quando lhe digo que não pode. Mas se tentar de novo vou ter que matá-la. Não quero fazer isso. Não há motivos para fazer isso, nenhuma razão, a menos que você se torne uma ameaça para mim. E quando tenta fugir antes que eu a deixe ir, é isso que você se torna: uma ameaça. Não posso permitir isso.

Dissera a verdade, pelo menos como ele a entendia. A simplicidade da decisão lhe era tão surpreendente quanto a própria decisão em si. Matar era apenas uma questão prática, nada mais.

— Você disse que me deixaria ir — falou ela. — Quando?

— Quando eu estiver a salvo — respondeu. — Quando não fizer mais nenhuma diferença o que você fizer ou disser.

— Quando será isso?

— Mais ou menos daqui a uma hora. Quando estivermos fora de Zurique e eu estiver indo para qualquer outro lugar. Você não saberá para onde nem como.

— Por que devo acreditar em você?

— Não me interessa se acredita ou não. — Soltou-a. — Arrume-se. Limpe os olhos e penteie os cabelos. Vamos entrar.

— O que há lá dentro?

— Quisera saber — disse ele dando uma olhada pela janela de trás para a porta do Drei Alpenhäuser.

— Você já disse isso antes.

Ele olhou para ela, para os arregalados olhos castanhos que procuravam os seus. Procuravam com medo, com espanto. — Eu sei. Depressa!

Grossas vigas atravessavam o teto alto, estilo alpino, as mesas e cadeiras eram de madeira pesada, havia muitos compartimentos e luz de vela espalhada por todos os cantos. Uma acordeonista movimentava-se por entre as pessoas, graves acordes saíam do seu instrumento.

Ele já vira aquela sala ampla antes, as vigas e as luzes de vela estavam impressas em alguma parte de sua mente; os sons também. Já viera ali em outra vida. Os homens de casaca o cumprimentaram.

— Haben Sie einen Tisch schon reserviert, mein Herr?

— Se está falando em reservas, não, acho que não. Mas vocês me foram muito recomendados. Espero que tenha lugar para nós. Um reservado, se possível.

— Certamente, senhor. É cedo ainda, temos lugares, as mesas ainda não estão lotadas. Por aqui, por favor.

Foram conduzidos até um reservado no canto mais próximo; a luz de uma vela tremulava no centro da mesa. Sua dificuldade de andar, apoiado na mulher, fez com que fossem logo acomodados na mesa mais próxima. Ele fez um sinal para Marie St. Jacques e ela sentou-se. Ele deslizou para o banco, sentando-se à sua frente.

— Fique do lado da parede — disse depois que o maître se afastou. — Lembre-se de que a arma está no meu bolso e tudo o que tenho a fazer é me levantar, e será o seu fim.

— Eu disse que não iria tentar.

— Espero que não. Peça um drinque, não há tempo para comer.

— Nem eu poderia comer. — Segurou o pulso de novo, a mão tremia visivelmente. — Por que não há tempo? O que você está esperando?

— Não sei.

— Por que continua a dizer isso? “Não sei.” “Quisera saber.” Por que veio para cá?

— Porque já estive aqui antes.

— Isso não é resposta!

— Não tenho nenhuma razão para lhe dar uma resposta.

Um garçom se aproximou e ela pediu vinho. Bourne ordenou um uísque, precisava de uma bebida mais forte. Olhou em torno, tentando se concentrar em tudo e nada. Uma esponja. Mas havia apenas um nada. Nenhuma imagem, nenhum pensamento preenchia aquele vazio. Nada.

Mas de repente avistou o rosto do outro lado da sala. Um rosto grande numa cabeça redonda, assentada em um corpo obeso, encostado à parede de um reservado no fim do salão, perto de uma porta fechada. O homem gordo permanecia nas sombras do seu posto de observação, como se elas fossem a sua proteção, como se aquela parte escura fosse o seu santuário. Pôs os olhos em Jason: era um olhar de medo e descrença. Bourne não conhecia aquele rosto, mas o rosto o conhecia. O homem enxugou os cantos da boca os dedos e em seguida passou os olhos pelas mesas, detendo-se em cada uma delas. Depois começou a andar em direção ao reservado, parecendo cheio de pesar.

— Um homem vem vindo para cá — disse Jason por sobre a chama da vela. — Um homem gordo, que parece estar com muito medo. Não diga nada. Não importa o que ele diga, mantenha-se calada. E não olhe para ele, ponha o cotovelo na mesa e descanse a cabeça na mão naturalmente. Olhe para a parede, não para ele.

A mulher enrugou a face, colocou a mão direita no rosto, os dedos tremiam. Os lábios pareciam querer fazer uma pergunta, mas nenhuma palavra saiu da boca. Jason respondeu à pergunta.

— Para o seu próprio bem — disse —, ele não deve identificá-la.

O homem gordo apareceu no canto da mesa. Bourne soprou a vela. A chama se apagou e a mesa ficou em meia escuridão. O homem olhou espantado para ele e falou em voz baixa, tensa.

— Du lieber Gott! Por que veio aqui? O que fiz para que você me fizesse isto?

— Gosto da comida, você sabe disso.

— Você não tem sentimentos? Tenho uma família, mulher e filhos. Fiz apenas o que me mandaram. Entreguei-lhe um envelope, nem mesmo olhei o que continha. Não sei de nada!

— Mas você foi pago, não foi? — Jason perguntou instintivamente.

— Sim, mas nada disse. Nunca nos vimos, nunca o descrevi. Não contei nada a ninguém!

— Então por que está com medo? Sou apenas um freguês pedindo um jantar.

— Peço-lhe, saia.

— Agora estou com raiva. É melhor me dizer por quê.

O homem gordo levou as mãos ao rosto, os dedos enxugando novamente a umidade que se formara em volta da boca. Apontou com a cabeça para a porta, depois voltou-se para Bourne. — Alguém deve ter falado, alguém pode conhecê-lo. Já tive muito problema com a polícia, eles viriam diretamente a mim.

A Dra. St. Jacques perdeu o controle, olhou para Jason, e as palavras lhe escaparam. — A polícia... Era a polícia.

Bourne olhou-a firmemente, e depois voltou-se para o nervoso homem gordo. — Está dizendo que a polícia faria mal a sua mulher e filhos?

— Não a eles propriamente. O senhor sabe muito bem... O interesse deles traria outras pessoas para cá. Iriam até minha família. Quantos estão à sua procura, mein Herr? O que são eles e o que fazem? Nem precisa da minha resposta, eles fazem qualquer coisa — a morte de uma esposa ou de uma criança não representa nada. Por favor. Pela minha vida. Eu nada disse. Saia.

— Você está exagerando. — Jason começou a beber seu drinque tentando despachá-lo.

— Em nome de Cristo, não faça isto! — O homem inclinou-se agarrando-se à borda da mesa. — Você quer uma prova do meu silêncio? Pois lhe dou. A notícia foi espalhada por todo o Verbrecherwelt. Qualquer pessoa que tivesse alguma informação devia chamar um número indicado pela policia de Zurique. Tudo seria mantido na mais restrita confidência, eles não mentiriam no Verbrecherwelt sobre isso. Os prêmios eram vultosos, policia de vários países envidando fundos através da Interpol. Qualquer equívoco podia ser visto sob novas luzes judiciais. — O conspirador ficou ereto, enxugando a boca novamente, o imenso corpo se elevando por sobre a mesa. — Um homem como eu poderia ter bom proveito com uma relação melhorada com a polícia. Mesmo assim, nada fiz. Mesmo com a garantia de que tudo seria confidencial, nada fiz!

— Alguém fez? Diga-me a verdade, e saberei se você está mentindo.

— Só conheço Chernak. Ele é o único com quem falei e que admite tê-lo visto. Mas o senhor sabe dessas coisas; o envelope me foi passado por ele. Ele jamais diria alguma coisa.

— Onde está Chernak agora?

— Onde sempre está. Em seu apartamento na Lõwenstrasse.

— Nunca estive lá. Qual é o número?

— Nunca esteve...? — O homem gordo parou, os lábios apertados, ,os olhos mostrando espanto. — Está me testando?

— Respõnda à pergunta.

— Número 37. Sabe tão bem quanto eu.

— Então estou testando-o. Quem deu o envelope para Chernak?

O homem ficou imóvel, sua dúbia integridade desafiada. — Não tenho meios de saber. E jamais perguntaria.

— Nem mesmo teve curiosidade?

— É claro que não. Uma ovelha não entra na caverna do lobo.

— As ovelhas são muito bem equipadas, têm olfato muito acurado.

— E são cautelosas, mein Herr. Porque o lobo é mais rápido e muito mais agressivo. Haveria apenas uma perseguição, e seria a última da ovelha.

— O que havia dentro do envelope?

— Já lhe disse, não o abri.

— Mas sabe o que tinha dentro.

— Dinheiro, acho.

— Você acha?

— Muito bem. Dinheiro. Uma grande soma de dinheiro. Se houve qualquer discrepância, não tem nada a ver comigo. Agora, por favor, eu lhe peço. Saia daqui!

— Uma última pergunta.

— Qualquer coisa. Mas saia!

— Para que era o dinheiro?

O homem obeso olhou-o espantado, a respiração era audível, o suor começava a brilhar-lhe no rosto. — Você me deixa encurralado, mein Herr, mas não cederei. Chame a isso coragem de uma insignificante ovelha que sobreviveu. Leio os jornais todos os dias. Em três línguas. Há seis meses um homem foi morto. Sua morte foi notícia de primeira página em cada um desses jornais.


 

Eles circularam o quarteirão, saindo na Falkenstrasse. Depois viraram à direita no Limmat Quai em frente à catedral de Grossmünster A Löwenstrasse ficava do outro lado do rio, no lado oeste da cidade. O caminho mais rápido para chegar até lá era atravessar a Ponte Münster, seguir pela Bahnhofstrasse e depois pela Nüschelerstrasse. As ruas se cruzavam, de acordo com a informação de um casal que ia entrando no Drei Alpenhäuser.

Marie St. Jacques estava silenciosa, segurando firmemente o volante, como se agarrara às tiras da bolsa durante toda aquela loucura no Carillon. Talvez tentasse se agarrar à sua própria sanidade mental. Bourne olhou para ela e entendeu.

... um homem foi morto. A sua morte foi notícia de primeira página em cada um desses jornais.

Jason Bourne fora pago para matar e a polícia de vários países enviara fundos através da Interpol para pagar os informantes mais relutantes e poder aumentar a possibilidade de prendê-lo. Isso significava que outros homens já tinham sido mortos...

Quantos estão a sua procura, mein Herr? O que são eles e o que fazem?... Eles fazem qualquer coisa — a morte de uma esposa ou de uma criança não representa nada!

Não se referia à polícia. A outros.

As duas torres do campanário da igreja Grossmünster se erguiam na noite escura, as luzes criavam sombras misteriosas. Jason olhou espantado para a antiga estrutura — como tantas outras coisas ele a conhecia mas sem conhecê-la. Já a vira antes e, no entanto, via-a pela primeira vez.

Só conheço Chernak . . .O envelope me foi passado por ele. ...Löwenstrasse. Número 37. Sabe tão bem quanto eu.

Sabia? Saberia algum dia?

Atravessaram a ponte e entraram no tráfego para a cidade nova. As ruas estavam cheias, automóveis e pedestres competindo e se impondo em cada cruzamento, os sinais vermelhos e verdes trocando interminavelmente, Bourne tentou dispersar os pensamentos, pensar em nada... em tudo. Os contornos da verdade lhe haviam sido apresentados, ganhando forma enigmática, uma revelação mais assustadora do que a outra. Não tinha certeza de ser capaz — mentalmente capaz — de absorver mais alguma coisa.

— Halt! Die Dame da! Die Scheinwerfer sind aus und Sie haben links signaliziert. Das ist cine Einbahnstrasse!

Jason olhou em volta, procurando saber de onde vinha a voz. Uma dor profunda atravessava-lhe o estômago. Um carro de patrulha estava ao lado deles, um policial gritava pela janela aberta. De repente tudo ficou-lhe claro... claro e enraivecedor. A Dra. St. Jacques avistara o carro da polícia pelo espelho, apagara os faróis e fizera sinal para virar à esquerda. Virar à esquerda em rua de mão única cujas setas nos cruzamentos indicavam clara mente que só era permitido seguir em frente! Virar à esquerda e jogar o carro na frente do carro da polícia constituía uma série de contravenções de trânsito: faróis apagados, e talvez até uma batida premeditada, o que faria com que fossem detidos e a mulher pudesse gritar por socorro.

Bourne acendeu os faróis, inclinou-se em direção a ela, com uma mão desligou a lanterna e com a outra segurou-lhe o braço, no lugar onde segurara antes.

— Eu a mato, doutora — disse ele baixinho. E depois gritou pela janela para o policial: — Desculpe-nos! Estamos um pouco perdidos! Turistas! Queremos entrar no próximo quarteirão!

O policial estava a pouca distância de Marie St. Jacques, com os olhos postos no seu rosto, confundido com a falta de reação dela.

A luz do sinal mudou. — Em frente, com calma. Não faça nenhuma bobagem — disse Jason. Acenou para o policial pelo vidro da janela. — Desculpe de novo! — gritou. O policial deu de ombros e virou-se para o seu companheiro, provavelmente para retomar a conversa.

— Eu estava confusa — disse a moça, com a voz suave e trêmula. — O tráfego é tão intenso... Oh, Deus, você quebrou o meu braço!... Seu filho da puta!

Bourne soltou-a, perturbado por sua fúria. Preferia o seu medo. — Não espera que acredite em você, espera?

— Sobre o braço?

— Sobre a sua confusão.

— Você disse que íamos virar à esquerda logo. Eu estava apenas pensando nisso.

— Da próxima vez olhe bem para os sinais. — Afastou-se dela, mas sem tirar os olhos do seu rosto.

— Você é um animal — sussurrou ela fechando os olhos rapidamente e depois abrindo-os, amedrontada. O medo voltara.

Chegaram à Löwenstrasse. Era uma avenida larga, onde alguns prédios baixos, de tijolos e madeira pesada, eram prensados pelos edifícios modernos, de concreto liso e vidro. O desenho dos prédios do século XIX competindo com o pragmatismo da neutralidade da arquitetura contemporânea: mas os antigos não perdiam em nada. Jason olhou para os números; estavam perto do oitenta, iam em ordem decrescente. A cada quarteirão que passava as casas antigas ficavam em mais evidência do que os altos edifícios de apartamentos. Até que a rua retrocedeu no tempo. Havia uma fileira de prédios de quatro andares, os telhados e as janelas em estruturas de madeira, passeios e calçadas de pedra que davam para portas de entrada mais afastadas, iluminadas pelas luzes das antigas carruagens. Bourne reconheceu tudo aquilo, o que não o surpreendia; mas outra coisa, que viera junto com essa memória, era bastante surpreendente. A fileira de casas lhe evocara outra imagem, uma imagem bem forte, de outra fileira. Eram apartamentos com desenho semelhante, embora bem diferentes. Batidos pelo tempo, mais velhos, nem de longe tão próximos, bem cuidados e limpos... Mas com vidraças quebradas, degraus partidos, cercas caídas e rachadas — as pontas de metal enferrujado. Era mais longe, ficava em outra parte de... de Zurique. Sim, ficava em Zurique. Era um distrito pequeno, afastado, onde raramente iam outras pessoas que não fossem as que habitavam lá, uma parte da cidade abandonada, e não gratuitamente.

— Steppdeckstrasse — pensou alto, tentando se concentrar na imagem que estava em sua mente. Podia ver uma fachada, um vermelho desbotado, tão escuro quanto o vestido de seda vermelha que a mulher ao seu lado usava. — Uma pensão... na Steppdeckstrasse.

— O quê? — Marie St. Jacques estava espantada. Suas palavras assustaram-na. Ela compreendera e estava aterrorizada.

— Nada. — Desviou os olhos do seu vestido vermelho e olhou pela janela. — Lá está o número 37 — disse apontando para a quinta casa da fileira. — Pare o carro.

Saiu primeiro, mandando que ela se movesse para o outro lado do assento e o acompanhasse. Depois experimentou as pernas e tomou-lhe as chaves.

— Você pode andar — disse ela. — Se pode andar, também pode dirigir.

— Provavelmente.

— Então deixe-me ir! Fiz tudo o que você queria.

—E mais alguma coisa..

— Não vou contar nada, não consegue entender isso? Você é a última pessoa na face da terra que quero voltar a ver... Não quero nada com você. Não quero ser testemunha, nem ficar envolvida com a polícia, fazer declarações, nada! Não quero tomar parte nisso de que você faz parte! Estou assustada demais... Esta é a sua proteção, não percebe? Deixe-me ir, por favor.

— Não posso.

— Não acredita em mim?

— Isso não é importante. Preciso de você.

— Para quê?

— Para uma coisa muito tola. Não tenho carteira de motorista. E não se pode alugar um carro sem carteira, e tenho que alugar um carro.

— Você já tem este.

—Só vai servir por mais uma hora talvez. Logo alguém sairá do Carillon du Lac e irá querê-lo. A descrição será dada pelo rádio para todos os carros de polícia de Zurique.

Ela olhou para ele, havia um medo mortal em seus olhos. — Não quero ir lá com você. Ouvi o que aquele homem disse no restaurante. Se eu ouvir mais alguma coisa, você me matará.

— O que você ouviu faz tanto sentido para mim quanto para você. Talvez faça menos para mim. Venha. — Segurou-a pelo braço e pôs a mão livre no corrimão, para poder subir a escada sem sentir muita dor.

Ela olhou-o, estava assustada e ao mesmo tempo surpresa.

O nome M. Chernak estava debaixo do segundo escaninho para correspondência; havia uma campainha debaixo das letras. Ele não a apertou, mas apertou todas as outras quatro. Em poucos segundos ouviu-se uma confusão de vozes vindas dos pequenos, minúsculos alto-falantes a perguntarem em suíço quem estava Já. Mas alguém não respondeu à campainha. Apenas apertou um botão que destravava a porta. Jason abriu a porta, empurrando Marie St. Jacques na sua frente.

Encostou-a na parede e esperou. Lá de cima vinham os ruídos de portas se abrindo, passos em direção à escada.

—Wer ist da?

— Johann?

— Wo bist du denn?

Silêncio. E depois palavras irritadas. Mais ruídos de passos, portas fechadas.

M. Chernak ficava no segundo andar, apartamento 2C. Bourne segurou o braço da moça, capengou perto dela até a escada e começou a subir. Ela estava bem, é claro. Mas seria muito melhor se estivesse sozinho; embora nada pudesse fazer para modificar a situação, pois precisava dela.

Estudara alguns mapas de estradas enquanto estivera em Port Noir. Lucerna ficava a meia hora dali, não mais, e Berna a duas e meia ou três. Podia ir para uma das duas, deixá-la em algum lugar deserto durante a viagem e depois desaparecer. Era simplesmente uma questão de tempo; tinha os recursos para comprar uma centena de contatos. Precisava apenas de um conduto para sair de Zurique. e ela era esse conduto.

Ms antes de sair de Zurique precisava saber, tinha que conversar com um homem chamado...

M. Chernak. O nome estava do lado direito da campainha. Afastou-se da porta, puxando a mulher com ele.

— Você fala alemão? — perguntou Jason.

— Não.

— Não minta.

— Não estou mentindo.

Bourne pensou, enquanto olhava de cima abaixo o corredor. Então: — Aperte a campainha. Se a porta abrir fique parada. Se alguém responder de dentro, diga que você tem uma mensagem — uma mensagem urgente — de um amigo do Drei Alpenhäuser.

— E se ele — ou ela — disser para enfiá-la por baixo da porta?

Jason olhou-a. — Muito bem!

— Apenas não quero mais violência. Não quero saber mais nada ou ver mais alguma coisa. Só quero...

— Sei — ele a interrompeu. — Voltar para os impostos de César e as guerras púnicas. Se ele — ou ela — disser alguma coisa parecida, pode explicar em poucas palavras que a mensagem é oral e só pode ser entregue para o homem que lhe descreveram.

— E se me perguntar qual é a descrição? — disse Marie St. Jacques friamente, a análise esvaziando momentaneamente o medo.

— Tem uma boa cabeça, doutora — ele disse.

— Estou tentando ser precisa. Estou assustada, já lhe disse isso. O que faço?

— Mande-os para o inferno, outra pessoa pode vir entregá-la. Em seguida, comece a andar.

Ela foi até a porta e apertou a campainha. Lá de dentro veio um ruído estranho. Um rangido que foi ficando mais alto, mais constante. De repente parou. Uma voz grave soou por trás da madeira.

— Sinto muito, não falo alemão.

— Ja?

— Englisch? O que é? Quem é você?

— Trago uma mensagem urgente de um amigo do Drei Alpenhäuser.

— Enfie-a por baixo da porta.

— Não posso. Não está escrita. Tenho que transmiti-la pessoalmente ao homem que me foi descrito.

— Bem, isso não será difícil — disse a voz. Ouviu-se o ruído de chave e a porta se abriu.

Bourne saiu do corredor e chegou-se à porta.

— Você está louco! — gritou o homem, que não tinha pernas, apenas dois cotos, enquanto se movia em uma cadeira de rodas. — Saia! Saia daqui!

— Já estou cansado de ouvir isso — disse Jason, empurrando a moça para dentro, entrando e fechando a porta.

Não foi necessária qualquer pressão para convencer Marie St. Jacques a permanecer em um quarto pequeno e sem janelas enquanto conversavam. Ela estava dócil. O homem sem pernas estava em pânico, o rosto desolado e branco como vela, os cabelos cinzas despenteados, caindo desgrenhados sobre o pescoço e a testa.

— O que você quer de mim? — perguntou. — Você jurou que aquela seria a nossa última transação! Não posso mais fazer outra, não posso me arriscar. Alguns mensageiros estiveram aqui. Não importa que sejam cuidadosos, nem quantos já foram eliminados. Mas estiveram aqui! Se um deles deixa um endereço no apartamento errado, sou um homem morto!

— Você agiu muito bem, levando em conta os riscos que assumiu — disse Bourne pondo-se na frente da cadeira de rodas. A mente corria veloz, tentando imaginar se havia uma palavra ou frase que pudesse puxar uma corrente de informações. Então, lembrou-se do envelope. Se houve qualquer discrepância, não tem nada a ver comigo. O homem gordo do Drei Alpenhäuser.

— É insignificante se comparado com a magnitude desses riscos. — Chernak balançou a cabeça, o peito estufado, os cotos dependurados da cadeira balançando-se obscenamente para a frente e para trás. — Eu estava muito satisfeito antes de você aparecer na minha vida, mein Herr, porque eu era insignificante. Um velho soldado que conseguiu chegar até Zurique — estourado, um aleijado, sem valia, exceto por algumas informações reservadas pelas quais velhos camaradas pagavam miseravelmente para eliminá-las. Era uma vida decente, não muito, mas o suficiente. Até que você me descobriu...

— Estou comovido — interrompeu Jason. — Vamos falar sobre o envelope — o envelope que você passou para o nosso amigo do Drei Alpenhäuser. Quem lhe deu?

— Um mensageiro. Quem mais?

— De onde veio?

— Como eu saberia? Veio dentro de uma caixa, como os outros. Abri a caixa e passei-o adiante. Foi você quem pediu que fosse assim. Disse que não podia mais vir aqui.

— Mas você o abriu. — Falou sério, fazendo uma declaração.

— Nunca!

— Se eu lhe disser que estava faltando dinheiro?

— Então foi porque não lhe foi pago. Não estava no envelope! — O homem sem pernas levantou a voz. — De qualquer forma, não acredito em você. Se fosse assim, você não teria aceito o trabalho. Mas você o aceitou, aceitou aquele trabalho. E por que está aqui agora?

Porque preciso saber. Porque estou ficando louco. Vejo coisas e ouço coisas que não entendo. Sou bem um perfeito e completo... vegetal! Ajude-me!

Bourne se afastou da cadeira de rodas. Caminhou até uma estante onde estavam várias fotografias em cima de uma prateleira, encostadas à parede. Elas explicavam bem o homem que estava atrás dele. Grupos de soldados alemães, alguns com cães pastores, posando do lado de fora das barracas ou próximo às cercas... e em frente a uma alta cerca de arame farpado aparecia parte de uma palavra. DACH...

Dachau.

O homem atrás dele! Estava se mexendo! Jason virou-se. O homem sem pernas enfiara a mão dentro de uma bolsa de lona amarrada à cadeira, os olhos em fogo, o rosto em fúria, contorcido. A mão saiu devagar com um revólver de cano curto. E antes que Bourne pudesse puxar a sua arma, Chernak atirou. Os tiros foram rápidos. A dor lancinante, como um gelo, tomou seu ombro esquerdo, depois a cabeça — oh, Deus! Jogou-se para a direita, rolando sobre o tapete e jogando contra o aleijado uma luminária de chão, pesada. Depois rolou de novo até ficar atrás da cadeira, mas distante. Inclinou-se e investiu com o ombro direito contra as costas de Chernak, jogando o homem sem penas para fora da sua cadeira, enquanto procurava a arma no bolso.

— Eles vão pagar pelo seu cadáver! — gritou o homem deformado contorcendo-se no chão e tentando firmar o corpo aleijado para poder levantar a arma e fazer pontaria. — Você não vai me pôr num caixão. Eu sim o verei lá dentro! Carlos vai me pagar muito bem! Por Cristo, ele vai me pagar!

Jason virou-se para a esquerda e atirou. A cabeça de Chernak foi jogada para trás, da garganta irrompia o sangue. Estava morto.

Um grito veio da porta do quarto, se avolumou, ficou mais alto, intenso, depois grave e se alongando, como um lamento, medo e revolta, tudo combinado em um mesmo acorde. Um grito de mulher... É claro, era uma mulher! A sua refém, o seu passe para sair de Zurique! Oh, Jesus, ele não conseguia enxergar bem! Suas têmporas estavam em agonia!

Mas logo pôde ver de novo, recusando-se a dar atenção à dor. Conseguiu enxergar um banheiro, a porta aberta, toalhas, uma pia e um armário com espelho. Precipitou-se para lá, puxou o espelho com tanta força que partiu as dobradiças e o espelho foi estatelar-se no chão. Prateleiras. Rolos de gaze e esparadrapo e... Era tudo o que ele podia agarrar. Tinha que sair... Tiros, tiros sempre davam alarme. Tinha que sair, pegar sua refém e sair dali! O quarto, o quarto. Onde ficava?

Aquele grito, o lamento... Tinha que seguir o grito! Aproximou-se da porta e abriu-a com um pontapé. A mulher... Sua refém — como era mesmo o seu nome? — estava encostada na parede, as lágrimas lhe corriam pelo rosto, os lábios abertos. Correu até ela, agarrou-a pelo pulso e puxou-a para fora.

— Meu Deus, você o matou! — gritou ela. — Um velho sem...

— Cale-se! — Empurrou-a em direção à porta, abriu-a e a empurrou pata fora, para o corredor. Podia ver alguns vultos escondidos em alguns lugares, perto das grades do corrimão, dentro das salas. Em seguida, eles começaram a correr e desapareceram. Pôde ouvir batidas de porta, gente gritando. Então, segurou o braço da mulher com a mão esquerda; a pressão causava- lhe dor no ombro. Impeliu-a em direção à escada e forçou-a a descê-la com ele, segurando-se nela com a mão esquerda, a arma na mão direita.

Logo chegaram ao saguão, onde ficava a pesada porta de entrada. — Abra-a! — ordenou-lhe; e ela o fez imediatamente. Passaram pela fileira das caixas de correspondência até chegar à porta que dava para a rua. Largou-a um pouco, abriu a porta e espiou para fora, para ver se ouvia alguma sirene. Mas não ouviu nada. — Venha! — disse, enquanto a empurrava para os degraus de pedra e corria para a calçada. Procurou no bolso as chaves do carro. — Entre!

Já dentro do carro, desembrulhou a gaze e comprimiu-a contra a cabeça, limpando o filete de sangue que escorria. Das profundezas da sua consciência vinha uma estranha sensação de alívio. O ferimento era apenas um raspão de bala; mas o fato de ter sido um ferimento na cabeça deixara-o em pânico. A bala não entrara no crânio. Não entrara. Não haveria portanto nenhum retomo à agonia de Port Noir.

— Maldição, ligue o carro! Saia daqui!

— Para onde? Você não disse para onde. — A mulher não gritava; ao contrário, estava calma. Estranhamente calma, e olhava para ele. Estaria mesmo olhando para ele?

Estava ficando tonto de novo, perdendo a visão. — Steppdeckstrasse... Ele ouviu a palavra sendo pronunciada sem ter certeza se vinha dele. Mas podia muito bem imaginar a porta de entrada. A pintura era vermelho-escuro, a parede desbotada, os vidros, quebrados... os gradis, enferrujados. — Steppdeckstrasse — repetiu.

O que estava errado? Por que o motor não começava a funcionar? Por que o carro não saía do lugar? Ela não o ouvira?

Ela estava com os olhos fechados. Abriu-os. A arma! A arma que estava no seu colo! Ele a deixara no colo para desenrolar a atadura e passá-la na testa... Ela estava procurando pegá-la, pegá-la! A arma caiu ao chão, ele tentou alcançá-la, mas ela o empurrou e ele bateu com a cabeça no vidro da janela. A porta do lado abriu-se e ela saiu para a rua, começando a correr. Estava fugindo! A sua refém, o seu salvo-conduto para a liberdade estava fugindo pela Löwenstrasse.

Não podia ficar no carro e também não ousava guiá-lo. O carro era uma armadilha de aço, podia marcá-lo. Colocou a arma no bolso, junto com o rolo de esparadrapo, e segurou a gaze na mão esquerda, pronto para pressioná-la contra a testa logo que o sangue escorresse. Depois saiu do carro e começou a andar mancando, tão rápido quanto podia.

Devia haver uma esquina ali por perto, um táxi. Steppdeckstrasse.

Marie St. Jacques continuou a correr pelo meio da avenida larga e deserta, passando por baixo dos postes de luz e fazendo sinais para os carros que passavam pela Löwenstrasse. Eles passavam correndo por ela. Ela virava-se a cada carro que aparecia e implorava atenção, levantando as mãos. Os carros aceleravam e passavam. Zurique era assim. E a Löwenstrasse à noite era muito larga, muito escura e ficava muito perto do parque deserto e do rio Sihl.

Um homem, no entanto, tomou consciência dela. Com os faróis apagados, enxergou a mulher, e disse ao seu companheiro em suíço:

— Pode ser ela. Aquele tal de Chernak mora a um quarteirão daqui, mais ou menos.

— Pare, deixe que ela se aproxime. Ela estava usando um vestido de seda... É ela!

— Vamos averiguar antes de informar pelo rádio.

Os dois saíram do cano, movendo-se discretamente pelas margens da avenida. Usavam ternos sociais comuns, de homens de negócio, tinham rostos agradáveis, mas eram sérios, pareciam homens de negócio mesmo. A mulher em pânico se aproximou. Caminharam rapidamente em sua direção, no meio da rua. O motorista chamou-a.

— Was ist passiert, Fräulein?

— Ajudem-me! — gritou ela — Não... não falo alemão. Nicht sprechen. Chamem a polícia. A... Polizei!

O companheiro do motorista falou num tom autoritário, tentando acalmá-la — Somos da polícia — disse em inglês. — Zurich Sicherheitpolizei. Não estávamos certos, senhorita, mas a senhorita é a mulher do Carillon du Lac?

— Sim! — gritou ela. — Ele não me soltava! Continuou a me bater e a me amedrontar com um revólver! Foi horrível!

— Onde está ele agora?

— Está ferido. Levou um tiro. Fugi do carro... Ele estava no carro quando fugi! — Apontou para o lado de baixo da Löwenstrasse. — Lá. A duas quadras, acho. No meio do quarteirão. Um cupê, um cupê cinza. Tem um revólver.

— Nós também temos, senhorita — disse o motorista. — Venha conosco, acomode-se no assento traseiro do carro que ficará completamente a salvo; seremos cuidadosos. Rápido agora.

Aproximaram-se do cupê cinza, encostaram, os faróis apagados. Não havia ninguém dentro. Mas havia muita gente conversando excitadamente na calçada e nos degraus do número 37. O companheiro do motorista virou-se e falou com a mulher, aterrorizada no assento de trás.

— Esta é a residência de um homem chamado Chernak. Ele o mencionou? Disse que iria vê-lo?

— Ele veio vê-lo e me fez vir junto! Ele o matou! Matou aquele velho aleijado!

— Der Sender — schnell — disse o companheiro do motorista, enquanto puxava um microfone do painel. — Wir sind zwei Strassen von da. — O carro arrancou; a mulher agarrou-se no assento da frente.

— Mas o que estão fazendo? Um homem foi morto lá!

— E precisamos encontrar o assassino — disse o motorista. — Como você disse, ele estava ferido e deve estar ainda por esta área. Este carro não é marcado e podemos descobri-lo. Vamos esperar, é claro, para nos certificarmos até que o pessoal da inspeção chegue, mas os nossos deveres são completamente diferentes. — O carro diminuiu a marcha, encostando no meio-fio, bem mais à frente do número 37 da Löwenstrasse.

O homem falou ao microfone, enquanto o motorista explicava a sua posição oficial. Houve um ruído de estática no painel onde estava o microfone, depois foram ouvidas as palavras: — Wir kommen binnen zwanzig Minuten. Wartet.

— Nosso superior logo estará aqui — disse.

— Temos que esperá-lo. Quer falar com você.

Marie St. Jacques encostou-se no banco, fechando os olhos e respirando fundo. — Oh, Deus... Quisera ter alguma coisa para beber!

O motorista riu e fez um sinal com a cabeça para o companheiro, que tirou do porta-luvas uma garrafinha e entregou-lhe, sorrindo. — Não somos muito chiques, senhorita. Não temos copos nem taças, mas temos brandy. Para emergências como esta, é claro. Por favor, com os nossos cumprimentos.

Ela sorriu em agradecimento e aceitou a garrafa. — Vocês são duas pessoas muito simpáticas e jamais poderão saber como lhes sou grata. Se algum dia forem ao Canadá, far-lhes-ei a melhor comida francesa da província de Ontário.

— Obrigado, senhorita — disse o motorista.

Bourne examinou a bandagem do ombro, tentando enxergar no reflexo escuro do espelho sujo e riscado à luz fraca da sala imunda. Estivera certo a respeito da Steppdeckstrasse. Aquela imagem da fachada vermelho-desbotada era precisa, até o detalhe das vidraças quebradas e dos gradis enferrujados. Nenhuma pergunta lhe fora feita quando alugara o quarto, apesar de o seu ferimento estar bem visível. No entanto, fora-lhe feita uma declaração pelo administrador da pensão, depois de Bourne ter-lhe pago.

— Se for alguma coisa de maior gravidade, pode-se encontrar um médico que mantenha a boca fechada.

— Aviso-o se precisar.

O ferimento não era assim tão grave. O esparadrapo agüentaria até que pudesse encontrar um médico que não praticasse a profissão assim tão sub-repticiamente, ainda mais na Steppdeckstrasse.

Se uma situação de tensão resultar em ferimento, esteja consciente de que este dano pode ser tanto psicológico quanto físico. Você pode ter uma revolta verdadeira contra a dor e o ferimento do corpo. Não se arrisque e, se houver tempo, dê-se uma oportunidade de se ajustar. Não entre em pânico...

Mas ele entrara em pânico, algumas partes do seu corpo estavam geladas. Embora a bala tivesse penetrado no seu ombro e estivesse com um ferimento na testa, ferimentos reais e dolorosos, nenhum deles era tão sério que pudesse imobilizá-lo. Não podia se mexer tão rápido quanto desejava, nem com a força que sabia possuir, mas ainda assim podia se locomover. Algumas mensagens já tinham sido enviadas e recebidas, do cérebro para os músculos e as pernas. Ele ainda podia funcionar.

E podia funcionar melhor ainda depois de um repouso. Agora não tinha mais um salvo-conduto, tinha que estar de pé bem antes do amanhecer e descobrir uma nova forma de sair de Zurique. O gerente da pensão, lá embaixo, parecia gostar de dinheiro. Ele o acordaria, aquele desleixado senhorio, dali a uma hora, mais ou menos.

Deitou-se no colchão mole e cheio de reentrâncias e encostou a cabeça no travesseiro, olhando fixamente a lâmpada nua pendurada no teto. Tentou não ouvir nenhuma palavra e descansar. Mas elas vinham, apareciam na sua mente, enchiam suas ore lhas como batidas de timbales.

Um homem foi morto...

Mas você aceitou aquele trabalho...

Virou-se para a parede, fechando os olhos e tentando bloquear aquelas palavras. Então apareceram outras palavras e ele sentou-se. O suor começava a escorrer-lhe da testa.

Eles vão pagar pelo seu cadáver!... Carlos vai me pagar muito bem! Por Cristo, ele vai me pagar!

Carlos.

Um grande sedã parou em frente ao cupê e estacionou no meio-fio. Atrás deles, o número 37 da Löwenstrasse, os carros de patrulha tinham chegado quinze minutos antes; a ambulância, havia menos de cinco. Grupos de pessoas dos prédios em volta faziam fila na calçada próximo à escada; mas agora a excitação era muda. Uma morte ocorrera, um homem fora morto à noite, naquele lado quieto da Löwenstrasse. Havia grande excitação; afinal, o que acontecera no Número 37 poderia acontecer no 32, no 40 ou no 53. O mundo estava ficando maluco, e Zurique junto.

— Nosso superior chegou, senhorita. Podemos levá-la até ele, por favor? — O motorista saiu do carro e abriu a porta para Marie St. Jacques.

— Certamente. — Pisou na calçada e sentiu a mão do homem em seu braço. Era muito mais gentil do que a força grosseira com que aquele animal a agarrava, encostando o cano da pistola em seu rosto. Estremeceu à simples lembrança. Aproximaram-se da parte traseira do sedã e ela entrou. Sentou-se atrás; olhou para o homem que estava ao seu lado e ficou paralisada de repente, incapaz de respirar. O homem sentado ao seu lado evocava-lhe uma memória de terror.

A luz que vinha da rua refletia-se nos seus óculos de armação metálica e dourada.

— Você!... Você estava no hotel! Era um deles!

O homem balançou a cabeça cansado, sua fadiga era bem aparente. — Certo. Somos um grupo especial da polícia de Zurique. E antes de conversarmos mais, quero deixar-lhe bem claro que em nenhum momento, durante todos aqueles acontecimentos do Carillon du Lac, você esteve em perigo de ser ferida por nós. Somos atiradores muito treinados, nenhum daqueles tiros poderia ter-lhe atingido. Muitos nem foram dados porque você estava muito próxima do homem que estávamos procurando.

O seu estado de choque melhorou, a autoridade do homem dava-lhe segurança. — Obrigada por tudo isso.

— É um talento menor — respondeu ele. — Agora, como já sei, você o viu por último no assento da frente do carro que está ali.

— Sim. Estava ferido.

— Era muito grave?

— O bastante para perder a consciência. Segurava uma atadura na cabeça e o sangue corria-lhe do ombro — quero dizer, pelo pano do casaco. Quem é ele?

— Os nomes não são importantes, ele usa muitos. Mas como testemunhou, é um assassino. Um assassino brutal. E tem que ser encontrado antes que volte a matar de novo. Já estiamos à sua procura há alguns anos. Muitos policiais, de muitos paises. E agora temos uma oportunidade que ninguém antes teve: sabemos que ele está em Zurique e está ferido. Claro que não ficará por aqui, mas também não pode ir muito longe. Falou de como ia sair da cidade?

— Ia alugar um carro. Em meu nome, creio. Não tem carteira de motorista.

— Estava mentindo. Viaja com muitos documentos falsos. Você era uma refém que ia ser sacrificada. Agora, desde o início, conte-me tudo o que ele lhe disse. Onde foram, com quem ele se encontrou, tudo o que se lembrar.

— Há um restaurante, o Drei Alpenhäuser, onde havia um imenso homem, muito gordo, que estava morrendo de medo... — Marie St. Jacques contou tudo que pôde se lembrar. De vez em quando o policial interrompia, fazia perguntas sobre o que ela dissera, sobre uma frase, uma reação ou. uma decisão súbita do assassino. Constantemente ele tirava os óculos de armação dourada, limpava-os com um ar ausente, enquanto segurava com força a armação, como se aquela pressão controlasse a sua irritação. O interrogatório durou quase vinte e cinco minutos. Depois o policial tomou uma decisão e deu uma ordem ao motorista.

— Drei Alpenhäuser. Schnell! — E virou-se para Marie St. Jacques. — Vamos testar aquele homem diante do que ele disse. A sua incoerência foi bastante intencional; ele sabe muito mais do que disse à mesa.

— Incoerência... — Ela disse a palavra devagar, lembrando-se do próprio uso que fizera dela. — Steppdeck... Steppdeckstrasse. Vidraças quebradas, quartos...

— O quê?

— Uma pensão na Steppdeckstrasse. Foi isso o que ele disse. Tudo aconteceu muito rápido, mas ele disse isto. E logo antes de eu ter fugido do carro, repetiu esta palavra. Steppdeckstrasse.

E O motorista falou. — Ich kenne diese Strasse. Früher gab es Textilfabriken da.

— Não entendo — disse Marie St. Jacques.

— É uma parte abandonada da cidade sobre a qual não dispomos de muitas referências — respondeu o policial. — São oficinas de velhas fábricas têxteis. Um refúgio para os menos afortunados... e outros. Los! — ordenou.

 E puseram-se a caminho


 

Um ruído! Um ruído do lado de fora do quarto. Parecia um estalido, uma nota aguda; um som penetrante, que depois foi diminuindo, ficando distante. Bourne abriu os olhos.

A escada! A escada daquele corredor imundo do lado de fora do quarto! Alguém começara a subir os degraus e parara, tomando consciência do barulho que seu peso fazia sobre a madeira rachada e empenada. Um hóspede da pensão da Steppdeckstrasse não teria tais cuidados.

Silêncio.

Craque. Mais próximo agora. Quem quer que fosse, aceitara o risco. O tempo talvez fosse mais urgente do que o risco, e a velocidade lhe dava cobertura. Jason rolou para fora da cama, agarrou a arma que estava perto da sua cabeça e se jogou contra a parede perto da porta. Curvou-se e ficou ouvindo os passos — era um homem — do homem correndo, não mais preocupado com o barulho que fazia, querendo apenas chegar ao seu destino. Bourne não tinha dúvida alguma do que se tratava: tinha certeza.

A porta se abriu repentinamente. Empurrou-a de volta, depois jogou todo o seu peso contra a madeira, prendendo o intruso no batente da porta, enquanto lhe esmurrava o estômago, o peito e o braço, preso entre o vão da porta e a parede. Depois, puxou a porta de volta, levantou a perna e enfiou o dedo do pé direito na garganta do homem, que caíra ao chão. Então abaixou-se e segurou com a mão esquerda a cabeleira loura, puxando o corpo para dentro do quarto. A mão do homem soltou-se, mole e lassa, a arma desprendeu-se e caiu. Era um revólver de cano longo com um silenciador.

Jason fechou a porta e ficou em silêncio, tentando ouvir mais algum barulho. Nada. Olhou para o homem, que estava desacordado Seria ladrão? Assassino? O que seria?

Seria um policial? Ou o administrador da pensão, que decidira ignorar o código da Steppdeckstrasse, resolvera ganhar o prêmio que estava sendo oferecido por sua cabeça? Bourne virou o corpo do intruso e tirou-lhe a carteira. Sua segunda natureza fez com que retirasse o dinheiro da carteira, mesmo sabendo que era ridículo fazer tal coisa, pois tinha consigo uma pequena fortuna. Examinou os vários cartões, a carteira de motorista e sorriu. Mas o sorriso desapareceu imediatamente. Não havia nada engraçado: os nomes que estavam nos cartões eram todos diferentes assim como o nome que constava na carteira. Portanto, não era um policial. Era um profissional contratado para matar um homem ferido na Steppdeckstrasse. Alguém o pagara. Quem? Quem poderia saber que ele estava lá?

A mulher? Teria ele mencionado a Steppdeckstrasse quando vira aquela fileira de casas, à procura do número 37? Não, não fora ela. Ele possivelmente dissera alguma coisa, mas ela não teria entendido nada. E se tivesse, não seria um profissional que apareceria; ao contrário, os arredores da pensão estariam cercados pela polícia.

A imagem de um homem gordo transpirando sobre a mesa lhe veio à cabeça. Aquele mesmo homem, enquanto enxugava o suor dos lábios grossos, falara sobre a coragem de uma insignificante ovelha — quem sobrevivera? Seria isso um exemplo da sua técnica de sobrevivência? Será que sabia da Steppdeckstrasse? Conhecia os hábitos do seu freguês, cuja visão o aterrorizava? Será que viera até esta casa imunda e deixara um envelope?

Jason pôs a mão na testa e fechou os olhos. Por que não posso me lembrar? Quando esta névoa desaparecerá? Será que desaparecerá?

Não se martirize...

Bourne abriu os olhos e fixou-os no homem louro. E quase imediatamente começou a gargalhar. Acabara de ser apresentado ao seu novo visto de saída de Zurique e, em vez de reconhecê-lo logo, perdia tempo e se atormentava. Pôs a carteira no bolso, enfiando-a com força por trás da carteira do Marquês de Chamford, pegou a arma e colocou-a por dentro do cinto, depois, levou o homem inconsciente para cima da cama.

Um minuto depois o homem já estava amarrado ao colchão e amordaçado com um pedaço de lençol. Ficaria assim, onde estava, por algumas horas. E dali a algumas horas Jason estaria fora de Zurique, por cortesia do suado gordo.

Dormira com as roupas do corpo. Não tinha nada para levar senão o sobretudo. Vestiu-o e testou a perna; um pouco tarde, pensou. No calor daqueles minutos anteriores, esquecera-se da dor. Mas ela persistia, e ele continuava a mancar; mas nada disso o imobilizava. Já o ombro não estava em boa forma, Uma paralisia lenta começava a se espalhar — tinha que procurar um médico. A cabeça... Não queria pensar na cabeça!

No corredor pouco iluminado, depois de fechar a porta, ficou imóvel, ouvindo. De cima vinha o barulho de uma risada. Encostou as costas contra a parede, de arma em punho. A risada desapareceu; era uma gargalhada de bêbado — incoerente e sem propósito.

Em seguida, foi mancando até a escada, segurou-se no corrimão e começou a descer. Estava no terceiro andar de um prédio de quatro andares. Insistira que queria um quarto bem no alto, logo que andar alto lhe aparecem na mente instintivamente. Por que lhe aparecera esta frase? O que significava, nesta situação, alugar um quarto imundo por uma noite? Um santuário?

Chega!

Segundo andar. Cada passo dado fora acompanhado dos rangidos da escada de madeira. Se o administrador saísse agora do seu apartamento no andar térreo para satisfazer a curiosidade de saber quem estava descendo — bem, seria a ultima coisa que faria, pois ele o deixaria desacordado por muitas horas.

Um barulhos Um rangido. Como um roçar de fazenda macia contra a madeira áspera. Fazenda contra madeira. Alguém estava escondido no pequeno prolongamento do corredor, entre o fim de um lance de escada e o começo de outro. Sem quebrar o ritmo do andar, olhou para o escuro. Havia três portas em reentrância na parede da direita, como no andar de cima. Em uma delas...

Deu um passo, aproximando-se. Não era na primeira, estava fechada. E também não seria na última. A parede que cercava o corredor formava um cul-de-sac, não havia nenhum quarto onde pudesse entrar. Devia estar na segunda porta. Sim, na segunda porta. Um homem podia sair de lá de repente, jogando-se para a direita ou para a esquerda, ou podia até mesmo atirar-se de ombros contra uma vítima insuspeita, jogando-a por sobre o corrimão lá para baixo.

Bourne virou-se para a direita, passando o revólver para a mão esquerda. Tirou do cinto a arma com silenciador. Já bem próximo da porta, levantou a pistola automática em direção à escuridão, enquanto girava encostado à parede.

— Was ist?... — Um braço apareceu. Jason atirou uma vez, dilacerando a mão do homem. — Ahh! — O homem cambaleou, em choque, incapaz de apontar a arma. Bourne atirou outra vez, acertando-o na coxa. Ele rolou no chão, contorcendo-se e se encolhendo de dor. Jason deu um passo à frente e ajoelhou-se, o joelho em cima do tórax do homem, a arma apontada para a sua cabeça. Depois sussurrou.

— Há mais alguém lá embaixo?

— Nein! — disse o homem, estremecendo de dor. — Zwei... somos dois apenas. Fomos pagos.

— Por quem?

— Você sabe.

— Um homem chamado Carlos?

— Não vou responder a essa pergunta. Mate-me primeiro.

— Como sabia que eu estava aqui?

— Chernak.

— Ele está morto.

— Agora. Não ontem. Chegou uma mensagem de Zurique: que você estava vivo. Nós procuramos todos... Em todas as partes. Chernak sabia.

Bourne arriscou. — Você está mentindo! — E enfiou o revólver na garganta do homem. — Nunca contei a Chernak que estava na Steppdeckstrasse.

O homem estremeceu de novo, o pescoço contorcido. — Talvez nem precisasse. Aquele porco nazista tinha informantes em todos os cantos. Por que seria diferente com a Steppdeckstrasse? Ele podia descrevê-lo. Quem mais poderia?

— Um homem no Drei Alpenhäuser.

— Nunca ouvimos falar de tal homem.

— Quem é “nós”?

O homem engoliu, os lábios se esgarçaram em dor. — Homens de negócio... apenas negócio.

— E o serviço de vocês é matar.

— Como se você pudesse ter algo contra. Mas, nein. Você devia ser aprisionado, não morto.

— Onde?

— Seríamos avisados pelo rádio, no carro.

— Terrível — disse Jason positivamente. — Vocês não são apenas de segunda categoria, mas também acomodados. Onde está o carro?

— Lá fora.        -

— Dê-me as chaves. — O rádio podia identificar.

O homem tentou resistir, empurrou o joelho de Bourne e começou a rolar em direção à parede. — Nein!

— Você não tem escolha. — Jason bateu com o cabo da pistola em seu crânio, O suíço desmaiou.

Bourne encontrou as chaves — havia três em um chaveiro de couro — E pôs o revólver dele em seu bolso. Era uma arma pequena, muito menor do que a que tinha em mãos, e sem silenciador, o que dava crédito ao que o homem dissera, que ele devia ser pego sem ser morto, O homem louro que ficara lá em cima fora o ponto de avanço e necessitava da proteção de uma arma com silenciador, se por acaso viesse a precisar usá-la. Mas qualquer tiro que pudesse ser ouvido trairia complicações. Este suíço do segundo andar era um apoio e devia usar a arma apenas como ameaça.

Mas então por que estava no segundo andar? Por que não seguira o colega e subira a escada. Alguma coisa parecia estranha, mas não havia tempo para pensar em táticas Havia um carro do lado de fora e ele estava com as chaves dele.

Nada podia ser desprezado. A terceira arma.

Levantou-se com esforço, sentindo dores, e achou o revólver que tomara do francês no elevador do Gemeinschaft Bank. Levantou a perna esquerda da calça e colocou a arma dentro do elástico da meia. Lá estaria segura.

Depois fez uma pausa para respirar e readquirir o controle e foi em direção à escada, sem levar em consideração a dor no ombro esquerdo, que estava mais forte e a paralisia, que se espalhava agora mais rapidamente. O comando do cérebro para os membros era menos claro. Pedia a Deus que ainda pudesse dirigir.

No quinto degrau parou de repente, pondo-se à escuta, tentando captar sons de tocaia, como os que ouvira antes. Nada. O homem ferido podia ter sido taticamente deficiente, mas dissera a verdade. Jason apressou-se em descer os degraus. Sairia de Zurique — de alguma forma — e encontraria um médico em algum lugar.

Avistou o carro facilmente. Era diferente dos outros automóveis sujos e velhos que estavam na rua. Um sedã comprido e muito bem-cuidado. Pôde distinguir a saliência da base de uma antena que saía do teto. Andou até o carro, passou a mão pelo painel e pelo pára-lama esquerdo — não havia nenhum alarme instalado.

Abriu a porta, ainda prendendo a respiração — podia estar errado quanto ao alarme. Mas não estava. Depois entrou, sentou-se em uma posição bem cômoda por trás do volante e ficou agradecido pelo fato de o carro ser automático. A arma com silenciador, que colocara na cintura, o atrapalhava um pouco. Colocou-a no assento ao lado, depois tentou, com a mesma chave com que abrira a porta, dar partida no motor. Mas não era a chave certa.

Tentou a outra, que também não entrou no contato. Devia ser a chave do tanque, pensou. A chave certa devia ser a terceira.

Seria mesmo? Continuou tentando. Nenhuma cabia na abertura. A chave não entrava. Tentou novamente a segunda — não entrava. Depois a primeira. Nada. Nenhuma das chaves cabia na ignição. Ou será que o comando do cérebro para os membros e para os dedos estava truncado? Talvez a coordenação estivesse ruim. Desgraça! Tentar de novo!

Uma luz potente acendeu-se à sua esquerda, queimando-lhe os olhos, cegando-o. Agarrou a arma, mas um segundo facho de luz surgiu da direita, a porta do carro foi aberta de repente e uma luz forte iluminou a sua mão, enquanto outra mão tirava a arma do assento.

— Saia! — A ordem veio da sua esquerda. O cano de um revólver foi encostado ao seu pescoço.

Saiu; os olhos tinham mil pontos de cintilação, faiscavam. Logo que a visão lhe foi voltando lentamente, a primeira coisa que viu foi o contorno de dois círculos. Dois círculos dourados: os óculos do assassino que o caçara durante toda a noite! O homem falou:

— Dizem as leis da física que a cada ação corresponde uma reação oposta e equivalente. O comportamento de certos homens em determinadas condições é igualmente previsível. Para um homem como você, alguém tem que montar um esquema de desafio, cada combatente tem que saber o que fazer quando cai. E se não cair, então você é preso. Se cair, você é desviado, embalado em uma falsa esperança de estar progredindo, escapando.

— É uma alta escala de riscos — disse Jason. — Para os que estão no desafio.

— Foram bem pagos. E tem mais uma coisa — sem garantia, é claro, mas ainda assim com uma garantia. O enigmático Bourne. não mata indiscriminadamente. Não por compaixão, naturalmente, mas por uma razão muito mais prática. Os homens nunca se esquecem quando são poupados. Assim, ele se infiltra nos exércitos dos outros. Refinadas táticas de guerrilha aplicadas a um campo de batalha muito sofisticado. Dou-lhe os parabéns.

— Você é um asno! — Foi tudo o que Jason pôde pensar em dizer. — Mas os seus dois homens estão vivos, se é isso que deseja saber.

Uma outra figura apareceu, vinda da escuridão do edifício, ao lado de um homem baixo e atarracado. Era a mulher! Era Marie St. Jacques.

— É ele — disse ela baixinho, o olhar firme.

— Oh, meu Deus... — Bourne balançou a cabeça em descrença. — Como conseguiu isso, doutora? — ele lhe perguntou, levantando a voz. — Alguém estava vigiando o meu quarto no Carillon? A cena do elevador foi marcada para o momento certo? Você é bastante convincente. E eu que pensei que você estava querendo apenas achar um carro de polícia!...

— Da forma como aconteceu nem foi preciso — ela respondeu. — Eles são da policia.

Jason olhou para o assassino à sua frente; o homem ajeitava os óculos dourados. — Dou-lhe os parabéns! — disse ele.

— Um talento menor — respondeu o assassino. — As condições foram propícias, foi você mesmo quem as criou.

— O que vai acontecer agora? O homem lá em cima disse que eu devia ser preso sem ser morto.

— Você se esqueceu. Ele sabia o que devia dizer. Foi tudo planejado. — O suíço fez uma pausa. — Então é assim que você é. Muitos de nós ficamos imaginando como seria, durante estes últimos dois ou três anos. Quanta especulação foi feita! Quantas contradições! Ele é alto, sabe? Não, é de altura média. É louro, não, tem cabelos bem escuros. Olhos azuis claros, é claro; não, é quase certo que são castanhos. Seus traços são finos; não, são bem comuns até, é impossível distingui-lo em uma multidão. Mas nada era comum; tudo era extraordinário quando se falava de você.

Os seus traços mais pronunciados foram suavizados, a sua característica facial foi abrandada. Mude a cor dos seus cabelos, e seu rosto ficará mudado... Alguns tipos de lentes de contato são criadas para mudar apenas a cor dos olhos... Use óculos e já é outro homem. Para vistos, passaporte... muito próprio para mudanças.

Era esse o perfil. Tudo se encaixava. Não tinha todas as respostas, mas já tinha mais do que a verdade que gostaria de ouvir.

— Gostaria de acabar logo com tudo isso — disse Marie St. Jacques, dando um passo à frente. — Assinarei tudo o que for preciso — no escritório de vocês, é claro. Assim suponho. Mas depois tenho que voltar ao hotel. Nem preciso lhes contar o que passei esta noite.

O suíço lançou um olhar para ela por trás daqueles óculos de armação dourada. O homem atarracado, que a trouxera lá do escuro, segurou-lhe o braço. Ela olhou assustada para os dois, e depois para a mão que a segurava..

E depois olhou para Bourne. Sua respiração parou por um momento quando percebeu o que estava acontecendo. Uma terrível constatação! Arregalou os olhos.

— Deixe-a ir — disse Jason. — Ela está a caminho do Canadá. Vocês nunca mais a verão.

— Seja prático, Bourne. Ela nos viu. Nós somos profissionais; existem as regras. — O homem agitou o revólver debaixo do rosto de Jason, depois encostou o cano na sua garganta. Correu a mão esquerda pela roupa da vítima, encontrou o revólver no seu bolso e o tirou. — Já pensei — disse ele, e virou-se para o homem atarracado. — Leve-a no outro carro. Para o Limmat.

Bourne gelou. Marie St. Jacques devia ser morta, o corpo jogado às águas do Rio Limmat.

— Espere um pouco! — Jason deu um passo à frente. O revólver foi empurrado contra o seu pescoço, forçando-o a retroceder até encostar no carro. — Você está sendo estúpido! Ela trabalha para o governo canadense. Eles vão dar busca por toda Zurique.

— E por que se preocupa? Você não estará mais aqui.

— Porque é uma perda! — gritou Bourne. — Somos profissionais, lembra-se?

— Você me chateia. — O assassino virou-se para o homem atarracado. — Geh! Schnell. Guisan Quai!

— Berre o quanto puder! — gritou Jason. — Comece a gritar! Não pare! Não pare!

Ela tentou, mas o grito logo foi cortado por uma pancada na garganta, que lhe paralisou as cordas vocais. Ela caiu. O seu futuro carrasco levou-a para um pequeno sedã preto, indescritível.

— Que estúpido! — disse o assassino, olhando para Bourne através das lentes com armação dourada. — Você apenas apressou o inevitável. E por outro lado, agora vai ser mais simples. Posso deixar um homem para atender os nossos feridos. É tudo tão militar, não é? É realmente um campo de batalha. — Virou-se para o homem que estava com a lanterna — Dê o sinal para Johann entrar. Voltaremos para buscá-los

A lanterna foi acendida e apagada duas vezes. Um quarto homem, o que abrira a porta do pequeno sedã para a mulher condenada, fez um sinal com a cabeça. Marie St. Jacques foi jogada no assento de trás do carro e a porta, fechada. O homem que se chamava Johann começou a subir os degraus e fez um sinal de cabeça para o executor.

Jason sentiu náuseas quando o motor do pequeno sedã acelerou e o carro arrancou para a frente, saindo do meio-fio e descendo a Steppdeckstrasse. O pára-choque cromado do carro, todo retorcido, desapareceu no escuro ao longe. Dentro daquele carro estava uma mulher a quem ele nunca vira antes em toda a sua vida... Até três horas atrás. E ele a levara à morte. — Não lhe faltam soldados — disse ele.

— Se existisse uma centena de homens em quem eu pudesse acreditar, eu os pagaria generosamente. Como dizem, a reputação sempre vem antes.

— Suponhamos que eu lhe pague. Você estava no banco. Sabe que tenho fundos.

— Provavelmente milhões, mas eu não tocaria em uma nota sequer.

— Por quê? Está com medo?

— É mais certo. A riqueza é relativa ao tempo em que uma pessoa tem para gozá-la. Eu não teria nem cinco minutos. — O assassino virou-se para o subordinado. — Ponha-o lá dentro. Amarre-o, Quero fotografias dele nu — antes e depois de nos deixar. Vocês vão encontrar uma grande quantidade de dinheiro junto com ele; deixem onde está. Eu dirijo. — E olhou novamente para Bourne. — Carlos vai ganhar a primeira cópia. E não tenho dúvida de que poderei vender as outras cópias com bastante lucro no mercado livre. As revistas pagam um bom preço.

— E por que Carlos iria acreditar em você? Por que alguém deve acreditar em você? Você mesmo já disse: ninguém sabe como eu sou.

— Terei cobertura — disse o suíço. — O suficiente para este dia. Dois banqueiros de Zurique se adiantarão em identificá-lo como Jason Bourne. O mesmo Jason Bourne que se deparou com os padrões excessivamente rígidos mantidos pela lei suíça para a movimentação de uma conta numerada. Isso será o bastante. — Ele disse ao atirador. — Depressa! Ainda tenho que enviar uns telegramas. E dinheiro para receber.

Imediatamente um braço foi passado em volta do outro de Jason, apertando-lhe a garganta. O cano de um revólver foi empurrado contra a sua espinha; a dor se espalhou por todo o peito, enquanto era carregado para dentro do carro. O homem que o segurava era um profissional; mesmo se não estivesse ferido seria impossível quebrar aquele grilhão. A habilidade do atirador, no entanto, não satisfazia o líder de óculos daquela caça. Entrou no carro, pondo-se na direção, e deu nova ordem.

— Quebre-lhe os dedos — disse.

O fecho do braço quase sufocou Jason, enquanto o cabo do revólver batia-lhe repetidamente sobre a mão — mãos. Instintivamente, Bourne pusera a mão direita sobre a esquerda, protegendo-a. Logo que o sangue começou a jorrar das costas da mão esquerda, ele mexeu os dedos, deixando que o sangue cobrisse também a mão direita. E sufocou os gritos. Quando o gancho no pescoço ficou um pouco mais solto, gritou.

— Minhas mãos! Estão quebradas!

— Gut!

Mas não estavam. A esquerda estava bem machucada, a ponto de não poder ser, usada, mas não a direita. No escuro, movimentou os dedos. A mão estava intacta.

O carro ganhou velocidade na Steppdeckstrasse, depois virou numa rua e foi em direção ao Sul. Jason caiu sobre o assento, arquejando. O atirador começou a rasgar-lhe as roupas, arrancando a camisa e procurando tirar o cinto. Em poucos segundos a parte de cima do seu corpo estaria nua. Passaporte, papéis, cartões e dinheiro seriam perdidos, todas as possibilidades de fugir de Zurique estariam sendo tiradas dele. Era agora ou nunca. Gritou.

— Minha perna! Miserável! — Jogou-se para a frente; a mão direita rapidamente no escuro por baixo da calça, até sentir o cabo da pistola automática.

— Nein! — rosnou o profissional da frente. — Segure-o! Vigie-o! Ele sabia, era conhecimento instintivo.

Mas era muito tarde, também. Bourne segurou a arma no chão, no escuro, enquanto o forte soldado o segurava de novo. Caiu com a pancada, o revólver estava agora na altura da cintura, apontado diretamente para o peito do atacante.

Atirou duas vezes. O homem caiu para trás. Jason atirou mais uma vez, a pontaria segura: o coração fora perfurado. O homem caiu sobre o assento.

— Largue-a! — exclamou Bourne, passando o revólver por cima do assento arredondado da frente e encostando o cano da arma na base do crânio do motorista. — Deixe-a cair!

Com a respiração difícil, o matador deixou a arma cair. — Podemos conversar — disse, segurando firmemente o volante. — Somos profissionais. Podemos conversar. — O imenso automóvel corria, ganhando velocidade, enquanto o motorista pisava mais ainda o acelerador.

— Reduza!

— Qual é a sua resposta? — O carro acelerava mais. À frente estavam os faróis do tráfego intenso; eles estavam deixando o distrito de Steppdeckstrasse e entrando nas ruas mais movimentadas da cidade. — Você quer sair de Zurique, posso levá-lo. Sem mim, você não pode. Tudo que tenho a fazer é girar o volante e jogar o carro contra a calçada. Nada tenho a perder, Herr Bourne. Há policiais por todos os lados lá na frente, e creio que você não quer se encontrar com a policia.

— Nós conversaremos — mentiu Jason. Tudo era uma questão de tempo, frações de segundo eram muito importante. Agora, os dois estavam em um cerco veloz, que em si mesmo já era uma armadilha. Nenhum dos dois era digno de crédito; ambos sabiam muito bem disso. Um teria que usar aquela fração extra de segundo que o outro iria perder. Eram profissionais. — Aperte os freios — disse Bourne.

— Ponha a sua arma no assento ao meu lado.

Jason soltou a arma, que caiu em cima da arma do assassino, o barulho do metal pesado à prova de contato. — Feito.

O assassino tirou o pé do acelerador e colocou-o no freio. Fez uma pressão leve primeiro, depois em curtas estocadas, enquanto o imenso automóvel se jogava para a frente e para trás. As cutucadas no pedal começaram a ficar mais rápidas. Bourne entendeu. Fazia parte da estratégia do motorista: o equilíbrio era um fator de vida e morte

O ponteiro do velocímetro girou para a esquerda: 30 quilômetros, 18 quilômetros, 9 quilômetros. Quase pararam. Era o momento exato para usar aquele meio segundo extra: o equilíbrio era um fator importante, a vida por um fio.

Jason segurou o homem pela nuca, agarrou-lhe o pescoço e sacudiu-o para fora do assento. Depois levantou a mão esquerda, que ainda sangrava, e a estendeu para a frente, lambuzando os olhos do assassino. Soltou o seu pescoço, enquanto aproximava a mão direita das armas que estavam sobre o assento. Bourne conseguiu apanhar uma das armas e empurrar a mão do assassino para fora do assento. O homem gritou, a visão toda manchada e a arma fora do alcance. Jason jogou-se contra o peito do homem, esmagando-o contra a porta e dando uma estocada com o cotovelo esquerdo em sua garganta, ao mesmo tempo em que segurava o volante com a palma da mão ensangüentada. Depois, girou o volante para a direita, jogando o carro contra uma pirâmide de lixo que estava sobre a calçada.

O automóvel abriu caminho por entre o monte de entulho — era como um imenso inseto sonâmbulo rastejando sobre o lixo; a aparência escondia a violência dentro de sua casca.

O homem debaixo dele deu um empurrão para cima e rolou no assento. Bourne segurou a automática na mão, os dedos tentando cravar-se no espaço do gatilho. Abaixou o pulso e atirou.

O seu quase executor caiu, com um buraco vermelho-escuro na testa.

Na rua, os homens correram em direção ao que parecia ser um perigoso acidente. Jason jogou o corpo morto no assento ao lado e pôs-se atrás do volante. Engrenou a ré e o sedã andou um pouco desajeitadamente, saindo do entulho, descendo a calçada e saindo para a rua. Depois baixou o vidro da janela e gritou para os que estavam querendo ajudar no salvamento e se aproximavam,

— Sinto muito! Tudo está bem. Apenas uma bebedeira.

O pequeno grupo de cidadãos consternados dispersou-se rapidamente, alguns faziam gestos de admoestações, outros corriam de volta para os seus acompanhantes e companheiros. Bourne respirou profundamente, tentando controlar o involuntário tremor que lhe percorria todo o corpo. Engatou a marcha e o carro foi em frente. Tentava ver as ruas de Zurique com o que ainda tinha na memória, mas era uma memória que não lhe servia para nada.

Sabia vagamente onde estava — onde estivera — e, mais importante ainda, sabia com mais clareza onde ficava o Guisan Quai, ao lado do Rio Limmat.

Geh! Schnell! Guisan Quai!

Marie St. Jacques seria morta no Guisan Quai, seu corpo jogado no rio. Só havia uma faixa onde o Guisan e o Limmat se encontravam: ficava na boca do Lago de Zurique, no início da praia do lado Oeste. Em algum lugar, em um estacionamento vazio ou em um terreno deserto, de frente para a água, um homem baixo e atarracado estava pronto para levar a cabo uma ordem de execução; uma ordem que lhe fora dada por um homem morto. Talvez por esta hora a arma já tivesse sido acionada, ou uma faca tivesse sido cravada no alvo certo. Não havia como saber, embora Jason soubesse que precisava descobrir. Seja lá quem fosse ele, ou o que fosse... Não fugiria assim, cegamente.

Seu lado mais profissional, no entanto, dizia-lhe para desviar e entrar na escura e larga passagem à sua frente. Havia dois homens mortos dentro do carro e eles eram um risco e um peso que não podiam ser tolerados. Os preciosos segundos que ia gastar para livrar-se deles poderiam evitar no entanto o perigo que representavam se um guarda de trânsito, por acaso, olhasse para dentro do carro e lá pudesse entrever a morte.

Fez a conta aproximada de vinte e dois segundos. Levou menos de um minuto para tirar do carro os seus quase executores. Antes de voltar a entrar no carro, ainda mancando, olhou-os por um momento. Estavam encolhidos de forma obscena, um junto ao outro, encostados em uma imunda parede de tijolos. No escuro.

Entrou no carro, pôs-se atrás da direção e deu a ré para sair da passagem.

Geh! Schneil! Guisan Quai!


 

Jason chegou a um cruzamento. O sinal estava vermelho. Luzes. À sua esquerda, alguns quarteirões para o Leste, podia distinguir algumas luzes contra o céu noturno. Uma ponte! O rio Limmat! O sinal ficou verde e ele virou o sedã para a esquerda.

Estava de volta à Bahnhofstrasse. O cais começava logo em frente. A avenida larga fazia uma curva em volta das águas: as margens do rio e a frente do lago se encontravam. Momentos depois, à sua esquerda, delineava-se o contorno de um parque, no verão, refúgio de vagabundos. Agora estava escuro, não havia turistas nem habitantes de Zurique. Passou por uma entrada de veículos. Uma pesada corrente, suspensa entre dois postes de pedra, impedia a entrada. Passou por uma segunda entrada, outra corrente proibindo o acesso ao parque. Mas esta era diferente. Tinha alguma coisa diferente, estranha. Parou o carro e olhou mais de perto, pegando a lanterna que estava no assento ao lado, a lanterna que tirara dos seus quase executores. O quê? O que era diferente?

Não era a corrente. Era embaixo da corrente, na calçada branca, mantida impecável pelo pessoal da limpeza. Havia marcas de pneu no chão. Era estranho que tivesse alguma marca naquela limpeza toda. No verão, nem teriam sido notadas, mas agora sim. Era como se a imundície da tivesse viajado até ali.

Bourne apagou a lanterna e deixou-a sobre o assento. A dor da mão esquerda, que fora golpeada, de repente se confundiu com a lenta agonia do ombro esquerdo e do braço. Tinha que cortar toda a dor da mente, estancar o sangramento da melhor forma possível. A camisa fora rasgada; rasgou-a mais um pouco e arrancou uma tira de pano. Depois amarrou-a em volta da mão esquerda usando os dentes para dar um nó na tira. E já estava pronto, como sempre.

Pegou a arma — a arma do seu quase executor — e examinou o pente de balas: estava cheio. Esperou um pouco até que dois carros passassem, apagou os faróis e fez uma curva em forma de U, estacionando bem perto da corrente. Saiu do carro, testou a perna na calçada e andou com cuidado até o poste onde estava amarrada a corrente. Levantou o gancho do círculo de ferro que saía da pedra, abaixou a corrente, cuidando para não fazer barulho, e voltou para o carro.

Depois engrenou a marcha e encostou o pé no acelerador, de leve, e retirou-o. Estava circulando por uma larga área escura, que ficara ainda mais escura depois que saíra da entrada branca e entrara por uma meia de asfalto. Mais adiante, a umas duzentas jardas de distância, ficava a linha reta e escura do paredão marítimo. Um paredão que não continha o mar, mas as correntes do Limmat, que se encontravam com as águas do Lago de Zurique. Mais ao longe, dava para divisar as luzes dos barcos, balouçando em grande esplendor. E mais além ainda estavam as luzes da Velha Cidade. As luzes enevoadas dos holofotes dos píeres escurecidos. Os olhos de Jason acolhiam a tudo, pois a distância era o seu pano de fundo; estava à procura de formas e contornos.

Para a direita. A direita. Apareceu um contorno mais escuro ainda do que o paredão, uma intromissão preta sobre um preto de menor intensidade, menos preto — estava escuro, quase impossível de discernir. Mas lá estava. Cem jardas à frente... noventa... oitenta e cinco... Desligou o motor e parou o carro. Ficou sentado sem se mexer, imóvel perto da janela aberta, espiando a escuridão, tentando enxergar melhor. O barulho do vento que vinha das águas devia ter encoberto qualquer ruído do carro.

Ruídos. Um grito. Baixo, abafado na garganta... De medo. Depois, som de uma bofetada, agudo, depois outro, e outro mais. Um começo de grito, que foi abafado, engolido, ecoando no silêncio.

Bourne saiu do carro em silêncio, O revólver na mão direita, a lanterna desajeitadamente presa nos dedos ensangüentados da mão esquerda, caminhou em direção àquela forma indistinta e escura. A cada passo que dava, mancando, fazia um exame silencioso daquela mancha.

O que viu era igual ao que vira por último, quando o pequeno sedã desaparecera nas sombras da Steppdeckstrasse. O brilhante metal cromado do pára-choque amassado reluzia agora sob as luzes noturnas.

Quatro bofetadas em sucessão rápida. Carne contra carne, socos dados freneticamente e recebidos com abafados gritos de terror. Depois dos gritos, respirações convulsas e movimentos. Movimento dentro do carro!

Jason se agachou o mais que pôde e deu a volta no carro, com cuidado, indo até a janela traseira do lado direito. Depois foi se levantando devagar e de repente, usando a voz como arma de choque, gritou, e ao mesmo tempo acendeu a poderosa lanterna.

— Não se mexa ou atiro!

O que viu lá dentro deixou-o revoltado e furioso. Marie St. Jacques estava com as roupas todas rasgadas, retalhadas em tiras. O corpo quase nu estava preso naquelas mãos em garra, que lhe amassavam os seios e abriam as pernas. O órgão protuberante e intumescido do homem que devia ser o seu executor estava à vista, fora da calça. Infligia-lhe a última indignidade antes de executar a sentença de morte.

— Saia, seu filho da puta!

Uma explosão de cacos de vidro. O homem que violentava Marie St. Jacques percebeu o óbvio. Bourne não podia atirar, tinha medo de acertar a mulher; ele a fizera rolar e arrebentara com o salto do sapato a janela do carro, O vidro estilhaçou-se. Alguns fragmentos finos cobriram o rosto de Jason. Este fechou os olhos e se afastou, mancando, para evitar a chuva de cacos de vidro.

A porta se abriu uma fagulha de luz acompanhou a explosão. Um calor, uma dor quente se espalhou pelo lado direito de Bourne. O tecido do seu casaco fora arrebentado; o sangue recobria o que restava de sua camisa. Apertou o gatilho. Enxergava vagamente a figura que rolara ao chão. Atirou de novo, a bala raspou a superfície do asfalto. O executor rolara e saíra de sua vista, entrando na escuridão da noite.

Jason sabia que não podia ficar onde estava, seria aprontar a sua própria execução. Apressou-se puxando a perna, até a frente da porta aberta.

— Fique aí dentro! — gritou para Marie St. Jacques.

A mulher começara a se mexer, em pânico. — Diabo! Fique aí dentro!

Um tiro. A bala se cravou no metal da porta. Uma silhueta correu por cima do paredão. Bourne deu dois tiros e sentiu-se grato por ter ouvido um gemido na distância. Ele o ferira, mas não o matara. De qualquer forma, o executor não funcionaria tão bem quanto há alguns segundos.

Luzes. Luzes fracas... quadradas. Quadrados iluminados. O que era? O que seriam? Olhou para a esquerda e viu o que antes não enxergara, Uma pequena estrutura de tijolos, uma espécie de habitação junto ao paredão. As luzes foram acesas lá dentro. Devia ser um posto de vigia; quem estava lá dentro com certeza ouvira os tiros.

— Was ist los? Wer ist da? A voz vinha do vulto de um homem — um homem arcado, velho —, que estava parado na porta iluminada. Em seguida, o facho de uma luz de lanterna dançou pela escuridão. Bourne seguiu-lhe o rastro com os olhos, esperando que aquela luz pudesse iluminar o executor.

E iluminou. Ele estava agachado contra o muro. Jason se levantou e atirou. Ao ouvir o tiro, o homem moveu a lanterna em sua direção. Ele era agora o alvo. Dois tiros vieram da escuridão, uma bala ricocheteou em uma tira de metal da janela. O aço abriu-lhe o pescoço. O sangue jorrou.

Alguém correu. O executor corria em direção à luz.

— Nein!

Estava na casa. O vulto que estava na porta foi agarrado por um braço que era tanto a sua coleira quanto a sua jaula. A luz se apagou. Contra a luz das janelas, Jason podia ver o assassino empurrando o vigia para fora, usando o velho como proteção levando-o para a escuridão.

Bourne ficou olhando até não enxergar mais nada. Depois levantou a arma por cima da capota do carro. Estava completamente exangue, o corpo esgotado.

Ouviu-se um último tiro, seguido de um grito gutural e, mais uma vez, passos em corrida. O assassino executara a sua sentença de morte, e não fora com a mulher que fora condenada, mas com o velho. E agora corria, fugia.

Bourne não podia mais correr. A dor por fim o imobilizara. A vista estava embaralhada, o instinto de sobrevivência completamente exaurido. Abaixou-se e sentou-se no chão. Mais nada, não havia mais nada. Não se importava com mais nada.

O que quer que ele fosse, não importava. Não tinha importância.

A mulher, a Dra. St. Jacques, rastejou para fora do carro, segurando suas roupas; cada movimento era feito em pânico. Olhou para Jason. Descrença, horror e confusão apareciam-lhe nos olhos.

— Vá embora — sussurrou ele na esperança de que ela pudesse ouvi-lo. — Há um carro lá atrás, as chaves estão dentro. Saia daqui. Ele pode trazer outros homens, não sei.

— Você veio à minha procura — disse ela. Sua voz saía de um túnel de espanto.

— Sala! Entre naquele carro e sala correndo daqui, doutora. E se alguém tentar lhe parar desta vez, passe por cima. Procure a polícia... policiais de verdade, com uniformes, sua tola! — Sentia a garganta ardendo, o estômago frio, gelado. Fogo e gelo. Já sentira aquilo antes. Os dois. Onde foi?

— Você salvou a minha vida — continuou ela num tom baixo, as palavras flutuando no ar. — Você veio à minha procura. Você voltou por minha causa e salvou... a minha... vida.

— Não transforme isso no que não é. Você é acidental, doutora. Você é apenas um reflexo, um instinto nascido de memórias perdidos, condutos elétricos que foram excitados pelo cansaço, Vê, conheço os nomes... Não me importo mais. Estou ferido... Oh, meu Deus, estou ferido.

— Você estava livre. Podia ter ido embora, mas não foi. Voltou para me buscar.

Ouviu-a através das ondas de dor. Viu-a e o que viu era irrazoável — tão irrazoável quanto a dor. Ela estava ajoelhada ao seu lado, tocando-lhe o rosto Pare! Não toque a minha cabeça. Deixe-me.

— Por que fez isso? — Era a voz dela, não dele.

Ela lhe fazia uma pergunta. Será que não podia entender? Ele não podia responder.

O que estava fazendo agora? Ela rasgara um pedaço de tecido e o passava em torno do seu pescoço... E mais um pedaço agora, um pouco mais largo, um pedaço do vestido. Ela abriu o seu cinto e empurrou o pano macio em direção à pele quente do seu quadril direito.

— Não foi por você. — Ele encontrou as palavras e as usou rapidamente. Queria a paz da escuridão — como já desejara antes, embora não se lembrasse quando. Sabia que poderia encontrá-la se ela o deixasse. — Aquele homem... ele me viu. Pode me identificar. Era ele. Eu queria ele. Agora, vá embora!

— E pelo menos mais uma meia dúzia de homens pode identificá-lo — respondeu ela com um tom diferente na voz. — Não acredito em você.

— Acredite-me!

Ela agora estava de pé ao seu lado. E em seguida já não estava. Fora embora. Ela o deixara. Agora a paz poderia chegar rapidamente. Seria engolido pelas águas turbulentas e a dor seria lavada, desapareceria totalmente. Encostou-se no carro e deixou- se boiar nas correntes de sua mente.

Mas ouviu um barulho. Um motor trabalhando. Mas nem se importava; ele apenas interferia na liberdade de seu mar particular. Em seguida sentiu uma pressão no braço: era uma mão. Depois outra, gentilmente puxando-o para cima.

— Venha — disse a voz — ajude-me.

— Deixe-me. Largue-me! — gritou. Gritara mas não fora obedecido. Estava estarrecido. Toda ordem devia ser obedecida. Mas nem sempre; alguma coisa lhe dizia isso. O vento voltara; não era um vento de Zurique, era um vento de qualquer outro lugar, em uma noite escura. E apareceu um sinal, um holofote ofuscante. E ele foi novamente jogado para cima, batido pelas furiosas correntes.

— Está tudo bem. Você está bem — disse aquela voz enlouquecedora, que não dava atenção às suas ordens. — Fique de pé. Levante-se!... Assim. Conseguiu. Agora, para dentro do carro. Vá se deitando... devagar. Assim.

Ele estava caindo... caindo no poço escuro do céu. Em seguida a queda parou, tudo parou, havia silêncio e quietude. Podia ouvir a própria respiração. E passos, agora. Podia ouvir passos... Uma porta se fechando e em seguida aquele barulho, aquele motor rolando embaixo dele, na sua frente, em algum lugar...

Movimento, estava se balançando em círculos. O balanço parou, ele caía novamente, depois parou de novo. Um outro corpo estava em cima do seu, uma mão o segurava, o abaixava. Seu rosto estava frio. Depois não sentiu mais nada. Estava sendo levado novamente pelas correntes, agora mais suaves. Escuridão total.

Havia vozes acima dele, na distância, mas não muito longe. Algumas formas vieram lentamente à visão, iluminadas pelas lâmpadas da cabeceira. Estava em uma sala ampla, sobre uma cama, uma cama estreita. Estava coberto. Do outro lado da sala estavam duas pessoas... Um homem vestido com um sobretudo e uma mulher... Uma mulher vestida com uma saia vermelho-escura e uma blusa branca. Vermelho-escuro. Os cabelos eram...

Era a Dra. St. Jacques? Era ela, em pé, perto de uma porta, conversando com um homem que segurava unta maleta de couro na mão esquerda. Falavam em francês.

— Sobretudo repouso — dizia o homem. — Se não me encontrar, qualquer pessoa pode tirar os pontos. Podem ser retirados daqui a uma semana, creio.

— Obrigado, doutor.

— Eu que lhe agradeço. Foi bastante generosa. Agora tenho que ir. Talvez ainda tenha notícias suas, talvez não.

O médico abriu a porta e saiu. Depois que se foi, a mulher abaixou-se a aferrolhou a porta, virou-se e viu que Bourne a olhava. Então caminhou devagar, com cautela, em direção à sua cama.

— Pode me ouvir? — perguntou ela.

Ele fez que sim com a cabeça. 

— Você está ferido — disse ela —, e bastante. Mas se ficar quieto não será necessário ir para um hospital. Este era um médico... é óbvio. Paguei a ele com o dinheiro que encontrei com você. Muito mais do que o usual, mas me disseram que podia confiar nele. Aliás, era idéia sua. Enquanto estávamos no carro, você repetia que tinha que encontrar um médico, um médico a quem você pudesse pagar para ficar em silêncio, sem contar nada. Não foi difícil.

— Onde estamos? — Ele podia ouvir a sua própria voz. Estava fraca, mas ainda assim podia ouvi-la.

— Em uma vila chamada Lenzburg, a cerca de vinte milhas de Zurique. O médico é de Wohlen. É uma cidade que fica perto daqui. Ele o verá daqui a uma semana, se você ainda estiver aqui.

— Como? — Tentou levantar-se mas faltou-lhe força. Ela tocou-lhe o ombro; era uma ordem para que ficasse deitado.

— Vou lhe dizer o que aconteceu. Talvez isso responda às suas perguntas. Pelo menos assim espero, porque se não responder, não tenho certeza de poder lhe responder mais nada. — Ela ficou imóvel, olhando-o, o tom de voz controlado. — Aquele animal estava me violentando — depois disso, ele tinha ordens de me matar. Teria sido impossível sobreviver. Na Steppdeckstrasse, você tentou detê-los, e quando não conseguiu disse-me para gritar, para gritar bem alto. Era tudo o que você podia fazer, e ao ter me dado este aviso você se arriscou a ser morto naquele momento. Mais tarde, libertou-se deles de alguma forma — não sei como, sei que você saiu mortalmente ferido — e depois voltou para me procurar.

— A ele — interrompeu Jason. — Queria encontrá-lo.

— Você me disse isso. E só posso lhe dizer o que já disse antes. Não acredito em você. Não que você seja um mentiroso qualquer, mas porque isto não se encaixa com os fatos. Trabalho com estatísticas, senhor Washburn, ou senhor Bourne, seja lá qual for o seu nome. Respeito os dados observáveis e posso detectar qualquer incorreção. Sou treinada para isso. Dois homens entraram naquele prédio à sua procura e ouvi você dizer que os dois ainda estavam vivos. Eles também podiam identificá-lo. E há o dono do Drei Alpenhäuser, que também pode. Esses são os fatos, e você os conhece tão bem quanto eu. Não, você voltou para me procurar. Voltou e salvou a minha vida.

— Continue — disse ele. A voz ganhava força. — O que aconteceu?

— Tomei uma decisão. Foi a decisão mais difícil de toda a minha vida. Creio que uma pessoa só pode tomar uma decisão como esta se, depois que quase perdeu a vida por um ato de violência, sua vida é salva por alguém diferente. Decidi ajudá-lo. Apenas por uns tempos — por algumas horas, talvez —, mas vou ajudá-lo a sair daqui.

— Por que não procurou a policia?

— Quase fiz isso. E acho que nem posso lhe explicar por que não procurei a policia. Talvez tenha sido aquele estupro, não sei. Estou sendo honesta com você. Sempre me disseram que é a experiência mais horrível por que uma mulher pode passar. E agora acredito. E ouvi a raiva e... a revolta na sua própria voz quando você gritou com ele. Nunca vou me esquecer daquele momento enquanto viver, tanto quanto desejo esquecê-lo.

— E a polícia? — repetiu ele.

— O homem do Drei Alpenhäuser disse que a polícia estava à sua procura. Que um número de um telefone fora dado em Zurique. — Fez uma pausa. — Eu não podia entregá-lo à polícia. Não para eles. E não depois do que você fez.

— Mesmo sabendo quem sou? — perguntou ele.

— Sei apenas o que ouvi. E o que ouvi não corresponde ao homem ferido que voltou para me buscar e ofereceu a sua vida pela salvação da minha.

— Isso não é muito inteligente.

— É assim que sou, senhor Bourne. Presumo que seja Bourne, é como ele o chamou. Muito inteligente!

— Bati em você. Amedrontei-a, ameacei-a de morte.

— Se eu fosse você e alguns homens estivessem tentando me matar, acho que provavelmente teria feito o mesmo — se fosse capaz.

— Então você saiu de Zurique?

— Não de imediato. Esperei uma meia hora mais ou menos. Tinha que me acalmar, tomar uma decisão. Sou metódica.

— Começo a perceber isso.

— Estava um trapo, toda suja, precisava de roupas, passar uma escova no cabelo e me pintar. Não podia continuar como estava. Então achei uma cabine de telefone perto do rio. Não tinha ninguém por peno. Desci do carro e dei um telefonema para uma pessoa no hotel ...

— O francês? O belga? — interrompeu Jason.

— Não. Eles estiveram na conferência de Bertinelli, se me reconheceram no palco com você, creio que deram o meu nome para a policia. Chamei uma mulher que é membro da nossa delegação. Ela detesta Bertinelli e ficara no quarto. Já trabalhamos juntas há muitos anos e somos amigas. Disse-lhe que se ouvisse qualquer coisa a meu respeito, não desse atenção, eu estava perfeitamente bem. E de qualquer forma, se alguém perguntasse por mim, devia dizer que eu estava com um amigo, que ia passar a tarde com ele — a noite, se insistissem. E que eu saíra da conferência de Bertinelli mais cedo.

— Metódica — disse Bourne.

— Sim. — Marie permitiu-se um sorriso. — Pedi-lhe que fosse até o meu quarto — o quarto dela fica perto do meu, e a camareira da noite sabe que somos amigas. Se ninguém estivesse lá, ela devia pôr algumas roupas e objetos de maquilagem em uma maleta e voltar para o quarto dela. Eu a chamaria em cinco minutos.

— E ela aceitou tudo ó que você disse?

— Já lhe disse, somos amigas. Ela sabia que eu estava bem, talvez um pouco excitada, mas bem. E sabia que eu queria que ela fizesse o que pedi. — Marie fez uma pausa novamente. — Provavelmente pensou que eu estivesse contando a verdade.

— Continue.

— Chamei-a novamente, e ela já estava com as minhas coisas.

— O que quer dizer que os outros dois delegados não deram o seu nome para a polícia. Senão o seu quarto estaria sendo vigiado, fechado.

— Não sei se deram ou não. Mas se deram a minha amiga provavelmente deve ter sido interrogada depois. E deve ter dito simplesmente o que lhe contei.

— Ela estava no Carillon, e você lá embaixo, perto do rio. Como conseguiu pegar as suas coisas?

— Foi muito simples. Um tanto deselegante, mas simples. Ela falou com a camareira da noite, dizendo-lhe que eu estava tentando evitar um homem que estava no hotel e que ia me encontrar com outro. Eu precisava das minhas roupas e será que ela poderia sugerir uma forma de entregar-me a maleta? Deixar em um carro... perto do rio. Um garçom que não estava de serviço me trouxe a maleta.

— Ele não ficou surpreso com a sua aparência?

— Ele não teve chance de ver nada. Abri o porta-malas, fiquei no carro e pedi que colocasse a maleta atrás. Eu deixara uma nota de dez francos no pneu sobressalente.

— Você não é metódica, é formidável.

— Metódica basta.

— Como encontrou o médico?

— Aqui mesmo. O concierge, não sei como é chamado aqui na Suíça. Lembre-se, eu o amarrei da melhor forma que pude, reduzi o sangramento tanto quanto pude. Como a maioria das pessoas, tenho uma noção básica de primeiros socorros. Isso quer dizer que tive que tirar toda a sua roupa. Achei o dinheiro e então entendi o que você queria dizer quando falava em chamar um médico a quem pudesse pagar. Você tem milhares e milhares de dólares; sei fazer as conversões de libra para dólar.

— Isso é apenas o começo.

— O quê?

— Não é nada, não. — Tentou levantar-se de novo. Era muito difícil. — Você não está com medo de mim? Com medo do que fez?

— É claro que sim. Mas sei o que você fez por mim.

— Você tem mais confiança do que eu teria se estivesse em tais circunstâncias.

— Então, talvez você não esteja assim tão consciente das circunstâncias. Você ainda está muito fraco e estou com a arma. Além disso, você está completamente sem roupa.

— Nenhuma?

— Nem mesmo cueca. Joguei tudo fora. Você ficaria muito engraçado correndo pelas ruas apenas com um cinto de plástico cheio de dinheiro na cintura.

Bourne riu, embora estivesse sentindo dores, lembrando-se de La Ciotat e do Marquês de Chamford. — Metódica — disse ele.

— Muito.

— O que vai acontecer agora?

— Anotei o nome do médico e paguei o quarto por uma semana. A partir de hoje, o concierge vai lhe trazer as refeições. Vou ficar aqui até o meio da semana. São quase seis horas, logo vai amanhecer. Depois vou voltar para o hotel para pegar o resto das minhas coisas, as passagens aéreas, e fazer o melhor possível para nada dizer sobre você.

— Suponhamos que você não possa? Que seja identificada?

— Nego tudo. Estava muito escuro e todo mundo em pânico...

— Agora não está sendo muito metódica. Pelo menos não tão metódica quanto a polícia de Zurique. Tenho uma forma melhor. Chame sua amiga e diga-lhe para fazer as suas malas e pagar a sua conta. Pegue quanto dinheiro quiser de mim e tome o primeiro avião para o Canadá. É mais fácil negar tudo isso de longa distância.

Ela olhou-o em silêncio, depois fez um sinal com a cabeça. — Isso é muito tentador.

— É bem lógico.

Ela continuou a olhar para ele por mais um instante, a tensão dentro dela crescia e se refletia em seus olhos. Depois virou-se e foi até a janela; e ficou olhando para os primeiros raios de sol da manhã. Ele olhou-a, sentindo a sua intensidade, conhecendo-lhe os caminhos, vendo seu rosto na luz pálida do amanhecer. Nada podia fazer. Ela devia fazer o que sentia, porque agora já estava livre do terror. Livre daquela terrível degradação que nenhum homem poderia realmente entender. Livre da morte. E ao fazer o que fizera, ela quebrara todas as regras. Ela olhou em sua direção, os olhos brilhando.

— Quem é você?

— Você ouviu o que disseram.

— Só sei o que vi! O que senti!

— Não tente justificar o que fez. Você apenas fez, só isso. Deixe estar.

Deixe estar. Oh, Deus, você podia ter-me deixado em paz. E teria havido paz. Mas agora você me devolveu parte da minha vida e tenho que lutar de novo, de novo começar a encarar tudo.

De repente ela estava aos pés da cama, com a arma na mão. Apontou-a para ele e a voz tremeu. — Devo desfazer tudo, então? Devo chamar a polícia e dizer-lhes para vir e prendê-lo?

— Poucas horas atrás eu teria dito vá em frente. Agora já não consigo.

— Então quem é você?

— Dizem que meu nome é Bourne, Jason Charles Bourne.

— O que significa isso: “dizem”?

Ele olhou firmemente para a arma, para o círculo escuro do cano. Nada restava senão a verdade — como ele a conhecia.

— O que significa? — repetiu ele. — Você sabe quase tudo que sei, doutora.

— O quê?

— E você tem que ouvir também. Talvez isso a faça sentir- se melhor. Ou pior, não sei. Mas tem que ser assim, porque não sei mais o que lhe dizer.

Ela abaixou a arma. — Dizer-me o quê?

— A minha vida começou há cinco meses em uma pequena ilha do Mediterrâneo chamada Île de Port Noir...

O sol já estava alto em cima das árvores que rodeavam a casa. Seus raios eram filtrados pelo galhos que balançavam ao vento e refletiam pelas janelas, manchando as paredes com formas irregulares de luz e sombra. Bourne recostou-se no travesseiro, exausto. Terminara de contar; não havia mais nada a dizer.

Marie estava sentada do outro lado da sala, em uma poltrona de couro, as pernas cruzadas por baixo da cadeira. Os cigarros e o revólver estavam sobre uma mesa à sua esquerda.. Ela se movimentara muito pouco, o olhar fixo em seu rosto; até mesmo quando fumava, seu . olhar nunca se desviava dele. Era uma analista técnica, estava avaliando os dados, filtrando os fatos, como as árvores filtram a luz do sol.

— Você continuava a repetir — disse ela com suavidade, quase soletrando as palavras seguintes — “não sei e “quisera saber...” E tinha um olhar espantado; eu estava assustada. Eu lhe perguntava, o que é?. O que você vai fazer? E você dizia de novo: “Quisera saber.” Meu Deus, o que você passou... O que está passando!

— Depois de tudo o que lhe fiz, ainda pode pensar no que acontece comigo?

— São duas linhas de ocorrência separadas — disse ela com ar ausente, franzindo a testa pensativa.

— Separadas...

— Relacionam-se na origem, mas se desenvolvem independentemente. Bobagens da economia... E depois, na Löwenstrasse, antes de irmos para o apartamento de Chernak, pedi-lhe para não me obrigar a ir com você. Eu estava certa de que se ouvisse mais alguma coisa você me mataria. Foi quando você disse a coisa mais estranha possível: “O que você ouviu não faz mais sentido para mim do que para você. Talvez até menos...” Pensei que você fosse louco.

— O que tenho é uma forma de insanidade mental. Uma pessoa mentalmente sã tem memória. Eu não tenho.

— Por que não me disse que Chernak tentou matá-lo?

— Não houve tempo, e achei que não fazia diferença.

— Naquele momento não fazia — para você. Para mim fazia.

— Por quê?

— Porque tinha esperança de que você não fosse atirar em ninguém que não tivesse tentado matá-lo primeiro.

— Mas ele tentou. Eu estava ferido.

— Eu não sabia disso, você não me disse.

— Não entendo.

Marie acendeu um cigarro. — É difícil explicar mas durante todo o tempo em que você me manteve como refém, e até mesmo quando me batia e me arrastava e encostava o revólver no meu estômago ou contra a minha cabeça — Deus sabe o quanto eu estava aterrorizada! — mesmo assim pensei ter visto alguma coisa em seus olhos. Pode chamar relutância. É a melhor palavra que consigo encontrar para descrever.

— Acho que serve. Qual seu ponto de referência?

— Não tenho certeza. Talvez tenha ligação com alguma coisa que você disse no reservado do Drei Alpenhäuser. Aquele homem gordo estava se aproximando e você me disse para ficar encostada à parede e cobrir meu rosto com a mão. “Para o seu próprio bem”, você disse. “Ele não precisa identificar você.”

— Não precisava.

— “Para o seu próprio bem” não é argumento de um assassino patológico. Acho que me agarrei a isso — para manter a minha própria sanidade, talvez —, nisso e no seu olhar.

— Ainda não entendi.

— O homem que usava aqueles óculos de armação dourada, e que me convenceu que era um policial, disse que você era um assassino brutal, que tinha que ser detido antes que matasse de novo. Se não fosse por Chernak eu não teria acreditado nele. E por dois motivos. A polícia não se comporta dessa forma; eles não usam armas em lugares escuros e cheios de gente. E você era um homem que estava tentando defender a sua vida — que tenta defender a sua vida. Mas não é um assassino.

Bourne levantou a mão. — Perdoe-me, mas isso me parece um julgamento baseado em uma falsa gratidão. Você diz que tem respeito pelos fatos — então, olhe para eles. Repito: você ouviu bem o que eles disseram — não levando em conta o que você pensa, viu ou sentiu —, ouviu as palavras. Resumindo: envelopes cheios de dinheiro me foram passados para que eu fizesse alguns trabalhos. Acho que esses trabalhos são bem claros. E aceitei-os. Eu tinha uma conta bancária numerada no Gemeinschaft Bank no total de quase cinco milhões de dólares. Onde consegui tanto dinheiro? Onde um homem como eu — com as habilidades que tenho e que são bem claras — obtém essa soma de dinheiro? — Jason olhou para o teto. A dor voltava, aquele sentido de futilidade também. — Estes são os fatos, doutora St. Jacques. Está na hora de ir-se.

Marie levantou-se da cadeira e esmagou o cigarro. Depois pegou a arma e se aproximou da cama. — Você está muito ansioso em se condenar, não está?

— Respeito os fatos.

— Então, se o que diz é verdade, também tenho uma obrigação, não é? Estando do lado da lei, como membro da ordem social, devo chamar a policia de Zurique e dizer-lhes que você está aqui. — Ela levantou a.arma.

Bourne olhou-a. — Pensei...

— Por que não? — interrompeu ela. — Você é um homem condenado que quer acabar com tudo isso, não é? Está aí deitado falando nisso. E sem, se me perdoa, qualquer autopiedade esperando apelar para a minha... como é mesmo?... falsa gratidão. Bem acho que é melhor você entender uma coisa. Não sou boba. Se pensasse por um minuto apenas que você é o que diz ser, eu não estaria aqui. E nem você. Fatos que não podem ser documentados ainda assim são fatos. Você não tem fatos, tem conclusões, suas próprias conclusões, baseadas em declarações feitas por homens que sabe que não prestam.

— E tenho uma inexplicável conta bancária de cinco milhões de dólares.: Não se esqueça disso.

— E como poderia? Sou um gênio das finanças. Essa conta não pode ser explicada da forma que você quer, mas há uma cláusula anexa que lhe dá um certo grau de legitimidade. E pode ser inspecionada — provavelmente violada — por qualquer diretor legal de uma corporação chamada qualquer-coisa mais Seventy One: Essa não deve ser a companhia de um assassino pago.

— A corporação tem um nome, mas não está registrada.

— Em uma lista de telefone. Você é ingênuo! Mas voltemos a você. Agora. Devo realmente chamar a polícia?

— Sabe a minha resposta. Não posso detê-la, mas não gostaria que fizesse isso.

Marie abaixou a arma. — E não vou. Pela mesma razão pela qual você não quer que eu o faça. Não acredito no que eles dizem, não mais do que você.

— Então em que acredita?

— Já lhe disse; não estou certa. Tudo o que sei é que há sete horas estava sob o domínio de um animal, com sua boca enorme em cima de mim, as mãos me agarrando... E sabia que ia morrer. Depois um homem veio à minha procura — um homem que devia ter continuado a fugir, mas que veio à minha procura — e se ofereceu para morrer por mim. Acho que confio nele.

— E se estiver errada?

— Então terei cometido um engano terrível.

— Obrigado. Onde está o dinheiro?

— Sobre a cômoda. Dentro da carteira do passaporte. E também. na carteira. Junto com o nome do médico e o recibo pelo quarto.

— Pode me passar o passaporte, por favor? É o número da vigência suíça.

— Eu sei. — Marie os trouxe. — Dei ao concierge trezentos francos pelo quarto e duzentos por ter-me informado o nome do médico. Os serviços do médico custaram quatrocentos e cinqüenta francos, aos quais acrescentei mais cento e cinqüenta como pagamento pela cooperação. Ao todo paguei mil e cem francos.

— Não precisava me prestar contas — disse ele.

— Você deve saber. O que vai fazer?

— Dar-lhe dinheiro para voltar para o Canadá.

— Quero dizer depois. O que vai fazer depois?

— Vou ver como me sinto. Provavelmente pagarei o concierge para me comprar algumas roupas. Depois far-lhe-ei algumas perguntas. Ficarei bem. — Tirou da carteira uma quantidade de notas e entregou-as a ela.

— Isso é mais do que cinqüenta mil francos.

— Fiz você passar por um mau bocado.

Marie St. Jacques olhou para o dinheiro e depois a arma que tinha na mão esquerda. — Não quero seu dinheiro — disse ela deixando a arma sobre a mesinha de cabeceira.

— O que quer dizer?

Ela se virou e foi até a poltrona. Sentou-se e olhou para ele. — Acho que quero ajudá-lo.

— Espere um pouco...

— Por favor — interrompeu-o ela. — Não faça perguntas, por favor. Não diga nada por um instante.


 

Nenhum dos dois sabia quando acontecera ou se na verdade acontecera mesmo. E se acontecera, até que ponto poderiam preservar ou aprofundar aquilo. Não havia nenhum drama essencial, nenhum conflito a ser ultrapassado, nenhuma barreira a ser transposta. Em necessária apenas a comunicação através de palavras e olhares — e talvez tão vital quanto palavras e olhares — com o freqüente acompanhamento de um sorriso.

A vida deles naquele quarto de uma hospedaria da vila era tão clínica quanto podia ser em uma enfermaria de hospital. Durante o dia Marie se incumbia das coisas práticas como roupas, refeições, mapas e jornais. Por sua própria vontade decidiu levar o carro roubado dez milhas para o sul da cidade de Reinach, onde o abandonou, tomando um táxi de volta para Lenzbifrg. Enquanto ela estava fora, Bourne se limitava a descansar e fazer exercícios motores. De algum lugar do seu passado ele sabia que para se       recobrar eram necessários os dois, descanso e mobilidade, e se dedicava rigorosamente a isso. Já estivera nessa antes... antes de Port Noir.

Quando estavam juntos, conversavam. No início fora um pouco difícil, uma situação delicada, cheia de perguntas e curiosidades de dois estranhos que foram postos juntos e sobreviveram às ondas do cataclisma. Tentavam viver uma normalidade onde ela não podia existir. Mas tudo se tomava bem mais fácil quando ambos aceitavam a anormalidade essencial: não havia o que conversar que não estivesse relacionado ao que acontecera. E se havia, começava a aparecer durante aqueles momentos em que a sondagem do já-acontecido estava temporariamente exaurida, e os silêncios eram trampolins para o alivio, para outras palavras e pensamentos.

Era durante esses momentos que Jason ficava conhecendo os fatos mais importantes sobre a mulher que salvam a sua vida. Ele protestava, porque ela o conhecia tanto quanto ele mesmo se conhecia, mas ele não conhecia quase nada sobre ela: De onde ela tinha vindo? Por que uma mulher tão atraente, de cabelos vermelho-escuro e pele clara, obviamente criada em alguma fazenda, desempenhava o papel de doutora em economia?

— Por que estava cheia da fazenda — respondeu Marie.

— Brincadeira! De uma fazenda? Verdade?

— Bem, na verdade, um pequeno rancho. Pequeno em comparação com os grandes de Alberta. No tempo do meu pai, quando um franco-canadense ia ao Oeste comprar terras, havia uma série de restrições, embora não escritas. Por, exemplo, não entre em competições com oi que têm mais terra e são melhores do que você. Ele costumava dizer que se usasse o nome de St. James em vez de St. Jacques seria um homem muito mais rico hoje.

— Ele era rancheiro?

Marie riu. — Não, era um contador que se tornou rancheiro. E por causa de um bombardeiro Vickers, durante a guerra. Era piloto da Força Aérea canadense. Acho que quando viu aquele céu todo... Acho que depois daquela imensidão, um escritório de contabilidade seria muito enfadonho.

— Precisa ter muita paciência.

— Mais do que você pensa. Ele vendeu gado dos outros em terras que não possuía, antes de comprar seu próprio rancho. Francês até a alma, como diziam.

— Acho que eu iria gostar dele.

— Acho que sim.

Ela morara em Calgary com os pais e dois irmãos até completar dezoito anos, quando foi para a Universidade de McGill, em Montreal, para começar uma vida que jamais sonhara. Fora uma aluna indiferente, que preferia cavalgar pelos campos montada em um belo animal do que ficar presa na estrutura entediante de uma escola-convento em Alberta, descobrindo a excitação de usar o cérebro.

— Era assim mesmo, simples — ela lhe contou. — Eu encarava os livros como inimigos naturais e, de repente, lá estava, em um lugar cercado de pessoas que eram prisioneiras deles, e se divertiam muito com isto. Tudo o que acontecia era discussão de conversa. Conversa durante o dia todo, a noite toda — nas salas de aula e seminários; em grupos, nos reservados dos restaurantes, por cima das canecas de cerveja. Acho que foi a conversa que me ligou. Isso faz algum sentido para você?

— Não tenho lembrança, mas posso entender — disse Bourne. — Não tenho lembrança de colegas ou amigos, coisas assim, mas tenho certeza de que vivi isso também. — Sorriu. — Conversar por sobre canecas de cerveja é uma imagem boa, forte.

Ela sorriu em resposta. — E eu estava multo impressionada com aquele departamento. Era uma robusta moça de Calgary, competindo com dois irmãos que podiam beber mais cerveja do que a metade dos outros rapazes da universidade em Montreal.

— Você deve ter ficado ressentida.

— Não. Apenas com inveja.

Um novo mundo fora apresentado a Marie St. Jacques. E ela nunca mais voltou ao seu antigo mundo. Exceto por alguns períodos de férias. As estadias mais prolongadas em Calgary foram ficando cada vez menos freqüentes. Seus círculos de amizade, em Montreal, foram se expandindo, os verões sendo tomados pelos empregos, tanto dentro quanto fora da universidade. Primei ro, ela se sentiu atraída pela história, depois percebeu que a história era formada pelas forças econômicas — poder e significado tinham que lhes ser conferidos e então experimentou as teorias econômicas. E foi absorvida por elas.

Durante cinco anos permaneceu na McGill, onde completou o mestrado e recebeu uma bolsa-de-estudos canadense para Oxford.

— Foi um dia e tanto! Pensei que o meu pai fosse ter um ataque. Ele deixou os seus preciosos rebanhos com os meus irmãos a tempo de voar para o Leste e tentar me fazer mudar de opinião.

— Para fazê-la mudar de opinião? Ele era um contador, você ia fazer um doutorado em economia!

— Não cometa este equívoco — exclamou Marie. — Contadores e economistas são inimigos naturais. Um enxerga árvores, o outro, florestas; e são visões completamente diferentes. Além disso, ele não é apenas canadense, é franco-canadense. Ele deve ter me achado uma traidora de Versalhes. Mas acho que se acalmou quando lhe contei que uma das condições para ganhar a bolsa era o compromisso de trabalhar para o Governo durante um período mínimo de três anos. Então disse que eu “podia servir melhor à causa estando lá dentro”. Vive Québec libre — vive la France!

Os dois riram.

Os três anos de compromisso com Ottawa foram se estendendo por motivos lógicos: cada vez que pensava em sair, era promovida ou lhe davam um grupo de trabalho maior, um escritório mais amplo...

— O poder corrompe, é claro — sorriu ela — e ninguém conhece isso melhor do que um burocrata de carreira, a quem os bancos e as corporações perseguem para ver se arranjam recomendações especiais. Mas acho que Napoleão se expressou bem melhor. “Dêem-me medalhas em quantidade suficiente e ganharei qualquer guerra.” E, assim, fiquei. Gosto muito do meu trabalho. Funciona bem, e isso me deixa muito contente; o que ajuda bastante.

Jason olhava-a enquanto ela falava. Por baixo daquele exterior controlado havia uma grande exuberância, uma qualidade infantil. Era uma entusiasta que refreava o seu entusiasmo cada vez que ele se tomava mais proeminente. É claro que era competente no que fazia; suspeitava que ela jamais fizera qualquer coisa a que não tivesse se aplicado ao máximo. — Tenho certeza que você é... que você é competente, quero dizer. Mas não sobra muito tempo para outras coisas, não é?

— Que outras coisas?

— Oh, as coisas comuns. Marido, família, casa com cerquinha na frente.

— Tudo isso deve chegar um dia; não os excluí.

— Mas não chegaram!

— Não. Houve alguns casos, mas nenhuma aliança. Nem diamantes, também.

— Quem é Peter?

O sorriso se apagou. — Eu esquecera. Você leu o telegrama.

— Sinto muito.

— Não é nada. Já passou... Peter? Adoro Peter. Vivemos juntos quase dois anos, mas não deu certo.

— Ele parece não guardar ressentimentos.

— É melhor que não guarde! — Ela riu de novo. — É o diretor da seção e espera ser chamado pelo gabinete em breve. Se não se comportar, contarei ao Ministério da Fazenda o que não sabem sobre ele, e ele voltará a ser apenas um funcionário SX-Dois.

— Ele disse que ia buscá-la no aeroporto no dia 26. É melhor passar-lhe um telegrama.

— Sim, eu sei.

Aquela partida, no entanto, não era comentada. Haviam evitado o assunto como se fosse uma eventualidade muito distante. Não estava relacionado com o já-acontecido, era alguma coisa que ainda ia acontecer. Marie dissera que queria ajudá-lo, ele aceitara, supondo que ela estivesse se deixando levar por uma falsa gratidão, e ela resolvera ficar com ele um dia ou dois — e lhe era grato por isso. Mas qualquer coisa além disso seria impossível de pensar.

Por isso não conversavam a respeito da partida. Haviam trocado palavras e olhares, alguns sorrisos, sentiam-se bem. Em alguns momentos houvera alguns ímpetos mais calorosos, mas os dois compreenderam e se controlaram. Qualquer coisa além disso era impensável.

E, assim, retornaram à normalidade, ao já.acontecido. Mais para ele do que para eles, pois ele era a equivoca razão pela qual estavam juntos ... juntos no quarto de uma pequena hospedaria de uma vila da Suíça. Anormalidade. Não fazia parte do razoável e ordenado mundo de Marie St. Jacques, e por que não fazia sua mente ordenada e analítica estava sendo provocada. Coisas irrazoáveis deviam ser examinadas, esclarecidas. Ela tornou-se inexorável em sua investigação, tão insistente quanto George Washburn fora na Île de Port Noir, mas sem a paciência do médico. Pois ela não tinha tanto tempo; ela sabia disso e chegava à beira da grosseria.

— Quando lê os jornais, o que mais lhe chama a atenção?

— Tudo. Parece universal.

— Sério. O que lhe é mais familiar?

— Quase tudo, mas não posso lhe dizer o porquê.

— Dê-me um exemplo.

— Esta manhã. Havia uma história sobre um suprimento americano de armas para a Grécia, o subseqüente debate nas Nações Unidas e o protesto dos soviéticos. Entendi o significado, a luta pelo poder no Mediterrâneo, a entrada do Oriente Médio.

— Dê-me outro.

— Havia um artigo sobre a interferência da Alemanha Oriental no escritório de Bonn em Varsóvia. Os blocos orientais, ocidentais... Entendi também.

— Você percebe a relação, não é? Você é politicamente — geopoliticamente — receptivo.

— Ou então tenho uma percepção perfeitamente normal dos acontecimentos correntes. Mas acho que não era um diplomata. O dinheiro no Gemeinschaft é muito maior do que qualquer quantia que se possa ganhar em um emprego governamental.

— Concordo. Ainda assim, você é politicamente bem-informado. E a respeito de mapas? Você me pediu para lhe comprar alguns mapas. O que lhe vem à mente quando os olha?

— Em alguns casos os nomes engatilham imagens, como aconteceu em Zurique. Prédios, hotéis, ruas... rostos, algumas vezes. Mas nunca nomes. Os rostos nunca têm nomes.

— Você deve ter viajado muito.

— Acho que sim.

— Você sabe que sim.

— Está bem, viajei.

— Como?

— O que quer dizer com “como”?

— Era quase sempre de avião, carro... Você dirigia sempre?

— Os dois, acho. Por quê?

— Aviões significariam maiores distâncias. As pessoas se encontravam com você? Estes rostos se localizam em aeroportos, hotéis?

— Ruas — respondeu ele involuntariamente.

— Ruas!? Por que em mas?

— Não sei. Via esses rostos na rua... e em lugares reservados. Escuros.

— Restaurantes? Cafés?

— Sim. E quartos.

— Quartos de hotel?

— Sim.

— Escritórios, não?

— Às vezes. Não muito.

— Está bem. As pessoas se encontravam com você. Rostos de homens? Mulheres? Ambos?

— Homens, a maior parte. Algumas mulheres, mas eram homens em sua maioria.

— Sobre o que falavam?

— Não sei.

— Tente lembrar-se.

— Não posso. Não me lembro de nenhuma voz, nenhuma palavra.

— Havia encontros? Você se encontrava com pessoas; isso quer dizer que tinha encontros. Eles se encontravam com você ou você ia encontrá-los? Quem marcava esses encontros? Alguém tinha que marcar.

— Telegramas. Telefonemas.

— De quem? De onde?

— Não sei. Vinha a mim.

— Nos hotéis?

— Acho que sim, a maioria.

— Você me disse que o subgerente do Carillon disse que você recebia mensagens.

— Então, elas chegavam aos hotéis.

— De qualquer coisa Seventy One?

— Treadstone.

— Treadstone. É a sua companhia, não?

— Não significa nada para mim. Sequer consegui encontrá-la.

— Concentre-se

— Estou concentrado. Não estava registrada. Telefonei a Nova Iorque.

— Você parece achar pouco comum! Não é.

— Por que não?

— Podia ser uma companhia separada, mas no mesmo escritório de outra, ou uma subsidiária oculta — uma corporação feita apenas para fazer aquisições para uma companhia maior e cujo nome levanta o preço das negociações. É muito comum hoje em dia.

— A quem está tentando convencer?

— A você. É bem possível que você seja um negociante de interesses financeiros americanos. Tudo indica que sim: fundos preparados para serem usados imediatamente, um capital à mão, mantendo os interesses em segredo até a aprovação da corporação. Estes fatos, acrescidos da sua boa antena para as ocorrências e mudanças políticas, indicam que você pode ser um agente de compras de total confiança. E muito provavelmente um grande investidor, associado ou até meio-dono desta companhia maior.

— Você fala rápido, hein?

— Não disse nada que não fosse lógico.

— Tem um ou dois furos.

— Onde?

— Aquela conta não tinha nenhuma retirada. Apenas depósitos. Eu não estava comprando, estava vendendo.

— Você não sabe, não pode se lembrar. Pagamentos podem ser feitos e logo depois os depósitos podem ser feitos, também. A curto prazo.

— Nem mesmo sei o que quer dizer isso.

— Um tesoureiro que conhecesse certas estratégias de imposto reconheceria. Qual é o outro furo?

— As pessoas não tentam matar alguém para que comprem alguma coisa a um preço mais baixo. Eles podem mostrar e pôr à venda, mas não costumam matar.

— Costumam, se um erro gigantesco foi cometido. Ou se aquela pessoa foi confundida com outra qualquer. O que estou tentando lhe dizer é que você não pode ser o que não é! Não importa o que digam.

— Está assim convencida?

— Estou. Passei três dias com você. Conversamos, eu ouvi. Um terrível erro foi cometido. Ou uma espécie de conspiração.

— Envolvendo o quê? Contra o quê?

— É isto que deve descobrir.

— Obrigado.

— Diga-me uma coisa. O que lhe vem à mente quando pensa em dinheiro?

Pare! Não faça isto! Não entende!? Você está errada. Quando penso em dinheiro penso em matar.

— Não sei — disse ele. — Estou cansado. Preciso dormir. Mande seu telegrama de manhã. Diga a Peter que você vai voltar.

Já passava da meia-noite, era o começo do quarto dia, e o sono não lhe vinha. Bourne ficou a contemplar o teto, a madeira escura que refletia a luz da mesa, do outro lado da saia. A luz que ficava acesa durante a noite. Marie simplesmente a deixara acesa, sem dar nenhuma explicação.

Pela manhã ela iria embora e ele tinha que pensar em seus próprios planos. Ficaria na hospedaria por mais alguns dias, veria o médico em Wohlen e tiraria os pontos. Depois Paris. O dinheiro estava em Paris. E mais alguma coisa... Ele sabia, podia sentir. Uma resposta final estava em Paris.

Você não está desamparado. Vai encontrar seu caminho.

O que encontraria? Um homem chamado Carlos? Quem era Carlos, e o que representava para Jason Bourne?

Ouviu o barulho de tecido no sofá encostado à parede. Olhou, espantado de ver que Marie não dormia. Ao contrário olhava fixamente para ele, diretamente para ele.

— Você errado, sabe? — disse ela.

— A respeito de quê?

— Do que está pensando.

— Você não sabe o que estou pensando

— Sim, sei. Vi o seu olhar. Está vendo coisas das quais não tem certeza, com medo que sejam verdadeiras.

— Elas são — respondeu ele. — Explique-me a Steppdeckstrasse. Aquele homem gordo do Drei Alpenhäuser.

— Não posso, mas nem você pode.

— Elas existem. Eu as vi e elas existem.

— Descubra por quê. Você não pode ser o que não é, Jason. Descubra.

— Paris — disse ele.

— Sim, Paris. — Marie levantou-se do sofá. Vestia uma camisola amarelo-clara, quase branca, com botõezinhos de pérola no pescoço. Uma camisola leve, que ondulou com seus passos enquanto se aproximou da cama, descalça. Pôs-se ao seu lado, olhando-o. Depois, levantou as mãos e começou a desabotoá-la. Deixou-a cair, enquanto se sentava na cama, os seios próximos ao rosto dele. Inclinou-se para ele, procurando-lhe o rosto, segurou-o com as mãos, gentilmente. Os olhos, como nos dias anteriores, estavam fixos nele. — Obrigada por ter salvo a minha vida — sussurrou ela.

— Obrigado pela minha — respondeu ele, sentindo o desejo que sabia que ela também sentia, tentando imaginar se uma dor também acompanhava o desejo dela, como acompanhava o dele. Não tinha lembrança de uma mulher, e talvez porque não tivesse nenhuma lembrança, ela era tudo o que ele podia imaginar; tudo e mais, muito mais. Ela afastava a escuridão, fazia cessar a dor.

Ele tivera medo de lhe confessar. E agora ela estava lhe comunicando que tudo ficaria bem se fosse apenas por um momento, uma hora ou mais. Pela memória daquela noite ela lhe dava uma recordação, porque ela também desejava se libertar dos tumultos da violência. A tensão fora suspensa, ficariam em paz por uma ou duas horas. Era tudo o que ele pedia, mas Deus do céu, como precisava dela!

Procurou-lhe o seio e puxou para si os seus lábios; sua umidade o excitava, levava-lhe para longe todas as dúvidas.

Ela levantou as cobertas e achegou-se a ele.

Ela repousava em seus braços, a cabeça sobre o seu peito, cuidando para não lhe tocar no ferimento do ombro. Depois, levantou-se com cuidado, deslocando o peso do corpo sobre os cotovelos. Ele olhou-a. Os seus olhares se encontraram e os dois sorriram Ela levantou a mão esquerda e pôs o dedo indicador sobre os seus lábios. Falou suavemente.

— Tenho uma coisa para dizer e não quero que você me interrompa. Não vou mandar o telegrama para Peter. Não ainda.

— Mas espere um pouco! — Ele afastou-lhe a mão do rosto.

— Por favor, não me interrompa. Eu disse “não ainda”. Isso não quer dizer que não vá mandá-lo; mas não vou por enquanto. Vou ficar com você. Vou para Paris com você.

Ele forçou as palavras. — Suponha que eu não queira.

Ela se inclinou para a frente, passando os lábios na face dele. — Isso não cola. O computador rejeitou.

— Se fosse você não teria tanta certeza assim.

— Mas você não é. Eu sou eu, e sei a forma como você me abraçou e tentou dizer tantas coisas que não podia! Coisas que acho que queríamos dizer um ao outro nesses últimos dias. Não posso explicar o que aconteceu. Oh, acho que tudo está em alguma obscura teoria psicológica em algum lugar: duas pessoas medianamente inteligentes foram jogadas juntas num inferno e conseguiram rastejar para fora dele... juntas. E talvez seja só isso. Mas aqui está, agora; e não posso fugir disso. Não posso fugir de você. Porque você precisa de mim, e você me deu a sua vida.

— O que a faz pensar que preciso de você?

— Posso fazer algumas coisas por você que você não pode fazer sozinho. Foi só nisso que pensei nas duas últimas horas. — Ela se levantou um pouco mais, nua ao lado dele. — De certa forma, você está envolvido com uma grande soma de dinheiro. E creio que você não distingue um débito de um capital ativo. Talvez antes distinguisse, mas não agora. Eu distingo. E mais uma coisa. Tenho uma posição de destaque no Governo canadense. Tenho acesso a todas as formas de informação. E proteção. As finanças internacionais são podres e o Canadá foi violado. Montamos a nossa própria proteção, e faço parte dela. É por isso que eu estava em Zurique. Para observar e relatar possíveis alianças, não para discutir teorias abstratas.

— E o fato de ter esta licença, este acesso, pode me ajudar?

— Acho que sim. Uma proteção da embaixada é muito importante. Mas dou-lhe a minha palavra que ao primeiro sinal de violência, mando o telegrama e caio fora. Pondo de lado os meus próprios medos, acho que não serei um peso para você. Não sob essas condições.

— Ao primeiro sinal... — Bourne repetiu as palavras, examinando-a. — E sou eu quem determina quando e onde?

— Se quiser. A minha experiência é limitada. Não vou discutir.

Ele continuou a olhá-la, a segurar o seu olhar naquele momento prolongado e engrandecido pelo silêncio. Depois perguntou: — Por que está fazendo isso? Você acabou de dizer: somos duas pessoas medianamente inteligentes, que estão se arrastando para fora de um inferno. Isso pode ser tudo o que somos. Vale a pena?

Ela ficou sentada, imóvel. — Eu também disse mais alguma coisa. Talvez você tenha se esquecido. Há quatro noites um homem que podia ter continuado a correr e fugir voltou para me procurar e me deu a sua vida. Acredito neste homem. Mais do que ele mesmo, acho. Na verdade, isso é o que tenho a oferecer.

— Aceito — disse ele se aproximando dela. — Não devia, mas aceito. Preciso desesperadamente desta crença.

— Pode me interromper agora — disse ela num sussurro, abaixando o lençol e encostando seu corpo no dele. — Faça amor comigo; eu também tenho necessidade.

Passaram-se mais três dias e três noites; dias cheios do calor e do conforto da excitação daquela descoberta. Viviam com a intensidade de duas pessoas cientes de que tudo podia mudar. E quando a mudança chegasse, seria rápida. E, por isso, havia muita coisa a falar; coisas a dizer que não podiam mais ser evitadas.

A fumaça do cigarro subia da mesa em espirais, juntamente com o bafo do café quente e amargo. O concierge, um suíço exuberante cujos olhos viam mais do que a boca revelava, deixara alguns minutos antes, junto com o petit déjeuner, os jornais de Zurique, em inglês e francês. Jason e Marie sentaram-se um na frente do outro e puseram-se a examinar as notícias.

— Tem alguma coisa no seu? — perguntou Bourne.

— Aquele velho, o vigia do Guisan Quai, foi enterrado anteontem. A polícia ainda não tem nada de concreto. “Continuam as investigações”, diz aqui.

— A informação é um pouco mais extensa neste — disse Jason, tentando segurar as páginas do seu jornal, desajeitadamente por causa das ataduras na mão esquerda.

— Como está? — perguntou Marie, olhando para a sua mão.

— Melhor. Já movimento melhor os dedos agora.

— Eu sei.

— Oh, você tem uma mente suja. — Embrulhou o jornal. — Aqui está. Repetem as coisas que já disseram outro dia. As balas e as manchas de sangue estão sendo analisadas. — Bourne levantou os olhos. — Mas tem mais alguma coisa: remanescentes de roupa, que antes não foram mencionados.

— É problemático?

— Não para mim. Minhas roupas foram compradas de segunda mão em Marselha. E o seu vestido? Era alguma criação especial?

— Você me encabula. Não era. Todas as minhas roupas são feitas por uma mulher em Ottawa.

— Não podem servir de pista, então.

— Não vejo como. A seda veio de uma peça que um funcionário FS-Três da nossa seção trouxe de Hong-Kong.

— Você comprou alguma coisa nas lojas do hotel? Algo que estivesse usando naquele dia? Um lenço, um alfinete, alguma coisa assim?

— Não. Não sou muito de compras assim.

— Ótimo. E a sua amiga... Não fizeram muitas perguntas?

— Não na portaria, já lhe disse isso. Apenas os dois homens que você viu comigo no elevador.

— Da delegação francesa e da belga?

— Sim. Tudo estava bem.

— Vamos repassar.

— Não há nada para repassar. Paul — o de Bruxelas — não viu nada. Ele foi tirado da cadeira com um golpe e lá ficou, estatelado no chão. Claude — ele tentou nos deter, lembra-se? — primeiro pensou que era eu quem estava lá no palco, debaixo da luz, mas antes que pudesse ir até a policia foi ferido na multidão e levado para a enfermaria...

— E, depois, quando já podia falar — interrompeu Jason, tentando lembrar-se das palavras dela — já não tinha mais certeza.

— Sim. Mas acho que ele sabia qual era o meu propósito no seminário, a minha apresentação não o enganou. Se sabia, isso apenas reforçaria a sua decisão de ficar de fora da questão.

Bourne pegou seu café. — Deixe-me repassar isso de novo — disse. — Você estava à procura de... alianças?

— Bem, na verdade, algumas informações sobre alianças. Ninguém vai aparecer e dizer que existem interesses financeiros em seu país, e que estão usando os interesses do nosso país de forma a poderem comprar sua entrada no mercado de matérias- primas do Canadá, ou de qualquer outro lugar. Mas a gente observa quem se encontra nos jantares, ou para drinques. Ou algumas vezes é algum palerma, como um delegado de, digamos, Roma — que você sabe que está sendo pago pelo Agnelli —, que aparece e pergunta se Ottawa é muito séria nas suas leis.

— Acho que ainda não entendi muito bem.

— Mas devia. O seu próprio país é muito sensível com relação a esta matéria. Quem possui o quê? Quantos bancos americanos são controlados pelo dinheiro da OPEP? Quantas indústrias pertencem aos consórcios europeus e japoneses? Quantas centenas de milhares de acres foram adquiridos por capital que veio da Inglaterra, da Itália ou da França? Todos nós nos preocupamos com isso.

— É?

Marie riu. — É claro. Nada torna um homem mais nacionalista do que saber que o seu país está sendo comprado pelos estrangeiros. Ele consegue se ajustar, com o tempo, à idéia de ter perdido uma guerra — porque isso significa que o inimigo era mais forte —, mas perder a sua economia significa que o inimigo era mais esperto. O período da ocupação é bem mais longo, e mais profundas as cicatrizes.

— Você já pensou bastante sobre essas coisas, não?

Por um breve momento o olhar de Marie perdeu a sua ponta de humor; ela respondeu-lhe com seriedade. — Sim, já. Acho que são importantes.

— Você conseguiu saber de alguma coisa em Zurique?

— Nada assustador — disse ela. — O dinheiro está voando por todos os cantos; os sindicatos estão tentando descobrir os investimentos internos, enquanto as máquinas burocráticas olham para outro lado.

— Aquele telegrama de Peter dizia que os seus relatórios diários eram de primeira. O que ele quis dizer?

— Descobri um número estranho de associados econômicos que creio podem estar usando figuras importantes do Canadá para comprar propriedades canadenses. Não estou sendo discreta, mas é que não significariam nada para você.

— Não estou tentando espionar — replicou Jason. — Mas acho que você me pôs numa dessas suas associações. Não com relação ao Canadá, mas de forma geral.

— Não o excluo, a estrutura é assim. Você podia ser parte de uma associação qualquer, combinada, que procura por todos os meios fazer negócios ilegais. É uma coisa que posso muito bem averiguar, mas prefiro solucionar isso com um telefonema. Não com palavras escritas nem com um telegrama.

— Agora, estou espionando. O que você quer dizer?

— Se existe uma Treadstone Seventy One por trás de uma multinacional qualquer, há muitos meios de descobrir que companhia é essa. Quero falar com Peter, de um desses telefones públicos em Paris. Vou lhe dizer que encontrei o nome da Treadstone Seventy One em Zurique e que isso me deixou um pouco preocupada. Vou pedir para fazer uma PC — Pesquisa Confidencial — e voltar a chamá-lo depois.

— E se ele a descobrir?

— Se existir, ele a descobrirá.

— Depois, posso entrar em contato com quem quer que seja que estiver listado como “diretores”.

— Muito cuidadosamente — continuou Marie. — Através de intermediários. Por meu intermédio, se quiser.

— Por quê?

— Pelo que eles fizeram. Ou não fizeram, realmente.

— O que foi?

— Eles não o procuraram durante quase seis meses.

— Você não sabe — e eu não sei.

— O banco sabe. Milhões de dólares foram deixados intocados, sem serem procurados, e ninguém se incomodou em descobrir por quê. É isso que não posso entender. É como se você tivesse sido abandonado. É aí que pode estar o engano.

Bourne se inclinou, olhando para a mão enfaixada, lembrando-se da visão da arma esmagando repetidas vezes os seus dedos, dentro de um carro em velocidade na Steppdeckstrasse. Depois levantou os olhos e olhou para Marie. — O que está tentando dizer é que se fui abandonado é porque esse engano é tomado como verdade pelos diretores da Treadstone.

— Possivelmente. Eles podem pensar que você os envolveu em transações ilegais — com elementos criminais — que poderiam custar-lhes muitos milhões mais. E que tenha posto em risco muitas companhias, por expropriação dos governos irados. Ou que você tenha se juntado a um sindicato internacional do crime, provavelmente sem saber. Qualquer coisa assim. Isso seria o bastante para eles não chegarem perto do banco. Não quereriam ser culpados por essa cumplicidade.

— Assim, num certo sentido, não importa o que o seu amigo Peter venha a saber. Vou ficar no ponto zero.

— Nós ficamos; mas não é zero, é mais quatro e meio ou cinco numa escala de dez.

— Mesmo que fosse nove, nada realmente mudou. Alguns homens querem me matar e não sei por quê. Outros poderiam detê-los, mas não vão fazer isso. Aquele homem no Drei Alpenhäuser disse que a Interpol montou armadilhas para mim, e se eu cair em uma não terei nenhuma resposta. Sou tão culpado quanto atacado, porque não sei do que sou culpado. Não ter memória de nada me serve como defesa; e é possível que eu não tenha nenhuma defesa.

— Recuso-me a acreditar nisso, e você deve fazer o mesmo.

— Obrigado.

— É verdade, Jason. Pare com isso.

Pare com isso. Quantas vezes não digo isso para mim mesmo? Você é o meu amor, a única mulher que jamais conheci, e acredita em mim. Por que não posso acreditar em mim mesmo?

Bourne levantou-se examinando as pernas, como sempre fazia. A mobilidade lhe voltava, o ferimento era menos grave do que a sua imaginação o permitira acreditar. Marcara um encontro aquela noite com o Dr. Wohlen, para remover os pontos. Amanhã efetuar-se-ia a mudança.

— Paris — disse Jason. — A resposta está em Paris. Sei disso tanto quanto sabia daqueles triângulos em Zurique. Só não sei por onde começar. É uma loucura! Sou um homem à espera de uma imagem, de uma palavra ou de uma frase — ou até de uma caixa de fósforos — que me possam dizer alguma coisa. Que me remetam a algum lugar diferente

— Por que não esperamos até eu ter notícias de Peter? Posso telefonar-lhe amanhã, podemos estar em Paris amanhã.

— Porque não iria fazer nenhuma diferença, não vê? Não importa o que ele consiga, a única coisa que preciso saber não está no que ele vai encontrar. Pela mesma razão que a Treadstone não chegou nem perto do banco. Eu. Tenho que saber por que alguns homens querem me matar, por que alguém chamado Carlos vai pagar — o que era mesmo? — uma fortuna pelo meu cadáver.

Só conseguiu chegar até aí; foi imediatamente interrompido por uma batida na mesa. Marie deixara cair a xícara e olhava espantada para ele, o rosto branco, como se o sangue lhe tivesse sido drenado da cabeça. — O que você acabou de dizer? — perguntou.

— O quê? Disse que tenho que saber...

— O nome. Você acabou de dizer o nome Carlos.

— Isto mesmo.

— Em todos os momentos em que conversamos, todos os dias em que estivemos juntos, você nunca o mencionou.

Bourne olhou para ela, tentando se lembrar. Era verdade; ele lhe contara tudo o que lhe viera à mente; no entanto, de alguma forma, esquecera-se de Carlos... quase propositalmente, como se a omissão tivesse sido para bloquear alguma coisa.

— Acho que não — disse ele. — Você parece conhecê-lo. Quem é Carlos?

— Você está brincando? Se está, a brincadeira não é muito agradável.

— Não estou tentando ser engraçado. Acho que não tem nada de engraçado nisso. Quem é Carlos?

— Meus Deus, você não sabe? — exclamou ela, estudando os seus olhos. — É parte do que lhe foi tirado.

— Quem é Carlos?

— Um assassino. É conhecido como “o assassino da Europa”. Um homem procurado há vinte anos e que se acredita já ter matado entre cinqüenta a sessenta importantes figuras políticas e militares. Ninguém sabe como ele é... mas dizem que opera fora de Paris.

Bourne sentiu uma onda de frio por todo o corpo.

O táxi que os levava a Wohlen era um Ford inglês, que pertencia ao cunhado do concierge. Jason e Marie sentaram-se no banco de trás, o campo escuro passava rapidamente pela janela. Os pontos tinham sido removidos, no lugar foram colocadas ataduras macias, presas por largas tiras de esparadrapo.

— Volte para o Canadá — disse Jason suavemente, quebrando o silêncio entre eles.

— Irei, já lhe disse isso. Ainda tenho alguns dias. Quero ver Paris.        

— Não a quero em Paris. Telefonar-lhe-ei para Ottawa. Você mesma pode fazer a pesquisa sobre a Treadstone e me passar a informação pelo telefone.

— Pensei que você disse que não fazia nenhuma diferença. Porque você tinha que saber o porquê; o quem era sem sentido, até que você conseguisse entender.

— Darei um jeito. Preciso apenas de um homem. Encontra-lo-ei.

— Mas você não sabe por onde começar. É um homem à espera de uma imagem, de uma frase, ou de uma caixa de fósforos. Tudo isso pode não estar lá.

— Alguma coisa estará lá.

— Alguma coisa está, mas você não a vê. Eu vejo. É por isso que você precisa de mim. Conheço as palavras, os métodos. Você não.

Bourne olhou-a; estava manchada pelas sombras que passavam correndo. — Acho que é melhor ser mais clara.

— Os bancos, Jason. As conexões da Treadstone estão nos bancos. Mas não da forma que você pensa.

O velho curvado vestido com um sobretudo puído e com uma boina preta na mão atravessou a nave lateral da igreja da vila de Arpajon, a dez milhas de Paris. Os sinos da tarde anunciavam a hora do Ângelus, que ecoava pelas paredes de pedra e madeira. O homem tomou seu lugar na quinta fila e esperou que os sinos parassem de tocar. Era o seu sinal. Fora isso que ele aceitara; sabia que durante o repicar dos sinos alguém, um homem mais jovem — mais impiedoso do que qualquer homem vivo — já havia circulado a pequena igreja e estudado todos que estavam por lá, dentro ou fora. Se aquele homem visse alguma coisa que não esperava ver, alguém que considerava uma ameaça a sua pessoa, não haveria nenhuma pergunta, mas simplesmente uma execução. Esse era o jeito de Carlos. E apenas aqueles que sabiam que as suas vidas podiam ser tiradas porque haviam sido seguidos aceitavam dinheiro para serem mensageiros do assassino. Eram todos como ele, velhos, dos velhos tempos, vidas já no fim, os meses limitados pela idade avançada ou pela doença.

Carlos não permitia nenhum risco; o único consolo era que se um deles morria no serviço — ou por suas próprias mãos —, algum dinheiro seria enviado para as mulheres velhas, ou para as suas filhas ou para os seus filhos. Era preciso dizer: havia uma certa dignidade em ser encontrado a serviço de Carlos. Ele era generoso. Isto era o que o seu pequeno exército de frágeis velhos entendia. Ele lhes dava um objetivo de vida para os seus dias finais.

O mensageiro segurou sua boina e continuou a andar pela nave lateral até a fila de confessionários, que ficava encostada à parede. Foi até o quinto, abriu a cortina e entrou, ajustando a visão à luz de uma única vela que brilhava do outro lado da cor- tina translúcida que separava o padre do pecador. Sentou-se no pequeno banco de madeira e olhou o perfil que estava lá dentro, no lugar sagrado. Era o mesmo, a figura encapuzada de um homem vestido com um hábito de monge. O mensageiro não tentou imaginar como seria aquele homem, não era seu direito especular sobre tais coisas.

— Angelus Domini — disse ele.

— Angelus Domini, filho de Deus — sussurrou a figura encapuzada. — Seus dias estão em paz? :

— Estão chegando ao fim — respondeu o velho, dando a resposta apropriada — mas em paz.

— Ótimo. É importante ter um sentido de segurança na sua idade — disse Carlos. — Vamos aos negócios. Conseguiu as notícias de. Zurique?

— O olheiro está morto, e mais dois outros. E possivelmente um terceiro também. A mão de um outro ficou muito ferida, ele não pode trabalhar. Caim desapareceu. Acham que a mulher está com ele.

— Uma estranha mudança nos acontecimentos — disse Carlos.

— Há mais ainda. O que teve ordem de matá-la desapareceu. Devia levá-la ao Guisan Quai. Ninguém sabe o que aconteceu.

— Exceto que um vigia foi morto no lugar dela. É possível que ela nunca tenha sido uma refém, mas, ao contrário, a isca de uma armadilha. Uma armadilha que voltou-se contra Caim. Quero pensar sobre isso. Por enquanto, aqui estão as minhas instruções. Está pronto?

O velho procurou e pegou do bolso um toco de lápis e um pedaço de papel. — Muito bem.

— Telefone para Zurique. Quero um homem amanhã em Paris, que tenha visto Caim e possa reconhecê-lo. Também Zurique deve entrar em contato com Koenig, no Gemeinschaft, e dizer-lhe que mande a sua fita de Nova Torque. Ele deve usar a caixa postal da Village Station.

— Por favor — interrompeu o idoso mensageiro. — Estas velhas mãos já não escrevem como antigamente.

— Desculpe-me — sussurrou Carlos. — Estou preocupado e não percebi. Desculpe-me.

— Não é nada. Não é nada. Continue.

— Por fim, quero que o nosso grupo alugue quartos a uma quadra do banco da Rua Madeleine. Desta vez o banco será a ruína de Caim. O enganador será preso na fonte do seu orgulho impróprio. Um preço de barganha, tão desprezível quanto ele... a menos que ele seja uma outra coisa.


 

Um pouco afastado, Bourne ficou a olhar Marie, que passava pela alfândega do aeroporto de Berna, à espera que aparecesse algum sinal de interesse ou reconhecimento de alguém que estivesse na multidão ali por perto do embarque da Air France. Eram quatro horas da tarde, a hora de vôo mais concorrida para Paris, hora em que os privilegiados homens de negócios se apressavam em voltar para a cidade das luzes, depois de terem realizado aborrecidos serviços para as suas companhias nos bancos de Berna. Marie olhou por cima dos ombros enquanto passava pelo portão de embarque. Ele fez um sinal com a cabeça, esperou que ela desaparecesse de vista, depois virou-se e caminhou em direção ao balcão da Swissair. George B. Washburn fizera uma reserva no vôo das 16h30min para Orly.

Encontrar-se-iam no café que Marie se lembrava de ter freqüentado nos seus dias de Oxford. Chamava-se Au Coin de Cluny e ficava no bulevar Saint-Michel, a algumas quadras da Sorbonne. Se por qualquer razão não se encontrassem lá, Jason a encontraria por volta das nove horas na escadaria do Museu Cluny.

Bourne estava atrasado, embora estivesse ali por perto. A Sorbonne tinha uma das mais vastas bibliotecas de toda a Europa, e em algum lugar daquela biblioteca estavam os números de jornais mais antigos. As bibliotecas das universidades não estavam subordinadas aos empregados do Governo; os estudantes usavam-nas durante as tardes. Era o que ele iria fazer tão logo chegasse a Paris. Havia algo que ele precisava saber.

Todos os dias leio os jornais. Em três línguas. Há seis mesa, um homem foi morto e sua morte foi registrada na primeira página de todos esses jornais. Fora isso o que dissera aquele homem gordo em Zurique.

Deixou a maleta na portaria da biblioteca e foi em direção ao segundo andar, virando à esquerda, na imensa sala de leitura. A Salle de Lecture ficava naquele anexo, os jornais eram fixados em hastes e pendurados em trilhos; os volumes começavam precisamente há um ano daquela data.

Caminhou por entre os trilhos, contou seis meses atrás e em seguida retirou o primeiro volume de jornais relativo às primeiras dez semanas antes daquela data, há um ano. Levou-os até a mesa mais próxima e, sem sentar-se, começou a folhear as páginas de frente, jornal por jornal.

Grandes homens haviam morrido, enquanto outros haviam feito discursos e pronunciamentos; o dólar caíra, o ouro subira; tentativas de golpe, governos tinham titubeado entre ação e paralisação. Mas nenhum homem fora morto, nenhum que merecesse manchete; não houvera nenhum acidente — ou seja, nenhum assassinato.

Jason voltou aos trilhos e recomeçou a pesquisar. Duas sema nas, doze semanas, vinte semanas antes. Quase oito meses. E nada.

Isso o assustou. Ele voltara no tempo, não fora adiante daquela data, há seis meses. Um erro podia ter sido cometido em uma das duas direções; um erro de alguns dias, de uma semana, ou até mesmo duas. Recolocou os jornais nos trilhos e tirou novos volumes, de quatro e cinco meses atrás.

Aviões tinham se chocado no ar e revoluções sangrentas haviam irrompido; homens santos haviam falado apenas para serem reprovados por outros homens santos; pobreza e doença eram encontradas onde todos sabiam que podiam ser encontradas; mas nenhum homem importante fora morto.

Foi até o último dos volumes, as sombras da dúvida e da culpa se aclarando em cada virada de página. Será que o homem gordo e suado de Zurique mentira? Seria tudo mentira? Tudo mentira? Estaria ele vivendo um pesadelo que poderia desaparecer com...

EMBAIXADOR LELAND ASSASSINADO EM MARSELHA!

As grossas letras negras da manchete saltaram da página, ferindo-lhe os olhos. Não era uma dor imaginada nem inventada, mas uma dor aguda, que penetrou-lhe as órbitas e queimou-lhe a cabeça. Sua respiração parou; os olhos estavam fixos no nome LELAND. Ele o conhecia; podia até ver seu rosto, ver realmente. As sobrancelhas grossas, uma testa larga, nariz achatado, ossos da face salientes e, estranhamente, lábios finos, encimados por um bigode grisalho impecável. Conhecia aquele rosto, aquele homem. E o homem fora morto com uma única bala vinda de um rifle de alta potência de uma janela da praia. O Embaixador Howard Leland caminhava por um píer às cinco horas da tarde em Marselha. E sua cabeça foi explodida por um tiro.

Bourne nem precisava ler o segundo parágrafo para saber que Howard Leland era o Almirante H. R. Leland, da Marinha dos Estados Unidos até que, depois de um compromisso temporário como diretor do Serviço de Inteligência Naval, foi indicado para aquela embaixada do Quai d’Orsay, em Paris. Como ele também nem precisava ler o resto do artigo, onde os vários motivos para o assassinato eram especulados, para ficar sabendo de tudo; ele já sabia. A função básica de Leland em Paris era dissuadir o Governo francês de autorizar maciças vendas de armas — e em particular frotas de jatos Mirage — para a África e o Oriente Médio. Conseguira o suficiente para irritar as partes interessadas de todos os pontos do Mediterrâneo. Presumia-se que fora morto por causa desta sua interferência; uma punição que servira de aviso para os demais, Os compradores e vendedores da morte não podiam ser passados para trás.

E o vendedor da morte que o matara fora muito bem pago, por trás da cortina, com todas as pistas apagadas.

Zurique. Um mensageiro para um homem sem pernas, outro para um homem obeso, em um restaurante movimentado, para os lados da Falkenstrasse.

Zurique.

Marselha.

Jason fechou os olhos, a dor agora intolerável. Fora retirado do mar há cinco meses, e seu porto de origem era Marselha. E se fora Marselha, a praia teria sido sua rota de fuga, provavelmente em um barco alugado para levá-lo pelo extenso Mediterrâneo. Tudo se encaixava muito bem, cada peça do quebra-cabeças se encaixava na outra com precisão. Como podia saber de todas es sas coisas se não fosse aquele mesmo vendedor da morte de uma janela da costa de Marselha?

Abriu os olhos, a dor inibindo-lhe o pensamento, embora não de todo. Tomara uma decisão tão clara quanto aquele quadro com peças se encaixando, tão clara quanto o resto da sua limitada memória. Não deveria haver nenhum encontro com Marie St. Jacques em Paris.

Talvez um dia ele lhe escrevesse uma carta, dizendo as coisas que agora não podia dizer, se ainda estivesse vivo e ainda pudesse escrever uma carta. Agora não escreveria. Não poderia deixar nenhuma palavra escrita, nem de agradecimento nem de amor; nenhuma explicação. Ela esperaria por ele, mas ele não apareceria. Devia afastar-se dela; ela não devia envolver-se com um camelô da morte. Ela estava errada; seus receios mais terríveis eram verdadeiros.

Oh, Deus! Podia lembrar-se claramente do rosto de Howard Leland! E nem sequer havia uma única fotografia naquela página de jornal. Aquela página de frente, com uma manchete terrível que engatilhava tantas coisas, confirmava tantas outras... A data. Quinta-feira, 26 de agosto. Marselha. Era uma data que ele não esqueceria pelo resto da vida, sua convulsionada vida.

Quinta-feira, 26 de agosto...

Alguma coisa estava errada, O que era? Quinta-feira?... Quinta-feira não significava nada para ele. E vinte e seis de agosto?... O dia vinte e seis!? Não, não podia ser no dia vinte e seis! Estava errado! Ele ouvira isso muitas vezes. O diário de Washburn — as anotações diárias que fizera do seu paciente. Quantas vezes Washburn recapitulara cada fato, cada frase, anotando todos os dias os seus pequenos progressos? Foram muitas vezes, nem dava para contar. E foram tantas que seria impossível esquecer!

Você foi trazido até a minha porta na manhã de terça-feira, vinte e quatro de agosto, precisamente às oito horas e vinte minutos. Suas condições eram as...

Terça-feira, 24 de agosto.

24 de agosto.

Ele não estava em Marselha no dia vinte e seis! Não podia ter atirado daquela janela. Não era ele o camelô da morte de Marselha. Não fora ele quem matara Howard Leland!

Há seis meses um homem foi morto... Mas não fazia seis meses ainda, quase mas ainda não. E ele não matara esse homem; nesse dia, ele estava quase morto na casa de um alcoólatra, na Île de Port Noir.

As sombras estavam se aclarando agora; a dor começava a retroceder. Um certo orgulho tomou conta dele, ele descobrira uma mentira concreta! E se havia uma, poderia haver muitas outras!

Bourne olhou para o relógio: nove e quinze. Marie já havia deixado o café, devia estar à sua espera na escadaria do Museu Cluny. Recolocou os volumes nos trilhos e foi em direção à porta larga, que parecia porta de catedral, da sala de leitura. Estava com pressa.

Atravessou o bulevar Saint-Michel, acelerando o passo. Tinha a impressão bem clara de saber o que era ter uma trégua agora, e queria compartilhar esta rara experiência. Por um momento estava fora da escuridão violenta, muito além das águas turbulentas. Encontrara um momento de luz, de sol — como os momentos e os dias ensolarados que passara naquela hospedaria da vila — e tinha que procurar quem lhe dera tudo aquilo. Encontrá-la, abraçá-la, e dizer que havia esperança.

Viu-a na escada, os braços cruzados, protegendo-se do vento gélido que vinha do bulevar. Ela não o percebeu logo, seus olhos espreitavam a rua com árvores alinhadas dos dois lados. Estava ansiosa, impaciente e inquieta; uma mulher impaciente à procura de alguma coisa e com medo de não encontrá-la.

Há dez minutos ele pensara em não vir.

Ela o viu. O rosto tomou-se radiante, com um sorriso cheio de vida. Correu ao seu encontro enquanto ele subia os degraus. Encontraram-se e, por um momento, nenhum dos dois disse uma palavra; estavam aquecidos e sós no Saint-Michel.

— Esperei e esperei — ela disse por fim. — Estava com tanto medo, tão preocupada! Aconteceu alguma coisa? Você está bem?

— Estou bem. Melhor do que nunca.

— O quê?

Segurou-a pelos ombros. — “Há seis meses um homem foi morto”... Lembra-se?

A alegria fugiu-lhe dos olhos. — Sim, me lembro.

— Não fui eu quem o matou — disse Bourne. — Não podia ter sido eu.

Descobriram um pequeno hotel longe do movimentado bulevar. O saguão e os quartos eram muito velhos, mas havia uma certa pretensão de elegância antiga que lhes dava um ar atemporal. Era um lugar quieto e repousante, engastado no meio de um carnaval, preso à sua identidade própria e aceitando a passagem do tempo sem, no entanto, associar-se a ela.

Jason fechou a porta cumprimentando com a cabeça o grisalho porteiro, cuja indiferença se transformara em indulgência depois da nota de vinte francos.

— Ele pensa que você é um provinciano adúltero todo afogueado com um programa noturno — disse Marie. — Espero que você tenha notado que vim diretamente para a cama.

— Seu nome é Hervé, e ele será bastante atencioso conosco. Não tem necessidade de dividir a riqueza. — Aproximou-se e tomou-a nos braços. — Obrigado por me ter salvo a vida — disse.

— Não é nada, meu amigo. — Ela levantou-se e segurou-lhe o rosto nas mãos. — Mas não me faça esperar assim de novo. Quase fiquei maluca; tudo o que podia pensar era que alguém o reconhecera... ou que alguma coisa terrível havia acontecido.

— Esqueceu que ninguém sabe como eu sou?

— Não se fie nisso, não é verdade. Havia quatro homens na Steppdeckstrasse, inclusive aquele bastardo do Guisan Quai. Eles estão vivos, Jason. E eles o viram.

— Na verdade não. Viram um homem de cabelos escuros com bandagens no pescoço e na cabeça e que andava mancando. Apenas dois estiveram perto de mim: o que estava no segundo andar e aquele porco do Guisan. O primeiro não poderá deixar Zurique por enquanto; não pode andar e pouco restou da sua mão esquerda. O segundo recebeu a luz das lanternas nos olhos, não me viu bem.

Ela largou-o, enrugando a testa; a mente alerta estava se questionando. — Não pode ter tanta certeza. Eles estiveram lá e o viram.

Mude seu cabelo... e você fica com outro rosto. Geoffrey Washburn, Île de Port Noir.

— Repito, eles viram um homem de cabelos negros que estava no escuro. Você sabe usar uma solução de água oxigenada?

— Nunca usei.

— Então vou procurar uma loja amanhã de manhã. Montparnasse é o melhor lugar para isso. Louros se divertem mais, não é o que dizem?

Ela examinou-lhe o rosto. — Estou tentando imaginar como você vai ficar.

— Diferente. Não muito, mas o suficiente.

— Talvez esteja certo. Espero que sim, meu Deus. — Ela beijou-lhe a face, sinal de que iria começar a falar. — Agora, diga-me o que aconteceu. Onde você foi? O que soube sobre esse... esse incidente de seis meses atrás?

— Não foi há seis meses. E, por isso, eu não podia tê-lo matado. — Contou-lhe tudo, exceto aqueles breves instantes em que pensara em não vê-la mais. Não precisava contar, ela mesma acabou tocando no assunto.

— E se aquela data não estivesse muito clara em sua mente você não viria ao meu encontro, não é?

Ele balançou a cabeça. — Provavelmente não.

— Eu sabia. Senti isso. Por um instante, quando saí do café e fui até a escadaria do museu, quase nem podia respirar. Era como se estivesse sufocada. Pode acreditar nisso?

— Não quero acreditar.

— Nem eu, mas aconteceu.

Estavam sentados. Ela na cama, ele na única poltrona que havia ali por perto. Ele estendeu a mão procurando a dela. — Ainda não tenho muita certeza de que devia estar aqui... Conheci aquele homem, vi o seu rosto; eu estava em Marselha quarenta e oito horas antes de ele ser mono!

— Mas não foi você quem o matou.

— Então por que eu estava lá? Por que as pessoas pensam que fui eu? Minha nossa, é uma loucura! — Saiu da poltrona, a dor voltou-lhe aos olhos. — Mas eu havia esquecido. Não sou normal, sou? Porque esqueci tudo, anos... Uma vida toda.

Marie falou por falar, sem compaixão na voz. — As respostas lhe virão. De uma fonte ou outra; depois, de você mesmo.

— Talvez não seja possível. Washburn disse que eram como blocos reagrupados, diferentes túneis... diferentes janelas. — Jason foi até a janela; abraçando-se a si mesmo no peitoril da janela, pôs-se a olhar lá para baixo, para as luzes de Montparnasse. — As paisagens não são as mesmas; nunca serão. Em algum lugar lá fora existem pessoas a quem conheço e que me conhecem. Algumas milhas mais distante existem outras pessoas que são minhas conhecidas e não são... Ou até, oh, Deus, talvez uma esposa e filhos... Não sei. Continuo a rolar no vento, me virando sem nunca poder pousar no solo. Cada vez que tento sou jogado para cima de novo.

— Para o céu? — perguntou Marie.

— Sim.

— Você pulou de um avião — declarou ela.

Bourne virou-se. — Eu nunca disse isso!

— Você falou sobre isso enquanto dormia, uma noite dessas. Você estava suando, o rosto afogueado e quente, e tive que enxugá-lo com uma toalha.

— Por que não me disse nada?

— Eu disse, de certa forma. Perguntei-lhe se você era um piloto, ou se voar lhe incomodava. Especialmente à noite.

— Eu não sabia do que você falava. Por que não me forçou?

— Fiquei com receio. Você esteve bem próximo da histeria, e não tenho nenhuma prática com essas coisas. Posso ajudá-lo a lembrar-se, mas não posso lidar com o seu inconsciente. E acho que ninguém pode, a não ser um médico.

— Um médico? Estive com um durante quase seis meses.

— Pelo que me contou dele, acho que seria bom procurar outra opinião.

— Não! — respondeu, confuso com a sua própria irritação.

— Por que não? — Marie levantou-se da cama. — Você precisa de ajuda, meu querido. Um psiquiatra pode...

— Não! — Ele gritou sem querer, furioso consigo mesmo. — Não vou fazer isso. Não posso.

— Por favor, diga-me por quê — perguntou ela calmamente, pondo-se na sua frente.

— Eu... Eu... não posso fazer isto.

— Só me diga por quê, só isso.

Bourne olhou-a fixamente, depois virou-se e olhou para fora, pela janela, as mãos no peitoril. — Porque tenho medo. Alguém mentiu, e fiquei muito grato por isso, muito mais do que lhe posso dizer. Mas e se não houver mais mentiras, suponhamos que o resto seja verdade. O que posso fazer, então?

— Você está dizendo que não quer descobrir?

— Não é bem assim. — Ele se inclinou na janela, o olhar fixo nas luzes lá embaixo. — Tente me entender — disse. — Tenho que saber algumas coisas.., o suficiente para tomar uma decisão... mas talvez não tudo. Uma parte de mim tem que ser capaz de ir embora, desaparecer. Tenho que ser capaz de dizer para mim mesmo, o que foi não é mais e há uma possibilidade de nunca ter sido, porque não tenho nenhuma lembrança disso. O que uma pessoa não pode se lembrar não existe.., ao menos pa ra ele. — Virou-se para Marie. — O que estou tentando lhe dizer é que talvez seja melhor assim.

— Você quer evidências, mas não provas, é isso que está dizendo?

— Quero algumas setas apontando para uma ou outra direção, dizendo-me quando fugir ou não.

— Dizendo a você. E nós?

— Isso virá com as setas, não é? Você sabe disso.

— Então vamos procurá-las — respondeu ela.

—. Tenha cuidado. Você pode não querer viver com o que poderá vir a saber. É isso o que quero dizer.

— Posso viver com você. E isso é verdadeiro. — Ela se levantou e tocou-lhe o rosto. — Venha. Ainda são cinco horas em Ontário e posso pegar Peter no escritório. Ele pode começar a procurar a Treadstone... e nos dar o nome de alguém aqui na embaixada que possa nos ajudar, se precisarmos.

— Vai dizer a Peter que está em Paris?

— De qualquer forma ele vai ficar sabendo pela telefonista, mas a chamada não dará pistas deste hotel. E não se preocupe, manterei tudo “em família”, serei casual. Vim a Paris passar uns dias porque meus parentes em Lyon são simplesmente chatíssimos. Ele vai aceitar esta desculpa.

— Será que ele conhece alguém na embaixada aqui?

— Peter faz questão de conhecer alguém em cada lugar. É um dos seus traços menos atraentes.

— Parece que sim. — Bourne pegou seus casacos. — De pois do seu telefonema, podemos jantar. Nós dois bem que podemos tomar um drinque.

— Vamos passar pelo banco, na Rua Madeleine. Quero ver uma coisa.

— O que você pode ver à noite?

— Uma cabine de telefone. Espero que tenha uma ali por perto.

Havia. Em diagonal à entrada do banco, na rua da frente.

O homem alto e louro, com óculos de armação de tartaruga, olhou para o relógio. O sol da tarde batia na Rua Madeleine. As calçadas estavam repletas de gente, o tráfego nas ruas confuso, como era sempre em Paris. Ele entrou na cabine telefônica e desembaraçou o fio do telefone, que estava solto e fora do gancho. O fio tinha um nó. Era um sinal cortês para a próxima pessoa a utilizar o telefone, avisando que o aparelho estava com defeito — isso reduziria a chance de ocuparem a cabine. Dera certo.

Olhou para o relógio de novo; começara a contagem. Marie estava dentro do banco. Ela telefonaria dali a poucos minutos. Tirou algumas moedas do bolso, colocou-as na beirada da mesinha do telefone e se encostou no vidro da cabine, os olhos postos no banco, do outro lado da rua. Uma nuvem escondeu um pouco a luz do sol e ele pôde ver-se refletido no vidro. Aprovou a nova imagem, lembrando-se da espantada reação do cabeleireiro em Montparnasse, que o isolara em uma cabine fechada com cortinas enquanto operava a sua transformação, tingindo-lhe os cabelos de louro. A nuvem passou, a luz do sol reapareceu, e o telefone tocou.

— É você? — perguntou Marie St. Jacques.

— Sim — respondeu Bourne.

— Certifique-se do nome e da localização do escritório. E deixe seu francês mais aspirado, pronuncie erradamente algumas palavras para que ele saiba que você é americano. Diga-lhe que não está acostumado com os telefones de Paris. Depois faça tudo em seqüência. Telefono-lhe de novo daqui a cinco minutos.

— Relógio pronto.

— O quê?

— Nada. Eu quis dizer, vamos começar.

— Está bem... O relógio está pronto. Boa sorte.

— Obrigado. — Jason abaixou a alavanca do telefone, soltou-a e discou o número que memorizara.

— Banco de Valois. Bom dia.

— Preciso de ajuda — disse Bourne, continuando a usar as palavras que Marie lhe dissera para usar. — Transferi recentemente considerável quantia da Suíça, por mala postal, e gostaria de saber se já está disponível.

— O senhor tem que falar com o nosso Departamento de Serviços Estrangeiros, senhor. Vou pô-lo em contato.

Um dique e em seguida outra voz feminina. — Serviços Estrangeiros.

Jason repetiu seu pedido.

— Pode me dar o seu nome, por favor?

— Preferiria falar com um funcionário do banco primeiro. Houve uma pausa na linha. — Muito bem, senhor. Vou transferir a ligação para o escritório do vice-presidente d’Amacourt.

A secretária do Sr. d’Amacourt era mais difícil; a burocracia bancária estava em ação, como previra Marie. Então, Bourne mais uma vez usou as palavras de Marie. — Estou me referindo a uma transferência de Zurique, vinda do Gemeinschaft Bank, da Bahnhofstrasse. É uma transferência na ordem de sete cifras. O Sr. d’Amacourt, por favor. Tenho pressa.

A demora não fora causada pela secretária. Um vice-presidente com voz perplexa entrou na linha.

— Em que posso servi-lo?

— O senhor é d’Amacourt? — perguntou Jason.

— Sou Antoine d’Amacourt, sim. E quem, se posso perguntar, está na linha?

— Ótimo! Deviam ter-me dado o seu nome em Zurique. Certificar-me-ei disso da próxima vez, com certeza — disse Bourne. A redundância era intencional, para marcar o seu sotaque americano.

— Desculpe-me, pode repetir? O senhor prefere falar em inglês?

— Sim — respondeu Jason; e começou a. falar em inglês.— Estou tendo muito trabalho com este telefone — olhou para o relógio, tinha menos de dois minutos. — Meu nome é Bourne, Jason Bourne. Há oito dias transferi quatro milhões e meio de francos do Gemeinschaft Bank, de Zurique. Foi-me assegurado que a transação seria confidencial.

— Todas as transações são confidenciais, senhor.

— Certo. Ótimo. O que quero saber é se já está tudo pronto.

— Devo lhe dizer — continuou o alto funcionário do banco — que os negócios confidenciais excluem confirmações de tais transações para partes desconhecidas que telefonem.

Marie estava certa, a sua lógica tornou-se clara para Jason.

— Eu assim esperava. Mas como já disse a sua secretária, estou com muita pressa. Tenho que deixar Paris daqui a algumas horas e preciso pôr tudo em ordem.

— Então sugiro-lhe que venha ao banco.

— Sei disso — disse Bourne, satisfeito que a conversa tomasse o rumo que Marie previra. — Gostaria que tudo já estivesse pronto quando eu chegasse ao banco. Onde fica o seu escritório?

— No andar térreo, senhor. Do lado de trás, depois do portão, na porta do centro. Temos recepcionista.

— Mas entrarei em contato, para os negócios, apenas com o senhor, não?

— Se o senhor assim o deseja, embora qualquer funcionário...

— Olhe, senhor — exclamou o irado americano —, estamos falando de uma soma superior a quatro milhões de francos!

— Apenas comigo, senhor Bourne.       

— Certo. Ótimo. — Jason pôs os dedos no gancho do telefone. Restavam quinze segundos. — Olhe, são 14h35min agora... Baixou duas vezes a alavanca, interrompendo a ligação, mas sem desligar o telefone. — Alô? Alô?        

— Sou eu, senhor.

— Malditos telefones! Ouça, eu... — Baixou a alavanca novamente, três vezes em um segundo, rapidamente. — Alô, Alô?

— Senhor, por favor, se o senhor me der o número do seu telefone...

— Telefonista? Telefonista?

— Senhor Bourne, por favor...

— Não posso ouvi-lo! — Quatro segundos. três segundos, dois segundos. — Espere um minuto, telefono de novo. — Baixou a alavanca e interrompeu a linha, desligando o telefone. Passaram-se mais três segundos e em seguida o telefone tocou. — O nome dele é d’Amacourt, o escritório fica no andar térreo, atrás, porta central.

— Entendi — disse Marie, desligando.

Bourne discou novamente para o banco, pondo mais fichas no telefone. — Je parlais avec Monsieur d’Amaeourt quand on m’a coupé...

— Je regrette, monsieur.

— Senhor Bourne?

— D’Amacourt?

— Sim. Sinto muito que tenha tido problemas com o telefone. O senhor estava dizendo? Sobre a hora...

— Oh, sim. Passa um pouco das 14h30min. Estarei aí lá pelas 15h.

— Espera-lo-ei com prazer, senhor.

Jason deu novamente um nó no fio do telefone e deixou-o solto. Depois saiu da cabine e caminhou com passos rápidos pela multidão até a proteção do toldo de uma loja. Virou-se para a loja e esperou; os olhos estavam fixos no banco, do outro lado da rua, enquanto se lembrava de outro banco em Zurique e das sirenes da Bahnhofstrasse. Os próximos vinte minutos diriam se Marie estava certa ou não. Se estava, não haveria sirene alguma na Rua Madeleine.

A mulher esguia, com um chapéu de aba larga que lhe cobria parcialmente o rosto, desligou o telefone público preso na parede do lado direito do banco. Abriu a carteira, tirou um pó-de-arroz e ostensivamente refez a maquilagem, ajeitando o espelho em ângulo com o lado esquerdo, depois com o direito. Satisfeita, repôs o pó na bolsa e a fechou, passou em frente às caixas e foi em direção aos fundos, no andar térreo. Depois parou em um balcão do centro, pegou uma caneta presa por uma correntinha e começou a preencher um formulário que estava em cima do mármore. A menos de dez pés dali ficava um pequeno portão de ferro, flanqueado por uma grade de madeira que percorria toda a extensão do saguão. Do outro lado do portão e da grade ficavam as escrivaninhas dos executivos menos graduados e, atrás destas, as escrivaninhas dos secretários mais graduados — cinco ao todo. Estas mesas ficavam em frente a cinco portas na parede de trás. Marie leu o nome pintado em letras douradas no centro da porta

M.A.R. D’AMACOURT

VICE-PRESIDENTE

CONTAS NO EXTERIOR E DIVISAS

Aconteceria a qualquer momento — se fosse para acontecer, se ela estivesse certa. E se ela estivesse, tinha que saber antes como era o senhor A. R. d’Amacourt, pois ele era o homem com quem Jason iria se encontrar, se aproximar dele e conversar. Mas não no banco.

Aconteceu. Houve um nervosismo controlado no comportamento dos funcionários. A secretária, que estava na escrivaninha em frente ao escritório de d’Amacourt, correu lá para dentro com o bloco de papel na mão. Saiu depois de trinta segundos, pegou o telefone e discou três números — isso significava uma chamada interna — e ditou-os, lendo o que estava no seu bloco de anotações.

Passaram-se dois minutos. A porta do escritório de d’Amacourt se abriu e o vice-presidente se postou na soleira da porta. Era um ansioso executivo, preocupado com os possíveis atrasos. Homem de meia-idade, tinha o rosto mais velho do que a sua idade indicava, mas esforçava-se por parecer jovem. O cabelo fino e ralo era tingido e penteado de forma a esconder os pontos onde rareava; os olhos eram encaixados em pequenas órbitas de carne, o que evidenciava as longas horas passadas com bom vinho. Eram olhos frios, dardejantes, que aparentavam um homem exigente, prudente com os seus deveres. Fez uma pergunta à secretária, aos gritos. Ela fez o possível para manter a compostura.

D’Amacourt entrou no escritório novamente sem fechar a porta — a porta da jaula do irado felino fora deixada aberta. Passou-se mais um minuto. A. secretária continuou voltada para a direita, a olhar para alguma coisa — a procurar por alguma coisa. Quando a encontrou, suspirou aliviada, fechando um pouco os olhos.

Do outro lado, na parede da esquerda, uma luz verde de repente se acendeu acima dos dois painéis de madeira escura — estavam usando o elevador. Segundos depois a porta se abriu e um homem de mais idade e muito elegante saiu do elevador carregando um pequeno invólucro preto, não maior do que a sua mão. Marie olhou-o bem, sentia-se ao mesmo tempo satisfeita e receosa. Estava certa. O invólucro preto fora tirado de um arquivo confidencial de dentro de uma das salas reservadas e fora assinado e liberado por um homem acima de qualquer suspeita ou tentação — a idosa figura que avançava pelas filas de escrivaninhas em direção ao escritório de d’Amacourt.

A secretária levantou-se da cadeira, cumprimentou o executivo e o acompanhou até o escritório de d’Amacourt. Em seguida saiu, fechando a porta atrás de si.

Marie olhou para o relógio, os olhos acompanhando o rápido ponteiro dos segundos. Estava à espera de mais uma pequena evidência, que logo poderia ser comprovada se pudesse ir até o outro lado das grades e dar uma olhada na mesa da secretária. Se era para acontecer, aconteceria dali a poucos segundos, e seria por um breve momento.

Dirigiu-se ao portão, abriu a carteira e sorriu vagamente para a recepcionista, que falava ao telefone. Murmurou o nome d’Amacourt para a espantada recepcionista, avançou e abriu o portão. Entrou depressa; parecia uma cliente muito decidida, ou até mesmo muito ilustre, do Banco Valois.

— Pardon, madame... — A recepcionista pôs a mão no telefone, acrescentando: — Em que posso servi-la?

Marie pronunciou de novo o nome — parecia agora uma cliente muito cortês atrasada para um compromisso e não desejava importunar uma funcionária tão ocupada. — Monsieur d’Amacourt. Acho que estou atrasada, preciso falar com a sua secretária. — E continuou a andar pelo corredor em direção à mesa da secretária.

— Please, madam — a recepcionista a achou. — Tenho que anunciar...

O rumor das máquinas elétricas e das conversas abafou as suas palavras. Marie se aproximou da secretária, o rosto sério e ela a olhou tão espantada quanto a recepcionista. .

— Sim? Em que posso servi-la?

— Senhor d’Amacourt, por favor.

— Creio que ele está em reunião, senhora. A senhora tem hora marcada?

— Oh, sim, claro — disse Marie abrindo novamente a carteira.

A secretária olhou para o seu programa batido à máquina que estava sobre a mesa. — Acho que não tenho nenhuma hora marcada para agora.

— Oh, céus! — exclamou a confusa cliente do Banco Valois. — Agora que reparei. É para amanhã, não para hoje! Sinto muito!

Virou-se e voltou para o portão. Já vira o que queria, a última evidência. Apenas um botão estava aceso no telefone de d’Amacourt. Ele fizera, sem o auxílio da secretária, uma chamada para fora. A conta pertencente a Jason Bourne tinha específicas e confidenciais instruções que não deviam ser reveladas nem ao próprio correntista.

Bourne olhou para o mostrador do relógio; ainda estava sob o abrigo do toldo da loja. Eram 14h49min. Marie estaria novamente perto do telefone em frente ao banco, era um par de olhos lá dentro. Os próximos minutos lhes dariam uma resposta; talvez ela até já a tivesse.

Movimentou-se um pouco em direção ao canto esquerdo da vitrine da loja, mantendo o banco sempre na mira. Uma balconista da loja sorriu para ele; lembrou-se que não devia chamar nenhuma atenção sobre si. Puxou do bolso uma carteira de cigarro, acendeu um e olhou de novo para o relógio. Oito para as três.

De repente, ele os viu. Ele. Três homens muito bem-vestidos caminhavam rapidamente pela Rua Madeleine, conversando casualmente, mas com os olhos fixos à frente. Pediam licença para passar entre os pedestres mais lentos, pediam desculpas com uma cortesia não-parisiense. Jason se concentrou no homem do meio. Era ele. Um homem chamado Johann.

Faça um sinal para Johann entrar. Viremos para apanhá-los. Um homem alto e magro, com óculos de aros dourados, dissera estas palavras na Steppdeckstrasse. Johann. Haviam-no mandado de Zurique para cá. E ele vira Jason Bourne. Isso lhe dizia uma coisa: não havia fotografias dele.

Os três chegaram à entrada. Johann e o homem à sua direita entraram; o terceiro homem ficou parado perto da porta. Bourne voltou à cabine telefônica, ia esperar mais quatro minutos e fazer a sua última chamada para Antoine d’Amacourt.

Jogou o cigarro para fora da cabine e o amassou debaixo da sola do sapato. Depois abriu a porta.

— Monsieur... — Uma voz veio-lhe das costas.

Jason virou-se, prendendo a respiração. Um homem desconhecido, com um começo de barba apontando no rosto, fez um sinal com a mão em direção ao telefone.

— Le téléphone... ii ne marche paz. Regardez la corde.

— Merci bien. Je vais essayer quand même.

O homem deu de ombros e foi-se. Bourne entrou na cabine, os quatro minutos já se tinham esgotado. Tirou do bolso as moedas — o bastante para duas chamadas — e discou o primeiro número.

— Banco Valois. Bom dia.

Dez segundos depois d’Amacourt estava no telefone, a voz tensa. — É o senhor, senhor Bourne? Pensei que tivesse me dito que estava a caminho do escritório.

— Mudei de plano. Devo telefonar-lhe amanhã. — De repente, pelo vidro da cabine, Jason viu um carro encostar no outro lado da rua, em frente ao banco. O terceiro homem, que ficara na porta de entrada, fez um sinal de cabeça para o motorista.

— ... eu possa fazer? — D’Amacourt fizera uma pergunta.

— Desculpe-me, o que disse?

— Perguntei se há alguma coisa que eu possa fazer. Já tenho a sua conta, tudo está pronto aqui a sua espera.

Estou certo que sim, pensou Bourne. A estratégia valia a pena. — Olhe, tenho que voltar para Londres esta tarde. Vou pegar uma ponte aérea, mas estarei de volta amanhã. Mantenha tudo pronto, certo?

— Para Londres, senhor?

— Telefono amanhã. Agora tenho que pegar um táxi para Orly. — Desligou e ficou observando a entrada do banco. Em menos de meio minuto Johann e seus companheiros saíram correndo. Conversaram com o terceiro homem e depois os três embarcaram no carro.   

A fuga se transformara em caçada, agora a caminho do Aeroporto de Orly. Jason guardou o número da placa do automóvel. Depois discou mais um número. Se o telefone do banco não estivesse sendo usado, Marie o atenderia antes mesmo de ele começar a tocar. Foi o que ela fez.

— Sim?

— Viu alguma coisa?

— Muita. d’Amacourt é o seu homem.


 

Andaram pela loja, indo de balcão em balcão. Marie permaneceu próxima à larga vitrine, mantendo um olhar vigilante na entrada do banco do outro lado da Rua Madeleine.

— Peguei duas estolas para você — disse Bourne.

— Não devia. Os preços estão muito altos.

— Já são quase quatro horas. Se ele não saiu até agora, só vai sair quando terminar o expediente.

— Provavelmente não. Se ia encontrar-se com alguém já devia ter saído. Mas temos que saber.

— Garanto-lhe, seus amigos estão em Orly, correndo de avião em avião. Não há meios de eles saberem se estou em um deles porque não sabem que nome estou usando.

— Dependem do homem de Zurique para reconhecê-lo.

— Ele está à procura de um homem com cabelos escuros e que manca, não à minha procura. Venha, vamos entrar no banco. Você pode me mostrar d’Amacourt.

— Não podemos fazer isso — disse Marie balançando a cabeça. — As câmaras no teto têm lentes largas. Se forem ver os filmes depois, vão ver você.

— Um homem louro e de óculos?

— Ou eu. Estava lá. A recepcionista ou a secretária podem me identificar.

— Você está querendo me dizer que há uma conspiração normal lá dentro? Duvido.       

— Eles poderiam inventar uma porção de razões para fazer rodar esses filmes.

Marie estacou. Agarrou o braço de Jason, apontando com os olhos o banco do outro lado da janela. — Lá está ele! Aquele com o sobretudo de lapela de veludo... d’Amacourt.

— O que está ajeitando as mangas?

— Sim.

— Já o vi. Vejo-a depois, no hotel.

— Tenha cuidado. Tenha muito cuidado.

— Pague as estolas; estão no balcão de trás.

Jason saiu da loja, protegendo-se do sol, procurando por uma passagem onde pudesse atravessar a rua. Não havia nenhuma. D’Amacourt virara à direita e andava normalmente. Não parecia estar com pressa. Não ia encontrar ninguém. Ao contrário, havia um certo ar de gabolice na postura.

Bourne chegou à esquina e atravessou a rua no sinal. Estava atrás do banqueiro. D’Amacourt parou numa banca para comprar um vespertino. Jason ficou à espera em uma loja de objetos esportivos, depois continuou a segui-lo enquanto ele percorria o quarteirão.

Mais à frente havia um café; janelas escuras, pesada entrada de madeira e fechos de ferro. Não precisava de muita imaginação para perceber o seu interior. Devia ser um lugar para os homens, e para as mulheres que vinham com os homens. Era um lugar tão bom quanto qualquer outro para uma discussão calma com Antoine d’Amacourt. Jason andou mais depressa, aproximando-se do banqueiro. Falou em um francês meio desajeitado com sotaque inglês, o mesmo que usara ao telefone.

— Bonjour, monsteur. Je... pense que vous... êtes Mc sieur d’Amacourt. Estava certo, não estava?

O banqueiro parou. Seus olhos frios pareciam amedrontados, lembrando-se. A gabolice murchou um pouco em seu bem-talhado sobretudo. — Bourne? — sussurrou.

— Seus amigos devem estar muito confusos neste instante. Espero que estejam percorrendo todo o Aeroporto de Orly, talvez possam até pensar que o senhor lhes deu uma pista falsa, uma informação errada. Talvez até propositadamente.

— O quê? — Os olhos assustados se arregalaram.

— Entremos — disse Jason, tomando o braço de d’Ama-court com um toque firme. — Acho que podemos conversar.

— Não sei de nada, absolutamente nada! Segui apenas as exigências da conta. Não estou envolvido! -

— Sinto. Quando falei com o senhor pela primeira vez, o senhor me disse que não podia confirmar nada sobre os meus negócios ao telefone. Não podia discutir assuntos de negócios com alguém a quem não conhecia. E vinte minutos depois o senhor me disse que já estava com tudo pronto. Isso é uma confirmação, não é? Vamos entrar.

O café era, de certa forma, uma versão em miniatura do Drei Alpenhäuser de Zurique. Os reservados fechados eram compridos, as repartições que os separavam, altas, e a luz, mortiça. Mas depois disso as aparências mudavam; o café da Rua Madeleine era completamente francês, garrafas de vinho em vez de canecas de cerveja. Bourne pediu um reservado no canto. O garçom os instalou.

— Peça um drinque — disse Jason. — Vai precisar.

— Presunção sua — respondeu friamente o banqueiro. — Vou tomar um uísque.

Os drinques vieram logo; o breve intervalo da espera foi consumido por d’Amacourt tirando nervosamente um maço de cigarros do seu bem-talhado sobretudo. Bourne riscou um fósforo e o segurou bem perto do rosto do banqueiro. Muito perto.

— Merci — D’Amacourt deu uma tragada, tirou o cigarro da boca e engoliu metade do copo de uísque. — Não sou o homem com quem deve conversar — disse.

— Com quem, então?

— Um dos donos do banco, talvez. Não sei, mas sei que não é comigo que deve conversar.

— Explique-se.

— Alguns acordos foram feitos. Um banco de organização particular tem mais flexibilidade do que uma instituição particular, que tem acionistas.

— Como?

— Há uma grande distância, devemos dizer, no que diz respeito às exigências de certos clientes e os bancos geminados. Menor investigação do que a que deve ser exigida de uma companhia listada na Bolsa. O Gemeinschaft de Zurique também é uma instituição privada.

— As exigências foram feitas pelo Gemeinschaft?

— Pedidos... exigências... sim.

— Quem é o dono do Valois?

— Quem? Muitos — é um consórcio. Dez ou doze homens e suas famílias.

— Então tenho que falar com o senhor, não é? Quero dizer, seria tolice minha correr por toda Paris ao encalço deles.

— Sou apenas um executivo. Um empregado. — D’Ama-court engoliu o restante do uísque, amassou o cigarro e procurou outro. E pelos fósforos, também.

— Quais são os acordos?

— Eu poderia perder a minha posição, senhor!

— O senhor poderia perder a sua vida — disse Jason, perturbado pelo fato de as palavras lhe saírem com tanta facilidade. Não sou tão privilegiado quanto o senhor pensa.

— Nem tão ignorante como quer me fazer acreditar — disse Bourne, perscrutando o banqueiro do outro lado da mesa. — Seu tipo é facilmente reconhecível, d’Amacourt. Está nas suas roupas, na forma como penteia os cabelos, como anda; você é muito pomposo. Um homem como você não é vice-presidente do Banco Valois sem fazer perguntas. Você se protege. Não faz uma sujeira qualquer se não for para proteger seu próprio rabo. Agora, diga-me que acordos foram esses. Você não é importante para mim, estou sendo claro?

D’Amacourt riscou um fósforo e o segurou perto do cigarro, enquanto olhava fixamente para Jason. — Não precisa me ameaçar, senhor. O senhor é um homem muito rico. Por que não me paga? — O banqueiro sorriu nervosamente. — O senhor, incidentalmente, é bastante rico. Fiz uma ou duas perguntas. Paris não é Zurique. Um homem da minha posição tem que ter palavras ou respostas.

Bourne se recostou na cadeira, mexendo no copo, o barulho dos cubos de gelo incomodava obviamente d’Amacourt. — Dê-me um preço razoável — disse ele —, e nós o discutiremos.

— Sou um homem razoável. Vamos deixar que a decisão seja feita sobre o valor, e seja feita pelo senhor. Banqueiros do mundo inteiro são recompensados por seus agradecidos clientes a, quem aconselham. Gostaria de pensar que o senhor é meu cliente.

— Sei que gostaria. — Bourne sorriu, sacudindo a cabeça como resposta ao sangue frio do homem. — Assim escorregamos do suborno para a gratificação. Como compensação pelos serviços e conselhos pessoais.

D’Amacourt encolheu os ombros. — Aceito a definição, e se algum dia for interpelado, repetirei as suas palavras.

— Os acordos?

— Acompanhando a transferência do capital de Zurique veio une fiche confidentielle.

— Une fiche? — interrompeu Jason, lembrando-se daquele momento no escritório de Apfel, no Gemeinschaft, quando Koenig entrou dizendo estas palavras. — Já ouvi isso antes. O que é?

— Na verdade, termo datado. Vem da metade do século dezenove, quando foi uma prática muito comum nas grandes casas bancárias — sobretudo na dosRothschilds — para acompanhar o curso da circulação internacional do dinheiro.

— Obrigado. Agora, o que é isso mais detalhadamente?

— Instruções separadas e seladas para serem abertas e seguidas quando a conta em questão é movimentada.

— Movimentada?

— O capital é retirado ou depositado.

— Suponhamos que eu vá até uma caixa, apresente um cartão do banco e peça por dinheiro?

— Dois asteriscos apareceriam no computador que faz as transações. O senhor seria enviado ao meu escritório.

— De qualquer forma, fui enviado ao senhor. A telefonista me deu o número do seu escritório.

— Uma oportunidade irrelevante. Existem outros dois funcionários no Departamento de Serviços Estrangeiros. Se o senhor fosse posto em contato com qualquer um dos dois, a fiche faria com que eles o enviassem a mim. Sou o executivo-chefe.

— Percebo. — Mas Bourne não estava muito certo de ter percebido. Havia um furo na seqüência, um espaço que precisava ser preenchido. — Espere um minuto. Você não sabia de nada sobre a fiche quando lhe foi levada a minha conta-corrente.

— E por que a pedi? — interrompeu d’Amacourt, antecipando a pergunta. — Seja razoável, senhor. Ponha-se no meu lugar. Um homem telefona e se identifica, depois diz que está “falando sobre mais de quatro milhões de francos”. Quatro milhões. O senhor não ficaria ansioso para ser útil? Ajeitar as coisas aqui e ali, facilitar?     

Olhando para o elegante banqueiro, Jason percebeu que ele dissera a coisa mais natural. As instruções. Quais eram?

— Para começar, um número de telefone — fora da lista, é claro — devia ser chamado, e todas as informações seriam dadas.

— Lembra-se do número?

— Faço questão de esquecer tais coisas.

— Aposto que sim. Por quê?

— Tenho que me proteger, senhor. De que forma o senhor poderia tê-lo obtido? Apresento a pergunta... como o senhor diria?... retoricamente.

— Isso quer dizer que tem a resposta. Como foi que o obteve? Se surgir de alguma forma... De quem?

— Em Zurique. O senhor pagou um preço muito alto para que alguém quebrasse não apenas o regulamento mais rígido do Bahnhofstrasse, mas também as leis da Suíça.

— Já sei quem é o homem — disse Bourne, enquanto lhe vinha à memória, o rosto de Koenig. — Ele já cometeu este crime antes.

— No Gemeinschaft? Está brincando?

— Jamais. Seu nome é Koenig, sua mesa fica no segundo andar

— Lembrar-me-ei disso.

— Tenho certeza que sim. O número? — D’Amacourt deulhe o número. Jason anotou-o num guardanapo de papel. — Como posso ter certeza de que esse número é verdadeiro?

— O senhor tem uma garantia razoável. Ainda não fui pago.

— Ótimo.

— E como o valor é intrínseco à nossa discussão, devo dizer-lhe que este é o segundo número de telefone, o primeiro já foi cancelado.

— Explique isso.

D’Amacourt se inclinou para a frente. — Uma fotocópia da fiche original chegou juntamente com os papéis da transferência. Estava selada em um invólucro preto, aceito e assinado pelo chefe dos registros. O cartão que estava dentro fora validado por um sócio do Gemeinschaft e visado pelo costumeiro representante suíço. As instruções eram simples, bem claras. Para qualquer assunto que dissesse respeito à conta-corrente de Jason C. Bourne, devia ser feita imediatamente uma chamada para os Estados Uni dos. Os detalhes seriam dados... O cartão, neste trecho, estava alterado; o número de Nova Iorque, apagado; um número em Paris fora inserido, junto com uma rubrica.

— Nova Iorque — interrompeu Bourne. — Como o senhor sabe que era Nova Iorque?

— O número de código da área do telefone estava incidentalmente incluído, posto na frente do número, e permaneceu intacto. Era 212. Como vice-presidente dos Serviços Estrangeiros, faço estas chamadas diariamente.

— Foi um trabalho muito sujo.

— Possivelmente. Pode ter sido feito com pressa, ou não entenderam muito bem o que devia ser feito. Por outro lado, não há forma de apagar o corpo de instruções sem passar novamente pelo representante. Um risco menor, se levarmos em consideração o número de telefones em Nova Iorque. De qualquer maneira, a substituição me deu campo para fazer uma ou duas perguntas. As mudanças são o anátema de um banqueiro. — D’Amacourt bebeu o que restava do seu drinque.

— Mais um?

— Não, obrigado. Prolongaria a nossa conversa.

— Foi o senhor quem parou.

— Estou pensando, senhor. Talvez o senhor possa ter em mente uma cifra muito vaga. Antes que eu continue a conversa...

Bourne estudou o homem. — Podem ser cinco — disse depois.

— Cinco o quê?

— Cinco cifras.

— Continuarei. Conversei com uma mulher...

— Com uma mulher? Como começou a conversa?

— Com sinceridade. Eu era o vice-presidente do Valois, e estava seguindo instruções do Gemeinschaft de Zurique. O que mais podia dizer?

— Continue.

— Eu disse que havia entrado em contato com um homem que dizia se chamar Jason Bourne. Ela me perguntou quando acontecera isso; eu respondi que há poucos minutos. Então, ela ficou muito ansiosa em saber sobre o que tínhamos conversado, qual fora a substância da nossa conversa. Nesse ponto expus as minhas preocupações. A fiche, que declarava especificamente que deveria ser feita uma chamada para Nova Iorque, e não para Paris. Naturalmente, ela disse que isso não era um problema meu, e que a mudança fora autorizada através de uma assinatura. E perguntou se eu não me importava se Zurique fosse informada de que um funcionário do Valois se recusara a seguir as instruções do Gemeinschaft.

— Pare um pouco — interrompeu Jason. — Quem era ela?

— Não tenho idéia.

— Você quer dizer que conversaram durante todo esse tempo e ela não lhe disse quem era? Você não perguntou?

— Esta é a natureza da fiche. Se algum nome é pronunciado, muito bem. Se não, não se pergunta.

— Mas o senhor não hesitou em perguntar o número do telefone.

— Apenas um recurso; eu precisava de informações. O senhor transferiu quatro milhões e meio de francos: uma grande quantia. E devia ser, portanto, um cliente poderoso, talvez, com ligações ainda mais poderosas... A gente recusa, depois concorda, e recusa novamente, apenas para concordar de novo. É assim que a gente fica sabendo das coisas. Sobretudo se o interlocutor demonstra ansiedade. Posso lhe assegurar que ela mostrou.

— O que o senhor apreendeu?

— Que o senhor devia ser considerado um homem perigoso.

— De que maneira?

— A definição foi deixada em aberto. Mas só o fato de o termo ter sido usado foi suficiente para que eu perguntasse por que a Sûreté não fora envolvida. A resposta dela foi extremamente interessante. “Ele está além da Sûreté, além da Interpol”, foi o que ela disse.

— O que isso significou para o senhor?

— Que era um assunto muito complicado, e por muitos motivos. E que seria melhor deixar tudo confidencial. Mas, desde que a nossa conversa começou, no entanto, percebi outra coisa.

—O quê?

— Que o senhor realmente deveria me pagar bem, pois tenho que ser extremamente cauteloso. Os que estão a sua procura estão talvez além da Süreté, além da Interpol.

— Chegaremos lá. O senhor disse a essa mulher que eu estava a caminho do seu escritório?

— Em quinze minutos. Ela me pediu para ficar ao telefone por uns momentos que logo voltaria. É óbvio que deve ter feito outra chamada. Voltou com as instruções finais. O senhor devia ser retido em meu escritório até que um homem chegasse a minha secretária e perguntasse sobre um assunto de Zurique. E quando saísse, devia ser identificado por um gesto ou um aceno de cabeça; não poderia haver nenhum erro. O homem veio, é claro. E é claro, também, que o senhor nunca chegou. Então, ele esperou perto do caixa, com um companheiro. Quando o senhor telefonou dizendo que estava a caminho de Londres, deixei o meu escritório à procura do homem. Minha secretária o indicou e eu lhe contei tudo. O resto o senhor já sabe.

— O senhor não achou estranho que eu devesse ser identificado?

— Não só estranho como absurdo. Uma fiche é uma coisa — chamadas telefônicas, comunicações sem a identificação de rostos —, mas ser envolvido diretamente, assim abertamente, como era, já é outra coisa. Eu disse isso para a mulher.

— O que ela lhe disse?

D’Amacourt limpou a garganta. — Deixou bem claro que a parte que ela representava — e cujo poder era, realmente, confirmado pela própria fiche — deveria incentivar a minha cooperação. O senhor vê, eu nada escondi... Aparentemente, eles não sabem como é o senhor.

— Um homem que me viu em Zurique estava no banco.

— Então seus companheiros não confiam na vista dele. Ou talvez no que ele pensou ver.

— Por que o senhor diz isso?

— Mera observação, senhor. A mulher foi muito insistente. O senhor deve entender, recusei energicamente qualquer participação ativa; que não fosse da natureza da fiche. Ela disse que não havia uma fotografia sua. Uma mentira óbvia, é claro.

— É mesmo?

— Naturalmente. Todos os passaportes têm fotografias. Qual o funcionário da imigração que não pode ser comprado ou ludibriado? Dez segundos em uma sala de controle de passaportes, uma foto da foto, e está feito o acordo. Não! Eles cometeram um sério equívoco.

— Acho que sim.

— E o senhor — continuou D’Amacourt — acabou de me dizer mais uma coisa. Sim, o senhor realmente tem que me pagar muito bem.

— O que foi que eu lhe disse?

— Que o seu passaporte não o identifica como Jason Bourne. Quem é o senhor?

Jason não respondeu logo; mexeu nos óculos novamente. — Alguém que pode lhe pagar um bom dinheiro.

— O bastante. O senhor é um cliente chamado Bourne. E devo ser muito cauteloso.

— Quero o número daquele telefone de Nova Iorque. Pode me dar? Pagar-lhe-ei um prêmio vultoso.

— Quisera poder. Não vejo como.

— Pode ser retirado do cartão, da fiche. Talvez através de uma lente poderosa.

— Quando eu disse que estava apagado, senhor, eu não quis dizer que estava completamente riscado. Estava apagado — eliminado.

— Então, alguém o tem em Zurique.

— Ou foi destruído.

— A última pergunta — disse Jason, agora ansioso para sair. — É a seu respeito, aliás. É a única forma de ser pago.

— A pergunta será permitida, naturalmente. Qual é?

— Se eu tivesse aparecido no Valois sem antes ter feito a chamada, sem lhe ter avisado que iria, o senhor teria feito uma outra chamada telefônica?

— Sim. Ninguém pode desconsiderar a fiche. Ela vem do escritório dos conselheiros. A minha dispensa viria em seguida.

— Então, como nós podemos tirar o nosso dinheiro? D’Amacourt franziu os lábios. — Há uma maneira. A retirada in absentia. Os formulários são preenchidos, as instruções dadas por carta, a identificação confirmada e autenticada por uma firma de procuradores, através de cartório. Não tenho poder algum para intervir nisso.

— Assim mesmo, teria que fazer a chamada?

— É uma questão de tempo. Se um procurador com quem o Valois já fez muitos negócios me telefonar pedindo que eu prepare, digamos, um número de cheques a serem emitidos em favor de uma transferência estrangeira que ele já averiguou e investigou bem, eu o farei. Ele declarará que vai mandar os formulários completos e os cheques, é claro, preenchidos ao “portador”, o que não constitui prática muito incomum nestes dias de impostos excessivos. Um mensageiro chegaria com a carta durante as horas de maior atividade e minha secretária — uma estimada secretária, em quem tenho muita confiança, e que trabalha comigo há muitos anos — simplesmente me traria os formulários para que eu os assinasse e a carta para que eu a rubricasse.

— E sem nenhum problema — interrompeu Bourne — a respeito dos demais papéis que o senhor teria que assinar?

— Exatamente. Depois, eu faria a chamada; provavelmente vendo se antes o mensageiro já saiu com sua pasta.

— O senhor não teria em mente, por acaso, o nome de uma firma de advogados em Paris, teria? Ou um procurador específico?

— Por acaso me ocorreu agora um nome.

— Quanto ele vai custar?

— Dez mil francos.

— É muito caro!

— Não muito. Ele foi um juiz, um homem honrado.

— E o senhor? Quanto? Vamos deixar claro isso.

— Como já disse, sou bastante razoável, e a decisão deve ser sua. Já que mencionou um número com cinco cifras, podemos tornar as suas palavras mais consistentes. Cinco cifras, começando com o número cinco. Cinqüenta mil francos.

— Isso é um ultraje!

— Como também o é o que o senhor fez, monsieur Bourne.

— Une fiche confidentielle — disse Marie, sentada em uma cadeira perto da janela. O sol do fim da tarde batia nos edifi ias ornamentados do bulevar Montparnasse. — Então foi esse o estratagema que usaram.

— Posso lhe deixar impressionada — sei de onde veio. Jason serviu-se de um drinque da garrafa que estava em cima do balcão e levou-o para a cama. Sentou-se de frente pan ela. — Quer ouvir?

— Nem preciso — respondeu ela olhando para a janela, preocupada. — Sei exatamente de onde vem e o que significa. É um choque, isso sim.

— Por quê? Pensei que você já esperasse por uma coisa assim.

— Pelos resultados sim, mas não pela maquinação. Uma fiche é um golpe arcaico e ilegítimo, quase totalmente restrito aos bancos particulares do Continente. As leis americanas, canadenses e do Reino Unido proíbem o seu uso.

Bourne lembrou-se das palavras de d’Amacourt e as repetiu. — “Vem de poderosos conselheiros”, foi o que ele disse.

— Ele está certo. — Marie olhou para ele. — Você não vê? Eu sabia que havia uma bandeira atada à sua conta. Isto quer dizer que alguém foi subornado para colher maiores informações. Isso não é muito comum. Os banqueiros não são santos. Mas isso é diferente. Esta conta em Zurique foi aberta — desde o princípio — com a fiche como parte de sua atividade. E, provavelmente, com o seu próprio conhecimento.

— Treadstone Seventy One — disse Jason.

— Sim. Os donos do banco trabalharam junto com a Treadstone. E, considerando a extensão da sua participação, você tinha conhecimento disso.

— Mas alguém foi subornado. Koenig. Ele substituiu um número de telefone por outro.

— Ele foi muito bem pago, posso lhe assegurar. Podia pegar dez anos de cadeia na Suíça.

— Dez? É demais!

— As leis suíças são assim. Devem ter-lhe pago uma pequena fortuna.

— Carlos — disse Bourne. — Carlos... Por quê? O que eu represento para ele? Continuo a me perguntar. E continuo a dizer o seu nome, a repeti-lo! E não me lembro de nada; nada mesmo. Apenas um... um.... Nem sei. Nada.

— Mas há alguma coisa, não é? — adiantou Marie. — O que é, Jason? Em que você está pensando?

— Não estou pensando... Não sei.

— Então está sentindo. Alguma coisa. O que é?

— Não sei. Medo, talvez... Raiva, nervosismo. Não sei.

— Concentre-se!

— Diabo, você acha que não estou me concentrando? Acha que nunca me concentro? Tem alguma idéia do que seja isso? — Bourne ficou tenso, chateado com sua explosão. — Sinto muito.

— Não é nada. Nada. Estas são as dicas, as chaves que você tem que procurar — nós temos que procurar. O seu amigo médico de Port Noir estava certo, as coisas lhe vêm à mente provocadas por outras. Como você mesmo disse, por uma caixa de fósforos, um rosto, a fachada de um restaurante. Vimos isso acontecer. E agora é um nome, um nome que você evitou durante quase uma semana, enquanto me contava tudo o que lhe acontecera durante os cinco meses anteriores, até o menor detalhe possível. Mesmo assim, você nunca mencionou Carlos. E devia, mas não mencionou. Isso significa alguma coisa para você, não percebe? Este nome convulsiona tudo dentro de você, coisas que querem sair de lá.

— Eu sei.

— Querido, há uma livraria famosa no bulevar Saint-Germain que é de uma bicha louca por revistas. Um andar inteiro abarrotado de velhos números de antigas revistas, milhares. Ele até mesmo cataloga os assuntos, separa-os em um índice, como um bibliotecário. Gostaria de descobrir se Carlos está naquele índice. Vamos até lá?

Bourne sentiu uma dor aguda no peito. Não tinha nenhuma relação com os seus ferimentos, era medo. Ela percebeu. E entendeu também. Ele sentiu, mas não podia compreender. — Há números atrasados de jornais na Sorbonne — disse ele, levantando os olhos para ela. — Um deles me pôs em uma situação difícil por uns momentos. Até que pensei mais a respeito do assunto.

— Uma mentira foi descoberta. Isso foi o mais importante.

— Mas não estamos procurando por uma mentira agora, estamos?

— Não. Estamos procurando a verdade. Não tenha nenhum receio, meu querido. Eu não tenho.

Jason levantou-se. — Está bem. Saint-Germain entra no programa. Nesse meio tempo, telefone para aquele sujeito da embaixada. — Bourne procurou no bolso o guardanapo de papel com o número do telefone. Ele também anotara o número da chapa do carro que saíra correndo do banco, na Rua Madeleine. — Aqui está o número que d’Amacourt me deu, e também o número da placa do carro. Veja o que ele pode fazer.

— Está bem. — Marie pegou o guardanapo e se aproximou do telefone. Um pequeno bloco com espiral estava ao lado do aparelho. Ela folheou-o. — Aqui está. Seu nome é Dennis Corbelier. Peter disse que lhe telefonaria lá pelo meio-dia, hora de Paris. E que eu podia confiar nele; é tão conhecido quanto qualquer adido da embaixada.

— Peter o conhece, não é? Não é apenas um nome de alguma lista?

— Foram colegas na Universidade de Toronto. Posso telefonar-lhe daqui mesmo, não é?

— É claro, Mas não diga onde está.

Marie pegou o telefone. — Dir-lhe-ei a mesma coisa que disse a Peter. Que estou me mudando de hotel, mas que ainda não sei para onde vou — Pediu uma linha e depois discou o número da Embaixada do Canadá, que ficava na Avenida Montaigne. Quinze segundos mais tarde ela conversava com Dennis Corbelier, o adido.

Marie entrou no assunto quase imediatamente. — Presumo que Peter lhe tenha dito que vou precisar de sua ajuda.

— Mais do que isso — respondeu Corbelier —, ele me explicou que você esteve em Zurique. Não sei se entendi tudo o que ele disse, mas sei do que se trata. Parece que hoje em dia existem muitas manobras no mundo das finanças.         

— Mais do que o normal, O problema é que ninguém quer dizer quem manobra quem. Esse é o meu problema.

— Como posso ajudá-la?

— Tenho uma placa de carro e o número de um telefone, os dois aqui de Paris. O telefone não está na lista, seria meio constrangedor se eu ligasse para lá.

— Diga-me quais são — disse ele. — A mari usque ad mari — disse Corbelier, recitando o lema nacional do seu país. — Temos muitos amigos em lugares esplêndidos. Quase sempre trocamos favores, em geral na área dos narcóticos, mas somos maleáveis. Por que não almoçamos juntos amanhã? Levarei o que encontrar.

— Gostaria muito, mas amanhã não vai dar. Vou passar o dia com um velho amigo. Talvez outro dia.

— Peter me disse que eu seria um idiota se não tentasse. Ele diz que você é uma tremenda mulher.

— Ele é gentil, e você também. Telefono-lhe amanhã à tarde, então.

— Ótimo. Vou trabalhar nisso.

— Falo com você amanhã. E obrigada de novo. — Marie pôs o telefone no gancho e olhou o relógio. — Devo telefonar para Peter daqui a três horas. Não me deixe esquecer.

— Você acha realmente que ele já deve ter alguma coisa?

— Ele tem. Começou ontem, telefonou para Washington. Foi o que Corbelier acabou de dizer. Nós todos fazemos trocas. Esta informação aqui por aquela lá, um nome do nosso lado por um nome do seu lado.

— Parece traição.

— É o contrário. Estamos tratando de dinheiro, não de mísseis. Dinheiro ilegalmente transado, despistando as leis favoráveis aos nossos interesses. A menos que você queira que os xeques da Arábia possuam a Grumman Aircraft. Então estaremos falando sobre mísseis... se eles abandonarem as suas plataformas de lançamento.

— Desarmou a minha objeção.

— Temos que ver o homem de d’Amacourt amanhã de manhã; é a primeira coisa a fazer. Calcule quanto você quer retirar

— Tudo.

— Tudo?

— Isso mesmo. Se você fosse um dos diretores da Treadstone, o que faria se ficasse sabendo que estavam faltando seis milhões de francos de uma conta de uma associada?

— Compreendo.

— D’Amacourt sugeriu uma série de cheques ao portador.

— Ele disse isso? Cheques?

— Sim. Alguma coisa errada?

— Claro que sim. O número desses cheques poderia ser perfurado em fita fraudulenta, que poderia ser enviada para os bancos de todos os lugares. Você terá que ir a um banco para poder resgatá-los; os pagamentos seriam suspensos.

— Ele é um vencedor, não é? Ganha dos dois lados. O que podemos fazer?

— Aceite a metade do que ele lhe ofereceu — a parte ao portador. Mas não em cheques. Em títulos ao portador, e de vários valores nominais. São muito mais fáceis para corretagem.

— Você ganhou o seu jantar — disse Jason abaixando-se e acariciando-lhe o rosto.

— “Percuro ganhá meu sustentu, patrão” — respondeu ela segurando-lhe a mão. — Primeiro, o jantar; depois, Peter... e depois a livraria de Saint-Germain.

— Uma livraria em Saint-Germain — repetiu Bourne, enquanto a dor voltava ao seu peito novamente. O que seria? Por que estava com tanto medo?

Saíram do restaurante no bulevar Raspail e andaram até a companhia telefônica na Rua Vaugirard. Havia algumas cabines de vidro encostadas às paredes e um balcão grande e circular no centro, onde os funcionários preenchiam as fichas, assinalando as cabines para os que faziam as chamadas.

— As linhas estão descongestionadas, senhora — disse a funcionária para Marie. — Sua chamada levará poucos minutos. Número doze, por favor.

— Obrigada. Cabine doze?

— Sim, senhora. Em frente.

Enquanto atravessavam o salão cheio até a cabine, Jason segurou-lhe o braço. — Sei por que as pessoas usam esses lugares — disse. — São cento e dez vezes mais rápidos do que um telefone de hotel.

— Esta é apenas uma das razões.

Tinham acabado de chegar à cabine e de acender os cigarros quando ouviram o ruído de duas campainhas curtas tocando lá dentro, Marie abriu a porta e entrou com o bloquinho espiral e um lápis na mão. Ela pegou o aparelho.

Sessenta segundos mais tarde, Bourne, atônito, a viu olhar fixamente para a parede, paralisada, o rosto branco. Começou a gritar e deixou cair a bolsa. O conteúdo se espalhou pelo chão da pequena cabine. O bloco de papel foi aparado na prateleira, o lápis foi quebrado com a tensão da mão. Ele correu para dentro da cabine; ela estava quase desmaiando.

— Aqui é Marie St. Jacques, de Paris, Lisa. Peter está à espera da minha chamada.

— Marie? Oh, meu Deus... — A voz da secretária diminuiu e foi substituída por outras vozes no fundo. Vozes excitadas, abafadas por uma mão em concha sobre o telefone. Depois um ruído de movimento, o telefone sendo passado ou tomado por outra pessoa.

— Marie, aqui é Alan — disse o primeiro assistente do diretor da seção. — Estamos todos no escritório de Peter.

— Qual é o problema, Alan? Não tenho muito tempo, posso falar com ele, por favor?

Houve um momento de silêncio. — Quisera tornar isso mais fácil para você, mas não sei como. Peter está morto, Marie.

— Ele está... o quê?!

— A polícia foi chamada há alguns minutos; já está vindo.

— A policia? O que aconteceu? Oh, Deus, ele está morto? O que aconteceu?

— Estamos tentando reconstruir tudo juntos. Estamos examinando a sua agenda de telefones, mas não podemos tocar em nada que esteja em cima da sua escrivaninha.

— Sua escrivaninha...?

— Anotações ou memorandos, qualquer coisa parecida.

— Alan! Diga-me o que aconteceu!

— Foi isso — não sabemos. Ele não nos disse o que estava fazendo. Tudo o que sabemos é que foi chamado duas vezes ao telefone esta manhã, dos Estados Unidos — uma chamada era de Washington, a outra., de Nova torque. Por volta do meio-dia disse a Lisa que ia ao aeroporto encontrar-se com alguém. Não disse quem era. A polícia o encontrou há uma hora em um desses túneis usados para embarcar carga. Foi terrível. Ele foi morto a tiros. Na garganta... Marie? Marie?

O velho com os olhos profundos e um começo de barba branca se aproximou mancando da cabine escura do confessionário. Piscava os olhos constantemente, tentando enxergar a figura de capuz por trás da cortina opaca. A visão não era fácil para este mensageiro de oitenta anos de idade. Mas a sua mente era lúcida, e isso era o que importava.

— Angelus Domini — ele

— Angelus Domini, filho de Deus — sussurrou a figura encapuzada. — Seus dias estão em paz?

— Eles se aproximam do fim, mas estão em paz.

— Ótimo... Zurique?

— Encontraram o homem do Guisan Quai. Estava ferido. Encontraram-no através de um médico conhecido do Verbrecherwelt. Depois de severo interrogatório ele admitiu ter atacado a mulher. Caim voltou para procurá-lo, foi Caim quem atirou nele.

— Então era uma combinação, a mulher e Caim?

— O homem do Guisan Quai acha que não. Ele era um dos dois que a encontraram na Löwenstrasse.

— Ele também é um tolo. Ele matou o vigia?

— Ele admite isso e se defende. Não tinha outra escolha, tinha que fugir.

— Não tem que se defender de nada, mesmo que seja a coisa mais inteligente que possa fazer. Ele ainda tem a arma?

— A sua gente tem.

— Ótimo. Há um prefeito de polícia, em Zurique. Esta arma deve ser entregue a ele. Caim é enganoso, a mulher é menos. Ela tem companheiros em Ottawa, eles vão entrar em contato. Nós a enganamos, nós o pegamos. Está pronto com o seu lápis?

— Sim, Carlos.


 

Bourne segurou-a gentilmente na cabine fechada e foi abaixando-a, até sentá-la no banquinho preso à parede. Estava trêmula, a respiração tensa, os olhos petrificados, parados.

— Eles o mataram. Eles o mataram! Meu Deus, o que fiz? Peter!

— Você não fez nada! Se alguém fez alguma coisa, fui eu. Não você. Ponha isso na cabeça.

— Jason, estou com medo. Ele estava tão longe... e eles o mataram!

— Treadstone?

— Quem mais? Houve duas chamadas telefônicas. Washington... Nova Iorque. Ele foi ao aeroporto encontrar-se com alguém

— Como?

— Oh, Jesus Cristo... — Lágrimas vieram-lhe aos olhos. — Atiraram nele. Na garganta — sussurrou ela.

Bourne, de repente, sentiu uma dor forte; não podia localizá-la, mas lá estava, impossibilitando-o de respirar. — Carlos — disse, sem saber por quê.

— O quê? — Marie olhou espantada para ele. — O que você disse?

— Carlos — repetiu ele devagar. — Uma bala na garganta é Carlos.

— O que você está tentando dizer?

— Não sei. — Segurou-a pelo braço. — Vamos sair daqui. Você está bem? Pode caminhar?

Ela fez que sim com a cabeça, fechando os olhos levemente e respirando profundamente. — Sim.

— Vamos parar para tomar alguma coisa; ambos estamos precisando. Depois iremos procurá-la.

— Procurar o quê?

— Uma livraria em Saint-Germain.

Havia três números de revista catalogados sob o assunto “Carlos”. Uma cópia da edição internacional da revista Potomac Quarterly e dois números parisienses de Le Globe. Não leram os artigos na livraria. Em vez disso, compraram os três números, tomaram um táxi e voltaram para o hotel, em Montparnasse. Lá começaram a ler os artigos. Marie estava sentada na cama e Jason, em uma poltrona próxima à janela. Passaram-se alguns minutos. Marie pulou e disse de repente:

— Está aqui. — E havia medo em seus olhos e em sua voz.

— Leia.

— “Uma forma particular e muito brutal de punição é usada por Carlos e/ou seu pequeno grupo de militantes. É a morte em decorrência de um tiro na garganta, sendo a vítima abandonada para morrer lentamente, enquanto sofre dores excruciantes. É a punição reservada aos que quebram o código de silêncio ou a lealdade exigida pelo assassino, ou aos que se negam divulgar informações...” Marie parou, incapaz de continuar a leitura. Recostou-se e fechou os olhos. — Ele não confessaria nada, e foi morto por isso. Oh, meu Deus...

— Ele não podia contar-lhes o que não sabia — disse Bourne.

— Mas você sabia! — Marie sentou-se novamente, os olhos bem abertos. — Você sabia sobre o tiro na garganta! Você falou nisso!

— Falei. Eu sabia. Mas é tudo o que posso lhe dizer.

— Como?

— Quisera poder responder, mas não posso.

— Pode me servir um drinque?

— Claro. — Jason levantou-se e foi até o balcão. Encheu dois copos curtos com uísque e olhou em direção a ela. — Quer que eu peça gelo? Hervé está aqui, será rápido.

— Não. Não será suficientemente rápido. — Ela jogou a revista em cima da cama e virou-se para ele — contra ele, talvez: — Estou ficando louca!

— Estamos no mesmo barco.

— Quero acreditar em você. Acredito. Mas eu... eu...

— Não tem certeza — completou Bourne. — Como eu também não posso ter. — Levou-lhe o copo. — O que quer que eu diga? O que posso dizer? Que sou um dos militantes de Carlos? Que quebrei o código do silêncio ou da lealdade? E por isso conhecia o método da execução?

— Pare com isso! Chega!

— Digo muito isso para mim mesmo. “Chega!” Não pense, tente se lembrar, mas logo adiante a linha emperra. Não vá tão longe, não se aprofunde tanto! Uma mentira pode ser descoberta apenas para levantar mais dez outras perguntas, intrínsecas àquela mentira. Talvez seja como acordar depois de uma bebedeira, sem estar muito certo com quem você brigou ou dormiu ou — maldição! — quem você matou.

— Não... — Marie foi obrigada a dizer. — Você é você. Não me tire isso.

— Não quero. Nem mesmo quero tirar isso de mim. — Jason voltou à poltrona e sentou-se, o rosto voltado para a janela. — Você descobriu... um método de execução. Descobri outra coisa. Eu já sabia; como sabia tudo sobre Howard Leland. Nem mesmo precisaria ler aquela notícia.

— Ler o quê?

Bourne pegou o número de três anos antes da Potomac Quarterly. A revista estava aberta em uma página onde havia o desenho de um homem barbado, de linhas duras, inconclusivas, como se fosse um retrato falado.

— Leia — disse ele. — Começa no canto esquerdo, debaixo do título “Mito ou Monstro”. Depois quero fazer um jogo com você.

— Jogo?

— Sim. Li apenas os dois primeiros parágrafos, e você que acreditar nisso.

— Está bem. — Marie olhou-o, espantada. Depois abaixou a revista aproximando-a da luz e leu.

MITO OU MONSTRO

“Por mais de uma década, o nome “Carlos” tem sido sussurrado nas ruas ermas de cidades tão diversas quanto Paris, Teerã, Beirute, Londres, Cairo e Amsterdã. Tido como o maior terrorista, sua prática tem sido apenas matar e assassinar, sem qualquer ideologia política aparente. No entanto, há evidências concretas de que ele tem se responsabilizado por proveitosas execuções pan grupos extremistas como a OLP e Baader-Meinhof, tanto como executor quanto como orientador. Na verdade, é através do seu aparecimento infreqüente e devido aos conflitos internos de tais organizações terroristas que uma imagem mais clara de “Carlos” começa a se delinear. Alguns informantes estão saindo dos sangrentos confrontos e começam a falar.

Conquanto as histórias de suas façanhas dêem chance a se criar imagens de um mundo dominado pela violência e pela conspiração, potentes explosivos e freqüentes intrigas, carros velozes e mulheres fáceis, os fatos parecem indicar tanto um Adam Smith quanto um Ian Fleming. “Carlos” fica reduzido às proporções humanas e, na compreensão dos fatos, aparece como um homem realmente amedrontado, O mito sado-romântico se transforma em um monstro inteligente e sedento de sangue, que comete assassinatos com a experiência de um analista completamente ciente das ondulações do mercado, custos, distribuições e divisões do trabalho do submundo. É um negócio muito arriscado, e “Carlos” é um mestre, conhece o seu valor, medido em dólares.

O retrato começa com um nome reputado, de certa forma estranho, como estranha é a profissão do seu portador. Ilich Ramirez Sanchez. Dizem que é venezuelano, filho de um devoto fanático, embora não muito proeminente, do marxismo, um advogado (o nome Ilich é uma homenagem paterna a Vladimir Ilyich Lênin, o que explica parcialmente as incursões de “Carlos” no terrorismo extremista), que enviou o jovem Rússia, para estudar, tendo sido a maior parte de sua educação feita lá, inclusive treino de espionagem em Novgorod. É aqui que o retrato falha e os rumores e especulações passam a criá-lo. E, de acordo com isso, um dos comitês do Kremlin, que regularmente controla e vigia os estudantes estrangeiros para futuras infiltrações, percebeu quem era Ilich Sanchez e não o aceitou. Ele era um paranóico, que via como solução para tudo uma bem-colocada bomba ou bala; a recomendação era enviar o jovem de volta a Caracas e dissociar todo e qualquer laço com a família. E assim, rejeitado por Moscou e ao mesmo tempo profundamente antagônico às sociedades ocidentais, Sanchez começou a construir o seu próprio mundo, um mundo onde ele pudesse ser o líder supremo. Que melhor forma poderia arranjar para se tornar um assassino apolítico, cujos serviços pudessem ser contratados pelas maiores correntes políticas e filosóficas do mundo?

O retrato, depois disso, se torna claro outra vez, fluente em várias línguas, inclusive na sua própria língua nativa, o espanhol, bem como o russo, francês e inglês, Sanchez usou o seu treino soviético como trampolim para refinar as suas técnicas. Muitos meses de estudo se seguiram à sua expulsão de Moscou. Alguns dizem que ficou sob a tutela dos cubanos, particularmente de Che Guevara, Tornou-se um mestre na ciência e uso de todas as formas de armas e explosivos; não havia arma que não soubesse abrir e carregar, mesmo de olhos vendados; não havia explosivo que não pudesse analisar pelo cheiro e toque e saber como detoná-lo de uma dúzia de formas diferentes. Estava preparado. Escolheu Paris como base de operações e foi dada a partida. Era um homem para ser alugado, e que podia matar quando os outros não ousavam aceitar este serviço.

E novamente o retrato fica esmaecido, sobretudo por não se conhecer registros de seu nascimento. Qual a idade de “Carlos”? Quantos alvos dizimados podem lhe ser atribuídos e quantos são apenas mitos — assumidos ou declarados por outros? Os correspondentes de Caracas têm dificuldade em desenterrar qualquer certidão de nascimento em qualquer ponto do país com o nome de llich Ramirez Sanchez. Por outro lado, existem muitos Sanchez. na Venezuela, e muitos também com o nome Ramirez junto, embora nenhum com o prenome Ilich. Teria sido um nome adicionado mais tarde? Ou será a omissão uma simples prova a mais da eficiência de “Carlos”? O consenso é que o assassino beira os 35-40 anos de idade. Mas ninguém pode realmente afirmar.

POR TRÁS DOS ARBUSTOS EM DALLAS?

Entretanto, um fato indiscutível é que os lucros dos primeiros assassinatos capacitaram-no a montar uma organização que pode ser invejada por uma analista de operação da General Motors. É o capitalismo em sua forma mais eficiente: lealdade e eficiência extraídas em partes iguais do medo e do prêmio. A conseqüência da deslealdade vem rapidamente — a morte — como também vêm com muita rapidez os benefícios do serviço prestado — generosas bonificações e grandes subsídios para despesas. A organização parece ter escolhido executivos em todos os lugares; e estes rumores bem-fundados levam a uma pergunta óbvia. De onde vieram os lucros iniciais? Quem eram os primeiros mortos?

O mais especulado aconteceu há treze anos em Dallas. Não importa quantas vezes seja debatida a morte de John F. Kennedy, ninguém jamais explicou satisfatoriamente até hoje a súbita explosão de fumaça que saiu de um arbusto a trezentas jardas do desfile de automóveis. A fumaça foi registrada por uma câmara; dois policiais de motocicleta, com rádio, conseguiram captar ruído(s). Muito embora nenhuma cápsula de bala ou marcas de pés fossem descobertos. De fato, a única informação sobre o assim chamado monte de arbustos, naquele momento, foi considerada tão irrelevante que foi enterrada no FBI-Dallas, no departamento de investigações, e nunca foi incluída no Relatório da Comissão Warren. A informação foi dada por um espectador, K. M. Wright, do Norte de Dallas, que, quando interrogado, fez a declaração:

“Diabos, o único filho da puta que estava ali por perto era o velho Burlap Billy, e ele estava a um par de jardas de distância dali.”

O “Billy” a que ele se referia era um idoso vagabundo de Dallas, freqüentemente visto mendigando pelas áreas dos turistas; o nome “Burlap” se deve à sua predileção em amarrar os sapatos com panos velhos para angariar a simpatia dos seus alvos. De acordo com os nossos correspondentes, as declarações de Wright nunca vieram a público.

No entanto, há seis semanas, um terrorista libanês capturado acabou confessando, depois de interrogatório em Tel Aviv. Implorando para ser poupado da execução, disse que possuía informações extraordinárias sobre o assassino “Carlos”. O serviço de informação de Israel expediu os relatórios para Washington. Nossos correspondentes no Capitólio conseguiram obter alguns trechos.

Declaração: “ ‘Carlos’ estava em Dallas em novembro de 1963. Fazia-se passar por cubano e foi ele quem programou Oswald. Ele estava por trás. Foi uma operação sua.”

Pergunta: “Que provas você tem?”

Declaração: “Ouvi-o dizer isso. Ele estava sobre um pequeno aterro coberto de arbustos, atrás de um socalco de terreno. Seu rifle tinha uma mira embutida.”

Pergunta: “Isso nunca foi relatado antes; por que ele não foi visto?”

Declaração: “Ele deve ter sido visto, mas ninguém o teria notado. Vestia-se como um velho, com um sobretudo esfarrapado, e seus sapatos estavam embrulhados em lona para evitar deixar marcas no chão.”

A informação de um terrorista decerto não constitui prova, mas também não devia ser ignorada. Sobretudo quando diz respeito a um mestre assassino, conhecido como um doutor da impostura, que tão surpreendentemente corrobora um relatório desconhecido, e que nunca foi publicado, sobre um momento de crise nacional nunca investigado. Isso, por certo, deve ser levado a sério. Como muitos outros que estiveram direta ou indiretamente associados ao trágico evento em Dallas, “Burlap Billy” foi encontrado morto alguns dias depois, devido a uma dose excessiva de drogas. Era conhecido como um velho que se embebedava sempre com vinhos baratos; nunca entretanto ninguém soube que usava narcóticos. Nem mesmo poderia comprá-los.

Teria sido “Carlos” o homem que estava por trás dos arbustos? Que extraordinário começo para uma extraordinária carreira! Se Dallas foi de fato “operação” sua, quantos milhões de dólares lhe foram realmente passados? Decerto mais do que o suficiente para estabelecer uma rede de informações e militantes que formam, agora, verdadeira corporação.

O mito tem muita substância. Carlos pode multo bem ser um monstro de carne e muito sangue.”

Marie pôs a revista de lado. — Qual é o jogo?

— Já terminou? — Jason afastou-se da janela.

— Sim.

— Creio que fizeram uma porção de declarações. Teoria, suposições, equações.

— Equações?

— Se alguma coisa aconteceu aqui e houve um efeito lá, é porque devem ter alguma relação.

— Você quer dizer conexões — disse Marie.

— Está bem, conexões. Está tudo aí, não está?

— De certa forma, sim. Não é uma síntese muito clara; há uma porção de especulações, rumores e informações de segunda mão.

— Há fatos, no entanto.

— Dados.

— Ótimo. Dados. Está bem.

— Qual é o jogo? — repetiu Marie.

— Tem um nome bem simples. Chama-se “Armadilha”:

— Armadilha para quem?

— Para mim. — Bourne sentou-se com o corpo para a frente. — Quero que me faça algumas perguntas. Qualquer coisa que esteja na reportagem. Uma frase, o nome de uma cidade, um rumor, um fragmento de... dado. Qualquer coisa. Vamos ver quais são as minhas respostas. Minhas respostas “no escuro”.

— Querido, isso não é prova de...

— Faça-as! — ordenou ele.

— Está bem. — Marie levantou o número da Potomac Quarterly. — Beirute — disse ela.

— Embaixada — respondeu ele. — Um alto funcionário da CIA fazendo-se passar por adido. Baleado na rua. Trezentos mil dólares.

Marie olhou para ele. — Eu me lembro... — começou ela a dizer.

— Eu não! — interrompeu Jason. — Continue. Ela o olhou de novo, depois voltou à revista. — Baader-Meinhof.

— Stuttgart. Regensburg. Munique. Duas mortes e um seqüestro, creditados a Baader. Honorários de... — Bourne parou, depois sussurrou atônito — dos Estados Unidos. Detioit... Wilmington, Delaware.

— Jason, o que são.

— Continue, por favor.

— A palavra Sanchez.

— O nome é Ilich Ramirez Sanchez — respondeu ele. — Ele é... Carlos.

— Por que o Ilich?

Bourne fez uma pausa, os olhos vagos. — Não sei.

— É russo, não é espanhol. Sua mãe era russa?

— Não... Sim. Sua mãe. Devia ser a sua mãe... Acho. Mas não tenho certeza.

— Novgorod.

— Campo de espionagem. Comunicações, capitais, tráfico de freqüência. Sanchez é um graduado.

— Jason, você leu isso aqui!

— Não li nada! Por favor, continue.

Os olhos de Marie voltaram ao início do artigo. — Teerã.

— Oito mortos. Créditos divididos — Khomeini e OLP. Pagamento: dois milhões. Fonte: setor sudoeste da União Soviética.

— Paris — disse Marie rapidamente.

— Todos os contratos serão feitos em Paris.

— Que contratos?

— Os contratos... Mortes.

— Mortes de quem? Contratos de quem?

— Sanchez... Carlos.

— Carlos? Então, são contratos de Carlos, suas mortes. Nada têm a ver com você.

— Os contratos de Carlos — disse Bourne, como se estivesse atordoado. — Nada a ver com... comigo — repetiu ele quase sussurrando.    

— É isso mesmo, Jason. Nada disso tem a ver com você!

— Não! Isso não é verdade! — gritou Bourne, levantando-se bruscamente da cadeira e permanecendo parado, olhando-a fixamente. — Nossos contratos — acrescentou ele rapidamente.

— Você não sabe o que está dizendo!

— Estou respondendo! No escuro! É por isso que tive que vir a Paris! — Ele girou nos calcanhares e foi até a janela, segurando-se na moldura. — É sobre isso que é o jogo — continuou. — Não estamos à procura de uma mentira, estamos à procura da verdade, lembra-se? Talvez a tenhamos encontrado. Talvez o jogo a tenha revelado.

— Este não é um teste válido! É um exercício doloroso sobre lembranças incidentais. Se uma revista como a Potomac Quarterly imprimiu isto, deve ter sido feita a mesma coisa pela metade dos jornais do mundo. Você poderia ter lido isso em qualquer lugar.

— O fato é que retive tudo.

— Não totalmente. Você não sabia de onde vinha o Ilich, que o pai de Carlos era um advogado marxista na Venezuela. São pontos importantes, acho. Você não mencionou nada sobre os cubanos. Se tivesse, teria sido levado à mais chocante das especulações aqui escritas. Não disse uma palavra sequer sobre isso.

— Do que você está falando?

— Dallas — disse ela. — Novembro, 1963.

— Kennedy — respondeu Bourne.

— É isso mesmo? Kennedy?

— Aconteceu nessa época — Jason ficou imóvel.

— Também, mas não é a isso que me refiro.

— Sei — disse Bourne. Sua voz estava de novo grave, como se estivesse falando no vácuo. — Uma elevação gramada... arbustos... Burlap Billy.

— Você leu isto!

— Não.

— Então já ouviu antes, leu antes.

— É possível, mas não é importante, é?

— Pare com isso, Jason! Chega!

— Estas palavras, de novo. Quisera poder parar.

— O que está tentando me dizer? Que você é Carlos?

— Deus, não! Carlos quer me matar, e nem falo russo. Disso pelo menos tenho certeza.

— Então, o que é?

— O que eu disse no começo. O jogo. O jogo se chama “Armadilha para um Militante”.

— Militante?

— Sim. Alguém que desertou de Carlos. É a única explicação, a única razão de eu saber o que sei. Sobre todas essas coisas.

— Por que diz desertou?

— Porque ele quer me matar. Ele tem que me matar, ele pensa que sei mais sobre ele do que qualquer outra pessoa viva.

Marie estivera curvada sobre a cama. Esticou as penas para fora, estendeu as mãos ao lado do corpo. — Isso é um resultado da deserção. E a causa? Se é verdade, então você foi, se tornou... — Ela parou.

— Levando tudo em consideração, é um pouco tarde para procurar uma posição moral — disse Bourne percebendo a dor desse conhecimento no rosto da mulher a quem amava. — Eu podia pensar em várias razões, clichês. Que tal se eu tivesse me desentendido com ladrões... matadores?

— Não tem sentido! — gritou Marie. — Não há um pingo de evidência.

— Há, e muitas, você bem sabe. Eu podia ter-me vendido por um preço mais alto para um licitante mais poderoso, ou poderia ter roubado grandes somas de dinheiro dos pagamentos. Poderia ter feito um desvio. Isso explicaria a conta em Zurique. — Parou por um momento, olhando para a parede em cima da cama, sentindo, sem ver. — Isso explicaria Howard Leland, Marselha, Beirute, Stuttgart... Munique. Explicaria tudo. Todos os fatos esquecidos que querem vir à tona. E mais especialmente um. Por que evitei o seu nome, por que nunca o mencionei? Estou assustado. Estou com medo dele.

Passou-se um momento em silêncio; era alguma coisa além do medo. Marie assentiu com a cabeça. — Tenho certeza que você acredita nisso — disse — e, de certa forma, eu gostaria que fosse verdade. Mas acho que não é. Você quer acreditar nisso porque isso dá credibilidade ao que você disse. E também uma resposta... uma identidade. Pode não ser a identidade que você quer, mas só Deus sabe que é muito melhor do que ficar vagando cegamente por aquele terrível labirinto que você encara todos os dias. Qual quer coisa serviria, creio. — Fez uma pausa. — E eu gostaria que fosse verdade, porque assim não estaríamos aqui agora.

— O quê?

— Essa é a inconsistência, querido. O número ou o símbolo que não se encaixa na sua equação. Se você fosse o que diz ser e estivesse com medo de Carlos — e Deus sabe que deveria estar — Paris seria o último lugar do mundo para onde você se sentiria compelido a voltar. Estaríamos em outro lugar qualquer; você mesmo afirmou isso. Você fugiria; pegaria o dinheiro de Zurique e desapareceria. Mas não está fazendo isso. Ao contrário, está voltando para o esconderijo de Carlos. Isso quer dizer que não é um homem amedrontado nem culpado.

— Não há mais nada. Vim a Paris para descobrir, só isso.

— Então fuja. Teremos o dinheiro amanhã de manhã, nada o prende — nada nos prende. Isso também é simples. — Marie olhou-o demoradamente.

Jason olhou para ela, depois desviou o olhar. Foi até o balcão e serviu-se de um drinque. — Resta considerar a Treadstone — ele disse na defensiva.

— Por que considerá-la mais do que Carlos? Aí está a sua verdadeira equação: Carlos e Treadstone. Um homem a quem eu amei muito foi morto pela Treadstone. Essa é mais uma razão para fugirmos, para sobrevivermos.

— Achei que você gostaria de descobrir quem o matou — disse Bourne — e fazê-lo pagar por isso.

— Quero. E muito. Mas outros podem achá-lo. Tenho. outras prioridades, e a vingança não está em primeiro lugar. Nós estamos. Você e eu. Ou esse é apenas o meu julgamento? Os meus sentimentos?

— Você sabe muito bem! — Segurou com força o copo e olhou em direção dela. — Eu te amo — sussurrou.

— Então vamos fugir! — disse ela, levantando a voz quase mecanicamente, dando um passo em direção a ele. — Vamos esquecer tudo isso, esquecer realmente, e fugir tão rápido quanto pudermos, para o mais longe que pudermos! Vamos!

— Eu... eu... — Jason gaguejou, a névoa se interpondo, enfurecendo-o. — Há... coisas.

— Que coisas? Nós nos amamos, encontramos um ao outro! Podemos ir para qualquer lugar, ser quem quisermos. Não há nada que possa nos deter, há?

— Apenas eu e você — repetiu ele suavemente, as névoas agora se fechando, sufocando-o. — Sei. Sei. Mas tenho que pensar. Há tanta coisa a aprender, tanta coisa que tem que aparecer!

— E por que é assim tão importante?

— É... É importante, apenas isso.

— Você não sabe?

— Sim... Não, não tenho certeza. Não me pergunte agora.

— Se não perguntar agora, quando? Quando posso perguntar? Quando passará? Ou será para sempre?!

— Chega! — De repente ele gritou, batendo c’ copo contra a bandeja de madeira. — Não posso fugir! Não vou! Tenho que ficar aqui, tenho que saber!

Marie correu para ele. Pôs as mãos sobre o seu ombro e passou-as pelo rosto, enxugando-lhe a transpiração. — Agora você conseguiu falar. Pôde se ouvir, meu querido? Você não pode fugir porque está próximo, agora. E quanto mais próximo chega mais tudo isso se torna enlouquecedor para você. E se você fugisse, seria pior. Você não conseguiria viver, tudo seria um grande pesadelo. Sei disso.

Ele procurou o rosto dela e acariciou-o. — Você sabe disso?

— É claro. Mas era você quem tinha que dizer isso e não eu. Ela o abraçou, descansando a cabeça no seu peito. — Eu tinha que forçá-lo a confessar isso. E o mais engraçado é que eu podia fugir. Eu podia entrar em um avião hoje à noite e ir com você aonde quisesse, desaparecer sem olhar para trás, mais feliz do que jamais fui em toda a minha vida. Mas você não podia fazer isso. Porque o que está — ou não está — aqui em Paris o consumiria até você não mais poder suportar. Esta é a mais incrível ironia, meu querido. Eu podia viver com isso, mas você não.

— Você fugiria? — perguntou Jason. — E sua família, seu emprego... as pessoas que você conhece?

— Não sou criança nem boba — respondeu ela rapidamente. — Eu me protegeria, de certa forma, mas acho que não levaria isso muito a sério. Eu pediria uma licença médica ou por motivos pessoais. Fadiga emocional, estafa. Poderia voltar, mais tarde, o departamento entenderia.

— Peter?

— Sim. — Ela ficou em silêncio por um momento. — Caminhamos de uma relação para outra; a segunda foi a mais importante para nós dois, acho. Ele era como um irmão um pouco deficiente, de certa forma; um irmão que você deseja que triunfe, apesar das suas falhas, porque você sabe que por dentro ele é uma pessoa muito digna e decente.

— Sinto muito. Realmente sinto muito.

Ela levantou os olhos para ele. — Você também é assim. Tem a mesma decência. Quando se faz o tipo de trabalho que faço, a decência se toma muito importante. Não são os humildes que vão herdar a terra, Jason, mas os corruptos. E tenho a impressão de que a distância entre a corrupção e o assassinato é um passo muito curto.

— Treadstone Seventy One?

— Sim. Nós estávamos certos. Quero que os descubram, quero que paguem pelo que fizeram. E você não pode fugir.

Ele passou os lábios pela face dela, depois pelos cabelos, e a abraçou. — Eu devia mandá-la embora — disse. — Eu devia pedir-lhe para sair da minha vida. Não posso fazer isso, mas bem sei que devia.

— Não faria nenhuma diferença se fizesse. Eu não iria, meu amor.

O escritório do advogado ficava no bulevar de la Chapelle, a sala de livros mais parecia a decoração de um palco do que a de um escritório, tudo muito apropriado, tudo estava em seu devido lugar. Acordos eram feitos naquela sala, não contratos. Quanto ao advogado, o muito digno cavanhaque branco e o pincenê de prata sobre o nariz aquilino não escondiam a sua verdadeira raiz. Ele até insistiu em conversar usando um inglês pobre; evidentemente, mais tarde usaria este fato como defesa por não ter entendido algumas coisas.

Marie foi quem mais falou, enquanto Bourne acatava — era um cliente à procura de orientação. Ele fazia as observações sucintamente, trocando os cheques ao portador por ações ao porta dor, pagáveis em dólares, em títulos que iam de um máximo de vinte mil dólares até um mínimo de cinco. Instruiu o advogado para dizer ao banco que todas as séries deviam ser partidas em séries descontínuas de três em três, os fiadores internacionais deviam ser diferentes a cada quinto dos certificados. Seu objetivo não era confundir o procurador; ela complicou tanto a emissão dos títulos que seguir o seu curso estava muito além das possibilidades da maioria dos bancos ou corretoras. Nem teriam os bancos ou corretoras trabalho em localizá-los, pois seu pagamento já estava garantido.

Quando o irritado advogado de cavanhaque já estava quase concluindo a sua conversa telefônica com um igualmente perturbado Antoine d’Amacourt, Marie levantou a mão.

— Perdoe-me, mas o senhor Bourne insiste em que o senhor d’Amacourt também inclua duzentos mil francos em dinheiro, cem mil incluídos com os títulos e cem mil para ficar de posse do senhor d’Amacourt. Sugere ainda que a segunda parte, os cem mil do senhor d’Amacourt, sejam assim divididos: setenta e cinco mil para o senhor d’Amacourt e vinte e cinco mil para o senhor. Acha que tem um grande débito para com os senhores, pelos seus conselhos e o trabalho adicional que lhes causou. É desnecessário dizer que nenhuma cláusula específica de quebra de contrato faz-se necessária.

Com estas palavras, a irritação e a perturbação do advogado desapareceram e foram substituídas por uma gentileza incomum desde a corte de Versalhes. Os arranjos foram feitos de acordo com o inusitado — mas perfeitamente compreensível — pedido do senhor Bourne e da sua estimada conselheira.

Uma pasta para documentos, de couro, foi providenciada pelo senhor Bourne para os títulos e o dinheiro. Ela seria transportada por um mensageiro especial, armado, que deixaria o banco às 14h3omin e se encontraria com o senhor Bourne às 15h na Pont Neuf. O distinto cliente identificar-se-ia com um pequeno pedaço de couro que fora cortado dessa pasta e que, quando colocado no lugar e encaixado, provaria ser a pasta certa. Juntamente com isso, seriam ditas as seguintes palavras: “Herr Koenig manda os seus cumprimentos de Zurique.”

Todos os detalhes preparados. Exceto um, que foi esclarecido pela conselheira do senhor Bourne.

— Reconhecemos que as exigências da fiche devem ser executadas ao pé da letra, e assim espera o senhor d’Amacourt — disse Marie St. Jacques. — No entanto, também reconhecemos que o tempo pode se transformar em uma vantagem para o senhor Bourne, que na verdade conta com ela. Se não for assim, receio ter que — embora agora esteja aqui anonimamente — como membro da Comissão Internacional Bancária, ser compelida a relatar certas aberrações de procedimentos bancários e legais, tais como as que testemunhei. Tenho certeza de que isso não se fará necessário, todos nós fomos bem pagos, n’est-ce pas, monsieur?

— C’est vrai, madame! Em negócios bancários e legais — como na vida, o tempo é tudo A senhora não tem o que recear.

— Estou certa disso — disse Marie.

Bourne examinou os encaixes do silenciador, satisfeito por ter removido as partículas de pó e fiapos que se haviam juntado na arma pela falta de uso.

Deu uma volta final no encaixe, abriu e examinou o carregador de balas. Havia ainda seis cartuchos; ele estava pronto. Enfiou a arma no cinto e abotoou a jaqueta.

Marie não o vira com a arma. Estava sentada na cama, de costas para ele, falando ao telefone com o adido da embaixada canadense, Dennis Corbelier. A fumaça espiralada do cigarro subia de um cinzeiro próximo ao livro de anotações. Ela estava anotando as informações de Corbelier. Agradeceu e desligou o telefone. Depois ficou imóvel por dois ou três segundos, o lápis ainda na mão.

— Ele nada sabe sobre Peter — disse voltando-se para Jason. — É estranho!

— Muito — concordou Bourne. — Pensei que ele seria um dos primeiros a saber. Você disse que estavam fazendo uma busca na caderneta de telefones de Peter e que ele fizera uma chamada para Paris, para Corbelier. Você acha que alguém o estaria seguindo?

— Nem mesmo considerei essa possibilidade. Estava pensando nos jornais, nos telegramas. Peter foi... encontrado há dezoito horas, e apesar de eu ter sido muito casual a seu respeito, ele era um homem importante do governo canadense. Sua morte seria uma notícia importante, e ainda mais assim, por assassinato... E não foi sequer comentada nos jornais.

— Dê um telefonema para Ottawa esta noite. Tente descobrir por quê.

— Vou fazer isso.

— O que lhe disse Corbelier?

— Oh, sim. — Marie passou os olhos pela caderneta de anotações. — A placa do carro da Rua Madeleine não tem significado, é um carro alugado no Aeroporto De Gaulle para um tal de Jean-Pierre Larousse.

— Ou um John Smith qualquer — interrompeu Jason.

— Exato. Ele teve melhor sorte com o número do telefone que d’Amacourt deu a você, mas não percebe o que uma coisa tem a ver com a outra. Nem eu, na verdade.

— É assim estranho?

— Acho que sim. É uma linha de telefone particular pertencente a uma casa de modas em Saint-Honoré. Les Classiques.

— Uma casa de modas? Você quer dizer ateliê?

— Deve ter um. Mas é principalmente uma elegante loja de roupas. Como a Casa Dior, ou a Givenchy. Haute couture. No mercado, Corbelier disse que a casa é conhecida como a Casa de René. O Bergeron.

— Quem?

— René Bergeron, desenhista de modas. Um estilista. Já é conhecido há bastante tempo, está quase sempre no auge do sucesso. Conheço-o porque a minha humilde costureira lá no Canadá copia os seus modelos.

— Você tem o endereço?

Marie fez que sim. — Por que Corbelier não sabia da morte de Peter? Por que ninguém sabe?

— Talvez você possa saber, quando telefonar. Talvez seja pelas diferenças de horário; é muito tarde para entrar nas edições matinais dos jornais aqui de Paris. Trago os jornais da tarde. — Bourne foi até o armário pegar o sobretudo, consciente do peso que pusera no cinto. — Vou ao banco. Seguirei o mensageiro até a Pont Neuf. — Vestiu o casaco, ciente de que Marie não o ouvia. — Queria perguntar-lhe, esses camaradas usam uniforme?

— Quem?

— Os mensageiros de banco.

— Isso é uma matéria para os jornais, e não para o serviço de telex que os jornais usam.

— Como?

— A diferença de horário. Os jornais não devem ter a notícia, mas os serviços de telex saberiam, por certo. E as embaixadas têm teletipo, eles saberiam. Não foi comunicado, Jason.

— Você telefona hoje à noite — disse ele. — Estou indo.

— Você perguntou sobre os mensageiros. Se eles usam uniformes?

— Eu estava curioso.

— Na maioria das vezes sim. Também dirigem aquelas caminhonetes blindadas. Mas fui bem clara a respeito disso. Se uma destas caminhonetes fosse usada, deveria estacionar a uma quadra da ponte. E o mensageiro deveria fazer o resto do percurso a pé.

— Ouvi, mas não estava muito certo de ter compreendido. Por quê?

— Um mensageiro bem-armado é ruim, mas é necessário, por uma questão de segurança. Uma caminhonete é muito óbvia, poderia ser facilmente seguida. Você não vai mudar de idéia e deixar que eu o acompanhe?

— Não.

— Acredite em mim, nada sairá errado; aqueles dois ladrões não permitiriam.

— Então não há nenhuma razão para você ir até lá.

— Você está brincando.

— Estou com pressa.

— Sei. E pode se movimentar mais rápido sem mim. — Marie levantou-se e se aproximou dele. — Entendo. — Inclinou-se para ele, beijando-o nos lábios. De repente, sentiu a arma no cinto. E olhou-o diretamente nos olhos. — Você está preocupado, não é?

— É apenas precaução. — Sorriu, tocando-lhe o rosto. — É uma enorme quantia que tem que nos manter por um bom tempo.

— Gostei disso.

— Do dinheiro?

— Não. Do nós. — Marie enrugou a testa. — Um cofre.

— Você continua falando sem seqüência.

— Você não pode deixar os títulos negociáveis, que valem mais de um milhão de dólares, em um quarto de hotel em Paris. Tem que ter um cofre.

— Podemos fazer isso amanhã. — Largou-a, indo em direção à porta. — Enquanto eu estiver fora, procure a Les Classiques na lista telefônica e disque para o número indicado. Descubra até que horas fica aberta. — Depois, saiu depressa.

Bourne acomodou-se no banco traseiro do táxi estacionado e pela janela olhou para o banco. O motorista cantarolava uma melodia desconhecida enquanto lia o jornal, satisfeito com a nota de cinqüenta francos que recebera como adiantamento. E o taxímetro ainda funcionava; o passageiro insistira nisso.

O furgão blindado apareceu na janela de trás do lado direito; a antena do rádio saía do centro da capota, como um gurupés afilado saindo da proa de um barco. Parou em uma área autorizada para estacionamento de veículos, exatamente em frente do táxi onde estava Jason. Dois diminutos faroletes apareceram acima do vidro redondo à prova de balas, na porta de trás. O sistema de alarme fora ligado.

Bourne inclinou-se para a frente, os olhos presos no homem uniformizado que saíra da porta lateral e abrira seu caminho por entre a multidão na calçada, em direção à entrada do banco. Sentiu-se aliviado. O homem não era um dos três bem-vestidos que vieram ontem ao Valois,

Quinze minutos depois o mensageiro saiu do banco, a pasta de couro na mão esquerda, a direita no coldre aberto. O pedaço rasgado do lado da pasta podia ser visto claramente. Jason sentiu o fragmento de couro no bolso de sua camisa; aquilo, nada mais nada menos, servia como a primeira combinação que podia proporcionar-lhe uma vida além de Paris, além de Carlos, possivelmente. Se tal vida pudesse existir e ele pudesse aceitá-la sem o terrível labirinto do qual não conseguia escapar...

Mas era muito mais do que apenas isso. Em um labirinto construído pelos homens, as pessoas se moviam, corriam, demo- liam muros, o próprio contato uma forma de progresso, ainda que cegamente. Seu labirinto pessoal não tinha nenhuma parede, nenhum corredor definido onde ele pudesse correr. Apenas o espaço e as sombras ameaçadoras do escuro que via tão claramente quando abria os olhos à noite e sentia o suor pingando-lhe do rosto. Por que era sempre o espaço, a escuridão e os fortes ventos? Por que sempre tinha a sensação de estar mergulhando verticalmente no espaço à noite? Um pára-quedas. Por quê? Então outras palavras lhe vieram à cabeça. Não tinha idéia de onde vinham, mas lá estavam, podia ouvi-las.

O que acontece quando a sua memória se vai? E a sua identidade, Sr. Smith?

Chega!

A caminhonete blindada adentrou o tráfego na Rua Madeleine. Bourne tocou o ombro do motorista. — Siga aquela caminhonete, mas mantenha pelo menos dois carros entre nós — disse em francês.

O motorista virou-se, um pouco assustado. — Acho que o senhor pegou o táxi errado, senhor Tome de volta o seu dinheiro.

— Faço parte da companhia a que pertence aquele blindado, seu imbecil. É um trabalho especial.

— Desculpe-me, senhor. Não o perderemos. — O motorista entrou no tráfego, em diagonal.

O furgão tomou o caminho mais rápido em direção ao Sena, indo por ruas laterais. Depois virou no Ouai de la Rapée e foi em direção à Pont Neuf. Então, a dois ou três quarteirões da ponte, mais ou menos, diminuiu a marcha, encostando ao meio- fio, como se o mensageiro achasse estar muito adiantado para o seu encontro. Mas, na verdade, pensou Bourne, estava quase atrasado. Faltavam cinco minutos para as três, tempo suficiente para que o mensageiro estacionasse e caminhasse o quarteirão, como lhe fora prescrito, até a ponte. Então por que o furgão diminuíra a marcha? Diminuíra? Não, parara. Nem se movimentava! Por quê?

O trânsito?... Bom Deus, é claro — o trânsito!

— Pare aqui — disse Bourne ao motorista. — Encoste no meio-fio. Depressa!

— O que é, senhor?

— Você é um homem de sorte — disse Jason; — A minha companhia tem grande satisfação em lhe pagar um adicional de cem francos se você simplesmente for até lá na frente, até a janela da frente daquele furgão, e disser algumas palavras ao motorista.

— O que disse, senhor?

— Na verdade, estamos testando aquele motorista. Ele é novo. Aceita os cem francos?

— Só vou até a janela e digo algumas palavras?

— Só isso. Cinco segundos, no máximo. Depois pode voltar para o seu táxi e ir embora.

— Não há nenhuma complicação, nenhum problema? Não quero ter problemas.

— Minha firma é uma das mais respeitáveis da França. Você já deve ter visto as nossas caminhonetes por todo canto.

— Não me lembro...

— Esqueça! — Bourne pôs a mão no trinco da porta.

— Quais são as palavras?

Jason entregou-lhe os cem francos. — Apenas isto: “Herr Koenig. Saudações de Zurique.” Pode se lembrar delas?

— “Koenig. Saudações de Zurique.” Nenhuma dificuldade.

— E você vem atrás de mim.

— Está bem. — Foram rapidamente em direção à caminhonete, aproximando-se pelo lado direito, pela estreita passagem entre os carros e a rua; os carros e as caminhonetes passavam por eles, em marcha lenta, parando e andando, do lado esquerdo. O furgão era uma armadilha de Carlos, pensou Bourne. O assassino abrira seu caminho também entre as fileiras dos mensageiros armados. Um nome apenas e um encontro revelado por um rádio podia trazer a um mensageiro mal-pago no seu próprio serviço uma grande quantidade de dinheiro. Bourne. Pont Neuf. Tão simples! Este mensageiro em especial estava menos preocupado em se prontificar a fazer o trabalho do que ficar à espera de que os militantes de Carlos chegassem à Pont Neuf em tempo. O trânsito de Paris era bem-conhecido; qualquer um podia se atrasar. Jason parou o motorista do táxi, passando-lhe mais uma nota adicional. de duzentos francos. Os olhos do homem arregalaram-se diante da nota.

— Senhor?

— A minha companhia vai ser muito generosa com o senhor. Este homem deve ser disciplinado porque cometeu uma grave infração.

— O que, senhor?

— Depois de dizer “Herr Koenig. Saudações de Zurique”, diga também: “O esquema mudou. Há um passageiro no meu táxi que precisa vê-lo.” Decorou?

Os olhos do motorista voltaram-se para a nota. — Sem problema. — E pegou o dinheiro.

Beiraram o lado da caminhonete. Jason estava com as costas rentes ao aço da caminhonete, a mão direita escondida debaixo do casaco segurando a arma no cinto. O motorista se aproximou da janela e bateu no vidro.

— Você aí dentro! Herr Koenig! Saudações de Zurique! — gritou.

A janela foi baixada, não mais do que uma ou duas polegadas. — O que é isso? — uma voz gritou lá de dentro. — O senhor devia estar na Pont Neuf, senhor!

O motorista não era nenhum idiota e estava ansioso para se livrar o mais rapidamente possível da sua tarefa. — Não eu, seu burro! — gritou através do barulho do trânsito. — Estou lhe dizendo o que me mandaram dizer! O esquema foi mudado. Tem um homem lá atrás que diz que tem que vê-lo.

— Diga-lhe para se apressar — disse Jason — segurando uma nota de cinqüenta francos fora da vista da janela.

O motorista olhou para o dinheiro e voltou ao mensageiro.

— Seja rápido! Se não vier já, vai perder o emprego!

— Agora saia daqui! — disse Bourne. O motorista correu passando por Jason e agarrando, de passagem, a nota, enquanto corria para o táxi.

Bourne ficou onde estava. De repente ficou alarmado com o que ouviu através da cacofonia do trânsito barulhento, das buzinas, canos de escape e motores na rua cheia de carros. Havia vozes dentro da caminhonete. Não um homem falando no rádio, mas dois homens discutindo. O mensageiro não estava sozinho, havia outro homem com ele.

— Estas foram as ordens. Você o ouviu bem.

— Ele devia vir a você. Devia aparecer.

— Ë o que ele vai fazer. E vai apresentar o pedaço de couro, que deve se encaixar perfeitamente na pasta! Você espera que ele faça isso no meio da rua, com todo esse trânsito?

— Não estou gostando disso!

— Você me pagou para ajudá-lo a encontrar alguém, não para perder o meu emprego. Eu vou!

— Tem que ser na Pont Neuf!

— Vá tomar no eu!

Depois, Bourne ouviu o barulho de passos lá dentro. — Vou com você!

A porta da caminhonete se abriu. Jason virou-se contra a porta, a mão ainda dentro do casaco. Um rosto de criança foi esmagado contra o vidro da porta do carro, os olhos se fecharam, as feições jovens se contorceram, formando uma feia máscara. Susto e insulto na intenção infantil daquele rosto. Os ruídos das buzinas raivosas ecoaram em contraponto, enchendo a rua movimentada com um só grito. O trânsito havia parado.

O mensageiro pisou no estribo de metal, a pasta na mão esquerda. Bourne estava pronto. No instante em que o mensageiro pôs o pé na rua ele bateu a porta de volta contra o corpo do outro homem, esmagando-lhe a rótula e a mão, que se estendera para a frente. O homem gritou, girando para dentro da caminhonete de novo. Jason gritou para o mensageiro com o pedaço de couro na mão livre.

— Sou Bourne! Aqui está o pedaço de couro! E você deixa essa arma no coldre ou não apenas vai perder o emprego como também a vida, seu filho da puta!

— Eu não queria machucá-lo, senhor! Eles queriam encontrá-lo! Não têm nenhum interesse na sua captura, o senhor tem a minha palavra!

A porta se abriu. Jason fechou-a de novo com o ombro e depois abriu-a para ver o rosto do militante de Carlos, a mão na arma.

O que viu foi o cano de uma arma, o orifício negro em sua direção. Rodou para fora, percebendo que aquela pequena demora do tiro fora causada por uma explosão, um rangido que saíra da caminhonete blindada. O alarme disparara, soando na dissonância da rua movimentada. O tiro, em comparação, parecia silencioso; a erupção do asfalto, perto de Jason, nem fora ouvida.

Mais uma vez ele bateu a porta. E dessa vez ouviu o impacto de metal contra metal; batera na arma do militante de Carlos. Puxou a arma do cinto, ajoelhou-se na rua e abriu a porta.

Era o mesmo rosto de Zurique, o matador a quem chamavam Johann, o homem que haviam trazido para Paris para reconhecê-lo. Bourne atirou duas vezes, o homem arqueou-se para trás. O sangue jorrava-lhe da testa.

O mensageiro! A pasta de documentos!

Jason viu o homem. Ele se abaixara próximo à caminhonete, protegendo-se; com a arma na mão, gritava por socorro. Bourne pôs-se de pé e arremessou-se em direção à arma apontada, segurando-a pelo cano e torcendo-o para tirá-la da mão do mensageiro. Agarrou a pasta de documentos e gritou.

— Nenhum mal, não é? Dê-me isso, seu bastardo! — Jogou a arma do homem debaixo do furgão, levantou-se e desapareceu na massa histérica que se formava na calçada.

Depois correu cegamente; os corpos à sua frente eram os muros móveis do seu labirinto. Mas havia uma diferença essencial entre esta armadura e a que ele usava todos os dias. Não havia escuridão, O sol da tarde estava brilhante, tão ofuscante quanto a sua corrida através do labirinto.


 

— Está tudo aqui — disse Marie. Ela coletara os certificados nominais, os trocos e moedas sobre a mesa. — Eu lhe disse que estaria tudo aqui.

— Mas quase não deu certo.

— O quê?

— O homem a quem chamavam Johann, aquele de Zurique. Está morto. Eu o matei.

— Jason, o que aconteceu?

Ele contou-lhe tudo. — Contavam com a Pont Neuf — disse. — Acho que o carro que os seguia ficou preso no trânsito e chamou o carro do mensageiro pelo rádio, dizendo-lhe para retardar um pouco. Tenho certeza que foi isso.

— Oh, Deus, eles estão em todos os lugares!

— Mas não sabem onde eu estou — disse Bourne olhando-se no espelho que ficava sobre o balcão, examinando os seus cabelos louros enquanto colocava os óculos de armação de tartaruga. — E o único lugar no mundo em que não esperam me encontrar neste momento — mesmo que tenham imaginado que já sei de tudo — é uma loja de modas na Saint-Honoré.

— Les Classiques? — perguntou Marie, atônita.

— Certo. Você fez a ligação?

— Sim. Mas isso é insano!

— Por quê? — Jason saiu da frente do espelho e olhou-a. — Pense nisso. Há vinte minutos a armadilha deles degringolou-se. Deve haver muita confusão, recriminações, acusações de incompetência, ou coisas piores. Agora mesmo, neste preciso momento, estão muito mais preocupados consigo mesmos do que comigo; nenhum deles quer ganhar uma bala na garganta. Não vai demorar muito, vão se reagrupar logo, e rapidamente. Carlos os obrigará a isso. Mas durante a próxima hora, mais ou menos, estarão tentando perceber o que aconteceu; e o único lugar em que não vão procurar por mim é em um ponto de trabalho, em um esconderijo que não têm a menor idéia que eu já conheça..

— Alguém vai reconhecê-lo!

— Quem? Trouxeram um homem de Zurique para fazer isso, e ele está morto. Não têm a mínima idéia de como sou.

— O mensageiro. Eles o levarão, porque ele o viu.

— Nas próximas horas ele estará muito ocupado com a polícia.

— D’Amacourt. O advogado!

— Acho que eles devem estar a caminho da Normandia ou de Marselha; ou então, se tiveram sorte, já saíram do país.

— E supondo que possam ser detidos, presos?

— Suposição?! Você acha que Carlos exporia um ponto seu, um lugar escondido, onde recebe as suas mensagens? Nunca!

— Jason, estou com medo.

— Eu também. Mas não de ser reconhecido. — Bourne virou-se para o espelho. — Eu podia dar uma longa dissertação sobre classificações faciais e abrandamento de feições, mas não vou.

— Você está falando sobre as evidências da sua cirurgia. De Port Noir. Você me contou.

— Não contei tudo. — Bourne inclinou-se sobre o balcão, olhando fixamente para o seu rosto. — De que cor são os meus olhos?

— O quê?

— Não, não olhe para mim. Agora, diga-me, de que cor são os meus olhos? Os seus são castanhos raiados de verdes. E os meus?

— Azuis... azulados. Cinza... Realmente... — Marie parou. — Não estou bem certa. Suponho que seja uma falta minha.

— Não. É perfeitamente normal. Basicamente, são castanho-avermelhados, mas nem sempre. Eu mesmo já notei isso. Quando uso uma camisa ou uma gravata azul, eles se tomam mais azuis; Se uso um casaco ou uma jaqueta marrom, eles são cinzas. Quando estou nu, são estranhamente indefinidos.

— Isso não é assim tão estranho. Tenho certeza de que muitas pessoas também são assim.

— Eu também. Mas quantos usam lentes de contato quando têm a visão normal?

— Lentes de...

— Foi exatamente o que eu disse — interrompeu Jason.

— Certos tipos de lentes de contato são usadas apenas para mudar a cor dos olhos. E são bem mais eficientes quando os olhos são castanho-avermelhados. Quando Washburn examinou pela primeira vez os meus olhos, havia evidência de uso prolongado de lentes de contato. É uma das chaves, não é?

— É o que você quiser que seja — disse Marie. — Se é que isso é verdade.

— E por que não seria?

— Porque o módico estava quase o tempo todo mais bêbado do que sóbrio. Você me contou isso. Ele amontoou conjeturas e conjeturas, e muito provavelmente todas elas deformadas pelo álcool. Ele nunca foi muito específico. Nem podia.

— Ele estava empenhado em uma coisa. Eu sou um cama- leão, desenhado para ser um modelo flexível. E eu queria descobrir de quem; talvez agora possa. Graças a você, tenho um endereço. Alguém por lá deve saber a verdade. Um homem, apenas, isso é tudo o que preciso saber. Uma pessoa com quem eu possa me confrontar, me revelar se necessário.

— Não posso detê-lo. Mas, por Deus, tenha cuidado. Se o reconhecerem, eles o matarão.

— Não lá; não farão nada lá. Seria péssimo para os negócios. Isto é Paris.

— Não acho nada engraçado, Jason.

— Nem eu. Estou contando com isso seriamente.

— O que você vai fazer? Quero dizer, como?

— Saberei melhor quando estiver lá. Quando puder ver se alguém está perdido por lá, parecendo nervoso ou ansioso, ou à espera de um telefonema, como se sua vida dependesse disso.

— E dai?

— Farei o mesmo que fiz com d’Amacourt. Esperarei do lado de fora e o seguirei. Sei seguir de perto, não o perderei de vista. E serei muito cuidadoso.

— Você me telefonará?

— Tentarei.

— Fico louca esperando. Ainda mais sem saber de nada.

— Não espere. Você não pode depositar os títulos em algum lugar?

— Os bancos estão fechados.

— Vá a um hotel; os bons hotéis têm caixa-forte.

— Mas é preciso alugar um apartamento.

— Instale-se num apartamento. No Meurice ou no George Cinq. Deixe a pasta na portaria, mas depois volte para cá.

Marie balançou a cabeça. — Assim, sem fazer nada?

— Então, telefone para Ottawa. Descubra o que aconteceu.

— Farei isso.

Bourne foi até a mesa de cabeceira e pegou um maço de notas de cinco mil francos. — Com suborno é sempre mais fácil — disse. — Não creio que vá ser necessário, mas talvez eu possa precisar.

— Talvez — concordou Marie. E logo em seguida acrescentou: — Você ouviu o que disse? Você deu o nome de dois hotéis.

— Ouvi. — Ele virou-se e olhou-a. — Já estive aqui antes. Muitas vezes. Morei aqui, mas não nesses hotéis. Em ruas fora de mão, acho. Que não eram encontradas tão facilmente.

Passou-se um momento em silêncio, o medo era elétrico.

— Eu o amo, Jason.

— Eu também a amo — respondeu Bourne.

— Volte para mim. Não importa o que acontecer, volte para mim.

A iluminação era suave e dramática, algumas luzes de refletores vinham do teto marrom escuro, envolvendo em agradáveis combinações de tons amarelos manequins e clientes ricamente vestidas. Os balcões de jóias e de acessórios eram forrados de veludo preto, sedas de vermelho e verde brilhantes, fluindo sobre a reluzente meia-noite com brilhos de ouro e prata ressaltados pela luz indireta da sala. Os corredores faziam curvas graciosas, em semi-círculos, dando uma ilusão de espaço ampliado, pois Les Clasiques não era uma loja muito grande. Era, no entanto, bonita e bem-freqüentada, localizada em um dos trechos mais valorizados . de Paris. Salas de prova com portas de vidro fume ficavam nos fundos, por trás de uma sacada onde deviam ficar os gerentes. Uma escada acarpetada se elevava do lado direito, ao lado de uma mesa de telefone, onde estava sentado um homem de meia-idade, estranhamente vestido com um terno muito conservador, operando o painel da mesa de telefone, falando em um microfone que era a extensão de um fone de ouvido.

As vendedoras eram em sua maioria mulheres altas, esguias, de corpos e rostos magros, carnes lívidas de antigas modelos que desfilaram modas, mas cujo bom gosto e inteligência as elevara a posições mais altas do que as das suas irmãs de profissão. Elas não tinham mais necessidade de exercer a profissão. Os poucos homens em evidência também eram esguios; corpos finos, realçados por roupas bem-cortadas, gestos rápidos, posturas dançantes.

Uma música suave e romântica se espalhava pelo ambiente, em crescendos abstratamente pontuados pelos pequenos fachos de luz dos refletores em miniatura. Jason vagou entre as alas, estudando os manequins, tocando os tecidos, dando a sua própria avaliação. Uma avaliação que encobria o seu próprio espanto. Onde estava a confusão, a ansiedade que esperava encontrar naquele ponto central de mensagens de Carlos? Olhou as portas do escritório, abertas, e o único corredor, que se bifurcava. Homens e mulheres passavam casualmente por ele, andando pelo pavimento; de vez em quando paravam, conversavam, trocavam pequenas informações irrelevantes. Fofocas. Em nenhum canto daquele espaço parecia haver qualquer indicação de urgência, não havia sinal de que uma armadilha tivesse explodido perto deles, de que um matador importado — o único homem em Paris que trabalhava para Carlos e podia identificar o alvo — fora morto com um tiro na cabeça, morto na traseira de uma caminhonete blindada no Quai de la Rapée.

Era incrível! Não apenas porque a atmosfera era completamente oposta ao que ele previra; ele também não esperara encontrar um caos, longe disso. Os militantes de Carlos eram muito controlados para terem esse comportamento. Ainda assim, esperara alguma coisa. E não havia ali nenhum rosto tenso ou olhos relampejantes; nenhum movimento abrupto, que pudesse significar alarme. Nada fora do comum. O mundo elegante da haute couture continuava a girar na sua elegante órbita, sem se importar com os acontecimentos que poderiam tirá-lo de seu eixo de rotação.

Ainda assim, devia haver um telefone particular em algum lugar, e alguém, que não apenas falava por Carlos, mas que também tinha a autorização de pôr em movimento três matadores em uma única caçada. Uma mulher...

Ele a viu; tinha que ser ela. Descia a escada acarpetada. Uma mulher alta e imperiosa, com um rosto que a idade e os cosméticos tinham transformado em uma máscara fria. Foi detida no meio do caminho por um daqueles varapaus bem-vestidos, que lhe entregou um recibo de compra para a sua aprovação. Ela passou os olhos pelo papel, depois olhou para baixo, para um nervoso homem de meia-idade, que estava perto de um balcão de jóias. O olhar que endereçou-lhe foi curto, mas evidenciava muito bem a mensagem: Está bem, “mon ami”, pegue a sua bugiganga, mas pague logo a conta. Do contrário, pode ficar em maus lençóis da próxima vez. Ou pior. Posso contar a sua esposa. Em segundos a reprovação terminara e um sorriso, tão falso quanto a sua máscara, apareceu na boca larga. Com um aceno de cabeça e um gesto floreado, a mulher pegou o lápis do vendedor e rubricou o cartão de venda. Depois continuou a descer a escada, o vendedor a seguia, conversando. Era evidente que ele a lisonjeava. No último degrau ela se virou, passou a mão na coroa de cabelos escuros e raiados e deu uma batidinha no pulso do vendedor, num gesto de agradecimento.

Havia pouca placidez em seus olhos. Pareciam bem cientes de tudo, como nenhum par de olhos que ele já vira antes, exceto daqueles que ele conhecera em Zurique, por trás dos óculos de aro dourado.

Instinto. Ela era o seu objetivo. Restava pensar como chegar a ela. Os primeiros movimentos da pavana tinha que ser muito sutis, comedidos, mas de modo a chamar-lhe a atenção. Ela tinha que vir até ele.

Os minutos seguintes deixaram Jason atônito — isto é, ficou atônito consigo mesmo. O termo era “fazer o papel de”, e ele entendia muito bem disso. Mas o que mais o impressionava era a facilidade com que escorregava para um personagem que lhe era tão distante — do que ele conhecia de si mesmo. Onde há poucos minutos fizera algumas aprovações, agora inspecionava os artigos, tirava algumas roupas dos cabides, segurava os tecidos para examiná-los contra a luz. Observava com cuidado as costuras, os botões e as casas, passava os dedos nas golas, afofando-as e depois soltando-as. Era um conhecedor da boa roupa, um comprador experimentado, que sabia o que queria e se desfazia rapidamente daquilo que lhe desagradava. Não examinava as fichas de preço; obviamente, não tinham nenhum interesse para ele.

Esse fato despertou o interesse da imperiosa mulher, que continuou a olhar em sua direção. Ela era uma vendedora, seu corpo côncavo, flutuando sobre o carpete, se aproximou dele. Ele sorriu com cortesia, mas disse que preferia escolher sozinho. Menos de trinta segundos depois ele estava atrás de três manequins, cada um vestido com as mais caras criações que se encontravam na Les Classiques. Levantou as sobrancelhas, fez um muxoxo de aprovação com a boca enquanto espiava por entre os manequins para a mulher que estava por trás do balcão. Ela sussurrou ao vendedor que antes falara com ela; depois, balançou a cabeça e encolheu os ombros..

Bourne permaneceu com as mãos nos quadris, mexendo com as bochechas, a respiração calma, enquanto os olhos corriam de um manequim a outro; era um homem incerto, pronto para fazer uma escolha. E um cliente em potencial, especialmente um cliente que não olhava os preços e que estava precisando do auxílio da pessoa mais capaz que estava ali por perto — ele estava irresistível. A suntuosa mulher passou a mão nos cabelos e graciosamente venceu os corredores em sua direção. A pavana chegara ao fim do seu primeiro movimento; os dançarinos se curvaram, preparando-se para a gavota.

— Vejo que o senhor está em dúvida quanto aos nossos melhores modelos, monsieur — disse a mulher em inglês, presumindo que esta fosse a sua língua, julgamento feito por olhos muito experientes.

— Acredito que sim — respondeu Jason. — Vocês têm uma coleção muito interessante, mas a gente tem sempre que investigar, selecionar, não é?

— A eterna e inevitável escala de valores, monsieur. No entanto, todas as nossas criações são exclusivas.

— Cela va sans dire, madame.

— Ah, vous parlez français?

— Un peu. Razoavelmente.

— É americano?

— Raramente vou para lá — disse Bourne. — Estes modelos são exclusivos?

— Oh, sim. Nosso desenhista é contratado exclusivo; tenho certeza de que já ouviu falar nele: René Bergeron.

Jason enrugou a testa. — Sim. Já ouvi. É muito respeitado, mas nunca fez uma aparição internacional, não é?

— Fará, monsieur. É inevitável; a sua reputação cresce a cada nova estação. Há poucos anos trabalhou para St. Laurent, depois para a Casa Givenchy. Alguns dizem que ele fazia bem mais do que apenas cortar os modelos, se o senhor me entende.

— Não é difícil compreender.

— E como aqueles mexeriqueiros tentaram derrubá-lo, deixá-lo para trás! É vergonhoso! Porque ele adora as mulheres, exalta-as, e não as veste como meninos, vous comprenez?

— Je vous comprends parfaitement.

— Ele será mundialmente conhecido um dia, em breve, e eles nem serão capazes de chegar à bainha das suas criações. Pense nestas criações como trabalhos de um futuro mestre, monsieur.

— É muito convincente. Vou levar estes três. Creio que são manequim 42?

— Quarenta e quatro, monsieur. Serão ajustados, é claro.

— Acho que não, mas tenho certeza de que há bons costureiros em Cap-Ferrat.

— Naturellement — concordou a mulher rapidamente.

— E também... — Bourne hesitou, novamente enrugando a testa. — E já que estou aqui, para economizar tempo selecione mais alguns para mim, nesta mesma linha. Com estampas diferentes, modelos diferentes, mas relacionados a esse tipo, se isso faz sentido.

— É um bom sentido, monsieur.

— Obrigado, fico muito grato. Fiz uma longa viagem, vim das Baamas, estou exausto.

— Gostaria de sentar-Se, então?

— Na verdade, gostaria de um bom drinque.

— Pode ser conseguido, é claro. E quanto à forma de pagamento, monsieur...?

— Je paierai cash, creio — disse Jason, certo de que a compra paga em dinheiro seria notada pelos administradores da Les Classiques. — Cheques e contas são como rastros de caça nas florestas, não é?

— O senhor é sábio e perspicaz. — O rígido sorriso quebrou novamente a máscara, os olhos dissimulados. — Sobre o drinque, por que não no meu escritório? É bem reservado, poderá relaxar, e lhe trarei algumas seleções para a sua aprovação.

— Esplêndido.

— E quanto ao preço, monsieur?

— Les meilleurs, madame.

— Naturellement. — Uma mão pálida e fina lhe foi estendida. — Sou Jacqueline Lavier, sócia da Les Classiques.

— Obrigado. — Bourne estendeu-lhe a mão, mas não se apresentou. Logo daria um nome mas não em lugar assim tão público. E oportunamente. Por enquanto, o dinheiro era a sua apresentação. — Seu escritório? O meu está a milhares de milhas daqui.

— Por aqui, monsieur. — Aquele rígido sorriso mais uma vez apareceu, quebrando a máscara facial, como se fosse uma camada fina de gelo se rompendo. Madame Lavier fez um gesto em direção à escada, O mundo da haute couture continuava, sua órbita não fora interrompida pela morte no Quai de la Rapée.

Não havia interrupção — isso era um pouco perturbador para Jason e, também, muito estranho. Ele estava convicto que a mulher ao seu lado era portadora de comandos mortais, abortados com um tiro seu há uma hora. As ordens teriam sido dadas por um homem sem rosto, que exigia obediência ou morte. No entanto, não havia a mínima indicação de que uma mecha de seu cabelo perfeitamente arrumado tivesse sido perturbada por uma mão de dedos nervosos; nenhuma palidez na máscara cinzelada que pudesse demonstrar medo. Mesmo assim, não havia ninguém superior a ela lá na Les Classiques, ninguém mais que pudesse ter um número de telefone particular em um escritório particular. Parte de uma equação estava faltando... mas a outra já fora perturbadoramente confirmada.

Ele mesmo, O camaleão. A charada funcionara. Ele estava no campo inimigo, convencido, sem dúvida alguma, de que não fora reconhecido. Todo esse episódio tinha uma qualidade déjá vu. Já fizera essas coisas antes, já experimentara as sensações dessa mesma ação. Era um homem percorrendo uma floresta desconhecida e, mesmo assim, instintivamente, conhecia o seu caminho, tinha certeza de saber onde as armadilhas estavam e como evitá-las. O camaleão era um perito.

Chegaram até a escada e começaram a subir os degraus. No alto, à direita, o operador de meia-idade, vestido de forma bem conservadora, falava suavemente ao microfone do seu aparelho, acenando com a cabeça grisalha, quase cansado, como se estivesse assegurando a quem estava na linha que o mundo deles era tão sereno como devia ser.

Bourne parou no sétimo degrau. Foi uma pausa involuntária. A cabeça daquele homem vista de trás, o perfil do rosto, o cabelo cinza já ralo — o jeito de os fios caírem por cima da orelha... Já vira aquele homem antes! Em algum lugar no passado, no seu esquecido passado. Ele podia se lembrar. Aquela figura surgia da escuridão... com alguns raios de luz. Explosões, névoas; ventos açoitantes, prolongados e seguidos de silêncios cheios de tensão. O que era? Onde? Por que a dor voltara-lhe aos olhos de novo? O homem de cabelos grisalhos começou a se virar na sua cadeira giratória. Jason desviou o olhar antes que ele o visse.

— Vejo que o senhor está impressionado pela nossa mesa telefônica — disse Madame Lavier — É uma coisa que acredito combinar muito bem com Les Classiques e que a distingue das demais lojas de Saint-Honoré.

— De que forma? — perguntou Bourne, enquanto continuavam a subir os degraus. A dor na vista fazia com que ele piscasse muito.

— Quando um cliente telefona a Les Classiques, não é atendido por uma mulher de voz impessoal; ao contrário, é atendido por um cavalheiro que tem todas as informações na ponta da língua.

— Um toque de classe.

— Outros cavalheiros também pensam assim — acrescentou ela. — Sobretudo quando fazem compras por telefone, quando preferem mantê-las confidencialmente. Não há nenhum rastro em nossa floresta, monsieur.        

Alcançaram o espaçoso escritório de Jacqueline Lavier. Era a toca de uma eficiente executiva. Uma grande quantidade de papel formava diversas pilhas separadas sobre a mesa. Em um cavalete encostado à parede estavam alguns desenhos em aquarela, alguns apenas começados, outros deixados intactos, claramente rejeitados. As paredes eram cheias de fotos do beautiful people, cuja beleza quase sempre é escondida pelas bocas escancaradas, de sorrisos tão falsos quanto o da máscara que ocupava aquele escritório. Havia uma certa qualidade vulgar no ar perfumado. Aqueles eram os alojamentos de uma esperta tigresa velha, rápida no ataque e fulminante se alguém a ameaçasse, ameaçasse as suas possessões ou a impedisse de saciar os seus apetites. Mas ela era bem-disciplinada; tudo levado em conta, era uma boa ligação para Carlos.

Quem era aquele homem na mesa do telefone? Onde ele o vira antes?

Foi-lhe oferecido um drinque de uma bandeja com muitas garrafas; escolheu um brandy.

— Por favor, sente-se, monsieur. Vou pedir a ajuda do próprio René, se puder encontrá-lo.

— É muita gentileza sua, mas estou certo de que o que a senhora escolher será bastante satisfatório. Tenho um certo instinto em reconhecer o bom gosto; o seu está em todos os recantos deste escritório. Gostei dele.

— O senhor é muito generoso.

— Só quando tenho certeza — disse Jason, ainda em pé. — Na realidade, gostaria de apreciar estas fotos. Vejo um bom número de conhecidos, até amigos. Uma porção destes rostos passam pelos bancos das Baamas com certa freqüência.

— Estou certa que sim — concordou Lavier em um tom que deixava transparecer respeito por aquelas avenidas das finanças. — Não devo me demorar, monsieur.

Não iria se demorar, pensou Bourne, logo que a sócia da Les Classiques saiu do escritório. Mine. Lavier não permitiriaque um alvo cansado e rico pudesse ter tempo para pensar. Logo voltaria com os mais dispendiosos modelos e criações que pudesse arrebanhar. Assim, se naquela sala houvesse alguma coisa capaz de lançar alguma luz sobre a intermediária de Carlos — ou sobre a sua operação assassina —, devia ser encontrada rapidamente. E se estivesse lá, estaria próxima à mesa.

Jason circulou em volta da cadeira imperial encostada à parede, fingindo profundo interesse pelas fotos, mas se concentrou na mesa. Havia faturas, recibos, e contas atrasadas juntamente com promissórias cobradas, à espera da assinatura de Lavier. Um livro de endereços estava aberto, havia quatro nomes na página. Aproximou-se para ver mais claramente. Eram nomes de companhia, os contatos individuais estavam postos entre chaves, com a posição da pessoa sublinhada. Gostaria de memorizar cada nome de companhia, cada um dos seus contatos. Estava quase conseguindo quando seus olhos foram atraídos por um cartão de endereços. Apenas uma parte aparecia, o resto estava escondido debaixo do telefone. E havia mais alguma coisa — quase imperceptível. Uma fita adesiva transparente estava colada na beira do cartão, prendendo-o no lugar. A própria fita era relativamente nova e fora pregada recentemente sobre o papel pesado e a madeira lustrosa. Estava limpa, não havia manchas nem dobraduras nas margens ou sinais de estar lá há muito tempo.

Instinto.

Bourne levantou o telefone para afastá-lo de cima do cartão. O telefone tocou. A campainha vibrava em sua mão, um som enervante. Recolocou-o sobre a mesa e afastou-se. Imediatamente um homem em mangas de camisa entrou pela porta aberta, vindo do corredor. Parou, olhou espantado para Bourne, os olhos assustados, mas cauteloso, tentando evitar qualquer demonstração. O telefone tocou pela segunda vez, o homem foi até a mesa e atendeu-o.

— Alô? — Ouviu em silêncio, a cabeça baixa, concentrando-se no que ouvia. Era queimado de sol, musculoso, com idade indeterminada, a pele queimada de sol escondia a idade. O rosto era tenso, os lábios finos, o cabelo, tosado e grosso, era castanho-escuro, os fios disciplinados. Os tendões dos braços se moviam por baixo da carne enquanto ele transferia o aparelho de uma mão para a outra, falando asperamente. — Pas ici. Sais pas. Téléphonez plus tard... — Desligou o telefone e olhou para Jason. — Où est Jacqueline?

— Um pouco mais devagar, por favor — disse Bourne, mentindo em inglês. — O meu francês é um pouco limitado.

— Sinto — respondeu o homem bronzeado. — Estou à procura de Madame Lavier.

— A dona?

— O título serve. Onde está ela?

— Esgotando. os meus fundos. — Jason sorriu, levando o copo aos lábios.

— Oh? E quem é o senhor, monsieur?

— Quem é você?

O homem estudou Bourne atentamente. — René Bergeron.

— Oh, senhor! — exclamou Jason. — Ela está a sua procura. O senhor é muito bom, senhor Bergeron. Ela me disse que eu devia encarar as suas criações como obras de um mestre do futuro. — Bourne sorriu novamente. — O senhor é a razão pela qual eu talvez tenha que telegrafar para as Baamas pedindo que me mandem uma grande soma em dinheiro.

— O senhor é muito gentil, monsieur. E peço-lhe desculpas por ter entrado assim.

— Foi melhor o senhor ter atendido o telefone. A escola Berlitz me considera um fracasso.

— Compradores, estoquistas, são todos uns verdadeiros idiotas. Com quem, monsieur, tenho a honra de falar?

— Briggs — disse Jason, sem ter a mínima idéia de onde lhe viera o nome, e atônito que lhe tivesse vindo à mente tão depressa e com tanta naturalidade. — Charles Briggs.

— É um prazer conhecê-lo. — Bergeron estendeu a mão, o aperto foi forte. — Disse que Jacqueline estava à minha procura?

— Por minha causa, creio.

— Vou procurá-la. — O desenhista deixou a sala rapidamente.

Bourne aproximou-se da mesa, mantendo os olhos na porta; depois pegou o telefone. Empurrou o aparelho um pouco para o lado e deixou à vista o cartão. Havia dois números de telefone: o primeiro podia reconhecer como um número de Zurique; o segundo era de Paris.

Instinto. Ele estava certo, e o pedaço de fita transparente era o único sinal de que precisara. Olhou bem para os números e os memorizou. Depois pôs o telefone de novo no lugar e afastou- se da mesa.

Acabara de fazer isso quando Madame Lavier entrou na sala com uma meia dúzia de vestidos no braço. — Encontrei René na escada. Ele aprovou a minha seleção com entusiasmo. E também me disse que o seu nome é Briggs, monsieur.

— Eu mesmo devia ter-lhe dito — disse Bourne, sorrindo em resposta à voz amuada de Lavier. — Mas não me lembro de a senhora ter perguntado.

— “Rastros na floresta”, monsieur. Aqui está, trouxe-lhe uma festa! — Ela separou os vestidos, colocando-os cuidadosamente em várias cadeiras. — Realmente acredito que estão entre as mais finas criações que René nos trouxe.

— Trouxe? Ele não trabalha aqui, então?

— É uma forma de falar. Seu ateliê fica no final do corredor, mas é uma sagrada sacristia. Até mesmo eu tremo quando entro lá.

— São magníficos — continuou Bourne, passeando os olhos de um para outro. — Mas não quero sufocá-la com tudo isto; quero apenas pacificá-la — acrescentou, apontando para três vestidos. — Levarei estes.

— Uma boa seleção, monsieur Briggs!

— Ponha-os na mesma caixa, por favor.

— Naturalmente. Ela é de fato uma mulher de sorte.

— Uma boa companheira, mas muito criança. Uma criança mimada, creio. No entanto, sei que também estive fora muito tempo e não lhe dei muita atenção; dessa forma, acho que posso fazer as pazes. Esta é uma razão por que a mandei para Cap Ferrat. — Sorriu, pegando a carteira Louis Vuitton. — La facture, si il vous plate?

— Vou mandar uma das moças expedir tudo. — Madame Lavier apertou um botão do interfone próximo ao telefone. Jason observou-a atentamente, preparando-se para comentar a chamada que Bergeron atendera logo que percebeu que os olhos da mulher se fixaram no telefone, um pouquinho fora do lugar. — Faites venir Janine — avec les robes. La facture aussi. — Empertigou-se. — Outro brandy, monsieur Briggs?

— Merci bien. — Bourne estendeu-lhe o copo. Ela o pegou e foi até o bar. Jason sabia que ainda não era hora de pôr em prática o que tinha em mente; logo chegaria a ocasião — assim que ele lhe entregasse o dinheiro —, mas não agora. Podia, no entanto, continuar a construir as fundações com a sócia da Les Classiques. — Esse camarada Bergeron — disse ele — tem contrato exclusivo com a casa?

Madame Lavier virou-se com o copo na mão. — Oh, sim. Somos uma família muito unida aqui.

Bourne aceitou o brandy, agradeceu com a cabeça a bebida e sentou-se em uma poltrona em frente à mesa. — Esse é um acordo bem positivo — disse casualmente.

A vendedora alta e magra com quem ele antes falara entrou no escritório com um livro de vendas na mão. As instruções foram dadas rapidamente, algumas cifras a mais, as roupas arrumadas e separadas enquanto o livro de vendas passava de mãos. Lavier entregou-o para que Jason conferisse. — Voici la facture, monsieur — disse ela.

Bourne balançou a cabeça, dispensando a inspeção. — Con bien? — perguntou.

— Vingt-mille, soixante francs, monsieur — respondeu a sócia da Les Classiques, observando a sua reação de pássaro precavido.

Não houve qualquer reação. Jason simplesmente tirou cinco notas de cinco mil francos e entregou-lhe. Ela assentiu com a cabeça e deu o dinheiro para a esguia vendedora, que caminhou cadavericamente para fora do escritório, levando os vestidos.

— Tudo será embrulhado e trazido de novo para cá, juntamente com o seu troco. — Lavier foi até a mesa e sentou-se. — O senhor está a caminho de Ferrat, então. Vai ser adorável.

Ele havia pago, a hora chegara. — Uma última noite em Paris antes de voltar para o jardim de infância — respondeu Jason levantando o copo e fazendo um brinde zombando de si mesmo.

— Sim, o senhor mencionou que sua amiga é bastante jovem.

— Uma criança, foi o que eu disse, e é isso o que ela é. É uma boa companhia, mas acho que prefiro a companhia de mulheres mais maduras.

— O senhor deve gostar muito dela — contestou Lavier, tocando o seu cabelo perfeitamente bem-penteado, aceitando a lisonja. — O senhor lhe compra coisas tão adoráveis e — francamente — tão caras!

— Um preço menor, considerando o que ela deve tentar escolher.

— Realmente.

— Ela é a minha esposa, a terceira para ser exato, e é preciso manter as aparências nas Baamas. Mas nem tanto lá nem tanto cá; minha vida está equilibrada.

— Tenho certeza que sim, monsieur.

— Falando nas Baamas, me ocorreu um pensamento há poucos minutos. Foi por isso que lhe perguntei a respeito de Bergeron.

— Qual foi?

— Pode pensar que sou impetuoso. Mas asseguro-lhe que não o sou. Mas quando alguma coisa me toca, gosto de explorá-la. Já que Bergeron é seu criador exclusivo, a senhora já pensou em abrir uma filial nas ilhas?

— Nas Baamas?

— E mais para o Sul. Na direção do Caribe, talvez.

— Monsieur, Saint-Honoré sozinha já é mais do que podemos manter. Terra malcuidada fica alqueivada, como dizem.

— Não teria que atendê-la de perto; não da forma como pensou. Uma concessão aqui, outra ali, as criações podem ser exclusivas, os donos das casas podem ganhar uma percentagem básica. Apenas uma butique ou duas se espalhando, mas, é claro, com muita cautela.

— Isso exige capital considerável, monsieur Briggs.

— Preços fixos, no início. O que a senhora deve chamar de quotas. São altos, mas não proibitivos. Nos hotéis mais finos e clubes depende apenas de como lidar com a administração.

— E o senhor os conhece?

— Muito bem. Como lhe disse, estou apenas fazendo uma observação, mas acho que a minha idéia tem um certo mérito. As suas etiquetas terão uma certa distinção — Les Classiques, Paris, Baamas... Caneel Bay, talvez. — Bourne engoliu o que restava do brandy. — Mas, provavelmente, a senhora me toma por louco. Considera tudo isso apenas conversa... Embora eu já tenha conseguido fazer uns dólares assumindo riscos que me aparecem de repente, assim, na excitação de um momento.

— Riscos? — Jacqueline Lavier passou de novo a mão nos cabelos.

— Não jogo fora as minhas idéias, madame. Em geral eu as estimulo.

— Sim, entendo. Como o senhor diz, a idéia em si tem bastante mérito.

— Creio que sim. É claro, eu gostaria de saber qual a espécie de acordo que a senhora tem com Bergeron.

— Tudo poderia ser arranjado, monsieur.

— Digo-lhe uma coisa — disse Jason. — Se está livre, vamos conversar sobre isso à noite, podemos jantar. É a minha última noite em Paris.

— E o senhor prefere a companhia de mulheres mais maduras — concluiu Jacqueline Lavier, a máscara quebrada em um sorriso; de novo o gelo quebrou-se em torno dos olhos, agora mais harmoniosamente.

— C’est vrai, madame.

— Pode ser — disse ela estendendo a mão para pegar o telefone.

O telefone. Carlos.

Ele a quebraria, pensou Bourne. Ele a mataria se fosse preciso. Mas saberia a verdade.

Marie caminhou no meio da multidão em direção à companhia telefônica da Rua Vaugirard. Fora ao Meurice, deixara a pasta na portaria e permanecera sentada no quarto exatamente durante vinte e cinco minutos. Até não poder mais agüentar. Acomodara-se em uma cadeira de frente para uma parede branca, pensando em Jason, naquela loucura dos últimos oito dias, que a impulsionara em um círculo de insanidade muito além do que ela mesma poderia compreender. Jason. O atencioso, amedrontador e confuso Jason Bourne. Um homem com tanta violência dentro de si e, ao mesmo tempo, estranhamente cheio de compaixão. E terrivelmente capaz de lidar com um mundo que os homens comuns não conhecem. De onde teria ele surgido? De onde teria vindo esse homem a quem ela amava? Quem o ensinara a encontrar seu caminho pelas ruas escuras e afastadas de Paris, Marselha e Zurique... ou pelas ruas do Oriente, talvez? O que seria para ele o Extremo Oriente? Como aprendera tantas línguas? Que línguas seriam? Ou língua?

Tao.

Che-sah.

Tam quan.

Era outro mundo, e ela nada conhecia a respeito dele. Mas ela conhecia Jason Bourne, ou o homem chamado Jason Bourne, e se agarrava à decência que sabia encontrar-se lá dentro. Oh, Deus, como ela o amava!

Ilich Ramirez Sanchez. Carlos. O que era ele para Jason, o que ele significava para Jason Bourne?

Chega! Gritou para si mesma, naquele quarto, sozinha. Depois, fez o que vira Jason fazer tantas vezes: levantara-se da cadeira, como se o movimento físico pudesse clarear as sombras — ou permitir que elas fossem ultrapassadas.

Canadá. Tinha que telefonar para Ottawa e descobrir por que a morte de Peter — o seu assassinato — ficara em silêncio, sem nenhum comentário dos jornais. Não fazia sentido; ela se opunha àquilo com todo o seu coração. Porque Peter também era um homem decente. E fora morto por homens indecentes. Alguém poderia lhe dizer por quê. Do contrário, ela mesma comunicaria aquela morte — aquele assassinato. Gritaria alto para o mundo que conhecia, dizendo: “Façam alguma coisa!”

E, assim, deixara o Meurice, tomara um táxi para a Rua Vaugirard e pedira a ligação para Ottawa. Agora, estava à espera da ligação do lado de fora da cabine, a ira aumentando, um cigarro apagado amassado entre os dedos.. Quando a campainha tocou ela nem teve tempo de deixá-lo no cinzeiro.

A campainha tocou. Ela abriu a porta de vidro da cabine

— É você, Alan?

— Sim — foi a resposta curta.

— Alan, o que está acontecendo? Peter foi assassinado e não foi escrita nem uma única palavra em qualquer jornal ou rádio! Acho que nem a embaixada sabe disso! É como se ninguém desse a mínima! O que vocês estão fazendo?

— O que nos foi mandado. E é isso que você tem que fazer.

— O quê? Foi Peter! Ele era seu amigo! Ouça bem, Alan...

— Não! — a interrupção foi áspera. — Você, ouça. Saia de Paris. Agora! Tome o próximo avião diretamente para cá. Se tiver algum problema, a embaixada poderá solucionar — mas deve falar com o embaixador, entendeu?

— Não! — gritou Marie St. Jacques. — Não entendo! Peter foi morto e ninguém se importa! Tudo o que você está dizendo é apenas tolice burocrática! Não se envolva. Por Deus, nunca se envolva!

— Fique fora disso, Marie!

— Ficar de fora do quê? É isso que você não está me dizendo, não é? Bem, é melhor você...

— Não posso! — Alan abaixou a voz. — Não sei. Estou apenas lhe dizendo o que me mandaram dizer.

— Quem?

— Não pode fazer esta pergunta.

— Mas estou fazendo!

— Ouça, Marie. Não fui para casa nestas últimas vinte e quatro horas. Estive aqui as últimas doze horas à espera do seu telefonema. Tente me entender — não estou apenas sugerindo que você volte: são ordens do seu Governo.

— Ordens? Sem qualquer explicação?

— É assim mesmo. Só vou dizer isso. Querem que você saia daí, eles o querem sozinho... É isso que deve fazer.

— Sinto, Alan — mas não é assim. Adeus. — Bateu o telefone e logo depois segurou o pulso para fazer parar a tremedeira. Oh, Deus, ela o amava tanto! E eles estavam tentando matá-lo. Jason, meu Jason. Todos o querem morto. Por quê?

O homem classicamente vestido que estava no painel da mesa telefônica puxou a alavanca que bloqueava todas as linhas, reduzindo as chamadas a um sinal de ocupado. Fazia isso uma ou duas vezes por hora para clarear a mente e limpá-la das insanidades que fora obrigado a dizer durante os minutos antecedentes. A necessidade de cortar todas as ligações em geral lhe ocorria logo depois de uma conversa particularmente tediosa. E acabara de ter uma assim. A esposa de um deputado tentando esconder do marido o extraordinário preço de uma única compra e dividi-lo em vários pagamentos, para que o marido não desconfiasse. Demais! Precisava de alguns minutos para respirar.

A ironia o feria. Não fazia muito tempo e os outros sentavam-se à mesa telefônica para ele. Nas suas companhias em Saigon e na sala de comunicação de suas vastas fazendas, no Delta do Meckong. E ali estava ele agora, na mesa telefônica de outra pessoa, nas redondezas perfumadas de Saint-Honoré. O poeta inglês já dissera: há mais disparidades e vicissitudes na vida do que uma única filosofia pode invocar.

Ouviu risos na escada e olhou para cima. Jacqueline saía mais cedo. Sem dúvida alguma, com um dos seus célebres conhecidos cheios da nota. Não havia nenhuma dúvida quanto a isso, Jacqueline tinha grande talento para tirar ouro de uma mina bem guardada, até mesmo diamantes dos De Beers. Ele não podia ver o homem que estava com ela porque ele estava do outro lado de Jacqueline, a cabeça virada para o outro lado.

Mas depois, por um breve momento, ele o viu. Os olhos o perceberam, foi um momento curto e explosivo. O grisalho operador da mesa telefônica de repente não conseguia mais respirar. Ficou parado, num momento de descrença, olhando espantado para um rosto que já não via há anos. Um rosto que quase sempre vira no escuro, pois haviam trabalhado à noite... e mor rido à noite.

Oh, meu Deus — era ele! Ele, que aparecia de um pesadelo vivo — ou morto — de milhões de milhas. Era ele!

O homem grisalho levantou-se da mesa telefônica como se estivesse em transe. Tirou o fone da cabeça e deixou-o cair ao chão. O painel fez um ruído enquanto a mesa acendia e os chamados eram feitos sem serem recebidos, respondidos apenas pelos discordantes. Saiu da plataforma e encaminhou-se para a ala do lado, rapidamente, para ter melhor visão de Jacqueline Lavier e do fantasma que a acompanhava.

O fantasma que era um matador — mais do que qualquer outro homem que já vira. Um matador. Disseram que poderia acontecer, mas nunca acreditara em tal possibilidade. Agora acreditava neles. Aquele era o homem.

Podia vê-los claramente. Podia vê-lo. Estavam andando no centro do corredor em direção à entrada. Tinha que detê-los. Tinha que detê-la! Mas se corresse e gritasse seria morto. Uma bala na cabeça, imediatamente.

Chegaram às portas; ele abriu-as e acompanhou-a até a calçada. O homem grisalho saiu correndo do seu esconderijo pela ala do lado e foi até a janela da frente. Lá fora ele acenara para um táxi Abrira a porta, fazendo com que Jacqueline entrasse. Oh, Deus! Ela estava entrando!

O homem de meia-idade virou-se e correu o mais que pôde em direção à escadaria. Esbarrou com dois clientes espantados e uma vendedora, atirando os três para fora do seu caminho. Subiu os degraus correndo, passou pela sacada e sumiu no corredor de trás, entrando pela porta aberta do ateliê.

— René! René! — gritou, irrompendo na sala.

Bergeron levantou os olhos da prancheta, espantado. — O que é?

— Aquele homem com Jacqueline! Quem é ele? Quanto tempo esteve aqui?

— Oh? O americano, provavelmente — disse o desenhista. — Seu nome é Briggs. Uma vaca gorda; nos fez muito bem hoje; gastou bastante na loja.

— Aonde eles foram?

— Eu nem sabia que eles tinham saído.

— Ela saiu com ele!

— A nossa Jacqueline sabe se comportar, não é? Ela tem bom senso.

— É preciso encontrá-los! Encontrá-la!

— Por quê?

— Ele sabe. Ele a matará!

— O quê?

— É ele! Juro! Aquele homem é Caim!


 

— O homem é Caim — disse o Coronel Jack Manning abruptamente, como se esperasse ser contrariado por pelo menos três dos quatro civis que estavam na reunião do Pentágono, em volta da mesa. Os outros eram mais velhos do que ele e cada um se considerava o mais experimentado. Nenhum deles estava preparado para receber bem a notícia de que o exército colhera informações que as suas organizações haviam falhado em obter. Havia um quarto civil cuja opinião não contava. Era um membro do Comitê de Superintendência do Congresso e, como tal, devia ser tratado com deferência, mas não muito seriamente. — Se não nos mexermos agora — continuou Manning —, mesmo correndo o risco de tornar público tudo o que sabemos, ele pode fugir da rede novamente. Como há onze dias, quando estava em Zurique. Estávamos convencidos de que ele ainda estava lá. E, cavalheiros, é Caim.

— Isto é quase uma declaração — disse o acadêmico careca do Conselho de Segurança Nacional, enquanto lia a folha com o resumo sobre Zurique que se achava à frente de cada delegado, em cima da mesa. Seu nome era Alfred Gillette, especialista em seguro pessoal e de avaliação, considerado pelo Pentágono muito brilhante, vingativo, e com amigos em altos escalões.

— Acho isso extraordinário — acrescentou Peter Knowlton, um dos diretores associados da Agência Central de Inteligência; um homem de cinqüenta e poucos anos, que perpetuava a forma de vestir, a aparência e a atitude de um Ivy Leaguer de há trinta anos. — As nossas fontes tinham a informação de que Caim tava em Bruxelas, e não em Zurique, ao mesmo tempo — há onze dias. As nossas fontes raramente se equivocam.

— Isto é quase uma declaração — disse o terceiro civil, o único na mesa a quem Manning realmente respeitava. Era o mais velho, um homem chamado David Abbott, antigo nadador olímpico cujo intelecto combinava muito bem com seu preparo físico. Já estava na casa dos sessenta, mas ainda tinha postura ereta e a mente sagaz como sempre; a idade, no entanto, transparecia-lhe na linha do rosto, mostrando as tensões de uma vida que ele jamais revelaria. Ele sabia sobre o que estava falando, pensou o coronel. Embora fosse membro vitalício do onipotente Comitê dos Quarenta, estivera com a CIA desde as suas origens. Monge Silencioso das Operações Secretas era o apelido que lhe fora dado pelos colegas na comunidade do serviço de inteligência. — Em meus dias na Agência — continuou Abbott, entredentes — as fontes sempre estavam tanto em oposição quanto em concordância.

— Temos métodos diferentes de verificação — insistiu o diretor associado. — Com todo o respeito, senhor Abbott, mas nossos equipamentos de transmissão são quase instantâneos.

— Isso é equipamento, e não verificação. Mas não vou argumentar nem discutir; parece que temos uma discordância. Vejamos, Bruxelas ou Zurique.

— O caso de Bruxelas é incontestável — insistiu Knowlton com firmeza.

— Ouçamos — disse o calvo Gillette ajustando os óculos. — Podemos voltar ao resumo de Zurique; está bem à nossa frente. E, também, nossas fontes têm algo a oferecer, embora não esteja em conflito com Bruxelas ou Zurique. Aconteceu há seis meses.

O grisalho Abbott olhou para Gillette. — Seis meses atrás? Não me lembro de o CNS ter comunicado qualquer coisa a respeito de Caim há seis meses.

— Foi inteiramente confirmado — respondeu Gillette. — Tentamos não sobrecarregar nosso comitê com fatos infundados.

— Isso também é quase uma declaração — disse Abbott, sem precisar esclarecer.

— Congressista Walters — interrompeu o coronel olhando em direção ao homem da Superintendência —, tem alguma pergunta a fazer antes de continuarmos?

— Que diabo, sim — disse arrastadamente o cão de guarda congressista do Estado do Tennessee, os olhos inteligentes vagando pelos rostos em torno da mesa —, mas já que sou novo nisto, continue. Depois verei por onde começar.

— Muito bem, senhor — disse Manning fazendo um aceno de cabeça para Knowlton, o homem da CIA. — O que é isto sobre Bruxelas, há onze dias?

— Um homem foi morto na Place Fontainas — um comerciante de diamantes entre Moscou e o Oeste. Operava através de um ramo da Russolmaz, firma soviética sediada em Genebra e que agencia todas essas compras. Sabemos que é uma das formas que Caim usa para converter seu capital.

— O que liga esta morte a Caim? — perguntou o dúbio Gillette.

— O método, primeiro. A arma era uma agulha comprida, usada em um quarteirão cheio de gente, ao meio-dia, com precisão cirúrgica. Caim já usou este método antes.

— É certo — concordou Abbott. . — Também houve um romeno em Londres, mais ou menos há um ano; e outro, algumas semanas antes dele. Ambos estavam ligados a Caim.

— Ligados, mas não foi confirmado — objetou o Coronel Manning. — Eram ambos altos desertores políticos, podiam ter sido capturados pelo KGB.

— Ou por Caim, com menos riscos para os soviéticos — declarou o homem da CIA.

— Ou por Carlos — acrescentou Gillette alteando a voz. — Nem Carlos nem Caim dão importância à ideologia, ambos se vendem. Por que sempre que aparece uma morte de grande conseqüência a atribuímos a Caim?

— Porque sempre que o fazemos — respondeu Knowlton, e sua condescendência era aparente — é porque fontes bem-informadas não têm conhecimento de qualquer outro, o que faz com que raramente possa haver erro.

— É muito provável — disse Gillette desagradavelmente.

— Voltando a Bruxelas — interrompeu o coronel. — Se foi Caim, por que mataria um intermediário da Russolmaz? Ele o usou.

— Um intermediário mantido em sigilo — corrigi o diretor da CIA. — E por um bom número de razões, de acordo com nossos informantes, O homem era um ladrão. E por que não? A maioria dos seus clientes também o era; não podiam tirar a limpo certas coisas. Deve ter enganado Caim, e se o fez, foi sua última transação. Ou pode ter sido ingênuo a ponto de querer especular sobre a identidade de Caim. E qualquer insinuação sobre esse assunto o levaria à agulha. Ou talvez Caim apenas quisesse apagar sua pista em circulação. E mesmo sem levar em conta essas circunstâncias, mais as fontes, resta-nos pouca dúvida. Devia ser Caim.

— Haverá muito mais, logo que eu puder esclarecer Zurique — disse Manning. — Podemos continuar com o resumo?

— Um momento, por favor. —. David Abbott falou casual- mente enquanto acendia o cachimbo. — Creio ter o nosso colega do Conselho de Segurança mencionado uma ocorrência ligada a Caim que se passou há seis meses. Talvez devêssemos ouvi-lo.

— Por quê? — perguntou Gillette, os olhos de coruja por trás das lentes dos óculos sem aro. — O fator tempo tira qualquer conexão com Bruxelas ou Zurique. Também mencionei esse fato.

— Sim, mencionou — concordou o outrora formidável Monge Silencioso das Operações Secretas. — Achei, no entanto, que qualquer revisão pudesse auxiliar. Como você também disse, podemos voltar ao resumo, está a nossa frente. Mas não é tão relevante, vamos continuar com Zurique.

— Obrigado, senhor Abbott — disse o coronel. — Os senhores notarão que há onze dias quatro homens foram mortos em Zurique. Um deles era um vigia em uma área de estacionamento próxima ao Rio Limmat. Do que se pode presumir que ele não estava envolvido com as atividades de Caim, mas foi enredado nelas. Dois outros foram encontrados em uma rua sem saí da, no lado Oeste da cidade; aparentemente, são mortes não relacionadas uma à outra, exceto pela quarta vítima. Ela está ligada com estes homens mortos — todos três faziam parte da rota Zurique-Munique, do submundo — e está, sem dúvida alguma, em conexão com Caim.

— É Chernak — disse Gillette, lendo o resumo. — Enfim, suponho que seja Chernak. Reconheço o nome e de alguma forma o associo com a ficha de Caim.

— E deve — respondeu Manning. — Isso primeiro apareceu num relatório G-Dois, há dezoito meses, e veio à baila novamente há um ano.

— Seis meses atrás, então — interpôs-se Abbott, devagar, olhando para Gillette.

— Sim, senhor — continuou o coronel. — E se já existiu algum exemplo do que comumente chamam de escória-da-terra, esse era Chernak. Durante a guerra era recruta tcheco em Dachau, um interrogador trilíngile, tão brutal quanto os guardas do campo. Mandou poloneses, eslovacos e judeus para os chuveiros da morte depois das sessões de tortura, nas quais extraía — e fabricava — “incriminações” que os comandantes de Dachau queriam ouvir. Fazia qualquer coisa em troca de favores dos seus superiores, e os mais sádicos parceiros eram escolhidos para acompanhar as suas experiências. O que não perceberam era que ele estava catalogando as experiências deles. Depois da guerra fugiu, perdeu as penas em um terreno minado e ainda assim conseguiu sobreviver muito bem com as suas extorsões do que sabia de Dachau. Caim o encontrou e o usou como intermediário para pagamentos das suas mortes.

— Agora espere um pouco! — objetou Knowlton energicamente. — Já vimos toda essa matéria sobre Chernak. Se você se lembra, foi a Agência quem primeiro o descobriu; já podíamos tê-lo denunciado há muito tempo se o Estado não tivesse interferido no interesse de alguns poderosos oficiais anti-soviéticos do Governo de Bonn. Você quer dizer que Caim usou Chernak; mas não tem certeza de nada mais do que nós.

— Nós sabemos — disse Manning. — Há sete meses e meio recebemos uma informação confidencial sobre um homem que tem um restaurante chamado Drei Alpenhäuser. Foi-nos dito que ele era um intermediário entre Caim e Chernak. Mantivemo-lo sob observação por várias semanas, mas nada foi descoberto. Era uma figura menor do submundo de Zurique, isso era tudo. Não o vigiamos muito, não o suficiente. — O coronel fez uma pausa, sentindo-se muito satisfeito porque todos os olhos estavam postos nele. — Quando soubemos da morte de Chernak, negociamos. Há cinco noites, dois dos nossos homens se esconderam no Drei Alpenhäuser, depois que o restaurante fechou. Encurralaram o dono e o acusaram de negociar com Chernak, de trabalhar para Caim; fizeram um diabo de show. Os senhores bem podem imaginar o choque que tiveram quando o homem caiu, literalmente caiu, aos seus pés, de joelhos, pedindo para ser protegido. Admitiu que Caim estava em Zurique na noite em que Chernak foi morto e que, de fato, ele vira Caim naquela noite e que Chernak aparecera na conversa. E de forma bem negativa.

O militar fez nova pausa, o silêncio foi preenchido por um assobio baixo e lento de David Abbott, o cachimbo perto do seu rosto pétreo. — Agora, isto é uma declaração — disse o Monge baixinho.

— Por que a Agência não foi notificada dessa informação que o senhor recebeu há sete meses? — perguntou Knowlton, da CIA, acremente.

— Eu não a aprovara.

— Em suas mãos; teria sido diferente nas nossas.

— É possível. Admiti que não ficamos com ele por muito tempo. O poder humano é limitado. Quem de nós pode manter indefinidamente uma vigilância improdutiva?

— Podíamos tê-la dividido, se soubéssemos.

— E podíamos ter-lhe poupado o tempo que gastou em formar o seu arquivo de Bruxelas se tivéssemos sido informados disso.

— De onde veio a informação? — perguntou Gillette, interrompendo com impaciência, os olhos grudados em Manning.

— Foi anônima.

— Você combinou assim? — A expressão de pássaro de Gillette escondia o seu espanto.

— Era uma das razões pelas quais a vigilância inicial foi limitada.

— Sim, é óbvio, mas você quer dizer que nunca tentou descobrir de onde vinha?

— Claro que sim — replicou o coronel, irritado.

— Aparentemente sem muito entusiasmo — continuou Gillette iradamente. — Nunca lhe ocorreu que alguém em Langley, ou no Conselho, pudesse ter ajudado, pudesse ter preenchido esta falha? Concordo com Peter. Devíamos ter sido informados.

— Há uma razão pela qual não foram. — Manning respirou profundamente; em ambientes menos militares isso teria sido interpretado como um suspiro. — O informante deixou bem claro que se chamássemos qualquer outro serviço, ele não voltaria a fazer nenhum contato novamente. Achamos que tínhamos que nos ater a isso; como já fizemos antes.

— O que você disse? — Knowlton deixou de lado a folha do resumo e olhou espantado para o oficial do Pentágono.

— Não é nenhuma novidade, Peter. Cada um de nós tem as suas próprias fontes e as protege.

— Estou ciente disso. Foi por isso que vocês não foram informados a respeito de Bruxelas. Os dois parasitas nos disseram para deixar o Exército de fora.

Silêncio. Quebrado pela voz acre de Alfred Gillette, do Conselho de Segurança. — Qual é a freqüência desse “já fizemos antes”, coronel?

— O quê? — Manning olhou para Gillette, mas consciente de que David Abbott olhava para ambos com grande interesse.

— Gostaria de saber quantas vezes lhes foi dito para manter as suas fontes em sigilo. Refiro-me a Caim, é claro.

— Algumas vezes, acho.

— Acha?

— A maioria das vezes.

— E você, Peter? Como tem sido com a Agência?

— Fomos muito limitados em termos de divulgação em profundidade.

— Pelo amor de Deus, o que significa isso? — A interrupção veio do mais inesperado membro da conferência: o congressista da Superintendência. — Não me entendam mal, ainda nem comecei. Quero apenas acompanhar a linguagem. — Virou-se para o homem da CI — O que foi que disse? O quê em profundidade?

— Divulgação, congressista Walters; está em todo o fichário de Caim. Corremos o risco de perder nossos informantes se os levamos ao conhecimento de outras unidades de serviço de informação. Asseguro-lhe, é um comportamento normal.

— Soa como se vocês estivessem pondo uma novilha em um tubo de ensaio.

— Quase com os mesmos resultados — acrescentou Gillette. — Sem perigo de contaminar ou corromper a sua descendência. E, visto por outro ângulo, sem perigo de cruzar arriscando-se a obter desvios na pureza da raça.

— Um belo jogo de frases — disse Abbott, com o rosto enrugado e áspero — mas não estou certo de entendê-lo.

— Eu diria que está bem claro — replicou o homem do Conselho Nacional de Segurança, olhando para o Coronel Manning e Peter Knowlton. — Os dois ramos mais ativos do serviço de inteligência do país tinham informações sobre Caim — durante estes três últimos anos — e não houve qualquer cruzamento entre os ramos à procura das origens dessas informações ou de sua fraude. Apenas recebemos todas as informações como bona fide data, as guardamos e aceitamos como válidas.

— Bem, já estou por aqui há um bom tempo — talvez até muito tempo, acho — mas não há nada aqui que eu já não tenha ouvido antes — disse o Monge. — Os informantes são pessoas muito astutas e defensivas; guardam os seus contatos com ciúme. Nenhum deles está nesse negócio por caridade, apenas pelos ganhos e pela sobrevivência.

— Creio que o senhor está subestimando o meu ponto de vista — disse Gillette, enquanto tirava os óculos. — Eu disse anteriormente que eu estava alarmado com tantos assassinatos recentes que estão sendo atribuídos a Caim — atribuídos aqui a Caim — quando me parece que o assassino mais completo dos nossos tempos — e talvez de toda a história — tenha sido relegado a um papel relativamente secundário. Acho que isso não está certo. Creio que Carlos é o homem em quem devíamos nos concentrar. O que aconteceu a Carlos?

— Questiono o seu julgamento, Alfred — disse o Monge.

— O tempo de Carlos já passou. Caim está atuando agora. A velha ordem mudou; há um novo tubarão e, suspeito, muito mais ardiloso e voraz se movendo sob essas águas de hoje.

— Não posso concordar com isso — disse o homem da Segurança Nacional, com os olhos de coruja sondando o mais velho funcionário da comunidade do serviço de inteligência. — Desculpe-me, David, mas isso me espanta. É como se o próprio Carlos estivesse manipulando este comitê, para desviar a nossa atenção dele e nos fazer concentrar em assunto de menor importância. Estamos gastando todas as nossas energias em busca de um tubarão de praia, sem dentes, enquanto o cabeça-de-martelo cruza as águas em completa liberdade.

— Ninguém está querendo se esquecer de Carlos — objetou Manning. — Ele simplesmente não tem andado tão ativo quanto Caim.

— Talvez — disse Gillette friamente — isso seja exatamente o que Carlos quer de nós, ou quer que acreditemos. E, por Deus, estamos acreditando.

— Pode duvidar? — perguntou Abbott. — O arquivo dos feitos de Caim é desconcertante.

— Posso eu duvidar disso? — repetiu Gillette. — Esta é a pergunta, não é? Mas algum de nós pode ter certeza? Essa também é uma pergunta válida. Agora descobrimos que o Pentágono e a Agência Central de Inteligência têm literalmente operado independentemente, sem mesmo conferir a autenticidade de suas fontes.

— Um costume raramente transgredido nesta cidade — disse Abbott, deleitado com a situação.

Novamente o congressista da Superintendência interrompeu. — O que está tentando dizer, senhor Gillette?

— Gostaria de ter maiores informações sobre as atividades de alguém chamado Ilich Ramirez Sanchez. Que é...

— Carlos — disse o congressista. — Lembro-me da leitura que fiz. Entendo. Obrigado. Continuem, cavalheiros.

Manning falou rapidamente. — Podemos voltar a Zurique, por favor? A nossa missão agora é ir em busca de Caim de novo. Podemos dar a nova, espalhá-la através do Verbrecherwelt, recolher todas as informações que temos, pedir a cooperação da polícia de Zurique. Não podemos mais perder outro dia. O homem que está em Zurique é Caim.

— Então, o que havia em Bruxelas? Knowlton, da CIA, fez a pergunta para si mesmo e para os que estavam à mesa. — O método era de Caim, os informantes não se equivocariam. Qual seria o propósito?

— Dar-lhe informações falsas, é óbvio — disse Gillette. — E antes que tomemos qualquer providência drástica com relação a Zurique, sugiro que cada um dos senhores dê uma olhada nos arquivos de Caim e reexamine cada fonte que lhe tenha sido dada. Façam com que todas as estações européias recolham cada informante que tenha aparecido miraculosamente com informações. Tenho a impressão de que podem encontrar algo inesperado: a fina mão latina do nosso Ramirez Sanchez.

— Já que insiste tanto em esclarecimentos, Alfred — interrompeu Abbott —, por que não nos conta sobre aquela ocorrência não-confirmada de seis meses atrás? Parece que estamos enrascados aqui; talvez possa nos ajudar.

Pela primeira vez durante a reunião, o abrasivo delegado do Conselho de Segurança Nacional parecia hesitar. — Recebemos uma informação, lá por meados de agosto, de uma fonte confiável, em Aix-en-Provence, de que Caim estava a caminho de Marselha.

— Agosto? — exclamou o coronel. — Marselha? Foi Leland! O Embaixador Leland foi morto a tiros em Marselha. Em agosto!

— Mas não foi Caim quem usou aquele rifle. Foi uma morte feita por Carlos; isso foi confirmado. As marcas dos tiros eram as mesmas de tiros anteriores, e foram feitas três descrições de um homem de cabelos escuros no terceiro e quarto andares do armazém, com uma sacola. Nunca houve qualquer dúvida de que Leland foi assassinado por Carlos.

— Por Cristo — berrou o oficial. — Isso foi depois do fato, depois da morte! Não importa de quem, mas havia um contrato sobre Leland... Isso não lhe ocorreu antes? Se tivéssemos sabido de Caim, poderíamos ter protegido Leland. Ele era propriedade militar! Maldição, podia estar vivo hoje!

— Muito improvável — replicou Gillette, calmamente. — Leland não era a espécie de homem capaz de morar em um abrigo. E de acordo com o seu estilo de vida, qualquer observação sobre isso não surtiria efeito algum. Além disso, se nossa estratégia tivesse sido conjunta, avisar Leland teria sido contra-producente.

— Por quê? — perguntou o Monge rispidamente.

— Esta é a sua versão. A nossa fonte devia estabelecer contato com Caim entre meia-noite e três horas, na Rua Sarrasin, no dia 23 de agosto. O episódio só foi acontecer no dia 25. Como estou dizendo, se tivéssemos agido em conjunto, teríamos pegado Caim. Mas não foi assim. Caim nunca apareceu.

— E a sua fonte insistiu em cooperar apenas com você — disse Abbott. — Se todos os demais fossem excluídos.

— Sim — acenou com a cabeça Gillette, tentando esconder o seu embaraço. — No nosso julgamento, o risco de Leland fora eliminado — o que em termos de Caim deu certo — e as vantagens para capturar Caim seriam maiores do que nunca. Finalmente encontramos alguém desejoso de vir identificar Caim. Algum dos senhores teria agido de forma diferente?

Silêncio. Desta vez quebrado pela entrada do astuto congressista de Tennessee.

— Cristo Todo-Poderoso... Que bando de tapeadores.

Silêncio, rompido pela voz pensativa de David Abbott.

— Posso louvá-lo, senhor, por ser o primeiro homem honesto mandado para cá vindo das Montanhas. O fato de não estar oprimido com a atmosfera rarefeita destes ambientes altamente selecionados não nos passa despercebido. É alentador.

— Acho que o congressista não captou completamente a sensibilidade do...

— Oh, cale-se, Peter — disse o Monge. — Creio que o congressista quer dizer alguma coisa.

— Apenas como sugestão — disse Walters. — Acho que todos são de maioridade; supõe-se portanto que saibam o melhor. Supõe-se que sejam capazes de manter conversas inteligentes, de trocar informações, respeitar os assuntos confidenciais e procurar soluções comuns. Mas, em vez disso, parecem um bando de garotos pulando dentro de um parque disputando a posse de um anel de latão barato. Não é uma boa forma de gastar o dinheiro de quem paga impostos.

— O senhor está simplificando muito, congressista, interrompeu Gillette. — Está se referindo a um utópico aparato para descobrir fatos. Não existe tal coisa.

— Estou me referindo a homens razoáveis, senhor. Sou um advogado, e antes de vir para este maldito circo lidei com vários níveis de matérias e assuntos confidenciais. E isso durante todos os dias da minha vida. O que há de tão novo nisso?

— E qual é a sua posição? — perguntou o Monge.

— Quero uma explicação. Durante mais de dezoito meses sentei-me à mesa do subcomitê do Conselho de Assassinatos. Avancei a custo através de mil e uma páginas com centenas de nomes e o dobro dessa quantidade de teorias. Não creio que haja uma conspiração insinuada ou um assassino suspeito que não conheça. Vivi com esses nomes e essas teorias por quase dois malditos anos, até que pensei não ter mais nada para aprender.

— Diria que suas credenciais são impressionantes — interrompeu Abbott.

— Acho que são; é por isso que aceitei a cadeira da Superintendência. Pensei que podia dar uma contribuição mais efetiva, mas agora não estou tão certo. De repente comecei a pensar: o que vou fazer agora?

— Por quê? — perguntou Manning apreensivamente.

— Porque estive sentado aqui ouvindo quatro dos senhores descreverem uma operação que vem durando três anos, envolvendo redes de pessoas, informantes e postos de inteligência através de toda a Europa — tudo centrado em um assassino cuja “lista de ocorrências” é desconcertante. Estou certo?

— Continue — replicou Abbott calmamente, segurando o seu cachimbo, a expressão enlevada. — Qual é a sua pergunta?

— Quem é ele? Quem é afinal esse tal Caim?


 

O silêncio durou precisamente cinco segundos, durante os quais houve troca de olhares, pigarros, mas sem que ninguém se mexesse nas cadeiras. Era como se estivessem tomando uma decisão em silêncio, sem discussões: toda evasiva deveria ser evitada. O congressista Efrem Walters, das montanhas do Tennessee através da Yale Law Review, não podia ser dispensado com uma simples e fácil conversa que tratasse com a delicada confidencialidade daquelas manobras clandestinas. Conversa fiada estava fora de cogitação.

David Abbott pôs seu cachimbo sobre a mesa; este barulho foi a sua introdução. — Quanto menor divulgação pública dermos a Caim, melhor para nós todos.

— Isto não é resposta — disse Walters. — Mas aceito como um começo.

— E é. Ele é um assassino profissional — isto é, um especialista treinado em todos os métodos de tirar a vida. E essa sua especialidade está à venda; ele não tem qualquer motivação pessoal ou política; está no negócio apenas para auferir lucros — e a tabela dos seus preços é diretamente proporcional à sua reputação.

O congressista assentiu com a cabeça. — E assim, mantendo estreita repressão à sua reputação, vocês estão coibindo uma publicidade gratuita.

— Exatamente. há uma porção de maníacos neste mundo com uma série de inimigos, reais ou imaginários, que podiam facilmente gravitar em torno de Caim se o conhecessem. Infelizmente, são muitos os que já fazem isso. Até hoje, trinta e oito mortes podem ser diretamente atribuídas a ele, e mais umas doze ou quinze provavelmente também o possam.

— Esta é a sua lista de “feitos”?

— Sim. E estamos perdendo a batalha. Sua reputação cres ce a cada nova morte.

— Ele esteve inativo por algum tempo — disse Knowlton, da CIA. — Durante alguns meses, até recentemente, pensamos que talvez o tivéssemos apanhado. Muitas vezes os próprios matadores se eliminam entre si; pensamos que ele podia ser um desses casos recentes.

— Quais? — perguntou Walters.

— Um banqueiro em Madri, que subornava a Europolitan Corporation para compras do seu Governo na África. Foi morto por um tiro dado de um carro em alta velocidade no Paseo de la Castellana. Um guarda-costas, que também era seu motorista, conseguiu atirar no matador e no motorista do carro. Durante algum tempo acreditamos que esse matador fosse Caim.

— Lembro-me desse incidente. Quem pagou por esse assassinato?

— Um sem-número de companhias — respondeu Gillette — que queriam vender carros a preço de ouro e ascensão direta para os ditadores fabricados.

— O que mais? Quem mais?

— O xeque Mustafá Kalig de Omã — disse o Coronel Manning.

— Ele foi dado como morto em um golpe malsucedido.

— Nada disso — continuou o oficial. — Não houve nenhum atentado. Os informantes G-Dois confirmaram. Kalig era muito impopular, mas os outros xeques não são tolos. A história do golpe foi uma forma de encobrir o assassinato, que podia ser tentador para outros matadores profissionais. Três desordeiros sem entidade, do Corpo de Oficiais, foram executados para conferir maior credibilidade à mentira. Por um momento pensamos que um deles fosse Caim; o tempo correspondia à sua inatividade.

— Quem pagaria Caim para assassinar Kalig?

— Já nos perguntamos isso muitas vezes — disse Manning. — A única resposta possível veio de uma fonte que se dizia bem-informada, mas não houve nenhuma maneira de averiguar. Disse que Caim fez isso a fim de provar para si mesmo que seria capaz de tal coisa. Os xeques do petróleo viajam com o serviço de segurança mais impenetrável do mundo.

— E há mais uma dúzia de outros incidentes — acrescentou Knowlton. — Probabilidades que entram na mesma escala de personalidades muito bem-protegidas e que foram mortas. As fontes de informação que nos chegaram implicam Caim.

— Compreendo. — O congressista pegou a folha do resumo sobre Zurique. — Mas pelo que posso deduzir, os senhores não sabem quem é ele.

— Jamais uma descrição correspondeu a outra — interpôs Abbott. — Aparentemente, Caim é um virtuose em disfarces e camuflagem.

— Mesmo assim, as pessoas o têm visto e falado com ele. As suas fontes, esses informantes, o homem de Zurique, nenhum deles pode vir a público e testemunhar que o viram, eu sei, mas decerto foram interrogados. Vocês já devem ter matéria para chegar a uma composição aproximada, um retrato, alguma coisa.

— Fizemos várias composições e montamos vários modelos — replicou Abbott —, mas uma descrição consistente ainda não é possível. Aos informantes Caim jamais se deixou ver à luz do dia. Marca os encontros à noite, em salas escuras ou galerias. Se já se encontrou com mais de uma pessoa ao mesmo tempo — como Caim — não sabemos. Contaram-nos .que ele nunca fica de pé, está sempre sentado — em algum restaurante mal-iluminado, em uma cadeira de canto, ou em um carro estacionado. Algumas vezes usa óculos grossos, outras vezes não os usa; em um encontro ele pode ter cabelos escuros, em outro, brancos, ou ruivos, ou até mesmo estar usando chapéu.

— E a língua?

— Chegamos mais perto nesse campo — disse o diretor da CIA, ansioso para apresentar as pesquisas de sua companhia. — Fala fluentemente o inglês, o francês e muitos dialetos orientais.

— Dialetos? Que dialetos? Uma língua, não engloba os seus dialetos? Que língua é, então?

— Naturalmente. São de origem vietnamita.

— Viet... — Walters se inclinou para a frente. — Por que será que tenho a impressão de que estou chegando a um ponto em que vocês ainda não tocaram?

— Provavelmente porque você é astuto no exame das coisas, conselheiro. — Abbott riscou um fósforo e acendeu o seu cachimbo.

— Razoavelmente alerta — concordou o congressista. — E então, o que é?

— Caim — disse Gillette desviando o olhar rapidamente e de uma forma estranha para David Abbott — sabemos de onde ele vem.

— De onde?

— Do Sudeste da Ásia — respondeu Manning, como se estivesse tentando suportar a dor de um ferimento feito a faca. — Pelo que pudemos constatar, especializou-se nos dialetos da orla para poder ser entendido nos países das montanhas entre as fronteiras do Camboja e do Laos, bem como na zona rural do Vietnã do Norte. Aceitamos estes dados, eles parecem convincentes.

— Com relação a quê?

— Operação Medusa. — O coronel pegou um envelope de papel pardo, comprido e largo, que estava à sua esquerda. Abriu-o e tirou de dentro uma pasta, das muitas que lá estavam, e a colocou próximo a ele. — Esta é a pasta de Caim — disse, fazendo um sinal de cabeça em direção ao envelope. — Este é o material da Medusa, os aspectos relacionados a Caim.

O congressista do Tennessee recostou-se na cadeira. Um sorriso sarcástico apareceu-lhe nos lábios. — Cavalheiros, os senhores me matam com todos esses títulos piedosos. Isso é estranho, é muito sinistro e nefasto. Acho que os meus amigos aqui fizeram um curso sobre esta matéria. Continue, coronel. O que é essa Medusa?

Manning lançou um olhar rápido para David Abbott. Depois falou. — Foi um desenvolvimento do conceito de busca-e-destruição, criado para funcionar atrás das linhas inimigas durante a Guerra do Vietnã. No fim da década de sessenta e começo da de setenta, unidades de voluntários americanos, franceses, britânicos, australianos e nativos se formaram em grupos para operar nos territórios ocupados pelos norte-vietnamitas. As prioridades do trabalho deles eram romper as comunicações inimigas e as linhas de suprimento, localizar os campos de prisioneiros e, por último, mas não em importância, assassinar os lideres das aldeias conhecidos por terem cooperado com os comunistas, assim como os comandantes inimigos sempre que possível.

— Era uma guerra dentro da própria guerra — interrompeu Knowlton. — Infelizmente, as diferenças raciais e lingüísticas tornaram essa participação infinitamente mais perigosa do que, digamos, os movimentos secretos da resistência germânica ou holandesa, ou mesmo da resistência francesa na Segunda Guerra Mim dial. Por conseguinte, o recrutamento dos ocidentais não era sempre tão seletivo quanto devia ser.

— Havia dúzias desses grupos — continuou o coronel —, recrutados entre os comandantes de Marinha, das antigas tropas, que conheciam as linhas costeiras onde estavam os plantadores de origem francesa, cuja única esperança de salvação residia na vitória americana. Havia desocupados britânicos e australianos que já viviam há muitos anos na Indochina, bem como pessoal do exército americano, altamente motivado, e oficiais civis, de carreira, do serviço de inteligência. E também, o que era inevitável, uma grande facção de criminosos empedernidos. Na sua maioria, contrabandistas. — homens que lidavam com contrabando de armas, narcóticos, ouro e diamantes, através da área costeira do Mar do Sul da China. Eram enciclopédias ambulantes no que tocava a aterrissagens noturnas e rotas por dentro das florestas. Muitos dos que empregamos eram fugitivos ou estavam fugidos dos Estados Unidos, um grande número tinha boa escolaridade, eram todos muito aproveitáveis. Precisávamos da experiência deles.

— Isso é quase uma seção especial de voluntários — interrompeu o congressista. — Pessoal de linha da Marinha e do Exército; desocupados britânicos e australianos, colonialistas franceses e pelotões de ladrões. Como conseguiram que eles trabalhassem juntos?

— Cada um de acordo com os seus merecimentos — disse Gillette.

— Promessas — emendou o coronel. — Garantia de contratação, promoções, perdões, prêmios em dinheiro e, em alguns casos, oportunidades de desviar fundos da própria operação. Como vê, todos pareciam um pouco doidos, todos compreendemos isso. Treinamo-los secretamente para usarem códigos, métodos de transporte, prepararem ciladas e mortes — e até mesmo para usarem armas que o comando de Saigon desconhecia. Como Peter mencionou, os riscos eram muito grandes — a captura resultava em tortura e execução. O preço era alto e eles o pagavam. A maioria das pessoas os chamaria de paranóicos, mas eram gênios no que se referia a chacina e assassinato. Sobretudo assassinatos.

— Qual era o preço?

— A Operação Medusa sustentou mais de noventa por cento dos feridos. Mas há um certo embaraço — dentre os que não voltaram grande número nunca teve mesmo a intenção de voltar.

— Dessa facção de ladrões e fugitivos?

— Sim. Alguns roubaram considerável soma de dinheiro da Medusa. E achamos que Caim é um deles.

— Por quê?

— Pelo seu modus operandi. Ele tem usado códigos, feito armadilhas, usado métodos para matar e de transporte desenvolvidos e especializados no treinamento da Medusa.

— Então, pelo amor de Deus — interrompeu Walters —, vocês têm pistas para identificá-lo! Não me importo onde eles estejam escondidos — e estou bem certo de que vocês não querem torná-los públicos — mas tenho certeza de que alguns registros foram guardados.

— Sim, foram, e extraímos todas as informações desses arquivos clandestinos, inclusive para este material aqui. — O oficial bateu no arquivo à sua frente. — Estudamos tudo, colocamos listas nominais debaixo de microscópios, alimentamos os computadores com fatos — tudo o que podíamos fazer. E ficamos na mesma.

— É inacreditável — disse o congressista. — Ou de uma incrível incompetência.

— Na realidade, não — protestou Manning. — Olhe para o homem, para o material que tivemos para trabalhar. Depois da guerra, Caim fez reputação através de quase toda a Ásia Oriental, de Tóquio até as Filipinas, mais a Malásia e Cingapura, infiltrando-se em Hong-Kong. no Camboja, no Laos e em Calcutá. Há cerca de dois anos e meio alguns relatórios começaram a aparecer nas nossas estações da Ásia e nas embaixadas. Havia um assassino profissional de aluguel: seu nome era Caim. Altamente profissional e impiedoso. Estes relatos começaram a crescer com uma freqüência alarmante. Parecia que Caim estava envolvido em cada morte importante. As fontes telefonavam para as embaixadas no meio da noite, ou paravam os adidos nas ruas, sempre com as mesmas informações. Era Caim; tinha sido Caim; Caim era um deles. Um assassinato em Tóquio; um carro que explodira em Hong-Kong; uma caravana de narcóticos atacada de emboscada no Triângulo; um banqueiro morto a tiros em Calcutá; um embaixador assassinado em Moulmein; um técnico russo ou um homem de negócios americano morto nas próprias ruas de Xangai. Caim estava em todos o lugares, seu nome era sussurrado por uma dúzia de informantes de confiança em cada setor vital do serviço de inteligência. Muito embora ninguém — nem uma pessoa sequer em toda a área do Pacífico — aparecesse com uma identificação qualquer. Por onde poderíamos começar?

— Mas nessa época ainda não fora feita a sua ligação com a Medusa? — perguntou o homem do Tennessee.

— Sim. Seguramente.

— Então deve haver algum material junto ao dossiê individuo, ora!

O coronel abriu a pasta que tirara do arquivo de Caim. — Estas são as listas de baixa. Entre os brancos ocidentais que desapareceram da Operação Medusa — e quando digo desapareceram quero dizer que sumiram sem deixar traço algum — existem esses. Setenta e três americanos, quarenta e seis franceses, trinta e nove australianos, e quarenta e quatro britânicos, e uma quantidade estimada em cinqüenta brancos do sexo masculino que serviam de contato e que foram recrutados entre os neutros em Hanói e treinados no campo — a maioria deles nós nem chega- mos a conhecer. São mais de duzentas e trinta possibilidades. Quantos são aliados? Quantos estão vivos? Quantos mortos? Mesmo se soubéssemos o nome de todos os homens que realmente viveram, qual seria o dele? De onde é ele? Nem temos certeza da sua nacionalidade. Achamos que ele é americano, mas não há provas suficientes.

— Caim é um dos nomes que fazem parte da nossa constante pressão sobre Hanói para descobrir os MIAs — explicou Knowlton. — Continuamos a reciclar as listas das divisões.

— E há uma coisa estranha aqui, também — acrescentou o oficial do Exército. — As forças de contra-inteligência de Hanói descobriram e executaram vintenas de homens da Medusa. Eles sabiam da nossa operação, e nós nunca excluímos a possibilidade dessa infiltração. Hanói sabia que o pessoal da Medusa não pertencia às tropas combatentes, eles nem usavam uniformes. E nenhuma explicação foi exigida.

Walters levantou a mão. — Posso? — disse, fazendo um gesto de cabeça em direção às páginas grampeadas.

— Certamente. — O oficial entregou-as ao congressista. Você entende, é claro, que esses nomes ainda permanecem em segredo, de resto como a própria Operação Medusa.

— De quem é esta decisão?

— É uma ordem do Executivo, ainda não quebrada por nenhum dos presidentes, baseada na recomendação da Junta dos Chefes de Pessoal. Foi aprovada pelo Comitê do Senado para Serviços do Exército.

— Isso é uma verdadeira bomba, não é?

— Foi feita baseada no interesse nacional — disse o homem da CIA.

— Neste caso; não vou discutir — concordou Walters. — O espectro de tal operação não faria muito pela glória do nosso Exército, da Velha Glória. Não treinamos assassinos, e muito menos os colocamos no campo de batalha. — Folheou as páginas. — E entre estas folhas aqui está um assassino que nós treinamos e colocamos em campo e que agora não conseguimos encontrar.

— Acreditamos que sim — disse o coronel.

— Você disse que ele fez reputação na Ásia, mas mudou-se depois para a Europa. Quando?

— Cerca de um ano atrás.

— Por quê? Tem alguma idéia?

— A óbvia, creio — disse Peter Knowlton. — Passou para o outro lado. Alguma coisa saiu errada e ele se sentiu ameaçado. Era um matador branco entre orientais, isso pelo menos é um conceito perigoso; já era tempo de se mudar. Deus sabia que a sua reputação estava feita; não haveria falta de emprego na Europa.

David Abbott pigarreou, limpando a garganta. — Gostaria de oferecer uma outra possibilidade, baseada em algo que Alfred disse há poucos minutos. — O Monge fez uma pausa e depois apontou com a cabeça em direção a Gillette. — Ele disse que fomos forçados a nos concentrar em um “tubarão sem dentes e de praia, enquanto o cabeça-de-martelo cruzava os mares livremente”. Creio que foi essa a frase, embora a seqüência das palavras possa estar errada.

— Sim — disse o homem do Conselho de Segurança. — Referia-me a Carlos, é claro. Não devíamos procurar Caim, mas sim Carlos.

— É claro. Carlos. O mais esquivo matador da história moderna, um homem que a maioria de nós acredita ser o responsável — de uma forma ou de outra — pelos mais trágicos assassinatos do nosso tempo. Você está bastante certo, Alfred, e, de certa forma, eu estava errado. Não podemos nos esquecer de Carlos.

— Obrigado — disse Gillette. — Estou contente de ter feito o comentário certo.

— Você fez. Na minha opinião, pelo menos. Mas também me fez pensar. Pode imaginar a tentação de um homem como Caim, operando nos sombrios confins de uma área de numerosos inativos e fugitivos, em meio a sistemas de governo atolados na corrupção? Como ele deve ter invejado Carlos! Como deve ter tido ciúmes do mundo mais veloz, brilhante e luxuoso da Europa! Quantas vezes não deve ter dito para si mesmo: “Sou melhor do que Carlos.” Não importa que esses camaradas sejam frios, eles têm um ego imenso. Acho que ele foi para a Europa ao encontro desse mundo melhor... E para destronar Carlos. O pretendente, senhor, sempre quer o título. Quer ser o campeão.

Gillette olhou com espanto para o Monge. — É uma teoria bastante interessante!

— E se eu segui-la — interpelou o congressista da Superintendência — e rastrear Caim, vou dar com Carlos.

— Exatamente.

— Não estou muito certo de seguir esse raciocínio — disse o diretor da CIA, perturbado. — Por quê?

—. Dois garanhões em um mesmo padoque — respondeu Walters. — Eles se atrapalham.

— Um campeão não entrega o titulo assim, com facilidade. — Abbott procurou o cachimbo. — Luta até o fim para retê-lo. Como diz o congressista, continuamos a rastrear Caim, mas também devemos procurar outros rastros na floresta. E quanto a nós, se encontrarmos Caim, talvez devêssemos esperar um pouco. Esperar que Carlos fosse atrás dele.

— Daí, então, pegar os dois — acrescentou o militar.

— Muito esclarecedor — disse Gillette.

A reunião acabara, seus membros se preparavam para sair. David Abbott estava perto do coronel do Pentágono, que recolhia as páginas da pasta da Medusa; pegara as folhas de baixas e se preparava para colocá-las na pasta.

— Posso dar uma olhada? — perguntou Abbott. — Não temos cópia lá no Grupo dos Quarenta.

— Foram estas as nossas instruções — respondeu o oficial, passando as páginas grampeadas para o homem mais velho. — E acho que vieram de você. Apenas três cópias. Aqui, na Agência e no Conselho.

— Realmente vieram de mim. — O Monge silencioso sorriu benignamente. — Há civis demais do meu lado.

O coronel virou-se para responder a uma pergunta feita pelo congressista do Tennessee. David Abbott não ouviu. Enquanto isso, seus olhos percorreram rapidamente as colunas de nomes. Estava alarmado. Um dos nomes fora riscado; fora considerado, então. E isso era o que eles não podiam se permitir. Nunca. Onde estava? Era o único homem naquela sala que sabia o nome; podia sentir o coração bater no peito ao chegar à última página. Lá estava o nome.

Bourne, Jason C. — Último paradeiro conhecido: Tam Quan. — O que teria acontecido? — pensou ele.

René Bergeron bateu o telefone que estava em cima da sua mesa; a voz estava apenas um pouco mais controlada do que o gesto. — Tentamos todos os cafés, todos os restaurantes e bistrôs que ela costuma freqüentar!

— Não há registro dele em nenhum hotel de Paris — disse o grisalho operador da mesa de telefones, sentado próximo a um segundo aparelho, perto de uma mesa de desenho. — Já se passaram mais de duas horas, até agora; ela já pode estar morta. Se não estiver, deve estar desejando ter sido morta.

— Ela quase não tem nada para lhe dizer — refletiu Bergeron. — Menos do que nós; ela nada sabe a respeito dos velhos.

— Ela sabe o bastante; é chamada Parc Monceau.

— Ela entregou mensagens, mas nem sabe para quem.

— Sabe por quê.

— Caim também, posso assegurar-lhe. E ele cometeria um erro grotesco com Parc Monceau. — O desenhista inclinou-se para a frente, seus braços musculosos estavam em tensão, enquanto segurava uma mão na outra, olhando fixamente para o homem grisalho. — Conte-me de novo; tudo o que se lembra. Por que está tão convicto de que ele é Bourne?

— Eu não disse isto. Disse que ele é Caim. Se você observar acuradamente os seus métodos, este é o homem.

— Bourne é Caim. Nós descobrimos isso através dos registros da Medusa. É por isso que você foi empregado e está aqui.

— Então ele é Bourne. Mas não é o nome que usou. É claro, havia um grande número de homens na Medusa que não permitiriam que os seus verdadeiros nomes fossem usados. Para esses, falsas identidades foram garantidas. Tinham registro como criminosos. Ele podia ser um deles.

— Por que ele? Outros também desapareceram. Você desapareceu.

— Eu poderia dizer simplesmente por que ele estava aqui em Saint-Honoré. Isso seria suficiente. Mas há mais, muito mais. Observei-o atuando. Fui designado para uma missão que ele comandava; não foi uma experiência que possa ser esquecida, nem ele pode ser esquecido facilmente. Esse homem podia ser — seria — o seu Caim.

— Conte-me.

— Descemos de pára-quedas à noite, sobre um setor chamado Tam Ouan. Nosso objetivo era resgatar um americano chamado Webb; preso pelos vietcongues. Não sabíamos, mas as possibilidades de sobrevivência eram mínimas Até mesmo o vôo de Saigon foi horrível; ventos fortíssimos a mil pés, o avião vibrando como se fosse partir em dois. Ainda assim, ele nos mandou saltar.

— E você saltou?

— Ele tinha um revólver apontado para as nossas cabeças. Apontava o revólver para cada um que se aproximava da portinhola do corredor. Poderíamos sobreviver aos elementos naturais não a uma bala no crânio.

— Quantos vocês eram?

— Dez.

— Podiam tê-lo desarmado.

— Você não o conhece!

— Continue — disse Bergeron, concentrado, imóvel à mesa.

— Oito de nós conseguimos nos reagrupar no chão. Os dois restantes presumimos que não tivessem sobrevivido ao salto. Foi uma surpresa eu ter sobrevivido. Eu era o mais velho e não era nada forte, mas conhecia bem a região. Foi por isso que fui enviado. — O homem grisalho fez uma pausa, balançando a cabeça ao reviver as suas lembranças. — Menos de uma hora depois percebemos que aquilo fora uma armadilha. Corríamos como lagartos pela floresta. E durante a noite ele saía sozinho cruzando as explosões de morteiros e granadas. Para matar. Sempre voltava antes do amanhecer para nos forçar a ir cada vez mais em direção ao campo. Naquela.época pensei que era puro suicídio.

— E por que vocês iam? Ele teria que lhes dar uma razão. Vocês eram da Medusa, não eram soldados subalternos.

— Ele disse que era a única forma de sairmos de lá com vida. E havia uma certa lógica nisso. Estávamos por trás das linhas; precisávamos de todos os suprimentos que pudéssemos encontrar nos acampamentos — isso se conseguíssemos. Ele disse que nós tínhamos que obter esses suprimentos, que não tínhamos outra escolha. Se qualquer um de nós discutisse, ele lhe daria um tiro na cabeça; e sabíamos que faria isso. Na terceira noite tomamos o acampamento e encontramos o homem chamado Webb mais morto que vivo, mas ainda respirando. E também encontramos os dois do nosso grupo. Ambos vivos e assombrados com o que acontecera. Um homem branco e um vietnamita tinham sido pagos pelos vietcongues para nos armar uma cilada, acho.

— Caim?

— Sim. Os vietnamitas nos viram antes e fugiram. Caim atirou no homem branco, na cabeça. Acho que ele simplesmente se aproximou dele e atirou diretamente em sua cabeça.

— Ele os trouxe de volta? Cruzando as linhas?

— Quatro homens, sim, e o que se chamava Webb. Cinco foram mortos. — Foi durante aquela terrível viagem de volta que pensei entender por que os boatos deviam ser verídicos — que ele era o recruta mais bem pago da Medusa.

— Em que sentido?

— Era o homem mais frio que jamais conheci, o mais perigoso e o mais imprevisível. Naquela época pensei que aquela devia ser uma estranha guerra para ele; ele era um Savonarola, mas sem o princípio religioso, apenas com a sua estranha moralidade, centrada em si mesmo. Todos os homens eram seus inimigas — sobretudo os líderes —, e não dava a menor importância para qualquer ideologia. — O homem de meia-idade fez outra pausa, fixou os olhos na prancheta de desenho, a mente devia estar a milhares de milhas de distância, longe no espaço e no tempo. — Lembre-se, a Medusa estava cheia de homens de tipos diferentes e desesperados. Muitos eram paranóicos no ódio aos comunistas. Era matar um comunista e Cristo parecia sorrir — estranhos exemplos da catequese cristã. Outros, como eu, tiveram as suas fortunas roubadas pelos vietminh e a única maneira de reavê-las seria os americanos vencerem a guerra. A França nos abandonara em Dienbienphu. Mas havia muitos que viam a possibilidade de fazer fortuna na própria Medusa. As sacolas de dinheiro para pagamento sempre continham de cinqüenta., a setenta e cinco mil dólares americanos. Um mensageiro especial que desviasse a metade de dez ou quinze corridas de entrega daquelas sacolas podia se aposentar em Cingapura ou Kuala Lumpur ou até mesmo formar a sua própria rede de tráfico de narcóticos no Triângulo. Além de o preço de venda ser exorbitante — quase sempre obtinha-se o perdão pelos crimes cometidos no passado —, as oportunidades eram ilimitadas. Foi nesse último grupo que classifiquei esse homem estranho. Era um pirata da época moderna no mais puro sentido.

Bergeron soltou as mãos. — Espere um pouco. Você usou a frase “uma missão que ele comandou”. Havia homens do Exército na Medusa, você tem certeza de que ele não era um oficial americano?

— Americano com toda a certeza, mas não do Exército.

— Por quê?

— Odiava todos os aspectos do militarismo. Seu desprezo pelo Comando de Saigon transparecia em cada decisão que ele tomava; considerava os militares tolos e incompetentes. De um ponto qualquer as ordens nos eram transmitidas pelo rádio e recebidas em Tam Quan Uma vez ele interrompeu as transmissões e mandou que um general do regimento se fodesse, porque ele não iria obedecer. Um oficial do Exército não faria isso.

— A menos que estivesse para abandonar a sua profissão — disse o desenhista. — Como Paris abandonou você, e você fez o melhor que pôde, roubando da Medusa, traçando as suas próprias atividades patrióticas — sempre que pôde.

— Meu país me traiu antes que eu o traísse, René.

— Voltando a Caim. Você disse que Bourne não era o nome que ele usava. Qual era?

— Não me lembro. Como eu disse, para muitos os sobre- nomes não eram relevantes. Pan mim era simplesmente “DeIta”.

— Do Mekong?

— Não, do alfabeto, creio.

— Alfa, Bravo, Charlie... Delta — disse Bergeron pensativamente, em inglês. — Mas em muitas operações a palavra código “Charlie” foi substituída por “Caim”, porque “Charlie” tornou-se sinônimo de vietcongue. “Charlie” foi transformado para “Caim”.

— É isso mesmo. E, assim, Bourne assumiu “Caim”. Ele podia ter escolhido “Echo” ou “Foxtrot” ou “Zulu”. Uma porção de outros. Qual é a diferença? O que você acha?

— Ele escolheu Caim deliberadamente. Era simbólico. Ele queria deixar isso claro desde o início.

— Deixar claro o quê?

— Que Caim tomaria o lugar de Carlos. Pense. “Carlos” é um nome espanhol que equivale a Charles — Charlie. A pala- na código “Caim” foi a substituição escolhida para “Charlie” — Carlos. Era sua intenção desde o início. Caim tomaria o lugar de Carlos. E ele queria que Carlos soubesse disso.

— E Carlos sabe?

— É claro. A notícia foi espalhada por toda Amsterdã e Berlim, Genebra e Lisboa, Londres e aqui mesmo, em Paris. Caim é mais barato; os contratos podem sem feitos com maior facilidade, seus preços são menores do que as taxas cobradas por Carlos. Ele desgasta a imagem de Carlos! A cada dia que passa, ele desgasta mais e mais a sua fama!

— Dois matadores na mesma arena. Só poderá existir um.

— E este será Carlos. Pegamos o pardal numa armadilha. Ele está em algum lugar perto daqui a duas horas de Saint-Honoré.

— Mas onde?

— Não importa. Nós o encontraremos. Afinal de contas, ele nos encontrou. Ele voltará, seu ego exigirá isso. E então o gavião passará com suas garras e apanhará o pardal. Carlos o matará.

O velho ajustou a muleta debaixo do braço esquerdo, abriu o cortinado preto e deu um passo em direção ao confessionário. Não estava se sentindo bem; a lividez da morte estampava-se-lhe no rosto, e ele estava muito contente que o vulto vestido de padre, do outro lado da cortina transparente, não pudesse vê-lo muito bem. O matador não lhe daria mais nenhum trabalho se ele parecesse muito cansado. E ele precisava de trabalho, agora. Faltavam apenas algumas semanas e ele tinha muitos encargos. Falou.

— Angelus Domini.

— Angelus Domini, filho de Deus — lá de dentro veio o sussurro. — Os teus dias estão em paz?

— Encaminham-se para o fim, mas estão em paz.

— Sim. Acho que este será o seu último trabalho para mim. No entanto, é um trabalho tão importante que você receberá cinco vezes mais do que o pagamento costumeiro. Espero que isso possa ajudá-lo.

— Obrigado, Carlos. Você sabe, então.

— Sei. Isso é o que deverá fazer, então. Essa informação deve deixar este mundo juntamente com você. Não pode haver nenhum erro.

— Sempre fui cuidadoso. Irei para a morte sendo cuidadoso também.

— Morra em paz, velho amigo. Assim é mais fácil... Você irá à embaixada vietnamita perguntar por um adido chamado Phan Loc. Quando estiver sozinho com ele diga-lhe as seguintes palavras: “Em março de 1968, Medusa, setor Tam Quan. Caim estava lá. E o outro também.” Guardou?

— Em março de 1968, Medusa, setor Tam Quan. Caim estava lá. E o outro também.

— Ele vai lhe dizer quando voltar. Será uma espera de algumas horas apenas.


 

— Acho que já é tempo de falarmos sobre uma fiche confidentielle chegada de Zurique.

— Meu Deus!

— Não sou o homem a quem você procura.

Bourne segurou a mão da mulher, para evitar que ela saísse correndo pelos corredores cheios do elegante restaurante de Argenteuil, nos arredores de Paris. A pavana terminara, a gavota também. Estavam sozinhos; o abrigo de veludo transformara-se em jaula de ferro.

— Quem é você? — perguntou Lavier numa careta, tentando desprender sua mão da dele; as veias do pescoço ficaram mais pronunciadas.

— Um americano rico que vive nas Baamas. Você não acredita nisso?  

— Eu devia ter adivinhado — disse ela — quando você rejeitou o troco e não pagou em cheque, mas com dinheiro vivo. Você nem sequer olhou para a nota.

— Nem para os preços. E foi isso que fez você se aproximar de mim.

— Fui uma tola. Os ricos sempre olham para os preços, mesmo que seja apenas pelo prazer de desprezá-los. — Lavier falava enquanto olhava em volta, procurando um espaço entre os corredores, um garçom a quem pudesse chamar. Fugir.

— Não tente — disse Jason, olhando-a bem nos olhos. — Será tolice. Melhor conversarmos. Melhor para nós dois.

A mulher olhou-o espantada, acentuando o confronto do silêncio hostil, na sala ampla e repleta de murmúrios, com a luz mortiça das velas e as intermitentes explosões de risos que vinham das mesas vizinhas.

— Vou lhe perguntar de novo — disse ela. — Quem é você?

— Meu nome não é importante. Basta o que lhe dei.

— Briggs? É falso.

— Como também é falso Larousse. E esse nome consta da lista de aluguel de um carro que foi buscar três matadores no Banco Valois. Eles falharam lá. E também falharam esta tarde na Pont Neuf. Ele fugiu.

— Oh, Deus! — gritou ela, tentando livrar-se dele.

— Eu disse não! — Bourne segurou-a com firmeza, puxando-a de volta.

— E se eu gritar, monsieur? — A máscara bem-empoada quebrou-se em várias linhas de virulência, o batom vermelho- brilhante mostrava um roedor velho e atocaiado rosnando.

— Gritarei mais alto — respondeu Jason. — Nós dois seremos expulsos daqui, e quando estivermos lá fora acho que você não vai poder se defender. Por que não conversamos? Podemos aprender alguma coisa um com o outro. Afinal de contas, não somos empregadores, somos empregados.

— Nada tenho a lhe dizer.

— Então começo. E talvez você mude de idéia. — Afrouxou um pouco o pulso dela, cautelosamente. A tensão permaneceu ao rosto branco e empoado, mas foi afrouxando na medida em ele a soltava. Estava pronta para ouvir. — Você pagou alguém em Zurique. Estamos à procura do mesmo homem e sabemos por que nós o queremos. Soltou-a. — Por que estão à sua procura?

Ela ficou em silêncio por um momento, estudando-o, os olhos ainda amedrontados, mas cheios de fúria. Bourne sentiu que fizera a pergunta de modo acertado, porque se Jacqueline não lhe dissesse, nada, tudo não passaria de um grande engano. Poderia lhe custar a vida se fizesse mais algumas perguntas.

— Quem é ”nós” — perguntou ela.

— Uma companhia que quer o seu dinheiro de volta. Uma grande quantia que está com ele.

— Ele não o ganhou, então?

Jason sabia que precisava ter muita cautela. Ela pensava que ele sabia muito mais do que, na realidade, sabia. — Digamos que há uma disputa.

— Mas como poderia? Ou ele ganhou ou não ganhou esse dinheiro, não pode haver meio termo.

— É a minha vez, agora — disse Bourne. — Você respondeu a uma pergunta com outra pergunta, e eu permiti. Agora vamos voltar. Por que você o quer? Por que o telefone particular de uma das melhores lojas de Saint-Honoré foi posto em uma fiche em Zurique?

— Foi um ajuste, monsieur.

— Para quem?

— Você está louco?

— Está bem, vamos deixar isso de lado, por enquanto. Achamos que já sabemos isso.

— Impossível!

— Talvez não. Então, foi um acordo... para matar um homem?

— Nada tenho a dizer.

— No entanto, há um minuto, quando mencionei o carro, você tentou fugir. Isso significa alguma coisa.

— Uma reação perfeitamente natural. — Jacqueline Lavier tocou a haste da sua taça de vinho. — Fui eu quem alugou o carro. E não me importo em lhe contar isso porque não há nenhuma prova de que tenha sido eu, realmente. Além do aluguel, nada mais sei sobre o que aconteceu. — De repente ela segurou com força o cálice, a máscara do rosto se tornou um misto de fúria controlada e medo. — Quem são os seus?

— Já lhe disse. Uma companhia que quer de volta o seu dinheiro.

— Mas você está interferindo! Saia de Paris! Esqueça-se disso tudo!

— Por que deveria? Somos a parte lesada; queremos a folha de balanço corrigida e revista. Estamos autorizados a fazer isso.

— Autorizados coisa nenhuma! — disse com veemência Mme. Lavier. — O erro foi de vocês e vão pagar por ele!

— Erro? — Ele agora devia ser muito cuidadoso. Estava chegando ao que queria — estava aqui, quase aflorando, os olhos da verdade quase aparecendo por baixo da camada de gelo. Saia dessa! O roubo não foi um erro cometido pela vítima.

O erro estava na sua escolha, monsieur. Escolheram o homem errado.

— Ele roubou milhões em Zurique — disse Jason. — E você sabe disso. Desviou milhões, e se vocês pensam que vão tirar dele esse dinheiro — que é o mesmo que tentar tirá-lo de nós —, estão muito enganados.

— Não queremos dinheiro algum!

— Fico contente em saber disso. Quem é “nós”?

— Pensei que você disse que sabia.

— Eu disse que tinha uma idéia. O suficiente para entregar o nome de alguns homens: Koenig, em Zurique, e d’Amacourt aqui em Paris. Se decidirmos fazer isso, poderá ser um grande embaraço para vocês, não é?

— Dinheiro? Embaraço?! Isto não é problema. Você está devorado pela estupidez, todos vocês! Vou repetir, saiam de Paris! Esqueçam-se disso. Não é mais da conta de vocês.

— Não achamos que é da sua. Francamente, não achamos vocês muito competentes.

— Competentes? — repetiu Lavier, como se não acreditasse no que ouvia.

— Isso mesmo.

— Você tem idéia do que está dizendo? De quem está falando?

— Não importa. A não ser que vocês recuem e desistam,           a minha recomendação é que esclareçam tudo logo, e publicamente. Cobranças ridículas — que nem são procuradas por nós, é claro. Expor Zurique, os Valois, chamar a Súreté, a Interpol... tudo e todos para criar uma grande caçada humana — uma caçada maciça.

— Você é louco! E tolo.

— Não de todo. Temos amigos influentes; teremos a informação antes de vocês. Estaremos no lugar certo à hora certa. Nós o pegaremos.

— Vocês não vão pegá-lo. Ele desaparecerá novamente! Não podem perceber isso? Ele está em Paris e uma rede de pessoas que ele nem conhece está a sua procura. Ele pode ter escapado uma vez, duas, mas não vai escapar a terceira! Agora caiu na armadilha. Nós o pegamos.

— Não queremos que vocês o peguem. Não é do nosso interesse. — Estava quase chegando o momento, pensou Bourne. Quase. Mas não ainda; antes o medo dela teria que se misturar com a raiva. Ela teria que ser levada a revelar a verdade. — Este é o nosso ultimato, e vocês serão os responsáveis se não o aceitarem — porque, do contrário, vão se juntar a Koenig e d’Amacourt. Chamem de volta os seus rastreadores hoje à noite. Se não fizerem isso, vamos nos mexer primeiro, já de manhã cedo; vamos começar a gritar. Les Classiques será a loja mais popular em Saint-Honoré, mas não entre as pessoas certas, creio.

A máscara empoada partiu-se. — Vocês não ousariam! Como se atrevem? Quem são vocês para dizer uma coisa dessas!?

Ele fez uma pausa, depois disse abruptamente. — Um grupo de pessoas que não se importa muito com o seu Carlos.

Lavier gelou, arregalou os olhos, esticando a pele rígida numa cicatriz tensa. — Você sabe — sussurrou. — E acha que podem se opor a ele? Acham que são páreo para Carlos?

— Em certo sentido sim.

— Estão loucos. Não se dá um ultimato a Carlos.

— Acabei de dar um.

— Então, você está morto. Se levantar a voz para qualquer um, estará morto hoje mesmo. Ele tem homens em todos os lugares; eles o pegarão na rua.

— Talvez o fizessem se soubessem a quem pegar — respondeu Jason. — Você se esqueceu. Ninguém sabe quem ele é. Mas sabemos quem vocês são. E Koenig e d’Amacourt também. No instante em que nós os entregarmos, vocês estarão mortos. Carlos não poderia mais ficar com você. Mas ninguém me conhece.

— Está se esquecendo, senhor. Eu o conheço.

— É a menor das minhas preocupações. Tente me encontrar depois que todo o dano estiver feito e antes que a decisão quanto ao seu futuro seja tomada. Não levará muito tempo.

— Isso é uma loucura! Você aparece de repente e fala como um louco. Não pode fazer isso!

— Está sugerindo que façamos um trato?

— é concebível — disse Jacqueline Lavier. — Tudo é possível.

— Você está em posição de poder negociar?

— Estou em posição de poder levar adiante isso... de forma bem melhor do que um ultimato. Os outros, vão pensar que a decisão vem de quem realmente decide.

— O que está dizendo agora é o que eu já disse há uns minutos: podemos conversar.

— Podemos conversar, monsieur — concordou Mme. Lavier, os olhos lutando pela vida.

— Então vamos começar com o óbvio.

— O que é?

Agora. A verdade.

— O que significa Bourne para Carlos? Por que ele o quer?

— O que significa Bourne... — A mulher parou, o veneno e o medo tomaram lugar em seu rosto, transformando a máscara interior em uma expressão de choque. — Você ainda pergunta isso?

— Vou perguntar de novo — disse Jason, ouvindo as batidas do seu coração ficarem mais altas. — O que significa Bourne para Carlos?

—. Ele é Caim! Vocês sabem disso tão bem quanto nós! Ele foi o erro de vocês, a escolha de vocês! Vocês escolheram o homem errado!

Caim. Ouviu o nome e os ecos irromperam numa trovoada ensurdecedora. E em cada ruído vinha a dor junto, raios queimando um após o outro pela sua cabeça, mente e corpo, retesando sob o ataque do nome. Caim. Caim. As névoas voltaram.

A escuridão, o vento, as explosões.

Alfa, Bravo, Caim, Delta, Echo, Foxtrot... Caim, Delta. Delta, Caim, Delta... Caim.

Caim é para Charlie.

Deita é para Caim!

— O que há? O que há com você?

— Nada. — Bourne pusera a mão direita sobre o pulso esquerdo, segurando-o com firmeza, com tanta firmeza que pensou que a pressão romperia a pele. Tinha que fazer alguma coisa; tinha que parar com aquela tremedeira, diminuir o zumbido nos ouvidos, rechaçar a dor. Tinha que desanuviar a mente. Os olhos da verdade estavam postos nele, espantados; ele não podia desviar aquele olhar. Chegara, estava lá, estava em casa, e o frio o fazia tremer. — Continue — disse, impondo-se um controle de voz que resultou num sussurro. Ele nada podia fazer.

— Você está se sentindo mal? Está muito pálido e...

— Estou bem — ele a interrompeu logo. — Eu disse, continue.

— O que há para lhe contar?

— Diga tudo. Quero ouvir tudo de você.

— Por quê? Não há nada que você não saiba. Vocês escolheram Caim e dispensaram Carlos. E agora pensam que podem dispensá-lo novamente. Erraram, e vão errar novamente.

Vou matá-la. Vou agarrá-la pelo pescoço e bloquear-lhe a respiração. Conte-me! Pelo amor de Cristo, conte-me! Até o fim, é onde está o meu começo! Tenho que saber de tudo.

— Isso não importa — disse ele. — Se quer fazer um acordo — mesmo que seja só para salvar a sua vida — diga-me por que devemos ouvi-los. Por que Carlos é tão obstinado... tão paranóico... a respeito de Bourne? Explique-me isso como eu nunca tivesse ouvido antes. Se não me contar, esses nomes que não devem ser mencionados serão espalhados por toda Paris, e vocês estarão todos mortos até amanhã à tarde.

Lavier estava rígida, a máscara de alabastro imóvel. — Carlos vai seguir Caim até os confins da terra, para matá-lo.

— Já sabemos disso. Queremos saber por quê.

— Ele tem que fazer isso. Olhe para você. Para pessoas como você.

— Isso não faz sentido. Você não sabe quem somos.

— Nem preciso. Sei o que fizeram.

— Fale!

— Já falei. Vocês pegaram Caim em vez de Carlos — esse foi o erro de vocês. Escolheram o homem errado. Pegaram o assassino errado.

— O assassino... errado?

— Vocês não foram os primeiros, mas serão os últimos. O arrogante fingidor estará morto logo, logo, aqui em Paris, façamos ou não um acordo.

— Pegamos o assassino errado... — As palavras flutuaram no elegante e perfumado ar do restaurante. A trovoada ensurdecedora fora abafada, mas ainda estava forte, ecoando longe, entre as nuvens escuras da tempestade. As névoas estavam sendo varridas, o vapor circulava em torno dele. Começou a enxergar, a perceber. E o que via era o perfil de um monstro. Não de um mito, mas de um monstro. E mais outro monstro. Havia dois.

— Duvida? — perguntou a mulher. — Não interfira com Carlos. Deixe-o pegar Caim; deixe-o vingar-se. — Fez uma pausa. Em seguida, tirou as duas mãos de cima da mesa, devagar. Ratazana! — Nada prometo, mas vou contar para você, por causa da perda que o seu pessoal teve. É possível — apenas possível, você me entende — que o seu trato possa ser honrado por aquele que vocês deviam ter escolhido antes, em primeiro lugar.

— O que nós devíamos ter escolhido... Porque escolhemos o homem errado.

— Percebe, não é, monsieur? Carlos deve saber que você percebe isso. Talvez — apenas talvez — possa ter simpatia pelas suas perdas, se ficar convencido de que vocês perceberam o erro.

— É esse o seu trato? — disse Bourne secamente, tentando encontrar uma linha de pensamento.

— Qualquer coisa é possível. Nada de bom pode vir das suas ameaças, posso lhe assegurar. Para todos nós, e sou bastante franca para me incluir também. Haverá apenas sentenças de morte, e Caim continuará a rir. Vocês não perderiam apenas uma vez, mas duas.

— Se isso é verdade — Jason engoliu, quase sufocando-se com o ar seco que entrou pelo vazio de sua garganta —, então terei que explicar ao meu pessoal por que nós... escolhemos... o homem errado, — Pare! Chega! Acabe logo essa declaração. Controle-se. — Diga-me tudo o que você sabe sobre Caim.

— Para quê? Que importância tem isso? — Lavier pôs os dedos em cima da mesa, unhas brilhantes e vermelhas, dez lâminas de uma arma afiada.

— Se escolhemos o homem errado, é porque tínhamos a informação errada.

— Vocês ouviram dizer que ele era igual a Carlos, não é? Que os seus honorários eram mais razoáveis, o seu aparato um pouco mais contido, e por menos intermediários estarem envolvidos, não havia possibilidade de um contrato ser investigado. Não foi isso?

— Talvez.

— É claro que sim. É o que foi dito a todos, e é tudo mentira. A força de Carlos está em suas fontes de informação, que são em maior número — informação infalível. Com o seu sistema bem-elaborado de atingir as pessoas certas no momento mais preciso, ele comete menos mortes.

— Parece com os outros. Havia muitos em Zurique, e muitos aqui em Paris, também.

— Todos falsos, monsieur. Todos.

— Falsos?

— Para ser bem clara, faço parte da operação há alguns anos, e já me encontrei, de uma forma ou de outra, com dúzias que faziam o seu papel — nenhum é importante. Mas nunca me encontrei com uma única pessoa que tivesse falado diretamente com Carlos, e muito menos que tenha qualquer idéia de como ele é.

— Este é Carlos. Quero saber a respeito de Caim. O que você sabe a respeito de Caim. — Controle-se. Você não pode se virar. Olhe para ela! Olhe para ela!

— Por onde devo começar?

— Com o que lhe vier primeiro à mente. De onde ele veio? — Não desvie o olhar!

— Sudeste da Ásia, é claro.

— É claro... — Oh, Deus!

— Veio da Medusa americana, sabemos..

Medusa! Os ventos, a escuridão, os holofotes, a dor... A dor rasgou o seu crânio agora; ele não estava onde estava, mas onde estivera. Um mundo distante no tempo e no espaço. A dor. Oh, Jesus, a dor..

Tao!

Che-sah!

Tam Quan!

Alfa, Bravo, Caim... Delta

Delta... Caim!

Caim é para Charlie.

Delta é para Caim.

— O que há? — A mulher olhou-o assustada; estava estudando o seu rosto, os olhos à procura dos seus. — Você está transpirando. Suas mãos estão trêmulas. Está passando mal?

— Já passa. — Jason livrou a mão que segurava o pulso pegou um guardanapo para enxugar a testa.

— Isso aparece com a pressão, não?

— Com a pressão, sim. Continue. Não há muito tempo, tenho que me encontrar com pessoas, tomar algumas decisões. A sua vida, provavelmente, está no meio disso tudo. Vamos, de volta a Caim. Você disse que ele veio da... Medusa americana.

— Les mercenaires du diable — disse ela. — Era o apelido dado ao pessoal da Medusa pelos colonialistas da Indochina — o que restou deles. É bem apropriado não acha?

— O que penso não importa. Nem o que sei. Quero ouvir o que você pensa, o que você sabe a respeito de Caim.

— O seu mal-estar o deixa muito grosseiro.

— A minha impaciência me deixa muito impaciente. Você disse que escolhemos o homem errado; se fizemos isso foi porque tivemos uma informação errada. Les mercenaires du diable. Está querendo dizer que Caim é francês?

— De forma alguma. Você me testa de maneira muito pobre. Apenas disse isso para lhe mostrar o quanto sabemos a respeito da Medusa.

— Com “nós” você quer dizer o pessoal que trabalha para Carlos.

— Que seja.

— Acho que sim. Se Caim não é francês, o que é então?

— Americano, sem dúvida alguma.

Oh, Deus. — Por quê?

— Porque tudo o que ele faz tem o selo da audácia americana. Empurra e arrasta sem nenhuma fineza, roubando créditos que não são dele, propagando mortes que não são suas. Estudou os métodos de Carlos e seus contatos como nenhum outro homem vivo. Sabemos que ele costuma recitá-los como se fossem seus clientes em potencial muito mais comumente do que costuma se colocar no lugar de Carlos e convencer os tolos que é ele, e não Carlos, quem aceita e preenche os contratos. — Lavier fez uma pausa. — Eu o atingi, não? Ele fez o mesmo com você — com o seu pessoal —, não é?

— Talvez. — Jason segurou o pulso novamente, enquanto as declarações lhe voltavam à mente. Declarações feitas como resposta às chaves de um jogo perigoso.

Stuttgart. Regensburg. Munique. Duas mortes e um seqüestro, créditos de Baader. Dinheiro dos Estados Unidos...

Teerã? Oito mortes. Créditos divididos — Khomeini e OLP. Pagamento, dois milhões. Sudeste soviético.

Paris?... Todos os contratos serão processados através de Paris.

Contratos de quem?

De Sanchez... Carlos.

— ... sempre um engenho tão transparente.

A mulher falara e ele não a ouvira. — O que disse?

— Você estava se lembrando, não é? Ele usou o mesmo estratagema com você — com o seu grupo. É assim que ele arranja trabalho.

— Trabalho? — Bourne deixou os músculos do estômago bem retesados até que a dor o trouxesse de volta à mesa da sala cheia de velas do Argenteuil. — Ele aceita trabalhos, então — ele comentou desinteressadamente.

— E os leva avante com grande habilidade; ninguém lhe nega isso. O seu número de mortes é impressionante. Em muitas coisas ele é um segundo com relação a Carlos — nunca seu igual, mas está muito acima de les guérilleros. É um homem de muita esperteza, extremamente inventivo, uma arma letal treinada pela Medusa. Mas é a sua arrogância e as suas mentiras à custa de Carlos que o farão cair.

— E isso faz dele um americano? Ou é a sua predisposição? Tenho a impressão de que vocês gostam do dinheiro americano, mas é só do que gostam. — Grande habilidade; extremamente inventivo; uma arma letal treinada... Port Noir, La Ciotat, Marselha, Zurique, Paris.

— Está fora de cogitação, monsieur. A identificação é positiva.

— Como conseguiu?

Lavier tocou a haste do seu cálice de vinho, o indicador com a ponta vermelha dava voltas no vidro. — Um homem descontente foi comprado em Washington.

— Washington?

— Os americanos também estão à procura de Caim — com uma ansiedade parecida com a de Carlos, creio. Medusa nunca foi divulgada publicamente, e Caim parece ter provado aos americanos que é um grande empecilho. Este tal homem descontente estava numa boa posição e pôde nos dar muitas informações, inclusive os registros da Medusa. Foi fácil, só comparar os nomes da lista com os de Zurique. Foi simples para Carlos, não seria para mais ninguém.

Muito simples, pensou Jason, sem saber por que este pensamento o tomou de surpresa. — Compreendo — disse ele.

— E você? Como o encontrou? Não Caim, é claro, mas Bourne.

Através das névoas da ansiedade, Jason lembrou-se de outra declaração. Não dele, mas uma feita por Marie — Facílimo — respondeu. — Pagamos o dinheiro dele com um depósito a curto prazo em conta-corrente, que foi desviado para outra. Os números puderam ser rastreados; é uma tática de verificação do imposto.

— E Caim permitiu isso?

— Ele nem soube. Os totais foram pagos... através de uma conta em números — como números de telefone — numa fiche.

— Eu o admiro.

— Não é preciso, mas tudo o que você sabe sobre Caim é que merece admiração! Tudo o que fez até agora foi apenas explicar uma identidade... Agora, continue. Tudo o que você sabe sobre esse tal de Bourne. — Seja cuidadoso. Cuidado com a tensão da voz. Você está apenas... avaliando dados. Marie, você disse isso. Querida, querida Marie. Graças a Deus você não está aqui.

— O que sabemos dele é incompleto, Ele conseguiu roubar a maior parte dos registros mais importantes. Uma lição que, em dúvida alguma, aprendeu com Carlos. Mas não tudo; conseguimos montar um esquema. Antes de ele ser recrutado para a Medusa, muito provavelmente foi um homem de negócios que falava francês e vivia em Cingapura, representando uma coletividade de importadores de Nova Torque e Califórnia. A verdade é que foi demitido pela coletividade, que depois tentou extraditá-lo pan os Estados Unidos, instaurando um processo de acusação. Roubara centenas de milhares de dólares da coletividade. Em Cingapura era conhecido como uma figura solitária, muito poderoso nas operações de contrabando, e por demais impiedoso.

— Antes disso! — interrompeu Jason, sentindo de novo a transpiração surgir-lhe nas têmporas. — Antes de Cingapura. De onde ele veio? — Seja cuidadoso! As imagens! Ele podia ver as ruas de Cingapura. Rua Príncipe Eduardo, Kim Chuan, Rua Boon Tat, Maxwell, Cuscaden.

— Essa é a parte dos registros que foi roubada e ninguém mais pôde encontrar. Existem apenas rumores, e são todos infundados Por exemplo, foi dito que ele era um jesuíta apóstata que ficara louco; outra especulação era de que ele foi um jovem banqueiro pego desviando fundos junto com outros banqueiros de Cingapura. Mas não é nada concreto, nada que possa servir como pista. Antes de Cingapura, nada.

Você está errada, há muita coisa. Mas não faz parte de tudo isso... Há um espaço vazio que pode ser preenchido, e você pode me ajudar. Talvez ninguém possa, ninguém deva.

— Até agora você não me contou nada interessante — disse Bourne. — Nada relativo ao que procuro.

— Então não sei o que você quer! Faz-me perguntas, quer detalhes, e quando lhe dou respostas você as rejeita como sem importância. O que quer?

— O que você sabe sobre o... trabalho de Caim? Já que quer fazer um trato, dê-me uma razão para isso. Se a nossa informação for diferente, estaria além do que ele fez, não é? Qual foi a primeira vez que ele despertou a sua atenção? A atenção de Carlos? Rápido!

— Há dois anos — disse Mme. Lavier, desconcertada com a impaciência de Jason e amedrontada. — Chegou uma informação da Ásia sobre um homem branco que oferecia serviços espantosamente similares aos de Carlos. Ele logo se transformou em uma indústria. Um embaixador foi assassinado em Moulmein; dois dias mais tarde um político japonês muito conhecido foi morto em Tóquio, antes do debate em Diet. Uma semana depois, o carro do editor de um jornal explodiu em Hong-Kong, e menos de quarenta e oito horas depois um banqueiro foi morto em uma rua de Calcutá. Atrás de cada uma dessas mortes estava Caim. Sempre Caim. — A mulher parou, à espera da reação de Bourne. Não houve nenhuma. — Você não percebe? Ele estava em toda parte. Ele correu de um assassinato para outro, aceitando contratos com tanta rapidez que não há dúvida de que ele tinha que ser descuidado. Era um homem com muita pressa, construindo a sua reputação tão rapidamente que até mesmo chocava o profissional mais calejado. Ninguém duvidava que ele fosse um profissional, menos ainda Carlos. Algumas instruções foram mandadas: descobrir esse homem, procurar saber tudo o que era possível sobre ele. Você vê, Carlos entendeu o que nenhum de nós conseguiu. E em menos de doze meses ele provou estar certo. Chegaram as respostas dos informantes de Manila, Osaka, Hong-Kong e Tóquio. Caim estava se mudando para a Europa, diziam; ia fazer de Paris a sua base de operações. O desafio era claro, a luta começara. Caim vinha para destruir Carlos. Tornar-se-ia o novo Carlos, oferecendo os seus serviços, os serviços que eram exigidos pelos que dele precisavam. Como o senhor o encontrou, Monsieur

— Moulmein, Tóquio, Calcutá... — Jason ouviu os nomes saindo da sua garganta. E novamente eles flutuavam, suspensos no ar perfumado, como sombras de um passado esquecido. — Manila, Hong-Kong... — Parou, tentando clarear as névoas, espiando os contornos das formas que se mantinham correndo à frente de sua vista.

— Esses lugares e muitos outros — continuou Lavier. —Foi esse o erro de Caim, e ainda é. Carlos pode representar muitas coisas para diversas pessoas, mas entre os que se beneficiaram da sua confiança e generosidade, há lealdade. Seus informantes e mercenários nunca estão dispostos a se vender, embora Caim os tente de vez em quando. Dizem que Carlos é rápido em fazer Julgamentos duros, mas também dizem que é melhor um Satã que se conhece do que um sucessor seu que não se conhece. O que Caim não percebeu — e ainda não percebe — é que toda teia formada por Carlos é muito vasta. Quando Caim se mudou para a Europa, não sabia que as suas atividades já eram conhecidas em Berlim, Lisboa, Amsterdã... e em lugares tão distantes quanto Omã.

— Omã — disse Bourne involuntariamente. — O xeque Mustafá Kalig — sussurrou para si mesmo.

— Isso nunca ficou provado! — Lavier exclamou desafiadoramente. — Uma cortina de fumaça e confusão muito bem montada, o próprio contrato foi uma ficção. Ele tomou para si o crédito de um assassinato interno; ninguém poderia ter passado por aquela segurança do xeque! Foi uma mentira!

— Uma mentira — repetiu Jason.

— Tantas mentiras! — acrescentou Mme. Lavier desdenhosamente. — Ele não é nenhum bobo, no entanto. Mente em segredo, deixa passar uma alusão aqui, outra ali, sabendo que elas serão exageradas quando forem passadas adiante e ficarão diferentes da sua própria substância. Provoca Carlos a cada instante, promovendo-se à custa do homem de quem quer tomar o lugar. Mas não é páreo para Carlos; aceita contratos que não pode levar adiante. Vocês são apenas um exemplo; sabemos que existem muitos outros. Dizem que é por isso que durante muitos meses ele andou evitando pessoas como vocês.

— Evitando pessoas... — Jason segurou o pulso outra vez; a tremedeira começara de novo, o som das trovoadas distantes vibrando em diferentes regiões do seu crânio.

— Você está... certa disso?

— Completamente. Ele não estava morto, estava escondido. Caim assumiu mais de uma tarefa, e isso foi inevitável. Aceitou trabalhos em demasia para um tempo muito curto. No entanto, sempre que faz isso, comete em seguida uma morte desnecessária, um assassinato espetacular, que não foi pedido, apenas para manter a sua glória. Seleciona uma figura proeminente e o chacina. O assassinato é um choque para todos, e, logo em seguida, é creditado, sem dúvida alguma, a ele, O embaixador que estava de viagem a Moulmein foi um exemplo; ninguém o contratara para matá-lo. Houve também mais dois que ficamos sabendo — um Comissário russo em Xangai e, mais recentemente, um banqueiro em Madri...

As palavras saíam febrilmente dos lábios vermelhos e brilhantes, que se mexiam continuamente na parte inferior da máscara que o fitava. Ele ficou ouvindo-as; já as ouvira antes, já as vivera antes. Não eram mais nenhuma sombra, simples lembranças daquele passado esquecido. Imagens e realidade se fundiam. Ela não tinha começado nenhuma sentença que ele não pudesse terminar, nem sequer mencionou um nome, uma cidade ou um incidente com o qual ele não estivesse instintivamente familiarizado.

Ela estava falando sobre... ele.

Alfa, Bravo, Caim, Delta..

Caim é para Charlie, e Delta é para Caim.

Jason Bourne era o assassino chamado Caim.

Havia uma última pergunta, uma breve trégua que pairava acima da escuridão daquelas duas noites antes, na Sorbonne. Marselha. 23 de agosto.

— O que aconteceu em Marselha? — perguntou ele.

— Marselha? — a mulher se encolheu. — Como você pode? Que mentiras lhe disseram? Que mentiras mais?

— Diga-me apenas o que aconteceu.

— Você está se referindo a Leland, é claro. O onipresente embaixador cuja morte foi exigida pelo... paga pelo contrato aceito por Carlos.

— E se eu lhe disser que há muitos que pensam que Caim foi o responsável?

— Foi o que ele quis que todos pensassem. Foi o último insulto a Carlos — roubar dele esta morte. O pagamento era irrelevante para Caim; apenas queria mostrar ao mundo — ao nosso mundo — que podia chegar antes e fazer o trabalho para o qual Carlos fora pago para fazer. Mas ele não chegou, você sabe. Não teve nada a ver com a morte de Leland.

— Ele estava lá.

— Ele caiu em uma armadilha. Pelo menos nunca apareceu. Alguns disseram que ele fora morto, mas como não apareceu nenhum cadáver, Carlos não acreditou nisso.

— Como foi que aconteceu.. esta suposta morte de Caim?

Madame Lavier se encolheu de novo, balançando a cabeça em movimentos rápidos e curtos. — Dois homens na praia tentaram obter esse crédito, tentaram ser pagos por isso. Um deles nunca mais foi visto; pode-se presumir que Caim o tenha matado, se era mesmo Caim. Eram gentalha das docas.

— Qual foi a cilada?

— A cilada alegada, monsieur. Disseram que tiveram notícia de que Caim ia se encontrar com alguém na Rua Sarrasin uma noite antes do assassinato, mais ou menos. Disseram que deixaram mensagens obscuras na rua e atraíram Caim, ou quem acharam ser Caim, até os píeres, até um barco de pesca. Nem a traineira nem o comandante foram vistos de novo; devem ter tido certeza — mas, como digo, não houve nenhuma prova. Nem mesmo uma descrição adequada de Caim que pudesse ser comparada com o homem que foi levado da Rua Sarrasin. De qualquer forma, é aqui que tudo termina.

Você está errada. É aqui que começa. Para mim, pelo menos.

— Compreendo — disse Bourne, tentando novamente dar naturalidade à voz. — A nossa informação é diferente, naturalmente. Fizemos uma escolha diante do que sabíamos.

— A escolha errada, monsieur. O que lhe contei é a verdade.

— Sim, sei.

— Fazemos o nosso trato, então?

— Por que não?

— Bien. — Aliviada, a mulher levou a taça de vinho aos lábios. — Você verá, será melhor para todos nós.

— Agora realmente não... não importa. — Ele não podia ser ouvido, e sabia disso, O que dissera? O que acabara de dizer? Por que dissera aquilo?... A névoa se fechava novamente, as trovoadas ficavam mais altas; a dor voltara às suas têmporas.

— Quero dizer... quero dizer, como você diz, é melhor para todos nós. — Ele podia sentir — ver — os olhos de Lavier postos nele, estudando-o. — É uma solução bem razoável.

— Naturalmente que sim. Você não está se sentindo bem?

— Já disse que não é nada, passa logo.

— Estou aliviada. Agora, dar-me-ia licença por um momento?

— Não. — Jason segurou-lhe o braço.

— Je vous prie, monsieur. O toalete, só isso. Se não se importa, pode ficar do lado de fora da porta.

— Vamos sair. Você pode parar no caminho. — Bourne fez sinal para o garçom,

— Como quiser disse ela, olhando em sua direção.

Ele ficou no corredor escuro, debaixo das luzes que vinham do teto. Do outro lado do corredor ficava o banheiro feminino, marcado por letras pequenas e douradas: FEMMES. Gente bonita — mulheres belíssimas, homens simpáticos — continuavam a passar por ele. Era a mesma freqüência da Les Classiques. Jacqueline Lavier se sentia em casa.

Ela já estava no banheiro há mais de dez minutos, fato que teria perturbado Jason se ele tivesse condição de se concentrar no tempo, agora. Mas não podia; estava em fogo. Ruídos e dores pelo corpo todo o consumiam, os nervos estavam tensos, expostos, as fibras intumescidas, com as constantes pontadas. Olhou para a frente, uma longa lista de homens mortos às suas costas, O passado estava nos olhos da verdade; eles o haviam procurado e o haviam visto. Caim... Caim... Caim..

Balançou a cabeça e olhou para o teto escuro. Tinha que agir; não podia se permitir afundar, mergulhar no abismo das trevas e dos ventos cortantes. Tinha que tomar algumas decisões... Não, elas já estavam tomadas; agora, era apenas uma questão de pô-las em funcionamento.

Marie. Marie? Oh, Deus, meu amor, como nos enganamos!

Respirou fundo e olhou para o relógio — o cronômetro que trocara por uma peça fina de ouro, que pertencera a um marquês, no Sul da França. Ele é um. homem de grande habilidade, extremamente inventivo... Não havia qualquer alegria naquela avaliação. Olhou para a porta do banheiro das mulheres.

Onde estava Jacqueline Lavier? Por que não saía de lá? O que pensava fazer ficando lá dentro? Tivera a presença de espírito de perguntar ao maître se havia telefone lá dentro; o homem respondera negativamente, apontando para uma cabine telefônica perto da entrada. Ela estava ainda perto dele quando ele fez essa pergunta; e ouvira a resposta, entendendo por que ele a fizera.

De repente, uma luz forte o cegou. Afastou-se, encolhendo-se contra a parede, os olhos cobertos com as mãos. A dor! Oh, Cristo! Os olhos estavam em fogo!

Em seguida ouviu algumas palavras entre os risos polidos dos homens bem..vestidos e das mulheres que passavam casualmente pelo corredor.

— Como lembrança do seu jantar no Roget, monsieur — disse uma recepcionista muito animada, segurando uma câmara fotográfica pela barra vertical — A fotografia ficará pronta em poucos minutos. Com os cumprimentos de Roget.

Bourne continuou rígido, sabendo que não podia esmagar a máquina fotográfica, enquanto o medo de uma nova percepção chegava até ele. — Por que eu? — perguntou.

— A sua noiva pediu, monsieur — respondeu a moça, apontando com a cabeça para o banheiro. — Conversamos lá dentro. O senhor tem sorte, ela é uma mulher encantadora. Pediu-me para lhe entregar isto. — A recepcionista passou-lhe um bilhete dobrado; Jason o pegou, enquanto ela saracoteava de volta para a entrada do restaurante.

O seu mal-estar me perturba, como tenho certeza que o per turba, também, meu novo amigo. Você pode ser o que diz ser, como pode não ser. Terei a resposta em meia hora mais ou menos. Uma chamada telefônica foi feita por uma solícita pessoa que jantara aqui; e essa fotografia está a caminho de Paris. Você não poderá impedir, como não poderá impedir quem está para chegar a Argenteuil. Se nós realmente temos o nosso trato, nada disso irá perturbá-lo — como a sua doença me perturba — e podemos voltar a conversar tão logo os meus companheiros cheguem.

Dizem que Caim é um camaleão, que tem várias aparências bem convincentes. Também dizem que é inclinado à violência e a acessos temperamentais. E isso é um mal-estar, não?

Ele correu pela rua, em Argenteuil, atrás do sinal de um táxi, que virou na esquina e desapareceu. Depois parou, respirando convulsivamente, procurando em todas as direções por outro táxi; mas nenhum apareceu. O porteiro do Roget lhe dissera que um táxi levaria dez ou quinze minutos para chegar, por que o monsieur não pediu um com antecedência? A cilada estava pronta e ele caíra nela.

Em frente! Uma luz, outro táxi! Correu; tinha que pará-lo, tinha que voltar para Paris. Para Marie.

Estava de volta ao labirinto, correndo cegamente, e percebendo, enfim, que não havia possibilidade de fuga. Mas tinha que correr sozinho; esta decisão era irrevogável. Não haveria nenhuma discussão, nenhuma conversa, nem lamúrias — argumentos baseados no amor e na incerteza. Porque a certeza já estava bem clara. Já sabia quem era... o que tinha sido; era condenado, culpado — e suspeito.

Uma hora ou duas sem nada dizer. Apenas trocar olhares, conversar calmamente sobre qualquer coisa, menos a verdade. Amor. E depois sairia; ela jamais saberia quando e ele jamais lhe contaria o porquê. Ele lhe devia isto; doeria muito no início, por um breve momento, mas a última dor seria muito menor do que a causada pelo estigma de Caim.

Caim!

Marie. Marie! O que fiz?

—. Táxi! Táxi!

 

Saia de Paris! Agora! Não importa o que esteja fazendo. pare e saia!... São ordens do seu Governo. Eles querem que você saia daí.

Marie amassou o cigarro no cinzeiro sobre a mesinha de cabeceira. Seu olhar escorregou para o número de três anos atrás da Potomac Quarterly, seu pensamento pairou por um momento naquele terrível jogo que Jason a forçara a compartilhar.

— Não quero ouvir! — disse para si mesma, em voz alta, assustada com o som da sua própria fala no quarto vazio. Foi até a janela, a mesma janela onde ele estivera, olhando para fora, amedrontado, tentando fazê-la compreender.

Tenho que saber algumas coisas... o suficiente para tomar uma decisão... mas talvez não precise saber de tudo. Uma parte de mim tem que ser capaz de... de correr, desaparecer. Tenho que ser capaz de dizer para mim mesmo: o que foi não é mais e há possibilidade de nunca ter sido, porque não tenho nenhuma lembrança do que foi, O que uma pessoa não consegue se lembrar é porque não existiu... para a pessoa.

— Meu querido, meu querido. Não deixe que eles façam isto com você! — Suas palavras não a espantaram desta vez, porque era como se ele estivesse no quarto, ouvindo, prestando atenção às suas próprias palavras, pronto para correr, desaparecer... com ela. Mas bem no seu íntimo sabia que ele não poderia fazer isso; ele não conseguiria viver com uma meia verdade, ou com três quartos de uma mentira,

Querem pegá-lo sozinho.

Quem seriam eles? A resposta estava no Canadá, e o Canadá estava interceptado para ela; era outra cilada.

Jason estava certo sobre Paris; ele também sentia isso. Não importa o que fosse, estava ali. Se ele pudesse encontrar uma pessoa para levantar o véu e o deixar descortinar por si mesmo o fato de estar sendo manipulado, então outras perguntas podiam ser feitas e as respostas não o levariam mais à autodestruição. Se pudesse ser convencido de que devia esquecer quaisquer que fossem os crimes cometidos e perceber que era o joguete de um crime muito maior, então seria capaz de fugir, ir embora com ela. Tudo era relativo. O homem a quem amava tinha que encarar que não era o seu passado que não existia mais; que o seu passado existira e ele podia viver com ele, pondo-o para escanteio. Era esse o raciocínio de que ele precisava, a convicção de que, independente do que ele tivesse sido antes, estava muito aquém do que os seus inimigos queriam fazer o mundo acreditar; do contrário não o usariam assim. Era o bode expiatório, a sua morte devia ocupar o lugar da morte de outra pessoa. Se ele apenas pudesse ver isso; se ela pudesse convencê-lo disso! Do contrário ela o perderia. Eles o levariam; eles o matariam.

Eles.

— Quem é você? — ela gritou pela janela para as luzes de Paris. — Onde está você?

Sentia um vento frio a bater-lhe no rosto, como se os vidros da janela tivessem se derretido e o ar gelado da noite estivesse penetrando no quarto. A garganta ficou apertada e, por um instante, não pôde engolir... Nem respirar. O momento passou e a respiração voltou ao normal. Estava com medo; isso já acontecera antes, naquela primeira noite dos dois em Paris, quando ela deixara o café e fora à procura dele, na escadaria do Cluny. Estava andando em passos rápidos pelo bulevar Saint-Michel quando isso acontecera: o vento frio, a impossibilidade de engolir... Naquele instante, também não conseguira respirar. Mais tarde soube a razão; naquele momento, Jason, a alguns quarteirões dali, na Sorbonne, estivera rastreando uma informação que momentos depois anularia — mas daquela vez ele conseguira chegar a isto. Conseguira desvencilhar-se da idéia de não mais voltar para ela.

Pare! — gritou. — É loucura! — acrescentou mexendo a cabeça e olhando para o relógio. Ele saíra há cinco horas; onde estaria? Onde estaria ele?

Bourne desceu do táxi em frente ao movimentado e elegante hotel de Montparnasse. A hora seguinte seria a mais difidil da breve vida de que ele tinha mem6ria — uma vida que em um vazio até Port Noir, e, de lá para a frente, fora um pesadelo. O pesadelo continuaria, mas iria viver sozinho com ele; amava-a muito, não iria pedir que compartilhasse isso com ele. Encontraria uma forma de desaparecer, levando com ele a evidência que o atava a Caim. Seria simples; sairia para um pretenso encontro e não retornaria. Depois escreveria um bilhete:

Está tudo acabado. Encontrei as minhas indicações. Volte para o Canadá e não diga nada. Será melhor para nós dois. Saberei onde encontrá-la.

A última frase era injusta — jamais voltaria a procurá-la. Mas era preciso manter a pequena e leve esperança, mesmo que fosse para ir ao seu encontro num avião em vôo para Ottawa. Com o tempo — no tempo — aquelas semanas que haviam passado juntos se apagariam e ficariam reduzidas a um segredo enevoado, um guardado de pequenas riquezas para ser aberto e tocado em momentos calmos e silenciosos. E nada mais, pois a vida é sentida pelo poder das memórias vivas, as que adormecem perdem o significado. Ninguém sabia disso melhor do que ele.

Atravessou o saguão e cumprimentou o concierge, sentado no banco atrás do balcão de mármore, lendo um jornal, com um gesto de cabeça. O homem quase nem levantou o olhar, apenas notou a sua entrada.

O elevador roncou e grunhiu até o quinto andar. Jason respirou profundamente e abriu a porta; antes de tudo, teria que evitar a dramaticidade — sem levantar suspeitas através de pala- nas ou olhares, O camaleão tinha que sair da floresta em silêncio, sem deixar nenhum traço. Sabia o que iria dizer, já pensara nisso cuidadosamente, como sabia o que escreveria no bilhete.

— Passei a maior parte da noite perambulando por aí — disse enquanto a abraçava e desmanchava-lhe os cabelos, aninhando a cabeça dela no seu ombro... as palavras lhe doíam — ... correndo atrás de vendedoras cadavéricas, ouvindo alegres bobagens e tomando café fantasiado de tolo rabugento. Lês Classiques foi uma perda de tempo; aquilo lá é um zoológico. Os macacos e os pavões dão um show infernal, mas acho que ninguém sabe nada. Há talvez uma pessoa que pode saber e que está lá, mas também pode ser apenas um astuto francês à procura de um americano marcado.

— Ele? — perguntou Marie. O seu tremor estava passando.

— Um homem que operava a mesa de telefones — disse Bourne, tentando repelir as imagens de explosões