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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A ILHA DOS MORTOS / Emily Rodda
A ILHA DOS MORTOS / Emily Rodda

 

 

                                                                                                                                                

  

 

 

 

 

 

Lief, Barda e Jasmine começaram uma busca secreta para encon­trar e destruir as Quatro Irmãs, criações perversas do Senhor das Som­bras que estão envenenando Deltora. Para ter sucesso, eles precisam despertar os últimos sete dragões de Deltora que têm estado presos num sono encantado há séculos.

Os dragões de Deltora, ferozes protetores de seus territórios, foram caçados e quase extintos pelas criaturas do Senhor das Sombras, os sete Ak-Babas. Finalmente, apenas um dragão de cada território sobreviveu. Para salvá-los, o mais famoso explorador do reino, Doran, amigo dos dragões (conhecido pelos dragões como Amigodosdragões), convenceu os sete a dormirem até que um rei usando o Cinturão de Deltora os despertasse.

Doran descobriu tarde demais o plano do Senhor das Sombras de usar as Quatro Irmãs para fazer o povo de Deltora passar fome. Com o desaparecimento dos dragões, não havia nada que impedisse o Inimigo de colocar as irmãs em seus esconderijos. Doran tentou avisar do perigo, mas ninguém acreditou nele. Depois de deixar um mapa com a possível localização das quatro irmãs, ele saiu em busca das provas. Ele nunca voltou e seu mapa foi marcado pelo Senhor das Sombras, rasgado em quatro pedaços e escondido.

O primeiro pedaço do mapa levou os companheiros ao Ninho do Dragão onde, com a ajuda do dragão do rubi, destruíram a Irmã do Leste e encontraram a segunda parte do mapa que indicava o Portal das Som­bras, no Norte. Apesar dos esforços do perverso Jack Risonho, eles che­garam ao Portal das Sombras, destruíram a Irmã do Norte com a ajuda do dragão da esmeralda e encontraram a terceira parte do mapa.

Agora precisam continuar a procurar a Irmã do Oeste na assus­tadora Ilha dos Mortos.

 

 

 

 

Perdição passou pelas grandes portas do palácio em Del e observou o céu do norte com desinteresse. Ele viu o pássaro mensageiro do qual os guardas tinham falado, mas seu rosto sério, cheio de cicatrizes, não mostrou sinal de ansiedade, medo ou esperança.

Muitas pessoas conversavam, paradas nas escadas que levavam aos jardins do palácio e à estrada mais além. Havia muito sobre o que falar. Durante semanas, elas ouviram boatos de acontecimentos estranhos no leste: dragões que voavam nos céus e plantações começando a brotar.

Agora, as mesmas histórias começavam a vir do norte.

Mas nenhuma dessas pessoas se aproximou de Perdição, para lhe perguntar se os boatos eram verdadeiros. Nenhuma delas fez mais do que olhar para a figura silenciosa que estava junto das portas do palácio. Perdição era uma lenda, e elas o temiam.

O povo desejava, do fundo do coração, que seu jovem rei voltasse da viagem pelo reino. Os tempos eram difíceis e todos sentiam muita falta de Lief.

O pássaro voou em direção a Perdição e deixou cair a mensagem em suas mãos. Para desapontamento das pessoas, que se viraram para olhar, ele entrou imediatamente. Qualquer que fosse a mensagem, ele não tinha a menor intenção de revelá-la.

Sozinho na sala de jantar do palácio, Perdição abriu a mensagem com uma pressa ansiosa que teria surpreendido a todos os que imagi­navam que ele não tinha sentimentos.

O bilhete não estava assinado, mas a letra conhecida mostrou a Perdição que pelo menos Lief estava a salvo. O papel tinha sido dobrado em volta de um pequeno pedaço de madeira marrom, que Perdição apanhou e cheirou.

— Uma fruta Boolong — ele murmurou, erguendo as sobrancelhas. — Isso quer dizer que ele está na Montanha do Medo. E os outros?

Olhou para o desenho no alto do bilhete e então leu a estrofe de trás para a frente, deixando de lado todas as palavras que tivessem a ver com peixe.

Tudo bem no norte. O seu coração bateu mais forte. Isso só podia significar que, apesar de tudo, a Irmã do Norte tinha sido destruída e que Lief, Barda e Jasmine estavam em segurança.

Velho amigo trará notícias. Talvez Gla-Thon, dos Gnomos do Medo. Perdição não conseguiu mais se lembrar de ninguém que poderia ter ajudado os companheiros no Norte.

Vamos para o oeste. Então eles encontraram a terceira parte do mapa de Doran, o Amigo dos Dragões. Eles sabiam onde a Irmã do Oeste estava.

Cidade Branca hoje à noite. Ao ler isso, Perdição deu um salto. Tora! Lief, Barda e Jasmine estariam na mágica cidade de mármore naquela mesma noite! Sem dúvida, eles pediriam aos toranos que os conduzis­sem rapidamente até seu novo objetivo. Se enviasse uma mensagem imediatamente, ela os alcançaria bem a tempo.

Ele escreveu um bilhete apressado, atravessou o corredor e dobrou em direção à área vigiada onde ficavam os pássaros-mensageiros.

Quando chegou à biblioteca, lembrou-se irritado de que o velho Josef, o bibliotecário, queria desesperadamente escrever para Lief. Ele o tinha perturbado tanto que Perdição ficara quase louco nas últimas semanas.

A porta da biblioteca estava aberta. Lá dentro, Paff, a assistente de Josef, estava arrumando livros nas prateleiras, parecendo ainda mais aflita do que o normal.

— Onde Josef está? — ele perguntou.

Paff teve um sobressalto e arregalou os olhos rodeados de cor-de-rosa.

— Ele... está na cozinha — ela informou sem fôlego. — Ele não comeu ao meio-dia porque...

— Por favor, vá até lá imediatamente — Perdição interrompeu impa­ciente. — Um pássaro vai partir com uma mensagem para Lief daqui a pouco. Se Josef se apressar, também vai poder mandar um recado. Leve papel e uma pena para ele.

— Josef sempre leva uma pena e um caderno com ele — Paff contou e esperou com a boca ligeiramente aberta.

— Então vá! — Perdição vociferou.

Paff largou os livros que estava segurando, passou por Perdição como um coelho assustado e correu em direção à cozinha.

Perdição continuou a andar com a expressão zangada. Na verdade, ele estava aborrecido consigo mesmo por perder a paciência com uma pessoa indefesa como Paff. Mas as pessoas pelas quais passava recu­avam assustadas e desejavam ainda mais que o amado Lief voltasse para casa.

Enquanto Perdição atravessava o palácio e Josef largava a colher de sopa e procurava apressadamente seu caderninho, Lief voava para Tora na bolsa de uma Kin.

Alguns dias antes, ele, Barda e Jasmine tinham sido surpreendidos por três dessas admiráveis criaturas voadoras, que chegaram ao Portal das Sombras para levá-los para descansar na segurança da Montanha do Medo.

As Kins eram Ailsa, Bruna e a jovem Prin. Esta tinha crescido muito desde a última vez em que os companheiros a viram e estava quase tão grande quanto Ailsa.

— Mas... como vocês souberam onde estávamos? — Lief perguntou surpreso, quando acabaram de se cumprimentar alegremente.

— A Água dos Sonhos! — contou Prin orgulhosa. — Todas as noites, durante semanas, tomei a água e pensei em vocês para que pudesse visitá-los nos meus sonhos.

— Sentimos tanto medo por vocês — Bruna suspirou. — Os Gnomos do Medo também, especialmente sua boa amiga Gla-Thon. Ela queria correr para ajudá-los quando chegaram ao Portal das Sombras, mas o velho líder Fa-Glin a proibiu. Ele disse que, se vocês quisessem a ajuda de Gla-Thon, teriam pedido.

Espantado, Lief trocou olhares com Barda e Jasmine. Então seu paradeiro não era segredo; pelo menos, não na Montanha do Medo.

— Vamos voar! — Prin gritou. — Todos estão loucos para ver vocês. Os gnomos estão tentando realizar uma festa de boas-vindas. Mas como eles podem fazer um banquete quando a única comida que têm são folhas e umas frutas velhas?

— Eles deviam aprender a comer frutas Boolong, como nós — Bruna disse. — Nós temos muitas.

Lief, Barda e Jasmine não disseram mais nada. Mas durante os dias seguintes enquanto descansavam nas cavernas dos gnomos e o famoso musgo verde do riacho da Montanha do Medo curava as feridas de Lief, eles conversaram e se fizeram várias perguntas.

Eles não sabiam como, mas, de algum jeito, o Senhor das Som­bras sempre soube que estavam no norte. Talvez, agora encontrassem a resposta.

Confiem apenas em velhos amigos...

Era o que Perdição tinha dito em sua última mensagem. E os Gno­mos do Medo eram velhos amigos, assim como as Kins. Mas será que todos os gnomos pensavam da mesma maneira? Ou um deles estaria sendo leal às Terra das Sombras?

Bastaria apenas um...

Eles falaram de seus receios apenas para Gla-Thon.

— Por mais que eu queira, não posso jurar que não haja nenhum traidor entre nós — ela disse com seriedade. — Pode haver uma fruta estragada na cesta, por mais doces que elas pareçam.

Assim, os companheiros levavam o indicador aos lábios sempre que alguém nas cavernas dos gnomos fazia uma pergunta sobre suas futuras viagens.

Por isso, não mandaram nenhuma mensagem para Del até Gla-Thon conseguir que um pássaro partisse em segredo no dia em que deixaram a Montanha do Medo: Por isso, pediram às Kins que lhes dessem toda a Água dos Sonhos que restava, certos de que as gentis criaturas não lhes recusariam nada.

E também por isso pediram a Ailsa, Bruna e Prin que os levassem para longe, mas sem lhes contar para onde iam até estarem bem alto no céu e ninguém mais poder escutá-los.

Pessoas cuidadosas e desconfiadas, os Gnomos aceitaram o desejo de discrição dos companheiros. Fa-Glin também lhes forneceu todos os tipos de suprimentos para ajudá-los na viagem, inclusive uma pequena bolsa de couro macio cheia de moedas de ouro, que Jasmine guardou na segurança de um de seus muitos bolsos.

— Isso não é nada — Fa-Glin tinha suspirado quando eles agradece­ram. — Temos muito ouro e jóias. Se ao menos pudéssemos comê-los!

Agora, as Kins estavam voando na direção de Tora, passando sobre as colinas baixas que ondulavam além das montanhas. A luz estava diminuindo devagar e o vento estava soprando forte, mas Lief, Barda e Jasmine tinham certeza de que chegariam ao seu destino quando a noite caísse.

Então, de repente, Kree, que estava voando ao lado deles, virou-se e gritou. E eles ouviram um rugido furioso e distante atrás deles.

Eles se voltaram e viram um vulto verde e grande cortando o céu, vindo das montanhas.

O medo fez Lief estremecer. O dragão da esmeralda o tinha ajudado a destruir a Irmã do Norte, mas ele sabia que a criatura não o via como amigo. E, pelo som de seu rugido, o dragão estava muito zangado.

Filli guinchou e correu a se esconder debaixo da gola da jaqueta de Jasmine. Bruna e Ailsa gritaram, e suas asas falharam. Mas Prin abaixou a cabeça e deu uma guinada violenta para a direita.

— Prin, volte! — Ailsa chamou. — Você está indo para o lado errado. Está voando em direção à costa!

— Você quer ser devorada? — Prin gritou. — Isso é um dragão, Ailsa! Um dragão! Só vamos conseguir fugir dele se usarmos o vento.

— Se pudermos atravessar a fronteira e entrar no território da ametista, ele não vai poder nos seguir — Lief avisou. — Façam o melhor que puderem.

Com o vento às costas, as Kins ganharam velocidade. As colinas abaixo delas se transformaram num terreno achatado e deserto e logo eles puderam ver o mar cintilante ao longe. Mas o dragão se aproximava cada vez mais.

“Acho que já atravessamos a fronteira há muito tempo”, Lief pen­sou desanimado. “Mas ele não parou. Na verdade, está voando ainda mais depressa!”

E, de repente, Kree gritou um aviso e o monstro estava logo acima deles, voando cada vez mais baixo, obrigando-os a descer.

Soluçando de medo, as Kins pousaram em terra. Lief, Barda e Jasmine saíram de suas bolsas e no mesmo instante ficaram presos ao chão pelo vento causado pelas fortes batidas das asas do dragão.

Então, de repente, eles puderam se mover outra vez, e o bater das ondas e os gritos das aves marinhas foram os únicos sons que conse­guiram ouvir.

Trêmulos, eles se levantaram. O dragão estava agachado ao lado deles, enorme e ameaçador. Seus olhos verdes faiscavam com fúria. Os espinhos nas suas costas pareciam lanças agitadas.

— Você ousa roubar a esmeralda outra vez de seu território e do meu, jovem rei? — ele sibilou.

Lief sentiu Barda e Jasmine se moverem atrás dele e sabia que estavam empunhando as armas, prontos para defendê-lo. Mas as mãos dele continuaram no Cinturão de Deltora. Ele sabia que não podia dar sinais de fraqueza.

— Preciso levá-la, dragão da esmeralda — ele respondeu. — Ela faz parte do Cinturão que nos une. E eu preciso usar o Cinturão para ir à Ilha dos Mortos, na terra do diamante, para encontrar e destruir a Irmã do Oeste.

— Eu não me importo com a Irmã do Oeste — ele grunhiu. — O mal deixou o meu território e isso é tudo que importa.

— O homem que você chama de Amigodosdragões e que nós chamamos de Doran, o Amigo dos Dragões, não concordava com você — disse Lief, depois de respirar fundo.

O dragão não piscou, mas, ao ouvir falar o nome de Doran, ficou muito quieto. Lief sabia que agora tinha a sua atenção.

— Doran tinha a mesma opinião que eu sobre o seu território — ele continuou com firmeza. — Talvez o seu território seja tudo o que importa para você, mas, para Doran, Deltora inteira era importante.

Ele respirou fundo e encontrou o olhar do dragão sem piscar.

— Doran perdeu a vida porque tentou encontrar as Quatro Irmãs e impedir os planos do Senhor das Sombras — continuou Lief. — Agora, estamos arriscando as nossas vidas para terminar o trabalho que ele começou. Você não deve nos impedir. Você deve nos deixar continuar!

 

Lentamente, o fogo desapareceu dos olhos verdes e o dragão baixou os terríveis espinhos.

— Você fala comigo do mesmo jeito que o Amigodosdragões falou há muito tempo quando me convenceu a dormir — o dragão grunhiu. — E, apesar de eu não gostar, aceito suas palavras como um dia aceitei as dele.

Lief sentiu tanto alívio que quase perdeu o equilíbrio.

— Obrigado — ele falou. — Então, agora vamos continuar a via­gem.

— Se precisam ir... — o dragão respondeu com frieza. — Mas eu vou avisar vocês: cuidado com os dragões do território da ametista e do diamante. Dragões da esmeralda são honrados. Os outros são cheios de mentiras e sedentos por terras e poder.

Lief não respondeu. Ele sabia que seria inútil discutir. Entretanto, Jasmine não foi tão sensata.

— Quem é você para falar de honra, dragão? — ela disparou. — Você atravessou a fronteira e invadiu sem pensar o território da ametista, enquanto estava nos caçando! No entanto, quando o dragão do lápis-lazúli entrou nas suas terras, você...

— Não me fale daquele monstro pequeno e hipócrita, garota! — o dragão retrucou, mostrando os dentes. — Se ele invadir o meu territó­rio outra vez, vou rasgá-lo em pedaços. O seu sangue vai lavar minhas pedras, suas escamas vão cair nas minhas montanhas como chuva.

— Ora, vocês, dragões, odeiam a própria espécie ainda mais do que odeiam o Senhor das Sombras! — Jasmine exclamou. — Não sei como Doran conseguiu convencer vocês a confiar um no outro a ponto de dormirem, mesmo que fosse para salvar as próprias vidas!

O animal soltou fumaça pelo nariz.

— Não confiei nos outros dragões — ele sibilou furioso. — Eu confiei no Amigodosdragões, que eu amava e que sabia o meu verdadeiro nome. A sua estupidez me deixa zangado. Vão embora!

Com um barulho surdo, ele desenrolou as grossas asas.

Kree levantou vôo com um grito, as Kins se abaixaram, e Lief, Barda e Jasmine rastejaram para longe.

No momento seguinte, eles estavam outra vez presos ao chão pela ventania provocada pelas fortes batidas de asas. E, quando finalmente puderam levantar a cabeça, o dragão estava bem distante deles, for­mando apenas uma sombra no céu, que já escurecia.

— Jasmine! — Lief gritou exasperado.

— Eu só falei a verdade — respondeu a moça, dando de ombros, enquanto Kree voltava voando para o seu braço.

— Por falar em verdade — Barda ajuntou —, acho que podemos dizer que estamos com um problema. Olhem ao redor.

Jasmine e Lief se voltaram para olhar.

Eles estavam num longo trecho de terra que se estendia mar aden­tro. Uma estrada estreita fazia curvas até o fim da península onde se erguia um farol alto, branco e solitário. O vento atravessava assobiando a terra plana e trazia com ele um gosto de sal. Ondas explodiam contra as rochas. Algumas aves marinhas circulavam acima do oceano ponti­lhado de espuma com seus gritos fracos e fantasmagóricos.

— Este lugar é mesmo assustador — Jasmine concordou. Filli cho­ramingava debaixo da gola de sua jaqueta, deixando somente a ponta do nariz à vista.

— Seria bom se soubéssemos onde estamos, Lief— Barda murmu­rou. — Se você olhar o mapa...

— Não precisamos do mapa — Lief retrucou devagar. Surpresos, seus companheiros olharam para ele.

— Conheço este lugar — Lief continuou, olhando para o farol. — Ele se chama Bone Point.

— Bem, qualquer que seja o nome, é tão achatado quanto o pão dos gnomos — Prin comentou de cara feia. — Não podemos levantar vôo daqui. Nunca devíamos ter deixado que nos obrigassem a descer. Agora estamos encalhadas!

— Melhor encalhadas do que rasgadas em pedaços no ar! — Ailsa disparou.

Barda levantou a cabeça na direção da coluna branca do farol.

— O farol tem um mirante no alto. Acho que vocês podem levantar vôo dali.

— Podemos tentar — Ailsa disse sem muita certeza.

Lief fez um pequeno movimento como se fosse protestar. Mas, quando Barda olhou para ele, fechou a boca e assentiu com um gesto de cabeça.

— Sim, não temos escolha — ele murmurou. — Mesmo que o dragão da ametista sinta a presença do Cinturão e venha até nós, ele não vai poder levar todos nós.

Lief endireitou o corpo e começou a andar rapidamente na direção do farol.

Quando Jasmine e Barda finalmente o alcançaram, ele estava parado diante da porta do farol e olhava o mirante. Protegida por uma grade vermelha, a plataforma cercava o prédio alto como um colar. Mais acima, brilhavam as janelas da sala de luz, que estava caprichosamente coberta por um telhado vermelho.

Barda exclamou surpreso e apontou para uma pedra gravada, encaixada na base do farol.

— Sim, o grande Adin providenciou a construção do farol — disse Lief, olhando para a pedra. — Foi exatamente depois de unir as sete tribos e se tornar rei. Esse verso está escrito nos Anais de Deltora. Josef o mostrou para minha mãe e para mim antes de ela partir para o oeste.

— Pois ela parece tão nova como se tivesse sido gravada ontem! — Barda se surpreendeu.

— A magia de Tora me protege... — Jasmine leu e franziu a testa espantada.

— Bone Point era parte do território da Tribo de Tora — Lief disse devagar. — E, como sabemos muito bem, a magia dos antigos toranos era muito poderosa.

Seus companheiros concordaram, lembrando-se do desastre que tinha atingido o atual povo de Tora quando quebrou o juramento mágico de lealdade de seus ancestrais para com Adin e seus herdeiros. Seus anos de exílio da cidade acabaram somente quando Lief, depois de coroado rei, perdoou seu erro em nome de Adin.

— Adin pediu aos antigos toranos que protegessem o farol — Lief continuou. — Ele tinha receio de que o Senhor das Sombras pudesse tentar destruí-lo. Era bom para o inimigo que Deltora ficasse isolada, que os navios estrangeiros ficassem longe.

— Então, o farol era um sinal de boas-vindas para os povos que viviam a oeste de nosso reino? — Jasmine perguntou.

— Isso mesmo. Mas seu verdadeiro objetivo era ser um guia e um aviso — Lief disse. — Uma fileira de rochas está escondida no mar na ponta de Bone Point. Ela causou a destruição de vários navios que se aproximaram demais na escuridão da noite.

Todos se viraram para observar o mar.

— A maré está subindo — Barda avisou.

As ondas batiam com força na ponta de península e ao sul do farol. Mas, no lado norte, perto de onde estavam parados, havia uma baía protegida. Conchas cobriam a areia e, mais ao longe, os destroços de um pequeno barco vermelho estavam quase enterrados em meio a montes de algas secas.

— Pode não haver muitos peixes, mas certamente vale a pena jogar a linha quando há tão pouca comida — Barda comentou. — O que será que o zelador do farol tem na cabeça para deixar o barco se estragar desse jeito?

— Não há nenhum zelador — Lief contou. — Red Han, o homem que cuidava do farol de Bone Point na época de meu pai, foi o último. O farol está apagado desde que o Senhor das Sombras invadiu Deltora, e os toranos foram expulsos de sua cidade.

— Mas e os navios estrangeiros? — Jasmine perguntou.

— Nenhum navio estrangeiro se aproxima daqui agora — Lief disse.

— Talvez, por causa do perigo ou porque o povo que vive a oeste considere a luz apagada um sinal de que o Senhor das Sombras ainda domina Deltora. Não sabemos.

— Mas os toranos voltaram para a cidade deles! — exclamou Barda.

— Não se pode acender a luz outra vez? Não se pode encontrar outro zelador para o farol? É um trabalho solitário, é verdade, mas...

— Não se trata disso — interrompeu Lief, cansado. — É uma coisa muito mais estranha.

Ele fez uma pausa. Então, encontrou o olhar curioso dos compa­nheiros e continuou relutante.

— Parte do feitiço que os antigos toranos lançaram dizia que somente o zelador do farol, o que tinha jurado protegê-lo, podia entrar na sala quando estivesse acesa. Se ficasse doente ou cansado da tarefa, ele teria de viajar para Tora e se demitir solenemente diante de todo o povo. E somente então um novo zelador poderia ser indicado.

— De fato, esse é um feitiço perigoso — Barda comentou sombrio.

— Assim parece — Lief sorriu. — Mas não há dúvida de que ele não pareceu tão perigoso na época de Adin. Os antigos toranos estavam certos de seu poder e durante muitos séculos tudo correu bem.

Lief suspirou.

— Mas, há dezoito anos, alguma coisa aconteceu em Bone Point. Não sabemos o que foi. Sabemos apenas que a luz do farol se apagou e que Red Han desapareceu.

— Ele certamente foi presa fácil para Ols e Guardas Cinzentos depois que os toranos partiram e sua magia não o protegia mais — Jas­mine disse.

— É verdade — Lief respondeu. — E a repentina perda do zelador do farol e da magia dos toranos explica muito bem por que a luz se apagou.

— Então por que... — Barda começou impaciente.

— Você não percebe! — Lief exclamou. — Red Han nunca se demitiu de seu posto. A sala de luz está selada. O antigo feitiço ainda vale e não pode ser quebrado, mesmo pelo povo atual de Tora.

— Mas... — Jasmine ficou séria. — Mas isso deve significar que Red Han ainda está vivo, pois certamente sua morte iria quebrar o feitiço. Por que será que ele não voltou?

— Por que não era digno da confiança que tinham nele! — Barda grunhiu. — Ele quebrou o juramento e fugiu quando Tora perdeu a pro­teção. E agora está escondido em algum canto de Deltora com medo de aparecer.

— Zeean de Tora conheceu Red Han — Lief afirmou, balançando a cabeça. Ela disse que ele era um homem simples, mas de boa-fé. Ele foi zelador do farol de Bone Point durante vinte anos. Ela não acredita que ele tenha traído a confiança que depositaram nele.

— Mas ele não podia se demitir da forma certa, mesmo que quisesse, Lief! — Jasmine exclamou. — Pelo que você contou, Tora estava deserta quando ele deixou o farol.

— Isso não explica por que ele não apareceu até hoje — Lief conti­nuou. — E não explica...

Ele se interrompeu e olhou por cima do ombro. As Kins ainda estavam um pouco longe, andando devagar na estrada com as pernas curtas e grossas.

— Todos os que entram no farol sentem a maldade que há no local — ele continuou em voz baixa. — Eles ouvem barulhos e vêem coisas que não estão ali. Muitos dizem que o lugar é assombrado.

— O vento sopra em volta do farol. Pássaros gritam, as ondas batem na praia. Acrescente a isso um aposento em que não se pode entrar, mais a história de um zelador desaparecido, e o povo medroso facilmente passa a acreditar em fantasmas — acrescentou Barda.

— Talvez — Lief concordou. — Mas minha mãe não é nada medrosa. Ela esteve aqui com Zeean de Tora. As duas viram coisas inexplicáveis. Bone Point tem sido um lugar de maus agouros nessa região há muito tempo, Barda. Ninguém vai se aproximar daqui.

— É mesmo? — ele perguntou. — Bem, pelo menos há uma alma aqui que não tem medo. Talvez, você deva pedir a ela que seja o zelador.

— A quem? — Lief perguntou, olhando em volta.

— Ora, à garota na praia! — Barda exclamou. — A garota que está pintando...

Ele se virou outra vez para a baía, mas ficou muito surpreso. Espantados, Lief e Jasmine acompanharam seu olhar, mas não havia nada para ver. A baía estava totalmente deserta.

— Mas... mas ela estava lá! — Barda exclamou. — Uma garota da idade de Jasmine e de cabelos ruivos. Ela estava pintando um quadro. Tinha um cavalete, um pincel e estava usando uma saia amarela que era agitada pelo vento. E-eu a vi muito bem. Onde ela está?

Ele se virou de um lado para outro procurando ansiosamente na praia vazia. Mas não havia sinal de nenhum ser humano e nem de pegadas na areia molhada.

— Eu a vi! — ele insistiu.

— Tenho certeza que sim — Lief disse. — Red Han não viveu aqui sozi­nho. E ele não foi o único a desaparecer. Red Han tinha uma filha.

 

Barda estava chocado. Ele abriu a boca, mas, antes que pudesse falar, Filli tirou a cabeça de dentro da jaqueta de Jasmine e começou a guinchar boas-vindas. Ofegante, Prin estava se aproximando do farol, seguida de perto por Ailsa e Bruna.

— O que você está procurando, Barda? — Prin perguntou. — Perdeu alguma coisa?

— Parece que só a consciência — ele murmurou, virando-se com olhar sonhador.

Ficou claro que ele não diria mais nada, então Prin voltou a aten­ção para o farol.

— Ah, é muito maior do que parecia de longe! — ela comentou. — E tenho certeza de que todos podemos passar facilmente pela porta. Posso...?

— Espere! — Lief exclamou. Ele puxou Prin para o lado com delica­deza e pôs a mão na maçaneta de latão brilhante.

— Jasmine e eu vamos entrar primeiro — ele disse. — Vocês, Kins, vêm atrás, perto de nós. Barda vai entrar por último. É muito importante que fiquemos perto uns dos outros. Entenderam?

As três Kins concordaram de olhos arregalados.

— Há algum... perigo? — Bruna sussurrou preocupada, olhando para Prin.

— O farol está deserto — Lief disse com cuidado. — Mas talvez veja­mos ou escutemos coisas... coisas que não existem.

— Espíritos! — Prin guinchou entusiasmada.

Bruna soltou um gemido assustado e juntou as patinhas da frente.

— Alguns dizem que são espíritos — Lief disse. — Minha mãe diz que são somente visões do passado mantidas vivas pelas paredes deste lugar. O farol é muito antigo, e a magia de Tora está em cada pedra.

Ele suspirou.

— Pediram aos construtores de Raladin que as derrubassem para que outro farol pudesse ser construído no lugar. Mas os toranos não têm muita esperança de que isso possa ser feito.

Ele virou a maçaneta de latão. A porta se abriu com suavidade como se as dobradiças tivessem sido lubrificadas recentemente. No interior do farol, estava muito escuro e frio como a morte.

— Aqui aconteceu alguma coisa ruim — Prin disse com a voz trê­mula, recuando. — Algo muito ruim. Eu sinto.

— Eu também — Bruna murmurou.

— E eu — ajuntou Ailsa.

— Vamos voltar, se quiserem — Lief disse.

— Não — Ailsa respondeu baixinho. — Vamos continuar. Sonhos não podem nos prejudicar.

Lief e Barda acenderam suas lanternas. Quando as chamas se elevaram e começaram a brilhar, eles viram diante deles uma escada em espiral que levava para o andar de cima. As sombras dançaram nas paredes de pedra, lisas e curvas.

Ao olhar para cima, Lief pensou ter visto um clarão amarelo, como a barra agitada de uma saia, e prendeu a respiração.

— Isso não é real — murmurou Jasmine, logo atrás dele, mostrando que a amiga também tinha visto o mesmo que ele.

Na parede junto do pé da escada, havia um quadro emoldurado com pedaços polidos de madeira encontrada na praia. Era um quadro da pequena baía e do mar, pintados com amor e talento.

O mar cintilava sob a luz da manhã. Sobre a areia lisa e úmida marcada por fileiras de conchas trazidas pela maré, havia um barco a remo vermelho. Na parte inferior do quadro, havia uma assinatura.

Lief estendeu a mão e, delicadamente, tocou o nome com a ponta dos dedos.

Uma risada alegre flutuou pelas escadas abaixo e Lief deu um salto assustado.

— Pai! — chamou uma voz aguda e animada que ecoou no espaço alto e vazio. — Temos uma visita. Alguém vindo daquele navio com um barco a remo. Desça para recebê-lo, pai. Depressa!

Bruna choramingou baixinho.

— Consegui pescar alguns peixes! — a voz continuou, desaparecendo. — E as frutas d'água na baía ficaram maduras. Não é maravilhoso? Se ele quiser ficar, vamos poder oferecer um bom jantar.

Visões do passado... Irreais...

“Minha mãe, Zeean e Peel viram apenas imagens rápidas, e ouvi­ram somente sons abafados”, Lief pensou. “Elas não contaram nada sobre coisas como estas.”

Ele tocou o Cinturão de Deltora, escondido debaixo das roupas. A grande ametista, a pedra de Tora, o símbolo da verdade, estava em seu próprio território agora. Ela sentia o poder das pedras do farol. Lief tinha certeza de que eles veriam e ouviriam mais do que os outros antes dele.

Cerrando os dentes, ele pôs o pé no primeiro degrau e começou a subir.

Ele subiu depressa e tentou manter a mente livre para se concen­trar no som dos passos dos companheiros logo atrás.

De vez em quando, Lief deparava com outro quadro pendurado na parede de pedra. Havia pinturas de aves marinhas, conchas, o farol visto de todos os ângulos e com o mar em todos os tons. Estava claro que todos tinham sido criados pela mesma mão adorável e estavam assinados da mesma forma. Ele tomou cuidado para não tocá-los.

“Verity”, ele pensou. “Uma garota de cabelos ruivos que amava os pássaros e o mar. A filha do zelador do farol, que remava o pequeno barco vermelho, pescava e pintava quadros do que via em sua volta. O que teria acontecido com ela? Por que a sua sombra permanecia ali?”

Ele se lembrou do que a mãe tinha lhe contado sobre Verity.

“Não se sabe muito sobre ela, exceto que nasceu no Farol”, dissera Sharn. “A mãe morreu quando ela tinha apenas um ano. O povo local diz que ela foi criada pelo pai e pelo mar.”

Lief percebeu que havia uma porta à sua frente. Ele subiu os últi­mos degraus e, prendendo a respiração, a empurrou. Ergueu a lanterna para o alto e entrou no aposento com cuidado.

Seus companheiros se amontoaram atrás dele, e as Kins se espre­meram pelo vão da porta com grunhidos e gemidos.

Barda se virou para fechar a porta, mas algo chamou sua atenção.

— É óbvio que alguma coisa aconteceu aqui — ele disse. — A porta está quebrada e parece que foi chutada. E essas marcas...

Ele baixou a lanterna e se inclinou para observar as manchas escu­ras e horríveis que sujavam a madeira lascada e denteada da porta.

Lief olhava à sua volta. Evidentemente, estavam na sala de visitas do zelador.

Uma luz fraca passava pelas duas janelas redondas, uma voltada para terra; a outra, para o mar. Muitos outros quadros enfeitavam as paredes. Duas poltronas estavam juntas na frente de um velho fogão preto. Havia um tapete de lã de cores vivas no chão, uma pequena mesa com bancos de madeira em cada lado e uma estante com uma pilha de pratos e xícaras de listras azuis.

A cena devia ser aconchegante, mas não era. Em vez disso, a sala gelava o sangue. Até o ar parecia ter gosto de sofrimento e terror.

Do lado oposto do aposento, perto do fogão, havia outra porta. Lief sabia que atrás dela devia haver outra escada que levava para os quartos e uma última para o mirante.

No entanto, nem ele, nem os que estavam ao seu lado conseguiam se mexer. Eles ficaram ali parados em silêncio, juntos, como se ninguém estivesse disposto a dar o primeiro passo.

Uma brisa fria atingiu o rosto de Lief. Ele sentiu um movimento com o canto do olho.

O rapaz virou a cabeça devagar e piscou.

Até alguns momentos atrás, o lugar estivera deserto, mas agora, ele via como que através de uma névoa, dois homens frente a frente, sentados a uma mesa, jogando cartas.

Havia copos perto dos braços dos homens, e garrafas de pedra estavam caídas no chão perto de seus pés. A vela que brilhava entre os dois tinha se transformado num toco que nadava em cera derretida.

Visões do passado...

Lief abriu a boca de lábios ressecados.

— Vocês os estão vendo? — ele sussurrou.

— Sim — os companheiros responderam numa voz baixa que lem­brava o farfalhar de folhas ao vento. As Kins pareciam apavoradas.

O homem voltado para eles tinha um rosto largo, cabelos ruivos escuros e uma barba farta, também ruiva. Seus olhos azuis estavam injetados e sombrios. Seus ombros estavam curvados e os dedos curtos tremiam quando jogavam as cartas na mesa.

— Você ganhou outra vez — ele disse com a voz rouca. — Já está quase amanhecendo. Não vou mais jogar.

O outro homem concordou com um gesto.

Ele estava de costas, e Lief não conseguia ver nada além de um casaco escuro e cabelos pretos lisos atrás de um par de orelhas enormes. Mas alguma coisa no jeito tenso dos seus ombros estreitos mostrou que esse era o momento pelo qual eles estavam esperando.

— Então, pague o que me deve, Red Han — o homem pediu com delicadeza. — E eu vou embora.

— Não posso — o homem de barba murmurou. — Você sabe disso, Gant! Ora, à meia-noite você me disse que eu estava arruinado. E insis­tiu para que eu continuasse a jogar, pois tinha certeza de que minha sorte ia mudar.

Red Han cobriu o rosto com as mãos.

— Ah, como fui idiota em ouvir você! — ele gemeu. — Em vez de ganhar o que tinha perdido, agora eu lhe devo três vezes mais do que antes!

— É melhor você falar mais baixo ou vai acordar a sua filha — o homem chamado Gant murmurou. — Deixe-a dormir enquanto pode. Ela não vai demorar a descobrir o que aconteceu.

O homem barbado soltou um soluço abafado.

Com um movimento suave, Gant tirou um maço de folhas de papel do bolso e o colocou sobre a mesa.

Lief, Barda e Jasmine se inclinaram para a frente e deram uma olhada na primeira folha.

James Gant remexeu os papéis com seus dedos longos e finos.

— Ora, foi uma noite longa, meu pobre amigo! — ele disse devagar. — Você assinou dez notas ao todo, cada uma no valor de 10 moedas de ouro.

Red Han passou os dedos pelos cabelos e os puxou como se qui­sesse arrancá-los pelas raízes.

— Não posso pagar! — ele repetiu. — Onde eu iria arranjar 100 moe­das de ouro?

— Você deveria ter pensado nisso antes — o homem magro disse pesaroso, sacudindo a cabeça. — Você assinou as notas. Você jurou sole­nemente pagar a dívida.

— Foi uma loucura! — Red Han grunhiu. — Loucura! — Ele olhou para o visitante com um olhar assustado. — Você me encorajou! Você preen­cheu as notas e as deu para que eu assinasse. Você facilitou tudo!

— Eu só estava tentando ajudar — o outro homem sacudiu os ombros. Ele fez uma pausa, inclinou-se para a frente e juntou as mãos ossudas sobre a pilha de papéis.

— Talvez, eu possa fazer alguma coisa por você, mesmo agora — ele disse, levantando a voz para um tom normal pela primeira vez. — Não há nada que eu goste mais do que ajudar os menos afortunados do que eu. Ora, eu vivo para fazer o bem. E você parece um cara realmente decente.

Lief congelou. Aquelas palavras... Aquela voz! Ele ouviu Jasmine respirar fundo e soube que ela também tinha reconhecido o homem.

Por que ele não tinha percebido antes? Essa visão do passado, esse homem que se chamava capitão James Gant... era o homem que eles conheciam como Jack Risonho.

 

Jasmine agarrou o braço de Lief.

— Jack Risonho! — Ela sussurrou. — Eu não o reconheci! É verdade que ele me lembrava alguém, por isso antes que ele falasse, fiquei espremendo os miolos para tentar lembrar. Os cabelos dele...

— Ele está mais jovem — Lief sussurrou de volta. — Pelo menos, dezoito anos mais novo. O que estamos vendo aconteceu antes da invasão do Senhor das Sombras. Red Han ainda era o zelador, e o farol ainda ficava aceso.

— Você vai perdoar a minha dívida? — o zelador do farol perguntou com rosto cheio de esperança.

— Ah, não posso fazer isso — seu torturador respondeu com calma. — É uma questão de honra — e de negócios, o que é ainda mais impor­tante. Mas... talvez você possa fazer um serviço para mim em troca do que deve.

— Qualquer coisa! — Red Han exclamou. — Qualquer coisa!

— Excelente! — Jack Risonho murmurou.

Ele se inclinou e começou a sussurrar tão baixo que Lief quase não o escutou.

Red Han arregalou os olhos. A sua expressão esperançosa desa­pareceu e se transformou numa careta de terror.

— Mas por quê? Por que você iria querer uma coisa dessas de mim? — ele balbuciou. — Se o farol de Bone Point se apagar, todos os navios que navegarem por essa costa vão estar em perigo. Navios estrangeiros vão parar de visitar nossas praias.

— É isso mesmo — Jack Risonho concordou.

Red Han se inclinou para a frente com a testa franzida.

— Mas esses navios vêm negociar — ele disse. — E Deltora precisa cada vez mais dos alimentos que oferecem em troca de mercadorias. Não sei por que não podemos produzir comida suficiente para as nos­sas necessidades. Mas é isso que acontece. Você quer que o nosso povo morra de fome?

— Você não precisa se preocupar com esses problemas, Han — o homem disse com voz suave, encolhendo os ombros estreitos.

— Pense apenas na dívida que precisa ser paga. E se dê por feliz por ter a sorte de ser o único que pode entrar na sala de luz do farol de Bone Point.

— Pela magia de Tora, é verdade — Red Han sussurrou, estreitando os olhos injetados. — Mas como sabe disso?

No momento seguinte, ele se levantou de um pulo e derrubou o banco que caiu no chão com um forte barulho.

— Você é servo do inimigo! — ele sibilou. — Você me enganou! Você veio a mim com um único objetivo! O de me corromper e apagar a luz! Serpente! Traidor! Saia daqui!

— E a dívida que jurou pagar, por tudo o que lhe é mais querido? — o homem perguntou, rindo.

— Pendure a dívida! — Red Han rugiu.

— Ah, não é tão fácil assim — Jack Risonho riu outra vez. — Você vai pagar, de um jeito ou de outro.

Red Han investiu contra ele. Com rapidez surpreendente, Jack Risonho saiu de seu banco e desviou o corpo. Han tropeçou no segundo banco e caiu.

A porta para as escadas se abriu e mostrou uma menina parada com os olhos sonolentos. Mechas de cabelos ruivos encaracolados emolduravam o seu rosto assustado. Um casaco azul tinha sido jogado apressadamente em seus ombros.

— Pai! — ela gritou ao ver o zelador no chão, aproximando-se dele. — O que aconteceu? Você está...

— Volte, Verity! — o pai vociferou, lutando para se levantar.

Mas era tarde demais. Com a velocidade de uma cobra pronta para dar o bote, Jack Risonho pôs o braço em volta do pescoço da menina. Em segundos, ela estava presa contra o peito dele com uma faca apontada para sua garganta.

— Um passo, e ela morre, Red Han — Jack Risonho rosnou. Arras­tando Verity, ele começou a recuar até a porta que levava para o andar inferior.

Ele se movia diretamente para onde estavam Lief, Barda e Jas­mine e as Kins. Barda estendeu a mão, mas apanhou apenas o ar. Jack Risonho e sua presa passaram pelos companheiros como um vento frio, deixando-os trêmulos e gelados até os ossos.

Imóvel, o zelador do farol ficou parado perto da mesa, com os punhos cerrados e o olhar sombrio de medo.

— Eu tinha esperanças de que pudéssemos resolver isso como cava­lheiros — Jack Risonho disse sorrindo. — Não gosto dessa violência, mas você me obrigou a isso, zelador. Você se recusou a fazer um pequeno serviço em pagamento de sua dívida. Assim, vou levar o que é meu de direito: a coisa de que mais gosta.

— Não — Red Han sussurrou. — Não, eu lhe imploro!

— Então, apague a luz — o homem respondeu, sorrindo com cruel­dade.

— O quê? — Verity exclamou horrorizada. — Pai! Não!

O rosto de Red Han estava tomado pela angústia, e sua voz tremia enquanto falava.

— Nunca vou apagar a luz. Jurei defendê-la, custe o que custar. E assim deve ser.

— De fato! — Jack Risonho respondeu com desprezo. — Por isso, a sua filha vai pagar o preço.

— Estou disposta a pagar — a menina sussurrou. — Prefiro morrer a...

Ela parou de falar sufocada, quando o braço ossudo apertou mais o seu pescoço.

— De sua torre, você vai poder ver bem o navio, Red Han — Jack Risonho disse devagar, abrindo a porta. — Fique de olho. Saiba que sua filha está sofrendo por sua causa. Quando você tiver visto o suficiente e a luz se apagar, Verity vai ser devolvida. Em que condições, depende de você.

Dizendo isso, ele passou pela porta e a bateu depois de sair. Seus passos soaram nos degraus enquanto ele corria escada abaixo.

Enojado de raiva e pena, Lief viu Red Han pular para a porta com um grito angustiado. Han girou a maçaneta, mas a porta não se abriu.

“Então, Jack Risonho tinha alguns poderes de feiticeiro”, Lief pensou. “Não o suficiente para quebrar o feitiço jogado sobre o farol pelo povo de Tora, mas o bastante para isso.”

Red Han chutou a porta pesada e bateu nela com os punhos. A porta estremeceu, mas ficou firme.

— Verity! — ele gemeu. Lágrimas grossas rolavam em seu rosto. Os seus punhos tinham começado a sangrar, mas ele ainda batia na porta com toda a força.

— Chega! — Lief escutou Bruna choramingar.

E, de repente, a imagem de Red Han estremeceu e desapareceu.

Espantados, os companheiros olharam em volta. A mesa estava vazia outra vez, e os bancos estavam encostados nela e em pé. Os soluços baixinhos de Bruna eram o único som que se ouvia.

— Agora, sabemos por que o farol de Bone Point se apagou — Barda comentou aborrecido.

— Não! — Jasmine balançou a cabeça. — Red Han era forte e a filha dele também. Nenhum deles teria cedido.

— No entanto, a luz se apagou — Lief disse. — E os navios que trans­portavam alimentos pararam de vir, exatamente como o inimigo tinha planejado.

— Vamos sair daqui — Ailsa implorou. — Ah, eu me enganei quando disse que sonhos não podem nos machucar. Meu coração está sofrendo muito.

Barda foi na frente e abriu a segunda porta. Como esperavam, outra escada circular foi revelada.

— Então eu vi Jack Risonho afinal — Barda murmurou enquanto começavam a subir. — Ele é mesmo um homem perverso, e tenho dito.

Barda franziu a testa.

— Tenho certeza de que já ouvi o nome Dama da Sorte antes, há muito tempo. Não me lembro onde, mas vou lembrar.

— É estranho pensar em Jack Risonho como capitão de um navio — Jasmine comentou pensativa.

— Muito estranho — Barda concordou, balançando a cabeça. — Pelo que sei, pessoas que trabalham no mar, ou perto dele, raramente se afastam. Mesmo assim, Jack Risonho parece ter trocado a costa pelo interior.

— Talvez ele deteste lembrar as maldades que fez aqui — Ailsa arris­cou em voz baixa atrás deles. — Talvez ele tenha fugido de vergonha.

— Não — Jasmine respondeu bruscamente. — Ele não tem vergonha. E mais provável que ele tenha sido obrigado a desistir do navio por causa de um motim dos tripulantes e fugiu para não apanhar. Se pelo menos os pobres cavalos que ele obriga a puxar sua carroça pudessem fazer o mesmo!

Lief estava atrás dela e não conseguiu ver o seu rosto, mas sentiu a dor que havia em sua voz.

Lief pensou no assunto brevemente. Os anos em que sobreviveu sozinha nas Florestas do Silêncio ensinaram a Jasmine que a vida muitas vezes era cruel. Quando ela não podia mudar uma coisa, normalmente a aceitava e continuava com a mente firmemente presa no futuro. No entanto, estava claro que lembrar Jack Risonho e seus cavalos ainda a feria como um golpe de faca.

No topo da escada, havia duas portas abertas que levavam a dois quartos pequenos. Eles atravessaram os aposentos depressa e continu­aram a subir.

Logo chegaram ao fim da outra escada. Estava muito escuro, e Barda andava com cuidado, seguido por Jasmine e Lief.

Eles podiam ouvir o barulho do vento assobiando em volta do farol. Bem na frente deles, havia uma porta com pintura nova que exibia uma grande placa.

 

           ENTRADA PERMITIDA APENAS

         PARA O GUARDIÃO DA LUZ

 

— O quarto da luz — Lief murmurou. — Não podemos ir para lá.

Ele e Barda ergueram as lanternas para o alto. A luz trêmula reve­lou outra porta encravada na pedra curva da parede externa.

Barda foi até a porta, abriu-a e cambaleou para trás quando o vento frio o atingiu no rosto. As duas lanternas se apagaram. As Kins gritaram apavoradas e foram para a plataforma, empurrando Lief de encontro à porta pintada de vermelho.

A pele de Lief começou a formigar de um jeito desagradável. A madeira da porta estava quente e parecia vibrar como se um enxame de abelhas estivesse voando do outro lado.

A magia de Tora me protege...

Ele tentou se afastar da porta, mas não conseguiu se mexer. Sen­tiu o Cinturão de Deltora se aquecer em sua cintura. E, de repente, sua mente foi tomada pela imagem da grande ametista, que espalhava seu brilho púrpura como uma grande nuvem cinzenta cortada por raios.

“Eu sou o herdeiro de Adin”, ele pensou de repente. “Eu uso o Cinturão de Deltora. Será que foi o destino que me trouxe até aqui? Será que eu posso abrir essa porta?”

Ele pôs a mão na maçaneta e a virou com um gesto brusco. Ela girou, e a porta... começou a abrir.

Seu grito de triunfo foi interrompido no mesmo instante em que uma pontada quente de dor atravessou sua mão, seu braço e seu ombro. Pela porta entreaberta, saiu uma nuvem de fumaça que assobiava como vapor.

O rosto de Lief estava queimando, e ele teve a impressão de que os cabelos estavam estalando. Ouviu um gemido cheio de sofrimento e percebeu que o som vinha de dentro dele.

O ar estava cheio da fumaça sibilante. E da fumaça surgiram rostos retorcidos de raiva. O rosto de Red Han... e outros que ele não conhecia.

As bocas estavam muito abertas e delas saíam gritos. Palavras rugiam em seus ouvidos.

— Saiam! Saiam! Saiam!

Outras vozes gritavam e chamavam o seu nome: as vozes de Jas­mine, Ailsa e Prin.

Lief sentiu-se puxado para longe da porta. A dor aguda parou de repente, mas os rostos zangados, contorcidos dentro da fumaça, ainda o perseguiam.

— Eles estão vindo atrás de nós! — Ailsa gritou. — Ah, depressa, depressa!

E, de repente, um vento frio e gotículas de água bateram no rosto de Lief. Ele viu uma luz embaçada, ouviu o som de ondas batendo nas pedras e se deu conta de que tinha sido arrastado para o mirante.

As nuvens estavam agitadas e barulhentas. O vento uivava. Os raios cortavam o céu.

Uma porta bateu atrás dele.

— Seu tolo! — Barda gritou com voz rouca.

Lief sentiu mãos fortes agarrá-lo e levantá-lo. De repente, ele se viu num lugar quente e, no meio de sua confusão, percebeu que estava na bolsa de Prin. Ele estava sendo virado e sacudido enquanto Kin subia na grade. O vento uivava como uma alma perdida.

— Está muito forte! — Bruna gritou. — Não podemos voar assim. — Precisamos! — Ailsa respondeu. — Ah, eles estão vindo... por baixo da porta! Depressa!

— Vá, Prin! — Barda gritou. — Vá agora!

Então, Lief sentiu o estômago revirar quando Prin se jogou no ar e foi imediatamente varrida para longe.

 

Debaixo deles, a superfície do mar azul ondulava como a pele de um animal enorme e furioso. Acima deles, nuvens escuras se revolviam e se agitavam. As Kins lutavam contra o vento, batendo as asas com força. Mas era inútil, pois a cada instante a ventania os atirava para mais longe da terra.

Sacudido e indefeso na bolsa de Prin, Lief observou, espantado e desanimado, o vulto pequeno e branco do farol ficar cada vez menor.

“Eu provoquei isso”, ele pensou. “Fomos levados do farol para a tempestade porque tentei abrir a porta da sala de luz.”

Mas a tempestade... Como ela tinha chegado até eles tão depressa?

O coração dele bateu mais forte. Uma certeza fria tomou conta dele como um manto.

O Senhor das Sombras os tinha encontrado em Bone Point e apro­veitou a oportunidade. Ele tinha chamado o temporal. Ele tinha man­dado o vento veloz de trás das montanhas para levá-los para longe.

Para longe da terra. Para longe de Deltora. Para que...

O horror tomou conta de Lief quando ele se deu conta de que, enquanto seu rosto e suas mãos estavam frios como gelo, o Cinturão ao redor de sua cintura se aquecia e ficava quente como fogo...

Levar as pedras para além das fronteiras de Deltora significa a morte...

“Até mesmo para mim”, Lief pensou descontrolado. “Até mesmo para o herdeiro de Adin. Pois existe uma magia mais antiga que a do Cinturão de Deltora, que a do sonho de Adin. A magia antiga que une as pedras, os dragões e a terra...”

E o Senhor das Sombras sabia disso.

O Cinturão estava queimando sua pele. Era como se cada uma das pedras fosse uma brasa incandescente.

Prin sentiu o calor e começou a ofegar e a choramingar. Suas asas começaram a falhar, e o vento continuava a empurrá-los para longe.

Lief olhou para baixo, para a água cinzenta, para as ondas cobertas de espuma branca.

A maré está subindo...

Ele sabia o que tinha de fazer. E não tinha tempo para pensar. Ele tinha de agir naquele exato momento.

Lief se levantou e deslizou sobre a borda da bolsa de Prin. E, com seu grito de pavor tilintando nos ouvidos, ele mergulhou em direção ao mar.

Lief caiu na água gelada. Por alguns momentos aterrorizantes, ele afundou, cego e surdo, agitando os braços inutilmente. Então, com os pulmões quase explodindo, ele conseguiu subir.

Quando sua cabeça surgiu na superfície, um vulto escuro caiu nas ondas ao seu lado. Ele olhou para cima a tempo de ver Ailsa, com a bolsa vazia, ser varrida para longe pelo vento uivante.

— Barda! — ele gritou e foi sufocado por uma onda de água sal­gada.

A cabeça de Barda surgiu ao seu lado, com os cabelos ensopados e escorridos. O braço do amigo se estendeu para ele depressa.

— Estou bem — ele garantiu, balançando a cabeça. — Não caí. Eu tive de pular. Mas você...

— Você pulou? — Barda berrou, retirando a mão e batendo na água com fúria. — Você ficou louco, garoto? Por quê...

— O Cinturão... — a voz de Lief falhou. O seu corpo estava rígido de frio e, ao mesmo tempo, queimando de calor. Vapor subia da água gelada em sua volta.

Barda arregalou os olhos quando compreendeu e olhou ao redor rapidamente.

— Ali! — ele gritou. — Lief... por aqui!

Lief se virou na água. Em meio à escuridão, ele viu o contorno estreito e pálido do farol na distância, e a espuma branca das ondas que batiam na praia. Acompanhado de Barda, ele começou a nadar, tentando não entrar em pânico e acompanhar a correnteza até terra firme.

— Jasmine! — ele balbuciou. — Onde...

— Nós dois vimos quando você caiu — Barda disse ofegante. — Jas­mine não pôde fazer nada, pois ela não sabe nadar. Ela ainda está lá em cima em algum lugar com as Kins. Morrendo de preocupação, com certeza.

Lief olhou para cima. Ele não via nada além das nuvens que cor­riam no céu. As Kins e Jasmine tinham sido empurradas para mais longe, na direção do alto-mar.

“Elas vão ficar em segurança”, ele afirmou para si mesmo. “Muito mais do que se eu estivesse com elas. Parece que o Senhor das Sombras conhece todos os meus passos, então agora ele deve saber que pulei no mar. Ele vai deixar que o vento diminua, pois por que iria desperdiçar seu poder sem motivos? E então as Kins vão poder voar de volta para a terra.”

Ele sentiu que o Cinturão estava esfriando e soube que isso signi­ficava: que tinha conseguido chegar um pouco mais perto da praia.

O alívio foi imenso, mas seus dentes batiam, os braços e pernas doíam e estavam amortecidos pelo frio. A sua cabeça deslizava para baixo da superfície com freqüência cada vez maior.

Uma onda saltou por cima dele e ele afundou outra vez. Com a garganta dolorida, Lief se obrigou a levantar a cabeça em busca de ar. Havia uma névoa à frente dos olhos lacrimejantes e ardentes.

“Isso não pode continuar por muito tempo”, pensou desanimado. Mas mesmo assim nadou vigorosamente em direção à praia, tentando ignorar as pernas e braços adormecidos e doloridos. Ele estava deter­minado a chegar o mais próximo possível da praia antes que o frio e a exaustão tomassem conta dele.

Era quase certo que ele e Barda estariam mortos quando as ondas os jogassem nas pedras ou sobre a areia da pequena baía ao lado do farol. Mas o Cinturão seria encontrado.

Ele ouviu Barda nadando com esforço junto do seu ombro, e seu coração bateu forte no peito.

Barda tinha cuidado dele durante quase toda a vida. No início, ele nem ao menos tinha percebido aquela proteção constante. Depois, muitas vezes resistiu e se ressentiu contra ela. Ultimamente, tinha começado a achar natural que o amigo estivesse a seu lado, não impor­tava o que fizesse.

Mas Barda tinha vida própria. Ou, pelo menos, tinha direito a ela.

O rosto de Lindal apareceu em sua mente. Lindal, muito alta, parada ereta junto dos portões de Broome, as palmas das mãos aperta­das nas de Barda numa longa despedida sem palavras.

“Barda poderia ter encontrado a felicidade depois de todos esses anos de luta”, Lief pensou. “Em vez disso, vai morrer comigo neste mar cruel.”

— Sinto muito, Barda — ele disse sufocado. — Eu sou tão...

Nesse momento, o pé descalço atingiu alguma coisa firme.

Espantado, ele se virou na água. E, em meio à névoa que atra­palhava sua visão, ele viu a lateral de um navio escuro que se erguia acima deles.

Durante um instante, ele olhou fixamente, incapaz de acreditar no que via. Como um navio poderia ter se aproximado deles tão silenciosa­mente? Como não tinha visto a embarcação, mesmo naquela estranha escuridão no meio da névoa?

Ele gritou para Barda e então berrou para o navio com toda a força dos pulmões. Barda logo o acompanhou, mas nenhuma luz apareceu acima deles, e ninguém respondeu aos seus chamados.

Remos compridos estavam pendurados em pequenos buracos escuros na lateral do navio acima da linha da água. Ofegante, Lief esten­deu a mão para o remo mais próximo, mas, mesmo quando seus dedos se fecharam sobre a madeira úmida e áspera, ele soube que não seria muito útil. O remo era curto demais para ser usado como apoio para subir ao navio, e o buraco onde estava pendurado era muito pequeno para permitir a passagem de uma pessoa.

— Continue gritando, Lief! — Barda falou com dificuldade, aproxi­mando-se dele. — Precisamos conseguir que eles nos ouçam.

Então, Lief sentiu algo roçando sua mão livre. Seus dedos se fecharam ao redor de uma corda grossa e molhada e, quando olhou para cima novamente viu, surpreso e contente, uma escada de corda que balançava na lateral do navio e cuja base sumia dentro da água cheia de espuma.

— Barda! — ele chamou com a voz rouca.

— Eu vi! — ele escutou Barda ofegar atrás dele. — Vá! Estou com você.

Lief segurou a escada com as duas mãos, encontrou um degrau com o pé e, rangendo os dentes que batiam, começou a subir.

Ele já tinha subido alguns degraus quando percebeu que havia alguma coisa estranha no navio.

Ele estava quase todo dentro da água e, em vez de ser sacudido de um lado para outro pelas ondas, como era de esperar, ele deslizava tão sua­vemente como um peixe. Isso facilitou a subida, mas um pressentimento tomou conta dele enquanto se esforçava para continuar subindo.

Lief parou ao chegar ao topo da escada. Seu couro cabeludo formi­gava, e ele não conseguia se livrar da sensação de estar sendo vigiado. No entanto, não via nenhuma luz acima dele e tampouco ouvia vozes. Os únicos barulhos eram o ranger das tábuas e, uma vez ou outra, o leve guincho dos ratos.

Ele olhou para os lados e percebeu que perto de seu ombro direito havia algumas letras quase apagadas.

“O nome do navio”, Lief pensou. “Então devemos estar na parte da frente, a proa. Ele espiou o nome e tentou lê-lo.”

 

         D MA DA SRT

 

A tinta estava tão desbotada que Lief não conseguiu decifrar as letras que restaram. No entanto, ele achava que deveria ter conseguido. Havia alguma coisa conhecida nas marcas deixadas pelos restos de tinta. Alguma coisa que ele já tinha visto antes.

— O capitão de um navio de trabalho nunca deixaria seu nome descascar dessa forma — Barda murmurou atrás dele. — Pelo que parece, essa embarcação foi abandonada há muitos anos.

Lief sabia que Barda tinha razão. O navio estava à deriva. Os ran­gidos misteriosos que ele escutava eram o som do leme girando de um lado para outro no convés deserto.

Mas alguém... ou alguma coisa... estava abordo. Ele sabia. Alguma coisa percebeu a presença deles. Alguma coisa estava prendendo a res­piração, esperando...

— Continue a subir, Lief — Barda resmungou. — Precisamos enfren­tar o que quer que esteja lá em cima ou vamos nos afogar. E eu prefiro morrer lutando.

“Então, Barda também pressente o perigo”, Lief pensou. “Pelo menos estamos preparados.” Mas se esforçar e subir os últimos degraus foi uma das coisas mais difíceis que já tinha feito. Suas pernas pareciam feitas de pedra. Todo o seu corpo estava dominado pelo medo.

Ele chegou ao topo, viu o movimento da névoa, as cordas e velas emaranhadas, o leme balançando devagar sem ter quem o guiasse. Viu também o pedaço de madeira arrebentado que era tudo o que restava do mastro principal do navio.

Uma imagem em movimento saltou em sua mente como um clarão vivo de lembrança. Ele viu o navio sendo agitado por uma tempestade feroz, viu ondas gigantes caindo com violência sobre o convés, ouviu o terrível som do mastro se partindo em dois e os gritos aterrorizados dos homens que se afogavam.

Visões do passado...

Ele deslizou para a lateral do convés. Trêmulo e ofegante, raste­jou para o lado para dar lugar a Barda. Em seguida, alguma coisa o fez olhar para cima e ele teve a impressão de que seu coração ia saltar pela boca.

Uma mulher de roupão azul estava parada imóvel na proa do navio. Ela estava olhando para o mar e se inclinava lentamente para a frente com as mãos apertadas sobre o coração. A névoa se agitava à sua volta, mas nada nela se mexia, nem mesmo uma dobra do roupão ou uma mecha dos longos cabelos ruivos.

O rosto e o queixo teimoso, os olhos cinzentos e parados, eram estranhamente conhecidos.

A boca de Lief ficou seca quando ele percebeu quem era a moça. E, quando Barda caiu no convés ao seu lado, de repente percebeu também por que os trechos do nome do navio despertavam suas lembranças.

Aquela embarcação abandonada e à deriva era o navio de Jack Risonho, o Dama da Sorte.

E a mulher parada tão silenciosa e imóvel na proa era a filha de Red Han, Verity.

 

Ensopados e tremendo, Lief e Barda levantaram-se com esforço. O convés rangia debaixo de seus pés. Atrás deles, o leme girava e guinchava. O vulto de Verity não se mexia.

— Ela não é real, Lief — Barda balbuciou. — Está vendo como ela se inclina sobre a água como se quisesse guiar o navio? É uma figura de proa, esculpida em madeira e pintada. Muitos navios têm uma. Você deve ter visto retratos...

— Sim — Lief sussurrou. — Mas nunca vi uma figura de proa que parecesse tão real quanto essa. E é Verity mesmo. Acho que...

Sua voz falhou. Ele teve a impressão de que o vulto rígido virou a cabeça levemente como se o tivesse escutado. Ou será que seus olhos tinham sido enganados pela névoa que girava em volta deles? Ele agar­rou o Cinturão que rodeava seu corpo...

De repente, houve um movimento rápido, uma luz brilhante e um rugido. Os pássaros marinhos gritaram. Houve um espadanar na água. Vozes roucas gritaram alegres e riram.

Eles não estavam mais sozinhos. Uma multidão de homens sor­ridentes se reuniu em torno deles.

Praguejando e assustado, Barda apanhou a espada.

Lief não se mexeu. Ele sabia que os homens não podiam vê-los. Aquela era a tripulação do Dama da Sorte, reunida no convés como há dezoito anos, para se divertir com uma de suas brincadeiras favoritas.

Dois homens estavam amarrando uma garota a uma coluna baixa fixada na proa. A garota usava um casaco azul comprido.

— Verity — Barda murmurou.

Os homens prenderam a garota para que ela pudesse ver o farol que iluminava o mar com sua luz branca.

— Ah, ela é mesmo uma ótima figura de proa, não tenho dúvidas — riu um homem com cara de rato, usando um gorro de lã listrado.

— Muito magricela para o meu gosto! — resmungou um homem grande e bruto com um tapa-olhos.

— Ela vai ficar ainda mais magra depois que os pássaros acabarem com ela, Beef — um terceiro marinheiro rugiu, mostrando os dentes que pareciam tocos tortos e amarelos.

Toda a tripulação riu animadamente.

A garota não deu sinal de ter ouvido alguma coisa e nem lutou quando deram várias voltas com a corda em seu corpo para prendê-la ao mastro.

Jack Risonho estava parado ao lado dela, espiando por um teles­cópio. Ele estava imóvel como uma estátua alta e magra, os ombros ossudos e rígidos, as linhas dos maxilares bem definidas. Depois de alguns instantes, ele baixou o telescópio para Verity e torceu os lábios num sorriso.

E durante apenas um instante, quando ele se virou, ele lembrou a Lief outra pessoa. “De alguém que conheço”, Lief pensou confuso. “Quem...?”

Então, o sorriso se alargou e se transformou numa careta mortal e conhecida, e a visão desapareceu.

— O seu pai está observando, garota — Jack Risonho zombou. — Ele está na sala da luz.

Verity não respondeu.

Jack Risonho se aproximou dela.

— A água leva os sons para a terra com facilidade — ele contou.

— Red Han vai ouvir, se você gritar. Seria bom se você começasse agora. Quanto antes ele ceder, mais cedo você vai ser libertada.

— O meu pai nunca vai ceder, James Gant — Verity disse. — E eu nunca vou chamá-lo.

— Belas palavras — Jack Risonho respondeu, estreitando os olhos.

— Mas elas não vão durar. Logo, você vai estar com as roupas rasgadas pelo vento e pelas ondas, implorando comida e água. E os pássaros famintos virão, e você vai gritar bem alto quando eles começarem a fazer um banquete do seu corpo, garota, tenha certeza disso.

Ele virou e se afastou, caminhando na direção de onde estavam Lief e Barda. A tripulação se apressou a abrir caminho e, na pressa, alguns até caíram.

Lief e Barda não se moveram. Jack Risonho passou por eles como uma rajada de vento gelado. Naquele momento, a visão desapareceu e eles ficaram no convés, cujas tábuas rangiam, cercados pela névoa que tomava todo o navio, tendo como companhia apenas a figura de proa.

— Se um dia eu tiver a oportunidade de pôr as mãos nesse mons­tro sorridente, ele vai saber o que é o medo — Barda murmurou final­mente.

Seus olhos estavam fixos na figura de proa e seus punhos estavam cerrados.

“Ele está se lembrando da garota que viu pintando na praia da pequena baía”, Lief pensou. “A garota feliz de saia amarela que flutuava ao vento.”

— Não conhecemos o fim da história, Barda — ele comentou. — Tal­vez, Red Han tenha cedido, e Verity tenha voltado para ele. Talvez, eles tenham fugido de Bone Point juntos.

— Duvido — Barda retrucou.

Lief também duvidava. Sua mente estava tomada por perguntas, mas a imagem que ele e Barda tinham acabado de ver era uma prova de que o Dama da Sorte estava a serviço de trabalhos suspeitos. O navio era assombrado por lembranças tão terríveis que jamais iriam embora.

Com o coração pesado, ele deu as costas à figura de proa. Não importava o que tivesse suspeitado antes, agora ele tinha certeza de que se tratava apenas de uma escultura.

A pele da figura de proa era lisa e sem irregularidades, e os olhos sérios, intocados. Os pássaros famintos não teriam deixado que ficas­sem assim.

Depois que o corpo ferido, despedaçado e sem vida de Verity tivesse caído ao chão, estava claro que Jack Risonho teria ficado satisfeito em substituí-lo por uma cópia do que ela tinha sido. Que forma melhor de atormentar o pai que tinha se recusado a fazer sua vontade?

Lief estremeceu e, de repente, se deu conta do frio que sentia. Seus dentes recomeçaram a bater. A água escorria de seus cabelos e roupas. Seus pés pareciam blocos de gelo.

— Precisamos ir para baixo do convés e tentar encontrar um jeito de nos aquecermos — Barda disse. — Não vejo nenhum bote salva-vidas. Ele deve ter sido levado quando o navio foi abandonado. Vamos ter de ficar aqui até o fim da tempestade e as Kins virem nos buscar.

— Não há nenhuma tempestade aqui — Lief murmurou.

Os dois olharam para cima. A névoa se movia suavemente ao redor deles. Eles não conseguiam ver o céu nem o mar. Eles não escutavam o vento nem os trovões. Era como se o mundo além do Dama da Sorte tivesse desaparecido.

— Precisamos encontrar um jeito de nos aquecermos — insistiu Barda. — Precisamos descansar e recuperar nossas forças. Depois disso, vamos pensar no que fazer.

Era óbvio que ele estava determinado a não deixar que o medo o dominasse. Ele lutava contra o pavor da forma que sabia melhor: con­centrando-se em coisas práticas.

“E ele tem razão”, Lief pensou. “Se entrarmos em pânico, certa­mente vamos morrer.”

Juntos, eles foram tropeçando até o leme que girava, passaram por cima das cordas emaranhadas e dos restos espalhados das velas de lona. Não muito longe do leme, havia uma porta estreita instalada numa parte mais alta do convés.

Barda estendeu a mão para abri-la e então olhou para Lief.

Lief puxou o casaco e olhou para o Cinturão de Deltora.

O rubi estava descorado. Perigo. A esmeralda tinha perdido o brilho. Maldade. Um juramento quebrado.

Ele está sentindo o presente ou o passado? — Barda indagou.

Lief não soube responder.

Ele viu que o lápis-lazúli, a pedra celestial, responsável por trazer boa sorte, ainda cintilava com pontos de luz como o céu da noite. Ele era forte. Se perigos ainda rondavam abaixo do convés, pelo menos eles teriam alguma proteção. E estava tão frio...

Ele respirou fundo e assentiu com um gesto de cabeça.

Barda abriu a porta. Um sopro de ar azedo escapou para a névoa. Um curto lance de escadas levava para baixo.

Eles desceram com cuidado. Lá chegando, viram-se num pequeno espaço quadrado na frente de uma porta feita de madeira ricamente esculpida.

Acima da porta, havia um painel de vidro colorido pontilhado de palavras e símbolos.

— Esta porta é muito sofisticada para um navio cargueiro — Barda murmurou. — Parece que era uma saída, e não uma entrada. Bem, isso não importa para nós agora.

Ele espiou o painel de vidro encardido.

— Todos os enfeites são símbolos de boa sorte. Mas por quê? Então, ele deu um tapa na testa irritado.

— Mas, claro! Dama da Sorte! Agora lembro onde ouvi esse nome antes! Escutei um viajante mencioná-lo nos meus primeiros anos como mendigo nas ruas de Del.

Ele balançou a cabeça devagar, recordando.

— Dama da Sorte era uma casa de jogos flutuante que antigamente navegava no Rio Tor — ele contou. — Esse navio tinha uma péssima repu­tação, embora o homem que tenha me contado a história não tenha visto nada pessoalmente. Ele disse que o navio desapareceu do Rio Tor antes da invasão do Senhor das Sombras, e ninguém sabia o que tinha acontecido com ele.

— Bem, agora o mistério está esclarecido — Lief tornou sombrio.

— O Dama da Sorte navegou do Rio Tor para o mar. Jack Risonho estava seguindo as ordens de seu mestre. Ele estava indo destruir o farol de Bone Point.

Enquanto falava, ele observava as palavras escritas no centro do painel de vidro.

— Você não vai conseguir ler isso — Barda disse com impaciência.

— Não com essa luz e sem um espelho. Elas só vão fazer sentido vistas do outro lado — ele explicou, pondo a mão na maçaneta. — Venha! O salão principal deve estar atrás dela. Com sorte, vamos encontrar um fogão e, talvez, velas e outros suprimentos. O capitão James Gant certa­mente garantia que seus convidados ficassem confortáveis. Pelo menos enquanto ainda tinham dinheiro nos bolsos.

Lief hesitou. Alguma coisa na porta esculpida o deixava inquieto.

Ele olhou ao redor e pela primeira vez percebeu que outra porta conduzia para um pequeno espaço. Ela se encontrava à esquerda: era feita de metal simples e liso e era fechada por uma pesada alavanca.

— Talvez esta nos leve aos dormitórios da tripulação ou à cozinha — ele disse. — Vamos tentar aqui primeiro.

Sem esperar uma resposta, ele empurrou a alavanca e abriu a porta de metal.

Escuridão. O som da água batendo levemente. E um cheio tão ruim que Lief cambaleou para trás.

— O que foi? — Barda sussurrou atrás dele.

Lief tentava respirar. Seus olhos estavam marejados de lágrimas como se o ar malcheiroso que soprava do espaço atrás da porta estivesse cheio de veneno.

Nesse momento, a névoa que descia os degraus se iluminou como se uma luz suave tivesse sido acesa acima deles.

— A Lua está nascendo — disse Barda. — Lief... Lief esfregou os olhos e olhou a escuridão.

Primeiro, ele só conseguiu ver formas. Então, aos poucos, viu todo o horror da cena diante dele.

Ele estava olhando para o centro do navio: para a cavidade meio submersa, onde antes ficavam os remadores manejando seus remos.

Onde eles ainda estavam sentados, imóveis...

Com água até a cintura, corpos meio apodrecidos estavam caídos sobre os remos. Correntes enferrujadas pendiam como braceletes dos pulsos ossudos. Vermes marinhos se enrolavam em seus pescoços e dedos, e cobras com a pele manchada grudavam-se com vontade nos trapos que ainda pendiam de seus ossos.

Lief sentiu o sangue sumir do rosto e ouviu Barda praguejar bai­xinho atrás dele.

— Eles foram deixados para morrer — Barda murmurou. Como? Por quê? O que aconteceu aqui?

O que aconteceu aqui?

Os dentes de Lief batiam, sua cabeça girava.

Ele pôde ver um crânio descarnado com um tapa-olho ainda escon­dendo a órbita do olho. E, ao lado dele, uma cabeça sorridente coberta com os restos rasgados e encardidos de um gorro de lã listrado.

O brilho suave da luz da Lua, envolta na névoa, passou pelo espaço úmido e inundado. Correntes tilintaram suavemente na escuridão. Os horrores caídos pareceram se virar...

Com um grito, Lief cambaleou para trás e bateu a porta.

— Aqui! — Barda segurou a alavanca da porta esculpida e a empur­rou para a frente. Lief tropeçou atrás dele...

Para dentro de um espaço tomado pela luz.

 

Espantados e piscando, Lief e Barda ficaram parados enquanto a porta se fechava devagar atrás deles. Aquilo não era bem o que esperavam.

O aposento comprido parecia ter sido abandonado somente alguns minutos antes de eles entrarem e estava deliciosamente aquecido. Tape­tes grossos e vermelhos cobriam o chão, o fogo crepitava numa lareira de mármore, e velas queimavam em brilhantes castiçais de cristal que pendiam do teto. Espelhos compridos com molduras douradas revestiam as paredes e refletiam continuamente o conteúdo do quarto.

Espalhadas por todos os lados, havia pequenas mesas polidas cercadas por poltronas confortáveis. Em algumas delas, havia jogos de baralho, em outras havia dados e em outras ainda havia jogos de tabuleiro, quebra-cabeças e roletas. No centro de cada mesa, havia uma carta com uma borda dourada que explicava as regras do jogo e um recipiente cheio de moedas de ouro.

Um baú aberto repleto de mais moedas de ouro estava à esquerda da porta em que Lief e Barda se encontravam. Um grande aviso fora afixado na parte interna da tampa.

 

Você precisa de um pequeno empréstimo?

O Dama da Sorte facilita tudo para você!

Pegue o que precisar — pague o que deve

antes de sair.

 

— Isso tudo é uma ilusão — Barda disse, afastando-se do baú e empunhando a espada. — Tem de ser!

Lief pôs a mão no topázio. Ele tinha aprendido há muito tempo que a grande pedra tinha o poder de expulsar as ilusões, mas nada no quarto tremulou ou se alterou.

Agachando-se, Lief tocou o tapete com os dedos. Ele era quente e macio. Quando se levantou, notou que vapor começava a se desprender de suas roupas molhadas. Elas já estavam secando.

— Isto não é ilusão — ele disse devagar. — Isto é real. Não sei como, mas é real.

— Se ficarmos atentos e não tocarmos em nada, vamos ficar em segurança — Barda aconselhou. — Assim que as nossas roupas estiverem secas, nós vamos voltar para...

Ele parou de falar com os olhos arregalados de pavor. Ele olhou para os pés e logo para cima outra vez.

— O que foi? — Lief sussurrou. Mas, assim que parou de falar, ele também sentiu.

Alguma coisa no navio tinha mudado. Ele não estava mais balan­çando delicadamente ao sabor das ondas. Ele estava se movendo para a frente.

E Lief ficou todo arrepiado quando ouviu os sons que até mesmo o tapete grosso não conseguiu abafar. Os sons ritmados e rangentes dos remos.

Sem dizer palavra, ele e Barda se viraram repentinamente para a porta. O painel de vidro acima dela parecia brilhar. E agora as palavras gravadas nele estavam bem visíveis.

Um peso gelado pareceu se instalar na boca do estômago de Lief. Devagar, ele olhou para baixo.

Não havia maçaneta daquele lado da porta.

Barda tirou a adaga do cinto e tentou empurrar a sua ponta pela fresta, mas a arma parou imediatamente antes da madeira esculpida como se estivesse sendo repelida por uma barreira invisível.

Barda grunhiu surpreso e tentou outra vez. Novamente, ele não conseguiu tocar a porta.

Lief também não teve sucesso. Durante dez longos minutos, os dois lutaram em vão para quebrar o escudo. Por mais que tentassem, suas mãos, pés e armas voltavam para trás sem entrar em contato com a porta ou o painel de vidro acima dela.

— É inútil — disse Barda afinal. — O feitiço que fecha essa porta é tão forte quanto a barreira que sela as montanhas nas Terra das Sombras.

— E por que não seria? — Lief perguntou com amargura. — Não há dúvida de que o inimigo a proporcionou para o Dama da Sorte em troca dos serviços úteis de Jack Risonho.

Ambos olharam para o painel de vidro. Durante o ataque frustrado contra a porta, a mensagem ameaçadora parecia ter ficado maior e mais brilhante.

Barda deu as costas para ela.

— Se essa porta está fechada para nós, vamos encontrar outra! — ele disse e começou a procurar no quarto comprido com determinação.

— Barda, eu acho que não... — Lief começou, virando-se, com o coração pesado.

— Apenas procure! — Barda murmurou agitado. — Tem de haver outra saída. Só precisamos encontrá-la.

Os espelhos piscavam de volta para eles, refletindo poltronas e mesas, roletas e tabuleiros, jarras de moedas e velas, além das suas imagens.

Mas no extremo oposto do quarto, diretamente diante deles, havia algo que os reflexos confusos tinham disfarçado num primeiro momento.

Era um quadro do mesmo tamanho dos espelhos e emoldurado da mesma maneira. Era difícil ver com clareza, pois ele brilhava na luz e parecia ser uma paisagem da terra ou do mar.

— Ali! — Barda exclamou. — Tenho certeza de que o quadro marca a nossa saída!

Ele correu até lá, e Lief, deixando as dúvidas de lado, tratou de segui-lo, desviando-se do labirinto de mesas e poltronas para não tocar ou tirar nada do lugar.

Eles continuaram a andar, enterrando as botas no grosso tapete. Suas imagens caminhavam com eles, multiplicadas várias vezes nos espelhos, dando a impressão de que o aposento imenso estava cheio de caminhantes enlameados.

— Não tinha percebido que o aposento era tão comprido — Barda disse por cima do ombro. — Esses espelhos enganam a gente.

Ele começou a andar um pouco mais depressa. Lief o acompanhou em silêncio, tentando proteger a mente das imagens dos corpos em decomposição se curvando e endireitando enquanto empurravam os remos. Mas a cada passo ele ficava mais consciente dos sons implacá­veis provocados pelos movimentos que vinham de baixo de seus pés e o cheiro leve e desagradável que enchia o ar quente.

Os minutos se arrastaram, mas seus reflexos nos espelhos no fim do quarto não aumentaram e a quantidade das mesas adiante não diminuiu.

Finalmente, os passos firmes de Barda vacilaram e ele parou. Ele se virou para Lief com a expressão sombria.

— A primeira linha da rima era: “Se você entrar, precisa jogar” — Lief disse relutante. — Acho que nós não vamos poder sair até que um de nós tenha jogado pelo menos um jogo.

— Não podemos jogar! — Barda retrucou quase aos gritos, fechando os punhos. — Pelo que eu vi, precisamos de moedas de ouro para jogar, e nós não temos nenhuma.

Como resposta, Lief olhou por sobre o ombro para o baú aberto do lado da entrada da sala.

— Não! — Barda balançou a cabeça violentamente. — Seríamos loucos se caíssemos nessa armadilha, Lief! E se perdermos? Não vamos poder pagar a dívida.

Se não pagar, você vai descer...

— Não vamos perder — Lief retrucou, ignorando o aperto no peito.

— E, de qualquer forma, não temos escolha.

— Você já viu o que acontece com pessoas que emprestam dinheiro de Jack Risonho, Lief! — Barda exclamou. — Como você tem coragem de pensar nisso? Ah, como fomos bobos em não dividir o ouro dos gnomos entre nós! Ele está todo com Jasmine, e quem sabe onde ela...

— Se você tem um plano melhor do que o meu, Barda, por favor, diga qual é e pare de perder tempo! — Lief gritou furioso.

Ele não queria pensar no que poderia estar acontecendo com Jas­mine. Sua amiga que não sabia nadar, pendurada perigosamente sobre o mar bravio na bolsa da menor e mais assustada das Kins.

Ele viu Barda olhando para ele e se perguntou se o companheiro tinha adivinhado o motivo de sua raiva.

Balbuciou uma desculpa, virou-se e começou a correr em volta das mesas lustrosas, procurando um jogo que imaginava que poderia ganhar.

Logo ficou claro que a maioria dos jogos dependia muito mais de sorte do que de habilidade. Apesar de o lápis-lazúli estar brilhando no Cinturão, Lief não queria deixar sua segurança e a de Barda nas mãos da sorte. No entanto, todos os jogos que exigiam habilidade precisavam de duas ou três moedas de ouro para serem jogados e ofereciam apenas ganhos reduzidos, enquanto os jogos de sorte custavam apenas uma moeda e pagavam muito bem ao ganhador.

— Jack Risonho encorajava seus convidados a confiar na sorte, e não no cérebro — ele murmurou.

— Claro — Barda disse com amargura atrás dele. — Dessa forma, ele tinha muito mais chances de tirar tudo o que eles tinham e muito mais.

Lief tentou ignorar os calafrios que percorriam seu corpo e conti­nuou procurando.

Finalmente, ele se aproximou de uma mesinha onde havia somente uma cadeira. Em cima dela, além do recipiente de moedas e do cartão impresso, havia um pano dourado do tamanho aproximado de um lenço. O pano estava cobrindo alguma coisa, mas era impossível saber do que se tratava.

Havia apenas algumas palavras no cartão.

 

Jogo do besouro na gaiola

Teste a sua inteligência!

Arrume as varetas no tempo certo para engaiolar os besouros!

1 jogador apenas.

1 moeda para ganhar.

2 moedas para quem vencer.

 

— Este serve — Lief disse. — Já resolvemos charadas como esta antes.

Totalmente ciente do olhar de Barda queimando suas costas, ele foi até o baú e pegou uma moeda de ouro apenas. Quando se virou, ficou surpreso ao descobrir que havia mais sete moedas presas às pontas de seus dedos.

Por um momento, ficou tentado a conservá-las, caso precisasse jogar mais de uma vez. Então, percebeu que estava sendo convencido a emprestar mais do que pretendia. Ele se virou abruptamente e devolveu as outras moedas ao baú.

Ele agarrou a moeda de ouro e se encaminhou rapidamente para a mesa.

— Não gosto disso — Barda grunhiu. — Você tem um limite de tempo, Lief. Isso está claro no cartão. E é Jasmine que é boa nesse tipo de jogo.

— Jasmine não está aqui — Lief disparou irritado. — Nós estamos. E certamente nós dois juntos podemos encontrar a resposta. Principal­mente com o topázio para nos ajudar.

Ele se sentou. Barda ficou em pé atrás dele e viu quando ele colocou a moeda de ouro na abertura no alto do recipiente de dinheiro.

Lief pôs a mão no pano dourado. No mesmo instante, ouviu-se um leve som agudo como se um copo de cristal tivesse sido tocado por uma unha. Uma linha no pequeno cartão colocado junto do recipiente de dinheiro se acendeu e começou a faiscar.

1 jogador apenas... 1 jogador apenas... 1 jogador apenas...

Lief sentiu o estômago revirar e molhou os lábios.

— Você vai ter de se afastar, Barda — ele disse. — Parece que eu devo jogar sozinho.

Barda praguejou baixinho e recuou. As palavras no cartão conti­nuaram a piscar e ele se afastou ainda mais.

De repente, as palavras ficaram imóveis e o pano dourado desa­pareceu.

— Não consigo ver nada daqui — Lief escutou Barda dizer em voz baixa. — Não posso ajudar você.

Lief não respondeu. Ele estava com toda a atenção voltada para os objetos revelados em cima da mesa.

Treze varetas de prata tinham sido arranjadas de modo a formar seis retângulos. Dentro de cada retângulo havia uma pequena jóia em forma de besouro. Debaixo deles, havia um pequeno pedaço de papel-pergaminho.

Os besouros de estimação de Jack são incontroláveis e têm muito ciúme um do outro; por isso precisam ficar em gaiolas separadas de tamanhos iguais. Se um ladrão roubar uma das varetas de Jack, como ele poderá construir novas gaiolas com as 12 que restarem?

Como Barda temia, uma pequena ampulheta de vidro estava na mesa. Lief olhou para ela e viu que a areia fina já tinha começado a cair pelo tubo estreito que ligava os dois compartimentos do objeto.

Quando o compartimento superior ficasse vazio, seu tempo teria terminado. A ampulheta era do mesmo tamanho da que era usada na cozinha da ferraria para cozinhar ovos, por isso sabia que tinha menos de três minutos para resolver a charada.

Três minutos para recuperar o que tinha pego emprestado.

Três minutos...

Debaixo dos seus pés os remos rangiam e as correntes chacoa­lhavam.

Se não pagar, você vai descer

E sentar-se com os que estão embaixo e sofrer.

 

O coração de Lief batia tanto que chegava a doer. Ele pegou uma das varetas de prata e a pôs de lado. Agora restavam 12 varetas na mesa e a “gaiola” de um dos besouros tinha apenas três paredes.

Com a mão esquerda no topázio, ele se inclinou para a frente e com a mão livre começou a mover as varetas de um lado para outro, tentando desesperadamente encontrar a solução. Mas, por mais que tentasse, não conseguia fazer seis gaiolas do mesmo tamanho.

O que ficar devendo precisa pagar...

A areia continuava a correr sem parar. O compartimento superior já estava pela metade.

“Acalme sua mente”, Lief disse a si mesmo. “Há um truque aqui. Um truque! Para descobri-lo, você precisa relaxar!”

Ele tirou os dedos do topázio e segurou a ametista que acalmava e tranqüilizava.

Uma sensação de paz tomou conta dele. Sua mente desacelerou e, quando isso aconteceu, um pensamento lhe ocorreu.

Se a charada consistia em fazer gaiolas com 12 varetas, por que havia 13 varetas, para começar? E por que as varetas tinham sido arran­jadas daquele jeito?

Para me distrair, ele concluiu de repente. Para fixar minha mente em gaiolas de um determinado formato...

Ele observou as varetas de prata com novos olhos. E então viu a resposta.

Olhou para a ampulheta. Havia apenas um montículo de areia no compartimento superior. Só lhe restavam mais alguns segundos.

Rapidamente, ele rearranjou as varetas e colocou os besouros em seu lugar.

O último grão de areia passou pelo tubo da ampulheta. Uma fresta se abriu em silêncio no fundo da jarra de dinheiro e duas moedas de ouro caíram na mesa. Lief as apanhou com um grito de triunfo e pulou da cadeira.

Barda soltou um gemido de alívio.

Lief se virou para olhá-lo, segurando as moedas na mão fechada.

— Duas moedas! — ele exclamou. — Uma moeda para pagar nossa dívida, e outra para guardar como lembrança.

— Uma lembrança! — Barda murmurou, enxugando o suor da testa com a mão trêmula. — Pelos céus, eu podia passar muito bem sem uma lembrança dos últimos minutos. Acho que eles tiraram dez anos da minha vida!

O entusiasmo de Lief desapareceu de repente. Por um momento, a emoção de ganhar o fez esquecer onde estava. Mas agora ele se lem­brava muito bem.

Os seres amaldiçoados debaixo de seus pés ainda estavam remando. Os sons gelavam o seu sangue. Cada movimento dos remos fazia o navio ficar mais longe de Bone Point, mais longe da esperança de serem res­gatados.

— Vamos sair desta prisão — ele murmurou.

Depressa, ficando o mais junto possível, ele e Barda voltaram para o baú.

— Jogamos um jogo e assim pagamos nossa dívida — Lief disse em voz alta. Ele jogou uma das moedas que tinha ganho na pilha dourada do baú. Ela caiu sobre as outras com um suave tilintar.

Eles se viraram e começaram a andar para o outro lado do apo­sento.

Dessa vez, eles avançaram e momentos depois estavam parados diante do quadro, que olhavam espantados.

A pintura era lisa como vidro, mas dentro dela o mar pintado se movia lentamente, e as nuvens flutuavam num céu manchado de vermelho.

E, erguendo-se no centro, inconfundível, estava o contorno alto e branco do farol de Bone Point.

— O que é isso? — Barda indagou, respirando fundo. — O quadro parece vivo! Ele se move como o reflexo num espelho. Mas é uma pin­tura. Apenas um quadro do farol de Bone Point como visto...

— ...do mar — Lief concluiu. Seu couro cabeludo formigava. — Acho que isso é um espelho, Barda. Ou era. Veja a assinatura. Verity criou essa ima­gem. Era como ela via o farol de Bone Point da proa do Dama da Sorte.

Ele enxugou as mãos suadas no casaco.

— Verity estava presa, mas parece que não era uma prisioneira comum — ele disse. — De alguma forma, ela fez aparecer nesse espelho a imagem do que podia ver. Ela a criou com o poder de sua mente, assim como uma vez usou tinta e papel para fazer os quadros pendurados nas paredes do farol.

— Não pode ser! — Barda sacudiu a cabeça sem acreditar.

— Verity nasceu no farol — Lief disse devagar. — A magia de Tora enchia o ar que respirava desde seus primeiros dias de vida. Não seria de surpreender se ela tivesse dons poderosos próprios, mesmo que não tivesse consciência deles até...

— Até o mal e o terror entrarem em sua vida pela primeira vez, na pessoa do capitão James Gant — Barda terminou tristemente. — Parece que então seus dons despertaram. Não depressa o bastante para salvá-la, mas a tempo de deixar essa imagem para trás, como lembrança de tudo o que perdeu.

Lief assentiu e franziu a testa. De repente, ele se viu imaginando o que Jasmine diria sobre isso.

“Mas como?”, — ela exclamaria. “Se Verity não podia usar sua magia para se salvar, por que ela não a aplicou em alguma coisa útil?”

Alguma coisa útil...

Lief olhou novamente para a pintura e, dessa vez, viu uma coisa que não tinha notado antes.

— Barda — ele disse devagar. — Você sabia que o nome “Verity” significa verdade?

— Sim — Barda respondeu. — E daí? — Sem querer abandonar a esperança de que a pintura estivesse escondendo uma porta, ele deslizou os dedos ao redor da moldura de ouro, procurando inutilmente uma mola ou fecho.

— Tem coisas nessa pintura que não são reais — Lief murmurou. — Você está vendo?

Barda parou e olhou para a imagem. Em seguida, franziu a testa e recuou um pouco para enxergar melhor.

— Para começar, o mirante do farol não está aqui — Lief disse. Ele estendeu a mão e tocou o lugar onde o mirante deveria estar.

No mesmo instante, ele sentiu a ponta do dedo formigar e alguma coisa brilhou debaixo dela.

Barda abafou um grito e Lief tirou a mão imediatamente. Ele esfregou a ponta do dedo quente e observou a pintura, espantado.

O mirante agora brilhava no lugar onde ele tinha colocado o dedo. As grades vermelhas contrastavam vivamente com o branco da torre. E... era sua imaginação... ou a luz do farol estava mais forte?

Vou brilhar como a verdade em meio à escuridão...

— A pequena baía onde vi Verity pela primeira vez também não está aqui — Barda disse devagar. — Ela deveria estar ali, do lado esquerdo, ao norte do farol. Mas a pintura mostra apenas as rochas.

Lief concordou com um gesto de cabeça. Mais uma vez, ele esten­deu a mão e tocou o lugar. E, novamente, no mesmo instante, o quadro mudou. A luz brilhou mais forte e debaixo da ponta de seu dedo, onde antes só havia pedras, a pequena baía brilhou completa, com algas, conchas e o barco vermelho destruído.

— Mas o barco certamente não estava quebrado naquela época — Barda exclamou. — Verity o usava para pescar.

— Sem dúvida, Jack Risonho o destruiu antes de levar Verity para o navio — Lief deduziu. — Para evitar que Red Han remasse atrás deles quando finalmente escapou do quarto em que ficou trancado.

Enquanto falava, ele percebeu que os sons debaixo de seus pés tinham ficado mais fortes e que os movimentos do navio tinham ficado mais agi­tados. Era como se os remadores mortos estivessem ficando inquietos.

— A água — Barda disse com voz rouca. — Está parada demais. As ondas não estão formando espuma nas rochas. E veja! Os pássaros estão carregando galhos de frutas d'água. As pessoas na costa as usam para comer e matar a sede. Mas não os pássaros. Eles são... carnívoros.

Ele curvou os ombros e esfregou a boca com as costas da mão como se desejasse não ter dito as últimas palavras.

Lief estendeu as duas mãos e tocou a água na ponta da península e as frutas levadas por um dos pássaros.

Ele sentiu um solavanco e pulou para trás com um grito agudo. Dessa vez, com o toque de seus dedos, todo o quadro mudou.

Uma cena totalmente diferente estava dentro da moldura agora. Era o convés do Dama da Sorte, e não era uma pintura, era real.

Lief sentiu a mão de Barda fechar-se em seu pulso. Talvez Barda estivesse falando, mas ele não ouvia nada. Seus ouvidos estavam tomados por outras vozes, os gritos dos pássaros e o ranger das tábuas do navio.

Vultos se moviam debaixo da superfície lisa do vidro: o homem com cara de rato e gorro de tricô, o homem com o tapa-olho e todo o resto da variada tripulação do navio.

Um rolo de corda pendia da mão do homem com cara de rato. O bruto com o tapa-olho segurava uma espada. Os dois estavam suando, com olhares selvagens e injetados de sangue. O resto da tripulação estava carrancuda, mexendo-se inquieta, com os olhos fixos no vulto silencioso amarrado ao mastro na proa do navio.

Era evidente que Verity tinha sofrido durante vários dias. Seus cabelos pendiam emaranhados e sem vida sobre os ombros. O casaco e a camisola estavam endurecidos pelo sal. Pássaros voavam acima dela formando uma nuvem agitada.

...os pássaros famintos virão e você vai gritar bem alto quando eles come­çarem a fazer um banquete do seu corpo, garota...

Lief quis se virar, mas não conseguiu. A imagem em movimento o manteve parado no lugar. E uma voz sussurrava em sua mente.

Olhe! Veja! Esta é a verdade dos fatos! A verdade...

Além da nuvem de pássaros, muito acima da água azul e tranqüila, o farol de Bone Point brilhava desafiador. Red Han não tinha cedido.

O bando de pássaros se separou ligeiramente. O coração de Lief bateu forte quando viu o rosto de Verity claramente pela primeira vez.

Para sua surpresa, ele estava liso e sem marcas. E, enquanto ele obser­vava a cena, o pássaro que levava um pequeno galho de frutas d'água chegou muito perto da boca da garota.

Verity abriu os lábios, o pássaro pressionou as frutinhas em sua boca e segurou o galho enquanto ela comia.

“Eles a estão alimentando!”, Lief, pensou atordoado. “Em vez de atacá-la, eles estão...”

O seu coração se apertou no peito quando alguém gritou zangado, com a voz ríspida. Ele olhou hipnotizado, quando a tripulação se afastou para os lados, aos tropeços, e Jack Risonho subiu ao convés, furioso e mostrando os dentes.

— Não mandei espantarem os pássaros para longe dela, Scrawn? — Jack Risonho vociferou para o homem com cara de rato que segurava a corda.

— Estou tentando, capitão, de verdade — ele choramingou se enco­lhendo. — Os meus braços estão até doendo de tanto tentar.

Ele virou a cabeça na direção do homem com o tapa-olho.

— Beef também tentou, comigo e com outros dez. Mas esses pás­saros são espertos, capitão. Enquanto espantamos um grupo, outros chegam devagarinho e se aproximam dela.

— Isso não é normal — Beef grunhiu. — As criaturas estão enfeiti­çadas.

— E o mar está amaldiçoado — outra pessoa disse do fundo da mul­tidão. Não vimos uma onda ou um sopro de vento desde que a garota subiu a bordo.

— É verdade! — nervoso, o homem com os dentes amarelos e tortos estava mordiscando o polegar. — Sete longos dias e a bruxa ainda está viva, recebendo água e comida de suas criaturas. E o farol ainda está aceso. E nós estamos aqui, apodrecendo, com as velas penduradas como trapos e sem escravos para remar...

— Silêncio! — Jack Risonho berrou. Seus olhos fundos faiscaram quando ele olhou para Verity, os pássaros que voavam em sua volta e, além deles, para o farol de Bone Point.

 

De repente, as imagens em movimento desapareceram e Lief e Barda se viram olhando outra vez para o quarto de Verity. A imagem em tom pastel, misteriosa e cheia de segredos, flutuava lentamente debaixo da superfície de vidro.

“Mas ela vai revelar seus segredos a quem procurar a verdade”, Lief pensou. “É por isso que está aí. Precisamos corrigir as mentiras. Revelar o que está escondido...”

Devagar, ele se conscientizou do coro de gemidos e resmungos cada vez mais fortes que se misturavam ao ranger dos remos debaixo de seus pés. Ele olhou em torno de si e viu que a luz da grande sala tinha ficado mais fraca. As velas estavam quase se apagando.

— Há quanto tempo estamos neste aposento? — ele sussurrou. — Não parece tanto tempo assim...

Inquieto, Barda se mexeu ao lado dele.

— Afaste-se, Lief — ele disse. Seja lá o que esse quadro for ou como tenha sido criado, não devemos procurar mais nada nele. Através dele, o passado revive. Os seres infelizes lá embaixo sentem isso e não gostam nem um pouco.

— Se isso for verdade, é porque a verdade vai nos libertar — Lief murmurou.

— Não! — Barda sussurrou. — O passado não pode ser mudado e é melhor esquecê-lo. Seríamos idiotas se deixássemos os remadores ainda mais perturbados, Lief. As velas vão se apagar logo e não sabemos o que vai acontecer depois.

Impaciente, ele pegou Lief pelo braço.

— Venha e me ajude a encontrar a saída — ele disse. — Pagamos a nossa dívida e, de acordo com os versos da entrada, somos livres para ir embora. Só precisamos encontrar a porta.

— Prefiro confiar em Verity a confiar em Jack Risonho — ele disse devagar, sem sair do lugar.

Seus olhos ainda estavam fixos na pintura. A luz estava mais bri­lhante do que antes. A pequena baía e o mirante do farol ainda brilha­vam em seus lugares. Naquele momento, a pintura estava mais correta do que antes, mas havia mais coisas a serem feitas.

Um peixe saltava entre os pássaros no ar, e Lief o tocou. Ele desapareceu e voltou cintilante para debaixo da água, onde era o seu lugar. Lief viu que faltava uma asa a um dos pássaros e que havia um segundo sol no céu. Tocou os dois erros, e eles foram corrigidos no mesmo instante.

Ansioso, ele se virou e examinou a grande sala, mas nenhuma porta ou abertura tinha aparecido como passe de mágica entre os espelhos.

E, para complicar, a sala tinha ficado ainda mais escura. O cheiro de deterioração tinha ficado mais forte. Os uivos abafados de dor e raiva vindos de baixo, assim como as batidas e passadas zangadas, tinham ficado mais altos.

— Lief! — Barda chamou, puxando-o pelo braço.

— Preciso terminar isto — Lief disse, cerrando os dentes. — Preciso mesmo.

— As pedras no pé do farol são lisas, e não ásperas como deveriam ser — Barda disse depressa, grunhindo impaciente.

Lief tocou as pedras. A mudança aconteceu. Seis erros corrigidos agora brilhavam no quadro. A luz estava brilhando com tanta intensi­dade que deixou Lief atordoado.

Mas, quando ele olhou ao redor, nada tinha mudado.

— Deve haver outro erro para ser encontrado — ele balbuciou. Desesperado, ele procurou no quadro, mas não conseguiu ver mais nenhum erro. Nada...

Então, ele viu um pássaro que voava sozinho, alto no céu, no extremo do quadro.

O pássaro era grande demais: grande demais para ser real. Ele estendeu a mão e tocou a imagem.

E, de uma só vez, a pintura foi substituída por outra cena em movimento: o convés lotado e barulhento do Dama da Sorte, iluminado por uma estranha luz vermelha. Toda a tripulação parecia estar reunida. Scrawn, o homem com cara de rato e gorro listrado, estava ali, assim como Beef, com o tapa-olho preto, e o homem com os dentes tortos.

Verity ainda estava amarrada à proa, e o cansaço em seu rosto dei­xou claro que mais dias haviam se passado. O farol de Bone Point ainda iluminava o mar tranqüilo, mas os homens não olhavam para Verity ou para a luz. Em vez disso, eles estavam olhando para cima e apontando para o pássaro imenso que voava sobre o mar ao sul.

“Então, o pássaro gigante não era um erro”, Lief pensou atordoado. “Não era uma mentira pintada, mas, sim, uma verdade. Como o mar calmo e imóvel e os pássaros com as frutas d'água. Mas o que...”

Lief sentiu um nó no estômago quando percebeu quem era o pás­saro que voava no céu.

— Ak-baba! — Scrawn gritou, mostrando os dentes numa careta de terror. — E aqui estamos nós, como galinhas esperando para serem levadas por suas garras.

— O que ele está fazendo? — Outro homem choramingou. — Por que ele está circulando sobre o mar do oeste? O que ele tinha de fazer no Labirinto da Besta?

O coração de Lief saltou em seu peito e ele ouviu Barda grunhir assustado.

— E, por falar nisso, por que o céu continua vermelho tanto tempo depois do amanhecer? — Beef resmungou. — E aquelas nuvens a leste... vou dar um soco no primeiro homem que me disser que elas são normais.

— São agouros! — choramingou o homem de dentes tortos. — Maus agouros!

Ele parou de observar o Ak-Baba e voltou os olhos para Verity. Ela estava olhando para a frente, para a luz.

— Estamos amaldiçoados! — o homem gritou. — Estamos aqui há trinta dias sem fazer nada, e a garota ainda vive. Toda a natureza está se vingando de nós por causa dela. Nossa única esperança é libertá-la. Cortem as cordas!

Ele pegou uma faca e andou até a proa.

— Pare! — gritou uma voz como se fosse um chicote. O homem de dentes tortos ficou paralisado e os outros recuaram, quando Jack Riso­nho chegou ao convés.

— Recebi notícias — ele resmungou. — Inesperadas, mas bem-vin­das. Parece que não somos mais necessários aqui. — Você se sacrificou à toa, bruxa — ele disse, aproximando-se de Verity. — Aqui está uma coisa com que você e seu pai idiota não contavam. A magia que alimentava o farol de Bone Point se acabou.

— É mentira — a garota sussurrou.

O rosto ossudo de Jack Risonho se iluminou em um sorriso terrível.

— No amanhecer deste dia, o Cinturão de Deltora foi quebrado — ele zombou. — As sete pedras foram espalhadas. O Ak-Baba que você está vendo agora no céu carregou uma delas. Essa pedra nunca vai ser encontrada, assim como as outras.

Lief sentiu um estremecimento pelo corpo. Ele percebeu que ele e Barda estavam testemunhando acontecimentos que tinham ocorrido no exato dia da invasão do Senhor das Sombras, numa época antes de ele ter nascido, quando tantas vidas foram mudadas para sempre.

Seu olhar foi atraído para as nuvens baixas no horizonte, a leste. Muitas vezes, haviam lhe contado da escuridão que tinha coberto Del com a chegada do Senhor das Sombras. Agora, ele a estava vendo.

Lief olhou para as sete pedras que brilhavam nos medalhões de aço como para lembrar que Jack Risonho estava enganado, que as pedras tinham sido encontradas.

Antes perdida no Labirinto da Besta, o assustador domínio dos Glus, a ametista, símbolo da verdade, agora cintilava no Cinturão, brilhante como uma grande estrela roxa, faiscante como o farol de Bone Point.

A voz de Verity, rouca de dor e pelo prolongado silêncio auto-imposto, atravessou seus pensamentos. Depressa, ele olhou novamente para a imagem em movimento na moldura dourada.

— Del pode cair, James Gant — a garota disse. — Todo o reino pode cair diante do inimigo, que é seu mestre. Mas a magia de Tora é antiga e não depende do Cinturão. Pela vontade dos toranos, a luz vai conti­nuar a brilhar.

— É mesmo? — Jack Risonho riu satisfeito. — Bem, aqui está uma coisa que você não sabe. O rei e a rainha fugiram de Del ao amanhecer. Eles pediram ajuda a Tora, mas Tora quebrou seu juramento de lealdade e se recusou a recebê-los. Como resultado, os toranos foram expulsos, exilados pela magia dos próprios ancestrais.

O rosto cansado de Verity pareceu ficar um pouco mais pálido.

— Por essa você não esperava, não é, bruxa? — disse Jack Risonho esfregando as mãos contente. — E você sabe o que isso significa. Agora, a luz está acesa somente pela vontade e pelo esforço de seu pai teimoso. Mas, desprotegido, ele vai ser uma presa fácil.

— Se tocar a luz, vai ter de assumir os riscos, James Gant — Verity respondeu.

— A luz não é mais da minha conta — o homem disse com cara feia. — Ela vai se apagar sozinha depois que seu pai partir, e outras pessoas vão cuidar disso. Nós vamos voltar ao Rio Tor.

Ele se virou para a tripulação surpresa.

— Homens, aos remos! — ele gritou. — Precisamos partir em veloci­dade máxima. Recebi um aviso de que...

Um som forte cortou o ar. Jack Risonho se virou com os olhos arregalados de pavor. Verity estava rindo!

— Você não pode me enganar! — ela gritou. — O seu mestre está insa­tisfeito com você. Você falhou. Se a luz finalmente se apagar, não vai ser por sua causa, mas porque os toranos quebraram um juramento antigo. É por isso que ele nega a você o prazer de se vingar do meu pai.

— Silêncio! — Jack Risonho gritou.

Os cantos da boca de Jack estavam salpicados de espuma e seu olhar estava enlouquecido.

Ele tirou a faca do cinto e a apontou para a garota indefesa.

— Você vai pagar! — ele sibilou. — Você vai pagar com dor e sangue por todas as vezes que me desafiou. Quando estivermos a caminho...

Ele olhou para seus homens sobre o ombro como se tivesse acabado de perceber que eles não tinham se mexido.

— Por que estão parados aí de boca aberta? — ele gritou. — Eu dei uma ordem!

Os homens se entreolharam. Scrawn molhou os lábios e então falou.

— Não somos pagos para remar, capitão — ele disse mal-humorado.

— Não escolhemos viajar apressadamente da foz do Rio Tor até o mar. Imploramos ao senhor que parasse ao longo do caminho para substituir os escravos entregues aos Guardas Cinzentos por novos escravos que cuidassem dos remos. Mas o senhor não nos deu atenção.

Lief sentiu um estremecimento de terror. Então, o destino final dos jogadores infelizes que emprestaram dinheiro de Jack Risonho foi ainda mais terrível do que ele tinha imaginado. Era verdade que eles tinham manejado os remos do navio por algum tempo, mas haviam terminado suas vidas como escravos nas Terra das Sombras.

— Como vocês ousam questionar minhas ordens? — Jack Risonho vociferou. — O navio está numa região de calmaria. Se quisermos sair daqui, vocês precisam remar. Desçam!

— Já morreu gente demais lá embaixo, capitão — Beef retrucou.

— Isso não é nada bom.

— Nós... precisamos... ir ... para... o... Tor! — Jack Risonho disse devagar e furioso. — Ou, pelo menos, por ora, nos afastar desta península maldita, com suas rochas e bancos de areia, para um porto seguro mais para o sul.

Quando os homens ainda assim não se moveram, ele apontou o horizonte a leste com o dedo ossudo.

— Uma grande tempestade está se aproximando — ele disse quase aos gritos. — Vocês não estão vendo?

— Estamos, sim, muito bem — disse o homem de dentes tortos.

— E seja lá quem for que a tenha chamado, a bruxa ruiva amarrada no mastro ou o feiticeiro que o senhor chama de mestre, nós nunca vamos conseguir escapar dela. Estou dizendo que este navio está acabado! Este navio e seu capitão também — ele disse, virando-se para o resto da tripulação.

— Motim! — Jack Risonho gritou. — Você vai ser enforcado por causa disso, Coffin.

O homem chamado Coffin não deu sinais de que tinha ouvido.

— Não devemos nenhuma lealdade a James Gant — ele rugiu.

— Vocês todos sabem quem ele é! Ele fornece escravos para as Terra das Sombras e, em troca, tem este navio, boa comida, bebida e alguns poderes mágicos que lhe agradam. Mas isso é tudo o que ele tem? Ah, não!

O homem mostrou os dentes pontudos.

— Eu vi com meus próprios olhos o seu baú de tesouros na sala de jogos. Ele está transbordando de ouro que ganha roubando suas víti­mas antes de mandá-las para os remos. Mas alguma vez ele se ofereceu para dividir seus bens conosco? Não! Ele ficou tão rico quanto um rei, enquanto nós nos matamos por uma ninharia.

— Então, por que devemos arriscar nossas vidas por ele? — Beef grunhiu.

— É isso mesmo! — Coffin gritou. — Acho que devemos pegar o barco salva-vidas e ir para a praia, levar a moça conosco e soltá-la. Talvez então a vingança recaia sobre quem deve: sobre o nosso bravo capitão! Ele que use sua magia para se salvar, se puder!

 

Quase todos os homens grunhiram em acordo. Os que estavam mais perto de Jack Risonho puxaram as espadas e adagas. Com o rosto se retorcendo com medo e raiva, o capitão deu um passo para trás.

— Esperem! — ele gritou com a voz hesitante. — Esperem! Vou propor uma barganha a vocês.

Os homens hesitaram.

— Não escutem o que ele diz! — Coffin gritou. — Ele mente com a mesma facilidade com que respira.

— Não! Escutem! — Jack Risonho gritou, juntando as mãos. — Per­cebo agora que fui injusto com vocês. Mas vou compensar cada um, se me ajudarem.

Coffin fez cara feia e balançou a cabeça. Indecisos, os outros homens olharam uns para os outros e depois para as nuvens que, vindas do leste, corriam apressadas para eles.

— Cuidado! — Verity avisou. — Qualquer juramento que fizerem aqui vai prendê-los para sempre. Não vou poder evitar isso.

— Qual é a sua oferta, Gant? — Scrawn disparou, ignorando-a.

— Não quero perder meu navio — Jack Risonho se queixou. — O Dama da Sorte é tudo o que me importa. Assim, eu prometo o seguinte: todos os tesouros vão ser de vocês se remarem até encontrarmos pessoas que possam substituí-los.

Ele baixou os olhos com humildade, mas Lief viu que ele estava espiando os homens por entre os cílios e que sua boca fina se retorcia nos cantos quando viu os rostos deles se iluminarem pela ganância.

Scrawn enxugou a boca com as costas da mão.

— Como vamos saber que vai cumprir a promessa, capitão? — ele perguntou desconfiado. — Como vamos saber se você não vai quebrar sua palavra quando este navio estiver em segurança?

Jack Risonho levantou o olhar e, solenemente, pôs a mão no coração.

— Todo o ouro é de vocês, meus leais tripulantes — ele disse com a voz trêmula. — Se eu pegar uma moeda sequer para mim, eu mesmo vou pegar nos remos. Juro por minha alma!

— Escutei suas palavras, James Gant, e elas vão cegar você! — Verity gritou da proa com a voz aguda como o canto dos pássaros.

Jack Risonho arregalou os olhos por um instante e então zombou dela.

— Então, de acordo com a bruxa, o meu juramento não pode ser quebrado — ele disse. — E quanto a vocês, homens? Não tenham medo, o tempo que passarão nos remos não será longo. Logo encontraremos substitutos para vocês.

Ele mostrou um sorriso perverso.

— Vocês sabem que a sala de jogos é uma teia. Vocês sabem que as moscas humanas entram nela com prazer e com freqüência. E vocês sabem que nunca, a menos que eu permita, elas conseguem se livrar. Cedo ou tarde, os idiotas tomam dinheiro emprestado e não conseguem pagar a dívida.

— Isso acontece porque eles têm de pagar três moedas para cada unidade que pegam emprestada, capitão — Scrawn riu. — Mas o aviso junto ao baú não diz nada sobre isso.

O estômago de Lief pareceu revirar. Ele escutou Barda soltar um gemido baixo.

— Ora, Scrawn, o meu pequeno aviso não mente! — Jack Risonho disse, erguendo uma sobrancelha num gesto de fingida inocência. — Ele diz claramente “pegue o que precisa, pague o que deve antes de par­tir”. Não é minha culpa se os convidados confundem seu significado e pensam que os dois valores são os mesmos.

A tripulação soltou fortes gargalhadas.

— Você torce a verdade para ganho próprio, James Gant! — disse Verity. — Você usa os poderes que lhe foram concedidos para se divertir com mentiras e perversidades. Mas eu vou deixar minha marca neste navio. Posso morrer, mas a verdade vai viver para aqueles que quiserem vê-la, e a verdade vai libertá-los.

O sorriso de Jack Risonho não desapareceu. Ele deu tanta atenção às palavras de Verity quanto dava aos gritos dos pássaros que voavam ao seu redor. Os olhos deles estavam presos em seus homens, obrigando-os a ouvir apenas a ele.

— Então! — ele disse entusiasmado. — Fechamos um acordo?

Os homens estavam sorrindo, concordando e esfregando as mãos. Ficou claro que estavam convencidos e deslumbrados pela promessa de riquezas com as quais nunca tinham sonhado.

— Não! — Coffin gritou. — Seus idiotas! Vocês vão nos destruir! Beef retorceu os lábios. A mão que segurava a adaga saltou para a frente.

Com um gemido abafado, Coffin se encolheu e caiu sem vida no convés. O sangue escorria do ferimento profundo nas suas costas.

— Muito bem, capitão — Scrawn disse devagar, enquanto Beef lim­pava a lâmina na jaqueta. — Vamos tomar os lugares dos escravos até que encontre outros para nos substituir. De acordo, pessoal?

— De acordo! — os homens à sua volta gritaram.

— Estou ouvindo suas palavras, tripulantes, e saibam que vocês estarão presos a elas para sempre! — Verity exclamou.

E, num piscar de olhos, Jack Risonho ficou sozinho no convés com a garota presa e o corpo estendido de Coffin, enquanto da parte inferior vieram os sons horríveis de correntes se arrastando e de homens gritando apavorados.

Jack Risonho ficou parado, aturdido, de boca aberta.

Olhe! Veja! Esta é toda a verdade! A verdade...

— Os seus homens estão nos remos, James Gant — Verity sussur­rou. — Realmente, eles tomaram os lugares dos escravos, e as correntes que os prendiam são deles, agora. Eles estão presos por seu juramento, assim como você está preso pelo seu. Eu avisei...

A voz dela desapareceu num grito abafado. Com um grunhido de raiva, Jack Risonho se voltara e a esfaqueara no coração.

Lief escutou o próprio grito de terror. Através de uma névoa escar­late, ele viu quando Jack Risonho puxou a faca ensangüentada.

Pássaros marinhos voavam em círculos no céu e gritaram sobre a cabeça da garota que morria lentamente enquanto o sangue de seu corpo se esvaía, escorria sobre a camisola branca e os pés descalços, direto para o mar.

Quando as primeiras gotas vermelhas tocaram a água, o mar se ondulou como se estivesse sofrendo.

A água fria e cheia de espuma espirrou no corpo inclinado de Verity. A maré carinhosa e suave fluiu sobre ela. E, quando voltou, tudo o que restava na proa era uma figura de madeira com as mãos cruzadas sobre o peito.

Com um rugido, ondas enormes se ergueram e caíram no convés do Dama da Sorte, derrubando Jack Risonho e jogando-o em meio à espuma agitada. O corpo sem vida de Coffin virou, batendo e se cho­cando contra o convés.

Mais ondas se ergueram, atacando como se o mar fosse uma besta poderosa que tentava partir o navio em pedaços. Coberto pela água do mar, o navio balançava violentamente de um lado para outro. Com um estalo agudo, o alto mastro se partiu e caiu no convés.

Embaixo, os homens acorrentados gritavam aterrorizados em busca da liberdade, enquanto a água inundava sua prisão e os envolvia. Mas Jack Risonho não prestava atenção a seus gritos. Ele nem mesmo olhou para a porta que levava à sala de remos.

Preocupado apenas com a própria sobrevivência, ele rastejou até o bote salva-vidas, jogou-se dentro dele e com sua faca cortou as cordas que o seguravam acima da água.

— Mestre, salve-me! — ele balbuciava. — Mestre, eu imploro... Nuvens de bordas vermelhas surgiram do leste. O som de uma tempestade se misturou ao bater das ondas. E, no meio do temporal, uma voz sibilante e aguda falou.

— Você é um idiota, escravo. Você merece morrer. Mas eu ainda preciso de você...

Houve um lampejo de luz brilhante seguido do som aterrorizante de um trovão. Surdos e meio cegos, Lief e Barda cambalearam para trás, segurando-se um no outro.

E, quando tornaram a olhar, a moldura dourada estava tomada mais uma vez pela imagem pintada do farol de Bone Point.

Os seis erros que Lief tinha corrigido ainda estavam brilhando, e a luz estava cintilando como uma estrela. Mas, quando se viraram para observar o resto da sala, só viram a escuridão. As velas finalmente tinham se apagado.

Eles ficaram parados, imóveis, acalmando-se e tentando inutil­mente enxergar a silhueta das mesas, das cadeiras, da porta esculpida e do baú do tesouro na outra ponta do aposento. Mas só conseguiam ver a pintura atrás deles e um pequeno pedaço do tapete vermelho aos seus pés. Era como se eles estivessem numa pequena ilha no meio de um mar escuro como carvão.

— Parece que nosso tempo acabou — Barda murmurou.

Foi então que Lief se conscientizou de que os gemidos e gritos tinham cessado. Eles foram substituídos por um silêncio tenso e cheio de expectativa que era ainda mais aterrorizante.

O silêncio continuou por alguns instantes. Então, Lief ficou rígido. Um som áspero, deslizante e rouco vinha de algum lugar adiante, perto do chão.

— O que é isso? — ele sussurrou. Ele saltou quando ouviu novamente o barulho, desta vez vindo da direita.

De repente, os sons se multiplicaram, vindos de todas as direções. Houve rajadas de vento gelado repletas de um mau cheiro que dificul­tava a respiração.

E houve o zumbido das vozes sussurrantes.

— Cuidado! — Barda exclamou, puxando-o para trás.

Somente então Lief percebeu o perigo. Um pedaço quadrado do chão vermelho, bem na sua frente, estava se abrindo, deslizando len­tamente para o lado com o mesmo som leve e áspero, revelando um buraco escuro e assustador.

Um cheiro de deterioração e água parada se desprendia do buraco. E, na escuridão, coisas se moviam. O suave brilho do quadro caiu pri­meiro nas pontas manchadas dos dedos estragados e retorcidos, depois nos ossos dos braços estendidos, envoltos em farrapos e que tilintavam por causa das correntes. Mais abaixo e voltados para cima, estavam os rostos medonhos dos remadores mortos, com os olhos queimando, as bocas sorridentes, balbuciando sem parar...

— O meu substituto... o meu...

Lief recuou quando os dedos estendidos procuraram a borda do buraco, tão perto de seus pés que ele imaginou poder sentir a respiração fria saindo dos restos de carne que ainda se prendiam aos ossos.

Ele não ousou falar. Seus ouvidos estavam cheios do som de seu coração que batia freneticamente.

Ele ansiava por escapar do buraco malcheiroso e das mãos que, semelhantes a garras, o procuravam. Mas, ao olhar para a escuridão, ele sabia que armadilhas como a que estava diante deles certamente ocupavam todo o chão do aposento.

Ele e Barda não podiam se mexer. Um passo em falso e estariam perdidos.

Ele tocou o Cinturão de Deltora. O topázio, a pedra da fé; o lápis-lazúli, a pedra celestial; a ametista, a pedra da paz e da verdade.

Paz. Verdade...

As palavras de Verity pareciam repicar em seus ouvidos.

Posso morrer, mas a verdade vai viver para aqueles que quiserem vê-la, e a verdade vai libertá-los.

Devagar e com cuidado, Lief se voltou para o quadro. Sem comen­tários, Barda também se voltou. Barda sabia, agora, que aquela era única esperança para eles.

Eles estavam tão próximos da parede que seus rostos quase toca­vam a imagem. Enxergar era difícil, mas... Sete erros. Sete... Deve haver...

— A estrada! — Barda sussurrou de repente. — Está faltando a estrada para o farol! Ela estava abandonada e coberta de mato quando a vimos, mas certamente na época de Red Han ela estava...

— Mas claro! — Lief pressionou o dedo no lugar em que a estrada devia vir ziguezagueando das colinas.

A ponta de seu dedo ficou quente. Ele teve a sensação de que o quadro brilhou quando a estrada apareceu, uma fita que ondulava e cintilava, dirigindo-se para as colinas distantes. E a luz... a luz de repente passou a brilhar como se fosse um farol.

Ela vai brilhar como a verdade em meio à escuridão...

Lief se virou. A luz cortava a escuridão. Seu facho largo e brilhante abriu um caminho cintilante no tapete vermelho e iluminou os quadra­dos escuros repletos de dedos estendidos. O caminho levou diretamente para a porta esculpida e fechada.

E a porta se abriu!

Uivos se ergueram do porão do navio.

— Corra! — Barda rugiu.

Juntos, eles correram pelo caminho de luz, desviando-se dos buracos cheios de garras que se estendiam para segurar seus tornozelos. Eles chegaram à porta e a atravessaram em disparada, saltando para o convés.

Os gritos zangados dos remadores enganados os perseguiram pelo ar. O convés tremeu sob seus pés quando mãos invisíveis bateram nele por baixo. E na proa, visível apenas através da névoa, a figura de proa que antes tinha sido Verity, olhava séria para a frente, com as mãos apertadas junto do coração.

Ambos ouviram a voz suave em suas mentes ao mesmo tempo.

Fujam deste lugar. Confiem no mar límpido.

Sem hesitação, os dois correram para a lateral do navio, saltaram por cima da amurada e mergulharam descuidadamente na água fria e escura.

 

Mais tarde, Lief e Barda não se lembraram de nada, além do pulo desesperado no mar e da água escura se fechando sobre suas cabeças. Quando recuperaram os sentidos, estavam deitados numa praia dourada sobre um monte de conchas e algas marinhas.

Pela cor do céu, eles viram que estava amanhecendo. O ruído fraco das ondas batendo na areia, regular como o bater de um forte coração, chegava aos seus ouvidos. Mas tudo estava em silêncio onde estavam deitados. O mar os tinha jogado ali, durante a noite, e os deixara dor­mir.

Eles se sentaram rígidos, olharam ao redor e então um para o outro. Mal podiam acreditar que estavam vivos.

A praia, marcada apenas pelas conchas e algas da linha da maré e pelas pegadas finas deixadas pelos pássaros, se estendia para os dois lados de onde se encontravam. Diante deles, estava o mar aberto. Atrás, as dunas de areia se erguiam umas depois das outras como se quisessem imitar as ondas.

— Acho que fomos jogados para o sul — Barda disse depois de um momento, com a voz rouca por causa do sal. — Bem ao sul de Bone Point, além do Labirinto da Besta, e da foz do Rio Tor. Como isso pôde acontecer?

— O navio estava se movendo quando pularmos no mar — Lief disse, com a voz áspera. — E já estava se movendo há bastante tempo. Ele...

Lief se levantou hesitante. Agora que estava totalmente acordado, teve consciência de uma sensação de inquietação e formigamento — como se estivesse sendo avisado de um perigo. Talvez ele até a tenha sentido enquanto estava dormindo. Ele teve a sensação de lembrar restos de sonhos que insistiam para que acordasse.

Lief observou o mar, mas não viu sinal do Dama da Sorte. Olhou para a direita e para a esquerda. A praia estava deserta. Ele se virou para as dunas silenciosas e, de repente, a sensação de inquietação ficou ainda mais forte.

Mas ela não fazia com que se afastasse das dunas. Ela o atraía naquela direção, com insistência...

Rapidamente, ele baixou os olhos e, mesmo na luz fraca do ama­nhecer, viu centelhas verdes e vermelhas no Cinturão preso à sua cintura. O rubi e a esmeralda brilhavam. As pedras não pressentiam nenhum perigo.

E o chamado era urgente.

— Precisamos ir — ele balbuciou. Sem mesmo esperar e se certificar de que Barda o acompanhava, ele quase correu para a base da primeira duna e começou a escalá-la.

Com um rangido, a areia seca escorregava debaixo dos pés de Lief, enquanto ele lutava para subir. Suas pernas estavam trêmulas quando chegou ao topo da duna.

À sua frente, havia apenas outra duna de areia ainda mais alta. Desajeitado, ele desceu correndo a primeira duna e começou a subir a segunda, novamente parando somente quando chegou ao topo.

Atordoado, olhou para a frente.

Dunas, nada mais que dunas, em tons de rosa, malva e roxo, erguendo-se contra o céu cada vez mais claro. Não havia sinal de movi­mento em nenhum lugar, mas o chamado era ainda mais forte.

Uma vertigem tomou conta dele. Seus joelhos fraquejaram e ele meio que caiu, meio que tropeçou duna abaixo, parando num monte de areia na base.

Ele ficou deitado ali, a cabeça como que flutuando. A areia caiu sobre suas pernas como chuva, quando Barda escorregou pela duna atrás dele. Então, ele sentiu a mão do amigo em sua cabeça, e um cantil de água foi encostado em seus lábios.

Ele bebeu agradecido e abriu os olhos. Barda estava agachado ao lado dele, tampando o cantil.

— Conte-me o que está fazendo, Lief, e eu vou seguir você de boa vontade — Barda disse exausto. — Esse lugar me traz lembranças desa­gradáveis das Dunas. Quem sabe o que está escondido debaixo delas.

— Sinto muito — Lief murmurou, erguendo-se para se recostar na base da terceira duna. — Eu... eu senti um chamado muito forte. Pensei em... Jasmine.

— Jasmine não pode estar aqui — Barda respondeu, balançando a cabeça. O vento que levou as Kins para longe do farol estava soprando para o oeste, não para o sul. Se Jasmine e as Kins sobreviveram à tem­pestade, certamente voltaram para Bone Point para procurar por nós.

— Se elas sobreviveram — Lief repetiu desanimado. Ele virou a cabeça e olhou para a fenda sombreada existente entre as dunas, porém, sem conseguir vê-la.

O coração de Barda também estava pesaroso, mas ele procurou mostrar que era forte.

— Não podemos fazer nada por Jasmine. Nossa tarefa agora é cuidar de nós mesmos — ele insistiu. — Esse chamado que você ouviu pode ser uma armadilha. O Senhor das Sombras...

Ele parou de falar quando viu que Lief não estava mais escutando. Lief arregalou os olhos e abriu a boca.

O silêncio repentino foi quebrado pelo som suave de areia caindo. Um calafrio percorreu o couro cabeludo de Barda. Ele pôs a mão na espada e lentamente se virou para acompanhar o olhar de Lief.

Algo estava se levantando das sombras da fenda: uma cabeça enorme e terrível, oscilando num pescoço coberto de escamas cinzentas que se retorcia e que ainda estava meio enterrado na terceira duna. Os dentes da besta estavam à vista num rosnado silencioso. Ela abriu os olhos: os olhos embaçados e achatados de um dragão.

— Não se mova — Barda ouviu Lief sussurrar com a voz quase tão baixa quanto o barulho da areia caindo.

A cabeça do dragão balançou. Areia caiu de suas escamas grossas e se derramou dos espinhos que cercavam as mandíbulas abertas.

— Chegue mais perto, rei de Deltora — ele ordenou. Lief se levantou, o rosto pálido de susto.

— Não, Lief! — Barda sussurrou. — Fique para trás! Este não é um dragão verdadeiro, é só uma cópia como a besta falsa e malvada que encontramos no Ninho do Dragão! A cor dele prova isso.

Sem falar, Lief olhou para o Cinturão de Deltora. Barda acompa­nhou seu olhar e viu primeiro o brilho forte do rubi e da esmeralda. Depois, exatamente antes de a mão de Lief se fechar sobre ele, ele viu que a grande ametista, a pedra da verdade, estava faiscando como um fogo arroxeado.

Espantado, ele viu Lief se mover para a frente com uma das mãos na pedra e a outra estendida.

Os olhos do dragão pareceram se abrir mais com a aproximação do rei. Devagar, ele curvou o pescoço até pousar a cabeça na areia.

E, quando a mão estendida de Lief tocou as bordas duras, frias e cinzentas sobre seus olhos, o monstro os fechou e soltou um suspiro profundo e trêmulo.

— Quase morri por sua causa, rei — ele murmurou. — Muitas vezes, em meu sofrimento, eu o amaldiçoei em pensamento. Mas você final­mente chegou. Agora, só espero que não seja tarde demais.

Horas se passaram até que o dragão falasse outra vez. Lief ficou ao seu lado com a mão na testa dele.

Lentamente, enquanto a ametista fazia sua mágica funcionar, as escamas cinzentas e desbotadas do dragão mudaram para malva e depois para roxo. Lentamente, os espinhos ao lado da boca endureceram e suas mandíbulas relaxaram. De vez em quando, ele lutava como se tentasse se libertar. Mas somente sua cabeça e parte do pescoço eram visíveis acima da areia.

Finalmente, ele abriu os olhos. Lief viu que eles não estavam mais embaçados, agora brilhavam como pálidas violetas.

— Você está melhor — ele disse.

— Estou melhor do que antes — ele concordou, resfolegando leve­mente. — Mas isso não quer dizer muita coisa. Agora sei o que significa ser fraco como uma presa. Não é agradável.

— Não, não é — Lief respondeu.

Ele hesitou e resolveu correr um risco.

— O que aconteceu com você? — Lief perguntou, de repente. — Como aconteceu de você chegar tão perto da morte quando o encontramos?

— COMO? — o dragão vociferou, levantando a cabeça. Lief e Barda se encolheram e recuaram. O dragão tossiu e baixou a cabeça na areia novamente.

— Senti sua presença no meu território — ele disse. — Senti o cha­mado da ametista vindo de longe. Foi exatamente como o Amigodosdragões tinha dito que seria. O juramento que fiz a ele voltou aos meus sonhos e eu acordei no meu esconderijo debaixo da areia.

As escamas de sua cabeça e do seu pescoço pareceram estreme­cer.

— Mas a duna aumentou desde que eu me enterrei pela primeira vez — ele continuou. — A areia era pesada e a fome me deixou fraco. Comecei a lutar para subir e então, de repente, você tinha ido embora e fui deixado aqui, sem forças para me libertar.

Seus olhos brilhavam cheios de censura.

— Assim que cruzamos a sua fronteira, fomos carregados para o mar, mas não por nossa culpa — Lief explicou.

— Foi coisa do Senhor das Sombras — Barda ajuntou com firmeza, quando o dragão soltou um leve grunhido. — Nós também quase mor­remos por causa disso, dragão. E você sabe disso muito bem.

— O Amigodosdragões disse que eu acordaria quando você viesse — ele disse para Lief, mal olhando para Barda. — Ele não disse que eu poderia morrer tentando.

— Acho que Doran, o Amigodosdragões, acreditava que, se o Cin­turão de Deltora fosse novamente usado pelo herdeiro de Adin, isso significaria que o Senhor das Sombras tinha sido destruído — Lief disse hesitante. — Mas, infelizmente, isso não é verdade. Deltora está livre e os sete Ak-Babas não vigiam mais os nossos céus, mas o Senhor das Sombras ainda é poderoso. Mesmo do exílio, ele tenta nos destruir.

— Ah! — o dragão murmurou, balançando a grande cabeça. — Sim. Eu me lembro de ter imaginado que seria assim. Acho que me lembro de dizer ao Amigodosdragões que o inimigo nunca iria desistir.

Seus lábios se retorceram.

— Mas, é claro, o Amigodosdragões não me escutou. Ele era agitado e impaciente. Estava concentrado em seus planos e não queria ouvir críticas.

— Ele queria salvar você — Lief disse devagar e se encolheu quando os olhos da besta faiscaram.

— Você não precisa dar desculpas para o Amigodosdragões, jovem rei! — o dragão sibilou. — Ele era uma ótima pessoa! Tinha o coração de um dragão e era meu verdadeiro amigo. Mas apenas tolos se recusam a ver as falhas naqueles que amam.

Lief engoliu em seco e concordou, sentindo-se jovem e desajeitado. Lentamente, a chama da raiva desapareceu dos olhos do dragão.

— Não há dúvida de que o Amigodosdragões está morto — ele disse após uns instantes. — Se estivesse vivo, ele teria vindo com você para me encontrar. E o peso da areia que sinto em cima de mim diz que se passaram muitos anos desde que nos despedimos.

— Sim — Lief disse sem jeito. — Sinto muito.

— Ah — o dragão ficou muito quieto. — E os ossos dele estão fecha­dos em algum lugar de honra numa cidade de humanos? Ou eles estão debaixo de uma pedra coberta de musgo, num lugar solitário como ele sempre desejou?

Lief hesitou. Ele viu Barda abrir a boca para falar e lhe lançou um olhar de advertência.

O dragão estava fraco e sofria. Agora, não era o momento de aumentar sua dor. Ele não gostaria de saber que Doran não tinha sido enterrado com todas as honras, mas que, no fim, tinha sido conside­rado louco por seu povo. Ele não gostaria de saber que o amigo tinha morrido numa frenética e fracassada busca pelas Quatro Irmãs e que, sem dúvida, tinha perecido de modo horrível nas mãos do Senhor das Sombras.

O arrogante tem o destino que merece...

Lief sentiu o estômago revirar ao se lembrar daquela voz que saía sibilante do cristal destruído na ferraria em Del.

— Não sabemos onde Doran foi enterrado — ele disse finalmente.

— Ele nunca voltou de... sua última aventura.

O dragão assentiu com um gesto sem surpresa.

— Então, de certa forma, ele conseguiu o que queria — ele disse.

— É estranho pensar num mundo sem o Amigodosdragões. Estranho e solitário, porque, depois que o último membro da minha tribo morreu, ele foi meu único amigo.

Suspirando, ele apoiou a cabeça na areia mais uma vez.

— Mas eu vou vê-lo em breve e ouvir o seu riso onde os meus ances­trais voam acima do vento — ele murmurou. — Tenho certeza de que ele vai estar com eles, pois Doran sempre disse que os dragões eram mais seus familiares do que os de sua própria espécie.

— Mas... mas do que você está falando? — Lief exclamou. Surpreso, o dragão olhou para ele.

— Estou morrendo — ele disse simplesmente. — Você não entende? Você chegou tarde demais, rei de Deltora. Parece que nem mesmo a ametista pode me ajudar agora. Pensei que talvez... mas não vai adian­tar. Lutei durante muito tempo. Não consigo encontrar forças para me libertar e, assim, o meu refúgio vai se transformar em meu túmulo.

— Não diga isso! — Lief gritou.

— Por quê? — o dragão perguntou. — É verdade.

— Mas você ficou preso somente por uma noite, dragão! — Barda afirmou no tom que costumava usar para animar as tropas exaustas.— Certamente, você não está tão fraco!

O dragão olhou para ele durante um curto momento e então se virou para Lief.

— A experiência difícil no mar confundiu a mente de seu amigo — ele disse. — Ele...

De repente, o dragão parou de falar, levantou a cabeça e sua língua bifurcada agitou-se para dentro e para fora da boca, sentindo o gosto do ar.

— Pegue sua arma, rei! — ele murmurou. — Estamos sendo invadidos.

 

Lief e Barda subiram a duna rastejando e espiaram com cuidado sobre o topo. Eles estavam olhando diretamente para o sol, mas conseguiram ver, cintilando na distância, um vulto comprido e ondulante.

O vulto se aproximava muito depressa. Seu centro era escuro, mas as extremidades tinham cores vivas que se agitavam como asas.

Então, finalmente, os olhos atordoados de Lief compreenderam o que viam. A forma se separou em outras cinco: cinco vultos de mãos dadas.

Os vultos das extremidades usavam túnicas longas e flutuantes, uma vermelha e outra azul. Entre os que se encontravam no centro, um era alto e escuro, outro apenas uma embaçada mancha azul-acin­zentada e o do meio...

Lief olhou sem acreditar. Seu coração deu um grande salto. No momento seguinte, ele estava se levantando, gritando e agitando furio­samente os braços sobre a cabeça.

Barda estava urrando e acenando atrás dele, mas Lief quase não percebeu isso. Tonto de alegria, ele só tinha olhos para a garota de cabelos pretos no centro da linha cintilante e ouvidos somente para seus gritos fracos e distantes que flutuavam até ele sobre a areia.

Voando por cima da cabeça da garota, um pássaro preto ficou visível.

“Kree”, Lief pensou atordoado. “Kree, voando... mas ele só os está acompanhando! Como...”

E então ele se deu conta de que os vultos vestidos de túnicas eram Zeean e Marilen de Tora e compreendeu tudo. Ele mesmo tinha viajado a grande velocidade nas asas da magia de Tora.

Fascinado, ele viu os cinco vultos serem trazidos até eles.

Lief se lembraria por muito tempo daquele encontro no lugar chamado de Dunas Adormecidas.

Primeiro foi Jasmine ralhando, rindo e gritando, alternadamente, enquanto o abraçava. Depois, o antigo assistente de Josef, Ranesh, radiante, com o braço ao redor de Marilen, apertando sua mão. E Zeean, o rosto enrugado rejuvenescido pela alegria. E Manus de Raladin, com as pequenas mãos cruzadas e os olhos de botão arregalados, tão calado como na primeira vez em que o tinham encontrado, mas dessa vez com uma expressão aliviada.

Depois, veio uma série de choques.

Primeiro, foi a surpresa de Lief e Barda ao saberem que o navio Dama da Sorte ficou invisível para todos os que procuraram por eles e que eles estiveram perdidos não só por uma noite, mas por dez longos dias!

Houve o choque dos recém-chegados quando, cheios de admiração, olharam para o dragão da ametista preso na duna.

Houve o choque do dragão quando Zeean garantiu vivamente que ele não iria morrer. E seu choque ainda maior quando, não muito tempo depois, uma centena de toranos chegaram às dunas, levantaram os braços e enviaram a areia que o aprisionava para longe, libertando-o finalmente.

— Não esperava por isso — a besta disse a Zeean, flexionando os membros poderosos e alegremente desdobrando as asas amassadas e cheias de areia. — Eu tinha aceitado o meu destino, mas agradeço a você, mulher de Tora.

E, rígido, ele fez uma reverência.

— Foi uma honra ajudá-lo, dragão da ametista — Zeean respondeu, curvando-se também. — Que você e seus descendentes possam voar muito pelos céus de Tora.

— Veremos — o dragão retrucou, erguendo as asas para o sol.

Havia tanto sobre o que falar, tanto a explicar, tantas perguntas a responder!

— Dez dias! — Barda balbuciou. — Como isso pôde acontecer?

— Parece que o tempo não passa no Dama da Sorte — Lief comentou. Ele olhou para o mar e, durante um momento, pensou ter visto um vulto escuro e esfarrapado e as extremidades de remos se movendo.

Lief ficou rígido, olhou novamente e viu apenas a água manchada de branco e o brilho arroxeado do dragão lentamente desaparecendo nas sombras.

Com o coração batendo forte, virou-se para os companheiros. Era evidente que não tinham visto nada.

— Vim a Tora para inspecionar o farol de Bone Point — Manus expli­cou. — Mal sabia eu que acabaria procurando amigos perdidos!

“Eu imaginei ter visto o navio”, Lief disse para si mesmo. “Foi uma sombra, uma visão nascida do medo. Isso é tudo.”

— Foram dias difíceis — Zeean contou com um suspiro. — Na manhã seguinte ao dia em que Jasmine e as Kins pediram nossa ajuda, nós, em Tora, percebemos a passagem de uma sombra, como se uma nuvem tivesse deslizado sobre o sol. Pensei que era um sinal de que você tinha morrido.

— Não acreditei nisso — Jasmine replicou com firmeza.

— É verdade — Zeean concordou, sorrindo. Ela olhou para Lief e Barda como quem se desculpava. — No fim, Jasmine era a única que ainda tinha esperança de que vocês fossem encontrados vivos. Os outros tinham certeza de que estávamos somente procurando os seus corpos afogados e o Cinturão.

Lief segurava a mão de Jasmine enquanto Zeean contava sua história.

Jasmine tinha acompanhado as buscas todos os dias. Todas as noites, tinha tomado a Água dos Sonhos e fixado o pensamento em Lief. E, depois de nove dias sem resultados, de repente lá estava Lief... vivo... deitado numa praia com Barda em um lugar em que as dunas se erguiam como ondas correndo de volta para o mar.

— Quando Jasmine me acordou e me contou sobre o lugar que tinha visto, eu sabia que eram as Dunas Adormecidas — Zeean disse. — Viemos imediatamente, mas confesso que eu tinha poucas esperanças. Como vocês podiam estar tão ao sul, quase na fronteira do nosso território e, ainda por cima, vivos? Pensei que o sonho de Jasmine mostrava apenas seus desejos, e não a verdade. Que bom que eu estava errada!

Ao cair do sol, tendas toranas se agitavam como borboletas de seda gigantes nas dunas. Uma grande fogueira queimava alegre e o aroma de comida se misturava ao cheiro forte do mar. O dragão da ametista, revigorado e alimentado, tinha se recolhido para um lugar calmo perto da praia.

Lief, Barda e Jasmine, obrigados por Zeean a descansar, estavam sentados debaixo de uma cobertura de seda roxa, um pouco afastados dos demais. Começava a esfriar, mas nenhum deles queria sair dali.

Eles resistiram aos esforços de Zeean para convencê-los a voltar para Tora e descansar. O acaso perverso que os tinha atrasado também os tinha deixado muito perto de seu objetivo. Eles queriam continuar a jornada o mais depressa possível.

Foi mais difícil resistir ao forte desejo de Ranesh de acompanhá-los.

— Não importa o que vocês estejam fazendo, para onde estão indo, tenho certeza de que posso ser útil para vocês! — Ranesh tinha argumen­tado, assim que pôde falar a sós com os companheiros.

— Você já está sendo útil — Barda garantiu. — Você não está ajudando a reconstruir Onde as Águas se Encontram, a cidade em que cresceu?

A expressão de Ranesh ficou séria e ele desviou o olhar.

— Esse trabalho está terminado — ele murmurou. — As pessoas que voltaram têm casas seguras. Pelo menos isso, pois há pouca comida, a água da nascente não é boa e as águas dos rios Tor e Largo não servem para beber. Fico quase todo o tempo em Tora agora. E Tora, embora seja o lar de Marilen, não me agrada muito.

Lief bem podia imaginar. O amor de Ranesh por Marilen o tinha levado para Tora, mas era evidente que a vida calma e elegante da cidade mágica não tinha muito a ver com ele.

“Assim como também não teria muito a ver comigo”, Lief pensou. “Ranesh deve detestar o fato de que nenhum dos luxos que Tora oferece pode ser usado para as pessoas que passam fome do lado de fora de seus muros. A comida servida na mesa do sogro certamente tem um gosto amargo para ele.”

A boca de Ranesh se retorceu num sorriso triste.

— Além disso, Josef pode me achar muito facilmente em Tora — ele disse. — Quase todos os dias, um pássaro-mensageiro traz uma mensa­gem dele se queixando dos erros de Paff e implorando para que eu volte a Del. Mas como posso voltar?

Ele balançou a cabeça desesperado.

— Não sei nem se quero passar o resto da minha vida trabalhando numa biblioteca! E, mesmo que quisesse, não posso deixar Marilen! No entanto, como posso continuar a recusar os pedidos de Josef, quando eu o amo tanto e ele está com tantos problemas? Eu me sinto numa armadilha.

Ele franziu a testa como se tivesse falado demais. Então, sem dizer mais nada, ele se levantou e andou pelas dunas.

Os companheiros o observaram afastar-se.

— Sinto muita pena dele — Jasmine disse. — Sei o que é se sentir inútil... e preso numa armadilha. Eu sentia a mesma coisa em Del, quando ainda vivia no palácio e antes de começar a treinar os pássaros-mensageiros. Era uma verdadeira tortura.

— Ranesh lutou muito tempo contra as adversidades para se aco­modar a uma vida onde tudo é facilitado pela magia — Barda concordou. — Mas não podemos levá-lo conosco. Ele precisa resolver os próprios problemas da melhor forma possível.

Eles ficaram em silêncio. Jasmine começou a alimentar Filli com algumas nozes que tinha achado no bolso. Barda pegou a caixinha que carregava consigo desde as Colinas Os-Mine.

Lief o observava com preguiça. Duas varetas lisas agora saíam da superfície esculpida do pequeno cubo, mas a caixa continuava teimo­samente trancada. Ele se perguntou se algum dia Barda conseguiria descobrir o seu segredo.

Ele se inclinou para trás e um papel fez barulho sob o seu casaco. Assustado, lembrou-se do pequeno pacote lacrado que Zeean tinha discretamente passado para ele.

— São mensagens para você, vindas de Del e enviadas antes de saberem de seu desaparecimento — ela tinha sussurrado, e Lief tinha jogado o pequeno pacote no bolso da jaqueta para abri-lo mais tarde, em particular.

Cansado, ele pegou o pacote e retirou o lacre.

Dentro dele, havia três pedaços de papel dobrados juntos. Ele os desdobrou quase com medo. Sabia que notícias vindas de Del não podiam ser boas.

O primeiro papel estava coberto por uma letra que ele conhecia bem.

Lief balançou a cabeça com tristeza. Como Barda e Jasmine o estavam observando, ele passou o bilhete para os dois.

— Não está em código? — Barda perguntou surpreso, olhando a carta.

— Acho que ele não teve tempo para escrever em código — disse Lief. — Perdição imaginou que iríamos ficar em Tora somente por algumas horas e queria ter certeza de que a mensagem chegaria a tempo. Mas ele usou um certo tipo de código, na verdade.

Jasmine estava lendo a carta do pai com cuidado.

— É mesmo! — ela exclamou. — O verdadeiro significado está nas palavras simples. Ele está feliz com a destruição da Irmã do Norte. Ele reconhece o pedaço de planta Boolong, então sabe que mandamos nossa mensagem da Montanha do Medo. Ele nos avisa de que agora o Senhor das Sombras vai estar ainda mais decidido em nos fazer recuar...

— Como se nós também não soubéssemos disso! — Barda resmungou.

— E ele diz para não escrevermos de novo tão depressa — Lief ajun­tou. — É óbvio que seu medo de que qualquer mensagem caia nas mãos erradas é ainda maior do que antes. Apenas as frases sobre o pobre Josef, colocadas no fim, são o que parecem.

Lief se concentrou na carta de Josef: duas páginas arrancadas com pressa de um pequeno caderno.

Ele sorriu. Josef deve ter detestado se ver obrigado a mandar uma mensagem tão mal escrita! Certamente, aquilo ia contra todas as suas idéias do que era adequado.

 

Lief franziu a testa e começou a ler a segunda página, que se mos­trou ainda mais confusa do que a primeira.

— O que esse falador disse? — Barda indagou, bocejando.

— Ele diz que Perdição está de mau humor e que estamos em perigo — Lief respondeu secamente.

— Ora, que novidade! — Jasmine riu. — Ele não disse mais nada?

— Ele acha que pode descobrir para onde estamos indo ao estudar os mapas e anotações de Doran. Ele quer que eu lhe diga se está certo.

— E você não vai fazer isso, vai? — Barda perguntou, olhando para ele.

— Claro que não. — Lief se deitou franzindo a testa e fechou os olhos. Ele não queria pensar em Josef, esperando em vão uma resposta para o seu pedido urgente.

E também havia outra coisa. A expressão de Lief ficou ainda mais preocupada. Ele tinha ignorado o agitado bibliotecário antes... e tinha se arrependido. Josef era inteligente e conhecia os Anais de Deltora como ninguém.

...alguma coisa sobre minhas descobertas me preocupa...

— Lief!

Lief abriu os olhos imediatamente. Manus estava parado diante dele com o rosto retorcido num sorriso de desculpas.

— Sinto perturbar você, Lief — Manus disse devagar. — Mas eu tenho uma promessa a cumprir.

Ele estendeu um pequeno pacote embrulhado em papel branco e amarrado com barbante.

— Quando fui de Raladim para Tora, parei na loja de Tom para comprar um pacote de Nada de Forno para a viagem — ele contou. — Tom me deu isto e disse que era para você.

 

Espantado e um tanto apavorado, Lief olhou para Manus. Como Tom, um estranho comerciante das planícies, tinha adivinhado onde ele estava? Eles só haviam contado para Perdição suas intenções de visitar Tora. Até mesmo as Kins não souberam para onde estavam indo até que estivessem no ar.

“Mesmo assim, o vento tinha vindo para Bone Point”, Lief lem­brou. “O vento da Terra das Sombras que nos tinha jogado para o mar e quase matou a todos. O Senhor das Sombras sabia onde nos encontrar. E agora parecia que Tom, o comerciante...”

— Você disse a Tom que ia me ver em Tora, Manus? — ele pergun­tou, preocupado.

— Claro que não! — Manus respondeu de olhos arregalados. — Como eu poderia? — ele guinchou. — Nem eu sabia! Pensei que vocês ainda estivessem viajando pelo nordeste e foi o que eu disse a Tom. Na ver­dade, eu disse que ele devia ficar com o pacote, pois você certamente passaria pela loja qualquer dia desses.

— E o que Tom respondeu? — Barda quis saber.

— Ele apenas sorriu, daquele jeito de quem sabe tudo, e disse que eu poderia ver vocês quando menos esperasse — Manus contou, franzindo o nariz. — Ele disse que eu devia lhe entregar o pacote com seus cumprimentos, mas que ninguém mais deveria saber disso.

Ele viu os companheiros se entreolharem e ficou preocupado.

— Vocês não parecem satisfeitos — ele murmurou. — Espero não ter feito nada errado.

— Não, Manus, não! — Lief se apressou em dizer. — Nós estamos surpresos, só isso.

Ele pegou o pacote e o virou nas mãos. Não havia nada escrito no papel.

— Abra, Lief! — Jasmine pediu ansiosa.

Lief puxou o barbante. O papel caiu e revelou um frasco de pedras para acender fogo e um saquinho de doces grandes e compridos com listras cor-de-rosa que tinham um forte cheiro de hortelã.

— Olhem só! — Manus exclamou, inclinando-se para a frente. — Ele mandou um presente para vocês!

— Um presente de Tom? — Barda grunhiu. — Não acredito nisso. Esse homem só pensa em negócios. Ele nunca deu nada para ninguém em toda a sua vida, a menos que tenha sido obrigado.

— Não tem nenhum bilhete? — Jasmine perguntou curiosa.

Lief balançou negativamente a cabeça. Ele alisou o papel branco e grosso e o observou na luz cada vez mais fraca. Os dois lados eram lisos e não tinham marcas.

— Os toranos pensam que vim buscar minha flauta — Manus disse, olhando por cima do ombro. — Eles disseram que gostariam de ouvir um pouco de música.

— E nós também — Barda respondeu animado. — Vá buscá-la então.

Manus sorriu e saiu correndo.

Os três companheiros olharam um para o outro e então para o saquinho de balas de listras cor-de-rosa diante deles na areia.

— Elas têm um cheiro e um aspecto muito bom — Lief disse ansio­samente. — Mas eu diria que seria tolice comê-las.

— É mesmo! — Barda concordou. — É melhor enterrá-las ou jogá-las no fogo.

— Que motivos teria Tom para nos envenenar? — Jasmine exclamou. — Talvez ele seja um malandro, mas não é um assassino. Ele adivinhou que estávamos em Deltora, mas isso não faz dele nosso inimigo. Afinal, Josef também alegou ter descoberto nosso paradeiro e não suspeitamos que ele tenha más intenções.

— Josef disse que Perdição não confia nele. — Lief estava com a testa franzida. Tinha sido um grande choque descobrir que suas andan­ças eram conhecidas por tantas pessoas, apesar de todo o cuidado que tinham tomado.

— Perdição só confia nele mesmo — Jasmine bufou.

O som doce da flauta de Manus chegou aos ouvidos dos compa­nheiros junto com o vento frio.

Pensativa, Jasmine apanhou o frasco de pedras para acender fogo.

— Pelo menos, sabemos o que é isto — ela disse. — Elas podem ser muito úteis para nós no futuro. Vou fazer um teste e usar uma delas agora.

Jasmine abriu um buraco na areia à sua frente, quebrou o lacre do frasco, pegou uma pedra e a colocou no buraco.

— Afastem-se, por via das dúvidas — ela ordenou. Lief e Barda foram mais para o meio da tenda.

Agachada sobre os calcanhares, Jasmine estendeu a mão e bateu na pedra com força com o cabo de sua adaga.

A pedra irrompeu em chamas, e nada mais aconteceu. Depois de alguns momentos, Jasmine colocou outra pedra e logo eles estavam usufruindo o calor e a luz de uma pequena, mas alegre fogueira.

Barda colocou as mãos sobre o fogo e balançou a cabeça.

— Então, era um simples presente afinal — ele murmurou. — Um presente de boas-vindas. Mas isso é muito estranho.

Lief se curvou para tirar o saquinho de balas e o papel de embrulho de perto do fogo, mas, quando o fez, algo o surpreendeu.

Palavras apareciam no centro do papel. Palavras marrom-escuras que não estavam lá antes.

Ele pegou o papel ainda quente do chão.

— Tom enviou uma mensagem, afinal! — ele exclamou. — Uma mensagem escrita com tinta invisível e que aparece apenas quando é aquecida.

— Foi por isso que ele mandou as pedras de acender fogo, para garantir que fizéssemos uma fogueira para começar — Barda disse, olhando fascinado o papel.

 

Caros clientes,

Como sabem, Tom não toma partido. Ele não se interessa por coisas que não são de sua conta.

Mas, devido as circunstâncias que estão fora de seu controle, parece que seus afazeres atuais são mais da conta de Tom do que ele gostaria que fossem. Talvez estivesse escrito que isso aconteceria. Ouçam um bom conselho: caso vocês passem por uma loja pertencente a uma mulher chamada Ava, não sigam em frente. Ava é uma mulher vaidosa e mal-humorada, mas ela enxerga mais que a maioria e, se estiver disposta, pode lhes contar muitas coisas úteis. Ela também aluga barcos. Ava sempre gostou muito de balas de hortelã. O saquinho que acompanha esta carta vai melhorar seu humor e convencê-la a ajudá-los.

Foi um prazer servi-los.

TOM

 

* Obs.: 1 frasco de pedras para acender fogo — 1 moeda de ouro. 1 saquinho de balas de hortelã, 2 moedas de prata. Por favor, acertem a conta assim que puderem.

** Obs.: A propósito, Ava é irmã de Tom. Ele prefere que esse fato não seja revelado a ninguém. Ele tem uma reputação a zelar.

*** Obs.: Queimem este bilhete.

 

Lief terminou de ler a mensagem e encontrou o olhar espantado dos companheiros.

Jasmine foi a primeira a se recuperar

— Estou atordoada! — ela disse. — E, principalmente, eu acho, por saber que Tom tem uma irmã! É impossível imaginá-lo como criança e fazendo parte de uma família.

— É óbvio que ele foi criança algum dia — Barda resmungou. — E parece que a irmã é uma criatura tão estranha quanto ele.

— Talvez até mais — Lief murmurou. — Mas quem disse que vamos conhecê-la? A loja dela pode estar em qualquer lugar.

Mesmo assim, ele guardou o saquinho de balas de hortelã com cuida­do no bolso do casaco. Ele estava animado e inquieto ao mesmo tempo.

Alguma coisa no bilhete o deixava preocupado. Não era só o fato de Tom saber que eles estavam no oeste. Tinha algo mais, algo que Lief sentia que devia enxergar, mas que lhe escapava.

Devagar, ele amassou o papel e o jogou no fogo. Ele queimou no mesmo instante. Uma linha ficou bem visível nas chamas.

...talvez estivesse escrito que isso aconteceria...

Então o papel escureceu e virou cinzas.

Na manhã seguinte, bem antes do amanhecer, os companheiros deixaram as Dunas Adormecidas. Eles saíram sozinhos, mas não muito, pois os pensamentos dos toranos os acompanharam e apressaram sua jornada.

Barda era o único dos três que nunca tinha experimentado o ímpeto da magia de Tora. Durante muito tempo, ele só conseguiu olhar fixamente, primeiro para as dunas, depois para a estrada larga que acompanhava a costa ao longe e que se afastava rapidamente debaixo de seus pés voadores.

— Isso é incrível — ele conseguiu dizer afinal, com voz rouca. — Em minutos, percorremos meio dia de caminhada! Se pelo menos essa magia pudesse ser aproveitada e usada em toda Deltora. Pense no que isso poderia significar!

— Os toranos tentaram — Jasmine contou. — Ou, pelo menos, foi o que Marilen me disse. Mas, quando ultrapassa as fronteiras de seu território, seu poder enfraquece e depois desaparece. Somente entre Del e Tora o caminho é forte, pois foi aberto pelos antigos.

Filli gemia debaixo da gola de sua jaqueta e guinchava alegremente para Kree, que os acompanhava de perto e gritava bem alto.

— Não seja ciumento, Kree — Jasmine disse, sorrindo. — Logo você vai estar voando à nossa frente de novo, como deve ser.

E, realmente, não demorou para que a velocidade deles diminuísse. Eles ainda estavam viajando muito mais depressa do que se estivessem caminhando normalmente, mas a paisagem não passava mais como um raio. Agora, podiam ver as ondas batendo nas pedras à direita e uma ou outra casa arruinada nas terras desertas à esquerda.

— Estão vendo? Atravessamos a fronteira — Jasmine disse a Barda, quando Kree passou à frente deles com um grito triunfante. — A magia está diminuindo.

“E nós estamos na terra do diamante”, Lief pensou. Ele olhou para o Cinturão de Deltora, e o diamante brilhou sob a luz do sol.

Ele pôs a mão sobre a pedra, fechou os olhos e encorajou o dragão do diamante a acordar e ir até ele. Mas Lief não sentiu nenhum calor especial, nenhum brilho diferente em resposta.

Lief viu em pensamento o mapa dos Territórios dos Dragões, feito por Doran, e a larga extensão de terra despovoada do território do dia­mante.

“Quando chegarmos à Ilha dos Mortos, o dragão do diamante terá sentido a presença do Cinturão”, ele disse a si mesmo. “Não importa onde esteja ou a que distância, ele vai acordar e vir até mim como fize­ram os outros dragões.”

“Ele virá, se puder”, uma voz respondeu em seu pensamento. Os pensamentos de Lief voaram até o dragão da ametista e para o que aconteceu quando se despediram ao amanhecer.

“Então, você vai levar a ametista embora, mesmo eu estando fraco demais para voar”, o grande animal tinha dito.

“Sinto muito”, Lief tinha respondido embaraçado.

“Não há motivos para sofrer por coisas que não têm solução”, o dragão tinha respondido. “Agora estou um pouco mais forte e posso sen­tir o veneno na minha terra. Sua fonte maligna fica ao sul daqui, além da minha fronteira. O dragão do diamante terá de ajudá-lo a derrotar esse mal. Estou certo?”

Lief ainda se lembrava da onda de alívio que o tinha percorrido quando ouviu essas palavras ditas com calma e com dignidade.

“Rezo para que o dragão da força e da pureza possa ajudá-lo como merece”, o dragão da ametista tinha falado. “Mas, caso ele falhe, chame-me e eu irei, se puder. Vou fazer isso por amor ao Amigodosdragões. Sei que ele gostaria que eu o ajudasse.”

“Obrigado, dragão da ametista”, Lief tinha conseguido dizer. “Tenho certeza de que é isso que ele queria.”

“E, se você me chamar, rei de Deltora”, o dragão concluiu, “é melhor, para termos certeza de que vou ouvi-lo, que me chame por meu verdadeiro nome. É... Veritas.”

As últimas palavras foram pronunciadas tão baixinho que Lief teve de se inclinar para ouvi-las. Ele então endireitara o corpo, muito ciente da honra que tinha recebido.

“Obrigado, Veritas”, ele disse com humildade. “Juro que nunca vou usar seu nome de forma imprudente e que vou honrá-lo. O meu verdadeiro nome é Lief.”

O dragão assentiu com um gesto de cabeça, mas não disse mais nada. E, em silêncio, Lief o deixou onde estava agachado, imóvel na areia.

— Olhe! Lá adiante, Lief, olhe!

Lief abriu os olhos ao ouvir a voz de Jasmine. Ele piscou e o seu coração bateu mais forte.

Eles tinham passado uma curva da estrada e, de repente, notaram que tinham chegado ao fim de sua jornada. O mar estava à direita, à esquerda e também à sua frente.

Diante deles se estendia uma faixa de terra comprida e estreita, que se parecia com um dedo fino e achatado, ponteada de rochas e cercada de espuma, que entrava pelo mar azul e se perdia na distância até...

Os olhos de Lief ficaram ofuscados. Algo faiscava no fim da faixa de terra como o farol de Bone Point no quadro de Verity.

— O que é aquilo? — Barda perguntou. — Será outro farol? Pensei que...

Agitado, Kree gritou acima deles.

— É a ilha! — Jasmine exclamou.

Quando Lief correu na frente, tentando enxergar, viu admirado que Jasmine tinha razão. A origem daquela luz ofuscante vinha do mar além do fim da faixa de terra.

Alta, íngreme e deserta, a Ilha dos Mortos cintilava como vidro. Toda a sua superfície brilhava e faiscava ao sol como se a própria ilha fosse um grande diamante.

Em frente à grande massa de luz, separada dela por uma faixa de espuma borbulhante, havia um pequeno ponto vermelho.

“A primeira ilha”, pensou Lief, “a menor mostrada no mapa e que brilha como um rubi, assim como a outra se parece com um dia­mante.”

E então, à medida que seus olhos se moviam na direção do conti­nente, ele viu outra coisa que a luz brilhante da Ilha dos Mortos o tinha impedido de ver no primeiro instante.

Uma forma cintilante flutuava acima do chão, na extremidade do rochedo, queimando como um farol prateado de encontro ao azul do céu e do mar.

 

Lief apertou os olhos para enxergar a forma cintilante. Quase instantaneamente percebeu que não era uma visão estranha dançando em pleno ar, mas, sim, uma enorme placa de metal presa ao telhado de uma pequena construção que era tão marrom, baixa e redonda que parecia ter crescido de dentro da rocha.

“A loja de Ava”, ele pensou, estendendo a mão para o saquinho de balas de hortelã no bolso de sua jaqueta.

Ele sabia que devia estar surpreso por encontrar a loja de Ava — ou qualquer loja — ali, naquele lugar selvagem e isolado, mas não se espantou. E, lentamente, admitiu para si mesmo que, lá no fundo de seu coração, sabia o tempo todo que aquilo ia acontecer.

Tom não teria mandado aquela mensagem e o presente para Ava se não tivesse certeza de que Lief, Barda e Jasmine passariam por ali. Ele tinha certeza de que o destino dos companheiros era a Ilha dos Mortos. E sabia que a irmã poderia ajudá-los.

...ela enxerga mais que a maioria e pode lhe contar muitas coisas úteis... Ela também aluga barcos...

Com os olhos semicerrados por causa da luz forte da ilha, os companheiros seguiram em frente, quase sem notar que seus pés agora tocavam o chão e que andavam a uma velocidade normal.

A península se estreitou cada vez mais. Finalmente, chegaram a um lugar em que a estrada fazia uma curva e voltava para o caminho principal da costa. Mais adiante, havia uma flecha dentada, feita de pedra, que apontava para as duas ilhas.

A casa de Ava, encimada pela placa cintilante, estava bem na dire­ção da ponta da flecha. Os companheiros deixaram a estrada e come­çaram a se dirigir com dificuldade para o edifício, as cabeças curvadas por causa do vento.

— Um lugar muito estranho para uma loja — Barda comentou, pro­tegendo os olhos enquanto examinava as rochas e o mar adiante.

— Talvez, esse lugar nem sempre tenha sido tão deserto — disse Lief.

— A estrada da costa é muito larga... e por que alguém construiria uma estrada dessas se não houvesse ninguém para viajar nela?

— Além disso, a placa de Ava é como a de Tom — Jasmine mostrou.

— Ela pode ser lida da mesma forma, dos dois lados, para que possa ser vista do mar e da estrada. Ela pode ter tido fregueses que vinham de navio.

— Se isso é verdade, eles não existem mais — Barda disse de mau humor. — Agora, não há navios nestes mares.

Lief olhou para ele, pois o companheiro tinha dito aquilo com um tom de voz estranho.

Barda deu as costas ao oceano e olhava para os pés, com a testa franzida. Um músculo repuxou do lado de sua boca e seus punhos estavam fechados com força.

Lief sentiu um calafrio repentino. Ele olhou rapidamente para o mar, mas não havia nada para ver. O único ponto escuro na superfície manchada de branco era um punhado frouxo de algas marinhas que flutuava perto da ilha cintilante.

Se Barda tinha visto outra coisa — um navio com um mastro que­brado e remos que se moviam devagar, por exemplo —, ela não era mais visível.

“Ou nunca tinha estado lá”, Lief disse a si mesmo com firmeza. “É natural que as lembranças do navio Dama da Sorte nos persigam, mas não podemos cair na armadilha de acreditar que um navio fantasma esteja realmente seguindo nossos passos. Isso seria loucura.”

As gotículas de água que vinham do mar caíam frias em seu rosto. As ondas pareciam muito barulhentas. Ele olhou para a frente e com um leve susto viu que já estavam perto do fim da península.

Do outro lado do mar, a ilha vermelha cintilava e o pico alto e bri­lhante da Ilha dos Mortos faiscava ao sol. E agora Lief via que as duas ilhas estavam ligadas por uma velha ponte de pedra, um arco natural que cobria a água branca agitada.

Mas perto, muito mais perto, estava a placa brilhante. A loja de Ava estava exatamente na frente.

Marrom e curva, feita de pedras arredondadas manchadas de musgo marinho, a casa era maior do que parecera de longe.

A frente era de uma cabana modesta; tinha uma porta ao centro e venezianas. A parte de trás era mais alta e tinha paredes nuas sem janelas.

“O abrigo dos barcos”, Lief pensou. Novamente, sua mão escor­regou para o bolso da jaqueta como se o saquinho de balas de hortelã escondido ali fosse um talismã.

Se o dragão do diamante respondesse ao seu chamado, ele poderia levá-lo e aos companheiros diretamente para a Ilha dos Mortos. Mas eles não podiam depender disso. O dragão talvez nem viesse. E, se viesse, talvez não estivesse disposto a levá-los. Eles precisavam de um barco.

Os companheiros se aproximaram lentamente da loja. O telhado baixo estava coberto de algas marinhas secas. O vento soprava em suas paredes, balançava as venezianas que cobriam as janelas e dissipava a fumaça que saía de sua chaminé em espirais cinzentas.

Um pequeno aviso estava afixado na porta.

— Ava é uma bruxa! — Jasmine sussurrou.

— É mais provável que seja apenas uma fraude tão esperta nos negócios quanto o irmão — Barda murmurou. Ele apontou para a última linha do aviso. — Pelo que eu me lembro, Tom também promete um brinde para todos os clientes.

— É verdade — Lief sussurrou. — Mas ele só o dá se a gente se lembra de pedir. Será que a irmã faz a mesma coisa?

— Entrem, amigos, se forem gente boa!

Todos deram um salto violento quando a voz rouca os chamou de dentro da loja. Com uma olhada nervosa para os companheiros, Lief abriu a porta.

Dentro da casa, estava quente e muito escuro, pois a única luz vinha do fogo da lareira. O ar estava tomado pelo aroma de ervas e fumaça.

Espiando na escuridão, Lief percebeu primeiro que as paredes da sala em que tinham entrado estavam cobertas de prateleiras que iam do chão ao teto. Cada prateleira estava lotada de frascos, garrafas, latas e caixas.

Depois, encolhido numa poltrona funda, ao lado do fogo, ele viu um vulto envolto num casaco com capuz feito totalmente de penas pretas e brancas de aves marinhas.

— Vocês encontraram Ava — o vulto murmurou. — O que desejam? Lief respirou fundo, mas não conseguiu falar.

— Uma poção do amor? — Ava murmurou. — Não, posso ver que não há necessidade disso. Um remédio, então? Não... pelo menos não por enquanto. — Ela riu de modo desagradável.

— Nós gostaríamos de alugar um barco, se possível, boa senhora — Barda disse em voz alta, depois de pigarrear.

Ava levantou a cabeça.

O coração de Lief deu um salto. O rosto emoldurado pelo capuz do casaco feito de penas e até mesmo os lábios finos estavam cobertos por um pó branco. Cabelos castanhos desbotados caíam sem vida ao redor das faces magras. Os olhos estavam cobertos por uma tira preta de seda.

Então, pela primeira vez, Lief notou a bengala branca apoiada no braço da poltrona.

Ava, cujo símbolo era um olho, era cega! ...vê mais que a maioria...

— Não tenho barcos para alugar — Ava disse devagar.

— A placa na porta diz que tem! — Jasmine exclamou.

— Só tenho um barco agora — a mulher respondeu, dando de ombros. — Não tenho interesse em emprestá-lo para estranhos.

Os cantos dos lábios finos e pálidos se curvaram ligeiramente. Durante um breve momento, Lief enxergou uma misteriosa semelhança com Tom.

— O seu irmão nos falou de você, Ava — ele disse depressa, antes que Barda ou Jasmine dissessem outra coisa.

— Irmão? — O vulto na poltrona ficou muito quieto.

— Seu irmão, Tom, é... nosso amigo — Lief contou, sentindo o pacote de balas no bolso. — Ele disse que a senhora poderia nos ajudar, se quisesse. Ele lhe mandou um presente.

Com cuidado, Lief se aproximou da poltrona e estendeu o saqui­nho de balas. Ava parecia ter relaxado um pouco. Ela retorceu o nariz, mas não se mexeu.

Lief colocou o presente no colo dela e rapidamente deu um passo para trás. Ele prendeu a respiração quando as mãos envoltas em grossas luvas de lã saíram de baixo do casaco de penas e agarraram o pacote com firmeza.

— Balas de hortelã — a mulher suspirou. — Ah, Tom sempre se lembra das preferidas de sua irmãzinha. Muito esperto. Mas, por outro lado, ele sempre foi o mais esperto de todos, mesmo antigamente. Ou, pelo menos, era o que diziam.

Ela inclinou a cabeça de leve.

— Não é comum Tom admitir que somos parentes — ela disse. — Tom dá valor à sua privacidade, como eu. Ele deve ter um motivo especial para ajudar vocês. Eu me pergunto o que poderia ser.

Novamente, seus lábios se curvaram no mesmo sorriso zombeteiro. E, novamente, Lief sentiu uma ponta de reconhecimento.

Mas dessa vez... dessa vez foi diferente. Dessa vez, o sorriso o fez lembrar não só de Tom, o comerciante, mas também de outra pessoa.

Ele prendeu a respiração quando as lembranças percorreram sua mente.

É uma questão de negócios...

Devido a circunstâncias que estão fora de seu controle... seus afazeres atuais são mais da conta de Tom do que ele gostaria que fossem... Talvez, sempre estivesse escrito que isso iria acontecer...

Tom sempre se viu como o mais esperto de todos... de todos nós...

— Claro! — ele exclamou em voz alta.

Lief tinha visto, com os próprios olhos, a semelhança: a boca estreita e larga, o rosto magro, os membros compridos, o sorriso zom­beteiro! Mas na época ele não tinha visto a ligação. Ele não tinha per­cebido...

Barda e Jasmine estavam olhando para ele. O sorriso de Ava estava desaparecendo.

— Acho que Tom sentiu que não tinha escolha senão nos ajudar, Ava — Lief disse, molhando os lábios. — Ele sentiu que tinha uma dívida conosco. De alguma forma, ele soube do nosso desentendimento com o irmão dele... e seu também. O homem que conhecemos como Jack Risonho.

Jasmine e Barda abafaram uma exclamação. Os ombros de Ava se enrijeceram debaixo do casaco de penas.

— Esse homem não é meu irmão — ela disse ríspida.

— Acho que é — Lief replicou. — A semelhança é...

— Jack, Tom e eu temos o mesmo sangue, isso é verdade — Ava interrompeu bruscamente. — Quando éramos crianças em nossa casa nas Planícies, éramos muito parecidos, e nossas mentes podiam se conectar como se fossem três partes de um todo. Mas, quando tivemos idade suficiente, seguimos caminhos separados para tentar a sorte. Tom não foi muito longe. Eu fui para longe, para o mar onde sempre quis ficar, embora não conseguisse vê-lo com os olhos...

Sua voz ficou mais fraca.

— E Jack? — Lief perguntou baixinho.

— Jack foi o que mais se distanciou — Os lábios pálidos de Ava esta­vam tremendo. Ela fez um esforço evidente para firmá-los e continuou rapidamente.

— Há muito tempo, Jack fez escolhas que o afastaram de mim... e de Tom... para sempre. É por isso que eu disse que ele não é mais nosso irmão. De vez em quando, fragmentos de seus pensamentos ainda sus­surram como fantasmas perversos nos cantos mais escuros de nossas mentes. Ele ainda faz parte de nós, mas é nosso inimigo.

— Ele também é nosso inimigo, Ava — Lief disse com suavidade. — E o inimigo maior que ele chama de mestre está tentando destruir nossa terra. Por favor, ajude-nos! Empreste-nos o seu barco.

— E, se eu fizer isso, para onde vai levá-lo? — Ava perguntou. Ela esperou a resposta de Lief com a cabeça inclinada para o lado, a boca formando uma linha dura e reta.

“É um teste”, Lief pensou. “Ela viu ou adivinhou aonde queremos ir. Ela está esperando para ver se vamos mentir para ela.”

— Precisamos ir até a Ilha dos Mortos — Lief contou com firmeza.

— Então, você resolveu confiar em mim — Ava murmurou. Ela afundou na poltrona e cruzou as mãos debaixo do casaco. As balas de hortelã escorregaram do colo e caíram no chão, mas ela pareceu não se importar.

— Muito bem — ela disse. — Então, escutem o que vou dizer. Nenhum barco pode atracar na Ilha dos Mortos. O mar bate com violência nas rochas como leite fervendo num caldeirão. Para chegar à Ilha, vocês precisam ir primeiro à ilha escarlate e atravessar pela ponte de pedra.

— Parece fácil demais — Barda comentou.

Ava levantou a cabeça. A faixa de seda que cobria seus olhos cin­tilou sob o fogo da lareira.

— A jornada até a ilha pode ser fácil — ela disse devagar. — Mas a ilha em si é outro problema. Não posso dizer nada sobre ela, exceto que quem pôs os pés nela nunca voltou. Se vocês dão valor às suas vidas, esqueçam isso e sigam seu caminho.

Um nó gelado se formou no estômago de Lief quando ela sorriu.

 

Uma hora depois, Lief e Barda estavam remando o pequeno e velho barco de Ava pelo canal que havia entre o continente e a ilha escarlate. As águas do canal eram agitadas e ele era mais largo do que parecera a princípio. Eles ainda estavam no meio do caminho e, apesar da maré estar a seu favor, o trabalho era duro.

A água espirrava neles por todos os lados, e eles ficaram satisfeitos por estarem usando as capas de chuva impermeáveis e duras que tinham pego na cabana de pesca, em Broome. A água encrespada batia na popa, onde Jasmine estava sentada com Filli, que gemia tristemente debaixo de sua gola. Kree voava acima deles, e era o único que estava seco.

Ao descobrir que seus visitantes estavam determinados a fazer a jornada apesar de seus conselhos, Ava tinha dado de ombros e dito para pegarem o barco, se quisessem. Eles o encontrariam amarrado a um perto da água.

O preço do aluguel, ela tinha informado com calma, era de cinco moedas de ouro. E, por uma moeda a mais, ela guardaria suas mochilas até que voltassem, pois o barco era pequeno demais para carregar esse peso extra. Ava estendeu a mão em silêncio e moveu os lábios, enquanto Jasmine colocava as moedas na mão enluvada.

— Isso é um roubo! — Barda grunhiu, enquanto se debruçava sobre os remos, com água escorrendo do gorro, dos cabelos e da barba.

— Mesmo que eu não soubesse que a mulher era irmã de Tom, seus preços absurdos me fariam desconfiar disso. Cinco moedas de outro por um barco que mal agüenta essas ondas, e uma para guardar as nossas coisas!

— Isso não tem importância. Ainda temos muito ouro na bolsa que os Gnomos do Medo nos deram — disse Jasmine, que ainda ligava tão pouco para dinheiro como quando vivia nas Florestas do Silêncio.

— Além disso, ficou óbvio que Ava espera que a gente morra na ilha. Ela acha que viu o barco pela última vez.

E, de fato, ficou provado que o barco estava destinado a nunca voltar para sua dona. Logo depois da metade da travessia do canal, os companheiros de repente se viram com os tornozelos mergulhados na água.

Grandes buracos tinham aparecido do fundo do bote, e a água entrava por eles. Jasmine pegou um pequeno balde e começou a tirá-la freneticamente. Lief e Barda redobraram seus esforços, rangendo os dentes e empurrando o máximo que podiam.

O barco chegava cada vez mais perto da ilha. Mas a cada momento os buracos no casco ficavam maiores e, apesar dos esforços de Jasmine, a água continuava a subir.

O barco começou a afundar. Ondas batiam por cima das bordas, e Filli gritava com voz aguda.

— Acho que é o fim! — Barda disse sombrio. — Lief, parece que isso está se tornando um hábito. Solte o seu remo e use-o para boiar. Eu vou cuidar de Jasmine.

Lief não discutiu. Barda era um nadador muito mais experiente do que ele.

Em minutos, eles estavam flutuando na água gelada.

“Outra vez!”, Lief pensou desesperado. Agarrado ao remo, ele afastou os cabelos molhados dos olhos com uma sacudidela e procurou Barda e Jasmine em sua volta.

Ele viu as cabeças dos amigos um pouco adiante. Barda estava nadando vigorosamente e puxava Jasmine com ele. Filli estava agarrado aos cabelos de Jasmine num silêncio apavorado. Kree voava acima deles, encorajando-os com seus gritos.

“A maré vai nos ajudar”, Lief disse a si mesmo, começando a nadar lentamente para a frente. “E dessa vez é dia. Dessa vez, podemos ver a praia. E, no fim das contas, Barda e eu temos prática em sobrevivência no mar.”

Este último pensamento o fez sorrir, apesar de os dentes estarem batendo por causa do frio. Era estranho e ridículo que a aventura que ele e Barda viveram perto de Bone Point talvez fosse o que os salvaria naquele momento.

E, exatamente naquele instante, algo o fez olhar por cima do ombro.

Bem longe, do outro lado da água, a placa de Ava cintilava ao sol. Mas Lief não conseguia ver a cabana abaixo dela ou as ondas espuman­tes na ponta da península.

Sua visão estava bloqueada por um navio escuro com um mastro quebrado e velas rasgadas que flutuavam ao vento. Em silêncio, o navio ancorado balançava de um lado para outro, atravessado no canal.

Era o Dama da Sorte. À espera.

Lief se virou aterrorizado, soltou o remo e começou a nadar deses­peradamente. O medo deu forças aos seus braços e espantou o frio que de outra forma o teria retardado. Com os olhos fixos na mancha vermelha adiante, ele atravessava a água e usava as ondas como tinha aprendido a fazer, só pensando em fugir.

E, antes do que tinha imaginado ser possível, ele estava pondo os pés em terra seca, caindo ofegante ao lado de Barda e Jasmine, em meio a uma densa e perfumada massa de margaridas escarlates.

Barda e Jasmine não tinham conseguido ver o Dama da Sorte, quando se viraram, depois que Lief contou sua história. Lief também não conseguiu vê-lo mais. Mas o rubi no Cinturão de Deltora estava rosa-pálido, indicando perigo. Lief sabia que o navio estava lá, ancorado no canal, visível ou não.

Barda resmungou e passou as mãos pelos cabelos molhados.

— Eu também vi o navio amaldiçoado quando estávamos chegando à loja de Ava — ele confessou hesitante. — Ele estava indo na direção da ponta da península, mas pensei que a minha mente estava me pregando uma peça.

— Foi o que pensei no início — disse Lief, levantando-se. Mas não foi uma ilusão, Barda. O Dama da Sorte nos seguiu. Esse navio tem nos seguido por toda a costa. — Lief sentiu o estômago revirar ao pensar nisso.

Barda também parecia estar se sentindo mal. Inquieta, Jasmine olhou para os dois.

— Vamos continuar — ela disse, levantando-se de um salto e agar­rando o braço de Lief. — Talvez, seja melhor ficarmos longe do mar.

Eles começaram a andar, abrindo caminho com cuidado entre as flores altas e vermelhas que pareciam crescer em abundância por toda a ilha, vestindo-a com um manto vermelho vivo.

Os lírios se arqueavam e balançavam em volta deles, suas pétalas de bordas pretas, frescas e carnudas e os estames dourados deixavam traços de pólen amarelo em tudo o que tocavam. Não longe dali, no alto da extremidade da ilha, surgia o afloramento rochoso que marcava o início da passagem em arco. Além dele, via-se o brilho de diamante da Ilha dos Mortos.

Mas Lief quase não notou os arredores. Sua mente ainda estava na aparição do navio. Nervoso, ele olhou por cima do ombro e, quando se virou, viu que Jasmine o observava com preocupação. Ela devia pensar que ele e Barda estavam tendo visões.

— Não estamos imaginando coisas, Jasmine! — ele disse irritado. — O navio é real! Você procurou por nós durante mais de uma semana e não conseguiu nos achar nem mesmo em seus sonhos! No entanto, estávamos no navio, em águas de Deltora, todo o tempo.

— Eu sei disso! — Jasmine disse, balançando a cabeça. — Mas como os tripulantes poderiam ter sabido o que aconteceu depois que vocês pularam na água? Como eles sabiam onde encontrar vocês?

— Acho que eles têm um jeito de perceber nossa presença — Barda balbuciou. — De algum jeito... — de repente, ele parou, o rosto atento.

— O ouro! — ele sussurrou. — Lief! Você ganhou duas moedas de ouro quando jogou aquele jogo, mas só devolveu a que tinha tomado emprestado. Talvez...

Lief enfiou a mão no fundo do bolso e tirou a moeda de ouro que tinha ganho depois de jogar o jogo dos besouros.

— Jogue-a fora! — Barda insistiu. — Jogue-a no mar! Depois de nos livrarmos dela, talvez o navio pare de nos perseguir.

— Se você a jogar no mar, ela vai se perder para sempre — Jasmine sussurrou. — Quem sabe o que pode acontecer então?

Impaciente, ela estendeu a mão.

— Entregue a moeda para mim, Lief! A tripulação do Dama da Noite não me conhece. Não devo nada a ela. Nunca pus os pés no mal­dito navio.

Lief hesitou, mas lhe entregou a moeda. Acenando satisfeita com a cabeça, Jasmine a colocou na bolsa de dinheiro dos Gnomos do Medo.

— Pronto — ela disse, tornando a guardar a bolsa na jaqueta. — Agora, vamos nos concentrar no futuro. É evidente que o guardião da Irmã do Oeste está nos esperando na Ilha dos Mortos. Precisamos...

Ela se interrompeu com um grito assustado quando, de repente, Kree passou voando por cima de sua cabeça e se afastou gritando. Filli, agarrado ao ombro dela, soltou um guincho alto e desesperado.

Uma expressão curiosa tomou conta do rosto de Jasmine. Ela olhou para baixo e arregalou os olhos aterrorizada.

Espantados e assustados, Lief e Barda também olharam para baixo. Mas não havia nada para ver: nada além dos lírios escarlates e inclinados, os estames dourados trêmulos, algumas folhas verdes e a terra fofa e macia debaixo deles.

— Cuidado! — Jasmine gritou. Ela começou a chutar e a pisotear o chão com violência. Os lírios tombaram e caíram ao seu redor e foram amassados por seus pés. Ela se abaixou em meio às flores destruídas e começou a limpar as pernas, desesperada.

Lief e Barda olhavam sem entender. O que estava acontecendo com ela? Eles viram que havia manchas brilhantes de pólen dourado no tecido desbotado de suas calças e várias pétalas de lírios que cola­vam em suas pernas. Mas por que isso tinha importância? Qual era o perigo em...?

E então eles viram o sangue — o sangue que escorria das mãos de Jasmine e que ensopava sua roupa e escorria para dentro de suas botas. E viram que as bordas negras das “pétalas” inchadas que ela tirava das pernas estavam se retorcendo. Eles viram antenas parecidas com estames dourados se revirando furiosas e tenazes afiadas atacando, enquanto eram arrancadas das feridas abertas.

“As coisas que estão presas a Jasmine não são pétalas”, Lief pensou paralisado de pavor. “Elas parecem com pétalas, mas...”

— Cuidado! — Jasmine gritou outra vez, ainda arrancando as cria­turas de suas pernas. — Lief, Barda! Elas também estão em vocês! Elas estão nos comendo vivos!

 

No momento seguinte, Lief e Barda também estavam batendo os pés no chão, chutando e tremendo enquanto arrancavam de seus corpos as centenas de terrores em forma de pétalas escarlates que tinham atravessado suas roupas e estavam mordiscando sua carne.

O sangue deixava as mãos de Lief escorregadias, e sua cabeça girava. Assim que arrancava rapidamente algumas criaturas de seu corpo, outras o atacavam, subindo das flores pisoteadas debaixo de seus pés, deslizando em silêncio dos cabos que balançavam ao seu redor.

Seu sangue escorria abundantemente para a terra fértil e pareceu a Lief que os lírios tremiam de prazer enquanto o sugavam.

Ele sentiu nojo, horror, medo. Mas não sentiu dor. Tonto e sem acreditar no que acontecia, ele viu as criaturas vermelhas se agarrarem ao seu pulso e o morderem com violência. O sangue escorreu por cima das manchas de pólen amarelo que marcavam a sua pele. Ele tirou uma criatura e um pedaço de pele saiu com ela, mas ele não sentiu nada.

“É o pólen”, ele pensou atordoado. “O pólen anestesia a pele. Foi por isso que não percebemos o que estava acontecendo. Os lírios prote­gem as criaturas e preparam as suas vítimas. Os restos deixados pelas criaturas alimentam os lírios. É uma parceria. Uma terrível parceria...”

Lief olhava revoltado para as flores à sua volta, enxergando-as pela primeira vez como eram realmente. Ele viu as pétalas escarlates com as bordas pretas, o monte de estames trêmulos no centro, cheios de pólen.

Lírios de sangue. Lírios de sangue... e venenos para a carne.

De repente, os nomes dançavam em sua mente. E, com os nomes, veio a imagem: um quadro nítido de flores escarlates. Por alguma razão, a lembrança o fez pensar na biblioteca de Del. A biblioteca...

E, de repente, seu rosto queimou quando ele percebeu que tinha visto o quadro no livro de Josef — 0 livro de monstros de Deltora. Mas, além do título, ele não tinha lido mais nada.

Ele folheou o livro depressa para poder dizer a Josef que o tinha lido e nem mesmo tinha notado as criaturas que certamente o velho lhe tinha mostrado camufladas entre os lírios.

“Idiota!”, ele se censurou furioso. “Se tivesse usado seu tempo para ler o que estava escrito, saberia que os lírios de sangue estavam nesta ilha. Você saberia do veneno. Você foi avisado...”

Por que Ava não nos avisou?

A pergunta atravessou sua mente como uma flecha, mas, antes que pudesse refletir mais sobre ela, Lief percebeu que Jasmine gritava para Barda.

No momento seguinte, Barda correu para a frente e, ignorando as criaturas ainda presas ao seu corpo, começou a cortar dezenas de lírios com golpes violentos de espada.

“Isso não vai adiantar, Barda!”, Lief pensou desesperado. “Talvez, os lírios morram, mas as criaturas vão continuar a viver. E vão continuar a nos atacar.”

Ele pressionou o Cinturão de Deltora com as mãos manchadas de sangue.

— Ajude-nos! — ele sussurrou, concentrando-se em seu pensamento. — Dragão do diamante, me escute! Ajude...

Seu coração deu um salto quando, de repente, Barda deu um pulo para trás e, com um barulho forte, o monte de lírios irrompeu em chamas. No instante seguinte, cabos suculentos estavam cuspindo e sibilando enquanto queimavam. Folhas e flores estavam se retorcendo. As criaturas se reviravam e morriam às dezenas.

Feliz, Lief olhou para cima, procurando o dragão que finalmente devia ter ouvido seu chamado.

Mas nenhum vulto enorme e cintilante voava acima deles. Por mais que olhasse, ele só conseguia ver Kree, voando e gritando no meio da fumaça que se levantava lentamente.

Atordoado pelo desapontamento e pela confusão, ele olhou para baixo outra vez. Onde antes estavam os lírios caídos, agora havia um círculo de fumaça na terra escurecida forrado com os ossos carboniza­dos dos pássaros que tinham sido vítimas das criaturas venenosas no passado. E, ao pisar na terra negra, sorrindo triunfante, estava Jasmine com o frasco de pedras de acender fogo nas mãos.

Em segundos, ela ficou envolvida em vapor quando pisou no chão quente com suas botas. Enquanto Lief olhava, ela apanhou mais pedras do frasco e as jogou com violência nos lírios que estavam mais distantes.

As chamas subiram, os lírios pegaram fogo e queimaram como tochas. Em seguida, caíram formando pilhas de cinzas ensopadas, aumentando o caminho escurecido.

Lief entrou aos tropeços no centro do chão queimado acompa­nhado de perto por Barda. Finalmente salvos de futuros ataques, eles arrancaram as últimas criaturas de sua pele e as pisotearam sobre a terra quente.

— Acho que tenho pedras de acender fogo em quantidade sufi­ciente para abrir um caminho até o outro lado da ilha — Jasmine disse, ofegante, voltando-se para eles quando Kree pousou em seu ombro com um grito de triunfo. — Mas precisamos economizar! Os lírios estão úmidos e o fogo não vai se espalhar.

— Isso até que é bom — Barda retrucou. — Seria uma pena nós esca­parmos de sermos comidos vivos apenas para virarmos cinzas.

Ele olhou com tristeza para as calças ensopadas de sangue.

— Acho que devemos tentar parar esse sangramento antes de continuar.

Jasmine concordou depressa, agachou-se no chão chamuscado e começou a tirar pomada e ataduras de um de seus bolsos lotados.

— Não sei como nenhum de nós sentiu o ataque dessas criaturas! — ela disse, passando as ataduras para Barda. — Se Kree não tivesse visto o que acontecia do alto, estaríamos perdidos e morreríamos de hemorragia, sem poder escapar.

Ela olhou para Lief e sua expressão mudou.

— Sente-se, Lief — ela ordenou de repente. — Ponha a cabeça entre os joelhos. Você está pálido como um fantasma.

— Eu estou bem — Lief murmurou. — Quer dizer... não estou fraco, só preocupado. Quando estávamos correndo o maior perigo, chamei o dragão do diamante e ele não veio.

— Tenho certeza de que ele está a caminho — Barda garantiu. — Não tenha medo, ele vai estar com a gente quando chegarmos ao outro lado da ilha.

— Se chegarmos lá — Jasmine disse sombria, olhando para os lírios que balançavam suavemente ao redor deles. — Essas criaturas comedoras de carne não vão desistir. Assim que o chão esfriar, elas...

Jasmine parou de falar. Ela estava observando a trilha curta e escurecida deixada pelo fogo. Lief acompanhou seu olhar e viu na área recém-queimada alguma coisa que se estendia ao longo do caminho.

— O que é aquilo? — Barda perguntou, franzindo a testa. — Uma cerca? Será que antigamente essas plantas malditas estavam dentro de um campo?

Eles começaram a andar depressa ao longo do caminho escurecido, mas diminuíram o passo à medida que se aproximaram da barreira misteriosa. Havia uma coisa muito conhecida no formato da barreira. Todos eles tinham começado a recear o que poderia estar ali.

— Jasmine, mais pedras de acender fogo — Lief disse baixinho. Jasmine mordeu o lábio. Ela jogou algumas pedras à esquerda e à direita do caminho. Os lírios cor de sangue dos dois lados do objeto misterioso se incendiaram, se retorceram e finalmente caíram no chão em forma de cinzas, revelando o que antes tinham escondido.

Semi-enterrado nas cinzas e na terra, havia o esqueleto de um animal enorme com dentes imensos, asas gigantescas e costelas tão fortes que pareciam uma cerca alta e curva. O enorme crânio da criatura descansava pacificamente nos ossos compridos das patas dianteiras estendidas. Sua cauda comprida e pontuda se curvava delicadamente ao redor do corpo.

Ele tinha morrido na cavidade em que estava deitado sem lutar.

Com a garganta apertada, Lief caiu de joelhos ao lado dele e tocou uma costela nua e curva delicadamente. Ele sabia que finalmente tinha encontrado o dragão do diamante.

— As criaturas venenosas o comeram enquanto dormia — ele mur­murou. — Elas só deixaram os ossos.

— Mas por que ele se arriscou a dormir aqui? — Barda exclamou.

— Esta ilha era parte de seu território. Ele tinha de saber...

— Talvez, naquela época, houvesse poucos lírios na ilha — Jasmine disse séria. — Talvez, eles crescessem apenas na orla. Só o suficiente para manter os intrusos afastados. O dragão não contou com a possibilidade de eles se espalharem tanto ao longo dos séculos.

— Com certeza, ele não acreditou que iria dormir por tanto tempo

— Lief ajuntou.

O rapaz foi dominado por uma profunda tristeza. Seu coração doía ao pensar na imensa criatura mergulhando em sonhos encantados, atendendo ao pedido do homem que ele chamava de Amigodosdragões, sem saber que nunca acordaria.

Mas Lief sabia que não tinha tempo para sofrer. O dragão estava morto. Ele não poderia ajudá-lo a destruir a Irmã do Oeste. O rei de Deltora curvou a cabeça e colocou as mãos na ametista do Cinturão de Deltora.

“Veritas!”, Lief pensou com determinação. “Veritas, preciso de você! Se puder me ouvir, venha até aqui. Venha, se puder!”

Ele sentiu a ametista se aquecer levemente debaixo de seus dedos.

— Que barulho é esse? — Jasmine sussurrou de repente.

Muito espantado, Lief olhou para ela por cima do ombro. Jasmine estava franzindo a testa e se inclinando para a frente. Filli se agarrava à gola de sua jaqueta de olhos arregalados e com os pêlos arrepiados. Kree estava pousado rígido em seu ombro, com a cabeça inclinada para o lado. Estava claro que eles podiam muito bem ouvir tudo o que Jasmine ouvia.

— Que tipo de barulho? — Barda indagou, pondo a mão na espada.

— Um tiquetaque — Jasmine sussurrou. — Ali.

Ela apontou para o crânio imenso carbonizado. Com cuidado, ela chegou mais perto e prestou atenção outra vez. Então se ajoelhou e começou a raspar a terra e as cinzas de baixo da ponta do grande maxilar inferior. Kree gritava inquieto.

— Jasmine, tome cuidado! — Barda exclamou.

Mas Jasmine nem levantou a cabeça. Quando Lief e Barda se aproximaram, ela tinha feito um grande buraco na terra macia. E agora todos podiam ouvir o tiquetaque e as batidas leves.

— Está debaixo da ponta do maxilar — Jasmine sussurrou, quando os companheiros espiaram para dentro do buraco. — Entre os ossos das patas dianteiras. É quase como se...

E, nesse momento, ela arregalou os olhos. Seus dedos tinham tocado algo.

Prendendo a respiração, Lief observava Jasmine quando ela afas­tou a terra que restava. E ali, presa entre os ossos longos e brancos das patas dianteiras do dragão e protegida por sua mandíbula, havia uma coisa lisa, clara e cintilante.

Era um ovo gigante, e as batidas vinham de dentro dele.

Com cuidado, Jasmine tirou o ovo do esconderijo. Terra e cinzas caíram de sua superfície brilhante quando ela o levantou para a luz do sol e, sem dizer nada, o entregou a Lief.

Lief pegou o ovo nas mãos, e as batidas pararam de repente. Por um momento, se fez silêncio, mas logo houve um estalo forte e a superfície lisa se partiu de uma extremidade a outra.

Um focinho forte abriu caminho pela abertura. Pequenos pés com garras arranhavam a casca do ovo violentamente. Ela se separou em duas e caiu no chão. E ali, retorcendo-se nas mãos de Lief, estava um pequeno, perfeito e cintilante dragão, piscando à luz do sol.

 

Enquanto os companheiros observavam admirados o pequeno monstro, Filli, com os olhos arregalados de curiosidade, desceu pelo braço de Jasmine. O bebê dragão tentou dar uma mordida, e Filli recuou. O dragão bocejou e estendeu as asas. Depois, emitiu um barulho áspero parecido com um latido e tentou morder novamente.

— Ele quer comida — Jasmine adivinhou e começou a procurar algo em seus bolsos.

— Não acredito nisso! — Barda explodiu, quando finalmente conse­guiu falar. — Como um ovo conseguiu ficar fresco durante séculos?

— E por que não? O que nós sabemos sobre ovos de dragão? — Lief murmurou, olhando fascinado para a pequena criatura. — É óbvio que a casca era grossa, dura demais e as criaturas venenosas não conseguiram quebrá-la. E o Cinturão estimulou o bebê a sair do ovo como a mãe teria feito se estivesse viva. Isso é maravilhoso!

— Isso tudo é muito interessante — Barda disse —, mas o que vamos fazer com ele agora? Não podemos ficar aqui. Conseguimos afastar as criaturas por enquanto, mas elas vão voltar.

O dragão latiu de novo, mostrando seus dentes minúsculos, e Lief abriu as mãos apressadamente para manter os dedos fora de seu alcance.

Jasmine encontrou algumas tiras de peixe seco e as molhou na água de seu cantil.

— Ponha-o no bolso de seu casado, Lief — ela pediu animada. — Ele vai ficar confortável perto do Cinturão.

Ela levantou a aba que cobria um dos bolsos fundos do casaco de Lief e colocou os pedaços de peixe macios dentro dele.

Com cuidado, Lief abaixou as mãos até que o dragão estivesse dentro do bolso que Jasmine segurava convidativamente aberto. O bebê dragão levantou a cabeça. Sua pequena língua bifurcada entrava e saía da boca. Ele latiu animado e então, abruptamente, escorregou de cabeça para dentro do bolso. Logo depois, os companheiros ouviram seu barulho enquanto ele mastigava ansiosamente.

— Bom — Jasmine disse satisfeita. — Agora podemos ir.

— É mesmo? — Barda disparou. — Com um dragão no bolso de Lief? O que você acha que ele vai fazer quando comer todo o peixe?

— Acho que ele vai dormir — Jasmine respondeu, dando de ombros.

O grupo se desviou do triste esqueleto do dragão do diamante e, com Jasmine à frente jogando pedras de acender fogo para abrir cami­nho, começou a avançar lentamente.

O som do mar ficou mais forte, e o brilho da Ilha dos Mortos come­çou a encher o horizonte. Finalmente, eles saíram do meio dos lírios e pisaram na faixa estreita de pedras lisas que formava a orla da ilha.

A passagem em arco se erguia à frente deles, íngreme e escura, castigada pelo vento. A água turbulenta se agitava abaixo dela, formando grossas camadas de espuma. A possibilidade de usá-la como ponte era apavorante.

— Parece que um dia as duas ilhas foram uma só — Barda comentou. — O mar as dividiu, desgastando a rocha mais mole até que somente a passagem em arco cobrisse o espaço aberto. Talvez um dia ela caia também.

— Espero que não seja hoje — respondeu Lief sombrio.

Ele não estava preparado para aquilo. No fundo de seu coração, ele sempre tinha acreditado que um dragão levaria os companheiros e ele para a Ilha dos Mortos.

Mas o dragão do diamante não existia mais. Em seu lugar, havia um bebê pequeno demais para levar alguém. E não havia sinal do dragão da ametista. Parecia que Veritas ainda estava fraco demais para voar.

— Lief! Precisamos sair daqui depressa — disse Barda preocupado.

Lief olhou para trás. As criaturas venenosas tinham começado a descer dos lírios dos dois lados do caminho queimado. Elas já estavam se agitando em um grande semicírculo na beirada das rochas em que os companheiros estavam.

Lief começou a subir apressado, acompanhado de perto por Barda e Jasmine. Ele ouviu o rugido das chamas quando a amiga jogou mais pedras de acender fogo atrás deles.

A passagem começou a fazer uma curva sobre o mar. Lief se colou de encontro à rocha e ficou de bruços, tentando não pensar no vento que os castigava e no mar que se enfurecia abaixo deles.

Ele não ousou erguer os olhos, mesmo quando percebeu que certamente tinha atingido o ponto mais alto do arco. Ainda assim, ele estava ciente do brilho ofuscante da ilha à sua frente.

“E do mal”, ele pensou. “Do mal e da hostilidade.”

Ele os sentia queimar sua pele.

Determinado a não escorregar, Lief começou a avançar com difi­culdade. E, lentamente, percebeu um som que se misturava ao rugido do mar: um som baixo e tilintante que ficava cada vez mais forte, pene­trando em seus ouvidos e sua mente.

A canção da Irmã do Oeste.

O suor escorria na testa de Lief. Seus joelhos fraquejaram, mas ele se obrigou a continuar na direção da luz brilhante e do terrível som.

Abruptamente, a subida ficou mais íngreme. E então, sem aviso, a pedra áspera debaixo de suas mãos e joelhos se tornou escorregadia como gelo.

Com um grito de aviso, ele deslizou para a frente. Lief não conse­guiu parar nem diminuir a velocidade. Quando finalmente conseguiu, desesperado esfregou os olhos lacrimejantes, tentando enxergar. E mal acreditou no que viu.

Lief não estava longe do pico da ilha que parecia ser feita de vidro brilhante. Não se viam árvores, arbustos ou grama. Todo o chão era duro, liso e escorregadio. Toda a superfície brilhava à luz do sol.

E toda a superfície parecia vibrar com o terrível som de sinos da Irmã do Oeste.

Lief ergueu os olhos para o pico da ilha. Uma enorme caverna se abria lá no alto, o único ponto escuro em todo aquele mundo de luzes brilhantes.

Era dali que vinha o som. Era ali que a Irmã do Oeste estava escondida. Ele tinha certeza absoluta disso.

Lenta e cautelosamente, Lief se levantou. Ele olhou para baixo e sentiu uma vertigem. Muito abaixo dele, um grande tapete de algas marinhas flutuava como uma mancha de tinta num oceano azul vivo, e a espuma cor de creme girava entre as rochas pontiagudas da praia.

Ele ouviu vozes e se virou. Acompanhados por Kree, que voava acima de suas cabeças, seus companheiros estavam se aproximando dele com dificuldade,

Somente então Lief se lembrou do bebê dragão. Com uma sensação de medo, ele levantou a aba do bolso e olhou dentro. Mas as batidas e sacudidas em seu trajeto para a ilha não tinham perturbado o bebê. Enro­dilhado, ele dormia profundamente e respirava com tranqüilidade.

Barda e Jasmine o alcançaram. Ambos estavam olhando para a ilha brilhante com os olhos semicerrados e pareciam exaustos como se o lugar já tivesse extraído toda a força dos dois.

“Sem dúvida estou com a mesma aparência”, Lief pensou. “E nós apenas começamos.”

Uma insuportável onda de desespero o dominou.

— Não sei por que estamos aqui — ele balbuciou. — Sem um dra­gão para nos ajudar, não poderemos vencer. E agora não temos como escapar.

Jasmine e Barda se entreolharam. Barda segurou o braço de Lief, virou-o e apontou para o chão.

Lief protegeu os olhos e olhou. E ali ele viu uma pedra achatada e cinzenta saindo da rocha cintilante a apenas dois passos de onde estava. Era um aviso muito parecido com os que tinham visto no leste e no norte, embora mais estragado pelo tempo e exibindo versos diferentes.

Lief deu as costas para aquela coisa assustadora, cerrando os dentes.

— Eu sou um tolo! — ele murmurou. — É evidente que haveria uma pedra de aviso aqui como havia no leste e no norte! Como deixei que isso me pegasse desavisado e me deixasse desesperado?

— Não se censure, Lief! — Jasmine o consolou inquieta, olhando para a pedra apenas por um instante. — Essa busca tem sido diferente dos tempos que passamos no leste e no norte. Para começar, não fomos incomodados pelo guardião da Irmã do Oeste, se é que realmente existe um guardião.

Lief não respondeu. Ele tinha as próprias idéias sobre o guardião no oeste, mas não queria falar sobre elas nem pensar no que elas pode­riam significar.

Com cuidado e com as botas escorregando perigosamente nas rochas traiçoeiras, os três passaram pela pedra ameaçadora e começaram a escala em direção ao pico.

Era uma tarefa lenta e arriscada que ficava mais difícil a cada momento, à medida que o poder maligno que saía da caverna ficava mais forte, pressionando-os para baixo. Kree voava desajeitadamente à frente deles com as penas eriçadas e sem emitir um pio.

Eles pararam para descansar numa pedra achatada que brilhava como um espelho. Com o rosto tenso e pálido debaixo das manchas de cinza e de sangue, Jasmine correu a mão pela superfície lustrosa.

— É quase como se ela tivesse sido pintada com várias camadas de verniz transparente — ela disse, tentando ocupar a mente com algo que não a enchesse de medo. — Tenho certeza de que existe uma pedra comum debaixo desta superfície. Dá para vê-la quando se olha com atenção.

— Por que alguém iria pintar uma pedra? — Barda grunhiu, enxu­gando o suor da testa franzida. — Jasmine, andei pensando no que você falou... sobre não haver um guardião do oeste. Não lhe passou pela cabeça que Ava, que seria tão útil para nós, segundo o irmão, quase nos matou duas vezes?

Barda tinha externado os pensamentos secretos de Lief. O coração do rapaz ficou apertado. Ele olhou para o mar azul que passava bem abaixo deles e percebeu que o tapete de algas marinhas, semelhante a uma mancha de tinta, tinha desaparecido e se perguntou o que teria acontecido com ele.

— Primeiro, Ava nos deu um barco em que se abriram buracos misteriosos no meio do canal e quase nos afogamos — Barda continuou. — Depois, ela nos mandou para a ilha escarlate sem nenhum aviso sobre os terríveis comedores de carne que a infestavam.

Jasmine franziu a testa.

— É verdade — Lief disse relutante. — Acho que precisamos aceitar esse fato. Ou Ava não é o que Tom pensa que ela é, ou...

— Ou o próprio Tom é um servo do Senhor das Sombras como a irmã e o irmão — Barda interrompeu zangado. — E para mim isso parece muito provável. Ava deixou escapar que os três partilham as mesmas opiniões. É verdade que, se ela se uniu a Jack no lado do mal, Tom não teria como não saber.

Ele tinha razão. Lief sabia que ele estava certo, mas não queria acreditar nisso. Do fundo do coração, ele não queria acreditar.

— Se Ava é a guardiã do oeste, então ela deve ter percebido que chegamos à ilha — Jasmine disse. — E isso significa que...

Então, de repente, Kree gritou desesperado e se alçou ao ar com o bico muito aberto.

Os companheiros se levantaram assustados.

E viram, escalando os penhascos cintilantes na direção deles, uma enorme besta marrom-dourada com nadadeiras no lugar das patas dianteiras e uma grande crina de tiras de pele solta e flácida, malhada como algas marinhas.

As barbatanas da cauda poderosa do monstro batiam contra as rochas. Sua grossa língua azul e coberta de pêlos duros saía da boca cavernosa. Por onde se arrastava, ela deixava uma trilha de limo prate­ado que cintilava à luz do sol.

Seus olhos pequenos se voltaram para os companheiros, faiscando de fúria. Sua boca terrível se abriu ainda mais e ela rugiu.

— Subam! — Barda ordenou. — Subam, se querem salvar suas vidas!

 

Os companheiros subiram para o topo, as mãos agarrando-se freneticamente às pedras, os pés deslizando e escorregando. O monstro estava muito perto deles e, sem esforço, levava o corpo enorme para o alto das rochas brilhantes. Seus rugidos pareciam tro­vões em seus ouvidos. O seu cheiro — o cheiro úmido do mar — enchia as narinas dos companheiros. E ele atirava a língua comprida e áspera para fora, repetidas vezes, atingindo os calcanhares deles.

— Isso é feitiçaria! É Ava sob outra forma! — Barda gritou.

— Não — retrucou Lief ofegante. — Ele estava no mar quando nos aproximamos da loja de Ava. Eu pensei que eram algas marinhas. Naquele momento, Ava estava do lado de dentro, sentada perto da fogueira.

Kree mergulhava sobre a cabeça do monstro, atacando e gritando, os olhos dourados faiscando. Mas a besta não lhe dava atenção. Ela não tentou golpear Kree e não hesitou em nenhum momento. Seus olhos cheios de raiva estavam fixos naqueles que tinham ousado pôr os pés em seu território, que tinham ousado escalar suas rochas cobertas pelo limo dos séculos.

O peito dos companheiros doía. Suas mentes estavam embaçadas pela dor e pelo medo. Acima deles, erguia-se a escuridão da caverna e dela se desprendia o poder maligno que os enfraquecia sem parar.

A caçada terminaria na entrada da caverna, onde eles teriam de se voltar e lutar.

Mas eles não poderiam vencer. Eles sabiam disso. A canção da Irmã do Oeste iria derrubá-los. A fúria da besta iria vencê-los.

Lief puxou o corpo para a saliência larga que se estendia à frente da caverna. Ele ouviu Barda e Jasmine se levantarem ao seu lado; então se esforçou para se erguer e buscou a espada.

Seus olhos enfraqueceram e ele quase não conseguia enxergar. Tentou se levantar mais uma vez, mas parecia que um peso enorme o impedia.

O monstro estava subindo bem abaixo dele. Lief ouviu seu corpo enorme, sua crina que batia nas rochas. Tentou recolher os pés, ima­ginando a língua azul se enrolando nos seus tornozelos e puxando-o para baixo.

Nesse momento, Jasmine gritou.

Lief foi dominado pelo terror. Ele se esforçou para ficar de joelhos e depois em pé, com a espada nas mãos. O vento desmanchava seus cabelos e atingia o seu rosto. Desesperado, ele olhou ao redor à procura de Jasmine.

Ela estava parada ao lado dele, em segurança e com a adaga erguida, os cabelos esvoaçando em torno da cabeça, os olhos arregala­dos e assustados.

Embaixo se travava uma batalha. A besta malhada tinha se erguido e seu corpo imenso estava rígido. O monstro mostrava os dentes terrí­veis, e as tiras carnosas de sua crina estavam inchadas e balançavam ao redor da cabeça. Atacando-o com as garras pelo ar, soltando um fogo roxo das mandíbulas, as grandes asas roxas bloqueando o sol, estava Veritas, o dragão da ametista.

A princípio, parecia que a morte do monstro era certa. Como podia qualquer besta do mar e da terra, por maior e mais selvagem que fosse, derrotar um dragão?

Mas Lief podia ver que Veritas estava enfraquecendo por causa da perda do brilho de suas escamas roxas e das batidas menos fortes de suas asas. O vôo das Dunas Adormecidas o tinha deixado ainda mais esgotado do que já estava, e o monstro estava defendendo o seu terri­tório com uma fúria terrível.

Lief via tudo num suspense horrorizado, enquanto Veritas cam­baleava para a frente com as garras estendidas.

A língua do monstro saiu de sua boca como um chicote, enrolou-se na perna do dragão e o puxou para trás. Com as asas batendo fracamente, o dragão caiu de encontro às pedras. E então a besta avançou sobre ele, rasgando o seu ventre claro com os dentes afiados como facas.

O dragão rugiu. Chamas escaparam de sua boca e queimaram as costas malhadas do monstro, que ergueu a cabeça e gritou de dor e fúria, com o sangue do dragão pingando de suas mandíbulas.

Então, o dragão conseguiu se afastar dele e saltou desajeitada­mente para o ar. Apesar do sangue que escorria de seu terrível feri­mento, ele subiu cada vez mais alto. A besta recuou e saltou, mas não o alcançou.

Lief, Barda e Jasmine caíram para trás atingidos pelo vento pro­vocado pelas asas poderosas, quando o imenso vulto roxo se alçou acima deles e depois se deixou cair pesadamente no chão em frente da caverna.

Misturada aos gritos da besta, a canção da Irmã do Oeste conti­nuou.

Devagar, os companheiros se levantaram com dificuldade.

— Lief, cuide do dragão — disse Barda inquieto. — Só ele pode salvá-lo agora. Nós vamos nos defender... durante o tempo que...

Ele não conseguiu terminar, pois estava oscilando. Sua espada pendia de sua mão como se fosse pesada demais. Mas ele ainda enfren­tava o ataque acompanhado por Jasmine, embora seu olhar estivesse inexpressivo e seus ombros curvados.

Lief cambaleou na direção da cabeça do dragão, caiu de joelhos ao seu lado e pressionou o rosto nas escamas descoradas de seu pescoço.

Com toda a força, desejou intensamente que o poder da ametista fluísse por seu corpo e para dentro da criatura ferida.

Ele ouviu as batidas do coração forte do dragão. Seu próprio cora­ção saltou quando viu as escamas sem brilho recuperarem a cor.

A voz de Veritas sussurrou em sua mente.

Onde está o dragão do diamante?

— O dragão do diamante está morto — Lief contou. Ah...

Lief olhou para Barda e Jasmine. Os dois estavam inclinados por causa do poder maligno da caverna.

A besta ainda não os tinha alcançado. Ela ainda estava imedia­tamente abaixo, arrastando-se para cima e voltando a cair para trás, chapinhando na confusão formada pelo sangue do dragão e do próprio limo.

“Por que ele está esperando?”, pensou Lief aturdido.

— O mal da caverna o mantém afastado — Veritas sussurrou como se Lief tivesse falado em voz alta. — Ele vai tentar subir de qualquer jeito, mas não vai entrar na caverna. Ali ficaremos em segurança.

O corpo imenso estremeceu e Lief percebeu espantado que o dra­gão tinha rido.

— Em segurança! Ah, essa é uma grande piada — Veritas resfolegou. — O Amigodosdragões teria gostado disso. Vá para o lado!

Lief saiu rapidamente do caminho. Quando o dragão se levantou, ele viu que o ferimento na barriga tinha cicatrizado. O rasgo comprido ainda estava sensível e vermelho, mas o sangue tinha parado de escorrer.

Jasmine e Barda se viraram. Lief acenou ansioso, e eles começaram a andar aos tropeços até onde ele estava.

A besta malhada abaixo deles rugiu furiosa. Ela recuou e, com um esforço supremo, lançou-se para cima.

Mas era tarde demais. Quando ela chegou ao lugar em que os ini­migos tinham estado minutos antes, eles tinham saído para um local onde não poderiam ser seguidos.

A escuridão da caverna os tinha engolido.

No início, Lief não conseguia ver nada, mas aos poucos percebeu que a caverna era escura somente pelo contraste com a luz ofuscante que vinha de fora. Lentamente, ele começou a discernir as formas do dragão, dos amigos, e das paredes da imensa caverna envolvida numa teia de aranha.

O chão debaixo de seus pés estava coberto por uma grossa camada de poeira, mas debaixo do pó ele brilhava como as rochas do lado de fora. Em uma época longínqua, a caverna tinha sido morada do monstro da ilha — a fera que agora berrava lá fora — e também de seus ancestrais.

Os ouvidos de Lief latejavam com o som da canção da Irmã do Oeste que vinha do fundo da caverna.

Mas ele também ouvia o dragão. A criatura estava logo atrás dele. E ele podia ouvir as batidas de seu coração e sua respiração sibilante.

Atrás dele, os companheiros tropeçavam e resmungavam.

— Jasmine, Barda — Lief disse, molhando os lábios. — Fiquem onde estão — ele pediu com a voz tão rouca que quase não reconheceu como sendo dele. — O dragão e eu vamos continuar sozinhos.

Nem Barda ou Jasmine responderam e continuaram a segui-lo.

Um passo doloroso depois do outro, eles avançaram com dificul­dade. Cada passo era um esforço, cada inspiração representava uma dor.

A espada de Lief estava em sua mão, mas ele tinha dúvidas de que conseguiria erguê-la. Era como se a canção da irmã tivesse penetrado em cada osso e cada músculo de seu corpo, envenenando seu sangue e espalhando uma fraqueza dolorosa.

Então, de repente, eles viram o fim da caverna.

Lief sentiu a pele formigar. Um vulto escuro estava encolhido no fundo de onde vinha o som, o mal, o veneno.

Lief se esforçou para avançar, preparando-se para o que poderia ver.

Então, sentiu o dragão estremecer e ouviu o coração dele bater forte no peito.

E viu o que era o vulto pálido.

Era um homem sentado num trono esculpido em pedra: um homem tão velho que parecia quase transparente. Uma longa barba branca descia sobre seu peito, e cabelos brancos compridos caíam até sua cintura. O tempo e a idade tinham deixado suas roupas rústicas acinzentadas. Teias de aranha cercavam e cobriam seu rosto macilento, suas pálpebras fechadas e as mãos ossudas e magras que repousavam nos braços do trono.

Mas ele estava vivo. Uma respiração leve movimentava os fios que se estendiam sobre os lábios murchos.

E a Irmã do Oeste estava dentro dele. De seu peito frágil, saía puro mal.

A cabeça de Lief girava e ele não conseguia respirar. Ele ouvia o som da espada de Barda batendo no chão atrás dele.

Os olhos do homem se abriram debaixo do véu de teias de aranha.

O olhar cinzento e turvo se fixou em Lief por um instante e logo se afastou para pousar no dragão. Fios da teia se romperam e flutuaram quando os lábios pálidos se abriram. A voz, parecida com o farfalhar de folhas secas, saiu.

— Veritas.

Todo o corpo do dragão estava tremendo.

— Doran — ele sussurrou.

Lief pensou que o coração iria saltar até a sua boca. De repente, sua mente estava queimando com a lembrança da voz perversa e triunfante do Senhor das Sombras.

O arrogante tem o destino que merece...

Com um terror que nunca tinha experimentado, Lief olhou para o ser velho e atormentado sentado no trono.

Então aquele tinha sido o destino do arrogante, daquele que tinha ousado tentar derrotar o plano das Quatro Irmãs. Aquele tinha sido o castigo de Doran, o Amigo dos Dragões. Escravizado por um feitiço do

Senhor das Sombras, ele tinha sido condenado a séculos de uma meia-vida como guardião do mal que tinha tentado destruir.

Os olhos cinzentos se mexeram para encontrar os dele. Seus lábios se abriram e novamente deixou escapar a voz fraca e rouca.

— Você... está usando o Cinturão de Deltora. Você... é o rei.

— Sim. Sou Lief, filho de Endon e Sharn, herdeiro de Adin. — Falar foi difícil. O poder da Irmã do Oeste o estava derrubando. Mas seu cora­ção estava cheio de dor e raiva por ver os olhos cheios de sofrimento, e ele se esforçou para continuar. — E você é Doran, o Amigo dos Dragões, amado pelas tribos do submundo, salvador dos dragões de Deltora. Aquele cujo mapa me trouxe até aqui.

Os olhos de Doran faiscaram e uma pequena centelha pareceu surgir neles.

— As Quatro Irmãs... — ele sussurrou.

— Só restam duas — Lief disse. — As Irmãs do Oeste e do Sul.

— A Irmã do Oeste está dentro de mim — Doran disse com a voz rouca. — Mate-me e a destrua, pois eu não fui capaz.

— Não! — Veritas gritou. — Não, Amigodosdragões!

Os olhos cinzentos se emocionaram, e os lábios secos se curvaram num sorriso.

— Isto não é vida, é estar morto em vida, meu amigo — Doran disse com suavidade. — Para mim, a verdadeira morte seria o melhor dos pre­sentes. Você me negaria isso?

O dragão curvou a cabeça.

— Vou morrer sabendo que não vivi em vão — Doran murmurou. — Vou morrer sabendo que finalmente o inimigo pode ser derrotado. E vou morrer feliz sabendo que você vive, Veritas. Você e sua espécie...

Ele parou de falar, e seus olhos desbotados ficaram confusos.

— Mas... eu estava esquecendo — ele disse. — Este é o território do diamante. Onde está...?

— Esse dragão está morto — disse Veritas imperturbável.

— Então, apesar de tudo, a tribo dele acabou — ele disse com o velho rosto tomado pelo sofrimento. — Eu daria tudo para que isso não tivesse acontecido.

Lief não suportou. Ele se esforçou para colocar a mão no bolso e tirou o bebê dragão, que já parecia maior e mais pesado do que antes.

O bebê emitiu um som fraco e queixoso, mas não acordou quando Lief o mostrou para Doran.

O dragão da ametista se mexeu inquieto.

Mas o rosto de Doran se transformou. Alívio e amor brilharam em seus olhos quando ele observou a pequena criatura cintilante nas mãos de Lief.

— Depressa, Veritas, eu lhe peço — ele disse de repente. — Dê-me o seu presente... agora mesmo...

O dragão da ametista se curvou para a frente.

— Adeus, Doran — ele disse suavemente. — Eu vou vê-lo outra vez naquele lugar acima das nuvens. Lá, estaremos jovens e vamos voar juntos mais uma vez.

— Vamos, sim, meu grande amigo — o homem disse.

O dragão se aproximou e curvou o pescoço até que sua cabeça ocultasse a figura no trono. Ele parou por um momento e então inspirou profundamente.

Quando ele se afastou, o rosto de Doran estava tranqüilo como o de alguém que estivesse dormindo, e os fios de teias de aranha ao redor de sua boca não se mexiam mais.

— O que... — Lief ouviu Jasmine dizer assustada.

— Ele se foi — o dragão sussurrou. — Tirei sua respiração, como ele queria.

Finalmente livre da escravidão, o velho corpo no trono começou a encolher. Algumas moedas, um frasco de prata e uma pedra estranha de muitas cores rolaram para o chão quando as roupas, os cabelos, a carne e os ossos de Doran se transformaram em pó. Mas o horror que tinha sido escondido dentro dele permaneceu.

Ali, na pedra esculpida finalmente revelada, estava um objeto ondulante e gelatinoso, de cor creme e com listras rosa e cinza.

A maldade se desprendia de seu contorno disforme, e sua canção era puro veneno, ódio, perdição e desespero.

A Irmã do Oeste.

 

O dragão rugiu e nesse som retumbante estavam toda a fúria, sofrimento e ódio de seu sofrido coração. O fogo jorrou de suas mandíbulas com violência, e o objeto macio que estava no trono retrocedeu e encolheu quando as chamas cor de violeta o envolveram.

Bem junto da perna do dragão e com o bebê do diamante protegido na curva de seu braço, Lief agarrou a ametista. Atordoado pelo calor e pelo medo, ele sentiu o antigo poder da pedra fluir por seu corpo e transmitir força para a enorme criatura.

Veritas rugiu diversas vezes até que o trono estivesse coberto por um fogo arroxeado. O objeto sem forma escureceu e fumegou. As listras que cobriam sua superfície como uma rede incharam, e o som baixo e tilintante vacilou e se transformou num guincho ensurdecedor.

Lief fechou os olhos com força e pressionou o rosto quente contra as escamas do dragão.

E então os guinchos pararam de repente. O dragão também ficou em silêncio. A caverna parecia ecoar com um silêncio que, de certa forma, era mais terrível do que o barulho.

Lief sentiu o dragão respirar fundo e logo depois ouviu um asso­bio longo e baixo e sentiu um sopro de calor tão intenso que caiu de joelhos.

Houve um estalo forte e Lief abriu os olhos quando o som sibilante diminuiu e desapareceu.

O trono tinha se partido em dois e, onde antes estava a Irmã do Oeste, havia somente uma mancha cinza desbotada na pedra.

— Então está feito — Veritas disse, sério. — Lief, pegue os bens do Amigodosdragões. Eles não devem ficar aqui. Nós também não. Agora que o mal se foi, a besta lá fora vai exigir sua toca de volta.

Lief se levantou com dificuldade. O bebê dragão, na curva do seu braço, se esticou e bocejou.

E piscou os olhos achatados e roxos.

— Você nunca vai conhecer o Amigodosdragões, pequeno dragão do diamante — Veritas disse. — Mas a sua vida deu alegria aos seus últimos momentos, e vou lhe contar essa história no futuro.

 

Em menos de um minuto, o dragão saía rapidamente da caverna com Lief, Barda e Jasmine presos ao seu pescoço. O bebê dragão tinha sido recolocado no bolso de Lief. Filli estava invisível debaixo da gola da jaqueta de Jasmine e Kree voava debaixo das asas do dragão com os olhos dourados fixos no chão, pronto para atacar.

Não havia necessidade. O monstro da ilha tinha saído do pico durante a batalha com a Irmã do Oeste e, naquele momento, estava deslizando de volta para a saliência diante da caverna.

Ele rugiu quando os companheiros fugiram, mas não conseguiu alcançá-los a tempo de feri-los. Quando o viram pela última vez, ele estava desaparecendo dentro da caverna, a cova de seus ancestrais e finalmente parte de seu domínio outra vez. Ele já os tinha esquecido.

— Você tinha razão, Lief — Jasmine gritou por causa do barulho forte do vento quando eles voaram sobre a ilha escarlate e atravessaram o canal.

Lief olhou para além do ombro da companheira. Na distância, ele pôde ver o casaco de penas de Ava balançando ao vento, enquanto ela corria de volta para a loja. Ava carregava uma grande sacola num dos braços e arrastava três mochilas atrás dela.

— Que bandida! — Barda vociferou. — Ela percebeu que escapamos da ilha! Está fugindo e levando as nossas mochilas. Pode ter certeza de que ela tem um bote em bom estado escondido no galpão atrás da casa. Viu? A porta está aberta!

Lief não respondeu. Ele tinha acabado de ver uma coisa que esca­pou ao amigo. Diretamente na frente deles, ancorado exatamente além da ponta da península, estava o Dama da Sorte.

Lief sentiu alguma coisa bem no fundo dele tremer. No mesmo instante, percebeu com medo que o dragão estava perdendo altitude. Ele estava ofegante e exausto.

— Só mais um pouco, Veritas! — ele pediu.

— Vou tentar... — o dragão respondeu com dificuldade. Mas, no mesmo instante em que falou, desceu ainda mais.

O contorno do navio em ruínas ficou maior. Lief fechou os olhos e prendeu a respiração quando passaram em cima dele.

Lief percebeu o dragão cair ainda mais e sentiu gotículas de água no rosto. E então eles foram sacudidos com violência.

Lief abriu os olhos e viu que estavam em terra. Tonto de alívio, ele escorregou do pescoço do dragão.

Seus companheiros tinham descido antes dele, e os dois corriam na direção de Ava, gritando para que parasse.

Lief foi tomado por um terrível pressentimento de perigo.

— Barda! Jasmine! Não! — ele chamou. Mas os companheiros não o escutaram. Olhou para Veritas e sentiu que ele não podia ajudá-lo. O dragão continuava deitado, com os olhos firmemente fechados, onde tinha caído.

Lief começou a correr. Aterrorizado, viu Jasmine alcançar Ava e segurá-la pelo braço. Ava se virou de repente com algo que brilhava como aço em sua mão.

E, em segundos, Jasmine foi erguida do chão com um braço ossudo ao redor de seu pescoço, a ponta da faca pressionada em sua garganta.

O movimento era conhecido demais para Lief. Atordoado de pavor, Lief viu o capuz de penas cair para trás.

O rosto revelado estava totalmente coberto por um pó de um branco mortal. Cabelos longos e castanhos se agitavam ao vento, mas a faixa preta de seda não cobria mais os olhos.

E aqueles olhos faiscantes e vazios eram os olhos de Jack Risonho.

— Afaste-se, ou a garota morre! — ele rosnou. Lief e Barda pararam de imediato.

Filli disparou de baixo da gola da jaqueta de sua dona e mordeu o punho do homem. No mesmo instante, a ponta do bico afiado de Kree atacou sua cabeça.

Mas Jack Risonho não se perturbou. Talvez, nem mesmo tenha notado os ataques. Por ora, Lief conseguia ver que o suor abundante de medo estava dissolvendo o pó em seu rosto e fazendo com que a tinta escorresse de seus cabelos.

O homem estava aterrorizado e o pavor fazia dele uma pessoa ainda mais perigosa.

— Solte-a, Jack! — Lief gritou. — Solte-a e nós vamos deixar você ir embora para se esconder onde quiser!

Da casa de barcos, veio um barulho de cavalos que empinavam e relinchavam inquietos.

Jasmine gritou e começou a lutar. O braço ossudo se apertou ao redor da garganta dela e o sangue escorreu debaixo da ponta da faca.

— Solte-a, Jack Risonho! — Lief gritou outra vez, desejando que Jasmine ficasse quieta. — Você não pode perder tempo aqui conosco. O seu mestre malvado ordenou que viesse para cá para ter toda a certeza de que morreríamos, antes mesmo de pôr os pés na Ilha dos Mortos. Você veio, apesar do medo que sente desta costa, porque já falhou uma vez no norte e tinha que cair nas graças dele outra vez.

Os olhos de Jack Risonho faiscaram, mas ele não disse nada.

— Mas agora você decepcionou o Senhor das Sombras de novo — Lief insistiu. — A Irmã do Oeste foi destruída e logo ele vai saber disso. Se ele o encontrar, nada vai poder salvá-lo.

De repente, Jack arregalou os olhos, e Lief sentiu o estômago revirar quando ele viu neles uma ponta de esperança.

— Tenho uma proposta a lhe fazer, rei — Jack Risonho rosnou. — A vida de sua pequena companheira em troca do Cinturão de Deltora, a única coisa que ainda pode me salvar.

Lief hesitou. Então, ele curvou a cabeça como se estivesse derro­tado, abriu o Cinturão, colocou-o no chão e deu um passo para trás.

— Muito bem — ele murmurou. — Pegue-o. Mas solte Jasmine. Ele sentiu um aperto no peito quando Jack Risonho balançou a cabeça.

— Ah, não — o homem zombou. — Você acha que sou idiota para cair nesse truque? Sei que não posso tocar nesse Cinturão sem me machucar.

Ele recuou e puxou Jasmine com ele. Com a mão livre, ele tateou o ar e entrou na casa de barcos. Ao encontrar o que procurava, ele se virou com ar feroz.

Batendo os cascos, os quatro cavalos pretos apareceram devagar, arrastando a pesada carroça atrás deles. Jack os amaldiçoou e puxou novamente as rédeas do que estava mais perto dele até que a carroça estivesse totalmente fora do galpão.

Arrastou Jasmine para a parte traseira da carroça, abriu a porta e tirou o que parecia um monte de trapos e o jogou no chão, aos seus pés.

O monte gemeu. Horrorizado, Lief viu que era uma mulher magra, cruelmente amarrada e tremendo de frio. O seu rosto estava coberto por um pó branco que lhe dava uma palidez cadavérica. Seus cabelos emaranhados eram castanhos e seus olhos cegos tinham um brilho esbranquiçado.

— Minha inútil irmã, Ava — Jack Risonho zombou. — Foi por causa dela que recebi ordens de vir até aqui e garantir que meu irmão Tom soubesse disso. O meu mestre sabia que Tom conseguiria falar com você e tentaria ajudá-lo através de Ava. Tom sempre se sentiu responsável por meus atos, por mais que finja o contrário.

Ele soltou um riso debochado.

— Tom agiu exatamente como eu esperava! De que adiantava o famoso dom de Ava quando sentiu minha aproximação? Ela não podia se proteger de mim. E, assim, tomei o seu lugar. Vestido com as roupas dela, esperei vocês. Em nome dela, dei os conselhos que deveriam ter causado a morte de vocês.

— Mas o seu plano falhou, Jack — a mulher no chão sussurrou. — Eu vi que seria assim. Eu avisei você...

Jack Risonho fez com que ela se calasse com um chute maldoso. Ele não tinha tirado os olhos de Lief e agora sua boca se abriu no conhe­cido sorriso mortal.

— Deixei Ava viva para caso de ainda ser útil para mim — ele contou.

— E parece que agora ela vai servir para alguma coisa. Ponha o Cinturão ao redor da cintura dela. Ela vai levá-lo até eu chegar a um lugar em que possa me livrar dela e de dois aborrecimentos de uma só vez e recuperar a proteção do meu mestre.

— Cuidado, irmão — Ava balbuciou com os olhos brancos cinti­lantes. — O caminho que você percorre leva à destruição. Vejo morte e decadência ao seu redor.

— É mesmo? — Jack Risonho zombou. — Guarde seus truques diver­tidos para quem se impressiona com eles, minha querida irmã.

Lief sentiu um frio mortal. Ele olhou para o rosto de Barda, duro como pedra. Observou os olhos de Jasmine, brilhantes como um fogo verde. E então encontrou o olhar vazio de Jack Risonho.

— Você não pode vencer, James Gant — ele disse devagar.

— Não me chame por esse nome — Jack Risonho respondeu irri­tado.

— Esse foi o nome que você usou quando tentou esse truque antes, há muito tempo — Lief continuou, ainda no mesmo tom suave e lento.

— Lembre-se do que aconteceu naquela época e saiba de uma coisa. Eu vou lhe dar o Cinturão de Deltora da mesma forma que Red Han apagou o farol de Bone Point. E Jasmine não vai me pedir que eu traia o meu povo, assim como Verity também não pediu ao pai para trair a confiança que tinham nele.

O sorriso de Jack Risonho desapareceu. Tinta de cabelo misturada a suor escorria em seu rosto, formando linhas escuras no pó branco que cobria o seu rosto.

— Lembre-se da lição que aprendeu em Bone Point — Lief falou sem desviar o olhar. — Há algumas coisas que pessoas honradas não fazem, por mais que sejam ameaçadas. — Ele pegou o Cinturão e o colocou ao redor da cintura.

Durante um momento, Jack Risonho apenas olhou fixamente e então cuspiu.

— Pois que seja assim — ele zombou. — Se eu não posso ter o Cinturão de Deltora, vou trocar a vida da garota por um meio de sair daqui em segurança. Você diz que vocês são honrados. Se isso for verdade, não vão me seguir, não importa para onde eu vá.

— Não vamos — Lief disse sério, ignorando os olhos de Jasmine, que disparavam na direção dos cavalos angustiados. — Eu juro.

Jasmine lutou com empenho, ignorando o braço que a asfixiava. Ela puxava as roupas como se tentasse pegar a adaga. Várias coisas caíram de seus bolsos: um pente, o pote de pomada e, com um leve tilintar, a bolsa de dinheiro dos Gnomos do Medo.

— Ah — Jack Risonho murmurou. Ele apanhou a bolsa e a apalpou com um sorriso largo no rosto. — Acho que é mais do que justo se eu for pago por meus aborrecimentos — ele anunciou. — Por isso, esse ouro agora é meu. Todo meu.

E, de repente, tudo pareceu parar.

Lief prendeu a respiração, e os olhos de Jasmine faiscaram com um triunfo selvagem.

O riso de Jack Risonho ficou parado. E então a sua voz veio flutu­ando até ele por cima da água, ecoando através dos anos.

Todo o ouro é de vocês, meus leais tripulantes... Se eu pegar uma moeda sequer para mim, eu mesmo vou pegar os remos. Juro por minha alma!

O rosto dele se transformou numa máscara de incredulidade e medo. Ele olhou para a sacola de dinheiro em sua mão e gritou.

Depois, desapareceu e tudo o que restou onde ele tinha ficado parado foi o casaco de penas de Ava caído suavemente no chão.

Estremecendo, Lief se virou para o lugar onde tinha visto o Dama da Sorte pela última vez. O navio ainda estava lá, muito próximo. Ele não estava mais abandonado, imóvel ou silencioso.

Escuto suas palavras, James Gant, e elas vão cegar você...

Era a voz sonora de Verity. A figura de proa de madeira estava se virando para observar com seus olhos claros e pintados o homem com rosto de caveira que se debatia no convés, na agonia do medo. E, sem emoção, dura como a madeira da qual tinha sido feita, ela viu quando braços apodrecidos se estenderam e o arrastaram para baixo.

 

Durante um instante, o silêncio foi total, mas depois se seguiu um gemido rouco e lentamente o Dama da sorte se inclinou e afundou no mar. Grandes bolhas se ergueram quando ele mergulhou nas profundezas e, quando desapareceu, Lief viu que a proa estava vazia. A figura de proa tinha sumido.

Ele ouviu uma estranha mistura de sons atrás dele: um sussurro como o de areia caindo, o resfolegar dos cavalos, o bater de cascos e o grito alegre de Jasmine.

Quando Lief se virou para olhar, viu que a carroça tinha caído na poeira e os três cavalos estavam batendo as patas no chão entre os bens de Jack Risonho, ainda quase sem acreditar que estavam livres.

Apenas um cavalo, o melhor, ainda era preto. O segundo tinha uma linda cor castanha, e o último era dourado com a cauda e a crina brancas. Ele batia a pata no chão e relinchava satisfeito para Lief.

— Honey! — ele sussurrou sem acreditar e estendendo a mão para o animal. — Bella, Swift! Como...?

Então, ele balançou a cabeça. Lief sabia que nunca descobriria exatamente como Jack Risonho tinha se apropriado dos cavalos que os companheiros tinham visto pela última vez na beira das Florestas do Silêncio. Honey, Bella e Swift não poderiam lhe contar, e os guardas responsáveis por eles estavam todos mortos.

Talvez, Jack Risonho os tivesse encontrado perdidos. Era mais provável que o morador de uma vila os tivesse pego e depois tivesse sido obrigado a dá-los ao agiota em pagamento de uma dívida.

Isso não importava. Tudo o que importava era que seu sofrimento nas mãos de Jack Risonho tinha terminado.

Lief se virou para Jasmine, que estava abraçando Swift, feliz e satisfeita. Agora, ele sabia por que ela não tinha sido capaz de esquecer os animais.

— Você sabia que os cavalos eram nossos, Jasmine! — ele disse.

— Você sabia desde que vimos a carroça de Jack Risonho no Funil, a caminho do Portal das Sombras!

— E não nos contou nada! — Barda exclamou. Ele cortou as cordas que prendiam Ava e a ajudou a se levantar, enquanto Bella esfregava seu ombro com o focinho aveludado.

— Achei que não tinha sentido fazer vocês sofrerem como eu — ela disse, dando de ombros. — Nós não podíamos fazer nada para salvar os cavalos naquela ocasião.

Ela balançou a cabeça com o olhar triste quando se lembrou.

— Mas eu queria contar. Já era ruim o bastante deixar qualquer animal sofrendo nas mãos de Jack Risonho. Foi uma agonia ainda maior deixar os nossos três cavalos...

Três cavalos...

— Mas eles eram quatro! — Lief disse, olhando atordoado ao redor.

— Onde está o outro?

— Aqui — disse uma voz rouca que saiu de trás dos cavalos. Surpresos, os companheiros viram se levantar vacilante um homem grande, com uma barba áspera e ruiva e olhos tão azuis quanto o mar.

Naquele momento, eles entenderam como Jack Risonho tinha gasto a maior parte dos poderes de feitiçaria dados a ele por seu mestre perverso. Ele tinha escolhido usá-los para a maldade, vingando-se do homem que o tinha desafiado.

Todos reconheceram o hesitante homem parado diante deles. Era Red Han, o zelador perdido do farol de Bone Point.

 

Muito mais tarde, depois que todas as histórias tinham sido con­tadas, que Bella, Honey e Swift tinham sido alimentadas e colocadas na casa de barcos e que Red Han e Ava tinham adormecido na cabana, Lief, Barda e Jasmine se sentaram com o dragão da ametista e observaram o mar. O bebê dragão do diamante estava ao lado deles, mastigando peixe fresco pela primeira vez na vida.

O sol estava se pondo quando Lief abriu o cantil de prata de Doran.

O cantil estava cheio até a borda com areia e, escondido lá dentro, como Lief esperava, estava um pedaço enrolado de pergaminho, a quarta e última parte do mapa de Doran.

Pasmo, Lief balançou a cabeça. Ele tinha certeza de que a Irmã do Sul estaria em algum lugar selvagem e deserto. Mas não era assim. Ela estava na cidade de Del, onde sua busca tinha começado!

— Não é de surpreender que o pobre Josef esteja morrendo de preocupação — Jasmine murmurou. — Se ele adivinhou que a quarta Irmã está em Del...

— Não podemos ter certeza disso — Barda interrompeu. — Talvez, ele tenha apenas adivinhado que a Ilha dos Mortos era a nossa ter­ceira meta. De acordo com Lief, Josef sabe sobre os lírios de sangue e as criaturas venenosas na ilha vermelha. Acho que só isso já é motivo suficiente de preocupação.

— Josef sabe onde a Irmã do Sul está — Lief disse simplesmente.

— Ele descobriu tudo. Como nós mesmos poderíamos ter feito.

Ele pegou as outras três partes do mapa e as juntou sobre uma pedra.

— Estão vendo? — ele perguntou, apontando para cada uma das quatro Irmãs. — A Irmã do Leste estava escondida no Ninho do Dragão, o ponto mais ao leste de Deltora. A Irmã do Norte estava no Portal das Sombras, o ponto mais ao norte de Deltora. A Irmã do Oeste estava na Ilha dos Mortos, bem a oeste...

— ...e a Irmã do Sul está em Del, o ponto que fica mais ao sul

— Barda terminou com seriedade. — Sim, estou entendendo. O inimigo não se arriscou. Ele cercou todo o reino com maldade.

Eles se sentaram em silêncio por um momento. O céu ficou ver­melho quando o sol se escondeu no horizonte.

Barda procurou no bolso e tirou a pequena caixa.

— Pelo menos, agora posso olhar para o mar sem ficar com medo de ver o Dama da Sorte nos perseguindo — ele disse.

— Acho que ele nunca nos perseguiu — Lief retrucou. — Ele estava perseguindo Jack Risonho. E agora conseguiu pegá-lo para sempre.

Lief se encolheu quando lembrou as mãos apodrecidas puxando Jack Risonho para baixo e tomou cuidado para não olhar para Jasmine.

— Não me arrependo do que fiz — ela disse em tom de desafio. — Foi ele quem escolheu pegar o ouro e ficar com ele. Tudo o que eu fiz foi lembrar o que você tinha dito sobre seu juramento e me certificar de que ele visse a bolsa de dinheiro.

— E você teve muita sorte — Barda concordou, brincando pregui­çosamente com a caixa. — Se aquele bandido tivesse escapado, ele teria levado não só os nossos cavalos, mas também Red Han. Agora, o farol de Bone Point pode brilhar outra vez. E Verity está livre da maldição, e pode descansar em paz.

— Assim como o Amigodosdragões — ajuntou o dragão da ametista, levantando-se. — Sim. Nós fizemos bem. É um bom final.

— Mas ainda não é um final para nós — Lief disse brevemente.

— Ainda temos algo a fazer.

Ele olhou para as quatro partes do mapa que estavam sobre a pedra à sua frente. Na escuridão, o sinal da irmã ao lado da cidade de Del parecia se retorcer como uma cobra.

De repente, ele se sentiu muito cansado. Seu cérebro exausto estava cheio de perguntas para as quais não tinha respostas.

“E se falharmos nesse último obstáculo?”, Lief pensou. “E se tivermos salvado todo o resto do reino, mas não pudermos salvar o nosso lar? Como era possível que a quarta irmã estivesse em Del? Em que lugar poderia estar escondida? Como poderemos encontrá-la? E por que eu sinto, como Josef, que há alguma coisa que não estou vendo? Algum outro mistério...

Barda soltou um grunhido de surpresa e estendeu a caixinha. Uma terceira vareta saía do seu lado esculpido.

— Não tenho idéia do que fiz para que isso acontecesse! — Barda se queixou, empurrando a tampa da caixa. — E olhe para isto! Três fecha­duras abertas e mesmo assim ela não abre. Que coisa horrível! Eu devia jogar isto no mar!

— Se você fizer isso, vai se arrepender — disse o dragão com sensatez.

— Você nunca vai saber o que há lá dentro.

Barda resmungou, mas Lief notou que o amigo guardou a caixa no bolso, em segurança.

“Amanhã ele vai tentar outra vez”, Lief pensou. “Não importa o que ele diga, ele vai tentar até todas as fechaduras estarem abertas e todos os segredos serem revelados. Mas, por ora, ele vai tirar o problema da cabeça.”

E Lief decidiu fazer a mesma coisa. Lentamente, pegou os quatro pedaços do mapa e os guardou.

— Muito bem — Veritas disse em tom aprovador. Lief olhou para ele surpreso.

— Há um tempo para planejar, outro para agir e outro ainda para descansar — o dragão afirmou. — É sensato saber quando fazer cada coisa.

Seus olhos brilharam como estrelas roxas embaçadas na escuridão. Lentamente, Lief sentiu os músculos relaxarem.

Ele sentiu o bebê dragão se encolher junto dele e se ajeitar para dormir tão perto do Cinturão quanto possível.

“Esta noite é tempo de descansar”, ele pensou. “Amanhã é tempo de planejar. Depois disso, iremos para Del. E lá, onde tudo começou, vai tudo terminar.”

Então, ele parou de pensar e ficou somente sentado observando o mar vazio, enquanto a noite calma caía.

 

 

                                                                                                    Emily Rodda

 

 

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