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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A IMPOSTORA / Mary Wine
A IMPOSTORA / Mary Wine

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A IMPOSTORA

 

   Anne se sentia acuada, pois a esposa de seu pai pretendia casá-la com um escocês selvagem no lugar de sua meia-irmã, filha legítima e ela não poderia fazer nada, pois era apenas a filha bastarda.

   Brodick escolhera uma esposa inglesa por causa de seu dote e estava preparado para todos os problemas que ocorreriam por isso, ele era um valoroso guerreiro e laird de seu clã e conseguiria dominá-la

   Anne aprendera amar seu marido e esperava um filho seu, mas ela deveria retorna para Inglaterra, pois assim sua senhora o exigia para entregar seu filho a sua irmã, em troca da vida de sua mãe e irmãos. E agora o que seria dela?

 

Castelo de Warwick, 1578

   — Não tocará nas minhas pérolas! A condessa de Warwickshire era uma mulher formosa, no entanto tinha os lábios retorcidos, numa arrepiante expressão, enquanto fulminava com o olhar a amante de seu marido.

   — É obvio que as tocará, esposa. O conde entrou no quarto sem fazer ruído, nem sequer suas esporas emitiram algum som. Manteve a voz serena embora houvesse um inconfundível timbre autoritário nela. Todos os criados presentes na residência abaixaram a cabeça num gesto de deferência ao senhor da casa, antes de continuar com as suas tarefas. Entretanto, eles escutavam atentos tudo o que se dizia, já que seguiam com interesse a evolução do crescente descontentamento da condessa. E este tinha aumentado desde o dia que souberam que a amante do conde estava grávida, e fazia tempo que esperavam um desenlace para semelhante situação.

   — Levará as pérolas e as novas roupas, que a encarreguei de providenciar para quando a criança nascesse. Lady Philipa mordeu o lábio inferior para reprimir a mordaz resposta que lhe veio à mente. Não se atreveu a expressá-la em voz alta porque sabia quão volúveis eram os homens quando a paixão cruzava em seu caminho. Em lugar disso, seus lábios formaram uma careta ao mesmo tempo em que fazia uma reverência ao seu marido. Ao levantar o rosto, seus lábios estavam relaxados de novo, um testemunho dos anos de aprendizagem nas mãos de sua aia. As mulheres tinham que saber controlar-se muito mais do que os homens, pois, naquele mundo que lhes havia tocado viver, seus destinos estavam em mãos de seus maridos.

   — Milorde acaso eu não vou usufruir de nenhuma comodidade? Terei que me ver rebaixada a ver meus melhores adornos em sua amante? Deseja por acaso me ver desonrada em minha própria casa? O conde se colocou diante de sua esposa e ergueu um dedo acusatório diante de seu nariz enquanto percorria seu rosto com um olhar escuro.

   — Não é mais que uma rameira, Philipa. Uma rameira malcriada e ressentida que nem sequer tem a dignidade de cumprir com seu único dever. Sua mão se fechou em um punho que agitou em frente aos alarmados olhos da condessa.

   — Escute bem! Não haverá mais hipocrisias nesta casa! Alegue diante de uma só pessoa ou diante todos que não desfruta dos privilégios de sua categoria e farei que desapareçam de seus aposentos as tapeçarias, tapetes. Seus finos vestidos e suas jóias estarão fora de seu alcance e se fechará com chave o armário das especiarias para que possa viver, realmente, sem comodidades. A condessa soltou um grito abafado, mas cobriu a boca por temor que lhe escapasse uma furiosa réplica e selar assim seu destino. O conde assentiu com a cabeça reafirmando suas próprias palavras antes de agarrá-la pelo braço, para fazê-la virar-se para sua amante, Ivy Copper, que estava deitada na cama abraçando a recém-nascida. O bebê dava suspiros e apertava um punho gordinho contra o peito de sua mãe enquanto mamava. Ninguém tinha se importado de vestir a menina, já que os tecidos custavam dinheiro e Ivy não tinha nem voz nem voto em relação ao que lhe entregavam. Os serviçais, por sua parte, estavam às ordens de Philipa e ela não tinha indicado ninguém para que tomasse providências de envolver ao bebê para assegurar-se de seu perfeito crescimento, por isso a menina apenas vestia um longo vestido, como se fosse filha de um camponês.

   O cabelo de Ivy estava escovado e brilhava suavemente sobre seu ombro, pois comemorava o primeiro dia que havia saído da cama. Philipa tinha alimentado a secreta esperança de que a amante de seu marido morresse de febre depois do parto, mas estava ali sentada representando a viva imagem da boa saúde. Inclusive lhe tinha subido o leite para garantir que sua filha bastarda crescesse forte.

   — É certo que foi envergonhada, esposa, mas foi sua própria covardia que a levou a esta situação. O Conde a fez virar-se para que o olhasse, fazendo um estremecimento percorrer Philipa ao captar seu aroma másculo, seu débil corpo feminino o desfrutou, e teve que admitir que evitar o leito conjugal requeria disciplina. — É uma covarde, esposa. Abandonou meu leito por medo do parto. Olhe a minha nova filha, Philipa. Deus honra aos corajosos. Seu olhar suavizou por um momento e seus olhos refletiram bondade. — É minha esposa, retorna a minha cama e assuma seu dever. Se o fizer, juro que nenhuma outra ocupará seu lugar. Nenhum bastardo se colocará por cima de seus filhos. Philipa agitou a cabeça de um lado a outro enquanto tentava escapar dele. O medo a sufocou, a impedindo de falar. Dar a luz era perigoso, mortal! Mais da metade de suas amigas tinham acabado mortas, depois do parto por causa de febres ou, pior ainda, haviam falecido depois de sofrer durante horas em dolorosa agonia para os bebês abandonar o corpo de suas mães.

   O conde bufou indignado, apontou-lhe o dedo e sua voz ressoou através dos muros do castelo.

   — Irá se encarregar pessoalmente de colocar o colar de pérolas ao redor do pescoço de minha amante e de segui-la até a igreja. E também será a madrinha de minha nova filha.

   — Pretende reconhecer à bastarda? Conturbada, Philipa sentiu que lhe tremia o lábio inferior. — E quanto a Mary? Dei-lhe uma filha, Milorde!

   — E por isso a honrei como devia. Soltou-lhe o braço e deslizou o dorso de sua mão pela face dela. – A honrarei de novo e esquecerei tudo isto se retornar ao meu leito como deve. Abaixou a voz para que Ivy não pudesse ouvi-lo. – Deixá-la-ei, de lado, Philipa, por ti e por um filho legítimo, pense nisso. Mas não recorrerei à violação, não permitirei que me imponha semelhante peso, estamos casados e seu dever, igual ao meu, é conceber filhos no leito conjugal. Depois de dizer aquelas palavras, o conde se afastou de Philipa para unir-se ao grupo de visitantes que festejavam o fato de que Ivy tivesse sobrevivido ao parto. Nas próximas duas semanas, se ainda vivesse, a nova mãe iria à igreja para ser purificada pelo Clérigo do castelo e, a partir de então, lhe seria permitido assistir de novo aos ofícios religiosos.

   A bastarda logo seria batizada, pois as tradições deviam ser seguidas, tal e como vinha acontecendo há séculos. Se Ivy morresse antes de ir à igreja, ela não seria enterrada em solo sagrada e se o bebê falecesse sem ser batizado, também lhe seria negado à sepultura em solo santo. Os suaves sons que a menina emitia ao mamar ecoavam no quarto, enquanto Philipa observava como seu marido se inclinava para beijar a sua amante. A cama era o vivo exemplo do luxo. Grossas tapeçarias de lã cobriam o dossel e caíam como cortinas nas laterais. Seus lençóis, agora limpos, eram do fio mais fino, e o lençol manchado do dia do parto se mostrava com orgulho junto à janela, onde todos os visitantes podiam tocá-lo ao passar, para que lhes desse, boa sorte. Ivy usava um vestido comprido procedente do próprio armário de Philipa e o delicado tecido resplandecia sobre sua cremosa e suave pele. Havia vinho quente a disposição da nova mãe e bolos assados com especiarias da reserva particular do conde. Tudo fora preparado tão grandiosamente como quando ela tinha sido mãe e permitiu que sua filha Mary fosse vista pela primeira vez. A única diferença era que uma ama de leite tinha amamentado a sua menina, porque, como uma mulher pertencente à nobreza, a condessa podia permitir-se ao luxo de não ter que atender as necessidades básicas de um recém-nascido. Philipa olhou os seios de Ivy e observou que o leite deslizava pela bochecha do bebê. O conde riu e a limpou com sua própria mão. A amante de seu marido sorria satisfeita diante dos cuidados que ela e sua filha recebiam, aquela imagem produziu em Philipa um amargo sabor na boca que a fez se estremecer, ao dar-se conta, o que precisaria fazer, para ganhar a atenção de seu marido, afastando-o assim de sua amante. Não poderia fazê-lo. Outra vez não. Havia padecido dois dias para trazer sua filha ao mundo. Dois longos, dolorosos e intermináveis dias, e na realidade, ela não pudera amamentar seu bebê, porque a odiava por tê-la feito sofrer daquela maneira horrível. Esse ódio, além disso, estendeu-se ao seu marido e a sua exigência de ter mais filhos. Sua mãe tivera que suportar o mesmo de seu pai, mas agora tudo era diferente.

   A Inglaterra era governada por uma Rainha e Mary poderia herdar tudo. Elizabeth Tudor se encarregaria para que assim fosse. Os homens já não tinham o poder absoluto sobre as mulheres de suas famílias, Philipa se virou fazendo brilhar suas anáguas de seda e partiu. Que aquela bastarda fosse reconhecida! Isso não alteraria o fato de que ela era a senhora do castelo. O conde voltaria a ser chamado à corte e então, Ivy e sua filha estariam a sua mercê.

 

   Capela de Warwick:

   — Que nome colocará na menina? Os participantes da cerimônia contiveram a respiração esperando escutar o nome do bebê, pois nunca se dava nome a uma criança antes de ser batizado para que o diabo não pudesse enviar um dos seus servidores com o fim de lhe arrebatar a alma.

   — Anne. Philipa falou com clareza quando o sacerdote a olhou, já que como madrinha era a encarregada de decidir o nome. — Igual à querida e defunta mãe da Rainha.

   O padre, nervoso e com os olhos totalmente abertos, quase deixou cair à menina na pia batismal. Philipa, no entanto, pestanejou com ar inocente e ignorou o murmúrio que se estendeu entre os paroquianos diante do fato de que a bastarda levasse um nome maldito. Anne Bolena tinha sido executada por ordens do Enrique VIII muito antes que sua filha ostentasse a coroa da Inglaterra. Ninguém objetou a decisão da Condessa. Nem sequer os pais da recém-nascida puderam protestar, já que não lhes foi permitido assistir ao batismo na intenção de purificar à menina por completo sem a presença de seus progenitores. Philipa fulminou com o olhar o sacerdote e este mergulhou o bebê na água com muita mais força do que era habitual nele. Anne gritou quando a tiraram da pia batismal, Philipa franziu o cenho ao observar que o bebê ficava avermelhado e ao escutar que os fiéis lançavam vivas de aceitação. Se a menina não tivesse gritado para expulsar o diabo, teria sido rechaçada pela Igreja. Mas Anne gritou tempo suficiente para alcançar até o último banco do templo. Ao menos, Philipa tinha conseguido dar àquela criança um nome portador de má sorte. O pároco resmungou uma oração de despedida antes de envolver a menina numa toalha e entregá-la a sua madrinha.

   A condessa controlou o impulso de ostentar um ar depreciativo ao sair da capela com sua afilhada, mas assim que entraram no corredor particular que ia para seus aposentos entregou-a bruscamente a uma criada lhe dando as costas. Por isso não viu os olhares de desaprovação que lhe lançaram suas criadas enquanto embalavam e acalmavam a menina que consideravam como uma das suas.

   Anne soltou vários gemidos, antes que se aninhasse nos braços que a sustentava e permitiu que acariciassem seu escuro cabelo. A governanta lançou um olhar para o corredor por onde se afastava sua senhora e franziu o cenho.

   — Algumas pessoas não têm coração. Não o têm absolutamente! Um bebê sempre é uma bênção para o castelo! Todo mundo sabe. A senhora se envenenará com tanta mesquinharia e atrairá tempos escuros para os habitantes destas terras.

   — Guardem bem o que lhes digo. As duas criadas à suas ordens se limitaram a guardar silêncio, já que falar mal da Senhora do castelo era motivo para ser mandado embora. Mas, por outro lado, nenhuma delas reconheceria ter ouvido nada do que dissera a governanta, conscientes de que ter a antipatia daquela mulher significava encarregar-se das piores tarefas, assim se limitaram a acariciar a recém-nascida, fazendo sorrir a aqueles diminutos lábios rosa. Um bebê saudável trazia consigo sorte para todo mundo. A vida era dura e teria que desfrutar dos bons momentos sempre que fosse possível.

 

   Warwickshire, na primavera seguinte:

   — Mãe, veja, os cisnes estão nascendo. Philipa sorriu ao contemplar como sua filha brincava de correr pelo corredor, seguida de perto por sua babá. — Pois claro que mamãe irá ver minha menina preciosa.

   A condessa seguiu sua filha. Abaixou o olhar e sorriu ao ver o modo como o cabelo de Mary brilhava sob o sol. Não havia dúvida de que por suas veias corria sangue nobre, tudo nela era suave e delicado. Diferente da bastarda de Ivy, sua filha Mary era perfeita e legítima, seu coração se encheu de alegria ao pensá-lo, mas essa sensação morreu no instante que olhou para o outro lado do pátio e viu o Ivy e aquela rameira que voltara a ficar grávida e todos auguravam que o bebê seria um menino.

   — Mãe, venha, olhe! Mary apontou com a mão gordinha os cisnes, sem saber que Philipa tinha deixado de desfrutar do momento. A condessa lançou um olhar furioso à amante de seu marido, enquanto Alice, sua dama de companhia, falava-lhe em voz baixa: — Deveria reconsiderar Milady, e convidar seu marido de novo ao seu leito. A condessa, vestida com a mais fina lã, voltou-se para a Alice com fúria, mas sua dama de companhia se manteve firme diante de seu aborrecimento, apesar de que agora Philipa ostentava um título aristocrático, Alice a tinha criado e sabia manter-se imperturbável diante da desaprovação que havia em seus olhos. Para ela, sua senhora ainda era uma menina a quem podia repreender.

   — Poderia divorciar-se de você e a devolver ao seu pai, milady. É seu dever, só teria que lhe dar um filho varão.

   — Mas, e se eu der à luz a outra filha inútil? Philipa estremeceu. Já escutou à parteira, Alice, meus quadris são muito estreitos. Se Mary tivesse sido um bebê maior... Eu poderia... Haveria... Nem sequer pôde acabar a frase, Alice meneou a cabeça lhe oferecendo sua compaixão.

   — Milady, o primeiro parto é sempre o mais difícil. Dê um filho varão ao senhor e sua posição estará assegurada, logo, deixe que essa rameira conceba o resto. Um violento estremecimento sacudiu Philipa ao mesmo tempo em que unia as coxas com força sob as saias. O simples fato de pensar no parto fazia com que seu corpo adquirisse uma friagem mortal. Não poderia fazê-lo. Queria viver, não morrer em meio de um atoleiro formado por seu próprio sangue.

   — Não o farei, Alice. —Não voltarei a deitar-me com meu marido! Juro-o! Embora isso signifique que ele me envie de volta para meu pai. Philipa sentiu as lágrimas sulcando suas faces enquanto olhava Ivy. A inveja a encharcou, mas ela acolheu agradecida a chegada daquele sentimento porque fez desaparecer o medo. O ódio começou a aumentar ao mesmo tempo em que abraçava sua ira. Uma intensa aversão por Ivy, seus bastardos e por tudo que os deslumbrassem, inundou seu coração. Odiava-os. Odiava-os, odiava-os... Odiava-os

 

Castelo de Warwick,

   — Se apresse Anne. A senhora está de muito mau humor hoje.

   — Que novidade.

   Joyce, a governanta, lançou um severo olhar à jovem que estava ao seu cargo e enrugou o nariz.

   — Cuidado com essa língua. A condessa é superior a você e foi Deus quem a pôs aí. Anne inclinou a cabeça enquanto mantinha em equilíbrio a bandeja do café da manhã da senhora do castelo. Era certo que tinha que morder a língua, embora não o fazia por ela mesma. De fato, importava-lhe pouco seu próprio conforto, mas a jovem estava bem consciente de que Lady Philipa não castigaria só a ela, ficaria encantada de descarregar sua cólera também sobre sua mãe, a amante do conde. Com um suspiro, seguiu Joyce para a ala oeste, apressando-se para que a bandeja estivesse ainda quente quando a condessa despertasse.

   Uma grande terrina de prata polida protegia o variado café da manhã. Cada terrina estava adornada com gravuras de flores e pássaros, e eram aquecidas sobre o fogo antes de ser colocadas sobre cada prato para mantê-lo quente. Anne tinha levantado com os primeiros raios do amanhecer com o intuito de atender à condessa quando despertasse. Estava encarregada daquele dever desde que iniciou seu fluxo menstrual. Os primeiros meses lhe tinham doído os braços devido ao excessivo peso da bandeja com toda aquela prata, mas agora se movia sem problemas. Philipa também tinha ordenado que Anne a vestisse cada manhã para se assegurar de que dormisse atrás da cozinha, junto às outras criadas, e sob a vigilância da governanta. Desse modo não conheceria nenhum homem e permaneceria virgem, a razão era singela. Anne era filha bastarda de um conde, e apesar de que Philipa detestava vê-la e a seus irmãos, não era nenhuma estúpida. Sabia que Anne poderia ser de utilidade em alguma negociação de matrimônio. Havia cavalheiros de posições inferiores que dariam valor ao sangue nobre numa esposa, embora também fosse possível que a condessa tivesse intenções de convertê-la em rameira, ao serviço dos caprichos de algum gordo mercador. Fosse o que fosse, o que a condessa tinha em mente, ainda não a preocupava. Anne permaneceu de pé em silêncio enquanto abriam as cortinas da cama e Philipa virava a cabeça para o pessoal que esperava suas ordens, seus olhos inspecionaram cada um das criadas, da apertada touca à prega da saia. A condessa não tolerava nenhuma falha, seus lábios nunca pareciam sorrir e em seu rosto se distinguiam as rugas que eram prova disso. Uma pintura no salão inferior a mostrava em sua juventude como uma alegre recém casada, mas não havia nenhuma alegria na mulher que estava recostada no leito. Anne observou Philipa através de suas pestanas quando a fila de criadas inclinou a cabeça em sinal de deferência. — Senti frio nos pés esta noite, retiraram-lhe as mantas para que se acomodasse e lhe colocaram uns almofadões macios nas costas.

   — O fogo não foi aceso como deveria e as brasas não mantiveram seu calor, nenhuma das criadas disse uma só palavra, abaixavam a cabeça cada vez que Philipa falava e se moviam pelo quarto como se fizessem movimentos ensaiados. Abriram as pesadas cortinas de tapeçaria de par em par com muito cuidado, conscientes de quão caro era aquele tecido. Limparam rapidamente as cinzas da enorme lareira e acenderam outro fogo para esquentar a alcova.

   Anne aguardou até parecer que a senhora estava o suficientemente confortável, para colocar o café da manhã sobre seu colo, assegurando-se de que as pequenas alças douradas da bandeja deslizassem suavemente por ambos os lados das pernas da condessa sem sequer roçá-la. Carrancuda, Philipa começou a inspecionar o que havia oculto sob as grandes tampas de prata polida que cobriam seu café da manhã. Um segundo depois, apertou os lábios numa dura linha e deixou cair uma tampa sobre o que a cozinheira tinha preparado.

   — Diga à cozinheira que se apresente diante de mim ao meio-dia. As criadas se retesaram visivelmente, já que todas elas tinham sido em alguma ocasião objeto do desgosto da senhora. A cozinheira não teria um dia agradável, Philipa começou a comer de um dos pratos enquanto observava às criadas com olhar crítico. Todas aprenderam a mover-se com passos suaves e cuidadosos para passar totalmente despercebidas, e mantinham o olhar baixo por medo a chamar a atenção.

   — Estou pronta para me levantar. Philipa largou os talheres desleixadamente e uma criada lhe retirou a bandeja quase no mesmo instante, enquanto outra retirava as mantas até os pés da cama. Anne trouxe água e se uniu ao resto das criadas, dependendo do humor de Philipa, podia custar até duas horas vesti-la. As criadas se moveram com eficiência ao redor da condessa, lhe lavando os pés e as mãos antes de deslizar as meias de lã por suas pernas. Cobriram-na com uma fina camisa e depois com umas anáguas forradas. A roupa não podia ser mais luxuosa, a lã mais áspera ficava coberta pelo caro algodão da Índia, e os arremates estavam adornados com elaborados desenhos. As criadas trabalhavam em excesso para abrigar a sua senhora apesar da chegada da primavera, porque o condado de Warwickshire ficava muito ao norte. Era o último território sob comando inglês antes da temível fronteira escocesa. De fato, o conde era requisitado continuamente na corte por sua importância como dono e senhor de terras fronteiriças. Anne sentia muito a falta de seu pai. Tudo era mais fácil quando o conde se encontrava no castelo. Os lábios da jovem tremeram nervosamente e, ao se dar conta disso, apressou-se a apertá-los numa fina linha com medo de ofender a Philipa. No entanto, não podia evitar que seu coração se enchesse de alegria ao pensar em seu pai. Sua mãe transbordava felicidade quando ele retornava e, apesar dos anos transcorridos, sempre dançava ao ver que os primeiros cavaleiros atravessavam as portas do castelo para anunciar a chegada do senhor. Por desgraça, seu pai tinha passado todo o inverno na corte, quatro longos meses nos quais a família de Anne tinha suportado o azedo temperamento de Philipa sem os carinhosos cuidados do conde. Entretanto, apesar de que o senhor do castelo adorava seus filhos bastardos, agarrava-se à tradição, no que implicava que Anne estivesse sob as ordens de Philipa. Mesmo assim, aquilo era melhor do que muitos tinham, pois ao menos a jovem dispunha de um teto onde cobrir-se e comida na mesa dos servos. Usava um bom vestido de lã e botas feitas sob medida. Tinha que sentir-se agradecida de muitas coisas, porque, certamente, estar ao serviço de uma mulher como a condessa era menos do que muitos sofriam.

   Por sorte, Mary não se encontrava em casa. Anne estremeceu. Sabia muito bem que a herdeira legítima do castelo era realmente perversa, Mary choramingava como um bebê e tinha violentos ataques de raiva, inclusive chegava ao ponto de rasgar tecidos de boa qualidade porque não eram tão finas como as que luziam algumas de suas amigas na corte. Philipa, por sua parte, consentia, e sempre encontrava dinheiro nos cofres do conde para comprar as coisas que sua filha exigia. Quando teve certeza de que Philipa não podia vê-la, Anne franzia o cenho severamente, era ela que encontrava os recursos que faziam Lady Mary deixar de dar gritos, por tradição, os livros de contas deveriam ser administrados pela Philipa, que tinha a obrigação de ensinar aquele dever a Mary, mas esse não era o caso no Warwickshire. Depois de ajudar a vestir à condessa, Anne tinha que passar o resto das horas do dia, e inclusive algumas da noite, fazendo a contabilidade dos livros. Seu pai tinha insistido para que ela e seus irmãos estudassem, mas tinha deixado que Philipa decidisse onde aplicar a educação recebida. O dever de Anne eram os livros de contas e assegurar-se de que estivessem de acordo, assim cada vez que Lady Mary pedia mais ouro, era Anne quem se encarregava de encontrá-lo onde o senhor não pudesse sentir falta. Conseguia o dinheiro da venda de cordeiros ou da roupa tecida pelo pessoal do castelo, apesar de que realmente odiava tanto esbanjamento, Warwickshire seria muito mais forte se não fosse saqueada tão freqüentemente por pura vaidade. De repente, ouviu-se um forte golpe na porta e uma faxineira se apressou a abrir, quando o amplo painel de madeira deixou passar uma criada, escutou-se claramente o repique dos sinos da muralha.

   — O Conde retornou Milady, informou-lhe a recém chegada, Philipa franziu o cenho. — Bem, acabem de me vestir, estúpidas, todo mundo se apressou a seguir com suas tarefas mantendo o olhar baixo. Anne se limitou a entregar as coisas às outras criadas, tinha aprendido a ficar fora do alcance da condessa quando estava se preparando para receber seu marido, pois Philipa estava acostumada golpear as serviçais antes de seus encontros com o conde por puro nervosismo. Provando a teoria de Anne, a condessa desferiu um sonoro bofetão numa das criadas quando ela deixou cair um sapato. –Fora! A criada abaixou a cabeça e retrocedeu para a porta aberta, uma intensa mancha vermelha marcava seu rosto. Ao ver aquilo, Anne reuniu coragem e se ajoelhou para recolher o sapato.

   — Por que tenho a desgraça de contar com os piores servos da Inglaterra? As famílias de Warwickshire só criam filhas idiotas. Ninguém falou, mas os olhos das criadas se encontraram a costas da senhora para compartilhar seu descontentamento com olhadas silenciosas. Anne se levantou, agradecida de ter acabado com sua tarefa, mas não conseguiu inclinar a cabeça a tempo e Philipa a repreendeu.

   — Bastarda! Anne se apressou a abaixar a cabeça e a condessa lhe dedicou uma careta de desprezo.

   — Nascer bastardo significa ter sido concebido em pecado. Será melhor que agradeça a Igreja por ter sido misericordiosa, porque, de outro modo, nunca teria sido batizada.

   — Sim, milady. Suas palavras não lhe doeram, tinha suportado muitos insultos da malvada língua de Philipa e sabia que era melhor que receber suas bofetadas.

   Mary, recém chegada da corte, surpreendeu a todos ao entrar a toda pressa na estadia em um revôo de saias de seda.

   — Pai me prometeu! OH, mãe, não quero ir à Escócia, lançou-se sobre a condessa e gemeu ruidosamente sobre seu peito.

   — Diga a ele, que não terei que ir, mamãe. Por favor! Começou a chorar com uma violência inusitada, enormes lágrimas alagavam seus olhos ao mesmo tempo em que se agarrava ao vestido de Lady Philipa.

   — Me diga que não terei que ir ao leito de nenhum escocês.

   — Já basta, Mary! Rugiu o conde da soleira. Todos os presentes se viraram quando o senhor do castelo irrompeu no cômodo, seu cabelo salpicado de prata não diminuía o poder da sua imponente presença, inclusive Philipa inclinou a cabeça num gesto de deferência, arrastando sua filha com ela.

   — Não permitirei que me envergonhe, filha. Advertiu-lhe o conde.

   — Assumi um compromisso firme com o jovem Brodick e o cumprirei, além disso, possui um título nobiliário.

   — Mas é escocês! Os lábios de Mary formaram uma careta quando choramingou. — Os tempos estão mudando, filha. Logo seremos uma única nação, governados sob um rei escocês. Brodick McJames é uma boa escolha, muito melhor que qualquer de seus amigos da corte.

   O senhor do castelo olhou em direção a sua esposa e de repente seus olhos repararam em Anne, que não pôde evitar que seus lábios se curvassem para cima lhe dando a boas-vindas ao mesmo tempo em que inclinava a cabeça, uma faísca iluminou os olhos do conde e Mary soltou um grave som ao ver a troca de olhares. Observou sua meia-irmã por cima do ombro de sua mãe e o ódio resplandeceu em seus olhos. Seu pai ficou tenso ao dar-se conta do que estava ocorrendo e voltou a dirigir o olhar para sua esposa.

   — Os homens do Conde do Alcaon chegarão esta semana, o rei só me permitiu partir para escoltar Mary em sua volta a casa, devo voltar para a corte na alvorada. Assinalou a Mary com um dedo. — Assumirá seu lugar tal e como o arranjei e não haverá mais lágrimas. Amadureça de uma vez! Encarregue-se disso, esposa.

   — Deve casar-se? Perguntou Philipa.

   O conde franziu o cenho. — Por Deus santo, mulher! Tem vinte e seis anos e desprezou a todos os pretendentes que lhe tenho proposto, não haverá mais discussões, tudo isto é minha culpa por permitir que vocês duas me influíssem, Mary devia ter-se casado faz quatro anos, mas tentei esperar até que aceitasse a algum pretendente ou me apresentasse algum de sua própria preferência. – Milady passou-se oito anos desde que a levamos a corte!

   — Mas é escocês, pai.

   — É um Conde. Mary se encolheu ao ver que o senhor do castelo avançava para ela, um homem cujas terras fronteiriças com as nossas, o qual o transforma numa boa escolha como marido para você. Mary soluçou mais forte, fazendo que seu pai emitisse um grave grunhido de desgosto e dirigisse sua irritação para a Philipa. — Vê isto, esposa? É a única filha que tem que se encarregar e a transformou numa criança chorona que não sabe agradecer a boa sorte que a vida lhe oferece. — O que quer de mim, filha? Acaso você gostaria de ficar solteira para sempre? Ou se converter numa rameira como essas amigas cortesãs, com bastardos crescendo em seus ventres? Não há muitos nobres que a queiram devido ao fato de que sua mãe nunca concebeu um filho varão.

   Aterrorizada, Mary negou com a cabeça, estremeceu e ficou em pé com os olhos totalmente abertos sob o duro olhar de seu pai. Anne sentiu realmente dó de sua meia-irmã a sociedade era cruel ao carregar às filhas com o estigma de suas mães. Como Philipa se negou dar a seu marido um herdeiro, suspeitava-se que Mary seguiria seu exemplo.

   — Sim, agora começa a enxergar a verdade do assunto, um ano mais e quem te quererá? É hora de se casar e ter filhos. Isto não é um compromisso, filha, e sim uma aliança por poderes. O Laird do clã McJames não quer esperar que se organize uma celebração, o assunto está resolvido. Agora é uma esposa com deveres para atender. Sem mais, o conde deu meia volta, e saiu fazendo que suas esporas ressoassem sobre o chão de pedra. Seus homens, que tinham presenciado toda a cena, apressaram-se a seguir seus passos, Philipa ignorou as criadas presentes na alcova, a intimidade era um luxo extremo, e, como esposa de um conde, Mary teria que aprender a conviver com os muitos olhos que conheceriam todos e cada um de seus movimentos. Era melhor que se acostumasse agora do que num castelo que se esperava que dirigisse.

   — Mãe, terá que me ceder a Anne para que faça os livros de contabilidade, disse Mary de repente. — Não sei como fazê-los.

   A garganta de Anne se fechou ao captar o olhar que sua meia-irmã lhe lançou, parecia a maneira, que alguém, analisava uma nova égua que estivesse considerando comprar. Philipa se virou para considerar a idéia e Anne abaixou a cabeça apesar de que a fúria começava a bulir com força em seu interior. — Todo mundo, fora! Anne, você fica. Joyce lhe dirigiu um olhar de impotência enquanto fazia sair ao resto das criadas do quarto.

   — Venha aqui, Anne. Philipa estava em seu elemento e sua voz transbordava autoridade, a jovem se aproximou dela sem que se ouvisse o menor som de suas botas. Era obrigada a servir à condessa, mas não lhe tinha medo. O medo era para os meninos e os idiotas.

   — Tire a toca. Anne desabotoou o botão que prendia a touca de linho com uma fita no pescoço e olhou à condessa com o cabelo solto para ver o que desejava os olhos de Philipa a estudaram durante um longo momento com atenção.

   — Vá! Anne voltou a por touca e já tinha chegado à porta quando Philipa a deteve. — Prestou atenção aos seus estudos, moça?

   A jovem virou-se para encarar a Condessa e respondeu: — Sim, Milady. Mas não por suas ordens, Anne tinha um forte temperamento e às vezes não podia evitar que surgisse, mas também residia em seu interior um firme desejo de aprender, de saber, por isso tinha absorvido com avidez tudo o que tinham lhe ensinado.

   — Vá ocupar-se dos livros e não saia dali. Anne abaixou a cabeça, já que não confiava em que sua voz pudesse ser suave ou chegasse a ser minimamente respeitosa. O fato de que Lady Mary se casasse não era razão suficiente para que a condessa liberasse o seu mau humor. Todos estiveram aguardando por essa noticia durante anos, era incrível que seu pai precisara arrastá-la de volta para casa. Mary tinha sorte que seu marido desconhecesse sua maneira de ser, pois, se não fosse assim, poderia realizar o desejo de ser recusada. Mas isso faria os falatórios aumentarem e as suspeitas crescerem, pois todo mundo se perguntaria por que Mary resistia tanto a envolver-se num matrimônio que lhe proporcionaria uma enorme propriedade para governar mais rica inclusive que do seu pai, com a união de seu dote às terras de seu marido, seus filhos viveriam melhor do que eles o faziam. Eram umas magníficas bodas. Entretanto, Lady Mary era muito obtusa para compreender como aparecia comida na mesa quando ela se sentava. Anne, pelo contrário, conhecia a procedência de cada grão, de cada pedaço de pão, e sabia quando a colheita fora escassa ou a razão de que as ovelhas não parissem tão freqüentemente como devessem, requeria-se um grande engenho para ajustar a contabilidade e assegurar-se de que houvesse suficiente estoque para manter aos habitantes do castelo durante o inverno. Se, vendesse muito haveria estômagos vazios. E nessa época tinha que ser verdadeiramente inteligente para governar um castelo e se encarregar com as responsabilidades de dirigir uma grande propriedade.

   — O que queria? Perguntou-lhe Joyce a governanta, que se escondia num rincão e retorcia o avental enquanto aguardava para escutar o que tinha acontecido depois de ter abandonado o quarto. — Ordenou-me que me encarrega-se dos livros, arrumando-o, pois planeja saquear de novo os cofres para destinar o ouro ao armário de Mary.

   — Essa tua língua herdou de seu pai, só um nobre falaria assim, será melhor que tome cuidado moça, a condessa não a aprecia absolutamente nada.

   — Sei muito bem.

   Joyce suavizou seu severo olhar. — OH, pequena, sinto muito. Ela não sabe o que é a bondade e você é uma filha leal. Seu pai deveria estar orgulhoso de você ao ver como mostra respeito a essa amargurada mulher. Anne sentiu que seu rosto resplandecia. Seu pai estava em casa e poderia desfrutar de sua presença nos aposentos de sua mãe essa noite. Sempre ia ali quando estava em casa, por mais que isso despertasse o ódio de Philipa. Entretanto, às vezes, Anne suspeitava que ela o fizesse para enfurecer a sua esposa de sangue azul.

 

   Depois do pôr-do-sol...

   Anne se apressou ao cruzar o corredor, seus deveres a tinham entretido até tarde essa noite. Um sorriso começou a iluminar seu rosto à medida que se aproximava do quarto de sua mãe, que se achava no extremo norte do castelo. Era fria no inverno, mas Ivy se negou a abandoná-la mesmo quando o conde o sugeriu. Ivy não queria problemas, já que sua família tinha que viver com a Philipa enquanto o conde se encontrasse na corte. Philipa havia designado aquele cômodo, assim se conformaria com ele por mais frio que fosse. Anne abriu a porta e viu que o quarto estava iluminado pela suave luz das velas.

   — Aqui minha menina, Philipa afirma que é a pior criada que já teve que tolerar. — Boa noite, pai. Anne inclinou a cabeça num gesto de sincero respeito. Seu pai assentiu satisfeito e seu rosto permaneceu indecifrável durante um longo momento até que abriu os braços. Imediatamente, a jovem correu a refugiar-se neles, rendendo-se enquanto ele a estreitava com força, finalmente a soltou e lhe tocou no nariz com um dedo.

   — É uma boa garota por não se queixar, não é culpa sua que nada agrade a minha esposa.

   — Prometo me esforçar mais amanhã, pai.

   O Conde sorriu. — Sei que o fará, também sei que Philipa seguirá insatisfeita. Mas não estou aqui para falar de minha esposa, lançando uma gargalhada, estreitou Ivy entre seus braços e lhe deu um beijo na face. — Senti falta de todos.

   — Nos fale da corte, por favor. Bonnie, a menor, aguardava com impaciência as histórias de seu pai.

   O conde levantou um grosso dedo. — Suponho que poderia lhes falar da máscara que o conde do Southampton levou a semana passada... Bonnie se moveu inquieta e se dispôs a escutar sob o carinhoso olhar de Anne. Sorrindo, a jovem agarrou uma fruta seca que havia num prato, a humilde mesa que freqüentemente só continha papa e soro de leite, nessa noite oferecia frutas, pães-doces e cerveja enfraquecida com água. Brenda levou várias torteletes de fruta para ressarcir-se dos insultos que lhe tinha dirigido Philipa essa manhã, aquele tipo de manjar só se preparava para a condessa, mas como à senhora do castelo não fazia nem a mínima idéia de como preparar uma comida, seus serviçais podiam vingar-se usando mais quantidade do exigido. Philipa daria um ataque se visse que os meninos de Ivy comiam o mesmo que ela e Mary. Isso fazia as torteletes parecerem muito melhor, pensou Anne, que tentou inutilmente repreender a si mesma por ter pensamentos tão mesquinhos.

   Os ricos manjares contribuíam para criar um ambiente festivo, no entanto era a presença de seu pai que alegrava a todos os presentes, havia luz no quarto até bem tarde da noite e as risadas escapavam através das frestas da porta. Quando Anne finalmente foi à cama, sentia o coração transbordante de felicidade. Não, os insultos de Philipa nunca poderiam manchar o amor que Anne recebia do conde. Pode ser que a condessa se sentisse poderosa, mas não poderia romper nunca o vínculo que seu pai compartilhava com ela. Todo mundo tinha que suportar algo desagradável em sua vida e lhe havia tocado lidar o desprezo de Philipa, mas não era nada do que tivesse que preocupar-se. A verdade é que não era importante.

 

   Ao amanhecer

   O Conde de Warwickshire saltou sobre seu cavalo com a mesma destreza que qualquer guerreiro de seu séquito. Não usava finas roupas, além da grossa lã inglesa para proteger do frio. Anne e sua irmã Bonnie observavam sua partida de uma janela do segundo andar que tinha as portinhas abertas.

   — Acredita que o papai lhe trará um marido da próxima vez que vier? Bonnie, de quatorze anos, ainda não era consciente da dura realidade de ter nascido fora do matrimônio, é obvio, toda a família se esforçava por protegê-la, apesar de que Bonnie logo cresceria e teria que enfrentar à verdade.

   — Não sei tesouro, mas tentarei não me preocupar com isso. Papai sempre cuida de nós. Bonnie riu e seus olhos azuis lançaram belos brilhos. — Irá trazer-lhe um homem que ganhou suas esporas com uma nobre façanha e que foi nomeado cavalheiro pela rainha. Bonnie suspirou absorta em suas fantasias, e Anne não pôde evitar desfrutar daquele momento. Inclusive gostava de acreditar em finais felizes.

   — Provavelmente esse cavalheiro esteja esperando que você cresça. Alisou-lhe o cabelo e lhe sorriu. Os olhos do Bonnie resplandeceram ao tempo mesmo que abria a boca de par em par surpreendida.

   — Realmente crê que poderia estar me esperando? — Sim. Todos os povoados daqui a Londres sabem quão bela você é e certamente terá que escolher entre vários pretendentes.

   — Zomba de mim. O lábio do Bonnie tremeu ligeiramente. — Isso não é muito engraçado, além disso, poderia me tornar vaidosa.

   — Vamos tesouro, só me junto a ti no seu sonho, não irá negar-me esse prazer, verdade?

   Quando o Conde esporeou sua montaria e se dirigiu para o portão externo, Bonnie levantou uma mão para despedir-se. Entretanto, Anne deixou as mãos apoiadas sobre o marco de madeira da janela, consciente de que seu pai não se voltaria para olhar. Nunca o fazia, Philipa e Mary se encontravam de pé na escada dianteira, em seu lugar como senhoras da casa, e o conde jamais se virava para despedir-se delas.

   — Você se casará Anne, sonhei ontem à noite. Anne fechou a portinhola, assegurando-se de passar bem o fecho. Em seguida deu uma olhada de um lado ao outro do corredor, e sacudiu a cabeça em direção a sua irmã.

   — Bonnie, já sabe o que mãe disse sobre seus sonhos. A menina se negou a ceder e ergueu o queixo em teima. — Virá para você, só lhe digo isso para que esteja preparada, ficará grávida na primavera e terá um varão antes da lua cheia de outono. Vi. Não tema, não morrerá. Um estremecimento percorreu a espinha dorsal de Anne enquanto olhava fixamente sua irmã, Bonnie tinha um dom, toda a família sabia e tentava encobri-lo, já que corria o risco de ser queimada na fogueira como bruxa, devido à avançada idade da rainha, os magistrados exerciam seu poder com extrema crueldade.

   — Não falou a ninguém mais? Bonnie negou com a cabeça.

   — Sabe que prometi a mãe que não falaria de meus sonhos a ninguém que não pertencesse à família, e não tenho quebrado minha palavra.

   — Muito bem, tesouro, mas não conte a ninguém mais, os cavalheiros não gostam das mulheres que não param de falar durante todo o dia.

   — Mas virá, irmã. Vi-o sobre um corcel negro leva uma enorme espada nas costas, como os escoceses que vimos na feira na primavera passada. Anne negou com a cabeça.

   — É Lady Mary quem está casada por contrato com um escocês, não eu. Foi isso o que viu.

   — Não, lhe vi. E ele estava entrando a cavalo no pátio inferior para lhe pegar. Seus olhos são como a meia-noite. Uma parte de Anne se sentiu tentada a escutar sua irmã, entretanto, controlou-se imediatamente. A vida era dura e consolar-se com sonhos infantis não a ajudaria. Quão único conseguiria seria que lhe resultasse mais difícil levar a carga que Philipa decidisse colocar sobre seus ombros. Joyce e o resto do pessoal doméstico podiam sonhar com o amor, mas ela não. Bonnie também o descobriria muito em breve. O sangue de seu pai era tanto uma maldição como uma bênção, e era impossível que ela pudesse chegar algum dia a apaixonar—se. Impossível.

 

   Terras dos McJames

   — Está mais irascível que de costume, pensava que isto era o que desejava. Brodick McJames grunhiu em direção ao seu irmão e Cullen riu baixo a modo de resposta.

   — Não posso me casar seguindo meus próprios desejos, Cullen. As propriedades dele divisam com as nossas e seu dote incrementará a riqueza dos McJames. E não se trata só de terras, mas sim de terras férteis com água, se seu pai não tiver mais filhos legítimos, todas suas posses passarão algum dia as nossas mãos.

   — Mesmo assim, continuo dizendo que parece muito furioso, tendo em conta o quão benéfico será para todos. Cullen agarrou um bolo de aveia, mas não o mordeu.

   — Provavelmente é o leito conjugal o que o incomoda. — Não se preocupe irmão, nem todos os homens são tão bem dotados como eu, não deveria invejar minha habilidade com as mulheres. Isso é pecado.

   — Também o é gabar-se, disse Brodick.

   Cullen sorriu-lhe mostrando os dentes. — Não o faço, só digo a verdade. Meu membro é...

   — Reserva-o para suas conquistas, irmão. Cullen riu acompanhado pelo coro formado pelo grupo de homens que se sentavam perto. Brodick, por sua parte, levantou-se e começou a caminhar afastando do acampamento.

   Cullen estava certo, não poderia estar com o humor pior, ir à busca de sua esposa deveria ser um prazer, não um dever. Era uma boa união, tinha que reconhecer. Boa para sua gente, boa para seus filhos, mas isso não alterava o fato de que lhe dava pavor ter que levar a uma dama da corte inglesa a suas terras. Estivera nessa corte e seria feliz se morresse sem ter que pôr os pés nela novamente, estava repleto de rameiras, criaturas falsas com mais pintura em seus rostos, do que usavam os highlanders na batalha. Seus grossos e pesados vestidos exibiam muito seus seios e ocultavam o resto de seus corpos, fazendo desaparecer qualquer interesse que pudessem despertar nele. Sua ira cresceu ao recordar que aquelas mulheres até maquiavam seus mamilos, devido aos decotes dos vestidos que permitiam que os vissem quase continuamente. Não era um homem ciumento por natureza, mas sua mulher teria que lhe conservar fidelidade e só ele veria seus mamilos. Aqueles pensamentos só conseguiram enfurecê-lo mais ainda.

   Olhou para baixo na fronteira, e se amaldiçoou por entre os dentes, apesar da proximidade de suas terras com as da esposa, eles não poderiam ser mais diferentes como o dia e a noite. Nunca lhe permitiria que se comportasse de um modo tão vergonhoso e isso a faria odiá-lo, assim sua união tinha poucas possibilidades de ser pacífica e muito menos agradável.

   Não obstante, por muito que lhe pesasse, era seu dever como primogênito, casar-se com aquela mulher e apesar de saber tudo aquilo, Cullen ainda se perguntava por que estava tão furioso. Com um bufo, Brodick deu um pontapé numa pedra. A tradição o obrigava a tomar uma esposa que melhorasse a vida de seu povo, e o fato de que isso não o fizesse feliz não importava.

   Ele era o Conde do Alcaon. Sorveu uma profunda inspiração, sentindo que o orgulho o inundava. Ter um título nobiliário não significava tão somente que as pessoas inclinassem suas cabeças a sua passagem, ganhou também o respeito de seus vassalos ao longo dos anos e tinha direito de ostentar o título. Suas terras fronteiriças do norte não eram tão pacíficas como as do sul e quando seu pai recebeu uma machadada na perna durante uma escaramuça, correspondeu ao Brodick à responsabilidade de liderar ao clã dos McJames. Em muitos aspectos, preferia a batalha ao matrimônio, fortalecendo sua determinação, olhou ao redor das terras inglesas que logo seriam suas. De algum modo, o matrimônio era exatamente como a batalha, só os fortes saíam vitoriosos. Reclamaria a sua esposa inglesa junto com seu dote e logo teria um herdeiro, ele era o Laird do clã McJames, um homem que não conhecia a derrota.

 

   Castelo do Warwick

   — Lady Mary deseja tomar um banho e você a atenderá. Brenda, a cozinheira, proferiu aquelas palavras por cima do ruído que a água fazia ao encher duas jarras idênticas de cobre que estavam sobre um enorme fogão, Brenda atiçou o fogo e acrescentou um grosso pedaço de lenha.

   — Espere até que esteja pronta a água. Anne observou a fogão, então esfregou os olhos, as chamas prenderam seu cansado olhar enquanto lutava contra fechar as pálpebras para descansar uns minutos.

   —Né, moça. Não pode dormir agora.

   Anne riu em resposta.

   — A noite de ontem foi muito longa, mas bonita. Brenda sorriu. A água ferveu finalmente e Anne colocou um suporte de madeira sobre os ombros para carregar as duas jarras.

   — Vá com cuidado e não se queime, recomendou-lhe a cozinheira. Anne se apressou em subir as escadas com passos muito curtos até o andar superior. As senhoras da casa se banhavam em seus aposentos, que exigia transportar a água até ali. O vapor subia das jarras de cobre quando bateu na porta de serviço que lhe permitiria acessar aos aposentos da condessa através de uma pequena entrada lateral, a maior parte dos habitantes do castelo ignoravam a existência daquela entrada, só a conheciam pessoas de confiança designadas pela governanta ou a cozinheira.

   — Adiante. Mary ainda estava totalmente vestida. Anne ficou olhando-a confusa enquanto levava a água quente até a tina que aguardava junto ao fogo, metros de linho se esquentavam sobre um fogareiro e mais jarras de água estavam alinhadas no chão. Um caro sutiã francês repousava sobre uma bandeja de prata, esperando a ser usado.

   — Tranca a porta, Mary.

   Mary pareceu tão assombrada como Anne ao ouvir a ordem de Philipa, ao ver a indecisão de sua filha, a condessa a olhou carrancuda.

   — Depressa! Nós precisamos de absoluto segredo sobre isso, não quero que corram rumores entre os serviçais, a menos que tenha mudado de idéia, nesse caso, deveria se banhar. Mary negou com a cabeça, correu para a porta e deixou cair à pesada viga de madeira antes de dar a volta para olhar fixamente a sua meia-irmã.

   — Coloque a água na tina, Anne.

   — Claro... A jovem apertou a mandíbula com força ao dar-se conta de que estava falando, algo que não lhe era permitido ouvir. Os olhos de Philipa se entreabriram ao observar que um tênue rubor coloria o rosto de Anne, que agarrou uma das jarras envolvendo parte da asa quente com a saia, à espera que a condessa a repreendesse. Entretanto, nada à exceção do som da água se escutou na alcova. Surpresa, Anne agarrou a segunda jarra e verteu a água quente na tina.

   — Agora tire esse vestido e se coloque dentro. Anne se virou e ficou olhando à condessa, convencida de que não a tinha entendido bem. Mas Philipa a estava observando atentamente e seus olhos refulgiam com firme autoridade.

   — Vai banhar-se, Anne. Mary e eu a ajudaremos.

   — Aqui? Anne não se importou que sua voz não soasse tão suave ou fraca como deveria ter sido. Sem dúvida, Philipa tinha bebido muito aquela noite. A condessa riu entre dentes e o horripilante som fez que um estremecimento percorresse a espinha dorsal de Anne.

   — Sim, aqui. Philipa deu uma palmada e sorriu, entrará na tina e se lavará dos pés a cabeça, finalmente vai pagar até o último xelim de prata que fui obrigada a gastar com sua mãe e irmãos. — Se dispa, agora!

   Anne ficou olhando assombrada à condessa. O ódio deformava horrivelmente seus olhos, agora compreendia por que tinha mudado tanto desde que pintaram seu retrato; sua alma estava cheia de ódio. — Se dispa Anne. Vai substituir a Mary com esse conde escocês.

   — Não! Não farei tal coisa, afirmou Anne com rudeza, à comoção não lhe permitiu suavizar sua resposta.

   Mary soltou um grito sufocado ao escutar o tom de sua voz, mas Anne mal prestou atenção.

   — Não? Fará o que lhe digo ou jogarei a sua mãe daqui esta noite mesmo. Philipa deixou que um lento sorriso surgisse em seus lábios, provocando novamente um estremecimento em Anne.

   — Meu pai não permitirá, replicou a jovem sentindo que o horror a invadia.

   — Meu marido não está aqui, e se a expulso, estará morta muito antes que ele retorne. Anne levantou uma mão para cobrir a boca e ocultar a indignação que a afligia.

   — Isso seria assassinato, Milady, cometeria um pecado mortal.

   — Eu chamo justiça! Philipa tremeu de raiva, mas se recuperou e arqueou uma sobrancelha. — Só você pode evitá-lo, Mary é muito delicada para suportar o contato de um homem. Você, por outro lado, é o feto de uma rameira, assim que o fato de que um homem use seu corpo umas quantas noites não deveria lhe resultar complicado.

   — Minha mãe é fiel ao meu pai, não tem outros amantes.

   Philipa agitou a mão, desprezando suas palavras. — Se for uma mulher com certo caráter, melhor. Espero que tenha sido educada com um pouco do sentido de responsabilidade, se sua mãe for tão honrada como diz. A condessa estendeu o braço para a fita que mantinha presa a touca de Anne abriu o botão e a tirou de sua cabeça. — Irá banhar-se e se vestirá como eu lhe disser.

   — Não posso. A voz de Anne não tremeu apesar de que jamais tinha discutido as ordens da senhora da casa.

   Philipa lançou um suspiro irritado. — Irá fazê-lo. E terá que interpretar o papel à perfeição se não desejar que seus irmãos sofram destinos pior que o seu. Anne abriu os olhos de par em par e a condessa riu entre dentes ao perceber o horror da jovem. — Vejo que agora tenho sua atenção, assumirá o lugar de Mary, ou me encarregarei de que sua irmã se encontre casada antes que amanheça com o homem mais horrível que possa encontrar! E a respeito a seus irmãos, conheço umas quantas prostitutas que necessitam maridos. Temos que ser piedosos com esse tipo de mulheres, o matrimônio poderia ser justo o que necessitam para fazê-las arrependerem-se da vida que levam.

   — São desprezíveis. Anne se negou a morder a língua. Nem sequer Deus a condenaria por afirmar algo tão certo.

   — Sou a senhora desta casa e minha palavra é lei. Philipa a olhou fixamente com os olhos resplandecentes pelo triunfo e assinalou a tina com o rosto impassível.

   — Não sei mentir, asseverou Anne. Não saberia como enganar a um homem.

   A condessa voltou a agitar a mão, não haverá necessidade de mentir. É filha de meu marido, simplesmente mantenha a boca fechada, se coloque na cama do escocês, e tudo irá bem. Uma vez que fique grávida, pedirá que lhe permita retornar para casa para ter a sua mãe perto quando chegar a hora de dar a luz. Vê? É muito simples.

   — Pensam que o conde é estúpido e que não se dará conta da mudança?

   Philipa moveu a mão de forma desdenhosa. – Esse homem é escocês e, portanto, amante da guerra, Provavelmente a tomará várias vezes, garantirá que esteja grávida e partirá em busca de mais guerras, os homens perdem interesse quando suas esposas estão grávidas e este não será diferente. Certamente tem uma amante e a abandonará assim que souber que vai ter um herdeiro. Quando o bebê tiver nascido e desejar ver seu filho, terá passado mais de um ano e Mary, como é costume entre a nobreza já terá ido à corte depois de ter cumprido com seu dever de esposa, não terá que vê-lo, além disso, nem sequer recordará de que cor são seus olhos. Por outro lado, minha filha e você se parecem muito. Mas escuta bem, moça terá que se assegurar de conceber um filho varão ou todo o plano virá abaixo.

   — Não posso fazer parte deste engano, meu pai já entregou Mary a esse homem.

   — E eu vou lhe entregar sua filha, outra diferente, mas, mesmo assim, filha dele. Tenho autoridade para fazê-lo.

   — Não lhe deu o poder de mentir a respeito. Serão condenadas por fazer algo assim. Philipa franziu o cenho.

   — Você decide. Tire o vestido e se banhe, ou se prepare para ver como sua mãe sai pelo portão enquanto seus irmãos se vêem obrigados a permanecer no castelo, uma acusação de roubo contra ela deverá ser suficiente para convencer os guardas de que a expulsem da fortaleza. Com seu pai na corte, em quem pensa que o capitão acreditará? À senhora da casa ou em você?

                                

A maldade

   Anne ficou olhando Philipa e soube que o que brilhava em seus olhos era pura maldade, nunca imaginara que alguém fosse capaz de ter algo assim em seu interior. Apenas um olhar para Mary, bastou para Anne entender que ela valorizava o seu conforto, acima das vidas dos criados que o proporcionava. Tampouco havia o menor rastro de compaixão em seu rosto, só um leve medo de que sua meia-irmã não se dobrasse ao capricho de sua mãe.

   Ocupar o lugar dela no leito nupcial... Anne estremeceu incapaz de assimilar semelhante idéia. Aceitar algo assim, quase a transformaria numa prostituta, uma mulher que deixaria que usassem seu corpo em troca do que necessitava. Mas realmente não tinha escolha, o amor por sua família estava acima dela, assim ergueu a mão para o botão do avental e o abriu.

   — Bem. Alegra-me que se comporte de um modo razoável. Philipa parecia satisfeita. Ajude-a, Mary, temos que acabar com isso antes que alguma das criadas suspeite de algo. O avental de Anne caiu no chão e Mary se encarregou do laço que amarrava a cintura da saia, o traje formou redemoinhos ao redor de seus tornozelos deixando-a apenas com a camisa e o espartilho. Anne sentiu como os dedos de Mary afrouxavam os laços das poucas roupas que a cobriam e as tirava pela cabeça até que seus seios ficaram expostos. Em qualquer outra ocasião, teria saboreado a liberdade de não estar apertada pelo espartilho, mas os olhos de Philipa inspecionaram seu corpo com atenção e seus lábios se curvaram num gesto de desprezo.

   — Com esse peito tão grande, não terá problema em conceber logo, grunhiu a Condessa. — Tomei uma sábia decisão quando me encarreguei de que a mantivesse sob vigilância, se não o fizesse, agora teria tantos bastardos como sua mãe.

   — Não sou promíscua!

   Philipa a fulminou com o olhar. — Mas é propensa a esquecer com facilidade sua posição social.

   Anne se sentou num pequeno tamborete para se descalçar, ocultou sua ira ao concentrar o olhar nos laços das botas, consciente de que se dissesse o que pensava, sua família sofreria a ira de Philipa. Entretanto, ansiava pronunciar cada palavra que sempre havia reprimindo. Aquela mulher era maquiavélica, capaz de qualquer coisa para ver seus desejos realizados.

   — Se apresse! Mary se ajoelhou e começou a tirar a outra bota, não temos muito tempo, seus olhos resplandeceram de alegria quando conseguiu descalçá-la e abaixar a grossa meia num puxão. De repente Anne sentiu vergonha, porque nunca estivera nua diante de ninguém, Mary ficou em pé e se dirigiu a suas costas para desfazer sua trança. Apesar de que nunca fizera aquilo, saiu-se melhor do que Anne imaginou. Em seguida sua meia-irmã pegou uma escova e começou a desembaraçar-lhe o cabelo. Parecia que Mary aprendera algo na corte enquanto servira à rainha.

   — Levante-se, quero vê-la.

   Anne obedeceu, cobrindo-se o máximo possível com as mãos.

   — Deixe de se encolher ordenou-lhe a Condessa estalando os dedos furiosos, a jovem deixou cair às mãos ao lado do corpo. Philipa percorreu seu corpo com o olhar enquanto apertava os lábios numa linha dura.

   — Entre na tina, esse escocês, espera que sua esposa tome banho antes de sua chegada.

   A água ainda estava quente e Anne se sentiu ainda mais furiosa pelo fato de não ser capaz de desfrutar do momento, sempre tomara banho com a camisa, porque a tina que os serviçais de Warwickshire utilizavam não se encontrava num cômodo resguardado. Além disso, todos precisavam de auxílio para lavar o cabelo, se não quisessem correr o risco de manchar o chão quando usavam a água para enxaguar-se. Agora, a visão de seus próprios mamilos a distraiu levemente, já que raras vezes os olhava.

   A barra de sabão caiu de repente diante dela, lhe salpicando água nos olhos, esticou a mão instintivamente e o agarrou num gesto automático, normalmente, ninguém jogava desse modo um item tão caro. Ninguém exceto Philipa, um suave aroma de lavanda inundou seus sentidos, quando Mary jogou uma jarra de água sobre sua cabeça. Estava fria e fez cócegas no nariz, seguiu-se mais água até que seu cabelo ficou totalmente molhado. Mas o fogo queimava e esquentava sua pele nua. Nunca desfrutara de um banho tão delicioso, nem de um sabão perfumado.

   O sabão francês deslizou sobre sua pele e, de repente, compreendeu por que Philipa gostava tanto de banhar-se. De fato, se lhe permitissem fazê-lo nessas condições, também aproveitaria o máximo possível. Entretanto, Mary a fez apressar-se lhe esfregando o cabelo com movimentos bruscos. Após, apenas um quarto de hora, Anne se encontrava diante do fogo com o corpo envolto em linho. O desespero tentou apropriar-se de sua mente. Não era tarefa fácil resistir a ela, mas sabia que o pânico só ajudaria Philipa.

   — Isso não vai funcionar. E se o Conde desejar, permanecer aqui, algumas noites no castelo Warwickshire antes de retornar as suas terras?

   A condessa escarneceu das palavras de Anne. — É escocês e sem dúvida desejará retornar as suas terras o quanto antes, ouvi que os clãs se atacam entre si quando seus senhores não estão presentes, mais um motivo pelo qual eu não enviarei minha única filha a essa terra de bárbaros. Philipa sacudiu uma camisa íntima, e se decidir ficar, não haverá nenhum problema, lhe direi que minha filha está doente e você permanecerá oculta até que esteja tudo preparado para partir. — Coloque isso, Mary lhe estendeu tão finas meias, que Anne ficou olhando-as, já vestira Philipa com aquelas belas e diminutas peças, mas nunca sonhou usá-las. Logo estará pronta, também lhe entregou uma fina camisa, um espartilho e anáguas bordadas, depois a ajudaram a por um vestido que pertencia a Mary. A faixa da cintura parecia lã grossa para viajar, mas a única finalidade do luxuoso cós que o rodeava, era a vaidade. Finalmente, Mary lhe escovou o cabelo até que ficasse seco e em seguida o trançou.

   — Já está pronta, usará um véu quando se encontrar com esse escocês para que nenhum servo possa suspeitar e ficará no quarto até que eu vá buscá-la. — Não cometa nenhum engano, ouviu-me? Contrarie-me, e expulsarei sua mãe daqui sem nenhum pedaço de pão e nenhuma capa.

   Dito isso, Philipa agitou a mão em direção às escadas de trás. Anne seguiu suas instruções, mas não abaixou a cabeça antes de mover-se. Em lugar disso, olhou diretamente à Condessa negando-se a mostrar respeito. O rosto da mulher adquiriu então um vivo tom vermelho devido à ira.

   — Suba essas escadas e medite sobre o que pode acontecer para sua família qualquer outro ato de rebeldia de sua parte. Vá! Voltou-se para sua filha e ordenou. — Mary, recolhe esse uniforme, terá que vestir isso para sair de Warwickshire, não pode deixar que ninguém a veja ou todos nossos esforços serão inúteis.

   As escadas de trás estavam envoltas numa inquietante escuridão um lance com degraus estreitos, levava a uma torre usada pelos arqueiros em tempos de ataque. No momento, era onde se encontravam os livros contábeis do castelo, e não havia nenhum modo de acessá-los a não ser através dos aposentos da senhora. Anne subiu envolvendo seu corpo com os braços, ao sentir o gélido vento se infiltrar até os ossos, parecia que aquele frio vinha do seu interior, e provavelmente assim fosse, doía-lhe o coração nunca saíra dos domínios de Warwickshire. Dormia no quarto das criadas, e isso era o mais afastado que já estivera de sua mãe. Podia ser uma loucura que lamentasse abandonar o castelo, mas era o único lar que conhecera. Não foi capaz de reprimir um calafrio ao chegar ao pequeno cômodo, era realmente minúsculo e entrava pouca luz devido aos muros cobertos de pedras cinzentas, o vento assobiou através das estreitas aberturas, provocando mais calafrios. Sem sombra de dúvida estava sonhando, certamente tudo que acontecera nas últimas horas, não era mais que um pesadelo e que logo despertaria. Seus dedos acariciaram a frente da saia e encontraram os luxuosos bordados. Ajudara a fazer alguns deles com suas próprias mãos, sentada junto às outras criadas, depois que adicionavam lenha ao fogo para passar a noite, pois, devido à ânsia de Mary pela moda, até o último par de mãos auxiliava a fazer seus trajes. O vestido era magnífico, mas não fora confeccionado para ela, o espartilho ficava comprido na cintura e cravava nos quadris. Teria que ajustá-lo, mas não se atreveu a fazê-lo nesse momento, porque o marido de sua meia-irmã podia chegar a qualquer momento. “Bem, na realidade, seu marido”.

   Anne pensou nisso, os homens não lhe davam medo, entretanto não sabia nada sobre eles, ao ter sido submetida a uma rigorosa vigilância, obrigou a si mesma a não olhar para os servos que tentavam conquistar sua atenção. Proibiram-na de flertar e agora esse fato podia voltar-se contra ela, e se não gostasse do escocês? Não saberia como atraí-lo ao seu leito. Um estremecimento a sacudiu ao pensar nesse dever. Provavelmente deveria evitá-lo. Se afinal concebesse o bebê que Philipa exigia, já não seria necessária e possivelmente ela seria capaz de assassiná-la. Um gélido terror lhe envolveu o coração enquanto considerava a mentira que a condessa estava decidida a levar a cabo. Anne engoliu o nó que formara na garganta e ordenou a si mesma, não deixar-se levar pelo pânico, tinha que pensar era imperioso que descobrisse um modo de levar as notícias ao seu pai. Não podia falar com escocês do golpe, pois a enviaria de volta para casa, sob o cuidado de Philipa. A idéia de ver sua doce irmã Bonnie casada fez o estômago se revolver. Seu pai era o único que tinha poder para protegê-la, a ela e a sua família.

   E o faria, estava segura disso, tinha que acreditar porque era sua única esperança. Iria escrever-lhe uma carta, virou-se e olhou para a mesa onde tinha passado tantas horas com os livros de contas. Sim, havia papel de pergaminho e tinta. Mas, como a faria chegar? A corte era um lugar incerto onde os nobres formavam redemoinhos ao redor da rainha. Só um homem com determinação poderia encarregar-se de que uma carta chegasse às poderosas mãos de seu pai. De fato, seu mordomo-mor mantinha em seu poder manuscritos durante meses antes de entregar ao Conde. Mesmo assim, negava-se a aceitar docilmente seu destino Philipa a mataria uma vez que desse a luz estava segura disso. Porque se vivesse, sempre existiria o perigo de que pudesse expor a verdade. Sentou-se e abriu um pequeno tinteiro de cerâmica que continha uma generosa quantidade de tinta escura, levantou uma pluma e a imergiu antes de apoiar a ponta sobre o papel e escreveu com cuidado, riscando as letras com destreza enquanto escutava com atenção, temerosa de ouvir passadas que interrompessem sua tarefa. Depois que acabou de relatar o que estava ocorrendo, lacrou a carta, mas não lhe pôs o selo da casa. Colocou-a com cuidado nos livros de contas e rezou para que seu pai estivesse em casa no primeiro dia do próximo semestre, quando pagaria os criados, faltavam ainda quatro meses, mas era esperado que o Conde pagasse cada servo pessoalmente. Seu pai mantinha essa tradição, desde quando Anne podia se recordar, ele colocava sobre sua palma a prata que ela mesma ganhava desde que se tornou grande o suficiente para merecê-la, não podia lhe entregar à carta, mas a deixaria onde pudesse descobri-la. Sem o selo, ninguém saberia de onde vinha à missiva e com sorte, iria deixá-la ali para que fosse o senhor quem a abrisse. Dessa vez, a vadiagem de Philipa seria uma bênção. Anne rezou como nunca o fizera para que assim fosse. Enquanto isso, ela teria que empregar qualquer tática que conseguisse imaginar, para evitar que o escocês consumasse a união. Precisava de tempo, uma pontada de culpa a assaltou, mas se obrigou a deixar de lado. Não podia tratar com honestidade aquele homem, era a primeira vez que planejava ser desagradável com um desconhecido, embora soubesse muito bem, que não tinha escolha, evitaria seu contato o maior tempo possível, e rezaria para que Deus lhe concedesse a habilidade de manter distância dele. Era sem dúvida a prece mais estranha que seus lábios já tinham murmurado. O tempo passava lentamente, uma vez que os livros estavam em ordem, Anne incapaz de ficar sentada, começou a caminhar. Não estava acostumada a não fazer nada e o estômago roncou durante horas até que Mary apareceu com comida, pouco antes do pôr-do-sol. Sua meia-irmã encolheu os ombros a modo de desculpa. — Não estou acostumada a servir, por isso esqueci trazer algo no meio do dia. Deixou a bandeja com um som metálico, voltou-se e olhou a pequena sala.

   —Mamãe disse que irá dormir aqui, tenho que conseguir algo para você poder deitar e esperar que o escocês apareça. Mamãe diz que não poderei retornar a corte até que tenha um bebê, Oxalá seja rápido.

   Maldita egoísta! Anne aguardou que Mary começasse a descer os degraus de pedra para amaldiçoá-la. Ela era mais que um ventre fecundo para filha legítima da casa. Mesmo assim, foi bastante prudente para morder língua, aquela sala seria muito fria de noite sem um fogo e só esperava que sua meia-irmã se lembrasse de trazer algo com o que se agasalhar. Não havia tampas de prata para manter os pratos quentes, tampouco era variada a comida. Uma terrina de sopa fria, queijo e pão duro, duas tartaletas sobressaíam entre a pobreza dos pratos que Mary levara. Uma lágrima ardeu no olho ao recordar que compartilhara uma com Brenda poucas horas antes, mas Anne enxugou aquela única lágrima, negando-se a se deixar levar pela compaixão, a vida era dura e chorar era para crianças, que ainda não enfrentaram à realidade. Sentiu que o estômago rangia então pegou o prato de sopa, faminta que estava, achou o gosto suportável. Não tinha talheres, assim teve que arrumar-se sem eles, havia uma pequena jarra de soro de leite junto à terrina, Anne franziu o cenho enquanto o bebia. O soro era a parte menos valorizada do leite, pois era extraído depois que fosse separado a nata para a manteiga, mas ao menos a ajudava a engolir a sopa fria, já que não tinha água, nem cerveja ou cidra. Alguns passos nas escadas a interromperam.

   — Isto terá que bastar, bufou Mary quando chegou ao alto dos degraus. Não posso tirar nenhum colchão dos quartos dos criados, sem levantar suspeitas, deixou cair no chão o que trazia entre as mãos e se virou, partindo a toda pressa. É uma bênção que nenhum dos cavalos esteja ao seu cargo... Anne franziu o cenho ao notar que estava falando consigo mesma. Lavou os dedos com um pouco de soro e os secou na prega da saia, odiava sujar a roupa, mas não lhe ocorreu nenhuma outra solução. Aproximou-se da pilha de pano que havia no chão, pegou-o e o estendeu com uma sacudida, era uma capa de viagem de grossa lã, tinha um enorme capuz para proteger das intempéries, quem a usasse, o vento soprava através das janelas, fazendo que a sala fosse tão fria como o pátio que havia em baixo. Mesmo com a capa, passaria a noite tremendo. Ao menos, usava anáguas forradas, Anne se virou com um bufo e olhou as tartaletas e o pão. Deu-lhe água na boca, mas resistiu o impulso de comer, pois ignorava quando lhe levariam mais comida, o melhor seria guardar algo, um estômago meio cheio era mais fácil de suportar do que um vazio.

   O sol declinou e a luz atenuou, as velas eram guardadas a chave num armário junto à cozinha e usavam com cuidado para conservar os recursos, de pé junto a uma janela, Anne observou o pátio uma luz tremulava no estábulo, enquanto os serviçais concluíam as últimas tarefas e os, sentinelas caminhavam pelas muralhas, vigiando como sempre faziam. Ficou tentada em descer as escadas, às escondidas para entregar a carta ao capitão, mas era muito arriscado, Philipa dirigia seus domínios com punho de ferro. Tinha banido mais de um servo sem se importar com sua situação pessoal e o capitão certamente entregaria a carta à condessa em lugar de seu senhor, porque, com o conde na corte tão amiúde, muitos dos habitantes de Warwickshire ansiavam ganhar a boa vontade de Philipa. O desespero a dominou enquanto recolhia a capa, e umas garras enregeladas envolveram seu coração ao cobrir seu corpo com a peça de lã, estava muito perto de todos aqueles que ela amava e, no entanto, nem sequer poderia despedir-se deles, a solidão encheu seus olhos de lágrimas apesar de seus esforços por manter-se firme. Com a escuridão como única companheira, não teve força suficiente para evitar o pranto. Escorregou pela parede e aproximou os joelhos ao corpo porque a noite estava cada vez mais fria, sem saber como, adormeceu e sonhou com o fogo que ardia na sala de Philipa, tentou aproximar-se dele para aquecer-se, mas parecia que não podia se mover, o seu corpo tremia tanto que não conseguia afastar-se do muro de pedra. Despertou mais cansada do que o estava antes de dormir, os olhos ardiam e as mãos doíam de segurar as extremidades da capa e uni-las no peito. Tinha o corpo rígido depois de ter dormido sobre o chão duro, e os dedos dos pés gelados apesar das botas. Era tão doloroso mover-se como ficar quieta, quando os primeiros raios do amanhecer alcançaram as janelas, infiltrando-se até onde ela se encontrava, a jovem se levantou e ergueu o rosto para sentir como o calor banhava sua face gelada.

   — Cavaleiros à vista!

   Anne abriu os olhos de par em par ao ouvir o grito que chegava do pátio, aproximou-se apressadamente da janela e viu que os portões ainda encontravam-se fechados além da muralha externa, um estandarte azul e dourado ondeava na distância. Era imperceptível e dançava sem cessar porque o cavaleiro que o levava avançava com rapidez. O capitão se apressou a subir pelas escadas até o alto das muralhas em mangas de camisa, pois era evidente que acabava de levantar-se da cama, usou um cristal de aumento para estudar o estandarte durante um extenso momento e depois gritou: — Guerreiros de Alcaon. Que se reúnam todos os homens. O segundo em comando fez soar um grande sino preso muralha de pedra externa e imediatamente começaram a sair ao pátio, homens provenientes dos barracões abotoando-se armaduras e embainhando espadas. O estandarte ainda se achava longe devido ao castelo ser construído sobre uma colina. “Então enfim chegara o momento.” Que Deus a perdoasse o suficiente para lhe permitir viver.

   — Se apresse! Mary estava sem fôlego e nem sequer chegou até o último degrau. Lívida, fez sinais frenéticos com uma mão para que Anne a acompanhasse ao quarto de Philipa, Um nó formou no estômago de Anne, enquanto descia a escada, certa de que sua alma se dirigia mais e mais para a condenação em cada degrau.

   — Ai está! Espero que a noite tenha melhorado sua atitude e aceite seu destino. Philipa já estava vestida e parecia nervosa, coisa estranha.

   — Mary coloque-lhe essa touca francesa marrom com o véu, sua filha obedeceu com presteza. A touca cobriria o cabelo de Anne e cobriria suas orelhas por completo, um acessório de lã fina, a parte de trás da touca manteria abrigado seu pescoço, e um comprido véu confeccionado com fino algodão da Índia ocultaria seu rosto. Poderia ver através dele, embora não muito bem, as damas freqüentemente usavam véus parecidos nas viagens, para proteger a maquiagem, porque os pós para o rosto manchavam, quando os flocos de neve derretiam sobre a pele.

   Mary colocou a touca sobre o cabelo de Anne sem se importar que as bordas apertassem seu rosto, logo pôs o véu em seu lugar, bloqueando a maior parte da luz do amanhecer. – Perfeito! Isso evitará que alguém descubra, Mary esboçou um sorriso triunfal enquanto os lábios de Anne formavam uma dura linha. Por costume, começou a inclinar a cabeça, mas se deteve antes de completar o respeitoso movimento, ao perceber seu gesto, sua meia-irmã franziu o cenho e o desgosto retesou seu rosto. Um forte golpe soou na porta de repente.

   — Se esconda Mary, rápido minha menina! Mary se virou e correu para as escadas que davam na saleta dos livros. Philipa sorriu ao olhá-la com uma estranha felicidade resplandecendo em seus olhos, mas desvaneceu no exato momento que sua atenção recaiu sobre Anne. — Será melhor que recorde o que lhe disse, assim que estiver grávida, diga para esse homem que deseja retornar para junto de sua mãe, nem sequer um selvagem como ele lhe negará semelhante conforto.

   Voltaram a soar golpes na porta. – Adiante! Ordenou a condessa.

   O capitão da guarda apareceu na soleira, inclinando-se diante de Philipa.

   — O Conde de Alcaon a aguarda no pátio, Milady.

   — Estamos preparadas. Philipa segurou Anne pelo braço, lhe enterrando os dedos na carne, certamente que estamos.

   Não! Anne não estava preparada absolutamente, nem o estaria nunca.

   — Deus santo! — Anne ficou paralisada ao ver pela primeira vez os homens que estavam esperando, eles eram enormes, Ela era virgem e não tinha flertado para não se arriscar em despertar a ira de Philipa, mas sabia que aparência os homens tinham, mais ou menos. Aqueles diante dela, eram muito maiores do que qualquer um que se recordava, à exceção de um ou dois dos aldeãos.

   Eram fortes e musculosos, os olhos de Anne demoraram nas mangas enroladas e na quantidade de pele nua à vista. O frio da manhã não parecia incomodá-los e davam a impressão de gozar de uma excelente saúde, vários usavam saias, de fato, as calças eram a exceção entre eles. Em lugar de camisas, cobriam-se com peças de amplas mangas e sem punhos, seus coletes eram feitos de pele e a maioria estava apenas enrolada algumas vezes na altura do estômago. Usavam botas amarradas na panturrilha com tiras de pele e utilizavam botões de chifre de animais para prendê-las, suas roupas não eram absolutamente elegantes, mas sim práticas, com exceção das saias, confeccionadas com largas tiras de pano tecidos com vários tons de cor para formar tartans azuis, amarelos e laranjas. A única coisa que se repetia no traje daqueles homens era que a ponta dos tartans descansava sobre o ombro de cada um deles e que mantinham o tecido preso por grandes alfinetes de metal, não parecia haver nenhum homem entre eles que não estivesse em forma, e todos e cada um levavam enormes espadas presas com uma correia nas costas.

   “Virá por ti...” As palavras de Bonnie repercutiram na mente de Anne quando um deles desmontou e se separou de outros, seu cabelo era tão negro como a noite e seus olhos de um azul muito escuro. Usava as mangas da camisa amarradas ao ombro mostrando os poderosos bíceps de seus braços. Parecia uma estátua romana, só músculo.

   — Sou Brodick McJames.

   Philipa se inclinou, puxando o pulso de Anne para assegurar-se de que fazia o mesmo.

   — Bem vindo a Warwickshire, Milorde. Por favor, aceitem nossa hospitalidade! A reverência de Philipa foi profunda e mais delicadamente do que Anne já havia visto. Mas o escocês não estava interessado em sua mostra de respeito, evitou à senhora do castelo e cravou seu olhar na silenciosa silhueta de Anne. Estudou sua cabeça inclinada, tentando ver através do véu, e a jovem rezou em silêncio para que o escocês aceitasse o convite de Philipa e ficassem algumas noites, isso desarmaria o cruel plano da condessa, antes sequer que se colocasse em marcha.

   — Lamento, mas não tenho tempo para desfrutar de seu amável convite, devo retornar as minhas terras imediatamente.

   — Compreendo. Philipa quase falou muito rápido, embora conseguisse dissimular seu regozijo com um grave gemido, garanto que entendo. O escocês pareceu surpreso, mas esqueceu aquela sensação rapidamente.

   — Bem. Sua voz era sonora e profunda, e seu tom mostrava que estava habituado a mandar. Dou-lhe minha palavra de que sua filha terá uma escolta segura, subiu os degraus dianteiros, tornando-se maior com cada passo que dava, quando estava no mesmo patamar que elas, seus ombros ficaram acima do nariz de Anne.

   — Obrigada, Milorde. Anne nunca ouvira Philipa com um tom de voz tão dócil, voltou à cabeça para olhar fixamente aquela mulher, atônita ao ver como interpretava semelhante farsa, as sobrancelhas da condessa se arquearam levemente.

   — Agora Mary, cumpra com seu dever e trate seu senhor respeitosamente. Um brilho de ira surgiu em seus olhos Anne conhecia bem esse olhar.

   — Milorde, disse a jovem em voz baixa. Inclinou a cabeça e ficou assim durante um longo tempo.

   — Milady. O escocês lhe estendeu a mão com a palma para cima e um calafrio percorreu na Anne, quando a olhou. Eva deve ter sentido o mesmo calafrio quando enfrentou à serpente. Philipa lhe deu um beliscão e a jovem colocou sua pequena mão sobre a dele, era muito maior. Com controlada força, os dedos do escocês envolveram sua mão por completo e usou-a para atraí-la para si, enquanto tentava ver através do véu. O fato de não conseguir não pareceu ser um motivo de demora, porque se virou e a fez descer as escadas ao seu lado. Um de seus homens segurava com firmeza uma égua enquanto o conde a guiava até ela. Anne agarrou a saia para subir o pé até o estribo e deixou escapar um grito abafado ao sentir que as mãos de seu marido a seguravam inesperadamente pela cintura, seus pés abandonaram rapidamente o chão quando ele a ergueu sobre o lombo da égua. Nesse instante, seus homens lançaram vitórias e risadas ao ar da manhã. O conde lhe dedicou um sorriso que transformou seu rosto por um momento no de um menino, antes que se desvanecesse na segurança de um homem, observou como Anne se agarrava à parte dianteira da sela e acomodava seus quadris de forma que ficasse equilibrada com as duas pernas para o mesmo lado.

   — Em marcha! O escocês gritou a ordem ao mesmo tempo em que saltava sobre seu próprio corcel, o cavalo era negro como o carvão e seus olhos resplandeciam. “O vi sobre um corcel negro...” Anne ergueu o olhar para o homem que lhe tinha reservado o destino e observou como enrolava as rédeas ao redor de uma poderosa mão e guiava o animal com habilidade. Seus olhos estavam fixos nela, tentando penetrar seu véu, e seu kilt de madra escocesa deixava ver a maneira de como suas musculosas pernas sujeitavam o cavalo. Anne pôde comprovar então que eram tão poderosas como seus braços. Quando o viu girar, ficou olhando a espada presa na suas costas e as palavras de Bonnie fizeram seu coração se contrair. “Terá um bebê antes da lua cheia de outono” Não, isso não podia ser, precisava haver um modo de evitá-lo. O homem que dominava suas rédeas não as soltou quando montou sobre seu próprio cavalo, e começou mandar para que o seguisse. Anne estremeceu ao escutar que os habitantes do castelo se despediam, gritando seus melhores desejos. Não voltou a cabeça e olhando tensamente as amplas e fortes costas dos homens que tinha diante dela, muito consciente do poder que irradiava de seu líder ao atravessar os portões do castelo. Sua égua seguiu ao grupo de escoceses, aumentando o ritmo quando eles transpuseram a muralha externa, reforçando sua determinação, Anne não olhou para trás em lugar disso, cravou o olhar nas costas do homem que teria que enganar. Encontraria a maneira de fazê-lo, isso foi à única coisa que teve tempo de pensar, o sonho do Bonnie não se cumpriria daquela vez, ela faria que assim fosse. Não havia Santos suficientes, Anne se encolheu com mais força na sela, lamentando a falta de ouvidos celestiais a quem dirigir suas preces. Considerando sua premente situação, necessitava que mais Santos intercedessem em seu nome. Seu olhar vagou sobre os ombros do Conde, tinha uma compleição tão poderosa que certamente não acreditaria ser real, se não tivesse visto por si mesma. Nem sequer estava certa se era normal que os homens fossem tão grandes. Entretanto, o escocês parecia em perfeita harmonia com o enorme corcel que montava. Ambos exalavam confiança enquanto aquelas firmes mãos seguravam as rédeas e suas fortes pernas apertavam com força os flancos do animal, mantendo as costas retas na dura escalada daquele morro. Guardar distância com aquele homem iria ser uma provação para ele, ela era sua esposa. Sim precisava de muito mais Santos. Anne franziu o cenho. Rezar fazia muito bem, mas devia elaborar um plano sólido se quisesse dar tempo ao seu pai para descobrir sua desesperada situação. Seu estômago protestou ao mesmo tempo em que sentia que puxavam seu cavalo para que avançasse pelo caminho. O castelo de Warwickshire foi diminuindo à medida que o sol se movia sobre eles riscando um arco para o oeste. O espartilho, muito comprido se enterrava no quadril, mas ao mudar de posição só conseguiu transferir a dor de um ponto ao outro até que o corpo palpitou em protesto, tentou dissimular seu mal-estar trocando de posição quando o cavalo se movia. Por causa disso todos os homens que acompanhavam o conde tinham um motivo para olhá-la. Tentavam disfarçar, observando o caminho que ficava atrás de Anne ou examinando as adagas que tinham embainhado na parte superior da bota. Fosse como fosse, a questão era que seus curiosos olhos sempre encontravam uma razão para olhar em sua direção.

   De sua parte, Anne também se sentia atraída por eles, seus joelhos nus a desconcertava. Warwickshire estava nas terras fronteiriças e para os ingleses era um lugar frio. O último par de joelhos inglês que vira fora no quarto de banho e fora de um dos jovens ajudantes do estábulo e era um menino que estava acostumado a se esquecer de vestir-se adequadamente. Entretanto, os homens que a acompanhavam não tinham problemas, levavam os coletes abertos, deixando que o ar da tarde agitasse o linho de suas camisas, e todos tinham arregaçado as mangas como fossem claramente desnecessárias para proteger do frio. Anne, entretanto, estremecia toda só de ver que usavam o pescoço descoberto. Mas nenhum deles parecia ter frio e isso chamou sua atenção, todos pareciam bem e impaciente por chegar a casa, e suas montarias avançavam confiantes através do atalho rochoso. Não podia culpá-los por sua alegria, porque o fato de saber que retornavam ao seu lar devia ser uma sensação maravilhosa. Uma sensação que ela desejava e fez que a inveja se instalasse em seu peito. Nem sequer tinham permitido despedir-se de sua família.

   Resistiu ao impulso de olhar para trás. Ver Warwickshire tão longe na distância seria muito doloroso. Ao menos, evitaria as lágrimas, chorar era inútil. De fato, ela considerara Lady Mary um ser impotente por chorar com tanta freqüência, esse pensamento redobrou sua determinação de manter-se serena à medida que o dia se prolongou. O conde deteve seus homens duas vezes. Em ambas as ocasiões, pararam perto de um rio para que os cavalos pudessem beber. Anne tinha os pés amortecidos e ao desmontar sentiu pontadas de dor que subiram por suas pernas inchadas, nunca cavalgara durante tanto tempo, já que não tivera nenhuma necessidade de fazê-lo. Os cavalos eram muito dispendiosos, sua comida era cara e geravam gastos nos estábulos. Além disso, sua vida se limitava ao Warwickshire e às aldeias que o circundava e lhe bastava seus pés para chegar até elas. Sabia que, em todo um ano, não ganharia o suficiente para comprar um cavalo tão magnífico como o que montava esse dia, Anne deu um tapinha na égua, e passou os dedos por sua brilhante pelagem.

   —É um bom animal, sem dúvida. Ao ouvir aquilo, a jovem voltou à cabeça e se deparou com um dos guerreiros McJames a menos de um metro a suas costas. O homem a analisava com olhos do mesmo tom que um céu celestial, tinha o cabelo claro, ao contrário do conde.

   — A verdade é que é muito bonito. O homem levantou uma mão para aplaudir com firmeza os quartos traseiros do cavalo.

   — Forte isso é o que importa.

   Anne soltou as rédeas e deixou à égua livre, que com um suave relincho, seguiu os outros cavalos para a margem do rio.

   — Provém dos estábulos pessoais de meu irmão, os cavalos McJames são os melhores de Escócia, continuou ele.

   — Entendo.

   O escocês a olhou com atenção tentando ver mais por trás do véu. Como Anne não o levantou, seu olhar deslizou por sua silhueta, examinando-a do mesmo modo como fizera com a égua.

   — Imaginava que as damas inglesas usavam luvas para manter suas mãos suaves. Anne agradeceu o véu, porque a ajudou a ocultar a repentina expressão de surpresa em seus olhos. Sem poder evitá-lo, dobrou seus gelados dedos formando punhos.

   — Esqueci essa manhã. Retraiu-se, consciente de que cometera um erro, nenhuma dama viajava sem luvas. Quando me avisaram de sua chegada, fiquei nervosa e não reparei que não as usava.

   Um sorriso atravessou o rosto do escocês. — Não diga isso ao meu irmão, seu ego não precisa de nenhuma adulação, lhe piscou um olho e sua divertida expressão a deixou pasmada. Não imaginava que os escoceses pudessem mostrar-se tão abertos.

   — Bem, será melhor que se ocupe em satisfazer suas necessidades antes que voltemos a montar, o escocês assinalou uma grande saliência entre as rochas e o rosto de Anne ficou de uma viva cor vermelha.

   — Sim obrigada, disse com voz fraca ao mesmo tempo em que o rubor se acentuava. Quando se dirigiu às rochas, sentiu-se como se todos os olhos estivessem cravados nela. Retornar lhe custou uma grande quantidade de disciplina e ordenou a si mesma agir com sensatez. O corpo tinha necessidades, não era um motivo para ruborizar-se. Agora mais homens a olhavam, observando a maneira como se aproximava da água. O conde montava de novo seu corcel e esquadrinhava o horizonte de sua privilegiada altura com o rosto convertido em pedra. Não parecia rufião e nem ocioso, uma sólida determinação emanava dele enquanto percorria com o olhar a zona que os rodeava antes de posar seus olhos nela. Anne sentiu que o calor voltava a lhe subir pela face e que uma comichão atravessava sua pele, mordeu o lábio inferior e tirou a boina lhe devolvendo o olhar sem poder romper a conexão. Ele franziu o cenho antes de girar a cabeça, gesto que feriu o orgulho de Anne e que a enfureceu ao sentir de novo um ardente calor no rosto, como podia ruborizar por ele? E por que não o agradava? Sua própria ira a deixou assombrada, paralisando sua mente enquanto tentava descobrir por que se importava com o que aquele homem pensasse dela. Era melhor que não a achasse atraente, pois certamente isso a ajudaria a evitar sua cama. Mesmo assim ela não pôde negar a onda de decepção que a atravessou, fora tão real como aqueles homens vestidos com saias que estavam junto dela. Bastante inesperada, mas verdade.

   — Os dois terão que esperar zombou o irmão do conde ao aproximar-se com a égua, provocando gargalhadas entre os homens, Cullen dedicou um sorriso a Anne e lhe ofereceu uma mão para ajudá-la a montar. A jovem, irritada, estendeu um braço para o pomo da sela, apoiou um pé sobre o estribo e ergueu seu corpo no ar sem ajuda. Podia arrumar-se muito bem sozinha.

   — Oh! Nunca conheci uma dama inglesa que pudesse fazer isso. Provavelmente meu irmão fez uma escolha melhor do que imagina, Anne abaixou o olhar e se sentiu tentada a retirar o véu para que aquele homem pudesse ver o olhar carrancudo que lhe dirigia. Foi outro impulso, um que pareceu muito difícil de resistir, no entanto ao descobrir o escocês sorrindo de orelha a orelha e com aqueles olhos azuis como o céu, cintilando com alegria, sua raiva desapareceu imediatamente, já que ele a fez se lembrar muito de Bonnie.

   — Sabe muito sobre mulheres inglesas, não é?

   Os lábios do escocês deixaram de sorrir, adotando uma expressão pensativa. — Estive na corte de sua rainha com meu irmão, sendo assim sim, conheço-as. Seus olhos resplandeceram com algo que parecia desconfiança, embora reconheça que você não é exatamente o que esperava, quando meu irmão me disse que viríamos buscá-la. Olhou-a com olhar crítico, um gesto que fez a jovem se perguntar o que era, na opinião dele, o que lhe faltava.

   — Como não nos conhecemos, replicou Anne, recuso-me a formar uma opinião sobre você ou seu irmão até que passe um pouco de tempo.

   Uma das sobrancelhas do escocês se arqueou. Uma suave zombaria surgiu em seus lábios e seus olhos voltaram a brilhar com diversão. — Oh, Deus, eis aí um tom que me lembro muito bem. As mulheres inglesas são tão frias como as Valkirias, poderosas guerreiras nórdicas, gélidas como a neve quando pretendem pôr a um homem em seu lugar.

   O primeiro impulso de Anne ao escutar aquilo foi desculpar-se, mas as palavras de Philipa fizeram que se reprimisse.

   Familiarizar-se com um daqueles homens não seria prudente, tendo em conta a precária posição de sua família. Mesmo assim, não era sua natureza ser grosseira e lamentava suas palavras.

   — Meu nome é Cullen. O escocês lhe entregou um pano dobrado, aqui têm algo para comer, a viagem até o castelo do Sterling dura dois dias a cavalo, assim precisará ser forte.

— Obrigada, disse em voz baixa enquanto segurava o que ele lhe oferecia. Cullen pendurou no pomo de sua sela a alça de um odre com vinho, as faces de Anne coloriram-se dessa vez envergonhada por ser tão direta em seu comentário. Não deveria permitir que Philipa a transformasse numa pessoa ressentida, mas guardou para si suas palavras, selando assim os lábios, por temor do que pudesse acontecer com sua família. Teria que interpretar esse papel, até seu pai descobrir a situação em que se encontrava.

   Cullen assentiu. — Bem-vinda à família.

   Sua voz estava áspera, embora com certeza, Anne merecesse por ser tão altiva. Uma pontada de arrependimento fez seu estômago contrair, enquanto o escocês se dirigia ao seu próprio cavalo. Entretanto, não podia agir de outra maneira, não podia ser ela mesma, sabia que a amabilidade era a melhor maneira de enfrentar novas situações, contudo, mesmo assim, devia mostrar-se grosseira, encontrava-se numa encruzilhada que se tornava mais escura, a cada palavra que pronunciava. O ódio de Philipa a tinha colocado numa situação impossível e ser correta não a ajudaria na sua atual situação. Todos os raciocínios e justificativas apoiados no fato dela ser a vítima não conseguiam aplacar a culpa que a estava devorando. Era uma impostora e não acreditava que erguer preces aos Santos a ajudasse em algo, pois no fim, a maioria dos Santos tinha aceitado seu martírio, para não agir de um modo não cristão. Apesar de saber isso, não descerrou os lábios, manteve-os totalmente fechados resolvidos a interpretar o papel de esposa que lhe fora atribuído, enquanto o conde os fazia avançar.

                            

Uma esposa falsa.

   O conde não parou a marcha até o sol quase se pôr. Só uma mancha rosa coloria o horizonte quando levantou a mão para que o grupo se detivesse, parecia que seus homens sabiam exatamente o que aquele gesto significava, porque em seguida desmontaram e começaram a organizar o acampamento. O lugar escolhido estava resguardado por árvores, os ramos tinham poucas folhas, mas um grupo de grandes rochas fazia o lugar ser perfeito para passarem despercebidos. Uma rocha estava manchada com escura fuligem negra e dois dos guerreiros se dispuseram a preparar ali uma pequena fogueira, enquanto outros dois reuniam os cavalos. Tiraram as selas das montarias, mas se certificaram de que todas as bridas estivessem bem presas, depois prenderam os cavalos entre si, deixando alguns metros de distância entre eles para evitar que vagassem sozinhos durante a noite. Um guerreiro subiu no penhasco, apoiou as costas sobre vários ramos, então deixou que a espada desembainhada descansasse sobre uma das coxas.

   O resto dos homens falava em voz baixa, mas Anne pôde escutar a alegria em seu tom, e igualmente o marcante acento escocês.

   A solidão a dominou como se fosse um laço de aço que se fechava mais e mais a cada detalhe estrangeiro que percebia.

   Com um suspiro, virou-se e se dirigiu ao rio. Ouvia o murmúrio da água fluindo rápido, mas o córrego não estava à vista. Teve que subir uma encosta para, por fim, poder ver a água mais abaixo. Com atenção para não cair, conseguiu finalmente descer até a margem. O odre não estivera cheio de vinho doce, mas sim de água.

   Mesmo assim, foi grata, pois seus lábios ressecavam com o ar invernal. Apoiou um pé numa rocha e teve a precaução de subir saias sobre as coxas antes de inclinar-se para tornar a encher o odre.

   A brisa noturna acariciou a pele nua acima das meias de lã, fazendo-a arrepiar-se. Assim que encheu o odre, ergueu-se colocando os pés com firmeza sobre a borda e fechou o odre antes de virar-se e erguer o olhar.

   Ao encontrar-se frente a frente com o Conde soltou um grito abafado, apenas os separava meio metro de distância e o corpo dele, parecia ainda maior do que pela manhã. Anne deu um salto para trás tentando afastar-se dele sem pensar no tanto que estava perto do rio, de forma que suas botas afundaram no chão úmido e o odre caiu na lama. Agindo com rapidez, o escocês a segurou pelo braço para afastá-la do rio. A jovem lhe golpeou o peito de forma instintiva e arregalou os olhos ao sentir que ele deslizava o braço por suas costas para segurá-la melhor.

   — Está realmente decidida a fugir no meio da noite? Não havia dúvida da ira que impregnava a voz do Conde, olhava-a com o cenho franzido e a desconfiança gravada no rosto.

   — Só desejava encher o odre, defendeu-se.

   O escocês soltou um som rouco. — E desempenhou essa tarefa sem dizer a ninguém aonde se dirigia, Saindo na escuridão o mais silenciosamente possível.

   — Fiz sem pensar.

   Mas não deveria fazê-lo, outro erro seu. Mary teria enviado alguém para encher o odre, sem se importar que tivessem que ocupar-se dos cavalos.

   — Ficarei grato se ficar com meus guerreiros, para não precisarmos resgatá-la dos homens de qualquer outro clã que a encontre sem escolta, se não se importa com o que possam lhe fazer, preocupe-se ao menos pelo sangue que será derramado quando tivermos que a libertar lutando.

   — Eu não quero que ninguém lute por mim, afirmou Anne, horrorizada.

   O rosto do escocês era tão severo como o de um carrasco.

   — Se assegure para que assim seja. Não deixarei que ninguém roube o que é meu, Milady, se fugir, a encontrarei suas palavras eram tão duras e implacáveis como o braço que a retinha junto a ele.

   — Não estava fugindo assegurou-lhe a jovem.

   O conde voltou a soltar um bufo, duvidando claramente dela, Anne fechou os lábios com força, consciente de que começava a perder a paciência e que protestar não lhe facilitaria as coisas. Só lhe restava era consolar-se, pensando que Mary sem dúvida o teria insultado.

   O conde apertou os lábios com força ao ver que ela não responderia.

   — Tire essa touca da cabeça de uma vez? Esperava ir contra a lei e ser freira na Inglaterra.

   Anne levantou o queixo para descobrir o Conde franzindo o cenho de novo, seus olhos eram de um azul mais escuro que os de seu irmão.

   “Olhos de meia-noite...” estremeceu e um calafrio atravessou suas costas. O escocês entrecerrou os olhos quando a mão que apoiava em suas costas sentiu aquela reação no corpo feminino. O aroma da pele de Brodick inundou os sentidos de Anne, que sentiu o estômago se contrair de repente, com a mais estranha das sensações e que o calor voltava a tingir de vermelho sua face. Confusa, lutou com força tentando escapar dele.

   O conde zombou de seus esforços com um suave som descontente.

   — Já esteve na corte, não vejo necessidade de que finja inocência, Mary. Estou certo de que não sou o primeiro homem que a tem em seus braços.

   Anne arregalou os olhos e aceitou o fato de que só seria solta quando ele o considerasse conveniente. Seu braço parecia de aço, estreitando-a contra seu corpo. Como se atrevia?

   — Eu não finjo nada, Milorde.

   O escocês semicerrou ainda mais seus olhos e, um tempo depois, Anne sentiu que lhe arrancavam a touca francesa da cabeça, liberando seu cabelo. Depois, o conde estudou seu rosto durante um longo momento antes de soltá-la.

   — Isso, ainda eu irei julgar.

   Anne afundou um pé na lama com a intenção de pôr distância entre eles, o que provocou um brilho de diversão nos olhos de Brodick. Imóvel diante dela, bloqueou-lhe a passagem usando o rio e sua imponente presença para mantê-la a sua mercê.

   — Se está acostumada com a libertinagem na corte da Inglaterra, será melhor que saiba que não permitirei que me envergonhe, Anne ergueu a cabeça, fazendo caso omisso de seu julgamento errôneo.

   — Deixou muito claro. — Depois de dizer aquilo, afastou-o e começou a andar para o acampamento sem se incomodar mais com a proximidade dele, podia ser até que tivesse muitos defeitos, mas certamente não era uma libertina.

   — Bem. A voz do escocês soou autoritária enquanto a seguia subindo a margem, agrada-me descobrir que sua cara está limpa embaixo desse véu em lugar de maquiada como a de uma cortesã, estendeu um braço, e fez que se virasse e lhe acariciou uma das faces com um dedo. — Sim, agrada-me.

   Anne voltou a estremecer numa estranha resposta, depois que o tom de voz dele se suavizou, já não estava furioso com ela. Atordoada, virou-se rapidamente para ocultar sua reação ao perspicaz olhar do escocês, sentia o rosto quente no ponto onde a havia tocado e a pele estranhamente sensível. Uma parte dela se sentiu lisonjeada pela aprovação que lhe mostrava, sendo como era, um líder poderoso, um homem com um tipo de vida muito afastada do que jamais se atreveu a imaginar.

   — Me olhe, Mary.

   Escutar o nome de sua meia-irmã teve o mesmo efeito sobre ela que um jarro de água fria. Virou-se lentamente, esforçando-se para ocultar a expressão de seu rosto antes de enfrentá-lo mais uma vez. Aquele homem não aceitaria muito bem o fato de enganá-lo. Agora que já não usava o véu, teria que ter mais cuidado na hora de ocultar seus sentimentos.

   — Eu não gosto das mulheres tímidas, o tom áspero de sua voz fez com que a jovem se enfurecesse de novo.

   — Então pode me levar de volta para casa. — Olhou para o chão, esforçando-se ao máximo para parecer covarde, durante um breve instante, acalentou a esperança de que ele pudesse rechaçá-la, — ou melhor, deveria me levar à corte com meu pai.

   Uma mão calejada, lhe ergueu o queixo para que pudesse olhá-lo nos olhos.

   — É certo que estava na corte, porque esse lugar está repleto de conspirações. Seus lábios formaram uma dura linha, então se aproximou mais dela sem deixar de lhe segurar o queixo com firmeza. — Realmente pareço um homem que se renderia tão logo depois de nos ter casado? — Riu entre dentes e o som fez com que o ventre de Anne se contraísse, seu quente aroma a envolveu quando ele inclinou a cabeça para que seu fôlego lhe acariciasse os lábios.

   — Não sabe muito dos homens escoceses, esposa. Não nos intimidam algumas olhadas frias, na Escócia sabemos dar prazer a nossas mulheres. — O conde lhe roçou a boca com a sua, então Anne deu um solavanco para separar-se dele, rechaçando o estremecimento que a atravessou como um raio, sua liberdade foi efêmera. Com um rápido movimento, Brodick rodeou sua cintura com o braço, apanhando-a e atraindo-a para si.

   — Não me afaste. — Prendeu-a contra o rígido corpo, com força suficiente para que Anne pudesse sentir os batimentos de seu coração, e depois posou o olhar em sua boca enquanto deslizava uma mão pela sua nuca e lhe prendia a cabeça. — Beijar a minha esposa é algo que não estou disposto a renunciar.

   Quando voltou a roçar os lábios dela com os seus, dessa vez bem devagar, Anne se mexeu entre seus braços, confusa pelas tumultuosas e desconhecidas sensações que amontoavam em seu corpo. Os poucos beijos que já dera tinham sido roubados e breves. Entretanto, Brodick usou seu tempo saboreando com delicadeza as diferentes texturas de seus lábios antes de obrigá-la a abri-los para obter um contato mais profundo. Seu braço a aprisionava embora não lhe fosse doloroso. Parecia ter plena consciência de sua força e a mantinha presa a ele com a firmeza suficiente, mas sem chegar a lhe fazer mal. Anne vibrou com violência ao sentir que ele deslizava a ponta da língua pelo lábio inferior. A sensação lhe percorreu as costas e não pôde evitar ofegar agitada, jamais havia pensado que uma carícia pudesse ser tão intensa.

   Tinha as mãos estendidas sobre seu amplo peito e sentia as pontas dos dedos transbordantes de novos desejos. Gostava de tocá-lo, abriu os dedos ainda mais, deixando que percorressem os duros músculos que seu colete aberto lhe permitira vislumbrar. O prazer avançou em seu interior em forma de uma lenta nuvem que encheu de bruma sua mente. Custava pensar, tornou-se lenta e torpe, enquanto ele brincava com seu lábio superior, provocando-a.

   — Muito melhor. — Os olhos de Brodick estavam agora cheios de evidente prazer masculino, estar consciente disso afligiu Anne, que o olhou extasiada e esqueceu que o melhor para ela era manter distância.

   — Por isso vejo, porque não têm nenhum interesse em jantar. — A voz de Cullen estava repleta de diversão, ao ouvir aquilo, Anne horrorizada arregalou os olhos e empurrou o duro peito que havia sob seus dedos. Brodick franziu o cenho e um perigoso brilho sobrevoou seus olhos, seus braços se apressaram a libertar a jovem ao tempo que olhava furioso para seu irmão. — Agora faz o papel de meu criado?

   Cullen sorriu como um menino. — Não tem um criado.

   — OH, claro que sim, Cullen. Mas é o bastante prudente para ser invisível como você deveria sê-lo.

   Cullen começou a avançar para eles apesar do evidente mal-estar que se manifestava na voz de seu irmão. — É esta a maneira de comportar-se diante de uma inglesa? Perguntou piscando um olho a Anne, sua esposa pensará que somos uns selvagens.

   Brodick assobio e a jovem o observou assombrada, tentado recordar se já ouvira qualquer outro nobre emitir semelhante ruído.

   — A maioria dos ingleses acredita que a palavra, “escocês” vem sempre unida a “selvagem”. As palavras do Conde soaram como um desafio, entretanto, seus lábios se esticavam numa arrogante expressão de prazer. Aquele homem não se arrependia de haver roubado um beijo de Anne. Não se arrependia absolutamente.

   — Ninguém poderia qualificá-los de prudentes, disso não cabe dúvida, alfinetou-o Anne fulminando-o com o olhar, sem saber se devia estar zangada com ele por ser tão audaz ou com ela mesma por ter desfrutado dessa audácia.

   Cullen, divertido, lançou uma gargalhada naquela noite cada vez mais escura.

   — Está seguro de que deseja ficar com ela, irmão? Creio que eu gosto dela, — Brodick arqueou uma escura sobrancelha e cruzou os braços sobre o peito, parecia mais formidável naquela postura, uma montanha de firmes músculos.

   — Estava tentando conhecê-la quando você nos interrompeu de um modo tão grosseiro.

   — OH, bom. Deve deixar que sua esposa jante antes que encontre o momento de consumar sua união.

   “O terror sacudiu com força Anne ao escutar a palavra consumar”.

   — Não, esta noite não! — Sacudiu a cabeça ao mesmo tempo em que abraçava a si mesma. — Aqui não!

   — Que motivo poderia ter para me repelir, esposa? — Inquiriu Brodick, cismado, a suspeita se via refletida em suas feições.

   Agora a jovem nadava em águas perigosas, enfrentando o que lhe preocupara durante todo o dia. Como dissuadiria aquele homem de fazê-la sua quando tinha o direito legal a reclamá-la?

   O olhar de Brodick se dirigiu a sua boca durante um momento, e Anne sentiu uma comichão na macia pele dos lábios. Confusa, ergueu a mão para cobri-lo enquanto tentava compreender por que gostara tanto de seu beijo.

   — Não parecia se importar quando a estava beijando, — aproximou-se ainda mais dela e Anne estremeceu. Aquela maldita investida provocou-lhe um calafrio que percorreu suas costas, apesar da necessidade de pensar numa forma de evitar seu contato. — Provavelmente o duro chão não seja digno, Milady. — Agora sua voz estava cheia de desdém zombador, o escocês que havia nele estava claramente ofendido pelo fato de que não gostasse de seu país. — Provavelmente acha que é muito primitivo.

   — Ao contrário. A Escócia é um país muito belo, mas terá que seguir umas regras e devemos obedecer às tradições, sua mente trabalhava freneticamente enquanto mantinha uma mão estendida diante dela. — Sim, tradições.

   — Já ouvi a primeira vez.

   Anne respirou profundamente e obrigou seu coração a reduzir o ritmo das batidas, tratando de avaliar suas palavras. — Milorde não pretendia enfurecê-lo, entretanto, só se pode tomar a virgindade uma vez e devo ter cuidado para estar intacta para meu marido.

   — Eu sou seu marido. — Deu um passo para ela com os braços ainda cruzados.

   Anne manteve a cabeça alta, negando-se a retroceder, devia manter-se forte em sua postura. — Mesmo assim, não me examinou e é possível que depois de ter me levado ao seu leito, deseje reconsiderar nossa união.

   Um sorriso de satisfação apareceu no rosto de Brodick. — Bom, isso era exatamente o que tentava fazer antes que meu irmão surgisse, ficarei encantado de examinar até o seu último milímetro. Pessoalmente.

   Cullen franziu o cenho e seu rosto escureceu, como se que estivesse ciumento.

   — OH vamos, isto é ridículo.

   — Absolutamente. — O Conde voltou a adotar uma atitude autoritária, acredito que examinar a minha recente esposa é de todo necessário.

   — Não serei examinada por você, replicou Anne.

   —E, por que não? — Olhou-a furioso, tão arrogante como sempre tinha ouvido que eram os escoceses, Brodick não era um homem que se dobrasse simplesmente porque lhe dissesse que não.

   — Porque não é uma parteira. — A jovem ficou rígida, o que poderia saber você do corpo de uma mulher?

   Os lábios do Conde voltaram a curvar-se para cima enquanto sua atenção se centrava em seus seios, depois no espartilho, provocando em Anne, a mesma comichão nos mamilos, que já sentira nos lábios. A repentina imagem dele beijando seus seios surgiu em sua mente e enviou uma corrente de calor para suas veias. Não podia cair na tentação de fazê-lo, por temer descobrir que era algo tão delicioso como o beijo que dera nos lábios.

   — Asseguro-lhe que não ficará desfalcada de meus conhecimentos.

   Uma labareda de ciúmes ardeu no ventre feminino ao escutar o tom zombador de sua voz. “Com certeza tem uma amante”... As palavras de Philipa lhe vieram à memória enquanto mantinha firmemente a cabeça alta, decidida a não deixar que a usassem sem opor resistência.

   — A luxúria não tem nada que ver com a fertilidade de uma mulher. O exame de uma noiva ou recém casada é realizado por uma parteira com experiência e às vezes a mãe do noivo. Não é algo do que irei que burlar-me, Milorde, pode ser que passe a noite em seus braços e logo ao amanhecer me encontre no caminho de volta para casa de meu pai sem ninguém que possa me defender.

   Anne deu alguns passos atento para frente, para o acampamento, disposta a enfrentar de novo aos inquisidores olhos do grupo de escoceses. Naquele momento quase os via como um refúgio.

   — Sua mãe deveria ter se encarregado de que a examinassem.

   — O costume exige que seja a família do noivo quem escolhe à parteira. Do contrário, vocês poderiam refutar à parteira de minha mãe.

   Era uma tradição centenária, deveria ter se lembrado antes. Quando a mulher era desposada por contrato, seu dote estava legalmente nas mãos da família do marido. Se devolvesse à noiva, poderia levar anos para recuperarem o dinheiro e as terras através do sistema legal. E quando a batalha chegava ao seu fim, a noiva rechaçada já era muito velha para casar-se, e acabava seus dias na pobreza e dependendo de seus familiares para tudo.

   A tradição do exame protegia os interesses da mulher, se uma parteira experiente a declarasse fértil e forte, nenhum tribunal anularia o matrimônio, num mundo dominado por homens, era a única coisa que salvava uma mulher quando seus filhos morriam de forma prematura ou, pior ainda, quando uma esposa recém casada não conseguia conceber.

   Algumas parteiras, inclusive, sugeriam diretamente que alguns homens poderiam ser estéreis. É obvio que semelhante acusação não era aceita entre os varões, mas mesmo assim, as parteiras mantinham sua autoridade na questão de determinar se os quadris e o útero de uma mulher eram adequados.

   — O exame antes da consumação é costume em nossos dois países, insistiu Anne. — A expressão de Brodick nublou, era evidente que aquele homem não estava acostumado que o contrariassem a jovem se manteve erguida, sem ceder a sua fúria. Era algo ao que teria que se acostumar, pois se acatasse os desejos do Conde, acabaria em seu leito naquela mesma noite.

   — Agora já estou convencido de que eu gosto dela. — Cullen soou alegre, exatamente como soaria um irmão pequeno provocando seu irmão maior.

   — Com uma família como você, eu não necessito inimigos. — disse Brodick

   Cullen nem sequer se alterou diante da força das palavras de Brodick, limitou-se a sorrir. O Conde o fulminou com o olhar lhe transmitindo sua fúria.

   OH, sim, ele estava mesmo furioso. Mesmo sendo virgem, Anne compreendeu instintivamente o significado do brilho nos olhos masculinos, era algo tão antigo como o tempo e mexia com parte dela de um modo que não chegava a entender. Sentiu que o estômago contraía e seus mamilos se transformaram em duros topos. Algo em seu interior começava a despertar.

   — Nos deixe Cullen. — Havia um matiz de inegável autoridade na voz de Brodick. A expressão de diversão desapareceu do rosto de Cullen antes de assentir com a cabeça. Em silêncio, virou-se e começou a andar até desaparecer na escuridão. O sol se pôs por completo e o som do rio amorteceria seus possíveis gritos, assim Anne estava sozinha no meio da noite a mercê de seu marido.

   — O que está pretendendo? — O Conde falou brandamente, mas Anne não se deixou enganar.

   Ouvira seu pai usar esse tom de voz e nunca trazia nada bom com ele, Brodick era um homem que controlava a sua gente com mão de ferro.

   — Me responda Milady. Por que está evitando nossa união?

   — Não estou fazendo.

   O escocês soltou um bufo. — Acaso tem medo?

   Anne reprimiu sua negativa apertando os dentes. Se o contrariei, me devolva a meu pai, — uma suave risada masculina foi sua única resposta. Anne logo percebeu sua silhueta, perfilada levemente pela chapeada luz da lua. Por um momento pareceu como se estivessem em um mundo à parte, quase mágico. Fascinada pelo jogo de luzes e sombras, a jovem observou imóvel como ele estendia o braço para ela.

   — Está claro que isso é o que deseja, murmurou Brodick posando a mão em sua cintura e afundando os dedos nas grossas dobras que formava a saia. — Atraiu-a para si e Anne caiu em seus braços. — Mas eu não teria sobrevivido durante muito tempo como Conde do Alcaon se me rendesse com tanta facilidade, o destino é favorável aos audazes, — voltou a beijá-la com mais exigência que antes, impedindo qualquer movimento ao lhe sustentar a cabeça com uma mão para poder saboreá-la mais profundamente. Sua língua atravessou os reticentes lábios femininos até que a jovem abriu a boca e permitiu que afundasse em seu interior.

   Anne se revirou durante um momento em seus braços, incapaz de pôr em ordem as ardentes sensações que a atravessavam a toda velocidade. Seu aroma a envolvia, revelando desejos que nunca enfrentou. Desejava tocá-lo, sentia as pontas dos dedos sensíveis e ansiosas para descobrir como seria acariciar sua pele nua. Curiosa, procurou a abertura da camisa, onde tinha vislumbrado sua carne. O escocês saqueava sua boca sem piedade, insistindo a que respondesse, provocando-a, incitando-a a responder até que conseguiu entrelaçar sua língua com a dela.

   Foi uma dança ardente que fez Anne afastar para o lado todos os pensamentos sobre o que deveria fazer. Somente ficou em sua mente à necessidade de satisfazer seu desejo. De repente, o Conde ergueu a cabeça e deixou um ardente rastro de beijos em sua face que a deixou clamando por mais, a pele de seu pescoço suplicava uma carícia de seus lábios, sem estar consciente do que fazia, deslizou os dedos por debaixo da camisa masculina até que sua mão ficou unida ao seu poderoso peito. O coração lhe pulsava com força, a toda velocidade.

   — Terá seu exame, mulher, mas também conhecerá a frustração. — Deu-lhe uma pequena dentada no pescoço antes de soltá-la. Anne cambaleou ao ver-se livre e o ar noturno a golpeou com crueldade. O escocês a agarrou pelo queixo com um leve franzir nos lábios, provocando nela visível tremor.

   — Esta noite dormirá com o mesmo desejo que eu, e provavelmente ao amanhecer deixe de falar em ser devolvida para seu pai, — emoldurou seu rosto com as mãos e se inclinou para beijá-la de novo. Dessa vez não começou com suaves carícias. Sua boca tomou a dela sem misericórdia, anulando qualquer esforço de resistir a ele.

   Introduziu a língua profundamente em sua boca sossegando o leve gemido que emitiu a jovem, o desejo atravessou o corpo de Anne como um raio, àquela sensação não cresceu lentamente como a vez anterior, mas sim estalou de repente em seu interior. Poucos segundos depois, a boca de Brodick voltou a afastar-se da dela, deixando de novo um rastro de beijos na face e a pescoço. Anne nunca fora tão consciente de quão sensível era a pele do pescoço. Cada beijo que lhe dava naquela zona lhe provocava uma intensa pontada no ventre.

   Mas o Conde não se limitou a atormentá-la com os lábios e usou os dentes para mordiscá-la com delicadeza.

   Atordoada, Anne dobrou as mãos como se fossem garras ao redor de sua camisa e sentiu um insensato impulso de tirar o tecido para ter um completo acesso a sua pele de repente, assustada de seus próprios pensamentos, soltou-o e se separou dele. Não compreendia o que acontecia ao seu corpo nem por que o desejo que sentia era tão intenso. Respirando com dificuldade, retrocedeu vários passos cambaleando enquanto o terror se apoderava dela, mas não era medo pelo que lhe pudesse fazer Brodick era muito pior, estava assustada pelo que ela desejava fazer com ele.

   O Conde a seguiu instintivamente, mas obrigou a si mesmo a deter-se. Seu corpo sacudiu.

   Anne o escutou sorver uma entrecortada inspiração. Continuando a observá-lo, viu que cruzava os braços sobre o peito como se precisasse impedir a si mesmo voltar a beijá-la. Eu gostaria que voltasse a fazê-lo.

   — É melhor que saiba que a partir de agora o, nosso leito não conhecerá a frieza. Pode ter seu exame, mas uma vez que a parteira nos dê o seu veredito, terminará para sempre com essa atitude distante. Não o permitirei me ouve?

   — Ou o que? Não pode mudar o que sou, deveria aproveitar esta noite para pensar que seria melhor dissolver nosso matrimônio.

   — Por que teria que fazer isso quando tem tanta paixão oculta atrás dessa fria aparência exterior? — Aproximou-se dela e Anne retrocedeu sem pensar, uma cálida mão pegou seu queixo, lhe permitindo sentir sua força mais uma vez. — Não preciso de outra esposa; só preciso fazê-la conhecer sua própria natureza.

   Um frio mortal a inundou ao mesmo tempo em que negava com a cabeça, os dedos que lhe sujeitavam o queixo se firmaram, detendo o gesto.

   — Devolveu-me o beijo e isso é apenas o preciso saber. Aprenderemos a fazer que nossa união funcione.

   — É livre para negar que seu corpo arde de desejo, mas estou certo de que seus mamilos estão duros.

   Estavam.

   — Não deveria dizer coisas assim.

   — Não deveria dizer a verdade? Estamos casados e podemos falar de tudo, — acariciou com o dorso dos dedos o rubor que a noite ocultava e estalou a língua.

   — Está ardendo por mim, esse é um meio básico de comunicação. Seu corpo tenta atrair minha atenção e devo dizer que me resulta muito grato. — Pressionou-lhe o lábio com o polegar e Anne ficou sem respiração em resposta a sua carícia, — muitos casais em nossa posição não são tão afortunados, — afastou a mão lentamente e Anne, impelida pelos desejos de sua própria pele, esteve a ponto de inclinar-se para diante para prolongar o contato.

   — Estive negociando com seu pai durante dois anos e não vou renunciar pelo simples fato de que você não valoriza o nosso casamento tanto como o faço, nosso matrimônio beneficiará muitas pessoas. Deveria pensar em toda essa gente que terá uma vida melhor, — voltou a aproximar-se dela, segurou-a pelos antebraços e inclinou a cabeça para que Anne pudesse ver bem seu rosto baixo aquela tênue luz. — Será melhor que saiba que Brodick McJames não aceitará uma negativa de sua própria esposa. É minha. Compartilharemos o leito freqüentemente, e tenho a intenção de beijar seus mamilos quando quiser então a fez girar ao mesmo tempo em que a soltava, ele a empurrou levemente para o acampamento. Anne tropicou, mas recuperou o equilíbrio.

   — Eu não pertenço a ninguém, afirmou a jovem sem pensar.

   — Vou desfrutar muito demonstrando o quanto está equivocada.

   As palavras de Anne tinham sido muito ousadas para qualquer mulher até mesmo para uma rainha. A vida das mulheres era dura e seus parentes varões ostentavam uma grande autoridade sobre elas. Essa era a lei tanto na Inglaterra como em Escócia, por isso a idéia de Brodick de que lhe pertencia não era nada fora do normal. De fato, todos os tribunais do país estariam de acordo com ele.

   — Permitirei que volte para acampamento, já que tem a intenção de fazer que se respeite a tradição. Estou de acordo em que é o costume num matrimônio como o nosso. Provavelmente se tranqüilizará, quando uma parteira declarar que poderá conceber meus filhos. Suponho que uma donzela tem direito de estar um pouco nervosa na primeira vez que seu marido a toca... Embora tenha aprendido a arte de beijar, rápido.

   — Isso foi mais que um beijo... — Anne fechou a boca rapidamente antes de desvelar toda sua ignorância, não sabia que se podia utilizar a língua para beijar, os dentes do Conde resplandeceram sob a luz da lua.

   — Sim foi, sobretudo quando nossas línguas se entrelaçaram, o calor se estendeu no interior de Anne enquanto virava para olhá-lo fixamente. Ao encará-lo novamente, sentiu-se incapaz de mover-se por causa da mescla de ternura e excitação que a atravessou. Seus lábios desejavam voltar a sentir os de Brodick.

   — Esse olhar significa que trocou que opinião? — Rodeou-a pela cintura uma vez mais, reduzindo a distância entre eles e bloqueando assim o frio da noite, sua força era muito superior a dela e conduzia seu frágil corpo com facilidade, — não parece estar muito interessada em retornar ao acampamento.

   — Está me distraindo, Milorde. Não estou acostumada a dar as costas a alguém que está falando, ensinaram-me que fazer isso era uma grosseria.

   — Deixar a seu senhor insatisfeito tampouco é muito amável.

   Anne abriu os olhos de par em par, surpreendida, e levantou o queixo em sinal de rebeldia.

   Brodick apertou os dentes tentando de não ceder à tentação de provocá-la mais. Devia agir com honra, não incitá-la a um encontro apaixonado. Ao menos isso era o que lhe haviam dito, porque, no referente ao matrimônio, carecia de experiência. Mas quanto às mulheres, era obvio que gostava muito e não lhe agradava, ter que esperar para reclamar o que desejava. Não lhe importava absolutamente que uma parteira examinasse ou não a sua esposa. No entanto, era o costume e estaria agindo como um selvagem incivilizado se negasse seu pedido de respeitar a tradição.

   — Se reúna ao grupo agora.

   Anne inspirou bruscamente, claramente aborrecida por seu tom. Mas manteve os lábios selados e inclusive inclinou levemente a cabeça antes de dar a volta e subir até o topo da colina.

   Brodick ficou onde estava para respirar o ar noturno, embora não tenha ajudado muito a esfriar seu sangue. Não tinha motivos para lamentar-se, ou ao menos isso é o que pensaria a maior parte da nobreza. O fato de que só a visão de sua esposa lhe produzira uma ereção seria o menor dos problemas, tendo em conta os desacertos que aconteciam na maior parte dos matrimônios entre nobres, encolheu os ombros, consciente de que aqueles pensamentos não aplacariam seu péssimo humor. Seu grosso membro, tenso ao ponto de doer, não se aliviaria agradecido pela apaixonada natureza de sua esposa. Desejava ardentemente investigar quanta paixão vivia em seu interior. Esse maldito véu tinha ocultado sua beleza, seu rosto sem maquiagem fora uma agradável surpresa, igual aos seus doces beijos. Deixá-la ir foi uma dura prova de disciplina, que estivera muito perto de não passar, mesmo assim... Era bom desejar sua esposa, podia ser que seu membro palpitasse com força e fosse lhe doer durante a próxima hora, mas ao menos não teria que se preocupar com sua futura descendência.

   Muitos nobres acertavam casamentos que beneficiavam seu povo e depois eles eram incapazes, de conceber filhos diante da visão de suas esposas, seu palpitante membro, entretanto, estava totalmente erguido e impaciente por consumar a união, riu entre dentes enquanto começava a avançar para seus homens. OH, sim, a verdade é que sua esposa era uma surpresa que iria desfrutar plenamente. Certamente que sim.

   Anne nunca teria imaginado que gostaria tanto de sentir o corpo de um homem contra o seu, nem sequer tinha considerado a idéia, pois lhe tinha sido proibido todo contato inclusive com os serventes. Era como descobrir um oceano de sensações encerradas sob chave em seu interior. Suspirou, era como achar a caixa de Pandora, o melhor que poderia fazer, era tentar que aquelas sensações continuassem ocultas, já que não fazê-lo, significaria sua morte.

   Mesmo assim, não conseguia apagar a lembrança do que Brodick a fizera sentir, possivelmente isso demonstrava que Philipa tinha razão, que ela era como sua mãe.

   Uma rameira. Anne franziu o cenho, agradecida pela escuridão. Sua mãe amava a seu pai, mas esse sentimento era como uma maldição. O amor não era uma escolha prudente para ninguém. Tornava os homens loucos e afastava às mulheres de suas famílias. Muitos médicos o qualificavam como uma doença similar à loucura. Contudo, ela não podia pensar em sua mãe como uma perturbada, e em seus irmãos como o produto da alienação, tinha que haver mais, algo que ainda restava descobrir depois de tudo, dizia-se que estavam vivendo na era dos descobrimentos. Os homens cruzavam os oceanos e traziam consigo história de novas terras habitadas por selvagens, então eles deveriam ser capazes de resistir aos desejos que ardiam em seu ventre, mas era difícil quando sentia a pele extremamente sensível. Estava muito consciente de quão suave era a fina camisa que usava e, pela primeira vez em sua vida, detestou que o espartilho contivesse seus inflamados seios. Luxúria... Levantou a mão para cobrir a boca e por um instante não pôde respirar. A excitação corria com força por seu corpo, fluía através de seu sangue como um veneno de efeito tardio. O fato de ser virgem não queria dizer que fosse ignorante, conhecia a realidade do leito conjugal desde que entrou na adolescência, mas a luxúria era uma coisa totalmente diferente. Muitas mulheres sofriam terríveis conseqüências ao deixar-se levar por ela, então, por que se sentia tão bem? Deveria ser capaz de ignorar o doce formigamento em seus seios, de apagar de sua mente a lembrança de como estremeceu quande Brodick a tinha estreitado contra seu corpo. Entretanto, em lugar disso, aquela sensação persistia, dançando por sua mente como fadas decididas a guiá-la por um mágico bosque onde dançaria para sempre.

   O jantar transcorreu em silêncio, a noite caiu sobre eles e o fogo foi bem recebido, eles lhe ofereceram bolo de aveia e sua textura seca a fez agradecer ter ao seu lado um odre cheio de água.

   Não pôde evitar tremer quando o vento agitou o acampamento e a maioria dos homens fechou os coletes, também colocaram as mangas em seu lugar, além disso, soltaram parte do kilt e envolveram seus corpos com ela para se manter quentes. Vendo a praticidade do seu uso, Anne começou a compreender o fato de que usassem kilts. O traje típico celta não exigia que o costurassem e podia adaptar-se ao clima quente ou frio. Em definitivo, era um modo bastante engenhoso de se vestir.

   — Vai esfriar Milady. Um guerreiro se aproximou dela e a estudava com olhos escuros enquanto lhe oferecia a capa que tinha utilizado a noite anterior para cobrir-se. Anne segurou a grossa capa, apreciou o zelo e a pôs com ar pensativo, enquanto ele acenava com a ponta de seu capuz em sinal de respeito.

   — Meu nome é Druce. Seu matrimônio nos tornou primos, já que o pai de seu marido e o meus eram irmãos. Pelas veias daquele homem também corria sangue nobre e, mesmo assim, cavalgava com outros soldados sem nenhum traje que o distinguisse. A falta de arrogância no grupo de guerreiros que a rodeava pareceu a Anne uma mudança refrescante. Cada guerreiro ganhava o respeito por si mesmo, em lugar de esperá-lo pelo fato de pertencer a uma família importante. Na Escócia os homens com títulos nobiliários eram tão fortes e capazes como os servos que tinham ao seu cargo.

   Sem dúvida, aquilo era algo admirável. Embora precisasse resistir ao impulso de gostar deles. Como povo, os escoceses agora lhe pareciam mais interessantes, do que teria imaginado que pudessem sê-lo.

   — Obrigado.

   — Não precisa sentir nenhum temor por dormir ao ar livre. Um guarda velará por seu sono, este país não é um lugar tão incivilizado como certamente a fizeram acreditar.

   — Tenho fé na opinião de meu pai, respondeu-lhe a jovem.

   Druce lhe dedicou um sorriso. — Assim é como deve ser. Demonstra ser uma boa filha ao confiar em seu pai, não a casou com um selvagem, independente do que tenha escutado.

   — Bom... Não se deve fazer caso aos rumores, — então a face de Anne ardeu levemente, inesperadamente.

   Druce riu entre dentes e assinalou o chão. — Será melhor que se acomode e durma um pouco, Brodick despertará ao amanhecer, acredite.

   Assim me terá antes em sua cama. Seus pensamentos estavam cheios de luxúria, jogou a culpa em Brodick por isso, pois não sabia o que era a paixão antes que ele a tocasse e agora se fundia em seu sangue como o vinho, diluindo seu sentido comum. Sentindo as duras pedras sob os pés, ela afastou algumas antes de se deitar e usou a capa para se proteger do frio chão.

   Apenas uns segundos mais tarde, Anne se levantou com o coração contraído ao escutar o som do metal sendo desembainhado. As chamas da fogueira refletiram na lâmina da espada do conde, que sustentava o grosso punho com uma mão enquanto desatava a cinta que prendia a bainha em suas costas. Em seguida, recolocou a arma em sua capa de pele, deu uma última olhada a seu redor e observou com gesto severo a cada um de seus homens antes de fazer um gesto de aprovação com a cabeça. A seguir se virou para ela e Anne se sentiu repentinamente agradecida pelo grande capuz da capa que permitia ocultar-se daqueles perspicazes olhos. Num gesto de nervosismo, formou uma fina linha com seus lábios quando ele se sentou junto a ela. Muito perto dela, Brodick deixou a espada a sua direita, desabotoou o passador que prendia seu Kilt e cobriu as costas com parte dele.

   — Relaxe esposa, os recém casados devem dormir junto um do outro. Não entendo por que está tão tensa, considerando sua reivindicação pelas tradições. — Os lábios masculinos esboçaram um sorriso enquanto Anne o fulminava com o olhar sem se importar que o seu gesto o desagradasse. Nesse momento era o que menos importava. Brodick se deitou de lado para poder olhá-la, dobrou o braço e apoiou o queixo na mão. Ao fim de uns segundos, arqueou uma escura sobrancelha e deu uma batidinha no chão. — Deite-se ao meu lado, esposa. Sua voz estava impregnada de diversão e seus lábios voltaram a sorrir enquanto batia de novo o chão, rindo de sua resistência, a menos que a assuste muito, seu sotaque agora era mais marcado e seus olhos brilhavam de forma inquietante. Anne se deitou com as pálpebras fechadas para ignorá-lo, fazendo o Conde rir em voz baixa, o som feriu o orgulho da jovem, que abriu os olhos para enfrentá-lo.

   — Superestima-se Milorde. Não é mais que um homem, um homem igual aos outros.

   A despeito de Anne falar em sussurros, ele a ouviu. Entretanto, em lugar de ofender-se, sorriu. Passou o braço por cima do corpo feminino para prendê-la contra o chão e se inclinou sobre ela. Uma tensa antecipação fez à jovem ficar rígida ao sentir o roçar de seu fôlego sobre a delicada pele dos lábios.

   — Será um prazer lhe mostrar as diferenças, esposa. Deu-lhe um firme beijo na boca, que Anne foi incapaz de evitar, seu peso a mantinha imóvel enquanto sua boca tomava o que desejava dela. Para seu pesar, gostou. O beijo avivou as brasas da paixão que Brodick acendera nela junto ao rio. Quando separou os lábios, Anne respirava com dificuldade.

   — Estou impaciente por deitar contigo num lugar mais privado, amanhã de noite descobrirá que há muita diferença entre conhecer os homens que a rodeiam e conhecer um marido. — Sem mais, deitou-se ao seu lado. Mas voltou a apoiar-se de lado e Anne sentiu seu atento olhar sobre ela enquanto tentava fazer desaparecer a sensação de seu beijo nos lábios.

   Precisava lembrar-se de rezar..., seu corpo se viu dominado por uma doce comichão que a fez desejar mais beijos, incluídos os que pudesse dar nos mamilos. Seus tortuosos pensamentos a impediram de descansar, e não deixou de dar voltas e revirar-se no duro chão. Ela abriu os olhos meia dúzia de vezes durante a noite, olhando com atenção as silhuetas dos homens que a rodeavam. Sua mente não abandonou em nenhum momento a idéia de escapar, mas venceu essa debilidade pensando em sua família. Se fugisse, sua mãe e seus irmãos ficariam a mercê da cólera de Philipa. Um suave grunhido chegou aos seus ouvidos quando Brodick se moveu, o escocês rodeou sua cintura com um braço e a estreitou contra si, mantendo-a imóvel.

   — Precisamos dormir sussurrou-lhe ao ouvido ao mesmo tempo em que a abraçava com mais força.

   Era muito agradável estar envolta no calor masculino, mas o aroma de Brodick despertava nela o desejo que tinha reprimido desde que a beijou. Inquieta, moveu-se tentando encontrar um modo de escapar do aroma de sua cálida pele.

   — Se continuar se esfregando contra minha ereção, terá que viver sem esse exame.

   Anne soltou um grito abafado e lançou um olhar ao seu redor, temendo que alguém tivesse escutado aquela escandalosa frase. Aliviada, comprovou que os homens de Brodick haviam se deitado a vários metros deles. Os lábios do escocês acariciaram seu pescoço e a mão que estava repousada sobre seu estômago começou a deslizar com suavidade por sua pele, enquanto a parte inferior do poderoso corpo continuava encostada no seu traseiro. Inclusive através de todas as peças, saia, anáguas e a capa, Anne pôde sentir, sem sombra de dúvida, a firme evidência de sua excitação. Estava duro, e estar consciente disso a fez sentir-se vazia de uma maneira que não pôde explicar. Aturdida, percebeu que gostara de sentir essa dureza em seu corpo.

   — Notou agora de que parecemos feito um para o outro?

   — A luxúria não prova a compatibilidade.

   O conde levantou a cabeça para que seus olhares se encontrassem na escuridão. — Não, mas é um bom ponto de partida, sem prévio aviso, a grande mão de Brodick posou na união das coxas da jovem.

   — Basta!

   — É minha esposa, tenho a bênção da Igreja e de sua família para tocá-la, por que deveria deixar de fazer algo que seu rosto me diz que você gosta? O prazer a percorreu como uma labareda ao sentir que o conde deslizava a mão para baixo, os olhos de Brodick brilhavam com determinação e seus lábios se apertavam em uma dura linha. Não havia piedade em seu rosto enquanto explorava por cima da saia as tenras dobras da feminilidade da jovem em um movimento constante.

   — Fecha os olhos e durma, ou a levarei a beira do rio para resolver esta questão. Continue acordada e será seu dever me entreter, esposa.

   Anne fechou os olhos apesar da ira, lhe ocorreram várias réplicas, mas as reprimiu de repente, sentiu que um suave beijo posava em uma de suas bochechas e que a mão que a explorava se retirava para rodear sua cintura e aproximá-la ainda mais dele.

   — Não sou um animal, esposa. Mas me evitar não fará esta adaptação mais fácil. Algumas coisas é melhor fazer rápido. Desse modo, não terá tempo de temê-las.

   Anne riu antes que tivesse tempo de impedir que o som escapasse de seus lábios. O conde também riu entre dentes, lhe acariciando o pescoço com os lábios ao mesmo tempo em que se acomodava atrás dela. O aroma que desprendia dele prosseguiu mantendo a paixão de Anne viva e ardente. Embora tentasse dormir uma vez mais, era evidente que seu corpo não estava interessado em descansar.

   Desejava mais carícias, mais carinho, seu clitóris palpitava suavemente pelo desejo e seu corpo ansiava que o tomasse, desejava aquele homem, era assim, simples. Não haveria escapatória à luxúria, nem poderia deixar de pensar nele enquanto Brodick a estivesse abraçando. O tempo se prolongou até o ponto de que aquela noite parecer a mais longa que já suportara. Brodick se levantou antes que o sol saísse, ficou em pé com os olhos entrecerrados e uma expressão contrariada no rosto, e bufou antes de afastar-se para acariciar o pescoço de seu cavalo.

   — Essa capa é muito volumosa para cavalgar com ela afirmou Druce dirigindo-se a Anne estendendo uma mão para que a entregasse. A jovem teve que reunir coragem para renunciar ao traje porque a manhã era muito fria. Mas o escocês tinha razão. Se tentasse montar na égua com aquela capa tão grossa, provavelmente terminaria caindo da sela.

   — Aceite. É muito sensível ao frio. — Cullen envolveu seus ombros com uma capa muito mais leve, atrasando-se ao lhe piscar o olho. — Só deixamos os baús para trás, não sua roupa. Está amarrada ao lombo de uma das éguas. Anne acariciou a capa, agradecida por seu calidez. Graças a uns compridos cortes nos lados poderia cavalgar com ela.

   Era de lã e estava debruada com verdadeiro veludo. O tecido caro também estava belamente costurado ao redor das aberturas para os braços, e bordados com fio de seda adornavam a parte dianteira da luxuosa e longa capa, viu um fio solto e tirou. Ao observar melhor, viu que havia mais, todos estavam separados pela mesma distância, indicando onde tinham estado colocadas as pérolas. Mary devia ter passado várias horas descosturando as jóias da roupa que tinha sido enviada para Anne. Todos os trajes de sua meia-irmã, tão amante da corte, estavam adornados com pérolas, ouro e inclusive algumas pedras preciosas.

   Cullen se afastou para reunir-se com o resto dos homens, cujas vozes foram aumentando de volume à medida que o sol ia saindo. Fechando com força a capa ao seu redor, a jovem desfrutou do aconchego que transmitia, embora tivessem extraído as pérolas, tratava-se de um traje elegante e o tecido resistiria às inclemências do tempo.

   Não conseguia localizar ao corcel negro, assim levantou o queixo e estudou o caminho em busca do conde sabendo que só um olhar dele, iria reconfortá-la. Enfim, descobriu-o no alto do monte com os olhos fixos no horizonte.

   — Não seria melhor parar de despi-lo com os olhos? — Troçou Cullen, ao lhe entregar a égua. Sua voz era claramente zombadora. — Estou ficando ciumento.

   — Eu não... — A idéia de despir Brodick a impediu de continuar falando. —Não, o que? — Cullen lhe dedicou um sorriso zombador.

   — Eu não fazia isso. — Anne agarrou o pomo da sela, levantou o pé e o apoiou no estribo. Uma dura mão em seu traseiro a empurrou para cima, fazendo-a soltar um grito abafado. Cullen não se mostrou absolutamente arrependido quando ela lhe lançou um olhar de contrariedade do alto do cavalo. Em lugar disso, acenou com sua boina.

   — Não há de que.

   O escocês deu uma palmada no flanco da égua e Anne se pôs a caminho. O animal se dirigiu com rapidez até o conde enquanto o resto dos homens montava e a rodeavam para mantê-la protegida entre eles. Brodick os observava de sua privilegiada posição e, quando se aproximaram mais, a jovem acreditou ver um sorriso de satisfação em seus lábios, mas ele se virou no momento exato, mostrando suas largas costas antes que pudesse estar segura disso.

   — Sterling! A voz do líder dos McJames ressoou na gelada manhã ao mesmo tempo em que erguia o braço com a mão convertida em um tenso punho.

   — Sterling! Fizeram coro seus homens com um clamor quase ensurdecedor, inclusive os cavalos pareceram se contagiar com o entusiasmo de seus cavaleiros, avançando mais depressa, um brilho de excitação surpreendeu a jovem ao levantar o olhar para as costas do conde. Seus homens lhe eram fiéis e o seguiam sem medo, ao contrário do que ocorria com Lady Philipa, todas as pessoas sob seu comando a criticavam quando se encontravam na área de serviço. Entretanto, Anne não se dera conta realmente do terror dos habitantes de Warwickshire até que viu o contrário refletido nos soldados de Brodick. Durante um breve momento se permitiu desfrutar daquela onda de satisfação, consciente de que não duraria muito.

   Sua situação não melhoraria uma vez que chegassem ao Sterling. Ao contrário, iria ser mais difícil evitar Brodick e suas expectativas. Uma pequena pontada de culpa a sacudiu, pois não desejava decepcioná-lo. Comovida por suas próprias emoções, tentou resignar-se a seguir seus planos. Evitar a consumação era essencial para sua sobrevivência. Ainda assim, um brilho de desejo flamejou em seu interior ao observar de novo as costas de Brodick, tinha o cabelo levemente encaracolado e longo o suficiente para roçar a parte superior de seus ombros, usava as mangas da camisa recolhidas nos ombros, deixando ao descoberto os grossos músculos que formavam seus braços. Sem poder evitá-lo, recordou quanto tinha gostado sentir sua força.

   A caixa da Pandora...

   Seu ventre se contraiu ao rememorar como seus beijos tinham despertado desejos desconhecidos em seu interior. Aqueles beijos a transtornavam e conseguia fazer seu corpo responder, e estava certa de que lançaria qualquer mulher pelo caminho da desonra. Sacudiu a cabeça e mordeu o lábio inferior tentando encontrar um motivo para atrasar o exame. Tinha que haver algum modo... Só tinha que pensar nisso.

 

Warwickshire

   Ivy Copper abraçou Bonnie com mais força do o normal.

— Mãe, aconteceu algo?

Ivy tomou entre suas mãos as alvas bochechas de Bonnie e sorriu.

   — Não, tesouro. É só que sou mãe, e as mães sempre enxergam os filhos como bebês. Bonnie lhe deu outro abraço antes de afastar-se dançando pela casa.

   — Devo ir ou chegarei tarde. Hoje vamos apenas tecer e nada de fiar ou cardar lã.

   Ivy disse adeus com a mão indicando que fosse cumprir seu dever e esperou para escutar se extinguindo o som dos passos de Bonnie para então abaixar a guarda e permitir que rugas de preocupação surgissem em seu rosto.

   Anne se fora do castelo. Angustiada, começou a passear de um lado ao outro do quarto, nenhum de seus filhos nunca tinha abandonado Warwickshire. Talvez fosse ridículo, permitir que isso a preocupasse, mas não conseguia fazer sua mente parar de dar voltas e mais voltas naquele assunto. Tinha medo que houvesse algo errado, apesar de que seu sentido lhe dizia que o que sentia era só a dor típica de uma mãe.

   “Seria bom se o Conde estivesse aqui” Ao menos, esse pensamento conseguiu acalmá-la um pouco. Sempre desejava que Henry estivesse por perto. Como não ia desejar? Amava-o muito. Henry a adorava e sempre a tratara bem, muito melhor que à maioria das amantes. Nunca se afastara de seu lado, nem sequer quando tinha o ventre inchado ou agora que os anos estavam passando muito rápido.

   O amor... Esse era seu dom.

   Tudo iria bem. Embora Philipa levasse Anne à cidade com ela e Mary, não haveria nenhum problema. Podia ser que a esposa do Henry lhes guardasse rancor, mas não se arriscaria a despertar a ira de seu marido fazendo mal a sua filha.

   Anne retornaria no verão, e ela abraçaria Bonnie cada dia mais forte até que sua família voltasse a estar reunida.

   Assim era a vida de uma mãe.

          

         Sterling...

   Sterling fora erguido sobre o topo de uma colina. Suas torres eram grandes com estruturas circulares de três andares, com muros de mais de um metro e meio de largura. Havia cinco e estavam separadas formando uma linha. Depois delas, um precipício protegia a parte posterior da fortaleza dos invasores. Umas grossas muralhas conectavam as torres, e o estandarte azul e dourado dos McJames dependurava delas. Os homens lançaram vitórias quando o longínquo som dos sinos chegou suave pela brisa vespertina. Havia duas entradas nas muralhas de pedra, algo curioso, porque os castelos eram construídos para resistir assédios e o fato de que tivesse duas entradas significava que necessitavam do dobro de soldados para protegê-lo, os aldeãos começaram a sair de suas casas. Chamavam os soldados por seus nomes, lhes dando bem-vindo ao lar com júbilo. Embora o sol banhasse calidamente o rosto de Anne insinuando a primavera, os campos ainda não mostravam o fruto do trabalho dos servos. As casas dos aldeãos salpicavam os arredores do castelo, indicando que Sterling era e uma terra produtiva. Em mais algumas semanas, quando começasse a semeia, haveria trabalho de sobra para todos. Durante o inverno, os aldeãos trabalhavam com peles e tecidos em suas casas para produzir bens que pudessem intercambiar ou vender. Brodick se dirigiu para a entrada norte, seguido de perto por seus homens. Mas não atravessou a enorme abertura. Em lugar disso, virou-se e a olhou, os homens que a precediam riram com diversão e a negra besta se lançou de repente para a jovem em uma magnífica exibição de poder. Brodick encaixava com perfeição naquela imagem, igualando ao animal em força. Não havia dúvida de que o amo e o corcel eram perfeitos um para o outro.

   Ao chegar ao seu lado, Brodick parou o cavalo a apenas uns centímetros dela, estendeu o braço para tomar as rédeas de sua égua e controlou os nervosos passos que o animal deu para o lado para evitá-lo, mantendo a brida baixa até que a égua deixou de bufar.

   Então, soltou as rédeas, levantou-se sobre os estribos e se inclinou para diante com um inquietante brilho no olhar. Anne sentiu que uma dura mão a agarrava pela cintura um segundo antes que ele a fizesse atravessar o espaço que havia entre os cavalos.

   Assustada, agarrou-se aos duros ombros de seu marido para não cair, provocando risadas calorosas nos homens. Brodick também riu, mas sua voz era mais profunda e soou junto a sua orelha quando a acomodou diante dele, atraindo-a contra seu corpo com o braço e segurando-a com firmeza. O corpo de Anne despertou de novo num mundo de diminutas e incríveis sensações. Cada vez que respirava, sentia-se envolta pelo agradável aroma que desprendia do escocês. Nunca se dera conta de que os homens cheiravam de forma diferente ou que se pudesse ter fraqueza por um em particular. Sem que pudesse fazer nada por evitá-lo, sentiu-se atravessada por uma pequena onda de prazer ao inspirar o quente aroma de sua masculina pele.

   — O que está fazendo, Milorde?

   O escocês se inclinou até Anne sentir sua respiração no ouvido, fazendo arrepiar todo o pêlo de seu corpo e que os mamilos ficassem duros sob o espartilho.

   — Executando algumas de minhas tradições. Os McJames sempre levam suas esposas entre seus braços na primeira vez que entram no castelo. — Estendeu os dedos sobre seu ventre, — embora a situação não fosse sempre tão... Civilizada.

   Anne estremeceu. A cozinha de Warwickshire fervilhava de rumores sobre os escoceses e as guerras entre seus clãs, mais de um matrimônio foi conseqüência de terem levado a noiva à força e desfrutado de uma noite com ela.

   — Confesso que há algumas tradições que eu gosto mais que outra, sugeriu Brodick, cavalgar no meio da noite contigo é algo que acredito usufruiria, entretanto, as negociações com seu pai foram aborrecidas.

   — Negociar com meu pai lhe assegurou o dote que procurava.

   A mão sobre seu ventre se moveu e ascendeu acariciando seu torso. A respiração de Anne se entrecortou ao sentir o sopro do conde em seu pescoço e sua pele se tornou extraordinariamente sensível, antecipando-se ao contato de seus lábios.

   — Ah, mas tê-la sentada sobre meu cavalo, colada a mim, é muito mais estimulante, sua boca lhe roçou levemente o pescoço e Anne deu um sacolejo ante a sensação que a percorreu. Ouviu uma suave risada entre dentes, antes que lhe desse um segundo beijo na suave pele, parece que se mostra de acordo comigo, esposa.

   Brodick não aguardou sua resposta. Enrolou as rédeas ao redor das mãos e cravou os calcanhares nos flancos de seu corcel, que se lançou a galope. Inclinou-se para frente e moveu constantemente os quadris ao ritmo que marcava o poderoso animal. O braço que prendia Anne contra ele obrigou seus corpos se balançarem em uníssono, fazendo que o rubor ardesse no rosto feminino ao relacionar aquele movimento com a consumação do matrimônio. Brodick a cavalgaria com a mesma suavidade com a que o fazia sobre seu cavalo, com movimentos fortes e regulares. A jovem nunca tinha acreditado completamente nos ensinos da Igreja que opinavam que deviam manter as mulheres na ignorância para evitar que pecassem. Mas, desde que tinha conhecido Brodick, sua mente começava a compreender melhor por que os clérigos pensavam desse modo. Saber que aquele homem pretendia tomar sua virgindade provocava pensamentos luxuriosos e era quase impossível apagar essas turbulentas idéias de sua mente, parecia que apenas conseguia pensar, em como eram seus beijos ou do quanto gostava do constante roçar de seus quadris em seu traseiro nesse momento. O sufocante calor que sentia a fez ofegar enquanto a pele de seu ventre suplicava pelo contato de sua forte mão. Aquelas estranhas sensações não se detiveram e fluíram até fazer arder sua tenra carne da união entre suas coxas, seu clitóris tremia de desejo, fazendo-a respirar entrecortadamente e se conscientizar de que nenhum homem a fizera sentir aquilo.

   — Bem-vinda a Sterling, esposa. — Brodick atravessou as portas mantendo-a junto ao seu corpo, parecia mais uma cativa, do que uma esposa, o clã abarrotava o pátio e suas vozes se ergueram num clamor quando seu líder galopou até as escadas que levavam a uma das torres de pedra. Deteve o cavalo para desmontar e uma nuvem de pó se levantou ao seu redor.

   — Trago-lhes sua nova senhora. — A voz de Brodick transbordava autoridade, de repente, Anne se tornou o centro das atenções e todos os olhos ficaram fixos nela.

   Desacostumada a tanta atenção, começou a abaixar o queixo, mas se recompôs e manteve a cabeça erguida com determinação. Não era nenhuma covarde e não envergonharia seu pai agindo como tal. Quando as mãos do conde rodearam sua cintura para ajudá-la a apear, ela estendeu os braços e se segurou em seus ombros. Animado pelos servos, Brodick a deixou no chão e a abraçou durante um longo tempo deixando patente o desejo que sentia por ela.

   — Bem-vinda ao meu lar. — Sua voz era áspera e, por um momento, a culpa invadiu Anne, estava colaborando para enganar um homem que merecia algo melhor. A suspeita nublou o rosto do escocês ao observá-la, mas a multidão não tinha vontade de esperar e pressionaram Brodick em sua intenção de aproximarem-se mais dela.

   — Falaremos mais tarde. — Havia uma advertência contida em seu tom de voz que se cravou como uma adaga no coração de Anne. Embora não soubesse muito dele, intuía que não era um homem que permitisse alguém enganá-lo sem nenhum castigo, temeu o dia que descobrisse o engano, sem mais tardanças, o conde se virou mantendo sua mão presa fazendo-a subir as escadas, andando com grandes passadas entraram numa das torres circulares.

   — Sterling é maior que Warwickshire, Tente não se perder, — voltou seu agudo olhar para ela, — e tampouco se afaste muito. Os clãs vizinhos não são muito acolhedores.

   — Mas, onde estão suas maneiras? — Uma moça de cabelo escuro interrompeu Brodick audazmente, afundando um dedo no peito, — fará com que ela se encolha de medo sob as mantas de sua cama pensando que a Escócia está cheia de selvagens.

   — Isso é precisamente o que eu gosto de meu país, — interveio Cullen, que agarrou à desconhecida pela cintura e lhe deu um forte abraço.

   — Pare de me despentear, caipira reprovou-lhe a moça mexendo-se.

   Brodick apertou a mão de Anne sem perceber, ao retornar sua atenção para o rosto do marido, a jovem ficou olhando fixamente aquela expressão que ele tinha adotado num momento de descuido. Era a mesma de seu pai, depois de fechar a porta dos aposentos de sua mãe, refletia prazer diante daquelas brincadeiras que davam a entender o afeto que existia na família.

   — Esta é minha irmã Fiona, — explicou-lhe Brodick. — É muito vaidosa com seu cabelo.

   A moça sacudiu a cabeça e levou uma mão ao quadril, parecia imponente, muito mais do que qualquer outra dama com sangue nobre que Anne tivesse visto. — Se eu sou presumida, então seu comportamento não supera ao dos animais dos estábulos, queridíssimo irmão.

   Brodick franziu o cenho e lançou um duro olhar para a jovem. — Estou muito orgulhoso de meus cavalos, são os animais mais bem cuidados da Escócia.

   Sua severa reprimenda fez que Anne sorrisse com um suave som que escapou de seus lábios antes que fosse capaz de silenciá-lo, Brodick entrecerrou os olhos. — Não necessito que vocês duas se unam para me contrariar, seu tom era severo, mas seu olhar estava cheio de diversão.

   — Estou encantada com a chegada de sua esposa, fui à única mulher na mesa durante muito tempo. — Fiona dedicou um alegre sorriso ao seu irmão.

   — É uma boa época para as bodas, grunhiu Brodick.

   O olhar zombador desapareceu imediatamente do rosto da Fiona.

   — Não para mim, — virou-se para Anne desfrutando do modo como todos os presentes deixaram de falar para tirar suas boinas num gesto de respeito. A facilidade com a que a moça enfrentava a tanta atenção masculina era admirável. — Sou muito jovem para me casar, convença o caipira de meu irmão por mim, rogo-lhe isso.

   — Será melhor que vá se preparando para as bodas, — respondeu Anne, incapaz de não se contagiar naquela atmosfera zombadora, sacudiu a cabeça e suspirou. — Estou começando a aprender que seu irmão pode chegar a ser muito teimoso. — Ao ouvir aquilo, Cullen e Druce soltaram uma gargalhada.

   — Temo que assim seja, — Fiona sorriu, — em todo caso, desejo o melhor em seu casamento, — sem mais, afastou-se decidida. Seu corpo parecia conter muita energia para manter-se quieta.

   — Sem dúvida nossa irmãzinha, tornara louco algum pobre homem, — comentou Cullen estalando a língua.

   — Já está fazendo, — Brodick meneou a cabeça. — A mim! — Cullen esboçou um sorriso torto e o irmão lhe enviou um olhar letal antes de desviar aqueles olhos como a meia-noite para Anne. Seu humor mudou imediatamente e a luxúria invadiu seu olhar num segundo ao posar os olhos nos lábios femininos.

   — Temos que cumprir com algumas tradições, milady. Não quero fazê-la esperar.

   Entretanto, eu sim devo fazer esperar... Anne não gostou de seus próprios pensamentos, não gostou absolutamente, mas mesmo assim, manteve a cabeça alta.

   — Não sou tão velha para que tenha que me apressar Milorde.

   Os lábios do escocês deixaram escapar um suave som de diversão que não enganou a jovem, Brodick aproveitou que ainda retinha sua mão na dele para aproximá-la mais e estudar seus olhos. Quando falou, abaixou a voz para que suas palavras ficassem entre eles.

   — E eu não sou tão jovem para que possa me impor a sua vontade. Fui à Inglaterra em busca de uma esposa e isso é o que terei em meu leito esta noite. —Dito aquilo, afastou-se uns passos e os homens levantaram suas jarras para dar um último gole antes de partir com seu senhor. O conde ficou imóvel durante um longo momento, quase como se desejasse que ela ficasse ciente do poder que ostentava e, embora fosse um gesto arrogante, Anne não pôde negar que a impressionou.

   — Parto para realizar seu desejo, Milady.

   Algo no interior da jovem exigiu que enfrentasse a sua exibição de força com nervos de aço. — Que tenha uma boa viagem, Milorde! Depois de fazer uma lenta reverência, Anne abandonou o local com elegância apesar da multidão de olhos que a observavam. A antecipação fez encolher seu estômago, mas o que a fez caminhar rápido foi o palpitante ritmo que marcava seu acelerado coração.

   Era a excitação.

   Essa mesma noite...

   Anne cruzava toda a alcova, dava a volta e caminhava para a parede ao contrário só para repetir a operação uma e outra vez.

   Mal notava os aposentos que lhe atribuíram, concentrada como estava na peleja que teria contra Brodick. Precisava encontrar uma solução, algum modo de ganhar tempo com suas exigências.

   Um pequeno sino preso na porta emitiu de repente um doce som. Anne levantou o olhar e ficou admirando o diminuto objeto de prata. Parecia com a que o padre utilizava na igreja para sublinhar suas palavras. Estava suspenso num gancho de ferro e tinha uma corda atada na parte superior que pendurava pelo outro lado da porta. Alguém puxou de novo a corda, fazendo que o pequeno sino soasse novamente. Imediatamente, a porta se abriu devagar e deixou passar uma mulher de meia idade.

   — Sou Helen, milady. — Vacilante, a criada abriu a porta de par em par e olhou fixamente sua nova senhora.

   — Boa noite. — Saudou-a Anne.

   Helen assentiu antes de olhar por cima do ombro e ordenar. – Entrem, ouviu-se um roçar de botas sobre a pedra e dois jovens entraram no quarto com os braços cheios de roupa.

   — Eu serei a encarregada de arrumar sua roupa, — explicou Helen a Anne.

   — Receio que o fato de terem empacotado e amarrado seus trajes na sela do cavalo, deixou a maior parte de suas saias enrugadas. Mas não é nada que não se possa solucionar.

   — Teria acontecido o mesmo se tivessem viajado dentro de um baú, — sem pensar, Anne seguiu os servos e agarrou uma pesada saia. Aquilo fez com que todos a olhassem com assombro e a jovem foi incapaz de reprimir um suspiro ao perceber que tinha cometido outro engano. Lady Mary nunca se ocupou de suas próprias roupas. O simples feito de pensar em sua irmã a enfureceu, não importava como se comportasse Mary. Anne não era mimada nem tampouco era preguiçosa, assim não iria se comportar como tal.

   — Obrigada por trazer minhas coisas. — Anne deu outra sacudida na saia, virou-se e a estendeu sobre uma cadeira. Depois agarrou outra peça com um sorriso e repetiu a operação, Helen a observou, estudando-a durante um extenso período, finalmente concordou e depois recriminou sua atitude aos dois servos.

   — O que acontece? Acaso crêem que todas as damas inglesas, são uns bebês chorões que não sabem como administrar seus próprios lares? — Voltou-se para Anne e sorriu, — Milorde me enviou para que seja sua criada até que decida quem prefere entre as criadas, a cozinheira colocou para ferver um pouco de água e estes jovens subirão a tina para que possa se banhar antes que chegue a parteira.

   — Não há necessidade de subir a tina, tomarei banho na sala de banho. Helen abriu a boca assombrada, mas foi incapaz de articular uma palavra, Anne sacudiu outra saia para encher o incômodo silêncio que se fez. Tinha que aparentar segurança em tudo o que fizesse de outro modo, ninguém acreditaria.

   — Milorde me ordenou que a banhasse nesta câmara como corresponde a sua posição, Milady. Não seria apropriado se unir a vassalagem na sala de banho.

   —Não estou acostumada a receber instruções de seu senhor, — Anne ficou imóvel um momento tentando se tranqüilizar Brodick era o líder dos McJames, um fato que seria prudente recordar, já que ninguém sairia em sua defesa no caso dela despertar sua ira com suas palavras. Inclusive Philipa reprimia sua língua quando seu marido estava no castelo. — Simplesmente eu não gosto de perder tempo, Helen. Carregar água e a banheira é uma perda de tempo quando eu sou capaz de ir andando aos aposentos destinados para o banho, estou certa de que os membros da criadagem não necessitam que eu lhes dê mais trabalho.

   Helen continuou sem dizer nada durante alguns segundos, mas finalmente se recuperou de seu assombro e sorriu.

   — Alegra-me ver que Milady, se preocupa com os outros. É uma grata surpresa que não tinha atrevido a esperar. — A criada girou e ordenou aos servos: — Desçam e peçam ao Bythe que se assegure de que a banheira esteja preparada para a senhora. Logo, quando tudo estiver preparado, vocês ficarão junto à porta para garantir que ninguém interrompa seu banho. — Depois de dizer aquilo, Helen lhes indicou com a mão que podiam se retirar, com a desenvoltura de quem tinha hábito de mandar, uma vez que os criados saíram do quarto, a boa mulher se dirigiu à cama e estudou a pilha de roupa.

   — Bem, agora precisaremos de uma camisa limpa e provavelmente da resistente capa com que chegou. Não há necessidade de vestir outra vez o espartilho se a examinarem depois do banho, Anne se virou para ocultar sua insegurança. Não é que fosse excessivamente pudica, mas não estava acostumada a mostrar seu corpo nu. — Há uma parteira experiente no Sterling?

   — Não. Ninguém aqui conta com a experiência necessária. O conde e seu irmão partiram para Perth para procurar Agnes, pois ela vem trazendo crianças ao mundo há décadas e, além de ter boa visão, é uma mulher muito inteligente. Sendo que o conde não iria se arriscar a que milady, não aprovasse à parteira, Anne sentiu que a armadilha de Philipa se estreitava ainda mais, dificultando sua respiração.

   Alheia aos pensamentos da jovem, Helen sorriu ao levantar uma camisola.

   — Esta é muito bonita, estou certa que o conde irá achá-la muito atraente sobre seu corpo. Escovarei seu cabelo e estará uma bela noiva quando a acomodarmos no leito de seu marido.

   A criada abriu a porta e aguardou que Anne a precedesse para o banho, a tensão formou um nó no estômago da jovem, precisando obrigar seus pés a mover-se.

   — Não se preocupe Milady. O conde é um homem honrado, não precisa ficar nervosa pela noite de núpcias. Ao amanhecer, lamentarão ter que deixar seu leito para se encarregarem dos afazeres diários. Isso era exatamente o que Anne temia, consciente de que não seria prudente de sua parte deixar-se levar pelas carícias de Brodick, sentia-se aflita pela injustiça recaída em seus ombros, no instante de seu nascimento que agora lhe pesava mais que nunca. Mas o fato de estar ali contra sua vontade não alterava nada.

   Anne deixou o espartilho sobre a cama e seguiu a Helen para tomar um banho que não estava destinado para ela. O cômodo era no segundo andar, que se acessava por uma escada esculpida no muro arredondado da torre. Uma sólida barra colocada na parte aberta evitava que um tropeção acabasse num desgraçado acidente. Ao olhar para cima, Anne notou o teto que era o piso do quarto onde antes, estivera passeando. Outro lance de escada levava ao terceiro andar. Graças às cinco torres que contornavam a fortaleza, era impossível o inimigo se aproximar do Sterling sem ser visto. Helen a conduziu até o pé das escadas. Ali havia mais ruído, sons de conversa e passos sobre o duro chão. A jovem se surpreendeu ao ver tapetes, pois tudo o que sabia da Escócia a incitava a pensar que era um país menos avançado do que a Inglaterra e esperara comer com talher de madeira. Os tapetes de lã foram uma agradável surpresa, os juncos secos cheiravam a umidade durante os longos meses de inverno e acumulavam barro e pó ao ser pisado. Não havia forma de limpá-los até a primavera, quando os retiravam e eram substituídos por outros, os tapetes, entretanto, podiam levá-los ao pátio e sacudi-los.

   No Warwickshire, ela ajudava nessa tarefa e observara como uma grande nuvem de pó se erguia quando batiam com uma vara. Desse modo, o salão cheirava muito melhor, sem o fedor de meses de imundície acumulada.

   — Temos uma bonita sala de banho. Milorde se assegurou de que ela fosse tão moderna como as da Inglaterra. Helen atravessou a cozinha e as criadas se viraram para lançar curiosos olhares. Nem sequer temos que carregar a água quente com baldes.

   Ao entrarem no cômodo próprio para o banho, atrás da cozinha, a boa mulher assinalou com entusiasmo o depósito de madeira que se achava suspenso sobre uma grande banheira. — Milorde acrescentou isto quando viu numa das residências de um de seus nobres ingleses. Vocês tocam o sino, a cozinheira joga a água E... Ai está. Quase tão moderno como as termas romanas. — Era uma idéia simples que economizava muito trabalho aos criados, Anne tocou o deságüe de madeira e sacudiu a cabeça diante da simplicidade da idéia. Apena um único olhar ao interior da tina confirmou que estava pronta, sem rastro de ferrugem, no concernente a salas de banho, Sterling não tinha nada que invejar aos ingleses, de repente, algo no fundo da banheira chamou sua atenção. Havia uma peça redonda de grossa cortiça metida na lateral de metal.

   — Há um buraco na banheira?

   Helen estendeu a mão para a corda que havia próxima ao depósito e puxou-a várias vezes antes de voltar-se para responder.

   —Sim, Milady. A cortiça age como plugue e permite que a tina esvazie depois do banho. De fato, a banheira foi colocada sobre essa estrutura que vê, para que a água possa circular.

   Não estando acostumada a esse outro conduto de madeira que servia para liberar a água, Anne se apressou em contornar a tina e ali encontrou outro canal formado por um par de juncos aguardando para guiar a água para um buraco no chão. Não podia ver aonde iria dali, mas a idéia era extremamente inteligente. Desse modo não teria que carregar balde de água. Só era necessário limpar bem a banheira e o banho se resumia, de repente, num assunto simples. Com certeza, isso é que era ter uma mentalidade moderna, a água começou de repente a cair na banheira vazia.

   — Vamos, tire a roupa antes que Bythe despeje a água quente, — Helen já estava desabotoando os botões que mantinham a blusa fechada na parte dianteira de seu corpo. Trabalhou rápido e ficou atrás dela para tirar a peça e deslizá-la pelos braços. Depois a pendurou num dos muitos ganchos que havia na parede enquanto Anne começava a desatar a saia, moveu os dedos lentamente tentando encontrar um motivo para evitar se meter na banheira e, desse modo, atrasar o exame.

   Mas não lhe aconteceu nada, assim deixou que Helen tirasse a saia pela cabeça e a pendurasse em outro gancho.

   — Alegra-me ver que não usa reforço nem grande enchimento, o senhor não gostou das damas que conheceu na corte, pois pareciam que consumiram todo o aço nas peças de reforço que usavam em baixo dos vestidos.

   — A rainha gosta dessa moda, Anne observou quando Helen tirava o pequeno cilindro que tinha camuflado na saia. Não era maior que seu punho e a maioria das pessoas de classe o considerariam modesto. Colocado sobre os quadris, ajudava a carregar o peso da volumosa saia franzida e, além disso, tinha a vantagem de manter afastada a barra da saia dos pés, tornando muito mais fácil carregar uma pesada bandeja e não precisar subir a saia com uma mão.

   — Ouvi que a rainha tem um suporte de trinta centímetros a ambos os lados dos quadris. Vá! Como se alguém fosse acreditar que uma mulher pudesse ser tão larga.

   Helen sacudiu a cabeça enquanto se aproximava de outro gancho, Anne não pôde evitar sorrir porque era certo que muitas mulheres aumentavam os quadris para dar a impressão de que podiam conceber filhos com facilidade, devido a tal prática, os exames pré-nupciais se tornaram popular na última década.

   — Alegra-me ver que não tem neste momento seu período menstrual comentou a criada. Isso colocaria o senhor de mau humor. Anne só estava coberta pelo espartilho e a camisa íntima, assim foi fácil para a Helen observar que não havia nenhuma mancha no tecido de cor nata.

   — Mas teria sido culpa dele por não ter avisado antes, de quando iria lhe buscar. Imagino que se sinta um pouco melancólica tendo que deixar sua família sem tempo para se despedir, — Helen desfez o laço que mantinha o espartilho de Anne no lugar e tirou e afrouxou cada laçada até que a rígida peça liberou os seios dela. A jovem, agradecida, não pôde evitar que lhe escapasse um pequeno murmúrio de prazer, porque normalmente não dormia com o espartilho.

   — Precisa de uma costureira mais hábil. — A criada emitiu um som de clara desaprovação ao mesmo tempo em que sacudia a cabeça e franzia o cenho, este espartilho fez um buraco em sua bela camisa e machucou sua pele. É muito comprido nos laterais.

   — Estava pensando em outra coisa quando o coloquei.

   — Alegra-me que não trouxeram a sua criada. — Helen deixou escapar outro som de desaprovação, é evidente que não sabe vestir sua senhora.

   De novo, Anne tinha cometido outro pequeno engano que demonstrava que não tinha nascido para ostentar uma posição nobre.

   Mary teria culpado sua criada por qualquer incômodo causado pelo espartilho muito comprido. Essas atitudes eram uma das razões pelas quais os criados se esforçavam ao máximo para agradar seus senhores, já que, no caso de não obtê-lo, ficariam expostos a serem expulsos de suas terras. Tudo novo que enviavam para Warwickshire era revisado e medido pela governanta para comprovar sua precisão antes que chegassem aos aposentos da senhora.

   — Sente-se para que possa tirar suas botas.

   Anne se sentou sobre um tamborete e a camisa escorregou para cima sobre suas pernas, deixando-a exposta ao frio que invadia o cômodo.

   — Não se preocupe, não sentirá frio por muito tempo. Milorde se encarregará disso, o rosto da jovem ardeu enquanto Helen lhe tirava as botas. A criada piscou um olho como só uma mulher com experiência poderia fazê-lo e um sorriso sábio apareceu em seus lábios.

   — Não precisa se ruborizar, Milady. Agora é uma mulher casada.

   — Sei, todo mundo me repete isso de vez em quando, — inclinou-se para ocultar a expressão de desgosto que invadiu seu rosto e estendeu as mãos para uma das meias, finamente tecidas para abaixá-la com delicadeza até o tornozelo.

   — Mas o matrimônio não pôde ser uma surpresa para você, estou certa que sua preceptora a preparou para que esperasse uma notícia assim desde, que se tornou necessário usar espartilho.

   Anne cruzou as mãos. Era certo que a maior parte das mulheres compreendia que se casariam e que não poderiam escolher seus maridos. No referente a essa questão, ela era afortunada. A preceptora do castelo dera constantemente conselhos a Mary, sobre a importância de estar preparada e pronta para escutar a notícia de que fora escolhido um marido para ela.

   — É um pouco tímida. — Helen pôs as mãos nos quadris e seus olhos estudaram o modo como Anne cobria os seios, se me permitir à audácia de comentar isso, direi que esse pudor não agradará ao senhor.

   Anne recordou imediatamente as palavras de Philipa. — Certamente ele tem uma amante. Compartilha seu leito freqüentemente?

   — Não têm que se preocupar com nada do que tenha ocorrido no passado, o que um homem faz antes de casar é algo totalmente natural. Não pode recriminá-lo, — o tom da Helen ficou cauteloso. Desviou o olhar e colocou as meias com cuidado sobre os ganchos.

   — Não, mas se espera que uma recém casada seja virgem, — replicou Anne.

   Helen se retesou e virou-se de repente, lançando um olhar cheio de maturidade.

   — Isso só se deve ao fato de que é importante assegurar que os filhos cresçam na família em que são gerados, — não se desculpou por falar tão energicamente, mas Anne tampouco queria que o fizesse.

   — Você gosta de servir nesta casa, verdade Helen? — Não era realmente uma pergunta, para a jovem era evidente sua lealdade, inclusive podia senti-la em sua voz.

   — Sim, com certeza. Suponho que me deixo levar pela emoção porque sei que sirvo a um homem honrado.

   — Seu senhor tem sorte de tê-la entre seu pessoal, — o rosto de Helen se iluminou diante do elogio, uniu as mãos e as esfregou com os olhos resplandecentes.

   — Não faço mais do que falar, quando deveria estar preparando-a para coisas mais importantes, se sentirá melhor quando acabarem as formalidades, amanhã pela manhã terá esquecido o que é ser tímida. — Conservou silêncio por um momento e puxou a corda do reservatório, logo a água caiu na banheira no meio do vapor, em seguida pegou uma grande pá de madeira, ela mexeu na água várias vezes, antes de afundar a mão na tina para testar a temperatura. — Terá que me dizer como gosta do banho, no momento, está quente o bastante para esquentar seus pés.

   Anne obrigou seus dedos enrijecidos a soltar a camisa, tinha as mãos rígidas ao redor do tecido, mas Helen a ajudou e a tirou. Ali de pé, a jovem procurou não pensar que estava nua, realmente não tinha nem idéia se estava apta para conceber filhos ou não, e era muito provável que a parteira a considerasse incapaz. As filhas dos nobres eram examinadas várias vezes pelas próprias parteiras da família antes que se iniciassem as negociações matrimoniais. Se mentissem sobre aquele assunto, podiam ficar desonradas quando seus maridos descobrissem que elas tinham deformidades. Inclusive a rainha Elizabeth fora mostrada aos embaixadores quando era só um bebê porque existiam rumores de que seu corpo não era perfeito. Entretanto, como filha ilegítima em Warwickshire, Anne não fora submetida a nenhum exame pela parteira e era possível que seu corpo não fosse igual ao de outras mulheres. Anne observou as feições da criada dissimuladamente e viu que Helen a estudava em silencio com olhar experiente. Finalmente, a faxineira sacudiu a cabeça.

   — Deixe de se preocupar de uma vez por toda, não há nada em seu corpo pelo que inquietar-se. — Fez um sinal para que se aproximasse.

   A tina apresentava um magnífico aspecto com as laterais altas. Ao menos, banhar-se era melhor que ficar de pé no meio do cômodo. A água estava temperada para deleite dos gelados dedos de seus pés.

   — Não compreendo às inglesas. — Helen começou a tirar as forquilhas, — os homens não gostam das mulheres prenderem sempre o cabelo. Gostam dele suave, comprido e solto.

   Anne mordeu o lábio inferior ao ouvir aquilo e abaixou o olhar para seus seios. Tinha os mamilos duros pela inquietação. Estudou os pontos rosados, estremecendo ao imaginar a cabeça de Brodick inclinando-se sobre um deles para beijá-lo, então seus mamilos ficaram rígidos diante daqueles pensamentos, endurecendo até o ponto de tornarem-se pequenos topos rosa.

   — Já está muito melhor, lavarei seu cabelo para fazer que fique perfeito, Helen se moveu para pegar uma barra de sabão e um pano. Aquela mulher era boa em seu trabalho e banhou a Anne com mãos seguras. Fez soar o sino para que jogassem mais água no depósito e encheu uma jarra com ela antes de aproximar-se de novo da tina.

   — Feche os olhos, Milady. — A jovem obedeceu e a criada deixou cair à água fria sobre sua cabeça, lhe arrancando um grito abafado. Helen estalou a língua enquanto recolhia o punhado de cabelo molhado e passava um pouco de sabão. Usando o pano, Anne esfregou as marcas que ficaram em suas mãos os dois dias a cavalo, o pó tinha se metido sob as unhas e trabalhou com diligência para limpá-las.

   — Cuidado!

   Anne fechou os olhos com força ao sentir que caía mais água sobre a cabeça, a tensão formara um nó em seu estômago, pois se sentia como um cordeiro sendo preparado para o matadouro. O fato de conhecer todas as tradições que cercavam o matrimônio não fazia com que se sentisse melhor. Não havia tanta diferença entre o que ela estava suportando e o que o dono de uma manada fazia antes de apresentar uma égua ao garanhão. Mais concretamente, antes que a égua fosse coberta.

   Seu rosto ardeu, mas o calor não ficou em suas bochechas, desceu por seu corpo até que seus seios adquiriram um saudável tom rosado e se intumesceram com a expectativa. Uma ardente chama de desejo ardeu em seu ventre, estendendo-se até o último rincão de seu ser. Havia uma parte dela que queria expor-se a situação com alegria. A final iria aprender o que era ser uma mulher.

   Tinha desfrutado dos beijos de Brodick. Abriu os olhos e sentiu o clitóris tremer pela excitação, havia algo hipnótico nas sensações que a percorriam, impedindo-a de concentrar-se em mais nada. Nunca até agora havia percebido como a água fluía com extrema suavidade sobre sua pele.

   Seu corpo estava extremamente sensível a tudo que a rodeava. Estava com o sentido do olfato tão aguçado que até percebia o aroma da água... Fresco e cheio de vida, e o aroma de romeiro do sabão. Tudo a invadia, desencadeando em seu interior uma tormenta de desejo, seus lábios tremeram ávidos, desejando ser beijados.

   Os beijos de Brodick.

   Aqueles olhos de meia-noite surgiram em sua mente quando Helen estendeu uma grande toalha diante dela. Anne ficou em pé e saiu da banheira, tentando apagar Brodick de sua mente, ainda não conseguira imaginar uma maneira de mantê-lo afastado de sua cama essa noite, e pensar no que o fazia sentir não iria ser de nenhuma ajuda.

   Ao contrário. Iria conduzi-la a ruína.

 

   Pertk

   Brodick se aborreceu ao ser obrigado a avançar seu cavalo em ziguezague para que a carreta que o seguia pudesse manter seu ritmo, Agnes não montava a cavalo, afirmara que aqueles animais eram muito nobres e refinados para ela. Era a matriarca de sua aldeia e estivera presente no próprio nascimento do conde, quando era apenas, uma jovem ajudante de criada em Sterling. Agora a metade das terras baixas escocesas ficava em alerta quando Agnes falava.

   — Por que está fazendo tudo isto? — Cullen abandonara o tom zombador que o caracterizava e mantinha seu cavalo na rédea curta para falar com seu irmão. Brodick resmungou algo entre dentes, consciente de que tinha perdido a paciência, não se importava se Cullen o considerasse um selvagem.

   — Não foi minha idéia.

   Ao ouvir aquilo, Cullen lhe lançou um olhar duro que fez que Brodick explodisse.

   — Faça um favor para você mesmo irmão, — grunhiu, — dê graças a Deus por não ser o primogênito, — virou-se com um bufo e seguiu para a casa do Agnes.

   A sólida construção de pedra tinha molhos de ervas secas pendurando na maioria das vigas e, ao aproximarem-se mais, puderam ver que dois homens estavam afiando algo sob o beiral.

   Nunca havia passado pela cabeça de Brodick a possibilidade de fazer sua esposa suportar um exame, embora fosse o costume e o fizesse por seu próprio interesse, já que a mãe de Mary só gerasse uma filha não era um bom augúrio. A finalidade daquele matrimônio era conseguir o dote, mas ele estaria preso a Mary como sua esposa legal e se ela não tivesse filhos, ele nunca os teria ilegítimos.

   — Jamais imaginei que seria tão duro com ela, — reprovou Cullen.

   — Foi idéia dela, lembre que eu desejava consumar nossos votos ontem à noite, minha esposa é que não parece estar disposta.

   Cullen franziu o cenho e seus olhos escureceram. A maioria das pessoas pensava que ele nunca perdia o bom humor, mas Brodick o conhecia bem. Além de seu cabelo loiro, seu irmão era um autêntico McJames, feroz e implacável.

   — Não entendo nada, por que desejou que a examinassem? —As palavras de Cullen estavam cheias de receio, — os exames são feitos a pedido da família do noivo, ela não tem nada a ganhar com isso e sim, muito que perder.

   — Exceto tempo e a possibilidade de que a envie de volta depois de escutar o que a parteira possa dizer.

   — Irá fazê-lo?

   — Não, — Brodick lançou ao seu irmão um olhar cheio de determinação, — ela fica.

   — Mas, a que preço? Não quero vê-lo preso a uma esposa que não honre sua união.

   — Ainda desconhecemos seus verdadeiros motivos, Cullen. Tome cuidado, — Brodick mantinha o tom de voz baixo para ocultar a insegurança que havia nela. Desconfiava que sua esposa tivesse intenção de abandoná-lo, mas estava totalmente decidido a seguir casado.

   — Deseja outro? — Cullen esfregou o queixo com a mão. — Ouvi que agora que a rainha está muito velha para controlar o que ocorre ao seu redor às damas inglesas estão casando por amor.

   — Não sei. — Teria que refletir sobre aquele assunto, já que sua esposa tinha passado muitos anos na corte inglesa, ela desejava que a levasse a corte e que a devolvesse ao seu pai.

   — Provavelmente deveria fazê-lo, — resmungou Cullen com voz dura. — Não precisa de uma esposa insatisfeita, poderia voltar-se contra você e não lhe dar filhos.

   Muitos homens estariam de acordo com Cullen. Uma esposa podia encontrar o modo de evitar dar herdeiros ao seu marido. Entretanto, ainda podia sentir seu doce sabor nos lábios. Havia tocado algo no interior dessa mulher que era realmente formoso. Não se queixara nenhuma vez durante a viagem, nem a vira contrariada por ter que dormir no chão.

   — Não é uma menina mimada, — Cullen assentiu com a cabeça e parte de sua ira se dissipou.

   — Foi bastante agradável na viagem para nossa casa, — reconheceu. Conheço algumas moças escocesas que fariam todo o possível para não dormir na estrada com uma leva de guerreiros.

   — Provavelmente seja real o medo de que a mande de volta para seu pai depois de ter me deitado com ela, ouvi dizer que isso ocorre na Inglaterra agora que a rainha está muito idosa para preocupar-se com isso.

   — Se fizesse isso seria obrigado a lhe bater.

   Brodick sorriu, mostrando os dentes ao seu irmão. — Não acredito que pudesse. Detesto ter que lhe recordar que o venci na última vez que lutamos.

   — Mas o compensei com meu engenho.

   — Confunde engenho com a arrogância.

   Os homens que estavam afiando as facas na pedra tocaram os chapéus a modo de saudação quando o conde e seu irmão chegaram até eles.

   — Preciso levar a Agnes para Sterling, — anunciou Brodick.

   Um momento depois apareceu à parteira na soleira, ainda caminhava erguida, embora seu ritmo agora fosse um pouco mais lento, tinha o cabelo prateado, mas ainda tinha nas suas costas uma grossa trança. Usava orgulhosamente o tartán dos McJames e o prendia no ombro direito com um broche de prata que a mãe de Brodick lhe dera de presente.

— Milorde, — sua voz era aguda e só um pouco áspera pela idade. — Como posso lhe servir?

   Brodick desceu do cavalo, mostrando seu respeito à mulher ao dirigir-se a ela em igualdade de condições. A anciã inclinou a cabeça como sinal de deferência por seu título, embora, quando era menino, tinha lhe puxado mais de uma vez as orelhas por alguma travessura.

   — Vim pedir que retornasse ao Sterling comigo, o nó de suspeita que se formou na garganta o impediu de continuar.

   — Ouvi no mercado que foi às terras fronteiriças em busca de uma esposa. — Agnes então fez uma pausa, escolhendo as palavras com cuidado, — tem alguma inquietação com respeito a ela?

   — Minha esposa solicitou o exame como é costume.

   Os dois homens que estavam trabalhando sob o beiral olharam um para o outro enquanto Agnes acariciava o broche de prata.

   — Foi realmente ela a que fez o pedido, Milorde?

   — Sim.

   A anciã assentiu sem perceber de que continuava acariciando o broche. — Não sabia que esse costume se praticasse tanto atualmente na Inglaterra.

   — Eu tampouco.

   Agnes baixou o queixo e ordenou. — Me traga a capa, Johnny. Parto para Sterling.

   Brodick se dirigiu ao seu cavalo com o cenho franzido, não gostava daquilo, não gostava absolutamente. Agnes deixou que um de seus homens a ajudasse a subir à carreta e se recostou na palha enquanto seu filho a cobria com uma capa. Cullen tinha razão era possível que sua esposa amasse outro homem. A idéia o deixava furioso, de fato, sentia-se ciumento, algo surpreendente, porque nunca antes se comportou de forma possessiva com uma mulher. Nem sequer com as amantes das que tanto e tão completamente tinha desfrutado, adorava as mulheres, adorava seu contato quando não havia nada entre eles exceto pele e paixão, e algumas o tinham acusado inclusive de ser um homem exigente. Era certo. Um prazer rápido não era sua idéia de diversão, nunca tinha apoiado as costas de uma mulher contra uma árvore porque seu membro estivesse duro e dispusesse de pouco tempo. Bom, provavelmente fora rápido algumas vezes quando era um jovem que ainda esperava que lhe crescesse uma boa barba, porque imaginava que isso o transformaria num homem. Mas já tinha deixado pra trás essa impaciência junto com aquela barba incipiente.

   Quando tomava uma mulher, usava o tempo indispensável para despertar sua paixão. Não havia nada mais íntimo que se amar, possuir uma mulher disposta era uma experiência quase tão boa como sentir a sua companheira chegando ao clímax enquanto ele a cavalgava, de repente recordou o modo como sua esposa estremeceu em seus braços. Sim, isso era o que ele procurava, essa paixão escondida era o que o atraía em Anne, uma mulher estendida na cama, não era suficiente, desejar paixão em seu matrimônio era arriscado. De fato, deveria esperar que Mary quisesse que a mandasse de volta ao seu pai. Ele era escocês, apesar da próxima união entre os dois países, Inglaterra e Escócia eram muito diferentes. Havia escoceses com títulos que o considerava um imprudente por ter escolhido a uma esposa inglesa.

   Possivelmente o fora.

   Entretanto, pensar nisso não fazia desaparecer sua crescente atração por ela, ocultar-se embaixo do véu tinha sido um hábil estratagema que tinha conseguido captar totalmente sua atenção, a espera para ver seu rosto parecera uma eternidade. Sentiu crescer sua ereção sob o kilt e ficou consciente de que seus pensamentos que a tinham provocado. Entretanto, não era o rosto de sua última amante o que tinha em mente, e sim o de sua esposa, o som de seu suspiro quando lhe beijou o pescoço. Impaciente, Brodick voltou o olhar para a carreta e observou se Agnes estava bem acomodada. Depois levantou o braço com a mão convertida em um punho e gritou: — Sterling!

   Sua esposa teria suas garantias, e logo descobriria que ele era um homem que conservava o que era dele, naquela noite começaria a mostrar exatamente quanto a desejava. Sua ereção lhe fez companhia durante todo o caminho de volta à Sterling e desfrutou da dor que suportava, saboreando o desejo antes de aplacá-lo. Era um homem afortunado por ter paixão por sua esposa. Não, ela não retornaria para o pai. Brodick McJames nunca se rendia, seria sua pequena esposa inglesa quem gritaria pedindo clemência. O tinha prometido a si mesmo, e ele sempre cumpria suas promessas, seria um prazer cumprir aquela.

                          

Sterling

   Sem dúvida, os Santos a tinham abandonado, Brodick retornou ao cair da noite, depois de ajudá-la a por a capa, Helen arrastou Anne pelas escadas até umas portas abertas para que visse a chegada ao pátio de uma carreta puxada por um grupo de bois. Os guerreiros McJames flanqueavam o maltratado veículo com seus tartans orgulhosamente estendidos sobre o ombro direito. Havia uma atmosfera de alegre camaradagem entre eles e todos imediatamente tiraram sua boina assim que a viram. Helen assinalou o carro.

   — Olhe. O senhor trouxe Agnes. Essa mulher trouxe mais crianças ao mundo do que alguém pode recordar. É mais hábil com uma mão do que eu poderia sê-lo com duas. Agora tudo irá bem.

   A parteira de Brodick impunha muito respeito só com a sua presença, dois fortes escoceses a ajudaram a descer da carreta, mas a anciã se aproximou de Anne com passo firme. Subiu as escadas sem vacilar e se deteve um momento para estudá-la.

— Boa noite, Milady.

   Não havia nenhuma possibilidade de que Anne pudesse duvidar da experiência da mulher que tinha diante dela, Agnes irradiava segurança e domínio de sua arte. Seus olhos pareciam querer atravessá-la e chegar até sua alma. A jovem se moveu nervosa, temerosa de que a anciã pudesse ver além de toda aquela fachada que tinha construído, sabia que aquilo era impossível, é obvio, mas o medo se apoderou dela sem que pudesse evitá-lo.

   Brodick subiu também as escadas, captando sua atenção, mostrava uma atitude cheia de autoridade e não havia indício de fraqueza em seu rosto aproximou-se dela, pegou sua mão e puxou-a para que ninguém pudesse escutar suas palavras.

   — Fiz o que pediu esposa. Mas quero que fique bem claro que não sou eu quem exige o exame e que não me importa que se cumpra ou não este costume. Honrarei igualmente nossa união por poderes.

   Isso era muito generoso, muito mais do que a maioria das mulheres, inclusive as nascidas em alto berço, poderiam esperar.

   Brodick a olhou fixamente à espera de sua reação. Parte dela desejava abraçá-lo e fundir-se com ele, raramente a tinham tratado com tanta amabilidade. E certamente, era algo que nunca teria esperado de um homem. Recordou-lhe o modo como seu pai se comportava com sua mãe, e estar consciente disso fez com que seus olhos se enchessem de lágrimas. A solidão fez doer seu coração e a culpa retorceu as vísceras, Brodick era um homem capaz de dar amor e ela não desejava ser a causa dele ficar preso para sempre a sua irmã.

   — Deveria me mandar de volta ao meu pai. A corte. — Não pôde ocultar a súplica implícita em sua voz. — Por favor! — Retornar ao Warwickshire seria arriscar-se a que a banissem com sua mãe. Seu pai era sua única esperança.

   As feições do conde se enrijeceram e o desgosto cintilou em seus olhos enquanto se afastava dela para fazê-la entrar de novo na torre.

   — Deseja outro? — Perguntou com os dentes apertados ao mesmo tempo em que apertava com mais força sua pequena mão.

   — Não!

   — Então explique Mary. Basta de jogos, por que resiste a nossa união?

   O medo a dominou e fechou sua garganta de tal forma que teve dificuldade para respirar, não conhecia Brodick e não poria a segurança de sua família em suas mãos, se descobrisse a mentira de Philipa, podia ser que simplesmente permitisse retornar para Warwickshire e se esquecesse de todo aquele assunto.

   — Casar-se não é fácil para uma mulher, Milorde, com a rainha idosa, muitas recém casadas, acabam devolvidas aos seus pais acusadas de qualquer falsidade. Os homens governam este mundo, assim devo ser cuidadosa, você aumentará suas terras graças a nosso matrimônio, que eu não tenho nenhuma esperança de ser feliz.

   O escocês libertou sua mão e Anne ficou imóvel para que não voltasse a agarrá-la de novo.

   — Nem sequer sabia se eu o agradaria, — continuou. — Apenas tentou conseguir um bom acordo, não sabemos nada um do outro.

   — Isso é o habitual em nossa posição, Milady, — resmungou Brodick com os olhos cheios de desconfiança, —por isso não entendo seu pedido de ser devolvida ao seu pai. Poderia entender numa mulher mimada e fútil, mas você é capaz de enfrentar-me com nervos de aço.

   O elogio a espantou e não pôde evitar desfrutá-lo, já que o conde não era homem que elogiasse à toa. Com ele, elogios era algo que teria que conquistar.

   — Decida milady. —Segurou-lhe o queixo com suave firmeza. — Irá se deitar comigo na minha cama com ou sem seu exame, mas pode ter certeza de que a farei minha esta noite.

   Soltou-a e retrocedeu um passo com gesto tenso. Entretanto, em nenhum momento insinuou um castigo físico, aquilo a agradou e a fez respeitá-lo ainda mais, pois os homens estavam em seu direito de surrar uma mulher que desafiasse sua vontade.

   — Nos conhecer um ao outro requer seu tempo, Milady — continuou Brodick, tivemos um bom começo, mas não a trouxe até aqui para cortejar como se fosse uma adolescente. Não me contentarei com alguns beijos... E asseguro que você tampouco.

   — Poderíamos deixar que se passassem alguns meses antes de celebrar nossas bodas, insistiu ela, seus vassalos gostariam de ver seu senhor pronunciando os votos matrimoniais na igreja. Serviria para dar um bom exemplo cristão.

   — Isto é Escócia, Milady. Terei que repelir as tentativas de rapto da metade de meus vizinhos se inteirarem de que está aqui e de que ainda é virgem.

   A comoção a deixou sem palavras durante um momento.

   —Isso é horrível!

   — É um costume tão escocês como eu sou.

   E estava orgulhoso de sê-lo. Anne pôde ver aquela emoção resplandecendo em seus olhos junto a um perigoso brilho de diversão. Aquela descoberta a intrigou, não o esperava num homem como ele, tão severo, tão grande e forte. Não obstante, esse brilho indicava que ainda havia uma parte nele que gostava de divertir-se.

   — Entendo.

   O conde apertou os lábios formando uma dura linha. — Não, não entende.

   Anne sentiu que estava começando a perder a paciência. Esse era o problema com os nobres... Sempre acreditavam que sabiam tudo. Bom, ela era como era, seus pensamentos eram dela e de ninguém mais.

   — Não pode saber o que há em minha mente, Milorde.

   Brodick arqueou uma sobrancelha.

   — Tenho uma clara idéia do que esconde detrás desse bonito rosto. Está decidida a sair correndo para corte em busca de algum caipira que deve lhe ter lido muitas poesias.

   — Não estou apaixonada por ninguém.

   O rosto do conde endureceu. — Então, o que não a agrada é que eu seja escocês.

   Anne negou com a cabeça sem pensar, incapaz de deixar que acreditasse naquilo. Embora, sem dúvida, isso teria resultado numa grande ajuda, caso permitisse que ele pensasse que detestava seu país, pois era algo comum entre os ingleses. Mesmo assim, não pôde fazê-lo. Havia muitas atitudes nele que para ela pareciam admiráveis inclusive dignas de elogio. A aura de poder que o rodeava a atraía sem que pudesse evitá-lo.

   Brodick emitiu um grave grunhido de frustração e fincou as mãos nos quadris de forma que o cabo da espada apareceu por cima de seu ombro direito, aumentando a imponente imagem que apresentava.

   — Está me deixando louco, — rugiu.

   — Estou pondo a prova sua paciência, porque não me desgosta que seja escocês.

   Brodick se aproximou mais ainda, fazendo os já alterados sentidos de Anne reagir imediatamente. A jovem retrocedeu instintivamente, fugindo dele, mas o conde seguiu avançando até que as costas de Anne se chocaram contra o muro. Impassível, o escocês apoiou as mãos sobre a fria pedra de ambos os lados do corpo feminino. Apenas alguns centímetros os separavam. O coração de Anne começou a pulsar freneticamente ao inalar o aroma de sua pele e os mamilos endureceram sob a fina camisa. Nunca imaginara que o aroma de um homem pudesse ser tão cativante. O olhar do conde se concentrou em seus lábios, fazendo-a desejar que ele a beijasse. Sentiu que o tempo se detinha nesse preciso instante, consciente unicamente de Brodick e de seu enorme corpo. A necessidade de estar em contato com ele, de que a acariciasse, surgiu em cada milímetro de sua pele.

   Era uma loucura.

   — Esperarei o relatório de Agnes. — A profunda voz masculina deixava patente sua excitação. Sem lhe dar trégua, inclinou-se e deu um beijo nos lábios. Um beijo que acabou antes mesmo de ter começado, mas que provocou nela um forte estremecimento que a percorreu dos pés a cabeça, — mesmo assim, tenha em mente de que não fui eu quem solicitou seu exame, milady. Irei tê-la esta noite independente do resultado.

   Após dizer aquilo, o conde se afastou dela e atravessou com grandes passadas a parte principal da torre. As pessoas do castelo observavam o que ocorria do pátio, esticando o pescoço para poder ver o interior da fortaleza. As expressões confusas de seus rostos indicavam que ninguém sabia o que estava acontecendo.

   Brodick parou para trocar umas palavras com Agnes. A parteira assentiu e colocou sua atenção em Anne.

   O conde partiu com rapidez, deixando assim vazia a entrada principal, enquanto os servos alternavam olhares entre suas largas costas e o tenso rosto de Anne. A intrigada multidão observou como a parteira se aproximava de sua nova senhora com expressão pensativa. Em silêncio, a anciã examinou a jovem com olhos perspicazes até que, finalmente, acariciou o broche de prata que prendia seu tartán ao ombro.

   — Solicita meus serviços, Milady? — Falou em voz baixa e pronunciou cada palavra com cuidado, — ou posso retornar a meu lar?

   Anne se sentiu tentada a recusar o exame, mas estava tão presa na conspiração de Philipa que não podia descartar a menor possibilidade de poder ser considerada não apta. Conservar seu pudor não era uma prioridade.

   — Agradecerei contar com sua opinião, — disse ao fim de alguns segundos. Agnes franziu o cenho, mas ela manteve a cabeça alta. — Um matrimônio como este não deve seguir adiante se existir qualquer tipo de dúvida, um conde deve ser exigente ao escolher sua esposa. Se eu não posso lhe dar herdeiros, o melhor seria dissolver nossa união agora, antes que seja tarde.

   A parteira fez desaparecer sua expressão de desgosto e assentiu mostrando-se de acordo.

   — Certamente... Fala como uma mulher justa.

   Justa... Ta!

   Agnes caminhou para as escadas que levavam ao andar superior, evidenciando que conhecia o castelo.

   — Me acompanhe Milady. Solucionemos este assunto, compreendo seu modo de pensar, deveria ter mais damas tão honradas como você, — Agnes a percorreu de novo com o olhar. — Realmente, colaborariam para fazer deste um mundo mais feliz. A mãe do senhor também fez um exame antes de sua noite de bodas. Sua mãe estava muito certa ao ensinar a respeitar das tradições, tudo tem sua razão de ser.

   Anne obrigou seus pés a mover-se. Cada passo lhe custava um grande esforço e, de repente, ficou muito consciente da pouca roupa que usava, sua capa se fechava sobre uma fina camisa. Além disso, só calçava um par de sapatilhas que estavam destinadas a ser usadas unicamente no quarto, ao andar o frio vento golpeava com força sua pele nua, estava convicta de que levara uma eternidade para subir aquele lance de escada que a conduzia aos seus aposentos. Ao chegar à soleira observou que Helen acendera a lareira e que tinha acrescentado mais lenha do que o normal para que o quarto aquecesse rapidamente.

   Ao ver Anne, a criada foi até ela decidida a lhe tirar a capa e a camisa. Erguida e imóvel, a jovem se negou a permitir que seu pudor fosse mais forte do que sua determinação. Consumiram poucos segundos para tirar suas roupas, entretanto lhe pareceram horas. Agora só usava as sapatilhas. Cada segundo se arrastou no tempo, que até pareceu parar. Agnes ficou quieta durante um longo período enquanto percorria com o olhar o corpo da recém casada. Deu uma volta ao redor de Anne e se deteve detrás dela. Quando voltou a colocar-se diante dela, tomou um seio com a mão. Sustentou-o de forma perita enquanto a jovem mordia o lábio para reprimir um protesto, a mão da anciã se mantinha firme avaliando o peso e a textura. Finalmente, beliscou-lhe o mamilo e se inclinou para frente para vê-lo mais de perto, sem emitir nenhum som, Agnes o soltou e agarrou o outro seio. Depois de lhe beliscar o outro mamilo, retirou a mão.

   — Deite na cama, ordenou à anciã. — Preciso ver se seu útero está correto no ventre.

   — Por... — Anne fechou a boca com força ao sentir que sua voz se quebrava, o que Brodick desejava dela era muito mais para intimidá-la. O melhor seria que se acomodasse para permitir à parteira realizar um exame detalhado. Se a considerasse, não apta provavelmente poderia encontrar seu pai. Ele se encarregaria de Philipa.

   Agnes lhe apertou o ventre com as mãos, riscando um arco de um lado ao outro do quadril. Anne observou atentamente o experiente movimento da mulher, que revelava os seus muitos anos de aprendizagem. A parteira continuou seu exame até que houvesse tocado até no último milímetro do abdômen de Anne com mãos cuidadosas.

   — Pode vestir a sua senhora falou a anciã para Helen antes de pôr-se de lado.

   A criada se apressou a estender uma camisa para Anne. O exame ainda não tinha terminado, a jovem ficou em pé, tremendo de frio e deixou que sua criada pusesse a capa.

   A parteira voltou a aproximar-se. — Deixe-me ver os seus dentes. — Agnes esquadrinhou cada centímetro do rosto de Anne. Inclusive a fez tampar os olhos para comprovar sua audição estalando o dedo perto de uma orelha e fazendo que a jovem levantasse a mão do mesmo lado do corpo quando o ouvisse.

   — Está apta, Milady, — sentenciou finalmente.

   Anne ofegou ao escutar aquilo, mas Helen bateu palmas, cheia de júbilo.

   — Vou trazer algo para jantar. Necessitará todas as forças que possa reunir para esta noite. — A criada saiu a toda pressa da estadia com passo firme.

   — OH, mas... — O protesto de Anne foi inútil, Helen tinha ido antes que pudesse detê-la.

   — O matrimônio sempre é um momento de incerteza para uma mulher, irá se adaptar, Milady, como todas o temos feito.

   O evidente toque maternal no tom de Agnes fez Anne manter silêncio. Durante um breve momento, sentiu-se como uma menina que tivessem surpreendido fazendo algo que não devia.

   — Não quero decepcionar o conde.

   A parteira negou com a cabeça lentamente. —Não o fará, vi muitas mulheres com menos aptidões que você trazendo bebês ao mundo. Reserve suas preocupações para outras coisas.

   A armadilha se fechava ainda mais a seu redor, impedindo-a de respirar. Agnes estava observando-a atentamente, estudando a mescla de emoções que percorreu seu rosto. Confusa, a jovem se voltou e se dirigiu para o outro extremo da alcova.

   — Acaso sua mãe lhe contou alguma historia sobre o doloroso dever de consumar o matrimônio? — Perguntou à parteira tentando entender a atitude de sua senhora.

   Uma enorme sensação de culpa invadiu o coração de Anne ao ver que a mulher procurava ajudá-la. Não se atrevia a confiar em ninguém, embora desejasse fazê-lo fortemente. O desejo de contar a verdade se tornava cada vez mais forte com cada pessoa amável que encontrava. Não obstante, também estava consciente do fato de alguém desejar ajudá-la não significava que pudesse fazê-lo. Brodick poderia lhe dar refugio no Sterling, mas Philipa continuaria sendo a senhora do Warwickshire. E nem sequer um conde tinha direito de tirar os servos de outro nobre.

   — Não, na verdade compreendo o que passa na união entre um homem e uma mulher, obrigou-se a responder.

   — No entanto, está evidente que tem medo. — Agnes aproximou-se dela, — realmente lhe dá tanto receio não poder ter um filho varão? Ouvi que sua mãe nunca teve um.

   O que realmente lhe preocupava era ficar grávida, mas a anciã lhe dera uma desculpa perfeita para esconder-se.

   — É obvio que tenho medo. As dúvidas enchem meu coração, devido aos meus antecedentes familiares, pode entender então por que acredito que deveria informar ao senhor de que não sou apta para conceber. Ele poderia optar por uma mulher que tivesse muitos irmãos, alguém que oferecesse mais segurança.

   Agnes não se deixou comover e apertou os lábios com força, atravessando-a com seu agudo olhar.

   — Não estou de acordo, Milady. Está sã e seu ventre pode albergar os filhos do senhor sem problemas. — Inspirou profundamente e deixou escapar o ar lentamente, — simplesmente está nervosa. Se a enviar para casa, nunca enfrentará seus medos. Ninguém deve viver desse modo. Além disso, os ingleses deveriam apreciar suas mulheres por si mesmas. — A parteira anuiu com firmeza, convencida de suas palavras. — As filhas também herdam qualidades de seus pais. Não deveriam pensar tanto no que sua mãe não fez. — Agnes se inclinou de forma digna e elegante antes de dar a volta e partir.

   Anne suspirou ao ficar sozinha, sentindo que as forças a abandonavam, o plano de Philipa seguia adiante e não tinha nem idéia de como detê-lo. Nem a ínfima idéia.

   Brodick estava tenso, inquieto. Não se recordava de ter se sentido assim há muito tempo. Ele não desejava que Agnes examinasse sua esposa, já que o sentimento que estava nascendo em seu interior sobre Anne o atormentava. Já ouvira falar a respeito disso, mas imaginara que nunca aconteceria com ele.

   — Nunca o vi tão nervoso.

   — Saia, Cullen. Não estou de humor para brincadeiras.

   Em lugar de partir, seu irmão se aproximou dele. — Nem eu tampouco. Seu sorriso zombador se desvaneceu, — este assunto do matrimônio é mais complicado do que imaginava.

   — Há muitas coisas que dependem da palavra do Agnes. — E Brodick não estava pensando apenas no dote. Desejava a sua esposa, e o fato de saber que estava totalmente nua em seu quarto nesse preciso momento o fazia arder ao ponto de abrir uma brecha em sua disciplina.

   — Não tem que devolvê-la ainda que Agnes diga que não é apta.

   Brodick assentiu, mas continuou andando. — Segundo a tradição, deveria fazê-lo.

   — Você é o líder do clã McJames, ninguém a levará a nenhum lugar sem sua autorização.

   — Certo, — concordou Brodick. — Mas seria cruel, não desejo vê-la sofrer.

   Cullen falou. — Todo mundo já sabe onde quer ver sua esposa o mais rápido possível… em sua cama.

   Brodick se deteve em seco.

   — Tão evidente assim?

   — Para alguém que o conhece, sim. — Voltou a esboçar um sorriso. — Deus! Nem sequer tenho ânimo para continuar zombando de você, nunca pensei que chegaria o dia que o visse tão ansioso para tomar a uma mulher.

   — O que anseio é por uma família, irmão. Estou cansado das mulheres que não significam nada para mim. Quero saber que minha esposa está me esperando na cama quando me encontrar fora daqui. Provavelmente até mesmo rezando para que retorne a casa são e salvo, quero vê-la embalando nosso bebê, amamentando-o com seu próprio leite, saber que é feliz sendo minha esposa e a mãe de meus filhos. — Brodick sorriu. Seu irmão e ele sempre tinham usufruído rindo um do outro. A única pessoa que superava Cullen na hora de zombar dele era Fiona, que, oculta atrás de sua graciosidade feminina, derrotava ambos quando se tratava de disputas verbais.

   — Espero que consiga Brodick, — disse Cullen com voz austera. Seu rosto refletia a preocupação que sentia, — entretanto, desconfio de sua esposa. Há algo nela que não está claro.

   Brodick concordou. — Não importa, assim que Agnes acabar com esse exame, irei me dispor a dar boas-vindas à família. O passado ficará para trás e só importará nosso futuro. Por outra parte, não se esquece de que está num lugar estranho rodeada de desconhecidos. Necessitará tempo para adaptar-se.

   — Falou como um verdadeiro McJames.

   Ao ouvir aquilo, a ansiedade de Brodick desapareceu, ele era o líder dos McJames e sua esposa se adaptaria. Não obstante, quando Agnes apareceu no alto das escadas, sentiu que os ombros retesavam apesar de seus firmes propósitos. Sua esposa tinha razão ao dizer que os homens não sabiam muito sobre se o corpo de uma mulher podia ou não conceber filhos, o que um homem procurava eram coisas muito mais básicas. Essa era a razão pela que o matrimônio não era mais que uma transação comercial. No entanto, era o modo mais responsável para agir, porque, se um homem deixasse a luxúria guiá-lo, o mais provável seria acabar com um acordo pobre tanto em dote como em filhos. Ele era um homem alto e forte, arrastar uma mulher miúda para seu leito seria como uma sentença de morte para ela. De fato, os exames tinham começado para evitar casais desiguais. Era algo que fazia sentido. Não obstante, sua luxúria tentava discutir a lógica, e devia ser bastante disciplinado para ignorar a crescente atração que sentia.

   Entretanto, não era. Seu membro estava duro e incendiado de novo, fazendo-o desejar esquecer as formalidades e tomar o que desejava. Odiava a idéia da tradição se introduzir em seu caminho. A paixão que sentia por sua esposa estava acabando com anos de forte disciplina e, para ser sincero, devia admitir que na verdade estava desfrutando disso. Dirigiu-se para Agnes com determinação, a parteira se aproximou dele, e ao ver que seus filhos se levantavam para ficarem ao seu lado, fez um gesto com o fim de que se afastassem.

   — Milorde. — Seguindo a tradição, baixou a cabeça à espera que o conde enfim perguntasse o que tinha descoberto.

   — Minha esposa está apta para assumir seus deveres?

   — Sim, o está.

   A satisfação refletiu de forma evidente no rosto de Brodick, mas Agnes levantou uma mão enrugada pedindo permissão para falar.

   — Está muito preocupada porque sua mãe não concebeu nenhum filho varão, teme que ela tampouco possa fazê-lo e você se sinta decepcionado, considera a concepção dos filhos como uma séria responsabilidade.

   — Devemos aceitar esse risco, a vida está repleta de incerteza e com qualquer esposa teria que confrontar essa preocupação. Agnes franziu os lábios, aborrecida pelo tom do conde. A silenciosa reprimenda lembrou Brodick das vezes que aquela mulher tinha repreendido-o quando era um menino e desobedecera alguma ordem.

   — Uma mulher que está disposta a não decepcionar seu marido é tão valiosa como uma ansiosa por agradar seus desejos, — afirmou à parteira lançando um duro olhar. — Ao meu entender, sua esposa é uma mulher responsável.

   — Tem minha gratidão.

   Agnes se inclinou diante dele levemente, antes de fazer sinais aos seus dois acompanhantes para que se aproximassem.

   — Que sua união seja abençoada com filhos saudáveis. Esperarei impaciente que sua esposa me mande chamar no outono. Brodick ofereceu a Agnes uma pequena bolsa, mas a anciã não aceitou, limitou-se a olhá-la e a acariciar o broche de prata que usava no ombro.

   — É uma mulher teimosa, Agnes.

   — Obrigada, Milorde. Com um sorriso cheio de satisfação, a anciã se virou para unir-se a sua família. Nunca aceitara nenhum pagamento da família do senhor. Na verdade, a mãe de Brodick ordenara que fizesse o broche e o oferecera de presente para abrandar aquela teimosa no caráter da parteira. Podia ser que Agnes rejeitasse as moedas porque se sentia em dívida com o senhor ao cultivar suas terras sem lhe pagar nada em troca, mas não poderia recusar um presente da senhora da casa já que o fato seria considerado uma ofensa. Brodick pensou que seria interessante ver como conviveria a sua esposa com aquela mulher. Porque sua esposa ficaria. E se Deus quisesse, Agnes retornaria.

   — Por que está se vestindo? — Helen parecia decepcionada quando retornou aos aposentos de Anne e a descobriu, quase vestida.

   — Só precisava de ajuda para amarrar o espartilho. Não há necessidade de que ninguém traga bandeja ao meu quarto. Comerei lá embaixo.

   — É muito gentil. — Helen ficou nas suas costas para amarrar o espartilho. —Estou certa que sua presença na mesa agradará aos criados. Sentem um pouco de curiosidade pela nova senhora, ouviram rumores verdadeiramente assombrosos a respeito das exigências das damas inglesas.

   — Não quero ser uma carga para ninguém.

   — É maravilhoso que o senhor se casou por fim, esta casa necessitava de vida, Milady.

   O fato de que a chamasse “milady” a fazia sorrir. Para Anne parecia incrível que a chamassem assim. De fato, gostava, mas não cobiçava a posição que implicava o tratamento, a não ser o respeito que havia atrás dele, a oportunidade de ser julgada unicamente pelo que fazia.

   — Deixe que a ajude a terminar de se arrumar, a cozinheira já serviu o jantar.

   Anne tinha o estômago vazio, mas não foi isso o que a fez abandonar agradecida aquele quarto com sua imensa cama. Além disso, não deixaria que doessem os braços de ninguém para lhe trazer uma bandeja.

   Helen a guiou escada abaixo até um longo corredor. A luz da lua infiltrava através de pequenas aberturas nos muros de pedra. A criada caminhou até que chegou numa das outras grandes torres circulares. Puderam ouvir um zumbido de conversas do corredor, e quando elas chegaram ao grande salão, Anne ficou assombrada diante da grande quantidade de mesas que se estendiam na enorme sala, era exatamente igual ao grande salão do Warwickshire, só que circular. Havia fogo ardendo na lareira e um assoalho elevado num extremo com macias cadeiras colocadas sobre tapetes. Sob as mesas só havia pedra, mas estava limpa. Anne assentiu num gesto de aprovação, compreendendo o motivo por que fosse assim. Os restos e qualquer líquido que fosse derramado seriam limpos com facilidade na suave pedra, muitas mesas já estavam ocupadas pelos guerreiros do conde, que falavam abertamente enquanto passavam a comida entre eles. Quando perceberam a presença de Anne, todos silenciaram até mesmo os servos fizeram uma pausa em seus afazeres para lançar olhares indagadores.

   — Apresento-lhes Mary Spencer, filha do conde de Warwickshire. Minha esposa. — A voz de Brodick retumbou nos muros, surpreendendo Anne por sua firmeza. O conde se encontrava de pé sobre o assoalho com um pé apoiado no último degrau, irradiando força e poder, ao ouvirem suas palavras, os presentes explodiram num clamor que sobressaltou a jovem. Brodick sorriu tranqüilizando-a e estendeu a mão para dar boas-vindas.

   A culpa voltou a surgir de novo para esmagá-la com seu peso, cada passo que dava para cruzar aquele salão era uma tortura, consciente de que não era mais do que uma impostora. Alguns dos soldados tiravam as boinas em sinal de respeito, enquanto outros erguiam as canecas expressando seus melhores desejos. Deus como odiava o que a obrigaram fazer.

   O bom humor encheu a sala e reataram as conversas. Brodick não subiu o último degrau até o tablado. Em lugar disso, reuniu-se a ela em baixo. A satisfação resplandecia em seus escuros olhos quando tomou sua mão com firmeza, fazendo a garganta de Anne secar. Era evidente que estava certo de ter ultrapassado todos os obstáculos que podiam separá-la dele. A excitação a atravessou como uma lança fazendo-a estremecer, Brodick semicerrou os olhos ao sentir o leve tremor em sua mão e acariciou com o polegar a macia pele da parte interna de seu pulso, Anne ofegou brandamente em resposta, tratava-se de uma simples carícia, mas tão intensa, que conseguiu fazer seus joelhos tremerem.

   — Os dois poderiam esperar todos acabarem de jantar? — Brincou Fiona.

   Anne deu um pulo, envergonhada por sua falta de disciplina. Fiona os olhava da mesa mais próxima agitando as pestanas, enquanto sorria com tanta inocência que ninguém poderia se ofender com ela.

   — Esses olhares podem me fazer perder o apetite, — continuou zombando Fiona.

   Brodick grunhiu. — Lembra-se de minha irmã? Suas maneiras têm dado o que falar na metade da Escócia, apesar de nosso pai ter gasto uma fortuna em tutores para educá-la melhor.

   — Não se deve acreditar nos rumores, — replicou Fiona sorrindo com diversão. Estendeu a mão para agarrar o pão e cortou uma parte, — ninguém se importa sinceramente com o que eu faça.

   — Não é bem assim, irmã. Eu estou muito interessado em saber o que esteve tramando ultimamente, afirmou Brodick.

   Cullen estava sentado a poucos metros deles, brincando com os soldados. A diferença de Warwickshire, é que não parecia ter iguarias especialmente oferecidas apenas para os nobres, e sim o pão que compartilhavam com sua gente e comiam das mesmas travessas.

   Brodick deu uma olhada às elegantes cadeiras do estrado vazias e se voltou para sua esposa. — Essa era a mesa de meu pai, explicou-lhe.

   Anne dirigiu a atenção para seu marido. Sua expressão era solene.

   — Não me sentarei ali, até ter o direito a fazê-lo, igual meu pai fez, demonstrando que o sobrenome McJames perdurará. — Olhou-a fixamente, — espero que não se importe. — Depois de dizer aquilo, sentou-se escarranchado sobre um banco e aguardou a reação de Anne, a jovem ficou em silêncio e se sentou a seu lado, movendo as pernas para colocá-las debaixo da mesa.

   — O jantar que sua cozinheira preparou é magnífico, — comentou. —Sinto-me honrada de poder compartilhá-lo contigo. O aroma de comida quente fez o seu estômago protestar.

   — Fui negligente não a alimentando, — grunhiu Brodick. — Agora que estamos em casa, Bythe se encarregará de que seu prato esteja sempre cheio. — Sem mais, começou a amontoar uma enorme quantidade de comida em seu prato.

   — É suficiente, Brodick. Acaso pareço tão grande?

   O escocês se deteve e girou a cabeça para olhá-la. — É a primeira vez que usa meu nome.

   Anne mordeu um pedaço de pão para evitar responder e se manteve imóvel. Entretanto, ele foi se aproximando dela até invadir seu espaço pessoal com uma determinação que o fazia parecer mais poderoso. Aquilo a agradou e produziu um formigamento de antecipação em seus seios que, aprisionados no espartilho de novo, protestaram por sua reclusão. Abaixo da armação de aço, os mamilos se empinaram.

   Fiona suspirou de maneira teatral e Brodick se virou para fulminar sua irmã com o olhar. Mas ela se limitou a arquear as sobrancelhas diante do seu desgosto e, por fim, encolheu os ombros antes de sorrir a Anne.

   — Os homens não pensam em mais do que uma coisa. Não podem desconectar a mente de sua luxúria.

   — Controla sua língua, Fiona. — Brodick segurou uma caneca bruscamente, — ao menos dê tempo a minha esposa para que se acostume com suas maneiras.

   — Sim, igual a você, que está pensando em lhe dar tempo para levá-la para cama e consumar sua união antes que saiba muita coisa sobre os escoceses.

   — Logo seremos uma só nação, irmã. Eu, pessoalmente, não desejo seguir com guerras inúteis que só provocam o derramamento de sangue de ambos os povos. —Havia uma sólida reprimenda em sua voz, mas não ira.

   Anne conteve a respiração. As relações em Warwickshire sempre foram rígidas e formais, assim não estava certa de como Brodick receberia as palavras de sua irmã.

   Ao fim de alguns segundos, o conde sacudiu a cabeça e sua expressão voltou a ser jovial. E no referente à minha esposa, eu gostaria de lhe mostrar a parte agradável da vida em Sterling antes que ela escute falatórios sobre suas travessuras. Os dois irmãos riram desfrutando da brincadeira, e Anne se sentiu arrastada pela amável camaradagem familiar. Fora da vista de Philipa, sua própria família era muito parecida. As brincadeiras eram o que a fazia sentir realmente que estava em família, já que qualquer outro aspecto de sua vida era governado por regras e por sua posição como criada da condessa. O certo é que Sterling era um lar acolhedor. As criadas não estavam de pé tentando parecer despercebidas, não havia inclinações de cabeças antes que servissem a comida e a conversa fluía livremente, em vez de que cada palavra ser avaliada, por medo de que aqueles que eram socialmente superiores se ofendessem. Além disso, observar às mesas cheias de suculentos e saborosos pratos, a fez recuperar o apetite perdido. O lugar estava impregnado de uma atmosfera relaxada e cálida, e agora estava conseguindo chegar a esse nível de placidez em seu íntimo, pois havia perdido quando a separaram de sua família. Ainda sentia falta, mas realmente aproveitou aquela refeição rodeada de companhia tão agradável. Seria fácil assumir o papel que lhe cabia naquela farsa. De fato, sentiu-se tentada, profundamente atraída, sem percebê-lo, dirigiu o olhar para Brodick, seu queixo estava sem barba e pôde ver que seu rosto era firme e duro, como o resto de seu corpo. Não levava o colete que usara durante a viagem. Vestia simplesmente uma camisa e o kilt. Tinha o tartán dobrado para cima sobre a coxa, mostrando o rígido músculo da perna. Deveria tê-lo ignorado, mas seus olhos posavam nesse ponto uma e outra vez, tão absorta estava nele, que não se deu conta de que Brodick tinha deslizado uma mão por debaixo da mesa para lhe apertar com suavidade o joelho. Ao sentir seu contato, Anne deu um pulo e golpeou a mesa.

   — Ah, os homens. — Fiona sublinhou cada uma de suas palavras com um dedo acusatório em direção a seu irmão. — Só têm uma coisa em mente.

   O rubor subiu pela face de Anne quando Brodick virou à cabeça para ela, a desconfiança voltara a nublar a expressão masculina. Agarrou-lhe o joelho uma vez mais, deixando a mão ali. — Provavelmente é tão inocente como diz, é evidente que não está acostumada que a toquem. O conde tinha abaixado a voz, mas mesmo assim soou duro e severo.

   Em resposta, Anne levantou o joelho com força para que sua mão batesse contra a mesa. O murmúrio das conversas ocultou a rápida inspiração de Brodick.

   — E ainda pergunta por que estou resolvida a cumprir as tradições que protegem meu bom nome? Acusou entre dentes, mantendo o tom de voz baixo.

   Vários homens tinham deixado de falar e mastigavam em silêncio tentando escutar a conversa de seus senhores. Anne se levantou e fez uma rápida reverência antes de atravessar o grande salão com passo decidido, sua paciência tinha chegado ao limite, estava cansada de cumprir com as expectativas de todo o mundo. Não toleraria mais acusações contra sua castidade.

   Ao sair ao corredor, à dura mão de Brodick a segurou pelo cotovelo e a fez virar-se para enfrentar sua ira. — Tem razão, esposa, não sei por que está evitando meu leito.

   — Seu leito... É apenas o que ouço falar, ergueu o queixo e o deixou ver a fúria que refletiam em seus olhos, entretanto, é a minha virtude que questiona. Não sou eu quem fala de luxúria constantemente. O fato de residir na corte não transforma às mulheres em rameiras.

   — Equivoca-se. Eu estive na corte da Inglaterra e pude comprovar que estava cheia de damas com títulos nobiliários que não tinham nenhum pudor em oferecer seus corpos. Apontou-a com um dedo, copulavam nos corredores junto à porta do próprio quarto da rainha, e asseguro que não permitirei semelhante comportamento em minha esposa.

   A palavra «copular» era grosseira, mas fez uma pontada de desejo atravessá-la. O seu coração pulsava freneticamente, lançando o sangue por suas veias a grande velocidade e alterando seus sentidos.

   — Se tinha uma opinião tão baixa das damas inglesas replicou, por que iniciou negociações com meu pai?

   Sua agitada respiração fazia o aroma dele chegar mais rapidamente até ela, lhe impedindo de raciocinar. Desejava descobrir como seria acariciar aqueles rígidos músculos, deslizar as mãos sobre eles. Aturdida, tentou se afastar, mas o conde cingiu sua cintura com um braço no mesmo instante em que suas palmas golpeavam seu duro peito, e com um forte puxão ficou unida ao seu poderoso corpo, enquanto seus dedos se aferravam à camisa.

   — Não parecemos uma... — Anne soltou um gemido abafado quando a mão de Brodick lhe tampou a boca.

   — Não diga nada! Nunca a devolverei ao seu pai, o único lugar onde a levarei será minha cama, — abaixou a voz e a conteve com mais força para impedir que se libertasse, — diga a verdade, — Mary exigiu, tirando a mão de sua boca, — já esteve com outro homem? Comecemos nosso matrimônio com honestidade.

   — Já tomou uma decisão sobre mim. Nada do que diga modificará isso.

   — Sim, fará. Posso confiar em você, mas não será em troca de nada, tem que ser sincera comigo primeiro, deslizou a mão por suas costas até afundar os dedos em seu formoso cabelo. Segurou-a com força e Anne se viu obrigada a olhá-lo nos olhos, uns olhos cheios de desconfiança e de um desejo tão feroz que a deixou sem fala. Brodick dirigiu toda a atenção para sua boca e a jovem sentiu um formigamento nos lábios, antecipando o beijo. Não chegou nunca, com um grunhido, soltou-a, tremiam-lhe os ombros quando retrocedeu.

   — Não me deixarei distrair. Responderá antes que seus beijos apaguem os pensamentos de minha mente.

   Anne sentiu que seu corpo cambaleava ao perder seu apoio, uma dor surda e aguda percorreu cada milímetro de seu ser abraçou a si mesma e tentou apagar a lembrança do contato das mãos de Brodick.

   — Dúvidas de mim. Isso jamais mudará até mesmo depois de demonstrar minha inocência, continuará duvidando de minha palavra, estremeceu. Essa é a razão pela qual peço que me mande de volta com meu pai.

   — Já disse que não o farei, rugiu voltando a apontá-la com o dedo indicador, já teve relações com algum homem?

   — Não, e isso não se alterará esta noite. — Não tinha uma maneira de fazer valer suas palavras, mas elas escaparam incontroláveis de sua boca. Oxalá estivesse com seu ciclo menstrual... De repente, abriu os olhos de par em par. Seu ciclo menstrual...

   — Já que dúvida de minha inocência, a única solução é esperar que chegue meu período menstrual antes de consumar o matrimônio. Só assim terá certeza da legitimidade dos filhos que conceber.

   A expressão do escocês escureceu, mas Anne não aguardou que ele contestasse suas palavras.

   — Sim. Essa é a maneira de acabar com esse problema, — a jovem inspirou profundamente e se despediu com uma reverência.

   — Boa noite, Milorde. Sem mais, deu-lhe as costas sentindo que se arrepiava o pêlo da nuca, seus ombros estavam tensos quando começou a afastar-se, esperando sentir suas mãos sobre ela a qualquer momento. No entanto, percorreu todo o corredor sem que ninguém a impedisse. Subitamente, percorreu-a uma onda de decepção fazendo-a se conscientizar do quanto desfrutara do contato de Brodick, as lágrimas nublaram sua visão enquanto subia as escadas apesar de ter conseguido o que desejava. Não havia razão para se desesperar, pois o seu período não chegaria antes de duas semanas no mínimo. Era um plano muito melhor que pedir um exame. Mas, então, por que não se sentia aliviada?

 

   Helen estava zangada com ela, a criada o ocultou bem, entretanto, Anne sabia por experiência própria o que significava a tensa linha que formavam em seus lábios, quantas vezes, tinha feito o mesmo enquanto atendia Philipa? Helen reprimia as palavras que desejava admoestar Anne. Cumpriu com seus deveres à perfeição, mas sem as cordiais brincadeiras com as quais a havia entretido naquela mesma noite. Havia pouco que fazer depois de tirar o vestido de Anne e tê-lo pendurado, assim que a criada se aproximou dela com uma escova de prata para penteá-la, a jovem a escutou tomar uma tensa inspiração quando começou a desembaraçar seu cabelo.

   — Milorde adorará seu cabelo. — A escova deslizou pelas mechas que chegavam até a cintura. Anne raras vezes o deixava solto, em seu lar só usavam assim as meninas, e já fazia tempo que ela deixara de ser. Quando atingiu a idade de ganhar seu sustento na cozinha, as tranças bem firmes e ocultas eram muito mais práticas. Além disso, as cozinheiras de Warwickshire usavam toucas de linho para evitar manchar o cabelo com farinha, e o fato de prender as tranças sobre a cabeça evitava que se chamuscassem as pontas quando se inclinavam para atiçar o fogo.

   — Milorde é um bom homem.

   Anne suspirou, sem saber no que acreditar agora. Realmente tinha deixade Warwickshire só há três dias? Parecia que tinha passado muito mais tempo.

   — Se sua mãe estivesse aqui, certamente lhe explicaria o quanto receosos podem chegar a serem os homens quando pensam em suas esposas. Helen manteve silêncio durante um longo período antes de continuar falando, não deveria zangar-se pelo que lhe disse, só demonstra o quanto valoriza sua honra. Não é algo que sinta ser necessário com uma amante, é muita consideração e a põe acima das mulheres que houve em seu passado.

   — Deveria me arriscar a que ele duvide da legitimidade de nosso primeiro filho? Perguntando-se se já o trazia em meu ventre antes que me conhecesse?

   — O Laird dos McJames não faria uma coisa assim, — havia certa aspereza em seu tom agora, — por outro lado, o exame de Agnes deixou claro que não está grávida.

   — Ele duvida de minha virgindade.

   Helen parou de penteá-la e colocou-se diante dela e lhe enviou um olhar firme que recordou muito o de sua mãe.

   — Vá para o seu leito e demonstre que suas dúvidas não têm sentido. O orgulho é uma pobre companhia uma vez se fecham os cortinados do leito.

   Anne reprimiu o desejo de fazer exatamente isso, Helen o percebeu e suspirou exasperada. Finalmente, fez-lhe uma reverência e fez menção de partir.

   — Boa noite então, milady.

   — Obrigada, Helen.

   A criada vacilou antes de ir e se voltou para olhar a Anne uma última vez, ao fim de alguns segundos, inclinou a cabeça e abandonou o quarto. O chiado do fogo soou, de repente, com força. O calor esquentou a face de Anne enquanto seu cabelo se agitava brandamente ao redor dos ombros. Não estava acostumada que a mimassem e tampouco tivera tempo para vaidade. Mas agora, sua pele estava suave ao tato devido ao banho e parecia inclusive resplandecer a luz do fogo, isso é o que se espera em uma noiva de sangue nobre... Entretanto, ela tinha recusado seu marido. Os cortinados da cama estavam abertos nas laterais para absorver e manter o calor. Estendeu uma mão e acariciou com os dedos uma das grossas cortinas. Era um luxo que nunca tinha esperado desfrutar. Incômoda, recostou-se contra os travesseiros e passou a mão pelo lençol comprovando sua suavidade.

   A culpa a impediu de usufruir daquilo, não merecia o posto de senhora da casa.

   —Me teme tanto?

   Anne deu um pulo ao ouvir a voz de Brodick surgindo das sombras. Era doce e sedosa como se estivesse falando com uma menina.

— Ou é um jogo para me obrigar fazer o que deseja e a mandar de volta para seu pai?

   A culpa a dominou, tornando difícil levantar a cabeça, pois aquele homem não merecia ser enganado, mas seu orgulho exigia não deixar que ele pensasse por mais tempo que ela era uma covarde.

   — Não é medo ao seu contato o que me faz repudiá-lo, foram suas insinuações que me enfureceram.

   O conde avançou lentamente pelo chão de pedra até chegar ao seu lado. Estudou-a, e seus olhos deslizaram pelas suaves ondas de seu cabelo.

   — Reconheço que minhas palavras foram grosseiras. — Tocou-lhe o cabelo, acariciando com delicadeza um cacho. Ao ver a expressão de prazer que estampou no rosto masculino, Anne se sentiu bela, algo que nunca experimentara. — Apesar do acanhamento que mostrou no caminho, há muita paixão oculta em seu interior. —Soava divertido diante da evidente firmeza de seu caráter, aquilo a surpreendeu, até mesmo o mais humilde dos trabalhadores do estábulo se negava a reconhecer o valor de sua esposa.

   — Como pode fazê-lo feliz descobrir isso?

   — Crê que não? — O conde riu entre dentes. Anne notou de que ele não usava o broche que prendia seu tartán e que seu peito só estava coberto pela camisa.

   — Pense bem, disse que eu não gostava dos covardes, — recordou Brodick.

   A jovem sentiu que a percorria uma pontada de orgulho diante daquela adulação.

   — Nunca imaginei que isso significasse que você goste de exibição de mau gênio replicou, disse Anne.

   Os lábios do escocês se curvaram em um sorriso e seu rosto refletiu uma evidente satisfação.

   — Há uma diferença entre a paixão e o ressentimento. — Ele a elogiava, podia percebê-lo em sua voz.

   Anne mordeu o lábio inferior incapaz de reprimir sua alegria diante do elogio. Era importante para ela porque vinha do homem a quem já admirava. Brodick trabalhava tão duro como seu povo e era um homem que sabia conduzir com dignidade as responsabilidades que suportavam um título nobiliário.

   A atenção do escocês se desviou de repente para os seios de Anne, demorando em sua plenitude sob a fina camisa. Ao perceber a jovem se sentiu envergonhada, e muito consciente de que estavam sozinhos em seu dormitório.

   — Não deveria estar aqui, Milorde.

   — Seu pai a ensinou dizer para todo mundo o que tem que fazer? — Sua voz soou cortante, com uma nuança de impaciência mais marcada em seu sotaque. Faz isso comigo com muita freqüência e acredito que é hora de escutar o que eu desejo.

   — Me deseja em seu leito, já escutei. — Anne falou muito rápida, deixando entrever o que sentia em sua voz.

   Brodick franziu o cenho. — E você deseja que a mande de volta para seu pai, — apoiou um joelho na cama e avaliou sua reação.

   Uma onda de sensações percorreu os braços nus da jovem, fazendo seu cabelo se arrepiar numa resposta que não passou despercebida aos olhos de seu marido.

   — Percebi que não me pede para mandá-la de volta à sua mãe, e sim para a corte continuou Brodick, estranha que me pergunte quem a espera ali?

   O colarinho de sua camisa estava aberto, deixando entrever sua pele e os fortes músculos de seu peito que encostaram contra os travesseiros junto dela, provocando o ranger da estrutura da cama quando recebeu seu peso. Seus movimentos eram precisos e irradiavam poder, fazendo Anne se sentir indefesa, tinha que reconhecer que era realmente excitante ver como seu grande corpo invadia sua cama. Era algo do ouvira falar durante muitos anos e o fato de que a tivessem avisado que o evitasse conseguira com que agora se tornasse numa sensação quase mágica. Como se nunca pudesse acontecer realmente, exceto em seus sonhos, porém então o aroma de seu marido que chegou até ela era muito real e completamente diferente ao dos poucos moços que tinham tentado flertar com ela em Warwickshire, ainda que devesse lhes reconhecer seu valor por enfrentarem as ordens de Philipa. Mas Brodick... Brodick encarnava tudo o que ela tinha sonhado num homem. Estava convencida de que ele nunca tremeria de medo... Nunca.

   — Me explique o que a impulsiona a retornar para corte.

   — Já o fiz... Disse que... — Anne foi incapaz de continuar falando quando ele estendeu o braço para ela, fazendo-a tremer de antecipação, desejava seu contato com todas suas forças, a necessidade de que a fizesse sua consumiu seu ventre e se estendeu por todo seu corpo. Sentindo que uma força interior a arrastava para ele, levantou o rosto em busca de seus beijos Brodick acariciou brandamente sua face e a jovem deixou escapar um suspiro entrecortado. Mas ao fim de alguns segundos, abriu os olhos com inquietação para descobrir por que ele não continuava acariciando-a. Em seguida, ela recuperou o controle e se sentiu cheia de desconfiança.

   — Realmente desejo ver meu pai, a ninguém mais. Só a ele afirmou olhando-o diretamente aos olhos.

   — Sim, vejo-o em seu olhar. — Estendeu de novo o braço para pegar o belo rosto em suas mãos com uma caricia cálida. — Quer muito.

   — Sim.

   Brodick lhe acariciou o lábio inferior com o polegar, provocando nela uma doce sensação que percorreu rapidamente sua pele, fluiu descendo até seus seios e a fez desejá-lo ainda mais. Os mamilos se transformaram em duros botões que roçavam o fino tecido da camisa e seu coração pulsava com força, mas exteriormente, parecia incrivelmente serena.

   — Razão pela qual não a devolverei para ele, — sentenciou Brodick. — Invejo a devoção que sente por seu pai e desejo ter a oportunidade de ganhar esse mesmo lugar em seu coração. — Beijou-a, impedindo a réplica que brotava em seus lábios e envolvendo-a em seus braços obrigou-a a deitar-se na cama, então se colocou sobre ela para impedir que escapasse, sustentando parte de seu peso sobre os cotovelos ao mesmo tempo em que usava a ponta da língua para brincar com seu lábio inferior. Anne estremeceu incapaz de conter a corrente de sensações que percorria seu sangue. Aquilo não podia estar acontecendo, a cama parecia um paraíso oculto onde poderia esquecer suas preocupações. Nunca imaginou que seria capaz de sentir aquilo nos braços de um homem. Apesar da dureza do corpo do escocês, seu abraço era suave. Apesar das sensações, se moveu tentando se livrar, mas ele a controlou facilmente com seu corpo.

   O aroma de Brodick paralisou os sentidos da jovem enquanto ele devorava sua boca. Segurou seu queixo para mantê-la imóvel e sua língua a provocou até que a jovem respondeu suas carícias, seus duros mamilos se uniram ao seu poderoso torso e aquela sensação a afligiu. De repente, experimentou muito calor com aquela camisa e sentia a peça áspera sobre a pele. O mesmo acontecia em relação à camisa de Brodick, assim empurrou-a procurando a pele que tão somente tinha vislumbrado. O escocês abandonou os lábios da jovem para iniciar um ardente percurso por suas maçãs do rosto e seu queixo, fazendo que um doce prazer fluísse como lava pelas veias de Anne, obrigando-a a arquear as costas para aproximar-se mais dele. Brodick lhe beijou o pescoço com ternura uma, duas vezes, e lhe rodeou a nuca para mantê-la quieta enquanto a mordia com extremo cuidado. Escapou um murmúrio de prazer de seus lábios, ao mesmo tempo em que ele tirava sua camisa, Anne agradeceu poder sentir sob suas mãos aqueles largos ombros que seus olhos tanto tinham admirado.

   As pernas do escocês estavam nuas, pois não calçava as botas que lhe chegava até os joelhos, e como ela usava apenas a camisa pôde entrelaçar suas pernas e aumentar assim seu prazer. De repente, a jovem sentiu que as mãos de seu marido a abandonava para apoiar-se sobre o colchão com as mãos ao lado de sua cabeça. Brodick ergueu o rosto para contemplá-la sem separar seus quadris dela, fazendo-a sentir a sólida presença de seu duro membro contra seu estômago. Anne tremeu com violência, presa ao desejo, escondido entre as úmidas dobras de sua feminilidade, seus clitóris palpitava ofegante enquanto o resplendor do mortiço fogo projetava sombras alaranjadas sobre seu marido, envolvendo-o em seu calidez.

   — Eu gosto de como falamos sem palavras. — A voz de Brodick era rouca e exigente, sem lhe dar trégua, ajoelhou-se entre suas pernas e lhe acariciou o estômago e as coxas até alcançar o extremo da camisa. — Há muita paixão entre nós. — Observou o rosto da jovem enquanto deslizava as mãos por sua pele nua. — Pode senti-lo, esposa? — A fez levantar levemente os quadris e puxou o frágil tecido lentamente para cima.

   Anne não se importou em ficar exposta diante de seus olhos, sua pele suplicava que a libertasse. Nunca ansiara tanto por ficar nua, mas naquele momento era uma absoluta necessidade.

   As mãos de Brodick subiram por seus quadris e seus peitos enquanto afundava uma de suas grossas pernas entre as coxas femininas.

   — É tão bela... Tão formosa...

   Anne não chegou a ver sua expressão porque ele já estava lhe passando a camisa pela cabeça e pelos braços, mas mesmo assim, percebeu a satisfação em seu tom.

   — E pensar que queria me enviar para uma cama solitária, — seu olhar vagou por todo seu corpo ao mesmo tempo em que o desejo enrijecia seu queixo e fazia tremer um músculo em seu rosto, — teria sido um inferno.

   Segurou sua própria camisa e a tirou pela cabeça, deixando à vista seu torso em um único movimento rápido. A seguir tirou com força seu cinturão, fazendo as pregas do kilt deslizar pela esbelta cintura. Brodick deixou cair então seu peso sobre Anne de novo, antes que o tecido revelasse a ereção que ela sentira contra seu corpo.

   — Vou fazê-la minha! — Tomou seus seios entre as mãos, lhe arrancando um gemido de prazer, e roçou os mamilos com os polegares, surpreendendo-a ao fazê-la descobrir do quanto gostava que a acariciassem. — E creio que usufruíra, — seus lábios selaram qualquer comentário dela com um duro beijo, que utilizou para tomar o controle da situação, sua língua afundou profundamente na boca de Anne, com uma invasão que abriu uma brecha nas defesas dela.

   Entretanto, a jovem não protestou, estava imersa em uma maré de sensações e se deixava levar pela ardorosa corrente, disposta e impaciente para descobrir quanto mais estimulada poderia se sentir, agarrou-se em seu pescoço e saboreou a língua de Brodick, o provocando com a ponta da sua.

   — Isso, mulher, me toque.

   Anne deslizou as mãos pelos poderosos ombros de seu marido e ele não pôde evitar um estremecimento, seu torso era coberto por um crespo e suave pêlo que ela achou muito viril.

   Sem lhe dar tempo para pensar, o escocês beijou-lhe o pescoço e suas mãos pressionaram seus seios. Anne nunca notara como eles eram sensíveis, mas aquelas mãos tão poderosa a fizeram sentir uma onda de intenso calor que percorreu com força todo seu ser, seus mamilos suplicavam que Brodick mantivesse sua promessa de saboreá-los, e ele cumpriu. Acariciou com delicadeza cada montículo e quando sua boca se aproximou perigosamente de um deles, Anne arregalou os olhos e ficou sem fôlego, a antecipação a fez estirar-se como um arco sem deixar de olhá-lo um só momento.

   — Estive desejando descobrir que sabor tinha seus mamilos por muito tempo.

   — Conhecemo-nos há dois dias apenas, — replicou Anne.

   — Sim, como já disse... Muito tempo — sussurrou Brodick sobre um de seus mamilos enquanto acariciava o outro com o polegar. O longo corpo do escocês acariciava brandamente a pele da jovem e quando por fim tomou um dos rígidos botões em sua boca, Anne deixou escapar um rouco arquejo. Brodick sugou profundamente o mamilo, devorando-a, marcando-a com seu calor.

   Indefesa diante do que ele a fazia sentir, Anne afundou os dedos em seu cabelo e deixou que o prazer tomasse posse de seu corpo, cobrindo-a como a cálida luz do sol.

   Brodick riu entre os dentes ao ouvi-la gemer, era um som que a jovem jamais tinha emitido até então. Ofegante, ávido.

   O conde ergueu a cabeça e ela ofegou pela perda do contato, ficou olhando-a nos olhos, estudando-a durante um longo momento.

   — Esposa! — Havia um profundo sentido de posse em sua voz, essa única palavra era mais um grito de batalha que algo que a Igreja aprovasse, soltou-lhe os seios e deslizou os dedos pelo estômago. Os músculos da jovem se contraíram quando a fez separar mais as pernas, expondo a tenra carne da união entre suas coxas, sua grande mão vacilou apenas durante um momento sobre seu púbis antes de deslizar para acariciar as acolhedoras dobras de sua feminilidade.

   — Brodick! — Anne soava ofegante, mas não sabia se era por causa da comoção ou da excitação, jamais lhe passara pela mente que alguém a tocasse naquele lugar.

   — Disse-lhe que na Escócia sabemos dar prazer a nossas mulheres, e me acredite, em minha opinião, ainda não está preparada para me receber. — Acariciou-lhe as úmidas dobras até chegar ao clitóris, o pequeno nó oculto na parte superior enviou uma sacudida de prazer ao ventre da jovem quando ele o pressionou, um gemido surgiu dela quando Brodick demorou naquele tenro lugar, acariciando-o com dedos firmes.

   — Este é exatamente o ponto adequado para acender um fogo.

   Os quadris de Anne se ergueram em resposta ao movimento de sua mão sem que ela percebesse, seus mamilos endureceram ainda mais, além disso, descobriu que era impraticável ficar quieta, seu corpo se movia no ritmo que o escocês a conduzia, erguendo-se para ele em busca de mais. O fluido que evidenciava a excitação de Anne cobriu os dedos do Brodick, facilitando a exploração das sedosas dobras.

   A necessidade a consumia estendeu os braços para ele e arranhou seus ombros ao mesmo tempo em que arqueava as costas. Seu corpo clamava por uma liberação que ignorava existir.

   — Brodick... — Anne não reconheceu sua própria voz, soava forçada e rouca, totalmente imprópria dela. Mas ele afastou a mão e ela golpeou seu peito como protesto.

   O conde riu e introduziu um grosso dedo no interior de seu corpo. Uma sensação de prazer invadiu então a jovem, que ergueu o traseiro para tentar fazer mais profunda à penetração.

   — Você gosta mulher?

   — Sim! — E queria mais, muito mais, queria ele.

   Brodick afundou nela um segundo dedo, e logo retirou os dois para voltar a introduzi-los de novo. Cheio de desejo, levantou o joelho para empurrar suas coxas para cima e assim ter um maior acesso ao seu corpo.

   — Então, irá me ter. — Retirou os dedos e lhe abriu ainda mais as pernas, um roçar de tecido chegou aos ouvidos de Anne antes de sentir o primeiro contato de seu membro contra a pequena abertura de seu corpo, tremendo, Brodick lhe segurou os quadris e começou abrir passagem para seu interior.

   Avançou um par de centímetros com cuidado e o corpo de Anne se esforçou para adaptar-se a ele com todos e cada um de seus tensos músculos, o escocês se manteve imóvel, negando-se a preenchê-la mais.

   — Está muito apertada, resmungou antes de retirar-se.

   — Não me importa, — agarrou-se aos seus ombros, tentando que voltasse a penetrá-la. Não podia deixar de erguer os quadris pedindo mais porque, se não o fizesse, ficaria louca. — Rogo-lhe isso, não me deixe neste estado.

   Brodick penetrou-a com lentidão, o músculo na lateral do queixo começou a vibrar ao mesmo tempo em que seu membro deslizava mais profundamente em seu interior, os músculos internos de Anne protestaram diante da invasão, mas mesmo assim, seus quadris se ergueram para acolhê-lo. Ofegando, afundou as mãos nas amplas costas do homem que se acomodava sobre ela enquanto seu corpo começava a aceitá-lo. Não estava certa se o que sentia era dor ou não, só sabia que tê-lo em seu interior sufocava a feroz necessidade que ardia em seu ventre. Desejava que ele investisse profundamente, quando o fez, seu corpo protestou, mas gostou de sentir-se preenchida, um gemido quebrado saiu de sua boca ao mesmo tempo em que se arqueava para ele.

   — Isso, mulher, tome. — Sua voz estava áspera, exigente e inclemente, Brodick afundou nela e o crespo pêlo de seu peito esfregou em seus duros mamilos ao apoiar seu peso nos antebraços. Abandonando seu controle, enterrou os dedos em seu cabelo para mantê-la imóvel enquanto capturava sua boca num duro beijo e balançava os quadris contra ela. Seu membro a abandonou por uns instantes só para investi com força de novo. Dessa vez o corpo da jovem incendiou ao penetrá-la por completo, preenchendo-a totalmente.

   Anne tentou então afastar-se para fugir da dor, surda e aguda. Mas o peso dele deixou-a parada, enquanto o membro de Brodick estava afundado profundamente em seu interior. Anne dobrou os dedos formando garras sobre seus ombros e ofegou, ergueu a vista para o dossel que havia sobre ela. Doíam-lhe os pulmões, pois se esquecera de respirar. Inspirou intensamente e sentiu que a dor começava a transformar-se numa sensação suportável.

   Brodick lhe deu um terno beijo nos lábios, insistindo pacientemente que abrisse a boca, seu corpo voltou a flexionar-se, retirando seu membro até a ponta antes de voltar a introduzi-lo com suavidade. Segurava-lhe o rosto com as mãos enquanto a beijava, negando-se a permitir que ela falasse e pudesse romper assim à magia do momento começou a investir com um movimento constante, movendo a cama delicadamente enquanto permanecia estendido sobre ela, usando o peso de seu corpo para prendê-la debaixo dele. Toda a longitude de seu membro deslizava pelo pequeno clitóris quando saia, fazendo o prazer de Anne aumentar gradualmente ao mesmo tempo em que a dor diminuía. Seu corpo voltou a desejá-lo de novo, porque, apesar do desconforto, gostava de sentir como o membro dele, alargava-a abrindo passagem para seu interior. Brodick deixou um rastro de beijos na face enquanto Anne gemia com renovado desejo.

   — Erga-se para mim. — Seu rosto pairou sobre o dela. Havia um duro brilho em seus olhos. — Me rodeie com as pernas.

   Anne obedeceu sem pensar e a próxima investida provocou em seu corpo, uma sacudida de prazer ainda mais forte, ao segurá-lo dessa maneira, o corpo de Brodick exerceu mais pressão sobre seus clitóris, então a jovem ergueu os quadris para certificar-se de que o recebia em toda sua longitude. Ficar quieta lhe pareceu impossível, desejava sair ao encontro de cada investida e mantê-lo bem apertado dentro dela. Sentia como se ele estivesse contendo-se ao penetrá-la e tentou garantir de que até o último milímetro de sua ereção ficasse alojada em suas vísceras.

   — Mais. — Nem sequer tinha certeza do que ansiava, só sabia que ainda não tinha o que desejava.

   Brodick riu entre dentes, mas não foi um som desagradável, seu corpo se moveu contra o dela, tomando-a com força.

   — Terá mais, muito mais. — Seu acento se intensificou e suas palavras adquiriram um matiz inquietante que se encaixava com o momento vivenciado.

   A verdade é que para Anne era indiferente que a estivesse guiando para um ritual pagão onde lhe roubaria a alma. Cada vez que aprofundava seu membro dentro dela, provocava gemidos de prazer. Desejava mais.

   Brodick incrementou o ritmo roçando seus clitóris com cada investida, e um suave grunhido escapou de seus lábios quando Anne compassou seus movimentos aos dele, erguendo-se a cada penetração, seu corpo recebia seu membro sem problemas até base.

   — Isso, mulher, cavalga comigo, — ergueu-se sobre ela e apoiou as mãos na cabeceira da cama e tornou-se mais exigente começando a possuí-la com ferocidade, movendo a cama ao tomá-la, afundando mais profundamente seu membro com cada estocada.

   Anne aceitou a provocação e ergueu os quadris para recebê-lo. O prazer a cobriu como uma densa névoa, envolvendo-a. Ela podia senti-lo em cada milímetro de sua pele nua, os seios balançavam a cada investida e em seguida escutou como escapava de seu marido um duro grunhido entre os dentes cerrados.

   Sentindo que seu corpo ameaçava explodir, Brodick afundou os dentes em seu pescoço, procurando uma saída para as descontroladas sensações que tomaram o controle de seu corpo, ao mesmo tempo Anne movia os quadris freneticamente para ir ao encontro dele. Arranhou-lhe os ombros, arqueou as costas para unir-se ainda mais ao corpo de Brodick, e de repente sentiu que um prazer devastador explodia em seu interior. Foi algo tão inesperado que a fez estremecer intensamente e balançar a cabeça de um lado ao outro com violência. Ela só estava consciente da rija carne que invadia seu corpo, seus músculos internos tentavam prendê-la enquanto tremia devido ao prazer.

   — Isso! — Rugiu Brodick um instante antes que seu corpo ficasse rígido e empurrasse com força, afundando até o mais fundo.

   Atordoada, Anne sentiu uma vibração no grosso membro que a penetrava e de repente a ardente corrente de sua semente a encheu. Arregalou os olhos enquanto ele estremecia e grunhia brandamente em seu ouvido, seu abraço era forte e a manteve imóvel até que deixou de ejacular.

   O corpo da jovem tremeu de satisfação, não esperava nunca ter se sentido tão à vontade. Seus músculos começaram a relaxar ao mesmo tempo em que diminutas ondas de prazer continuavam percorrendo-a.

   O enorme corpo de Brodick também tremia, os dedos de Anne perceberam as pequenas vibrações no lugar onde suas mãos seguravam seus antebraços. Inclusive, notou como seu peito se dilatava respirando com dificuldade antes que levantasse a cabeça. Seus olhos resplandeciam de um modo que a estimulou a acariciá-lo nos ombros. Não podia explicar realmente essa estranha necessidade de acalmá-lo, mas lhe pareceu tão íntimo como o que acabava de experimentar.

   O conde finalmente lhe deu um suave beijo na boca e a libertou com um rápido movimento para deitar-se ao seu lado. Anne estremeceu, pois a separação a surpreendeu por sua dureza, Brodick deslizou um braço por baixo de seu corpo, fazendo-a se levantar para que pudesse apoiar sua cabeça sobre o peito dele. Imediatamente, a jovem se retesou insegura de si mesma.

   — Shhh! —Murmurou tranqüilizando-a, ao mesmo tempo em que acomodava o corpo de Anne junto ao dele.

   Inquieta, a jovem se movimentou e o golpeou sem querer com o joelho, estava tentando decidir o que pensar. Todos seus sentidos estavam expandidos, inundados no prazer que ele deflagrara em seu interior, após alguns segundos ergueu a cabeça, tentando recuperar o aprumo pondo distância entre eles. Só o suficiente para poder pensar.

   — Não haverá nada disso, — soava satisfeita, sua voz quase preguiçosa.

   — Nada do que?

   Ao ouvir a pergunta, Brodick suspirou exasperado.

   — Se deite. — Não esperou que o obedecesse, mas sim se ergueu e a fez virar de lado, depois segurou a pesada colcha que tinha sido dobrada aos pés da cama, cobriu seus corpos com ela, e se deitou em suas costas enroscando seus pés com os dela.

   — Milorde...

   — Quando estivermos nus, irá me chamar Brodick.

   Anne tentou continuar falando, mas suas palavras ficaram presas na garganta quando sentiu o membro de seu marido contra o traseiro. Ainda estava duro, e estar plenamente ciente disso descarregou pequenos tremores de prazer por suas costas.

   Brodick a sossegou acariciando-a, deslizando as mãos por seu quadril e suas coxas, logo roçou seu pescoço com os lábios, prendendo a colcha por cima de sua clavícula.

   — Aqui pode me chamar como quiser, mas nunca por meu título, este não é lugar para títulos ou posições. Somos somente um homem e uma mulher compartilhando o prazer de conhecer um ao outro.

   — Mas não somos como outros. Nossa união...

   — Chega de falatório mulher, você passa muitas horas pensando em coisas que ninguém compreende realmente, não há nada diabólico em desfrutar de nossos corpos, é algo tão antigo como o tempo. — Mordeu-lhe o pescoço novamente fazendo uma pequena onda de sensações percorrerem seu corpo e cobriu um de seus seios com uma mão, lhe arrancando um grito abafado.

   — Não dormirá aqui? — A jovem não se importou que sua voz se alterasse, estava desesperada para conseguir se afastar das mãos dele, porque seu contato estava deixando-a louca.

   — Não faz nem um ano que meu pai nos deixou. Não me mudei ainda para seus aposentos, como tampouco comecei a comer no estrado. Este quarto é o melhor e estive usando-o, fiz que o mobiliassem para você. Esta cama foi desenhada para que nossos filhos fossem concebidos nela, seus fortes braços se estreitaram ao seu redor enquanto acariciava o pescoço com os lábios e lançava um profundo suspiro sobre seu cabelo.

   — Espero que a desfrute tanto quanto eu.

   Tinha-o feito... Anne se abalou ao sentir que a emoção de reconhecer aquele fato a invadia. Agradava-a imensamente ter seu corpo unido ao dele.

   — Só lhe avisarei uma vez esposa, se me mantiver acordado terá que arcar com as conseqüências, havia um claro matiz de provocação em sua voz. Acariciou-lhe o mamilo com o polegar ao mesmo tempo em que sua palma afagava o suave seio, então seu membro avolumou-se contra seu traseiro, lhe arrancando um estremecido ofego. Anne reconsiderou, realmente sem vontades de pensar mais. Até mesmo por que o contato do corpo de seu marido era tão agradável.

   A caixa da Pandora...

   — Basta de diversão esta noite grunhiu Brodick. Seria um animal exigente se a tomasse tão logo depois de ter arrebatado sua inocência.

   Anne não estava tão segura de que ele tivesse arrebatado algo.

   Tinha sido audaz entrando em seu quarto apesar de seu repúdio, mas depois que se uniu a ela no leito, tinha lhe oferecido tanto como exigira, moveu-se nervosa tentando ganhar um pouco de espaço, e seu rosto ruborizou ao recordar exatamente o quanto desejara que ele a tomasse.

   — Então, já não acredita que eu seja uma libertina. — Suas palavras deixaram transparecer a dor que havia sentido quando a acusou disso.

   — Não. — Seu abraço ficou mais forte, estreitando-a contra seu corpo, embora esta não fosse uma forma muito comum de prová-lo.

   Não havia suavidade em seu tom, mas sim um matiz de aprovação que Anne deveria ter detestado. Em lugar disso, um leve sorriso curvou seus lábios ao sentir-se realmente valorizada. Saber que estava satisfeito foi como receber uma carícia em seu coração, e esse conhecimento a encheu de uma inesperada ternura. Era muito tentador recostar-se contra ele e saborear o momento. Sim, sabia que era uma loucura permitir que a emoção a envolvesse, mas foi incapaz de evitá-lo. Suas pestanas se agitaram enquanto se deixava levar pelo sono, sentindo-se mais cômoda e feliz do que poderia recordar de já ter estado antes. O rosto de sua mãe encheu seus sonhos durante as horas que dormiu recostada junto ao seu marido.

   Em algum momento da noite, o rosto modificou, transformando-se no de Brodick, e Anne se encolheu contra ele, agarrando-se ao braço que a envolvia na altura do seio. Uma cálida mão a acariciou no ombro, fazendo Anne murmurar algo ininteligível entre sonhos, gostou daquelas carícias, abriu os olhos para descobrir quem se comportava de um modo tão carinhoso com ela, então sua mente ficou em alerta imediatamente ao descobrir que se tratava de um homem, durante um segundo, sentiu-se atordoada ao ver o rosto masculino. Tinha o cabelo revolto e estava completamente nu. A suave luz do amanhecer se derramava sobre o duro torso, descendo pelo estômago e as coxas. Brodick se levantou finalmente, e se alongou. Anne não foi capaz de desviar o olhar de seu poderoso corpo. A Igreja condenaria sem dúvida aquela fascinação que sentia por ele, mas, mesmo assim, continuou acariciando-o com o olhar, aquele homem possuía um corpo realmente magnífico.

   Brodick se voltou e pareceu analisá-la com seus olhos escuros, até mesmo à luz do amanhecer, eles eram tão escuros como noite.

   — Eu gosto de vê-la estendida na minha cama. Sua atenção desceu até seus seios, que estavam expostos ao seu olhar, sim, acredito que eu gostarei de despertar repetidamente junto de você.

   Anne atirou da pesada colcha e cobriu seu corpo nu com ela, ele riu entre dentes e a jovem receou que ele estivesse rindo de sua reação, entretanto, Brodick se limitou a recuperar a camisa que estava atirada no chão. Seu kilt estava aos pés do colchão e a metade pendurava até o chão, enquanto que o largo cinturão de couro que usava para prender à cintura se encontrava a mais de um metro da cama. Anne aproveitou que seu marido estava vestindo a camisa para observar seu grosso membro, que sobressaía de seu corpo com a ponta levemente vermelha. Uma profunda risada fez a jovem desviar bruscamente a atenção para o rosto masculino para descobrir que estava sendo observada também.

   — Vou garantir que tenha oportunidade de me olhar quanto quiser mais tarde. —Moveu os ombros para que a camisa deslizasse sobre seu corpo e caísse até a metade da coxa. — Mas não agora, — recolheu o kilt e dobrou-o em dobras uniforme sobre o cinturão. Suas mãos se moviam com segurança indicando que não estava acostumado a que o servissem.

   Anne poderia até mesmo se esquecer que era um homem que possuía um título nobiliário. Com mãos firmes, agarrou as pontas do cinturão e o fechou ao redor de sua magra cintura. Quando se levantou, o kilt pendurava perfeitamente colocado sobre as coxas. A confiança que mostrava em si mesmo a atraiu e a assustou ao mesmo tempo. O medo inundou seus pensamentos enquanto contemplava o homem por quem começava a sentir algo mais que carinho. Ao contrário, se fosse parecido aos alguns nobres que conhecia, o teria ignorado com facilidade.                                                            

   — Bom dia, Milady.

A voz de Helen retumbou nas paredes do quarto. A mulher fez entrar junto com ela uma fila de criadas e não se deteve até estar inclinada entre os cortinados da cama. Com um enorme sorriso, agarrou a pesada colcha e a puxou com a intenção de colocá-la aos pés da cama. O sonho se evaporou imediatamente da mente de Anne, que abriu os olhos de par em quanto o ar da manhã acariciou seu traseiro. Confusa, tentou inutilmente agarrar a colcha.

   — Não há necessidade de ser tímida, milady. — Helen era surpreendentemente forte e conseguiu retirar a colcha por completo da cama. Ao ver as manchas nos lençóis, seu rosto se iluminou com um sorriso.

   — Por favor, fique de pé, Milady. — Helen não aguardou a que Anne superasse sua modéstia. Puxou-a com delicadeza para seu braço e a tirou do leito, de repente, ouviram-se um estalo a suas costas e, imediatamente, todas as criadas que formavam a fila se inclinaram.

   Anne ficou paralisada ao virar a cabeça e encontrar-se com os olhos de Brodick. Estava ali de pé, observando-a com expressão indecifrável.

   — Aqui está a prova. — Helen levantou o lençol manchado de sangue com ar triunfal e a mostrou ao resto das criadas, todas voltaram a se inclinar uma vez mais antes de dar a volta para encarregar-se da roupa de sua nova senhora.

   Brodick ficou olhando fixamente para Anne e a satisfação que surgiu em seus olhos, rodeava-o numa aura de fria autoridade, muito longínquo do homem que tinha despertado em seu leito horas antes.

   — Pendurar isto na janela servirá de prova às pessoas do castelo.

   Helen examinou o lençol com mais atenção, assentindo em sinal de aprovação. — Sim, certamente que sim, há muitas jovens que se sentem tentadas a se entregar fora do matrimônio. — Sem soltar o lençol, Helen observou com olhos perspicazes como as criadas traziam as roupas de Anne. — Note bem em que não está em seu período menstrual, — todos os olhos se dirigiram para as coxas nuas de Anne, que gemeu em voz baixa sentindo-se terrivelmente envergonhada. Mas Helen não tinha piedade por sua embaraçosa situação. Resolvida, agarrou um extremo do lençol que ainda estava limpo e o passou a jovem pela parte interior das coxas. — Vêem? Branco como a neve.

   — Helen!... Protestou Anne.

   A criada não parecia sentir nenhum remorso, e levantava o queixo com um brilho de alegria nos olhos.

   — Só me asseguro para que não haja nenhuma dúvida sobre sua honra... —Lançou um duro olhar às criadas que ficaram imóveis... — Em nenhum rincão do castelo.

   — Sim, senhora.

   — Senhora.

   — Certamente, senhora.

   — Assim é, senhora.

   Helen assentiu satisfeita e as criadas começaram a vestir a Anne pondo especial cuidado em deixar cair cada objeto com suavidade sobre sua pele. Uma mão ergueu com delicadeza seu cabelo solto enquanto outras lhe vestiam, Brodick observava a cena, aparentemente interessado em ver como elas a vestiam.

   — Para esta noite já teremos arrumado algumas de suas roupas, — assegurou Helen para Anne. — A governanta de sua mãe deveria ser banida. Nenhum de seus espartilhos tem o comprido correto nas laterais. Semelhante descuido é vergonhoso, — uma criada estava fechando seu vestido quando um punho golpeou a porta.

   — Abram. — O conde falou com tal autoridade que fez todas as criadas se inclinarem em vez de fazer o que ele desejava.

   — Vá, Ginny. — Helen comandou, fazendo a criada se apressar em obedecer ao perceber o tom de urgência em sua voz.

   Quando a moça abriu a porta, Cullen, Druce e outros três homens entraram no cômodo.

   — Obrigado por vir, senhores — disse Brodick com voz severa antes de apontar para Helen, a criada estendeu com orgulho o lençol entre seus braços estirados.

   Anne sentiu que seu rosto ardia ao ver que todos os homens examinavam as manchas vermelhas. Não disseram nada se limitaram, apenas a olhar o tecido até que desviaram sua atenção para ela.

   — O matrimônio foi consumado, — disse um deles.

   Brodick assentiu enquanto percorria o quarto com um firme olhar, deteve-se em cada uma das criadas antes de olhar aos homens. Quando todos eles concordaram, o conde atravessou o aposento aproximando-se de sua esposa.

   — Realmente agora compreendo o valor de algumas tradições, nossa união está selada, — afirmou Brodick.

   Acariciou-lhe suavemente a face e uma expressão de ternura cintilou em seus olhos, mas desapareceu no momento em que seu braço caiu ao lado.

   — Esposa. — Inclinou a cabeça diante dela e saiu do cômodo, decidido seguido de seus homens.

   Anne sentiu como se uma mão se fechasse sobre sua garganta e teve que esforçar-se para fazer com que a próxima baforada de ar chegasse aos seus pulmões.

   — Ah... Homens! — Bufou Helen. — Não hesitam em ir à guerra e, entretanto, não sabem o que fazer em situações como esta, não tenha medo de nada, Milady, o conde está contente com você, se lembrará de dizer isso mais tarde, assim que todos os clãs souberem que o matrimônio foi consumado.

   — Espero que se mostrem satisfeitos.

   A criada deu um palmadinha no seu ombro. — Suponho que não sabe ainda como funcionam as coisas na Escócia, mas o fato de saberem que o conde a tomou em sua cama evitará que alguém tente raptá-la.

   Anne ficou olhando Helen, ao mesmo tempo em que escutava as risadas abafadas das criadas.

   — Deve estar equivocada, por que alguém quereria me raptar?

   Uma das criadas riu abertamente, tentou recompor-se, mas suas bochechas se tingiram de uma viva cor vermelha.

   — Me desculpe Milady. — A moça não parecia absolutamente arrependida e as outras criadas também lhe sorriam.

   — Agora precisarei que contar sua história para Milady, menina imprudente — repreendeu-a Helen antes de voltar-se para a Anne e explicar, — Vanora nasceu nas terras dos McAlister, que não gostam que suas filhas se casem com os McJames, portanto seu marido a raptou na primeira lua de outono.

   — Entendo. — Anne lançou um olhar de compaixão à moça, mas esta lhe piscou um olho, claramente satisfeita com sua sorte.

   Ginny tentou pegar o lençol, mas Helen, sorridente, negou com a cabeça. Inclusive cantarolou uma melodia da primavera.

   —Não. Eu retirei a colcha, assim serei eu quem irá pendurar o lençol na janela. — Enviou um firme olhar para Anne, — não haverá falatórios. Porei minha mão sobre o altar e jurarei que era virgem até ontem. Todas estas criadas procedem de famílias que serviram nesta fortaleça durante gerações. Selecionei-as com muito cuidado, — o orgulho ressoou na voz de Helen, mas também resplandeceu nos rostos de cada uma das moças. Acontecia o mesmo em Warwickshire. Apesar da maldade de Philipa, o pessoal era leal, já que seus antepassados tinham servido no castelo há centenas de anos. Para eles era uma honra, até mesmo servir alguém como Philipa, que podia expulsá-los da fortaleza a qualquer momento. Protestar pela vida que lhes havia sido destinado era questionar a vontade de Deus.

   Abriram a janela de par em par e o ar fresco entrou na alcova, levando com ele o aroma da cera das velas e trazendo consigo os primeiros sinais da primavera. Também fez desaparecer o aroma da pele de Brodick. Anne nunca havia imaginado que o aroma dos homens pudesse ser atraente. Entretanto, o de Brodick era, ao erguer uma mão, encontrou um pequeno arranhão em sua pele. Sentia dor entre as coxas, e embora a tivessem educado para considerar aquele momento pecaminoso, pareceu-lhe muito correto, como se tivesse nascido para ele.

   — Não lamente a perda da manhã. — Helen lhe dedicou o mesmo sorriso cheio de sabedoria que as mães dirigiam aos seus filhos quando sabiam que sua juventude não lhes permitia compreender alguma das realidades da vida, — vou pendurar este lençol. É um momento que estive esperando com impaciência. — Com determinação, a criada atou um extremo do lençol através da portinha, por cima da grossa dobradiça de metal, depois enganchou o extremo oposto no outro lado da janela, assegurando-se de que estivesse bem preso, e empurrou o resto do lençol para fora. Alguns segundos depois, os sinos das muralhas começaram a soar. Primeiro só a mais próxima deles, mas quando espalhou seu som pela manhã, seguiu-lhe outra, e logo outra, até que o repique ressoou por toda a fortaleza.

   Anne se ruborizou, mas sentiu que seu coração se enchia de satisfação, não tinha envergonhado seu marido.

   Brodick era um homem honrado e merecia que tivesse entregado sua virgindade, aquela emoção a pegou despreparada. Foi tão doce que obrigou Anne a tampar boca com a mão para não soltar um gemido. Na verdade, desfrutara muito de seus deveres como esposa.

   Não deveria ser complexo o fato que um homem use seu corpo... Mas, estava sendo usada? Tinha tomado-a, sim, mas desfrutara muito disso. De repente, sentiu-se cheia de alegria, Philipa estava a muitos quilômetros de distância. Dada sua complicada situação, as desagradáveis palavras daquela mulher estavam muito atrás na lista de coisas pelas quais tinha que preocupar-se.

   — Vamos, Milady, uma boa refeição ajudará a recuperar as forças. Precisará quando o bebê do senhor começar a crescer em seu ventre.

   Todo rastro de cor desapareceu de seu rosto e um gélido terror penetrou em seu coração. O bebê de Brodick, Bonnie tinha anunciado que o teria.

   — OH, vamos. Tanta inquietação numa mulher tão jovem, — Helen rodeou-lhe os ombros num gesto maternal, abraçando-a com firmeza, — não há necessidade de empalidecer. Já ouviu Agnes. É forte e não terá problema em conceber um bebê são.

   A aia a levou até a porta, seguida de todas as moças.

   Logo depois, os sinos se silenciaram. Se ao menos fosse tão fácil sossegar o medo que martirizava sua cabeça... Mas não o era.

 

   Não aceitava bem a inatividade.

   Antes do meio-dia, encontrava-se já, passeando nervosa e desejosa de ter algo para se entreter. Todas as criadas do castelo pareciam resolvidas a alimentá-la até fazê-la estourar.

   As bem-intencionadas cozinheiras traziam bandejas arrumadas para agradar não só ao paladar, mas também a vista, e custava recusá-las sem sequer ter provado os pratos. Lady Mary era bastante mimada para fazer em pedaços o esforço dos outros sem se importasse o mínimo. Entretanto, Anne sabia o que era esquentar uma bandeja nas brasas. Ela mesma freqüentemente fizera desaparecer as rugas dos jogos de mesa que se colocavam sobre as bandejas destinadas à mesa principal no castelo de seu pai. Tinha que fazer com extremo cuidado para que a fuligem não manchasse a fina malha, e tinha queimado os dedos algumas vezes quando o trapo que envolvia a alça da bandeja deslizava ou era muito fino.

   Doía-lhe rejeitar o que ofereciam, mas o espartilho começava a apertar muito para poder suportá-lo, de repente, encontrou-se no corredor com outra criada com a cabeça inclinada. Estivesse vivendo um engano ou não, estava cansada de agir de forma contrária a sua natureza.

   — Creio que está na hora de conhecer a cozinheira — disse dirigindo-se à criada.

   — Irei trazê-la em seguida, Milady — respondeu a aludida com outra reverência.

   — OH, não. Certamente estará ocupada preparando o jantar a seguirei até a cozinha.

   A garota pareceu insegura e seus dentes morderam nervosamente o lábio inferior, mas Anne se manteve firme. Só a menção da cozinha tinha feito com que os seus pensamentos ficassem em movimento. Sim, acabou-se a história de se manter ociosa. Não podia ser Mary nem agir como faria sua meia-irmã. Era muito melhor ser ela mesma. Ao menos, desse modo, não estaria cometendo enganos continuamente.

   — Qual é seu nome? — Pergunto à criada.

   — Ginny, Milady. Saudei-a esta manhã.

   — Ah, sim. Agora me lembro. Por que não vamos já para a cozinha? É hora de trabalhar agora que já cumprimos com todas as tradições que suporta o matrimônio.

   Ginny sorriu abertamente, aprovando claramente sua filosofia de trabalho.

   — Não sabíamos exatamente o que poderia esperar de nós... — A criada vacilou e fechou a boca parando na metade da frase.

   — Suponho que se refere ao caso de que sou inglesa.

   Era um fato, Inglaterra e Escócia se uniriam depois da morte da rainha e a história dos dois países mudaria para sempre. Alguns questionavam a decisão de Elizabeth Tudor não casar, mas Anne via o benefício disso. Acaso a paz não compensava o fato de que uma mulher ficasse solteira? Tinha sido uma das melhores monarcas da história e tinha favorecido o crescimento econômico. Quem poderia garantir que Elizabeth não decidira há muito tempo que ficar solteira era o caminho para um futuro melhor para seu povo? A Rainha freqüentemente dissera que estava casada com seus súditos e Anne podia ver a sabedoria dessas palavras.

   Ginny e ela atravessaram o salão circular onde tinham jantado na noite anterior. As mesas estavam vazias e o chão totalmente limpo. O aroma de comida assando lhes chegou da cozinha, uma construção no fundo da torre com o teto inclinado, havia cinco grandes fogões construídos na parede e vários fornos fechados por portas de ferro. Largas e grossas mesas de madeira que mostravam sinais de uso ocupavam grande parte do recinto. O extremo de uma delas estava polvilhado com farinha e duas mulheres com as blusas arregaçadas para cima dos cotovelos trabalhavam grandes nas massas. Ao ver entrar sua senhora, elas levantaram o olhar, mas em nenhum momento deixaram de amassar. Embora seus movimentos diminuíssem.

   — Esta é Bythe — disse Ginny, — a encarregada da cozinha.

   A mulher apresentava um aspecto realmente imponente. A idade não marcava seu rosto, mas sim a segurança. Bythe inclinou a cabeça com respeito, usava um tecido de linho ao redor da cabeça e só um leve rastro de seu cabelo escuro aparecia nas extremidades. Tinha a fronte brilhando pela transpiração e a ponta do nariz levemente avermelhado por inclinar-se constantemente sobre os fogões. Também tinha os antebraços nus, um grande avental estava preso na gola do vestido além de estar preso na cintura. Usava uma tira de tartán sobre um ombro que lhe caía pelas costas. De fato, todas as mulheres o usavam. A fazenda era tecida com as mesmas cores que usavam os homens em seus kilts.

   — Bem-vinda milady. — Era evidente que Bythe não estava certa do que fazer com ela.

   Anne lhe dedicou um sereno sorriso antes de olhar à mesa mais próxima. Tinha peixe sobre ela, tão fresco, que suas escamas ainda brilhavam pela água. A quaresma tinha começado e todos comiam peixe, duas grandes terrinas estavam preparadas para limpá-los, também viu uma enorme faca e várias terrinas menores que estavam cuidadosamente colocadas em fila. Continham sal, romeiro, pimenta e inclusive noz moscada.

   — Vejo que sabe dirigir a cozinha, Bythe. — Ao ouvir aquilo, a expressão da cozinheira tremulou com um leve matiz de calma.

   — Mesmo assim, sempre necessitam de outro par de mãos, — comentou Anne desabotoando o punho de uma manga e dobrando o tecido sobre o antebraço.

   O trabalho que estavam realizando os criados diminuiu até quase ficar paralisado.

   Anne pegou a faca levantando-a com mão firme e agarrou com a outra mão um escorregadio peixe sem vacilar um segundo, com alguns cortes hábeis, tirou os espinhos com cuidado e examinou bem o exemplar para ter certeza de que estivesse limpo, consciente de que todos os olhares estavam centrados nela. Mas mesmo assim, não cederia, Philipa lhe ensinara como manter as costas erguidas sob pressão, acabou com o peixe sem afastar a vista de sua tarefa nenhuma só vez. Depois deixou a peça sobre uma bandeja limpa junto às terrinas que continham as especiarias e agarrou outro peixe.

   — Vejo que sua mãe a ensinou a se movimentar na cozinha, milady. — Bythe agarrou uma longa faca e, com um rápido corte, outro peixe começou a ser minuciosamente preparado para logo ser cozido. — Sei que esteve na corte inglesa durante alguns anos, por isso estou gratamente surpreendida ao ver que não perdeu a prática.

   Anne deixou outro peixe sobre a bandeja, não pretendia mentir abertamente afirmando que trabalhara na cozinha da corte, mas mesmo assim, tinha que dar alguma explicação verossímil.

   — Enviaram-me para cozinha em Warwickshire quando completei os onze anos. — Isso era verdade.

   Bythe assentiu.

   — Minha mãe trabalhou toda sua vida nesta mesa — explicou a cozinheira. — Eu amassava pão sobre ela quando ainda precisava de um tamborete para poder ver por cima da borda.

   Recomeçou o trabalho ao seu redor, mas não as conversas, já que todas queriam escutar a esposa do conde para poder avaliar seu caráter. Embora fosse certo que era sua senhora, também era inglesa, e havia muitos que acreditavam que essas duas qualidades não podiam coexistir. De fato, mais de uma esposa inglesa tinha passado longos anos em seus aposentos sendo sempre uma estrangeira apesar de dar vários herdeiros ao seu marido. Anne realmente compadecia o destino de sua meia-irmã. Com a vaidade de Mary e seu caráter mimado, teria sido tremendamente infeliz no Sterling.

   Mas sim eu gosto de estar aqui. Aquele inesperado pensamento a afligiu, sua mente estava ultimamente cheia de loucas idéias. Já ouvira dizer que a prisão, primeiro destroçava a vontade de suas vítimas e logo seus corpos, assim precisava fazer todo o possível para não acabar com seus ossos no cárcere por fingir ser a sua meia-irmã.

   Com as costas tensas, começou a trabalhar o peixe, havia muito que fazer, e Anne concentraram sua atenção no trabalho. Infundia-lhe certa segurança fazer as coisas que estaria fazendo se ainda se encontrasse em Warwickshire, embora aquela noite não tivesse dormido atrás da cozinha, seu corpo se negava a esquecer que passara a noite com Brodick. Só de pensar nele seu ventre se inundava com uma terna calidez, sua pele se arrepiou ao recordar como havia acariciado-a, com aquelas enormes mãos. Sentia dor em lugares que há dois dias, ignorava que existissem, mas mesmo assim, desejava que voltasse a fazê-la sua. Ainda não compreendia como ser penetrada por sua rija carne podia ser tão prazeroso.

   O sangue circulou com mais força por suas veias e seu coração acelerou, o desejo por seu marido abrira realmente a caixa da Pandora, já que agora ansiava por mais. Desejava voltar para o leito junto com Brodick sem a roupa se interpor entre eles. Estava louca. Sim, não podia ser de outro modo. E se sentia feliz dentro de sua loucura. Sua luxúria era bem-vinda porque sabia que prazeres alcançariam se a alimentasse.

   Adoraria o bebê de Brodick.

   Aquela idéia a paralisou, fazendo que voltasse violentamente para a realidade. Sempre tinha desejado ser mãe, mas parecera impossível vivendo sob a autoridade de Philipa. Assim tinha enterrado aquele desejo no mais fundo de seu ser para evitar a dor ao ver suas amigas engordando ao ficarem grávidas.

Brodick desejava um filho dela, a tentação a levou a aproveitar a oportunidade que se apresentava, conceberia e ao inferno com outros detalhes. Além disso, se tentasse não engravidar, acabaria condenada ao inferno por não seguir os ditames de Deus. Não obstante, se desse a luz a um bebê, teria que entregá-lo a Philipa… Não, não podia arriscar-se, assim obrigou a si mesma a enterrar de novo a idéia de ter um filho.

   Não encontraria a felicidade na Escócia. A fraude que estava vivendo seria sua perdição, mesmo assim, isso não a impediria de desfrutá-la.

 

   Enquanto isso                                                      

   — Ouvi um rumor muito interessante. — Cullen vinha totalmente decidido a brincar.

   Ao escutar aquilo, Brodick revirou os olhos, estava mais interessado em encontrar sua esposa, mas estar consciente disso só conseguiu pôr uma careta de desgosto em seu rosto, usufruir dela era uma coisa. Entretanto, nenhum homem precisava sentir-se atraído por uma mulher quando havia trabalho para fazer.

   Cullen esboçou um sorriso irônico.

   — Parece que sua mulher passou o dia na cozinha.

   — Fazendo o que? — Perguntou Brodick.

   — Parece muito desconfiado de sua esposa, para ser um homem que limpou suas dúvidas com respeito a sua virgindade tão recentemente.

   — Não brinque comigo, irmão. Algum dia não muito longínquo se casará, e eu tenho boa memória. — Um indício de arrependimento cobriu o rosto de Cullen.

   — Me esquecia que não suporta brincadeiras.

   — Cullen...

   Seu irmão sorriu. — Está bem, vou contar. Sua esposa preparou seu jantar, assim espero que seu estômago seja mais forte que sua tolerância às brincadeiras.

Brodick desviou a atenção para a mesa, temendo o que pudesse ver. Viver na corte não ensinava uma mulher amassar pão. Mas como senhora da fortaleza, sua esposa podia fazer o que desejasse mesmo na cozinha. Nenhum membro do clã iria discutir com ela, embora soubessem que não era correto.

   — Nunca o vi tão pálido desde que nosso pai o surpreendeu com sua primeira mulher — debochou Cullen, dando uma gargalhada que ressoou por todo salão.

   A comida estava muito bem apresentada e parecia normal à vista. Mas era o sabor o que importava.

   — Não riria tanto se tivesse temperado o jantar com veneno, — grunhiu Brodick.

   — Pensei que não fosse duvidar mais de mim — sussurrou Anne a suas costas.

   Com as bochechas vermelhas, Brodick girou a cabeça para olhá-la, a suave voz de sua esposa o tinha repreendido melhor que qualquer bofetada poderia tê-lo feito. Não deveria ter feito esse comentário por mais que estivesse furioso com o Cullen.

   — Falava com meu irmão, não contigo, — explicou.

   Anne percorreu com o olhar os homens acomodados na mesa. Tinha os lábios apertados numa tensa linha.

   — Entendo Milorde. — Sua voz soou tensa ao acrescentar o título. Sem mais, deixou na mesa o grande bolo de carne que trazia, saía fumaça dele, espalhando aroma de especiarias por toda a sala fazendo os presentes observarem o prato com atenção.

   — Desconfio ser melhor, eu entender como prefere que sejam as coisas entre nós — reprovou-lhe Anne. Serviu num prato uma boa porção do bolo e o ofereceu, seu olhar era firme e o prato não tremeu. Os olhos femininos brilhavam desafiantes, fazendo ondas de calor invadir o corpo de Brodick. O desejo cravou suas escuras garras nele, aumentando ao observar a postura de sua esposa, induzindo seu grosso membro palpitar sob o kilt.

   — Pensei que havia dito que suas palavras foram dirigidas ao Cullen. — Anne arqueou uma sobrancelha ao ver que ele não tocava o jantar. — Por acaso pensa realmente que envenenei a carne?

   As conversas ao seu redor cessaram de repente e os presentes lançaram olhadas preocupadas para eles, com o cenho franzido, Anne partiu um pedaço de bolo, o meteu na boca sem pensar duas vezes, e o engoliu rapidamente depois de mastigá-lo. Logo deixou o prato na mesa e seu rosto se acalorou.

   — Acredito que não tenho estômago para comidas banhadas de suspeitas, — fez uma pequena reverência e se virou num revoar de saias. Mas o fez de forma contida, como se estivesse acostumada a guardar seu desgosto para si.

   Para Brodick esse fato pareceu o mais inquietante de todos.

   Um homem não deveria ser capaz de ferir seus sentimentos, Anne reprimiu as lágrimas enquanto seus pés se moviam rápido através das mesas. A dor a inundou ao sair ao corredor.

   Não deveria importar, não fazia sentido. E daí, se Brodick duvidara de sua honradez? Que fossem ele e todos seus homens para cama com os estômagos vazios. No entanto, doíam suas suspeitas, entregara sua virgindade e, mesmo assim, ainda duvidava dela. Esse presente só poderia conceder apenas a um homem em toda sua vida, a angústia encharcou seu peito. Não subiu as escadas, já que seu quarto estava cheio da lembrança da noite anterior e isso faria a ferida doer mais. O conflito deu mais velocidade aos seus pés, atravessou a porta de entrada da torre e saiu ao pátio. Ainda não conhecia bem a fortaleza, assim acabou perto dos estábulos. Os cavalos sopravam em seus compartimentos e o rançoso aroma do feno impregnava o ar. Não havia lua cheia, somente uma tênue luz iluminava a noite. Ao longo das muralhas havia tochas a cada seis metros, presas com armações de ferro, entretanto, não havia nenhuma perto dos estábulos por medo de um incêndio.

   Os cavalos eram bens muito valiosos, por isso ninguém se arriscava a perder alguns deles por um acidente causado pelo vento. Mesmo assim, havia luz suficiente das muralhas. Anne entrou nos estábulos e se maravilhou pela quantidade de cavalos que descansavam nas baias. Parecia ter centenas, e todos ficavam tranqüilamente na escuridão em ordenadas filas. Sem pensar no que estava fazendo, ergueu um braço e acariciou o aveludado focinho de um dos animais.

   — Não disse que suspeitava que tivesse envenenado minha comida de propósito, só pensei que provavelmente não tivesse experiência na cozinha para preparar o jantar. — A voz de Brodick soou baixas as suas costas, mas pôde perceber que havia exasperação nela. — Há uma diferença.

   — Então, por que não tocou o prato? — Questionou.

   Ouviu-o bufar e a ira cresceu ainda mais dentro dela sem que pudesse fazer nada por contê-la. Emanavam e surgiam os fervores de seu interior.

   — Que espera de mim? Devo ficar sem fazer nada durante todo o dia, esperando sua volta? — Voltou-se para ele e afundou o dedo indicador em seu amplo peito, — minha única distração deve ser abrir às pernas para você?

   — Eu gosto dessa idéia. — A voz de Brodick estava cheia de frustração, segurou-a pelo pulso e a puxou para si para estreitá-la com força entre seus braços. — Ao menos na cama não discutimos. — Seu acento se tornou áspero quando colocou uma mão em seu traseiro para uni-la aos seus quadris, para que ficasse consciente da ereção que pressionava contra seu ventre.

   — Isto foi o que me impediu de comer, esposa. Eu a vi e me pus rijo como um escudeiro sem experiência, — seus lábios a reclamaram num beijo selvagem. Exigia que se rendesse, mas Anne girou afastando-se de seus lábios, ele a seguiu com um grunhido, prendendo-lhe a cabeça com a mão e afundou a língua dele na sua boca, fazendo-a abrir os lábios e arrancando-lhe um suave gemido. O prazer a inundou de repente e o fogo que tinha tentado sufocar durante todo o dia acendeu. A cálida pele masculina cheirava muito bem para resistir, assim estendeu as mãos em busca do botão que mantinha fechado o colarinho da camisa, precisava tocá-lo, desejava senti-lo em seu interior.

   — Passei a metade do dia pensando em voltar fazê-la minha novamente — confessou Brodick. Não parecia muito feliz por isso, mas sua confissão a agradou e os mamilos endureceram sob o espartilho.

   — Eu também pensei em você. — As palavras saíram atropeladamente dos lábios femininos, disse-as sem pensar, levando a mão na parte posterior de sua cabeça suavizar a pressão.

   — Deus!... Entre nós há muito mais paixão que o normal, asseguro-lhe isso.

   A mão em seu traseiro começou a acariciá-la, enviando doces estremecimentos por todo seu corpo, sentia o grosso membro que se erguia contra seu ventre numa provocadora tortura e desejava tê-lo de novo dentro dela. O seu clitóris começou a latejar ávido por atenção.

   — Será melhor que saiba mulher. Nunca a mandarei de volta ao seu pai, — falou enquanto a apanhava em seus braços como se não fosse mais do que uma menina. Havia um duro tom de urgência em sua voz, uma feroz posse que fez Anne se sentir apreciada.

   — É minha e não me importa ter que lhe recordar isso, uma vez e outra, — levou-a até uma baia vazia e a deitou sobre o limpo e fresco feno, acomodou-se sobre ela e seus lábios a reclamaram de novo em outro longo beijo. Acariciou-lhe o lábio inferior com a ponta da língua e depois invadiu sua boca.

   — Já que era virgem antes de me conhecer, acho atraente a idéia de introduzi-la na arte dos encontros furtivos no feno, — ergueu-se sobre os cotovelos e sua silhueta ficou entre as sombras.

   — Esses encontros são entre amantes, — sussurrou Anne sem fôlego, a excitação fez com que sua voz adquirisse um matiz sensual.

   — E você não crê que um marido possa fazer o papel de amante? — Seus dedos encontraram os botões de seu vestido e começaram a desabotoá-los, — asseguro-lhe que estarei à altura desse dever.

   De repente, Anne se sentiu audaz, esticou o braço e começou a acariciar sua ereção através das dobras do kilt, arrancando dele um áspero ofego.

   — Espero que essa afirmação esteja correta, — a jovem empurrou seus largos ombros, sem saber se ele a permitiria guiá-lo. À noite não deixava ver sua expressão, pressionou com mais força levantando seus próprios ombros e Brodick caiu para trás quando ela se ergueu, — ouvi algumas histórias sobre encontros furtivos de amantes.

   — Insisto que me conte todas e cada uma delas exigiu o conde.

   Com as mãos, Anne desabotoou os botões de sua camisa e percorreu avidamente a pele exposta com os dedos.

   — A Igreja ordena à esposa que obedeça a seu marido. — Sua mão deslizou pelo crespo cabelo que cobria o peito de seu marido.

   — Sim, é certo. — As palavras de Brodick soaram tensas.

   O modo como ele permanecia estendido e imóvel era muito excitante, porque Anne sabia que era muito mais forte que ela, uma frágil confiança se instalou entre eles, liberando a curiosidade da jovem.

   — Ouvi que há mais de um tipo de beijo, que as damas francesas tomam em seus lábios o membro de seus amantes para seduzi-los.

   — Quem lhe falou isso?

   Anne encolheu os ombros, passando os dedos pelo cinturão dele, era impossível dizer que os criados sabiam absolutamente tudo o que ocorria dentro de um castelo. Quando um grupo de nobres visitava Warwickshire, estavam acostumados a realizar escapadas noturnas que davam lugar a muitos rumores. Ela sabia muito bem o que ocorria entre um homem e uma mulher antes de chegar à Escócia.

   — Suponho que deveria esquecer isso... — Os dedos de Anne ficaram paralisados sobre sua ereção.

   Ao ouvir aquilo, Brodick enrolou a grossa trança da jovem ao redor da mão e a atraiu para seu peito.

   — Levante meu kilt e tente mulher. — Desafiou.

   Anne deslizou os dedos pela barra do kilt, afastando o tecido, — isso significa que não tem medo de que o enfeitice? Ouvi que o diabo utiliza os prazeres da carne para nos seduzir e nos incitar à condenação eterna.

   Brodick a fez girar e se colocou sobre ela. Anne soltou um grito abafado ao ver a rapidez com a que seu marido se moveu.

   Poderia tê-la assustado, por sua enorme força física, mas confiava nele. Essa era usualmente a diferença entre um amante e um marido, com o amante compartilhava seu corpo, com um marido só cabia rezar e suportar.

   — Suponho que terei que lhe enfeitiçar primeiro.

   O escocês levantou sua saia e o ar noturno percorreu suas pernas. Anne tremeu, mas não pelo frio, já que o coração pulsava a toda velocidade esquentando sua pele.

   — Agora, sobre isso que mencionou antes de abrir suas pernas... Tenho a intenção de que o faça de novo. — A jovem ficou sem respiração e Brodick riu entre dentes enquanto deslizava a mão pela parte interna de uma de suas coxas. — Há algo que vamos ter que praticar mulher. Falar.

   — Não se deve falar sobre intimidades.

   Brodick afastou as úmidas dobras de sua feminilidade e começou a acariciar seu clitóris com a ponta do dedo, traçando um lento círculo sobre ele. Anne precisou de uma enorme quantidade de disciplina para reprimir o impulso de erguer os quadris, ficou muda ao comprovar do quanto gostava daquela carícia em particular, não sabia ser possível que uma parte de seu corpo pudesse sentir tanto prazer.

   — Então, como se inteirou do que fazem as damas francesas? — Inquiriu ele.

   Anne ruborizou na escuridão. — Ouvi numa conversa entre mulheres.

   — Mesmo assim, trata-se de introduzir o membro de um homem em sua boca, foi algo que ouviu por acaso ou pediu conselho para saber como me seduzir?

   — Brodick.

   Ele riu em voz baixa e profunda, fazendo um estremecimento subir pelas costas de Anne, os firmes dedos masculinos se aproximaram da abertura de seu corpo, mas não era suficiente, sentia-se vazia, desejava que ele a preenchesse.

   — Posso cheirar sua excitação, esposa. — Levantou-lhe os joelhos e deslizou para baixo por seu corpo, — exatamente o que procuro numa amante, — um entrecortado gemido escapou de Anne quando os lábios de Brodick pousaram sobre sua tenra carne e começou a mover a ponta da língua sobre o sensível nó em que seu clitóris se transformou. A jovem estava assolada pelas sensações que a percorriam. Prazer, desejo, necessidade, tudo formando redemoinhos em seu interior. Parecia-lhe impossível ficar imóvel então arqueou para sua provocadora língua. O conde lambeu cada milímetro de sua sensível e rosada carne enquanto ela, indefesa, cerrava as mãos freneticamente sobre o feno.

   — Tão doce… — Brodick separou as acolhedoras dobras para expor ainda mais seu clitóris e o sugou com eficácia até levá-la a beira do clímax, manteve-a ali. Consciente do que ela desejava que fizesse, afundou profundamente um dedo em seu interior e Anne gemeu quando o retirou.

   — Adoro esse som. — O escocês a penetrou então com dois dedos e os manteve quietos durante alguns segundos antes de voltar a penetrá-la com eles, e ao mesmo tempo continuava torturando seus clitóris.

   — Brodick...

   — Sim, devo parar, pois se provar um pouco mais de seu doce néctar, eu irei explodir como um moço inexperiente.

   O corpo de Anne palpitava, ávido e desesperado para que a tomasse, estava tão perto do êxtase que apenas uma dura investida de seu membro a faria alcançar o clímax achava-se a sua mercê mais uma vez.

   Isso a enfureceu, então se ergueu bruscamente e o empurrou fazendo-o cair de barriga para cima. Desejava ser mais que complacente, queria fazer algo mais que cumprir com o plano de Philipa discretamente, desejava ter um amante. Brodick caiu sobre o feno levantando uma fina nuvem de pó, cheirava a primavera e se encaixava perfeitamente com seu humor. Anne desceu pelo seu corpo e ergueu atrevidamente o kilt para expor sua ereção. Seu membro estava rígido, inflamado pela mesma necessidade que ardia em suas entranhas, sem duvidar, a jovem tomou na palma de sua mão e o acariciou delicadamente. Estava muito duro, e isso a fez desejar deitar-se de novo para que a penetrasse. Mas não ainda.

   — Adiante, mulher. — A voz de Brodick soou tensa, como se o seu controle estivesse no limite.

   Anne gostou daquela idéia, experimentou a pele suave com a língua e saboreou seu sabor. Era agradável e a enchia com uma sensação de poder sobre seu marido, um suave ofego brotou do peito dele quando lambeu a pequena fenda que aparecia na ponta de seu membro, para saborear avidamente a gota de fluido que se ocultava ali. Então abriu mais a boca e sugou toda a ponta com os lábios, fazendo que os quadris de Brodick se agitassem com violência. Ele voltou a agarrar a trança com a mão e emitiu um áspero som. Seguindo um instinto tão velho como o tempo, Anne deslizou a língua sobre o rígido membro enquanto os pequenos movimentos dos quadris do escocês o colocavam e o tiravam de sua boca. De repente, a jovem percebeu que a respiração de seu marido se tornava entrecortada e que os dedos em seu cabelo retesaram. Pequenas fagulhas de dor cintilaram em seu couro cabeludo incrementando a intensidade do momento, pois seu corpo estava tão cheio de desejo que cada sensação aumentava o fogo que ardia em seu interior.

   — Basta! — Brodick a afastou, fazendo os lábios femininos abandonar seu membro com um pequeno estalo. — Tem um dom excepcional para praticar o que ouve, — soou intensamente satisfeito a respeito. — Suponho que é bom desejar uma esposa hábil, — deu um suspiro. — Ambos nascemos em posições que demandava um casamento de conveniência. No entanto, o certo é que não me importaria se não herdasse as terras de seu pai, — a mão em seu cabelo puxou-a, fazendo-a subir por seu corpo para que voltassem a ficar cara a cara. Em seguida, segurando-a forte contra o peito, a fez rolar até que seus quadris ficaram encaixados entre suas pernas. Anne gemeu quando sentiu sua saia se embolar. Detestou aquele obstáculo e esticou o braço para retirá-la e afastá-la ela mesma.

   — De fato, seria a mesma coisa se fosse tão pobre como uma mendiga, Teria me casado contigo de todas as formas. Afastou ainda mais a saia e a ponta de seu membro tocou na úmida entrada do corpo da jovem.

   — Estará sensível. — Empurrou para frente tentando controlar sua força e seu corpo estremeceu pelo esforço. — Irei devagar... — Mas não soou como se desejasse tomá-la brandamente. Ao contrário. Sua voz era muito mais profunda e áspera que antes.

   Ainda que a dor a fizesse tremer, quando a rija carne de Brodick voltou a penetrá-la, o mal-estar não durou tanto como a noite anterior e se desvaneceu quase imediatamente. Seu clitóris palpitou suplicando atenção.

   — Me faça sua, meu amante.

   As palavras da jovem foram tão descaradas como seus desejos. Brodick aspirou o ar bruscamente antes de retroceder e depois a penetrar com uma dura investida, afundando por completo em seu corpo. Um doce prazer se expandiu pelo ventre da jovem, que arqueou as costas para assegurar-se de que a preenchia por inteiro.

   — Sim, esposa, isso é justamente o que terá.

   O corpo de Brodick estabeleceu um rápido ritmo de duras investidas, afundando profundamente nela e em seguida se retirava durante um único segundo. A pele de suas coxas ardia diante da velocidade e da força dos movimentos do escocês. Perdida naquele mundo de prazer, Anne erguia os quadris sobre o feno para ir ao encontro de cada um de seus movimentos, até que não conseguiu suportar mais. Seus músculos internos se contraíram violentamente ao redor da dura carne que a penetrava e seus braços se agarraram ao poderoso corpo de seu marido ao mesmo tempo em que um grito escapava de seus lábios. De repente, desapareceu qualquer pensamento ou preocupação então flutuou para um mundo onde só existia o prazer e a sólida presença de Brodick, que rugiu em seu ouvido um momento antes de começar a ejacular. Seu membro vibrou enquanto vertia sua semente na entrada de seu útero e Anne o abraçou com força até que ele parou de tremer.

   Repentinamente, a jovem ficou muito consciente de suas respirações, soavam com força no silêncio da noite. Sua pele estava coberta por uma fina camada de suor e sentiu o frio ar noturno sobre suas pernas nuas. Mas seu marido lhe dava calor e sustentava o peso de seu corpo sobre os cotovelos enquanto tentava fazer chegar ar aos seus pulmões. Anne ergueu uma mão e a colocou sobre seu amplo peito para captar com as pontas dos dedos o duro martelar de seu coração.

   — A machuquei? — Beijou-a com ternura na fronte, na bochecha e a seguir nos lábios antes de levantar para olhá-la nos olhos. — Diga a machuquei?

   — Só quando me olha com desconfiança.

   O frágil vínculo de confiança que se estabeleceu entre eles estava crescendo com rapidez, ao ponto da jovem se atrever a lhe confessar seus sentimentos.

   — Estava tão ocupado tentando reprimir o impulso de tomá-la, que pouco me importava o jantar explicou Brodick com um suspiro. Só tentava não carregá-la sobre meu ombro como um selvagem.

   — Seu irmão...

   — Estava me provocando e respondi duramente. Isso é tudo.

   Anne sentiu o lábio inferior tremer, desejava acreditar, seu coração precisava acreditar que ele confiava nela. Todas as ternas emoções que tinham nascido no mais profundo de seu ser exigiam que aceitasse sua palavra.

   — Não tem irmãos, portanto não pode entender — continuou Brodick. — Nós gostamos de brincar uns com os outros. É só um modo de mostrar afeto, juro, — afastou-se, fechou-lhe as pernas com delicadeza e puxou sua saia para cobri-la.

   Uma pontada de dor atravessou o coração de Anne ao pensar em como eram certas as palavras de seu marido, gostava de provocar Bonnie, e seus irmãos sempre estavam brincando entre eles. De fato, só sua mãe conseguia sossegá-los.

   Brodick sorveu uma profunda inspiração ao ver que ela continuava em silêncio.

   — Desconfio ter que me tornar paciente e esperar que confie no que digo.

   Anne pôde perceber o pouco que ele gostava de ter que esperar até isso acontecer.

   — Vamos, mulher. Será melhor que se meta na cama quente antes que apanhe um resfriado. — Ajudou-a a ficar em pé e o feno caiu deslizando por seus corpos.

   Uma suave risada escapou dos lábios da jovem, surpreendendo-a. Não havia emitido esse som despreocupado há anos. Brodick lhe retirou o feno do cabelo e passou as mãos pela saia tentando arrumá-la.

   Depois a pegou pela mão deixando-a de novo sem palavras, Anne não pôde evitar contemplar as mãos unidas. Estranhamente emocionada por aquele pequeno gesto.

   — Helen me esfolará se ficar doente por ter estado comigo no estábulo.

   — Realmente acredita que as mulheres são tão frágeis, ou me trata assim porque sou inglesa?

   Ele se voltou para olhá-la. — Provavelmente esteja sendo um pouco super protetor, sei que está sã e forte, e conheço muitas moças que se teriam negado a dormir no caminho. — Soava satisfeito com ela, por isso o coração de Anne se agarrou na aquela idéia com desespero.

   — Mas temos uma boa cama nos esperando esta noite continuou Brodick. Por mais que tenha desfrutado do nosso encontro no feno, acredito que devemos deixar as baias para os cavalos e as criadas.

   Anne riu diante do seu comentário provocador.

   — É um pobre exemplo para seus servos falando assim.

   — Que exemplo? Acaso não me casei? Acaso não a segui para fora do salão duas vezes para cumprir com meu dever como marido?

   — Brodick. — Anne lançou um olhar para a muralha, — seus homens podem nos ouvir. — O escocês se inclinou sobre ela até que a jovem pôde sentir seu quente sopro na orelha.

   — Espero que a escutem gritando de prazer.

   — OH... — Deu-lhe uma palmada no centro de seu largo peito, mas ele se limitou a rir e a puxou fazendo que o seguisse.

   — É tarde, esposa. Vamos para cama. — Ergueu a voz de forma que ressoasse entre as muralhas.

   O rosto de Anne ardeu em chamas ao escutar as gargalhadas dos guardas. Entretanto, também se sentiu cheia de orgulho, porque não podia negar que a lisonjeava saber que ele desejava que todo mundo soubesse que gostava de tê-la em sua cama. Muitas esposas nobres não eram tão desejadas. E se isso significava que era culpa do pecado da vaidade, que assim fosse.

   Brodick a guiou através do pátio, seguido pelos olhares dos homens que vigiavam as muralhas. Segurou-lhe a mão com força, até mesmo quando ela retorceu os dedos para liberar-se. À noite os envolvia. Até a luz proveniente da torre era escassa, já que havia poucas velas acesas ao longo dos muros internos. Tudo parecia estar calmo e não havia ninguém à vista. Brodick a levou escada acima e Anne notou que suas botas mal faziam ruído sobre os degraus de pedra. Apesar de ser um homem tão grande, movia-se com uma agilidade que dizia muito a respeito dele. Era evidente que seu pai se preocupou com sua formação, pois nenhum homem aprendia a dirigir um clã sem contar com um bom exemplo. Os homens iniciavam sua tutela aos cinco anos, ao mesmo tempo em que as filhas começavam a receber educação. Lady Mary tinha sido instruída em baile, etiqueta e serviço real durante anos antes de ser levada a corte.

   Brodick a fez entrar no quarto que tinham compartilhado na noite anterior e a jovem pôde comprovar que haviam feito mudanças nele durante o dia. Três vistosas tapeçarias cobriam as paredes perto da lareira e também havia um jogo de castiçais sobre uma penteadeira. Eram de prata, estavam gravados com engenhosos desenhos e sustentavam velas acesas que enchiam a alcova com uma cálida luz.

   Sobre a mesa havia um espelho. Anne ficou boquiaberta ao ver o custoso objeto. Não conseguia lembrar a última vez que se olhara no de Philipa. Um espelho assim valia mais que a égua que a levara até o Sterling. Era um luxo inaudito inclusive para a casa de um conde, estendeu a mão e acariciou o cabo de prata que sustentava o brilhante cristal. A chama de uma vela refletiu sobre a brilhante superfície do espelho em uma dança pagã que a cativou. Seu reflexo se uniu a chama e Anne ficou olhando seu rosto, maravilhada, observou que várias mechas soltaram da trança devido ao que acontecera no estábulo. Seus lábios estavam de um vivo tom vermelho, mais carnudo do que ela se lembrava. Sabia que seu cabelo era castanho, mas no espelho resplandeceu com reflexos de cor cobre. Tinha a pele cremosa e incrivelmente suave.

   — Conta com a aprovação da Helen, disso não há dúvida. — Brodick apareceu atrás dela, — e também com a minha, — abraçou-a com força fazendo-a se sentir segura e querida. De fato, não se lembrava de já ter recebido um abraço semelhante de alguém, com exceção de sua mãe.

   Brodick sorriu ao olhar a imagem da jovem no espelho e sua mão iniciou um caminho ascendente até seus seios para traçar com o polegar um pequeno e erótico círculo em seus mamilos. Até reprimida pelo espartilho, Anne estremeceu e sua pele vibrou em aprovação ao sentir o martelar do coração masculino contra as costas.

   — Alegra-me ver que você gosta de seu presente de bodas.

   — Presente? — Ficou sem respiração quando ele colocou a mão dele sobre sua garganta nua, sentia-se completamente vulnerável seu pescoço era muito frágil comparado com a forte mão masculina.

   — Sim. O espelho é meu presente, um bom amigo meu o comprou numa recente viagem a França.

   — É muito... Muito amável de sua parte.

   Brodick se inclinou e Anne o observou no espelho, fascinada, como a beijava no pescoço. Olhar foi incrivelmente excitante, seus lábios se arrastaram na suave superfície de sua garganta e seu corpo se retesou em resposta.

   — Posso pensar em algumas coisas que fazer com ele, — lhe assegurou o escocês. Pegou seu queixo com a mão e o ergueu com um giro de seus dedos, abriu o primeiro botão do vestido da jovem e logo o segundo. Um leve ofego saiu dos lábios de Anne ao ver como ele deslizava as mãos entre as partes abertas de seu vestido para tocar em sua pele nua. — Algo que não havia pensado até agora, creio que valeu a pena pagar todo esse ouro pelo espelho. — O botão seguinte foi aberto e em seguida mais alguns.

   Anne seguiu atentamente todos os movimentos de seu marido, sentindo que a excitação aumentava em seu interior com cada botão que desabotoava. Quando terminou, Brodick usou ambas as mãos para separar os dois lados do vestido. O espelho refletiu seu espartilho e a turgidez de seus seios.

   — Que imagem tão bela.

   Puxou o vestido de seus ombros e o fez descer pelos seus braços. Houve um breve momento no qual ele se afastou para tirar o vestido dos seus braços e Anne estremeceu pela perda do contato, suspirando quando retornou para unir-se a suas costas. Havia algo muito erótico em contemplar o quanto eram diferentes. Os amplos ombros de Brodick apareciam de ambos os lados dos seus. O rosto dele era mais anguloso e seu maxilar mais firme, enquanto que os olhos de Anne eram cercados por pestanas mais longas com as quais estava aprendendo a seduzir.

   — Formamos um casal interessante, adoro a visão de sua suave pele nua.

   — Isto não pode estar certo, — tentou protestar Anne.

   Os firmes dedos masculinos subiram pelo centro de seu espartilho, captando imediatamente a atenção da jovem.

   — Por quê? — A voz de Brodick agora era mais profunda e tinha adquirido esse tom rouco que usava quando estava excitando.

   Insegura, Anne cravou o olhar em seu kilt sem saber se ali ocultava ou não uma ereção. O calor inundou seu rosto e sua pulsação acelerou, os olhos de Brodick resplandeceram ao perceber o revelador movimento em seu pescoço. Com uma entrecortada respiração, a jovem tentou afastar-se dele, mas os braços do escocês a apertaram para mantê-la imóvel, inclinou-se sobre ela e fechou delicadamente os lábios ao redor do lóbulo de sua orelha para seduzi-la.

   — Brodick...

   — Sim, esposa? — Olhou-a nos olhos pelo reflexo do espelho. — O que há de errado em desfrutar de seu presente? Comprei-o para agradá-la. E por acaso nega que está tremendo de prazer?

Os lábios de Anne se abriram e emitiu um pequeno gemido de confusão sem saber o que dizer, ele riu entre dentes junto ao seu ouvido e seu tórax se agitou contra suas costas. A situação não podia ser mais excitante, todas as sensações e imagens se combinavam numa mescla que intoxicava os sentidos da jovem. Brodick segurou com os dedos o laço que mantinha seu espartilho fechado na parte dianteira e o soltou com um rápido puxão. Seguiu puxando as fitas e foi desamarrando pouco a pouco. O espartilho logo ficou solto e a rígida peça caiu aberta agora que não estava presa pela forte fita. Brodick o atirou ao chão despreocupadamente e Anne sentiu de repente os seios mais pesados, intumescidos.

   — Não há nada que não seja permitido entre um homem e uma mulher que estão casados, — assegurou-lhe.

   A camisa era fina, feita de delicado algodão, e a sombra do bico de seus seios se insinuava através dela. Ao notar disso, a jovem deixou escapar outro ofego e, dessa vez, Brodick se juntou ao som com uma rápida inspiração. Os dedos masculinos apenam roçaram seus mamilos, fazendo com que os pêlos dos braços se arrepiassem visivelmente. Por baixo do tecido, os mamilos endureceram e as duras pontas ficaram visíveis no espelho.

   — Nem sequer imagina o que sinto ao ver seus seios refletidos no espelho. Deus, seus mamilos são tão belos…

   Eram? Ela não sabia. Dirigiu o olhar ao rosto de seu marido e observou a intensa avidez que alterava suas feições. O cós da saia se abriu de repente, sobressaltando-a.

   — Poderia me acostumar a lhe servir de criada, — sussurrou Brodick.

   — Espera. — A saia caiu ao redor de seus tornozelos antes que pudesse protestar. O pequeno cilindro da armação que rodeava seus quadris tampouco durou muito tempo. — Nós já... Né...

   — Fizemos o amor? Recordo muito bem. Sua voz estava impregnada de diversão.

   — Por que está brincando comigo?

   O brilho da chama de uma vela iluminou as curvas de seu corpo cobertas pela camisa, fazendo que parecesse uma oferenda pagã. Ao observar isso, Anne sentiu um brilho de prazer em seu interior que foi se estendendo rapidamente por todo seu ser. Entretanto, não era como o brilho incandescente de desejo que a tinha assaltado nas baias, essa vez estava centrado em seu útero.

   — Quem disse que um homem e uma mulher só poderiam fazer amor uma vez cada noite? — Colocou as mãos sobre seus quadris fazendo que a camisa grudasse em seus seios e ressaltasse seus duros mamilos. Antes a tomei muito rapidamente. Agora quero seduzi-la com suavidade, abaixou as mãos até alcançar a pele nua de suas coxas e logo as deslizou para cima trazendo a camisa com ele e provocando na jovem uma onda de sensações. A fina peça deixou exposto o suave pêlo que cobria a união entre suas coxas, seu ventre... E de repente, ficou difícil para Anne respirar, suas mãos agarraram freneticamente o kilt de Brodick, enquanto ele passava as pontas dos dedos pelas laterais de seus seios. Anne perdeu de vista o espelho durante o segundo que Brodick levou para retirar a camisa dela, puxando-a por cima da cabeça. Quando voltou a olhar sua imagem no espelho, suas pálpebras se agitaram e um suave ofego escapou de seus lábios. A chama iluminava levemente seu corpo nu, expondo-a por completo ao olhar de seu marido. Seus seios eram perfeitos, arredondados, e não muito grandes, e seus mamilos se transformaram em duros picos rosados.

   — É um sonho, mulher. Como as sereias da qual falam os mitos gregos. Iria segui-la sem duvida, embora me conduzisse à perdição.

   — Não deveria dizer isso.

   Ao ouvir as palavras de sua esposa, Brodick parou de tocá-la. O escuro cabo de sua espada ainda era visível por cima de seu ombro direito. Ergueu a mão e pegou a ampla cinta de couro que prendia a bainha de sua espada a suas costas e que brilhava a luz das velas. Soltou-a com um rápido movimento e deixou a espada apoiada na parede ao lado da penteadeira. Depois se colocou atrás da jovem, de forma que seu kilt roçou a parte posterior de suas alvas coxas.

   — E você, minha doce esposa, não deveria ser tão rápida impondo limites na nossa união, por que não deixa para trás essas idéias antiquadas que tem a respeito do matrimônio e aceita que podemos dizer e fazer o que quisermos?

   Sua forte mão posou sobre a fivela do cinturão e Anne seguiu seus movimentos através do espelho contendo o fôlego.

   — Se excita a você e também a mim, o que tem de mal que desfrutemos de nosso espelho?

   — Não sei. — E tinha que confessar que tinha chegado a um ponto em que tanto fazia. Suas mãos fecharam, quando ele segurou a ponta do cinturão de pele e deu um puxão para desabotoá-lo.

   Anne cravou o olhar em seu kilt, ansiosa para saber se seu membro estava rijo. Poderia a idéia de deitar-se com ela excitá-lo uma segunda vez essa noite? Só a idéia fez um inquietante calor percorrer as úmidas dobras de sua feminilidade e despertar seus clitóris. Brodick soltou o cinturão e ele caiu no chão. Anne sentiu como resvalava o tecido do kilt por suas pernas nuas. Entretanto, a camisa dele impediu-a de ver o que realmente lhe interessava.

   Uma suave risada entre dentes sacudiu os ombros de Brodick.

   — Não faça essa cara de decepção, mulher. A paciência é uma virtude.

   Anne falou amuada. — Suas brincadeiras estão fora de lugar.

   — Você crê?

   Anne mordeu os lábios e encolheu os ombros, poderia ser tão fria como uma manhã de inverno. Poderia se mostrar indiferente e absolutamente desinteressada em ver o que escondia seu kilt, estendeu um braço para trás e colocou a mão sobre seu membro coberto pela camisa. O tecido se adaptou a sua ereção e os dedos de Anne a acariciaram apenas alguns segundos. Imediatamente, Brodick apertou o maxilar e entrecerrou os olhos.

   O espelho mostrou claramente sua reação para Anne.

   — Pense nisso, Milorde. Eu poderia me deitar em seu leito, fechar com força os olhos e me manter tão rígida como uma esfinge. — Anne se virou de repente sem afastar a mão, o olhar tinha perdido seu ar sedutor. Mas o desejo ameaçava explodir em seu ventre, desejava tocá-lo e que ele a tocasse. Queria também mostrar-se audaciosa, como se necessitasse sentir-se tão confiante na intimidade como ele se sentia, desejava provocá-lo com a mesma facilidade que ele a provocava e não estremecer como uma virgem.

   — Sim, poderia fazê-lo. De fato, até que a fiz minha não mostrou nenhum interesse em mim, havia um traço de frustração em seu tom.

— Sério? — Anne voltou a acariciar seu rígido membro e encolheu os ombros. — Acredita nisso?

   Ele grunhiu. — Tenho boa memória.

   Anne deixou cair o braço ao lado, saiu do círculo que tinham formado suas roupas em seus pés e se dirigiu ao leito. Sentiu os olhos dele por todo tempo sobre seu traseiro nu e seu clitóris suplicou uma carícia de seus dedos. Os cortinados laterais da cama estavam abertos e a colcha resplandecia com o vermelho das brasas na chaminé.

   Sabendo-se poderosa, Anne apoiou um joelho no colchão ao mesmo tempo em que lançava um olhar por cima do ombro.

   — Tome cuidado com suas palavras, marido, pois poderia resolver arrepender-me do meu luxurioso comportamento.

   Os lençóis rangeram quando a jovem subiu engatinhando na cama.

   — Então teria que excitá-la... De novo — replicou Brodick, que a seguira de perto. Parou junto de um banco, apoiou um pé sobre ele e tirou uma bota. A ponta de sua ereção sobressaía sob a branca barra da camisa a cada movimento que fazia, e não conseguiu evitar que uma expressão de presunção pairasse em seu rosto ao ficar ciente de que ela o observava com atenção.

   Anne não abaixou os olhos. Ao contrário, olhou-o diretamente, negando-se a considerar se era correto ou não olhar seu grosso membro. Gostara extremamente de observar tudo através do espelho e ela não era uma mentirosa.

   A segunda bota golpeou o chão.

   — Deite-se! — Ordenou-lhe Brodick.

   — Totalmente?

   — Sim.

   Anne obedeceu enquanto ele tirava a camisa e a deixava cair no chão. Todo sinal de brincadeira tinha desaparecido do rosto masculino. Ao ver Brodick totalmente nu, Anne perdeu grande parte de sua ousadia. Era esplêndido, seu corpo era formado por possantes músculos e parecia estar rodeado por uma aura de poder. Tinha a beleza e a energia de um animal, era impressionante. Anne tremeu, porque toda essa força logo estaria sobre ela abrindo caminho em seu interior. A idéia era tão embriagadora como tinha sido o reflexo no espelho.

   — Agora abra as pernas. — Em vez de seguir suas instruções, a jovem fechou as coxas firmemente e se ergueu.

   — Faça, — Brodick entrecerrou os olhos, espectador, e a autoridade impregnou suas seguintes palavras, — Abra as pernas. Quero ver se já está excitada.

   Assim era... As sedosas dobras que guardavam o segredo do prazer de seu corpo já estavam completamente úmidas. Temerosa de repente, Anne dirigiu a atenção a seu membro, grosso e palpitante.

   — A menos que seja muito tímida.

   Ao ouvir aquilo, a jovem obrigou a seus vacilantes joelhos abrirem-se.

   Brodick não riu, nem zombou dela, pelo leve nervosismo com o qual o obedeceu, abrindo as pernas para que sua tenra carne ficasse exposta diante dele.

   — Mais. Muito mais exigiu.

   Uma onda de excitação a atravessou. Finalmente, as dobras que protegiam a entrada a seu corpo se separaram, deixando-a completamente a sua mercê.

   Agora recoste e espera até que eu diga. Sua voz era áspera e encaixava com perfeição com seu enorme corpo. Tudo nele se sentia e se via intenso.

   E ela era suave. Seu corpo tinha sido criado para ser o oposto ao dele. As roupas da cama rangeram de novo quando Anne se recostou. Ao fechar os olhos, foi incapaz de reprimir um suave gemido. Cada milímetro de seu corpo, de repente, tornou-se mais sensível. Podia escutar seu próprio coração pulsando mais rápido e como se acelerava seu fluxo sangüíneo, a pele arrepiou e seus mamilos se armaram ainda mais. Através das pálpebras, só detectava o brilho das oscilantes chama das velas.

   Um momento depois até isso desapareceu, seu coração acelerou e as delicadas dobras de sua feminilidade se incendiaram pela afluência de sangue. Privada do sentido da vista, o tempo avançou lentamente enquanto esperava qualquer som que lhe indicasse onde estava Brodick. A cama não mexia e seus ouvidos não conseguiam captar nada.

   A espera se transformou em tortura.

   O clitóris palpitava exigente e todo seu ser clamava por ser possuído. Uma repentina carícia na abertura exposta de seu corpo lhe arrancou um grito e a fez se levantar.

   Uma densa mão a obrigou a recostar-se. — Interessante, não é? A maneira de como a carne intensifica sua sensibilidade quando não podemos ver.

   — Sim. — Custou um grande esforço para Anne articular aquela única palavra. Respirava com dificuldade e tinha que concentrar a maior parte de sua atenção em manter os olhos fechados. Estava perdendo rapidamente a capacidade de vencer seus impulsos. As leves carícias que ele fazia se comunicavam rapidamente de sua pele ao seu cérebro, estava completamente atordoada. Já não podia compreender o que desejava, uma parte dela queria abrir os olhos para recuperar o controle. Tremeu violentamente e um gemido similar ao pranto escapou de seus lábios.

   — Já é suficiente — resmungou Brodick subindo na cama e atraindo a jovem para si. Uns duros braços a estreitaram com força e sua pele acariciou a sua, foi um doce bálsamo para sua trêmula carne.

   Anne estendeu as mãos e se segurou em seus antebraços quando ele se colocou entre suas pernas.

   — Basta de jogos por esta noite. Só desejo estar dentro de você até que durma.

   A jovem levantou as pernas para rodear seus quadris e Brodick emoldurou seu rosto com as mãos. Inclinou a cabeça e lambeu seus lábios secos antes de beijá-la com avidez. Sua ereção roçou na escorregadia entrada de seu corpo e finalmente deslizou com facilidade para seu interior.

   Dessa vez o corpo de Anne não protestou e Brodick a penetrou profundamente enquanto invadia sua boca com a língua.

Começou a investir com delicadeza e suavidade, e o cheiro da excitação dele envolveu-a embriagando-a. Com cada penetração, seu peito se unia aos seus seios numa deliciosa tortura.

   O prazer se estendeu pelo corpo de Anne como um suave redemoinho, fazendo seus músculos internos se contraírem ao redor da dura carne de Brodick. Sentia toda a longitude de seu membro deslizando contra seu clitóris cada vez que retrocedia, para logo afundar-se nela de novo. Anne interrompeu o beijo, ofegando em busca de ar. Seu corpo se contorcia e se esticava mais e mais com cada penetração. Estava à beira do êxtase e não acreditava poder refrear-se por muito mais tempo. Ouviu um gemido que a seguir reconheceu como seu próprio e de repente se sentiu invadida por um prazer alucinante.

   — Sim, mulher. Isso.

   A velocidade de suas investidas aumentou e Anne sentiu que ele a abraçava com mais força enquanto sua respiração se entrecortava

   — Olhe-me.

   A jovem ouviu sua ordem, mas sentia as pálpebras muito pesadas para movê-las.

   — Abra os olhos. — Brodick pronunciou as palavras com dureza e as pestanas de Anne se agitaram para obedecer.

   Quando abriu os olhos enfrentou um olhar ávido, cheio de determinação e quase primitivo, enquanto seu membro continuava martelando em seu interior.

   — Não me deixe nunca — grunhiu Brodick. — Se o fizer, irei atrás de você. Tem minha palavra de que o farei.

   Cerrou os dentes e começou a ejacular violentamente no mais profundo do corpo de Anne. Um áspero grunhido passou por entre seus lábios enquanto se colava nela para esvaziar toda sua semente em seu interior. Finalmente, seus largos ombros tremeram e inalou largas baforadas de ar.

   —É minha — afirmou um instante antes de rolar para um lado e cair de barriga para cima. Estreitou-a contra seu peito e suas palavras ecoaram na cabeça de Anne, atraentes e aterradoras ao mesmo tempo.

   Brodick acariciou com ternura suas costas e a jovem sentiu de repente que seu marido tremia levemente. Foi um estremecimento muito fraco para senti-lo, só um mero sussurro de vulnerabilidade em seu duro corpo.

   Mas, mesmo assim, sentiu-o.

   Anne apoiou uma mão em seu peito e enrolou os dedos no encrespado pêlo. Em algum lugar no interior da severa aparência de Brodick começava a nascer o mesmo sentimento que a angustiava.

   Não foi um expresso com palavras, mas lhe deu paz. Assim se deixou levar pelo sono com um suspiro, de volta aquele lugar no qual dormira na noite anterior, onde seu amante a embalava contra seu corpo quente e os batimentos de seu coração ressoavam em seu ouvido.

   Era o céu na terra.

   Os sinos das muralhas fizeram pedacinhos de sua alegria.

   Soaram suaves no princípio, só invadindo seu sonho como uma lembrança. Mas logo começaram a soar mais sinos, aumentando o volume. O peito onde apoiava a cabeça se agitou e se levantou.

   O quarto estava muito mais escuro agora que as velas se consumiram. Entretanto, o repique dos sinos se ouvia com força.

   — O que é isso? — Perguntou transtornada.

   — Problemas.

   Anne percebeu um suave estertor em sua voz. Brodick se levantou da cama e agarrou a primeira bota. Suas mãos a amarraram rapidamente, e começou a prender a segunda.

   O estrondo dos sinos eliminou qualquer sombra de sono na jovem. Fosse o que fosse o que aconteceria no castelo, ela faria parte do mesmo destino, porque, aos olhos dos inimigos de Brodick, ela era sua esposa e um provável fim para vingança.

   Arrastou-se engatinhando por cima da pesada colcha e ficou em pé para localizar a roupa dos dois de baixo daquela tênue luz. A camisa de Brodick parecia um suave novelo no chão. Anne a recolheu sacudiu-a e a virou ao ver que estava do avesso. Em seguida, virou-se e a estendeu, sentindo que seu coração começava a pulsar mais rápido.

   Brodick pareceu surpreso. Já estava prendendo o kilt, aos pés da cama, com o enorme cinturão em seu lugar. Anne se esticou e colocou-lhe a camisa pela cabeça. Não se preocupou com sua própria nudez, já que sua prioridade era que seu marido chegasse o quanto antes às muralhas. Brodick levantou os braços e os colocou pelas mangas.

   Quando acabou, os dedos de Anne já estavam fechando o botão do pescoço.

   — Obrigado, mulher. — Soou surpreso, embora satisfeito.

   Uma suave onda de emoções a percorreu ao ver como ele a observava enquanto o ajudava a vestir-se.

   Os sinos continuaram soando, infundindo urgência aos movimentos da jovem. Não havia tempo para pensar na intimidade do momento. Brodick se inclinou sobre o Kilt para prender o cinturão, e quando se ergueu Anne lhe entregou a espada. O peso da arma fez suas mãos tremerem. Muitas mulheres cumpriam com seu último dever para seus maridos lhes estendendo sua espada. Poderia estar enviando-o para morte. Não havia modo de saber o motivo de tanta urgência. Mas não havia dúvida, de que o som dos sinos não predizia nada de bom no meio da noite. Mas ela conservou suas preocupações para si. Isso, também, era o dever de uma esposa.

   Brodick agarrou a espada com sua enorme mão.

   — Se arrume e junte-se com as mulheres na parte inferior da fortaleza até que o perigo tenha passado.

   — Assim o farei, milorde. — Anne começou a virar-se para procurar sua própria roupa, mas o forte braço rodeou sua cintura a impediu de mover-se. — Antes, se despeça com um beijo — pediu-lhe Brodick.

   —Sim, milorde.

   Esse era um dever que cumpriria de muito bom grau. Levantou os braços e o abraçou com força enquanto a boca de seu marido reclamava a sua num duro beijo. Não havia tempo para mais, só um instante para roubar um último beijo antes de afastar-se dele.

   — Rápido, — insistiu antes de partir.

   Ao ficar sozinha, Anne sentiu uma inquietante sensação de frio que cravou suas garras em seu coração. Os sinos pararam de repente, num inquietante silêncio. Movendo-se na escuridão, apanhou sua camisa do chão, mas não podia encontrar em nenhuma parte a fita que prendia seu espartilho. Meio vestida, Anne se ajoelhou para procurar no chão com as mãos e a descobriu oculta no estampado de um dos tapetes recém chegados.

   Voltou a ficar de pé e se aproximou da lareira a fim de usar a escassa luz das brasas para colocar a fita entre as casas.

   Era um trabalho lento.

   Muitas mulheres dormiam com o espartilho porque não era uma peça rápida de pôr. Essa noite pareceu passar uma eternidade até que amarrou a fita para prender bem seus seios. Enquanto se esforçava em acabar de vestir-se, sentiu medo de que já tivesse passado muito tempo. Não sabia ainda orientar-se na fortaleza e sua única esperança era seguir os outros habitantes ao lugar onde se reuniam as mulheres à espera de notícias. A Escócia era mais violenta que a Inglaterra. Mesmo assim, até Warwickshire temia ser invadida. Todos os castelos próximos ao litoral mantinham suas muralhas protegidas, desde que os espanhóis enviaram a “Armada Invencível” com a intenção de que a Inglaterra retornasse para fé católica.

   Brodick deixara a porta aberta. Não se ouvia nenhum som nas escadas e também não escutava nenhum ruído que viesse do andar de baixo. Anne vacilou. Vagar sozinha pelos escuros corredores seria mais perigoso que ficar em seu quarto.

   Entretanto, certamente ficaria louca antes do amanhecer se ficasse escondida em seus aposentos. As portas duplas que davam para o pátio estavam abertas e as luzes dos lumes das muralhas iluminavam fracamente a saída. Qualquer luz serviria de ajuda para orientar-se. Seu quarto e o corredor que conduzia para torre seguinte não eram mais que negras cavernas, assim Anne se aproximou das portas abertas e apareceu ao pátio. Estava cheio de homens e cavalos. Alguns jovens ziguezagueavam entre a multidão com os braços carregados com armaduras.

   O vapor emanava das bocas dos cavalos e dos homens.

   Todos os soldados usavam suas espadas presas nas costas seguindo a tradição escocesa. Na Inglaterra, os homens de seu pai as levariam presas nos quadris.

   Ouviu-se o som do couro esticando e dos cavalos sendo selados. Os homens nas muralhas sustentavam arcos com flechas prontas para serem disparadas. Brodick já estava sobre seu corcel e usava um grosso peitilho preso ao redor de seu corpo. Anne encostou-se ao muro para que as sombras a escondesse. A necessidade de defender o lar era a dura realidade daqueles tempos incertos. Brodick precisava se concentrar e não distrair-se pensando nela.

   — Montem!

   A voz de seu marido retumbou no pátio e fez os homens obedecerem. O fogo das tochas nas muralhas dançava sobre eles. Quando abriram os enormes portões que davam para o exterior do castelo, com um grave rangido de correntes, homens e cavalos atravessaram as muralhas numa velocidade que a deixou maravilhada.

   Todos usavam kilts com o mesmo estampado xadrez e Brodick ia à frente.

   O bater dos cascos fez o chão sob seus pés tremer. Ao olhar através dos portões, Anne viu fogos de alerta no vale mais à frente do castelo. Quando o fluxo de homens se dirigiu para aquele brilhante ponto de luz, tudo ficou em silêncio.

   Era um tipo de silêncio inquietante. Os ainda jovens para pegar numa espada começaram a recolher qualquer coisa que tivesse ficado no pátio. Só os arqueiros permaneceram nas muralhas olhando fixamente o exterior. Um grave som similar a um rangido a fez estremecer, quando os portões começaram a mover-se com a ajuda das enormes rodas que usavam para fazer girar as correntes. Fecharam-no, em seguida os homens passaram pesadas trancas, através das amplas tranca de ferro para reforçá-los.

   Não havia nada que fazer, além de esperar. E rezar.

   Ao amanhecer, retornaram a metade dos homens.

   Anne correu junto com o resto dos habitantes do castelo, para examinar os rostos dos recém chegados, mas Brodick não estava entre eles.

   — Ajudem os feridos.

   Houve muita confusão, enquanto ajudavam vários homens descerem do cavalo. O sol da manhã iluminava o sangue sobre eles, apesar disso eles mantinham o bom humor. A maior parte das mulheres se sentiu aliviada; entretanto, Anne não respirou tranqüila. Sem Brodick se sentia sozinha. Estava ciente de que se mostrava egoísta ao pensar dessa maneira, e mesmo assim, não conseguia tirar aquele pensamento da mente. Por alguma razão desconhecida, sentia que as pessoas a evitavam e que os olhares que lançavam eram muito mais tristes do que os do dia anterior.

   Não tinha nenhum sentido, mas essa sensação persistiu ao longo da manhã.

   Apesar de tudo, esqueceu de suas preocupações quando os homens ocuparam as mesas para tomar o café da manhã. Era necessário até o último par de mãos para levar a comida, encher suas jarras e garantir que fossem recompensados por terem arriscado suas vidas.

   Ginny parou junto dela quando a refeição estava a ponto de terminar. A jovem a olhou com receio, como se estivesse decidindo se devia falar com ela.

   — A filha da Helen entrou em trabalho de parto ontem à noite — esclareceu finalmente. — Partiu para Perth para ficar com ela, assim não retornará até que os McQuade sejam obrigados a retornar a sua terra.

   — Entendo.

   Ginny não ficou para oferecer mais nenhuma informação e lhe deu as costas bruscamente sem sequer inclinar a cabeça diante dela em sinal de respeito. As outras donzelas fizeram o mesmo, ignorando-a com olhares frios.

   A angústia comprimiu sua garganta, impedindo-a de respirar com normalidade. Depois de uma acolhida tão cálida, era muito duro ser rejeitada dessa maneira; mas, sem o conde por perto, o pessoal não se sentia obrigado a tratá-la com amabilidade. Essa conduta usualmente era considerada normal entre as mulheres que casavam em outros países. O senhor podia ordenar que inclinassem a cabeça, mas nenhum homem tinha o poder de obrigar um servo gostar de uma estrangeira. Bem, suportaria. Não gostava da falsa lealdade. Era melhor reconhecer os verdadeiros sentimentos do serviço doméstico do que viver na ignorância.

   Embora doesse, e muito.

   Anne abandonou o salão sem saber para onde ir. Mais uma vez estava completamente sozinha. O desespero que sentira ao ter que acatar as ordens de Philipa, retornou com muita mais intensidade depois dos ternos momentos que ela viveu nos braços de Brodick.

   Irá providenciar para que esteja grávida e partirá em busca de mais guerras...

   As palavras de Philipa fizeram em pedaços a frágil felicidade que desfrutara em Sterling. Passou direto pelos degraus que levavam ao seu quarto, pois seu leito era agora um lugar escuro ao qual não desejava retornar. Helen camuflara o verdadeiro caráter das pessoas do castelo impondo sua autoridade e sem ela estava perdida.

   De qualquer forma, era melhor saber a verdade. Erguendo a cabeça, afastou-se da torre onde ficava seu quarto, para explorar o próximo corredor. Por cima dela, encontrava-se a muralha onde os arqueiros estavam a postos. As janelas estavam abertas deixando que a brisa da manhã circulasse no interior.

   Uma suave voz feminina entoando uma doce canção acariciou de repente seus ouvidos. Seguiu o agradável som e descobriu uma porta que levava a um grande cômodo onde uma jovem estava sentada ante uma roca. Um de seus pés golpeava o pedal incansavelmente enquanto seus dedos lutavam com a lã crua.

   Segundos depois, a moça parou o movimento do pé, estendeu um braço para apanhar um pouco de lã do monte que tinha ao lado, e a misturou com a que tinha no colo. Um fuso enrolava o novo fio na parte superior da roca.

   — Quem está aí? — Perguntou de repente. Não olhou Anne. De fato, seus olhos estavam estranhamente desfocados. — Seria bom um pouco de ajuda se tiver um pouco de tempo para compartilhar.

   Era evidente que a jovem estava cega, mas suas mãos eram hábeis e muito experimentadas na arte de tecer.

   — Como posso ajudá-la? — Inquiriu Anne.

   Ao ouvir aquilo, a moça ficou paralisada e o sorriso desapareceu de seu rosto. Anne sentiu como se os seus ombros voltassem a carregar a pesada carga de ser repelida, mas a fiandeira sorriu de novo e retornou ao alegre estado em que a tinha visto antes de escutar seu inconfundível acento inglês.

   — Bom dia, milady. Eu sou Enys.

   — Bom dia. Como posso ajudar?

   Enys fez uma pausa para pegar mais lã.

   — Quando pedi isso, não sabia que era você, milady.

   Sua voz ainda era amável, carente da frieza que tinha adotado Ginny, e notar isso esquentou de algum jeito o coração de Anne.

   — Ficaria encantada em ajudar. Quer que carde para você? — Perguntou entrando no quarto.

   Os cardares de madeira estavam junto ao outro tamborete com um monte de lã lavada sem tratar. Cada carda tinha finas puas de metal que usavam para alisar os fios de lã. Só depois de que a lã tivesse sido escovada várias vezes com as cardas, estaria pronta para fiar.

   — Preciso que troque a bobina e não sei onde Tully colocou as vazias. O quarto é muito grande para procurar com as mãos. — Enys adicionou um sorriso ao seu comentário enquanto seu pé continuava movendo o pedal. A bobina de madeira de trinta centímetros de comprimento na parte dianteira da roca estava quase cheia.

   — Eu adoraria ajudar. Nunca gostei de ficar ociosa.

   Enys assentiu com a cabeça.

   — Agradeço-lhe isso muito. Desde que perdi a vista, sofro quando tenho que pedir ajuda a alguém.

   Anne procurou pelo quarto e encontrou uma gaveta de bobinas vazias.

   — Não nasceu cega?

   — Não, embora creia que tivesse sido melhor assim, já que sei tudo o que estou perdendo. Minhas lembranças são tão claras como costumava ser a luz do dia.

   Enys suspirou e uma expressão melancólica pairou em seu rosto ao escutar que Anne puxava uma das bobinas fazendo que as demais chocassem entre si. Inclinou a cabeça, deteve o pé e deixou que a roca deixasse de girar.

   — Estava no pátio e não prestava atenção aos cavalos. Um deles me deu um coice na cabeça e, conforme me contaram, atravessei o pátio voando como um passarinho. Quando despertei, não enxergava. — Cortou o novo fio com um par de pequenas tesouras que estavam penduradas numa fita presa na sua saia. Em seguida, com um gesto seguro, tirou a bobina encheu e a estendeu para Anne.

   — Seu sentido da audição se aperfeiçoou ao perder a visão. — Comentou Anne.

   Trocaram as bobinas e Enys prendeu o fio na nova. A bobina que Anne sustentava na mão mostrava um bom trabalho. O giro era regular e o fio fino, extremamente difícil até mesmo para alguém que enxergasse com perfeição.

   — Seu trabalho é magnífico — Afirmou Anne.

   Enys sorriu abertamente. — Obrigado. Eu gosto de saber que sirvo para algo. Minha mãe se desesperou quando não recuperei a vista. — Fez uma careta. — E o homem com quem deveria casar tomou como esposa a minha prima em meu lugar.

   — É evidente que não conhecia sua habilidade com a roca.

   Os comerciantes pagavam bem por um fio suave e regular. Para tecer boa roupa, primeiro precisava do fio. Em Londres, as jovens que mostravam semelhante destreza eram esposas cobiçadas. De fato, não precisava de nenhum dote, só sua habilidade. Era freqüente que os membros do grêmio dos tecedores casassem suas filhas entre si para manter sua habilidade dentro de um grupo reduzido. A classe média começava a florescer e algumas famílias granjeavam fortunas que igualavam às dos nobres.

   Anne sentou no tamborete e segurou as cardas. Aquele quarto era um refúgio acolhedor, afastado dos gélidos olhares que lhe lançavam no grande salão. Enys inclinou a cabeça uma vez mais quando Anne passou as puas de metal pela lã. Parecia não saber o que fazer diante do fato de que a senhora da casa se unisse a ela em suas tarefas rotineiras.

   — Não se preocupe; o matrimônio chega para todas, – comentou Anne.

   — Fala como se o seu a tivesse pego de surpresa.

   Anne suspirou e trabalhou com a lã movendo brandamente os braços.

   — Assim foi.

   Mas não o lamentava. Era algo que aceitara no mais profundo de seu ser. Era assombroso dar-se conta do muito que tinha mudado apenas numa semana. A moça que saudava a Philipa cada manhã agora era uma estranha para ela. Enys começou a entoar de novo uma doce melodia da primavera e Anne tirou o chapéu a si mesmo seguindo o ritmo com o pé enquanto seus braços dirigiam as cardas.

 

   Nos bosques de Escócia

   —Malditos assaltos. Estou mais que farto deles, — amaldiçoou

   Brodick resmungou entre dentes.

   — Igual sua esposa ficou farta e satisfeita com o modo como a tomou nas baias.

   Brodick se virou e Cullen cessou sua brincadeira ao ver o rosto do seu irmão.

   — OH vá. Por que tem que ser tão suscetível com ela? Certamente estraga a metade de minha diversão. — Golpeou o chão com o pé e pôs as mãos nos quadris com o cenho franzido. — O que vou fazer agora? Pensei que só iria se casar e não perder o coração para uma mulher.

   — Não perdi nada.

   —Sim, perdeu. — Seu irmão acrescentou uma palavra gaélica entre dentes. —Está disposto a me bater por mencionar o que não se importou em gritar na frente da metade da guarnição ontem à noite. Se isso não é estar louco por uma mulher, então não sei o que pode ser.

   Brodick sentiu que sua ira se aplacava. Cullen estava com a razão, já que ele tinha erguido a voz ao sair de estábulo, feliz de confirmar para todo mundo o que estivera fazendo com Anne. A verdadeira razão de seu humor azedo era a frustração. Olhou atrás, para as queimadas estruturas de três casas, e soltou uma maldição.

   Ao escutá-lo, Druce se voltou para observá-lo com o rosto marcado pela preocupação.

   — Resguardam-se nos canhões, não há dúvida.

   — Sim. — O que significava que ele e seus homens perseguiriam os assaltantes durante várias semanas. Não podiam retornar para Sterling, porque haveria mais casas destruídas no dia seguinte se não apanhassem os culpados. O dever do senhor era proteger sua gente.

   Todos os homens que cavalgavam com ele, prestavam seus serviços em troca do amparo que sua família recebia. À medida que a rainha inglesa se aproximava mais do momento de sua morte, os clãs vizinhos ficavam mais arrogantes. Tinha que defender sua terra com punho de ferro.

   Ele era o laird dos McJames.

   Seu dever era manter a salvo seus vassalos e o assumia com honra. Apesar de sua frustração, subiu no cavalo para recomeçar a perseguição com renovada energia. A razão era simples: tinha uma mulher meiga e suave que precisava da força de sua espada. Agora sua esposa também era uma McJames e ele não retornaria ao seu leito até que suas terras não fossem seguras para ela e para o resto de seu clã.

   — Acabemos com esses bastardos!

   Um clamor rompeu o frio vespertino e seus homens voltaram a montar em seus cavalos com um brilho de determinação nos olhos. Mantendo-se erguido sobre sua cela, Brodick os guiou em seu avanço.

 

Sterling

   A primavera chegou com todo seu esplendor. O inverno perdeu seu controle sobre a terra dando passagem a estação do plantio e as pessoas em Sterling se viram, de repente, muito ocupadas. Todas as mãos disponíveis se dedicaram a ajudar. Só Enys trabalhava no quarto, dedicada à fiação agora que o tempo estava bom.

   Os dias se transformaram em semanas sem que o conde retornasse.

   Anne passava parte de seu tempo cardando junto de Enys, agradecida em escapar dos habitantes da fortaleza.

   Helen ainda estava em Perth cuidando de sua filha e Anne não estava satisfeita com a situação.

   Confesse... Sente falta de Brodick. Tinha certeza de que a luxúria a dominava. Seus sonhos estavam cheios de ardentes lembranças das noites que compartilhara com o Brodick. Via seu rosto, ouvia sua voz e inclusive, às vezes, sentia suas mãos sobre seu corpo. Mas seu sonho se despedaçava ao acordar na cama desejando que a tomasse só para descobrir que estava sozinha.

   Sem dúvida, isso tinha que ser pecaminoso.

   As sombras aumentaram indicando que passara outro dia sem que ele retornasse. Anne inspirou profundamente para acalmar seus nervos. Chegara a odiar a noite. Comer no salão se tornou tão incômodo que o evitava, conformando-se com o que podia encontrar quando a maioria dos homens havia acabado de comer. As damas de companhia olhavam ainda mais frias, já que ninguém controlava o comportamento delas. Como sua senhora, ela deveria assumir o comando. Entretanto, faltava-lhe coragem para impor sua vontade porque sabia que realmente era uma impostora. Provavelmente até mesmo percebiam sua culpa. Os nobres eram colocados acima dos outros por desígnio divino e havia um grande desacordo sobre qual era o lugar dos bastardos de sangue azul na hierarquia social.

   Estava ela abaixo do mais humilde dos mendigos ou acima das acompanhantes que dedicavam gélidos olhares?

   Não sabia, assim não fazia nada por impor sua autoridade em Sterling. Alguns dias ela escapulia para trabalhar na sala de fiar e outros ela destinava para arrumar as roupas que trouxera da Inglaterra, já que foram devolvidas ao seu quarto sem nenhuma modificação. O silêncio que sempre parecia a acompanhar se encaixava com perfeição no seu estado de ânimo.

   Ao encontrar-se tão sozinha, sua mente voltava uma e outra vez em Brodick.

   Dizer a si mesma que deveria afastar aqueles pensamentos não evitava que o rosto dele surgisse enquanto costurava. A princípio achou a solidão opressiva, mas depois de duas semanas se tornou algo confortável. Passava longas horas refletindo sobre sua família. Bonnie faria quinze anos nesse verão, por isso teria idade suficiente para esse horrível matrimônio com o qual Philipa a ameaçara. Anne estremeceu, e as náuseas fizeram o seu estômago revirar. Bonnie era como um raio de sol brilhante. Pensar que poderia sofrer um destino tão terrível fazia dava vontade de vomitar.

   Fazia tempo que o fogo apagara na lareira, mas ninguém apareceria para avivá-lo. Anne vestiu a capa para manter-se quente. Nunca tivera um fogo para ela sozinha em Warwickshire. E também como já estava decidido que ela retornaria, ela não deveria acostumar-se com as comodidades que teria que deixar para trás.

   Preocupava-a muito mais o que Brodick faria quando enfim descobrisse que tinha substituído sua meia-irmã e que não era a rica herdeira que esperava. Formou-lhe um nó na garganta e lágrimas ardentes correram por suas faces.

   A fúria cresceu incontrolável em seu interior.

   Deu as costas para cama e pensou que todos e cada um dos momentos de ternura que compartilharam se reduziriam a cinzas quando ele soubesse a verdade. Temia aquele momento; entretanto, não achava um modo de evitá-lo. Philipa tinha perdido o juízo ao elaborar aquele plano, pois não tinha contado com o caráter de Brodick. Ele cuidava do que era dele. Ainda que Anne desse a luz em Warwickshire e Mary fosse para corte após completar o seu «dever de ter um filho», Brodick não se conformaria e a seguiria até a corte, descobrindo assim o maquiavélico plano que Philipa tinha tramado. O que não sabia é o que aconteceria com ela quando estivesse à mercê da condessa.

   As náuseas persistiram, fazendo-a achar a comida repulsiva. Transcorreram mais semanas. Muitos dias passavam sem falar com absolutamente ninguém. Era como se fosse um fantasma que se movia pelo castelo, invisível para seus habitantes.

   A insistência de Philipa de que trabalhasse como faxineira acabou sendo uma bênção, já que os criados a ignorava. Felizmente, Anne se arranjava perfeitamente no trabalho diário. Na realidade, agradecia por poder manter-se ocupada. Ao menos, enquanto lavava seus lençóis e o resto de sua roupa, sua mente se distraía e não pensava na sorte de sua família.

   Estaria sua mãe a salvo?

   Essa pergunta a atormentava. Philipa odiava Ivy, e depois de anos de rancor envenenando, sua fúria contida abaria por explodir. Depois de ter encontrado a coragem para obrigar Anne partir com o Brodick, era plausível que expulsasse sua mãe do castelo. Poderia tê-lo feito assim que Anne desapareceu de sua vista. Era impossível descobrir a verdade e aquilo a atormentava, pois, em Sterling, era até mais difícil comunicar-se com seu pai do que em Warwickshire.

   A armadilha de Philipa se fechava mais sobre ela a cada dia que passava e não podia fazer nada para evitá-lo. O sol esquentava seu rosto enquanto carregava água do rio para lavar suas roupas e, mesmo assim, sentia-se gelada e trêmula. Seu estômago continuava revirado, transformou-se num escuro nó que só aceitava pequenos pedaços de pão. E até mesmo essa mínima refeição às vezes a fazia empalidecer pelas náuseas.

   Pouco a pouco imergiu numa rotina. Levantava-se com o sol e se deitava assim que escurecia. As velas do quarto há muito tempo se consumiram e não encontrou nenhuma boa razão para pedir mais, já que só precisava cuidar de suas próprias necessidades e seria desperdício. Além disso, não queria acostumar-se ao conforto. Quem sabia onde estaria na próxima primavera e em que circunstâncias ela se encontraria.

   Brodick a odiaria quando descobrisse como o tinha enganado. As lágrimas arderam em seus olhos e as enxugou. Chorar era algo estúpido. Entretanto, não pôde parar a onda de amargura que a invadiu.

   Ele era um homem honrado que a tratava com amabilidade e com ternura. Até mesmo com seu o clã comportando-se de um modo tão frio com ela, havia muitas coisas em sua vida, que cobiçar no castelo.

   Se fosse seu lar, assumiria a administração. No entanto, continuou sem fazer nada a respeito porque sabia que não era a verdadeira senhora da casa.

   No melhor dos casos, era a amante do senhor, e até mesmo isso acabaria quando Brodick descobrisse o jogo de Philipa.

   Sem nenhum fogo na lareira de seus aposentos, Anne freqüentemente dormia com a capa, e depois que se enrodilhava sob a colcha, sentia-se bastante quente. Se ao menos seu coração também pudesse perder sua frieza graças a aquele tecido. Mas isso seria esperar muito.

 

   O lar

   Brodick estava indiferente ao fato de Cullen zombar dele. Sentia-se feliz em retornar para casa. Não era o primeiro mês que passava fora de seu lar, e tinha certeza de que não seria o último. Mas essa noite seguia o curso da lua de volta para Sterling, e isso fez seu coração pulsar com força e que sua mente começar a pensar em sua doce esposa.

   Girou a cabeça para Cullen e o surpreendeu observando-o.

   — Nenhum comentário zombador, irmão? — Perguntou. — Não está doente?

   Seu irmão não sorriu. De fato, estava sério e parecia mais maduro, para sua idade.

   — Estou refletindo sobre o fato de que sinto inveja de você.

   Druce refreou seu cavalo para ficar próximo dos irmãos. — Ouvi bem? Realmente ouvi Cullen reconhecer o valor de um bom casamento?

   — Eu sempre valorizei o dote que a mulher contribui ao matrimônio. — Cullen lançou um olhar furioso ao seu primo. — Entretanto, nunca tinha pensado no que significa ter alguém esperando sua volta. Isso é o que invejo. Ria se quiser, mas você tampouco tem alguém rezando por sua volta.

   Druce franziu o cenho.

   — Não tenho, ainda que reconheça que ultimamente estou começando a ver os benefícios de algo assim.

   Teria rezado Anne por ele?

   Só sua mãe fizera algo assim. Brodick sentiu que o rosto ardia um pouco porque certa parte de sua anatomia, estava muito mais interessada em saber se ela sonhara com ele durante a noite, quando a chama quase se apagou e seu lado da cama estava vazio. De sua parte, ele pensara nela todas as noites que dormita no chão, enquanto suas costas sentiam as pedras mais duras do que nunca.

   —Bom — comentou, — ficaria muito agradecido se algum pegasse a filha do laird dos McQuade e se casasse com ela. Desse modo não teríamos mais que persegui-los.

   — Bronwyn McQuade? — Perguntaram Cullen e Druce ao uníssono.

   Ambos franziram o cenho ao pronunciar aquele nome.

   —Já pode esquecer-se disso, irmão. — Cullen sacudiu a cabeça. — Bronwyn é uma bruxa que precisa ter cuidado.

   Druce riu entre dentes.

   — Ouvi que utiliza sua beleza para atrair os homens e que logo zomba deles.

   — Nenhum de nós a conhece. Pode ser que tudo o que contam seja falso — falou Brodick.

   — E eu não tenho planos de descobrir isso, — disse Druce com firmeza. — Quero no meu leito uma mulher doce e terna, não alguém com quem teria que enfrentar uma batalha de proporções épicas cada noite.

   Brodick encolheu os ombros.

   — Muitos ficaram contra o meu matrimônio. — Disseram que os ingleses criavam mulheres frágeis e mimadas. — Entretanto, estou humildemente agradecido de que não tenha sido assim no caso de minha esposa.

   Quando a parte superior da primeira torre do castelo Sterling apareceu diante de sua vista, Brodick esporeou a seu cavalo, e Cullen e Druce o observaram galopar para seu lar.

   — Um homem recém casado não deveria mostrar tanto entusiasmo para reunir-se com sua esposa. — Cullen não soou tão crédulo como desejara. A inveja ainda o atingia com força.

   — Suponho que nós também mostraríamos todo esse entusiasmo se tivéssemos alguém nos esperando — respondeu Druce.

   Cullen arqueou uma sobrancelha em direção ao seu primo.

   — Significa isso que vai pensar melhor sobre Brownyn McQuade?

   — Não. — Druce falou muito alto.

   Cullen esboçou um sorriso zombador.

   — Não? Soa como se estivesse pensando nisso.

   — Você primeiro, moço. — Druce riu baixinho; sua voz era grave e zombadora. — Quero garantir de que ela esteja saciada quando me aproximar muito de suas garras.

   — Bom, o certo é que nem todos os homens têm a coragem que me abençoou.

   Alguns homens riram as costas de Druce e este apontou Cullen com o dedo.

   — Estou impaciente para vê-lo domando-a. Não será o primeiro homem que ela afastara uivando com o rabo entre as pernas.

   Cullen franziu o cenho ao ver que várias cabeças se voltavam para escutar sua conversa. Druce sorriu, desfrutando de seu desconforto.

   — Ao menos que tenha perdido algo de sua coragem, primo.

   As risadas que fizeram coro o comentário de Druce despertaram a ira de Cullen.

   — Já veremos — resmungou.

   — Veremos? Estou impaciente. — Druce esboçou um sorriso sarcástico. — Na verdade estou.

   — Verá. — Sem mais, Cullen avançou seu cavalo. As risadas que escutou a suas costas aumentaram sua determinação.

   Provavelmente merecia por ter começado aquilo, mas o certo era que só a idéia de que existisse uma mulher muito dominadora para que ele pudesse conduzir o enfurecia. Seu irmão tinha razão. Casar com Brownyn poderia lhes trazer grandes benefícios. Para suas doloridas costas também pareceria uma boa idéia. Por outro lado, apesar do seu exterior zombador havia um homem que fora educado com o mesmo senso de dever que Brodick. Seu destino era casar para melhorar a vida dos McJames e Brownyn McQuade era, de fato, uma boa opção para considerar.

   Claro que, primeiro teria que descobrir uma maneira de aproximar-se dela sem que seu pai e irmãos lhe pusessem uma corda no pescoço. Esse era o verdadeiro problema. Não domá-la.

   Não havia uma só moça nos arredores que resistisse ao seu encanto. Inclusive poderia chegar a ser divertido seduzi-la só para comprovar a rapidez com que ela sucumbiria a suas carícias.

   Os sinos não ecoaram anunciando sua volta. Brodick ordenara que acabassem com esse costume, quando o seu pai morreu, pois não se sentia digno de que os sinos anunciassem sua volta ao lar até que tivesse provado seu valor como novo senhor de Sterling. E, certamente, não era algo que pudesse obter nos três curtos anos em que tinha ostentado seu título. Essa noite atravessou os portões a cavalo com orgulho.

   Todas as lembranças dos desconfortos das últimas cinco semanas desapareceram ao observar a paz que reinava no pátio. Havia homens patrulhando nas muralhas, os fogos ardiam e sua gente dormia tranqüila.

   Esse era o dever do laird dos McJames.

   A arma que pendurava em suas costas nunca lhe parecera muito pesada, mas se sentia feliz de voltar para casa. Passou a perna por cima do lombo do cavalo para desmontar e deu uma firme palmada no animal antes de deixar que um jovem da estrebaria segurasse as rédeas. O jovem pareceu assombrado durante um momento e pareceu vacilar, porque normalmente Brodick se encarregava pessoalmente das necessidades de seu próprio corcel.

   — Faça um bom trabalho escovando-o, jovem, e me encarregarei de que seja recompensado.

   Um sorriso surgiu no rosto do escudeiro.

   — Não se preocupe milord, cuidarei dele como uma mãe.

   Os homens começaram a atravessar os portões de entrada com vozes alegres e as luzes começaram a piscar na torre quando as esposas e as famílias dos que retornavam despertaram.

   Brodick ergueu o olhar por volta do quarto em que sua esposa dormia, mas não viu nenhum sinal de luz na janela.

   Isso não o desanimou.

   Só estimulou o desejo de despertá-la.

   Entretanto, enquanto caminhava à escada, chegou até ele o doce perfume de lavanda das velas. Respirou mais profundamente e isso lhe deu uma pista de como cheirava seu corpo. Sem pensar duas vezes, deu a volta e se dirigiu à sala de banho. A ereção que se ocultava sob o kilt teria que esperar até que se livrasse do fedor de cavalo e suor.

   Sua esposa tinha um bonito nariz e ele não desejava ver enrugando-o.

   A cozinha já estava iluminada, e Bythe e seus ajudantes sorriram dando a boas-vindas. Vários guerreiros se reuniram com suas famílias e a felicidade parecia inundar até os mais escuros corredores da fortaleza.

   — Bythe, eu preciso de um banho. Não importa que a água esteja fria.

   — Receio que assim será milorde, porque o fogo está quase apagado. — Retorceu as mãos, olhando nervosa ao seu redor.

   — Não importa, não há razão para inquietar-se. Encha o depósito.

   Uma das damas entrou correndo na sala de banho com uma candeia. Acendeu as velas colocadas nas paredes e, depois de dirigir ao seu senhor uma apressada inclinação de cabeça, retirou-se. A água começou a cair do depósito na banheira. Brodick emitiu um som de satisfação e tirou sua roupa, agradecido de ter voltado ao seu lar. Tinha trinta e quatro anos e se sentia feliz de ceder o desejo de cavalgar durante toda a noite aos homens mais jovens que ainda consideravam uma diversão.

   Ele preferia sua casa.

   Sentou-se na banheira e segurou o sabão. Era comum, fabricada em suas próprias terras sem nenhum perfume feminino. Só desprendia um leve aroma a cera de abelha. Aplicou-o com rápidas e enérgicas passadas enquanto concentrava seus pensamentos no que realmente ansiava.

   Sua cama com sua esposa nela.

   Estava um pouco decepcionado pelo fato de que não tivesse descido para lhe dar a boas-vindas, mas se obrigou a colocar de lado esse pensamento. Seu quarto ficava no andar superior e o mais provável é que estivesse sonhando, alheia a sua volta. Foi então que compreendeu por que seu pai fazia soar os sinos quando voltava para casa.

   Sim, sem dúvida era uma boa tradição.

   De repente, Ginny entrou na sala e banhos, olhando ao chão e deixou um enorme pano sobre um tamborete.

   — Para se secar, milorde.

   — Se minha esposa acordar traga-a aqui — ordenou-lhe.

   Ao ouvir aquilo, a donzela engoliu saliva com força e saiu correndo como se estivesse na presença do diabo. Brodick se surpreendeu pela estranha atitude de Ginny, mas não deu nenhuma importância. A única mulher que precisava entender era sua esposa.

   E essa era uma tarefa que estava impaciente por desempenhar.

   O quarto de sua esposa estava muito frio. Brodick franziu o cenho quando seu cabelo úmido sentiu o frio ao entrar. Não havia nenhuma vela acesa no interior. Suas suspeitas aumentaram ao dar uma olhada na lareira. Nem sequer sentia o cheiro de fumaça, o que indicou que fazia muitos dias que não acendiam o fogo. As cortinas nas janelas também estavam abertas, quando, de noite, deveriam estar fechadas para impedir que o calor do fogo escapasse através do vidro. Com as janelas abertas, a luz da lua e das muralhas penetrava na escura alcova. Só teria esperado uma coisa assim num quarto que estivesse desocupado.

   Um escuro temor espetou de repente seu coração, algo que tinha sentido em raras ocasiões ao longo de sua vida. O terror foi aumentando à medida que avançava para a cama, tentando ver na penumbra. As cortinas estavam quase que totalmente fechadas; só se abriam uns poucos centímetros aos pés da cama. Em seu interior, não havia nada mais que escuridão.

   Teria fugido e retornado para seu pai?

   Puxou uma cortina, estendeu o braço e, ao descobrir um pequeno vulto, deixou escapar o ar que estivera reprimindo. Tremeram-lhe os joelhos então se sentou pesadamente aos pés da cama. Sua esposa se agitou ao sentir o brusco movimento, olhou as cortinas da cama com a confusão refletida no rosto e disse:

   — O que a senhora precisa?

   Suas palavras não tinham sentido para Brodick.

   — Refere-se à rainha? — perguntou. — Quando estive na sua corte inglesa, não lembro que as damas a chamassem de senhora.

   — Milorde?

   Anne ficou olhando confusa a enorme silhueta masculina e começou a tremer. Estendeu a mão para tocá-lo, pois necessitava do consolo de sentir sua tépida pele. Parecia que passara uma eternidade desde a última vez que o tinha visto.

   — Creio que disse para me chamar de Brodick quando estivéssemos em nosso leito. — Sua voz soou suave enquanto se deitava ao seu lado, fazendo as cortinas balançarem como se estivessem num navio em pleno mar.

   Anne suspirou quando seus braços a rodearam, puxando-a contra ele num sólido abraço que a fez estremecer.

   Tinha sonhado tantas vezes com ele voltando a abraçá-la…

   — Brodick. — Acariciou-lhe levemente os ombros, cheia de felicidade.

   — Diga outra vez, — pediu-lhe com um grunhido.

   A jovem percorreu seu pescoço com os dedos e brincou com seu cabelo. Estava úmido e encaracolado.

   — Bem-vindo a sua casa, Brodick.

   Sua boca procurou a dela, beijando-a com firmeza. Anne voltou a deslizar as mãos por seus ombros e abriu os lábios para recebê-lo.

   Entretanto, ele não se apressou. Saboreou-a com suavidade como se estivesse saboreando um fino uísque.

   — O que é o que feito? — Sentiu saudades.

   Anne tentou retê-lo ao seu lado, mas ele a afastou para olhá-la.

   — Usa uma capa na cama? — Passou suas mãos pela grossa pelo seu corpo, tentando descobrir com o que se cobria exatamente.

   — Mantém-me quente quando você não está.

   Ao ouvir aquilo, suas mãos pararam imediatamente de investigar suas roupas. Pegou o rosto dela entre as mãos com deliciosa ternura e a aproximou, até que Anne sentiu seu fôlego em seus úmidos lábios.

   — Ah, mulher, assim envaidece-me com semelhante cumprido. — Desabotoou rapidamente os botões da capa apesar da escuridão, deslizou a roupa por seus ombros e lhe tirou a camisa. — Já não precisa. Prometo que a manterei quente.

   Seu beijo bloqueou algo que Anne tentara responder. Fez com que se deitasse.

   A jovem se agarrou nele, desesperada por suas carícias. A solidão do último mês parecera quase impossível de suportar. Brodick era quente e sólido. Tudo o que ela ansiava.

   Ofegante, abriu os lábios e saiu ao encontro de sua língua.

   Correu as mãos em seu cabelo e jogou para trás as úmidas mechas. Essa simples carícia a inundou de uma doce sensação. Cada inspiração levava ao mais profundo de seus pulmões o aroma de Brodick, confirmando de que já não estava sozinha. Tampouco sentia frio já.

   Seu sangue começou aquecer, fazendo desaparecer a frieza que a envolvera. A pele que permanecera insensível durante tanto tempo, de repente vibrava com um calor tão intenso que parecia causado pela febre. Deslizou os pés pelas panturrilhas de Brodick e suas pernas se entrelaçaram. Um fogo ardeu incontrolável em seu ventre, estendendo-se até ao menor rincão de seu ser.

   — Senti sua falta. — Rouca e ansiosa, a voz de Brodick era puro prazer para os ouvidos de Anne. Pegou em sua mão quente um dos seus seios com firmeza e acariciou o mamilo com o polegar até torná-lo um rígido botão. — E acredito, que também você de mim.

   — Assim é — ela reconheceu com um arfar.

   Brodick se inclinou, tomou o outro mamilo em sua boca e começou a golpear brandamente com a ponta da língua. Um suave gemido escapou dos lábios de Anne, que por um momento ficou paralisada pelo prazer. Ele liberou finalmente o mamilo com um suave estalo e seu fôlego roçou a úmida e sensível pele de seu seio fazendo que se arrepiasse.

   — Fala meu nome, mulher. Desejei ouvi-lo em meus sonhos.

   Anne diria qualquer coisa desde que continuasse com o que estava fazendo.

   — Brodick.

   — Outra vez. — A respiração do escocês se tornou áspera.

   — Bem-vindo a casa, Brodick.

   A mão que pressionava seu seio começou a deslizar para o centro de seu corpo.

   — Deus, não poderia ter imaginado boas-vindas melhor.

   Quando os firmes dedos encontraram os pequenos cachos que cobriam a união entre suas coxas, Anne arqueou as costas e seus músculos se estiraram espectadores.

   — Pergunto-me se já está preparada para mim.

   Um grande dedo abriu caminho entre as acolhedoras dobras e pressionou brandamente seus clitóris. Anne emitiu um leve gemido ao sentir-se atravessada por uma ardente sensação de prazer, fazendo que a entrada a seu corpo, ávida e exigente, reclamasse a atenção de Brodick.

   — Sim, está excitada, mas ainda não tanto como sei que pode estar.

   Sem dúvida zombava dela, mas não se importou, já que o dedo dele continuava torturando seu clitóris com lentos movimentos circulares. O calor pareceu aumentar, obrigando-a a separar ainda mais as pernas.

   Brodick percorreu lentamente com o dedo as carnudas dobras até a entrada de seu corpo, provocando-a com delicadeza durante todo o caminho antes de penetrá-la com uma pequena parte do dedo. Um áspero grito saiu dos lábios de Anne quando seus músculos internos tentaram manter a ponta do dedo em seu interior. O desejo por ser penetrada era quase doloroso.

   — Agora está muito mais quente. Tive que encontrar o ponto exato para fazê-la arder. — Enfiou o dedo profundamente em seu interior e Anne ergueu os quadris para recebê-lo. Seu corpo estava escorregadio e o acolheu com facilidade.

   — Um homem não poderia pedir um bem-vindo mais ardente que este.

   As carícias preliminares a estavam deixando louca. Sentia-o muito longe. Desejava que seu corpo se unisse ao dela e que cada milímetro de sua pele estivesse em contato com a dele.

   — Possua-me — suplicou. Sua própria voz lhe soou estranha e sensual.

   — Sim. — O tom do escocês estava ansioso pela reivindicação.

   Retirou o dedo de seu corpo antes de rolar sobre ela apoiando o peso de seu corpo nos braços, e Anne lhe rodeou os quadris com as pernas, abrindo-se completamente para ele. — Não há nada que deseje mais.

   Começou a penetrá-la com seu grosso membro e a jovem se arqueou para ele, gemendo de prazer e ignorando a pequena dor que provocou aquela invasão. Seus músculos internos protestaram pela larga inatividade, mas mesmo assim, deram passagem a sua dura ereção, então seu clitóris palpitou suplicando atenção.

   — Tão cálida… Tão úmida…

   Ela não se envergonhou com as palavras dele essa noite, e sim intensificaram mais sua paixão, fazendo o seu sangue correr por suas veias com maior velocidade transportando deliciosas sensações. Brodick retrocedeu até deixar tão somente a ponta de seu membro em seu interior e ao investi-la de novo, Anne ergueu o traseiro para ir ao seu encontro.

   Um áspero grito abandonou seus lábios quando toda a longitude de sua rígida carne se esfregou no intumescido clitóris. Seu corpo estremeceu e se cobriu de suor. Sua excitação chegara num ponto sem retorno e sentia que estava a ponto de explodir. Faminta, ávida dele, a jovem procurou desesperadamente a firmeza de seus musculosos braços.

   — Sim, se agarre a mim e lhe darei o que pede.

   Brodick cumpriu sua promessa, começou a marcar um potente ritmo que sacudiu a cama. Os gritos de Anne invadiram o espaço rodeado pelos cortinados. A dura carne que a penetrava espalhava ondas de prazer por todo seu corpo. Brodick soltou uma maldição por entre seus dentes cerrados e investiu mais profundamente ainda, enfiando seu membro rígido completamente nela a cada possante estocada. Um prazer aniquilador explodiu de repente no ventre de Anne deixando-a sem fôlego e provocando em seus músculos internos uma contração rápida ao redor do inflamado membro de seu marido.

   —Isso mulher, mantenha-me em seu interior — grunhiu Brodick estremecendo grosseiramente sobre o corpo feminino enquanto sua semente se derramava com força dentro da jovem.

   O tempo parou por um instante. Anne escutou um batimento do coração, e logo aguardou o seguinte. Quando o ouviu, ela fechou os olhos e seu corpo serenou sobre a cama, estava totalmente exausta. Mesmo assim, seu coração se encheu de satisfação ao sentir que Brodick rolava para um lado e a estreitava entre seus braços para que apoiasse a cabeça em seu peito.

   — Me dá vontade de sair para cavalgar cada dia durante o resto de nossas vidas para poder receber um bem-vindo assim quando retornar. — Acariciou-lhe o cabelo e segurou a trança que ela fizera antes de deitar-se. — Eu não gosto do seu cabelo preso.

   — Sim, milorde. — Anne utilizou seu título com ironia, sentindo que a fadiga fazia desaparecer suas inquietações. Enquanto a escuridão a escondesse do resto do mundo, poderia desfrutar do seu amante.

   Ele a desejava.

   E ela não tinha vontade para rechaçá-lo.

   Não havia nenhum fogo no quarto.

   Brodick se ajoelhou na frente da lareira e estendeu a mão sobre as frias cinzas. Uma profunda ruga de preocupação alterou suas feições. Um tom rosado coloria o horizonte e o amanhecer podia contemplar-se através das cortinas abertas. Não acendiam nenhum fogo naquele quarto há semanas. Estava certo disso. Dirigiu um olhar à cama ao mesmo tempo em que a desconfiança obscurecia seus olhos. Anne ainda dormia encolhida.

   Tinha os pés enrolados entre as mantas para manter-se quente.

   Olhou um candelabro e logo se aproximou do outro, comprovando que as velas se consumiram. Franziu o cenho e percorreu o cômodo com o olhar para descobrir mais tarefas que descuidaram durante sua ausência. A ira cresceu em seu interior sem que tentasse controlá-la. A magra silhueta de sua esposa estendida na cama só alimentou mais ainda sua fúria.

   Sua esposa nunca se veria privada de nada... Não enquanto ele respirasse.

   Anne se agitou, procurando-o na cama, formou um nó na garganta de Brodick ao ver que ela franzia o cenho quando as suas mãos não encontraram nada nos frios lençóis. A jovem entreabriu os olhos e examinou o leito enquanto uma expressão preocupada se apropriava de seu rosto.

   Era a expressão mais bela que Brodick já tinha visto. Sua esposa sentia saudade... Dele. A falta de comodidades no quarto se transformou em algo pessoal quando a observou lutar contra a sonolência para procurá-lo. Fora isso o que sempre desejara, quando buscava uma esposa, mas a realidade era muito mais bela do que imaginara.

   A angústia começou a cravar suas cruéis garras no coração de Anne.

   Brodick partira.

   Tentou reprimir um gemido e se levantou para esquadrinhar o quarto. Finalmente olhou para o outro lado do cômodo e viu Brodick, que estava observando-a. O alívio fez com que voltasse a respirar com normalidade e um sorriso curvou seus lábios.

   — Por que não há velas? — Perguntou Brodick com o cenho franzido.

   Anne afastou o olhar de seus perspicazes olhos, pois não desejava contar o que acontecera em sua ausência. Alimentara a esperança de que ele saísse ao amanhecer para dar a oportunidade aos criados de arrumar o quarto.

   Entretanto, parecia que ninguém no castelo teria sorte essa manhã.

   — Não há nada com que se preocupar— respondeu. Levantou da cama e se vestiu apressadamente, tentando respirar fundo para acalmar seu estômago enjoado. A inquietação fez as náuseas aumentarem e teve dificuldades para reprimir. A única coisa que provavelmente poderia acalmá-la era o pão que deixavam na penteadeira.

   Abriu o pano em que estava enrolado e cortou um pedaço para acalmar seu estômago.

   — Esteve jantando aqui? Só pão duro? — Seu tom a aterrorizou. — Onde está Helen? Ela vai ter que explicar muitas questões.

   Anne ergueu a mão para tocar seu rosto. Tinha as maçãs do rosto mais marcadas.

   — Sim, milady, perdeu uns seis quilos se não me equivoco. — dirigiu-se à porta, abriu-a num puxão e gritou. —Helen! — Sua voz retumbou por toda torre.

   — Não está aqui, — explicou Anne. — Sua filha deu a luz na noite que partiu. Não deve se zangar. A família é muito importante e é normal que queria estar ao lado de sua filha.

   Brodick lhe lançou um olhar duro.

   — Então, onde está Ginny? Há damas de sobra em Sterling. Helen não deveria partir sem atribuir seu dever a outra pessoa. Está servindo aqui há muitos anos para cometer um engano assim.

   — Não necessito dos cuidados de criada — replicou começando a vestir-se.

   — Cuidados? — A ira resplandeceu em seus olhos. — Nem sequer os cavalariços vivem sem calor nem luz neste castelo. Disse a Ginny que a deixasse sem isso? — Não esperou sua resposta e sacudiu a cabeça com desaprovação. — Tanto faz, mesmo que houvesse dito não deveria ter seguido uma ordem tão imprudente. Não faz calor suficiente nesta época do ano para ficar sem fogo no segundo andar. Ginny conhece Sterling melhor que você. Não há nenhuma razão para semelhante descuido. Ontem à noite estava tremendo.

   Brodick saiu pelo corredor antes que Anne percebesse suas intenções.

   Obrigando-se a ir atrás dele, tentou desesperadamente pensar num modo de aplacar sua ira. O fato de que gritasse com seu clã, não faria com que a apreciassem mais. Recusava-se a ser igual à Philipa e a receber um falso respeito enquanto a criticavam na cozinha.

   — Milorde, requer tempo ser aceito. Não deve ficar zangado.

   Ao ouvir aquilo, Brodick parou na área principal da torre e se voltou para olhá-la, horrorizado por suas palavras.

   — O que? Não é apenas uma questão de aceitação. É minha esposa. — Respirou profundamente tentando aplacar seu gênio. — Não é que não valorize a sua opinião, mas isto diz respeito diretamente a sua saúde. Não posso ignorar. Deus... Iria me enfurecer também se chegasse aos meus ouvidos que os jovens da ferraria se vêem obrigados a suportar essas condições. Descobrir minha esposa enroscada sob uma capa em sua própria cama é motivo mais que suficiente para castigar sem piedade ao culpado.

   —Já disse que não sou frágil. E não se esqueça também que sou inglesa. A capa me mantinha aquecida, asseguro-lhe isso. Tem que compreender que existem muitos anos de desconfiança entre nossos povos.

   Brodick ficou rígido como se lutasse para recuperar a compostura e não gritar. Apertou o maxilar e o músculo de sua face começou a palpitar.

   — Não, não posso entender como puderam tratá-la assim. E você, minha doce esposa, não protegerá ninguém que tenha faltado com respeito enquanto eu estava fora protegendo este castelo.

   Brodick segurou sua mão. Essa vez o gesto foi muito diferente do que tinha usado para tirá-la do estábulo. Sentiu sua mão prisioneira na dele. Arrastou-a com ele e seus pés tiveram que apressar-se para manter o ritmo de suas passadas mais largas. Na entrada do grande salão, seu primo Druce ficou observando como se aproximava com o cenho franzido.

   —Milorde, há outros assuntos muito mais importantes... — começou a dizer.

   Brodick se deteve em seco fazendo-o se calar e seus ombros se retesaram.

   — Mantenha minha esposa aqui, Druce. Tenho algumas questões que resolver com meu pessoal.

   — Brodick... — protestou Anne.

   Ignorando-a, empurrou-a brandamente aos braços de seu primo. Seu rosto estava deformado pela ira. Uma ira capaz de destruir tudo a sua passagem e que temia ser dirigida contra ela quando descobrisse sua verdadeira identidade.

   — É muito amável para seu próprio bem, esposa. Não tolerarei semelhante comportamento de nenhum membro desta casa, e tampouco permitirei que use meu nome para me dissuadir quando a razão estiver de meu lado.

   — Às vezes não é bom usar mão dura.

   Brodick lançou um severo olhar ao Druce.

   — Provoca-me assim. Irei me encarregar dela quando tiver acabado com meu pessoal.

   Sem aguardar a resposta, virou-se completamente furioso e chamou Ginny aos gritos.

   Anne deu um passo para ele, mas Druce a impediu de segui-lo.

   Incrédula, virou-se para enfrentar aquele homem, vendo-se obrigada a levantar o queixo para poder olhá-lo.

   — Me solte milorde.

   —Não fique nervosa. Já o escutou. — O enorme escocês lançou um severo olhar, entretanto, não intimidou Anne do mesmo modo que o de Brodick fazia. A única coisa Druce despertou nela foi sua ira.

   — Já disse que me solte.

   — Não. —Druce apertou os lábios numa tensa linha. — Têm que ficar aqui. Por favor, não me obrigue a me sentar sobre você.

   Não quero brigar com meu primo por achar que a tratei mal.

   Anne grunhiu pela primeira vez em sua vida e sentiu que até a última fibra de sua autodisciplina a abandonava ao ouvir um estrépito no interior da cozinha. Voltou-se para o Druce feito uma fúria e falou:

   — Não vou ficar aqui discutindo com você enquanto Brodick decide o que é melhor para mim. Serei eu quem deve julgar o que necessito.

   Era uma afirmação audaz e Druce franziu o cenho, evidenciando que não a considerava muito ajuizada.

   — Esse homem é seu marido.

   — Sim, mas acabamos de nos casar. Ainda não sabe até onde chegam os limites de minha resistência; e nunca saberá se permito que ele açoite todas as damas que não me mimem.

   — Garanto, sou tão forte como qualquer escocês.

   Anne encolheu os ombros com força tentando soltar-se, mas Druce a deteve lhe segurando os braços.

   — Aviso, milorde. Solte-me agora mesmo.

   —Não.

   Os olhos de Anne se entreabriram perigosamente.

   Brodick se controlou, mesmo não sendo fácil.

   Ginny enviou um olhar desafiante e teimoso que não mostrava nenhum indício de arrependimento.

   Todas as damas se agruparam junto dela, deixando claro que apoiavam seu comportamento. Brodick sabia que era algo a se esperar, mas mesmo assim ficou perplexo diante da animosidade que refletiam seus rostos. Simplesmente não podia entender. Sua esposa era uma pessoa honrada e estava certo de que tratara todos com respeito. Dirigiu seu primeiro comentário à cozinheira, que também o olhava diretamente na cara sem reservas.

   — Nunca suspeitei que fosse tão dura de coração. Você mesma tem filhas que logo se casarão.

   Bythe se estremeceu ao escutar aquilo, não porque gritasse, mas sim porque sua voz era muito suave. As damas se movimentaram inquietas, hesitando em sua determinação de permanecer imóveis. Algumas inclusive dirigiram o olhar ao chão.

   —Todas vocês deveriam refletir sobre como deve sentir-se alguém, que se vê obrigado a abandonar a sua família ao casar e que não é bem recebido em seu novo lar. Ela nem sequer trouxe consigo uma acompanhante, mas estou pensando que foi um erro de cálculo da minha parte. Pensei que o clã Sterling fosse digno de se encarregar de sua senhora sem que houvesse necessidade de pôr uma aia inglesa acima de todas vocês.

   Mais de uma cara empalideceu, entretanto, Brodick não sentiu lástima delas.

   — Agora irão contar à razão que há por trás de semelhante falta de respeito. A minha esposa é uma mulher... Difícil?

   Algumas das aias mais jovens olharam Bythe e Ginny em busca de liderança, mas ambas se mantiveram em silêncio.

   —Descobrirei a verdade sobre este assunto, e o farei hoje mesmo. — Percorreu com o olhar a fila de garotas uniformizadas cujos pagamentos saíam de seus cofres e assinalou uma— Mogen, diga o que provocou para que não prestasse nenhum serviço. Acaso o pediu ela mesma?

   — Isto não resolverá nada, milorde, — disse Anne a suas costas, entrando na cozinha com passo firme.

   — Ordenei que a contivesse. — Brodick fulminou com o olhar o seu primo, questionando-se quando sua vida se tornou do avesso.

   Druce franziu o cenho diante do doce sorriso que a esposa de Brodick lhe dedicou. Levantou o dedo e apontou. — Mordeu-me.

   —Maldição! Não resta ninguém neste castelo que lembre que eu sou o senhor aqui?

   — Repreendendo não conseguirá que mudem seus sentimentos, milorde — falou Anne.

   Brodick ficou olhando-a com o cenho franzido.

   — Explique. —Manteve a voz fortemente controlada, mas a jovem percebeu a frustração que havia sob a tranqüila superfície.

   — Se essa fosse à solução, eu mesma poderia tê-lo feito.

   —E por que não o fez? — A expressão do escocês se tornou cautelosa.

   —Não posso ordenar a ninguém que sinta afeição por mim, milorde. — Abriu suas mãos, exasperada e sacudiu a cabeça. — Prefiro ser julgada por meus próprios méritos, para bem ou para mau. E asseguro que sou o bastante forte para sobreviver sem fogo e velas. A primavera esquentou o castelo, e sou capaz de me proteger do frio com minha capa quando cai à noite.

   Brodick a olhou assombrado e um brilho de admiração cintilou em seus olhos. Anne se sentiu cheia de orgulho ao ver aquela expressão em seu rosto e se sentiu fortalecida em sua resolução.

   —Não é necessário se preocupar tanto comigo, — garantiu. —Como já disse, sou forte e sadia.

   Brodick se virou para tornar a concentrar sua atenção em Bythe. — Diga por que não trata a sua senhora como é devido.

   A cozinheira ficou rígida e arregalou os olhos. — Vocês disseram na mesa que ela tentou envenená-los. Muitos o ouviram. Esposa ou não, vocês é meu senhor e minha lealdade está com você.

   — Ficou louca? —Druce soou disposto a arrastar pessoalmente à cozinheira até o manicômio. — Pode ser que seja inglesa, mas não vi nenhuma evidência de que haja maldade nela.

   — Mordeu—o.

   Druce meneou a cabeça antes de rir. O som era grave e agitou as tampas de cobre que tinha penduradas no muro entre os fornos.

   — Isso não foi mais que um ato de coragem de sua parte. Asseguro que meu primo é um homem condenadamente afortunado por estar casado com uma mulher tão apaixonada.

   Havia um toque de carinho na voz de Druce que fez Anne olhá-lo. Ao perceber isso, o grande escocês lhe enviou um olhar de cumplicidade que fez Brodick bufar.

   — Não pode culpar um homem por dar conta de seu valor — disse Druce virando-se para seu primo e encolhendo os ombros. — Além disso, você mesmo a pôs em meus braços.

   — A última coisa que preciso é que me diga quando posso ou não me ofender. No momento, já tive mais que suficiente disso.

   Depois de dizer aquilo, Brodick voltou a dirigir sua atenção para Anne. Seu queixo estava tenso enquanto lutava contra o impulso de ocupar-se das aias como ele desejava fazê-lo, contra a opinião de sua esposa.

   —Se acalme milorde. Existem algumas coisas que não deveriam ser ordenadas nunca. Prefiro conquistar a lealdade delas com minhas ações. Não importa o que aconteceu nas últimas semanas; apenas quero é estar segura de que suas exibições de respeito para mim são verdadeiras e não ordenadas por você.

   Aquelas palavras por parte de Anne provocaram mais de um arquejo na fila das aias.

   — Mas, milorde... Você disse isso diante de todos e se negou a comer. — Bythe parecia confusa. — Contaram-me isso mais de vinte pessoas.

   — Ela não tentou me envenenar, embora seja provável que pretenda me deixar louco. —Sacudiu a cabeça e arqueou uma escura sobrancelha. — Preparou o jantar na sua frente, então está me dizendo que não sabe o que acontece nesta cozinha? —Assinalou ao aro de chaves preso na cintura da cozinheira. — É tão descuidada com essas chaves que qualquer um pode acessar ao herbário sem sua permissão?

   Aturdida, Bythe levou uma mão trêmula aos lábios.

   Brodick percorreu com o olhar ao resto de damas. —Não lhes ocorreu pensar que haveria muitas testemunhas de um fato semelhante? Ou devo assumir que ervas tão perigosa não estão trancadas a chave?

   O rosto do Bythe se tornou vermelho e cobriu com a mão o aro de chaves que pendurava em sua cintura. O simples fato de ser a cozinheira significava que ela era responsável pelas caras ervas usadas para dar sabor na comida e para ajudar a aliviar as doenças. Ninguém podia acessar aquelas ervas tão difíceis de encontrar sem que ela tivesse que abrir a pequena gaveta onde guardavam. As chaves eram o símbolo de sua posição no castelo e nunca as perdia de vista. Abriu a boca, mas não conseguiu que nenhuma palavra saísse de seus horrorizados lábios. Anne deu as costas a todos, sentindo-se de repente terrivelmente culpada.

   Não era digna de que Brodick a defendesse, já que era parte do complô urdido contra ele. Estava roubando o dote no qual ele investira dois anos de dura negociação com seu pai. Dois anos de trabalho pelos quais não seria recompensado. Estava convencida de que Deus estava agindo através das pessoas do castelo para fazê-la confessar.

   A bílis subiu pela garganta e a obrigou a sair correndo da cozinha antes de vomitar tudo o que tinha no estômago.

   — Milady foi muito amável comigo.

   Brodick se virou para olhar à única pessoa que tinha algo a dizer a favor de sua esposa. Enys estava na soleira, usando as mãos para poder avançar.

   — Explique.

   Enys girou a cabeça para seu senhor, inclinando-a como se realmente pudesse vê-lo.

   —Milady passou muitos dias me ajudando a fiar. Ela faz as coisas que eu não posso fazer e é uma boa cardadora. Uma cardadora que não abandona o trabalho quando as horas são longas.

   De repente, Brodick se sentiu cansado, mais esgotado do que podia se recordar de já ter estado antes. A muralha de aversão entre Escócia e Inglaterra parecia quase impossível de derrubar. Já não sabia o que pensar. Sua esposa ficou sentada na sala de fiar, em lugar de tomar o controle em Sterling. Entretanto, trabalhara de forma incansável. Podia ser que fosse o senhor do castelo e das terras circundantes, mas isso não lhe dava nenhum peso naquela batalha. Estar consciente disso o encheu de ira. Mas se tratava de uma ira diferente a que o tinha levado até a cozinha, disposto a açoitar algumas damas.

   Sentia-se aviltado e furioso pela injustiça que cometeram contra sua esposa. Desejava fervorosamente que não tivesse acontecido aquilo. A esperança de que a animosidade entre os dois países acabasse ao serem governados por um mesmo monarca era o que o levara a negociar um matrimônio vantajoso para as terras fronteiriças. A mulher com quem estava casado merecia muito mais do que um rápido julgamento de valor por parte do clã.

   —Nenhum de nós escolheu seus pais. Todas vocês me decepcionariam. Nunca testemunhara no castelo semelhante injustiça.

   Sem mais, partiu seguido de Druce, que parecia tão confuso como ele. — Que homem já entendeu alguma vez o modo de pensar de uma mulher?

   Brodick não respondeu. Tinha outra pergunta em mente.

   — Por que trabalharia na sala de fiar em lugar de ocupar seu posto como senhora do castelo?

   Druce franziu o cenho.

   —Está seguro de que desejas desconfiar de novo dela, primo? Isso não te contribuiu nada bom antes.

   —Sei. Mas mesmo assim, não posso deixar de lhe dar voltas ao assunto. E inclusive se Druce tinha razão, não havia forma de deter as suspeitas que nublavam sua mente. Mary ocultava algo. Estava seguro disso.

 

   — Milorde deseja que desça ao pátio para cavalgar com ele

   — Comunicou uma dama antes de inclinar a cabeça e abandonar o quarto.

   Anne suspirou. O respeito não significava nada quando era forçado.

   Sabia tão bem que o fato de ver as damas apressando-se para atendê-la a deixava doente. As lágrimas ardiam nos olhos devido à angústia, embora soubesse que chorar não serviria de nada.

   Provavelmente confessar...

   Sentiu-se tentada. Mas tinha medo de que Brodick a afastasse dele. No fundo de seu coração sabia e lhe doía. Ele tinha direito a fazê-lo. Não havia nenhuma dúvida disso; entretanto, desejava atrasar aquele momento no que deixaria de olhá-la com tanta ternura. Deixaria de tocá-la tão intimamente...

   Anne teve que piscar rapidamente para enxugar as lágrimas antes que as duas damas que a ajudavam a se vestir vissem. Não tinham muito que fazer, mas arrumavam seu cabelo e a vestiam. Anne não teve razão para repreendê-las.

   Até sentindo a culpa com tanta intensidade, não pôde evitar desejar reunir-se ao Brodick. A luxúria devia ter feito rachadura em sua alma, tal e como a Igreja pregava. Depois de ter caído na tentação, era incapaz de retificar seu comportamento.

   Uma última vez e em seguida confessaria.

   Mas, primeiro, faria amor com ele uma vez mais.

   Um sorriso iluminou seus lábios quando se virou e desceu correndo ao pátio. De repente, sentia-se feliz. Transbordante de uma alegria tão intensa que mal podia respirar.

   A razão era simples: Brodick a aguardava. O conde e senhor de Sterling a chamara para que o acompanhasse na cavalgada. A idéia de que provavelmente ele tivesse em mente fazer amor fora do castelo, fez com que ela corresse. Embora tivesse chegado até ele por meio de um engano, Brodick a desejava realmente. Não se limitara a consumar seu matrimônio para logo unir-se com uma amante, mas desfrutava da companhia dela. Assim Anne viveria o momento desfrutando-o ao máximo. Seria a única coisa que restaria uma vez que soubesse a amarga verdade.

   Brodick compunha uma visão magnífica.

   Forte e perfeito.

   Anne deteve seus passos e sorriu ao ver que ele a esperava impaciente. Não se encontrava sobre sua sela, e sim junto da égua que a levara para Sterling.

   — Acredito que está na hora de lhe mostrar parte das terras dos McJames — disse Brodick lhe estendendo a mão para ajudá-la a montar pessoalmente.

   Levantou-a como se fosse uma menina, colocou-a sobre a égua e lhe entregou as rédeas.

   — Obrigado, milorde.

   Ao ouvir aquilo, Brodick franziu o cenho e enrugou o nariz.

   — Não posso usar seu nome diante de todo mundo – se desculpou Anne.

   O conde montou em seu corcel e lançou um olhar para todos os curiosos que os observavam. Havia um matiz de profunda satisfação masculina em seus olhos de meia-noite.

   — Faça-o — ordenou olhando-a com firmeza.

   Anne, de repente, entendeu o que ele pretendia e isso fez que desejasse chorar de novo. Brodick estava mostrando afeto publicamente, demonstrando ao clã sem ordenar que sentissem carinho por ela. Era um gesto tão inteligente e comovedor que a jovem teve que abaixar o olhar para ocultar o brilho de lágrimas em seus olhos.

   —É muito amável, Brodick.

   — A amabilidade deveria estar sempre presente em qualquer tipo de união, mulher. — Uma cálida mão cobriu o espaço que os separava para pegar seu queixo. — Só porque nosso matrimônio começou de conveniência, não significa que devemos ser infelizes. —Sorriu e sacudiu a cabeça. — Siga-me. Temos todo o dia pela frente e já é hora de que lhe mostre um pouco da Escócia. É uma bela terra.

   Ultrapassaram os portões e começaram a cavalgar. Numa questão de minutos, o castelo ficou para trás, deixando-a sozinha com seu amante.

   Anne sentia o sol quente sobre as faces. Finalmente, a primavera vencera a batalha contra o inverno. A égua também sentiu e avançou rápido, deixando que seus músculos se movessem com fluidez.

   Alcançaram o topo de uma colina e a jovem permitiu que o imponente animal se movesse com liberdade. Um vale se estendia aos seus pés, rico e verde com novas colheitas. O tempo e as preocupações se afastaram de sua mente tão rápido como o chão sob o bater constante dos cascos do cavalo.

   Anne não o deteve. Inclinou-se sobre seu pescoço, transformando-se em parte do animal.

   Ao fim de alguns minutos, seu marido a alcançou e segurou suas rédeas. A égua se sobressaltou frustrada por não poder continuar sua carreira, e saltou nervosa riscando um círculo. Mas Brodick a sujeitou com firmeza.

   — As terras dos McQuade começam além desse rio. — Havia uma nota severa na voz de Brodick que acabou com o bom humor de Anne. Os olhos do escocês percorreram com atenção a colina que se erguia acima deles.

   —Não se dá bem com seus vizinhos?

   Os últimos dois meses quase fizera desaparecer de sua memória os comentários de Philipa, mas de repente lembrou o que a condessa dissera sobre as guerras entre os clãs escoceses.

   — O velho laird dos McQuade não é amigo dos McJames — Brodick encolheu os ombros. — Guardava rancor do meu pai por um assunto antigo e também me detesta por isso. Foram seus homens que persegui durante o último mês e meio.

   — Entendo. — A verdade é que não sabia o que pensar das palavras de Brodick. Tinha sido muito direto em sua explicação.

   — Não deve cruzar nunca o rio. Mantenha-se sempre afastada dele. —Seus olhos percorreram a área mais uma vez. Sua mão ainda mantinha sob controle as rédeas de sua égua e puxou o animal, fazendo que os dois cavalos virassem. — Os McQuade fazem incursões em minhas terras continuamente e não quero que corra nenhum perigo. Não devera cavalgar nunca sozinha. Meus homens já sabem que devem lhe deter se desviar-se para terreno perigoso. Ordenarei ao capitão que não a permita sair das muralhas sem uma boa escolta.

   Era evidente que dava por resolvido o assunto e Anne franziu o cenho, pois seu tom fez seu orgulho se sentir ferido.

   —Não se irrite comigo por protegê-la — pediu-lhe Brodick ao ver sua expressão contrariada.

   —É apenas que eu não gosto que tome as rédeas por mim, como se eu não fosse capaz de prestar atenção numa advertência, ou de compreender a prudência de não questionar por que me diz que faça algo tão compreensível quanto permaneça dentro dos limites de suas terras.

   Brodick deu um suspiro, mas soltou à égua.

   — Não entende mulher. McQuade exigiria um pagamento por você em troca do mal que acredita que meu pai lhe infligiu. Os escoceses podem guardar rancor durante décadas. Seus homens ainda incendeiam as granjas de meus vassalos sem se preocuparem com as perdas que ocasionam.

   —E qual foi o motivo de tanto ódio?

   Brodick franziu o cenho e cerrou os lábios formando uma dura linha. Finalmente, sacudiu a cabeça sem responder a sua pergunta.

   —Se esse homem estiver o bastante furioso para me utilizar e levar a cabo assim sua vingança, não deveria conhecer ao menos a razão? — insistiu Anne.

   Brodick a conduziu até o alto do cume antes de responder.

   —Minha mãe estava prometida ao McQuade, mas o laird perdeu seus direitos sobre ela numa partida de jogo de dados com meu pai.

   — Isso é absurdo. —Mas era exatamente o tipo de coisas sobre as quais ouvira falar em Warwickshire.

   —Não, na Escócia, não o é. — Brodick sorriu ante seu assombro e um inquietante brilho brilhou em seus olhos. — Acaso não a reclamei eu de uma forma parecida?

   Anne meneou a cabeça, vacilante entre a necessidade de repreendê-lo e de rir, porque o que dizia era certo.

   —Não há dúvida de que é um homem audaz.

   A expressão de Brodick modificou, obscurecendo seus traços.

   — Cuidado com que qualificativos me atribui. Pode ser que resolva estar à altura deles.

   — Isso eu espero.

   Brodick apertou a mandíbula e seus olhos se encheram de desejo.

   Anne lhe devolveu o olhar e a antecipação incendiou seu sangue. Sem perceber cedeu ao insensato impulsiono de provocá-lo.

   —Mas as palavras já não me satisfazem. Eu gosto mais... Da ação.

   —Mulher tenha cuidado. Poderá ter mais do que está pedindo.

   A égua de Anne saltou desenhando um círculo, compartilhando as emoções de seu cavaleiro.

   —E o que poderia ser isso... Milorde? — Chamou-o por seu título, sabendo que aquilo o frustraria.

   Brodick a olhou furioso, mas a expressão de seus olhos não era de aborrecimento, era exigente.

   —Possivelmente precise provar o que um escocês faz com sua presa.

   —Isso será se me apanhar.

   Anne sacudiu as rédeas, dando de novo liberdade à égua. O animal cravou os cascos no suave chão primaveril e saiu disparado.

   Inclinando-se sobre o pescoço de corcel, Anne riu enquanto cavalgava. A excitação inundou suas veias ao olhar por cima do ombro.

   Brodick pisava nos seus calcanhares, decidido a fazê-la sua cativa. Seus olhos como a meia-noite resplandeciam com determinação enquanto seu alazão bufava. Mostrou os dentes numa careta e soltou um grito que aumentou ainda mais a excitação da jovem.

   Anne se virou de novo para olhá-lo por um instante e incitou sua égua para que avançasse. Eles subiram a toda velocidade por uma colina e entraram numa área do bosque. O coração martelava no peito e o sangue circulava tão rápido pelas veias que se tornava difícil escutar qualquer outra coisa. Nunca se sentira tão viva.

   Brodick diminuiu rapidamente a distância que os separava. Seu cavalo apareceu junto ao dela e os focinhos de ambos os animais ficaram na mesma altura. Um forte braço deslizou por sua cintura e a tirou da sela. A égua continuou galopando a frente deles e a jovem ficou sem respiração durante a fração de segundo que esteve suspensa no ar.

   Brodick a debruçou sobre o lombo de seu corcel e pôs uma mão sobre suas costas para segurá-la com firmeza ao mesmo tempo em que puxava as rédeas. Seu garanhão empinou sobre as patas traseiras, sacudindo as dianteiras como forma de protesto. Anne sentiu uma intensa pontada no clitóris, fazendo-a estremecer.

   — Vá, o que temos aqui? —Brodick desmontou com um ágil movimento e ficou de pé junto da cabeça de Anne. Segurou-a pelo cabelo, puxando o suficiente para provocar pequenas pontadas de dor em seu couro cabeludo. Estranhamente, para Anne aquela sensação pareceu excitante.

   —Uma bonita moça pronta para raptar. —O acento de Brodick ficou mais marcado, refletindo o quanto desfrutava do momento. Desceu-a do cavalo e deixou que seus pés tocassem chão. Entretanto, manteve a mão em seu cabelo, lhe exigindo submissão. — Sim, vou desfrutar tendo você a minha mercê. Inclinou a cabeça e tomou posse de sua boca ferozmente.

   Mas Anne não resistiu.

   Em lugar disso abaixou a mão e a deslizou através da abertura do kilt de Brodick para acariciar sua pele nua. Ele respondeu provocando-a com sua língua e Anne moveu os dedos até que sentiu os testículos na base do membro. Tomou sua ereção na palma da mão e a acariciou com suavidade.

   — Deus.

   —Está seguro de que é você o sedutor neste jogo, milorde? — Apertou a mão com delicadeza e os lábios de Brodick se curvaram mostrando seus dentes cerrados. — Provavelmente deveria pensar melhor. Parece que nesta partida eu ganhei a mão vencedora.

   — Reconheço que o fato de que me diga o que devo fazer em particular, está começando a me agradar.

   Anne dobrou a mão ao redor de sua carne.

   —E agora?

   —Melhor. Mas não pode jogar essa carta sem que perca seu poder.

   Seu tom estava repleto de desafio. Um desafio ao qual a jovem estava disposta a responder. Ajoelhou-se diante dele e levantou o kilt. O amplo cinturão que prendia as dobras foi o lugar perfeito para prender a barra da peça. Seu membro estava orgulhosamente ereto e a ponta tinha adquirido um vivo tom vermelho.

   Anne deslizou os dedos sobre ele e brincou com a fenda que havia no extremo. O fato de ver aquela grossa ereção à luz do dia não a ruborizou, mas sim a encheu de uma enorme confiança em si mesma que fez usufruir olhando-o.

   — Agora, sobre jogar a carta que tenho em minha mão... — Recordando o prazer que ele lhe dera com a boca, Anne se inclinou para frente e lambeu aquela fenda disposta a fazê-lo sentir o mesmo.

   —Deus…

   Ao ouvir aquela exclamação, a jovem reafirmou sua confiança.

   Brodick acariciou sua cabeça enquanto ela movia a mão para cima e para baixo sobre seu membro e se introduzia a ponta entre os lábios. Parou por um segundo, lambeu toda a longitude de sua ereção e reiniciou seus rítmicos movimentos. A mão em seu cabelo se retesou, indicando seu triunfo.

   — Você pode dizer o quando quiser o que tenho que fazer sempre se continuar me acariciando assim.

   Brodick empurrou os quadris para sua boca, enfiando mais intimamente nela. Anne relaxou, deixando que a penetrasse e saboreou o fluido levemente salgado que se filtrou pela pequena fenda.

   Segurou-lhe a cabeça enquanto seus quadris retrocediam para logo avançar para frente uma vez mais.

   — Acaricia a parte de debaixo com a língua.

   Seu acento se intensificou ainda mais. Anne obedeceu e o escutou tomar uma entrecortada inspiração quando tocou a ponta com a língua. O tempo deixou de ter significado para ela, absorta unicamente em lhe arrancar mais ásperos gemidos. As fortes mãos masculinas se esticaram e puxaram seu cabelo, mas não lhe importou. As pequenas pontadas de dor se misturavam com as turbulentas emoções que encharcavam seu interior. Seu clitóris começou a palpitar ávido de cuidados, e suas entranhas exigiram aos gritos a dura carne que se encontrava dentro de sua boca.

   — Basta. — Brodick puxou com rudeza seu cabelo para garantir que lhe obedecesse. — Não derramarei minha semente em sua boca, mulher. Hoje não. Vou torná-la minha como é devido. — Ajoelhou-se, lhe segurando a cabeça de forma que seu fôlego roçasse a úmida superfície de seus lábios. Com duras investidas.

   Anne estendeu o braço e voltou a agarrar seu membro. Seus dedos se deslizaram por toda sua longitude com mais facilidade agora que sua boca a deixara mais escorregadia. Brodick inspirou bruscamente e fechou os olhos enquanto ela continuava torturando-o.

   — Está seguro, milorde? Parece indeciso. — O músculo na lateral do maxilar dele se agitou. Anne moveu sua mão mais depressa e escutou como a respiração dele se acelerava. — Provavelmente a cativa seja quem seduz depois de tudo.

   Brodick riu entre dentes, mas não foi um som agradável.

   A determinação brilhou em seus olhos ao mesmo tempo em que seu membro palpitava na mão da jovem.

   — Acredito que esqueceu quem é seu senhor, assim meu dever é lhe lembrar isso. — Empurrou-a sem prévio aviso enquanto se sentava no chão, de modo que Anne acabou estendida sobre suas grossas coxas.

   Levantou-lhe a saia por cima da cabeça e lhe deu um forte braço pelas costas. — Sim, precisa de um pouco de disciplina.

   — Brodick!

   Anne apoiou as mãos no chão tentando se libertar, mas foi como se tentasse mover uma montanha. Inclemente, o escocês a manteve imóvel e também lhe levantou a camisa. Seu traseiro ficou descoberto e Anne pôde sentir sobre sua pele nua a brisa e o calor do sol primaveril junto com um formigamento fruto da antecipação.

   — Poderia me acostumar à visão de seu traseiro aguardando minha mão.

   — Eu não! E se alguém está olhando?

   — Então, verão na esposa tão maravilhosa em que a transformei. Muitos homens que não acreditam que possa fazer que minha esposa inglesa me tome em sua boca.

   — Brodick... —Anne voltou a fazer pressão no chão.

   Ele riu baixinho enquanto a acariciava suavemente. — O que a incomoda, mulher? O fato de que esteja decidido a dar palmadas no traseiro ou que ainda não tenha começado?

   — Essa é uma pergunta absurda. Deixe-me levantar…

   Não a deixou terminar e lhe deu uma palmada numa nádega, arrancando um grito abafado. A sensação que a percorreu foi surpreendente.

   Atravessou suas costas, mas também se concentrou no clitóris. Antes que ela pudesse protestar, bateu na outra nádega, provocando que o desejo percorresse seu corpo.

   — A algumas mulheres gostam. Afirmam que faz aumentar sua excitação e tenho a intenção de comprovar se você é uma delas.

   Levantou a mão e voltou a deixá-la cair, obrigando Anne deixar escapar um inconfundível gemido de desejo. O fato de que lhe desse umas palmadas no traseiro deveria tê-la horrorizado, mas a única coisa que fazia era pensar no perto que estavam às mãos de Brodick da fonte de seu prazer. Cada palmada sacudia o clitóris, arrastando-a mais perto do clímax.

   — Vá, esse é um som interessante. — Bateu nas nádegas mais uma vez antes de acariciá-las. — Pergunto-me se você gosta que a obriguem a se submeter.

   Deslizou a mão pela fenda de seu traseiro e Anne não pôde evitar estremecer violentamente. Sentia-se aflita pelas sensações que a atravessavam e seu corpo se negava a permanecer imóvel.

   — Preciso averiguar o quanto desfruta de minha disciplina.

   Moveu a mão para baixo e introduziu um dedo na abertura de seu corpo sem problemas, ajudado pelo acolhedor fluido que surgia de seu interior. Devastada pelas sensações que a consumiam, a jovem emitiu um gemido alquebrado.

   — Sim, você gosta. —Introduziu o dedo mais profundamente, acariciando a sensível pele. — A mim também.

   Outro dedo se uniu ao primeiro emitindo um pequeno som que chegou até os ouvidos de Anne, e depois Brodick os retirou só para voltar a investir de novo com eles.

   — Mas gosto de mais, mas precisamos voltar ao tema da sedução da presa que apanhei. Já brincamos o bastante.

   A fez virar-se o corpo feminino estendeu-se sobre seu colo durante um momento, permitindo ver sua expressão.

   Um brilho inquietante dançava nos olhos de Brodick. Segurou-a nos braços e a deixou sobre a grama.

   — Agora, como seu captor levantará sua saia sem perder tempo em lhe despir. —Subiu-lhe a saia até a cintura e, sem perder um segundo só, colocou-se entre suas pernas e a fez levantar os lados de seus quadris. — Teremos que esperar até a noite para fazer amor estando nus.

   Uma terna expressão se refletiu no rosto masculino durante um instante, mas foi substituída imediatamente por outra cheia de paixão ao ver sua carne exposta.

   — Deus, eu não acredito que exista uma visão melhor. Seu corpo está úmido e disposto para me receber. Nenhum captor poderia pedir mais. Deveria lhe bater todos os dias.

   — OH, não. Não o permitirei.

   Brodick deixou cair seu peso sobre ela fazendo que abrisse ainda mais as coxas e seu duro membro acariciou sua tenra carne até chegar à úmida entrada de seu corpo. Seus olhos resplandeciam com firme determinação.

   — Tomarei tão freqüentemente como desejo e de todas as formas que deseje esposa. Empurrou com força e a penetrou profundamente.

   Para jovem ele pareceu muito grande, muito duro, mas seu corpo o acolheu com avidez.

   Anne bufou em protesto. O desafio ardia em seu interior e se fundia com a excitação que a dominou. Seu corpo desejava que ele a possuísse, mas mesmo assim, golpeou-lhe o ombro com o punho.

   — É uma ferinha. — Capturou sua mão, puxou seu braço por cima da cabeça e prendeu sua mão contra o chão.

   Ele não moveu os quadris apesar de Anne desejava muito que o fizesse. Em lugar disso, segurou sua mão que ficara livre e a prendeu também por cima da cabeça. — Melhor. Este é o aspecto que deveria ter uma cativa enquanto domada por seu captor.

   — Só que não está fazendo outra coisa além de permanecer quieto sobre mim — provocou Anne com desdém. — Devo dizer que está muito chato.

   Brodick arqueou uma sobrancelha e seus lábios esboçaram um sorriso zombador.

   — Provavelmente eu goste de sentir como seu doce corpo se contrai.

   Pode ser que fosse certo, mas não era suficiente para a jovem, assim tentou com todas suas forças mover-se embaixo ele. Brodick riu mantendo-a quieta enquanto seu duro membro permanecia sem mover-se dentro dela.

   — Seu corpo foi feito para mim. Acredito que poderia passar horas desfrutando de como seus músculos tentam me reter dentro de você.

   —Ohhh... — Anne agitou o quadril, conseguindo por fim movê-lo um pouquinho. Seu ventre se contraiu satisfeito durante um instante, mas só conseguiu aumentar sua paixão. Necessitava que Brodick mitigasse a fome que a consumia. A dura longitude de seu membro imóvel em seu interior estava insuportável, provocando-a sem piedade.

   — Afaste-se de mim!

   — Ou o que, que comece a cavalgá-la?

   Sua expressão a desafiou para que exigisse o que desejava.

   — Sim! — Anne arqueou de novo os quadris, desesperada — sim... para que terminasse com o que tinha começado.

   — Quer que tome com toda minha força? — Indagou com voz de aço ao mesmo tempo em que suas fossas nasais se dilatavam.

   — Sim!

   Brodick grunhiu e soltou suas bonecas. Apoiou os cotovelos a ambos os lados de sua cabeça e enrolou os dedos em seu cabelo fazendo-a de novo sua prisioneira.

   — Então, terá.

   Penetrou-a com tanta firmeza que a deixou sem respiração e fez todo seu corpo tremer de prazer.

   — Envolva-me com suas pernas. — Sua respiração era áspera e seus dedos se enrolaram ainda mais em seu cabelo, enquanto movia os quadris energicamente para enfiar e retirar sua inflamada carne com rapidez.

   Anne obedeceu, entrelaçando os tornozelos para prendê-lo contra seu corpo. Sua excitação aumentava a cada forte investida. Pequenos gemidos atravessavam seus lábios ao ser incapaz de conter as sensações que saturavam seus sentidos.

   — Sim...

   Só essa única palavra tinha algum sentido para ela. Não existia nada mais que não fosse à fricção de sua carne, a paixão que fluía entre ambos. Anne arqueou suas costas, seus músculos se contraíram e seus pulmões se negaram a funcionar ao alcançar o clímax. Sentiu-se como se estivesse caindo da beira de um precipício e mesmo assim, foi à coisa mais incrível que já experimentara em sua vida. Onda de intensas sensações a percorriam sem cessar fazendo com que cada milímetro de seu corpo vibrasse de satisfação.

   Brodick estremeceu enquanto seu membro derramava sua semente no mais profundo do interior de Anne. Grunhiu contra seu pescoço e roçou a suave pele com os dentes. A jovem começou a respirar entrecortadamente para tentar trazer ar aos seus pulmões. Seus dedos doíam devido à força com que se agarrara à camisa masculina. Estava completamente exausta, sem um pingo de força.

   Apenas podia saborear a profunda sensação de plenitude que a inundava e seus músculos internos ainda palpitavam brandamente ao redor do membro de Brodick. Finalmente abriu as mãos e se apoiou sobre seus ombros. O torso de seu marido tremia e parecia que custava respirar.

   Sentiu um suave beijo no pescoço que serenou a sensibilizada pele e que foi o início de outros muitos que traçaram um ardente caminho por seu pescoço e sua face até chegar aos lábios. Ao alcançar seu objetivo, beijou-a suave e delicadamente, demorando a mordiscar seus lábios antes de fazê-la abrir a boca. Soltou seu cabelo e massageou-a no couro cabeludo com as pontas dos dedos.

   — Provoquei algum mal?

   A voz dele soou aplacada contra sua face. A pesar da dor que sentia ao manter as pernas tão abertas, ela negou com a cabeça.

   Brodick suspirou ao afastar seu corpo de Anne.

   — Deixei-me levantar.

   Brodick ficou em pé, parecendo com o caçador que brincara ser. Sem dúvida, nascera para ser um guerreiro. Seu corpo parecia irradiar força e coragem, igual a sua espada. A arma mortal continuava presa em suas costas.

   — Me alegro, milorde. — Anne se virou e se levantou também. Sua saia arriou para cobrir as coxas. Estava um pouco dolorida, mas tinha usufruído muito para lamentá-lo. — Embora minhas palavras, o converta num arrogante.

   Ele já era arrogante, entretanto, aquela parte de sua personalidade a atraía irremediavelmente. As suaves adulações não a seduziam; só as audazes exigências de Brodick a transformavam numa mulher dominada pela paixão.

   Ele a observou com uma expressão indecifrável no rosto e Anne ergueu o queixo com um orgulho que não tinha nada que invejar ao dele. O vento aumentou de repente, esfriando o ambiente.

   A jovem dirigiu então o olhar ao horizonte e viu que grandes e escuras nuvens se aproximavam deles da costa.

   Brodick sacudiu a cabeça.

   — Tornou-me desatento, mulher. Nunca pensei que me aconteceria algo assim.

   — Fala como se lamentasse.

   O conde percorreu com o olhar a área que havia atrás deles. Movia-se com uma elegância e decisão que aumentava ainda mais seus encantos. Anne nunca conhecera um homem que a impressionasse do modo que Brodick o fazia.

   — Na verdade ainda não sei se devo lamentá-lo. — Havia um matiz inquietante em sua voz. — Alguns homens acreditam que amar a suas esposas é um engano.

   A palavra «amar» deixou a Anne estupefata. Seu pai a amava.

   Ela amava a sua mãe e a seus irmãos. Entretanto, o amor entre um homem e uma mulher era algo no que não se atreveu a pensar por sua genealogia ilegítima. Deixar que aquele sentimento entrasse em sua vida só conseguiria deixá-la arrasada quando tudo saísse à luz.

   Anne estava muito consciente disso e, mesmo assim, seu coração pareceu expandir-se dentro do peito. De repente, sentiu-se tão feliz que não tinha certeza se os seus pés tocavam ainda o chão. Brodick observava atentamente as expressões que surgiram no rosto feminino com uma expressão cautelosa, até que sorriu ao ver que Anne era incapaz de ocultar o que sentia.

   — Não sabe o que provocou mulher. Agora terei que a levar ao castelo e a transformar para sempre em minha cativa. Não posso me arriscar a que fuja. Se o fizer, morrei desejando-a.

   — Brodick lhe piscou os olhos um olho. —É assim que nos escoceses agimos. Ficamos com o que roubamos.

   Sem mais, partiu em busca dos cavalos. Só então a jovem deixou que a intensa preocupação que a afligia aflorasse ao seu rosto ao mesmo tempo em que se abraçava a si mesma.

   Amor. Era assombroso e mais intenso do que poderia ter imaginado. Nenhum sonho poderia tê-la preparado para aquele sentimento tão profundo.

   Os anos de sofrimento com Philipa pareciam uma carga leve em comparação com o que a aguardava. Os joelhos literalmente dobraram e seus ombros desejaram livrar-se de todo aquele peso. Tinha o estômago tão contraído que teve que fazer um esforço para não vomitar.

   O amor era um presente, mas também uma maldição. Os rostos de sua família apareceram em sua mente enquanto seu coração palpitava pelo homem que se aproximava a cavalo. Se continuasse com Brodrick, amando-o, teria que abandonar a sua família a uma sorte cruel.

   Não sabia o que fazer. Não, não tinha nem a mais remota idéia.

   Brodrick parou seu cavalo quando Sterling apareceu diante de seus olhos. Seu corpo ficou imóvel durante um momento enquanto olhava fixamente uma das torres.

   — Temos companhia.

— Como sabe?

   Ele levantou uma mão e assinalou a torre norte.

   — Vê o estandarte? Não é meu, nem tampouco de Druce.

   Anne dirigiu o olhar para onde era indicado e viu um estandarte azul e verde que se agitava ao vento.

   — É o estandarte real. — A voz do Brodrick adquirira um tom austero que Anne entendeu à perfeição. Até mesmo um conde estava sujeito à vontade de seu rei.

   Brodick golpeou com suavidade os flancos de seu cavalo para que avançasse e a égua da jovem se apressou a segui-lo.

   O escocês saltou da cadeira no mesmo instante em que chegaram ao pátio. Levantou os braços e a desceu do cavalo antes que a égua parasse totalmente.

   — Vá descansar. Durma um pouco. Acabaremos nosso assunto mais tarde.

   Dormir?

   Anne riu por sua brincadeira, mas seu marido já se afastava com passadas firmes e concentrado, em direção ao seu garanhão, que estava de pé sobre os degraus aguardando seu senhor. Anne já vira aquele homem algumas vezes com sua grande bolsa de couro pendurada ao ombro. A jovem sabia o que continha: cartas, livros e, o que era mais importante, o selo da casa. Jamais o tinha visto sem sua bolsa em todas as semanas que vivia na fortaleza.

   O corcel abaixou a cabeça quando Brodick se aproximou e falou em voz baixa para que ninguém mais além que o seu senhor pudesse escutar suas palavras.

   Uma carroça puxada por dois bois chiou ao entrar no pátio, conseguindo desviar a atenção de Anne.

   — OH, estão aqui. — A voz da Helen transbordava alegria e vontade de descer daquele maltratado veículo. Teve que esperar a que parassem os bois antes que um homem abrisse a portinhola colocada na parte posterior da carreta. Desceu de um salto e sacudiu a saia e o tartan assim que pisou no chão. — Minha filha deu a luz a um menino forte, milady. É meu primeiro neto e o batizamos com o nome do Ian.

   A irmã de Brodick também estava na carreta, embora Fiona parecesse furiosa quando desceu do veículo. Ao vê-la, uma égua de pelagem escura que ficara atrás do carro se aproximou dela e lhe deu um carinhoso empurrão. A moça acariciou o animal com mão firme e falou em sussurros.

   — Gostou passeio? — Perguntou-lhe Anne.

   Fiona pareceu culpada por um momento, mas não afastou as mãos da égua.

   — Tanto como me permite.

   — Fiona, se comporte. — Helen enviou um olhar severo que apenas conseguiu que a moça se mostrasse ainda mais teimosa.

   — Muitos acreditam que cavalgar endurecerá meu útero e me deixará estéril, — explicou-lhe Fiona para sua cunhada. — Por isso não me permitem passear durante muito tempo na minha égua.

   Anne observou a expressão contrariada da moça, que demonstrava considerar a vida injusta.

   E assim era, concordou Anne.

   — Existem muitos na Inglaterra que afirmam o mesmo.

   Fiona soltou uma exclamação.

   — Não precisava dizer nada — reprovou. — Helen já se mostra bastante firme em sua crença e eu não gosto de viajar na carroça.

   — Não aja de modo tão infantil, minha jovem — recriminou Helen franzindo o cenho. — Se uma mulher adquirir uma má reputação quem irá querê-la? Gostará de poder escolher entre vários candidatos quando chegar o momento de se casar.

   — Não estou interessada no matrimônio. — Acariciava o cavalo com extrema ternura. — Ao menos não agora. Além disso, apenas se trata de cavalgar, não de me encontrar com algum amante sob a lua.

   Helen franziu ainda mais o cenho.

   — Nenhuma moça decente deveria dizer essas coisas. Esqueça-se dos encontros furtivos sob a lua, só as mulheres que não têm ninguém que as mantenha afastadas do mau caminho, pensam nisso. Pode ser que pareça excitante, mas me acredite, teria terríveis conseqüências para você.

   — Seu irmão me levou para cavalgar hoje – comentou Anne. — E devo confessar que entendo sua afeição pelos cavalos.

   — Cuidado, irmã. — Fiona lhe dedicou um doce sorriso agora que Anne parecia estar ao seu favor. — Helen poderia enfurecer-se contigo. Anseia que haja um bebê no castelo.

   — Absolutamente. Depois de estar casada poderá cavalgar a vontade, porque seu útero não endurecerá já que compartilhara o leito de seu marido. — A donzela sacudiu a cabeça. — Me escute jovenzinha, como poderia saber tudo aos dezesseis anos?

   Fiona sorriu imitando o irritante gesto que seu irmão Cullen estava acostumado a adotar.   — Apenas sei é que eu adoro cavalgar.

   Anne riu ao ouvir aquilo, incapaz de conter-se. Helen revirou os olhos, mas mesmo assim, também sorriu, pois era uma mulher de bom caráter.

   — Fale de sua viagem, Helen — pediu Anne, — Como está sua filha?

   A aia uniu as mãos, feliz de poder falar de sua família, e Anne deixou que a voz entusiasta da Helen a envolvesse.

   Havia muitas coisas no Sterling dignas de ser amadas.

   Especialmente seu senhor.

   Brodick apresentava um aspecto realmente magnífico naquela noite. Anne entrou no grande salão com certa apreensão ao estar consciente do silêncio reinante. Até mesmo Cullen, que sempre parecia despreocupado, agora aparentava mais idade pela seriedade de sua fisionomia. Druce, por sua vez, estava absorto mastigando uma fatia de pão. Seu maxilar trabalhava rápido enquanto seus pensamentos pareciam estar numa velocidade vertiginosa.

   Brodick a saudou com um gesto quando se sentou a seu lado, mas continuou meditando absorto frente a uma caneca.

   — É um bastardo — rugiu Cullen rompendo o pesado silêncio.

   Druce grunhiu em um gesto de aprovação, sem deixar de comer pão. — Essa não é a questão. A expressão de Brodick escureceu ainda mais. — Seu maldito tio goza da confiança do rei. — Devemos tomar cuidado na hora de responder suas acusações.

   — Esses malditos saqueadores queimaram uma dúzia de lares.

   — Cullen estava tão furioso que parecia disposto a desembainhar sua espada.

   Brodick controlou a ira de seu irmão com um calculado movimento de cabeça.

   — Ninguém sabe melhor que eu. Custou-me cinco semanas fazê-los voltar para suas terras. Mas em vez de deixar as coisas como estavam se queixaram na corte de que fomos nós os que iniciamos os assaltos. O rei Jamie não tolerará mais conflito entre os clãs. Por isso enviou seus homens até aqui.

   — Isto não faz nenhum sentido. Os McQuade estavam em suas terras. — Druce engoliu o pão com um bom gole de cerveja temperada com água. — Cavalgarei contigo até a corte.

   Brodick assentiu com expressão séria e seu olhar se encontrou por um instante com o de Anne.

   — Sinto muito, mulher; hoje não somos uma boa companhia.

   — Há razões para isso.

   Os lábios do conde esboçaram um leve sorriso e uma de suas mãos cobriu a dela. Seus dedos estavam quentes e fizeram um calafrio percorrer o braço da jovem.

   — Proteger a terra dos McJames é uma boa razão, certamente. Entretanto, viajar para corte não é algo que me entusiasme.

   De repente, produziu-se um alvoroço no outro extremo do grande salão. Brodick, Druce e Cullen grunhiram quase ao uníssono e murmuraram maldições entre dentes ao ver que um grupo de cinco homens entrava estrepitosamente e exigiam a alguns soldados que cedessem seus lugares. Embora usassem kilt, os recém chegados também vestiam coletes e seus tartans eram azuis e verdes. Eles não se importaram de ter espaço de sobra um pouco mais à frente. Os guerreiros McJames olharam a seu senhor à espera de instruções, deixando evidente que estavam dispostos a iniciar uma boa briga.

   Brodick sacudiu a cabeça e os guerreiros recompuseram suas expressões enquanto mudavam para outros bancos vazios. Os cinco homens sorriram zombando por sua vitória antes de sentar-se e reclamar que os servissem aos gritos.

   — Tem convidados, marido, — Anne os observou com crescente desdém, — muito grosseiros, por certo.

   — Sim — grunhiu Brodick. — O tipo de companhia sem a qual posso passar.

   Druce lhes lançou um duro olhar.

   —Todos nós podemos. Malditos sabujos reais. Eles estão aqui para nos recordar o poder do rei só porque estávamos defendendo nossa própria terra.

   Os convidados gritaram de novo e golpearam a mesa com as jarras. Entretanto, nenhuma criada olhou em sua direção.

   Anne então se levantou desgostosa pelo comportamento dos homens do rei. Imediatamente, Brodick moveu a mão para segurar a dela fazendo que lhe escapasse um grito abafado.

   Normalmente o escocês controlava sua força com ela; entretanto, dessa vez a segurou firmemente.

   — Aonde vai?

   — Mostrar aos nossos convidados que sua arrogância não intimida as mulheres desta casa e pôr fim ao alvoroço que estão causando com suas maneiras grosseiras. — Anne puxou o braço com suavidade, mantendo o olhar firme. — Além disso, não permitirei que haja falatórios sobre a hospitalidade em Sterling.

   Brodick a soltou; o orgulho resplandecia em seus olhos. Anne levantou a cabeça usufruindo da admiração, no entanto os homens do rei voltaram a bater na mesa reclamando atenção. Com passo decidido, a jovem se aproximou deles e agarrou uma jarra cheia das mãos de Ginny, que gritou assustada. Anne a ignorou. Naquele momento não tinha tempo para ela.

   — Terão que deixar de bater na mesa com as canecas se quiserem que as enchamos. —Seu acento inglês silenciou os cinco homens, que enrugaram o nariz. Um deles resmungou algo em gaélico.

   Anne se inclinou sobre a mesa e serviu cerveja numa caneca antes que o homem que a segurava compreendesse suas intenções. Quando notou, afastou a caneca, molhando sua camisa no processo.

   Um murmúrio de diversão se estendeu pelas largas mesas.

   — Deveriam ter mais cuidado com uma jarra cheia, senhor. — Anne manteve seu tom de voz cuidadosamente controlado, mas havia uma sutil reprimenda nele.

   Outro dos convidados golpeou de novo a mesa com sua caneca.

— Quanto terei que esperar?

   Anne lhe sorriu com suavidade e lhe encheu a caneca. Todos aqueles anos servindo Philipa enfim lhe serviram para algo.

   — Desculpe-me, a indelicadeza de seus companheiros me distraiu.

   — Maldita inglesa. — Franziu o cenho e avaliou a cerveja. — Certamente estará envenenada.

   Anne arrebatou a caneca das mãos dele, bebeu um gole e depois a depositou com força na mesa. O som retumbou em toda salão devido ao silêncio reinante.

   — Desejam que volte a encher a caneca?

   A diversão começou a estender-se pelo grande salão e os homens de Brodick explodiram em sonoras gargalhadas.

   Helen, demonstrando a hospitalidade do castelo, apareceu de repente ao lado de Anne levando uma bandeja de queijo talhado e diversas saladas.

   — Espero que vocês se lembrem de contar ao rei como à senhora em pessoa encheu suas canecas com suas próprias mãos — disse antes de colocar os quitutes sobre a mesa com muita mais força do que o necessário.

   — Então você é a herdeira inglesa. — O que se encontrava mais perto de Anne a percorreu com o olhar, demorando-se na curva de seus seios. — Já vi que o conde fez uma boa escolha apesar de ser inglesa. É uma vantagem tendo em conta que tinha que casar com você de qualquer forma para obter seu dote.

   Um opressivo silêncio seguiu aquelas palavras. A tensão parecia aumentar com cada segundo que passava, Anne sentiu os olhos de Brodick fixos nela.

   — Helen, por favor, dê instruções à cozinheira de que providencie água quente para o banho. Nossos hóspedes precisam lavar do pó da viagem. O civilizado, na verdade, é não deixar cair imundície na mesa.

   Depois de dizer aquilo, Anne lhes deu as costas e se encontrou com filas e filas de soldados McJames olhando-a com respeito. Imediatamente, começaram a darem palmadas sobre as coxas enchendo a sala com o som.

   Anne se moveu com dignidade entre as mesas e saiu em direção à cozinha.

   — Conseguiu colocá-los no lugar, milady. —Helen riu, mas seus olhos estavam posados em Ginny.

   —Não se preocupe Helen — disse Anne. — Todos nós ouvimos fofocas. Deveria ouvir as coisas que me contaram na Inglaterra sobre as mulheres escocesas.

   As faxineiras que trabalhavam na larga mesa da cozinha diminuíram o ritmo e inclinaram a cabeça para sua senhora para escutar.

   Inclusive Ginny pareceu menos desafiante enquanto esperava para ouvir o que Anne tinha que dizer.

— De fato, diz-se que as mulheres escocesas cavalgam nuas e limpam os dentes com as pontas de suas adagas. — Parou durante um momento e ergueu uma mão de modo interrogante. — Ainda que sempre imaginasse se esse fato, não provocaria queimaduras na pele pelo sol; e, além disso, onde poderiam guardar a adaga se estavam nuas? E como conseguiam limpar os dentes enquanto cavalgavam sem cortar os lábios? Parece bastante complicado.

   Todas as mulheres olharam para Anne assombradas, e Helen riu até que suas bochechas ficaram vermelhas.

   — Com certeza, é admirável, milady. — Helen lançou a Ginny um firme olhar. — E se mostra perfeitamente capaz de compreender que algumas coisas não são o que parecem. As fofocas não são uma boa base para julgar.

   Ouviram vários murmúrios de aprovação e inclusive Bythe assentiu mostrando-se de acordo.

   — Há água de sobra se desejar um banho, milady — informou-lhe a cozinheira, que estivera atenta a todo o acontecimento de seu posto perto dos fornos para vigiar os fogos.

   — Obrigado. — Negar-se teria quebrado a frágil trégua que conseguira tecer.

   Helen concordou de novo mostrando sua aprovação, então a tensão na cozinha desapareceu, dando lugar uma vez mais às brincadeiras.

   Tinha agido bem, decidiu Anne. Algo do que podia ficar orgulhosa, já que não era fácil enfrentar preconceitos tão arraigados. Provavelmente a paciência que tivera com a Philipa tivesse enfim sua recompensa. Sim, fizera bem. E o que era mais importante, não envergonhara Brodick. Essa era sua verdadeira recompensa e, enquanto seguia Helen até a sala de banho, agarrou-se com força a isso. Com muita força.

   — Irmão, tira essa expressão de felicidade de seu rosto de uma vez — queixou-se Cullen.

   Brodick lhe jogou um pequeno pedaço de pão.

   — Não deveria brincar sobre isso. O destino me abençoou e não quero que isso modifique por não me mostrar agradecido.

   E, certamente, estava. Sua esposa estava assumindo o controle em Sterling. E o estava fazendo com mão suave, era algo fora do comum entre as mulheres nobres inglesas. Poderia sentar-se e observá-la durante horas adorando sua forma de mover-se, seu modo de enfrentar às dificuldades sem perder os estribos.

   Sim, o destino se levou bem com ele e se sentia agradecido por isso.

 

   —Oh, está linda. — Helen se entreteve com o fogo embora já estivesse bem alimentado — Suponho que deveria deixá-la esperando seu marido. Boa noite.

   Esperar para lhe fazer sua confissão...

   Anne engoliu saliva com força e tentou manter-se firme em sua determinação de fazer o que prometeu a si mesma que faria. Devia fazê-lo. Tinha que encontrar a coragem para confiar no amor que existia. O tempo estava passando. Por outro lado, não era correto prosseguir enganando-o. Não podia continuar fazendo isso ao homem que amava.

   Mas as velas se consumiram e o fogo se reduziu a um monte de brasas cobertas de grossa cinza sem que ele chegasse. Finalmente, a cálida colcha a tentou fazendo-a dormir muito antes que o quarto ficasse às escuras.

   Anne despertou ao amanhecer com um sonolento bocejo nos lábios. Estava sozinha na cama e o lençol junto dela estava totalmente Liso. Levantou-se e abriu a cortina da janela para deixar que entrasse a luz do amanhecer. Deu a volta, olhou ao seu redor e descobriu uma caixa coberta de seda vermelha sobre a qual havia um pergaminho lacrado com o selo de Brodick. Tremendo, pegou-o e o lacre se rompeu com um estalo tão penetrante como o disparo de uma pistola no frio ar da manhã.

   Minha amada esposa:

   Com pesar, devo ir à corte por obrigação real. Pode estar bem segura de que só um rei poderia me afastar de seu lado. Escreva-me... Suas cartas me darão forças.

   Brodick

   Percorreu seu nome com um dedo. Era a primeira vez que recebia uma carta de amor.

   Brodick.

   Tinha assinado com o nome que ela usava em seu leito. Foi um doce gesto de intimidade que lhe chegou ao coração. Deixou a carta ao lado e desembrulhou a seda e descobriu uma secreter de senhora.

   Era incrivelmente suave ao tato e estava esculpida com destreza. Duas dobradiças permitiam que a parte superior se levantasse. Colocado com cuidado em seu interior havia um tinteiro de cerâmica com um mata-borrão de cara e estranha cortiça, folhas de papel, duas plumas, cera escarlate e um pequeno selo dourado. Anne levantou o selo e reprimiu um soluço ao ver o leão representativo dos McJames. Sabia que havia muito poucos e que se guardavam com extremo cuidado.

   Era um presente digno da senhora do castelo.

   Fechou lentamente a tampa da secreter e suspirou. Agora entendia a atitude de sua mãe. Ivy Copper estava tão apaixonada que isso a fazia ficar cega a qualquer insulto ou difamação que o mundo lançasse contra ela. Anne tampouco podia deixar de amar, do mesmo modo que não podia deixar de respirar.

   O som da porta abrindo-se interrompeu o fio de seus pensamentos.

   — OH, eu a ouvi. — A Helen faltava sua habitual alegria nessa manhã. — Vejo que encontrou a carta do senhor. Sentiu-se consternado por ter que deixá-la, mas esses odiosos homens da corte se negaram a esperar. Eles o mantiveram acordado a maior parte da noite discutindo sobre os clãs até que o conde montou em seu cavalo e partiu com eles desejoso de acabar com este assunto o cedo possível. Ele mesmo escreveu essa carta

   Aquilo significava muito, pois um homem da posição de Brodick normalmente não escrevia suas cartas pessoalmente. De fato, ela escrevera a maioria das cartas de Philipa. Houve um tempo em que parte do valor que uma esposa nobre oferecia ao seu marido eram seus conhecimentos e sua diplomacia na hora de ser cordial com o os nobres vizinhos. Molhavam a pluma com cuidado e escreviam cartas cordiais que mantinham suas relações de amizade com as pessoas apropriadas.

   Helen ordenou a duas faxineiras que entrassem e indicou as tarefas que deviam realizar. — Contudo, terá que se acostumar — continuou consolando a aia. — O dever do conde é servir ao seu rei. Creio que aprendeu isso em seus anos na corte.

   De repente, Anne enjoou e deixou de escutar a Helen. O estômago revirou violentamente e o suor inundou sua fronte. Incapaz de controlar as náuseas correu ao reservado no mesmo instante em que o conteúdo do estômago lhe subia pela garganta. Quando parou de vomitar, tremiam-lhe os joelhos e Helen teve que ajudá-la a levantar-se.

   — Não sei o que me aconteceu. Não me sinto doente.

   A aia a guiou de volta ao quarto e lhe enxugou a fronte com um pano úmido.

   — Agora entendo por que encontrei pão duro em seus aposentos.

   — Helen levantou a vista e estalou os dedos para uma das criadas. — Traga um pouco de pão e vá depressa.

   A moça esboçou um sorriso tão amplo que deixou à vista todos seus dentes.

   — Sim, em seguida.

   Anne ficou olhando a porta, tentando compreender por que a garota se mostrava tão feliz. Os sinais de enfermidade no castelo eram motivo de alarme.

   — É uma lástima que o senhor tenha ido para corte.

   Embora seja melhor que tenha sido agora do que quando chegar o momento. — Helen irradiava felicidade.

   — O momento?

   A aia a olhou com uma expressão confusa no rosto e depois lhe deu um alegre sorriso.

   — OH, me esqueci de que casou há pouco tempo. Mas certamente sua união foi abençoada. Não teve o período desde que deixaram a Inglaterra, não é mesmo?

   Não, não o tivera.

   Anne arregalou os olhos ao entender o que acontecia. Se já não tivesse vomitado antes, o teria feito agora. O horrível e maligno rosto de Philipa apareceu diante dela povoando seus pensamentos. Não havia dúvida de que estava grávida.

   O fato de ser virgem antes de chegar a Sterling não significava que ignorasse o que acarretava fazer amor com um homem. A cozinha lá em Warwickshire transbordava de bate-papos sobre os homens, a gravidez e seus sintomas. Foi como descobriu a existência dos beijos franceses. O desespero se apropriou de Anne, porque agora também teria que pensar num bebê inocente.

   De repente recordou a imagem de Brodick esperando-a no pátio, o poder e a força que irradiava, e se sentiu mais tranqüila. Dar-lhe um filho seria o major dos presentes que ela poderia lhe oferecer. E ele o merecia.

   Mas Brodick desejava um filho de Mary, não de sua meia-irmã bastarda.

   — É maravilhoso, milady. Esperei durante tanto tempo para ver este dia… Estou impaciente para ver quando começar a crescer seu ventre.

   Helen seguiu tagarelando enquanto Anne tentava sentir a diminuta vida que crescia em seu interior.

   — As costureiras precisam arrumar suas roupas imediatamente. Acabaram os espartilhos grandes para você. — A aia se dirigiu ao secreter, abriu-o e tirou o mata-borrão de cortiça e o tinteiro. — Deve escrever ao conde. Um mensageiro lhe trará uma carta a cada duas semanas e você poderá enviar as suas de volta com ele. O senhor se sentirá muito feliz saber a notícia do bebê.

   — Escreverei, mas não agora.

   Helen sacudiu a cabeça e se virou para tampar o tinteiro.

   — Não deve se preocupar. Agora têm o estômago revolto, mas logo passarão os enjôos.

   Anne se levou uma mão à boca aterrorizada. Não podia condenar a seu filho a nascer como bastardo. E se ficasse em Sterling, isso seria o que aconteceria. As lágrimas sulcaram suas bochechas enquanto contemplava o secreter. Não podia confessar quem era.

   Agora não.

   Nunca.

   Duas semanas depois, chegou uma carta tal e como Helen prometeu.

   Anne estava convencida de que nunca em sua vida havia se sentido tão feliz de receber algo.

   Não era normal que um homem escrevesse a sua esposa quando se encontrava na corte, por isso tentara não esperar uma carta. Pois, Brodick tinha coisas mais importantes com que se ocupar. Todas as esposas tinham que tolerar o fato de ocupar um segundo lugar depois dos monarcas.

   Havia muito que fazer no castelo e se deixou levar pelo rápido ritmo da primavera. Estavam na semeia a colheita, os cordeiros que nasciam, e fazer sabão agora que o clima estava bom o bastante para usar os grandes caldeirões de ferro. Acendiam fogos sob as enormes panelas e mexiam o sabão com largas pás de madeira. Mesmo assim, o tempo tinha passado devagar apesar de seus esforços por ocupá-lo e ainda despertava de noite procurando o Brodick. Pensou uma centena de vezes que parasse de pensar nele, que deixasse de desejá-lo, que não era viável nem prudente amá-lo.

   Mas seu coração se negava a escutar.

   Assegurou-se de que dessem de comer ao mensageiro que lhe trouxe a carta e de que lhe preparassem novas roupas. Nervosa, começou a passear de um lado para o outro enquanto o emissário demorava em seu banho, negando-se a lhe pedir a carta antes de oferecer sua hospitalidade. Quando ao fim a noite começou a cair sobre o Sterling, o homem abriu sua bolsa de couro e lhe entregou um pergaminho lacrado.

   — OH, um momento, não pode lê-la aqui.

   Helen lhe tirou a carta das mãos antes que pudesse segurá—la bem.

   — Helen!

   — Não. Escute-me. Espere. Será muito melhor que espere para lê-la em seus aposentos.

   Anne franziu o cenho. Não desejava esperar.

   — Siga-me, milady, e lhe mostrarei como deve ler a carta do homem que ama.

   O rosto da Helen estava cheio de ternura e seus olhos resplandeciam com a sabedoria da experiência. Nesse momento não eram uma senhora e sua aia. Anne soube ao olhá-la nos olhos que Helen era uma mulher que compreendia o que era sentir amor por um homem.

   A aia segurou a carta no alto até chegarem ao quarto de Anne. Deixou a carta sobre a cama e lhe tirou toda a roupa à exceção da camisa. O fogo mantinha o chão de pedra aquecido sob seus pés descalços e a primavera começava dar lugar a um verão antecipado, assim o ar estava muito agradável. Helen tirou as presilhas do cabelo e o escovou. Mas não o prendeu como normalmente fazia.

   — É assim que deve ler a carta. Do mesmo modo que o receberia de noite. —Deixou a escova na penteadeira e as duas criadas que a acompanhavam fecharam os cortinados laterais da cama.

   Anne se sentou aos pés da cama e acariciou o selo com os dedos enquanto Helen ordenava às criadas que se retirassem e demorava abrindo o secreter e apagando as velas. Deixou uma acesa na penteadeira e sua chama amarela brilhou na folha de papel e na pluma que tinha preparado sobre o secreter, envolvendo tudo numa aura mágica.

   — Aproveite milady, e não se esqueça de responder, — recomendou ao mesmo tempo em que a ajudava a deitar na cama. Lembre que o mensageiro partirá ao amanhecer.

   Foi e o quarto ficou num profundo silêncio, o tipo de silêncio que permite escutar o crepitar da lenha ao arder. Até mesmo ouvir o sussurro do vento lá fora.

   Anne estava recostada, mas Helen a tinha coberto bem com a colcha.

   O pergaminho enrugou quando rompeu o selo para ler o que Brodick escrevera. A tinta negra dançava pelo papel com belas letras. Absorveu as palavras, chegando a conhecer pela primeira vez o homem que a levara de Warwickshire. Nunca tinham falado de coisas banais, mas agora Brodick escrevia sobre elas, falava do que gostava e do que não. Que preferia a cerveja misturada com água, à urze ao romeiro. Na carta havia muitas datas, como se fosse um diário. Colocava a data na parte superior de cada folha, fazendo-a saber, que pensava nela cada noite. Várias gotas de cera brilhavam no papel, demonstrando que ficou acordado depois do pôr-do-sol para lhe escrever.

   O modo em que se amavam quando estavam juntos era maravilhoso e a paixão que os unia era tão ardente que até chegava a ser explosiva. Mas suas cartas criavam entre eles outro tipo de intimidade. Havia ternura e confiança quando Brodick compartilhava coisas com ela que não eram assuntos da nobreza nem politicamente corretas. Brincava e escrevia pilhérias absurdas, fazendo que o amasse ainda mais.

   Anne saiu do refúgio da colcha e se dirigiu ao secreter. Era como se Brodick estivesse junto dela. Enquanto molhava a pluma na tinta, sentiu que a solidão desaparecia pela primeira vez desde que acordou com a notícia de que o homem que amava viajara. A afiada ponta acariciou com suavidade o papel à medida que as frases foram surgindo. Tomou cuidado para não borrar a tinta úmida, esperando para começar a próxima linha quando a luz da vela já não brilhasse sobre ela. Não lhe importou que fora um processo lento. Demorava em sua composição, saboreando a frase seguinte. A vela quase se esgotara totalmente quando começou a segunda página, escrevendo pequenos detalhes como tinha feito Brodick e compartilhando assim com ele quem era.

   Um golpe na porta rompeu o encanto e Helen entrou na alcova segurando uma lamparina de estanho na mão.

   — Um momento, por favor. — Anne soprou a última linha e se assegurou de que estivesse seca antes de dobrar o papel para resguardar o que tinha escrito. Colocou a cera sobre a vela, virou-a até que brilhou e logo a apertou com força sobre o lugar onde se uniam as bordas do papel. A parte derretida ficou presa formando um círculo reluzente. Sem perder um segundo, Anne apertou o selo com força sobre o círculo vermelho de cera até que esta esfriou. Quando levantou o selo dourado, comprovou que o leão representativo do clã McJames ficara bem impresso.

   — Obrigado por esperar, Helen.

   — Foi um prazer. — Deixou o lampião e se aproximou da cama. Jogou a colcha para um lado e esperou a que Anne se aproximasse. A jovem o fez aproveitando dos confortos que lhe ofereciam, consciente de que não durariam muito. Embora, por essa noite, se limitaria a desfrutar sem pensar em nada mais.

   Helen apagou a vela, segurou a carta e saiu. O quarto ficou em silêncio e às escuras, mas o bebê que trazia em seu ventre começou a mover-se como se tratasse de uma pequena mariposa. Anne ficou sem respiração e o movimento se repetiu confirmando que não estava sonhando. Cheia de alegria, apoiou uma mão sobre seu ventre ligeiramente volumoso num gesto protetor.

   Seu bebê era fruto do amor e sempre seria parte dela embora tivesse que ver a Mary embalando-o. Muitas mães renunciavam a tudo por seus filhos. As lágrimas caíram sobre o travesseiro ao mesmo tempo em que se negava a lamentar a dor que angustiava seu coração. Nunca se arrependeria de amar Brodick; o amor a fizera saborear a vida pela primeira vez. Mas seu bebê precisava mais do que isso. Sua própria vida era um exemplo do que acontecia quando o amor enfrentava a maneira de como estava organizado o mundo. Mary era a legítima senhora do Sterling. Se Anne confessasse o ocorrido ao Brodick, poderia ser que ficasse ali como sua amante, mas seus filhos levariam a mesma vida que ela levava quando encontrasse Mary e a obrigasse a ocupar sua posição como esposa.

   Entretanto, se retornasse para Warwickshire e permitisse que Mary fingisse que o bebê era seu antes de partir para corte, seu filho lucraria todos os benefícios da legitimidade e Brodick manteria as terras que faziam parte do dote. Enxugou as lágrimas jurando que assim seria. No entanto, sabia que as coisas não se solucionariam até pouco antes que o bebê nascesse porque Brodick viria até ela. Bonnie tinha visto.

   Assim teria que enganá-lo pelo bem de seu filho e esse seria o maior presente que poderia oferecer ao seu bebê. Aquele pensamento a acalmou permitindo que dormisse. O rosto de Brodick a esperava em seus sonhos.

 

   A corte escocesa

   Chegar à corte não foi fácil. Brodick demorou cinco dias para encontrar um lugar onde pudesse se alojar. Com o rei na corte, as melhores casas já estavam alugadas e ele não tinha uma propriedade na cidade. Seu pai também evitara a corte. O fato de cavalgar com determinação para o palácio real não significava que estivesse mais perto de ver o monarca. Sua roupa ainda não chegara, assim tinha tempo para refletir antes de apresentar-se no palácio.

   Os sabujos reais o deixaram em paz assim que se instalou. A cidade transbordava de gente e os diferentes tartans de outros clãs mostravam a quantidade de nobres que lá se encontravam. Alguns membros dos clãs ainda usavam os kilts lisos de lã sem o desenho o xadrez tão freqüente ultimamente.

   Passaram duas semanas para ser recebido na corte. De fato, ter se apresentado antes teria sido uma perda de tempo, já que primeiramente precisava enviar uma mensagem formal ao assessor do rei informando de que viera por sua solicitação.

   James Stewart fora educado na corte devido a sua mãe ter morrido há muito tempo num castelo inglês. Numa irônica virada do destino agora era o herdeiro do trono de Elizabeth Tudor, a mulher que assinou a ordem de execução de sua mãe.

   Entretanto isso não importava muito nesse momento. Brodick entrou no salão de atendimento principal do palácio para encontrá-lo repleto de embaixadores de todo o mundo. Vestiam refinados trajes e estavam acompanhados de seus séquitos. Vários idiomas ecoavam na sala: português, francês, italiano, espanhol… A ira que sentiu pôs a prova seu controle ao ver a quantidade de homens que aguardavam para ver o rei. Além disso, essa era a entrada; nem sequer se encontrava na corte principal.

   James poderia retê-lo mais de um mês se lhe aprouvesse.

   — Parece que os escoceses ganharam um pouco mais de aceitação desde a última vez que estive aqui. — Druce olhou a seu redor, pensativo. — Isso mudou muito.

   — Isso explica por que Jamie está tão preocupado pelos saques ultimamente.

   — Sim, certamente.

   Brodick observou a mescla da nova moda com a tradição celta. A metade dos pressente usavam kilts, mas também havia meias de veludo e calças venezianas. Muitos dos embaixadores vestiam capas curtas magnificamente bordadas com ouro e jóias. Ele e seus homens vestiam coletes com mangas e kilts de lã verde que eram a marca do clã dos McJames há um século. Considerava uma frivolidade o fato de se vestir com roupas adornadas com jóias. Isso era para mulheres e cortesãos que procuravam encontros amorosos.

   —Tenho que reconhecer que me surpreende a moda atual, — resmungou. Seu broche em forma de leão era de ouro e contava com dois rubis. Tinha sido de seu pai e algum dia de seu filho. E em sua mão direita havia um anel com o selo de conde de McJames. Nunca o tirava a menos que o entregasse a um homem disposto a defendê-lo com a vida. Seu pai o fez prometer em seu leito de morte.

   — Continuarei sendo um homem feliz com meu kilt, — comentou Druce lançando um olhar carrancudo.

   — Estou de acordo.

   Todos ficaram imóveis quando o laird dos McQuade surgiu diante de suas vistas. O ancião ficou ali de pé com seus homens, franzindo o cenho diante da grande quantidade de pessoas que esperavam uma audiência com o rei. Os guardas reais mantinham a porta bloqueada enquanto todos aguardavam a que o assessor os chamasse pronunciando seu nome. Até que isso não acontecesse, teriam que esperar.

   — Aí está esse filho de uma cadela McQuade.

   — Quieto Cullen. Estamos aqui para defender o fato de que nós não começamos o conflito.

   Dessa vez.

   Para ser justo com o McQuade, tinha que reconhecer que passara algumas noites vagando por suas terras. Mas ele não tinha incendiado os lares dos granjeiros.

   Druce deu um golpe nas costas de Cullen.

   — Você não gosta do aspecto de seu futuro sogro?

   — Perdi algo importante? — Brodick observou assombrado que seu irmão, apesar de estar furioso, ele mantinha a boca fechada para variar.

   De repente, o assessor golpeou o chão com seu bastão três vezes. O ruído que produziu a placa dourada no chão repercutiu por toda a sala e os pressente ficaram em silêncio.

   — Atenção! Sua majestade receberá aos condes McQuade e McJames.

   A sala se encheu com os murmúrios de frustração dos que não tinham escutado seus nomes. Vários agitaram cilindros de pergaminho sob o nariz do assessor, tentando que o homem atendesse suas petições, mas o secretário real se manteve erguido com o olhar fixo à frente.

   — Ao menos Jamie não nos fez esperar.

   Brodick avançou impaciente para ver seu rei e abandonar a corte. Não tinha vontade de permanecer durante muito tempo entre os conspiradores reais. Apenas almejava voltar para casa com sua esposa. Planejava passar muitas noites de amor com ela.

   Os soldados descruzaram as lanças permitindo que ele e seus homens entrassem na sala do trono, que estava engalanada com os estandartes da casa real. Ali havia damas enfeitadas com vestidos de seda e veludo. Tinham o rosto maquiado, mas não do fantasmagórico tom branco da corte inglesa. Mesmo assim, elas continuavam parecendo ridículas com aquelas bochechas de um intenso vermelho e os lábios da mesma cor.

   Brodick se inclinou sobre um joelho e se levou um punho ao ombro esquerdo. Cullen e Druce o imitaram.

   — Majestade.

   James Stewart, um interessante cruzamento entre escocês e europeu, estava sentado no trono ao final de um tapete vermelho.

   — McJames e McQuade, nós vamos nos reunir em meus aposentos privados. Vocês podem ser acompanhados por dois de seus homens.

   McQuade lançou ao Brodick um sorriso sinistro e se inclinou sobre um joelho como ele fizera. O rei se levantou e abandonou a sala do trono. Em seguida, Brodick se ergueu e olhou seu inimigo.

   — Veio correndo fazer queixa ao rei, não é verdade, McQuade? — Brodick umedeceu os lábios. — Sempre soube que era um bastardo que não sabe aceitar a derrota, igual a seu pai.

   O rosto do ancião adquiriu um vivo tom vermelho.

   — E você é o filho de um ladrão que espera que um homem esteja bêbado para desafiá-lo com um jogo de raciocínio.

   Brodick esboçou um sorriso zombador.

   — Meu pai me dizia freqüentemente que eu me parecia muito a minha mãe. Diga-me, você o que acha?

   McQuade cuspiu no chão e afirmou:

   — Ela era minha.

   — Receio que nós somos a prova viva de que meu pai soube fazê-la sua — interveio Cullen com mofa enquanto acariciava um cacho de cabelo loiro do mesmo tom do que o de sua mãe.

   McQuade sorriu.

   — Bem, agora veremos quem tem a última palavra. – Sem perder mais tempo, dirigiu-se para os aposentos privados do rei fazendo que as esporas se chocassem contra suas botas.

   — Isso soou bem. — Druce congratulou o Cullen mais uma vez.

   — Você acha?

   — OH, sim, sem dúvida. — Druce inclinou a cabeça para um lado. — Formarão uma família muito interessante quando cumprir com a ameaça de domar Bronwyn.

   Cullen fulminou o seu primo com o olhar ao mesmo tempo em que seus dedos se contraiam num punho. Entretanto, não pôde golpeá-lo como desejava, pois já estavam na presença do rei e tiveram que voltar a inclinar-se diante dele.

   — Levantem-se.

   James Stewart olhou primeiro para McQuade. O ancião ergueu o queixo resistindo bravamente ao olhar de seu monarca para reafirmar sua posição.

   — McJames, me diga por que feriram vários dos homens do McQuade no mês passado, — exigiu o rei.

   Brodick reprimiu o impulso de sorrir. Pode ser que James se vestisse como um rei europeu, mas embaixo dessas calças havia um verdadeiro escocês.

   — Surpreendi-os queimando os lares de vários de meus vassalos.

   — Isso não é certo, falou MQuade.

   Druce deu um passo para diante e afirmou:

   —É. Eu sou testemunha.

   O rei levantou uma mão para sossegar os protestos do McQuade e olhou ao Druce.

   — Juram?

   — Sobre o título do Bisbane. Encontrava-me em Sterling naqueles dias para comemorar o casamento de meu primo. — Druce assinalou com um dedo ao McQuade. — Saí a cavalo com o Brodick e eu mesmo vi as tochas.

   McQuade não parecia arrependido, e sim satisfeito. O rei grunhiu entre dentes.

   — O que vou fazer com você, McQuade? — Sentou-se com a mão num joelho e apoiou o queixo na outra mão enquanto estudava McQuade e seus homens. — Os olhos do mundo estão voltados para Escócia. Não temos tempo para saques e antigas rixas sem solução. A mulher que amava se casou há muito tempo e seus filhos se transformaram em homens.

   McQuade meneou com a cabeça. — Quero que me devolvam uma parte do dote. Isso me satisfará.

   —Você mesmo se casou com uma mulher que lhe garantiu um bom dote.

   — Mas sem terras. São as terras que desejo. Prometeram-me. — McQuade gritou aquela última frase.

   — Isso não acontecerá nunca. — Brodick começava a perder a paciência. — Arrastou-me até aqui sem nenhum motivo. Seus homens estavam saqueando minhas granjas e só os fiz sair de meus domínios.

   — Basta. —Jamie ficou em pé e apontou para McQuade. — Têm desperdiçado meu tempo e não lhe agradecerei por isso.

   Essa terra se foi com a herdeira. Não se discutirá agora o que um pai decidiu para sua filha há trinta e cinco anos. Sugiro que consiga um bom matrimônio para seus filhos se o que deseja é possuir mais terras.

   — Mas esse bastardo acaba de tomar uma esposa inglesa que voltará a duplicar suas terras. — McQuade agitou um tenso punho no ar. — Quero essa terra.

   — Já disse que não, — falou o rei com uma voz cheia de autoridade.

   Fez uma pausa e olhou ao Brodick. — Já buscou sua esposa?

   Brodick ergueu o queixo tão alto como o tinha feito McQuade, mas com uma emoção totalmente diferente.

   — Sim, há três meses.

   O monarca ficou em silencio durante um longo tempo e McQuade começou a agitar o punho outra vez.

   — Viu? — Perguntou aproximando-se ainda mais ao rei. — Este homem está ávido de poder. Está se preparando para desafiá-lo.

   — Isso não é certo. —Brodick olhou furiosamente para McQuade. — Cuidado com seus insultos. Não sou nenhum traidor e não permitirei que me acuse falsamente.

   — Basta!

   Os guardas do monarca reforçaram a ordem real baixando as lanças. McQuade tremia de raiva, mas mesmo assim, retrocedeu diante do frio aço que apontava para seu estômago.

   — Os dois ficarão na corte durante o verão. Não tenho tempo de brigas.

   — Majestade, minha esposa está esperando nosso primeiro filho — protestou Brodick.

   O rei arqueou uma sobrancelha.

   — Se já espera um herdeiro, já não lhe necessita. Ficarão.

   Brodick apertou os punhos; nem sequer os guardas do rei conseguiram aplacar sua ira.

   — Necessito-lhe, McJames. — Jamie agitou um dedo para ele, — Esta corte está cheia de nobres que tão somente desejam continuar atacando-se entre si por assuntos que nunca terão solução. Sua astúcia será bem-vinda.

   — Meu rei...

   — Não se fala mais nisso, está decidido. — A voz do Jamie vibrou com autoridade letal. — Irá me servir durante o verão. O enviarei para casa a tempo de ver nascer seu filho.

   McQuade riu baixo.

   — E você, McQuade, permanecerá na entrada à espera que o chame.

   — Majestade...

   — Já o ouviu. Sou seu rei e eu não gosto que roubem meu tempo com histórias falsas. Há homens aí fora que esperaram durante meses para solucionar seus assuntos. Brigas que podem piorar, e não questão de uma prometida que perdeu há décadas. Deus, McQuade, roubar uma esposa é algo tão escocês como um kilt. Deveria ter planejado o compromisso em segredo se não desejava que alguém lhe roubasse isso antes de consumar a união. — Ergueu a cabeça, adotando uma atitude majestosa. — Retire-se e se assegure de estar aí fora quando o chamar.

   — É um insulto mesmo vindo de meu rei.

   Jamie lhe dirigiu um duro olhar.

   — Mas é melhor que ser encarcerado e amarrado com grilhões por levantar falsos testemunhos contra outro senhor.

   McQuade fechou a boca de repente, fulminou-os a ambos com o olhar antes de observar as pontas das lanças e, finalmente, abaixou a cabeça antes de sair furioso do aposento.

   — Esse homem o perseguirá até que alguém morra. — O rei sacudiu a cabeça, segurou uma taça e tomou um longo gole enquanto seus guardas voltavam a colocar-se em posição de vigilância atrás dele. — Não resta dúvida de que seus filhos foram educados para detestá-lo. Foi muito astucioso não permitindo que ele se inteirasse de seu matrimônio até que fosse muito tarde. Teria roubado sua esposa se soubesse.

   — Poderia tentar.

   Jamie riu.

   — Sim. Certamente que sim.

   O rei estalou os dedos e um criado ofereceu taças a todos os pressente. Brodick aceitou a sua embora não estivesse interessado no vinho francês. Não gostava de bebidas fortes porque impedia seu cérebro funcionar normalmente.

   — McJames prefere a cerveja enfraquecida com água — zombou Jamie.

   Imediatamente, um criado recolheu a taça de Brodick. — O rei lembrava-se. —Sentiu-se levemente impressionado. Tinham passado pelo menos dez anos desde que Jamie e ele tinham bebido juntos.

   — Teria morrido há tempo se não utilizasse a inteligência.

   Existem muitos homens que não desejam que ocupe o trono da Inglaterra.

   O rei fez uma pausa até que o criado retornou. Dessa vez ofereceu ao Brodick uma caneca, muito mais adequada para a cerveja.

   Druce franziu o cenho até que viu que um segundo criado se aproximava com mais duas canecas.

   — Realmente preciso de você. Estamos sendo visitados por delegações de todas as casas reais do continente. Este é um verão no qual a Escócia necessita de seus nobres na corte. — James lhe cravou um firme olhar. — Ficarão aqui, e manterei ao McQuade sob controle para que não se preocupe de que ele persiga o seu clã.

   — E quanto aos seus filhos? — Perguntou Druce.

   O rei assentiu.

   — Exigirei suas presenças para que esperem com seu pai. Alguns meses de espera deveram ensiná-los a não difamarem outro laird.

   Mas não prometerei que isso evite que os ataquem no outono.

   — Não preciso ajuda para fazê-los retroceder até sua própria terra. — Brodick olhou Druce e Cullen. Os dois esboçaram sorrisos pouco agradáveis.

   — Repito McJames, preciso de seu serviço, — grunhiu Jaime.

   Servir ao rei era uma honra.

   Entretanto, isso significava que não retornaria para Sterling...

   Brodick escondeu seu desgosto atrás da caneca. Julgara com dureza homens mais maduros porque não eles desejavam outra coisa além do que retornar aos seus lares, e agora se encontrava exatamente na mesma situação.

   Os jovens não sabiam o que perdiam. De fato, ele tampouco o soubera até que se viu forçado a deixá-la para trás. Mesmo assim, era afortunado e devia lembrar-se. A única coisa que ainda o desconcertava era que sua esposa ainda não tivesse lhe comunicado sua gravidez. Escrevera uma carta cheia de amor, mais do que ele tinha imaginado, aliviando sua culpa por abandoná-la sozinha em Sterling. Mas ela não informara que estava grávida. Essa notícia recebera numa segunda carta escrita pela Helen. Não sentia nenhum remorso por ter ordenado à aia que lhe escrevesse em segredo. Desse modo, não encontraria nenhuma surpresa desagradável quando retornasse para casa dessa vez. Precisava saber que cuidavam de sua esposa. Precisava saber que a tratavam bem e que comia adequadamente.

   Percebia que algo não estava bem, mas não sabia exatamente o que era.

   Tinha um mau pressentimento que não lhe permitia descansar.

   Mas, no momento, serviria a seu rei. Esse era o dever do líder dos McJames.

 

   Inglaterra, quatro meses depois

   — Mãe, eu estou entediada! Vou ficar louca se for obrigada a suportar por mais tempo este retiro involuntário. — Mary Spencer reclamou enquanto passeava fazendo um amplo círculo. Enrugou o nariz e segurou a manga. — E detesto esta lã. Quero recuperar meu vestido de veludo. Já passou uma eternidade desde que esse escocês levou Anne.

   Philipa lançou um tenso olhar a sua filha antes de responder com voz cansada:

   —Só passaram sete meses.

   — Sete meses e meio. O verão se acaba.

   — Ainda não teve suficiente tempo.

   Mary soltou um extenso e forte grunhido, e a condessa esfregou a fronte. Estava mais do que farta das exigências dos homens e já não se importava que a Igreja pregasse que seu dever era apoiá-las.

   Zangada, Mary se sentou sobre a saia de lã com expressão infeliz.

   — Não se preocupe carinho — tranqüilizou sua mãe. — Nosso plano está a ponto de se cumprir. Só é questão de umas poucas semanas mais.

   — E se Anne não estiver grávida?

   Philipa franziu o cenho.

   — Para seu bem, será melhor que o esteja.

   Philipa sentiu que a fúria explodia em seu interior. OH, quanto aproveitaria se vingando de Ivy Copper e de toda sua prole de bastardos. Desejara afogá-los a cada dia de suas vidas desde que nasceram. Seria melhor que Anne estivesse esperando um filho. Um filho varão. Assustava-lhe a possibilidade de precisar continuar vivendo na Escócia durante muito tempo ainda. Os criados falavam até mesmo quando lhes açoitava. Philipa suspirou. Certamente, não era fácil superar os obstáculos que se apresentavam na vida. Teria que continuar esperando, igual sua filha, durante mais algumas semanas. Franziu o cenho ao pensar que Anne fora tratada como à senhora da casa durante vários meses. Era presumível que a bastarda chegasse a esquecer qual era seu lugar. Até mesmo a ameaça contra sua família poderia perder força para ela enquanto se encontrasse segura e mimada tão longe de Warwickshire. Devia fazer algo a respeito. Algo que a fizesse sofrer. Philipa caminhou, analisando todas as possibilidades que se apresentavam.

Sim... Algo que realmente a aterrasse.

 

   Sterling, um mês depois

   Anne grunhiu quando pisou na prega do vestido. Agarrou a saia com as duas mãos e a levantou por cima dos pés. Agora que seu ventre tinha aumentado, via-se obrigada a ter vestidos soltos e o tecido formava redemoinhos em torno de seus pés impedindo-a de se mover livremente. Era frustrante porque sua saúde não podia estar melhor e não queria que os vestidos que usava por sua gravidez a retardassem.

   — Vá ao outro lado do bando, Ginny. Depressa. Anne correu em direção contrária e agitou sua capa ao vento para colocar aos gansos no curral. Tinha chegado o momento de lavá-los e de tirar a grossa penugem que crescera durante o inverno. Agora que estava em pleno verão poderiam cortar as penas, já que elas voltariam a crescer antes que retornasse o inverno. Tentou interceptar a fuga de um enorme ganso e o animal grasnou batendo as asas.

   — OH, vamos. Só quero um edredom de penas para me manter quente. Não sentirá falta delas, prometo isso. — Levantou as mãos e enviou à ave de volta ao curral na margem do rio. A água facilitava enormemente a tarefa de tirar as penas.

   Seu bebê lhe deu um pontapé e Anne abaixou os braços para acariciar com suavidade o ventre arredondado. Faltava pouco para dar a luz e o bebê pressionava o seu útero.

   Quando os sinos começaram a soar, seu coração acelerou ao mesmo tempo em que olhava para Sterling. Viu uma nuvem de pó subindo pelo caminho e desejou com todas suas forças que fosse seu marido quem surgisse dela.

   — Milady, precisa retornar ao castelo — falou um dos capitães que sempre a acompanhava quando deixava Sterling.

   Anne girou a cabeça e observou que o fiel soldado olhava com o cenho franzido aos cavaleiros que se aproximavam.

   — Desculpe-me milady, mas temos que ir já.

   Havia um sólido timbre de urgência na voz do capitão que não dava chance de nenhuma discussão de sua parte. Segurou-lhe a mão e a ajudou a subir na carroça que todos insistiam em que utilizasse. De fato, impediram-na de montar sua égua no mesmo instante em que Helen informou a todo Sterling que esperava um filho.

   Deixaram Ginny e às demais para que se encarregassem dos gansos e eles se encaminharam para o castelo. Brodick havia mantido a sua promessa de que a acompanhassem a todo o momento quando abandonasse o abrigo das muralhas. Apesar da lentidão da carroça, atravessaram os portões de entrada muito antes que os cavaleiros que viram no caminho os alcançassem.

   — Ah, aqui está, milady — disse Helen, que estava esperando-a nas escadas.

   — O conde voltou finalmente? — Sua voz estava cheia de feliz antecipação.

   Helen negou com a cabeça.

   — Milorde não soa os sinos quando retorna.

   Afirma que é uma honra que ainda deve ganhar.

   Um estremecimento de apreensão atravessou as costas de Anne ao ouvir aquilo. Seu bebê deu um forte pontapé enquanto ela levantava o queixo e observava os portões de entrada. Ao fim de alguns segundos, os visitantes se aproximaram o suficiente para poder distinguir o estandarte de Warwickshire flutuando audazmente sob o sol vespertino. O horror a invadiu e a deixou sem fôlego quando entraram no pátio interno. Mas o pior ainda estava por vir. O homem que os liderava tirou o capacete e sacudiu seu longo cabelo. Era um rosto que esperara não voltar a ver.

   Cameron Yeoman era um homem cheio de maldade e fazia parte de um grupo de criados que Philipa utilizava para manter o pessoal sob controle em Warwickshire. Aquele homem não tinha problemas em empregar a força bruta para conseguir seus propósitos. Enviou-lhe um sorriso sarcástico fixando o olhar em seu ventre inchado então lambeu os lábios várias vezes antes de falar.

   — Bom dia, senhora. Sua mãe, lady Philipa, envia-lhe saudações.

   Anne sentiu que o sangue abandonava seu rosto. Cameron riu ligeiramente e indicou com a mão que um cavalo se adiantasse. Imediatamente, sua irmã Bonnie avançou até colocar-se junto ao criado de Philipa. Tinha as bochechas ruborizadas e uma expressão angustiada nos olhos.

   — Trago uma carta — disse Bonnie. — A condessa me ordenou que a entregasse.

   Anne desceu a escada tão rápido quanto o permitiu seu ventre inchado, incapaz de ver sua doce irmã tão perto de alguém como Cameron. Mais de uma donzela em Warwickshire fora vítima de suas violações. Aquele homem era um monstro e freqüentemente batia nas faxineiras até quando já se dobraram a sua vontade.

   Bonnie colocou a mão numa bolsa de couro e tirou um pergaminho enrolado. Anne estremeceu, no entanto ocultou sua reação quase no mesmo instante em que aconteceu. Pegou a missiva, desesperada para afastar sua irmã daquele homem.

   — Desmonta Bonnie.

   — Um momento. — Cameron ergueu a mão e voltou a olhar o ventre de Anne com um retorcido sorriso nos lábios.

   Bonnie estremeceu, mas ficou imóvel com as mãos no pomo da sela.

   O capitão Murry, encarregado da segurança de Anne fora dos muros do castelo, afastou-se para que pudesse falar com liberdade com seus visitantes. A atividade voltava ao seu redor.

   Inclusive Helen se uniu a várias mulheres que trabalhavam lavando lã com o fim de lhe dar um pouco de privacidade.

   Cameron desmontou passando uma perna por cima da cabeça do cavalo e se aproximou o suficiente a ela para que ninguém mais escutasse suas palavras.

   — Sua irmã fica na égua. — Colocou a mão sob seu colete de pele para tirar outra carta e seu sorriso aumentou. — Isto é um contrato de casamento por poderes que me outorga pleno direito sobre sua doce irmã. Pode falar o que quiser, mas nenhum homem deste castelo me negará meus direitos sobre minha esposa.

   —Não... Ela só tem quinze anos.

   — Sim, exato. Tenho que confessar que eu gosto das jovenzinhas. — A perversão brilhou em seus olhos ao mesmo tempo em que lambia os lábios, desfrutando do horror que seu gesto despertou em Anne. — Encontre um modo de dar um passeio comigo sem seus guardas ou vou usufruir muito da viagem de volta ao Warwickshire. Mas não acredito que sua irmã o desfrute tanto — comentou com desdém. — Porém toda mulher deve começar a ter relações com um homem em algum momento.

   — O que farei será expulsá-lo daqui e manter minha irmã ao meu lado.

   Cameron arqueou uma sobrancelha.

   — Seria melhor que lesse a carta que tem na mão antes de agir. É indiferente para mim o que faça. Sua irmã será minha se decide ficar. Não pode me prender para sempre e não tem poder para dissolver meu matrimônio. Os meus homens estão realmente impacientes por ver como o consumo. Pode ser que até que compartilhe a sua irmã com eles.

   Anne rompeu o lacre que mantinha unida as bordas do pergaminho embora não desejasse ler as palavras de Philipa e nem dedicar a essa mulher nenhum segundo de seu tempo. Mas não podia abandonar sua irmã nas mãos de um monstro como aquele, porque não restava nenhuma dúvida de que levaria a cabo suas ameaças.

   — Todos seus irmãos zarparão para o Novo Mundo se não retornar comigo — acrescentou Cameron.

   Isso era uma verdadeira sentença de morte. Os valentes colonos que fundaram Roanoke, a primeira colônia inglesa na América, todos desapareceram sem deixar rastro na vasta terra virgem que era Virginia. Mas os conselheiros do rei continuavam decididos a implantar colônias inglesas no Novo Mundo, assim enviavam navios todos os anos, que não costumavam regressar.

   A carta em suas mãos confirmava as palavras do Cameron e acrescentava algo mais que conseguiu captar sua atenção.

   Realmente acredita que seu filho será recebido melhor do que você o foi em Warwickshire? Retorne e deixe-o ser como de Mary. O mundo o considerará legítimo e isso permitirá que ele usufrua dos privilégios que você saboreou como senhora de Sterling. Pensa nisso antes de se esconder atrás da fronteira escocesa.

   Philipa era uma mulher cruel, mas dizia a verdade. Até mesmo no caso de que Brodick não a expulsasse, seu filho carregaria o estigma de ter nascido bastardo.

   Mas não precisava ser assim.

   Anne estremeceu enquanto acariciava seu ventre com uma mão tranqüilizadora. Formara um nó na garganta e era difícil respirar. Entretanto, obrigou a si mesma a recuperar a calma. Precisava fazer o melhor para seu bebê. Esse ser inocente que crescia em seu ventre poderia ser tão respeitado como seu pai ou tão desprezado como ela. Não podia pôr sua própria vida acima de seu filho e tampouco seria capaz de comprar sua felicidade à custa dos sofrimentos de seus irmãos.

   — Há um vale mais à frente do castelo que não pode ver das muralhas. Espere-me ali — ordenou ao Cameron.

   O criado grunhiu, mas Anne se afastou dele sem querer escutar mais nada do que tivesse para dizer. Subiu as escadas, deu a volta com a cabeça alta e disse em voz alta:

   — Lamento escutar que não podem ficar para jantar. Obrigado por escoltar a Bonnie.

   Cameron franziu o cenho, embora conseguisse ocultar sua fúria ao ver que Helen se aproximava de Anne.

   — A jovem fica? — perguntou a aia.

   — É obvio — respondeu Anne. — Capitão Murry, ajude-a a desmontar.

   O capitão se dirigiu ao grupo de visitantes com passadas firmes e ergueu a mão para Bonnie. Aliviada, a moça engoliu o choro e aceitou a mão para apear do cavalo. O capitão a afastou da égua enquanto os homens do Cameron observavam o seu chefe, que olhou fixamente Anne ao mesmo tempo em que voltava a guardar a licença de matrimônio em seu colete. Em seguida, deu umas batidas sobre ela num gesto de advertência.

   — Suponho que em Warwickshire há tanto trabalho como em Sterling. Desejo uma boa viagem, — disse Anne fulminando Cameron com o olhar.

   O assecla de Philipa observou Bonnie por um momento com olhos cheios de luxúria, mas agitou a cabeça quando Anne se moveu para colocar-se diante de sua irmã.

   — Certo. — Cameron saltou sobre seu cavalo, segurou as rédeas da égua de Bonnie e abandonou o pátio seguido de seus homens.

   — Voltará para por mim. — A voz do Bonnie soou apagada. — Ele prometeu... Prometeu que me faria coisas terríveis.

   — Não pense nisso — sussurrou Anne em seu ouvido para que ninguém exceto sua irmã a ouvisse.

   — Parece não ter dormido nada ontem à noite, querida — interveio Helen franzindo o cenho.

   — Sim — assentiu Anne agradecida pela distração. — Viajar não lhe fez bem. Helen poderia acompanhá-la a sala de banho, por favor? Acredito que necessita um pouco de consolo de suas hábeis mãos.

   — Mas... — começou Bonnie.

   — Shh, pequena. Asseguro-lhe que não poderia deixá-la em melhor companhia. Cuidou tão bem de mim que quase me sinto culpada.

   Helen sorriu diante da adulação e segurou a mão de Bonnie com orgulho.

   — Acompanhe-me e farei que se sinta como nova.

   Anne as seguiu pelas escadas e se dirigiu ao quarto do segundo andar que tinha sido seu durante um período tão breve de tempo. Mesmo assim, nunca o esqueceria. As lágrimas caíram incontroláveis por seu rosto. Em seu coração, sabia que era melhor fazer enfrentar Philipa antes que ver Bonnie ir embora com o Cameron. A Igreja tinha mais autoridade que a rainha Elizabeth ou o rei James, e a licença de casamento por poderes seria respeitada em ambos os países.

   Mesmo que o capitão do guarda não aprovasse a união, não poderia evitar que Cameron levasse Bonnie a menos que seu corpo mostrasse marcas que provassem que aquele homem era uma besta. Sim, Cameron era um digno servo de uma mulher tão malvada como Philipa. Ambos sabiam escolher bem suas ameaças.

   Seu olhar se dirigiu à cama e seus olhos voltaram a encher de lágrimas. Mas dessa vez se sentiu feliz. Percorreu a colcha com os dedos e sorriu ao recordar o prazer que conhecera ali. Ninguém apagaria isso de sua mente. Segurou um dos travesseiros e o colocou debaixo da colcha. Puxou as mantas e as moldou para parecer que estava dormindo. Depois fechou os cortinados e só deixou uma pequena abertura aos pés da cama.

   Precisava de tempo para afastar-se o bastante de Sterling. Os guerreiros McJames não entrariam na Inglaterra sem seu senhor.

   Sentou-se e escreveu uma última carta ao Brodick informando finalmente sobre seu filho e dizendo quão feliz seu coração se sentia por carregá-lo em seu ventre. Lacrou a carta, segura de que seu bebê retornaria a Sterling.

   Esse era o maior presente que uma mãe podia dar. Saber que seu filho teria uma vida melhor era o motivo que impulsionava a mais de uma mulher nobre a casar sem amor. Colocou outra capa sobre a que já usava e se dirigiu à porta da torre. O pátio transbordava de atividade e teria que escapar da vigilância do jovem capitão.

   Ele estava treinando um escudeiro com um arco, mostrando como devia apontar. Lançaram a flecha e ela voou sobre o estábulo. Rindo alegremente, o capitão subiu ao telhado em busca da flecha e Anne aproveitou que estava distraído para atravessar correndo os portões da muralha externa.

   Se tivesse sorte não se dariam conta de que tinha abandonado seus aposentos até a manhã seguinte. Não esperava que a reconhecessem. Havia muitos servos no caminho conduzindo carretas cheias de erva recém colhidas e mercadorias, e sua capa de lã passava despercebida entre outros tartans.

   Os sinos não soaram, assim continuou caminhando enquanto seu coração se agarrava à idéia de que Bonnie estava a salvo. Seu bebê deu um pontapé e isso a fez acelerar o passo, decidida a vê-lo nascer como legítimo.

   Helen entrou essa noite na estadia de sua senhora com extremo cuidado. Ergueu uma mão até seus lábios e advertiu às donzelas que não fizessem ruído. Mostrou à lareira e atravessou o quarto sigilosamente para pegar a carta que havia sobre o secreter.

   Bonnie permanecia em silencio nos degraus, à espera que dissessem o que devia fazer.

   A Helen não inquietou com o fato de que a senhora se retirasse cedo. O momento de dar a luz se aproximava e o bebê absorvia quase toda sua energia. Além disso, certamente se sentiria aflita por ter recebido notícias de sua mãe. No dia seguinte tentaria evitar que ajudasse com os gansos. Logo chegaria o momento de fazer que Agnes viajar para Sterling.

   A chegada do primeiro filho sempre era difícil de prever, mas o fato de que Anne ficasse cada vez mais tempo em sua cama significava que o momento devia estar aproximando-se. Fez sinais às criadas para que se apressassem a sair do quarto e fechou a porta para deixar à senhora em paz depois de comprovar uma última vez o fogo.

   — Dorme. Irei acomodá-la e amanhã poderão passar o dia conversando.

   Bonnie permitiu que as amáveis mãos da aia a conduzisse até uma cama. O horror e a fadiga a impediam de pensar com coerência. Tudo o que importava era que Anne e ela dormiriam num lugar seguro, longe do Cameron, pensou antes de ceder a um sonho inquieto.

 

   Cameron obrigou a seus homens a cavalgar durante a noite. A viagem de volta ao Warwickshire era mais rápida porque uma boa parte se realizava costa abaixo. Anne não se importou. Sabia que, de qualquer maneira, ela não teria dormido. Não depois de ter visto a luxúria que brilhava nos olhos do lacaio de Philipa. Entretanto, não pôde deixar de comparar os leais homens de Brodick com os sequazes de Cameron. Tinha optado de boa vontade ficar na cozinha de Warwickshire porque o grupo de homens do Cameron era conhecido por sua libertinagem. A condessa não se incomodava em repreendê-los porque cumpriam eficazmente todas suas ordens sem lhes importar o quanto injustas que fossem.

   Entraram em solo inglês pouco depois do amanhecer. Anne esticou as mãos sobre a cadeira. Quando chegasse a noite, voltaria a encontrar-se de novo em presença de Philipa.

 

   Sterling

   Helen gritou pela primeira vez em anos. Inclusive rasgou os cortinados da cama numa desesperada tentativa de encontrar sua senhora.

   Não tinha sentido!

   As criadas saíram correndo do quarto e seus gritos despertaram todo o castelo. Os homens acudiram pressurosos ao pátio, vacilando durante um momento ao se darem conta de que a comoção vinha dos aposentos da esposa do conde.

   — A senhora desapareceu. — Helen gritava passando nervosamente as mãos pelo cabelo. — Não o entendo. Desarrumou a cama para que parecesse que estava ali. Deveria ter confirmado ontem à noite.

   — Não pode se culpar. — A suave voz do Bonnie fez que todos parassem em seco. Estava de pé na porta do quarto de Anne com o rosto sulcado de lágrimas. — Lady Philipa sempre a odiou mais que a todos outros, — estremeceu, abraçando a si mesma. — Mas minha irmã é bondosa e sempre pensa primeiro nos outros.

   O capitão Murry a segurou pelos antebraços.

   — Diga-me onde está a senhora.

   Bonnie lutou e seus pés escorregaram no chão de pedra ao tentar escapar. O pânico inundava suas feições enquanto se mexia. Murry pareceu confuso por sua reação.

   — Não me toquem. Por favor, não me toquem. — A voz do Bonnie era um fraco gemido que despertou a compaixão em todos os pressente.

   — Soltarei se me disser o que está acontecendo.

   Bonnie assentiu repetidas vezes com a cabeça até que o capitão a soltou. Fez devagar e com cuidado para que a moça não caísse ao chão, embora tivesse a precaução de colocar seu corpo entre ela e a porta, deixando claro que não a deixaria sair antes de conseguir respostas.

   — Lady Philipa ordenou que retornasse a Warwickshire — explicou Bonnie. — Do contrário, enviará nossos irmãos ao Novo Mundo.

   — Isso é uma loucura. Não há nada do outro lado do oceano. Todos sabem que aqueles que são estúpidos o suficiente para embarcar para lá só encontrarão a morte. — Helen sacudiu a cabeça e inclusive se benzeu.

   — Por isso Anne obedeceu. Sabe que lady Philipa o fará se não retornar.

   O capitão levantou uma mão exigindo silêncio.

   — Há irmãos?

   Bonnie assentiu.

   — Somos duas irmãs e três irmãos, filhos da amante do conde do Warwickshire. A condessa enviou Anne no lugar de sua filha porque lady Mary não desejava casar-se. Ordenou-lhe que retornasse quando estivesse grávida ou Philipa expulsaria do castelo a nossa mãe. Ao ver que passavam os meses e Anne não voltava para o Warwickshire, lady Philipa se enfureceu e enviou ao Cameron aqui com novas ameaças para obrigá-la a obedecer. — Umas silenciosas lágrimas brilhavam em suas faces. — A condessa me casou com o Cameron porque sabia que minha irmã me protegeria como sempre tem feito.

   Depois das palavras de Bonnie, fez-se um pesado silêncio até que Helen, lívida, grunhiu como um urso furioso.

   — Capitão Murry, traga de volta à senhora.

   O capitão pareceu inseguro. Olhou Bonnie e logo Helen.

   — Se não é a filha legítima do conde de Warwickshire, não é a esposa do senhor.

   — Não é sua esposa? Ficou louco? Leva no ventre seu filho.

   — Seu bastardo — disse uma das criadas.

   Helen se virou para ela numa fúria.

   — Era virgem quando o senhor a levou para cama e também é filha do conde de Warwickshire. Lembrem bem minhas palavras. Será a filha legítima a que sofrerá por não ter ocupado o lugar que lhe correspondia. Ambas são filhas do conde, o contrato por poderes será válido nos tribunais porque nosso senhor foi enganado. A Igreja anulará a primeira união e logo o senhor poderá casar-se com a mãe de seu filho.

   O capitão Murry assentiu lentamente.

   — Entendo sua postura, Helen, mas algumas pessoas não estarão de acordo.

   — Agora não há tempo para debater. Têm que ir procurá-la. — Helen retorceu as mãos.

   O capitão negou com a cabeça.

   — Não adianta. Já estão perto da fronteira inglesa. A senhora planejou bem. Poderíamos tê-los detido se tivéssemos descoberto ontem seu desaparecimento. — O capitão sacudiu a cabeça ao mesmo tempo em que sua mão retesava no cinturão. — Precisamos do conde para solucionar este assunto. Nem sequer abrirão as portas de Warwickshire para nós, e muito menos reconhecerão o que têm feito agora que têm ao filho do laird dos McJames em seu poder.

   — Esse bebê nascerá em quinze dias.

   Murry se deteve na porta.

   — Então cavalgarei durante toda a noite para alertar ao senhor.

   Abandonou o quarto e seus homens o seguiram com firme determinação. Helen observou o quarto. Havia lágrimas de tristeza em seus olhos.

   — Meu deus, como pôde acontecer uma coisa assim?

   — O amor é uma maldição — sentenciou a criada que falara pouco antes. — Minha irmã tem um bastardo por ter cedido à tentação.

   — Não sempre é assim. — Helen desejou acreditar suas próprias palavras, mas soaram ocas no aposento vazio e não pôde evitar estremecer ao sentir que um calafrio a percorria por inteiro.

 

Castelo de Warwick

   — Seu comportamento é vergonhoso. — Philipa falou devagar, deixando que Anne assimilasse cada uma de suas palavras antes que a seguinte atravessasse seus lábios. — É evidente que não se preocupa com ninguém além de você. — Segurou uma carta e golpeou a palma com ela enquanto um brilho de triunfo cintilava em seus olhos. — Meu marido não retornou para o dia de pagamento.

   Anne se manteve imóvel com o olhar fixo na Philipa, negando-se a abaixar a vista. Não voltaria a mostrar respeito cego a aquela mulher nunca mais.

   — Fiz bem tendo a cautela de casar sua irmã com um homem que a manterá sob controle. — Philipa franziu o cenho ao ver que Anne não inclinava a cabeça diante dela. — O simples fato de escrever esta carta prova que você e seus irmãos herdaram a falta de respeito que sua mãe me mostrou ao dar ao meu marido filhos varões.

   Anne sorriu levemente e aquele gesto enfureceu a senhora de Warwickshire, fazendo que seu rosto avermelhasse.

   — Minha irmã está em Escócia.

   — O que? — Os lábios de Philipa se retorceram numa horrível careta. — Ordenei que retornasse.

   —Se só me preocupasse comigo mesma, eu continuaria em Sterling, longe de seu alcance.

   — Não permito que me fale assim, eu sou sua senhora.

   Anne não cedeu.

   — Não. Já não o é. Enviou-me para longe e me entregou a outro nobre. Minha lealdade pertence agora ao conde do Alcaon.

   Um brilho de medo sobrevoou o rosto de Philipa. Pareceu assombrada por aquela emoção e seus lábios se moveram durante uns breves instantes sem emitir nenhum som.

   — Sua bastarda, me obedecerá — disse finalmente transformando suas mãos em punhos.

   —Ou o que? — Anne não estava tão segura como sua voz transmitia, mas não se calaria mais diante de tanta injustiça. Sua submissão a Philipa não fora recompensada com justiça como pregava a Igreja. O fato de cumprir com sua obrigação, realmente não era nada se a mulher a quem oferecia sua lealdade não recordava seu dever para com seus próprios criados. Essa era a lição que aprendera com Brodick. Ele era um líder porque considerava um dever, não só um privilégio herdado de seu pai. E lutava cada dia por ocupar dignamente o lugar que lhe correspondera na vida.

   — Farei que expulsem sua mãe.

   —O inverno já passou — replicou a jovem sem titubear.

   Philipa soltou um grito sufocado diante da audácia que Anne demonstrava.

   — Mesmo assim — continuou Anne, — provavelmente fosse até melhor que o fizesse. Quando ela chegar ao próximo condado, acabará toda esta farsa. Não acredito que meu pai se sinta feliz quando descobrir o que fez.

   Philipa estendeu para ela um dedo ameaçador.

   — Fará o que digo bastarda.

   Anne não respondeu, limitando-se a apoiar uma mão sobre seu ventre. Philipa o olhou com avidez, como uma pessoa totalmente carente de vontade e incapaz de deter seu próprio comportamento destrutivo.

   — Levo em meu ventre o filho de meu senhor, o conde do Alcaon.

   Se for justa, invalidará o casamento de Bonnie e enviará meus irmãos a corte com nosso pai, onde, se Deus quiser, terão melhor sorte. — Um nó formou-se em sua garganta, mas Anne fez desaparecer. Realmente desejava o melhor para seu bebê e sacrificar-se por ele era a maior prova de amor que podia lhe oferecer. — Não terá a meu filho em troca de nada. Meus irmãos ignoram o que tem feito, assim pode enviá-los a corte hoje mesmo.

   —Ou o que... Bastarda? — Philipa sorriu. — Mmm? Tem muito que dizer, mas eu sou a senhora aqui. As portas do castelo só se abrem quando eu o ordeno.

   Anne se sentiu insegura por um momento e Philipa sorriu com desdém ao percebê-lo.

   — Ouvi que na Escócia ser bastardo não tem grande importância. — disse Anne.

   — Mas isto é a Inglaterra... Bastarda — alfinetou-a antes de lhe dar um forte bofetão que fez a cabeça de Anne virar para o lado. — Enquanto estiver aqui, ficará escondida. E mais vale que seu filho seja um varão.

   Dito aquilo, Philipa atravessou a sala, sentou-se numa cadeira ricamente esculpida e arrumou a saia como se pertencesse à realeza.

   Mary se colocou imediatamente atrás de sua mãe e ambas adotaram a atitude das mulheres nobres e poderosas que acreditavam ser.

   Mas não se aproximavam nem de longe ao poder e dignidade que irradiava Brodick.

   — Ocupará meu solar até que chegue o momento. Serei misericordiosa e permitirei sua mãe que a ajude. — Olhou sua filha rindo entre dentes e acrescentou. — É obvio que se persistir nessa atitude desafiante, seu filho nascerá exatamente nas mesmas condições que você e será ilegítimo.

   — Não. — Que mais restava por fazer? Philipa sabia muito bem que tinha o controle da situação. O mundo não era indulgente e se o seu filho nascesse fora do casamento seria um bastardo.

   — Exato. Vejo que ainda há uma parte em você que não cedeu à luxúria que esse escocês alimentou.

   — O rosto de Philipa se contraiu e seus lábios formaram uma careta de repugnância. — Não me resta dúvida de que aproveitou concebendo seu filho. Parece muito com sua mãe. Mesmo assim, isso era necessário.

   Agarrou uma taça e tomou um comprido sorvo, satisfazendo seus caprichos sem se importar que Anne estivesse esperando.

   —Você não poderá sair de meus aposentos, Mary. Só assim seremos capazes de fazer acreditar em todo mundo que deu a luz ao menino.

   — Mas, por quanto tempo, mãe? Estou cansada de ficar escondida.

   — Acaso todo mundo se ficou louco e me perdeu o respeito? — Philipa franziu o cenho. — Estou me ocupando de tudo e não fazem outra coisa além de discutir minhas ordens.

   Mary fez uma careta, mas sua expressão indicava que não estava de acordo com sua mãe e que tomaria represálias.

   —Terá que permanecer na cama depois de nascer o menino para verem que está se recuperando, Mary. Deveria aproveitar esse tempo para agradecer que não tem que enfrentar à dor do parto. Anne poderia morrer antes de fazer bebê nascer e então sim que teríamos grandes problemas para solucionar.

   Mary enrugou o nariz.

   — Não pode morrer Anne.

   — Irei me esforçar para que não seja assim.

   Mary encolheu os ombros e entreabriu os olhos mostrando uma total indiferença por algo que não fosse cumprir seus desejos. O bebê no interior de Anne deu um pontapé como se compreendesse que discutiam sobre ele e a jovem se negou a desfalecer. Seu filho merecia nascer do mesmo jeito como fora concebido. Com amor.

   Provavelmente Brodick iria perdoá-la algum dia.

   — O que lhe fez essa maldita mulher?

   Quando Ivy Copper entrou no solar, só teve olhos para Anne. Percorreu sua filha de pés a cabeça com o olhar e sua atenção se concentrou no ventre inchado.

   — Nunca teria suspeitado que fizesse algo tão horrível. — Atravessou o quarto correndo e envolveu a Anne num forte abraço.

   — Senti sua falta, mãe.

   Desejara muitas vezes tê-la ao seu lado, mas o regular batimento do coração de sua mãe foi um doce consolo. A vida. Por isso tinha deixado Warwickshire, para assegurar a vida de sua mãe. E também por isso havia retornado.

   — Não foi horrível. É um bom homem.

   Sua mãe emitiu um grave gemido e retrocedeu para cravar seu maternal olhar na Anne.

   — Por favor, diga que não se apaixonou. Anne, eu a avisei sobre isso. É muito bondosa para seu próprio bem. As duas o são, você e Bonnie.

   — O amor não é uma carga, mãe.

   Ivy suspirou e seus lábios esboçaram um leve sorriso. Tomou o rosto de sua filha entre as mãos e quando falou, havia ternura em sua voz. — OH, minha doce Anne, deu um passo que não tem retorno. Apaixonou-se e sou tão incapaz de repreendê-la por isso como sou de deixar de amar seu pai. Perdoe-me por lhe dar um exemplo tão pobre.

   — Ainda o ama? Até mesmo agora?

   — Refere a minha idade? O certo é que sim.

   Ivy se virou e examinou o solar. Ocupava o andar superior de uma das torres de Warwickshire e havia caras janelas de cristal. Também tinha três luxuosas cadeiras com respaldos e braços ricamente elaborados, ainda um tear que parecia esperar que a senhora da casa trabalhasse nele.

   Anne não acreditava que Philipa realizasse semelhante tarefa. Absorta, a jovem passou os dedos sobre os finos fios. A luz do sol os acariciou e quase os fez brilhar.

   — Seda.

   — Sim — confirmou sua mãe com uma nota de clara inveja na voz. — Seu pai sempre conviveu bem com Philipa. Jamais lhe nega nada.

   — Nunca lhe deu seu amor. — Anne sorriu. — Isso foi só teu.

   — Sim e olhe o que isso fez contigo. —Ivy meneou a cabeça. — Usou-me para fazê-la obedecer, não é verdade?

   — O amor é recíproco, mãe. Você também tem feito sacrifícios por mim.

   Ivy franziu o cenho. — Não é a mesma coisa, minha filha. O que fez contigo é uma crueldade.

   Anne suspirou. Olhou pela janela e percebeu de que dava para o norte. Ali ficava Sterling. Esse era o lugar onde seu filho pertencia; o lugar no qual os homens usavam saias e grandes espadas presas nas costas. Warwickshire não era seu lar. Não havia nenhum sentimento de doce alegria ali, nem consolo.

   — Ao menos consegui que Bonnie ficasse na Escócia, longe do alcance das garras de Philipa. Não foi uma má experiência, mãe. Se eu pequei, fiz conscientemente.

   Ivy sacudiu a cabeça.

   — Não estou em situação de aconselhar ninguém sobre o amor. — Apoiou uma mão no ventre inchado de sua filha. — Entretanto, realmente desejava que seu primeiro filho não nascesse nestas circunstâncias.

   — Retornei para que não fosse um bastardo. Este menino ocupará o lugar que lhe corresponde embora para isso tenha que permitir que Philipa consiga o que quer. Se falar algo contra, meu bebê será ilegítimo. Não há outro modo. E ao menos resta o consolo de saber que Bonnie está a salvo. Brodick é um bom homem; não permitirá que Cameron a leve. — Ao pensar nisso, Anne se sentiu cheia de confiança. Tudo sairia bem.

   De repente, Philipa empurrou para o lado a cortina que separava o quarto do resto de seus aposentos e entrou com passo decidido seguida de Cameron.

   O ódio cintilava nos olhos da condessa quando olhou ao Ivy.

   — No fim obterei uma satisfação por todos os anos que me vi obrigada a suportar a vergonha de que você tivesse filhos com meu marido — alfinetou-a. — Se vocês saírem do solar, as duas irão enfrentar às conseqüências — ameaçou-as Cameron.

   Ivy lançou um furioso olhar à condessa; era a primeira vez que Anne via refletido no rosto de sua mãe o desprezo que sentia.

   — Tire essa expressão de sua cara... Sua rameira. — Philipa agitou um dedo na direção de Ivy. — Eu sou a senhora aqui. Você não é mais que a vadia com quem meu marido costuma aliviar sua luxúria.

   — Sou muito mais do que isso. —Ivy ergueu o queixo, sua voz era desafiante.

   Por um momento, pareceu como se a senhora de Warwickshire não soubesse o que fazer com a silenciosa negativa de Anne e Ivy rebaixarem-se. Tremeu de raiva e seu rosto corou. — Será melhor que lembre qual é sua posição. — Depois de dizer aquilo, virou para partir e empurrou a cortina para dar passagem.

   Cameron se apressou a segui-la e tanto Anne como Ivy puderam escutar como discutia com a condessa.

   — Agora que não posso desfrutar de sua irmã, está em dívida comigo por trazê-la de volta.

   Philipa amaldiçoou enquanto Ivy sacudia a cabeça. Mas Anne sorriu.

   Tinha conseguido desbaratar parte dos planos da condessa e conseguiria que seu filho ocupasse a posição que lhe correspondia por direito. Sentou-se no tear e o moveu com suavidade para ver se estava encerado. Suas mãos estavam impacientem para começar a trabalhar. Selecionou um fio e começou a tecer.

   —Mostrarei como é o homem que amo mãe.

   A jovem começou trabalhar no tear, a lembrança de Brodick aguardando-a no pátio e não parou até que os últimos raios do sol se desvaneceram. Ao amanhecer, começou de novo. Suas costas doíam e seu filho se mexia muito. Mesmo assim, apenas lamentava era não encher o quarto de ar fresco. Caminhava freqüentemente pela alcova para aliviar a tensão nos rins, mas sempre retornava à tapeçaria, decidida a acabá-la. Decidida a voltar a ver o rosto de Brodick, mesmo que fosse numa simples tapeçaria de seda.

   Os dias se estenderam e Anne não estava realmente ciente de quantos tinham passado desde sua chegada. Estava absorta em sua tapeçaria e trabalhava duro para acabá-la. Sua mãe escreveu uma lista do que necessitariam para hora do parto e a deu a Mary, que se queixou por precisar fazer coisas como se fosse uma criada.

   Mas Ivy se manteve firme.

   Cameron teve que levar pessoalmente uma cadeira de parto ao solar. Deixou-a cair com uma expressão desdenhosa e antes de partir grunhiu: — Trabalho de mulher.

   — Que homem tão horrível. — Ivy passou uma mão pela resistente cadeira. Tinha a forma de uma grande ferradura e permitia à mãe apoiar comodamente o peso de seu corpo enquanto dava a luz. Era realmente uma novidade.

   Lady Mary atirou um livro que atravessou o quarto. — Mãe, por que não ordena à velha Ruth que prepare alguma poção para que o bebê chegue hoje?

   — Pare de protestar de uma vez por toda, Mary. Precisa esperar que chegue o momento. — Philipa lançou um olhar furioso a sua filha. — Só temos uma única oportunidade para que isso saia bem sem que arrisque sua vida. Esse menino tem que estar sadio e forte. Não deve ser forçado a vir ao mundo antes que chegue sua hora.

   Mary fez uma careta a título de resposta.

   Philipa entreabriu os olhos e dirigiu o olhar a suas costas, para a cortina. Ao ver que estava fechada, indicou a Mary que se aproximasse.

   Sua filha encolheu os ombros e obedeceu.

   — Ruth me preparou isto. — A condessa levantou a mão e mostrou um pequeno frasco de cristal antes deixá-lo na penteadeira.

   Dentro havia uma mistura com folhas e partes de casca. — Tomado com vinho, fará com quem o beba caia num sono onde não despertará jamais.

   Mary soltou um grito sufocado, no entanto uma expressão de selvagem deleite sobrevoou seu rosto.

   — Uma vez que tenha nascido o bebê, ofereceremos a essas duas rameiras um pouco de vinho quente com especiarias — sussurrou a jovem estendendo o braço para tocar o pequeno recipiente.

   — Exato. — Philipa olhou a suas costas de novo. Quando estava segura de que Ivy e Anne não a escutavam, deu uma palmada leve na bochecha de sua filha. — Não quero mais chiliques. Tudo acabará logo.

   Mãe e filha compartilharam um sorriso de pura maldade. A poção ficou sobre a penteadeira, aguardando o momento no qual seria usada.

 

Escócia

   — Deus, parece exausto. — Druce se levantou e ofereceu sua cadeira ao capitão Murry.

   O guerreiro rechaçou o assento e tirou o chapéu para saudar seu senhor antes de falar. — Levaram a senhora para Inglaterra.

   — O que? — Foi impossível distinguir qual dos homens falou primeiro. As vozes de Brodick, Cullen e Druce ressoaram em uníssono no salão da casa que tinham alugado na cidade.

   Brodick levantou então a mão para impor silêncio num gesto cheio de autoridade. — Por que o permitiu?

   — Ela nos fez acreditar que estava dormindo em sua cama e saiu às escondidas do castelo.

   Uma expressão letal sobrevoou o rosto do conde.

   — Há mais, milorde, e não é bom.

   O capitão Murry explicou todos os detalhes do ocorrido e quando acabou Brodick sacudiu a cabeça, incapaz de assimilar por completo o engano do qual fora sujeito. Quem tramaria uma coisa assim?

   De repente se ouviu uma gargalhada procedente do outro extremo da estadia. James Stewart golpeava a mesa com a palma da mão, obviamente divertido.

   —Não pensava que os ingleses fossem tão ardilosos. — Riu entre dentes e ergueu a caneca para Brodick. — Bom, meu amigo, suponho que desejará que o autorize a partir. Têm minha permissão. Vá recuperar sua esposa.

   O capitão Murry se inclinou diante do monarca, surpreso quando percebeu sua imponente presença, e depois se virou para indagar ao seu senhor: — Mas, continua sendo sua esposa, milorde?

   — É obvio que é! Carrega meu filho em seu ventre. – Brodick já estava em pé. Apanhou a espada e a colocou nas costas com movimentos firmes.

   — Estou contigo. — Druce assentiu com a cabeça e brandiu sua própria espada.

   O rei permaneceu pensativo durante um longo período, um tempo muito extenso para o gosto do conde de Sterling.

   —Também é filha do conde de Warwickshire e foi sua própria esposa quem a entregou. Disse que Anne era a mulher que eu fui buscar — acrescentou Brodick.

   James Stewart arqueou uma sobrancelha. — Põem muita paixão em tudo o que faze devo reconhecer que o invejo por isso. — Levantou-se e seus guardas ficaram as suas costas. — Estou de acordo que o matrimônio é válido, mas, me permita que lhe pergunte algo. Deseja uma mulher que lhe mentiu?

   Brodick ficou olhando seu rei enquanto sua mente recordava o dia que viu Anne pela primeira vez. — Ela nunca me mentiu.

   James arqueou de novo uma sobrancelha.

   — Só ficou em silêncio. — Brodick cerrou as mãos. — Essa condessa, a vadia que a entregou, deveria ser açoitada por abusar a tal extremo de sua posição.

James bufou.

   —Sim, entendo. — Fez um gesto afirmativo com a cabeça. — Vá recuperá-la a e eu me encarregarei de fazer valer seu acordo de casamento.

   Não havia nada mais que dizer. Brodick saiu a toda pressa da sala com o Druce e Cullen atrás dele. Seus homens se apressaram a selar os corcéis e o som ecoou no meio daquela fresca amanhã de outono. Fixaram as rédeas e as bridas enquanto prendiam algumas provisões nos cavalos.

   Sem perder um segundo sequer, Brodick montou seu garanhão com o coração pulsando a toda velocidade.

   O que fez mulher? Pensou.

   Não importava. Ele era o laird dos McJames e ela era sua conforme as leis de ambos os países, e por direito de posse. Se tivesse que trazê-la de volta à força, faria. Inclinou-se sobre o pescoço de seu corcel e estimulou o animal para cavalgar.

 

Castelo de Warwick

   Anne despertou de mau humor, sabendo muito bem o que isso significava. Não tinha fome e era indiferente que a mandasse para tomar o café da manhã. Enfim, pensou com desdém, o que importava o que servissem em sua prisão se não tinha fome. Bufou, ficou passeando pelo solar e parou na frente da tapeçaria terminada para ver como os fios de seda deram vida à imagem de Brodick. Pensativa, percorreu com os dedos seu escuro cabelo. Sua mãe estava mais calada do que de costume essa manhã, dedicando seu tempo a tecer devagar. Anne voltou a olhar a tapeçaria e sentiu que um calafrio percorria suas costas. Era quase como se pudesse escutar Brodick cavalgando para ela. O que era uma loucura.

   Virá a por ti...

   As doces palavras do Bonnie ecoaram em sua memória. Parecia que acontecera há anos, desde que compartilharam seu último momento juntas. Elas só estiveram separadas alguns meses, mas tudo mudara muito nesse tempo. Tremendo, recordou como observara a partida de seu pai naquela longínqua manhã. O suor cobriu sua fronte ao lembrar-se de Bonnie falando do menino que ela teria no outono. Através das janelas, pôde ver as folhas vermelhas e amarelas. Fazem à cevada secar nos campos aproveitando os últimos dias de clima quente.

   Sentia-se tão sozinha que a visão da tapeçaria deu vontade de chorar. Tentando se distrair, passeou de novo sentindo ódio por aqueles muros de pedra. De repente, outro calafrio atravessou suas costas, seguido de uma onda de calor. Ficou paralisada e uma cãibra retesou seu ventre na altura dos quadris. A capa começou a incomodá-la, então desabotoou os botões que fechavam a parte superior e a deixou sobre a cama. Mesmo assim, ainda fazia muito calor no solar. Seu corpo estremeceu ao sentir outra cãibra e não pôde evitar gritar quando uma corrente de líquido quente brotou entre suas pernas.

   — Bem, sabia que tinha chegado o momento. — Sua mãe se ajoelhou com calma para secar o chão e o pano que usou se tingiu de rosa. Levantou-se e tentou tranqüilizar a sua filha. — Não se preocupe Anne, é assim que funciona. É normal.

   A jovem não teve tempo de discutir a serena afirmação de sua mãe, porque sentiu outra cãibra muito mais forte que o anterior. Inclinou-se para frente e apoiou as mãos sobre as coxas enquanto a dor cravava suas garras nela.

   — Respire Anne. Faça inspirações longas e profundas. Deve fazer pelo bebê.

   A cortina se moveu de repente e Mary apareceu na soleira para ver o que ocorria.

   — Chegou o momento?

   Ivy fulminou a jovem com o olhar, mas Mary não aguardou uma resposta e sorriu com olhos ávidos.

   — Mãe, mãe... — gritou. — Chegou o momento.

   Ouviu-se o som de sapatos contra o chão de pedra e Philipa apareceu no solar no momento em que Anne se erguia.

   — Bom. Muito bem. Informarei à cozinheira de que tenha água quente pronta. —A condessa ameaçou. — Cuidado com os gritos, moça. Se fizer muito ruído não poderei fazer as pessoas acreditarem que o seu filho é de Mary.

   — Este não é momento para ameaças — avisou Ivy cortante.

   Philipa ficou estupefata diante das palavras da amante de seu marido e cerrou os lábios num gesto de desaprovação; entretanto, a mãe de Anne não se sentiu intimidada.

   — Temos trabalho que fazer aqui — disse com frieza. — Dar a luz não é uma tarefa fácil.

   Philipa engoliu uma forte réplica e reconheceu. —Não, não é. —Durante um breve instante, pôde-se ver um brilho de compaixão em seu rosto, mas desapareceu rápido, e a cortina voltou a fechar-se.

   — Que mulher tão ressentida e odiosa — resmungou Ivy enquanto começava a organizar as coisas que se encarregara de que trouxessem para o quarto. — Não prestes atenção, Anne.

   A jovem não poderia tê-lo feito mesmo que tivesse desejado.

   Seu corpo estava preso na dor. Passou o dia dando curtos passeios pelo solar e parando a cada cãibra. Tirou o vestido e as meias, incapaz de tolerar sobre a pele outra coisa que não fosse só a camisa. Suspirou e continuou caminhando, sentindo o chão de pedra frio sob seus pés descalços. Mas ao menos já não tinha que suportar o sufocante calor do princípio.

   — É hora... Está na hora — exclamou Mary girando pelos aposentos de sua mãe e acrescentando alguns passos de dança em seus movimentos. — OH, mãe, tinha tanta razão.

   Philipa aproveitou olhando sua filha. A satisfação se misturava com uma sensação de êxito em seu interior. Mary nunca teria que sofrer o que ela fora forçada a suportar quando seu pai ordenou que se casasse. Tinha conseguido dar a sua filha uma vida melhor que a sua. Esse era o maior presente que uma mãe poderia oferecer.

   — Vêem aqui, Toby e dê uma mão.

   Joyce, a cozinheira de Warwickshire, franziu o cenho ao surpreender seu filho observando de novo os guardas no pátio. O som metálico das espadas entrava pela janela captando a atenção do menino. Teria se passado toda a tarde vendo-os treinar se ela o tivesse permitido.

   — Mãe, eu poderei chegar a ser um cavalheiro algum dia?

   — Se um santo ou dois o olharem com bons olhos e o abençoarem com força e habilidade, provavelmente. — Joyce o beijou no alto da cabeça sorrindo de forma maternal. — Teremos que colocá-lo no caminho do capitão e conseguir que lhe dê uma boa olhada para que veja como está fazendo alto e forte. Terá que olhá-lo diretamente aos olhos para que saiba que tem coragem.

   Toby sorriu, revelando o buraco que tinham deixado vários dentes de frente ao cair.

   — Mas isso será mais adiante, — continuou a cozinheira. — A senhora já está se arrumando e terei que preparar o jantar que será servido no grande salão. No momento, ganhará seu sustento na cozinha como sua mãe.

   Joyce se virou para ver se seus ajudantes haviam diminuído o ritmo de seu trabalho à medida que o dia avançava. Deu algumas palmadas e agitou no ar sua larga colher de madeira. Estava segura de que aquelas preguiçosas se aproveitavam de sua boa vontade durante o tempo que Toby estava na cozinha. Sim, diminuíram o ritmo ao notarem que se tornava mais fraca devido ao seu filho mais novo.

   — Esquentem esse pedaço e coloquem as especiarias antes que a senhora o peça. Farei que os enviem para trabalhar nos campos se conseguirem que me chame aos seus aposentos para me repreender só porque passaram o dia sonhando.

   Houve um estrépito de panelas de cobre quando atiçaram as brasas e foram esquentar. Toby esperou para em seguida sustentar com cuidado a bandeja com o vinho. Seus pés se moviam rapidamente pelos corredores para os aposentos da senhora. Gostava da pesada aldrava e a deixou cair com força sobre a porta, mas pareceu ter passado muito tempo antes que abrissem o pesado painel de madeira.

   — Trago vinho quente com especiarias, milady.

   — Sim, sim, passa. Não fique aí enquanto esfria.

   Com os olhos arregalados, Toby entrou apressadamente no quarto, tentando não ficar olhando o opulento mobiliário. Para seus jovens olhos, as gravuras na madeira dos postes da cama pareciam saídos de um dos contos do Chaucer.

   — Não se esqueça da bandeja suja — grunhiu a condessa. — Seu aroma é nauseante.

   Obrigando-se a concentrar a atenção em sua tarefa, Toby recolheu o jogo de café sujo que cobria a mesa. Deixou-o sobre a bandeja suja da manhã e se assegurou também de segurar a pesada taça de prata da senhora para que a limpassem. Estava recolhendo já a bandeja quando viu um pequeno recipiente de cristal junto de livro. Estava cheio de especiarias e era evidente que pertencia à cozinha, assim que o pôs entre os guardanapos usados.

   Um grave gemido que ouviu por trás da cortina captou sua curiosidade, fazendo-o se perguntar quem estaria no solar. De repente, ouviu um estrépito a suas costas. A condessa deixara cair sua taça, e o vinho quente com especiarias que acabaram de trazer derramou no chão. Furiosa, Philipa ficou olhando o líquido derrubado um longo período antes de agitar a mão.

   — Limpe e me traga mais.

   Usando o jogo de mesa, Toby limpou o vinho antes de retirar-se. Assim que a porta do solar da senhora se fechou a suas costas e se viu no corredor a caminho da cozinha, suspirou profundamente aliviado. Podia ser que os aposentos da condessa estivessem cheios de coisas bonitas, mas era um lugar que lhe provocava arrepios nos pêlos da nuca. Sua mãe não estava quando retornou à cozinha, assim que dirigiu a Molly e entregou as duas taças de prata.

   — A senhora quer mais vinho quente com especiarias — explicou.

   A criada encolheu os ombros e pôs para esquentar mais vinho.

   — Fique aqui e espera a que se quente — ordenou ao menino. — Você terá que levar porque eu devo me encarregar da comida.

   — Posso ver como praticam os cavalheiros enquanto espero?

   — Toby se mexeu de um lado ao outro enquanto esperava permitissem.

   —Sim.

   Imediatamente, o menino se aproximou da janela com um alegre sorriso iluminando seu rosto.

   Enquanto o vinho esquentava, Molly limpou a bandeja suja e encontrou o pequeno pote de cristal. Tirou a rolha e o cheirou. O aroma das especiarias não era agradável, mas estava claro que a senhora as enviara pelo Toby para que as colocassem no vinho. Pois se não fosse assim, por iriam querer mais vinho tão cedo? Derrubou a beberagem num pano e o colocou no vinho que estava esquentando. Pode ser que fosse algum tipo de alívio para a dor que retinha à condessa em seus aposentos durante a última semana. Devia ser agradável ter prata para pagar por semelhante luxo.

   — Toby, o vinho está preparado.

   O menino arrastou os pés, mas abandonou a janela para levar a bandeja a sua senhora. A condessa respondeu rápido à porta essa vez e lhe indicou que entrasse.

   — Deixa-o aí e se vá.

   Toby obedeceu de bom grado, saiu correndo pelo corredor já que completara sua tarefa.

   — Mãe? Depressa. Acredito que está na hora. — Mary soava aterrorizada.

   Estava de pé na entrada do solar, levantando a pesada cortina.

   — Silêncio. Se alguém a ouvir, tudo isto não terá servido de nada. — Philipa fez uma pausa e tomou um longo gole da taça de prata. O vinho quente lhe acalmou os nervos, assim tomou alguns goles a mais, acabando com a maior parte do conteúdo.

   — Mãe.

   — Fica quieta, Mary. Não é você que está dando a luz. Tente ter um pouco de dignidade. — Estendeu a taça de prata a sua filha. — Toma um pouco de vinho. Irá acalmá-la.

   Mary franziu o cenho diante das palavras de sua mãe, mas aproximou a taça aos lábios. O vinho estava quente e bebeu com avidez até a última gota. — Bem. E agora, onde está esse bebê? — A condessa atravessou a cortina e escutou os abafados gemidos de Anne.

   Ivy estava de cócoras junto de sua filha, que permanecia sentada na cadeira de parto com um pano entre os dentes para evitar que os gritos fossem ouvidos fora do quarto.

   — Já vem, carinho, empurra. Empurra forte — animou-a Ivy.

   Philipa observou atentamente como o bebê deslizava para fora da mãe. O diminuto corpo sacudiu quando Ivy o segurou pelos tornozelos e lhe deu umas firmes palmadas nas costas. Com uma abanada, os diminutos braços começaram a mover-se freneticamente e o pequeno peito se encheu de ar. Um débil pranto encheu a estadia.

   — Vire-se, mulher.

   Franzindo o cenho, Ivy sustentou o recém-nascido apoiando seu pescoço na mão, então o levantou para a condessa poder ver se era um menino ou uma menina. Imediatamente, o bebê ficou avermelhado e chorou mais forte.

   Ao comprovar que era um varão, Philipa sorriu amplamente.

   — Bem feito. Vê? Tudo está em ordem e agora estou satisfeita.

   Anne estava recostada na cadeira de parto e todo seu corpo tremia.

   A condessa se virou e sorriu a Mary enquanto arrumava o cabelo que escapara da trança.

   — Está vendo, carinho? — disse a sua filha. —Tudo vai ser como disse que seria.

   Mary sorriu.

   — Você tem sempre razão, mãe.

   — Daqui a alguns dias poderá apresentar seu filho a todo mundo. Escreveremos ao seu pai para comunicar que já deu a luz.

   — E poderei retornar a corte? — Perguntou Mary esperançosa.

   — Sim, carinho. É importante que esse escocês não a veja. Terá que ser ardilosa e evitá-lo. — A condessa agitou uma mão no ar. — Embora duvide que entre tanto na Inglaterra.

   Ela não conhecia Brodick.

   Anne embalou seu filho. Apesar de que tudo tivesse começado como conspiração de Philipa, sentia-se cheia de alegria ao ter o bebê entre seus braços.

   De repente, o grito do capitão do guarda rompeu o silêncio da noite.

   — Cavaleiros à vista!

   Os sinos das muralhas começaram a soar e o rosto de Philipa perdeu sua petulante e satisfeita expressão ao olhar pela janela.

   — Maldição! É o escocês.

Os estandartes McJames ondulavam orgulhosamente sob a luz do sol vespertina e se surgiam a toda velocidade sobre as portas da muralha. O conde em pessoa encabeçava o grupo de guerreiros, que era cinco vezes maior que do que veio buscar Mary.

   — Fique aqui, Mary. Não deixe que ninguém a veja.

   Enquanto Philipa pegava a saia com as mãos e saia correndo o quarto, Anne ficou olhando fixamente à porta vazia. Nunca ninguém vira a senhora de Warwickshire correr.

   Mary retorceu as mãos.

   — Dê-me o bebê.

— Fora — disse Ivy agarrando uma vassoura.

   — Esquece qual é seu lugar, rameira.

   Ivy virou à vassoura com habilidade e a apontou com ela.

   — Oh, sim sei qual é meu lugar, e também sei como deixá-la sem sentido com esta vassoura se não se afastar de minha filha e de meu neto. — Golpeou o duro chão de pedra com a vassoura e Mary, lívida, estremeceu diante do som. — É uma tola. — Ivy sacudiu a cabeça. — Seu pai não deveria ter permitido nunca que fizessem de você uma pessoa tão fraca.   Vou ter umas palavras com esse homem assim que retornar. Pode contar com isso.

   Os olhos de Mary se arregalaram.

   — Afaste-se do meu caminho, moça — prosseguiu Ivy. — Ainda há trabalho para fazer, assim não tenho tempo para seu comportamento infantil.

   Anne não lembrava já ter visto antes Mary envergonhada, mas, nesse momento, sua meia-irmã tinha a face ruborizada e os olhos brilhantes pelas lágrimas não derramadas.

   O ouvir os sinos seu coração encheu de júbilo. Sua mãe lhe enxugou a fronte com um pano frio enquanto seu filho percorria com a boca seu seio procurando alimento. Doíam todos e cada um dos músculos do corpo, e era um grande esforço amparar o bebê. Mas se sentia feliz. Tão feliz que não importava o que sofrera antes de chegar naquele momento.

   Tinha dado ao Brodick um filho varão.

   Não havia maior presente que seu amor pudesse dar ao marido. Uma grande fadiga tomou conta dela ao mesmo tempo em que sua mãe a atendia, lavando os últimos sinais do parto.

   — Seu marido veio por você. Está entrando no pátio – sussurrou Ivy.

   — Meu marido. Ele é meu marido — exclamou Mary ofendida. — Ela é uma bastarda.

   Tendo chegado ao limite de sua paciência, Ivy se levantou e Anne a agarrou sua mão tentando contê-la.

   — Não consentirei mais, que isto siga adiante, ouviu-me? — Gritou para Mary, escapando da mão de sua filha. — Sofri toda minha vida em silêncio, mas isso acabou.

   Anne sorriu para sua mãe tentando tranqüilizá-la.

   — Olhe, é um menino bonito e sadio — disse estreitando com suavidade o bebê contra seu peito. — Igual ao seu pai.

   — Sim, já o vejo. — Ivy segurou o bebê e o levou até a bacia de cobre. Lavou-o com delicadeza, apanhando a água com a mão para jogá-la sobre sua cabecinha. O menino não chorou, limitando-se a emitir suaves sons de arrulho. Depois de limpo, envolveu-o de forma que só a cabeça e os braços ficassem livres e o deixou no berço antes de virar-se para ajudar Anne.

   Assim que sua filha estava acomodada na cama, Ivy lhe estendeu o bebê.

   — Se for parecido com seus irmãos, começará a mamar em seguida.

   Anne não teve tempo de abaixar a camisa, pois todas escutaram sons de passos apressados na sala ao lado.

   — Pare! Estes são meus aposentos particulares. Não têm direito de invadir meu quarto... Escocês! — Gritava Philipa indignada, incapaz de deter o avanço dos homens de Brodick.

   —Você se atreve a falar de direitos? Então deixe que lhe diga que tenho direito de ver minha esposa. Agora passe para um lado ou eu mesmo a afastarei. Mas advirto que encontrarei minha esposa de qualquer forma.

   O tom de Brodick era letal; entretanto, Anne pensou que se tratava do som mais doce que já tivesse escutado. Lágrimas incontroláveis caíram por sua face ao mesmo tempo em que estreitava a seu filho com força.

   — Brodick! Estou aqui! — conseguiu dizer em voz alta.

   Meia cortina foi arrancada do trilho quando o conde de Alcaon atravessou a entrada. Seu rosto era uma máscara de fúria e brandia a espada numa mão enquanto percorria o quarto com o olhar em busca de algum perigo antes de correr para a Anne.

   — Juro que desejaria ter forças para lhe bater por se expor a semelhante perigo. — Pegou o queixo dela com a mão e sacudiu sua cabeça de um lado a outro. — Olhe ao que me reduziu, mulher. Não sou mais que uma marionete a sua mercê.

   O bebê emitiu um pequeno som e Brodick deixou cair à espada ao chão. Anne não soube o que surpreendeu mais ao seu marido: a visão de seu filho recém-nascido ou o estrépito da arma ao cair.

   Brodick ignorou a espada e estendeu o braço para o tecido que envolvia a cabeça do bebê. Com um só dedo, afastou-o delicadamente para ver o diminuto rosto.

   — Dei-lhe um filho varão. — A voz de Anne estava impregnada de lágrimas, lágrimas de alegria. — Como sei que desejava.

   — Não! — Gritou Mary chutando o chão com os pés.

   Brodick se voltou imediatamente fazendo voar sua saia. A espada estava de novo em sua mão antes que o tecido voltasse para seu lugar.

   O rosto de Mary estava vermelho, os olhos quase saíam das órbitas.

   — Supõe-se que é meu bebê. Meu. Eu sou a filha legítima do conde de Warwickshire.

   — Mas não é minha esposa. — As palavras estavam cheias de desprezo.

   — OH, claro que é milorde, assegurou-lhe — disse Philipa, que estava imóvel num canto. — E faria bem em me escutar. Já têm um filho varão e minha filha é a única que fornecerá um dote. Deve manter Mary como sua esposa legal ou perderá tudo aquilo pelo qual se casou. E no que diz respeito a essa bastarda, pode mantê-la como amante. Olhe o forte que é. Ela dará todos os filhos que desejar e a Mary lhe dará terra.

   — Não posso acreditar no que estou escutando. — Cullen estava de pé junto à Philipa, com o rosto transformado numa máscara de desaprovação.

   — Pudera eu não acreditasse, mas a prova é evidente. – Brodick abaixou a espada e se colocou diante de Anne, protegendo-a de Philipa. — Pode ficar com seu dote. A mulher a quem amo vale muito mais que qualquer terra.

   — Não, Brodick. Precisa dessa terra. — Anne segurou a mão dele, necessitada de seu contato. Não deve perder o que tanto desejava. — Ainda é seu e o seu filho também.

   — Jamais verei essa mulher nas minhas terras. — Apontou Mary, que sacudiu a cabeça e o olhou com desdém.

   — Eu não quero ir à Escócia. Por que acham que minha mãe enviou essa bastarda em meu lugar?

   Druce estendeu o braço para segurar Mary pela nuca. A jovem gritou, mas o escocês não teve nenhuma misericórdia com ela.

— E o mundo nos chama, os escoceses, selvagens.

   Depois de dizer aquilo, empurrou Mary sem nenhum cuidado para fora do solar e ordenou aos soldados:

   — Prendam e amordacem se voltar a falar. Tivemos o suficiente dela por toda uma vida.

   Todos puderam escutar como grunhiam os homens na outra sala antes que Druce voltasse para olhar Brodick.

   — Estava me dando dor de cabeça.

   — Mary é sua esposa legal. — Philipa agitou o punho no ar. — Ela é minha filha, não essa bastarda.

   A condessa olhou o bebê e a avidez iluminou seus olhos. Tentou subir na cama, mas parou em seco quando Brodick levantou a espada, dirigindo a letal ponta diretamente ao seu coração.

   — Não tocará na minha família, mulher. Não cometa um erro a respeito disso, porque não tenho piedade quando se trata de defender o que é meu. —Suas palavras tiveram tanta força como o aço em suas mãos. — Juro que se tocar em minha esposa ou em meu filho a atravessarei com minha espada, sem que me importe se é nobre ou não.

   — Me parece um bom plano. — Cullen não brincava dessa vez. Sua voz era tão dura como a de seu irmão quando se dirigiu à condessa. — Enganou a todos os McJames e têm que pagar por isso.

   — Não. Deixa-a para seu marido. É ele quem deve consertar os problemas que causou. — Brodick não abaixou a espada até que Druce conteve Philipa. A condessa blasfemou e o escocês a sacudiu como uma boneca de pano para que se calasse.

   — Basta, senhora — grunhiu, ameaçando-a.

   — O matrimônio não será válido — insistiu Philipa. — Não obterão nada se informarem meu marido disso.

   Brodick a olhou com uma expressão desdenhosa.

   —Já enviei uma mensagem ao seu marido, mulher. Deve retornar então voltar a controlar sua casa. — Ele se aproximou dela com a espada ainda desembainhada. — Mas há uma coisa que é melhor que fique bem claro. Não aceitarei nenhuma outra esposa que não seja a mãe de meu filho.

   Philipa voltou a gritar e Druce se apressou a tirá-la do solar.

   Brodick se virou e seus olhos de meia-noite cravaram na Anne com um severo olhar. Ergueu o braço e voltou a colocar a espada em sua capa sem desviar a atenção dela.

   — Cullen. Quero sentinelas neste quarto às vinte e quatro horas do dia.

   — Assim será.

   — E vigiem à condessa e a sua filha até que o conde de Warwickshire retorne para encarregar-se delas.

   Dito aquilo, Brodick caminhou para Anne, mas ficou paralisado ao ver a tapeçaria que havia perto dela. Seu rosto suavizou durante um instante enquanto o admirava, embora em seguida ficasse rígido e lançasse um duro olhar para jovem.

   — Preciso falar um momento com minha esposa. Deixem-nos sozinhos.

   Todos abandonaram o solar, mas a única coisa na qual Anne se fixou foi na palavra esposa. Brodick parecia tão imponente e implacável como a primeira vez que tinha pousado a vista nele.

   Uma feroz determinação resplandecia em seus olhos.

   — Deus santo, mulher. Vou começar a lhe bater no traseiro uma vez por semana.

   Cobriu a distância que os separava com duas grandes passadas e se sentou no leito ao seu lado. Anne já não se sentia aflita por seu tamanho. Seu corpo era grande e bem-vindo, e sua força lhe dava consolo. Inspirou seu aroma e isso a fez suspirar. Os poucos meses que tinha passado afastada dele lhe pareciam agora uma eternidade. Estendeu o braço para ele, acariciou-o no peito com as pontas dos dedos e emitiu um suave suspiro ao sentir como estremecia.

   — Juro que cumprirei minha ameaça. E me assegurarei de que Murry a siga por todas os lugares, junto com um grupo de homens para protegê-la.

   — Fez uma pausa e franziu o cenho. — Qual é seu nome?

   —Anne.

   Brodick soprou, mas a agarrou do queixo com suavidade.

   — Por que partiu do Sterling? Por que se pôs em perigo?

   Anne ruborizou consciente de que tinha ferido o orgulho de Brodick ao fugir do Sterling e, portanto, dele.

   — Porque o amo. —O corpo do enorme escocês vibrou. — Não podia tirar seu dote. Era o único modo de que o conseguisse e para evitar que nosso filho nascesse como ilegítimo. — Abraçou o bebê com força e inspirou profundamente. — Como sua mãe.

   Tentou abaixar os olhos, mas Brodick o impediu.

   — Não sei o que devo fazer contigo, mulher. — Seus olhos cintilaram devido à frustração. Inclinou-se mais sobre ela fazendo que a pequena cama rangesse e deslizou sua mão pela face e pelo cabelo. — É você que amo, não faz diferença os detalhes de seu nascimento.

   — Mas o dote...

   — Continuará sendo meu. — Colocou sua mão por trás da cabeça dela, segurando-a. — Você é a filha do conde de Warwickshire e foi a sua esposa quem a apresentou diante de mim e de meus homens. Era virgem e me deu um filho varão. Essa é a melhor definição de esposa que já ouvi.

   Era o conde quem falava e a dura autoridade em sua voz reforçava suas palavras. Entretanto, seu rosto refletia ternura e a mão que apoiava na parte posterior de sua cabeça a acariciou com suavidade.

   — Esquece os assuntos legais. Sei muito bem por que fugiu. O que quero saber é por que não foi ao meu encontro.

   A necessidade de obter uma explicação brilhava tão intensamente nos olhos masculinos, que Anne não pôde evitar que grossas lágrimas se deslizassem por seus olhos.

   — Amo-o, Brodick. Não podia vê-lo decepcionado, embora fosse necessário ter que sacrificar meu próprio coração. Amo-o muito para isso.

   Um sorriso surgiu nos lábios do escocês ao ouvir aquilo e a mão em seu cabelo se distendeu. O prazer resplandeceu em seus olhos e Anne soube sem lugar a dúvidas, que a vida não teria tido sentido para ela sem ele. Nem sequer estava certa de teria sobrevivido à perda dele por muito tempo.

   — Alegra-me ouvir isso... Anne.

   Um leve sorriso curvou os lábios da jovem ao escutar que pronunciava seu nome. Seu nome.

   Seu filho, dormindo, acariciou-lhe o seio com a boca e um estremecimento percorreu seu corpo. Sentia-se tão cansada que lhe pesavam as pálpebras. Os braços lhe tremiam ao redor do bebê.

   — Segura... Segura o bebê... — Conseguiu dizer com voz entrecortada.

   Parecia não poder manter-se acordada e teve que recostar-se na cama. Doía-lhe tudo e desejava escapar dessa dor dormindo.

   O escocês se apressou a segurar seu filho e Anne sorriu enquanto cedia à fadiga.

   Brodick nunca segurara um bebê tão pequeno. Nem sequer tinha certeza de já ter visto algum com tão pouco tempo de vida.

   — Vamos, milorde, ou se inquietará e despertará a minha filha.

   Agora ela precisa descansar. — A suave voz provinha de uma mulher que Druce continha com cautela na entrada. Sua cara se parecia com a de Anne e levantava os braços tentando lhe mostrar como devia amparar seu filho.

   — É a mãe de Anne?

   Havia uma dureza na voz do escocês que para Ivy não passou despercebida.

   — Sim. Embora não soubesse nada disso até que a condessa me prendeu no solar com Anne. — Tentou liberar-se, mas Druce não a soltou até que seu primo indicou que o fizesse com um gesto da cabeça.

   Brodick se levantou da cama para deixar que sua esposa descansasse e se aproximou de Ivy.

   — Eu mesma teria partido do castelo antes de ver sofrer a minha própria filha por meus atos. — Sacudiu a cabeça com tristeza. — Anne é muito bondosa para seu próprio bem; muito mais do que mereço por permitir que nascesse fora do matrimônio.

   — Isso não importa.

   Anne se moveu, gemendo entre sonhos, e ao ouvi-la, Brodick fez com que todos abandonassem o solar.

   Quando se encontrou ao outro lado da cortina, Brodick olhou atentamente a seu bebê e viu que este abria as pálpebras inchadas, lhe revelando uns olhos muito azuis. Podia sentir os batimentos do coração de seu coração no antebraço, podia ver como o diminuto peito se enchia do fôlego da vida. Era, sem lugar a dúvidas, a experiência mais comovedora que já tivera.

   — É um homem honrado e estou muito agradecida – disse Ivy.

   — Então, há algo no que poderiam me ajudar senhora. — Brodick passeou seu olhar de Druce a Cullen.

   — Reúnam os criados e os soldados, e tragam Mary. Quero me assegurar de que não haja duvida sobre o fato de que ela não pariu este menino.

   Ia ser uma experiência dura para Mary, mas não mais do que merecia.

   — Como ordenar, milorde. — Ivy inclinou a cabeça antes de retirar-se.

   Druce sorriu.

   — Bom, me deixe ver o menininho.

   Cullen se uniu a ele enquanto riam e provocavam Brodick dizendo que o fato de ter uma família o transformava num homem amadurecido. O fato de ter uma família significava deixar para trás a juventude, sentia-se feliz por isso.

   Anne despertou nos braços de Brodick, que embalava seu corpo com a mesma segurança com a qual tinha embalado a seu filho. — Calma, meu amor. Perdoe-me que a incomodo, mas não dormirá mais nesse quarto que foi sua prisão.

   Anne não teve forças para responder. Agarrou-se nele e sorriu ao sentir os regulares batimentos de seu coração. Alguns segundos depois a levou para um grande quarto que sempre estivera vazio. Seu cérebro adormecido se alertou ao notar todos os detalhes que adicionaram. Tapetes, velas perfumadas, romeiro no ar... Essa essência em particular se usava sempre depois de um nascimento para ajudar à mãe a recuperar forças.

   Ninguém sabia por que, mas sempre fora assim.

   — Este colchão é muito mais cômodo e entre essas paredes não se sentirá presa — disse Brodick enquanto a acomodava numa enorme e espetacular cama com dossel e cortinas.

   A lareira estava acesa com um alegre fogo que esquentou seu nariz e havia um berço instalado aos pés da cama. Antes que pudesse dizer algo, a porta se abriu deixando passagem a Ivy, que trazia o bebê nos braços.

   — Anne, seu filho está faminto.

   Brodick lhe colocou alguns travesseiros amaciados nas costas para que ficasse confortável e ficou de pé ao seu lado. Ao ver que ele não se movia Ivy lhe enviou um olhar interrogativo, esperando que partisse.

   —Não irei mulher. Isto é algo que estive esperando para ver durante três anos. Minha família.

   Em silêncio, Ivy entregou o bebê a Anne e esta olhou Brodick sentindo-se mais unida a ele do que nunca. A conexão que havia entre eles pareceu encher o quarto de felicidade. Se isso significava que estava louca, que assim fosse. Estava apaixonada.

 

   No dia seguinte, os sinos repicaram antes da hora do almoço. Os cavaleiros que se aproximavam cavalgavam sob o estandarte do conde de Warwickshire. Brodick saiu audazmente ao encontro do senhor do castelo, esperando-o nas escadas de entrada. Apesar de sua idade, não faltava ao inglês nenhum pingo de força.

   Desmontou e jogou para o lado as luvas de montar enquanto gritava:

   — Onde está essa rameira com a qual estou casado?

   Sua voz retumbou entre as muralhas e todo mundo ficou imóvel, pois nunca tinham escutado o senhor da casa insultar em público a sua esposa.

   O conde elevou o olhar para o escocês.

   — McJames, eu estou em dívida com você por ter descoberto esta trama. Juro que não discutirei o dote. — Subiu as escadas e estendeu a mão.

   Brodick ficou ali de pé por um momento, sentindo todos os olhos do castelo sobre ele. Quando, finalmente, estreitou a mão do conde do Warwickshire, ouviu-se um murmúrio de aprovação procedente daqueles que observavam o tenso momento.

   — Suponho que não esteja furioso comigo por encarcerar sua esposa e sua filha. Queria me assegurar de que não fizessem mais nenhum mal do que já causaram antes que você retornasse para se encarregar delas.

   — Não me teria importado mesmo que as tivessem afogado.

   — Deixarei essa tarefa para você.

   Entraram no castelo e se dirigiram aos aposentos da condessa, onde dois dos homens de Brodick estavam apostados como sentinelas.

   — Há alguém a quem eu gostaria que conhecesse primeiro. — O escocês abriu a porta de em quarto próximo, tomando cuidado de que as dobradiças não chiassem. O conde de Warwickshire o seguiu e franziu o cenho ao ver Ivy.

   Sua amante esboçou um sorriso tão luminoso como o verão. Ergueu uma mão e sinalizou para que avançasse até ela.

   — Entre querido, e admire nosso primeiro neto.

   O rosto do conde perdeu qualquer sinal de cor, mas nem por isso Brodick o considerou um homem fraco. Sabia muito bem o que estava sentindo.

   — Anne teve um bebê? — Perguntou assombrado.

   — Minha esposa me deu um filho varão — confirmou Brodick, orgulhoso.

   O conde sorriu de repente e deu uma palmada no ombro do escocês, que o desequilibrou empurrando-o para frente.

   — Vá, essa é uma grande noticia!

   Ivy colocou um dedo nos lábios.

   — Ssh. Anne precisa descansar.

— Não estou dormindo, mãe.

   Anne apareceu através da cortina que separava o leito do resto do dormitório. Embalava seu filho com um suave sorriso nos lábios. — Pai, conheça seu neto.

   As lágrimas brilharam nos olhos do conde quando Anne lhe entregou com delicadeza o bebê. Brodick deslizou o braço ao redor da cintura de sua esposa, suportando parte de seu peso, e a jovem acariciou sua mão num gesto tranqüilizador.

   — Estou bem.

   Ele não a escutou. Em lugar disso, segurou-a nos braços com um ágil movimento.

   — Já a avisei que pretendia enlouquecê-la com minha atitude protetora — disse levando-a de volta à cama.

   — Nunca fiquei sem fazer nada, — protestou a jovem com o cenho franzido.

   — Nem tampouco antes teve um bebê.

   Anne parecia furiosa, mas se acalmou ao olhar além de Brodick, para seus pais. O conde amparava nos braços o seu neto enquanto apoiava a testa na de Ivy. A imagem não podia ser mais bela. Sua garganta fechou igual ao braço com o que seu marido a rodeava.

   — O amor é algo maravilhoso. — As palavras de Brodick estavam cheias de emoção.

   Seu pai se voltou para olhá-los, demorando no braço que Brodick mantinha sobre Anne.

   — Minha filha, eu me sinto orgulhoso de você. — Avançou para eles e entregou o bebê à nova mãe. — Jovem Brodick, eu vejo que é um bom marido para minha filha.

   — Pretendo passar a vida provando, senhor.

   O conde assentiu.

   — Alegra-me ouvi-lo.

   Não permitiram que Anne se levantasse da cama, assim passaram a tarde falando e conhecendo o bebê. Não foi até que o sol começou a se pôr que a expressão do senhor da casa nublou.

   Deu um beijo no rosto de Anne e anunciou.

   — Devo me encarregar de minha esposa. — Suas palavras soaram graves, mas também tristes.

   Seu corpo estava rígido quando abandonou o quarto seguido de Brodick.

   Com firme determinação, o conde abriu num empurrão a porta dos aposentos onde as duas estavam encarceradas.

   —Philipa...

   A estadia se encontrava em silêncio. Brodick a percorreu com o olhar, procurando as mulheres. Já estavam deitadas. Ambos se aproximaram, estudando as silhuetas imóveis. Haviam parado de respirar e a pele de seus rostos adquirira um tom azulado.

   O conde tocou a face de Mary e lhe abriu a pálpebra para observar seu olho.

   — Veneno, se não me equivoco. — Sem dúvida, sua temporada na corte o tinha familiarizado com os sintomas do envenenamento.

   — Não tive nada que ver. — Brodick sacudiu a cabeça. — Se desejasse matá-las, teria atravessado-as com minha espada.

   O conde ficou pensativo durante um instante.

   — Acredito — disse finalmente.

   Observou o quarto, apanhou as taças usadas e as cheirou.

   De repente se ouviu uma tosse originária da cama e Mary abriu os olhos. O conde se aproximou dela apressadamente.

   — Diga minha filha, o que aconteceu?

   Mary inspirou profundamente antes de falar.

   — Mamãe conseguiu o veneno... Da aldeia... Para Anne. — Exalou um suspiro entrecortado. — Deixou-o na mesa e... O... O menino colocou-o... Por engano... No nosso vinho... Da tarde.

   Suas pálpebras tremeram, mas conseguiu mantê-los abertos e ficou olhando a seu pai.

   — Não é culpa do menino... Mamãe... Planejou o assassinato... E... Eu estava de acordo... Coletamos... O que semeamos. — Agarrou a mão do conde e a apertou com a pouca força que restava. — Me perdoe pai. Arrependo-me de... Meus... Pecados, pai... Enterre-me em solo sagrado... Suplico... Seu perdão... Arrependo-me... Que Deus tenha piedade... De mim...

   Sua voz se apagou ao mesmo tempo em que seus olhos se fechavam. O conde pousou sua mão sobre o seu peito, sacudindo lentamente a cabeça. Em seguida, estendeu uma mão para lhe acariciar o cabelo.

   — Lamento ter falhado, minha filha. Sabia que sua mãe estava cheia de ódio, mas não acreditei que tivesse tanta influência sobre você. Pensei que meu amor por você a tornaria uma pessoa ajuizada. Perdoe-me.

   As mãos de Mary se agarraram às mantas. Apertou-as com força um momento antes que seus dedos ficassem flácidos e sua respiração voltasse a ficar suave uma vez mais. Não voltou a abrir os olhos de novo. Sua mãe morreu antes dela, mas Mary a seguiu ao amanhecer. O conde de Warwickshire se sentou junto à cama durante toda sua agonia, desabado na cadeira.

   Ivy apareceu pouco depois. Ficou junto à porta, de pé, iluminada pelos raios do sol, e, ao vê-la, Henry Howard, quinto conde do Warwickshire, levantou-se e se aproximou dela. Uma mulher de modesto berço era a guardiã de seu coração. Tomou uma mão e a beijou.

   — Casará comigo, Ivy? — Apertou-lhe os dedos. — Fará de mim um homem honesto e dará legitimidade aos nossos filhos?

   — Sim, meu amor. As lágrimas brilhavam nos olhos de Ivy, e uma delas umedeceu o rosto do conde. Tirou o braço e ele saiu do quarto com passo decidido, deixando para trás seu matrimônio de sangue azul.

   — Volta para cama, Anne.

   A jovem franziu o cenho e Brodick enviou um severo olhar em resposta.

   — Vou às bodas de minha mãe, marido.

   E nada a deteria.

   — Devo fazê-lo por todas as vezes que ouvi todos me chamando de bastarda. Irei engatinhando até a igreja se for necessário. — Doía-lhe todo o corpo, mas continuou movendo-se. De repente, ficou paralisada. Precisarei de um pouco de dinheiro para subornar os sacerdotes porque ainda não fui recebida na igreja. De outro modo, não me permitirão entrar num lugar sagrado.

   Brodick franziu o cenho.

   — As tradições desse país não têm nenhum sentido.

   — Creio que seja muito bom que nosso lar fique na Escócia. — Anne sorriu; entretanto, não pareceu que suas palavras divertissem Brodick.

   — O bom é que seus compatriotas logo terão um rei escocês. Não a permitem entrar na igreja porque teve um bebê? Então, qual é a finalidade do matrimônio?

   Anne tremeu ao inclinar-se para amarrar os sapatos. Imediatamente, seu marido a ergueu pelos braços e a fez se sentar aos pés da cama.

   Apoiou o peso de seu corpo sobre um joelho e lhe pôs um sapato.

   — Está bem, entendo por que precisa estar ali. — Não soava muito cordato. Mesmo assim, calçou o outro sapato e a ajudou a colocar o vestido e a capa. — Embora não haja danças para você.

   Depois de vesti-la, voltou-se para segurar o bebê. Brodick se negava a perdê-la de vista e ao seu filho, a menos que os deixasse com o Druce ou com o Cullen. Estava mantendo sua promessa de vigiá-la, mas não era algo pelo que Anne pudesse zangar-se. Seu marido não confiava no seu pessoal de Warwickshire, e ela não podia culpá-lo por isso.

   Usufruía de cada segundo que passava com ele, consciente de que as obrigações da vida logo o afastariam dela. Assim, no momento, amparou-se no seu braço e assistiu às bodas de sua mãe.

   Ivy era a noiva mais bonita que Anne já vira por uma simples razão: estava muito apaixonada.

   A jovem não sabia se era uma maldição ou de um dom.

   Fosse o que fosse lhe aconteceu o mesmo e seguiria de bom grado o exemplo de sua mãe. Brodick era o dono de seu coração e, se o destino o permitisse, Anne nunca deixaria de amá-lo. Nunca.

                                                                                Mary Wine  

 

                      

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