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A ILHA DAS TRÊS SEREIAS / Irving Wallace
A ILHA DAS TRÊS SEREIAS / Irving Wallace

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A ILHA DAS TRÊS SEREIAS

 

 

     Os cientistas americanos chegaram à Ilha das Três Sereias, há muito perdida na vastidão do Pacífico, como observadores imparciais. Eram dez. A famosa antropóloga Dra. Maud Hayden; seu filho Marc, casado com a linda e jovem Claire; um professor solteiro, censor de cinema em sua cidade do Interior, que viaja para tentar fugir da mãe dominadora; uma enfermeira devotada, disposta a dar tudo de si, apesar de seus poucos encantos; um fotógrafo de espírito liberal e sua mulher, ansiosos por afastar a filha de 16 anos da turma em que se envolveu; a mulher quarentona do rico patrocinador da expedição, e uma psicanalista cujos problemas pessoais superam os de seus clientes.

     Na Ilha das Três Sereias esses visitantes deparam com um comportamento desinibido - costumes que chocam seus preconceitos civilizados. Os nativos não conhecem qualquer restrição sexual; aprenderam a aliviar a monotonia do casamento sem criar sentimentos de culpa e ensinaram os jovens a amar sem temer. O que esta liberdade provoca nos observadores vindos de outra cultura - como são levados a reconhecer os seus próprios temores e desejos - é o tema deste romance de Irving Wallace, um trabalho singular de ficção que explora implacavelmente detalhes nunca antes devassados da consciência do homem moderno.

      

       

     Era a primeira das cartas que Maud Hayden retirara da pilha da manhã, colocada sobre o mata-borrão da sua secretária. O que a atraíra para ela, admitia timidamente para si mesma, fora a exótica fila de selos a toda a largura da extremidade superior do envelope. Os selos continham uma reprodução do Cavalo Branco, de Gauguin, em verde, vermelho e anil, e as palavras “Polinésia Francesa... Via Aérea”.

     Do cimo da sua montanha de anos, Maud achava-se penosamente consciente de que seus prazeres se tornavam cada vez menos visíveis e distintos em cada novo outono. Os Grandes Prazeres continuavam provocadoramente claros: as suas realizações intelectuais com Adley (ainda respeitado); a sua absorção no trabalho (constante); o filho Marc (que seguia - de certo modo - as pegadas do pai); a sua nora, Claire (doce, encantadora; era difícil supor a existência de outra jovem tão encantadora quanto ela). Os Pequenos Prazeres é que começavam a se tornar tão ilusórios e invisíveis como a juventude. O passeio agradável, efetuado no princípio de cada manhã, ao sol da Califórnia, especialmente quando Adley ainda vivia, era uma celebração consciente do nascimento de cada dia. Agora, recordava-a apenas de sua artrite. A vista - em especial da janela do seu estúdio, no andar superior - da faixa regular da auto-estrada entre Los Angeles e San Francisco, com a praia de Santa Bárbara e as enormes vagas do oceano mais além, fora sempre esteticamente impressionante. Porém, agora, ao contemplar da janela o panorama, via apenas o pontilhado dos automóveis, monstros velozes, e a sua memória aspirava as emanações da gasolina, do lixo apodrecido, e das plantas marinhas, no outro lado da estrada, à beira-mar. O café da manhã constituíra sempre outro dos Pequenos Prazeres, o jornal dobrado, com os seus recitais diários das loucuras e das maravilhas do homem, a suculenta refeição de cereal, ovos, bacon, batatas, café fumegante bem açucarado, torradas com bastante manteiga. Agora, os convidados ao café da manhã eram em número reduzido devido à conversa sinistra sobre o elevado grau de colesterol e as dietas com baixa percentagem de gorduras e todas as coisas, e expressões correntes (leite desnatado, margarina, brócolos, pudins de arroz) da Idade do Infortúnio. E por fim, entre os Pequenos Prazeres de cada manhã, contava-se a pilha do correio - e este prazer, como Maud compreendia, continuava constante, ainda não erodido pela sua montanha de anos.

     O mais interessante para Maud Hayden, no que se referia à correspondência, era que esta lhe proporcionava novas alegrias todas as manhãs, ou assim parecia. Era uma correspondente prolífica. Os seus colegas antropólogos e os seus discípulos eram também correspondentes infatigáveis. Além disso, Maud parecia também um pequeno oráculo, ao qual muitos se dirigiam com seus enigmas, esperanças e interrogações. Nenhum dos sacos de cartas que recebia semanalmente deixava de conter curiosidades provindas de lugares distantes - a de um estudante já graduado na sua primeira viagem à índia, relatando como a tribo Baiga se apegava de novo ao solo, após cada tremor de terra; a de um eminente antropólogo francês, no Japão, que apurara que o povo de Aino não considerava uma noiva verdadeiramente casada antes que ela desse à luz, e que perguntara se era isto exatamente o que Maud descobrira entre os siameses; a da rede nova-iorquina de televisão, que oferecia uma modesta soma se Máud verificasse a autenticidade da seguinte informação, que seria utilizada num documentário sobre a Nova Bretanha: um nativo comprara a noiva ao tio da jovem, e depois, ao nascer um filho, a criança fora colocada sobre uma fogueira para se assegurarem do seu crescimento.

     Ao primeiro olhar, o correio desta manhã, com seus segredos encerrados no interior do envelope, parecera menos prometedor. Ao percorrer os vários envelopes, Maud descobrira que, a julgar pelas marcas de correio, as cartas tinham sido remetidas de Nova York, Londres, Kansas City, Houston e de lugares semelhantes, sem qualquer atrativo, até que sua mão se deteve no envelope com os selos que reproduziam o quadro de Gauguin.

     Compreendeu que ainda conservava o envelope alongado, espesso, amarrotado, entre os dedos curtos e grossos, e então apercebeu-se de que na maioria das vezes, nos últimos anos, o seu hábito de ação direta fora impedido por meditações e divagações de pensamento nubladas por uma vaga compaixão por si mesma.

     Desgostosa consigo própria, Maud Hayden voltou o longo envelope e, nas costas, encontrou o nome e o endereço do remetente escrito com uma caligrafia européia ondulante e anacrônica: “A. Easterday, Hotel Temehami, Rue du Commandant Destremau, Papeete, Taiti”.

     Tentou ligar o nome “A. Easterday” a um rosto. Quanto ao presente, nada. Em relação ao passado - a sua memória, um eficiente arquivo, recuou no tempo -, tantos, tantos... até que encontrou o rosto com a legenda do nome. A impressão era vaga, descolorida. Fechou os olhos e concentrou-se profundamente; pouco a pouco a impressão tornou-se mais definida.

     Alexander Easterday. Papeete, sim. Caminhavam no lado da sombra de uma rua, em direção da sua loja, Rue Jeanne d'Arc, 147. Era baixo e gordo, atarracado como se tivesse sido comprimido mecanicamente. Nascera em Memel ou Dantzig, ou numa outra cidade qualquer riscada do mapa pelas tropas de assalto nazistas. Tivera muito nomes e passaportes, e no seu caminho - um longo caminho cujo objetivo era a América - como refugiado fora obrigado a deter-se, fixando por fim residência em Taiti, onde se dedicara ao comércio. Declarara ter sido arqueólogo noutros tempos, ter acompanhado diversas expedições alemãs em dias mais felizes e afizera-se ao modelo de Heinrich Schliemann, obstinado e excêntrico escavador de Tróia. Easterday era demasiado mole e desmazelado, demasiado desejoso de agradar e demasiado falto de sorte para representar o papel de Schliemann, pensara então Maud. Alexander Easterday, sim. Conseguia agora vê-lo melhor: chapéu de linho, ridiculamente empoleirado na cabeça; gravata borboleta (nos Mares do Sul), terno tropical cinzento, amarrotado, cujas calças o ventre saliente alargara. E ainda pormenores mais curiosos: pince-nez alto num nariz longo, três centímetros de bigode, bolsos deformados, cheios de ninharias, notas, cartões de visita.

     Começava agora a recordar-se com mais nitidez. Passara a tarde a bisbilhotar a loja cheia de artefatos da Polinésia, todos a preços razoáveis, e adquirira um par de castanholas de bambu balinesas, uma clava de guerra, esculpida, das ilhas Marquesas, uma saia de tapa da Samoa, um capacho da ilha de Ellice e uma antiga tigela de madeira de Tonga, a qual servia agora de adorno no aparador da sua sala de estar. Antes de partirem, recordava, ela e Adley - pois quisera que Adley o conhecesse - tinham convidado Easterday para uma refeição no restaurante do terraço do Grande Hotel. O convidado mostrara-se uma enciclopédia no que tocava a informações - iluminara alguns enigmas menores da sua estada de meio ano na Melanésia. Isto passara-se há oito anos, quase nove, quando Marc estava no seu último ano na Universidade (ao jovem desagradava a influência ali de Alfred Krober apenas porque o pai e a mãe idolatravam o mestre).

     Ao recordar agora os anos passados, Maud lembrou-se de que o seu último contato com Easterday se verificara um ano ou dois após seu encontro em Taiti. Nessa altura tinham publicado um estudo sobre o povo de Bau, nas ilhas Fidji, e Adley recomendara-lhe que enviasse a Easterday um exemplar autografado. Ela assim fizera e passados alguns meses Easterday agradecera a dádiva numa breve carta formal a que não era, porém, estranho um certo desvanecimento por tão augustos conhecidos se terem lembrado dele. Empregara a palavra “augustos”, e depois disso Maud convencera-se de que ele estudara na universidade de Gõttingen.

     Fora essa a última vez que tivera notícias de. “A. Easterday” - a carta de agradecimento de seis ou sete anos antes - até ao momento presente. Fixara o endereço nas costas do envelope. Que poderia querer dela aquele rosto vago, semi-esquecido, tão longe? Dinheiro? Uma recomendação? Elementos sobre um tema qualquer? Tomou o envelope na palma da mão. Era muito pesado para se tratar de um simples pedido. Mais provavelmente se trataria de uma informação. O homem que lhe escrevia, pensou, tinha alguma coisa a comunicar-lhe.

     Pegou na adaga Ashanti - recordação de uma jornada pela África naqueles dias pré-Gana entre as duas guerras mundiais -, que se encontrava em cima da secretária, e com um golpe apenas abriu o envelope.

     Desdobrou as frágeis folhas de papel de correio aéreo. A carta fora cuidadosamente datilografada numa velha máquina, já em péssimo estado, pois muitas das palavras apresentavam pequenos buracos - em vez de um e ou de um o via-se, na maioria das vezes, um furo -; contudo, a carta fora batida com cuidado, laboriosamente, a dois espaços, certos. Ela contou as folhas de papel de arroz: vinte e duas ao todo. A sua leitura ocupá-la-ia durante algum tempo. Havia a outra correspondência e diversas notas a rever antes da última aula da manhã. Todavia, sentiu a curiosa e bem familiar censura do segundo ser, a não-intelectual, não-objetiva, segunda Maud Hayden, dissimulada dentro de si, e isto por se tratar do ser feminino, não científico, intuitivo. Agora, este segundo ser impunha-se, recordava-lhe os mistérios e as excitações que, muitas vezes no passado, tinham vindo de terras longínquas. O seu segundo ser só raramente pedia para ser escutado; porém, quando o fazia, ela não o podia ignorar. Seus melhores momentos provinham de tal obediência.

     Sem dar ouvidos ao bom senso e sem se importar com a pressão do tempo, sucumbiu. Tornou a sentar-se, pesadamente; sem atender ao protesto metálico da cadeira giratória, levou a carta quase rente aos olhos e, lentamente, começou a ler para si mesma aquilo que, esperava, talvez constituísse o melhor dos Pequenos Prazeres do dia.

       

      “PROFESSOR ALEXANDER EASTERDAY

      HOTEL TEMEHAMI PAPEETE, TAITI

      Dr.a Maud Hayden.

      Presidente, Departamento de Antropologia

      Edifício das Ciências Sociais, Sala 309

      Raynor College

      Santa Bárbara, Califórnia

      E. U. A.

      Cara Dr.a Hayden

      Estou certo de que esta carta constituirá para a senhora uma surpresa. Confio, no entanto, em que tenha a bondade de se recordar de mim. Tive a grande honra de a conhecer, e a seu ilustre marido, há cerca de dez anos, quando passaram alguns dias em Papeete, vindos das ilhas Fidji, em viagem para a Califórnia. Espero que se lembrará da sua visita à minha loja de objetos da Polinésia, na Rue Jeanne d'Arc, onde teve a generosidade de me felicitar pela minha coleção de peças arqueológicas primitivas. Constituiu também para mim um memorável momento ter sido convidado para jantar com a senhora e seu marido.

      Embora me encontre afastado dos principais interesses da minha vida, tenho conseguido manter-me em contato com o mundo exterior, e isto devido ao fato de assinar diversos jornais de arqueologia e antropologia e também o Der Spiegel, de Hamburgo.

      Assim, chegam até mim, de tempos a tempos, pormenores acerca das suas atividades, que acolho com orgulho, devo admitir. Também, nos últimos tempos, adquiri alguns dos seus primeiros livros, publicados em edições brochuras, mais acessíveis, que li com extraordinário interesse. Verdadeiramente, acredito, e não apenas eu, que o seu distinto marido e a senhora prestaram a maior das contribuições à etnologia dos nossos dias.

      Portanto, foi com grande consternação que li - há três ou quatro anos, creio - no nosso semanário local, Les Débats, a notícia da morte do Dr. Hayden. A profunda comoção que me causou tal ocorrência não me permitiu escrever nessa altura, mas agora que os anos passaram apresento-lhe as minhas mais sinceras condolências. Espero que tenha resistido, com ânimo, face à dor motivada por tão grande perda, e se encontre agora já resignada e de boa saúde, dedicando-se de novo ao ensino, escrevendo e viajando, como sempre.

      Deus queira que esta carta chegue às suas mãos, pois possuo apenas o seu cartão com este endereço; porém, se tiver mudado de residência, estou certo de que os correios a localizarão, uma vez que se trata de uma pessoa de grande renome. A razão pela qual afirmo “Deus queira que esta carta chegue às suas mãos” deve-se ao fato de sentir que seu conteúdo subseqüente poderá interessá-la vivamente e ter enorme influência no decurso do seu trabalho.

      Antes de a informar sobre a notável curiosidade que chegou ao meu conhecimento, será necessário avivar-lhe a memória - se for caso disso - acerca de uma parte da nossa conversa de há dez anos. Foi depois do jantar em Papeete, quando tomávamos os licores, que a senhora e seu querido esposo me felicitaram pelas pequenas histórias e anedotas que lhes contei. Bebemos em silêncio durante alguns minutos, e em seguida disse-me o seguinte (baseio a minha recordação das suas palavras não numa memória prodigiosa mas numa passagem de um diário que tenho conservado fielmente durante todos estes anos):

      - Professor Easterday: a nossa viagem a Fidji, as nossas excursões ocasionais através da Melanésia e as nossas breves visitas às ilhas de Tonga, Cook, Marquesas e aqui a Taiti têm sido tão produtivas e estimulantes que meu marido e eu sentimos que devemos voltar. Desejávamos voltar à Polinésia, especificamente à Polinésia, num futuro próximo. Porém, deve haver uma razão, um objetivo para tal visita. É aqui que nos pode ser útil, professor Easterday. Fazemos-lhe este pedido: se alguma vez tomar conhecimento de que um povo da Polinésia, de um atol desconhecido, mantém a sua cultura incontaminada por contatos exteriores e não submetida ainda à observação científica, desejaria que não se esquecesse de nos comunicar imediatamente essa descoberta. Se esse povo e o seu atol merecerem um estudo in loco, se nos puderem revelar alguma coisa acerca do comportamento humano, empreenderemos uma investigação.

      Ao ouvir isto, Dr.a Hayden, senti-me impressionado pela fé que depositava em mim. Ao mesmo tempo, se se recorda, tive de admitir que duvidava de poder ajudá-la no seu trabalho. Afirmei que, pio que sabia, não existiam quaisquer ilhas importantes - isto é, ilhas povoadas - que não fossem já conhecidas, tivessem sido cartografadas, visitadas, submetidas a investigação. Afirmei, com toda a franqueza, que os exploradores, missionários, pescadores de baleias, mercadores - e desde então os militares, os turistas, os desocupados, os antropólogos - tinham visto tudo o que havia para ver nesta parte do mundo, e que era provável que não existisse já por aqui qualquer coisa de novo e virgem.

      Apesar da minha firme declaração, se bem me lembro, a senhora não se mostrou desencorajada. Compreendi então que isto é coisa típica na senhora, que as percepções, otimismo, persistência da Dr.a Hayden constituem algumas das características da sua famosa personalidade. E assim, nessa altura, afirmou-me:

      - Professor Easterday: embora conheça melhor a Oceania do que nós, devo declarar que a nossa experiência em muitos pontos da Terra ensinou-nos que nem tudo foi descoberto, que nem tudo é conhecido, e que a natureza tem maneira de preservar as suas pequenas surpresas. De fato, conheci alguns antropólogos, pessoas que serviram no Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial, que me confessaram terem descoberto, por acaso, pelo menos meia dúzia de ilhas desconhecidas, habitadas por tribos primitivas, que não constavam dos mapas existentes. Estes antropólogos mostram-se bastante reservados quanto a estas ilhas - não indicaram ainda a sua localização a ninguém -, pois receiam que elas sejam registradas nos mapas e nas cartas comuns. Estes antropólogos estão entesourando os seus pequenos atóis, aguardando o dia em que disponham de tempo e fundos para fazer seus estudos. Como certamente compreende, a exclusividade - isto é, o estudo de problemas ainda não ventilados - conta por vezes muito nas ciências sociais. Agora, tenho a sensação de que, entre os inúmeros atóis, ilhas de coral; ilhas vulcânicas que, na Oceania, excedem dez mil, devem encontrar-se algumas das chamadas ilhas perdidas dignas de um estudo em profundidade. Repito, professor: se alguma vez ouvir falar de uma ilha destas, com um povo cujos costumes sejam ainda desconhecidos do mundo exterior, recorde-se por favor dos Haydens e do extraordinário interesse que manifestaram. Não esqueça o que afirmei esta noite, professor Easterday. Não esqueça. Prometo que não lamentará o tempo perdido.

      Jamais esqueci as suas palavras daquela noite, Dr.a Hayden. Pode tê-las já esquecido após todos estes anos, mas eu não. O seu pedido permaneceu sempre presente na minha memória. Na verdade, nos últimos anos, em especial devido ao fato de a civilização a jato ocidental penetrar cada vez mais no Sul do Pacífico, cheguei a acreditar que a sua esperança, e o bom resultado das minhas pesquisas, constituíam uma quimera impossível. Estamos ambos cientes de que o mapa-múndi ainda mostra áreas inexploradas - o interior da Nova Guiné holandesa, grandes extensões da China, Birmânia, Índia, a extremidade superior da bacia do rio Amazonas - com tribos nunca vistas por olhos estranhos. Mas o seu sonho de uma ilha da Oceania ainda não visitada e povoada? Confesso que quase abandonara as minhas pesquisas, que quase fechara os ouvidos a qualquer rumor que pudesse consubstanciar o seu sonho. Porém, subitamente, na semana passada, por acaso, quando deixara já de pensar no assunto, seu velho pedido teve o seu prêmio.

      Sim, Dr.a Hayden, encontrei a sua ilha perdida.

      Perdoe-me se meu insípido inglês não consegue exprimir a emoção que me domina enquanto lanço estas palavras no papel. Como desejara expressar-me com eloqüência na sua língua neste momento em que nossos anseios se realizaram! Apesar desta dificuldade, tentarei o melhor que puder transmitir as minhas entusiásticas emoções.

      Ao fim de dez anos encontrei, entre as milhares de ilhotas da Oceania, os até aqui desconhecidos ilha e povo que outrora procurou. Isto não é palavreado ou tagarelice de nativos, Dr.a Hayden. Dirijo-me à senhora com a autoridade de uma prova em primeira mão, pois pisei o solo desta minúscula mas tão importante ilha. Convivi durante breve tempo com seus habitantes, uma mescla de semipolinésios, de semi-ingleses, à semelhança da ilha Pitcairn. Fiz minhas observações e desde então ouvi muito acerca dos costumes desta tribo, e estes costumes revelam uma das mais peculiares e estranhas civilizações isoladas que existem atualmente sobre a Terra. Tentei ver esta minha descoberta através dos seus olhos experientes de sábio e antevejo um estudo que poderá ser de grande importância na sua obra e uma notável contribuição a todos os homens e mulheres vivos.

      Este grupo de ilhas até agora desconhecidas dos Mares do Sul - uma pequena mas luxuriosa ilha vulcânica e dois diminutos atóis - denomina-se Três Sereias.

      Não tente localizar as Três Sereias em qualquer mapa. Não se encontram nele. Não foram oficialmente descobertas quer pelas autoridades quer pelo público. Não tente descobrir pormenores acerca das Três Sereias em quaisquer livros científicos sobre a Oceania. No que se refere à história e à geografia, elas não existem. Deve confiar nos meus conhecimentos de estudioso: as Três Sereias, apesar de microscópicas por comparação, são tão reais como Taiti, Rarotonga ou a ilha da Páscoa, ou mesmo a ilha de Pitcairn. Quanto à sua população, as Sereias não têm mais que duzentos habitantes, atrevo-me a afirmar, mas são todos tão reais como a senhora e eu. Com exceção da minha pessoa e de dois outros caucasianos, jamais foram vistas por quem quer que viva presentemente neste mundo.

      O que é mais original quanto a esta gente das Três Sereias - devo declarar este fato como um preliminar, pois se isto não despertar a sua curiosidade poderá poupar-se ao incômodo de ler o que se segue, e relutantemente dirigir-me-ei a outra pessoa interessada neste assunto -,. o que é mais extraordinário quanto a ela é a sua progressista (devo dizer surpreendente) atitude em relação às práticas do amor e do casamento. Estou convencido de que não existe nada que se assemelhe a este comportamento histórico em qualquer outra sociedade do globo.

      Não posso comentar se os costumes sexuais e conjugais das Três Sereias são bons ou maus. Posso apenas notar, sem equívocos, que me causaram espanto. E eu, Dr.a Hayden, não falo como um calouro ignorante e inexperiente, mas como cientista e homem do mundo.

      Se tiver despertado seu interesse, como ardentemente desejo, prossiga a leitura. Recorde-se, à medida que for lendo, que não sou um mero contador de histórias, mas que falo com fria objetividade de um arqueólogo formado na Alemanha. Recorde-se também das palavras do imortal Hamlet: “Existem mais coisas no Céu e na Terra, Horácio, do que as sonhadas na tua filosofia.”

      Falarei cronologicamente sobre o meu envolvimento nesta descoberta acidental, bem como sobre o que encontrei, o que observei, o que ouvi, e, no que se refere à senhora, o que se pode fazer de maneira prática, a respeito de todos estes fatos.

      Há cerca de seis semanas entrou na minha loja um australiano de meia-idade, alto, de porte aristocrático, que se apresentou como Sr. Trevor, de Camberra. Declarou que acabara de completar uma viagem de recreio que incluíra a Samoa Ocidental, as Marquesas, as Cook, e que não podia regressar à terra natal sem levar algumas lembranças. Ouvira falar do meu sentimento e da minha reputação de homem honesto e desejava adquirir vários pequenos artefatos. Mostrei-lhe o que tinha na loja, explicando-lhe isto e aquilo, no que se referia aos objetos em exposição, a sua origem, a sua história, os seus usos e significados, e pouco tempo depois ele estava tão maravilhado com a extensão dos meus conhecimentos sobre os Mares do Sul que começou a interrogar-me acerca de muitas das ilhas e das minhas viagens, especialmente daquelas em que eu fora adquirir objetos de artesanato. A sua permanência estendeu-se por algumas horas - servi-lhe chá - e embora se fosse com compras que não perfaziam mais de 1800 francos do Pacifico lamentei a sua partida. É raro encontrarem-se ouvintes instruídos neste lugar isolado.

      Pensei que não tornaria a ver este Sr, Trevor, de Camberra, Austrália, e assim pode imaginar minha surpresa quando, pouco depois de abrir a minha loja na manhã seguinte, o vi aparecer de novo. Não viera para adquirir artefatos, disse, ou para ouvir mais algumas das minhas histórias, mas antes para saber a minha resposta sobre uma proposta de negócios que me ia fazer. Ficara impressionado, afirmou, com meus conhecimentos sobre as muitas ilhas e povos da Polinésia. Procurava, desde há algum tempo, entrar em contato com uma pessoa como eu, disse, e durante toda a sua viagem não conhecera ninguém que dispusesse de vastos conhecimentos e em que pudesse confiar, até me encontrar. Uma vez que duvidava de que se pudesse encontrar assim inesperadamente uma pessoa com a minha experiência e a minha cultura, consultara alguns preeminentes funcionários na noite anterior, os quais, além de lhe darem as melhores referências a meu respeito, me tinham recomendado.

      Sem mais pormenores, o Sr. Trevor revelou a sua missão. Representava um grupo de negociantes de Camberra que acreditavam no futuro da 'Polinésia e desejavam investir nela alguns milhões de libras. Os projetos eram muitos, e diferentes, mas entre os primeiros contava-se uma frota de pequenos aviões de passageiros para conduzir turistas entre as ilhas menores porém pitorescas e as maiores. A companhia, Vôos Interoceânicos, oferecia passagens e fretes de custo mais reduzido que a Qantas, a TAI francesa, as Linhas Aéreas do Sul do Pacífico, 'a TEAL neozelandesa e diversas outras. Essencialmente, esperava organizar um serviço de barcas, conferindo-lhe maiores mobilidade e latitude do que companhias mais poderosas. Uma vez que seriam utilizados aviões leves e usados campos de aterrissagem menores e de manutenção mais barata, as tarifas manter-se-iam baixas. Trevor explicou que tinham sido estabelecidos acordos através de toda a Polinésia e conseguida a cooperação de governos estrangeiros com interesses nesta região; porém, necessitavam de terreno para mais um aeroporto.

      Trevor não podia prolongar sua estada a fim de localizar esse aeroporto. Precisava de alguém que agisse em seu nome. Eis por que me procurava. A sua proposta era a seguinte: desejava que eu fizesse alguns vôos de reconhecimento, num avião particular, em duas direções. Em primeiro lugar, queria que eu estudasse o corredor entre Taiti e as ilhas Marquesas. Se com isto não se localizasse um campo adequado, sugeriu-me que me dirigisse para o sul de Taiti, cobrindo o amplo triângulo formado pelas ilhas Tubuai, pela ilha Pitcairn e pela ilha de Rapa, e se necessário que fosse ainda mais além, para o sul, para lá das linhas do tráfego aéreo.

      A Vôos Interoceânicos desejava uma pequena ilha despovoada, com um platô ou uma área rasa em que pudesse ser utilizado o bulldozer, a fim de se construir um aeroporto com pista de cerca de 2500 metros de comprimento. Uma ilha despovoada, eis o que preferiam, pois aí o terreno podia ser comprado por um preço reduzido a um governo negligente que o possuísse. Por outro lado, se a ilha apropriada que surgisse ante meus olhos fosse mesmo habitada por uma única tribo ou por um punhado de nativos, e onde os brancos não tivessem interferência, isso também serviria. Os nativos podiam ser deslocados para outro lugar, ou mesmo segregados, e o terreno seria ainda menos dispendioso.

      A minha tarefa consistiria em localizar, do ar, três ou quatro destas ilhas, depois aterrar e visitá-las, e em seguida enviar um relatório bastante pormenorizado para Camberra. Os peritos de Trevor examinariam cuidadosamente meu relatório, fariam incidir sua atenção sobre duas destas ilhas e depois encarregariam seus especialistas de tomar, no local, a decisão final. Para me recompensar pelas despesas feitas com o reconhecimento dar-me-iam quinhentos dólares. Pelo meu relatório, caso o julgassem útil, caber-me-iam mais três mil dólares.

      Apesar de sentir alegria em viajar entre estas ilhas, a missão de que fora incumbido não me agradava. Em primeiro lugar, causa-me aversão voar. Em segundo lugar, não possuo energias que me permitam palmilhar terras quase áridas e longínquas. Contudo, minha situação pecuniária é bastante difícil. Creia, não gosto de me fazer passar pelo que não sou. Meus esforços cotidianos consistem em fazer o possível por me agüentar. A concorrência dos negociantes nativos é enorme. Os artefatos de valor são cada vez mais raros. Portanto, sempre que existe oportunidade de conseguir um suplemento para os escassos rendimentos que me fornece a loja, não posso deixar de aproveitar a oportunidade. Apesar da conta de despesas de Trevor ser limitada, a sua recompensa final era considerável, certamente mais do que obtenho durante um ano com o meu negócio - a loja e outros. Não tive remédio senão aceitar a incumbência.

      Após ter recebido todas as instruções, e Trevor ter regressado à Austrália, decidi imediatamente fretar um avião particular. Os que se achavam disponíveis em Papeete - por exemplo, os dois hidraviões da RAI, que conduzem turistas a Bora Bora - eram demasiado dispendiosos para utilização particular. Continuei a procurar colher informações e, quando mencionei o meu problema ao barman do Quinn, este disse-me que conhecia a pessoa que me convinha - um dos seus clientes, o Capitão Ollie Rasmussen, de quem já ouvira falar, possuía um velho hidraviao que comprara a uma firma americana depois da Segunda Guerra Mundial. O barman afirmou que Rasmussen tinha uma vivenda e uma mulher polinésia em Moorea - que, como sabe, fica a pequena distância daqui - e que era proprietário de um armazém situado pouco abaixo do Quai Commerce. Rasmussen era um importador, supunha o barman, e usava o hidraviao para transporte de mercadorias. Em qualquer caso, vinha a Papeete pelo menos uma vez por semana, seria muito fácil avistar-me com ele.

      Poucos dias depois avistei-me de fato com o Capitão Rasmussen e com o seu co-piloto, um nativo de vinte e poucos anos chamado Richard Hapai. Rasmussen recendia a uísque, exalava irreverência e tinha um aspecto grosseiro. Pela minha parte, sentia certo receio. Ele possuía, na verdade, um antiquado Vought-Sikorsky - um avião de dois motores, rudimentar, que atingia uma velocidade máxima de cerca de 270 quilômetros por hora -, que encontrei limpo e bem cuidado isto fez despertar a minha confiança. Rasmussen era pitoresco e volúvel; em dado momento disse-me deplorar o fato de ter sido obrigado a abandonar em 1947 a sua velha escuna para substituí-la por um hidravião; porém, penso que gostava mais do hidravião do que parecia fazer crer. Efetuava, todas as semanas, viagens através das ilhas, durante dois dias de cada vez; contudo, tinha bastante tempo disponível e não fazia objeção em ceder-me o hidravião, incluindo os seus serviços. Ao fim de uma hora de conversa concordou em efetuar três vôos de reconhecimento, dois deles curtos e um mais longo, e pousar apenas três vezes, tudo por quatrocentos dólares.

      Há duas semanas, não companhia de Rasmussen, e com Hapai no posto de pilotagem, fiz a minha primeira viagem de exploração. O Capitão Rasmussen, devo dizê-lo, conhecia a área entre Samoa e as Marquesas bem melhor do que eu, e conduziu-me a grande número de atóis não povoados que a senhora sempre suspeitou que existissem mas que não constavam dos mapas. Porém, nenhum deles convinha à Vôos Interoceânicos. Alguns dias mais tarde, numa segunda viagem de reconhecimento, não conseguimos nada de melhor, embora o hidravião pousasse uma vez e fizéssemos uma visita à costa. Senti-me desanimado - compreendi que talvez não ganhasse os três mil ólares que me haviam oferecido -, mas tinha ainda esperannça de que no terceiro vôo, o mais longo, poderia descobrir o que desejava. Todavia, esta viagem final foi adiada durante alguns dias. Rasmussen achava-se ausente de Papeete e em parte alguma consegui encontrá-lo. Por fim, apresentou-se no meu hotel, isto há cinco dias, decidido a decolar de madrugada para o que seria uma viagem de reconhecimento de dois dias, interrompida apenas por breves paradas para reabastecer-se de combustível e a estada durante uma noite em Rapa. As minhas ordens para pousar sempre que se me deparasse uma boa possibilidade seriam obedecidas.

      Não vejo necessidade, Dr.a Hayden, de fazê-la sofrer o desespero desta última excursão, vazia, nas alturas. No primeiro dia nada vimos que nos prendesse a atenção. No segundo, depois de decolarmos de Rapa ao amanhecer, dirigimo-nos para o sul, voando a pequena e grande altura durante horas, bastante afastados das rotas batidas do oceano, examinando ilhas de coral, uma após outra. Nenhuma delas se coadunava com os objetivos de Trevor, e não vi necessidade de me enganar a mim próprio. Ao meio da tarde Rasmussen utilizou os tanques auxiliares de gasolina e decidiu regressar, resmungando que tínhamos ido já demasiado longe para voltarmos a Taiti a uma hora razoável da noite. Sugeri que dirigisse o avião para noroeste, para que, por fim, sobrevoássemos a costa das ilhas Tubuai no nosso caminho para Taiti. Rasmussen queixou-se disto e da diminuição da sua reserva de combustível; porém, tomou em consideração o meu desânimo e encorajou-me entre alguns tragos de uísque.

      Hapai manobrava os comandos, e Rasmussen fazia o possível para se embriagar completamente; eu seguia acocorado atrás deles, olhando pela janela, quando avistei um vago pedaço de terra, coruscando ao pôr do sol, perdido a distância. Com exceção do grupo Tubuai, que ainda se encontrava algures, perto, não estava familiarizado com esta área; todavia, tinha a sensação de que esse pedaço de terra não representava uma ilha importante, em que se fizesse escala em qualquer viagem.

      - Que é aquilo ali? - perguntei ao Capitão Rasmussen.

      Até este momento, apesar do seu aspecto grosseiro, considerara Rasmussen o mais simpático e cooperativo dos companheiros. Notara nele certas vulgaridades de linguagem, que reputara desagradáveis, mas não prestara muita atenção a esse fato. Contudo, tentarei reproduzir ao vivo a sua locução, de modo que a senhora possa experimentar o que eu experimentei no ar, naquele fim de tarde.

      À minha pergunta acerca do pedaço de terra que avistara a distância o Capitão Rasmussen respondeu com um grunhido:

      - Que é aquilo? Ora, coisíssima nenhuma... um atol nojento... deserto... um pouco de mato... talvez guano... sem água, sem vida... exceto albatrozes, andorinhas do mar, tarambolas... coisa para pássaros e não para aviões.

      Não me satisfez esta explicação. Eu tinha certos conhecimentos sobre ilhas, desejo lembrar-lhe.

      - Não parece tratar-se de um pequeno atol - volvi. - Tenho a impressão de que se trata de uma ilha um pouco mais extensa, com um platô de coral, ou mesmo de uma ilha vulcânica. Se não se importa, gostaria de examiná-la mais detidamente.

      Diante disto, o Capitão Rasmussen mostrou-se mais sóbrio, e um quê de aspereza transpareceu na sua voz.

      - Importo-me, sim, de desperdiçar o meu tempo quando faço uma viagem de regresso. Demais, a minha tarefa está concluída... a noite aproxima-se... disponho de pouco combustível... e temos ainda muito caminho a percorrer. É melhor não ligarmos àquilo.

      Alguma coisa no seu tom de voz, nos seus modos, no seu olhar evasivo fez com que eu suspeitasse subitamente da sua integridade. Decidi não me render.

      - Disse-me que não era habitada - tornei.

      - Sim, sim, foi isso mesmo que disse.

      - Então, tenho de insistir em vê-la mais de perto. Enquanto nos encontrarmos neste avião, fretado por mim, sugiro que respeite meus pedidos.

      Os seus olhos, aguados pelo álcool, pareceram-me aclarar-se e endurecer. Fitou-me fixamente.

      - Está procurando criar-me dificuldades, professor?

      Senti-me inquieto, mas dispus-me a jogar. Tinha arriscado muito para que me mostrasse tímido. Respondi no mesmo tom:

      - Então está tentando ocultar-me alguma coisa, capitão?

      Isto encolerizou-o. Estava certo de que me ia amaldiçoar. Em vez disso, porém, voltou o corpo para o seu co-piloto.

      - Muito bem... Para que ele não me aborreça mais, faça-lhe a vontade, Hapai, aproxime o aparelho de terra e mostre-lhe que não existe nada nas Sereias a não ser penhascos e algumas colinas.

      - Sereias? - perguntei imediatamente. - É esse o nome da ilha?

      - Não tem nome oficial - volveu ele, com extrema acrimônia.

      O avião, após descrever um semicírculo, dirigiu-se para aquela distante mancha de terra que, gradualmente, se tornava mais distinta, de modo que pude contemplar com certa nitidez os íngremes penhascos da costa e o que talvez fosse um platô com uma crista de montanhas além.

      - Muito bem, quanto mais perto melhor - disse Rasmussen ao seu co-piloto. Depois, voltando-se para mim: - Veja com seus próprios olhos, professor... Não há lugar para uma aterragem.

      Isto seria verdade se não houvesse platô, mas eu suspeitava de que havia, e confessei a Rasmussen o que pensava. Exigi que se aproximasse mais e que voasse mais baixo, de modo que eu pudesse satisfazer de um modo ou de outro a minha curiosidade, Uma vez mais, Rasmussen, grunhindo, preparava-se para me antepor as suas objeções em voz alta quando o interrompi com toda a severidade que consegui exprimir.

      - Capitão - disse -, tenho uma boa idéia do local onde nos encontramos. Se se opõe a que eu lance um olhar conveniente sobre esta ilha, encontrarei alguém que não recuse, e voltarei amanhã.

      Isto era pura bravata, pois pouco dinheiro me restava do que me dera Trevor, e não estava certo de saber o ponto exato onde nos achávamos. Todavia, quase acreditei na minha ameaça.

      Rasmussen ficou calado durante uns momentos, fitando-me com os olhos a pestanejar, lambendo os lábios gretados. Quando por fim começou a falar, notavam-se na sua voz vagas insinuações sinistras.

      - Não o faria se estivesse no seu lugar, professor. Estabelecemos um acordo bastante amigável, uma viagem tranqüila e como que particular. Tenho-me mostrado muito generoso. Nunca trouxe ninguém a esta área, antes. Em seu lugar, eu não me aproveitaria das facilidades concedidas pelo capitão.

      Piquei com um certo receio de Rasmussen, mas temia também fracassar na minha empresa. Orei para que pudesse manter o meu tom de bravata.

      - Estamos num céu livre e num oceano igualmente livre - volvi. Em seguida repeti: - Ninguém me pode impedir de voltar aqui, em especial agora que creio, sem sombra de dúvida, que o senhor me oculta qualquer coisa.

      - Está falando à toa - resmungou Rasmussen. - Há um milhão de ilhas áridas como esta. Nunca conseguirá dar com ela. Jamais a descobrirá.

      - Eu a descobrirei, nem que demore um ano - volvi com ênfase. - Recorrerei aos que me apoiam em Camberra e a toda a sua frota aérea. Tenho uma boa idéia sobre a área total. Observei já certas características da ilha. - Concluí o jogo. - Se me quiser impedir, muito bem. Conduza-me imediatamente a Taiti. Tratarei deste assunto com pilotos que cumprem o que trataram.

      Receei que Rasmussen explodisse ou exercesse a violência sobre mim; porém, ele estava afogado em álcool e as suas reações eram lentas. Resmungando para si mesmo, fez um gesto de desagrado na minha direção e voltou-se para Hapai.

      - Mostre as Sereias a este filho de uma... Talvez isso lhe faça calar a boca.

      Nos dez minutos que se seguiram o oceano foi percorrido em dramático silêncio. Depois começamos a sobrevoar a ilha que, como agora observava, não era uma, mas três. Apercebi-me da existência de dois minúsculos atóis, cada um com menos de quatrocentos metros de circunferência. Eram de coral, mal se elevavam acima do nível do mar, cada um deles com terra seca, alguma erva, arbustos e coqueiros. Um tinha uma lagoa em miniatura, mas encantadora. Comparada com eles, a ilha principal era extensa; porém, na verdade, comparada com outras ilhas da Polinésia, era pequena, e, como eu imaginava, não teria mais de 6500 metros de comprimento e 5000 de largura. Apesar de voarmos a certa velocidade, consegui distinguir a alta cratera vulcânica, encostas íngremes, cobertas com densa vegetação, florestas, diversos vales verdejantes, uma lagoa brilhante, cor de cobre, inúmeros barrancos e ravinas, com enormes penhascos rochosos guardando a terra.

      E em dado momento avistei o meu platô. Intensa vegetação cobria-o como um maciço tapete; era liso e plano, sem rochas ou ravinas. Apagando-se ante meus olhos, o platô mergulhou quase nas encostas da selva, que desciam em direção de uma estreita faixa de praia arenosa.

      - Não existe ancoradouro para navios - disse Rasmussen com satisfação. - Baixios... recifes submersos... rochedos... Os ventos do norte esmagariam qualquer barco. Eis por que jamais toquei neste iugar quando tinha a escuna. Tornou-se possível apenas quando comprei este avião.

      - Há um platô - casse eu, calando com dificuldade o meu entusiasmo. - £ perfeito.

      Tão fascinado e absorvido se encontrava Rasmussen à vista da ilha mais extensa que parecia ter-se esquecido do que aqui me trouxera. As minhas palavras despertaram-no abruptamente.

      - Desejo que desça - disse eu.

      Penso que repeti isto diversas vezes, como uma criança que achou uma guloseima. O meu coração inflava de esperança, pois sabia que esta terra era apropriada. Levaria a bom termo a minha missão para Trevor e para a Vôos Intero-ceânicos. Receberia a devida recompensa.

      - Não - retorquiu o Capitão Rasmussen.

      - Não? - volvi com incredulidade. - Que quer dizer? Tínhamos descrito um semicírculo e achávamo-nos sobre

      uma passagem da ilha principal. Rasmussen esboçou um gesto em direção da janela.

      - A ressaca... a arrebentação é violenta... O vento traiçoeiro... nos destruiria. Olhei para baixo.

      - O mar parece de vidro. Está ótimo.

      - Não sei - resmungou Rasmussen. - Há outras coisas. É perigoso. Existem nela caçadores de cabeças... canibais...

      - O senhor disse que não era habitada - recordei com severidade.

      - Tinha-me esquecido.

      Sabia que não encontraríamos canibais naquela área. Contudo, não podia acusá-lo de mentiroso.

      - Eu me arriscarei, capitão - disse. - Por favor, peça ao Sr. Hapai que pouse. Preciso apenas de uma hora ou duas.

      Rasmussen continuou estranhamente obstinado.

      - Não posso aceder - retorquiu com voz débil. - O senhor se encontra sob a minha responsabilidade.

      - Sou responsável por mim próprio - redargüi com firmeza. - Já disse isto duas vezes e di-lo-ei uma terceira... Se continua a impedir que eu veja essa ilha, voltarei amanhã com alguém mais cooperativo.

      Rasmussen fitou-me durante alguns segundos, durante os quais ouvimos apenas o martelar dos dois motores do monoplano. O seu rosto nórdico, enrugado, com a barba hirsuta, parecia o perfeito retrato da consternação. Por fim, quase sem emoção, ele disse:

      - Abrirei a escotilha e o atirarei no oceano.

      Não consegui perceber se ele estava gracejando ou não; contudo, não se notava nenhum traço de humor no seu rosto.

      - Sabem que me encontro com o senhor - repliquei.

      - Seria guilhotinado, capitão.

      Ele olhou para fora da janela.

      - Isto não me agrada - afirmou. - Por que havia eu de me misturar com o senhor? Se o conduzir lá para baixo...

      - A voz extinguiu-se-lhe. Sacudiu a cabeça. - Está me causando muita preocupação, professor. Jurei que jamais traria alguém às Três Sereias.

      Senti o sangue latejar-me nas têmporas. Então, estas ilhas não eram provavelmente habitadas. A quem fizera Rasmussen esta jura? Que estava Rasmussen ocultando acerca do pedaço de terra lá embaixo? O mistério excitava-me tanto como o aeroporto em perspectiva.

      - Descemos ou não? - perguntei.

      - Não me oferece outra alternativa - retorquiu Rasmussen com evidente desespero. - Se eu estivesse no seu lugar, poria óculos escuros na praia. Procure a sua maldita faixa de aterragem e nada mais.

      - É apenas nisso que estou interessado.

      - Veremos - volveu ele enigmaticamente. Lançou um olhar de relance para Hapai. - Comunique-lhe que descemos. Depois... corte lentamente a velocidade para os cem quilômetros... o mar está suficientemente calmo para nos aproximarmos cerca de oitocentos metros da praia. Desamarrarei o bote.

      À medida que o hidravião descrevia um semicírculo, Rasmussen erguia-se do seu lugar com um suspiro e dirigia-se para a ré, para o costado de bombordo. Imediatamente, tomei o seu lugar no compartimento do piloto. Hapai conduzira o aparelho sobre o centro da ilha principal. Começou a descer no que compreendi ser um vale profundo dissimulado entre sombras. De súbito, fez balançar o avião, mergulhou as asas, ume, duas vezes, quase me lançando para fora do meu lugar. Depois, pareceu lançar para cima o aparelho, sobre a cratera vulcânica, tomando por fim a direção dos penhascos e da praia.

      A descida foi rápida e regular; quando pousamos na água, um pouco para lá da praia, Hapai deixou os comandos. Encontrei-o abrindo a escotilha da entrada principal, a bombordo. Em seguida, ajudou Rasmussen a desamarrar o bote e a descê-lo para a água.

      Rasmussen precedeu-me no bote balouçando e ergueu o braço para me ajudar a descer.

      - Mantenha-se a postos - disse para Hapai. - Voltaremos dentro de duas horas. Se nos demorarmos mais, pedirei a Paoti ou a Tom Courtney que mandem alguém avisá-lo.

      A minha mente reteve estes dois nomes... Paoti... Tom Courtney. Provocantes devido à sua justaposição, embora um deles fosse obviamente polinésio e outro parecesse anglo-saxão, apesar de Courtney ser de derivação francesa. Antes que pudesse fazer uma observação sobre este fato singular, Rasmussen ordenou-me, de cenho carregado, que pegasse num remo e remasse.

      Apesar de o mar estar calmo, os esforços produzidos com as remadas - combinadas com o rigor da tarde, quase abafada, sufocante, não suavizada por qualquer sopro de vento - fizeram que eu estivesse encharcado de suor no momento em que chegávamos à praia. O trato de praia arenosa, os rochedos escarpados atrás acolheram-nos em silêncio. Quando desembarcamos, foi como se eu tivesse começado a pisar na terra do Paraíso no quarto dia após o Gênese (Perdoe a minha eloqüência, Dr.a Hayden, mas foi isto que senti. )

      Depois de ter amarrado o bote, Rasmussen não perdeu tempo.

      - Temos meia hora de subida dura - disse ele -, se não pararmos, para chegarmos ao seu maldi... platô.

      Seguia atrás do capitão, enquanto ele dirigia a marcha até a um caminho estreito, sinuoso, que subia gradualmente ao longo do declive de um penhasco.

      - Há gente aqui? - perguntei. - Quem são Paoti e Courtney?

      - Poupe o seu fôlego - resmungou Rasmussen -, pois precisará bem dele.

      Para não fatigar a senhora com os pormenores da minha aventura, Dr.a Hayden, serei o mais conciso que me for possível no que respeita à nossa subida ao platô. O caminho não era íngreme, mas elevava-se constantemente, e as paredes de rocha, de ambos os lados, tinham acumulado o calor do dia, que era sufocante. Devido ao fato de ter pedido várias vezes para nos determos, a fim de recobrar a respiração, que por vezes quase me faltava, a subida demorou quase três quartos de hora. Durante esse período Rasmussen hão me dirigiu uma palavra sequer. No rosto enrugado, queimado, tinha uma expressão sombria, e limitou-se a responder às minhas perguntas com resmungos e grunhidos onde transparecia a cólera de que estava possuído.

      Por fim, as formações rochosas atingiram o cume de um largo rochedo, que conduzia a pequenas colinas verdejantes. e estas perdiam-se lentamente no platô, longo e raso.

      - Chegamos, por fim - disse Rasmussen; estas eram as primeiras palavras que pronunciava depois de termos partido da praia. - Que vai fazer agora?

      - Examinar o local.

      Penetrei, até grande distância, no platô, calculando o seu comprimento e largura, julgando a regularidade do terreno, estudando a vegetação, verificando a consistência do solo, atento mesmo à direção dos ventos. Fiz tudo o que Trevor me ordenara. Foi durante este exame, que ocupou toda a minha atenção - encontrávamo-nos há cerca de uma hora nessa chapada, onde, apoiado sobre as mãos e os joelhos, examinava a erva e a superfície do solo -, que pela primeira vez ouvi as vozes. Ergui a cabeça, surpreendido, e verifiquei que Rasmussen não se achava atrás de mim. Rapidamente, olhei em redor, e vi-o então; porém, não se encontrava só.

      Ergui-me de um salto. Rasmussen estava acompanhado por dois nativos, altos, delgados e de epiderme clara, um deles com uma pequena enxó de pedra na mão. Tanto quanto pude notar à distância a que me achava, e com Rasmussen a obstruir a visão ampla do local, ambos os nativos estavam nus. Encontravam-se descontraídos, escutando, enquanto Rasmussen falava, acompanhando as palavras de gestos largos. Uma vez quase girou sobre si mesmo ao apontar para mim, e como supus, erradamente, que se tratava de um convite para me aproximar, Rasmussen acenou-me para que eu continuasse onde estava. A conversa, que eu não conseguia entender a distância, prosseguiu talvez durante mais cinco minutos, e por fim os três homens dirigiram-se subitamente para o local onde me encontrava.

      A medida que caminhavam, pude distinguir as feições dos dois nativos, e vi que um deles era talvez polinésio enquanto o outro não podia deixar de ser caucasiano, embora fossem ambos da mesma cor. Estavam nus da cabeça aos pés, com exceção de uma concessão ao pudor. Ambos usavam sacos púbicos em redor dos órgãos genitais, contidos frouxamente por fios de fibra de coco à volta da cintura. Devo confessar que me senti desconcertado, pois embora tivesse visto semelhantes sacos púbicos na Melanésia há alguns anos, estes já não se usam na Polinésia civilizada, onde se preferem as calças ocidentais ou os saiotes dos nativos. Tive a impressão de que aqueles homens, ou quem quer que representavam, se mantinham fiéis aos velhos usos e costumes e não tinham sido influenciados pelos costumes modernos.

      - Professor Easterday - disse Rasmussen -, estes cavalheiros caçavam aqui perto quando viram o meu sinal e aproximaram-se para nos receber. Este é o Sr. Thomas Courtney, um americano que é membro honorário da tribo das Sereias. E este aqui é Moreturi, o filho mais velho de Paoti Wright, chefe da tribo.

      Courtney estendeu-me a mão, que apertei. Moreturi não estendeu a sua - ofereceu apenas um ar sombrio.

      Um sorriso breve cintilou no rosto do Courtney, sem dúvida motivado pelo espanto que o meu próprio exprimia. Perguntei-me então, e durante algum tempo mais tarde, o que faria um americano quase nu, com aquela vestimenta, numa ilha chamada Três Sereias, que não existia em mapa algum? Embora o enigma me continuasse a preocupar, podia agora distinguir com nitidez os dois homens.

      Moreturi, o mais novo, não contava mais de trinta anos, e tinha cerca de um metro e oitenta e cinco centímetros de altura. Sabemos que a epiderme dos polinésios é suficientemente clara para bronzear, mas ele parecia um branco moreno que se expusera ao sol. O seu cabelo era negro e ondulado, mas no corpo não se via um pêlo sequer. O rosto era mais largo e mais belo - com feições lisas e corretas - do que o de Courtney. O oblíquo ligeiro dos olhos e a espessura dos lábios era tudo o que indicava que se tratava de um nativo. O peito, forte, vigoroso, e os músculos do bíceps, enormes, contrastavam com as ancas e as pernas delgadas.

      Courtney era, como eu disse, o mais velho dos dois. Imagino que contaria cerca de quarenta anos, mas possuía um aspecto e um físico soberbos. Calculei que tivesse cerca de um metro e noventa de altura. Tinha cabelo cor de areia, despenteado, e parecia não se barbear há algum tempo. O rosto era mais longo e anguloso do que o do seu amigo polinésio, com olhos castanhos, profundamente cavados, nariz que dava a impressão de ter sido já quebrado e tratado com negligência, lábios mais finos e boca mais larga. Era o mais delgado dos dois, mas também musculoso, com pêlos não muito espessos no peito e nas pernas.

      A descrição que faço dessas pessoas pode não ser completamente exata, pois observei tudo isso durante poucos segundos, e apenas corrigi estas impressões mais tarde na escuridão, quando um exame pormenorizado era mais difícil.

      Estava ciente de que Courtney se dirigia a mim, quando disse:

      - O Capitão Rasmussen é, com efeito, o nosso embaixador e agente de ligação com o mundo exterior. Contou-nos, o melhor que pôde, alguns fatos sobre o senhor e falou-nos da sua missão para a Vôos Interoceânicos. - A sua voz era baixa, bem modulada, e a maneira como se exprimia denotava um homem culto e educado. - É o primeiro estranho a vir aqui desde a minha chegada, há alguns anos. A sua presença não deixará de preocupar o chefe e os nativos. Os estranhos são considerados tabus.

      - Mas o senhor é americano, e não um dos deles - retorqui. - Por que é tolerada a sua presença aqui?

      - Cheguei aqui por acaso, e fiquei devido à generosidade do chefe. Agora sou um deles. Ninguém mais seria acolhido com simpatia. O segredo que envolve a aldeia e as ilhas é sagrado.

      - Não vi aldeia alguma quando voei sobre as ilhas - volvi.

      Courtney inclinou a cabeça num gesto de aprovação.

      - É verdade, não viu aldeia alguma. Mas ela existe, e é composta por mais de duzentos habitantes, os sobreviventes de antepassados tanto brancos como pardos.

      - Descendentes dos amotinados da Bountyl - inquiri.

      - Não. Tudo isso aconteceu de maneira muito diferente. Não há tempo para mais explicações. Penso que seria prudente, professor Easterday, que partisse quanto antes e se esquecesse de que lançou alguma vez os olhos sobre nós ou sobre estas ilhas. O fato é que a sua chegada pôs em perigo toda a população. Se o seu desaparecimento não comprometesse a posição do Capitão Rasmussen em Taiti, estou certo de que Moreturi não permitiria que partisse. No pé em que as coisas estão, pode abandonar estas ilhas sem correr qualquer risco.

      Resolvi não ceder. As palavras daquele americano transformado em nativo eram, porém, menos sinistras do que as que poderiam ser pronunciadas por um polinésio.

      - Este platô é uma perfeita pista de aviões - disse eu. - É meu dever enviar para Camberra um relatório sobre o que vi.

      Moreturi agitou-se, mas Courtney tocou-lhe no braço sem o fitar.

      - Professor Easterday - disse Courtney suavemente -, não tem a mínima idéia do que está fazendo. Esta ilha, aparentemente inacessível e raramente visitada, tem-se mantido fora do alcance de olhos estranhos... as corrupções da civilização moderna... desde 1796, ano em que a presente aldeia foi edificada e a presente cultura começou.

      Penso, Dr.a Hayden, que foi o emprego da palavra “cultura” que me fez pensar na antropologia e no seu pedido de há dez anos. Porém, conscientemente, o meu espírito estava ainda apegado à missão de que fora incumbido por Trevor.

      - É o meu trabalho - retorqui.

      - Já imaginou a que o conduzirá o seu trabalho? - perguntou Courtney. - Os seus amigos de Camberra mandarão alguém examinar detalhadamente esta área. O terreno merecerá a sua aprovação. Depois avistar-se-ão com um governo estranho a esta ilha, que possua colônias na Polinésia ou detenha territórios sob mandato. Apelarão para a França, Grã-Bretanha, Nova Zelândia, Estados Unidos e outras nações que possuam ilhas e bases no Pacífico. Qual será o resultado dessas inquirições? Tristeza, dor, abandono. Se nenhuma potência sabe que existe esta pequena ilha, como poderão reivindicar sua posse? Nenhum descobridor jamais aqui aportou. Ainda terei de defender a causa deste povo em algum tribunal internacional, a fim de provar a sua independência. Suponha que ganharia mesmo a minha causa. Ainda assim tudo se perderia, pois as Sereias tornar-se-iam uma causa pública romântica. A sua atual sociedade não poderia ser preservada. E suponha que eu perdesse a minha causa, e que a algum governo estrangeiro fosse conferida a posse deste território? O francês, digamos. Que aconteceria então?

      Os administradores franceses e os pequenos burocratas chegariam, seguidos pelos seus amigos negociantes, com aviões, barcos. Desembarcariam bulldozers, casas pré-fabricadas e operários ébrios. E, quando o campo estivesse construído, os aviões comerciais voariam até aqui e partiriam diariamente com os seus turistas papagueando como néscios. A ilha converter-se-ia num terminal público. Que supõe aconteceria à tribo das Sereias?

      - Não mais seriam selvagens. Tornar-se-iam civilizados, fruiriam uma melhoria de vida, o progresso, tornar-se-iam parte do mundo conhecido. É isto assim tão mau?

      Courthey voltou-se para Moreturi.

      - Ouviu o professor, meu amigo? É isto assim tão mau?

      - Não o permitiremos - volveu Moreturi em perfeito inglês.

      Receio ter aberto a boca de espanto diante desse nativo.

      - Sabe, eles não são selvagens - disse Courtney. - De fato, têm mais para oferecer à sua apregoada civilização do que o senhor tem para oferecer a eles. Mas se os seus exploradores e caixeiros-viajantes aparecerem, estão para sempre perdidos. Por que é tão importante para o senhor destruí-los, professor? Que lucra com isso? Faz parte dessa companhia de Camberra?

      - Não. Sou apenas um negociante, e a minha vocação converteu-me num estudioso dos Mares do Sul. Sinto grande afeição por todos estes povos e pelos seus costumes ancestrais. Contudo, creio que não podem continuar a evitar o progresso.

      - Então o progresso é a razão do seu interesse? Não será antes o dinheiro?

      - Um homem tem de viver, Sr. Courtney.

      - Sim - volveu ele, lentamente. - Suponho que é assim. O senhor tem de arranjar as suas moedas de prata, em nome do progresso, e uma cultura bastante notável, maravilhosa, tem de morrer.

      Não consegui reprimir por mais tempo a minha curiosidade.

      - O senhor continua a enaltecer esse povo. Que tem ele de tão notável?

      - O seu modo de viver - retorquiu Courtney. - Não existe na Terra outro que se lhe assemelhe. Comparado com a maneira como o senhor e eu temos vivido, este é quase perfeito.

      - Gostaria de apreciá-lo com meus próprios olhos - volvi. - Mostre-me a aldeia.

      Moreturi voltou-se para Courtney.

      - Paoti Wright não o permitirá.

      Courtney concordou e disse, dirigindo-se a mim.

      - É impossível. Não posso responder pela sua segurança, se o levar lá. Tem de aceitar a minha palavra de que a preservação deste povo é mais importante do que qualquer soma em dinheiro que o senhor possa receber desse grupo. Deve regressar com o Capitão Rasmussen e guardar silêncio.

      - Suponha que eu regresse na verdade agora - redargüi. - Como sabe que pode confiar em mim? E se eu fosse falar disto à gente de Camberra... ou a outros?

      Courtney ficou calado durante um momento.

      - Não poderei dizer se o senhor sofrerá mais do que de uma má consciência. Sim, não posso garantir sequer isso. Conhece o co-piloto do capitão, Richard Hapai? Ele é um dos nossos, um das Sereias. Se o senhor quebrar o tabu tribal, arruinar este povo, é possível então que ele, ou outro, o descubra um dia, onde quer que se encontre, e o mate. Isto não é uma ameaça. Não me acho em posição de impor vingança. É apenas uma advertência razoável, derivada da minha experiência, colhida entre este povo. Menciono a possibilidade.

      - Não tenho medo - retorqui. - Partirei agora...

      - E enviará um relatório sobre as Três Sereias?

      - Sim. O senhor não me convenceu de que não o devo fazer, Sr. Courtney. Tentou embalar-me com palavras... uma cultura notável, um povo maravilhoso, qualquer coisa diferente, incrível... Mas afirmo-lhe que tudo isso não passa de palavras vazias. Não me conduzirá à aldeia para que veja tudo com os meus próprios olhos. Não me dirá precisamente o que tem em mente. Não me apresentou uma só razão que explique por que a tribo das Sereias deve sobreviver no seu atual estado primitivo.

      - E se lhe contar a verdade... pelo menos parte dela... o senhor' me acreditará?

      - Creio que sim.

      -É isso fará que não envie o seu relatório ao grupo de Camberra?

      - Não sei - volvi com sinceridade. - Poderá acontecer que sim. Depende do que me contar.

      Courtney olhou Moreturi de viés.

      - Que pensa, meu amigo? Moreturi inclinou a cabeça.

      - É necessário dizer a verdade.

      - Muito bem - declarou Courtney, fitando Rasmussen, que escutara a conversa. - Capitão, proponho que voltemos à praia. Dirá a Hapai» que saia do avião e nos traga provisões. Acenderemos uma fogueira e comeremos. Entrementes, explicarei ao nosso visitante, durante uma hora ou duas, o que se passa aqui.

      - Por que tanta insensatez? - perguntou Rasmussen. - Não confio no professor. Deixemo-lo partir. Poderemos fazer que os criminosos se encarreguem dele e...

      - Não, não me agrada isso - volveu Courtney. - Não seria justo nem para ele nem pari nós. Não podemos correr esse risco, capitão. Faria perigar a sua vida e também a de Hapai... e, por fim, as autoridades poderiam descobrir o que acontecesse ao professor. Não, prefiro que resolvamos razoavelmente esta questão. Confiarei na decência básica do professor.

      Depois disto, Courtney começou a agradar-me.

      Bem, Dr.a Hayden, dirigimo-nos todos para a praia. Quando lá chegamos a noite descera já. Apenas a lua iluminava frouxamente o ponto onde nos encontrávamos. O Capitão Rasmussen dirigiu-se no bote até ao hidravião, de onde regressou pouco depois com alimentos. Moreturi juntara já alguns arbustos e acendera uma fogueira. Rasmussen cozinhava... com apuro, devo dizer, e enquanto cozinhava sentamo-nos todos na areia, ao redor da fogueira. Courtney começou a contar a sua história das Três Sereias.

      Courtney, como intróito à sua narrativa, disse que não podia revelar todos os pormenores da história e costumes do grupo das Sereias. Prometeu apenas um simples esboço, balando com calma, descontraído, remontou aos começos da experiência. À medida que se referia aos tempos modernos, falava gradualmente com mais emoção. Pela minha parte, mergulhei de tal modo naquela maravilhosa narrativa que mal me apercebi de que a minha refeição se encontrava defronte de mim.

      Durante um breve interlúdio, comemos em silêncio; este foi interrompido apenas quando afirmei a Courtney que não podia conter a minha sede de mais conhecimentos. Pedi-lhe que satisfizesse a minha curiosidade. A pouco e pouco, começou de novo a falar, e prosseguiu depois sem se deter. Jamais retirei dele os olhos. Todos nos consideramos juizes dos homens, e eu próprio julgo-me bastante perspicaz no que se refere a estas coisas: acreditei que Courtney não mentia, que não embelezava ou exagerava, que o que contava correspondia à verdade, era tão rigoroso como os melhores estudos científicos. Tão intrigado me encontrava ante a sua narrativa que, quando ele terminou, supus que não se teriam escoado mais de sete minutos. Realmente, Courtney apresentara a sua causa de defesa da tribo - e compreendi que parte da perícia que evidenciara como narrador se devia à sua experiência no foro de Chicago, e parte a seu amor ao povo das Sereias... Senti um desejo imenso de fazer mil perguntas, mas mostrei-me suficientemente polido, e fiz apenas as mais pertinentes. Ele respondeu com grande sinceridade a algumas delas, a outras escusou-se, considerando-as, segundo as suas próprias palavras, “demasiado pessoais; uma intromissão nos segredos alheios”.

      A noite ia já alta - e, apesar do calor, corria uma brisa fresca - quando Courtney me disse:

      - Bem, professor, acaba de ouvir uma narrativa resumida mas concisa sobre as Três Sereias. Ouviu o bastante para saber o que poderá destruir. Qual é a sua decisão?

      À medida que a história de Courtney se aproximava do fim, eu começava a pensar na senhora, Dr.a Hayden. Todos aqueles fatos bizarros fizeram que dissesse a mim próprio: “Ah, se a Dr.a Maud Hayden estivesse aqui, com que encanto escutaria isto”. E enquanto Courtney prosseguia, e eu escutava, recordei-me do seu antigo pedido. Imaginei o que poderia significar para a senhora uma viagem às Três Sereias, e, através da senhora, para todo o mundo. Por diversas vezes ouvira-a dizer que as culturas primitivas deviam ser salvas, os velhos costumes preservados, antes que fossem aniquilados ou se extinguissem. A senhora sempre sentiu, sempre disse e escreveu que as culturas primitivas isoladas podiam ensinar-nos toda a variedade de coisas sobre o comportamento dos seres humanos, e que podíamos aplicá-los de maneira a melhorarmos o nosso próprio comportamento. Com clareza, então, surgiu-me a idéia de que a singular e minúscula sociedade das Três Sereias merecia ser salva antes que eu, ou alguém como eu, auxiliasse a moderna sociedade tecnológica a obliterá-la. Fiquei profundamente impressionado com o meu poder para decidir sobre o bem e sobre o mal e com a minha responsabilidade para com aqueles que pudessem ser capazes de se servir desta comunidade insular como laboratório para melhorar o bem-estar da nossa sociedade. De súbito, a importância do seu trabalho - do qual sou um pobre e menor aliado - fez que o meu dever para com Trevor e o grupo de Camberra parecesse insignificante.

      Courtney perguntara-me qual era a minha decisão. Do outro lado das chamas aguardava a minha resposta.

      - Gostaria de estabelecer um acordo com o senhor - disse eu abruptamente. - Oferecerei, com efeito, uma proposta.

      - De que espécie? - perguntou Courtney.

      - Já ouviu falar na Dr.a Maud Hayden, a famosa antropóloga?

      - Decerto que sim - volveu ele. - Já li a maior parte dos seus livros.

      - Que pensa deles?

      - São brilhantes - afirmou Courtney.

      - É esta a proposta que ofereço - disse. - O preço por não mencionar as Três Sereias ao grupo de Camberra.

      - Estou certo de que não o compreendo bem - retorquiu Courtney.

      Falei lentamente, dando grande ênfase a cada palavra.

      - Se permitir que a Dr.a Hayden e seus colegas façam até aqui uma viagem de estudo no próximo ano, se permitir que ela elabore um trabalho, para a posteridade, sobre esta sociedade, garantir-lhe-ei o meu silêncio no futuro e o isolamento destas ilhas.

      Courtney conseguiu que a proposta fosse considerada. Após alguns momentos de reflexão, trocou olhares com Moreturi e Rasmussen. Por fim, voltou para mim os seus olhos, como se quisesse avaliar as minhas boas intenções.

      - Professor - disse -, como pode garantir o silêncio da Dr.a Hayden e dos seus colegas?

      Como já esperava esta pergunta, tinha uma resposta preparada.

      - Decerto - retorqui -, a Dr.a Hayden e seus colegas jurarão manter o maior segredo acerca desta viagem e do destino da equipe. Porém, os seres humanos são frágeis e eu sei que as promessas verbais podem não o satisfazer suficientemente. Portanto, sugeriria que a Dr.a Hayden e seus colegas fossem mantidos na maior ignorância no que respeita ao local para onde partirão. Ela e seu grupo podem seguir para Taiti, de onde serão conduzidos às Três Sereias pelo Capitão Rasmussen em plena noite. Nenhum dos antropólogos saberá a latitude ou a longitude. Tampouco saberão se viajam para o norte ou para o sul, oeste ou leste. Saberão apenas que estão algures no Sul do Pacífico, num ponto qualquer de um labirinto de mais de dez mil ilhas. Acomodá-los-á até ao limite do possível. Observarão e ouvirão o que o seu chefe permitir que observem e ouçam. Fotografarão o que desejar que fotografem e nada mais. Quando o seu estudo estiver concluído, partirão como vieram, em plena noite. Jamais saberão exatamente onde estiveram. Contudo, possuirão o mais pormenorizado registro acerca desta sociedade para benefício da humanidade. Desta maneira, e embora a vida nas Sereias se possa extinguir um dia, o registro das suas maravilhas, e excessos também, comprovará a sua existência pelos tempos afora. São estas as minhas sugestões e suponho-as justas.

      - Quanto ao aeroporto, nada fará? - volveu Courtney.

      - Sim. Pode contar com a minha palavra. Courtney mordeu os lábios, pensativo, e depois fez um

      sinal a Moreturi. Os dois ergueram o corpo nu da areia e caminharam em direção da praia, ao longo da beira da água, mergulhados em profunda conversa. Pouco depois desapareciam na noite. Passados momentos, Rasmussen sacudiu a ponta do charuto no fogo, levantou-se e seguiu na direção que eles tinham tomado.

      Daí a dez minutos, voltaram os três, e ergui-me para ouvir-lhes o veredicto.

      - Fica estabelecido o acordo - disse Courtney. - A pedido do filho, o chefe Paoti Wright permite que informe a Dr.a Hayden de que pode vir, sob as exatas condições que esboçou. Ela pode demorar-se apenas seis semanas entre junho e julho. Utilizarão o Capitão Rasmussen como seu intermediário conosco. Através dele comunicar-nos-á se ela vem e a data da sua chegada e quaisquer modificações a este acordo. O Capitão Rasmussen pousa aqui de quinze em quinze dias, a fim de transportar os nossos artigos de exportação, que troca pelos artigos de que temos necessidade. Deste modo, está em contato permanente conosco. Então, fica tudo entendido, professor?

      - Sim.

      Courtney e eu apertamo-nos as mãos, eu disse adeus a Moreturi e, acompanhado pelo Capitão Rasmussen, voltei ao hidravião, onde Hapai nos esperava.

      Logo que decolamos na escuridão, em direção a Papeete, vi que o fogo na praia se extinguira. Pouco depois perdia mesmo de vista a silhueta das Três Sereias. Fiz a viagem de regresso sentado na cabina principal, só, sem ser perturbado, e, com o meu livro de apontamentos e a minha caneta, anotei aquilo de que me pude recordar sobre a noite estimulante na praia. Devotei-me largamente ao registro apressado dos pontos salientes da narrativa de Courtney, referente à história e às práticas da tribo das Três Sereias.

      Ao rever as minhas notas, à medida que redigia esta longa carta, verifiquei que omitira mais pormenores do que aqueles que imaginara. Se se trata de lapsos da minha memória ou de deliberadas omissões de Courtney é coisa que não sei dizer. Contudo, este esboço não-organizado é mais do que suficiente para que a senhora decida se quer ou não fazer essa viagem.

       

      Resumindo então:

      Em 1795, vivia em Skinner Street, em Londres, de rendimentos deixados pelo seu falecido pai, um ardoroso filósofo e panfletário chamado Daniel Wright. Este Daniel Wright era casado e tinha um filho e duas filhas. Obcecava-o a idéia de melhorar ou reformar a sociedade inglesa. Achava-se com freqüência em companhia do seu vizinho, amigo e ídolo William Godwin, que então contava trinta e nove anos. Godwin, como a senhora certamente se recordará, foi o autor e livreiro que acabou por se casar com Mary Wollstonecraft e que mais tarde teve, para sua infelicidade, Shelley como genro. O fato mais importante é que Godwin publicou, em 1793, Um Inquérito sobre a Justiça Política, no qual advogava, entre outras coisas, que se acabasse com o casamento, com os castigos corporais e a propriedade privada. Este trabalho, bem como toda a personalidade de Godwin, influenciaram o pensamento radical de Daniel Wright. Porém, Daniel Wright encontrava-se menos interessado nas reformas políticas do que na, reforma do matrimônio. Escrevera, com o encorajamento de Godwin, um livro intitulado Paraíso Ressurgido. A idéia do livro era a seguinte: Por graça de Deus fora dada a Adão e Eva uma segunda oportunidade de voltarem ao Paraíso e começarem tudo de novo. Desencantados com o estado de conubialidade herdado por eles, decidiram praticar, ensinar e promover um novo sistema de relações amorosas, coabitação, corte e casamento. Um conceito apaixonante, devo admitir.

      O livro de Wright atacava com violência o sistema matrimonial e os costumes do amor que então prevaleciam na Inglaterra, e advogava um sistema inteiramente diferente. Wright serviu-se não só da sua imaginação e das idéias de Godwin como também das idéias propostas por Platão, na República, Sir Thomas More, na Utopia, Tommaso Campa-nella, em A Cidade do Sol, Sir Francis Bacon, na Nova Atlântida, e James Harrington, em A Rota. Wright não pôde resistir também à tentação de denunciar práticas de governo ao tempo prevalecentes sobre leis, educação, saúde pública e religião. Wright encontrou um editor corajoso e, por volta de 1795, foram impressos os primeiros exemplares do delgado mas explosivo volume. Antes que estes exemplares pudessem ser distribuídos Wright soube, através de Godwin, que alguns membros da corte de Jorge III tinham sido informados do conteúdo daquele livro radical. Preparavam-se para declarar a utopia matrimonial de Wright “corruptora da juventude” e “subversiva”. A confiscação do livro e a prisão do seu autor seriam inevitáveis. Seguindo os conselhos de Godwin e de outros amigos, Wright colocou numa mala um exemplar do seu livro, os objetos caseiros mais fáceis de transportar, as suas economias, e, acompanhado pela mulher e pelos filhos e por três discípulos, dirigiu-se apressadamente, em plena noite, para o porto irlandês de Kinsale. Ali embarcaram num cargueiro de 180 toneladas que seguia para Botany Bay, Nova Holanda, mais tarde conhecida como Sydney, Austrália.

      De acordo com a história de Courtney, baseada em documentos originais da aldeia nativa das Três Sereias, Daniel Wright não teria fugido da Inglaterra apenas para salvar a pele. Na verdade era dotado de espírito de mártir, e, no julgamento, ter-se-ia divertido em fazer alarde de suas idéias perante as autoridades e o reino. O que o impeliu a fugir foi um motivo mais afirmativo. Durante vários anos animara-o a idéia de partir para os jovens dezesseis Estados do Novo Mundo ou para os recentemente explorados Mares do Sul, a fim de praticar, por assim dizer, o que pregava - isto é, em vez de escrever apenas acerca das suas idéias visionárias sobre o matrimônio, pensava viajar até um lugar remoto a fim de pô-las em prática. Porém, era um estudioso sedentário, um pensador e não um homem de ação, e tinha a cotidiana responsabilidade de educar os filhos; por isso não fora capaz de se decidir a fazer tão dramática revolução na sua vida. O confisco do seu livro e a pena de prisão que o ameaçava em Newgate inflamaram-no, contribuindo para isto não só a injustiça do governo como também as vistas estreitas da sociedade em meio à qual vivia. Eis então o que o incitou a partir, para realizar o que sempre desejara.

      Durante essa longa e fatigante viagem para a Austrália teve tempo de sobra para converter as fantasias utópicas do seu livro em medidas práticas, pelo menos no papel. Necessitava apenas de um lugar próprio onde as experimentar. Daniel Wright esperava que a Austrália pudesse ser este lugar. Porém, mal ele e os seus desembarcaram em Botany Bay, compreendeu que estava enganado. A região, constituída por grandes pântanos e lamaçais, abandonada pelos primeiros colonizadores a pretos nus munidos de lanças e a condenados, era o inferno na Terra. Depressa Wright e os acompanhantes se dirigiram para Sydney Cove, a primeira colônia de criminosos ingleses, estabelecida oito anos antes. Um mês depois, Wright apercebeu-se de que teria de partir paxá um lugar ainda mais afastado. A vida na colônia dos condenados era demasiado dura, violenta e doentia, e o governador de Sua Majestade não toleraria nela um reformador como aquele inglês rebelde e ardoroso.

      De posse de escritos românticos tanto de Louis Antoine de Bougainville como de James Cook, que tinham explorado os Mares do Sul, Wright pensava que este imaculado paraíso era exatamente aquilo por que ansiava. Com efeito, Bougainville escrevera sobre o Taiti de 1768, no seu diário: “As canoas estavam cheias de mulheres cujos rostos encantadores não desmereciam da maioria das mulheres européias; quanto à beleza do corpo, elas rivalizavam com qualquer. A maior parte destas ninfas achava-se nua, pois os homens e as mulheres tinham tirado as tangas que usavam habitualmente. A princípio fizeram das suas canoas pequenos gestos convidativos. Os homens, mais simples, ou melhor, mais livres, facilitavam as coisas; eles nos convidavam a escolher uma moça, a segui-la até à praia, e os seus gestos inequívocos mostravam a maneira como as íamos conhecer. “ Referindo-se ao que se passava na praia, Bougainville acrescentara: “Era como se estivéssemos no jardim do Paraíso... Tudo sugeria com clareza o amor. As nativas não têm complexo algum. Tudo o que as rodeia convida-as a seguir a inclinação do seu coração ou o chamamento da natureza.”

      Isto foi o bastante para Daniel Wright. Para lá da Austrália existia uma civilização nova e não inibida que praticava o amor e o casamento de uma maneira compatível com as suas melhores idéias. Ali, longe das práticas infelizes e restritivas do Ocidente, combinaria as suas idéias com as práticas similares dos polinésios e criaria o seu perfeito microcosmo.

      Wright comprou passagens para ele e para os seus e embarcou num pequeno mas sólido brigue que se dirigia para os Mares do Sul, com o objetivo de carregar mercadorias, tendo Otaheite, como os ingleses chamavam então a Taiti, como seu destino final. Wright perguntou ao capitão do navio se, por um pagamento adicional, ele não se importava de ir além de Taiti, tocando em meia dúzia de ilhas desconhecidas que ainda não constavam das cartas, até encontrarem uma onde Wright, a família e os discípulos pudessem ficar. O capitão concordou.

      O capitão do brigue foi fiel à sua palavra. Após a viagem até Taiti, onde se deteve durante duas semanas, prosseguiu mais para sul através da Polinésia. Por três vezes o brigue fundeou a alguma distância da praia, a fim de que Wright e dois companheiros explorassem as pequenas ilhas. Uma não serviu devido à existência de florestas de mangueiras, outra não tinha nem nascentes de água para beber, nem terra fértil e a terceira estava infestada de caçadores de cabeças. Wright solicitou ao capitão o prosseguimento da busca. Dois dias depois avistaram o grupo de ilhas que em breve seriam batizadas com o nome de Três Sereias.

      Um dia de exploração na ilha principal convenceu Wright de que encontrara o Paraíso na Terra. A situação de uma enseada que estava fora das rotas comerciais e que não possuía porto natural ou ancoradouro profundo prometia o maior isolamento. No interior da ilha havia uma fauna e uma flora abundantes, cursos dágua sem obstáculos e outros recursos naturais. Acima de tudo, Wright encontrara uma aldeia de quarenta polinésios que se mostraram gentis e hospitaleiros.

      Por intermédio de um intérprete nativo trazido de Taiti, Wright pôde falar sem dificuldade com Tefaunni, chefe da tribo. Wright soube que os indígenas descendiam de um grupo polinésio, com afinidades sangüíneas, que há muito tempo, ao procurar novas terras para colonização, em canoas de alto-mar, se refugiara naquele lugar. O chefe, que jamais vira um branco ou possuíra alguns dos seus dons e objetos mágicos (um machado de metal, ou uma lâmpada de óleo de baleia), acolheu Wright com o maior temor e respeito. Considerou grande mana - uma palavra que Wright aprendeu que significava, entre muitas outras coisas, “prestígio” - que o visitante partilhasse a ilha e o seu governo com ele. Conduzindo Wright numa excursão pela aldeia, Tefaunni explicou-lhe os hábitos do seu povo. No seu diário, Wright anotaria que o povo era “alegre, livre, sensível, embora enamorado da vida e dos prazeres da carne”, e que as atitudes e maneiras de todos teriam “encantado o coração de Bougainville”. No dia seguinte, a família e os discípulos de Wright, oito ao todo, incluindo o próprio Wright, desembarcaram com todos os seus bens, entre os quais diversos cães, cabras, galinhas e carneiros. O brigue afastou-se e Wright reuniu-se a Tefaunni a fim de fundar o Paraíso Ressurgido.

      Há muito, muito mais a acrescentar a esta história extraordinária, Dr.a Hayden, mas os pormenores a senhora os conhecerá por si mesma, se a isso estiver disposta. Dentro das limitações desta carta prefiro dedicar o restante aos costumes da sociedade que, por fim, se desenvolveu desde 1796 até ao presente.

      Um mês depois de Wright e os seus se terem estabelecido fisicamente na comunidade polinésia, ele empreendeu um sério estudo sobre as tradições, ritos e práticas tribais. Observou-os cuidadosamente e ao mesmo tempo lançou no papel as suas próprias idéias de como a existência devia ser vivida nas Três Sereias. Na questão do governo, os polinésios inclinavam-se para um chefe hereditário e Wright para um comitê de três homens ou mulheres que tivessem sido treinados para a chefia e passassem em todos os testes. Era uma modificação da idéia de Platão, como sabe. Wright compreendeu que o seu sistema não funcionaria naquela ilha solitária - onde e como estabelecer uma escola para treinar na chefia homens com espírito universalista? - e anuiu à idéia de um chefe hereditário.

      Quanto ao trabalho e aos bens, cada grupo de parentes consanguíneos polinésios, embora individualmente edificassem e possuíssem o seu próprio lar e pertences, trabalhariam como uma unidade para semear ou colher alimentos e conservá-los num armazém familiar comum. O chefe, pensou, devia controlar todos os bens imóveis e distribuí-los de acordo com o tamanho de cada família. Se uma família se expandisse em tamanho, o mesmo aconteceria com os bens. Se uma família fosse reduzida, aplicar-se-ia o sistema inverso. Além do mais, cada indivíduo adulto, do sexo masculino, das Três Sereias trabalharia quatro horas por dia no que mais lhe conviesse, fosse na agricultura, na pesca, na carpintaria ou em qualquer outra ocupação considerada necessária. O produto deste trabalho iria para um grande armazém comum. Semanalmente, cada família retiraria do armazém uma quantidade mínima de provisões e outros artigos. Essa quantidade mínima seria igual para todos. Porém, os trabalhadores mais produtivos da aldeia poderiam exceder esses fornecimentos mínimos com quantidades-bônus do que preferissem. Em resumo, absoluta igualdade, ausência de pobreza, e, contudo, um certo grau de incentivo. Tefaunni anuiu prontamente a esta reforma, que foi introduzida em 1799.

      Segundo as minhas notas, derivadas da explicação de Courtney, concessões semelhantes foram efetuadas dentro do mesmo espírito de cordialidade - o melhor do sistema polinésio aqui, o melhor das idéias visionárias de Wright ali, e por vezes duas idéias fundidas. As obrigações foram estabelecidas no setor da educação, da religião, da recreação e em outros também importantes. Wright não permitiu que dois sistemas conducentes ao mesmo fim existissem lado a lado. Sentiu que isto poderia originar conflitos. Teria de ser sempre, para tudo, a prática polinésia ou a sua.

      Verificaram-se decerto muitas barganhas. Para controle da população contra fomes futuras os polinésios praticavam o infanticídio. Se uma mulher tinha mais de um filho em períodos de três anos, as outras crianças eram afogadas ao nascer. Wright achou esta prática odiosa e obteve a anuência de Tefaunni para que ela fosse considerada tabu. Por outro lado, Wright teve, como compensação, de fazer certas concessões. Esperava impor porta-seios e saias às mulheres, calças só aos homens, mas viu-se obrigado a transigir, aceitando os saiotes curtos polinésios, sem qualquer roupa de baixo, e seios nus, para as mulheres, e sacos púbicos, e nada mais, para os homens. Apenas em ocasiões especiais usavam as mulheres saias tapa e os homens, tangas. Courtney falou com alacridade de certas passagens do antigo diário de Wright, em que este registrou o embaraço da mulher e das filhas quando da sua primeira aparição no centro da aldeia, com os seios nus e os seus saiotes de trinta centímetros, que o vento por vezes levantava.

      Houve muitos outros acordos. Os polinésios defecavam onde quer que se encontrassem no matagal. Wright opôs-se a este costume, que considerou contrário às melhores conveniências sanitárias, e procurou introduzir cabanas comuns de higiene, duas de cada lado da aldeia. Os polinésios acharam que essa inovação constituía pura bizarria, mas permitiram-na. Por sua vez, Tefaunni exigiu que o seu sistema penal prevalecesse. Wright desejara introduzir o desterro para uma ravina como castigo para todos os crimes. Os polinésios não acederam. No que tocava ao crime de morte, condenavam o infrator à escravidão doméstica. Isto significava que o criminoso tinha de se tornar um servo na casa da família da vítima até perfazer a diferença em anos entre a idade da vítima na altura da sua morte e os setenta anos. Wright sentiu certas desconfianças quanto à severidade do castigo; contudo, compreendeu o seu aspecto justiceiro também, e submeteu-se. Devo acrescentar, de acordo com as palavras de Courtney, que este castigo ainda vigora nas Três Sereias.

      Entretanto, todas as práticas que esbocei até aqui são relativamente sem importância comparadas com os costumes referentes ao sexo, ao amor e ao casamento, que Tefaunni, e a sua tribo de quarenta, e Daniel Wright, com os seus oito, concordaram que funcionassem na aldeia. Aqui, os polinésios e os ingleses progressistas tinham menos em que discordar, e os acordos foram em menor número. Wright considerou as práticas sexuais daquela tribo não só singulares como superiores a quaisquer outras que imaginara ou de cuja existência soubesse. Adaptavam-se à sua filosofia em quase todos os pormenores. Acima de tudo, davam resultado. Uma vez que muitas destas idéias representavam quase com exatidão o que Wright sonhara introduzir, poucos reajustamentos ou modificações foram necessários. Segundo calculava Courtney, de todos os sistemas sexuais praticados neste momento nas Três Sereias cerca de setenta por cento são predominantemente polinésios de origem e apenas uns trinta por cento foram ditados por Wright.

      Poderei referir aqui que os descendentes de Tefaunni e Wright formam hoje um único povo, uma raça. Durante alguns anos Tefaunni e Wright governaram em conjunto. Quando Tefaunni morreu, Wright tornou-se o único chefe. Quando este faleceu, com uma idade avançada - o filho mais velho morrera já -, o neto mais idoso, produto de um casamento inglês e polinesio, tornou-se também o único chefe. Com o decorrer dos anos estes casamentos mistos continuaram. Hoje não há divisão entre caucasianos e polinésios. Sobrevive apenas o povo das Sereias. Este povo sem dissensões pratica o exato sistema de relações amorosas estabelecido pelos fundadores há mais de cento e cinqüenta anos. Quanto a este sistema de relações amorosas, lamento dizer que Courtney não se quis referir em pormenor a muitos dos costumes correntes, mas o que decidiu contar-me pareceu-me suficientemente interessante para qualquer estudo antropológico. Algumas dessas práticas são as seguintes: aos adolescentes entre as idades de quatorze e dezesseis é fornecida conveniente educação sexual. Como o compreendo, são-lhes ministradas lições teóricas sobre as relações sexuais. Antes de completarem o seu curso, observam-nas e participam delas. Este, insistiu Courtney, é um método absolutamente salutar.

      Os adolescentes do sexo masculino das Sereias submetem-se a uma incisão no pênis semelhante à circuncisão. Depois, têm a sua primeira cópula com jovens ligeiramente mais velhas, que os guiam e os instruem na técnica sexual. Por outro lado, o clitóris da adolescente é distendido durante alguns anos. Quando este se encontra distendido pelo menos cerca de trinta milímetros ela é considerada apta para conhecer a cópula, participando dela. O aumento do clitóris não tem conotação mágica. O motivo único dessa operação é o aumento do prazer. A virgindade, devo acrescentar, é considerada uma enfermidade e um defeito nas Sereias. Porém, conforme as minhas próprias observações, nas ilhas da Sociedade e nas ilhas Austrais estas práticas não são desconhecidas.

      Existe nas Sereias uma grande casa a que chamam a Cabana de Auxílio Social. A sua função é dupla. É usada por solteiros, viúvos, de ambos os sexos, e mulheres não ligadas, e exerce-se nela a corte e o amor. A segunda função, que apenas se sugere, é mais surpreendente e original. Diz respeito à - repito as palavras exatas de Courtney - “concretização das emoções do amor, em qualquer momento, por homens e mulheres casados que o desejem. Sejam quais forem as suas implicações, não é, aparentemente, uma prática tão dissoluta e orgíaca como se poderá imaginar”. Courtney afirmou que este “serviço” da Cabana de Auxílio Social era razoável, lógico, e que o regulavam normas estritas. Não se quis alargar no que se refere a este ponto. Notou apenas que nas Três Sereias não havia homens ou mulheres fisicamente reprimidos.

      Os casamentos são realizados por mútuo consentimento dos indivíduos em causa. A cerimônia é dirigida pelo chefe. O noivo escolhe os convidados de ambos os sexos. À entrada para o local da cerimônia o noivo transpõe o corpo da sogra, que está prostrada, simbolizando assim a sua ascendência sobre ela. Depois da cerimônia, a noiva deita-se nos braços do noivo e cada convidado do sexo masculino, a instâncias daquele, exceto os parentes consanguíneos, frui o prazer da cópula com ela. O noivo é o último a participar. Este rito de incorporação, se a memória não me falha, é praticado também em várias outras ilhas da Polinésia, especialmente no grupo das Marquesas.

      A iniciação do divórcio, segundo Courtney, é uma das práticas mais progressistas das Três Sereias. Courtney mostrou-se extremamente reticente em dar-me quaisquer pormenores. Mencionou, contudo, que o conselho dos anciãos, denominado Hierarquia, não concedia o divórcio meramente a pedido de uma ou outra parte, nem baseava o seu veredicto em provas secundárias, como o “ouvir dizer”. Afirmou apenas que o divórcio era permitido após “longa observação” de ambas as partes em causa.

      Courtney e Moreturi falaram de um festival anual, realizado em fins de junho, e que durava uma semana. Embora ambos o descrevessem como uma competição desportiva, uma dança cerimonial, um concurso de beleza, ao nu, nenhum deles se referiu em pormenor ao objetivo principal do festival.

      Courtney disse:

      - Os antigos romanos tinham a sua Saturnália anual, assim como os nativos de Upolu, na Samoa, ainda têm. O festival das Sereias não é precisamente o mesmo. Todavia, constitui uma forma de escape, em certas áreas, permitindo que casais que há muito vivem em comum e os indivíduos solteiros dêem vazão às suas emoções e desejos recalcados. O adultério e o divórcio são freqüentes na América e na Europa, não é verdade? Tal não se verifica nas Sereias. Nos nossos países os casais são, na maioria das vezes, infelizes, vivem uma existência inquieta, plena de tédio. Não se verifica isso aqui. O chamado mundo civilizado poderia aprender bastantes coisas com estes supostos primitivos.

      Foi esta a única referência, se bem que indireta, de Courtney ao enigmático festival.

      Nem Courtney nem Moreturi me contaram alguma coisa mais acerca dos costumes amorosos nas Sereias. Em resumo: Courtney afirmou que em nenhuma outra parte da Terra, ao que sabia, era o amor praticado com menos embaraço, tensão e medo.

      Aqui tem tudo o que eu soube, Dr.a Hayden. Pode sentir curiosidade em conhecer mais alguns fatos sobre este Tom Courtney, mas não posso elucidá-la. Além de admitir que fora advogado em Chicago, declarou que viera por acaso para as Sereias e que decidira ficar, o que lhe havia sido permitido. Quanto à sua vida, nada mais adiantou. Achei-o atraente, culto, freqüentemente céptico, no que se refere à sociedade fora destas ilhas, e devotado ao seu povo adotivo. É uma grande vantagem, penso, que ele a conheça e a seu trabalho, e o respeite. Senti que confiaria na senhora e creio que ele próprio é sincero e de confiança, embora o nosso encontro fosse curto. Não posso, todavia, mostrar-me absolutamente positivo.

      Esta é a carta mais longa que escrevi até hoje. Tenho, no entanto, esperança de que a nossa causa a justifique. Desconheço a sua presente situação, Dr.a Hayden; porém, se ainda se mantiver em atividade, a porta que conduz a uma cultura ousada está aberta para a senhora dentro das limitações referidas.

      Responda-me por favor logo que possa, mas não demore. Tem quatro meses para os preparativos; contudo, nesta região longínqua o tempo parece demasiado curto. Se tencionar vir até aqui, escreva-me, e diga-me a data aproximada da partida. Comunique também o número de pessoas que a acompanham. Tudo isto transmitirei prontamente ao Capitão Rasmussen, que, por seu turno, o transmitirá a Tom Courtney e ao chefe atual, Paoti Wright. Eles farão então os necessários preparativos para a sua chegada e cuidarão dos alojamentos. Se as circunstâncias não permitirem que esta empresa se concretize, diga-mo igualmente, pois tentarei então, com relutância, acredite-me, passar esta informação a um ou dois antropólogos que conheço.

      O custo desta expedição, excetuando os transportes, não deverá ser elevado. O povo das Sereias fornecerá tanto os alojamentos como os víveres. A gratificação pelos serviços de Rasmussen será pequena. Pela minha parte, nada exijo, exceto a sua boa vontade, e, decerto, o reembolso dos três mil dólares que perdi por não enviar o meu relatório ao Sr. Trevor, de Camberra.

       

      Na expectativa da sua resposta e fazendo votos para que esta carta a vá encontrar de perfeita saúde, subscrevo-me com o maior respeito e consideração.

      ALEXANDER EASTERDAY

    

     Maud Hayden baixou lentamente a carta, como que hipnotizada por ela; parecia achar-se em transe, tanto a absorvera a leitura. Contudo, sentia dentro de si o calor da expectativa e da emoção, e logo abaixo da pele as extremidades dos seus nervos vibravam. Era uma sensação de vida profunda - todos os sentidos se achavam despertos - que não conhecera durante os quatro anos que haviam passado depois da morte do marido e colaborador.

     As palavras verdes, luxuriantes, tão maravilhosas como um “Abre-te Sésamo”, e as imagens que evocavam, não exigiam aceitação ou aprovação do seu intuitivo segundo ser. O seu ser exterior, que era a lógica fria (com a sua invisível balança pesando tudo o que é bom e tudo o que é mau), o conhecimento, a experiência, a objetividade profissional, envolveu o convite num enorme abraço.

     Quando recobrou a calma, recostou-se na cadeira giratória e pensou no conteúdo da carta, especialmente nas práticas que Courtney relatara a Easterday. O casamento e os seus costumes nas outras sociedades tinham sempre exercido intensa fascinação sobre ela. A única viagem de estudo que sempre pensara fazer depois da morte de Adley fora ao Sul da Índia, a fim de viver algum tempo com a tribo Nayar. As mulheres de Nayar, após o seu casamento formal, faziam sair o marido de casa poucos dias depois de realizada a cerimônia e tomavam certo número de amantes, um após outro, todos residentes em outras localidades, entregando as crianças que depois nasciam à própria família. Este costume até certo ponto atraíra Maud; porém, quando compreendeu que teria de se interessar por todo o padrão de comportamento social dos Nayar, e não apenas pelas suas práticas matrimoniais, desinteressou-se por completo do projeto. Contudo, não tardou a aperceber-se de que não fora este o motivo que a levara a desinteressar-se do projeto. A razão era outra. Não desejaria viajar, como uma viúva ainda de luto, até àquela região longínqua do Sul da Índia.

     Todavia, eis que a carta de Easterday encontra-a, a ela, Maud, viva e profundamente entusiasmada. Por quê? Os selos de Gauguin no envelope faziam acudir à sua memória o Noa Noa e a recordação do seu autor. “Sim, na verdade, os selvagens haviam ensinado muitas coisas àquele homem de uma antiga civilização; estes ignorantes tinham-no instruído profundamente na arte da vida e da felicidade. “ Sim, isto fazia parte dos costumes simples dos Mares do Sul. A visita que lá efetuara constituíra uma das experiências mais felizes da sua vida. E recordou: os ventos alísios temperados, os homens e as mulheres altos, robustos, bronzeados, as lendas transmitidas oralmente, os ritos brgíacos, o odor dos cocos verdes e dos hibiscos vermelhos, a entonação doce, parecida com a italiana, da língua polinésia...

     A nostalgia das ilhas, eis o que a comovia neste momento; de súbito, alheou-se do sentimento. Existia um elevado objetivo, como indicara Gauguin. Os selvagens podiam ensinar muitas coisas aos civilizados. Contudo, quantas? O curioso personagem da carta de Easterday, Courtney, dera a entender que a vida nas Três Sereias era edênica ao ponto da utopia. Poderia existir a utopia na Terra? A palavra utopia derivava do grego e queria dizer, literalmente, inexistência de um lugar determinado. Abruptamente, a impiedosa disciplina antropológica de Maud advertiu-a do seguinte: considerar-se uma só sociedade como utópica envolvia uma série de julgamentos de valor baseados nas nossas próprias concepções preconcebidas do que é um estado de coisas ideal. Nenhum antropólogo verdadeiro podia pretender procurar uma utopia. Como antropóloga, ela podia munir-se de uma receita indicadora do que poderia ser um bom padrão de vida ou o que poderia constituir a mais satisfatória cultura, mas não podia definir um lugar como utópico e outro de maneira oposta.

      

     Não, disse de si para si, não procurava uma terra maravilhosa, algures. Era alguma coisa mais, então. A sua colega Margaret Mead, quando, com pouco mais de vinte anos, fora a Pago Pago, instalara-se durante breve espaço de tempo no próprio hotel onde W. Somerset Maugham escrevera Chuva, vivera com as mulheres de Samoa e declarara ao mundo que a ausência de restrições sexuais entre aquele povo eliminara a hostilidade sexual, a agressividade, a tensão. De um momento para o outro, Margaret obtivera um êxito espantoso, pois o mundo ocidental sentira sempre grande curiosidade pelas coisas proibidas e estendera a mão como um pedinte. E eis por fim uma boa oportunidade, dissera Maud. O mundo ocidental desejava o Imediato Conhecimento. Não interessava agora se as Sereias representavam ou não a utopia. Não interessava também se a sociedade das Sereias podia ensinar alguma coisa ao homem civilizado. O único ponto surgia agora, iluminado, a Maud: não era o de que o mundo necessitava que a impressionava, mas o de que ela própria desesperadamente necessitava.

     Recordou-se de uma carta que Edward Sapir escrevera a Ruth Benedict quando esta planejava pedir auxílio financeiro ao Conselho de Pesquisas das Ciências Sociais. Sapir aconselhara assim Ruth: “Por Deus, não vá tão longe, nem se preocupe tanto com o aspecto técnico como no ano passado. A mitologia dos pueblos impressiona tanto o público como a gramática dos athabaskans... detenha-se num projeto vivo que conseguirá tudo o que pretende.”

     Detenha-se num projeto vivo... que conseguirá tudo o que pretende.

     Maud endiretou-se abruptamente na cadeira, as solas de couro dos sapatos roçando o chão, sob a mesa. Deixou cair a carta sobre o mata-borrão e, com os dedos entrelaçados, considerou a notável descoberta à luz da presente situação. Não se lhe deparara uma oportunidade como esta desde que ficara só. Era uma dádiva de anos. A cultura das Três Sereias - parte dela conhecia-a de algumas viagens de estudo, outra parte era, felizmente, nova -, eis o que na verdade a interessava. Sempre evitara o sediço, o já explorado. Sempre rejeitara a monótona familiaridade dos estudos paralelos. Sempre tivera - e jamais admitira isto a alguém a não ser a si própria - faro apurado para o extraordinário, para o maravilhoso, para o fantástico. E eis que se lhe apresentava isso, uma coisa que nenhum outro antropólogo conhecia. Tudo parecia favorável: em vez do habitual ano de estudo estava limitada a seis semanas, de modo que não a poderia inquietar a pouca profundidade que pudesse obter nos estudos a efetuar; não se tratava de um assunto que, pela sua natureza, exigisse redação e publicação de caráter científico; ademais, constituía uma solução fácil para o problema que vagamente a oprimia há já longo tempo.

     Pensou na carta que o Dr. Walter Scott Macintosh lhe enviara dois meses antes. Fora colega do seu falecido marido ha universidade e seu amigo dedicado nos últimos anos. Agora era uma Eminência Parda, um homem influente, menos pelas suas realizações no campo da antropologia do que pelo poder político de que dispunha como Presidente da Liga Antropológica Americana. Escrevera-lhe como amigo sincero, como admirador, e confidenciara, contando com a sua reserva, que uma boa posição estaria vaga dentro de um ano e meio. Tratava-se de um lugar de diretor-executivo da Culture, o órgão internacional da Liga Antropológica Americana. O atual diretor-executivo, presentemente com oitenta anos, e doente, iria se aposentar. O lugar, vitalício, ficaria em aberto, com o prestígio e estabilidade que oferecia.

     Macintosh esclarecera que gostaria de nomear Maud para o cargo. Por outro lado, alguns dos seus colegas no conselho de administração inclinavam-se para uma pessoa mais jovem, o Dr. David Rogerson, cujos recentes estudos publicados refletiam, espetacularmente, duas viagens feitas à África. Uma vez que se falava muito da fremente África, falava-se também do Dr. Rogerson. Ao mesmo tempo, escrevera Macintosh, acreditava pessoalmente que Rogerson não possuía a vasta experiência de Maud acerca de muitas culturas ou os seus contatos com os que se ocupavam, em todo o mundo, dos estudos antropológicos. Macintosh estava certo de que ela era o elemento indicado para o lugar. O problema, sugeria, constituía em fazer ver aos membros do conselho de administração que ela era mais capaz do que o Dr. Rogerson.

     Macintosh tinha, sutilmente, posto o dedo na ferida. Desde a morte de Adíey, Maud pouco fizera sozinha. Mantivera-se quase estática enquanto os antropólogos mais jovens e ousados tinham avançado. Além de diversos ensaios, todos sobre antigas viagens de estudo, nada publicara durante quatro anos. Macintosh aconselhara-a a partir uma vez mais, e voltar com um novo estudo, um ensaio original, que pudesse ler perante a Liga na sua próxima Convenção de três dias. Esta efetuar-se-ia em Detroit, pouco depois do Dia de Ação de Graças, e precederia a reunião do conselho para a escolha do novo diretor-executivo da Culture. Se tivesse qualquer plano para a viagem e um novo ensaio, escrevera esperançadamente Macintosh, Maud deveria comunicar-lhe sem demora esse fato, a fim de que ele preparasse as coisas de modo a que a amiga falasse perante o conclave.

     A carta de Macintosh animara-a bastante, pois o lugar era exatamente aquele que desejava nesta altura da sua vida. Com tal cargo, na sua idade, não necessitaria mais de sofrer os rigores provocados por viagens a regiões inóspitas, não precisaria de se exaurir na monotonia do ensino, mormente a estudantes indiferentes, não precisaria de sofrer as exigências da redação de ensaios, não necessitaria de se preocupar com a possível insegurança ou com qualquer dependência, nos anos que estavam para vir, nem mesmo de Marc.

     Com tal cargo, teria um salário de vinte mil dólares por ano, gabinetes em Washington, uma vivenda na Virgínia e seria a emérita antropóloga da nação. Contudo, apesar de todas essas recompensas, do momentâneo estímulo dado pela carta de Macintosh, sentira-se incapaz de tomar uma decisão. Tornara a afundar-se na monotonia da sua presente existência, demasiado enorme para conceber um novo estudo, demasiado fatigada para agir. Por fim, após alguma demora, respondera, grata mas ambiguamente, à amável sugestão de Macintosh. Obrigada, obrigada, veria, pensaria, comunicar-lhe-ia a sua decisão. E nos dois meses que se tinham seguido nada fizera. Mas agora... Tocou com carinho na carta de Easterday.

     Sim, estava viva. Fixou os olhos nas estantes do outro lado da sala, onde se encontravam encostados, uns aos outros, os volumes coloridos sobre os habitantes das Fidji, os ashantis, os minoanos, os jívaros, que ela e Adley tinham escrito. Podia imaginar mais um monumento: os ilhéus das Sereias.

     Ouviu passos e compreendeu que eram de Claire, que descia a escada. Restavam eles também - a sua nora, Claire, e Marc. Maud achava-se sobrando, desde que Marc casara. Suspeitava de que Marc ansiava por ver-se livre dela, tanto social como profissionalmente. As Três Sereias tornariam isso possível. A sua liberdade poderia ser a libertação de Marc, também. Isso revigoraria o casamento, sabia, e perguntou-se por que pensava que o casamento necessitava de auxílio. Mas esta não era uma manhã para tais pensamentos. Em outro momento tentaria responder à sua interrogação.

      

     O relógio elétrico com caixa de nogueira indicou-lhe que tinha ainda cinqüenta minutos disponíveis antes da aula. Enquanto tudo se achava bem vivo e presente na sua mente, seria melhor tomar algumas notas. Nada devia ser omitido. O tempo era da maior importância.

     Pegou na volumosa carta de Easterday, manuseando-a como se fosse um fragmento das Escrituras, e depois colocou-a de lado. Pôs o largo bloco de apontamentos amarelo diante de si, procurou uma esferográfica e começou a escrever com rapidez:

      

     1. Delinear um colorido esboço de projeto, para Cyrus Hackfeld; obtenção de um razoável subsídio.

      

     2. Consultar Marc e Claire - e diversos estudantes já graduados, também - a fim de se fazerem pesquisas sobre alguns pontos da carta de Easterday, de modo a apresentar da melhor maneira possível o assunto a Hackfeld. Pesquisa sobre a área das Três Sereias - menção da sua história ou qualquer coisa parecida -, pesquisa sobre Daniel Wright e Godwin, pesquisa sobre costumes,. aIgures, iguais aos das Três Sereias. Apurar os antecedentes de Courtney, etc.

      

     3. Traçar uma lista de nomes do possível grupo de estudos. Hackfeld gosta de celebridades. Possibilidades: Sam Karpowicz, botânica e fotografia; Rachel DeJong, psiquiatria; Walter Zegner, medicina; Orville Pence, estudos comparados sobre sexo - e outros. Uma vez que Hackfeld concorde, ditar cartas a Claire para todos eles, a fim de inquirir se estão disponíveis e interessados.

      

     4. Escrever a Macintosh, a fim de saber se há ainda tempo para a leitura de um novo trabalho sobre etnologia polinésia no simpósio da Liga. Não escrever. Telefonar.

     Reclinou-se na cadeira. Fixou os olhos no bloco amarelo e sentiu que registrara tudo que precisava de ser feito sem demora. Depois compreendeu que omitira uma coisa, talvez a mais importante de todas. Inclinou-se sobre o bloco uma vez mais.

      

     5. Escrever uma carta aérea para Alexander Easterday, Taiti, esta noite. Dizer-lhe que sim - absolutamente sim, sim, sim!”

 

     Dos quatro membros da família Hayden - quatro membros, isto é, se se contasse a sempre sorridente Suzu, a empregada japonesa - Claire Emerson Hayden fora, conforme ela própria pensava, a menos afetada, na rotina diária, pela carta de Easterday, recebida cinco semanas antes.

     A transformação da sogra, Maud (Claire ainda a achava tão extraordinara, após quase dois anos, para chamá-la de Matty), fora a mais acentuada. Maud sempre estivera ocupada, alardeando a sua eficiência, mas nas últimas cinco semanas tornara-se muito mais ativa, fazendo o trabalho de dez pessoas. E mais do que isso, aos próprios olhos de Claire mostrava-se cada vez mais jovem, enérgica, criadora. Claire imaginava que ela se encontrava agora como devia ter sido no auge do seu vigor físico, quando Adley era seu colaborador.

     Ao pensar nisso, Claire, agora mergulhada até aos ombros no seu voluptuoso banho de espuma, abriu, com a palma da mão, um caminho em forma de leque através da espuma. Permitiu que seu espírito se detivesse no Dr. Adley R. Hayden, de quem se recordava agora imprecisamente. Vira-o duas vezes antes do seu casamento, quando Marc a trouxera a Santa Bárbara para participar de reuniões mundanas, e impressionara-a bastante aquele erudito alto, curvado, um pouco barrigudo, com a sua ironia seca, os seus vastos conhecimentos e a sua compreensão. Apesar de Marc tartamudear na presença do pai, de provocar com freqüência a sua ironia e de ser por ele menosprezado com demasiada facilidade com um leve ridículo, ela sentira-se impressionada pela autoridade de Adley. Sempre pensara ter deixado de si uma impressão pouco lisonjeira, embora Marc lhe tivesse garantido que o pai a achara “uma coisinha bastante bonita”. Com freqüência desejava ter significado mais alguma coisa para Adley; porém, uma semana depois do seu segundo encontro, ele morrera subitamente de um ataque de coração, e, no além, estava certa, seria ainda considerada por ele apenas “uma coisinha bastante bonita”.

     As bolhas de sabonete tinham-se amontoado novamente diante do corpo de Claire, que, ainda divagando, começou a alisá-las. A sua mente errava, sabia, e tentava recordar-se daquilo em que pensara. Por fim recordou-se: a carta de Easterday, recebida cinco semanas antes, e o efeito que produzira em todos eles. Maud mantinha-se numa atividade febril, sim. E Marc achava-se mais ocupado agora, mais concentrado (se isso era possível), mais nervoso, queixando-se cada vez mais de pequenos contratempos, mas acima de tudo perguntando-se se era prudente, se valia a pena, fazerem aquela viagem de estudo. “Tenho a impressão de que o seu Easterday não passa de um romancista”, dissera ele duas noites antes a Maud. “Uma coisa como esta devia ser investigada convenientemente antes de desperdiçarmos todo este tempo e dinheiro.” Maud tratara-o como sempre o tratara, com a infinita paciência e a afeição de todas as mães para com os seus filhos precoces. Maud defendera a integridade de Easterday e explicara que as circunstâncias não permitiam qualquer investigação, recordando o seu faro quando se tratava de um cometimento de onde se podiam esperar bons resultados, produto não só do seu instinto como da sua experiência. Como habitualmente, quando era derrotado pelos argumentos da mãe, Marc batera em retirada e mergulhara no trabalho.

     Somente a rotina de Claire não parecera afetada pelo recente acontecimento. Havia agora mais trabalho de datilografia e arquivo para fazer, mas isso não preenchia suficientemente o seu tempo. Todas as manhãs, porém, podia demorar-se no seu banho quente, ler ao café, consultar Maud, fazer o trabalho do costume e participar depois, com as jovens esposas de outros professores, de uma partida de tênis, tomar chá na sua companhia ou assistir a uma conferência. E nas noites em que Marc se achava demasiado ocupado, sem tempo para levá-la ao cinema ou para dar com ela um passeio de automóvel, ou quando não se realizava uma festa, ela permitia que o marido fixasse os olhos sobre as suas notas, fizesse as suas pesquisas, corrigisse os seus escritos - trabalho de homem - enquanto ela lia um romance ou assistia, com olhos sonolentos e entediados, a alguns programas no aparelho portátil de televisão. Nada disto fora modificado por Easterday e pelas Três Sereias.

     Contudo, e Claire tinha certeza disso, alguma coisa se modificara, no que lhe tocava. Era uma coisa que não se relacionava com a rotina diária. Tratava-se de uma sensação - de uma bolha de emoção quase tangível e efervescente - dentro do seu ser. Ela era a Sra. Marc Hayden, oficial, legalmente, para melhor, para pior, para sempre, desde há um ano e nove meses. Com o casamento - “um bom casamento” tinham dito a mãe e o padrasto - essa- bolha de emoção dentro de si parecera vivaz, engraçada, como uma enorme bolha que a elevava continuamente, e para além dela tudo era maravilhoso. Mas pouco a pouco, à medida que os dias passavam, essa bolha detivera-se, desvanecera-se, convertera-se num pequeno charco apavorante que não representava absolutamente nada. Eis o que parecia a bolha: nada. Eis a sua sensação no que se referia a tudo mais: nada. Era como se todas as excitações, todas as possibilidades de ser feliz, se tivessem extinguido. Era como se todos os fatos da vida fossem previsíveis, os do próximo momento, do dia seguinte, até ao último, e não houvesse esperança de se sentirem novos frêmitos de prazer, de se experimentarem novas alegrias. Eis a sensação, e quando ouvia mães discutirem os sentimentos de depressão que sobrevinham depois de darem à luz uma criança, perguntava-se se o mesmo não seria válido em relação ao casamento. Não podia censurar ninguém pelas suas decepções - nem Marc, decerto, Marc muito menos que as outras pessoas - com exceção, possivelmente, da própria noiva, com o seu murcho buquê de grandes esperanças ultra-românticas. Se tivesse dinheiro, pensava, financiaria um grupo de peritos a fim de que estes descobrissem o que acontecia às Cinderelas após o casamento.

     Contudo, cerca de cinco semanas antes do presente momento uma coisa muito agradável acontecera a Claire. O efeito que produzira em toda a sua pessoa fora imediato, mas nada revelara às pessoas que a rodeavam. Sentia-se desperta. Experimentava uma sensação de bem-estar. Tinha a certeza de que sua vida iria conhecer melhores momentos, uma renovação quase total. E sabia que o elemento inspirador fora a carta de Easterday. Datilografara com desvelo excertos resumidos, em duplicata, dessa carta. Conhecia de cor tudo o que Easterday prometia.

     Com exceção de uma longa viagem de uma semana a Acapulco e à Cidade do México, na companhia da mãe e do padrasto, quando tinha quinze anos (recordava-se das Pirâmides, do Jardim Flutuante, de Chapultepec, recordava-se de não se encontrar só nem sequer um instante), Claire nunca estivera fora dos Estados Unidos. E agora, quase de um dia para o outro, seria transportada para um lugar desconhecido e exótico dos Mares do Sul. A promessa de uma transformação era quase insuportável, de tão estimulante que era. Os verdadeiros pormenores acerca das Três Sereias possuíam pouca realidade e portanto pouco significado para ela. Tinham bastante semelhança com as milhares de palavras dos livros de Maud, de inúmeros outros volumes sobre antropologia que lera atentamente, e tudo parecia apenas história, passado remoto, sem nada a ver com sua vida presente. Todavia, a data aproximava-se cada vez mais, e se Easterday não era o “romancista” que lhe chamara Marc, se aquelas coisas fossem verdadeiras e não constituíssem somente palavras, ela estaria em breve numa cabana sufocante, entre homens e mulheres quase nus, que retiravam os víveres de um armazém comum, que consideravam a virgindade um defeito e a educação prática nos assuntos do sexo uma necessidade, que praticavam o amor numa Cabana de Auxílio Social e num festival, sem restrições e inibições (com um concurso de beleza nudista!).

     Claire lançou um olhar para o relógio de parede esmaltado que se encontrava ao lado da banheira. Eram nove e um quarto. A primeira aula de Marc já teria terminado. Hoje, disporia de quatro horas antes da aula seguinte. Perguntou-se se ele voltaria a casa ou se se dirigiria para a biblioteca. Decidiu que era melhor vestir-se. Estendeu a mão e fez girar a alavanca que se achava sob a torneira; o escoadouro abriu-se e a água e a espuma começaram a descer com o ruído característico.

     Ergueu-se e, cautelosamente, passou um pé sobre uma das bordas da banheira, ficando a gotejar sobre o espesso tapete branco. Enquanto os fios de água desciam pelas curvas da sua carne cintilante, a sua mente voltou de novo à carta de Easterday. Que dissera ele acerca do vestuário usado nas Três Sereias? Os homens traziam sacos púbicos, presos frouxamente por fios. Decerto que isso não era realmente uma coisa chocante se se considerasse a maneira como os homens se vestiam nas praias durante o verão. Contudo, apenas aqueles sacos, e nada mais. Porém, eles erarn nativos, e aquilo não podia deixar de ser decente, quase clínico. Vira centenas de fotografias de nativos, alguns deles sem qualquer saco púbico, e isso, neles, parecera absolutamente natural.

     Ocorrera-lhe, uma vez que estava agora de pé no meio do quarto de banho, completamente nua, que era assim que teria de aparecer em público nas Três Sereias. Não, não era bem assim. Easterday escrevera que as mulheres usam curtos saiotes, “sem qualquer roupa de baixo”, e andam com os seios nus. Mas, céus, era quase o mesmo que mostrar todo o corpo.

     Claire voltou-se para se mirar no espelho alto, da porta. Tentou imaginar o que pareceria dessa maneira, nua, aos nativos das Três Sereias. Tinha um metro e cinqüenta e três centímetros de altura e pesava, conforme verificara aquela manhã, cinqüenta e um quilos. O seu cabelo era escuro e brilhante, cortado curto, com as extremidades caídas sobre as faces. Os olhos em amêndoa pareciam de uma vaga casta do Extremo Oriente, faziam evocar as jovens submissas e recatadas da antiga Cathay, e contudo o efeito sofria o contraste da cor, azul-fumado; sexy, dissera uma vez Marc. O nariz era pequeno, com narinas bastante delicadas, os lábios de um vermelho profundo e a boca generosa, demasiado generosa. Do declive dos ombros e do peito, os seios desenvolviam-se gradualmente. Estes eram largos, cheios - como odiara que assim fossem na adolescência - todavia altos e jovens, o que constituíra uma fonte de saturação quando tinha vinte e cinco anos. As costelas mostravam-se um pouco - que pensariam os nativos?. -, mas o abdome era quase liso, apenas ligeiramente arredondado, e as proporções das coxas e das pernas delgadas não pareciam más, realmente. Contudo, não se podia prever o que sentiriam outros povos, noutras culturas - os polinésios poderiam considerá-la magra, com exceção do peito.

     Então recordou-se do saiote. Trinta centímetros. Era fácil ver que trinta centímetros permitiam apenas dez de modéstia extra. Não falando do vento... Meu Deus - que aconteceria quando se curvasse ou levantasse a perna para subir um degrau, ou, também, como se sentaria? Decidiu discutir todo este assunto do vestuário com Maud. De fato, uma vez que esta era a sua primeira viagem de estudo, devia perguntar a Maud o que se exigiria dela nas Três Sereias.

     Enquanto se enxugava, viu-se uma vez mais ao espelho. Como seria quando estivesse grávida? Realmente, tinha uma barriga tão pequena! Onde haveria espaço para outra pessoa, o seu bebê? Bem, havia sempre, a natureza tinha seus segredos, mas era absolutamente impossível prever, neste momento, o que aconteceria. Ao pensar na criança que teria, mas não tinha, franziu automaticamente a testa. Desde o princípio falara com paixão, e mais tarde com naturalidade, em ter um filho, mas Marc opusera-se a isto. Isto é, opunha-se por agora, disse sempre. As razões que o levavam a pensar assim pareciam importantes, quando as manifestava; porém, quando se encontrava só, com tempo para meditar nelas, pareciam-lhe sempre insignificantes. “Devemos ajustar-nos primeiro ao casamento”, afirmara ele uma vez. “Devemos reservar alguns anos só para nós e evitar todas as responsabilidades que pudermos”, declarara de outra. E por último acrescentara mais uma razão: era preciso que Maud se instalasse numa outra casa, se separasse deles, vivessem sós, os dois, antes de iniciarem uma nova família.

     Agora, à medida que passava a toalha pelas pernas, perguntava-se se qualquer dessas razões era honesta, para não dizer válida, ou se dissimulava a verdade: que Marc não desejava um filho, que temia ter um, pois ele próprio era ainda uma criança, uma criança crescida, demasiado dependente para arcar com responsabilidades. Claire não gostou dessa momentânea suspeita e decidiu não especular mais.

     Ouviu bater à porta, atrás do espelho.

     - Claire?

     Era a voz de Marc. Teve um sobressalto de surpresa e sentiu-se culpada, devido a seus pensamentos, agora que Marc estava tão perto.

     - Bom dia - volveu, com alegria.

     - Já tomou o café?

     - Ainda não. Estou-me vestindo.

     - Espero por você, então. Tive de passar sem ele, esta manhã. Dormi de mais. Que quer que diga à Suzu? Alguma coisa especial?

     - O costume.

     - Muito bem... A propósito, a última comunicação sobre as pesquisas chegou já de Los Angeles.

     - Novidades sensacionais?

     - Ainda não tive tempo de examiná-la. Vamos lê-la juntos, ao café.

     - Muito bem.

     Depois de Marc se afastar, Claire pôs rapidamente o soutien, as calcinhas, colocou o cinto das ligas, calçou as meias e prendeu-as e vestiu a combinação cor-de-rosa. Ao sair da atmosfera quente do banheiro para entrar no quarto, mais fresco e claro, perguntou-se se a comunicação apresentaria qualquer fato novo. Dentro de alguns minutos saberia. Penteou-se apressadamente, pôs batom nos lábios - não usava cosméticos no resto do rosto - vestiu a saia leve de lã cor de cacau, em seguida o suéter de cachemir bege, abotoou-o, procurou uns sapatos de salto baixo, calçou-os, dirigiu-se imediatamente para o hall e desceu as escadas.

     Suzu, sorridente, preparava-se para servir o café e Marc achava-se sentado à mesa da cozinha, inclinado sobre uma pasta aberta, quando Claire entrou. Esta deu o bom dia a Suzu e passou em seguida a mão pelo cabelo de Marc, cortado quase rente, ao mesmo tempo que lhe beijava uma das faces. Sentou-se, bebeu de um trago o suco de laranja e fez uma careta, pois esquecera-se de adoçá-lo. Depois, olhou para o outro lado da mesa.

     - Maud ainda não chegou?

     - Anda passeando por aí - retorquiu Marc, sem erguer os olhos.

     Claire mordeu o canto de uma torrada.

     - Bem - disse, apontando para a pasta -, a nossa Disneylândia polinésia existe realmente?

     Marc ergueu a cabeça e encolheu em seguida os ombros.

     - Talvez sim, talvez não. Porém, gostaria de estar tão certo como a Matty. - Deixou cair uma das mãos sobre os papéis que se encontravam diante de si. - Os nossos estudantes parecem ter feito um belo trabalho, mesmo na Biblioteca do Congresso. Vasculharam toda a literatura sobre os Mares do Sul, a publicada e a não publicada. Nenhuma referência em parte alguma às Três Sereias. Nem uma palavra sequer...

     - Isto não deve surpreender. Easterday disse que era um grupo desconhecido.

     - Sentir-me-ia mais tranqüilo se houvesse alguma coisa publicada. Claro... - começou de novo a folhear as notas -... diversas outras fontes parecem apoiar um pouco as afirmações de Easterday.

     - O que, por exemplo?

     - Existiu realmente um Daniel Wright, que viveu em Skinner Street, em Londres, antes de 1795. Em Chicago houve, também, um advogado chamado Thomas Courtney...

     - Ah, sim?! Mais alguma coisa acerca dele?

     - Datas, em especial. Tem trinta e oito anos. Licenciou-se pelas Universidades Northwestern e de Chicago. Sócio de uma firma antiga. Foi aviador na Guerra da Coréia, em 1952. Ao voltar, começou de novo a exercer a advocacia em Chicago. A partir de 1957 não se sabe mais nada.

     - Foi nesse ano que partiu» para os Mares do Sul - afirmou calmamente Claire.

     - Talvez - volveu Marc. - Sabê-lo-emos dentro de muito pouco tempo. - Em seguida fechou a pasta e dedicou-se aos flocos de cereal e ao leite.

     - Temos onze semanas para fazer compras de Natal - disse Claire.

     - Não creio que se celebre o Natal nas Três Sereias - retorquiu Marc. - Não é lugar para mulher... entre aqueles primitivos. Se eu pudesse, deixaria você aqui, de boa vontade.

     - Não ouse sequer tentá-lo! - exclamou Claire, com indignação. - Além disso, não são inteiramente primitivos. Easterday afirmou que o filho do chefe falava um inglês perfeito.

     - Muitos primitivos falam inglês - redargüiu Marc. - Incluindo alguns dos nossos melhores amigos - acrescentou de súbito, sorrindo. - Não me agradaria também que você desperdiçasse muito tempo com eles.

     Encantada com esse interesse, que não era muito habitual no marido, Claire passou a mão sobre a dele.

     - Esse interesse é mesmo verdadeiro? - perguntou.

     - Dever masculino e instinto - respondeu Marc. - Proteger a nossa companheira... Mas, a sério, as viagens de estudo não são piqueniques. Já disse que detesto as que me vejo obrigado a fazer. Não são nunca tão idílicas na realidade como parecem quando as descrevem nos livros. Em geral descobrimos que não temos muito de comum com os nativos, além do nosso trabalho com eles. Tem-se saudade de todos os pequenos prazeres da vida. Inevitavelmente, adoece-se de disenteria, de malária, ou de qualquer outra maldita febre. Não me agrada expor uma mulher a todas essas situações difíceis, mesmo que se trate de um curto período.

     Claire apertou a mão do marido.

     - Você é um amor. Mas estou certa de que não será tão mau como supõe. Apesar de tudo, sempre terei a sua companhia e a de Maud.

     - Poderemos estar muito ocupados.

     - Farei o possível por me ocupar também com alguma coisa. Desejo participar de toda a experiência.

     - Não diga depois que não a avisamos.

     Claire retirou a mão, pegou no garfo e enterrou-o, pensativa, nos ovos fritos. Conhecendo Marc como conhecia, perguntou-se se ele realmente estava tão interessado no seu bem-estar como queria fazer parecer, ou se projetava apenas seus próprios receios em relação a um fato novo e estranho. Era Marc, como tantos homens, constituído por dois indivíduos separados, constantemente em conflito, cada um deles decidido a obter uma paz separada? Irritá-lo-ia, intimamente, uma rotina monótona, e, ao mesmo tempo, encontraria segurança nela? Era tão firme, tão constante, nos seus movimentos diários como os ponteiros de um relógio que funciona como precisão? Todavia, poderia desejar fugir a esta existência, apesar da tranqüilidade que ela proporcionava. Atrás deste ajustamento superficial talvez espreitasse um outro Marc, um Marc que partia para viagens de que ela jamais participaria, viagens a secretos Monte Cristo que temporariamente o libertavam das prisões do dinheiro e das celas do nada. Para ele, talvez as Três Sereias não oferecessem qualquer benefício pessoal, mas apenas o prosseguimento da rotina, mais penoso. Assim, transformaria a aversão que sentia pela sua própria destruição em desvelo e inquietação pela mulher.

     Depois de acabar de comer os ovos, Claire ergueu os olhos e fitou o marido, que continuava ocupado com a sua refeição. Não se devia nunca observar uma pessoa quando ela comia. Parece ridícula, distorcida, comodista. Claire separou Marc da comida. Ele dava sempre a impressão de ser mais baixo do que ela, disse de si para si. Tem um metro e oitenta e três de altura, mas existe nele um hormônio perverso que lhe reduz a altura. Contudo, considerava-o fisicamente atraente. As suas feições, as suas proporções, eram corretas, regulares, equilibradas. O corte do cabelo parecia um anacronismo num rosto tão rígido, tão grave, embora lhe ficasse bem quando ele sorria, gracejava, se encontrava contente ou esperançado. Os olhos, de um cinzento opaco, eram profundos, mas bem distanciados um do outro. O nariz era aquilino, os lábios finos. Todavia, no aspecto geral, era belo, irradiava sinceridade, por vezes simpatia, como um estudioso austero. Tinha o corpo compacto, demasiado musculoso, de um atleta de segundo plano. Usava ternos largos, mas elegantes, que lhe assentavam bem. Se o aspecto dissesse tudo, pensou Claire, Marc seria mais feliz e ela refletiria a felicidade dele. Mas o seu interior, sabia Claire, vestia com freqüência roupagens diferentes, e ressentia-se do seu acanhamento. Não quis suspirar alto, porém isto aconteceu.

     Marc ergueu os olhos, interrogativamente.

     Claire tinha de dizer qualquer coisa. E disse:

     - Sinto-me um pouco nervosa quando penso no jantar especial desta noite, nos convidados...

     - Mas por que motivo se sente nervosa? Hackfeld já concordou em conceder um subsídio.

     - Sabe que Maud afirma que necessitamos de mais. Como pode Hackfeld insistir num grupo tão grande se se mostra tão avaro em relação ao dinheiro?

     - É por isso que ele é rico. Ademais, tem muitas outras coisas em que pensar.

     - Pergunto-me como Maud resolverá o problema com ele - declarou Claire.

     - Deixe isso com ela. É a sua especialidade. Os olhos de Claire seguiram Suzu até ao fogão.

     - Suzu, que haverá para esta noite?

     - Frango à Teriyaki.

     - D caminho para a bolsa de um homem passa pelo seu estômago. Brilhante, Suzu.

     - Isso é bem verdade - retorquiu ela, sorrindo.

     - Que bolsa? Que estômago? - Maud Hayden encontrava-se à porta da sala de jantar. Os cabelos grisalhos achavam-se indescritivelmente revoltos, talvez devido ao vento. O rosto largo e enrugado estava corado. O corpo forte, mas atarracado, parecia não ter formas no casaco com capuz cor-de-rosa e na saia de flanela azul-marinho, e nos sapatos largos, grosseiros. Ela agitou sua bengala, um produto do Equador e do país dos jívaros. - Qual é o assunto da conversa? - perguntou.

     - Cyrus Hackfeld, o depositário do nosso dinheiro - respondeu Claire. - Tomou já o café?

     - Sim, há já algumas horas - disse Maud, tirando o capuz. - Brrr. Faz um frio dos diabos lá fora. Sol e palmeiras, e contudo quase que enregelamos.

     - Que espera em março?! - exclamou Marc.

     - O tempo da Califórnia, meu filho. - Sorriu para Claire. - De uma maneira ou de outra, dentro de poucas semanas teremos todo o tempo tropical que conseguirmos suportar.

     Marc ergueu-se e estendeu a pasta à mãe.

     - A última comunicação sobre as pesquisas acaba de chegar. Nem uma palavra sobre as Sereias. Um Daniel Wright viveu em Londres. E, até há muito pouco tempo, um Thomas Courtney exerceu a advocacia em Chicago.

     - Maravilhoso! - exclamou Maud, despindo o casaco, com o auxílio de Marc. - É do Courtney que eu dependo. Não calcula quanto vai me auxiliar. - Em seguida, dirigindo-se a Claire, acrescentou: - Cada viagem de estudo decente demora de seis meses a um ano, e em certos casos mesmo dois anos. A mais curta em que tomei parte demorou apenas três meses. Mas aqui temos umas ridículas seis semanas. Por vezes, demoramos este tempo a localizar o nosso informante mais importante, uma pessoa na aldeia que seja relativamente digna de crédito, que conheça as lendas e a história, que não se importe de falar. Não é possível descobri-lo numa semana e estabelecer depois contato com ele do dia para a noite. Tem de se esperar com paciência, aguardar que ele se habitue a nós, que aprenda a confiar em nós, e, por fim, que se dirija mesmo a nós. Se se descobre o homem de que se necessita, ele arranja as coisas de maneira a que não encontremos dificuldades na aldeia. Bem, no presente caso tivemos muita sorte. Courtney, se é o que Easterday diz dele, parece-me o perfeito intermediário. Ele tem o povo das Sereias preparado para nos dispensar um bom acolhimento. Compreende-nos e às nossas necessidades. Deve ser uma mina de informações. E deve conduzir-nos também sem demora aos nossos informantes. Acredite-me...

     - Voltara-se para Marc. - Agrada-me bastante o fato de termos provas razoáveis de que este Courtney existe. - Agitou a pasta. - Vou subir ao escritório a fim de examinar isto imediatamente.

     Claire ergueu-se.

     - Irei ter com a senhora daqui a um momento - disse ela.

     Depois de Maud ter saído e de Marc levar o jornal da manhã para a sala de estar, Claire tirou a mesa da cozinha e, a despeito dos protestos de Suzu, começou a lavar os pratos.

     - Isto não me dá muito trabalho - disse ela a Suzu.

     - Você tem de preparar o jantar especial desta noite e isso vai ocupá-la durante muito tempo.

     - Só contamos com quatro pessoas, além de nós - volveu Suzu.

     - Como. deve calcular, o Sr. Hackfeld come por oito; assim, o jantar tem de ser abundante.

     Suzu riu e voltou a seu trabalho.

     Quando acabou de lavar os pratos, Claire enxugou as mãos e, em seguida, após exprimir a sua admiração pelo frango cozido de Suzu, subiu para saber o que podia fazer pela sogra.

     Encontrou Maud, com a cadeira giratória afastada da secretária, balouçando-se lentamente enquanto lia com atenção as notas sobre as pesquisas. Depois de Maud perceber a sua presença, fazendo um aceno com a cabeça, Claire dirigiu-se para a mesa de café a fim de retirar um cigarro do maço que se encontrava sempre ali e acendê-lo. Em seguida,. aspirando com satisfação a fumaça, começou a passear pela sala, tão familiar. Fixou os olhos no pedaço de tecido sépia e branco, que pendia da parede, contemplou os retratos autografados de Franz Boas, de Bronislaw Malinowski, de Alfred Krceber, que se achavam emoldurados, a máquina de escrever elétrica, que estava junto da sua pequena secretária, e de teve-se depois diante da estante. Examinou os exemplares encadernados da Culture, órgão da Liga Antropológica Americana, e Man, publicação do Instituto Real de Antropologia, e o American Journal of Physical Sciences.

     - Belo, belo - disse por fim Maud. - Desejaria ter todos estes elementos quando preparei a declaração do projeto e despesas para Hackfeld. Não importa, fornecer-lhe-ei parte do material suplementar esta noite.

     Claire aproximou-se da secretária e sentou-se diante de Maud.

     - Serão feitas mais pesquisas? - perguntou ela. Maud sorriu.

     - Elas nunca acabam. De fato, estive ontem de pé, até depois da meia-noite, tentando descobrir, em diversas fontes, algumas das práticas a que Easterday se referiu como sendo seguidas nas Sereias. Muitas procedem de outras ilhas. A velha civilização da ilha da Páscoa desprezava a virgindade tanto como as Sereias agora. E o rito em que os convidados do sexo masculino fruem a noiva - a afirmação de Easterday é correta - é também praticado na Samoa e nas ilhas Marquesas. Quanto à misteriosa Cabana de Auxílio Social, localizei coisa semelhante, uma casa de prazer ou are popi, no estudo de Peter Buck sobre Mangareva. Porém, algumas das práticas das Sereias são absolutamente originais. Por exemplo: os comentários de Easterday acerca da Hierarquia que trata dos divórcios. Sabe, Claire, estou ansiosa por examinar tudo isso, partir para lá e ver tudo com meus próprios olhos.

     Claire sentiu que era o momento de falar naquilo que a preocupara, após o banho.

     - Estou também ansiosa por partir - disse, lançando fora o cigarro. - No entanto, devo confessá-lo, encontro-me um pouco apreensiva...

     - Mas não há nada que possa preocupá-la!

     - Quero dizer... Como nunca participei de uma coisa dessas, como me devo comportar?

     Maud pareceu surpreendida.

     - Como deve se comportar? Da maneira que sempre se comportou, Claire. Seja você própria... afetuosa, modesta, cortês, interessada. Seja o que é naturalmente. - Maud refletiu durante uns momentos e depois acrescentou: - De fato, suponho que existem alguns pontos de referência que uma pessoa inexperiente nesse campo deve ter sempre bem presentes. Não se deve mostrar melindrada, superior ou condescendente. Tem de se adaptar ao ambiente e à nova situação social. Tem de dar a impressão de que tudo lhe agrada. Tem de mostrar respeito pelos chamados nativos... e, ante eles, mostrar também que você respeita o seu marido. Muito provavelmente, irá viver numa sociedade patriarcal. Nesta, a mulher polinésia ocupa sempre um segundo plano, em público, por muito que seja ela a ditar as leis em casa e na intimidade. Sempre que possível, se for convidada para participar de uma festa, uma tarefa, um ato recreativo, tente imitá-los. É tudo uma questão de grau. Habitualmente, uma mulher deve apenas evitar embriagar-se, fazer cena em público, mostrar-se demasiado agressiva, e, como mulher casada, coabitar com um polinésio do sexo masculino.

     Claire corou; porém, apercebeu-se depois que Maud gracejara acerca da coabitação.

     - Creio que conseguirei manter-me fiel - volveu, sorrindo.

     - Sim - disse Maud, que acrescentou com ar sério: - Decerto que não existem bem e mal absolutos, também. Tudo depende muitas vezes da natureza da tribo com que se trabalha. Em muitos casos, os nativos apreciaram o fato de um antropólogo ter coabitado com um dos da sua tribo. Consideraram isso uma expressão de aceitação. Uma mulher, numa dessas áreas... no caso de não ter ligações fora dela... pode relacionar-se facilmente com um nativo e despertar o aplauso de todos, uma vez que, como estranha ao meio, é rodeada por uma aura de riqueza, poder, prestígio.

     - Bem, não necessita de falar disso com um ar tão sério - retorquiu Claire.

     - Uma coisa importante que você precisa reconhecer - prosseguiu Maud - é a seguinte: o povo das Sereias, embora predominantemente polinésio, não é de um primitivismo baixo. Você sabe bem que o velho K - Claire compreendeu que ela se referia a Kroeber - costumava dizer que as formigas têm uma sociedade mas não uma cultura, e cultura, neste contexto, não significa refinamento, mas antes costumes verbalmente adquiridos, técnicas, crenças tradicionais a que se mantêm fiéis. Bem, os polinésios não são formigas, nem primitivos. Têm muitas culturas sólidas e seculares. Quando ouço os leigos falarem de primitivos, sei que se referem a brutos iletrados de mentalidade subdesenvolvida. E, certamente, em certas seções da África, do Equador, do Brasil, e também da Austrália, você pode encontrar povos destes. Autênticos aborígines. Não espere encontrá-los nas Sereias, em especial pelo fato de serem polinésios cruzados com caucasianos. Este povo, provavelmente, possui uma existência, medida em tempo, tão longa como a nossa. Pode não ter uma cultura material complexa, mas possui uma estrutura social complexa. Talvez sejam primitivos apenas num sentido tecnológico. Pode estar certa de que, no aspecto social, são extremamente progressistas.

     Era este o momento exato, compreendeu Claire, de se referir ao que tinha em mente.

     - É difícil considerá-los civilizados, uma vez que os homens não usam, em geral, senão uma tira de pano para ocultar o sexo. As mulheres, por seu lado, andam nuas, excetuando, claro, os saiotes de trinta centímetros.

     - Creio que usam o vestuário apropriado para o clima, o que constitui uma coisa sensata; ademais, as suas atitudes comuns são bem significativas neste ponto - acrescentou Maud placidamente.

     - Então, temos de nos comportar como os nativos? - perguntou Claire.

     Maud pareceu surpreendida.

     - Que quer você dizer?

     - Quero dizer... Temos nós duas de despir o nosso vestuário habitual e...

     - Por Deus, não, Claire! Tente imaginar-me de saiote, com toda a minha carne mole e a minha autoridade à mercê da brisa. Por Deus, por que é que veio à sua mente uma coisa dessas? Você andará vestida como aqui, na Califórnia, com roupas de verão, porém mais leves. De fato, temos ambas de fazer algumas compras. O único tabu seria usar blue jeans ou calças largas. Aos olhos dos nativos você pareceria um homem, e isso causar-lhes-ia confusão profunda. Seria preferível, em vez de blue jeans ou calças largas, que você se apresentasse completamente nua. Eles prestariam menos atenção. Não, pode ir com confortáveis blusas e saias desportivas. Isso será aceitável. O que mais interessa é mostrar simpatia por eles, afabilidade. Nenhum de nós pode comportar-se como o jovem e aristocrata antropólogo inglês ao qual Robert Lowie se costumava referir. Este antropólogo inglês, depois de passar algum tempo com os nativos, voltou com o seguinte relato: “Roupa escassa, maneiras nada recomendáveis, poucos preceitos morais.”

     Claire riu com a sogra, e sentiu-se melhor. Ao dirigir-se para a mesa de café, a fim de ir buscar um cigarro, viu Maud tirar um maço de papéis de uma gaveta da secretária.

     - São estas as cópias das cartas para os possíveis membros da expedição? - perguntou Maud.

     Claire olhou sobre o ombro, inclinou a cabeça num gesto de aprovação e voltou para o seu lugar.

     - Datilografei quatro. Extraí os excertos que sugeriu da carta de Easterday e remeti-os. Assinei seu nome.

     - Quando é que as enviou?

     - Ontem à tarde. Seguiram todas por via aérea, exceto a dirigida à Dr.a Rachel DeJong, uma vez que esta vive em Los Angeles.

     - Sim, deixe-me ver. Eis a carta para Rachel. Penso que é melhor lançar uma vista de olhos sobre elas, pois pode muito bem acontecer que eu tenha omitido qualquer coisa. Terei uma desculpa para acrescentar algum pormenor. Espero que todos estejam disponíveis. Hackfeld ficou profundamente impressionado. Detestaria ter de apresentar substitutos...

     - Todos devem receber ainda hoje as cartas - disse Claire. - Creio que teremos as respostas durante o íim-de--semana.

     - Hum - murmurou Maud, passando os olhos pela primeira carta. - Tenho esperança de que Rachel possa dispor das seis semanas.

     - É ela a psicanalista? Tenho-me perguntado, Maud, o que a teria levado a escolhê-la.

     - Li uma vez um ensaio escrito por Rachel... Os Efeitos do Namoro e do Noivado no Casamento... e considerei-o uma obra de alto nível. Pensei que ela realizaria um belo trabalho nas Sereias. Além disso, ela afigura-se-me de um tipo excelente para uma viagem de estudo: fria, pouco emotiva, totalmente objetiva, muito ponderada para uma pessoa tão jovem. Além do mais, não é freudiana fanática. Tenho franca preferência por colegas que sejam capazes de se controlar em qualquer situação nova que possa surgir. Rachel reúne este predicado. Agrada-me. Espero também agradar a ela.

      

     Eram onze e quarenta da manhã. No seu obscuro gabinete de psiquiatra, no topo de um alto edifício de Wilshire Boulevard, em Los Angeles,; a Dr.a Rachel DeJong estava sentada numa cadeira, ao lado da doente, agitava o lápis entre os dedos e dizia de si para si que, se prolongasse por um só instante mais os nove minutos que faltavam para a sessão terminar, gritaria com certeza.

     A voz da doente extinguiu-se, e Rachel teve um momento de pânico profissional. Teria a doente sentido a sua própria hostilidade? Descruzando as pernas, Rachel inclinou-se sobre o diva, observando a doente, e compreendeu que ela olhava fixamente para diante, mergulhada nos seus pensamentos e esquecida da presença analítica da médica.

     Debruçada sobre o diva, Rachel compreendeu outra coisa mais. O quadro que ela e a doente apresentavam, nestes derradeiros segundos, assemelhava-se a uma antiga pintura que vira - possivelmente num anúncio - de um belo Narciso inclinado sobre a fonte, fixando, espantado, o reflexo da sua figura na água. A imagem era precisa, aparentemente: ela, Rachel DeJong, era Narciso, o diva de couro era a fonte, e a Srta. Mitchell, prostrada, o reflexo dela própria. A imagem parecia imprecisa apenas num pormenor: Narciso enlanguescia de amor ante o reflexo da sua figura enquanto Rachel se desintegrava com o ódio despertado pelo mesmo reflexo.

     Pensando na Srta. Mitchell, tentou analisar o caos emocional que a possuía. Não odiava a moça como pessoa. O que odiava era o que se apercebia de si própria, tão grotescamente exato, no problema da Srta. Mitchell. O ódio de Rachel, refletido na doente, era o ódio que sentia por si mesma.

     Durante os seus poucos mas bastante ocupados anos como analista isso jamais acontecera, pelo menos manifestado desta maneira. Até há cerca de dois meses, quando a Srta. Mitchell entrara na sua vida profissional, Rachel DeJong mostrara-se relativamente estável e desapaixonada, com uma vida interior sem qualquer desequilíbrio. Compreendeu que o seu problema pessoal se encontrava ali, sempre se achara ali, subsistira à sua própria análise, e que a Srta. Mitchell não lho trouxera. O que a moça fizera fora revelar, expor e dramatizar o seu problema, irmão gêmeo do dela.

     Rachel voltou a apoiar-se nas costas da cadeira; irritada, agitava o lápis com os dedos. Devia, compreendeu, ter-se desembaraçado da doente após a quarta semana, quando esta se achara suficientemente desoprimida para discutir o seu problema. Em vez disso, Rachel escutara-o com sofrimento, e continuava a escutá-lo, agonizando com ele, absorvendo-o com masoquismo, e de noite examinava-o e detestava-se a si própria. Devia ter-se dirigido, logo no primeiro instante, ao Dr. Ernst Beham, com quem fizera a sua análise didática. Essa, sabia, teria sido a solução profissional, e contudo não recorrera a ela. Era como se tivesse desejado preservar por mais tempo a autoflagelação, suportá-la, talvez para negar a fraqueza, para provar que resolvera os seus problemas, que era forte. Mas alguma coisa mais evitara que se dirigisse a seu analista. Rachel compreendeu que ele não teria permitido que a relação com a Srta. Mitchell continuasse. Disto estava absolutamente certa. Todavia, Rachel desejava que ela se prolongasse. Era como se, três vezes por semana, durante cento e cinqüenta minutos, reatasse uma história, dividida em capítulos, acerca de si própria, e não ousasse perder um episódio, pois desejava conhecer o desenlace do triste enredo. Hoje, tudo era ainda pior, talvez porque a sua própria situação, no que tocava à vida privada, tivesse atingido o ponto extremo, estivesse também pior do que nunca. A presente sessão era insuportável. Lançou um olhar de relance para o seu relógio de mesa. Ainda faltavam sete minutos - sete terríveis minutos. Devia interrompê-la?

     - ... não concorda, doutora? - perguntara a doente.; Rachel DeJong tossiu e pôs o capuz da sagacidade; uma vez recobrada a presença de espírito, disse:

     - Saberá a minha opinião mais tarde, Srta. Mitchell. Agora, como já afirmei, o mais importante é que revele completamente a causa desses distúrbios, pelo menos os pontos que vir com mais clareza. Em breve, penso, dispensará a minha opinião. Discernirá por si própria. Descobrirá por si mesma o que é preciso fazer.

     A Srta. Mitchell mostrou o seu desagrado e voltou a cabeça, apoiada sobre a leve almofada coberta por plástico, de modo que os seus olhos se fixaram no teto de um água-marinha frio.

     - Não sei por que continuo a vir aqui.. < e, além disso, a pagar-lhe - queixou-se ela. - É raro que a senhora me dê qualquer indicação, que me esclareça.

     - Quando um esclarecimento é necessário, eu dou - volveu Rachel bruscamente. - Por ora, o mais importante é contar-me tudo o que puder. Vá, tente continuar.

     A Srta. Mitchell refletiu durante um momento, naquele silêncio penoso. Por fim, disse:

     - Bem, se insiste.:. - E retomou a associação livre. Rachel, como fizera diversas vezes no passado, examinou secretamente a pessoa da Srta. Mitchell. A doente contava cerca de trinta anos, era filha única de uma ilustre família de sociedade, e herdara já bens de considerável valor. Possuía uma educação primorosa, viajara muito e gozara sempre a companhia de belos e ricos jovens. Era glacialmente atraente, desde o seu magnífico cabelo louro, impecavelmente penteado, ao seu longo rosto oblíquo (tão parecido com o que representa o antigo busto egípcio de Nefertíti) e à sua figura esbelta de manequim. Fisicamente, era desejada pelos homens, que jamais lhe faltavam com a sua atenção; contudo, fizera por se esquivar, até muito recentemente, a qualquer ligação.

     Rachel desviou os olhos da doente e fixou-os no tapete e em si própria. Se tinha qualquer problema, este não era provocado por falsa modéstia. Sabia que, à sua maneira, era tão atraente para o sexo oposto como a Srta. Mitchell. Apesar de não ser tão alta e esbelta, de não provir de uma família de tanto renome na sociedade, igualava a doente em elegância e charme. De fato, isto sempre constituíra para si uma dificuldade em relação aos doentes do sexo masculino. A transferência deles era por vezes total e com freqüência agressiva. Perguntou-se como a veria a Srta. Mitchell como mulher, não como terapeuta. A roupa de Rachel, de um azul escuro, a sua blusa levantada até ao pescoço - o conjunto que vestia nesse momento - não faziam que a sua figura perdesse feminilidade. Como o penteado da Srta. Mitchell, o seu cabelo castanho era ondulado, embora menos. Seus olhos de lince eram pequenos e vivos, o nariz reto, clássico, as maçãs do rosto altas e proeminentes, de modo que seu rosto se adelgaçava até terminar num queixo firme e triangular. O corpo era longo e ossudo, com ombros largos, seios também largos mas não profundos, cintura estreita e quadris de rapaz. Possivelmente, a barriga da perna era demasiado reta. Porém, no todo, não era inferior a sua doente, nem, na verdade, à maior parte de suas amigas. Contudo, aos trinta e um anos ainda continuava solteira.

     Assim, o seu problema, à semelhança do problema da Srta. Mitchell, não era de falta de atração em relação ao sexo oposto. Tratava-se antes de uma enfermidade interior, medo, medo do sexo oposto. Achavam-se ambas perturbadas emocionalmente desde a mais tenra infância e para ambas, também, o sintoma adulto fora a fuga a todas as ligações emocionais. Ambas cultivavam uma extrema independência, fugindo às suas obrigações para com os outros seres humanos.

     A voz da doente chegou até ela e, ante as suas queixas e torturas, Rachel sentiu uma ponta de culpa, que a obrigou a dirigir sua atenção para a Srta. Mitchell.

     A enferma falava:

     - Continuo a recordar-me, tudo volta àquelas primeiras semanas depois que o conheci. - Fez uma pausa, sacudiu a cabeça, fechou os olhos e prosseguiu: - Ele era absolutamente diferente de todos os outros, ou talvez eu é que fosse diferente, e não ele... Isto é, os meus sentimentos acerca dele como homem eram diferentes. Quando os outros tentavam beijar-me, acariciar-me, ou quando se declaravam, eu conseguia dizer sempre não, sem ficar triste. Nunca fiz caso de qualquer deles. Pareciam todos crianças, crianças mimadas. Mas, quando ele surgiu, cedi positivamente. Desejava-o. Desejava-o, sim. Tinha medo de perdê-lo. Consegue imaginar-me com medo de perder um homem? Bem, ele sentia o mesmo em relação a mim... já afirmei isto dezenas de vezes... mas estava certa, ainda o estou, de que me amava. Por que demônio desejaria casar comigo se não me amasse? Ele tinha quase tanto dinheiro como papai, de modo que não devia estar interessado apenas na minha fortuna. Não, desejava-me como esposa. E eu desejava-o como marido. Porém, na noite em que ia sair com ele, quero dizer, algumas horas antes, compreendi que ia propor-me casamento, compreendi, sim, e então adoeci... por conveniência, dirá a senhora... Vá, diga, por conveniência... Creio que tem razão. Queria ser desejada, e desejava-o, queria que uma espécie de noivado infantil se prolongasse durante muito, muito tempo, como num conto de fadas, um belo conto de fadas onde o sexo não conta, mas apenas amor platônico, sem realidade, sem responsabilidade, sem compromissos mesmo nos mais simples contactos... Não desejava os contactos entre adultos, dar e dar bem, expor-me, depender de outro em vez de mim própria... Eu sei, doutora, já falamos disto, eu sei...

     Rachel escutava, interiormente trêmula. E pensou: “O diabo se você sabe, Srta. Mitchell.”

     A memória de Rachel recuou, vacilante, detendo-se num passado não muito distante com experiências semelhantes às da Srta. Mitchell. Durante seus estudos na escola médica, e mesmo depois, convivera sempre com homens, com freqüência estudantes, por vezes muito mais velhos do que ela. Recebera propostas de casamento, também, belas, atraentes. Será uma coisa perfeita, Rachel. Você terá o seu trabalho e eu terei o meu. Poderemos arranjar alguém que trate das crianças. Poderemos comprar dois divas ao mesmo tempo e obter assim um desconto, ah, ah... Vamos, Rachel, responda, mas bem. Recorde-se disto: a família que trabalha junta permanece unida. Tivera sempre a mesma resposta na ponta da língua: “Você é um amor, Al (ou Bill, Dick, John), mas compreenda... E além disso... e assim... eis por que infelizmente não posso. Realmente não posso.”

     Tentara sempre reduzir a paixão e o fervor à mais inócua das amizades e conseguira-o geralmente. Apenas duas vezes, um ano depois de ter decidido especializar-se, tornar-se psicanalista, permitira que uma ligação excedesse a amizade. Um deles era colega de estudos, um jovem magro, acanhado, de Minnesota. O cenário fora o seu pobre quarto de solteiro, o local, o diva dele (tinha-lhes acudido o gracejo quase simultaneamente). Viera preparada para o que se ia passar e suportara tudo com estoicismo, como se tivesse ido ao dentista obturar um dente. Nada dera, e ele pouco mais. Aquilo constituíra apenas um ato teatral. Contudo, em nome da Experiência - como se podia orientar os outros, no futuro, sem o conhecimento direto do próprio passado? -, mantivera um flerte com um jovem professor doidivanas, marido e pai, e passara um fim-de-semana com ele num hotel, na ilha Catalina. Com isto obtivera grandes conhecimentos no domínio profissional, mas nenhuma alegria. Emocionalmente, mantivera-se sempre distante dele, ainda que fechados no mesmo quarto. Desempenhara o papel de uma curiosa inocente, de uma observadora imparcial, e, no que tocava a si, ele poderia ter-se mesmo masturbado. Ele não conseguiu compreender por que tinha ela interrompido subitamente aquele fim-de-semana idílico. Foi a última Experiência direta de Rachel. Daí por diante os seus conhecimentos acerca da função advieram de lições, de leituras, e, uma vez por outra, das descrições, dos seus doentes. Tranqüilizou-a o pensamento de que a sua libido se encontrava em paz, de que era uma princesa adormecida. Quando o seu príncipe chegasse, ela e sua paixão despertariam normalmente.

     Quatorze meses antes deste mesmo dia o homem sonhado surgira, e ela e sua paixão tinham com efeito despertado. Tudo no momento devido. Ele tinha quarenta anos - quarenta e um agora - e ela trinta - agora trinta e um. Era um homem alto, terno, de olhos mansos como os de um boi, um corpo vigoroso, solteirão de sãos princípios, com os melhores instintos, os mais vastos interesses, os maiores rendimentos. Era o Morgen da firma de corretagem Jaggers, Ulm e Morgen. Joseph E. Morgen. Excelente família, também. Ela despertara e sentia-se feliz, ele fora apanhado na rede e gostava da situação em que se encontrava.

     A cronologia dos primeiros dez meses, na versão condensada de um livro, era simples. Capítulo I. Galerias de arte, museus. Capítulo II. Teatros, cinemas. Capítulo III. Clubes noturnos, bares diversos, freqüentes coquetéis. Capítulo IV. A casa da família dele, a própria família, gente encantadora. Capítulo V. A casa dos amigos dela, os amigos, gente maravilhosa. Capítulo VI. Festas, muitas festas. Capítulo VII. O carro parado em Laguna, Newport, Malibu, Trancas, beijos, beijos. Capítulo VIII. O apartamento dela, carícias, beijos, afagos, muitos e variados. Capítulo IX. Fim-de-semana em Carmel, o passeio à beira-mar, à noite...

     A Srta. Mitchell soluçara, e Rachel não lamentou o fato de deixar o passeio à beira-mar, à noite. No momento em que a moça começou de novo a falar, Rachel desejou recuar, pois conhecia o que se aproximava, já escutara tudo antes.

     - Durante todo aquele dia na Riviera senti que tudo estava absolutamente certo - disse a Srta. Mitchell. - Fugira como uma colegial assustada, e ele e seu amor seguiram-me, ainda decidido a fazer a mesma pergunta. Porém, achava-me mais tranqüila, e, quando voltamos para Cannes, tinha a certeza de que se encontrava tudo resolvido, de que diria sim... diria sim e, meu Deus, terminaria o tormento, terminaria com um fim feliz. Contudo, ainda havia sol e ele desejava que nos preparássemos para ir à praia, para passearmos, tomarmos uns drinques... Troquei de roupa na cabana e ele, em seguida, fez o mesmo. Quando saiu, senti que me ia sentir mal, que ia ter vertigens, acredite-me. O filho da mãe trazia calção de banho... nunca o vira assim antes, e parecia tão grosseiro, tão animalesco... Ele, como pessoa, não era diferente, era o mesmo, mas vestido de outra maneira dava a impressão de ser diferente. Não consegui mais olhar para ele... Depois, estendido a meu lado, disse, sem rodeios, o que tinha em mente, declarou-se, propôs que casássemos imediatamente. Compreendi o que aquilo significava e comecei a chorar. Fugi para o hotel. Os médicos impediram que ele se aproximasse de mim... mas que poderia eu dizer? Aliás, como muito bem sabe, foi nesse momento que sofri o primeiro colapso, que tudo isto começou...

     O fim, era o fim, pensou Rachel.

      

     Tinham descoberto um trecho solitário de praia ao norte de Carmel, e pararam lá o carro, entre as árvores. Ele ajudara-a a descer o íngreme declive até à areia. Fazia calor na praia e a água murmurava, ondulante, ao luar. Tiraram os sapatos e começaram a caminhar à beira do mar, de mãos dadas. Sabia que ele ia propor-lhe casamento, aquele homem corpulento e sensitivo, tão apaixonado por ela quanto ela por ele, e manteve-se calada enquanto ele se declarava. Lançara-se nos seus braços, impelida por um súbito impulso, sem refletir, possuída por este instante de felicidade, limitando-se a inclinar aprovadoramente a cabeça à medida que ele murmurava os seus sentimentos.

     Ele quis que festejassem aquele momento. Desejou que se lançassem, juntos, à água. Perguntou-se como seria aquilo possível, uma vez que não tinham roupa de banho. E ele afirmara com alegria que não necessitavam de roupa de banho, agora que estavam praticamente casados. Estupefata ante o que se passava dentro de si, concordara, estupidamente, e dirigiram-se para trás de uma rocha, a fim de se despirem. Desabotoou a blusa e sentiu-se gelar; ficou ali a tremer, arrepiada, durante mais de mil segundos. Depois ouviu-o pronunciar o seu nome, apercebeu-se dos seus movimentos, e circundou, a correr, o rochedo para lhe explicar o que se passava, e encontrou-o no seu estado natural, como ele esperava que ela estivesse também. A expressão de terror que surgiu no seu rosto extinguiu imediatamente o sorriso de confiança que brilhava no rosto do companheiro. Mirara o peito dele, sólido, peludo, e involuntariamente, como num sonho, baixara os olhos... Sim, Srta. Mitchell, sim... e. desatara a correr ao longo da praia, caindo, erguendo-se, correndo, com os gritos dele perseguindo-a.

     Quando ele voltou, vestido, ao carro, ela esperava-o com os olhos secos, controlada, e durante todo o percurso de regresso a casa mostraram-se terrivelmente razoáveis acerca do incidente, encarando-o sob um prisma intelectual, de maneira que, quando a manhã surgiu e Los Angeles apareceu através do nevoeiro, tinham chegado à conclusão de que a culpa fora dele. Joe poderia ter evitado tudo, refletindo um pouco. As mulheres são diferentes, mais emocionáveis, sensíveis. Os homens tendem a ceder a seus impulsos, são impetuosos, irrefletidos. A profissão dela não tinha nada a ver com a sua frágil feminilidade. Anuíra à proposta de casamento e sentira-se subjugada, oprimida. Concordava? Casar-se-iam e tudo se resolveria. Sempre sucede assim. Amo-a, Rachel. Amo-o Joe. O nosso casamento dará certo, Rachel. Eu sei, Joe. É melhor começar a pensar na data, Rachel. Sim, sim, Joe. Amanhã à noite, então? Amanhã à noite.

     Seguiu-se um período de quatro meses de amanhãs à noite, alguns dos encontros efetuaram-se, outros não. Joseph Morgen insistira em que ela marcasse a data do casamento. Rachel utilizara todos os estratagemas conhecidos nos anais da feminilidade para evitar qualquer data. As suas defesas tinham por base casos de emergência, uma sobrecarga de trabalho clínico, ensaios psiquiátricos para escrever, convenções a que tinha de comparecer, parentes a receber, doentes que necessitavam da sua assistência, e, de súbito, na última semana... Uma briga. Ela estava fazendo-o de tolo, disse ele. Se não o amava por que não o dizia? Mas amava-o muito, disse, amava-o mesmo muito. Então por que tentava fugir, ludibriá-lo, recusando-se realmente a casar com ele? Casariam, sim, casariam muito em breve, volveu. Por fim, ele disse as suas últimas palavras: não insistiria mais com ela, mas o seu desejo era o mesmo e a sua proposta estava de pé; quando ela estivesse decidida, devia procurá-lo e anunciar-lhe a sua decisão.

     Essa disputa verificara-se na semana passada.

     Na noite anterior lera, na crônica de Hollywood de um jornal, que Joseph Morgen jantara no Perino com uma siaxlet italiana.

     Não dormira nem três horas nessa noite.

     Tomou consciência do tempo. Mirou o mostrador do relógio de mesa e mexeu-se na cadeira.

     - Bem, Srta. Mitchell, estamos na hora - anunciou Rachel. - Esta sessão foi muito útil. Embora não o sinta, tem feito muitos progressos.

     A paciente sentou-se no diva, compôs o cabelo e por fim ergueu-se, o rosto mais descontraído do que antes. Rachel levantou-se também.

     - Desejo-lhe um agradável fim-de-semana, e espero vê-la segunda-feira à mesma hora.

     - Sim - respondeu a Srta. Mitchell, dirigindo-se depois para a porta. Rachel seguiu-a. Em dado momento a cliente hesitou e voltou a cabeça.

     - Que... Queria poder ser como a senhora, Dra DeJong. Sê-lo-ei alguma vez?

     - Não, nem o desejaria. Um dia, em breve, será você própria, um ser que apreciará bastante, e isso será o suficiente.

     - Confio na sua palavra. Adeus.

     Depois de a doente partir, encostou-se ao arco do limiar da porta, singularmente desorientada. Com certo esforço, compreendeu que era meio-dia e que não teria outro paciente antes das quatro. Por que isto? De súbito, o verdadeiro motivo acudiu à mente. Participaria, com o Dr. Samuelson e o Dr. Lynd, de uma mesa-redonda no teatro da Escola Secundária de Beverly Hills. Haveria uma discussão sobre a adolescência e o casamento prematuro; depois a palavra seria franqueada aos pais e aos professores. Tudo isto fora combinado alguns meses antes e devia ocupá-la da uma às três da tarde. Quando o convite fora formulado, aceitara-o sem reservas. Sempre lhe agradara esse jogo de perguntas e respostas, o repto mental, o estímulo desses encontros. Agora, porém, sentia-se fatigada, débil, infeliz quanto a Joe, desgostosa consigo mesma, com o nível do amor-próprio muito baixo. Nãc se encontrava num estado de espírito propício para o debate; este requeria argúcia, equilíbrio, calma, além da experiência psiquiátrica. Desejava estar só, a fim de recobrar o ânimo, pensar, resolver seus próprios problemas. Contudo, sabia que não podia faltar. Jamais o fizera, e não era possível fazê-lo agora. Era demasiado tarde para arranjar um substituto. Teria de suportar a prova, o melhor que pudesse.

     Depois de sair do banheiro, cuidou do rosto, vestiu o casaco e partiu. Ao passar pela sala da recepção, viu a sua correspondência dessa manhã em cima da mesa. Encontrou meia dúzia de cartas. Colocou-as no bolso, fechou a porta a chave e tomou o elevador, que a conduziu ao hall de entrada do edifício.

     Uma vez na rua, sentiu que estava frio e o dia tão sombrio e pesado como seu coração. Pensara ir buscar seu carro conversível, dirigir-se nele até Beverly Hills, tomar um aperitivo, almoçar tranqüilamente num dos melhores restaurantes e dirigir-se depois para o local onde se efetuava o debate. Agora, porém, achava-se demasiado preocupada para pensar em tomar o aperitivo ou almoçar. Assim, voltou pelo Wilshire Boulevard e dirigiu-se, a pé, para o bar da esquina.

     O balcão estava quase todo ocupado, mas havia dois reservados vazios. Sentou-se no mais próximo, pois desejava estar afastada das outras pessoas. Depois de fazer o pedido, sentou-se, os dedos entrelaçados sobre a mesa, tentando dar ordem ao caos dos últimos meses.

     Não podia censurar Joe no que tocava ao encontro com a starlet ou a outros encontros no futuro. Isto era mais que evidente. Ele tinha sua vida e precisava de vivê-la. O encontro com a starlet não significava que se tivesse ligado emocionalmente a outra. Provavelmente, não havia nisso mais profundidade que num simples ato de fornicação. Joe afirmara, ao despedirem-se, que desejava casar-se com ela e que a esperava. Bem, com os diabos, ela também desejava casar-se com ele. A coisa mais razoável a fazer, compreendeu, seria procurá-lo e confessar a verdade nua e crua, revelar-lhe o grau da sua inibição. Psiquiatricamente orientado como estava, compreenderia. Com esse entendimento e esse apoio, ela dirigir-se-ia a seu próprio analista e poria tudo a nu, resolveria o problema. Por fim, seria capaz de casar com Joe.

     Para a psiquiatria em si aquilo era simples, uma questão apenas de rotina. Contudo, a mulher - a outra metade do seu ser - não concordava, pois não queria revelar seu problema básico. As coisas, nesse pé, achavam-se pouco certas. A noiva tem um problema; não quer tirar o véu. Isso era uma tolice, uma tolice doentia, mas real. Sentia-se de novo confusa, e o que parecera simples por uns momentos revelava a sua absoluta complexidade.

     Suportava-se uma temperatura abafante na sala, vapores erguiam-se no ar; quando começou a despir o casaco, notou a sua correspondência da manhã. Dobrou o casaco, colocou-o no assento ao lado, e retirou os envelopes do bolso.

     Enquanto mexia a sopa, separou as cartas. Nenhuma delas a interessou antes de chegar ao último envelope. No remetente leu: “Dr.a Maud Hayden, Raynor College, Santa Bárbara, Califórnia.” Isso constituía uma surpresa. Embora conhecesse muito bem Maud Hayden, não eram de modo algum amigas; seus contactos tinham sido puramente profissionais. Nunca estivera em casa de Maud Hayden, nem Maud jamais a visitara no seu apartamento. Além disso, nunca se tinham também escrito. Não conseguia imaginar o motivo que levara Maud Hayden a escrever-lhe, mas a sua admiração por ela, que considerava uma das maiores antropólogas do país, era tão grande que a fez abrir imediatamente o envelope. A carta achava-se diante de si, e um momento depois Rachel penetrava no mundo longínquo das Três Sereias.

     Leu enquanto comia e continuou a leitura depois de terminada a breve refeição. Após percorrer uma página, duas, e deter-se avidamente nos extratos da narrativa de Easterday, o seu mundo privado - possuído pelo problema do seu ser, por Joseph Morgen, pela Srta. Mitchell - foi povoado por Alexander Easterday, pelo Capitão Rasmussen, por Thomas Courtney, por um polinésio chamado Moreturi e pelo pai deste e chefe, Paoti Wright. O impacto da carta de Maud Hayden e do seu conteúdo lançou-a no espaço e fê-la aterrar, vibrando, num planeta estranho, sereno, sem crosta, uma mescla da Boyawa, de Malinowski, da ilha encantada dos Mares do Sul da Ave-do-Paraíso, de Tully, do Wragby Hall, de D. H. Lawrence. Tentou projetar-se na imagem sugerida pelas Três Sereias e apercebeu-se de que seu ser sensível fora fascinado pela cultura nativa e se mostrava também repugnado pelo evidente erotismo dessa cultura. Num outro tempo, em que seus nervos se encontravam menos expostos e as repressões convenientemente enterradas, ter-se-ia interessado, sabia, e telefonaria sem demora a Maud Hayden.

     Rachel recordava-se, como Maud lembrou na carta, de que um ano antes se oferecera para participar de uma viagem de estudo com um diretor e mentor capaz de lhe ensinar as coisas que desejava aprender nesse campo. Interessavam-na extremamente os costumes do casamento. Isto, porém, verificara-se noutro tempo, em que o seu espírito, o seu trabalho, a sua vida social (começara então a sair com Joe) se encontravam organizados e controlados. Hoje, tal viagem constituiria uma loucura. Um estudo sobre práticas sexuais sem inibições e sobre o casamento feliz seria insuportavelmente penoso. Não possuía já objetividade e calma para isso. Ademais, como poderia partir sem resolver a sua ligação com Joe? Como poderia deixar a Srta. Mitchell e trinta outros doentes durante seis semanas? Decerto, deixara diversas vezes no passado seus doentes durante períodos prolongados e não havia indicação alguma de que a sua permanência aqui resolvesse algum dos problemas relacionados com Joe. Porém, numa altura destas, as Três Sereias constituíam pura fantasia, egoísmo impossível. Devia esquecer tudo.

     O aparecimento da garçonete com a conta fê-la regressar daquele mundo longínquo. Consultou o relógio. Faltavam dezoito minutos para a uma. Tinha de se apressar.

     Dirigiu-se com passo vivo para seu carro e partiu para a Escola Secundária de Beverly. Chegou aos bastidores no momento preciso em que iam telefonar para ela. A assistência esperava no auditório completamente cheio, e pouco depois - nesta tarde parecia separada de tudo e de todos, como se sonâmbula - viu-se sentada à mesa, entre o Dr. Samuelson e o Dr. Lynd, participando de uma viva discussão sobre o casamento entre adolescentes.

     Os minutos voaram, e compreendeu que representava um papel passivo no debate, permitindo que o Dr. Samuelson e o Dr. Lynd dominassem a discussão, mantendo-se o mais atenta que lhe era possível e falando somente quando se lhe dirigiam. Normalmente, saía-se bem nestas polêmicas públicas. Esta tarde, porém, como compreendeu, as suas intervenções eram fracas - gíria, banalidades, citações.

     Em dado momento, Rachel apercebeu-se confusamente de que o debate terminara e que do auditório começavam a fazer perguntas. Ela era o alvo de dois dos assistentes e os colegas de outros doze ou mais. O relógio de parede indicava que a sessão estava quase no fim. Reclinou-se na cadeira, considerando uma possível entrevista com Joe.

     De súbito ouviu o seu nome, o que significava que lhe dirigiam nova pergunta. Endireitou-se na cadeira e tentou compreendê-la. Depois de feita a pergunta exibiu uma expressão meditativa - Joe teria visto através dela - e começou a responder.

     - Sim, compreendo, minha senhora - volveu. - Não li esta peça popular, do autor que menciona. Mas se o conteúdo é o que referiu, posso honestamente declarar que não tocaria por nada deste mundo nesse pênis popular dele...

     Deteve-se, espantada. Furando o leve rumor produzido pela audiência, ouvira-se um grito agudo, seguido de risadas e de um sussurro de vozes, depois.

     Rachel hesitou, perdida, e concluiu, confusa:

     - ... Bem, estou certa de que compreenderam a observação que fiz.

     De súbito toda a audiência começou a rir perdidamente.

     Entretanto, Rachel voltou-se desamparada, para o Dr. Lynd, que corara e olhava, imóvel, em frente, como se fingisse não ter reparado naquela cena de tão pouca discrição. Rachel, então, voltou-se para o Dr. Samuelson, que franzia os lábios num sorriso e fixara o público.

     - Que se apoderou deles? - perguntou Rachel num murmúrio, no meio da vozearia. - Por que riem? - Tentou recordar-se do que dissera, qualquer coisa acerca de não tocar naquele artigo de revista por nada... por nada deste mundo... aquele artigo... aquela peça popular... peça... coisa... De súbito, arquejante, murmurou para o Dr. Samuelson: - Eu disse...

     E ele, ainda com os olhos fitos na audiência, volveu, baixinho, num tom jovial.

     - Receio, Dr.a DeJong, que o seu lapso de linguagem freudiano tenha sido notado por toda a gente.

     - Oh, meu Deus - volveu Rachel, com um suspiro -, quer dizer que eu disse... ?

     O presidente da mesa fez soar o martelo, e imediatamente foi restabelecida a ordem; o lapso de linguagem perdeu-se pouco depois no meio das perguntas e respostas que se seguiram. Rachel decidiu não falar mais. Era um teste de caráter que devia sustentar, sem vacilação: tinha de mostrar a calma de que era capaz, sua presença de espírito, enquanto permanecesse ali sentada como se em exibição, rígida, grave. A medida que as palavras erguiam uma barreira em redor dela, sua memória voltou a seus dias de estudante e às leituras, sobre equívocos de linguagem, da Psicopatologia da Vida Quotidiana, de Sigmund Freud. “Uma dama exprimiu-se assim certa vez em sociedade... as próprias palavras demonstram que foram pronunciadas com fervor e sobre a pressão de muitas emoções secretas: Sim, uma mulher tem de ser bela se quer agradar aos homens. Ura homem, porém, encontra-se em melhor posição. Enquanto tiver cinco membros eretos não precisa de mais!... No processo psicoterapêutico que utilizo na solução e remoção de sintomas neuróticos vejo-me por vezes ante a tarefa de descobrir, através das expressões acidentais e das fantasias do doente, os conteúdos mentais que, apesar do esforço produzido para os dissimular, trai contudo, sem o desejar”.

     Rachel estivera, refletindo nisto e no seu lapso de linguagem durante alguns segundos quando compreendeu que o debate terminara. Depois de se erguer e de se dirigir para fora do palco, ligeiramente distanciada dos outros, compreendeu que escreveria duas cartas nessa noite. Uma, para Joseph Morgen, confessando-lhe a verdade acerca do seu problema e permitindo-lhe que decidisse se estava ou não disposto a esperar que ela o resolvesse, para melhor ou pior. A outra, para Maud Hayden, comunicando-lhe que Rachel DeJong estava disposta a acompanhar o grupo às Três Sereias durante seis semanas em junho e julho.

      

     Maud Hayden pegou na cópia da carta que Claire datilografara e remetera ao Dr. Sam Karpowicz, de Albuquerque, Novo México. Antes de a ler, voltou-se para a nora:

     - Espero que isto o fascine - disse. - Não podemos dispensar o Sam. Ele é não só um excelente botânico como um fotógrafo brilhante, um dos poucos com sentido criador. A única coisa que me preocupa é a seguinte: Sam é um homem muito apegado à família e deliberadamente esqueci-me de convidar a mulher e a filha. Talvez não existisse problema se o fizesse, mas desejo que o grupo seja o menor possível.

     - E se ele insistir em fazer-se acompanhar pela família? - perguntou Claire.

     - Nesse caso, não sei, não sei na verdade. Decerto que Sam é tão importante para mim que, creio, o aceitaria sob quaisquer condições, mesmo que fosse obrigada a levar o avô, os cães, a estufa... Bem, tenhamos confiança e procuremos vencer essa dificuldade quando estivermos em face dela. Esperemos a resposta do Sam.

 

     Passava das dez horas da noite quando Sam Karpowicz fechou a porta da cabana que lhe servia de câmara escura e atravessou os poucos metros de relvado até aos degraus de laje, que subiu, com ar fatigado, para penetrar no pequeno pátio. De teve-se junto da espreguiçadeira de vime, inalando o ar fresco e seco da noite, a fim de se libertar das emanações da câmara escura, que lhe toldavam a mente. A inalação daquele ar era tão deliciosa como qualquer intoxicante. Fechou os olhos, e inspirou e expirou várias vezes; depois, tornou a abrir os olhos e contemplou, por uns momentos, com bastante prazer, as filas de luzes da rua e as luzes da área residencial, que se prolongavam até ao Rio Grande. As luzes dos lampiões da rua pareciam tremular e mover-se, amarelas, resplandecentes, como os fachos de uma procissão religiosa noturna que vira no ano anterior entre Saltillo e Monterey, México.

     Deixou-se ficar tranqüilamente no pátio, relutante em abandonar os prazeres oferecidos pelo luar e pelas suas cenas. A sua afeição por este bairro suburbano, pelos pueblos poeirentos de Acoma e San Felipe, próximos, pelos terrenos planos de pastagens, pelos campos plantados, irrigados, pelas montanhas de abetos, era profunda e inabalável.

     Recordou-se, com sobressalto, do que o trouxera até esta cidade, que nada tinha de comum com alguém que apenas conhecera o Bronx, de Nova York, desde a infância até ao princípio da juventude. Durante a guerra - a guerra de Hitler - fizera grande camaradagem com Ernie Pyle. Sam fora funcionário dos Serviços de Imprensa do Exército e fotógrafo do Signal Corps, apesar de ser licenciado em Botânica por uma universidade, e Pyle, correspondente de guerra. Nas suas longas andanças juntos, por três ilhas do Pacífico, Sam costumava discorrer sobre as maravilhas da flora daquelas paragens, e Pyle, a instâncias de Sam, falava por sua vez da sua paixão pelo Novo México, onde nascera. Alguns meses após a morte, em ação, de Pyle, Sam fora enviado para a Califórnia, a fim de ser desmobilizado. Adquirira um velho carro, já muito batido, e percorrera o Sudoeste, rumo a Nova York, decidido a lançar um olhar sobre o país antes de se enterrar na monotonia da vida do professorado metropolitano.

     Durante a viagem, vira-se obrigado a dirigir-se a Albuquerque e, uma vez na cidade, compreendeu que não a podia deixar sem visitar a viúva de Pyle, a vivenda de Ernie e o bairro a que o amigo tantas vezes se referia com acrisolado amor. Sam instalou-se no hotel Alvarado, próximo da estação de Santa Fé. Após mudar de roupa e jantar, e de pedir algumas informações na recepção, percorrera de automóvel o quente e calmo bairro comercial, passara pela universidade, de estilo pueblo, antes de se lhe deparar Girard Drive. Virará à direita, na rua pavimentada, tão familiar e acolhedora após as descrições do seu falecido amigo, e percorrera mais dois quilômetros, entre casas de tijolo, de estilo espanhol. Algumas centenas de metros mais adiante, chegou à esquina de Girard Drive e de Santa Monica Drive. Ernie Pyle afirmara que sua vivenda era a 700 de South Girard Drive, com um pátio de cimento ornado de arbustos, um cão chamado Cheeta, uma casa branca de telhado verde feita para uma existência tranqüila.

     Sam estacionara o carro, dirigira-se até à porta da casa e batera. A porta fora aberta por uma enfermeira e ele identificara-se e explicara ao que vinha. A enfermeira declarara que a Sra. Pyle estava gravemente doente e que não podia receber ninguém, mas sugeriu que, se era um amigo de Ernie, talvez gostasse de ver o quarto dele, intocado desde o dia em que o deixara para sempre. Mentalmente, Sam vira o quarto muitas vezes, e, para si, este não continha surpresas. De certo modo, era mais o seu quarto do que aquele do apartamento de Bronx onde Estelle o esperava. Lentamente, percorrera o quarto - o dicionário aberto sobre uma mesinha, o desenho autografado de Low, as duas estantes de livros, a fotografia emoldurada de Ernie conversando com Eisenhower e Bradley, o boné verde de beisebol suspenso de um cabide - e, por fim, com agradecimentos e cumprimentos para a Sra. Pyle, saíra.

     Uma vez na rua, andara ao longo da estrada de cascalho, inclinara a cabeça a um vizinho que cortava relva diante de sua casa, observara os edifícios da universidade, a certa distância, entrara por vários terrenos desocupados, detendo-se por vezes para contemplar as colinas longínquas, e por fim voltara ao carro e à cidade.

     Não ficara apenas essa noite em Albuquerque. Permanecera uma semana na cidade. E nessa semana requererá um lugar na Universidade do Novo México e depois continuara a sua andança pelo país.

     Um ano mais tarde era professor da universidade, dispunha de um laboratório privativo e de um reluzente microscópio, e um ano depois possuía a sua própria casa de tijolo em South Girard Drive.

     E era aqui, no pátio desta vivenda, que se encontrava nesta noite. Não lamentara, um momento sequer, a sua mudança, nem Estelle a lamentara também. Só lamentara alguma coisa quando tivera necessidade de abandonar Albuquerque a fim de efetuar viagens de estudo.

     Uma última vez, respirou fundo o ar revigorante e deixou que este enchesse seu peito estreito; depois, parcialmente revigorado, entrou em casa pela porta de vidro, aberta neste momento, da sala de jantar. Do limiar, gritou:

     - Estelle, há café pronto?

     - Pronto e à sua espera! - volveu ela. - Na sala de jantar!

     Encontrou Estelle enroscada na ampla cadeira de braços. Tinha o cabelo grisalho encaracolado e o roupão largo aberto para cobrir tanto o seu corpo amplo como os lados da cadeira. Parecia, pensou ele, uma confortável cabana. Estava lendo, com a teimosa atenção que denota auto-aperfeiçoamento, Individualism Reconsidered, de David Riesman; neste momento, porém, pôs o livro de lado a fim de se erguer para retirar a cafeteira da grelha elétrica portátil. Sam dirigiu-se para a cadeira de braços em frente, e, como se fosse baixado por um guindaste, instalou o comprido esqueleto, que parecia ranger, na cadeira. Uma vez sentado, com as pernas delgadas estendidas, suspirou de prazer.

     - Faz barulho como um velho - disse Estelle, deitando café na xícara que se encontrava em cima da mesa coberta com laça.

     - A Tora diz que, aos quarenta e nove anos, um homem tem licença para suspirar com equanimidade.

     - Então suspire. Trabalhou muito?

     - Imprimi parte do material que obtive em Little Falls. Aquele sol mexicano é tão brilhante que se tem de trabalhar como um cão para se conseguir uma boa impressão. De uma maneira ou de outra, o pitahaya resultou esplendidamente. Estou quase no fim. Creio que posso enrolá-lo dentro de poucas semanas. Como vai essa datilografia?

     - Estamos juntos - retorquiu Estelle, voltando a seu lugar. - Quando você escrever as restantes legendas, continuarei.

     Sam provou o café, soprou-o com ruído e por fim bebeu com prazer até a metade e baixou a xícara. Tirou os óculos quadrados, sem aros - “os óculos de Schubert”, como dizia a filha -, pois as lentes tinham-se coberto de vapor; depois, alisou o cabelo cor de açafrão, desalinhado, passou os dedos pelas sobrancelhas em ponta e por fim procurou, e encontrou, um charuto. Enquanto o preparava, olhou subitamente em redor de si.

     - Onde está Mary? Já voltou?

     - Sam, são apenas dez e quinze.

     - Pensei que fosse mais tarde. As minhas pernas sentem-no. - Começou a fumar e bebeu mais um gole de café. - Mal a vi hoje...

     - Nós mal o vimos também. Hora após hora, esteve metido naquele buraco escuro dos fundos. Um indivíduo vem, pelo menos, para jantar. Comeu os sanduíches?

     - Com os diabos, esqueci-me de trazer a bandeja com os pratos. - Colocou a xícara vazia em cima da mesa. - Sim, limpei a bandeja. - Chupou o charuto, de novo, lançou uma nuvem de fumaça e perguntou: - A que horas ela saiu?

     - Quê? - Estelle voltara à leitura.

     - Mary? A que horas saiu daqui?

     - Por volta das sete.

     - Quem foi esta noite? O jovem Schaffer, mais uma vez?

     - Sim, Neal Schaffer. Levou-a a uma festa de aniversário em casa dos Brophys. Imagine, Leona Brophy tem dezessete anos.

     - Imagine, Mary Karpowicz tem dezesseis. O que não consigo imaginar é o que Mary vê nessa jovem Brophy. Ela é absolutamente vazia, e a maneira como se veste...

     Estelle deixou cair o livro sobre o regaço.

     - Leona é uma bela moça. Os pais, eis quem você detesta.

     Sam soltou um grunhido.

     - Uns tipos que colam fotografias com imagens da América no carro. Meu Deus, quantas vezes tenho tentado imaginar o que se passa na mente daquela gente. Por que tem de se andar por aí a anunciar que se é americano na América? Decerto que são americanos, como nós o somos também e quase toda a gente que vive neste país. É uma coisa bastante suspeita. Que tentam dizer... que são superamericanos, americanos especiais, mais americanos que os americanos comuns? Desejam provar que todos os demais querem derrubar o governo um destes dias ou que vendem segredos a uma potência estrangeira? Que loucos e sombrios desígnios abriga aquela gente, para que tenha de provar a sua cidadania e a sua leadade? Por que é que o velho Brophy não usa também um emblema de lapela com os dizeres Pelo Casamento, Pelo Homem, ou por Deus?

     Estelle aceitou com paciência a explosão do marido - a verdade era a seguinte: adorava-o nestes momentos de indignação - e, quando viu que Sam terminara, voltou com presteza ao ponto central.

     - Tudo isso nada tem a ver com Leona, com a festa de aniversário, ou com a ida da Mary lá.

     Sam sorriu.

     - Tem razão - disse. Fixou os olhos no charuto. - Este jovem Schaffer... Mary falou-lhe alguma vez dele?

     Estelle sacudiu a cabeça.

     - Sam, não vai descompor o rapaz, não é verdade?

     Sam tornou a sorrir.

     - De fato, ia, mas com suavidade. Não tenho muito mais do que uma leve impressão acerca dele, mas parece-me demasiado vivo e velho para Mary.

     - Serão todos demasiado velhos e vivos para Mary enquanto você for pai dela e ela estiver crescendo.

     Sam tentou dizer um gracejo, mas não o conseguiu. Em vez disso, inclinou a cabeça com plácida concordância.

     - Tem razão. Creio que tem razão, e além disso a Mãe sabe melhor o que se passa.

     - ... com o Pai. Com certeza que sabe.

     - Mudemos de assunto. - Passou os olhos sobre a mesa laqueada. - Houve telefonemas hoje... visitas... correio?

     - Tudo calmo, nada no correio exceto um convite para um jantar dançante em Sandia Base, algumas contas, um relatório da União das Liberdades Civis, The New Republic, mais contas.. '. - Subitamente endireitou-se. - Oh, querido, quase que me esquecia. Há uma carta de Maud Hayden. Está em cima da mesa da sala de jantar.

     - Maud Hayden? Onde se encontrará ela agora? Talvez venha de visita para estes lados.

     - Vou buscar a carta - disse Estelle, que se encontrava já de pé. Calçada com os chinelos, que produziam um ruído surdo no assoalho, dirigiu-se para a sala de jantar. Pouco depois regressou com um longo envelope, que entregou ao marido. - Vem de Santa Bárbara.

     - Ela está-se transformando num ser sedentário - volveu Sam, abrindo o envelope.

     Quando o marido começou a ler, Estelle colocou-se a seu lado, abafando um bocejo, mas incapaz de se afastar antes de saber do que se tratava a carta.

     - Alguma coisa de importância? - perguntou.

     - Pelo que compreendo... - Interrompeu a frase, à medida que prosseguia a leitura, absorvido. - Vai fazer uma viagem de estudo ao Sul do Pacífico, em junho. Deseja companhia. - Passou a Estelle a página que acabara de ler, e, com ar ausente, procurou os óculos, equilibrou-os no nariz e continuou.

     Cinco minutos depois, tinha-se inteirado do conteúdo da carta e esperava, pensativo, fitando a mulher, que esta terminasse a leitura da missiva de Easterday.

     - Que pensa disto, Estelle? - perguntou por fim.

     - Fascinante, decerto... Mas, Sam, prometeu que passaríamos este verão juntos. Não me agrada que ande por aí sem nós...

     - Não disse que o faria.

     - Temos centenas de coisas a fazer em casa, trabalho para concluir, e prometemos à minha família que este ano podia vir até aqui e...

     - Estelle, tenha calma, não vamos a parte alguma. Segundo penso, as Três Sereias não nos podem oferecer nada de diferente do resto da Polinésia. Creio apenas que... Bem, primeiro do que tudo seria agradável estar com a velha Maud e muito bom trabalhar com ela. Em segundo lugar, tem de o admitir, parece que se trata de um lugar bem estranho, com aqueles costumes... Levaria a máquina, e poderia obter material para um álbum ilustrado que possivelmente venderia...

     - Vivemos bem. Não necessitamos desse dinheiro. Demais, estou farta de ser uma nômade ou uma espécie de viúva de um botânico. Durante o verão, pelo menos, sejamos uma família com um lar num local onde nos encontramos bem integrados.

     - Escute, estou também farto. Amo tudo isto tanto como você. Estava apenas especulando. Não tenciono afastar-me um metro sequer daqui.

     - Então muito bem, Sam. - Ela inclinou-se sobre o marido e beijou-o. - Mal consigo manter os olhos abertos. Não se demore até tarde.

     - Até que a Mary...

     - Autorizei-a a voltar à meia-noite. Que quer você... dar-lhe as boas-vindas? Ela tem uma chave e conhece o caminho. Venha deitar-se, precisa de dormir.

     - Está bem. Logo que deixe o banheiro.

     Depois de Estelle ter percorrido o corredor, até ao quarto, Sam Karpowicz pegou na carta de Maud e, preguiçosamente, tornou a lê-la. A parte a guerra, visitara apenas uma vez os Mares do Sul, durante curto tempo, reunindo espécimes das ilhas Fidji, um ano depois de Maud ter estado lá. Conseguira uma bela coleção de inhames selvagens, diversos exemplares de uma espécie que desconhecia; porém, após os medir penosamente, de conhecer seu nome e história, fizera qualquer coisa de errado quanto à sua preservação e todos se tinham deteriorado na viagem de regresso. Valeria a pena conseguir nova coleção, isto é, se os houvesse nas Três Sereias. Existia também a possibilidade de publicar um álbum como suplemento - ou mesmo explorar, pelo lado financeiro - do best-seller que Maud inevitavelmente escreveria. Era tentador, mas Sam compreendia que não era o bastante. Estelle tinha razão. A família estava em primeiro lugar, devia permitir-se que suas próprias raízes crescessem e florissem. Passar-se-ia um bom verão em Albuquerque, pensou, e não se importava; de fato, achava-se contente. Dobrou com cuidado a carta de Maud e colocou-a no envelope. Apagou as luzes, deixando apenas uma acesa - e a do alpendre também, para Mary.

     O quarto encontrava-se já mergulhado na escuridão quando entrou. Depois de acostumar os olhos às sombras conseguiu distinguir os contornos do corpo de Estelle na cama. Cautelosamente, dirigiu-se para o banheiro, fechou a porta, acendeu a pequena lâmpada que utilizava quando se barbeava e fez os preparativos para se deitar. Depois de pronto, verificou com surpresa que já passavam dez minutos da meia-noite. Vestiu o roupão de um azul desbotado sobre o pijama, pois decidira dar boa noite a Mary.

     Ao aproximar-se do quarto da filha, reparou que a porta estava aberta. Uma vez no limiar da porta viu também que a cama estava ainda feita. Desapontado, dirigiu-se silenciosamente para o escritório, acendeu o abajur colocado sobre a mesa de estudo e afastou as persianas. Lá fora. Girard Drive estava vazia e desolada. Isto nem parecia da Mary. Ela não costumava proceder assim. Sam afastou-se, preocupado, da janela. Pensou em fumar um charuto, mas, como já tinha escovado os dentes, decidiu não o fazer. Sentou-se à sua secretária e, inquieto, passou os olhos sobre algumas páginas de revistas de botânica.

     Um momento depois ouviu o barulho produzido por um automóvel que se aproximava. O relógio colocado na prateleira acima do fogão de sala indicava: meia-noite e trinta e quatro. Abruptamente, pôs-se de pé num salto, apagou a luz e tornou a afastar as persianas. Distinguiu o Studebaker de Neal Schaffer, que passou diante da vivenda, descreveu uma breve curva e subiu o passeio. O motor cessou de trabalhar. Sam retirou as mãos das persianas, como se estas o tivessem queimado. Um pai inquieto quanto à filha, sim, mas um espião, nunca.

     Lentamente, suas pernas de garça conduziram sua pessoa, alta, côncava, até à cama. Tirou o roupão e meteu-se entre os lençóis. Ficou deitado sobre as costas e começou a pensar em Mary, na sua infância, e permitiu que sua mente se ocupasse de novo de Maud, da viagem de estudo que fizera com ela, refletiu sobre a guerra e os anos que se tinham seguido e, de súbito, encontrou-se de novo pensando em Mary, ainda completamente desperto. Estivera sempre de ouvido à escuta e não deu por sua entrada. Então, como se para o castigar, ouviu o ruído metálico da chave na porta, o chiar dos gonzos, o contacto da madeira contra a madeira quando a porta se fechou. Sentiu que seu rosto sorria na escuridão. Esperou ouvir os passos dela enquanto se dirigia da sala de estar para seu quarto.

     Aguardou o andar automático da filha, mas não o escutou. Mais desperto do que nunca apurou os ouvidos. Contudo, nem sombra de passos. Estranho. Conteve-se e voltou-se para o lado esquerdo, fingindo tentar dormir; porém, os tímpanos esperavam. Silêncio. Isto era uma coisa singular. Estava com os nervos em frangalho, agora. Tinham-se passado pelos menos cinco minutos após a entrada da filha, estava certo. Não conseguiu suportar mais o mistério. Afastou a coberta, meteu os pés nos chinelos, vestiu o roupão e dirigiu-se para o corredor.

     Foi de novo ao quarto da filha. Não se encontrava ocupado. Retornou à sala de estar, mas esta parecia vazia. Porém, viu-a de súbito sentada numa cadeira. Descalçara os sapatos de salto alto - a que ele nunca se habituara - e estava sentada, rígida, inconsciente da presença do pai, com os olhos fixos num ponto qualquer à sua frente.

     Curioso, muito curioso, pensou, e aproximou-se da filha, colocando-se à sua frente.

     - Mary...

     Ela ergueu a cabeça, e seu rosto estreito estava bem encantador, fresco, jovem, e, conforme viu, desfigurado em redor dos olhos, como se tivesse chorado.

     - Olá, paizinho - disse Mary em voz baixa. - Julgava que dormia.

     - Ouvi-a entrar - volveu cautelosamente. - Como não ouvi você dirigir-se para seu quarto, fiquei preocupado. Sente-se bem?

     - Sim, creio que sim.

     - Isso não é seu costume. Que esteve fazendo aqui, só, todo este tempo? É tarde.

     - Pensando um pouco. Não sei o quê.

     - Tem certeza de que não aconteceu nada esta noite? Divertiu-se?

     - O mesmo de sempre.

     - O jovem Schaffer a trouxe em casa?

     - Decerto que sim. - Ela animou-se, inclinando-se para a frente na cadeira, preparando-se para se erguer.

     - Que significa isto?

     - Oh... nada, paizinho, por favor...

     - Bem, se não deseja me contar...

     - Nada tenho que contar, acredite. Ele foi apenas desagradável.

     - Desagradável. Quer dizer, atrevido?

     - Desagradável, apenas. Alguns beijos, é uma coisa, mas quando supõem que somos propriedade deles...

     - Creio que não a compreendo. Ou talvez compreenda. Ela ergueu-se imediatamente.

     - Por favor, papá...

     Sam sabia que Mary só usava a palavra papá quando estava exasperada com ele, quando ele a tratava com frieza.

     - Não tome a nuvem por Juno - acrescentou a jovem. - É embaraçador.

     Sam não sabia o que mais dizer. Impelia-o a necessidade de preservar a autoridade paterna e sua imagem de pai, e contudo a filha estava crescendo e merecia que não se intrometessem muito no que lhe dizia respeito. Enquanto Mary apanhava sua bolsa, ele observou-a, seu cabelo castanho bem penteado, seus belos olhos escuros num rosto doce sem manchas, o vestido novo, vermelho, colado ao corpo delgado que revelava a mulher apenas no peito surpreendentemente saliente e firme. Que haveria para dizer a esta semicriança, semimulher, que não desejava que a embaraçassem?

     - Bem, se quiser falar alguma vez... - disse Sam, vacilante, após o que decidiu calar-se.

     Já com a bolsa e os sapatos na mão, Mary declarou:

     - Vou deitar-me, paizinho.

     Ela pusera um pé antes do outro e começara a caminhar. Porém, estava já a um metro ou dois de distância do pai quando pareceu cambalear - um dos joelhos fraquejara como se se tivesse partido uma junta - e ir tombar, esforçando-se ao mesmo tempo por manter o equilíbrio. Com um passo enérgico, Sam colocou-se ao lado dela, segurando-a e ajudando-a a endireitar-se. Entretanto, o rosto de Mary roçou pelo seu, e o odor da respiração não enganava.

     Ela murmurou um obrigada e tentou prosseguir, mas o pai impediu-o. Sam já não se encontrava indeciso. Sabia agora o que era justo e o que não era.

     - Esteve bebendo, Mary.

     Ante a calma desaprovação que transparecia nas palavras do pai, Mary traiu sua pose. A transformação foi instantânea. Não tinha já os vinte e seis anos que queria fazer supor, mas dezesseis... ou talvez seis. Tentou manter as aparências durante um segundo apenas, desviou os olhos e ficou imóvel, uma criança com a sua culpa edípica.

     - Sim - admitiu por fim, quase num sussurro.

     - Mas você nunca... - começou ele. - Supunha que tínhamos chegado a um entendimento acerca disto. Que é que se meteu na sua cabeça? Quantos bebeu?

     - Dois ou três. Não me recordo. Sinto muito. Mas tinha de o fazer.

     - Tinha de o fazer? Isto é novo. Quem é que lhe torceu o braço?

     - Não o posso explicar, paizinho, mas tinha de fazer alguma coisa, uma vez que me encontrava ali. Não podemos comportar-nos como uns monos, estragar tudo. De uma maneira ou de outra, imaginei que era preferível à outra coisa...

     Sam sentiu que seu peito ossudo se lhe contraía.

     - Que outra coisa? - perguntou.

     - O paizinho sabe - volveu ela, com uma das mãos agitando a bolsa. - Querem todos que o façamos. Se não o fizermos não pertencemos ao grupo. Todas o fazem.

     - Fazem? Fazem o quê? - perguntou ele, inquieto. - Refere-se a relações sexuais?

     - Sim.

     Mal a ouviu.

     - E todas o fazem? - insistiu.

     - Sim. Quase todas.

     - Quase todas? Quer dizer que algumas moças recusam?

     - Bem, sim, mas são afastadas do grupo.

     - As suas amigas... Esta Leona também o faz?

     - Não é leal, paizinho, não posso...

     - Então ela faz, não é verdade? Vem daí a cena desagradável com o jovem Schaffer. Ele quis que o fizesse ali fora?

     Ela tinha os olhos pregados no chão, sombrios. Não respondeu. E vendo-a desta maneira, esta leal e inocente parte de si, não se achou com mais coragem para representar o papel de pai severo. Seu coração entregou-se-lhe, com compaixão e amor, e desejou apenas cuidar dela, protegê-la, expulsar todo o desencanto do branco e puro reino de Mary.

     Tomou-a pelos ombros. Sua voz era doce.

     - Venha, Mary, sentemo-nos na cozinha e bebamos um copo de leite... Não, é melhor de chá, chá e biscoitos.

     Quando ela tinha seis, oito, dez anos, e girava pela casa, ainda desperta, com os olhos de pálpebras espessas, os caracóis emaranhados, o pijama amarrotado, carregando um poney de feltro, levava-a muitas vezes para a cozinha a fim de que ela o acompanhasse num copo de leite e biscoitos, para lhe contar uma história e a conduzir depois à sua cama,

     Sam entrou na cozinha, acendeu a luz, colocou a chaleira no fogão e tirou uns biscoitos da lata. Mary sentou-se à pequena mesa, seguindo, cabisbaixa, todos os movimentos do pai.

     Depois dele servir o chá encontraram-se por fim sentados frente a frente. Sam observava a jovem por cima da borda da sua xícara enquanto ela mordiscava o biscoito e sorvia o chá a pequenos goles. Não tinham trocado ainda uma palavra desde que haviam deixado a sala de estar.

     - Mary... - disse ele.

     Ela ergueu os olhos, fitou o pai e esperou.

     - ... Você bebeu porque desejou fazer parte do grupo, porque quis ocupar-se com qualquer coisa, uma vez que não podia proceder como eles. Não é assim?

     - Creio que sim - volveu Mary.

     - Porém, ainda esperam que faça aquilo?

     - Sim.

     - Então por que não se afasta deles e se junta a outros jovens que possuam melhores valores?

     - Paizinho, estes são os meus amigos. Cresci com eles. Não podemos procurar novos amigos todas as vezes que alguma coisa nos aborrece. Gosto de todos... São os melhores dos amigos... Tenho-me divertido na sua companhia até agora... e continuaria... se não fosse isto.

     Sam hesitou durante um momento e depois perguntou:

     - Suas amigas falam com você acerca de tudo o que fazem?

     - Oh, decerto, sempre.

     - Elas... Bem, não se sentem preocupadas ou culpadas? Quero dizer: aborrece-as esta atividade ou encontram prazer nela?

     - Prazer? Claro que não. Que prazer pode dar uma coisa indecente como aquela... isto é, uma coisa que se é forçada a fazer? Penso que a maior parte das moças não se importa, de uma maneira ou de outra. Não pensam que seja interessante, aquilo, como não pensam que seja errado ou se preocupem. Crêem apenas que é uma daquelas coisas aborrecidas que se tem de fazer a fim de alegrar os rapazes.

     - Por que é assim tão importante manter os rapazes felizes, como afirma? Se é uma coisa aborrecida, desagradável, por que não dizem não e se mantêm vocês mesmas felizes?

     - Papá... Não compreende. É uma daquelas coisas a que acedemos para nos sentirmos por fim mais felizes. Quero dizer: então pertence-se ao, grupo, podemo-nos divertir, sair com os rapazes que quisermos, passear de automóvel, ir ao cinema.

     - Mas primeiro paga-se a entrada.

     - Bem, se quer pôr as coisas dessa maneira... A maior parte das moças diz que é um preço bastante baixo para tudo o que se segue. Quero dizer, enquanto as amigas o fizerem também, que pode ser tão...

     - Mary - interrompeu ele - por que não o fez esta noite? Presumo que lhe foi proposto.

     - Sim, ele tentou... convencer-me.

     Sam estremeceu. A sua pequenina travessa de pijama cor-de-rosa largo como um saco...

     - Mas você não acedeu. Por quê?

     - Tive medo.

     - De quê? A sua mãe e eu...

     - Oh, não. Quero dizer, isso não seria o principal. Demais, poderia não revelar nada do que se passasse. - Sorveu o chá, com ar ausente, as sobrancelhas brilhantes franzidas. - Não posso dizer exatamente...

     - Teve medo de ficar grávida... ou talvez de apanhar uma doença venérea?

     - Por favor, papá. A maior parte das moças jamais pensa em tais coisas. Além disso, creio que os rapazes usam contraceptivos.

     Sam estremeceu de novo. Era como se o Blue Boy, de Gainsborough, tivesse pronunciado uma asneira. Fitou, incrédulo, a sua pequena Blue Girl.

     Mary achava-se absorta, pensando.

     - Creio que tive medo apenas porque nunca fiz tal coisa. Era um dos mistérios. Quer dizer, falar e fazer são duas coisas diferentes.

     - Claro que sim.

     - Penso que todas as moças da minha idade são curiosas, mas suponho que não desejamos fazer tudo. Quero dizer, a idéia não me atrai. Pensei constantemente, durante a festa, mais tarde no carro, quando me vi obrigada várias vezes a afastar as mãos dele, que isso seria horrível, que me mancharia, que jamais seria a mesma depois.

     - Não estou certo se compreendo, Mary.

     - Não. Não sei explicar.

     - Sempre fomos... bem, bastante liberais acerca das questões sexuais... sensatos... de modo que não deve sentir repulsa por elas.

     - Não. É qualquer coisa mais.

     - Seria a frieza da exigência... a troca requerida no caso... essa maneira de dizer que, se você desejava conviver com eles, manter as relações de amizade, divertir-se, tinha de pagar tributo...

     - Não sei, paizinho, não sei na verdade.

     Sam inclinou a cabeça num gesto de aprovação, pegou na xícara da filha e na sua, ergueu-as e levou-as para a pia. Depois, voltou lentamente para o seu lugar.

     - Que temos a seguir, Mary?

     - A seguir?

     - Vai encontrar-se de novo com Neal Schaffer?

     - Decerto! - Pôs-se de pé. - Gosto dele.

     - Apesar das suas mãos insistentes e das suas propostas?

     - Não devia ter contado isto. A julgar pelas suas palavras, tudo parece mais repulsivo do que é. Neal não é diferente dos outros rapazes do grupo. É um rapaz americano normal. A família...

     - Como tenciona enfrentá-lo da próxima vez? Que acontecerá se ele não aceitar o seu não? Que acontecerá se o grupo ameaçar afastá-la?

     Mary mordeu o lábio inferior.

     - Não o farão, creia. Conseguirei livrar-me de apuros. Sempre o consegui até agora. Acharei maneira de o conter e aos outros. Penso que gostam de mim o suficiente para...

     - Interrompeu-se abruptamente.

     - Gostam de você até que ponto? - perguntou Sam. - Até ao ponto de cederem por fim?

     - Não! De respeitarem meus desejos. Sabem que não sou uma sonsa completa. Não me importo de dar um “beijo uma vez por outra e... bem, divertir-me um pouco:

     - E agora sabem que beberá.

     - Paizinho, dá a impressão de que me vou tornar uma alcoólatra inveterada. Mas isso não sucederá. Esta noite foi... foi uma exceção, e não o desapontarei.

     Ela pegara de novo na bolsa e nos sapatos e começara a caminhar em direção do corredor.

     - Mary, desejo apenas dizer-lhe isto. Talvez seja demasiado crescida para ouvir sermões. Eu aceito o fato de que é um ser livre, dotado de alma e discernimento. Porém, é ainda muito jovem. As coisas que parecem para você importantes neste momento parecê-lo-ão muito menos dentro de poucos anos, quando tiver de decidir sobre coisas bem mais importantes. Não posso evitar que saia com seus amigos. É uma moça decente e inteligente, respeitada por todos, e sua mãe e eu sentimos orgulho em você. Detestaria que se comportasse de maneira a decepcionar-nos e, no fim das contas, acredite-me, a decepcionar-se a si própria.

     - Leva tudo muito a sério, paizinho. - Ela aproximou-se do pai e, nos bicos dos pés, beijou-o no rosto e sorriu-lhe.

     - Sinto-me muito melhor agora. Pode confiar em mim. Boa noite.

     Depois de a filha se ter ido deitar, Sam Karpowicz continuou na cozinha, apoiado contra o aparador, os braços cruzados sobre o roupão, examinando todo o problema da filha de dezesseis anos e do seu grupo de estróinas. Compreendia que não lucrava nada em afastá-la do seu atual ambiente. Se a mandasse para Phoenix, Miami, Memphis, Pittsburgh, Dallas ou St. Paul ela não tardaria a conviver com os mesmos amigos, o mesmo grupo de doidivanas com rostos diferentes. Era a condição da sociedade adolescente de hoje, não de toda, mas da maior parte dela, e Sam detestava-a (aceitando algumas das culpas por sua existência), e detestava que a filha crescesse nela.

     Via os contornos do futuro próximo, e via-os com nitidez. O que o amedrontava era o verão crucial que não tardaria a chegar. Nos poucos meses que se seguiam, o grupo manter-se-ia ocupado com seu trabalho escolar, exames e atividades afins, e não se veriam uns aos outros com freqüência, pois não teriam muito tempo para desperdiçar. Com o verão e o fim das aulas tudo se modificaria. O grupo reunir-se-ia com mais freqüência e Mary participaria de suas atividades, de dia, de noite. Ela poderia, como tencionava, conter os impulsos dos Neal Schaffers durante os próximos meses. Porém, o verão era a estação propícia ao amor. Neal sentir-se-ia impaciente e irritado com o fato de Mary o deter quando pretendesse beijá-la, afagar-lhe os seios, de Mary lhe retirar as mãos de sob a saia. Insistiria em consumar suas relações e, uma vez insatisfeitos os seus desejos, podia procurar algures uma jovem mais compreensiva. Mary seria evitada por todos. A marca da lepra estigmatizá-la-ia. Ela era suficientemente forte para fazer face a isto? Sam duvidava que o fosse, duvidava-o sinceramente. Quem, afinal, podia suportar a ameaça do ostracismo, ou abraçar sem temor a solidão?

     E as bebidas constituíam outro perigo. De súbito, Sam, ao refletir no motivo que a levara a beber, afastou-se do aparador. A princípio pensara que ela o fizera para provar que, apesar de querer manter sua virgindade, era ainda uma boa camarada. Agora via sob outro prisma o fato de beber, existia, uma motivação diferente. Desejara mostrar que pertencia ao grupo. E receara as relações sexuais. E assim, provavelmente por sugestão de alguém - Leona? Neal? - bebera duas vezes para dissipar suas inibições e tornar possível a capitulação. Esta noite, não conseguira vencer seus receios. Mas de outra vez, em lugar de duas bebidas, quatro ou cinco e...

     Sam, deprimido e desamparado, apagou a luz da cozinha. Começou a caminhar em direção do hall e seguiu para a sala de estar a fim de apagar o abajur. Ao fazê-lo, viu a carta de Maud Hayden. Na escuridão, mirou-a fixamente, e depois dirigiu-se para seu quarto.

     Tirou o roupão e deitou-se.

     - Sam... - murmurou Estelle. Voltou a cabeça no travesseiro.

     - Ainda não...

     - Sam, ouvi quase tudo. Levantei-me para escutar a conversa. - Na sua voz trêmula transparecia a preocupação. - Que faremos?

     - Devemos tentar remediar o melhor que pudermos esta' situação - volveu Sam com firmeza. - Escreverei de manhã a Maud Hayden. Dir-lhe-ei que vamos todos ou nenhum. Se ela anuir, teremos Mary fora daqui, numa pequena ilha pacífica onde não seja submetida à tentação.

     - Está tudo muito bem quanto ao verão, Sam. Mas que faremos depois?

     - Depois ela será mais velha. Desejo-a apenas mais velha. Assim, comecemos pelas primeiras coisas. E a primeira coisa é ocuparmo-nos deste verão.

       

     Maud Hayden ergueu os olhos da cópia daxcarta para o Dr. Walter Zegner, de San Francisco, Califórnia.

     - Por que foi isto, Claire? Por que convido um médico para esta viagem? Bem, agora... - Ela hesitou, mas em seguida acrescentou solenemente: - Gostaria de lhe dizer que convidei o Dr. Zegner apenas porque ele é especialista em gerontologia e me tem dado bastante prazer a longa correspondência que tenho mantido com ele. Além do mais, as Sereias podem constituir um valioso laboratório para seu trabalho.

     Ela fez mais uma pausa e permitiu que seu rosto se abrisse num sorriso.

     - Quero acrescentar mais uma coisa, estritamente confidencial, que não deve passar para lá destas quatro paredes. Convidei um médico, minha querida, por uma questão política, de pura política. Conheço a mentalidade de Cyrus Hackfeld e seus negócios. Ele possui uma grande cadeia de drogarias e é dos maiores acionistas da firma de produtos farmacêuticos que fornece a estas drogarias. Hackfeld interessa-se sempre por qualquer simples medicação ou erva que as tribos primitivas usam... qualquer ninharia exótica que possa ser convertida num estimulante inofensivo, num creme para rugas, numa droga para abrir apetite... Assim, todas as vezes que quaisquer cientistas pedem um subsídio ele trata de inquirir se um médico acompanha a expedição. Já esperava que isto viesse a suceder de novo.

     - E quanto a esta Dr.a Rachel DeJong? - perguntou Claire. - Ela é formada em medicina, além de especialista em psicanálise, não é verdade? Isto não satisfaria Hackfeld?

     - Pensei nisso também, Claire, mas opus meu veto a esta idéia - retrucou Maud. - Concluí que Rachel não se sairia satisfatoriamente como médica, uma vez que desempenhasse dois papéis, e, no fim, Hackfeld poder-se-ia sentir ludibriado. Eis por que não me quis arriscar. Poderia despertar a animosidade do promotor da nossa viagem de estudo. Tem de seguir conosco uma pessoa que exerça apenas clínica médica; assim, no pé em que estão as coisas, afigura-se-me que a pessoa indicada é o Dr. Walter Zegner.

       

     Faltavam vinte minutos para as oito horas da noite, e Walter Zegner afirmara que estaria com ela às oito em ponto. Durante as dez semanas que convivera com ele, e as últimas nove semanas e seis dias bastante intimamente, Harriet Bleaska nunca tivera de esperar por Walter Zegner. De fato, em três ocasiões de que se conseguia recordar - e neste momento essa recordação fê-la sorrir - ele chegara de quinze minutos a meia hora mais cedo, isto motivado pelo que explicara ser “um desejo incontrolável”.

     Sim, não chegaria atrasado, especialmente esta noite em que não havia muito que celebrar, e ela devia estar preparada.

     Um último esticão e tinha sobre o corpo o vestido de coquetel, de seda azul-escura, que comprara recentemente. Agora que puxava o fecho acima das costas de costelas salientes, dirigiu-se até à janela. Do alto de seu apartamento sobre a colina distinguia as grandes garras da neblina, cinzento vivo contra a noite negra, e as luzes amarelas, rastejando através da cidade, embaixo. Em breve, toda a San Francisco estaria mergulhada na escuridão, e apenas as vigas e os suportes da ponte de Golden Gate, como barras distantes, isoladas no céu, continuariam visíveis.

     Sabia que Walter detestava a neblina, e, embora tivesse falado que passariam a noite na cidade, suspeitava de que não iriam além do restaurante em Fisherman's Wharf. Após os aperitivos e a refeição, se prevalecessem os velhos hábitos, voltariam diretamente para o conforto e o calor deste quarto e do largo diva que Walter ajudaria a preparar para ambos. Não se importava. Sentia-se feliz ao vê-lo - com toda a sua reputação exterior, riqueza, ligações, poder (e agora a sua elevada posição) - reduzido à igualdade pela sua carne, que era a de um animal sensual pouco complicado. Este talento para o despojar de seus orgulhos mundanos, para o reduzir a seu ser essencial, sem adornos (a melhor parte dele, pensou) constituía seu principal trunfo e sua maior esperança.

     Da janela, dirigira-se para a penteadeira a fim de descobrir, na modesta caixa de jóias, qualquer coisa atraente com que se enfeitasse. Tentou fazer combinar diversos pares de brincos com vários colares - inexplicavelmente o seu homem oferecia-lhe sempre volumosos livros de arte ou pequenos copos para licor (tinha uma teoria que não aceitava porque acreditava nela: em geral, seus amantes sentiam que as jóias seriam desperdiçadas em sua pessoa); decidiu-se por fim pelos mais simples brincos de pérola e colar, pois seriam os menos obstrutivos.

     Harriet Bleaska não se mirou no espelho por cima da penteadeira a fim de ver se estas jóias a favoreciam. Sabia muito bem que isso não se verificaria e não sentia desejo que a recordassem da impiedade da natureza. Se tinha alguma auto-estima, e tinha bastante, esta não receberia apoio nem do seu rosto nem na verdade de qualquer visível atração do seu corpo. Como alguém que nasce deformado, Harriet aprendera muito cedo que sua aparência lhe barrava automaticamente certas satisfações da vida.

     Agora, fugindo à regra, os olhos dela viram seu reflexo no espelho, apenas para se assegurarem de que o make-up ainda estava fresco. O rosto familiar que o espelho mostrava - a Máscara, como secretamente o denominava, pois escondia de toda a gente a sua verdadeira beleza e virtude - fixou-a, solene. Se tudo se devesse apenas à sua simplicidade, à sua falta de beleza, ou a qualquer coisa natural, já não seria muito mau, não existiria problema. Durante quase toda a sua vida, os seus vinte e seis anos, Harriet vivera com o fato de que era notavelmente desgraciosa. Suas feições pareciam afastar do seu caminho os homens como se fossem uma sirena de alarme. Mesmo o melhor da sua aparência, o cabelo, seria o pior de qualquer mulher bonita. O cabelo caía-lhe sobre os ombros, era fibroso e de cor de canela, enervantemente rígido. Num esforço para lhe dar graça, fazia-o tombar sobre a testa. Do cabelo para baixo tudo piorava. Os olhos eram demasiado pequenos e muito próximos um do outro, o nariz chato, inclinado para um dos lados, sem sombra de beleza. A boca parecia uma grande incisão, quase sem lábio superior, e com um lábio inferior proeminente. O queixo era comprido e afilado. Ela imaginava que as pessoas diziam que tinha a fisionomia de uma mula belga.

     O restante da sua pessoa não oferecia qualquer pormenor compensador. O pescoço tinha a graça de um pedaço de cano de chumbo; os ombros pareciam os chumaços usados pelos jogadores de rúgbi; os seios quase não tinham o tamanho de uma pequena xícara; os quadris e os artelhos eram demasiado finos. Em resumo, como Harriet pensara uma vez, quando Deus criara a mulher utilizara os restos que sobravam para a criação de Harriet Bleaska.

     Encolhendo os ombros com resignação - era demasiado sensata e prática para se deixar invadir pela amargura -, Harriet afastou-se da penteadeira, pegou num cigarro com filtro, acendeu-o com o isqueiro prateado em forma de galeão (que Walter lhe oferecera) e colocou-o no seu lugar, sobre o grosso e lustroso livro de arte (que Walter lhe oferecera também). Tinha ainda doze minutos à sua frente e não sabia como os preencher. Por fim, decidiu preenchê-los contando os favores que o destino lhe concedera.

     Fumando continuamente, enquanto andava pelo quarto, pensou que não se saíra bastante mal na vida apesar de todos os seus senões. Na verdade, e baseava-se numa pesquisa pessoal, um punhado de belos cavalheiros deste mundo testemunhariam, unânimes, que não existia na Terra fêmea mais bela do que Harriet Bleaska... na cama. r

     Obrigada, meu Deus, por esta bênção, pensou, e lamentou todas as suas irmãs que eram emocionalmente feias, deformadas e deficientes abaixo da cintura.

     Contudo, o prazer que retirava desta sua característica bastante superior era nublado pelos duros fatos da vida. No mercado do seu tempo os homens compravam belas fachadas. O que se escondia atrás das fachadas era menos importante, pelo menos no princípio. Todos os indivíduos do sexo masculino deste tempo eram orientados pela poesia, ficção romântica, rádio, televisão, filmes, cartazes, teatro, anúncios de revistas e de jornais, que os levavam a acreditar que se o rosto de uma jovem era encantador, o seu busto largo, cheio é firme, a sua figura bem proporcionada, os seus gestos de certo modo provocantes (lábios apartados, voz rouca, passo ondulante), ela transformar-se-ia automaticamente na melhor parceira para a cama e para a vida mundana. Quando uma jovem tinha este exterior, podia escolher os interessados na sua compra - o belo, o aristocrático, o rico, o célebre. Os segundos melhores exteriores atraíam menor número de compradores, e isto continuava assim em escala descendente até ao ponto solitário onde se encontrava Harriet Bleaska.

     A idiotice de tudo isto, embora não causasse amargura, fazia-a por vezes desejar soltar um brado aos estúpidos machos, para lhes incutir bom senso. Não conseguiam eles ver, compreender, verificar que a beleza achava-se apenas para além da epiderme? Não conseguiam eles ver que, com muita freqüência, por trás das belas fachadas se dissimulavam o egoísmo, a frigidez, as psicoses? Não conseguiam eles ver que outras qualidades davam melhores garantias de felicidade conjugai na sala de estar, na cozinha, no quarto de dormir? Não, eles não o conseguiam compreender, não eram educados para o ver, e isto eonstituía a Cruz de Harriet.

     Os homens equacionavam a Máscara - a falta de atrativos dela. - com um casamento insípido e uma vida sexual enfadonha. Raramente lhe concediam uma oportunidade de mostrar qual valia mais; e, quando muito poucas vezes o faziam, não era ainda assim o suficiente. Pois, nesta sociedade, escolher a beleza exterior para o casamento, mesmo quando se sabia que era uma coisa errada, constituía um ato lógico, bem de acordo com o símbolo do sucesso público. Os homens eram néscios, a vida estúpida, e contudo existiram tempos em que ambos prometiam mais.

     Ela nascera em Dayton, Ohio, de pais lituanos, decentes, simples, encantadores, da classe trabalhadora. Durante seus primeiros anos não compreendera que era diferente, pois recebera pródigas atenções e elogios dos pais e da extensa família. Até à puberdade sentira-se importante, especial, desejada.

     Foi apenas depois de o pai, empregado numa empresa tipográfica, ter conseguido uma melhor situação em Cleveland, onde ela entrou para a Escola Secundária Cleveland Heights, que Harriet teve a primeira suspeita da existência do que se interpunha entre si e uma vida social normal. Era a Máscara. Sua desgraciosidade exterior atingira a maturidade. Ela era um cacto entre camélias. Tinha bastantes amigos, mas principalmente do seu próprio sexo. As jovens gostavam dela devido a um motivo inconsciente. Era um perfeito objeto de contraste em relação aos dotes delas. E, no primeiro semestre, os rapazes tinham gostado dela, nos corredores, nas atividades escolares, como podiam gostar de outro rapaz. Para explorar e reter mesmo esta aceitação limitada da parte deles, tornou-se, durante alguns dos semestres que se seguiram, ainda mais masculinizada.

     Nos seus últimos anos de escola a sua aceitação pelos rapazes decresceu. Estes eram mais velhos agora e não gostavam de outros rapazes. Desejavam moças. Desalentada, Harriet converteu-se de novo numa verdadeira moça. Uma vez que não podia dar aos jovens o que as outras moças davam, decidiu dar-lhes mais. Suas amigas mostravam-se, em tudo, tão conservadoras como as próprias mães, e os rapazes comuns de Cleveland bem cedo conheciam as limitações a que estavam sujeitos. Beijar era desagradável, mesmo beijar à francesa. Podiam fazer-se as carícias que se desejasse, mas apenas acima da cintura. Dançar significava contacto de um corpo com outro, com a conseqüente excitação provocada pelo roçar e pelo movimento, mas era tudo. Harriet, devido à sua falta de graciosidade e à liberdade com que fora educada dadas as suas necessidades e a desinibição do seu espírito, e em especial esta falta de graciosidade, que a coagira a dar o dobro a fim de obter metade, foi a primeira a quebrar a lei tácita.

     Num fim de tarde, depois da escola, na última fila do balcão de um vazio auditório, protegida pelas sombras, Harriet permitiu que um jovem ousado e esperto, que pouco antes chegara da universidade, explorasse a parte do seu corpo que ficava sob a saia. Dado que ela não oferecesse resistência, soltasse apenas, com os olhos fechados, um murmúrio de antegozo, o jovem estudante sentiu-se demasiado subjugado para continuar. Porém, continuou, e uma vez que sua resposta convulsiva à sua exploração com as mãos o excitou para o além de todo o constrangimento, ela imitou as ousadias do companheiro. A troca, breve, quente, sem restrições, agradou a Harriet. Sentira-se, por fim, uma moça consciente de si.

     No último ano da escola os progressos de Harriet atingiram a última forma de excitação mútua. Os rapazes consideravam-na uma autêntica camarada; as moças consideravam-na uma dissoluta. Harriet sentia-se satisfeita pela aceitação que obtinha dos jovens. E também, nas suas ocasionais praticas acrobáticas - nunca se entregava totalmente aos vastos prazeres do amor, pois tinha seus padrões exclusivos -, sentia que sua natureza, quente, pródiga, amorável, se libertava. Tinha uma enorme satisfação em agradar. Naqueles embriônicos contactos, em que a experiência era partilhada de ambos os lados, seus pares nunca faziam com que ela agradasse profundamente. A simples capitulação era o ponto mais alto. Os parceiros do amor não sonhavam sequer que existisse nela uma dimensão escondida. O último ano de Harriet, metade do qual foi passado na escola, constituíra ainda um período do qual tinha as mais gratas recordações. Apenas um enigma a espantara naquele tempo. A despeito da sua popularidade como par noturno, passava só as noites de festa escolares. Nessas ocasiões, o seu enorme círculo de jovens vigorosos abandonavam-na completamente.

     A razão deste abandono em massa tornou-se-lhe clara apenas dois anos depois, em Nova York, quando tirava no Bellevue Hospital o curso de enfermeira. A decisão de se tornar enfermeira fora tão natural como uma escolha entre a vida e a morte. Ela desejava um escape para a sua natureza quente, compassiva, uma profissão respeitável, onde a oferta do afeto fosse desejada e bem recebida, um modo de vida em que a Máscara não dissimulasse mais a sua autêntica beleza interior.

     Embora a maior parte das suas quinhentas colegas na residência das enfermeiras em Bellevue soltassem queixumes e lamentos sob as implacáveis pressões a que estavam sujeitas no seu trabalho, Harriet floria, com a alegria por ele provocada. Sentia orgulho no seu uniforme branco e azul, nas suas meias e nos seu sapatos pretos e achava-se satisfeita por lhe pagarem 240 dólares por ano para aprender uma profissão. Depressa a possuiu uma enorme afeição pela sala de jantar que dava para East Ri ver, pelo pequeno snack que por vezes freqüentava, pela sala de bowling a que costumava ir na companhia de outras condiscípulas. E invejava as enfermeiras que concluíam o último ano do curso, às quais permitiam usar meias e sapatos brancos e que tinham abandonado a monotonia dos livros de texto pela instrução nas salas de operações e nas enfermarias.

     Sentia-se apenas triste durante os fins de semana quando as suas “colegas se encontravam com os namorados. Nessas ocasiões, Harriet podia dispor quase exclusivamente não só do seu quarto como de todo o dormitório. A sua solidão terminou a meio do primeiro ano. Um taciturno estudante de enfermagem, no último ano do seu curso, que, apesar de míope, se fazia com cada saia que visse ondulando (era o que se dizia), encontrou-a certa vez sozinha numa sala de aula. Com ar ausente, beijou-lhe a nuca e, imediatamente, viu-a nos seus braços, respondendo com paixão as suas carícias. Tão ardente se mostrava Harriet que o estudante, para quem o rosto dela era pouco mais que um borrão, se sentiu com coragem suficiente para a convidar a acompanhá-lo ao apartamento de um amigo, o qual ficava a pouca distância dali, a fim de saber se ela era apenas uma chata ou alguma coisa mais do que isso. Mesmo antes de apagarem as luzes verificou com surpresa que ela era bastante mais do que isso. Na tarde, na noite, na madrugada que se seguiram foi transportado a uma nova e até desconhecida dimensão de luxúria. Perguntou-se se Harriet não seria o repositório vivo de todas as técnicas amorosas da história. Sabia apenas que nas suas numerosas e erráticas conquistas jamais encontrara uma parceira que se entregasse ao prazer com tão poucas restrições. A sua vontade, depois da primeira noite, fora transmitir a notícia desta incrível descoberta a todo o Bellevue e ao vasto mundo além. Porém, difícil como isto se afigurava, conteve a língua. Desejava este prodígio apenas para si próprio. O romance, raramente vivido em sentido vertical, durou quatro meses. Quando o fim se aproximava Harriet começou a acreditar que encontrara o companheiro da sua vida. Como o dia da graduação dele não tardasse, falou-lhe do “nosso futuro”. A partir deste momento ele começou a aparecer com menos freqüência e depois de obtido o diploma desapareceu por completo.

     A herança que o companheiro lhe deixou foi dupla: primeiro, antes de partir, ele espalhou a lúrida história da sua virilidade e da notável perícia de Harriet na cama entre metade da população masculina do Bellevue; em segundo lugar, contou a um amigo, que por sua. vez contou a outro amigo, que o repetiu a Harriet, num momento de franca hostilidade, depois de ela ter manifestado pouco interesse por ele, que “aquela moça é sensacional, o bocado de mulher mais notável que vive sobre a Terra; começa onde todas as outras damas se detêm, mas que diabo, que diabo, como é que uma pessoa se pode casar com a moça e levá-la a todo o lado sem lhe meter um saco pela cabeça abaixo... a não ser que se saísse com ela apenas quando o rei faz anos”.

     Como era bastante realista, Harriet não se deixou esmagar devido à maneira como fora apreciada; no entanto, sentiu-se ferida. Daí por diante, quase todos os enfermeiros, médicos, funcionários, mesmo alguns professores, começaram a competir entre si a fim de ganhar as boas graças de Harriet. Suspeitando de todos, começou a mostrar-se reservada, e apenas mais cinco vezes durante os seus três anos de permanência no Bellevue se permitiu acreditar que os que a cortejavam estavam interessados somente no seu ser essencial; aceitou-os totalmente - esperançada, esperançada, sempre que se lhes submetia. Exceto um que morrera num acidente de avião (jamais viria a saber se ele a pediria em casamento), os restantes comportaram-se da mesma maneira. Ofereciam doces palavras e cópula e ela fruía o prazer proporcionado pelo corpo e os elogios dos companheiros de leito. Eles levavam-na a lugares sombrios e a reuniões, divertimentos, onde se encontrava muita gente, grandes multidões, a restaurantes, a obscuros clubes noturnos, mas nunca a exibições de modelos, a parties, a reuniões familiares, a jantares importantes. E quando Harriet tentava, hesitante, com a maior doçura de que era capaz, fazê-los confessar a verdade sobre o seu interesse nela, todos se evaporavam. Esta conduta, porém, não a surpreendia.

     Terminado o curso, Harriet partiu não só com seu diploma como com uma grande devoção pela sua nova carreira, uma natureza franca, pertinazmente boa, e um conhecimento prático, mas resignado, da atitude que os homens tomariam sempre para com ela (até que um pobre sonho, um entre milhões, surgiria para se desfazer como todos).

     Obteve seu primeiro emprego numa enfermaria de Nashville, o segundo, mais bem pago, numa clínica de Seattle, e por fim, seis meses antes do presente momento, fora admitida por este vasto hospital de San Francisco. Em Nashville e Seattle vivera num mundo sem homens. A Máscara aterrara-os a todos, e a sua reputação não a precedera. Em San Francisco, quase imediatamente, verificara-se na sua vida social uma volta para melhor.

     Assistira até altas horas uma complexa operação de emergência no coração e quando deixara a sala, exausta, o jovem anestesista, também exausto, saíra a seu lado. Depois de se terem lavado e vestido, ele sugerira que tomassem um café. Ambos necessitavam dele mas àquela hora tardia nenhum pequeno café se encontrava aberto. Como estivessem perto do seu apartamento, Harriet convidou o anestesista a subir, a fim de tomarem o desejado café. Enquanto o bebiam, e descansavam, ela escutou a história pateta e introvertida da vida do homem - perdera cedo os pais, fora criado por parentes horríveis, passara anos fatigantes em diversas escolas, casara prematuramente (deste casamento resultará uma criança mentalmente deficiente) e a mulher fugira por fim com o patrão. San Francisco era um novo começo de vida para ele, como o era para ela, e o coração de Hàíriet apiedou-se do jovem tímido. Não o deixou partir assim tão exausto, e a uma hora tão tardia, e como houvesse no apartamento apenas uma cama, um diva, partilharam-no ambos.

     A experiência daquela noite revelou ao jovem anestesista a experiência de um mundo que desconhecia. Após mais duas experiências, compreendeu que não servia para Harriet e que ela não servia para ele. Era um daqueles homens que desconfiam da sua boa sorte e disse-lhe, preocupado, no seu íntimo, que não merecia estes prazeres carnais. Além do mais, a perícia de Harriet não lhe transmitia confiança em si mesmo; avivava, em vez disso, seu senso de incapacidade; assim, meditou sobre o caso. Contudo, podia ter continuado - o regalo semanal era irresistível - se não se lhe tivesse deparado uma oportunidade de utilizar Harriet para seu exclusivo benefício, o que constituía a coisa mais importante.

     Como um recém-chegado ao hospital, o anestesista necessitava que os médicos desejassem seus serviços, pelo menos quando se tratasse de doentes bastante ricos. Conhecera o Dr. Walter Zegner, mas até esse momento não fora ainda recomendado por ele. Se Zegner começasse a falar dele, o seu futuro no hospital estaria garantido. O que o fizera lembrar-se de Zegner fora não só a reputação deste como médico mas também a sua reputação como sedutor. Assim, o jovem aguardou a oportunidade e, quando esta chegou, apontou como se por acaso, para Harriet, que nesse momento passava no seu uniforme branco, e contou o que foi capaz de articular acerca dos talentos dela. Durante o recital, os olhos de Zegner seguiram, com uma expressão de dúvida, a desgraciosa pessoa de Harriet. O termo da provocante narrativa não o fez, contudo, reagir de maneira diferente.

     Uma semana mais tarde, o anestesista intervinha na primeira de uma série de operações compensadoras, resultado da recomendação de Zegner, não o importando o fato de não tornar a visitar Harriet.

     Foi o próprio Walter Zegner que contou a maior parte disto a Harriet, numa noite em que se encontravam, exaustos, deitados no diva da sala de estar. De certo modo, não se importara. Tudo correra pelo melhor para todos, e agora as suas mais belas esperanças tinham renascido.

     Uma tarde, dez semanas antes deste momento, tomava café com torradas na cafeteria do pessoal do hospital. Os bancos de ambos os lados dela estavam vagos. De súbito, um foi ocupado, e o seu ocupante era nada menos do que o Dr. Zegner. Em dado momento começaram a conversar. Ele mostrou-se interessado, mesmo encantador. E sentiu-se infantilmente lisonjeado quando, ao falarem sobre as suas pesquisas em gerontologia, Harriet, que era muito lida no assunto, lhe formulou perguntas inteligentes. Tinha de partir sem demora, disse ele logo depois, mas estava ansioso por continuar a conversa. Quando é que ela se encontrava livre? Naquela noite? Quase com a língua presa, respondeu afirmativamente. Ele concordou em esperá-la no parque de estacionamento dos médicos.

     Quando ela apareceu, trêmula de emoção, ajudou-a a entrar no Cadillac. Jantaram num restaurante boêmio das cercanias da cidade. Beberam, comeram uma refeição leve, conversaram, e tornaram a beber. Quando ele a conduziu ao apartamento, Harriet achou-se demasiado embaraçada para o convidar a subir. Ele convidou-se a si mesmo, invocando a necessidade de tomarem uma última bebida. Uma vez no quarto, e ambos bebendo, a conversa de Zegner tornou-se menos acadêmica, mais pessoal, e, o que a contrariava, mais centrada sobre o sexo. Quando por fim Walter a tomou nos braços, ela sentiu que era beijada pelo Dr. Martin Arrowsmith ou pelo Dr. Philip Carey, as imagens-deus da sua fantasia, e dissolveu-se nele, incapaz de se soltar do abraço. Ele não desejava partir, isso era bem evidente, e assim passou a noite com ela no diva. Em todas as suas uniões com homens, Harriet jamais se abandonara tão totalmente, e, ao ouvir as suas palavras abafadas, os seus murmúrios indistintos e extravagantes, compreendeu que ele, em nenhuma outra ocasião semelhante, na sua vida, fora tão profundamente satisfeito.

     Quando o Dr. Zegner partiu, ao alvorecer, Harriet imaginou que ele voltaria, e não se enganou. Telefonava-lhe três, quatro, cinco vezes por semana, e iam aos lugares mais obscuros, bebiam, comiam, dançavam, e voltavam sempre ao quarto dela para amarem sem restrições durante horas. Ela sentia-se empolgada e orgulhosa. No hospital, desejava gritar a sua conquista a todas as enfermeiras, e a todos os médicos também. Porém, jamais revelou seu segredo, guardou-o para si mesma. A posição dele não devia ser ameaçada. Custava-lhe, no entanto, ouvir as enfermeiras, e os internos inclusive, nas suas tagarelices sobre os médicos, contar os pecadilhos de Walter com damas da sociedade e com herdeiras. Sempre que obrigada a escutá-las desejava bradar-lhes: “Vocês, seus paspalhões, e as suas histórias idiotas! Sabem onde tem passado todas estas noites? Comigo! Sim, comigo, nu, acariciando-me, amando-me como eu o amo a ele, sim, eu, Harriet Bleaska. “

     Mas sempre, recordando as antigas queimaduras, bem penosas, recusou-se a nutrir aquela esperança fundamental, aquele efêmero enlevo. Isto é, recusara-se a nutri-la até ao meio-dia do dia anterior. Então, pela primeira vez, sentiu que sua influência sobre Walter fora além da possibilidade de traição. Pela primeira vez, um homem espreitara para lá da Máscara e compreendera o seu todo belo.

     O que ocorrera no dia anterior ao meio-dia confirmara a estonteante notícia divulgada três horas antes de que o Dr. Walter Zegner fora nomeado chefe do grupo clínico do hospital. A sua cabeça começou a rodopiar à medida que escutava o rumor das conversas. A influência da família Fleischer, a velha viúva, a filha mais nova, e assim por diante. Mas o fato mantinha-se. Walter era um dos diretores do hospital e, do dia para a noite, fora oficialmente proclamado um dos mais importantes médicos do Oeste. Ela não permitiu pensar no que isto significava para as suas relações. Era um teste, e aguardava.

     Ao meio-dia teve a resposta. Ele chegara, estava no corredor, rodeado, aceitando felicitações. Ela passou, fingindo dirigir-se a algures, e ouviu a voz dele. “Enfermeira... Srta. Bleaska... não me quer felicitar? Sou o seu novo chefe.” O coração pulou-lhe no peito. Solenemente, diante dos outros, apertou-lhe a mão, as palavras presas na garganta. Depois, Walter pegou-lhe no braço. “Agora, ao trabalho. Desejo fazer-lhe uma pergunta sobre o doente do quarto... “ Afastara-se com ela, e, em dado momento, sorriu e murmurou: “Mantém-se o encontro para amanhã à noite?” Ainda estonteada, inclinou a cabeça num gesto afirmativo. Ele volvera: “Bem, desejo comemorar. Jantaremos, e daremos depois uma volta pela cidade, e... Bem, até logo... vem aí o Dr. Delgado.”

     Isto passara-se no dia anterior ao meio-dia, a sua melhor hora. Agora, nesta noite, faltavam três minutos para as oito, e dentro de cento e oitenta segundos estaria nos braços de Walter. O pensamento, as possibilidades do futuro faziam que se sentisse entontecida.

     Compreendeu, com um estremecimento, que não estava já andando pela sala, fumando, mas sentada no braço da sua única cadeira, sentada pouco confortavelmente, de modo que mantinha rígida a nuca. Ergueu-se, distendeu os braços, passou as mãos, aqui e ali, sobre o vestido, e decidiu preparar dois uísques com soda e gelo, um para se dar ânimo e outro para Walter (a fim de lhe demonstrar que se tornaria uma boa esposa, uma esposa maravilhosa, maravilhosa).

     Pegou em dois copos simples, tirou alguns cubos de gelo da pequena geladeira, depois derramou lentamente uma boa quantidade de uísque sobre o gelo, nos copos. Após colocar o copo de Walter na mesa que se encontrava ao lado da grande cadeira de braços, começou a beber, deliciada, o seu uísque.

     Quando faltava um minuto para as oito bateram à porta, e ela levantou-se imediatamente a fim de fazer entrar Walter.

     Porém, para seu espanto, não foi Walter quem viu. O homem que se encontrava à porta, de altura mediana, magro mas vigoroso, era o Dr. Herb Delgado, um interno amigo de Walter, que muitas vezes o substituía quando havia chamadas noturnas de fora. A primeira reação de Harriet, depois do espanto, foi de intenso desagrado. As enfermeiras do hospital não gostavam do Dr. Delgado. Ele mostrava-se desdenhoso para com elas, não as respeitava, tratava-as como se fossem membros de uma casta mais inferior.

     - Boa noite, Srta. Bleaska - disse ele, com desenvoltura, como se tivesse a certeza de ser esperado. - Está surprendida?

     - Supus que fosse o Walt... o Dr. Zegner.

     - Sim... Mas, como costumavam dizer à porta dos speakeasies, venho da parte do Walter. - Ele o mandou?

     - É verdade. Posso entrar por um momento? - Não esperou que ela o mandasse entrar. Desabotoando o sobretudo, entrou no quarto.

     Ela fechou a porta, surpreendida.

     - Onde está ele? Combinou vir aqui...

     - Não pôde - volveu Delgado, em voz baixa. - Detido contra sua vontade, eis a expressão correta. - Sorriu e acrescentou: - Viu-se obrigado a faltar, no último momento, e pediu-me que viesse aqui e dissesse...

     - Podia ter telefonado.

     - E, de certo modo, o substituísse esta noite.

     - Oh! - Harriet estava ainda confusa; porém, sentiu vagamente que isto constituía uma atenção da parte de Walter. - Ele encontrar-se-á conosco em algum lugar, mais tarde?

     - Receio que não, Harriet.

     Ela perguntou-se como é que a Srta. Bleaska se tornara Harriet e quando é que Harriet se tornaria enfermeira. O Dr. Delgado mordeu os lábios e volveu:

     - Os Fleischers decidiram, de súbito, comemorar qualquer coisa... um desejo de último momento... e Walter teve de ir...

     - Teve de ir?

     - Foram eles que ajudaram Walter a conseguir a posição que tem no hospital.

     - Sim, ouvi falar nisso.

     - Com certeza. Assim, compreende. - Viu o copo em cima da mesa. - É para mim? - perguntou.

     - É para Walter.

     - Bem, sou o seu substituto. - Ergueu o copo, e fez um brinde. Em seguida, bebeu o líquido de um trago. Ela, porém, não levou seu copo aos lábios.

     - Quanto a mim, prefiro não sair esta noite - disse ela.

     - Mas tem de sair. São as ordens do médico.

     - É muita amabilidade da parte do Walter, e da sua, mas acho melhor ficar. Quando estiver livre, Walter telefonar-me-á.

     O Dr. Delgado estudou-a com ar grave.

     - Escute, minha querida, eu não contaria mais com uma coisa dessas. Falo com sinceridade, como membro do clube, e repito: não contaria mais com uma coisa dessas.

     Pela primeira vez, o que constituía a mais vaga das apreensões transformou-se numa pungente dor interior. Sentiu que um medo inominável lhe contraía o estômago, e franziu a testa.

     - Não quero dizer que conte com alguma coisa - retorquiu ela, com voz estranhamente baixa. - Sei que ele se encontra ocupado e que tem novas responsabilidades. Também sei o que pensa acerca de mim e dele, Dr. Delgado. Ontem ao meio-dia...

     - Ontem ao meio-dia estava na Idade Média - volveu ele quase com brutalidade. - Hoje, a sua vida entrou numa outra era. Progrediu muito, talvez tivesse mesmo ultrapassado a mim. De uma maneira ou de outra, a sua situação é diferente. Não se pode preocupar mais com flertes destes.

     - Flertes destes? - repetiu ela, bastante ofendida no seu íntimo. - Que espécie de linguagem é esta? Que quer dizer com isso?

     - Oh, não diga disparates - redargüiu Delgado com impaciência.

     Ela observara que Delgado fizera por fim a transição de Harriet para Querida e para Enfermeira. Ele não mostrava a mínima delicadeza.

     - Escute - tornou ele -, Walter contou-me tudo acerca de você.

     - Que quer dizer? - Ela tentou controlar a voz.

     - Quer dizer que sou seu amigo íntimo e que ele me conta tudo.

     - Não gosto das insinuações que transparecem na sua voz. As suas palavras sugerem-me que tenta alguma coisa... alguma coisa vil...

     - Querida, foi você que afirmou isso, e não eu. Não tenho tal coisa em mente. Walter gosta de você, e para fazer que eu viesse aqui esta noite tinha de me explicar por quê. E agora, você impressiona-me bastante. Claro, sei muito bem que Walter se tem encontrado com freqüência com você. Eis o que significam as minhas palavras quando disse que ele não se podia preocupar mais com um flerte destes. Esta noite, é recebido em casa dos Fleischers, e não como médico mas como indivíduo da mesma categoria social. Por acaso sei também que uma das filhas conquistou Walter, ou tenta conquistá-lo, e ela é extremamente bonita.

     Harriet sentiu que as palavras de Delgado a feriam intensamente, e sentiu alguma coisa mais, em seguida. A Máscara, há bem pouco tirada, voltava a seu lugar.

     - Ele... ele mandou-o cá para que dissesse tudo isto? - perguntou ela, sem ter consciência de que pronunciava esta frase.

     - Pediu-me que dissesse tudo isto sem mais rodeios. As palavras são minhas, os sentimentos, dele.

     - Não... não posso acreditar - retorquiu ela. - Ainda ontem ele... ele... - Não conseguiu continuar.

     O Dr. Delgado colocou-se ao lado de Harriet e estendeu, num gesto paternal, um braço em redor dos ombros dela.

     - Escute, querida, tenho muita pena, creia. Não me ocorreu o que você... Bem, o que quero dizer é isto: não imaginava o que você tinha em mente. Os homens como Walter...

     - Os homens como os outros homens -disse ela quase para si mesma.

     - Você, minha querida, se pensar um pouco recordar-se-á de um pequeno teste básico que costumavam fazer no primeiro ano de Psicologia. Pegavam num rato macho e davam-lhe fome de duas maneiras: mantinham-no afastado tanto de alimentos como de sexo. Depois libertavam-no numa caixa com alimentos numa extremidade e com uma fêmea na outra. A questão era a seguinte: procuraria ele os alimentos, o que realçaria o instinto de conservação, ou procuraria ele o sexo e o amor? Você conhece a resposta. O instinto de conservação vence sempre.

     - Que está procurando dizer? - Ela quase não o escutara.

     - Digo que o instinto de conservação venceu mais uma vez.

     - Mas que diabo, não, não... - Sentiu-se desfalecer e estendeu a mão para o braço da cadeira.

     O Dr. Delgado evitou que ela caísse.

     - Vá, não leve as coisas tão a sério - disse ele. - Não é o fim do mundo. - Ajudou-a a sentar-se na cadeira, e passou-lhe o copo com o pouco uísque que ainda restava. - Acabe de beber isto. Necessita dele. Preparo outro copo.

     Ela aceitou a bebida. Delgado despiu o sobretudo e desapareceu atrás de Harriet. Ela ouviu-o preparando o uísque e ouviu também, no fundo da sua mente, um grito distante. Este fora desferido por Mary Shelley, quando, no andar superior da Casa Magni, fitava Trelawny, que acabara de voltar da praia perto de Viareggio, onde identificara o corpo. Trelawny mantivera-se mergulhado no silêncio eloqüente da dor e das más notícias, e Mary Shelley gritara: “Não há esperança?” sabendo que não havia nenhuma.

     Harriet lera isto numa velha biografia e não pensara nesta cena ou em Mary Shelley nos anos que se seguiram, até este momento.

     - Sente-se melhor? - perguntou o Dr. Delgado, debruçando-se sobre ela.

     Bebeu um trago de uísque e pousou o copo. Digerira tudo e reconhecera o seu destino.

     - Pelo menos - falou -, ele podia ter-me dito isso pessoalmente.

     Restavam-lhe agora as pequenas queixas.

     - Não pôde. Sabe que ele é sensível. Detesta cenas. Além disso, desagradava-lhe feri-la.

     - E não pensa que isto me fere?

     - Bem, dito por um estranho...

     - Sim, eu sei.

     Delgado sentou-se no braço da cadeira, acariciando com uma das mãos o cabelo de Harriet.

     - Não é por eu ser uma enfermeira - tornou ela, com os olhos fixos adiante de si, perdidos no vago - é por ser como sou. Médicos importantes casam-se com enfermeiras. E muitos. Mas não se casam com aquelas que não sejam bonitas ou ricas ou não tenham qualquer predicado especial. Não censuro Walter. Tenho apenas pouca sorte naquilo em que os homens põem mais valor. Não sou a imagem exterior da mulher com que um homem gosta de casar-se. Para um homem, uma mulher representa o seu bom gosto, o seu prestígio e posição, o seu julgamento, o seu ego... ela é o seu embaixador, quem faz as apresentações nas reuniões íntimas ou quem preside à mesa de jantar, a quem dá o braço em casa dos outros, e eu para nada presto, a não ser para a cama.

     - Querida, não seja tola. Walter costumava elogiá-la muito.

     - Elogiava a minha ação na cama e nada mais. Porém, continuou a vir aqui apesar da minha falta de atrativos exteriores. A minha parte pior conseguiu cegá-lo... por uns tempos.

     O Dr. Delgado apertou-lhe o ombro com alegria.

     - Não nego que ele também falasse disso. Se não o conhecesse considerá-lo-ia um mentiroso. Não consigo compreender como uma mulher tenha aquilo que ele diz que você tem.

     Mal o ouviu. Olhava, com tristeza, para diante.

     Ele sacudiu-a levemente.

     - Escute, querida, seja razoável. Está tudo feito e acabado. O rei está morto, viva o rei. Walter partiu, o velho Herb ficou. Por que não aproveita esta ocasião? Você parece uma moça razoável. Por que não espanta suas tristezas? Muitas damas consideram-me bastante interessante. Bem, elas não me conseguem caçar, mas você pode, se quiser.

     Ela parecia ter despertado e fitava-o, com espanto.

     - Vamos jantar, como tinha combinado com Walter - tornou Delgado. - Depois, podemos vir até aqui e recomeçar tudo e...

     - Vir até aqui e fazer o quê?

     Ele ficou calado por uns momentos. Depois repetiu: - Recomeçar tudo.

     - Quer dizer que deseja dormir comigo?

     - Isso é um crime?

     - Deseja dormir comigo esta noite?

     - E todas as noites. Não se ofenda. Afinal, você não é exatamente...

     - Saia.

     - Quê?! - exclamou ele, surpreendido.

     Harriet ergueu-se.

     - Saia, imediatamente.

     O Dr. Delgado levantou-se com lentidão do braço da cadeira.

     - Você não é... Fala a sério?

     - Ouviu-me duas vezes.

     - Jovem, fale em termos. Quem é você afinal? Estou tentando conceder-lhe uma oportunidade.

     - Pela terceira e última vez, saia, ou chamarei o porteiro para o pôr na rua.

     O Dr. Delgado sorriu com desdém. Numa atitude de insolente reflexão terminou sua bebida, pegou no sobretudo e dirigiu-se para a porta. Uma vez aí voltou-se e disse:

     - O seu funeral.

     Abrira já a porta quando subitamente se voltou de novo: - Quase me esquecia - volveu. Levou a mão ao interior do casaco e tirou um longo envelope. - Walter pediu-me que não me esquecesse de lhe entregar isto. Trata-se de uma carta que deseja que leia.

     Ele estendeu-a, mas ela ficou imóvel. Irritado, Delgado lançou-a para cima de uma pequena mesa.

     - Ver-nos-emos no hospital, enfermeira - disse por fim, e partiu.

     Harriet continuou imóvel, no meio do quarto, olhando fixamente para a carta de Walter. Não estava interessada agora no que ele tinha para lhe dizer. Era como se beijar alguém depois de morto, como naquela cena de Hemingway em Adeus às Armas, quando Henry beijou Catherine Barkley, a enfermeira, depois de ela ter morrido.

     Um minuto ou dois depois Harriet voltou ao bar e serviu-se de um novo uísque. Com o copo na mão começou a andar pelo quarto, descalça, bebendo um gole uma vez por outra. Diante do guarda-vestidos, deteve-se, pousou o copo e despiu-se até ficar apenas com as calcinhas de nylon. Por fim, pegou num robe e vestiu-o. Durante alguns momentos perguntou-se se prepararia alguma coisa para jantar, se faria um sanduíche, e decidiu continuar a beber.

     Começou de novo a andar pela sala e em dado instante deteve-se à janela. Sentiu satisfação por a neblina que envolvia a cidade se ter tornado mais densa. Pelo menos não teria de sair com aquele tempo úmido. Dando costas à janela, notou o envelope pousado sobre a pequena mesa. Abruptamente, terminou o uísque, dirigiu-se para o ponto onde se encontrava o envelope e abriu-o. Entretanto, perguntara-se se ele ousara enviar-lhe dinheiro. Se isso acontecesse esbofeteá-lo-ia na primeira vez que o visse. Depois, compreendeu que esta cena não se daria, pois não o veria mais. Agora era para ela impossível continuar no hospital.

     Dentro do envelope encontrou uma longa carta, redigida em papel do Reynor College, dirigida ao “Caro Walter” e assinada por “Maud”. Anexa a esta carta achava-se um pequeno retângulo de papel de memorando com os seguintes dizeres impressos na extremidade superior: “Do gabinete do Dr. Walter Zegner. “ Mão feminina garatujara sobre o papel: “Cara Srta. Bleaska: O Dr. Zegner pediu-me que lhe enviasse a carta anexa. Pensa que lhe pode interessar muito. Vai escrever sobre a Senhorita à Dr.a Hayden. “ A nota estava assim assinada: “Sra. Snyder pelo Dr. Zegner.”

     Confundida, Harriet levou a carta e o copo vazio para a cadeira de braços, e sentou-se; durante os quinze minutos que se seguiram permitiu-se ser transportada para o mundo, irreal das Três Sereias.

     Depois de concluída a leitura compreendeu a razão da generosidade de Walter. Desejava que ela saísse da cidade. Durante um momento esteve tentada a não partir, a continuar no hospital, como a consciência culpada dele. Porém, apercebeu-se de que, mesmo que isso fizesse infeliz a ele, não a faria feliz.

     Mirou de novo a carta de Maud Hayden e imediatamente desejou abandonar San Francisco para sempre. As Três Sereias constituíam uma perfeita transição para uma nova vida. Divorciá-la-iam do presente, agora passado. Desejava um novo começo, sim, um começo inteiramente novo.

     Vinte minutos mais tarde, depois de tomar mais um uísque, e com um sanduíche de queijo num prato e uma xícara de café junto do cotovelo, pegou numa esferográfica, colocou uma folha de papel diante de si e escreveu:

      “Cara Dr.a Hayden...“

    

     Maud Hayden acabara de ler a cópia da carta dirigida ao Dr. Orville Pence, de Denver, Colorado.

     - Bem - disse Maud -, isto fará Marc feliz.

     - Nunca consegui saber o que Marc vê nele - respondeu Claire.

     - Oh, já conhece o Pence. Tinha-me esquecido.

     - Conheci-o no ano passado, quando estivemos em Denver - tornou Claire.

     - Decerto, decerto. Creio que é uma dessas pessoas que temos de estudar bem para as conhecer.

     Claire não queria concordar.

     - Talvez - disse. Depois, acrescentou: - Marc é mais razoável no que se refere às pessoas do que eu. As minhas reações ante elas são instintivas. Formo sem demora uma opinião e jamais a modifico. O Dr. Pence repugnou-me tanto como um desses animais marinhos exangues.

     Maud sorriu, divertida.

     - Oh, a sua fantasia, Claire...

     Não estou brincando. Parece-me extravagante como uma solteirona, uma dessas criaturas que não permitem que fumemos na pequena sala de visitas de uma casa. E a sua conversa. Sexo, sexo, sexo. Quando acaba de falar pensamos que se trata de uma doença epidêmica cujo vírus se isola para estudo. Toda a idéia do prazer lhe é estranha.

     - Nunca me preocupei com suas atitudes em relação ao sexo - disse Maud, suavemente. - Mas como sabe, o sexo é o único assunto que lhe interessa, é o objetivo, a matéria de estudo de toda a sua carreira. O Conselho de Pesquisas em Ciências Sociais e a Fundação Nacional de Ciências não lhe concederiam bolsas de estudo se não tivessem boas razões para isso. A Universidade de Denver não o teria como professor se ele não fosse altamente qualificado. Acredite-me, seus estudos sobre comportamento sexual comparado conferiram-lhe uma sólida reputação.

     - Tenho a sensação de que ele está atrasado um século no que diz respeito a sexo.

     Maud riu. Depois, já calma, disse:

     - Oh, Claire, não permita que a dominem esses preconceitos, após um único encontro... De uma maneira ou de outra, foi Marc quem pensou que Orville Pence poderia estar interessado nas Sereias... Trata-se da sua especialidade, e suas descobertas podem ser valiosas para o meu ensaio.

     - Contudo, mantenho minha opinião. Demais, devia ter visto a mãe dele.

     - Claire, não a convidamos.

     - Mas convidou-o. É exatamente a mesma coisa.

    

     A espaçosa sala de aula da Universidade de Denver estava fria a esta hora da manhã, e, à medida que passava os dedos sobre suas notas, Orville Pence compreendeu que o frio lhe fazia recordar os lugares situados a grande altitude da sua infância. Lembrou-se de ter subido, conduzido por alguém, os degraus do capitólio da capital do Estado, e de lhe terem indicado o décimo quarto degrau, que tinha uma placa em que se lia: “Uma Milha acima do Nível do Mar”; recordou-se do teleférico que o transportou, e à mãe, ao cume do pico Pike; recordou-se de ir com a mãe e com os escoteiros visitar a sepultura de Buffalo Bill, no alto de uma montanha. Lembrou-se do frio entorpecedor e do pensamento favorito da mãe: “É bom estar-se no alto, Orville, para que as pessoas nos olhem sempre de baixo para cima” - e agora, nesta manhã, parecia que se encontrara sempre tão no alto que nunca chegara a descer à terra.

     Contudo, não era o frio que fazia na sala de aula que mais o perturbava esta manhã. O que mais o perturbava era a. jovem que se encontrava sentada numa das carteiras da fila da frente; ela tinha o hábito desconcertante de cruzar constantemente suas longas pernas, primeiro a direita sobre a esquerda, e, depois de descruzar esta, a esquerda sobre a direita.

     Orville Pence tentou manter sua atenção afastada daquelas pernas enquanto dava a aula, mas isto constituía uma proeza que julgava impossível concretizar. Procurou racionalizar esta distração. O ato de cruzar as pernas, nos indivíduos do sexo feminino, era universal e natural. Em si mesmo, não parecia errado. A única parte errada era o emprego de uma técnica defeituosa (isto é, normalmente viciosa ou deliberadamente provocante). Se uma jovem cruzava as pernas rápida, rigidamente, ao mesmo tempo que escudava o movimento puxando para baixo a bainha da saia, era decente. Se não o fizesse, o ato seria suspeito. Observava, dentro dos limites deste campo, que, quando cruzavam as pernas, certas mulheres levantavam automaticamente a saia ou o vestido. Se, como era o caso com a jovem estudante que se encontrava diante de si, o vestido era curto, as pernas longas, os movimentos lentos, um observador poderia com freqüência contemplar facilmente a carne da parte interior da coxa, a qual começava onde a extremidade superior das meias terminava. Que espécie de pessoa se poderia comportar de uma maneira tão imprópria? Seus olhos percorreram o corpo da jovem, de baixo para cima, e em seguida de cima para baixo. Ela era alta, bem feita, com cabelos ruivos mal penteados, um rosto de doce inocência; vestia um suéter cor de limão, uma saia de lã, de xadrez, que não caía abaixo dos joelhos quando ela se levantava.

     De súbito, a jovem moveu-se na carteira, e eis a saia para cima, as pernas apartadas, a carne cintilante das coxas exposta e depois dissimulada pelo cruzar das pernas. Ela tentava deliberadamente perturbá-lo, pensou Orville. Era um jogo de que muitas mulheres gostavam; porém, ele não se lhe submeteria; encontrava-se num ponto alto; ela e as outras teriam de o compreender. Ergueu os olhos para incluir as outras jovens estudantes que se encontravam na sala. Quase quarenta estavam ali sentadas, com canetas e lápis pousados sobre cadernos de apontamentos, aguardando que ele prosseguisse.

     Orville aclarou a garganta, pegou no copo que se encontrava na pequena estante, levou-o aos lábios e bebeu um gole dágua, lentamente. Em seguida, para readquirir a completa postura, tirou o lenço e limpou a testa; isto fê-la latejar, pois tinha uma testa ampla. Seu cabelo recedera nos últimos anos. Um terço do alto da cabeça achava-se prematuramente calvo. Ao repor o lenço no bolso espreitou por cima da armação dos óculos colocados a meio do nariz de furão, passeou os olhos pelas ouvintes, e depois, debruçado sobre suas notas, dirigiu de novo, sub-repticiamente, o olhar para a jovem de suéter cor de limão e pernas longas.

     Ela não devia ter mais de dezenove anos, calculou, e ele era um velho solteirão de trinta e quatro; se se tivesse casado aos quinze anos, ela podia ser sua filha mais velha. A distração era ridícula e consumia muito tempo. Dirigiu seus pensamentos para Beverly Moore, de Boulder, com mágoa, para sua mãe, Crystal, com culpa, para sua irmã, Dora, com ressentimento e para Marc Hayden, Maud Hayden, professor Easterday e chefe Paoti, com interesse, e por fim - ela descruzara as pernas, levantara a saia, cruzara de novo as pernas -, para isto, com pesar.

     A classe parecia inquieta, imaginou, e isto raramente acontecia. Normalmente, todas o escutavam com muita atenção e bebiam todas as suas palavras, uma vez que falava, desde há alguns dias, sobre a evolução da moralidade sexual durante os últimos trezentos anos. Porém compreendeu que todas se encontravam preocupadas devido ao fato de ele parecer estupidificado, como sucedia algumas vezes, e de se ter esquecido de reencetar a lição. Por fim, levou a mão aos lábios, tossiu e começou a falar.

     - Resumamos, nestes últimos minutos de aula, o nosso tema - disse -, antes de continuarmos a nossa discussão sobre os princípios da unidade familiar.

     Enquanto recapitulava os problemas do casamento monogâmico, desde os tempos primitivos até à Grécia antiga, Orville sentiu satisfação em observar que prendia de novo a atenção de suas alunas. A própria jovem de suéter cor de limão, demasiado ocupada em tomar notas, esquecera-se de cruzar as pernas. Confiante, continuou a falar, mas, à medida que os segundos se escoavam, sua mente ativa libertava-se da sua comunicação vocal e divagava. Esta capacidade para falar de um assunto e pensar noutro não constituía um dom exclusivo de Orville; porém, ele utilizava-o com rara perícia. Esta manhã era mais fácil, pois a lição que dava pertencia à mesma série das que proferira no verão passado na Universidade do Colorado, em Boulder, Vide conhecera a Srta. Beverly Moore.

     Mesmo agora, à medida que falava, conseguia imaginar fielmente o retrato de Beverly Moore. Ela era uma jovem de cerca de vinte e cinco anos, de cabelo preto, rosto patrício e figura graciosa. Há um mês que não a via, mas distinguia-a com tanta nitidez na sua mente como se a tivesse diante de si neste momento (e na verdade parecia tê-la, na fila da frente, com aquelas pernas fantasticamente longas).

     Quando fora a Boulder proferir aquelas lições de um curso de férias, Beverly, secretária-executiva do departamento administrativo, fora incumbida de o guiar e de cuidar de suas necessidades acadêmicas. Embora tivesse, com sacrifício, através dos anos, construído uma fortaleza de ambição e atividade em redor de si mesmo, a fim de se proteger dos assaltos de jovens agressivas e perigosas, conseguira, de certo modo, deixar uma ponte suspensa sobre o fosso. Uma vez por outra convidava uma jovem a atravessar a ponte. Todavia, sempre que ela se tornava uma distração indesejável, fazia o possível por a desalojar da fortaleza. Em Boulder encorajara - ou permitira, pois não estava já certo do que sucedera - Beverly a atravessar a ponte. Impressionara-o, desde o começo, a seriedade, os predicados intelectuais, o senso comum dela. Acima de tudo, parecia compreendê-lo e a importância de seu trabalho.

     A sua ligação, inteiramente cerebral, amadurecera através do verão, de modo que, por fim, não desejara encarar a realidade da sua partida após terminado o curso. Quando regressou a Denver compreendeu que Beverly se tornara quase uma parte de si, um hábito seu, como sua mãe, Crystal, ou sua irmã, Dora. Quando sentiu saudades dela deu por si fazendo o que nunca fizera antes - esquecer-se de sua rotina para continuar a vê-la. Todas as semanas, percorria os cinqüenta quilômetros para noroeste, através das montanhas Rochosas, até chegar a Boulder. Cada vez com mais freqüência, começara a divagar acerca daquilo que outrora parecera impossível - a imaginar um casamento com uma jovem que não modificasse sua vida, transformasse seu programa ou perturbasse seu trabalho, mas melhorasse, em vez disso, sua existência quotidiana.

     Contudo, sem dar por isso, começara a vê-la mais raramente nos últimos três meses, acabando por deixar de vê-la. Ela telefonara e aceitara suas desculpas - estava carregado de trabalho, dissera - e tornara a telefonar, para ouvir com menos cordialidade seus circunlóquios. Depois, não voltara a telefonar.

     Ao reavivar agora tudo isto tentou recordar o que acontecera entre ambos. O fato era que nada acontecera entre eles. Não tinham brigado e sua afeição mútua não decrescera. Porém, Orville sempre se recordou de uma coisa. Ocorrera uma semana antes, antes de adormecer, e de novo na noite passada, como na outra ocasião, procurara afastar o pensamento, como se de algo em que não desejasse acreditar. No entanto, o pensamento acudira-lhe outra vez à mente, e agora, com certa coragem, examinou-o.

     Vagamente, até este momento, supusera ter decidido ver Beverly com menos freqüência, não se ligar muito mais emocionalmente a ela, devido a um defeito de sua personalidade. O defeito era a superioridade de Beverly como ser humano. Ela não era uma mulher complexa, achava-se perfeitamente integrada, segura de si própria, era educada e atraente para os homens. Se se casasse com ela, Beverly ganharia a ascendência. Por ora, necessitava dele, pois era uma mulher solteira, só, que desejava conseguir status social através de ura bom casamento. Assim, por agora, ele era a pessoa superior. Uma vez casados, a intimidade poderia pôr a nu a sua fraqueza - toda a gente tinha fraquezas. Ao mesmo tempo, as qualidades de independência de Beverly, robustecidas pela confiança que o casamento conferia a uma mulher e reforçadas pelo conhecimento das incapacidades de Orville, desenvolver-se-iam, perturbá-lo-iam e à sua vida. Ela mostrar-se-ia superior e ele inferior. No casamento, as posições de ambos modificar-se-iam para sua desvantagem. Em resumo, não era a mulher que lhe convinha. Desejava uma companheira que fosse menos do que ele, e continuasse assim, fitando-o sempre de baixo para cima, dependendo dele, grata por o ter encontrado. Beverly não era jovem que se conformasse com isto. Era diferente. Assim, expulsara-a discretamente e retirara a última ponte que conduzia à sua fortaleza.

     Esta, acreditara, fora a única razão para a ruptura da sua ligação. Agora, acreditava em mais alguma coisa, embora a nova percepção não invalidasse inteiramente o primeiro sentimento que experimentara em relação a ela. Via agora que começara a afastar-se de Beverly uma semana depois de a ter apresentado à mãe, à irmã, ao cunhado. Isto passara-se há três meses.

     Desejara decidir-se e assim opusera-lhe o teste final, a corrida de obstáculos, como gostava de o denominar. Apenas duas vezes antes, na sua vida, convidara jovens a submeter-se ao teste. Beverly respondera com entusiasmo. Viera de Boulder, de trem, e ele aguardara-a na estação, orgulhoso da sua figura e da sua elegância. Conduzira-a ao apartamento da mãe, onde Dora e o marido, Vernon Reid, chegados de Colorado Springs com a mãe, que se queixava de um ataque de artrite e padecia de febre de feno, esperavam heroicamente. Apesar da pressão do momento, Beverly comportara-se de maneira excelente. Mostrara-se altiva, embora afetuosa. Talvez o nervosismo a tivesse obrigado a falar mais do que era habitual nela, mas a conversa decorrera com interesse. A noite passara suavemente. Mais tarde, ao conduzir Beverly a Boulder, Orville sentira maior ternura por ela do que antes.

     A reação inicial da família durante o café da manhã seguinte fora favorável, melhor do que supusera. Na verdade, não falaram muito nela, e nas referências à pessoa de Beverly utilizaram expressões como “uma jovem encantadora” e “bastante inteligente”. Porém, na semana que se seguiu - Orville compreendia agora melhor isto do que então -r começaram a desfazer de Beverly. A mãe não se referira em especial a Beverly mas a “certas moças de tipo intelectual” que “conduziam um homem como desejavam”. Dora relacionara Beverly com uma mulher “muito senhora do seu nariz”. Vernon, por sua vez, referira-se a ela com irreverência. Beverly fizera que recordasse uma colega muito ousada da universidade que satisfizera todos os colegas da faculdade. “Mas não me leve a mal, Orville, pois não estou insinuando nada. Porém, fisicamente, ela faz-me lembrar a Lydia”, disse Vernon.

     Sem dar por isso, Orville começara, nos dias seguintes, a interrogar-se sobre Beverly, sobre seu passado, projetando-a no futuro. De certo modo, e de maneira sutil, a perfeição dela deslustrara. Era como se movido por um impulso, pelo amor à primeira vista, e não por um cuidadoso exame, se comprasse uma peça esculpida original e se fruísse sua beleza até que os amigos começassem a fazer observações casuais acerca da duvidosa qualidade de sua originalidade, de sua beleza, do seu valor, de modo que por fim se ficava incerto e a pura alegria até então sentida era modificada e depois dissipada por demasiada reflexão.

     Com a súbita clareza dada pela honestidade, um luxo que raramente se permitia, Orville compreendeu que evitara Beverly não por causa dos seus defeitos mas devido à suspeita de defeitos inseridos no seu espírito pela família. Como sempre, tinham-lhe feito uma lavagem no cérebro. Há muito tempo que se apercebera da verdade acerca deles, mas a dependência tinha-o condicionado, obrigara-o a fechar os olhos à verdade. Porem, a partir deste momento jamais relacionaria as táticas da família com seu estado de solteirão.

     A mãe estava casada há quatro anos (dera primeiro à luz Dora) quando o pai a trocara por uma mulher mais jovem, menos exigente e mais feminina. A mãe atribuíra a catástrofe ao sexo, à natureza depravada do pai, ao feio, vil, perverso impulso conhecido por desejo. Dora, no momento em que atingiu a maioridade, revoltara-se contra a tirania maternal, abandonara o lar, casara com Vernon, mudara-se para Colorado Springs e dedicara-se aos filhos que começaram a nascer do matrimônio. Orville, sem a proteção da cólera da irmã, tivera de se apegar às saias da mãe, um refém pelo pai errático. Fora necessária uma década, após a chegada à maioridade, para se atrever a procurar um apartamento que permitisse certa intimidade - mas mesmo agora, apesar de não residir com ela, falava duas vezes por dia ao telefone com a mãe, jantava na sua companhia três vezes por semana e conduzia-a a uma infinidade de médicos e de clubes sociais.

     Através dos raios Roentgen da sua auto-analise, Orville relacionava esta gente do seu sangue com seu estado de solteiro. Compreendia que todos se empenhavam em mantê-lo solteiro. Tivesse ele casado com Beverly, ou com qualquer das outras antes dela, e sua mãe daria a impressão de ter sido abandonada por um segundo marido e deixada só e na penúria. Tivesse ele casado e se tornado independente, e a irmã e o cunhado teriam sido obrigados a dispensar mais atenções à mãe. Como as coisas estavam, toleravam a mãe apenas uma vez por ano na casa de Colorado Springs e contribuíam com uma pequena soma mensal para o apartamento de Denver. Despendiam dinheiro, pensou com amargura, enquanto ele despendia emoções. Entregavam dinheiro enquanto ele entregava sua liberdade. Só, em Denver, era obrigado a carregar o pesado fardo. Dora mantinha-se indiferente e egoísta. Se fosse casado, pensou Orville, poderia ter um aliado na independência e Dora ver-se-ia forçada a desempenhar seu papel de filha.

     À claridade deste raio de luz de verdade, Orville detestou a irmã. Não ousava dirigir uma emoção tão forte para a mãe mas disse de si para si que, uma vez que não podia detestar a mãe, pelo menos não a amaria. Sabendo isto, sentindo o que sentia, por que não partir sem demora para Boulder e ajoelhar-se ante Beverly e pedir-lhe a mão? Por que estava assim imobilizado? Por que não agia? Conhecia as respostas, e por fim desprezou-se a si também. Sabia que um medo inominável o mantinha na servidão. Tentou dar um nome, definir este medo: receava a solidão, receava partir e perder possivelmente o que era seguro, aquilo de que se podia depender, os dois ventres, por um ventre estranho e ainda não experimentado que um dia poderia ser demasiado superior para necessitar de seus afetos e de sua atenção. Eis o nó górdio da sua indecisão. Que fazer? Veria, veria, teria de se decidir.

     Fez, de novo, incidir sua atenção sobre as notas, sobre a classe, sobre a jovem de suéter cor de limão que neste mesmo instante descruzava as pernas, as abria - a parte interior da coxa rosada - e as cruzava uma vez mais. Consultando o relógio de parede, Orville viu que dentro de alguns segundos o período de aula terminaria. Concluiu a lição, endireitou as notas e disse em seguida:

     - Na próxima semana falarei em pormenor sobre as numerosas ameaças à instituição do casamento e mostrarei seu papel na evolução do sexo através dos tempos. Para começar, referir-me-ei ao papel da chamada Outra Mulher. Através dos séculos, a “esposa” ilícita de um homem casado, e por vezes de um homem não casado, teve muitos nomes e rostos, tais como adúltera, concubina, cortesã, prostituta, cocotte, hetaira, semimundana, filie de joie, meretriz, mulher de vida fácil, femme entretenue, etc. Estas designações, apenas com ligeiras variações na função e no ato, têm descrito a mesma mulher - a amante, ou melhor, “a mulher por conta”. Na próxima semana discuti-la-emos na evolução do sexo... Obrigado. Podem sair.

     Reunindo suas notas, ouvindo o ruído produzido pelas alunas que se erguiam, caminhavam, conversavam, perguntou-se se a jovem de suéter cor de limão ainda o fitava provocantemente. Embora tivesse inclinada a cabeça brilhante, Orville levantou os olhos, a fim de se certificar. Ela estava de pé, os livros e o caderno de apontamentos debaixo de um dos braços, as costas voltadas para ele, esperando que duas amigas se lhe juntassem. Momentos depois as três deixaram a sala, A de suéter cor de limão, que conhecia tão intimamente, passou diante dele olhando-o apenas de soslaio. Era como se ele não fosse mais do que um gramofone neutro que se tivesse calado. Sentiu-se tolo, logrado, e por fim, embaraçado.

     Uma vez a sala vazia, e depois de ter fechado a pasta, saiu. Ordinariamente, gostava de se reunir no café a alguns dos mais inteligentes colegas de ensino a fim de trocarem, algumas impressões sobre assuntos profissionais e conversarem um pouco. Esta manhã, porém, não dispunha de tempo.

    

     Prometera à Comissão de Censura da C. S. W. A., à Associação das Mulheres do Colorado, estar no cineteatro às onze e quinze, pois iam passar pela primeira vez um filme francês importado recentemente, Monsieur Bel-Ami. Não havia tempo a perder.

     Apressou-se a abandonar o campus, perdeu algum tempo fazendo sair o seu novo Dodge do parque de estacionamento dos professores, mas, por fim, pôs-se a caminho. Enquanto dirigia recordou-se da carta da Dr.a Maud Hayden. A maior parte das vezes, não lia sua correspondência de manhã. O correio pessoal, enviado para o seu apartamento, lia-o à noite, com calma; o correio profissional, enviado para a universidade, lia-o depois do almoço. O correio desta manhã continha o envelope com o nome e o endereço da Dr.a Hayden, e não conseguira resistir a abri-lo. A informação sobre as Três Sereias absorvera-o tanto que quase se esquecera de telefonar à mãe, uma coisa que raramente acontecia. Uma vez que a leitura da carta o atrasara, tinha conversado com a mãe durante cinco minutos apenas. Prometera reservar-lhe mais tempo quando ligasse para o seu gabinete depois do almoço. Porém, estava agora menos certo de desperdiçar mais tempo com ela.

     À medida que dirigia, analisava o conteúdo da carta da Dra.. Haiden. Seus estudos em comportamento sexual comparado eram, na sua maior parte, de segunda mão, baseados nos escritos e memoriais de observadores e camaradas etnólogos. Fizera apenas duas viagens, e estas de importância secundária, bastante curtas: na primeira, para reunir material para sua tese de doutorado, passara seis meses numa reserva hopi (a mãe instalara-se num hotel próximo); na segunda, subsidiada pelo Instituto Polar da Universidade do Alaska, passara três meses entre as Aleutas, nas ilhas que ficavam a pouca distância da costa (a permanência fora interrompida devido à doença da mãe, em Denver). Em nenhum dos casos se adaptara bem à vida de campo. Não sentia qualquer afeição pelos primitivos e não lhe agradava o desconforto. Tinha, com muito prazer, trocado as Aleutas pela cabeceira da mãe. Dissera-se que a participação ativa e a observação não eram necessárias. Não pintara Leonardo da Vinci A última Ceia sem ter a ela assistido? Não escrevera o seu grande mestre, Sir James Frazer, The Golden Bough, uma obra imortal, sem ter visitado uma vez sequer uma sociedade primitiva? (Uma anedota apoiava-o. William James perguntara a Frazer: “Quero que me fale dos aborígines que conheceu”, e Prazer respondera: “Que Deus me perdoe!”).

     Contudo, a despeito da sua relutância em viajar, Orville teve de admitir que a perspectiva de uma visita às Três Sereias o fascinava tanto como os costumes sexuais de todas as ilhas dos Mares do Sul. De uma maneira ou de outra era mais atraente, menos rigorosa e repugnante do que os hopis e as Aleutas. Sempre o tinham fascinado as orgias praticadas pelo grupo ariori de Taiti, o coitus interruptus praticado na Tikopia, o desagrado que inspiravam aos nativos de Pukapuka as carícias feitas nos seios, e o prazer que sentiam em arranhar-se durante o ato sexual, o aumento do clitóris praticado na ilha da Páscoa, a aceitação do desvirginamento em massa praticado em Ra'ivavae.

     A julgar pela carta da Dr.a Hayden, os costumes da tribo das Três Sereias prometiam coisa bastante mais interessante, e Orville imaginou que isto poderia trazer novas perspectivas para seu trabalho. Demais, embora conhecesse a Dr.a Hayden apenas superficialmente, conhecia muito bem o filho, Marc, com quem tinha muito em comum. Trabalhar com Marc no campo seria muito agradável. Contudo, sabia também que estava apenas sonhando acordado. Era para ele impossível participar de tal aventura. A mãe não o permitiria. A irmã, Dora, faria uma cena. E além disso, se partisse, alienar-se-ia de Beverly por completo, se isto não tivesse já sucedido. Teria de declinar o convite, apresentar seus agradecimentos à Dr.a Hayden, esta noite, e pedir-lhe que transmitisse os melhores cumprimentos a Marc e à esposa.

     Com isto decidido, Orville deixou o carro no parque de estacionamento de Welton e dirigiu-se para o cinema, que ficava a umas dezenas de metros. Ao entrar no átrio da sala, vazio, perguntou-se quanto tempo demoraria este filme francês a passar e se mereceria o tempo que ia gastar. Há cerca de um ano, a C. S. W. A., inspirada pelos editoriais do Post de Denver, criara a sua Comissão de Censura e convidara-o a servir de censor. Não desejara qualquer remuneração - um serviço prestado à comunidade, dissera de si para si -, pois a publicidade pessoal favorável que obteria do Post seria suficiente. Em geral, esta tarefa era do seu agrado. Podia ver filmes estrangeiros, e também alguns de Hollywood, numa forma que o público não veria. Este conhecimento proibido tornava-o um objeto de interesse nas reuniões mundanas. Além do mais, gostava de pensar que estava salvando a cidade das influências corruptas e a elevar o seu tônus moral. Tirava certa satisfação da consulta das estatísticas: dos trinta filmes examinados nos últimos meses era responsável pela proibição de quatro, pelo expurgo de muitas cenas de quinze e por pequenos cortes em mais seis. Os vizinhos elogiavam sua inteligente vigilância.

     No interior do cinema encontrou três membros da comissão, que esperavam nos camarotes. Com um sorriso, e cumprimentos corteses, apertou a mão de cada um deles - primeiro da Sra. Abrams, uma mulher pequena e vivaz que se parecia com qualquer coisa que se tivesse escapado de um termômetro partido; depois da Sra. Brinkerhof, que dava a impressão de um jogador de basquetebol com um chino feminino cinzento, e por fim da Sra. Van Horne, que o fazia sempre recordar um prato bem servido, gelatinoso, surpreendendo-o o fato de ela não ter uma maçã na boca.

     A Sra. Brinkerhof fez imediatamente um sinal ao operador. As luzes da sala foram apagadas e os títulos principais perpassaram pela tela. Orville afundou-se na sua poltrona de couro, ergueu os óculos no nariz e passou os olhos pela legenda principal - Produções Versailles apresentam Monsieur Bel-Ami, de Guy de Maupassant.

     Orville estava bem preparado para o que se ia seguir. Na noite anterior lera uma sinopse da novela original de Maupassant, publicada em 1885 e passada naquele período. Lera também o folheto publicitário da companhia distribuidora e soubera que o filme modernizava o enredo da novela que se passava agora em 1960. Quanto ao resto, as personagens - o jornalista e velhaco, Georges Duroy; as mulheres que ele seduziu, Madeleine Forestier, Clotilde de Marelle, Basile Walter; os protetores que traiu, Charles Forestier, M. Walter - e o enredo - a história da ascensão de Duroy de desconhecido jornalista a cavaleiro da Legião de Honra e candidato à Câmara dos Deputados - e o local - Paris e Cannes - tudo seguia fielmente a novela.

     Orville fixou os olhos na tela, concentrado. Viu o vôo do avião de transporte de tropas, que partira da Argélia. A seguir, a aterragem no aeroporto de Orly. Os ocupantes do avião, veteranos desmobilizados das forças combatentes francesas da Argélia, lançavam-se nos braços de parentes e amigos. Apenas um deles não fora acolhido por ninguém - o alto e belo Georges Duroy, que observava os outros e se dirigiu depois, manquejando, para o ônibus que os aguardava. A cena dissolveu-se. Em seguida, surgiram os Campos Elísios, a meio da tarde; Duroy passeava, examinando um cartão que trazia na mão, procurando uma casa. Depois, passou-se para a redação de La Vie Française, onde o editor, Forestier, dava alegremente as boas-vindas a seu antigo colega do Exército, Duroy. Seguiu-se um interminável diálogo entre os dois camaradas e por fim Duroy conseguia um lugar no jornal. De súbito, a mulher de Forestier, Madeleine, entra em cena, e é apresentada ao velho amigo do marido.

     Juntamente com Duroy, Orville estuda Madeleine. Quem quer que fosse a atriz, a verdade era que tinha busto e nádegas magníficos e olhos afrodisíacos. Um veterano dos filmes franceses, Orville sabia que se aproximava o momento capital; assim, tirou do bolso o livro de notas e a caneta luminosa. Não seria decepcionado. Forestier convidara Duroy a passar uns dias na sua casa de campo, próximo de Chartres. Quando chegou, Duroy soube que o amigo estava de cama, com uma doença nos brônquios. Apenas Madeleine o recebeu. Depois, seguiu-se o esperado encadeamento, e mais outro, e outro ainda, e de súbito a caneta de Orville estava sem tinta. Madeileine, de minúsculas calcinhas rendadas, e sem mais nada no corpo, achava-se deitada na cama de uma cabana da floresta, a um quilômetro de distância da casa de campo. Tinha os olhos cerrados, os lábios apertados, os amplos seios nus, e Duroy, visto apenas a partir da cintura para cima, nu, movia-se na cena e sentava-se ao lado dela. Madeleine enroscou-se, murmurou qualquer coisa em francês, e ele acariciou-a, sussurrou também qualquer coisa e inclinou-se, lentamente, sobre ela...

     Daí por diante, durante quase meia hora, a caneta de Orville arranhou o papel do seu bloco de. apontamentos... a indecência do prazer sem disfarce de Madeleine nos seus encontros carnais com Duroy... a cena repugnante entre o rico proprietário do jornal, M. Walter, e sua esposa, Basile, em que a impotência dele era glosada com humor... a chocante, impudica sedução de Basile por Duroy num compartimento do wagon-lit a caminho de Cannes... os sórdidos planos em que intervinham jovens estouvadas em biquíni na Riviera, os ângulos, os grandes planos anatômicos!... O encontro de Duroy com Suzanne, filha de Basile Walter, e suas apaixonadas acrobacias no espaço úmido de uma cabana... Duroy fazendo chantagem sobre suas mulheres, a fim de adquirir poder, e não retribuindo seus favores.

     As luzes acenderam-se. Orville refletiu no que vira. Segundo sua opinião, todo o filme devia ser proibido. Porém, não queria que só ela prevalecesse. Se a comissão houvesse gostado do filme, não levantaria objeção alguma. Não desejaria que o julgassem puritano.

     Voltou-se no seu lugar.

     - Bem, minhas senhoras, que pensam?

     A julgar por suas expressões, vítreas, distantes, elas tinham gostado muito. Nenhuma respondeu durante alguns momentos. Depois, a Sra. Abrams ousou pronunciar-se:

     - É um pouco forte aqui e ali e não penso que o herói constitua um bom exemplo de homem, mas... - Ela hesitou, acrescentando em seguida: -... penso que o filme tem mérito artístico.

     - Sim - concordou a Sra. Brinkerhof -, mérito artístico.

     - Oponho apenas uma restrição - disse por sua vez a Sra. Van Horne. - Terá de ser “Só para adultos”.

     Depois de todas terem emitido sua opinião, Orville sabia o que se esperava dele. Afinal, pensou, os maridos eram homens importantes.

     - Estou satisfeito por compartilharem da minha opinião - afirmou vivamente. - Creio que devemos insistir num bom corte... a cena da impotência, que é feia e nada acrescenta ao filme, e talvez cinco ou seis cortes menores. Posso indicá-los?

     As mulheres, sofrendo de culpa coletiva, desejavam expiar esta culpa, estavam ansiosas por ouvir mencionar os cortes. Orville, no tom monótono com que sempre falava nestas ocasiões, leu alto as sugestões que registrara no bloco de apontamentos. A concordância da comissão foi unânime e dada com alívio. Agora que sua missão terminara, todas pareciam alegres, romanticamente enriquecidas e libertas de sua vergonha interior.

     Depois de se despedir delas e de abandonar o teatro, com mais um sensato compromisso estabelecido, levava um simples enigma consigo. Este enigma era antigo e formulado numa só palavra: mulheres. Era doutor em antropologia. Quantos anos passariam antes de ser doutor em mulheres? Quando chegaria ele, ou qualquer outro homem, a compreendê-las?

     Uma vez dentro do carro, a caminho do seu gabinete, reviu o filme, o que lhe dera prazer e o que merecera seu desagrado, e recordou as poucas mulheres que conhecera: pensou na mãe, na irmã e em Beverly. Depois de estacionar o carro no local do costume, no parque da rua Arapahoe, e de se dirigir para o gabinete, compreendeu o que, nas suas reflexões, o perturbava. Afinal, não desejava ser Sir James Frazer, mas Georges Duroy. A mãe e Dora não gostariam disso, decerto, mas eis o que desejava neste momento. Bem, elas não necessitariam de se preocupar, este estado de espírito passaria.

     E este estado de espírito passara no momento em que entrou na sala da recepção da suíte onde tinha seu gabinete. Ouviu a secretária dizer ao telefone: “Um momento, por favor, talvez esteja chegando.”

     Fitou-a interrogativamente.

     Ela colocou a mão sobre o bocal do telefone e disse...

     - É sua mãe, Dr. Pence.

     . Sem consultar o relógio, soube que deviam ser duas horas, exatas. Consultou-o e verificou que assim era.

     - Muito bem, diga-lhe que espere um segundo. - Ao dirigir-se para seu gabinete recordou-se que não tinha almoçado.

     - Gale - chamou -, logo que ligar o telefone para aqui mande buscar alguns sanduíches. Bife... com molho, e leite desnatado.

     Depois de fechar a porta tirou o chapéu e o casaco e em seguida instalou-se na cadeira giratória atrás da ampla secretária de carvalho. Pegou no fone.

     - Olá - disse, fazendo uma pausa para que Gale, sabendo que a ligação estava estabelecida, deixasse a linha. Quando ouviu o clique que indicava que estava só com a mãe, a sua voz despiu-se da sua dignidade profissional. - Olá, mamãe, como está?

     Teve a impressão de que a voz de Crystal se tornava mais aguda, gritante, à medida que os anos decorriam.

     - Sabe bem o que se passa comigo, tudo se mantém na mesma - dizia ela. - A pergunta é: como está o meu rapaz? - Ele franziu a testa ao ouvir o “meu rapaz”; porém nunca tivera coragem para recordar à mãe de que lhe dera um nome quando o batizara. Ela continuou: - Dá a impressão de estar cansado esta manhã. Trabalhou toda a noite? - Tentou dizer que trabalhara até tarde, mas ela não escutava; assim, desistiu.

     - Consegue dormir como um bebê - dizia a mãe. - Desejaria poder afirmar quanto invejo a gente feliz que coloca a cabeça sobre um travesseiro, e adormece num instante. Talvez eu tivesse vivido já demasiado tempo! Quanto mais velho se é mais dificuldade se tem em dormir. - Ele assegurou-lhe que não tinha vivido demasiado tempo. Ela escutava desta vez, pois respondera: - É um amor quando quer; continue sempre assim, meu rapaz. Muitos filhos, ao crescerem, esquecem-se das pessoas que são importantes para eles. Os amigos acabam por desaparecer. Não se pode confiar neles. Só com uma mãe se pode contar. Lê-se constantemente nos jornais que muitas mães dão a vida pelos filhos, se sacrificam, por eles. Ah, meu rapaz, um dia há de compreender. Mas que dizia eu... não consegui dormir toda a noite... os comprimidos não me fizeram nada... e os sonhos, os sonhos perseguem-me... as pessoas não são capazes de compreender antes que o mesmo lhes aconteça. Quando são velhas e isto sucede compreendem então. Os comprimidos não prestam, meu rapaz, tudo é diferente, e não podemos confiar sequer no nosso próprio médico. Quando era nova, o médico dava a impressão de ser um membro da nossa família. Ele não nos mentia, não nos puxava pelos cordões da bolsa, não se aproveitava das nossas dificuldades, não nos receitava comprimidos de açúcar e dizia que os nossos males se achavam na mente. Na mente... que disparate! O que sinto nos ossos não se encontra na mente. Meu rapaz, se você conseguisse sequer imaginar como me sinto hoje uma inválida... meus braços parecem-se brasas, e meus pés, meus artelhos... Que tortura...

     Ela está lançada, pensou Orville. Durante, pelo menos uns três minutos não teria uma abertura para pronunciar sequer uma interjeição. Com o aparelho apertado entre o ouvido e o ombro, tossindo levemente uma vez por outra para a fazer supor que se achava atento, mas escutando menos de metade da súmula dos seus achaques, que teriam enriquecido a Anatomia da Melancolia, de Burton, Orville começou a separar a correspondência. Pondo de parte a carta da Dr.a Maud Hayden, à qual dedicaria mais tarde a sua atenção, abriu, um por um, os outros envelopes, indicando com uma marca que devia responder a esta carta, arquivar aquela, e lançar fora aqueloutra. A última carta, de um comerciante de livros raros de Paris, anunciava com júbilo que um belo exemplar da edição de 1750 de Argumento Contra a Introdução dos Cintos de Castidade, de Freydier, fora localizado. Satisfeito por o preço apresentado ser tão razoável, Orville escreveu na carta: “Responder e dar instruções imediatamente para a compra. “ Restava a pilha de revistas. Uma vez que gostava de lhes prestar mais atenção, Orville as colocou de lado até se encontrar livre.

     Permitiu que a mãe continuasse durante mais um minuto e depois interrompeu-a.

     - Mamãe, escute... Mamãe, tenho uma chamada interurbana, de Pensilvânia... Sim, mamãe, deve ir a esse novo médico se ele é o que toda a gente diz... Sim, sem dúvida, levá-la-ei lá... Estou aí às duas e meia, amanhã...

     Não, não me esqueço... Sim, prometo. Muito bem, mamãe, muito bem. Adeus.

     Colocou o fone no descanso e ficou imóvel, surpreendido, como sempre, devido ao esgotamento que sentia no fim destas conversas. Um minuto depois, já mais descontraído, aproximou a cadeira giratória da secretária e começou a tirar a cinta das revistas. Como parte do seu estudo sobre o comportamento sexual comparado, Orville assinava as revistas pornográficas e picantes mais conhecidas do mundo. Alguns anos antes visitara o Instituto de Pesquisas sobre o Sexo, do falecido Dr. Alfred Kinsey, em Bloomington, Indiana, e ficara impressionado com sua valiosa coleção erótica. Nos interesses da pesquisa, iniciara sua própria coleção, e agora, todas as semanas, anotava e arquivava diversos artigos, histórias e, o mais importante de tudo, desenhos e fotografias. Infalivelmente, Orville considerava esta parte do dia a mais compensadora e apetecível. Gale tinha instruções para não o perturbar com telefonemas ou visitas durante a meia hora que se seguia' ao tempo da conversa com a mãe. Durante esta meia hora folheava as revistas, sem as anotar ainda, a fim de se decidir sobre o que era útil e sobre o que não era. No fim da semana levava-as para seu apartamento e percorria-as com grande atenção, fazendo então suas notas.

     Cautelosamente, pegou na primeira revista, de capa lustrosa, que se encontrava na pilha, que continha sete. Esta era uma das suas favoritas, Clássicos da Beleza Feminina, uma bela publicação trimestral editada em Nova York, inestimável contribuição para qualquer estudo sobre os costumes sexuais americanos. Voltou as páginas com lentidão - aqui, uma ruiva de calças brancas e braços cruzados sobre os seios nus; ali, uma loura platinada encostada ao umbral de uma porta, inteiramente nua, com exceção de uma tira negra sobre a área vaginal; mais adiante, uma morena, mergulhada na água até aos joelhos, com o traseiro nu e as costas voltadas para a máquina; por fim, uma jovem muito bela, em pose de corpo inteiro, diante de uma cama de baldaquim, com um casaco de malha que lhe chegava até aos quadris, mas desabotoado para revelar os bicos enormes dos seios, e seguro pelo último botão a fim de dissimular as partes íntimas.

     Orville manteve os olhos fixos no corpo da jovem provocante que se encontrava diante da cama de baldaquim. Tinha, como sempre, uma expressão de incredulidade. Este rosto era doce e casto como o de uma madona. O rosto, a pele, os seios, o ventre e as coxas eram jovens e frescos, perfeitos. Ela não teria mais de dezoito anos. Contudo, ei-la aqui, com tudo exceto o último segredo exposto a milhares e milhares de olhos ardentes. Como poderia ela fazer isto, e por quê? Não teria mãe, pai, irmão? Não ia à igreja? Não desejava guardar um vestígio de decência para um amor duradouro? A nudez e estas posturas tão naturais tinham sempre chocado Orville. Esta bela adolescente teria entrado num estúdio, despido todas as peças de vestuário, vestido um ridículo suéter, e nada mais, recebido instruções de um estranho, ou de estranhos, sobre como devia revelar os seios ou dissimular parte do corpo, utilizando o último botão. Deus do Céu, por que faria ela isto? Quando estendia os braços, caminhava ou tomava várias poses, revelava tudo aos estranhos? Que prazer retirava disto? Elogios, adulaçao? O prazer perverso do exibicionismo? Uma retribuição em dinheiro? A esperança de que algum produtor de filmes visse a fotografia e a convidasse a comparecer a seu estúdio? Que era, então?

     Ainda estudando a jovem e o cenário que a rodeava, Orville perguntou-se onde se encontrariam tantas destas adolescentes que se despiam com tal impudor. Que aconteceria se quisesse examinar algumas delas - a adolescente que se encontrava diante da cama de baldaquim, por exemplo - para fins clínicos? Posaria ela para uma das maiores autoridades americanas sobre questões sexuais? E em caso afirmativo, responderia às suas perguntas, sem vacilar?

     De súbito, ao fixar os indecorosos botões dos seios, cor de púrpura, Orville franziu o sobrolho. Jovem cadela pecadora, pensou. Cortesã flamejante, em posição tão lúhrica, para excitar uma infinidade de impotentes, de solitários, posando de maneira tão indecente para escarnecer de tudo o que era sagrado, sacrossanto, da procriação e do amor... Nenhum castigo seria demasiado para estas prostitutas. Uma frase desgarrada, e ainda outra, penetravam na mente de Orville. “Uma grande mercê foi-me concedida. A noite passada coube-me o privilégio de trazer uma alma aos braços amorosos de Jesus. “ Mas que era isto? Onde ouvira, lera, esta frase? Recordou-se então. O reverendo Davidson falava da Srta. Thompson.

     Com um suspiro, Orville retirou os olhos da fotografia da adolescente e continuou a folhear a revista. Quando terminou, pegou nas outras, uma por uma, não se permitindo mais cogitações ou solilóquios filosóficos. Quase meia hora mais tarde o exame científico estava concluído. Colocou as revistas, com cuidado, sobre as outras no topo da sua estante, onde ficariam até ao fim da semana, e voltou à secretária a fim de passar os olhos sobre o Post de Denver antes de começar a ditar.

     Depois das revistas, o jornal favorito de Orville parecia fastidioso. Percorreu os títulos apressadamente com os olhos, e também as diversas colunas, que falavam desde a guerra à política, desde os acidentes aos divórcios, tudo deplorado. Porém, quando chegou à sétima página, um título que encimava uma pequena notícia sem importância deteve sua atenção e fê-lo endireitar-se na cadeira. Eis o título: PROFESSOR INGLÊS NOIVO DE UMA JOVEM DE BOULDER.

     Uma vaga sirena de alarme soou num recesso do cérebro de Orville. Debruçou-se sobre a notícia e leu-a sofregamente, relendo-a em seguida com lentidão. As frases atingiram-no como bastões... “O Dr. Harvey Smythe, professor de Arqueologia de Oxford, que se encontra lecionando... a Srta. Beverly Moore, funcionária da administração da Universidade do Colorado... surpreendeu os amigos... partiram para Las Vegas ontem para se casarem... voltaram a noite passada... segundo casamento do noivo... no próximo ano fiixar-se-ão na Inglaterra, onde o Dr. Smythe... os colegas da faculdade oferecerão esta noite uma festa... “

     Orville deixou tombar o jornal sobre o tampo da secretária. Manteve-se imóvel, sofrendo a sua dor silenciosa, com os olhos vítreos fixos na pequena notícia, a sua urna.

     Beverly Pence era agora Beverly Smythe, agora e durante toda a eternidade, para sempre, irrevogavelmente.

     Mesmo na sua dor Orville mostrou-se razoável. Não censurou Beverly Moore. Não era vítima dela. Censurou a mãe e a irmã. Era vítima de ambas, a presa de dois tiranos sanguinários, mártir das duas, e também de seus pálidos cromossomos e genes.

     Após muitos minutos de mudez total, dobrou o jornal que se encontrava diante de si e lançou-o para a cesta de papéis. Em cima da secretária restavam apenas os fragmentos da sua correspondência aberta, num lado, e a carta da Dr.a Hayden, noutro.

     Pegou no fone e manteve-o imóvel diante de si. Seu primeiro pensamento foi telefonar à mãe e dizer que teria, se quisesse, de tomar um táxi para se dirigir ao consultório desse maldito médico, amanhã. Porém, chegou à conclusão de que o telefonema para a mãe poderia esperar. Em vez dele, pediria a Gale que ligasse para Colorado Springs.

     Aguardou, absolutamente tranqüilo, gozando estes momentos de espera.

     Quando ouviu a voz da irmã, sentiu prazer em notar que era estridente, aguda, como a da mãe.

     - Dora? Fala o Orville.

     - O que está havendo, para você telefonar ao meio do dia? A que se deve esta grande surpresa? Mamãe está bem?

     Não fez caso do que se seguiu.

     - A grande surpresa é esta, Dora... Vou passar fora o verão... no Sul do Pacífico... a fim de colaborar num estudo da Dr.a Maud Hayden. Desejei que fosse a primeira a saber... de modo que não se queixasse depois de que dispunha de pouco tempo para se preparar... quando tiver de vir buscar mamãe.

     - Orville, você está...

     - Estou de partida, Dora, e você de regresso, você e o Vernon. Bon voyage, Dora, e um feliz Dia das Mães.

     Pousou o fone no descanso e o pequeno grito da irmã morreu na garganta do telefone.

     O coração doía-lhe; mas agora, por fim, podia sorrir.

      

     Depois de ter arquivado as cópias das cartas dirigidas ao Dr. Orville Pence, ao Dr. Walter Zegner, ao Dr. Sam Karpowicz, à Dr.a Rachel DeJong, e de ter passado os elementos recebidos nesse mesmo dia, Claire Hayden, acompanhada por Maud, desceu as escadas a fim de comer um almoço ligeiro com Marc na cozinha. Depois, Marc voltou às suas aulas e Claire e Maud subiram uma vez mais ao estúdio.

     Agora, à uma e cinqüenta e cinco da. tarde, Claire sentou-se à mesa da máquina de escrever, que se encontrava ao lado da sua pequena secretária, e começou a transcrever, das notas estenografadas, uma carta para o professor Easterday, sobre problemas correntes, que Maud ditara mais cedo. Quando chegou a um parágrafo deteve-se, desabotoou o suéter, tirou os sapatos de salto baixo e inclinou-se sobre a, secretária a fim de tirar um cigarro da caixa. Ao acendê-lo, viu Maud no sofá, absorvida na leitura, e tomando por vezes notas, de Os ültimos Selvagens, de Radiguet.

     Surpreendida com esta capacidade de Maud para se concentrar, Claire voltou a seu trabalho. Apertava uma tecla quando o telefone, atrás da máquina de escrever, retiniu. Pegou o fone e respondeu. Era uma chamada interurbana.

     Escutou, e depois disse:

     - Um momento, por favor. Vou chamá-la... Maud, telefonam de Los Angeles. Cyrus Hackfeld.

     Maud, como se impelida por uma mola, ergueu-se do sofá.

     - Oh, querida, espero que não tenha surgido algum contratempo em relação ao jantar desta noite.

     Claire passou o fone e sua cadeira a Maud, e atravessou a sala, fumando, ouvindo.

     - Sr. Hackfeld... Como está? - O tom de Maud exprimia uma vaga réstia de angústia. - Espero que nada...

     A voz extinguiu-se e ela escutou, atenta,

     - Bem, sinto muito prazer em que venha... Às oito, sim, é a melhor hora.

     Escutou de novo.

     - Referiu-se a Rex Garrity? Não, nunca tive esse prazer, mas, decerto, já ouvi falar dele, como toda a gente, aliás... com todos aqueles livros...

     À menção do nome de Garrity, Claire, que se achava agora junto do sofá, concentrou-se mais. Tanto ela como Maud escutavam com grande atenção.

     Maud falava.

     - É isso que o preocupa? Ora, não necessitava de ter telefonado por tão pouca coisa. Decerto que pode vir. Dar-nos-á muito prazer tê-lo conosco, acredite. Diga-lhe que o jantar não é de cerimônia... Estilo polinésio. - Riu, esperou, e depois volveu: - A Sra. Hackfeld acompanhá-lo-á, claro. Terei muito gosto em tornar a vê-la. Não se esqueça de dizer que os Loomis também vêm. Penso que gosta deles... Até logo, Sr. Hackfeld. Estamos ansiosos para recebê-los em nossa casa. Adeus.

     Depois de ter pousado o fone no descanso, Maud sentou-se na cadeira giratória para um intervalo de meditação. Porém, apercebendo-se da curiosidade de Claire, ergueu-se.

     - Ele desejava saber se podia trazer um convidado. Rex Garrity estava no seu gabinete, e como tivesse mencionado as Três Sereias, Garrity mostrou interesse em vir. - Fez uma pausa. - Sabe quem é Rex...

     - Lê-lo é detestá-lo - volveu Claire alegremente. - Passei umas férias de verão, quando estava no colégio, lendo todas as suas obras. Pensei então que ele era a figura mais romântica do momento. Quando fui para a universidade tive de reler parte dessas obras, a fim de me preparar para um exame, e a meio vi-me obrigada a mandar buscar Dramamine.

     - Para que serve isso?

     - Para combater a náusea provocada pelo movimento. Oh, aqueles pavorosos atos de heroísmo, estúpidos, teatrais. No Rasto da Aventura - a travessia a nado do canal de Suez, a escalada de Ixtacchihuatl, a Dama Adormecida... tudo para lhe dizer que a amava..., uma noite na tumba do Rei Tut... E os outros, Na Pegada de Aníbal, Seguindo os Passos de Marco Polo, Seguindo a Sombra de Ponce de Léon, Em Vôo com Lord Byron... Que fancaria... Demais, com aquele estilo de folhetim barato, cercado por uma floresta de pontos de exclamação...

     Maud encolheu os ombros.

     - Suponho que tem lugar...

     - No lixo.

     - Mas vendem-se aos milhares.

     - É demasiado objetiva quando se trata de pessoas - volveu Claire. - Ele e o resto desses românticos de meia tigela corromperam uma geração com mentiras. Ocultou a verdade acerca das realidades do mundo em que vivemos. E falo como uma romântica, bem sabe.

     Maud hesitou.

     - Li poucos dos seus livros, admito, mas os que li... Em resumo, concordo com você. Todavia, ele pode ser um conviva perfeitamente agradável ao jantar.

     - Decerto, Maud, dou-lhe também uma oportunidade. Pensativa, Maud dirigiu-se para o sofá.

     - Lealmente, preocupa-me apenas o seguinte: terei dificuldade em falar a sós com Cyrus Hackfeld, com este Garrity aqui... e com Lisa Hackfeld também. Não posso contar com os Loomis, para distraí-los.

     - Pode contar com Marc e comigo - disse Claire. - Afaste-se com Hackfeld, depois do jantar, que farei o possível por entreter o nosso autor de livros de viagens e a Lisa Hackfeld. De fato, pouco me preocupa Rex Garrity. Estou certa de que nada lhe dá mais prazer do que falar de seus antigos triunfos. - Fitou Maud. - Lisa Hackfeld é quem me causa mais apreensões. Não sei se o Rex será capaz de ligar bem com ela. A única referência que tenho de Lisa, e esta feita por você, é que ela é frívola.

     - Frívola? Disse isso?

     - Pensei...

     - Talvez tivesse dito. Bem, não passa contudo de uma primeira impressão. Fui injusta. A verdade é que não a conheço; porém, desejava conhecê-la agora.

     Até este momento-, Claire não compreendeu a importância que Maud atribuía ao jantar. De certo modo, acreditara que, se o vultoso subsídio que Maud desejava era uma coisa tão crucial, ela poderia ter-se avistado com Hackfeld no escritório deste. No entanto, apercebia-se agora de que a sogra não desejara discutir o subsídio num ambiente comercial, onde Hackfeld era senhor absoluto e costumava dizer não. Maud quisera debater o caso depois do jantar, entre um fino conhaque, numa atmosfera suave, agradável, onde a áspera palavra “não” estaria deslocada. Áo compreender isto agora, e o significado de um subsídio substancial, Claire decidiu mitigar as inquietações da sogra.

     - Acho que não nos devemos preocupar com o encontro desta noite - disse Claire com firmeza. - Os ricos, em geral, não fazem aquilo que não desejam fazer. Se a Sra. Hackfeld não estivesse interessada em você, Maud, e no projeto, não se daria ao trabalho de vir aqui esta noite. Eis o que penso. Pode deixá-la, e ao Garrity, ao cuidado de Marc, com uma certa assistência da minha parte. Talvez que, no momento em que o jantar terminar, já tenhamos conseguido conquistar Lisa Hackfeld... para depois retê-la.

      

     As cinco e dez da tarde, Lisa Hackfeld fez volta com o seu Continental branco na aléia que conduzia à vasta mansão de dois andares em Bellagio Road, Bel-Air, e estacionou o carro na garagem.

     Fez soar duas vezes a buzina para que Bretta, a sua criada pessoal, viesse buscar os diversos pacotes de I. Magnin que estavam colocados no assento de couro ao lado do volante; depois, abandonou o carro e, com ar fatigado, entrou em casa. No vestíbulo, tirou o lenço de seda que lhe tinha protegido o cabelo louro, deixou-o cair sobre um banco, estilo francês, Diretório, despiu o casaco comprido de pele de leopardo e, quase arrastando-o, dirigiu-se para a espaçosa sala de estar, onde o lançou no braço da poltrona mais próxima. Em seguida, passou, com indiferença, os dedos pela correspondência que se encontrava sobre a prateleira por cima da lareira, aproximou-se da mesa de café e folheou, sem interesse, o novo número de Harper's Bazaar. Por fim, dirigiu-se para o sofá e deixou-se tombar sobre as fofas almofadas, esperando com impaciência que Averil, o mordomo, aparecesse.

     Meio minuto depois, Averil surgiu com o duplo martini seco numa pequena bandeja revestida de laça.

     - Boa tarde, minha senhora. Não houve telefonemas.

     - Obrigada, Averil. - Pegou no copo. - Precisamente o que o médico ordenou. - Ele dirigiu-se para a porta, enquanto Lisa sorvia a bebida fresca. - Traz mais um dentro de quinze minutos - tornou ela -, e diz à Bretta que me prepare o banho.

     - Sim, minha senhora.

     Depois de o mordomo ter saído, ela bebeu, de um trago, metade do martini, fazendo uma careta após ter sentido o picante da bebida - tão parecido com o dos sais aromáticos -, acolhendo em seguida com agrado a invasão do líquido através dos membros. Era demasiado cedo para que a fizesse sentir-se melhor. Devia dar tempo à poção. Fez girar o copo entre os dedos, hipnotizada pelo reflexo da azeitona, e pousou-o depois em cima da mesa, diante dela.

     Inclinou-se para a frente, e, com os cotovelos espetados sobre os joelhos, censurou silenciosamente o martini por este não ter a magia suficiente para a curar.

     Não existia tal magia sobre a Terra, sabia, e, com as mãos colocadas sobre as têmporas, para que não pudessem ver seus olhos, começou a chorar. “Oh Senhor, oh Impostor”, pareciam dizer suas lágrimas, “não me disseste que tudo seria assim, não me avisaste de que tudo isto aconteceria. Este é o último dia da vida, e amanhã começará a longa, lenta e torturante descida aos limbos do esquecimento. “ No dia seguinte, às nove e três da manhã, iniciaria o quadragésimo ano da sua existência, e, rapidamente, muito rapidamente, ver-se-ia ante o pesadelo dos cinqüenta, dos sessenta, do fim. Eis no que' pensava Lisa. O dia de hoje tinha sido desperdiçado, compreendia ela, pois, não importa onde tentasse esconder, proteger, o último dia dos seus trinta e nove anos, descobrira que o Velho estava ali, impelindo-a com o cotovelo, com um sorriso na boca sem dentes, e que esperaria em cada Samarra.

     Compreendera, a partir do momento em que o sol filtrado tocara suas pálpebras, às dez horas da manhã, que o dia estava condenado, e que ela estava condenada, e que jamais tornaria a ser jovem. E compreendera o motivo por que, depois de ter despertado completamente e de a água do chuveiro tombar sobre o seu corpo, começara a pensar não no dia presente mas em todos os dias passados, desde a memória mais longínqua.

     Pensara na sua infância em Omaha, onde se chamara Lisa Johnson e onde o pai fora proprietário de uma loja de ferragens, perto da Union Stock Yards. Encantara-a ser a mais linda pequena da escola primária, a moça mais popular do colégio, a mais jovem atriz que jamais desempenhara um primeiro papel no Teatro da Comunidade de Omaha. Fora, com pouca aprendizagem, a melhor e a mais atraente cantora e dançarina da cidade. Muito naturalmente, partira para Hollywood - com uma amiga que contava também pouco mais de vinte anos - pronta a aceitar imediatamente o estrelato.

     Surpreendera-a o fato de, uma vez que fora a melhor e a mais atraente cantora e dançarina de Omaha, não atingir a celebridade em Hollywood, mas depressa verificou que em Hollywood vegetavam tantas com iguais talentos. Levara uma vida gregária, fizera muitos amigos, e um deles, um agente, arranjara-lhe trabalho como corista em quatro deslumbrantes comédias musicais produzidas pelos estúdios mais importantes. Isto a nada a conduzira. Depois, gravara algumas canções para programas radiofônicos comerciais e participara do show de um dos clubes noturnos menos seletos. Gastara uma boa parte do dinheiro ganho tentando aprender a representar num pequeno teatro de La Brea Avenue, e fora a este teatro, nos primeiros dias do pós-guerra, depois de ter sido desmobilizado como oficial de abastecimentos, que Cyrus Hackfeld viera como espectador. Vira-a e apaixonara-se por ela, e conseguira, habilmente, ser-lhe apresentado. Embora fosse quinze anos mais velho do que Lisa, Cyrus era mais jovem do que os jovens com quem ela saía. Era mais ativo, mais dinâmico, mais próspero. Um ano depois casara com ele, e sentira-se feliz, segura, rica.

     Recordara tudo isto sob o chuveiro e ficara surpreendida ao verificar a rapidez com que se tinham escoado os seus dezessete anos de vida de casada. Durante estes anos, a única sobrevivência da sua carreira fora o interesse que sempre manifestara pela dança. Continuara esporadicamente com as lições e depois cada vez com mais irregularidade quando o filho, Merril, que tinha as suas maneiras e não a energia impulsionadora do pai, entrara para uma escola secundária do Arizona. E ei-la agora, coisa incrível, apenas com um dia entre si e os quarenta anos.

     Durante toda a manhã tentara encarar o fato com filosofia. Pensara que os calendários constituíam, afinal, fraudes inventadas pelos homens, sendo, portanto, arbitrários. Se os calendários e os relógios não tivessem sido inventados, se não se contassem os movimentos de translação da Lua, não se conheceria uma idade específica, ser-se-ia sempre jovem. Como, num dia apenas, se poderia passar de jovem a velho? Era uma tolice falaz.

     Todavia, apesar de pensar profundamente no caso, não se sentira mais tranqüila. Primeiro, recordara o passado, o que toda a gente dizia constituir um sinal de maturidade. Depois, pensara em Merril e compreendera que não se podia ter um filho daquela idade e manter-se ainda assim jovem.

     Em seguida, pensara em Cyrus, lembrando-se de que ele, outrora, fora apenas gordo e que era agora um paquiderme, que outrora tivera apenas uma pequena fábrica e agora possuía trinta e três (e a sua Fundação; as fundações eram criadas por velhos ricos, e não por jovens ambiciosos; mesmo que esta Fundação constituísse, além de uma distração, um ardil para evitar os impostos, representava uma passagem de muitos anos). Por fim, pensara em si própria.

     Noutros tempos seu cabelo fora de um louro natural, como o do linho, mas agora não fazia idéia do que era realmente, após uma década de loções e tinturas. O resto do corpo (se quisesse mostrar-se honesta para consigo mesma) modificara-se gradualmente de maneira que o rosto da mais linda moça de Omaha era agora o de uma mulher fanada, depois de exposto ao sol de demasiados anos. Tinha as faces mais arredondadas, carnudas, vincos na testa e linhas sob os olhos grandes e, aqui e ali, sulcos a que não queria chamar rugas. A garganta e as mãos eram o pior, pois não se tinham mantido retesadas e lisas. E o corpo, que já não tinha forma, parecia um O, denunciava a obesidade e eclipsava as curvas, tornava-se cada vez mais uniforme, embora a obesidade não fosse, felizmente, ainda muito pronunciada. Contudo, apesar da cilada da natureza, a essência que residia no seu interior não sucumbira aos anos. Uma certa centelha de sabedoria, adquirida nas reuniões mensais do Fórum Cultural, sintetizava seus sentimentos. Provinha de um desses dramaturgos ingleses que disfarçavam a verdade na comédia. Provavelmente, muito provavelmente, Oscar Wilde. Que exprimia essa sabedoria? Sim: a tragédia da velhice não reside no fato de se ser velho, mas de se ser jovem. Sim!

     Era esta a manhã execrável.

     Estava-se agora no fim da tarde. Lentamente, Lisa bebia seu martini enquanto refletia na derrocada das horas entre o despertar e este momento. Tentara escapar às recordações do passado e aòs espelhos da casa dirigindo-se para Beverly Hills, mantendo-se ocupada, gerando a atividade que a impedisse de pensar profundamente.

     Saboreando o martini, reviveu o princípio da tarde, como se participasse agora mesmo em cada ação e em cada evento, como se cada momento vivido pertencesse ao presente, não representasse somente o passado.

     Voltou ao meio-dia e trinta.

     Combinara encontrar-se à uma hora com Lucy e Vivian, a fim de almoçarem no mais novo restaurante escandinavo de Beverly Hills, O Grande Dinamarquês; porém, ao meio-dia e trinta pensou que podia adiar o encontro se conseguisse fazer que Cyrus almoçasse com ela. Vestia a sua última aquisição, um taílteur ornado verde-jade, que lhe subtraía tanto os quilos como os anos, mas demasiado bonito para desperdiçar com seu próprio sexo.

     Ligou para o marido e foi imediatamente atendida.

     - Lisa?

     - Olá, querido. Senti, de súbito, desejo de lhe telefonar.

     - Apanhou-me no último momento. Preparava-me para me dirigir para o clube, onde fiquei de me encontrar com Rex Garrity.

     - Oh! Quer dizer que tem um compromisso para o almoço?

     - Combinei este encontro há já algum tempo. Ele veio aqui proferir uma conferência e desejou avistar-se comigo, a fim de tratarmos de alguns assuntos sobre a Fundação. O almoço será breve e depois voltaremos aqui para... - Fez uma pausa. - Por que pergunta? Gostaria de se juntar a nós?

     - Não, não. Desejava apenas conversar um momento com você.

     - É possível que você apreciasse a companhia dele. É um ótimo conversador.

     - É muito amável, querido, mas não. De fato, combinei um encontro com a Lucy e a Vi.

     - É pena. Que vai fazer hoje?

     - Bem, este almoço. Depois, o cabeleireiro. Algumas compras. O costume.

     - Belo. Tenho de me apressar. Até logo.

     - Até logo, querido.

     Depois de desligar, dirigiu-se para Beverly Hills. Cyrus fora muito gentil em convidá-la, pensou, em especial no meio de um dia tão ocupado. Mas não tinha paciência para ouvir um escritor daquele gênero, que nunca vira ou lera, e que não tinha desejo de ver ou ler. Quisera estar só com Cyrus, sentada, conversando sobre isto e aquilo, sobre a vida de ambos, talvez. Tinham conversado muito poucas vezes durante todos estes anos, talvez por ele passar o dia falando no seu trabalho, talvez por ela se encontrar muito separada do verdadeiro mundo do marido (ou de qualquer coisa interessante), o que faria que agora nada tivessem que discutir, nada, isto é, além de Merryl, dos amigos, das novidades.

     Lucy e Vivian encontravam-se já no reservado quando ela entrou em O Grande Dinamarquês. Admiraram a sua indumentária. Lisa admirou a delas. Consumiram algum tempo com os aperitivos e escolhendo o menu. Tagarelaram acerca de uma amiga comum que se separara do marido e admitiram a possibilidade de haver outro homem metido no caso. Discutiram o desempenho de uma peça representada por uma companhia itinerante e que tinham visto em Baltimore. Falaram do último best-seller e discorreram sobre seu provável conteúdo autobiográfico, uma vez que suspeitavam que a vida da heroína era baseada na de uma escandalosa atriz de cinema. Falaram sobre o novo penteado da Primeira Dama. Quando o primeiro prato foi servido, Lucy e Vivian envolveram-se numa conversa interminável acerca das filhas. Lisa não participou dela e em dado momento estava cheia de tédio. As conversas sobre as crianças em pleno crescimento deprimiam-na; era como se fizesse o testamento. Desejava apenas falar de um assunto: o seu aniversário, mas as amigas não compreendiam ainda esta urgência, pois Lucy tinjia trinta e seis anos e Vivian, trinta e um. O tempo achava-se ainda a seu favor.

     Quando faltavam dez minutos para as duas e meia, hora que combinara comparecer ao cabeleireiro, sentiu muita satisfação em deixar a sua parte na conta e escapar-se. Podia ter ido a pé, porém, preferiu percorrer no seu Continental as poucas centenas de metros até Rodeo Drive e estacionar o carro no parque principal ao lado do Salão de Beleza Bertrand.

     Depois de entrar, deixou o casaco com a recepcionista, recebeu o robe e dirigiu-se para a sala de toalete privada. Após tirar o vestido e envolver-se no robe dirigiu-se para o salão de cabeleireiro, onde a jovem empregada a esperava. No caminho, retribuiu o gentil cumprimento que Bertrand lhe fez em francês e o aceno de Tina Guilford, que se encontrava sob o secador.

     Sentou-se na cadeira giratória e inclinou-se sobre a bacia para uma rápida lavagem da cabeça, seguida de loção. Sentiu o xampu e a água refrescantes, o que fez com que se descontraísse. O que mais lhe agradava no salão era o ritual da preservação e do realce da beleza. Este produzia uma agradável sensação de euforia que escoava toda a angústia do seu espírito. Tornava-se um objeto que não necessitava de tomar decisões. Tinha apenas um dever, estar ali, ser uma presença, existir, enquanto mãos hábeis cuidavam dela. Por vezes chegava a sentir-se uma espécie de... de Madame Pompadour.

     Automaticamente, Lisa entrou no cubículo particular, recebeu o capacete perfurado e sentiu as madeixas do cabelo puxadas lentamente através dos orifícios. Quando o seu cabelo foi aflorado, cada madeixa colorida e depois apertada, ela estendeu as pernas e ergueu a parte inferior da combinação até à cintura; uma segunda jovem, que trouxera a tina metálica de cera, retirou-lhe as ligas, que fez rolar pelas pernas, e depois os sapatos e as meias. Mirou fixamente a barriga das pernas, bem torneada, e teve prazer em verificar que não a tinham abandonado, como acontecera com a juventude. Preguiçosamente, observou a jovem ajoelhada à medida que esta batia as tiras de cera nas pernas com o instrumento de madeira e depois as puxava com rapidez, removendo pela raiz todos os pêlos que escapavam à vista.

     Depois da extração dos pêlos - as pernas ficaram lisas como mármore -, ela moveu-se ao longo da “linha de montagem”, com um vácuo na mente. Aplicaram-lhe uma segunda loção, mais completa, com a massagem, a lavagem, a escova dura e a toalha felpuda. Em seguida, entregou-se durante quinze minutos às mãos de Bertrand.

     Depois de colocada a rede, instalou-se debaixo, do secador, onde passaria a hora seguinte. Começara a sacudir a depressão da manhã quando viu Tina Guilford, já preparada para sair, aproximando-se dela. Não se importava de falar com Tina, pois, como esta tinha já cinqüenta anos, podia sentir uma certa superioridade sobre ela. Ergueu a mão e desligou o secador.

     - Lisa, querida - dizia, excitada, Tina Guilford -, não lhe quero roubar o tempo mas acabo de tomar conhecimento do mais espantoso milagre de Pasadena. Um médico suíço, que faz cirurgia plástica, abriu um consultório e as moças mostram-se delirantes, absolutamente delirantes. Ele é caro, bastante caro, mas todas dizem que vale a pena. Aplica um novo método descoberto em Zurique. A operação é rápida e passa completamente despercebida. Uma só sessão e acabam-se o queixo e o pescoço flácidos, os sacos sob os olhos... Se quiser que ele a trate do busto, minha querida...

     - Que a faz supor que desejo que me tratem do busto? - perguntou Lisa com um olhar gélido.

     - Ora, minha querida, pensei apenas... toda a gente fala nele... e quando se chega à nossa idade...

     Lisa esteve prestes a dizer: “A nossa idade... o diabo que a carregue; a sua idade, eis o que quer dizer, minha cadela. “ Porém, volveu:

     - Obrigada, Tina. Se alguma vez julgar isso necessário pedir-lhe-ei mais pormenores. Desculpe-me, agora. Preciso de sair daqui.

     Ergueu de novo o braço e pôs o secador a funcionar. As últimas palavras de Tina perderam-se no zumbido produzido pelo secador.

     Quando Tina se afastou o belo estado de espírito de Lisa desapareceu com ela. A impudência da amiga irritara-a. Aquela velha de cinqüenta e tantos ousara colocar-se ao nível de uma jovem de trinta e nove anos. Passado um momento a sua cólera abrandou, cedendo a vez ao desânimo. Tina, compreendia agora, desejava apenas mostrar-se gentil, pretendera ajudá-la, confiadamente. Devem ser já bem evidentes, pensou Lisa, os quarenta devem ser já bem evidentes para toda a gente. Sentia-se agora infeliz e desejosa de fugir deste antro de tagarelice.

     Depois de o cabelo ter secado, de Bertrand ter retirado os rolos e de lhe pentear artisticamente o cabelo, ao mesmo tempo que contava os seus enfadonhos triunfos em Paris, Lisa não conseguiu vestir-se com a rapidez desejada. Passados alguns minutos pagou a conta, distribuiu três generosas gorjetas e dirigiu-se para o carro, perguntando-se que método inventara aquele cirurgião suíço. Talvez dispusesse do derradeiro segredo. Talvez descobrisse também o meio de alcançar o rejuvenescimento interior. Essa cirurgia interior, não importa o que dissera Oscar Wilde, talvez merecesse todas as suas ações e títulos da Bolsa.

     Quando chegou ao carro, lembrou-se de que estava apenas a pouco mais de cem metros da loja de Jill. Há mais de um ano que não visitava esta loja de vestuário desportivo. Necessitava de umas calças justas, das usadas pelas jovens, para a primavera e para o verão, para usar no pátio e na casa de Costa Mesa. Com crescente otimismo em relação ao futuro dirigiu-se para a Jill.

     Esquecera-se de que só detestava a loja quando entrava nela. No momento que atravessava o espesso tapete que conduzia à sala vasta e quadrada dos espelhos, sentia vontade: de se voltar e fugir. Jill Clark, que era a proprietária da loja. mas nunca se encontrava ali, fizera questão de dar um ar de juventude à casa, este bem manifesto na decoração, no mobiliário, nos malditos espelhos, no corte dos shorts, das calças, das roupas de banho, nas empregadas, acima de tudo nas empregadas. Lisa via-as agora reunidas diante de uma coluna conversando. As empregadas eram todas jovens de aparência imaculada, de idades entre os dezessete e os vinte anos. O rosto delas, brilhante, não necessitava de make-up, e todas tinham seios altos e retos, ventres macios, ancas estreitas e traseiros regulares, lisos como uma tábua. Fumavam, usavam blusas de usar no mar, calças justas e sandálias abertas, douradas, e acolhiam os clientes com a arrogância e a insolência próprias da juventude. Eram repugnantes.

     Antes que Lisa pudesse voltar-se para se dirigir para a porta, uma adolescente flexível, de passo ligeiro, aproximou-se dela. Tinha uma chapa que a identificava como “Mavis”. O cabelo era platinado, o rosto estreito, perfeito, o corpomaleável. Confrontando Lisa, o seu olhar condescendente, caridoso, parecia o de uma jovem que tinha por obrigação atender mulheres velhas, fanadas, que procuravam abrigo na neve.

     - Em que posso ser-lhe útil, minha senhora?

     - Gostaria de ver as calças Capri que se encontram na vitrina.

     - As medidas?

     - Pode procurá-las no fichário da casa. Sou a Sra. Cyrus Hackfeld.

     Anunciou o seu nome, em vez de o pronunciar, mas Mavis ficou impassível, como se não o conhecesse. Quando a jovem se dirigiu para o balcão da caixa, Lisa, irritada, encaminhou-se para o cabide das calças.

     Com passo indolente, após um longo intervalo, Mavis voltou com um cartão.

     - As suas últimas medidas foram tiradas há três anos - disse ela significativamente.

     A cólera de Lisa veio à superfície.

     - São as mesmas ainda.

     Mavis procurou no cabide e tirou por fim um par de calças violeta.

     - Deseja vesti-las, Sra. Hakworth?

     - Sim. E o nome é Hackfeld.

     - Hackfeld, não esqueço... Por aqui.

     Trêmula, e por fim só, atrás da cortina, tirou rapidamente o casaco de leopardo, o vestido, a combinação curta e meteu-se nas calças apertadas. Tentou puxar o fecho, mas as calças não obedeceram. Tentou abotoar as calças pela cintura mas alguns centímetros separavam o botão do buraco. Rodou sobre os calcanhares e observou-se ao espelho; viu que as calças eram demasiadamente apertadas, impossivelmente apertadas, mostrando feios bojos nas ancas e nas coxas. Cheia de compaixão por si mesma, Lisa puxou para baixo as calças, esforçando-se por se tirar de dentro delas.

     Ficou de soutien e cinta, e chamou a jovem.

     Momentos depois, Mavis entrou, pachorrenta, fumando.

     - Que tal ficaram, Sra. Hack... Hackfeld?

     - Deu-me umas de tamanho abaixo do meu.

     - Mas não, essas condizem com as medidas indicadas na ficha - volveu Mavis, a picadora, imperturbável.

     Lisa estava consumida pela fúria, devido à contenda com as calças e com a jovem.

     - Bem, diabos as levem, não me servem; traga-me um número maior.

     Mavis sorriu com compaixão para a jovem velha.

     - Sinto muito, Sra. Hackfeld, mas estas são as maiores que temos na loja. A Srta. Jill não manda vir calças com medidas superiores às destas. É do programa dela. Receio que tenha de ir a outro lado procurar umas que sirvam.

     A fúria de Lisa transformara-se em humilhação e dor. Compreendeu que tinha o rosto rubro como o fogo e detestou sua rendição.

     - Muito bem - retorquiu. - Obrigada.

     A jovem saíra e Lisa achava-se de novo só. Vestia-se perplexa. Era a primeira vez que não conseguia encontrar nada que lhe servisse na Jill. Todavia, pensou, enquanto ajustava o casaco, era a primeira vez que ia fazer quarenta anos.

     Deixou apressadamente a loja, os olhos fixos sua frente, mas bem consciente de que as jovens de traseiros lisos como tábuas a observavam divertidas. Ao passar a porta, compreendeu que existia uma coisa contra a qual a riqueza nada podia fazer - a idade. Aquelas estúpidas jovens eram mais ricas do que ela. Adeus, Jill, adeus para sempre, e maldita seja... Um dia verá...

     Como cega, encaminhou-se para o Continental branco, dirigindo-se depois ao Magnin, que era agora a casa mais indicada. Percorreu a loja e obrigou-se a comprar, com constante desinteresse, artigos de toalete e acessórios para a noite. Uma vez de posse daquilo de que não necessitava, saiu pela porta dos fundos, esperou pelo carro, deu uma gorjeta generosa ao porteiro e seguiu em direção de Wilshire Boulevard.

     Ao parar diante de um sinal de trânsito fechado, o relógio recordou-a de que tinha ainda um longo período de lazer entre as quatro e as seis horas, e perguntou-se qual a melhor maneira de o preencher. Por um momento considerou a idéia de continuar pelo Wilshire Boulevard, até ao edifício Hackfeld, a fim de surpreender Cyrus. Porém, depressa abandonou a idéia. Não se encontrava com disposição para enfrentar as empregadas, a recepcionista, as secretárias, mais traseiros lisos como tábuas, as pequenas que tinham herdado os seus bons anos. Elas haviam de se piscar os olhos, de cochichar, após a sua entrada: “Ali vai a Sra. Hackfeld, a velhota do chefe... Como é que ela conseguiu pescá-lo?”

     Em vez de voltar para leste, conduziu o carro na direção oeste. Espreitaria o Clube de Tênis da Costa - ficava no caminho de casa, e ela e Cyrus eram membros efetivos dele - e talvez tomasse um aperitivo e participasse de um jogo de bridge, a fim de matar o tempo. Dez minutos mais tarde, oprimida pelo céu negro, chegou ao Clube de Tênis, abandonou o carro e penetrou na atmosfera da lareira e cabana de montanha do refúgio fechado. Sentira-se aliviada. Transportada até acima pelo cintilante elevador, manobrado pelo próprio usuário, escutou as notas abafadas de Cocktails for Two tocadas por uma orquestra onde predominavam os instrumentos de corda, e não ousou pensar quando dançara pela última vez aquele número. Em cima, o terraço fechado estava, apenas parcialmente cheio; duas mesas estavam ocupadas por velhos que bebiam gim com rum, outra por dois jovens atraentes, publicitários talvez, conversando com ar sisudo, e uma por mulheres com caras familiares, que jogavam bridge.

     Lisa, com um aceno, fez o empregado fardado afastar-se do seu caminho e deteve-se junto da janela contemplando os courts de saibro avermelhado. Devido ao frio, apenas um era utilizado, e, neste, dois jovens corajosos, um rapaz e sua namorada, ambos de calções brancos, jogavam com entusiasmo, correndo vigorosamente, rindo e divertindo-se. Com um suspiro, Lisa voltou-se e dirigiu-se para a mesa de bridge. Os rostos familiares saudaram-na efusivamente, como a alguém da sua classe, e uma das jogadoras ofereceu-lhe o seu lugar. De súbito, Lisa sentiu-se sem vontade alguma de jogar. Declinou polidamente o gentil convite, explicando que subira para ver se Cyrus se encontrava ali e que não podia demorar-se. O empregado trouxera uma cadeira, que ela aceitou.

     Pediu uma limonada, e, durante os quinze minutos que se seguiram, tentou, à medida que chupava pelos canudos coloridos, seguir com atenção o jogo. Procurou imitar os gestos de prazer e de desagrado das jogadoras ante um pequeno cheleme inesperado, mas segura apenas de que os olhos de alguém estavam fixos nela. Lançando um olhar de viés para a parede, pensou que podia ver o mais atraente dos dois publicitários fitando-a. Sentiu um arrepio de excitação, e, embora não tivesse bem a certeza de que era alvo da atenção dele, ergueu um pouco a cabeça para ajeitar o decote e endireitou-se na cadeira para definir o busto; depois cruzou as pernas (o melhor que tinha), a fim de exibir as barrigas bem torneadas, esguias. Mostrava-se mais alegre agora, fazia comentários, dizia pequenos gracejos às outras mulheres acerca do jogo. Ainda sentia os olhos dele fixos nela, e arriscou outro olhar de viés. Sim, mirava-a com seus olhos negros e profundos. Num impulso de audácia, decidiu, temerariamente, retribuir aquele olhar, para ver o que acontecia. Fitou-o, mas não verificou qualquer reação da parte dele. Nesse instante, apercebeu-se de que os olhos de ambos não se encontravam. Desolada, moveu a cabeça, tentando seguir a linha daquele olhar, compreendendo que ele o tinha desviado cerca de dez centímetros dela. Em seguida dirigiu o olhar para o bar. Num dos bancos altos do bar, onde nunca entrara antes, viu a jovem - vinte e cinco anos, não mais - que estivera no court de tênis. Ela parecia rosada, sueca; o tecido fino da sua blusa branca esticava-se contra os seios, e os calções brancos, justos, faziam sobressair os membros musculosos. Bebeu um gole do highball e, em seguida, seus olhos encontraram-se com os do homem que estava do outro lado da sala; sorrindo ironicamente, inclinou-se sobre o copo.

     Lisa sentiu vergonha, além de uma dor pungente no peito: era uma louca, uma jovem-velha louca, que jamais poderia participar = destes divertimentos amorosos; daí por diante seria apenas uma espectadora e uma intrusa. Seu estúpido equívoco fê-la corar, e desejou uma vez mais a única coisa que parecia oferecer-se-lhe: fugir. Momentos mais tarde, abandonou o Clube de Tênis tão flagelada como qualquer dos soldados de Napoleão na retirada de Moscou.

     Ao ouvir tossir discretamente endireitou-se e compreendeu, com espanto, que se achava reclinada no sofá amarelo da sua sala de estar, emergindo do passado próximo para o presente, e que o impecável Averil se encontrava diante dela com um segundo martini seco duplo.

     O copo de coquetel estava vazio na sua mão. Com indolência, trocou-o pelo que o mordomo acabara de trazer.

     - Obrigada, Averil - disse -, é tudo por agora.

     Depois de Averil ter saído, bebeu, mas sem resultado. Não se sentia flutuar de euforia. Em vez disso, o martini fez com que se sentisse mole, pegajosa, saturada de umidade, como um jornal ensopado e amarfanhado.

     Despertou-a o ruído produzido por uma chave abrindo a porta da frente. Segundos depois, tirando o sobretudo, Cyrus surgiu na sala de estar. Alardeava ainda vivacidade, dinamismo, apesar de um dia de trabalho estafante. Fazendo mover com vigor sua sólida pessoa em direção a Lisa, inclinou-se e beijou-a na testa.

     - Como está, querida? - perguntou ele. - Estou surpreendido por vê-la ainda aqui embaixo. Esperava que se estivesse vestindo.

     “Vestindo-me”, pensou. “Decerto, envolvendo-me na minha mortalha. “

     - Vestindo-me? Para quê?

     - Para quê? - Cyrus tinha uma expressão grave. - Para irmos a Santa Bárbara. Vamos jantar com Maud Hayden.

     - Sim? - disse com ar estúpido. - Não me recordo...

     - Que diabo, Lisa, sabe-o há duas semanas. Mencionei diversas vezes este fato nos últimos dias.

     - Creio que me esqueci. Tenho ocupado a mente com outras coisas.

     - Bem, apressemo-nos. Rex Garrity insistiu em acompanhar-nos, e não vi mal nenhum nisso. Distrair-nos-á durante as poucas horas do percurso. Estará aqui dentro de trinta ou quarenta minutos... Esperam-nos às oito para jantar.

     - Cyrus, temos de ir? Não me sinto com disposição suficiente. A cabeça começou a doer-me há instantes.

     - Sua dor de cabeça passará. Tome qualquer coisa. Precisa de sair um pouco mais. Essa sua tendência anti-social não fará com que se sinta melhor. Esta é uma noite especial.

     - Que tem ela de especial, com os diabos?

     - Escute, querida, não posso recusar o convite de Maud Hayden. Maud é uma das maiores antropólogas do mundo. Faz muita questão em nos receber em sua casa. Trata-se de uma espécie de celebração. Descobriu algumas ilhas tropicais... Recorda-se? Falei-lhe disso há duas ou três semanas. Chamam-lhe as Três Sereias, e ficam no sul do Pacífico. Vai partir para lá com um grupo constituído por estrelas, e a nossa Fundação apóia-a com um subsídio. Constituirá um belo triunfo para mim o momento em que ela ler a sua comunicação perante a Liga Antropológica Americana. Esses tipos da Ford e da Carnegie aperceber-se-ão então da existência de Hackfeld. E o livro que escrever será decerto um best-seller; ele, também...

     - Cyrus, por favor, não estou ainda...

     Averil trouxera um uísque, e Cyrus bebia-o como se fosse água; engolia o líquido, engasgava-se, tossia, e tentava falar entre acessos de tosse.

     - Além disso, tenho aguardado, desde há semanas, esta noite com mais interesse do que qualquer outra coisa. Maud é uma grande escritora. Faz que Xerazade pareça uma enfadonha tímida e gagá. Supus que se interessaria tanto como eu pela tribo das Três Sereias, com todos aqueles estratagemas sexuais... como a Cabana de Auxílio Social, que parece resolver todos os problemas da gente casada... e o festival anual, aberto a todos, que se realiza durante toda uma semana, em junho, quando... Lisa deu por si sentada no sofá.

     - Quê?! - exclamou. - De que está você falando? Inventou tudo isso?

     - Lisa, por amor de Deus; dei-lhe o extrato que Maud me enviou, o esboço dessa cultura e dos seus costumes. Dei-lhe, para ler, essas páginas datilografadas. Nem ao menos passou os olhos por elas?

     - Não sei... Creio que não o fiz. Não me ocorreu que se tratasse de uma coisa interessante. Supus que fosse um desses folhetos sociológicos enfadonhos...

     - Enfadonhos? É espantoso. O que todos esses nativos semibrancos, semipolinésios provavelmente praticam faz que a Casa de Todas as Nações pareça um lugar tão sério como o Palácio de Buckingham.

     - É verdade... o que está dizendo... sobre a Cabana de Auxílio...

     - Maud pensa que sim. Suas fontes de informação são dignas de crédito. Ela, com o grupo que organizou, vai partir para lá a fim de, durante seis semanas, em junho e em julho, se certificar. Falaremos acerca de tudo aquilo esta noite. Eis a razão do convite para jantar. - Passou a mão por sua pequena cara rosada. - Tenho de me barbear, de me preparar para sairmos. - Dirigiu o corpo sólido para a porta, mas de súbito voltou-se para a mulher. - Querida - disse -, se realmente tem essa maldita dor de cabeça, então não insisto que...

     Porém, Lisa achava-se já de pé, quase tão enérgica como o marido.

     - Não... não se preocupe. Começo a sentir-me melhor. Seria um crime não aproveitar a oportunidade de passar esta noite na companhia de Maud Hayden. Tem muita razão. Vou tomar banho e estarei pronta dentro de alguns minutos.

     Cyrus Hackfeld abriu-se num sorriso.

     - ótimo. Você é uma bela moça.

     Lisa curvou o braço no do marido para agradecer este “bela moça”, e depois perguntou-se o que seria ter-se quarenta anos nas Três Sereias. Acompanhada por Cyrus, subiu as escadas para se preparar para sua última noite como jovem...

    

     O jantar em casa dos Haydens fora servido ás nove e quinze. Agora, no momento em que Suzu distribuía com parcimônia tortas de cerejas, que constituíam a sobremesa, faltavam vinte para as onze, como Claire notou.

     O repasto decorrera maravilhosamente bem, sentiu Claire. A sopa de ovos chinesa fora consumida até à última colher. O frango à Teriyaki, guarnecido com arroz, as ervilhas chinesas com castanhas, o sake quente, servido em chávenas brancas miniaturais, tinham sido bem acolhidos, e todos, exceto os Loomis, haviam aceitado segundas doses. Mesmo Rex-Garrity, que se considerava um gourmet internacional, elogiara Maud pela refeição, admitindo que não saboreara com tanto prazer uma mistura de pratos chineses e japoneses desde que visitara Xangai em 1940, quando nacionais de ambas as nações ocupavam a cidade.

     A própria conversa fora interessante em todos os aspectos, afetuosa e surpreendentemente estimulante; Claire sentira verdadeira satisfação em participar nela, como se os temas fossem novos. No princípio do jantar, durante os aperitivos e os hors d'oeuvres - Suzu fizera Rumaki e folhados de queijo -, travara-se uma breve mas acesa discussão, uma justa verbal, entre Garrity e Maud. Eram os mais viajados do grupo, ambos cheios de experiência e de fatos, ambos habituados a ser escutados; tinham competido pelo domínio da noite, lutando como gaios, ripostando aos golpes que se desferiam, defendendo-se, opondo um golpe a outro. Garrity parecera desejoso de impressionar tanto Hackfeld como Maud com a sua mundanidade e a sua importância. Maud decidira transformar esta noite numa noite Hayden e fazer também com que Hackfeld sentisse orgulho em apoiar a expedição às Três Sereias. Desde o momento em que Suzu anunciara o jantar, Garrity, já um pouco tocado pelos aperitivos, confundido pela terminologia antropológica de Maud, e sentindo que os convivas estavam mais interessados nela do que nele, baixara a lança e retirara-se do combate.

     Durante todo o jantar, Maud tivera o campo à sua disposição, e a maneira como alardeara esta vitória e exibira seu novo troféu fora bem evidente. Exceto algumas tentativas para salvar o orgulho, confirmando, de uma autoridade para outra, algumas das observações de Maud relativas às suas longas viagens, Garrity dedicara-se inteiramente à comida. Duas ou três vezes, retivera a atenção de Marc, que parecera absorvido por ele.

     Claire sentiu certa satisfação em verificar que Garrity era exatamente o que esperava, embora um pouco mais patético e tolo. Portanto, não via motivo para surpresa. Para ela, a verdadeira surpresa da noite fora Lisa Hackfeld. Com exceção da sua toalete, nada havia de frívolo em Lisa. Ela mostrara-se gentil, desafetada, curiosa. Viera preparada para se lançar aos pés de Maud e aproximara-se da anfitrioa sem qualquer presunção. Pouco sabia de antropologia, de trabalho de campo, da Polinésia, e admitiu esse fato, mas desejava saber mais, saber tudo sem demora. Durante o jantar, interrogara firmemente Maud, em especial acerca das Três Sereias, para total deleite de Maud e tranqüilo prazer de Hackfeld.

     Agora, à medida que comia com prazer a sua sobremesa - sentia-se demasiado nervosa durante toda a noite para comer convenientemente - Claire estudava com discrição os convidados. Quando de tarde colocara os cartões que indicavam o lugar de cada um à mesa, Claire perguntara-se se seria ou não melhor que a disposição fosse mulher-homem-mulher. Maud, porém, não dera a mínima importância a isto. Desejava que os convidados se sentassem, por motivos táticos, nos lugares que mais lhe conviessem. Maud sentou-se à cabeceira da mesa, com Cyrus Hackfeld à sua direita, e Lisa Hackfeld à sua esquerda... e neste momento previa as condições de vida no campo quando o grupo se instalasse nas Três Sereias.

     Ao lado de Lisa, cortando a sua torta de cerejas, sentava-se o presidente Loomis, do Raynor College, que se parecia um tanto com o achatado Woodrow Wilson, e em frente dele, cortando também a sua torta de cerejas, achava-se a Sra. Loomis, que não se parecia com ninguém. No momento em que tomavam o segundo aperitivo, e depois durante a sopa, Loomis tentara exprimir sua opinião sobre o contraste entre a instrução universitária na América e na Rússia, isto a propósito de nada, e verificara que ninguém, com exceção de Claire, lhe prestava a mínima atenção. Em vista deste fato, tomara a atitude de um ouvinte prudente, à semelhança do que fizera a esposa. Agora, mantinham-se absolutamente calados, mastigando a sobremesa, como dois distintos pilares de sal. Defronte de Garrity sentava-se Claire, que tinha a seu lado o presidente Loomis; no outro lado, no fundo da mesa, Marc achava-se um pouco inclinado sobre o autor de livros de viagem, fazendo gestos de aprovação com a cabeça à medida que o escutava, constituindo as palavras deste um murmúrio indistinto para Claire.

     Uma vez que todos se encontravam ocupados, Claire examinou Rex Garrity com mais rigor. Fizera algumas conjecturas acerca dele antes dessa noite, mas agora sentia que sabia bastante mais, talvez tudo o que se podia saber. Ao observá-lo, atentamente debruçado sobre Marc, via que ele devia ter sido outrora um homem muito belo, tão belo como um grego antigo herói das Olimpíadas. No alvor da vida, um quarto de século antes, devia ter sido um jovem gracioso e esbelto, de cabelo louro ondulado, de rosto fino e anguloso, gestos curiosamente efeminados realçando um corpo robusto e flexível. O tempo fora o seu pior inimigo, e de diversas maneiras, suspeitava Claire. O cabelo era ainda louro, ainda ondulado, mas parecia rijo como palha e artificial como um topete. O rosto travara mil batalhas dietéticas, e fora, provavelmente, mais cheio e mais fino muitas vezes; agora, assolavam-no de tal modo os prazeres e o álcool que a carne pendia, frouxa, e a pele mostrava leves manchas vermelhas e veias salientes. Quanto ao corpo, este constituía uma desesperada reminiscência da esbelteza da velha Yale, do antigc best-seller, como a de na-pegada-de-Aníbal e a de seguindo--os-passos-de-Marco-Polo, os ombros largos e as ancas estreitas, o ventre singularmente saliente, como se fosse a sua única parte anatômica que se tivesse submetido ao tempo.

     Claire examinava-o impiedosamente; calculou que ei teria entre quarenta e oito a cinqüenta anos, e estava quase certa de que estes eram seus maus anos. Pouco depois da sua chegada, ouvira por acaso uma pequena conversa entre ele e Hackfeld. Dela depreendera que Garrity procurara neste mesmo dia Hackfeld, a fim de solicitar um subsídio da Fundação destinado à edição de um livro de viagens, e que Hackfeld o recusara, alegando que o conselho de administração não dispensava fundos para trabalhos não científicos, para obras de cordel. Claire suspeitava de que o pior, para Garrity, era que o mundo o ultrapassara, que ele mantinha ainda o mesmo antigo repertório, e que o mundo não estava já interessado no ator que deixara para trás.

     Durante os anos trinta, Garrity tivera público. Era o tempo entre as duas guerras, existiam ainda restos da loucura dos anos vinte e havia a Grande Depressão a que os homens desejavam furtar-se tomando outras identidades Garrity fornecera-lhes uma identidade romântica, tornara possível a fuga. Corporizara, na sua pessoa, todos os sonhos e anseios por lugares longínquos e aventuras exóticas. Seguira o rastro dos heróis lendários evitando a morte, salvando donzelas seqüestradas, descobrindo ruínas perdidas, escalando majestosas montanhas, divagando nas sombras e ao luar dos Taj Mahals da Terra, escrevera e proferira conferências sobre estas escapadas juvenis, e milhões de pessoas pagaram para abandonar a sua caveira e a sua pele, identificando-se com ele.

     Foram os anos quarenta que deterioraram Garrity e os anos cinqüenta que o destruíram. Nos anos quarenta os filhos dos que o tinham escutado haviam sido forçados a abandonar a sua existência insular para partirem para o mundo, para as velhas cidades da França, da Itália, da Alemanha, para as areias da África, para as selvas do Pacífico, e tinham visto estes lugares com os olhos céticos da realidade. Haviam estado onde Garrity estivera, compreendendo que as suas aventuras românticas não passavam de mentiras. Sabiam mais do que Garrity sobre esses lugares longínquos, conheciam a verdade, e manifestavam a sua indiferença por ele, apesar da permanente credulidade dos pais, que mantinham suas ilusões acerca do que Garrity lhes impingira. Nos anos cinqüenta, os antigos ouvintes começaram a desaparecer e os novos ouvintes manifestaram o seu interesse por outras vozes. Os novos ouvintes, e seus herdeiros, não mostravam inclinação pela leitura de livros de aventuras (presumindo que ainda os havia), pois durante o tempo que desperdiçavam lendo um livro de Garrity podiam visitar, em pessoa, transportados em aviões a jato, as ruínas de Angkor, a ilha de Rodes e a Torre de Pisa. O mundo tornara-se de súbito muito pequeno, e todo ele acessível, fazendo que o interesse pelos romances de viagens declinasse. Uma vez que se podia ver com os próprios olhos o interior da caixa do mágico, à medida que ele serrava a jovem em duas, não existia mais curiosidade em ver o mágico. Uma guerra em escala universal e o turbojato constituíram a sepultura de Garrity.

     As suas divagações fizeram que Claire quase se compadecesse desta relíquia. Ele publicava ainda livros, mas ninguém os comprava. Continuava a proferir conferências, mas poucos o iam escutar. Comercializava ainda seu nome, mas raros com menos de cinqüenta anos o recordavam ou lhe prestavam atenção. O ídolo de outros tempos fora abandonado mas não o queria acreditar. Carregava o passado consigo sempre que se encontrava acordado, mantendo-o vivo com álcool, e alimentava projetos fantasistas. Gesticulava agora, ao mesmo tempo que falava, em murmúrios, para Marc, e os gestos eram ainda mais efeminados do que antes. Numa revelação súbita, Claire viu o que estivera dissimulado durante longo tempo mas que agora, devido à incontrolável angústia produzida pelo malogro, se denunciava mais vezes. Ele era um homossexual, sempre o fora; porém, antes disto seus romances viris imaginários tinham-se constituído numa camuflagem. Esta noite, sem ela, podia distinguir-se a verdade nua e crua.

     Imediatamente Claire fez seu juízo sobre Garrity como homossexual. Não tinha sentimentos negativos em relação aos invertidos. Os poucos que conhecera durante sua ainda curta vida pareceram-lhe mais talentosos, mais inteligentes e sensíveis do que os homens normais. Supunha também que se sentia mais à vontade com eles, pois eram menos ameaçadores. Não, não foi a óbvia inversão de Garrity que levou Claire a esquecer a aversão que sentia por ele e a substituí-la pela compaixão. Era a ficção do seu ser que ocasionava esta piedade.

     Observando-o do seu lugar, do outro lado da mesa, ela abandonara a compreensão pelo seu primeiro sentimento de desaprovação. Reclinou-se na cadeira, levou o guardanapo aos lábios e perguntou-se de novo por que estaria Marc tão absorvido na conversa deste semi-homem blefe que apenas notícias de jornais já amarelecidos e elogios ainda lembrados mantinham ereto.

     Voltou a cabeça e ergueu os olhos da mesa, à medida que os pratos da sobremesa eram retirados, cruzando-os com os de Maud. Quase imperceptivelmente, Maud fez um gesto que traduzia confirmação e Claire baixou a cabeça para manifestar que compreendera.

     - Bem - disse Maud em voz alta -, penso que estaremos melhor no living. Claire, você...

     A moça, com um leve gesto de assistência da parte do presidente Loomis, levantou-se.

     - Sim, penso que é uma boa idéia. Sra. Hackfeld... Sra. Loomis... e Marc, desculpe-me, Marc, detesto interromper, mas se trouxesse as bebidas...

     Enquanto isso, os convidados tinham-se erguido. Como um diretor de relações públicas do Adirondacks, Claire tomou a dianteira, introduzindo os Loomis na sala de estar; Marc e Garrity seguiam-nos. Logo que tomou o braço de Lisa Hackfeld, viu, por sobre o ombro, que Cyrus Hackfeld se preparava também para se dirigir para a sala de estar. Mas Maud, que se achara até então conversando com ele, acrescentou alguma coisa mais, e Hackfeld lançou-lhe um olhar interrogativo, fez com a cabeça um gesto de aprovação e acompanhou-a até à ampla janela da sala de estar. O momento da verdade, pensou Claire, que cruzou mentalmente os dedos e entrou com Lisa Hackfeld na sala de estar a fim de realizar a sua manobra de diversão.

     Enquanto Marc distribuía parcimoniosamente licor de damasco e Cointreau, cálices de Armagnac, de Benedictine e de brandy, os convidados instalavam-se, timidamente, em redor da ampla sala. Parecia, disse Claire de si para si, a subida do pano de um teatro, antes de aparecerem os atores principais, quando o telefone toca e a criada atende, e os atores secundários, marcando o tempo, atravessam o palco proferindo suas banalidades. Desesperadamente desejava-se que as vedetas criassem a emoção. Contudo, Claire tinha um dever a cumprir e estava decidida a cumpri-lo.

     Achava-se sentada defronte de Lisa Hackfeld.

     - Sra. Hackfeld - disse -, fez uma pergunta à minha, sogra acerca do festival das Três Sereias, não é verdade?

     - Sim - volveu Lisa. - Parece uma coisa absolutamente fascinante... Devíamos realizar um semelhante aqui.

     Marc, que continuava a servir os licores, fez uma pausa.

     - Temos festas, temos o 4 de Julho - interveio ele, com um sorriso forçado. Porém, como Lisa Hackfeld parecesse espantada, Marc explicou-se rapidamente, agora com um sorriso mais amplo, mas ainda forçado: - Estava gracejando, claro. Porém, falando agora a sério, creio que temos dentro dos limites do nosso mundo civilizado inúmeros meios de festejar seja o que. for. Para melhor ou para pior, temos lugares onde... nos podemos descontrair com uma bebida, lugares onde podemos comprar pílulas, lugares onde poderemos procurar diversões de todo o gênero...

     - Não é o mesmo, Marc - retorquiu Claire. - É tudo, de certo modo, artificial, muito pouco natural. Gracejava quando se referia às nossas festividades, como o 4 de Julho, mas isto é bem um exemplo de tudo o que nos separa das Sereias. Efetivamos as nossas celebrações com fogos de artifício... nas Sereias os ilhéus transformam-se em fogos de artifício.

     Lisa Hackfeld lançou um olhar cintilante a Claire.

     - Exatamente, Sra. Hayden! Não temos nada que se pareça com isso...

     - Porque, como o Dr. Hayden declarou, somos civilizados - interrompeu Garrity. Seu rosto manchado tinha a solenidade do de um cardeal lendo um breve apostólico. - Andei por essas ilhas e em todas realizam festivais como pretexto para voltarem a seu modo de viver natural. É a sua maneira de iludir os missionários e os governadores, a fim de mergulharem nas suas vis paixões. Não suporto esses imbecis e esses etnólogos que conferem a todos os jogos e danças dos festivais, a todas essas obscenas exibições pélvicas, fantasiosas interpretações estéticas. A civilização pôs freio a este comportamento indecente, e eles utilizam qualquer pretexto para renová-lo.

     Claire sentiu-se aborrecida.

     - E isso é mau?

     Marc interveio rapidamente.

     - Ora, Claire, parece...

     - Um ser selvagem, não civilizado? - disse ela, querendo concluir a frase do marido. - Por vezes bem desejava sê-lo, mas não o sou. - Voltou-se para Lisa Hackfeld, que a escutava com os olhos esbugalhados. - Creio que me compreenderá, Sra. Hackfeld. Encontramo-nos todos, de certa maneira, recalcados, comprimidos, condicionados emocionalmente. Não é natural. Penso que as leis, normas, inibições são úteis, mas uma vez por outra deve-se ter licença para gritar, doidejar. Isso far-nos-ia bem.

     - Faço minhas as suas palavras - afirmou Lisa Hackfeld com alegria. - Concordo plenamente com você.

     - Bem, é tudo uma questão de ponto de vista - declarou Marc, prudente. Todo ele era agora ponderação. - O Sr. Garrity talvez não esteja muito longe da verdade. Estudos recentes indicaram. que os ilhéus utilizam, com muita freqüência, os costumes para disfarçar o erotismo. Os das ilhas Fidji, por exemplo. Eles realizam um festival chamado vei-solo. O costume principal é o seguinte: as mulheres jovens invadem a casa dos homens jovens para roubar seus víveres. Mas ambos os sexos conhecem bem o objetivo do seu jogo. É, sem dúvida, um pretexto para... terem relações sexuais. Basil Thompson' escreveu sobre isto em 1908. Uma jovem vigorosa entrava numa cabana de homens para roubar víveres e via-se assediada por certo número de ocupantes do sexo masculino. “Então seguia-se uma cena”, disse Thompson, “que sugere existir significado sexual no costume, pois a jovem era despida e assaltada cruelmente de uma maneira que não se deve descrever.” Ora, como antropólogo, acho isto muito interessante. E não tenho qualquer juízo a fazer, exceto... - Voltara-se completamente para a esposa e para a Sra. Hackfeld. - Decerto Claire, você não sugere que esta prática é divertida ou desejável... para todos nós, neste país.

     Claire compreendia agora o que se passava nele: reprimia a irritação; porém, a voz denunciava-o, e também a ruga entre os olhos e o meio sorriso que tinha nos lábios. Claire compreendeu que devia impedir que a atmosfera se toldasse ainda mais.

     - Marc, é preciso que entenda melhor as coisas. Eu gracejava, não queria sugerir isso seriamente. - Ouviu a respiração de Lisa Hackfeld, uma decepção, como se Lisa sentisse que tinha perdido uma aliada. Ao mesmo tempo que procurava acalmar o marido, Claire esforçava-se por manter a fé que Lisa manifestara nela. - Mas, voltando a esse festival das Sereias, creio que ele deve ser útil aos ilhéus, uma vez que o realizam há muito tempo. - Sorriu para Lisa Hackfeld, e piscou-lhe os olhos. - Prometo um relatório completo no próximo mês de agosto.

     Depois, a conversa tornou-se menos viva, mais refletida e apática. Lisa Hackfeld fez algumas perguntas hesitantes acerca dos costumes polinésios em relação à música e à dança, e Marc respondeu com certo pedantismo, citando estudos publicados. O presidente Loomis referiu-se aos kabuki, mas Garrity fez com que ele se calasse ao relatar uma aventura que tivera outrora com um grupo de dançarinos de hula em Waikiki.

     Entretanto, ouviu-se um ruído de passos. Cyrus Hackfeld entrou com ar de satisfação na sala e dirigiu-se para a bandeja onde se encontravam os cálices de brandy. Maud seguia-o. Claire podia dizer, a julgar pelos lábios da sogra, que estavam fixos num sorriso público forçado, que Maud não se achava contente. Por um instante, deteve-se entre Marc e Claire e os convidados, reunindo-se ao filho e à nora como se deixasse de parte os restantes. Nesse momento, fez um gesto rápido, voltando o punho defronte do peito, com o polegar para baixo, e isto acompanhado pela mais breve das caretas.

     O coração de Claire desfaleceu. Maud contou que Hackfeld rejeitara seu apelo tendente a um subsídio mais substancial. Claire perguntou-se o que aconteceria. Isto não queria dizer que a viagem de estudo seria cancelada mas significava que teria de ser mais restrita, limitada: “E as cartas que haviam sido dirigidas a alguns peritos convidando-os a fazer parte do grupo, teriam agora de ser dadas sem efeito?”, perguntou-se Claire. Em seguida perguntou-se também por que correra Maud o risco de lhes anunciar este malogro. Esperava ainda que Hackfeld reconsiderasse, esperava que Claire e Marc conseguissem, no aspecto social, obter o que ela não pudera?

     Ouviu a voz de Garrity, extraordinariamente alta, dirigida a Maud.

     - Dr.a Hayden - dizia ele - vou contar-lhe por que vim a Los Angeles. Meus agentes de conferências, Bush Artist e Lyceum Bureau, conseguiram-me uma fabulosa série de contratos, para o próximo ano; porém, e revelo-o com a maior franqueza, na condição de que descubra um novo tema. E de fato desejo descobri-lo. Estou farto dos temas antigos. Bem, ocorreu-me uma idéia, e tenho feito algumas pesquisas relacionadas com ela. Creio que a idéia é maravilhosa. Sabe, em tempos como este, diga-se o que se disser, as pessoas desejam evadir-se, enterrar a cabeça na areia, à semelhança do avestruz. Assim, acudiu-me à mente que, para escaparem a todos os perigos e pesadelos provocados pela possibilidade de uma guerra nuclear, os meus admiradores gostariam de partir comigo, por uma noite, para a Cidade do Ouro, que fica em regiões inexploradas da selva do Mato Grosso, no Brasil. Como se sabe, diz-se que existe este lugar. Decidi organizar uma pequena, uma modesta expedição, com guias, com técnicos cinematográficos, e subir o Amazonas, seguir o velho rastro de Fawcett, a fim de converter tudo isto numa rara aventura. Ora, como uma coisa dessas precisa de apoio financeiro, pensei em Cyrus, um velho amigo, mas ele crê que o projeto não se apresenta suficientemente científico para...

     Hackfeld mexeu-se desassossegado.

     - Não eu, Rex, mas o conselho executivo da Fundação - declarou ele.

     - Bem, seja como for, continuo a pensar que estão errados - volveu Garrity, a língua solta pelo álcool. - Bem, não me importa. - Apontou de novo para Maud. - Esta noite convenceu-me, Dr.a Hayden, de que a Cidade do Ouro é uma coisa passée comparada com as suas Sereias.

     - As Sereias não são minhas; no entanto, obrigada - retorquiu Maud.

     - Conseguiu uma coisa admirável, Dr.a Hayden. É uma aventura, é emocionante, e ao mesmo tempo - perdoe-me - pode passar por inquérito científico. Sabe, é ciência com bilheteria e lotação garantida.

     Claire estremeceu ante este ataque desferido contra a sogra, mas compreendeu que Maud saberia ripostar.

     - Não posso concordar com a descrição que faz do nosso estudo antropológico, Sr. Garrity - volveu Maud com voz dura.

     - Não quis ofender - replicou Garrity. - Tinha em mente apenas elogiá-la. Mas digamos, não dependemos ambos do mesmo público? De uma maneira ou de outra, vou direto à questão, como é sempre meu costume. Gostaria de participar também da expedição às Três Sereias. Estive discutindo o caso com Marc ao jantar. Sinto-me encantado. É um assunto completamente novo. Sensacional. Ora veja, uma ilha desconhecida, laboratório de novos costumes sobre o sexo e o casamento. Duplicaria, triplicaria meus contratos, e escreveria um best-seller que não prejudicaria o seu. Posso ajudá-la bastante, e oferecer-lhe-ia parte dos direitos que...

     - Não! - exclamou Maud.

     Titubeante, Garrity começou uma frase; todavia, deteve-se, de boca aberta.

     - Mas...

     Marc inclinou-se sobre a mãe.

     - Matty, talvez seja uma coisa que possamos discutir mais tarde com o Sr. Garrity.

     - Respondi já com muita clareza: não!

     Como todos os olhos estavam fixados no par, Marc tentou imediatamente defender sua posição de cientista.

     - O que quero dizer, Matty, é o seguinte... Bem, concordo absolutamente que não nos devemos envolver em qualquer espécie de popularização pouco digna... mas ocorreu-me que devem existir outras áreas... não sei... pequenas áreas, onde o Sr. Garrity nos pode ser útil e... - Fez uma pausa, ergueu as mãos, com as palmas para cima, e encolheu os ombros. - Sugeria apenas que isto constitui uma coisa que poderíamos explorar de outra vez.

     - Agrada-mè que tente auxiliar-me, Marc - disse Maud -, mas não existe coisa alguma para explorar. - Pronunciara as últimas palavras com o mais leve dos sorrisos; porém, quando se voltou para Garrity, o sorriso tinha desaparecido. - Respeito sua posição e suas necessidades, Sr. Garrity; porém, deve compreender as minhas. Vamos visitar um povo único, numa ilha até aqui desconhecida, com a promessa de que sua localização jamais seja revelada ao público...

     - Mas eu não o faria! - exclamou Garrity com calor.

     - ... e de que qualquer relato sobre sua vida e costumes não seria distorcido pelo sensacionalismo - prosseguiu Maud. - Pela própria natureza da sua posição de escritor popular, bem aceito, poderia explorar as Sereias de uma maneira absolutamente prejudicial. Estou decidida a manter tudo num nível puramente científico. Quando mais tarde falar e escrever acerca do que observei, ou qualquer dos membros do meu grupo, fá-lo-ei em termos estritamente antropológicos, com interpretações sociológicas. Isto, espero, lançará a luz adequada sobre a tribo e tornará útil o estudo. Dei a minha palavra de que me limitaria a meu estudo, que não faria incorrer em quaisquer riscos o povo das Sereias. Que Deus me perdoe, mas não o censuro, Sr. Garrity. Há lugar para as suas descobertas, e lugar para as nossas, mas não posso conceber qualquer gênero de colaboração entre nós... Marc, creio que o Sr. Hackfeld gostaria de tomar outro brandy.

     A partir deste momento Garrity deixou de contribuir para a conversa geral. Mergulhou num sombrio silêncio, movendo-se apenas para tornar a encher seu copo de Armagnac. Lisa Hackfeld mostrava-se agora mais vivaz, formulando a Maud uma série de perguntas sobre o que ela esperava encontrar na Polinésia. Cyrus Hackfeld parecia satisfeito por ver a mulher tão interessada.

     Pouco antes da meia-noite Claire ouviu Garrity pedir roucamente a Marc que o conduzisse a um telefone onde pudesse fazer uma chamada urgente. Amável, Marc ergueu-se e guiou o escritor popular através do corredor até à sala onde se encontrava, além do telefone, o aparelho de televisão. Tinham-se afastado há cinco minutos quando Hackfeld se pôs pesadamente de pé.

     - Querida - disse ele à mulher -, temos de partir. O percurso é longo.

     - Já? - perguntou Maud.

     - Desagrada-me bastante, acredite-me - declarou Lisa, erguendo-se por sua vez. - Há muitos anos que não participava de uma conversa tão estimulante.

     Os Loomis encontravam-se já de pé, também. Claire precipitou-se para o háll a fim de ir buscar os sobretudos e os casacos das senhoras. Daí, viu Marc e Garrity, de pé, um pouco mais para além da porta da pequena sala onde se encontrava o aparelho de televisão, conversando em voz baixa, quase absortos. É singular, pensou Claire. Garrity não quisera o telefone mas os ouvidos de Marc.

     Demorou-se um pouco com os sobretudos e os casacos no braço.

     - Sr. Garrity - disse por fim -, o Sr. e a Sra. Hackfeld vão partir.

     Garrity, que saiu da sala de cabeça inclinada, ofereceu um sorriso falso a Claire e voltou ao living. Marc seguia-o, pensativo; Claire caminhava entre os dois.

     Em dado momento Claire deteve o marido e disse:

     - Marc, ajude-me a levar isto.

     Uma vez que Garrity se afastara, Claire perguntou:

     - Marc, que se passa entre vocês dois? Os olhos de Marc cintilaram.

     - Ele procura obter minha colaboração para esse assunto das conferências. Afirmou que, com um tema como as Três Sereias, poderia ganhar mais de um milhão de dólares... um milhão, imagine... que dividiria conosco. E isto para começar.

     - Conosco?

     - Quer dizer, se Maud anuísse.

     - Daria cabo de todo o projeto. É horrível.

     - Não me venha com seus juízos apressados, Claire. -Ele é um tipo suportável, se o conhecermos melhor. E tem obtido muito êxito. De fato, tenho a impressão de que é mais conservador e moderado do que parece. Creio que são suas maneiras em público o que os aborrece tanto.

     - Ele é um parasita - volveu Claire. - É um desses sanguessugas, como tantos, completamente destituídos de talento, que vivem à custa de gente como você e Maud, que têm talento. Engodam vocês com sua conversa enfatuada, com suas referências a milhões, a dinheiro graúdo. Eis o que este Garrity está fazendo, e...

     - Calma, Claire. - Nervosamente, olhou para diante. - Ele pode ouvi-la.

     - Que ouça.

     Claire começou a caminhar, mas Marc deteve-a.

     - Escute, mantenho o que disse antes. Não estamos interessados em fazer sensacionalismo das nossas descobertas. É pena que... Bem, você sabe tão bem como eu que grande número de dados acabam por apodrecer nos arquivos. Penso que talvez pudéssemos impingir o que não nos interessa a Garrity sem nos comprometer. Quero dizer, se existe tanto material à nossa disposição por que não nos aproveitamos dele? Gostaria de lhe dar um carro, roupa nova...

     - É um amor - retorquiu Claire. - Porém, devem existir maneiras mais fáceis de obter o que deseja. Que tal um assalto a um banco?... Continue a pensar assim, Marc. Permita que Mefistófeles encontre outro Fausto.

     - Mas que diabo, querida, estava apenas falando.

     - Garrity também. - Puxou o marido pelo braço. - Vamos, devem ter dado por nossa ausência.

     Cinco minutos mais tarde Maud Hayden achava-se de pé no limiar da porta, observando a partida dos convidados. Claire aproximou-se dela, estremecendo ao contato com o ar frio da noite. Do lado de fora, via-se um estranho quadro. Os Loomis tinham já partido mas a limusine de Hackfeld encontrava-se ainda parada diante do passeio. Garrity deixara-se já tombar no assento da frente e o motorista mantinha-se atento junto da porta da retaguarda, aberta. Lisa Hackfeld chamara de parte o marido e, a certa distância do carro, pareciam estar agora discutido acaloradamente.

     - Que se passa com eles? - perguntou Claire.

     - Desconheço-o - respondeu Maud. - Tudo o que sei é que, para mal dos meus pecados, ele rejeitou o meu pedido. Afirmou que os fatos que se conheciam sobre as Sereias não justificavam a concessão de fundos suplementares.

     - Que quer dizer com isso?

     - Bem, suponho...

     Deteve-se. A pesada figura de Cyrus Hackfeld aproximava-se lentamente, ao mesmo tempo que a mulher se afundava no assento do carro. Hackfeld estacou a alguns metros da porta.

     - Dr.a Hayden - bradou ele -, podemos conversar durante uns momentos em particular?

     Rápida, Maud dirigiu-se ao encontro do milionário.

     - Espere - disse Claire -, vou buscar-lhe um suéter.

     - Não se preocupe...

     Desceu o passeio. Claire observou-a durante um momento; ouviu Hackfeld pronunciar algumas palavras, viu Maud fazendo com a cabeça gestos de aprovação, e em seguida afastou-se da porta para que não a supusessem uma intrometida. Começou a ajudar Marc, que estava arrumando as garrafas e os copos e limpando os cinzeiros. Aguardava ansiosamente o regresso da sogra.

     Maud fechou a porta da frente e encostou-se a ela enquanto a limusine se punha em movimento e se afastava. Claire e Marc tentaram ler no rosto de Maud, à medida que ela se aproximava lentamente da mesa de café. O rosto denunciava alívio mas não alegria.

     - Bem, meninos - disse ela -, sempre conseguimos os fundos suplementares, apesar de tudo... e levamos também conosco a Sra. Lisa Hackfeld.

     Foi Marc quem reagiu primeiro.

     - Que diabo quer isso dizer, Matty?

     - Quer dizer que Lisa Hackfeld teve esta noite o grande momento de sua vida. É uma mulher rica, cheia de tédio, e a conversa acerca das Sereias constituiu para ela a primeira coisa de interesse desde há longo tempo. Faz anos amanhã e pediu ao marido que lhe oferecesse esta viagem conosco como presente. Deseja acompanhar-nos. Insiste nisso. Diz que tem algumas noções sobre dança, pois estudou-a. Hackfeld fará tudo para lhe agradar. E, para lhes ser franca, não tive tempo para opor objeções. Ele afirmou-me: “Decerto, Dr.a Hayden, se levar mais uma pessoa as despesas são maiores. Assim, terei de aumentar o subsídio, não é verdade? Muito bem, seja a quantia que me pediu depois do jantar. Pessoalmente, acrescentarei do meu bolso cinco mil dólares. Chega?” - Maud soltou um grunhido. - Chega? Creio que sim. Viajaremos com uma grande e estranha companhia, mas por Deus, meninos, estamos já a caminho, e isso é tudo o que conta!

    

     Apesar de serem duas horas da madrugada e de se encontrar fisicamente exausta, Claire não se achava realmente demasiado fatigada para aquilo. Compreendia que o marido a desejava como sempre acontecia, embora com pouca freqüência, nos momentos em que fazia tímidas insinuações e fixava seu busto.

     Tinham-se despido, e Claire encontrava-se já na cama de casal, com a diáfana camisola de nylon, de finas alças, e a saia plissada. Marc encontrava-se ainda no banheiro, e ela estava deitada de costas, esperando. Com exceção do abajur de luz fosca colocado na mesa junto da cama, do lado de Marc, o quarto achava-se mergulhado na obscuridade propícia à intimidade, e confortavelmente quente; contudo, Claire sentia a expectativa da espera no espírito e não nos membros inferiores, e perguntava por quê. Na verdade, conhecia a resposta mas detestava encará-la. Desagradava-lhe sempre censurar-se a si própria. A verdade era que não sentia prazer no ato más na idéia romântica que justificava o ato. A sua realização constituía um símbolo. Esta participação no sexo fazia que se sentisse casada e normal e igual a todas as mulheres deste mundo. A própria participação não lhe dava prazer físico. Desde há meses que receava que ele suspeitasse dos seus verdadeiros sentimentos. Demais, por que se aproximaria dela com tão pouca freqüência?

     Marc saíra do banheiro no seu pijama listrado, e à medida que voltava a cabeça no travesseiro, para o encarar, ela via, pela sua expressão, pelos seus movimentos, que o marido estava decidido. Achava-se deitada na cama sem sombra de tensão, de ansiedade, pois os passos eram familiares. Ele sentar-se-ia na borda da cama, descalçaria os chinelos com um piparote, deslizaria sob o cobertor, apagaria a luz e estender-se-ia. Depois, estenderia a mão para a tocar e de súbito erguer-se-ia sobre ela para a beijar na boca, puxaria as finas alças e beijar-lhe-ia os seios, estenderia a mão até abaixo para lhe puxar a extremidade da», camisola e aquilo aconteceria; daí a minutos sentir-se-ia normal. Valia bem a pena sentir-se normal e casada, disse de si para si, enquanto esperava.

     Ele sentou-se na borda da cama e lançou fora os chinelos com um piparote.

     - Foi uma noite agradável, querido - disse ela. - Estou muito contente por tudo ter corrido tão bem.

     - Sim - volveu ele; porém, a desaprovação lera-se por um instante nas suas feições. - Apenas uma coisa...

     Deslizou sob o cobertor, ainda apoiado sobre um cotovelo. Ela mostrou o seu espanto.

     - ... apenas uma coisa me aborrece, Claire - tornou ele. - Que é que se mete na sua cabeça, que a obriga a falar com tanta liberdade diante de pessoas completamente estranhas? Refiro-me àquelas tolices sobre os festivais de sexo. Manifestou sua aprovação e desejou tal gênero de práticas intoleráveis aqui. Que podem pensar as pessoas? Ficam com uma má impressão. Não a conhecem, não sabem que está gracejando.

     Estendeu a mão e apagou a luz.

     - Não gracejava, Marc - retorquiu ela na súbita escuridão. Há alguma coisa a dizer em favor da maneira como os povos primitivos -se divertem. Dei o dito por não dito apenas porque notei que você começava a encolerizar-se.

     Segundo antes, a voz, dele, embora denunciando um certo desagrado, manifestava o desejo que sentia por ela. Agora, de súbito, mudou de tom e o desejo transformou-se em desprazer.

     - Que quer dizer... começava a encolerizar-me? Sim, que quer você dizer?

     - O seguinte: sempre que falo de sexo, o que é bastante raro, fica irritado comigo. Acontece sempre isto, não sei por que razão.

     - Não sabe por que razão, hem?

     - Por favor, Marc, não faça disto um caso de vida ou de morte. Não sei o que digo... estou fatigada...

     - Tem muita razão. Sim, não sabe o que diz. Gostaria de compreender o que realmente passa por sua cabeça, mas vou dizer-lhe uma coisa: é melhor que cresça, mais tarde ou mais cedo, que se torne uma mulher casada responsável, e não... não...

     Ela sentiu-se desamparada.

     - Que tem em mente, Marc?

     - Escute, terminemos com isto. Estou também fatigado. A cama oscilou quando se sentou nela e se aproximou da beira. Daí a momentos, depois de ter encontrado os chinelos, ergueu-se na escuridão.

     - Marc, que tem... que vai fazer?

     - Descer, para tomar um trago - volveu ele asperamente. - Não consigo dormir.

     Caminhou às cegas através do quarto, tropeçou numa cadeira, saiu e, daí a momentos, descia a escada.

     Claire continuava deitada de costas, imóvel. Lastimava o que se passara, mas também não era a primeira vez que isto sucedia. Era estranho, mas estes rompantes ocasionais seguiam um padrão, compreendeu. Sempre que repetia uma história que ouvira por acaso, um gracejo ou uma confidencia relacionados com o sexo, todas as vezes que era franca, ele irritava-se. A última vez fora há duas semanas, num momento de intimidade como este. Tinham ido ao cinema ver um filme no qual o herói era um lutador. Mais tarde, ao fazer alguns comentários sobre o aspecto atraente e o físico musculoso do ator principal, e ao tentar analisar a fascinação que ele poderia exercer sobre as mulheres, Marc escolhera esta observação para se mostrar desagradável. Sim, todas as vezes que fazia uma referência favorável ao sexo ou a qualquer aspecto da sexualidade, Marc encarava isto como uma afronta pessoal, uma subversão da sua virilidade. Nessas ocasiões, a sua gentileza, o seu bom humor, a sua sólida maturidade pareciam evaporar-se de súbito, deixando apenas uma petulância tensa e defensiva. Graças a Deus que isto não sucedia com freqüência; porém, sucedia. Então, ficava confusa, como agora. Que ridículo, pensou, preocupada. Que é que o inquieta nestes momentos?, cogitou. São estes rompantes comuns entre os homens?

     Sonolenta, reviu seus primeiros sonhos de amor e casamento, quando tinha onze, doze anos, e vivia em Chicago, quando tinha quinze, dezesseis, e vivia em Berkeley, quando tinha dezoito, dezenove, e vivia em Westwood, e quando, aos vinte e dois, conheceu Marc. De certa maneira, podia relacionar seus sonhos com a realidade corrente. Existia um certo conforto e uma certa segurança no casamento, em especial durante o dia. De noite, bem, em noites como esta, o abismo entre o sonho e a realidade não tinha fim.

     Ele estava, embaixo, bebendo brandy. Ficaria lá até que ela adormecesse, e só então voltaria para a cama.

     Durante uma hora, Claire tentou dormir, mas não o conseguiu.

     Quando Marc voltou, fingiu que estava dormindo. Desejava que o marido se sentisse feliz...

    

     Como a colossal ave castanha da lenda polinésia, o hidravião anfíbio rasgou o vácuo e a escuridão, preparando-se para fazer nascer o Princípio.

     Existem muitos mitos da criação na Oceania, mas aquele em que Claire Hayden acreditava esta noite era o seguinte: no universo sem fim havia apenas o quente mar primevo, e acima dele voava uma ave gigante; a ave deixou cair sobre o mar um ovo-mamute e quando a casca se rompeu surgiu o deus, Taaroa, que criou o Céu e a Terra acima e abaixo do mar e também o primeiro sopro de vida.

     Para Claire, surpreendida, sonolenta, entre o sono e a vigília, não era difícil imaginar o hidravião do Capitão Ollie Rasmussen como a ave castanha da lenda polinésia que em breve daria à luz nos Mares do Sul o Paraíso das Três Sereias, que constituía o seu único mundo.

     Tinham partido de Papeete, de noite, e era noite ainda, sabia Claire, mas uma vez que dormia espaçadamente desconhecia onde se encontrava agora ou de onde tinham partido. Este mistério, compreendia, fora criado por Rasmussen desde o princípio.

     Reclinada desconfortavelmente no assento já muito gasto, um dos dez que o co-piloto, Richard Hapai, reinstalara - a cabina principal era utilizada para carga antes da chegada do grupo -, Claire endireitou o corpo, estendeu as pernas e tentou habituar os olhos à luz fosca da lâmpada que uma bateria mantinha acesa. Tentando não perturbar Maud, que dormitava no assento à sua direita, ou Marc, que ressonava levemente no assento defronte, à esquerda, ela procurou, pelo tato, a sua espaçosa bolsa de mão, localizou-a, e tirou dela um cigarro e o isqueiro.

     Fumando e completamente desperta, Claire contorceu o corpo a fim de observar o interior da apinhada cabina principal. Além dos três, e excetuando Rasmussen e Hapai, instalados no compartimento do piloto, achavam-se presentes outros sete componentes do grupo. A luz baça, contou as cabeças, procurando inconscientemente outro que se encontrava tão desperto e cheio de expectativa como ela.

     Afundado no assento, ao lado de Marc, estava Orville Pence, com o ridículo capacete cinzento tropical puxado para baixo, a fim de cobrir a calva, e os olhos, pequenos e brilhantes como contas. Viu que ele tinha tirado os óculos de aros grossos e que ressonava ligeiramente, em dueto com Marc. A despeito do fato de ter encontrado um Pence mais afetuoso, menos obcecado pelo sexo do que aquele que conhecera em Denver, não conseguia descobrir um elo comum com ele, embora com Marc isso se tivesse verificado. Sem o espectro da mãe pesando sobre ele, e longe do seu meio habitual, Pence era menos repulsivo mas não menos ridículo fisicamente.

     Atrás de Pence e de Marc achava-se Sam Karpowicz e a sua Mary, o pai dormindo profundamente, como se se encontrasse já exausto antes desta viagem, a filha mergulhada num sono inquieto, como se (acontecia o mesmo com Claire) o Desconhecido lhe causasse apreensão. Observando agora os Karpowicz, incluindo a mãe, Estelle, inclinada para um lado e dormindo no assento de trás, Claire recordou-se de que sentira imediata afeição por eles no momento em que os conhecera. Gostara de Sam, um homem delgado como um poste, um estudioso com ardentes idéias liberais e um grande entusiasmo por suas câmaras e prensas de plantas. Gostara também de Estelle, mole e complacente, porque parecia uma pessoa absolutamente digna de confiança, uma espécie de Mãe-Terra. Mary, de dezesseis anos, era, por temperamento, bem filha de seu pai, franca, viva, camarada. Seus olhos negros de Rebeca, sobressaindo numas feições morenas, imaculadas, condiziam com sua figura primaveril, em botão, fazendo dela um suplemento decorativo do grupo.

     A seguir a Estelle Karpowicz, direta e bem desperta, mascando um chiclete, sentava-se Lisa Hackfeld. A semelhança de Orville Pence, que trazia gravata e colarinho engomado e um terno de passeio escuro e lavável, Lisa Hackfeld achava-se incongruentemente vestida. O seu tailleur, de Unho branco como a neve, caro e nada prático, ficaria bem numa estância de veraneio da moda, mas era coisa extravagante numa viagem antropológica que tinha como objetivo uma ilha polinésia semi-selvagem. Numa das lapelas do tailleur branco exibia já uma nódoa de gordura e na cintura diversas rugas.

     Claire tentou captar o olhar de Lisa, mas não o conseguiu, pois ela estava perdida dentro de si mesma, mergulhada em profunda introspecção subterrânea.

     Ao fundo sentavam-se Rachel DeJong e Harriet Bleaska. Com dificuldade, Claire conseguiu vê-las de relance. Elas dormitavam ou tentavam repousar. Desde o primeiro encontro, Claire não se achava certa de seus sentimentos em relação a Rachel. Relacionando a sua profissão de psicanalista com o seu porte frio, preciso, pessoal, Claire apercebera-se de que era difícil conversar com ela. Uma coisa surpreendia Claire: Rachel DeJong era jovem e bonita. Contudo, seu ar rígido, inflexível, fazia com que parecesse ter mais de trinta e um anos e endurecia o seu cabelo castanho-escuro, os seus olhos vivos, as suas feições regulares, clássicas, a sua figura longa.

     Claire voltou a atenção para a enfermeira. Harriet Bleaska, pensou, era bastante diferente. Uma vez que uma pessoa se restabelecesse do choque inicial produzido por sua fealdade, tornava-se possível descobrir suas excelentes qualidades. Harriet Bleaska era uma extrovertida, descontraída, gentil, quente. Desejava agradar, uma característica que em certas pessoas era forçada e opressiva, mas em Harriet, natural e sincera. De certo modo, sentia-se prazer em conhecê-la. De fato, estas virtudes interiores eram tão dominantes que, pouco tempo depois, pareciam sobrepor-se a seu rosto desfavorecido.

     Claire sentia agora mais simpatia por Harriet Bleaska e estava satisfeita por Maud ter sido obrigada a incluí-la na expedição. Após a adição de Lisa Hackfeld ao grupo, e em vista da necessidade de aceitar a família de Sam Karpowicz, Maud pensara em rejeitar Harriet, uma enfermeira, como substituta do Dr. Walter Zegner, médico e investigador. Houvera um último protesto familiar dirigido a Marc e a ela própria. Maud dissera, nessa ocasião, que o perfeito grupo de campo devia ser composto apenas por uma pessoa, ou quando muito duas ou três, e que seu projeto original de trazer sete constituíra uma concessão à grandeza de Hackfeld; sete, porém, era o número limite. Com a presença da mulher e da filha de Karpowicz, de Lisa Hackfeld e de Harriet Bleaska a investigação poderia transformar-se numa ópera cômica e a análise científica sofrer um grande dano. Se os Karpowicz e Lisa constituíam conveniências inevitáveis, pelo menos Harriet, uma enfermeira que não conhecia, podia ser dispensada. Nove era um número mais razoável do que dez.

     - Sei que já o disse antes, mas repeti-lo-ei agora - protestara Maud. - Um grupo numeroso de antropólogos numa pequena cultura poderá alterar essa cultura e arruiná-la. Verificou-se um caso clássico não há muitos anos: um grupo de doze investigadores de campo, ao chegar, em dois carros, a uma aldeia nativa, a fim de estudar uma tribo, foi recebido a pedrada e teve de debandar. Representavam uma invasão, e não alguns, poucos, participantes que se poderiam integrar. Se chegarmos dez pessoas às Sereias constituiremos uma colônia americana entre um punhado de nativos, seremos incapazes de nos dissolver na vida tribal, de nos tornarmos parte dela, e acabaríamos por nos estudarmos uns aos outros.

     Maud procurara Cyrus Hackfeld com sua lista de nove e este imediatamente dera pela falta de Zegner. Maud declarara que a Dr.a DeJong completara o estágio médico muitos anos antes, mas Hackfeld mostrara-se inflexível, insistindo que levasse Harriet Bleaska como substituta de Zegner. Exigiu uma pessoa com experiência médica, a quem fossem familiares as mais recentes técnicas da medicina como salvaguarda de sua mulher, uma vez que esta não estivera ainda num lugar primitivo ou numa ilha tropical. Maud, que não se achava habituada a Waterloos ou Appomattoxeá, e era bem conhecida por sua obstinação em lutar para além do que era humanamente possível, compreendera que tinha de se render. Eis por que se encontrava aqui Harriet Bleaska e o grupo era constituído por dez elementos.

     O hidravião, que entrara e saíra de um vácuo, oscilou e seus dois motores gemeram ainda mais; porém, tudo voltara ao normal. Claire fora sacudida no seu lugar e olhara imediatamente para Marc, a fim de verificar se um solavanco o tinha despertado. Todavia, isso não acontecera. Continuava dormindo, não ressonava já, mas sua respiração produzia um certo ruído. Claire observou o marido no sono. O rosto tenso mostrava-se mais repousado. De fato, excluindo sua respiração ruidosa, parecia tão atraente como no tempo em que não o conhecia ainda muito bem, parecia - e o corte curto do cabelo ajudava-o - um jovem colegial inocente, saudável e agressivo. Seu vestuário acrescentava alguma coisa a este retrato. Vestia um leve casaco de seis bolsos, uma fina camisa de xadrez lavável, calças caqui e trazia botas grossas de pára-quedista.

     Tentando admirá-lo, sentir-se orgulhosa dele, Claire recordou algumas das conversas entre ambos, em casa. Uma vez que o Dr. Walter Scott Macintosh concedera a Maud uma oportunidade para proferir uma conferência sobre as Sereias, durante o encontro de outono da Liga Antropológica Americana (e sentia-se certo de que ela venceria Rogerson na corrida para o posto de diretor-executivo de Cvlture), Marc mostrava-se absolutamente ebuliente quanto a seu próprio futuro. Quando a mãe deixasse o Raynor College, ele herdaria sua importante cadeira de Antropologia. Embora a cadeira lhe fosse concedida devido ao mérito da mãe, à influência do nome da família, ver-se-ia liberto de Maud e de Adley, dependeria apenas dele, teria sua própria identidade e seus próprios aduladores. Era este seu único objetivo, ser ele próprio, ser Alguém. Não explicaria tudo exatamente desta maneira a Claire, mas era o que ela compreendia que o marido sentia e queria exprimir quando falava do futuro imediato e da necessidade de obterem o maior êxito com a viagem às Sereias.

     A ponta rubra do cigarro tocara os dedos, manchados de nicotina, de Claire, e ela inclinou-se para a frente, deixou-a tombar para o chão e esmagou-a com a sola lisa de um dos sapatos. Tirou um novo cigarro, e, depois de acendê-lo, recostou-se no assento, as pernas estendidas cruzadas nos tornozelos, e divagou sobre a irrealidade destes momentos. Até agora, apesar das investigações já feitas, o objetivo Polinésia e o lugar conhecido como as Três Sereias tinham constituído uma quimera, um oásis de férias que poderia assemelhar-se aos restaurantes adulterados estilo Havaí que ela e Marc visitavam ocasionalmente em Los Angeles e em San Francisco. Agora que este velho hidravião anfíbio, a manhã e o atol convergiam, ela achava-se de certo modo confusa acerca do que a esperava e do que seria para ela a vida durante aquelas seis semanas. Por motivos que não examinara em profundidade, esta viagem e o lugar que muito em breve seria seu lar temporário revestiram-se de grande importância para ela, como se constituíssem um marco de seu destino. Era como se se estivesse preparando para trocar a rotina e uma certa frustração por algo definido que, de um golpe, a separaria do passado e que permitiria que Marc e ela própria penetrassem numa vida mais feliz.

     Dobrada no seu duro assento, sentia o peito rígido, e esta rigidez estendia-se mesmo até aos braços, sob o suéter azul-pálido. Tratar-se-ia de inquietude sobre o que não era familiar, o que jamais conhecera, como suspeitava que sucedesse com a jovem Mary Karpowicz e com Lisa Hackfeld? Ou tratava-se apenas de uma certa fadiga causada pela viagem, pela mudança de clima operada nestes últimos dias? Estabeleceu um compromisso consigo própria. Era uma e outra coisa, um pouco de cada.

      

     Tinham-se reunido todos apenas cinco dias antes em casa dos Haydens, em Santa Bárbara, e o presidente Loomis fornecera gratuitamente aos visitantes instalações no campus. Todos os dez se conheceram e se misturaram, estudaram-se uns aos outros, tentaram compreender as respectivas personalidades. Maud, como diretora de campo, endereçara algumas palavras a todos e em seguida efetuara-se uma sessão isenta de quaisquer formalismos, apenas de perguntas e respostas. Verificara-se também uma apressada procura de artigos que tinham sido esquecidos, fizeram-se as malas, e por fim os Loomis ofereceram um almoço de despedida a que compareceram os professores do Raynor.

     Ao fim da tarde, em três limusines fornecidas por Cyrus Hackfeld (duas para os passageiros, uma para a bagagem), foram conduzidos ao Beverly Hilton Hotel, onde Hackfeld reservara quartos para todos. A mulher recusara voltar com ele à mansão de Bel-Air, e, a despeito da sua oposição, ficara com os restantes. Depois, efetuou-se uma entrevista coletiva, habilmente conduzida por Maud, seguida de um jantar de despedida, planejado por Hackfeld e por diversos membros do conselho-executivo da Fundação.

     Às onze da noite, foram conduzidos, em limusines particulares, através do. tráfego já ligeiro, ao aeroporto internacional, no Sepulveda Boulevard. No vasto e moderno terminal, onde Maud verificara os passaportes, os vistos, os certificados de saúde, a lista de bagagens, todos tinham sido invadidos por um sentimento de solidão, como se se encontrassem aglomerados no corredor de um hospital, após a hora de recolher. Apenas Cyrus Hackfeld se despedira deles. Chegara um telegrama de Colorado Springs para Orville Pence, e Rachel DeJong fora chamada ao telefone para atender um tal Joseph Morgen. De certo modo, os fios das velhas ligações estavam soltos. Era como se tivessem sido abandonados pelo mundo conhecido.

     Por fim, depois de o vôo n1? 89 da TAI ter sido anunciado, e perdidos no meio dos outros passageiros, saíram em fila do terminal; daí a pouco estavam na cápsula de metal do jato DC8 da Companhia de Transportes Aéreos Intercontinentais, francesa, que faria um vôo direto de Los Angeles para Papeete, Taiti. Seguiam na classe turística, e não na primeira classe - Maud discutira isto com Hackfeld, e, com o apoio de Lisa, vencera - o que significava uma economia de 2500 dólares nas passagens. Na classe turística, os macios assentos estofados de tecido estavam assim dispostos: três num dos lados do corredor, três no outro, de modo que se sentavam seis em fila, ocupando a maior parte de duas filas. Os restantes lugares da segunda fila eram ocupados por um amável dentista de Pomona, que partia em férias, e por um jovem gordo, bem vestido e barbudo, que celebrava o seu fim de curso universitário.

     Precisamente à uma da madrugada o jato começou a mover-se, primeiro com lentidão; após ganhar velocidade, percorreu, rugindo, a pista de cimento, e momentos depois perdiarse na altura. Começaram a ficar para trás os inúmeros pontos amarelos das luzes da metrópole embaixo, uma fieira de luzes vacilantes, e outra ainda, e os passageiros foram catapultados para a altura, sobre o oceano Pacífico, numa escuridão profunda.

     Esta fase da jornada fora repousante. Sentada entre o marido e a sogra, Claire principiara a ler um compacto guia turístico sobre a Oceania, enquanto Maud e Marc folheavam as revistas, escritas em três línguas, oferecidas pela TAI. Mais tarde, pediram champanha, fornecido a preços reduzidos; serviu-os uma comissária taitiana de cabelo negro e lustroso, vestida com um pareu de algodão azul.

     O champanha dera a Maud uma sensação de bem-estar; a sua pesada pessoa descontraíra-se e a língua soltara-se. Com seus modos festivos, reconciliara-se, finalmente, com o tamanho do grupo, e pensara mesmo que a variedade das especialidades devia mostrar-se vantajosa para o estudo.

     - Dez pessoas não era um número recorde, sabem - dissera ela. - Uma vez, um jovem bastante rico, suponho que de uma família de banqueiros, organizou um grupo de vinte, de vinte, imaginem, que levou à África, e creio que não houve contratempo algum. Este jovem rico vestia-se com tanto aparato como o nosso Dr. Pence. No campo, trazia camisa social, gravata e um terno de corte elegante. De acordo com a história, os nativos de uma tribo africana convidaram um dia este jovem bastante rico para jantar. A sua pièce de résistance era bolo frito feito de vários legumes, vegetais e lama. Quando o jovem contou mais tarde a experiência, alguém perguntou: E então comeu aquilo? Ao que ele respondeu, erguendo os braços: “Não seja pateta! Mal consigo engolir a comida do Yale Clube!”

     Claire e Marc, e Lisa Hackfeld, que se encontrava no assento defronte, desataram a rir, e Maud continuara a evocar reminiscências durante mais de meia hora. Pouco depois, íatigada, voltou-se para cochilar um pouco. Gradualmente, e uma vez que não havia nada que ver ou fazer, amodorrados pela monotonia do vôo, pelo champanha e pelos sedativos, a maior parte dos componentes do grupo adormecera.

     Às seis e meia da manhã, um por um, despertaram. Como a Polinésia ainda não se encontrava à vista, ocuparam-se todos com as necessidades matinais, com a colocação nas malas dos objetos que tinham mantido fora delas e com o café. Enquanto faziam tudo isso, a noite extinguia-se, o sol despontara no horizonte e o vasto oceano de vidro podia ver-se embaixo. Pelo alto-falante tinham transmitido instruções: apertar os cintos de segurança, lançar fora os cigarros, Taiti está próxima.

     Para Claire, a ilha lendária significara uma mistura de todas as leituras, significara Cook e Sieur de Bougainville, e Bligh e Ghristian, Melville e Stevenson, Gauguin e Loti, Rupert Brooke e Maugham, e colara os olhos à janela para apreciar a vista daquele lugar encantado. A princípio, houve apenas o pálido céu sem nuvens, fundindo-se com o mar cerúleo, e depois, como uma estampa esmaecida e distante, que representasse um esquisito e frágil Hiroshige - em verde-esmeralda oriental projetado numa cortina de ar - surgiu Taiti.

     Claire arfara audivelmente ao ver o quadro encantador tomar dimensão e crescer de proporções. Por um instante, sentira uma dor profunda motivada pelo fato de tudo isto existir sobre a Terra desde os tempos imemoriais, e de ela ir também a seu encontro. Mas prezara a sua boa sorte por poder conservar por fim isto como uma memória, e recordara exatamente, como se uma legenda apropriada, as palavras de Robert Louis Stevenson: “O primeiro amor, a primeira alvorada, a primeira ilha dos Mares do Sul são memórias à parte que tiram a virgindade dos sentidos. “ Silenciosamente, agradecera esta percepção de seus próprios sentimentos.

     A vista fora dominada pelo verde aveludado do alto monte Diadème, e de súbito começaram a perder altura. Maud inclinara-se para o lado, bloqueando parcialmente a janela, Marc dera algumas instruções a Claire; depois de uma visão final, de relance, dos telhados cor de tijolo de Papeete, ela não conseguiu distinguir mais nada.

     Houvera a precipitação e o ruído provocados pelo próximo desembarque, o gradual abrandamento de velocidade na pista e a freada final. Puseram-se todos de pé com a bagagem de mão e penetraram no ar matinal, nublado, tépido. Esperava-os uma confusão indescritível de pessoas de tez morena, flores perfumadas e música irradiada do aeroporto. As sorridentes e belas moças nativas, graciosas e flexíveis, com seus vistosos pareus, sandálias, tiras de flores brancas em botão nas orelhas, como jóias, viam-se por todo o lado. Uma colocara uma grinalda de flores em volta do pescoço de Claire, e outra, rindo, beijara Marc e gritara iaorana, as boas-vindas taitianas.

     Claire distinguira imediatamente Alexander Easterday, antes da apresentação, e maravilhou-a uma vez mais a precisão da memória descritiva de Maud. Observando Easterday, à medida que ele apertava a mão de Maud, Claire viu um obeso e maneiroso tipo de alemão, de capacete e com um terno tropical bege, bem passado apesar de gasto. Impressionara-a olhar o seu precário pince-nez e o bigode grisalho, sacudindo-se de cada um dos lados do nariz afomatado. Parecera-lhe sempre incrível que esta caricatura de um herr professor, tão deslocado no meio de tantas flores, bustos e pareus, fosse responsável pela presença de todos os dez na ilha de Taiti.

     Um solavanco súbito sacudiu Claire, desviando-a da recordação da chegada a Taiti. Endireitou-se rigidamente no assento do hídravião de Rasmussen, que se dirigia para as Três Sereias. Mudando de posição, Claire notou que Maud se mexera, como se despertasse um pouco; porém, com as pálpebras cerrando ainda os olhos fatigados, continuou a dormir. Do outro lado, Marc continuava tranqüilamente seu sono, mas Pence despertara e tentava reunir seus pertences.

     O cigarro de Claire estava quase no fim. Ela sacudiu a cinza, levou o cigarro aos lábios e inalou, decidida a prosseguir na evocação de suas recordações de Taiti. Tentou fixar a mente nos eventos fantásticos do dia anterior, que decorrera com tanta rapidez. Fora um dia caleidoscópico, que agora revolvia na mente, separando os fragmentos de vidro colorido, procurando deter-se no padrão real do que testemunhara.

     O padrão variegado não queria tomar forma, transformava-se na memória, de maneira que ela conseguiu apenas ver um fragmento aqui, outro ali. Tinham-se deixado envolver com demasiada facilidade pelos costumes locais. Tinham sido conduzidos, em Peugeots alugados, aos arredores da cidade, ao hotel Les Tropiques, composto por cabanas cobertas de colmo; em redor delas, palmeiras, e mais além uma lagoa, que se abria para o oceano; algumas das cabanas tinham sido reservadas para os que desejassem mudar de roupa ou repousar.

     O almoço, cedo, no pátio, incluíra peixe cozido, frango frito, rum da Martinica, e poi quente, que consistia de taro com ananás, banana e papaya em creme de coco. Do local, observava-se a vista notável de Moorea, que ficava a cerca de quinze quilômetros; Easterday dissera que o Capitão OUie Rasmussen vivia em Moorea e viria, na sua lancha, depois do jantar.

     Easterday fornecera a Maud o programa do grupo. Tomara a liberdade de arranjar para todos uma excursão de automóvel por Taiti, mais de cento e cinqüenta quilômetros em redor do perímetro da ilha. Isto, a visita a lugares de interesse, as compras em Papeete, consumiria toda a tarde. Esperava que os Haydens fossem seus hóspedes para o jantar. Os outros comeriam no hotel, claro. Deixara a noite livre, sugerindo que repousassem, uma vez que necessitariam de todas as suas forças para a viagem até as Três Sereias. A meia-noite, conduziria Maud ao Vaima Café, que ficava à beira-mar, a fim de que ela se encontrasse com Rasmussen, enquanto os outros componentes do grupo, com suas bagagens, seriam conduzidos ao cais para embarcarem no hidravião do capitão. Easterday supunha que partiriam para as Sereias uma hora ou duas depois da meia-noite e que chegariam ao nascer do sol a seu destino. Fez todos os preparativos, por intermédio de Rasmussen, com Courtney e Paoti, nas Sereias. O grupo disporia de instalações para o período de seis semanas que fora combinado. Havia mais uma coisa, acrescentara Easterday, apenas uma coisa: deviam manter segredo quanto à localização das Sereias a partir desse instante. Deviam manter também a conveniente reserva nas suas conversas. Pedira a Maud que impusesse este sigilo a todos os elementos do grupo, e ela anuíra.

     Para Claire, as restantes dezessete horas em Taiti tinham constituído uma experiência impressionante. Não se permitiria qualquer lazer ou divagação mental. Numa só noite passara do mundo do Raynor College, de Suzu, dos Loomis, do Beverly Hilton, para o mundo da Polinésia, de Easterday, de Rasmussen e Les Tropiques.

     Houvera a excursão, em automóveis alugados, que se dirigiam para norte no meio do calor: a tumba do último rei de Taiti, Pomare V, tão amante do álcool que uma réplica de coral, de uma garrafa de Benedictine, coroava a tumba, entre as aitos; as vistas do pico Vênus, onde o Capitão Cook estivera em 1796 observando a trajetória da Lua através do Sol; a longínqua catarata de Faaru, como se inúmeros fios brancos oscilando ao vento; o almoço, já tarde, na sala de bambu do restaurante Faratea, com o odor das acácias cor-de-rosa por todo o lado; a frescura da gruta de Maraa, com seu poço dentro da cave funda; as paredes de lava negra do Templo das Cinzas, onde os sacerdotes recitavam ritos pagãos; o amontoado de cabanas representando a segunda maior cidade da ilha, Taravao...

     Depois de terem circulado completamente a ilha e de voltarem a Papeete, os fragmentos de vidro colorido do caleidoscópio mental de Claire refletiram as lembranças mais extravagantes: a espuma sobre os recifes de coral; o café à beira da estrada, com seu vinho argelino; a casa colonial rodeada de árvores de fruta-pão cheias de folhas verdes; as igrejas brancas com campanários cor de argila; os receptáculos, semelhantes às caixas de correio, ao longo da estrada, para a entrega de longos pães franceses e leite pasteurizado; o desconjuntado ônibus nativo, ocupado por meninas a caminho da escola, vestidas de azul-escuro, e cheio de blocos de gelo na capota; e, por todo o lado, as gargantas verdes, os riachos cintilantes e as buganvílias vermelhas.

     De Papeete à cidade, recordava-se apenas das moças alegres e risonhas com os seus parem coloridos, caminhando aos pares; das motonetas ruidosas movendo-se pelas ruas amplas cobertas de cinzas; as escunas de copra, os iates, os barcos de pesca e um grande transatlântico cinzento na água, ao longo do cais; o letreiro de bambu com a inscrição “Quinn” à entrada de um cabaré de onde saíam vozes roufenhas; as lojas francesas e chinesas e o amontoado de artefatos exóticos na loja de Easterday, na rua Jeanne d'Arc.

     Ao jantar, encontrava-se completamente fatigada, as pernas, os olhos, os sentidos, e durante a refeição, com Easterday no Chez Chapiteau, comera o seu filet mignon e as batatas fritas quase sem escutar Maud e Marc que conversavam sobre Rasmussen e as Três Sereias com o anfitrião. De volta a Les Tropiques, lançara-se sobre a cama e dormira, imóvel e profundamente, durante as horas que precederam a meia-noite. Quando a sacudiu, a fim de despertá-la, Marc dissera-lhe que Maud se dirigia já para o Vaima Café, para se encontrar com Rasmussen, e que um jovem polinésio chamado Hapai os esperava no exterior do hotel com o propósito de conduzi-los ao hidravião.

     O aparelho decolara cerca de uma da madrugada, deixando atrás de si as luzes, a música, os gritos de Papeete, transportando-os através do espaço, até às Três Sereias. Vira Rasmussen durante uns momentos, depois da partida. Hapai achava-se nos comandos quando Rasmussen entrara na cabina principal, e Maud fez as apresentações. A aparência do capitão agradava a Claire: um personagem da beira-mar com um veneravel boné de marinheiro, o colarinho da camisa branca de mangas curtas aberto, bine jeans e tênis sujos. Os olhos raiados de sangue e o rosto escandinavo cheio de cicatrizes pareciam um retrato vivo da dissipação. Sua fala era áspera, gramaticalmente irregular, mas direta, grave, destituída de humor. Depois das apresentações, desapareceu por onde tinha vindo, na parte da frente do hidravião, para não tornar a ser visto.

     O cigarro ardera completamente e Claire deixou-o tombar no chão, ao lado de um dos pés.

     . Ouviu o chiar de um assento, provocado pela pessoa rotunda e pesada de Maud, a seu lado, e voltou-se para ver a sogra, sentada ereta, estender as pernas e menear a cabeça para sacudir o torpor.

     - Devo ter dormido profundamente - disse Maud, bocejando. - Esteve desperta durante todo este tempo?

     - Sim, bem desperta. Repousei após o jantar.

     - Que se passa? Rasmussen ainda não voltou aqui?

     - Não. Tem estado tudo bastante calmo. Só a Sra. Hackfeld e eu nos mantivemos despertas.

     Maud consultou seu grande relógio de pulso de aço inoxidável.

     - Já passa das seis - disse. - Rasmussen declarou que chegaríamos ao alvorecer. Devemos estar perto.

     - Espero que sim. Maud fitou Claire.

     - Sente-se bem?

     - Decerto. Por que pergunta? Maud sorriu.

     - A primeira viagem de campo de uma jovem é como o seu primeiro flerte. Uma coisa nova e importante. Tem o direito de se sentir incerta. Que é que a espera? Como irá reagir?

     - Sinto-me bem, Maud - volveu Claire, hesitante. - Apenas... - Deteve-se.

     - Continue. Ia dizendo que...

     - Apenas me preocupa o fato de a minha presença se provar inútil nesta viagem. Quero dizer... qual é a minha função? Esposa?

     - Por amor de Deus, Claire, por vezes a esposa de um antropólogo pode ser dez vezes mais importante numa viagem de campo do que o marido. São inúmeras as razões. A dupla homem-mulher parece menos importuna, menos estranha, mais aceitável em muitas culturas. Além disso, a esposa pode descobrir coisas bem mais relevantes quanto aos costumes dos casais, compreendê-los melhor do que o marido. Sabe que, no que se refere ao governo da casa, à educação dos filhos, à nutrição, é mais fácil a uma mulher reconhecer as diferenças existentes nestes setores e absorvê-las. Talvez mais importante é o fato de que... Bem, numerosas sociedades têm tabus contra os homens, os estrangeiros, claro, que observam e entrevistam as esposas. Não sei o que se passará nas Sereias, mas Marc poderá ser impedido de estudar... oh, a menstruação, as relações sexuais, a gravidez, o que estas mulheres sentem por serem mulheres, seus prazeres, desprazeres, anseios... E isto porque pertence ao sexo masculino. Mas a esposa pode ser aceita, mesmo bem-vinda. Sabe, ela é uma mulher também, etc, justamente como eu, exceto que outras tarefas me manterão ocupada. Assim, terá muitas coisas a fazer, Claire, e coisas de real valor.

     - Um belo discurso, que agradeço - volveu Claire, puxando o suéter sobre a blusa e abotoando-o.

     - Além disso, espero que continue a me ajudar na preparação das notas, e...

     - Decerto que a ajudarei, Maud. - Divertia-a a ansiedade que a sogra manifestava a seu respeito. - De fato, já me sinto sobrecarregada de trabalho.

     - Bom. - Maud ergueu-se. - Vamos, Claire, descubramos onde estamos.

     Claire levantou-se e tomou a dianteira. Lentamente, na semi-obscuridade do interior do aparelho, subiram o corredor, passaram pelo compartimento do trem de aterragem, pelas seções de correio e bagagem, pelos banheiros, pela escotilha da entrada principal e, de súbito, deram com Rasmussen e Hapai no compartimento do piloto, cheio de fumaça.

     Ao notar a sua aproximação, Rasmussen voltou-se rapidamente dos comandos e, como um garoto turbulento, apanhado atrás do celeiro com uma ponta de cigarro, baixou o charuto. Afastou, com a mão livre, uma nuvem de fumaça, e inclinou a cabeça num cumprimento.

     - Um momento - disse ele, debruçando-se para esmagar a ponta do charuto no cinzeiro de metal, que se encontrava no solo.

     - Espero que perdoe a nossa curiosidade - declarou Maud.

     - Decerto, minha senhora. Como paga, tem todo o direito de observar.

     Claire encolheu-se atrás de Maud, aquém das cadeiras dos pilotos. Seus olhos ergueram-se do complexo painel de instrumentos e fixaram-se no pára-brisa; tentava ver o que estava para lá dos motores. Era noite ainda, não noite negra mas noite cinzenta, como se uma densa neblina se tivesse levantado. O oceano, embaixo, não se distinguia.

     - O dia está nascendo - disse Claire para Maud.

     - Sim, mas não consigo ver...

     - Espere quinze minutos, minha senhora - interrompeu Rasmussen -, e verá o primeiro clarão do sol. Poderá então contemplar o velho Pacífico.

     - Capitão - volveu Maud -, falta ainda muito para avistar terra?

     - Dentro de quinze minutos, como disse, verá a luz do dia, e passados mais cinco minutos poderá começar a contemplar as Sereias.

     Conversar com Rasmussen era tão fácil como patinar através de um pântano. No entanto, Maud prosseguiu.

     - Como é que as Três Sereias obtiveram aquele nome? Rasmussen cobriu a boca e arrotou, murmurando depois

     uma desculpa.

     - É uma dessas coisas que se devem perguntar a Tom Courtney, pois a verdade é que soube tudo por intermédio dele. Por volta de 1796, quando o velho Wright... o primeiro... se encontrava a bordo de uma escuna à cata de uma ilha onde se pudesse fixar, ele ocupava o tempo com grandes leituras de livros antigos. E quando o vigia gritou que tinha avistado uma das ilhas... estas para onde nos dirigimos agora, o velho Wright estava no seu camarote lendo um livro de um escritor chamado... Homero... Conhece este Homero?

     Maud e Claire inclinaram gravemente a cabeça num gesto de aprovação...

     - ... Bem, ele lia o tal livro de cujo nome nunca me consigo lembrar, onde um tipo anda à toa por esse mundo, metido em trabalhos, tentando voltar à casa e à mulher...

     - A Odisséia - disse Maud com ar tolerante.

     - Bem, seja qual for o nome, o velho Wright estava no camarote lendo a passagem em que o tal tipo avista as ilhas onde as vahines se encontram cantando, tentando seduzi-lo... perdoem-me... e ele tem de pôr cera nos ouvidos, para não escutar, e fazer-se amarrar ao mastro... Bem, esqueci-me da continuação...

     Começou a ruminar sobre a passagem. Porém, Claire, enchendo-se de coragem, interveio.

     - Circe disse para Ulisses: “Primeiro, virás para as Sereias, que enfeitiçam todos os que as contemplam. Se algum homem se aproxima delas com toda a sua inocência e escuta a sua voz jamais tornará a ver o lar... “

     - Sim, é isso mesmo! - bradou Rasmussen. Dirigiu um olhar de revés para Claire, como se ela constituísse uma admirável descoberta. - É muito inteligente, minha senhora, tão inteligente como Tom Courtney.

     Teve prazer em ouvir que era tão inteligente como Tom Courtney.

     - Obrigada, capitão.

     - Bem - prosseguiu Rasmussen -, p velho Wright está agora na coberta e diz que aquelas ilhas que parecem tão belas terão, no caso de serem as tais, o nome que a senhora mencionou... Sereias... E como eram três, passaram a chamar-se as Três Sereias. Eis a história.

     Para Claire, a completa incongruência da conversa, considerando tanto a procedência e cultura dos participantes como a sua posição, de suspensão animada, algures entre dois e quatro mil metros acima do nível do mar, divertiu-a, fê-la feliz.

     - Capitão Rasmussen - disse Maud -, importa-se de me responder a uma pergunta pessoal?

     O seu rosto duro, gasto, fechou-se, suspicioso.

     - Depende da natureza da pergunta - retorquiu ele.

     - O professor Easterday, como toda a gente, descerrou uma tão pesada cortina de segredo sobre as Sereias que me pergunto como teria alguém fora destas ilhas sabido da sua existência. Claro, refiro-me a Tom Courtney e ao senhor, capitão.

     Rasmussen franziu a testa, como se pensando na resposta que devia dar. Obviamente, pensar era um processo penoso e lento para ele. Precisava de tempo. Por fim, disse:

     - Não falo por Tom Courtney. Não tenho nada que me imiscuir no que lhe diz respeito, ademais talvez ele não deseje contar como foi parar nas” ilhas. Portanto, fale com Courtney, se quiser saber. Disporá de muito tempo. Ele fala pelos cotovelos, como aliás todos nós por estás bandas, mas não gosta muito de se referir à sua vida. Fale com ele, sim...

     - E quanto ao senhor, capitão? - insistiu Maud.

     - Quanto a mim? Bem, não faço segredo, uma vez que vai também até lá. Não pensava no caso há quase um século. Foi por volta de trinta anos atrás, quando era ainda rapaz e metia o nariz por todo o lado, e por vezes com grande risco. Trabalhava para uns plantadores de copra, os tais que tinham sucedido a J. C. Godeffroy and Son e a esses ingleses da Lever Brothers. Porém, fartei-me, e com o dinheiro que tinha junto comprei uma escuna e comecei a trabalhar por minha conta. Bem, numa das minhas viagens de negócios, desviei-me da rota do costume, a fim de lançar uma vista de olhos sobre esse vasto mar, e uma manhã vi um jovem polinésio à deriva, numa canoa outrigger, com a vela esfarrapada. Bem, içamo-lo para o barco e quase que o ressuscitamos. Eis o que tinha acontecido: ele dirigia-se para algures, quando lhe deu vontade de esvaziar a tripa - perdoem-me -; assim, foi satisfazer a necessidade, apanhando, entretanto, muito sol. Bem, não sabia o que havia de fazer dele. O rapaz dizia que morreria se não o conduzíssemos a casa, que ficava muito perto. Lá tratá-lo-iam. Quando me disse onde ficava a ilha de onde viera pensei que o rapaz era maluco, pois nunca ouvira falar dela e conhecia todas as que existem por esses mares. No entanto, seguimos na direção que indicou e o certo é que vimos as Sereias. Lançamos a âncora um pouco para lá de terra, e na altura em que cheguei à praia com ele - já se sentia então melhor -, o rapaz estava aterrorizado. Dera-me a direção quando estava delirando, ninguém conhecia as ilhas e os estranhos eram absolutamente tabus. Mas como sempre fui intemerato não prestei atenção ao que o rapaz dizia. Demais, ele não estava em condições de sair da praia pelo seu pé. Assim, pus-me a caminho, à sorte, quase o arrastando, e por fim chegamos à aldeia. Bem, em vez de me cortarem a cabeça, festejaram-me como um herói, pois o rapaz que salvara era parente do chefe. Bem, ele era... já morreu... o pai de Dick Hapai.

     Maud e Claire seguiram o dedo de Rasmussen, que apontou para o jovem de cabelo escuro e pele castanho-clara que estava nos comandos. Ele voltou-se ligeiramente e durante uns momentos mirou-as nos olhos e mexeu a cabeça.

     - É verdade - disse.

     - Para terminar - tornou Rasmussen -, o tipo que fazia as vezes de médico da tribo salvou o pai de Hapai. Ele morreu há poucos anos. Quanto a mim, não me queriam deixar partir; comi e bebi até não me poder mexer, e para vencerem o tabu realizaram danças rituais e fizeram-me membro honorário da tribo. Então, que tal a história?

     - Muito interessante - volveu Maud.

     - Sim, é verdade. Poderia ter tudo o que desejasse. Bem, um ano ou dois após a primeira visita adquiri o hábito de tocar uma vez por outra na ilha, apenas por esporte. É um belo lugar para a folia, para a pândega, como irão ver. Um dia descobri que eles têm um produto especial superior à copra ou às pérolas e pedi que me deixassem exportá-lo e negociá-lo com exclusividade, pagando-lhes com mercadorias de outras ilhas de que tivessem necessidade. Desde então é o que tenho feito. Nos velhos tempos costumava vir aqui, na minha escuna, talvez quatro vezes por ano, mas depois da segunda guerra vi que os aviões estavam na moda. Assim, quando me apareceu uma oportunidade propícia, comprei este hidravião. Todavia, sinto falta daqueles dias de outrora em que por esses mares só se viam escunas. Podia preguiçar-se, levar-se uma vida tranqüila...

     - E quanto à tripulação da escuna? - perguntou Maud. - Por que não revelaram o segredo das Sereias?

     Rasmussen grunhiu.

     - Que tripulação? Costumava trazer comigo apenas dois chineses beberrões. Eles não eram sequer capazes de ler uma bússola, nunca souberam onde estavam, e eu encharcava-os em álcool sempre que nos aproximávamos. Jamais foram à terra. Mais tarde, quando os chineses morreram, Paoti começou a dizer-me que eu devia utilizar seu próprio povo, pois era mais seguro. Primeiro, tive um primo de Hapai e depois o próprio Dick. Bons rapazes. Eis por que o lugar ainda não é conhecido. Sempre mantive o segredo porque me davam os direitos exclusivos sobre os produtos que exporto. Porém, esta não é a verdadeira razão, minha senhora. Sabe, faço parte agora deste povo, sou um parente honorário, e morreria antes de o trair... ou antes que a ilha fosse espionada por estranhos. Eis por que ia ficando maluco quando o professor, o velho Easterday, descobriu por acaso a ilha. Cheguei a pensar em dar cabo dele.

     - Capitão Rasmussen - disse Maud -, não necessita de ter receio dos componentes do grupo. Assumimos o compromisso de proteger o isolamento das Sereias. Qualquer um de nós que fosse indiscreto pouco adiantaria, pois não faz a mínima idéia de onde se encontra.

     - Contudo, têm de se mostrar prudentes - retorquiu Rasmussen -, uma vez que agora todos conhecem a área. Se alguém dispusesse de uma só indicação, estou certo de que, após apuradas pesquisas, conseguiria, num ano ou dois, localizar as ilhas.

     - Quando escrever meu livro - declarou Maud -, tenciono dá-las como situadas algures na Polinésia, não adiantando mais pormenores.

     - Capitão - interveio Claire -, surpreende-me o fato de ninguém as ter localizado durante a Segunda Guerra Mundial. O Pacífico era então atravessado em todos os sentidos por aviões e navios japoneses e americanos. E a partir daí...

     - Estou também certo de que as viram muitos aviões e navios - disse Rasmussen. - Todavia, do mar parecem desabitadas, e os que as enxergaram pouco caso fizeram delas. Não parecem grande coisa, e além disso não têm enseadas. Quanto aos aviões, passaram por cima delas, mas nada observaram também. E isto é uma coisa excelente para as Sereias. A aldeia está praticamente fora das vistas, do céu e do mar. Parece não existir nada. Além do mais, estão afastadas das principais rotas comerciais, e toda a gente deseja apenas visitar ilhas conhecidas. Calculam que tudo o que é bom é conhecido e que o resto nada vale. Eis o que nos tem salvo.

     Maud preparava-se para dizer qualquer coisa mais quando a mão de Hapai tocou no braço de Rasmussen.

     - Capitão - disse Hapai -, as Sereias estão à vista.

     Todos volveram os olhos para o exterior. A noite desaparecera, e o sol nascia. O oceano, embaixo, cinzento-azulado e franjado a ouro pela primeira réstia de sol matinal estirava-se diante deles numa extensão líquida aparentemente sem fim. Os olhos de Claire devassaram o mar, e aí, algures na distância, exatamente como Easterday descrevera em sua carta, viu a vago contorno, contra o horizonte, de uma faixa de terra. As palavras de Hapai encantavam-na: as Sereias estão à vista.

     Maud só as distinguiu passados alguns momentos. Exalou de prazer.

     - Já consigo vê-la, capitão. Que lhe chamaria... um

     atol úmido ou uma ilha vulcânica exposta ao tempo?

     - Defini-la-ia das duas maneiras, sem errar - volveu Rasmussen, que voltara as costas a ambas. - Na verdade, chamar-lhe uma ilha alta seria mais correto, pois tem aquele pequeno vulcão extinto... veja, lá onde as pesadas nuvens brancas se amontoam... mas não é tão árida e selvagem como a maior parte das ilhas altas que se vêem por aqui; embora possua um anel de coral tem também pântanos salinos e melhor vegetação do que os atóis. E, o que é melhor... do ponto de1 vista das Sereias... são escarpadas, íngremes, de interior difícil de penetrar, como as Aguigan e as Pitcairn. - Fez uma pausa. - Vê-la-á com seus próprios olhos dentro de minutos.

     Claire e Maud permaneceram retesadas, em temeroso respeito, à medida que o aparelho sobrevoava a superfície cintilante, esplendorosa, como seda chinesa, do Pacífico; p todo do disco amarelo do sol expandia-se e alargava-se, envolvendo, como uma moldura, a linha principal, uma peça de jade, rasgada e impolida, imóvel na calma tropical.

     Estavam quase sobre ela e Claíre podia ver distintamente o que vira Easterday; penhascos íngremes, negros, como terraços, esculpidos pela erosão, pela chuva, pelo tempo; o tapete luxuriante e verde-cinzento do platô, uma montanha quebrada elevando-se na altura, orgulhosa como as ruínas de um antiquíssimo castelo; lagoas, como se salpicos cor de púrpura; ravinas cavadas pela “mão paciente dos tempos” de Loti; encostas arborizadas e arroios de cristal e manchas de verdes vales. Contudo, pensou Claire, tudo detalhado delicadamente em miniatura, como se obra do pincel de Breughel.

     Tinham mergulhado para diante dos dois atóis próximos e retrocediam agora em direção de uma incisão no perímetro rochoso. Claire distinguia as fileiras de coqueiros, a sua folhagem, pequenas explosões festivas no céu. Para além, o oceano de cobalto, de um verde esplendente à medida que se aproximava de uma faixa de praia, onde a areia refletia o brilho- dourado do sol. Tudo parecia inanimado, com exceção da borbulhante espuma branca contra os rochedos que se desdobravam ao longo da pequena extensão de praia, tudo imóvel, em contraste com a ligeira sugestão de movimento lá muito embaixo, na areia.

     O coração de Claire sobressaltou-se.

     - Há gente lá embaixo, na praia? - perguntou ela. Rasmussen soltou um grunhido.

     - Sim. Provavelmente trata-se de Courtney, que nos vem dar as boas-vindas, e alguns aldeões, encarregados do transporte das bagagens. - Rasmussen estava ocupado com os comandos. - Vamos descer. É melhor que despertem a sua gente. Digam que continuem reclinados. Por vezes, a água é uma almofada e por vezes uma estrada esburacada.

     Maud foi a primeira a deixar o compartimento e Claire mostrou relutância em segui-la. Durante mais um momento seus olhos regalaram-se com a visão daquele lugar primitivo, do arco-íris colorido sobre a asa, e murmurou para si mesma iaorana. Libertou os olhos do que lhe deflorava os sentidos e tornou à razoável segurança representada pelo marido e pelos companheiros.

     Quando chegou a seu lugar viu que Marc e os outros estavam despertos; após fazer um aceno vago, ainda seduzida, sentou-se precisamente no momento em que o hidravião se lançava em mergulho para a frente. Manteve-se imóvel, retesada, com os olhos fixos nas vigias de madeira, e desceu com a obesa, castanha ave da Polinésia; sentiu-a tocar a água, balouçar e deslizar, até que seus motores soltaram os últimos espasmos e ficaram mudos, parados. Todos, então, se ergueram, maravilhados, sobre as águas tranqüilas e pouca distância da areia da praia das Três Sereias.

      

     Era ainda manhã, embora tivessem esperado na areia durante mais de uma hora, enquanto Rasmussen e Hapai ajudavam nove jovens das Sereias a transportar os caixotes, e agora as bagagens, do hidravião para a praia.

     O Sol era, por esta altura, um globo incandescente e o calor que lançava sobre eles quase que se podia ver. O ar que os circundava parecia parado e abrasador, quase úmido, com a consistência do vapor, mas fervendo sempre. Era um calor que, habitualmente, não se sentia nesta parte da Oceania.

     Claire ergueu-se, o suéter no braço, fruindo o calor, no rosto e no pescoço, e a quentura dos grãos da areia que lhe cobriam as sandálias. A seu lado, Rachel DeJong e Lisa Hackfield sentiam-se menos contentes. Rachel, que se mostrava pouco à vontade no seu vestido de lã preta, começou a tirar a blusa. Inspirada por este gesto tão formal, Lisa Hackfeld deixou também cair a sua blusa branca.

     - Deve ser da umidade - disse Lisa, como que desculpando-se. - É sufocante.

     - Temos de aprender a vestir-nos convenientemente - volveu Rachel DeJong.

     Claire contemplou um nativo alto, mais escuro do que os companheiros, à medida que ele se debruçava para a frente, cotovelos sobre os joelhos, pronto para receber a longa canoa que se aproximava. Visto de trás, o nativo parecia achar-se nu. Seus membros descaídos, a saliência da espinha, os longos flancos e as pernas estreitas estavam inteiramente à mostra. Apenas a cintura mantinha a tira que segurava o saco púbico.

     Quando, a princípio, a tinham ajudado a descer para a canoa e se encontrou face a face com estes nativos, a sua masculinidade mais acentuada do que escondida pelos sacos, Claire desviara os olhos, embaraçada. Aterrorizava-a a idéia de chegar à praia, onde, sabia, estaria o branco, Tom Courtney, aguardando-os na companhia de todos. Nos nativos, a exigüidade do vestuário, embora embaraçadora, era pelo menos aceitável. Pertenciam afinal, a outra raça, a outro povo e lugar. Não os sentia iguais a si, não os identificava ou os concebia. Mas que uma pessoa da sua própria raça revelasse assim o corpo era coisa que não conseguia admitir.

     Com pavor, Claire suportara a passagem até à praia, com o cenário dos remadores. Mantivera-se imóvel enquanto Maud a apresentava ao Sr. Thomas Courtney, e para seu profundo alívio ele não era carne exibida sem pudor mas a própria personificação da decência civilizada.

     - Seja bem-vinda às Sereias, Sra. Hayden - dissera. Quando tomara a mão de Courtney, evitando olhá-lo no rosto, pôde ver que ele trazia uma fina camisa de algodão, de ginástica, já manchada pela transpiração, calças justas azuis-escuras, cheias de vincos, enroladas até aos tornozelos, e tinha os pés metidos em sandálias de couro, de tiras. Apenas mais tarde, estava ele ocupado algures, comparou seu rosto com a imagem que sua mente formara ao ler a carta de Easterday. Esperava que tivesse cabelo claro, cor de areia, mas era castanho-escuro, como os olhos, e espesso e emaranhado. Tinha um rosto longo, mais sensitivo e luminoso do que Easterday descrevera, e um sorriso maravilhosamente expressivo. Era esbelto, provavelmente robusto, mas movia-se em volta deles na praia com longas passadas pouco firmes, como se fosse demasiado alto e demasiado tímido. Possuía, quando estava imóvel, como Claire observou, o dom do repouso, da descontração, uma aparência enganadoramente indolente - um contraste com seu próprio Marc, que se encontrava sempre rígido, retesado.

     Agora, ao lado de Rachel DeJong e de Lisa Hackfeld, enquanto mirava o posterior do nativo à beira da água, Claire teve a sensação de que ele e os outros nativos eram sensatos no que se referia ao vestuário, ao contrário dela e dos companheiros. Durante um momento, teve a sensação de que, por muito que fruísse o calor da manhã, desejava libertar-se da blusa e da saia e de arremessá-las para longe, a fim de conhecer o prazer total proporcionado pelo sol, pelo ar e pela água.

     Lisa queixara-se de que se sentia sufocar e Rachel declarou que teria de aprender a vestir-se convenientemente. Por sua vez, Claire afirmou, num tom ligeiro:

     - Bem, Dr.a DeJong, talvez tenhamos de aprender a despir-nos, imitando os nativos.

     Rachel ofereceu apenas os lábios num sorriso.

     - Duvido, Sra. Hayden. Receio que estejamos na posição do inglês da Malásia, nos tempos do Império, que se vestia a rigor para jantar na selva.

     - Mas como é possível haver gente assim? - perguntou Lisa Hackfeld.

     - Habitualmente, vivem sós - volveu Claire.

     Rachel DeJong esboçou um gesto de assentimento, para além delas.

     - Esta deve ser a nossa bagagem. Espero que sejam cuidadosos.

     Olharam para a proa afilada da canoa que se aproximava, dirigida por oito jovens nativos vigorosos. No centro da canoa elevava-se o volume de bagagem do grupo.

     - Não consigo me habituar à aparência deles - disse Lisa. - Esperava que fossem mais escuros, mais nativos.

     - São uma mistura de ingleses e de polinésios - declarou Claire, recordando-a desse fato.

     - Eu sei, mas de uma maneira ou de outra... - tornou Lisa. - Ora, o americano, Sr. Courtney, é mais escuro do que eles. Tenho esperança de conseguir um bronzeado como o dele. Farei a inveja de todos, uma vez na pátria.

     Rachel DeJong concentrara a atenção na canoa que se aproximava.

     - As suas feições podem ser claras - observou -, mas creio que têm um matiz bem polinesio. São todos altos e musculosos, de cabelo negro, de nariz largo, lábios bastante cheios, e contudo parecem ter um ar efeminado, suponho que devido à graciosidade dos seus movimentos.

     - Penso que são bem masculinos - volveu Claire, que, durante um momento, olhou de viés, a fim de se assegurar de que Marc não escutara, por acaso, suas palavras.

     - Sim, não há dúvida - disse Rachel secamente.

     A canoa alcançou a praia e os remadores saltaram para a água pouco profunda a fim de a empurrarem para a areia, enquanto alguns companheiros, à proa, puxavam com toda a força.

     - Desejo ver se minhas coisas estão ali - disse Lisa, começando a caminhar através da areia, em direção à canoa.

     - É melhor ir verificar também - declarou Rachel DeJong, seguindo Lisa.

     Neste momento, Claire não sentia qualquer interesse pela sua bagagem. Acompanhou com os olhos Rachel e Lisa até à canoa, e depois rodou sobre os calcanhares para ver o que faziam os outros. A sombra de um rochedo, Maud, Marc e Orville Pence achavam-se absorvidos numa conversa. Próximo, Courtney, agachado com Hapai, percorria uma lista, enquanto Rasmussen escutava, de testa franzida. A certa distância, à beira da água, Mary Karpowicz patinhava, enquanto o pai e a mãe a observavam, enlevados.

     Por um momento, Claire pensou em reunir-se ao marido, mas decidiu aproveitar estes instantes. Voltando as costas aos outros, ergueu a sua pequena bolsa da areia e, balançando-a com indolência, dirigiu-se para a canoa que estava sendo descarregada. Porém, aproximou-se de um grupo de coqueiros curvados sob o peso dos frutos, e uma vez debaixo do primeiro, deixou-se tombar sobre a areia; depois, puxou um cigarro do maço e acendeu-o, reclinando-se em seguida contra o tronco da árvore; com ar sonhador, mergulhou os olhos na paisagem em redor e por cima dela. Era fácil despovoar a cena, devolvê-la a seu estado virginal, pois tinha uma grandeza magnificente.

     Cercada pelos penhascos, pela vegetação virgem e selvagem, sentiu pela primeira vez que tinha cortado todos os laços com a civilização, com tudo o que era familiar e controlado. Era como se tivesse retirado os pés do mundo seguro, penetrasse no espaço exterior e fosse o primeiro ser a pisar um planeta quente e desconhecido. Longe, estava o mundo pasteurizado, sanitário, antibiótico, plástico, elétrico, automático, que a envolvera durante toda a sua vida passada. Aqui, o primeiro mundo primevo, não arregimentado, reprimido, derrotado, culto, domesticado, educado, inibido. Longe, a elegância afetada, a sofisticação, o progresso, e aqui a natureza crua, primordial, paga.

     Pela primeira vez, desde a infância, estava à mercê dos outros. Na sua mente, voou para os confortos da sua vida passada, para os casulos que a envolviam, o macio leito de lanugem, o banheiro com seus apetrechos esplendorosos, a cozinha com suas glutonices mecânicas, a sala de estar e o estúdio com sua mobília de couro e madeira, e os discos, os livros, a arte. Em casa, era visitada por amigos civilizados que podia compreender e que traziam uma indumentária que não inspirava receios, gente que fruía as amenidades proporcionadas pela sociedade industrial e que obedecia às regras à maneira da nobreza vitoriana.

     O passado fora esquecido, e agora que possuía ela em seu lugar? Uma ilha vulcânica, um pedaço de terra e de selva, tão isolado no mar poderoso que nem sequer se encontrava no mapa. Um povo, uma cultura, tão estranho que nada sabia de polícias, de votos, de lâmpadas elétricas, Fords, filmes, máquinas de lavar, camisolas de dormir, de martinis, supermercados, sociedades artísticas, bombas de incêndios, zôos com j aulas, canções de natal, soutiens, vacinas contra a poliomielite» bolas de futebol, blusas, toca-discos de alta fidelidade, New York Times, telefones, cartões de previdência, aparelhos de televisão, Diner's Club, desodorantes, bombas nucleares, lápis, cesarianas. Tudo isto fora varrido da sua vida e deixado na areia desolada, numa pequena área da Oceania, com um metro e cinqüenta e três centímetros, cinqüenta e um quilos e vinte e cinco anos do seu ser superabrigado, supercivilizado, subprotegido e inexperiente. Não mais que trinta e duas horas separavam o confortável paraíso de engenhocas dos Estados Unidos e as rudes e primitivas ilhas das Três Sereias. Lançara, fisicamente, uma ponte sobre o tempo e a distância. Podia fazer o mesmo quanto à mente e ao coração?

     Apesar do resplendor do sol que batia na sua cabeça, estremeceu. Após tirar uma fumaça mais profunda, enterrou o cigarro na areia e pôs-se de pé. Lançou um olhar para a beira da água. Todo o grupo se reunia junto da pilha da bagagem ao lado da canoa, e sabia que Maud necessitaria dela e do inventário que guardava na bolsa. Com mais energia do que antes, caminhou através da areia, recordando o lago de Chicago da sua infância,. e pouco depois era, uma vez mais, um elo da engrenagem formada pela sogra, pelo marido e pelos componentes do grupo.

     Embora tivesse sido permitido a cada um dos membros do grupo reter os bens de utilidade pessoais, até ao limite de vinte quilos, na sua própria mala, os instrumentos científicos tinham sido reunidos e colocados em caixotes de madeira. Após ter ajudado cada membro a identificar sua bagagem, Maud chamou Claire e pediu-lhe o inventário dos utensílios e apetrechos.

     Com a lista na mão, Claire manteve-se atrás de Maud enquanto esta examinava o exterior dos caixotes.

     - Parecem achar-se em boas condições - anunciou Maud. - Vejamos se está tudo aqui. Leia a lista, a fim de que possa identificar cada coisa, sem nada omitir.

     - Uma caixa de sacos de dormir, lâmpadas, baterias e um gravador portátil - leu Claire. - Também...

     - Confere - disse Maud.

     - Uma caixa com os instrumentos de secagem do Dr. Karpowicz, prensas de plantas...

     - Confere.

     - Uma caixa com o equipamento fotográfico do Dr. Karpowicz, máquina de filmar, duas máquinas comuns, tripés, equipamento portátil de revelação, fume...

     - Confere.

     - Uma caixa... Não, duas caixas com artigos de primeiros socorros da Srta. Bleaska, outros medicamentos, e inseticidas.

     - Sim, ei-los, Claire.

     - Seis caixas de provisões sortidas - víveres em latas, leite em pó...

     - Espere, Claire. Vi apenas duas... três... Um momento.

     Observando Maud, que se ajoelhara e rebuscava os caixotes, Claire recordou-se de que lhe parecera bastante singular o fato de trazerem víveres. Maud explicara que, de maneira geral, comeriam as iguarias dos nativos das Sereias; porém, uma reserva limitada de provisões poderia ser útil. Por vezes, dissera Maud, encontra-se um povo no meio de uma fome cíclica ou sujeito ao racionamento, “e se comermos das nossas latas não os privamos”. Outra razão para se trazerem produtos americanos devia-se ao fato de alguns componentes do grupo não conseguirem adaptar-se aos bizarros pratos nativos e preferirem morrer de fome a terem que comer o que seu estômago não admitia. Maud tinha uma recordação bem marcada, como uma cicatriz, de uma viagem de campo com Adley em que fora obrigada a comer ratos da floresta cozidos; preferira ingeri-los a insultar os anfitriões ou, na verdade, a morrer de fome.

     - Muito bem, Claire, continue. Claire consultou a lista.

     - Vejamos. Uma caixa de artigos de escritório - máquina de escrever portátil, resmas de papel, testes projetivos do Dr. Pence, blocos de apontamentos e lápis...

     Maud inclinava a cabeça num gesto de assentimento à medida que verificava o conteúdo dos caixotes.

     - Sim, Adley gostava sempre de dizer: “Durante uma viagem de campo necessito apenas de lápis e creme de barbear”... Confere.

     - Livros - disse Claire -, uma caixa com livros. Tinha, pessoalmente, reunido e encaixotado as diversas dúzias de volumes de obras básicas - O Perfil das Matérias Culturais, Notas de Campo, de Kennedy, Notas e Quesitos para Antropólogos, do Museu Britânico, Manual, de Merck (propriedade da Srta. Bleaska), Argonautas do Pacífico Ocidental, de Malinowski, Sociedade Primitiva, de Lowie, Macho e Fêmea, de Mead (propriedade do Dr. Pence), eis os que lhe acudiram logo à mente - mas os componentes do grupo tinham trazido consigo seus livros recreativos. Orville Pence trouxera alguns romances pornográficos, explicando que os utilizava para um estudo. Harriet Bleaska emalara uma dúzia de novelas policiais. Claire trouxera consigo o Typee, de Melville, o Noa Noa, de Gauguin, Voyages, de Hakluyt, Sombras Brancas nos Mares do Sul, de Frederick 0'Brien, cada um dos quais escolhido por constituir leitura apropriada para a jornada.

     - Encontrei os livros - disse Maud.

     Rápida, Claire prosseguiu com o inventário. Os caixotes que restavam continham uma grande diversidade de utensílios e utilidades, tais como equipamento de hidrologia, sabonetes, purificadores de água, medidas de fita de aço, cartas topográficas coloridas, álbuns fotográficos de nativos de outras culturas, mapas, apetrechos de pesca, brinquedos; todos estes objetos deviam ser utilizados em estudos específicos.

     Maud, que se endireitara por fim, massageava os quadris e Claire guardava o inventário na bolsa quando Tom Courtney surgiu entre elas.

     - Tudo em ordem? - perguntou ele.

     - Sim, e estamos todos aqui - volveu Maud com ar risonho. - Que fazemos em seguida, Sr. Courtney?

     - Em seguida, Dr.a Hayden, temos a nossa caminhada. - Sorriu. - Realmente, não é uma coisa do outro mundo. A distância é pequena, mas em certos pontos vão deparar-se-nos alguns obstáculos. Há uma subida gradual até ao platô, depois uma descida, outra subida, esta um tanto íngreme, e por fim a descida até a aldeia. Demoraremos cerca de cinco horas, creio, contando com duas ou três paradas ao longo do caminho. - Indicou os caixotes e a bagagem. - Não se preocupe com isto. Da aldeia virão mais uma dezena de jovens ajudar os nove que aqui se encontram. Levarão tudo por outro caminho, por um atalho demasiado difícil para muitos de vocês, a não ser, claro, que estejam em forma.

     - Seguiremos pelo caminho mais demorado mas menos difícil - volveu Maud.

     Neste momento, Marc apareceu ao lado de Claire e da mãe; a maioria dos componentes do grupo juntara-se atrás de Courtney para escutar a conversa. Davam a impressão de ser jovens soldados de infantaria que se juntam em redor do sargento ansiosos por ouvir uma migalha de informação que dissipe seus receios ante o desconhecido e os reassegure acerca do futuro próximo e comum.

     Lisa Hackfeld erguera a mão, e quando Courtney notou este gesto, ela perguntou com voz trêmula:

     - Pelo caminho que vamos seguir... correremos o risco de sermos atacados por animais ferozes?

     - Não, de maneira alguma - prometeu Courtney. - Como em muitas das pequenas ilhas do Pacífico, a fauna das Sereias é bastante limitada e a maior parte dela constituída por seres marinhos concentrados em redor das praias. Como sabe, tartarugas, caranguejos e alguns lagartos inofensivos. A medida que caminhamos para o interior podemos ver diversos bodes, cabras, cães de pêlo curto, galinhas, gaios, todos descendentes dos animais domésticos trazidos para aqui por Daniel Wright, em 1796. Vagueiam por aí à vontade. Os carneiros, esses, já não existem por aqui. Por sua vez, a ilha tem algumas variedades de porcos selvagens, bastante dóceis. Constitui tabu matá-los, exceto os destinados às festas do chefe. Durante a semana do festival o tabu não vigora também.

     Enquanto Courtney falava, uma ave, bela, de longas pernas, lançou-se de um penhasco para o tronco úmido de uma árvore, espreitando-os.

     - De que espécie é aquela ave? - inquiriu Claire.

     - É uma tarambola dourada - explicou Courtney. - Pode ver, também uma vez por outra, uma certa variedade de gaivinas, pombas, pombos coroados. - Tornou a fitar Lisa Hackfeld. - Não tem com que se preocupar. O sol é o único inimigo.

     - Esta excursão parece tão inofensiva como um piquenique - disse Maud com alegria.

     - Garanto-lhes que assim é - retorquiu Courtney. Contudo, ao passar os olhos pelos seus ouvintes apercebeu-se da existência de uma obstinada ansiedade. Durante uns instantes pensou no que dizer mais, e depois declarou: - Bem, agora que tudo está em ordem, que conhecem o caminho que vamos seguir e alguma coisa sobre a fauna, não há muito mais que acrescentar neste momento. Compreendo que tudo isto é estranho para vocês e que gostariam de saber mais alguma coisa, mas creio que a praia não é lugar para tal. O sol está tornando-se cada vez mais forte e não podemos contar aqui com abrigo. Não os quero ver alquebrados antes de começarmos. Responderei, através da Dr.a Hayden, ou diretamente, a quaisquer outras perguntas quando nos encontrarmos no conforto da' aldeia.

     - No conforto da aldeia?! - exclamou Marc em tom de gracejo.

     Courtney pareceu surpreendido.

     - É verdade, Dr. Hayden. Quero dizer, relativo conforto. Não é uma comunidade americana, não temos água quente e corrente, luz elétrica, ou farmácia, mas não se assemelha também a esta praia solitária. Encontrarão cabanas preparadas para vocês, lugares onde se sentarem, se deitarem e comerem, e boa companhia também.

     Maud, que fitava de testa franzida o filho, encarou Courtney com um sorriso forçado.

     - Estou certa de que será uma estada agradável, Sr. Courtney. Alguns de nós já estiveram antes no campo. Sabemos que não é a nossa casa. Se fosse isso o que desejávamos, não teríamos vindo até aqui. E, como já afirmei, sentimo-nos honrados, lisonjeados, por nos ter sido permitido vir até esta ilha e sermos aceitos pelo chefe Paoti.

     - Bom - disse Courtney, sacudindo a cabeça de maneira perfunctória. Após examinar o rosto dos outros, acabou por fixar os olhos nas feições atentas de Claire. - Alguns de vocês podem sentir-se confusos, experimentar uma sensação de isolamento do mundo. Isso não me surpreenderia. Foi exatamente o que senti quando pisei pela primeira vez a terra das Sereias, há quatro anos. Por experiência própria, posso assegurar que esta sensação terá desaparecido amanhã. O que realmente desejo dizer é que não estão tão isolados como podem supor. O Capitão Rasmussen concordou em estreitar o contato conosco, em vir aqui uma vez por semana. Creio que o professor Easterday se encarregará de receber o seu correio. Bem, o capitão trá-lo-á todas as semanas e levará as cartas que desejarem fazer expedir de Papeete. Também, se sentirem falta de algumas utilidades ou de algumas provisões, o capitão comprará tudo aquilo de que necessitarem e que possa ser adquirido em Taiti, e trará tudo semanalmente, também. Creio que..

     - Tom! - bradou Rasmussen na praia.

     Courtney rodou sobre os calcanhares e todos os outros olharam para trás dele. Rasmussen e Hapai apontavam para Sam Karpowicz. O botânico tinha as pernas bem afastadas, sobre a areia molhada, à beira da água, e com uma minúscula máquina fotográfica prateada focava o hidravião.

     - O brincalhão está tirando fotografias! - gritou Rasmussen.

     Imediatamente, Courtney afastou-se do grupo e correu em direção de Sam Karpowicz, que não estava a muitos metros de distância. A última explosão de Rasmussen penetrara o botânico, que baixou a máquina, confuso, devido ao ruído produzido pelo incidente e à aproximação de Courtney. Decorridos alguns momentos, Maud, seguida por Marc e por Claire, e depois pelos outros, pôs-se em marcha, atrás de Courtney.

     - Que diabo pensa você que está fazendo? - perguntou Courtney

     - Ora, ora, eu... - Desorientado, Sam não conseguia encontrar palavras sem esforço. - Tirava apenas algumas fotografias. Trago esta Minox no bolso. É apenas para...

     - Quantas tirou?

     - Que quer dizer? Aqui?

     - Sim, aqui.

     Ante esta acusação, e observando a expressão severa, acusadora de Courtney, a súbita dureza que transparecia na sua voz, Claire sentiu-se perturbada. Supusera-o gentil, apenas gentil e vivaz, demasiado cavalheiro para se encolerizar, e esta cena assustou-a. Perguntou-se o que o possuíra.

     - Eu... eu... - Sam Karpowicz tartamudeava de novo. - Tirei dois ou três instantâneos da praia... e um do hidravião agora... e....

     Courtney estendeu a mão.

     - Dê-me o filme.

     Sam premiu um botão na parte de trás da Minox e esta abriu-se. Deixou tombar o pequeno rolo de negativo para a palma da mão e entregou-o a Courtney.

     - Que vai fazer dele? - perguntou Sam.

     - Jogá-lo fora.

     Os olhos míopes de Sam, atrás dos óculos quadrados, sem aros, pareciam os de uma corça ferida.

     - Não pode fazer isso, Sr. Courtney... Aqueles... O rolo dá para cinqüenta fotografias... e tirei vinte instantâneos em Papeete.

     - Sinto muito - volveu Courtney, recuando alguns passos e lançando o pequeno rolo de metal, que descreveu um arco no ar, para a água, onde afundou após um pequeno barulho.

     Sam fixou os olhos na água, sacudindo a cabeça.

     - Mas... Mas por quê?...

     Courtney aproximou-se do botânico, fitou-o, e depois aos outros. Seu rosto já não denunciava a sombria cólera que o possuíra momentos antes, mas tinha uma expressão grave.

     - Convenci Paoti, a tribo inteira, a permitir a sua vinda. Dei a minha palavra de que não fariam nada, absolutamente nada, que revelasse a localização destas ilhas ou fizesse perigar a segurança de todos.

     Marc protestou.

     - Realmente, Sr. Courtney, não acho possível que alguns instantâneos inofensivos de uma praia primitiva... parece-se com centenas de outras...

     - Mas não - volveu Courtney com firmeza. - Não para uma pessoa que conheça bem os Mares do Sul. Cada centímetro de cada atol tem as suas características próprias, a sua individualidade, que olhos experientes facilmente descobrirão. Estes instantâneos da praia, a área em redor, uma vez mostrados ou publicados poderiam fornecer uma indicação... uma indicação precisa...

     Sam tomara o braço de Maud, apelando para ela, como se a antropóloga fosse o supremo tribunal.

     - Concordaram que poderíamos tirar fotografias...

     - Decerto que pode - interrompeu Courtney. - Ele dirigia-se também a Maud. - Dr.a Hayden, compreendo de certo modo o seu trabalho, o que requer, a importância de provas fotográficas. O chefe Paoti concordou em que tirassem as fotografias que quisessem no interior da ilha... a paisagem, os habitantes, a fauna e a flora, as danças, as atividades quotidianas... tudo exceto o que pudesse revelar a situação da ilha. Estou certo de que compreende. Eles correriam perigo se tirassem fotografias do perímetro exterior da ilha, se fixassem pontos de referência... os restos do pico vulcânico, por exemplo, ou perspectivas dos dois atóis. Porém, quanto ao resto... este estúdio é seu, e podem fazer nele tudo o que quiserem.

     Maud, que acompanhara as últimas palavras de Courtney com gestos de aprovação feitos com a cabeça, volveu os olhos para Sam Karpowicz.

     - Ele tem muita razão, Sam - disse. - Impuseram-nos certas normas e devemos respeitá-las. - Voltou-se para Courtney. - Não encontraria uma pessoa mais cooperativa do que o Dr. Karpowicz. O seu erro, todos nós os cometemos, consistiu em ignorar as limitações. Logo que possível, Sr. Courtney, terá de me informar acerca dos tabus, a fim de esclarecer convenientemente todos os componentes do grupo.

     Enquanto escutava, a expressão de Courtney perdera toda a sua severidade, e uma vez mais Claire, estudando-o, gostou dele.

     - Bastante justo, Dr.a Hayden - disse Courtney. Tirou um lenço do bolso da frente das calças e limpou a testa. - Agora, creio que é melhor que rios afastemos da praia e nos dirijamos para o interior.

     Courtney deu uma ordem em polinésio aos nativos na canoa, e um deles respondeu com um gesto de assentimento. Depois, afastando-se do grupo, Courtney dirigiu-se para o ponto onde se encontravam Rasmussen e Hapai.

     - Capitão, obrigado - disse. - Você também, Dick. Espero-os aqui na próxima semana, à hora do costume.

     - Sim, na próxima semana - volveu Rasmussen desviando depois os olhos de Courtney e fixando-os em Maud e Claire, sorrindo. - Espero vê-las de saiote...

     Maud fingiu não ter ouvido as palavras do capitão.

     - Em nome de todos, capitão, agradeço sua colaboração - disse ela.

     Courtney bateu palmas para chamar a atenção de todos.

     - Agora, a caminho da aldeia!

     Esperou que Maud se aproximasse dele, e em seguida, voltando as costas aos outros e ao mar, começou a caminhar através da areia em direção a uma abertura nos rochedos gigantes. Silenciosos, os outros nove, em fila, seguiram o par e pouco depois encontravam-se no estreito caminho que conduzia até acima, entre as paredes de rocha, ao interior da ilha.

     Com Marc a seu lado, Claire fechava a retaguarda. Sentiu a mão do marido no cotovelo.

     - Que pensa, Claire?

     Ela deteve-se e deslocou a alça da bolsa, a fim de que esta ficasse mais segura no ombro.

     - De quê?

     - Disto tudo... do lugar... daquele Courtney.

     - Não sei. É tudo tão diferente. Nunca vi nada que se assemelhasse a isto... tão belo, mas isolado do mundo.

     - Isolado, sim - concordou Marc, volvendo o olhar para o caminho que os outros subiam lentamente. - Como o nosso amigo ali.

     - Quem? O Sr. Courtney?

     - Sim. Não sei o que pensar dele. Espero que nos seja útil como informante.

     - Parece culto e sensato.

     - Sem dúvida que é culto - volveu Marc. - Quanto a ser sensato, depende do que entenda por isso. É prático e eficiente, sim, mas por que se impôs este exílio? Se fosse um leproso, um deformado, um fugitivo da lei ou mesmo um vagabundo sem eira nem beira, podia compreender. Mas parece normal...

     - Não sei, Marc, mas creio que tem algumas razões muito pessoais para se encontrar aqui.

     - Talvez sim, talvez não - retorquiu Marc, meditativo.

     - Pensei que estabeleceria relações francas, cordiais, com ele desde o princípio, e assim perguntei-lhe o que fazia num lugar destes. Sabe o que me respondeu? “Tento viver.” Devo admitir que aquilo me desconcertou. Que espécie de pessoa se exilaria numa ilha, a mil quilômetros do mundo civilizado, entre primitivos nus, com o fim de vegetar apenas, calmamente?

     Claire não respondeu. Todavia, fez-se também a mesma pergunta. Depois, quando Marc entrou no caminho, ela voltou-se para lançar um último olhar para a praia e para o oceano. Em seguida, perguntou-se qualquer coisa mais. Na próxima vez que contemplasse esta cena, alguma coisa ou algum deles seria diferente?

     Resoluta, estugou o passo e começou a subir o caminho que dentro em breve a conduziria a um mundo que há muito tempo a iludia nos seus sonhos.

     Caminhavam penosamente, arrastando-se no meio de calor sufocante há quase quatro horas e meia.

     Durante a primeira parte da jornada, quando ainda se encontrava possuída de todo o seu vigor, quando seus sentidos se achavam frescos e vivos e capazes de absorver as novas paisagens e sensações, Claire sentira prazer na caminhada. A primera subida através das rochas de lava calcinada, com sua vegetação, que aumentava gradualmente, os pequenos arbustos e as videiras torcidas, tudo quase seco, sombrio e contraído, fora fácil, mesmo revigorante, e sentira os músculos frouxos distenderem-se.

     O verde magnificente do liso platô, que por vezes cedia lugar a fundas ravinas e barrancos completamente saturados de umidade, era também agradável. Ante seus olhos bailavam filas e filas de árvores de fruta-pão, as videiras enfezadas que davam a impressão de inhames selvagens, a cana-de-açúcar, as folhas de pandanus, os coqueiros, as bananeiras, os pequenos bosques de bambu, as mangas, as acácias amarelas e brancas, os pântanos de taros, tudo tão exótico, tão colorido, que a vista se embaciava gradualmente e a reação à paisagem começava a tornar-se deficiente. Pouco depois restavam apenas os odores, um leve sopro do mar salgado, atrás, sobrepujado pelos odores das flores tropicais, das frutas, das plantas e das cascas de coco.

     Agora, sentia-se fatigada devido ao extremo exotismo da ilha, à sua beleza, ao movimento, ao sol. Tinha os músculos e os sentidos doridos.

     Após a última parada, uma hora antes, encontrara um lugar ao lado de Harriet Bleaska, a um metro de Courtney e Maud, que caminhavam na dianteira e pareciam não se cansar, uma coisa que detestava. Como um cavalo de tração seguindo outro, numa parelha, tentou acompanhar as passadas militares de Maud - que sucedia com a sua artrite? - e o andar monótono, sacudido, oscilante, de Courtney. Tinham subido uma faixa de terra, uma colina - de declive sarroso, cheio de pandanus e scaevol (como dissera Sam Karpowicz) - e chegado ao topo; uma vez aí, aproximaram-se de um renque de árvores de fruta-pão de espessa folhagem, em frente de um pequeno regato, cujas águas se precipitavam algures, no sopé da colina.

     Courtney abrandou o passo, ergueu um braço e em seguida voltou-se para os encarar a todos.

     - Muito bem - disse -, podemos descansar aqui à sombra. É a última parada antes de chegarmos à aldeia. Temos de caminhar durante cerca de vinte ou trinta minutos, descendo a colina, de maneira que a marcha não será dura. Se têm sede, saciem-na no regato. A água é fresca.

     Sem demora, Mary Karpowicz dirigiu-se para o regato, seguida imediatamente pela mãe, ofegante, e depois por Orville Pence e Lisa Hackfeld.

     Claire, que os estivera observando, compreendeu de súbito que Courtney se encontrava um pouco acima dela, contemplando-a, com olhar sombrio.

     - Está cansada, não é verdade?

     - Nota-se assim tanto?

     - Não, mas...

     - Sim, estou - concordou ela. - Mas não compreendo por que, também. Não sou nenhuma atleta mas mantenho-me em forma, na minha terra, sabe. Tênis, natação...

     Ele sacudiu a cabeça.

     - Não, não me refiro à fadiga física, mas a outra. Talvez tenha feito demasiado esforço de uma vez só. É como ir a Paris ou a Florença, pela primeira vez, e tentar ver tudo apenas num dia. Sua cabeça parece que se separa do corpo, sente uma grande indiferença por tudo, os olhos doem-lhe, e as costas e a barriga das pernas.

     - É vidente? Como descobriu?

     - Aconteceu-me o mesmo quando cheguei aqui. Depois de descansar senti-me bem, e à noite era de novo um ser de uma só peça, de novo receptivo. Esta noite sentir-se-á em forma.

     - Estou certa de que sim - disse Claire. - Aliás, detesto que minha fadiga seja notada pelos outros.

     - Juro que isso não acontece. Seu espelho testemunhará a minha honestidade. Fazia apenas uma suposição...

     - É melhor sentar-se aqui à sombra com os outros. Nestes dez minutos recobrará as forças. Demais, não tardaremos a chegar à aldeia, onde encontrará um lugar para repousar.

     Gostava dele, e perguntou-se se esta atenção era pessoal, ou se tratava apenas de uma gentileza que também manifestaria por Rachel DeJong ou por Lisa Hackfeld, caso estivessem perto dele. Voltou-se para se dirigir até ao regato. Chegou à conclusão que a atenção dele era impessoal, e encaminhou-se para o renque de árvores de fruta-pão e deixou-se tombar sobre a erva, a poucos passos de Maud.

     O alívio proporcionado por isto, como também por se ter escondido do sol, reanimou-a um tanto. Sentia-se capaz, quase pela primeira vez desde que partira da praia, de reparar nos outros, que descansavam sobre a erva. Todos, exceto Courtney, tinham voltado do regato. Encontrou um drope de limão na bolsa, e depois de o ter posto no boca ressequida começou a estudar os companheiros, fazendo conjecturas sobre os que estavam calados, imóveis, escutando com atenção os que conversavam.

     Maud, notou, achava-se silenciosa. Estava sentada com as pernas cruzadas, como um Buda cansado, o rosto largo mosqueado pelo esforço e pelo calor, balançando o físico corpulento, os olhos fechados para o presente, divagando sobre o passado. Claire supôs que ela pensava em Adley, na sua viagem às Fidji cerca de dez anos antes, no que se passara então, com um ser amado, a seu lado, e no que se passava agora, uma vez mais na Polinésia, mas emocionalmente só.

     Claire fixou sua atenção nos três Karpowicz. Estelle e Sam estavam estendidos na grama. Mary achava-se apoiada sobre os joelhos, irritada devido a qualquer pergunta. Claire observou-a.

     - Bem, como hei de saber, papai? - disse ela, impaciente. - Não vi nada ainda... apenas uma série de árvores e nativos com uma tira de pano sobre as partes íntimas.

     - Mary, que linguagem é essa? - Era Estelle quem falava. - Onde aprendeu essas coisas?

     - Deixe de me tratar como um bebê, mamãe. Estelle voltou-se, suplicante, para o marido. Sam fitou fixamente a filha,

     - Mary, isto far-lhe-á dez vezes melhor do que um verão em casa. Prometi-lhe que assim sucederia e torno a afirmá-lo.

     - Oh, decerto - disse Mary num tom de vivo sarcasmo.

     - Leona Brophy e as outras invejá-la-ão.

     - Decerto, decerto...

     - E aquele Neal Schaffer não fugirá. Mostrar-se-á interessado apenas em você mesma quando voltar.

     - Claro, manter-se-á bem quieto à minha espera. - Apontou, com a mão, para o cenário. - Isto é uma coisa magnífica para umas férias de verão. É realmente estupendo. Regressarei ao lar com um anel no nariz e com tatuagens pelo corpo. Não importa o que me digam, acho que não foi justo terem-me arrastado até aqui...

     Claire desviou sua atenção dos Karpowicz e mirou Lisa Hackfeld com piedade.. Lisa parecia macilenta e desgrenhada. O seu vestido branco estava sujo e amarrotado. O rosto, sob os cabelos louros, achava-se túmido, manchado, e ela tentava desesperadamente disfarçar isto com pó-de-arroz. Claire observava Lisa, enquanto esta fixava o espelho do estojo. Que se passava na sua mente? Claire conjecturou: está pensando que, pela primeira vez, parece ter a sua idade, sente a sua idade (o vôo longo, a longa marcha), pois antes falara-lhe, disfarçadamente, do seu quadragésimo aniversário. Pensava, conjecturou Claire, que os anos pesavam sobre ela como uma mochila de soldado com quarenta pedras, mais pesada agora que se sentia mais fatigada. Pensa, conjecturou Claire (como ela própria pensara na praia), que isto é um erro, pois agora o excitamento e a alegria iniciais suscitados pelos projetos de viagem e pela partida extinguiram-se, o salão de beleza, o Continental, as criadas, o Saks, o Racket Club estão muito longe, e restava apenas a transpiração, as árvores, mas não os salões de chá com ar condicionado.

     Os olhos de Claire fixaram-se em Rachel DeJong e Harriet Bleaska que conversavam; Harriet, com a cabeça lançada para trás, os olhos fechados, deixava-se invadir pelo ar fresco, e Rachel, com as faces retesadas, era a própria expressão da desventura. Claire pôs-se de ouvidos à escuta.

     - ... encantada com isto - dizia Harriet. - Nunca senti tanta energia. Não sou capaz de explicar o que tudo isto tem feito por mim. Afastei-me dos hospitais... de toda a gente, do passado... para ser livre, para depender apenas de mim.

     - Certamente que a invejo - volveu Rachel. - Receio não possuir a sua natureza. É na verdade um dom... livrar-mo-nos de cuidados, eis o que quero dizer. Eu... eu deixei tanta coisa incompleta atrás de mim. Refiro-me aos doentes e... oh, a questões pessoais. Parece-me uma irresponsabilidade tê-lo feito.

     - Deixe de se preocupar, comece a viver. Doutora, ainda acabará num diva! - exclamou Harriet, rindo com verdadeiro prazer ante este gracejo; depois, apertou o braço de Rachel para provar que se tratava apenas de um gracejo. Claire afastou os olhos das duas e torceu o corpo a fim de observar Courtney, que voltara do regato e se encontrava agora, curvado, ao lado de Marc e de Orville Pence. Imediatamente, concentrou neles sua atenção.

     - Afirmava ainda agora ao Marc - dizia Orville - que a beleza das mulheres polinésias é grandemente exagerada. Bem, isto é o que se me afigura, após a minha primeira visita a Taiti. Sei que são observações de um só dia, mas tenho lido muita coisa sobre este tema. O mundo dos Mares do Sul tem sido objeto de muita publicidade, de muitos contos de fada, de peças e de filmes. Achei estas jovens de Taiti absolutamente destituídas de encantos.

     - De que maneira?

     - Oh, têm largos narizes negróides - disse Orville -, dentes de ouro, cintura larga, artelhos grossos, joanetes, espinhas e calos nos pés... Eis o que me parecem as suas belezas dos Mares do Sul.

     - Sinto-me inclinado a concordar com Orvüle - interveio Marc com certo pedantismo. - As minhas investigações persuadiram-me de que todas as lendas sobre a beleza das polinésias foram criadas pelos primeiros exploradores e marinheiros que visitaram estas ilhas. Eles tinham navegado durante muitos meses e estavam famintos de mulheres. Naturalmente, as primeiras fêmeas sobre que lançaram os olhos, e em especial as mais submissas, pareceram-lhes belas. Estou esperançado, Sr. Courtney, de que as mulheres das Sereias tenham mais para oferecer.

     - Não sou um perito no que se refere ao sexo oposto - disse Courtney com um leve sorriso. - Porém, as mulheres da aldeia não são polinésias puras, mas semi-inglesas, e refletem assim o melhor, e o pior também, da beleza feminina de ambas as sociedades. Sei que discordarei de suas opiniões, mas penso que as mulheres polinésias são as mais bonitas do mundo.

     - Aquelas criaturas corpulentas?! - exclamou Orville Pence. - Deve estar gracejando.

     Marc apoiou Orville.

     - O nosso Sr. Courtney esteve no mar durante muito tempo.

     Courtney não gostava de se ver objeto de gracejos; porém, retorquiu:

     - Descobri que a verdadeira beleza de uma mulher não se encontra na sua aparência exterior. Está dentro dela... e, por dentro, as mulheres polinésias, as mulheres das Sereias, são incomparavelmente belas.

     - Belas por dentro? - volveu Marc surpreendido. - Que pretende dizer com isso?

     Courtney tinha uma boca malévola.

     - São vocês os antropólogos - disse enquanto se erguia.

     - Vejam com seus próprios olhos.

     Marc mostrou-se confundido e embaraçado.

     - Apreciaremos tudo o melhor que pudermos, se contarmos com colaboração - disse ele, hesitante.

     Claire volveu deles os olhos e os ouvidos, e começou uma vez mais a refletir sobre Thomas Courtney. Passou, distraída, a mão pelos cabelos negros, e tentou imaginar como ela e as outras mulheres do grupo apareciam aos olhos de Courtney, como ele as julgava, como julgava a ela própria, comparando-as com as mulheres das Sereias. De súbito, sentiu-se insegura acerca da sua própria feminilidade, e o que se encontrava imediatamente à frente pareceu-lhe hostil. As mulheres das Sereias eram belas por dentro. E o que seria ela?

     Courtney aproximava-se.

     - Ergam-se e regozijem-se, meus amigos - bradou ele.

     - Um último pulo e eis-nos em casa.

     Com os outros, Ciaire pôs-se de pé. O problema suscitado pelas palavras de Courtney ocupou-a inteiramente, e depois a resposta; sentiu-se tentada a exclamar: Sr. Courtney, conheço a resposta... sou bela por dentro, e apenas porque a beleza está encerrada dentro de mim ninguém a pode ver... Nem Marc, nem você... nem eu.. Porém, começo a senti-la, isto é, se se refere ao que eu me refiro.

     Porém, não se encontrava exatamente certa daquilo a que se referia. Fechou por ora a mente ao enigma, e começou a caminhar entre Maud e Courtney.

     

     Para Claire e para os outros, a caminhada dos vinte minutos seguintes foi menos penosa do que a anterior. Marchavam em fila, desciam e subiam gradualmente, como se pisassem montanhas-russas em miniatura. O caminho regular atravessava uma paisagem verde e densa; aqui e ali encontravam bodes pastando, e tinham a impressão de que davam um passeio matinal por uma campina inglesa. Que reconfortante devia ter sido isto para o primeiro Daniel Wright, para o gentleman Daniel Wright, de Skinner Street!

     O imenso disco amarelo do sol parecia encher o céu azul, e o calor que irradiava perseguia-os impiedosamente. Claire viu que a camisa branca de algodão de Courtney era agora uma mancha colada às costas musculosas. O próprio pescoço de Claire, os seios e o rego sinuoso entre eles achavam-se umedecidos. De certo modo, contudo, era melhor do que antes, e o calor fazia que a pele cintilasse, como se refletisse saúde.

     Tinham subido lentamente, por entre a vegetação cada vez mais densa e mais alta, à sombra de renques de acácias, de amoreiras e de outras árvores que Karpowicz identificara como kukui; seus movimentos, através do túnel fragrante, fizeram que meia dúzia de aves de penas brilhantes levantassem vôo assustadas e se afastassem no céu. Pouco depois o sol começou de novo a banhá-los e encontraram-se junto de um amplo precipício. Courtney deteve-se, colocou as mãos bem abertas um pouco acima dos olhos e mirou a beira do abismo; depois, quando os componentes do grupo emergiam do caminho, voltou-se e disse:

     - Se se aproximarem um pouco mais poderão ver a aldeia lá embaixo.

     Claire, com Harriet Bleaska e Rachel DeJong a seu lado, assim fez, e, fixando os olhos embaixo, divisou a aldeia.

     A única comunidade das Três Sereias estendia-se ante elas, no longo vale. A aldeia constituía um triângulo perfeito. O centro era um conjunto de grama e sujidade, dividido por um fio de água pouco profundo atravessado por cerca de uma dúzia de pequenas pontes de madeira. De ambos os lados do conjunto, dispostas em linhas paralelas, encontravam-se as cabanas da aldeia, como se cestas quadradas voltadas para cima. Não havia apenas uma fila de cabanas, mas diversas, umas atrás das outras, porém com espaço bastante entre elas para que cada cabana fosse circundada por um tapete de relva. Entre as cabanas viam-se caminhos e renques de árvore, que pareciam eucaliptos.

     Todas as cabanas, de ambos os lados do longo conjunto, tinham sido construídas sob vastas saliências das colinas, que forneciam cobertura natural e sombra. Ocorreu à mente de Claire que estas projeções tinham provavelmente constituído a razão principal que levara a tribo a instalar-se aqui, há séculos. Pois, com exceção do ponto onde agora se encontravam, a aldeia parecia escondida dos olhos curiosos que pudessem espreitar das alturas, escondida da vista dos exploradores que se tinham arriscado a penetrar no interior, e escondida, nos tempos modernos, das tripulações dos aviões. Sim, pensou Claire, fora isto, bem como a existência do regato e da área plana do conjunto, que fizera com que o povo das Sereias se instalasse neste local, de preferência às terras altas.

     Claire tirou os óculos escuros da bolsa e colocou-os sobre os olhos, uma vez que o brilho ofuscante do sol dissimulava a extremidade mais distante da aldeia. As lentes escuras tornavam esse setor da aldeia claramente visível, e Claire distinguia agora o que não vira antes: três grandes cabanas, uma delas, na verdade, tão grande como uma pequena casa de campo; porém, todas as três alongadas como lagartas, tinham apenas um só piso e estavam situadas entre renques de árvores.

     Durante estes, momentos, a cena embaixo parecera, não sabia por que, destituída de vida, como se uma cidade fantasma tropical; todavia, conseguia agora distinguir duas pequenas figuras bronzeadas, provavelmente de homens, que entravam no conjunto, seguidas por um cão. O par atravessou uma pequena ponte, e, depois de se dirigir para o outro lado, desapareceu no interior de uma cabana.

     Voltou-se para perguntar onde se encontravam os nativos e viu que Courtney e Maud, que tinham estado conversando em voz baixa, se separavam ao notarem a curiosidade de todos.

     - Ei-la, meus amigos - disse Courtney em voz alta. - Perguntam-se onde se encontram as pessoas, não é verdade? Pois bem, elas encontram-se dentro das cabanas, comendo a sua refeição do meio-dia ou repousando, como deve fazer a esta hora qualquer cidadão sensato. Os que não se encontram nas cabanas estão nas colinas fazendo o seu quinhão de trabalho quotidiano. Normalmente, a esta hora, veriam mais gente nas suas idas e vindas pelo conjunto; porém, vivem uma ocasião especial... a ocasião da sua chegada. Disse-lhes que chegariam aqui cerca do meio-dia, e assim aconteceu; por respeito por todos vocês... o chefe Paoti dotou-os com uma mana especial para vencer o tabu contra os estrangeiros... encontram-se dentro das cabanas. Sei que nos Estados Unidos toda a gente sai para a rua para celebrar a chegada de pessoas importantes... paradas, confetes, chaves da cidade, mas aqui a marca do respeito e das boas-vindas consiste em conceder-lhes, durante o momento da chegada, pelo menos a liberdade de circularem pela aldeia sem serem observados. Espero que compreenderão isto.

     - Todos compreendemos, sem dúvida, a hospitalidade deles - disse Maud.

     - Na verdade - tornou Courtney -, muitos vestirão, esta noite, os seus trajes de cerimônia, em sua honra. Sei que o professor Easterday, lhes disse que os homens das Sereias usam, em geral, apenas sacos púbicos, e as mulheres pequenos saiotes, e que os menores andam por aí nus. Bem, é verdade. Contudo, encontrarão certas exceções. Na enfermaria, na escola, por exemplo, os indivíduos do sexo masculino trazem tangas, saiotes, ou o que quer que desejem chamar-lhes, e nestes lugares as mulheres usam uma espécie de soutiens com seus pequenos saiotes. Os jovens e os mais velhos podem vestir-se como quiserem. Durante as festas e ocasiões especiais, tal como a cerimônia de boas-vindas desta noite, envergam as roupas mais formais.

     Orville Pence acenou com a mão para chamar a atenção de todos.

     - Sr. Courtney, além do professor Easterday, do capitão e do senhor, somos os primeiros estranhos a vir aqui?

     Courtney franziu a testa, pesando a resposta.

     - Não - disse por fim. - Além das três exceções que mencionou, não são os primeiros brancos que vêm aqui desde que Daniel Wright se instalou nestas ilhas e seus descendentes constituíram uma nova raça. De acordo com uma lenda, um grupo de espanhóis desembarcou aqui cerca de cinco anos após a chegada de Wright, por volta de 1801, e mostraram-se bastante cruéis, tentando levar com eles algumas jovens à força. Quando voltavam à praia caíram numa cilada e foram dizimados até ao último homem, e os que ficaram no navio foram surpreendidos de noite e mortos. Em tempos mais recentes, nos princípios deste século, Úm velho vagabundo barbudo, que dava, só, a volta ao mundo, conduziu sua chalupa até à praia. Depois de se embrenhar pelo interior chegou à aldeia; porém, quando desejou partir não lhe permitiram. Acabou por se resignar a ficar por aqui, mas morreu, devido a causas naturais, antes de ter decorrido um ano.

     - O Capitão Joshua Slocum e a Sproyf - perguntou Claire.

     Courtney encolheu os ombros.

     - Não registraram o nome. Não usam a escrita aqui e a história é passada oralmente de geração em geração. Pensei também em Slocum. Porém, quando fiz certas indagações verifiquei que ele tinha morrido em 1909. Podia ter chegado até aqui sem ninguém o saber? É possível, mas não provável.

     - Devem existir alguns indícios, uma sepultura, uma pedra tumular, qualquer coisa - persistiu Claire.

     - Não - retorquiu Courtney. - Como saberá, os ritos fúnebres, nas Sereias, requerem a absoluta e total cremação de um cadáver e a redução a cinzas de todos os seus pertences. - Courtney voltou-se, dirigindo-se a Orville Pence. - Durante a Segunda Guerra Mundial um bombardeiro japonês fez uma aterragem forçada no platô, mas explodiu e incendiou-se. Não houve sobreviventes. Mais tarde, um transporte americano que se tinha perdido na noite chocou-se contra um dos lados do pico. Uma vez mais, não houve sobreviventes. À parte estes casos, o seu grupo é, pelo que sei, o primeiro, e espero que o último, do mundo exterior a visitar as Três Sereias.

     Maud estivera observando, concentrada, a aldeia embaixo.

     - Sr. Courtney - disse ela -, todos os componentes da tribo vivem naquela aldeia?

     - Todos vivem ali - volveu Courtney. - Todavia, existem diversas cabanas espalhadas em redor da ilha, abrigos para a noite, destinados àqueles que estão longe ocupados com o trabalho do campo, com a caça, a pesca, e próximo do pico há algumas colunatas de pedra, os restos de um antigo mar ae sagrado; porém, esta é a única comunidade verdadeira. Como se trata de uma pequena ilha, todas as coisas úteis estão concentradas nesta povoação. Pelo último censo, existiam aqui duzentos e vinte nativos e cerca de cinqüenta ou sessenta cabanas. No mês passado, foram construídas quatro novas cabanas, e duas delas vagaram, para instalá-los.

     Mary Karpowicz, que estivera, absorta, contemplando a aldeia, exclamou de súbito:

     - De que são feitas estas cabanas? Tem-se a impressão de que uma simples aragem as pode fazer ir pelos ares.

     - Achá-las-á mais consistentes do que isso - retorquiu Courtney com um sorriso. - Não têm paredes, como poderia pensar, mas a armação de cada uma delas é feita de madeira sólida, segundo as influências da arquitetura inglesa do século XVIII; os telhados são de colmo nativo, folhas de pandanus colocadas sobre cana ou bambu, e as paredes de material similar, mas com reforços de cana. A maior parte das cabanas tem duas divisões, e algumas três.

     - Sr. Courtney - disse Maud, que apontava para os pequenos bosques na extremidade da aldeia -, aquelas edificações maiores...

     - Ah, sim. Trata-se, chamemos-lhe assim, da seção municipal da comunidade. De fato, não se pode ver todas daqui. Entre as árvores, encontrará a Cabana Sagrada... uma espécie de museu, realmente, e para alguns um lugar de culto... e várias cabanas maiores, ligadas umas às outras, que constituem a escola. O armazém de víveres fica próximo também. Duas importantes edificações estão no centro da aldeia. Uma é o dispensário médico. A outra é a cabana do chefe Paoti, bastante imponente e espaçosa, com muitas divisões para seus familiares, para as reuniões, para as festas. Pode vê-la daqui.

     - Mas a maior e a mais comprida da extremidade, aquela com cobertura de colmo em forma de cúpula? - perguntou Maud.

     Courtney fixou-a com os olhos durante um momento e depois disse com ar sério:

     - É a Cabana de Auxílio Social, mencionada na carta do professor Easterday.

     - O bordel - interveio Marc com um sorriso rasgado. A mãe voltou-se para ele, encolerizada, e disse com severidade:

     - Por amor de Deus, Marc, veja se fala em termos.

     - Estava apenas gracejando - volveu Marc, com um ar hesitante e depois defensivo.

     - Desorientará apenas os outros - tornou Maud. Voltou-se para Courtney. - Como antropólogos, sabemos da existência de casas de prazer na Polinesia. Em Mangareva são denominadas are popi, e na ilha da Páscoa são conhecidas como hare nui. Presumo que esta cabana tem funções similares.

     - Um tanto - disse Courtney, hesitante. - Pelo que sei, não há nada de semelhante em todo o mundo. De fato, existem muitas coisas lá embaixo, completamente desconhecidas no mundo exterior. Para mim, representam quase exclusivamente um ideal de vida, em questões de amor, pelo menos, que nós ocidentais devemos um dia conseguir. - Relanceou o olhar pela aldeia com uma expressão que era, em si mesma, um ato de amor. - Vê-la-á muito em breve e saberá qual é a sua função. Até esse momento, afigura-se-me inútil continuar com estas explicações. Permitam-me que os conduza às cabanas que lhes estão reservadas. Ali adiante encontraremos um caminho íngreme, que é, no entanto, seguro. Estaremos lá embaixo dentro de dez minutos.

     Começou a descer a encosta e rodeou uma saliência de pedra, desaparecendo dos olhos dos outros, que o seguiram imediatamente, um a um. Claire viu o marido aproximar-se de Orville Pence. Marc disse então:

     - Contudo, continuo a dizer que é um bordel.

     Ele afastou-se, acompanhado por Orville, e naquele momento Claire não desejou caminhar com qualquer deles.

     Estava furiosa com Marc, devido às suas palavras levianas. De todo o coração, sabia que o Dr. Adley R. Hayden teria ficado furioso também, e teria gostado mais dela.

     Esperou que eles circundassem a curva, e depois continuou a marcha. Desejava entrar só na aldeia das Três Sereias.

      

     Estava-se a meio da tarde, na aldeia.

     Claire Hayden, mais fresca agora, num vestido cinzento sem mangas, de dacron, encostou-se ao umbral da porta da cabana reservada para Marc e para ela, e, com ar ausente, observou Marc, Orville e Sam que, com ferramentas que tinham trazido, ajudavam dois dos jovens nativos da praia a abrir' a última das caixas de madeira.

     Em dado momento deu consigo mirando os dois nativos, esbeltos e airosos; existia nisto uma certa fascinação de suspense. À medida que os jovens se moviam, se curvavam e se erguiam, compreendeu que, em qualquer instante, os fios que lhes rodeavam a cintura, segurando os sacos púbicos, se partiriam e exporiam o que estava escondido. Era impossível compreender por que isto não acontecera já, mas o fato é que até esse momento não se verificara tal ocorrência.

     De súbito, sentiu vergonha desta diversão e volveu os olhos para lá dos homens e dos caixotes, fixando-os no coração da aldeia. Alguns habitantes encontravam-se agora no conjunto. Mulheres e crianças, por fim. Os menores corriam, saltavam, brincavam, completamente nus. As mulheres, como Easterday prometera, achavam-se nuas da cintura para cima e os saiotes curtos dissimulavam precariamente suas partes íntimas. Só algumas das mulheres mais velhas tinham seios pendentes; porém, as mais jovens, e mesmo as de meia-idade, exibiam seios altos, firmes, extremamente pontudos. Quando caminhavam em passos curtos, delicados, peculiarmente femininos, sem dúvida tentando manter direitos os pequenos saiotes, os seus seios cônicos estremeciam e os saiotes ondulavam, revelando, uma vez por outra, parte do traseiro. Claire achava-se perplexa ante a maneira como as mulheres caminhavam, tão descobertas; na verdade, era estranho que seus homens passassem constantemente por elas sem sentirem o desejo de as violar.

     Observando-os de longe - mostravam-se ainda demasiado tímidos, polidos, corretos, para se aproximarem - Claire sentiu-se inquieta. Automaticamente, tocou o vestido com a mão; este, apesar de muito fino, cobria-a completamente, e, com soutien, a combinação, as calcinhas, fez que se sentisse ridiculamente destituída de feminilidade. Continuou a observar as mulheres das Sereias, o seu cabelo negro lustroso, os seus seios pontudos e oscilantes, as suas ancas sedutoras, as longas pernas nuas e teve vergonha de estar vestida com tanta castidade, como a esposa de um missionário.

     Logo depois, porém, resolveu deixar-se de tão inocentes preocupações, e decidiu ocupar-se com sua bagagem. Neste momento, ouviu a voz de Marc.

     - Bem, Claire. - Ele aproximou-se do umbral, passando as costas da mão pela testa suada. - O que tem feito?

     - Estive tirando as coisas das malas. Fiz uma pausa por uns momentos. Observava a... as pessoas.

     - Também eu - disse Marc. Fixou os olhos no centro do conjunto. - Courtney podia estar enganado acerca de muitas coisas, mas tinha absoluta razão no que se refere a estas mulheres.

     - Que quer dizer com isso?

     - Fazem com que as taitianas pareçam simples rapazes. São realmente alguma coisa. Dez vezes melhores do que a Miss América de qualquer concurso. Nunca vi nada que se parecesse com isto nos Estados Unidos. - Depois, mirando o rosto da mulher, acrescentou: - Excetuando a presente companhia.

     Ela ainda guardava um resíduo do velho ressentimento, e esse foi sobrecarregado por nova sensação desagradável. Desejava exercer retaliação condigna, feri-lo onde ele era mais vulnerável.

     - Isso aplica-se também aos homens - disse. - Já alguma vez viu outros tão atléticos e com uma aparência tão viril?

     O rosto do marido obscureceu-se, como ela pressentira.

     - Que espécie de conversa é essa, afinal?

     - A espécie de conversa de que gosta - volveu ela, entrando na cabana com sua detestável vitória.

     - Claire, por amor de Deus! - exclamou ele, contrito. - Falava apenas como antropólogo.

     - Muito bem - volveu ela. - Está perdoado. - Porém, não voltou para junto dele.

     Durante alguns minutos, como se ausente, transportou as suas peças de vestuário e os artigos de toalete da divisão da frente para a de trás, até que a cólera que fervia dentro dela começou a se dissipar; momentos depois, recobrou o equilíbrio e conseguiu expulsar a insensatez de Marc do espírito. Fazendo uma pausa para descansar, examinou as instalações. A divisão da frente era de tamanho regular, pelo menos de cinco metros por seis, e, embora quente, era mais fresca do que a temperatura exterior. As paredes de cana davam uma sugestão de conforto, e as esteiras de folhas de pandanus que cobriam a maior parte do piso de areia e de cascalho eram flexíveis e macias. Não havia grandes peças de mobiliário de qualquer gênero, mesas, cadeiras, nem decoração, mas Sam Karpowicz suspendera do teto duas lâmpadas alimentadas por uma pilha. Uma janela dava para a cabana de Maud, e estava abrigada do sol e do calor por meio de um pano escuro, que podia ser afastado.

     Algum tempo antes, um adolescente nativo, coberto apenas por uma curta tanga, trouxera duas tigelas de barro cheias de água fresca e explicara em inglês irregular que a água de uma delas era para beber e a da outra para lavagens. Em seguida, trouxera uma série de folhas largas e fortes que, conforme dissera a Claire, eram para serem utilizadas como pratos. Esta divisão, refletiu Claire, destinar-se-ia a sala de estar, sala de jantar e escritório.

     Com os braços cruzados sobre o peito, dirigiu-se lentamente para a parte de trás da cabana, através da abertura que dava para um corredor de cerca de dois metros. Aqui, uma fenda na cobertura servia de escoadouro da fumaça, e sob ela, junto de uma esteira, achava-se o fogão de terra, um buraco redondo no solo que se enchia de pedras quentes e cobria com folhas espessas. Esta passagem dava para uma divisão menor, semelhante à da frente, apenas com uma janela. Aqui, sobre as esteiras de pandanus, Claire abrira os dois sacos de dormir; estes pareciam incômodos e pesados; se as noites fossem quentes, como parecia, dormiria sobre o saco em vez de dentro dele, pensou, ou dormiria mesmo sobre as próprias esteiras nativas, muito mais grossas nesta divisão e provavelmente utilizadas como camas.

     Ajoelhou-se e dividiu as roupas, as de Marc em diversos montes, para um lado. Depois, uma vez mais fatigada, deixou-se tombar para trás, para se sentar nas esteiras, as pernas sob as coxas, e tirou os cigarros e os fósforos do bolso do vestido.

     Fumando, repousada - como era maravilhoso não ter telefone, lista de compras, reuniões mundanas, carro para dirigir -, escutou o rumor da aragem sobre o colmo acima. Da distância, demasiado débeis e femininas para pertencerem aos que se encontravam do lado de lá da porta, chegavam finas risadas. Estes sons delicados, e o odor das plantas que penetrava no quarto, confortaram totalmente Claire, dando-lhe uma sensação de langor felino.

     Daí a momentos sentiu-se capaz de medir suas emoções interiores em relação ao que as despertara, da primeira vez que entrara no centro da aldeia, três horas antes. Com exceção de Maud, que a atividade de campo fazia reviver, e da infatigável Harriet Bleaska, o estado de ânimo do grupo resumia-se a uma mescla de decepção levedada pelo interesse. O estado de espírito da própria Claire condizia com o do grupo. Compreendia-o melhor agora. Nenhum paraíso real podia ser uma réplica do sonho do paraíso. Os sonhos do paraíso não têm defeito. Quando se deixa um sonho, tem de se descer mais e mais, de fato descer até à terra, e esta tinha dedos tateantes e nodosos que desfiguravam o que os sonhos delicados construíam.

     Para Claire, tudo era melhor agora, pois a parte mais útil e lubrificada do mecanismo que era ela própria movia tudo o que estava em seu redor, para o ajustar às suas necessidades, para tornar tudo compatível consigo. Era a sua força, ou talvez a sua fraqueza, isto, o talento de abandonar automaticamente os pormenores de um sonho encantado e rearranjar a fria realidade de modo que condissesse com o que restava de um sonho. Em outros, ter-se-ia chamado flexibilidade ou compromisso, ou encontro a meio caminho com a vida. Ela era uma veterana de muitos sonhos românticos, de grandes e intermináveis esperanças, expectativas, antecipações, e também uma veterana de desilusões sem conta; há muito, muito tempo, armara-se a si própria com a maquinaria da reconciliação. Isto funcionara também - e se não como podia ainda sorrir nas manhãs do seu casamento? -, mas recentemente, com muita freqüência, a maquinaria respondia com menos ruído, estalava, protestando. Hoje funcionava, e muito bem. O paraíso parecia de certo modo o sonho recorrente de toda a primavera.

     Após acender um novo cigarro na ponta do outro e lançar este para a casca quebrada de um coco que trouxera para servir de cinzeiro, perguntou-se se os outros do grupo tinham feito um ajustamento semelhante ao seu. Ao recordar fragmentos de suas reações iniciais em relação à aldeia, à medida que a atravessavam atrás de Courtney, e as palavras de todos ao entrarem nas cabanas onde se instalariam, tivera sérias dúvidas.

     Courtney apontara as seis cabanas de que disporiam durante as seis semanas da visita. As cabanas estavam dispostas em linha, sob a saliência esbranquiçada, cerca do conjunto, bastante mais próximas da entrada da aldeia do que do centro, onde se encontrava a imponente cabana de Paoti. Aos Karpowicz foram destinados os primeiros alojamentos, exatamente com os mesmos exterior e interior da cabana que fora destinada a Claire e Marc; uma exceção, porém: para lá da divisão do fundo, havia um terceiro e pequeno quarto para Mary Karpowicz. Claire e Maud tinham acompanhado Courtney e os Karpowicz no seu primeiro exame do lar temporário. Embora Sam tivesse notado com desagrado evidente a falta de uma câmara-escura - Courtney prometera imediatamente fazer que lhe fossem fornecidos materiais e mão-de-obra para preparar uma -, ele e Estelle acharam tudo, se não tão bem como em Saltillo, no ano anterior, pelo menos aceitável para uma curta permanência. Mary, por outro lado, manifestou seu desagrado pela falta de intimidade e pelo grande vazio que tudo sugeria.

     - Que farei eu aqui durante todo o verão? Crochê? - perguntara ela.

     Lisa Hackfeld fora instalada na cabana a seguir, a qual, em atenção ao apoio financeiro do marido, ocupava sozinha. Depois de lançar os olhos em redor da cabana, surpreendera Maud no conjunto.

     - Não consigo dar com o banheiro - dissera, com uma expressão que refletia o mais ingênuo espanto. - Não há banheiro.

     Courtney, que ouvira por acaso estas palavras, tentara acalmá-la.

     - Há um banheiro público a pequena distância de cada grupo de dez cabanas - explicara ele. - O mais próximo da senhora fica a uns trinta metros, atrás da cabana onde ficará a Dr.a DeJong. Não tem como se enganar. Parece mais uma cabana circular de erva do que um banheiro.

     Lisa sentira-se horrorizada ante a idéia de um banheiro público, mas Courtney afirmara que se devia sentir feliz por o ter. Durante décadas, antes da vinda de Daniel Wright - os banheiros públicos tinham constituído uma inovação sua - os nativos não possuíram nada que se parecesse com isto, dirigiam-se apenas até às moitas para se aliviar. Infeliz, Lisa voltara a seu castelo sem toalete a fim de chocar suas penas antes de sua bagagem chegar.

     Orvüle Pence, que nunca estivera no Polinésia, como confessara, após entrar na sua cabana dissera ter esperado, de certo modo, instalações com janelas verdadeiras - em Denver, como era afeito à congestão bronquial, dormia sempre com as janelas bem fechadas -, algum mobiliário e prateleiras para seus livros. Tinham-no deixado todos, no meio do seu quarto, triste e imobilizado.

     A cabana seguinte fora reservada para Rachel DeJong e Harriet Bleaska, que a partilhariam. Harriet ficara encantada com a nova morada, muito mais pitoresca do que os apartamentos solitários que conhecera em Nashville, Seattle e San Francisco. Rachel DeJong ficara menos impressionada. Embora não exprimisse verbalmente qualquer queixa e se mostrasse indiferente ante as atuais condições de vida, preocupara-a a falta de isolamento propício a seu trabalho.

     - Não necessito de um diva - disse de viés -, mas sim de isolamento com um doente... ou, neste caso, um analisando.

     Desejoso de lhe agradar, Courtney prometera procurar uma cabana vaga, algures, que ela pudesse usar como consultório.

     Depois, coubera a Claire e Marc a vez de serem conduzidos à sua residência, e por fim Maud partira com Courtney para seu gabinete e instalações, que ficavam a seguir. Meia hora mais tarde chegaram os fornecimentos; porém, uma vez que os anfitriões não tinham feito caso do almoço dos componentes do grupo, Marc abrira o caixote que continha as conservas e levara latas a todas as cabanas.

     Recordando agora algumas das queixas, uma frase solta, um clichê magnífico, perpassara pela mente de Claire: os nativos são impacientes. Isto era uma tolice, mas deleitou-a. Estava aqui, entre eles, e os nativos não se mostravam absolutamente nada inquietos. No fim das contas, eles, os civilizados, é que manifestavam inquietação ante condições de vida estranhas.

     Maud, pensou ela, só a poderosa Maud estaria tranqüila, como um perfil de granito no monte Rushmore. Teve um súbito e confuso desejo de ver Maud, a fim de que ela a contagiasse com seu entusiasmo. A fadiga desaparecera. Endireitou o corpo. Ouviu os ruídos produzidos pelos homens labutando lá fora. Atravessou a cabana e saiu para o conjunto, esperando ver Marc; Orville Pence e Sam Karpowicz ajudavam os nativos, mas Marc parecera ter-se evaporado. Aonde fora ele? Quis perguntar, mas não o fez, pois imaginou saber. Tinha ido até aos confins da aldeia. Tinha ido contemplar os seios nus. Que vão todos para o diabo, pensou; não os seios mas os homens; não todos os homens, também, mas os homens como Marc.

     Ao chegar à cabana da sogra a porta de cana abriu-se de par em par, quase a atingindo. Recuou, no mesmo instante em que Courtney surgia. Surpreendeu-a o fato de Courtney ter estado com Maud durante todo este tempo.

     - Olá, Sra. Hayden - disse ele. - Já repousou? Sentiu-se possuída pela timidez e quase sem fala.

     - Sim - volveu.

     - Posso ajudá-la?...

     - Não é preciso, obrigada.

     - Bem, então...

     Achavam-se imóveis, tímidos, em face um do outro, mas um pouco afastados, ambos incapazes de se aproximarem ou de se afastarem.

     - Eu... ia entrar... - começou ela dizendo.

     - Sim, eu...

     De longe, alguém bradou:

     - Claire... Claire Hayden!

     Este brado fez com que ambos se mexessem e volvessem os olhos para o ponto de onde viera a voz. Era Lisa Hackfeld, que se aproximava correndo, agitada.

     Chegou com a respiração suspensa, manifestando horror e incredulidade. A sua atenção estava de tal modo concentrada em Claire que mal reconheceu Courtney.

     - Claire - disse, arfando, e tão ansiosa de falar que se esquecera de que não tinham ainda introduzido a familiaridade nas suas relações: - Claire, já foi ao banheiro?

     A pergunta foi tão inesperada que Claire não soube como responder.

     Lisa Hackfeld achava-se tão inquieta na sua aflição que não foi capaz de esperar.

     - É... é comunitário! - exclamou. - Quero dizer, é misto... uma tábua com buracos, e quando entrei... vi três homens sentados e uma mulher... conversando... juntos.

     Espantada, Claire voltou-se para Courtney, que se esforçava por ocultar o divertimento que lhe inspirava a cena. Por fim, ele inclinou a cabeça num gesto afirmativo.

     - Sim, é verdade - disse. - Os banheiros são comuns, utilizados por homens e mulheres, ao mesmo tempo.

     - Mas como podem... - tornou Lisa Hackfeld.

     - É comum - retorquiu Courtney -, e, para ser franco, um bom costume.

     Lisa Hackfeld pareceu dissolver-se.

     - Um bom costume? - exclamou.

     - Sim - disse Courtney. - Quando chegou aqui, em 1796, Daniel Wright verificou que os nativos eram desinibidos e naturais nestes casos e não viu razão, uma vez que conseguira mandar construir os banheiros, para modificar suas atitudes. Não há nada de mal, nesta sociedade, em ir-se ao banheiro e misturar-se com o sexo oposto. Um estranho leva tempo a habituar-se, mas uma vez que isso acontece tudo se torna fácil, um lugar-comum. Ninguém presta a mínima atenção ao parceiro do lado, e este não se preocupa também.

     - Algumas coisas devem ser feitas em particular - insistiu Lisa Hackfeld. - Isto constituiria um escândalo na nossa terra.

     - Tudo depende do país em que se vive, Sra. Hackfeld. Esta prática é familiar em certas regiões da Europa e da América Latina. Na sofisticada França, no tempo de Maria Antonieta, as grandes damas mandavam parar as carruagens, na beira da estrada, e, depois de descer, realizavam este mesmo ato à vista dos outros passageiros e acompanhantes.

     - Não acredito!

     - É verdade, Sra. Hackfeld. Compreendo o que sente. Isto tudo é estranho e causará choques, pequenos choques. Recordo-me que, quando aqui cheguei, fiquei espantado com o que vi no banheiro na primeira vez que lá entrei. Mas com o decorrer do tempo reconheci o valor do costume, que não fazia senão destruir mais uma área oculta do nosso falso pudor. Desde então descobri outro valor dos banheiros comunitários. Eles constituem um grande nivelador da natureza. Quando aqui cheguei, senti-me profundamente apaixonado por uma jovem nativa atraente e orgulhosa. Desejava falar com ela, mas sua família era a melhor, ela era importante. Hesitei. Pouco tempo depois, porém, encontrei-me ao lado desta jovem no banheiro comum e todos os meus receios e constrangimentos desapareceram. Se a instituição se tornasse universal, podia falar-se de democracias nos seus termos mais absolutos. Hoje, não existe igualdade. Temos a elite, os opulentos, os talentosos, os fortes, os inteligentes, e uma grande maioria de seres inferiores na escala social. Mas aqui disporíamos do único nivelador, como disse, o único lugar onde a realeza e os camponeses, as atrizes e as donas-de-casa, os santos e os pecadores pareceriam absolutamente iguais.

     - Não fala a sério, Sr. Courtney.

     - Falo muito a sério, Sra. Hackfeld. - Fez uma pausa, lançou um olhar de relance a Claire e sorriu. - Espero não a ter ofendido, Sra. Hayden.

     Claire estava tão preocupada com as condições sanitárias como Lisa Hackfeld; porém, procurava ocultar este fato, pois não queria que a julgassem dominada pelo falso pudor que possuía Lisa.

     - Não - mentiu ela -, muito pelo contrário. Talvez tenha razão nesse ponto.

     Apesar de duvidar da verdade destas palavras, Courtney fez um gesto de concordância com a cabeça e puxou para cima as calças. Em seguida, voltou-se para Lisa e disse:

     - A não ser que tenha rins incríveis, aconselho-a a aproveitar tudo o que temos para oferecer. - Começou a afastar-se, voltou-se e, num murmúrio dirigido a Lisa, acrescentou: - De uma pessoa timorata para outra, deixe-me sugerir o seguinte: se visitar os banheiros comunitários após o toque para o café, almoço e jantar... sete, meio-dia e sete... encontrará provavelmente o mais completo isolamento, pelo menos no que se refere aos nativos.

     - Que tal o isolamento em relação aos homens do grupo? - perguntou Lisa, quase com lágrimas nos olhos.

     Courtney passou a mão pelo queixo.

     - Sim - disse ele -, isso constituiria um problema, não é verdade? Bem, Sra. Hackfeld, por deferência por seus costumes retrógrados sèr-lhe-á feita uma concessão. Amanhã, antes de o dia terminar, encontrarão atrás das cabanas duas novas edificações sanitárias, uma com a inscrição. Eles e a outra com a inscrição Elas. Que tal?

     Lisa Hackfeld suspirou de alívio.

     - Qh, obrigada, Sr. Courtney.

     - De nada, Sra. Hackfeld. Boa tarde, e... boa tarde também, Sra. Hayden.

     Deixou-as e seguiu para o conjunto, no seu passo gingado, dirigia-se para a grande cabana do chefe Paoti.

     - Ele é um homem singular, não acha? - sussurrou Lisa. - Claro, estava divertindo-se à minha custa, com toda aquela conversa.

     Claire inclinou lentamente a cabeça num gesto de aprovação, os olhos fixos ainda na figura que se retirava.

     - Creio que sim - disse. - Mas não apostava.

     - Bem - volveu Lisa -, de qualquer modo mostrou-se útil. Teremos o nosso isolamento amanhã. Decidi escrever todos os dias ao Cyrus, uma espécie de diário de viagem. As cartas serão postas no correio todas as semanas pelo Capitão Rasmussen. Esta pequena experiência forneceu-me assunto para começar.

     Claire volvera de novo a sua atenção para Lisa.

     - Decerto - concordou.

     Lisa sacudiu a cabeça, como se tivesse feito a si mesma uma profunda observação.

     - Consigo ver o rosto dele neste momento - disse. - É surpreendente, não importa a sofisticação ou a afetação que exista em todos nós!

     - Sim - assentiu Claire.

     Lisa agitou a mão diante do rosto, como um leque.

     - Espero que não faça tanto calor todos os dias. Creio que é melhor afastar-me do sol. Até logo.

     Claire observou-a à medida que ela caminhava em direção à sua cabana. Sentiu compaixão por Lisa, pois esta teria ainda muito que suportar. Então, recordando-se do que tivera em mente fazer antes deste encontro, abriu a porta de cana e entrou, a fim de visitar a sogra.

     Quando fez a transição visual do resplendor do sol para a sombra, Claire viu que não se encontrava ninguém na divisão da frente da cabana de Maud. Esta assemelhava-se à sua, exceto que era consideravelmente mais ampla e tinha já em ordem os instrumentos do ofício. Sob a janela coberta achava-se uma grosseira mesa de madeira, de tampo liso; pernas, toscamente talhadas e com uma leve coloração de avelã, davam a impressão de terem sido pouco antes cortadas. Em cima da mesa estava o gravador portátil, prateado, e a máquina de ditar também portátil. Ao lado destes estavam um calendário e um candeeiro alimentado por uma bateria, e numa extremidade duas tigelas de coco, uma cheia de lápis novos e de pequenos aparadores baratos e a outra vazia, esta, aparentemente, para servir de cinzeiro. Uma cadeira inacabada, bastante robusta e com um alto encosto de madeira - obviamente construído por mãos pouco práticas - seguro por correias em vez de pregos, completava o jogo da mesa. Afastados, à direita, encontravam-se dois bancos longos e baixos com tampo de madeira grosseira que não devia ter sido cortada por uma serra.

     Claire preparava-se para chamar pela sogra quando esta surgiu, com andar vivo, da passagem da retaguarda, os braços carregados de cadernos de apontamentos.

     - Oh, Claire, ia visitá-la dentro de momentos.

     - Não estava fazendo nada, as malas... Faz com que me sinta culpada.

     - Disparate. - Deixou cair desfazendo os cadernos de nota, sobre a mesa. - O meu sentido neurótico da ordem. Está-se comportando corretamente. Uma pessoa deve repousar, pelo menos durante o dia, numa ilha tropical. - Apontou com a mão nédia para a mesa e continuou o gesto até incluir toda a divisão. - Que pensa? O Sr. Courtney diz-me que isto constitui verdadeiro luxo nas Sereias. Há semanas, o chefe Paoti afirmou que, uma vez que sou chefe como ele, devo ser tratada como. tal. Segundo o Sr. Courtney, o chefe possui o único mobiliário ocidental existente na ilha... uma cadeira como esta, para servir de trono, e uma vasta mesa utilizada nas festas. Agora tenho uma cadeira, uma mesa que serve de secretária, graças ao Sr. Courtney, e bancos para meus súditos. - Fez uma careta. - Talvez não devesse ter aceitado tudo isto. Pode não só criar ciúmes entre os componentes do grupo como obsta a que viva como um nativo, como um participante. Porém, devo confessar que facilitará meu trabalho.

     - Sou a favor da opulência - disse Claire, sorrindo. - Faz com que todos nós nos esforcemos mais para atingi-la.

     - Declarei ao Sr. Courtney que necessitávamos de uma pequena mesa para a sua máquina de escrever, e ele disse que poderíamos contar com uma amanhã.

     - Vai colocá-la aqui, Maud? Acho preferível. Desejo conservar as nossas duas divisões como estão agora, absolutamente em estilo nativo. A nossa cabana encantou-me deveras, e gosto de vê-la aberta, arejada, sem nada dentro dela a não ser nós. Maud, como falávamos, de Courtney...

     Claire referiu-se a ele, ao incidente com Lisa Hackfeld, à digressão de Courtney sobre o valor dos banheiros comunitários e como grandes niveladores humanos.

     Maud estava divertida.

     - Pobre Sra. Hackfeld! Bem, ela... e não só ela mas todos nós... terá maiores surpresas, espero. Sim, recordo-me da primeira vez, há anos, em que eu e Adley nos vimos nuns banheiros mistos. O nosso Sr. Courtney tem razão, sabe? Temos muito que contar ainda sobre este costume. Apesar de umas leves falhas, ele também tem razão no que toca à história. Era na Inglaterra do século XVII que uma dama abandonava a carruagem e acompanhantes para satisfazer suas necessidades na beira da estrada, diante de toda a gente. Era na França do século XVII que uma dama aristocrática se sentava lado a lado, num banheiro, com amigos do sexo masculino, conversando. Vivia-se no período da Restauração, depois de Richard Cromwell ter sido expulso do Poder. Era um período de rebelião contra o falso pudor. As mulheres usavam seios artificiais, provocantes, feitos de cera, que colocavam sobre os seios verdadeiros, e não traziam calcinhas. Nunca esqueci o encontro de Casanova com Madame Fel, a cantora. Representava bem a moral da alta sociedade do tempo. Casanova viu três pequenos brincando em redor das saias de Madame Fel e ficou surpreendido por não haver semelhanças entre eles. “Decerto que não”, disse Madame Fel. “O mais velho é filho do Duque de Annecy, o segundo do Conde Egmont e o terceiro do Conde Maisonrouge. “ Casanova apresentou suas desculpas. “Perdoe-me, Madame”, disse. “Pensei que todos eles eram seus filhos. “ Madame sorriu. “E são”, volveu. Claire não escondeu o seu deleite.

     - Maravilhoso! - exclamou.

     - O que é maravilhoso, Claire, é o fato de nós duas estarmos aqui, sob um telhado de colmo, no meio do Pacífico, recordando a moral fácil da França e da Inglaterra civilizadas de há mais de trezentos anos, e verificarmos que quase correspondem a parte dos preceitos morais de uma tribo semipolinésia. Pelo menos, no que toca ao banheiros.

     Algures na mente de Claire perpassou a figura descontraída de Courtney. Como por acaso, falou de novo nele.

     - De uma maneira ou de outra, foi Thomas Courtney que deu origem a esta conversa. Surpreendeu-me vê-lo sair daqui tão tarde. Esteve com você durante todo este tempo?

     - Sim, antes de chegar a mobília sentamo-nos nas esteiras de pandanus e conversamos. Ele é uma pessoa encantadora, muito lida, com grande experiência da vida, extremamente liberal sob todos os aspectos. Deu-me uma imediata explicação sobre os tabus, sobre o que se deve e o que não se deve fazer, sobre o que é mana, o que traz prestígio, o que é sagrado na comunidade. Discorreu um pouco sobre a rotina e os hábitos que teremos de compreender. Tudo muito elucidativo. Vou escrever algumas notas sobre o assunto e preparar uma reunião para amanhã cedo com todos os componentes do grupo. Penso que todos devem saber o que podem e o que não podem fazer, e o que, de maneira geral, devem esperar. O Sr. Courtney foi extremamente preciso. Será de inestimável valor para nós.

     - Referiu-se... à vida dele?

     - Não disse uma palavra sequer. Fez-me algumas perguntas sobre você e Marc. Parece que você causou uma ótima impressão nele.

     Claire alertou-se imediatamente.

     - Sobre mim e Marc?

     - Sim. Perguntou-me há quanto tempo estavam casados... se tinham filhos... onde e como viviam... o que fazia Marc... o que fazia você... Coisas deste gênero.

     - E satisfez a curiosidade dele?

     - Bem, disse pouca coisa, apenas por cortesia. Pensei que não me cabia a mim falar sobre o que lhes diz respeito.

     - Obrigada, Maud. Procedeu com inteligência. Fez também perguntas sobre os outros?

     - Algumas. Tinha de saber qual era a especialidade de cada um, o que nos interessa estudar, a fim de poder ajudar-nos nas investigações. Mas nada de pessoal no que se refere aos componentes do grupo. Interessou-se apenas por você e pelo Marc.

     Claire mordeu, pensativa, o lábio inferior.

     - É extraordinário que se encontre aqui... Ele é... não sei... tão singular. Desejaria poder conhecer mais coisas acerca da sua vida.

     Maud aproximou a cadeira da mesa.

     - Terá uma oportunidade esta noite - volveu. Depois, sentou-se e começou a pôr os blocos de apontamentos em ordem. - O chefe Paoti oferecer-nos-á uma festa de boas-vindas na sua cabana, esta noite. Altamente cerimoniosa e importante. O chefe estará lá com a mulher, Hutia, com o filho, Moreturi, com a nora, Atetou, e com a sobrinha, que faz agora parte da família... Tehura... Sim, é este o nome dela, Tehura. Disse que comparecesse com os parentes mais chegados, que são Marc e você. O Sr. Courtney servirá de intermediário... para nos apresentar.

     - Como será a festa? - desejou saber Claire. - Que vestiremos e...

     - Usará o seu melhor vestido. O melhor e o mais simples. Fará calor lá. Quanto à festa, o Sr. Courtney falou-me de um ou dois discursos, de música, e de comida em abundância... comida nativa e bebidas nativas, também... distrações e um rito da amizade. Depois, possuiremos mana oficial e poderemos circular livremente na aldeia. Seremos, assim, considerados membros da tribo. O jantar começa ao cair da noite. Não se esqueça de dizer ao Marc que se prepare a tempo. O mesmo se aplica também a você. O Sr. Courtney virá cerca das oito para nos conduzir à cabana do chefe. Será divertido, e constituirá uma nova experiência, prometo-lhe.

       

     Em dado momento, entre as dez e as onze horas da noite - no estado em que se encontrava não conseguiu distinguir a hora exata no pequeno mostrador do seu relógio de pulso, de ouro -, Claire recordou-se da previsão feita por Maud e reconheceu (para si mesma) a sua exatidão. Todos os exóticos momentos passados durante a festa do chefe Paoti tinham sido divertidos; cada minuto, sob a cúpula de colmo da sua imensa cabana de bambu, constituíra uma nova experiência. Não se mostrara ela própria, compreendia o seu ser recente, e esta nova faceta da sua personalidade, tão surpreendente, mais reforçara o seu prazer.

     Após ter consultado sem resultado o relógio, o pescoço pareceu elevar-se-lhe - “Agora estou a abrir-me como o maior telescópio que jamais existiu!”, gritara há muito tempo Alice no País das Maravilhas ao atingir mais de dois metros e setenta centímetros de altura -, e, como a cabeça de Alice, a sua quase tocava o teto. Depois, porém, flutuou liberta, alto, muito alto, como um planeta quase independente com vestígios de vida humana. Do cimo, a sua pessoa alongada fazia descer os olhos sobre os contornos recendentes do mundo noturno. Havia o piso de pedra polida e o fogão de terra fumegante e, no centro, entre o fogão e a plataforma, o longo retângulo da mesa real, ainda com os restos do leitão assado, da pahua de escabeche, dos pudins quentes de taro e do creme de coco, da fruta-pão, dos inhames, das bananas vermelhas. Em redor da mesa, sentados de pernas cruzadas nas esteiras (com exceção do chefe Paoti Wright, à cabeceira da mesa, na sua cadeira de pés curtos, cada um com trinta centímetros de altura), encontravam-se todos os nove, incluindo aquela que era o corpo que pertencia a esta cabeça dorida.

     A sua cabeça era o olho que tudo via, mas o corpo era a carne esponjosa que embebia na ascensão e na queda as palavras pronunciadas em inglês e em polinesio, os cantos e as palmas dos cantores, o ritmo erótico das flautas e dos instrumentos de percussão de bambu, a fragrância das pétalas multicolores dançando nas amplas bacias de madeira cheias de água, o rumor produzido pelos criados nativos e pelos que comiam no seu vestuário de tapa.

     Fora a combinação de duas bebidas, compreendia Claire, que fizera que sua cabeça se elevasse acima da mesa. Em primeiro lugar, verificara-se a elaborada cerimônia da preparação da Kava, servida em seguida. A verde kava fora trazida pelo chefe num vasto recipiente. A um sinal, cinco jovens, belos, de peito nu, tinham entrado, ajoelhado diante do recipiente e brandido com destreza facas de osso, a fim de tirar a casca da kava e cortar as raízes em pequenas porções. Depois, ao som da música, todos tinham colocado bocados de kava na boca, mastigado com delicadeza, e posto os restos numa tigela de barro. Em seguida, fora colocada água ria tigela e alguém misturara e agitara os ingredientes, e por fim, por meio de um coador feito de fibra de casca de hibisco, o fluido verde escorrera. A kava leitosa fora apresentada a cada um deles numa taça de coco com relevos.

     Claire achara a bebida fácil de engolir e enganadoramente branda. Escutara Courtney explicar que a kava não era uma beberagem fermentada, não embriagando, portanto, quem a consumia. Antes, tratava-se de uma droga, de um narcótico suave que habitualmente estimulava, avivava os sentidos, não afetava a cabeça mas com freqüência embotava os membros. Após a kava, fora servida a Claire uma bebida fermentada, “sumo de palma”, dissera Moreturi, a seu lado. Era uma beberagem alcoólica feita de seiva de palmeira, e tinha o picante do uísque ou do gim. O sumo de palma fora servido com abundância, e, ao contrário da kava, afetara Claire - a cabeça, a vista, o ouvido, o equilíbrio. Misturada, o efeito, para Claire, fora o de um coquetel de drogas. Os sentidos contenderam uns com os outros e separaram-se, alguns elevando-se, outros pairando ao rés do solo, e ela sentiu-se aturdida, contente, docemente alegre. Suas faculdades sensoriais tinham-se apurado. Perdera quase completamente a noção das coisas - a capacidade de distinguir o tempo, por exemplo - mas retivera a capacidade, se bem que leve, de ver, ouvir, cheirar, de sentir; porém, o que percebia através dos sentidos era mais aguçado, profundo, real.

     Tentando, uma vez mais, localizar-se no tempo da noite, Claire procurou ligar a seqüência dos acontecimentos recentes. Isto era difícil, mas pouco a pouco obteve relativo êxito. No escuro, Courtney, com uma camisa esporte branca, aberta no pescoço, calças claras e sapatos brancos, de tênis, chamara-os, acompanhado por Maud. Marc vestia uma camisa azul, trazia gravata e calças de marinheiro, e ela o seu vestido favorito; de seda amarelo-claro, sem mangas, do qual pendia uma pequena jóia incrustada em ouro branco de quatorze quilates que Marc lhe dera no dia do primeiro aniversário do seu casamento. Tinham atravessado juntos o conjunto. O caminho iluminado por tochas acesas na margem do regato e por velas de noz que piscavam através da parede de cana das cabanas. Após uma curta digressão, entraram na grande cabana do chefe, onde 03 familiares deste os aguardavam. Depois de Courtney ter feito as apresentações e de todos se sentarem, entrou o chefe, que inclinava a cabeça á medida que cada um lhe era anunciado.

     Uma surpresa, que não constituiu surpresa, pois Courtney explicara tudo antes. Em vez de sacos púbicos, os dois nativos, o chefe e o filho, Moreturi, traziam amplos saiotes, bem como os criados. E aqui as mulheres não tinham os seios nus nem traziam as saias curtas, mas achavam-se envoltas, em redor do peito e da cintura, em tecido tapa colorido, embora os ombros, as espáduas, as pernas e os pés estivessem descobertos. Seguiram-se os discursos, do chefe e do filho. Depois a música, e a kava, servida de maneira diferente do que lera, tanto por homens como por mulheres; o sumo de palma; os inúmeros pratos - leitão assado tirado do fogão de terra, cheio de pedras aquecidas, e o resto, uma série de iguarias estranhas. Comeram com os dedos, utilizando uma folha para limpá-los e conversaram; o chefe e Maud eram os que se ouviam com mais freqüência, mas Courtney, e por vezes Marc também, intervinham na conversa; as mulheres, essas, mantinham-se caladas, e Moreturi, que só raramente dizia uma palavra, mostrava-se afetuoso e divertido. E serviram mais iguarias. Agora, poi com molho de coco.

     Devem ser dez e trinta, pensou Claire.

     Lentamente, o pescoço contraiu-se-lhe, a cabeça pendeu; porém, esfregou os olhos e olhou em redor da mesa. Comiam com prazer, absortos. À cabeceira da mesa, à sua direita, acima deles na sua ridícula cadeira, achava-se o chefe Paoti Wright, a quem uma adolescente dava de comer. À luz das velas, a sua epiderme, enrugada como pergaminho, parecia mais parda do que a de qualquer dos outros. O seu rosto era ossudo, cavo, e tinha olhos e faces cavados, e boca quase sem dentes. Contudo, o cabelo cortado rente, grisalho já, a vivacidade dos olhos, com sobrancelhas brancas, espessas, o seu inglês, preciso, rápido, mas pouco natural, por vezes arcaico, com freqüência coloquial, a sua importância - refletida nas vênias que lhe faziam e na maneira extremamente cerimoniosa como era servido - conferiam-lhe a dignidade de qualquer monarca, de um rajá indiano, de um presidente de conselho de administração inglês, de um multimilionário grego. Ela calculou que Paoti tinha cerca de setenta anos e que seus modos afáveis dissimulassem a astúcia e a severidade.

     À esquerda dele sentava-se Maud, a seguir Marc, e depois ela, Claire. A seu lado, achava-se Moreturi, o herdeiro. No momento em que pousou pela primeira vez os olhos nele, Claire recordou-se da descrição feita por Easterday: cabelo negro, ondulado, rosto largo com olhos oblíquos, lábios carnudos e faces bronzeadas, musculoso até às ancas e depois delgado. Easterday afirmara: cerca de trinta anos de idade e cerca de um metro e oitenta centímetros de altura. Desde que vira pela primeira vez Moreturi, Claire tentara rever o retrato que fizera dele. Não havia nem um só pormenor que pudesse corrigir, exceto que era menos delgado e um tanto mais corpulento do que supusera. Contudo, parecia diferente do que imaginara, e agora sabia por quê. Classificara-o mentalmente como forte e reservado. Este seria o seu tipo. Para sua surpresa, não era nenhuma destas coisas. A despeito dos músculos, não se parecia com qualquer atleta que vira até ao momento. Uma vez que sua epiderme não tinha um pêlo sequer, gordura ou ruga, havia uma suavidade, uma graça, uma beleza naturais nas formas dele. Contra a sua suposição, descobrira, devido às suas falas ocasionais, às reações manifestadas em face das palavras dos outros, que Moreturi era um perfeito extrovertido. Imaginou que, uma vez fora da presença do pai e do ambiente solene da lesta, poderia ser louco pela folia.

     Automaticamente, como fizera Easterday, Claire procurou comparar Moreturi a Courtney, o seu oposto branco e seu amigo. Ao fazer a transição visual de Moreturi para Courtney os olhos de Claire tiveram de aflorar a mulher que se sentava defronte de Moreturi. Era, de entre todos, a pessoa que conhecia menos bem. Fora apresentada como Atetou, mulher de Moreturi, e não dissera palavra desde que começara a refeição. Evitando os olhos do marido e qualquer resposta aos apartes de Courtney, dedicou-se à comida, às bebidas e a secretos solilóquios.

     Atetou era bela, pensou Claire, mas não atraente. Suas feições, pequenas, regulares, rígidas, eram de um bege semelhante ao marfim. Na sua expressão transparecia uma soturna melancolia, uma constante desilusão, e apesar de ter o rosto endurecido compreendia-se que não poderia contar mais de vinte e oito anos. Parecia a personificação de todas as mulheres que tinham casado cedo, alimentando grandes esperanças e expectativas, para se exasperar com o malogro romântico e econômico do marido. Claire comprimiu os olhos: pobre Atetou, os gracejos do marido não conseguem mais fazê-la rir.

     Por fim, Claire fixou Thomas Courtney. Tencionava compará-lo com Moreturi, como fizera Easterday, mas viu que não havia comparação, similaridade alguma, exceto que pertenciam ambos ao sexo masculino e tinham uma natureza alegre. Courtney era o mais maduro, ajuizou Claire instintivamente. Era uma coisa que nada tinha a ver com mais educação ou com mais anos de vida, com um rosto mais enrugado, experiente ou sábio. O que interessava em especial neste caso era a qualidade do senso de humor de Courtney face ao senso de humor de Moreturi. As piadas de Moreturi eram de adolescente. O ar divertido de Courtney era de adulto, com suas raízes profundas mergulhadas na experiência, na auto-analise, na compreensão, no ajustamento filosófico. Talvez seja um céptico, pensou ela, mas não de todo amargo. Talvez seja sardônico, mas não de todo cruel. Suposições, apenas. Kava, sumo de palma...

     De súbito, Claire compreendeu que contemplava duas pessoas, pois a que se encontrava do outro lado de Courtney, a mulher mais jovem e mais bela à mesa, a sobrinha do chefe, estava inclinada sobre ele, murmurando-lhe qualquer coisa ao ouvido. Ao escutá-la, ele sorria, sorria, e fazia gestos de assentimento com a cabeça. Em dado momento, Claire apercebeu-se de qualquer coisa mais. A sobrinha de Paoti, Tehura, colocara como que por acaso a mão na coxa de Courtney e passava-a suave mas intencionalmente sobre ela. Claire sentiu inveja e pena, inveja de Tehura, pela naturalidade com que conduzia a mão, e pena de si mesma, de si mesma e de Marc, e da sua situação afetiva, que nada faziam para modificar.

     Como se para adquirir conhecimentos sobre esta arte sem arte, simples, natural, Claire examinou Tehura mais cuidadosamente. A sobrinha de Paoti era um verdadeiro encanto. Melville tê-la-ia identificado sem demora como filha de Fayaway; porém, o cruzamento das duas raças acrescentara alguma coisa. A sua perfeição, compreendia Claire, podia ser medida pelo estonteamento sentido por Marc ao ser-lhe apresentado. De manhã, tanto Marc como Orville Pence tinham menosprezado diante de Courtney a beleza das mulheres da Polinésia, tinham-se referido depreciativamente à grossura do seu nariz, do queixo, da cintura, dos tornozelos. Courtney, em resposta, elogiara a sua beleza interior. Se o encanto e a graça das jovens da aldeia, vistas de longe, ao entardecer, tinham já apoiado a refutação de Courtney, a presença de Tehura agora, de noite, como primeira prova, apoiara sua defesa. Claire, contudo, não conseguira ainda distinguir a beleza interior de Tehura, mas o seu físico magnificente era bastante. E certamente fora o suficiente para emudecer Marc. A medida que comia o poi, Claire notava que Marc fitava com insistência a sobrinha de Paoti. Todavia, não sentia ciúmes, ou muito menos do que aqueles que Marc poderia suscitar caso contemplasse, fascinado, uma obra de arte clássica criada por um gênio.

     Tehura afastara-se de Courtney, para terminar a refeição, e Claire tentou localizar as raízes de sua beleza. Por um lado, era uma jovem cintilante: o cabelo cor de azeviche, caído sobre as espáduas, era lustroso; os olhos, grandes e redondos, eram líquidos e vivazes; a carne, esticada, tinha o revérbero luminoso do cobre. As feições, delicadas como as do quadro de Romney, tinham apenas o contraste da linha sensual do pescoço e dos ombros descaídos. O peito, apertado pela faixa de tapa, parecia pequeno, mas o ventre nu e o umbigo, acima do cós da saia, e o perfil das ancas eram mais cheios. Ela não contaria mais do que vinte e dois anos, calculou Claire. Havia outros fatores anômalos. Quando desatenta, a pessoa de Tehura não refletia langor. Quando falava ou falavam com ela, mostrava-se possuída de grande vivacidade. A delicadeza do semblante dava uma sugestão de inacessível virgindade; porém, suas maneiras ousadas, romanescas, quase lascivas para com Courtney desfaziam esta impressão.

     Tehura, depois de acabar o poi, afastou-se um pouco de Courtney para escutar qualquer coisa que a tia, a esposa do chefe Paoti, dizia. A esposa do chefe, Hutia Wright, era uma mulher atarracada e corpulenta. Tinha o rosto redondo e grave e, apesar de contar cerca de sessenta anos, não mostrava uma ruga sequer, e no seu perfil notavam-se ainda traços de beleza juvenil. Falava inglês com a precisão do marido, tinha bem consciência da sua posição (pois media o conteúdo de todas as observações) e servia, como Claire ouvira por acaso, como delegada do marido num dos departamentos de governo mais importantes da aldeia.

     Hutia Wright tinha acabado de falar com Tehura e volvia de novo sua atenção para o marido e para Maud. Tehura, liberta da conversa e das iguarias, circunvagou os olhos em redor dela e interceptou o exame concentrado que Claire fazia. Quase apreciativamente seus dentes luminosos revelaram-se num sorriso. Embaraçada, Claire esforçou-se por retribuir o sorriso; depois, ruborizada, inclinou a cabeça sobre o poi ainda não tocado e procurou automaticamente uma colher; como não visse nenhuma, começou, pouco à vontade, a tomar o que podia com os dedos.

     Com os olhos baixos, concentrados, Claire escutava de novo. Ouviu o bater dos instrumentos de percussão, na divisão contígua. Ouviu o raspar das cascas de coco na mesa. Ouviu, por fim, as vozes em seu redor.

     -... mas a nossa é uma sociedade insular, isolada do mundo exterior devido aos fatores da providência. - Era Paoti Wright que falava. Com a sua voz, fina e melodiosa, prosseguiu. - O sistema resulta tão bem para nós... tão bem... que sempre contestamos ao... ao... Sr. Courtney, como é essa frase jurídica que gosta tanto de empregar?...

     - Violação da propriedade, senhor - volveu Courtney.

     - Sim, sim, a nossa vida é tão serena que sempre resistimos a esta violação. Estou certo de que este isolamento tem também os seus óbices. Talvez sejamos demasiado desenvolvidos interiormente. Talvez sejamos demasiado complacentes. A felicidade em excesso pode enfraquecer a fibra do povo. Para ser forte, combativa, uma sociedade deve ter seus altos e baixos, os seus conflitos. Esta é a combustão do progresso, a sobrevivência na guerra; todavia, Dr.a Maud Hayden, não necessitamos disto, pois não desejamos mais progresso, não temos guerras às quais sobreviver, e não competimos com ninguém fora da nossa pequena comunidade.

     - Não sente curiosidade em saber o que se passa exatamente no mundo exterior? - perguntou Maud.

     - Não muita - respondeu Paoti.

     - Senhor. - Era Marc, e Claire ergueu a cabeça para apoiar o marido. - Gostaria de ampliar a pergunta de minha mãe - tornou Marc. - Apesar de estarem satisfeitos com o que têm, nunca lhes ocorreu que o conhecimento das ilhas mais civi... mais sofisticadas da Polinésia poderia melhorar o nível da sua aldeia? Ou antes, que esta podia lucrar pela adoção das idéias progressistas da América e da Europa? Avançamos muito e depressa desde o século XVIII, sabe?

     O mais leve dos sorrisos aflorou aos lábios do velho chefe.

     - Sei - disse ele. - Avançaram tanto e tão depressa que se encontram à beira do abismo. Mais um passo e... Não me considere arrogante e presumido quando me refiro a seu padrão de vida. Temos as nossas falhas, sim, e nos poderíamos beneficiar muito do seu progresso. Porém, estes benefícios poderiam fazer-se acompanhar de certos prejuízos, que se poderiam sobrepor a eles. Assim, mantemo-nos fiéis a nossos costumes. - Aclarou a garganta. - Quero acrescentar que o mundo exterior não é para nós um mistério completo. Durante um século permitimos que nossos jovens saíssem para o mar nas suas longas canoas e nos seus outriggers, e eles tocaram com freqüência em ilhas muito próximas sem nunca revelar de onde vinham. Uma vez por outra isto ainda se faz, como prova de capacidade e força. Contudo, voltam sempre, com muita satisfação, a esta ilha, trazendo extensos elementos sobre as ilhas mais progressistas da Polinésia. Em algumas ocasiões, no passado, pessoas da sua própria raça vieram até aqui, e o que revelaram alargou consideravelmente nossos conhecimentos sobre o mundo exterior. Por seu lado, o Capitão Rasmussen, que não é com muita freqüência um observador profundo, esclareceu-nos mais, e o Sr. Courtney tem sido pródigo em informações sobre o seu próprio país. Admiramos muito a tecnologia desse lugar chamado América. Porém, admiramos menos o padrão de vida originado por essa tecnologia, e pelos seus costumes.

     Claire notou a inquietação de Marc durante todo o discurso de Paoti. Agora, falava controlando o tom de voz.

     - Não sei o que o Sr. Courtney disse acerca de nossa cultura, senhor. Cada um de nós tem preconceitos e pontos de vista pessoais, e talvez a América de que ele falou não seja a mesma América que minha mãe e eu poderíamos descrever.

     Paoti ruminou isto, sacudindo lentamente a cabeça grisalha.

     - É verdade, sim, é verdade. Contudo, espanta-me. - Voltou a cabeça, de Marc para Maud. - Como sabe, Dr.a Maud Hayden, sentimos orgulho no êxito duradouro do nosso sistema de relações entre os sexos. Todos participamos de suas gratificações. É a essência da nossa felicidade. - Maud inclinou a cabeça num gesto de aprovação, mas não interrompeu. - O Sr. Courtney elucidou-me acerca do seu sistema. Talvez o Sr. Courtney tivesse colorido os fatos com sua personalidade, como o Dr. Hayden sugere. Por outro lado, se o que ouvi se aproxima da verdade, isso espanta-me. É verdade que suas crianças não recebem educação prática sobre a arte de amar antes da maturidade? Ê verdade que a virgindade é muito admirada nas mulheres? É verdade que um homem casado não deve fruir os prazeres proporcionados por outra mulher, e que, se isso acontece, tudo se passa habitualmente no meio do maior segredo, sendo esse ato designado como adultério e olhado com certa desaprovação pela lei e pela sociedade? É verdade que não existe um método organizado para a sexualidade satisfazer um homem ou uma mulher insatisfeitos pela prática do ato do amor?

     - É verdade - disse Maud.

     - Então, acredito que seu filho teria muito pouco a acrescentar ao que o Sr. Courtney nos contou.

     Marc inclinou-se para a frente.

     - Um momento... O que eu...

     Maud não fez caso da intervenção do filho.

     - Há mais alguma coisa a dizer, chefe Paoti - afirmou ela -, mas tudo aquilo a que se referiu é autêntico.

     Paoti fez um gesto de assentimento.

     - Então, existe muito pouca coisa na sua sociedade que poderíamos adotar. Por outro lado, trata-se de sua maneira de viver, e eu respeito-a. Talvez a prefiram a qualquer outra coisa, sim. Porém, Dr.a Hayden, à medida que descobrir a nossa maneira de viver gostaria que me dissesse o que pensa dela, e que a comparasse, em todos os seus pormenores, com os costumes da sua pátria. Afirmei que não era grande a minha curiosidade quanto ao que se passa no mundo exterior. Isto é um fato. Contudo, sinto orgulho do meu povo, do nosso sistema, e terei interesse em ouvir seus comentários.

     - Dar-me-ão grande prazer essas conversas - volveu Maud.

     Claire, com a cabeça cada vez mais leve devido às libações e às interferências das palavras de Paoti, inclinou-se de súbito para a frente e exclamou:

     - Sr. Courtney...

     Courtney voltou-se para ela surpreendido.

     - Diga-me - prosseguiu Claire -, o que contou, real1 mente, sobre as relações entre os sexos na América. - Ela afastou as costas para trás, expeçtante; não sabia o que a impelira a falar, mas sorria, contudo, a fim de que ele compreendesse que, aqui, não era uma aliada de Marc.

     Courtney encolheu os ombros.

     - Contei tanta coisa...

     - Por exemplo - persistiu Claire -, mencione qualquer coisa relevante da nossa vida sexual que seja diferente daqui. Mencione uma só. Estou cheia de curiosidade.

     Courtney fixou o olhar na mesa, durante uns momentos. Depois, tornou a erguer os olhos.

     - Muito bem - disse. - Vivemos numa panela de pressão, o que não sucede aqui.

     - Que quer dizer com isso?

     - Que existem muitas inibições sexuais na nossa pátria, das quais resultam a malícia, as palavras obscenas, o puritanismo, o isolamento, o culto do seio, etc.

     - Para as mulheres, talvez - retorquiu Claire -, mas não tanto para os homens. Para eles, tudo é mais fácil. - Notou que Tehura e Hutia Wright a escutavam com interesse; assim, disse, voltando-se para elas: - Os homens têm menos problemas na nossa sociedade porque...

     Sentiu a mão de Marc no braço.

     - Claire, isto não é lugar para...

     - Marc, este tema fascina-me. - Fitou Courtney uma vez mais. - Sinto-me absolutamente fascinada. Não crê que tenha razão?

     - Bem - volveu Courtney -, falei ao chefe sobre a nossa moralidade como um todo, sobre a nossa sociedade...

     - Afirmou que os homens estão sujeitos a menos pressão?

     - Não me referi exatamente a isso, Sra. Hayden, porque não tenho certeza de que seja verdade.

     - Não? - volveu Claire. Não se mostrava desconcertada mas tinha um intenso desejo de saber o que ele pensava. - Durante toda a história do Ocidente, os homens impuseram a castidade às suas mulheres, não se coibindo, porém, de procurar aventuras amorosas. Ainda hoje o fazem. Fruem o prazer de que são capazes enquanto as mulheres... - Abriu as mãos em alegre desespero.

     - Se realmente deseja minha opinião... - disse Courtney. Olhou em redor, como que pedindo desculpa, e viu que todos faziam incidir a sua atenção sobre ele.

     - Por favor, Sr. Courtney, prossiga - interveio Maud.

     - Já que pede... - retorquiu, com um sorriso rasgado. Subitamente, porém, mostrou uma expressão solene. - Creio que a Sra. Hayden tem razão acerca de uma coisa. Desde o tempo das cavernas, até à época vitoriana, os homens impuseram sempre suas conveniências. Na verdade, o mundo pertencia-lhes. As mulheres eram apenas seus vassalos em tudo, inclusive no amor. O objetivo último de um casal consistia na plena satisfação do homem. A mulher servia unicamente pára dar prazer, não para o partilhar. Se ela própria também o fruía, isso não passava de uma coisa acidental. Era assim que tudo decorria noutros tempos.

     A medida que escutava, o torpor de Claire ia-se desvanecendo, e ela tentou refletir no que Courtney afirmava. Sem fazer ruído, um criado aproximou-se, por trás, oferecendo uma nova bebida de sumo de palma numa casca de coco. Automaticamente, Claire aceitou-a.

     - Crê que alguma coisa se modificou? - perguntou ela a Courtney.

     - Creio que muita coisa se modificou, Sra. Hayden - volveu Courtney, passado um momento. - Em dada altura, entre Freud e Woodrow Wilson, surgiu a era da emancipação, do liberalismo, da confissão. Os homens concederam a igualdade às mulheres, tanto privada como publicamente. Isto passou da urna dos votos e do escritório para o quarto de dormir. As mulheres ganharam não só o voto como também o direito ao orgasmo. Apreciaram a sua descoberta e introduziram-na em todos os ouvidos, usando-a como medida de felicidade. Do dia para a noite, parece, as mesas foram viradas. Os homens, que tinham imposto sua vontade durante muito tempo, tiveram de começar a satisfazer as mulheres, além de serem por elas satisfeitos. Tiveram de reprimir suas inclinações naturais, inibi-las, a fim de se mostrarem generosos. De um momento para o outro o prazer primitivo foi condicionado. Era isto que tinha em mente quando me referi à pressão a que estava hoje sujeito o macho da nossa sociedade.

     Durante toda a fala, Claire inclinara constantemente a cabeça, aprovando. Agora, porém, sua atenção foi desviada pelo chefe Paoti, que se dirigia a Maud.

     - Dr.a Maud Hayden - disse Paoti -, concorda com a observação do Sr. Courtney?

     - Mais ou menos - volveu Maud. - A observação do Sr. Courtney tem validade, mas parece-me muito simplificada. Por exemplo, equaciona a virilidade do macho com a sua capacidade para levar a mulher ao orgasmo. Não creio que isto constitua um critério válido na América, na Inglaterra, ou na Europa em geral. As opiniões de nossas mulheres quanto à virilidade do homem são as mais díspares. Se é um bom provedor de bens, seguro, digno, de confiança, de preferência a um magnífico amante, ele pode ser considerado um homem autêntico. Num nível diferente, um outro que tenha riqueza, poder ou prestígio, verificará que tudo isto é um verdadeiro substituto da virilidade conferida pela capacidade de originar o orgasmo.

     Paoti voltou-se para Courtney.

     - Uma interessante ilustração do seu ponto de vista, não acha?

     Courtney concordou.

     - Absolutamente, Dr.a Hayden - retorquiu ele. - Os homens ricos ou famosos estão isentos desta pressão moderna. Se se mostram incapazes de dar prazer sexual são, contudo, capazes de fornecer outros prazeres ainda mais valiosos na nossa sociedade. Vou até ao ponto de afirmar que as classes mais elevadas e mais baixas do estrato social sofrem menos pressões do que a classe média. Os indivíduos das classes mais elevadas dispõem de outros meios para satisfazer suas mulheres. Os das classes mais baixas são geralmente demasiado pobres e indiferenciados para se preocuparem com o orgasmo mútuo. Nas mulheres sujeitas à pobreza o desejo da segurança básica sobrepõe-se ao do orgasmo, e o companheiro que possa garantir esta segurança é por elas considerado um verdadeiro homem. Estas mulheres aspiram primeiro do que tudo à satisfação econômica. A outra é considerada um refinamento da ociosidade.

     - Mas a classe média? - perguntou Paoti.

     - Quanto a esta, a pressão exercida sobre os homens é constante - respondeu Courtney. - O homem desta classe, situado entre as outras classes econômicas, se suficientemente instruído para reconhecer a existência desta posição social, se possuidor de disponibilidades bastantes para efetuar seus pagamentos, mas sem riqueza ou prestígio e a obsessão pelo pão como substitutos da virilidade, é o elemento masculino da nossa sociedade submetido a maior pressão. Na intimidade, tem de não se esquecer daquilo que os livros dizem ser o padrão conveniente, de se mostrar atencioso e cordato; por vezes é bem sucedido, mas quase sempre os malogros são em maior número do que os êxitos, acompanhando-o constantemente a noção de que a vida não é tão agradável para ele como costumava ser para seus avós. Esta nostalgia pelo passado, segundo penso, por vezes explica a existência das prostitutas, das call girls, que satisfazem as exigências dos homens da classe média e da classe média superior. Estas jovens fazem as vezes das jovens vassalas de outros tempos. Dão prazer, mas não o pedem, e como retribuição desejam apenas uma utilidade impessoal, uma pequena prenda ou algum dinheiro.

     Durante uns momentos, com exceção da música distante, a grande sala de cana e bambu esteve mergulhada em completo silêncio. Claire sorveu um pouco de sumo de palma, e perguntou-se como encaravam os anfitriões nativos esta conversa, que considerava agora certa na sua maior parte. Decerto, pensou, Courtney omitira as mulheres, o tédio e a insatisfação da maioria das mulheres casadas, as causas de tudo isto e os problemas respectivos. Quem dissera que a tragédia final do casamento é a indiferença? Maugham, sim. A tragédia final do amor, a indiferença. Claire pensou se devia ou não tocar no assunto; após uns instantes de reflexão decidiu não o fazer devido à presença de Marc, tão inquieto a seu lado. Porém, baixando a tigela de casca de coco, resolveu descobrir o que Courtney deixara ainda por dizer acerca das pressões dos homens.

     - Sr. Courtney, eu... o senhor falou apenas da situação do homem na América, no Ocidente...

     - Sim.

     - Os homens não estão submetidos exatamente às mesmas pressões em todas as partes da Terra, e mesmo aqui, nas Sereias?

     - Não. Nem também as mulheres.

     - Por quê?

     Courtney, hesitante, fitou de relance o chefe Paoti, que estava sentado, curvado, acima de todos eles.

     - Talvez o chefe Paoti esteja melhor qualificado para... Paoti acenou com sua mão frágil, escusando-se.

     - Não, não, Sr. Courtney, o senhor é mais eloqüente, mais capaz de explicar a nossa maneira de viver a seus compatriotas.

     - Muito bem - respondeu Courtney. Seus olhos, sérios, passaram de Maud para Marc e para Claire. - Falo baseado na minha experiência de quatro anos entre este povo. As pressões referidas não se verificam nas Sereias devido ao modo como as pessoas são educadas, a seus costumes tradicionais. Tudo isto contribui para uma atitude mais saudável, mais realista, em face do amor e do casamento. Nos Estados Unidos ou na Inglaterra, por exemplo, nossas proibições quanto ao sexo criaram um Interesse excessivo e pervertido nele. Aqui nas Sereias, as proibições são tão diminutas, as considerações sobre o sexo tão naturais que este se tornou uma parte normal e aceitável do dia-a-dia. Aqui, quando uma mulher sente1 desejo de comer, come, e não vê nada de mal ou especial nisso. Da mesma maneira, quando sente desejo de amar, ama. Eis tudo. E o mais importante é que o amor não lhe provoca culpa ou vergonha. Nas Sereias, as crianças começam a conhecer o amor na escola, não só em teoria como também na prática, de maneira que seus conhecimentos sobre este tema não são inferiores aos conhecimentos que adquirem sobre a história ou a linguagem. Os jovens, ao crescerem, não experimentam uma ávida curiosidade quanto ao sexo, pois nada lhes foi escondido. Nem tampouco têm repressões. Se um jovem deseja uma mulher, ou uma jovem um homem, nenhum deles se vê frustrado. E o coito pré-matrimonial é alegre, apaixonado mas alegre, um grande ato desportivo, uma vez que não existem tabus que criem culpa ou inquietação ou a necessidade de o praticar às escondidas e de ter receio dele. No casamento, qualquer das partes é satisfeita, caso o deseje; a comunidade garante isto. E tanto os viúvos como os solteiros de ambos os sexos encontram maneira de satisfazer sem dificuldade seus apetites. Não existe aqui homossexualismo, violência, estupro, aborto, palavras obscenas escritas nas paredes das latrinas, adultério, desejos secretos e sonhos eróticos por realizar, pois os costumes polinésios foram preservados e melhorados pelas idéias liberais de Daniel Wright. As práticas do sexo, do amor e do casamento são sinônimos de contentamento nas Três Sereias.

     - Essas práticas podem também ser satisfatórias nos Estados Unidos - disse Marc friamente.

     - Estou certo de que o podem ser e de que por vezes são - replicou Courtney. - Porém, baseado na minha experiência de advogado e nas minhas leituras, penso que, na América, são menos agradáveis do que deviam ser. Uma vez que tenho vivido nestas duas sociedades contrastantes, creio que o mais incrível é o seguinte: nós, nas chamadas nações civilizadas, apesar de toda a nossa extraordinária aprendizagem, do ensino, da educação, de todas as nossas comunicações e conhecimentos nos mais variados campos, das nossas máquinas de lavar e secar, das máquinas que nos examinam as entranhas, das máquinas que lançam um indivíduo para além do alcance da gravidade, não inventamos a máquina simples, ou melhoramos a máquina humana, que nos permita educar sensatamente as crianças, fazer casamentos felizes, desoprimir a vida. Contudo, aqui, nesta ilha remota, onde não existe uma só máquina, um terno ou um vestido, e talvez nem sequer um livro- onde órbita, gravidade, raios X e jato são palavras sem significado, o povo foi capaz de criar e perpetuar uma sociedade onde as crianças e os pais são maravilhosamente felizes.

     “Um último ponto. Embora sejam, emocionalmente, os mais complicados de todos os mamíferos, os humanos são, todavia, na união sexual, os mais simples. Um é côncavo, o outro convexo. Quando se juntam verifica-se prazer automático e por vezes procriação. Contudo, no Ocidente, não dominamos os caprichos, as sutilezas, da natureza. De certo modo, juntamos o côncavo e o convexo e, embora muitas vezes o resultado seja a procriação, raramente é o prazer. Apesar de toda a nossa sapiência, progresso, gênio, não resolvemos este problema primordial de todos os povos da Terra. Contudo, aqui, nesta nesga de terra do Pacífico, cerca de duzentos brancos-pardos, quase nus, semiletrados resolveram-no. Penso que, no fim destas seis semanas, concordarão comigo... - Voltou-se, de Paoti e de Maud, para Claire. - Peço que me perdoe o meu longo discurso, Sra. Hayden. Isto fará que aprenda a não me interrogar sobre o meu tema favorito. Falei mais esta noite do que nos últimos quatro anos. Atribuo este fato à kava, à kava e ao sumo, e a um crescente desejo de me tornar um missionário.

     Os olhos nublados de Claire alargaram-se.

     - Um missionário?

     - Sim. Desejo conduzir um grupo de sacerdotes sagrados, das Sereias, até Nova York e Roma, a fim de converter os gentios aos princípios da natureza.

     Claire fitou o marido, apertando os olhos para pô-lo em foco.

     - Vamos nos converter, Marc.

     - Mais devagar, querida - volveu Marc. - Não quero comprar gato por lebre. O Sr. Courtney talvez tenha exagerado, utilizando umas certas liberdades poéticas para elogiar este lugar e seu povo.

     Marc está furioso, pensou Claire. É por isso que fala tão alto. O rosto de Marc, porém, não denunciou a cólera que o possuía quando voltou a dirigir-se à mulher, mas falando para todos o ouvirem.

     - Afinal, deixaria o Sr. Courtney a sua pátria durante tanto tempo se não estivesse descontente? E sua permanência aqui não lhe teria feito perder a perspectiva das coisas?

     Marc fitou Courtney, cuja expressão traduzia completa calma e passividade.

     - Sr. Courtney - tornou ele -, não me interprete mal. Estou repetindo agora apenas o que disse esta manhã. Marinheiros, durante muito tempo no mar, aportaram frustrados e sedentos de prazer a estas ilhas achando-as portanto mais aprazíveis e encantadoras do que realmente são. Não lhe estou chamando de romântico. Não pretendo estabelecer uma discussão. Mas, como sabe, sou um cientista social, como o são a maior parte dos componentes do grupo, e gosto de julgar todos os fenômenos à luz de padrões científicos imparciais, onde a emoção não conta.

     - É bastante claro - retorquiu Courtney.

     Durante toda a discussão, as mulheres nativas não tinham pronunciado sequer uma palavra; continuaram sentadas, como imagens gravadas. Agora, porém, Tehura sacudiu seus longos cabelos negros, ergueu-se sobre os joelhos e tomou o braço de Courtney.

     - Não é suficientemente claro, Tom! - exclamou ela. Fitava diretamente Marc, que se encontrava do outro lado da mesa. - Não é necessário o estudo científico de que fala. É tudo verdade... quanto à América não sei... no que diz respeito às Sereias, Tom descreveu com exatidão a maneira como vivemos. Uma vez que pertenço a este povo, posso apoiar sem hesitação suas palavras.

     De súbito, Marc mostrou-se todo galanteria.

     - Jamais discordaria de uma bela jovem - disse ele.

     - Então, deve escutá-la durante alguns momentos. Contar-lhe-ei uma encantadora história acerca de Thomas Courtney e de Tehura Wright.

     Impassível, Marc cruzou os braços; um sorriso artificial animou-lhe o rosto. A cabeça de Maud estava inclinada na atitude devota do antropólogo face ao informante. A expressão de Claire, todavia, refletia a sua excitação interior, como se ela esperasse que o pano subisse para a representação de um drama que revelaria a verdade sobre o enigmático Courtney.

     Tehura, com o braço metido no de Courtney, começou a contar, com veemência, a sua história:

     - Quando chegou aqui Tom não era a pessoa que hoje vêem. Parecia ter uma alma diferente. Era... bem, não conheço palavras suficientes para o descrever... um homem triste e... Tom, que costumava você dizer nesse tempo?

     Courtney mirou-a com afetuosa indulgência. Depois, revelando quanto o divertia interiormente a digressão de Tehura, disse:

     - Era um Ulisses que perdera completamente o norte, quase esfarrapado, mas com as fitas das condecorações conquistadas nas batalhas de Ogigia, Ilium, Aeolia e outras Madison Avenues guardadas nos bolsos das calças. Pensara, uma vez que nenhuma Penélope o esperava, que não havia razão para voltar a ítaca. Assim, conseguira desamarrar-se do mastro do seu barco, escutara as Sereias e sucumbira a seus encantos. Um deus maléfico tornara-o permeável à fadiga, à profunda melancolia, à apatia, ao cepticismo e à descrença. Ele ofereceu-se às Sereias porque estava cansado da viagem, e orou para que elas lhe dessem a energia suficiente para prosseguir a jornada... ou ficar.

     Tehura apertou o braço de Courtney.

     - Exatamente - disse. Uma expressão secreta perpassou pelos olhos de ambos, e depois Tehura volveu a sua atenção para os outros, uma vez mais. - Quando ele foi conduzido à. aldeia e se tornou um dos nossos a sua melancolia desvaneceu-se. Viveu conosco animado pela curiosidade. Desejou conhecer tudo o que fazíamos e por que o fazíamos. Como a música, a nossa vida era rítmica, fluente, e muitos meses depois Tom desembaraçou-se das suas velhas idéias da maneira como se desembaraçara das suas roupas quentes, e começou a mostrar-se vivo, apaixonado. Desejei-o a partir do primeiro momento em que o vi, e quando ele principiou a compreender-nos decidi revelar-lhe o meu amor. Foi então que descobri que ele sentia verdadeira paixão por mim. Tornamo-nos imediatamente amantes. Foi muito belo, não é verdade, Tom?

     Courtney tocou a mão dela.

     - Sim, Tehura, muito - respondeu.

     - Mas não imediatamente - disse Tehura para os outros. - A princípio, ele não era bom, na união sexual. Era demasiado formal, muito desajeitado...

     Courtney, com os olhos fixos na mesa, interrompeu.

     - Eles podem compreender, Tehura. Falamos das pressões existentes nas relações amorosas na minha pátria... para ambos os sexos, grande parte delas resultado de uma mistura de álcool e de drogas, de hostilidade e de culpa, de ansiedade e de medo.

     - Mas eu era diferente, pois não sofrerá de tais males, e conhecia a felicidade que se frui nas relações de amor - disse Tehura para os Haydens. - E assim ensinei a Tom o que tinha aprendido, a sentir prazer nos divertimentos do sexo, sem se ter o espírito e o corpo pesados, a ser natural como as ondas que se erguem e tombam, e livre como o vento que sopra através da floresta. Muitos meses passaram, e sentimos a ternura, a paixão; vivemos longos momentos de intimidade absoluta, na nossa cabana...

     Marc fitava-a com um ar estranho.

     - Então são casados - disse ele. O rosto de Tehura transformou-se.

     - Casados? - exclamou ela com alegria. - Oh, nunca! Nem nos casaremos, pois não somos um para o outro, de muitas maneiras. Amamo-nos apenas fisicamente, até que no ano passado tudo terminou. Estou saciada do corpo de Tom, e ele está saciado do meu. Já não necessitamos de fazer amor um com o outro. Além disso, sinto-me apaixonada por Huatoro, e esse é o meu futuro. Eu e Tom já não somos amantes, mas continuamos amigos. Quando estou preocupada, vou à sua cabana, falo e ele fala, e aconselha-me. Quando ele precisa de novos esclarecimentos acerca do meu povo, vem à minha cabana, sentamo-nos, comemos taro, e falamos do meu povo e do povo dele. Contei-lhes o que se passou entre mim e Tom porque me orgulho de nos termos um dia amado. Quando me referi pela primeira vez, na aldeia, à nossa ligação ele ficou surpreendido. Disse que no seu país, uma mulher não revela suas ligações sexuais a toda gente quando solteira. Porém, depois aprendeu conosco que isso nada tem de mal, e que somos felizes e sentimos orgulho.

     - Também sinto orgulho, Tehura - disse Courtney calmamente.

     Paoti tossiu.

     - Já falamos bastante, para o nosso primeiro encontro. Está ficando tarde. É tempo de começarmos a cerimônia do rito da amizade.

     Paoti procurou com os dedos a bengala de madeira que estava apoiada à sua cadeira. Depois, ergueu-se e bateu com ela duas vezes na mesa. Em seguida apontou a bengala para a plataforma, para lá de Moreturi e Atetou.

     Todos se voltaram para observar a plataforma. Claire, que mirava Tehura e Courtney, viu que Maud e Marc a fitavam, e tentou ler nos seus rostos familiares. Obviamente, Maud sentira prazer em escutar a narrativa franca, simples e desinibida de Tehura, e descobrira um material rico para seu estudo. O rosto de Marc estava cerrado, isto, como Claire imaginava, devido à sua crescente aversão por esta gente aberta, simples. A própria Claire tentou definir sua reação em face da confissão de Tehura. Sentiu apenas inquietação e inferioridade. Era uma emoção por vezes experimentada em reuniões mundanas em Santa Bárbara ou Los Angeles, quando outro casal fazia algumas alusões veladas à sua vida sexual, sugerindo que era superior à de todos os outros. Claire experimentava agora esta emoção. Eles tinham magia, e ela nenhuma. Eles eram saudáveis, e ela estava paralisada. Sofria muito mais por Marc, um ser muito mais vulnerável. Por fim, afastou Tehura de seu espírito.

     Uma jovem alta,. delgada como uma estatueta, de cerca de dezenove anos, surgira subitamente no meio da plataforma. Estava imóvel, os braços estendidos, as pernas bem afastadas. Duas grinaldas reluzentes de hibisco pendiam-lhe do pescoço e cobriam-lhe parcialmente os seios jovens e pequenos. Da cintura, estavam suspensas duas tiras curtas de tapa branca, uma defronte das pernas, outra detrás; os quadris e as coxas achavam-se nus.

     Os instrumentos de percussão e de sopro encheram a sala de sons. Quando o volume e o ritmo da música começaram a crescer, a jovem alta e bronzeada que se encontrava na plataforma principiou a mover-se, mas sem deixar seu lugar, permitindo que tudo, exceto os pés nus, se animasse. Suas mãos, ondulantes como uma serpente, acariciaram o ar, e seu rosto e seu corpo começaram a vibrar. Decorridos alguns momentos toda ela era movimento vivo e sensual. Os olhos dançavam-lhe nas órbitas, a boca abria-se e fechava-se, os pequenos seios tremulavam, colados às flores, despontavam delas, o ventre sacudia-se, as ancas sedutoras pareciam voltear. A princípio, suas ondulações eram lentas; porém, gradualmente, adquiriu ritmo, e começou a ser possuída pelo êxtase carnal, por fim, explodiu no ar e tombou curvada sobre a plataforma.

     A dançarina estava no palco, sobre as costas, elevando as pernas e o dorso. Fascinada, Claire compreendera o que ela representava, o violento êxtase do amor realizado; seguia-se agora a procriação, as dores do parto que originariam o nascimento da amizade.

     Os músculos pélvicos, quase a descoberto, comprimiam-se, distendiam-se e elevavam-se, ante o ritmo da música. Claire apertou os braços um contra o outro, sentiu a boca seca, a garganta latejar e o desejo percorrer-lhe o corpo. A embriaguez, os olhos umedecidos fizeram com que a cena se turvasse, e desejou este símbolo no palco, e um homem, um homem, não importa qual, que a desejasse, que a penetrasse e depositasse em si a semente de uma nova vida. De súbito, como a música parasse e a dançarina se erguesse, firme e gelada, Claire escutou as palpitações do seu coração e manteve-se retesada, reprimindo a excitação.

     A dançarina estava imóvel uma vez mais. Dois jovens, ' que transportavam uma caixa de madeira exalando vapor, ergueram-na e colocaram-na na plataforma, diante da dançarina. E de novo Paoti bateu com a bengala no tampo da mesa.

     - Dr.a Maud Hayden - disse ele -, atingimos a fase final do nosso tradicional rito da amizade, um rito poucas vezes celebrado nos últimos séculos. Uma mulher do nosso sangue e outra do seu terão de ascendei à plataforma, e colocar-se ao lado da dançarina. Tirarão o vestuário da parte de cima do corpo e conservarão os seios nus para a unção sagrada que juntará os nossos povos em amizade e removerá o tabu contra os estrangeiros. Para representar o nosso sangue, designo a jovem que é filha do meu falecido irmão, aquela conhecida por vocês como Tehura.

     Tehura inclinou a cabeça para Paoti, descruzou as pernas, pôs-se graciosamente de pé e subiu à plataforma, colocando-se ao lado da dançarina.

     Paoti dirigiu-se de novo a Maud.

     - E qual a mulher do seu sangue que designa para representá-los?

     Maud mordeu os lábios, pensativa, e volveu.

     - Representarei eu a minha família e o nosso grupo.

     - Matty, por amor de Deus... - disse Marc.

     - Não seja tolo, Marc - volveu Maud, ríspida. - Quando, na companhia do seu pai, estive anteriormente no campo participei de ritos similares em diversas ocasiões. - Voltou-se para Paoti. - Estamos familiarizados com os ritos da aceitação em todas as culturas. Proferi uma vez uma conferência sobre os mylittas, os quais, para simbolizar a integração de um visitante no seio da tribo, oferecem uma das suas jovens mulheres. Quando dá testemunho a seu amor, ela recebe uma moeda; depois desta troca, nasce a amizade.

     Nervosa, Maud começou a erguer-se, mas Marc de teve-a.

     - Com os diabos, Matty, não permito que se levante. Uma das outras...

     Maud manifestou-lhe o seu desagrado.

     - Marc, não sei o que passou por sua cabeça. Isto é um costume tribal.

     Tonta, e em face do desacordo entre ambos, Claire sentiu de súbito vergonha pelo marido e por si mesma. Contudo, sabia que não podia permitir que Maud subisse à plataforma e descobrisse os seios pendulares, tocados pela velhice. Compreendeu que era ela, Claire, contraparte de Tehura, quem devia participar no rito. A idéia empolgou-a, e com a kava e o sumo de palma correndo dentro de si, como um regato, pôs-se de pé.

     - Ocuparei seu lugar, Maud - ouviu-se dizer. Vacilante, dirigiu-se para a plataforma. Marc procurou retê-la, mas não o conseguiu; o gesto que esboçou, porém, fê-lo tombar sobre a esteira.

     - Claire, não seja tonta - bradou ele.

     - Desejo participar da cerimônia - volveu ela. - Quero ser amiga deles.

     Uma vez na plataforma, cambaleou, mas esforçou-se por recobrar o equilíbrio, e volvido um momento achava-se ao lado da dançarina imóvel. Circunvâgou os olhos pelo círculo de rostos, embaixo, e viu que Moreturi aprovava, Marc exalava cólera e Maud manifestava preocupação. Todavia, Paoti e Courtney não revelavam qualquer emoção.

     A dançarina alta voltara-se para Tehura e desapertava lentamente a faixa de tapa que lhe cobria o peito. O tecido, uma vez liberto, caiu para o solo. Com a remoção da faixa, os seios de Tehura pareceram irromper do peito. Claire tentou não olhar, mas a curiosidade consumia-a. Tinha de saber o que Tehura, que conhecia os segredos do amor, oferecera a Courtney. Do canto de um dos olhos observou o que se passava junto dela. Pôde ver que os ombros descaídos e luminosos da jovem nativa tinham cumprido a sua promessa, pois fundiam-se sem um vinco ou uma ruga nas duas elevações curvas dos seios rígidos e alvos com pronunciados botões vermelhos.

     A dançarina encarava Claire; surgira o momento temido. Porém, para seu alívio, apercebeu-se de que o medo não a possuía, e compreendeu sem demora por quê. Porém, antes que pudesse entregar-se a novas reflexões, verificou que sua assistente precisava de auxílio. A dançarina de epiderme parda desconhecia por completo os mistérios do vestuário ocidental. Claire inclinou a cabeça, compreensiva, e levou a mão- atrás das costas; depois, desapertou o topo da blusa amarela, puxou o fecho e desembaraçou-se da metade superior da sua indumentária, a qual tombou para a cintura. Trazia seu novo soutien transparente e rendado, e sentia-se satisfeita por isso. Rápida, levou uma vez mais as mãos atrás das costas e abriu-o; em seguida deixou cair as mãos, colou-as nos quadris e aguardou. A assistente compreendeu, pegou imediatamente nas fitas soltas do soutien e puxou-as ao longo dos braços de Claire, que ficou completamente nua até à cintura.

     Com o corpo bem ereto, rígido, Claire viu Tehura, que invejara, fitá-la com admiração. Compreendeu, então, por que não sentira medo. Num mundo onde as glândulas mamárias protuberantes, a sua capacidade, o seu contorno, constituíam marcas da beleza feminina, ela pareceria altamente favorecida. O tamanho, o arco, a firmeza dos seios, a circunferência dos botões castanhos, agora macios, acentuados pela cintilação da jóia que tombara no meio do rego profundo entre eles, representavam a sua feminilidade, constituíam a sua propaganda do amor. Isto revelado, não se sentia mais inferior a Tehura, mas sua igual, e talvez os que se encontravam embaixo a considerassem mesmo superior.

     A jovem assistente tinha ajoelhado, mergulhado as mãos na tigela e feito o óleo quente elevar-se. Após derramar algum nas mãos abertas de Tehura, e de Claire, depois, fez-lhes sinal, convidando-as a aproximarem-se, a fim de se debruçarem sobre a tigela da amizade. Tehura estendeu as mãos e, com leveza, aplicou o óleo sobre o topo dos seios de Claire. Esta compreendeu que esperavam o mesmo dela, passou o óleo sobre os seios de Tehura. À jovem nativa sorriu, e deu um passo atrás. Claire imitou-a imediatamente.

     A jovem assistente disse, com voz melodiosa, uma palavra em polinésio.

     O chefe Paoti bateu com a bengala na mesa e, trêmulo, ergueu-se.

     - Está feito - anunciou. - Sejam bem-vindos à aldeia das Três Sereias. A partir deste momento, a nossa vida é a sua vida, como se fôssemos todos do mesmo sangue.

    

     Quinze minutos mais tarde - era quase meia-noite - Claire atravessava, ao lado de Marc, a aldeia obscurecida e adormecida. A única iluminação era provida pelas poucas tochas que tremulavam de cada lado do regato.

     Desde que se vestira, que dissera adeus aos anfitriões e entrara no conjunto - Maud vinha um pouco atrás com Courtney - Marc não a fitara uma só vez nem pronunciara sequer uma palavra.

     Caminhavam em silêncio.

     Quando chegaram à cabana, ela deteve-se e notou rugas produzidas pela cólera no rosto do- marido.

     - Detestou-me esta noite, não é verdade? - perguntou de súbito.

     Os lábios de Marc moveram-se, mas ele não disse uma palavra ainda desta vez. Passados alguns momentos, porém, as palavras jorraram-lhe rápidas mas entrecortadas.

     - Detesto toda a gente... Detesto todos os que se embriagam... e que provocam conversas nojentas sobre o sexo... e quem se comporta como uma prostituta sem-vergonha.

     No meio da noite suave como seda as palavras duras do marido penetraram-na dolorosamente como aguilhões. Manteve-se de pé, trêmula, envergonhada dele, profundamente envergonhada. Jamais, em quase dois anos de casados, Marc falara com uma fúria tão insólita. Suas palavras de crítica eram sempre submetidas a rígido controle, e quando as escutava Claire procurava evitar sempre a controvérsia. Mas agora, neste terrível instante da noite, tudo o que acontecera, tudo o que vira, ouvira e bebera apoiava-a, permitia que se mostrasse pela primeira vez tal como era, que exprimisse por fim seus sentimentos.

     - E eu - disse em voz baixa, sem receio - detesto todo aquele que se revela um pedante ignominioso.

     Esperou, com a respiração suspensa, que ele a esbofeteasse, mas compreendeu, decorrido um momento, que o marido era demasiado fraco para o fazer. Em vez de esbofeteá-la, lançou-lhe um olhar de aversão e, voltando-lhe as costas, entrou na cabana.

     Claire continuou onde estava, trêmula. Por fim, tirou um cigarro do bolso do vestido, acendeu-o e começou a caminhar, lentamente, em direção ao regato. À medida que passeava em ambos os sentidos, da cabana até ao regato e deste até aquela, escoaram-se os minutos. Recordou a sua vida antes de Marc e depois de Marc, imaginou Tehura com Courtney, reviu o rito da aceitação, e depois os antigos sonhos e as mais caras esperanças. Cerca de meia hora depois, já calma, e após ter verificado que as luzes da cabana tinham sido apagadas, dirigiu-se para a porta.

     Ele embriagara-se tanto como ela e estaria dormindo. O ressentimento que experimentara desvanecera-se muito, e quando entrou sentiu que na manhã seguinte, já lúcidos, ter-se-iam perdoado.

       

     Claire dormira como se num fosso profundo, envolta em ar negro e parado. Tinham-na trazido de novo à superfície os dedos estendidos do sol da nova manhã, que tateavam através das paredes de cana, procurando-a, para a acariciarem. Por fim, abrira os olhos. Sentiu o braço e a anca esquerda rígidos e magoados devido à primeira noite passada no chão coberto de esteiras. Sentiu também os lábios gretados, a língua ressequida e inchada, o que fez com que se recordasse dos acontecimentos da noite anterior. Consultou o relógio de pulso. Passavam vinte minutos das oito da manhã.

     Ouvindo passos, rolou sobre si mesma, puxou para baixo a parte superior do pijama de nylon, que subira até à curva inferior dos seios, e viu Marc junto da janela do fundo, com um espelho oval na mão, penteando meticulosamente o cabelo. Ele já se tinha vestido - camisa esporte de manga curta, calças e sapatos leves - e se sabia que ela se encontrava acordada não o demonstrava. Para Claire, a invasão do sol, a frescura do dia, o encrespamento do marido fizeram com que as atividades e a conversa de nove horas antes parecessem distantes e improváveis.

     - Marc - disse ela -, bom dia. Ele mal tirou os olhos do espelho.

     - Dormiu como uma pedra.

     - Sim.

     - Ouviu Karpowicz? Veio aqui com um recado de Matty. Ela deseja a presença de todos no seu gabinete, por volta das dez.

     - Estarei pronta. - Ergueu-se, contente por não sentir os efeitos do álcool. - Marc...

     Desta vez ele voltou-se, reconhecendo a sua presença, mas seus lábios mantinham a rigidez da noite anterior. Continuava ressentido.

     Ela engoliu em seco, mas quis esclarecer tudo o que se passara.

     - Marc, creio que estava embriagada a noite passada. Lamento...

     - Não tem importância - volveu ele, movendo lentamente os lábios.

     - Não quero detestar-me a mim própria durante toda a manhã. Lamento também as coisas que dissemos um ao outro.

     Ele curvou-se e deixou cair o pente e o espelho sobre os objetos de seu uso pessoal.

     - Muito bem, querida - declarou -, esqueçamos tudo, sim? Façamos de conta que nada dissemos. Porém, recordemo-nos ambos de quem somos e não nos rebaixemos diante de olhos estranhos. Façamos por manter nossa dignidade.

     Ela nada respondeu, desejando que, pelo menos, o marido se aproximasse dela e a beijasse, a beijasse apenas. Marc achava-se à porta da sala de estar, e deixou-a unicamente com uma nota de advertência.

     - Tente chegar a tempo, Claire. O fim de semana terminou. Voltamos todos ao trabalho.

     - Chegarei a tempo, sim, não se preocupe.

     Depois de ele ter saído, Claire endireitou os sacos de dormir de ambos e observou que Marc arrumara, com cuidado, as roupas que vestira, que eram para lavar; depois, desabotoou despreocupadamente a parte de cima do pijama. Não tinha interesse em mirar os seios, mas notara que a jóia se encontrava ainda entre eles. Tirou-a e ajoelhou-se para a colocar na caixa de couro. Nesta posição, não poderia deixar de reparar nos seios, e, contemplando-os, evocou os olhos dos homens - Moreturi, Paoti, Courtney (um americano!) - que os tinham visto assim nus. Agora, devido ao embaraço provocado pela luz do dia, considerou-se impudica. Neste momento, não censurava Marc por ter expresso sua cólera. Era esposa dele, uma esposa americana - quase acrescentara: “e mãe” - e comportara-se, na primeira noite em que saíra, como uma ninfomaníaca. Bem, mais ou menos. Até agora, dissimulara todas as vergonhosas fantasias da sua mente sob as etiquetas Bem Criada, Uma Mulher Decente, Ama, Honra e Obedece. A sua muralha de repressão fora construída com materiais como Pudor, Decência, Castidade, e com um tijolo mais, sim, Timidez. Como e por que fizera ruir tudo na noite anterior? Exprimira sua lascívia, e agora, à medida que reconstruía a muralha repressora, tijolo a tijolo, não via como poderia suportar de novo os olhares de Courtney e dos outros. Que pensarão eles?

     Decidiu penitenciar-se diante de Marc. Devia-lhe isso. Depois, enquanto procurava a blusa e os shorts brancos de tênis, compreendeu que passava a vida se desculpando perante Marc. Havia sempre qualquer coisa, atos menores de estupidez, indiscrições, lapsos de memória, omissões de comportamento, e não era agradável, não era mesmo nada agradável, nem justo também, encontrar-se sempre na defensiva. Todavia, o que se passara na noite anterior era bem mais sério, e, logo que o visse, pedir-lhe-ia, com veemência, que a desculpasse.

     Vestiu-se com rapidez e, depois, um tanto deprimida, dirigiu-se para o banheiro comunitário. Entrou cautelosamente e agradeceu ao Senhor por se encontrar ali apenas Mary Karpowicz, taciturna e monossilábica. Em seguida, caminhou com lentidão através do sol, quente e maravilhoso, de regresso à cabana. Fez a toalete na divisão da frente, e, depois de passar batom pelos lábios, verificou que alguém, Marc ou um criado nativo, deixara uma grande tigela cheia de frutas e a sua ração de comida enlatada e de bebidas. Comeu com vagar e, cerca das dez horas, saiu. Dirigiu-se para o conjunto da aldeia, a fim de apresentar as suas desculpas a Marc e de se juntar aos outros no gabinete de Maud.

     Com exceção das crianças que brincavam junto do regato, não se via ninguém por ali. Em dado momento, porém, apercebeu-se da existência de atividade humana, idas e vindas, na extremidade mais distante da aldeia, diante da Cabana de Auxílio Social e da escola. Depois, viu duas figuras defronte da cabana de Maud; Marc era uma delas, e encontrava-se conversando animadamente com Orville Pence.

     Ao aproximar-se, desejou a presença de Marc para si só durante uns momentos, pois tinha de lhe apresentar suas desculpas.

     - Marc...

     O marido volveu para ela os olhos e de súbito seu rosto ensombreceu-se. Tocou no braço de Orville e aproximou-se.

     - Marc - disse ela - estava pensando...

     A mão do marido fez com que se calasse, apontando-a de cima a baixo, indicando toda a sua pessoa.

     - Por Deus, Claire, onde diabo pensa que vai?

     Surpreendida, tocou a garganta com os nós dos dedos.

     - Que... que há?

     Ele manteve-se imóvel, as mãos nos quadris, examinando-a, sacudindo a cabeça com exagerado desprazer.

     - Esses malditos shorts de tênis... Olhe bem para eles... Devia saber que não é conveniente trazer shorts no campo.

     Achava-se tão espantada em face desta crítica do marido que se sentiu incapaz de responder.

     - Mas... mas Marc, não sabia...

     - Decerto que sabia. Ouvi Matty adverti-la... e a todas as mulheres, em Santa Bárbara. Ela cita constantemente o velho Kroeber: “Mostrem-se delicados no que se refere aos problemas do sexo. Não usem shorts, não tentem os nativos. “ Não deu ouvidos a ninguém, e com este procedimento desejou desafiar toda a gente. Parece decidida a quebrar todas as normas. Ontem, foi o sexo; hoje, são esses shorts indecentes. Que lhe resta ainda? Dormir com um nativo?

     - Oh, Marc... - volveu, ela, com lágrimas nos olhos. - Não sabia, juro. Pareceu-me uma coisa sensata, com este calor. Eles cobrem o que deve ser coberto. São cem vezes mais pudicos do que os saiotes das nativas.

     - Não é uma mulher primitiva, mas uma americana civilizada. Essa indumentária não só mostra impudor... os nativos esperam mais de você... como é deliberadamente provocante. Vá mudá-la depressa. Estão todos no gabinete, à espera.

     Ela voltara já as costas ao marido pois não quisera dar-lhe a satisfação de vê-la ferida. Sem mais palavras, dirigiu-se para a cabana. Desprezou-se a si própria por ter desejado o seu perdão e desprezou-o por transformar todos os dias num inferno. Ou piorava ele, como marido, ou piorava ela, como esposa. Tratava-se de um ou de outro... Não, existia uma terceira possibilidade, que parecia mais exata: a influência das Três Sereias, desde a manhã que entrara na vida de todos devido à carta de Easterday até este momento no conjunto da aldeia. Eis o problema. O feitiço das ilhas agira sobre ele e sobre ela, desnudara o aspecto mais mesquinho da personalidade de Marc, todas as suas fraquezas e defeitos. Agora, via-o implacavelmente, o seu ser essencial, sem a dissimulação das próprias culpas dela. Viu-se mais claramente a si, também, e a vida de ambos, em comum, como fora, era e seria.

     Só quando chegou à porta da cabana é que se permitiu desafiá-lo. Endireitou os ombros, os seios pareceram furar a blusa e sentiu-se contente pelo que acontecera na noite anterior. Agradou-lhe pensar que os homens a tinham olhado fixamente, durante longo tempo. Estava fatigada, fatigada de não se mostrar o bastante, quando era muito. Oh, se ao menos uma pessoa, uma pessoa apenas, compreendesse...

     Quando voltou ao gabinete de Maud, quinze minutos mais tarde, com um uniforme antropológico aceitável, blusa e saia de algodão pregueada, encontrou todos menos Maud presentes, preparados para a reunião. Marc estava ainda com Orville Pence, agora junto da mesa que servia de secretária; os outros achavam-se sentados nos bancos, conversando animadamente.

     Sem prestar atenção a Marc e a Orville, Claire atravessou a sala para se juntar ao grupo constituído pelos Karpowicz e por Harriet Bleaska. Falavam sobre a festa a que tinham assistido na noite anterior, oferecida por uma mulher nativa, Oviri, parente de Paoti, a qual tinha a seu cargo o programa do próximo festival. Absorvia-os a recriação da pantomima histórica que tinham presenciado; Em vista disto, Claire sentou-se ao lado de Rachel DeJong e de Lisa Hackfeld, no banco mais afastado.

     Lisa achava-se tão deprimida que mal respondeu à saudação de Claire. Rachel, porém, parecia em melhor disposição. Claire tentou apanhar o fio das agruras de Lisa.

     - ... sabe quanto isso me inquieta - dizia Lisa. - Empacotei pessoalmente essas preciosas garrafas, liguei-as umas às outras com fio de algodão, e...

     - Que garrafas? - inquiriu Claire. - De uísque?

     - Muito mais importante - volveu Rachel DeJong, fazendo uma careta risonha. para Claire. - A pobre Sra. Hackfeld trouxe um fornecimento de per oxido e tintura para alourar o cabelo; todavia, quando as procurou na caixa, esta manhã, encontrou as garrafas partidas.

     - Tudo, foi-se tudo - lamentou Lisa. - E ninguém tem nada do gênero para me emprestar. Sinto vontade de chorar. Não sei, Claire... Posso tratá-la por Claire? Talvez você disponha de alguma coisa...

     - Bem -o desejaria, Lisa - volveu Claire. - Porém, não tenho uma gota de nada.

     Lisa Hackfeld torceu as mãos.

     - Desde que... me conheço, usei sempre esta tintura para colorir o cabelo... semanalmente. Agora, que me irá acontecer? Dentro de duas semanas o cabelo voltará à sua cor natural. Nunca me vi assim... Suponha que eu tenha cabelos grisalhos?

     - Sra. Hackfeld, há piores sinais - disse Rachel para a animar. - Muitas mulheres acham elegante pintar o cabelo nesse tom.

     - Podem fazê-lo quando não é naturalmente grisalho. Mas quando sucede o contrário... - Recobrou a respiração. - Já não sou uma ingênua, uma menina. Tenho quarenta anos.

     - Oh, não é possível! - exclamou Claire. Lisa fitou-a com gratidão, surpreendida.

     - Não?! - volveu passado um momento. Recordando-se, porém, do que a preocupava, tornou: - Acreditará dentro de uma ou duas semanas.

     - Sra. Hackfeld - interveio Rachel -, dentro de uma ou duas semanas encontrar-se-á demasiado preocupada para pensar nisso. Estará... - Deteve-se abruptamente e ergueu a mão para apontar. - Aí vem a Dr.a Hayden. Deve trazer-nos muitas novidades. Estou certa de que vamos iniciar nosso trabalho.

       

     Achavam-se todos sentados, nos bancos ou sobre as esteiras no chão, exceto Maud Hayden, que estava junto da mesa esperando que as conversas entre eles terminassem. Apesar do seu aspecto caricato - trazia um chapéu de palha de abas largas, de dentro do qual se escapavam madeixas de cabelo grisalho, não pusera máke-up no rosto túmido queimado pelo sol, tinha vários colares de pedras coloridas em redor do pescoço, envergava um vestido sem mangas no qual os braços carnudos avultavam; calçava meias de escoteiro que lhe chegavam até pouco abaixo dos joelhos e sapatos quadrados que pareciam marcianos -, tinha um ar mais profissional e ao mesmo tempo mais despreocupado do que os outros.

     Quando os colegas se calaram, Maud começou a falar-lhes num tom que oscilava entre a precisão científica e o coloquialismo maternal.

     - Imagino que muitos de vocês se têm perguntado o que irá acontecer - disse ela. - Pedi que se reunissem aqui comigo para esclarecer. Passei a manhã, desde o nascer do sol, com o chefe Paoti Wright e a esposa, Hutia Wright, ambos seres humanos encantadores e fraternais. Embora Hutia sinta algum receio em face da nossa presença na ilha, e conseqüentemente ponha algumas reservas sobre o que nos deve ser permitido ver e fazer, o chefe Paoti mostrou-se bastante liberal. Uma vez que nos encontramos aqui, decidiu que veremos e faremos o que quisermos. Confia muito, e foi bem claro a esse respeito, na palavra do Sr. Courtney, que lhe afirmou que respeitaremos os costumes, a maneira de viver, a dignidade, os tabus do povo das Sereias e que comunicaremos o que observarmos honesta e cientificamente, embora mantendo o devido segredo sobre a localização das ilhas. Bem, por assim dizer nada nos é oferecido numa bandeja de prata. Seremos esclarecidos pelos nativos, sempre que o desejarmos. Oferecer-nos-ão todas as informações que requerermos. Depois, como é evidente, teremos de contar apenas conosco. Serão feitos todos os esforços para que nos integremos na aldeia e na sua vida quotidiana. Insisti nisto. Não desejo que nos tratem com deferências especiais ou que nos façam concessões demasiadas. Não me agrada que nos considerem visitantes de um zôo, como não me agradará que os olhem de igual maneira. Concordou-se que nos deviam considerar, dentro da medida do possível, digamos, habitantes do outro lado da ilha. Para lhes ser franca, sei que jamais poderemos ter as condições ideais; porém, Paoti prometeu-me fazer o que pudesse, para nos ajudar, e em seu nome prometi que a nossa atitude seria semelhante. Em resumo, não nos encontramos aqui como simples observadores do exterior, mas como observadores participantes, tentando, se pudermos, comer, trabalhar, pescar, divertir-nos com eles, e tomar parte tanto nos seus ritos como nos seus jogos, nos números de festival, etc. Esta é, segundo se me afigura, a única maneira de apreendermos seus padrões culturais. O grau era que obtivermos êxito determinará, em referência a cada um de nós, a contribuição que daremos à antropologia, e às nossas respectivas especialidades, com o estudo das Três Sereias.

     Poucos de vocês têm participado em atividades destas. Os Karpowicz, Sam, Estelle, Mary já estiveram várias vezes no campo. Marc fez uma viagem de estudo há três anos, e Orville... penso que a partir deste momento devemos tratar-nos pelo nome próprio... Orville fez Úm certo número destas viagens de campo. Porém, o mesmo não acontece com Claire, Rachel, Harriet e a Sra... e Lisa. Assim, embora me refira a coisas que os mais experientes conhecem já muito bem, desejo que tenham paciência, pois por ora dirijo-me principalmente àqueles para quem isto não é familiar. Em certos 'aspectos, certamente, haverá também valiosas informações para os veteranos. Assim, repito, escutem-me com paciência; quando terminar, creio que compreenderão melhor o seu papel aqui, aquilo que se espera de vocês, o que podem e o que não podem fazer, e tudo o que nos aguarda.

     A antropologia social e o estudo de campo talvez sejam mais antigos do que pensam. Entre os primeiros que deixaram o lar, neste caso Oneida, Nova York, a fim de irem observar cientificamente outra sociedade, achava-se um jovem estudioso chamado Henry Schoolcraft. Ele viveu entre os índios chippewas, e registrou meticulosamente grande número de costumes fascinantes, como por exemplo o seguinte: quando uma mulher chippewa tocava num objeto este era, automaticamente, tido como maculado, sendo evitado pelos indivíduos do sexo masculino da tribo.

     “Porém muitos consideram Edward Tyler, um quaker inglês, o homem que fez da antropologia social uma ciência. Na sua longa vida, ele efetuou muitas viagens de campo, uma das mais notáveis ao México. Deixou-nos duas importantes doutrinas: a da recorrência, que diz que se podem encontrar costumes similares ou semelhanças no folclore de regiões diferentes, como o Canadá, o Peru, o Egito e a Samoa, por exemplo, fornecendo-nos isto uma grande ajuda para a reconstituição da pré-história, e a doutrina da sobrevivência que diz que certos comportamentos aparentemente sem significado que sobreviveram ao passado tiveram provavelmente um objetivo real numa dada época. Estes pioneiros estabeleceram os alicerces dos futuros trabalhos de campo.

     Deduzo, dos rostos de alguns, que receiam que a velha Maud se prepare para uma longa dissertação. Não é necessário preocuparem-se. Não é esta a hora nem é este o lugar para ensinar antropologia. Tento apenas fazer com que compreendam o impulso histórico que está na origem da sua grande viagem pelo oceano até esta ilha exótica. Uma ou duas referências mais à história e ocupar-me-ei de coisas práticas. O primeiro grupo, um grupo como o nosso, que fez um estudo científico sobre uma cultura estranha foi dirigido por Alfred C. Haddon, por volta de 1898. Anos antes, Haddon visitara a vulcânica ilha de Murray, ao largo da Nova Guiné, e vivera entre os papuas. Da segunda vez acompanhou-o um grupo de peritos: dois psicólogos, um fotógrafo, um musicólogo, um lingüista, um médico; ele era o único antropólogo. Os psicólogos aplicaram testes aos nativos... desenho e percepção sensorial, e foram os primeiros a utilizar as técnicas que Rachel e Orville utilizarão aqui. Haddon e os outros, uma vez que a ilha fora um tanto corrompida pelos missionários e pelos magistrados brancos procuraram fazer com que os nativos revivessem os ritos e as cerimônias do passado, quando os homens andavam nus e as mulheres traziam apenas diminutos saiotes confeccionados com folhas. Os componentes do grupo trabalharam durante oito meses no campo, e ao voltarem a Cambridge com suas descobertas tinham provado o valor representado pelo uso de um grupo de peritos e aberto uma nova via aos futuros antropólogos.

     Podia continuar falando-lhes durante horas sobre os grandes antropólogos indiretamente responsáveis pela nossa presença aqui, esta manhã. Desejaria dispor de tempo para lhes falar sobre um genial alemão chamado Franz Boas, que me ensinou... como a Ruth Benedict, Margaret Mead, e a Alfred Kroeber também... inúmeras coisas sobre a coleta, a infatigável coleta de elementos. Boas chegou a interessar-se pelo tom grisalho do cabelo humano, e após visitar as barbearias de Nova York juntou e classificou um milhão de madeixas. Suspeito de que não gostava de viver no campo, mas estava decidido a verificar todas as teorias através de inquéritos em primeira mão. Fez inúmeras viagens a regiões remotas, isto desde o tempo da sua viagem inicial ao Ártico, para viver entre os esquimós, tinha então vinte e cinco anos, até à sua última estada entre os índios, contava setenta. Por muitos conhecimentos que adquiram através da leitura das obras de Boas e dos outros gigantes da antropologia: Durkheim, Crawley, Malinowski, Lowie, Benedict, Linton, Mead, e do meu querido marido, Adley Hayden... jamais esqueçam que somos os seus herdeiros e que, por intermédio do que aprendemos com eles, podemos estudar a sociedade das Sereias. Primeiro que tudo, porém, devemos procurar ser cientificamente exatos.

     “Decerto, talvez se interroguem sobre a validade científica das nossas descobertas. A antropologia, admito-o, vê-se por vezes envolvida na interminável controvérsia entre as ciências e as humanidades. Os cientistas gostam de criticar-nos, afirmando que somos muito descuidados nos nossos métodos de campo. Os humanistas, por outro lado, preferem declarar que usurpamos o terreno do poeta, reduzindo a complexidade infinita da vida humana a categorias descritivas irrelevantes. Sempre sustentei que devíamos recordar a ambos os setores que nós, e só nós, constituímos a ponte que pode juntar as ciências e as humanidades. É verdade que nossos informantes nativos só raramente merecem confiança. É verdade que, embora possamos medir a largura de uma cabana ou de uma caveira) não podemos medir os sentimentos mais profundos de um nativo no que se refere ao amor e ao ódio. É verdade que embora tentemos comunicar as nossas descobertas, interessando vivamente os nossos auditórios, saímo-nos muito mal como trovadores, pois limitamo-nos a transmitir fatos. Estas são as nossas limitações; contudo, a despeito delas, devemos continuar a efetuar cientificamente, as nossas pesquisas e a revelar humanisticamente ao mundo o que descobrimos.

     Agora, eis-nos aqui. Perguntar-se-ão, com certeza, o que nos espera. Vou dizer-lhes. Os investigadores que mencionei ensinaram-nos, e falo também por experiência própria, que é má política mostrarmo-nos agressivos ou superiores num estudo de campo. Geralmente, é pouco satisfatório mandar comparecer diante de nós os nativos, mantê-los sentados durante três ou quatro horas e tentar “secá-los”. É igualmente indesejável estabelecermos relações apenas com certa facção , de uma comunidade. Se o fizermos, poderemos aliar-nos à facção errada e separar-nos da maioria, despertando sua hostilidade. O mais prudente será procurarmos conhecer a estrutura social da comunidade e selecionar com cuidado os informantes mais capazes. Contudo, não devemos exercer grandes pressões. Devemos, pelo contrário, estabelecer-nos no meio de uma sociedade e aguardar, com paciência, confiar na curiosidade natural dos nativos e no nosso próprio instinto, que nos dirão quando e como proceder. O problema mais delicado é encontrar o informante mais experiente, a pessoa que liga o passado ao presente, que é articulado e honesto, que sabe falar sem inibições sobre seu próprio mundo e deseja conhecer o que se passa no mundo exterior.

     Na questão da ligação podemos dar-nos por extremamente felizes. Tivemos muita sorte. Tecnicamente, fomos convidados a vir aqui. Na noite passada, fomos integrados nesta sociedade. Para começar, não temos apenas um informante precioso, mas dois. O chefe Paoti Wright, que é de inestimável utilidade para nós, e Thomas Courtney, que vive aqui há muito tempo e conhece tanto os costumes dos nativos como os nossos. Trabalharei com Paoti. Espero estabelecer com ele uma excelente relação interpessoal. Quanto a Courtney, este concordou em pôr-se à disposição de vocês todos, para os elucidar sempre que for necessário.

     Podem dispor do seu tempo como quiserem. Quando se lhes deparar um problema de difícil resolução, sugiro que me procurem ou que discutam com Courtney. Dentro de meia hora, Courtney comparecerá aqui para os levar à aldeia, aos pontos que quiserem ver, às atividades que desejarem observar ou em que desejarem participar, para lhes apresentar prováveis informantes. Uma vez introduzidos assim na vida da aldeia, disporão da independência necessária para procederem às investigações.

     Bem, como desejo falar do papel de cada um, começarei por Harriet. As enfermeiras, apesar de não fazerem habitualmente parte de grupos de campo, têm acompanhado alguns. É desnecessário dizer que se mostraram sempre úteis. Por exemplo, quando Robert Redfield foi a Yucatan estudar a aldeia maia de Chan Kom, levou com ele uma enfermeira. Os maias mostraram-se pouco amistosos, mas a enfermeira fez depois muitos amigos devido ao fato de ter curado bastantes doentes e de ter introduzido preceitos de higiene moderna. Assim, a tribo, impressionada, começou a colaborar. Verificarão que as Sereias dispõem de uma clínica ampla mas rudimentar; melhor, de um dispensário, o qual se encontra sob a supervisão de um jovem chamado Vaiuri. Courtney apresentará Harriet hoje a ele. O chefe concordou em que prestasse esclarecimentos a Vaiuri. Embora uma das funções de Harriet aqui seja cuidar de nós, a função mais importante será aprender o que puder sobre as doenças e remédios dos nativos e tirar o maior número possível de notas sobre as suas descobertas. Se Vaiuri concordar, você pode introduzir novos métodos de tratamento e de higiene, desde que não interfira com seus costumes ou com seus tabus.

     Quanto a você, Rachel, levei um tempo dos diabos para explicar a psicanálise a Paoti e a Hutia. Não fez sentido para eles. Consideram-na infantil. Porém, convenci-os de que se tratava de uma espécie de prática mágica especial que faz maravilhas em pessoas perturbadas. Embora pareça não haver por aqui psicopatas, existe, contudo, uma pequena minoria de pessoas infelizes ou desajustadas. Hutia dirige um conselho, constituído por cinco anciãos de ambos os sexos, denominado Hierarquia Matrimonial. Todas as queixas das pessoas casadas, e os seus pedidos de divórcio, são-lhe submetidos. Assim, tem em seu poder as histórias destes casos, que são examinados todos os meses. Permitem que escolha três pacientes dentre meia dúzia ou mais de casos correntes e procure resolver seus problemas. Encontrar-se-á hoje com Hutia, a fim de a interrogar acerca destes casos; então, fará sua escolha e começará a agir. Courtney arranjou uma cabana para servir de consultório, a qual poderá utilizar a partir desta tarde.

     Agora quanto a você, Lisa, fiz saber que desejava estudar as danças primitivas. Devo dizer que Paoti ficou encantado com a idéia. Não podia ter vindo em melhor hora. Começaram já a ensinar o programa para o festival anual. Como a dança domina todos os divertimentos, terá oportunidade de ver, e mesmo de participar, no melhor que têm para oferecer. É Oviri quem está encarregada do programa e poderá avistar-se com ela dentro de momentos.

     Orville, a sua situação é um pouco diferente, uma vez que o estudo do comportamento sexual comparado abrange todas as áreas. Imagino que seu trabalho se assemelhará ao que Cora Dubois efetuou na ilha de Alor em 1937... a aplicação das técnicas psicodinâmicas aos aldeões. Sei que Dubois empregou os testes Rorschach com muito êxito, e suponho que o mesmo sucederá com você. Discutimos a sua possível agenda e decidiu-se que no primeiro dia apreciaria os costumes sexuais da comunidade... penso que verá hoje a Cabana de Auxílio Social... e seria apresentado a diversos nativos de ambos os sexos. Depois, poderá tentar estabelecer contatos e selecionar os informantes mais convenientes, que interrogará ou a quem fará testes, como achar mais apropriado.

     Agora, a família Karpowicz. Bem, seria supérfluo dizer alguma coisa a um homem com a experiência de Sam Karpowicz. Courtney afirmou-me que Sam teria a sua câmara escura, atrás da cabana, depois de amanhã. Pode fazer seus filmes, tirar seus instantâneos, na aldeia e em redor dela, como desejar, sem restrições. Quando se quiser embrenhar no interior... recorde o incidente na praia... deve fazer-se acompanhar por Courtney, por Moreturi ou por alguém que eles designem. Quanto a seu trabalho como botânico, pode andar por onde quiser.

     Não arranjei nada de especial para você, Estelle. Presumo que ajudará Sam no seu trabalho, como é habitual. Se quiser participar em qualquer outra coisa, poderá escolher a vida de trabalho de uma mulher das Sereias, as limpezas, a cozinha, a tecelagem. Os dados que obtiver ser-me-ão muito úteis. Penso que poderemos discutir isto em particular, a fim de vermos até onde quer ir. Segui a sugestão de Estelle e de Sam acerca da sua filha, e temos a luz verde... Não me olhe com tanta apreensão, Mary. É um projeto fascinante; constituirá um bom tema de conversa quando voltar a Albuquerque. Têm uma escola, bastante primitiva é certo, uma cabana ou uma série de cabanas, na extremidade da aldeia; esta é freqüentada por um grupo, entre outros, de estudantes dos quatorze aos dezesseis anos. Pode freqüentar esta classe, se quiser. Não há lápis, livros, quadros-negros, trabalhos de casa... O ensino é oral e baseia-se nas demonstrações de um inteligente professor chamado Manao. Creio que sentirá prazer em conhecer os jovens das Sereias, da sua idade, e privar com eles durante seis semanas, aprendendo o que eles aprendem. O professor espera hoje a sua visita, e, decerto, gostaria que me apresentasse um relatório completo sobre suas experiências. Prometo mencionar sua contribuição no meu livro... e oferecer-lhe um lindo presente no Natal.

     Resta a minha família. Marc, espero que se dedique largamente a um informante, como eu própria tenciono fazer. O chefe Paoti recebê-lo-á esta manhã e pode fornecer-lhe algumas sugestões. Sugiro começar com um membro de sua família ou com qualquer outra pessoa da aldeia. Quanto a você, Claire, espero que me ajude... de fato conto com você... e que atue como uma espécie de agente de ligação entre mim, o chefe Paoti e Courtney.

     Como disse, a sua participação não será sujeita a restrições, dentro, claro, dos limites impostos por certos tabus. Segundo apurei na minha conversa com o chefe Paoti, a Cabana de Auxílio Social e a Cabana Sagrada são tabus e só podem ser visitadas com expressa autorização do próprio Paoti. A visita aos dois atóis... supõe-se que os antigos deuses, ainda venerados pelos mais conservadores, habitam ali... é tabu, a não ser que se esteja acompanhado por um aldeão. Em algumas das cabanas encontrarão ídolos de basalto cinzento-escuro ou negro, e tocá-los é tabu. O sistema de parentesco, as crianças pertencem a uma ampla família composta de pais, tios, tias, etc, prevalece, e o incesto é considerado absolutamente tabu. O mesmo sucede quanto à violência física. Pode ser-se provocado até ao limite do que é humanamente suportável, mas nunca se agride outrem ou se lhe causa mal físico. Em vez disto, participam-se as ofensas de que se foi alvo ao chefe. O assassínio, mesmo como retribuição ou castigo por crimes graves, é considerado bárbaro. Uma pessoa doente... supõem-na possuída por altos espíritos, que a julgam... é tabu para mãos mortais, exceto para as daqueles que tenham mana ou elevados privilégios oficiais. Todo o oceano que cerca esta ilha é considerado tabu para estrangeiros. Portanto, a entrada, como a saída, na ilha principal não é permitida, exceto com o consentimento do chefe. Paoti provavelmente omitiu alguns tabus de menor importância. Quando os conhecer, informar-lhes-ei.

     Uma vez que falo disto, devo acrescentar que a antropologia tem alguns tabus próprios, isto é, restrições, sobre certas práticas. Não existem normas rígidas, duras, mas disposições forjadas pela experiência. Primeiro, nunca mintam aos nativos, acerca de vocês mesmos ou dos seus costumes. Se eles descobrirem que mentiram, serão rejeitados. Quando compreenderem que fizeram uma declaração inexata, admitam o seu erro imediatamente e procurem esclarecer o assunto. Não se encolerizem se eles os fizerem objeto de gracejos ou se rirem de vocês, pois pode acontecer que os estejam experimentando. Mantenham-se reservados em tais situações e ganharão sua confiança e sua estima. Se ficarem chocados por alguma das suas superstições, não façam chacota nem pretendam abalar suas crenças. Permitam que a superstição se mantenha e passem por cima dessa fase do seu trabalho. Recordo-me de que, num estudo de campo entre os andamaneses, Adley tentou tirar fotografias dos nativos; estes, porém, ficaram horrorizados, pois acreditavam que a máquina fotográfica lhes roubava a alma. Bem, Adley teve de pôr a máquina de lado. Ao lidarem com o povo das Sereias evitem atitudes excêntricas, não se mostrem altivos ou pomposos. A condescendência não os conduzirá a parte alguma. Afinal, como poderão ter certeza de que seus costumes são superiores aos deles?

     “Como regra normativa, aconselho a sobriedade. Não conheço seus hábitos pessoais, mas se gostam de narcóticos ou de beber sugiro que o evitem tanto quanto possível nas próximas semanas. Decerto, espera-se que bebam, se puderem, com eles quando eles bebem. Mas mesmo então não se devem embriagar. A perda do equilíbrio pode fazê-los parecer ridículos ou ofensivos.

     Uma vez que temos sete mulheres, eu incluída, no nosso grupo de dez, creio que uma breve digressão sobre o papel da mulher no campo pode ser pertinente. Devem vestir-se com sobriedade. Se o calor apertar, não necessitam de usar roupa de baixo... anáguas, soutiens... uma vez que os homens das Sereias não sentem ávida curiosidade por suas partes íntimas. Como já viram, cobrem uma ínfima parte do corpo e são naturais no que se refere à sua aparência. A maior parte das comunidades desta espécie não gosta de mulheres belicosas, dominadoras, frias. Eu própria farei por não esquecer isto.

     Agora, chegamos a um ponto delicado, que com freqüência preocupa as mulheres do campo. Refiro-me à coabitação com os nativos. Estabelecemo-nos numa sociedade onde a atividade sexual é casual e fluida. Existe uma escola antropológica minoritária que não se opõe ao estabelecimento de ligações românticas. Certamente, a coabitação com um nativo pode ser fácil, simples, sem dar margem a objeções. A população nativa pode não olhar com desagrado quem decida aceitá-la, e até, é fato, sentir-se bastante desvanecida. Apesar de existir a possibilidade de uma tal ligação lhes trazer experiência ou mesmo prazer, devo apontar os senões. Se a ligação é secreta, então o simples fato da sua existência inibirá os escritos científicos. Ver-nos-emos ante a impossibilidade de contar a verdade. Se a ligação fizer que se estabeleça competição com as mulheres nativas, poderá verificar-se uma separação do resto da comunidade. Há ainda outro problema. Quero ilustrá-lo com um exemplo. Há anos, quando Adley e eu estivemos na África, acompanhavam-nos três estudantes já graduados, entre os quais, uma jovem. Esta sentiu-se profundamente atraída por um jovem nativo e coabitou com ele. Fê-lo abertamente. Os outros nativos ficaram encantados. Ela comportava-se como as outras mulheres da tribo, e uma vez que era branca, com poderes e prestígio, consideraram a ligação como a prova por excelência da perfeição das práticas democráticas. Aqui o problema não era que ela perturbasse os nativos, pois procedia de acordo com os costumes deles. Perturbava, sim, os componentes do sexo masculino do nosso grupo, devido a seu comportamento. Em geral, mostraram-se ressentidos, daí resultando inúmeras dificuldades no nosso trabalho.

     Assim, permitam-me que diga uma última palavra acerca da coabitação... e dirijo-me a todos com exceção de Mary. Conheço os prós e os contras. Não lhes posso dar mais conselhos sobre este assunto. Como sabem, uma conduta deste teor não se me afigura escandalosa... deixamos isto para os leigos, pois, para mim, classificá-la como tal implicaria um juízo do valor, que não posso nem quero emitir. Consultem o seu coração, a sua consciência, e procedam como acharem justo.

     Enquanto falo sobre o nosso comportamento, quero esclarecer que existe uma área em que desejo que meu juízo moral prevaleça. Desejo que cada um de vocês declare perante si mesmo e perante mim que não procurará alterar qualquer aspecto desta sociedade, impelido por objetivos egoístas. Nos primeiros dias da antropologia, certos indivíduos, o etnólogo alemão Otto Finsch, que esteve nos Mares do Sul entre 1879 e 1884, foi um destes, lançaram a discórdia entre tribos com o seu dom-juanismo ofensivo e indesejável. Indivíduos semelhantes, no passado, embriagaram nativos com uísque para os induzir a reviver antigas práticas orgíacas e eróticas. Não permitirei que nativos que se mostram tão gentis para conosco sejam, seduzidos pelo álcool, levados a práticas sexuais ofensivas a fim de satisfazerem as nossas necessidades no campo da investigação. Há alguns anos, a Universidade de Harvard enviou um grupo à Nova Guiné holandesa com a incumbência de estudar a atividade primitiva. Declararam depois os missionários que este grupo, desejoso de filmar todas as fases da vida nativa, fomentou uma guerra local em que, nos interesses da investigação, se perderam algumas vidas. Não faço a mínima idéia se isto aconteceu realmente, mas ao fato foi dada ampla publicidade. Importa, no entanto, que não se façam acusações semelhantes a um grupo dirigido pela Dr.a Maud Hayden.

     De fato, nem sequer permitirei provocações de menor importância. Sei que um investigador tão respeitável como Edward Westermarck, que eu e Adley conhecemos, antes da sua morte, em 1939, empregou truques elementares de mágica em Marrocos para amedrontar os árabes e induzi-los a fornecer informações sobre sua moralidade. Não admitirei truques de qualquer natureza. Estes, por mais infantis que sejam, tornam-se explosivos em mãos irresponsáveis.

     Acima de tudo, não quero gente do tipo de Leo Frobenius neste grupo. Ele efetuou brilhantes trabalhos de antropologia na África, mas seus métodos e preconceitos deixaram muito a desejar. Dirigiu-se inamistosamente a sacerdotes em Ibadan, explorou os pobres ao adquirir seus bens religiosos, conseguiu penetrar nos meandros de uma sociedade secreta, que depois denunciou, tratou os nativos africanos como indivíduos inferiores, em especial os parcialmente civilizados, a quem chamou “pretos de calças”. Não tolerarei isto aqui. Não permitirei a exploração, emocional ou material, desta bela gente, nem manifestações de superioridade em relação a eles.

     Se não puderem respeitar este povo, a sua presença aqui não terá justificação. Como disse Evans-Pritchard, devem fazer uma transferência intelectual e emocional em relação aos nativos que estudam, tentar pensar e sentir como eles até que a sua sociedade esteja dentro de vocês e não nos seus livros de notas. Recordo-me de algumas linhas de Evans-Pritchard, memorizadas há muito tempo: “Um antropólogo falha se, no momento das despedidas, não verificar da sua parte e da dos nativos desgosto em face da partida. É evidente que isto só pode suceder se ele se torna, em certo grau, um membro da sociedade em questão...”

     Quanto à participação, Malinowski afirmou que o simples interrogatório era inútil quando se tratava de certas informações. Deve-se investigar... usou uma frase maravilhosa: “a imponderabilidade da vida autêntica”. Portanto, é necessário que cada um de vocês participe realmente da vida quotidiana das Sereias, conheça os verdadeiros sentimentos dos nativos, no seu enquadramento social, saiba que cuidados dispensam eles ao corpo, o que receia a sua mente, conheça suas vaidades e suas aversões, o que se passa entre os cônjuges, os filhos, dentro de si mesmos. Para conseguirmos esta transferência, devemos fazer por não nos alhearmos ou formarmos grupos isolados. O perigo em vir aqui com um largo grupo deve-se ao fato de, após o nosso trabalho diário, termos tendência para procurar, exclusivamente, a companhia de um ou de outro dos componentes do grupo em vez de dedicarmos o tempo à comunidade.

     Alguém, suponho que Rachel, perguntou de que maneira íamos recompensar o povo das Sereias pelo seu tempo e incômodo. Devemos-lhe alguma coisa. Se a sua ajuda for posta numa base financeira destruiremos grande parte das relações interpessoais recíprocas. Os presentes, oferecidos em excesso, podem ser tão prejudiciais como o dinheiro. A meu ver, um presente ocasional e pouco dispendioso, uma engenhoca, algumas latas de provisões, brinquedos para as crianças, oferecidos espontaneamente, são o bastante. Porém, penso que ajudá-los, dentro das nossas possibilidades, poderá ser mais aceitável. Por exemplo, se Marc ou Sam os ajudassem a construir uma cabana, ou a juntar os víveres, ou se Harriet tratasse dos doentes, ou Rachel desse conselhos apropriados, ou Mary ensinasse jogos... Tudo isto constituiria uma forma de recompensa. Sugiro também que procedamos de igual modo quando tiverem para conosco qualquer gesto de hospitalidade. A noite passada, a minha família e eu fomos convidados do chefe Paoti. Em breve, procuraremos tê-lo a ele e à sua família conosco, e oferecer-lhe da nossa comida americana.

     Para terminar, mais algumas sugestões. Orville perguntou-me como nos havemos de sair de uma situação em que nos seja oferecida alguma coisa que não podemos aceitar. Por vezes, surgem situações destas no campo. Durante a sua permanência entre os árabes, foram oferecidas a Westermarck várias esposas. Não quis rejeitá-las sem explicações e, inteligentemente, disse que tinha já meia dúzia de esposas na pátria e que não podia sustentar mais... Apenas para se mostrar hospitaleira, uma família pode tentar oferecer-lhes uma criança para adotar ou uma jovem para tomar como amante ou esposa. A melhor maneira de resolver a situação é dizer a essa família que na sua sociedade adotar uma criança ou tomar uma jovem como amante ou como segunda mulher é absolutamente tabu. Inventem os seus tabus como acharem conveniente. Se forem sinceros, isso em si mesmo não constituirá uma mentira. Compreendê-lo-ão e vocês não ofenderão ninguém.

     Uma palavra final e terminarei, prometo-lhes. Quase todos nós somos cientistas sociais, e perguntamo-nos por que motivos nos encontramos aqui, dominados por certo nervosismo nesta atmosfera desconhecida, suportando incômodos físicos, fazendo face ao esgotamento devido à coleta e registro de elementos até altas horas da madrugada. Podem dedicar-se às ciências, e encontrar-se aqui no campo apenas por motivos materiais. É uma maneira de ganhar a vida. As experiências que colherem aqui farão vocês progredirem na sua especialidade, quer econômica quer profissionalmente. Porém, um progresso deste gênero constitui o menos importante dos motivos. Existem outros, científicos, humanitários e filosóficos, a conduzi-los. Desejam adquirir conhecimento e transmiti-lo, pois a amplitude de comportamento humano constitui a sua disciplina, e desejam também ampliar a sua visão do mundo, numa nova cultura. Além disto, existe também em nós uma espécie de romantismo de raízes muito fundas. Somos românticos com uma consciência inquieta, e não estudiosos de gabinete. Tampouco, somos o que Malinowski denominou de “antropologistas de ouvir dizer”. Preferimos os encantos e -os estímulos de outros ambientes. Afastamo-nos da rotina a fim de explorar mundos novos empolgantes, de participar da vida de povos exóticos.

     Acima de tudo, e pouco importa que caminhos diferentes nos conduziram aqui, encontramo-nos nas Sereias por motivos semelhantes aos que levaram Bronislaw Malinowski, sem qualquer companhia, à Boyawa, uma ilha das Trobiands, perto da Nova Guiné, onde chegou numa manhã de agosto de 1914. Os motivos dele, suspeito, não eram diferentes dos seus ou dos meus. “Talvez”, disse ele, “através da compreensão da natureza humana, numa forma bem estranha para nós, consigamos derramar alguma luz sobre a nossa.”

     “A isto, digo: Amém. A vocês: comecemos.”

    

     Marc Hayden achava-se possuído por certo nervosismo, no meio da câmara de recepção da cabana do chefe Paoti, onde Courtney o deixara quando entrara noutra sala. Marc parecia duvidar que esta fosse a mesma da noite anterior. O chão era composto por lajes lisas devido a terem sido expostas à ação do mar, e aqui e ali, representando cadeiras, supôs Marc, encontravam-se espessas esteiras de folhas de palmeira, que serviam de assentos. Exceção feita ao ídolo de pedra cinzenta, a sala estava nua.

     Marc aproximou-se do ídolo para examiná-lo. A cabeça e o corpo eram distorções de uma figura masculina, provavelmente um deus, e tinha-se a impressão de que constituía uma criação de Modigliani e de Picasso, ambos em estado de embriaguez. Afastando-se um pouco do grotesco ídolo de cabeça alongada, Marc apercebeu-se do motivo por que este causava repugnância. A imagem, apesar das suas feições sobrenaturais, era de um falo com um metro e trinta centímetros de altura.

     Cheio de repulsa por esta figura que fazia acudir à mente a obsessão da aldeia, Marc voltou-lhe as costas. Impaciente, começou a andar em redor da sala, com o maior desprezo pelo ídolo. Encontrava-se ainda deprimido. Desde a chegada da carta de Easterday, parecia que as coisas tinham ido de mal a pior. Estava farto das pesadas grilhetas que o prendiam à antropologia - detestara sempre a sua insípida escravidão - e invejava pessoas como Rex Garrity, uma alma livre, pletórica de vida, que corria mundo, sem amarras. Um aventureiro como Garrity, compreendia Marc, não tinha grilhetas. Não pertencia a um rebanho. Possuía identidade.. Além disso, vivia num mundo onde uma pessoa se podia tornar conhecida e rica de um dia para o outro. O próprio Garrity, na noite do jantar oferecido por Maud a Hackfeld, sugerira que formassem uma sociedade e por um momento permitira que Marc divagasse com ele, o acompanhasse numa digressão para lá do mundo acadêmico da antropologia,. um mundo onde Marc nunca podia ser tanto como a mãe ou como o pai e onde seria sempre menos do que ele mesmo.

     Uma vez mais, sentiu certo rancor por Matty por esta ter posto Garrity à margem. EÍa liquidara seus desejos de liberdade, que as promessas do escritor poderiam consumar, mantendo-o ligado a ela como um pseudo-Adley. Os ressentimentos multiplicaram-se: Matty mantinha-o como seu servo, Matty continuava seu casamento espiritual com o homem medíocre e pretensioso a quem ele tivera de chamar pai, Matty persistia em conduzi-lo, lecioná-lo. A mãe dirigira-se a ele, e não aos outros, há meia hora no seu estúpido gabinete. A quem era destinada toda aquela conversa pomposa - sobre Leo Frobenius e a sua superioridade em relação aos nativos - senão a ele? Ao recordá-la, Marc amaldiçoou a enfadonha objetividade e o liberalismo de Matty - o estratagema que utilizava para pôr todos na defensiva e tornar-se, ela só, a pessoa pura, a pura cientista. Que fosse para o diabo!

     E já que era assim, Marc mandou também a mulher para o diabo. Claire estava-se transformando numa autêntica decepção. Anteriormente, começara a tornar-se muito exigente - o que se refletia nos seus olhos, aqueles malditos olhos de vaca, nos seus silêncios, aqueles infernais silêncios condenatórios. Além do mais, mostrava-se presunçosa, muito pegajosa, muito feminina. Como Matty, como tantas outras mulheres, era uma provedora automática de culpas, de modo que uma pessoa perdia o equilíbrio, a razão, diante delas, nada representava, achava-se sempre insegura, angustiada. Acima de tudo, Marc sentia-se ressentido devido ao recente comportamento de Claire. Ela denunciara um aspecto da sua personalidade do qual já suspeitava há bastante tempo mas que não vira manifestado abertamente. Sua preocupação com as conversas sobre o sexo, em casa, tinha-o perturbado bastante, mas a inesquecível exibição da noite anterior mostrara que ela era uma autêntica cadela. Oferecera as tetas aos olhos daquele jovem macaco, Moreturi, e do fátuo vagabundo Courtney de maneira nauseante. Fizera-a agir a hostilidade que nutria pelo marido. E era esta a cadela que desejava ser mãe. Graças a Deus, disse de si para si, não permitira que o induzisse a mais aquela prisão áo seu ser.

     Marc relembrou o incidente da manhã e sentiu-se mais furioso. Primeiro, as tetas nuas, depois os shorts e o rabo nu. Que viria a seguir? Talvez pusesse um daqueles saiotes das nativas para que todos os homens vissem o que restava para ver. Cadela, louca, maldita cadela. E agora tinha Matty do seu lado, e, como as outras cadelas, licença para fornicar. Imitou a voz da mãe, na mente: “Claro, a coabitação com um nativo pode ser fácil, simples, sem dar margem a objeções. “ Meu Deus, que indecência!

     Marc compreendeu que já não estava só. Courtney voltara. Rápido, dissimulou sua cólera e exibiu seu sorriso profissional.

     - Ele recebê-lo-á agora - disse Courtney. - Não são necessárias cerimônias com Paoti. Conversa franca, fatos. Disse-lhe que precisava de um informante. Ele resolverá o problema com você.

     - Obrigado. Fico muito grato pelo que... Courtney, à porta, interrompeu-o para afirmar:

     - Oh, de nada, de nada, Tenho de voltar à cabana da sua mãe a fim de dar uma ajuda aos outros.

     Courtney saiu. Marc, aliviado, podia odiar novamente. Contudo, o chefe Paoti entrou inopinadamente na sala.

     - Bom dia, bom dia, Dr. Hayden.

     Paoti, com o peito e os pés nus, trazia um saiote branco. Embora aparentemente frágil, avançou com vigor.

     - Bom dia, senhor - volveu Marc. - É muito gentil da sua parte querer ajudar-me.

     - Creio que uma pessoa apenas ajuda os outros a ajudarem-se a si próprios. Interessa-me que receba a melhor impressão do meu povo. - Sentou-se sobre a mais espessa das esteiras de folhas de palmeira e cruzou as pernas finas. - Sente-se, por favor, sente-se - disse.

     Marc instalou-se, pouco à vontade, no tapete, defronte de Paoti.

     - O Sr. Courtney disse-me que deseja entrevistar uma pessoa da minha família.

     - Sim, senhor, necessito de um informante, de uma pessoa que conheça bem a sua história, as suas lendas e costumes, e que queira falar com honestidade.

     Paoti passou a língua pelos lábios.

     - Homem ou mulher? - perguntou.

     De maneira inexplicável, ao ouvir Paoti pronunciar a palavra mulher, a mente de Marc volveu à noite da véspera. Escutou de novo a música primitiva e viu a figura luminosa da jovem nativa na plataforma, com os botões vermelhos distendidos, a fenda do umbigo, a epiderme reluzente, a barriga das pernas bem modelada. A figura dela pairava no fundo de seus olhos, contorcendo-se sensualmente. Tehura, eis o seu nome, Tehura...

     Paoti, as mãos pousadas sobre as pernas, aguardava pacientemente que Marc se pronunciasse. Por fim, este disse com vigor:

     - Mulher.

     - Muito bem.

     - De preferência uma jovem - acrescentou Marc. - Uma vez que o chefe Paoti vai ser o informante de minha mãe, estou certo de que ela terá uma imagem completa da sua sociedade, do ponto de vista, bem entendido, de um indivíduo do sexo masculino já maduro e experiente. Como contraste, gostaria de ouvir um jovem, de preferência uma moça de pouco mais de vinte anos.

     - Casada ou solteira?

     - Solteira, se for possível. Paoti refletiu nisto.

     - Há tantas...

     Marc tomara sua decisão, baseada nas fantasias que tinha na cabeça, e era agora ou nunca.

     - Senhor, tenho em mente alguém como... como a sua sobrinha.

     Paoti mostrou-se um pouco surpreendido.

     - Tehura?

     - Ela pareceu-me extremamente inteligente.

     - Sim, é muito inteligente - volveu Paoti, refletindo ainda.

     - Claro, se tem objeções a fazer... ou receia que ela se mostre tímida, que não deseje colaborar...

     - Oh, não tenho objeção alguma a fazer. Quanto a Tehura, ela é decidida, obstinada como um jovem ousado, e curiosa, bastante curiosa quanto ao que é novo... - A voz sumiu-se-lhe, como se tivesse falado apenas para si mesmo. Depois, fixou os olhos em Marc. - Que tem exatamente em mente quanto a Tehura?

     - Conversas sem qualquer formalismo, nada mais - volveu Marc. - Uma ou duas horas quando muito por dia, nos dias em que estiver livre. Sentar-nos-emos como estamos sentados aqui e far-lhe-ei perguntas, a que ela responderá. Tomarei grande número de notas. É tudo.

     Paoti pareceu satisfeito.

     - Se isso é tudo, muito bem. Claro, ela dirá se quer cooperar. Porém se souber que eu sanciono o pedido não se oporá. Quando quer começar?

     - Hoje, se for possível. Imediatamente. Serão necessárias algumas sessões curtas para a pôr à vontade.

     Paoti voltou-se, colocou uma das mãos em forma de concha acima dos lábios e bradou:

     - Vata!

     Sem demora, um jovem delgado de quartoze anos assomou à porta e entrou. Fez uma mesura diante de Paoti, apoiando-se sobre um joelho. Paoti falou em polinésio, numa cadência que fez com que Marc pensasse que ele recitava um longo poema. Decorrido cerca de um minuto o jovem Vata, que entretanto se mantivera a inclinar constantemente a cabeça, murmurou uma palavra de assentimento e endireitou-se, afastando-se em seguida.

     Paoti voltou-se para Marc.

     - Um jovem inteligente, este, filho de um primo. Não se esquecerá. Explicará tudo a Tehura, e ela decidirá por si mesma. Agora vai conduzi-lo até ela. Tehura pertence a esta casa, mas como acha que vive aqui gente em excesso prefere viver na sua própria cabana. Sou muito tolerante para com a filha do meu irmão... Ela sempre fez o que quis de mim - acrescentou Paoti, sorrindo. Depois agitou a mão descarnada, como para se despedir. - Pode ir agora. O jovem conduzi-lo-á até Tehura. Marc pôs-se de pé.

     - Sinto-me muito grato...

     - Se ela mostrar pouco desejo de colaborar, agora ou no futuro, volte aqui. Procurarei outra.

     - Obrigado, senhor.

     Marc atravessou a porta que o jovem mantivera aberta e saiu para o sol. Com um pulo, o jovem encontrava-se à sua frente, indicando o caminho. Pela primeira vez, Marc penetrou na extremidade mais distante da aldeia. Como acontecera na manhã do dia anterior, antes da refeição do meio-dia, o conjunto achava-se virtualmente deserto. Um grupo de crianças nuas brincava ao longo do regato. Duas anciãs, carregando frutas em tigelas, caminhavam lentamente à sombra. Três homens, vergados sob longos feixes de canas, atravessavam uma ponte de madeira.

     Ao aproximar-se da enorme Cabana de Auxílio Social o jovem virou de súbito à esquerda, atravessou uma ponte e fez sinal a Marc para que o seguisse. Por fim, chegou à porta de uma pequena cabana e deteve-se. Quando Marc se acercou dele, o jovem disse:

     - Tehura aqui. Fique. Vou dizer as palavras de Paoti.

     - Muito bem.

     Bateu à porta de bambu, colou a ela o ouvido, ouviu a voz abafada de uma mulher, fez, alegremente, um gesto afirmativo com a cabeça para Marc e entrou.

     Marc esperava ao sol. Perguntou-se o que teria dito Paoti ao jovem. A idéia de utilizar Tehura como informante ocorrera-lhe subitamente, fruto de um impulso. Como antropólogo, agira apressadamente. Ela talvez fosse muito jovem, demasiado jovem, demasiado superficial para fornecer informações de valor. Devia, como era lógico, ter procedido com prudência, esperado mais tempo, procurado outros possíveis informantes, até encontrar uma pessoa mais integrada na tribo, que tivesse idéias e gostasse de falar. Devia, também, ter procurado um homem, de preferência da sua idade ou próximo dela. Com um homem, o contacto talvez fosse estabelecido com mais facilidade. Com uma mulher, e tão jovem, um contacto satisfatório poderia ser difícil de estabelecer, pois as mulheres não falam, na maioria das vezes, com franqueza aos homens. Contudo, Tehura fora bastante franca na noite anterior, demasiado franca. Recordando agora a narrativa dela, tinha a certeza de que a jovem exagerara para produzir mais efeito. Em resumo, tivera um excesso de vaidade e um quê de desonestidade, e isto fazia com que a considerasse menos digna de crédito como informante. Então, por que a teria escolhido? Sabia muito bem por quê? Não o interessava absolutamente nada o seu papel como antropólogo. Para ele tinha maior relevância o seu papel como homem. Esta era a sua revolta, o seu primeiro ato de protesto. Isto era anti-Adley, anti-Matty, anti-Claire.

     Viu o jovem com um largo sorriso nos lábios.

     - Ela diz sim, muito contente por ajudar.

     - Bom. Obrigado.

     - Diz para esperar. Vem já.

     O jovem partiu, a trote, e pouco depois perdia-se de vista. Marc continuou a olhar fixamente para o caminho que ele tomara. Sentia-se contente consigo mesmo. As coisas decorriam a seu modo e para sua maior satisfação não trouxera nem bloco de apontamentos nem lápis. Porém, que poderia perguntar a esta jovem? Oh, tantas coisas, disse de si para si. Interrogá-la-ei sobre o seu senso moral, a maneira como manejava os homens, a audácia de que fizera alarde na noite anterior. Seria ela tão sincera de dia, sem o apoio da kava e do sumo de palma?

     Atrás dele, a porta de bambu abriu-se e fechou-se. Ela aproximava-se dele. Tomou-o o espanto. Esquecera completamente sua beleza. Esquecera também a maneira como as mulheres nativas se vestiam. Ela nada trazia sobre o corpo exceto o pequeno saiote, que se erguia e tombava contra o topo dos quadris. Desesperadamente, tentou ignorar os seios dela, tremulando docemente à medida que caminhava, mas não o conseguiu.